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Full text of "Verdades indiscretas [microform]"

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LIVSARIA CASTIIHO 

Rua S. Jas4 114-Teiephone 5466 c. 



NO PRELO: 



ife 



PASQUINADAS 



A. -*' 



CARIOCAS 



POR 



LIBRARY OF THE 

UNIVERSITY OF ILLINOIS 

AT URBANA-CHAMPAICN 



869o9 

T63v 

1S20 










Verdades Indiscretas 



ANTONIO TORRES 



VLRDflDES 
INDISCRETflS 



2^ edigao 
(5.« Milhelro) 



J 1 ! I ' 1 ! ( ij ( t ^ '; 



RIO DK JANEIRO 

lilTBABIA CA8TI1.HO 

A. J. DE CA8TILH0 — Editor 

RUA S. Josft, 114 
]090 






V 



Laisaea dire, laissez-vous bl&mer, con- 
-o dAmaer, empriaoner, lalsaez-voitB pendre, 
3 V ni»ia pnbliez votre penaSe. Ce n'est paa 
^ un droit, c'eat un devoir, etroite obliga- 

tion de quiconque a une pena^e, de la 
produire et mettre au jour pour le bien 
commun. La veiite est toate k toua. Ce 
que TOua connaisaez utile, bon k aavoir 
pour un cbacun, voas ne le pouvez taire 
^n coQBcience. Jeuner, qui trouva la vac- 
cine, etlt ete un franc acel^iat d'en garder 
une heure le secret ; et comme il n'y a 
point d'homme qui ne croie sea id^eea 
utiles, il n'y en a point qui ne soit tenu 
de les eommuniquer et rSpandre par tous 
moyens k lui poasiblea. Parlor eat bien ; 
ecrire eat mieuz; imprimer eat ezceliente 
choae. Une pensee d€duite en termea courts 
et dairs, avec preuves, documenta, ezem- 
ples, quand on I'imprime, c'eat un pam- 
phlet et la meilleure action, courageuae 
souvent, qu' homme puisae £fure au mon- 
de. Car, si votre pensSe eat bonne, on en 
profite ; mauvaise, on la corrige, et I'ont 
profite encore. Mais I'abua... sotiae que 
ce mot ; cenz qui I'ont invents ce aont ceuz 
qui vraiment abusent de la prease, en im- 
primant ce qa'ila veulent, trompant, calom- 
niant et emp<gcbant de rep^fid^e. Quand 

ila orient centre lea pa^hleta ila 

ont leurs raiaona admirabiea. J'ai lea mien- 
nea et vonrlraia qu'on en^t davantage, 
que cbacun pubMt tout ce qu'il pense et 
salt ! Lea jSauitea auaai criaient centre 
Paaeal et I'euaaent appele pampbletaire, 
xoais le mot n'ezistait paa encore; ila I'ap- 
pellaient tis&n d'enfer, la m^me choae en 
atjlecagot. Celaaignifie toujoura un hom- 
me qui dit vrai et ae fait ^couter. 



Patjl-Lottib Cottbibb 
Pamphlet des Pamphlets. 



.V- 



PREFACIO 



Questdo fechada fez o editor de ter um 
prefacio para este livro ; e eu, obediente como 
costumo ser para com quern me falla branda* 
mente, aqui estou a escrever o famoso prefacio, 
posto que sem atinar muito nitidamente com a 
utilidade e menos ainda coma necessidade delle. 
Com effeito, este livro e feito de coisas ha muito 
tempo escriptas, sendo Ineditas umas, e outras 
jd publicadas em jornaes. Si me perguntarem 
por que altas razoes publico este livro, respon- 
derei que isto fago somente por me ter o editor 
Ojfferecido comprar uma edigdo de folhas avul- 
sas^ que eu por ventura tivesse dentro das mi- 
nhas pastas e das minhas gavetas. Caso quei- 
ram saber o que penso do volume, direi que ndo 
penso delle mais mal do que o que por ventura 
possam pensar os meus mais encarnigados des- 
affectos. Dei-Ike o titulo de Verdades Indiscre- 
tas, embora ndo ignorando ser essa uma ex- 
pressdo pleonastica, pois quern diz verdades 
commette sempre indiscregdo . . . A linguagem 



VIII 

em que o escrevi pode nao ser das mais primo- 
rosas, mas dots attributes ha que ninguem Ihe 
poderd, sem manifesta injustiga, negar : sin- 
ceridade e franqueza. Escrevendo para ser lido 
por homens, claro estd que, embora evitando o 
termo vulgar, desprezo euphemismos e circum- 
loquios sempre que a verdade me parece exigir 
a expressdo clara, secca e por vezes rude. Nao 
tenho, cuido eu, necessidade de dizer mais a 
r^speito destas paginas, que — pobre de 
mim, I — jamais cogitdra de dar d estampUy si 
nao me houvera appctrecido um editor provi- 
dencial e bastante tem^erario para adquiril-as 
e imprimil-as. Deus o ajude e o publico o fa- 
vor ega, afi^n de que esse honrado e corajoso ho- 
mem^y sem motivos para arrependimento, com- 
pre futuramente ao pobre escriptor o resto da 
papelada que elle ainda possue nas gavetas e 
no csrebro . . . 

Kio de Janeiro, 15 de setembro de 1920. 



NOTA i>ESTA 2.* EDipAO — O exito obtido por este liyro 
(dois mil ezemplares exgottados em qaioze dias, qaasi que s6 no 
Rio de Janeiro) nem o esperava o aator, nem o adivinh^ra o 
editor. Eia porque sae agora a segunda edigao, Antor e editor 
agradecem ao publico o apoio que Ihes t£m dado. Negta edi^&o 
corrigiram-se erros tjpographicos que escaparam & revis&o na 
primeira ; assim como tanibem e possivel qae erros n&o apparc- 
cidos na primeira surjam nesta. Una e outros mereoerfto indul- 
gencia do leitor. 

A. T. 



Z^-'Z^^-y-; -.J>r'--'- 



A' maneira de Pangloss 



Hontem, no cemiterio de S. Francisco 
Xavier, tentou suicidaf-se um velho esculptor, 
e deixou em carta os motives que o leva- 
ram a sahir volurttariamente die uma vida em 
que entrou sem ser consultado, como toda 
a gente . . . Depois de narrar hessa carta as 
suas desditas, disse elle: «PArece que nesta 
terra os vagabundos e os ladrdes t6m mais 
garantia do que os homens hanestos.» HSto 
parece, nao, senhor : 6 c&tto. Ha uma solMa- 
riedade tao extraordinaria, tao perfeita enire 
OS vagabundos e os ladrdes, que nao s6mente 
elles t^m todas as garantias, como ainda sac 
OS maiores pregadores de moral para os ou- 
tros. E si tivermos a ingenuidade de quefer 
resistir d matilha inirene, anriscamo-nos a ir 
parar na Detengao, porque a policia e favora^ 
vel aos vagabundos e aos ladroes. Em caso de 
conflicto entre homens honestos e sujeitos de 



2 VERDADES INDISCRETAS 

consciencia cauterisada, vencerao fatalmente 
OS ultimos, si a policia for chamada a decidir 
o pleito. De maneira que, em casos taes, a 
solugao parece ser : ou assentar praga de va- 
gabundo, ou imitar o esculptor. Samuel Smi- 
les aconselharia o trabalho, o esforgo, a virtu- 
de. Pedro Kropotkine talvez aconselhasse 
meios violentos. Jesus Christo aconselharia 
paciencia. O sr. Teixeira Mendes lembraria a 
altruismo e a obrigagao de cada um ser vir- 
tuoso afim de concorrer para o triumpho do 
regimen pacifico-industrial. Esses conselhos. 
tern todos o defeito de ser muito solemnes. 
Para nao ser esmagado pelos vagabundos e 
ladroes, o melhor e ir-lhes cada qual cedenda 
quanto for possivel do que contiver a sua bolsa» 
e, depois disso, fazer como Figaro : rir-se 
delles e de tudo, de peur cH en pleurer. . . Nesr- 
tes tempos tristes, o riso e o unico reducto dos 
infelizes. Vivera quem for capaz de rir. Nao se 
trata aqui do riso vulgar, mas do riso interior. 
Pode um homem estar serio e, entretanto, com 
a alma desfeitaem risadas interminaveis. Esta 
maneira de rir nao desopila o bago, mas con- 
sola o espirito. Ainda e a melhor maneira de 
viver nestes tempos asperos : nao se enthu- 
siasmar pela grandeza da Patria, que p6de ser 
instrumento nas garras de espertalhoes : nao 



A MANBIRA DB PANGI^OSS. . . 3 

desesperar do future da Patria, porque esse 
desespero tambem p6de servir de gazua para 
espertalhoes de outro grupo. Rir para viver. 
A vida nao e das coisas mais agradaveis, mas 
tambem, por outro lado, talvez nao valha a 
pen a morrer. . . 



A Gentileza Britannica 



Appeteceis saber como os inglezes cos- 
tumam communicar a um cidadao que elle vae 
ser enforgado ? Em pleno tribunal, o lord- 
chief Justice, imitado pelos outros tres juizes, 
coUocou um quadrado de panno preto sobre 
o gorro pardacento, e, refere um jornalista 
parisiense,dirigindo-se a Sir Roger Casement, 
Ihe disse muito amavelmente : 

« — David-Roger Casement, lejury 
a delibere sur votre cas et decide que 
vous etiez coupable du crime abomi- 
nable de haute trahison. La sentence 
de la cour est que vous soyez pendu 
par le cou jusqu'a ce que vous soyez 
mort. Que le Seigneur ait pitie de vo- 
tre ame . » 

Em vernaculo, quer isto dizer : « Da- 
vid-Rogerio Casement, deliberaram os juizes 



6 VERDADES INDISCRETAS 

acerca de vosso caso e decidiram que sois reo 
do abominavel crime de alta trahigao. E' i»en- 
tenga da algada que sejais enforcado pelo pes- 
C090 at^ a morte. Tenha o Senhor piedade da 
vossa alma » 

Sem querer entrar no exame de meritis 
desta deeisao, devemos convir nisto — que os 
inglezes sao fidalgos quando tern de com- 
municar a um cidadao que elle e um trahidor 
e que como tal sera enforcado. Interessante 
aquelle (njusqud ce que vous soyez mort — en- 
forcado pelo pescogo ate a morte ». Isso re- 
vela o espirito pratico britannico. Quando se 
diz a um sujeito — «0 senhor vae ser enfor- 
cado » — ainda Ihe pode restar alguma espe- 
ranga, ou de ser enforcado pelo p^, ou ainda 
de viver, mesmo depois do carrasco Ihe 
haver sapateado sobre o pesco90 ; mas os in- 
glezes, que nao querem enganar a ninguem, 
que fazem questao de lealdade ate a morte, di- 
zem graciosamente ao reo: aMeu amigo — o 
seu crime exige castigo exemplar ; o senhor 
vae, pois, ser enforcado pelo pesco^o . . . ate 
morrer, note bem. A legislagao ingleza, sobre 
ser a mais liberal do universo, e tambem e por 
isso mesmo uma das maissabias. Si, portanto, 
julga necessario avisar ao reo de que seu en- 
forcamento sera «ate morte», e porque, de 
certo, isso e de necessidade provada pela ex- 



A GENTILBZA BRITANNICA 7 

periencia, ao menos na Inglaterra. Quanto 
^ mim, essa clausula era inteiramente desne- 
<:essaria. Por isso, 6 sabios juizes inglezes, si 
algum dia eu tiver de ser enforcado ahi na 
livre Inglaterra ((juod Deus avertat!) podeis 
perfeitamente supprimir na sentenga o « pelo 
pescogoD eo aate amorte)). Basta dizer-me : 
«0 senhor vae ser enforcado». Nao precise 
de mais para meu governo . . . 



Litteratura Hermista 



Nunca sera demais insistir, em se tra- 
tando das poesias do sr. Hermes Pontes, na 
necessidade de estudar, de emancipar o espi- 
rito de toleimas amorosas, na necessidade de 
ser homem, de pensar como homem, de viver 
como homem, de collocar o orgulho masculine 
acima de ephemeras paixonetas, de levantar 
a fronte para os sonhos grandes, de algaro co- 
ragao — pelas forjas de Vulcano! — acima das 
mulheres ! Limite-se cada um a colhel-as ele- 
gremente de passagem, como fructos madu- 
ros, si f6r possivel ; nao sendo possivel, nesse 
caso, buscar outras, outras e mais outras, pois 
mulheres nao faltam neste mundo. 

Todo homem, e certo, tem na sua vida. 
um momento em que a por9ao inferior de sei^ 
ser se rende aos amavios do sentimentalismOr 
mas esse periodo, para homens de pensa- 
mento, passa. Passa, ou deve passar. Si nao 



10 VKRDADES INDISCRKTAS 

passar por si, compete a cada um dominar-se, 
agarrar o coragao pelos ventriculos e subju- 
gal o sem piedade ; encostal-o as paredes do 
seu arcabogo como um adversario futil, um 
troca-tintas piegas, e bradar-lhe, de maneira 
que elle nao tenha coragem de replicar: 
aAquieta-te, imbecil! Homem que nao tiver 
for^a para tanto e indigno de pensar. Gastar 
vida, papel e tinta a ruminar velhas magoas 
amorosas, como no tempo do fallecido Casi- 
miro de Abreu, pode agradar a meninas ane- 
micas, avatares de Mimi e de Margarida Gau- 
tier; mas nao pode absolutamente commover 
a espiritos serios e a coragoes graves. Escri- 
ptor que tiver nas costas esse crime deve peni- 
tenciar-se, afastar-se quanto antes dessa via 
mala perditionis e entrar nos caminhos da 
contemplagao, do pensamento, das exaltagdes 
masculas deante da Vida, procurando-lhe no- 
vas interpretagoes ; ou assimilando as antigas 
e cantando-as em versos que as meninas de- 
testam mas a Immortalidade recolhera nas do- 
bras da sua clamyde. O sr. Hermes Pontes, 
em vez de procurar abeberar-se nas Castalias 
antigas a nos legadas pelos espiritos immen- 
sos, que forjaram todo o pensamento contem- 
poraneo, dobra-se para dentro de si s6, con- 
vencido de que s6 por si p6de encontrar em 



I^ITTBRATURA HKRMISTA 11 

si motivos d'arte. Esta provado que isso nao e 
possivel ... 

Quando sae de si e para mastigar ma- 
goas iterativas, isto e, magoas que se repetem 
numa monotonia de velhas traquitanas su- 
bindo morros em cremalheiras. Percorra-se o 
seu ultimo livro Miragem do Deserto. E' urn 
deserto sem miragens nem oasis. Si salvarmos 
Crepusculo, Buena Dicha, Nevoa e Attracgdo 
do Abysmo, quatro composigoes soffriveis, o 
resto da brochura e um desastre rimado. Nem 
estructuraharmoniosa do verso, nem imagens 
poeticas, nem elevagao de pensamento, nem 
toques de sensibilidade, nada que se deva ri- 
gorosamente exigir no livro de um poeta que, 
ao seu apparecimento, foi saudado como um 
heroe. 

C^o monotono e o areal sem termo, insert©, 
Entre um barbaro mar e uma terra selvagem. ! 

Como se v^, ja na primeira pagina, te- 
mos um areal ainserto)) entre um mar e uma 
terra. E' patente, tratando se de uma idea 
vasta, a impropriedade do verbo inserir . 
Nao se insere um areal entre a terra e o mar 
como se insere um artigo entre um commu- 
nicado e um annuncio. O sr. Hermes Pontes 
inseriu mal o pobre areal. 



12 VERDADES INDISCRETAS 

Subi aos cumes e ao planalto, 

para eximir-me 
do meu peccado original 

Onde estd a poesia destes versos ? Entao 
um poeta sobe aos cumes para «eximir-se» 
do peccado original? Isto nunca foi lingua- 
gem de artista ; isto e linguagem de funccio- 
nario publico. Si o sr. Hermes Pontes, no 
exercicio de seu cargo de praticante dos Cor- 
reios, requeresse inquerito administrativo para 
eximir-se da responsabilidade de quafquer 
delicto por ventura havido na sua sec9ao, faria 
muito bem; e melhor faria ainda si deixasse 
de escrever, para eximir-se da responsabili- 
dade de tao maus versos. 

Quern e Chopin para o sr. Hermes Pon- 
tes ? 

E' o Reflector-sonoro do gemido 

Do Mar a debater-se contra o cdes . 

U' o Interpretador do Arrulho e do Rugido, 

Que entende o corafao inentendido 

De todos OS tres Reinos Naturaes. 

Chopin € o deus-mendigo, soberano 
Das grandes almas sobrenaturaes ; 
E' o escaphandrista magico do oceano 
Das Tristezas, das Scismas e dos Id^aes. . . 
O' quintessencia harmonica do Ruido ! 
O' Bramido ! O' Gemido ! 

Pobre Chopin ! Nao Ihe bastava a sua 
melancolia immensa ! Nao Ihe bastava ter tido 



I,ITT«RATURA HBSMISTA 13 

a desgraga de ser amante de George Sand ! 
Faltava-lhe ainda soffrer a injustiga de ser ta- 
chado de areflectora e «escaphandrista» pelo 
sr. Hermes Pontes! Francamente, Chopin 
tinha motives profundos para escrever a Mar- 
cha funebre , . . 

A verdade e que esta Miragem do De- 
serto, quando nao e uma lamuria viscosa em 
torno de raparigas voluveis, parece um pam- 
phleto metrificado contra os grandes homens. 

Visao de sabio, olhar de Medio, olhos de orago, 
Vede que a natureza em madrasta se esfez 
Ao por Beethoven surdo, e Desmosthcnes sfago, 
E Milton c^go, em meio ao torvelhinho inglez ! 

E o c^go viu o que nao ve qualquer — o Poema. . . 
E o surdo ouviu o que ningucm de outrora ouvia. . . 
E o &rego declamou a Eloquencia Immortal I 

Exactamente ! E por causa de tudo isso 
o poeta escreveu prosa rimada, Satis loquen- 
tiaSy sapientiae parum. Muito loquela para nao 
dizer grande coisa. E' impossivel, porem, citar 
tudo quanto e prosa neste livro de versos. 
Salvo as excepgoes ja apontadas, seria neces- 
sario citar todo o livro, principalmente a parte 
sentimental, em que ha verdadeiras comichoes 
de vulgaridades e chatices — o que, ate certo 
ponto, e natural, poise impossivel hoje emdia 
fazer versos amorosos sem cair de quatro pes 
no atoleiro bituminoso das expansoes sedigas. 



14 VERDADKS INDISCRBTAS 

Por isso e melhor nao os escrever; ou, quando 
nao seja possivel deixar de escrevel-os (diz 
Horacio que certos sujeitos, si nao puderem 
versejar, enlouquecem — aut insanit homoaut 
versus facit), nesse caso fagam presente delles 
as namoradas, mas pelos cornos de Satanaz ! 
— nao OS publiquem ! Raios nos partam, si um 
•homem, attingindo a certa idade, nao tiver 
obriga^ao de curar-se de toleimas lyricas. Nem 
me venham dizer que Victor Hugo envelhe- 
ceu a fazer versos de amor. Isso era muito in- 
teressante no tempo delle, que appareceu em 
1830. Hoje OS poetas, quando nao sao depu- 
tados, causidicos e tabelliaes, envelhecem a 
pensar coisas graves e bellas, como o grande 
Verhaeren. Ja e tempo de sanear o campo lit- 
terario, alimpando-o dessa malta chorosa e 
menineira de Macieis Monteiros . . . 



Moeda falsa e paradoxo. . . 



O homem do dia e um certo Albino Men- 
des, que. com grande estardalhago policial, 
aqui chegOQ hontem, preso como fabricante 
de moeda falsa. De todos os crimes, e o da 
moeda falsa o menos antipathico, pelos menos 
para nos outros que nao dispomos de capitaes 
sujeitos a concorrencia da moeda nao autori- 
sada por lei. Comprehendo perfeitamente que 
OS capitalistas tenham ao moedeiro falso o 
mesmo santo horror que tem os padres aos he- 
rejes, o mesmo horror profissional que t^m os 
medicos aos charlataes, o mesmo odio que t^m 
OS verdadeiros escriptores aos plagiarios, a 
mesma raiva que t^m as senhoras casadas as 
mulheres de vida alegre. Tudo se resume em 
afastar concorrentes . . . O odio do padre pelos 
herejes provem menos do zelo pela salvagao 
das almas do que do desejo de afastar um con- 
corrente na lucta pela vida. Si os medicos 
perseguem os outros charlataes, e mais porque 
OS charlataes desviam dinheiro da sua bolsa 



16 VKRDADES INDISCRETAS 

<io que por amor a vida do seu semelhante . 
Si OS escriptores bradam ds armas contra o.s 
plagiarios, e por temerem que estes vendam 
mais livros do que elles. Si, finalmente, as mu- 
Iheres casadas detestam as meretrizes, e me- 
nos por espirito de pureza do que por amor 
proprio offendido e tambempor temerem cer- 
tos prejuizos de caracter intimo . . . A Socie- 
dade considera amor legitimo o casamento. 
Tambem so considera legitimo o dinheiro que 
leva a assignatura autbentica do poder publico; 
de onde decorrem,para ella, o devere o direito 
-de perseguir, por meio de certas autoridades, 
OS individuos que tern bastante intelligencia 
para imitar a moeda autorisada pelo Estado . 
Ora, OS falsificadores de moeda estao para a 
Moral assim como as meretrizes estao para o 
Amor. Ha individuos eminentes que se revol- 
tam contra o amor em familia e nem por isso 
sao perseguidos. Como entao perseguir os que 
se revoltam contra a moeda autorisada? Si nao 
perseguem as prostitutas, que sao revoltadas 
contra o amor autorisado pelo Estado, porque 
perseguir os que se revoltam contra o dinheiro 
autorisado pelo governo ? Tolerar mulheres 
que (na opiniao da Sociedade) falsificam o 
amor, e crime um pouco maior que tolerar 
homens que falsificam moeda. Portanto, met- 
ier na cadeia os moedeiros falsos, porque cor- 



MOEDA FALSA E PARADOXO ... 17 

Tompem o dinheiro, e nao metter egualmente 
na cadeia as mulheres que corrompem os co- 
ragoes, e incongruencia. O crime capital dos 
moedeiros falsos e enganar o proximo, dan- 
do-lhe dinheiro falso, para, dest'arte, viver a 
custa da collectividade, sem auxilial-a com o 
seu trabalho. As meretrizes tanibem vivem de 
illudir o proximo, dando-lhe falso amor, nao 
trabalhando, vivendo parasitariamente, e, 
mais, disseminando calamidades e fugindo a 
finalidade da mulher, que e a maternidade . 
Como, pois, explicar que se deixem em paz 
as cortezas e se persigam os moedeiros falsos.^ 
E' que a Sociedade nao e sentimental, mas 
puramente interesseira ; em vez de cultivar o 
amor prefere cultivar a avareza. Os artigos 
do Codigo que perseguem os moedeiros fal- 
sos foram inspirados por Harpagon. Uma das 
faces mais curiosas da psychologia humana e 
-esse respeito pelo dinheiro, a que nao esca- 
pou o proprio Jesus Christo. No dia em que os 
j udeus Ihe apresentaram uma moedacom a effi- 
gie de Cesar e Iheperguntaram, com segunda 
intengao, si era permittido pagar tributo ao Ro- 
mano, elle, o pobre, o abnegado, o desprendi- 
do, o desprezador pratico do dinheiro e refor- 
mador da natureza humana, respondeu que era 
dever dar a Cesar o que era de Cesar e a Deus 
o que era de Deus — Reddite ergo qucs sunt 



18 VERDADES INDISCRETAS 

Casaris Ccesari et qucB sunt Dei Deo . . . 
Elle teve piedade da adultera ; perdoou a Ma- 
gdalena ; condemnou o divorcio ; teria per- 
doado ao proprio Judas si o trahidor Ihe ti vesse 
pedido perdao ; enfrentou o poder dos tetrar- 
chas, a majestade dopovo romano, o orgulho 
do Synhedrio e a crueldade dos supplicios ; 
proclamou-se Deus deante de Jehovah e de 
Jupiter Capitolino ! Mas deante da moeda 
sonante, deante do dinheiro, do aureo dinheiro 
que elle desprezava, do omnipotente, do in- 
vencivel dinheiro que Cesar extorquia a seus 
patricios, Christo nao tergiversou : mandou 
dar o dinheiro a Cesar. . . Dizer que elle o fez 
por medo e estulticia, porque a sua attitude 
ulterior provou que elle nao temia nem astor- 
turas nem a morte. Como explicar entao que 
Jesus Christo tenharespeitadotantoaproprie- 
dade, embora decorrente de actos de tyrannia 
que deviam repugnar a sua natureza miseri- 
cordiosa? Si elle era apenas homem, o facto 
se explica facilmente pela sua nacionalidade 
de judeu ; si, porem, elle era realmente Deus, 
nesse caso entramos francamente no dominio 
do mysterio. . . E aqui, insensivelmente, che- 
gamos a umacuriosa conclusao : a Sociedade, 
com todaasua hypocrisia, fechando os olhos 
d prostitui9ao e perseguindo os moedeiros fal- 
sos, nao faz mais que imitar a Jesus Christo ! 



Zodiaco 



A critica ja disse o que se podia dizer do 
Zodiaco, livro de versos do sr. Da Costa e 
Silva. Toda a imprensa ja o elogiou e justa- 
mente. O sr. da Costa e Silva sabe trabalhar 
o seu verso. Conhece a sua lingua — avisrara 
in terra aliena. Tern o sentimento da medida 
e exprime-se com clareza. Evita trope90S e 
pedrougos que costumam desfeiar livros de 
poetas alias apreciaveis. O seu livro esta cheio 
de aliteragoes e sonancias que sao novidades 
para o nosso idioma. Aprendeu-as o poeta, 
sem duvida alguma, em Emilio Verhaeren . 

£^m altos brados desvairados, 
Passam os ventos nos descampados, 
As avalanches em turbilhao, 
Imprecando, bramando, solujando, 
Num coro formidando, 
Pela amplidao. 

Toda esta Ventania, que e trabalho de 



20 VERDADES INDISCRETAS 

'fino lavor, esta cheia de repercussoes verhae- 
renianas. Por vezes, o amor a musica e a tor- 
tura da onomatopea sans en avoir lairidjL^xxx 
o poeta deslisar num vicio a que os gramma- 
ticos chamam collisao, e vem a ser a repetigao 
frequente da mesma consoante /«r^ obter cer- 
ios effeitos onomatopaicos. 

Exemplo, tirado do Redemoinho : 



De repente 

O redemoinho rapido, revolto 

E desenvolto, volteia, envolto 

No vortice envolvente 

Do p6 que sobe sacudido, solto 

No aereo ambiente. 



Como se ve, e uma simples e pura logo- 
machia. O sr. Da Costa e Silva e antes de 
tudo um descriptivo ! Quanto seria preferivel 
que elle fosse mais subjectivo ! E elle o pode- 
ria ser muito mais, si o quizesse. A Escalada, 
Nature za Sofffredora e A Vertigem dizem 
bem alto da sua f6r9a emotiva. Nessas compo- 
sigoes e que ha verdadeira poesia^ isto e, emo- 
gao traduzida por imagens que nos dei- 
xam entrever uma personalidade que vibra 
deante do espectaculo do mundo. Rythm&s 
da Vida, Imagens da Naturesa, Poemas da 
Flora, Poemas da Fauna, Minha Terra e 
alguns poemas de outras divisoes do livro sao 
como OS poemas symphonicos do maestro 



ZODIACO 21 

Nepomuceno : admiraveis pelas difficuldades 
technicas vencidas, mas frios e inemotivos . 
Em resume : mais bemfeitos do que propria^ 
mente bellos. Os aspectos da Natureza que nos 
apresenta nelles o sr. Da Costa e Silva chegam 
ate nos inanimados como si nos fossem dados 
por pelliculas cinematographicas. Levada 
pelo seu horror a pieguice, suppondo que a 
alma de um poeta nao nos interesse, elle im« 
pessoalisa-se demasiadamente. E' um erro. 
Um poeta vale justamente pelo bocada 
d'alma, da sua alma, que elle for capaz de tra- 
duzir em imagens. O essencial e que essa 
alma seja elevada. 

Tem-se estranhado que no livro ao sr. 
Da Costa e Silva nao haja uma palavra para 
a Mulher. Isso revela, a meu ver, uma face da 
superioridade intellectual do poeta. Provavel- 
mente (e nisto estamos de accordo) elle esta 
convencido que a mulher e um thema gasto . 
Ja inspirou o que podia. Ja deu o que tinha de 
dar. . . O mundo, isto e, o ceo, as aguas, as 
montanhas, as florestas e todos os animaes 
(menos a mulher) e que ainda podem offere- 
cer ao poeta motivos d'alta contemplagao . 
Sob estes ceos azues e escampos, sob este sol 
canicular, no meio desta vertigem de c6res, 6 
impossivel espiritualisar uma mulher. Temos 
de cahir fatalmente na sensualidade pura. Ora 



22 VBRDADES INDISCRBTAS 

a sensualidade nao p6de ser motive de poesia 
verdadeira. Zarathustra, na primeira parte do 
seu livro diz : 

(cAmo a floresta. E' difficil viver nas ci- 
dades, onde sao muito numerosos os que 
estao no cio. 

«Nao e melhor cahir entre as garras de 
um facinora do que nos sonhos de uma mu- 
Iher ardente ? 

«E olhae, pois, para esses homens: oseu 
olhar o testemunha — nao conhecem nada me- 
lhor no mundo do que deitar-se com uma 
mulher. 

«Elles tem lama no fundo d'alma e ai 
delles si a sua lama tiver espirito! 

«Si ao menos fosseis uma besta perfeita, 
mas para ser uma besta e preciso ter a inno- 
cencia ! 

« Aconselhar-vos-hei eu extinguir os vos- 
sos sentidos? Aconselho-vos a innocencia dos 
sentidos. » 

Assim falava Zarathustra. Mas comoche- 
gar a ter a innocencia dos sentidos sob a ac9ao 
de um clima que a todos os momentos nao 
convida a outras attitudes sinao as da sensua- 
lidade? Naturalmente frio, impassivel por in- 
dole (e a objectividade exaggerada dos seus 
versos oprova exuberantemente), o sr. Da 
Costa e Silva nao podia ser um exaltado 



ZODIACO 23 

deante da mulher. Como Zarathustra, elle sabe 
por instincto que a exaltagao deante da mu- 
lher e signal de pouco saber. <(E como sabe- 
mos poucas cousas, diz Zarathustra na segun- 
da parte, amamos do fundo do cora9ao ospo- 
bres de espirito, principalmente quando sao 
mulheres mogas.» Assim falava Zarathustra e 
assim e que pensa provavelmente o sr . Da 
Costa e Silva. Porque censural-o por tal? Dei- 
xemos que o censurem as mulheres . . . 



A castidade do nu 



Assistindo hontem a exhibigao de uma 
fita, Castidade, notava quanto ainda estava- 
mos longe daquella ingenuidade grega que 
em Sparta permittia a rapazes e raparigas, in- 
teiramente nus, participar de jogos gymnasti- 
cos. Nao nos esque9amos de que gymnos 
quer dizer nu. A fita a que alludo e tudo 
quanto ha mais simples e puro. Tanta pureza 
chega a ser ate monotona, dessa monotonia 
de templos protestantes, brancos e desnudos, 
a mais alarmante das formas de monotonia at6 
hoje inventadas. Entretanto, antes de exhibir- 
se a fita, foi necessario submettel-a a alta e 
esclarecida apreciagao da policia, que e, entre 
nos, a ultima autoridade chamada a proferir 
o seu veredictum em materia de esthetica. Fe- 
lizmente a policia, segundo parece, nao achou 
indecentes zs poses plastiques de Miss Andrey 
Munson . 



Hb VBRDADES INDISCRKTAS 

Para se ter idea da forga dos preconcei- 
tos christaos de que estamos todos imbuidos, 
basta dizer o seguinte: Miss Musson, que se 
apresenta candidamente nua, nuncada a fren- 
te para o espectador; esta sempre de costas; 
ou quando muito, de perfil ! 

Ora, senhores, eu nao sei si a parte tra- 
zeira de umamulhersera mais casta do que a 
dianteira . . . Restos ainda de preconceitos, os 
mesmos preconceitos que nos fazem nao co- 
rarmos deante de um pirralho nu, mas nos 
obrigam a disfar9ar e olliar para outro lado, 
si e uma menina de dois annos. . . 

Uma vez que o corpo seja bello e esteja 
€m attitudes castas, qualquer das suas faces 6 
digna de ser vista por quern quer que seja . 
Naturalia non sunt turpia . 

A educagao catholica, baseada em pre- 
conceitos quasi bi-millenares, incute no nosso 
^spirito que a idea de nudes e identica a de 
immoralidade. Ora, antiquissimos canones, 
do tempo de Santo Agostinho, diziam que o 
«corpo humano e a maisbella das creagdesde 
Deus.» Mas a reacgao do christianismo con- 
tra o mundo romano inspirou a seus prosely- 
tos o horror pelo nu, como por tudo que con- 
stituia a serenidade olympica da Belleza anti- 
^a. Os christaos ricos, depois de dar os seus 
haveres aos pobres, com estes se nivelavam: 



A CASTIDADB DO Vt 27 

e todos, ligadospelo mesmo ideal de salvar a 
sua alma derrubando os idolos, vinculavam-se 
no mesmo horror inconsciente pela nudez e 
pelos banhos. 

Quebravam-se idolos; destruiam-se am- 
phitheatros; derribavam-se altares; incinera- 
vam-se pergaminhos; democratisava-se o mun- 
do. E como as thermas eram os logares em 
que homens e mulheres se reuniam para to- 
mar banho e ser friccionados com perfumes 
da Arabia e toda sorte de unguentos precio- 
sos do Oriente, os christaos derrubavam as 
thermas. certos de que exterminavam focos de 
perdigao, mal sabendo, na sua cegueira de 
illuminados, que o exterminio de cada um 
desses f6cos de perdi9ao do espirito traria a 
abertura de um foco de pestillencia para des- 
truigao do corpo. Mas . . . ^md prodest ho- 
mini si munduin nniversum lucretur, anima 
vero sua detrimentum patiaturf A philo- 
sophia da iMiTAgAo de Christo e o reflexo 
daquelles tempos barbaros ... 

A Renascenga reagiu contra esses pre- 
conceitos. Em Franca chegaram a abrir-se ba- 
nheiros publicos onde homens e mulheres se 
banhavam mis. Mas veio a contra-reac9ao do 
Grande Seculo, e tudo recaiu no que era ante- 
riormente. Tanto assim, que, nas vesperas da 
Revolu9ao Franceza, raras eram, em Paris, as 



28 VERDADES INDISCRETAS 

damas da aristocracia que tivessem banheira 
no seu gabinete de toalete 1 

Hoje ja existe por toda parte uma pro- 
ficua reac9ao contra semelhantes preconcei- 
tos. A Allemanha, a barbara Allemanha, que 
esta sempre na vanguarda de todas as campa- 
nhas civilisadoras, da o bello exemplo de lu- 
ctar contra isso com esse enthusiasmo e com 
essa disciplina de que ella tem o segredo. O 
lago de Wannsee, nos suburbios de Berlim, 
e um freibad, banho popular onde se encon- 
tram diariamente rapazes e mo9as, de calgoes 
justinhos, folgando na agua, como tritoes a 
porfiar com as nymphas . . . 

Mais ainda, o dr. Kuster, velho medico 
e conselheiro intimo de medicina, fundou em 
Berlim, em 1909 a sociedade dos amigos da 
lu2, o Freya-Bund, que defende o direito de 
andar nu. Essa sociedade possue uma revista 
interessante, Der Licht-Freund, e um terre- 
no rigorosamente fechado, nos suburbios de 
Berlim, onde os associados de ambos os se- 
xos passam diariamente algumas horas com- 
pletamente nus, jogando tennis, criquet^ etc. 
Nao e qualquer pess6a admittida como socio; 
para tanto, o candidato sujeita-se a minucio- 
sa syndicancia sobre a sua vida, os sens habi- 
tos, o seu caracter, os sens antecedentes mo- 
raes, etc.E' precisoserhomem, ou mulherde 



A CASTIDADE DO NU 29 

incorruptivel moralidade para poder andar nii 
e ser socio do Freya-Bund. As vantagens hy- 
gienicas e espirituaes desses exercicios de nu 
ao ar livre sao extraordinarias e indiscutiveis. 
Ainda estamos longe de poder fundar 
uma sociedade nesses moldes. Os nossos ra- 
pazes sao facilmente inflammaveis e mal edu- 
cados para formarem uma sociedade como a 
do dr. Kuster. Alem disso os nossos precon- 
ceitos, nesse sentido,sao ainda muito vivos. 
Em compensagao, as meninas vao ao cinema 
ver umas detestaveis prostitutas como Pina 
Menichelli, umas repugnantes tuberculosas 
como Francesca Bertini, e leem as frioleiras 
hediondas de Marcel Prevost e as babosei- 
ras idiotas de Madame Gyp . . . 



^ 



O Bacillus Lyrlcus 



Chamo a attengao dos poderes compe- 
tentes, devidamente representados pelas re- 
partigoes encarregadas de combater endemias 
nocivas ao desenvolvimento da raga, para a se- 
cular endemia lyrica que amenisa a nossa ju- 
ventude. Emquanto as nossas profissoes re- 
muneradoras definham por falta de bragos^ 
j ovens patricios, atrazados, cretinisados pela 
absorpgao lenta de Casimiro de Abreu (into- 
xicagao feita atravez de muitas geragoes de 
poetas amorudos e trovadores imbeds); re- 
tardados no seu desenvolvimento d'homens; 
dissorados naquelles centros do psychismo 
superior em que se forjam as complexas armas 
espirituaes, merce das quaes se affirma a digni- 
dade masculina, ou seja — a soberania da 
macho sobre a femeada sua especie; jovens 
patricios dao aos seus contemporaneos o de- 
primente espectaculo que e um grupo de pe- 



32 VERDADES INDISCRETAS 

quenos animaes dominados por uma especie 
de cio choroso e amulherado, sem coragem de 
affirmar-se perante o objecto de seus desejos 
sinao por meio de estrophes plangentes, de 
timbre obsolete e accordes infantis, versos sem 
virilidade, gemidos de emasculados e ais poe- 
ticos que estariam ao alcance de qualquer eu- 
nucho do Sultao, si aos eunuchos dado fosse 
commetter o desaforo de rimar versos a rapa- 
rigas . 

Esta nos casos o sr. Guilherme de Al- 
meida, poeta paulista, que acaba de dar a es- 
tampa um volumezito de versos que tem o 
tituio melifluo e lambisgoia de — Nos. E' a 
historia massante e frivola dos amores do 
poeta e uma rapariga qualquer. Litteraria- 
mente sao versinhos bem medidinhos e cho- 
chinhos, sem uma so idea, sem nota emotiva, 
sem nenhum arranco para ospincaros do ideal, 
sem signal desses impetos luminosos que 
arrastam uma alma para as espheras altos e 
grandes em que as estrophes de um poema 
esvoa9am como fagulhas que rastream de au- 
rifulgencias todo o espago . . . 

Ora, uma vez que nao se pode dizer nada 
novo acerca do amor, para quepublicar livros 
tao anemicos? 



O B4CII.I,US I,YRICUS... 33 

Quando, velhos e tristes, na memoria 
Rcbuscarmos a triste e velha historia 
Dos nossos pobres cora95es defunctos, 

Que estes versos, nas horas de saudade, 
Prolonguem numa doce etemidade 
Os poucos mezes que vivemos juntos. 

Em que e que interessard a humanidade 
a historia dos beijos, abra90s e correlatas pa- 
tifarias que o poeta e sua amada fizeram jun- 
tos? Dirao talvez que esse amor e um desses 
sentimentos candidos que pov6am de illusoes 
loda uma adolescencia e projectam claroesate 
para alem da edade madura. Mas isso mesmo 
nao desperta interesse a nenhum espirito se- 
rio. Nao digo novidade nenhuma, affirmando 
que taes sentimentos puros lyriaes sao, na 
sua essencia, a mesma vibragao dynamica que 
leva um jumento a correr um dia inteiro pe- 
los prados atraz da sua femea, e transfigura 
um cavallo, eri^ando-lhe a crina, tornando-lhe 
o pello reluzente, dilatando-lhe as narinas, fa- 
zendo-o nitrir, pondo-o d'olhos accesos como 
<:arbunculos em brasa, vibratilisando-lhe to- 
dos OS musculos, que adquirem malleabilidade 
<ie laminas d'a90, quando o seu lan9arote o 
poe em contacto com egua de boa raga. Ora., 
collocados em paralello os amores do cavallo 
e OS amores humanos, os doicavallo sao muito 



34 V^RDADES INDISCRETAS 

mais bellos do que os namoros de poetinhas 
que nem ao menos tern coragem para affir- 
mar-se perante as suas dulcineas. 

Sonhamos . Quando um dia eu for velhinho , 
Hei de encontrar-te velha no caminho. . . 
E juntos, cambaleando, aos solavaucos, 

N6s levaremos, pela tarde calma, 
Toda uma primavera dentro da alma, 
Todo um inverno de cabellos brancos. . . 

Francamente, e ou nao e infinitamente 
mais interessante o cavallo? O cavallo, quan- 
do Ihe chega o tempo, ama, simplesmente, 
animalmente, bellamente, como sedeve amar 
quando se tem boa saude e prazer de viver. 
Ama e nao faz versos. Ninguem que se preze 
vae dizer a sua diva que algum dia hao de an- 
dar cambaleando e aos solavancos pelas es- 
tradas, como quem volta d'alguma farra bem 
regada a zurrapa e alimentada a tremogos. 

Vaes lendo. E, emquanto a tua mao folheia 
O livro, eu vejo que, de quando em quando, 
Estremecendo, sacudindo, arfando, 
Teu corpo todo num delirio anceia. 

Mas, senhores, tudo isto e vulgar. Qual-^ 
quer costureira esperta esta sujeita a semelhan- 
tes accidentes. Toda a gente esta mais ou me- 
nos farta de saber que uma rapariga quando 
anda de amores com qualquerrapazelho (uma 



O BACILLUS LYRICUS. . . 35 

vez que em casa Ihe faltem os paes com o cor- 
rective moral do chicote) le sempre alguns li- 
vritos que Ihe empresta o seu namorado. No 
caso vertente, quero dizer, no caso da rapari- 
ga que anda enrabichada pelo poeta, si ella^ 
durante a leitura, estremece, sacode-se, arfa e 
tern o corpo todo a delirar, como diz elle na 
sua algaravia de collegial cheio de sentimen- 
talismo, ja se sabe o que a rapariga estara a 
ler em extase: si nao for Les Uemi-Viergbs, 
do imbecilissimo e engenheirissimo Marcel 
Prevost, sera com certeza aquella scena do 
Primo Basilic, em que Ega de Queiroz nos 
mostra o canalha do romance, durante as ex- 
travagancias com a prima, na equivoca e su- 
percivilisada posigao de quem se levanta de es- 
tar de joelhos, ainda meio incendiado,alisando 
OS bigodes e lambendo os beigos. . . 

Felizmente, ahi pelo meio do volume^ 
da- nos o poeta a grata nova de que a rapariga 
se foi embora. 

Quiz dar-te mais : tu nada mais quizeste, 
Pelo bem que te fiz pade90 agora 
A saudade do mal que me fizeste. 

A la bonne heurel A rapariga safou-se . 
Tera feito bem? Certo. fez bem a si propria, 
mas fez, sem o querer, grande malao poeta e 
is letras patrias. Ficamos sabendo que a vida 



36 VKRDADBS INDISCRETAS 

de ambos era assim uma especie de vida de 
canarios em viveiro : 

Kra assim : era beijo sobre beijo, 
AbraQO sobre abra9o. . . Um s6 desejo 
Nunca tiveste que nao fosse o meu. 

O mal do joven rimador paulista foi sup- 
per ter descoberto a polvora quando beijava 
e abragava a sua bella Rosina. Considere o 
sr. Guilherme de Almeida que os amores de 
toda a gente sao perfeitamente eguaes aos 
seus amores. . . E' sempre assim: beijo so- 
bre beijo, abra^o sobre abrago e. . . le reste 
en consequence. A esse respeito nao ha mais 
novidade alguma. Tudo quanto se p6de fazer 
em materia de amor ja esta feito, E, si o sr. 
Guilherme de Almeida f6r capaz de inventar 
acerca deste particular algum prazer novo, 
pode tirar patente de invengao e garanto-lhe 
que tera estatua ao lado dos maiores genios 
da humanidade. Apenas com uma condi9ao : 
nao fazer versos molhando a penna em agua 
de fl6res de laranjeira assucarada, como o 
mallogrado cretino Casemiro de Abreu, cuja 
alma tenha Satanaz sempre entre os cornos... 



paradoxo legal 



Olympia do Oriente e uma senhora que 
se tern annunciado ao mesmo tempo como 
cartomante e modista. Um destes dias, porem, 
a policia visitou o escriptorio de Olympia, a 
rua da Assemblea, onde nao encontxou nem 
tesouras, nem fazendas finas, nem f6rmas de 
chapeo, nem manequins. Em compensagao 
encontrou um baralho de cartas de tirar a sor- 
te, um gallo e uma figa ... A policia empal- 
mou o baralho, o gallo e a figa — «instrumen- 
tos de superstigao)) — e sahiu convencida de 
haver ganho o seu dia. Olympia, consideran- 
do a sorte do baralho, do gallo e da figa, e 
nao possuindo infelizmente outra figa maior 
para offerecer a policia, achou mais prudente 
requerer habeas-corpus preventivo — o que 
fez. Ojuiz pediu informa9oes ao Chefe de 
Policia, que Ih'as deu logo, minuciosas e ter- 
minantes. O principal argument© em que o 



38 VBRDADES INDISCRBTAS 

Chefe de Policia se estriba para perseguir 
Olympia e «principalmente a aprehensao de 
cartas e objectos de superstigao que arreca- 
dou, como o gallo, a figa, etc.* (Textual). 
Ora, senhores, o dr. Aurelino, perseguindo 
as cartomantes, e muito mais antipathico do 
que o cardeal de Torquemada quando fazia 
queimar herejes, judeus, criminosos politicos, 
feiticeiros, adivinhos, bruxos e bruxas nos 
quemaderos das Hespanhas. O cardeal de Tor- 
quemada, o Conde de Tolosa, o Geral dos 
Dominicanos, Mestre Conrado de Marpurgo 
e Sua Santidade o Papa perseguiam a super- 
stigao em nome de um principio — principio 
egualmente supersticioso se oquizerem — mas 
sempre um principio. As Constituigoes Apos- 
tolicas eram perfeitamente logicas perseguin- 
do nigromantes, cartomantes, etc.. A Consti- 
tuigao da Repnblica, nao. O art. 167 do Co- 
digo Penal Brasileiro e que e uma excrescen- 
cia na legislagao republicana. Ou aRepublica 
reconhece officialmente uma seita religiosa e 
entao pode perseguir as outras seitas e as su- 
perstigoes congeneres em nome da seita offi- 
cial (o que me parece perfeitamente licito), ou 
entao nao reconhece officialmente nenhuma 
seita e nesse caso tem de cruzar os bragos 
deante de todas. Perante a logica e a razao 



O PARADOXO LEGAL 39 

liumana, um crucifixo, como instrumento de 
<:onsolo e de milagres, naotem a menordiffe- 
reiiQa de uma figa. O que faz o crucifixo set 
<iifferente de uma figa 6 a devo^ao de cada 
um. Objectivamente, o crucifixo e a figa, como 
instrumentos de religiao, identificam-se. Eu 
admitto e respeito o crucifixo, porque desde 
pequeno me inculcaram essa crenga; tambem, 
ci, intimamente, nao deixo de ter certo res- 
peito pela figa, que nos livra de muita coisa 
inexplicavel . . . Como o dr. Papus, creio em 
tudo quanto nao vejo e respeito tudo quanto 
dgnoro . . . Ha individuos que nao se ajoelham 
deante de um crucifixo, mas tremem deante 
de um gallo e cobram animo deante de uma 
figa. Agora pergunto eu : a Republica, que 
nao admitte officialmente o crucifixo, pode 
perseguir officialmente a figa? Creio que nao. 
A figa so pode ser perseguida em nome do 
crucifixo catholico, do crescentilunio mussul- 
mano, etc.. — Persigo em nome da sciencia? 
respondera a Policia. — Perdao! Que sciencia ? 
As sciencias exactas? O Estado nao tem nem 
p6de ter preferencia por sciencia alguma. Li- 
vre e o ensino; liberrimas, as opinioes. O 
art. 157 persegue o espiritismo em nome da 
sciencia, ji que o nao pode perseguir em no- 



40 VKRDADES INDISCRKTAS 

me da Religiao. Nao o pode perseguir abso- 
lutamente. Ha muita gente que considera o- 
espiritismo uma sciencia. O espiritismo 6, a. 
meu ver, uma seita religiosa; portanto so pode 
ser perseguido em nome de outra seita. Scien- 
cia e razao; religiao e sentimento; nao se 
p6de perseguir uma seita religiosa em nome 
da sciencia, porque isso seria condemnar o~ 
sentimento em nome da razao. Eu nao de- 
fendo o espiritismo da rua Rudge, nam a figa. 
de Olympia do Oriente. E' razoavel que o Es-^ 
tado, sendo o mais forte, persiga o espiritis- 
mo e a figa, que sao mais fracos. O que, po- 
rem, se deve exigir e que o Estado se faga 
frade para poder perseguir com justiga e lo- 
gica. Que e superstigao theologicamente? Su- 
persti^ao e o facto de attribuir alguem a cer- 
tas causas certos effeitos nao proporcionados 
com as causas a que sao attribuidos. Attribuir, 
pois, a uma figa o poder de inspirar paixao- 
ou de livrar de quebrantos e uma superstigao, 
que a policia persegue; mas nesse caso por- 
que nao persegue tambem os que ajoelhanv 
deante de uma cruz afim de pedir allivio para, 
as almas do Purgatorio ? Perante a Sciencia, 
que parece ser o sustentaculo da policia, ha. 
tanta rela9ao entre uma figa e uma paixao, 
como entre uma cruz e as almas do Purgato^ 



d PA.RADOXO h^Gkl, 41 

rio, entes cuja existencia nao esta scientifica- 
itiente provada, experimentalmente demon - 
strada. Nao protest©, portanto, contra aperse- 
guigao; saliento apenas a falta de logica poli- 
cial, aponto a incoherencia republicana. 



Homens e abelhas 



Escrevendo La Vie des Abeilles, fez 
Maurice Maeterlinck um verdadeiro poema em 
torno da vida dessas « castas bebedoras deor- 
valho — chastes buveuses de roseey), como diz 
elle. Nao ha, em todo o genero animal, entes 
que mais humilhem os homens. Ja nao me re- 
firo ao facto das abelhas so produzirem mel, 
ao passo que os homens, ordinariamente, s6 
distilam fel. O extraordinario, incomprehensi- 
vel nas abelhas e a sua abnegagao. Quando ve- 
mos um enxame abandonaruma colmeia e sup- 
pomos que sao as novas abelhas que vao para a 
Vida,enganamo-nos.E' justamente o contrario 
quese da. As velhas abelhas, as que ja traba- 
Iharam, deixam a nova gera9ao o fructo de seu 
trabalho — a cera e o mel — e partem sem des- 
tino certo, a construir nova colmeia, sem sa- 
ber em que arvore iraorepousar,nem que ven- 
davaes virao colhel-as durante a viagem. Nao 



44 VERDADES INDISCRETAS 

e mysteriosa essa abnegagao? Entre os ho- 
mens, nem os paes sao capazes de ser tao ab- 
negados para com os proprios filhos. Ja nao qui- 
zeramos n6s que os paes abandonassem aos fi- 
lhos, de um dia para o outro, todo o fructo do 
seu trabalho. Mas seria encantador que 
ao menos as velhas geragoes que nos gover- 
nam, e cujo governo absolutamente nao nos 
satisfaz, abandonassem OS seuspostos as no- 
vas geragoes, compromettendo-se estas a fazer 
o mesmo ageragao que daquiavinte ou trinta 
annos estivesse em condi9oes de fazer a feli- 
cidade do paiz? Isto me parece justo, porque 
o governo deve fazer a felicidade do paiz. 
Mas que e o paiz? Sao os velhos? Nao. 
Sao OS novos. Os velhos estao perto de par- 
tir para nunca mais voltar. Pertencem ao pas- 
sado. A nos cabe, por direito, a direc^ao do 
presente, e, por dever, a previsao do futurO . 
Portanto, o paiz somps nos. 



i 



A festa da Melancolia 



As nossas batalhas de confetes se notabi- 
lisam por nao terem confetes. Nesse caso, 
uma vez que os confetes entram nessas bata- 
lhas com tanta parcimonia, d^em-lhe outro 
nome : aBataIha dosEmpurroes». Chamarba- 
talha de confetes a uma festa em que elles 
pouco apparecem e falta de bom senso. yap- 
pelle un chat un chat et Rollet un frippon, 
como dizia o defunto Boileau . . . Ha ainda um 
outro nome que se podia perfeitamente ajustar 
a esses ajuntamentos de povo na Avenida: «a 
festa da Melancolia. » Quem quizer ter idea da 
grande, da immensa melancolia nacionaldeve 
vir ver uma batalha de confutes. Entao ter^ 
occasiao de observar aspectos curiosos ; na 
calgada, bem no meio-fio, homens e mulheres 
enfileiradas, algumas com creanga de mamma 
ao coUo, e olhando todos, muito serios e 
muitos graves, para os carros onde tambem 



46 VERDADBS INDISCRETAS 

passam cavalheiros muito graves ao lado de 
damas orravissimas. Hontem ate havia um se- 
nhor de tratamento fcomo dizem as donas de 
pensao) vestido de preto, sobrecasaca, collete 
branco e cartola lustrosa, sim, senhores, cartola 
luzidia a meia-noite em batalha de confetes ! 
Mas prosigamos : na calgada, gente seria ; nos 
automoveis e carros, com algumasexcepgoes, 
gente que apenas sorri (e que sorriso de 
ra9a fatigada de aindanao existir! . . .), gente 
que apenas sorri e passeia como si estivesse 
de tarde na Avenida Beira-Mar. Nos interval- 
los deixados pelos vehiculos e ainda nos 
passeios, vem entao a multidao dos passean- 
tes, pobre gente que se aperta e se acotovela... 
para divertir-se. E' nesses logares que se en- 
contram os rapazes da moda, 2,jeunesse doree. 
A nossa. jeunesse doree vem para a Avenida dis- 
posta a divertir-se muito. Como, por^m, nao 
ha entre elles ideas a respeito de diver- 
soes, nem dinheiro com que possam custear 
novidades, entao adoptam um meio facil e 
economico de divertir-se : formar o que se 
chama um amonomio» e sahir ululando coisas 
em calao. E' a mais enc3inta.dora, jeunesse do- 
ree deste continente. A nao serem esses rapa- 
zes, que dizem chufas as senhoras e dao alguns 
berros de meia em meia hora, os demais pas- 
seantes andam pela Avenida, serenamente 



A FBSTA DA MBI.ANCOI.IA ... 47 

e gravemente, como se perlustrassem alame- 
das de S. Joao Baptista ou do Caju em dia 
de Finados. Alids ja tenho observado que 
nos cemiterios, em dia de Finados, ha, entre 
OS visitantes de tumulos, certa alegria algo 
elegante, talvez per ser discreta. . . De- 
mais, dd-se um facto : em dois de novembro 
as fl6res sao mais abundantes nos Campos 
Santos do que os confetes e serpentinas ahi 
na Avenida em dias de festa . . . Mas fagamos 
ponto aqui. A nossa melancolia e tal, que co- 
mecei estas linhas com a intengao de tratar 
de uma festa carnavalesca e acabo tratando 
de coisas funebres. Nao ha como resistir aos 
fados. . . 



Carne para canh^o 



Os Jornaes censuram a attitude de urn ra- 
paz que, ainda se arriscando a per der os direi- 
tos de cidadania, allegou motives de crenga 
religiosa para ficar isento do sefvigo militar . 
Nao ha muitos dias o juiz da 1? vara de- 
negou habeas-corpus a um outro que preten- 
dia fugir ao servigo militar pela mesma porta 
que tem dado entrada no governo de estados 
a varios cidadaos fracamente prestigiados nas 
urnas. Aventuro-me a perguntar si podemos 
condemnar tao soberanamente esses rapazes 
pelo facto denao quererem perder doisannos 
inutilmente, a ouvir toques de cornetas e ru- 
fos de tambores, a enervar-se na vida dissol- 
vente das tarimbas, para sairem aptos a serem 
o que seriam fatalmente, sem dois annos de 
caserna : carne para canhdo . . . Sim, os bra- 
sileiros estao-se preparando exclusivamente 



50 VSRDADES INDISCRETAS 

paraisso. Um exercito, salva a opiniao dosge^ 
neraes pacificos e dos poetas bellicosos, nao- 
se compoe apenas de soldados e officiaes. Or- 
gamento da guerra tern duas verbas : Pessoat 
e Material. Ora, por emquanto estamos lyri- 
camente preparando pessoal, sem cogitar do 
materiaL isto €, das carabinas, das bayonetas^ 
dos canhoes pezados, dos canhoes leves, das. 
metralhadoras, dos transportes, das ambulan- 
cias, dos viveres, dos fardamentos, dos medi^ 
camentos, dos arreios para a cavallaria, da re-^ 
monta, emfim de tudoisso que justifica aexis- 
tencia de uma repartigao pomposa e dispen- 
diosa que ac6de ao nome de Intendencia da 
Guerra. Si tivefmos de pelejar contra qual- 
quer povo — quod Deus avertat — dentro de 
pouco tempo ficaremos desprovidos de espin- 
gardas e de polvora ; de maneira que os corn- 
bates terao de cessar da nossa parte, nao tal- 
vez por falta de combatentes, mas por falta de 
armas. A forma9ao dos exercitos hoje em dia 
deixou de ser problema de heroism© para ser 
questao economica, financeira e industrial. 
A Inglaterra poude levantar em pouco 
tempo um exercito de cinco milhoes de 
homens, porque tinha la na sua ilha os recur- 
sos industriaes capazes de armar esses cinco 
milhoes de individuos. Os turcos sao soldados. 
por indole, por tradi^oes e por educa9ao ; 



CARNB PARA CANHAo. . . 51 

aldm disso sao mais numerosos que os ingle> 
zes e nada disso os impede de serem derrota- 
des. Porque? Porque nao t^m armas e nao 
t^m a consciencia militar moderna. Os russos 
sao bons soldados e numerosos como pragas 
de gafanhotos, o que nao impediu que elles 
tivessem de ser derrotados por Hindenburg, 
esse avatar dos velhos deuses scandinavios» 
essa moderna e truculenta encarna9ao dos 
Wottans e dos Sigfrieds, paes e irmaos de 
Walkyrias ... A Franca, a AUemanha, a In- 
glaterra, o Japao, a Italia e os Estados Unidos 
sao potencias de guerra, porque sao potencias 
industriaes,economicas e financeiras. Nos que- 
remos ser potencia respeitada so porque dis- 
pomos de academicos enthusiastas e de poetas 
eloquentes. Si a Italia nao tivesse os seus esta- 
leiros e fabricas de Spezzia e de Liorno, a ima- 
ginagao de Gabriel d' Annunzio nao seria mais 
efficiente do que os discursos do sr. Olavo Bi- 
lac. . . Deixemo-nos, pois, depatranhas e pa- 
triotadas. Emquanto nao formos capazes de 
aproveitar o ferro de Minas para fundirmos 
coura9as de navios e canhoes para as nossas 
fortalezas e montanhas, inutil serd pensar em 
formar exercito. A campanha que se fez em 
prol da forma^ao de contingentes de parada, 



52 VSRDADES INDISCRETAS 

seria muito mais util e proficua, si tivesse sido 
feita em prol da abertura de fundi^oes de ferro 
para as carretas, bronze para os canhoes e 
ago flexivel para a lamina das espadas . . . 



Edouard Drumont 



E4ouard Drumont, que acaba de fallecer 
em Paris, era o que se p6de chamar um ho- 
mem. Iniciou a sua carreira de publicista sob 
a direc9ao de Emile de Girardin de quern diz 
elle que era muito parco nos ordenados que 
pagava, mas generoso quando se tratava 
de pagar transportes para os seus reporteres 
fazerem algum service de importancia. Dru- 
mont foi, em toda a suavida, um extraordina- 
rio homem de combate. O primeiro livro com 
que appareceu, em 1881, La France Juive, 
provocou uma celeuma espantosa em Paris . 
E' curioso acompanhar o interesse que AI- 
phonse Daudet tinha por esse livro, que elle 
ja conhecia antes de publicado. Drumont, du- 
rante muito tempo antes da publica9ao do li- 
vro, treinava-se no jogo da espada, na sala 
d'armas de Daudet. Eram diarios os exerci- 
cios que elle fazia ora com o proprio Daudet, 



54 VBRDADBS INDISCRKTAS 

ora com Albert Duruy, ora com outros ami- 
gos. Diarios e prolongados. Quando salam da 
sala, havia pelo menos meia duzia de floretes 
quebrados. Madame Daudet, que ignorava os 
motivos occultos daquelles exercicios, nao po- 
dia comprehender a raiva com que o joven 
jornalista, se atirava a elles. Daudet costuma- 
va dizer : <!.Eh! Drumonf a raison de s entrai- 
ner. Le livre qu il est en train de pub Her sera 
une grosse affaire. m Que livro seria esse? La 
France Juive. Exposto d venda, contra a ex- 
pectativa do autor e dos amigos, os jornaes 
nada diziam. Daudet os percorria a todos dia- 
riamente. O livro iria morrer assim? Um livro 
como aquelle, dois volumes repletos defactos 
e informagoes ineditas sobre os altos banquei- 
ros dajudiaria, sobre os ministros vendidos 
aos judeus, sobre os jornalistas venaes . . . 
Mas uma bella manha, Alphonse Daudet 
abriu o Figaro, anciosamente comosempre, e 
la encontrou a nota official da folha, o famoso 
grypho, que hoje e escripto por Alfred Capus 
e que naquelle tempo era escripto por Ma- 
gnard, o primeiro successor de Villemessant . 
O grypho, por entre elogios ao talento do au- 
tor, fazia veladas defesas das victimas de Dm- 
mont, muito ao de leve, com muita amabili- 
dade, com luvas de pelliea, alisando o pello 
ao autor, extranhando, pedindo licenga para 



SDOUARD DRUMONT 55 

lextranhar a acrimonia com que eram tratadas 
certas personalidades eminentes do regimen 
Tepublicano . . . Alea facta erat. No mesmo 
dia OS exemplares do livro voaram. E no dia 
tseguinte o sr. Arthur Meyer, director do Gau- 
loisy mandava suas testemunhas a Drumont . 
Este acceitou radiante o desafio. Emfim, ia ter 
<ieante de si um judeu, um judeu authentic© 
^m cujas carnesia entrar a lamina da sua espa- 
<ia. Mas Arthur Meyer, durante o assalto, con- 
tra todas as regras da cavallaria, conseguiu 
agarrar com a mao esquerda a espada de Dru- 
monte feril-o assim,eitrai5ao,na coxa do mesmo 
lado. Ora, a Fran9a e a mae da cavallaria. Os 
jornaes datarde noticiaram o caso. Constituiu- 
se um tribunal de honra, para examinar le coup 
de la main gauche. E o proprio Meyer teve de 
reconhecer que procedera muito mal... D'ahi 
para ca, Edouard Drumont foi em Franga, du- 
rante quasi metade de um seculo, um Torque- 
mada armado de uma penna, em vez de estar 
^rmado com as fogueiras da Inquisi^ao. Toda 
^ sua vida foi consagrada a combater os ju- 
deus. O seu nome tornou-se popular em toda 
^ Franga, atravez do lapis dos caricaturistas, 
<}ue nao se fartavam de pintal-o deante de um 
bouillon, espetando judeus com um garfo im- 
menso e devorando-os como um cannibal . . . 
JElle p6de ter commettido erros e excessos 



56 VERDADES INDISCRBTAS 

nos combates que feriu. Os seus livros e os 
seus artigos de jornaes eram violentissimos. O 
que, porem, ninguem pode negar e que este 
homem foi um dos mais sinceros, valentes e 
apaixonadps francezes que jamais viveramsob 
o ceo de Franga . 



A Academia em ses$llo 



A Academia Brasileira de Letras esta em 
f6co. As tres vagas ja existentes tern prpdu- 
zido o surprehendente effeito de colloc^l-^ na 
berlinda jornalistica, durante quasi dois m^zes. 
Deixemos, entretanto, de lado a quesjap das 
candidaturas e tratemos da sessao academic^ 
realisada ha dois dias . 

Compareceram a reuniao ^penas seis im- 
mortaes, que estiveram a cavaquear sobre o 
regulamento, sobre a politica, sobre a batalhsi 
de Verdun, sobre a crise economica e sobre o 
DiccioNARio DE Brasileirismos. Uma sessao 
encyclopedica, que acabou, como sempre, in- 
fructifera e inoffensiva. Porque as sessoes da 
Academia tem isto de bom: ordin&riamente 
sao infructiferas. Praticamente, valem tanto 
como as sessoes do? clubes literarios dos rapa- 
zes das provincias ... 

Pe9amos a Deus que a Academia seja 



58 VISRDADBS INDISCRETAS 

sempre assim: pregui^osa e inutil. Da unica 
sessao em que os academicos se reuniram 
para resolver coisas, sahio um monstro: a re- 
forma orthographica. A pretexto de facilitar 
o ensino da escripta, nivelou a Academia os 
intellectuaes e os vendeiros. Que nosimporta 
a nos, senhores, que o vendeiro ali da esqui- 
na escreva caxorro com :*: ? Devemos acom- 
panhal-o ? Nao . Deixemos-lhe a inteira res- 
ponsabilidade da sua graphia lusitana . . . 

A Academia pensa de modo contrario . 
Uma vez que o vendeiro ache difficuldade no 
emprego do ph, o que os intellectuaes devem 
fazer nao e disseminar a instrucgao, afim de 
instruir o vendeiro mas sim, desaprender a 
sua orthographia e escrever como elle! Chama- 
se isto — simplificagdo orthographica . 

Os academicos nao viram que a escripta 
dos intellectuaes e uma das maneiras pelas 
quaes elles se destinguem dos demais homens. 
Nao comprehenderam que a Academia, refor- 
mando a orthographia, democratisava-se, isto 
^, achatava-se ; e Academia democratica nao 
e Academia nem coisa alguma. O simples fa- 
cto de ser uma selec9ao faz della uma aristo- 
cracia. Portanto, ou seja aristocratica, ou nao 
exista. O engragado € que, ao mesmo tempo 
que simplificavam a escripta, complicavam o 
fardamento. Atiravam pela janella o diccio- 



A ACADBMIA SM SKSSlO 59 

nario etymologico e mandavam buscar espa- 
dins e chapeos armados ... 

£ sao taes homens que pensam em fazer 
um DicciONARio. Fagamos votos para que 
semelhante diccionario nunca venha a luz . 
Fique quieta a Academia. Nada de estroinices, 
nada de brincadeiras inconvenientes com a 
lingua materna, que e uma coisa s^ria . 



n^ 



A morte da peccadora 



I 

Aquella senhora em quern o maiido, te- 
nente do Exercito, disparou algUns tifds de 
rev6lver, morreu hontem na Santa Casa, de- 
pois de, segundo dizem os jornaes, ter-se re- 
conciliado com o seu Deus. O que ha de in- 
teressante na sua morte e que a infeliz, con- 
forme o depoimento dos matutinos, «expirou 
tranquillamenteB. Quern sabe se exaggeraste, 
6 divino Flaubert, quando fizeste Emma Bo- 
vary morrer naquella agonia estertorante, sob 
a influencia do arsenico, e cheia de remorsos, 
e tendo visoes dantescas, e apavorada, como 
si jd soffresse em vida os supplicios infernaes ? 
Quem sabe si a razao nao estava ao lado de 
Alphonse de Lamartine, que achou exagge- 
rado o castigo que impuzeste a Emma Bovary, 
cujo crime afinal se reduzia a tao pouco ?. . . 
Como a sociedade ainda e incomprehensivel ! 
Nao ha homem nenhum que tenha a coragem 



62 VB&DA.DSS INDISCRBTAS 

de condemnar esse official. Pois que! Ella 
teve a prova de que a esposa o atrai9oava I 
Mais ainda : ella propria confessou o seu pec- 
cado ! Em casos taes — dil-o o Codigo e a So- 
ciedade o applaude — fica ao marido o direito 
de castigar a esposa para lavar a sua honra ! 
Valha-nos Deus! A honra, si e que ella en- 
tra realmente nessas coisas, ficaria perfeita- 
mente salvaguardada com o repudio, puro e 
simples, da adultera. Esta solugao tambem jd 
6 acceita pela Sociedade e tem a vantagem 
de ser muito menos incommoda do que q 
assassinate da esposa leviana . Passados al^ 
guns mezes, o marido se teria esquecido jd da 
tragedia, ou pelo menos a lembranga della es- 
taria amortecida no seu espirito. Nao ha como 
o tempo para apagar maguas de amor. Te- 
nhamos confian9a no tempo que, nestas como 
em outras circumstancias, e o unico remedio 
infallivel. Nao tenhamos illusoes: o assassi- 
nato da esposa adultera e mais um desconsolo 
que vem attingir o marido. Entao, sendo este 
militar, tem mil modos de remediar a situa- 
gao, salvando a sua dignidade, sem ter neces- 
sidade de appellar para as armas . Uma com- 
missao nas fronteiras, por exemplo. As obrir 
ga96es do servi90 militar, que, «sob o chicote 
das fronteirasv, sao muito mais graves, con- 
stituem derivativo, cuido eu, de primeira or- 



A MORTB DA FKCCADORA 63 

dem para fazer olvidar as infidelidades de uma 
mulher. Depois ha o estudo. Creio que era 
Chateaubriand que dizia nao haver d6r, por 
mais violenta, que resistisse a um quarto de 
hora de leitura. E' uma profunda verdade. 

Entretanto . . . Entretanto, apezar de to- 
dos conhecermos estas coisas, nao podemos 
deixar de dar razao ao marido que mata a in- 
fiel por esse simples facto a que Napoleao 
chamava affaire de canape, affaire de coin de 
salon / . . . Porque serd que, sendo nos tao ci- 
vilisados, damos razao ao marido que mata 
em taes casos ? E' que a civilisagao nossa ain- 
da € uma crosta muito superficial. Chegado o 
momento de applicar estes principios, parece 
dar-se na nossa intelligencia um eclypse de 
todas as ideas que a civilisagao pouco a pouco 
impoz a nossa incoercivel selvageria interior ; 
parece que, em momentos taes, reb6am no 
nosso cora9ao todos os gemidos da floresta 
primitiva e estrugem gritos de todas as feras 
com que conviveram os nossos ancestraes; 
e tudo isso, como uma grande caudal esca- 
choante, corre por declives ignorados do nos- 
so ser ; e entao as Leis, os Codigos, a Caval- 
laria, a gentileza, tudo desapparece no vortice 
tremendo, innundado pelo diluvio interior de 
barbaria mysteriosamente desencadeado pelo 
simples olhar de uma mulher voluvel . . . 



Q pdraidoxo dat f^i 



Uma actrizita ia representar quando o 
pae a raptou a porta do theatro. O caso, yi. 
amplamente divulgado, interessaria, si nao 
fosse vulgar. Porque afinal, depois de tudo, 
verificou se que a raptada ja era casada, divor- 
ciada, com 26 annos e dois filhos. Uma sem- 
saboria, como se ve , . . 

O mais interessante e a nossa organisa- 
^ao social. Um pae, ao saber que a filha vae 
entrar para o theatro, temendo que ella se 
perca no meio das suas semelhantes, refeGlve 
raptal-a e leval-^a para casa. A filha gftta <|ue 
ainda ha juizes em Berlim e com effeito appa- 
rece por entre aquillo tudo um sujeito de 
oculos que diz ao pae : 

— O Sr. nao pode impedir a sua filha 
de viver nas caixas de theatro. 

— Mas, senhor homem da lei, as caixas 
de theatro sao conventilhos ! 



66 VKRDADES INDISCRKTAS 

— Mas sao permittidos por nos. Neste 
mundo s6 6 immoral aquillo que n6s prohibi- 
mos. Ora n6s permittimos que haja caixas de 
theatres. Logo, sao perfeitamente familiares- 
Demais sua filha tern 26 annos e dois filhos. 
Portanto. .. 

— Mais uma razao, senhor juiz, para que 
eu nao a queira numa caixa de theatro. E^ 
preferivel que uma virgem entre nesses meios. 
antes que uma mae ; porque a virgem e s6 ; 
a mae tem os filhos. Declaro-lhe, pois, Sr. 
Juiz, que nao quero ver perdida a mae dos 
meus netos. 

— Pois eu Ihe declare que permitto ^ 
mae de seus netos perder-se quantas vezes 
quizer, retruca o homem da lei, concertando os 
oculos. E si o senhor resistir, tenho a men 
lado a forga . . . 

Nao e deliciosa essa organisagao social 
que prohibe uma menor de disp6r do que e 
muito seu, e Ihe da licen^a para fazer o que 
entender no dia em que ella f6r mae, isto 6> 
quando ella merece maiores cuidados ? 



O quinto mandamenta 



O que faz suppor que no Rio se assassina 
demais 6 a. importancia que osjornaes dispen- 
sam is noticias de assassinatos. No Rio nao 
se mata demasiadamente. Mata-se o que i 
possivel. E nao se mata mais, porque nao se 
deseja. O Rio e cidade santa. A protec9ao 
que Deus nos dispensa e escandalosa. Temos 
uma Saude Publica, que pouco se incommoda 
com a hygiene, e, apezar disso, vamos viven- 
do mais ou menos livres de epidemias. Pro- 
tecgao divina . . . Com o policiamento dd-se o 
mesmo. Guardas-civis — escassos ; soldados — 
poucos e mal distribuidos. Pois apezar disso 
vamos vivendo como Deus e servido. Li uma 
vez por outra o Dente de Ouro da uma facada 
no Canella Secca^ mas isso nao tem importan- 
cia. E' para distrahir um pouco os leitores dos 
jornaes. De quando em vez tambem o Ca- 
nhoto combina com o Mao de Gato um assalto 



68 VERDADES INDISCRETAS 

a uma joalheria ou a umacasa de familia. Rou- 
bam algumas joias e roupas servidas e safam- 
se docemente. Que tern isso ? Nada. Peque- 
nos prejuizos, em comparagao do muito que 
OS criminosos podiam fazer no Rio si o qui- 
zessem. Si nao fossemos gente de b6a indole, 
ja nao morava ninguem nesta cidade. E que- 
rem a provade que somos gente b6a? Basta con- 
siderar o quanto nos impressionamos ainda por 
ter um valente qualquer baleado um compa- 
nheiro na Gambda; e tanto nos impressiona- 
mos que OS jornaes abrem columnas com esse 
facto minimo. Si o publico nao ligasse impor- 
tancia a isso, os jornaes nao o explorariam . 
E' claro. E dessa importancia que os jornaes 
dao aos assassinatos e que parece nascer a 
convicgao, em que estao muitos, de que no 
Rio se mata demasiadamente. E' engano. 
Ainda nao se mata o que se devia matar em 
relagao a falta de instrucgao e de policia. Fu- 
turamente, tenhamos fe em Deus, havemos 
de matar muito mais. . . 



O 14 de tlulho 



Si Mirabeau podesse resuscitar, tomar o 
trem ate o Havre, ou Bolonha, ou Bordeos, 
e, num desses portos, entrar num paquete, vir 
ao Rio, descer ali no caes, simplesmente, mo- 
dernamente, como fez Anatole France, eu s6 
desejava uma coisa: que com elle viesse tam- 
bem Augusto Comte. 

Num dia 14 de julho como este, um gru- 
po de patriotas foi a Bastilha, velha prisao 
de Estado naquelle dia defendida por um 
punhado de soldados mais ou menos somno- 
lentos. Esse grupo tomou a cidadellasem gran- 
de esfor^o, soltou os presos (crimes commuos) 
que, segundo parece, nao chegavam a dez. 
Ficou assim fundadaa Fraternidade. Fundada 
a Fraternidade, parece houve muita genteque 
nao concordou com ella. Os homens da Revo- 
lugao.para garantirem a estabilidade dos senti- 
mentos fraternaes no Universo em geral e na 



70 VKRDADBS INDISCRETAS 

Fran9a em particular, montaram por isso uma 
guilhotina e declararam: «Quem nao f6r frater- 
nal mire-se neste espelho ! » Si nao mentem as 
chronicas, muitos milhares de homens e mu- 
Iheres nao foram fraternaes, porque a guilho- 
tina funccionou diariamente em toda a Franga, 
durante muito muito. Ora bem — um dos 
maiores impecilhos que encontrava a Frater- 
nidade eram os padres. Os padres eram frater- 
naes ; mas a sua fraternidade era diiferente da 
dos revolucionarios. Por exemplo ; os revolu- 
cionarios, por causa da sua fe, degollavam; os 
padres, por causa da sua f^, queimavam. Di- 
vergencia de systema somente ; mas em mui- 
tos casos € impossivel distinguir o systema do 
fundo da questao. Naquelles tempos essas e 
outras coisas se confundiam. Os 61hos da Re- 
volu9ao, pois, degoUaram padres, frades e 
freiras; e decretaram que nao havia mais Deus. 
Dixit insipiens in corde suo : Non est Deus / 
S6 existia a Razdo, Mas era precis© symboli- 
sar materialmente a deusa Razdo. Como? Pe- 
garam de uma rapariga, tiraram-lhe a roupa e 
a collocaram, dizem que nua, no altar-m6r de 
Notre Dame. Nunca a razao humana foi tao 
bem representada. Uma mulher nua e a razdo 
pratica em todo o seu esplendor . . . Ora, pas- 
sam-se cento e poucos annos. Si Mirabeau 
viesse ao Rio, podia ler nos jornaes que os 



O 14 DK JUI.HO 71 

seus patricios domiciliade^ no Rio mandaram 
celebrar hoje uma missa por alma dos france- 
zes mortos na guerra. O' manes de Demou- 
lins, de Robespierre, de Marat, de Danton ! 
Quem venceu ? V6s, ou as freiras do Carmelo 
que mandastes degollar? E Comte ? Comte iria 
^almamente ali ao tempio da rua Benjamin 
Constant e diria ao sr. Teixeira Mendes : 
«Desce desse pulpito, filho. Cada vez menos 
OS vivos sao governados pelos mortos. O ho- 
anem se agita e a Egreja o conduz ...» 



Quelque chose de vierge 



Dizem que o maestro Messager fez, em 
palestra, referencias pouco amaveisao Brasil. 
Nesse caso, sejamos nos amaveis para com 
elle. E' simples, civilisado, parisiense. Parece 
que o que mais aborreceu aos jornalistasfoia 
facto de Messager, falando-lhe Isadora Dun- 
can das nossas aflorestas virgensu, terrespon- 
dido: Oh! ouif il faut bien qu on trouve ici 
quelque chose de vierge! Messager pareceu du- 
vidar de que pudesse haver aqui quelque chose 
de vierge. Dahi, asreclamayoesdos confrades. 
Pensando bem, nao ha razao para zangas^ 
Neste mundo tudo se explica naturalmente . 
Messager vein de Paris,via Buenos- Ayres. Ora 
em Paris, sabe-o toda a gente> e muito difficil 
e, por isso mesmo, muito raro encontrar quel- 
que chose de vierge — o que tambem se ex- 
plica, sem ser preciso recorrer a altos syste- 
mas de metaphysica . . . Um homem que vi-^ 



74 VSRDADBS INDISCRBTAS 

veu sempre dentro da grande civilisagao de 
Paris estd tao pouco habituado a qualquer coi- 
sa virgem, vegetal ou nao, que, em chegando 
aos tropicos, duvida de que exista semelhante 
fragilidade mesmo nas florestas... Em Fran9a 
existe uma floresta, que se chama Fontaine- 
bleau. Dizem que e bella. Mas ja esta percor- 
rida, explorada, devassada em todos os senti- 
dos, de deante para traz e de traz para deante... 
Assim e tudo em Paris. Nao ha quadro, morto 
ou vivo, que nao tenha sido exhibido; nao ha 
livro, diirino ou humano, que ji nao tenha sido 
aberto e folheado em todos os sentidos, pelo 
direito e pelo avesso; nao ha industria que 
nao seja conhecida; nao ha bainha que nao 
leve espada; nao ha petit capital que nao 
tenha sido ou nao esteja sendo explorado em 
grosso ou a varejo; nao ha medalha que nao 
seja conhecidissima, quer no verso quer no 
reverso . . . Em Paris € assim . Porque exigir 
agora que Messager admitta, sem mais exame, 
que exista aqui quelque chose de vierge? Pois 
si elle nao conhece 'chorographia nem flora 
brasileira! . . . Francamente e exigir muito 
do intellecto de um cavalheiro que afinal s6 
€studou musica. . . 



Amizade criminosa 



Haveri quern condemne a Roberto Leite 
da Silva, o roubador dos autos no Supremo 
Tribunal; haverd quern o condemne, o que 
nao me admira, pois por muito menos do 
que isso foi crucificado Jesus Christo. Entre- 
tanto, e preciso dizer que Roberto e um typo 
raro. Amizade assim, tao intima, tao ardente 
e dedicada, 6 amizade grega. Traz-nos a men- 
te vagas reminiscencias de Pylades e Orestes, 
de Pythias e Damon . . . Bem sei que os jui- 
zes julgam secundum allegata et probata; e € 
justamente por isso que um juiz me causa tan- 
to medo como uma fera; porque a fera me 
ataca, levada pela cegueira do seu instincto 
carnivoro; o juiz me condemna, levado pela 
cegueira do seu instincto juridico. E' um ani- 
mal perigoso. Embora as diligencias poli- 
ciaes tenham provado i, saciedade que Rober- 
to s6 tentou roubar os autos para inutilisal-os 
e, por esse meio, livrar um amigo da prisao 



76 VERDADES INDISCRETAS 

em que se acha, os juizes com certeza hao de 
querer condemnal-o. Pois que! Entao seri 
possivel absolver um individuo que tentou 
burlar pelo roubo a ac^ao da Justiga Publica, 
orgao autorisado e legitime da Sociedade ? 
Mas, senhores, o homem agiu por amizade: o 
movel desse delicto foi tudo quanto ha de 
mais nobre e humane. Que e que constitue a 
trama psychologica do crime? A inten9ao cri- 
minosa. Ora, a dedicagao ao amigo, que foi 
o movel deste delicto, nao 6 intengao crimi- 
nosa, pelo contrario, e virtude spartana. Nada 
disso vale perante o juiz, porque o Codigo 
nao cogita da amizade como attenuante . De 
amicitia non curat praetor. De maneira que, 
si Roberto tiver a felicidade de ser julgado 
por juizes que tenham o senso da equidade\ 
talvez nao o condemnem a fortes penas; mas, 
si tiver a desventura de cair nas garras de jui* 
zesque sejam integros e rectilineos cultores 
da Justiga (isto e, do Codigo), esta perdido . 
Entretanto, ser amigo do Mai e muito mais 
difficil do que ser amigo do Bem. Ter solida- 
riedade com o amigo na pratica da virtude e 
facil e commodo; p6de at^ levar a um nicho; 
mas ter solidariedade com o amigo na pratica 
do crime, isso, sim, e que e heroico, porque 
representa sacrtficio immediate, pelo menos^ 
da liberdade. 



As criangas 



Nao fui a Festa da Crian^a. Leio.porem, 
nos jornaes que essa festa excedeu a todas as 
espectativas. Bemdigamos, pois, os coragoes 
dos que, durante algumas horas, conseguiram 
fazer feliz a creanga. Mas, deuses do Olym- 
po, porque martyrisar a petizada com dois 
discursos, como fizeram nessa tremenda festa? 
Dois discursos e nao sei quantos hymnos ! A 
criangas, no dia da sua festa, nao se falla . Si 
se organisa uma festa de criangas, fagam-nas 
brincar a vontade, deem-Ihes musica, cinema, 
carrossel e doces em quantidade. Si quizerem 
ser praticos, ao mesmo tempo que derem do- 
ces e balas as criangas, abram creditos nas 
pharmacias e nos consultorios para os paes que 
forem pobres . . . Mas, pelo amor de Deus, 
nada de discursos. Tambem ja fui creanga e 
detestava os discursos que me fallavam da Pa- 
tria e de outras coisas desagradaveis. A Pri- 



78 VBRDADBS INDISCRBTAS 

mavera e uma figura de rhetorica muito inte- 
ressante; mas num discurso, quando somos 
crian^as, a Primavera e peor do que o Verao . 
Efazer as criangas cantar hymnos patrioticos ! 
Ha muita gente que dd uma importancia su- 
persticiosa aos hymnos como inspiradores de 
patriotismo. E' um engano. O Francez nao 
tem patriotismo por vir cantando a Marse- 
Iheza desde a infancia, nao; pelo contrario, 
elle canta a Marselheza^^otc^^ € patriota. 
Quando eu era menino, cantei na escola mui- 
tas vezes um hymno ignominioso que co" 
mega: 

Seja um pallio de luz desdobrado 
Sob a vasta amplidao destes c^os . . . 

Pois ate hoje nao consegui estimarseme- 
Ihante cantoria. Em resumo : reunir criangas 
num theatro para fazel-as ouvir oradores e 
cantar hymnos patrioticos e martyrisal-as . 
Festas de criangas devem realisar-se em par- 
ques ejardins, com toda aliberdadede acgao 
e grande quantidade de confeitos. A crianga 
estima acima de tudo estas duas coisas deli- 
ciosas : liberdade e assucar . . . 



A tortura do perfume 



«Porque nao escreves contra o aperto de 
mao aos conhecidos? Com este calor, e hor- 
rivel. Macs suadas, algumas viscosas ...» Di- 
ziam-me hontem estas coisas. De facto aper- 
tar macs suadas e um supplicio, mas . . . Ha 
no aperto de mao uma tortura muito mais viva 
do que a de apertar maos humidas de suor : e 
a tortura da recordagao pelo perfume. Suc- 
cede frequentemente apertarmos a mao a uma 
mulher (pouco importa que seja casada, ou 
solteira), de quern nao podemos, ou nao deve- 
mos nos lembrar. Voltamos para a casa, ou 
para a redac9ao ; assentamo-nos a nossa mesa 
de trabalho ; come^amos a escrever, mas nao 
conseguimos ligar ideas. Ha em nos qualquer 
coisa, indefinivel e mysteriosa, que nos desvia 
o espirito para incertos rumos. O desabrochar 
de uma id^a e logo perturbado por esse quid 
secreto. Accendemos o charuto, chegamos 4 



80 VERDADES INDISCRETAS 

janella, olhamos a paizagem. O effeito e ma- 
gico: as ideas, esclarecendo-se, come^am a 
brotar de novo com espontaneidade, viveza. 
Voltamos a mesa, tomamos da penna, come- 
^amos a escrever e . . . o primitivo phenome- 
no repete-se : as ideas fogem docemente mas 
fogem de vez, desapparecem. Entao nos nos 
voltamos para dentro de nos mesmos e come- 
gamos a fazer o exame de consciencia. «Por- 
que nao possotrabalhar?» Mas o proprio exa- 
me e perturbado ; ate que afinal descobrimos 
instantaneamente a causa da perturbagao : e 
o perfume extranho que a nossa mao traz em 
si, perfume que nao sabemos de onde nos 
veio . . . Ah ! sim ! vem daquella senhora cuja 
mao apertamos na Avenida. Em casos taes o 
recurso e simples : lavar as maos. E' o que 
fazemos e voltamos para a nossa mesa, certos 
de poder emfim trabalhar. Engano : o perfu- 
me foi-se ; mas a lembran9a da mulher foi 
despertada . . . E a lembranga de uma mulher 

4 mais subtil do que qualquer perfume da 
Arabia. Pica dentro de nos, transformada ja 
^m Idea. Antes era o perfume que a fazia 
lembrada ; agora e ella que se assemelha a 
11 m perfume, a aquelles fortes perfumes para 

05 quaes, dizia Baudelaire, todo corpo e po- 
roso . 



A TORTURA DO PBRFUMB 81 

II est de forts parfums pour qui toute mati^re 
Kst poreuse. On dirait qu'ils p^netrent le verre... 

Assim, certas mulheres : a sua recorda- 
^ao nos e transmittida pelo perfume ; e depois 
se transforma, ella propria, em perfume sub- 
tilissimo, que penetra no nosso ser como cer- 
tas essencias que se innoculam ate no crys- 
tal .. . 



Escandalo ! 



Certo cinema estd annunciando uma fita 
em que uma mulher «nao teme desnudar-se, 
alheia a fascina9ao que produz a carne ...» 
Nao me admira. Foi Eva (dentre as mulheres 
cujos nomes a historia conservou) que 
inaugurou esse systema. Muita gente poderd 
ficar escandalisada por haver uma senhora 
«que nao teme desnudar-se, alheia d fascina- 
9ao, etc ... » Eu, nao. Tudo depende da for- 
magao da consciencia della. Santa Maria Egy- 
pciaca fez mais do que desnudar-se : entregou 
o seu corpo a uns marinheiros . . . sem pec- 
car. E' verdade que isto e muito difficil . E 
Anatole France, na Rotisserie de la Reine 
P^DAUQUE, tern a este respeito uma pagina 
deHciosa. O padre Jeronymo Coignard conta 
aos amigos da Rotisserie este episodio da 
vida da santa e explica como, gragas a pureza 
de suas intengoes, tinha feito sem peccar o 



84 VERDADKS INDISCRSTAS 

que outras nao conseguem realisar sem arris- 
car a alma . . . Entao a mae de Jacques Tour- 
nebroche, une sainte et sage femme, exclama 
pouco mais ou menos : « Ah ! eu nao me atre- 
veria a isso ! Sem peccar ! E' precise ser mui- 
to santa parachegar a tal perfeigao!)) Tudo, 
pois, depende da formagao da consciencia, 
que e coisa singularmente elastica. Entre os 
romances de Voltaire ha um que e a histo- 
ria de Cosi Sancta, uma austera e formosa 
creatura que commetteu conscientemente tres 
adulterios que valeram por actos heroicos de 
virtude, e justamente por isso foi ella canoni- 
sada ! Bem entendido, factos assim sao exce- 
pgoes. Digo isto, precavidamente, porque, 
apezar de nao haver ainda no calendario nem 
uma santa brasileira, temo que alguma das 
minhas patricias queira obter agraga de Deus 
nas condigoes de Santa Maria Egypciaca, ou 
ser canonisada pelos mesmos motivos que va- 
leram uma aureola e um nicho a Cosi Sancta... 



Destemperos de Linguagem 



Ja se tern dito muitas vezes que a nossa 
imprensa, no que toca aos habitos adoptados 
entre gente limpa, regrediu. Os jornaes anti- 
gos nao usavam da virulencia adoptada hoje. 
Nao posso dar testemunho disso, porque nao 
fui leitor dos jornaes antigos. Mas nao havera 
uma razao que explique esse phenomeno de 
regressao da nossa imprensa? Parece que 
ainda e preciso recorrer a lei de Taine : o 
meio. . . A imprensa nao e mentora, mas 
simples reflexo da opiniao. DiziaEmilio de Gi- 
rardin que um jornal e feito muito mais pelos 
seus leitores do que pelos sens redactores. E' 
perfeitamente exacto. Os jornaes nao pro- 
curam crear correntes de opiniao, mas apenas 
adivinhar para que lado ira o publico, afim de 
adherir . . . E como o publico, no maior volu- 
me da sua massa, ainda e grosseiro, os jor- 
naes serao fatalmente grosseiros, para pode- 



86 VERDADES INDISCRBTAS 

rem agradar e ter saida ... Os jornalistas 
francezes, por exemplo, raramente alteiam a 
voz. Porque? Porque o nivel mental e social 
dos seus leitores nao exige brados para poder 
comprehender razoes ; basta por isso que os 
jornaes indiquem, ds vezes numa simples sug- 
gestao, o que Ihes parece mais acceitavel . 
Aqui s6 e ouvido quem grita. Estamos numa 
terra de surdos intellectuaes . . . E a pro- 
posito de destempero de palavras, li no 
Journal um caso elucidative. Foi chamada 
a juizo, em Paris, uma mulher do povo que, 
brigando com uma sua visinha, de janella para 
janella, disse, no auge da colera, esta phrase : 
Si ton mari est creve sur le fronts cest bien 
fait! A offendida queixou-se d policia. Tes- 
temunhas affirmam que a rapariga proferira a 
phrase . Ora o marido da injuriada morreu ha 
alguns mezes na guerra. Em vista disso, o 
juiz condemnou a accusada por intemperance 
de langage a seis dias de prisao e a pagar cem 
francos a offendida por damno moral ; e o 
Journal approva muito a energia do juiz, que 
nao deixou ficar sem vinganga a viuva d!un 
brave mort pour la France, bravo aliis 
obscurissimo e humilde. Este facto dd id^a do 
que se exige na Franga, quanto a medida que 
se deve observar no jogo das palavras, mesmo 
quando se injuria . . . 



O nu symboUco. .. 



Chamava-se Serafim Dias e era um sym- 
bolo nacional. Tendo bebido mais do que 
Ihe permittiria a Escola de Salerno, ou ain- 
da a Universidade de Coimbra, foi Serafim 
ao largo do Rocio, saltou o gradil da es- 
tatua de Pedro I, o Libertador, grimpou como 
um simio pelos indios e pilastras acima e attin- 
giu o cavallo. Era, entretanto, pouco para o 
civismo de Serafim. Um cidadao, quando 
chega a tal estado de enthusiasmo patriotlco, 
carece de mais. Serafim, nao contente de ca- 
valgar o cavallo, entendeu que convinha aman- 
sar o cavalleiro ; e la se foi pelo imperador a 
riba ate o capacete, onde se assentou tao com- 
modamente como um prelado na sua cadeira 
prelaticia. Essa quieta9ao, por^m, durou pou- 
co. Si grande era o desejo de descansar do 
esforgo da subida, maior era o endiusiasmo 
de Serafim, que se levantou e ficou de p^ so- 



88 VBRDADES INDISCRETAS 

bre o imperial chapeo armado, isto depois de 
arrancar toda a roupa que trazia (e que nao 
era muita), a ponto de poder, si soubesse la- 
tim bradar como Job : Nudus egressus sum e 
ventre matris me<B ! Mas em vez desta ti- 
rada biblica, Serafim, de pe, sobre a cabega 
do Libertador, bradou aos quatro ventos da 
praga: «Sempre fui monarchista e admirador 
de Dom Pedro I, que deu liberdade a esta 
terra !» Ca em baixo, o povileo, numeroso e 
compacto a ponto de interromper o transito, 
apoiava e ria-se . O nosso povo, sempre que 
se trata de applaudir discursos patrioticos, tem 
o singular costume de sublinhar cada apoiado 
com uma gargalhada. Mas o enthusiasmo de 
Serafim ainda nao estava satisfeito. Do Capi- 
tolio a Rocha Tarpeia, segundo ja proclamava 
ha quarenta annos, no largo de S. Francisco, 
o sr. Lopes Trovao, vae apenas um salto. A 
mesma distancia provou hontem Serafim que 
vae do capacete do Libertador ate o exemplar 
da Constituigao que elle offerece aos povos 
agradecidos. De um salto elle conseguiu ape- 
gar-s« a Carta ; e ali mesmo, sustentado pelo 
brago armipotente de Pedro I, executou 
varias manobras de malabarista, dando 
cambalhotas, ficando preso ora por um bra9o, 
ora por uma perna, dando gyros successivos e, 
uma vez que estava nii, fazendo pensar no 



O N^ SYMBOI^ICO. . . 89 

Sino phantasma do sr. Augusto de Lima, o 
qual termina: a A badalar! A badalar!. . .» 
Ate que depois de uma hora desses exercicios 
gymriasticos, chegaram osbombeiros e encer- 
raram a sessao, fazendo Serafim descer e le- 
vando opara a delegacia. Symbolo magnifico, 
o Serafim ! Os nossos patriotas, sempre que 
querem mostrar aos povos o seu patriotismo, 
dao cambalhotas e fazem malabarismos na 
Constituigao da Republica, exactamente como 
Serafim, por excesso de monarchismo e vi- 
nho, fez piruetas clounescas no bra9o do Im- 
perador. . . 



Amor e Poesia 



Jel se tern escripto que o amor e a poesia 
vao morrendo no Brasil. E' natural que, mor- 
rendo o amor, tambem morra a poesia, que 6 
quasi sempre inspirada por aquelle. Emquan- 
to, porem, se annuncia a morte da poesia, sur- 
gem diariamente por to do este paiz centenas 
de livros de versos. Verdade e que, desses 
livros, raros se aproveitam ; e, desses raros, 
poucas composi96es se salvam. Em todo o 
caso, posto que a maioria dos livros de versos 
sirva apenas para fabricar bombas, nao se pode 
negar que elles representem pelo menos uma 
intengao clara e positiva de cultivar a poesia. 
De maneira que esta arte, emquanto vae sendo 
dada como agonisante, prospera, quando mais 
nao seja, para dar lucro aos impressores, pois 
6 sabido que a quasi unanimidade dos livros 
de versos imprime-se d custa dos autores . . . 
E o amor estd morto ? Alguns dizem que elle 



92 VBRDADES INDISCRETAS 

SO existe actualmente, verdadeiro e sincere, 
entre as classes menos cultas da sociedade, 
ainda nao eivadas de scepticismo. Ora os fa- 
ctos vao provando o contrario. Ainda ha pou- 
cos dias, em S. Paulo, um jornalista e poeta, 
um intellectual, atirou na amante e suicidou-se 
em seguida. . . por paixao. E' verdade que 
entre as classes cultas o amor e menos explo- 
sivo que entre as pessoas humildes. Estas ma- 
tam-se ainda frequentemente por ciume. E a 
este respeito notemos como e curiosa a nossa 
concepgao do amor ; julga-se que o amor e 
tanto mais forte e sincero quanto mais louco 
torna o apaixonado. Si este, ao saber que 
a amante o trahiu, nao commeteu um desa- 
tino qualquer, logo pensam todos que elle 
nao a amava mais. Si, ao averiguar a trahi- 
gao da amante, o trahido matou-a, ah ! entao, 
sim : tinha-lhe grande amor ! E o mais in- 
teressante e que as mulheres adoptam esta 
theoria, que ate ja passou para a arte e para 
a anecdota. Na Sapho, de Daudet, quando 
Jean Goussin da a bofetada em Fanny, ella se 
sente encantada e exclama : «Como tu me 
amas ainda, Joao ! » E e conhecida tambem a 
historia daquella portugueza, que tinha grande 
paixao por um brutamontes que Ihe escovava 
o pello com certa frequencia. Succedeu que 
o homem por motivos ignorados. resolveu 



AMOR E POKSIA 93 

nao bater mais na rapariga ; ella, depois de 
passar varies dias sem levar sovas, poz-se um 
dia a chorar. E a uma amiga que Ihe pergun- 
tou pelo motive de tantas lagrimas, res- 
pondeu : 

— E* que o meu homem ja me nao 
ama! 

— Ah disse-t'o ? abandonou-te ? 

— Nao ! Mas ja me nao bate ! 



O mal existe? 



O revmo. padre dr. Joao Gualberto da 
Amaral fez uma conferencia sobre a Ori- 
gem do Mal, de que li o resumo nos^^ 
matutinos. A existencia do mal no Universe 
e as conclusoes pessimistas que dahi se p6- 
dem tirar t^m sido objecto de tantos estudos, 
discussoes, meditagoes, classificagoes, affirma- 
96es e negagoes, que devemos consideral-a 
um dos mais serios problemas da Vida . Para 
Leibnitz e . . . Plangloss, estamos no melhor 
dos mundos. Para Schopenhauer e Hartmaniv 
estamos no peor de todos. Para os philoso- 
phos catholicos, como S. Thomaz, estamos na 
mundo que nos convem, porque foi Deus que 
dispoz que aqur estivessemos ; ora Deus e sa- 
bio ; logo dispondo que estivessemos neste 
planeta, acertou, como sempre... O syllogis- 
mo, perante as leis da Logica, esta certb ; res-^ 
ta, porem, demonstrar-lhe as premissas ... 



^6 VERDADBS INDISCRETA.S 

Os philosophos, nao tendo certeza, pa- 
rece, da existencia do mal, dividiram-no em 
varias categorias : o mal physico, o mal 
moral e o mal metaphysico. 

A meu ver, para os philosophos sadios 
e felizes, o mal, si existe, e sempre meta- 
physico. O mal physico e o mal moral so 
existem para os pobres que soffrem nos 
hospitaes ; para os que soffrem nas prisoes e 
penitenciarias ; para os que padeem os 
horrores da guerra; para os que definham 
em penas de amor . . . Charles Richet, citado 
pelo dr. Joao Gualberto, nao podendo ne- 
^ar que a Dor exista, descobriu-lhe a fina- 
lidade : e a sentinella, a defesa da Vida . . . 
Ora aqui e que deviamos perguntar: e ou 
nao e mau um mundo em que a Vida, que 
e um bem para defender-se da Morte, que 
e um mal, nao achou outro meio sinao re- 
correr a outro mal, que e a Dor? Pergunto 
apenas. Nao concluo coisa alguma. Nisto, 
como em outras coisas, obede^o ao conselho 
de Frederico Amiel : nao tirar conclusoes. . . 
Sao Thomaz, que concluia de tudo, conseguiu 
°subordinar a consciencia universal is suas 
conclusoes ! . . . E Schopenhauer, que tirava 
conclusoes pessimistas desde os seus pri- 
cneiros trabalhos ; elle, que concluia por exi- 
gir o exterminio da Vida pelo ascetismo, 



O MAI. EXISTE? 97 

ao mesmo tempo que firmava taes theorias,nao 
destruia na pratica toda a sua philosophia 
com o nascimento de um filho bastardo? . . . 
Por isso digo que 6 perigoso concluir . . . O 
que parece certo e a existencia do Mai. Si, 
por isso, o mundo e mau, e mais difficil 
responder. O pensamento de Metschnikoff, 
citado pelo dr. Amaral, e curioso : «Dos tu- 
mores malignos nao se p6de deduzir prova 
importante em favor da concepgao pessimis- 
ta do Universo.)) E' muito interessante, mas 
eu quizera conhecer o que pensaria deste 
conceito um homem que, sendo sabio 
e philosopho, ao mesmo tempo tivesse 
pelo corpo meia duzia de tumores ma- 
lignos. . . 



Bddas e Pezames 



— Ha duas situa^oes sociaes capazes de 
inspirar terror : a situa9ao de noivo e a de 
representante da familia de um defunto, lo- 
go depois da missa do setimo dia. Um noi- 
vo, so por si, ja 6 uma figura vagamente ri- 
dicula, pela maneira por que e pretendente : 
solicitando a a mao da noiva» por intermedio 
de terceiros; fazendo-lhe uma primeira visita, 
toda cheia de timidez e commogao, fiscalisa- 
do pelos paes ou pelos irmaos pequenos duran- 
te o tempo em que elle estci na sala, no 
jardim, ou no alpendre com a promettida. Jun- 
te-se a esta carga de ridiculo intimo a sobrecar- 
ga das pompas mundanas de um casamento 
entre n6s e teremos a medida mais ou me- 
nos exacta do constrangimento moral de 
um noivo, si elle e homem de sensibilidade . 
Eu nao sei realmente como um homem nao 
estoura de vexame, quando se mette com a 



100 VERDADBS 1NDI3CRETAS 

noiva num lando enfeitado de flores de la- 
ranjeira e puxado por parelhas de cavalloes 
brutaes, de patas pintadas de brancc cheios 
de guisos e chocalhos e chiquechiques que 
fazem barulho de feira e recordam os pa- 
Ihagos que no interior saem a rua annunci- 
ando espectaculo no circo equestre . Casos 
desses justificam o suicidio, . . 

Outra situa9ao desesperadora e a de pessoas 
que convidam os amigos para ouvirem missa 
de setimo dia por alma dos mortos queridos 
Quer aqui no Rio quer no interior, manda a 
etiqueta que, depois da missa, todos os con- 
vidados se approximem das ^pessoas da fa- 
milia)) e as abracem. Come^a, entao, para 
cavalheiros e senhoras da familia do defun- 
ct©, um supplicio de que nao cogitou a In- 
quisi9ao : abrir mecanicamente os bragos, 
receber entre elles quem quer que se ap- 
proxime, apertar um pouco essa pess6a e 
dar-lhe nas costas as tres palmadinhas do es- 
tylo, murmurando: «Muito obrigadob) Esta 
bem visto que esses abra9os nada signifi- 
cam de parte a parte, quanto a sinceridade ; 
porque, em consciencia, e impossivel que qui- 
nhentas pess6as, sete dias depois da morte 
de um cidadao de quem nao sao parentes, 
ainda estejam commovidas. . . 

De maneira que essa etiqueta inquisi- 



BODAS E PEZAMES . . . 101 

torial e ridicula so produz um effeito: ajuntar 
um tormento physico ao supplicio moral da 
familia. Eis porque comprehendi perfeita- 
mente a attitude de certa familia de b6a so- 
ciedade, que, convidando, ha tempos, as suas 
rela9oes para uma missa de setimo dia, de- 
clarou rios convites que dispensava o abra90 
do costume; bastando que cada um dos as- 
sistentes deixasse o seu nome num livro 
adrede collocado a porta da Egreja . Eis o 
que devia ser geralmente adoptado; uma 
vez que o abra90 e apenas a prova de que 
F. fez acto de presenga, substitua-se o abra- 
90 pela assignatura num livro. Lucra a fami- 
lia, que se livra de uma tortura, e lucram os 
assistentes, que, depois de assignarem o no- 
me no tal Registro de Pezames, podem fu- 
gir tranquillamente a massada de uma missa 
funebre. . . Podemos ficar certos de uma 
coisa : e que, se si invertessem os papeis, 
quero dizer, si fossemos nos que estivessemos 
na cova, e si o defuncto, que alids nao seria 
defuncto, fosse a nossa missa de setimo dia, 
faria o mesmo, isto e, assignava o nome na 
lista e fugia pela porta da sacristia . . . 



Elogios. . 



O que mais nos deve atterrar no paiz, 
como phenomeno social, e a falta de sinceri- 
ridade. Cada um, naclasse a que pertence p6- 
de verificar facilmente ate que ponto chega 
a falsidade, a dobrez entre n6s. Pelo que se 
passa na classe dos escrevedores imagino o 
que ira por outras bandas. Quern tiver um 
pouco' de perspicacia poderd, pela simples 
ieitura dos jornaes, avaliar a quantum de 
falsidade entra nos elogios que se tributam 
a certos livros. Quando, ao abrirmos pela 
manha um jornal, encontramos um artigo 
"vastamente elogioso a qualquer livro, antes 
de tudo indaguemos: «Que posigao social 
tem o autor deste livro? » Veremos que, 
em noventa e nove casos sobre cem, o au- 
tor e da casa civil da presidencia, (ou parente 
de alguem da casa civil); € official de gabinete 
de algum ministro; filho de algum senador, 



104 VKRDADKS INDISCRETAS 

diplomata, ou deputado; genro, irmao, ou 
cunhado de algum alto dignitario do Regi- 
men que nos felicita. Ou entao sera fatal- 
mente mulher. . . Fora desses casos, sao mui- 
to elogiados tambem os livros de medicos il- 
lustres. Geralmente os medicos escrevem 
mal, da mesma sorte que os escriptores 
nao sabem curar. Isso, porem, pouco im- 
porta. E' livro de medico? Elogia-se, ainda 
que o livro seja um tecido de logogryphos e 
enigmas pittorescos. Assim se explica que a 
Academia de Letras se encha de medicos, 
emquanto homens como Farias Britto mor- 
rem ignorados. Si o sr. Farias Britto, em vez 
de estudar a Logica de Stuart Mill e a Ethica 
de Spinoza, tivesse procurado ser apanigua- 
do de qualquer ministro, todos os prelos te- 
riam gemido cada vez que apparecesse 
um livro seu. Com logica e ethica nao se apa- 
nham elogios da imprensa, senao com em- 
pregos, dinheiro e as vezes com simples pro- 
messas e esperangas . . . 



Paz aos idolatras 



Li num dos nossos matutinos um 
artigo firmado por uma senhora (creio que e 
pseudonymo), que ataca o culto das imagens, 
dizendo ser isso acto de idolatxia. Eis ahi uma 
senhora curiosa: 6 contra o culto das ima- 
gens por nao querer ser idolatra ! Recusara 
tambem essa calvinista ser idolatrada, isto e, 
ser alvo da idolatria de alguem?. . . Depen- 
de da sua edade. E como nao a conhe90, 
nao o posso decidir. . . 

O que achei interessante foi a coinci- 
dencia : essa senhora ataca o culto das ima- 
gens justamente no dia em que vao asforgas 
navaes prestar continencia d imagem do al- 
mirante Barroso, o vencedor da batalha do 
Riachuelo. As nossas pragas estao cheias de 
imagens, que recebem culto civil. As nos- 
sas casas estao cheias de imagens (retratos) 
de entes queridos, que recebem culto domes- 



106 VBRDADBS INDISCRETAS 

tico. Porque nao admittir nas egrejas ima- 
gens que recebam culto religioso ? 

Porque isso e acto de idolatria ! 

Dizem os theologos que nao. No catho- 
licismo ninguem adora as imagens ; venera-as 
s6mente. Demos, porem, de barato que os 
catholicos adorem as imagens, como os pre- 
tos adoram 1^ os seus manipangos. Que mal 
vae nisso? Nao advem sombra de prejuizo 
ao mundo. Realmente nao vejo em que a 
especie humana sera prejudicada pelo facto 
do meu visinho da direita venerar uma ima- 
gem, o da esquerda adoral-a, e eu nem a ado- 
rar nem a venerar, mas apenas tolerar e res- 
peitar aquelles que a adoram, ou simplesmen- 
te a veneram. 

Demais, si ha idolatria no culto catholico 
das imagens, tern sido uma idolatria benefica, 
tal o numero de bellas estatuas, verdadeiros 
primores, que tem inspirado essa idolatria 
como se pode ver nas velhas cathedraes ita- 
lianas e francezas por exemplo. Tenho mui- 
to mais sympathia pela idolatria fecunda do 
catholicismo do que pela seccura protestan- 
te, que se limita a vulgarisar a Biblia . . . Em 
resumo — nao vejo mal na idolatria catholica 
(si de facto existe), como nao vejo mal nados 
selvagens nem na dos gregos oh ! pelo contra- 
rio : quem nos dera poder ser idolatras como 
OS hellenos ! . . . 



A tyrannia democratica 



Mudam-se os rotulos aos systemas de 
governar os homens, mas esses systemas nao 
progridem, pelo menos no Brasil. Na Eu- 
ropa, em certos paizes, a civilisa^ao e o cul- 
to do direito jd nao permittem a existencia de 
tyrannos de certa casta. Na Italia de hoje, 
por exemplo, e impossivel a existencia de 
Cesar Borgia. Ha leis severas que punem os 
assassinos, os envenenadores, os traidores ; e 
essas leis sao rigorosamente observadas. Si o 
principe herdeiro da Italia fosse accusado 
de ter mandado matar um cidadao secreta- 
mente, que complica96es isso acarretaria para 
o throno ! Si o principe de Galles fosse accu- 
sado de qualquer crime provado, nao falta- 
riam no Reino Unido juizes que o condem- 
nassem. E' que, em paizes como a Italia, a 
Franga, a Inglaterra, o direito nao e fic- 
^ao, e realidade ; ajustiga nao e abstrac9ao, 



108 VERDADES INDISCRETAS 

6 valor corrente. Alguns seculos de civilisa- 
9ao deram a esses povos perfeita consciencia 
dos seus direitos e deveres, dentro da <rcon- 
sciencia nacionab) de cada um. E' o que nos 
falta: a « consciencia nacional» . So depois 
que ella estiver formada e que sera possivel 
pensar da fundagao de um regimen politico 
qualquer. Temos aqui uma «republica fede- 
rativa» ; temos Constituigao, Congresso, mi- 
nistros. tribunaes, batalhoes, emfim todo 
o apparato exterior dos povos bem or- 
ganisados. Apenas essa Constituigao nao 
e cumprida ; esses ministros nao t^m respon- 
sabilidade ; esse Congresso estd desmorali- 
sado; esses tribunaes nao inspiram confianga; 
esses batalhoes nao sabem combater; esses 
navios nao podem navegar. Toda a machina 
politica e administrativa esta emperrada . S6 
ha, neste paiz, uma instituigao seria, estavel, 
permanente, bem equilibrada e respeitada; 
a das olygarchias quer dos grandes quer dos 
pequenos Estados. Essas, sim, existem e 
funccionam admiravelmente.O filho do olygar- 
cha, si Ihe appetecer, pode mandar raspar a 
cabega de qualquer cidadao (o que ja se tern 
dado) sem o menor receio ; pode, si o quizer, 
mandar matar qualquer desaffecto seu ; si os 
capangas o denunciarem depois de presos, 
ninguem, oh! ninguem o acreditard, e 



A TYRANNIA DEMOCRATICA 109 

nem havera juiz capaz de apurar a responsa- 
bilidade criminal do rapaz, que sera despro- 
nunciado, haja o que houver. De sorte que vi- 
vemos aqui com pequena differen9a da Eda- 
de Media. O que nos distingue da Europa 
medieval e, primeiro — um pouco de progres- 
so material (luz electrica, bondes, etc.) ; se- 
gundo — o nosso immenso atrazo em materia 
de coisas do espirito ... 



Commentarios ao "Binoculo 



f» 



O Binoculo tern estado excellente . Eu 
o leio sempre, e quizera que tambem o lesse a 
sra. Gilka da. Costa Machado. O Binoculo vi2jo 
e apenas uma escola de boas maneiras: € 
tambem uma escola de timidez e de mansi- 
dao. E' a Imitagdo de Christo do mundo ele- 
gante. Estes dois dias tern elle estado admi- 
ravel nos conselhos que vem dando acerca 
do melhor modo de visitar. Diz elle que, 
em materia de visitas, a regra geral e esta : 
ccNunca nos devemos tornar importunos.» 

Dou alguns exemplos : nao puxar a ca- 
deia do relogio do nosso hospede ; nao Ihe 
torcer os botoes do casaco ; nao Ihe dar mur- 
ros quando fallar de box, nem patadas quando 
tratar de futebol ; nao o chamar a um canto 
da sala para Ihe pedir dinheiro . . . 

(cSi virmos o dono da casa tornar-se im- 



112 VERDADES INDISCRETAS 

paciente, consultar o relogio, nao progredir 
na conversa^ao, etc., retiremo-nos Iogo». Per- 
feitamente. Nao devemos esperar que o dono 
da casa nos aponte um revolver ao ouvido, 
nem que a dona da casa mande virar de per- 
nas para o ar as cadeiras da sala. 

Attengao: « Si formos visitar uma senhora 
nova, que viva so, e chegar em seguida um 
segundo visitante mais familiar que nos, par 
tamos immediatamente.» Isso mesmo, antes 
que esse tal segundo visitante mais familiar 
nos aponte a porta da rua com a bengala . 
O melhor e arranjar as coisas de maneira 
que, quando o segundo visitante chegar, o 
primeiro ja tenha sahido, sem que o saiba a 
visinhan9a. . . 

«Nunca se deve entrar sem ter sido an- 
nunciado ou ter-se annunciado a si proprio ; 
a ac^ao em contrario e enorme impolidez . » 
Nao e que haja grande inconveniente em 
entrar um cavalheiro, sem se fazer annun- 
ciar, para o quarto de Madame ou para o pe- 
queno aposento de Mademoiselle. Esta regra 
binocular foi feita em beneficio dos proprios 
visitantes. Por desconhecerem esta regra, 
isto e, por terem entrado em casas alheias 
sem se fazerem annuneiar, muitos cavalheiros 
tem passado pelo vexame de ser presos e 
estao cumprindo senten9a na Correc^ao. Ain- 



COMMEKTARIOS AO BINOCULO 113 

da ha poucos dias foi umaleva desses senho- 
res para a Colonia Correccional. O seu unico 
crime foi terem entrado em casas de familia 
« de negocio sem dizer quem eram. . . 



3 



Os bigodes do Exercita 



Si o sr. general Gabino Besouro, com- 
mandante da 5^ regiao, nao leu, de certo 
adivinhou o verso de Moliere: Du coti de 
la bar be est la toute-puissance . . . Segundo 
publicam OS jornaes, o sr. general comman- 
te e contrario a soldado de cara raspada. 
A um cabo que Ihe pedio permissao para 
escanhoar o bigode, respondeu S. Ex. pela 
negativa e, entre outras razoes explicativas, 
acrescentou que «uma carasem bigodes, com- 
pletamente raspada, nao impressiona como a 
que traz o masculo e natural distinctivo mas- 
culino.D 

Com licenga do general: o soldado, com 
a sua barba, deve impression ar o sexo mas- 
culino ou o feminino? A ambos, respondera 
S. Ex. Nego eu. Para fazer correr um medro- 
so tanto vale um barbado como um glabro; 
quanto ao corajoso, si nao correr do escanhoa- 



116 VERDADES INDISCRETAS 

do, tambem nao se deixaraimpressionarpelo 
barbado. De sorte que, a dizer verdade, a 
barba na infantaria influe pouco no exito dos 
combates . 

Agora, a questao e mais delicada. Cre o 
sr. commandante que impressiona menos a 
uma mulher uma cara raspada do que a que 
traz «o masculo e natural distinctivo masculi- 
no,» como pittorescamente diz S. Ex.? Nao 
creia nisso o meu general. Ao tempo em que 
S. Ex. eracadete, talvez aindaassim fosse. Um 
bom par de bigodes dava sorte perante as 
mulheres. Hoje, nao . . . E si o proprio gene- 
ral no principio do seu despacho, reconhece 
que «o pedido de permissao para raspagem 
do bigode e coisa muito frequento), isso bem 
mostra que os que pedem tal licenga la terao 
suas razoes (talvez pouco militares) para que- 
rer escanhoar-se... Convenga-seo general de 
que OS tempos de hoje sao differentes dos 
seus. Si OS rostos raspados nao agradassem 
muito mais ao outro sexo do que os rostos 
barbudos, nao haveria no exercito tanto pe- 
dido de licenga « para raspagem B, e S. Ex. 
nao veria a mor parte dos paizanos raspar 
sem piedade os bigodes. E neste caso, como 
em tudo o mais, ainda e o sexo feminino que 
manda . . Cada vez mais as mulheres gover- 
nam os homens. E, com o devido respeito. 



OS BIGODKS DO EXERCITO 117 

OS proprios soldados sao govern ados muito 
mais por ellas do que pelos heroicos bigodes 
do ST. general commandante. E' deploravel, 
nao ha duvida, mas tambem e irremediavel, 
irresistivel . . . 



Exigencias do minuete 



Leio nos matutinos que brevemente ha- 
verd a primeira festa de caridade desta esta- 
9ao; e do seu programma faz parte um nume- 
TO que, executado comme il faut, sera uma de- 
licia: um minuete de Mozart dansado por oito 
pares. 

Como, entretanto, irao dansar esse mi- 
nuete? Por emquanto nao dizem as folhas si 
serd dansado a caracter ou em trajes de hoje. 

Pergunto-o porque taes extravagan- 
cias se dao nesta cidade, que poderiam os 
bailarinos apparecer — os cavalheiros de ca- 
saca e as damas trajadas segundo o maximo 
rigor do Paris moderno — o que seria lamen- 
tavel. 

O minuete e dansa inadaptavel a qual- 
quer epoca differente da sua. Exige do lado 
das damas — puffes e cabelleiras empoadas; 
do lado dos cavalheiros — sapatos a Luiz XV, 



120 VERDADKS INDISCRETAS 

casaca de portinholas, calgoes, espadim, bofcs 
de renda, tricorne, corpo flexivel e — minucia 
importantissima!— perna muito bem toniea- 
da... 

Dansar o minuete com trajes modernos^ 
com a mesma casaca sensaborona com que 
se dansa o tango no Assyrio ou se vaearece- 
p^ao do palacio do governo, e um absurdo 
historico e wm attentado contra a esthetica. 

A casaca e uma casta de roupa inventa- 
da para nivelar, perante as leis da moda, o fi- 
dalgo de ra9a ou de espirito e o plebeu, o 
burguez e o proletario. 

E' traje democratico e sem individuali- 
dade. Tanto podera servir para o rei da Ingla- 
terra como para qualquer desses condes ita- 
lianos e portuguezes, promovidos de engra- 
xates e vendedores de cebolas a fidalgos de 
linhagem. 

Nunca, porem, para o minuete, que e a 
dansa mais aristocratica de quantas existem. E' 
uma dansa queexige amdzenfepropno,como os 
passos hellenos e em geral todas as choreas 
que marcaram limite duma civilisagao. Mi- 
nuete que nao recordar o pincel de Greuze 
ou de Watteau nao e minuete. 

Exige tudo isso e mais um entrainement 
prolongado, porque n6s nao podemos ter 
idea da delicadeza que € necessaria para in- 



EXIGENCIAS DO MINUETS 121 

terpretal-o. Quern quizer dansar bem um mi- 
nuete deve passar pelo menos um mez sem 
dar um passo de qualquer das detestaveis 
dansas americanas, que tern corrompido o bom 
gosto destes tempos. E depois disso, ensaio, 
estudo, estudo, ensaio. O minuete e exigente. 
Dansal-o como se dansa o tustepe ou o tan- 
go canalhesco e uma profana^ao. 



Ruido e SoiidSo 



O carnaval dos que vagam sos pelas ruas 
men OS procuradas, pelas ruas silenciosas, 
talvez nao seja o mais aconselhavel, mas nem 
por isso deixa de ser o mais divertido. Os 
que buscam a agitagao da Avenida cumprem 
a sua finalidade. Osfrades, no silencio das suas 
cellas, provam que nasceram para o silencio ; 
OS carnavalescos, no ruido de Avenida, pro- 
vam que nasceram para o ruido . O mundo 
nao seria mais triste, si deixassem de exis- 
tir frades nos seus conventos ; tambem nao se- 
ria mais alegre, si supprimissem o Carnaval . 
Os moralistas nao applaudem essas bambocha- 
tas e tem razao. Mas o movimento do univer- 
so e tao indifferente ao Carnaval como ao tre- 
mendo mysterio daRedemp^ao. O globo con- 
tinua a gyrar em torno do seu eixo, at6 que 
apparega algum sabio que prove o contrario, 
sem correr os riscos por que passou Galileu... 



124 VKRDADES INDISCRETAS 

Justamente agora, emquanto escrevo, meni- 
nas de familia, phantasiadas e de meias-mas- 
caras, passam cantando coplas que fariam en- 
rubescer meretrizes de Byzancio. Ora, antes 
dellas passarem cantando as suas obsceni- 
dades, pouco antes, approximou-se de mim 
uma pobre creanga esqueletica, de dez 
annos no maximo, faminta, e pediu-me uma 
esmola ; depois percorreu outras me- 
sas. Dahi a pouco entrou no bar (rua afas- 
tada) um senhor acompanhado de uma 
menina. apparentando dez annos, forte, 
sadia, vestida de branco e muito seriazinha. 
Parecia filha do cavalheiro, que pediu uma 
garrafa de cerveja. x^mbos beberam . Elle lia 
um jornal. A pequena bebia. Qual seria 
mais infeliz — a que, aos dez annos, pedia 
esmola, ou a que, aos dez annos, bebia em 
companhia do pae ? Mas o Universo e in- 
differente a tudo isto. Entretanto, quem se- 
ria a mo^a que passou por mim, vestida 
de siciliana e com duas trangas castanhas, 
maravilhosas, a cairem-lhe quasi ate aos 
joelhos ? O' Santuzza desconhecida e errante I 
O que eu daria por uma noite atado a essas 
fortes trangas de mulher primitiva ! . . . 



O pogo maldito 



O caso do homem que caiu no poyo em 
Rocinha, Estado de S. Paulo, offerece as- 
pectos curiosos. Esse infeliz, que se chamava 
Isaias, quando alimpava uma cisterna de vin- 
te e cinco a trinta metros de profundidade, 
caiu la em baixo e esteve quasi uma semana 
«morre nao morre», emquanto se faziam 
baldadas tentativas para salval-o. 

De Sao Paulo foram duas turmas de bom- 
beiros, chefiada cada uma por um engenheiro. 
De Sao Paulo foram ainda cabos, roldanas e 
outros apetrechos necessaries ao trabalho de 
i9ar o infeliz que jazia sepultado em vida, 
meio devorado pela repugnante e venenosa 
bicharia do fundo do pogo, num martyrio for- 
midavel, a Edgard Allan Poe. Mais de duzen- 
tas pessoas estacionavam a borda do pogo, 
ajudando a salval-o, ou lamentando a sorte 
de Isaias. O telegrapho, comegou a trans- 



126 VERDADES INDISCRBTAS 

mittir ao paiz inteiro que la em Rocinha 
caira um homem num pogo. Os prelos 
gemeram. Os jornaes descreveram o estado 
de Isaias, reclamaram providencias, suggeri- 
ram medidas. Emfim, o paiz inteiro ficou sa- 
bendo que um homem soffria no fundo de 
uma cisterna. Pelas esquinas, pelas confeita- 
rias, ate nos theatros, nao se cuidava de cutra 
coisa : « Isaias, coitado, caiu no pogo e vae mor- 
rer». Finalmente, como nao foi possivel sal- 
val-o, morreu. Os jornaes abriram columnas, 
deram retratos e, la em S. Paulo, ja comegam 
a fallar na abertura de um inquerito para apu- 
rar si Isaias deixou de ser salvo por impossi- 
bilidade material ou si por impericia das tur- 
mas encarregadas do servigo. 

Quem podera saber si Isaias deixou de ser 
salvo por impericia? E' preciso nao perder de 
vista o seguinte: durante cerca de cinco dias,os 
bombeiros idos de S. Paulo, com grandes dif- 
ficuldades, conseguiram ir entretendo a vida 
do infeliz a custa de cordeaes, leite, vinho, 
aguardente, cafe, etc . , que Ihe davam la 
em baixo, presos a cordas e correndo o risco 
de se enterrarem tambem. Apos muitos tra- 
balos esses bombeiros conseguiram igar o 
homem ate talvez metade da altura do pogo. 
Foi um momento de jubilo. Estava salvo! 
Nao, nao estava. O cabo partiu-se e Isaias 



O PO5O MAI^DITO 127 

caiu outra vez. Mandaram vir cabos mais for- 
tes. Vieram tambem empregados da Compa- 
nhia Paulista, que, em algumas horas, conse- 
guiram p6r a cisterna a secco e igar Isaias. 
Estava finalmente salvo ! De ca de cima ja o 
viam apparecer na semi-obscuridade do seu 
sepulcro. De repente — paf! — Idse arreben- 
tava o cabo e o infeliz imniergia novamente 
nas trevas, de onde foi impossivel retiral-o 
com vida, pois que, durante o trabalho de seu 
terceiro salvamento, elle rendeu o espirito. 
Eis porque nao sei ate que ponto se podera 
attribuir esse desastre a falta de pericia das 
turmas salvadoras. Impossibilidade material 
de salval-o nao existia ; e a prova e que, por 
duas vezes, esteve quasi salvo ; e si, por 
duas vezes, elle esteve quasi salvo, so nao o 
sendo por se terem quebrado solidos cabos 
em que os profissionaes depositavam confian- 
ga, nesse caso, parece nao ter havido imperi- 
cia. Eu me inclinaria, antes, a admittir como 
explicagao dessa desventura, ate que appare- 
9a outra melhor, fatalidade. E' certo que as 
autoridades, maxime quando procedem a in- 
queritos administrativos em que as suas pes- 
s6as nao estejam envolvidas, sao pouco in- 
clinadas a admittir a fatalidade como expli- 
cagao de uma catastrophe. O que ellas procu- 
ram e Mm.2. falta parapunir. Ora a fatalidade 



128 VERDADES INDISCRETAS 

nao pode ser punida. A impunidade e preci- 
samente o seu maior prevjlegio. De sorte que 
ella fica quasi sempre afastada das conclus5es 
dos inqueritos. Fica afastada, mas nem por 
isso deixa de existir e de manifestar-se, como 
no caso de Rocinha, em que parecia haver 
uma forga occulta e mysteriosa que attrahia o 
pobre Isaias para o fun do dantesco do pogo 
4TiaIdito . . . 



As mulheres na politica 



Adiantara muito submetter a politica a 
ainfluencia santificadora do sexo affectivo», 
como diria o sr. Teixeira Mendes ? Creio que 
nao. De facto, as mulheres ja influem na po- 
litica, embora nao sejam eleitoras nem depu- 
tadas : influem indirectamente, pelo prestigio 
que tem sobre os maridos, sobre os noivos, 
sobre os amantes. Nem e preciso a uma mu- 
Iher ser casada com deputado para influir nas 
suas ideas politicas. Conhego deputados que 
sao francophilos por causa das prostitutas fran- 
cezas , . . O venerando senador Irineu nao se 
dedignou de ir uma noite ao Municipal fazer 
discurso numa festa apr6-alliados» que ali se 
realisou sob os auspicios da nao menos vene- 
ravel Suzanna Castera, proprietaria de uma 
pensao de meretrizes . Nem louvo nem con- 
demno : admiro com as turbas . . . 



4- 



130 VERDADES INDISCRETAS 

Ora, influindo as mulheres nos politicos^ 
e sendo estes, em geral, o que nos sabemos, 
OS negocios publicos melhorarao muito no dia 
em que ellas influirem directamente sobre 
elles ? Nao creio. Uma ou outra mulher, des- 
de que o mundo existe, tern tido visao poli- 
tica : Catharina de Medicis, Maria Thereza, 
Catharina II, da Russia, a rainha Christina, da 
Hespanha, e algumas outras mais. Sao, po- 
rem, excep^oes, alem de serem mulheres de 
raga nobre, descendentes de reis, de homens 
de pensamento e mando. Agora, que benefi- 
cio resultaria para o paiz si, por exemplo, a 
professora Leolina Daltro fosse deputada ? Ne- 
nhum. Seria apenas a representagao feminina 
do marechal Pires Ferreira . 

Geralmente se diz que as mulheres sao 
mais honradas,em materia de dinheiro, do que 
n6s OS homens. Confesso ser verdade. De 
ordinario as mulheres nao furtam. Mas nao 
furtam porque ? Porque os homens se incum- 
bem de furtar para ellas. Entao essas nego- 
ciatas, essas chantagens, essas roubalheiras 
formidaveis, que se praticam por ahi, serao fei- 
tas pelos homens so pelo prazer de ajuntar 
dinheiro, muito dinheiro nas gavetas, so pelo 
«gosto da cobiga e da avareza», como diria 
Luiz Vaz de Camoes ? Nao. Si os homens 
prevar^cam, e por causa dos chapeos, dos ves- 



AS MDI,HERBS NA POWTICA 131 

tidos, das meias e das joias das mulheres. Si 
as mulheres, para dar o seu amor, nao exigis- 
sem tanta coisa cara, tao prevaricadores nao 
seriam os homens. Ora, no dia em que 
ellas fossem deputadas e ministras, seriam 
tambem brasseuses d'affaires e commetteriam 
as mesmas indignidades que os homens. Ape- 
nas, sem justificativa : um homem que furta 
por amor, isto e, para nao perder as coxas de 
uma mulher, esta muito longe de merecer 
absolvigao, mas inspira certa sympathia — a 
sympathia que se tem pelos imbecis. Uma mu- 
lher que furtasse — furtava apenas para si, 
para comprar chapeos e joias. Amor? Nao: 
simples e pura vaidade. Ha ainda, para con- 
sumir o dinheiro dos homens, o jogo. Mas as 
mulheres tambem jogam, e jogam feio e forte. 
Em Caxambu, nas estagoes proprias, quando 
OS hotels regorgitam de aquaticos, a roleta e 
frequentada pelas senhoras defamilia.as quaes, 
diga-se de passagem, embora um pouco inge- 
nuas, tem admiravel vocagao para tripoteuses 
e tricheuses. Isto alias, nas mulheres, e muito 
antigo. Ja no tempo de Luiz XIV, a duqueza 
de la Ferte, jogando com os seus fornecedo- 
res, roubava-os. Quando alguem Ihe fallava 
nisso, ella respondia: Eh bien, oui,je les tri- 
che, mais c est quits me volent . . . Eis porque, 
a meu ver, a entrada das mulheres para a po- 



132 VBRDADES INDISCRETAS 

litica n|Lo melhpraria em nada a situa^ao do 
paiz. Ideas ellas nao trariam ; quanto a ho- 
nestidade, a dellas nao seria maior do que a 
nossa. . . 



Verhaeren 



A morte de Emilio Verhaeren, tao ino- 
pinada e tao tragica, equivale a um cheque 
formidavel soffrido pela litteratura mundial. 
E' uma grande fdrga espiritual que desappa- 
rece. Verhaeren era uma grande forga uni- 
versal. P6de-se aferir a grandeza de uma per- 
sonalidade pela vibra^aoque a sua morte pro- 
duz em todo o mundo. A morte de Verhae- 
ren produziu a mesma vibra9ao mundial que 
a de qualquer dos grandes soberanos do uni- 
verso. Porque desde o momento em que elle 
era esmagado por um trem em Ruao, estre- 
meciam os fios telegraphicos, transmittindo a 
nova a toda a Franga ; vibravam os cabos sub- 
marines, espalhando a noticia por todos os 
continentes, levando-a aos dois polos da Ter- 
ra; vibrava a propria atmosphera nas suas 
ondas hertzianas, levando o conhecimento da 
morte de Verhaeren a pontes distantes, a 



134 VERDADES INDISCRETAS 

pontes ignorados, a qualquerplaga desconhe- 
cida onde houvesse uma alma sensivel as emo- 
goes superiores. Este grande symbolista, este 
grande mystico dos Moines, foi tambem um 
extraordinario realista, ou melhor, um formi- 
davel idealisador da materia. Toda a vida con- 
temporanea teve no Verhaeren das Forces 

TUMULTUEUSES C daS ViLLES TENTACULAIRES 

o seu melhor, o seu unico cantor. Toda a in- 
quietagao moderna esta nos versos deste gran- 
de flamengo. Nao ha dobra, por mais secreta, 
da complexa alma contemporanea, que nao 
tenha sido analysada em seus versos, as vezes, 
numa simples phrase, mas numa dessas phra- 
ses germinativas, que se desdobram, no nosso 
interior, em infindaveis ondas sonoras, em 
echos incessantes, em rythmos infatigaveis, 
ate que se percam no tumulto da vida uni- 
versal. 

A lingua franceza no seculo XIX teve 
dois poetas maximos : na primeira metade, 
Charles Baudelaire, analysta da alma deca- 
dente do seu tempo ; na segunda metade, 
Emile Verhaeren, o reverbero mais poderoso 
e mais vivo da alma de transigdo que caracte- 
risa a sua epoca : soube comprehender a vida 
real como um homem de sciencia ; soube adi- 
vinhar o que nao sabia, como um genio, e 
soube simultaneamenteser um mystico digno 



VERHAKREN 135 

<la aureola que illumina o seu patricio Ruys- 
broeck, o Admiravel. Tragico Yerhaeren ! O 
seu espirito viveu em perenne contemplayao 
de todas as forgas que constituem a belleza 
interior da Vida ; quiz o destino que a sua 
vida se extinguisse num turbilhao, colhidapela 
afor^a tumultuosa» de uma locomotiva em 
inarchapara asplanicies, para os campos, para 
a Natureza e para as cidades tentaculares que 
elle idealisou, e ondeaporgao inferior do seu 
ser se integrara nas podridoes incessantes de 
Celui du rien : 

« Je suis celui des pourritures incessantes . . . 

Je suis celui des pourritures infinies : 

Vice ou vertu, vaillance ou peur, blaspheme ou foi, 

Dans mon pays de fiel et d'or, j'en suis la loi, 

Et je t'apporte k toi le consolant flambeau^ 

ly'offre a saisir de ma formidable ironie 

Kt mon rire, devant I'universel tombeau. . .» 

Sim, o destino foi bestialmente ironico 
para com Emilio Verhaeren: em vez de fazel-o 
morrer docemente, no mvstico deslumbra- 
mento das suas harmonias interiores, deu-lhe 
morte violenta e ruidosa. O cantor dos Ry- 
THMOS soBERANOS reccbeu como premio a mor- 
te sem rythmo ; e, em vez de ouvir, ao morrer, 
a musica de si mesmo, elle, o grande rebusca- 
dor de rythmos para o pensamento, a ultima 
vibragao das f6r9as naturaes que ouviu foi o 



136 VERDADES INDISCRETAS 

silvo de uma locomotiva, como expressao 
symbolica e tragica da aformidavel ironia» das 
coisas, do extranho riso cosmico do tumulo 
universal que escancarava a fauce para tragal-o 
in ceternum et ultra . . . 



Heresia orthographica 



Eu deveria ter escripto «Erezia ortogra- 
fica» para ser agradavel ao sr. Medeiros e Al- 
buquerque, cujo artigo — ((Relijiao ortogra- 
fica», foi o inspirador destas linhas. 

O sr. Medeiros e Albuquerque vem ha 
muito tempo pugnando pela simplifica9ao da 
nossa orthographia. Uma lingua e um orga- 
nismo vivo ; portanto esta sujeita a modifica- 
9oes, a augmentos, a diminuigoes, a amplia- 
96es e simplificagoes, como qualquer outro 
organismo. Mas essas modificagoes nao po- 
dem e nao devem ser feitas por decretos. De- 
vem operar-se naturalmente, espontaneamen- 
te. Antigamente escrevia se gapato e agucar\ 
hoje escreve-se sapato e assucar, porque o uso 
consagrou estas ultimas formulas. 

A orthographia e, com effeito, uma con- 
vengao ; mas as melhores conven96es nao sao 
impostas por decretos nem ucases; sao basea- 



138 VERDADES INDISCRETAS 

das na tradigao; triumpharam pouco a pouco. 
A maior das conven^oes e a moral, que nao 
se impoe por intermedio de poderes legislati- 
ves. Si outrora alguem se lembrasse de de- 
cretar a obrigatoriedade do decote, provavel- 
mente teria de soffrer opposigao de todos os 
Catoes da epoca; entretanto,o decote e hoje de 
uso corrente na alta sociedade, emcertas fes- 
tas nocturnas. Si uma senhora, pela manha, 
nos apparecer de hombros nus, ficaremos a 
pensar coisas absurdas a respeito de sua mo- 
ralidade . . . De noite, num theatro, ella pode 
mostrar a toda a gente os hombros e grande 
parte da espinha, o coUo ate a raiz dos seios, 
OS bragos (inclusive as axillas), as pernas ate 
osjoelhos, etc., etc., etc., sem incorrer em 
suspeita de especie alguma, salvo si ja for 
mais ou menos conhecida de todo o mundo a 
sua chronica secreta. . . Pura convengao, cer- 
tamente, mas que nao se impoz de um dia para 
outro. 

Assim e a orthographia. Ella deve modi- 
ficar-se pela acgao do tempo. Ha palavras que, 
modificadas de um momento para outro, per- 
dem quasi a sua razao de ser. Que razao ha- 
vera para escrevermos, por exemplo, lyriof 
Nenhuma. Em latim se escreve lilium ; mas 
estamos de tal maneira habituados a ver lyrios 
e nao lirzos, que nao valeapena alterar agra- 



HERESIA ORTHOGRAPHICA . . . 139 

phia do vocabulo, Isto sem appellar para a 
razao que dava aquelle academico francez para 
que se escrevesse lys e nao lis, isto e, que o y 
ja recordava materialmente a forma de um 
lyrio. . . 

Fantasma sem ph nao causa medo a nin- 
guem ; ao passo que phantasma, basta ler-se 
para que se vejam logo duendes e gnomos de 
todas as qualidades. . . 

Onde o sr. Medeiros e Albuquerque tern 
razao e no ponto em que combate o motivo 
que deu a Commissao de Finangas para nao 
mandar adoptar uma orthographia official : 
que a questao orthographica e um caso de con- 
sciencia, como a religiao ! Isto, realmente, e 
uma razao de cabo de esquadra. Nesse andar 
nao podiamos legislar mais sobre coisa algu- 
ma. Ha, por exemplo, religioes que admittem 
o casamento de um homem com muitas mu- 
Iheres ; logo, o Codigo penal nao pode punir 
a bigamia, porque o bigamo pode ter-se casa- 
do com mais de uma mulher por motivos reli- 
giosos, alem de outros menos espirituaes . . . 

Na verdade seria antipathica qualquer 
decisao dos poderes publicos a respeito de 
orthographia. A Commissao, pois, fez bem 
nao legislando ; mas podia ter dado outra ra- 
zao. Podia, por exemplo, appellar para o facto 
de haver muitas grammaticas portuguezas au- 



140 VERDADES INDISCRETAS 

torisadas officiatmente ; ora, trazendo essas 
grammaticas regras mais ou menos certas a 
respeito de orthographia, cessava a necessi- 
dade do governo estabelecer nas reparti96es 
publicas principios basicos de escripta. O que 
o governo deve procurar regularisar quanto 
antes, com a maxima urgencia, e a escripta 
do Thesouro. O resto deve ficar por conta 
das grammaticas adoptadas nos institutes offi- 
ciaes e que na© sao poucas . . . 

Quanto ao sr. Medeiros e Albuquerque, 
uma vez que, segundo o seu artigo de hontem, 
o Estado adoptou uma (crelijiao ortograficaj), 
elle, que e contrario a essa arelijiao», fica na 
categoria dos «erejes)) ; ou melhor, sen do, 
como o e, corypheu de uma ref6rma contraria 
a essa «relijiao)), devera ser mais que um sim- 
ples hereje : e um heresiarcha, ou ereziarcUy 
si Ihe s6a melhor . . . 



A princeza Arminda 



Em livro muito antigo — Da curiosa his- 
toria da fermosa princeza Arminda de Gra- 
nada — seria possivel encontrar capitulos 
assim : 

cc Cap. IV — Como o principe Mustapha 
veio cantar sob o balcao de Arminda ao som 
do arrabil e do mais que entao se passou. 

Cap. X — Como a fermosa princeza, nao 
querendo fazer maridan9a com o principe 
Mustapha nem com o bellico Ali, foi fazer sua 
queixa ao califa Abdelcader. 

Cap. XIV — Da disputa que houveram 
Mustapha e Ali por amor da princeza Ar- 
minda e como se desafiaram para singular 
combate. 

Cap. XIX — Do combate que fez Ali 
contra Mustapha e como ambos foram ven- 
cidos pelo gigante Merlao, por artes do Nigro- 
mante Massapatao, o qual vivia em Mecca, 



142 VERDADES INDISCRETAS 

junto do tumulo do seu infame propheta Ma- 
fame de.» 

O livro terminaria com a conversao da 
princeza ao christianismo e seu casamento — 
ou maridanga — com o conde de Olivares. . . 

Mas nada disso se deu, leitor. Esta Ar- 
minda de quern trato aqui e filha do turco Jose 
Raber e mora a rua Buenos Aires, antiga do 
Hospicio, no bairro turco, passeio que nao te 
aconselho, por motivos hygienicos . . . 

Constou a policia, segundo referem os 
jornaes, que Arminda estava, por ordem do 
pae, em carcere privado. Interrogado, decla- 
rou o pae Raber que a filha tinha apenas re- 
cato, para evitar complica9oes , . . E veio en- 
tao a historia de um certo Mustapha, que Ihe 
promettera uma casa, e de um certo Ali, que 
Ihe promettera dois contos. Nenhum cum- 
prira a palavra ; por isso a princeza, quero di- 
zer, a filha do Raber, nao quiz fazer maridanga 
com nenhum delles. A policia os mandou a 
todos em paz. 

E ahi tem o leitor a historia da Arminda, 
que nao e princeza moura, mas apenas moura 
filha de mercador. Decididamente sao muito 
prosaicos os nossos tempos . . . 



L'homme qui assassina 



Esse pobre sargento que assassinou a 
mulher (Livia, bello, evocative nome roma- 
no !) e uma victima do preconceito de 
ra9a, da falta de dinheiro e da inconsciencia 
feminina. Seu sogro, um livreiro italiano, de- 
clara que sempre se oppoz ao casamento delle 
com a filha: primeiro por ser elle cede c6r 
parda)); segundo por nao ter tanto dinheiro 
quanto fosse necessario a nobre descendente 
de um iialiano . . . Quanto ao preconceito de 
raga, ve-se bem que esse livreiro, compatriota 
de Dante, nunca se deu ao trabalho de abrir 
uma tragedia chamada O Mouro de Veneza. 
e que foi escripta por um certo William Sha- 
kespeare ; si a tivesse lido, teria notado que a 
sua patricia Desdemona, formosa e fidalga, se 
apaixonou tambem por um soldado, que nem 
ao menos era christao, que devia ser mais es- 
curo do que o sargento, e que por sua vez a 



VERDADBS WDISCRBTXS 



^. nara ttagedias de amor, 
matoua adaga, q"f ^ ^f esthetico e portaato 
instrumento '""•^ "'^'^Vo rev61ver. Homem 
„,uito mais nobre do que o ^^ ^^^^ 

de bom gosto, q"e j ^^ ao punhal. 

bellatoliana, deve darpr^ ^^^^^ 

caso nao tenha "^/^^ "boseja de ouro 
adaga antiga, recurva ^jo ^^^^^^^ ^ ^^. 

burilado e "avejado <ie ^^^^^ ^^^^^^^ 

v61ver e arma ^\J^^ ^ ;j^uiheres vulga- 
para abater ^aes, ho-nen ^paiKona- 

res. Urn belle ^f^J^^^,^^,o de traged.a, 
da, coUo branco e tf"P^f .j^ um punhal. 
esse exige ofulgorda lamina ^^^ ^.^ 

Mais ainda, homem de bo g^ ^^i,.. deye 

„,atar uma bella -""^^^^l^^ie de casaca, ella 
matal-aapunhala nmte e ^ 

decotada-depois de "«• ^ ^^ ser fino, 
champanha. Isto tem a ;an^^|^ ^^^ ^ ^,,^. 
altamente aristocrat.co, e de p P^ ^^^ 
vilhosa <lir.mente da Pnv 9 ^ ^^^^ O 
Poupa muito «abalho ao J^^^^ ^ es- 
sargento, homem s mples ^^^.^ ^.^^ 

posa de dia e a revolver^ O .^ ^^ ^ 

[amentavelmene vulgar s'.P^ ^^^^^^ ^,. 

ter caido mal ferida, o ^j^ericordia, um 
vesse dado, como tiro ponta-pe, 

ponta-pe em P'^^'^J"^^- ^enhoras e aos 
q"« horror.sa a tod^ ^^^ ^^^ ^„,„ de 
homens series, e bcg 



I<*HOMA!B QUI ASSASSINA... 145 

"ver, o que da certo cunho tragico ao crime, 
distinguindo-o dos uxoricidios communs . A 
grande raiva, a colefa d'aymore de que es- 
tava possuido esse homem ! Nao e nada me- 
diocre esse criminoso. A sua ira e dessas que 
toldam por complete a razao. Sim, homem que 
conserve ainda alguma parcella de senso com- 
mum nao escouceia uma mulher viva, quanto 
mais o cadaver de sua mulher ! Para que o sar- 
gento ousasse dar-Ihe um ponta-pe no rosto, 
depois della morta, era preciso que elletivesse 
um immense orgulho offendido e um immen- 
se amor desprezade — deis sentimentos peri- 
gesos come leoes famintos. Havera quem o 
cendemne ? Para tante, e preciso nao ser hu- 
mane. A sua principal defesa esta justamente 
no ponta-pe final. Si es seus advogados forem 
inteiligentes, terao nesse couce a prova mais 
evidente da providencial priva9ao de senti- 
des. Esse ponta-pe, antes de ferir o rosto da 
assassinada, espatifeu o libello da promotoria. 
A defesa, com algumas phrases lyricas, dard 
ao case o remate que cenvem. O resto fica por 
conta da intelligencia e do cansago dos jura- 
dos. . . Seja come f6r, ninguem pode con- 
demnal-o, pelo menos a pena maxima. Lem- 
bremo-nos, senhores,de que esse homem que, 
sob o aguilhao de seu amor e do seu ciume, 
^atou a mulher, podia ter feito cousa muito 

10 



146 VERDADES INDISCRETAS 

peor: podia, segundo o conselho de Heine, 
ter feito da sua d6r um poema e publicado um 
livro de versos! A sociedade, absolvendo-o, 
deve agradecer-lhe o tel-a livrado dessa cala- 
midade . . . 



Os crimes de amor 



Em S. Paulo, um jovem jornalista, Ri- 
cardo Gongalves, deu um tiro na sua amante 
(amante, ou mulher, nao o sei bem), por ter 
tido provas de que ella Ihe era infiel com um 
medico a quern elle chamara havia tempos para 
curar uma filhinha sua. Estourada esta trage- 
dia, todos os jornaes sao unanimes em con- 
demnar o medico : «Miseravel! Seductor! 
Don Juan indecente !» E outras adjectivagoes. 
E' evidenteque, num casodesses, ditticilmen- 
te se livrara um homem dapechade seductor. 
Mas tambem, por outro lado, parece que, num 
crime de amor, nao se pode imputar toda a 
responsabilidade ao homem, principalmente 
quando a mulher causadora datragediatemos 
precedentes de Maria do Carmo, a compa- 
nheira de Ricardo Gongalves. Essa mulher, 
com as suas infidelidades, foi causa do suicidio 
do marido ; depois deste successo, foi viver 



148 VBRDADSS INDISCRKTAS 

com o cavalheiro «qiie a seduzira)) (6 sem- 
pre o homem que seduz!). Um dia este foi 
assassinado. Uniu-se ella, entao, com Ri- 
cardo Gon^alves, poeta, jornalista, homem 
de talento, segundo dizem. Maria do Carmo, 
informam os jornaes paulistas, era morphi- 
nomana, exactamente como o poeta. Quaes 
seriam as leituras preferidas dessa creatura ? 
Que genero de palestras cultivaria na inti- 
midade caseira, quando estivesse a sos, com 
o seu homem ? Tudo isso seria necessario sa- 
ber, para poder formular juizo mais ou me- 
nos approximadoda justi9a.Conhecidos os pre- 
cedentes, admitte-se a tal «persegui9ao irre- 
sistivel» de que tanto se fala para justifical-a 
de ter caido nos bragos do medico ? E nao de- 
clarou ella mesma terminantemente a Ricardo 
que nao o amava mais ? E' possivel que o me- 
dico a requestasse ; mas tambem e possivel 
que elle o fizesse so depois de ter recebido 
della uma ordem de aavangar)), dada silen- 
ciosamente. com simples olhares, comosabem 
fazer mulheres desse jaez. Custo muito a crer 
na «persegui9ao irresistivel» de um homem 
mogo para umamulher mae de alguns pimpo- 
Ihos e batida ja por amores varios e tragedias 
diversas. Concebe-se que um homem bello 
exerga certa fascina^ao nos nervos de uma 
inexperiente rapariga de dezoito annos, que 



OS CRIMES DE AMOR . . . 149 

buscano mundo, incessantemente, no ceo, nas 
estrellas, nas flores, no ar que respira,em tudo, 
impellida por uma fatalidade cosmica, conhe- 
cer a Vida, decifrando o enigma do seu proprio 
cora9ao. Essa pode ceder a ffpersegui9ao irre- 
sistivel)) . Mas uma senhora experimentada, 
doutora formada em amores tragicos, matri- 
culadissima na classe das peccadoras, morphi- 
nomanae voluvel, nao p6de lan^ar mao desse 
recurso de defesa. aPersegui^ao irresistiveb 
soffria ella, mas nao do exterior. Essa perse- 
guigao vinha della mesma, do seu interior, 
das suas entranhas, da calidez do seu tem- 
peramento da vibratilidade dos seus nervos . 
Como todas as grandes amorosas, trazia o 
bacillo da infidelidade na massa do san- 
gue . E e por isso inutil condemnal-a . Ella 
e perjura em virtude das mesmas fdr^as natu- 
raes que dao colorido as rosas e perfume is 
violetas. Mas tambem acho que 6 injusti9a fa- 
zer carga contra o medico, exclusivamen- 
te. E' um conquistador profissional, dirao ! 
Oh ! senhores ! Nao haveria conquistadorcis si 
nao houvesse mulheres conquistaveis. Nao ha 
artilheiro que penetre em pra^a forte bem 
guarnecida. As tropas so entram quando a 
praga se rende . E ha pra9as que se nao ren- 
dem nunca : Verdun, por exemplo. Verdun e 
Lucrecia. . . 



O jogb franco . . 



Nessa campanha que a policia emprehen- 
deu contra o jogo, ha facetas curiosas, como 
em tudo quanto se faz neste paiz. A principio, 
o Chefe de Policia pareceu nao se incommo- 
dar muito com a jogatina. Os jornaes, porem, 
comegaram a reclamar contra semelhante im- 
moralidade. O dr. Chefe entao ficou entre a 
cruz, que era o dever de olhar pela moral pu- 
blica, e a caldeirinha, que era o seu espirito 
liberal. Nao sabia o que fazer. Nao sabia o 
que resolver. O'duvida! Pobre Hamlet da 
rua daRela9ao! Afinal.depois de muito reflec- 
tir, achou S. Ex. a formula capaz de conciliar 
OS mais altos interesses da moral com os mais 
baixos interesses dos banqueiros, croupiers, 
pharoesy moscas e outros animaes da immensa 
fauna dos jogadores. A formula salvadora da 
policia era esta : o jogo so seria permittido de 
cinco horas da tarde em deante ! De sorte que, 



152 VERDADES INDISCRETAS 

transportada do terreno pratico para o terreno 
especulativo, a decisao do Chefe de Policia 
podia ser reduzida ao seguinte principio, que 
Kant infelizmente nao inscreveu na Critica. 
DA Razao Pratica: «Ojogo porserladroeira. 
e crime ate cinco horas da tarde : dessa hora. 
em deante deixa de ser crime para ser ac9ao 
indifferente, caso nao seja innocente« . Sic 
volo, sic jubeo ; sit pro ratione voluntas. Como- 
se ve, o Dr. Chefe esta creando novas inter- 
preta96es da vida. . . Comegou, pois. o jogo- 
a funccionar vastamente das cinco da tarde 
em deante. E' claro que, com semelhante 
salvo-conducto, a jogatina alastrou se . Os- 
jornaes bradaram as armas novamente. Nao* 
podia ser assim. Era preciso dar provide n- 
cias serias para livrar a cidade de seme- 
lhante cancro . O Dr . Chefe novamente 
poz-se a pensar. Quem pensa, inventa. For 
pensando que o monge Schwartz descobriu 
a polvora . Foi tambem pensando que o Dr. 
Chefe descobriu um principio de moral, ao> 
decidir que nao houvesse clubes no centra 
da cidade, mas somente nos arrabaldes ! Eis o 
principio : aO jogo, sendo uma ladroeira, nao 
pode existir no centro de uma capital civiiisa- 
da, mas nos arrabaldes nao faz mal nenhunt 
que formiguem 6s trapaceiros». Devo decla- 
rar francamente que a campanha contra ojogc^ 



O JOGO FRANCO... 153 

me e perfeitamente indifferente. Nao vird 
abaixo o mundo si a policia cruzar os bra90s 
deante do numero alarmalnte dos tripots da 
capital. O que me interessa nisso, como em 
tudo, sao OS seus aspectos metaphysicos, os 
aspectos superiores. Por este lado, posso ga- 
rantir ao dr. Chefe que Ihe sou muito grato 
por aquelles dois novos principios de moral 
que me ensinou . Quando estive nas aulas de 
philosophia, ouvi muita coisa a respeito das 
sciencias moraes : mas nao conhecia nem po- 
dia conhecer aquelles dois principios admi- 
raveis que S. Ex. acaba de gloriosamente 
descobrir . Mestre, muito obrigado ! . . . 



Preconceitos de linguagem 



Na Rumania, segundo dizem os jornaes 
francezes, que agora muito se interessam por 
tudo quanto diz respeito aos moldo-valaquios, 
na Rumania ha certas palavras, que em todas 
as outras linguas cultas tem significagao no- 
bre e que entre os rumenos tem significagao 
pejorativa. Chamar, por exemplo, a algum 
rumeno marquez, ou condessa a alguma ru- 
mena, e commetter injuria e grande. Entre 
elles, nao se diz principe em rumaico, porque 
esta palavra tem a significa^ao analogica de 
jogral; de sorte que adoptaram la a palavra 
franceza prince, para designar qualquer mem- 
bro da familia real . A palavra rei tambem 
e injuriosa. Tanto assim, que, na traducgao 
do livro biblico dos Reis, escrevem os rume- 
nos LivRO DOS Imperadores ! 

Em portuguez ha tambem palavras de 
significagao primitivamente honesta e que en- 



156 VERDADES INDISCRETAS 

tretanto agora nao podem ser pronunciadas 
deante de pessoas de respeito. No norte de 
Minas, por exemplo, como no norte de todo 
o paiz, chamar dama a uma senhora e arriscar 
a pelle. Dama, la por aquellas plagas, e amu- 
Iher perdida)). 

A palavra moga pode ser pronunciada 
deante de quern quer que seja. «Esta menina 
esta ficando moga. — Sua filha e uma bella 
mogaa — sao expressoes correntes; entretanto, 
querendo alguem referir-se a amasia de al- 
guem, diz : kA moga de Fulano!» 

Rapariga f E' uma das palavras mais lin- 
das da nossa lingua. Em Minas, entretanto, — 
rapariga applica-se mais as mulheres do ser- 
vigo domestico, isto e, amas, cosinheiras, 
arrumadeiras, etc . Aqui, ja vae tendo signi- 
ficagao pejorativa : casa de raparigas e o 
mesmo que bordel. Ora e um absurdo isso . 
Rapariga e simplesmente feminino de ra- 
paz . Seria encantador poder toda gente di- 
zer, como ainda ha dias ouvi dizer a um espi- 
rito eminente, que me da a honra da sua ami- 
zade : « V. nao imagina que rapariga valente 
e minha mulher.» 

Mae/ Nao se discute a belleza desta 
suavissima palavra. Pois tambem a palavra 
mde vae assumindo significa^ao equivoca. Em 
certas locugoes e um vocabulo pelo menos 



PRECONCEITOS DE LINGUAGEM. .. 157 

suspeito. Os jornaes ji comegam a substituil-o 
por progenitora. E' incrivel ! Que qualquer 
palavra possa derrancar com o tempo com- 
prehende-se ; mas a palavra mde / f O noticia- 
rio elegante tem receio de dizer : « Faz annos 
hoje a sra. Dona Fulana, muito digna mae 
do nosso amigo sr. Beltranoa.Em vez de mae, 
escrevem progenitora, que ^ uma palavra 
erudita, secca, como todas as coisas eruditas, 
fria e pernostica. Mde e alguma coisa tepida, 
doce, nobre como o collo materno. Progeni- 
tora e simplesmente uma delicadeza de mo- 
leque hem fallante. 

Mae, collegas, mae ! Devemos escrever 
«a mae do sr. Fulano», da mesma forma 
que escrevemos «o pae do sr. Beltrano» e 
c(0 filho de Dona Sicrana)). Ninguem diz na 
intimidade — «vou beijar minha progenito- 
ra*, mas simplesmente, — «vou beijar minha 
mae» . 

E' para desejar que os jornaes abando- 
nem de uma vez a pal^LVia progenitora, que e, 
etymologicamente, muito mais grosseira do 
que mde. Progenitora comp6e-se do prefixo 
pro e da raiz genit, de gigno, gignis, genui, 
genitum, gignere, que quer dHzer gerar. De 
maneira que, posta em bom vernsiculo, proge- 
nitora e a pro ou ante-geradora do sr. Fulano^ 
Nao sei onde esta a delicadeza desta expres- 



158 VKRDADES INDISCRBTAS 

sao... Por conseguinte, de uma vez para sem- 
pre, estabelegamos que os homens tern vir- 
tuosas e dignas mdes, e nao ridiculas e pet- 
hosticas progenitoras. 



O Feiticeiro 



Um guarda civil que rondava de madru- 
gada pela rua dos Arcos, percebeu, no pavi- 
mento terreo de certa casa, uns claroes incon- 
stantes e fugidios. Em outros tempos, qual- 
quer dragao da ronda se teria persignado e in- 
vocado o auxilio do alto contra visoes diabo- 
licas. Ca o nosso guarda nao pensou em tal . 
Claroes inconstantes e fugazes? Principio de 
incendio. Suppondo,pois,tratar-se de incendio, 
bateu a porta da dita casa, que se abrio logo . 
O civil, com algumas pessoas mais, entrou, 
correu ao andar terreo e deu com o inespera- 
do. Nao havia incendio. Havia simplesmente 
quatro velas accesas pelo portuguez Lino de 
tal, que estava em frente dellas a dizer coi- 
sas cabalisticas e a atirar ao fogo sal e quero- 
zene. Interrogado, respondeu Lino que aquillo 
elle o fazia para afastar certas coisas que Ihe 
atrapalhavam os negocios. O guarda pensou 



160 VERDADKS INDISCRETAS 

la comsigo : « Este homem esta em sua casa, 
s6zinho, pacificamente tratando de regulari- 
sar OS seus negocios. Ha varies meios de re- 
gularisar os negocios : por ordem na escripta 
levantar um emprestimo, passar algumas notas 
falsas, arranjar modos de ser fornecedor do go- 
verno, etc. Ora este homem nao langou mao 
de nenhum destes meios ; logo deve ser pre- 
so.tt E com effeito prendeu Lino e o levou 
para a delegacia. O delegado, depois de ou- 
vil-o, respondeu que nao Ihe encontrava culpa 
e mandou soltal-o. E' evidente que o delega- 
do fez bem ; mas nao podia ter feito melhor, 
si, al^m de por o preso em liberdade, man- 
dasse dar-lhe todas as satisfa95es a que tem- 
direito qualquer cidadao que e preso por en- 
gano? Porque Lino foi victima de engano. 
Esse homem, si estivesse em sua casa, aquella 
hora, debrugado sobre a sua secretaria, ali- 
nhando cifras num grande livro para poder 
regularisar os seus negocios, com certeza nao 
seria incommodado. Ora, quando elle atirava 
sal e querozene ao fogo, estava, a seu modo, 
methodisando a sua vida de mercador. E uma 
vez que esse systema Ihe parecia eflficaz e nao 
perturbava a ordem, cumpria a policia respei- 
tal o. Respeitemos, pois, os feiticeiros. . . 



Bailarinas... 



Bern fazem as mulheres : vestem-se de 
branco ; decotam-se o mais que podem ; 
encurtam as saias. . . Uma vez que paes e 
maridos nao se opponham a tal, que temos 
nos com isso ? Esses saiotes suggerem muitas 
coisas, principalmente lembrangas do passado. 
Quando as vejo, lembro-me de bailarinas e 
penso quanto estamos adiantados relativa- 
mente ao seculo de Luiz XIV, por exemplo . 
Quando se fundou a primeira scena lyrica em 
Paris, por iniciativa do padre Perrin, as baila- 
rinas eram . . . machos ! 

A appari9ao de mulheres no palco seria 
urn escandalo. So em 1681 Lulli conseguiu a 
cumplicidade das damas da corte para que as 
mulheres pudessem representar no seu baila- 
do Triompke de t Amour. As princezas mais 
soberbas tomaram parte nesse bailado. Entre 
outras : a Delphina de Fran9a, Mile, de Conti, 

11 



162 VERDADES INDISCRETAS 

a princeza de Guemene, como nympha de 
Diana, Mile, de Poitiers, de nayade, Mile, de 
Sevigne, futura condessa de Grignan . . . Dias 
depois, o bailado foi repetido para o grande 
publico, na Opera, com as primeiras bailarinas 
contractadas, que eram apenas quatro. Suc- 
cesso louco ! A direcgao da Opera contractou 
mais bailarinas ! Mas ninguem pense que ellas 
dansassem de maillot e saiotinho de gaze e 
barbatanas como hoje. Em primeiro logar, 
cada bailarina vestia-se como queria ; em se- 
gundo logar vestiam-se a moda do tempo, 
isto e, saia cumprida e larga, busto acochado 
em collete de barbatanas, mangas apertadas 
ate o cotovello. De pernas nem signal . . . O 
aphorismo fundamental neste assumpto hoje 
em dia e : « O primeiro dever de uma baila- 
rina e mostrar as pernas.)) Naquelle tempo 
este aphorismo ainda nao existia. So em 1726 
a Camargo teve a ousadia de apparecer de 
saia curta em scena . Mas que escandalo t 
Grimm, que estava em Paris nessa occasiao, 
conta que os jansenistas protestaram contra 
tao grande falta de decoro. Os molinistas, pelo 
contrario, approvaram. A Sorbona teve de 
metter-se no meio da contenda. Mas a moda 
das saias curtas pegou . . . Entretanto havia 
ainda no traje das bailarinas uma pe^a des- 
graciosa : eram as calgas, que vinham ate os 



BAILARINAS. . . 163 

joelhos e appareciam atrozmente sob a saia. 
Ah ! nao houve duvida : supprimiram-se as 
cal9as! Mas uma noite, na Oper4 Mile. Ma- 
riette ia esbogar um passo de dansa quando a 
fimbria da sua saia se prendeu numa quinade 
scenario de tal maneira que a pobrezinha nao 
teve remedio senao exp jr ao publico, durante 
tres segundos, les dessous du panier . . . A 
Mile. Maisonneuve succedeu egual aventura 
dias depois no Theatre Fra7i(,jis. Entao as 
autoridades inquietaram-se. A policia baixou 
um ucase, tornando obrigatorio o uso do cal- 
gao para todas as comediantes, cantoras, co- 
ristas, bailarinas e figurantes de todos osthea- 
tros de Paris. Mas o calgao era desgracioso . 
Deixava muita dobra em evidencia. Ahi por 
volta de 1791, ja em pleno dominio da Revo- 
lugao, um sujeito chamado Maillot inventou 
o accessorio que Ihe immortalisou o nome . 
Agora, sim, a illusao da nudez era perfeita, 
principalmente quando o maillot era roseo 
claro. Foi logo adoptado em todos os palcos 
da Europa, menos em Napoles, onde a c6rte 
se escandalisou. O interessante e que o proprio 
Papa permittiu o uso do maillot em todos os 
theatros dosseus Estados; apenas exigiu que, 
em vez de roseo, fosse azul! E ahi estd come, 
de Luiz XIV para ca, as bailarinas foram dimi- 
uuindo as roupas,atechegarem a Isadora Dun- 



164 VERDADES INDISCRETAS 

can, que dansa apenas de kiton grego. Para 
este clima selvagem o kiton e o traje natural- 
mente indicado. A nao ser que prefiram voltar 
ao vestuario tradicional do nosso clima: a sim- 
ples cinta de pennas ao redor da cintura . 
(O tacape e dispensavel). Deve ser muito hy- 
;gienico; e a prova e que nao ha na nossa 
historia o mais vago indicio de que os indios 
morressem de insola^ao. . . 



O jogo e vicio ? 



Outra vez entra o jogo em discussao . 
Isso faz parte do programma annual de cada 
folha. Pergunta toda a gente si a policia pode 
regulamentar o jogo. Si pode? Pode — nao : 
deve. Os jurisconsultos, os homens de toga e 
garnacha, quando se Ihes faz esta pergunta, 
explodem em escrupulos por causa do Codigo 
Penal. O Codigo prohibe o jogo; logo o go- 
verno deve punil-o. Regulamental-o nunca. 
Mas, nesse caso, reformem o Codigo. Esta 
verificado que todos os codigos domundo sac 
impotentes para exterminar o jogo. Haja o que 
houver, o homem joga. O jogo e a prostitui9ao 
nunca deixafrao de existir. Neste caso, incor- 
poremos estas duas respeitaveis instituigoes 
aos nossos habitos e trataremos de regulamen- 
tal-as, afim de evitar que ellas continuem a 
produzir os males que produzem. «Oh ! ex- 
clamam os moralistas, regulamentar o jogo € 



166 VERDADES INDISCRETAS 

encampar o vicio». Que preconceito! Ojogo 
e simplesmente uma asneira, si quizerem; mas 
nao se pode deixal-o campear infrene, so por- 
que o governo nao pode encampar o vicio. O 
sujeito que pega todo o seu dinheiro eo leva 
diariamente a banca dojogochama-se vulgar- 
mente um viciado. Pura convengao, baseada 
no conceito do peccado. O nosso Codigo Pe- 
nal esta baseado neste principio theologico : 
o peccado. Persegue-se ojogo, no fundo, por 
ser peccado; perseguem-se as meretrizes, por- 
que sao peccadoras. E esses peccados todos 
reunidos — o jogo, oamor clandestino e ou- 
tros — chamam-se o Vicio. Questao de pala- 
vra. Pois regulamentemos o vicio ja que nao 
e possivel extirpal-o. O individuo que arrisca 
o seu dinheiro aos azares do panno verde e 
fica a noite inteira esperando que de o 5 ou 
o duplo zero nao e um criminoso, uma vez 
que Ihe pertenga o dinheiro que elle gaste. Tal 
homem e simplesmente um asno. Nesse caso, 
ja que eimpossivel cural-o da sua asnice por- 
que permittir que s6 os profissionaes se apro- 
veitem della? O governo deve ser pratico e 
obrigar esses profissionaes a entregar ao Es- 
tado, para obras humanitarias, grande parte do 
dinheiro que surripiaram ao pobre diabo que 
se deixou depennar. Pouco importa que se 
trate de encampar o Vicio. Nao devemos fi- 



O JOGO t vicio?... 167 

car presos a superstigoes verbaes. E si o gover- 
no tern tao grande repugnancia em encampar 
o Vicio, nesse caso faga uma coisa: antes de 
Tegulamental-o, decrete que o jogo nao e vicio 
e explore-o em seguida . . . 



A elegancia masculina 



Correspondencia de Paris da noticia de 
que vao voltar as modas romanticas para os 
homens. Ja em Paris se tern exposto os novos 
modelos de txaje d'homem, modelos copiados 
de Alfredo de Musset: chapeo de largas abas, 
levemente levantadas d'ambos os lados, casaco 
longo e de cintura justa; grayata borboleta 
e cal9as apertadas principalmente na parte in- 
ferior, proxima aos pes, Estas sao as linhas 
geraes. As minucias s6 poderao ser conheci- 
das a vista dos figurines. 

Applaudamos a ressurreigao das modas 
romanticas. O realismo estragou tudo, ate a 
elegancia masculina. Vamos finalmente ficar 
livres das detestaveis modas norte-americanas, 
com OS seus palet6s saccos e intoleraveis bom- 
bachas. A victoria do americanismo nas se- 
cedes de modas representa o maior desastre 
soffrido pelo bom gosto masculino neste prin- 



170 VERDADES INDISCRETAS 

cipio de seculo. E' perigo, e perigo social gra- 
vissimo, acompanhar os Estados Unidos nesse 
capitulode elegancias.Podemos acompanhalos 
em materia de electricidade, organisa9ao ban- 
caria, liberdade religiosa, ordem politica e coi- 
sassemelhantes. Em questao demoda, nao. A 
moda, por menos que parega, e o reflexo das 
ideas e tendencias de um povo. Uma cabel- 
leira empoada e de rabicho,porsi so permitte 
reconstituir toda a physionomia moral, social 
e artistica do seculo XVIII: a ironia de Vol- 
taire, o pincel de Boucher, a inspiragao de 
Gliick, a gra9a de madame de Pompadour . . 
Uma bombacha americana basta para demon- 
strar toda a ausencia de bom gosto numa nagao 
de grandes exigencias no aperfei^oamento 
dessas coisas chatas e indispensaveis que se 
chamam — Liberdade e Democracia — mas 
ainda esteril em questoes de modas . . . 

Si a moda e o reflexo das ideas ; e si nos 
so adoptamos ideas que nos venham de Franga 
sejamoslogicos: adoptemosso as modas bem 
genuinamente francezas. Quanto as modas 
norte-americanas, appliquemos-lhe prudente- 
mente a doutrina de Monroe, e aguardemos 
OS modelos de Alfredo de Musset, sem nos es- 
quecermosque ellesbempodem fazer o mila- 
gre de resuscitar os modelos George Sand . . . 



A elegante e o mendigo 



Minha senhora — Hoje, pela manha, pas- 
sando eu casualmente pela porta da matriz da 
Gloria, no largo do Machado, como saisse da 
egreja muita gente, quedei-me a olhar os que 
desciam as escadas, aos grupos, ou isolada- 
mente. E V. Ex., a quern nao conhe^o, era das 
mais formosas mulheres que vi descer. O seu 
vestido curto, de seda azul marinho ; as suas 
botinas de cano alto ; aquelle chapeo encan- 
tadoramente simples ; o sorriso com que V. 
Ex. falava a sua companheira ; os seus cabel- 
los de um louro infernal (e sem auxilio d'agua 
oxygenada, o que e raro) — tudo isso me 
fazia suppor que V . Ex . fosse um daquelles 
entes que no tempo do finado Jose de Alencar 
e do mallogrado Garrett se chamavam : o Anjo 
do Amor, o Anjo da Esperanga, oanjo disto, 
o anjo daquillo . . . Vi mais o seguinte : quan- 
do V. Ex. descia os ultimos degraus, esten- 
deu-lhe um mendigo a mao a esmola. V. Ex. 



172 VERDADES INDISCRETAG 

olhou para elle indifferentemente e seguiu seu 
caminho com a companheira, sem Ihe dar um 
niquel. Fiquei desilludido, nao da sua formo- 
sura, mas da sua caridade . . . para com os 
belgas . Aquelle mendigo e belga, minha se- 
nhora. Tern, portanto, direitos adquiridos i 
caridade de todas as brasileiras. Bem sei, 6 
creatura divina, que os mendigos devem tra- 
zer na lapella as cores alliadas para poderem 
receber a sua esmola : os brasileiros devem 
tambem trazer as cores nacionaes na gravata 
ou no chapeo, em forma de cocarde, para li- 
vrarem as suas patricias do trabalho de abrir a 
bolsinha e . . . Mas si aquelle pobre nao trazia 
as cores alliadas, era isso devido a campanha 
dos submarinos allemaes, que nao permittem 
a exportagao de fitinhas tricolores ca para estas 
bandas. Garanto-lhe, porem, minha senhora, 
que o pobre homem era belga ; e V. Ex., cujo 
marido e com certeza da Liga pelos Alliados e 
vendedor de carne aos allemaes, nao pode 
negar auxilio aos belgas, coitadinhos, que sao 
OS flagellados da Europa. Espero que para 
outra vez, minha senhora, a sua bondade seja 
pelo menos egual a sua belleza. Nao se es- 
que9a do velho proverbio : Quern da aos po- 
bres empresta aos belgas. Nao ! Nao e bem 
isto ! O proverbio authentico e est'outro : 
Quern da aos belgas empresta a Deus. 



Le Roi s'amuse 



Telegramas de Londres dizem que el-rei 
D. Manoel II de Portugal deslocou o torno- 
zelo quando joga uma partida de lautennes. 

Ora ahi esta um telegramma que nao 
devera ter sido transmittido ca para a America 
nem para parte alguma. 

Nao quero dizer que Sua Majestade seja 
obrigado a ir acutilar tudescos nos campos de 
Franga. Sua Majestade nao e obrigado por 
lei nenhuma a ser heroe ; mas e obrigado a 
manter certa linha . . . Nao se concebe que 
Sua Majestade, o primeiro fidalgo do seu 
reino, quero dizer, da Republica de Portugal, 
em vez da espada tenha agora na mao uma 
simples raqueta. Perante o conilicto europeu, 
acho pouco . . . 

Eu estou vendo daqui o quadro ca em 
Franca e la em Africa, francezes, inglezes e 
ate portuguezes transportados em macas para 



174 VERDADES INDISCRETAS 

OS hospitaes de sangue, ou mandados em 
massa para a sepultura : la em Windsor, num 
parque aristocratico, Sua Majestade torce o 
pe, e amparadoporum jovem lord, e, cercado 
das senhoras, vae mancando e gemendo para 
o seu quarto, esperar que venha um physico 
recompor-lhe o tornozello... Pode ser elegan- 
tissimo, mas, francamente, todos nos, que 
temos o mais alto conceito das Majestades, 
preferiamos ler um despacho como isto : 

((LoNDRES, 22 — Na ultima carga de 
lanceiros em Ypres, recebeu um langago no 
peito o Sr. Dom Manoel II, rei de Por- 
tugal, que apezar de ferido, continuou a bradar 
Por Sant' lago ! e a bater-se ate que Ihe falta- 
ram as forgas e elle cahiu do cavallo. Sua Ma- 
jestade foi transportado sem sentidos para as 
ambulancias e destas para Paris, depois dos 
curativos mais urgentes. E' melindroso o seu 
estado. A' sua cabeceira velam as Sras. 
Rainhas D. Amelia e Victoria)). 

Confesso que era muito mais incommo- 
do para Sua Majestade : era porem, mais di- 
gno de rei . . . 



Casamentos por annuncios 



Repugna a razao que os casamentos se 
fa9am por meio de annuncios ? Nao. Que e 
um casamento ? Um contrato. Juridicamente, 
quer em direito civil, quer em direito cano- 
nico,-nao e outra coisa. Ora, si e um contrato, 
nada impede que se venha a fazer por meio 
de annuncios, como si se tratasse de uma sim- 
ples compra de gado, de gazolina, etc. De 
modo que a razao nao repugna que um casa- 
mento se realise por via de annuncios distri- 
buidos nas folhas. O essencial e que, na assi- 
gnatura do contrato, haja liberdade plena en- 
tre as partes contratantes . 

Repugnara, porem, ao coragao ? Aqui o 
problema assume proporgoes mais complexas. 
Le coeur a ses raisons que la raison ne connaif 
pas, dizia Pascal. Querem os sentimentaes que 
ao casamento preceda largo e intimo conhe- 
cimento reciproco dos nubentes. Dizem que 



176 VERDADES INDISCRETAS 

sao exigencias do cora9ao . Nao creio muito 
nas exigencias do coragao-Num caso ou noutro 
ellas existem com effeito. Nao constituem, 
porem, regra geral. O homem moderno nao 
e um animal amoroso : e antes um animal in- 
teresseiro. Quando se diz o homem, esta claro 
que se indue tambem a mulher. O casamen- 
to e muito menos acto de amor do que de 
conveniencia. fn omnibus respice finem, diz a 
velha. Moral. Ora, qual e o fim do casamen- 
to ? A propagagao e a conservagao da espe- 
cie, dizem. E o amor, quando se satisfaz, cuida 
da conserva^ao da especie ? Absolutamente . 
O amor verdadeiro e egoista. Os proprios 
entes reaes, os proprios entes sensiveis Ihe 
inspiram interesse mediocre. Si e assim. que 
interesse pode inspirar ao amor a conserva^ao 
da Especie, que e apenas uma abstragao, ou 
melhor, uma metaphora? Fallando mais scien- 
tificamente : quando o macho humano esta fe- 
cundando a sua femea, pensard algum delles 
na conservagao da especie ? Sabe toda a gente 
que nao . . . Portainto o casamento, como con- 
trato, nao e acgao de amor, E' acgao de con- 
veniencia, dictada pelo direito positivo. Si 6 
de conveniencia, nao e acto de coragao. Logo 
e acto de razao. Si e acto de razao, os seus 
resultados dependem da certeza dos calculos, 
do ajuste das probabilidades e do jogo razoa- 



CASAMENTOS POR ANNUNCIOS. . . 177 

vel das circumstancias . Logo, nada impede 
<{\ie elle venha a realisar-se tendo per ponto 
<ie partida o annuncio. Isto pode nao ser sen- 
timental. Le cceur a ses raisons . . . Afifirmo, 
porem, que e logico e, portanto, perfeitamen- 
te adoptavel, pois que na vida pratica a logica 
das ac96es e muito mais util do que o senti- 
ment© . 



12 



J 



Amores hediondos 



Abro OS matutinos (para consultar a opi- 
niao dos collegas sobre o estado da coisa pu- 
blica) e vejo ao alto da pagina: Tragedia! 
Outros titulos e subtitulos ainda. Entra afinal 
a narrativa e entram as photographias referen- 
tes ao caso. Examino estas ultimas. Resolvo 
ler a noticia. O caso e vulgar. Um Joao qual- 
quer foi abandonado pela sua Joanna, a qual 
se atirou aos bragos de outro Joao. Joao I, en- 
ciumado, assassina a tiros este Joao II. Prom- 
pto . . . Entao examino a photographia que 
tern por baixo esta legenda : <c Maria do Rosa- 
rio, a causadora da tragedia. » Cbntemplo o 
retrato da « causadora do desastre» e fico a 
pensar. Primeiro, rio; depois penso; afinal 
tomo a rir . O riso ainda e a maneira mais 
commoda de apreciar uma tragedia passional. 
A causadora da tragedia ^ uma preta trom- 
buda de carapinha, com certeza immunda, 



ISO V^RDADES INDISCRETAS 

horripilante . . . O assassin o e o assassinado 
sao brancos, sendo que o primeiro tern ape- 
nas vinte e um annos. E' difficil explicar 
porque um homem chega a matar um rival 
por causa de mulher tao horrivel. Sim, e 
inexplicavel, porque eu conhego varies cava- 
Iheiros, maridos ou amantes de mulheres for- 
mosissimas, os quaes cavalheiros sabem que 
ellas OS enganam, e entretanto nao matam 
ninguem ! Nem ao menos reclamam . . . O 
homem da Favella, por causa de uma hedion- 
da preta, foi para a Deten^ao ! 

Talvez tenlia razao aquelle philosopho 
que, negando a existencia da belleza feminina, 
t. disse que esta so existia na imagina9ao do ho- 
\ mem, do mesmo modo que a belleza da galli- 
nha s6 existe na imaginagao do gallo . Si e 
assim, devia ser interessante conhecer a con- 
cepgao da belleza que tera o assassino aman- 
te da Carmen Hottentote, da Favella . Estes 
Gonceitos, alias, nao sao dos mais novos. Vol- 
taire ja OS admittia quando affirmava que 
para o sapo a expressao maxima da belleza 
estava na sapa: le chef d xuvre pour le crapaud 
c est la crapaude. E' a unica maneira mais ou 
X- menos razoavel de explicar os ciumes fataes 
do amante da Maria do Rosario . . . 



Como fazer a paz 



O sr. Wilson, presidente dos Estados 
Unidos, hontem achava ainda inopportuna 
qualquer tentativa em favor da paz. O sr. Hen- 
derson, ministrro sem pasta e membro do Con- 
selho de Guerra inglez, discursando num ban- 
quete dos syndicatos inglezes, declarou que 
a Inglaterra estava disposta a continuar a 
guerra durante qualquer tempo, fosse curto, 
fosse longo. O sr. Henderson esqueceu-se in- 
felizmente de dar-nos a opiniao particular dos 
syndicatos inglezes a respeito da guerra . . . O 
embaixador japonez em Paris, desmentindo 
boatos mentirosos, affirmou que o Japaq coh- 
tinua firme, ao lado dos alliados, disposto a 
tudo, comtanto que a Entente triumphe. Em- 
fim toda a gente so pensa na guerra. Por em- 
quanto ninguem pensa na paz, si nao f6r pos- 
sivel obter o que todos os belligerantes, cada 
qual com as suas intengoes, chamam (fcondi- 



182 VBRDADES INDISCRBTAS 

goes de uma paz duradoura ...» Ora hontem, 
estando sozinho a ler, lembrei-me de um meio 
facil de conseguir a terminagao rapida da 
guerra. Sob a direcgao do sr. Jean Hanoteau, 
La Revue Hebdomadaire, de Paris, publicou 
em 1913 os Souvenirs d'un t^moin de la re- 

TRAITE DE RUSSIE ET DES CAMPAGNES DE 1813 

ET 1814, de Dominique Renaud, official inten- 
dente da Grande Armee. 

Este riz-pain-sel conta as coisas com 
muito bom humor. Narra elle que havia no 
exercito um pobre diabo que passara dois 
annos na Trappa, onde se mettera voluntaria- 
mente, paraver si assim conseguia evitaro re- 
crutamento. Descoberto na suatoca, foi de la 
arrancado e leva.do d forga para o quartel; Id, 
por^m, vendo ser impossivel fazer delle um 
soldado ao menos soffrivel, deliberaram os 
commandantes transformal-o em simples fa- 
chineiro; e o nosso homem Id ficou a cuidar 
de palha, lixo e feno ... O silencio que elle 
fora obrigado a guardar no convento accumu- 
lara nelle, durante dois annos, tal desejo de 
falar, que era uma verdadeira matraca. Nao 
parava de tagarellar k direita e a esquerda . 
Medroso como uma lebre, bastava-lhe ouvir 
um tiro de espingarda para comegar a tremer; 
e, ao primeiro tiro de canhao, entupia os ou- 
vidos de algodao, que trazia sempre comsigo. 



COMO PAZSR A PAZ. . . 183 

O que todos notavam era que elle nao pas- 
sava por uma egreja, fosse onde fosse, sem 
entrar e rezar alguns, instantes. De uma feita, 
indo a uma egreja, quasi foi preso pelos prus- 
sianos, mas conseguiu salvar-se, correndo 
como um gamo. Um dia perguntaram-lhe que 
diabo ia elle fazer tantas vezes as egrejas. 
Admirar as imagens, a architectura, os monu- 
mentos? 

— «Nao, respondeu o ex-trapista; vou 
<iizel-o a voces que soffrem como eu. Eu, 
quando vou a egreja, e para pedir a Nossa 
Senhora que mande colicas a todos os que 
sao causa da guerra. 

— E acreditas que isso faria cessar a 
guerra? 

— Oh ! tenho certeza, porque tenho co- 
licas muitas vezes e sei o que sao ellas . . . 

O certo e que tempos depois a guerra 
acabou-se. Napoleao foi para Santa Helena . 
A paz reinou em todo o mundo . Nao seria 
bom que a Virgem mandasse colicas aos bel- 
ligerantes ? 



A Irianda 



No seu ultimo discurso perante o parla- 
mento britannico, alJudiu o sr. Lloyd George 
i. questao irlandeza pela seguinte forma : 

«Desejaria tambem dizeralgu-^ 
ma coisa hoje acerca da questao ir- 
landeza, mas s6mente direi o se- 
guinte: desvanecer-me-ia que fosse 
possivel fazer que se dissipasse o 
mal-entendido que existe entre a 
Gra-Bretanha e a Irianda, e que, de 
ha seculos, si e uma fonte de mise- 
ria para uma, 6 um embarago, uma 
causa de fraqueza para a outra . 

«Os erros nao estao todos do 
mesmo lado. Sente-se que o nosso 
movimento se opera numa atmos- 
phera de suspei^ao. Nao so os ir- 
landezes desconfiam dos inglezes^ 



186 VBRDADES INDISCRETAS 

como tambem — o que e mais grave 
— OS irlandezes desconfiam, elles 
proprios, uns dos outros. Si essa 
desconfian9a pudesse desapparecer, 
creio que se poderia verificar um 
acto de reconciliagao, que tornaria 
a Irlanda e o Imperio maiores do 
que nunca o foram . » 
Nao e s6 o primeiro ministro da Ingla- 
terra que deseja ver dissipado o ccmal-enten- 
dido que existe entre o Gra-Bretanha e a Ir- 
landa)). O mundo inteiro o deseja. Deseja 
e admira a notavel habilidade com que os in- 
glezes, sempre que se referem a Irlanda, nunca 
alludem si nao «ao mal-entendido)) existente 
entre a Inglaterra e a ilha de S . Patricio. 

Quando se le qualquer documento inglez, 
ainda os mais respeitaveis, os mais graves e 
impertigadamente officiaes, cumpre nao per- 
der de vista que a Inglaterra, si e a terra clas- 
sica da liberdade, e tambem a patria do hu- 
mour. Ha sempre um pouco de Charles Di- 
ckens e de Bernard Shaw nas affirm agoes 
mais solemnes dos primeiros ministros ingle- 
zes. Com effeito os inglezes entraram ha se- 
culos pela Irlanda a dentro; subjugaram-na, 
impozeram-lhe a Re forma protestante que Ihe 
repugnava e que so mais tarde foi attenuada. 
Ao tempo de Henrique VIII, a Irlanda catho- 



A IRI^ANDA 187 

■lica foi tratada pelos anglicanos como a Polo- 
nia catholica, ao tempo de Maria Thereza, foi 
tratada pelos austriacos e pelos russos . Foi 
preciso que a eloquencia de O'Connell com- 
movesse a Kuropa no principio do seculo XIX, 
para ^que os irlandezes obtivessem alguns 
direitos, que depois Gladstone ampliou libe- 
ralmente. Mas a verdade e que os inglezes 
continuam a dominar a Irlanda, por proces- 
sos um pouco diversos dos empregados por 
Henrique VIII e Isabel, mas, emfim, sejacomo 
f6r, continuam a dominar a Irlanda. Vae dahi, 
vem o sr. Lloyd George e declara que teria 
muito prazer em ver desfeito o mal-entendido 
que ha seculos separa a Irlanda da Inglaterra... 
Eu estou muito longe de ter competen- 
cia para ser ministro da Inglaterra; entretanto, 
permitto-me a liberdade de indicar ao sr. 
Lloyd George o caminho mais curto para ver 
dissipado esse secular « mal-entendido »: basta 
que o governo inglez conceda autonomia aos 
irlandezes, aquella autonomia que elles ja ti- 
nham «ha seculos» e que os inglezes toma- 
ram. . . Os amigos inglezes precisam de ser 
logicos : combater a Allemanha por causa da 
neutralidade da Belgica e continuar a ter a Ir- 
landa sob o guante de ferro de Albion e, pelo 
menos, um contrasenso. O caso da Irlanda 6 
muito parecido com o da Polonia ... Os in- 



188 VERDADES INDISCRETAS 

glezes, com o seu gros bon sens, devem saber 
disso melhor que qualquer outra na^So. 

Quanto i. desconfian9a dos irlandezeft 
uns pelos outros, isso e li com elles. Que me 
importa a mim que os filhos da familia visinha 
sejam desconfiados entre si? O que a con- 
sciencia ordena e que eu os deixe em paz e 
nao procure, nem directa nem indirectamente, 
servir-me dessa desconfian9a para disputar-Ihes 
o patrimonio . . . 



A Mulher e a Mentira 



A Mulher e inimiga da Verdade. Quer 
isto dizer que ella minta por systema? Nao. 
Mente por instincto. Systema suppoe 
«ordem» ; ora a mentira feminina e sempre 
uma fonte de desordens moraes e materiaes . 
Tambem nao quero dizer que uma vez por 
outra a Mulher nao diga algumapequena ver- 
dade. Dil-a ; mas continua sobretudo a nao 
gostar de « saber » a Verdade. A moga solteira 
mente menos do que a casada, e, alem disso, 
supporta mais a verdade do que a ultima. Com 
a mulher casada da-se um facto curioso : aos 
filhos ella pede sempre a verdade ; ao marido 
obriga a mentir. Ha rapazes que mentiram 
pela primeira vez depois do casamento . . . 
Qualquer de nos sabe, por experiencia, que 
nossas maes nos pediam sempre a verdade 
quando eramos crean9as : 



190 VERDADBS INDISCRBTAS 

— An da, meu bem ; dize a verdade ; si 
disseres a verdade, nao te castigo ; quern que- 
brouajarra? 

— Fui eu. 

E nao castigava, realmente. Obtivera a 
verdade. . . 

Ao marido, pelo contrario, ellas exigem 
mentiras. Supponhamos que um marido,tendo 
estado num clube, aptnas conversando com 
companheiros e companheiras alegres, ao che- 
gar d casa diga sinceramente i mulher: «Es- 
tiveno Clube com Fulano eMIIe. une telle. ..ti 
Arderia Troya. De sorte que elle mente, para 
nao desgostar a esposa, inimiga da verdade . 
Mais ainda: que mal havera em que um rapaz 
casado, estando na cidade e tendo de fazer 
horas, em vez de ir beber nos bars^ vd a um 
cinema? Nenhum. Mas esse rapaz, ao chegar 
a casa, nao pode dizer a esposa que esteve 
num cinema, porque ella chorard logo : «Sem 
mim ! » E suppora horrores do marido . . . Por 
isso digo : todo trabalho que as maes t^m, 
quando somos pequenos, para nos fazerem 
amar a verdade, e todo destruido pela que 
tem de ser a mae dos nossos filhos. Mentimos, 
porque ellas o exigem ... 



Odio de raga 



O estudante Jose Basilio Junior, filho de 
modesto guarda-freio da E. F. Central do 
Brasil, alvejou com um tiro de carabina, cer- 
teiro e mortal, ao joven Rosendo Pereira de 
Figueiredo, rapaz honesto e trabalhador, func- 
cionario dos Telegraphos. Rosendo era noivo 
da senhorita Lucia, irma do assassino . Este 
detestava o futuro cunhado (a quern a irma 
idolatrava) por ter elle uma nodoa impossivel 
de apagar-se : era mulato ! Ora ahi estd um 
crime estupido e inedito no Brasil. Pelo me- 
nos, desde que me entendo por gente, ainda 
nao ouvi falar de coisa semelhante : um estu- 
dante matar o futuro marido de sua irma, so 
porque elle teve a desgra9a de nascer mulato 
numa terra em que raros nao o serao . . . Esse 
assassino, tao cioso da pouco provavel pureza 
de seu sangue, devia ter considerado uma hy- 
pothese : si os mulatos resolvessem cagar os 



192 VERDADES INDISCRETAS 

brancos,como elle fez com seu future cunhado, 
em pouco tempo nao haveria no Brasil uma 
s6 pessoa que podesse apresentar certidao de 
pelle alva ; porque os branco no Brasil estao 
em minoria. Eis ahi um assassino mais aris- 
tocratico do que D. Pedro II. E' conhecido o 
caso de Andre Rebougas num baile daCorte. 
Achava-se o illustre Rebougas a um canto do 
vasto salao do Pago Imperial, onde era fre- 
quentemente recebido pelosoberano e todaa 
sua Augusta Familia. Achava-se, pois, Re- 
bougas a um canto do salao, insulado, sem 
achar uma dama que Ihe quizesse dar a honra 
de uma valsa, porque elle era mulato, quasi 
preto . Parece que a noticia desse desprezo 
chegou aos ouvidos do sr. D . Pedro II ; seja 
como for, dahi a pouco Sua Magestade atra- 
vessava o salao, trazendo pelo brago a S . A . I. 
a Sr^ D. Izabel. com quem Rebougas dansou 
a primeira contra-dansa, e depois nao dansou 
com mais ninguem, pois, tendo dansado com 
a sua futura soberana,era evidente nao poder, 
depois disso, descer a dansar com qualquer 
baroneza, ou com qualquer condessa. Era 
assim que o imperante sabia desfazer precon- 
ceitos de cor — consentindo em ver publica- 
mente pelo brago de ummestigo illustre a sua 
Filha, a unica fidalga authentica do Imperio, 
cuja arv'ore genealogica podia ser acompa- 



ODIO DE RACpA . . . 193 

nhada numa concatena9ao de nove seculos 
ininterruptos de existencia historica. Era pre- 
cise que estivessemos em Republica para que 
o filho de um guarda-freio matasseum rapaz 
por ser mesti90 ! Como si a mesti9agem nao 
estivesse tambem, e em larga eseala, entre os 
brancos, como dizia Luiz da Gama : 

B6des ha de toda a casta, 

Pois que a especie e mui vasta ; 

B6des brancos, b6des pretos, 

Baios, pampas e malhados : 

B6des ricos, negociantes, 

E tambem alguns tratantes . . . 

Ora assim sendo, o melhor e seguir o 
conselho do mesmo poeta, quando manda 
cessar a matinada «porque tudo e bodar- 
rada ! » 



13 



Suicidios 



O caso foi simples. Em Sete Lagdas (Mi- 
nas), diz o telegramma, um mogo gostava de 
uma moga, que Ihe correspondia ao affecto . 
O irmao della, porem, n5o quiz consentir no 
casamento. O rapaz, desvairado, bebeu ve- 
neno e morreu. Em Minas ainda e assim que 
se resolvem casos de amores infelizes. Serd, 
porem, essa a melhor maneira de resolvel-os? 
Parece que nao. O suicidio, em circumstancia 
como essa, e inutil. Si a mo9a queria casar-se 
com elle, o modo mais simples de dirimir as 
difficuldades seria raptal-a e leval-a d presen9a 
do juiz de paz, como la dizem, ou do pretor, 
como se diz por ca. Si ella nao o amava, ain- 
da havia outros caminhos a seguir : elle podia, 
por exemplo, erguer as maos para o ceo, em 
acgao de gramas, por ter querido enfeudar a 
sua liberdade a alguem, e esse alguem o ter 
deixado livre . . . Podia tambem procurar o 



196 VERDADES INDISCRETAS 

amor de outra mo^a. Nao ha antidote mais 
efficaz para curar um homem do veneno de 
uma mulher como o veneno de outra mulher. 
E' mais ou menos o que se poderia chamar 
«curar a dentada da cadella com o pello da 
propria cadella. » Males de amor curam-se 
com outro amor. A Natureza deu acada mu- 
lher o odor di femina, que e differente em 
cada uma ; de sorte que o perfume de Maria 
nos faz esquecer facilmente o perfume de 
Zulmira, a nao ser que o amante, o marido e 
o namorado sejam como o asno, que se acos- 
tuma a receber a ra<;ao numa baia e nao pro- 
cura outra. O homem que nSo se apega a mu- 
lher alguma nao e voluvel, nem inconstante : 
6 simplesmente sensato e amigo de si mesmo. 
E si n6s mesmos nao nos dispuzermos a ser 
nossos amigos, difficilmente encontraremos 
quem o seja. . . 



O feminismo periga 



A continuarem as coisas como vao, o fe- 
minismo, pelo menos no Brasil, nao trium- 
phara tao cedo. Eu sempre fui contrario a in- 
tromissao das mulheres na vida publica. Uma 
mulher politica e um estado intermedio entre 
o homem e a mulher, que nao se compre- 
hende. E' mulher, por fatalidade de gera^ao ; 
homem, por extensao de privjlegios politicos; 
eternamente creanga, pelas attitudes ; em re- 
sumo — um ente hybrido, composto, deriva- 
do, de estylo composito, trazendo em si peda- 
gos de varios entes e nao sendo nenhum defi- 
nidamente. Mulher que exergadireitos politi- 
cos, nSo sendo rainha, tambem nao e ente 
humano : e um estado de consciencia corres- 
pondente : a perplexidade . . . 

Em todo o caso, momentos houve em 
que me senti mais ou menos feminista: era 
quando eu considerava um pouco na desho- 



198 VERDADES INDISCRBTAS 

nestidade masculina, em materia de dinheiro. 
Innegavelmente, as mulheres sao mais escru- 
pulosas em questoes de dinheiros alheios. Ge- 
ralmente, pensava eu, os homens roubam 
para as mulheres. Ora, no dia em que collo- 
carmos as mulheres a frente dos negocios 
financeiros do Estado, ja nao havera roubos, 
porque uma mae de familia, que seja por 
exemplo, ministra da Fazenda, nao roubara 
para dar chapeos a uma prostituta — o que 
bem poderia acontecer si fosse seu marido o 
ministro. Suppunha eu ter achado com isso a 
formula para acabar com os peculatos ! 

Vae d'ahi, comecei a observar o proce- 
dimento das mulheres que estao at^sta de 
repartigoes por onde corre dinheiro. Vejo, en- 
tretanto, que o peculato continiia a existir. 
Oh ! longe de mim dizer que todas as mulhe- 
res sejam eguaes, pelo menos em questoes 
de furto; mas a verdade e que estao sen do 
muito mais frequentes do que se esperava os 
casos de desfalques em agendas postaes diri- 
gidas por senhoras. A policia anda por ahi ds 
voltas com alguns nao so aqui como no inte- 
rior. 

D'onde eu concluo que a entrada das 
mulheres para a politica e para a administra- 
^ao do paiz, alem de trazer graves damnos a 
familia, nao offerece vantagem alguma i. coisa 



O FBMINISMO PBRIGA. . . 199 

publica. Os vicios continuarao a ser os mes- 
mos. Ora, uma vez que assim e, fa9amol-as 
voltar tranquillamente ao lar e deixemo-nos 
<ie innovagoes. Collocar as mulheres no logar 
<ios homens, para que ellas procedam exacta- 
anente como os homens, nao vale a pena. . . 



Pacifism 



A morte do feld-marechal von Moltke faz 
pensar no paradox© que representara a nossa 
epoca para as epocas futuras, si algum dia vin- 
garem as id^as pacifistas. Ainda ha quern 
acredite no ideal pacifista. O sr. Teixeira 
Mendes, por exemplo, quando escreve assuas 
costumeiras cincoenta columnas do Jornal do 
Commercio, nao se esquece de affirmar que o 
periodo guerreiro passou, tendo terminado 
definitivamente na batalha de Lepantho ! R 
mais, que a humanidade caminha a passos de 
gigante para a realisagao dos ideaes positi- 
vistas, um dos quaes e a paz! Ainda ha, pois, 
quern acredite nos ideaes pacifistas... Ora si 
vingarem esses ideaes, em epoca de futura 
muito remoto, a posteridade deve fazer de nos 
uma idea muito approximada da que fazemos 
nos outros dos nossos antepassados das eras 
quasi primitivas. Que barbaros, que selvagens,. 
esses avoengos ! 



2Q2 VSRDADBS INDISCRBTAS 

Mas o melhor e nao fallar mal dos nossos 
ancestraes. Todas as biographias do conde de 
Moltke, hoje publicadas, trazem esta phrase: 
(fFoi commandante da Escola de Guerra.)) Jd 
pensaram na monstruosidade que representa 
isto — Commandante da Escola de Guerra f 
Uma escola de guerra e simplesmente um es- 
tabelecimento em que se recolhem durante 
alguns annos centenas de rapazes das me- 
Ihores familias do seu paiz para aprenderem 
OS melhores processos de matar muita gente, 
de incendiar muitas cidades, de devastar mui- 
tas regioes . . . E ha um cidadao que e no- 
meado commandant^ideste estabelecimento, 
isto e, um cidadao que e mestre na arte de 
matar, incendiar e devastar ! 

Agora pergunto eu: quaes os selvagens? 
Os nossos antepassados, que se guerreavam 
por instincto, ou n6s que temos ate escolas de 
guerra? 

Decididamente estamos ainda muito lon- 
ge do ideal positivista. Emquanto ninguem 
sentir horror ao ouvir fallar de uma escola de 
guerra, emquanto acharmos muito natural que 
um homem seja « commandante da Escola de 
Guerra 0, estara muito distante de nos o aper- 
fei9oamento que Augusto Comte previu para 
a humanidade. . . 



A policia e espiritismo 



Os homens eram espiritistas e recebiam 
na sua casa alguns mentecaptos para os cura- 
rem, isto e, mentecaptos, em calao espiritico, 
chamam-se obse dados ... 

Os espiritas, pois, recebiam na sua casa 
sujeitos obsedados para Ihes curar a obsessao 
mediante mensalidade que variava entre cem 
e trezentos mil reis. A policia veio a saber que 
OS taes obsedados eram espancados pelos es- 
piritas em nome das mais altas e sublimes 
doutrinas de Allan-Kardec e Leon Denis . A 
policia o soube, foi a casa dos homens que 
lidam com espiritos e levou tudo para a ca- 
deia. Agora gritam que o chefe foi violento . 
Eu, por^m, te pergunto leitor, si fosses chefe 
de policia e nao fosses espirita, que farias ? 
Serias violento ou nao ? 

Quanto a mim, nao vejo outra maneira 
de combater o espiritismo sinao pela violen- 



204 VERDADES INDISCRETAS 

cia. E' o systema geralmente adoptado para 
esmagar seitas religiosas, que afinal acabam 
vencendo os seus pretendidos vencedores. 
Com o christianismo foi assim. Assim tambem 
com o islamismo e com o judaismo durante 
toda a Edade Media — o que nao impediu o 
islamismo e o judaismo de estarem ahi vivi- 
dos e fortes . A violencia e, pois, o unico 
meio, alias innocuo, de perseguir seitas reli- 
giosas. O roubo, o assassinato, o lenocinio e 
outros crimes communs podem ser persegui- 
dos normalmente, dentro daspresilhas do Co- 
digo. Crimes politicos e crimes religiosos, nao. 
Exigem violencia, porque os seus asseclas 
agem directamente sobre a consciencia das 
multid5es . 

Demais, a violencia tem de ser applicada 
aqui no Brasil todas as vezes que se quizer 
fazer qualquer coisa util; porque neste paiz 
nao ha apenas, como^m outros, mil chica- 
nas para burlar as leis; ha tambem mil leis 
que ajudam a burlar as outras. Querem um 
exemplo.'* O Codigo Penal pune a pratica do 
espiritismo, como a da feiti^aria: a Constitui- 
9ao, porem, garante a liberdade profissional . 
De sorte que, si um juiz prender um espirita 
de accordo com o Codigo, outro juiz mandard 
soltal-o de accordo com o Pacto. E ainda per 
cimavird osr. Teixeira Mendes com um ar- 



A POWCIA K O ESPIRITISMO 205 

tigo de 420 tiras, pugnando «pelos supremos 
direitos da Humanidado) e bombardeando 
toda a gente com terrificas cita9oes de Au- 
gust© Comte, a favor do espiritismo como 
livre expressao do pensamento, oriunda da 
aanarchia mental e moral do Occidente... 



Lopes Trov&a 



Noticiam largamente os jornaes o anni- 
versario do velho propagandista Lopes Tro- 
vao, que completa setenta annos como 
se fizesse apenas quarenta ou quarenta e cinco. 
Boa seiva, a de outros tempos. Lopes Trovao 6 
um dos paes da Republica, tern setenta annos 
e, apezar disso, esta mogo. A sua filhatem ape- 
nas vinte e sete annos e . . . esta decrepita . 
E' que Lopes Trovao, como todos os de sua 
geragao, teve um ideal, e nada mais tonifi- 
cante do que um ideal, seja qual f6r. Sua fi- 
Iha, pelo contrario, materialisou-se, bestificou- 
se em todas as farras, em todas as esbornias 
de que e capaz uma filha do povo ... 

Entrevistado pela Gazeta, disse Lopes 
Trovao que continua a ter fe na Republica, 
apezar de nao crer nos homens . . . Quern 
diria que este livre-pensador, este atheu dos 
quatro costados (atheu por nuncater vista 



208 VERDADBS INDISCRETAS 

Deus. . .) fosse capaz 6s,fe do carvoeiro em 
se tratando da Republica?. . . Porque Lopes 
Trovao estd no mesmo estado de espirito do 
catholico que, apezar de conhecer a fraqueza 
dos padres, continua a ter f^ na missa, nos sa- 
cramentos, em toda a Religiao, emfim . « A 
Religiao e divina, dizem elles ; os homens e 
que sao fracos ». Vem Lopes Trovao com o 
mesmo candido argumento e nos affirma : a A 
Republica e b6a ; os homens e que nao pres- 
tam ...» Fetichismo, supersti9ao de ambos 
os lados . . . Ainda os catholicos tem um sub- 
terfugio admiravel, quando proclamam a di- 
vindade da sua religiao. Lopes Trovao, que 
nao admitte a divindade, affirma: « A Repu- 
blica e humana, por ser filha dos homens ; 
ora OS homens nao prestam ; logo a Republica 
e b6aU Como se ve, o syllogismo esta erra- 
do, por ser a conclusao contraria is premissas. 
Como corrigil-o? Assim: a A Republica e fi- 
lha desses homens; ora esses homens sao 
maus; logo a Republica e ma» . Porque ? 
Porque o effeito e semelhante a causa. Mala 
gallina, malum ovum. . . 



No cafe 



Jd bem tarde da noite, entro num cafe . 
Concorrencia heteroclita: motoristas, nocti- 
vagos, rep6rteres em disponibilidade, proxe- 
netas com um vago ar de apaches de cinema, 
e, ao fundo, tres raparigas magrellas, pallidas, 
de olheiras, tres Mimis anemicas como a par- 
titura da Bohemia. 

A uma das mesas esta um rapazola fran- 
zinote, dezoito annos presumiveis, solitario, 
sorvendo um refresco. Nisto entra no caf^ 
outro rapazola, d'ares mais sadios e apparen- 
tando a mesma edade. Olha o que esta assen- 
tado, approxima-se cautelosamente e, colhen- 
do-o pelas costas, colloca-lhe as maos sobre 
OS olhos, para que o outro adivinhe quem e. 
O aggredido forceja por tirar dos olhos a im- 
prevista venda, mas o assaltante leva a me- 
Ihor. Durante alguns minutos, brincam, ate 
que o aggredido, conseguindo desvencilhar-se, 

14 



210 VBRDADES INDISCRBTAS 

reconhece, a sorrir, o seu assaltante, que se 
abanca a seu lado, depois de abra9al-o. Con- 
versam, riem, bebem. Quern paga a nota e a 
outro, isto ^, o primitivo, o aggredido. 

Quantas vezes, no correr da vida, um 
delles tera de vendar os olhos ao outro ! Um 
dia, talvez esse Undo ephebo aggressive, de- 
pois de vendar moralmente os olhos do seu 
amigo, beije nos labios e ame a esposa delle \ 
E continuarao a ser amigos ; e continuarao a 
assentar-se a mesma mesa; e continuarao a 
sorrir-se, e o mundo sorrira tambem ! E sera 
sempre o outro, o aggredido, o tranquillo,. 
que pagara as despesas? Talvez, nao. Dessa 
feita o pagante talvez seja o aggressor. . . 



Dois bons amigos 



Nao deixemos passar sem commentario 
enternecido o caso do soldado de cavallaria 
que, antes de morrer, escreveu disposi96es 
ultimas a respeito do seu cavallo. Chamava-se 
Gonzaga, dizem os jornaes, e falleceu hacerca 
de quatro dias no Hospital Central do Exer- 
cito. Tinha vinte e um annos de praga e ha 
doze annos era acompanhado porum cavallo, 
por quern tinha amizade, mas amizade verda- 
deira. Sentindo approximar-se a morte, o ve- 
Iho Gonzaga pedio papel e escreveu ao com- 
mandante do seu esquadrao: «Meu bondoso 
capitao — O meu unico desejo e que, depois 
da minha morte, o cavallo da minha montada 
seja entregue somente a uma pra9a que d6 a 
elle o mesmo tratamento que eu Ihe dei em 
vida.D E' tao bello isto, que a gente chega a 
nao acreditar na veracidade das noticias que 
o divulgaram. Esta sensibilidade de um velho 
soldado, que antes de morrer declara que seu 



212 VERDADES INDISCRETAS 

wunico desejoB e que seu cavallo e amigo seja 
bem tratado emquanto viver, esta sensibili- 
dade espanta a quern vive no meio de uma 
sociedade tao feroz como a nossa. Aindaha 
poucos dias, um tenente deu tiros de revolver 
na sua mulher, porque verificou ser atraigoado 
por ella. Que contraste entre a mulher e o 
cavallo! Emquanto o official, sentindo-se tra- 
hido, baleava sua companheira de todos os 
dias, a que compartilhava a sua mesa e o seu 
leito, a que usava o seu nome, o soldado, 
quasi na agonia, pensava : «Meu pobre ca- 
vallo, tao bom! Que serd delle quando eu 
morrer?» E nao resistiu ao tormento de pen- 
sar que seu amigo podesse ser maltratado al- 
gum dia. E escreveu ao capitao as poucas li- 
nhas publicadas, simples como a sinceridade, 
commovedoras como a esmola dada por uma 
creanga . . . Ah ! cavallo que conseguiste con- 
quistar todo o affecto do teu rude e leal se- 
nhor! Nobre animal, quantos homens te 
invejarSo hoje? Entre tantos animaes, ditos 
intellectivos, mas que parecem ter nascido 
com garras na lingua e viboras no cora^ao, 
que difficil e encontrar um como tu, um que 
saiba ser amigo ! Vantage ns de ter nascido 
quadrupede em vez de bipede, e de nao ter 
em si esse quid mysterioso e trai9oeiro que e 
a alma humana . . . 



Casadas e soiteiras 



Com o sr. Prefeito e assim: preso por 
ter cao, preso por nao ter cao , Ha tempos 
constou que S. Ex. pretendia afastar do pro- 
fessorado da Escola Normal os rapazes sol- 
teiros. Parece, porem, que essa medida nao 
se effectivou por antipathica. Vem constando 
agora que o governador do Districto pretende 
afastar do ensino primario as senhoras casa- 
das! Por esta ninguem esperava. Sob o as- 
pecto pedagogico, talvez uma casada seja mais 
idonea para ensinar as crian9as do que uma 
solteira ; a primeira — suppoe-se pelo menos 
— )^ tem, como se diz, o «juizo assentado» ; a 
segunda ainda anda com a cabega no ar, em 
busca de quem realise o seu destino . . 

Ninguem acredita que o sr. Prefeito 
queira levar por deante tao extravagantes in- 
tengoes; mas, si por ventura S. Ex. quizesse 
realmente executar o que consta, seria em 



214 VERDADKS INDISCRBTAS 

parte um santo e em parte um demonio, um 
mixto de Santo Antonio e Lucifer . Aquelle 
santo 6y como se sabe, o grande protector das 
solteiras; ora, o Prefeito, favorecendo as sol- 
teiras com a preferencia para os logares de 
professoras, teria certos vislumbres de santi- 
dade, certos tragos de semelhanga psycholo- 
gica com o santo ; mas — ao mesmo tempo 
que Ihes dava emprego, prohibia-lhes convo- 
lare ad nupcias — o que seria positivamente 
diabolico, tantalico . . . O resultado de tudo 
isso e que S. Ex. ficaria de mal com as casa- 
das e com as solteiras: com as casadas, por 
fties tirar o pao, alem do divertimento de en- 
sinar a petizes; com as solteiras, por Ihes dar 
o pao e prohibir-lhes o amor. Ora, nao s6 de 
pao vive uma mulher, quando e m69a . . . Do 
que tudo se conclue que S. Ex., ponderando 
estas e outras razoes, deixara as professoras 
como estao. E para terminar com uma nota 
de perfeita imparci alidade, declaro que nao 
sou marido de professora nem candidate ane- 
nhuma. . . 



A desvantagem do nome. 



Sophia Klein e tida como judia, por se 
chamar Sophia e fallar polaco. Pelo nome 
Klein deve ser judia allema. Uma mulher de 
raga hebraica, chamada Sophia que falla po- 
laco e teve pensao na rua do Cattete, anda 
com um pe na rua da Amargura e outro napo- 
licia. No Brasil uma mulher estrangeira nunca 
deve acudir pelo nome de Sara, Ruth, Rachel e 
outrasdenominagoesbiblicas. Si uma mulher 
usa de taes nomes e carrega nos rr e troca s 
por^, pronunciando, por exemplo, zympa- 
thico em vez de sympathico, p6de ser uma 
santa, que a santidade da sua vida nao a im- 
pedird de ir a policia de vez em quando pa- 
lestrar amistosamente com o commissario de 
dia. A nossa maneira de encarar superficial- 
mente as coisas costuma levar-nos a concJu- 
soes singulares. A franceza talvez seja a me- 
ihor mulher do mundo, nao s6 como gra^a e 



216 VERDADES INDISCRBTAS 

vivacidade de espirito, mas ainda como since- 
ridade, lealdade para com o homem a quern 
ama, e todauma collecgao de pequenas minu- 
cias d'alma que nao podem deixar de seduzir 
um homem civilisado e intelligente. Entre- 
tanto, como geralmente ao Brasil aportam, 
com escala por Buenos Ayres, francezas des- 
tinadas ao corte, ficamos nos a pensar queto- 
das sao eguaes. Desorteque, quando se diz 
— Vamos ver as francezas — ja se sabe de 
que se trata. Em S. Paulo, na parte que limita 
com Minas, quando se deseja fazer uma par- 
tida de alegria, costuma-se dizer, segundo me 
informou um amigo : — Vamos ver as minei- 
ras. Entretanto, sabe-o toda a gente, si ha 
no Brasil mulher de costumes rigidos, e indu- 
bitavelmente a mineira. As excepgoes s6 po- 
dem servirparaconfirmararegrageral. Assim 
tambem, quando se diz, de uma estrangeira, 
que e russa, polaca, ou hungara, ja todos pis- 
cam OS olhos com malicia. Si Santa Edwiges, 
rainha da Polonia, e sua sobrinha Santa Izabel 
da Hungria viessem ao Brasil, e fallassem car- 
regando nos rr e confundindo o masculino 
com o feminino, ficariam logo sob a vigilan- 
cia da policia e da reportagem. O mesmo se 
del com individuos cujos nomes terminem em 
off, insky, owsky e iesky. Si o princepe Lvofif 
e o sr. Kerensky tentassem desembarcar no 



A DESVANTAGEM DO NOME... 2l7 

Rio, sem apresenta96es diplomaticas, talvez a 
Policia Maritima Ihes embargasse o passo im- 
pressionada pela terminagao dos seus appelli- 
dos. Si o desejo de rir operasse milagres, eu 
resuscitaria Sobiesky e Kosciusko e os faria 
vir incognito 2iO Rio de Janeiro. Aqui chega- 
dos, o sub-inspector da Policia Maritima iria a 
bordo do seu navio e, depois de sapiente- 
mente Ihes examinar os papeis, entabolaria 
com elles o seguinte dialogo : 

— Seu nome ? 

— Joao Sobiesky. 

— Polaco ? 

— Sim, senhor. 

— Sua profissao ? 

— Homem de Estado, general, rei da 
Polonia em disponibilidade. 

— Hein? 

— Sim, senhor! Fui eu que salvei a ci- 
viHsa9ao christa, rechassando os turcos e os 
tartaros. 

— Qual ! Voce o que e e um bom maxi^ 
malista. E o senhor ahi como se chama ? 

— Thomaz Kosciusko. 

— Kosciusko ! Que nome ! Sua profis- 
sao? 

— General e patriota. Fui eu que, coni 
4.000 polacos, venci 20.000 russos em Zie- 
len^a. 



218 VERDADES INDISCRETAS 

— Ora adeus! Seu commandante, metta 
estes dois proxenetas num camarote com sen- 
tinella i. vista. 

Sobiesky e Kosciusko podiam protestar 
quanto quizessem. O homem da Policia Ma- 
ritima permaneceria inabalavel na sua resolu- 
^ao. E quando Ihe pedissem os motivos por 
que vedava o desembarque a esses dois gran- 
des homens, elle responderia convictamente: 

— Desses tenho eu visto muitos aqui . 
Basta reparar-lhes nos nomes. Dm sujeito 
chamado Sobiesky ! Isso nao pode deixar de 
ser um explorador de escravas brancas . . . 

Foi por causa do nome que Sophia Klein 
se tornou suspeita. Os jornaes tern tratado do 
seu caso, que e simples. Sophia montou uma 
pensao na avenida Atlantica. Para dar hospe- 
dagem a familias distinctas. O seu processo 
de adquirir lucros era um pouco violento, 
posto que, na essencia, nao muito diverso do 
geralmente adoptado pelas proprietarias de 
pensoes familiares, Ella comegou per nao pa- 
gar os impostos devidos aoMunicipio. Depois 
tomou como norma commercial a seguinte : 
recebida adiantadamente, de cada pensionista, 
a paga correspondente ao mez, fazia tudo 
quanto podia para desgostal-o, afim de que 
elle se retirasse antes de vencido o mez ; o 
seu lucro consistia em nao restituir a differen- 



A DESVANTAGEM DO NOME. . . 219 

9a ao prejudicado . Saindo um pensionista, 
entrava outro que, depois de quasi enlouque- 
cer com o ruido e o mau passadio da pensao, 
por sua vez tambem se retirava, deixando la 
com a Klein o pagamento integral da mensa- 
lidade. Succedeu, entretanto, ir morar na 
pensao de Sophia uma senhora franceza, ca- 
sada com um inglez, dizem uns, com um alle- 
mao, dizem outros. Sophia recebeu adiantado 
o pagamento relativo a um mez e deu inicio a 
sua offensiva habitual: ruido, carnecrua, falta 
de asseio nos aposentos, etc., etc.. Como se 
tratava de uma franceza, Sophia adoptou ain- 
da outros methodos tacticos: incumbiu alguns 
polacos de fallar mal da Franga na presen9a 
da pensionista. Ora, uma franceza permitte e 
perdoatudo, menos desconsiderar a Franga. 
E' exactamente um dos defeitos das francezas: 
serem francezas demais. Pode a franceza estar 
a noite, no meio de rapazes, bebendo e tro- 
^ando; ninguem ousara maldizer da Franga 
na sua presenga, sem que ella immediatamente 
tome ares de grande dama para dizer, fazendo 
rolar com superioridade os rr na garganta: 

— Oh! on voit bien que vous ne conais- 
sez pas la Frrance, Monsieur/ 

Assim que, estando uma tarde os pola- 
cos a dizer que a Franga nao tinha vencido a 
Allemanha, a franceza protestou; e desse pro- 



220 VERDADES INDISCRETAS 

testo patriotico nasceu urn conflicto internacio- 
nal em que a Polonia — deuses do Olympo ! — 
castigou a Fran9a a murra9as! A franceza 
operou um recuo estrategico e, nao podendo 
ainda appellar para a Liga das NagSes, foi 
queixar-se a policia. Aqui entrou em campo 
areportagem e descobrio coisas phenome- 
naes a respeito de Sophia Klein. Entre ou- 
tras coisas, desvendara elles : 

que Sophia teve uma pensao na rua do 
Cattete; 

que Sophia nao pagou o aluguel da casa; 

que Sophia caloteou o padeiro, o ven- 
deiro e o a90ugueiro. 

Ora, pensando no caso, nao posso tra- 
tar tao severamente a Sophia. Ella recebia 
OS pagamentos adiantado e depois desgos- 
tava OS hospedes. Mas isso e commum 
a todas as donas de pensao. Apenas So- 
phia agiu de modo directo, ao passo que as 
outras donas de pensao agem de modo in- 
directo, tendo um cao que ladra a noite, mo- 
9asque estudam piano pela manhan, crian9as 
muito galantes que tocam cornetins, cavalhei- 
ros que cantam arias da Tosca durante o ba- 
nho, etc., etc.. Alem do mais, Sophia Klein 
tem um titulo de benemerencia : logrou o pa- 
deiro, o quitandeiro, o vendeiro e o a90u- 
gueiro. Esta senhora, apezar de estrange!- 



k DESVANTAGEM DO NOME. . . 221 

ra, estd-me parecendo nacionalista. Conse- 
guiu uma coisa que ate agora so tern sido 
possivel a intendentes municipaes e senado- 
res da Republica ; nao pagar o devido ao 
agougueiro e ao vendeiro. E', pois, uma crea- 
tura patriotica, que contra si s6 tern duas coi- 
sas : o nome de judia e muitos rr fortes na 
garganta. Si, em vez de carregar nos rr e 
chamar-se Klein, fallasse com rr brandos e se 
chamasse Dona Maria Sampaio, nao teria 
tanta gente a gritar contra ella . . . 



Agitando um pello! 



O Prefeito nao encontrando homem que 
se aventurasse a dirigir o pandemonio da Es- 
cola Normal (tanto e estafante lidar com mu- 
Iheres!) resolveu appellar para uma senhora 
a quern acaba de nomear para exercer o cargo 
de directora daquella casa. E' de esperar que 
dagora em deante a Escola entre nos eixos ; 
e que, brevemente, as meninas tenham sau- 
dades dos directores barbados . . . 

Individualmente, nadatenho que dizer a 
respeito da senhora nomeada directora. Mas — 
e com todas as cautelas possiveis — e mulher. 
Ora, segundo observa96es que tenho feito, o 
ente mais intolerante que ha para com uma 
mulher.. . e outra mulher. Pode ser uma santa : 
na presenga de outra santa, mostra logo os 
dentes. Nao e por mal, nao ; e por instinct© . 
N6s, homens, mau grado os nossos defeitos, 
somos mais ou menos bons uns para com os 



AGITANDO UM PEI,I,0 ! 223 

outros..Mulheres, tenho conhecido algumas 
b6as para com os homens, que nem sempre o 
merecem. Conhe^o patifes casados com san- 
tas. Mas uma coisa que ainda nao vi : mu- 
Iher que fosse integralmente b6a para com 
outra mulher, a nao ser a mae para a filha, e 
irman para com irman. Entre si, tem sem- 
pre alguma coisa a allegar umas contra as ou- 
tras. Jarepararam nellas, quando vao nos bon- 
des, quando estao nos cinemas, nos theatros 
e nas egrejas? Esta, por exemplo, uma mu- 
lher num bonde. Si entra um homem e vem 
assentar-se no mesmo banco, ella Ihe da pas- 
sagem, geralmente sem mostras de gentileza, 
mas tambem sem revelar ma vontade. Si e 
uma mulher que entra, a outra franze o so- 
brolho e nao afasta os joelhos, so paradifficul- 
tar a entrada a intrusa. Esta — esbarra aqui, 
pede licenga ali — assenta-se... Entao, ambas 
se olham disfargadamente e, comonaopodem 
manifestar-se o seu mutuo desprezo por ou- 
tra forma, afastam uma da outra os sens vesti- 
dos . . . Nao sei donde nasce essa animosi- 
dade de gatas que ha entre ellas. O certo e 
que nos, homens, si entramos num bonde, 
saudamos uns aos outros com um toque de 
mao na aba do chapeo — o que me induz a 
crer que somos muito mais cortezes do que 



224 VERDADBS INDISCRETA.S 

ellas. Esta particularidade nao escapa as es- 
trangeiras. Uma estrangeira me perguntava 
ha tempos : 

— Como se explica, que, recebendo os 
rapazes e as raparigas a mesma educagao em 
familia, sao neste paiz os rapazes tao delica- 
dos e as mogas tao pouco gentis? 

Eu respond! que, nao sendo muito forte 
em materia de educa^ao domestica e de psy- 
chologia feminina ignorava as razoes da 
differen9a. Entretanto, nao pude negar o 
facto. . . 

Mas este capitulo nao tern por objectivo 
deprimir asmulheres para exaltar os homens, 
apezar de ser em mim inabalavel a convic9ao 
da nossa absoluta superioridade physica, in- 
tellectual e moral sobre ellas. O meu assum- 
pto e outro. 

Um jornal, noticiando o provimento 
da alludida senhora no cargo de directo- 
ra da Escola Normal, dizia que ella, es- 
tando na Prefeitura, sorrio muito modesia, 
cheia de symbolos, e agitando um pello que tra- 
zia ao pescogo e cujas pontas Ihependiam sobre 
OS hombros, numa grande cruz de ouro, numa 
grande allusdo muda d miss do de director a da 
Escala Normal. 

Palavrade honra, li, reli, tentei interpre- 
tar, reflect! e... nao sei si tere! entendido. 



AOITANDO UM PEU.O I 225 

Em primeiro logar, aquillo de uma se- 
nhora estar ffcheiade symbolosjj. Que symbo- 
los ? Onde? Como ? De que processes opttcos 
se terd soccofrido o olho arguto do reporter 
para descobrir na dama esses reconditos sym- 
bolos ? Seriam naturalmente symbolos da in- 
struc9ao. Mas,nesse caso, teriamos de adihittir 
que a nova directora compareceu i. Prefeitura 
•coberta de livrinhos, canetas, reguas, talvez 
mesmo algumas palmatorias em miniatura, 
apenas como recorda9ao historica, ji. se^ v^... 

Depois vem o resto : agitando um pello 

^ue trazia ao pescogo e cujas pontas pendiam 

sobre os hombros numa grande cruzde onrOt 

numa grande allusdo muda d missdo de dire- 

' <tora da Escola Normal. 

Nao p6de ser pello, matutei eu ; deve 
ser pelle. Mas nao ! Nao podia ser pelle, por- 
qu^, estando quente o dia, trazer pelle com 
tal temperatura nao seria normal. 

Seria polo ? Tambem nao. Porque, si 
ella agitasse um polo, teria agitado tambem o 
outro e n6s soffreriamos as consequencias do 
terremoto . Depois, que me conste, ninguem 
pode trazer um pok) ao pesco^o . 

^ Seria pulo? Impossivel. Ninguem £^a 
um pulo. O homem se agita, a Humanidade 
o conduz,e elle piila : mas o agitado € ^le, ri§o 
o pulo. Portanto, conclui cd commigo, o que a 

IS 



226 VKRDADES INDISCRKTAS 

directora trazia ao pescogo era real me nte un» 
peilo. Um reporter a cujo olhar penetrante nao 
escaparam os symbolos, de certo nao se enga- 
naria a proposito de um simples pello . 

Ha comtudo nesse pello tres pontes im- 
pressionantes : 

1°) — A singularidade : porque, um peiio 
so, isoiado, solus, totus el unus, em vez de. 
mais de um ? Exquisito, profundamente ex- 

quisito . . . 

2°) — O seu tamanho,e consistencia : urn. 
pello que, partindo do pesco90, caia sobre os 
hombros, formando umagrande cruz de ouro I 
Isto e mais mysterioso do que o IncognoscU 
vel de Spencer. Fujamos. . . 

3^ ) — Esse enorme e isoiado pello, que„ 
partindo do pescogo, caia sobre os hombros e 
formava uma grande cruz de ouro, era, nada 
mais, nada menos, que a uma grande allu«aa 
muda a missao de directora da Escola Nor- 
mal ! Mas que rela9ao podera haver entre a. 
Escola Normal e um pello ? 

Aqui, fatigado de tao profundo meditar». 
deixeipender afronte pensativa e fiz, perante 
Deus, um acto de renuncia. Renunciei a des-^ 
vendar o formidavel segredo . Em casos taes> 
o melhor e ser a gente positivista, isto e, nao 
procurar nem a causalidade nem a finalidade 
dos phenomenos. Ha no Hospicio muitos sa- 



AGITANDO UM PEI.I.O ! 227 

bios que procuraram explicar problemas indu- 
bitavelmente mais claros e, entretanto, li. es- 
tao. E eu nao pretendo dar trabalhos ao dr. 
Juliano Moreira e ao dr. Humberto Gotuzzo 
— ambos muito bons camaradas, muito meus 
amigos, mas . . . elles la e eu aqui . Nada de 
pilherias. Nao convem abusar das circumvolu- 
goes cerebraes . . . 

Todavia — s6 para concluir — aquelle 
pello deve servir de ligao aos barbados da Es- 
cola Normal. Si o ex-director sr. Ignacio Ama- 
ral, em vezde fazerumrelatorio,houvesse agi- 
tado um pello dos seus varonis bigodes, teria 
sido sempre respeitado. E o mesmo se en- 
tenda do dr. Bricio Filho, cujos bigodes p6- 
dem, por si s6s, fornecer pellos para os col- 
choes de um regimento inteiro de infantaria . 



Numa Exposigao deCILes 



Chronica dedicada a todo o genero humanoy 
inclusive os ccLchorros 

Na minha qualidade de Rei da^Creagao 
fui a exposigao de caes, organisada ha dias 
passados, por outros reis da Crea^ao como eu. 

lam OS caes chegando, cada qual puxado 
pelo seu senhor, que o tinha por uma corren- 
te. Chegavam, de bocca aberta e lingua a 
mostra, e eram apresentados a certos ani- 
maes de calgas e fraque, alguns ate de lune- 
tas, OS quaes os examinavam, alisavam-lhes o 
pello, collavam-lhes ao pesco90 uma etiqueta 
e mandavam atal-os a postes fincados em ter- 
renos divididos conforme a ra9a de cada um, 
isto e, de cada um dos caes, nao dos juizes. 

Havia varias bancadas, como, por exem- 
plo, a bancada dos caes de pastor, a dos de Sao 
Bernardo, a dos irlandezes, a dos dinamarque- 



230 VBRDADES INDISCRRTAS 

zes, a dos de guarda, a dos perdigueiros e ou- 
tros, muitos delles pequeninos, felpudos, timi- 
dos, cretinos e tremulos, raga que eu prefiro 
designar pela denominagao generica de cdes 
defemeas. Sao uns caesinhos parasitas, que pas- 
sam todo o dia deitados sobre um tapete ou 
ao regago da sua dona, rogando o seu focinho 
pelo focinho della, lambendo-lhe as macs e 
por Ventura outros sitios ... 

La estavam, pois, os cSes reunidos em 
assemblea, quando cheguei ; e, sendo rei del- 
les, puz-me a olhal os com a mais irritante in- 
solencia. Alguns estavam commodamente 
deitados, calmos, langando olhares indifferen- 
tes e preguigosos para os seus semelhantes. 
Caes ricos, provavelmente. Ou talvez pobres, 
mas pensadores, porque ser pensador e uma 
das formas de disfargar a pobreza. . . 

Outros, entretanto, agitavam-se, ladra- 
vam, forcejavam por arrebentar as correntes, 
uivavam, escarvavam a terra com as unhas, 
babavam, mostravam a lingua e arreganhavam 
OS dentes. . . 

Homens e mulheres, quero dizer, deuses 
e deusas, (porque para os caes n6s devemos 
ser deuses) passavam impassiveis . 

Creio que dos deuses fui eu o unico que 
prestou attengao aos debates que se travavam 
naquella assemblea de minusculos e grandes- 



NUMA BXPOSI9X0 DE ClES 331 

sissimos cachorros. E foi assim que pude ver 
um sr. cachorro immenso, que estava deitado 
sobre as patas dianteiras, felpudo e majestoso 
<:omo um leao de Can ova, o qual devia ser o 
presidente, porque, tendo outro cao ladrado 
<ie certa forma, como quern dizia — Pela or- 
dem ! — vi esse leal cao imponente ladrar de 
outra, como quern dizia : Tern a palavra 710- 
hre deputado ! 

Depois de ter co^ado uma orelha com 
uma das patas trazeiras, comegou o orador de* 
clarando que vinha protestar contra o empe- 
nho. E' pelo empenho. dizia elle, que os 
homens sao doutores, diplomatas, militares, 
deputados, tudo quanto querem ser. Pelo 
empenho muitos adquirem fortunas colos- 
saes ; pelo empenho se casam com mulheres 
bonitas, acom essas lindas mulheres que nos 
beijam o focinho com deliciaU 

Aqui o Cao-Presidente ladrou com certa 
severidade e advertiu o orador de que a As- 
semblea dos Caes nao podia permittir que no 
seu seio se tratasse de assumptos escabrosos ; 
si isso era commum entre homens, nao ficava 
bem entre caes de b6as familias . . . 

O orador, declarando submetter-se a sa- 
bedoria da presidencia, continuou a ladrar 
x:ontra o empenho e ganiu : que o empenho, 
ja entrara tambem entre a nobre raga dos 



232 VERDADES INDISCRETAS 

caes; e, para a prova, chamava a attengao 
dos seus collegas para um cao dinamarquez^ 
felpudo, de olhos nostalgicos, que estava de 
lingua a mostra, perto de uma senhora alta 
como Pallas Athenea, de fortes ancas asiati- 
cas, de bra90S constrictores como as serpentes 
de Lacoonte, de olhos tenebrosos como os 
desesperos que nao tem fim. Aquelle cao, la- 
drou o orador, nao tinha sido matriculado na 
exposi^ao dentro do prazo legal ; chegara tar- 
de e so f6ra admittido pelo empenho de certo 
cavalheiro, intimo da tal senhora de olhos ne- 
gros, o qual cavalheiro a apresentara a um dos 
membros do jury, que se deixara logo envol- 
ver pela treva espessa daquelles olhos fataesl 
(Sensafdo). 

Olhei para o cao dinamarquez, que alias 
tanto podia ser cao dinamarquez como galgo 
russo. E' a sorte dos caes protegidos da fortu- 
na : serem sempre muito discutidos, mas, com 
clareza, nuncadefinidos... O dinamarquez con- 
tinuava tranquillamente ao lado da sua dama^ 
cujos labios me pareciam humidos como ma- 
gans partidas por alfanges, insaciaveis como a 
cubiga dos avarentos. Elle nem parecia ouvir 
a accusa9ao do patriota seu semelhante. Todo 
aquelle discurso Ihe era indifferente. O feliz^ 
animal tinha a divina impassibilidade de 



NUMA EXPOSI9AO DE CAES 233 

quern esta certo de ser, pelo menos nas appa- 
rencias, o idolo de uma bella mulher. 

O orador continuou a ganir: «Estamos 
defraudados pela entrada subrepticia desse 
e strange iro ... 

Uivos — Nao apoiado ! E* filho de estran- 
geiro, mas nasceu no Brasil! 

O cdo orador — . . . desse estrangeiro 
que penetrou neste recinto pela porta falsa 
das protecgoes inconfessaveis ! Protesto, Sr. 
Cao-Presidente, protesto contra a petulancia 
desse intruso que, nao podendo concorrer 
lealmente comnosco neste certamen, a que 
nos trouxeram os deuses, nossos senhores, 
serviu-se das saias de uma mulher para afron- 
tar OS nossos brios ! 

Um ganido — Muito bem ! Tal individuo 
nem parece cao : e antes um homem ! E' in- 
digno de ostentar a colleira que nos distin- 
gue !.. . 

Grande tumulto. Cruzam-se uivos desen- 
contrados. Violentos ladridos nas bancadas 
dos caes dinamarquezes e galgos russos . O 
sr. Cao-Presidente, de focinho ao vento, late 
e pede attenyao . Os caes policiaes fitam as 
orelhas e rosnam, mostrando as presas. 

Vozes — Retire o latido ! O orador deve 
retirar o latido ! 

O Cdo-Presidente — Attengao 1 Atten- 
9ao ! Nao foi o orador que injuriou o nosso 



234 VBRDADES INDISCRETAS 

eminente collega dinamarquez. Foi um gani- 
do differente que disse que o nosso collega 
era um homem ! Quern ganiu por tal forma 
descubra-se e retire essa expressao, que nao 
e canina. 

Um ganicio — Retire o latido. Entretan- 
to, sr. Cao-Presidente, continuo de acc6rdo 
com o orador que tao brilhahtemente vae la- 
tindo em benefidio dos supremos interesses 
da nossa ra9a ! 

Ganidos — Muito bem ! Muito bem ! Essa 
attitude, sim, e digna de caes ! O contrario 
seria proprio de homens ! 

O dinamarquez, como si tudo aquillo nao 
fosse com elle, lambia a mao de sua senhora. 
Bravo cao ! Devia ter grande influencia entre 
OS seus semelhantes : injuriado publicamente ; 
despertando essa tempestade de ataques vio- 
lentos e de adhesoes fervorosas naquelle cer- 
cado de arame, continuava olympicamente 
impassivel, a lamber a mao da bella creatura, 
a farejar Ihe os odores inebriantes, a rogar-se 
pelas saias della ! Cao sublime ! Cao minis- 
tro ! Cao estadista ! 

Com mais alguns latidos, nos quaes con- 
clamavam, como clangores de buzinas de chi- 
fre, coisas ladrejantes a respeito da cfraterni- 
dade entre os caes» da whonestidade dos 
governos)), e outros ladridos retumbantes, o 



NUMA BXPOSI5X0 DB CAES 235 

cao orador deu por findo o seu discurso, que 
foi longo. 

A maioria dos caes, entretanto, dormia, 
ou dormitava, alguns enrodilhados, tendo o 
focinho junto a cauda; outros, mais dignos, 
tendo o focinho sobre as patas dianteiras, 
cruzadas, abrindo e cerrando os olhos conges- 
tionados pelo somno — e rosnando vagamen- 
te. Atados aos seus moiroes e fartos de vi- 
giar em vao, os caes policiaes resonavam. Os 
Sao Bernardo, de bocca aberta, lingua a mos- 
tra, babando, pareciam asphyxiar-se sob a 
acgao bestificante do mormago intertropical ; 
e, nos olhos amortecidos pelo somno e pela 
fadiga, olhos que supplicavam a misericordia 
de todos OS deuses vivos e mortos, reveland6 
a saudade ancestral das neves alpinas , pare- 
ciam trazer nas pupillas amortecidas o des- 
gosto immenso de uma raga que, transplan- 
tada para climas violentos, falhou, tornou-se 
para sempre inutil e para sempre desgostosa 
da propria inutilidade... 

Afinal, vi que a reuniao dos caes tocava 
a seu termo. Procurei sair. Sujeitos de lune- 
tas passavam, dando o brago as mulheres e 
conversando gravemente com as filhas. Uma 
m69a, que ia com o pae (sujeito de p^ra gri- 
salha e monoculo, que fallava aos requebros 
com uma senhora loura) uma mdga levava ao 



236 VERDADES INDISCRETAS 

collo um toto, beijava-o e falava-lhe : Oh / le 
beau toutou / Ok / le petit cheri I Mon amour, 
mon petit ange / O caozinho, felpudo, civili- 
sado e obsceno, lambia-lhe o focinho. Quasi a 
porta da saida, vi ainda a senhora de olhos 
negros que levava o dinamarquez pela cor- 
rente e afagava-lhe a cabega, emquanto distra- 
hidamente ouvia os galanteios trovejantes, 
de um typo alto, gordo, pan9udo, obeso e 
chato, de papada suina. touti90 de portuguez 
rico, terno de fraque cinzento, cara de bezer- 
ro manso e voz metallica, o qual pelos modos, 
si nao era niinistro, devia ser millionario e se- 
nador. E naquelle momento eu nao desejei 
ser ministro, nem millionario, nem vendeiro 
opulento, nem senador; invejei simplesmen- 
te, humildemente. cynicamente, as venturas 
secretas do cao dinamarquez . . . 



Consideragoes actuaes 



Para onde emigrastes, 6 grandes abne- 
gagoes mudas do passado ? 

— Nao emigraram. Morreram. Foram 
mortaes pela nevrose da publicidade. Antes 
de Guttenberg, partia um cavallelro para a Pa- 
lestina, a conquistar o Santo Sepulcro. Tra- 
vava combates com o Sarreceno ; partia lan- 
9as ; embotava laminas de Toledo ; esfalfava 
ginetes de Hespanha e murzeis inglezes ; des- 
tro^ava esquadroes : aprisionava adais ; apu- 
nhavai miramolins : violava harens ; apai- 
xonava sultanas ; devastava terras de mou- 
ros; degollava muezins; abatia minaretes: 
punha cerco a cidades sagradas; escalava 
muralhas ; humilhava o Crescente : erguia 
bem alto a Cruz; e um bello dia, num retinir 
barbaro de armaduras invictas e montantes 
heroicos, entrava triumphante em Jerusalem ^ 
de guiao algado, ao som de pifaros, charame- 



238 VERDADES INDISCRETAS 

las e atabaques, com muitas gritas e tangeres 
de guerra, que pareciam coisa temerosa, como 
rezam os classicos . . . 

Ora, tal paladino soffria todas essas agru- 
ras por um ideal superior, por um ideal reli- 
gioso que, apezar da sua intangibilidade, o 
compensava largamente dos sacrificios que 
houvesse de fazer ate que chegasse a ajoe- 
Ihar-se deante do Santo Sepulcro, que a 
mourisma depois viria reconquistar. . . Nin- 
guem assistia aos seus combates. Nao havia 
photographos nem operadores cinematogra- 
phicos para fixar-lhe as attitudes, nem telegra- 
ph© para dizer ao mundo que elle era valo- 
roso, nem jornaes e re vistas para Ihe estampa- 
rem o retrato. So havia o seu Ideal, o seu 
Deus, o seu Rei, a sua Consciencia e a sua 
Dama, que tambem estava longe, encerrada 
na torre feudal de um castello inexpugnavel, 
defendida por fossos, barbacans, ameias, bes- 
teiros, catapultas e anoes. . . E o paladino 
combatia. Victorioso, o seu Rei o fazia conde 
ou duque, emquanto a sua amada Ihe abria os 
bra90spara Ihe dar a recompensa mais arden- 
temente appetecida. . . Si morria, como Or- 
lando, OS trovadores o immortalisavam nas 
cortes de amor . Era o dominio da vida inte* 
rior em toda a sua esplendorosa belleza . 



C0NSID^^90BS ACTUABS 239 

Hoje, como o materialismo afasta Deus 
das consciencias, e como, de seu lado, as da- 
mas perderam o segredo de gerar e sobretudo 
de educar paladinos, os homens se voltam 
exclusivamente para o Reclamo. So reconhe- 
cem uma dama que e a Publicidade. Observei 
isto no principio da guerra europea. Qualquer 
farroupilha que se offerecesse como voluntario 
(marcharia realmente?), o primeiro cuidado 
quetinhaera ir despedir-se dosjornaes, le van- 
do ja o retratinho para sahir na folha do dia se- 
guinte ou do mesmo dia, si possivel fosse . E 
no diaseguintela vinhao retrato doparvajola, 
centralisando uma entrevista de infallivel effi- 
cacia nas prisoes de ventre... 



Mas nao sao apenas os homens que tem. 
a nevrose do reclamo , Sao as mulheres tam- 
bem. Podera haver acto mais delicado do que 
o casamento ? Collocando-nos acima de qual- 
quer preconceito religioso, philosophico, litte- 
rario, ou social, encaremos o casamento sob 
o aspecto apenas da delicadeza masculina^ 
olhando-o atravez do nosso simples cavalhei- 
rismo : podera haver coisa mais melindrosa do 
que esse acto ? E visto que assim e, nao serd^ 
de bom gosto cercal-o de todos os resguar^ 
dos, de todas as discre96es ? 



240 VERDADES INDISCRETAS 

Entretanto o estardalha90 com que entre 
nos se fazem os casamentos transformam em 
buffoneriao acto mais serio da vida civil. Gar- 
ros extravagantes, enfeitados de fi6res de la- 
ranjeira e tirados por parelhas cheias de gui- 
zos, campainhas, tintinabulos e chocalhos de 
varia especie ; cocheiros visivelmente bugres 
mas trajados a Luiz XV, guiando democrati- 
cas parelhas, as quaes puxam carros em cujas 
almofadas vao repimpados uns 16rpas enor- 
mes, tendo ao lado boas maes de familia cujas 
honestas banhas plebeas formam o mais vio- 
lento contraste com os tricornes dos cochei- 
ros, alugados para aquelle dia... 



Si fosse so isso... Os nubentes nao se 
contentam ja com o estardalhago carnavalesco 
do cortejo chocalhante. Querem mais.Exigem 
os photographos com as suas codaques «para 
tirarem aspectos)) da ceremonia. Solicitam a 
benevolencia das revistas illustradas para es- 
tampar esses aspectos. Mais : alguns chamam a 
casa um retratista em voga para photographal- 
os em trajes nupciaes, agarradinhos e sorri- 
dentes, com aquelle sorriso equivoco de quern, 
logo mais, a noite, vae descobrir algum esca- 
broso segredo... Todos temos visto dessesre- 
tratos em ponto grande, expostos nasmontras 



C0NSIDERA90ES ACTUAES 241 

dos retratistas, o noivo de casaca, a noivacom 
a sua grinalda de fl6res de laranjeira, enver- 
gonhadas— pobres fl6res ! — de ouvir aos bas- 
baques da rua os commentarios mais torpes. 
Porque o casamento, quando e discrete, paira 
em regioes altas ; mas quando desce dessas 
regioes para se mostrar ao povileo, em poucos 
minutos a alvura do vestido nupcial esta sal- 
picada de lama, e a gravata branca do noivo 
so se rehabilitaria perante as consciencias ho- 
nestas, si se transformasse espontaneamente 
numa boa corda de linho, munida de um no 
corredio, para enforcal-o. 



O casamento silencioso, em que os nu- 
bentes so ougam o pulsar do proprio cora9ao, 
que se furta a profanidades e ostentagoes, 
ainda se tolera ; mas o casamento carnavalesco 
em que se compraz o ruidoso mau gosto dos 
rastacueros, devia ser capitulado nos mesmos 
artigos do Codigo que punem os attentados d 
moralidade publica. 

* ' 

Outr'ora eram as viagens prazeres espi- 
rituaes. So se atreviam a viajar os individuos 
que alliassem a coragem tranquilla dos mari- 
nheiros ao appetite delicado dos epicuristas 

16 



242 VSRDADES INDISCRBTAS 

mentaes. O viajante atravessava oceanos ; sal- 
tava de um para outro continente ; galgava 
montanhas; descortinava horizontes; orava 
nas basilicas; admirava os paineis nos mu- 
seus ; contemplava os monumentos iilustres y 
tinha extases deante das estatuas ; via e ou- 
via nos theatros as celebridades em voga. K 
quando regressava aos penates, era a esposa» 
aos filhos e a limitado numero de amigos que 
elle referia da sua viagem as peripecias mais 
interessantes. Elle ma coisas durante a sua pe- 
regrinagao. So ia fazer isso ; ver, para gozo do 
seu espirito e para narrar maravilhas a esposa 
durante os seroes honestos da sua casa. 

Hoje e differente. Por pequena quantia 
p6de qualquer sujeito viajar com a familia em 
paquetes confortaveis. Annualmente zarpam 
deste porto toneladas e toneladas de carne 
humana que vae com a intengao de ser vista 
em Paris. Por la estao elles, os nossos andari- 
Ihos, mezes e mezes, sem conseguir penetrar 
um iota da alma de Paris. Viram mulheres^ 
viram homens, viram cantarias e acharam es- 
tupenda a torre Eiffel, ate onde grimparam,. 
gragas aos seus instinctos de quadrumanos, e 
de onde mandaram para o Brasil o inevitavel 
postal: Meu amigo — Escrevo-te do alto da 
torre Eiffel, etc ... » 

Tenho conversado com innumeros turis- 



CONSIDERApSBS ACTUAL 243 

tas indigenas chegados de Paris e confesso 
que.antes de conhecer qualquer delles, julgava 
o cerebro humano menos impenetravel. Com 
excepgao dos raros viajantes intellectuaes 
que sabem ver sem necessitar de recorrer ao 
Bedecker ou de pedir informa^oes a Agencia 
Cook, todos OS brasileiros voltam de Paris en- 
cantados. . . com a illumina9ao do Rio ! 

Lembra-me ter sido apresentado a dois 
rapazes muito ricos, paulistas e bachareis na 
forma da lei. Haviam chegado da Europa na- 
quelles dias ; e, como eram bem parecidos e 
endinlieirados, ficaram logo sendo a coquelu- 
che das raparigas da pensao. De resto, bons 
rapazes e muito amaveis. Mas diziam coisas 
phantasticas a respeito de Paris. Uma noite^ 
apoz o jantar, tendo-se formado uma roda de 
rapazes e m69as, os dois j ovens rica90s dis- 
corriam acerca da Franga e principalmente das 
francezas. A paginas tantas, disse um delles : 
«0 que falta em Paris e limpeza. Nao ha hy- 
giene nas ruas. E as casas sao horriveis. As 
senhoras nao imaginam o que seja a avenida 
da Opera : uma serie de casas antigas e en- 
fuma9adas. Nao limpam as testadas dos edi- 
ficios . . . Qual ! Nao ha nada como a nossa 
avenida Rio Branco. Que bom gosto ! E os 
nossos chales da avenida Atlantica ! Nao vi 
nada em Paris que se parecesse com elles. 



244 VERDADES INDISCRSTAS 

Como tambem nem em Berlim, que e muito 
mais limpa do que Paris, nem em Berlim vi 
avenida que se parecesse com aavenida Pau- 
lista ! » 

No mesmo dia pedi as minhas contas e 
no dia seguinte mudei de casa. 

* 

Mas nao e a torre Eirfel a unica victima 
dos brasileiros. Alem dos inevitaveis pombos 
de Veneza, ha no universo um sitio feito para 
inspirar piedade : Nice. A guerra nos tem li- 
vrado de, ao abrir alguma das nossas illustra- 
^oes semanaes, encontrar o retrato de um 
ahonrado negociante da nossa pra9a)), cerca- 
do da sua numerosa prole, posturando num 
jardim de Nice com a mesma physionomia 
acarneirada e prolifica com que costuma dei- 
xar-se retratar nos convescotes da ilha do Bom 
Jesus. Bemdita guerra. . . 

* 

Que pena que eu nao seja o Doutor 
Fausto ! Si Mephistopheles me apparecesse, 
o que eu Ihe pediria era transformar-me em 
intellectual francez, inglez, ou allemao, du- 
rante um inverno, so para poder sentir o que 
.deve sentir um francez, um inglez, ou um alle- 
mao super-civilisado, quando o acaso o poe 
em contacto com o turismo americano ... 



O cabega de turco 



( Carta ao dr. Chefe de Policta) 

Exmo. Sr. — Venho, nestas linhas, pedir 
a V. Ex. garantir a avelludada pelle de um 
patricio nosso, actualmente amea9ado por 
causa da sua mania de ser turco : o sr. dr. Joao 
do Rio. Ha muitos annos entrou na cabe^a 
deste estimavel compatriota a id^a de ser o 
homem mais celebre do seu paiz e o chronista 
mais bem relacionado no mundo inteiro. 
Assim, jurou esmagar todos os outros chro- 
nistas parisienses. Michel Georges Michel tira- 
va-lhe o somno com osseus Pall-Mall-Paris, 
Pall-Mall- Nice, Pall-Mall- Trouville, Pall- 
Mall- Biarritz, &tc.]o2LO nao socegou emquanto 
nao fez tambem um Pall- Mall- Rio, improvi- 
sando-se Jose Antonio Jose. Declarada a 
guerra, nao descansou Joao emquanto nao foi 
a Europa entrevistar gente importante, entre- 



246 VBRDADKS INDISCRKTAS 

vistar to do o mundo. Amigo intimo de Enver- 
Pachd, de Talaat-bey, de Djavid-Pachd e de 
tantos outros proceres do Imperio Turco, nao 
Ihe contentavam essas glorias stambulescas . 
Creia V. Ex., sr. Chefe, que, jornalistas nos ou- 
tros mais ou menos jecas-tatus, quando Joao 
nos contava que tinha almogado em Andrino- 
pla com o general Djemal-Pacha, todos nos 
torciamos de inveja, da mais purainveja deste 
mundo. Quando, porem, Joao nos dizia do 
jantar que Ihe tinha offerecido em Constanti- 
nopla o Sultao, seu padrinho de baptismo, 
jantar depois do qual elle, Joao, foi apresen- 
tado a kadine predilecta de Sua Magestade e 
a mais de trezentas odaliscas : — turcas da Ana- 
tolia, ariscas e leves ; arabes do Hedjaz, hu- 
mildes na belleza da sua escravidao ; arme- 
nias. flexuosas como gatas angoras ; georgia- 
nas, espantadigas ; circassianas, cheias de no- 
breza na suavidade dos olhos claros ; persas 
morenas e finas que ao Commendador dos 
Crentes havia mandado, como preito de ami- 
zade. Sua Altezalsmail-Djezir-Khan ; humidas 
e sensuaes egypcias de pelle trigueira, pre- 
sente principesco do Khediva Abbas-Hilmy ; 
e quando Joao nos dizia que, a sua passagem 
pelo harem, entre eunuchos numidas, sub- 
missos e mal encarados, essas escravas se 
curvavam e se prostravam sobre tapetes do 



O CABE9A DS TURCO 247 

Afghanistan; e, de dentrodas suas largaspan- 
talonas de s^da da India, que mal disfar^a- 
vam, na sua hallucinante harmonia, as curvas 
das ancas magnificas, murmuravam docemen- 
te — Tezlim f Tezlim / Graga ! Gra9a ! — ah ! 
entao e que a nossa inveja explodia em pra- 
gas de enthusiasmo e em uivos de admira9ao, 
que pareciam nao mais ter fim. Certa vez, de- 
pois de ouvir a Joao uma dessas portentosas 
narrativas, nao me contive que nao rosnasse 
de dentro da minha inveja e da fumaga do 
meu charuto bahiano : 

— Este Joao ainda acaba mahometano e 
Grao-Vizir ! 

Comtudo, a vida tem suas surpresas, 
como passo a referir a V. Ex. 

Numa excursao que fiz pelo Hedjaz, em 
companhia do Emir Faysal, estando nos na 
nossa tenda uma tarde, perto das ruinas de 
Palmyra, vimos chegar com grande e majes- 
toso estrepito uma caravana pomposa, e, a 
frente dessa caravana, Joao do Rio, encarapi- 
tado, nao sei si num camello ou em si proprio. 
O Emir manteve se discreto, grave no seu al- 
bornoz branco, cofiando as admiraveis barbas 
biblicas e fumando tranquillamente fumo persa 
no seu magnifico narghile de boquilha de pra- 
ta. Em volta de nos estendia-se a paizagem 
melancholica : palmeiras resignadas d aridez 



248 VERDADES INDISCRETAS 

do campo desertico ; meditativos camellos e 
nostalgicos dromedarios, alongando os pesco- 
90s e dilatando as narinas, como se procuras- 
sem com os focinhos o rumo em que ficava a 
Terra da Promissao . . . Alguns beduinos, aco- 
corados em tapetes, sorviam regaladamente 
harak e, saudando com lentas e nobres reve- 
rencias os que entravam, preguigosamente 
iam fumando os seus longos galiun, na atti- 
tude sacerdotal de quem meditasse versiculos 
do Alcorao. Joao desceu do seu camello, que- 
ro dizer, de si mesmo ; e, sorridente, esten- 
deu a mao democratica ao Emir. Este, que 
tinha visto as divisas turcas de Joao do Rio, 
nao manifestou grande empenho em estender- 
Ihe a dextra principesca. Dois guerre iros ara- 
bes apalparam os alfanges, suppondo que 
Joao quizesse provocar o Emir. Este, porem, 
nao alterou a sua serenidade oriental. Vendo 
eu que podia surgir de tudo aquillo um con- 
flicto tremendo, disse em francez ao Emir que 
Joao, em bora parecesse turco, nao o era. Era 
apenas brasileiro, christao e ate academico. 
Entao o Emir se levantou levemente, e gra- 
vemente saudou a Joao, quasi sem retirar dos 
labios a boquilha do seu narghile. Todavia^ 
convidei a Joao para comer alguma coisa com- 
nosco. Em torno, os arabes se tinham aquie- 
tado. O dispenseiro de Sua Alteza o Emir 



O CABSgJi DB TDRCO 249 

Faysal serviu-nos uma malga de laden, cuja 
brancura espantou a Joao. 

— Que e isso ? — perguntou elle, como 
se visse pela primeira vez uma fructa tropicaL 

Com a minha experiencia dos costumes 
arabes, expliquei-Ihe que aquillo era uma sim- 
ples coalhada, uma especie de coalhada bul- 
gara. E Joao sorveu com delicia o seu laden . 
Depois pedi a Sua Alteza houvesse por bem 
mandar servir-nos um pouco de ^o&6s e ma- 
kluta, perdizes guisadas com carneiro e legu- 
mes, a que Joao fez honra bravamente e bem- 
dizendo Allah no fundo do seu coragao. 

— Admiravel ! — murmurava Joao, que, 
no auge do enthusiasmo gastronomico, ia, por 
engano, limpando a bocca na fimbria do al- 
bornoz branco de Sua Alteza, suppondo usar 
de um guardanapo. 

— Tamaras! — exclamava elle. Havera 
tamaras por aqui ? Eu sempre encontrei tama- 
ras no Oriente. . . 

Nao. Infelizmente nao havia tamaras e 
era a primeira vez que Joao ia ao Oriente . 
Mas, havia alguma coisa que Joao nao conhe- 
cia e eu pedi para elle : ataief, pasteis doces 
de nozes pisadas, envolvidas em capa detrigo, 
sobre os quaes se derrama calda de assucar, 
perfumada de hortelan, canella e mangerona,. 
de suave sabor prophetic© ... 



250 VBRDADBS INDISCRBTAS 

Joao, encantado, jurava que no Rio, na 
confeitaria Paschoal, aquelles pasteis fariam 
furor; e, repetindo a dose, perguntava ao 
Emir em portuguez : 

— Porque e que os senhores aqui nao 
mandam estas deliciosas coisas para o Itama- 
raty ! Ah ! o Itamaraty . . . E' um tumulo . . . 
E' a Arabia do Brasil . . . 

Sua Alteza, por ventura nossa, nao en- 
tendia o portuguez ; e eu, aproveitando a igno- 
rancia delle e dos outros beduinos, garanti cy- 
nicamente que Joao, na nossa lingua, agrade- 
cia a Allah e louvava o Propheta! Ao que 
Sua Alteza inclinou gravemente a fronte, em- 
quanto os arabes circumdantes faziam o mes- 
mo, cheios de respeito e de terror . . . 

Terminada aquella refeigao, quiz eu co- 
nhecer o sequito de Joao, todo elle composto 
de beys e pachas que, com extranheza minha, 
se conservavam a distancia respeitosa, comen- 
do conservas europeas! So entao verifiquei, 
nao sem espanto e gargalhadas, que os pachas 
e beys de Joao eram simples empregados da 
Agencia Cook — inglezes, italianos, france- 
zes, allemaes e dois portuguezes que Ihe ser- 
viam de interpretes. 

— Mas, entao, Joao ! Que pachas occi- 
dentaes sao estes? 



O CABE5A DB TURCO 2Sl 

— Ah ! Aqui entre n6s ... E' s6 para 
dizer que estive no Oriente. , . Quern nao 
fizerassim, vivendo no Brasil, 6 positivamente 
cretino. O Oriente ! Mas afinal quern conhe- 
ce o Oriente ? Ninguem ... O proprio Sao 
Paulo, que viveu, morreu e ate nasceu em 
Roma, nunca viu o Oriente. Os ultimos ho- 
mens que viram o Oriente forem os reis ma- 
^os! 

— E nos, Joao, nos tambem, que aqui 
estamos, com os diabos! 

— Mas estamos sem ver . . . Voce pen- 
sa que o Emir conhece o Oriente ? Nao co- 
nhece. O Emir conhece a Europa, conhece 
Paris, Londres, as unicas coisas que interessam 
a homens intelligentes. Porque e que o Emir 
nao se veste no Poole? E' um lindo homem... 



Nunca mais vi Joao. D'ali nos separa- 
mos, elle para a vastidao democratica do Occi- 
dente, e eu, na comitiva de Sua Alteza, para 
Thaief, Medina e Djebah, na ancia illustre e 
inoffensiva de estudar religioes em cima de 
camellos . . . Chegando, porem, ao Brasil, co- 
mecei a notar que Joao conhecia mais o 
Oriente do que eu e Sao Paulo, que Id estive- 



252 VERDADBS INDISCRm'AS 

mos tamto tempo, o Apostolo, pregando o 
Evangelho, e eu, pobre peccador, estudando 
affanosamente o que elle tinha pregado dois 
mil annos antes. Mas, de tal maneira Joao fal- 
lava da sua intimidade com pachas, beys e 
effendis, que eu comecei a nutrir contra elle 
uma dessas invejas surdas que sao capazes 
de levar um homem a prisao. Depois Joao 
foi a Buenos Ayres, yisitar Julio Roca ; foi 
ao Chile, entrevistar as salitreiras ; foi a 
Montevideo, meia hora; e nao tendo mais 
onde ir, foi a Conferencia da Paz. Entrevistou 
Venizelos ; conversou com o Papa, que, por 
signal, Ihe abriu pessoalmente a porta do Va- 
ticano, para que elle entrasse ; fallou com o 
Rei da Italia; entrou em certas intimidades 
com a Rainha da Rumania ; e, por ultimo, de 
volta ao Brasil, deu-lhe para elogiar os turcos^ 
«povo ingenuo, cavalheiro, belle e bom» . 
Esses elogios fizeram perder a cabega — nao 
a do turco, mas a sua propria — ao sr. Etienne 
Brasil, armenio, e portanto inimigo pessoal 
do Sultao. Vae d'ahi, Exmo. Sr., o dr. arme- 
nio Etienne Brasil tem escripto coisas tremen- 
das contra Joao. Diz que Joao, para elogiar o 
Turco, recebeu dinheiro dos pachas! Injus- 
tiga! Porque nem os pachas hoje em dia t^m 
dinheiro, nem Joao viu em tempo algum um 
pacha. Em tudo isso o que ha e o seguinte : 



O CABE9A DE TURCO 253 

Joao tern a mania de ser turco e e bem capaz 
de, for9ando o seu natural horror a generosi- 
dade, pagar um cafe a um pacha, com a con- 
digao deste certificar nalgum consulado que 
elle, Joao, esteve com o Pacha. Joao, Exmo . 
Sr., nunca foi nem amigo nem inimigo dos 
turcos. Julga-se turco so porque andava de 
turbante em Paris, da mesma sorte que os 
pretos da Africa e seus similares do Brasil se 
julgam latinos so por usarem as velhas carto- 
las dos patroes e lunetas trincadas. Joao e 
inofifensivo, bom rapaz e talentoso. A colonia 
Syria do Rio de Janeiro nao deve espancal-o. 
Elle anda mentalmente vestido de turco por 
troga. E' o mais bem vestido dos nossos ty- 
pos de rua, o mais elegante dos nossos typos 
populares . Apenas isso . Uma doce mania 
como outra qualquer. Assim, entendo que V. 
Ex., no religioso exercicio das suas altas func- 
goes, deve garantir o pello ao nosso patricio 
Joao do Rio, que nunca viu um turco em dias 
da sua vida e esta na imminencia de ser so- 
vado, em plena America do Sul, por armenios 
e syrios, que, ausentes da Palestina durante 
tanto tempo, deram agora para confundil-o 
com o Sultao, quando a verdade e que elle e 
apenas afilhado de Sua Majestade. 

Espero que V. Ex. tome em considera- 
^ao estas linhas humanitarias e, sem re- 



254 VBRDADKS INDISCRETAS 

correr a verba secreta, proteja o nosso adora- 
vel compatriota, tornando-se dest'arte credor 
da estima e gratidao do seu patricio e admi- 
rador, 

Antonio Torres. 



Uma semana alegra 



. . . Pois, amigos, esta semana foi mais 
alegre do que eu esperava. Alem das habi- 
tuaes descomposturas dos jornaes, ahi esta 
a campanha do sr. dr. F'linto d' Almeida 
para que o Rio de Janeiro faga nas secgoes li- 
vres das gazetas uma declaragao mais ou me- 
nos como esta: «Ao Publico, aos meus ami- 
gos E A Pra^a — Communico que de hoje em 
deante passo a assignar-me Guanadara.n 

Tivemos ainda um principio de bate- 
bocca no Senado, por causa da construcgao do 
novo edificio destinado aos formidaveis esta- 
distasque diariamente cochilamnaquellacasar 
assim como tivemos tambem o caso de um 
famoso habeas-corpus a favor de uns deputados 
amazonenses. 

Esse habeas-corpus foi sensacional, por 
ter permittido ao sr. ministro Pedro Lessa lan- 
^ar ao paiz, numa phrase cheia de sarcasmor 



256 VERDADES INDISCRETAS 

a bofetada que o paiz faz questao de receber 
pordia. Com effeito, para remediar aafflictiva 
situagao do Amazonas, o sr. dr. Pedro Lessa, 
officialmente, no nosso mais alto tribunal, des- 
abnsadamente opinou por um alvitre que, se- 
gundo declarou S. Ex. , e o unico aconselha- 
vel : reformar a Constituigao com o intuito de 
transformar aquelle territorio em principado 
ou ducado que seria entregue a um dos mui- 
tos principes allemaes, actualmente em dispo- 
nibilidade. Muita gente ha que se tem escan- 
dalisado com essa phrase. Eu, nao. O sr. 
ministro, com esse safanao que nos deu, ate 
se revelou muito patriota. O que em summa 
deseja S. Ex. e o engrandecimento do Ama- 
zonas; e como esta provada a nossa incapa- 
cidade para realisar esse engrandecimento, 
melhor se Ihe afifigura entregar aquelle territo- 
rio a um principe allemao, que o tornaria rico 
e prospero, si nao como a Alsacia-Lorena, ao 
menos como o Rio Grande do Sul. . . Pena 
e que o sr. dr. Pedro Lessa haja limitado asua 
acgao patriotica somente ao Amazonas; e pois, 
<:om o devido acatamento, pego licenga para 
ampliar o alcance do seu alvitre a todo o Bra- 
:sil. Nao e so o Amazonas que tem o direito 
de ver-se livre da sua perigosa fauna de Pe- 
dros Bacellares e Lopes Gon9alves, nao, se- 
nhor. Entao acha justo S. Ex. limpar o Ama- 



UMA SBMANA AI.BGRK 257 

2onas com o chicote de um principe allemao, 
e deixar proliferar em Minas os Franciscos 
Salles com os respectivos Bressanes, no Para 
OS Firmos Bragas, etc., etc. ? Nao. Nao seria 
justo, nao seria humano. O que manda a Jus- 
ti9a, de que S. Ex. e grande pontifice, e oque 
o patriotismo impoe, e entregar o Brasil todo 
a um principe allemao, o Brasil todo, inclusive 
o sr. dr. Pedro Lessa, com sua pess6a e bens. 
Porque um paiz onde, no mais alto tribunal, 
ha um juiz do prestigio do sr. Pedro Lessa, e 
que leva ate esse ponto o seu amor a ironia e 
ao espirito de tro^a, merece realmente a tutela 
do estrangeiro ; e um paiz maduro para um 
protectorado. Deixemos, porem, este assum- 
pto lugubre e passemos a tratar de coisas me- 
nos escabrosas . . . 

Guanabara / Tal o nome que o sr . dr . 
F'linto d' Almeida propoe para substituir o 
actual de Rio de Janeiro, estribando-se nas 
seguintes razoes: 

o nome Rio de Janeiro e longo e feio ; 

Guanabara e curto e bonito ; 

no Rio de Janeiro nao ha rio. 

A estas razoes adduziu o sr. Magalhaes 
^e Azeredo, nosso embaixador junto a Santa 
S^, mais esta : que os estrangeiros dilftcil- 
mente pronunciam o nome da nossa capital, 
que estropiam sempre. 

17 



258 VKRDADES INDISCRETAS 

Voto contra. Rio de Janeiro e denomi- 
nagao que devemos conservar como documen- 
to historico do alto engenho e da heroica per- 
tinacia dos nossos Descobridores. Com effeito, 
certo dia aqui chegou um capitao portuguez na 
sua nau, e entrou pela bahia a dentro, uma 
bahia immensa, um mar inconfundivel ; pois, 
senhores, depois de muito olhar, de muito 
examinar e de muito matutar, concluiu elle 
la com OS alamares do seu gibao : 

— Isto e um rio ! 

— E', concordou o seu piloto. 

— Amen, gemeu o frade capellao. 

E em toda a marinhagem lusitana nao se 
achou um so homem capaz de notar que a bahia 
nao era um rio ! Outros capitaes vieram depois; 
percorreram toda a costa do Brasil; distingui- 
ram e denominaram todos os cabos, ilhas, ba- 
hias, enseadase rios que encontraram ; so nao 
conseguiram distinguir a Bahia de Guanabara. 
Conheciam tudo; chegando, porem, a nossa 
bahia, cofiavam as barbas heroicas, arrimavam- 
se aos montantes e rugiam de dentro das suas 
couragas : 

— Um rio e isto, ou nao serei eu bom 
christao baptisado, confessado e commungado. 
Em nome d'El-Rey Nosso Senhor o affirmo I 
Que dizeis atal, Dom Vasco d'Athayde? 



UMA SEMANA ALEGRE 259 

— Bofe, que rio e e dos mais formosos 
que hei visto em dias de vida minha ! Razao 
tendes, sr. capitao, txovejava Dom Vasco^ 
apalpando a cruz da espada e ja disposto a ra- 
char ao meio, com uma so cutilada, o vilaa 
que o contrario ousasse dizer . . . 

Portanto, agora e tarde. Nao ha erro de 
nome que se possa corrigir depois de quatro- 
centos e dezenove annos. E sera esse o unicoi^ 
Podera! Basta dizer que o Brasil foi desco- 
berto a 22 de Abril e, nao obstante, oseu des- 
cobrimento e commemorado a 3 de Maio I 
Somos, pois, o paiz dos erros e enganos, al- 
guns fataes, como o que victimou o finado Ti- 
radentes. 

E a Republica? Foi tambem procla- 
mada por engano. Deodoro pensava que ia 
somente derrubar o ministerio. Quando vol- 
tou a si, o malja estava feito, quero dizer, a 
Democracia estava fundada. 

Demais, o nome do Rio nao e a unica 
coisa errada que ha na America. 

O nosso continente devia chamar-se Co- 
lombia ; entretanto a Colombia e apenas um 
pequeno paiz, ja meio devorado pelos Estados 
Unidos. 

Ha no sul um rio que se chama Rio da 
Prata, embora no seu leito nao se encontre 
uma gramma desse metal. 



260 VERDADES INDISCRETAS 

Temos aqui no Rio de Janeiro uma Aca- 
demia de Letras onde quasi nao ha escripto- 
res e pullulam os medicos, em virtude da ur- 
^encia que tinham os outros academicos de ter 
veterinarios junto de si ; em compensa9ao a 
Academia Nacional de Medicina esta cheia de 
<:avalheiros cujas aptidoes mentaes ainda nao 
foram verificadas, mas que devem ser fatal- 
mente litteratos. 

O Senado Federal esta occupado por ho- 
mens que tem obrigagao de fallar ao povo, e 
^ntretanto nao sao capazes de abrir o bico, ao 
passo que a Associagao Commercial, que de- 
via evitar arroubos de rhetorica, e um ninho 
de oradores, um viveiro de Demosthenes. 
Como ve o sr. dr. F'linto, anda tudo a ma- 
troca neste paiz . . 

A mudan^a do nome da nossa capital tra- 
ria complicagoes innumeraveis. Ja nao quero 
alludir ao incommodo que seria para o talen- 
toso nacionalista da colon iaportugueza, sr. dr. 
Joao do Rio, ver-se obrigado a chamar-se dr. 
Joao Guanabara. Pego a atten^ao do sr. dr. 
F'linto apenaspara um caso que a S. Ex. mais 
de perto deve tocar. 

O imaginoso academico tem um livro de 
versos intitulado Cantos e Cantigas. (Porto 
— Livraria Chardron — 1915). Nesse livro 
ha uma poesia que se chama Rua de Gongal- 



UMA SBMANA ALEGRE 261 

ves Dias^ daqual destaco (pags. 163 e 166) 
as seguintes estrophes, que reputo primorosas 
e reveladoras de um homem de genio, em 
toda a nobre vastidao do vocabulo : 



£^is-nos na antiga rua dos Latoeiros, 

Rua com muitos titulos de gloria, 

E que ha de ter na Historia, 

Certo, um dos seus capitulos primeiros . 

Ufana a rua de uma tal ventura, 
Deu d poesia as suas sympathias 
E ha muito em suas placas jd fulgura 
O bello nome de Gonf alves Dias . 

Mas nao, porque onde foram os sobrados 
Em que vivera o poeta brasileiro, 
Vive hoje a Associa^ao dos Empregados 
No Commercio do Rio de Janeiro. 



Estes versos trazem no livro a data de 
1907 e sao, como se ve, portentosos. Bilac. 
dizem, cuidava morrer de rir quando alguem 
Ih'osrecordava, mas si ria, de inveja devia ser, 
porque nao ha, em toda a obra do grande ly- 
rico, nada que se possa comparar com esta pe- 
quena epopea da rua dos Latoeiros. 

Imaginemos agora que vingue a proposta 
do sr. dr. F'linto. Gravissimo desastre seria 
esse para a nossa litteratura, pois que obriga- 
dos nos veriamos a alterar uma das melhores 
quadras, a ultima das citadas, pela seguinte 
f6rma : 



262 VERDADES INDISCRETA.S 



Mas nao, porque onde foram os sobrados 
Em que vivera o poeta brasileiro, 
Vive hoje a Associa9ao dos Empregados 
No Commercio de Guanabara! 



Soa mal, como se ve. Eis porque venho 
eu supplicar ao sr. dr. F'linto, em nome das 
bellasletras, em nome da litteratura nacional, 
em nome da Esthetica, em nome das Came- 
nas, em nome da sua propria gloria e em nome 
da gloria da rua dos Latoeiros, pelas almas 
do Purgatorio em geral e pela de Gongalves 
Dias em particular, que nao mutile essa obra- 
prima ou, como diria o dr. Joao do Rio, esse 
chefe d'obra. O sr. dr. F'linto nao tem o di- 
reito de concorrer para que se deturpe esse 
primor que, ja agora, nao e exclusivamente 
seu, mas esta irrevogavelmente incorporado 
ao patrimonio intellectual nao do Brasil ape- 
nas, mas de toda a America do Sul e da raga 
latina ! 

Quanto aos estrangeiros, cujas difificulda- 
des prosodicas tanta sympathia inspiram ao 
sr. dr. Magalhaes de Azeredo, o remedio e 
simples. Trate cada um delles de traduzir para 
a lingua materna o nome da nossa capital . 
Assim faz Sua Santidade o Papa, que e pes- 
s6a de muita consideragao e respeito. De fa- 
cto, communicando-se com os bispos brasilei- 
ros na lingua official do Vatican©, que e a la- 



UMA SEMANA ALEGRE 263 

tina, nesta lingua escreve o Santo Padre o no- 
me desta cidade, Assim, a personagem que 
aqui e o sr. Cardeal Arcebispo do Rio, no pa- 
teo de S. Damaso e adjacencias e Cardinalis 
Archiepiscopus Sancti Sebastiani Fluminis 
Jannuarii. Nos tambem costumamos traduzir 
nomes de cidades estrangeiras. O que para os 
allemaes e Me^iz e para os francezes Mayence, 
para nos e Moguncia. Tambem, o que para nos 
e Lisboa, e para o inglez Lisbon, para o Papa 
Ulysipo, para os francezes Lisbonne e para os 
allemaes Lissabona. Emquanto os allemaes di- 
zem Koln, e os francezes Cologne, nos dize- 
mos Colonia. Por isso nao descubro inconve- 
niente em que cada estrangeiro va traduzindo 
como poder no seu proprio idioma o nome do 
Rio de Janeiro. Em Madrid ouviremos dizer 
Rio de Enero\ em Paris, Fleuve de Janvier; 
em Roma, Ftume di Gennajo', em Londres, 
January -River, e em Bedim, Januar-Fluss. 
Em Constantinopla nao sei como sera; mas 
quem desejar informa96es autorisadas a tal 
respeito queira dirigir-se ao sr. dr. Joao do Rio- 
Pacha, que e turco e afilhado do Sultao . 

E ahi tem o sr. dr. Filinto a minha opi- 
niao, que S. Exa. nao pediu mas eu dei, por- 
que quiz dar. E mais, direi que, si mudarmos 
o nome da capital do paiz, temos de, pelas 
mesmas razoes, mudar o nome do Estado do 



264 VKRDADES INDISCRETAS 

Rio. Pelo que, o melhor e ficarem as coisas 
como estao.Nao Ihesbulam, que epeior.Esco- 
Iha o sr. dr. Filinto outro meio deser agradavel 
ao seu fraternal amigo Oscar Guanabarino, 
critico musical. Em vez de mudar o nome da 
capital, vamostrabalhar para que a City nao 
despeje na bella bahia, como faz, as fezes da 
cidade quasi em estado de natureza. Traba- 
Ihemos para que a bahia de Guanabara deixe 
de ser o que actualmente e: a mais formosa 
das coisas fetidas. Isto, sim, seria util. O mais 
sao byzantinismos. 01he,6 dr., e si forpossivel 
vamos tambem ver si deixamos de fazer ver- 
sos, sim? 



O vendedor de passaros 



Apanhar passaros para vendel-os e uma 
profissao intermediaria entre a dos antigos 
vendedores de escravos e a dos modernos 
vendedores de escravas. A differenga que ha 
entre o moderno vendedor de passaros e o 
antigo vendedor de escravos e que este era 
perseguido pelas leis e pelos crazadores da 
Inglaterra, ao passo que aquelles escravisam e 
vendem os passaros a sombra das posturas 
municipaes e da indifferen9a britannica. Si a 
Inglaterra o quizesse, os nossos passaros te- 
riam o seu 13 de Maio. Quando os inglezes 
pelos olhos dos seus estadistas, economistas 
e financeiros, viram que a escravidao no Bra- 
sil, sendo base da nossa agricultura, prejudi- 
cava pela concurrencia a agricultura das suas 
colonias e possessoes, onde a escravidao ja 
f6ra extincta, que fizeram ? Foram a cathedral 
de Westminster ; tiraram de la umas velhas 



266 VERDADES INDISCRETAS 

bandeiras, que serviram outrora para humi- 
Ihar povos em nome da Humanidade, manda- 
ram os seus publicistas escrever coisas solen- 
nes no Times. . . Depois apparelharam cru- 
zadores; declararam-se, como smpre, paladi- 
nos da Civilisagao, e pozeram-se, muito a seu 
commodo, a perseguir os navios negreiros. A 
Humanidade, como sempre, vibrou com esse 
lance magnifico da Inglaterra; e o BrasiJ, mais 
do que a Humanidade toda. Travou-se entre 
nos a peleja abolicionista. Castro Alves fez 
versos ; Nabuco fez discursos ; Jose do Patro- 
cinio fez artigos; os escravocratas fizeram op- 
posigao ; os abolicionistas fizeram leis ; o Im- 
perador fez uma viagem ; e a Princeza, no 
meio de tudo isso, decretou a Aboligao. 

Eu nao creio que os homens da Ingla- 
terra tenham grande empenho na liberdade 
dos passaros brasileiros; mas os passaros ingle- 
zes talvez tenham nisso algum interesse... No 
dia em que ficasse prohibido aprisionar, sem 
motivo legal, passaros das nossas florestas, 
provavelmente os passaros inglezes teriam no 
nosso mercado muito maior cotagao do que a 
que tem de presente ; e os inglezes, que de- 
vastam os nossos rebanhos bovinos em bene- 
ficio dos seus soldados, bem podiam, como 
compensagao, proteger os nossos passaros. 



O VENDEDOR DE PASSAROS 267 

E' verdade que os passaros nao sao tao 
immediatamente uteis como os bois, vaccas e 
novilhas que elles matam em Mendes; mas 
que importa isso a Inglaterra ? Quanto mais 
alto e desinteressado f6r o motive apparente 
das suas conquistas, tanto maior sera o seu 
lucro. Porque foi que a Inglaterra conquistou 
a India? Apenas para civilisal-a. E quanto 
temlucrado os commerciantes, industriaes e 
financeiros inglezes com esse acto de abne- 
gagao ?. . . Em 1882, para poder pacificar o 
Egypto, a Inglaterra bombardeou e incendiou 
Alexandria. Mas a Humanidade (principal- 
mente a humanidade ingleza) muito ganhou 
com isso. Nessa transagao so os egypcios 
perderam, entre outras coisas, a liberdade,sem 
fallar no resto. Por isso digo : quanto mais 
abstracto o motivo que mova a Inglaterra a 
mobilisar as suas f6r9as militares, tanto maior 
o seu lucro commercial. Parece que a gran- 
deza material da Inglaterra marcha na razao 
directa da metaphysica dos seus processes 
absorventes. 

Pensava eu em todas estas coisas pro- 
fundas, depois de ler uma noticia curiosa a 
respeito das aventuras de certo vendedor de 
passaros. Chamava-se Olympio Pihto e andava 
pela rua de S. Francisco Xavier, carre- 



268 VERDADKS INDISCRETAS 

gando as suas gaiolas cheias de passari- 
nhos, quando deu de frente com um xidadao 
brasileiro chamado Manoel Caldeira de Assis. 
Sao ommissas as noticias quanto aos an- 
tecedentes de ambos esses patriotas, de sorte 
que o chronista nao tern infelizmente mate- 
riaes que Ihe permittam tragar com clareza e 
seguranga a psychologia do caso. O certo, 
porem, e que Manoel Caldeira, defrontando- 
se com Olympio, achou que este nao tinha di- 
reito de andar com aquellas gaiolas de passa- 
ros . Estas questoes de direito, al^m de serem 
escabrosas, tem ainda este defeito: que, quan- 
to mais discutidas sao, menos comprehensi- 
veis se fazem. Creio que Manoel Caldeira 6 
desta opiniao, porque nao discutiu com Olym- 
pio o direito de prender passaros; nao Ihe re- 
quereu habeas-corpus, nem Ihe oppoz em- 
bargos, nem Ihe deu tempo para impetrar ma- 
nutengao de posse. Nada disso ! Antes que 
Olympio tivesse tempo de appellar para os 
juizes do Rio ou para os de Berlim, fulminou- 
o Caldeira com um interdicto prohibitorio a 
pau nas gaiolas, seguido de um muito logico 
alvara de soltura a favor dos coUeiros, pinta- 
cilgos, patativas, gaturamos, sabids, cardeaes, 
curios e bicos delacre,que se aproveitaram da 
confusao reinante e, aruflando as azas, sacu- 
dindo as pennas», fizeramcomo asillusoes de 



O VENDEDOR DE PASSAROS 269 

Raymundo Correa: foram-se para nao mais 
tornar . . . Nao contente com a liberdade tao 
generosamente concedida aos passarinhos, en- 
tendeu Caldeira, como bom estrategista, que 
o melhor seria iniciar logo uma ofifensiva con- 
tra o Tyranno; e, si hem pensou, melhor o exe- 
cutou, atacando Olympio a murros nas ventas 
em nome da Liberdade; pelo que, Olympio, 
com o seu longo habito de lidar com passaros, 
resolveu imital-os, quero dizer, voou tambem. 
Mas — 6 triste ! 6 mesquinha sorte dos liber- 
tadores ! — gente do povo, ignara e proterva, 
nao atinando com o alcance moral, social e 
humanitario da faganha de Manoel Caldeira, 
correu-lhe sus! Peor aventura do que esta so 
succedeu, que eu saiba, ao grande Dom Qui- 
xote, que, tendo libertado com a sua langa in- 
corruptivel uma leva de presos que iam acor- 
rentados para o presidio, como, apoz tao gran- 
de proeza, quizesse obrigal-os a ir agradecer 
a sua libertagao a mui nobre e formosa Dul- 
cinea del Toboso, foi por elles apedrejado e 
sovado ; depois do que, fugiram todos, antes 
que por ali chegassem refor9os da Santa Ir- 
mandade ... A Manoel Caldeira quern o per- 
seguiu nao foram os libertados, visto que por 
felicidade delle e nossa, os passaros ainda nao 
tern forgas que bastem para atirar pedradas. 



270 VERDADES INDISCRBTAS 

. Entretanto, Caldeira, o Libertador, que 
tinha visto voar os passarinhos e seu dono, 
imitou-os tambem; e la se foi, correndoa bom 
correr, pela rua S . Francisco Xavier a fora, 
ate que embarafustou por um capinzal proxi- 
mo ao Jockey-Club. Nesse capinzal trabalhava 
um certo Jose Angelo, que, vendo correr Cal- 
deira perseguido pelo povo, adheriu a massa 
perseguidora e tentou tomar-lhe a dianteira; 
mas Caldeira, apanhando um tridente que es- 
tavano chao, deu com elle uma pancada na 
cabega de Angelo, que caiu desaccordado. 
Ahi, ja desorientado, foi preso por populares, 
que o atacaram a cacete. Resultado: Angelo 
foi para a Santa Casa; Caldeira, o ornitho- 
philo, depois da indispensavel escala pela As- 
sistencia, foi dar com os ossos no xadrez no 
15° districto. E ahi esta como um acto de ge- 
nerosidade se transforma, de um moment© 
para outro, em noticia policial. Quanto ao 
vendedorde passaros, esta ate agora voando 
atraz dos bicos de lacre. E', pelo menos, o que 
parece. . . 

Eu nao sei si Manoel Caldeira, quando 
se arvorou em Tiradentes dos pintacilgos, obe- 
deceu a impulsos puramente libertarios ou a 
impulsos de vingan^a contra Olympic, o Se- 



O VENDKDOR DB PASSAROS 27 1 

nhor dos Passaros ; mas, seja como for, nao 
se pode deixar de ter sympathia por elle. A 
vinganga, quando proporciona azado ensejo a 
pratica de algum acto nobre que aproveite a 
innocentes, nobilita-se por isso. No caso do 
Caldeira, cresce a minha sympathia ao pensar 
que elle, para libertar patativas, teve de ferir 
um pobre homem e foi esbarrar no xadrez. 
Eterna ligao aos libertadores, eterna e incom- 
prehendida. . . O libertador nunca pode ati- 
rar aos grandes ventos do mundo um principio 
de Uberdade sem ferir a propriedade de 
muitos. Ora, o maior crime que ha para a so- 
ciedade conservadora e a violagao da proprie- 
dade. O codigo admitte attenuantes para o 
homicidio ; mas matar para roubar e crime que 
so tem aggravantes, ainda quando o homicida 
chegue a provar que, no momento do seu cri- 
me, estava hallucinado pela fome ou desespe- 
rado por ver famintos os seus filhos. Quando 
aquelle homem chamado Spartacus tentou 
libertar os escravos de Roma, o seu primeiro 
crime foi attentar contra a propriedade dos 
senhores sobre os escravos. Quando aquelles 
outros da Revolu9ao Francezaproclamaram os 
Direitosdo Homem, o seu primeiro crime, ao 
menos na opiniao dos realistas, era attentar 
contra a propriedade que tinha o Rei sobre as 
terras e mais bens dos seus subditos. Quanda 



272 VERDADKS INDISCRETAS 

agora, nos nossos dias, os revolucionarios exi- 
gem mais equitativa distribuigao da riqueza, 
nao exigem nenhum absurdo : mas sao per- 
seguidos, porque o burguez,que ajuntou o seu 
dinheiro e metalisou o seu coragao, so estima 
no mundo o seu ouro e pouco se Ihe da que 
haja famintos, comtanto que se respeitem os 
seus sacratissimos direitos de propriedade. 
Assim, Manoel Caldeira, soltando os passaros 
de Olympio, attentou contra a propriedade 
deste ; e foi por isso que a policia o perseguiu; 
e o povileo, com a sua multisecular incon- 
sciencia, correu-lhe ao encal^o para defender 
urn direito que as massas respeitam por ata- 
vismo. 

Quanto aos passaros, nao os condemne- 
mos por nao terem ido ainda ao xadrez agra- 
decer ao Caldeira a sua liberdade. Dos nove 
leprosos que Jesus-Christo curou, parece que, 
por emquanto, so um se lembrou de agrade- 
cer-Ihe tamanho prodigio. Os passaros sao 
distrahidos, como os homens. Entre uns e ou- 
tros a differen9a, salvo exterioridades eviden- 
tes, nao e das mais profundas : apenas, em- 
quanto OS passaros cantam sem saber musica, 
OS homens cantam por musica ; mas em m|i- 
teria de gratidao, uns e outros se parecem . . . 



Brule e o seu publico 



A Noticia^ sempre excellente, consolava 
liontem a todos n6s de um desastre immenso: 
a companhia Brule representou no Municipal 
uma pe9a excessivamente tragica de grao- 
guinhol ; e durante as passagens maistragica- 
mente guinholescas, o publico ria-se, diverti- 
dissimo. Senhores barrigoidos e portanto res- 
peitaveis sentiam arrebentar-se-lhes os cos das 
calgas quando alguma das actrizes, em caretas 
bem francezas, intentava traduzir angustia. 
Damas da mais alta representagao mundana 
sentiam derreter-se-lhes nos rostos os unguen- 
tos que a Providencia, sempre boa, suggeriu d 
imagina9ao humana contra as rugas. Senhoras 
elegantissimas tinham que recorrer ao p6 de 
arroz das bolsinhas caras, para recompor o 
rosto desfeiado por alegres lagrimas, alegres 
e estrepitosas lagrimas arrancadas por Brule 
quando, em esgares inimitaveis, gragas ao seu 

18 



274 Y^RDADES INDISCRETAS 

estrabismo celebre, interpretava tortures mo- 
raes. Porque Brule e, antes de tudo, irresistivel 
como actor comico. E' um dos maiores humo- 
ristas dos boulevards. Ja me havia dito um fre- 
quentador do Municipal, ha dias, que o nossa 
publico se ri de bon coeur quando Brule falla ; 
quando Brule se cala ; quando Brule anda \ 
quando Brule limpa com o len90 a poeira dos 
sapatos; quando Brule colloca no bolsinho a 
seu lengo branco, digno de Desdemona; em- 
fim acabou-se, quando Brule apparece no pal- 
co do Municipal, derrota em comico o nossa 
popularissimo Brandao, gloria nacional coma 
o sempre chorado Joao Caetano. 

— Mas porque ? — perguntei. 

— Nao sei, respondeu-me elle. O que 
sei dizer e que, muitas vezes, phrases escriptas. 
apenas para fazer sorrir de leve, ditas por 
Brule ou por alguem do seu grupo, sao fabri- 
cas de gargalhadas. Em Paris geralmente a 
publico sublinha com sorrisos certos parado- 
xes ditos em scena. Aqui toda a gente se ri 
desbandeiradamente. Porque serd ? 

Estudei dia e noite esse phenomeno pa-^ 
tho-mundano. Consultei os autores. Meditei 
como um touro inglez quando rumina a sua 
alfafa a um canto do curral. E, como Archime- 
des, eureka / Achei a chave do enigma e vem. 



BRCI,:fe E O SieU PUBI<ICO 275 

a ser que : o publico ri, porque nao entende^ 
mas quer mostrar que entendeu. 

A capacidade mental desse publico pode 
rcduzir-se arithmeticamente ao seguinte : 
50 % do publico nao comprehendem francez ; 
30% comprehendem francez, mas naotem agi- 
lidade mental que Ihes permitta apanhar no ar 
OS floculos fugidios de um paradoxo, coma 
um falcao agarra uma pomba no meio do seu 
voo ; ou tomar de repente uma idea qut es- 
voa^a, e alar-se com ella no espa90,como uma 
gaivota marinha apanha o peixinho que 
descuidoso se embala na onda que foge . . 
Restam 20 % de espectadores capazes de en- 
tender as intengoes paradoxaes do autor, caso 
o actor tenha talento para sublinhal-as com um 
sorriso, com uma inflexao de voz appropriada 
a phrase, com uma simples contrac9ao, leve, de 
musculos faciaes ; mas, destes vinte especta- 
dores aptos para entender uma comedia fina, 
ha dezoito que estao distrahidos, pensando 
na costureira da mulher, em negocios, em le- 
tras por veneer, ou entao dormindo pezada- 
mente, no trabalho brutal da digestao . De 
sorte que, contas feitas, sobre cada cem espe- 
ctadores do Municipal, apenas dous haverd 
que estejam comprehendendo a pega; destes 
dous bemaventurados, um, discreto, sorri com- 
sigo mesmo, sem inter^esse por que outros o 



VBRDXDBS IND1SCRETA5 



• n nutro embora intelUgente, 
^ejam ^-^^^V^isinhos revels a sua 

sorri para ^^J^^i^^^^^ Ora. os visi- 
aeudeza e o seu PO^Ys . or sua vez, 

Zs destes d°« ^^^-^.Tbem tnt'endem. que 
para mostrarem que ^""""^^hem bebem do 
Lmbem percebem, ^"^^ J^^m mais alto, 
fino; o-visinhosdosuhmosne ^^ ^^^^^ 

^^ '^^ "^tdistVo de Io.st; mens intelU- 
ou menos '»f ^^^^^ ftada relinchante de 
gentesampUa-senag^s ^, gexo. 

noveuta e <»;;,f;- ^^ ser em Pansum 
Eis porque B"^"'^' ^^^ <jeve, a meu ver, pen- 
actor de terceira ordem.de , 

sar da pl-t^^^"'°'^: ,t%o respeitavel pu- 
larissimo pensou certa vez ao v 

bUco de Pin<i»«°"^Sao popularissimo no 

Kepresenma B anda° P^ urn drama no- 

palco scemco d aquella ci ^ g^^ 

drama e uma das obras ^^^f^^^^^, po- 
theatro portuguez. ^^^'J „ bUco numa 
pularissimo arremett.a contra op ^^ ^9 

^'aquellas emoc.onant.ss.m^^ W ^^^^^ 

contra o capOao ^^^^ °^' "^r pu,arissimo erj 
convencidodequeBrandaop P ^ 

o primeiro com.co b-;J^°. ^„ , aizer bai 

S^pa^'oTfe^s^impanheiros de scena 



BRUL^ E O SEU PUBLICO 277 

— Mas que grandes burros ! Que gran- 
dessissimos burros ! 

Brule, la com o seu lencinho cosmopolita, 
esse lencinho que tern sido a perdi^ao de tan-- 
tas Desdemonas de Montmartre e do tropica 
de Capricornio ; Brule, la com a sua melin- 
drosa gardenia de guerra (que, felizmente para 
a Civilisagao, nunca foi as linhas do Marne)> 
deve, repetindo insconscientemente Brandao 
popularissimo, dizer a seus comparsas : 

— Mais Us sont betes tout de meme, ces 
rastas / Ah / les goujats / 

* 

O' Publico ! Publico amigo ! Eu nao sei 
bem o que pensas de Brule e de ti mesmo, 
porque, dizendo a verdade, nem sei si pensa- 
rds. Mas o que Brule pensa de ti, Publico ado- 
ravel, deve estarmaisou menos nessas poucas 
linhas em francez que acabo de offerecer-te . 
Entretanto, 6 Publico do meu cora9ao, o que 
deverias pensar de ti mesmo e o seguinte : 

ccEu nao devia estar aqui no Municipal 
todos OS dias para ver as casacas de Brul^ ha 
tres annos consecutivos. Brule em Paris 6 
actor de terceira ordem. BruM diz que esti 
fazendo propaganda da Franca e no emtanto 
nos vem dar, em recita official, Le Traite 
d'Auteuil, vodevil patife, em que a Fran9a, 



278 VERDADES INDISCRETAS 

ou, melhor dizendo, a alma franceza, apparece 
de tal sorte, que justifica tudo quanto os alle- 
maes dizem da corrupgao parisiense. Por can- 
seguinte, Brule 6 mau francez. Ora eu, na mi- 
nha qualidade de Publico burguez, pacato e 
aliiado, nao posso prestigiar com aminha pre- 
seuga a philaucia de um francez que vem fazer 
propaganda da Fran9a com o Traite d'Au- 
teuil e com as Demi- Vierges do detestavel en- 
genheiro Prevost. Demais a mais, eu nao en- 
tendo o que dizem Brule e essas raparigas 
decotadas que eu cuido ja ter visto ali na Con- 
feitaria Colombo asseis datarde. Eu, que sou 
o respeitavel Publico, ji ouvi algum dia fallar 
na Sabine Landray e nas outras? Nao. Os 
jornaes e que andaram ahi adizer que a Lan- 
dray e a Fabry eram grandes actrizes. E eu, 
como um alarve, acreditei. Acreditei e vim, 
paguei, vi e applaudi ; mas nao entendi ; por 
consequencia, revelei-me parvo ; ora o papel 
de parvo e incompativel com a minha alta e 
pan^uda posigao de respeitavel Publico. Eu so 
posso applaudir o Cid, Shy lock y Cinna, Es- 
ther, Luiz XI, Rormersholm, Os Espectros, Le 
monde ou I on sennuie e Le Voyage de Mon- 
sieur Perrichon, porque sao pegas ja consa- 
gradas pelos applausos dos entendidos. E eu 
sou entendido em theatro ? Nao. Eu sou en- 
tehdido em manganez, jogo do bicho, arren- 



BRDI.fe E O SEU PUBI^ICO 279 

damento de navios, oscillagoes bancarias, fei- 
jao, arroz, trigo, construcyoes de predios, 
fornecimentos a ministerios, estradas de ferro 
« manifesta96es conservadoras. O meu logar 
^ nos bancos, na Bolsa, nos escriptorios de 
commissoes e consigna^oes, nas assembleas 
industriaes, nos centres de commercio, nas 
irmandades, nas directorias de hospitaes, na 
Magonaria, nas ligas patrioticas situacionistas, 
nos conselhos deliberativos de sociedades fi- 
nanceiras e nas recep9oes de gente rica e cheia 
de callos, jogando bridge e bocejando, ou en- 
tao fazendo gyrar o poUegar da mao direita 
em torno do pollegar da mao esquerda e vice- 
versa. Eu so devo ir a theatros onde repre- 
sentem companhias portuguezas e brasileiras. 
A bella chala9a, o pontape na espinha, o guarda 
nocturno da zona, o compadre da revista, a 
apotheose fulgurante de latilhas e luz de ma- 
^nesio, isso, sim, esta ao alcance da minha 
vasta inteliigencia. Mas o theatro francez mo- 
derno, esse nao o entendo eu; e, nao o enten- 
dendo, exponho-me a esse ridicule deapplau- 
dir Brule, actor de terceira classe, como si 
applaudisse Zacconi, e de bater palmas a 
pegas que, si eu e minhas filhas entendesse- 
mos, nao teriamos approvado, porque sao 
immoraes. E' por isso que Roberto Gomes, 
segundo dizem, vae explicar no Municipal o 



280 VERDADES INDISCRETAS 

que seja Pelleas et Melisande, antes do espe- 
ctaculo. Brule, que sabe que eu nao entendo 
nada de theatre, pediu a Roberto que me 
viesse dizer que Pelleas et Melisande e diffe- 
rente do Forrobodo, e que Maetterlinck nao 
e bem egual a Eduardo Garrido ; e Roberto, 
sempre benigno, vae explicar-me todas 
essas coisas transcendentes. Ora, Roberto 
ficaria livre dessas fadigas intellectuaes e vo- 
caes, si eu entendesse de theatro o sufficiente 
para ver que Brule e um bom Arsene Lupin e 
nada mais. Portanto, o que eu devo fazer e 
nao ir ao Municipal, onde me sinto deslocado^ 
onde so devem ir os competentes e onde eu 
rio quando e hora de chorar e choro quando e 
hora de rir.» 

Eis ahi, 6 Publico amavel, o que devias 
dizer a ti mesmo; e, depois de dizer tudo isso 
a ti proprio, devias pratical-o, abandonan- 
do o Municipal e indo ao S. Jose, onde te 
sentes tao a tua vontade . . . 



Brasileiros e estrangeiras 



Segundo se affirma, ha na nova reforma 
do Ministerio do Exterior uma disposigao hos- 
til ao casamento entre diplomatas brasileiros 
e mulheres estrangeiras. Por esse dispositivo 
nao ficam terminantemente prohibidos taes 
enlaces, mas qualquer diplomata brasileiro, 
que desejar — como diria o sr. Ruy Barbosa — 
fazer maridanga com mulher forasteira, tera de 
solicitar licenga ao ministro do Exterior. 

Ha queni affirme ser perfeitamente inu- 
til semelhante artigo, sobre o seguinte funda- 
mento : a menos que se trate de alguma actriz 
malafamada, ou de alguma prostituta celebre, 
que tenha seduzido algum dos nossos diplo- 
matas, estes sempre obterao licenga para casar 
com estrangeiras. Por exemplo: um diplomata 
nosso pede e obtem licen^a para casar-se 
com uma ingleza ; como negara o ministro 
licen^a a outro que deseje tomar por esposa 



282 VERDADES INDISCRKTAS 

uma argentina, que esteja em egualdade de 
^ondigoes moraes e sociaes com a ingleza? 

Admittamos aindaahypothese em que o 
ministro, por antipathia para com certo diplo- 
mata, Ihe negueuma licenga, embora egual ja 
tenha sido concedida a outros. O caso e perfei- 
tamente possivel. Nada mais natural do que 
haver animadversoes entre o ministro do Ex- 
terior e seus subordinados, principalmente si 
o ministro houver sido tirado da carreira di- 
plomatica. . . Bem pode ser, com effeito, que, 
entre o ministro e o diplomata em questao, 
haja havido outrora algum incidente por amor 
de alguma transferencia ou de alguma promo- 
^ao em que um tenha sido supplantado pelo 
outro. O ministro, pois, aproveita-se da situa- 
^ao para vingar-se do seu antagonista, fazen- 
do-lhe picuinhas em materia delicada, como e 
o casamento. Chega a negar-lhe a licen^a pe- 
dida, embora se trate de senhora digna de 
casar-se com qualquer dos mais gravibundos 
diplomatas. 

Que fazer num caso desses ? Como agir 
para com semelhante ministro ? Mandar ami- 
gos fallar a S. Ex. ? Mas S. Ex. podera dizer 
a esses amigos, limpando com o lengo as suas 
lunetas : 



BRASII^EIROS E ^TRANGEIRAS 283 

— Nao pensem voces que eu queira per- 
seguir o homem. Si Ihe neguei a licenga, foi 
porque tinha motivos. . . 

— Mas n5o pode ser, sr. ministro. Sabe- 
mos que se tratade umasenhora honesta. Nos 
a conhecemos de Paris, de Londres, de 
Haya. . . 

— Mas nao podem conhecel-a tanto 
quanto eu, que alias nunca a vi. Sei que ella 
nao merece a mao, por tantos titulos illustre, 
do nosso amigo. Tenho informagoes dos agen- 
tes confidenciaes . . . 

Desolados, escrevem os amigos ao diplo- 
mata : 

(nCaro F . — O seu caso sentimental, que 
/, como V. sabe, tambem o nosso caso, compli- 
ca-se cada vez mais. Estivemos eu e B. com o 
ministro, que se mostrou inconciliavel a esse 
respeito. Deve haver por ahi intrigantes inte- 
ressados em molestal-o, porque, conkecendo como 
conhecemos a sua noiva e a V. tambem, que 
jamais commetteria a leviandade de dar o seu 
nome a mulher que o nao merecesse, passamos 
pela surpresa de ouvir declarar o ministro que 
fundamento da recusa da licenga eram in- 
formagoes desfavoraveis a Madame Tres Es- 
trellas, informagoes que — la o disse S. Ex . — 
Ihe for am mandadas por agentes confidenciaes! 



284 VERDADES INDISCRETAS 

Veja si ha, entri os nossos agentes confiden- 
ciaes aki, algum que tenha motivo de resenti- 
mento contra V.. Mande-me suas or dens e creia 
que OS seus amigos tudo farao pela sua felici- 
dade, so desejando todos desmascarar os inimi- 
gos occultos da sua noiva. Procure V. indagar 
do grau de relagdes que por ventura existam 
entre a familia de sua 7ioiva e o ministro da 
Hollanda aqui. Ndo set porque, ando mHo des- 
confiado deste fidalgo . . . Sempre seu — /4 . » 

Ora, o diplomata sabe perfeitamente que 
o ministro da Hollanda nada tern que ver com 
a attitude do ministro do Exterior ; que na 
s6de da sua iegagao nao ha agentes confiden- 
ciaes do Brasil ; e que ^ua noiva e respeitadis- 
sima ; pelo que, urra de la aos amigos pelo 
cabo submarino : a. Ministro mentiu : nenhum 
confidencial aqui ; Hollanda innocente.y> 

Supponhamos agora que o diplomata seja 
o que se chama homem de genio forte, e veja 
sua noiva emmaranhada pelo ministro nesse 
labiryntho de infamantes insinua96es. A tal 
homem so Ihe resta uma saida : pedir licen9a, 
ou, ainda sem licenga, vir ao Rio de Janeiro, 
correr ao Itamaraty, cair como um raio no ga- 
binete do sr. ministro e partir a murros uns 
tres ou quatro dentes a S. Ex., caso os tenha. 
A saida nao sera das mais finamente diploma- 



BRASILEIRO K BSTRANGBIRAS 285 

ticas, mas, para casos desses, nao vislumbro 
outra. E os senhores vao ver que o future tal- 
vez me d^ razao : esse dispositive da reforma 
ainda nos proporcionara bons pratinhos . . . 

Ha quern ja tenha suggerido adoptar o 
que se pratica na Inglaterra : prohibi9ao abso- 
luta, para qualquer agente diplomatico, de 
casar-se com mulher que nao seja ingleza. 

A isto se responde, dizendo que: 

Primeiro — nao se pode por freio ao co- 
ragao de ninguem; 

Segundo — a Inglaterra ja pode es- 
tabelecer limitagoes nesse sentido, ao passo 
que n6s ainda nao estamos em condi96esde 
fazel-o. 

Com effeito, a Inglaterra tem abundan- 
cia de mulheres bellas e aptas a serem b6as e 
leaes companheiras do homem que eleger o 
seu cora9ao; nos ainda nao temos o necessa- 
rio . . . O diplomata inglez que, em todo o 
Reino Unido e no Imperio Britannico,nao en- 
contrar uma mulher a sua feigao, ou nao tem 
sorte nenhuma, ou entao e exigente de mais. 

No Brasil, ja o caso e mais complicado. 
O rapaz que segue a carreira diplomatica pas- 
sa geralmente tres a quatro e mais annos no 
estrangeiro. Por la trava elle suas rela^oes fa- 
miliares; portanto, nada mais natural que se 
embeice por alguma das m69as do paiz e se 



286 VBRDADKS INDISCRETAS 

case com ella. Demos, entretanto, de barato, 
que o rapaz, depois de quatro annos de au- 
sencia, volte solteiro para o Brasil e queira 
casar-se com uma patricia. O diplomata, ge- 
ralmente, nao conhece as m69as do interior; 
e, embora venhaaconhecel-as, provavelmente 
nao querera tomar por mulher uma rapariga 
bisonha. inexperiente e talvez refractaria ao 
viver que Ihe destina seu marido. Assim, elle 
tem de escolher esposa por aqui mesmo. 

Diz o dictado que quern imagina nao 
casa; ora, quem imagina alguns momentos a 
respeito das meninas do Rio, fica sem saber si 
casa ou nao casa. Ha de haver com certeza 
por ahi muita menina que, sendo intelligente 
e interessante, seja tambem honesta; mas ne- 
nhuma dellas traz estrella na fronte para dis- 
tinguir-se das que nao osao. E que pensar da 
moralidade domestica dominante numa cida- 
de em que, aos primeiros rebates do Carna- 
val, saltam para a rua as md^as todas, com 
suas maes e sens paes, com seus irmaos e seus 
noivos, com as suas irmas menores, a berrar 
despejadamente dentro de caminhoes, e a 
cantar coisas tao torpes que o jornaes se 
veem obrigados a chamar a atten^ao da poli- 
cia ? Ninguem quer que as md^as e as meni- 
nas se vistam de burel e passem os dias em 
jejuns e cilicios; mas tambem nao se p6de 



BRASII,BlROS B ESTRANGEIRAS 287 

permittir que lev em a sua liberdade ao ponto 
de entoar cantigas tao iicenciosas, que nao se 
usam nem em assembleas de meretrizes, a 
nao ser que se trate de rebombeiras da mais 
baixa extracgao. De maneira que, ao ver uma 
menina e ao pensar em casar-se com ella, 
deve o rapaz interrogar: «Tera esta pequena. 
feito o Carnaval ? Tera cantado o Na minka 
cdsa nao se raclia lenha ?» (1) 

Grave erro sera suppor que os rapazes bra- 
sileiros, na suamaioria, desejem casar-se com 

(1) Entre as canfoes mais em voga durante o ulti- 
mo Carnaval (1920), uma havia cuja letra era a seguinte 

CAVALHEIROS 

Na minha casa nao se racha lenha ! 

DAMAS 

Na minha racha ! Na minha racha ! 

CAVAI^HEIROS 

Na minha casa nao ha falta d'agua ! 

DAMAS 

Na minha abunda ! Na minha abunda ! 

DAMAS 

Na minha casa nao se pica fumo ! 

CAVALHEIKOS 

Na minha pica ! Na minha pica ! 

K assim por deante. . . 

f^stas torpezas, em que a ausencia de espirito se^ 
consnbstancia com a mais repugnante falta de gram- 
matica, eram cantadas i. porfia por mo90s e mopas que 
se presumem de bdas familias. A policia interveio ^ 
tempo de impedir que se generalisassem esses miasmas- 
moraes. 



288 VERDADES INDISCRETAS 

meninas carnavalescas e levianas. A essas 
apreciam-nas os rapazes como companheiras 
de troga; quando, por^m,se trata de casamen- 
to, buscam outras. . . 

Tenhamos a coragem precisa para re- 
conhecer o seguinte: o systema de educagao 
adoptado para as meninas cariocas, assim 
como para as de outras cidades gran- 
des do nosso paiz, e pessimo. Essa educa- 
gao consiste num pouco de musica (piano e 
canto), algumas lambugens de lingua patria e 
de francez, dansa, futebol e arte de cagar ma- 
ridos. A mo^a estrangeira, sem saber musica 
e entendendo mediocremente de futebol, sa- 
bendo theoricamente muito menos do que a 
brasileira de beiramar, que e a mais civilisada 
das brasileiras; a m69a estrangeira, como nas- 
ceu e foi educada no trabalho em outros cen- 
tros de cultura e civilisa9ao, sabe trabalhar, 
sabe defender-se na lucta pela vida e sabe ser 
esposa seria, grave, solidamente compe- 
netrada assim dosseus deveres como dos seus 
direitos. D'ahi, a preferencia que vao tendo 
as estrangeiras (francezas e italianas poucas, 
inglezas, um pouco mais, argentinas ja algu- 
mas, e principalmente as allemans) perante jo- 
vens brasileiros. A muitos conhe90 eu casa- 
dos com estrangeiras e dao-se a maravilha 
com ellas e ellas com elles. De varios sei eu, 



BRASII.B1ROS B ESTRANGKIRAS 289 

rapazes de b6as familias e de b6as prendas, 
bem educados, bem apessoados, alguns ate 
com dinheiro de seu, que aguardam opportu- 
nidade para ir i. Europa, onde pensam em ca- 
sar-se, de preferencia com allemans, que as 
ha lindissimas, e sao geralmente mulheres 
muito calmas, muito b6as donas de casa e ha- 
bituadas a ver o mundo atravez das pupillas 
de seus maridos. As nossas patricias, pois, es- 
tao, no terreno sentimental e domestic©, 
amea^adas de perigosa concorrencia . . . 

O que aqui digo 6 o que observo e o que 
0U90 a amigos e conhecidos dignos de marca. 
Nao se trata da mulher do interior, a mdga 
brasileira authentica, muito santa, b6a engom- 
madeira, mae maravilhosa, esposa adoravel 
como enfermeira, mas enfermeira muito in- 
sipida para esposa ... A mulher de que aqui 
se trata e a brasileira civilisada. Ora, esta, na 
concorrencia, tem de ser derrotada pela es- 
trangeira; porque a estrangeira medianamen- 
te educada e necessariamente mais intelli- 
gente, mais fina e mais civilisada do que 
a brasileira finamente educada, que traz para 
o lar, juntamente com a sua educa^So, uma 
serie in6ndavel de preconceitos arices- 
traes contra os trabalhos caseiros e coritra 
a submissao que todas devem a seus msiridos 
em virtude do direito natural do mais forte so- 

19 



290 VERDADES INDISCRETAS 

bre a mais fraca. Ha excepgoes, mas ninguem 
pode argumentar com excepgoes, porque es- 
tas s6 servem para confirmar a regra geral. 
Ahi esta porque muitos rapazes de fina edu- 
ca^ao se temem de casar-se com as patricias, 
porque nao sabem o que esta do outro lado 
do veo ... E as mogas, que, com a sua desen- 
voltura e o seu desbragamento carnavalesco, 
suppoemarranjar bons parti dos, v6am linda- 
mente, alegremente, para a sua propria ruina» 
visto que OS rapazes serios, graves, que dese- 
jam formar o seu lar honestamente, sem re- 
ceio de serem victimas do ridiculo e aponta- 
dos na rua, a dedo, como capricorneos, esses 
nao se casam com meninas assanhadas; mas, 
como nao e facil distinguir entre levianas e 
virtuosas, vao elles,por seguro, preferindo es- 
trangeiras; ate porque, no caso de engano, 
muito menos doloroso sera para qualquer ho- 
mem ser trahido por estrangeiras do que por 
patricias. Isto para os simples mortaes, que 
nao fazem parte da carreira diplomatica. 

Que diremos entao dos diplomatas, que 
passam annos longe das patricias ? Direriios 
/que nao se Ihes p6de cercear o direito de es- 
colher esposas entre as mulheres honestas dos 
paizes em que servirem. Demais, o casamen- 
to entre brasileiros e estrangeiras s6 nois p6- 
de trazer vantagens, uma das quaes e nao das 



BRASILBIROS K ESTRANGEIRAS 291 

menos apreciaveis, e a de melhorar a nossa 
triste raga ... 

Claro esti que, quando eu digo mulkeres 
estrangiiras, entendo alludir a ra9as fortes e 
bellas, como a germanica, a anglo-saxonica, a 
slava e a italica. Em materia de mulheres, 
como em materia de industrias texteis,nao po- 
demos ainda ser proteccionistas, porque, em 
ambos estes pontos, o estrangeiro, por em- 
quanto, produz e ainda durante muito tempo 
produzira mais, melhor e mais barato do que 
nos. Em questoes de mulheres, so podemos e 
devemos ser livrescambistas . . . 



Vinte e um de abril 



Nao ha necessidade de dizer quern 
haja sido o alferes Joaquim Jose da Silva 
Xavier, o Tiradentes. Toda a gente sabe que 
esse glorioso compatriota foi um sonhador que 
a tyrannia portugueza mandou enforcar e es- 
quartejar por ter querido libertar a sua patria 
de um jugo infame e infamante. Mas o que 
nem toda a gente sabe (porque poucos sac 
ainda os que se dao aos estudos da nossa His- 
toria) e que essa conspira^ao do Tiradentes, 
tao exemplarmente castigada pelo colonisa- 
dor tyrannico e bronco, era um simples epi- 
sodic do permanente espirito de revolta que a 
tyrannia portugueza mantinha em Minas, 
como em todo o Brasil, mas principalmente 
em Minas. 

Jd tinha havido a guerra mineira entre 
paulistas e emboabas (como eram conhecidos 
OS portuguezes), a qual durou de 1710 a 1715. 



294 VSRDADES INDISCRETAS 

Ja tinha havido a subleva;9ao de Philippe dos 
Santos em Villa Rica, no anno de 1720, sen- 
do Philippe dos Santos, consoante os estylos, 
enforcado e esquartejado por ordem do fero- 
cissimo conde de Assumar, governador da 
Capitania. Outras sublevagSes se tinham dado 
em outros pontos. 

A corte de Lisboa nunca pensou num 
so beneficio a conceder aos povos das Minas. 
Para as Minas eram man dados como gover- 
nadores (salvo rarissimas excepgoes, como o 
esclarecido dom Rodrigo de Menezes) fidal- 
gos arrebentados, devassos, concussionarios, 
ladroes averiguados, verdadeiros degenera- 
dos e desclassificados que Lisb6a afastava de 
si para o Brasil como si atira o lixo no mon- 
turo. Quem qufzer ter idea do que foi a 
colonisagao portugueza, principalmente em 
Minas, leia a Historia Antiga das Minas, de 
Diogo de Vasconcellos, as Memorias do Dis- 
TRiCTo DiAMANTiNO.deJ.Felicio dosSantos,as 
Ephemerides Mineiras, de Jose Pedro Xavier 
da Veiga. Sao livros feitos exclusivamente de 
documentos. 

Querem conhecer algumas amostras, co- 
Ihidas nas Ephemerides ? Pois ahi vao... 

A 12 de outubro de 1758, ordensr^gias 
prohibiam a abertura de estradas na capitania 



VINTB B UM DB ABRII, 295 

de Minas, para evitar o extravio do ouro e dos 
diamantes. A carta regia de 25 de mar90 de 
1725 e a ordem de 29 de abril de 1727 ja 
tinham mandado suspender a abertura de ca- 
minhos de Minas para Matto Grosso. As or- 
dens de 30 de abril del727 e 15 de setembro 
de 1730 tinham j a prohibido a abertura deu ma 
nova estrada de S. Paulo para Minas. 

O alvara real de 27 de outubro de 1733 
prohibiu abrir novas picadas para as minas 
descobertas ou por descobrir. 

A ordem regia de 9 de abril de 1745 
prohibiu uma estrada de Ayuruoca para o rio 
Parahyba. 

Que systemaintelligente de colonisagao ! 
Realmente Joao de Barros tem razao para 
vir aqui convencer-nos daenergia civilisadora 
da sua raga . . . 

Impossibilitados de viver da extracgao do 
ouro, porque este pertencia quasi todo ao rei 
de Portugual, deliberaram os mineiros recor- 
rer a agricultura, a industria e ao commercio 
para poderem viver. 

Entre outras coisas que fizeram, come9a- 
ram a plantar canna de assucar e a levantar 
engenhos para beneficial-a. Pois a 18 de no- 
vembro de 1715 uma carta regia ordenava ao 
governador da capitania, dom Braz Balthazar 



296 VERDADES INDISCRETAS 

da Silveira, que prohibisse o levantamento de 
mais engenhos de assucar em Minas «porque 
occupavam grande numero de negros, que de- 
viam estar occupados na extracgao do ouro ! » 
Hurrah ! pela intelligente raga colonisa- 
dora ! . . . 

Os brasileiros sempre foram amigos da 
leitura. Entretanto era prohibida a entrada de 
livros no Brasil ! Livros aqui so entravam de 
contrabando e , . . ai de quern fosse encon- 
trado a ler livro que nao fosse o das Horas 
Marianas ! Nao contente a corte de Lisboa 
com isso, uma carta regia de 6 de julho de 
1747 ainda prohibiu, sob penas severissimas 
(agoites, confisco, degredo para a India, etc . ) 
que se estabelecesse imprensa no Brasil, sen- 
do, em virtude da mesma carta regia, destrui- 
da a unica tentativa de officina typographica 
existente no Rio de Janeiro ! 

Carta regia de 30 de julho de 1766 man- 
dou destruir todas as officinas de ourives exis- 
tentes em Minas, prohibindo que taes opera- 
rios se installassem na capitania e ordenando 
que todos os officiaes e aprendizes desse offi- 
cio assentassem praga nos regimentos colo- 
loniaes. 

Por aviso da mesma data ao governador 
da capitania, mandava o Conselho Ultrama- 



VINTJS E UM D15 ABRIL 29T 

rino dar a Onofre da Foiiseca Neves o em- 
prego de tocador de foUes da Casa de Fundi^ 
9ao de Villa-Rica. Ate um simples tocador de 
folles tinha de ser nomeado em Lisboa! A^ 
tyrannia, quando se afasta do tragico, tern* 
desses aspectos grotescos . . . 

Em 1756 (1 de agosto), come9ou em Mi- 
nas a arrecada9ao do chamado subsidio litte- 
rario, destinado a reconstruir Lisboa, devas- 
tada pelo terremoto do anno precedente. Fi-^ 
cou expressamente declarado que essa arre- 
cadagao seria apenas por dez annos. Pois ate 
pouco antes da nossa Independencia, apezar 
dessas declara96es, ate o principio do secula 
XIX, ainda se arrecadava em Minas o subsi- 
dio litterario para reconstruir Lisboa! \5vn 
quadro parcial, de que tratam as Ephemeri- 
DES, demonstra que so no periodo de 1758 a. 
1779 foi arrecadada e remettida para Lisboa 
a importancia ouro de 1.030:705$366. 

Ahi estao alguns dos motivos historicos^ 
que todos temos (principalmente nos os mi- 
neiros), para sermos amicissimos dos nosso& 
irmaos, os portuguezes. A elles devemos^ 
tudo : a industria, a agricultura, a instrucgao, 
o commercio, a imprensa, tudo, tudo. Joao de 
Barros e o curiboca dissorado Joao do Rio saa 
dessa opiniao . . . 



Incidente litterario 



(Aossrs. Roberto Gomes e Goulartde Andrade) 



AmigosI — Voces sao ambos immensos ! 
Conseguiram arranjar, em plena guerra, um 
incidente litterario ! 

Desculpem-me intrometter-me nessapen- 
dencia d'honra. Nao posso sentir barulho na 
Republica das Letras, sem entrar tambem 
nelle. Nisto sou um pouco como aquelle Joao 
Foga9a, o capitao do matto das Minas de 
Prata, o qual, ouvindo retinir de espadas num 
recanto, certa noite de ciumada, parou, escu- 
tou um pouco e grunhiu : « Ahn ! Briga-se por 
aqui ? . . . » E brigou tambem, apenas para 
distrahir-se ... K' o meu caso : entediado de 
patriotismo, resolvi conversar com Voces a 
respeito do incidente litterario. Si Roberto 
plagiou, no Declinar do Dia, o Assump^ao 
de Goulart, isto nao interessa nem ao paiz 
nem ao Paraguay. O que interessa aos psy- 



300 VERDADES INDISCRKTAS 

chologos e a candura de ambos : Roberto, de- 
fendendo-se de ter plagiado Goulart ; Goulart, 
achando que Roberto, si nao o plagiou, teve 
comelle a urn encontro nasituagao dramatica» 
das pegas d'ambos; afeliz, alids, continua 
Goulart, com ver que o meu notavel confrade 
houvera dado a mesma solugao ao conflicto 
psychologico deque trataramos.» Apenas, ne- 
nhum de Voc^s ignora que esse conflicto psy- 
chologico, que ambos resolveram, jatinha sido 
resolvido ha muito tempo, quer na theoria,. 
quer na pratica. . . 

Voces precisam de deixar de tomar a lit- 
teratura a serio. Fagam como Bilac, que 
adheriu as phalanges patrioticas, e assim 
vae vivendo optimamente, louvado Deus^ 
apezar de ter, segundo opiniao corrente, pla- 
giado Stecchetti. Fagam como o commenda- 
dor Paulo Barreto, que tem sido accusado de 
plagiar a vida inteira Jean Lorrain, e nunca 
se defendeu — o que nao o impede de ganhar 
a sua vida maravilhosamente bem, e ate de 
ser amigo intimo do Sultao da Turquia. Fa- 
gam como o conselheiro Ruy Barbosa, presi- 
dente da Academia, accusado de plagiar o 
diccionario de Larousse, sem nunca procurar 
defender-se. Tantos outros, tantos... S6 nao 
ponho aqui Shakespeare, Goethe, Racine e 



INCIDENTS LITTEKARIO 301 

Moli^re, porque, sendo eu profundo respeita- 
dor dos genios, nao me atrevo a mistural-os 
com a litteratura nacional ; e nao ponho aqui 
escriptores portuguezes, porque, sendo eu 
profundo respeitador da litteratura nacional, 
nao ouso confundil-a com a lusitana. 

Isso de dizer que os outros nos plagiam 
e ridiculo. E' balda de Hermes Pontes. Este 
microscopico cravo das ferraduras do Pegaso 
esta convencido de que voce, 6 Goulart, e 
todos OS demais poetas nacionaes nao fazem 
mais nada sinao plagial-o. Imagine, 6 Goulart, 
a sua Ballada de Pierrot . . . imitada do so- 
neto do Bromill 
^ E agora, filhos, adeus ! Sejam felizes e 
tenham juizo. Deus os abengde. Fagam as 
pazes, porque nao e serio estarem os amigos 
empenhados nesse conflicto singular em que 
um se defende de ter plagiado, num drama 
que ninguem viu, um romance que ninguem 
leu . . . 



O descobrimento do Brasil 



Hontem, no pardieiro intitulado Theatro 
Republica, perante numerosa assistencia com- 
posta exclusivamente de patricios seus, o feste- 
jadissimo poeta portuguez, sr. Joao de Barros, 
descobriu mais uma vez o Brasil. 

Dos portuguezes que por ca tem vindo, 
desde o infausto anno de 1600 ate hoje, o 
unico que verdadeiramente nao descobriu o 
Brasil foi Pedro Alvares Cabral . 

Por duas especies de motivos digo eu 
que Cabral nao descobriu o Brasil : por moti- 
vos historicos e pela significa9ao moderna da 
locugao descobrir o Brasil. 

Quanto aos motivos historicos, e sabido 
que Gabral foi no seu tempo um dos ultimos a 
conhecer o Brasil . Antes delle ca haviam es- 
tado Diogo de Leppe, Solis, Yanez Pinzon e 
outros que infelizmente nao tiveram a inicia- 
tiva de tomar posse da nova terra para a cd' 



304 VERDADES INDISCRKTAS 

r6a da Franga ou para a cor6a da Hespanha . 
Nessa nao caiu Cabral, que, capitaneando um 
punhado de corsarios, que iam entregar se a 
lucrativa industria da pirataria nas costas india- 
nas, tanto que avistou terra, mais que depressa 
desceu e aqui plantou o marco portuguez. E' 
este o seu unico merito ; pelo que, si os portu- 
^uezes devem venerar a memoria de Cabral, 
que Ihes deu no passado uma rica possessao, 
<ie cujos recursos ainda hoje exclusivamente 
vivem, os brasileiros nao tern nenhuma razao 
para tanto. Nos brasileiros so devemos vene- 
rar a memoria dos nossos heroes: Calabar, 
trucidado pelos portuguezes em 1635; Phi- 
lippe dos Santos, esquartejado em Villa Rica, 
por ordem dos portuguezes, no anno de 1720; 
Tiradentes, enforcado e esquartejado no Rio 
de Janeiro, no anno de 1792, em virtude da 
sentenga da al9ada portugueza : Frei Caneca, 
o padre Miguelinho, o padre Roma e outros 
patriotas fusilados pelos portuguezes em Per- 
nambuco e na Bahia, no anno de 1817 ; Clau- 
•dio Manoel da Costa, assassinado na prisao 
{Inconfidencia Mineira) entre 1789 e 1790; 
OS que morreram nas masmorras do Limoei- 
TO e da Junqueira, assim como nos d^gre^ios 
da Africa, expiando o crime de terem amado 
a sua patria. A memoria destes e que deve- 



O DESCOBRIMENTO DO BRASII, 305 

mos venerar, e mais a dos vencedores da In- 
dependencia e da Regencia : Gongalves Ledo, 
Antonio Carlos, Martim Francisco, Jose Bo- 
nifacio, Evaristo da Veiga e, acima de todos, 
o grande padre Diogo Feijo, o Regente 
de Ferro, verdadeiro plasmador da unidade 
nacional, cuja memoria deve seragitada como 
uma bandeira de guerra. Veneremos no mes- 
mo piano em que estiver Diogo Feijo o ma- 
rechal Floriano Peixoto, cuja espada e^uja 
serena energia souberam manter a unidade 
nacional nos agitados primeiros tempos da 
Republica. . .- 

Voltemos, porem, ao nosso intento. His- 
toricamente, Cabral nao descobriu terra ne- 
nhuma por aqui ; apenas apoderou-se de um 
territorio incluido entre os descobrimentos de 
Colombo (por ter sido este o descobridor de 
todo o continente americano) e positivamente, 
directamente ja descoberto por outros, como 
Solis, Pinzon, Leppe, etc. 

Em virtude da significa9ao moderna da 
locugao descobrir o Brasil, tambem e evidente 
que Cabral nao nos descobriu. 

Cabral, com effeito, depois de tomar 
posse do Brasil e de ter ido a India, (onde 
praticou a bravura de destruir com artilharia 
grossa algumas chalanas malabares, feitas de 

20 



306 VERDADES INDISCRETAS 

vime e de madeira fragillima) voltou a Portu- 
gal, onde, depois de receber alguns premios,. 
viveu e morreu tao obscuramente, que, so de- 
vido a esforgos de um brasileiro (o dr. Al- 
berto de Carvalho),se descobriu o seutumula 
no seculo XX. De sorte que o Brasil pouco 
aproveitou ao navegador. Nao e isso, pois,. 
que se chama descobrir o Brasil, como se vae 
ver. 

Descobrir o Brasil e fazer como Malhei- 
ro Dias, que, depois de insultar-nos no seu 
livro A MuLATA e de terfugido para Portugal,, 
para ca voltou annos depois, estabeleceu-se 
com fabrica de unguentos e pomadas, de so- 
ciedade com uma polaca sua amiga, e toca a 
levar vida regalada ! 

Os irmaos Monjardino, medicos, aquf 
vieram em visita, diziam elles. Foram recebi- 
dos na Sociedade de Medicina ; tiveram ban- 
quetes, discursos e retratos nos jornaes. Apa- 
nhado esse vasto e excellente reclamo feito a 
custa da ingenuidade dos seus coUegas brasi- 
leiros, que pensavam estar rendendo home- 
nagens a simples visitantes illustres, um dos 
Monjardinos voltou para Lisboa, mas o outro, 
mais pratico e esperto, gostou tanto deste 
paiz, que resolveu ca montar consultorio e fez 
muito bem, pois como ja dizia o seu patricia 



O DBSCOBRIMENTO DO BRASIIv 307 

Pero Vaz Caminha, a a terra he em tal maney- 
ra graciosa que em se querendo nella se dari 
tudo», inclusive a arvore das patacas. . . 

Descobrir o Brasil e finalmente fazer 
como o dr. Joao de Barros, que nos conta, a 
respeito da nossa terra, coisas de que nunca 
ouvimos fallar. Ainda hontem nos dizia elle , 
com o seu sibilante sotaque alfacinha, que no 
Rio de Janeiro «a intelligencia, o talento e o 
genio tomam as mais fascinantesf6rmas». Ora 
ahi esta uma grande novidade para nos, por- 
que a intelligencia aqui e relativa, como em 
toda a parte ; o talento e rarissimo ; quanto ao 
genio, ainda esta por apparecer, a nao ser que 
o sr. Barros nos tenha trazido ahi um pouco 
da mercadoria nalgum barrilote d'ovos 
moll's d'Aveiro. 

Nao contente com isso, disse ainda o 
consagrado litterato, que no Rio de Janeiro 
«o mar tem o riso fresco das boccas novas das 
mulheres e a eterna alegria do riso alacre dos 
deuses pagaos)). Isto agora e asneira e grossa. 
Pode ser que em Lisb6a esse palavreado so- 
noro ainda seja muito b6a litteratura, mas 
aqui no Rio, nao. Mar que parece bocca de 
mulher e riso dos deuses ao mesmo tempo, 
isto e mar androgyno, macho e femea simul- 
taneamente, mar Ganymedes, cujos recondi- 



308 VERDADES INDISCRETAS 

tos mysterios so o dr. Joao do Rio nos po- 
dera explicar . . . 

Finalmente mestre Joao de Barros en- 
cerrou a festanga com dois berros a portu- 
gueza : Pelo Brasil / Por Portugal! A mim 
quer-me parecer que esses senhores adeptos 
da recolonisagao do Brasil pelos portugue- 
zes (pelourinho, forca, fusilamentos, esquar- 
tejamentos, prohibi^ao de abrir estradas, es- 
colas, bibliothecas, etc.) esses senhores estao 
exaggerando as coisas com essa gritaria Por 
Portugal! Nosnao ^^^^vcios^xxx.'ax Por Portu- 
^^/,porque amanha pode um italiano exigir que 
gritemos Pela Italia! Um allemao pode querer 
que gritemos Pela Allemanha! E qualquer 
prostituta franceza do becco dos Carmelitas, 
com eguaes direitos a nossa approxima9ao, 
podera pedir-nos um Pour la Frrrance ! e nao 
havera quem Ih'o negue ... 

Quanto a nos, os que conhecemos ahis- 
toria dos martyres da nossa liberdade; que 
temos sempre presente a memoria dos agou- 
tados, dos roubados, dos degredados, dos 
empobrecidos, dos fusilados, dos enforcados 
e dos esquartejados por ordem dos portugue- 
zes, nos e que nunca havemos de gritar Por 
Portugal ! — nem que nos rachem ao meio ! 



Guiiherme Ilea psychologia 
do heroismo 



Quern olha de relance para a tragedia 
europea tern a impressao hallucinante de assis- 
tir a resurreigao de todo o paladinismo medie- 
val. A figura de Guiiherme II culmina no 
scenario gigantesco. O phenomeno nao e 
inexplicavel. No meio de tantos reis que se 
combatem e de tantos heroes puros que torn- 
bam sob as cupolas dos fortes, ou nas anfra< 
ctuosidades dos desfiladeiros,esmagados pelas 
cargas de cavallaria, ou pulverisados pela gra- 
nada, cada um de nos so parece divisar, como 
uma visao tremenda, o capacete reluzente do 
Kaiser. E' que a Allemanha se interpoz entre 
o sol e o planeta ; e todas as aspiragoes, to- 
das as virtudes, todos os defeitos, todas as fa- 
Ihas e todas as grandezas da ra9a germanica 
repontam nessa figura extraordinaria, que,' no 
caso, representa uma synclinal. 



310 GUILHERMB II E A PSYCHOI.OGIA DO HEROISMO 

Dizem que os allemaes o adoram. O 
facto e comprehensivel. Elle nao e apenas um 
imperador, mas antes de tudo um homem com- 
pleto para o seu meio e para a sua ra^a. Con- 
substanciam-se nelle todas as estratificagoes 
ethiiicas qije formam o patrimonio de f6r9as 
inalienaveis do seu povo. Esse idealismo quasi 
morbido, que tern o seu maior expoente no 
transcendentalismo de Kant ; esse espirito de 
universalidade, de amplidao mental, de vasta 
capacidade psychologica, tendendo para a in- 
tegragao da alma germanica na alma humana, 
que se corporifica no Fausto, de Goethe ; a 
hallucinagao grandiosa,empolgante,dos heroes 
wagnerianos, no que elles possuem de mais 
assustador para as aggremia^oes ethnicas or- 
ganicamente fracas e incompletas como nos; 
esse mysticismo messianico a Klopstock; essa 
ausencia absoluta de escrupulos quando esta 
em jogo o que para os allemaes e 2i grandeza 
da p atria \ — tudo isso, que forma as linhas 
geraes da sensibilidade germanica, sae da es- 
phera das abstrac^oes e recebe um corpo, uma 
figura e uma realidade na pess6a de Guilher- 
me II. E' um espelho onde se mira cada alle- 
mao. E' um espelho e uma synthese, synthese 
grandiosa, mas excessivamente dramatica e 
infinitamente perigosa para o mundo. Porque 



VERDADES INDISCRETAS 311 

o mundo e tambem uma synthese onde con- 
correm muitas qualidades que naose ajustam 
«, pelo contrario, se contrapoem a synthese 
^ermanica. Nao podem, pois, coexistir no 
mesmo ambiente duas syntheses que se con- 
tradizem. Uma tern de desapparecer, e de 
certo nao sera a synthese universal que ha de 
ceder o terreno a synthese individual . . . 

Mas sera um Heroe ? No tempo de Car- 
los, o Temerario, ou de Ricardo, Coragao de 
Leao, Guilherme II teria sido a personificagao 
mais vivaz do paladinismo. Hoje, em vez de 
encontrar na Borgonha a espada victoriosa do 
Temerario, elle encontra tropas republicanas, 
que fazem a guerra corajosamente mas pro- 
testam contra ella em nome da Paz. E na In- 
^laterra, em vez de um Cora9ao de Leao, en- 
contra Jorge V, filho de Eduardo, o Pacifico. 
<^ue faz a guerra, mas protesta tambem em 
nome da Paz. O proprio Tzar, o autocrata, o 
chefe dos cossacos e das hostes ruthenas, tam- 
bem protesta contra a guerra em nome da 
Paz ! Da Franga, finalmente, onde governa 
um que nao foi armado cavalleiro, partem 
protestos em nome da Paz. Presidente da 
Franga, Rei da Inglaterra, Imperador da Rus- 
sia, Rei da Belgica, todos a uma atiram contra 
Guilherme a responsabilidade da guerra. E 



312 GUILHERME II E A PSYCHOI.OGIA DO HEROISMO 

Guilherme, que nao tern mede de exercitos, 
amedronta-se deante de uma abstrac9ao — a 
Paz, e deante de uma creagao da imaginativa 
humana — o juizo da Historia. E' um herde, 
mas heroe incomplete no sentido militaresco . 
Sob a accusagao de ter provocado a guerra (e 
por emquanto e difficil fazer com equanimi- 
dade uma exacta distribuigao de responsabili- 
dades) Guilherme da-se pressa tambem em 
mandar pedir a baciade Poncio Pilatus e lavar 
as suas imperiaes maos . . . Isto quer dizer 
que nenhum desses paladinos tem ja a guerra 
em grande estimagao. Todos elles, que sao 
de nascenga generaes e almirantes, desesti- 
mam as batalhas. Sao todos pacifistas incuba- 
dos, o que quer dizer que o heroismo militar 
estci morto. Ha dias notava isto o sr. Teixeira 
Mendes num artigo-pastoral. Que differenga 
entre Jorge V e o rei Arthur ! Alguns seculos 
atraz,o actual rei da Inglaterra seria tido como 
menos digno de fazer parte da nobre compa- 
nhia dos Cavalleiros daTavola Redonda. Nao 
e um paladino : e um legista. Guinevra nao 
se dignaria de ser a estrella dos seus comba- 
tes. . . 

E Guilherme? Que distancia immensa 
entre os seus avoengos scandinavios e este 
her6e cujo cerebro, de permeio com imagens 



VKRDADSS INDISCRETAS 313 

de batalhas e sangueiras, tern dentro de si o 
cortejo das abstracgoes aprendidas na convi- 
vencia dos sabios ! Badur, rei de Upsal, dizia: 
«Nada espero dos idolos. Corri a minha parte 
paizes varies ; encontrei espiritos e gigantes 
que nada puderam contra mim ; e, pois, nas 
minhas f6r9as que confio unicamenteU Lod- 
brog, prisioneiro do saxonio OElla, langado 
numa caverna cheia de viboras, ent6a altiva- 
mente o seu canto de mortem que os Eddas 
nos conservaram ! Morrendo, elle exclama na 
sua alegria barbara: «EisasDysasque Odino 
enviou para me conduzirem ao seu reino . 
Alegre me vou com os Ases beber o hydromel 
nos cimos supremos. Passaram as horas da 
minha vida e eu sorrio a morte !>> 



Jnvitant me deae 
Quas ex Othini aula 
Othinus misit mihi. 
Lsetus cervisiam cum Asis 
In' summa sede bibam. 
Vitae elapsae sunt horae, 
Ridens moriar . . . 



Siegfried, de todos os heroes de Wagner 
o que mais amava Nietzsche, e o heroe com- 
plete, G admiravel desprendido, que nunca 
sentiu as suggestoes do medo. Guilherme, 



314 GUILHERMB II E A PSYCHpLOGiA DO HEROISMO 

que affronta legioes e desafia povos, estre- 
mece ao lembrar-se . . . de que? De um ca- 
lamo, de um estylete com que um homem 
tranquillo, no silencio da sua mansarda, tera 
de commentar um dia os altos feitos de Gui- 
Iherme. Ve se a larga distancia que separa 
dosseus avos este neto de deuses. E' possivel 
que Wottan nao o reconhecesse e que Siglinda 
nao o distinguisse. Brunhilda talvez nao qui- 
zesse ser despertada por elle , . . 

Os pensadores devem estar consolados 
no seu ponto de vista, apezar dos horrores 
desta guerra. Todos os que a fizeram de- 
clararam-na uma calamidade. Detestam-na. 
Mas fazem-na, dirao ! Sim, mas amanha, quan- 
do o espirito dos chefes dos povos estiver bem 
saturado das novas philosophias e ardente- 
mente convencido dessa transforma9ao de va- 
lores pela qual a Paz sera o titulo mais glo- 
rioso das nagoes, quem sabe si as guerras nao 
cessarao ? O ultimo heroe militar germano foi 
o velho Moltke, que dizia ser a guerra «uma 
santa instituigaoB ! Guilherme II, quarenta 
annos depois, acha-a tao detestavel, que afasta 
de si, e com razao, a responsabilidade della 
perante a Historia. Daqui a mais quarenta 
annos, si houver ainda reis, talvez sejam muito 



VBRDADES INDISCRBTAS 315 

maiores os esforgos que envidarao para evitar 
as guerras. Porque a maior gloria do futuro sera 
poder augmentar a riqueza, o conforto e a 
grandeza das patrias pelos instrumentos da 
Paz e do Trabalho. 



A crapula 



Terminado no jornal o meu trabalho de 
orientador da opiniao a tanto por dia, fui do- 
mingo passado a um club. Nao se esque9am 
de que o domingo passado foi de Carnaval . 
Eram quasi duas horas da manha e chovia a 
cantaros, uma chuva barbara, dessas que de- 
vem castigar as cidades malditas, inundando- 
as a trombas diluvianas e transforman do-as 
em lagos de orgulho e lama . . . 

Subi. No salao, banhado de uma luz 
crua de meio dia tropical, e que habitual e si- 
multaneamente serve de salao de baile, de 
restaurante e de espelunca de jogo, premiam- 
se pares afrancezadamente cynicos, que dansa- 
vam tangos argentinamente acanalhados e 
maxixes nacionalmente debochados. Pierrots 
de cara branca, deixando adivinhar, por debai- 
xo do creme de que tinham rebocada a epi- 
derme, o cansa90 moral de uma gente pollu- 



318 VKRDADES INDISCRETA-S 

cionalmente exgottada antes de attingir a pu- 
berdade, dansavam com pierrettes cansadas 
como ladras que correram um kilometro per- 
seguidas pela policia, ou com abandalhadas 
colombinas que traziam estampada na flacidez 
do sorriso mercenario a fadiga das insomnias 
estereis e das orgias remuneradas . . . 

Cinco ou seis ratoes vestidos de verme- 
Iho, espremidos entre um piano e a turba, exe- 
cutando maxixes puramente intencionaes ou 
tangos hypotheticos, de facto imitavam nas 
cordas dos sens violinos vozes de animaes 
de especie varia. Os violinos, que nas maos 
de Kubelick ou de Vecsey, sao fontes de emo- 
goes ethereas e irmanam as almas nas regioes 
niveas do Ideal, nos gadanhos de zingaros de 
clubs perdem as suas virtudes estheticas e 
adquirem singulares propriedades de guelas 
felinas. Nessa noite, por exemplo, si os zin- 
garos estivessem occultos por detraz de uma 
simples cortina, eu jurara que a malta dos fo- 
lioes dansava ao som de miados de gatas no 
cio e de rugidos de hyenas esfaimadas e en- 
raivecidas. 

Pelo ar empestado corriam ruidos de en- 
sandecer e odores fulminantes, desde aquelle 
cheiro que Fialho d' Almeida chamava/<?w^/«a 
que e «o alcaloide sexual da femea avulsas, 



A CRAPUI^A 319 

ate as exhalagoes varias e intoxicantes com 
que a industria permitte a humanidade embo- 
tar a pituitaria, comtanto que se disfarce o far- 
turn prenunciador dos feditos inadiaveis da 
decomposigao , . . 

Todas as mesas estavam occupadas. Fin- 
gindo-se ^^^^^z^r^.exteriormente despreoccupa- 
dos de tudo, mas intimamente combinando o 
prego da pandega com a capacidade de resis- 
tencia das carteiras, alguns fidalgos de sangue 
suspeito e arrebentados pagavam cervejapara 
Manons sedentas e sanduiches para Phryneas 
famintas da Lapa, Gloria e Russell. Em tres 
mesas apenas bebia se champagne. Essas tres 
mesas eram occupadas por illustres cavalhei- 
ros que devem orgar pelos sessenta e cuja 
unica celebridade, perante os vertebrados em 
geral e a especie humana em particular, con- 
siste nas passadas fa9anhas amorosas das es- 
posas, hoje aposentadas em avos que distri- 
buem pelos netinhos as lambugens de caricias 
que OS amantes de outr'ora Ihes deixaram nos 
coragoes desilludidos, mas nao saciados... 

Passei pelo meio da farandulagem maxi- 
xante como uma penna da ave Melancolia 
levada ao leo por um tufao. Acotovelado e 
acotovelando, abalroado pela esquerda e abal- 
roando pela direita, aos boleos e trambulhoes. 



320 VBRDJIDBS INDISCR^AS 

dando umbigadas em rebolantes nalgas, e ca- 
nelladas acutilantes emcadeiras desgarradas, 
sempre consegui chegar ao fundo da sala, a 
parte propriamente destinada a servir de es- 
pelunca de ladroes. O jogo estava esmorecido. 
Os pharoes nao conseguiam seduzir papalvos. 
Entre a sota e a mulher o imbecil verdadeiro, 
o imbecil integral, deixa-se apanhar sempre 
pela ultima. Ora, naquella noite as mulheres 
esvoa9avam como cardumes de vespas em 
tardes estivaes, atrevidas e picantes. Alem do 
mais a attrac9ao do maxixe e, entre nos, su- 
perior a attracgao do baccarat. O jogo e vicio 
de decadencia. Comprehende-se o dominio 
da batota na Europa, onde a civilisa^ao ja co- 
mega a deseer a outra vertente da montanha, 
onde boceja uma raga saturada de crapula, de- 
vastada por guerras, exhausta por orgias se- 
culares. fatigada de aventuras, raga que ja 
inventou tudo, viu tudo, fez tudo quanto se 
pode fazer de bem ou de mal, sentiu tudo 
quanto se pode sentir de delicioso ou de des- 
agradavel, raga velha e gasta, que esta a de- 
lir-se como as carnes de um cadaver numa cal- 
deira ardente, de onde sairao apenas os ossos 
a servirem de objecto de estudo para a moci- 
dade nos amphitheatros de anatomia. 



A CRAPUi:.A 321 

Nas terras ainda Barbaras como a nossa 
o JGgo 6 grandeseduc9ao quando nao existem 
seducgoes maiores. No dia em que reina o 
maxixe debilitam-se os creditos da jogatina . 

Ainda nao somos dissipados, por nos 
minguar a moeda, e ainda nao somos devassos, 
porque nossobeja juventude. A devassidao e 
mais da velhice do que da mocidade. A mo- 
cidade e precipitada e gozadora. Nao precisa 
de ser devassa, porque traz ainda no sangue a 
idrqa e o impeto das profundas sensualidades. 
Agradam-lhe todos os estrepitosos e audazes 
prazeres da vida destra : o desporto, o baile, 
as corridas, o maxixe e todas as choreas des- 
bragadas. Diversao que nao fatiga nao alegra 
a mocidade. Explica-se dest'arte a seducgao 
physiologica do maxixe sobre o brasileiro, 
povo mo90. As distensoes musculares dos 
membros inferiores; os movimentos quasi 
arythmicos; os passos accelerados pela ca- 
dencia lesta da canalhesca musica afro-ameri- 
cana ; o desregramento das attitudes fecundas 
tm imprevistos ; a possibilidade de ostentar 
aos olhos de tanta gente uma mulher em po- 
si^oes pouco plasticas e muito equivocas — 
tudo isso nos encanta ao mesmo tempo que 
nos satisfaz o appetite de ruido e ostentagao. 

21 



322 VERDADES INDISCRKTAS 

A nossa ausencia de bom gosto enquadra-se 
admiravelmente dentro da canalhice barbara 
do maxixe. 

Si nao existisse nem um so documento- 
historico da epoca, bastava um miniiete para. 
reconstituir toda a pbysionomia social do se- 
culo XVIII. Si se perdessem todos os monu- 
mentos historicos do Brasil actual (e o prejuiza 
nao seria grande), bastaria a copia de um ma- 
xixe e a photographia de um carro carnava- 
lesco para que se reconstituisse a nossa pby- 
sionomia reles, tal como por uma synclinal se 
reconstitue todo um periodo geologico. 

O maxixe da bem a idea das nossas bai- 
xas tendencias musicaes e choreographicas . 
Um carro carnavalesco e a medida precisa da 
nossa ausencia de imaginagao e da monstruo- 
sidade carthagineza do nosso mau gosto . Si 
contarem la f6ra que no Rio de Janeiro uma 
popula^ao inteira vem para a rua applaudir 
phreneticamente carros que so valem pelo ta- 
manho desproporcionado, hediondos como 
cavernas paleontologicas, representando sem- 
pre OS mesmos dragoes mambembes, as mes- 
mas conchas de ha cincoenta annos, as mesmas 
moedas de ouro... de papelao dourado, e os- 
tentando annualmente, com rigor mathema- 
tico, as mesmas toneladas de niulheres gordas 



A CRAPUI^A 323 

como polacas de exportagao, feitas de propo- 
sito para excitar a cubiga conimercial dos a9ou- 
gueiros e o appetite profissional dos magare- 
fes, difficilmente acreditarao que tal cidade 
tenha a pretensao de passar por civilisada e 
queira ser tomada a serio pelo estrangeiro ci 
vilisado, orgulhoso e suspicaz. 

Mas, depois de vinte minutos de club, a 
cabega nos anda a roda, como si tivessemos 
turbinas no craneo. Affrontei,pois, novamente 
a onda revolta dos bailarinos, atravessei-a em 
lucta corpo a corpo, trazendo, nos tympanos, 
echos desencontrados, e nas retinas, fulgores 
intermittentes e relampagos violaceos. Ganhei 
a rua alagada pela chuva, e, meditando coisas 
truculentas contra a Humanidade e invecti- 
vando mentalmente August© Comte, seu 
Propheta, comecei de chapinhar novamente a 
lama carnavalesca da Avenida . . . 



Um caso de poticia 



Chama-se a attengao da Policia para os 
factos que se passa a relatar : 

Ha poucos dias, no Caes do Porto, um 
pobre homem comprou um jornal; assentou- 
se a um pedral e comegou a ler ; de repente 
poz-se a tremer e a espumar,emquanto os olhos 
pareciam querer fugir-lhe das orbitas. Estando 
elle nesse estado, acertou de passar por ali um 
rapaz que Ihe perguntou o que elle tinha; o ho- 
mem fitou o seu interlocutor, agarrou-o pelo 
pescogo e provavelmente o enforcaria si prom- 
pta intervengao da patrulha policial nao ata- 
Ihasse opportunamente tao grande desatino . 

Durante todo o tempo em que travou 
luta corporal, berrava o pobre homem para a 
sua victima : 

— Voce e o Austregesilo ! Voc6 e o dou- 
tor que escreve nos jornaes ! Eute mato, ban- 



326 VBRDADBS IMDISCRSTAS 

dido ! Pelo sangue dos meus filhos, eu te en- 
force ! Eu quero matar o dr. Austregesilo ! 

A muito custo foi subjugado e conduzido 
at^ i. delegacia proxima, de onde nao se 
sabe que destino Ihe terao dado; mas e pro- 
vavel que esteja a estashoras no Hospicio,tal 
a violencia do seu accesso de loucura. 

Ahi tern o dr. Chefe de Policia o que 
pode produzir a liberdade com que certos in- 
dividuos abusam do direito de ser nocivos. 

O dr. Antonio Austregesilo e um desses 
criminosos, dignos nao s6 das masmorras como 
de um violento requisitorio do senador Ruy 
Barbosa. O caso aqui citado de loucura san- 
guinaria nao 6 o unico ate agora provocado 
pelos artigos do eminente professor. De ou- 
ttos sei eu qiie t^m ficado escondidos por 
anlor das victimas, que pertencem a familias 
de destaque. A in da ha poucos dias, duas se- 
nhoritas residentes em Copacabana foram, 
logo depois do jantar, acommettidas de coli- 
cak tao terriveis, que toda a gente aventou 
logo ahypbthese de um envenenamentb. Qu^- 
riiam at^ responsabilisar o cosinheiro da casa 
e 6 vendeiro portuguez em que se fornece a 
familia. Afinaj, chamada a Assistencia, verifi- 
cou o medico da ambulancia nao se ti^atar de 
nenhum envenehamento. Examinados os ge- 



UM CASO DE POUCIA 327 

Tleros alimenticios que havia na dispensa, fi- 
-cou provado serem de b6a qualidade ; e o seu 
prepare nada deixava a desejar. Alids, si a 
intoxica9ao proviesse da ingestao de ali- 
mentos deteriorados, naturalmente toda a fa- 
milia teria manifestado os mesmos symptomas 
de doen^a que as senhoritas. 

— E' exquisite, pensava o medico. Os 
alimentos estao perfeitos. Estas meninas cos- 
tumam ter destas colicas ? 

— Nao, doutor, e a primeira vez, res- 
pondeu a mae das pequenas. 

— E . . . insistiu o medico, concertando 
OS oculos severos e fusilantes de sciencia: 

"^^ • • • 

Aqui elle fez a mae uma pergun^ em 
voz baixa, a qual respondeu a digna senhora, 
^nrubecendo levemente : 

— Ah 1 nao, senhor ! Sao at^ muito re- 
Sfulares . . . Sao muito sadias estas meninas . 
Este mez ja tiveram ... 

— E' extraordinario. Nao posso sXimr:.. 
Caso grave . . . Nao me parece nada mau cha- 
mar um gynecologista.. . 

Pensando e repensando, cairam os olha- 
res do medico sobre um diario que estiiva es- 
tendido em cima da mesa grande da sala de 



328 VERDADES JNDISCKBTAS 

jantar. La estava um artigo intitulado — O 
Silencio — e subscripto pelo dr. Austregesilo^ 

— Ah! exclamou o doutor. Aqui esta 
a causa. Jd podemos fazer a etiologia do maL 
Fa9amos o diagnostico e, si for o que eu pen- 
so, o prognostico pode ser severo. Estas pe- 
quenas sabem ler? 

— Oh ! doutor ! De certo que sabem \. 

— Leram este artigo ? 
Interrogadas, responderam as pequenas 

que o nao tinham lido todo, mas em parte. 

— Pouco importa, disse o illustre facui- 
tativo. Com muito menos do que isto morreu 
Madame Bovary. Vou receitar-lhes um pur- 
gante fresco e uma fomentagao para a regiao 
umbilical. 

E com effeito, tomado o purgante e es- 
coado o effeito do mesmo, come^aram as gen- 
tis enfermas a melhorar; e ficaram inteira- 
mente boas depois da fomentagao nos genti- 
Hssimos umbigos. 

Ahi tem o dr. Chefe de Policia o periga 
social que representa um artigo de Austre- 
gesilo. 

No tal artigo, que provocou as colicas nas 
senhoritas, ha trechos assim : 

O silencio d uma voz em perspeUiva^ 
como qualquer idea constitue um acto nascente . 



UM CASO DK POI^ICIA 329 

Em torno delle gyra um mundo infinito 
de pequenos sons, como as diminutas linhas re- 
das que formam a circumferencia. 

Como e que podera haver uma voz ep 
perspectiva ? E um mundo de pequenos sons 
a gyrar em torno do silencio ? E a circumfe- 
rencia formada por pequenas linhas rectas ? 

Vejam o que elle diz da morte : 

Dizem que a morte e o symbolo exact o 
do silencio. Mas morte e o microbio e o verme, 
a desagregagdo molecular. 

A alma, affirmam, voa ; voa por longe; 
mas alguemy no mundo, Ike percebe o ruflar, 
pelo murmurio da dor dentro dos coragoes, pelos 
presagios telepathic os cujos soidos quasi insensi- 
veis constituent as nenias das saudades, a har- 
monia dos soffrimentos, a dogura das reli- 
gions. 

Este sujeito, segundo ja esta verificado, 
tem a exquisita mania de insultar a morte . 
Para elle a morte e o microbio, e a alma voa, 
mas toda a gente Ihe percebe o ruflar das azas 
pelos presagios telepathicos que sao as nenias 
das saudades, etc., etc.. 

Tudo que ahi fica demonstra a saciedade 
que este clinico e ummalfeitor publico, «cari- 
franzido e barbilongos como diria o senador 
Ruy. 



330 VBRDADBS INDISCRETAS 

Naio queremos citar mais. Si houvesse 
policia no planeta, o dr. Austregesilo ]i teria 
sido ha muito tempo trancafiado num xadrez 
cheio de chismes, palavra que vimos pela pri- 
meira vez no ultimo discurso dosr. Ruy e que 
significa percevejos. Ate quando, 6 Polida, 
deixards impune o dr. Austregesilo, o grande 
delinquente das letrias patrias? 



O coronel Roosevelt 



Morreu Theodore Roosevelt, dizem os 
telegrammas. 

Grande estadista, commentam os jor- 
naes. 

Grande cabotino, opinam homens sen- 
satos. 

Doutor em direito, vaqueiro, deputado, 
presidente da Republica, cagador de feras, co- 
ronel de cavallaria, este cidadao foi antes de 
tudo um virtuoso norte-americano, isto 6, um 
cabotino feliz. Foi o maior fiteiro do seculo. 
Nos nos orgulhamos do sr. Nilo Pe9anha 
como fabricante de fitas de grande metragem; 
mas o sr. Nilo 6 um ingenuo, comparado com 
Roosevelt. . . Ha entre um e outro a distan- 
cia e a differenga que vao de Campos a Nova- 
York. . ^ 

Roosevelt nao deixava de ter certas ana- 
logias de caracter com Guilherhie 11. Eram 



332 VBRDADES INDISCRETAS 

ambos estupendos exemplares de hypertro- 
phia do Eu, Guilherme queria dominar o 
mundo ; Roosevelt teria dominado toda a 
America, si tal Ihe fosse possivel. Ambos ti- 
nham a paixao das viagens, das cagadas, do 
palco scenico perante o universo, avidez insa- 
ciavel de reclamos. Viviam para as exteriori- 
dades. Apenas, Guilherme era fidalgo de 
raga ; Roosevelt era plebeu ; mas ambos se 
egualavam pelas attitudes de arrivistas. O 
desejo immoderado de gloria facil nivelava 
perante a consciencia humana o neto de Fre- 
derico II e o neto dos pelles-vermelhas. . . 

Tendo mais liberdade individual do que 
o imperador,Roosevelt organisava cagadas aos 
tigres da India, aos leoes da Africa e as ongas 
do Brasil ; tendo menos liberdade individual 
do que o ex-presidente, Guilherme, nao po- 
dendo ir cagar em dominios inglezes, organi- 
sou essa formidavel cagada de animaes huma- 
nos da qual Ihe adveiu a ruina. 

Roosevelt esteve a cagar no Brasil. Ca- 
90U doUares e ongas. Os d611ares cagou-os e 
ganhou-os elle no Rio, fazendo no Institute 
Historico uma conferencia sem o menor valor, 
pela qual exigiu cerca de sessenta contos I 
Nunca pagamos tao caro um pensador medio- 
cre. Mas, que querem ? Esse homem tinha 



O CORONEI. ROOSEVELT 333 

atraz de si os Estados Unidos com o seu Ca- 
pital, com a sua Industria, com a sua Esqua- 
dra e com a impulsividade collectiva da sua 
populagao sadia e rica. Nao seria prudente 
ratinhar quanto ao pre90 da sua philosophia, 
embora ella fosse, por natureza e por eviden- 
cia, muitissimo barata. Imaginemos um va- 
queiro (cow-doy yComo la dizem) phantasiado de 
Emerson e teremos a synthese mental do pen- 
sador Teddy. 

Quanto as ongas, esse professor de ener- 
gia foi ca9al-as no Amazonas. Dizem que elle 
nunca tremeu deante dos tigres de Bengala ; 
mas ha quem affirme que o Nemrod yankee 
ficou horrorisado quando se viu no Inferno 
Verde. 

Eu acredito em ambas as versoes. Nao 
ha que temer os tigres da India. Sao tigres 
creados pelos inglezes especialmente para li- 
sonjear a vaidade matadora dos Tartarins po- 
derosos como Roosevelt. Sao animaes civili- 
sados. Creio que alguns ate pertencem a Alta 
Egreja Anglicana. Moram a beira de rios ex- 
ploradissimos, cujas margens estao saneadas, 
vigiadas, incorporadas definitivamente ao dis- 
ciplinado Imperip de SuaGraciosa Majestade. 

Ja nao succede o mesmo com as nossas 
on9as e os nossos jacaresda Amazonia. Esses 



334 VKRDADKS INDISCRBTAS 

nSo vivem na doce companhia de Hindus 
pantheistas, que aspiram ao Nirvana, como 
felicidade suprema; vivem em florestas dan- 
tescas, na companhia do indio astuto e do se- 
ringueiro feroz. Por isso Roosevelt, que sd 
mantinha rela96es com feras britanisadas, arre- 
piou-se ao travar conhecimento com authenti- 
cas feras brasilicas. E, durante todo o tempo 
em que durou a sua ca9ada na Amazonia, elle 
s6 alimentou e loucamente um desejo : o de 
fugir, o maisdepressapossivel, d'aquelle som- 
brio e espantoso inferno, onde, quem nao 
morre da setta hervada do indio, nas'garras 
da cangussu, entre os anneis constrictores da 
sucury,ou triturado pelasmandibulas do jacar^r 
ainda tem deante de si um inimigo mais sub- 
til e perigoso : o impaludismo. E' preciso ser 
cearense para affrontar a Amazonia; ora, Roo- 
sevelt era apenas um norte-americano habi- 
tuado a Quinta Avenida e que, vaqueiro na 
sua mocidade, campeara o seu gado cavalgan- 
do muito bons cavallos e por campos de doce 
clima, apto a travar amizade com todas as de- 
licias da Civilisa9ao. Haretratos de Roosevelt 
matando tigres de Bengala ; mas nunca vi re- 
trato d'elle a luctar com a nossa onga pintada 
nem com um modesto jacare, desses em que 



O COROMBI. ROOSBVKI.T 335 

OS indios at^ chegam a montar para a atraves- 
sar o rio Amazonas. 

Homem sympathico pela sua robustez or- 
ganica e pela alegria com que sabia viver, foi 
um cabotino do mais alto bordo e, como de- 
cidiram em Paris, em cerco concurso aberto 
por um jornal, eratambem, com as suas con- 
ferencias mediocres e suas ligoes de energia 
muito bem pagas. o primeiro cacete do mun- 
do. . . 



Que e uma offensiva ? 



Chama-se offensiva o acto pelo qual um 
exercito se atira contra outro. Exercito e uma 
multidao de hoinens que, esquecidos de que 
sao homens, obedecem a toques de cornetas, 
a rufos de tambores e a ordens de outros ho- 
mens, tambem por egual esquecidos da sua 
hominidade. Entre um exercito e um rebanho 
a differen^a e nominal ; porquanto, si os reba- 
nhos nao raciocinam, muito menos os exerci- 
tos ; no dia em que os rebanhos raciocinarem, 
deixarao de ser rebanhos ; no dia em que os 
exercitos raciocinarem, tambem deixarao de 
ser rebanhos ; porque, no dia em que cada 
homem se convencer de que outro homem nao 
tem o direito de perturbar-lhe a do9ura da 
vida, para transformal-o em machina de matar 
■e de morrer, esse outro homem, por sua vez, 
nao tera coragem para Ihe propor que deixe 
a fabrica, a famiHa, o gado, ou a charrua, afim 

22 



338 VBRDADBS INDISCRBTAS 

de ir matar a oiitros homens que, como elle^ 
tambem possuem teares, filhos, gado e char- 
ri^as. D'onde se conclue que os exercitos sSo 
producto da inconsciencia humana explorada 
pelo Capital. Exercito e Capital, que sao hoje 
alliados, serao algum dia inimigos como o cao> 
e o gate . Porque ? Porque a primeira victima 
do Capital 6 o proprio Exercito. Os soldados 
morrem para que ? Para sustentar os capitalis- 
tas que se escondem sob a abstra9§o — Pa- 
tria. Quanto ganha um general ^ Dois contos 
por mez. Quanto ganha um capitalista ^ Cen- 
tenas de contos, por mez. Quando morre uni 
soldado raso, com quanto fica ao mez a sua 
viuva, caso o Estado a sustente ? Com algu- 
mas dezenas de mil reis. E a viuva do capita- 
lista } Com algumas centenas de contos . 

Mas como se faz uma offensiva ? Assim t 
reunem-se muitos mil homens ; outros homens^ 
que saibam fallar, arengam deante d'elles, in- 
vocando a Patria, o Direito, a Civilisa9ao e a 
Humanidade. Depois de embriagal-os com 
palavras, esses oradores, que geralmente saa 
commandantes, fazem soar as trombetas. A 
trombeta e um instrumento diabolic© que, so- 
prado com certa arte e calor, actiia sobre a 
systema nervoso dos individuos, tirando-lhes 
a capacidade de pensar e de sentir outra coisa 



QUE ft UMA OFFENSIVA? 339 

sin^o barbarias gothicas. Os commandantes 
dSo ordem de avan9ar, e os homens avan9am; 
OS proprios cavallos, excitados pelos tangeres 
bellicosos, avangam heroicamente ; os ho- 
mens dao tiros de canhoes, metralhadoras e 
carabinas sobre outros homens, que tambem 
ouviram discursos, inebriaram-se com o clan- 
gor das trombetas e dao tiros de canhoes^ 
metralhadoras e carabinas. Privados de senti- 
dos e de intelligencia, intoxicados pela elo- 
quencia dos generaes e pelo som das tubas 
canoras, combatem; grande parte, num e nou- 
tro campo, morre; milhares de outros, que 
escapam, ficam estropiados, cegos, surdos, 
inutilisados, mas contentes, porque recebem 
uma tirinha de panno e uma cruzeta de qual- 
quer metal, que nem ao menos e ouro. No 
fim de tudo, uns consideram-se vencedores ; 
OS outros, vencidos, mas nao convencidos da 
derrota, preparam novo ataque, que se chama 
contra-offensiva ; mas offensiva, defensiva e 
contra offensiva vem dar tudo no mesmo : e 
meio de perder a vida em beneficio dos fome- 
cedores dos exercitos, quer de um quer de 
outro campo. De maneira que offensiva quer 
dizer : morte injusta ; e a principal arma offen- 
siva e a palavra humana; tanto assim que 
Ajax, filho de Oileu, dizia: «Antigamente eu 



340 VERDADES INDISCRETAS 

suppunha que a primeira arma era a acgao ; 
agora vejo que a primeira arma e a palavra» . 
Quanto ao fim da offensiva, e defender a Pa- 
tria, isto e, a riqueza dos ricos e a liberdade 
dos povos, por hypothese . . . 



Christo ou Christa ? 



Tem-se visto no Rio de Janeiro muita 
coisa extranha. Faltava-nos, entretanto, assis- 
tir ao que esta annunciado para a Semana 
Santa: o papel de Christo, no Martyr do Cal- 
vario, feito no Recreio por uma mulher, a 
sra. Italia Fausta ! 

Dizem que a sra. Italia Fausta, quando 
representava ali no Campo de Sant'Anna, era 
admiravel no papel de Antigona, o que eu por 
mim mesmo nao affirmo, porque nao o vi. 
Dizem que S . Excellencia e admiravel na Rd 
Mysteriosa — o que eu tambem nao affirmo, por 
nao o ter visto. Dizem ainda que S. Excellen- 
cia e admiravel em tudo — o que eu mais uma 
vez deixo de affirmar, porque nao conhe9o a 
illustre senhora nem em tudo nem em nada . 
Para evitar discussao, admitto que ella seja 
estupenda em scena e f6ra de scena, quer no 
palco, quer nos bastidores; mas representando 



342 VSRDADES INDISCRETAS 

o papel de Jesus-Christo ? ! . . . Nao se deve 
julgar do que ainda nao se viu ; mas, franca- 
mente, nao ha emo9ao de espectador que re- 
sista a estes pensamentos : «Aquelle Christo 
que ali vae, de cruz is costas, ajudado pelo 
dr. Gomes Cardim, quero dizer, por Simao, o 
Cyreneu, e uma linda senhora; aquelles cabel- 
los, porem, melhor diriam em Magdalena 
do que no Salvador; aquella garganta 6 
tudo quanto ha de menos masculino; e si des- 
cermos pela garganta abaixo, verificaremos 
que aquillo nao pode ser Christo nem a mao 
de Deus Padre)) . . . 

Assim pensando, iremos acompanhando 
OS passos do Redemptor at^ o momento em 
que elle houver de ser pregado na cruz. Ahi en- 
tao 6 que hao de resaltar, com evidencia scien- 
tifica, a luz forte das gambiarras, entre relam- 
pagos de breu e trovoes de bombo, todas as 
differengas anatomicas que ha, que pelo menos 
devia haver, entre Jesus-Christo e a mulher de 
Pilatus. E quando Maria Magdalena se ajoelhar 
junto a Cruz, contrita, arrependida e lacry- 
mosa, como Christo e femea, ficaremos nos a 
conjecturar si por ventura aquella Magdalena 
nao sera macho, para nao perturbar o equili- 
brio do mundo . . . 



CHRISTO OU CHRISTA? 343 

Nao, minha senhora, tenha paciencia. 
T^m-se visto homens a fazer de mulheres, 
mas mulher transformar-se em homem, e 
ainda mais — Homem-Deus, isso nunca se 
viu, embora se digam por ahi certas coisas . . . 
O nosso sexo 6 privilegiado. A quantidade de 
linhas curvas que abunda nas mulheres bella§ 
permitte logo, a primeira inspecgao, distin- 
guil-as immediatamente dos homens; portanto 
a sra. Italia Fausta, quando for pregada na 
cruz (felizmente com cravos posti^os), ha de 
revelar-se mulher ate ao candido olhar dos 
impuberes. E si quizer ser tida e havida por 
Jesus-Christo, ha de recorrer a antiquissimos 
« obsoletos processos de carpintaria theatral . 

No tempo de Shakespeare, como a arte 
scenographica ainda nao existia, quando em 
scena se queria mostrar ao publico uma flores- 
ta, coUocava-se no logar proprio um letreiro : 
Floresta. Quando se queria figurar a lua, pen- 
durava-se numa trave uma lanterna, com um 
letreiro : Lua. Assim, a sra. Italia Fausta, si 
nao quizer ser confundida com a mae de Sao 
Pedro, devera apparecer em scena com um 
letreiro na testa: Jesus-Christo. Ora, Jesus- 
Christo, que nunca foi reo mysterioso, quando 
apparece no theatro, mesmo no Rio, traz na 
<cabe9a a sua famosa cor6a de espinhos, que 



344 VKRDADES INDISCRETAS 

provavelmente deve ser incompativel com 
qualquer letreiro, ainda luminoso. Alem disso, 
esse letreiro, por cima da cor6a de espinhos, 
e uma crueldade tao inutil, que os proprios 
judeus nao a praticaram . 

Resumindo, cara sra. Italia Fausta, sup- 
plico-lhe, tao humildemente como se fallasse 
ao proprio Jesus-Christo, o seguinte : va ter 
com o empresario e declare-lhe muito positi- 
vamente que Vossa Excellencia, por motives 
anatomicos, nao p6de ser Christo ; podera ser, 
quando muito, Mae de Deus, mas nunca Fi- 
Iho d'Elle. E si Vossa ExcellenM persistir 
nessas intengoes, que eu reputo contrarias a 
natureza e ao bom senso, irei ao theatro, na 
Sexta-feira Santa, de gravata vermelha e bar- 
rete phrygio, e farei berreiro para exigir que 
Magdalen a seja o sr. Paulo Barreto. 



Do leite, sua natureza e effeitos 
na economia 



Chama-se leite certo veneno de cor 
branca com que se matam crian9as em ten- 
ra edade e velhos em edade avangada. Em- 
pregado em alta dose, pode ser de effeito 
fulminante. Esta provado que os allemaes, 
durante a offensiva na Belgica, nao emprega- 
vam contra criangas e velhos outra arma 
sinao o leite do Brasil, de que tinham com- 
prado grandes partidas antes da guerra. O 
leite, logo que e assimilado pelo organismo, 
age directamente sobre todas as visceras . O 
estomago do paciente dissolve-se ; os intesti- 
nos desapparecem sob a acgao corrosiva de 
certos acidos, ainda desconhecidos, que o leite 
desenvolve no organismo humano; o coragao, 
os rins, o figado e o bago liquefazem-se. Algu- 
mas vezes, tanto na clinica hospitalar coma 
na clinica civil, tem-se procurado salvar taes 



346 VBRDADBS INDISCRETAS 

doentes, empregando, quer por via gastri- 
ca, quer em injecgoes endovenosas, solugoes 
de bi-chloreto de mercurio, ou de cyaneto 
de potassio em agua raz, a 95 % ; mas, apezar 
disso, sobre cem casos de intoxicagao pelo 
leite, noventa e oito sao quasi sempre fataes. 
Na Santa Casa, logo que se tern noticia ou 
simples suspeita de que um doente, desillu- 
dido de cura, conseguiu ingerir is escondidas 
uma colher de leite, applicam-se-lhe, caso o 
permitta a sua tensao arterial, injec^oes intra- 
musculares, consecutivas, de uma solu^ao de 
sulfato de cobre misturado com chloreto de 
zinco, ou arseniato de chumbo, na propor9ao 
de 600 por 1000. 

Ultimamente quiz a Hygiene Municipal 
prohibir o commercio desse activissimo ve^ 
neno, ou ao menos regulamental-o como re- 
gulamentou o da cocaina, do opio e da mor- 
phina, permittindo o seu uso clandestino so a 
adultos de ambos os sexos que nao tenham 
muito interesse em viver; mas o juiz da 1^ 
Vara Federal garantiu por sentenga a liber- 
dade desse nefando commercio. De sorte que 
o leite continua a ser vendido as escancaras, 
em plena cidade do Rio de Janeiro ! Nao ha 
a menor providencia, nem de caracter hygie- 
nico nem de caracter meramente policial, con- 



DO I.BITE,SUA NATU. K EPFElTOS NA ECONOMIA 347 

tra a disseminagSo desse toxico destruidor, 
tanto mats perigoso quanto mais suavemente 
se faz a sua ingestSo, havendo at6 medicos tao 
levianos e ignaros, que chegam a prescrevel-o 
como alimento a doentes submettidos a dieta ! 
Dito perante qualquer sociedade medica de 
qualquer paiz medianamente civilisado, nao 
seria acreditado por ninguem. Houve um pro- 
fessor allemao que, discorrendo sobre as pro- 
priedades da agua, declarou a seus alumnos 
pasmados : aExistem povos barbaros que be- 
bem protoxydo de hydrogenio ! » Entretanto 
isso nada e, embora a agua, principalmente 
no Rio de Janeiro, tenha propriedades extra- 
ordinariamente nocivas. Nao sei o que diria 
esse homem de sciencia, si soubesse que os 
cariocas nao so bebem leite como ate o dao a 
seus filhos e aos enfermos. 

Esse amor dos cariocas pelo leite e al- 
guma cousa como a paixao dos chinezes pelo 
opio, salvo OS effeitos soporiferos, immediatos 
e deprimentes, do opio, que sao muito menos 
nocivos a saude. Aindaassim o commercio do 
opio decresceu muito desde que a Inglaterra, 
de commum accordo com outras grandes po- 
tencias europeas, resolveu perseguil-o, como 
perseguiu o nosso trafico de negros escravi- 
sados . Quando se dispora alguma das gran- 



348 VERDADES INDISCRETAS 

des potencias europeas a perseguir o com- 
mercio do leite entre nos com a mesma effi- 
ciencia com que se combateu o consumo do 
opio na China ? 

Necessario, entretanto, se faz dizer que 
o leite e nocivo em alto grau aqui no Rio. 
Em Minas e no Rio Grande do Sul, por exem- 
plo, gragas a paradisiaca innocencia do meio, 
o veneno nao tern tanta virulencia. Demais, 
nao se podem negar ao leite, desde que che- 
gue ao Rio, certas propriedades therapeuticas 
bastante uteis . Por exemplo : empregado 
como antidoto do veneno ophidico, nao deixa 
de ter efficacia. O veneno da urutu, para so 
citar o mais pegonhento dos nossos ophidios, 
raramente resiste a uma injec9ao endovenosa 
de leite que tenha quatro horas de permanen- 
cia no Rio de Janeiro. Ainda meia hora de- 
pois do paciente ter sido picado pela urutu, 
pode ser salvo com uma ampola de um cen- 
timetro cubico de leite . No caso de pi- 
cadas de algum insecto venenoso, como o es- 
corpiao, a centopeia, o carangueijo e outros, 
basta, para por a victima fora de perigo, uma 
simples fricgao local, sobre a mordedura, ten- 
do, entretanto, o paciente o cuidado de nao 
levar a bocca a parte friccionada, para evitar 



<? 



DO I^EITK, SUA NATU. E EFFEITOS NA ECONOMIA 349 

accidentes dolorosos, como gengivites e ou- 
tros semelhantes . 

Mas essas propriedades therapeuticas, 
sem duvida preciosas, nem por isso dei- 
xam de ser extremamente perigosas, quan- 
do mal applicadas, motivo por que o governo, 
para evitar a degenerescencia da nossa ra9a, 
deve, ou prohibir, ou ao menos regulamentar 
a vendado leite, como se regulamentou a da 
morphina. 



O anno humoristico, litterario e social 



Resumir em tao breves linhas o que 
houve de comico no anno de 1919 e tao diffi- 
cil como resumir a tristeza de um cemiterio. 

Em 1919 tivemos circos de cavallinhos, 
dr. Delphim Moreira, Joaquim Osorio, festas 
nacionaes, dr. Austregesilo, F'linto d' Almeida^ 
Teixeira Mendes, etc., etc. 

A dizer a verdade, esses homens e factos 
nos fizeram sorrir por um instante, mas naa 
nos desopilaram o figado. 

O dr. Joao do Rio, capacho em que todas 
as manhans alimpa os seus tamancos a colonia 
portugueza, teve tres banquetes. 

Medeiros e Albuquerque ficou em oppo- 
si9ao ao governo, depois de ter sido redactor- 
chefe de um matutino — O Imparcial — du- 
rante quarenta e oito horas. 

A professora Daltro andou com o seu 
grupo de obuzeiros de saias ahi pelas ruas er 



352 VERDADES INDISCRETAS 

no dia da chegada do Presidente Epitacio, 
promoveu um conflict© junto ao portao do 
Arsenal de Marinha. 

O dr. Nilo Pe9anha fez-se cada vez mais 
agricultor. 

O dr. Antonio Carlos fez-se cada vezme- 
nos financista; e o sr. Bressane, cada vez mais 
coronel, tornou-se cada vez mais fervoroso 
adepto do genio politico do senador Francisco 
Salles . , . 

Tudo isso sao, ou melhor, foram pilhe- 
rias. Nao o sao mais. O que nao sei e de que 
lado estara a incapacidade, isto e, si seremos 
nos OS incapazes de rir com ellas, ou si ellas e 
que serao incapazes de nos fazer rir. 

Em verdade, rimos cada vez menos. As 
mulheres cariocas riem pouco para nao preju- 
dicar a pintura do rosto, ou melhor, para que 
nao se Ihes estale o verniz do carao. 
Quanto aos homens, ai de n6s! Como 
havemos nos de rir, de dar uma b6a garga- 
Ihada, daquellas, ja nao digo dos deuses de 
Homero, mas ao menos do tempo de dom 
Joao VI ? 

E' que as preoccupagoes materiaes nos 
absorvem. Nao temos tempo nem para rir nem 
para ficar extacticos deante de uma bella mu- 
iher. Mai vamos descerrando os labios para 



O ANNO HUMORISTICO, LITTERARIO E SOCIAL 353 

uma risada e ja nos chegam noticias apavo- 
rantes : sao os russos que continuam a amea- 
^ar o mundo com o incendio maximalista ; sac 
OS italianos, que querem tomar Fiume ; sac os 
francezes, que nao nos querem restituir os 
navios que tomamos aos allemaes; sao os ja- 
ponezes, que querem nao somente invadir a 
Siberia como ainda vir trabalhar no Brasil, o 
que representa para nos um dos maiores peri- 
gos contemporaneos ; sao os operarios que se 
declaram em parede ; sao os anarchistas es- 
trangeiros que nos ameagam a bombas ; e o 
cambio que sobe num dia para descer no ou- 
tro e tornar a subir no dia seguinte ... 

Havera, no meio de todas essas catastro- 
phes, tempo para rir ? 

Grandes foram os esforgos feitos, durante 
a legislatura de 1919, pelodeputado Joaquim 
Fagundes {ne Osorio) para nos proporcionar 
gargalhadas. O deputado Joaquim e innega- 
velmente um grande humorista . Um grande 
humorista e um santo. Admiro-o e venero-o. 
Joaquim combateu tudo quanto nao fosse pa- 
cifista e positivista. Joaquim gritou, berrou,es- 
murrou a carteira, urrou, zurrou e azurrou. 
Joaquim e Clothilde.Joaquim e August© Com- 
te. Joaquim e Borges de Medeiros. Joaquim 
e Teixeira Mendes. Joaquim e espantoso. Em 



354 VBRDADES INDISCRETAS 

summa, Joaquim e feliz, como Marcolino Bar- 
reto, como Joao Menezes, como Bressane. 
Umaflor de humorismo! Numa bancada de 
humoristas, como e indubitavelmente a do 
Rio Grande do Sul, Joaquim conseguiu der- 
rotar o proprio dr. Carlos Maximiliano, que 
6 o grande mestre do humorismo applicado 
ao direito constitucional. Pois apezar de to- 
dos OS seus esfor9os para nos matar de rir^ 
Joaquim Praxedes nao conseguiu mais que 
nos fazer sorrir uns sorrisos amarellos e ver- 
des, como a bandeira nacional . . 

E a litteratura, asempre respeitavel lit- 
teratura nacional ? 

A litteratura no Brasil e uma coisa que 

Austregesilo cultiva e Afranio Peixoto illustra. 

Austregesilo e o medico-physico espon- 

taneo das meninas anemicas que ainda nao 

apprenderam a ler por cima . . . 

Afranio Peixoto e o Marcel Prevost de 
oleo de ricino, asso oxygenado, que alinhava 
periodos de cascalho e se esquece das ori- 
gens ethnicas do seu sangue, gragas as mara- 
vilhas do Henne e do Diplozon applicado aos 
cabellos e aos bigodes. Ainda espero vel-o de 
cabellos verdes e bigodes azues, que a 
Sciencia para tudo tem recursos. O seu ul- 
timo romance Truta do Mattos tem, logo as 



O ANNO HUMORISTICO, UTTBRARIO B SOCIAL 355 

primeiras paginas, a descrip^ao de uma mu- 
Iher, que 6 um prodigio de humorismo. Basta 
dizer que a rapariga do dr. Afranio tern a bei- 
9orra dependurada na ponta do nariz, bem na 
ponta, diz elle. E, para nao pensarem que in- 
vento, vou transcrever textualmente da Truta 
DO Mattos, paginas 6 e 7, o que diz essepsy- 
chologo de azeite de dende: aOsbastos cabel- 
los atados num coque pezado, a linha direita 
da testa, o nariz pequeno e na ponta, bem na 
ponta, arregagado com tanta gra9a/a saliencia 
dos labios, entreabertos para a palavra que 
a lingua molhava a miudo num gesto faceiro, 
o queixo, o mento, o pescogo roligo, o collo- 
cheio sem demasia, mas com altivez, esvain- 
do-se na cintura delgada.» Que synthese lu- 
rainosa ! Que clareza aryana ! A regular pelo 
estylo, o dr. Afranio e aryano puro, o unico 
aryano pur sang que existe no universo. Fi- 
gurem a idea que este infusorio da litteratura 
faz de uma mulher bonita: ella deve ter a sa- 
liencia dos labios na ponta, bem na ponta do 
nariz, como as argollas de ferro que os selva- 
ge ns costu mam trazer nos delles! E o collo 
esvaindo-se na cintura ? Que descrip9ao ! Mas 
nao e descripgao: e um inventario. O dr. Afra- 
nio, avido de pecunia e ambicioso de posi- 
9oes como todos os albinos, deve entrar para 



3S6 VERDADES INDISCRETAS 

um cartorio. SuaSenhoria, commaisum pou- 
co d'agua oxygenada nos bigodes, daria um 
bom escrivao. O dr. Afranio tern ma vista — 
o que e commum entre assos: acha bonita uma 
mulher que tem os bei^os pendurados na 
ponta do nariz, mas, apezar de tudo, e um 
grande humorista. E' um Swift double de um 
George Ohnet, combinado com Tristan Ber- 
nard e com influencias de Perez Escrich. O 
seu estylo e o de um Cervantes que nao tives- 
se escripto o Dom Quixote, e ao mesmo tempo 
o de um Joaquim Manoel de Macedo antes do 
Mogo LouRO. As suas tendencias psychicas 
accusam influencias ancestraes do poeta Luiz 
da Gama. quando escreveu a Bodarrada, e 
tragos recentes de Hemeterio Jose dos 
Santos. . . 

Outro facto de grande alcance humoris- 
tico em 1919: o dr. Joao do Rio veiu da Eu- 
ropa condecorado frealmente somos cada vez 
mais desconhecidos dos europeus ! ) e procla- 
mado o maior psychologo da Grande Guerra. 

O dr. Joao do Rio e o Lavisse brasileiro, 
quero dizer, e um Lavisse double de um W. 
Stead, com influencias de Jules Huretegrandes 
predilecgoes por Stephane Lauzanne. Nota-se 
no seu estylo a tortura de um Michel George 
Michel em amalgama com Jean Lorrain e ten- 
dendo um pouco para a forma superior de 



# 



O ANNO HUMORISTICO, LITTERARIO K SOCIAL 357 

Manuel de Souza Pinto, depois de ler uma 
pagina de Gomez Carrillo . 

O dr. Joao do Rio, pois, chegado Jda Eu- 
ropa, recebeu um banquete da laboriosa colo- 
nia portugueza, por ser amigo de Portugal, 
e isto mostra que elle sabe viver ... 

Logo a seguir, como e amigo pessoal de 
D'Annunzio, atravez das informagoes do em- 
baixador Souza Dantas, recebeu tambem um 
banquete da activa colonia italiana. Vae dahi, 
por ter tido um banquete da laboriosa e outro 
da activa, recebeu tambem um outro da resi- 
gnada colonia brasileira neste vasto Hotel dos 
Estrangeiros, que e o Rio, o delicioso Rio de 
Janeiro, este suavissimo Rio de Joao. De sor- 
te que chegamos a isto: por se dizer amigo 
de Portugal, recebeu Joao um banquete dos 
portuguezes; por ser amigo de D'Annunzio, 
recebeu outro dos italianos; e por ter rece- 
bido estes dois, ganhou mais um, offerecido 
por brasileiros I Isto e que me deixa um tanto 
perplexo: ver um gentilhomem receber um 
banquete so pelo simples facto de haver rece- 
bido anteriormente dois outros . . . 

Creio que nao vale a pena insistir nesses 
melancholicos aspectos de humorismo que sao 
OS srs. F'linto d' Almeida, Teixeira Mendes, 
Reis Carvalho, Francisco Bressane, Joao Me- 



358 VBRDADSS INDISCRETAS 

nezes e outros notaveis escriptores da antiga 
geragao. Deixemol-os em paz. Em 1920, si 
Deus me der tinta e saude, pretendo cuidar 
de outros assumptos. Ja tenho os dados can- 
sados de brincar, durante tantos mezes, com 
Austregesilos, Afranios e Hermes Pontes, 
esses innumeraveis Hermes Pontes de que 
se compoe a poesia nacional. Adeus, pois, 6 
genios ! Boas entradas, 6 amigos humoristas 
do Parlamento, dasLetras, das Religioes e da 
Vida Elegante! Deusvos demuitaveiacomica 
para nos divertirdes na imprensa, e muito aci- 
do urico para vos divertirdes a vos mesmos e 
a vossas esposas na intimidade, nessa intimi- 
dade doce em que a mulher escova as unhas, 
€ o marido apara os callos, ambos felizes, 
contemplando a prole futurosa e aguardando 
o libertador ataque de uremia que os ponha 
ao abrigo de folliculados impertinentes como 
este sujeito que, com todo aprego, se subscre 
ve 



Vosso admirador e amigo, 

Antonio Torres 



# 



Indiee 



INDICE 



PAGS. 

Prefacio ^^^^ 

A' maneira de Pangloss 1 

A Gentileza Britannica 5 

Litteratura Hermista 9 

Moeda falsa e paradoxo 15^ 

Zodiac© ^9 

A castidade do nii 25 

O Bacillus Lyricus 31 

O paradoxo legal 37 

Homens e abelhas '*3 

A f esta da Melancolia ^^ 

Carne para canhao ^^ 

Edouard Drumond *3 

A Academia em sessao 5/ 

A morte da peccadora 61 

O paradoxo da lei 6* 

O quinto mandamento ^7 

O 14 de Julho • • 6^ 

Quelque chose de vierge 73 

Amizade criminosa ' ^ 

As crianpas 77 

A tortttra do perfume '9 

Uscandalo ! • • ^^ 

Destempero de Linguagem • 85 

O nil symbolico ^' 

Amor e Poesia ^1 

O mal existe ? ^^ 

Bodas e Pezames ^ 

EJlogios J03 

Paz aos id61atras ^"^ 

A tyrannia democratica ^^7 

Commentarios ao «Binoculo» ^*^ 

Os bigodes do Exercito ^^^ 



362 



PAGS 



Exigencias do minuete 119 

Ruido e Solidao 123 

O P090 maldito 125 

As mulheres na politica 129 

Verhaeren 133 

Heresia orthographica 137 

A princeza Arminda 141 

ly'homme qui assasina 143 

Os crimes de Amor 147 

O jogo franco 151 

Preconceitos de linguagem 155 

O Feiticeiro 159 

Bailarinas 161 

O jogo 6 vicio ? 165 

A elegancia masculina 169 

A elegante e o mendigo 171. 

L/e Roi s'amuse 173 . 

Casamentos por annuncios 175 

Amores hediondos 179 

Como fazer a paz 181 

A Irlanda 185 

A Mttlher e a Mentira .) 189 

Odio de rafa '. i-^ 191 

Stiicidios 195 

O feminismo periga 197 

Pacifismo 201 

A policia e o espiritismo 203 

Lopes Trovao 207 

No caf6 209 

Dois bons amigos 211 

Casadas e solteiras 213 

A desvantagem do nome 215 

Agitando um pello 222 

Numa Exposi9ao de Caes 229 

Considera9oes actuaes 237 

O cabe9a de turco 245 

Uma semana alegre 255 

O vendedor de passaros 265 

Brul^ e o seu publico 273 

Brasileiros e Estrangeiras 281 

Vinte e uni de abril 293 



363 



PAGS. 

Incidente litterario 299 

O decobrimento do Brazil 303 

Gttilherme II e a ssychologia do heroism© . . 309 

A Crapula 317 

Urn caso de policia 325 

O Coronel Roosevelt 331 

Que 6 uma off ensiva ? 337 

Christ© ©u Christa ? 341 

D© leite, sua natureza e eff eitos na economia 345 

O ann© humoristico, litterari© e s©cial 351 




-^ 



*rB-7200-4 
C 



EDiqOES DA UVRARIA eASTllHO 



Traducgoes de FERNAO NEVES 



Paulo Bourg-et. — Lazarina. 1 vol 3$000 

Paulo Bourg-et. — O Sentimento da Morte. 

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MoRTOS. I'vol 3$000 

M. Dellj . — Escrava . . . ou Rainha? 1 vol. . . 3$000 

M, Delly.— Entre Duas Almas. 1 vol 3$000 

H. Ardel.— A Dor de Amar. 1 vol 3$000 

H. Bordeaux. — O Descerrar dos Olhos. 

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minal, exg-otado 

R. Tag-ore. A Lua Crescents. Tradue9ao do 

Dr. Placido Barbosa, 3^ edi^ao. 1 vol 3$000 

Dr. Fernando Magalhaes. — L196ES de Clinica 

Obstetrica. I vol. enc 15$000 

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de HisTORiA Patria. 2* edi^ao, 1 vol cart. 2$000 

Basilio de Magalhaes . — A Lyrica de SteC- 

CHETTI. 1 vol 3$000 

Jose Maria Bello. — Ruy Barbosa. 1 vol... . i..,.,,^ S$00p 



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Catullo da Paixao Cearense. — SertXo Em Fi,or. 

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A. Carneiro Leao. — O Brasil E A Educa^Xo 

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Alencar) no prelo 

Alcides Flavio. — Velaturas (contos). No 

prelo 

Gastao Cruls . — Coivara (contos) . No prelo . . 
D. Francisco Manuel de Mello. — Apoi^ogos 

DiAi,OGAis (edigao critica). Reproduc^ao 

fiel da 1' edi9ao de 1721 . No prelo. ...... 



Typ- Baptista da Souza — Rua da Misericordia, 5' — -^io 

(3 ^ 



AN.ONIO TORRES 



VERDflDES 




2^. ediQao 
(5.° Milheiro) 



% 






RIO DE JANEIRO 
l.B¥aARlA CASTII.HO 

A. .T. PE CASTILHO - Editor 

RUA S. Josfe, 114