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Full text of "Iconografia e Simbólica do Políptico de São Vicente de Fora"

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ICONOGRAFIA E SIMBÓLICA 



DO 



POLÍPTICO DE SÃO VICENTE DE FORA 



EDIÇÃO DO AUTOR 



Reservados todos os direitos de harmonia com a lei em vigor 



• 



JOSÉ DOS SANTOS CARVALHO 



ICONOGRAFIA E SIMBÓLICA 



DO 



POLÍPTICO 



DE 



SÃO VICENTE DE FORA 



/ 



LISBOA 
19 6 5 



À MEMÓRIA DE MEUS PAIS 



A MEUS IRMÃOS: 

DR. JOÃO DOS SANTOS CARVALHO JÚNIOR 

DRf MARIA ADELAIDE DOS SANTOS CARVALHO 

DR. JOAQUIM DOS SANTOS CARVALHO 

DR. MANUEL DOS SANTOS CARVALHO 

DR. ANTÓNIO DOS SANTOS CARVALHO 

Díí.a MARIA DA GRAÇA DOS SANTOS CARVALHO 

DR.* MARIA DA ASCENSÃO DOS SANTOS CARVALHO 

ENG. JORGE DE DEUS DOS SANTOS CARVALHO 

DR.a MARIA DE DEUS DOS SANTOS CARVALHO 

DR. FRANCISCO DE ASSIS DOS SANTOS CARVALHO 



Foi tão privilegiado do céu o Reino de Portugal, que a ele entre 
todos os do mundo escolheu a Divina Providência para o fa^er anunciador, 
pregoeiro e pregador das boas novas do sagrado Evangelho, nas três partes 
do Orbe, onde menos noticia havia da sacrossanta Pé da Igreja Romana. 

Jorge Cardoso, Agiológio Lusitano, Lisboa, 1652. 

Das excessivas despesas que os gloriosos reis de Portugal fizeram, 
e dos imensos trabalhos que os nossos toleraram nestes descobrimentos 
e conquistas, o principal motivo foi para abrir caminho à pregação do 
sagrado Evangelho e à conversão da gentilidade, trazendo ao grémio e 
obediência da Igreja Católica aquelas remotas e bárbaras nações. 

Agiológio Lusitano 



...E que fama poderá igualar a vossa, se sulcando mares escondidos, 
fordes abrir as portas à infidelidade e idolatria, que o demónio tem ferro- 
Ihadas no centro daquelas regiões para não darem entrada à Fé do Evan- 
gelho? Imortal, santa, religiosa será vossa fama na história da Pátria 
e da Igreja... 

(Fala do Infante D. Henrique a João Gonçalves Zargo e a Tristão 
Vaz,. 

Cândido Lusitano, Vida do Infante D. Henrique, Lisboa, 1758. 



O POLÍPTICO 

DE 

«PORTUGAL, DEFENSOR E APÓSTOLO DA FÉ» 




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PAINEL DA DILATAÇÃO DA FÉ 




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PAINEL DA VIDA ETERNAL 

(c. 1468) 



1 — D. DUARTE: n.° Rei de Portugal; filho de D. João I; intrépido comba- 

tente na tomada de Ceuta; falecido em 1438, na idade de 46 anos. 

2 — 1.0 DUQUE DE BRAGANÇA D. AFONSO: 2.° conde de Neiva; 

8.° conde de Barcelos; filho legitimado do Rei D. João I; intrépido 
combatente dos mouros na tomada de Ceuta; falecido em Dezembro 
de 1461, na idade de 90 anos. 

3— INFANTE SANTO D. FERNANDO: Filho de D. João I; falecido 
em Fez, cativo dos mouros, em 1443, com 41 anos de idade. 

4 — ARCEBISPO DE LISBOA D. PEDRO DE NORONHA: Embai- 
xador ao reino de Aragão para tratar o casamento do Infante D. Duarte 
com a Infanta D. Leonor de Aragão; falecido em 1452 com 56 anos de 
idade. 

5—2.0 CONDE DE VILA REAL D. FERNANDO DE NORONHA: 
2. capitão de Ceuta; intrépido guerreador dos mouros; camareiro-mor 
dos reis D. Duarte e D. Afonso V; falecido em 1445. 

6 — PRIOR DO CRATO D. FREI NUNO DE GÓIS: Combatente dos 
mouros na defesa de Ceuta; falecido em 1442, em idade avançada. 



PAINEL DA DILATAÇÃO DA FÉ 

(c. 1448) 



7 — PORTUGAL, PESCADOR DE ALMAS: Figura alegórica represen- 

tando o Povo Português, mareante e propagador da Fé de Cristo entre 
os pagãos do mundo desconhecido. 

8 —LANÇAROTE DA FRANCA, na figura do APÓSTOLO SÃO JOÃO: 

Cavaleiro da casa do Infante D. Henrique e por ele armado cavaleiro 
depois da viagem de seis caravelas da companhia de Lagos de que foi 
capitão; principal capitão da expedição nacionalà ilha de Tider; nascido 
em 1399 (?). Obs.: Era almoxarife e coudel de Lagos. 

9 — SOEIRO DA COSTA, na figura do APÓSTOLO SANTO ANDRÉ: 

Capitão duma das caravelas da expedição nacional a Tider, por ocasião 
da qual foi armado cavaleiro. Obs.: É tradição ter sido um dos Doze de 
Inglaterra; em 1448 tinha mais de 63 anos de idade; a representação de 
Santo André foi identificada pelo Dr. Sousa Gomes. 

10 — GONÇALO VELHO: Nobre fidalgo; mareante dos Descobrimentos 
e intrépido guerreador dos mouros em terra e no mar; povoador da Ilha 
de S. Miguel; generoso abastecedor de mantimentos aos defensores de 
Ceuta. 

11— JOÃO GONÇALVES, «O ZARGO»: Cavaleiro, criado do Infante 
D. Henrique; intrépido combatente contra os mouros na tentativa da 
tomada de Tânger; achador e povoador da Ilha da Madeira, a qual se 
tornou uma base de abastecimento de mantimentos aos navios dos 
Descobrimentos; nascido cerca de 1392. 

12 — VICENTE DIAS, na figura do APÓSTOLO SÃO TOMÉ: Armador 
e capitão duma das caravelas da expedição nacional a Tider; descobridor 
da Ilha de Santiago, segundo o sábio Wieder. 

GOMES PIRES: Patrão da caravela del-Rei, tendo feito nela várias 
viagens, à costa de África, por mandado do Infante D. Pedro, com o fim 
de comerciar pacificamente com os seus habitantes; comandante da 
caravela del-Rei na expedição nacional a Tider. 



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PAINEL DO VOTO DA CRUZADA 




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PAINEL DO VOTO DA CRUZADA 

(c. 1468) 

14 — RAINHA D. ISABEL: Mulher de D. Afonso V; filha do Infante 

D. Pedro; falecida em 1455 com 22 an os de idade. Obs.: Identificação 
do Dr. José de Figueiredo. 

15 —D. AFONSO V: 12.0 Rei de Portugal; filho do Rei D. Duarte; porfiado 

guerreador dos mouros; nascido em 1432. Obs.: Identificação do 
Dr. Joaquim de Vasconcelos. 

16 — INFANTA D. ISABEL, DUQUESA DE BORGONHA: Filha do Rei 

D. João I; viúva do duque Filipe-o-Bom falecido em 15 de Junho de 1467; 
nascida em 1397. 

J 7 — CARDEAL D. JAIME: Falecido em 1459 com 25 anos de idade. Iden- 
tificação do Dr. Belard da Fonseca. Obs.: sobre a primitiva face da figura 
foi pintada a do Príncipe D. Afonso, filho do Rei D. Toão II. 

18— INFANTE D. HENRIQUE: Filho do Rei D. João"l; governador e 
administrador da Ordem de Cristo, a qual tinha por principal obrigação 
guerrear os infiéis; intrépido combatente contra os mouros em Ceuta, 
Tânger e Alcácer-Ceguer; falecido em 1460 com 66 anos. de idade. 
Obs.: Identificação de Columbano Bordalo Pinheiro. 

19 — PRÍNCIPE D. JOÃO: Filho do Rei D. Afonso V; nascido em 1455. 

. Obs.: Sobre a primitiva face da figura foi pintada a do Príncipe D. Afonso 
falecido em 1491 com 16 anos de idade. Obs.: Identificação do Dr. José 
de Figueiredo. 

20 — MARQUÊS DE VALENÇA D. AFONSO: Filho primogénito do 

i.° duque de Bragança D. Afonso; 4. conde de Ourém; combatente 
na tomada de Alcácer-Ceguer; falecido em 1460 na idade de 58 anos. 

21 — 2.0 DUQUE DE BRAGANÇA D. FERNANDO: Filho segundogénito 

do i.° duque de Bragança D. Afonso; 3. conde de Arraiolos; i.° marquês 
de Vila Viçosa; 3. conde de Neiva; 5. conde de Ourém; 9. conde 
de Barcelos; capitão de Ceuta; famoso guerreador dos mouros em Ceuta, 
Tânger e Alcácer-Ceguer; nascido em 1403. 

22 — CONDE DE GUIMARÃES D. FERNANDO: Filho do 2.° duque de 

Bragança; intrépido guerreador dos mouros; nascido em 1430. Obs.: 
Futuro 3. duque de Bragança; 6.° conde de Ourém; 4° conde de Arraiolos; 
2. marquês de Vila Viçosa; 4. conde de Neiva; e i.° duque de Guimarães. 

23 — CONDE DE VIANA D. DUARTE DE MENESES: Famoso guer- 

reador dos mouros, tendo sido morto por eles na serra de Benacofú, 
em 1464, na idade de 50 anos, sacrificando-se para salvar a vida do Rei 
D. Afonso V. Obs. : À data da sua morte era alferes-mor do reino e capitão 
de Alcácer-Ceguer. 

24 — PINTOR NUNO GONÇALVES: Cavaleiro da casa real e pintor do 

Rei D. Afonso V. Obs.: Identificação do Dr. José de Figueiredo. 
25— DOUTOR NUNO GONÇALVES: Mestre de leis pela Universidade 
de Bolonha; conselheiro, desembargador e juiz; dos feitos do Rei 
D. Afonso V; futuro chanceler-mor do reino. Obs.: Foi pintor, tendo-se 
aperfeiçoado em Itália. 

26 — CONDE DE ODEMIRA D. SANCHO DE NORONHA: Comen- 

dador-mor da Ordem de Santiago da Espada; intrépido guerreador dos 
mouros; regente do reino do Algarve. Obs.: Havia sido, durante largos 
anos, capitão de Ceuta; falecido em 147 1. 

27 — CAPITÃO DE CEUTA D. PEDRO DE MENESES: 3.» Conde de 

Vila Real; intrépido guerreador dos mouros; nascido em 1441. Obs.: 
Futuro i.° marquês de Vila Real e 7. conde de Ourém. 

28 — CONFESSOR DE D. AFONSO V, D. RODRIGO DE NORO- 

NHA: Bispo de Lamego; filho do arcebispo de Lisboa D. Pedro de Noro- 
nha. Obs. : Foi capelão-mor, regedor da Casa da Suplicação e chanceler- 
-mor; eleito bispo de Lamego em 1463. 

29 — CAPITÃO DE ALCÁCER-CEGUER D. HENRIQUE DE MENESES: 

Conde de Valença; alferes-mor do reino; intrépido guerreador dos mouros; 
3. conde de Viana (do Minho); 4. conde de Viana (do Alentejo); nascido 
em 1443. 

3 — RUI DE SOUSA: Cavaleiro que salvou o estandarte do Rei, na serra 

de Benacofú, na mesma peleja em que morreu D. Duarte de Meneses; 
nascido em 1423. 



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PAINEL DA PREGAÇÃO DO EVANGELHO 






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PAINEL DA PREGAÇÃO DO EVANGELHO 

(c. 1448) 

31 —D. AFONSO V: 12.° Rei de Portugal; nascido em 1432. Obs.: Sobre 

a primitiva face da figura foi pintada a do Rei D. João II. 

32 —PRÍNCIPE D. FERNANDO: Filho do Rei D. Duarte; 12.» governador 

e administrador da Ordem de Santiago da Espada; nascido em 1433. 
Obs.: Futuro 6.» condestável de Portugal, duque de Beja, duque de Viseu 
e governador e administrador da Ordem de Cristo. 

33 — CONDESTÁVEL D. PEDRO: Filho do Infante D. Pedro; governador 

e administrador da Ordem de Avis; 5. condestável de Portugal; nascido 
em 1430. Obs.: Futuro Rei de Aragão; falecido em 1466. 

34 — D. JOÃO: Filho do Infante D. Pedro. Obs.: Foi conhecido pelo nome 

de D. João de Coimbra, na Flandres. 

35 —INFANTE SANTO D. FERNANDO: Filho do Rei D. João I, falecido 

em 1443, cativo dos mouros. Obs.: Sobre a primitiva face da figura foi 
pintada a do Príncipe D. Afonso, filho do Rei D. João II. Identificação 
do Dr. José Saraiva. 

36 — D. JAIME: Filho do Infante D. Pedro; nascido em 1434. Obs.: Futuro 

cardeal D. Jaime de Portugal, falecido em 1459. 

37 — MESTRE VASCO RODRIGUES: Chantre da sé de Braga; cónego 

de S. Salvador de Vilar dos Frades. Obs.: Havia sido catedrático de 
cânones na Universidade de Salamanca; em 1448 tinha cerca de 70 anos 
de idade. ' ' 

38 — BISPO DE ÉVORA D. ÁLVARO DE ABREU: Grande orador; 

embaixador ao Duque de Borgonha; glorioso combatente na tentativa 
da conquista de Tânger; falecido em 1440. Obs.: Foi regedor da Casa 
da Suplicação. 

39 — CÓNEGO JOÃO RODRIGUES: Deão da sé de Lisboa; cónego de 

S. Salvador de Vilar de Frades; confessor do Rei D. Afonso V e da Rainha 
D. Isabel; capelão-mor da Rainha D. Isabel. 

40 — LICENCIADO JORGE DA COSTA: Cónego de S. Salvador de Vilar 

de Frades; licenciado em teologia; pregador e mestre da Infanta D. Cata- 
rina, filha do Rei D. Duarte; nascido em 1406. Obs.: Futuro arcebispo 
de Lisboa e cardeal (Cardeal de Alpedrinha). Identificação do Dr. Belard 
da Fonseca. 

4I — DOUTOR AFONSO NOGUEIRA: Cónego de S. Salvador de Vilar 
de Frades; incansável pregador; Doutor em ambos os direitos pela Univer- 
sidade de Bolonha. Obs.: Futuro bispo de Coimbra e arcebispo de 
Lisboa. 

42 — BISPO DE VISEU D. JOÃO VICENTE, «O MESTRE JOÃO»: 
Geral perpétuo da Congregação dos Cónegos Seculares de S. Salvador 
de Vilar de Frades; incansável pregador; reformador da Ordem de Cristo; 
nascido em 1380. Obs.: Havia sido Mestre de medicina na Universidade 
de Lisboa, físico-mor do reino e médico do Rei D. João I e dos Infantes 
seus filhos. 

43— DOUTOR DIOGO AFONSO, «O MANGA- ANCHA»: Doutorem 
ambos os direitos; Mestre em Artes; lente de leis na Universidade de 
Lisboa; famoso orador. Obs.: Foi reitor da Universidade de Lisboa, 
embaixador ao concílio de Basileia, desembargador e juiz dos feitos do 
Rei D. Duarte e chanceler-mor, regedor da Casa da Suplicação e desem- 
bargador do Rei D. Afonso V. 

44 — ÁLVARO GONÇALVES DE ATAÍDE : Armado cavaleiro pelo Infante 
D. Pedro na tomada de Ceuta; embaixador ao concílio de Constança; aio 
do Rei D. Afonso V e do Príncipe D. Fernando. Obs.: Futuro conde 
de Atouguia. 

45— CÓNEGO PEDRO EANES, «O SARRABODES»: Cónego da sé de 
Lisboa. Obs.: Havia sido capelão do Infante D. Fernando. 

46 — RUI DA CUNHA: Prior da colegiada de Guimarães; embaixador ao 

Papa Eugénio IV; combatente na defesa de Ceuta e na tentativa da tomada 
de Tânger. 

47 — BISPO DE CEUTA D. FREI JOÃO MANUEL: Filho natural do 

Rei D. Duarte; provincial da Ordem do Carmo; licenciado em Teologia; 
lente da cadeira de prima de Teologia na Universidade de Lisboa; grande 
pregador; glorioso combatente na tentativa da tomada de Tânger; duas 
vezes embaixador ao Papa Eugénio IV; embaixador à Hungria; nascido 
cerca de 1406. Obs.: Futuro bispo da Guarda e capelão-mor de seu irmão 
o Rei D. Afonso V. 



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PAINEL DA DEFENSÃO DA FÉ 

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PAINEL DA SANTA GLÓRIA 




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PAINEL DA DEFENSÃO DA FÉ 

(c. 1448) 

48— INFANTE D. PEDRO: Filho do Rei D. João I; duque de Coimbra; 
Regedor e Defensor do Reino por El-Rei; intrépido combatente contra 
os turcos e mouros; nascido em 1392. 

49 — INFANTE D. JOÃO: Filho de D. João I; 10.° governador e adminis- 

trador da Ordem de Santiago da Espada; 3. condestável de Portugal; 
falecido em 1442 com 42 anos de idade. 

5 — D. DIOGO: Filho do Infante D. João; n.° governador e administrador 

da Ordem de Santiago da Espada; 4° condestável de Portugal; falecido 
em 1443 com J 9 anos de idade. 
5 1— INFANTE D. FERNANDO: Filho do Rei D. João I; governador e 
administrador da Ordem de Avis; intrépido combatente na tentativa da 
tomada de Tânger, tendo então a idade de 35 anos. 

52 — CONDE DE AVRANCHES D. ÁLVARO DE ALMADA: Fron- 

teiro de Ceuta; capitão-mor do mar; alcaide-mor do castelo de Lisboa; 
famosíssimo cavaleiro guerreador dos turcos e mouros; armado cavaleiro 
pelo Infante D. Pedro na tomada de Ceuta; embaixador de Portugal à 
Inglaterra; cavaleiro da Jarreteira. Obs. : É tradição ter sido um dos Doze 
de Inglaterra. 

53 —AIRES GOMES DA SILVA: Armado cavaleiro pelo Infante D. Pedro 

na tomada de Ceuta; regedor da Casa do Cível; nascido em 1399. 

54 — MARTIM DE TÁVORA : Meirinho-mor da corte ; embaixador a Arzila 

para o resgate do Infante D. Fernando, do qual havia sido escudeiro; 
um dos capitães do condestável D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, na 
sua expedição a Castela. 
55— FERNÃO LOPES DE AZEVEDO: Famoso combatente contra 
os mouros na tomada de Ceuta, na defesa dessa cidade e na tentativa da 
tomada de Tânger; embaixador do Rei D. Duarte e do Regente D. Pedro 
ao Papa Eugénio IV. 



PAINEL DA SANTA GLÓRIA 

(c. 1468) 

56 — INFANTE D. PEDRO, na figura do APÓSTOLO SÃO PEDRO: 
Falecido em 1449 na idade de 57 anos. Obs. Expõe sobre uma bolsa a 
relíquia de SANTO ANTÓNIO identificada pelo Dr. Belard da Fonseca. 

57— -D. FREI JOÃO ÁLVARES, na figura do APÓSTOLO SANTIAGO: 
Secretário do Infante D. Fernando e seu companheiro de cativeiro em 
Fez, donde trouxe as suas relíquias; nascido cerca de 1406-1408; dom 
abade do mosteiro de Paço de Sousa. 

58 — OLIVIER DE LA MARCHE: «Pannetier» e cronista dos duques de 

Borgonha; nascido cerca de 1426. Obs.: Identificação do Dr. Belard 

59 — BISPO DE SILVES D. ÁLVARO AFONSO: Português, legado 

a laíere do Papa Calisto III a D. Afonso V, para lhe pedir socorro contra 
os turcos, em 1456. Obs.: Nomeado bispo de Évora em 1468. 

60 — DOUTOR JOÃO FERNANDES DA SILVEIRA: Doutor em leis; 

quarto neto do Rei D. Afonso III; regedor da Casa da Suplicação; embai- 
xador do Rei D. Afonso V ao Papa Calisto III para o informar do propósito 
desse Rei «de passar ao Oriente com armada e exército para recuperar 
Constantinopla e exterminar os infiéis». Obs.: Veio a ser o i.° barão de 
Alvito e, por dez vezes, foi embaixador de Portugal a diversas cortes. 



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INTRODUÇÃO AO ESTUDO 

DO 

POLÍPTICO 

DE 

SÃO VICENTE DE FORA 



NOTA PRELIMINAR 



Desde os tempos do liceu que o autor do presente trabalho sentia profunda 
atracção pelos painéis de São Vicente admirando ingenuamente a sua beleza 
e cogitando no mistério do seu significado histórico, transcendente por certo. 

Todas as obras relativas a essas maravilhosas pinturas foram por ele 
lidas e meditadas, levando-o a exultar com os esclarecimentos que iam apare- 
cendo, daquilo que, todavia, continuava a ser intrincado enigma, pois na iden- 
tificação das figuras não havia uma só que fosse unanimemente considerada 
definitiva, nem mesmo a do Infante D. Henrique. 

Assim, ainda hoje pesam sobre essas pinturas as palavras de Vergílio 
Correia: «Contemplam-se esses painéis, tão raros pela composição como 
brilhantes pela execução, um pouco com a tristeza dos arqueólogos perante 
as inscrições cretenses ou etruscas indecif radas». 

Um mero acaso levou o autor a passar da fase admirativa perante 
os Painéis para a da investigação da resolução do problema que eles encerravam. 

No dia ii de Novembro de 1962, folheando a revista «Colóquio» Q), 
deparou com o retrato de D. João de Coimbra, filho do Infante D. Pedro, 
existente no Museu Real de Bruxelas e pintado por Van der Weyden, 
magistralmente identificado pelo arquitecto José Corte%. 

Havia o Dr. Belard da Fonseca, depois de argutíssimas deduções, 
reconhecido na figura principal do Políptico de São Vicente de Fora o 
Cardeal D. Jaime de Portugal, também filho do Infante D. Pedro. 

Desta maneira surgiu ao autor do presente trabalho a ideia da possi- 
bilidade de D. João ser uma das restantes figuras do Políptico e estar colo- 
cado junto do Cardeal D. Jaime, seu irmão. 

Foi este o ovo de Colombo, fio condutor para se deslindar a meada 
do «fáistério dos Painéis». 

A. presente obra constitui, assim, o resumo dos resultados das inves- 
tigações a que o autor vem procedendo desde o dia 11 de Novembro de 1962. 

Note-se que ele expõe o seu pensamento sem quaisquer preocupações 
de não poder errar. Com júbilo tomará conhecimento de quaisquer observações 



(*) Número 7, do mês de Fevereiro de 1960. 



que modifiquem ou invalidem as suas deduções, pois nada mais deseja que a 
descoberta da verdade, «em prol da nossa terra». 

À leitura de variadíssimas obras ele teve de recorrer. Isso o levou 
a iniciar o presente trabalho com esta introdução constituída pelo essencial 
para se compreender a génese do Políptico sem se tornarem necessárias 
múltiplas leituras.. 

Porém, com pouco dispêndio, poderá o leitor adquirir uma modesta 
colecção de livros (*), actualmente existentes no mercado, com cujo estudo 
ficará mais completamente informado. 

Essencial será também que obtenha uma reprodução do Políptico, 
a cores. 



(*) Vide o final deste livro. 






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HISTORIA 



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OS FILHOS DE D. JOÃO I 



Sendo ainda mestre de Avis, o futuro Rei D. João I teve um 
filho natural chamado D. Afonso, nascido, talvez, em 1377, o qual 
combateu «na guerra que o imperador Segismundo fazia aos 
Turcos» e veio a ser conde de Barcelos e, depois, duque de 
Bragança, tendo falecido em Dezembro de 146 1. 

Casou D. João I com D. Filipa de Lencastre, filha do nobre 
inglês João de Gaunt, duque de Lancaster, e irmã do rei de Inglaterra 
Henrique IV. 

Foram os seguintes os filhos deste casal que atingiram a maiori- 
dade: D. Duarte, nascido em 1391; D. Pedro, nascido em 1392; 
D. Henrique, nascido em 1394; D. Isabel, nascida em 1397; D. João' 
nascido em 1400; e D. Fernando, nascido em 1402. 

D. Duarte reinou durante cinco anos, falecendo em 1438. 
Era homem de boa estatura de corpo, com grandes e fortes membros, 
rosto redondo algum tanto enverrugado, com os cabelos corredios 
e os olhos moles. 

D. Pedro foi duque de Coimbra e «Regedor e Defensor do 
Reino» durante a menoridade de D. Afonso V. Morreu no recontro 
de Alfarrobeira, em 20 de Maio de 1449. 

D. Henrique foi duque de Viseu, governador do mestrado da 
Ordem de Cristo, propulsor dos descobrimentos marítimos e guer- 
reador porfiado dos mouros. Faleceu em 1460 na idade de 66 anos. 
D. Isabel casou em Janeiro de 1430 com o duque de Borgonha 
e conde de Flandres Filipe-o-Bom de quem ficou viúva em 15 de 
Junho de 1467, recolhendo-se então a um convento de irmãs cinzentas 
da Ordem de S. Francisco que havia fundado em 1456. 

D. João foi governador da Ordem de Santiago da Espada 
e 3.0 condestável de Portugal, tendo falecido em 1442 com 42 anos 
de idade. 

D. Fernando foi governador e administrador da Ordem de 
Avis tendo estado cativo dos mouros durante seis anos, falecendo 
como um santo mártir, em 1443, na idade de 41 anos. Por isso foi 
considerado como o «Infante Santo». 



C 1 ) Vergilio Correia, Monumentos e Esculturas, 2. a edição, pág. 151 



36 

OS FILHOS DE D. DUARTE 

O Rei D. Duarte, casou em 1428 com a Infanta D. Leonor 
de Aragão. O arcebispo de Lisboa D. Pedro de Noronha foi 
recebê-la e a conduziu para o Reino, como procurador de D. João I Q. 

Foram os seguintes os filhos deste casal que atingiram a maiori- 
dade: D. Afonso, nascido em 1432; D. Fernando, nascido em 1433; 
D. Leonor, nascida em 1434; D. Catarina, nascida em 1436 ; e D. Joana 
nascida em 1439. 

D. Afonso foi o quinto rei de Portugal desse nome e morreu 

em 1481. 

D. Fernando foi o 5 .° condestável de Portugal, duque de Viseu, 
duque de Beja e pai do Rei D. Manuel I. Casou com sua prima 
D. Beatriz, filha do Infante D. João e neta do conde de Barcelos 
e futuro duque de Bragança D. Afonso. 

D. Leonor casou em 145 1 com Frederico III, Imperador da 
Alemanha. 

D. Catarina morreu solteira. 

D. Joana casou em Maio de 1455 com o Rei Henrique IV 
de Castela. 

Fora do matrimónio teve D. Duarte um filho ilegítimo, D. Frei- 
João Manuel, que foi provincial da Ordem do Carmo, bispo de 
Ceuta e depois bispo da Guarda e capelão-mor de seu irmão o 
Rei D. Afonso V. Na tentativa da tomada de Tânger muito se 
distinguiu o então Frei João, quer combatendo, pelo que «recebeu 
muitas feridas», quer socorrendo os cristãos com «as absolvições 
da bula da Cruzada que trazia» e com palavras de esforço, fé e devo- 
ção. Foi licenciado em Teologia e lente da cadeira de prima de 
Teologia na Universidade de Lisboa ( 2 ). 



OS FILHOS DO INFANTE D. PEDRO 

O Infante D. Pedro casou em fins do ano de 1428 com D. Isabel, 
filha do Conde de Ur gel, da família real de Aragão, 

Foram os seguintes os filhos deste casal: D. Pedro, nascido 
em 1430; D. Isabel, nascida em 1433; D. Jaime, nascido em 1434; 
D. João, cujo ano de nascimento se desconhece sendo talvez o 
de 1435 ; D. Filipa, nascida em 1437; e D. Beatriz ou Brites. 



(!) José Soares da Silva, Memórias del-Rei D. João I, tomo II, pág. 942. 
( 2 ) António Domingues de Sousa Costa, O InfanteD . Henrique na Expansão 
Portuguesa, Braga, 1960, pág. 148. 



37 

D. Pedro foi o 5 .° condestável de Portugal, tendo sido nomeado 
por seu pai o Infante D. Pedro, regente do reino, por morte do 
condestável D. Diogo, filho do infante D. João, em 1443. Foi 
também governador do mestrado da Ordem de Aviz, por morte 
do infante D. Fernando no cativeiro de Fez, também em 1443. 

Em 1445 foi mandado por seu pai a Castela com tropas para 
ajudar D. Álvaro de Luna, sendo armado cavaleiro pelo Infante 
D. Henrique antes de partir. 

Depois do recontro de Alfarrobeira D. Pedro fugiu para Castela 
donde voltou a pedido do rei D. Afonso V, em 1457, para o ajudar 
na Cruzada contra os infiéis em Marrocos. 

Deste modo combateu valentemente ao lado do Rei até que 
em fins de 1463 seguiu para Barcelona solicitado pelos aragoneses 
que o haviam tomado por seu legítimo rei «como só e principal 
herdeiro que era da casa de Urgel, e assim a quem pertenciam de 
direito os reinos de Aragão» Ç). 

Reinou, em Aragão somente três anos pois veio a falecer em 
Barcelona em 28 de Junho de 1466. 

Foi retratado pelo pintor Jaime Huguet na figura de um dos 
reis magos no chamado retábulo do condestável existente no museu 
da capela de Santa Águeda em Barcelona, o qual representa a 
Epifania ( 2 ). 

Por sua morte foi feito o inventário dos seus bens, existindo 
o catálogo da magnífica livraria que deixou constituída por 96 
ou 97 volumes de teologia, astrologia, filosofia, poesia e história ( 3 ), 
o qual catálogo é minucioso sobre a parte material dos volumes mas, 
quanto a autores e assuntos, nem tudo é claro. Somente do livro 
número 27 intitulado Liber de viris ilustribus (que podemos identi- 
ficar como sendo o livro desse título da autoria do papa Pio II) 
o catálogo informa que está escrito em letra antiga ( 4 ). 

D. Isabel, segunda filha do Infante D. Pedro, foi rainha de 
Portugal por ter casado com seu primo coirmão o Rei D. Afonso V. 

Morreu em 1455 na idade de 22 anos. 

D. Jaime, combateu em Alfarrobeira, onde ficou prisioneiro, 
tendo então perto de dezassete anos ( 5 ). 

Foi depois recolhido na corte do duque de Borgonha Filipe-o- 
-Bom, o qual era casado com a sua tia a Infanta D. Isabel. 



pág. IX. 



( x ) Rui de Pina, Crónica Del-Rei D. Afonso V, vol. III, pág. 30. 

( 2 ) Augusto L. Mayer, Historia de la Pintura Espanola, pág. 104. 

( 3 ) Carolina Micaelis de Vasconcelos, Tragédia de la Insigne Reina D. Isabel, 



Ibidem, pág. 128. 
( 5 ) Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Lisboa, 1947, pág. 309. 



38 

De Bruges seguiu para Roma onde o Papa lhe deu o cargo de 
protonotário apostólico e pouco depois, em 1453, ° nomeou bispo 
de Arras. Neste mesmo ano foi eleito arcebispo de Lisboa mas 
continuou em Itália tendo enviado um administrador para Portugal. 

Em 1456, o Papa Calisto III fê-lo cardeal de Santo Eustáquio, 
pertencendo à classe dos cardeais diáconos (*). 

Em 1458, assistiu ao conclave que elegeu papa o cardeal 
Aeneas Silvyus Piccolomini, o qual tomou o nome de Pio II. 

Morreu em Florença, em Agosto de 1459, na idade de 25 anos, 
sendo sepultado na igreja de S. Miniato num magnífico túmulo 
com estátua jacente. A face da estátua foi esculpida tempos depois 
da morte do cardeal, porém as suas mãos foram moldadas no 
cadáver ( 2 ). 

O cardeal D. Jaime tinha ido para Florença a fim de acompanhar 
o Papa Pio II, que ia a Mântua preparar a cruzada contra os Turcos ( 3 ). 

A causa da sua morte deve ter sido a tuberculose visto três 
anos antes dela «se lhe ter rompido uma veia no peito» ( 4 ) o que 
é de interpretar como uma hemoptise. De resto é evidente a extrema 
magreza do rosto da estátua tumular e das mãos» ossudas, esguias 
e de dedos compridos.» ( 5 ) 

D. Jaime foi considerado como um santo na ocasião da sua 
morte, na Itália e com certeza também em Portugal, pelo menos na 
corte e entre os membros da família real, seus próximos parentes ( 6 ). 

Foi também certamente considerado como um mártir bem- 
-aventurado, acrescentamos nós, visto que os médicos lhe disseram 
«que escaparia à morte, se tivesse acesso a mulher» ao que ele retor- 
quiu «que antes queria acabar tão cedo, que manchar seu corpo» ( 7 ). 

«Parece que D. Jaime, nunca chegou a receber a consagração 
episcopal, por lhe faltar a idade competente. Não sabemos mesmo 
se chegou a receber a ordenação sacerdotal. Em tudo o que sobre 
ele vimos escrito nunca se alude, a semelhante facto. Nem o sacer- 
dócio era necessário para o cardinalato. Até ao século passado, 
era frequente existirem cardeais sem ordens sacras; isto é, simples 
leigos que os Papas elevavam àquela dignidade» ( 8 ). 



P) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — O Cardeal 
D. Jaime de Portugal, pág. 50. 

( 2 ) Ibidem, pág. 46. 

( 3 ) Cruz Pontes, A Capela do Cardeal Português em Florença à Luz de Novos 
Documentos, in Diário de Notícias»», de 5-12-1963. 

( 4 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — O Cardeal 
D. Jaime de Portugal, pág. 38. 

( 5 ) Ibidem, pág. 48. 

( 6 ) Ibidem, pág. 45. 
(') Ibidem, pág. 39. 

( 8 ) António Leite, O Mistério dos Painéis, «in Brotéria», vol. LXVIII, 
n.° 6, de 1959. - 



39 

D. João, tinha quinze anos pouco depois do recontro de Alfar- 
robeira l 1 ). 

Acolhido pela sua tia D. Isabel seguiu a carreira das armas e 
logo em 1452 o vemos combatendo ao lado do duque de Borgonha 
Filipe-o-Bom, marido daquela senhora. 

Os seus serviços foram recompensados pelo duque que o armou 
cavaleiro do Tosão de oiro, em Maio de 1456. Após esta ceri- 
mónia dirigiu-se a Leyde onde então se encontrava a corte, para 
agradecer e apresentar aos duques as suas despedidas, visto seguir 
em breve para o reino de Chipre onde se ia casar com a bela e jovem 
herdeira do trono, Carlotta de Lusignan. 

Mas, antes de partir, imortalizou-o Van der Weyden com o 
seu painel, num retrato existente no Museu Real de Bruxelas, iden- 
tificado pelo arquitecto José Cortez ( 2 ). 

Em Chipre teve o título de príncipe de Antioquia e não chegou 
a dois anos a sua vida aí, pois morreu envenenado. 



OS FILHOS DO INFANTE D. JOÃO 

O Infante D. João casou em 1424 com D. Isabel sua sobrinha, 
filha do conde de Barcelos e futuro i.° duque de Bragança D. Afonso 
e da condessa D. Beatriz Pereira, filha única do condestável D. Nuno 
Álvares Pereira. 

Foram os seguintes os filhos deste casal: D. Diogo, nascido 
em data desconhecida, talvez ainda em 1424; D. Isabel; e D. Beatriz. 

D. Diogo sucedeu a seu pai nos cargos de administrador do 
mestrado da Ordem de Santiago da Espada e de condestável 
(4. condestável de Portugal). Mas poucos meses os exerceu visto 
ter morrido em 1443 na idade de 19 anos ( 3 ). 

D. Isabel casou em Agosto de 1447 com o rei João II de Castela, 
vindo a ser mãe da Rainha D. Isabel, mulher de D. Fernando, 
os chamados Reis Católicos. 

D. Beatriz ou Brites casou também em 1447 com seu primo 
o Infante D. Fernando, filho do rei D. Duarte, vindo a ser mãe 
do rei D. Manuel. 



( x ) Oliveira Martins, Os Filhos de D. João, Lisboa, 1947, pág. 309. 

( 2 ) José Cortez, Dom João de Coimbra, «Retrato por Rogier Van der Weyden, 
Colóquio, n.° 7, de Fevereiro de 1960. 

( 3 ) Júlio Dantas, Outros Tempos, 2. a edição, pág. 77. 



40 



OS FILHOS DO i.° DUQUE DE BRAGANÇA 

D. Afonso, filho natural de D. João I, casou em 1401 com 
D. Beatriz Pereira Alvim, filha única do 7. conde de Barcelos, 
3. conde de Ourém, i.° conde de Arraiolos e 2. condestável de 
Portugal, D. Nuno Álvares Pereira. 

D. Nuno dotou a filha com o condado de Barcelos, pedindo 
então a D. João I que concedesse este título ao seu genro que assim 
se tornou o 8.° conde de Barcelos. 

O casal teve os seguintes filhos: D. Afonso, nascido em 1402; 
D. Fernando, nascido em 1403 ; e D. Isabel. 

D. Afonso foi o 4. conde de Ourém, por doação do seu avô, 
o Santo Condestável, em 1422, e o i.° e único marquês de Valença 
por carta, datada de 145 1, do rei D. Afonso V. 

Morreu solteiro em 29 de Agosto de 1460, ainda em vida de 
seu pai que faleceu em Dezembro de 1461. 

Repousa na cripta da igreja da colegiada da vila velha de 
Ourém, numa rica arca tumular cuja tampa é coberta com o vulto 
jacente, um magnífico retrato esculpido ( 1 ). 

O segundo filho do i.° Duque de Bragança foi D. Fernando, 
3. conde de Arraiolos por doação de seu avô D. Nuno Álvares 
Pereira, em 1422. D. Afonso V fê-lo marquês de Vila Viçosa 
em 1455. Por morte de seu irmão D. Afonso herdou o título de 
conde de Ourém. E, pelo falecimento do seu pai, foi o 9. conde 
de Barcelos e o z.° duque de Bragança. 

D. Isabel, a terceira dos filhos do i.° duque de Bragança 
D. Afonso casou com o seu tio o Infante D. João. 



OS FILHOS DE D. AFONSO V 



O Rei D. Afonso V casou em 1447 com a sua prima coirmã 
D. Isabel, filha do Infante D. Pedro, a qual faleceu em 145 5 na idade 
de 22 anos. 

Este casal teve dois filhos: D. Joana, nascida em 1452 e 
D. João, nascido em 1455. 

D. Joana foi jurada princesa herdeira do reino passados oito 
dias após o seu nascimento; porém, depois de nascer o seu irmão 
D. João passou a ser designada como infanta. 



(!) Vergílio Correia, Três Túmulos, pág. ní 



* 41 

Era formosíssima, tinha os olhos verdes Q) e «o cabelo louro 
e em grau tão subido que passando a verdades os idiomas do enca- 
recimento, antes pareciam raios que cabelos» ( 2 ). 

O seu rosto era redondo e alvo, as faces rosadas, o nariz meão 
e afilado e a boca grossa ( 3 ). 

Entrou para o convento de Jesus, em Aveiro, a 30 de Julho 
de 1472, nunca mais abandonando a vida monástica ( 4 ). 

Faleceu em 1490, vindo a ser beatificada. 

Deixou em testamento ( 5 ), o rubi grande de um anel a seu 
irmão o Rei D. João II e dois pendentes, um com três pedras e outro 
com uma esmeralda ao seu sobrinho D. Jorge, filho natural de 
D. João II. " 

Também mandou entregar a Jorge da Silva o espinho da coroa 
de Nosso Senhor Jesus Cristo que fora da Rainha D. Isabel sua 
mãe, «que o houve do Infante D. Pedro, seu pai» ( 6 ). 

Existe no museu de Aveiro uma pintura que é tradicionalmente 
considerada como sendo o retrato da Infanta Santa Joana. 

Segundo o Dr. José de Figueiredo ( 7 ) esse painel apresenta 
todas as características da época em que viveu a Infanta, não pode 
em caso algum ser obra de Nuno Gonçalves e não foi realizado do 
natural. Seria uma cópia dum retrato pintado por Nuno Gonçalves, 
feita por um artista estrangeiro. 

O outro filho de D. Afonso V veio a ser o Rei D. João II. 

«Foi el-Rei D. João II homem de corpo mais grande que 
pequeno, muito bem feito, e em todos os seus membros mui 
proporcionado; teve o rosto mais comprido que redondo, e de 
barba em boa conveniência, povoado. Teve os cabelos da cabeça 
castanhos e corredios... O nariz teve um pouco comprido e derri- 
bado algum tanto, sem fealdade» ( 8 ). 

No ano de 1494 o Rei estava muito doente por se lhe ter decla- 
rado «clara e mortal hidropisia», ficando muito inchado ( 9 ). Por 
atribuir a Setúbal um clima contrário à sua doença, saiu dessa vila 
para Évora, «na entrada do inverno», onde esteve até Julho de 1495. 
Neste ano morreu. 



Q) António Gomes da Rocha Madahil, Iconografia da Infanta Santa Joana, 
pág. 52. 

( 2 ) Ibidem, pág. 59. 

( 3 ) Frei Diogo do Rosário, Fios Sanctorum, Lisboa, 1741, pág. 881. 

( 4 ) Crónica da Fundação do Mosteiro de Jesus, de Aveiro, e Memorial da Injanta 
Santa Joana, leitura de António Gomes da Rocha Madahil, pág. 107. 

( 5 ) Ibidem, pág. 153. 
( e ) Ibidem, pág. 187. 

(') José de Figueiredo, na introdução ao 1 .° vol. de Documentos do Boletim 
da Academia Nacional de Belas- Artes. 

( 8 ; Rui de Pina, Crónica del-Rei D. João, II, Coimbra, 1950, pág. 202. 
( 9 ) Ibidem, pág. 190. 



42 



Existe na igreja de S. Brás em Évora uma escultura que repre- 
senta esse santo, sendo «tradição oral em Évora, reforçada por alguns 
escritores antigos e modernos que «D. João II serviu de modelo 
para esse S. Brás» ( 1 ). 



OS FILHOS DO INFANTE D. FERNANDO 

O Infante D. Fernando casou em 1447 com sua prima D. Beatriz, 
filha do Infante D. João. 

Este casal teve, além de outros, os seguintes filhos: D. Diogo, 
duque de Viseu, assassinado por D. João II em 1484; D. Manuel, 
duque de Beja, que foi rei de Portugal; D. Leonor, rainha de 
Portugal pelo seu casamento com seu primo o Rei D. João II; 
e D. Isabel que casou com o 3. duque de Bragança, D. Fernando. 



OS FILHOS DO 2.0 DUQUE DE BRAGANÇA 

D. Fernando, z.° duque de Bragança teve, além de outros, os 
seguintes filhos: D. Fernando, nascido em 1430 ( 2 ); D. João, que 
foi condestável de Portugal e marquês de Montemor-o-Novo ; 
D. Afonso, que foi conde de Faro; D. Brites, que casou com 
D. Pedro de Meneses, 3. conde de Vila Real; e D. Guiomar, que 
casou com D. Henrique de Meneses, i.° conde de Valença. 

D. Fernando foi feito conde de Guimarães em 1462-1463 pelo 
rei D. Afonso V. 

Gasou em 1447 com D. Leonor de Meneses, filha de D. Pedro 
de Meneses, i.° capitão de Ceuta e i.° conde de Vila Real. 

Sucedeu a seu pai no ducado de Bragança em 1478 e foi 
executado, por conspiração contra o rei D. João II, em 1483. 



O PRÍNCIPE D. AFONSO 

O Príncipe D. João, futuro Rei D. João II, casou em 1471 
com sua prima coirmã D. Leonor, filha do Infante D. Fernando e, 
portanto, irmã do duque de Viseu D. Diogo e do duque de Beja 
D. Manuel, o futuro rei do mesmo nome. 



( x ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — As Personagens 
e a Armaria, pág. 55. 

( 2 ) D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real 
Portuguesa, Tomo V, pág. 233. 



43 

Deste casal nasceu em 1 8 de Maio de 1475 o Príncipe D. Afonso 
que era loiro e muito meigo, «com cara de inglês», segundo observou 
o viajante alemão Nicolaus von Popplau. Os seus cabelos eram como 
o ouro e a pele rosada e branca segundo a descrição de Cataldo 
Sículo O. 

Ainda muito criança esteve como refém em Moura, em poder 
da Infanta D. Beatriz, por parte de Portugal, onde também estava 
em refém, em poder da mesma Infanta, por parte de Espanha, 
a Princesa D. Isabel, filha dos Reis Católicos D. Fernando e D. Isabel. 
Estes reféns ou terçarias haviam sido estipulados pelos dois governos 
como fiadores da paz que se assinara entre os dois países, depois 
da grande luta em que andaram empenhados e que teve como feito 
de armas culminante a batalha de Toro ( 2 ). 

Em 1483, depois da Páscoa, por ter morrido o Rei D. Afonso V, 
foram desfeitas «as terçarias» que já não fazia sentido prolongarem-se 
e os jovens reféns voltaram à casa dos seus respectivos pais ( 3 ). 
Tinha então o Príncipe cerca de 8 anos. 

Em 1490, na idade de 15 anos, casou com a princesa D. Isabel 
sua prima, a mesma que tinha estado com ele nas terçarias de Moura. 

No dia 12 de Julho de 1491, estando a corte em Santarém, 
o Príncipe montou a cavalo e andava em corridas nas margem do 
Tejo. 

Porém, quebrou-se o loro dum estribo e o Príncipe caiu do 
cavalo com tanta infelicidade que, sendo arrastado, ficou logo sem 
fala e como morto, falecendo no dia seguinte. Tinha pouco mais 
de 16 anos. 

O desgosto do Rei foi tremendo. Morria-lhe o único filho legí- 
timo e ficavam perdidas as esperanças de o governo da península 
hispânica, politicamente unificada, pertencer a um príncipe portu- 
guês. 

A FAMÍLIA NORONHA 

O rei D. Fernando de Portugal teve uma filha natural chamada 
D. Isabel que casou com D. Afonso, conde de Gijon e Noronha, 
filho também ilegítimo do rei Henrique II de Castela. 

A condessa D. Isabel, depois de enviuvar, voltou para Portugal, 
trazendo consigo seis filhos e tendo recebido para si e para eles 
bom agasalho do rei D. João I ( 4 ). 



C 1 ) Elaine Sanceau, D. João II, págs. 186 e 348. 

( 2 ) Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, Portugal, Dicionário Histórico, etc. 

( 3 ) Elaine Sanceau, D. João II, pág. 176. 

( 4 ) Anselmo Braamcamp Freire, Livro Primeiro dos Brasões da Sala de 
Sintra, 2. a edição, pág. 47. 



44 



Alguns dos irmãos Noronhas vieram a ter importante papel 
na vida da nação. Assim, D. Pedro de Noronha foi arcebispo de 
Lisboa desde 1424 a 145 2 ; D. João de Noronha combateu no descerco 
de Ceuta; D. Fernando de Noronha foi o z.° conde de Vila Real 
e o 2. capitão de Ceuta por ter casado com D. Brites de Meneses 
filha do i.° conde de Vila Real e i.° capitão de Ceuta, D. Pedro 
de Meneses; D. Sancho de Noronha foi o quarto capitão de Ceuta, 
o i.° conde de Odemira, comendador-mor da Ordem de Santiago 
e regente do Algarve com o título de adiantado; e D. Constança 
de Noronha que foi a segunda esposa do conde de Barcelos D. Afonso, 
com quem casou em 1420, não tendo deixado descendência. 



O INFANTE D. PEDRO 

Nasceu em 1392. 

Era homem de grande corpo e de poucas carnes, tendo o rosto 
comprido, o nariz grosso, os olhos um pouco moles (*) e tinha os 
cabelos louros ( 2 ) como inglês ( 3 ). 

Em 141 5 acompanhou o pai e os seus irmãos D. Duarte e 
D. Henrique na conquista de Ceuta servindo-se valorosamente da 
espada que sua mãe para o efeito lhe ofereceu e aos irmãos e tinha, 
na ocasião, mandado fazer e guarnecer, em Lisboa ( 4 ). 

Depois de tomada a cidade o rei D. João I armou cavaleiros 
aos seus filhos e o infante D. Pedro armou depois vários cavaleiros 
entre os quais a Álvaro Vaz de Almada que viria a ser conde de 
Avranches e a Aires Gomes da Silva, filho do alferes-mor João 
Gomes da Silva. 

No ano de 1420 o Papa Martinho V declara, na bula In eminenti 
specula, que havia na cidade de Ceuta um eremitério da invocação 
e título de Santiago, e que o mui nobre varão D. Pedro, duque 
de Coimbra, para defensão da fé católica e para conversão dos infiéis ^ e 
povos circundantes que viviam no erro pretendia erigir o dito eremitério 
em convento da Ordem dos Menores, no qual um guardião e frades 
professos da dita Ordem permanentemente servissem ao Senhor 
das Virtudes, e que, tanto pelo exercício da pregação como pelo 
exemplo do seu viver edificante, aliciassem outros ( 5 ). 

(!) Rui de Pina, Crónica Del-Rei D. Afonso V, vol. II, pág. 110. 

( 2 ) Oliveira Martins, Os Filhos de D.João I, Edições S. I. T., Lisboa, 1947, 

VitLÇT "70 

( 3 )' Rui de Pina, Crónica Del-Rei D. Afonso V, vol. II, pág. 110. 

( 4 ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Tomada de Ceuta, edição da 
Academia das Ciências de Lisboa, pág. 126. 

( 5 ) João Martins de Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, vol. 1, 

pág. 252. 



e 



45 

Em 1425 o Infante D. Pedro partiu para a Hungria com vários 
companheiros, entre os quais Álvaro Vaz de Almada, futuro conde 
de Avranches, e Álvaro Gonçalves de Ataíde, futuro conde de 
Atouguia, tendo prestado grandes serviços ao imperador da Ale- 
manha Segismundo na guerra contra os turcos otomanos, inimigos 
da fé de Cristo. 

Em 1427, o mesmo Infante foi eleito cavaleiro da Jarreteira ( 1 ). 

Em 1428 voltou para a pátria, partindo da Hungria para Veneza, 
onde chegou a 5 de Abril, cidade que nesse tempo «atingira o apogeu 
do fausto e poderio. O seu formidável expansionismo mercantil que 
irradiava do fulcro lagunário para toda a área circunvizinha da 
Europa Oriental, remontando aos pontos mais distantes e carreando 
as riquezas mais exóticas, reservava-lhe primazia indiscutível no 
complexo económico europeu ansioso de contactos com o Oriente» ( 2 ). 

D. Pedro, em Veneza, procedeu a um inquérito minucioso ao 
seu nível económico e social. Percorre os mercados e armazéns, 
assiste ao armazenamento do ouro, observa o movimento marítimo 
do porto, o que os navios carregam e descarregam. Penetra no 
grande arsenal, visita os sessenta barcos que estão nas carreiras, em 
fases diversas do seu fabrico, e informa-se da tonelagem, da altura 
do bordo, do pano e da equipagem dos que se encontram já lançados. 
Enfim faz uma visita de estudo de tudo quanto respeita à navegação 
e ao comércio ( 3 ). 

Não desdenhou, no seu minucioso inquérito, de visitar a Ilha 
de Murano e o seu convento dos Camáldulos de São Miguel, grandes 
cosmógrafos e fabricantes de cartas. Entre estes se notabilizara o 
muito citado Fra Mauro, que assim teria estado em contacto com 
D. Pedro ( 4 ). 

No seu caminho para Roma passou por Pádua e Florença. 

Na primeira destas cidades, conseguiu obter uma relíquia de 
Santo António, «parte do casco ainda com cercilho», que trouxe para 
Portugal ( 6 ). 

Em Florença ter-se-ia, possivelmente, o Infante encontrado com 
Paolo Toscanelli, grande conhecedor dos assuntos de astronomia 
e geografia que já possuía as três noções fundamentais: esfericidade 
da terra, sua habitabilidade e existência de antípodas nas quais, justa- 
mente, se encontrava a índia. Toscanelli teria concluído que, para 



( x ) Francis M. Rogers, Infante Dom Pedro, pág. 32. 

( 2 ) Júlio Gonçalves, O Infante D. Pedro, as Sete Partidas e a Génese dus 
Descobrimentos, pág. 205. 

( 3 ) Ibidem, pág. 226. 

( 4 ) Ibidem, pág. 227. 

( 5 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — O Cardeal 
D. Jaime de Portugal, Lisboa, pág. 54. 



46 

se chegar aos antípodas, «tanto bastava caminhar para o Oriente 
como para o Ocidente» ( J ). 

A digressão de D. Pedro que, sendo política, fora também 
científica, deu-lhe gradualmente noções de cosmografia, geografia 
económica e arte de navegar, especializando-lhe o fundo da sua 
cultura ( 2 ). 

Em fins do ano de 1428 celebraram-se os casamentos dos dois 
irmãos D. Duarte e D. Pedro com duas princesas de Aragão, 
D. Leonor e D. Isabel, respectivamente, que eram filhas de dois 
inimigos políticos irreconciliáveis, que ardendo em ódio, se degla- 
diavam pela posse do trono vago pela morte, sem descendência, 
do Rei Martinho I ( 3 ). 

Em 1438 faleceu o rei D. Duarte que deixou dito a Frei Gil 
Lobo, seu confessor, «que sua derradeira vontade era que o Prín- 
cipe seu filho casasse com D. Isabel, filha do infante D. Pedro ( 4 ). 

No seu testamento, D. Duarte determinava que a regência do 
reino, até que o Rei D. Afonso V atingisse a maioridade (14 anos) 
ficasse inteiramente entregue à sua viúva, a Rainha D. Leonor de 
Aragão. 

A Rainha mandou chamar o Infante D. Pedro por seu irmão 
o Infante D. Henrique e os três acordaram, «que com a Rainha 
ficasse o cargo da criação dos seus filhos, e a governança e minis- 
tração de toda a fazenda; e ao Infante D. Pedro ficasse o regimento 
da justiça e o título de Defensor dos reinos por El-Rei». 

Contra este acordo se levantou o povo de Lisboa por não 
querer ser governado por uma mulher, de mais a mais estrangeira, 
e entender que somente o infante D. Pedro deveria defender e reger 
o reino, visto ser o mais velho dos filhos de D. João I ainda vivos. 

Processou-se assim uma verdadeira revolução que terminou 
pela vitória do terceiro estado contra quase toda a nobreza e a maior 
parte do clero. 

O doutor Diogo Afonso, o «Manga-Ancha», foi o cérebro 
da revolta actuando sobre a grande força de então, os mesteirais de 
de Lisboa. O Infante D. João incentivou-a deliberadamente, afir- 
mando sempre que somente o filho mais velho de D. João I deveria 
reger o reino. 

A favor de D. Pedro estavam, dos membros da Nobreza, prati- 
camente, só os seus criados; dos prelados, unicamente o bispo de 
Évora D. Álvaro de Abreu o apoiava. 



i 1 ) Júlio Gonçalves, O Infante D. Pedro, as Sete Partidas e a Génese dos 
Descobrimentos, pág. 236. 

( 2 ) Ibidem, pág. 243. 

( 3 ) Ibidem, pág. 236. 

( 4 ) Rui de Pina, Crónica Del-Rei D.Afonso V, vol. I, pág. 23. 



47 

O povo de Lisboa elegeu o capitão-mor do mar Álvaro Vaz 
de Almada como seu alferes, para o comandar e acordou, na 
Câmara, que o reino deveria ser regido pelo Infante D. Pedro, 
sozinho. 

A população da cidade foi dado conhecimento deste acordo, 
pois as pessoas que couberam no refeitório do convento de São 
Domingos foram dele certificadas pelo cónego da Sé, Pedro Eanes 
Sarrabodes, que para tal fim subiu ao púlpito, apressando-se depois 
todos os presentes em o assinar ( 1 ). 

«Sendo o acordo acabado de assinar, o mandaram intimar e 
notificar à Rainha que, sendo-lhe notificado, responde com muita 
quietação e modéstia, com palavras graves, repreendendo o atrevi- 
mento do povo e cidadãos da cidade de Lisboa em se quererem 
intrometer em eleger Regente e lhe quererem tirar a ela o governo 
que El-Rei D. Duarte seu senhor, que estava em glória, lhe deixara 
e depois fora confirmado e jurado pelo mesmo Infante D. Pedro, 
que injustamente lho procurava tirar, e sendo também jurado pelos 
mais Infantes e nobreza do Reino, protestando que não seria por 
sua culpa se sobre isso houvesse no Reino alguma guerra; de que 
os mensageiros tornaram mui descontentes para a cidade, e a cidade 
e o povo ficou em maior ódio com ela». 

«Foi logo levado ao Infante D. Pedro, à cidade de Coimbra, 
o qual o recebeu e aprovou, agradecendo-o com grandes promessas 
e oferecimentos que fez a todo o povo e cidade de Lisboa, prome- 
tendo governar com grande satisfação e de cumprir e manter todas 
as condições escritas nele. E assim foi também mandado e notifi- 
cado a todas as cidades e vilas do reino, que o aprovaram com 
grandes festas. E sendo levado ao Infante D. Henrique, o não houve 
por bem e o reprovou, com declaração que não encontrava, nem lhe 
parecia mal dar-se o governo ao Infante D. Pedro, antes estava 
muito bem, mas repreendeu o modo da eleição, por tomarem os 
cidadãos e o povo de Lisboa tanto atrevimento que, havendo no 
reino tantas pessoas da Casa Real com as quais primeiro se havia 
de tratar, e a elas pertencia a determinação do caso, eles se atre- 
vessem a eleger governador de própria autoridade, avisando-os 
que nas cortes, que cedo se haviam de fazer, o requeressem e tra- 
tassem da matéria da eleição e que então daria o seu parecer, dizendo 
mais que se espantava muito do Infante D. João, seu irmão, o aprovar 
e consentir nele; e finalmente os avisou que não inquietassem a paz 
e o sossego do reino, significando-lhes os grandes inconvenientes 
que havia e impediam pôr-se em execução antes das Cortes, princi- 
palmente as grandes divisões do reino, autorisando seu parecer 



C 1 ) Gaspar Dias de Landim, O Infante D. Pedro, págs. 104 e segs 



48 

com muitas razões graves e de maduro conselho, dignas de tal 
príncipe.» 

«Muito quebrantou os ânimos dos cidadãos de Lisboa e povo 
a resistência do Infante D. Henrique. E porque também lhes disse 
que em pessoa havia de ir a Coimbra a ver-se com seu irmão sobre 
isso e, até ele não vir, não fizessem novidade alguma, não era menor 
o impedimento que se lhes oferecia do Infante D. Afonso, do qual 
sabiam que claramente repreendia tal acordo e por nenhum modo 
queria consentir se desse ao Infante D. Pedro; e por esta razão 
lho não levaram, nem trataram de o confirmar por ele, porque 
era notório que não havia de o fazer. E, sabendo o Infante D. João 
que o Infante D. Henrique o reprovava, confiado que a seu rogo 
o aprovaria e haveria por bem, se foi a ver com ele para lhe persuadir 
que o assinasse e houvesse por bem e lhe pediu e rogou com muita 
instância, afirmando-lhe que se fizera com sua autoridade e enca- 
recendo a necessidade em que o reino estava de ser assim e os grandes 
danos que havia pela diversidade de governadores, e quanto ia em 
ser antes um só que muitos, o qual não devia ser outro que o Infante 
D. Pedro em quem não faltava nenhuma das qualidades necessá- 
rias e ser o irmão mais velho de todos eles. E finalmente lhe pediu 
com muitos encarecimentos pusesse ao pé do acordo com ele e assi- 
nassem ambos estas palavras — hoc confirmat Deus quod operatus est 

nobis». 

«Não pôde o Infante D. João acabar com seu irmão quisesse 
assinar, antes, importunando-lhe, estranhou muito o fazer tanto 
por isso, repreendendo o parecer de todos os que o seguiam como 
por ser cousa tanto contra suas honras deles mesmos e contra o 
juramento que tinham feito quando se repartiu o governo, com 
muitas outras razões de muito fundamento. Não podendo o Infante 
D. João acabar com seu irmão que assinasse, muito sentido e apai- 
xonado se partiu dele, mas todas as pessoas bem entendidas e apai- 
xonadas o tiveram por muito acertado como de príncipe tão pru- 
dente e tudo o contrário por errado como cousa feita por povo tão 
inconsiderado como todas suas cousas são». 

«Mui descontente estavam os cidadãos de Lisboa e oficiais da 
câmara da resposta do Infante D. Henrique; e posto que até então 
duvidaram de mandá-lo ao Infante D. Afonso que estava na sua 
vila de Barcelos, contudo ordenaram mandar-lho e aos condes seus 
filhos que também se não achavam na cidade de Lisboa; o qual 
ele repreendeu e estranhou aos cidadãos que o levaram com as 
mesmas razões que o Infante D. Henrique; nem foi recebido com 
menos descontentamento dos condes de Ourém e Arraiolos». 

O Infante D. Pedro partiu de Coimbra, com muita gente armada 
e acompanhado por vários fidalgos, para ir assistir às Cortes que se 



49 

iam realizar em Lisboa. Chegando perto desta cidade, o seu povo 
e o Infante D. João instaram com ele para aceitar a missão de reger 
o reino até à maioridade do Rei D. Afonso V. Depois de hesitar, 
anuiu ao pedido, tendo prestado na Sé, perante o bispo de Évora 
D. Álvaro de Abreu (*), solene juramento pelos Santos Evangelhos 
de bem reger o reino. 

As Cortes que depois se reuniram acordaram, sob proposta 
do Infante D. João e depois de o doutor Diogo Afonso Manga- 
-Ancha ter ponunciado «uma oração bem copiosa», que o Infante 
D. Pedro ficasse como único regente do reino. 

«Foi geralmente por todos aprovado o que o doutor Diogo 
Afonso disse em sua oração, de que se fizeram autos solenes, escritos 
por quatro notários públicos da mesma cidade, em o qual assinaram 
os Infantes e com eles alguns prelados e fidalgos que foram presentes, 
mas o conde de Arraiolos o não quis assinar, nem quis nunca conhecer 
ao Infante D. Pedro por governador, nem nomeá-lo por esse (nome 
de Regente), posto que obedeceu a seus mandados melhor que muitos 
que o assinaram, e se claramente o não encontrou, foi por ver quão 
pouco importaria, pois todos o festavam com grande aplauso 
e mostras de alegria, excepto ele e o Infante D. Afonso seu pai e 
o Infante D. Henrique, aos quais nunca pôde parecer bem, por 
terem jurado e assentado outra coisa, como fica dito, mas como 
fossem sem remédio, não trataram dela ( 2 )». 

«E logo o mesmo Infante governador avisou a Rainha, por carta 
sua, da eleição que nele era feita e o mesmo fizeram alguns fidalgos 
que ali se acharam, escrevendo-se em nome de todos, em que 
lhe pediam o houvesse assim por bem e quisesse vir com El-Rei 
à cidade, onde lhe seria feito todo o serviço que era razão, para em 
sua presença se tratarem algumas coisas que a seu estado, serviço e 
bem do Reino, eram necessárias. Com este recado mandou o Infante, 
Álvaro Gonçalves de Ataíde, homem fidalgo, e bem entendido, de 
quem fiava muito». 

«Recebeu a Rainha este recado com grande sentimento e tris- 
teza e, por conselho dos que com ela estavam, substancialmente 
respondeu que não havia razão para os que estavam em Lisboa 
com o povo dela pudessem ajuntar cortes, nem chamá-las, sem 
mandado de El-Rei, seu filho e seu dela, nem ela as havia por tais, 
antes tudo o que nas ditas cortes se fizera havia por nulo e que, se 
os Infantes seus irmãos o houvessem por bem, se começassem de 
novo e ela iria a elas, mas que havia de ir com nome e exercício de 

( x ) Note-se que o arcebispo de Lisboa D. Pedro de Noronha, «agravado» 
pelo povo da cidade, se havia retirado para Castela, não se encontrando pois na 
capital do reino nesta ocasião. 

( 2 ) Gaspar Dias de Landim, O Infante D. Pedro, pág. 132. 



50 

regente e que desta maneira iria com El-Rei seu filho à mesma a 
celebrá-las e assistir a elas; e que de outra maneira não iria, nem 
haveria por válida cousa alguma que nelas se fizesse. A qual resposta 
mandou tomar por autos públicos para sempre constar de sua 
repugnância». 

«Com esta resposta se tornou Álvaro Gonçalves aos Infantes 
que, vendo-a tão contrária e resoluta contra o que tinham ordenado, 
acordaram mandar com os mesmos requerimentos o doutor Afonso 
Nogueira, famoso teólogo, e o provincial dos religiosos de S. Fran- 
cisco da observância, que fora confessor de El-Rei D. Duarte 
(Frei Gil Lobo) , como pessoas espirituais de muitas letras e autori- 
dade. Os quais para trazerem a Rainha ao que pretendiam lhe deram 
muitas razões cheias de bons e santos conselhos e avisos, e a não 
puderam mover de seu propósito; e com esta resposta se tornaram^). 
O Infante D. Pedro teve por si o seu irmão D. João, os mestei- 
rais de Lisboa, o povo das vilas e cidades e os letrados entre os 
quais o licenciado em Teologia Frei Gil Lobo, os doutores «in 
utroque jure», Afonso Nogueira e Diogo Afonso (o Manga-Ancha) 
e o doutor Lopo Afonso que depois nomeou escrivão da puridade. 
Dentre os poucos membros da nobreza seus partidários, desta- 
caram-se Álvaro Vaz de Almada, capitão-mor do mar e alcaide de 
Lisboa que veio a ser conde de Avranches, na Normandia, Álvaro 
Gonçalves de Ataíde, futuro i.° conde de Atouguia e Aires Gomes 
da Silva que o Infante D. Pedro nomeou, mais tarde, regedor das 
justiças da casa do cível. 

Pela Rainha estavam, praticamente, todos os fidalgos do reino 
sendo dos mais importantes: o conde de Barcelos (futuro i.° duque 
de Bragança), D. Afonso; seus filhos, os condes de Ourém e de 
Arraiolos; seus cunhados, D. Pedro de Noronha, arcebispo de 
Lisboa, e D. Sancho de Noronha futuro i.° conde de Odemira; 
D. Frei Nuno de Góis, prior do Crato; D. Duarte de Meneses, 
alferes-mor do reino; e Leonel de Lima, futuro i.° visconde de 
Vila Nova de Cerveira. 

O Infante D. Pedro, logo que ficou senhor do poder, demitiu 
dos seus cargos oficiais os partidários da Rainha e designou a Álvaro 
Gonçalves de Ataíde para aio do Rei D. Afonso V e ao Mestre 
Frei Gil Lobo para mestre do mesmo Rei. 

A Rainha não aceitou a decisão das Cortes e fugiu para a forta- 
leza do Crato, contando com a dedicação do seu fiel partidário, 
o velho dom-prior Dom Frei Nuno de Góis. 

O Regente «por segurar as comarcas do reino, em que tinha 
alguma suspeita, encomendou a da Beira ao Infante D. Henrique 



(*) Gaspar Dias de Landim, O Infante D. Pedro, págs. 133 e 134. 



51 



e a de Entre Tejo e Odiana ao Infante D. João e mandou à cidade 
do Porto Aires Gomes da Silva para com a cidade fa2er defensa 
e resistência a quaisquer rebates que naquela comarca sobrevies- 



sem» 



O Infante D. Pedro, acompanhado pelos Infante D. João e pelos 
condes de Ourém e de Arraiolos, seguiu com as suas tropas contra 
o Crato e outras fortalezas do prior D. Frei Nuno de Góis. Em 
caminho recebeu a grata notícia de o Papa Eugénio IV ter conce- 
dido, verbalmente, a dispensa para se poder realizar o casamento 
da sua filha D. Isabel com o Rei D. Afonso V, visto serem primos 
coirmãos. Os embaixadores que tal conseguiram foram o prior da 
Colegiada de Santa Maria da Oliveira de Guimarães, Rui da Cunha, 
e o provincial da Ordem do Carmo D. Frei Manuel, o qual veio 
a ser bispo de Ceuta, primaz de África e, depois, bispo da Guarda. 

A bula com a dispensa foi mais tarde enviada de Roma, em 
mão de Fernão Lopes de Azevedo, «que lá tornou por embaixador» Q). 

A Rainha, sabendo da aproximação das tropas do Regente, 
partiu para Castela onde então os Infantes de Aragão, seus irmãos' 
tinham enorme influência sobre o fraco Rei João II. 

Em Outubro de 1442 morreu o Infante D. João, com grande 
desgosto de D. Pedro, que logo em nome do Rei fez condestável 
e mestre da Ordem de Santiago da Espada ao filho de D. João, de 
nome D. Diogo, o qual também morreu no começo do ano 
seguinte. 

Como não havia mais nenhum filho varão do infante D. João 
ficou vago o cargo de condestável que o Regente deu a seu filho 
mais velho, D. Pedro. Mas o conde de Ourém, D. Afonso, mandou 
pedir essa mesma dignidade ao infante D. Pedro afirmando que o 
cargo pertencia aos descendentes do seu avô o condestável D. Nuno 
Álvares Pereira e portanto lhe era devido. O Regente não satisfez 
o pedido, concitando para sempre o entranhado ódio do Conde 
de Ourém, o que «foi a causa principal da morte e destruição do 
infante D. Pedro», 

Em 5 de Junho de 1443 morreu em Fez o Infante D. Fernando 
a quem os porfiados esforços do Infante D. Pedro não conseguiram 
arrancar do cativeiro, tendo mandado a Arzila Martim de Távora, 
como embaixador, para conseguir o seu resgate. 

Reinava então em Castela o fraco Rei João II que era «mais 
para ser regido que para regedor» ( 2 ) entregando-se por completo 
nos braços de quem soubesse assenhorar-se da sua vontade, gover- 
nando-o a ele e por conseguinte ao Reino. 

$ ^" UÍ de Pina ' Cr6nica de El-Rei D. Afonso V, vol. I, pág. 143. 

( ) Augustin Blánquez Fraile, Historia de Espana, Barcelona, 1943, pág. 154. 



52 

Eram os Infantes de Aragão irmãos da Rainha D. Leonor, 
viúva do Rei D. Duarte de Portugal, que disputavam o valimento 
perante o Rei João II ao condestável D. Álvaro de Luna, tendo 
este pedido auxílio militar ao Infante D. Pedro, regente do reino 
de Portugal. 

Por isso, o Regente resolveu enviar a Castela o seu alho 
D. Pedro, condestável de Portugal, com mil homens de cavalo e, 
quatro mil de pé, sendo um dos seus capitães Martim de Távora ( 1 ). 
Como o condestável D. Pedro não tinha ainda sido armado 
cavaleiro, seu pai, o Infante D. Pedro, quis que tal fizesse o seu 
irmão, o Infante D. Henrique, o qual se deslocou expressamente 
para esse fim de Lagos a Coimbra. Passou-se isto no ano de 1445. 
Neste mesmo ano, o Infante D. Pedro escolheu para mestre 
da Infanta D. Catarina, irmã de D. Afonso V, a qual tinha então 
nove anos de idade, o cónego de S. Salvador de Vilar Jorge da 
Costa que viria a ser o célebre «Cardeal de Alpedrinha». 

Em Janeiro de 1446, o rei D. Afonso V atingiu a maioridade 
para governar, isto é, os catorze anos de idade. 

Por isso, o infante D. Pedro fez reunir cortes gerais para lhe 
fazer entrega do poder, nas quais o doutor Diogo Afonso (o Manga- 
-Ancha), em nome do Infante D. Pedro, fez uma «louvada oração». 
Três dias depois o Rei, por intermédio do mesmo doutor Diogo 
Afonso, declarou às cortes que não tinha ainda idade para por si só 
reger sem perigo de si mesmo e das coisas que regesse, nem tivera 
a prática e a experiência delas como para rei cumprir; e era por 
isso necessário tomar alguma pessoa que no regimento o ensinasse 
e ajudasse; e por todos os respeitos, causas e razões, não havia em 
seus reinos outro mais pertencente que o mesmo Infante D. Pedro, 
seu tio e padre; e que por isso ele o escolhia para que «tornasse 
com ele a reger e governar seus reinos, assim como dantes fazia, 
até ele se sentir em disposição para por si só o poder fazer». 

Esta resolução do Rei desagradou muito à maioria da nobreza, 
sobretudo ao duque de Bragança D. Afonso, ao seu filho mais velho 
o conde de Ourém D. Afonso e ao conde de Odemira D. Sancho 
de Noronha. 

Em 1447 o Infante D. Pedro escolheu o bispo de Viseu D. João 
Vicente para confessor, esmoler-mor e capelão-mor de D. Isabel, 
filha do infante D. João, que se havia tornado rainha de Castela 
pelo seu casamento com o rei João II. 

Em Maio de 1448 ( 2 ), o Rei D. Afonso V recebeu solenemente 
a sua esposa D. Isabel, em Santarém, «com as cerimónias e bênçãos, 



Q) Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Duarte de Meneses, pág. 87. 
( 2 ) António Gomes da Rocha Madahil, Subsídios para uma Edição Critica 
da Crónica de D. Afonso V, de Rui de Pina, pág. 61. 



53 

pela Santa Igreja em tais casos ordenadas» e tomou conta do governo 
do reino, o qual foi deixado pelo Infante D. Pedro, com a melhor 
vontade. 

Logo que disto soube, o duque de Bragança D. Afonso partiu 
da vila de Chaves e «com estrondo de gente armada se foi à cidade 
do Porto, a Guimarães e a Ponte de Lima, onde aos criados do 
Infante D. Pedro tirou os ofícios que tinham del-rei e a todos com 
infâmia de traidores deitou fora». 

As intrigas dos seus inimigos perante o Rei levaram o Infante 
D. Pedro a sair da corte para os seus domínios de Coimbra, em 
Julho de 1448. 

Os inimigos de D. Pedro logo conseguiram que o Rei tirasse 
«todos os ofícios que os criados do seu tio na corte tinham, de 
qualquer qualidade que fossem». Assim tirou a alcaidaria do castelo 
de Lisboa ao conde de Avranches D. Álvaro de Almada, o ofício de 
regedor da justiça da casa do cível a Aires Gomes da Silva e o 
ofício de vedor da fazenda a Luís de Azevedo. O condestável 
D. Pedro foi também então destituído do seu ofício. 

O conde de Arraiolos D. Fernando e o conde de Avranches 
D. Álvaro de Almada que eram, respectivamente, capitão de Ceuta 
e fronteiro da mesma cidade ( J ), vieram a Lisboa interceder pelo 
Infante D. Pedro perante o Rei D. Afonso V, mas nada conseguiram. 

Em Outubro de 1448, aquele Rei mandou vir à corte o duque 
de Bragança D. Afonso, o qual, com muita gente armada, pretendeu 
passar pelas terras do Infante D. Pedro, duque de Coimbra. Este 
Infante impediu, porém, o passo ao duque de Bragança obrigando-o 
a fazer um desvio pela serra da Lousã ( 2 ), «por onde marchou pade- 
cendo trabalhos, frios e neves, que nos seus muitos anos lhe puseram 
em perigo a vida, mas livrando com ela, o muito frio que padeceu 
deu ocasião a uma queixa, que lhe inclinou o pescço de sorte que 
nunca melhorou dele ficando daquele modo enquanto viveu» ( 3 ). 

Então o Rei D. Afonso V mandou «cartas de percebimento 
de guerra por todo o reino, com declaração de querer, por desobe- 
diência e deslealdade do Infante D. Pedro, ir contra ele.» 

O Infante resolveu então seguir ao encontro do Rei, fazendo-se 
acompanhar pelos seus cavaleiros e homens de armas, para lhe 
demonstrar inteira lealdade e pedir vingança contra os seus calu- 
niadores. Entre os fidalgos que o acompanharam encontravam-se 



Q) D. Augustin Manuel e Vasconcelos, Vida de D. Duarte de Meneses, 
Lisboa, 1627, pág. 81, verso. 

( 2 ) Gastão de Melo e Matos, in Revista Portuguesa de História, tomo V, 
vol. II. 

( 3 ) D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real 
Portuguesa, Tomo V, pág. 39. 



■BB 



54 

o Conde de Avranches, D. Fradique de Castro, Aires Gomes da 
Silva, Martim de Távoa e Rui da Cunha. 

O Rei, sabendo da saída de D. Pedro, foi ao seu encontro com 
um poderoso exército. 

As duas forças enfrentaram-se junto do ribeiro de Alfarrobeira 
e da escaramuça resultou a morte do Infante D. Pedro ferido no 
coração por uma seta que atravessou a cota de malha por ele vestida, 
colocada por cima duma roupeta comprida de veludo carmesim (*) 
e coberta por uma jórnea ( 2 ) também de veludo carmesim ( 3 ). 

Então foram aprisionados dois filhos do Infante, D. João 
e D. Jaime, crianças de quinze e dezasseis anos ( 4 ) mas que já comba- 
teram no recontro, tendo mesmo D. Jaime sido encarregado de 
comando por seu pai ( 5 ). 

O Rei D. Afonso V, aconselhado pelos inimigos do seu tio 
e sogro, o Infante D. Pedro, não consentiu que o cadáver deste 
fosse enterrado, ficando «em uma pobre casa, onde entre corpos 
já vasios de almas e fedorentos, jouve três dias sem candeia nem 
cobertura nem oração que por sua alma pública se dissesse nem 
ousasse de dizer, o que foi grande prasmo e vitupério da casa real». 
«E acabados os três dias o corpo do Infante, por homens de 
prema ( 6 ), e com consentimento del-Rei foi levado em uma escada 
à igreja 'de Alverca, onde por então foi vilmente e com grande 
desacatamento soterrado». 

O duque de Borgonha Filipe-o-Bom mandou então ao Rei 
D. Afonso, o Deão de Vergy como embaixador pedindo «para 
seu corpo (do infante D. Pedro) a sepultura que lhe El-Rei D. João, 
seu padre (pai), em sua real capela ordenara». 

«E porque na primeira denegação que El-Rei fez à sepultura do 
Infante o dito embaixador requereu que lhe mandasse dar seus ossos 
para os levar a Borgonha, onde a duquesa sua irmã lhes daria sepul- 
tura honrada e merecida, receoso El-Rei de os furtarem da igreja 
de Alverca, onde devassamente jaziam, os mandou tirar e levar ao 
castelo de Abrantes, cuja guarda e segurança encomendou a Lopo 
de Almeida, que depois foi primeiro conde de Abrantes. 

Somente em 1455 a rainha D. Isabel cobrou alento pelo 
nascimento do príncipe-herdeiro D. João para pedir ao Rei «que 
com devidas exéquias e cerimónias se desse ao Infante D. Pedro 

r 1 ) Gaspar Dias de Landim, O Infante D. Pedro, Livro III, pág. 113. 

( 2 ) Jórnea: Vestuário antigo que era um manto largo, aberto aos lados 
e sem mangas. «Grande Dicionário da Língua Portuguesa» io.* edição. 

P) Duarte Nunes de Leão, Crónica e Vida Del-Rei D. Afonso V, pags. 80 
e 81 e Rui de Pina, Crónica d' El-Rei D. Afonso V, 2.° Volume, pág. 100. 
' ( l ) Oliveira Martins, Os Filhos de D. foão I, Lisboa, 1947, pág. 308. 

>kn -d..: j„ t>;„„ /"vAní™ JeLRei D. Afonso V. vol. II. oáe. 8o. 



( 6 ) 



Rui de Pina, Crónica del-Rei D. Afonso V, vol. II, pag. 89. 



( 6 ) Homens de prema: Homens obrigados por força 



55 

a sepultura que na capela del-rei D. João seu padre lhe fora apro- 
priada, e que seus ossos fossem a ela trasladados com aquela honra 
e solenidade que sem a desaventura de sua morte merecia» o que 
conseguiu apesar de «que isto fosse pelo duque de Bragança e por 
seu filho o marquês muito contrariado». 

A Rainha também então conseguiu que o Rei levantasse o 
labéu de traidor e desleal a D. Pedro e que perdosase a todos os 
que o tinham acompanhado em Alfarrobeira, mandando-lhes resti- 
tuir os bens que lhes haviam sido confiscados. 

Os ossos do Infante foram trazidos de Abrantes para o mosteiro 
da Trindade em Lisboa e depois para o mosteiro de Santo Elói 
da mesma cidade, e daí levados para a igreja de Santa Maria da 
Vitória (Igreja da Batalha). 

«E concertado o dia em que os haviam de levar à Batalha, 
El-Rei e a Rainha se foram diante para os esperar no mosteiro da 
Batalha, a que foram chamados e vieram todos os senhores e senhoras 
principais do reino, salvo o Infante D. Fernando e o marquês de 
Valença que tomaram outra opinião contrária ao prazer e conten- 
tamento da Rainha. E o cargo principal da trasladação e acompa- 
nhamento da dita ossada ficou ao Infante D. Henrique, o qual ia 
vestido não de dó preto mas de aluz ( x ) escuro» ( 2 ). 



A TRAGÉDIA DO INFANTE SANTO 

Nasceu o Infante D. Fernando em 29 de Setembro, dia do 
Arcanjo São Miguel, no ano de 1402 ( 3 ). 

Em 1437, o Rei D. Duarte resolveu mandar uma expedição 
a Tânger com o fim de conquistar essa cidade aos mouros, a qual 
foi chefiada pelo Infante D. Henrique coadjuvado pelo seu irmão 
o Infante D. Fernando e sendo condestável o conde de Arraiolos 
D. Fernando. 

O Infante D. Fernando, antes de partir, fez testamento, no qual 
dispunha dos seus haveres, entre as quais bastantes «vestimentas» 
religiosas, como mantos, capas, almátigas (dalmáticas) com seus 
colares, alvas, sobrepelizes, estolas e manípulos. Ao convento 
de S. Francisco de Alenquer deixou um manto de baldoquim vermelho 
com ouro e almátigas desse mesmo pano e, ao convento de S. Fran- 
cisco de Leiria, vários livros entre os quais um «Evangeliorum». 



( x ) Aluz: tecido espesso e felpudo. 

( 2 ) Rui de Pina, Crónica del-Rei D. Afonso V, vol. II, pág. 138. 

( 3 ) José Soares da Silva, Memórias del-Rei D. João I, Tomo I, pág. 482. 



56 

Ordenava que, no caso de morrer, o seu corpo fosse enterrado 
no mosteiro de frades de S. Francisco da cidade de Ceuta, devendo 
esses frades dizer no dia do seu enterro quatro missas oficiadas, 
respectivamente, à honra da Assumpção da Virgem Maria, a Todos 
os Santos, à Cruz e aos Anjos. * 

A sua sepultura deveria ser no mosteiro de Santa Maria da 
Vitória, na capela do fundador, «no derradeiro arco, e o outro 
arco na outra parede que está junto com ele por altar», tendo o 
encargo da sepultura o Infante D. Henrique ou o conde de Arraiolos 
D. Fernando ou o bispo de Évora D. Álvaro de Abreu. 

Mais determinava que no caso do Rei D. Duarte, pelos seus 
muitos afazeres, não poder ser o testamenteiro, substabelecesse 
o testamento ao «Infante Dom Pedro, meu irmão, a quem sempre 
houve grande amor e muito prazer em minha vontade». 

Mandava também que no altar situado junto ao seu túmulo 
se colocasse «uma imagem de São Miguel com uma cruz grande 
na mão, como alferes que é da cruz». 

Estabelecia legados em dinheiro a alguns dos seus servidores: 
vinte mil reais brancos a Martim de Távora que havia sido escudeiro 
da sua casa; quarenta mil reis a seu amo Rodrigo Esteves e outro 
tanto à ama sua mulher; seis mil reis ao seu capelão Pedro Eanes; 
quatro mil réis a Mor Gonçalves morador (sic) em Elvas; e cinco 
mil reis a Nuno Gonçalves «que foi escrivão da Câmara». 

No dia 17 de Agosto de 1437, estando tudo pronto para a armada 
seguir, foi o rei D. Duarte com os Infantes e a gente nobre ouvir 
missa à Sé de Lisboa, a qual foi dita pelo bispo de Évora D. Álvaro 
de Abreu revestido de pontifical. Acabada a missa organizou-se 
uma procissão para se levarem para os navios as relíquias que o 
Rei mandou na armada ( x ), seguindo na procissão o Rei e os 
Infantes e levando o bispo de Évora nas mãos a Bula da Cru- 
zada, ainda paramentado de pontifical tal como estivera durante 
a missa ( 2 ). 

A 22 de Agosto seguiu a armada para Ceuta indo o Infante 
D. Fernando disposto «a todo perigo e trabalho pela Santa Fé, sob 
guarda do alferes de Jesus Cristo São Miguel, que em seu estan- 
darte levava pintado ( 3 ). 

Dois dias depois da chegada da armada a Ceuta, os Infantes e 
«toda a gente» foram em procissão solene à Ribeira, para trazer 



(!) Frei João Álvares, Obras, vol. I, edição crítica por Adelino de Almeida 
Calado, pág. 156. 

( 2 ) Frei João Álvares, Crónica do Infante Santo D. Fernando, Coimbra, 191 1, 
pág. 24; Rui de Pina, Crónica do Senhor Rei D. Duarte, Lisboa, 1790, pág. 137. 

( 3 ) Frei João Álvares, Crónica do Infante Santo D. Fernando, Coimbra, 191 1, 



pag. 24. 



57 

da nau capitânia as bandeiras da Cru2ada e del-Rei, indo a 
presidir o bispo de Évora D. Álvaro de Abreu revestido de 
pontifical. 

Passados dias, as tropas partiram por terra para Tânger tendo 
o infante D. Henrique feito alguns cavaleiros no arraial estabelecido 
junto à cidade. 

Na primeira investida contra Tânger foram comandantes, nos 
vários pontos estratégicos, os infantes D. Henrique e D. Fernando, 
o conde de Arraiolos, o Bispo de Évora, e o capitão-mor do mar 
Álvaro Vaz de Almada. 

Foi extremado o valor dos portugueses distinguindo-se, além 
de muitos outros cavaleiros, os infantes D. Henrique e D. Fernando, 
o Bispo de Évora, o Conde de Arraiolos, o capitão Álvaro Vaz de 
Almada, Fernão Lopes de Azevedo, o provincial da Ordem do 
Carmo Frei João (futuro bispo de Ceuta) e o capitão-donatário do 
Funchal João Gonçalves. Porém, dia a dia aumentava o número 
de mouros, de modo que os portugueses vieram a ficar cercados 
e isolados dos navios, não tendo já que comer e nem sequer água 
para beber. 

Do Bispo de Évora, D. Álvaro de Abreu, diz Francisco José 
Freire: «Nestes últimos combates não houve português que não se 
distinguisse...; e maior crédito é para o famoso nome de D. Álvaro 
de Abreu, Bispo de Évora, contá-lo a História pelo primeiro entre 
todos. É singular a sua glória nos fastos da sua igreja; porque além 
de exercitar com zelo extremoso o ofício de prelado, ora confes- 
sando, ora exortando, até foi soldado daqueles a quem coube maior 
número de mortos, ficando em dúvida gloriosa se desempenhava 
melhor as obrigações do cajado, se as da espada Q. 

Também existem referências a actos de valentia de Fernão 
Lopes de Azevedo (*) e de João Gonçalves, capitão-mor do Funchal, 
o qual «recebeu uma ferida em um dos olhos de um virotão que 
dos inimigos lhe atiraram com que lhe quebraram um olho. 
E, como naquele tempo chamavam ^argo a quem não tinha mais 
que um olho, ficou-lhe o nome por insígnia e honra da sua cava- 
laria; porque nela deu tais mostras e se assinalou por tão cavaleiro, 
que não foi pouca a ajuda de seu esforço e indústria na guerra, 
para o Infante D. Henrique se salvar e recolher do mar ( 2 )». 

O resultado da espedição foi um grande desastre, apesar da 
valentia dos portugueses, pois «os cercadores se viram cercados», 
como calculara o Infante D. Pedro. 



O Cândido Lusitano (Francisco José Freire), Vida do Infante D. Henrique, 
Lisboa, 1758, págs. 119 e 136. 

( 2 ) Doutor Gaspar Frutuoso, As Saudades da Terra, Funchal, 1873, pág. 23. 



58 

«A fundamentada previsão de D. Pedro permite-nos pôr o 
problema das responsabilidades de Tânger de maneira um pouco 
diversa do que o fez Domingos Maurício. Nas condições em que 
partiu a expedição estava assegurado o seu fracasso em tomar Tânger, 
e por isso esta responsabilidade cabe em grande parte a D. Duarte; 
mas o desastre resultou dos erros do comando do chefe da expe- 
dição, D. Henrique ( x )». 

O reembarque dos portugueses somente foi conseguido depois 
de se comprometerem a entregar aos mouros a cidade de Ceuta, 
tendo ficado como refém o infante D. Fernando que se fez acom- 
panhar por alguns portugueses para o servirem, dentre os quais 
o seu amo Rodrigo Esteves, o seu colaço (irmão de leite) João 
Rodrigues e o seu secretário João Álvares. 

O Infante e os seus companheiros seguiram logo para Arzila. 

O Infante D. Henrique não quis voltar a Portugal, ficando em 
Ceuta, até conseguir a libertação do infante seu irmão. Poucos dias 
depois chegou a Ceuta o infante D. João com socorros, seguindo 
logo para Arzila com o fim de libertar o seu irmão por meio de 
negociações. Porém chegando em frente do porto de Arzila sobre- 
veio tal tempestade que o navio foi levado ao Algarve. 

Ao fim de sete meses de estadia em Arzila, o Infante D. Fernando 
e os seus companheiros foram transferidos para Fez, seguindo o 
infante montado num burro lazarento e desferrado, com uma sela 
velha e remendada e os arções rotos e despregados, «que bem parecia 
coisa feita por escárneo. Nesta besta fizeram cavalgar ao Infante, 
e lhe meteram uma vara na mão» ( 2 ). 

Em Fez o Infante foi encerrado numa masmorra onde com os 
seus companheiros «jaziam com muito trabalho e imundície. E muitas 
vezes lhes não consentiam que fizessem fora suas necessidades. 
E padeciam grande tribulação de piolhos, e fome e misérias que seria 
largo contar». 

Os mouros puseram grilhões nos pés do Infante e, a princípio, 
deixaram-no sair da masmorra com a condição de ir cavar na horta 
ou tratar dos seus cavalos na cavalariça. 

Todo o tempo que o Infante viveu naquele cárcere, «de dia 
e de noite tinha lume em lâmpada que os seus lhe mantinham, por 
seus trabalhos e encaminhamentos, e tinha consigo um grande 
livro de papel, que era breviário, em que eram escritas muitas e 
devotas orações» ( 3 ). 

Q) Vitorino de Magalhães Godinho, Documentos sobre a Expansão Portu- 
guesa, vol. II, pág. 136. 

( 2 ) Frei João Álvares Obras, edição crítica por Adelino de Almeida, 
Calado, vol. I, pág. 171. 

( 3 ) Frei João Álvares, Crónica do Infante Santo D. Fernando, Coimbra, 191 1, 
pág. 97. 



59 

Tudo suportou com a maior resignação, portando-se como 
verdadeiro santo, durante seis anos de cativeiro, vindo a falecer 
no dia 5 de Junho de 1443. E o corpo era «em tão deleitoso esguar- 
damento, como vista angélica ( x ).» 

Na madrugada do dia da sua morte o confessor que o vigiava 
de dia e de noite revezando-se com o físico, levantou-se para ver 
se dormia, pois estava muito doente, «quando esguardou no rosto 
do Infante viu-lhe sair mui grande claridade, e gesto alegre e muito 
risonho» ( 2 ). Mais tarde o Infante contou que tinha tido uma visão, 
aparecendo-lhe Nossa Senhora «assentada num alto estrado junto 
de muitas gentes formosas», e que aos pés da Virgem se ajoelhou 
o Arcanjo São Miguel, pedindo-Lhe que terminasse as paixões do 
seu devoto (o Infante); e que depois São João Evangelista se ajoe- 
lhou também aos pés da Virgem rogando-Lhe que tivesse piedade 
daquele seu servo e devoto» ( 3 ). 

Por determinação do rei de Fez, foi feita uma perfunctória 
embalsamação ao cadáver do Infante, tendo-lhe sido extraídos os 
intestinos e as vísceras torácicas e abdominais e enchendo-se as 
cavidades com sal, murta e louro seco e cosendo-se depois os bordos 
da abertura das cavidades. 

Os companheiros do finado Infante, às escondidas dos mouros, 
meteram esses despojos, misturados com sal, em duas panelas que 
enterraram num canto da masmorra. 

O cadáver do Infante foi levado depois para uma das portas 
da vila de Fez, tendo-lhe sido atada uma corda nas pernas e enforcado 
(pendurado) nu com a cabeça para baixo nas ameias da muralha. 
Esteve ali o corpo durante quatro dias sendo então metido 
num caixão de madeira «e o puseram pendurado por cordas naquele 
lugar onde estava dantes nu. E depois meteram dois agujeiros de 
madeira pelo muro e sobre que pregaram o moimento acerca das 
ameias». 

Desde o começo do cativeiro do Infante que «começou justa- 
mente a pronunciar-se seu nome com o epíteto de Santo» ( 4 ). 
«Morreu santamente e com esperança de ser santo e bem-aven- 
turado» ( 5 ). 

O secretário do Infante D. Fernando, João Álvares, foi resga- 
tado por mandado do Infante D. Pedro, saindo do cativeiro no ano 
de 1448. O mesmo João Álvares foi depois a Arzila para resgatar 



("■) Frei João Álvares, Crónica do Infante Santo D. Fernando, Coimbra, 191 1, 
pág. 107. 

( 2 ) Ibidem, pág. 102. 

( 3 ) Ibidem, págs. 103 e 104. 

( 4 ) Francisco José Freire, Vida do Infante D. Henrique, pág. 139. 

( 5 ) Rui de Pina, Crónica del-Rei D. Afonso V, vol. II, pág. 14. 



60 

o colaço do Infante, João Rodrigues, trazendo-o para o reino 
em 1450. 

«No primeiro dia do mês de Junho de 145 1 chegou a Santarém, 
onde estava o rei D. Afonso V, João Álvares trazendo as relíquias 
da fressura, coração, tripas e tudo o que foi tirado do corpo do 
Infante quando os mouros em Fez o mandaram abrir, as quais relí- 
quias tirou de lá secretamente o dito João Álvares e as trouxe a 
estes reinos. E estas relíquias vinham metidas numa caixa de madeira 
coberta de damasquim preto, com forcadura preta e fechadura 
e pregadura dourada. E o dito rei mandou a João Álvares, e a 
João Rodrigues que levassem as ditas relíquias ao Mosteiro de 
Nossa Senhora da Vitória da Batalha» Q), onde se realizaram várias 
cerimónias entre as quais uma Missa de Vários Mártires. 

Em meados de 145 1, João Álvares ingressou na Ordem de 
Avis. 

Por incumbência do rei D. Afonso V e do Infante D. Henrique, 
redigiu o «Trautado da Vida e Feitos do Muito Vertuoso S. or 
Ifante D. Fernando». 

Em 1467 estava na Flandres aonde o chamara a duquesa de 
Borgonha D. Isabel para tratar da instituição de uma capela, em 
Lisboa, dedicada à memória de D. Fernando ( 2 ). 



AS SANTAS VIDAS DO INFANTE D. FERNANDO 
E DO CARDEAL D. JAIME 

Do Dr. Rocha Madahil ( 3 ) tira o autor os elementos seguintes. 
O misticismo dos dois foi até memorado já, conjuntamente, e a 
propósito da Infanta Santa, em 175$, na Introdução ao Epitome da 
vida de S. ta JOANNA, Princesa de Portugal, e não será com certeza 
descabido transcrever aqui essa patriótica evocação que antecede 
o texto da Breve narratione ( 4 ) vertido para português : 

«...Desta conjunção, verdadeiramente máxima, se produ- 
ziram dois frutos de exquisito gosto para a mesa do Paraíso, 
quais foram os Infantes D. Fernando e D. Jaime, aquele filho 
e este neto de D. João I, Rei de Portugal, de costumes tão 



Ç) Vida do Infante Dom Fernando, Coimbra, 191 1, pág. 125 e Obras de 
Frei João Alvares, Vol. I, pág. 257. 

( 2 ) Frei João Álvares, Obras, edição crítica de Adelino de Almeida Calado, 
vol. I, pág. X. 

( 3 ) António Gomes da Rocha Madahil, Iconografia da Infanta Santa Joana, 
pág. 151. 

( 4 ) Breve narratione Delia Vita delia Beata Giovanna Principessa di 
Portogallo Dell'Ordine di San Domenico. Appellata communemente la Santa 
Principessa. Raccolta da un Religioso dell'istess'Ordine di lei Deuoto. In 
Roma, Nella Stamp. delia R. C. A. MDCXCIII. 



61 

exemplares, que sempre foram venerados por claríssimos espe- 
lhos de Santidade. D. Fernando morreu cativo entre os Mouros 
Africanos, pelos cruéis tratos daqueles bárbaros, porém recreado 
na morte de celestiais aparições que lhe seguraram o seu feliz 
trânsito para o*Paraíso. 

D. Jaime foi Arcebispo de Lisboa e Cardeal promovido 
à Púrpura por Calisto III; e em Florença deixou os seus despojos, 
venerados até hoje como relíquias. Afirmam dele as histórias, 
que na sua última enfermidade aconselhado dos Médicos a 
manchar a pureza para recuperar a perdida saúde, com generosa 
constância lhes respondeu: Maio mori, quam foedari Q). 

Já aqui se oferece à vista um precioso ramo, ornado de 
admiráveis frutos de heróicas acções, que no decurso dos 
séculos se contemplou brotar do Real tronco Português, para 
que se visse verificado o dito do Apóstolo: Si radix saneia, 
& rami ( 2 ). Será pois Santa Joana, Princesa de Portugal, digno 
ramo deste Régio tronco, o Sujeito deste livro, no qual se 
narrará sucintamente a história da sua vida, para que se forme 
uma perfeita ideia da perfeição cristã, bem digna de ser admi- 
rada; e quisera Deus que fosse imitada também». 

De D. Jaime trata como de Varão Santo o Agiológio Lusitano, 
no dia 15 de Abril ( 3 ). 

OS TESTAMENTOS DO REI D. AFONSO IV 
E DA RAINHA D. BEATRIZ 

Em D. António Caetano de Sousa ( 4 ) se encontram estes testa- 
mentos dos quais o autor tira os apontamentos seguintes. 

No seu testamento D. Afonso IV «porque as obras devotas 
que os homens fazem em este mundo terreal prazem a Deus», insti- 
tuiu na «ouvia principal da igreja catedral de Lisboa com outras 
capelas darredor» que havia mandado construir, uma capela com 
colégio de capelães «querendo mais acrescentar em esta obra para 
Deus ser louvado e para me dar el galardom nossa santa glória 
do Paraíso». 

Mais ordenou no seu testamento «a serviço de Deus um hospital 
para que sejam manteúdos para sempre homens e mulheres pobres». 



( r ) Antes morrer, que manchar-me. 

( 2 ) Se a raiz é santa também o são os ramos. 

( 3 ) D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real 
Portuguesa, tomo II, pág. 53. 

( 4 ) D. António Caetano de Sousa, Provas da História Genealógica da Casa 
Real Portuguesa, tomo I, Livros I e II, págs. 334 e seg. 



62 

Num codicilo de 1354, a Rainha D. Beatriz deixou à sua filha, 
Rainha de Castela, as contas dos azeviches longas com grãos de 
aljôfar grosso e contas de ouro e à Infanta D. Maria um relicário com 
três safiras, uma em cada canto, um rubim grosso, no meio, e quatro 
grãos de aljôfar. 

No seu testamento, datado de 1358, a mesma Rainha D. Beatriz 
encomenda a sua alma ao Senhor Jesus Cristo «para ser recebidas 
na «santa luz da glória do Paraíso» e roga aos frades menores que 
«me dêem o hábito seu (de S. Francisco), à hora da minha morte, 
onde quer que me aconteça para ser em ele enterrada». 



OS TESTAMENTOS DA RAINHA D. ISABEL 

Em D. António Caetano de Sousa Q) se encontra uma carta 
de D. Afonso V datada de 21 de Maio de 1456 validando os dois 
testamentos da rainha D. Isabel visto eles não terem sido feitos nas 
condições legais pois não havia testemunhas em ambos e o segundo 
não era assinado nem acabado. 

O primeiro testamento foi feito em Fevereiro de 1452 portanto 
em vésperas do nascimento da princesa D. Joana. 

Principiava da seguinte maneira: «Primeiramente encomendo a 
minha alma ao Senhor Deus pedindo-lhe humildosamente que pelos 
merecimentos da sua amorosa Encarnação e da sua dorida Paixão 
e mui gloriosa Ressurreição, pelos rogos e merecimentos da Bem- 
-Aventurada Virgem Maria sua madre, e de S. João Evangelista, 
e de todos os Anjos e Santos e Santas, ao postumeiro dia de minha 
morte, a mande receber em sua santa glória, onde viva em perdu- 
rável folgança. Amen». 

D. Isabel instituia seus testamenteiros a D. João, bispo de 
Viseu, e a Álvaro Gonçalves seu capelão-mor e confessor, sendo o 
principal legado destinado à construção de um convento dedicado 
a S. João Evangelista, para os cónegos de S. Salvador de Vilar 
de Frades, no qual seria «sepultada a ossada do Senhor Infante 
meu Padre, cuja alma Deus haja, assim honradamente como pertence 
a uma tal pessoa como ele é». 

O segundo testamento feito, talvez, nas vésperas do nasci- 
mento do príncipe D. João, em 1455, repete mais ou menos o 
primeiro e não foi acabado pela Rainha. 

Apesar de ilegais, D. Afonso V confirmou-os por inteiro, 
«havendo em lembrança o muito grande e leal amor que nos em 



Q) D. António Caetano de Sousa, Provas da História Genealógica da Casa 
Real Portuguesa, tomo II, i. a parte, pág. 61. 



63 

sua vida sempre teve e quanto sempre trabalhou de seguir e cumprir 
em todo nossa vontade, pelo qual nós a amámos sempre mui muito 
em sua vida e agora amamos muito mais sua alma e mui afectuosa- 
mente lhe desejamos salvação». 

Termina a carta pelo desejo do Rei de que «o Senhor Deus 
por sua infinda misericórdia queira encaminhar e por alma da dita 
Rainha receber ...todos os seus legados e piedosos mandados... 
e de sua grande e piedosa liberalidade lhe queira outorgar a sua 
santa glória. Amen. 

A fazenda e jóias da rainha D. Isabel «ficaram», isto é, foram 
herdadas pela infante D. Joana Q. 



OS TESTAMENTOS DO INFANTE D. HENRIQUE 

Conhecem-se dois testamentos henriquinos : o primeiro, sumário, 
de 1436; o segundo, extenso e complexo, do outono de 1460 ( 2 ). 

No primeiro, D. Henrique perfilhou o sobrinho e afilhado o 
infante D. Fernando e doou-lhe todos os bens que possuisse na 
ocasião do seu falecimento, reservando apenas o terço para bens 
de alma. Desta maneira o infante D. Fernando, agora filho adoptivo 
do tio e considerado legítimo para todos os efeitos legais, ficou 
constituido herdeiro universal dos móveis e imóveis daquele e até 
dos bens e rendimentos da coroa pelo Navegador usufruidos à 
hora da morte. 

O segundo testamento é constituído pelo testamento propria- 
mente dito e por 1 5 cartas das Capelas ou seja, prescrições de sufrá- 
gios por sua alma, pelas almas das suas obrigações e pelos defuntos 
da Ordem de Cristo. Assim, todos os sábados, em sua vida como 
depois da sua morte, as entidades a que se destinavam aqueles 
documentos ou neles são mencionadas haviam de mandar celebrar 
missa pelas intenções indicadas. 

E quis o dante, mesmo após o seu falecimento, que a missa 
fosse não a de Defuntos, como poderia parecer mais razoável, nos 
dias em que a liturgia a permitisse, mas a votiva de Santa Maria 
in Sabbato, decerto por sua devoção especial à Virgem Maria. Tal 
devoção atestada, em seu pais pela Crónica de D. João I, é confir- 
mada nos irmãos D. Duarte e D. Pedro por seus escritos e, quanto 
ao Infante Santo, pela respectiva Crónica. 



O António Gomes da Rocha Madahil, Crónica da Fundação do Mosteiro 
de Jesus de Aveiro, e Memorial da Infanta Santa Joana Filha Del-Rei D. Afonso V, 
Aveiro, 1939, pág._ 79. 

( 2 ) A. J. Dias Dinis, O. F. M., Estudos Henriquinos, págs. no e segs. 



64 

Desceu D. Henrique à minúcia de indicar a comemoração a 
fazer na missa, aliás, obrigatória,^ do Espírito Santo. 

Esta oração é a seguinte: «Ó Deus que instruístes oj corações ? áss 
fiéis com as lu^es do Espirito Santo, fa^ei que nos regulemos segundo o mesf^o 
Espírito e gomemos sempre da sua consolação». 

O costume de consagrar o sábado à SS. ma Virgem desenvolveu-se 
não só no culto privado, mas também na vida litúrgica a partir da 
Idade Média Q. 

Na missa da SS. ma Virgem para os sábados reza-se a seguinte 
oração: «Ó Deus, que fizestes que o Vosso Verbo, à mensagem do 
Anjo, Se fizesse carne no seio da bem-aventurada Virgem Maria, 
concedei aos Vossos servos ante vós prostrados, que, confessando-a 
verdadeira Mãe de Deus, tenhamos perante Vós um auxílio na Sua 
intercessão». 

O Evangelho desta missa é de São Lucas e começa assim: 
«Naquele tempo: Foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade 
da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem...». 

Deduzimos pois que o infante D. Henrique tinha especial 
devoção pelo mistério da Encarnação. 

De Frei Manuel da Esperança ( 2 ) tira o autor o seguinte que 
demonstra a mesma devoção em Frei Aimaro e na sua confessada 
a rainha D. Filipa de Lencastre. 

«D. Frei Aimaro era inglês e confessor da rainha D. Filipa de 
Lencastre. Era religioso da observância. Do meio das grandes 
trevas, em que ficou a notícia de suas muitas virtudes, vemos cintilar 
ainda a cordeal devoção que sempre teve ao sagrado mistério da 
Encarnação do Santo Filho de Deus nas entranhas da puríssima 
Senhora, e pelo mesmo respeito o Arcanjo S. Gabriel que lhe trouxe 
a embaixada do céu. Na dita Rainha, de quem era confessor, foi 
também notável este espírito e bem podemos cuidar que ele o alen- 
tasse com os seus santos conselhos. Donde veio tomar ela por divisa 
nas suas armas reais a figura do mesmo sagrado mistério, como 
se vê no convento de S. Francisco de Leiria». 

Noutro lugar do mesmo livro ( 3 ) diz Frei Manuel da Espe- 
rança: «D. Filipa era devotíssima da Virgem Nossa Senhora e mui 
em particular da sua Anunciação, em tanto que tomou este mistério 
por timbre de suas armas que ainda hoje vemos no dito convento 
de Leiria, onde pôs a sua santa imagem que se chamava Nossa Senhora 
do Anjo. D. Frei Aimaro fundara na mesma cidade a ermida de 



(') Dom Gaspar Lefebre, Missal Quotidiano e Vesperal, pág. 1078. 
( 2 ) Frei Manuel da Esperança, História Seráfica, Parte II, Livro XII, 
pág. 689. 

O Pág. 565. 



65 



Nossa Senhora da Encarnação. Ordenou também a festa do dito 
S. Arcanjo e compôs o seu ofício que muito tempo se rezou em 
Portugal e ainda se reza na nossa religião (a Ordem de S. Francisco)». 



O TESTAMENTO DE D. AFONSO V 

Em D. António Caetano de Sousa Q) se encontra o testamento 
do rei D. Afonso V. 

Desse testamento tira o autor o seguinte: «Primeiramente 
encomendo a minha alma a ti Deus meu criador que me formaste 
do limo da terra e me remiste pelo teu precioso sangue ... E a ti 
Virgem Maria nossa Senhora e advogada peço e assim a toda a corte 
celestial e em especial ao Senhor Santo António que ante o Senhor 
Deus queiram ser rogadores por mim...». 

«E por meus testamenteiros e executores leixo ao príncipe meu 
filho e ao arcebispo de Lisboa que ora é (D. Jorge da Costa) 
e Gonçalo Vaz meu vedor de fazenda,..». 

«...ao príncipe meu filho ... lhe faço memória e lembrança 
de Dona Filipa minha prima (filha do infante D. Pedro) que criei 
que pelo amor de Deus hajam dela memória e do seu desamparo...». 

O testamento é datado de 28 de Abril de 1475. 



ALGUNS PAPAS DO SÉCULO XV 

Por morte de Gregório XI, reuniram-se em conclave os cardeais 
residentes em Roma e, obedecendo à pressão do povo que recla- 
mava um papa italiano, elegeram Urbano VI (8 de Abril de 1378). 
Meses depois, os cardeais franceses, animados pelo rei Carlos V, 
pronunciaram a invalidade dessa eleição e escolheram outro papa 
que tomou o nome de Clemente VIL O primeiro ficou a residir 
em Roma, o segundo fixou-se em Avinhão ( 2 ). 

O cisma prolongou-se depois da morte dos dois pontífices 
e só terminou com a eleição unânime de Martinho V, em 141 7. 
Os prelados de Portugal, desde 1385, aderiram a Urbano VI e deram 
a Clemente VII a denominação de antipapa. 

Por iniciativa do imperador alemão Segismundo reuniu-se em 
Constança, na Suiça, um concílio ecuménico, do qual saiu um papa 



0) D. António Caetano de Sousa, Provas da História Genealógica da Casa 
Real Portuguesa, tomo II, i. a parte, pág. 10. 

( 2 ) P. Miguel de Oliveira, História Eclesiástica de Portugal, 3. a edição, 
pág. 125. 



indubitavelmente legítimo, Martinho V, eleito a 8 de Novembro 
de 1417, que era o cardeal Otto de Colonna ( 1 ), 

Martinho V morreu em Fevereiro de 143 1 sucedendo-lhe o 
cardeal Gabriel Condelmario que tomou o nome de Eugénio IV, 
o qual havia escapado pouco tempo antes a uma gravíssima doença, 
por ter sido tratado pelo médico e sacerdote português, Mestre 
João, fundador da Congregação dos Cónegos Seculares de São 
Salvador de Vilar. 

A Eugénio IV sucedeu, em Fevereiro de 1447, Nicolau V, 
e a este pontífice seguiu-se, em Março de 1455, Calisto III. 

A Calisto III sucedeu, em Agosto de 1458, o papa Pio II, que 
era então o cardeal Aeneas Sylvius Piccolomini. 

Piccolomini foi, em 1442, secretário do imperador da Alemanha 
Frederico III, tendo sido ordenado sacerdote em 1447. Dois meses 
depois foi nomeado bispo. Em combinação com Afonso V, rei 
de Nápoles, arranjou o casamento do imperador Frederico com 
a infanta D. Leonor, irmã do rei de Portugal D. Afonso V, sobrinha, 
portanto, do infante D. Pedro ( 2 ). 

De Francis Rogers ( 3 ) traduz o autor os elementos seguintes. 

«Aeneas Sylvius Piccolomini teria provavelmente cedido aos 
incitamentos de Isabel de Borgonha que desejaria preservar nos 
seus tratados em língua latina a memória do infante D. Pedro e das 
suas viagens. Ele estava ja familiarizado com a reputação do Duque 
de Coimbra por fontes imperiais e papais, principalmente, os registos 
das campanhas e recompensas do imperador Segismundo, infor- 
mações dadas pela embaixada do conde de Ourém ao concílio de 
Basileia (a qual visitou Amadeu III de Sabóia de quem Piccolomini 
foi secretário), narrações da imperatriz D. Leonor e conversações 
com o cardeal D. Jaime de Portugal. 

Qualquer que fosse a fonte da sua inspiração, prodigalizou 
encómios ao infante D. Pedro e aludiu às suas viagens em três obras 
diferentes escritas em latim: Sobre Homens Ilustres (De Viris Illus- 
tribus), História da Boémia e História da Europa». 

O papa Pio II, morreu em Agosto de 1464, sucedendo-lhe 
Paulo II que morreu em Julho de 1471. 

A Paulo II sucedeu Sisto IV, falecido em Agosto de 1484. 



t 1 ) Hubert Jedin, Concílios Ecuménicos, São Paulo, 1961, pág. 90. 

( 2 ) Francis M. Rogers, The Traveis oj ' the Infante Dom Pedro of Portugal, 1961, 
pág. 75. 

( 3 ) Ibidem, pág. 84. 



67 
OS CONCÍLIOS DE CONSTANÇA E DE BASILEIA 

Concílios ecuménicos são as assembleias dos bispos e de outros 
determinados detentores do poder jurisdicional que, convocados 
pelo Papa e sob a sua presidência, tomam decisões sobre assuntos 
relativamente à fé cristã e à disciplina eclesiástica ( 1 ). 

Para se resolver o problema do grande cisma do ocidente o 
imperador da Alemanha Segismundo e o papa João XXIII (sic) con- 
vocaram em 141 3, toda a cristandade para se reunir num concílio 
de união na cidade de Constança (Suiça). 

Portugal, em 1416, enviou ao concílio uma embaixada de que 
fazia parte Álvaro Gonçalves de Ataíde, a qual conseguiu do novo 
papa Martinho V a bula Rex Regum, de 141 8, pela qual este pontí- 
fice convidava os príncipes e todos os cristãos, a pedido do rei de 
Portugal, a associarem-se na luta contra os mouros, mandava aos 
prelados portugueses que pregassem a Cruzada, sempre que o rei 
o pedisse em vista duma expedição e concedia indulgência plenária 
aos cruzados ou aos que fornecessem combatentes à sua custa, 
com as demais garantias de que gozavam os cruzados da Terra 
Santa. 

(Lembremo-nos que em 141 5 tinha sido tomada pelos portu- 
gueses a cidade de Ceuta). 

O Concílio de Basileia foi instalado em 143 1 tendo promulgado 
entre 1433 e 1436, decretos notáveis relativos à reforma eclesiástica. 

Em Janeiro de 1436 o rei D. Duarte enviou como embaixador 
ao concílio o conde de Ourém D. Afonso, acompanhado por vários 
teólogos e letrados, entre os quais Frei Gil Lobo, provincial da ordem 
dos franciscanos da observância e Mestre em Teologia, e o doutor 
nos direitos civil e canónico e mestre em Artes, Diogo Afonso, 
por alcunha «o Manga-Ancha». 

Este último demonstrou muito talento e erudição em Bolonha, 
defendendo com grande brilho perante prelados e doutores, «um 
auto muito solene de conclusões, as quais foram em Leis e em 
Decretais e em outras artes liberais», estando «posto em uma mui 
alta e nobre cadeira, e seu livro ante si, segundo é costume dos 
escolares e lentes» ( 2 ). 

Entre muitos outros assuntos a embaixada levava dois encargos : 
obter nova bula da Cruzada e assegurar a posição de Portugal nas 
Canárias ( 3 ). 



( x ) Hubert Jedin, Concílios Ecuménicos, São Paulo, 1961, pág. 1. 

( 2 ) Francisco Leitão Ferreira, Notícias Cronológicas da Universidade de 
Coimbra, i. a parte, pág. 716. 

( 3 ) P. Domingos Maurício Gomes dos Santos, D. Duarte e as Respon- 
sabilidades de Tânger, Lisboa, 1960, pág. 17. 



68 

Foi durante a permanência desta embaixada em Bolonha que 
se conseguiu a bula da Cruzada «Rex Regum» ( 1 ). 

De Acenheiro ( 2 ) tira o autor o seguinte, respeitante ao Concílio 
de Basileia. 

«Sendo feito Concílio em Alemanha, em Basileia, pelo Imperador 
Segismundo, Santo Senhor, o Papa e Cardeais e toda a Cristandade, 
porque o Imperador de Constantinopla tinha algumas divisões 
na fé, que se chamava Paleólogo, veio ao dito Concílio; o qual 
foi feito no ano de Cristo de mil quatrocentos e trinta e seis, e este 
vitorioso Príncipe mandou lá seus embaixadores, a saber, Dom 
Afonso, Conde de Ourém, filho do Duque de Barcelos, este por 
embaixador; e Doutores da Embaixada Vasco Fernandes de Lucena, 
Doutor e grande orador, e o Doutor Diogo Afonso Mangancha; 
e para defensores da fé de Cristo, D. Antão Bispo do Porto, e Mestre 
Frei Gil Lobo da Ordem de São Francisco, e Frei João de São Tomé 
da Ordem de Santo Agostinho, foi havido por outro Agostinho, 
que disputaram sobre a fé muito inteiramente, havendo vitória, 
converteram e tiraram das erronias o dito Imperador de Constan- 
tinopla, que ficou católico, e quis Deus aí neste estado que ele 
adoecesse e se finou, e no dito Concílio o enterraram e lhe fizeram 
mui solenes exéquias; e a dita Embaixada de Portugal se veio com 
honra e com vitória, e requereu concórdia e paz entre os Reis de 
França e de Inglaterra». 



A ORDEM DE CISTER 

Os frades da Ordem de Cister ou Ordem de São Bernardo 
usavam como hábito uma cogula de burel branco ( 3 ). Daí o serem 
designados muitas vezes como os «monges brancos». 

Havia vários conventos desta Ordem em Portugal sendo o de 
Alcobaça o mais importante. 

O Dom Abade de Alcobaça era, por inerência, o esmoler-mor 
dos reis de Portugal. 

Competia ao esmoler-mor del-Rei, além de outras obrigações, 
superintender «em todas as funções reais que pertencem à esmola» 
e, «quando el-Rei faz alguma promessa ou voto a Deus e aos Santos, 
dá conta ao esmoler-mor para que ele tenha lembrança de o advertir, 
em tempo conveniente, de se dar satisfação ao voto» ( 4 ). 



( x ) P. Domingos Maurício Gomes dos Santos, D. Duarte e as responsabi- 
lidades de Tânger, Lisboa, 1960, pág. 15. 

( 2 ) Christovão Rodrigues Acenheiro, Chronicas dos Senhores Reis de Portugal, 
Lisboa, 1936, pág. 245. 

( 3 ) Frei Bernardo de Brito, Crónica de Cister, págs. 36 e 588. 

( 4 ) Frei Manoel dos Santos, Alcobaça Ilustrada, pág. 390. 



69 



As ordens militares de Avis, de Cristo e de Santiago foram 
originadas da Ordem de Cister, seguindo a sua regra, usando os 
seus cavaleiros e freires, por esse motivo, a cogula branca dentro 
dos conventos e nas cerimónias religiosas. 



A ORDEM DE S. FRANCISCO 

De F. Félix Lopes ( x ) tira o autor o seguinte. 

«A Ordem Franciscana é a grande Família de todos os que 
professam a Regra de S. Francisco de Assis e se chamam por isso 
Franciscanos ou Frades Menores. Em três ramos se divide: a Ordem 
dos Frades Menores Observantes ou simplesmente dos Franciscanos; 
a Ordem dos Frades Menores Conventuais, também chamados 
simplesmente Conventuais; e a Ordem dos Frades Menores Capu- 
chinhos ou simplesmente Capuchinhos». 

«A Ordem dos Frades Menores Observantes ou simplesmente 
Franciscanos era e é governada por um Ministro Geral periodica- 
mente eleito em assembleias chamadas Capítulos Gerais». 

«A Ordem dos Frades Menores dividia-se em Províncias ou 
grupos de conventos governados por um Prelado Ordinário e 
chamado Ministro Provincial ou simplesmente Provincial, também 
periodicamente eleito em assembleias ditas Capítulos Provinciais nos 
quais se reuniam representantes de todas as casas da Província». 

«A Província de Portugal compreendia todos os conventos 
de Portugal». 

«Dos frades, uns eram clérigos outros eram simplesmente 
leigos. 

S. Francisco de Assis organizou a sua «Ordem de Frades Menores» 
em 1223 e no ano seguinte foi fundada uma Ordem para mulheres, 
a «Ordem das Claristas» ou «Ordem de Santa Clara». 

Foi instituída, depois, com o nome de «Ordem Terceira», 
uma espécie de filiação da Ordem, com uma regra especial para 
se viver santamente no mundo, destinada àqueles que não podiam 
abraçar a vida religiosa num convento. 

A Ordem de S. Francisco foi uma «Ordem de pregadores, 
missionários e viajantes, que se propunham viver fora do claustro, 
levar o verbo e o exemplo de Cristo ao povo e aos infiéis ( 2 )». 

Os Franciscanos criaram os símbolos, as devoções e os ritos 
duma religião para o povo; e foram mitigadores fraternos das suas 



(*) F. Félix Lopes, Introdução e Notas à Conquista Espiritual do Ocidente, 
pelo P.e Frei Paulo da Trindade. 

( 2 ) Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, pág. 71. 



70 

aflições ou defensores dos seus direitos violados, por cuja vitória 
não hesitaram em imiscuir-se muitas vezes aos seus movimentos 
de revolta ( J ). O seu proselitismo alimenta a ambição de se dilatar 
rapidamente a toda a Terra e a toda a Humanidade, muito parti- 
cularmente aos infiéis ( 2 ). 

Foi em 1209 que São Francisco assistindo à missa, tomou 
particular atenção à leitura do Evangelho, na passagem em que 
Jesus envia os seus discípulos a pregar. Habituado a ver nos textos 
litúrgicos indicações da vontade de Deus para a sua própria conduta, 
foi aqui que encontrou o caminho que procurava ( 3 ). 

Logo se lhe juntaram discípulos, para quem São Francisco 
compôs uma regra principalmente baseada na pobreza, humildade 
e. penitência. 

Depois da fundação da Ordem das Claristas, sentiu no coração 
o desejo divino de salvar as almas dos infiéis e não lhe parecia poder 
dar a Deus uma melhor prova do seu amor do que oferecendo a 
própria vida para a salvação das almas, sobretudo dos Sarracenos. 
Assim, partiu, por terra, para Marrocos, mas uma doença impediu-o 
de aí chegar. 

Assistiu depois ao Concílio Geral de Latrão, em 121 5, onde 
se procurava reanimar o entusiasmo geral para a libertação dos 
lugares santos, organizando-se uma nova Cruzada. 

Consultando o céu para conhecer a vontade de Deus chegou 
à conclusão de que devia trabalhar para a salvação das almas indo 
levar-lhes a palavra divina em vez de se santificar por elas na solidão. 

Foi assim que com todo o ardor combativo distribuiu os seus 
irmãos por todos os caminhos do mundo para ganhar todas as almas 
para Cristo, no Capítulo da Ordem que se realizou na festa do 
pentecostes do ano de 12 17. 

Seguiram irmãos para a Península Hispânica, Hungria, Alemanha, 
França e Oriente. 

S. Francisco seguiu também juntamente com a Cruzada que 
ia a libertar os lugares santos, com o fim de encorajar os soldados 
a viver como bons cristãos para merecerem a vitória, e de procurar 
penetrar entre os Muçulmanos para lhes pregar a Fé católica e colher 
a palma do martírio. Os cruzados foram derrotados em Damieta 
e S. Francisco conseguiu ter várias conversações com o sultão não 
obtendo porém a sua conversão nem o martírio para si próprio. 

Em 1220 cinco irmãos que tinham sido mandados para Marrocos 
sofreram aí o martírio, sendo os seus restos enviados para Portugal, 



Q) Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, pág. 71. 

( 2 ) Ibidem, pág. 72. 

( 3 ) P. Achille Léon O. F. M., Histoire de VOrdre des Frères Mineures. 



71 

pelo príncipe D. Pedro, irmão de D. Afonso II, que então estava 
na Mauritânia. 

Neste mesmo ano, São Francisco voltou para Assis a fim de 
presidir ao segundo capítulo anual da Ordem que se realizava 
sempre no dia de São Miguel. 

Nesse capítulo anunciou aos irmãos que, por motivo de uma 
doença dos olhos que havia contraído no Oriente, deixava o cargo 
de ministro geral da Ordem. 

O ideal de Francisco, cavaleiro de Cristo, era o de uma vida 
pobre e apostólica, vida errante, sem preocupação do menor conforto. 

Em 1223 saiu a regra definitiva dos Franciscanos que começa 
por esta declaração de princípios: «A regra e a vida dos Frades 
Menores consiste em observar o Santo Evangelho de N. S. J. C. 
vivendo na obediência, sem bens próprios e em castidade». 

O ideal apostólico da Ordem reside na pregação e na ida em 
missão para os infiéis. Quanto aos irmãos que quisessem ir para 
os Sarracenos e outros infiéis, deveriam pedir permissão aos seus 
Ministros provinciais, pois somente os que por eles fossem reco- 
nhecidos como aptos, deveriam seguir. 

Falecido S. Francisco apareceram várias correntes de pensamento 
entre os irmãos. Assim os espirituais queriam que fossem mantidos 
a todo o custo os direitos estritos da Pobreza, com o risco de entravar 
o apostolado e o desenvolvimento normal da Ordem. Porém vários 
deles exageraram e julgaram-se chamados a inaugurar uma nova era 
na humanidade: o período do «Espírito Santo». Deixaram de existir 
no século xiv, mas o seu espírito sobreviveu muito tempo ainda. 
Estes foram os «Observantes». 

Outros Franciscanos julgavam o ideal de pobreza do Fundador 
exagerado e impraticável e reclamavam a sua supressão, a fim de 
salvaguardar a vida da Ordem e a sua influência no mundo, pelas 
missões, a pregação e a organização da vida conventual que recla- 
mava largos meios. Estes foram os «Conventuais». 

Santo António foi partidário duma solução média, aceitando 
as concepções mais ousadas da ciência e do apostolado sem nada 
sacrificar do ideal de pobreza e de fervor. 

Como aparece o irmão António em Assis? 

O futuro Santo António era frade crúzio em Coimbra, tomando 
as ordens eclesiásticas em 1220 ( x ). Havia então nessa cidade um 
convento de franciscanos, onde hoje é a convento de Santo António 
dos Olivais. O irmão Fernando assistiu à chegada das relíquias 
dos cinco franciscanos que haviam sido martirizados em Marrocos, 
as quais fizeram despertar na sua alma a vocação para o apostolado. 



(*) F. Gomes Teixeira, Santo António de Lisboa, pág. 55. 



72 

Ao olhar para aquele ataúde, parecia-lhe ouvir uma voz que clamava : 
«vai evangelizar como eles iam; ou vai morrer como eles morreram !» 
No seu espírito, deslumbrado pela nobreza moral e importância 
social da instituição monástica que Francisco de Assis fundara e 
em cuja regra entrava a obrigação de missões em terra de infiéis, 
nasceu então a aspiração de mudar de hábito e a alistar-se como 
soldado voluntário da pobreza naquele exército de pobres. Assim, 
passou à Ordem de S. Francisco, trocando, o hábito de linho branco 
dos Cónegos de Santo Agostinho pelo manto de burel, comprido 
e com capelo redondo Q), e o nome de Fernando pelo de António. 

«Tanto que se viu amortalhado no hábito, tratou logo de pôr 
em execução seus bons desejos que era ir a terra de infiéis pregar 
a lei de Jesus Cristo, até derramar o sangue por ela. Ansioso do 
martírio, partiu o zelador da verdade evangélica, para Marrocos 
e fazendo grandes diligências o não conseguiu; e assim a nau que 
o levava, obrigada de contrários ventos, voltando outras vezes para 
Portugal, dando vista ao norte da Sicília, tratou de buscar nela 
abrigo. São Francisco mandou-o aperfeiçoar-se nas letras e, passados 
dois anos, deu-lhe patente de pregador e leitor da sagrada Teologia 
(o primeiro que houve em sua Ordem). Exercitava António o serviço 
de Mestre, e nem por isso deixava o da pregação. Era tanto o concurso 
que acudia a seus sermões que às vezes constava o auditório de mais 
de trinta mil pessoas, trazendo assim à Igreja Católica mais gente 
com a sua ortodoxa doutrina e frutífera pregação que muitos prín- 
cipes cristãos com suas poderosas armas e exércitos vitoriosos» ( 2 ). 

Santo António, morreu em 123 1, sendo sepultado na basílica 
do convento de Santa Maria de Pádua. Faltou-lhe a espada do 
martírio, mas nem por isso deixou de ser mártir no desejo ( 3 ). 

São Francisco e os seus primeiros companheiros, inaugurando 
a sua vida apostólica, não tinham outra ambição do que imitar 
Cristo e os Apóstolos, pregando familiarmente a Boa Nova à gente 
do povo e dando a todos o exemplo das virtudes que eles ensi- 
navam. Com o tempo, revelou-se a necessidade de estudarem as 
ciências espirituais, em especial a teologia, sendo a primeira cátedra 
regida por Santo António, na Universidade de Bolonha. 

Rapidamente foram fundadas várias províncias da Ordem, por 
toda a Europa. 

O que foi notável na fundação da província inglesa, e caso 
único na história das províncias da Ordem, é que ela logo se orienta 
para os estudos, como se eles tivessem sido a sua principal razão de 



(*) Pedro Dinis, Das Ordens Religiosas em Portugal, pág. 134. 

( 2 ) George Cardoso, Agiológio Lusitano, tomo III, pág. 658. 

( 3 ) Frei Manoel da Esperança, História Seráfica, i. a parte, pág. 354. 



«• 



73 

ser. Enquanto que por toda a parte a vida franciscana tinha apare- 
cido sob o aspecto duma vida apostólica baseada na pobreza, na 
Inglaterra ela mostrou-se sob o duplo aspecto da pobreza e da 
ciência. Em Oxónia (Oxford) e Cambridge levava-se vida santa 
e dedicada ao estudo. No primeiro destes conventos aparece Roger 
Bacon que estava persuadido fazer um serviço aos teólogos provando- 
-lhes a necessidade de conhecerem a filosofia, as matemáticas, a astro- 
nomia, a geometria, a geografia, a óptica e as outras ciências experi- 
mentais. Bacon predisse as descobertas da pólvora, do microscópio, 
do telescópio, dos aerostatos e das locomotivas a vapor. Foi mérito 
de Oxford e em particular de Roger Bacon forçar a atenção sobre 
a utilidade das ciências naturais para a filosofia e a teologia. Morreu 
em 1294. 

Com a rainha D. Filipa de Lencastre veio, a quando do seu 
casamento, o seu confessor Frei Aimaro, religioso da observância 
de São Francisco (*) que depois foi o primeiro bispo de Ceuta. Tinha 
cordeal devoção pelo sagrado mistério da Encarnação do Santo 
Filho de Deus nas entranhas da puríssima Senhora, e pelo mesmo 
respeito o Arcanjo São Gabriel que lhe trouxe a embaixada do 
céu. Na dita Rainha, de quem era confessor, foi também notável 
este espírito, e bem podemos cuidar que ele o alentasse com os seus 
santos conselhos. Ordenou também a festa do dito Santo Arcanjo, 
e compôs o seu ofício, que muito tempo se rezou em Portugal ( 2 ). 

A presença de Frei Aimaro na corte portuguesa talvez explique 
a profunda religiosidade dos filhos de D. João I assim como a invulgar 
cultura e o espírito de curiosidade científica dos Infantes D. Pedro 
e D. Henrique. 

Era costume antigo serem os franciscanos os pregadores da 
bula da Cruzada, pois já no tempo do rei D. Afonso IV o eram ( 3 ). 

Era também costume as mulheres pertencentes à Ordem Terceira 
dos Seculares vestirem o respectivo hábito depois de enviuvarem. 
Assim procederam, por exemplo, a rainha Santa Isabel, depois da 
morte de D. Dinis, seu marido, e D. Isabel de Aragão quando ficou 
viúva do Infante D. Pedro ( 4 ). 

A Rainha Santa Isabel trazia sempre consigo, encerrado num 
cofre, o hábito religioso da Ordem de Santa Clara, ou para sua 
mortalha se falecesse primeiro, ou para se vestir com ele no caso 
de enviuvar ( 5 ). 



C 1 ) Visconde de Paiva Manso, História Eclesiástica Ultramarina, pág. 30. 

( 2 ) Frei Manoel da Esperança, História Seráfica, 2. a parte, pág. 689. 

( 3 ) Ibidem, pág. 316 

( 4 ) Ibidem, pág. 49. 

( 6 ) Frei Manoel da Esperança, História Seráfica, 22. a parte, pág. 291. 



74 

D. Constança de Noronha, segunda mulher do i.° duque de 
Bragança D. Afonso, depois de viúva «professou a regra terceira 
de S. Francisco com tanta estimação do seu hábito humilde que o 
trazia patente». A sua sepultura na igreja do convento de S. Francisco 
em Guimarães está coberta com uma pedra, na qual «se vê a sua 
figura com hábito, cordão e toalha soqueixada ao modo de Terceira 
e um livro aberto entre as mãos em sinal de devoção Q). 

Entre os leigos, estava muito difundida a devoção de dese- 
jarem serem amortalhados no hábito de franciscano. O Rei D. Fer- 
nando por exemplo, quis ser enterrado no hábito de frade da Ordem 
de São Francisco ( 2 ). 

No convento de São Francisco de Lisboa havia uma academia 
para o estudo da Teologia. «Os graus eram de bacharel, licenciado 
e mestre na santa teologia, o qual é o mesmo que Doutor pelo estilo 
de Coimbra» ( 3 ). 



A CONGREGAÇÃO DOS CÓNEGOS SECULARES 
DE SÃO SALVADOR DE VILAR DE FRADES 

Nos começos do século xv entrou na universidade de Lisboa 
como estudante um membro da nobreza chamado João e com 
ilustres apelidos. 

Estudou lógica e filosofia e depois passou à medicina «em que 
veio a ser o mais douto homem do seu tempo». Mas ao mesmo tempo 
dedicava-se ao estudo da teologia «assistindo às lições dela com 

grande fruto». 

«Esmerou-se porém na medicina, que foi a sua profissão prin- 
cipal, e nela se graduou Doutor com universal aplauso da Univer- 
sidade e assistência do melhor da Corte». 

«Pouco depois foi provido em uma Cadeira da mesma faculdade 
que regeu sete anos» tendo publicado «um livro doutíssimo de 

Medicina». 

«Conhecido era o santo Varão e estimado em palácio pela 
nobreza e muito mais pela virtude a que de novo se ajuntava o 
título da sua grande sabedoria. Via-se naquele tempo a Corte ilus- 
trada com muitos Príncipes, filhos do senhor Rei D. João I de boa 
memória, dotados de excelentes partes e reais prerrogativas. Tais 
eram D. Duarte que sucedeu no cetro, D. Pedro Duque de Coimbra, 
D. Henrique Duque de Viseu, D. João Mestre de Santiago, 



( 1 ) Frei Manoel da Esperança, História Seráfica, i. a parte, pág. 180. 

( 2 ) António José Saiaiva, História da Cultura em Portugal, vol. I, pág. 648. 
( 3 ; Frei Manoel da Esperança, História Seráfica, i. a parte, pág. 211. 



75 

D, Fernando Mestre de Aviz.e D. Isabel pouco depois Duquesa 
de Bolonha. De todos recebia o Mestre João singulares honras 
sendo sempre o primeiro médico que era chamado para as suas 
doenças e o seu parecer ouvido como de oráculo. Fez neles em 
diversos tempos admiráveis curas e no Infante D. Fernando uma 
tão estupenda que correu na Corte com o nome de milagrosa. De 
um acidente sincopai havia chegado aos últimos períodos da vida 
e quando todos o choravam morto, o Mestre João lhe acudiu com 
tão presentâneos e eficazes remédios que em breve tempo cobrou 
perfeita saúde, guardando-o o Céu por meio do santo Varão para 
mais feliz e mais gloriosa morte, tão gloriosa e tão feliz que mereceu 
por ela o sobre Régio apelido de Infante Santo, conseguindo nas 
masmorras de Fez coroa mais soberana do que aquela que lhe poderia 
dar a sorte se o fizera primeiro na ordem do nascimento». 

Assim, ao Mestre João «deve Portugal e a Igreja um mártir 
insigne». 

«Por este tempo o Infante D. Duarte que nos últimos anos 
del-Rei seu pai tomou as rédeas do governo o nomeou seu médico 
da Câmara e logo Físico-mor do Reino, cargo de suma estimação 
naquela idade». 

Resolveu então o Mestre João ordenar-se sacerdote continuando 
porém, por algum tempo, «na leitura da Cadeira e na assistência da 
Casa Real». 

Mas logo a seguir decidiu-se «a reformar o clero primeiro com 
exemplos e depois com estatutos». 

«Para este fim, desprezando juntamente por amor de Cristo as 
honras e as riquezas, renunciou a Cadeira e o cargo de físico-mor» 
e mesmo aos ilustres apelidos que até ali usara, passando a chamar-se 
João Vicente. 

Resolveu então juntar-se com outros sacerdotes em congre- 
gação com o fim de lutarem contra os maus exemplos que se notavam 
entre os membros da sua classe. Os primeiros padres que corres- 
poderam ao seu apelo foram os doutores Martim Lourenço e Afonso 
Nogueira, pertencentes a famílias nobres. 

Martim Lourenço, era Mestre de filosofia e doutor em teologia 
pela universidade de Lisboa. Grande pregador, veio a ser confessor 
e esmoler do Infante D. Fernando. Faleceu antes de 15 de Feve- 
reiro de 1437 Q. 

O padre Afonso Nogueira veio a ser arcebispo de Lisboa e, 
por isso, o autor apresentará os seus dados biográficos, adiante, 
juntamente com os de outros arcebispos desta cidade. 



Q) Domingos Maurício, O Infante Santo, «Brotcria», vol. X, 1930, pág. 26. 



76 

Então, como vínhamos dizendo, os padres João Vicente, Martim 
Lourenço e Afonso Nogueira resolveram organizar uma nova 
congregação, «vivendo vida comum, à maneira dos sagrados Após- 
tolos, sem votos». 

Somente em 1425 conseguiram casa pela cedência que o arce- 
bispo de Braga D. Fernando da Guerra (agradecido ao Mestre 
João por o ter curado de uma gravíssima enfermidade) lhes fez do 
antigo mosteiro de São Salvador de Vilar de Frades que havia 
pertencido aos monges beneditinos e estava agora vago. 

Instalaram-se então com outros companheiros nesse convento 
e logo ganharam «o glorioso renome dos Bons Homens de Vilar de 
Frades». 

«Era o Mestre João Prelado e superior de todos e como tal 
lhes fez certas leis e estatutos». Todos vestiam de pardo pobre e 
grosseiro e «abraçavam estreitamente as três virtudes essenciais ao 
estado religioso: a castidade, a pobreza e a obediência». 

«Assim perseveraram alguns tempos, sendo a sua fama tão 
notória e admirada na Corte que El-Rei D. João I mandou vir a 
ela os dois primeiros fundadores por uma ordem tão apertada que 
não admitia réplica nem escusa alguma. Obedeceram ambos com 
sujeição de vassalos e com humildade de santos. E quando partiam 
para Lisboa pediu o padre Afonso Nogueira licença ao Mestre 
João para no tempo da sua ausência ir visitar os santuários de Itália, 
principalmente os de Roma. Chegados pois os dois padres sobre- 
ditos à Corte, foram recebidos del-Rei e dos Infantes com esti- 
mação igual à sua fama e logo se lhes declarou o negócio para que 
eram chamados». 

Tratava-se de seguirem para a Flandres acompanhando a Infanta 
D. Isabel agora duquesa de Borgonha pelo seu casamento por pro- 
curação com o duque Filipe-o-Bom, que se havia realizado no Paço 
da Alcáçova em Lisboa sendo celebrado pelo bispo de Évora 
D. Álvaro de Abreu Q) o qual tinha sido embaixador à Borgonha 
para tratar desse casamento ( 2 ), em 1428. 

O motivo da escolha destes dois padres para esta missão foi 
determinado pelo facto de o Rei D. João I, depois de ter sido ajus- 
tado o casamento, ter resolvido «com os do seu Conselho que o 
Infante D. Fernando acompanhasse a Infante sua irmã preparando-se 
logo para este efeito uma lusidíssima armada». 

«O Infante desejando ajudar-se e servir-se em ocasião tão 
célebre das pessoas do Mestre João e do Doutor Martim Lourenço 



(*) D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real 
Portuguesa, tomo II, pág. 70. 

( 2 ) Joseph Soares da Silva, Memórias para a História del-Rei D. João I > 
Livro II, pág. 942. 



77 

como de homens que ele bem conhecia insignes e excelentes em 
sangue, letras e virtudes pediu a El-Rei seu pai que os mandasse 
vir de Vilar para este efeito, porque ainda que via os navios cheios 
de marinheiros e soldados fiava menos da valentia dos soldados e 
da indústria e arte dos marinheiros e confiava mais nas orações 
daqueles dois servos de Deus e com sua companhia nem receava 
a fúria dos inimigos nem a dos elementos. Tão alto era o conceito 
que formava destes santos varões o Infante Santo e com ele os 
outros Infantes e El-Rei seu pai e todos os grandes do reino que 
todos aprovaram e seguiram a eleição de sujeitos tão capazes para 
uma jornada de tanto crédito e fama, em que ia empenhado o 
esplendor e glória da nação portuguesa». 

Assim, partiu a Duquesa acompanhada pelo seu irmão D. Fer- 
nando, pelo bispo de Évora D. Álvaro de Abreu, pelo conde de 
Ourém D. Afonso e por muitos fidalgos entre os quais os padres 
João Vicente e Martim Lourenço. 

Chegaram ao porto de Eclusa após óptima viagem e logo 
depois se realizou o casamento, durando as festas oito dias, tendo 
então o Duque instituído a Ordem do Tosão de ouro. 

Passados dois meses, os dois padres pediram licença à Duquesa 
para «irem visitar os santuários de Roma e prosseguir no estabele- 
cimento da nova congregação que em Portugal deixaram fundada». 

Chegados a Roma e passados «alguns meses de assistência, 
ordenou o Mestre João a Martim Lourenço que viesse por Borgonha 
para o Reino a dar calor aos companheiros que haviam ficado em 
o convento de Vilar, enquanto ele solicitava a confirmação que 
pretendia da Sé Apostólica. Governava por aquele tempo a barca 
de S. Pedro o Sumo Pontífice Martinho V e assistia na Cúria, com 
muita mão no governo, por sua grande inteligência e talento, 
o Cardeal de S. Clemente, Gabriel Condelmário. Com este teve o 
Mestre João em poucos dias tão intima entrada que mais parecia 
de amigo que de pretendente; com cujo favor propôs o seu reque- 
rimento ao Pontífice, alegando tão vivas razões e tão virtuosos e bem 
ponderados motivos que o Pontífice lhe concedeu quanto pedia ... 
No meio tempo que esta diligência se fazia adoeceu o cardeal refe- 
rido, de uma enfermidade tão aguda que os médicos não conhecendo 
os princípios, nem atinando com os remédios dela começaram a 
vacilar no modo da cura e o enfermo na esperança da vida. Já os 
médicos lha contavam por instantes e os domésticos preparavam os 
aparatos fúnebres quando o Mestre João tomou à sua conta o remédio 
daquela que mais parecia morte do que enfermidade... Confiado 
mais na esperança dos auxílios divinos que na valentia dos remédios 
humanos se aplicou a curar o enfermo e foi a cura tão bem sucedida 
que geralmente se teve por milagrosa porque em breves dias o 



78 

restituiu vivo e levantado aos mesmos olhos que pouco antes o 
viam prostrado e quase choravam defunto». 

Porém, «a morte esperada e temida perdoou ao Cardeal de 
S. Clemente, assaltou, não temida nem esperada ao Sumo Pontí- 
fice Martinho V por cujo falecimento foi eleito o dito cardeal em 
pastor supremo, com o nome de Eugénio IV». 

«Enquanto estas coisas sucederam voltou o Doutor Afonso 
Nogueira de Itália e levou ao convento e padres de Vilar as consti- 
tuições e hábito que trouxera de Veneza dos Cónegos da Congre- 
gação de S. Jorge em Alga». 

Esta Congregação havia sido fundada «pelos anos de mil e 
quatrocentos». «Duvidaram os Padres, por este tempo, da cor e 
forma do hábito que deviam trazer e eram mui diferentes os pare- 
ceres até que se conformaram todos em que se recorresse à inter- 
cessão Sacratíssima a quem haviam escolhido por Mãe e Protectora. 
Encomendou-se nomeadamente este negócio ao grande Padre 
S. Lourenço Justiniano que já resplandecia entre os mais como o 
sol entre as outras luzes, como a rosa entre as outras flores. Depois 
de muita oração, ásperas penitências e copiosas lágrimas se dignou 
a Senhora de revelar três coisas: A primeira, que era servida, que os 
filhos desta congregação vestissem de a%ul e branco, cores de que a mesma 
Senhora se vestira enquanto viveu neste mundo. A segunda, que nas sauda- 
ções usassem das palavras Deo gratias, de que a mesma Senhora também 
usara nesta vida. A terceira, que quando ao entrar da noite se fa% sinal 
com o sino, regassem nove ve^es a Ave Maria em honra e memória das nove 
horas que o Anjo S. Gabriel esteve com a mesma Virgem Sacratíssima 
quando lhe deu a embaixada da Encarnação do Verbo». 

«Esta revelação verdadeiramente maravilhosa e de suma honra 
e glória para a nossa Congregação (a dos Cónegos de S. Salvador 
de Vilar de Frades) consta da tradição antiquíssima que dura e 
permanece desde os nossos primeiros princípios; particularmente 
nas pinturas também antiquíssimas dos conventos da Congregação 
de Veneza como refere Thomasino por estas palavras: Huius vero 
sententiae vestigium non temnendum praebent passim per Caenobia nostra 
Beatae Virginis ícones caeruleo pallio amictae, cui utrinque patres nostri 
supplices astant. A mesmo tradição se conserva em os conventos 
da nossa Congregação de Portugal, onde vemos a Senhora vestida 
de azul dando o hábito da mesma cor aos nossos padres que de 
joelhos o estão recebendo». 

Das antigas Constituições dos Cónegos de S. Salvador de 
Vilar de Frades consta que «a cor do hábito destes que vivem a regra 
dos Apóstolos fosse celestina (que os nossos chamam a^ul) e a túnica de 
cor alva, porque destas cores usara a Benta Virgem enquanto era nesta 
vida». 



79 



«...Esta é a tradição antiquíssima das pinturas que se usam na 
Igreja Católica pois não se achará retrato da Senhora, dos antigos 
(e ainda geralmente dos modernos) em que a Senhora não apareça 
ou com manto ou com túnica azul. Daremos um exemplo que vale 
por muitos, qual é os quadros de que estão cobertos em grande 
parte as paredes da igreja do convento da Esperança desta cidade 
de Lisboa onde se representam em antiquíssimas e riquíssimas 
pinturas, os mistérios da vida da Virgem Santíssima e em todos se 
vê a mesma Senhora vestida de azul». 

Chegado então o padre doutor Afonso Nogueira a Vilar de 
Frades, os respectivos padres avisaram logo «ao Mestre João, que 
procurasse confirmar a sua Congregação de Portugal à maneira 
da Congregação de S. Jorge em Alga. Achou este aviso já na cadeira 
pontifícia a Eugénio, o qual como fundador que fora da Congre- 
gação de Veneza e como grande amante que era das virtudes e 
partes do Mestre João lhe concedeu liberalissimamente tudo o que 
continha a nova súplica». 

Concedeu assim pois o Papa Eugénio IV, além de outros bene- 
fícios, que os cónegos seculares de S. Salvador de Vilar de Frades 
fossem imediatos à Sé Apostólica e isentos dos Ordinários, dando- 
-lhes poder de fazerem constituições e de trazerem hábito azul à 
maneira dos cónegos de S. Jorge em Alga. 

A forma do hábito era semelhante à das togas com que os cardeais 
entravam em consistório naqueles tempos. Eram também essas 
capas muito semelhantes às que usavam os senadores de Veneza. 

Estava ainda em Roma o padre João Vicente quando vagou 
a Mitra de Lamego por morte do bispo D. Luís do Amaral em 143 1. 
O Papa Eugénio IV, «não se esqueceu da obrigação em que estava 
ao Mestre João» e assim o proveu na Mitra de Lamego. 

Quando o novo bispo se despediu do Papa, este deu-lhe por 
sua mão um roquete «(favor singular) e juntamente novas graças, 
isenções e privilégios para a sua Congregação de S. Salvador de 
Vilar de Frades, ordenando de seu moto próprio que fosse Geral 
perpétuo da mesma Congregação, com poderes (enquanto a ela) 
de núncio apostólico». 

«Também lhe deu outra comissão tão honrada que merece parti- 
cular memória». É que, celebrando-se então o concílio de Basileia, 
o duque João da Bretanha «duvidava de enviar a ele os seus embai- 
xadores porque não queria que cedessem o primeiro lugar aos do 
Duque de Borgonha». 

«O Papa sabendo que o nosso Bispo havia de voltar por Borgonha 
e tendo conhecido por experiência a sua grande capacidade lhe 
mandou (passando-lhe as ordens necessárias) que como legado seu 
fosse de Borgonha à Bretanha rogar e persuadir ao Duque que 



80 

mandasse os seus embaixadores ao Concílio no qual se decidi- 
ria a dúvida da precedência sem prejuízo e sem ofensa das 

partes». 

Assim o Bispo seguiu para a Borgonha «a despedir-se daqueles 
Príncipes, nos quais achou extraordinárias demonstrações de esti- 
mação e carinho. Daqui passou à Bretanha e avistando-se com o 
Duque tanto lhe soube dizer que o persuadiu a que viesse em tudo 
quanto queriam o Papa e os Padres do Concílio. Logo partiu para 
Portugal tomando imediatamente conta do governo da diocese de 

Lamego. 

Em 24 de Abril de 1442, a Congregação dos Cónegos Seculares 
de S. Salvador de Vilar de Frades tomou posse do antigo convento 
de Santo Elói de Lisboa que o Infante D. Pedro, regente do reino, 
lhes havia dado, vindo para esse efeito de Vilar a Lisboa o padre 
doutor Afonso Nogueira. Foi eleito por D. João Vicente para 
primeiro reitor do convento de Santo Elói, o Cónego de São Salvador 
de Vilar de Frades e deão da Sé de Lisboa Q), João Rodrigues. 

Depressa chegaram ao conhecimento da Rainha D. Isabel os 
merecimentos do padre João Rodrigues, pelo que ela o nomeou 
seu confessor e capelão-mor. 

«Seguiu logo El-Rei o exemplo da Rainha e quis que o mesmo 
padre fosse também seu confessor, e o foi juntamente de ambos, 
singularidade raras vezes vista em outras cortes e muito menos 
na de Portugal». 

Em 1445, o Infante D. Pedro quis que o padre João Rodrigues 
fosse o mestre da Infanta D. Catarina, filha do Rei D. Duarte, a qual 
tinha, então, nove anos de idade. O padre João Rodrigues «se 
desculpou com eficazes razões e indicou para esse ofício ao padre 
Jorge da Costa (futuro Cardeal de Alpedrinha), «assegurando-lhe 
que não acharia quem melhor o pudesse servir naquela incum- 
bência». 

Em 1446, D. João Vicente foi promovido a bispo de Viseu 
e para lá seguiu. Porém, daí o chamou o Infante D. Pedro para ir a 
Castela com a Rainha D. Isabel (filha do Infante D. João), mulher 
do Rei D. João II daquela reino, com título de seu confessor, esmoler 
e capelão-mor ( 2 ). 

A escolha de D. João Vicente para conselheiro da Rainha 
D. Isabel foi motivada pelo facto de o Rei D. João II estar inteira- 
mente dominado pelo condestável D. Álvaro de Luna «único valido 
e primeiro ministro do mesmo Rei». 



(!) Frei Luís de Sousa, História de São Domingos, i. a parte, pág. 664. 
( 2 ) D. Joaquim de Azevedo, História Eclesiástica do Bispado de Lamego, 
Porto, 1887. 



81 

Havia assim em Portugal o «receio que tinham os prudentes 
de que a nova Rainha dotada de um espírito augusto e coração 
altivo, não se havia de abater à sujeição indigníssima do Privado, 
a quem el-Rei seu marido vivia totalmente sujeito, donde com 
razão temiam que nascesse alguma grave discórdia em prejuízo 
de uma e outra Coroa». 

«Esta consideração deu larga matéria ao discurso dos maiores 
ministros daquele tempo, os quais resolveram e aconselharam a 
El-Rei que mandasse com a Rainha alguma pessoa de tanta supo- 
sição, autoridade e talento que bem a pudesse aconselhar nos casos 
e perigos que se podiam temer justamente. E logo El-Rei e o 
Infante D. Pedro (que ainda governava) e todo o Conselho de 
Estado puseram os olhos em D. João, bispo de Viseu». 

«Sem detença o mandaram chamar El-Rei e o Infante, escre- 
vendo-lhe uma carta tão cheia de honras e louvores que não se distin- 
guia bem se era decreto ou se era panegírico». 

«Veio o santo bispo, temeroso do que podia ser e foi recebido 
de toda a casa real com singularíssimas demonstrações de afecto, 
bem merecidas de sua fama e não menos de sua presença: a fama 
apregoava virtudes e milagres; e a presença confirmava os pregões 
da fama e ainda a acusava de diminuta. O rosto arrugado e maci- 
lento (indícios de muita idade e de muita penitência) povoado de 
veneráveis cãs, banhado de uma alegria santa; a modéstia e a compo- 
sição dos olhos e do vestido; o peso e gravidade das palavras; tudo 
era uma clara prova, não só do que a fama dizia mas de que dizia 
muito menos do que era». 

Partiu então o bispo de Viseu para Castela, acompanhando a 
Rainha, já no ano de 1447. 

Por estes tempos, ingressou na Congregação do Vilar o padre 
Vasco Rodrigues ( 1 ), 

Natural de Braga, seguira ele para Salamanca onde na respectiva 
Universidade fez os primeiros estudos e se laureou em Cânones. 

«E prosseguindo as escolas veio a conseguir a honra de Mestre 
público naquele grande teatro das letras, obrigação que encheu 
com tanta eminência que chegou a ser preclaro o seu nome em toda 
a Espanha. Muitas vezes o consultaram grandes Príncipes e 
Senhores acerca dos negócios que lhe ocorriam de maior importância 
e até os Sumos Pontífices se serviram do seu talento em benefício 
público». 

Assim, o Papa Gregório XI o encarregou, juntamente com o 
arcebispo de Toledo D. João Tenório e o bispo de Tui D. João 
de Castro, de apreciarem as queixas que então havia contra a Ordem 



Q) P. e Francisco de Santa Maria, O Ceo Aberto na Terra, pág. 656 e segs. 
6 



82 

dos Eremitas da Pobre Vida e de que, se verificassem a má fama que 
corria deles, a extinguissem. «Foi esta função honradíssima para 
Vasco Rodrigues e em grande prova da celebridade e estimação 
em que era tido o seu nome pois o Sumo Pontífice o nomeava para 
tão grande negócio e o igualava com dois prelados tão grandes e 
tão ilustres. Resultou da visita, extinguirem os ditos juizes apos- 
tólicos todos os Eremitas que havia em Castela, Navarra e Aragão, 
e deixaram somente os deste Reino, por sua exemplar vida, com 
grande glória dele e dos Eremitas da Serra de Ossa, cuja Congre- 
gação deve muito a Vasco Rodrigues». A sentença foi dada em 16 de 
Fevereiro de 1378. 

Pouco depois da morte do Rei D. Fernando de Portugal come- 
çaram as guerras entre o nosso país e Castela. 

Apesar de ser catedrático e benquisto na Universidade de 
Salamanca, resolveu Vasco Rodrigues voltar para Portugal, tendo-o 
o arcebispo de Braga, D. Lourenço da Lourinhã, nomeado seu 
provisor e vigário-geral. Governou então a diocese durante largo 
tempo (pois o arcebispo estava ausente, acompanhando o Rei 
D. João I), sendo vulgarmente chamado o Arcebispo Pequeno. Foi 
eleito chantre da Sé de Braga e, «sobre a estimação universal em que 
era tido no Reino, crescia a que lograva fora dele e, particularmente, 
na cabeça do mundo, onde a sua sabedoria era venerada por fama». 

Por morte do arcebispo D. Lourenço, sucedeu-lhe D. Martim 
Afonso Pires, o qual entregou o governo da diocese nas mãos de 
Vasco Rodrigues, «estimando-o como pessoa das mais autorizadas, 
não só da diocese mas do reino». 

A D. Martim Afonso sucedeu, em 1416, D. Fernando da Guerra, 
«e este foi o tempo em que Vasco Rodrigues, mais que nunca, 
governou aquela diocese». 

Assim, teve ocasião de conhecer o Mestre João e os padres 
Martim Lourenço e Afonso Nogueira e, sobretudo pelas pregações 
de Martim Lourenço, «propôs consigo deixar o mundo e abraçar 
de todo o coração a Cruz de Cristo», recebendo o hábito dos Cónegos 
de S. Salvador de Vilar, cerca de 1446, tendo então quase setenta 
anos de idade. 

Voltemos ao bispo D. João Vicente, em Castela. Pelos seus 
conselhos, a Rainha D. Isabel fez ver ao seu marido, o Rei D. João II, 
quanto era desprimoroso o deixar-se dominar completamente pelo 
condestável D. Álvaro de Luna. 

«Convencido El-Rei da evidência e persuadido da força destas 
razões, abriu os olhos até então ou cegos ou divertidos e conheceu 
nos desacertos do governo os danos do bem público sendo causa 
de todos a sua desatenção e desacordo e a malícia e a insolência 
do. Privado». Assim o valido «foi preso e despojado de riquezas 



83 

e dignidades e finalmente degolado em cadafalso público», no dia 2 de 
Junho de 1453. 

«Não deixaremos de referir o maravilhoso caso sucedido por 
este tempo à ilustríssima e virtuosa portuguesa D. Beatriz da Silva 
porque nos obrigam algumas razões : a primeira porque esta senhora 
foi juntamente com o nosso Fundador para Castela em companhia 
e serviço da Rainha D. Isabel e afirma o Padre Paulo que o santo 
Bispo a confessava e era seu mestre espiritual; a segunda porque 
ele foi o que mitigou a ira da Rainha que ainda determinava passar 
a maiores excessos no castigo de D. Beatriz; a terceira, porque neste 
caso foi vista a Mãe de Deus vestida de azul e branco e a notícia 
deste aparecimento da Senhora vestida de tais cores foi sem dúvida 
de grande consolação e alegria para o santo Prelado; e a quarta 
e última porque na instituição da Ordem da Conceição de que foi 
fundadora a mesma D. Beatriz teve grande parte o Padre Isidoro 
Tristão, Cónego nosso. 

O caso passou desta maneira. 

Entre as damas que acompanharam a Rainha D. Isabel nesta 
jornada foi uma D. Beatriz da Silva, filha de Rui Gomes da Silva, 
alcaide-mor de Campo Maior e irmã de D. Diogo da Silva, primeiro 
conde de Portalegre e de D. João de Meneses que depois fundou 
a religião dos Amadeus em Itália. Era esta senhora a mais formosa 
dama que então conhecia e celebrava a Espanha e ainda era mais 
honesta que formosa. 

Em Castela «começou logo D. Beatriz a ser o alvo de grandes 
empenhos» e «eram muitos os pretendentes». «Mas a emulação 
tumultuaria dos competidores levou-os algumas vezes a virem às 
mãos junto a palácio com ruido escandaloso». «Não tinha D. Beatriz 
nestes desconcertos outra culpa mais que a sua beleza e muitas vezes 
se indignava contra si própria desejando ser feia, para não ser preten- 
dida. Não lhe valeu porém o seu recolhimento e inocência preva- 
lecendo a suspeita de que ela, não só era, mas dava causa aos alvorotos 
sucedidos, os quais sendo notórios à Rainha, com austeridade portu- 
guesa, a mandou prender em um aposento do palácio, solitário 
e. escuro. Mas daquelas trevas lhe nasceu a luz mais luminosa e 
daquela solidão a mais soberana companhia. 

Era D. Beatriz muito devota da Virgem Santíssima a quem 
recorreu como à consoladora dos afligidos, sempre misericordiosa, 
sempre propícia, sempre benéfica. Chorava com inocentes lágrimas 
não a sua culpa mas a sua desgraça e mais sentia incomparavelmente 
a perda da opinião que a da liberdade. Antes querendo de perder 
esta e restaurar aquela resolveu recolher-se em um convento e fez 
desde logo a Deus voto de perpétua virgindade. No mesmo ponto 
apareceu o aposento coroado de luzes e banhado de suavidades 



84 

equivocando-se em deliciosa confusão as fragrâncias e as harmonias. 
Foi logo vista a Mãe da Pureza, vestida em túnica branca e manto 
azul acompanhada de um luzidíssimo esquadrão de Anjos e de 
Virgens e com rosto alegre e com voz suave, declarou : Que era servida 
que a seu tempo lhe instituísse uma nova Ordem de religião em obséquio da 
sua Conceição imaculada e queria que vestissem das mesmas cores e forma 
de que a via vestida». 

«Passados três dias (que tanto durou a cólera da Rainha, nos 
quais por ordem sua ninguém lhe falou ou a viu) a mandou (persua- 
dida do venerável Bispo seu confessor) vir à sua presença e mostrando 
esquecer-se da culpa, com lhe não falar nela, formou do seu silêncio 
uma nova repreensão. D. Beatriz, que já se havia dedicado aos 
obséquios de outra Majestade mais alta, lhe pediu licença para se 
recolher logo em um convento». «Trinta anos esteve no convento 
das religiosas de S. Francisco de Toledo, onde se recolheu, vivendo 
em religiosíssima observância, até que a Providência Divina lhe 
declarou ser tempo de que instituisse a nova Ordem e vestisse o 
novo hábito, ao que deu princípio no ano de 1484 mudando-se com 
doze religiosas para os palácios de Galiana onde se começou a nova 
Ordem da Conceição». 

Voltando à vida do bispo D. João Vicente, ele continuou em 
Castela e, em 1455, «escreveu a Viseu ordenando que no claustro da 
Catedral se fizesse uma capela e nesta uma sepultura para seu corpo 
declarando o lugar e traça». «Fez-se logo uma e outra como o santo 
Bispo mandava». 

No ano de 1456 morreu a Rainha D. Isabel «e no mesmo partiu 
o santo Bispo de Castela para Portugal». 

Voltou para Viseu a pastorear o seu rebanho até ao ano de 1463 
em cujo mês de Agosto faleceu tendo então 83 anos de idade. 

Como acima se disse o título primitivo da Congregação era o 
de «Congregação dos Cónegos Seculares de S. Salvador de Vilar 
de Frades». «Depois pela devoção que a Rainha D. Isabel, mulher 
de D. Afonso V, insigne protectora nossa, teve ao Evangelista, 
ordenou o Pontífice Pio II à instância del-Rei D. Afonso V (que 
pediu esta graça por contemplação e respeito da Rainha sua mulher) 
que se chamasse de S. João Evangelista, e este é o seu próprio nome: 
Congregação dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista. Por 
abuso é chamada de S. Elói, costume vulgar deste Reino, dar-se 
às religiões o título derivado de algum principal mosteiro, como os 
Padres da Graça, os Padres de S. Roque, etc. Assim aos nossos 
Cónegos lhe chamam de S. Elói, pelo convento dedicado a este 
Santo que temos em Lisboa. Também alguns nos chamaram os 
Cónegos A^úis, derivando a extravagância deste apelido da singulari- 
dade da cor do hábito». 



85 

O que o autor do presente trabalho vem escrevendo provém 
do livro «O Ceo Aberto na Terra», publicado em Lisboa em 1697, 
e no qual o cronista geral da Congregação de S. João Evangelista, 
Padre Francisco de Santa Maria faz a história da sua Congregação. 

Em D. Joaquim de Azevedo Q-) encontrou o autor que à 
«Congregação de Cónegos Seculares alguns chamam Regulares, 
porque vivem como religiosíssimos muito observantes, ainda que 
sem votos». 

Acrescente-se que a designação popular dos cónegos de S. Elói 
era a de «lóios». 

Houve vários conventos de cónegos lóios em Portugal, um 
dos quais foi o de Arraiolos que ainda existe em relativo bom estado 
de conservação, tendo as paredes da sua igreja revestidas interior- 
mente de belos azulejos nos quais se vêem, além de outras figuras 
relacionadas com a história da Congregação, as dos fundadores 
D. João Vicente e D. Afonso Nogueira. 



ORGANIZAÇÃO ECLESIÁSTICA DO REINO 
NO FIM DA IDADE MÉDIA 

Do Dr. Miguel de Oliveira ( 2 ) tira o autor os apontamentos 
seguintes. 

No fim da primeira dinastia, havia em Portugal nove dioceses: 
Braga, Porto, Coimbra e Viseu, tendo por metrópole Braga; Lisboa, 
Évora, Lamego e Guarda, sufragâneas de Compostela; Silves, 
sufragânea de Sevilha. 

A primeira alteração importante ocorreu no tempo de D. João I; 
para ela contribuiu a rivalidade entre portugueses e espanhóis, 
exacerbada pela guerra da independência e favorecida neste particular 
pela circunstância de Portugal seguir o pontífice romano e Castela 
o de Avinhão. Por uma bula de 1393 o papa Bonifácio IX elevou a 
Sé de Lisboa à dignidade de metrópole, assinando-lhe por sufra- 
gâneos os bispados de Évora, Lamego, Guarda e Silves. 

Para a independência do nosso quadro eclesiástico só faltava 
resolver o caso das terras fronteiriças governadas por bispos espa- 
nhóis. Também aqui nos favoreceu a dissidência resultante do 
Cisma. Enquanto este durou, a administração eclesiástica dessas 
terras separou-se de facto dos bispos a que pertencia. A separação 
de direito fez-se depois por autoridade apostólica: o território de 



C 1 ) D. Joaquim de Azevedo, História Eclesiástica da Cidade e Bispado 
de Lamego. Porto, 1877. 

( 2 ) P. Miguel de Oliveira, História Eclesiástica de Portugal, 3. 11 edição, 
págs. 205 e segs. 



86 

Riba-Coa, pertencente a Cidade Rodrigo, foi incorporado na diocese 
de Lamego por Bonifácio IX em 1403; o de entre Minho e Lima 
e o de além Guadiana, sujeitos respectivamente a Tui e Badajoz, 
foram incorporados no bispado de Ceuta por Eugénio IV, em 1440. 
Conseguiram a bula deste último Papa os embaixadores Frei 
João, provincial de Ordem do Carmo e D. Rui da Cunha, prior da 
Colegiada de Guimarães ( 1 ). 



ALGUNS ARCEBISPOS DE LISBOA 



D. PEDRO DE NORONHA (1424-145 2) 

Era o mais velho dos irmãos Noronhas naturais do reino das 
Astúrias. 

Vindo a este reino, e tendo 23 anos de idade, no de 1419 lhe 
concedeu Martinho V a administração do bispado de Évora, em 1 1 de 
Janeiro, a instâncias del-Rei D. João I, e pela morte do arcebispo 
D. Diogo Álvares de Brito o elevou o mesmo pontífice a metropo- 
litano de Lisboa no ano de 1424 ( 2 ). 

No ano de 1428 passou a Aragão por embaixador del-Rei 
D. João I sobre o casamento do infante D. Duarte com a infanta 
D. Leonor, cuja negociação completou, com beneplácito de todos, 
conduzindo a Infanta a Évora onde nesse mesmo ano se realizaram 
as bodas. 

Pela morte del-Rei D. Duarte, que deixou por governadora do 
reino a rainha D. Leonor sua mulher, a cuja determinação se opuseram 
os Três Estados do Reino, quis o arcebispo D. Pedro sustentar o 
partido da rainha viúva com grande tenacidade, fazendo-se forte 
no seu palácio, que era junto dos paços do Castelo, e, porque os 
vereadores da cidade suspeitaram que o arcebispo se queria apoderar 
do castelo pela porta que chamavam do Moniz, a câmara lhe mandou 
derrubar certos cubelos, de que o arcebispo tomou grande senti- 
mento e se saiu de Lisboa para Alhandra. 

Foram-se aumentando as turbulências, de maneira que a câmara 
da cidade formou capítulos contra o arcebispo cheios de ludíbrios e 
os remeteu ao Papa para que o privasse da dignidade. Vendo-se 
o Arcebispo injuriado e perseguido, se ausentou para Castela e 
logo o Infante D. Pedro lhe mandou sequestrar as rendas. Nesta 



( x ) Rui de Pina, Crónica d'El-Rei D. Afjnso V, vol. I, pág. 142. 
( 2 ) João Baptista de Castro, Mapa de Portugal Antigo e Moderno, 3.» ed., 
pág. 74 do tomo III. 



87 

ausência ficou o Cabido governando como em sé vacante; porém 
trabalhando os apaixonados do arcebispo, para que ele tornasse 
ao reino, intervindo também nisso a Santidade de Eugénio IV, 
lhe foi concedida licença do Infante D. Pedro, então regente, no ano 
de 1442, vindo o Arcebispo outra vez para Lisboa ( 1 ). 

Do Padre Francisco da Fonseca ( 2 ) transcreve o autor o seguinte. 

«Morto El-Rei D. Duarte aos 9 de Setembro de 1438 e deixando 
disposto que a rainha D. Leonor fosse Governadora do Reino, não 
quiseram convir nisto os povos e elegeram por Regente o Infante 
D. Pedro contra a parcialidade de muitos fidalgos que seguiam o 
partido da Rainha. Era o principal o arcebispo D. Pedro e por isso 
se amotinou contra ele a cidade de Lisboa. O sagrado da Sé e a 
autoridade do Infante lhe salvaram a vida e esta mesma o restituiu 
à sua Catedral depois de alguns anos de voluntário desterro. Podia 
aprender do Infante o Arcebispo esta real clemência mas, podendo 
mais que o sangue o apetite da vingança, se coligou em 1449 com 
os fidalgos mal contentes e não só induziu a D. Afonso V a despojas 
o Infante do governo, que tantas vezes lhe tinha oferecido, mar 
a permitir que perdesse a vida na deplorável batalha de Alfarrobeira». 

D. Pedro de Noronha faleceu em Lisboa a 12 de Agosto de 1452. 

D. LUÍS COUTINHO (1452-1453) 

Teve primeiramente o bispado de Viseu e em 1444 passou 
ao de Coimbra. 

Acompanhou o Infante D. Pedro, duque de Coimbra, no 
recontro de Alfarrobeira, e o «absolveu em lhe a alma saindo da 
carne» ( 3 ). 

Acompanhou até à Alemanha a imperatriz D. Leonor, filha 
do rei D. Duarte, que se desposou com o imperador Frederico III. 

D. JAIME (1453-HÍ9) 

Era filho do Infante D. Pedro e neto do rei D. João I. 

Na idade de quinze anos acompanhou seu pai no recontro de 
Alfarrobeira. 

Passou à Flandres a buscar o abrigo de sua tia a Infanta D. Isabel, 
duquesa de Borgonha. Esta senhora o mandou a Roma, sendo então 
Pontífice Nicolau V, «que afeiçoado das reais perfeições que concor- 
riam neste príncipe, o fez administrador perpétuo da igreja lisbo- 



(?) João Baptista de Castro, Mapa de Portugal, tomo III, pág. 74. 

( 2 ) P. Francisco da Fonseca, Évora Gloriosa, pág. 286. 

( 3 ) Rui de Pina, Crónica a" El-Rei, D Afonso V, vol. II, pág. 101. 



88 

nense em 30 de Abril de 1453, a qual se achava vaga por morte 
de D. Luís Coutinho»^). 

«Não constituiu logo o pontífice a D. Jaime arcebispo por não 
ter ainda competente idade, pois contava só vinte anos. Todavia 
desta sorte começou a governar por seus vigários gerais: tal foi 
Luís Anes que em seu nome assistiu nas cortes que se celebraram 
em Lisboa por el-Rei D. Afonso V, pelos anos de 1455 e 1456». 

«Subindo ao sumo pontificado Calisto III, antepondo os mere- 
cimentos aos anos do nosso arcebispo, logo na primeira criação 
de cardeais que fez em 18 de Setembro de 1456, lhe deu o capelo 
com título de Santa Maria in Porticu promovendo-o depois ao de 
Santo Eustáquio». 

«Feito Cardeal conseguiu do Papa a Bula da Cruzada para este 
reino, mandando-a no ano de 1457 a el-Rei D. Afonso V seu primo 
pelo bispo de Silves D. Álvaro Afonso, que se encontrava em Roma, 
a quem o Pontífice fez seu legado e o cardeal seu governador ou 
comissário-geral no arcebispado de Lisboa». 

«Sucedendo no ano seguinte de 1458 a morte do papa Calisto III 
e seguindo-se logo na cadeira pontifícia Pio II, quis este levar avante 
a empresa do seu antecessor em fazer guerra aos turcos. Para este 
efeito publicou um Concílio em Mântua, para onde partindo de 
Roma no princípio do ano de 1459 com o colégio dos cardeais, 
o nosso adoecendo em Florença de um mal que só tinha o remédio 
no perigo da castidade, quis antes D. Jaime perder a vida na flor dos 
anos que manchar o cândido arminho da sua pureza». 

Expirou finalmente a 21 de Abril de 1459 com grande saudade 

de todos. . . 

Jaz o seu corpo em Florença no convento de S. Miniato de 
religiosos beneditinos. O mausoléu, magnífica obra de arte, é a 
primeira sepultura dinâmica e cenográfica, o que faz dela um verda- 
deiro «quadro vivo» ( 2 ). 

A capela sepulcral do cardeal D. Jaime de Portugal contém 
a sepultura do cardeal; um altar com um painel dos três santos 
protectores de D. Jaime: S. Tiago, Santo Eustáquio e S. Vicente; 
vários frescos e uma Anunciação. A cúpula é em cerâmica com 
cinco medalhões representando as Virtudes cardeais e o Espírito 

Santo. . 

Na construção da capela sepulcral foram utilizados os dinheiros 
do Cardeal, com ajudas da duquesa de Borgonha, de sua mãe, 
D. Isabel de Aragão e de sua irmã D. Filipa. 

(i) João Baptista de Castro, Mapa de Portugal Antigo e Moderno, 3." ed., 
tomo , ^^ po ^ teg ^ A Ca p e i a do Cardeal Português em Florença à Luz de Novos 
Elementos, in «Diário de Notícias», de 5-12-1963. 



89 



D. AFONSO NOGUEIRA (1459-1464) 

Era filho de Afonso Anes Nogueira, alcaide-mor do castelo 
de Lisboa e um dos mais assinalados cavaleiros do seu tempo, o qual 
seguiu o rei D. João I com toda a fidelidade e andou sempre à sua 
ilharga como conselheiro, e na batalha de Aljubarrota procedeu 
com valor digno da sua pessoa e nobreza Q). 

Diz o Padre Francisco de Santa Maria ( 2 ) que Afonso Nogueira 
nasceu em Lisboa cerca do ano de 1399; mas também afirma que 
ele em Setembro de 1464, quando morreu, tinha quase 80 anos ( 3 ). 
Assim somos levados a pensar que o seu nascimento se deu cerca 
de 1389 e não cerca de 1399. 

Era muito instruído na língua latina e estudou retórica e filo- 
sofia na universidade de Lisboa tendo dado tais provas de saber e 
inteligência que seus pais o mandaram estudar para a universidade 
de Bolonha, onde ao fim de nove anos se doutorou em um e outro 
Direito, isto é, em direito canónico e em direito civil. 

Em Lisboa adquiriu grande estimação na corte fazendo-se 
conhecido e venerado de todos e em especial do «mestre João», 
médico do rei D. João I e físico-mor do reino. 

Com o mestre João e o padre Martim Lourenço, fundou uma 
congregação que obteve o mosteiro de S. Salvador de Vilar de 
Frades para sua casa. 

Voltou então a Itália e de Veneza trouxe para a nova congre- 
gação a capa azul da congregação de S. Jorge em Alga, para o hábito, 
e as suas Constituições. 

Em Novembro de 1439 os tr ^ s estados do reino reunidos no 
paço da alcáçova em Lisboa acordaram que o infante D. Pedro 
fosse logo declarado Regedor do reino, in sólido, sem outra ajuda 
ou companhia até El-Rei ser em idade de por si o poder reger. 
O autor da proposta foi o infante D. João e o orador o Doutor Diogo 
Afonso, o «Manga- Ancha». 

Este acordo foi enviado à Rainha, que estava em Alenquer, 
pelo governador da casa do infante D. Pedro, Álvaro Gonçalves 
de Ataíde; a Rainha reagiu desfavoravelmente, pelo que lhe foram 
enviados com o mesmo assunto o Doutor Afonso Nogueira e o 
mestre Frei Gil Lobo, confessor do rei D. Afonso V, «pessoas de 
muitas letras e autoridade». «Os quais para trazerem a Rainha ao 
que pretendiam lhe deram muitas razões cheias de bons e santos 



(}) Padre Francisco de Santa Maria, O Ceo Aberto na Terra, págs. 638 c segs. 

( 2 ) Ibidem, pág. 640. 

( 3 ) Ibidem, pág. 653. 



90 

conselhos e avisos e a não puderam mover de seu propósito; e com 
esta resposta se tornaram» (*). 

Havia em Lisboa, o hospital de Santo Elói fundado em fins 
■do século xiii por D. Domingos Jardo, o qual estava em grande 
decadência. 

O regente do reino, Infante D. Pedro, «desejando reparar 
tanto quanto fosse possível os danos que via no hospital de Santo 
Elói, e juntamente dar casa em Lisboa àqueles virtuosos e exemplares 
padres (os cónegos de S. Salvador de Vilar de Frades), fez súplica 
sobre esta matéria ao sumo pontífice Eugénio IV que então governava 
a Igreja». Este Papa mandou por um Breve que o hospital de Santo 
Elói fosse entregue aos Cónegos. Mas o provedor do hospital 
«quis replicar e contradizer a nova erecção do hospital em convento». 
«Acudiu o infante D. Pedro, interpondo o poder, a intercessão, 
a autoridade, a pessoa, com tanto empenho que bem podemos 
afirmar que a ele deve a Congregação esta Casa» ( 2 ). 

Assim, por ordem do Papa, o padre Afonso Nogueira tomou 
posse do hospital de Santo Elói, em nome da Congregação, a 24 de 
Abril de 1442, a qual deveu esta Casa ao patrocínio do infante 
D. Pedro, como acima se disse. 

O Padre Afonso Nogueira ficou a residir no convento de 
Santo Elói, «e logo começou a luzir em toda a Corte a sua grande 
virtude. Havia naquele tempo em Lisboa grande falta de ministros 
evangélicos a qual o nosso Padre começou a suprir mostrando que 
valia por muitos. Do púlpito e do confessionário, como de duas 
torres fortíssimas, fazia crua guerra ao comum inimigo, logrando 
em cada batalha uma vitória. Muitas almas livrou do cativeiro 
do pecado, e sendo esta a sua primeira aplicação, a segunda era 
acudir às necessidades do corpo, que a tudo abrange uma caridade 
fervorosa. Frequentava os hospitais, consolando os enfermos, 
assistindo aos moribundos e talvez ajudando a enterrar os mortos, 
visitando também os cárceres públicos solicitando, quando podia, 
o alívio dos necessitados». 

Em 1452 o papa Nicolau V proveu a D. Afonso Nogueira 
no bispado de Coimbra, tendo este feito grandes obras na Catedral. 

Em Setembro de 1459 ° P a P a Pi° II transferiu-o para o arce- 
bispado de Lisboa, por morte do cardeal D. Jaime, segundo proposta 
do rei D. Afonso V. 

Alguns anos depois este mesmo Rei ordenou que o Arcebispo 
fosse a Castela como seu embaixador extraordinário «e posto que 
a idade o eximia de jornada tão larga e função tão trabalhosa, era 



(*) Gaspar Dias de Landim, O Infante D. Pedro, Livro primeiro, pág. 134. 
( 2 ) Padre Francisco de Santa Maria, O Ceo Aberto na Terra, págs. 423 e segs. 



91 

tal a relevância do negócio que não se podia nem devia fiar a talento 
inferior. Desejava el-Rei ajustar o casamento entre ele e a infanta 
D. Isabel, que ao depois foi rainha de Castela, e chamariam a Católica». 

«Também se serviu dele o Sumo Pontífice Pio II, que então 
governava a Igreja, nomeando-o seu legado a latere neste Reino, 
honra poucas vezes concedida a prelados naturais dele e como tal 
mais digna de estimação». 

«Contava o Arcebispo quase oitenta anos, e em idade tão 
provecta lograva uma saúde tão perfeita que prometia ainda larga 
duração». 

Prevendo a morte, fez o seu testamento ainda com saúde, mas 
logo caiu de cama, morrendo a 16 de Setembro de 1467. 

As suas últimas palavras foram: Lembrai-vos, filhos, que tudo 
pára nisto. 

D. JORGE DA COSTA (1464-1500) 

Mais conhecido pela designação de Cardeal de Alpedrinha, foi 
um dos prelados mais notáveis da Igreja católica nos fins do séc. xv 
•e princípios do xvi ( l ). 

Nasceu em 1406 na vila de Alpedrinha. 

No Hospital de Santo Elói, em Lisboa, estudou latim, filosofia 
€ teologia; e, depois de se ordenar de presbítero, foi escolhido pelo 
regente do reino, o infante D. Pedro, para confessor e professor da 
infanta D. Catarina, irmã do rei D. Afonso V, a qual a esse tempo 
tinha nove anos de idade. 

Na corte de D. Afonso V alcançou grande influência pelo 
prestígio que lhe resultava da sua extraordinária perspicácia e seguro 
critério, de forma que D. Afonso V nomeou-o seu confessor e tinha-o 
como predilecto conselheiro. Em 1463 nomeou-o Bispo de Évora 
e transferiu-o no ano seguinte para o arcebispado de Lisboa, em 26 de 
Novembro, por morte de D. Afonso Nogueira ( 2 ). 

Em princípios de 1467, D. Jorge da Costa dedicava-se à orga- 
nização da recolha de fundos em todo o arcebispado para prosse- 
guirem as obras da capela de S. Vicente, na Sé de Lisboa, as quais 
nessa época estavam em plena actividade ( 3 ). Falta saber se nas obras 
da capela de S. Vicente o Arcebispo incluía algum retábulo. A prova 
respectiva existe. Era de presumir que entre os fiéis solicitados a 
desembolsar-se para as obras, que o Arcebispo levava tanto a peito, 
o Rei, para quem D. Jorge da Costa era juntamente coluna da Igreja 



(') Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, tomo II, 
págs. 505 e 578. 

( 2 ) João Baptista de Castro, Mapa de Portuga! Antigo e Moderno, $."■ ed., 
pág. 78. ^ 

( 3 ) Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, vol. I, págs. 437 e segs. 



92 

e do Estado, não fosse o menos solícito e generoso a contribuir 
e a ganhar as prometidas indulgências. 

Ora uma carta de quitação passada a Afonso Eanes, chantre 
da Sé de Lisboa, a 19 de Junho de 1469, informa-nos de que 
D. Afonso V tinha dado 5650 reais ao «cabido da dita Sé de esmola 
para o retábulo que se ora faz na dita Sé do mártel S. Vicente». 

O Papa Xisto IV, a instâncias de D. Afonso V criou D. Jorge 
da Costa, em 1476, cardeal do título dos Santos Mártires Marcelo 
e Pedro. 

O príncipe D. João não levava a bem a influência que no 
ânimo de seu pai D. Afonso V g02ava D. Jorge da Costa; e essa 
má vontade tornou-se em tanto azedume que o prelado se retirou 
para Roma. 

Na cúria alcançou D. Jorge da Costa a mesma fortuna que 
lograra na corte de D. Afonso V, sendo muito bem recebido por 
Xisto IV e igualmente estimado e considerado por Inocência VIII, 
Alexandre VI, Pio III e Júlio II. De alguns destes pontífices teve 
privança e grande valimento, de modo que se tornou verdadeiro 
árbitro de muitos negócios, especialmente dos que respeitavam a 
Portugal. 

Entre os negócios cuja solução se atribui à sua interferência 
contam-se a dispensa para se poderem casar os cavaleiros das ordens 
militares, sem embargo do voto solene de castidade, que se lhe 
comutou em castidade conjugal, e a demarcação dos descobrimentos 
e conquistas entre Portugal e Castela. 

Em 1500 renunciou o arcebispado de Lisboa em seu irmão 
D. Martinho da Costa. 

Faleceu em Roma a 19 de Setembro de 1508 com 102 anos 
de idade, sendo sepultado numa urna, sobre a qual repousa o seu 
vulto, na capela de Santa Catarina na igreja de Santa Maria dei 
Populo, que ele tinha mandado edificar nos fins do século xv. 



A INSTITUIÇÃO DA ORDEM DA CAVALARIA 

Os cavaleiros não constituíam uma classe com funções e deveres 
distintos na sociedade; a cavalaria foi uma dignidade que impunha 
carácter, conferida nas condições preceituadas nos códigos, após 
um longo noviciado, ou como prémio de algum feito notável. 
O espírito de confraternidade dominante na Idade Média, enlaçava 
naturalmente estes dignitários, campeões de um ideal comum, e a 
associação não possuía governo nem espécie alguma de hierarquia, 
não tinha sede nem área determinada para a sua acção. Cada um 
dos iniciados procurava em todo o tempo, em toda a parte e na 



93 

possível independência de todos os poderes estabelecidos, cumprir 
o juramento — sua lei suprema — prestado no acto solene de ser 
armado cavaleiro Q. 

A principal obrigação da Cavalaria era defender a Fé Cristã ( 2 ). 

Do ritual a observar no acto de se armar um cavaleiro, cons- 
tavam várias cerimónias entre as quais, numa igreja, o padrinho 
ou consagrador lhe punha as esporas douradas e o armava, excepto 
na cabeça, que continuava nua ( 3 ). A espada, no punho da qual 
estavam dependuradas as esporas de ouro, era previamente trazida 
por um pagem que a segurava pela ponta ( 4 ). 

O ritual acima indicado era extremamente simbólico e também 
se dava significação emblemática aos vários artigos de vestuário 
usados pelo neófito : a camisa branca lembrava-lhe que devia conservar 
puro o corpo, as botas tinham cor escura para dizerem com a terra 
de que eram feitas e à qual deviam voltar, etc. ( 5 ). 

Os cavaleiros, e só eles, usavam um manto branco muito 
comprido que se arrastava pelo chão, o qual constituia o mais nobre 
ornamento que podiam ter quando não estavam armados. O manto 
foi feito desta maneira para mostrar que os cavaleiros deviam estar 
cobertos de humildade para obedecerem aos seus superiores ( 6 ). 
Este manto chamava-se «brial». 

Na procissão do dia de Páscoa que se fazia em Lisboa e era 
acompanhada pelos cortesãos, no tempo do Rei D. Sebastião, «o Rei 
levava uma das varas do pálio, e ele ia sempre vestido com o seu 
hábito branco de cavaleiro» ( 7 ). 



A ORDEM DA JARRETEIRA 

Foi fundada pelo Rei da Inglaterra em 1334. 

Denominava-se assim por o seu emblema ser uma liga (jarre- 
teira), de cor azul e com uma fivela de ouro, a qual se usava na 
perna esquerda do cavaleiro. 

As suas cores eram o azul e o ouro. 

O hábito era feito de veludo azul e de cetim branco. 



(*) D. Thomaz de Vilhena, História da Instituição da Santa Ordem da 
Cavalaria e das Ordens Militares em Portugal, pág. 8. 

( 2 ) Edgar Prestage, A Cavalaria Medieval, pág. 158. 

( 3 ) Ibidem, pág. 161. 

( 4 ) Ibidem, pág. 86. 

( 5 ) D. Thomaz de Vilhena, História da Instituição da Santa Ordem da 
Cavalaria e das Ordens Militares em Portugal, pág. 98, nota 1. 

( 6 ) Ibidem, pág. 99. 

( 7 ) João Bautista de Castro, Mapa de Portugal, tomo III, pág. 99. 



94 

Do espólio do Infante D. Henrique, que era cavaleiro da jarre- 
teira, constavam as vestes respectivas Q), entre as quais : 
i cota de todaboça; 

i gibonete de cor aproximada à carmesim; 
i saio de escarlata. 

Foram cavaleiros da jarreteira: o Rei D. Duarte; o Infante 
D. Pedro; o Rei D. Afonso V; e o conde de Avranches D. Álvaro 
de Almada. 



AS ORDENS MILITARES 

Em 107 1 os Turcos Seldjúcidas derrotaram o imperador bizan- 
tino na Arménia e ocuparam a Ásia Menor, ameaçando a própria 
Constantinopla ( 2 ). Jerusalém foi tomada em 1076. 

Assim, no concílio de Clermont, em 1095, pregou-se a cruzada 
contra os infiéis e saiu a doutrina de que toda a pessoa de nasci- 
mento, ao atingir os 12 anos de idade, devia jurar solenemente 
perante um bispo que «havia de defender até ao fim os oprimidos, 
as viúvas e os órfãos». Nascera a cavalaria cristã, independente da 
simples cavalaria feudal. 

Pode dizer-se, pois, que desde o concílio de Clermont e o 
início das Cruzadas, a Igreja empreendeu já a conversão da cava- 
laria feudal e a sua canalização para o serviço da religião. 

É possível que o esforço mais notável, empreendido durante o 
período em referência, para harmonizar a teoria com a prática da 
cavalaria cristã, fosse a instituição das grandes Ordens de cavaleiros 
cruzados — os Hospitalários, os Templários e os Cavaleiros Teutó- 
nicos — aos quais se adaptaram os princípios do monaquismo com 
vista à profissão das armas. 

Os membros das ordens militares viviam em comunidade 
conventual e professavam os votos de defender a fé católica, de 
castidade, pobreza e obediência. Eram portanto monges-soldados. 
Quando morriam, tal como os clérigos e os membros das ordens 
religiosas, eram enterrados com o seu hábito. 

Desde os alvores da nossa nacionalidade que as ordens mili- 
tares desempenharam principal papel na cruzada para a libertar 
do poder dos infiéis, guerreando-os continuamente ( 3 ). 



(*) A. J. Dias Dinis, Estudos Enriquinos, pág. 289. 

( 2 ) Sir Israel Gollancz, in A Cavalaria Medieval, de Edgar Prestage, 
pág. 18 e seg. 

( 3 ) Edgar Prestage, A Cavalaria Medieval, pág. 163. 



95 

Compreendiam, então, as ordens dos Templários e dos Hospi- 
talários e duas ordens espanholas — os cavaleiros de Calatrava e os 
de Santiago da Espada. 

Embora a maior parte dos membros das ordens militares fossem 
portugueses surgiram dificuldades por estarem sujeitas a superiores 
estrangeiros, pelo que reis sucessivos procuraram obter a sua isenção 
da jurisdição estranha. 

O Rei D. Dinis manifestou ao Papa João XXII que a Ordem 
de Santiago da Espada possuía castelos nas fronteiras, pelos quais 
os Castelhanos podiam invadir Portugal, a não ser que eles esti- 
vessem na posse dos seus súbditos. 

Nas grandes Ordens de Cruzados encontravam-se ligados os 
dois elementos primordiais da Cavalaria: a guerra e a religião. 
Encontram-se também ligadas nas Ordens monásticas de Cavalaria 
que se estabeleceram em Espanha e Portugal com o fim de comba- 
terem os mouros e de reaver do Crescente para a Cruz a Península. 
Tais foram as ordens de Santiago da Espada, de Calatrava, de Avis 
e de Cristo ( 1 ). 

Dizia o Rei D. João I que as quatro colunas do esplendor e 
florescência do seu reino eram os mestres das três Ordens de Avis^ 
de Cristo e de Santiago e o prior do Crato, da Ordem do Hospital ( 2 ). 

Por isso procurou, com autorização pontifícia, que o governo 
e administração das ordens militares portuguesas passassem aos 
seus filhos, seguindo também essa orientação o Rei D. Duarte ( 3 ). 

Assim, D. João I entregou a Ordem de Santiago ao Infante 
D. João, em 141 8, e a Ordem de Cristo ao Infante D. Henrique, 
em 1420; e o Rei D. Duarte a Ordem de Avis ao seu irmão o Infante 
D. Fernando, em 1434. 



A ORDEM DOS HOSPITALÁRIOS 
DE S. JOÃO DE JERUSALÉM 

Dedicaram-se, a princípio, à obra de caridade de manterem 
em Jerusalém dois hospitais ou hospícios para abrigo e conforto 
dos peregrinos da Europa Católica. 

Foi cerca de 1 1 1 8 que a secção masculina da Ordem, os Irmãos 
de S. João de Jerusalém, juntou às suas actividades a militar. Além 
da obrigação originária de fornecer abrigo e servir os peregrinos, 



(*) Edgar Prestage, A Cavalaria Medieval, pág. 25. 

( 2 ) Olímpio de Melo, Ordens Militares Portuguesas e Outras Condecorações» 
pág. 24. 

( 3 ) Monumenta Henricina, Vol. V, pág. 70. 



96 

assumiram o encargo e consagraram-se à missão de defender o 
reino cristão de Jerusalém. 

Tomada esta cidade por Saladino em 1187, passaram a Acre. 
Tomada esta, em 1291, passaram a Chipre e, em 1310 a sede trans- 
portou-se para Rodes onde se conservou até esta cidade ser tomada 
pelos Turcos Otomanos em 1422, passando então a Malta. 

A Ordem dos Hospitalários foi introdu2Ída em Portugal, 
entre 11 12 e 1128, sendo a sua principal dignidade neste reino o 
grão-priorado do Crato. 



A ORDEM DOS TEMPLÁRIOS 

Eram assim conhecidos, por o local da sua casa primitiva ter 
sido dentro da área do Templo em Jerusalém. 

Fundada cerca de 11 18, desde o princípio que constituiu uma 
Ordem puramente militar, empenhada na luta em defesa dos Lugares 
Santos. 

Em 1 128 receberam uma regra e uma série de estatutos redigidos 
por S. Bernardo. O Templário era um monge do mais rigoroso e 
ascético tipo cisterciense votado à castidade, à obediência e à pobreza 
absoluta; mas, ao mesmo tempo, era um cavaleiro devotado à guerra, 
constante e sem tréguas, com o infiel, não devendo descansar enquanto 
a Igreja não reinasse como senhora sobre o mundo. O hábito era 
branco, simbolizando a pureza. 

A Ordem dos Templários foi instituída em Portugal em 1125. 
Segundo consta de vários documentos, à admissão dos templários 
em Portugal foram impostas várias condições, sendo a primeira: 
«Que o seu primeiro objecto seria combater contra os sarracenos 
das fronteiras de Portugal». 

A Ordem dos Templários foi extinta em 13 11 sucedendo-lhe, 
em Portugal, a Ordem de Cristo, fundada em 13 19, pelo Papa 
João XXII por acordo com o Rei D. Dinis. 

A ORDEM DOS CAVALEIROS TEUTÓNICOS 

Desde o seu começo, aliou o tratamento dos doentes e auxílio 
aos pobres com a profissão das armas. 

Foi instituída cerca de 11 28 por um rico alemão que tomara 
parte na primeira cruzada e mudara a sua residência para a Cidade 
Santa. 

A tomada de Jerusalém e de Acre pelos Turcos deixou a Ordem 
sem lar. 



97 

Estiveram estabelecidos em Veneza durante algum tempo, 
mas em breve foram convidados a trocar o seu campo de acção no 
Mediterrâneo pelo Báltico, e a levar a guerra santa contra os pagãos 
da Prússia, da Lituânia e da Estónia. Por conseguinte, em 1309, 
fixaram a sua residência em Mariemburgo e permaneceram na 
Prússia até 1525. 

Os cavaleiros teutónicos «trabalharam sempre com grande 
cuidado na defensão da Igreja católica e aumento da Fé» (*). 

A ORDEM DE CALATRAVA 

Foi fundada em Castela pelos monges de Cister a cuja Ordem, 
em 11 58, o Rei Sancho III deu a cidade de Calatrava com o encargo 
de a defenderem contra os mouros. 

«E deste modo teve princípio esta sagrada Ordem e Cavalaria, 
que foi a mesma Ordem de São Bernardo, com particular instituto 
e fim de defender a fé católica e fazer guerra aos mouros» Q-). 

Na nova Ordem foram recebidos «todos os que (deixando o 
mundo) nela quiseram entrar para perpetuamente servirem a Deus, 
militando contra os infiéis, por defensão e exaltação de sua santa 
fé» ( 2 ). 

«E conhecendo o Papa Alexandre III de quanto proveito e 
utilidade era para a Igreja Católica e reinos de Espanha esta nova 
milícia ou nova congregação da Ordem de S. Bernardo, a confirmou 
no ano de 11 64 com a mesma regra de S. Bento» ( 3 ). 

Os cavaleiros de Calatrava usavam manto branco, cogula e 
escapulário como os mais frades bernardos ( 4 ). 

A ORDEM DE SANTIAGO DA ESPADA 

É esta Ordem «de nascimento e berço, castelhana» ( 5 ). 

Foi criada em 1161 no reino de Leão, em Uclés, «para defensão 
da Fé contra os mouros que ocupavam toda a Espanha» ( 6 ). Passou 
a Portugal, em 1177, ficando dependente do mestrado da Galiza. 



0) Frei Jacinto de Deus, Escudo dos Cavaleiros das Ordens Militares 
pags. 117, 133 e 138. 

( 2 ) Definições e Estatutos dos Cavaleiros da Ordem de N. S. Jesu Christo 
Lisboa, 1628, pág. 58. 

( 3 ) Frei Jacinto de Deus, Escudo dos Cavaleiros das Ordens Militares, pág. 1 38. 

( 4 ) Ibidem, pág. 139. >f e 5 

( 5 ) Ibidem, pág. 88. 

( 6 ) Ibidem. 



98 

A insígnia da Ordem era uma cruz vermelha «à maneira de 
espada», com a maçã em coração e as extremidades das guardas em 
flor de lis, a qual se colocava sobre o manto branco do lado esquerdo. 

A sede da Ordem em Portugal foi, até 1482, em Alcácer do Sal, 
num convento instalado na antiga mesquita dos mouros que, para 
o efeito, foi sagrada logo a seguir à conquista desta vila, no tempo 
do Rei D. Afonso II. 

O prior-mor da Ordem, que residia neste convento, era digni- 
dade prelatícia, tendo mitra Q. 

Os reis de Portugal, como freires de Santiago, procuraram 
tornar-se independentes de Uclés ( 2 ), o que só inteiramente foi 
conseguido em 1440 pelos embaixadores de Portugal (regência do 
Infante D. Pedro) ao Papa Eugénio IV, o cavaleiro Rui da Cunha, 
prior da Colegiada de Guimarães e D. Frei João Manuel, provin- 
cial da Ordem do Carmo e depois bispo de Ceuta e, mais tarde, da 
Guarda. 

O Rei D. João I nomeou o seu filho, o Infante D. João, gover- 
nador e administrador da Ordem de Santiago da Espada, o qual 
morreu em Alcácer-do Sal, em 1442. 

A D. João sucedeu o seu filho D. Diogo que morreu em 1443 e 
a este, o Príncipe D. Fernando, irmão de D. Afonso V, falecido 
em 1470. 

A festa de Santiago celebrava-se com grande pompa no convento 
de Alcácer do Sal e depois no de Palmela para onde passou a sede 
da Ordem, assistindo o Rei, às vésperas, com todos os cavaleiros 
revestidos dos seus mantos; no fim da missa dizia-se uma oração 
pelos cavaleiros defuntos ( 3 ). 



A ORDEM DE S. BENTO DE AVIS 

Foi instituída pelo Rei D. Afonso Henriques, sendo-lhe dada 
por um legado do Papa Alexandre III a regra de S. Bento com a 
reformação de Cister. 

A sua sede inicial era em Coimbra passando, em 1170, para 
Évora, tendo então a invocação de São Miguel. 

Anos depois, o mesmo Rei resolveu sujeitá-la à Ordem de 
Calatrava, que também seguia a regra de Cister, pelo motivo de 



( J ) Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, Portugal, Dicionário Histórico, 
3. a edição, in «Santiago». 

( 2 ) «Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira», in Ordem de Sant'Iago 
da Espada. 

( 3 ) L. Brasier et L. Brunet, Les Orares Portugais, pág. 3. 



99 

ela já ter sido confirmada pelo Sumo Pontífice. Deste modo, havia 
um mestre provincial no nosso país, mas os freires eram dependentes 
da Ordem de Calatrava em que eram professos, estando a Ordem 
sujeita às visitações (inspecções) do mestre de Calatrava. 

Em 121 1, reinando D. Afonso II, a sede da Ordem passou de 
Évora para Avis. 

A missão dos cavaleiros de Avis era combater no campo de 
batalha os infiéis e sacrificarem-se para os expulsar do país ou pregarem 
as verdades do cristianismo para os converterem à religião cristã. 

Faziam o voto de defender a fé católica na guerra e destruir 
as terras dos mouros com perpétuas cavalgadas (*). 

Os cavaleiros de Avis, como os demais monges cistercienses, 
usavam nos conventos ( 2 ) e nas cerimónias religiosas uma cogula 
branca, «mui roçagante» ( 3 ), com um rabo comprido ( 4 ). 

Deviam dormiar com capelos pequenos, de cor negra ( 5 ). 

Na guerra, a forma do hábito era primitivamente um esca- 
pulário curto com capelo de cor preta; depois, D. Afonso IV pediu 
a substituição do capelo por uma cruz verde. Em 1532, expediu-se 
o breve pelo qual se determinava que os cavaleiros trouxessem essa 
cruz sobre o lado esquerdo do peito, em forma de flor de lis, visto 
o escapulário ser embaraço para as armas. 

A Ordem de Avis foi sujeita à de Calatrava até ao tempo do 
Rei D. João I que fora Mestre da mesma Ordem antes de reinar ( 6 ). 

Pretendeu então o Mestre de Calatrava D. Gonçalo Nunes de 
Gusmão visitar a Ordem com o intuito de a reformar. Porém o 
Rei, sabendo da sua vinda a Portugal, mandou avisar o Mestre de 
Avis Fernão Rodrigues de Sequeira que, se D. Gonçalo viesse ao 
seu convento, lhe prestasse todas as honras como hóspede e não 
como a prelado superior. 

D. Gonçalo protestou e lançou excomunhão e, retirando-se 
para Castela, recorreu ao Concílio de Basileia, em 1435, pedindo 
justiça contra o Mestre de Avis, e os seus cavaleiros. O Papa 
Eugénio IV deferiu a essas queixas porém a embaixada de Portugal 
ao concílio conseguiu anular os seus efeitos. 

A completa isenção da Ordem de Calatrava para a Ordem 
de Avis foi alcançada em 1440, pelos mesmos embaixadores ao 



Q) Frei Bernardo de Brito, Crónica de Cister pág. 60? 
( 2 ) Ibidem, pág. 612. F 8 • i 

_ ( 3 ) Frei Jacinto de Deus, Escudo dos Cavaleiros das Ordens Militares 
pags. 129 e 131. 

( 4 ) Frei Bernardo de Brito, Crónica de Cister, pág. 612. 

( 5 ) Ibidem, pág. 603. 

( 6 ) Frei Jacinto de Deus, Escudo dos Cavaleiros das Ordens Militares 
pag. 129. 



100 

Papa Eugénio IV que conseguiram a independência da Ordem de 
Santiago em relação à diocese de Uclés. 

Como acima se disse o Rei D. João I havia sido Mestre de Avis. 
Quando se tornou rei, sucedeu-lhe no mestrado Fernão Rodrigues 
de Sequeira que foi o último mestre eleito porque, por sua morte, 
o Rei D. Duarte proveu no mestrado o Infante D. Fernando, o qual 
foi assim o primeiro governador e administrador da Ordem. 

Falecido D. Fernando cativo em Fez, em 5 de Junho de 1443, 
sucedeu-lhe D. Pedro, filho do Infante D. Pedro. 

Depois da morte de D. Pedro, em 1466, a administração do 
mestrado de Avis passou para o Príncipe D. João, futuro Rei 
D. João II, o qual a veio a resignar em seu filho o Príncipe D. Afonso. 



A ORDEM DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO 

A Ordem dos Templários foi extinta em 1311 pelo Papa 
Clemente V, reinando em Portugal D. Dinis ( x ), ficando os seus 
bens e rendas reservados à disposição da Santa Sé. 

Parecendo ao Rei D. Dinis «que o Papa os desse para fora de 
seus Reinos», mandou por seus procuradores requerer ao Concílio 
de Viena «que os bens que dos Templários ficaram nestes Reinos, 
se não dessem nem alienassem para fora deles». 

Em 13 16 foi eleito o Papa João XXII e a ele enviou D. Dinis 
procuradores para «diante dele justificarem as coisas que alegava». 
«E entre outras muitas coisas que justificou, foram as graves injú- 
rias, grandes e multiplicados males que os infiéis inimigos da Cruz 
de Cristo faziam de contínuo nas partes deste Reino, vizinhas às do 
Algarve, que tinham ocupadas; e que com as rendas e bens que 
ficaram dos Templários (sendo para isso aplicados) podiam ter 
remédio com grandes esperanças de grande acrescentamento da 
Santa Fé Católica. E porque a vila de Castro Marim estava na fron- 
teira donde os inimigos residiam e o sítio dela era acomodado para 
se fortificar, foi da parte del-Rei D. Dinis pelos procuradores sobre- 
ditos informado o Papa que nela se podia assentar e fundar uma 
nova e santa Religião militar cujos cavaleiros e professos, deixadas 
as vaidades do mundo e incitados com zelo da verdadeira fé, não 
somente resistiriam às injúrias dos inimigos infiéis, mas ainda os 
lançariam fora e recuperariam as outras partes que por eles estavam 
tirânicamente ocupadas; e para isto ofereceram ao Papa da parte 



(!) Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de N. S. Jesu 
Christo, Lisboa, 1628, pág. 53. 



101 

de el-Rei D. Dinis a dita vila de Castro Marim, com todas suas rendas, 
jurisdição, mero e misto império». 

«E como a petição era tão justa e o remédio tão necessário» 
o Papa João XXII, no ano de 13 19, «a pedimento de el Rei D. Dinis, 
instituiu e fundou, authoritate Apostólica, esta nova Ordem Militar, 
para honra de Deus, exaltação da Fé católica, amparo de cristãos, 
abatimento e opressão dos infiéis, e quis que se nomeasse, para 
sempre, Ordem da Milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo; e que a 
casa principal dela fosse em Castro Marim; e mandou que, como 
em própria Ordem, professassem os cavaleiros dela as observâncias 
regulares da regra e ordem de Calatrava e gozassem de todos os privi- 
légios, liberdades e indulgências concedidos a seus Mestres e Cava- 
leiros; e por este respeito lhe deu por primeiro Mestre D. Gil 
Martins, porque era cavaleiro professo e Mestre na Ordem de 
S. Bento de Avis, e por superior e visitador ao Abade de Alcobaça, 
da Ordem de Cister, por serem as mesmas de Calatrava». 

O Papa logo «concedeu, doou, uniu e incorporou» à nova 
Ordem todos os bens «que ficaram da Ordem do Templo nestes 
reinos de Portugal e dos Algarves». 

Os cavaleiros da Ordem de Cristo tinham como «primeira e 
principal obrigação pelejar contra os inimigos da Cruz de Cristo, 
assim para aumentar a sua santa fé, como para a defender e conservar, 
estando sempre prontos com suas armas para favorecer e servir à 
Santa Igreja Católica com propósito de dar a vida para sua defensão 
e aumento» (*). 

Usavam como hábito, na guerra, por serem mais apropriados 
para ela, «mantos cerrados, isto é, não abertos à frente, sendo, 
portanto, mais propriamente vestes do que mantos» ( 2 ). Os mantos 
cerrados eram talhados em tecido de lã branca e apertados com 
cordões brancos, não sendo permitidos forros, botões ou alamares. 

Os cavaleiros eram obrigados a trazerem o manto sempre 
consigo, vestindo-o na hora da morte e devendo ser nele enterrados ( s ). 

A Ordem de Cristo dividia-se em Freires Regulares, de cogula, 
que viviam no convento de Tomar em suma observância, Clérigos 
e Seculares ( 4 ). 

As formas das cogulas de que usavam os religiosos de Tomar 
eram à imitação das cogulas dos monges cistercienses e os mantos 
tinham a forma das capas dos conversos (leigos) da mesma Ordem ( 5 ). 



( x ) Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de N. S. Jesu 
Christo, Lisboa, 1628, pág. 76. 

( 2 ) Ibidem, pág. 73. 

( 3 ) Ibidem, pág. 75. 

( 4 ) Padre Francisco de Santa Maria, O Ceo Aberto na Terra, pág. 589. 
( 6 ) Frei Manuel dos Santos, Alcobaça Ilustrada, pág. 155. 



102 

O bispo de Lamego D. João Vicente, que depois foi bispo 
de Viseu, fez a «Reformação da Regra e modo de viver» da Ordem 
de Cristo; «a qual comissão posto que foi expedida no ano da 
encarnação do Senhor 1434 não foi apresentada ao dito bispo (de 
Lamego) senão no ano de 1443» (*). 

O Infante D. Henrique, foi nomeado, por súplica de seu pai 
o Rei D. João I ao Papa Martinho V, em 1420, governador e admi- 
nistrador do Mestrado da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo ( 2 ). 



A IDEIA DE CRUZADA EM PORTUGAL 

Nos começos do século xn, «a Espanha inteira é uma zona de 
Cruzada, onde a Igreja, fracassado o intuito de vencer o árabe na 
Terra Santa, vai tentar atingi-lo mortalmente» ( 3 ). 

Os monges de Cister percorrem a Europa pregando a Cruzada ( 4 ). 

S. Bernardo redige os estatutos da Ordem dos Templários, 
monges-soldados que prometem solenemente resgatar os lugares 
santos. 

Os Templários entram no condado portucalense durante a 
regência da rainha D. Teresa. A sua divisa é: «Non nobis, Domine, 
non nobis, sed no mini tuo da gloriam». 

Outras ordens militares se instalaram em Portugal, todas 
tendo o mesmo fim: «A defensão da Fé, a guerra contra os Mouros 
e o aumento da monarquia» ( 5 ). 

Os reis de Portugal não se limitam a guerrear os sarracenos nas 
fronteiras do seu território. D. Afonso IV combate-os no Salado, em 
auxílio do rei de Castela e D. João I vai arrebatar-lhes a cidade de 
Ceuta. 

Os papas reconhecem-lhes as suas campanhas para exalçamento 
da Fé de Cristo. Martinho V, numa bula de 141 8, diz que o rei 
D. João I, ardendo em zelo de propagação da fé cristã, resolveu 
empregar o poderio que pelo Sumo Rei lhe foi dado na exaltação 
do seu glorioso nome e no extermínio dos seus inimigos, e que 
esse mesmo rei D. João, como esforçado atleta e campeão da fé 



Q) Mss. 755, fundo antigo da Biblioteca Nacional, fl. XIIII, in Jordão 
de Freitas, A Casa do Infante D. Henrique no Promontório Sacro e o Matemático 
Bolonhês P. Egídio, Separata de Portucale, vol. XVI, pág. 6. 

( 2 ) António Domingues de Sousa Costa, O. F. M., O Infante D. Henrique 
na Expansão Portuguesa, Braga, 1960, pág. 72. 

( 3 ) Costa Brochado, Infante D. Henrique, pág. 48. 

( 4 ) Ibidem, pág. 50. 

( 6 ) Comte de Broqua, Le Portugal feudataire de Clairvaux, Dijon, 1927, 
págs. 34, 35 e 36. 



103 

católica, pretendia prosseguir vigorosamente a vitória que lhe foi 
dado alcançar contra os referidos infiéis Q. 

Eugénio IV, numa bula de 1436, Rex Regum, diz que D. João I 
passara à África com um exército para combater os sarracenos, 
que afligiam e insultavam os cristãos com mortes e cativeiros, e que 
lhes tomara o lugar de Geuta, e que D. Duarte, seu filho e sucessor, 
querendo seguir o exemplo paterno, e com todo o poder de seus 
reinos, arrancar das mãos dos infiéis as terras ocupadas por eles, 
a fim de as converter à lei de Cristo, pedira à Igreja que o ajudasse ( 2 ). 
O mesmo papa Eugénio IV, numa bula de 1437, diz que D. João I, 
pai do rei D. Duarte, havia representado ao seu antecessor Martinho V 
que ele, para dilatação da fé, pela disposição do céu e com mão 
poderosa tinha submetido ao seu domínio o lugar de Ceuta, que 
estava em poder dos pérfidos e infiéis agarenos e sarracenos, inimigos 
e blasfemos do nome cristão e da cruz redentora. Que D. Duarte, 
com outros cuja acção e vontade estavam dispostas a esta obra tão 
aceitável a Deus, se propunha entrar nas terras dos infiéis e tratar 
com eles como inimigo, mostrando-lhes o sinal da cruz para que, 
deixando os acervos e precipícios em que encrueciam, com humil- 
dade e pureza de coração se convertessem a Deus ( 3 ). 

Ainda o papa Eugénio IV, num bula de 1442, diz que: «D. João I 
arrancara Ceuta do jugo dos infiéis e se propusera fazer-lhes guerra 
e convertê-los à fé cristã; e que, para melhor o poder fazer, a seu 
pedido, Martinho V lhe concedera que podesse tratar e comerciar 
com eles. Ele, Pontífice, a petição de D. Duarte, fizera a mesma 
concessão. E pois que D. Afonso V queria seguir as virtuosas 
sendas de seus progenitores e se propunha, como intrépido campeão 
e invicto atleta da fé cristã, continuar valentemente a guerra contra 
os agarenos e sarracenos, lhe suplicara que pudesse negociar e tratar 
com eles. Inclinado benevolamente a deferir estas súplicas, concede 
o Pontífice que el-Rei ou os que ele ordenar possam comerciar 
com os ditos infiéis... ( 4 ). 

Em 1443, o mesmo papa Eugénio IV, diz numa bula que 
D. Afonso V, assim como os Infantes D. Pedro e D. Henrique, 
tencionavam passar ao solo africano para estenderem a fama e a 
conquista, e tornarem ao jugo de Cristo os terras sujeitas aos infiéis ( 5 ). 

O Papa Nicolau V, numa bula de 145 2, autoriza o rei D. Afonso V 
a fazer guerra aos sarracenos, pagãos e outros infiéis e inimigos de 



í 1 ) João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, vol. I, 
pág. 248. 

( 2 ) Ibidem, pág. 365. 

( 3 ) Ibidem, pág. 378. 

( 4 ) Ibidem, pág. 411. 

( 5 ) Ibidem, pág. 420. 



104 



Cristo, e a invadir, conquistar e subjugar as terras por eles ocupadas; 
concede-lhe a faculdade de reduzir a escravidão perpétua as pessoas 
dos referidos infiéis, e de se apropriar dos bens deles e convertê-los 
em seu uso e dos seus sucessores; e exorta o soberano português 
a prosseguir na luta contra os mesmos sarracenos ( x ). 



AS ORDENAÇÕES AFONSINAS 

As leis que regiam em Portugal no tempo de D. João I eram 
múltiplas e complicadas. Por isso os Povos em cortes propuseram 
ao Rei que mandasse reformar e compilar as Leis, reunindo em 
colecção aquelas que merecessem ficar regendo. 

O Rei D. Duarte encarregou desta obra a João Mendes, cava- 
leiro e seu corregedor da corte, por cuja morte sucedeu na mesma 
tarefa o Doutor Rui Fernandes, do seu Conselho. Foi concluida e 
publicada em 1446, em nome de D. Afonso V, sendo Regente o 
Infante D. Pedro, depois de revista pelo sobredito Rui Fernandes, 
por Lopo Vasques, corregedor da cidade de Lisboa, e pelos desem- 
bargadores Luís Martins e Fernão Rodrigues. É o nosso mais 
antigo código ,ou colecção sistemática de leis, conhecida pelo nome 
de Ordenações Afonsinas ( 2 ). 

Quando D. Duarte pensou em sistematizar num corpo metó- 
dico, o direito geral do país, influenciado pelas escolas de Itália 
e pelo estudo do direito romano, e cometeu esse trabalho ao Doutor 
Rui Fernandes, lá estava o Manga-Ancha (Doutor Diogo Afonso) 
fazendo parte duma espécie de comissão de revisão formada de 
jurisconsultos do seu conselho, como braço direito que era de 
D. Duarte» ( 3 ). 

OS ESTADOS SOCIAIS NO SÉCULO XV 

No Título LXIII das Ordenações Afonsinas considera-se a 
sociedade de então dividida em três Estados ou Ordens : Defensores, 
Oradores e Mantedores. 

O referido Título começa pela forma seguinte: «Defensores 
son hun dos três estados que Deos quis per que se mantivesse o 
mundo, ca ben asi como os que rogan pelo povo chaman oradores, 
e aos que lavram a terra porque os homês han de viver e se manten 



( J ) João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, vol. T, 
pág. 492. 

( 2 ) M. A. Coelho da Rocha, A História do Governo e da Legislação de Portugal, 
Coimbra, 1843, pág. 119. 

( 3 ) Júlio Dantas, Outros Tempos, pág. 94. 



105 

son ditos mantedores, e estos que han de defender, son chamados 
defensores ...» (*). 

Mais adiante lê-se: «...e porque aqueles que mais principal- 
mente pertence a defenson son os cavaleiros a que os antigos chamaron 
defensores por algumas razões s. porque son onrrados, e porque son 
asinadamente estabelecidos e hordenados pêra defender a terra e 
acrecentala». 

O rei D. Duarte escreveu também acerca dos Estados Q). 

Sobre os Oradores diz que se entendem os clérigos, frades e os 
ermitães, sendo o seu próprio e principal ofício rogar pelas suas 
orações a Nossa Senhor por todos os outros estados, e pelos seus 
ofícios louvá-lo e honrar pelas suas boas vidas e devotas cerimó- 
nias, e aos outros ensinar pela palavra e bom exemplo e ministrar 
os sacramentos. 

Sobre os Defensores diz que devem sempre estar prestes para 
defender a terra de todos os contrários, tanto como dos adversários 
de fora como dos soberbos e maliciosos que nela moram. 

Sobre os Mantedores diz que os lavradores e os pescadores 
são como os pés em que toda a cousa pública se mantém e suporta 
e que devem ser ajudados «pêra tirarem per seu trabalho aqueles 
fruitos da terra e do mar em que todos nos governamos». 

Mais adiante faz referência aos que se lançam a «trautar de 
mercadoria» e aos que criam «bestas e gaados», evidentemente per- 
tencentes ao estado dos mantedores. 

No ano de 1385 realizaram-se cortes em Coimbra nas quais 
foram oferecidos ao rei D. João vários capítulos gerais ( 3 ). 

No 1 .° capítulo declara-se que os Estados dos Povos dos Reynos 
eram quatro («o Estado é partido em estas partes») : Prelados, Fidalgos, 
Letrados e Cidadãos. 

Segundo o Dr. Vitorino de Magalhães Godinho ( 4 ), na concepção 
medieval Deus hierarquizara a cidade terrena em três graus : Oratores, 
Bellatores, Laboraíores; esta concepção ajustava-se ao quadro da 
economia dominial fechada que dominou do século ix ao xi e 
ainda continuou a exercer papel de relevo na estrutura agrária dos 
séculos seguintes, mas modificada ; no seu apogeu os que trabalhavam 
eram quase todos lavradores. Já no século xiv alguns pensadores 
reconhecem o carácter providencial da classe dos Mercatores, inse- 
rindo-a logo abaixo dos Guerreiros ou Defensores. 



(*) D. António Caetano de Sousa, Provas da História Genealógica da Casa 
Real Portuguesa, Tomo III, i. a parte, pág. 422. 

( 2 ) Leal Conselheiro, Lisboa, 1843, pág. 15. 

( 3 ) Marcelo Caetano, As Cortes de 1385, in «Revista Portuguesa de 
História», tomo V, vol. II, pág. 77 

( 4 ) Vitorino de Magalhães Godinho, Documentos sobre a Expansão Portu- 
guesa, vol. II, pág. 125. 



106 

No parecer do Infante D. João sobre a projectada expedição 
a Tânger ( x ) diz-se: «...certo é que, para governança do mundo 
foram três estados ordenados, a saber, Oradores, Lavradores e 
Defensores...». 

O Dr. Vitorino de Magalhães Godinho separou na sociedade 
portuguesa do século xv um novo tipo social — por ele designado 
o cavaleiro-mercador — forjado no cadinho dos descobrimentos ( 2 ). 

O Infante D. Pedro escreveu que «o principal membro da 
comunidade é o estado eclesiástico e dos oradores» ( 3 ). 

Este mesmo Infante também escreveu que os estados do reino 
eram: o da Clerezia, o dos Fidalgos e o do Povo ( 4 ). 

Até ao Rei D. João I, os primeiros de entre a Nobreza eram os 
Ricos-Homens, seguindo-se-lhe os Infanções e os Vassalos. Vassalo 
era um título de nobreza que se dava àqueles que recebiam contia 
dos Reis ou dos Ricos-Homens, com a obrigação de os acompanhar 
e servir na guerra. Os dos Reis, deviam ser fidalgos de linhagem. 
Todos estes eram conhecidos pelo nome geral de Fidalgos. Seguiam- 
-se-lhes os Cavaleiros e os Escudeiros ( 5 ). 

Depois de D. João I desapareceram os títulos de Rico-Homem 
e Infanção e caiu em desuso o título de vassalo. À nobreza de 
segunda ordem composta dos simples fidalgos e dos cavaleiros e 
escudeiros, acresceu-lhe a classe dos Doutores e em geral dos 
Letrados ( 6 ). 



AS ESCOLAS DA SÉ DE LISBOA 



Segundo o Dr. António José Saraiva, a partir do concílio 
de Latrão de 1179, f°i determinado que em cada diocese o bispo 
estabelecesse uma escola de gramática e teologia, sob a direcção 
de um membro do cabido, o chanceler ou o mestre-escola. O conjunto 
de conhecimentos sobre a língua latina constituía a Gramática; 
o conjunto formado pelo conhecimento da Bíblia e de passagens 
dos Santos Padres formava a Teologia. 

É esta a origem das escolas catedrais ou episcopais. 

Q) Vitorino de Magalhães Godinho, Documentos sobre a Expansão Portu- 
guesa, vol. II, pág. 118. 

( 2 ) Vitorino de Magalhães Godinho, A Economia dos Descobrimentos 
Henriquinos, pág. 213. 

( s ) Infante D. Pedro, O Livro da Virtuosa Benfeitoria, 3." ed., com uma 
introdução e notas por Joaquim Costa, Porto, 1946, pág. no. 

( 4 ) J. P. Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Lisboa, 1947, pág. 349. 

( 5 ) M. A. Coelho da Rocha, História do Governo e da Legislação em Portugal, 
2. a ed., pág. 67. 

( 6 ) Ibidem, pág. 115. 



107 

O mais antigo mestre-escola, em Portugal, apareceu-nos em 
Braga, no século xn, com a designação de «Cabiscol» (de caput 
scholae, chefe da escola). 

Santo António, no século xiii, fez os primeiros estudos nas 
escolas da catedral de Lisboa (*). 

Frei Francisco Brandão, na Monarquia Lusitana, refere que 
«nas catedrais do nosso Reino ensinavam-se as letras, aonde para 
os que as estudavam, havia livrarias públicas» ( 2 ). 



O PAÇO DA ALCÁÇOVA 



A família real portuguesa, no século xv, quando se encontrava 
em Lisboa, habitava no Paço da Alcáçova situado junto ao castelo 
de S. Jorge e de que restam vestígios: a «casa ogival» onde está 
instalado o museu e uma casa abobadada adaptada a restau- 
rante. 

Foi o Rei D. Dinis que o começou a utilizar e aí mandou colocar 
o seu retrato e o da Rainha D. Isabel sua esposa. D. Afonso IV, 
seu filho, mandou também pintar os retratos dos seus antecessores. 
Esta colecção decorava os vastos salões do paço, mas, segundo 
consta, foi transportada para Espanha no tempo da dominação 
Filipina ( 3 ). 

D. João I fez importantes obras no Paço em 1433. 

O Paço da Alcáçova era de arquitectura irregular e dentre as 
suas divisões destacava-se a «sala grande» que tinha 48 passos de 
comprimento por dezoito de largura e onde se reuniram cortes 
e se realizaram muitas cerimónias e festas oficiais ( 4 ). 

A capela real existente no Paço era dedicada a São Miguel. 

Na reprodução de uma gravura do século xvi ( 6 ) verificamos 
que numa das fachadas do Paço estavam rasgadas várias janelas 
geminadas. 

O rei D. Manuel resolveu mandar construir o Paço da Ribeira 
(no local da ala ocidental da Praça do Comércio), no começo do 



(*) António José Saraiva, História da Cultura em Portugal, Vol. I, págs. 84 
e 85. 

( 2 ) Francisco Leitão Ferreira, Noticias Cronológicas da Universidade de 
Coimbra, Coimbra, 1937, pág. 2. 

( 3 ) Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, Portugal in Alcáçova (Paço de). 

( 4 ) Alexandre Herculano, Opúsculos, 5. a ed., tomo VI, pág. 82. 

( 5 ) A. Vieira da Silva, O Castelo de S. Jorge em Lisboa, 2. a ed., 
pág. 102. 



108 

século xvr, e nele se instalou não voltando mais a viver no Paço 
da Alcáçova ( 1 ). 

«Desamparado longos anos pelos monarcas portugueses, aí 
habitou (no paço da Alcáçova) e faleceu em 1530 a infeliz rainha 
D. Joana, segunda mulher de El-Rei D. Afonso V, denominada a 
«Excelente Senhora». 

Creio que entrara neste venerando edifício alguma ruína, visto 
como em 16 de Setembro de 1544 escreveu el-Rei D. João III à 
Câmara de Lisboa, avisando-a do perigo que ameaçava toda a costa 
do paço do castelo» ( 2 ). 

O Rei D. Sebastião pensou em ir habitar o paço, mas não chegou 
a fazê-lo, pelo menos de maneira contínua. Nele recebeu, em 1571, 
o Cardeal Alexandrino. 

Depois do reinado de D. Sebastião nenhuma pessoa real voltou 
a habitar aquela residência ( 3 ). 

Em 1589, a ermida de São Miguel, antiga capela real, estava 
tão desamparada que até lhe chovia dentro ; cheia de teias de aranha, 
não era capaz de servir para o culto. Porém, ainda aí se conservava 
o riquíssimo retábulo representando São Miguel, obra de pintor 
insigne (*). 

Em 1719 já não devia estar na capela de São Miguel o referido 
retábulo pois numa visita que aí fez o Rei D. João V só se conta 
que ele fez oração nessa ermida, «na qual se conserva a devotíssima 
e milagrosa Imagem do Santo Crucifixo, de que é tradição constante 
falou na mesma capela à Rainha Santa Isabel ( 5 ). 



AS PRECEDÊNCIAS DOS FIDALGOS NA CORTE 

De uma determinação do Rei D. Afonso V, de Agosto de 1472 ( 8 ), 
tira o autor os apontamentos seguintes sobre as precedências dos 
fidalgos nas cerimónias conforme a sua maior ou menor categoria. 

O duque de Viseu e de Beja D. Diogo precedia a todos os outros 
fidalgos por ser filho do falecido Infante D. Fernando, irmão do Rei. 

Os outros filhos do Infante D. Fernando vinham a seguir, 
à frente do duque de Bragança D. Fernando e do seu filho o conde 
de Guimarães, D. Fernando. 



( x ) Damião de Góis, Crónica de D. Manuel, Coimbra, Parte IV, pág. 232. 

( 2 ) Júlio de Castilho, Lisboa Antiga, Bairros Orientais, 2. a ed., vol. IV, 
pág. 79. 

( 3 ) Ibidem, pág. 86. 

( 4 ) Ibidem, pág. 45. 

( 5 ) Ibidem, pág. 87. 

( 6 ) Colecção de Livros Inéditos de História Portuguesa, tomo III, pág. 474. 



■■HBUMMR 



109 

Os outros filhos do duque de Bragança, irmãos do conde de 
Guimarães, precediam a todos os condes, com excepção do conde 
de Vila Real D. Pedro de Meneses parente dos reis de Portugal 
e dos de Castela. 

Os condes que tivessem parentesco com o Rei e aqueles a quem 
ele chamasse sobrinhos ou primos ou parentes precediam todos os 
outros condes. 

Dentre os condes que não fossem de sangue real tinha prece- 
dência o que fosse mais antigo na dignidade de conde. 

Desta determinação do rei D. Afonso V podemos deduzir 
as precedências dos principais fidalgos da corte portuguesa cerca 
do ano de 1468, elaborando a seguinte lista: i.° O Infante 
D. Fernando; z.° O duque de Bragança D. Fernando; 3.0 O conde de 
Guimarães D. Fernando; 4. O conde de Vila Real D. Pedro de 
Meneses; 5. O conde de Odemira D. Sancho de Noronha; 
6.° O conde de Valença, de Viana do Alentejo e de Viana D. Henrique 
de Meneses. 

Pelo Instrumento do Auto do Juramento que se fe% em Cortes ao 
Príncipe D. João, que depois foi Rei, Segundo de Nome Q), se pode 
reconstituir a colocação das personagens nas cortes e cerimónias 
celebradas na sala grande do Paço da Alcáçova. 

No dia 25 de Junho de 145 5, na dita sala dos paços reais, o prin- 
cipezinho D. João estava numa cadeira ricamente armada, assentado 
no colo da sua ama. 

Perto dele, de cada lado, de pé, ficaram: à direita o Infante 
D. Fernando, duque de Beja, condestável do reino e governador 
do Mestrado da Ordem de Santiago da Espada; e à esquerda, 
o Infante D. Henrique, duque de Viseu e governador do Mestrado 
da Ordem de Cristo. 

Atrás destes dois infantes estava uma fila de personagens cons- 
tituída pelo marquês de Valença e conde de Ourém, D. Afonso, 
que fazia o ofício de condestável e por isso tinha o estoque levan- 
tado, ficando logo atrás do Infante D. Fernando; pelo duque de 
Bragança e conde de Barcelos, D. Afonso; pelo procurador de 
D. Pedro (filho do Infante D. Pedro), governador do Mestrado de 
Avis ; pelo marquês de Vila Viçosa e conde de Arraiolos, D. Fernando ; 
pelo conde de Vila Real, D. Pedro de Meneses; pelo conde de 
Atouguia, D. Martinho de Ataíde. 

Estavam presentes, também, vários arcebispos e bispos, membros 
da nobreza, procuradores das cidades, etc. 



(*) D. António Caetano de Sousa, Provas da História Genealógica da Casa 
Real Portuguesa, Tomo II, i. a Parte, pág. 104. 



110 

OFICIAIS-MORES DA CASA REAL E DO REINO 
NO SÉCULO XV 

O Condestável era o chefe supremo das tropas tendo atribui- 
ções de comandante dos exércitos e defensor do reino. 

Usava como distintivo do cargo o estoque, espécie de punhal 
com folha de secção triangular, embainhado e virado com a ponta 
para baixo a diferençar del-Rei que o trazia desembainhado e com 
a ponta para cima ( 1 ). 

O Capitão-mor do Mar era o chefe supremo da frota quando ela 
andava no mar em serviço do Rei. 

O Alferes-mor del-Rei tinha o cargo de levar a principal sina 
do rei quando ele fosse em hoste, não a devendo desenrolar, senão 
quando ele mandasse. 

O cargo de Meirinho-mor devia ser desempenhado por um 
homem dos mais poderosos pois lhe competia especialmente prender 
os fidalgos ou homens de grande categoria quando el-rei lho 
ordenasse. 

O Escrivão da Puridade era reputado o ministro principal do 
rei, cujas chancelas tinha a seu cargo para os despachos de graças 
e mercês. 

Aos Alcaides-mores dos Castelos, competia a defesa dessas forti- 
ficações e o governo das povoações que elas defendiam. 

Aos Cavaleiros da Casa Real competia a defesa da pessoa do rei 
em paz e na guerra. 

Os Conselheiros del-Rei eram por este escolhidos para lhe darem 
a sua opinião e conselho sobre assuntos do governo da nação. 



ALGUNS CONDESTÁVEIS DE PORTUGAL 

i.° Condestável: d. Álvaro pires de castro. 

Era irmão de D. Inês de Castro. Foi o primeiro conde de 

Arraiolos e também alcaide-mor de Lisboa. 
2. Condestável: r>. nuno Álvares pereira. 

Foi o terceiro conde de Ourém, o sétimo conde de Barcelos 

e o segundo conde de Arraiolos. 

Faleceu em 143 1. 
3. Condestável: infante d. joão. 

Era filho do rei D. João I e faleceu em 1442. 



Q-) Luís de Ortigão Burnay, in «Boletim do Museu Nacional de Arte 
Antiga», vol. II, n.° 1, 1950. 



/;/ 

4«° Condestável: d. diogo. 

Era filho do infante D. João e faleceu em 1443. 
5. Condestável: D. pedro. 

Era filho do infante D. Pedro. Pouco antes do recontro 

de Alfarrobeira seguiu para Castela deixando pois o cargo 

de condestável. 
6.° Condestável: príncipe r>. fernando. 

Era irmão do rei D. Afonso V e faleceu em 1470. 



OS MAGISTRADOS NO SÉCULO XV 

O livro i.° das Ordenações Afonsinas contém os Regimentos 
de todos os Magistrados desde o Regedor das Justiças e Desem- 
bargadores do Paço, até aos Juizes Ordinários, Vereadores e Almo- 
tacés (*). Todos derivam a sua jurisdição do Rei, o qual, como 
Supremo Magistrado, lhes encarregava muitas vezes o conhecimento 
de causas, que lhes não competia na forma de seus regimentos, ou 
por serem fora do território de sua jurisdição. Podiam promis- 
cuamente exercer funções administrativas e judiciais, por ser então 
princípio corrente em Jurisprudência que todos os Magistrados ainda 
que o seu emprego não fosse propriamente judicial, como os Vedores 
da Fazenda, os Provedores, os Capelães-mores e outros, eram os com- 
petentes para julgar do contencioso nos objectos de sua repartição. 

O Governo Municipal e Económico competia às Câmaras, 
que se compunham dos Juizes, os quais eram seus presidentes natos, 
e dos Vereadores também eleitos pelos Homens Bons. 

Superiores aos Juizes eram os Corregedores das Comarcas, de 
nomeação régia, cujo ofício principalmente consistia em proceder 
contra os malfeitores, manter a jurisdição do Rei contra as usur- 
pações dos donatátios ou do Clero, conter os abusos dos prepotentes 
e fiscalizar nas autoridades e oficiais inferiores o cumprimento dos 
seus deveres. 

Nas causas cíveis de todo o Reino e nos crimes da cidade de 
Lisboa e seu termo, apelava-se para os Sobre-Juizes da Casa do 
Cível, que formavam um Tribunal. As apelações das causas-crimes 
das Províncias iam para os três Ouvidores da Corte. Porém assim 
daquela, como destes, se recorria em última instância, para a Casa 
da Justiça, ou Relação da Corte, que acompanhava esta nas suas ambu- 
lâncias. Nesta entravam os Desembargadores dos agravos ou da 
Suplicação, para o que era judicial e contencioso; bem como os 



(*) M. A. Coelho da Rocha, A História do Governo e da Legislação de Portugal, 
Coimbra, 1843, pág- 121. 



112 

chamados já então do Paço para. o expediente dos negócios de Graça; 
os quais todos constituiam um só Tribunal repartido em diferentes 
mesas, superiormente chefiado pelo Regedor da Casa do Cível, 
um dos cargos mais importantes do governo da nação. Alguns dos 
Desembargadores dos agravos exerciam Varas ou magistraturas 
especiais, como o Corregedor da Corte e o Juiz dos feitos del-Rei. 
Este último, julgava em primeira instância todas as questões sobre 
direitos reais, menos sobre sisas. Os recursos de todos estes era 
directamente para a Relação da Corte. 

Para os negócios da Fazenda Real eram os Vedores, aos quais 
não só competia fiscalizar a arrecadação e contabilidade dos almo- 
xarifes e contadores, mas também julgar as questões sobre este 

objecto. 

O Chanceler-mor do Reino era o magistrado superior encarregado 
de ver que as provisões expedidas pelo Desembargo do Paço não 
fossem contrárias às leis e à justiça, pertencendo-lhe igualmente pôr 
o selo nas cartas e alvarás que tinham de passar pela chancelaria 
e publicar as leis e ordenações feitas pelo soberano. 

AS GUERRAS CONTRA OS MOUROS 

Os três filhos mais velhos do rei D. João I instaram com seu 
pai para que fosse tomada a cidade de Ceuta «não por outra neces- 
sidade senão por serviço de Deus e acrescentamento de vossa 

honra» ( J ). 

O rei ouviu os letrados e teólogos do seu conselho sobre se 
seria lícita a guerra aos infiéis os quais lhe responderam: «...vossa 
mercê pode mover guerra contra quaisquer infiéis assim mouros 
como gentios, ou quaisquer outros que por algum modo negarem 
algum dos artigos da santa fé católica, por cujo trabalho merecereis 
grande galardão do nosso senhor Deus para a vossa alma» ( 2 ). 

O Infante mais entusiasmado com a ideia era D. Henrique, 
o qual «por amor e reverência da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo 
sempre teve mui grande desejo de guerrear aos infiéis, no qual viveu 
e aturou toda sua vida» ( 3 ). 

Consultado pelo rei, o condestável D. Nuno Álvares Pereira 
respondeu: «O que a mim parece é que este feito não foi achado 
por vós nem por outra nenhuma pessoa deste mundo, somente 
que foi revelado por Deus querendo-vos abrir azo e caminho para 

C 1 ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Tomada de Ceuta, Academia das 
Ciências de Lisboa, pág. 29. 

( 2 ) Ibidem, pág. 37. 

( 3 ) Ibidem, pág. 45. 



113 

que lhe fizésseis este tão especial serviço para que vossa alma ante 
ele possa receber grande merecimento Q. 

Resolvida a expedição a Ceuta, D. João I escreveu a todos os 
senhores e fidalgos do seu conselho para se reunirem em Torres 
Vedras onde lhes queria dar conta da sua intenção. 

«E o dia em que se isto houve de começar, era uma quinta-feita, 
na qual el-Rei e seus filhos ouviram uma missa de Santo Espírito 
oficiada com grande solenidade, por tal que a sua santa graça lhe 
pudesse dar verdadeiro conhecimento de tudo o que naquele feito 
por seu santo serviço entendiam de fazer. E dali ficou a El-Rei 
sempre por devoção ouvir semelhante missa cada semana em aquele 
dia não tão somente ainda ele, mas todos seus filhos o costumaram 
sempre em suas capelas enquanto viveram» ( 2 ). 

No conselho, o Rei exigiu a todos que jurassem «no lenho da 
vera cruz e sobre o livro dos evangelhos» guardar segredo do que 
nele se dissesse. 

O primeiro a falar foi o Condestável: «Isto é feito ao Senhor 
e é maravilhoso ante nossos olhos... este feito somente pertence ao 
serviço de Deus e salvação das almas...» ( 3 ). Outros mais deram a 
sua opinião evidentemente favorável. 

Depois deste Conselho o Rei «escreveu a todos os senhores e 
fidalgos e homens de conta suas cartas de percebimento, nas quais 
lhes fazia saber como ele por seu serviço e honra do reino, tinha 
ordenado de enviar seus filhos, s. (a saber) o Infante Dom Pedro 
e o Infante Dom Henrique por capitães de sua frota para o servirem 
no que ele mandasse» ( 4 ). 

A rainha D. Filipa mandou então fazer e guarnecer três espadas, 
em Lisboa, as quais deu, assim como um pedaço de lenho da Vera 
Cruz, aos seus filhos D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique ( 5 ). 

Seguiu a expedição para Ceuta indo o Rei como capitão de 
todas as galés e o infante D. Pedro como capitão de todas as naus ( 6 ). 

Acompanhavam o Rei, além de muitos outros bons cavaleiros: 
os seus três filhos mais velhos; o seu filho natural, D. Afonso conde 
de Barcelos; o condestável D. Nuno Álvares Pereira; o alferes-mor 
do rei João Gomes da Silva, e o seu filho Aires Gomes da Silva; 
o governador da casa do infante D. Pedro, Álvaro Gonçalves de 
Ataíde; o futuro conde de Avranches, Álvaro Vaz de Almada; 



Q) Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Tomada de Ceuta, Academia das 

Ciências de Lisboa, pág. 71. 

( 2 ) Ibidem, pág. 78. 

( s ; Ibidem, pág. 81. 

( 4 ) Ibidem, pág. 90. 

( 6 ) Ibidem, págs. 126 e 127. 

( 6 ) Ibidem, pág. 126. 



114 

o futuro comendador-mor da Ordem de Cristo, Fernão Lopes de 
Azevedo; e João Gonçalves que posteriormente viria a ter a gloriosa 
alcunha de «o Zargo». 

A armada fez escala em Lagos onde o Rei ordenou ao seu 
confessor frei João de Xira «pregasse para que todo o povo pudesse 
verdadeiramente saber qual era a intenção por que se el-Rei movera 
a fazer aquele ajuntamento». 

O frade explicou que D. João I «quis mover-se de fazer tal 
serviço a nosso Senhor Deus, para que merecesse para si e para vós 
outros parte na sua glória, a qual por certo não podia ser maior 
que guerrear os inimigos da nossa santa fé católica» ( x ). 

«E fez um sermão mui santo em louvor da fé e disse que, como 
o conde D. Julião fora capitão de Ceuta, peçonhento basilisco contra 
a fé de Cristo, por onde foi causa de ser tomada de mouros a Espanha, 
assim este Rei havia de ser triaga, por louvor de Deus, para esta 
peçonha e tomar Ceuta primeiro que nenhum rei cristão. Assim 
que o nome de Ceuta, disse, tem três sílabas, significa o Senhor 
Deus em pessoal trenário, em sua essência em roda escrita, cujo 
centro é em todo o lugar. A circunferência, porém, não é em 
algum o o o ; três, porém, são três ternários em geral universidade 
do mundo, cumpridos de todo em circulação. O profundo filosofal 
teólogo Alberto Magno, porém, sobre o primeiro capítulo da celes- 
tial jerarquia dispõe três o o o, graus de entendimento porque se 
há-de conhecer Deus. E concluiu que o nome de Ceuta, por três 
sílabas, significa a Santíssima Trindade e, por cinco letras, escrita 
as cinco chagas de Cristo Nosso Senhor. Muitas coisas disse da fé 
católica de Cristo dignas de notar, que seria grande sermão para 
crónica. Só duas tomei, que é um dito de Paulo, aos Romanos, que 
não somente aqueles que são contra a fé são dignos de morte, mas 
ainda os que consentem os que são contra ela, não lho contrariando 
com todas suas forças. E por esta causa, aquele que se tem por 
cristão e não se dispõe a defender a Santa Fé, não é fiel cavaleiro 
nem membro de Cristo, nem terá parte com ele e é pior que cada um 
dos infiéis. E que esta era causa principal do movimento do dito 
Rei a Ceuta» ( 2 ). 

«Ca todo aquele que vive sob alguma lei é teúdo de se pôr 
a perigo de morte para a guardar e manter. Ca diz Túlio no primeiro 
livro dos ofícios e o filósofo no terceiro livro das Éticas que aquele 
é verdadeiramente forte que vivamente sofre a morte por defensão 
da sua lei. Ora, quando o homem é obrigado a defender as leis 



( x ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Tomada de Ceuta, Academia das 
Ciências de Lisboa, pág. 157. 

( 2 ) Cristóvão Rodrigues Acenheiro, Chronicas dos Senhores Reis de Portugal, 
págs. 220 e 221. 



115 

de sua terra, quanto mais deve ser pela lei de Nosso Senhor Jesus 
Cristo, pela qual somos certos que, posto que morramos em esta 
vida, viveremos sempre na outra, segundo dá testemunho São Leão, 
papa, na vigésima tércia causa e na oitava questão dos degredos 
dos santos padres, onde diz: Tirai todo o pavor e espanto e estudai 
em pelejar esforçadamente contra os inimigos da santa fé, ca Deus 
todo poderoso sabe que se algum de vós outros morrer, que morre 
pela verdade da fé e salvação da sua lei, pelo qual Ele mesmo lhe 
dará o celestial galardão, pondo exemplo de Moisés, coudel do seu 
povo, ca tantos perigos e trabalhos sofreu por defensão da sua 
lei. Porém el Rei nosso senhor, assim como verdadeiro cavaleiro 
se moveu principalmente para fazer serviço a Nosso Senhor Jesus 
Cristo, empecendo aqueles que em doesto da sua lei vivem na terra 
que ele primeiramente deu aos cristãos»^). 

Antes do assalto à cidade, o Infante D. Duarte, ao armar-se, 
«acertou de haver uma pequena ferida em uma mão» ( 2 ). 

Tomada a praça, D. João I confiou a sua defesa a D. Pedro de 
Meneses que ficou como seu capitão-mor, mantendo-se neste posto 
durante muitos anos, sendo os seus serviços recompensados com os 
títulos de conde de Vila Real, em 1424, e de Viana (do Alentejo), 
em 1434. 

D. João I armou então cavaleiros os seus três filhos legí- 
timos ( 3 ) e de volta ao reino, em Tavira, fez os seus filhos 
D. Pedro e D. Henrique, respectivamente duques de Coimbra e 
de Viseu. 

O infante D. Henrique foi encarregado de dirigir todos os 
assuntos respeitantes à defesa de Ceuta, pelo que desde logo teria 
trazida armada no mar, permanentemente, para tal fim ( 4 ). 

Em Agosto de 1419 grande multidão de mouros veio pôr cerco 
à cidade travando-se ferozes e prolongados combates. 

D. Pedro de Meneses pediu socorro para o reino, onde estava 
a preparar-se uma armada para partir para Ceuta sob o comando 
do infante D. Henrique, acompanhado pelos seus jovens irmãos 
D. João e D. Fernando. 

Como não estivessem prontos, resolveram enviar uma força 
avançada de 600 homens escolhidos, comandada por D. João de 



r ... V j ?™?* 5 Eanes de Zurara, Crónica da Tomada de Ceuta, Academia das 
Uencias de Lisboa, pags. 157 e 158. 

( 2 ) Ibidem, pág. 196. 

( 3 ) O seu filho natural, D. Afonso, já havia sido armado cavaleiro também 
por ele, na tomada da cidade de Tui (Crónica de D. João I, Livraria Civilização 
vol. II, pag. 382). * ' 

( 4 ) Francisco Fernandes Lopes, A Figura e a Obra do Infante D. Henrique 
pag. 24. j 1 , 



116 



Noronha, primo do rei, com seu irmão D. Fernando de Noronha 
e muitos outros fidalgos notáveis Q. 

Este destacamento esteve cerca de um mês sem combater. 
Entretanto, chegou uma frota de mouros de Granada que conseguiu 
tomar a ponta de Almina, ficando os portugueses apertados por todos 
os lados. Feriram-se renhidíssimos combates até que a armada dos 
infantes acabou com as esperanças dos mouros em nos arrebatar Ceuta. 
Nos combates deste descerco de Ceuta muitos cavaleiros portu- 
gueses se distinguiram, entre os quais «Soeiro da Costa, um escudeiro 
fidalgo, que vivia com o infante D. Duarte» que «somente se achou 
com três mouros alarves, grandes e fortes com os quais pelejou 
por grande espaço, até que matou dois e feriu um, do qual recebeu 
uma ferida com a agomia ( 2 ) por uma mão, de que a pouco tempo 
ficou de todo sem ela; e este Soeiro da Costa foi ao diante alcaide 
de Lagos e ainda com aquela mão que lhe ficou, pelejou com os 
mouros da Terra de Guiné, onde assim pela bondade passada como 
pela presente foi feito cavaleiro» ( 3 ). Outro dos cavaleiros que 
se distinguiram nestas lutas foi Gonçalo Velho, que depois veio 
a ser comendador da Ordem de Cristo ( 4 ). 

Passados tempos chegaram a Ceuta alguns navios capitaneados 
por D. Fernando de Noronha o qual deu luta aos mouros na terra 
e no mar «recebendo grande louvor». 

Cerca de 1424, o mesmo nobre fidalgo Gonçalo Velho, «dese- 
jando servir a Deus e a el-Rei e acrescentar sua honra, armou uma 
galé na cidade do Porto» ( 5 ) e seguiu para Ceuta que estava com 
muita falta de mantimentos. 

De Ceuta seguiu para Cádiz tendo no caminho tomado um 
cáravo ( 6 ) onde iam treze cavalos e muitos mantimentos «não sem 
peleja dos contrários». 

Resolveu depois Gonçalo Velho atacar uma aldeia dos mouros 
de Granada situada a uma légua da praia. 

Gonçalo Velho que «assim como era de grande coração assim 
abundava em fortaleza corporal», combateu valentemente mas 
«recebeu uma ferida por acerca do olho, por que lhe ao diante conveio 
perder grande parte da vista e foi derribado com um penedo sobre 
umas daroeiras». 

Ajudado pelos companheiros Gonçalo Velho conseguiu recom- 
por-se e vencer os adversários tendo reembarcado. 



(!) Elaine Sanceau, Castelos em Africa, pág. 55. 

( 2 ) Agomia: faca curva de que usam os mouros. 

( 3 ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, pág, 478. 

( 4 ) Ibidem, pág. 493. 

( 5 ) Ibidem, págs. 505 e segs. 

( G ) Cáravo: embarcação usada no Mediterrâneo. 



117 

No caminho para Ceuta encontrou um carracão Ç) de mouros 
que ia carregado de trigo, investindo-o e levando-o para aquela 
cidade, que estava em grande falta de mantimentos, «onde Gonçalo 
Velho, como nobre cavaleiro que era, deu àqueles minguados toda 
sua direita parte». «E assim foram abastados, até que lhes levaram 
o mantimento destes Reinos». 

Por estes tempos, também, Luís Gonçalves que depois foi 
Vedor da Fazenda, indo de Ceuta para Portugal, tomou «uma grande 
e poderosa carraca que andava a tráfego de mouros, e foi achada 
nela mui grande riqueza de que este cavaleiro levou fundamento 
de viver sempre abastado» ( 2 ). 

Em 1429, o filho natural de D. Pedro de Meneses, D. Duarte, 
«que então começava de sair de moço para homem» distinguiu-se 
tanto em combate contra os mouros que os seus companheiros 
pediram ao conde seu pai que o armasse cavaleiro, o que ele fez 
com «natural prazer» ( 3 ). 

Tinha D. Pedro somente uma filha legítima, D. Beatriz, a qual 
casou com D. Fernando de Noronha, tendo o pai da noiva dado um 
avultado dote mas exigindo que o primeiro filho varão que houvessem 
seu genro e sua filha, se chamasse D. Pedro de Meneses ( 4 ). 

D. Fernando de Noronha logo depois de casado demonstrou 
grande valor, em Ceuta, em luta contra os mouros. 

Em 1432 o conde D. Pedro veio ao reino deixando seu filho 
D. Duarte a substituí-lo como capitão de Ceuta. Os mouros apro- 
veitaram a ocasião para atacar a cidade, tendo-os D. Duarte e seu 
companheiros completamente desbaratado. 

Não descansou D. Duarte guerreando continuamente os mouros 
em 1433 e T 434- 

D. Pedro de Meneses voltou então a Ceuta onde chegou o 
capitão-mor do mar Álvaro Vaz de Almada com três navios. 

Sucedeu que os mouros viessem junto à cidade pelo que o 
conde e o capitão-mor foram sobre eles causando-lhes muitos 
mortos. 

Em 1435 veio a Ceuta para combater os mouros e «mostrar 
sua nobreza», D. Sancho de Noronha acompanhado por vários 
fidalgos entre os quais Gonçalo Velho, portando-se com tal valentia 
que mereceu ser armado cavaleiro por D. Duarte de Meneses. 

Em 1436, D. Duarte acompanhado por vários cavaleiros entre 
os quais Rui da Cunha que depois foi prior da colegiada de Guima- 



( x ) Carracão: navio de grande porte do séc. xv. 

( 2 ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, pág. 519. 

( 3 ) Ibidem, pág. 563. 

( 4 ) Ibidem, pág. 569. 



118 

rães, fez uma entrada em terras dos mouros colhendo grande 
vitória ( 1 ). 

Pouco tempo depois vieram os mouros atacar os defensores de 
Ceuta tendo-se distinguido, além de outros, D. Duarte de Meneses 
e Rui da Cunha que matou um nobre mouro. 

Foi em 1437 que se efectuou a infeliz tentativa da conquista de 
Tânger que em outro lugar deste livro se relata, tendo D. Pedro 
de Meneses morrido nessa ocasião, por doença. 

Assim sucedeu D. Fernando de Noronha a seu sogro no condado 
de Vila Real e na capitania de Ceuta e aqui morreu pouco antes 
de 3 de Junho de 1445 ( 2 ). 

Pela sua morte foi 3. capitão de Ceuta o conde de Arraiolos 
D. Fernando o qual depois da morte do infante D. Pedro, portanto 
cerca de 1450, «deixou livremente a capitania a El-Rei». 

D. Afonso V entregou então esta capitania a D. Sancho de 
Noronha que, desde 1446, tinha o título de conde de Odemira. 

Em 1458 seguiu o Rei a conquistar a vila de Alcácer-Ceguer, 
acompanhado pelos infantes D. Henrique e D. Fernando, por D. Pedro 
(filho do infante D. Pedro), pelo conde de Ourém e já então marquês 
de Valença, D. Afonso, pelo conde de Arraiolos e já então marquês 
de Vila Viçosa, D. Fernando, e seus filhos D. Fernando e D. João, 
pelo conde de Odemira e por muitos outros fidalgos. A nau 
del-Rei chamava-se «Santo António». 

A vila foi tomada em 23 de Outubro tendo ficado por seu capitão 
D. Duarte de Meneses. 

O rei de Fez juntou então as suas forças para vir recuperar a 
vila tendo-lhe o Rei enviado um desafio por Martim de Távora e 
Lopo de Almeida, o qual não foi aceito. 

Em Novembro o rei de Fez veio com muita gente pôr cerco 
à vila flagelando-a com tiros de bombarda grossa. Sofreram os 
portugueses com grande heroismo e privações o forte cerco animados 
pelo capitão D. Duarte de Meneses que foi ferido «de uma seta dos 
mouros... de uma pequena ferida a fundo do beiço» ( 3 ). 

Os portugueses comandados por D. Duarte de Meneses e seu 
filho D. Henrique conseguiram que os mouros levantassem o cerco. 
Para defesa de Alcácer começou-se a construir uma couraça, 
em Março de 1459, <<na °l ua ^ °b ra D. Duarte, de noite e de dia, para 
bom exemplo de todos assim servia e melhor que qualquer outro 
pobre serviçal que aí andasse». 



(*) Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, pág. 613. 

( 2 ) Anselmo Braamcamp Freire, Livro Terceiro das Brasões da Sala de 
Sintra, pág. 265. 

( 3 ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Duarte de Meneses, 
pág. 109. 



119 

No Verão de 1459 voltaram °s mouros a cercar a vila mas 
foram rechaçados ao fim de 53 dias de porfiadas lutas, tendo-se 
distinguido muitos cavaleiros, entre os quais Pedro Gonçalves^). 

Em 1460 D. Duarte veio ao Reino tendo sido feito então, pelo 
Rei, conde de Viana (do Minho). 

Em 1461 morreu o 1.0 duque de Bragança D. Afonso suce- 
dendo-lhe o seu filho segundo o marquês de Vila Viçosa D. Fernando, 
visto em 1460 ter morrido o primogénito, o marquês de Valença 
D. Afonso. 

Neste mesmo ano o filho mais velho do duque D. Fernando, 
que tinha o mesmo nome do pai, «por acrescentar em sua honra» 
foi a Alcácer com licença del-Rei com bastante gente de cavalo e 
de pé e muitos fidalgos. 

Acompanhado pelo conde D. Duarte de Meneses «a que o duque 
seu padre e ele tinham grande afeição, entraram muitas vezes em 
terra de mouros e foram correr até às portas da cidade de Tânger 
onde se fizeram honrosos feitos de armas». «E fizeram outras coisas 
em que D. Fernando ganhou bom nome e muita honra». «E El-Rei 
por seus serviços e merecimentos o fez primeiro conde de Guimarães, 
porque depois quando casou com a duquesa D. Isabel filha do infante 
D. Fernando, por honra de tão honrado casamento foi em vida de 
seu padre feito e intitulado duque da mesma vila de Guimarães». 

Em 1462 resolveu D. Afonso V ir à África fazer o escalamento 
de Tânger, o que foi desaconselhado por D. Duarte de Meneses 
mas com que concordou o conde de Vila Real D. Pedro de Meneses 
que era capitão-donatário de Ceuta desde Junho de 1460 e então 
se encontrava na corte. 

El-Rei e o infante D. Fernando assim como o duque de Bragança 
e os seus filhos, partiram de Lisboa no ano de 1463, «cuja passagem 
de todo era descoberta e divulgada». Em Lagos recolheu El-Rei 
o conde de Odemira e o Almirante. Apesar dos estragos que uma 
grande tormenta fez na armada, resolveu o Rei acometer a cidade 
não tendo sido porém feliz e retirando-se para Ceuta e o seu irmão 
D. Fernando para Alcácer. 

Neste mesmo ano de 1462, D. Duarte de Meneses mandou uma 
caravela combater um corsário provençal que apareceu diante de 
Alcácer. O seu filho D. Henrique de Meneses que teria uns treze 
a catorze anos de idade ( 2 ) instou com seu pai para seguir na cara- 
vela, o que conseguiu, mas foi ferido no combate naval «de uma seta 

(*) Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Duarte de Meneses 
pág. 227. 

C) ---Ca posto que ele já em idade quase não devida para suportar o 
trabalho das armas... (Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Duarte 
de Meneses, pág. 282). 



120 

pela boca, a qual passando de sob a língua foi à outra parte do pescoço 
rachando-lhe dois dentes da ordem de baixo» Q. 

O Infante D. Fernando, em Dezembro, «partiu de Alcácer com 
todolos senhores da hoste salvo o duque (de Bragança) e o conde de 
Vila Real que ficaram em Ceuta», e foi correr umas aldeias de mouros, 
obtendo grandes despojos, mas tendo morrido quinze cristãos «por 
mau resguardo». 

O Infante D. Fernando resolveu tentar sozinho o segundo 
escalamento de Tânger, sem pedir a necessária autorização a seu 
irmão o Rei que estava em Ceuta, e contra o parecer dos do seu 
Conselho, sendo porém incitado pelo conde de Odemira que pretendia 
e então obteve do Infante, que era administrador da Ordem de San- 
tiago, a respectiva comenda-mor. O Rei, avisado a tempo, pôde 
impedir essa loucura. 

Em Janeiro de 1464, o Infante agora autorizado pelo rei seu 
irmão, tentou o escalamento de Tânger pela terceira vez, do que 
resultou um grande desastre para os portugueses dos quais ficaram 
mortos ou cativos cerca de trezentos. 

O Rei continuava em Ceuta e aí o vieram desafiar quatro mouros 
para que ele fosse escaramuçar com as aguerridas gentes da serra de 
Benacofú. 

Estava nessa ocasião em Ceuta o conde D. Duarte de Meneses, 
capitão de Alcácer, com o único fim de despachar os seus negócios 
com o Rei e por isso «sem cavalos, armas, nem gente». 

Todavia o Rei mandou a D. Duarte «que fosse com ele, ao que 
obedeceu, e porém com carregume e tristeza de sua morte, que a 
alma lhe adivinhava e logo publicamente o disse que aquele dia seria 
sua fim». 

O Rei partiu acompanhado por muitos cavaleiros entre os 
quais: o duque de Bragança e seus filhos, D. Fernando, conde de 
Guimarães, e D. Afonso que depois foi conde de Faro; o conde de 
Vila Real, D. Pedro de Meneses; e o conde de Viana D. Duarte 
de Meneses e seu filho D. Henrique de Meneses. 

Chegados à serra de Benacofú, os portugueses combateram 
com enorme valentia a multidão de mouros que os envolveu 
«e certamente como quer que o conde de Vila Real por sua bondade 
de armas outras vezes mereceu e ganhou grande honra e muito 
louvor, neste dia em especial o acrescentou muito mais». 

«E vendo-se já El-Rei mui afrontado, sendo estreitamente 
aconselhado que ao menos das serras se salvasse para o campo, 
chamou o conde D. Duarte e disse-lhe: 



Q) Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Duarte de Meneses, 
pág. 288. 



■Bi 



121 

— Conde, ficai com estes mouros, porque lhes conheceis melhor 
as manhas, e acaudelai esta minha gente. 

E o conde lhe respondeu: 

— Senhor, eu não quisera que em tal tempo me déreis este 
cuidado, especialmente porque não tenho aqui minha gente que 
me conhece, ca pois estes que são presentes e vossos, não 
obedecem a vosso mandado, menos cumprirão o meu, porém pois 
que o assim o haveis por vosso serviço, hei por muito bem empre- 
gado a mim mesmo em qualquer trabalho e perigo que me acon- 
tecer até à morte». 

Assim, o Rei fez uma retirada que D. Duarte de Meneses 
sustentou com o sacrifício da própria vida, tendo caído do cavalo 
e dado grande pancada com a cabeça no chão ficando nela muito 
ferido. Assim ficou à mercê dos mouros que logo acabaram com 
ele. O Rei reconheceu o sacrifício de D. Duarte de Meneses, decla- 
rando a seu filho D. Henrique de Meneses: «Vosso padre acabou 
seus dias em serviço de Deus e meu, por salvar minha vida». Nesta 
ocasião fez o Rei a D. Henrique de Meneses conde de Valença. 

Durante esta malfadada escaramuça, «o estandarte do Rei foi 
abatido e fora tomado senão fora a bondade de Rui de Sousa que 
o defendeu como valente e nobre cavaleiro e dessi o Alferes que era 
homem fidalgo e nobre, e não lhe faleceu o coração e força para 
suster aquele trabalho». O alferes era Duarte de Almeida, o futuro 
«Decepado», o qual logo «chegou com o estandarte e disse a El-Rei 
o especial serviço que lhe em aquele dia fizera Rui de Sousa, pelo 
qual era teúdo de lhe fazer muita honra e mercê: Porque, Senhor, 
se ele não fora, eu ficara hoje sem vida e vós sem estandarte» ( 1 ). 

Morreram nesta escaramuça vários cavaleiros, entre os quais: 
Diogo da Silveira que era escrivão da puridade; Pedro Gonçalves, 
secretário do Rei desde 1449 ( 2 ); Fernão de Sousa, alcaide de Guima- 
rães; e Luís Mendes de Vasconcelos. 



O VOTO DA CRUZADA DE D. AFONSO V 

Em Maio de 1453, a cidade de Constantinopla, capital do 
Império Romano do Oriente, foi tomada pelos turcos, os quais 
ameaçavam invadir a Europa central. 



P) Gomes Eeanas de Zurara, Crónica do Conde D. Duarte de Meneses 
pág. 368. 

( 2 ) D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real 
Portuguesa, Tomo III, pág. 32. 



122 

Por isso, o Papa Calisto III, «por seus breves e mensageiros», 
incitou todos os reis e príncipes cristãos à Cruzada contra aqueles 
infiéis. 

D. Afonso V, «que como era Príncipe muito católico e de grande 
coração e em que o real sangue para mais honra servia, sendo a 
Rainha ainda viva, aceitou a empresa com promessa de servir a 
Deus naquela guerra com doze mil homens, por um ano, à sua 
custa, para execução da qual, em fazimento de navios e compra de 
armas e em outras coisas a tal e tão longa viagem necessárias fez 
grandíssimas despesas, não sem grandes lamentações do , reino» ( x ). 

A decisão de se fazer «uma armada por serviço de Deus e 
defensão da Santa Igreja contra o arrenegado Turco» foi tomada 
em cortes gerais reunidas em Lisboa, em Julho de 1456 ( 2 ). 

«E em fim El-Rei por então desistiu daquela ida, assim porque 
lhe faleceu para isso muito dinheiro, como porque o Papa Calisto 
faleceu, que deu causa aos outros Príncipes também desistirem» ( 3 ). 

A desistência de D. Afonso V foi além disso motivada por 
ele ter sido «certificado que el-Rei de Fez, sabendo de sua partida 
fora de seus reinos, se aparelhava vir, como veio, sobre Ceuta» ( 4 ). 

«E tendo El-Rei muita frota e gente prestes, para a empregar 
como dizia» ( 5 ), ocorreu-lhe «passar em África», pois «especialmente 
pressupunha que el-rei de Fez maguado de chagas novas, que com 
sua passagem tomando algum lugar receberia, viria sobre El-Rei 
que lhe daria batalha e com ajuda de Deus o venceria» ( 6 ). 

Poderemos reconstituir o que se passou, da maneira seguinte. 

Em 1456, estava em Itália acompanhando o cardeal D. Jaime 
de Portugal o seu mestre, conselheiro e amigo, o bispo de Silves 
D. Álvaro Afonso. 

Em 15 de Fevereiro desse ano o Papa Calisto III expediu uma 
bula a ele dirigida, como legado da Santa Sé em Portugal ( 7 ). Nessa 
bula, manda que exponha ao rei, que o seu maior desejo era debelar 
os turcos, para o que tinha concedido a décima de todos os rendi- 
mentos eclesiásticos em todo o orbe católico, e tinha prometido 
certas indulgências, além das que seus predecessores haviam libe- 
ralizado, aos que em pessoa fossem à expedição, aos que mandassem 
alguém por si, ou aos que de algum modo ajudassem a empresa. 
Declara o Pontífice, que para esta missão o envia como seu legado 



O Rui de Pina, Crónica del-Rei D. Afonso V, vol. II, cap. CXXXV. 

( 2 ) Pedro de Azevedo, Documentos das Chancelarias Reais relativos a Marrocos, 
Tomo II, pág. 495. 

( 3 ) Rui de Pina, Crónica del-Rei D. Afonso V, vol. II, cap. CXXXV. 

( 4 ) Ibidem. 
( 6 ) Ibidem. 
(•) Ibidem. 

(') "Visconde de Santarém, Quadro Elementar, tomo X, págs. 59 e 60. 



123 

com plenos poderes, a fim de preparar uma armada contra o turco 
e contra os outros inimigos da Fé, e para comprar navios, e obrar 
o que fosse oportuno a fim de realÍ2ar seus projectos, confor- 
mando-se em tudo com a vontade do Rei se ele, como espera, em 
pessoa ou pelos seus quiser tomar parte na guerra. 

O legado da Santa Sé chegou a Portugal em 1457, tendo sido 
recebido com grandes honras e demonstrações de alegria, não só 
pelo Rei, mas também pelo povo de Lisboa que se juntou para 
lhe dar as boas-vindas ( 1 ). Outra coisa não era de esperar pois, no 
ano anterior, já o Papa havia sido informado do propósito do Rei 
de Portugal de passar ao Oriente com armada e exército para 
recuperar Constantinopla e exterminar os infiéis, por uma carta de 
D. Afonso V e de que depois foi certificado pelo orador (embaixador) 
do Rei, Dr. João Fernandes da Silveira ( 2 ). 

Em 10 de Abril de 1457, o Papa Calisto III manda ao bispo 
de Silves que insista com D. Afonso V, em cujo socorro deposita 
grande esperança, para que acometa os turcos por mar o mais breve 
possível, a fim de lhes distrair as forças, com que ameaçam invadir, 
ou já invadiram, a Hungria ( 3 ). 

Deve ter sido então que D. Afonso V fe% voto público a Deus e aos 
seus santos de participar na cruzada pontifícia ( 4 ), com navios por 
si pessoalmente comandados ( 5 ), com doze mil homens, por um 
ano, à sua custa. 

Conta Rui de Pina ( 6 ), que D. Afonso V tendo os navios e 
soldados preparados mandou um embaixador ao seu tio, o rei de 
Nápoles D. Afonso, para ele lhe mandar vender na Sicília e na Apúlia 
«vitualhas e mantimentos». Porém, não se achou em Nápoles nem 
na Itália, «aquele percebimento nem desejo que para tal empresa 
cumpria, nem como El-Rei cuidava». 

«E tendo El-Rei com seu ânimo não menos católico que esfor- 
çado, com inumeráveis despesas, feitas e aparelhadas todas as coisas 
e provimentos que cumpriram, o notificou assim à maior parte de 
todos os reis e príncipes e províncias de cristãos. E, finalmente, 
nunca de algum por verdadeira obra, nem somente fingida mostrança, 
pôde entender que em seu piedoso trabalho e perigo tão conhecido, 
o teria por ajudador, antes claramente foi conhecido que se El-Rei 
por abatimento de todos tal movimento fizera, que por vingança 
da injúria e quebra que nisso recebiam lhe ordenariam coisas com 



0) Frederick Haítt, Gino Corti, Clarence Kennedy, The Chapei of the 

Cardinal of Portugal at San Miniato in Florence, 1964, pág. 44. 

( a ) Visconde de Santatém, Quadro Elementar, Tomo X, págs. 65 e 66. 

( 3 ) Ibidem, pág. 67. 

( 4 ) Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, vol. I, pág. 439. 

( 5 ) Frederick Hartt, op. cit., pág. 45. 

( 6 ) Rui de Pina, Cróni;a dei' Rei D. Afonso V, vol. II, cap. CXXXVIII. 



124 

tal cautela, com que por força desistiria da empresa, com muita 
despesa e pouca sua honra. 

Pelo qual tudo bem visto e examinado em seu conselho que 
teve, ajuntando também outras muitas contrariedades e inconve- 
venientes que no reino e fora dele em muitas coisas e de grande 
perigo poderiam recrescer, foi El-Rei finalmente e sem contradição 
aconselhado que na empresa da Cruzada se não entremetesse e que 
repousasse, regendo em paz e justiça seus reinos e vassalos, até que 
a visse tomar e prosseguir a outros príncipes, e que então obraria 
nisso como o tempo e a razão o aconselhassem, ou se quisesse por 
exercício da sua devoção e por ele parecer verdadeiro ramo dos 
excelentes e reais troncos de que procedia, podia passar em Africa 
e tomar aos infiéis algum lugar em que Deus fosse servido e sua 
fé mais acrescentada, pois era guerra da mesma qualidade e que a 
ele com mais honra e mor segurança de Espanha mais pertencia. 
E este (conselho) aceitou El-Rei por meio mais de sua inclinação 
e contentamento e no conselho que logo sobre isso teve foi acordado 
que fosse à cidade de Tânger». 

Entretanto o Papa Calisto III aguardava ansiosamente a chegada 
à Itália dos navios que o monarca português havia prometido 
comandar pessoalmente e, em Abril de 1458, perdeu a paciência 
tendo ordenado ao seu legado D. Álvaro que regressasse a Roma 
trazendo com ele todo o dinheiro colectado para a Cruzada Q). 
Porém, pouco depois, o Papa adoeceu gravemente e veio a falecer 
em 6 de Agosto de 1458, trazendo este facto uma inesperada ajuda 
para a solução do grave problema de D. Afonso V, da justificação 
do não cumprimento do seu voto. 

Preparou-se então uma armada para ir tomar a cidade de Tânger 
mas o capitão de Ceuta, o conde de Odemira D. Sancho de Noronha, 
aconselhou o Rei a que se fosse antes sobre Alcácer-Ceguer. Partiu 
assim a expedição para Alcácer a 30 de Setembro de 1458, tendo 
tomado a cidade em 23 do mês seguinte. 

Certamente depois deste sucesso o Rei D. Afonso V o parti- 
cipou ao novo papa, Pio II, o qual havia sido o cardeal Eneas Silvio 
Piccolomini, pelo seu embaixador em Roma, o doutor João Fernandes 
da Silveira. 

Das súplicas apresentadas ao Papa por este orador do Rei de 
Portugal resultaram várias bulas sobre a guerra aos infiéis. 

Na bula Intenta salutis de 13 de Outubro de 1459, determina 
Pio II que os cristãos que pegarem em armas para guardar e defender 
a cidade de Alcácer e subjugar os infiéis, desfrutem as indulgências, 



Q) Frederick Hartt, ob. cit., pág. 45. 



immmmm 



125 

remissões de pecados e graças concedidas pelos seus predecessores 
aos defensores da cidade de Ceuta Q). 

É do mesmo Papa a bula Regis eterni ( 2 ) dirigida a D. Afonso V 
e datada de i de Setembro de 1461. 

«Expõe que tendo Calisto III convocado os fiéis contra os 
turcos, D. Afonso V, assim como outros reis e príncipes cristãos, 
tomou a cruz e fez voto de ir em pessoa, e com alguma gente à 
guerra santa; voto que não pôde ser cumprido pela contínua e 
implacável guerra, que teve, e continua a ter com os mouros, não 
podendo deixar por causa dela o reino sem grande perigo da reli- 
gião, e por motivo das grandes despesas a que era obrigado. 

Ajunta que o rei lhe suplicara, pois, que o absolvesse do seu 
voto e lhe permitisse comutá-lo por obras pias. Inclinado às razões 
do príncipe o pontífice conclui, comutando o voto e promessa da 
maneira seguinte. Que se a Santa Sé mover guerra aos turcos, 
e acudir a ela o imperador, outro rei, ou grande príncipe, ou algum 
cardeal legado da igreja romana, ficará obrigado D. Afonso V a 
entrar também na luta em pessoa com mil homens bem armados, 
e com quanto for preciso, à sua custa, ou a mandá-los do mesmo 
modo para servirem um ano; e até que esta circunstância se dê e se 
cumpra para descargo de sua consciência, e satisfação do voto, 
deverá com dez cavaleiros jejuar a pão e água na quinta-feita santa, 
durante os cinco anos seguintes,ler de joelhos os salmos penitenciais, 
fazer esmolas anuais que não baixem de cem florins de ouro para 
remir os cativos das mãos dos infiéis, tudo isto por espaço de dez 
anos, e jejuar todas as sextas-feiras durante cinco anos, ficando 
ligado pelo antigo voto se não cumprir estas disposições. 

Sabendo porém o sumo Pontífice, que o Rei costumava dar 
muitas esmolas aplicadas a obras pias e de redenção de cativos, 
concede-lhe, no caso de continuar, que sejam contadas na soma dos 
cem mil florins, devendo ele, se as esmolas não perfizerem a quantia, 
completá-la, e concede-lhe mais que o seu confessor possa comutar 
em obras pias a obrigação de jejuar duas vezes por semana» ( 3 ). 



(*) Visconde de Santarém, Quadro Elementar, Tomo X, pág. 71. 

( 2 ) Ibidem, pág. 174. 

( 3 ) O confessor do Rei era o frade franciscano da observância, seu primo, 
D. Rodrigo de Noronha, filho do arcebispo de Lisboa D. Pedro de Noronha, 
o qual havia sido eleito bispo de Lamego, em 1463. 

Bibliografia : 

D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portu- 
guesa, Tomo III, págs. 24 e 34. 

D. Joaquim de Azevedo, História Eclesiástica do Bispado de Lamego, 
págs. 65 a 68. 

Anselmo Braamcamp Freire, Livro Segundo dos Brasões da Sala de Sintra, 
págs. 151 e 152. 

Frei Fernando da Soledade, História Seráfica, Parte III, pág. 359. 



126 

Pela bula Paterna caritas de 29 de Agosto de 1462, Pio II substi- 
tuirá o dízimo da cruzada, em Portugal, por um subsídio de 16 000 
florins de ouro, metade dos quais deveria ser entregue a D. Afonso V. 
Esta aquiescência do Papa à súplica do Rei para participar no tributo 
lançado pela Santa Sé para a efectivação da cruzada contra os turcos, 
supõe, é evidente, uma anuência às razões alegadas pelo monarca 
para suspender o voto Q). 

Pio II quando, em 1463, resolve tomar a direcção da cruzada 
dirige ao monarca português uma carta (5 de Outubro de 1463) 
em que o intima com veemência a cumprir o primeiro voto: «Indo 
nós, não te é lícito ficar em casa... por tua salvação és obrigado a 
vir em socorro da sacrossanta religião...» ( 2 ). 

Porém, a cruzada papal não se realizou e, em vez disso, 
D. Afonso V e o Infante D. Fernando, ainda que este procurando 
sempre singularizar-se, empenham-se de novo na conquista de 
Tânger ( 3 ). 

«Em conclusão, a participação pessoal, solenemente prometida 
numa cruzada geral da Cristandade foi substituída pelas três tenta- 
tivas, todas malogradas, durante o ano de 1464, do escalamento e 
conquista de Tânger, que representava um voto íntimo da Nação e, 
ao que supomos, do monarca, e cujo objectivo imediato seria desa- 
frontar a memória do Infante Santo» ( 4 ). 

«Que a Santa Sé tenha aceitado esta comutação do voto, 
depreende-se da bula Dum ad illam, de Paulo II, de 22 de Setembro 
de 1470, concedida por solicitação do Rei em vista de nova expe- 
dição à África. A exposição da bula faz menção explícita da malo- 
grada expedição de 1464, o que estabelece um laço evidente entre 
esta e a que se preparava» ( 5 ). / 



APONTAMENTOS SOBRE A HISTÓRIA 
DOS DESCOBRIMENTOS 

Segundo Zurara ( 6 ) o Infante D. Henrique foi «movido a 
mandar buscar as terras de Guiné» por cinco razões. 

A primeira, para saber «determinadamente a qualidade da terra 
que ia além do cabo Bojador». 



Cap. VII. 



•) Jaime Cortesão Os Descobrimentos Portugueses, vol. I, pág. 440. 

') Ibidem. 

') Ibidem. 

') Ibidem, págs. 440 e 441. 

') Ibidem, pág. 441. 

') Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Guiné, Livraria Civilização, vol. I, 



127 

A segunda, para levar e trazer dessas terras mercadorias «cujo 
tráfego traria grande proveito aos naturais destes reinos». 

A terceira, para saber se o poderio dos mouros daquela parte 
de África era muito grande conforme se dizia. 

«A quarta razão foi porque de 21 anos que havia guerreava 
os mouros, nunca achou rei cristão nem senhor de fora desta terra 
que por amor de nosso Senhor Jesus Cristo o quisesse à dita guerra 
ajudar. Queria saber se se achariam em aquelas partes alguns prín- 
cipes cristãos em que a caridade e amor de Cristo fosse tão esforçada 
que o quisessem ajudar contra aqueles inimigos da fé». 

«A quinta razão foi o grande desejo que havia de acrescentar 
em a santa fé de nosso Senhor Jesus Cristo, e trazer a ela todas as 
almas que se quisessem salvar, conhecendo que todo o mistério 
da encarnação, morte e paixão de nosso Senhor Jesus Cristo foi 
obrado a esta fim, scilicet, por salvação das almas perdidas, as quais 
o dito Senhor queria, por seus trabalhos e despesas, trazer ao seu 
verdadeiro caminho, conhecendo que se não podia ao Senhor fazer 
maior oferta; que se Deus prometeu cem bens por um, justo está 
que creiamos que por tantos bens, scilicet, por tantas almas quantas 
por azo deste senhor são salvas, ele tenha no reino de Deus tantos 
centenários de galardões, por que a sua alma depois desta vida 
possa ser glorificada no celeste reino ; que eu, que esta história escrevi, 
vi tantos homens e mulheres daquelas partes tornados à santa fé, 
que ainda que este príncipe fora gentio, as orações daquestes eram 
bastantes para o trazer à salvação. E não são somente vi aquestes, 
mas vi seus filhos e netos tão verdadeiros cristãos, como se a divinal 
graça se inspirara em eles para lhes dar claro conhecimento de si 
mesmo». 

De Latino Coelho ( x ) tira o autor os períodos seguintes. 

«Nenhuma civilização pode haver tão material e positiva, que 
não esteja como compendiada em breve cifra numa noção espiri- 
tual, e quase sem excepção, religiosa. Ora a civilização dominante 
no Ocidente firmava-se e resumia-se num princípio capital, a fé 
cristã. O cristianismo era a sua face mais brilhante, o seu carácter 
histórico e fundamental. Dilatar as fronteiras da cristandade, levar 
o dogma e o símbolo cristão a dominar entre as gentilidades mais 
remotas, arrebanhar até o evangélico redil as gentes e as nações agora 
envoltas nas trevas do paganismo ou corrompidas na abominável 
seita de Mafoma, era, no conceito daqueles tempos, fazer com que 
irradiasse a superior civilização da Europa para abarcar todos os 
povos conhecidos ou ignotos. Enumerando o cronista Gomes 
Eanes de Zurara as razões, que haviam determinado o Infante 



Q) J. M. Latino Coelho, Vasco da Gama, págs. 38 e segs. 



128 

D. Henrique a empreender os seus famosos descobrimentos, assenta 
em último lugar, havendo-a contudo como primeira, a de aumentar e 
estender a cristandade. «A quinta razão foi o grande desejo, que 
havia de acrescentar em a santa fé de nosso Senhor Jesus Cristo, 
e trazer a ela todalas almas, que se quisessem salvar, conhecendo 
que todo o mistério da encarnação, morte e paixão de nosso Senhor 
Jesus Cristo foi obrada a esta fim, scilicet, per salvação das almas 
perdidas, as quais o dito Senhor (o infante) queria, per seus trabalhos 
e despesas trazer ao verdadeiro caminho...». Não há porém, 
nenhuma civilização, por mais espiritual e acrisolada, que apareça 
despida e exempta de toda a mácula terrena e mundanal. O espí- 
rito pode tender para o céu e para as alturas, onde tudo é anelar 
pela mística imortalidade. Mas a carne pende para a terra e para 
esta humana eternidade, que se chama a glória e o renome, trans- 
mitida até às mais remotas gerações... Entre os incentivos, que esper- 
taram os brios portugueses para tentar os incógnitos caminhos do 
Oceano, houve, como para os argonautas míticos da Grécia, um 
cobiçado velocino. As riquezas e tesouros, que as terras apartadas 
e as misteriosas regiões em si contêm, magnificadas pela fantasia 
e como que poetizadas pela cobiça, traziam invejosas e inquietas 
as cristandades do Ocidente. A terra, ainda nas regiões mais florentes 
e mimosas, na França, na Itália, nas Hespanhas, era escassa ou erma 
de. produtos naturais, destes, que no vulgar juizo, se têm por sinó- 
nimos de riqueza. O oiro e as pedras preciosas, as especiarias, as 
drogas, os perfumes, os estofos, os tapizes, os sândalos e calambucos 
do Oriente, avantajavam-se em valia ao que podiam brotar de si 
as glebas europeias, e ao que sabiam afeiçoar nos mais primorosos 
artefactos os mesteres do Ocidente. Os proveitos mercantis entravam 
pois por grande parte nos desejos fervorosos, com que as nações 
da Europa buscavam alargar as suas navegações e os seus tratos 
com as gentes mais longínquas». 

De Rui de Pina Q) tira o autor os períodos seguintes. 

«E assim o Infante (D. Henrique) como aconselhado e esfor- 
çado, já por divina inspiração movido a isso, com respeitos de 
magnânimo Príncipe e mui católico cristão, e como mui leal vassalo 
dos Reis e da coroa de Portugal, desejoso de acrescentamento, 
glória e louvor deles, suspirando pela santa, honrada e proveitosa 
conquista da Guiné, mandou logo pedir e suplicar ao Papa, ... que 
em nome de Deus cujo poder tinha, concedesse e fizesse à dita 
coroa e herdeiros dela para sempre, como com acordo e aprovação 
do Sagrado Colégio dos Cardeais fez e concedeu solene e perpétua 
doação, e lhe deu o senhorio próprio de todo o que na costa do dito 



f 1 ) Rui de Pina, Crónica dei- Rei D. Afonso V, vol. III, pág. 16. 



129 

mar Oceano, nos mares a ela adjacentes, dos marcos e cabos de Não 
e Bojador contra o meio-dia e oriente por eles e por seus sucessores, 
e por suas gentes pelos tempos em diante se achasse e descobrisse 
até os índios inclusivamente». 

De Duarte Pacheco Pereira tira o autor os apontamentos 
seguintes. 

Segundo ele, o infante D. Henrique «alumiado da graça do 
Espírito Santo e movido por divinal mistério» mandou descobrir 
e povoar a Ilha da Madeira e a «Guiné, que antigamente se chamava 
Etiópia, começando dos promontórios Não e Bojador até à Serra 
Leoa» ( x ). 

As causas que levaram a descobrir as terras da Guiné foram que 
«destas gentes (os povos negros da Guiné) muita parte delas haviam 
de ser salvas pelo sacramento do santo baptismo, sendo-lhe dito 
que nestas terras se acharia tanto ouro com outras tão ricas merca- 
dorias, com que bem e abastadamente se manteriam os reis e povos 
destes reinos de Portugal, e se poderia fazer guerra aos infiéis inimigos 
da nossa santa fé católica» ( 2 ). 

Mais adiante diz Duarte Pacheco: «e porque a doutrina de 
nosso Senhor que pelos apóstolos foi pregada para salvação universal 
do mundo, também nestas Etiópias se perdeu, Ele por sua infinita 
misericórdia e bondade quer que, pois nós socedemos a sua lei e 
fé divinal, que por nós se torne agora, a ressuscitar ( 3 )». 

Assim muitos etiópios «são feitos cristãos, ouvindo a palavra 
do Santo Evangelho que vai soando por toda a terra» ( 4 ). 

Continua Duarte Pacheco: «A qual navegação começou o 
Infante por serviço de Deus do cabo Não em diante; e tanto que a 
estes reinos foram trazidos os primeiros negros e por eles sabida 
a verdade da Santa Revelação, logo o Infante escreveu a todolos 
reis cristãos que o ajudassem a este descobrimento e conquista por 
serviço de nosso Senhor e todo o proveito igualmente lograssem, 
o que eles não quiseram fazer, mas havendo isto por vaidade lhe 
renunciaram seu direito; pelo qual o Infante mandou ao Santo Padre 
Eugénio IV Fernão Lopes de Azevedo fidalgo de sua casa e do 
conselho del-rei D. Afonso V, comendador-mor da Ordem de 
Cristo, o qual apresentando ao Sumo Pontífice a embaixada do 
Infante e renunciação dos ditos reis, lhe foi outorgado tudo o que 
pediu; e assim como por Deus foi revelado e mostrado ao virtuoso 
Infante este maravilhoso mistério escondido a todalas outras gera- 
ções da Cristandade, assim quis que por mão do seu vigário, pastor 

C 1 ) Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, Lisboa, 1005, páe. 14. 

( 2 ) Ibidem, pág. 68. V & 

( 3 ) Ibidem, pág. 69. 

( 4 ) Ibidem. 



130 

e padre da Igreja, o dito papa Eugénio, e assim pelos outros Padres 
Santos com suas bênçãos e letras, a conquista, e comércio destas 
regiões até fim de toda a índia lhe fossem dadas e outorgadas». 

De João de Barros Q) tira o autor os períodos seguintes. 

«O Infante como seu principal intuito em descobrir estas 
terras era atrair as bárbaras nações ao jugo de Cristo e dessi a glória 
e louvor destes reinos, com acrescentamento do património real, 
sabendo pelos cativos que Antão Gonçalves e Nuno Tristão trou- 
xeram, as coisas dos moradores daquelas partes, quis mandar esta 
nova ao papa Martinho V ( 2 ) que então presidia na Igreja, como 
primícias que a ele eram devidas por serem obras feitas em louvor 
de Deus e acrescentamento da fé de Cristo. Pedindo-lhe que 
porquanto havia tantos anos que ele continuava este descobrimento 
em que tinha feito grandes despesas de sua fazenda, e assim os 
naturais deste reino que nele andavam, lhe aprouvesse conceder 
perpétua doação à coroa destes reinos, de toda a terra que se desco- 
brisse por este nosso mar Oceano do cabo Bojador até às índias 
inclusive ( 3 ). E para aqueles que na tal conquista perecessem, indul- 
gência plenária para as suas almas, pois Deus o pusera na cadeira 
de São Pedro para assim dos bens temporais que estavam em poder 
de injustos possuidores como dos espirituais do tesouro da Igreja, 
pudesse repartir pelos seus fiéis. Porque a gente Português assim 
nos feitos desta parte da Europa como depois que entraram na de 
África em a tomada de Ceuta, e dessi no descobrimento e conquista 
da Etiópia tinham merecido o jornal diurno que se dá àqueles obreiros 
que bem trabalham nesta vinha militante do Senhor. Com o qual 
negócio, por ser de tanta importância, mandou um cavaleiro da 
Ordem de Cristo por nome Fernão Lopes de Azevedo, do conselho 
del-rei e homem de grande prudência e autoridade, que depois 
foi comendador da dita ordem». 

Por esta narração de João de Barros se vê que o Infante nela 
referido, dado por Duarte Pacheco e Rui de Pina, como sendo 
D. Henrique, deve ser do regente D. Pedro, por a súplica ser para 
uma doação à coroa, durante o período em que este governou a 
nação por el-rei. 

O mesmo se deduz, do exame da bula de Eugénio IV, Rex 
Regum, de 5 de Janeiro de 1443, que resultou da embaixada de 
Fernão Lopes de Azevedo, ao Papa ( 4 ). 



O Ásia de João de Barros, Primeira Década, Coimbra, 1932, pág. 29. 

( 2 ) Eugénio IV. 

( 3 ) Vide nota 1, de José de Bragança, na Crónica da Guiné, Livraria Civi- 
lização, vol. I, pág. 102. 

( 4 ) Francisco Fernandes Lopes, A Figura e a Obra do Infante D. Henrique, 
pág. 68. 



131 

Nesta bula expõe o Pontífice Q) «que D. João I fora combater 
os mouros de África, e lhes tomara a cidade de Ceuta, que D. Duarte 
lhe seguira os exemplos, e que D. Afonso V, seu sucessor, assim 
como os Infantes D. Pedro e D. Henrique, filhos de D. João I, 
tencionando passar ao solo africano para estenderem a fama e a 
conquista e tornarem ao jugo de Cristo as terras sujeitas aos infiéis, 
lhe pediram socorro para tamanha empresa. Roga portanto 
Eugénio IV a todos os imperadores, reis, príncipes e barões, que 
ajudem Portugal a exterminar os infiéis, e manda aos prelados, 
a quem a bula é dirigida, que preguem a cruzada, e ponham a cruz 
nos que se alistarem na expedição. As terras tomadas aos infiéis 
pertencerão a D. Afonso V». 

Depois da ocupação de Ceuta a principal tarefa do infante 
D. Henrique consistia, por mandado de seu pai o rei D. João I, 
em trazer navios no mar, quer do lado do Mediterrâneo quer do 
Atlântico, e que tinham por fim saltear os barcos que serviam os 
muçulmanos de Espanha e da África ( 2 ). 

De Cândido Lusitano ( 3 ) tira o autor o seguinte. 

«Considerava o Infante D. Henrique que, com o título que seu 
Pai tomara, de Senhor de Ceuta, ficavam em razão desta conquista 
metidos na Coroa deste Reino os mouros de Fez e Marrocos; e que 
os netos de tão grande rei, com a posse que ele lhes deixara, deviam 
não descansar em estender por África os seus justos domínios. Assim 
discorria o Infante e acendia-lhe o ânimo para estas conquistas a 
forte razão de Governador da Ordem da Cavalaria de Cristo, Milícia 
que instituirá seu terceiro avô El-Rei D. Dinis, para destruição de 
Infiéis. Mas como uma tal guerra, não obstante canonizá-la a justiça 
da causa, nem sempre achava aprovação na vontade de quem gover- 
nava, entrou o Infante a riscar no pensamento nova conquista, 
abalando-o seus altos espíritos a buscá-la muito além de Fez e 
Marrocos. E para que a emulação disfarçada em política não lhe 
estorvasse a ideia, com as sabidas razões da pobreza do Reino em 
dinheiro e soldados, determinou fazê-la à sua custa e ajudar-se dos 
tesouros da sua Ordem, dos quais podia, como Senhor, despender». 

«Amava o Infante muito a sua glória como filho de um Herói; 
e confessemos que nesta ideia ia emparelhado com o zelo e o desejo 
de estabelecer na posteridade um nome sem competidor em Hespanha. 
Fama tão nova só se conseguia com os descobrimentos de terras 
desconhecidas, enriquecendo com elas a ilustre Milícia de que era 

C 1 ) João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, vol. I 
pag. 420. 

Q ~ dr< ? de Azeved °, in «Arquivo Histórico Português», vol. I, pág. 296. 

() Cândido Lusitano, Vida do Infante D. Henrique, Lisboa I7<8 

pags. 148 e segs. ' 



132 

Cabeça, pois justamente não foi outro o alvo a que dirigiu suas 
profundas meditações. Para as reduzir a efeito, já o estudo da 
geografia lhe havia levado longa aplicação e, das vezes que passou 
à África, não cessava de inquirir dos mouros notícias das partes com 
que confinavam os reinos daquele continente. Respondeu o efeito 
à diligência porque deles soube, não só das terras vizinhas aos ser- 
tões de África, mas da região de Guiné e de outras vastas povoações». 

«Conferidas estas notícias com pessoas de fé que podiam delas 
dar testemunho e vendo que confrontavam, resolveu-se o Infante 
a dar princípio à grande obra que, tendo em si tantas dificuldades, 
as maiores eram nos que se prezavam de entendidos. Mandava em 
cada ano dois e três navios, à sua custa, quase entregues à discrição 
dos mares porque levavam ordem aqueles ousados mareantes de 
tentarem o descobrimento da costa além do cabo de Não, coisa que 
até àqueles tempos excedia os termos de temeridade, sendo o passar 
deste cabo um medo herdado de todos os navegantes de Hespanha. 
Partiam os exploradores prometendo atrevimentos, mas voltavam 
sem acção que os honrasse, não se animando a passar do cabo 
Bojador, sessenta léguas adiante do de Não. Ali paravam espantados 
de um novo movimento das águas, parecendo-lhes que ferviam; 
e a causa era um baixo de seis léguas, medonho à vista e impossível 
a vencer-se, por quem não sabia navegar, senão de Levante a Poente. 
Se os pilotos daquela idade soubessem cortar mais largo e afastar-se 
do cabo as léguas que ocupava o baixo, passariam adiante; porém, 
como aquela costa era a única agulha de que se serviam, ou fosse 
ignorância ou medo, não se arrojavam a apartar-se do seu rumo. 

«Estava o Infante na sua Vila, a que dera o nome de Terça 
Nabal, e depois lho trocaram pelo de Sagres, fundada por ele na 
enseada do Promontório Sacro, como sítio mais acomodado para 
suas observações, facilitando-lhas as desmedidas eminências daquele 
cabo, ao qual já então santificava a nome de S. Vicente. Dali expedia 
os repetidos exploradores que, quase envergonhados de não desem- 
penharem a expectação, vinham pela Costa da Barbaria até o Estreito, 
fazendo muitas hostilidades nos mouros, persuadindo-se que, apare- 
cendo ao Infante com a relação de suas vitórias, ficaria em seu 
ânimo belicoso bem contrapezado o pouco sucesso da principal 
diligência. Mas não eram estas as notícias que podiam então lison- 
jear aquele magnânimo coração, todo ocupado na glória de seus 
descobrimentos. Quisera o Infante, na execução deles, ocupar 
todo o tempo; mas, opunham-se a seus desejos ou negócios do 
Reino ou passagens à África e, com estes esforços, sofria ver ociosas 
as ilustres ideias». 

«A Providência dispunha estas demoras para dar a João 
Gonçalves Zarco e a Tristão Vaz a primeira glória desta empresa. 



133 

Eram ambos cavaleiros da Gasa do Infante e que na facção de Ceuta 
serviram a pátria com tanto valor que seu Amo entre os soldados 
mais dignos reservava para eles um lugar distinto. Depois da tomada 
daquela praça, ambiciosos de mais fama (comércio corrente dos 
portugueses naqueles bons tempos) pediram estes animosos cava- 
leiros ao Infante que, visto armar navios para o descobrimento da 
costa da Barbaria e Guiné, se servisse ocupá-los em tão honrado 
serviço. Como eram pessoas que tinham nos feitos intrépidos bons 
fiadores para se lhes cometerem acções arriscadas, alegre aceitou o 
Infante o oferecimento, parecendo-lhe que via já de perto o fim 
venturoso de suas esperanças». 

«Mandou-lhes armar um navio e, com louvores e promessas, 
inflamou-os à empresa, dando-lhes ordem para que, correndo a 
Costa da Barbaria, passassem o Cabo Bojador, até ali temido como 
sepultura dos navegantes, e depois fossem descobrindo tudo o 
mais que a Providência lhes deparasse. Para isto os instruiu nas 
Tábuas de Ptolomeu, em que tinha um estudo de professor, 
mostrando-lhes que aquela costa ia pegar com Guiné até se meter 
debaixo da Equinocial». 

Assim partiram aqueles cavaleiros, dos quais João Gonçalves 
havia sido armado cavaleiro pelo Infante D. Henrique na tomada 
de Ceuta (*), no ano de 141 9, e por causa de uma tempestade foram 
arrojados à Ilha de Porto Santo. No ano seguinte acharam a Ilha 
da Madeira. 

O povoamento destas ilhas pelos seus achadores, que logo se 
seguiu ao descobrimento, efectuou-se sob o directo patrocínio do 
Rei D. João I sem nenhuma interferência do Infante D. Henrique ( 2 ). 

Em 1424, foi mandada uma expedição contra a ilha da Gran 
Canária, comandada por D. Fernando de Castro, para se obter um 
ponto de etapa nas navegações para as costas africanas ( 3 ), a qual 
não conseguiu os seus objectivos. 

Em 1426, Gonçalo Velho, nobre fidalgo da casa do Rei D. João I 
e escudeiro, criado do Infante D. Pedro ( 4 ), velejou até um lugar 
chamado Terra Alta, situado ao norte do Cabo Bojador ( 5 ). 

Em 1427, Diogo de Silves achou as ilhas dos Açores ( 6 ). 



(*) Duarte Nunes de Leão, Crónica de D. João I, pág. 367. 

( 2 ) Mário Hernandez Sanchez-Barba, Las Tendências Expansivas portu- 
guesas en la Época dei Infante D. Henrique, Madrid, 1960, pág. 60. 

( 3 ) Florentino Perez Embid, Los Descubrimientos en el Atlântico, etc, 
págs. 123 e 124. 

( 4 ) Joseph Soares da Silva, Memórias para a História Del-Rei D. João I, 
Tomo IV, pág. 216. 

( 6 ) Ayres de Sá, Frei Gonçalo Velho, vol. I, pág. 213. 

( 6 ) Damião Peres, História dos Descobrimentos Portugueses, págs. 49 e segs. 



134 

Em 1434, Gil Eanes conseguiu dobrar aquele cabo, depois 
de várias viagens terem sido efectuadas para esse fim, sem o 
atingir. 

Desde então a costa ocidental de Africa foi sendo metodica- 
mente descoberta, voltando as caravelas com mercadorias, entre as 
quais o oiro que até aí somente se conseguia através dos mercadores 
venezianos e, sobretudo, os escravos que então eram considerados 
em todo o mundo conhecido como valiosa mercadoria. 

Em 1441, Antão Gonçalves, partindo verosimilmente de 
Lisboa (*) trouxe os primeiros cativos que aqui chegaram, por um 
dos quais «o Infante foi em conhecimento de mui grande parte das 
cousas daquela terra onde ele morava» ( 2 ). 

Em 1444, três caravelas comandadas pelo mesmo Antão 
Gonçalves, por Garcia Homem e por Diogo Afonso, seguiram 
para o rio do Ouro passando pela ilha da Madeira para «receber 
sua vitualha ... porque havia aí já grande abastança de manti- 
mentos» ( 3 ). 

Uma grande tempestade separou os navios pelo que Diogo 
Afonso foi o primeiro a chegar ao Cabo Branco onde «fez pôr em 
terra uma cruz grande de madeira, para que os parceiros, acertando-se 
de vir após ele, ou não sendo ainda passados, pudessem conhecer 
que ele seguia já ante eles. E com tal firmeza foi aquela cruz posta, 
que depois muitos anos durou ali» ( 4 ). 

Do Visconde de Santarém ( B ), tira o autor os elementos seguintes. 

«Em 1444 se estabeleceu em Lagos uma companhia para continuar 
os descobrimentos e para fazer o comércio de África. Zurara indica 
este facto quanto às pescarias no capítulo 95 da Crónica da Conquista 
da Guiné, mostrando que os habitantes dos portos marítimos do 
Algarve iam pescar às costas e mares da Guiné, que para este efeito 
pediram e obtiveram licença do Infante, e se concertaram com 
este príncipe de lhe pagar um certo direito. E foram, diz o cronista, 
até ao lugar que chamam o Cabo dos Ruivos, onde começaram sua 
pescaria que foi da maior «abundância, e, os nossos secavam o 
pescado com grande admiração dos mouros por verem o atrevi- 
mento dos Portugueses» ( 6 ). 

A companhia comercial de Lagos «tinha as pescarias» ( 7 ). 



( x ) Francisco Fernandes Lopes, A Figura e a Obra do Infante D. Henrique, 
pág. 67. 

( 2 ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Guiné, cap. XV. 

( 3 ) Crónica da Guiné, Livraria Civilização, vol. I, pág. 191. 

( 4 ) Ibidem, pág. 192. 

( 6 ) Visconde de Santarém, Prioridade dos Descobrimentos Portugueses, 
Lisboa, 1958, págs. 71 e 72. 

(") Ibidem. 

( 7 ) Ibidem, pág. 73. 



135 

Quem requereu ao Infante a licença para a sociedade poder 
comerciar foi Lançarote da Franca, seu criado, nascido em 1399, 
o qual era almoxarife do rei, em Lagos, onde tinha casado com uma 
filha do alcaide-mor da cidade, Soeiro da Costa, «o escudeiro velho» ( 1 ). 

Soeiro da Costa tinha sido um dos Doze de Inglaterra e, 
de 1404 a 1416, serviu vários príncipes estrangeiros, foi ferido 
em 141 5 na batalha de Azincourt e, ainda, no ano de 1447, com 
mais de 60 anos, acompanhou o genro na sua segunda viagem de 
descobrimento e deu o seu nome ao grande rio de Soeiro ( 2 ). 

Foram assim em companhia seis caravelas cujo «principal e 
primeiro capitão» era Lançarote, tendo voltado ao reino nesse mesmo 
ano de 1444 com muitos cativos, de que o infante D. Henrique 
recebeu o quinto, tendo então armado cavaleiro a Lançarote da 
Franca. 

Também em 1444, Gomes Pires, patrão del-Rei, por mandado 
do infante D. Pedro, velejou até ao rio do Ouro com intuitos mera- 
mente comerciais, levando como escrivão Lopo Fernandes do 
Condado «escudeiro da casa do infante D. Pedro» ( 3 ). Sabe-se 
isto pelo capítulo XXIX da Crónica da Guiné e por uma carta de 
quitação de D. Afonso V a Diogo Afonso Malheiro, contador dos 
almoxarifados de Guimarães e Ponte de Lima ( 4 ), onde se diz : 
«...e os trinta quatro mil quinhentos trinta e oito reais pretos 
despendeu em compra de duas mil quatrocentas quarenta e duas 
varas do dito pano (de linho comprado em Lamego) que foram 
compradas aos preços sussos escritos e entregues a Gomez Pirez 
nosso patrão para levar ao Rio do Ouro com suas serapilheiras 
segundo mostrou delo seu conhecimento feito assinado por Lopo 
Fernandes do Condado escudeiro da casa do Infante D. Pedro que 
ia por escrivão da nossa caravela que os ditos panos levou ao dito 
Rio assinado por Gomez Pirez feito 14 dias de Maio de 1444...» 

Por esses tempos foi morto na ilha de Tider o capitão de uma 
caravela, Gonçalo de Sintra. Por isso foi organizada em 1445 uma 
expedição para castigar os mouros de Tider, constituída por 26 cara- 
velas das quais catorze pertenciam à companhia de Lagos, sendo 
as restantes de Lisboa e algumas da ilha da Madeira das quais duas 
foram armadas pelo capitão-donatário do Funchal, João Gonçalves 
Zargo. Era pois uma grande expedição de carácter nacional ( 5 ). 



0) Fortunato de Almeida, História de Portugal, tomo III, pág. 766. 

( 2 ) Ibidem. 

( 3 ) António J. Dias Dinis, O. F. M., Vida e Obras de Gomes Eanes de 
Zurara, pág. 479. 

( 4 ) Pedro de Azevedo, Documentos das Chancelarias Reais, tomo I, pág.41 5 

( 5 ) Francisco Fernandes Lopes, A Figura e a Obra do Infante D. Henrique, 
P á g- 75- 



136 

Do corpo das caravelas de Lagos ( x ) era capitão-mor Lançarote 
da Franca, sendo capitaneada uma das caravelas por Soeiro da 
Costa, embora ele tivesse perdido uma das m&os combatendo os 
mouros no descerco de Ceuta ( 2 ), e outra pelo mercador de Lagos, 
Vicente Dias. 

Das caravelas de Lisboa, uma pertencia ao Rei, sendo seu 
patrão, Gomes Pires, que ia portanto por mandado do Regente 
D. Pedro, pois se estava em 1445 ( 3 ). 

A expedição cumpriu o seu objectivo principal tendo desba- 
ratado os habitantes de Tider, distinguindo-se o veterano guerreiro 
Soeiro da Costa que então foi armado cavaleiro. 

Em seguida, algumas das caravelas voltaram ao reino, mas outras 
continuaram avante por proposta de Gomes Pires, o qual bem 
sabia «a vontade do senhor Infante D. Pedro ( 4 ) como é grande de 
saber parte da terra dos negros especialmente do rio do Nilo, pelo 
qual eu tenho determinado fazer viagem contra aquela terra, traba- 
lhando quanto puder para chegar a ele». 

Uma destas caravelas pertencia ao mercador Vicente Dias 
o qual, na foz do rio Senegal, foi ferido no rosto por uma azagaia 
arremessada por um guinéu, «a qual lhe cortou acerca toda uma quei- 
xada^); em cujo retorno o guinéu recebeu outra ferida, ainda que 
tamanha não fora como a outra que antes dera» ( 6 ). 

A grande ferida sofrida por Vicente Dias foi, certamente, super- 
ficial, pois lhe permitiu continuar a viagem. 

As caravelas dirigiram-se então ao Cabo Verde tendo encon- 
trado uma ilha onde havia muitas cabras e onde «tomaram água». 

«Seguiram mais avante, até que acharam outra ilha, na qual 
viram peles frescas de cabras, e outras coisas por que conheceram 
que já outras caravelas seguiram avante; e por certificação sua, 
acharam nas árvores entalhadas as armas do Infante e isso mesmo 
letras, em que estava o seu moto» ( 7 ). De facto, já Álvaro Fernandes 
tinha passado por ali e seguido avante. 

O patrão del-Rei Gomes Pires, na volta para o reino, entrou 
no rio do Ouro, pelo qual subiu até ao porto em que no outro ano 



Q) Ásia de Joam de Barros, i. a Década, Coimbra, 1932, pág. 40. 

( 2 ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, pág. 430. 

( 3 ) José de Bragança. Crónica da Guiné, Porto, Livraria Civilização, vol. II, 
pág. 61. 

( 4 ) Vitorino de Magalhães Godinho, Documentos sobre a Expansão Portu- 
guesa, vol. II, pág. 235, nota 5. 

( 5 ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica dos Feitos da Guiné, Agência Geral 
das Colónias, Lisboa, 1949, pág. 269. 

( 6 ) Vitorino de Magalhães Godinho, Documentos sobre a Expansão Portu- 
guesa, vol. II, pág. 231. 

(') Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Guiné, Livraria Civilização, vol. II, 
pág. 42. 



137 

estivera Q). Aí combinou com os mouros que «no outro ano, no 
mês de Julho, tornasse ali, onde acharia negros em avondança, 
e ouro e mercadoria em que muito poderia aproveitar» ( 2 ). 

Segundo o grande mestre, professor Dr. F. C. Wieder, o maior 
historiador da cartografia africana, a ilha de Santiago, do arquipé- 
lago de Cabo Verde, foi descoberta (ocasionalmente) em 1445, 
por Vicente Dias, quando na sua caravela regressava da costa afri- 
cana ao reino tendo, dez anos depois, na sua viagem com Cadamosto, 
contado a este o descobrimento que fizera ( 3 ). 

Também no ano de 1445, o Infante D. Pedro mandou povoar 
a sua ilha dos Açores a que havia dado o nome do Arcanjo São Miguel 
que era da sua particular devoção tendo adoptado as suas balanças 
para a sua empresa ( 4 ). Ficou capitão-donatário da ilha, o nobre 
fidalgo, criado do mesmo Infante, Gonçalo Velho. 

Em 1446, Álvaro Fernandes enviado por João Gonçalves 
Zargo para seguir «o mais avante quanto pudesse», a sua caravela 
«foi mais longe que todalas outras, tendo sido recompensado com 
cem dobras pelo Infante D. Pedro e com outras tantas pelo Infante 
D. Henrique». 

No mesmo ano de 1446, Gomes Pires velejou até ao rio do 
Ouro com o fim de encontrar os mouros com quem havia combi- 
nado, no ano anterior, trocar guinéus por panos ( 5 ). 

Do Dr. Manuel Heleno ( 6 ) tira o autor os seguintes apontamentos. 

O Infante D. Pedro, ao invés da atitude que lhe atribuem Rui 
de Pina e mais tarde Oliveira Martins e outros escritores, patrocinou 
indirecta e directamente as conquistas em África e os Descobrimentos 
Marítimos. Indirectamente colhendo para D. Henrique nas suas 
viagens, informações sobre as estradas comerciais e trazendo-lhe 
de Veneza o Livro de Marco Polo; directamente resolvendo passar 
em 1443, com D. Afonso V e D. Henrique, a terras d'Além-Mar 
«para estenderem afama e a conquista e tornarem ao jugo de Cristo as terras 
sujeitas aos infiéis» e obtendo para esse efeito do papa Eugénio IV 
a bula Rex Regum que, pedindo à Cristandade que ajudasse Portugal 
a exterminar os muçulmanos, mandava pregar a cruzada contra eles, 
concedia aos expedicionários privilégios iguais aos que partiam 
para a Terra Santa, aos que auxiliassem pecuniariamente essa empresa 



( J ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica da Guiné, Livraria Civilização, vol. II, 
pág. 95. 

( 2 ) Ibidem, pág. 96. 

( 3 ) José Moreira de Campos, O Infante D. Henrique e os Descobrimentos 
Portugueses, pág. 128. 

( 4 ) Frei Francisco de Santa Maria, O Ceo Aberto na Terra, pág. 435. 

( 5 ) Crónica da f 'Guiné, Livraria Civilização, vol. II, pág. 229. 

( 6 ) Manuel Heleno, Subsídios para o Estudo da Regência de D. Pedro, 
Duque de Coimbra, Lisboa, 1933, págs. 20 e 21. 



138 

a inteira remissão dos pecados, às famílias dos primeiros a protecção 
da Igreja e a Portugal as terras conquistadas; directamente ainda 
premiando os mais audaciosos navegadores, como fez a Álvaro 
Fernandes a quem deu cem dobras por ir no léguas além de Cabo 
Verde, favorecendo o povoamento dos Açores e promovendo ele 
mesmo a colonização da sua ilha de S. Miguel, mandando em 1445 
Gomes Periz ou Piriz à Guiné com o fim de estabelecer relações 
comerciais com os indígenas, incitando D. Henrique com a isenção 
da dízima e de portagem do que viesse do arquipélago da Madeira, 
com a concessão do monopólio do comércio com as Canárias e 
com todas as terras além do Bojador. 

De José de Bragança tirão autor os apontamentos seguintes Q). 

«O Infante D. Henrique é, sobretudo, o representante da polí- 
tica de conquista, da ideia de criação de um reino português do 
Algarve de além-mar. Ele representa o espírito medieval de cava- 
laria, oposto, por excelência, ao espírito experimental da Renascença, 
que se orienta para a descoberta das novas rotas marítimas do 
comércio pacífico e da influência civilizadora. É D. Pedro, quem, 
de Bruges, revela a incompreensão da Europa, perante a obstinação 
portuguesa em Marrocos. É ele quem, nas suas viagens por dife- 
rentes países, se prepara para dar orientação nova à política externa 
de Portugal. É ele quem traz de Veneza uma famosa carta geográ- 
fica, antes das viagens narradas nesta crónica. É ele quem povoa 
a sua ilha de S. Miguel, antes de qualquer outra dos Açores, e ali 
manda criar cavalos de guerra, que faltam no país; que traz de lá 
o défice do pao, o qual se come depois com fartura; ele, finalmente, 
quem manda Gomes Pires com a grande Caravela Real, destinada 
a prosseguir na viagem de descobrimento, quando as caravelas de 
Lagos regressam cheias de escravos com sua missão cumprida». 

Do Dr. Vitorino de Magalhães Godinho tira o autor os seguintes 
períodos. 

«Pretende-se que o Infante de A Virtuosa Bemfeitoria encarnasse 
a política de fixação, diametralmente oposta à política de transporte, 
mas a verdade é que na discussão que precedeu Tânger contrariou 
somente a conquista de possessões sem sequer aludir às viagens 
marítimas, e na anterior carta de Bruges, frisa a mesma nota. É fácil 
mesmo aduzir exemplos de incentivo seu às navegações, até na 
Crónica da Guiné de Zurara, a qual é contudo a apologia de D. Henrique. 
O mais significativo, parece-me, porém, que é o sincronismo entre a 
influência política exercida por D. Pedro e a intensidade das viagens 
de descobrimento. Enquanto até 1441 se realizam só três viagens, 
desse ano a 1447 efectuam-se vinte. Em compensação não se regista 



Q-) Crónica da Guiné, Livraria Civilização, Porto, 1937, vol. I, pág. XLI. 



139 

nenhuma tentativa em Marrocos, ao passo que antes as navegações 
se tinham interrompido para a ida a Tânger. 

Este conjunto de dados leva a aventar a hipótese de que a 
Regência de D. Pedro foi decisiva para os descobrimentos, desviando- 
-nos do objectivo norte-africano. E quere-se a contra-prova? A partir 
de 1448 cessam as viagens de exploração, afirmam unanimemente 
as fontes, e só de novo se realizam em 1456, e não por mandado 
de D. Henrique» Q). 

«A expansão deve-se não a uma iniciativa única mas a uma 
pluralidade de inicativas: 

a) Ceuta — João Afonso e D. João I; 

b) Passagem do Bojador — D. Henrique e talvez D. Pedro; 

c) Exploração da costa africana até à Serra de Leoa — D. Hen- 
rique, D. Pedro e particulares». 

«Na expansão divergiram duas orientações: conquista terri- 
torial e navegação comercial». 

«As duas orientações de expansão correspondem aos interesses 
contrastantes da nobreza e da burguesia». 

«A Regência de D. Pedro desviou do plano marroquino e 
promoveu decisivamente a exploração atlântica» ( 2 ). 

De outra obra do Dr. Magalhães Godinho ( 3 ) tira o autor o 
seguinte. 

«Não só a costa marroquina era abundantíssima de pescaria 
como ainda portugueses e castelhanos iam lá pescar efectivamente. 
A importância da pesca nas costas africanas ressalta do facto que 
foi objecto de negociações diplomáticas entre Portugal e Castela 
nos reinados de D. João II e de D. Manuel» ( 4 ). 

«Sabido que D. Pedro estimulou os descobrimentos e o desen- 
volvimento de relações comerciais pacíficas com a Guiné e aten- 
dendo a que defendia a colonização interna e a colonização das 
ilhas (como meio de obviar à carência de cereais, sem recorrer à 
anexação do Algarve de além-mar), há que concluir que a sua política 
era simultaneamente de fixação e de transporte» ( 5 ). 

«D. Pedro aceitava o quadro de valores: 

a) serviço de Deus; 

b) proveitos ; 

c) honra» ( 6 ). 



(*) Vitorino de Magalhães Godinho, A. Economia dos Descobrimentos 
Henriquinos, pág. 141. 

( 2 ) Ibidem, pág. 212. 

( 3 ) Vitorino de Magalhães Godinho, Documentos sobre a Expansão Portu- 
guesa. 

( 4 ) Ibidem, vol. II, pág. 50. 

( 5 ) Ibidem, pág. 135. 

( 6 ) Ibidem, pág. 136. 



140 

«No seu testamento D. Duarte deixava indicado que, durante 
a menoridade do filho, a Regência devia ser exercida pela rainha 
D. Leonor. Irmã dos «Infantes de Aragão» e da rainha de Castela, 
o seu governo representava uma ameaça de intervenção na política 
portuguesa de manejos castelhanos; mulher, afecta ao Infante 
D. Henrique e desafecta ao Infante D. Pedro, a nobreza consi- 
derava a sua regência como uma óptima oportunidade de obter 
mercês e privilégios e dominar o Estado. Foi nestas circunstâncias 
que as cidades do país, a burguesia nacional, impuseram primeiro 
a associação do exclarecido D. Pedro ao governo, e, em seguida, 
a passagem da Regência para as mãos deste Infante. Os aconte- 
cimentos de 143 8-1440 constituem assim como que uma segunda 
Revolução de 1383-1385. 

O triunfo da burguesia em 1440 abre um período de intensa 
exploração marítima que fecha em 1448 com o fim da Regência e 
vitória da nobreza. Afigura-se-me que são as condições sociais- 
-políticas da época da Regência que explicam o impulso dado às 
navegações e o abandono da política marroquina. Não é de forma 
alguma à iniciativa de D. Henrique mas à política de D. Pedro e à 
iniciativa dos burgueses que se deve fundamentalmente esta deci- 
siva expansão comercial-marítima, bem como a colonização insular. 
Já Manuel Heleno, num estudo em que aliás falha na interpretação 
da Regência e da figura do Regente, vincou que D. Pedro estimulara 
os descobrimentos; José de Bragança foi mais longe, revelando o 
antagonismo dos dois tipos de expansão (territorial-guerreiro e 
comercial-marítimo). É preciso dar um passo mais, e relacionar 
as explorações geográfico-mercantis com o triunfo político da 
burguesia de 1440 a 1448» ( x ). 

«O papel de D. Henrique nos conflitos que precederam e 
seguiram a Regência de D. Pedro é muito equívoco. Sem dúvida 
ao lado da nobreza contra as cidades, procurou firmar a sua situação 
apresentando-se como árbitro dos partidos» ( 2 ). 

«De 1440 a 1448 as navegações da iniciativa do Infante 
D. Henrique foram: 

1) 1441 — ■ Antão Gonçalves — Rio do Ouro (primeiros cativos). 

2) 1441 — Nuno Tristão — Cabo Branco. 

3) 1443 — Nuno Tristão — Adegete e Garças. 

4) 1444 — Gonçalo de Sintra — Arguim. 

5) 1444 — Nuno Tristão — Terra dos Negros. 



Q) Vitorino de Magalhães Godinho, Documentos sobre a Expansão Portu- 
guesa, vol. II, pág. 169. 
( 2 ) Ibidem. 



141 

As navegações de iniciativa não henriquina: 
i) 1444 — Lançarote — Naar e Tider. 

2) 1444 — Dinis Dias — Cabo Verde e Ilha de Palma. 

3) 1445 — Dinis Eanes, Álvaro Gil, Mafaldo (Gonçalo Coelho) 

— Terra dos Negros. 

4) 1445 — Álvaro Fernandes — Senegal e Cabo dos Mastros. 

5) 1445 — Gomes Pires e Lançarote — Senegal e zona de Cabo 

Verde. 

6) 1446 — • Nuno Tristão — Rio ao Sul de Cabo Verde. 

7) 1446 — Álvaro Fernandes — Rio e enseada ao sul do 

Gambia. 

8) 1446 — Estêvão Afonso e 6 caravelas — Terra dos Negros. 

9) 1447 — Valarte — • Terra dos Negros ao Sul do Cabo dos 

Mastros. 

Do Padre António Brásio tira o autor os elementos seguintes. 

«Rigorosamente falando — como escreve o R. P. Dias Dinis, 
O. F. M. — os primeiros missionários desta costa ocidental africana 
foram os navegadores e mercadores de Quatrocentos. Ao saltarem 
na «balsa» da Guiné animava-os o fervor religioso, e embora lhes 
não fosse estranho nem indiferente o desejo do lucro, animava-os 
sobretudo o ideal de cruzado e de missionário...»^). 

«As caravelas arvoravam as bandeiras da cruzada ou a cruz da 
Ordem de Cristo. Grandes cruzes de madeira assinalavam aos 
mareantes as paragens descobertas, ' como que a tomar posse das 
novas terras em nome do Evangelho» ( 2 ). 

«Deixámos provado que os primeiros missionários portugueses 
da «grão balsa da Guiné» foram os navegadores e mercadores do 
Infante, cujos nomes ficaram registados para sua e nossa glória, 
nos textos dos cronistas coevos... Mas se a acção missionária dos 
leigos precedeu a evangelização propriamente dita do padre, esta 
não foi descurada por D. Henrique. Já vimos como ele sonhava 
converter aquele povo infiel e bárbaro com apóstolos arrancados 
ao seu próprio meio» ( 2 ). 

Qual teria sido a razão da obra dos descobrimentos ser, até 
há pouco, atribuída exclusivamente ao Infante D. Henrique? 

Poder-se-á compreender tal facto, no parecer do autor, da 
maneira seguinte. 

Como Manuel Heleno, José de Bragança e Vitorino de Maga- 
lhães Godinho perfeitamente esclareceram, houve uma forte acção 
do Infante D. Pedro na génese dos descobrimentos, mas Gomes 



P. e António Brásio, A Acção Missionária no Período Henriquina, 
págs. 81 e 90. 
( 2 ) Ibidem. 



142 

Eanes de Zurara diluiu-a, o mais que pôde, na sua Crónica dos Feitos 
da Guiné. 

Os restantes e principais cronistas dos descobrimentos, Duarte 
Pacheco Pereira e João de Barros escreveram durante os reinados 
de D. Manuel e D. João III, filho e neto do Infante D. Fernando, 
o qual foi filho adoptivo e herdeiro do Infante D. Henrique, e que tinha 
rancor ao seu tio o Infante D. Pedro, considerando-o o perseguidor 
da sua mãe a rainha D. Leonor, de tal modo que não concordou 
com a sepultura dos seus ossos no túmulo da igreja da Batalha que 
lhes estava destinado. 

Assim compreender-se-á o motivo de no mosteiro dos Jerónimos, 
mandado construir pelo rei D. Manuel, se ver a estátua do Infante 
D. Henrique, em lugar principal, não havendo a mais pequena 
memória do Infante D. Pedro, num sumptuoso monumentos cheio 
de estátuas. 



O POVOAMENTO DA ILHA DA MADEIRA 
E DOS AÇORES 

A ideia da viagem às ilhas de Porto Santo e da Madeira inicial- 
mente, e depois a do povoamento, partiram dos escudeiros João 
Gonçalves Zargo e Tristão Vaz Teixeira, sendo a respectiva autori- 
zação dada pelo Rei D. João I e não pelo Infante D. Henrique. 
Só em 1433, já morto o pai, D. Henrique receberá os direitos sobre 
o arquipélago madeirense. O rei empreendeu a colonização da 
ilha por um lado pelo seu valor económico directo (criação de gado, 
sangue de drago, culturas), por outro lado pelo seu valor estraté- 
gico. Não foi o Infante mas o Rei que concedeu a Madeira a 
Gonçalves Zargo Q). 

Tendo recebido o senhorio das ilhas em 1433, ° Infante doa 
a Tristão Teixeira a capitania do Machico por carta de 8 de Maio 
de 1440 e a Gonçalves Zargo a capitania do Funchal por carta 
de 1 de Novembro de 1450 ( 2 ). 

É inegável que o povoamento da Madeira se realizou em nome 
de D. João I; como conciliar este facto com a sua atribuição a 
D. Henrique nas crónicas e diplomas henriquinos? É de admitir 
por um documento publicado nas anotações às Saudades da Terra, 
de Gaspar Frutuoso, por Rodrigues de Azevedo, que a colonização 



( x ) Vitorino de Magalhães Godinho, Documentos sobre a Expansão Portu- 
guesa, vol. I, págs. 175 e 176. 
( 2 ) Ibidem. 



143 

da Madeira se efectivou sob o patrocínio de D. João I, sem inter- 
venção do filho D. Henrique Q. 

O povoamento dos Açores deve ter começado em 1439 ou 
no ano seguinte. Possivelmente a sua finalidade seria: 

a) Fomentar a colonização criando possibilidades de rápido 
desenvolvimento económico ; 

b) Resolver o problema cerealífero da metrópole. ( 2 ) 

A ilha de São Miguel, donatária do Infante D. Pedro, foi 
mandada povoar em 1445, por este Infante, ao seu criado Gonçalo 
Velho. 

D. Pedro era decidido partidário da colonização das ilhas, 
e mais ainda foi o seu mais eficaz promotor durante a Regência. 
Possivelmente D. Pedro queria resolver os problemas económico- 
-sociais portugueses (carência de cereais, necessidade de expansão 
de mercados, sustentação dos nobres, etc.) pela colonização das 
ilhas e pela navegação comercial à Guiné, em vez da conquista de 
Marrocos que julgava impossível ou ruinosa com os recursos de 
que se dispunha. A importância económica de S. Miguel ressalta 
com clareza: cereais, vinhos, pescaria, madeira, legumes ( 3 ). 

Segundo conta Diogo Gomes, na «Relação dos Descobrimentos 
da Guiné e das Ilhas» ( 4 ), o Infante D. Pedro, sendo regente do 
reino de Portugal mandou homens a povoar a ilha de S. Miguel 
e enviou para aí muitos trotones, cavalos da Alemanha. A este respeito 
fez o Dr. Vitorino de Magalhães Godinho o seguinte comentário ( 5 ) : 
«A obscuridade que envolve a figura do Regente não nos permite 
avaliar a amplitude da sua acção, quer nos descobrimentos quer na 
colonização; por aqui vemos que esta o preocupou e, embora arro- 
jado, não é ilícito aventar que lhe deve decisivo impulso (cujos 
traços houve depois o cuidado de apagar)». 

Do Dr. Damião Peres ( 6 ), tira o autor os apontamentos 
seguintes. 

Referindo-se ao início da povoação da Madeira, o Infante 
D. Henrique declara na carta de concessão do espiritual da Madeira, 
Porto Santo e Desertas à Ordem de Cristo: «comecei de povoar a 
minha ilha da Madeira haverá ora trinta e cinco anos...» Acerca 
do mesmo assunto, D. Afonso V cita, mais tarde, a outras decla- 
rações do Infante: «E disse-nos o dito Infante meu tio que resguar- 



Q) Vitorino de Magalhães Godinho, Documentos sobre a Expansão Portu- 
guesa, vol. I, pág. 179. 

( 2 ) Ibidem, págs. 209 e 210. 

( 3 J Ibidem, pág. 212. 

( 4 ) Ibidem, pág. 105. 

( 6 ) Ibidem, pág. 115. 

( 6 ) Damião Peres, D. João I, Lisboa, 1917, págs. 61 e seg. 



144 

dando ele como João Gonçalves Zarquo cavaleiro de sua casa fora 
o primeiro homem querer seu mandado fora povoar as ditas ilhas...» 

Ora, o Rei D. João I, em contraposição às declarações do 
Infante a que atrás nos referimos, declara-se, falando da Madeira, 
Rei e Senhor da dita Ilha de todo o meu poder regulado e absoluto e afirma 
que João Gonçalves Zargo foi, por sua ordem, distribuir as terras 
da ilha 0. 

Também é igualmente notável que não tendo o Infante conse- 
guido alcançar em vida de D. João I a doação das ilhas descobertas, 
ela lhe foi feita por D. Duarte logo no primeiro ano do seu reinado( 2 ). 

Se nos detivermos neste facto e o aproximarmos da última 
afirmação de D. João I, seremos levados a concluir que o monarca, 
embora reconhecesse a importância dos descobrimentos, via neles 
também um germe de independência do Infante para com a coroa, 
independência que a todo o transe queria evitar reivindicando para 
si com toda a energia a iniciativa na administração das terras desco- 
bertas e todos os direitos de soberania nelas. 

Dá ainda força a esta suposição o depoimento de João de Barros, 
ao referir-se às intenções do Infante: «Porque vendo ele como os 
mouros do reino de Fez e Marrocos ficavam por conquista metidos 
na coroa destes Reinos, por o novo título que seu pai tomou de Senhor 
de Ceuta, e que por esta posse real a empresa daquela guerra era 
própria dos Reis deste Reino, e ele não podia intervir nisso como 
conquistador mas como capitão enviado, em o processo da qual 
guerra ele havia de seguir a vontade dei Rei e a disposição do Reino 
e não a sua, assentou em mudar esta conquista para outras partes 
mais remotas de Espanha do que eram os Reinos de Fez e de 
Marrocos. Com que a despesa deste caso fosse própria dele e não 
tachada por outrem; e os méritos do seu trabalho ficassem metidos 
na Ordem de cavalaria de Cristo que ele governava, de cujo tesouro 
podia despender» ( 3 ). 

É desconhecida a data da carta de D. João I em que o monarca 
se mostra tão cuidadoso defensor de todas suas prerrogativas ; ela é, 
porém, indubitavelmente, posterior de alguns anos ao início da 
colonização da Madeira. Assim explicar-se-ão as afirmações do 
Infante que estão em contradição com as do diploma régio. A inge- 
rência que o Infante teve desde começo na colonização e exploração 
das ilhas teria ido sucessivamente aumentando até chegar a um 
ponto em que inquietou o monarca. Neste momento o monarca 
expediu a carta centralizadora, a qual não representaria mais que 



(*) Documento transcrito no manuscrito intitulado Registo da Provedoria 
da Real Fazenda, publicado no Heraldo da Madeira, de 1907. 

( 2 ) Carta de 26 de Setembro de 1433. 

( 3 ) João de Barros, Primeira Década, Livro I, cap. II. 



145 

um poderoso entrave às ambições do Infante, tendo o monarca, 
para lhe dar mais força, apresentado certos factos pela forma que 
lhe pareceu mais adequada aos seus intuitos. 

No tempo de D. João I apenas se colonizou o grupo da Madeira 
e assim não houve ocasião para outros conflitos que esclarecessem 
amplamente a atitude do monarca. Depois da sua morte a coroa 
manifestou-se francamente favorável às pretensões do Infante. 



ALGUMA CRONOLOGIA HISTÓRICA 

141 5 — Tomada de Ceuta. 

1416 — Embaixada do Rei D. João I ao Concílio de Constança. 

Um dos oradores (embaixadores) foi Álvaro Gonçalves 
de Ataíde Q). 

141 8 — Bula do Papa Martinho V, Rex Regum, convidando os 

príncipes e todos os cristãos a associarem-se aos portu- 
gueses na sua luta contra os mouros. 
Obs. Esta bula foi concedida por súplica apresen- 
tada ao Papa pela embaixada ao Concílio de Constança( 2 ). 

— Bula do mesmo Papa, Super gregem dominicum, autori- 
zando os súbditos do monarca português a comerciar 
com os infiéis ( 2 ). 

141 9 — Achamento da ilha de Porto Santo, por João Gon- 

çalves e Tristão Vaz. 

— Lutas para o descerco da cidade de Ceuta. 

1420 — Achamento da ilha da Madeira por João Gonçalves. 
— -Bula do Papa Martinho V concedendo ao Infante 

D. Henrique a Administração-Geral da Ordem de Cristo. 
1425 — ■ Fundação da Congregação dos Cónegos Seculares de 
S. Salvador de Vilar de Frades. 

— Partida do Infante D. Pedro para combater os turcos 
na Hungria. 

1427 — O Infante D. Pedro é eleito cavaleiro da Jarreteira. 

— Reconhecimento dos Açores por Diogo de Silves. 

— Gonçalo Velho veleja até à Terra Alta. 

1428 — Regresso a Portugal do Infante D. Pedro trazendo de 

Pádua uma relíquia de Santo António. 

— O bispo de Évora D. Álvaro de Abreu é enviado à 
Borgonha por D. João I, para tratar do casamento da 
Infanta D. Isabel com o duque Filipe-o-Bom ( 3 ). 



Padre José de Castro, Portugal em Roma, vol. II, pág. 342. 

( 2 ) Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses, vol. I, págs. 230 e 231. 

( 3 ) J. Cardoso Gonçalves, O Casamento de Isabel de Portugal, pág. 14. 



146 



1429 — O duque de Borgonha envia a Portugal o seu pintor 

Jean van Eyck para pintar o retrato de D. Isabel. 

— A Infanta D. Isabel casa em Lisboa, no Paço da Alcá- 
çova, por procuração, sendo oficiante D. Álvaro de 
Abreu, e segue para a Borgonha acompanhada por este 
mesmo bispo, pelo seu irmão o Infante D. Fernando, 
pelo conde de Ourém D. Afonso e por outros fidalgos, 
entre os quais os cónegos de S. Salvador de Vilar, 
João Vicente (Mestre João) e o doutor Martim Lourenço 
chamados pelo Rei a Lisboa expressamente para esse 
fim, a pedido do Infante D. Fernando ( x ). 

1430 — Os cónegos de S. Salvador de Vilar, João Vicente e 

Martim Lourenço, depois de dois meses de permanência 
na Flandres, seguiram para Roma, para prosseguirem 
no estabelecimento da sua congregação perante o papa 
Martinho V e levando credenciais para tratar na 
cúria romana de negócios de Portugal e da Borgo- 
nha ( 2 ). 

143 1 — Morte do Papa Martinho V. Eleição do cardeal Gabriel 

Condelmário que tomou o nome de Eugénio IV. 

— Eugénio IV nomeia o cónego João Vicente bispo de 
Lamego, agradecido por ele o ter salvado de uma 
grave enfermidade. 

1433 — Morte do Rei D. João I. No Terreiro do Paço da 

Alcáçova faz-se o levantamento do Rei D. Duarte 
pronunciando a costumada arenga o bispo de Évora 
D. Álvaro de Abreu. Nas exéquias foram oradores, 
além de outros, o doutor Diogo Afonso Manga- 
-Ancha e o frade franciscano da observância Frei Gil 
Lobo. 

1434 — ■ Gil Eanes dobra o cabo Bojador. 

1436 — Embaixada ao concílio de Basileia. 

1437 — Tentativa malograda da conquista de Tânger. 

1438 — Falecimento do Rei D. Duarte, na idade de 47 anos. 

— Levantamento como rei do Príncipe D. Afonso, que 
então tinha perto de sete anos. 

1439 — Crise da regência do reino. 

— Embaixada a Marrocos para libertar o Infante D. Fer- 
nando, sendo embaixadores Martim de Távora e o 
licenciado Gomes Eanes. 



<}) Padre Francisco de Santa Maria, O Ceo Aberto na Terra, pág. 221. 
( 2 ) Comandante Moreira de Campos, Dois Bispos de Viseu, pág. 1 1 . 



147 

— Seguem para Roma em embaixada do regente D. Pedro 
ao Papa Eugénio IV, D. Rui da Cunha, prior da cole- 
giada de Guimarães e Frei João, provincial da Ordem 
do Carmo e futuro bispo de Ceuta. 

1440 — Falecimento do bispo de Évora D. Álvaro de Abreu. 

— Em Dezembro Q chegam a Portugal os embaixadores 
enviados a Roma. Trazem a dispensa verbal para o 
casamento do rei D. Afonso V com a filha do Infante 
D. Pedro, sua prima, D. Isabel. Trazem também uma 
Bula pela qual o Papa isentou para sempre das dioceses 
de Tui e Badajoz os territórios portugueses de entre 
Minho e Lima (Valença) e o de além Guadiana 
(Olivença), incorporando-os no bispado de Ceuta. 
Mais conseguiram que o Mestrado de Avis ficasse 
isento do Mestrado de Calatrava em Castela. 

1442 — Falecimento do Infante D. João, condestável de Por- 

tugal e administrador do mestrado da ordem de 
Santiago da Espada. 

— Falecimento, em Castela, do prior do Crato D. Frei 
Nuno de Góis. 

— O Infante D. Pedro, regente do reino, faz duque de 
Bragança ao conde de Barcelos D. Afonso. 

1443 — Falecimento do condestável de Portugal e adminis- 

trador da ordem de Santiago da Espada D. Diogo, 
filho do infante D. João. Sucede-lhe na administração 
do Mestrado o príncipe D. Fernando, filho do rei 
D. Duarte e, como condestável, D. Pedro, filho do 
Infante D. Pedro. 

— Falecimento, em 5 de Junho, do Infante D. Fernando, 
no cativeiro de Fez, sucedendo-lhe na administração 
do Mestrado de Avis, D. Pedro, filho do Infante 
D. Pedro. 

— Em Dezembro, o regente D. Pedro envia de novo o 
provincial do Carmo Frei João como embaixador ao 
Papa Eugénio IV. 

r 444 — Frei João consegue a dexanexação do Mestrado de 
Santiago da Ordem de Cáceres cuja sede era a cidade 
de Uclés em Castela e a dispensa para o príncipe 
D. Fernando poder casar com a sua prima coirmã 
D. Beatriz, filha do Infante D. João, já falecido. 

— Frei João é nomeado bispo de Ceuta (D. João Manuel). 



0) Anselmo Braamcamp Freire, Livro Terceiro dos Brasões da Salade 
Sintra, pág. 18. 



148 



1445 — O condestável D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, 

depois de ser armado cavaleiro pelo Infante D. Henrique, 
segue para Castela à frente duma expedição portuguesa 
para auxiliar o rei D. João na luta contra os Infantes 
de Aragão, irmãos da rainha D. Leonor, mãe do rei 
D. Afonso V. 

— Expedição nacional à ilha de Tider, para castigo do& 
mouros seus habitantes autores da morte de Gonçalo 
de Sintra. 

— Descoberta da ilha de Santiago, do arquipélago de 
Cabo Verde, por Vicente Dias (Teoria de Wieder). 

— Povoamento da ilha de S. Miguel, por Gonçalo 
Velho, por mandado do Infante D. Pedro, donatário 
da ilha. 

— Falecimento de D. Fernando de Noronha, conde de 
Vila Real. 

— O licenciado em teologia e cónego de S. Salvador de 
Vilar de Frades, Jorge da Costa, é escolhido pelo regente 
D. Pedro para mestre da Infanta D. Catarina, irmã 
do rei D. Afonso V. 

— O rei de Inglaterra Henrique IV faz a Álvaro Vaz de 
Almada, conde de Avranches (cidade da Normandia 
que então pertencia à Inglaterra) o qual passa a usar 
o nome de D. Álvaro de Almada. 

— Morte da rainha D. Leonor, em Castela, depois de 
ter passado muitas privações, valendo-lhe com dádivas 
em dinheiro o seu primo D. Fernando de Noronha. 

1446 — Em Janeiro deste ano o rei D. Afonso V atinge a maiori- 

dade (catorze anos). 

— O bispo de Lamego D. João Vicente é nomeado pelo 
Papa, bispo de Viseu. 

— D. Sancho de Noronha é feito conde de Odemira. 

1447 — O bispo de Viseu D. João Vicente parte para Castela 

como confessor, esmoler-mor e capelão-mor de D. Isabel, 
filha do falecido Infante D. João, que se havia tornado 
rainha de Castela pelo seu casamento com o rei João III. 

1448 — Casamento solene de D. Afonso V com sua prima 

D. Isabel, filha do Infante D. Pedro. 

— Em Maio, o Rei assume inteiramente o poder saindo 
da regência o Infante D. Pedro. 

— Aires Gomes da Silva e o Conde de Avranches são 
destituídos dos seus cargos públicos, respectivamente 
regedor das justiças da casa do cível e alcaide-mor de 
Lisboa. 



149 

— Em Dezembro, Álvaro Gonçalves de Ataíde é feito 
conde de Atouguia. 

1449 — recontro de alfarrobeira, em 20 de Maio. Mortes 

do Infante D. Pedro e do Conde de Avranches. No 
campo ficam os dois filhos do Infante, D. João e 
D. Jaime. 

1450 — O rei D. Afonso V contrata «ora novamente» a Nuno 

Gonçalves para seu pintor. 
145 1 — O mesmo Rei perdoa ao pintor Afonso Gonçalves, 
a pedido do doutor Lopo Gonçalves, do seu desem- 
bargo, por ele ter sido um dos companheiros do Infante 
D. Pedro no recontro de Alfarrobeira Q). 

— Em Junho, chega a Portugal João Álvares, com as 
relíquias do Infante Santo. 

— Em Agosto, celebram-se em Lisboa as sumptuosas 
festas dos esponsórios da Infanta D. Leonor, irmã 
de D. Afonso V, com o imperador da Alemanha Frede- 
rico III. O Infante D. Henrique, então com 57 anos 
de idade, apresentou-se nessas festas com o maior 
«luzimento» sendo «mantenedor nas justas e director 
nos torneios», e «escurecendo a pompa obsequiosa 
de todos» ( 2 ). A Infanta seguiu para Siena (Itália) 
acompanhada por vários fidalgos entre os quais o 
cónego de Santa Cruz de Coimbra João Galvão que 
ia como seu capelão-mor. Este cónego foi hospedado 
em Siena por Eneas Silvio Piccolomini, futuro Papa 
Pio II, «com quem contraiu estreita amizade e cultivou 
sempre particular cortejo e correspondência» ( 3 ). 

x 45 3 — Tomada de Constantinopla pelos turcos. 

— Aos 1 8 dias de Fevereiro, o escudeiro e escrivão dos 
livros do Rei D. Afonso V, João Gonçalves, terminou 
o primeiro volume da Crónica dos Feitos da Guiné da 
autoria de Gomes Eanes de Zurara, no qual se encontra 
uma iluminura representando o Infante D. Henrique. 
O manuscrito respectivo encontra-se em Paris, na 
Biblioteca Nacional. 

— Em 20 de Dezembro, o Doutor Lopo Gonçalves 
procurador do Rei D. Afonso V assinou umas capi- 
tulações matrimoniais ( 4 ) para o casamento do Rei 



C 1 ) Sousa Viterbo, Notícia de Alguns Pintores, pág. 83. 

( 2 ) Cândido Lusitano, A Vidando Infante D . Henrique, pág. 376. 

( 3 ) P. Francisco da Fonseca, Évora Gloriosa, pág. 323. 

( 4 ) Capitulações: Condições com que se ajusta qualquer coisa (Morais, 
Dicionário da Língua Portuguesa, ed. de 1889). 



150 



Henrique IV de Castela com a infanta D. Joana, irmã 
do Rei de Portugal Q. 

1454 — Em 17 de Julho, o Rei D. Afonso V tomou para seu 
pintor, para o servir no seu armazém da cidade de 
Lisboa, a João Eanes. 

145 5 — Em 3 de Maio, nasce o príncipe D. João, futuro Rei 
D. João II. A 11 do mesmo mês foi baptizado na Sé 
de Lisboa pelo bispo de Ceuta e capelão-mor de 
D. Afonso V, D. João Manuel. Assistiram à cerimónia 
«sessenta fidalgos vestidos de opas roçagantes de ricos 
brocados, e sessenta senhoras, donas e damas, vestidas 
à francesa de ricos brocados» ( 2 ). Logo se convocaram 
as cortes nas quais foi jurado príncipe-herdeiro pelos 
três estados do reino que se reuniram em Lisboa na 
sala grande do Paço da Alcáçova. O Príncipe estava 
numa cadeira rica assentado no colo da sua ama. Neste 
acto todos estavam em pé, ficando o Infante D. Fernando 
da parte direita e o Infante D. Henrique da parte 
esquerda. Por trás do Infante D. Fernando estava 
o marquês de Valença D. Afonso, seguindo-se-lhe em 
pessoa ou por procuradores: o duque de Bragança 
D. Afonso; o marquês de Vila Viçosa e conde de 
Arraiolos D. Fernando; o conde de Vila Real D. Pedro 
de Meneses; e vários bispos e membros da nobreza, 
procuradores das cidades, etc. ( 3 ). 

— Em 21 de Maio, casamento da Infanta D. Joana, filha 
do Rei D. Duarte, com o Rei Henrique IV de Castela. 
Os decotes até ao estômago, os meneios escandalosos 
e as galas inverosímeis das damas da Princesa chegaram 
a escandalizar os castelhanos ( 4 ). 

— Trasladação dos ossos do Infante D. Pedro para o 
Mosteiro da Batalha. 

— Em Dezembro, falecimento da Rainha D. Isabel, na 
idade de 22 anos. 

145 8 — D. Afonso V fa% um voto público a Deus e aos seus santos 
de participar na cruzada pontifícia contra os turcos. 

— Em Outubro, tomada de Alcácer-Ceguer, ficando 
D. Duarte de Meneses como capitão da praça. 



(!) Luis Suarez Femandez, Relaciones entre Portugal j Castilla en la Época 
dei Infante D. Henrique, Madrid, 1960, pág. 66. 

( 2 ) Garcia de Resende, Vida e Feitos dei Rei D. João II, pág. 3. 

( 3 ) D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portu- 
guesa, Tomo IIT, pág. 61. 

( 4 ) Mattos Sequeira, História do Trajo em Portugal, pág. 30. 



■--. 



151 

1459 — Em Agosto, falecimento na cidade de Florença do 

Cardeal D. Jaime de Portugal, filho do Infante D. Pedro. 

1460 — D. Afonso V dá ao conde de Odemira D. Sancho de 

Noronha a regência do reino do Algarve, com o título 
de Adiantado. 

— D. Duarte de Meneses é feito conde de Viana (do 
Minho) pelo Rei D. Afonso V. 

— Bula Regis eterni pela qual o Papa comutou o voto 
de D. Afonso V. 

— Falecimento do marquês de Valença e conde de Ourém, 
D. Afonso. 

— Em Novembro, falecimento do Infante D. Henrique. 

1461 — Falecimento do primeiro duque de Bragança D. Afonso, 

sucedendo-lhe o seu filho D. Fernando, marquês de 
Vila Viçosa e conde de Arraiolos e de Ourém. 

— O Papa Pio II nomeia D. João Galvão, bispo de 
Coimbra, seu legado a latere em Portugal. 

1462 — Combate naval em frente de Alcácer, em que D. Henrique 

de Meneses filho do conde D. Duarte ficou ferido por 
uma seta que lhe passou por baixo da língua. 

1463—0. Pedro, filho do Infante D. Pedro, segue para Barce- 
lona por os catalães o haverem escolhido para rei de 
Aragão, o que lhe pertencia por parte de sua mãe. 

1464 — Escaramuça na serra de Benacofú, em Marrocos, na 
qual D. Duarte de Meneses, conde de Viana, Diogo 
da Silveira, escrivão da puridade e Pedro Gonçalves, 
secretário do Rei D. Afonso V, perderam a vida para 
salvarem a do Rei. 

1467 — Neste ano, servem o Rei o cavaleiro e doutor em leis 
Rui Gomes de Alvarenga, como chanceler-mor, e o 
Bispo de Coimbra, D. João Galvão, que havia sido 
legado do Papa Pio II em Portugal, como escrivão 
da puridade. 

— Frei João Álvares esteve, neste ano, na Borgonha aonde 
o chamara a Duquesa D. Isabel para tratar da instituição 
duma capela em Lisboa, dedicada à memória de 
D. Fernando. 

147° — Falecimento do Infante D. Fernando sucedendo-lhe, 
como duque de Viseu, o seu filho D. Diogo. 

— O pintor de D. Afonso V e cavaleiro da sua casa, Nuno 
Gonçalves, recebe o pagamento do feitio e custos do 
retábulo que fez para a capela real de Sintra. 

l 4Tí — O Rei D. Afonso V determina qué o pintor Joane 
Anés não receba ordenado, daí em diante, e que o 



152 



pintor Nuno Gonçalves pinte por ele as obras da 
cidade. 

— Casamento do Príncipe D. João com D. Leonor, filha do 
Infante D. Fernando e irmã do duque de Viseu D. Diogo 
e do duque de Beja D. Manuel, futuro rei de Portugal. 

— Tomada das cidades de Arzila e Tânger aos mouros. 
i^-jz — Entrada da Infanta Santa Joana no Convento de Jesus 

em Aveiro. 

1475 — Nascimento do príncipe D. Afonso, filho do príncipe 
D. João, futuro Rei D. João II. 

1481 — Falecimento do Rei D. Afonso V sucedendo-lhe o seu 
filho D. João II. 

1483 — Decapitação do 3. duque de Bragança, em Évora. 

1484 — Assassinato do duque de Viseu D. Diogo pelo rei 
D. João II, lavrando o respectivo auto o doutor Nuno 
Gonçalves. 

1491 — Falecimento, em Julho, do príncipe D. Afonso em 
resultado de ter caído do cavalo com que andava em 
corridas na ribeira de Santarém. 

Começo do século xvi — O Rei D. Manuel instala-se no Paço 
da Ribeira, que havia mandado construir, não voltando 
mais a viver no Paço da Alcáçova. 

1548 — Publicação de um livro de Francisco de Holanda onde 
se diz que Nuno Gonçalves pintou na Sé de Lisboa 
o altar de S. Vicente. 

(1675-1702) — O Arcebispo de Lisboa e Cardeal, D. Luís de 
Sousa, mandou fazer um retábulo novo para a capela- 
-mor da Sé de Lisboa e guardar os antigos painéis 
que «mostravam a trasladação das relíquias de São 
Vicente». 

I7 42 — O Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida, 
mandou limpar esses painéis e guarnecê-los com mol- 
duras. Por ordem do Rei D. João V fez-se então uma 
junta de pintores da corte, para averiguar quem seria 
o autor deles, a qual nada conseguiu, por serem muito 
antigos. Foram enviados para o palácio da quinta de 
Marvila por ordem do mesmo Cardeal-Patriarca. 

1755 — Grande terramoto de Lisboa, pelo qual nada sofreu 
o palácio da Mitra, em Marvila. 

1763 — Os painéis encontravam-se na casa do jardim do palácio 

da Mitra, no sítio de Marvila. 
! 7 6y — , No palácio da Mitra encontravam-se mais de doze 
painéis para aí enviados da Sé de Lisboa por ordem 
de D. Tomás de Almeida, com milagres de São Vicente, 



153 

todos antiquíssimos e «pintados de pintura do mesmo 
pintor», num dos quais «se mostra pela pintura ser a 
entrega do caixão em que vinha o corpo ou ossos de 
S. Vicente, e noutro estavam quatro cónegos regulares». 
1834 — Instalação do Paço Patriarcal no Mosteiro de São 
Vicente de Fora, «para onde, muito provavelmente, 
se transferiu tudo o que então havia no palácio da 
Mitra, incólume ao terramoto «(Adriano de Gusmão). 

1882 — O entalhador Leandro Braga comunica ao pintor 

Columbano Bordalo Pinheiro que nuns andaimes 
dumas obras internas do Mosteiro de São Vicente 
estavam umas tábuas pintadas que pareciam ser quadros 
antigos e bons (Afonso de Dornelas). Este pintor 
reconhece o grande valor das tábuas e identifica o 
retrato do Infante D. Henrique. 

1883 — Em Setembro, Monsenhor Alfredo Elviro dos Santos 

foi nomeado secretário do Cardeal-Patriarca D. José III. 

Encontrou depois numa casa escura do primeiro andar 

muitos quadros cobertos de uma grande camada de 

poeira entre os quais quatro, notabilíssimos, do séc. xv. 

Num dia que ali apareceu o Visconde de Castilho 

mostrou-lhe os quadros. Apenas olhou, exclamou, 

muito entusiasmado : — Ali está o retrato do nosso 

grande Infante D. Henrique! 
19 10 — Publicação do livro — O Pintor Nuno Gonçalves — do 

Dr. José de Figueiredo. 
1925 — Publicação do livro — Os Painéis do Infante Santo — 

do Dr. José Saraiva. 
1927 — Publicação do livro — O Políptico do Convento de Santo 

Elói — de Henrique Loureiro. 
— Publicação do livro — História Crítica dos Painéis de 

Nuno Gonçalves — do Marquês de Jácome Corrêa 
1932 — Publicação do livro — O Simbolismo do Políptico de Nuno 

Gonçalves — do Dr. Armando de Sousa Gomes. 
1936 — Publicação do livro — Os Painéis de S. Vicente num 

Códice da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro — do 

Dr. Artur da Mota Alves. 
1 944 — Publicação do artigo — A Radiografia do Santo no Painel 

do Infante, do Dr. João Couto, no Boletim dos Museus 

Nacionais de Arte Antiga. 
1952 — No n.° 4 da 2. a série da revista Belas Artes, o arquitecto 

José Cortez revela a identificação do retrato de D. João 

de Coimbra pintado por Van der Weyden, existente 

no Museu Real de Bruxelas. 



154 



1953 — No n.° 6 da 2. a série da revista Belas Artes, o arquitecto 
José Cortez revela a identificação do retrato de D. Jaime, 
filho do Infante D. Pedro, pintado por Van der Weyden, 
e existente na Inglaterra, na galeria do Visconde de 
Bearsted, em Upton House. 

1957 — Publicação do livro — O Mistério dos Painéis — O Cardeal 
D. Jaime de Portugal — do Dr. António Belard da 
Fonseca. Esta obra foi a primeira duma série da qual, 
até à data presente, foram publicadas mais as seguintes : 
O «Judeu», o seu Livro e a Crítica; As Personagens e a 
Armaria; Dom Henrique? Dom Duarte'? Dom Pedro?; 
e Os Pintores. 
— Publicação do livro — Estética e Enigmática dos Painéis — 
do Dr. Afonso Botelho. 

1959 — Publicação do artigo «O Mistério dos Painéis», do 

Dr. António Leite, na revista «Brotéria», vol. LXIII, 
n.o 6. 

1960 — Artigo do arquitecto José Cortez na revista «Colóquio», 

n.° 7, do mês de Fevereiro, sobre a identificação do 
retrato de D. João de Coimbra, do Museu Real de 
Bruxelas. 
1962 — Publicação do livro — Os Descobrimentos Portugueses 
— do Dr. Jaime Cortesão, cujas págs. 422 a 467, do 
vol. I, são dedicadas ao estudo dos Painéis de S. Vicente. 



— ^M 



II 



ICONOGRAFIA 



f 



APONTAMENTOS DE ICONOGRAFIA 



Como não poderia deixar de ser, a grande maioria destas noções 
foram extraídas do tratado de Luis Réau intitulado «Iconographie 
de L'Art Chrétien». 

O simbolismo lembra a ideia duma linguagem oculta e esotérica, 
ao mesmo tempo misteriosa e reveladora, clara para os iniciados, obscura 
para o vulgo. Num símbolo há dissimulação e, todavia, revelação 
(Carlyle). 

O pensamento simbolista permite uma infinidade de relações 
entre as coisas. Cada coisa pode significar, pelas suas qualidades 
especiais diferentes, várias ideias, e cada qualidade pode também 
ter diferentes significados. As mais elevadas concepções podem 
ter milhares de símbolos. Nada é humilde em demasia para repre- 
sentar e glorificar o que é sublime. A noz significa o Cristo, o núcleo, 
doce, é a Sua natureza divina, o invólucro verde, externo, a Sua 
humanidade e a casca representa a cruz ( x ). 

Nas catacumbas, o peixe é um dos emblemas de Cristo. A âncora 
é o emblema da salvação no meio das tempestades e o travessão 
colocado acima do anel dá-lhe a forma duma cruz. 

O simbolismo toma um desenvolvimento prodigioso durante a 
Idade Média. Com São Tomás de Aquino os homens ilustres da 
história ou os objectos que a natureza nos oferece não têm valor 
por si próprios mas somente pela medida em que conduzem a Cristo. 
Gilson condensou o essencial desta doutrina na seguinte fórmula: 
«Para um pensador daquele tempo, explicar uma coisa consiste 
sempre em mostrar que ela não é o que parece ser mas sim o símbolo 
e o sinal duma realidade mais profunda — ela anuncia e significa outra 
coisa». 

A ideia dominante do pensamento medieval é que o mundo 
visível., conhecido pelos sentidos, não tem interesse senão como o 
símbolo ou prefigura dum mundo invisível. Os objectos não valem 
senão como sinais de realidades supra-sensíveis que é preciso discernir 
e interpretar. 



Q) Johan Huizinga, O Declínio da Idade Média, Livros Pelicano, pág. 211. 



158 

O simbolismo da esquerda e da direita consistia em a esquerda 
ser reputada de mau agoiro e a direita ocupar, pelo contrário, o lugar 
de honra. A preeminência atribuída à mão direita é atestada, ao 
mesmo tempo, pelos textos, as imagens e os usos. 

O pensamento da Idade Média dá significado simbólico às cores. 
Aos quatro elementos correspondem quatro cores: o azul ao ar, 
o castanho à terra, o verde à água e o vermelho ao fogo. O branco 
simboliza a luz, a eternidade; por isso se vestem de branco os anjos 
nas visões de Daniel e de S. João. Na Igreja, é a cor das vestes do 
Papa e das alvas e sobrepelizes dos sacerdotes. O vermelho é a cor 
do sangue e do fogo. Na mística cristã é o emblema do amor 
divino, dos mártires que são os soldados de Cristo e dos santos 
inocentes. O roxo tem significado maléfico. O negro é a cor do 
luto. As cores litúrgicas, em número de cinco, correspondem, 
cada uma delas, a certa categoria de festas ou ofícios. Assim, o ver- 
melho é reservado às festas dos Mártires por causa do sangue da 
sua paixão e ao Pentecostes devido às línguas de fogo. 

O peixe simboliza Jesus Cristo porque o seu nome em grego 
ikthus é o acróstico de Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. 
Representa também, às vezes, as almas que o divino Pescador apanha 
nas suas redes. Esta assimilação tornou-se corrente pela Vocação 
dos Apóstolos cujos quatro primeiros foram recrutados entre os 
pescadores do mar da Galileia que, de pescadores de peixes, se tor- 
naram pescadores de almas. 

O peixe era também o símbolo do Baptismo e consequentemente 
dos evangelizadores que baptizaram os pagãos depois de os terem 
convertido. 

Das Artes Liberais, a Retórica era representada por uma figura 
que, em vez de fazer um gesto oratório, segurava nas suas mãos 
moedas de ouro. Isto levou à interpretação de que se tratava de 
relação com o facto de os grandes oradores da Antiguidade serem 
frequentemente denominados «Boca-de-Ouro». 

No Estudo Geral ou Universidade, as cores das Faculdades 
eram semelhantes às de hoje. Assim para o Direito a cor era a 
vermelha, a amarela para a Medicina, etc. 

Nas igrejas, as pedras simbolizam os fiéis, as ombreiras simbo- 
lizam os apóstolos e o portal da fachada é a imagem do Salvador, 
visto Ele a si próprio assim se ter designado, no Evangelho de 
S. João (cap. 10, v. 9): «Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim 
será salvo». 

Os gestos litúrgicos distiguem-se em atitudes corporais e gestos 
manuais. 

As atitudes corporais são a estação vertical, a prostração e a 
genuflexão e indicam submissão. 



159 

Até ao século xiii a atitude obrigatória da prece era a estação 
vertical. Depois aparece a genuflexão adoradora que é na sua origem 
a atitude do vassalo reconhecendo a sua dependência perante o 
suzerano: «joelhos flectidos e mão postas». A genuflexão exprime humi- 
lhação e pode ser feita com os dois joelhos ou com um só. Esta 
última, na Idade Média, era reservada somente aos Sacerdotes 
temporais ( 1 ). A partir do século xiii os Reis Magos, nas pinturas 
que representam a Adoração, em vez de se inclinarem ou prostra- 
rem, põem um joelho em terra perante Nossa Senhora para lhe 
oferecerem os presentes para o Deus Menino. 

A atitude de estar de joelhos é completada algumas vezes com 
a prostração completa, que consiste em deitar o corpo ao comprido, 
devendo a fronte estar virada para o chão e apoiada sobre os braços 
cruzados. Esta prostração faz-se durante o canto das Ladainhas 
no Sábado Santo e na vigília do Pentecostes ( 2 ) e nas cerimónias 
da ordenação quando o prelado estende a mão direita sobre o orde- 
nando dizendo: «Recebe o Espírito Santo, etc.» ( 3 ). 

Os gestos manuais de oração e penitência são destinados a 
chamar a graça divina. 

Os gestos de oração podem ser os das mãos postas e os das 
mãos escondidas. 

O gesto das mãos postas somente aparece na arte da Idade Média 
no século xii. É na sua origem um gesto de submissão e não de 
oração pois é desse modo que se exprime a homenagem do vassalo 
que põe as mãos juntas perante o seu suzerano para mostrar que se 
submete à sua vontade. Como se punham juntas as mãos dos mortos 
para manifestar da mesma maneira a sua submissão à vontade de 
Deus, este gesto passou naturalmente à escultura funerária dos 
jacentes. Foi pouco a pouco, que se impôs como o gesto ritual da 
oração litúrgica e individual. 

O gesto das mãos escondidas é costume de muito antiga tradição 
pois já os judeus do Velho Testamento conheciam este modo de 
testemunhar respeito ao aproximar-se da divindade para orar. 

Os evangeliários são livros litúrgicos que contêm o texto 
completo dos quatro Evangelhos. 

O livro que o personagem central do painel da Cruzada ostenta 
na mão, aberto numa passagem do Evangelho de São João, não é 
um livro vulgar como o que se vê debaixo do braço do Doutor 
Manga-Ancha ou aberto nas mãos de Olivier de La Marche. Está 
forrado com um pano verde um pouco pendente, tal como ainda 

( x ) Abbé R. Aigran, Liturgia, Paris, 1935, pág. 389. 

( 2 ) Dom António Coelho, O. S. B., Curso de Liturgia Romana, tomo II, 
pág. 254. 

( 3 ) Abbé R. Aigran, Liturgia, Paris, 1935, pág. 738. 



160 

hoje se usa em muitas igrejas nos evangeliários que servem nas 
missas solenes Q). 

Todos os actos da Missa, mesmo os menores gestos do cele- 
brante, têm um significado simbólico de que a maior parte dos 
fiéis de agora não têm consciência, mas que na Idade Média era 
familiar a todos os letrados. 

Dentre as vestes litúrgicas, a dalmática é usada pelos diáconos 
e a mitra pelos bispos ou arcebispos. A capa tem também o nome 
de pluvial. O báculo ou bago é o bastão ou cajado pastoral dos 
prelados. 

Além da Liturgia, duas outras manifestações do culto público 
exercem na arte religiosa da Idade Média profunda influência: 
a Pregação e o Teatro religioso. 

No século xiii a pregação toma um grande impulso graças à 
fundação das ordens dos Dominicanos e Franciscanos. 

O teatro nasce do culto religioso que ele exterioriza sob a forma 
do drama. Na história do teatro medieval do Ocidente, distinguem-se 
duas fases muito nítidas : o drama litúrgico e os Mistérios. O primeiro 
era representado por padres no interior das igrejas mas o segundo, 
pelo contrário, passava-se ao ar livre e os actores eram laicos. 

Um exemplo da influência que o teatro religioso exerceu sobre 
a pintura na Idade Média é a Ceia de Thierry Bouts cuja disposição 
está de acordo com a encenação dos Mistérios. Muitos outros 
se poderiam apresentar pois há grande número de pinturas que 
são nitidamente ilustrações de Mistérios. É sobretudo a partir do 
século xv, o qual coincide com o apogeu do teatro religioso da 
Idade Média, que as correspondências entre o Teatro e as artes 
plásticas se evidenciam e multiplicam. 

A arte do fim da Idade Média transformou-se pois no seu espírito, 
passando os artistas a ligar-se mais à realidade que ao símbolo, 
devido à influência dos quadros vivos dos Mistérios que lhes fazem 
ver e tocar ó que até então eles imaginavam confusamente. 

Em iconografia deve dar-se a maior atenção à simetria que é 
uma exigência imperiosa não só da vista como do espírito humano. 
O gosto da simetria foi levado pela Idade Média até à mania do 
que resultaram dois princípios que tiveram importantes consequências 
iconográficas: a lei da duplicação e a lei dos números pares. 

A lei da duplicação leva os artistas a verem muitas vezes 
em dobro. Assim uma personagem ou animal que normalmente 
deveria estar só é muitas vezes duplicado contra toda a verosimi- 
lhança por razões puramente decorativas. Os exemplos de duplicação 



( 1 ) Dr. António Leite, Os Mistérios dos Painéis, in «Bfotéria», vol. LXVIII 
n.° 6, de 1959. 



161 

simétrica abundam na arte cristã da Idade Média. Assim vemos na 
arquitectura muitos exemplos de janelas falsas. O próprio Cristo é 
muitas vezes duplicado sem outra razão que a necessidade de sime- 
tria. Na catedral de Parma, S. Martinho reparte o seu manto não 
somente com um mendigo, como conta a lenda, mas com dois, como 
o exige a simetria. Acrescente-se, ainda, que os temas masculinos 
são frequentemente duplicados na Idade Média, com temas femi- 
ninos, para terem figuras simétricas. Assim a cada Profeta 
corresponde uma Sibila, etc. Chegou-se mesmo a inventar uma 
dama macabra de mulheres para corresponder à dama macabra dos 
homens. 

A simetria exige números pares porém, infelizmente, os números 
sagrados são frequentemente números ímpares, como a Trindade, 
os Reis Magos, as Virtudes Teologais, etc. Mas os artistas não 
hesitam. Para realizar uma simetria que lhes era indispensável, eles 
transformavam números ímpares em números pares. Por exemplo, na 
iconografia das Artes Liberais que eram sete (trivium e quadrivium) 
acrescentaram-se três na fachada da catedral de Laon: a Filosofia, 
a Arquitectura e a Medicina. Deste modo a simetria ficava vitoriosa 
contra os textos e tradições, mesmo os mais veneráveis. 

Por fim não deve ser esquecido o factor estético. A arte consiste 
em dar às ideias uma forma plástica. Para realizar esta encarnação, 
o artista obedece não somente às indicações dum programa mas 
ainda às solicitações discretas ou imperiosas da forma que umas 
vezes sugere e outras ordena. 

Os artistas deram sinais às imagens dos santos para todos, mesmo 
os não instruídos, os poderem facilmente identificar. Esses sinais 
são as características e os atributos. 

Características são as particularidades físicas e de vestuário que 
pertencem propriamente a um dado santo e são inseparáveis da 
sua pessoa; por outras palavras, são o seu tipo e o seu traje tradi- 
cionais. É assim que se reconhece São Pedro pela tonsura, São Paulo 
pela calvície, etc. 

Atributos, pelo contrário, são sinais de reconhecimento ajun- 
tados à personagem. Serão, por exemplo, objectos emblemáticos 
que elas seguram nas mãos, como as chaves de São Pedro, a espada 
de São Paulo, etc. 

Os atributos classificam-se em reais e simbólicos. 

São exemplos dos primeiros a coroa dos santos reis, o báculo 
dos bispos, etc; entre os segundos temos a palma do martírio, as 
chaves de São Pedro, etc. 

O nimbo é o tipo de atributo universal, comum a todos os 
santos. Mas não se pense que a arte cristã o reserva exclusivamente 
aos santos. É uma maneira de exprimir que as personagens repre- 



11 



162 

sentadas estão na «graça de Deus». O nimbo é geralmente circular, 
porque o círculo é considerado como a forma perfeita e o emblema 
da abóbada celeste: firmamento ou Paraíso. Em vez de um nimbo 
circular encontra-se, às vezes, um halo de raios luminosos aureolando 
a face do santo. O nimbo foi, a princípio, de várias cores e só mais 
tarde se impôs a cor do ouro que é a do sol e convém particular- 
mente à glorificação dos santos. 

O livro é um atributo muito espalhado, caracterizando não só 
o Cristo Ensinador mas também os Apóstolos, os Evangelistas, etc. 
Na maior parte das vezes, este livro é um Evangeliário. 

Os atributos que distinguem os Mártires são quase sempre os 
instrumentos do seu suplício. 

Há atributos que geraram patronagens. Assim, a espada que 
lembra a degolação de S. Paulo fê-lo escolher para patrono dos 
cavaleiros. 

A religião cristã teve origem na religião nacional dos Judeus, 
mas internacionaliza-se pelo génio de propaganda de S. Paulo, após- 
tolo dos gentios. 

Os símbolos zoomórficos de Cristo são o peixe e o cordeiro. 
Segundo Santo Agostinho, o peixe é o símbolo de Cristo que desceu 
vivo no abismo da vida mortal como o peixe na profundeza das 
águas. O peixe é muitas vezes associado à âncora que se torna o 
símbolo cristão da cruz (segundo S. Paulo, a cruz é a âncora dos 
cristãos) e, depois, da firme esperança da salvação. 

A imagem de Cristo pescador foi naturalmente sugerida pela 
Vocação dos quatro primeiros apóstolos, a quem Cristo, ao vê-los 
lançar as redes, disse: «Segui-me que eu vos farei pescadores de 
homens». Nas Catacumbas vêem-se pinturas em que Cristo pescador 
de almas apanha com um anzol um peixinho, símbolo da alma salva. 
Num sarcófago existente em Roma, Cristo captura os peixes numa 
rede em vez de utilizar o anzol. Esta variante é inspirada na pará- 
bola do Evangelho de S. Mateus ( x ) : O reino dos céus é semelhante a 
uma rede lançada ao mar, que colhe toda a casta de peixes... 

A imagem de Cristo pregado na cruz apresenta-O sempre 
com a cabeça pendente sobre a espádua direita. 

A representação iconográfica da Santíssima Trindade, tema 
dificílimo para os artistas, pode ser classificada em dois grupos de 
símbolos: geométricos e antropomórficos. Dentre os primeiros, 
o mais corrente é um triângulo equilátero inscrito num círculo. 

Os anjos são ministros ou diáconos do Senhor ( 2 ) a quem servem 



Capítulo XIII, v. 47. 

( 2 ) Dr. António de Vasconcelos, Duas Cartas sobre Indumentária Litúrgica 
na Iconografia Medieval, in «Biblos», vol. II, n. os 3 e 4 de 1926, pág. 120. 



163 

de intermediários em relação aos homens e lhes transmitem as Suas 
instruções. 

Os anjos são os instrumentos da vontade divina. Da mesma 
maneira que o utensílio é o prolongamento da mão humana, eles 
prolongam e acabam por substituir na iconografia a Mão de Deus 
(Manus domini). Mas não estão somente ao serviço da divindade; 
estão também ao serviço dos homens. Os anjos são essencialmente 
os mensageiros de Deus, transmitindo as suas instruções, avisos ou 
ameaças, ou mesmo actuando como, por exemplo, aquele que susteve 
a faca de Abraão. 

Os homens que têm direito à assistência dos anjos são princi- 
palmente os profetas, os mártires e os santos. Assim, um anjo 
inspirador guia a mão de São Lucas ao pintar o retrato da Virgem; 
outro dita a São Gregório as suas homilias. 

Os anjos são um traço de união entre Deus e os homens, fazendo 
de lançadeira entre o céu e a terra, subindo e descendo a escada 
celeste da visão de Jacob. 

Os anjos não têm sexo, conforme se vê pelo cap. XXII, v. 30, 
do evangelho de S. Mateus Q). 

Os artistas cristãos da Idade Média representavam os anjos 
nas suas missões terrestres como anjos-efebos: belos adolescentes, 
viris e jovens, imberbes e quase sempre louros. 

Como os anjos irradiam a luz divina e a sua pureza é imaculada 
a arte cristã primitiva representa-os revestidos com uma longa 
túnica branca. Esta veste, branca de neve, com a qual se revestiam 
os catecúmenos, tem o mesmo significado simbólico que a alva dos 
sacerdotes. 

A arte bizantina gosta de revestir os anjos com trajes faustuosos 
que se usavam nas cerimónias da corte imperial. Transformados 
em dignitários celestes, eles têm por insígnia uma vara comprida 
terminada em bola. 

No Ocidente, a princípio, os anjos usam uma simples túnica 
franzida na cinta por um cordão. Mas a partir, do século xni, sob 
a influência do drama litúrgico no qual o papel dos anjos era desem- 
penhado por diáconos, espalha-se o uso de lhes dar um traje sacer- 
dotal que substitui o traje de corte bisantino. Da mesma maneira 
que Deus Pai usa a tiara e o pallium do Papa, os anjos são revestidos 
com uma capa de sacerdote e, de preferência, pela razão da sua 
juventude, com uma dalmática de diácono, bordada a ouro. Os anjos 
de Van Eyck e de Memling oficiam com gravidade no seu vestuário 
litúrgico de diáconos. 



(*) Df. António de Vasconcelos, Duas Cartas sobre Indumentária Litúrgica 
na Iconografia Medieval, in «Biblos», vol. II, n. os 3 e 4 de 1926, pág. 122. 



164 

O arcanjo São Miguel, o príncipe da milícia celeste, é um 
guerreiro, um cavaleiro, o condestável das milícias celestes. Por isso 
a Igreja católica o considera como seu defensor. Os artistas da Idade 
Média representaram-no, a princípio, revestido com uma túnica 
comprida; só mais tarde o armaram com a cota de malha e o elmo. 
São Miguel é representado, em regra, de pê, sobre a terra ou 
no ar. 

O arcanjo Gabriel é o anjo por excelência no verdadeiro sen- 
tido da palavra, pois é, mais que tudo, o Mensageiro, o Anunciador. 
Ele anuncia a Zacarias o nascimento de São João Baptista e a 
Maria o nascimento de Jesus. Partilha com o arcanjo São Miguel 
a guarda da porta das igrejas a qual assim fica interdita ao demó- 
nio. Iconogràficamente, o arcanjo Gabriel é vestido com uma 
túnica comprida ou com paramentos litúrgicos (alva, dalmática, etc.) 
e tem por atributo uma vara de mensageiro, um ceptro, etc. 
Usualmente, é revestido com uma túnica branca ou com uma dal- 
mática de diácono bordada a ouro. Na cena da Anunciação, a 
atitude é muito variada pois o encontramos quer representado em 
pleno voo, quer pousado sobre o solo e, neste último caso, de pé 
ou de joelhos. Na Idade Média, o anjo está sobre a terra, 
não imóvel, mas andando para a destinatária da mensagem 
divina. Terminada a sua missão, o arcanjo Gabriel volta a subir 
ao céu para «faire son rapport» ao Eterno. O anunciador é carac- 
terizado, além disto, pelo seu gesto e os seus atributos. Normal- 
mente, o gesto é o de estender para a Virgem a mão direita, 
levantando o dedo indicador para sublinhar as palavras, tal como 
nas estátuas dos filósofos da Antiguidade (gesto oratório). Este 
gesto tem significado indicativo (tal como o do Precursor São 
João Baptista ao mostrar Jesus Cristo ao povo nas margens do 
Jordão) ou de mando. 

Como insígnias da sua missão o anjo segura na mão esquerda 
uma vara de mensageiro, símbolo originado do deus Mercúrio, 
mensageiro de Júpiter. É a vara dos antigos arautos, bastão de 
comando confiado pelo imperador celeste ao seu embaixador extraor- 
dinário e plenipotenciário. 

A Anunciação é a visão do Anjo transmitindo à Eleita a 
mensagem divina. É a origem da vida de Cristo pois coincide com 
a Encarnação do Salvador. É portanto o primeiro acto ou prelúdio 
da Obra de Redenção. 

Nesta cena, o anjo Gabriel enviado por Deus à Virgem Maria, 
sauda-A e diz-lhe que vai conceber um filho, Jesus, e que nada 
tema porque o Espírito Santo descerá sobre Ela. Maria responde: 
«Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua 
palavra». 



mmm 



165 

São inúmeras as variantes iconográficas da Anunciação, porém 
os seus dados plásticos essenciais mantiveram-se imutáveis através 
dos tempos. Assim, em lugar de um espaço homogéneo, isto é, 
de uma cena ao ar livre ou de interior, nós temos um espaço misto, 
ao mesmo tempo aberto e fechado, com um exterior e um interior. 
A atitude da Virgem perante o anjo é, no Ocidente, a de joelhos. 
Há uma variedade infinita dos gestos e expressões que traduzem 
a comoção de Maria. São também muito variadas a arquitectura 
e a decoração da Anunciação. Na arte do Ocidente, a partir do 
século xv, é graças aos progressos da perspectiva que o quadro 
se torna real e a cena se situa num verdadeiro interior. 

O arcanjo Rafael era invocado pelos mareantes pela razão de 
ele ter sido guia seguro de Tobias, cumprindo a promessa feita a 
seu pai: «Eu conduzirei são o teu filho, e são to reconduzirei». 
O pai de Tobias respondeu: «Fazei boa jornada, e Deus seja convosco 
no vosso caminho, e o seu anjo vos acompanhe» Q). 

Os arcanjos São Miguel e São Rafael eram tanto da devoção 
dos mareantes portugueses que dois dos quatro navios de Vasco 
da Gama, na viagem de descobrimento da índia, tinham os seus 
nomes. 

Na iconografia do Antigo Testamento foram frequentes, na 
Idade Média, as representações dos sonhos de Jacob e de Nabuco- 
donosor. 

No primeiro, Jacob viu uma escada apoiada na terra e cujo 
cimo tocava o céu; por ela subiam e desciam os anjos de Deus ( 2 ). 

No segundo, Nabucodonosor viu uma árvore de altura desmar- 
cada e a sua altura chegava ao céu, «e eis que um dos anjos que 
velam e que são santos, desceu do céu» ( 3 ). 

SÃO MIGUEL, ANJO CUSTÓDIO DE PORTUGAL 

De Jorge Cardoso ( 4 ) tira o autor os apontamentos seguintes. 

Santarém foi tomada aos mouros pelo rei D. Afonso Henriques 
em dia de São Miguel, (8 de Maio de 1147). 

«Passados vinte e quatro anos veio el-rei de Sevilha Albaraque 
sobre a dita vila com poderosíssimo exército e vendo-se o magnâ- 
nimo Rei D. Afonso Henriques apertado, recorreu (como tinha de 
costume) ao Céu negociando feliz despacho por meio do Arcanjo 
S. Miguel (de que era particularmente devoto) e saindo os nossos 

0) P. Matos Soares, Bíblia Sagrada, Livro de. Tobias, pág. 537. 

( 2 ) Ibidem, Génesis, pág. 47. 

( 3 ) Ibidem, Profecia de Daniel, pág. 1030. 

(*) J or ge Cardoso, Agiológio Lusitano, tomo III, págs. 117 e 126. 



766 

ao campo animados de suas afectuosas palavras e alentados com o 
diviníssimo sacramento do altar, andando o esforçado Rei no maior 
conflito da batalha, apareceu a seu lado um Braço armado, com asa 
no coto, que jogava as armas destrissimamente (insígnia com que 
ordinariamente se pinta este tutelar da Igreja Católica e defensor 
do povo cristão) fazendo bravo estrago nos Mouros, com que 
brevemente a duvidosa vitória ficou pelo Senhor Rei». 
Algumas páginas adiante diz Jorge Cardoso: 
«Foi o Arcanjo S. Miguel conhecido sempre dos Portugueses 
por Anjo Custódio deste Reino, depois que o invictíssimo Rei 
D. Afonso Henriques, venceu com o seu patrocínio a Albaraque, 
rei de Sevilha, nos campos de Santarém. E por isso lhe erigiu 
sumptuosas capelas, assim na igreja da alcáçova da dita vila como 
nos mosteiros de Santa Cruz de Coimbra e de Santa Maria de 
Alcobaça, consagrando-lhe também seus sucessores as Reais de 
seus Paços, como se vê na de Coimbra que é agora a capela 
da Universidade. E na que El-Rei D. Dinis fez nos da alcá- 
çova do castelo de Lisboa e na dos paços de Évora, todas deste 
orago. Também El-Rei D. João II mandou pintar no altar do 
cruzeiro de S. Francisco da mesma cidade a imagem do dito Arcanjo, 
com escudo embraçado, e nele as quinas reais ( x ). E El-Rei D. Manuel 
ordenou que se cantasse no Mosteiro da Batalha, todos os dias, uma 
comemoração a S. Miguel, como anjo custódio do reino. Em cuja 
igreja se vêem as suas balanças esculpidas nas famosas sepulturas 
do Infante D. Pedro, empresa particular sua, e do Infante Santo 
D. Fernando, por nascer na dita vila de Santarém em seu dia, as 
quais viu no céu quando o mesmo Arcanjo lhe apareceu no cárcere 
e alcançou de Deus livrá-lo daquela infernal masmorra para o levar 
à liberdade celestial» 

Na capela de São Miguel, no Paço da Alcáçova em Lisboa, 
existia um riquíssimo retábulo representando esse Arcanjo, o qual 
era uma magnífica obra feita por pintor insigne ( 2 ). 

A imagem de São Miguel foi colocada no ponto mais alto da 
porta lateral do mosteiro dos Jerónimos começado a construir 
em 1500. 

De Latino Coelho ( 3 ) tira o autor os períodos seguintes : 

«El-Rei D. Manuel quis perpetuar num monumento grandioso 
a memória da empresa heróica por que o nome português começou 



Q-j Essa pintura é, certamente, a existente no transepto de S. Francisco 
de Évora e, sendo do tempo de D. João II, poderá talvez ser atribuída a Fran- 
cisco Henriques e não a Garcia Fernandes (Vide, Reinaldo dos Santos, Oito 
Séculos de Arte Portuguesa, pág. 106). 

( 2 ) Júlio de Castilho, Lisboa Antiga, Bairros Orientais, 2. a ed., vol. IV, 

pág- 45- 

( 3 ) J. M. Latino Coelho, Arte e Natureza, págs. 52 c segs. 



— Wl 



167 

de ilustrar-se nos mares do Oriente em prol do Evangelho, e do 
engrandecimento da coroa de Portugal. 

O pensamento simultaneamente religioso e dominador que se 
estampou em pedra no mosteiro de Belém está breve, mas eloquente- 
mente compendiado na magestosa portada, que logo à primeira 
vista surpreende e admira o espectador. Aquele portal é um poema 
de mármore onde os arrojos da arquitectura pleiteiam a primazia 
com a singeleza mística da estatuária gótica. Duas estátuas prin- 
cipais enobrecem a portada, e são como os dois personagens um 
sagrado, outro profano, daquela breve epopeia cinzelada em pedra. 
No lugar mais nobre e superior, a Virgem Nossa Senhora dos Reis, 
cercada de uma corte celestial, que representam doze estátuas de 
santos, dispostos em nichos de formoso e variado lavor. Em baixo 
sobre o pilar, que divide em duas a porta principal, erguido, e em 
toda a magestade de um vulto heróico, o Infante D. Henrique, 
primeiro fautor das descobertas e conquistas dalém-mar, e glorioso 
percursor del-rei D. Manuel. Aos lados do Infante, vestido de 
armadura de batalha, as doze estátuas dos apóstolos, como quem 
está animando e socorrendo com o exemplo da evangélica palavra, 
aquele que delineara, nas conquistas que intentou, um novo apos- 
tolado e uma nova difusão da luz de Cristo, nos missionários que 
os galeões de Portugal haviam de levar às partes de África e do 
Oriente, para hastearem a cruz, simbolizando a conquista da celestial 
Jerusalém, junto da espada, emblema da dominação terrena. Sobre 
a portada inteira, projectando-se já nos céus, a estátua do arcanjo S. Miguel, 
como se o arquitecto daquele templo, pondo-lhe por atalaia o capitão das 
celestes legiões, quisera significar que onde a conquista havia de ser toda por 
Deus, de Deus e do cêu havia de ser o caudilho daquela empresa» Q. 

Sobre o pilar que divide em duas a porta da igreja da Conceição 
Velha, em Lisboa, existe também uma estatueta de São Miguel. 



OS APÓSTOLOS 



Os Apóstolos são os discípulos de Cristo, assim designados 
porque foram delegados pelo Salvador para evangelizar as nações ( 2 ). 

O nome de apóstolos estendeu-se mais tarde aos confessores 
e mártires que evangelizaram os pagãos. 



O O sublinhado é do autor. 

( 2 ) Quase todo este assunto foi tirado de Louis Réau, Iconographie de 
VArt Chrétien, Nouveau Testament. 



168 

No dia de Pentecostes ( 1 ), Cristo ressuscitado fez descer o 
Espírito Santo sob a forma de chamas sobre os dozes apóstolos 
que se encontravam reunidos no Cenáculo, para lhes permitir falarem 
todas as línguas necessárias para a pregação do evangelho entre os 
pagãos. Jesus já havia prometido aos apóstolos que uma vez desa- 
parecido desta terra, não os deixaria órfãos, mas lhes enviaria da 
parte do Pai um outro consolador : — o Paráclito ou o Espírito 
de verdade que ficaria eternamente com eles. E depois da Ressur- 
reição disse-lhes: «Como o Pai Me enviou, Eu também vos envio; 
recebei o Espírito Santo». Assim se cumpriu a profecia de Joel: 
«Eu espalharei o meu espírito sobre toda a criatura». 

A missão que Jesus Cristo ressuscitado incumbiu aos apóstolos 
foi a de, cheios do Espírito Santo, evangelizarem os povos da terra, 
dizendo-lhes : «Ide pelo mundo inteiro e pregai o evangelho a toda 
a criatura. Quem acreditar e for baptizado salvar-se-á, mas quem 
não acreditar será condenado» ( 2 ) ; «Ide, pois, ensinai todas as gentes, 
baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensi- 
nando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» ( 3 ). 

A indumentária dos apóstolos consiste numa túnica e num 
manto denominado o «pálio apostólico» ( 4 ). Hansen ( 6 ) dá a estas 
duas peças de vestuário os nomes de «dalmática» e «capa». 

Cristo distinguiu três dos apóstolos — São Pedro, Sant'Iago 
e São João — os únicos que assistiram à Transfiguração e à Agonia 
no horto das oliveiras. 

Santo André foi o primeiro a seguir o Redentor, por isso 
os gregos o denominam «o primeiro chamado». 

O apóstolo São Pedro era, assim como o seu irmão mais velho 
Santo André, um simples pescador em Cafarnaúm, no lago de 
Genesaré, que seguiu a Cristo, deixando de ser pescador de peixes 
para se tornar em pescador de almas. 

Num discurso pronunciado em Jerusalém, disse São Pedro: 
«Irmãos, sabei que Deus me escolheu desde os primeiros dias para 
que os pagãos ouvissem da minha boca a palavra da Boa Nova e 
abraçassem a fé. E Deus que conhece os corações, testemunhou 
a favor deles, concedendo-lhes o Espírito Santo como a nós, visto 
ter purificado os seus corações pela fé» ( 6 ). 



P) «Pentecostes» é uma palavra grega que significa quinquagésimo dia, 
50 dias depois da Páscoa. Vide Dr. P. Frei Carlos de Villapadierna, Os Quatro 
Evangelhos e Actos dos Apóstolos, 8. a ed., pág. 198. 

( 2 ) São Marcos, 16, vv. 15 e 16. 

( 3 ) São Mateus, 28, vv. 19 e 20. 

( 4 ) Juan Ferrando Roig, Iconografia de los Santos, pág. 48. 

( 5 ) Henny Harald Hansen, Histoire du Costume, Paris, Livraria Flammarion, 
1956, pág. 39- 

( 6 ) Dr. P. Frei Carlos de Villapadierna, Os Quatro Evangelhos e Actos 
dos Apóstolos, Actos dos Apójtolos, 15, 7 a 9. 



169 

São Pedro é caracterizado não só pelos seus atributos, mas 
também pelo seu tipo físico que é facilmente reconhecível. 

O seu cabelo grisalho ( x ) de pessoa idosa apresenta muitas 
vezes uma tonsura que lembra ter ele sido o primeiro dos sacerdotes 
cristãos. Conta-se que os judeus de Antioquia lhe tinham cortado 
os cabelos por escárneo. Isso teria sido a origem da tonsura clerical 
que assim se tornou uma insígnia de honra pois que, segundo os 
simbolistas, ela evoca a coroa de espinhos do Salvador. 

O atributo mais frequente de São Pedro é constituído pelas 
chaves. O peixe faz alusão ao seu primeiro ofício de pescador, 
caracterizando não só o pescador de peixes como o pescador de 
almas. 

Nas cenas da sua vida encontramos, em regra, redes de pesca 
ou a barca simbólica da Igreja ( 2 ). 

São Pedro era, com frequência, o patrono das corporações 
de pescadores. 

O apóstolo São Paulo é, depois de Jesus Cristo, a maior figura 
do cristianismo. 

Foi depois da sua conversão que adoptou o nome de Paulo 
que significa «o pequeno», pois tinha baixa estatura. 

Na Síria, rapou a cabeça por causa de um voto que tinha feito ( 3 ). 

Os seus olhos eram ramelentos (talvez devido a uma oftalmia 
purulenta) e o nariz grande. 

Os artistas representaram-no sempre de barba comprida. 

São Paulo foi o verdadeiro fundador do cristianismo como 
religião universal, separada do judaísmo. De Cristo, que era somente 
o Messias dos judeus, fez o Salvador do mundo; duma religião 
estritamente nacionalista fez, transplantando-a para o mundo grego 
e romano, uma religião ecuménica. 

Os Padres da Igreja chamam-no «a boca de Cristo» e «o 
Arauto da Fé». 

A assimilação a apóstolo é completamente justificada visto 
ter exercido um papel capital na difusão do cristianismo entre os 
povos pagãos. A este título mereceu a denominação de «Apóstolo 
dos Pagãos» ( 4 ). 

São Paulo passou bruscamente de perseguidor do cristianismo 
a seu zelador. Desde a sua conversão começa uma vida esgotante 
de missionário itinerante, sempre na brecha. 



Q) Juan Feirando Roig, Iconografia de los Santos, pág. 218. 

( 2 ) Ibidem. ~ '■*.,. 

( 3 ) Actos dos Apóstolos, 18, 18. 

( 4 ) Dr. P. Frei Carlos de Villapadierna, Os Quatro Evangelhos e Actos 
dos Apóstolos, 8, a ed., pág. 221. 



170 

Depois de ter pregado em Damasco, donde foi forçado a 
evadir-se num cabaz descido por uma corda ao longo das muralhas, 
dirigiu-se a Jerusalém ao encontro dos Apóstolos. 

Seguiu depois para Antioquia, cidade da Ásia Menor, acompa- 
nhando Barnabé, «um homem bom cheio de Espírito Santo e de 
Fé», o qual tinha antes estado nessa cidade onde havia já bastantes 
gregos convertidos e os tinha exortado a que todos se conservassem 
unidos ao Senhor, de coração firme Q-). 

Enviados pois pelo Espírito Santo, meteram-se num barco, 
rumo à ilha de Chipre ( 2 ) e daí seguiram para Antioquia, seu destino. 

Em Antioquia os judeus encheram-se de inveja por verem a 
multidão de gregos que' assistiam às pregações de São Paulo e respon- 
deram com blasfémias ao que ele dizia. 

Então São Paulo e São Barnabé afirmaram: «Era primeira- 
mente a vós que a palavra de Deus devia ser anunciada. Visto, 
porém, que a repelis e vós próprios vos julgais indignos da vida 
eterna, voltamo-nos para os pagãos, pois assim nos ordenou o 
Senhor: 



Estabeleci-te como lu% das nações, para levares a salvação até 
aos confins da Terra ( 3 ). 

Da Ásia Menor, atravessando a Síria, dirigiu-se para a Mace- 
dónia, tendo embarcado em Tróade. Da Macedónia passou à Grécia, 
pregando em Atenas e Corinto. Regressou depois a Antioquia, 
por mar, passando por Éfeso e desembarcando em Cesareia. 

Voltou a Jerusalém tendo feito um discurso à multidão no 
qual contou que o Senhor lhe dissera: «Vai, que Eu hei-de enviar-te 
aos pagãos, lá ao longe» ( 4 ). 

Por fim, São Paulo embarcou para Roma tendo naufragado o 
barco junto à ilha de Malta e salvando-se todos os tripulantes e 
passageiros. 

Em Roma, permaneceu dois anos «anunciando o Reino de 
Deus e ensinando o que diz respeito ao Senhor Jesus Cristo» e sofreu 
o martírio sendo decapitado com uma espada. 

Segundo Clemente Romano, São Paulo foi aos confins do 
Ocidente, isto é, Portugal ( 5 ). 



(!) Dr. Frei Carlos de Villapadierna, Os Quatro Evangelhos e Actos dos 
Apóstolos, 8. a ed., n, 23, pág. 219. 

( 2 ) Ibidem, pág. 221. 

( 3 ) Ibidem, pág. 224. 

( 4 ) Ibidem, pág. 241. 

( 5 ) Ibidem, pág. 253. 



171 

O Fragmento de Muratori, aí do ano 160, também fala da 
viagem de São Paulo à Península Ibérica (*). 

Na Idade Média, São Paulo era patrono dos Cavaleiros, 
porquanto a espada que é o seu atributo habitual o fez passar por 
um cavaleiro romano embora nunca tenha usado armas. 

Era, também, patrono dos teólogos e dos cordoeiros. A devoção 
destes últimos explica-se quer porque ele tinha a profissão de tecelão 
de panos de tenda com pelos de cabra, segundo os Actos dos 
Apóstolos, quer por um jogo de palavras sobre a sua conversão 
(as cordas são fabricadas por conversão ou torção do cânhamo), 
quer ainda porque ele fugiu de Damasco num cabaz suspenso por 
uma corda. 

No Delfinado, São Paulo era considerado como preservador 
do medo. 

O apóstolo São João foi, ao mesmo tempo, apóstolo e evangelista. 

Era, assim como o seu irmão Santiago, um pescador do lago 
de Genesaré. 

Foi o discípulo predilecto de Jesus, em cujo peito reclinou 
a cabeça na última ceia e que O acompanhou ao calvário ( 2 ). 

Na iconografia do Ocidente, São João é representado jovem 
e imberbe, por ser o mais novo dos doze apóstolos. 

Veste a túnica talar e o manto dos demais apóstolos ( 2 ). 

O apóstolo Sanflago era irmão de São João e Jesus Cristo 
chamou-os quando com seu pai Zebedeu estavam na sua barca 
a consertar as redes que utilizavam na pesca. Seguiram a Jesus 
com toda a prontidão. 

Uma tradição do século vn fá-lo evangelizador da Espanha. 

Segundo uma lenda, o apóstolo Santiago ajudou os cristãos 
na batalha de Clavijo, ganha aos mouros por D. Ramiro I rei de 
Leão, entrando na batalha montado num cavalo branco, acutilando 
e derrubando centenares de mouros. 

O apóstolo Santo André era irmão mais velho de São Pedro e, 
como ele, um pescador do lago de Genesaré, na Galileia. 

São João Baptista, depois do baptismo de Cristo, estava em 
Betânia com dois dos seus discípulos. Fitando os olhos em Jesus, 
que passava, disse: «Aí está o cordeiro de Deus». Ouvindo o que 
ele tinha dito, os dois discípulos seguiram Jesus e permaneceram 
junto d'Ele nesse dia, na sua morada ( 3 ). 

André era um dos dois que, tendo ouvido João, seguiram 
Jesus. 

0) Dr. Frei Carlos de Villapadierna, Os Quatro Evangelhos e Actos dos 
Apóstolos, 8. a ed., pág. 253. 

( 2 ) Juan Ferrando Roig, Iconografia de los Santos, pág. 154. 

( 3 ) São João, 1, v. 35 e segs. 



172 

Neste evangelho vemos que Santo André foi o primeiro. 
O outro, sem dúvida, era São João Evangelista. Os dois foram, 
portanto, os primeiros membros do colégio apostólico Q. 

Santo André seguiu Cristo durante três anos, com os demais 
apóstolos por todos os caminhos Q), e depois da Ascensão, pregou 
o evangelho na Scítia (sul da Rússia actual), na península dos Balcans, 
na Grécia e na Ásia Menor. 

Enquanto pregava na Scítia, apareceu-lhe um anjo que lhe 
disse: «Vai ter com Mateus». Assim foi guiado miraculosamente 
para a Etiópia onde o apóstolo e evangelista São Mateus tinha sido 
encarcerado depois de lhe furarem os olhos. As portas da prisão 
abriram-se diante dele; ajoelhou-se ao lado do mártir, orou, e imedia- 
tamente os olhos cegos de São Mateus recuperaram a visão. 

Santo André sofreu o martírio numa cruz em aspa de ramos 
oblíquos com a forma de um X, a qual tomou o nome de «cruz de 
Santo André». 

Foi adoptado como patrono pelas corporações ligadas aos 
pescadores, pelos vendedores de peixe e pelos cordoeiros que fornecem 
aos pescadores a corda das suas redes. 

Foi também patrono da casa ducal de Borgonha pois os borgo- 
nheses se julgavam originários da Scítia que Santo André evan- 
gelizou. Os cavaleiros da Ordem do Tosão do Ouro fundada pelo 
duque Filipe-o-Bom a quando do seu casamento com a Infante 
D. Isabel usavam como insígnia uma cruz em X. 

Numa iluminura borgonhesa do século xv, Santo André é 
representado com a aspa ao seu lado direito, segura com a mão 
direita ( 2 ). 

A aspa é o atributo corrente das figuras de Santo André mas, 
excepcionalmente, aparece um segundo atributo que faz alusão ao 
mister que ele exercia antes da sua vocação: uma grande rede de 
pescador ( 3 ). 

Algumas vezes são atributos de Santo André redes ou outros 
instrumentos de pesca ( 4 ). 

O apóstolo São Tomé era um pescador do lago de Genesaré, 
na Galileia, que se tornou discípulo de Cristo. 

Sabe-se, de certo, muito pouco dele, a não ser que duvidou da 
Ressurreição de Cristo, pelo que foi relegado para a penúltima 
categoria dos apóstolos. 



Q) Robeft Quardt, Los Santos dei Ano, pág. 570. 

( 2 ) Dr. António Belard da Fonseca, O «.Judeu», o seu Livro e a Crítica, 
pág. 22. 

( 3 ) Louis Réau, Iconographie de L'Art Chrétien, III, pág. 80. 

( 4 ) Juan Ferrando Roig, Iconografia de los Santos, pág. 41. 



■^ 



173 

Segundo a Legenda dourada, São Tomé foi convidado por um 
enviado do rei da índia Gondóforo, a embarcar com ele para cons- 
truir um palácio ao seu soberano. Na primeira cidade da índia 
onde o navio fez escala celebravam-se as bodas da filha do rei e 
Tomé, convidado do banquete, não tocou na comida. Por isso 
o mordomo, vexado, deu-lhe uma bofetada. 

Chegado à capital de Gondóforo, em vez de construir o palácio 
com o dinheiro que o rei lhe dera, distribuiu-o aos pobres, pois 
assim construia um palácio celestial. 

Acabou por ser supliciado, tendo sido trespassado com lan- 
çadas, pelos sacerdotes pagãos. 

A lança, instrumento do seu martírio, é o seu atributo mais 
frequente. É apresentado em regra, de pé, mas por vezes ajoelha-se 
diante do Salvador ressuscitado. 

Em Portugal houve sempre grande devoção pelos apóstolos 
tendo sido edificadas muitas igrejas a eles dedicadas. Ainda hoje, 
São João e São Pedro são festejados em muitas terras. 

Ao apóstolo Sant'Iago, padroeiro da Península Ibérica, seu 
guia e pastor, se atribuíam as vitórias contra os mouros ( 1 ). 

O seu sepulcro em Compostela era visitado por inúmeros 
romeiros portugueses que para aí se dirigiam fazendo o percurso 
a pé, rezando por umas contas ( 2 ) e amparados por um bordão ou 
cajado. 

Antes de partirem para Compostela, recebiam, na igreja, o bordão 
de peregrino e a «esportela», isto é, um bornal que se suspendia ao 
ombro por uma correia, a qual era benta pelo padre ( 3 ). 

Em Compostela compravam correias e cintos ( 4 ). 

Os romeiros, durante a viagem, cobriam-se com a «esclavina», 
uma opa que era também usada pelos escravos ou cativos resgatados 
que iam a Santiago, sendo aberta por diante, e com uma murça ( 5 ). 

Quando voltavam da romaria traziam cozidas nas capas con- 
chinhas de vieiras que adquiriam em Compostela. ( 5 ) 

Entre os peregrinos, viam-se, por vezes, cativos dos mouros, 
«libertados por Sant'Iago» ( 6 ). 

No janelão do lado oriental da igreja da Conceição Velha, em 
Lisboa, encontram-se duas magníficas estátuas dos apóstolos Sant'Iago 
e Santo André. 



( J ) Mário Martins, S. J., Peregrinações e Livros de Milagres na nossa Idade 

Média, in «Revista Portuguesa de História», tomo V, Coimbra 195 1, pág. 171. 

( 2 ) Ibidem, pág. 175. 

( 3 ) Ibidem, pág. 165 e 174. 

( 4 ) Ibidem, pág. 166. 

( 5 ) António de Moraes Silva, Dicionário da Língua Portuguesa, Lisboa, 1889. 
(") Mário Martins, ob. cit., pág. 165. 



174 

Em Portugal, no tempo dos descobrimentos, acreditava-se 
firmemente que o apóstolo São Tomé havia evangelizado a índia, 
segundo se lê em Duarte Pacheco Q) «...e por isso podemos dizer 
que Deus todo poderoso por singular privilégio o escolheu (o rei 
D. Manuel) entre todos os outros príncipes cristãos para naquelas 
partes (índia) acrescentar sua católica fé por Seu serviço; porque 
é certo que a santa, divinal e antiga doutrina que o apóstolo São Tomé 
ali derramou, é já de todo perdida...». 



AS CARTAS (OU EPISTOLAS) DE SÃO PAULO 

Do Padre Carlos de Villapadierna ( 2 ) tira o autor os seguintes 
apontamentos. 

São Paulo nasceu em Tarso, na Cilicia (Turquia). Feitos alguns 
estudos na sua cidade natal, dirigiu-se a Jerusalém e foi um ardente 
defensor das tradições judaicas e por isso perseguidor dos Cristãos. 
Mas, quando se dirigia a Damasco para prender os Cristãos dessa 
cidade, uma aparição de Jesus converte-o e ele torna-se desde então 
o mais apaixonado apóstolo da mensagem cristã. Percorre a Ásia 
Menor, a Macedónia e a Grécia, vai a Roma e provavelmente à 
Espanha. Por toda a parte funda cristandades, que não esquece 
mesmo ausente. Contradições e perseguições de toda a espécie 
lhe dão ocasião de mostrar quão profunda é a sua fé e o amor 
por Cristo. 

As Cartas que São Paulo escreveu às diversas cristandades por 
ele fundadas, são geralmente para resolver problemas que os novos 
cristãos lhe propunham ou que o seu zelo sabia terem-se levantado. 
Todas elas são inspiradas e portanto são palavras de Deus, como 
as outras escrituras. 

A ordem por que as epístolas vêm no cânone da Sagrada 
Escritura é a da importância das igrejas a que foram destinadas e 
da extensão das mesmas cartas. Primeiro as grandes cartas aos 
Romanos e aos Coríntios (i. a e 2. a ), depois as mais pequenas aos 
Gálatas, aos Efésios aos Filipenses e aos Colossenses e as duas aos 
Tessalonicenses. Seguem-se as cartas pastorais (a Timóteo duas 
e uma a Tito) e uma carta particular a Filémon. Por último uma 
epístola aos Hebreus. 

A Carta de São Paulo aos Romanos principia assim: «Paulo, servo 
de Jesus Cristo, chamado ao Apostolado, eleito para anunciar o 



( x ) Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, Lisboa, 1905, pág. 155. 
( 2 ) P. Carlos de Villapadierna, Cartas de S. Paulo, Difusora Bíblica, 
Lisboa, 1958. 



175 

Evangelho de Deus, o qual tinha prometido por meio dos seus 
profetas nas Escrituras, referente ao seu filho, nascido da descen- 
dência de David, segundo a carne, constituído Filho de Deus, pode- 
roso, segundo o espírito de santificação pela ressurreição dentre 
os mortos, Jesus Cristo Nosso Senhor, pelo qual recebemos a graça 
e o Apostolado, a fim de fomentar a obediência à fé para glória do 
seu nome em todos os povos...» 

Desta Carta tira o autor o seguinte. 

«Porventura Deus é só Deus dos Judeus? Não o é também 
dos Pagãos? Sim, é-o também dos Pagãos...» 

«Tenho como coisa certa que os padecimentos do tempo presente 
não são nada em comparação com a glória que há-de manifestar-se 
em nós». 

«Todos nós sabemos que toda a criação até o presente geme e 
sofre dores de parto. E não só ela, mas também nós que temos as 
primícias do Espírito, choramos dentro de nós mesmos, suspirando 
pela adoração, pela redenção de nosso corpo». 

«Na esperança, nós estamos salvos...» 

«Precisamente por isso eu te exaltei, para manifestar em ti o 
meu poder e fazer conhecer o meu nome em toda a terra». 

«Não existe distinção entre o judeu e o gentio. Um mesmo é 
o Senhor de todos, rico para todos os que O invocam, pois todo o 
que invoca o nome do Senhor será salvo». 

«E como ouvirão se ninguém lhes prega?... Logo a fé é pela 
pregação, e a pregação pela palavra de Cristo». 

«E a vós os gentios, digo-vos que enquanto eu for Apóstolo 
dos gentios, honrarei o meu ministério...» 

«Pois tudo o que foi escrito para o nosso ensino foi escrito 
para que por meio da paciência e da Escritura sejamos firmes na 
esperança». 

«Que o Deus da esperança vos encha duma alegria perfeita 
e de paz na fé, para que abundeis na esperança, pelo poder do Espí- 
rito Santo». 

«...A graça que me foi dada por Deus: a de ser ministro de 
Jesus Cristo entre os gentios, encarregado de um ministério sagrado 
no Evangelho de Deus, a fim de procurar que a oblação dos gentios 
seja aceite, depois de santificada pelo Espírito Santo». 

«No que respeita ao serviço de Deus, tenho pois esta glória 
em Jesus Cristo, porque jamais me atreverei a falar de alguma coisa 
que Cristo não tenha obrado por mim para a conversão dos gentios. . .» 

«De sorte que desde Jerusalém até à Ilíria e em todas as direcções 
preguei completamente o Evangelho de Cristo. Principalmente tive 
como honra pregar o Evangelho onde Cristo não era conhe- 
cido...» 



176 

«Depois de cumprir esta obrigação... dirigir-me-ei para Espa- 
nha». 

«E ao que é poderoso para vos confirmar segundo o meu Evan- 
gelho e a pregação de Jesus Cristo, segundo a revelação do mistério 
da salvação encoberta desde os tempos eternos, porém agora mani- 
festado por meio dos escritos proféticos, conforme a disposição 
de Deus eterno, o qual se deu a conhecer a todos os povos para que 
se convertam...». 

Da i. a Carta de São Paulo aos Coríntios tira o autor o seguinte. 

«...Deus no-lo revelou por meio do seu espírito...» 

«Não sabeis acaso que sois o templo de Deus e que o Espírito 
de Deus habita em vós?» 

«Não sabeis porventura que o vosso corpo é o templo do 
Espírito Santo, que está em vós e o qual recebestes de Deus, e que 
portanto já não vos pertenceis?» 

«Pregar o Evangelho, não é para mim um título de glória; 
é uma obrigação que me incumbe. Sim, ai de mim se eu não pregar 
o Evangelho». 

«Tudo faço por amor do Evangelho, para participar dele». 

«Vós todos sois o corpo de Cristo e cada um é como um 
membro...» 

Da 2. a Carta de São Paulo aos Coríntios tira o autor 
o seguinte. 

«Todos nós com a cara descoberta contemplamos a glória do 
Senhor, como por um espelho e nos transformamos na mesma 
imagem, de glória em glória, à medida que opera em nós o Espírito 
do Senhor». 

«Se o nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está enco- 
berto para aqueles que se perdem, para os infiéis...» 

«Porque como resultado da tribulação momentânea e leve, 
prepara-nos uma glória completa, eterna e incalculável». 

«Porque, se eu com a minha carta vos entristeci, isso não me 
pesa... porque vos, entristecestes para a penitência... Porque a 
tristeza segundo Deus é a causa da penitência benéfica». 

Da Carta aos Efésios tira o autor o seguinte. 

«A mim, o menor entre os santos foi-me outorgada esta graça 
de anunciar aos gentios a infinita riqueza de Cristo...» 

«Deste modo eu ajoelho-me diante do Pai, do qual procede 
toda a família tanto nos céus como na terra, para que segundo os 
ricos tesouros da sua glória vos conceda uma fortaleza segura no 
homem interior por meio do seu espírito; que Cristo habite por 
meio da fé em vossos corações e enraizados e fundados na caridade, 
possais compreender em união com todos os santos qual é a largueza, 
o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer a caridade 



177 

de Cristo, a qual supera toda a ciência, para que sejam cheios de 
toda a plenitude de Deus». 

«Deste modo, pois, eu, Paulo, preso no Senhor, exorto-vos 
a caminhar de uma maneira digna da vocação a que fostes chamados. . . 
a serdes solícitos em conservar a unidade do espírito mediante o 
vínculo da paz. Um só corpo e um só espírito temos, assim como 
também vós fostes chamados a uma só esperança, a da vossa vocação. 
Há um só Senhor, uma só fé e um só baptismo. Há um só Deus 
e Pai de todos, que está acima de todos, e opera por todas as coisas 
e reside em todos nós». 

«Estai pois alerta, tendo os vossos rins cingidos com a verdade 
e revestidos com a couraça da justiça, e tendo os pés calçados, prontos 
para anunciar o evangelho da paz». 

A Carta de São Paulo aos Filipenses foi-lhes enviada do seu cati- 
veiro de Roma. É uma carta exortatória e dela tira o autor, o seguinte. 
«Sempre que me lembro de vós, dou graças ao meu Deus; peço 
sempre em todas as minhas orações por vós, com alegria, devido à 
vossa união com o Evangelho desde o primeiro dia até agora... 
e tanto nas minhas prisões, como na defesa e confirmação do Evan- 
gelho, todos vós participais da minha graça». 

«Quero que saibais, irmãos, que a minha situação contribuiu 
para a expansão do Evangelho (*), pois tanto no pretório como 
fora dele é notado como eu levo as minhas cadeias por Cristo, e a 
maior parte dos irmãos, alentados com as minhas cadeias, sentem 
mais ânimo para anunciar sem temor a palavra de Deus». 

«Somente vos peço que vivais duma maneira digna do Evangelho 
de Cristo, para que ... ouça dizer de vós que vos conservais firmes 
num mesmo espírito, lutando juntamente pela fé do Evangelho, 
sem vos amedrontardes de nada perante os vossos inimigos, o que 
para eles é um sinal de perdição, mas para vós um sinal de salvação 
da parte de Deus. Porque não só vos foi concedido acreditar em 
Cristo, mas também padecer por Ele, sustentando o mesmo combate 
que vós vistes em mim e agora o ouvis». 

«Deveis aparecer no meio desta geração má, perversa, como 
archotes no mundo levando bem alto a palavra da vida». 

A Carta aos Colossenses foi enviada por São Paulo provavelmente 
na mesma ocasião em que escrevia aos Filipenses e é-lhe semelhante 
pela matéria e pela forma. 

Da Carta aos Colossenses tira o autor o seguinte. 
«...Tivemos conhecimento da vossa fé em Jesus Cristo e da 
caridade que praticais para com os santos pela esperança que vos está 
reservada nos céus. Nela fostes instruídos pela palavra verdadeira 

0) A prisão do Apóstolo foi meio providencial de propagação da fé. 
12 



178 

do Evangelho, que chegou até vós, e a qual assim como em todo o 
mundo, frutifica e cresce desde o dia em que ouvistes e conhecestes 
a graça de Deus em sua pureza...». 

«Por conseguinte desde o dia em que tivemos conhecimento 
disso, não cessamos de orar e pedir por vós para que sejais repletos 
do conhecimento da vontade de Deus». 

«...Dando graças a Deus Pai, que vos tornou capazes de parti- 
cipar da herança dos santos no reino da luz». 

«E a vós... agora reconciliou- vos no corpo de sua carne, por 
sua morte, para vos apresentar santos, imaculados e irrepreensíveis 
perante Ele, se perseverais firmemente fundados e incomovíveis na 
fé e não vos afasteis da esperança do Evangelho que ouvistes...» 

«Sou seu ministro (de Cristo) em virtude da dispensação divina 
que a mim me foi confiada em vosso benefício, para poder realizar 
a pregação da palavra de Deus, o mistério escondido aos séculos 
e às gerações e que agora se manifestou aos seus santos, aos quais 
dentre os gentios quis Deus dar a conhecer qual seja a riqueza da 
glória deste mistério. Este, que é o mesmo Cristo entre vós, é a 
esperança da glória, o que nós anunciamos, admoestando todos os 
homens e instruindo-os em toda a sabedoria, a fim de os apresentar 
a todos perfeitos em Cristo. Pelo qual eu me canso, lutando com 
a energia de sua força, que opera prodigiosamente em mim». 

«. . . Alegrando-me da vossa união e da vossa firmeza da fé em 
Cristo». 

«Se pois fostes ressuscitados com Cristo, procurai então as 
coisas do céu, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensai 
nas coisas de cima e não nas da terra». 

«Perseverai na oração, velando nela com acção de graças, orando 
ao mesmo tempo por nós, para que Deus nos abra a porta à palavra 
para anunciarmos o mistério de Cristo (pelo qual eu estou preso) Q, 
a fim de que eu o possa apregoar, como convém que o anuncie». 
Da Primeira Carta aos Tessalonicenses tira o autor o seguinte. 
«Continuamente damos graças a Deus e nos recordamos de 
todos vós em nossas orações, recordando incessantemente ante 
Deus, Nosso Pai, a obra da vossa fé, o trabalho da vossa caridade 
e a constante esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo, conhece- 
dores como somos da vossa eleição e de como sois amados por 
Deus. Pois o nosso Evangelho entre vós não se reduziu só a pala- 
vras, mas a poder, ao Espírito Santo, e numa confiança plena». 
«Do mesmo modo que um pai a seus filhos, assim cada um 
de nós vos exortava e animava, e vos pedíamos que caminhásseis 



(*) Convite à oração pelos apóstolos e missionários. Se a oração não 
fecundar todas as suas canseiras apostólicas, estas ficarão estéreis. 



mm 



179 

de um modo digno de Deus, o qual vos chamou ao seu reino e 
glória». 

«Impedem igualmente que falemos aos gentios e que se procure 
a sua salvação». 

«Não quero igualmente irmãos, que ignoreis o que se refere 
ao destino dos mortos, para que vos não aflijais, como os outros, 
que carecem de esperança. Se acreditamos que Jesus morreu e 
ressuscitou, do mesmo modo Deus, por meio de Jesus, levará para 
si os que dormiram n'Ele». ~ 

«Nós, porém, os filhos do dia, devemos ser sóbrios e estar 
revestidos da couraça da fé, da caridade, e com o elmo da esperança 
na salvação». 

Estai sempre alegres e orai sem cessar. Por tudo dai graças 
a Deus, pois tal é a sua vontade por Jesus Cristo». 

Da Segunda Carta aos Tessalonicenses tira o autor o seguinte. 
«Perante os olhos de Deus é justo retribuir com tribulações 
a todos os que vos atormentam; a vós, porém, os atribulados, (é 
justo) estar na nossa companhia, descansando, na manifestação 'do 
Senhor Jesus, desde o céu com as suas milícias angélicas, vingan- 
do-se com chamas de fogo sobre os que desconhecem e não 
obedecem ao Evangelho do Senhor Jesus. Esses serão castigados 
para a eterna ruína, afastados da face do Senhor e da glória do 
seu poder...» 

«Nós, porém, devemos dar incessantes graças a Deus, por 
todos vós, irmãos queridos, a quem o Senhor escolheu desde o 
princípio para vos salvar por meio da santificação do Espírito e da 
fé verdadeira. A esta verdadeiramente vos chamou por meio da 
nossa evangelização para que conseguísseis a glória de Nosso Senhor 
Jesus Cristo. Conservai-vos, portanto, firmes, ó irmãos...» 

«No demais, irmãos, rezai por nós para que a palavra de Deus 
seja difundida e ele seja glorificado...» 

Da Primeira Carta a Timóteo tira o autor o seguinte. 
«É verdade, e isto deve ser conhecido por todos, que Cristo 
veio ao mundo para salvar os pecadores...» 

«...Porque isto é bom e agradável perante Deus, Nosso Senhor, 
o qual deseja que todos os homens se salvem e conheçam a ver- 
dade». 

«...Eu fui constituído pregão e Apóstolo e mestre dos gentios 
na fé e na verdade». 

«Assim, portanto, quero que todos os homens rezem em qualquer 
lugar que seja, levantando as mãos puras sem ódio nem discussões. 
Quero igualmente que as mulheres se apresentem honestamente 
com recato e modéstia, sem tranças nos cabelos, sem ouro, nem 
pérolas, nem vestidos caros». 



180 

«Aquela que verdadeiramente é viúva e está desamparada, confie 
em Deus e peça continuamente, noite e dia, por meio de súplicas 
e orações». 

«Os presbíteros que governam bem, sejam considerados dignos 
de honra dobrada, principalmente os que trabalham na pregação 
e no ensino». 

«Combate o bom combate da fé, assegura-te a ti mesmo a vida 
eterna...» 

Da Segunda Carta a Timóteo tira o autor o seguinte. 

«...Suporta pelo contrário todos os trabalhos pela causa do 
Evangelho com virilidade, no poder de Deus, o qual nos salvou 
e chamou a uma vocação santa...» 

«Suporta as fadigas como um bom soldado de Jesus Cristo. 
Pois todo o soldado que milita para agradar àquele que o alistou 
não se embaraça com os negócios da vida». 

«Por amor aos eleitos tudo suporto, para que eles alcancem 
a salvação em Jesus Cristo e a glória eterna». 

«Anuncia a palavra, insiste continuamente, argumenta, ensina 
com toda a bondade e doutrina...» 

«O Senhor, porém, assistiu-me, deu-me forças para que por 
mim a pregação se cumprisse e para que todas as nações a ouçam». 

Da Carta a Tito tira o autor o seguinte. 

«Quando, porém, apareceu a bondade e o amor para com os 
homens de Deus, Nosso Salvador, salvou-nos, não por obras justas 
que nós tivéssemos feito, mas por sua misericórdia por meio da 
regeneração e renovação do Espírito Santo, o qual com grande 
abundância derramou sobre nós por meio de Jesus Cristo, Nosso 
Salvador, para que justificados por sua graça sejamos herdeiros da 
vida eterna, conforme é nossa esperança.» 

Da Carta aos Hebreus tira o autor o seguinte. 

«O descanso da alma Q) está contido na Nova Lei. Temamos, 
portanto, para que não suceda que, durando ainda a promessa de 
entrar no seu descanso, algum de vós não a procure». 

«Nós, porém, os que acreditamos, entremos no descanso, 
conforme Ele disse...». 

«Por conseguinte, para o povo de Deus existe outro descanso. 
E aquele que entrou no seu descanso, há-de igualmente descansar 
das suas obras, como Deus descansou das suas». 

«Pois Deus não é injusto para que se esqueça da vossa obra 
e do amor que mostrastes para com o seu nome, servindo os santos 
e perseverando no seu serviço». 



O O descanso de Deus ou participação na sua contemplação beatífica 
foi prometido a todos os que fizeram a vontade de Deus. 



181 

«...A fim de que ... nós os que recorremos, tenhamos firme 
consolação, até alcançarmos a esperança proposta, a qual temos 
como segura e firme âncora da nossa alma...» 

Finalmente, há que evidenciar o facto de estas Cartas de São 
Paulo, os Actos dos Apóstolos e os Quatro Evangelhos, serem bem 
conhecidos na corte portuguesa, no século xv, mesmo para os 
ignorante da língua latina, pois o Rei D. João I os mandou traduzir Q. 



APONTAMENTOS DE LITURGIA 

Do Doutor Ribeiro de Vasconcelos ( 2 ) tira o autor os aponta- 
mentos seguintes. 

Contam-se na igreja latina sete graus de ordem, sendo três 
maiores e quatro menores. 

No vértice da hierarquia de ordem está o sacerdote. O segundo 
lugar é ocupado pelo diácono, que junto do altar auxilia imediata- 
mente o sacerdote no acto do sacrifício da missa. Em terceiro lugar 
está o subdiácono. Eis os três graus das ordens maiores. 

As ordens maiores são sempre conferidas durante a missa. 

Os que vão ser promovidos prostram-se por terra' sobre o 
pavimento da igreja, mostrando a renunciação solene e completa, 
que fazem à face dos altares, de todos as pompas e vaidades, de 
todas as comodidades, distracções e delícias da vida secular. 

Um grande mistério vai operar-se ; o Espírito Santo baixará 
daqui a pouco sobre aqueles eleitos, e erguê-los-á acima da humani- 
dade, confiando-lhes missão e poderes sublimes de ordem sobre- 
natural. 

Enquanto os ordenandos se conservam prostrados, o bispo, 
o clero e os fiéis presentes cantam de joelhos a ladainha de todos os 
Santos, invocando em favor deles a intercessão da corte celeste. 
Depois todos se levantam e principia a sagrada ordenação. 

Na ordenação dos diáconos o bispo, no fim do prefácio, lança- 
-lhes sobre o ombro esquerdo a estola ministerial, habilitando-os a 
servirem à mesa eucarística; veste-lhes a dalmática e entrega-lhes 
por fim o evangeliário, dando-lhes o poder de cantar o evangelho 
nas funções da liturgia. 

Na «missa em presença dum príncipe», depois do Evangelho, 
dá-se-lhe a beijar o princípio do texto sagrado. Esta cerimónia 
praticava-se no tempo do rei D. Afonso V ( 3 ). «Em dia de Reis 

(*) António José Saraiva, História da Cultura em Portugal, vol. I, pág. 646. 

( 2 ) Dr. P. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, Compêndio de Liturgia 
Romana, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1897. 

( 3 ) Jaime Cortesão, Descobrimentos Portugueses, vol. I, pág. 448. 



182 

celebra a missa o deão, e estando este impedido, o principal seu 
imediato. O patriarca só costuma assistir, e neste caso, acabado o 
Evangelho, vai o subdiácono da missa dar a beijar o Texto ao 
patriarca, e logo descendo com o livro ao plano, troca aquele com 
outro livro também dos Evangelhos, que imediatamente vai oferecer 
aberto a el-rei para oscular o Texto» ( x ). 

Para compreendermos a execução da cerimónia, estudemo-la 
no Cerimonial Romano ( 2 ) na Missa solene na presença do Bispo, 
que é idêntica ( 3 ). 

Os Ministros da Missa solene são o Celebrante, o Diácono, 
o Subdiácono, o Cerimoniário, os Acólitos e o Turiferário. 

O Celebrante paramenta-se com a casula, a estola, o manipulo, 
o cordão, a alva e o amicto. 

O Diácono paramenta-se com a dalmática, com a estola (que 
põe sobre o ombro esquerdo e que segura por baixo do braço 
direito), o manipulo, o cordão, a alva e o amicto. 

O Subdiácono paramenta-se com a túnica, o manipulo, o cordão, 
a alva e o amicto. 

A dalmática e a túnica têm a mesma forma; entretanto, regu- 
larmente, a túnica deveria ter mangas mais compridas e mais estreitas 
que a dalmática. 

Na Itália e em outros países conserva-se o uso das dalmáticas 
e túnicas com mangas, como as que trazem entre nós os Bispos na 
Missa Pontifical. A alguns centímetros da extremidade têm um 
galão, e as partes anterior e posterior são divididas em três na sua 
largura ( 4 ). 

Na missa solene na presença do Bispo, depois do canto do 
Evangelho, o Diácono dá o livro ao Subdiácono; este tendo o livro 
aberto e elevado sobre o seu braço esquerdo, vai pelo caminho mais 
curto levá-lo ao Bispo; apresenta-lhe o livro a beijar, indicando-lhe 
com a mão direita o princípio do Evangelho que acaba de se cantar; 
depois do Bispo o beijar, o Subdiácono fecha o livro e retira-se. 
O livro contém, quase sempre, os Evangelhos e as Epístolas 
das Missas, servindo sucessivamente ao Subdiácono, para a leitura 
da Epístola e ao Diácono para a do Evangelho ( 5 ). 

Estudemos agora algumas peças do vestuário eclesiástico. 
A batina é uma veste talar, de mangas, fechada adiante desde o 
pescoço até aos pés. Quanto à sua cor: o sumo pontífice usa-a 



( x ) João Bautista de Castro, Mapa de Portugal Antigo e Moderno, tomo III, 
pág. 115. 

( 2 ) R. P. Le Vavasseur, Cerimonial Romano, Lisboa, 1884. 

( 3 ) P. e Ribeiro de Vasconcelos, Compêndio de Liturgia, vol. I, pág. 243. 

( 4 ) R. P. Le Vavasseur, Cerimonial Romano, Lisboa, 1884, pág. 26. 

( 5 ) Dr. António de Vasconcelos, Duas Cartas sobre Indumentária Litúrgica 
na Iconografia Medieval, in «Biblos», n.° 3 e 4 de 1926, pág. 117. 



183 

branca; os cardeais vermelha ou roxa; os bispos roxa ou preta; 
os prelados romanos roxa ou preta avivada. 

A sobrepeliz teve a sua origem na alva que se foi encurtando 
pouco a pouco, as mangas foram-se alargando até tomar a forma da 
actual sobrepeliz. Entre nós tem-se introduzido o uso duma outra 
forma de sobrepeliz, de origem monástica, que tem desterrado 
quase completamente aquela; é redonda, sem mangas, tendo apenas 
uma abertura ao meio para passar a cabeça. 

O raquete distingue-se da sobrepeliz de mangas, apenas em ter 
estas estreitas. O roquete só pode ser usado pelos bispos, prelados 
romanos, e por certos eclesiásticos privilegiados. 

A murça é uma pequena capa redonda abotoada adiante, que 
cobre os ombros, espáduas e peito, tendo atrás um pequeno capuz. 

Do Doutor António Leite (*), tira o autor o seguinte : «Os 
cardeais diáconos, nas grandes solenidades pontifícias, e em especial 
nos pontificiais, revestem-se com a dalmática e, se acolitam à missa 
papal, também com o manipulo». 

As cores das vestes sacerdotais foram ditadas por razões simbó- 
licas. Assim a cor vermelha que, além de outras cerimónias é usada 
na missa votiva da Vigília do Pentecostes, é símbolo do amor e 
sacrifício ( 2 ). 

MISSAS VOTIVAS 

De Dom Gaspar Lefebvre ( 3 ) tira o autor os apontamentos 
seguintes. 

Chamam-se Votivas as Missas que não correspondem ao ofício 
do dia. 

Há diferentes espécies de Missas votivas, não só quanto à 
qualidade da Missa, mas também quanto à solenidade. Quanto 
à qualidade as Missas votivas podem dividir-se em três classes. 
Na primeira compreendem-se as Missas votivas das festas que se 
celebram no curso do ano; e nas segundas as doze primeiras missas 
votivas que se encontram no fim do Missal como, por exemplo, 
as da Santíssima Virgem, a de todos os Santos Apóstolos, a da 
Santa Cruz, a dos Santos Anjos e a do Espírito Santo, e que são 
especialmente designadas para os diferentes dias da semana. Indica-se 
para o sábado a de Nossa Senhora. A terceira classe compreende as 
Missas votivas que se seguem ( 4 ). 

(*) António Leite, O Mistério dos Painéis, in «Brotéria», vol. LXVIII, 
n.° 6, de 1959. 

( 2 ) Dom António Coelho, O. S. B., Curso de Liturgia Romana, Braga, 1943, 
tomo II, págs. 246 e 248. 

( 3 ) Dom Gaspar Lefebvre, Missal Quotidiano e Vesperal. 

( 4 ) R. P. Le Vavasseur, Cerimonial Romano, Lisboa, 1884, pág. 105. 



184 

A Missa votiva do Espírito Santo pouco difere da do domingo 
de Pentecostes. 

Sobre esta última Festa diz Dom Gaspar Lefebvre Q-) : «O Dom 
da Sabedoria é a iluminação do Espírito Santo, mercê da qual a 
nossa inteligência contempla as verdades da fé a uma luz deslum- 
brante e experimenta nela indizível prazer. Lançara Jesus os funda- 
mentos da Igreja e enriquecera-a com os seus poderes. «O Espírito 
Santo virá sobre vós. Deixai-vos ficar, pois, na cidade até receberdes 
a força do Alto». A festa de hoje é a festa comemorativa da expansão 
da Igreja no mundo e foi sem dúvida por este motivo que se escolheu 
para estação de hoje a Basílica de S. Pedro dedicada ao Príncipe 
dos Apóstolos. Dissera o Mestre que o divino Paráclito viria e a 
Epístola mostra-nos o cumprimento da promessa. Era a hora de 
Tércia, à volta das nove horas, quando se fez de repente sentir um 
vento, impetuoso que encheu toda a casa, e línguas de fogo desceram 
sobre os Apóstolos. Iluminados por esta luz e a trasbordar deste 
fogo sagrado os Apóstolos sentem-se novos e vão realmente renovar 
a face da terra. Este dom maravilhoso consiste para cada um de 
nós na plenitude da graça que recebemos no baptismo e que se vai 
progressivamente desenvolvendo e ampliando até à maturação 
perfeita do céu. Para os Apóstolos era isto mesmo com mais 
o dever, de que em parte não podemos também prescindir sem 
atraiçoar ainda que veladamente a nossa dignidade e a nossa 
vocação, com mais o dever de a transmitir a todos os homens». 
Nas Missas solenes do Domingo de Pentecostes e Votiva do 
Espírito Santo o sacerdote, o diácono e o subdiácono revestem-se 
de paramentos de cor vermelha. 

O Evangelho comum às duas Missas é o de S. João 14, 23-31. 
Destas Missas destaca o autor as frases seguintes. 
«O Espírito do Senhor encheu a terra toda...» 
«Levante-se Deus e pereçam os seus inimigos...» 
«Rechaçai para longe de nós o inimigo e dai-nos sem detença 

a paz». 

«Feliz a nação que tem o Senhor por seu Deus, feliz o povo 
que ele escolheu para Sua herança». 

«Vinde, Espírito Santo, enchei os corações de Vossos fiéis 
e abrasai-os no fogo do Vosso amor». 

«Completaram-se hoje os dias de Pentecostes, aleluia, hoje 
apareceu o Espírito Santo sobre os Apóstolos em línguas de fogo 
e infundiu-lhes os dons da sua graça. Enviou-os a pregar por todo 
o mundo e a testemunhar que todo aquele que acreditar e for baptizado 
será salvo». 



Q Dom Gaspar Lefebvre, Missal. Quotidiano e Véspera/. 



185 

Da Missa votiva dos Santos Anjos tira o autor o seguinte. 

«Ó Deus, que em admirável ordem regulais os ministérios dos 
anjos e dos homens, concedei-nos propício sermos protegidos na 
Terra por aqueles que no Céu vos assistem». 

«Um Anjo do Senhor desceu do Céu...» 

Da Missa de Vários Mártires destaca o autor as frases seguintes. 

«Suba até Vós, Senhor, o pranto dos cativos; que os nossos 
vizinhos sofram o sétuplo no seu seio: vingai o sangue derramado 
dos Vossos Santos». 

«As almas dos justos estão na mão de Deus, e não os tocará 
o tormento da morte. Pareceu aos olhos dos insensatos que morriam; 
e a sua saída deste mundo foi considerada como uma aflição, e a sua 
separação de nós como um extermínio, mas eles estão em paz. E, se 
eles sofreram tormentos diante dos homens, a sua esperança está 
cheia de imortalidade». 

«Os justos resplandecerão e brilharão como centelhas no meio 
de um canavial». 

«...Os Justos, viverão para sempre, e a sua recompensa está no 
Senhor, e o Altíssimo tem cuidado deles. Portanto receberão da 
mão do Senhor um reino de honra e um diadema brilhante; porque 
os protegerá com Sua dextra, e o Seu santo braço os defenderá. 
O Seu zelo se vestirá duma armadura, e armará as Suas criaturas para 
se vingar dos Seus inimigos. Tomará por couraça a justiça e por 
capacete o Seu juízo infalível». 

«O alvinitente exército dos Mártires, canta os Vossos louvores, 
ó Senhor». 



APONTAMENTOS SOBRE INDUMENTÁRIA LITÚRGICA 

MEDIEVAL 

De Severim de Faria ( x ), toma o autor os apontamentos seguintes. 

«A Igreja Católica alumiada pelo Espírito Santo e ensinada 
pelos Apóstolos assinalou a cada ordem e estado da Igreja, parti- 
culares e distintas vestes». 

As vestes dos clérigos têm a sua origem na lacerna usada pelos 
romanos que era «um hábito de feltro, curto, que cobria a parte 
do corpo que há dos ombros até à cintura, como agora (1624) fazem 
as capas dos feltros ou as esclavinas dos peregrinos». 



(*) Manoel Severim de Fatia, Discursos Vários e Políticos, Lisboa, 1805, 
pág. 301 (Reimpressão da edição feita em Évota em 1624). 



186 

«Esta lacerna que, como vemos, era uma murça sem capelo 
ou cogula foi comum a todo o clero e afirmam alguns autores que 
a tomaram por hábito os eclesiásticos da primitiva Igreja porque 
sendo o mesmo que capa de caminho significavam com ela que 
deviam usar das cousas deste mundo só como peregrinos e passa- 
geiros». 

Esta «murça sem capelo é ainda hoje comum a todos os clérigos 
de Portugal que a querem trazer posto que muito mais se usa nos 
beneficiados das catedrais que não são cónegos, particularmente na 
Sé de Évora, e só se diferencia esta murça das murças dos cónegos, 
em as dos cónegos terem capelo, como têm as dos bispos e cardeais, 
o qual capelo parece sem dúvida a cogula monacal que os cónegos 
lhe acrescentaram quando aceitaram o monaquismo. Prova-se isto 
claramente por duas razões evidentes. A primeira, porque o capelo 
ou cogula é só insígnia de monges e própria sua. A segunda, porque 
ainda hoje só os clérigos que foram monges, que são os bispos, e os 
das catedrais e os Regulares as trazem com capelo, e os mais sem eles». 

«...Neste Reino se conserva mais que em nenhuma outra parte 
o uso das murças porque além dos bispos as trazem por hábito 
próprio todos os cónegos das igrejas catedrais e como tal, em muitas 
constituições de bispados é proibido aos outros clérigos, principal- 
mente no arcebispado de Évora; e na sé de Braga manda um esta- 
tuto do coro que, sem murça, não possam os cónegos ser contados 
às horas. E modernamente em Lisboa as forraram os cónegos de 
vermelho para com esta diferença ficar o dito hábito canonical mais 
distinto das outras murças dos quartanários Q), ainda que as dos 
quartanários são sem capelo». 

«Além da murça, trazem também os cónegos outra veste por 
hábito canonical, chamada capa de coro a qual é comum aos bispos 
e cónegos; delas se fez menção no Cerimonial Romano onde manda 
que vão com ela vestidos os bispos quando forem admitidos no 
lugar do consistório em Roma e que nas suas igrejas assistam com 
ela ao ofício divino. E na Sé de Évora há uma declaração da congre- 
gação dos ritos, que ordena se não faça cerimónia alguma ao bispo 
na igreja, assistindo sem capa. A mesma capa dá o ceriminoal por 
hábito aos cónegos em certos tempos do ano, como no Advento, 
Quaresma e outros, segundo o particular uso que cada Igreja nisso 
observa. Esta capa tomaram os bispos e cónegos do monaquismo... 
o que se vê claramente da mesma forma dos capelos delas, que é 
própria dos monges de São Bento e dos forros de peles que nelas 
se usaram sempre em muitas partes... Por isso se permitem ainda 



C 1 ) Quartanário: Nos cabidos, é o beneficiado inferior a meio cónego, 
e tem a quarta parte da côngrua dum cónego (Dicionário de Moraes). 



187 

hoje estas capas de chamalote que se tecem dos pelos de camelos 
ou de cabras e assim parece que sobre as mais vestiduras traziam 
os monges do Egipto... 

Destas capas de coro parece que tiveram origem os pluviais 
a que chamamos ordinariamente capas de asperges, porque nos 
capelos e feição se parecem com elas e como tais manda o Cerimonial 
Romano que nos pontificais dos bispos só os cónegos as vistam e 
assistam com elas no coro, como hábito canonical não concedido 
aos outros beneficiados. 

A cor de ambas estas vestes, murça e capa de coro, é negra... 

Ambas estas vestes, murça e capa de coro, usam os cónegos 
sobre sobrepelizes ou túnicas líneas, como lhes chama Santo Agos- 
tinho e alguns dos Padres antigos, às quais deram depois nome de 
superpellicium ou sobrepelizes, segundo Guilhelmo Durando, por 
serem antigamente estas as últimas vestiduras que se lançavam sobre 
outras de peles que então o clero trazia». 

«Há também o barrete, veste comum a todos os clérigos». 
O barrete era do mesmo pano e cor da murça e «a forma deste barrete 
foi em todas as partes até nossos tempos (1624) redonda e não 
quadrada» ... «Os barretes que os bispos trazem debaixo da mitra 
ainda são redondos». 

«Loba chamamos outra veste comum a todo o clero de Portugal, 
mas mais usada nos cónegos das catedrais, principalmente na Sé 
de Évora; a qual teve sua origem ... das dalmáticas e ainda hoje 
parece que têm quase a mesma forma e feitio delas. Foi a dalmática 
comum a todo o clero ... como ainda agora a trazem em Portugal 
os bispos e cónegos». 

«O mantéu clerical é o mesmo que o antigo pálio usado dos 
filósofos gregos ... Este uso se comunicou por todas as províncias 
da Ásia, trazendo-o as pessoas graves que trataram do desprezo do 
mundo e como tal usaram dele os apóstolos. Era o pálio antigo 
quadrado e chegava até ao chão e atava-se no colo com uma fivela 
como agora vemos as capas dos Religiosos». 

Do Dr. Ribeiro de Vasconcelos (*) tira o autor os apontamentos 
seguintes. 

A Alva era primitivamente a veste ordinária do clero, uma 
verdadeira batina de cor branca. Durante a Idade Média costumava 
bordar-se a alva a ouro e seda de cores. Hoje deve ser inteiramente 
branca. A alva deve ser ampla e comprida, ficando a fímbria a 
arrastar cerca da grossura dum dedo sobre o pavimento. 



C 1 ) Dr. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, Compêndio de Liturgia 
Romana, Coimbra, 1897, e Duas Cartas sobre Indumentária Litúrgica na Iconografia 
Medieval, in «Biblos», Março e Abril de 1926. 



188 

Os rectângulos que se vêem em alguns quadros aplicados adiante 
e atrás sobre a alva que reveste certas personagens, um pouco acima 
da fímbria, e as peças sobrepostas às extremidades das mangas, 
geralmente do mesmo tecido dos paramentos, são simples adornos 
da alva que aparecem somente no declinar da Idade Média, perma- 
necendo em uso até à actualidade, mas restritos modernamente às 
missas do Advento e da Quaresma. 

A dalmática é a veste litúrgica do diácono. 

Mas poderá na iconografia medieval considerar-se característica 
exclusiva do diaconado? Não. Nem na iconografia medieval nem 
mesmo da moderna. 

Nos tempos da baixa Idade Média a dalmática é incontestavel- 
mente veste própria da ordem diaconal, não podendo entretanto 
considerar-se característica iconográfica porque outros ministros da 
Igreja, que também se encontram figurados nos monumentos, usavam 
vestes com a mesma aparência e assim se representam. 

Os subdiáconos revestiam a tunicela, que era muito parecida 
com a dalmática do diácono, da qual se distinguia teoricamente em 
ter as mangas um pouco mais compridas e mais estreitas; é certo 
porém que na prática se aproximavam tanto entre si as duas vesti- 
mentas, que em breve se tornavam perfeitamente iguais, sendo por 
isso vestidas indiferentemente pelo diácono e pelo subdiácono, nos 
fins da Idade Média. 

Ainda em tempos medievais introduziu-se em numerosas igrejas 
o uso de vestir também os dois acólitos ceroferários, que eram apenas 
clérigos in minoribus, e, em muitos casos, simples rapazinhos leigos 
ou meninos do coro fazendo as vezes de minoristas, com alvas e 
dalmáticas, precisamente idênticas na forma à dos diáconos. Este 
uso veio a desaparecer, quase por toda a parte, nos séculos XVI 
e XVII; entretanto nalgumas igrejas subsistiu até aos nossos dias. 
Em Portugal ainda é actualmente (1926) seguido na igreja braca- 
rense. 

Como pois distinguir, na iconografia medieval, um diácono 
dum subdiácono ou dum simples acólito? Há apenas um elemento 
seguro: a estola a tiracolo, insígnia exclusiva do diaconado. Mas 
como em todo o Ocidente se estabeleceu o costume, que ainda hoje 
existe, de os diáconos vestirem a dalmática sobre a estola é impos- 
sível distinguir na iconografia os diáconos dos ministros inferiores 
a não ser que se avistem as pontas da estola pendente, saindo pela 
abertura lateral da dalmática, e descendo até baixo da fímbria desta. 

O amicto, um rectângulo de linho preso com duas fitas, que hoje 
se coloca sobre os ombros, por baixo da alva, antigamente se lançava 
sobre a alva, cobrindo a cabeça, pescoço e ombros, e fixando-se no 
peito; no acto de ministrar, fazia-se decair da cabeça para trás, 



189 

ficando a cingir a nuca e o pescoço, o que ainda hoje se pode ver. 
Esta peça de linho da indumentária litúrgica, a princípio lisa e simples, 
principia no século x a ser ornamentada com ouro e prata, e no 
século xi, aparecem ricos amictos com a zona superior ornada de 
ostentosos bordados, em que algumas vezes se empregavam até 
pedras preciosas. Nos painéis dos últimos séculos medievais vê-se 
nos santos, revestidos de paramentos eclesiásticos, uma rica peça 
de estofo que sobressai da dalmática a vestir a nuca e pescoço, podendo 
parecer à primeira vista uma larga estola. Mas não. É pura e simples- 
mente a zona rica do amicto medieval. 

Poderá admitir-se a hipótese de na iconografia medieval aparecer 
representado de dalmática um santo mártir, que não houvesse sido 
clérigo ? 

Antes de responder a esta pergunta há que estabelecer uns 
princípios teológicos, bem conhecidos nesses tempos, os quais 
inspiraram os artistas e pautaram o seu procedimento na iconografia. 

À hierarquia de ordem, existente na Igreja militante ou deste 
mundo, corresponde uma outra hierarquia na Igreja triunfante ou 
celeste, com os seus graus de ordem também. Pertencem a essa 
hierarquia os anjos, que assistem ante o trono divino, e ministram 
a Deus incessantemente, desempenhando missões de que são incum- 
bidos. São verdadeiros ministros ou diáconos de Deus. 

Por isso muitos artistas, para darem aos anjos um indumento 
consentâneo com as funções que exercem, vestiram-nos de dalmática, 
ou de estola diaconal, ou finalmente de estola com dalmática sobre- 
posta. 

Pois não são eles diáconos do Senhor? 

Posto isto, consideremos agora os santos mártires, que deram 
testemunho de Jesus Cristo, selando a sua fé com a própria vida. 

A esta classe de santos, e à glória que triunfantes gozam no 
céu, encontram-se bastantes referências no Novo Testamento; da 
Sagrada Escritura passaram essas referências para a liturgia, onde 
se lêem nos belos Ofícios e Missas compostos em honra dos santos 
mártires. 

Jesus Cristo deu a cada um dos mártires a denominação de 
«meu ministro». Não haverá pois motivo para admiração se encon- 
trarmos os fiéis piedosos a considerarem os santos mártires integrados 
na hierarquia celeste dos ministros do Altíssimo, enfileirados um degrau 
abaixo dos santos anjos, prestando incessantemente, como estes e 
com estes, o ministério da assistência da acção de graças, da prece 
e intercessão eficaz, ante o altar de Deus, no templo da celeste 
Jerusalém. 

E, sendo assim, não temos direito a estranhar se porventura 
algum artista houver dado a qualquer mártir, para melhor o glori- 



190 

ficar, as mesmas vestes diaconais, que se atribuem aos anjos, pois 
uns e outros, na Igreja triunfante, na Jerusalém celeste, são verda- 
deiros ministros ou diáconos. Deverá em tal caso ser colocado, 
junto do mártir vestido de diácono, o instrumento ou o símbolo 
do seu martírio, como título da sua consagração, título glorioso 
da alta função que exerce no paraíso. 

Encontrar-se-á realmente algum santo mártir, que não tivesse 
sido clérigo, representado em trajo diaconal? 

No caso afirmativo, não causará o facto admiração alguma, 
por ser naturalíssimo. 

O manipulo, na sua origem não passava dum lenço vulgar. 
Depois passou a ornamentar-se com bordados ricos. No século xi 
é que os subdiáconos principiaram a usar o manipulo, que até então 
era usado pelos diáconos e sacerdotes somente. 

A capa ou pluvial é uma veste solene, usada nos actos solenes 
estranhos à missa. 

Regras principais sobre o uso da capa: 

i . a O celebrante veste a capa : a) nas procissões e nas bênçãos 
que faz ao altar; b) nas laudes e vésperas solenes; c) nas absolvi- 
ções que se fazem depois das missas dos defuntos. 

2. a Nos pontificais, o presbítero assistente usa a capa. 

3. a Com a capa nunca se põe o manipulo. 

4. a A capa com fecho ou broche (pectorale, formalium) é reser- 
vada ao bispo dentro da sua diocese e aos cardeais. 



O CULTO DAS RELÍQUIAS NA IDADE MÉDIA 



O culto dos santos, que é uma forma do culto dos mortos, 
funda-se na veneração das suas relíquias, isto é, dos seus restos 
corporais ( 1 ). 

Um corpo santo tinha, na Idade Média, uma importância que 
hoje temos dificuldade em imaginar. 

Tesouros e talismãs, os ossos dos santos eram estimados como 
«mais preciosos que as pedras preciosas». 

Como explicar o valor atribuído pela piedade da Idade Média 
a simples ossos? É que um corpo morto, desprovido da sua carne 
e reduzido ao estado de esqueleto, era reputado, embora estivesse 
separado da alma que o habitava, como tendo herdado as virtudes, 
isto é, os poderes miraculosos do vivo. 



( 2 ) Louis Réau, Iconographie de V Art Chrétien, Introãuction Génerale, pág. 391. 



191 

As relíquias eram guardadas em lugar seguro, ao abrigo dos 
ladrões, mas acessíveis aos peregrinos que desejavam vê-las ou 
mesmo tocá-las ou beijá-las. 

Eram metidas em relicários feitos, em regra, de metais preciosos. 
Mas havia também uma grande variedade de bolsas-relicários de 
pano de seda ou de veludo. 

Num folhetinho do século xvi divulgado pelo Dr. Rocha 
Madahil Q) encontramos uma descrição de ostensão de relíquias 
em Portugal, que o autor passa a resumir. 

No dia 16 de Janeiro celebra-se no mosteiro de Santa Cruz 
de Coimbra a festa dos gloriosos cinco mártires da ordem dos 
menores que foram martirizados na cidade de Marrocos pelo 
Rei Miramulim, cujos corpos estão no dito mosteiro sepultados. 

Neste dia é armada toda a igreja e capelas e nas primeiras 
vésperas são postas as suas relíquias nos altares por esta maneira. 
A caixa grande de prata em que estão os seus corpos no altar-mor, 
e o vulto de prata que tem uma das suas cabeças no seu altar que é 
o do Santíssimo Sacramento, e o outro vulto que tem algumas 
relíquias suas no altar de Santo António, e estarão em uns esca- 
belos cobertos com panos de seda. No altar-mor estarão os casti- 
çais grandes de prata com os seus círios, nos do cruzeiro os quatro 
pequenos, em cada uma das suas capelas com as relíquias estarão 
dois ou quatro castiçais com círios de confraria; e no fim das vésperas 
se darão as relíquias ao povo, para aqueles que o prelado mandar. 
Depois da completa é posta no cruzeiro ante a porta da grade prin- 
cipal, no meio, uma mesa ornamentada a modo de altar com um 
pano rico ou frontal, e por cima uma toalha, e no fim das matinas 
é posta nesta mesa a caixa grande de prata em seus pés de prata, 
e dois castiçais grandes de prata com dois círios grandes da confraria 
junto dela, e o vulto que tem a cabeça se porá no altar de Santo António 
e o outro vulto no altar do Santíssimo Sacramento; e os círios assim 
destes altares como os da mesa, estarão sempre acesos. 

As cinco horas da manhã se abrirão as portas da igreja e estarão 
em cada capela, acompanhando as santas relíquias, dois religiosos 
que o prelado mandar, um sacerdote para dar as santas relíquias 
^e outro para companhia e para espevitar os círios quando cumprir. 
E quando virem que está gente na igreja, de romaria, aberta a porta 
da grade, lhe darão aí as santas relíquias. Neste dia, pela manhã, 
não se tocam contas ou água, nas santas relíquias, mas somente se 
dão ao povo, até ao princípio da missa de terça. E querendo-se 
começar a missa principal, vai o sacristão ou outro religioso, acom- 



( J ) Tratado da Vida e Martírio dos Cinco Mártires de Marrocos, Coimbra 1928 
pág. 85. 



192 

panhado de duas tochas, buscar o vulto que tem a santa cabeça à 
capela onde está e a leva ao altar-mor onde estará até ao fim da missa. 
Acabada a missa, tomado pelo celebrante o relicário do vulto que 
tem a cabeça dos santos mártires nas mãos com um pano de seda, 
chegado à mesa que está no cruzeiro e posto o relicário aberto na 
mesa, o celebrante o toma com o pano de seda e com ele aberto 
amostra a santa cabeça ao povo, volvendo-se em giro e devagar 
para que por todos possa ser vista. 

Por uma carta do Infante D. Fernando a D. Frei Gomes Ç-) se 
sabe que o Infante Santo pediu com o máximo interesse ao Papa 
que lhe desse relíquias de santos, embora já possuísse, além de outras, 
uma relíquia «do lenho da vera-cruz e um pedaço do couro da 
cabeça de Santo António». Esta última deixou o Infante em testa- 
mento ao mosteiro de São Francisco de Leiria ( 2 ). 



A TAMAREIRA 

A tamareira ou palmeira das tâmaras é uma árvore que chega 
a atingir trinta metros de altura. 

É cultivada com frequência em Portugal, sobretudo no Sul ( 3 ), 
sendo originária da África setentrional onde se encontra por toda a 
parte pois os seus frutos constituem um precioso alimento, princi- 
palmente no deserto do Saara. 

As folhas da tamareira são penatipartidas. 

A parte central indivisa das folhas partidas, isto é, o seu eixo 
principal, tem em botânica o nome de «ráquis». 



O BORDO 

O bordo ou plátano bastardo (Acer pseudo-Platanus, L.) é uma 
árvore que se encontra nas regiões temperadas do hemisfério norte, 
existindo em Portugal no Minho e na Beira e na serra de Sintra ( 4 ). 

O pintor Álvaro Gonçalves fez, em 1460, um contrato para 
pintar um retábulo «em madeira de bordos da Flandres». 

Também, num inventário feito em 1506 se refere a existência 
de «um retábulo de bordos por pintar». 



Q) Dr. Domingos Maurício, O Infante Santo e a Cúria Pontifícia, in 
«Brotéria», vol. X, pág. 24. 

( 2 ) Frei João Álvares, Crónica do Infante Santo D. Fernando, edição de 
Mendes dos Remédios, Coimbra, 1911, pág. 138. 

( 3 ) António Xavier Pereira Coutinho, A Flora de Portugal, pág. 115. 

( 4 ) Ibidem, pág. 395. 






III 



HISTORIA DE ARTE 



13 



APONTAMENTOS SOBRE ALGUNS PINTORES 
DO SÉCULO XV 



ROBERT CAMPIN 

De Jacques Lassagne Q) tira o autor os apontamentos seguintes. 

A hipótese de que o «Mestre de Flémalle» era Robert Campin 
de Tournai é a mais satisfatória e a hoje mais geralmente aceita 
apesar dos ataques furiosos de que foi objecto. 

Nasceu Robert Campin antes de 1380. Pintor em Tournai, 
tornou-se proprietário duma casa em 1405 e cidadão em 1410. Era 
então pintor ordinário da cidade e chefe duma importante oficina. 
Em 1423 houve desordens na cidade e os mesteirais apoderaram-se 
do poder. Campin, decano dos pintores foi, de 1425 a 1427, membro 
dum dos conselhos comunais. Morreu em 1444. 

A maior parte dos painéis flamengos dos fins do século xiv 
e dos começos do século xv são painéis em largura contendo duas 
cenas lado a lado ou fazendo parte dum conjunto de cenas que se 
estendem horizontalmente. Esta disposição é certamente mais 
próxima dos baixos-relevos esculturados ou das teorias de carpi- 
dores colocados nos nichos dos túmulos borgonheses que das minia- 
turas tomam o formato da página em altura. 

Num dos mais antigos painéis conhecidos de Robert Campin 
— O Casamento da Virgem — ■ diante dum pórtico gótico, as persona- 
gens estáticas estão agrupadas desajeitadamente, parecendo cada uma 
tomada isoladamente, como se o pintor quisesse acomodar uma 
galeria de tipos humanos vistos ora de frente, de perfil ou a três 
quartos. 

No reverso deste quadro estão pintadas duas estátuas em 
«grisaille» de São Tiago e de Santa Clara que parecem ser as mais 
antigas deste tipo em painel. Estas «grisailles» que iriam conhecer 
tal fortuna que as encontramos em quase todos os retábulos flamengos 
são esculturas representadas «en trompe-Voeil». Parece que os pintores 



O Jacques Lassagne, La Peiniure Flamanãe, Éditions d'Art Albert 
Skira, Genève, 1957, págs. 23 e segs. 

V 



796 

quiseram anexar as conquistas dos camaradas mais avançados na 
arte de exprimir os volumes e o espaço. 

Esta comunhão com as preocupações dos escultores explica 
sem dúvida os potentes volumes que caracterizam as primeiras 
figuras do «Mestre de Flémalle» como a «Senhora da Esteira», da 
National Gallery de Londres e a «Virgem da Anunciação» da antiga 
colecção de Mérode, hoje no Museu Metropolitano de New 
York. 

O pintor recorreu ainda à perspectiva oblíqua que em breve 
seria ultrapassada. Já não se encontrará qualquer exemplo dela 
em Van Eyck e isso indica bem que os primeiros quadros do «Mestre 
de Flémalle» são de data muito antiga, sem dúvida anteriores a 1420. 
As formas são encurtadas, como achatadas e batidas duramente pela 
iluminação, ao passo que em Van Eyck, elas se banharão numa 
luz difusa. No quadro de Londres, a fuga da perspectiva é muito mar- 
cada, acentuada pela deformação dos móveis e quase não há profun- 
didade ; no quadro de Mérode, o espaço resultante do encurtamento 
do fogão de sala, do banco e das vigas do tecto é também estrei- 
tamente limitado e a sala abre-se como uma caixa em que os dife- 
rentes elementos da composição se imbricam sem deixar algum 
espaço vazio. A luz que vem ao mesmo tempo da frente para a 
esquerda e das janelas da sala acentua o relevo dos objectos que 
parecem marcados por uma sombra dupla. 

No painel da Natividade do Museu de Dijon, que não deve 
ser muito posterior, aparecem de novo figuras hieráticas e vigoro- 
samente modeladas que parecem saidas directamente da escultura. 

Este primeiro grupo de obras oferece portanto caracteres esti- 
lísticos bem definidos. É uma arte ainda próxima das suas origens 
(miniaturas franco-flamengas, artesanato popular, escultura slute- 
riana), uma arte jovem mas que se distingue delas resolutamente 
pelo sentido da natureza e a procura da expressão. 

Nas obras de Robert Campin não se encontra qualquer traço 
de influência de Van Eyck. Trata-se de criações importantes que 
depressa tiveram eco através de toda a Europa, porque, como muito 
justamente observou M. de Tolnay, é precisamente a estas obras 
e não a João van Eyck que é preciso referir-se quando se quiser 
procurar as fontes da arte de Konrad Witz na Suiça, de Moser e de 
Multscher na Alemanha e da misteriosa Anunciação de Aix-en- 
-Pr o vence. 

Num fragmento do painel direito de um tríptico desapare- 
cido representando a Descida da Cru^, que o pintor deve ter executado 
cerca de 1430, ele exalta a individualidade das suas figuras colo- 
cando-as num quadro abstracto que dá uma ideia sem equívoco do 
infinito. 



197 

Nos fragmentos dum retábulo existente no Museu de Francfort 
a figura de Nossa Senhora, tal como no da Nossa Senhora de Londres 
e no da Natividade de Dijon, usa um lindo vestido branco leitoso, 
ligeiramente azulado. 

Numa das suas últimas obras, a Nossa Senhora em Glória do 
Museu de Aix-en-Provence em que a Virgem aparece a São Pedro, 
a Santo Agostinho e a um abade, o pintor representou a Senhora 
sobre um pesado banco esculturado que se eleva no meio do céu 
e colocou-A no primeiro plano como as personagens terrestres. 

O simbolismo religioso exprime-se com tocante ingenuidade 
na Anunciação de Mérode. O painel lateral direito representa 
São José fabricando ratoeiras expostas aos transeuntes sobre uma 
pequena prateleira que se abre sobre a praça duma cidade. Como 
o fez notar Meyer Schapiro está ali, sem dúvida, uma alusão à doutrina 
agostiniana segundo a qual o casamento da Virgem e a Incarnação 
foram decididas pela Providência para atrair o diabo a uma armadilha 
tal como o rato à isca. 

Na Natividade do Museu de Dijon, a cena passa-se entre as 
paredes arruinadas dum estábulo de madeira o que significa o desmo- 
ronamento do Antigo Testamento. 

O valor de Campin como pintor é atestado pelos discípulos 
que acolheu na sua oficina: em 1415, o decano da Guilde dos pintores 
ganteses G. de Stoeve confia-lhe o seu filho; em 1426 e 1427 dois 
jovens de Tournai tornam-se seus aprendizes vindo a ser mestres 
cinco anos depois. Serão conhecidos como Roger van der Weyden 
e Jacques Daret. Acrescente-se que Jean van Eyck foi recebido 
solenemente em Tournai em 1427 e 1428 e aí pôde admirar a Anunciação 
de Mérode cujos pormenores parece ter retido na sua memória. 

De Erik Larsen (*), tira o autor os apontamentos seguintes. 

Robert Campin conseguiu dar às suas personagens uma certa 
plasticidade escultural, talvez uma recordação do ensino slute- 
riano ( 2 ) mas essa qualidade não desagradou por certo em Tournai, 
cidade dos mestres entalhadores. 

Da oficina de Robert Campin é uma «Virgem com o Menino 
numa abside» existente no Museu Metropolitano de New York 
e proveniente de Espanha (Salamanca?). 

Larsen descreve o quadro do modo seguinte: «Numa abside 
cor de granito (muraille), a Virgem, bastante atarracada, revestida 
com uma túnica e um manto branco-azulado, cruza os braços sobre 
o Menino que está a mamar. De cada lado, um anjo músico — um 



(!) Erik Larsen, Les Primitifs Flamanãs au Musée Métropolitain de New 
York, págs. 48 e 112. 

( 2 ) Claus Sluter foi um célebre escultor flamengo dos fins do século xiv 
(Nota do autor). 



795 

vestido de azul e vermelho, com asas aliando o verde ao azul — 
o outro com túnica violeta e manto verde sendo as asas multi- 
colores. 

A composição está longe de ser única, mas este exemplar é 
um dos melhores, a tal ponto que pôde ser considerado por Roger 
Fry e J. C. Robinson, Winkler e vários outros, como um original 
do Mestre de Flémalle». 

Notam-se neste painel, segundo Larsen, influências italianas, 
passadas pelo filtro do modelo dijonês, e o seu colorido é muito 
particular pois o azul e o branco das vestes da Virgem provêm 
duma tradição espanhola. 

Ainda segundo Larsen, Robert Campin era «inábil na 
perspectiva, mas terrivelmente verídico em tudo que fosse um 
pormenor familiar e humano». 

De Leo Van Puyvelde Q-) tira o autor os seguintes aponta- 
mentos. 

As pinturas do Mestre de Flémalle aproximam-se das dos 
Van Eyck e de Van der Weyden, mas distinguem-se delas pela 
monumentalidade da forma, o modelado eminentemente plástico 
e o colorido vigoroso. 

Há uma diferença essencial, diferença de concepção e de factura, 
entre os dois grupos de obras : a concepção mais positiva e a factura 
mais pesada numa pasta mais gorda e mais opaca no Mestre de 
Flémalle revelam um outro espírito e um outro temperamento que 
os de Roger van der Weyden. 

De Augusto L. Mayer ( 2 ) tira o autor os apontamentos seguintes. 

O termo da criação artística do Mestre de Flémalle é formado 
pelas asas dum retábulo do Museu do Prado de Madrid com o 
retrato do fundador, o mestre Henrique Werl, datadas de 1438. 

Novíssimas investigações robustecem, segundo parece, cada 
vez mais a hipótese de que o Mestre de Flémalle é Robert Campin, 
o chefe da escola de Tournai. 

Naquela obra reflecte-se perfeitamente o carácter artístico do 
Mestre de Flémalle; é o realista mais vigoroso e consequente da 
escola flamenga na primeira metade do século xv. 

A uma marcada predilecção pelos tons frios e intensos associa-se 
um verdadeiro culto, notabilíssimo naquela época, pelo claro-escuro 
que o Artista emprega, não só para os efeitos pictóricos mas também 
para destacar e avigorar mais as formas. Caracterizam também 
notavelmente o estilo do mestre, a reprodução minuciosa e detalhada 



( x ) Leo Van Puyvelde, JLes Primitifs Flamands, pág. 26. 
( 2 ) A. de Beruet y Moret y Augusto L. Mayer, Albmn de la Galeria 
Pinturas dei Aluseo dei Prado. 



199 

dos mais diversos assuntos e a ordenação dos pesados panos em 
massas de amplas e abundantes pregas. 

Do retábulo de Werl existem as duas asas no museu do Prado, 
tendo desaparecido o painel central sem deixar vestígios. 

Sobre a data da obra e a pessoa do fundador dá-nos notícia uma 
inscrição que está na asa esquerda, a qual representa o fundador com 
o seu patrono, São João Baptista. A inscrição diz: «No ano de 1438 
fez pintar esta efígie Henrique Werl, mestre de Colónia». 

O Mestre Henrique, homem de gosto artístico, que se nos 
apresenta de corpo inteiro no quadro, era uma personagem muito 
conhecida no seu tempo. Procedia de Werl, na Westfália e era 
homem cultíssimo e eloquente orador sagrado em Colónia. Desem- 
penhou um brilhante papel no Concílio de Basileia, donde regressou, 
já no ano de 1437, a Colónia. Morreu no ano de 1461 sendo provin- 
cial dos Franciscanos. 

Em ambas as tábuas se revela a maneira como o Mestre de 
Flémalle sentia o espaço, a sua típica e compilcada disposição da 
luz, a marcada predilecção pelo claro-escuro e o desejo de acen- 
tuar vigorosamente a plástica. 



OS VAN EYCK 

Os irmãos Van Ejck, Hubert e Jean, renovaram o estilo da 
pintura. Conseguem o volume e o relevo dos objectos, não mais 
por um desenho colorido mas por valores de cores. Individualizam 
os objectos representados e dão-lhes a sua densidade material. 

Podemos considerar a sua perspectiva linear defeituosa, mas 
nenhum pintor conseguiu durante cem anos dar como eles a pers- 
pectiva aérea (*). 

A sua obra comum é a celebérrima «Adoração do Cordeiro», 
terminada em 1432. 

Jean van Eyck foi pintor do duque de Borgonha Filipe-o-Bom, 
o qual o enviou a Portugal em 1429 para pintar o retrato da Infanta 
D. Isabel, filha do Rei D. João I, sua futura esposa, tendo-se aqui 
demorado cerca de oito meses. O retrato da Infanta levou um mês 
a pintar ( 2 ) 

De Jean van Eyck é o célebre duplo retrato do casal Arnolfini, 
executado em 1434. 



( x ) Leo Van Puyvelde, Les Primitifs Flamands, pág. 23. 

( 2 ) J. Cardoso Gonçalves, O Casamento de Isabel de Portugal etc, pág. 24 



200 

ROGER VAN DER WEYDEN 

Nasceu em Tournai cerca do ano de 1400 e inscreveu-se como 
aprendiz na oficina de Robert Campin, nessa mesma cidade, em 1427. 

Em 1 de Agosto de 1432 foi admitido, como mestre, na corpo- 
ração dos pintores. 

Em 1435 foi nomeado pintor da cidade de Bruxelas onde se 
havia fixado, há pouco tempo ( 1 ). 

Roger compõe como um escultor, como um entalhador em 
relevo; dispõe as figuras plasticamente concebidas na superfície tal 
como num tabuleiro de jogo das damas. Na «Descida da Cruz», 
do Museu do Prado, num santuário que parece ter somente a profun- 
didade precisa para acomodar as figuras em tamanho natural, lado 
a lado, estão oito figuras de igual vulto. A ideia é a de um mode- 
lador em relevo, frustradora e quase insuportável para um pintor, 
mas apesar deste constrangimento, Roger produziu a sua obra- 
-prima ( 2 ). 

De Van der Weyden é a «Anunciação» do Museu Metropoli- 
tano de New York, «saída sob o ponto de vista estrutural das 
concepções de Robert Campin» e executada cerca de 1454 ( 3 ). 
Pertence-lhe também o retrato de D. João de Coimbra, filho do 
Infante D. Pedro, existente no Museu Real de Bruxelas ( 4 ). 



JACQUES DARET 

Nasceu cerca de 1404. Entrou na oficina de Robert Campin, 
em Tournai, em 1427, e obteve o título de mestre, em 1432, em 
Tournai ( 5 ). 

KONRAD WITZ 

Nasceu, provavelmente, depois de 1400. 

Era filho de Hans Witz, pintor em Constança e Rottweil, na 
actual Suiça, então Alemanha, o qual foi provavelmente seu mestre. 
Em 1434 foi admitido na «guilde» dos pintores em Basileia ( 6 ). 

(*) Leo Van Puyvelde, Les Primitifs Flamands, pág. 27. 

( 2 ) Max J. Friedlander, From Van Eyck to Bruegel, Phaydon Press, 195 1, 
págs. 4 e 19. 

( 3 ) Erick Larsen, Les Primitifs Flamands au Musée Metropolitain de New 
York, Ànvers, 1960. 

( 4 ) José Cortez, in Colóquio, Revista de Artes e Letras, n.° 7 de Fevereiro 
de 1960. 

( 6 ) Leo Van Puyvelde, Les Primitifs Flamands, pág. 20. 
( 6 ) Pierre Descargues, La Peinture Allemande du XIV è me au XVPme 
Siècle, pág. 93. 



201 

De René Huyghe Ç), tira o autor o seguinte. 

«Ninguém mais do que Claus Sluter, com a escola plástica de 
Borgonha, contribui para fazer pesar na arte pictórica esta obsessão 
do escultural, concebida em toda a plenitude dos seus volumes. 
E, por seu turno, ninguém mais do que Konrad Witz, logo na 
primeira metade do século, favoreceu a passagem de uma técnica 
à outra — um Konrad Witz cujo pai, Hans de Constança trabalhou 
na corte de Borgonha, e cuja influência na escola de Avinhão, 
pôde aventar-se. Recebido na corporação dos pintores em 1434, 
o próprio ano em que van Eyck executava o duplo retrato dos 
Arnolfini, Witz inaugurou na pintura europeia o exagero do volume 
e da sua densidade, ao qual Nuno Gonçalves em concorrência com a 
Pietà de Avinhão, deu a expressão mais magistral». 

«Nas obras de Witz surgem as sombras projectadas no chão, 
onde, graças às gradações, parecem deslizar, as mesmas sombras 
que de tal modo impressionam pela sua força subtil na obra-prima 
de Nuno Gonçalves». 

No mesmo local da citada obra de René Huyghe se lê que o 
painel «A Anunciação» de Konrad Witz foi executado em 1445. 

Além de pintor, Witz era também, provavelmente, escultor 
em madeira ( 2 ). 

THIERRY BOUTS 

Nasceu em 1420, e fixou-se na cidade de Lovaina, em 1457. 

O seu estilo sofreu nitidamente a influência de Van der Weyden, 
de quem foi discípulo. 

As obras mais notáveis que produziu foram «A Ultima Ceia» 
(posterior a 1468), «O Julgamento do Imperador Oto» (1468) e a 
«Adoração dos Magos» ( 3 ). 



ANTONELLO DA MESSINA 

Nasceu em Messina, na Itália, cerca de 1430. 

O seu pai era escultor em mármore. 

A vida artística de Antonello começou em Nápoles donde 
certamente não lhe foi difícil sair em várias viagens. Porém, não 
se sabe por onde andou. 



C 1 ) René Huyghe, A Arte e a Alma, Lisboa, 1960, págs. 285 e 286. 

( 2 ) Franco Russoli, La Peinture de la Renaissance (Biographies). 

( 3 ) M. Hulpiau, La Peinture Flamande au XV è me Siècle, pág. 20 e Leo 
Van Puyvelde, Les Primitifs Flamanâs, pág. 29. 



202 

Em algumas das suas obras nota-se um «prevalente tom 
espanhol». 

Em 1456 estava em Messina, havendo documentos de que 
também aí esteve no ano seguinte até ao mês de Abril. 

Os documentos de Messina nada mais dizem desde Abril 
de 1457 até Janeiro de 1460, no qual se sabe ter ele voltado duma 
viagem. Onde esteve durante estes três anos é um mistério. 

O conhecido retrato pintado por Antonello da Messina exis- 
tente no Museu do Louvre, «II Condottière», foi executado em 1475. 

Estas notas biográficas foram tiradas pelo autor, de Giorgio 
Vigni0. 

Antonello da Messina trabalhou na oficina de Van der Weyden, 
quando lá estava também Hans Memling ( 2 ). 



HANS MEMLING 

Nasceu cerca de 1433 e foi discípulo de Van der Weyden. 
Desde 1466 que o encontramos em Bruges, onde morreu 
em 1494 ( 3 ). 



HUGO VAN DER GÓES 

Obteve o título de mestre, em Gand, em 1467. 
A sua obra principal é o tríptico da «Adoração dos Pastores», 
executado cerca de 1474- 147 5 ( 4 ). 



APONTAMENTOS SOBRE A PINTURA 
FLAMENGA DO SÉCULO XV 



As corporações de pintores flamengos, as «gildes» ensinavam 
aos seus membros o emprego e significação dos símbolos, o sentido 
místico das cores e inúmeras vidas de santos. Esses segredos foram 
originariamente propriedade das ordens religiosas, mas quando a 
arte passou às mãos dos artistas leigos, os monges transmitiram a 



( x ) Giorgio Vigni, Antonello da Messina, Oldboutne, Londres, 1963. 

( 2 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — Os Pintores, 
pág. 9. 

( 3 ) Max J. Ffiedlandeí, From Van Eyck to Bruegel, pág. 41. 

( 4 ) Leo Von Puyvelde, Les Primitifs Flamands, pág. 30. 



203 

estes o conhecimento dos símbolos religiosos e das vidas dos santos 
mais populares ( x ). 

Uma das dificuldades que se apresentava aos pintores flamengos 
era a da obtenção dos pigmentos azuis. Um dos mais famosos e 
preciosos era o ultramar natural que se preparava pulverizando o 
lápis-lazúli extraído em minas situadas no actual Turquestão e 
daí levado ao porto de Acre onde era embarcado para Veneza. 
Deste modo, o pigmento era tão raro que se avaliava frequentemente 
como se fosse ouro. O seu uso foi sinal de luxo. O azul mais conhe- 
cido pelos pintores flamengos foi a azurite, um minério secundário 
de cobre que se misturava com malaquite. Por causa do seu carácter 
vítreo, a azurite tem que ser pulverizada ou moída grosseiramente 
para conservar o seu poder corante. 

O capítulo mais triste da história da pintura flamenga é o dos 
azuis. O ultramarino era demasiado escasso e muito caro para 
poder ser empregado em uso comum e, além disso, tinha pouca 
força corante quando se empregava com óleo. A azurite perdia 
facilmente a cor. 

Em toda a pintura flamenga devemos ter sempre cuidado ao 
contemplar um tom que nos pareça verde; o artista pode muito bem 
tê-lo pintado azul ( 2 ). 



ALGUNS ARTISTAS PORTUGUESES 
DO SÉCULO XV 



O primeiro pintor real de que chegou menção até nós, foi 
o Mestre António Florentim ( 3 ), o qual, pelo nome, era originário 
de Florença. Vivia ainda em 1439 e uma carta de D - Duarte, privi- 
legiando-o, em 1434, rememora que ele «veio a esta nossa terra 
a requerimento del-Rei meu senhor e padre e era seu pintor». 

Foi também pintor de D. João I, Gonçalo Anes ou Eanes, 
o qual ainda vivia em 15 de Junho de 1450. 

O Rei D. Duarte, por uma Carta de 1436, nomeou seu pedreiro 
a Nuno Gonçalves, morador em Lisboa, para lavrar as obras reais 
quando lhe fosse mandado, concedendo-se então grandes privilégios 
e uma tença anual de 9 000 libras ( 4 ). Seria este escultor a mesma 



( x ) Baron José van der Elst, El Ultimo Florecimknto de la Eáad Media, 
pág. 63. 

( 2 ) Ibidem, pág. 58. 

( 3 ) Vergílio Correia, Pintores Portugueses dos Séculos XV e XVI, pág. VII. 

( 4 ) Esta carta é transcrita em Apêndice, no final deste livro. 



204 

pessoa que o pintor Nuno Gonçalves? É a pergunta que fez e deixou 
sem resposta, o conde de Raczynski ( 1 ). 

De 1436 a 1438, sendo abade do mosteiro da Badia, em Florença, 
o português D. Frei Gomes, o pintor João Gonçalves ' «mestre expe- 
riente e seguro e grande artista», executou no claustro do referido 
convento uma série de dez frescos. João Gonçalves deslocou-se 
a Florença por iniciativa e a expensas do Rei D. Duarte e, em 1439, 
já tinha regressado a Portugal ( 2 ). 

Em 1449 trabalhava no mosteiro da Batalha o pintor João Afonso, 
morador em Leiria ( 3 ). 

Por carta de 20 de Julho de 1450, o Rei D. Afonso V contratou 
«ora novamente» para seu pintor a Nuno Gonçalves. 

Nesse mesmo ano vivia em Lisboa o pintor Vasco Eanes ( 4 ). 

Ainda em 1450, o pintor Francisco Anes de Leiria pintou para 
o convento da Carnota, em Alenquer, o retábulo do altar-mor, pela 
quantia de doze mil reais brancos. Francisco Anes era filho do 
pintor João Afonso acima referido ( 5 ). Pelo monograma desco- 
berto pelo Dr. Belard da Fonseca no «Homem do Copo de Vinho», 
painel existente no Museu do Louvre ( 6 ), em Paris, deduziu o autor 
do presente trabalho ter sido pintado esse retrato do físico-mor 
do reino D. Fernando Álvares Cardoso, pelo referido Francisco 
Eanes de Leiria. 

Em 145 1, o Rei D. Afonso V perdoou ao pintor Afonso Gonçalves 
o ter sido um dos companheiros do Infante D. Pedro ém Alfar- 
robeira ( 7 ). 

Em 1452 era iluminador dos livros de D. Afonso V, o clérigo 
«seu capelão», Gonçalo Eanes ( 8 ). 

Numa carta de D. Afonso V, datada de 17 de Julho de 1454, 
lè-se: «Dom Afonso, etc. A quantos esta carta virem fazemos saber 
que nós querendo fazer graça e mercê ijohane Anes, pintor, morador 
em esta nossa cidade de Lisboa temos por bem e filhamo-lo por nosso 
pintor para quando lhe da nossa parte for requerido nos haver de 
servir de seu ofício em o nosso armazém da dita cidade...» ( 9 ). 



(*) Comte A. Raczynski, Dictionnaire Histórico- Ai -tistique du Portugal, 
Paris, 1847, pág. 120. 

( 2 ) Eduardo Nunes, Dom Frey Gomes, Braga, 1,963, vol. I, págs. 269 
e seg. 

( 3 ) Sousa Viterbo, Notícia de Alguns Pintores, i. a Memória, pág. 7. 

( 4 ) Ibidem, 2. a série, pág. 12. 
(°) Ibidem, pág. 8. 

( 6 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — Os Pintores, 
pág. 83. 

( 7 ) Sousa Viterbo, Noticia de Alguns Pintores, i. a Memória, pág. 83. 

( 8 ) Sousa Viterbo, A Livraria Real, pág. 62. 

( 9 ) Sousa Viterbo, Notícia de Alguns Pintores, i. a Memória, pág. 33. 



205 

Em 1459, estava em Barcelona o pintor português Vasco 
Fernandes, homónimo do grande pintor quinhentista Grão- Vasco Q). 

A ajuizar por um contrato celebrado em Outubro de 1460, 
no paço episcopal de Évora, entre o pintor Álvaro Gonçalves e o bispo 
dessa mesma cidade, D. Vasco, fundador do convento do Espinheiro 
e do de Santa Clara, esse pintor devia ser um artista de bastante 
merecimento ( 2 ). 

Por este contrato se comprometia o mencionado artista a executar 
dois grandes retábulos em madeira de bordos de Flandres sendo um 
deles para o altar-mor de Santa Maria do Espinheiro e o outro 
para idêntico lugar em Santa Clara. 

Exigia o bispo que estes quadros fossem dos melhores, senão 
os melhores que se vissem em Portugal. 

Das pinturas de Álvaro Gonçalves nada resta. 

Do testamento de Leonor Fernandes, rica proprietária em 
Lisboa, filha de Fernão Rodrigues, que foi do desembargo del-rei 
e viúva de Lourenço Anes, datado de 17 de Dezembro de 1465, 
consta a testemunha João Gonçalves, pintor, morador em Lisboa ( 3 ). 

Em 1470 Nuno Gonçalves cavaleiro da casa de D. Afonso V 
e seu pintor recebeu o pagamento do feitio e custos do retábulo 
que havia feito para a capela real de Sintra ( 4 ). 

Em 1471, o mesmo Rei determinou que o pintor João Anes 
deixasse de receber ordenado e que o pintor Nuno Gonçalves o substi- 
tuísse para pintar as obras da cidade ( 5 ). 

Em Novembro de 1493, o pintor João Gonçalves fez o seu testa- 
mento ( 6 ) pelo qual o autor do presente trabalho deduziu ser ele 
o autor dos painéis da escola de Nuno Gonçalves existente no Museu 
Nacional de Arte Antiga, os quais identificou como representando 
o Senhor Jesus da Boa Sentença, Santo António, São Bartolomeu, 
Santo Ildefonso e São Pedro. Para este pintor propõe o autor a 
designação de «o Moço», para o distinguir do seu homónimo que 
trabalhou em Florença. 

Pelo Dr. Joaquim Coelho de Carvalho ( 7 ) sabe-se que o Doutor 
Nuno Gonçalves que foi nomeado chanceler da Casa do Cível em 
Maio de 1490 ( 8 ), havia sido, nos seus princípios, pintor, tendo ido 



C 1 ) Adriano de Gusmão, Os Primitivos e a Renascença, pág. 152. 

( 2 ) Sousa Viterbo, Notícia de Alguns Pintores, 2. a Memória, pag. 54. 

( 3 ) Sousa Viterbo, Noticia de Alguns Pintores, i. a Memória, pág. 87. 

( 4 ) Adriano de Gusmão, Nuno Gonçalves, Colecção Saber, pág. 164. 

( 5 ) Livro Vermelho do Senhor Rei D. Afonso V, pág. 424. 

( 6 ) Luís Reis Santos, Estudos de Pintura Antiga, pág. 177. 

(') Dr. Joaquim Coelho de Carvalho, Painéis Atribuídos a Nuno Gonçalves, 
in Elucidário Nobiliárquico de Afonso de Dornelas, vol. II, pág. 72. 

( 8 ) Anselmo Braamcamp Freire, Livro Primeiro dos Brasões da Sala de 
Sintra, pág. 327. 



206 

para Itália na sua mocidade para se aperfeiçoar na Arte e ali se 
dedicara a estudar, em Bolonha, direito romano e decretais, e ao 
reino voltara mestre em Leis. 

Por uma sentença dada pelo Rei D. Afonso V, em relação com 
os do seu desembargo, ficou documentado que o doutor em leis 
Nuno Gonçalves era, em 6 de Agosto de 1460, cavaleiro da casa 
real e desembargador e juiz dos feitos daquele Rei ( J ). 

Foi Nuno Gonçalves o doutor a quem o rei D. João II ordenou, 
em 1484, que lavrasse o auto do assassinato do duque de Viseu 
D. Diogo, por ele perpetrado ( 2 ). 



O PAINEL DE SAO MIGUEL, DO MUSEU DO PRADO 

Existe no Museu do Prado, em Madrid, uma pintura represen- 
tando São Miguel, que Harry Wehle não hesitou em colocar em 
primeiro lugar, no seu magnífico livro sobre as obras-primas de 
pintura do referido museu ( 3 ). 

Wehle atribui esta obra a um pintor anónimo hispano-flamengo 
e nota-lhe semelhanças com a arte de Van der Weyden e de Memling, 
assim como o encanto característico dos anjos o leva a ver no painel 
o Estilo Internacional da pintura que floresceu na Europa no primeiro 
quartel do século xv. 

Perante as considerações de Wehle, recordou-se o autor do 
presente trabalho de que na capela do Paço da Alcáçova, em Lisboa, 
a qual era dedicada a São Miguel existia, em 15 71, uma pintura, 
«obra de mestre», representando «São Miguel expulsando Lúcifer», 
pois aí foi encontrada por João Baptista Venturino, o cronista da 
viagem do Cardeal Alexandrino, legado do Papa Pio V a Portugal ( 4 ). 
Esse mesmo riquíssimo retábulo, obra de pintor insigne, ainda se 
conservava na referida capela em 1589, no tempo da dominação 
filipina ( 5 ). Mais se lembrou o autor de que o Arcanjo São Miguel 
era o anjo custódio de Portugal e o patrono do Infante D. Pedro, 
o qual adoptou as balanças do Arcanjo para sua insígnia. 

Sendo assim, pensou na hipótese de o painel ser da autoria 
de um pintor português (Wehle não o pôde atribuir a nenhum espa- 
nhol) e de grande categoria. 



( x ) João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, vol. I, 

pág. 574- 

( 2 ) Rui de Pina, Crónica del-Rei D. João II, cap. XVIII. 

( 3 ) Harry B. Wehle, Great Paintings from the Prado Museum, Londres, 
s-d, Ed. Thames and Hudson. 

(') Alexandre Herculano, Opúsculos, 5. a ed., tomo VI, págs. 49 e 88. 
( õ ) Júlio de Castilho, Lisboa Antiga, Bairros Orientais, 2. a ed., vol. IV, 
pág. 45- - 



207 

De mais a mais, a pintura corresponde ao título que Venturino 
deu — São Miguel expulsando Lúcifer — ao painel existente na capela 
do Paço da Alcáçova. De facto, vemos nela o Arcanjo à frente da 
sua milícia celeste, todos brandindo a espada para expulsar do 
Paraíso os demónios, sendo Lúcifer, sob a forma de um dragão, 
espezinhado por São Miguel. 

Sendo obra portuguesa, influenciada pelas escolas flamenga e 
europeia e de excepcional valor artístico, impôs-se, naturalmente, 
a hipótese da autoria de Nuno Gonçalves, artista de mérito excepcional 
conhecedor da arte dos pintores italianos e, depois, aperfeiçoado na 
escola de Robert Campin. 

Examinando o painel do Prado, logo notamos que toda a sua 
superfície é ocupada por figuras, não havendo espaços vagos, precisa- 
mente como no «Políptico de Portugal, Defensor e Apóstolo da 
Fé». A face da figura de São Miguel é nitidamente aparentada com 
a de São Gabriel do retábulo da «Anunciação »da antiga colecção de 
Mérode, de Robert Campin; o peitoral, da armadura de São Miguel, 
de aço luzidio, é idêntico ao que usa D. Jaime no «Painel da Pregação 
do Evangelho»; e o Arcanjo brande a espada do mesmo modo que 
o faz a figura de D. Afonso V na tapeçaria do assalto à cidade de 
Arzila. 

Examinando uma reprodução do painel, notou o autor que os 
desenhos ornamentais do escudo sustentado no braço esquerdo da 
figura de São Miguel não são regulares nem simétricos e, por isso, 
neles procurou letras porque, a exemplo do que se vê na bota da 
figura do Príncipe D. João, no «Painel do Voto da Cruzada», 
poder-se-ia encontrar o nome do pintor. 

Olhando-se para o quadrante superior do escudo logo se 
evidencia um grande P maiúsculo manuscrito, à direita. A seguir, 
indo da direita para a esquerda e de cima para baixo, encontra-se 
um G maiúsculo, manuscrito, depois um O e depois um N minúsculo, 
manuscrito. Está pois ali a assinatura ^o <§, isto é Nuno Gonçalves! 
O c p é muito grande para designar a palavra latina «pinxit» (pintou) 
como então usavam os pintores escrever a seguir ao seu nome; 
por isso, pode tratar-se da inicial do doador do painel, que teria sido 
o Infante D. Pedro. 

Porém, logo se evidenciaram mais letras no quadrante inferior 
do escudo, encontrando-se, indo de cima para baixo, as letras 
A, N, E e S e depois uma grande letra, que deve ser um G maiús- 
culo, diferente de um S por ter um espigão na parte média. Apareceu 
assim o sobrenome Anes, em que o A está situado junto da extre- 
midade do quadrante. Houve pois que procurar o nome próprio 
na extremidade mais próxima do outro quadrante e encontrou-se 
um (§ (G maiúsculo, manuscrito). Reconstituiu-se deste modo a 



208 

assinatura G. Anes, ou seja a do pintor Gonçalo Anes, ou Eanes. 
A letra <S> que fica na extremidade inferior do quadrante, poderá 
significar Gonçalo ou Gonçalves ou não terá significação, tendo-a 
aí colocado o pintor pela necessidade de ornamentar os dois quadrantes 
do escudo com grosseira aparência de simetria. 

Deduzimos assim que o painel do Museu do Prado foi enco- 
mendado pelo Regente D. Pedro aos pintores Nuno Gonçalves 
e Gonçalo Anes, sendo portanto a sua execução anterior à data do 
recontro de Alfarrobeira — 20 de Maio de 1449. 

Como teria esta pintura ido parar a Espanha, a uma cidade 
chamada Zafra situada a sul de Mérida, onde foi adquirida para o 
Museu do Prado em 1924? 

Sabe-se que no Paço da Alcáçova existia uma colecção de 
retratos dos reis de Portugal, a qual foi transportada para a Espanha, 
no tempo da dominação filipina Q) pois, em 1885, estava no 
Escurial ( 2 ). Assim, não se pode estranhar que outras pinturas 
existentes em Portugal fossem «transferidas» para Espanha, sobre- 
tudo as que tivessem grande valor artístico. Conta-nos Wehle ( 3 ) 
que o Rei Filipe I de Portugal comprava, incansavelmente, quadros 
na Itália e na Flandres; que o Rei Filipe II aumentou as colecções 
reais e contratou Rubens para trabalhar na sua corte; e que Filipe III 
mandou o pintor Velasquez à Itália, por duas vezes, para adquirir 
obras-primas, e comprou pinturas de Mantegna, Rafael e de outros 
artistas no leilão feito depois da morte do Rei Carlos I de Inglaterra. 

Porém, se o painel de «São Miguel expulsando Lúcifer» tivesse 
sido destinado aos reis de Espanha, o natural seria ter sido encon- 
trado num dos paços reais. É pois de presumir que o retábulo tenha 
sido levado na bagagem de um dos capitães espanhóis do castelo 
de São Jorge, o que não seria muito de levar a mal visto a capela 
de São Miguel do Paço da Alcáçova estar completamente abando- 
nada ( 4 ), por a capela real ser então dedicada a São Tomé e instalada 
na Paço da Ribeira. 

Em 1589 era capitão da artilharia daquela praça o espanhol 
D. Nuno Orejon casado com D. Ana de Velasco. 



Q) Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, Portugal, na palavra «Alcáçova» 
(Paço da). 

( 2 ) Júlio de Castilho, Lisboa Antiga ■ — Bairros Orientais, 2. a ed., vol. IV, 
pág. 53. 

( 3 ) Harry B. Wehle, Great Paintings jrom the Prado Museum, pág. 9. 

( 4 ) Júlio de Castilho, Lisboa Antiga — Bairros Orientais, 2. a ed., vol. IV, 
pág- 45- 



209 

O PAINEL DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO 
DO MUSEU METROPOLITANO DE NEW YORK 

Numa obra de Erik Larsen Q), lê-se que existe no Museu Metro- 
politano de New York uma «Virgem com o Menino numa abside», 
da oficina de Robert Campin, adquirida em Espanha para o refe- 
rido museu. 

Nesse painel notou Larsen influências italianas, o que não 
refere de qualquer outro atribuído a Campin ou à sua escola, e a 
singularidade das cores das vestes da Senhora serem o azul e o branco, 
o que provém duma tradição espanhola. 

Assim alertado, lembrou-se imediatamente o autor do presente 
trabalho da referência do livro, «O Ceo Aberto na Terra», à fundação 
da Ordem da Conceição pela portuguesa D. Beatriz da Silva, em 
Castela, a qual teve a visão da «Mãe de Deus vestida de azul e 
branco» e acompanhada por anjos, quando estava encarcerada 
«em um aposento do palácio, solitário e escuro», «equivocando-se 
em deliciosa confusão as fragrâncias e as harmonias». 

Pôs assim a hipótese de que o quadro representasse Nossa 
Senhora da Conceição. De facto, a Virgem está acompanhada por 
dois anjos que tangem instrumentos musicais o que, evidentemente 
representa as «harmonias» ouvidas por D. Beatriz e a «abside» não 
tem porta, nem as frestas iluminantes que existem em todas as 
absides. 

A pintura representa pois Nossa Senhora da Conceição apare- 
cendo no aposento escuro onde D. Beatriz da Silva foi encer- 
rada. 

Note-se que a Virgem está de pé, sobre o pavimento. 

Como a visão de D. Beatriz sucedeu cerca do ano de 1453, 
o painel não pode ser da autoria de Robert Campin, o qual fale- 
ceu em 1444. 

Também, Erik Larsen não o atribuiu a qualquer dos dois 
discípulos deste pintor então conhecidos : Van der Weyden e Jacques 
Daret. 

Assim, dadas as influências italianas que Larsen notou resta 
obra e o assunto se referir a uma dama portuguesa, é de atribuir 
a pintura ao pintor português Nuno Gonçalves, discípulo de Campin 
e que «apesar de nunca ter estado em Itália, procurava imitar os 
grandes mestres deste país» segundo escreveu Bermudez ( 2 ). 



( x ) Erik Larsen, Les Primitifs Flamands au Musée Métropolitain de New 
York, págs. 48 e 112. 

( 2 ) Comte A. Raczynski, Dictionnaire Histórico- Artistique du Portugal, 
Paris, 1847, pág. 120. v 



210 

Para confirmar a identificação duma imagem de Nossa Senhora 
da Conceição, socorre-se o autor, mais uma vez, de Louis Réau Q). 

«Cerca do fim da Idade Média aparece uma representação 
inteiramente nova deste tema (Imaculada Conceição). A Virgem 
Imaculada, enviada do céu por Deus que a elegeu para a obra da 
Redenção, desce à terra. De pé, sobre um crescente, coroada de 
estrelas, estende os braços como os Orantes das catacumbas ou junta 
as mãos sobre o peito. Para a distinguir da Virgem ascendente 
da Assunção, representam-n'A com os olhos baixados para a terra, 
enquanto que a Assunta tem os olhos levantados para o céu, onde 
Cristo A espera». 

Ora, na pintura do Museu Metropolitano, a Virgem apresenta-se 
com os olhos voltados para baixo e com as mãos cruzadas sobre o 
peito. 



Q) Louis Réau, Iconographie de la Bible — Nouveau Testament, págs. 79 e seg. 



ROTEIRO PARA A IDENTIFICAÇÃO 



DAS 



FIGURAS DO POLÍPTICO 



A CHAVE DO ENIGMA DOS PAINÉIS 



O retrato de D. João de Coimbra, do Museu Real de Bruxelas, 
identifica a figura (34) do Painel da «Pregação do Evangelho». 

Por estarem no mesmo plano de D. João, as figuras (33) e (36) 
são os seus irmãos D. Pedro e D. Jaime, pois D. Pedro como mais 
velho deveria ficar à direita da figura principal. 

As figuras do primeiro plano (31) e (32) terão que ser o rei 
D. Afonso V (por ser a ele que a figura principal se dirige e por 
fazer a genuflexão somente com um joelho) e o príncipe-herdeiro 
de então, o seu irmão D. Fernando. 

Visto que os filhos do Infante D. Pedro sairam de Lisboa para 
Coimbra, acompanhando seu pai que abandonou a corte, em meados 
de 1448, os seus retratos não podem ser posteriores a esse tempo. 

Examinando agora o Painel da Cruzada verificamos que a 
figura do rei (por ser a ela que a figura principal apresenta o livro 
e por fazer a genuflexão somente com um joelho) está já acompa- 
nhada pelo Príncipe-herdeiro D. João que aparenta a idade de 10 
a 12 anos. 

Sabendo-se que este príncipe nasceu em 1455 podemos calcular 
a época da feitura deste painel para cerca de 1465-1467. 

Impõe-se assim a conclusão de que há uma diferença de cerca 
de duas dezenas de anos entre as feituras dos dois painéis maiores. 

Se nos recordarmos que os Painéis estavam, antes de 1940, 
dispostos em dois trípticos, com o que concordavam ilustres críticos 
de arte, entre os quais o Dr. José de Figueiredo e Myron Malkiel 
Jirmounsky, encontramos a chave dos enigma dos painéis: 

«O GRUPO CONSTITUÍDO PELOS PAINÉIS DO VOTO DA CRUZADA, 
DA VIDA ETERNAL E DA SANTA GLÓRIA FOI PINTADO CERCA 
DE VINTE ANOS DEPOIS DO TRÍPTICO CONSTITUÍDO PELOS PAINÉIS 
DA PREGAÇÃO DO EVANGELHO, DA DILATAÇÃO DA FÉ E DA DEFENSÃO 
DA FÉ». 

Procuremos precisar melhor as épocas das feituras dos dois 
grupos de painéis. 

No Painel da Pregação do Evangelho notamos que o corpo 
de D. João, filho do Infante D. Pedro já é muito desenvolvido 



214 

aparentando pelo menos catorze anos. Assim, sabendo-se que ele 
tinha menos de quinze anos em Alfarrobeira (20 de Maio de 1449), 
pode-se deduzir que o pintor trabalhava neste painel em 1448, ano 
que passamos a tomar como média para a época da feitura do 
primeiro grupo de painéis. 

No Painel do Voto da Cruzada, a figura da Infanta D. Isabel, 
duquesa de Borgonha, está pintada com o luto de viúva e, portanto, 
a execução desta figura foi posterior a 15 de Junho de 1467, data 
do falecimento do duque Filipe-o-Bom. Deste modo, podemos 
calcular que o segundo grupo de painéis foi acabado cerca de 1468. 



O TRÍPTICO DO VOTO DA SALVAÇÃO DAS ALMAS 

Denominou assim o autor os três painéis executados cerca 
de 1448 e certamente encomendados a Nuno Gonçalves pelo Infante 
D. Pedro, regente do reino, visto os seus três filhos ocuparem lugar 
de honra junto à figura principal. 

Examinando estes painéis encontramos sacerdotes no maior, 
cavaleiros num dos mais estreitos e pescadores no outro. 

Impõe-se assim a evidência de que este tríptico representa os 
três estados do reino reunidos — Oradores, Defensores e Mante- 
dores — ou seja o Povo Português, a Nação Portuguesa. 

O simbolismo destas pinturas, que adiante se explicará, levou 
o autor a dar-lhes as seguintes designações : para o painel em que há 
sacerdotes, os anunciadores da doutrina cristã, a de Painel da Pregação 
da Fé ; para o painel em que há cavaleiros, os defensores, a de Painel 
da Defensão da Fé; para o painel em que há figuras envolvidas 
numa rede de pesca, símbolo evidente da pesca de almas, ou seja, 
do apostolado para propagação da fé, a de Painel da Dilatação da Fé. 



PERSONAGENS DO PAINEL DA PREGAÇÃO 
DO EVANGELHO 

A figura (31), por ser a ela que a figura principal se dirige, 

é O REI D. AFONSO V. 

A figura (32), situada no mesmo plano que o Rei, é o príncipe 

HERDEIRO D. FERNANDO. 

A figura (33) é o condestável d. pedro visto estar à direita 
da figura principal, sendo portanto o mais velho dos três filhos do 
Infante D. Pedro. 

A figura (34) será o mais novo dos três irmãos, isto é, 

D. JOÃO. 



215 

A figura (36) terá que ser d. jaime, o outro filho do Infante 
D. Pedro. 

A figura principal deste painel (35), um jovem com vestes de 
diácono sobre um traje secular a que não falta uma caraminhola 
sobre a cabeça envolvida pelo resplendor da glória só pode ser, 
como o demonstrou o Dr. José Saraiva, o infante santo d. Fer- 
nando falecido em 1443, cinco anos aproximadamente antes da 
feitura deste Painel da Pregação do Evangelho, como um mártir 
bem-aventurado. 

Na fileira de personagens colocadas logo atrás do Infante Santo 
encontramos uma (42) com uma gola de pele, o que levou o Dr. Jaime 
Cortesão a identificá-la como sendo um médico. Ora, na época da 
feitura deste painel o médico mais famoso era o Mestre João que 
tinha curado o Papa Eugénio IV. Este Papa, por o Mestre João 
ser sacerdote, nomeou-o bispo de Lamego e depois promoveu-o 
para o bispado de Viseu. A figura (42) é, pois o bispo de viseu 
d. joão vicente, o principal fundador da Congregação dos Cónegos 
Seculares de S. Salvador de Vilar de Frades. 

Assim, a figura (41), um cónego com uma capa como uma 
toga, tem que ser o doutor afonso nogueira, também fundador 
da congregação atrás referida visto o doutor Martim Lourenço 
já ter falecido há mais de dez anos. 

A figura (40) veste a mesma capa de cónego de S. Salvador 
de Vilar de Frades e é o retrato do sacerdote jorge da costa, 
que veio a ser o celebérrimo Cardeal de Alpedrinha, conforme o 
Dr. Belard da Fonseca demonstrou pela comparação com um 
retrato deste cardeal existente no Museu Nacional de Arte Antiga (•). 

A figura (39) está situada em lugar de honra junto ao prelado, 
é um cónego e segue-se a cónegos de S. Salvador de Vilar de Frades. 

Identificamo-la pois como o deão da Sé de Lisboa e cónego 
de S. Salvador de Vilar de Frades, joão Rodrigues. 

A figura do prelado (38) só pode ser o bispo de Évora 
d. Álvaro de abreu, grande orador e esforçado guerreador dos 
mouros na tentativa da conquista de Tânger acompanhando os 
Infantes D. Henrique e D. Fernando e partidário do Infante D. Pedro 
durante a crise da regência do reino. Nunca poderia ser o arcebispo 
de Lisboa D. Pedro de Noronha, inimigo do Infante D. Pedro. 

A figura (37) representa um cónego de S. Salvador de Vilar 
de Frades pois se vê um triângulo da sua capa atrás do peitoral da 
armadura do Condestável D. Pedro. Como se trata de uma pessoa 
de idade muito avançada e está colocada ao lado do bispo, identi- 



Ç 1 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — O Cardeal 
D. Jaime de Portugal, pág. 152. 



216 

ficamo-la como sendo o cónego de S. Salvador de Vilar de Frades 
e chantre da Sé de Braga, o mestre vasco Rodrigues. 

A figura (43) veste uma garnacha ou beca de que se vê uma 
manga larga, uma manga ancha como então se dizia. É pois o 
doutor Diogo Afonso que tinha a alcunha de o «mancha- ancha». 

A figura (44) usa um brial de cavaleiro sem estar revestido 
com trajes de clérigo. Daqui se deduz que se trata de um cavaleiro, 
não sacerdote, com papel importante na história da Igreja desses 
tempos. É portanto, Álvaro Gonçalves de ataíde que foi embai- 
xador de Portugal ao concílio de Constança em 141 6 e era aio do 
Rei D. Afonso V. 

A figura (45) corresponde à de um cónego. Como apresenta 
na gola um forro de cor vermelha, o que era privativo dos 
cónegos da Sé de Lisboa, identificamo-la como sendo o cónego 
pedro eanes, por alcunha o «sarrabodes», que foi capelão do 
Infante D. Fernando e partidário político do Infante D. Pedro. 

A figura (47) usa um barrete de faces e uma gola de ponta 
revirada da mesma maneira que D. Nuno Álvares Pereira se vestia 
no convento do Carmo ( 1 ). Trata-se pois de um frade carmelita e 
assim o identificamos como o bispo de ceuta d. frei joão manuel 
que era o provincial da Ordem do Carmo. 

Sabendo-se que D. Frei João Manuel e d. rui da cunha prior da 
colegiada de Santa Maria da Oliveira foram embaixadores ao Papa 
Eugénio IV, tendo, entre outros assuntos, conseguido desligar terras 
portugueses das dioceses castelhanas a que pertenciam então, fica 
identificada a figura (46) como o referido dom-prior. 



PERSONAGENS DO PAINEL DA DEFENSÃO DA FÉ 

A figura (48) colocada em primeiro plano é, certamente, o 
infante D. pedro, defensor do reino por el-rei. 

A figura (49), por usar o estoque de condestável, é o infante 
d. joão, terceiro condestável de Portugal. 

A figura (50), por também usar estoque e estar no mesmo 
plano que os filhos do Infante D. Pedro no Painel da Pregação 
da Fé, identifica-se como o condestável d. diogo, filho do Infante 
D. João. 

A figura (51) usa barba bífida é cabelos longos, atributos que 
somente encontramos, na iconografia da época, nas pinturas e escul- 



O Nuri 'Álvares, n.° I da Série de Iconografia Portuguesa, organizada 
e editada por Alberto Sousa e Mário Salgueiro, págs. 10 e 13. 



217 

turas representando o Infante Santo. Representa pois o infante 
d. Fernando, filho do rei D. João I. 

Na parte superior deste Painel da Defensão da Fé estão colo- 
cados quatro cavaleiros revestidos com o seu brial, o manto branco 
usado por eles nas cerimónias, o qual se pode ver, completo, 
na figura do doador da «Pietà» de Villeneuve-Lès-Avignon, pintada 
antes de 1457 O- 

Dois destes cavaleiros (52) e (55) estão situados à frente ficando 
mais atrás a figura (53) e, por último, a figura (54). 

Três destes cavaleiros são relativamente jovens ao passo que 
o cavaleiro (52) aparenta muito mais idade. 

Procurando entre os cavaleiros partidários do Infante D. Pedro 
os de maior nobreza, importância política e serviços na guerra dos 
infiéis (não contando com Álvaro Gonçalves de Ataíde e com Rui 
da Cunha que já ficaram identificados no Painel da Pregação do 
Evangelho) elaborar-se-á a seguinte lista: D. Álvaro de Almada, 
conde de Avranches; Fernão Lopes de Azevedo; Martim de Távora, 
meirinho-mor da corte; Aires Gomes da Silva, regedor das justiças 
da Casa do Cível; Luis de Azevedo, vedor da fazenda; e Leonel 
de Lima. 

Como os cavaleiros são quatro, teremos que pôr de parte os 
dois últimos, tanto mais que Luís de Azevedo era irmão de Fernão 
Lopes de Azevedo e, portanto, já a sua família estava representada. 

Dos quatro cavaleiros que se escolheram, somente o conde 
de Avranches já não era novo pois era mais velho que o Infante 
D. Pedro, o qual tinha 56 anos em 1448. 

Assim se pode identificar a figura (52) como o conde de Avran- 
ches D. ÁLVARO DE ALMADA. 

A figura (55) situada no mesmo plano que o Conde de Avranches 
tinha mais categoria que os restantes e por isso a identificamos 
como o comendador-mor de Cristo fernão lopes de azevedo. 

As figuras (53) e (54) representam, pois, Martim de Távora 
e Aires Gomes da Silva. Como deste último existe uma estátua, 
em S. Marcos de Tentúgal, é fácil compará-la com as duas figuras, 
vendo-se imediatamente que a (53) é aires gomes da silva. 

A figura (54) é, portanto, martim de távora. 



(*) Michel Laclotte, UÉcole d'Avignon, Paris, 1960, pág. 



218 
PERSONAGENS DO PAINEL DA DILATAÇÃO DA FÉ 

Este painel corresponde ao estado social chamado dos Mante- 
dores. 

Nenhuma personagem deste estado possuiria categoria suficiente 
para ser colocada em primeiro plano, tal como o Rei ou o Regente. 

O pintor dos Painéis venceu a dificuldade colocando nessa 
posição, não um indivíduo, mas uma figura representando toda a 
gente .portuguesa, ou seja, portugal, que é a figura (7). 

A figura (9), visto só ter a mão esquerda, identifica-se como 
sendo o mareante soeiro da costa, que perdeu uma mão no des- 
cerco de Ceuta. 

A figura (8), situada no mesmo plano que a anterior e voltada 
para ela é, pois, Lançarote da franca, genro de Soeiro da Costa 
e também mareante dos descobrimentos. 

A figura (12) apresenta uma cicatriz que corta a face direita, sobre 
o maxilar superior, desde a orelha, que deformou, até à extremidade 
do nariz. Reconhecemos assim a cicatriz da ferida por azagaia que 
recebeu vicente dias, mercador e mareante dos descobrimentos. 

Observando a figura (10) notamos que a fenda palpebral do 
seu olho esquerdo é mais estreita que a do direito e que está vestida 
semelhantemente à do Marquês de Valença (20) do Painel do Voto da 
Cruzada. Assim a identificamos como sendo gonçalo velho, o nobre 
fidalgo que em luta com os mouros apanhou uma pancada na cabeça 
de que veio a perder grande parte da vista de um dos olhos. 

Observando a figura seguinte (1 1) notamos que o seu olho esquer- 
do não tem vida, encontrando-se na pálpebra superior respectiva uma 
cicatriz. Assim identificamos esta personagem como o cavaleiro 
e mareante, povoador da Ilha da Madeira, joÃo Gonçalves o qual, 
na tentativa da conquista de Tânger, foi ferido perto de um olho 
por um virotão, perdendo a vista desse olho mas ganhando a 
gloriosa alcunha de o «zargo». 

A figura (13) terá que ser um notável mareante dos descobri- 
mentos fiel servidor do Infante D. Pedro. Concluimos pois que 
se trata de gomes pires, o patrão da caravela del-Rei na expedição 
nacional para castigo dos mouros de Tider. 

OS PAINÉIS DA CRUZADA 

Denominou assim o autor os painéis executados cerca de 1468, 
certamente por mandado do Rei D. Afonso V, a Nuno Gonçalves. 

O painel maior está ocupado, como adiante se verá, por cava- 
leiros experimentados na guerra contra os mouros, inimigos da 



219 

fé católica. Foi-lhe pelo autor dada a designação de «Painel do 
Voto da Cruzada», por motivos que a seguir se dirão. 

O painel em cujos planos anteriores estão colocadas persona- 
gens revestidas com hábitos de frades, simbolismo evidente do seu 
falecimento antes da feitura do painel, recebeu a designação de 
«Painel da Vida Eternal». 

O painel em que vemos no primeiro plano uma personagem 
apresentando uma relíquia, foi designado, por motivos que se 
compreenderão depois de se fazer a identificação das suas figuras, 
como o «Painel da Santa Glória». 



PERSONAGENS DO PAINEL DO VOTO DA CRUZADA 

A figura (15) é o rei d. afonso v, por ser a ela que a figura 
<le diácono apresenta o missal para beijar o começo do Evangelho 
da missa. 

A figura (14), por estar situada no mesmo plano do Rei, é 
sua mulher, a rainha d. isabel. 

A figura (19) é, evidentemente, o príncipe herdeiro d. joão, 
filho do Rei D. Afonso V e da Rainha D. Isabel, o qual tinha em 
1467 a idade de doze anos. 

A figura (18), por comparação com a iluminara da «Crónica 
■da Guiné», é o infante d. henrique. 

A figura (16), colocada no mesmo plano do Infante D. Henrique 
e simetricamente a ele em relação à figura principal, é sua irmã 

a INFANTA D. ISABEL, DUQUESA DE BORGONHA. 

A figura principal (17) é o cardeal d. jaime de portugal 
falecido em cheiro de santidade no ano de 1459, i sto é, cerca de 
oito anos antes da feitura deste Painel do Voto da Cruzada, como o 
demonstrou o Dr. Belard da Fonseca ( 1 ). 

Atrás das figuras até agora identificadas vemos um grupo de 
pessoas certamente pertencentes à nobreza ( 2 ). 

Deste modo identificamos a figura (21) situada mais à frente 
€ mais próxima da linha média longitudinal do painel, como o fidalgo 
de maior categoria cerca do ano de 1468, ou seja o z.° duque 

DE BRAGANÇA, D. FERNANDO. 

A figura (22), que encosta a face ao duque de Bragança é, pois 
o seu filho d. fernando, então CONDE DE GUIMARÃES. 



(*) Dr. António Belard da Fonseca, O «Judeu», o seu Livro e a Crítica, 
pag. 116. 

( 2 ) Não estranhar o burel com que se cobrem as figuras 21 e 22, pois 
-esse era o traje de luto em todas as classes sociais. 



220 

A figura (20), situada no mesmo plano do duque de Bragança 
e colocada do lado direito da figura principal é o seu irmão o 
marquês de valença, D. afonso, então já falecido. 

A face da figura (23) está «sulcada em largas ondas de amargura» 
conforme observou o Dr. Adriano de Gusmão Q). Por isso a iden- 
tificamos COmO O CONDE DE VIANA, D. DUARTE DE MENESES que, 

«com carregume e tristeza de sua morte que a alma lhe adivinhava», 
na serra de Benacofú, sacrificou a sua vida pela do Rei. 

Meio encoberta pela figura de D. Duarte de Meneses está a 
figura (30) que assim identificamos como sendo rui de sousa, 
o cavaleiro que salvou o estandarte do rei na mesma peleja em que 
perdeu a vida o conde de Viana. 

A personagem (29) é um jovem muito parecido com D. Duarte 
de Meneses. Por isso a identificamos como o conde de valença, 
d. henrique de Meneses, filho do conde D. Duarte. 

A personagem (27) está situada na linha média longitudinal 
e por isso a identificamos como o conde de maior categoria ou seja 

O CONDE DE VILA REAL D. PEDRO DE MENESES. 

A figura (26) representa um fidalgo de idade avançada e, por- 
tanto, é O CONDE DE ODEMIRA D. SANCHO DE NORONHA. 

Observando a figura (28) notamos que usa um barrete de frade 
franciscano e corresponde a uma pessoa nova, sendo certamente 
de elevada posição. É pois o frade franciscano, primo e confessor 
do Rei D. Afonso V, o bispo de lamego d. rodrigo de noronha. 

A figura (24) foi identificada pelo Dr. José de Figueiredo como 
sendo o pintor nuno Gonçalves. 

A figura (25) é evidentemente afim da de Nuno Gonçalves, 
com analogias evidentes de conformação facial, havendo seme- 
lhança ou parentesco fisionómico entre as duas figuras ( 2 ). 

Devem ser, pois, parentes muito chegados sendo, possivelmente, 
pai e filho, visto haver uma diferença entre a sua idade aparente não 
inferior a vinte anos. 

Além disso, a figura (25) tem na cabeça um barrete de cor verme- 
lha usada pelos doutores em leis. 

Mais se nota na mesma figura que a personagem olha de viés, 
tal como Nuno Gonçalves, devendo portanto ser um pintor seu 
colaborador, na execução deste segundo grupo de painéis. 

Deduzimos assim que a personagem era da família Gonçalves, 
doutor em leis e pintor. 

Ora, somente se encontra, na história coeva, uma pessoa que 
reúna esses três requisitos — o Doutor Nuno Gonçalves. 



C 1 ) Arte Portuguesa — Pintura, de João Barreira, pág. 186. 
( 2 ) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 62. 



221 



A figura (25) representa, pois, o doutor nuno Gonçalves, 
o qual era, em Agosto de 1460, cavaleiro da casa real e do Desem- 
bargo e Juiz dos Feitos do Rei D. Afonso V. 



PERSONAGENS DO PAINEL DA VIDA ETERNAL 



Lembremo-nos que as vestes monásticas simbolizam o faleci- 
mento das personagens, o qual se deu, portanto, antes da feitura 
deste painel (cerca de 1468). 

A figura (1) destacada no primeiro plano, é o rei d. duarte, 
pai de D. Afonso V, falecido em 1438. 

A figura (2) é o filho ilegítimo do Rei D. João I, o duque 
de Bragança d. Afonso que morreu muito velho em 146 1. 

A figura (3) é a mesma que a figura (5 1) do «Painel da Defensão 
da Fé» (o que foi pela primeira vez observado pelo Dr. Victor 
Hugo Velez Grilo) tendo somente os traços fisionómicos mais 
vincados. É, portanto, o infante santo d. fernando, falecido 
em 1443. 

A figura (4) é o arcebispo de lisboa d. pedro de noronha, 
visto usar um solidéu e ter falecido em 1452. 

A figura (5) representa um homem novo e, por isso, a identi- 
ficamos como o conde de vila real D. FERNANDO DE NORONHA 
que morreu em 1445 e, portanto, em idade pouco avançada. 

A figura (6) é a de um velho que identificamos como o prior 
do crato d. frei nuno de góis, o qual faleceu em 1442 com muitos 
anos de idade. 



PERSONAGENS DO PAINEL DA SANTA GLÓRIA 

A figura (56) revela os mesmos traços fisionómicos, porém 
mais vincados, que a figura (48) do «Painel da Defensão da Fé». 
Representa, portanto, o infante d. pedro, que havia falecido 
em 1449. 

Na figura (57) vê-se uma correia de pano com que se suspende 
qualquer coisa a tiracolo. Nela reconhecemos a «forcadura» da 
caixa em que vieram metidas as relíquias do Infante Santo, de Fez 
para Portugal. A personagem identifica-se, pois, como sendo 
joio Álvares, o secretário do referido Infante e seu compa- 
nheiro de cativeiro, o qual foi o portador das relíquias. 



222 



A figura (58) foi identificada pelo Dr. Belard da Fonseca como 
o «pannetier» e cronista dos duques de Borgonha, olivier de 

LA MARCHE Q). 

A figura (5 9) usa, sobre uma loba de cor carmesim, o brial de cava- 
leiro talhado num tecido bordado que o faz ser também uma sobrepe- 
liz ou um roquete. Sabendo que a cor carmesim era privativa das 
dignidades pontifícias identificamos a personagem como um cava- 
leiro português, legado da Santa Sé. Ora, cerca de 1468, duas 
figuras históricas haviam sido legados pontifícios : o bispo de Silves, 
D. Álvaro Afonso, o qual tinha trazido ao reino, em 1457, a bula 
da Cruzada contra os turcos, concedida pelo Papa Calisto III, «com 
grandes graças e perdões da Sé Apostólica», e o bispo de Coimbra, 
D. João Galvão que, cerca de 1462, havia sido legado a latere do 
Papa Pio II para levantar no Reino uma colecta para a Santa Sé, 
o que motivou vigorosos protestos do clero português, tanto mais 
por se tratar dum prelado «moço, de baixa geração e de nenhuma 
prudência e conselho» ( 2 ). 

Como a figura corresponde a uma pessoa de idade avançada 
impõe-se a conclusão de que representa D. Álvaro, afonso, bispo 
de Silves, tanto mais que em 1464 o novo Papa Paulo II retirou 
a D. João Galvão os poderes de legado pontifício. 

A figura (60) representa um cavaleiro (porque veste um brial) 
e doutor de leis (visto usar um barrete de cor vermelha). 

Cerca de 1468 encontramos duas personagens muito importantes 
tendo estas características: o doutor Rui Gomes de Alvarenga, 
que era chanceler-mor do reino e o doutor João Fernandes da 
Silveira. Ora, na «Crónica del-Rei D. Afonso V», de Rui de Pina, 
somente aparece o nome do último que foi, na verdade, uma perso- 
nagem de primeiro plano na vida da nação pois era quarto neto do 
Rei D. Afonso III ( 3 ), doutor em leis, regedor da Casa da Supli- 
cação e muitas vezes foi «embaixador por desvairadas partes do 
mundo, aos Padres Santos, reis, príncipes e senhores» ( 4 ). 

Assim se conclui que a figura (60) do «Painel da Santa Glória» 
é o retrato do doutor joão Fernandes da silveira, o qual veio a 
ser o 1.0 barão de Alvito. 



O António Belard da Fonseca, O «Judeu», o seu Livro e a Critica, págs. 6 e 7. 

( 2 ) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, em «D. João Galvão». 

( 3 ) Portugal, por Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, em «Alvito 
(João Fernandes da Silveira, i.° barão de)». 

( 4 ) Anselmo Braamcamp Freire, Livro Terceiro dos Brasões da Sala de 
Sintra, pág. 300. 



ICONOGRAFIA DO POLÍPTICO 



PRINCIPAIS DOCUMENTOS 
PARA A HISTÓRIA DO POLÍPTICO 



Num códice manuscrito existente na Bilbioteca Nacional do 
Rio de Janeiro ( J ) lê-se o seguinte : «O Príncipe D. Afonso seu 
filho (de D. João II), que caiu do cavalo, está retratado na capela-mor 
da Sé, soia estar na dita capela entrando por ela à mão esquerda 
do altar em cima no alto uma sepultura dourada onde diziam estar 
o corpo de S. Vicente, e em baixo ao pé dela estavam dois painéis 
em que estava pintado S. Vicente em figura de moço de 17 anos em 
cada retábulo e painel, que estavam juntos um do outro, e a figura 
de S. Vicente estava virada uma para outra de maneira que mostrava 
a si cada parte do rosto em figura deste S. Vicente está retratado 
o Príncipe D. Afonso — um rosto muito fermoso de moço, e ele, 
e outras muitas figuras de homens que nos ditos painéis estavam 
que eram Senhores e fidalgos daquele tempo se mandaram retratar 
com o príncipe Dom Afonso e tinham nas cabeças umas carami- 
nholas muito altas de veludo, umas de vermelho, outras de verde 
e de cores que parece que eram os barretes daquele tempo, há muito 
que não vi isto, disseram-me há dias que não estavam já aí estes 
painéis, dirão os cónegos onde estão...» 

O documento não é datado, devendo ter sido escrito em fins 
do século xvi ou começos do xvn. 

Num documento inédito da Biblioteca Nacional de Lisboa ( 2 ) 
lê-se o seguinte: «El Rei D. João I é certo que mandou ornar a 
capela-mor da Sé de Lisboa com vários painéis de milagres de 
S. Vicente, entre eles estava um com quatro cónegos Regs. que com 
os mais foram mandados para a quinta de Marvila, depois que 
D. Tomás de Almeida, Patriarca de Lisboa tomou posse da Sé 
oriental a ... de Novembro de 1742, dando execução à Bula Salva- 
toris nostri de Benedito xiv, expedida aos 23 de Dezembro de 1740. 
Entre todos os referidos painéis que ainda existem na quinta da 



i 1 ) Artur da Motta Alves, Os Painéis de S. Vicente num códice da Biblioteca 
Nacional do Rio de Janeiro, Lisboa, 1936, pág. 7. 

( 2 ) Adriano de Gusmão, Nuno Gonçalves, «Colecção Saber», pág. 173. 

15 



226 

Mitra em Marvila não aparece algum com eremitas de S. Agostinho, 

mas sim está o dos cónegos Regrantes o painel é pintura antiga 

do tempo del-Rei D. João I, e não ardeu no terremoto, porque 
já estava na quinta de Marvila havia 12 anos». 

Este documento foi feito no mês de Julho de 1767. 

D. Rodrigo da Cunha descreveu, em 1642, o altar de S. Vicente 
na Sé de Lisboa Q) falando em painéis de Pintura singular, com 
vários milagres do santo e com os passos principais da sua vida e 
martírio. Nada pois referiu quanto ao políptico de S. Vicente de 
Fora porque, se assim fosse, teria mencionado certamente a repre- 
sentação de cavaleiros nos painéis. 

Conforme dedução do Dr. Armando de Sousa Gomes, firmada 
ha descrição do Paço da Alcáçova, feita pelo padre Venturino que 
visitou Lisboa em 15 11, os Painéis não estavam nesse Paço, nessa 
data. E isso, porque na minuciosa descrição não se faz a mínima 
alusão a quadros nas paredes mas a panos de Flandres. «Não; eles 
de facto não deveriam lá estar» ( 2 ). 



APONTAMENTOS PARA O ESTUDO DOS TRAJES 
E ARMAS DO POLÍPTICO 



Em 23 de Junho de 1443, o Regente D. Pedro passou uma 
carta de quitação ao feitor del-Rei em Flandres Pedro Eanes, 
o «Sarrabodes», criado do Rei D. João I e que fora o portador do 
dote da Infanta D. Isabel ao seu marido o duque de Borgonha 
Filipe-o-Bom, de dinheiros e coisas por ele recebidos e despendidas 
em Bruges, de Abril de 1441 a Janeiro de 1443 ( 3 )- 

Por esse documento se ficou a saber que Pedro Eanes comprou 
na Flandres grande número de armas e munições entre as quais: 
arneses de pernas, arneses de tornay (Tournai), cotas de malha, 
bestas de garrucha, etc. Para a câmara del-Rei enviou doze sombreiros 
de feltro, doze cotas de Nojemberque (Nuremberg) e quatro lanças 
de armas de avantagem e, para a Rainha D. Isabel, dois colares 
de oiro, dois anéis de oiro com diamentes e um bracelete. 

No ano de 145 2, Lopo de Almeida, que depois foi o primeiro 
conde de Abrantes, enviou de Roma e outras terras ao Rei D. Afonso V 
quatro cartas acerca da viagem da Imperatriz D. Leonor, irmã do 



Q) Adriano de Gusmão, Nuno Gonçalves, «Colecção Saber», pág. 164. 

( 2 ) Armando de Lassancy, A. Rainha Fada, pág. 26. 

( 3 ) João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, vol. I, 



pag. 427. 



227 

dito Rei, para se ir juntar ao seu marido, o imperador da Alemanha 
Frederico III (*). 

Dessas cartas tira o autor os apontamentos seguintes. 

Os cidadãos em Sena vestiam-se, nas cerimónias, de carmesins 
e escarlatas forradas de martas. 

O Santo Padre fez o casamento «aparelhado em pontifical». 

O irmão do Imperador, o duque Alberto, estava vestido com 
um manto comprido de escarlata, forrado de arminhos, com cara- 
puça do mesmo. 

O Imperador vestiu-se com uma alva, com amicto, estola e 
manipulo, «e uma capa sérica ( a ) em cima, assim como sai um sacer- 
dote a dizer — Asperges me Domine-». 

A espada do Imperador tinha a bainha de ouro feita por ourives 
com todas as suas peças — cruz, punho e maçã — muito ricas. 

A Imperatriz ia vestida com uma cota de carmesim, com uma 
opa de brocado pardo e toucada com uma crispina rica e um renge ( 3 ) 
em cima cingido por um tecido de brocado branco. 

Levaram o Imperador a um altar e vestiram-lhe uma sobrepeliz 
e puzeram-lhe um barrete na cabeça e em cima um capelo de pena- 
gris ( 4 ), como cónego, porque o fizeram cónego desta Igreja. 

A Imperatriz foi depois visitar o seu tio o Rei de Aragão e 
Sicília e, em Averça, veio recebê-la o príncipe, filho del-Rei, vestido 
com um mantão de veludo preto forrado de martas e, depois, o 
próprio Rei o qual, assim que viu a Imperatiz, tirou o sombreiro. 

O marquês de Valença D. Afonso que acompanhou a Impe- 
ratriz deu aos fidalgos que iam consigo, um gibão de brocado aos 
cavaleiros e um gibão de brocado de prata aos escudeiros. A toda a 
outra gente deu gibões de veludo e, a cada um, dois saios franceses 
«que então costumavam» de pano muito fino, um farpado e outro 
em pena-negra. 

O Marquês cavalgava uma faca ( 5 ) mursela que levava uma 
guarnição de veludo verde bordada e chapeada de argentaria branca, 
«e não quis levar dourado porque não era Cavaleiro, nem nunca 
o trouxe». «Assim que levava nesta maneira um gibão carmesim 
e brocado de prata muito rica e levava um saio curto francês de 
veludo alionado, sua espada de cinta rica e umas calças de grã ( 6 ) 
e sapatos de ponta (porque não se costumavam ainda borzeguins, 



C 1 ) D. António Caetano de Sousa, Provas da História Genealógica, tomo I, 

livro III, pág. 370. 

( 2 ) Sérica = De seda. 

( 3 ) Renge = Véu de tecido fino como cassa. 

( 4 ) Penagris = Pena gris : Penugem acinzentada. 

( 5 ) Faca = Cavalo pequeno, leve, elegante. 

( 6 ) Grã = Pano de cor escarlate. 



228 

nem botas) e na cabeça um sombreiro de veludo negro com sua 
borla em cima. 

Os pagens levavam calças de grã, sapatos de ponta, gibões 
de veludo carmesim, saios farpados Q), franceses, de pano de lã 
verde muito fino, colares de ouro mui grandes e anchos e sombreiros 
próprios como o do Marquês. 

No Arquivo Nacional da Torre do Tombo, existe um códice 
quinhentista que é um inventário de coisas recebidas por um tal 
Duarte Foreiro ( 2 ) cerca de 1506. 

Desse códice tira o autor o seguinte: 

ARMAS 

Um arnês inteiro, com todas as suas peças. 

Peitos de arneses, de cobre. 

Plastrões sem espaldas. 

Corsaletes ( 3 ) para El-Rei com todas suas peças de corpo e braços 

e escarcelas ( 4 ) e sua guarnição de tecido de veludo carmesim 

e fivelas biqueiras, tudo dourado. 
Gibanetes de couro. 

Pares de coxotes com suas correias, fivelas e biqueiras. 
Fraldas de malha de ferro. 
Bocetes de malha de ferro. 

Bicos de falcão, dourados em partes, com suas hastes de pau. 
Um estoque grande de montar, de três quinas, dourado pelo 

ferro, e sua maçã e cruz e rodete tudo dourado, com sua 

bainha de couro e conteira de latão. 
Uma espada de armas, dourada nos terços, com seus cabos e 

maçã de cobre dourados. 
Esporas de roda. 
Lanças de armas. 
Fivelas para arneses. 
Cordões de retrós. 

COISAS DA CAPELA 

Um retábulo de bordos, por pintar. 

Um livro de forma, místico, com suas cobertoiras de pau, 
forradas de couro vermelho. 



( x ) Roupas farpadas = Roupas cuftas, leigais, e não as fraldadas e talares, 
clericais (Dicionário de Moraes, 8. a ed.). 

( 2 ) João Martins da Silva Marques, in Congresso do Mundo Português, 
«Publicações», vol. V, págs. 557 e seg. 

( 3 ) Corsalete = Couraça leve. 

( 4 ) Escarcela = Parte da armadura desde a cinta, até ao joelho. É o 
mesmo que «fraldão» (Dicionário de Moraes).. 



229 

No 8.° volume do Arquivo Histórico Português Q) encontra-se 
um inventário da casa de D. João III, em 1534, do qual o autor 
tira o seguinte. 

Umas esporas de ouro do teor com várias peças (cicates, junqui- 
lhos, biqueiras, fivelas, tudo de ouro, esmaltadas e as 
hastes de ferro douradas). 

Uns cordões com suas borlas em baixo de retrós carmesim 
lavrados com suas perilhas de ouro de Florença. 

Pontas de ouro com aljôfar. 

Um bracelete de ouro esmaltado, feição de rocas ( 2 ). 

Um amicto de Ruão com sua beta de damasco preto e com 
sua fita. 

Uma tábua pintada que tem por natural el-Rei D. Afonso. 

Duas alvas de Ruão com seus regaços ( 3 ). 

Uma funda de livro de veludo carmesim de cerdeiros caire- 
lado ( 4 ) de ouro e retrós, com quatro borlas, forrada de 
damasco carmesim. 

Panos de brocado de pelo branco, de lavor de alcachofras. 

Panos de brocado rico. 

Panos de brocado carmesim. 

Panos de brocado raso carmesim. 

Peças de tela de ouro, de lavor de cardos e alcachofras. 

Peças de cetim carmesim. 

Peças de cetim passado de ouro. 

Peças de damasco verde apedrado. 

Uma peça de veludo avelutado alionado. 

Uma peça de cetim avelutado de grã. 

63 martas. 

No 6.° volume do Arquivo Histórico Português ( 5 ), numa carta 
de quitação de D. Afonso V a João Rodrigues de Carvalho, em 14 de 
Julho de 1452, mencionam-se as seguintes compras: 200 lombos de 
martas comuns; 5 panos de rás (de Arras) de armar, que foi buscar 



( x ) Págs. 261 e seg. 

( 2 ) Roca = No vestuário antigo, tira estreita que se usava nas man- 
gas, calças, etc, como as rexas das rocas de fiar (Dicionário de Moraes. 
8.» ed.). 

( 3 ) Regaços = Tiras de seda ou outras drogas com que se ornavam as 
alvas dos sacerdotes, por diante e por detrás, e se usam nas alvas da patriarcal 
de Lisboa e de Mafra (Dic. de Moraes, 8. a ed.). 

( 4 ) Cairelado = Orlado. 

( 5 ) Píg. 356. 



230 

a Tornay (Tournay) e a Lila (Lille); 100 dúzias de pergaminhos 
respançados Q), que entregou a Gomes Eanes de Azurara. 

De Michek Beaulieu e Jeanne Baylé ( 2 ), tira o autor os aponta- 
mentos seguintes. 

As principais regras do luto feminino na Borgonha, nos meados 
do século xv, eram as seguintes. 

As damas usavam beatilha soqueixada, manto e «chaperon». 

No luto pesado pelo pai ou marido não podiam usar anéis 
nem luvas e os vestidos eram de cauda e sem qualquer cinto. 

No luto pelo marido usavam durante meio ano o manto e o 
«chaperon», três meses a «barbette» (soqueixo) e o «couvre-chef» 
por cima, três meses o mantelete, três meses o «touret» e três meses 
a cor preta no vestuário. 

O «chaperon» era semelhante aos dos homens e punha-se da 
mesma maneira. Era, portanto, um capuz. O manto era uma espécie 
de capa grande prolongada por uma cauda. O mantelete, muito 
mais curto, cobria as espáduas e acabava à altura dos cotovelos. 
A «barbette» (soqueixo) era atada à altura das orelhas, cobria o 
pescoço e enquadrava a face. O «couvre-chef» era um lenço posto 
sobre a cabeça e reunia-se ao soqueixo. O «touret» era um lenço, 
mais pequeno que o «couvre-chef», associado ao soqueixo para 
o luto. 

Os duques de Borgonha tinham o hábito de vestir os seus 
servidores duas vezes por ano. 

Desde 1370, as librés dos servidores dos Duques eram talha- 
das em panos duma única cor, escolhida pelo duque Filipe, o 
Ousado. 

Assim, o verde era para todos os que o serviam na caça e o 
vermelho para os vedores da fazenda, os camareiros, o chanceler 
e os músicos, etc. 

Em 1378 o mesmo duque determinou que o camareiro-mor 
usasse a cor escarlate assim como o tesoureiro das guerras e o rece- 
bedor geral das finanças; o trombeteiro, a vermelha; os pagens, 
a vermelha e a verde; o cirurgião, a rósea; os «pannetiers» ( 3 ) a verde 
e a cinzenta, etc. 

Segundo investigações do Dr. Belard da Fonseca ( 4 ) a Cruz 



Respançar = Raspar com a raspadeira. Pergaminho respançado: O que 
se prepara para nele se escrever e fazer iluminações. (Dic. de Moraes, 8. a ed.). 

( 2 ) Michèle Bealieu et Jeanne Baylé, Le Costume en Bourgogne de Philippe 
le Hardi à Charles de Téméraire, págs. 123 e 124. 

( 3 ) Pannetier: Um dos sete servidores da mesa do rei de França. Depois 
foi somente um título honorífico. 

( 4 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — O «Judeu», o seu 
Livro e a Critica, pág. 23. 



231 

de Borgonha (de Santo André) era usada como distintivo dos servi- 
dores nessa corte. 

Na segunda metade do século xv os homens da Borgonha, 
as mais das vezes, usavam na cabeça elegantes «chaperons», «drapés 
à 1'avance sur un gros bourrelet, coiffés comme des chapeaux». Esse 
«chaperon» era pois uma tira de pano que pendia sobre o ombro 
e cobria a cabeça apoiando-se sobre uma espessa almofada com o 
feitio duma bóia de salvação. Vemos esse «chaperon» na figura do 
Infante D. Henrique no Painel do Voto da Cruzada, no retrato do físi- 
co-mor do reino D. Fernando Álvares Cardoso, do Museu do Louvre, 
e no «Descimento da Cruz» do Mestre do Retábulo da Sé de Viseu Q). 

Da «Crónica da Fundação do Mosteiro de Jesus» ( 2 ) tira o autor 
os seguintes apontamentos. 

«Trazia a carão continuadamente um mui forte cilício tecido 
e feito de agulha de mui ásperas sedas de bestas o qual era grã de 
feição de gibanete ou saio sem mangas. Em cima deste trazia um 
saio de burel apisoado muito grosso e forte» ( 3 ). 

«No dia da Trindade tirou o dó de viúva que havia três anos 
trazia» ( 4 ). 

«...E forte cilício de sedas feito como sainho e meias mangas. 
Camisas de burel apisoado e grosso...» ( 6 ). 

«Ia a de fora vestida de seus reais atavios, coberta de ouro e 
firmais ... como a Rainha sua madre» ( 6 ). 

«A Senhora Infante com este achaque de sentir a ida del-rei 
seu padre e do príncipe (para a tomada de Arzila) sem ter outro irmão, 
leixou de usar e se vestir e toucar como soia e pertencia a seu real 
estado e el rei queria e lhe mandava. E dali em diante não trouxe 
senão preto e toucados chãos...» ( 7 ). 

«Cobriu-se toda cabeça, garganta de ricos colares, firmais e 
reais vestidos»... ( 8 ). 

«Não mudou por então vestidos nem toucados que ainda que 
mui honestos e baixos eram, não sendo mais que um hábito preto 
e outro branco e faldrilha viis. E cabeça com seus muito formosos 
cabelos em nastro e coifa de pernas e beatilha laçada. Depois que 
entrou nesse mosteiro nunca mais calçou luvas nem pôs anel em 



(*) Reinaldo dos Santos, Oito Séculos de História de Arte Portuguesa, 
tomo I, pág. 8o. 

( 2 ) Crónica da Fundação do Mosteiro de Jesus, de Aveiro, e Memorial da Infanta 
Santa Joana Filha Del Rei Dom Afonso V. Leitura, Revisão e Prefácio de António 
Gomes da Rocha Madahil, Aveiro, 1939. 

( 3 ) Ibidem, pág. 14. A carão = Sobre a pele. 

( 4 ) Ibidem, pág. 22. 
(°) Ibidem, pág. 29. 
( 6 ) Ibidem, pág. 91. 
(') Ibidem, pág. 93. 
( s ) Ibidem, pág. 95. 



232 

dedo salvo um só de esmeralda e outro de aro que trazia sempre 
por respeito da Senhora sua tia, presente que lhos dera» (*). 

«Seus vestidos assim na feição como na valia do pano (eram) 
honestos e viis. Curtos e muito humildes. E assim seus toucados 
e soqueixo e sobre-cabeça de algodão e linho. E murça de pano 
de Unho» ( 2 ). 

«Sua mantilha sempre foi de roles e em todos lugares da Comu- 
nidade e fora deles, que a trazia sempre, era pregada diante com uma 
travinca de pau ou de osso segundo costumam os franciscanos» ( 3 ). 

«Como o Príncipe seu irmão da dita Senhora Infante, nossa 
Senhora, soube que ela tinha tomado o hábito da santa Religião, como 
leão rugiente se assanhou fortemente, cobrindo-se de dó e barba» ( 4 ). 

«Acabado de ser vestida em seus hábitos e toucados de Reli- 
gião» ( 5 ). 

De uma Memória do ano de 1578 tira o autor o seguinte ( 6 ). 

«Não houve homem fidalgo que não comprasse muitos corpos 
de armas muito lustrosas, e não mandasse pintar nelas suas armas 
em campos de diversas cores; mil peitos de prova de muito preço, 
muitas couras e coletes de anta, couraças de lâminas cobertas de 
veludo e setim de todas as cores com tochas de ouro e prata, muitas 
saias de malha e gibanetes...». 

Conta Fernão Lopes (?) que por morte de um recém-nascido, 
filho do Rei D. Fernando «tomaram todos os grandes que com 
el-Rei estavam, capas de burel pardo...». Isto é, o traje de luto 
dos homens consistia em se cobrirem com capas de burel castanho. 



ICONOGRAFIA DO TRÍPTICO DO VOTO 
DA SALVAÇÃO DAS ALMAS 

Como adiante se verá, quando se estudar cada um dos painéis 
em pormenor, a figura de São Miguel representada pelo Infante 
Santo encontra-se entre os três estados do reino — oradores, defen- 
sores e mantedores — estando os membros da família real colocados 
nos primeiro e segundo planos. 

«As cenas pintadas no Tríptico passam-se no interior dum edifí- 
cio. O mosaico do pavimento lá está a atestá-lo, como ainda o com- 



( x ) Crónica da Fundação do Mosteiro de Jesus, de Aveiro, e Memorial da Infanta 
Santa Joana Filha Del Rei Dom Afonso V. Leitura, Revisão e Prefácio de António 
Gomes da Rocha Madahil, Aveiro, 1939, pág. 111. 

( 2 ) Ibidem, pág. 115. 

( 3 ) Ibidem, pág. 118. 

( 4 ) Ibidem, pág. 122. 
( 6 ) Ibidem, pág. 169. 

( 6 ) Alexandre Herculano, Opúsculos, 5. 11 edição, tomo VI, pág. 103. 
(') Crónica del-Rei D. Fernando, cap. CL. 



233 

provam as particularidades com que são dados os efeitos de projecção 
(sombra e penumbra) que as figuras fazem no ladrilho e que são, 
indiscutivelmente, produzidos pela luz entrando por aberturas, 
portas ou janelas, invisíveis para o espectador. Mas, ao mesmo 
tempo, dir-se-ia que esses compartimentos ou divisões, em que 
o artista evocou as suas composições, são rasgadas ao fundo e 
abertas para o espaço nu» Q. 



ICONOGRAFIA DO PAINEL DA VIDA ETERNAL 

Foram pintadas neste painel seis figuras. As três do fundo 
estão de pé e as três mais anteriores ajoelham num «pavimento 
enxadrezado de adobes» ( 2 ). 

No ângulo superior direito do painel viu o Dr. José de Figuei- 
redo, «um tronco de árvore exótica» ( s ) e Henrique Loureiro ( 4 ), 
«um grande tronco de árvore». 

Neste madeiro, que se prolonga para baixo até meia altura da 
margem direita do painel, notou o autor a existência de orifícios 
que denotam terem sido abertos por mão humana. 

FIGURA 1 

É o retrato do Rei D. Duarte, falecido na idade de 47 anos. 

A figura aparenta essa idade e condiz com a descrição de Rui 
de Pina: «El-Rei D. Duarte foi homem de boa estatura de corpo e 
de grandes e fortes membros; tinha ... os cabelos corredios, o rosto 
redondo e algum tanto enverrugado, os olhos moles e pouca barba». 
De facto, a pele da face tem um aspecto diferente da de todas as 
outras figuras do Políptico. 

Na parte da face palmar da mão esquerda, que não ficou enco- 
berta pela mão direita, existe um nítido traço de cor castanha escura, 
certamente a cicatriz do pequeno ferimento que D. Duarte sofreu 
quando se armava para o ataque a Ceuta. 

D. Duarte está vestido com a cogula branca dos freires regu- 
lares das ordens militares que seguiam a regra de Cister e tem na 
cabeça o capelo preto da Ordem de Avis com que os freires dormiam. 

A iconografia de D. Duarte conhecida do autor ( 5 ) confirma 



*) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 94. 

2 ) Alexandre Herculano, O Monge de Cister, \i ) ? ed., tomo II, pág. 9. 

3 ) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 94. 

4 ) Henrique Loureiro, O Políptico do Convento de Santo Elói, pág. 98. 
] 5 ) Ernesto Soares e Henrique Ferreira Lima, Dicionário de Iconografia 

Portuguesa, vol. I, pág. 399. Nobreça de Portugal, Vol. I, págs. 305 e 309. História 
de Portugal, Barcelos, vol. III, pág. 30. 



234 

a identificação da figura, assim como o busto do mesmo rei existente 
na galeria dos jardins do palácio dos marqueses de Fronteira em 
Benfica. 

FIGURA 2 

É o retrato do i.° duque de Bragança D. Afonso, falecido 
com 84 anos de idade, segundo a maioria dos autores, cerca de seis 
anos antes da feitura do painel, portanto. 

A figura aparenta idade muito avançada pois o cabelo e a barba 
são completamente brancos. 

A cabeça inclina-se para a esquerda, por flexão lateral do pescoço, 
o que corresponde ao facto histórico da «queixa» de que o duque 
ficou a sofrer até morrer devida ao muito frio que apanhou aquando 
da sua passagem pela serra da Lousã coberta de neve. 

Confirma a identificação desta figura a sua comparação com a 
gravura II da «Iconografia Lusitana» de Ferrari ( 1 ). 

FIGURA 3 

Representa o Infante Santo D. Fernando falecido em 1443, 
cerca de 24 anos, portanto, antes da feitura deste painel. 

Com efeito, somente encontramos na iconografia portuguesa 
do século xv uma figura com barbas e cabelos muito compridos, 
e essa é precisamente a do Infante. 

Vemo-la no painel central do Tríptico da Paixão do Infante 
Santo que se encontrava no mosteiro da Batalha e hoje está guardado 
no Museu Nacional de Arte Antiga; na estátua do Infante Santo, 
da porta axial do mosteiro dos Jerónimos; e num desenho, num 
códice existente no Vaticano ( 2 ). 

O Infante está vestido com uma cogula de lã branca e apoia 
a mão direita espalmada sobre um madeiro inclinado e encostado 
ao seu ombro esquerdo. 

No madeiro vêem-se buracos gravados pela mão do homem 
parecendo ao autor que marcam os extremos duma cruz de Cristo. 

A figura está coberta com um capelo de cor muito escura, no 
qual se nota o desenho duma cruz. 

FIGURA 4 

É o retrato do arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha, 
falecido em 1452 com 56 anos de idade. Os seus cabelos parecem 

C 1 ) Enrique Lafuente Ferrari, Iconografia Lusitana, Madrid, 1941, pág. 175. 

( 2 ) Domingos Maurício G. dos Santos, O Infante Santo e a Possibilidade 

dú seu Culto Canónico, in «Brotéria», vol. IV, fase. IV, Abril de 1927, pág. 197. 



235 

ao autor, louros e não brancos, pelo que a figura aparenta aquela 
idade. Podem-se comparar neste painel os tons da cor loura dos 
•cabelos de D. Pedro de Noronha com a das cãs do velho D. Frei 
Nuno de Góis. 

FIGURA 5 

É o retrato do conde de Vila Real D. Fernando de Noronha 
falecido em 1445. 

Comparando as feições do seu rosto com as da figura (27) do 
Painel da Cruzada, que acima identificámos como sendo o seu filho 
D. Pedro, verificamos haver grande semelhança. 

FIGURA 6 

É nitidamente a cabeça de um velho o que corresponde à avan- 
çada idade do prior do Crato D. Nuno de Góis aquando do seu 
falecimento, em Castela, em 1442. 



ICONOGRAFIA DO PAINEL DA DILATAÇÃO DA FÉ 

Encontram-se neste painel sete figuras, três ao fundo, três envol- 
vidas numa rede de pesca e uma isolada à frente. 

FIGURA 7 

A figura (7) representa um velho de longas barbas brancas, 
•com o cabelo rapado excepto do lado direito, com assimetria facial 
e com blefarite, isto é, inflamação das pálpebras. 

Está vestida com uma capucha de burel que arrasta pelo chão 
•e tem nas mãos umas camáldulas cujas contas são constituidas por 
vértebras de peixe. 

Esta figura apresenta-se na atitude litúrgica de prostração 
completa. 

FIGURA 8 

É o retrato de Lançarote da Franca nascido, talvez, em 1399 
tendo portanto 49 anos em 1448, o que corresponde à idade aparente 
da figura Q-). 

Veste uma camisa, tem um barrete na cabeça e cobre-se com uma 
•capa de seda, com capuz, de cor azul celeste. 



(*) Fortunato de Almeida, História de Portugal, tomo III, pág. 766. 



236 

Esta figura está com a cabeça inclinada para a figura (9) a qual 1 
é a do seu sogro Soeiro da Costa. 

Como adiante se referirá, Lançarote representa São João Evan- 
gelista. De facto, no Apostolado pintado no altar-mor da igreja 
matriz de Monsaraz Q), vemos que a figura deste apóstolo está 
precisamente com a mesma atitude da cabeça e tem o antebraço 
direito na posição horizontal em vez de inclinado, sendo o decote 
e as mangas franzidas da sua túnica idênticos aos da figura de S. João 
interpretada por Lançarote. 

FIGURA 9 

É o retrato de Soeiro da Costa, o qual tinha em 1448 mais 
de 61 anos, o que corresponde à idade aparente da figura ( 2 ). 

Veste uma camisa, tem um barrete na cabeça e cobre-se com um 
manto de seda (?) de cor verde. 

Vê-se que esta personagem só possuia a mão esquerda, pois 
perdeu a outra no descerco de Ceuta. 

FIGURA 10 

É o retrato de Gonçalo Velho. 

O seu vestuário corresponde ao de um nobre fidalgo, pois é 
semelhante ao usado pelo marquês de Valença D. Afonso (20) no 
Painel do Voto da Cruzada. 

Tendo o autor notado que a fenda palpebral do olho esquerdo 
da figura é mais apertada que a do olho direito, consultou sobre o 
assunto o ilustre Professor de oftalmologia da Faculdade de Medi- 
cina de Lisboa, Doutor Lopes de Andrade, o qual procedeu ao 
exame da figura. A sua opinião, resumida pelo autor deste trabalho, 
em termos não técnicos, foi a seguinte: «A pálpebra inferior do 
olho esquerdo apresenta-se virada para dentro (entropion) o que 
é muitas vezes provocado por uma doença infecciosa dos olhos 
chamada tracoma, a qual ainda hoje é frequente causa de cegueira, 
não sendo rara entre a gente do mar. O entropion tem aspecto caracte- 
rístico porque o exagero da convexidade de toda a pálpebra provoca 
o seu reviramento em direcção ao globo ocular, do que resulta 
ficar escondida a parte média do bordo livre palpebral. Nota-se, 
ainda, uma certa retracção da fenda palpebral do olho esquerdo. 
Ora, sabe-se que o tracoma pode provocar estreitamento da fenda 
palpebral». 

0) Dr. João Couto, Monsaraz, v ol. XXI, da Colecção A Arte em Portugal, 
Ed. Marques de Abreu, Porto, 1962. 

( 3 ) Fortunato de Almeida, História de Portugal, Tomo III, pág. 766. 



237 

Deste exame deduz o autor que a perda de parte da visão 
sofrida por Gonçalo Velho num dos olhos, não foi devida, segundo 
então julgaram, à pancada que apanhou na cabeça mas, provavel- 
mente, a um tracoma. 

FIGURA 11 

É o retrato de João Gonçalves Zargo. 

Note-se a expressão parada, morta, do seu olho esquerdo e a 
altura invulgar da testa pois não se vêem cabelos saindo por baixo 
do barrete, sobre ela. 

Comparando esta figura com o retrato de João Gonçalves 
Zargo, «primeiro donatário desta ilha no ano de 1420», existente 
no palácio de S. Lourenço no Funchal, encontramos notável seme- 
lhança de feições. 

O leitor poderá verificar, no retrato do Funchal, a existência 
evidente de uma cicatriz na pálpebra superior do olho esquerdo, 
encontrando cicatriz semelhante no retrato do Políptico. 

Consultado sobre o assunto o Professor Lopes de Andrade, 
que procedeu ao exame da figura, deu a sua opinião que- o autor 
vai resumir em termos não técnicos: «No globo ocular esquerdo, 
nota-se a ausência do reflexo corneano, isto é, o reflexo da luz na 
superfície da córnea transparente. Se esse reflexo realmente não 
existia no olho esquerdo da pessoa retratada, aparecendo no outro, 
isso seria possivelmente devido a opacidade da córnea. Também 
se pode admitir a hipótese da sua omissão voluntária pelo pintor, 
a querer significar cegueira do olho (olho sem vida). Na pálpebra 
superior nota-se a existência dum traço que representa, possivel- 
mente, uma cicatriz com retracção ou aderência aos planos profundos, 
como se depreende do contraste flagrante entre o aspecto desta 
pálpebra, de bordo livre bem descoberto, e o da pálpebra congénere 
do olho direito cujo bordo livre está escondido por uma prega de 
pele flácida que desce até o ocultar (blefaro-chalasis). Da posição 
da cicatriz se deduz que o agente vulnerante poderia ter, por perfu- 
ração ou contusão, provocado a cegueira do respectivo olho. A cica- 
triz que se vê no retrato de João Gonçalves Zargo, existente no 
Funchal, corresponde à do retrato do Políptico». 

Por estes dois retratos se evidencia que João Gonçalves não 
perdeu um olho como escreveu Gaspar Frutuoso nas «Saudades da 
Terra», mas somente a visão dele. 

João Gonçalves foi uma figura muito importante no tempo 
da regência do Infante D. Pedro, pela sua ajuda à obra dos desco- 
brimentos, pois forneceu duas caravelas para a expedição nacional a 
Tider e armou, sem qualquer intuito de ganho, a caravela em que seu 
sobrinho Álvaro Fernandes «foi mais longe que todalas outras». 



238 



FIGURA 12 

É o retrato do mareante dos descobrimentos Vicente Dias. 

Veste uma camisa branca e cobre-se com uma capa azul de 
que se vê um triângulo entre o capuz e o ombro da figura de 
Lançarote da Franca. 

A face direita desta figura é percorrida por uma longa cicatriz 
que vai desde a orelha, que está deformada, até ao bordo anterior 
do nariz, o que corresponde à ferida que recebeu na Guiné. 

FIGURA 13 
É o retrato do mareante dos descobrimentos Gomes Pires. 



ICONOGRAFIA DO PAINEL DO VOTO DA CRUZADA 

Encontram-se neste painel dezassete figuras dispostas de maneira 
a formarem uma porta ogival e uma cruz cujas linhas passam por 
olhos ou boca de algumas dessas personagens. 

FIGURA 14 

Representa a Rainha D. Isabel, falecida em 1455, na idade 
de 22 anos, cerca de treze anos antes da feitura deste Painel do Voto 
da Cruzada. 

Por estar morta, o pintor eliminou-lhe as formas arredon- 
dadas Q pois bem sabia que o emprego de linhas curvas na compo- 
sição, «devido à sua vitalidade, energia e feminilidade, dá grande 
poder expressivo de vigor, alegria e sensualidade» ( 2 ). Também, pelo 
mesmo motivo, não lhe colocou anéis nos dedos, nem luvas, nem 
jóias no toucado. 

O vestuário compõe-se de uma saia de veludo verde e de uma 
cota de veludo vermelho com longa cauda debruada de peles de 
marta. A cota é golpeada nas mangas e no corpete, vendo-se uma 
alva camisa. O decote é grande, tal como se usava em Portugal 



A Rainha D. Isabel tinha essas formas como se pode ver na gravura 
da pág. 157 do Dicionário de Iconografia Artística, de Ernesto Soares e Henrique 
de Campos Ferreira Lima, vol. II. 

( 2 ) J. de S. Agaró, Composicion Artística, Las Ediciones de Arte ? a ed 
pág. 56. 



239 

nos meados do século xv. Um cinto estreito e dourado cinge a 
cota que é fendida à frente para facilitar a extensão da sua cauda, 
a qual era segura por uma dama quando a Rainha se deslocava ( x ). 
O toucado é uma espécie de mitra com a forma de um tronco de 
cone que assenta sobre os cabelos enrolados à volta da face, e de 
cuja parte superior emerge um tufo de filocládios e uma flor de 
um cacto ("). Do toucado pende até ao chão uma faixa de pano 
castanho, de bordos dentados e forrada de pano azul. 

Sobre a fronte vê-se um cordão, tal como na figura da Rainha 
D. Filipa de Lencastre, avó da Rainha D. Isabel ( 3 ). 

Sobre o peito da figura está uma jóia constituida por uma 
grande esmeralda encastoada em ouro e por cinco pérolas pendentes, 
a qual é segura por um cordão que envolve o pescoço. 

Como na figura não se vêem mais jóias, nem nos dedos nem 
no toucado, é de pensar que não se trata dum adereço mas sim de 
um relicário precioso. De facto, D. Nuno Álvares Pereira trazia, 
nas campanhas, um relicário ao pescoço ( 4 ), e a Rainha D. Isabel 
possuia um relicário com um espinho da coroa de Nosso Senhor 
Jesus Cristo ( 5 ), o qual ficou a pertencer a sua filha a Infanta D. Joana 
depois de ela ter falecido. Conta-nos Magalhães Basto ( 6 ) que 
Catarina Pires, moradora no Porto, possuia três cadeias de oiro, 
cada uma delas com seu relicário. 

Suspenso da mão direita da figura está um saltério ou paternoster ( 7 ) 
de contas de ouro. Note-se que os dedos não estão completamente 
flectidos para apertar o saltério, o qual está enrolado sobre a mão. 

Os cabelos e os olhos da figura têm a mesma cor que os da 
dama cujo retrato existe no museu de Aveiro e que, até agora, se 
tem julgado representar a Infanta Santa Joana. 

Os Drs. Alberto Souto e Rocha Madahil concluiram que o 
retrato do museu de Aveiro e o da jovem do Políptico, que estamos 
estudando, representam a mesma pessoa — a Infanta Santa Joana — 
explicando o último destes ilustres investigadores ser devido a repin- 
tura o facto de no retrato de Aveiro os cabelos e os olhos serem 
castanhos, em vez de louros como raios de sol, os primeiros, e verdes, 
os segundos, tal como os tinha a Infanta. 



O Frederico Marjay, Infante D. Henrique, pág. VIII. 

( 2 ) Identificação da Doutora Maria Zélia Esteves Ferreira. 

( 3 ) Veja-se a estampa VI do livro Infante D. Henrique, organizado por 
Frederico Marjay. 

( 4 ) Frei Manuel de Sá, Memórias Históricas da Ordem de Nossa Senhora 
do Carmo, pág. 324. 

( 5 ) António Gomes da Rocha Madahil, Crónica da Fundação do Mosteiro 
de fesus de Aveiro, pág. 187. 

( 6 ) A. de Magalhães Basto, O Porto e a Era dos Descobrimentos, pág. 60. 
(') B. Xavier Coutinho, Nossa Senhora na Arte, Porto, 1959, pág. 114. 



240 

O Dr. Rocha Madahil também observou no retrato do museu 
de Aveiro o «manifesto e piedoso propósito de planificar o busto», 
o qual «apresentava originariamente volume de seios, como facil- 
mente se deduz das curvaturas do colete exterior, dum lado e doutro, 
só explicáveis pela pressão interior duma razoável massa glan- 
dular» ( 1 ). 

Se examinarmos uma gravura que representa a Rainha D. Isabel ( 2 ) 
encontraremos as curvaturas correspondentes a seios bem desen- 
volvidos. 

Assente, por concordância de todos, que os retratos da jovem 
do Políptico e da pintura do museu de Aveiro são da mesma pessoa, 
conclui-se que o de Aveiro representa a Rainha D. Isabel e não a 
sua filha, a Infanta Santa Joana. 

De facto, no retrato de Aveiro vemos a personagem com uma 
riquíssima crespina adornada de pedras preciosas. 

Em Michèle Beaulieu e Jeanne Baylé ( 3 ), encontramos o signi- 
ficado deste toucado, pois, a respeito do uso das coroas, dizem que 
elas deixam de ser usadas no decurso do século xv, excepto para 
os casamentos; nessas ocasiões, as mulheres colocam a coroa sobre 
os cabelos desatados mas põem uma crespina (chapei) de ouro e 
pedraria depois da cerimónia terminar, simbolizando assim a sua 
mudança de condição. 

Desta maneira, temos forçosamente de pensar que o retrato 
do museu de Aveiro corresponde a uma mulher casada e não pode, 
portanto, deixar de ser a Rainha D. Isabel. 

Mais impõe esta identificação o facto de a figura de Aveiro 
usar um bracelete no pulso e um anel com uma jóia. 

Poderemos conjecturar que a Infanta D. Joana, quando saiu 
de Lisboa para se recolher ao convento de Jesus, em Aveiro, tivesse 
levado consigo um retrato da sua falecida mãe, possivelmente uma 
cópia de retrato pintado por Nuno Gonçalves. 

Morta a Infanta e passados tempos ter-se-ia perdido a tradição 
de que o retrato era o da sua mãe e, naturalmente, todos pensariam 
que representava a Santa Infanta. Este pensamento teria obrigado 
uma das superioras do convento a mandar modificar a pintura para 
lhe eliminar as curvas dos seios, espectáculo pouco edificante para 
as pudicas monjas. 



( J ) António Gomes da Rocha Madahil, Iconografia da Infanta Santa Joana, 
pág- 73- 

( 2 ) Ernesto Soares e Henrique de Campos Ferreira Lima, Dicionário de 
Iconografia Portuguesa, vol. IT, E-M, pág. 157. 

( 3 ) Michèle Beaulieu et Jeanne Baylé, Le Costume en Bourgogne de Philippe 
le Hardi à Charles le Temer aire, pág. 111. 



241 

Também, não parece ser verosímil que a Infanta, abandonando 
o mundo e enclausurando-se num convento, levasse consigo um seu 
retrato que permanentemente lhe lembrasse a vaidade da vida terrena 
e o fausto da corte de que quis separar-se para sempre ( l ). 

FIGURA 15 

Representa o rei D. Afonso V o qual, em 1468, tinha 36 anos. 
A figura aparenta essa idade. 

No painel da Adoração dos Magos, de Thierry Bouts, existente 
na Pinacoteca de Munique, encontramos uma figura de rei mago 
extraordinariamente semelhante a esta, pela atitude e pelo traje. 

Vemos a mesma atitude com a genuflexão de um só joelho 
e o outro não completamente flexionado, na estátua do rei D. Manuel 
da porta axial dos Jerónimos. 

D. Afonso V veste um gibanete em veludo verde, obra rica 
por certo mas de ornamentação pouco singular pois reproduz um 
vulgar modelo alcachofrado italiano, guarnecido de ramagens e 
folhas polilobadas ( 2 ). 

O gibão e as calças são em veludo liso de cor roxa. 

O barrete que cobre a cabeça do Rei é de brocado consistente, 
com a volta, ao que parece, de couro e adorna-se de penachos pen- 
dentes ( 2 ). Chamava-se este barrete «martimenga» ( 3 ). 

Notemos que o seu cimo é ocupado por uma esfera de ouro 
e que os penachos são dourados assim como o cinto que aperta o 
gibanete. 

O Rei está calçado com borzeguins (botas de canhão), de cor 
semelhante à da terra tal como usavam os cavaleiros. No peito 
do borzeguim direito foi descoberto um monograma que adiante 
será descrito e interpretado. 

A espada que a figura segura com a mão esquerda pende de 
uma cinta de couro «traçada do ombro direito aos rins» ( 4 ). As 
suas guardas são curvas e a maçã tem o formato de uma rosa aberta, 
se não de um malmequer, não se desvendando os punhos porquanto, 
decorados com uma borla de fios de seda, desaparecem sob este 
ornato ( 5 ). 



( x ) Vide António Gomes da Rocha Madahil, Crónica da Fundação do 
Mosteiro de Jesus de Aveiro e Memorial da Infanta Santa Joana. 

( 2 ) Carlos Bastos, Arte Ornamental dos Tecidos, vol. 1, pág. 74. 

( 3 ) Dr. João Luís da Fonseca, Os Painéis chamados de S. Vicente, Magazine 
Bertrand, Janeiro de 1927, pág. 87 

( 4 ) Mattos Sequeira, História do Traje em Portugal, «Enciclopédia pela 
Imagem», pág. 25. 

( 5 ) Alfredo Guimarães, As Armas Brancas do Solar de Pinãela, pag. 78. 

16 



242 

D. Afonso V olha para a figura da Rainha D. Isabel e não para 
a figura do cardeal D. Jaime. É fácil verificá-lo, porque, estando 
ele figurado em perfil absoluto, no primeiro plano, não podia olhar 
para a figura central, nem para o Evangelho, que estão no segundo 
plano ( 1 ). 

Rui de Pina escreveu que D. Afonso V tinha o rosto redondo 
e a barba preta ( 2 ), e D. António Caetano de Sousa também apontou 
o rosto redondo e cabelo castanho ( 3 ). Estas informações corres- 
pondem à face da figura e à cor muito escura dos seus cabelos. 

Comparando a face da figura com a do busto de D. Afonso V 
existente na galeria dos jardins do palácio dos marqueses de Fron- 
teira, em Benfica, encontramos notável semelhança, sobretudo no 
perfil do nariz e nos lábios descaídos perto da comissura. 

A chamada sigla existente na bota direita da figura foi estudada 
por ilustres autores, destacando-se as interpretações dos Drs. Sousa 
Gomes ( 4 ) e Belard da Fonseca ( 5 ). 

Orientado por estes estudos, o autor do presente trabalho 
interpreta a «sigla» como sendo um monograma constituído pelas 
letras G, A. e N e pelo algarismo romano V. 




Q r* Y 



O G dividido em duas partes, por ter uma interrupção na grande 
curvatura, significaria «dois» Gonçalves. 
O A corresponderia a Afonso. 
O N seria a inicial de Nuno. 

Teríamos assim no monograma o Rei D. Afonso V e os dois 
pintores Nuno Gonçalves, pai e filho. 



(!) Henrique Loureiro, O Políptico do Convento de Santo Elói, pág. 78. 

( 2 ) Rui de Pina, Crónica del-Rei D. Afonso V, Biblioteca de Clássicos 
Portugueses, vol. III, pág. 150. 

( 3 ) D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real 
Portuguesa, tomo III, pág. 12. 

( 4 ) A. Sousa Gomes, A Sigla de Nuno Gonçalves, Lisboa, 1928. 

( 5 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — O Cardeal 
D. Jaime de Portugal, págs. 99 e seg. 



243 



FIGURA 16 



Representa a Infanta D. Isabel, duquesa de Borgonha, a qual 
tinha setenta e um anos em 1468. A idade que a figura aparenta é 
difícil de apreciar, por os cabelos estarem escondidos, porém o 
aspecto da face não contradiz aquela idade. 

Usa uma beatilha soqueixada feita de tecido de lã branco e 
grosseiro no qual reconhecemos a almáfega, o burel branco usado 
em ocasiões de nojo, luto ou dó ( 1 ). 

Veste-se com uma túnica de burel sem cinto ou cordão e cobre-se 
com um manto de cor cinzenta. 

Tem na mão um rosário de grossas contas de cor escura, talvez 
feitas de azeviche ou âmbar. 

O manto, a túnica de burel sem cinto e a almáfega da beatilha 
correspondem ao trajo usado no século xv pelas viúvas, na Borgonha, 
em época muito próxima do falecimento do marido. Durante o 
luto as viúvas não usavam as alianças do casamento ( 2 ) ; por isso 
não vemos anéis nos dedos da duquesa. 

FIGURA 17 

Foi pintada para representar o cardeal D. Jaime de Portugal, 
porém o rei D. João II mandou pintar, sobre a face dela, o rosto do 
seu filho o príncipe D. Afonso, falecido na idade de dezasseis anos, 
segundo se prova pelo documento encontrado pelo Dr. Artur da 
Mota Alves na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e pelo estudo 
feito pelo Dr. João Couto da radiografia da cabeça da personagem. 

Segundo este ilustre e probo crítico de arte ( 3 ), «a fisionomia 
que a película radiográfica nos revela, é a de um homem em plena 
vida, traduzida com a forte técnica e prodigiosa verdade dos outros 
personagens retratados nos painéis». 

No mesmo artigo o Dr. João Couto considera: «Pode dar-se 
o caso de, sobre a primitiva construção, o artista — o próprio autor 
dos painéis — ter aplicado ténues velaturas...». 

Estão assim explicados os factos de os cabelos da figura serem 
louros como os do príncipe D. Afonso e não muito escuros como 
os tinha o cardeal D. Jaime (veja-se a sua figura (36) no Painel da 
Pregação do Evangelho) e a face ser rosada e pueril, o que cor- 
responde aos dezasseis anos daquele príncipe. 



(*) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e Dicionário de Moraes. 

( a ) ^ Michèle Beaulieu et Jeanne Baylé, Le Costume en Bourgogne de Philippe 
le Hardi à Charles le Téméraire, pág. 123. 

( 3 ) João Couto, A Cabeça do Santo no «Painel do Infante)), Boletim dos 
Museus Nacionais de Arte Antiga, vol. III, n.° 9-10 de 1944. 



244 

Notemos que as mãos desta figura são «ossudas, esguias e 
de dedos compridos» ( x ) tal como as da estátua do túmulo de 
D. Jaime em Florença, que foram moldadas pelas do Cardeal. 

Se agora formos verificar as características das mãos da figura 
principal no Painel da Pregação do Evangelho (35) vemos que os 
dedos não são muito compridos e que o seu esqueleto está bem 
coberto de tecidos moles. 

Esta figura do cardeal D. Jaime está revestida com trajes profanos 
e trajes religiosos. 

Os primeiros são: a caraminhola e a veste talar, preta, de que 
somente se divisa a gola. 

Os segundos constituem o traje litúrgico dos diáconos: a alva 
com o seu regaço anterior, o amicto com a sua beta, o manipulo 
e a dalmática. 

A dalmática tem mangas e a parte anterior está dividida em 
três na sua largura. 

«Os enrugamentos da dalmática e a luminosidade da sua super- 
fície encarnada inclinam-nos a aceitar um fundo de ponto de cetim 
sobre seda fina, tendo o negativo mate do desenho sido substituído 
exclusivamente por fio de ouro» ( 2 ). 

Desenhadas no tecido encontramos flores de corola campanu- 
lada. 

Procurando entre as vestimentas religiosas que o Infante Santo 
deixou em testamento, encontramos uma que corresponde à usada 
pela figura principal do políptico : a de baldoquim vermelho com ouro. 

O termo «baldoquim» não foi encontrado pelo autor nos dicio- 
nários da língua portuguesa. Mas é de admitir que seja o aportu- 
guesamento da palavra «baudequin» que designava, na Borgonha, 
um tecido de seda, liso, originário de Alexandria ( 3 ). 

A face da figura está aureolada por um halo de raios lumi- 
nosos, o resplendor da glória ( 4 ). 

O arcebispo de Lisboa D. Jaime apresenta ao Rei o livro dos 
Santos Evangelhos para ele beijar, tal como se fazia na missa em 
presença de um príncipe, o princípio do texto sagrado da missa do dia. 

Ter-se-á pois que ler no livro o texto a seguir ao dedo mínimo 
da mão direita da figura. 

O Dr. Pedro de Azevedo identificou este texto como fazendo 
parte do capítulo xiv do Evangelho de São João, o qual é comum 



(*) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis, O Cardeal D. Jaime 
de Portugal, págs. 46 e 47. 

( 2 ) Carlos Bastos, Arte Ornamental dos Tecidos, vol. I, pág. 75. 

( 3 ) Michèle Beauíieu et Jeanne Baylé, Le Costume en Bourgogne de Philippe 
le Hardi à Charles de Téméraire, págs. 27 e 29. 

( 4 ) Dicionário de Moraes, 1891, em «resplandor». 



245 

às duas Missas do Domingo de Pentecostes e da Votiva do Espírito 
Santo. Poderemos, pois, facilmente ler: «Jam non multa loquar 
vobiscum Venit enim princes mundi hujus et in me nõ habet quiquam Sed 
ut cognoscat mundus quia diligo patrem et sicut mandare». 

O Dr. António Leite traduziu Q) : «Já não falarei muito convosco, 
porque se aproxima o príncipe deste mundo, e contra mim nada 
pode. Mas para que o mundo saiba que amo o Pai, e que faço o 
que ele me manda...». 

Como notou o Dr. José Saraiva ( 2 ), o texto não deveria terminar 
pela palavra «mandare», pois o texto do Evangelho de São João 
é o seguinte : — «Sed ut cognoscat mundus quia diligo Patrem, et sicut 
mandatum dedit mihi Pater, sic fado». 

Assim deduzimos haver evidente intenção de o texto da página 
revelar um sentido completo. 

Lembremo-nos, por fim, que o vermelho é a cor litúrgica do 
Espírito Santo, pelo que nas Missas solenes do Domingo de Pente- 
costes e Votiva do Espírito Santo o sacerdote, o diácono e o 
subdiácono se revestem de paramentos daquela cor. 

FIGURA 18 

É o retrato do Infante D. Henrique. 

Veste uma loba de cor preta, de que se vê a gola e, sobre ela, 
uma opa aberta pela ilharga direita, de cor castanha escura. 

A cabeça está coberta com um «chaperon» ( 3 ) de pano de cor 
castanha-avermelhada, de feitio semelhante aos que se usavam na 
Borgonha na segunda metade do século xv. 

Vemos assim que o Infante não usa um chapéu de feltro com 
abas reviradas mas uma tira de pano que coifa a cabeça e pende 
sobre o ombro, sustentada por uma almofada anular. 

Como acima se viu, este «chaperon» era uma peça de vestuário 
elegante. 

Na vida do Infante D. Henrique encontramos um passo em 
que ele se apresentou com todo o luxo e ostentação. Foi nas 
sumptuosas festas dos esponsórios da Infanta D. Leonor, irmã de 
D. Afonso V, com o imperador da Alemanha Frederico III, reali- 
zadas em Lisboa em Agosto de 145 1. O Infante D. Henrique 
participou nas festas com o maior «luzimento», sendo «mantenedor 



Q-) António Leite, O Mistério dos Painéis, in «Brotéria», vol. LXVIII, 
Lisboa, 1959, n.° 6. 

( 2 ) José Saraiva, Os Painéis do Infante Santo, pág. 151, nota 2. 

( 3 ) Michèle Beaulieu et Jeanne Baylé. Le Costume en Bourgogne dePhilippe 
le Hardi à Charles le Téméraire, pág. 69. 



246 



nas justas e director nos torneios» e «escurecendo a pompa obse- 
quiosa de todos» ( x ). 

Assim se compreende que o Infante tivesse encomendado na 
Borgonha vestuários da última moda para se apresentar nas festas 
conforme convinha à sua alta jerarquia. 

Em 145 1 tinha D. Henrique 57 anos, idade que a figura deste 
Painel da Cruzada aparenta. 

A conhecida iluminura da «Crónica dos Feitos da Guiné» ( 2 ) 
representa o Infante com o mesmo «chaperon» e deve ter sido 
executada pelo iluminador dos livros de D. Afonso V, Gonçalo 
Eanes, cerca de 1453, ano em que o escudeiro João Gonçalves, 
escrivão dos livros de D. Afonso V, acabou de escrever a dita 
«Crónica». 

É de deduzir que as figuras do infante D. Henrique no Painel 
da Cruzada e na «Crónica dos Feitos da Guiné» foram tiradas de 
um retrato que teria sido pintado por Nuno Gonçalves na ocasião 
das festas, aproveitando uma das raras vindas de D. Henrique à 
corte. A iluminura copiou o retrato, porém a figura do Painel 
teve de ser copiada perante um espelho porque o Infante foi colo- 
cado à esquerda da figura principal. 

Na iluminura, o Infante, veste a opa vermelha, aberta pela 
ilharga, que os duques tinham direito de usar ( 3 ). 

No Painel do Voto da Cruzada o pintor deu a essa mesma opa 
uma cor escura, por o Infante já ter morrido. 

O busto da opa tem perfeitamente o mesmo feitio da desenhada 
na iluminura não lhe faltando a abertura na ilharga que nitidamente 
o leitor encontrará no postal colorido que reproduz a figura de 
D. Henrique no Painel do Voto da Cruzada. 

Examinando a opa, no Painel do Voto da Cruzada, verificamos o 
afastamento dos seus bordos, a partir da cintura do Infante, vendo-se 
entre eles um tecido de cor esverdeada e encontramos a ponta da 
sua cauda roçagante no ângulo formado pelo bordo inferior do 
gibanete e pelo bordo direito da espada do príncipe D. João. 

No «Memorial da Infanta Santa Joana» publicado pelo Dr. Rocha 
Madahil, lê-se a páginas 172 que depois da morte da Infanta e de 
ser colocado o ataúde com o corpo no «meo da logia» entraram os 
bispos de Coimbra e do Porto, «singulares amigos e mui devotos 
desta Senhora de longos tempos. Vinham com grandes lobas e 
capelos de dó. E se o dó dos vestidos do corpo era muito grande 
mui maior em grande maneira a dor dos suas almas e corações». 



( x ) Cândido Lusitano, A Vida do Infante D.Henrique, pág. 376. 

( 2 ) Luís Reis Santos, Iconografia Henriquina, est. XII-B. 

( 3 ) D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portu- 
guesa, tomo V, pág. 24. 



247 

Deduzimos assim que o pintor vestiu o Infante com um trajo 
de luto que bem pode ser o feito de aluz escuro Q com que figurou 
na trasladação da ossada do infante D. Pedro para o Mosteiro da 
Batalha ( 2 ). 

Examinado a face da figura do Infante encontraremos, tal como 
Joaquim de Vasconcelos ( 3 ), «no canto esquerdo da boca, correndo 
oblíquo sobre o queixo, um gilvaz vigoroso em forma de S maiúsculo» 

Procurou o autor essa cicatriz na face da estátua jacente de 
D. Henrique no Mosteiro da Batalha e encontrou evidentes vestígios 
dela, porém sem grande nitidez. Felizmente que, em 1933, o antro- 
pólogo Louis Dumont pintou a face esquerda da estátua e nela 
vemos bem evidente o gilvaz descrito pelo Dr. Joaquim de 
Vasconcelos ( 4 ). 

Assim fica demonstrado que a figura (18) do Painel do Voto 
da Cruzada representa sem dúvida o Infante D. Henrique, estando, 
portanto, certa a sua estátua no monumento dos descobrimentos 
em Belém. 

Outra prova desta afirmação reside na gravura representando 
o Infante D. Henrique que se encontra na tradução dos «Lusía- 
das» em inglês, editada em Londres em 1655 ( 5 ), na qual a face 
da figura tem flagrante semelhança com a daquele Infante no 
Políptico. 

É certo que o ilustre iconógrafo Ernesto Soares provou que 
esta gravura tinha sido executada aproveitando-se a chapa que repre- 
sentava o Príncipe Negro ( 6 ). Porém é fácil verificar que os porme- 
nores fisionómicos das duas gravuras são muito diferentes. 

Conclui-se assim que foi aproveitada a chapa da gravura que 
representava o Príncipe Negro para executar a respeitante ao Infante 
D. Henrique, com excepção da face. 



FIGURA 19 

Foi pintada para representar o príncipe herdeiro D. João. 

Porém, observando a face da figura notamos que os seus cabelos 
são louros arruivados, os olhos castanhos claros, de tom esverdeado, 
e o nariz é levemente arrebitado e bem proporcionado. 



Q Aluz: Tecido espesso e felpudo. 

( 2 ) Rui de Pina, Crónica d"El-Rei D, Afonso V, vol. II, pág. 138. 

( 3 ) Joaquim de Vasconcelos, Taboas da Pintura Portuguesa no Sçculo XV, 
publicação de José Cortez, 1960, pág. 20. 

( 4 ) Louis Dumont, Les Portugais I/lustres, in «Arquivo de Anatomia 
e Antropologia», Lisboa, 1934, vol. XVI, pág. 51. 

( 5 ) Ernesto Soares, Iconografia do Infante D. Henrique, págs. 128 e 129. 



248 

Ora, D. João II teve cabelos castanhos e o nariz um pouco 
comprido e derribado algum tanto, sem fealdade, segundo Rui de 
Pina, e olhos pretos, segundo Garcia de Resende ( 1 ). 

Impôs-se pois o exame radiográfico da face da figura onde 
se encontra um nariz de bordo curvo com convexidade nitida, 
correspondendo ao «nariz derribado» de Rui de Pina. 

Os cabelos louros, os olhos de cor clara e a pele rosada e branca 
da figura correspondem às descrições do príncipe D. Afonso, 
filho de D. João II, feitas por Cataldo Siculo e Von Popplau, 
que o davam com «cara de inglês», cabelos louros e a pele rosada 
e branca. 

Assim se deduz que a actual face da figura foi pintada sobre 
a primitiva para representar o filho de D. João II, o Infante 
D. Afonso. 

Para compreensão da estatura do príncipe D. João pode ler-se 
no «Memorial da Infanta Santa Joana» ( 2 ) que ele era «pequeno de 
corpo e muito doentio e mal disposto em toda a sua meninice, que 
cada um ano o tinham por morto, e os físicos de sua vida e saúde 
desesperados». 

A figura está vestida com um gibanete ou saio sem mangas ( 3 ), 
de veludo, orlado com cordão de ouro e fendido à frente. 

Por baixo do gibanete usa um gibão ( 4 ) de veludo escarlate 
com botões de ouro ou dourados. 

A cabeça está coberta com um barrete de veludo, de gomos, 
guarnecido com cordões e botões dourados, tendo no vértice 
uma esfera do mesmo metal. 

A espada, suspensa duma cinta de couro, tem guardas que ter- 
minam em bolas. 

Calça botas de cano, de feltro (?), de cor escura e com orna- 
mentos bordados a ouro sobre a gáspea, os quais o Dr. Belard da 
Fonseca ( 5 ) descobriu constituírem letras, revelando os nomes dos 
pintores Nuno Gonçalves e João Anes (N. G. e J. Eanees). 

Ao autor do presente trabalho parece clara uma anomalia no a, 
segunda letra da leitura «Eanees», pois existe nela um grande pro- 
longamento, na parte superior, na direcção horizontal. Assim, esse 
pormenor seria um monograma das letras G e A, correspondendo 
ao pintor do Rei D. João II, Afonso Gomes. 



(*) Garcia de Resende, ChronkaDel Rey Dom Joam II, Coimbra, pág. XV. 

( 2 ) Crónica da Fundação do Mosteiro de Jesus, de Aveiro, e Memorial da Infanta 
Santa Joana, pág. 92. 

( 3 ) Ibidem, pág. 14. 

( 4 _) Gibão: Vestido interno, que antigamente cobria o corpo até à cintura 
por baixo do pelote, como hoje o colete (Dicionário de Moraes, 1891). 

( 5 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — Os Pintores, 
pág. 138. 



249 

Os nomes seriam, então, de Nuno Gonçalves, Afonso Gomes 
e Jão Gonçalves (/. Gll%), contando com o desdobramento do 
monograma 




^=ct 



FIGURA 20 

É o retrato do marquês de Valença D. Afonso, falecido em 1460, 
com 58 anos. 

A figura aparenta essa idade pois os seus cabelos são grisalhos. 

Examinando a face desta figura notamos que o nariz se desvia 
da linha média vertical para a esquerda. 

Infelizmente, a extremidade nasal da estátua jacente do marquês, 
na colegiada de Ourém, desapareceu aquando dos desacatos sofridos 
pelo túmulo durante a invasão francesa. 

Porém, o septo nasal não foi destruído e lá o encontramos 
nitidamente inclinado para a esquerda. 

Se compararmos a figura do Painel da Cruzada com a face 
da estátua jacente notaremos grande semelhança de feições. 

Note-se, que esta figura se apresenta com o gesto litúrgico 
das mãos escondidas. 

FIGURA 21 

É o retrato do segundo duque de Bragança D. Fernando que, 
em 1468, tinha 65 anos, idade que a figura aparenta, pois a calvície 
é muito desenvolvida. 

Vemos que está revestida com um argau Q) de burel, colocado 
sobre o brial de cavaleiro, e este sobre a armadura de que se vêm 
os anéis dos braçais. 

Comparando esta figura com uma gravura que representa o 
Duque ( 2 ) notamos grande semelhança de feições. 



Q) Argau: Duas mantas de lã parda, unidas por uma das extremidades, 
tendo apenas na costura o vão necessário para meter a cabeça (Alexandre 
Herculano, O Monge de Cister, i3. a ed., pág. 84). 

( 2 ) Ernesto Soares, História da Gravura Artística, n.° 174. 



250 



■ FIGURA 22 

É o retrato do então conde de Guimarães D. Fernando, filho 
do segundo duque de Bragança. 

Está com a face quase encostada à do seu pai e veste também 
um argau de burel. 

Comparando esta figura com uma gravura que representa o 
terceiro duque de Bragança, que o conde veio a ser (*), notamos 
grande semelhança de feições. 

Em 1468, D. Fernando tinha 38 anos, idade que a figura apa- 
renta. 

FIGURA 23 

Representa o conde de Viana, D. Duarte de Meneses, morto 
pelos mouros em 1464, na idade de 50 anos, pois nasceu em 1414. 

A figura aparenta essa idade porque, apesar da calvície, os 
cabelos corredios não estão encanecidos 

Nesta figura encontramos a cicatriz da «pequena ferida a fundo 
do beiço» (situada no lábio inferior junto à comissura direita) que 
sofreu em 1458 quando Alcácer-Ceguer foi cercada pelos mouros. 



FIGURA 24 

É o auto-retrato do cavaleiro e pintor do Rei D. Afonso V, 
Nuno Gonçalves, pois como observou o Dr. José de Figueiredo,' 
a nitidez do seu olhar, fitando um ponto exterior e relativamente 
próximo, e, portanto, em contraste acentuado com o olhar de todas 
as outras figuras, mostra que o artista se retratou a si mesmo recor- 
rendo a um espelho ( 2 ). 

Como, certamente, Nuno Gonçalves se retratou em último lugar 
depois de pintadas as restantes figuras do painel, podemos calcular 
a execução do seu auto-retrato para o ano de 1468. 

Desta maneira deduzimos ter ele nascido cerca de 1403, pois 
a palidez do rosto e os cabelos totalmente encanecidos lhe dão uma 
idade de cerca de 65 anos. 



0) Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, Portugal, em D. Fernando 
3. duque de Bragança. 

( 2 ) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 90. 



251 



FIGURA 25 



É o retrato do pintor e mestre em leis doutor Nuno Gonçalves. 

A sua máscara é evidentemente afim da de Nuno Gonçalves, 
com analogias evidentes de conformação facial, havendo seme- 
lhança ou parentesco fisionómico entre as duas figuras ( x ). 

A idade aparente da figura é de uns 40 a 45 anos, podendo pois 
o doutor Nuno Gonçalves ser filho do pintor Nuno Gonçalves 
que então teria uns 65 anos como acima se disse. 

O Doutor Nuno Gonçalves era, em 1460, cavaleiro da casa 
do Rei D. Afonso V, do seu desembargo e juiz dos seus fei- 
tos ( 2 ). 

Foi ele o juiz a quem D. João II ordenou que lavrasse auto 
do assassinato do duque de Viseu ( 3 ). , 

Em Maio de 1490 foi nomeado chanceler da Casa do Cível ( 4 ). 

FIGURA 26 

É o retrato do conde de Odemira D. Sancho de Noronha. 

Os seus cabelos são brancos e a cabeça está coberta com um 
capelo preto igual ao que vemos na figura do rei D. Duarte no 
Painel da Vida Eternal. 

Os bordos da loba que veste estão ligados pelas mesmas fitinhas 
que vemos nas figuras do primeiro e segundo plano do Painel da 
Pregação do Evangelho ( 5 ). 

Não se conhecem as datas do nascimento e da morte de D. Sancho 
de Noronha, porém era certamente velho em 1467. 

FIGURA 27 

É o retrato do conde de Vila Real D. Pedro de Meneses que 
•em 1468 tinha 27 anos, idade que condiz com a cor rosada da face 
■e dos cabelos negros da figura. 

Comparando-a com a do seu pai D. Fernando de Noronha, 
no Painel da Vida Eternal, encontramos grande semelhança de 
feições. 



( x ) Dr. José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 62. 

( 2 ) João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, vol. I, 

pág- 574- 

( 3 ) Rui de Pina, Crónica d'el Rei D. João II, cap. XVIII. 

( 4 ) Anselmo Braamcamp Freire, Livro Primeiro dos Brasões da Sala de 
Sintra, pág. 327. 

( 5 ) A porta de Holanda era um peitilho apertado com cordões ou fitas 
•que substituia a camisa. Vide A. H. de Oliveira Marques, A Sociedade Medieval 
Portuguesa, pág. 38. 



252 



FIGURA 28 

É o retrato do bispo de Lamego D. Rodrigo de Noronha, 
confessor do Rei D. Afonso V. 

Usa um barrete como o dos frades franciscanos, conforme 
se vê no retrato do franciscano Henrique Werl pintado por 
Robert Campin. 

O pintor, por falta de espaço, não pôde apresentar no painel toda 
a face da figura. Note-se que é a parte inferior do rosto que não se 
vê. Isto prova que o painel não foi cortado como se supôs; se assim 
fosse, a parte ausente do rosto seria a superior e não a inferior. 

FIGURA. 29 

É o retrato do conde de Valença D. Henrique de Meneses. 
De facto, a sua figura é parecidíssima com a do seu pai o conde 
de Viana, D. Duarte de Meneses (23). 

Visto D. Henrique de Meneses, em 1458, ter 15 anos Q), a sua 
idade em 1468 era de 25 anos, o que está de acordo com o tom 
rosado da face. 

No lábio inferior da figura vemos uma cicatriz linear, paralela 
ao seu bordo, a qual denota ter sido resultante duma ferida produ- 
zida por um instrumento cortoperfurante. 

Assim reconhecemos o ferimento que D. Henrique recebeu 
no combate com um corsário provençal, o qual foi produzido por 
uma seta que entrou perto da boca, rachou dois dentes do maxilar 
inferior e passou por baixo da língua. 

D. Henrique de Meneses era casado com sua segunda prima 
D. Guiomar, filha do 2.0 duque de Bragança, D. Fernando. Por isso 
o pintor colocou um ao lado do outro, em posições paralelas, os dois 
cunhados, D. Henrique de Meneses e o conde de Guimarães D. Fer- 
nando, filho do duque. 

FIGURA 30 

É a metade superior da face do cavaleiro e nobre fidalgo Rui 
de Sousa, aquele que salvou o estandarte do rei em Benacofú, na 
mesma escaramuça em que perdeu a vida D. Duarte de Meneses, 
figura (23) que lhe encobre a parte inferior do rosto. 

Rui de Sousa havia sido vedor da Rainha D. Isabel e nasceu 
cerca de 1423 tendo, portanto, em 1468 a idade de 45 anos, a qual 
a figura aparenta. 

Foi um dos plenipotenciários do tratado de Tordesilhas. 



C 1 ) D. Augustin Manuel e Vasconcelos, Vida deD . Duarte de Meneses,pá.g. 114. 



253 



ICONOGRAFIA DO PAINEL DA PREGAÇÃO 
DO EVANGELHO 



Encontram-se neste painel dezassete figuras dispostas de maneira 
a formarem uma porta de estilo muçulmano (arco redondo ultra- 
passado) e uma âncora, cujas linhas passam por olhos ou a boca de 
algumas das personagens. 

No arco da porta está inscrito um triângulo equilátero, sendo 
um dos seus lados formado pela vara que o Infante Santo segura 
e a linha que a prolonga. 

Note-se que a âncora tem os feitios combinados de uma muito 
antiga que se guarda no Museu da Marinha, em Belém, e de outra 
que recentemente foi colocada numa placa arrelvada em frente ao 
Mosteiro dos Jerónimos. 

O bordo superior do braço direito da âncora passa pelas bocas 
das personagens ao passo que o do braço esquerdo passa pelos 
olhos delas. O mesmo é dizer que as personagens da esquerda estão 
colocadas mais abaixo que as da direita. Tal facto deve ter sido 
devido à imperiosa necessidade de arranjar espaço para serem pintadas 
as quatro figuras do último plano. 

No primeiro plano do painel, sobre o pavimento, vê-se um 
cabo solteiro enrolado, ou seja uma corda de bordo com os extremos 
(chicotes) soltos Q). 

Vemos ainda que as figuras do primeiro e segundo planos 
deste painel estão colocadas simetricamente às do Painel do Voto 
da Cruzada, em relação à linha média longitudinal do Políptico. 
Assim, de cada lado dessa linha, há três personagens, seguindo-se-lhe 
a figura principal e, depois, duas personagens. A figura destacada 
do Bispo de Évora, com as mãos erguidas, corresponde a do duque 
de Bragança, D. Fernando, também com as mãos erguidas. Notamos, 
ainda, simetria semelhante, entre as figuras de D. João (filho do 
Infante D. Pedro) e do Infante D. Henrique. 

Às quatro personagens da última fila do Painel da Pregação 
do Evangelho correspondem outras tantas no Painel do Voto da 
Cruzada, sendo estas últimas (seguindo-se desde a linha média 
longitudinal do Políptico para a esquerda): Rui de Sousa, o 
Conde de Valença, o bispo de Lamego D. Rodrigo de Noronha 
e o conde de Vila Real D. Pedro de Meneses. 



(!) António Marques Esparteiro, Dicionário Ilustrado de Marinharia, 
Lisboa, 1943. 



254 



FIGURA 31 

Foi pintada para representar o Rei D. Afonso V, o qual tinha 
16 anos de idade em 1448. 

Examinando, porém, a face da figura vemos que é diferente 
da face de D. Afonso V no Painel do Voto da Cruzada. 

Perante esta circunstância formulou o autor a hipótese de ter 
sido pintada sobre a face primitiva da figura do Rei D. Afonso V, 
a de outro rei que poderia ser a do seu filho D. João II. Esta hipó- 
tese foi confirmada pela comparação desta figura do Painel da 
Pregação do Evangelho com a face da estátua de S. Brás da catedral 
de Évora que é tradição representar o Rei D. João II, e com as 
figuras deste rei nas «Anacephaleoses» Q), e no «Portugal» de 
Ferdinand Denis ( 2 ). Nestes três retratos de D. João II poderá o 
leitor observar o «nariz derribado» descrito por Rui de Pina, «uma 
mandíbula brutal, manifestamente proeminente ( 3 ), hipertrofia do 
lábio inferior, maçã do rosto saliente e alongada no sentido antero- 
-posterior com depressão correspondente da bochecha, e um certo 
grau de assimetria facial. 

A face que hoje vemos nesta figura é, pois, a do Rei D. João II. 

Mas sabe-se pelos cronistas Garcia de Resende e Rui de Pina ( 4 ) 
que este rei era bastante magro, antes dos trinta anos e que, depois, 
engordou . Assim deduzimos que a figura, por ser de uma pessoa 
magra, foi pintada posteriormente a 1485, época em que D. João fez 
os trinta anos. 

O Rei faz a genuflexão de um joelho e coloca a mão direita 
espalmada sobre o coração, estando a esquerda a segurar uma lança 
de avantagem que identificamos como uma das que Pedro Eanes 
Sarrabodes enviou da Flandres para a câmara del-Rei. 

As suas armas defensivas são: uma cota de malha, uma cou- 
raça de veludo azul ( 5 ) colocada sobre aquela e um arnês de pernas. 

As cotas de malha como esta eram em arame de ferro e cons- 
truídas pelo sistema de entrelaçamento de anéis. Representavam 
uma espécie de casaco, com meia manga, terminando em fralda 
sobre os coxotes, num corte decorativo de formato triangular ( 6 ). 



Q) Padre António de Vasconcelos, Anacephaleoses, et Regni Lusitani 
Descriptio, pág. 354. 

( 2 ) Dr. Newton de Macedo, História de Portugal, II, pág. 16. 

( 3 ) Júlio Dantas, A Face Austríaca, in «Figuras de Hontem e de Hoje», 
3. a ed., pág. 92. 

( 4 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — As Personagens 
e a Armaria, pág. 57. 

( 5 ) Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel, Coimbra, 1954, 
pág. 49. 

( 6 ) Alfredo Guimarães, As Armas Brancas do Solar de Pindela, pág. 49. 



255 

A palavra «couraça» é um aumentativo de «coura», um gibão 
de couro com abas para resguardar o corpo na guerra. 

A couraça que se vê na figura do rei é um jaque rico de veludo, 
estofado, pregueado, aberto à frente e abrochado de latão ( x ). 

Por baixo do revestimento exterior de veludo encontrava-se 
a armadura composta de uma infinidade de placas de aço ( 2 ), ligadas 
a um estofo ou couro por meio de bocetes que atravessavam o reves- 
timento de veludo, vendo-se a sua cabeça dourada e de forma 
convexa, «desenhando sobre o tecido uma sementeira regular de 
grãos metálicos» ( 3 ). 

A couraça usava-se desde fins do século xnr, mantendo-se o 
emprego simultâneo da cota de malha até ao fim do século xv ( 4 ). 

O facto de as couraças serem fechadas no peito com correias 
indica o seu uso em guerra e não em torneios, visto que em tal caso 
seriam presas ao lado ou nas costas (*). 

As couraças com bocetes tinham também o nome de brigan- 
dinas. O leitor encontrará um completo estudo sobre elas no terceiro 
livro do Dr. Belard da Fonseca dedicado às personagens e armaria 
dos Paneis ( 5 ). 

Nota-se na figura que estamos estudando, «um cordão dourado, 
com duas borlas, pendente do ombro direito que não servia, sem 
dúvida, para fechar ou prender qualquer parte da brigandina» ( 6 ). 

Como somente o Rei apresenta este cordão, é de calcular que 
ele seja o seu distintivo como chefe supremo militar. 

O cotovelo é protegido por peças soltas ( 7 ) : finas réguas metá- 
licas colocadas na face externa do braço e antebraço, atadas com 
loros à placa da cotoveleira ( 8 ) e seguras com cordões terminados 
em agulhetas. 

Os membros inferiores são protegidos por um arnês com coxotes 
e joelheiras com rodela externa dourada. 

Os pés estão calçados com sapatos de ponta, sem tacão. 

A caraminhola que usa foi tornada rígida por meio de suportes 
interiores e é revestida com placas de ouro. 



( x ) Júlio Dantas, Os Cavaleiros, in «Ao Ouvido de M. me X», 5. a ed., 
pág. 235. 

( 2 ) José Eduardo Pizani Burnay, in Iconografia Henriquina, por Luís Reis 
Santos, pág. 50. 

( 3 ) Michèle Beaulieu e Jeanne Baylé, Le Costume en Bourgogne, pág. 148. 

( 4 ) Ibidem. 

( 6 ) Dr. António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — As Perso- 
nagens e a Armaria, págs. 129 e seg. 

( 6 ) Ibidem, pág, 128. 

(') José Eduardo Pizani Burnay, in Iconografia Henriquina, por Luís Reis 
Santos, pág. 50. 

( 8 ) Júlio Dantas, Os Cavaleiros, in «Ao Ouvido de M. me X», 5.» ed., 
pág. 232. 



256 



FIGURA 32 

É o retrato do Príncipe D. Fernando. Não se estranhará a 
inestética forma do seu nariz, depois de se observar a reprodução 
de uma gravura que representa a sua mãe, a Rainha D. Leonor 
de Aragão Q. 

Tal como o Rei seu irmão, veste uma cota de malha e, sobre 
ela, uma couraça de lâminas coberta de veludo verde; porém, os 
membros inferiores não são protegidos por um arnês. O Príncipe 
veste calças de grã reforçadas por tiras de placas de couro. 

Na cabeça tem uma caraminhola envolvida por um trancelim 
de ouro com medalha. Mais tarde, o Rei D. Sebastião também 
adornava o barrete com um cordão de ouro ( 2 ). 

FIGURA 33 

É o retrato do condestável de Portugal e mestre de Avis, 
D. Pedro, filho do Infante D. Pedro. 

Está de joelhos e tem o tronco protegido por um peitoral de 
aço colocado sobre uma cota de malha. 

Feita a hipótese de que no peito da figura teria existido a cruz 
de Avis, visto se tratar de um mestre dessa Ordem, viu-a o autor 
encoberta na sua maior parte por grosseiros borrões de verniz (?) 
na parte superior da metade direita do peitoral, ao lado da fivela. 
Uma radiografia, que o autor não conseguiu obter, esclarecerá o 
assunto. 

O verniz deve ter sido aplicado por mão inexperiente, possi- 
velmente depois de D. Pedro ter seguido de Ceuta para Barcelona, 
sem autorização de D. Afonso V. De facto, em Setembro de 1465, 
D. Pedro mandou uma embaixada a D. Afonso V requerendo-lhe que 
lhe restituísse o Mestrado de Avis com as rendas dos anos passados ( 3 ). 

D. Pedro segura com a mão direita uma lança de assalto, uma 
lança de avantagem como então se dizia, que identificamos como uma 
das quatro que Pedro Eanes Sarrabodes enviou da Flandres. 

A semelhança desta figura com o rei mago do painel da Nati- 
vidade existente em Barcelona o qual, segundo a tradição, é um 
retrato de D. Pedro, é flagrante. 

Está de cabeça descoberta por ter sido armado cavaleiro, em 
1445, por seu tio o Infante D. Henrique. 



( x ) Ernesto Soares e Henrique Campos Ferreira Lima, Dicionário de 
Iconografia Portuguesa, vol. II, E-M, pág. 261. 

( 2 ) Alexandre Herculano, Opúsculos, 5." ed., tomo VI, pág. 78. 

( 3 ) Visconde de Santarém, Quadro Elementar, tomo I, pág. 365. 



257 



FIGURA 34 



É o retrato de D. João, o filho mais novo do Infante D. Pedro. 
Está de joelhos, veste uma cota de malha fraldada, tem as mãos 
postas com as quais encosta ao peito uma espada e cobre a cabeça 
com uma caraminhola aberta à frente, sendo os bordos seguros com 
laços. 

Comparando a face desta figura com a do retrato do Museu 
de Bruxelas pintado por Van der Weyden, notar-se-á identidade 
de feições. 

FIGURA 35 

Representa o falecido Infante D. Fernando revestido como um 
diácono. 

A sua fisionomia era, anteriormente ao tratamentos dos painéis, 
alegre e sorridente Q), aspecto que correspondia ao «gesto alegre e 
muito risonho» que lhe viu o confessor na madrugada do dia da 
sua morte. 

Está envolvida por um resplendor de raios luminosos, o que 
também corresponde à «mui grande claridade» que o confessor 
«esguardou no rosto do Infante» nessa mesma ocasião. 

Segura contra o peito um livro que representa aquele que «tinha 
consigo» na masmorra em que viveu ( 2 ). Este mesmo livro se vê 
na imagem do Infante Santo na porta axial do Mosteiro dos Jeró- 
nimos, em Lisboa. 

De Carlos Bastos ( 3 ) tira o autor os apontamentos seguintes 
sobre o tecido da dalmática que a figura veste. 

Em relação à sua estrutura geométrica, o ornato do tecido 
baseia-se na ordenação do espaço em compartimentos elipsóides 
contínuos, contornados por faixas serpentiformes contrapostas. 
Cada moldura contém uma ampla folha polilobada de acoladas em 
arco conopial que, por sua vez, cingem os rebordos trevados do 
fundo central, de cujo interior partem rosas abertas entre folhas 
recurvas pareadas. 

A composição foi corrente nos séculos xiv a xvi, mas predo- 
minou especialmente no século xv. Isabelle Errera publicou as 
fotografias de vários damascos italianos de inspiração persa, e cuja 
ornamentação geral se assemelha muito à do tecido de Nuno 
Gonçalves, embora realçada a várias cores e a ouro. É possível 
pois que o pintor tivesse à vista um damasco desse género para lhe 



C) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 31. 

( 2 ) Frei João Álvares, Crónica do Infante Santo D. Fernando^ ed. por Mendes 
dos Remédios, pág. 97. 

( 3 ) Carlos Bastos, Arte Ornamental dos Tecidos, vol. I, págs. 75 e 76. : 



17 



258 

servir de modelo, mas também é possível que não. Os enruga- 
mentos da dalmática e a luminosidade da sua superfície encarnada 
inclinam-nos a aceitar um fundo de ponto de cetim sobre seda 
fina, tendo o negativo mate do desenho sido substituído exclusi- 
vamente por fio de ouro, o que transformou o tecido em um brocado 
de seda diferente no aspecto e na técnica dos seus similares de Itália. 

Esta figura está revestida, também, como um anjo, o que 
podemos verificar comparando as suas vestes com as de pinturas 
do século xv. 

Assim, o arcanjo São Gabriel da «Anunciação» do Museu 
Metropolitano de Nova Yorque, da autoria de Van der Weyden, está 
paramentado com uma dalmática de brocado púrpura e ouro f 1 ), com 
um manipulo no antebraço esquerdo, com um amicto idêntico ao 
da figura pois também tem a beta de pano igual ao da dalmática e 
com uma alva onde também se vê um regaço do pano referido. 

Um regaço idêntico aparece no fundo da alva que veste a figura 
de São Miguel Arcanjo no painel central do «Juizo Final» de Van 
der Weyden existente no hospital de Beaune. 

Exemplo inteiramente demonstrativo de que se pintaram anjos 
usando um manipulo, é o do Anjo da Anunciação, da escola 
flamenga, existente no Museu Nacional de Arte Antiga. 

A figura aperta contra o peito, com o antebraço esquerdo, 
um livro metido numa funda de pano, o qual poderá representar 
um livro dos Evangelhos ou o breviário que o Infante D. Fernando 
tinha consigo na masmorra, em Fez. 

A vara que segura na mão esquerda foi identificada pelo professor 
de botânica Dr. Rui Teles Palhinha como sendo um ráquis de folha 
de tamareira. De facto ela é ligeiramente espalmada e apresenta 
dois sulcos longitudinais. 

A mão direita da figura está dirigida para o coração do Rei 
D. Afonso V. 

FIGURA 36 

É o retrato de D. Jaime, filho do Infante D., Pedro 
Está de joelhos e veste uma armadura de aço de que se vê o 
peitoral colocado sobre uma cota de malha. Note-se que no gorjal 
se reflecte a luz vinda de uma janela geminada e que no peitoral, 
sobre o coração, o reflexo da luz forma uma estrela, símbolo da 
pureza do cardeal D. Jaime ( 2 ). 



C 1 ) Erik Larsen, Les Primitifs Flamands au Musée Métropolitain de New 
York, pág. 114. 

( 2 ) B. Xavier Coutinho, Nossa Senhora na Arte, Porto, 1959, pág. III 
(Estampa A). 



259 

Segura uma lança de armas de avantagem com a mão direita 
e uma espada com a mão esquerda. 

Tem na cabeça uma caraminhola em que a parte inferior foi 
voltada para cima. 

FIGURA 37 

É o retrato do cónego de São Salvador de Vilar de Frades, 
Padre Vasco Rodrigues. 

Note-se que a capa que reveste a figura tem a mesma cor verde 
das que cobrem os cónegos Jorge da Costa e Afonso Nogueira, 
o que se pode verificar examinando as suas pequenas áreas que se 
vêem junto à lança empunhada pelo condestável D. Pedro e à cintura 
desta mesma personagem. 

O Padre Vasco Rodrigues tinha, em 1448, cerca de setenta 
anos ( 1 ), idade que a figura aparenta. 

FIGURA 38 

É o retrato do bispo de Évora, D. Álvaro de Abreu ou Falcão. 

Está vestido com uma loba, de que se vê a gola, e paramentado 
com sobrepeliz, pluvial e mitra. 

No pluvial vemos um firmai (broche) ornamentado com uma 
grande esmeralda rodeada por oito pérolas. 

A mitra é guarnecida com grandes rubis nas faixas horizontal 
e vertical e «toda coberta de aljôfares» ( 2 ). 

Junto ao bispo foi pintado um báculo, como atributo para a 
sua identificação. De facto, o timbre do brasão dos Falcões é um 
falcão segurando um báculo de peregrino. 

As mãos da figura estão calçadas com finas luvas. 

O anel episcopal colocado na falanginha do dedo médio da 
mão direita não apresenta a pedra preciosa que aí deveria ter exis- 
tido vendo-se, porém, a depressão em que ela estava cravada. 

Este facto explica-se por D. Álvaro de Abreu já ter falecido 
aquando da feitura do painel. Na presença de Deus não haveria 
que usar a insígnia da sua dignidade terrena. 

FIGURA 39 

É o retrato do cónego secular de São Salvador de Vilar de 
Frades e deão da Sé de Lisboa, João Rodrigues. 

A posição junto do bispo e como a segurar-lhe o báculo corres- 
ponde à dignidade de deão. 



Q-) Frei Francisco de Santa Maria, O Ceo Aberto na Terra, pág. 668. 
( 2 ) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 62. 



260 



FIGURA 40 



É o retrato do cónego de São Salvador de Vilar de Frades 
Jorge da Costa, o futuro Cardeal de Alpedrinha. 

Esta figura foi identificada pelo Dr. Belard da Fonseca Q), por 
comparação com o retrato do cardeal num painel do Museu Nacional 
de Arte Antiga, ao lado da Infanta D. Catarina, segundo afirmação 
do Conde de Raczynski ( 2 ). 

O autor do presente trabalho confirmou a dedução do Dr. Belard 
da Fonseca, observando as fotografias de uma medalha que repre- 
senta o Cardeal existente na École des Beaux Arts de Paris ( 3 ) e da 
estátua jacente do seu túmulo. 

A figura cobre-se com uma capa de cor verde escura. Sabendo-se 
que a capa dos cónegos de S. Salvador de Vilar de Frades era azul, 
somos forçados a admitir ser esta a cor primitiva na pintura mas 
que passou a verde com o decorrer dos séculos talvez por a matéria 
corante empregada ter sido a azurite. 

FIGURA 41 

É o retrato do cónego secular de São Salvador de Vilar de 
Frades Doutor Afonso Nogueira. 

Usa a mesma capa que o cónego Jorge da Costa e um barrete 
de forma e cor semelhantes às do doutor Diogo Afonso Manga- 
-Ancha, como ele doutor em ambos os direitos. 

Daqui se deduz que o barrete é a insígnia de doutor in utroque 
jure, grau que tinha tirado na Universidade de Bolonha. 

O retrato do arcebispo de Lisboa D. Afonso Nogueira pintado 
em azulejo na igreja do convento dos lóios em Arraiolos repre- 
senta-o muito velho e com barbas. A semelhança com a figura no 
Políptico é evidente. 

FIGURA 42 

É o retrato de D. João Vicente, então bispo de Viseu, e o prin- 
cipal fundador da Congregação dos Cónegos Seculares de São 
Salvador de Vilar de Frades de que foi o primeiro Geral. 

A semelhança desta figura com o retrato de D. João Vicente 
no convento dos lóios em Arraiolos é evidente, sobretudo pela 
forma inconfundível do nariz. 



(') António Bekíd da Fonseca, O Mistério dos Painéis — O Cardeal 
D. Jaime de Portugal, págs. 151 e seg. 

( 2 ) Comte A. Raczynski, Les Arts en Portugal, Paris, 1846, pág. 152 
(nota 227). 

( 3 ) Arthur Lamas, Medalha do Cardeal D. Jorge da Costa, Lisboa, 1910, 
Imprensa Nacional. 



261 

Por faltar este pormenor fisionómico na estátua jacente do 
túmulo deste bispo na catedral de Viseu ( x ) não é possível comparar-se 
com a figura do Políptico. 

A gola de pele que a figura apresenta, permitiu ao Dr. Jaime 
Cortesão identificá-la como representando um físico, isto é, um 
médico daqueles tempos, certamente por ter visto essa gola nas 
pinturas e esculturas dos santos médicos Cosme e Damião. 

Como Nuno Gonçalves quis figurar D. João Vicente neste 
Painel da Pregação do Evangelho, não como bispo mas como a 
figura mais representariva do clero regular em Portugal, pintou-o 
com a cabeça descoberta pois, doutro modo, teria de lhe colocar 
a mitra de prelado do clero secular. 

FIGURA 43 

É o retrato do doutor Diogo Afonso, o «Manga- Ancha», for- 
mado in utroque jure, isto é, em direito civil e direito canónico, por 
uma universidade estrangeira. 

A beca que usa, forrada de peles (como se vê na gola) e com 
manga em boca de sino seria o traje doutoral dessa universidade visto 
que o feitio da manga era insólito em Portugal pois levou a alcunhar 
o Doutor. 

Como o barrete da figura é idêntico na cor e feitio ao do doutor 
Afonso Nogueira (41) é possível que a universidade referida fosse 
a de Bolonha, onde se formou este último Doutor. 

O doutor Diogo Afonso, regedor da casa da suplicação, desem- 
bargador do Rei e juiz dos seus feitos, foi chanceler -mor do reino 
pelo menos nos anos de 1440 e 1441 ( 2 ). 

FIGURA 44 

É o retrato de Álvaro Gonçalves de Ataíde, o futuro D. Álvaro 
de Ataíde, primeiro conde de Átouguia, que foi o avô materno do 
grande governador da índia, Afonso de Albuquerque. 

Foi embaixador ao Concílio de Constança, porém não pertencia 
ao clero. Por isso Nuno Gonaçlves lhe pintou o manto de cava- 
leiro de que se vê o suficiente para o identificar como tal. 

Não se lhe vê barrete estando, pois, com a cabeça descoberta 
como convinha a um cavaleiro armado na tomada de Ceuta. 



i 1 ) A. de Lucena e Vale, Viseu Monumental e Artístico, pág. 35. 
( 2 ) Anselmo Braamcamp Freire, in «Arquivo Histórico Português», 
vol. III, ano de 1905, págs. 131 e 135. 



262 



FIGURA 45 



É o retrato do cónego da Sé de Lisboa Pedro Eanes Sarrabodes. 

Para poder ser identificado como um cónego da Sé de Lisboa, 
Nuno Gonçalves teve o cuidado de lhe pintar o forro vermelho da 
murça que se vê acima do bordo da sobrepeliz. 



FIGURA 46 

É o retrato de Rui da Cunha, cavaleiro (por isso tem a cabeça 
descoberta) e prior da colegiada de Santa Maria da Oliveira, de 
Guimarães, o qual foi embaixador de Portugal ao Papa Eugénio IV. 

Há documentos que o dão como dom-prior de Guimarães, 
desde 1424 a 1447 ( 1 ). 

Conta-nos o padre Torcato de Azevedo que Rui da Cunha 
foi embaixador ao Papa Eugénio IV, com frei João, provincial 
do Carmo, enviados pelo Infante D. Pedro, regente do Reino, para 
desanexarem do bispado de Tui a comarca de Valença do Minho ( 2 ). 

Mais nos diz que ( s ) : «Estando o senhor Infante D. Henrique 
em Tânger, da entrega do Infante D. Fernando, pois sabia que os 
mouros, sem embargo do pacto tratado, lhe cativavam e matavam 
todos os cristãos que passavam pelo albequar da cidade para as 
naus, Rui da Cunha prior da igreja de Guimarães se foi a ele e 
pondo-se de joelhos lhe disse: Senhor, quereis vós que Deus livre a 
vós e a toda esta gente deste perigo em que estais e ainda livre vosso 
irmão do cativeiro em que é posto, encomendai-vos devotamente 
à Mãe de Deus, adorada na sua igreja da Oliveira de Guimarães, 
na qual o Senhor Deus sempre fez muitos milagres e maravilhas 
pelo estado real, prometendo-lhe reformar os privilégios que lhe 
el-Rei vosso pai deu e lhe vosso irmão aquebrantou, por mau conselho, 
e eu confio, em sua misericórdia, que, por rogos da dita Senhora 
livre a vós e a nós e a vosso irmão como desejais. O que o dito 
senhor Infante assim votou, prometendo que o pediria a el-rei seu 
irmão por mercê. Donde se seguiu que o Senhor Deus logo desco- 
briu ao senhor Infante e aos outros, os intentos de mudarem os 
valos até que, apesar dos mouros, vieram às naus em salvo». 



Q) Catálogo dos Ilustríssimos D. D. Priores da Real Colegiada de Nossa 
Senhora da Oliveira, in Colecção dos Documentos e Memórias da Academia Real da 
História Portuguesa, Lisboa, 1726, pág. 47. 

( 2 ) P. a Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga 
Guimarães, pág. 244. 

( 3 ) Ibidem, pág. 233. 



263 



FIGURA 47 



É o retrato do então bispo de Ceuta D. Frei João Manuel, 
filho natural do rei D. Duarte, o qual foi provincial da Ordem do 
Carmo. 

Devido ao seu sangue real, Nuno Gonçalves colocou-o muito 
próximo da linha média longitudinal do painel. 

O barrete que usa e a gola de ponta virada correspondem ao 
hábito dos Carmelitas. 

D. Frei João Manuel nasceu em data próxima de 1406 e, por 
isso, teria uns 42 anos em 1448, idade que a figura aparenta. 

ICONOGRAFIA DO PAINEL DA DEFENSÃO DA FÉ 

Este painel foi preenchido por Nuno Gonçalves somente com 
cavaleiros, os quais tinham por principal obrigação defender a Fé de 
Cristo. 

Por isso o autor o designou como o Painel da Defensão da 
Fé, tal como então se dizia. 

Num painel de cavaleiros ter-se-ia que representar as ordens 
portuguesas de cavalaria. Porém D. Pedro não tinha simpatizantes 
em qualquer dessas Ordens, excepto na de Santiago da Espada e de 
Avis. Por isso, só esta ficou representada pelos seus governadores, o 
Infante D. João e o seu filho D. Diogo, neste painel. 

Das ordens de cavalaria estrangeira, ficou representada no 
painel pelo próprio D. Pedro, a Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, 
como adiante se verá. 

Também, tratando-se de guerreiros, teriam de figurar no painel 
os condestáveis. Por isso aí vemos o 3. condestável de Portugal, 
Infante D. João, e o 4. condestável, D. Diogo. Não está lá o condes- 
tável D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, porque figura em lugar 
de honra, junto ao Infante Santo, no Painel da Pregação do Evan- 
gelho, representando também a Ordem de Avis. 

As figuras dos condestáveis são perfeitamente identificáveis por 
usarem um estoque embainhado com a ponta para baixo ( x ). 

A figura do Infante Santo D. Fernando está situada atrás de 
D. Diogo seu sobrinho e num espaço pouco desafogado, o que 
demonstra que não fazia parte da composição inicial do painel, 
tendo sido pois ali «encaixada». 

O Infante Santo tem na cabeça um elmo em cuja superfície 
se vê reflectida a luz solar passada através de uma janela geminada. 



Q) Luís de Ortigão Burnay, Boletim do Museu Nacional de Arte Antiga, 
vol. II, n.° i, 1950. 



264 



Numa gravura representando o Paço de Alcáçova no séc. xvi Q) 
encontramos várias janelas geminadas o que nos leva a admitir que 
este painel foi pintado numa sala daquele paço, possivelmente a 
«sala grande», para onde o políptico seria destinado. 

FIGURA 48 

É o retrato do Infante D. Pedro. Como ordenador da execução 
do Tríptico, figura no primeiro plano, de joelhos. 

A sua fisionamia mostra um carácter obstinado. 

Os cabelos são louros, «como de inglês». 

Nasceu em 1392 e, por isso, em 1448, tinha aproximadamente 
56 anos, idade que a figura aparenta. 

Veste um saio sem mangas, de cor arroxeada, sobre uma cota 
de malha de que se vêem as meias mangas, e esta sobre um perpunto 
de cor azul de que se vêem as mangas. 

Os membros superiores são protegidos por finas réguas de 
metal dourado seguras com cordões de que se vêem os laços e por 
uma rodela do mesmo metal para a articulação do cotovelo. 

O saio e a cor azul e ouro correspondem ao traje das cavaleiros 
da jarreteira, ordem a que D. Pedro pertencia. 

A espada que sustenta, ornada com placas de ouro, deve repre- 
sentar a que o Infante recebeu de sua mãe D. Filipa de Lencastre 
para combater na tomada de Ceuta pois, para ser retratado, não 
deixaria de a usar. 

Pende-lhe do pescoço, de um cordão, a placa da Ordem dos 
Cavaleiros Teutónicos, cuja identificação se deve ao Dr. Belard 
da Fonseca. De tal se deduz ter D. Pedro recebido essa condeco- 
ração do imperador da Alemanha Segismundo por heroicamente 
o ter servido, defendendo a Fé de Cristo, lutando contra os turcos. 

Comparando a figura do Políptico com a existente no livro 
«Retratos e Elogios dos Varões e Donas.,.», notamos identidade de 
feições atendendo à grande diferença de idade revelada por essas 
figuras. 

FIGURA 49 

É o retrato do Infante D. João falecido em 1442 com 42 anos 
de idade, o que corresponde à idade aparente da figura. 

Comparando a face da figura com a do Infante D. João exis- 
tente na árvore genealógica do 3.0 conde da Feira ( 2 ) notamos grande 
semelhança de feições. 



O A. Vieira da Silva, O Castelo de S. Jorge em Lisboa, pág. 102. 
( z ) Afonso de Dornelas, Elucidário Nobiliárquico, vol. I, pág. 65. 



■M»t 



265 

Está vestido com um saio sem mangas, de cor verde, colocado 
sobre um perpunto vermelho, cujas golas e extremedida da manga 
esquerda, se vêem saindo do saio. 

A cabeça está coberta com uma caraminhola a que se deu a 
forma de mitra talvez por o prior-mor da Ordem de Santiago da 
Espada ser dignidade prelatícia, usando mitra. 

Segura com a mão esquerda enluvada a espada da qual está 
pendurada uma espora dourada. 

Usa no pescoço uma larga cadeia de ouro de fuzis em forma 
de H, tendo à frente um fecho de forma tringular, constituído 
por três peças em forma de «B» estilizado, de que pende uma grande 
pérola. 

Nos fuzis colocados de cada lado deste fecho vêem-se, em cada 
um, um buraco, vestígio de que aí esteve encastoada uma jóia. 

Ora, o rei de Inglaterra Henrique VI ofereceu a D. João, cava- 
leiro de Portugal, «um colar de oiro com um nó do mesmo metal, 
em forma de triângulo, guarnecido de um rubim e de um grande 
diamante e de uma grande pérola» ( 1 ). 

Identificamos assim esta cadeia como sendo esse colar e o 
«cavaleiro de Portugal» como o Infante D. João, que era primo 
do Rei Henrique VI. Os «H» dos fuzis são pois a letra inicial do 
nome do dador do colar e os «E» do fecho são a inicial de England 
(Inglaterra). 

Descobriu o Dr. Belard da Fonseca que havia letras nos elos 
do colar ( 2 ). De facto encontramos num deles um «V» com um 
pequeno «o» em cima e à direita e, no elo seguinte, um «^4». Pôde 
assim o autor do presente trabalho deduzir que o que à primeira 
vista parece um « V» é um Y, sendo assim o grupo Y°, a abreviatura 
de João que encontramos, por exemplo, na assinatura do pintor 
João Henriques ( 3 ); e que o «^4» é a abreviatura de Anrique, tal como 
se vê pela citada assinatura ( 4 ), pois que em Porugal, no século xv, 
se dizia e escrevia «Anrique» ( 5 ). 

Compreende-se que Nuno Gonçalves não tivesse pintado no 
colar o rubim e o diamante, jóias de cor viva, por D. João já ter 
falecido aquando da feitura do painel ; conservou, porém, a pérola 
devido ao seu tom baço e mortiço. 

Do Infante D. João descendeu a maior parte dos soberanos 
da Europa, por sua filha D. Isabel que foi rainha de Castela, mulher 

Q) Visconde de Santarém, Quadro Elementar, tomo XIV, pág. 187. 

( 2 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — As Personagens 
e a Armaria, pág. 106. 

( 3 ) Vergílio Correia, Pintores Portugueses dos Séculos XV e XVI, pág. 10. 

( 4 ) «Anriques» significa «filho de Anrique». 

( 8 ) Rui de Pina, Crónica dei- Rei D. Afonso V, e Zurara, Crónica do Conde 
D. Pedro de Meneses, pág. 320. 



266 

de D. João II, pais de Isabel a Católica, da qual procedeu a famí- 
lia imperial da Áustria que se pode considerar como tronco de 
várias famílias reais ( x ). 

FIGURA 50 

É o retrato de D. Diogo, filho do Infante D. João. 

Veste um jaque de veludo carmesim que talvez seja um cor- 
salete, vendo-se a escarcela de malha e as peças para a protecção 
dos braços (finas réguas metálicas e cotoveleira constituída por 
uma rodela de aço). 

Usa à cinta o estoque de condestável e calça luvas de pelica 
branca. Usa também «umas polainas de couro que chegam à frente 
até por cima dos joelhos e por detrás até às curvas» ( 2 ). 

Note-se que segura a espada pela ponta como se fazia nas 
cerimónias para se armarem os cavaleiros. 

D. Diogo faleceu em 1443, com 19 anos, idade que a 
figura aparenta. 

FIGURA 51 

É o retrato do Infante D. Fernando, filho do Rei D. João I. 

Está armado com uma cota de malha e com um elmo de forma 
cónica arredondada, idêntica à do que usa o Rei D. João I numa 
estampa existente no Museu de Aveiro ( 3 ). 

Notou o Dr. José de Figueiredo que a pele da face desta figura 
está «tisnada pelo sol» ( 4 ). Ora, num códice existente no Vaticano 
refere-se que ao Infante Santo «o correr das lágrimas em o fervor 
das suas orações lhe crestara as faces de tal maneira que a todos 
parecia que lhe tinham queimado o rosto» ( 5 ). 

D. Fernando tinha a idade de 35 anos, em 1437, aquando 
da tentativa da conquista de Tânger. A figura aparenta essa 
idade. 

Se a compararmos com a figura do Infante Santo nas Anacepha- 
leoses, notaremos identidade de feições ( 6 ). 



(!) Inácio de Vilhena Barbosa, Monumentos de Portugal, pág. 35. 

( 2 ) António Belar d da Fonseca, O Mistério dos Painéis — As Personagens 
e a Armaria, pág. 113. 

( 3 ) Ernesto Soares e Henrique de Campos Ferreira Lima, Dicionário de 
Iconografia Portuguesa, vol. III, pág. 65. 

( 4 ) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 56. 

( 5 ) Adelino de Almeida Calado, Frei João Álvares, pág. 183. 

( 6 ) Padre António de Vasconcelos, Anacephaleoses, Coimbra, 1793, pág. 294. 



267 



FIGURA 52 



É retrato de D. Álvaro de Almada, conde de Avranches. 

Da cor preta do barrete que usa se deduz ter a sua cor primi- 
tiva sido «actualizada», depois da morte do conde em Alfarrobeira, 
em 1449. 

D. Álvaro de Almada era de mais idade que o seu amigo íntimo, 
o Infante D. Pedro ( x ). Tinha, portanto, mais de 56 anos em 1448, 
o que condiz com os cabelos grisalhos da figura. 

Comparando-a com a gravura que representa o conde de Avran- 
ches dos «Retratos e Elogios dos Varões e Donas...», nota-se identidade 
de feições. 

FIGURA 53 

É o retrato do cavaleiro Aires Gomes da Silva que nasceu 
em 1399 e c l ue tinha, portanto, a idade de 49 anos em 1448, a qual 
corresponde ao aspecto da figura. Se o compararmos com o rosto 
da estátua jacente do túmulo deste cavaleiro em São Marcos de 
Tentúgal, notaremos identidade de feições. 

Foi Aires Gomes da Silva filho de João Gomes da Silva, 
alferes-mor do Rei D. João I, o qual pronunciou a célebre frase 
de incitamento à conquista de Ceuta: «Ruços, além!». 

FIGURA 54 

É o retrato de Martim de Távora, meirinho-mor da corte e 
um dos capitães do condestável D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, 
na sua expedição a Castela a favor de D. Álvaro de Luna. Havia 
sido escudeiro do Infante Santo D. Fernando. 



FIGURA 55 

É o retrato do cavaleiro Fernão Lopes de Azevedo, intrépido 
guerreador dos mouros em Ceuta e na tentativa da conquista de 
Tânger. Foi embaixador do rei D. Duarte e do regente D. Pedro ao 
Paca Eugénio IV. 



Q) J. P. Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Lisboa, 1947, pág. 82. 



268 

ICONOGRAFIA DO PAINEL DA SANTA GLÓRIA 

Encontram-se neste painel cinco figuras, estando o seu ângulo 
superior esquerdo ocupado por um ataúde a que se tirou a tampa, 
vendo-se no fundo degraus duma escada de madeira ( x ). 

A figura do defunto Infante D. Pedro está coberta com um 
manto de cor carmesim, tal como as figuras de São João pintadas 
por Robert Campin e Van der Weyden. O seu cabelo, de cor loura, 
está cortado «à chamorro». Apresenta, sobre uma dobra do manto, 
um fragmento de osso occipital. 

A figura de Frei João Alvares está vestida com uma esclavina, 
tem uma correia a tiracolo e apoia-se a um bordão atributos que 
pertencem às imagens de Sant'Iago. 

A figura do bispo D. Álvaro Afonso está revestida com um 
roquete e usa uma loba de cor carmesim. 

A figura do Doutor João Fernandes da Silveira apresenta-se 
com um manto branco de cavaleiro e tem na cabeça um barrete de 
cor vermelha. 

O ataúde representa aquele em que estavam guardados os ossos 
do Infante D. Pedro antes de serem recebidos no túmulo da Igreja 
da Batalha. 

A escada simboliza aquela em que o cadáver do mesmo Infante 
foi levado de Alfarrobeira para a igreja de Alverca ( 2 ). 

FIGURA 56 

Representa o Infante D. Pedro «na glória do paraíso», na 
«companhia dos bem-aventurados mártires» ( 3 ). 

A figura «amostra ao povo» a relíquia de Santo António — parte 
do casco ainda com cercilho — trazida de Pádua pelo mesmo 
Infante ( 4 ), segundo o Dr. Belard da Fonseca descobriu. 



( 1 ) A. de Sousa Gomes, O Simbolismo no Políptico de Nuno Gonçalves, pág. 26. 

( 2 ) Esta dedução pertence ao engenheiro agrónomo Leonel Câmara. 

( 3 ) . . .e dos outros bons cavaleiros fiéis e católicos que por amor de Nosso 
Senhor Jesus Cristo com tantos e tão grandes trabalhos e com tão grande espa- 
lhamento de seu sangue passaram sua vida. Ou em que lugar alojaremos suas 
almas segundo nossas piedosas crenças, senão na companhia dos bem-aventu- 
rados mártires, ca posto que eles não morressem ante as setas dos príncipes 
infiéis, como muitos daqueles santos faziam, não era porque o seu desejo se 
afastasse daquele propósito, por nenhum receio nem temor, antes com mui 
grande fortaleza, armados da santa fé, cometiam ardidamente os inimigos em 
tal guisa que rindo esperaram a derradeira hora em meio daqueles trabalhos. 
(Gomes Eanes de Zurara, Crôncia da Tomada de Ceuta, Academia das Sciências 
de Lisboa, págs. 35 e 36. 

( 4 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — O Cardeal 
D. Jaime de Portugal, ápg. 54. 



269 

Não é de admirar o não ter sido pintado o cabelo do cercilho, 
visto que o osso se apresenta pela face endocraniana e, ainda, porque 
certamente foi tirado todo ou parte do couro cabeludo para o Infante 
D. Fernando possuir essa preciosa relíquia. 

A relíquia está colocada sobre um saco com borlas nos cantos. 

Não poderá haver dúvidas de que se trata de um fragmento 
de osso occipital visto a identificação anatómica ser evidente conforme 
demonstrou o que foi ilustre professor da Faculdade de Medicina 
de Lisboa, o Dr. Henrique de Vilhena. 

Confirmam a dedução de o pintor ter querido representar 
o Infante D. Pedro no paraíso, não só o facto de ele já ter morrido 
à data da feitura do painel, mas também as seguintes palavras do 
«Prólogo que fe% o Doutor Vasco Fernandes de Lucena, à Oração que 
trasladou do Deão de Vergy, Embaixador do Duque Filipe de Borgonha, 
à Morte do Infante D. Pedro», por mandado do Rei D. Afonso V: 
«Vive certamente vosso padre (sogro) em os altos céus, entre os santos príncipes 
em seguro repouso ; e, porém, afora a natural piedade que lhe devemos, afora 
o desejo da sua presença, que esquecer não podemos, outra cousa não seria doer-nos 
do seu passamento, senão havermos inveja da bem-aventurança sua. Em verdade, 
singular graça recebeu de Deus, que em idade já madura, em tão alta digni- 
dade colocado, tão grandes cousas primeiro virtuosamente administradas , 
leixados tão claros sucessores, levado fosse da presente lu%. Não chorarei 
eu a morte daqueles, como eu de vosso padre piedosamente creio são alojados, 
e entre nós por gloriosa fama para sempre vivem» (f). 

O vestuário da figura é todo do mesmo veludo carmesim e 
constituído por uma roupeta, uma jórnea e um mantão. Lembremo- 
-nos de que o Infante D. Pedro usava, quando morreu em Alfarro- 
beira, uma roupeta e uma jórnea, ambas de cor carmesim. 

Não é de estranhar o serem todas as peças do vestuário do mesmo 
pano, pois vemos uma figura vestida desta maneira, toda de azul, 
no primeiro plano e à esquerda do observador, no painel central do 
políptico do «Cordeiro Místico» de Van Eyck. 

O mantão, pela sua cor carmesim e por estar dobrado sobre o 
ombro é semelhante aos que cobrem a figura do apóstolo São João 
no retábulo de Werl, do Museu do Prado, da autoria de Roberto 
Campin, e da «Descida da Cruz», do mesmo museu, da «Pietá» 
da capela real de Granada, do «Calvário» do Museu de Viena, e da 
«Virgem com São João Baptista, São Pedro e São Cosme e São 
Damião» do Instituto Staedel de Francfort, todos executados por 
Van der Weyden. 



(*) Joseph M. Piei, Livro dos Ofícios de Marco Tullio Cicerom o qual tornou 
em linguqgem o Infante D. Pedro, Duque de Coimbra, Coimbra, por Ordem da 
Universidade, págs. XLVIII, XLIX e L. 



*l 



270 

Na figura de São Pedro do tríptico da Adoração dos Magos 
de Jerónimo Bosch existente no Museu do Prado, todas as peças 
do vestuário são da mesma cor carmesim, igual à do traje da figura 
do falecido D. Pedro que estamos estudando. 

Note-se que a relíquia está colocada sobre uma dobra do mantão 
feita com a mão colocada na parte interior deste, exactamente do 
mesmo modo que o São João do retábulo de Werl sustenta o livro 
com o Cordeiro e da que o São João do retábulo de Francfort segura 
o livro. Diga-se, de passagem, que este São João Baptista de Van 
der Weyden, é inteiramente inspirado no do retábulo de Werl, da 
autoria do seu mestre Robert Campin, como acima se disse. 

O mantão corresponde à clâmide, manto militar romano com 
que os artistas vestiam, às vezes, os santos cavaleiros ou os santos 
seculares como soldados de Cristo (*). 

FIGURA 57 

É o retrato de Frei João Álvares, o secretário do Infante Santo 
D. Fernando e portador das suas relíquias (coração, pulmões e 
intestinos) de Fez para Portugal, as quais vinham metidas numa 
caixa que tinha uma «forcadura preta», isto é, uma correia para a 
pendurar ao pescoço. 

João Álvares foi companheiro de cativeiro do Infante Santo, 
por outras palavras, foi escravo dos mouros. Por isso o pintor o 
vestiu com a «esclavina» traje comum aos escravos, aos romeiros 
de Santiago de Compostela e ao próprio São Tiago. 

A figura representa pois, ao mesmo tempo, um escravo, um 
romeiro e o apóstolo São Tiago correspondendo a caixa com as 
relíquias ao bornal de peregrino que é atributo constante das ima- 
gens deste santo. 

Frei João Álvares nasceu cerca de 1406-1408 ( 2 ), e por isso 
tinha, em 1468, 60 a 62 anos, idade que a figura aparenta. 

Em 1467 Frei João Álvares estava na Borgonha aonde o 
chamou a Duquesa D. Isabel para tratar da instituição duma capela 
em Lisboa, dedicada à memória do Infante Santo D. Fernando. 
Daí seguiu para Roma e voltou à pátria em 1470 ( 3 ). 



( x ) Juan Ferrando Roig, Iconografia de los Santos, pág. 277. 

( 2 ) Adelino de Almeida Calado, Frei João Álvares, Obras, Coimbra, 1960, 
pág. IX. 

( 3 ) Ibidem, pág. X. 



271 



FIGURA 58 



Foi identificada pelo Dr. Belard da Fonseca como o «pannetier» 
e cronista dos duques de Borgonha Filipe-o-Bom e Carlos-o-Teme- 
rário, Olivier de la Marche ( 1 ). 

Nasceu cerca de 1426, ( 2 ) tendo portanto 42 anos, em 1468, 
idade que a figura aparenta, atendendo a que é obesa. 

Veste uma loba verde escura e um barrete da mesma cor, traje 
este que talvez fosse a libré dos «pannetiers» da casa de Borgonha, 
não só por a cor ser a usada por esses servidores dos duques ( 3 ) 
mas também por o distintivo deles, a cruz de Santo André ( 4 ), 
estar colocada sobre ela, conforme se demonstrou pela radiografia 
do sinal de seis pontas, a qual mostrou ser somente uma cruz em 
aspa, não sendo pois da pintura original o traço vertical desse sinal 
que ainda hoje se lá vê. 

Olivier de La Marche sustenta nas mãos um livro aberto cuja 
escrita foi maravilhosamente decifrada pelo Dr. Belard da Fonseca ( 5 ). 

A sua leitura foi a seguinte ( 6 ) : Rogando Intonium Cardinalis 
Jacobus Infantis Do mini Petri Portugaliae filius corpus patris sui sepultura 
facta in Eccle^jam S. Mariae S. Antonius fecit virtuosa et piíssima sua 
sancta vita sacra ossa Infantis Domini Petri portugalensi quo sepulta sint 
in Eccle^yam S. Mariae mense fulii MCCCCLV. 

A tradução feita pelo Dr. Belard da Fonseca e levemente 
modificada pelo Padre Dr. António Leite ( 7 ) é a seguinte: «O Cardeal 
faime filho do Infante D. Pedro de Portugal rogou a Santo António que 
ao corpo de seu pai fosse feita sepultura na Igreja de Santa Maria. Santo 
António, graças à sua virtuosa e piíssima e santa vida,fe^ com que os sagrados 
ossos do Infante D. Pedro de Portugal fossem sepultados na Igreja de Santa 
Maria, no mês de Julho de 1455». 

Estudou o Dr. Belard da Fonseca as várias pistas que poderiam 
levar à descoberta do livro cujas duas páginas se vêem no painel ( 8 ). 

A hipótese mais provável das feitas por aquele distintíssimo 
investigador é, na opinião do autor, a de que o livro seja uma das 
obras do Papa Pio II, o escritor Eneas Silvio Piccolomini. 



Q-) António Belard da Fonseca, O «Judeu», o seu Livro e a Critica, págs. 4 
e seg. 

( 2 ) Grand Larousse Encjclopédique. 

( 3 ) Michèle Beaulieu et Jeanne Baylé, ob. cit. pág. 126. 

( 4 ) António Belard da Fonseca, O «Judeu», o seu Livro e a Crítica, pág. 23. 
( 6 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — O Cardeal 

D. Jaime de Portugal, págs. 160 e seg. 

( 6 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — Os Pintores, pág. 1 1 1 . 

( 7 ) «Brotéria», vol. LXVIII, n.° 6, 1959, pág. 691. 

( 8 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — O «Judeu», o seu 
Livro e a Crítica, págs. 24 e seg. 



272 

Examinando o texto decifrado pelo Dr. Belard da Fonseca 
vemos que nele consta o Cardeal somente uma vez, ao passo que 
Santo António aparece duas vezes e no princípio das frases. Daqui 
se pode deduzir que é dedicado principalmente a Santo António 
tendo sido aproveitado pela referência ao Cardeal D. Jaime. 

Por ter sido Santo António, o santo da particular devoção 
do rei D. Afonso V, um dos varões mais ilustres da Idade Média 
talvez figure no livro «De Viris Ilfastribus» do Papa Pio II. O trecho 
viria pois no fim da parte deste livro dedicado à glória universal, 
Santo António, onde se falasse nos seus milagres. 

Não pôde o autor consultá-lo pois não existe na Biblioteca 
Nacional. 

Um livro «De Viris Ilfastribus» foi encontrado no espólio do 
rei de Aragão D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, sendo o único 
entre os 96 ou 97 volumes da biblioteca desse rei que era escrito 
«em letra antiga». É mais uma achega a favor desta hipótese. 

Sendo o livro da autoria de um Papa e manuscrito, teria extraor- 
dinário valor e, por isso, somente pessoas excepcionalmente privi- 
legiadas o poderiam possuir. Uma delas seria a duquesa D. Isabel 
de Borgonha a qual o conseguiria obter em Roma por se referir 
ao seu irmão o Infante D. Pedro e ao sobrinho o cardeal D. Jaime. 

José de Bragança descobriu na folha dobrada do livro, a abre- 
viatura do nome de Vasco Fernandes ( 1 ). 

Poderemos supor que esta assinatura é a do pintor português 
Vasco Fernandes, homónimo de Grão-Vasco, que se encontrava 
em 1459 na cidade de Barcelona ( 2 ). 

A existência do livro neste Painel da Santa Glória, aberto para 
se poder ler, resultou da necessidade de o pintor documentar a santa 
vida do Cardeal D. Jaime, a figura do «Santo» no painel maior 
dos três mandados executar pelo Rei D. Afonso V e, a sepultura 
condigna dada aos ossos do Infante D. Pedro pela qual D. Isabel 
tanto se havia empenhado. 

Poder-se-á verificar na Libreria Piccolomini da Catedral de Siena 
se a caligrafia das obras do futuro Papa Pio II é semelhante à do 
livro apresentado por Olivier de la Marche. 

FIGURA 59 

É o retrato de D. Álvaro Afonso, bispo de Silves. As suas 
vestes são da cor carmesim privativa das dignidades pontifícias, 
visto ser legado do Papa em Portugal. 



( x ) «Diário Popular», Edição para o Ultramar, de 22 de Janeiro de 1962. 
( 2 ) Adriano de Gusmão, Os Primitivos e a Renascença, pág. 152. 



273 

Álvaro Afonso era cónego regrante de Santo Agostinho no 
convento de Grijó e foi escolhido pelo Regente D. Pedro para 
Mestre dos seus filhos, D. Jaime e D. João Q. 

Morto o Infante, em Alfarrobeira, acompanhou os seus pupilos 
à Flandres e, depois, seguiu com D. Jaime para a Itália. 

Foi nomeado Bispo de Silves em 1455. 

A 12 de Março de 1456, o Papa Calisto III expediu uma bula 
pela qual o mandou a Portugal como legado a latere da Santa Sé, 
para tratar de importantes negócios e principalmente para pedir 
socorro contra o turco ( 2 ). 

Os «negócios importantes» consistiam em o Bispo cobrar do 
clero português o dízimo ou décima do rendimento dos bens ecle- 
siásticos com o qual o Papa planeara financiar a Cruzada ( 3 ). 

Chegou a Portugal em 1457, tendo sido recebido com grandes 
honras e demonstrações de alegria, não só pelo Rei como também 
por muito povo de Lisboa que se juntou para lhe desejar as boas- 
-vindas. 

Porém, o Papa Calisto III morreu em 6 de Agosto de 1458 e 
D. Álvaro certamente não chegou a levar-lhe o dinheiro da colecta 
para a Cruzada. Em Agosto de 1459 morreu o Cardeal D. Jaime 
o que obrigou o Bispo a seguir para Florença, como executor do 
seu testamento. Não voltou a Portugal, tendo falecido em Ferrara 
em Agosto de 1473 ( 4 ). 

Note-se que a figura do Bispo de Silves está revestida com um 
manto com a forma do dos cavaleiros, mas feito em tecido bordado 
como o dos roquetes dos bispos. 

FIGURA 60 

É o retrato do Doutor João Fernandes da Silveira que havia 
sido nomeado Regedor da Casa da Suplicação em 12 de Setembro 
de 1463 ( 5 ). 

Era quarto neto do Rei D. Afonso III, foi dez vezes embai- 
xador de Portuga] ao Santo Padre e a diversas cortes e veio a ser, 
por carta de D. Afonso V, de 1475, o i.° barão de Alvito. 

Usa um barrete redondo e de cor vermelha, igual ao que tem na 
cabeça o Doutor Nuno Gonçalves, no Painel do Voto da Cruzada (25), 



(*) P. Francisco da Fonseca, Évora Gloriosa, pág. 290. 

( 2 ) Visconde de Santarém, Quadro Elementar, tomo X, pág. 62. 

( 3 ) Frederick Hartt, Gino Corti, Clarence Kennedy, The Chapei of the 
Cardinal of Portugal at San Miniato in Florence, 1964, págs. 44. 

( 4 ) Ibidem, pág. 46. 

( õ ) Anselmo Braamcamp Freire, Livro Terceiro dos Brasões , da Sala de 
Sintra, pág. 301. 

18 



274 

próprio dos doutores em leis, e cobre-se com o manto branco dos 
cavaleiros. 

Em Agosto de 145 1 era chanceler da Casa do Cível Q). 

Em Outubro deste mesmo ano seguiu no séquito que acom- 
panhou a Infanta D. Leonor a Itália para ir casar com o imperador 
Frederico III da Alemanha. 

Em 1463, o Rei D. Afonso V mandou uma embaixada a Castela, 
sendo embaixador João Fernandes da Silveira, cujo objecto era 
tratar o casamento daquele Rei com a Infanta D. Isabel, depois 
Rainha Católica ( 2 ). 

Fez parte da expedição a Arzila e foi o autor do Regimento 
da Casa da Suplicação. 



Q) Pedro de Azevedo, Documentos das Chancelarias Reais Relativos a Marrocos 
tomo II, pág. 81. 

( 2 ) Visconde de Santarém, Quadro Elementar, tomo I, pág. 362 e tomo III, 
pág. 99. 



— mrnmm 



S I MBOLISMO 



DO 



POLÍPTICO 



SIMBOLISMO DO TRÍPTICO 
DO VOTO DA SALVAÇÃO DAS ALMAS 



É evidente o paralelismo entre a cena representada neste tríptico 
e a «Anunciação». 

Nas representações do mistério da Encarnação, o Arcanjo 
Gabriel, enviado por Deus à Virgem Maria, vai ao Seu encontro, 
saúda-A e diz-Lhe que conceberá um filho, Jesus, e nada tema 
pois o Espírito Santo descerá sobre Ela. Maria responde: «Eis 
aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra». 

Assim, em pinturas e esculturas dos séculos xv e xvi vemos ( x ) 
um anjo a dirigir-se a Nossa Senhora, com uma vara na mão esquerda 
e a mão direita apontando para Ela. A Virgem mostra a sua aquies- 
cência à vontade divina colocando a mão direita sobre o coração. 

No Tríptico, o anjo, com uma vara na mão esquerda e apon- 
tando com a direita para o Rei D. Afonso V, está em movimento e vem 
chegando ( 2 ) ao encontro do povo português reunido, os três estados 
dos Oradores, Defensores e Mantedores, o que simboliza também 
a Igreja, a comunidade dos cristãos portugueses ( 3 ). O Rei coloca 
a mão direita sobre o coração. 

Simboliza-se pois no Tríptico o mistério pelo qual Deus convida 
para uma dada acção, o povo português, por intermédio do anjo cus- 
tódio do reino São Miguel, que envia ao seu rei, demonstrando este 
a aceitação da vontade divina pelo gesto de colocar a mão direita 
sobre o coração. Na Anunciação, a Virgem recebe a mensagem, de 
joelhos; da mesma forma a recebe o Rei, semi-ajoelhado como o 
faziam os cavaleiros. 

Qual seria o mistério anunciado ao povo português ? Vemos 
que o anjo encosta ao coração um livro que só pode ser o dos Evan- 
gelhos, isto é, a Lei de Cristo ; porém esse livro está fechado e metido 
numa funda que o envolve. Isto simboliza que o Evangelho estava 



O Exemplos : Painéis de Robert Campin e de Van der Weyden no Museu 
Metropolitano de New York; de Vasco Fernandes (Grão Vasco) no retábulo 
da Igreja de Freixo-de-Espada-à-Cinta; retábulo da «Anunciação» em Torres 
Vedras; escultura da Virgem da Anunciação no Museu Machado de Castro. 

( 2 ) Afonso Botelho, Estética e Enigmática dos Painéis, pág. 26. 

( 3 ) Ecclesia: Assembleia (do povo). Dicionário Escolar Latino-Portuguêes, 
Rio de Janeiro, 1956. 



278 

encoberto. Para quem? «Se o nosso Evangelho ainda estiver enco- 
berto, está encoberto para aqueles que se perdem...»^) E quem 
se perdia? Os pagãos do mundo desconhecido por a palavra de 
Deus lhes não ter sido revelada. «Sou seu ministro (de Cristo) 
em virtude da dispensação divina que a mim me foi confiada... 
para poder realizar a pregação da palavra de Deus, o mistério escon- 
dido aos séculos e às gerações e que agora se manifestou aos seu# 
santos, aos quais dentre os gentios quis Deus dar a conhecer qual 
seja a riqueza da glória deste mistério» ( 2 ). 

Podemos agora reconstituir o simbolismo deste tríptico. 

Nas terras desconhecidas encontram-se pagãos cujas almas se 
perdem por não conhecerem a Lei de Cristo nem receberem o 
baptismo. 

Por isso Deus, por intermédio do arcanjo São Miguel, inspira 
o povo português por Si escolhido para essa missão, «alumiando-o 
com a graça do Espírito Santo» ( 3 ), para que embarque, vá descobrir 
essas terras ignotas e pregue o Evangelho aos pagãos seus habitantes, 
para salvação das suas almas, pois «a fé é pela pregação e a pregação 
é pela palavra de Cristo» ( 4 ). Assim, «o arquétipo litúrgico deste 
quadro da raça e da acção lusitana está próximo da representação 
do Pentecostes» ( B ). 

A nação portuguesa é escolhida por Deus para evangelizar o 
mundo desconhecido: «Estabeleci-te como luz das nações, para 
levares a salvação até aos confins da terra» ( 6 ). «Eu hei-de enviar-te 
aos pagãos, lá ao longe» ( 7 ); «Precisamente para isto Eu te exaltei, 
para manifestar em ti o meu poder e fazer conhecer o meu nome 
em toda a terra» ( 8 ). 

O povo português aceita a divina missão: «Deus escolheu-me 
desde os primeiros dias para que os pagãos ouvissem da minha boca 
a palavra da Boa Nova e abraçassem a fé» ( 9 ); «Eu fui constituído 
pregão e apóstolo e mestre dos pagãos na fé e na verdade» ( 10 ) ; 
«Pregar o Evangelho não é para mim um título de glória; é uma 
obrigação que me incumbe. Sim, ai de mim se eu não pregasse o 
Evangelho» ( u ). 



São Paulo Segunda Carta aos Coríntios, 4, 3. 
São Paulo, Carta aos Colossenses, 1, 25-27. 
Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Situ Orbis, pág. 14. 
São Paulo, Carta aos Romanos, 10, 17. 
Afonso Botelho, Estética e Enigmática dos Painéis, pág. 30. 
Actos dos Apóstolos, 14, 47. 
Actos dos Apóstolos, 22, 21. 
São Paulo, Carta aos Romanos, 9, 17. 
Actos dos Apóstolos, 15,7. 
São Paulo, / Carta a Timóteo, 2, 7. 
n ) São Paulo, / Carta aos Coríntios, 9, 16. 



279 

Concluímos que este tríptico representa um voto .-.da nação 
portuguesa «ardendo em zelo de salvação das almas» ( 1 ). Por isso 
o autor conjecturou-lhe a designação de Tríptico do Voto da Salvação 
das Almas. 

SIMBOLISMO DO PAINEL 
DA PREGAÇÃO DO EVANGELHO 

Adivinham-se neste painel um triângulo equilátero inscrito no 
círculo de uma porta de estilo muçulmano e uma âncora. 

A porta, envolvendo a figura do Infante Santo, representa 
«a porta de Fez da qual o seu corpo estava dependurado» ( 2 ). 

A porta é uma imagem de Cristo Salvador, visto Ele assim, 
se ter designado a Si próprio: «Eu sou a porta. Se alguém entrar 
por Mim será salvo» ( 3 ). É, também, um símbolo de Nossa Senhora, 
a «Janua coeli», a porta do céu, a «bem-aventurada Virgem gloriosa 
Santa Maria, madre de Deus« ( 4 ). 

As ombreiras da porta são constituídas pelos corpos do Rei 
D. Afonso V e do Príncipe D. Fernando, os quais são assim simbo- 
lizados como apóstolos, as colunas da Igreja. 

Ainda, esta porta é de estilo muçulmano, correspondendo ao 
portal duma mesquita. Porém, dentro dela, está a figura de um anjo 
segurando o livro dos Evangelhos. Isto simboliza que a Fé de Cristo 
se encontra dentro dos templos dos mouros sendo, portanto, uma 
imagem da conversão dos infiéis. Lembremo-nos que a mesquita de 
Alcácer do Sal e a mesquita principal de Ceuta foram adaptadas a 
igrejas católicas logo a seguir à tomada destas terras pelos portu- 
gueses. 

O triângulo de lados iguais simboliza o verdadeiro Deus, que 
é Padre, Filho e Espírito Santo, três pessoas em uma só substân- 
cia» ( 5 ). 

A âncora, símbolo da cruz, representa a firme esperança da 
salvação das almas ( 6 ). É, pois, uma imagem da esperança da salvação 
das almas dos infiéis e pagãos pela pregação e ensinança do Evan- 
gelho pelos portugueses, os quais desta maneira salvarão também 
as suas. Simboliza também, como ainda hoje, a navegação marítima. 

( x ) Bula do Papa Sixto IV (Etuni regis) de 21 de Junho de 1481, in Costa 
Lobo, A Acção Diplomática dos Portugueses nos Séculos XV e XVI, Destinada à 
Realização de Descobertas e Conquistas, pág. 114. 

( 2 ) Christovão Rodrigues Acenheiro, Chronicas dos Senhores Reis de Portugal, 
Lisboa, 1926, pág. 254. 

( 3 ) Evangelho de São João, 10, 9. 

( 4 ) Testamento de el-Rei D. João I, «Monumenta Henricina», vol. III 
pág. 131. 

( 6 ) Ibidem. 

( 6 ) São Paulo, Carta aos Hebreus, 6, 17-19. 



280 

O cabo solteiro que está enrolado sobre o pavimento, simbo- 
liza as navegações dos descobrimentos, união ( x ) e conversão. 

Simboliza as navegações marítimas, por ser uma corda usada nas 
embarcações à vela; e navegação dos descobrimentos, porque eram 
elas as que mais interessavam então aos portugueses. 

A união simbolizada, é a unidade de todos os fiéis com Cristo: 
«porque todos sois uma unidade em Cristo Jesus» ( 2 ). É, também, 
a unidade de todos os portugueses para cumprirem a divina 
missão de levar o Evangelho aos pagãos habitantes do mundo 
desconhecido: «Eu, Paulo, exorto-vos a caminhar de uma maneira 
digna da vocação a que fostes chamados... a serdes solícitos 
em conservar a unidade de espírito mediante o vínculo da 
paz. Um só corpo e um só espírito temos, assim como também 
uma só esperança, a da vossa vocação» ( 3 ). Na corda podemos ver 
também a faculdade de os apóstolos perdoarem os pecados: «Tudo 
quanto ligardes na terra, será ligado no Céu» ( 4 ). 

Na corda está ainda simbolizada a conversão dos infiéis, pois as 
cordas fabricam-se por conversão ou torção do cânhamo. 

Vemos mais neste painel que a figura do Infante Santo segu- 
rando o livro dos Evangelhos é ladeada por cavaleiros armados. 
Estes cavaleiros ou defensores estão pois de guarda ao Evangelho. 
O pintor simbolizou assim a defensão da fé pelos portugueses. 

A figura principal representa um anjo pois é a de um «fremoso 
e esplandecente mancebo, com clara e resplandecente cara e ledo 
gesto» ( 5 ), revestido de uma dalmática por ser um diácono de Deus. 

A figura está em movimento ( 6 ) e vem chegando «porque, embora 
lhe tolde o olhar um fundo de ausência, exprime-se na face, incon- 
tidamente, a alegria da chegada, do reencontro com os seus amados»( 7 ). 

Nas figuras mais próximas do centro do painel, reflecte-se também 
este sentimento, exprimindo-se até a (do rei D. Afonso V) por uma atitude 
de surpresa e enlevo irreprimíveis. Não obstante o acordo com o forte realismo 
de Nuno Gonçalves, esta figura é, sem dúvida, a que se abandona mais ao 
arroubo místico e a que é colocada em atitude mais dramática. Há também 
o mesmo eco de alegria no olhar dos dois cavaleiros de lança de avantagem ( 8 ) 
que fecham este primeiro circulo da chegada ( 9 ). 



(*) Afonso de Dornelas, Os Painéis do Mosteiro de S. Vicente, Eleàentos 
para a sua Identificação e Vida, pág. 21. 

' 2 ) São Paulo, Carta aos Gálatas, 3, 28. 

3 ) São Paulo, Carta aos Efésios, 4, 1-4. 

4 ) Evangelho de São Mateus, 16, 19. 

( õ ) Crónica da Fundação do Mosteiro de Jesus de Aveiro, Leitura de António 
Gomes da Rocha Madahil, pág. 132. 

' 6 ) Afonso Botelho, Estética e Enigmática dos Painéis, pág. 26. 

') Ibidem, pág. 29. 

8 ) Condestável D. Pedro e D. Jaime (Nota do Autor). 
( 9 ) Afonso Botelho, Estética e Enigmática dos Painéis, pág. 26. 



281 

Que se trata de um ser espiritual superior, não deixa dúvidas, nem 
a riqueza da dalmática que o cobre, nem o resplendor que aureola a sua cabeça... 
O tratamento da face, não obstante as observações que lhe possam fatçer 
com base em possível repintagem, é intencionalmente diverso das outras figuras 
vivas e cheias de contraste que se multiplicam, na diversidade das suas 
maneiras de ser, por toda a obra. Quero di^er que a face e a atitude desta 
figura central significa um ser em estado glorioso. 

Conjugada esta afirmação, deduzida das formas sensíveis iniciais, com a 
certeza plástica de que o movimento ê de chegada, de volta, deverá concluir-se 
que a figura central existe esteticamente como alguém que volta em estado 
glorioso, isto é, depois de abandonar o corpo mortal e de possuir a beatitude 
eterna ( v ). 

Não se trata nos painéis duma glorificação dos Portugueses ao Santo 
mas de uma glorificação que o Santo tra% para a companhia dos seus irmãos 
portugueses , no simples motivo da sua presença gloriosa^ 2 ). 

A- situação de dádiva que «chega» e se infunde na alma da comunidade 
presente ê o segredo íntimo ou a essência profunda destes painéis. 

O arquétipo litúrgico deste quadro da raça e da acção lusitana está 
próximo da representação do Pentecostes. Acentua-se apenas nele um senti- 
mento, ou melhor, um estado de alma: a graça, que vem e que se infunde, 
encontra nos portugueses um anterior conhecimento e provoca a sensação 
de reencontro. O próprio movimento gratuito trazido pela figura central 
dos painéis encontrou as outras figuras completas na sua individualidade. 
Não as altera nem as esvazia — liga-as pelo que têm de comum e de universal^). 

Notamos ainda neste painel que a figura principal, sendo a 
figura de um anjo, é representada por um ser humano pois as 
vestes de anjo estão colocadas por cima do traje de um cavaleiro 
do qual vemos a gola e a caraminhola. Esse cavaleiro, conforme 
a dedução do Dr. Afonso Botelho estava morto à data da feitura 
do painel e portanto era o Infante Santo conforme o Dr. José 
Saraiva foi o primeiro a afirmar. A cor negra da gola também 
simboliza que o cavaleiro estava morto. 

As vestes com que se pintavam os anjos, sendo com dalmática 
de cor vermelha, eram idênticas às dos diáconos mártires como por 
exemplo, Santo Estêvão ou São Vicente. Portanto, a vestimenta 
com que a figura central está paramentada neste painel convinha 
perfeitamente ao falecido Infante Santo Dom Fernando, porque 
«as vidas imoladas na guerra pela propagação da fé cristã, por serem 
consagradas ao serviço da Igreja, davam direito às honras de diácono. 
Deve talvez ser esta a razão canónica porque o povo chamou Santo 



( x ) Afonso Botelho, Estética e Enigmática dos Painéis, págs. 29 e 30. 

( 2 ) Ibidem, pág. 30. 

( 3 ) Ibidem, pág. 31. 



i » 



282 

ao Infante D. Fernando que entre os mouros acabou seus dias, para 
se não resgatar a sua vida em troca de Ceuta, conquistada para 
propagação da Fé» ( 1 ). 

A cor vermelha da dalmática, símbolo de amor e sacrifício ( 2 ) 
corresponde inteiramente ao amor e sacrifício do Infante por Deus 
e pela Pátria. 

No painel está também simbolizado o aumento da propagação 
da Fé pelo meio providencial do cativeiro do Infante Santo, porque : 
«Quero que saibais, irmãos, que a minha situação contribuiu para 
expansão do Evangelho, pois é notado ... como eu levo as minhas 
cadeias por Cristo, e a maior parte dos meus irmãos, alentados com 
as minhas cadeias sentem mais ânimo para anunciar sem temor a 
palavra de Deus ( 3 )». «E tanto nas minhas prisões, como na defesa 
e confirmação do Evangelho, todos vós participais da minha graça» ( 4 ). 

A vara que a figura principal segura na mão esquerda é um 
ráquis de folha de palmeira das tâmaras. 

Como folha de palmeira, simboliza o martírio do Infante Santo, 
pois que ele quando seguia de Arzila para Fez, meteram-lhe «por 
escárneo» uma vara na mão. E essa vara seria, provavelmente, 
uma nervura de folha de tamareira, a árvore mais frequente em 
Marrocos. 

O resplendor que envolve a cabeça da figura principal convém 
tanto a um anjo como ao Infante D. Fernando «em santa glória» 
porque «a Santa Igreja tem por santos os que morrem pela sua 
Santa Fé» ( 5 ). 

A vara corresponde também a um atributo de São Gabriel, 
pois se vê nos anjos de anunciação de quase todos os painéis que 
representam esta cena. Vêmo-la, ainda, nas figuras de São Rafael, 
ao conduzir Tobias. 

Porém, o Arcanjo São Miguel, além de anjo custódio de Portugal, 
era o santo de maior devoção do Infante D. Pedro e do Infante 
Santo e, portanto, o pintor não deixaria de o eleger para figura prin- 
cipal do Tríptico. De facto vemos, no Painel da Pregação do Evan- 
gelho, um anjo dentro duma porta. Ora, São Miguel era considerado 
na Idade Média como o guarda por excelência da porta dos santuários, 
encarregado de impedir com a sua espada a entrada ao demónio ( 6 ). 

Deste modo se deduz que o anjo deste Painel da Pregação do 
Evangelho participa das especiais funções divinas dos arcanjos 



P a g- 



(*) Henrique Loureiro, O Políptico do Convento de Santo Elói, pág. 77, 

( 2 ) Dom António Coelho, O. S. B., Curso de Liturgia Romana, tomo II. 
248. 

( 3 ) São Paulo, Carta aos Filipenses, 1, 12. 

( 4 ) Ibidem, 1, 7. 

( 5 ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, pág. 438. 

( 6 ) Louis Réau, Iconographie de UArt Crhétien, Nouveau Testament, pág. 46. 



283 

São Miguel, São Gabriel e São Rafael. É, pois, o «Alferes da cruz», 
o «príncipe da milícia celeste», qualidade que convinha ao Infante 
D. Fernando, guerreiro da Fé, em Tânger; o mensageiro de Deus 
à nação portuguesa; e o companheiro e guia seguro dos mareantes 
— «Eu conduzirei são o teu filho e são to reconduzirei» e «Fazei 
boa jornada, e Deus seja convosco no vosso caminho, e o seu anjo 
vos acompanhe» ( x ). 

Neste painel representou o pintor eclesiásticos, oradores e 
letrados. 

Com efeito, as personagens ou são sacerdotes ou embaixadores 
(oradores) de Portugal aos Papas ou a concílios ou letrados famosos 
na arte oratória ou mestres de universidades, ou professores dos 
príncipes. 

Aos oradores sagrados cabia, pois, a obrigação de pregar e ensinar 
a fé ( 2 ) aos infiéis e pagãos do mundo desconhecido a descobrir 
pelos mareantes que, de pescadores de peixes passavam a pescadores 
de homens. 

Assim, tudo se conjuga para levar à dedução de que este painel 
foi destinado a simbolizar a salvação das almas dos pagãos do mundo 
desconhecido pela âncora da pregação do Evangelho lançada pelos 
portugueses, os quais, sob inspiração divina, se meteram ao mar 
tenebroso para descobrir essas terras ignotas, protegidos pela Virgem 
Santíssima Nossa Senhora, a Stella maris (Estrela do mar), celestial 
padroeira dos mareantes e pescadores ( 3 ), e acompanhados e guiados 
pelos anjos. 

Por isso o autor conjecturou para este painel e designação 
de Painel da Pregação do Evangelho. 



SIMBOLISMO DO PAINEL DA DILATAÇÃO DA FÉ 



A figura prostrada no primeiro plano simboliza Portugal, 
apóstolo dos pagãos. 

Com efeito, a face com nariz torcido, olhos remelentos, barba 
comprida e crâneo rapado, corresponde à fisionomia de São Paulo, 
o apóstolo dos pagãos. 

E, por estar a figura situada no primeiro plano, mas em posição 
que nenhuma personagem importante aceitaria, e por vestir uma 



( x ) Livro de Tobias, 5, 26 e 21. 

( 2 ) São Paulo, Primeira Carta a Timóteo, 5, 17. 

( 3 ) Louis Réau, Iconographie de la Bible, Nouveau Testament, pág. 66. 



284 

capucha de burel apisoado que ainda hoje encontramos nos povos 
serranos da Beira Alta, por exemplo, leva-nos a concluir que se 
trata de uma figura representando o povo português. Mas 
a capucha de burel era usada também pelos pescadores pois, 
ainda hoje, se vê como capa dos varinos. Então a figura repre- 
senta o povo português, mareante. Porém a capucha é também o 
manto dos frades franciscanos. Por isso a figura corresponde ao 
povo português, mareante dos descobrimentos e com o espírito 
missionário de São Francisco de ir converter os infiéis e de São Paulo 
para salvar a alma dos pagãos. 

As vértebras de peixe que constituem as contas da camáldula 
que a figura segura nas mãos representam os cristãos feitos pela 
obra missionária dos mareantes. 

A posição prostrada simboliza que o povo português recebeu 
o Espírito Santo e faz o voto de se empenhar na obra da salvação 
dos pagãos pois é assim a atitude em que se colocam os ordenandos 
ao receber as ordens sacras quando se canta o Verti Creator Spiritus 
e fazem os seus votos. 

Vemos, a seguir, três figuras envolvidas numa rede. 

Esta rede simboliza a escolha, feita por Deus, dos mareantes 
e cavaleiros-mereadores, como os da companhia de pescarias de 
Lagos, para evangelizar os pagãos do mundo desconhecido, trans- 
formados de pescadores de peixes em pescadores de almas. E signi- 
fica que foram escolhidos porque Jesus Cristo disse: «O reino de 
Deus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a 
espécie de peixes. Logo que ela se enche, os pescadores tiram-na 
para a praia, sentam-se e escolhem os bons para as canastras e os 
ruins deitam-nos fora» ( 2 ). 

E porque apóstolos? Porque vestem um manto sobre uma 
túnica tal como os apóstolos são, sempre, representados. 

O vestuário de seda era usado pelos cavaleiros-mereadores. 
Assim, Diogo de Azambuja «saiu em terra vestido de seda e brocado» 
quando foi pedir ao Caramansa autorização para fundar a fortaleza 
da Mina ( 2 ) e os fidalgos portugueses, mareantes dos descobrimentos, 
vestiam-se com um gibão de damasco, posto sobre uma camisa de 
lã, e cobriam-se com um fino manto de seda ( 3 ). 

Tentemos agora identificar cada um dos três apóstolos. 

Em primeiro lugar, notamos que as duas figuras colocadas no 
segundo plano devem representar apóstolos de maior categoria 
hierárquica que a situada na última fila de personagens deste painel. 



( T ) Evangelho de S. Mateus, 13, 47-48. 

( 2 ) Rui de Pina, Crónica del-Rei D. João II, cag. II. 

( 3 ) Rev. Sidney Welch, O Descobrimento da Africa do Sul pela Europa, 
Lourenço Marques, 1937, pág. 168. 



285 

Examinando as duas figuras colocadas no segundo plano nota- 
mos que uma delas é muito mais nova que a outra e tem a cabeça 
inclinada, por torção do pescoço, para o lado da outra. 

Identificamos assim o apóstolo mais novo como sendo São João 
Evangelista, aquele que reclinou a cabeça no peito de Jesus na 
Última Ceia. Confirmaremos esta dedução se compararmos a figura 
com a de São João, no Apostolado pintado no altar-mor da igreja 
matriz de Monsaraz, a qual está precisamente com a mesma atitude. 

Nesta mesma pintura, verificamos que a figura de São Tiago 
Menor veste uma túnica idêntica à que se vê nas figuras dos apóstolos 
do Painel da Dilatação da Fé. 

A figura do apóstolo velho poderia corresponder a São Pedro 
ou a Santo André. Ora, o Dr. Sousa Gomes já a havia identificado 
como sendo Santo André, visto não se lhe ver a mão direita, ocupada 
em segurar a cruz em aspa, símbolo do seu martírio Q). Mais se 
nos radicará no espírito esta ideia, lembrando-nos que Santo André, 
segundo a legenda, foi mandado por Deus à Etiópia para acudir 
a São Mateus. O pintor representou então no painel a figura de 
Santo André para simbolizar o apostolado dos portugueses na 
África, a Etiópia de então. 

O apóstolo colocado no último plano tem pois que ser São Tomé, 
cuja categoria é inferior à dos outros apóstolos, por ter duvidado 
da ressurreição de Cristo. Adquirimos a certeza desta hipótese 
lembrando-nos que São Tomé foi supliciado às lançadas e que 
Vicente Dias, a personagem que figura este apóstolo, foi ferido na 
face por uma azagaia, isto é, pelo arremesso de uma lança dos indí- 
genas africanos. 

Além disso, São Tomé tinha evangelizado a índia, segundo os 
portugueses dessa época criam e, portanto, convinha a sua figuração 
no painel, para simbolizar o desejo de eles irem procurar na índia 
os cristãos que ainda aí possivelmente existiriam. 

A túnica branca que Lançarote da Franca e Soeira da Costa 
vestem, corresponde à camisa branca com que eles tinham sido 
armados cavaleiros. 

Do até agora exposto se deduz que este painel cuja simbólica 
estamos analisando foi executado para simbolizar a obra da propa- 
gação da fé de Cristo entre os pagãos do mundo desconhecido pelos 
cavaleiros-mercadores portugueses. Por isso o autor reconstituiu a 
sua designação como a de Painel da Dilatação da Fé. 



(*) A. Sousa Gomes, Nuno Gonçalves e a Pintura Abstracta, Lisboa, 1963, 
pág. 15. 



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286 

SIMBOLISMO DO PAINEL DA DEFENSÃO DA FÉ 

Neste painel vemos somente cavaleiros, isto é, representantes 
do estado do reino dos Defensores. 

O painel está, no Políptico, e também o estava no Tríptico 
da Salvação das Almas, situado ao lado do Painel da Pregação do 
Evangelho cujo centro é ocupado pela figura do Infante Santo 
segurando contra o peito o livro dos Evangelhos. Os cavaleiros 
estão, pois, a fazer a guarda ao livro dos Evangelhos que simboliza 
a Fé. Por isso o autor conjecturou para este painel a designação 
de Painel da Defensão da Fé. 

A espora de ouro dos cavaleiros que o Infante D. João segura 
sobre a espada, com a mão esquerda, simboliza o seu cargo de 
governador e administrador da Ordem de Cavalaria de Santiago da 
Espada. ;; 

Esta mesma qualidade é simbolizada na figura de D. Diogo, 
o qual segura a espada pela ponta. 

Não vemos no colar ostentado por D. João o diamante e o 
rubi que aí existiam. Isto simboliza que o Infante estava morto 
aquando da feitura do painel. 

A figura do Infante D. Henrique apresenta-se com um elmo 
de forma cónica semelhante ao que usavam os Cruzados, o que 
simboliza a sua qualidade de guerreador dos mouros, inimigos 
da Fé. 

A figura do Infante D. Pedro, no primeiro plano, está com a 
cabeça descoberta ao passo que os seus irmãos, D. João e 
D. Fernando, não o estão, nem o seu sobrinho D. Diogo. Isto 
significa que, de todos estes, somente D. Pedro havia sido armado 
cavaleiro. A condecoração que D. Pedro usa ao peito, ganha a 
combater os turcos, simboliza-o como cavaleiro defensor da Fé 
e guerreador dos seus inimigos. 



SIMBOLISMO DO PAINEL DO VOTO DA CRUZADA 

A figura central está revestida com alva, amicto, dalmática e 
manipulo, o que corresponde aos paramentos dum diácono ou 
subdiácono. 

Dá a beijar o Evangelho ao Rei, tal como pertencia fazer ao 
subdiácono na missa solene em presença dum príncipe. 

Está aureolada pelo resplendor da glória. 



287 

Destes atributos se deduz que representa um subdiácono ou 
diácono falecido em cheiro de santidade. Corresponde pois, perfei- 
tamente, ao cardeal-diácono D. Jaime de Portugal. 

O facto de o Evangelho ser de São João simboliza a especial 
devoção que D. Afonso V e a Rainha D. Leonor tinham por aquele 
santo evangelista. 

A tradução do texto, como atrás se disse, é a seguinte: «Já 
não falarei muito convosco, porque se aproxima o príncipe deste 
mundo e em mim não tem parte alguma. Mas para que o mundo 
saiba que amo o Pai, e que faço o que ele me manda...» 

Vejamos agora quais teriam sido as ideias para cuja simbolização 
se aproveitou esta parte do Evangelho de São João. 

O primeiro período refere-se a promessa que D. Afonso V 
fizera, desde que morrera a Rainha D. Isabel, de se dedicar a Deus 
logo que o Príncipe D. João pudesse reinar ( 2 ). 

O segundo período simboliza o cumprimento por D. Afonso V 
das obrigações a ele impostas pelo Papa (Santo Padre) para a comu- 
tação do seu voto de participar na cruzada contra os turcos, se nos 
lembrarmos que naqueles tempos se dizia «padre» e não «pai». 

As palavras, «para que o mundo saiba que amo o padre», 
simbolizam também a veneração que D. Afonso V quis demonstrar 
pela memória do seu tio e padre (sogro) o falecido Infante 
D. Pedro. 

A cor vermelha da dalmática e o Evangelho de São João simbo- 
lizam a inspiração pelo Espínto Santo do voto de D. Afonso V, 
porque são próprios das missas votivas do Espírito Santo. 

A figura da Rainha D. Isabal não ostenta as jóias que lhe vemos 
no seu retrato do Museu de Aveiro, ou sejam o anel de rubi, o brace- 
lete de ouro e a riquíssima crespina, sendo esta substituída por 
um toucado em forma de mitra. Além disso, os seus vestidos não 
são do brocado rico com que se pintavam as rainhas, mas sim talhados 
em simples veludo liso. Tudo isto simboliza ter a Rainha falecido 
antes da feitura do painel, pois se apresenta perante Deus «honesta- 
mente, com recato e modéstia, sem tranças nos cabelos, sem ouro, 
nem pérolas, nem vestidos caros ( 2 )» 

Também se deduz o anterior falecimento da Rainha pelo facto 
de ela não segurar o saltério com os dedos convenientemente flectidos 
sobre ele e de não ter a mão à altura do peito, tal como a sua tia 
D. Isabel, mas pendente e inerte. 

O cacto do toucado simboliza o amor ao seu marido, pois 
vemos uma planta desta família junto a um par de namorados e na 



(*) Conde de Sabugosa, Gente U 'Algo t 3. a e d., pág. 156. 
( 2 ) São Paulo, Primeira Carta a Timóteo, 2, 9. 



288 

«corte do amor» representados em reversos de espelhos existentes 
nos museus do Louvre e de Cluny ( 1 ) 

Da mesma maneira, a manga postiça também representa esse 
amor, pois na Idade Média as damas davam como prenda aos cava- 
leiros seus amados uma manga do seu vestido, a qual eles usavam 
dobrada e presa num braço ou num ombro ( 2 ). 

O Rei contempla tristemente a figura daquela que sempre lhe 
tivera «muito grande e leal amor», a qual «jamais» ( 3 ) tornaria a ver. 
O seu olhar expressa as palavras por ele ditadas: «...Nós a amámos 
sempre mui muito em sua vida e agora amamos muito mais sua 
alma...». 

A figura da duquesa de Borgonha D. Isabel segura, na mão 
direita, um saltério cujas contas está passando. Reza, portanto. 

Assim reconhecemos a simbolização do seu estado de viúva: 
«Aquela que verdadeiramente é viúva e está desamparada, confie 
em Deus e peça continuamente, noite e dia, por meio de súplicas 
e orações» ( 4 ). 

O pintor Nuno Gonçalves, ao contrário das restantes figuras 
do painel, usa uma loba de cor preta. Deduzimos pois que ele quis 
simbolizar o estar de luto e, por isso, poder-se-á conjecturar que o 
Pedro Gonçalves, secretário do Rei D. Afonso V e morto pelos 
mouros em Benacofú fosse seu filho, no que o pintor teria muita 
honra por ele morrer na cruzada contra os infiéis, defendendo a 
vida do Rei. 

O duque de Bragança, D. Fernando, apresenta-se de cabeça 
descoberta, por ter sido armado cavaleiro. O argau de burel que 
o cobre simboliza o «dó» pelo falecimento do seu pai D. Afonso. 
A armadura de que está revestido simboliza o facto de ter sido um 
esforçadíssimo guerreador dos mouros. 

A figura do conde de Viana D. Duarte de Meneses está de 
cabeça descoberta, por ter sido armado cavaleiro, e usa trajes de 
cor muito escura o que simboliza o seu anterior falecimento. 



SIMBOLISMO DO PAINEL DA VIDA ETERNAL 

As cogulas brancas de freires regulares das Ordens Militares 
de que estão revestidos D. Duarte, D. Afonso e D. Fernando simbo- 
lizam que eles haviam sido cavaleiros da fé de Cristo e estavam 
mortos (amortalhados no hábito). 



(') Léon Gautier, Chivalry, Londres, Phoenix House, págs. 89 e 104. 

( 2 ) Ibidem, pág. 155. 

( 3 ) «Jamais», era a divisa de D. Afonso V. 

( 4 ) São Paulo, Primeira Carta a Timóteo, 5, 5. 



289 

D. Duarte e D. Fernando têm na cabeça o capelo com 
que os cavaleiros das ordens militares dormiam, o que tam- 
bém simboliza que haviam falecido, isto é, tinham adormecido 
no Senhor. 

As vestes brancas simbolizam que eles se haviam apresentado 
perante Deus, «santos, imaculados e irrepreensíveis» (*), por terem 
«perseverado, firmemente fundados e incomovíveis na Fé». 

Nuno Gonçalves teve o cuidado de pintar as golas dos trajes 
civis vestidos por baixo das cogulas e com cor preta para indicar 
que as personagens já haviam falecido. 

O Infante Santo apoia sobre o ombro esquerdo um grosso 
madeiro a que encosta a mão direita espalmada. A inclinação do 
madeiro e a maneira como ele está sobre o ombro e é apoiado pela 
mão, indicam ter o pintor querido mostrar que se trata duma cruz, 
aquela que os expedicionários a Tânger «puseram sobre seus ombros, 
para seguir o caminho da santa conquista, dispondo-se a todo o 
perigo e trabalho pela santa fé, sob guarda do alferes de Jesus Cristo, 
São Miguel ( 2 ). Assim, o pintor deu à figura do Santo Infante um 
atributo como símbolo do seu voluntário e pesadíssimo martírio 
pela fé de Cristo. «Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si 
mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga- Me. Pois quem quiser 
perder a vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por minha 
causa, salvá-la-á!» ( 3 ). 

As figuras do Rei D. Duarte, do Infante Santo e do Prior do 
Crato D. Nuno de Góis, estão dispostas de maneira a formarem uma 
coluna. Se nos lembrarmos que o Rei D. João I dizia serem as ordens 
militares as quatro colunas do esplendor e florescência do reino, 
poderemos deduzir que o pintor quis simbolizar as três ordens 
militares que ainda não tinham representação do Políptico, visto 
a de Santiago da Espada já constar do Painel da Defensão da Fé: 
a de Avis, a de Cristo e a do Hospital. 

Todas as personagens pintadas neste painel já haviam falecido 
na altura da sua feitura, tendo, portanto, recebido de «Nosso Senhor 
Deus a remuneração e o galardão da vida eternal» ( 4 ), destinados 
aos defensores da Fé. Foi este o motivo de o autor conjecturar 
para o painel a designação de Painel da Vida Eternal. 



( x ) São Paulo, Carta aos Colossenses, i, 22. 

( 2 ) Fiei João Álvares, Crónica do Infante Santo Dom Fernando, Ed. de Mendes 
dos Remédios, Coimbra, 1911, pág. 24. 

( 3 ) São Lucas, 9, 23-24. Negar-se a si mesmo = Renunciar à própria 
vontade (Grande Dicionário da Língua Portuguesa). 

( 4 ) António Gomes da Rocha Madahil, Crónica da Fundação do Mosteiro 
de Jesus, de Aveiro, e Memorial da Infanta Santa Joana, Filha del-Rei D. Afonso V, 
pág. 64. 

19 



290 

A luz que banha as figuras simboliza «os resplendores da luz 
perpétua» entre os quais os bem-aventurados têm o seu «eterno 
descanso». 

O tronco de árvore, conforme o sonho de Nabucodo- 
nosor Q, simboliza a descida de um santo do céu, ou seja, o Cardeal 
D. Jaime há anos falecido e figura principal do Painel do Voto 
da Cruzada. 



SIMBOLISMO DO PAINEL DA SANTA GLÓRIA 

Neste painel encontra-se referência a três portugueses falecidos 
em aura de santidade: Santo António, o Infante Santo D. Fernando 
e o Cardeal D. Jaime. 

Santo António, o missionário dos sarracenos, da particular 
devoção de D. Afonso V e da Rainha D. Isabel, está representado 
pela sua relíquia então existente na igreja deste santo em Lisboa. 

O Infante Santo é lembrado pelas suas relíquias, cuja caixa 
Frei João Álvares tem suspensa ao pescoço. 

A santa vida do cardeal D. Jaime é documentada na página 
do livro apresentado por Olivier de la Marche, e a presença deste 
simboliza os esforços do duque de Borgonha para que fosse dada 
condigna sepultura aos restos mortais de D. Pedro. 

A escada que se vê no fundo do ataúde simboliza, como desco- 
briu o Dr. Sousa Gomes ( 2 ), a escada do sonho de Jacob, pela qual 
subiam e desciam anjos. Mostra pois a ida para o céu destes fiéis 
defuntos a quem Deus tinha dado «el galardon, santa glória do 
paraíso» ( 3 ). Por isso o autor denominou o painel como o Painel 
da Santa Glória. 

O feitio e a cor vermelha do manto da figura do defunto D. Pedro, 
indicam estar ela a representar um apóstolo e mártir. A qualidade de 
apóstolo convinha ao Infante por ele ter dado em 1420 aos frades 
franciscanos um eremitério em Ceuta, para nele instalarem um con- 
vento, «para defensão da fé católica e para conversão dos infiéis 
e povos circundantes, que viviam no erro». A qualidade de mártir 
também convinha a D. Pedro, «o mártir de Alfarrobeira». 

O corte do cabelo «à chamorro» corresponde à representação 
da tonsura de São Pedro e, por ser semelhante à dos frades menores, 



(*) A. Sousa Gomes, Simbolismo no Políptico de Nuno Gonçalves, pág. 20. 

( 2 ) Armando de Sousa Gomes, O Simbolismo no Políptico de Nuno Gonçalves 
pág. 26. 

( 3 ) Testamento de D. Afonso IV. 



291 

à simbolização do espírito missionário franciscano do Infante. 
O apóstolo representado é, portanto, São Pedro. 

O ataúde que se vê no ângulo superior esquerdo do painel 
representa o caixão onde estavam os ossos do Infante D. Pedro. 
O facto de estar aberto e vasio simboliza que os restos mortais do 
Infante já haviam recebido condigna sepultura, tal como o Dr. Belard 
da Fonseca decifrou na página direita do livro apresentado por 
Olivier de la Marche. 

O comprido manto que se vê na figura, era usado pelos cavalei- 
ros, e por isso foi nela colocado para simbolizar o Infante D. Pedro 
como cavaleiro da Fé. 



SIMBOLISMO GERAL DO POLÍPTICO 

O Políptico representa uma cena de teatro de mistérios em 
que os figurantes são os membros mais importantes da Nação 
Portuguesa. 

As personagens nele figuradas encostam-se umas às outras, 
estão em atitudes de respeito e oração e a sua expressão, um pouco 
triste, revela uma vontade inabalável. 

Não se sabe de nenhuma outra composição que se lhe possa 
comparar em força e concentração de sentimento Ç-). 

O conjunto impõe-se-nos, mas não esmaga: é a medida do 
homem — do homem livre que livremente fala em Cortes. Uma 
convicção incontestável que santifica, torna religiosa a unidade 
nacional livremente consentida ( 2 ). 

Temos então no Políptico a nação portuguesa ,«todos sendo 
uma unidade em Jesus Cristo ( 3 ), «orando... para que Deus abra 
a porta à palavra para o mistério de Cristo ser anunciado» ( 4 ), 
«unânimes no mesmo sentir» ( 5 ), «num só corpo e um só espírito» ( 6 ) 
«entristecidos para a penitência» ('), «firmes na fé» ( 8 ), e com «a forta- 
leza segura no homem interior concedida pelo Pai por meio do seu 
Espírito» ( 9 ). 



Q) Reinaldo dos Santos, Um Século de Pintura (1450-1550). 

( 2 ) Vitorino de Magalhães Godinho, Os Painéis de Nuno Gonçalves. Cami- 
nhos de Pesquisa e Hipóteses de Trabalho, «Revista de História», vol. 37, São Paulo, 

1959» Pág- 153- 

( 3 ) São Paulo, Carta aos Gálatas, 3, 28. 
(*) São Paulo, Carta aos Colossenses, 4, 4. 

( 5 ) São Paulo, II Carta aos Coríntios, 13, 11. 

( 6 ) São Paulo, Carta aos Efésios, 4, 4. 

(') São Paulo, 77 Carta aos Coríntios, 7, 9. 
( s ) São Paulo, I Carta aos Coríntios, 16, 13. 
( 9 ) São Paulo, Carta aos Efésios, 3, 14-16. 



F 



292 

Cristo está com a nação portuguesa, «Pois onde estiverem 
reunidos, em meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles» Q). 

Assim, o povo português «alumiado da graça do Espírito 
Santo e movido por divinal mistério» ( 2 ), inteiramente unido, está 
firmemente disposto a defender, pregar, ensinar e propagar a fé 
de Cristo, a guerrear e a converter os infiéis e a — guiado do Espí- 
rito Santo ( 3 ) — , descobrir os caminhos para o Evangelho ser levado 
aos pagãos do mundo desconhecido para haver esperança da salvação 
das suas almas. 

Do até agora deduzido, conjecturou o autor a seguinte designação 
para o Políptico: 



«PORTUGAL, DEFENSOR E APOSTOLO DA FE» 



(*) Evangelho de São Mateus, 18, 20. 

( 2 ) Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de Sita Orbis, pág. 14. 

( 3 ) Rui de Pina, Crónica del-Rei D. João II, Cap. II. 






RECONSTITUIÇÃO 

DE ALGUNS ASPECTOS DA VIDA DE 

NUNO GONÇALVES 



i 



I 



RECONSTITUIÇÃO DE ALGUNS ASPECTOS 
DA VIDA DE NUNO GONÇALVES 



Nasceu perto de 1403 pois no seu retrato do Painel do Voto 
da Cruzada (executado cerca de 1468), aparenta a idade de 65 anos. 

Aprendeu pintura em Portugal visto que tendo depois traba- 
lhado na Flandres não copiou os mestres pintores flamengos, 
mostrando a sua obra grande independência artística. 

Pelo patronímico Gonçalves (filho de Gonçalo) e pela sua 
aprendizagem da arte da pintura em Portugal, é de deduzir que 
tenha sido filho do pintor do Rei D. João I, Gonçalo Eanes. Assim, 
teria sido criado na corte com o Infante D. Fernando (nascido 
em 1402) que o menciona no seu testamento (*) : «Nuno Gonçalves 
que foi escrivão da Câmara». 

Em fins de 1429 seguiu para a Flandres no séquito da duquesa 
de Borgonha D. Isabel. 

Teve assim oportunidade de se aperfeiçoar na arte da pintura, 
pois que na Flandres se encontravam os maiores mestres pintores 
desses tempos: Jean van Eyck e Robert Campin. 

Porém, Jean van Eyck era pintor do duque Filipe-o-Bom e, 
por isso, não teria oficina para execução de encomendas para parti- 
culares e, ainda menos, se poderia dedicar a ensinar a arte. 

Nuno Gonçalves encaminhou-se então para Tournai, indo 
praticar na oficina de Robert Campin, onde encontrou os futuros 
mestres pintores, Roger van der Weyden que aí entrara havia quatro 
anos e Jacques Daret que lá estava há três anos. 

Ora, segundo afirmou P. Roland, «a escultura e a pintura 
formam em Tournai um todo coeso, indivisível ... unido, aliás, 
numa só e mesma confraria» ( 2 ). Nuno Gonçalves deve pois ter 
aprendido em Tournai escultura e ter-se aperfeiçoado na pintura, 
seguindo nesta, «uma visão sintética, modelando por planos como 
um escultor e abrindo sulcos nas faces como talhadas à goiva» ( 3 ). 



(*) Crónica do Infante Santo D. Fernando, ed. de Mendes dos Remédios, 
Coimbra, 1911, pág. 151. 

( 2 ) P. Rolland, La Double École de Tournai — Peinture et Sculture. Mélanges 
Hulin de Loo, 1 9 3 1 , citado por Erik Larsen, in Les Primitifs Flamands au Musée 
Métropolitain de New York, pág. 45. 

( 3 ) Reinaldo dos Santos, Oito Séculos de Arte Portuguesa, Volume 1 .° pág, 3 8 . 



296 

De René Huyghe tira o autor os seguintes períodos Q. 
«O realismo flamengo equivale à natureza e parece ser o seu 
espelho — o espelho que, aliás, como um símbolo, está presente 
na obra de tantos primitivos do Norte. O realismo português, por 
sua vez, ultrapassa a natureza e parece tender para aquilo a que 
chamarei a mais-do-que natureza. Dir-se-ia que, inebriado pela 
sua conquista da ilusão de óptica, o artista já não se contenta com 
figurar facilmente as coisas, com dar a simulação da sua forma, do 
seu relevo, da sua matéria; mas que, decidido a forçar a planura 
do painel, quer dar à forma mais densidade do que ela tem; ao relevo 
mais saliência; à matéria mais consistência. A ilusão transcende-se 
a si mesma e confia à presença das coisas uma concentração e uma 
violência que fazem com que esta imitação seja mais acentuada que o 
original. Isto leva, muito naturalmente, a pintura a adoptar a técnica 
em que este acréscimo se acha de facto realizado — a da escultura. 
A densidade, o volume e a consistência que a escultura possui por 
natureza, são aqui sugeridos pela supressão dos modelados e por 
aquilo a que poderia chamar-se uma aceleração de passagens. Ao 
modelado contínuo dos volumes substitui-se a justaposição ousada 
e sem transição dos planos de sombra e de luz, a qual elimina as 
meias tintas. Deste choque de valores ressalta a ilusão de um volume 
brutalmente talhado na pedra ou na madeira». 

Naquele tempo a cidade de Tournai era um importantíssimo 
centro da indústria da tapeçaria. Para a fabricar, os artistas tapeceiros 
interpretavam os cartões executados pelos pintores aos quais pertencia, 
portanto, o carácter artístico das composições ( 2 ). 

Como nas oficinas de Robert Campin se executavam cartões 
para a fabricação de tapeçarias ( 3 ), Nuno Gonçalves teve a oportu- 
nidade de aprender a respectiva técnica. 

Quanto tempo esteve o pintor na Flandres? 

Por uma carta de privilégio passada por D. Afonso V a favor 
de Nuno Gonçalves, «pedreiro (escultor em pedra) que foi del-Rei 
meu Senhor e padre» ( 4 ), sabe-se que ele tinha sido nomeado pelo 
Rei D. Duarte, em 30 de Agosto de 1436, «nosso pedreiro para nos 



Q) René Huighe, A Arte e a Alma, pág. 282. 

( 2 ) Reinaldo dos Santos, As Tapeçarias da Tomada de Arzila, págs. 58 c seg. 

( 3 ) Robert Campin pintou os cartões para a tapeçaria da Vida e Paixão 
do Senhor São Pedro executada em 1443 por Henri de Beaumentiel e destinada à 
capela de São Pedro em Tournai. O seu discípulo Jacques Daret foi o autor 
dos cartões para a tapeçaria da Ressurreição, tecida em 1449. Vide Roger- 
-Armand-Weigert, La Tapisserie et le Tapis en France, Presses Universitaires de 
Francês, 1964, págs. 28 e 44. 

( 4 ) Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de D. Afonso V, 
Livro 19, folha 9 (Vide Apêndice). Comte A. Rackzynsky, Dictionnaire Historico- 
-Artistique du Portugal, pág. 120. 



297 

haver de lavrar nossas obras quando lhe for da nossa parte mandado 
e requerido». 

Assim, é de deduzir que ele tivesse estado na Flandres desde 1430 
a meados de 1436, ou seja perto de cinco anos e meio. 

Durante esse período, poderia ter executado a Pietà de Avinhão, 
pintura que lhe foi atribuída por J. B. Ford e G. S. Vickers Q, 
e na qual René Huyghe nota os efeitos «mais próximos dos de Nuno 
Gonçalves» ( 2 ). 

Então, como acima se disse, Nuno Gonçalves entrou para o 
serviço real em Agosto de 1436 mas deve ter trabalhado não como 
escultor mas como pintor pois que no Políptico se vêm retratos 
póstumos como, por exemplo, o do Infante D. Fernando que só 
pode ter sido tirado de um pintado antes da partida dele para Tânger 
(donde não voltou) em 22 de Agosto de 1437. 

Do mesmo modo, durante a regência do Infante D. Pedro, 
continuou a executar retratos de personagens da Corte, pois vemos 
no Políptico, por exemplo: o bispo de Évora, D. Álvaro de Abreu, 
falecido em 1440; o Infante D. João, falecido em 1442; o condestável 
D. Diogo, falecido em 1443 ; o conde de Vila Real D. Fernando de 
Noronha, falecido em 1445, etc. 

Seria cerca do ano de 1446, que o Infante D. Pedro ordenou 
a Nuno Gonçalves a execução do Tríptico do Voto da Salvação 
das Almas, tendo-o ele concluído antes de 20 de Maio de 1449 (data 
do recontro de Alfarrobeira) visto nessas três pinturas nada se ver 
que demonstre conhecimentos posteriores a essa data. 

Nuno Gonçalves aparece contratado para pintor do Rei 
D. Afonso V, ora novamente, em 20 de Julho de 1450, ficando a 
ganhar mil reais brancos por mês (doze mil reais por ano). 

Em Agosto de 145 1 deve ter aproveitado a ocasião da vinda 
do Infante D. Henrique a Lisboa para assistir aos esponsais da sua 
sobrinha D. Leonor com o imperador da Alemanha Frederico III, 
para lhe pintar o retrato, do qual viria a ser tirado o que hoje vemos 
no Painel do Voto da Cruzada. 

Por carta de 6 de Abril de 1452 o Rei D. Afonso V aumentou 
o mantimento (ordenado) de Nuno Gonçalves com 3432 reais 
brancos, por cada ano, e uma peça de pano de Bristol «para seu 
vestir», também anualmente. 

Depois de 17 de Julho de 1454 deve ter executado o retrato 
do conde de Monsanto D. Álvaro de Castro (o Cavaleiro Desco- 
nhecido do Museu de Vaduz) em cooperação com o pintor João 
Anes. Isto, porque este último foi contratado para pintor do rei 



(!) René Huyghe, A Arte e a Alma, pág. 285, e Michel Laclotte, UÉcole 
d'Avignon, Paris, 1960, pág. 122. 

( z ) René Huyhe, A Arte e a Alma, pág. 285. 



295 

D. Afonso V naquela data e a sua assinatura figura naquele painel 
ao lado da de Nuno Gonçalves. 

Em 1465 encontrava-se Nuno Gonçalves em Barcelona, tendo-o 
então recompensado com a dádiva de um cavalo, presente muito 
valioso naquele tempo, o Rei de Aragão, D. Pedro, filho do Infante 
D. Pedro de Portugal Q. Como em Barcelona não existem pinturas 
atribuíveis a Nuno Gonçalves, será de supor que ele aí pintou para 
o Rei D. Pedro a «Nossa Senhora da Conceição» que hoje se encontra 
em New York. De facto, a devoção profunda à Virgem era tradição 
na casa real portuguesa, pelo menos desde o tempo do Rei D. João I, 
por influência dos frades franciscanos, grandes devotos de Maria 
Santíssima. 

Em 1466 ou 1467 teria D. Afonso V ordenado a Nuno 
Gonçalves a execução dos três painéis para complemento do 
Tríptico do Voto da Salvação das Almas. 

Em 1470 o cavaleiro da casa real e pintor do Rei D. Afonso V, 
Nuno Gonçalves, recebeu do Rei 18 130 reais, por conta dos 
23 000 reais que ele lhe devia «pelo feitio e custos» do retábulo 
que fez para a capela real de Sintra, dedicada ao Espírito Santo ( 2 ). 

Em 147 1 o Rei D. Afonso V mandou a Nuno Gonçalves que 
pintasse «as obras da cidade» em substituição do pintor João Eanes. 
Segundo deduziu o Dr. Adriano de Gusmão ( 3 ) eram obras da cidade 
as do primitivo retábulo de S. Vicente no seu altar da capela-mor 
da Sé de Lisboa, sendo feitas «à custa da Câmara Municipal, por 
S. Vicente ser o padroeiro da capital, pelo que lhe competiria tal 
encargo». Foi pois no ano de 147 1 ou pouco depois que Nuno 
Gonçalves executou os «dois magníficos painéis quatrocentistas, 
figurando dois passos dos Martírios de S. Vicente, que tudo leva 
a crer sejam os restos do antigo retábulo da Sé» e se guardam actual- 
mente no Museu Nacional de Arte Antiga ( 4 ). 

No mesmo ano de 1471 os portugueses comandados pelo 
rei D. Afonso V tomaram, no mês de Agosto, a cidade de Arzila. 

De volta a Portugal, D. Afonso V teria ordenado ao seu pintor 
Nuno Gonçalves que pintasse tão glorioso feito. Este, porém, 
haveria sugerido que em painéis não se poderia reproduzir a massa 
dos combatentes, as casas das cidades de Arzila e Tânger, os navios 
da frota, etc, mas que o Rei poderia documentar a sua extraordinária 
façanha, com toda a grandiosidade, em tapeçarias, tal como já se 



C 1 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — Os Pintores, 
págs. 64 e seg. 

( 2 ) Adriano de Gusmão, Nuno Gonçalves, Ed. Artis, pág. 7. 

( 3 ) Adriano de Gusmão, Nuno Gonçalves, «Colecção Saber», pág. 73 
e Nuno Gonçalves, «Artis», pág. 15. 

( 4 ) Adriano de Gusmão, Nuno Gonçalves, Ed. «Artis», pág. 9. 



299 

tinham feito as de César, Aníbal, Alexandre, Trajano, etc, que 
eram então muito comuns Q). Quanto à execução dessas tapeçarias, 
não haveria dificuldades, porque ele saberia perfeitamente pintar 
os respectivos cartões e estes seriam facilmente transportados em 
navio para a Flandres onde, em Tournai, existiam as competentes 
oficinas de Pasquier Garnier, tapeceiro dos duques de Borgonha. 

Deste modo teriam sido fabricadas as maravilhosas tapeçarias 
que hoje existem em Pastrana, localidade próxima de Madrid, as 
quais aí teriam ido parar, segundo dedução do autor do presente 
trabalho, por o Rei D. João III as ter oferecido ao português Rui 
Gomes da Silva, o grande valido de Filipe II de Espanha que o fez 
duque de Pastrana, quando veio a Portugal tratar do casamento 
do então Príncipe Filipe com a Infanta D. Maria irmã do Rei de 
Portugal. 

Em 1472 teria o pintor cerca de 69 anos e estaria portanto nas 
proximidades do fim da sua carreira artística. 

Não se sabe quando morreu, porém, sem dúvida alguma, já 
não era vivo em 26 de Junho de 1492, o que se prova por um 
documento descoberto pelo Dr. Virgílio Correia. 

Pelo retrato do doutor Nuno Gonçalves no Painel do Voto da 
Cruzada se deduz ter ele sido filho do pintor de D. Afonso V, 
Nuno Gonçalves e, pelo nome próprio, o filho mais velho. 

O pintor João Gonçalves que fez testamento em 1493 e para 
quem o autor do presente trabalho propõe a designação de «o Moço», 
pode ter sido filho de Nuno Gonçalves além de seu discípulo. Admi- 
tindo que ele na ocasião de fazer o testamento tivesse cerca de 70 anos, 
isso dar-lhe-ia uma diferença de perto de 20 anos para Nuno 
Gonçalves o qual, se fosse vivo, teria nesse ano a idade de cerca 
de 90 anos. Assim, Nuno Gonçalves ter-se-ia casado com idade 
à roda dos 20 anos. 

Não será de estranhar a probabilidade de Nuno Gonçalves 
ter sido simultaneamente pintor e escultor pois foram-no, pelo 
menos, os seus contemporâneos Konrad Witz e Paolo Uccello e 
André Beauneveu, pintor do século xiv. 

Deste último diz Paul Fierens ( 2 ) : «Na corte de Carlos V traba- 
lhou de taille et de peinture André Beauneveu, nascido provavelmente 
em Valenciennes, que Froissart colocou entre os primeiros dos 
artistas da sua época. Os seus retratos esculturados (de Filipe VI, 
de João II e de Carlos V em Saint-Denis) mantêm a nobreza tradi- 
cional da arte funerária francesa, verdadeiramente da estatuária 



( x ) João Martins da Silva Marques, in Congresso do Mundo Português, 
«Publicações», vol. V, págs. 562 e 563. 

( 2 ) Paul Fierens, L'Art Flamand, Librairie Larousse, págs. 40 e 41. 



300 

monumental do século xm. Às figuras de Beauneveu dá todo o 
valor uma plasticidade clássica. 

Como sé disse no início do presente capítulo é possível que o 
pai de Nuno Gonçalves tivesse sido Gonçalo Anes, pintor do Rei 
D. João I, que ainda vivia em 15 de Junho de 1450 porque, nesta 
data, o Rei D. Afonso V lhe outorgou a tença anual de quatro mil 
reais e meia peça de pano de Bristol ( 1 ). 

Gonçalo Anes poderia ter aprendido a arte de pintura com o 
Mestre António Florentim, o qual veio de Florença para Portugal 
«a requerimento de D. João I, na qualidade de seu pintor», indi- 
cando-nos este facto a influência da escola italiana em Portugal 
naquela época ( 2 ). A assinatura de Gonçalo Anes no Políptico prova 
que foi colaborador na sua execução. 

Irmãos de Nuno Gonçalves seriam: o pintor João Gonçalves, 
que trabalhou no mosteiro da Badia em Florença; o pintor Afonso 
Gonçalves, companheiro do Infante D. Pedro em Alfarrobeira; 
e o pintor Álvaro Gonçalves que executou retábulos para D. Vasco, 
bispo de Évora. 



O Sousa Viterbo, Notícia de Alguns Pintores, Primeira Memória, pág. 32. 
( a ) Ibidem, pág. 67. 



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: 



RECONSTITUIÇÃO 

DE ALGUNS ASPECTOS DE VIDA DE 

JOÃO ANES 



RECONSTITUIÇÃO DE ALGUNS ASPECTOS 
DA VIDA DE JOÃO ANES 



João Anes ou Eanes nasceu posteriormente a Setembro de 1401, 
porque no mesmo mês do ano de 1471, quando foi aposentado 
pelo Rei D. Afonso V, ainda não tinha a idade de setenta anos (*). 

Pode ter sido irmão do pintor Francisco Anes de Leiria e, 
portanto, filho do pintor João Afonso. 

Segundo investigações do Dr. Belard da Fonseca ( 2 ) seguiu 
para a Flandres, sendo já pintor, no séquito da Duquesa de Borgonha, 
a Infanta D. Isabel. 

Vem a propósito dizer-se que a rica e poderosa Senhora 
Gonçalves a que se faz referência no mesmo documento em que se 
menciona o pintor «Ajuan», por ser tão rica que ornamentou o 
seu palácio em Bruges com móveis orientais, tapeçarias esplêndidas 
e belos quadros — estes últimos trazidos de Portugal e devidos 
a pincéis de artistas portugueses — talvez fosse filha de Luís Gonçalves 
o cavaleiro que tomou aos mouros «uma grande e poderosa carraca» 
e «foi achada nela mui grande riqueza de que este cavaleiro levou 
fundamento de viver sempre abastado» ( 3 ). 

Na Flandres se teria mantido João Anes, pois ainda em 1454 aí 
se encontrava exercendo a profissão ( 4 ). 

Porém nesse mesmo ano regressou a Portugal visto que a 17 de 
Julho, o rei D. Afonso V o «filhava» para seu pintor para o servir 
«de seu ofício» no armazém da cidade de Lisboa. 

Pouco tempo depois da sua nomeação trabalhou, em colaboração 
com Nuno Gonçalves, no retrato do conde de Monsanto, D. Álvaro 
de Castro (O cavaleiro desconhecido do Museu de Vaduz, no 
Liechtenstein) datado de 1456. 

A João Anes poderá ser atribuído o retrato da Rainha D. Isabel, 
do Museu de Aveiro, pois «não pode em caso algum ser obra de 



Q) António Belard da Fonseca, Mistério dos Painéis — Os Pintores, 
pág. 23. 

( 2 ) Ibidem, pág. 43. 

( 3 ) Gomes Eanes de Zurara, Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, pág. 519. 

( 4 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — Os Pintores, 
pág. 42. 



304 

Nuno Gonçalves»^) e a Rainha morreu em 1455, um ano depois 
da nomeação de João Anes para pintor das obras da cidade. 

Em 12 de Abril de 1471, João Anes estava, possivelmente, 
incapacitado para o trabalho porque foi substituído nessa data por 
Nuno Gonçalves na pintura das referidas obras. 

Sabe-se isto por um dos documentos, o número 7, constantes 
do Livro Vermelho do Rei D. Afonso V ( 2 ). 

Esse documento tem o seguinte cabeçalho: «Traslado da deter- 
minação e Regimento que El-Rei nosso Senhor deu à Cidade de Lisboa, 
acerca da maneira que os oficiais houvessem de ter na despesa das rendas da 
dita Cidade». 

O preâmbulo da Determinação e Regimento diz: «Nós El-Rei 
fazemos saber a quantos este Alvará de Regimento nosso virem, 
que pelas contas que ora mandámos tomar e prover dos anos passados 
de quatrocentos e sessenta e sete, e sessenta e oito, e sessenta e nove 
aos oficiais da nossa mui nobre e sempre leal Cidade de Lisboa, se 
mostrou se fazerem algumas despesas das rendas da dita Cidade 
como não deviam; e querendo a elo prover como a serviço nosso 
e bem da dita cidade convém, para indevidamente por semelhante 
maneira não despenderem as rendas da dita Cidade, determinamos 
que acerca das despesas que se ao diante houverem de fazer, se tenha 
esta maneira que se segue. 

Item. Primeiramente mandamos, etc, etc...... 

São assim determinados vários «Itens» sendo o que mais nos 
interessa o seguinte : «Queremos e mandamos isso mesmo que Joane 
Anes Pintor não haja mais daqui em diante mantimento algum, 
salvo Nuno Gonçalves haverá o que lhe é ordenado, e pinte por 
ele as obras da Cidade». 

Outro dos itens diz: «Queremos e mandamos que as obras da 
Cidade se façam por empreitada, tendo os oficiais tal maneira que 
no começo do ano, como entrarem, todos juntamento com o Veador 
e Escrivão delas vão ver pela dita Cidade, e fora dela as obras que 
são para fazer assim de muros, como calçadas, fontes, canos, e quais- 
quer outras que se houverem de fazer; e levem consigo os mestei- 
rais, e talhem com eles a dita empreitada, e as escrevam assim o 
Escrivão delas, declarando em que lugares são, e como se hão de 
fazer, e o que por elas hão de haver. E o Escrivão e Vedor das 
ditas obras tenham carrego de as ver, e andarem ah com os mestei- 
rais, vendo se as fazem bem e como devem, dando trigança que se 
acabem aos tempos que com eles for talhado». 



(*) José de Figueiredo, Introdução ao vol. I dos Documentos do «Boletim 
da Academia Nacional de Belas-Artes». 

( 2 ) Livro Vermelho do Senhor Rei D. Afonso V, in Colecção de Livros Inéditos 
da História Portuguesa, tomo III, pág. 424. 



305 

O primeiro item especifica os mantimentos (ordenados) dos 
oficiais (funcionários) da Câmara de Lisboa, «por cada um ano». 
Assim, os três vereadores, o procurador da Cidade e quatro juizes, 
dois do cível e dois do crime, ganhavam, cada um, dois mil reis 
e dois moios de trigo; o juiz dos órfãos, dois mil réis; o escrivão 
da Câmara, quatro mil e quinhentos e cinquenta e três réis e três 
moios de trigo; o escrivão dos contos, sete mil réis e dois moios de 
trigo; o vereador das obras, dois mil e quinhentos e oitenta e dois 
réis e dois moios de trigo ; um físico (médico) da Cidade, um cirurgião, 
um mestre de pedraria, etc, cada um mil e cinquenta réis e dois moios 
de trigo, etc, etc. 

Deste documento se depreende que João Anes era funcionário 
da Câmara de Lisboa, recebendo ordenado para pintar as obras 
que ela lhe mandasse fazer. 

D. Afonso V teria determinado que a Câmara deixasse de lhe 
pagar o mantimento por ele já não poder trabalhar, mas com a 
intenção de lhe dar uma pensão de aposentação, o que fez passados 
meses, como o Dr. Belard da Fonseca descobriu. 

Devido ao afastamento do serviço da Câmara de João Anes, 
o pintor do Rei, Nuno Gonçalves, passaria a acumular este ofício 
com o de pintor das obras da cidade de Lisboa, recebendo dois 
ordenados, um do Rei e outro da Câmara de Lisboa. 

A coincidência de serem artistas contemporâneos e terem o 
mesmo patronímico leva a supor que os pintores João Anes, Vasco 
Anes e Francisco Anes de Leiria e o iluminador Gonçalo Eanes 
fossem irmãos, e filhos do pintor João Afonso. 



20 



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RECONSTITUIÇÃO 
DA HISTÓRIA DO POLÍPTICO 



RECONSTITUIÇÃO DA HISTÓRIA DO POLÍPTICO 



Em fins de Junho de 1448 foi resgatado, por intercessão do 
Infante D. Pedro, o secretário do Infante Santo D. Fernando e seu 
companheiro de cativeiro João Álvares ( 1 ). 

Chegado a Portugal, certamente logo contou àquele Infante, 
o qual ainda era regente do reino, os pormenores da imensa tragédia 
passada pelo seu irmão, «o qual entre os mouros nestes dias por 
exalçamento da santa fé católica fez seu acabamento» ( 2 ), «onde em 
lugar de pão se comeu amargura» ( 3 ). 

Jorge Cardoso ( 4 ), refere no Agiológio Lusitano que pelos insultos 
da mourama ao cadáver do Infante açoutado pelos irreverências 
e ultrajes da canalha permitiu «o Senhor que tivesse na terra depois 
de morto, este género de martírio, para no Céu lhe aumentar os 
graus de glória, deixando aos príncipes cristãos, raros exemplos 
de paciência e sofrimento que imitar.» 

Emocionado D. Pedro pelo relato do heróico sacrifício do 
seu irmão, imediatamente resolveu encomendar ou ordenar a Nuno 
Gonçalves uma pintura em que se figurasse «uma grande home- 
nagem de toda a Nação Portuguesa ao Infante Santo, Mártir da 
Pátria, representado na figura dominante da composição» ( 5 ) 

O pintor resolveu o problema que se lhe punha, de modo 
genial. Visto os estados do reino serem três — oradores.defensores 
e mantedores — planeou a execução dum tríptico, conforme os 
que vira na Flandres, constituído por um painel dê maiores dimen- 
sões, ao meio, e dois mais estreitos, nos lados. Na execução deste 
trabalho teria sido ajudado por seu pai o pintor Gonçalo Anes. 

Por o espaço ser muito reduzido para nele pintar trinta figuras, 
Nuno Gonçalves foi obrigado a desprezar na composição do tríptico 
os aspectos fundamentais da perspectiva, ficando as figuras colocadas 
nos diferentes planos com tamanho quase igual ao das situadas à 



(!) Adelino de Almeida Calado, Frei João Álvares, Coimbra, 1964, pág. 36. 

( 2 ) Mendes dos Remédios, Crónica do Infante Santo D. Fernando, 
Coimbra, 1911, pág. 3. 

( 3 ) Ibidem, pág. 4. 

( 4 ) José Saraiva, Os Painéis do Infante Santo, pág. 104. 

( 5 ) Ibidem, pág. 166. 



310 

frente e não havendo um ponto de vista comum nem linha de 
horizonte. 

Porém, trinta figuras dispostas em três painéis constituiriam 
uma manta de retalhos se não se lhes desse um elo que as ligasse 
num aspecto comum. Imaginou então o pintor fazê-las desempenhar 
o papel de actores num quadro vivo de teatro de mistérios. E o 
mistério seria aquele pelo qual Deus havia escolhido o reino de 
Portugal como seu apóstolo viajante, para ir salvar as almas dos 
infiéis, convertendo-os pela pregação ou pelas armas, e dos pagãos 
do mundo desconhecido levando-lhes a âncora da salvação da 
ensinança da Fé e da redenção pelo baptismo. 

Para representantes de cada um dos três estados da nação foi 
forçoso, evidentemente, escolher amigos, partidários políticos ou 
colaboradores do Infante D. Pedro. Assim, não houve lugar para 
a figura do Infante D. Henrique, por ele não ter dado o apoio incon- 
dicional que aquele Infante desejaria para a sua elevação a regente do 
reino ( x ). A explicação desta ausência seria dada porém pela atribuição 
a D. Henrique das culpas do tremendo desastre nacional da tentativa 
da conquista de Tânger, da qual resultou o cativeiro e morte entre 
os infiéis do Infante D. Fernando, a figura principal do Tríptico. 

O problema de maior relevância que surgiu ao pintor foi o da 
escolha da figura a colocar no primeiro plano do painel destinado 
ao Estado dos Mantedores, pois nenhuma personagem pertencente 
a esse braço da nação teria categoria para figurar no plano do Rei. 

A solução foi, mais uma vez, genial. O pintor colocou aí uma 
figura alegórica representando o Povo Português, ao qual D. Pedro 
devia a sua situação de regente do reino, pois foram os burgueses 
e os mesteirais de Lisboa que fizeram a revolução que tirou o governo 
à rainha D. Leonor. 

Passados cerca de vinte anos sobre a feitura do Tríptico do 
Voto da Salvação das Almas, o Rei D. Afonso V desejou completar 
a representação dos membros da sua família nos Painéis e, ao mesmo 
tempo, documentar a sua obra de cruzada contra os sarracenos 
tal como mais tarde faria, depois da tomada de Arzila, mandando 
executar as célebres tapeçarias existentes na igreja da colegiada de 
Pastrana, em Espanha. 

Assim, ordenou ao mesmo Nuno Gonçalves que havia executado 
o tríptico para o regente D. Pedro, o qual ele tinha ao seu serviço 
como pintor desde 1450, que pintasse novos painéis e os juntasse 
aos do tríptico de modo a no políptico resultante figurarem, além 



( x ) ...alguns tiveram que ele (o Infante D. Henrique) fora sempre mais 
inclinado à parte da Rainha que à do Infante (D. Pedro). Rui de Pina, Crónica 
d' El- Rei D. Afonso V, Lisboa, 1901, vol. I, pág. 34. 



311 

dos seus principais colaboradores e heróis da Cruzada, os amigos 
da rainha D. Leonor, sua mãe, que não constavam da representação 
nacional no tríptico por serem inimigos do Infante D. Pedro. 

Ordenou ainda ao seu pintor que o mais ilustre cruzado portu- 
guês contra os sarracenos, o Infante Santo D. Fernando, fosse figu- 
rado nos painéis como um guerreiro, pois a sua figura como um 
anjo não o representava com aspecto viril. 

Nuno Gonçalves resolveu estes problemas também duma 
maneira genial. 

Desta vez, o grupo dos fidalgos era o mais numeroso e impor- 
tante. Por isso, para o representar, o pintor escolheu um painel 
de tamanho igual ao do painel maior do Tríptico do Voto da 
Salvação das Almas, o qual, mesmo assim, não bastava para conter 
todas as personagens a figurar e, portanto, teve que pintar mais dois 
painéis de tamanho aproximado ao dos painéis laterais do Tríptico. 

Deste modo ficava salva a simetria: dois painéis iguais centrais 
e dois painéis mais estreitos de cada lado. 

Porém, a figura do anjo avultava no painel central do Tríptico 
e a simetria só poderia ser respeitada de uma maneira : repetindo-se 
essa figura. 

Afortunadamente, essa repetição resolvia outro problema que 
surgia: o de um lugar de honra, junto à figura principal, para o 
infante D. Henrique e para a infanta D. Isabel, duquesa de Borgonha. 

Mas, como salientou Kaftal, era contra todas as regras icono- 
gráficas repetir a figura principal ( 1 ). Também esta dificuldade foi 
brilhantemente afastada. Para a simetria, o que interessava, era 
que a nova figura central fosse «aproximadamente» igual à primeira. 
Então o pintor viu que podia nela figurar um diácono morto em 
fama de santidade e logo encontrou a figura do cardeal D. Jaime. 
Porém, para que no futuro não houvesse dúvidas de que se tratava 
de figuras diferentes, pintou um desenho para o tecido da dalmática 
do cardeal D. Jaime diverso do da dalmática do arcanjo São Miguel 
figurado pelo Infante Santo. 

Como a perspectiva dos ladrilhos do pavimento no Tríptico 
da Anunciação agora já não se ajustava à do conjunto do Políptico, 
o pintor teve que refazer o pavimento nos painéis da Pregação do 
Evangelho, da Defensão da Fé e da Dilatação da Fé. 

Mais verificou Nuno Gonçalves que algumas das personagens 
a figurar eram já falecidas. Por isso pintou num dos novos painéis 
laterais — o da Vida Eternal — somente defuntos, não tendo difi- 
culdade na escolha da figura para o primeiro plano visto o Rei 
D. Duarte, pai de D. Afonso V, haver já morrido. Este painel 



Q-) Adriano de Gusmão, O Nuno Gonçalves da Phaydon, pág. 28. 



312 

foi colocado do lado externo dos outros para que o paraíso envol- 
vesse a terra. Deste modo, o seu painel simétrico — o da Santa 
Glória, deveria ter, também, pelo menos algumas pessoas falecidas 
ou a sua representação. 

A dificuldade da escolha da figura para colocar no primeiro 
plano deste último painel foi resolvida sendo aí pintada a figura do 
falecido Infante D. Pedro, mártir de Alfarrobeira e cavaleiro de 
Cristo contra os infiéis. 

A figura do Infante Santo, como guerreiro, tinha, evidente- 
mente de ser pintada no painel do Tríptico do Voto da Salvação 
das Almas em que figuravam os cavaleiros. Houve pois que se 
aproveitar o único espaço livre existente neste painel onde fosse 
possível pintar uma figura: o então ocupado pelos mantos brancos 
dos cavaleiros do último plano. 

Havia ainda o problema de a Infanta D. Isabel, Frei João 
Álvares e o bispo D. Álvaro Afonso não se encontrarem em Portugal, 
pois a primeira há muitos anos tinha ido para a Borgonha, o segundo 
também estava junto dela nessa ocasião e o terceiro se encontrava 
em Florença desde a morte do cardeal D. Jaime. É de conjecturar 
que essas dificuldades fossem resolvidas pelo envio à Flandres e 
à Itália do pintor Vasco Fernandes que seria o escrivão do Rei 
D. Afonso V que lhe fez uma Carta em 3 de Junho de 1460 Q). 

A Duquesa D. Isabel teria sugerido a este pintor que pintasse 
também o livro (que ela possuiria) com a referência à nova figura 
principal do Políptico, o seu falecido sobrinho, o cardeal D. Jaime. 
Como o livro teria que ser segurado por alguém, Vasco Fernandes 
pintou, para esse efeito, a figura do cronista dos duques de Borgonha, 
Olivier de la Marche. 

Esta hipótese da actuação de Vasco Fernandes surgiu ao autor 
do presente trabalho por a sua assinatura estar no livro e por lhe 
parecer que os retratos do Painel da Santa Glória, com excepção 
da figura do falecido Infante D. Pedro são inferiores aos restantes 
do Políptico. 

Desta maneira foi levado a pensar que, talvez, o Doutor João 
Fernandes da Silveira não estivesse também então em Portugal, 
visto ser embaixador. 

Nuno Gonçalves quando, cerca de 1468, ultimou os painéis 
mandados fazer pelo Rei D. Afonso V, também «actualizou» algumas 
das figuras do Tríptico do Voto da Salvação das Almas. Assim, 
às faces de D. Pedro, de D. Jaime e de D. João, filhos do Infante 
D. Pedro, deu-lhes o aspecto das idades respectivas, que então tinha 



O João Martins da Silva Marques, Descobrimentos Portugueses, Suple- 
mente ao vol. I, pág. 364. 



313 

o primeiro, e à data da sua morte, o segundo e o terceiro, não se 
esquecendo de pintar de negro, a cor do traje eclesiástico, a gola 
do perpunto do cardeal D. Jaime. 

Outro problema a resolver foi o de a figura de D. Pedro, filho 
do Infante D. Pedro, ainda ter à cinta o estoque de condestável, 
cargo de que ele havia sido destituído em 1448. O pintor solu- 
cionou-o pintando por cima do corsalete vermelho que ela primiti- 
vamente vestia, o que se reconhece examinando nesse ponto o estalado da 
tinta ( 1 ), o peitoral duma armadura que iria encobrir o estoque. 
Para ser respeitada a simetria, houve que fazer o mesmo à figura 
de D. Jaime. 

O Políptico cuja feitura até agora reconstituímos teria perma- 
necido, sem mais modificações, no Paço da Alcáçova até que em 1483 o 
Príncipe D. Afonso, filho do Rei D. João II, voltou para a companhia 
de seus pais, por terem findado as terçarias de Moura. 

Tempos após a chegada do Príncipe a Lisboa, o Rei seu pai ter- 
-se-ia lembrado de o fazer figurar no Políptico completando-se nele, 
assim, a representação da família real. Chamaria então o seu pintor 
Afonso Gomes para resolver este problema. O pintor solucionou-o, 
aproveitando ò facto de existirem duas figuras do Rei D. Afonso V 
no Políptico, uma no Painel do Voto da Cruzada e outra no Pai- 
nel da Pregação do Evangelho podendo, portanto, apagar uma 
delas. 

Assim, a face do Rei D. João II foi pintada sobre a do seu pai 
D. Afonso V, no Painel da Pregação do Evangelho, e a face de 
D. João, quando menino, no Painel do Voto da Cruzada, cedeu o 
lugar à do Príncipe D. Afonso seu filho que então tinha oito anos de 
idade ou um pouco mais. 

Alguns anos mais tarde, em 1491, um brutal desastre roubou 
a vida ao Príncipe D. Afonso que então tinha 16 anos de idade, 
e seu pai, o Rei D. João II, quereria representá-lo no Políptico 
depois de morto, analogamente às figuras do Infante Santo e do 
Cardeal D. Jaime. Houve pois que pintar a sua face sobre a do 
Cardeal, o que se deduz da radiografia da face da figura principal 
no Painel do Voto da Cruzada, estudada pelo Dr. João Couto, assim 
como pelo documento encontrado na Biblioteca Nacional do Rio 
de Janeiro pelo Dr. Artur da Mota Alves. 

D. João II teria mandado pintar a face do seu filho sobre a 
figura central dos painéis maiores, com o fim de poder tê-lo nos 
altares, pois poderia facilmente ser apresentada como figurando 
S. Vicente, um jovem diácono. 



(') José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 92. 



314 

Assim, os painéis teriam sido enviados à Sé de Lisboa pelo 
Rei, por representarem uma adoração a S. Vicente pela Nação, 
sendo pois apropriada a sua colocação sobre o altar do santo situado 
na capela-mor do lado da epístola. 

Na • Sé, os painéis teriam sido separados (se é que estavam 
unidos em políptico) pois somente os dois maiores cabiam sobre 
a banqueta do altar de S. Vicente aí ficando encostadas e portanto 
em posição inclinada, do que resultou terem caído sobre eles pingos 
de cera das tochas do altar. 

Pelo documento do Rio de Janeiro sabe-se que em fins do 
século xvi, começos do século xvn, os dois painéis ainda estavam 
no altar de S. Vicente, na Sé, e que, pouco depois, foram daí tirados. 

No ano de 1742, o primeiro patriarca de Lisboa D. Tomás 
de Almeida, ordenou que várias pinturas antigas existentes na Sé 
fossem transferidas para o palácio da Mitra, em Marvila, o qual 
havia reedificado e aumentado Q) — e que nada sofreu com o terra- 
moto de 1755. Entre essas pinturas estavam, por certo, as do 
Políptico. 

Em 1834 o paço patriarcal foi instalado no antigo convento 
de S. Vicente de Fora, para onde, muito provavelmente, se trans- 
feriu tudo o que então havia no palácio da Mitra, incólume ao 
terramoto ( 2 ). 

Em 1882 o pintor Columbano, visitando o paço, aí encontrou 
os Painéis, tendo imediatamente reconhecido a figura do Infante 
D. Henrique. 

Os Painéis estavam ligados, os mais estreitos, dois a dois — o da 
Vida Eternal reunido ao da Santa Glória, o da Defensão da Fé ao 
da Dilatação da Fé, do que resultava, com os dois painéis mais largos, 
o do Voto da Cruzada e o da Pregação do Evangelho, um total de 
quatro pinturas ( 3 ). 

As tábuas na sua quase totalidade tinham sido repintadas. Depois 
de limpas do pó, a tinta apresentava um tom sujo, ordinário, bem 
longe da finura e transparência que caracteriza as tintas da época, 
e o vandalismo era mais evidente olhando os quadros de través. 
Os empastamentos eram então facilmente visíveis. As únicas cabeças 
que não tinham sido repintadas eram as dos dois monges que ocupam 
o segundo e terceiro plano do Painel da Vida Eternal (Duque 
de Bragança D. Afonso e Infante Santo). Mas só estas tinham esca- 
pado. As mãos dessas personagens tinham também sido vítimas 
das fúrias dos retocadores ( 4 ). 



Q) João Bautista de Castro, Mapa de Portugal, 3_ a ed., tomo III, pág. 93. 

( 2 ) Adriano de Gusmão, Nuno Gonçalves, «Colecção Saber», pág. 162. 

( 3 ) Ibidem, pág. 20. 

( 4 ) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 25. 



315 

No ano de 1909 o Cardeal Patriarca de Lisboa D. António 
Mendes Belo autorizou que os «Painéis» fossem reintegrados pelo 
pintor Luciano Freire na Academia Real de Belas Artes. 

Os «Painéis» foram fotografados antes de o pintor começar 
o seu tratamento. 

A pintura primitiva desaparecia sob os vernizes escurecidos 
e as repintadelas que, em mais duma época, lhe tinham sido apli- 
cadas ( x ). 

Pela limpeza dos painéis apurou-se o seguinte: algumas boas 
dezenas de anos depois de concluídas, as tábuas, tendo-se deteriorado, 
ou por causa dos terramotos ou por qualquer outra razão, foram 
restauradas por pessoa ainda educada na escola chamada primitiva. 
E esses restauros foram feitos com certo cuidado e critério. O fito 
é que seria hoje inaceitável, pois a preocupação de quem os realizou 
era indubitavelmente, consertar, iludindo. E não pode dizer-se 
que, por vezes, não tivesse conseguido o seu fim, porque, passado 
tanto tempo, a tinta ainda não se alterou. Os seus consertos, feitos 
sobre um preparo de cola e cré, são sobretudo reconhecíveis pela 
demasiada espessura e ainda pelas rugosidades que a tinta, nesses 
pontos, apresenta. Passando-lhes a mão, sente-se uma maior aspereza. 
Essa pintura, não tem, de resto, a firmeza e transparência da de 
Nuno Gonçalves ( 2 ). 

Luciano Freire não tocou nesses restauros. Deixou-os tais quais. 
Todos pequenos em extensão, são apenas os seguintes : no Painel do 
Voto da Cruzada, toda a boca e o olho direito da figura de mulher 
que ajoelha no primeiro plano, em frente de D. Afonso V (a Rainha 
D. Isabel), e a parte central da boca do Infante D. Henrique. No 
Painel da Pregação do Evangelho a parte média do punho do báculo 
e parte dos saios da cota de malha dos dois personagens que poisam 
no primeiro plano dessa tábua (o Rei D. Afonso V e o Príncipe 
D. Fernando). E é tudo o que resta deste primeiro e cuidadoso 
restauro ( 3 ). 

Mais tarde, e sem lhe fazerem a menor limpeza, o que foi 
talvez a sua salvação, pois os quadros certamente teriam saído muito 
maltratados desta perigosíssima prova, deram-lhes um verniz grosso, 
ordinário, cor de alcatrão, e isto feito tão inconscientemente, que, 
por baixo deste verniz, se encontraram grandes pingos de cera, 
o que é também prova de os quadros terem tido velas acesas, perto. 
Ora, este verniz escureceu no fim de pouco tempo e os quadros 
deviam, na verdade, apresentar, poucos anos depois, um aspecto 



(*) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 31. 

( 2 ) Ibidem, pág. 37. 

( 3 ) Ibidem, pág. 38. 



316 



bem desagradável, como se verificou quando se arrancaram as duas 
camadas de tinta que cobriam este arranjo Q). 

Então (e isto devia ter sido ainda no século xvn), para os apro- 
veitarem, entregaram-nos a outro restaurador, mas este, de pouco 
valor e, sobretudo, com o espírito mau da época, não compreendendo 
o sentimento especial das tábuas que era chamado a tratar, foi verda- 
deiramente desastrado, embora não vandálico, porque a pintura 
primitiva, defendida por uma dupla camada de verniz, continuou 
intacta. Achando um horror o que lhe era entregue, emendou e 
compôs a seu talante, retocando todas as caras e mãos e repintando 
por completo carnes, armaduras e trajes ( 2 ). 

Dessa época data também a transformação das quatro meias 
portas em dois quadros, o que é prova de que este segundo restauro 
foi feito posteriormente ao desmancho do retábulo, estando as tábuas 
já deslocadas das suas antigas molduras, quando foram entregues 
aos cuidados do restaurador. É isto o que explica o ele ter podido 
ver, naqueles quatro quadros, quatro metades de dois painéis idên- 
ticos aos dois maiores. Fez ligar, por isso, duas a duas, as quatro 
meias portas, com grossas cavilhas de ferro, que as seguravam, 
e isto em contraste com a ligação das outras travessas destas mesmas 
meias portas, todas cuidadosamente cavilhadas, da primitiva, com 
tornos de madeira. Nesta ocasião, foram ainda as tábuas, primitiva- 
mente de uma grande espessura, mondadas em metade ( 3 ). 

O último barbarismo que sofreram os quadros deve datar do 
começo do século xix e foi, certamente, obra de um curioso que, 
nas pinturas de Nuno Gonçalves, talvez sem fito algum, entreteve 
os seus ócios. Pintou de um extremo ao outro, brochando as partes 
cheias e as partes vazias, com o mesmo calor e entusiasmo ( 4 ). 

Reintegrados os «Painéis» ficaram em exposição no Museu 
Nacional de Arte Antiga dispostos, por opinião do Dr. José de 
Figueiredo, em dois trípticos, sendo um deles constituído pelos 
painéis da Dilatação da Fé, da Pregação do Evangelho e da Defensão 
da Fé, ou seja o Tríptico do Voto da Salvação das Almas, e o outro 
pelos painéis da Vida Eternal, do Voto da Cruzada e da Santa Glória. 
Na Exposição do Mundo Português, em 1940, os «Painéis», 
por determinação do Dr. Reinaldo dos Santos baseada na desco- 
berta de Almada Negreiros e José de Bragança, foram dispostos 
lado a lado, em políptico, tal como hoje os vemos no Museu Nacional 
de Arte Antiga. 



C) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, pág. 39. 

( 2 ) Ibidem. 

( 3 ) Ibidem. 

( 4 ) Ibidem, pág. 41. 



317 

A COMPOSIÇÃO DO POLÍPTICO 

Compor é a arte de organizar com sentido de unidade e 
ordem os diferentes factores de um conjunto para conseguir deste 
o maior efeito de atracção, beleza e emoção Q). 

Nas obras dos grandes mestres adivinham-se estruturas lineares 
e centros focais onde convergem linhas. É indiscutível que nenhum 
grande artista teve conhecimento dessas estruturas lineares e pontos 
focais. Todas essas qualidades geométricas foram ditadas instinti- 
vamente. Aqueles mestres situaram os seus elementos guiando-se 
por impulsos subconscientes que lhes marcavam uma ordem. As 
linhas construtivas que agora descobrimos e analisamos não foram 
nunca base nos estudos prévios, nem nos panos ou tábuas de que 
se serviram para plasmar as suas grandes obras ( 2 ). 

É indiscutível que nenhum mestre traçou, antes de pintar o 
seu quadro, o entrelaçamento linear das suas relações e que foi algo 
instintivo que as ditou. Mas como conheciam à perfeição a ciência 
da sua arte, foi o subconsciente que ordenou todos os elementos 
da sua obra, sem evidenciar os artifícios da sua formação. Se esta 
saltasse à vista, o quadro estaria mal composto. A máxima aparência 
de naturalidade e expontaneidade é o maior expoente de perfeição 
num conjunto bem ordenado ( 3 ). 

Tendo o autor do presente trabalho estudado a obra de S'Agaró 
que vem citando, procurou encontrar em reprodução fotográfica 
do Políptico, as linhas principais do seu conjunto. 

Com grande espanto verificou que as linhas de composição são 
evidentes e foram certamente traçadas por Nuno Gonçalves, antes 
da pintura dos painéis, visto passarem por pontos bem determinados, 
em regra os olhos ou a boca das figuras. 

Traçadas as linhas sobre a reprodução fotográfica do Políptico 
e prolongando-as no sentido da sua convergência verifica-se que 
provêm de dois pontos focais situados para cima e para fora dos 
ângulos superiores e extremos do Políptico e de outros dois pontos 
focais situados no prolongamento da linha média longitudinal dos 
dois painéis maiores. 

Dos dois primeiros pontos referidos irradiam para os painéis 
sete Unhas; dos dois pontos restantes irradiam onze linhas. 

Escreveu o Dr. José de Figueiredo que os quadros de Nuno 
Gonçalves «pecam apenas por má perspectiva aérea, e, num ou 
noutro ponto, por deficiente perspectiva linear». 



(*) J. de S'Agaró, Composicion Artística, «Las Ediciones de Arte», Barce- 
lona, 3- a ed., pág. 7. 

( 2 ) Ibidem, págs. 38 e 39. 

( 3 ) Ibidem, pág. 42. 



318 

Se nos recordarmos que este ilustríssimo crítico de arte estudou 
o Políptico ainda dividido em dois trípticos compreendemos a sua 
anotação de deficiências de perspectiva linear. 

Se, também, conforme o mesmo autor observou, dermos ao 
fundo dos painéis a cor azul que tinha primitivamente, logo se eviden- 
ciará o grupo de personagens com o devido relevo, destacando-se 
sobre o azul do céu. 

Defeitos, se os há, resultaram somente da dificuldade de pintar 
tantas figuras em espaço relativamente apertado e não de erros de 
técnica do pintor. 



IMPORTÂNCIA DO POLÍPTICO 



Do esclarecimento do significado do Políptico e da identifi- 
cação das personagens nele representadas resultaram muitos conhe- 
cimentos de especial relevância para a história de Portugal e alguns 
mesmo para a história da cultura mundial. 

O Políptico constitui um documento de valor inestimável sobre 
a motivação dos Descobrimentos, factor que, mais que qualquer 
outro, contribuiu para o progresso cultural da humanidade. 

Nenhuma nação, Portugal exceptuado, possui uma galeria de 
maravilhosos retratos dos seus antepassados do século xv. 

Somente a este pequeno país deu a providência divina o galardão 
de poder venerar aquele estupendo conjunto de figuras de apóstolos 
e defensores da Fé, doutores e mareantes descobridores do mundo 
ignoto, que há cinco séculos viveram e nos olham como se agora 
existissem. 

Sendo inúmeras as deduções tiradas do estudo do Políptico, 
o autor limitar-se-á a esboçar, a seguir, um apanhado das mais impor- 
tantes segundo o seu parecer, ordenando-o quanto às histórias da 
civilização, de Portugal e da arte. 

CONSEQUÊNCIAS PARA A HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO 

A motivação dos descobrimentos das terras desconhecidas 
residiu, principalmente, na profunda religiosidade dos portugueses 
do século xv, a qual os levou a procurar os pagãos, habitantes do 
mundo ignoto, para lhes salvar as almas pelo baptismo e na tenta- 
tiva de enfraquecer o poderio dos turcos otomanos, formidável 
ameaça para a Cristandade, pela eliminação dos lucros provenientes 



319 

do seu monopólio do comércio das especiarias e sedas feito por via 
terrestre. 

A descoberta de um caminho marítimo para a índia, contornando 
a África, destruiria o monopólio comercial das especiarias que estava 
nas mãos dos turcos, pois elas assim poderiam vir directamente 
para a Europa, sem intermediários, depois de negociadas nos locais 
de origem. 

Deste modo, o poder económico dos inimigos da Fé seria 
transferido para os cristãos dela defensores. 



CONSEQUÊNCIAS PARA A HISTÓRIA DE PORTUGAL 

Os Descobrimentos Portugueses foram obra de toda a nação 
firmemente unida pela Fé de Cristo. 

A planificação desta empresa, sobre-humana para tão pequeno 
país, só poderia ser concebida por alguém que possuísse especiais 
conhecimentos adquiridos em viagens de estudo que lhe dessem uma 
visão global razoável dos problemas a solucionar para manter a 
vida da nação. Essa visão, evidentemente, não poderia ser adqui- 
rida no âmbito extraordinariamente restrito do Portugal de então. 

Não será pois forçado o admitir-se que o Infante D. Pedro, 
culto viajante e minucioso observador das riquezas das repúblicas 
italianas conseguidas através do comércio com os infiéis e, por outro 
lado, conhecedor por experiência própria do poderio militar destes, 
fosse o cérebro planeador e a vontade incentivadora da obra dos 
descobrimentos, cabendo ao Infante D. Henrique a responsabilidade 
da organização e direcção da execução deste arrojadíssimo plano. 

Assim, D. Pedro pretendeu conseguir a expansão territorial 
e económica de Portugal através da descoberta de novas terras, do 
seu povoamento quando não eram habitadas e do comércio com 
os seus habitantes, no caso contrário. 

De facto, no Tríptico do Voto da Salvação das Almas, o painel 
lateral colocado no lugar de honra, isto é, à direita do painel maior, 
estão representados os cavaleiros-mercadores, «mantedores» da 
nação, e os povoadores das ilhas da Madeira e dos Açores, não menos 
úteis para a economia do reino. 

O Infante D. Henrique dedicou-se, sobretudo, à obra de expansão 
pela conquista dos territórios ocupados pelos sarracenos. 

Assim, no Tríptico do Voto da Salvação das Almas, que prin- 
cipalmente simboliza a expansão pelos descobrimentos marítimos, 
não figura o Infante D. Henrique, o qual vem a aparecer no Painel 
do Voto da Cruzada inteiramente dedicado a perpetuar os feitos 
guerreiros dos portugueses na cruzada contra os mouros. 



320 

Pelos documentos que nos restaram vemos que as navegações 
dos descobrimentos, até à Guiné, foram na sua maioria organizadas 
pelo Infante D. Henrique, mas pararam, praticamente, depois da 
saída do governo da nação do Infante D. Pedro, só sendo retomadas, 
com intensidade, no reinado de D. João II. 

É de pensar pois que ao Infante D. Henrique as navegações 
interessavam especialmente para atingir os lugares em que se comer- 
ciava o ouro porque este precioso metal vinha então para a Europa 
transportado em caravanas até ao norte de África, onde os vene- 
zianos o compravam aos muçulmanos. 

Ora, como o Infante sabia por informações que tinha tirado 
serem os lugares próximos das origens do rio Nilo aqueles em que 
havia ouro, as suas empresas de navegações pararam ao ser atingido 
o rio Senegal pois então se julgou ser ele um braço do Nilo. 

Desejava D. Henrique riquezas para seu proveito? Não. Morreu 
com dívidas tendo feito uma vida muito simples e até desconfor- 
tável pois não há memória de qualquer alojamento mais que modesto 
onde se saiba ter vivido. 

D. Henrique ambicionava o ouro por ele ser «o nervo da guerra» 
que lhe permitiria aniquilar os inimigos da Fé de Cristo. 

O Políptico vem pois dar razão ao que José de Bragança já 
havia deduzido pela análise da «Crónica da Guiné»: D. Pedro fez 
uma política de expansão baseada numa mentalidade comercial 
-marítima ao passo que D. Henrique, seguiu uma política guerreira- 
-territorial ( x ). 

É incalculável o valor do Políptico como documento icono- 
gráfico para a história de Portugal do século xv. 

Com efeito estão nele as 56 figuras de maior relevância na vida 
da nação, nos segundo e terceiro quartéis desse século, não faltando 
uma só. 

Aí vemos os reis D. Duarte, D. Afonso V e D. João II, todos 
os filhos do Rei D. João I (a ínclita Geração), os três primeiros 
duques de Bragança e as personagens mais representativas do clero 
e da nobreza, letrados e cidadãos — mareantes dos descobrimentos, 
guerreiros, doutores, clérigos, altos dignitários. 

Lá está a verdadeira efígie do Infante D. Henrique, agora 
seguramente identificada, não havendo possibilidade de se poder 
ver nela outras personagens. 

Lá está a prova de que o povoador da ilha da Madeira se 
chamava João Gonçalves, tendo adoptado o glorioso apelido de 
«Zargo» depois de ter perdido a vista do olho esquerdo devido a 



C 1 ) Vitorino de Magalhães Godinho, Documentos sobre a Expansão Portu- 
guesa, vol. II, pág. 133. 



321 

um ferimento sofrido em combate na tentativa da conquista de 
Tânger, 

Pela presença de Gonçalo Velho se deduz que foi o seu 
feito de ultrapassar o Cabo Não que teve toda a retumbância nos 
descobrimentos e não o de Gil Eanes ao passar o Cabo Bojador. 
Seria um nunca acabar se o autor tentasse no presente trabalho 
lembrar o interesse da representação dessas personagens no Políptico, 
para as localidades onde nasceram, viveram ou morreram ou de que 
foram senhores ou prelados, para as famílias que com elas têm 
parentesco e para a história dos feitos em que participaram. 

Falemos, pois, somente em algumas das figuras. 

Para a história da Igreja encontramos: dois cardeais (D. Jaime 
de Portugal e D. Jorge da Costa); quatro arcebispos de Lisboa 
(D. Pedro de Noronha, D. Afonso Nogueira, D. Jaime e D. Jorge 
da Costa); cinco bispos (D. Álvaro de Abreu, D. João Vicente, 
D. João Manuel, D. Rodrigo de Noronha e D. Álvaro Afonso); 
e dois dos fundadores da primeira congregação inteiramente nacional, 
isto é, sem sujeição a ordens estrangeiras (os sacerdotes João Vicente 
e Afonso Nogueira). 

Para a história das casas reais da Europa e das famílias de 
Portugal encontramos: os reis D. Duarte, D. Afonso V e D. João II; 
o Infante D. João; os três primeiros duques de Bragança (D. Afonso, 
D. Fernando I e D. Fernando II); o marquês de Valença D. Afonso; 
o conde de Avranches D. Álvaro de Almada; os segundo e terceiro 
condes de Vila Real (D. Fernando de Noronha e D. Pedro de 
Meneses); o conde de Odemira D. Sancho de Noronha; o primeiro 
conde de Atouguia D. Álvaro de Ataíde; o conde de Viana D. Duarte 
de Meneses; o conde de Valença D. Henrique de Meneses; o primeiro 
barão de Alvito D. João da Silveira; e Gonçalo Velho, Martim de 
Távora, Aires Gomes da Silva, etc. 

Para a história da cultura em Portugal no século xv encon- 
tramos : o professor de medicina na universidade de Lisboa e primeiro 
físico-mor do reino Mestre João (futuro bispo D. João Vicente); 
o que foi reitor e mestre de leis na mesma universidade, o doutor 
«in utroque jure» Diogo Afonso, por alcunha o «Manga-Ancha», 
o qual era o maior teólogo e orador daquele século ( x ) ; o Mestre 
de cânones na universidade de Salamanca, Vasco Rodrigues; o licen- 
ciado em teologia, Jorge da Costa; o mestre da cadeira de prima 
de teologia da universidade de Lisboa, D. João Manuel; o doutor 
«in utroque jure» pela universidade de Bolonha, Afonso Nogueira; 
o mestre em leis pela mesma universidade, doutor Nuno Gonçalves; 



(*) Francisco José Freire, Memórias para a História de D. João I, Livro 1. 
pág. 275. 



322 

o doutor em leis, João Fernandes da Silveira; o pintor Nuno 
Gonçalves equiparado por Francisco de Holanda, a Miguel Ângelo, 
Leonardo da Vinci e a Rafael; os escritores, Rei D. Duarte, Infante 
D. Pedro e o seu filho D. Pedro; o Rei D. Afonso V que mandou 
organizar uma biblioteca no seu paço da alcáçova; o Infante 
D. Henrique e D. Rodrigo de Noronha, protectores da universi- 
dade de Lisboa, etc. 



CONSEQUÊNCIAS PARA A HISTÓRIA DA ARTE 

Conforme se depreende do retrato de Nuno Gonçalves no 
Painel do Voto da Cruzada, ele nasceu cerca de 1403 sendo, portanto, 
contemporâneo de Van der Weyden nascido cerca de 1400. 

Nuno Gonçalves teria pois à roda de 27 anos, em 1430, quando 
a Infanta D. Isabel partiu para a Borgonha. Já tinha idade, portanto, 
para ter adquirido uma técnica razoável da arte da pintura. 

Na Flandres teria todas as possibilidades de estudar os processos 
de pintura aí praticados, colhendo ensinamentos preciosos para aper- 
feiçoar a sua técnica. 

As afinidades que lhe têm sido notadas com Van der Weyden 
não resultaram pois de ter sido seu discípulo visto que, além de 
serem contemporâneos, este pintor só obteve o título de mestre 
em Agosto de 1432. 

Assim, somos levados a supor que Van der Weyden e Nuno 
Gonçalves se encontraram na oficina de Robert Campin, em Tournai, 
onde se aperfeiçoaram na arte. 

Se ainda houvesse dúvidas acerca da afirmação de Tolnay de 
que Robert Campin foi o verdadeiro fundador da escola flamenga Q, 
a identificação de Nuno Gonçalves como seu discípulo' e colega de 
Van der Weyden e de Jacques Daret bastaria para as dissipar, tanto 
mais que várias obras de Campin precedem as de Jean Van Eyck, 
sobre as quais exerceram uma influência certa ( 2 ). 

Do até agora exposto se deduz que Nuno Gonçalves não pode 
ter sofrido influência artística de Van der Weyden, nem de Konrad 
Witz, recebido na corporação de pintores de Basileia, em 1434 ( 3 ), 
e muito menos de Thierry Bouts (nascido em 1420) ou de Antonello 
da Messina (nascido cerca de 1430), ou de Memling (nascido cerca 
de 1433) ou de Van der Góes, que obteve o título de mestre em 1467, 
ou de Luca Signorelli (nascido em 1450). 



0) Jacques Lassaigne, De Van Eyck a Boticcelli; «Edições Skira», 1955, 

P á g- 37- 

( 2 ) Ibidem. 

( 3 ) René Huyghe, A Arte e a Alma, pág. 285. 



323 

Notou o Dr. João Couto a semelhança de várias cabeças pin- 
tadas no painel da «Madona dei Rosário» por Jacobello da Messina, 
filho e discípulo de Antonello da Messina, com algumas do 
«Políptico» 

O Dr. Belard da Fonseca também encontrou semelhança no 
desenho do «Condottiere» de Antonello da Messina, executado em 
1475, com duas personagens do «Políptico» ( 2 ). 

Mas, o que mais impressiona no painel da «Madona dei Rosá- 
rio», é a sua composição, com as cabeças dispostas em linhas oblí- 
quas, tal como no «Políptico». 

Assim, não será de afastar a hipótese de Antonello da Messina 
ter sido discípulo de Nuno Gonçalves dentro do período decorrido 
de Abril de 1457 a Janeiro de 1460, em que esteve ausente da sua 
cidade natal. 

Poderemos conjecturar que Antonello tivesse sido recomen- 
dado ao rei D. Afonso V de Portugal pelo seu tio e homónimo 
o Rei de Aragão, Nápoles e Sicília, o qual faleceu em 1458 e foi 
«mecenas de todos os artistas e literatos» ( 3 ), merecendo o cognome 
de «Magnânimo». 



C 1 ) António Belard da Fonseca, O Mistério dos Painéis — Os Pintores, 

pág- 5- 

( 2 ) Ibidem, pág. 7. 

( 3 ) Augustin Blánquez Fraile, Historia de Espana, Barcelona, 1943, 
pág. 173. 



APÊNDICE 



CARTA DE NOMEAÇÃO DE NUNO GONÇALVES 
PARA PEDREIRO DAS OBRAS REAIS 

Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber 
que nuno gonsalluez pedreiro que foy dei Rej meu senhor e padre 
cuja alma deus aja nos mostrou hu privyllegio que tynha do dicto 
Senhor do qual o teeor tal he. Dom Eduarte etc. A quantos esta 
carta uirem fazemos saber que nos tomamos ora por nosso pedreiro 
nuno gonsalluez morador em a cidade de lixboa pêra nos auer de 
laurar nossas obras quando lhe for da nossa parte / mandado e 
Requerido. / E queremos e mandamos / que elle seja escusado 
daquy en diante de pagar em nhuus nossos pididos nem peitas nem 
em fintas nem em talhas nem seruyços nem emprestidos nem em 
outros nhuus encarregos que per nos nem per os concelhos sam 
ou forem lançados per qualquer guisa. / Nem seja tetor nem curador 
de nhuas pesoas / nem aja nhuu encarrego nosso nem dos concelhos 
/ contra seu tallante. / Nem seja beesteiro do conto nem posto em 
vyntena do mar. / E sse o for que seja logo tirado nem tenha cauallo 
nem armas nem beesta de garrucha posto que tenha contia per que 
o aja de teer. Nem outrosy pousem com ell em suas casas de morada 
nem adegas nem cauallariças / nem lhe tomem pam nem vinho 
nem lenha nem Roupa nem palha nem gallinhas nem gaados nem 
beestas de scella nem dalbarda / nem outra nhua cousa de seu contra 
sua uontade nem sirua nem uaa servyr per mar nem per terra a 
nhuas partees que sejam / saluo comnosco per pessoa / ou cada 
huus de meus Irmaãos. / E nom com outra nhúua pessoa / E porem 
mandamos / A todollos corregedores e Juizes e Justiças E alcaides 
e meerinhos E apousentadores nossos E da Rainha mynha molher 
E dos Ifantes meus filhos e de meus Irmaãos E aos que esto pertencer 
que lhe comprem e guardem e façam comprir e guardar esta nossa 
carta em todo pella guisa que em ella he contheudo / Se nom sejam 
certos os que contra ello forem que lho estranharemos grauemente 
nos corpos e nos aueres como aquelles que nom fazem mandado 
de seu Rej e Senhor. Outrosy nossa merçee he quell aja de teença 



326 

em cada hú ano des primeiro dia de Janeiro que vem da Era 
de iiijc e xxxbij anos em diante noue mil libras E porem mandamos 
ao n(o)sso thesoureiro moor da dita cidade de lixboa E aos 
escripuaaes do dicto oficio E a outros quaeesquer que depôs veerem 
per nossos thesoureiros moores que dos dinheiros das Rendas que 
por nos Recebestes ou Receberdes lhe dem e paguem em cada hú 
ano desto dicto primeiro dia de Janeiro en diante as dietas noue 
myll libras que asy de nos ham dauer da dieta teença E como lhe 
pagardes os dictos dinheiros cobraae o trellado desta carta E estro- 
mento de confisom E mandamos aos nossos contadores que nollos 
Recebam asy em despesa E ell tenhaa pêra sua guarda Umde ali 
nom façades dada em torres uedras xxx dias dagosto diego lopez 
de Rijo a fez Era de mil e iiijc e xxxbj anos. A qual carta asy apresen- 
tada o dicto nuno gonçalluez nos pidio por merçee que lha confir- 
masemos E mandasemos guardar E visto seu Requerimento / nos 
praz dello. / E Porem mandamos a todollos corregedores juizes 
e Justiças a que esta carta for mostrada que lha compraaes e aguardees 
e façaaes comprir e guardar como em ella he contheudo E aasy he 
nossa merçee de lha confirmarmos E em outro nhuu embargo que 
huus e outros a ello ponhades Unde ali nom façades dada em a 
cidade de lixboa xxiij dias de feuereiro El Rej o mandou com auto- 
ridade da Senhora Rainha sua madre como sua tetor e curador 
que he E com acordo do Ifante dom pedro seu tyo defensor por ell 
de seus Regnos e Senhorio afomso esteuez de beja a fez Era de 
myl e iiijc e xxxix anos. 



N. T. T. — D. Afonso V—L. i 9 , fl. g . 



«ACHADOS», NÃO RELACIONADOS DIRECTAMENTE 
COM O POLÍPTICO, RESULTANTES DO PRESENTE 

ESTUDO 



A ABÓBADA DOS NÓS DA SÉ DE VISEU 

O significado simbólico da belíssima abóbada dos nós 
da Sé de Viseu deduz-se do capítulo xrv da «Crónica de 
D. Duarte» Q-). 

«Com a licença que o Infante teve d'El-Rei para passar, foi 
mui alegre, ca depois que foi no primeiro descerco de Ceuta, em 
que o Infante D. João seu irmão foi com ele, sempre seu coração 
foi guerreado do desejo de tornar em África, e ainda por este propó- 
sito que ele atou em sua alma com firmes nós de muita fé, afirmou 
que mudaria seu acostumado sinal em três letras, que diziam I. D. A. ; 
porque, por parte significassem seu nome, a saber, Infante 
D. Anrique, e todas juntas declarassem a ida em África que sempre 
desejava». 

Os nós da abóbada da catedral de Viseu não são pois o produto 
da fantasia de quem a arquitectou. Simbolizam a Fé atada na alma 
por firmes nós, ou seja, a Fé profunda e bem segura. 



A DIVISA DO MARQUÊS DE VALENÇA 

No topo fundeiro da arca tumular do marquês de Valença 
D. Afonso existente na cripta da igreja da colegiada da Vila Velha 
de Ourém — diz Vieira Guimarães ( 2 ) — «salienta-se a tenção ou 
empresa do morto que dois enigmáticos guindastes, levantando uma 
torcida fita gravada de quatro letras, formam. Não podemos, é certo, 



Q) Rui de Pina, Crónica a"El-Rei D. Duarte, Biblioteca de Clássicos 
Portugueses, Lisboa, 1901, pág. 66. 

( 2 ) Vieira Guimarães, Três Mestres da Ordem de Cristo, pág. 227. 



328 

hoje saber o pensamento que levou D. Afonso a escolher o guindaste 
para sua empresa, pois ele não o deixou esclarecido...» 

O «Guia de Portugal» Q) refere-se à estátua jacente nos seguintes 
termos: «Repousa-lhe a cabeça, de cabeleira longa e barrete mole, 
segundo a moda da segunda metade do século xv, sobre duas almo- 
fadas. Enverga uma longa opa, que o envolve todo até aos pés. 
A tampa sepulcral sobre que o vulto assenta dir-se-ia uma colcha 
rica, toda bordada a rosas. Os pés da afilada calçadura assentam 
sobre lavrada mísula. E a face glabra, envolta nas madeixas, sabia- 
mente esculpidas, respira nobreza, finura e orgulho satisfeito. 
O túmulo ostenta ainda na cabeceira os escudos de armas do marquês 
e no topo fundeiro a sua misteriosa divisa formada por dois guin- 
dastes». 

Quem visitar o castelo de Ourém verificará que os seus portais 
se fechavam com duas portas de madeira, uma de gonzos e outra 
de guilhotina, o que se deduz por existirem, por cima dos portais, 
as fendas em que deslizavam as portas de guilhotina. 

Julga o autor do presente trabalho que este facto é único em 
todos os castelos de Portugal e, portanto, seria somente no de Ourém 
que havia guindastes destinados a movimentar as suas portas de 
guilhotina, dois para cada porta. 

As quatro letras gravadas na fita que está presa às cordas dos 
guindastes lêem-se, à primeira vista, como sendo as da palavra AUIZ 
(com um u e não com um v como hoje se escreve). 

Assim podemos interpretar a empresa do marquês de Valença 
D. Afonso como a simbolização da sua tenção de exalçar a família 
de Avis. 

O PAINEL DE «SANTA CATARINA E UM DOADOR» 
DO MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA 

O conde de Raczynski ( 2 ) identificou, em 1 846, as duas figuras 
deste pequeno painel como uma princesa de Portugal e o Cardeal 
de Alpedrinha. A princesa não poderia ser outra senão a Infanta 
D. Catarina, pois tem os atributos da santa desse nome. 

Desconhecia-se quem tinha pintado este painel, sendo vero- 
símil para o Professor Reinaldo dos Santos ( 3 ), que nele tivesse inter- 
vindo, como parceiro de Cristóvão de Figueiredo, o pintor Garcia 
Fernandes. 



C 1 ) Guia de Portugal, Biblioteca Nacional de Lisboa, tomo II, pág. 501. 

( 2 ) Comte A. Raczynski, Les Arts en Portugal, Paris, 1846, págs. 152. 
(nota 227). 

( 3 ) Reinaldo dos Santos, Oito Séculos de Arte Portuguesa, vol. I, pág. 108. 



329 

Grande prazer teve pois o autor do presente trabalho quando 
encontrou numa petição de Garcia Fernandes dirigida ao Rei 
D. João III a referência de que este rei lhe havia mandado fazer obras 
em Coimbra, em São Francisco de Évora, em Leiria, em Montemor, 
para a índia, e no retábulo de Santo Elói de Lisboa ( x ). 

O retábulo de Santo Elói era, certamente, o existente na capela 
da Senhora da Glória da igreja do convento de Santo Elói e da qual 
o Padre Francisco de Santa Maria diz o seguinte ( 2 ) : «A outra 
capela ... é dedicada à Senhora da Glória, que se festeja em dia da 
Assunção ... O retábulo dela é de pintura antiga e excelente. Ali, 
se estão vendo retratados ao natural a Infante D. Catarina e o Cardeal 
D. Jorge. Sobre o altar se vê embebido no retábulo o trânsito da 
Senhora e os Apóstolos assistindo, tudo de talha e muito bem 
obrado. No altar se vê a imagem da Senhora subindo ao Céu, mui 
formosa e perfeita». 

No prólogo do livro traduzido do latim pela Infanta D. Cata- 
rina ( 3 ), na página 7 da edição de 1791, lê-se: «O retrato desta Infanta 
ao natural se vê ainda hoje na figura de Santa Catarina, Virgem e 
Mártir que está pintado no banco da capela da Assunção». 

Henrique Loureiro explica-nos ( 4 ) que o banco ou banqueta de 
altar é aquele ressalto onde se colocam os castiçais com o crucifixo 
ao centro. Ora, as dimensões do painel do Museu Nacional de 
Arte Antiga correspondem à frente duma banqueta de altar. 

Sobre a banqueta assentava o retábulo ( 5 ). 

Assim se deduz que o painel era uma predela do painel da 
Assunção e como tal o classifica Luís Reis Santos ( 8 ). Foi pintado 
por Garcia Fernandes durante o reinado de D. João III (depois 
de 15 21) e as figuras que nele se vêem são os retratos da Infanta 
D. Catarina e do cardeal D. Jorge da Costa. 

A AUTORIA DOS PAINÉIS DE MONTEMOR-O-VELHO 

Ao ler a petição de Garcia Fernandes acima mencionada notou 
o autor o facto de ele ter executado obras para Montemor. 

Ora, Luís Reis Santos ( 7 ) havia descoberto as letras M e N 
nuns painéis existentes em Montemor-o-Velho atribuindo-os, por 
isso, ao pintor Miguel Nunes. 



Q) Sousa Viterbo, Notícia de Alguns Pintores, i. a Memória, pág. 59- 

( 2 ) Padre Francisco de Santa Maria, O Ceo Aberto na Terra, Lisboa, 1697, 
pág. 437. 

( 3 ) Henrique Loureiro, O Políptico do Convento de Santo Elói, pág. 58. 

( 4 ) Ibidem. 

( 5 ) Ibidem. 

( 6 ) Luís Reis Santos, Estudos de Pintura Antiga, pág. 72. 
(') Ibidem, págs. 3 e seg. 



330 



Teve então o autor do presente trabalho a ideia de procurar 
outras letras na figura número 7 do magnífico livro de Reis Santos, 
examinando-a com uma lente. 

Assim encontrou os dois monogramas seguintes: 



(Ae V) 



Decomposto o monograma yK mostra as letras À e X/* 




O monograma M, decompõe-se nas letras Qí (r), > 
(G), Y (/) e s, que dão o nome de Garcia Fernandes (G. frs.). 



Os painéis de Montemor-o- Velho poderão ser pois atribuídos 
a Garcia Fernandes tendo como colaboradores os pintores Miguel 
Nunes e Álvaro Vieira que morava em Lisboa em 1 5 20 na Rua das 
Esteiras ( x ) ou António Vaz ( 2 ), de que há referências em documentos 
datados de 1537 a 1563. 



C 1 ) Vergílio Correia, Pintores Portugueses dos Séculos XV e XVI, pág. 90. 
( 2 ) Luís Reis Santos, Vasco Fernandes e os Pintores de Viseu do Século XVI, 
pág. 29. 



ALGUNS LIVROS EXISTENTES NO MERCADO 
ÚTEIS PARA O ESTUDO DO POLÍPTICO 



J. de S'Agaró — Composicion Artística. Las Ediciones de Arte — Barcelona, 
Frei João Álvares • — Trautado da Vida e Feitos do Muito Vertuoso S.or Infante 

D. Fernando. Coimbra. Por ordem da Universidade. 
Afonso Botelho — Estética e Enigmática dos Painéis. Ed. «Cidade Nova». 
P. e António Brásio — A Acção Missionária no Período Henriquino. «Colecção 

Henriquina». 
Costa Brochado — Infante D. Henrique. Editorial Império. 
Mário Domingues — O Infante D. Henrique. Ed. Romano Torres. 
Mário Domingues — O Regente D. Pedro, Príncipe Europeu. Empresa Naciona 

de Publicidade. 1 

António Belard da Fonseca — O Mistério dos Painéis — O Cardeal D. Jaime 

de Portugal. Livraria Bertrand. 
Vitorino Magalhães Godinho — Documentos sobre a Expansão Portuguesa. 

3 vols. Ed. «Cosmos». 
Vitorino Magalhães Godinho — A Economia dos Descobrimentos Henriquinos. 

Livraria Sá da Costa. 
Adriano de Gusmão — Nuno Gonçalves. Col. «Saber». 
Johan Huizinga — O Declínio da Idade Média. Livros Pelicano. 
Myron Malkiel Jirmounsky — Pintura à Sombra dos Mosteiros. Ed. Ática. 
Francisco Fernandes Lopes — A Figura e a Obra do Infante D. Henrique. 

Portugália Editora. 
Dr. Newton de Macedo — História de Portugal, II vol. Lello & Irmão. 
J. T. Montalvão Machado — Dom Afonso Primeiro Duque de Bragança. 

Livraria Portugal. 
A. H. de Oliveira Marques — A Sociedade Medieval Portuguesa. Livraria 

Sá da Costa. 
J. P. Oliveira Martins — Os Filhos de D. João I. Guimarães & C. a Editores. 

Lisboa. 
Vitorino Nemésio — Vida e Obra do Infante D. Henrique. «Colecção Henriquina». 
P. e Miguel de Oliveira — História Eclesiástica de Portugal. União Gráfica. 

Lisboa. 
Damião Peres — História dos Descobrimentos Portugueses. «Colecção Henriquina». 
Elaine Sanceau — Castelos em Africa. Companhia Editora do Minho. Barcelos. 
Elaine Sanceau ■ — D. Henrique, o Navegador. Livraria Civilização. 
Elaine Sanceau — D. João II. Livraria Civilização. 
Frei Carlos de Villapadierna — Os Quatro Evangelhos e Actos dos Apóstolos. 

Difusora Bíblica. 
Frei Carlos de Villapadierna — Cartas de S. Paulo. Difusora Bíblica. 



Nenhum país possui em pintura uma síntese mais nacional, 
mais poderosa e mais bela do que esta que os painéis de S. Vicente 
representam para nós. Por uma dessas coincidências que o destino 
poucas vetçes prepara, no momento em que a alma portuguesa, 
vibrante de unidade, pródiga de esforço, isenta de cansaço e de 
crimes, desabrochava na sua mais alta floração, um mestre de 
génio, um retratista dotado com as mais altas qualidades que 
formam um pintor, fixou-a na sua mais grave, mais simples, 
mais portuguesa atitude de modo que nós contemplamos a mais 
bela imagem da Pátria quando contemplamos estas tábuas sagradas. 

É preciso impor ao espírito nacional estes painéis como 
uns novos «Lusíadas», menos deslumbrantes do sol mitológico da 
renascença, mas mais próximos por isso do coração palpitante 
da grei; um evocador e maravilhoso poema composto com figuras 
humanas — avós que nos enchem de orgulho e nos concedem ainda 
um pouco da sua calma contida e fremente; belos antepassados 
que nos olham com tristeza, mas também com alguma daquela 
esperança com que pela Pátria sofreram e amaram. 

AFONSO LOPES VIEIRA 



...E a Vós sobreexcelente Senhora, misericordiosa rainha dos 
céus e imperial princesa do mundo, a que oram as puras criaturas, 
levanto meu entender com afeição humildosa, porque sou certo 
da obrigação em que Vos sou teúdo mui singularmente. E pois de 
Vós recebi avondança porque se cumpriu aqueste trabalho, a Vós 
ofereço desejosamente aquelas graças em que sou devedor. 

O Livro da Virtuosa Bemfeitoria, do Infante D. Pedro 



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O nome de Gonçalo Anes, no Painel de S. Miguel do Museu do Prado: G. Anes. 



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Os nomes de Nuno Gonçalves e do Infante D. Pedro, no Painel de S. Miguel 
do Museu do Prado: t\^Y S^ (onçalves) triedro) 



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339 




Fig. 1 — O Rei D. Duarte no Políptico. 



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Fig. 2 — Busto do Rei D. Duarte 
no Palácio Fronteira. 





Fig. 3 — O 1.° Duque de Bragança 
no Políptico. 



Fig. 4 — O 1.° Duque de Bragança 
na «Iconografia lusitana» 



341 





Fig. 5 — O Infante Santo no Painel 
da Vida Eternal. 



Fig. 6 — O Infante Santo num códice 
do Vaticano. 





Fig. 7 — Retrato de João Gonçalves Zargo existente 
no palácio de S. Lourenço no Funchal. 



Fig. 8 — João Gonçalves Zargo 
no Políptico. 



343 




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Fig. 9 — A Rainha D. Isabel no Políptico 

(antes do restauro). 



Fig. 10 — A Rainha D. Isabel numa gravura. 



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Fig. 11 — O Rei D. Afonso V no Painel 
do Voto da Cruzada. 



Fig. 12 — Busto do Rei D. Afonso V no 
Palácio Fronteira. 



345 




Fig. 13 — O Infante D. Henrique no 
Políptico. 



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Fig. 14 — O Infante D. Henrique 
numa gravura inglesa. 




Fig. 15 — A face da estátua jacente do 
Infante D. Henrique no mosteiro da Bata- 
lha, pintada por Louis Dumont. 



347 









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Fig. 16 — Radiografia da cabeça da fig. (19) do Políptico. 




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Fig. 17 — O Marquês de Valença 
no Políptico. 



Fig. 18 — Cabeça da estátua jacente do Mar- 
quês de Valença na Vila Velha de Ourém. 



349 




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Fig. 19 — D. Fernando, 2.» Duque de 
Bragança, no Políptico. 



Fig. 20 — D. Fernando, 2.° Duque de 
Bragança, numa gravura. 




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p; gt 21 — D. Fernando, 3.° Duque de 
Bragança, no Políptico. 



Fig. 22 — D. Fernando, 3.° Duque de 
Bragança, numa gravura. 



351 





Fig. 23 — A face de D. João II na íig. (31) 
do Políptico. 



Fig. 24 — D. João II, nas «Anacephaleoses> , 





Fíg. 25 — A face de D. João II 
no Painel da Pregação do Evangelho. 



Fig. 26 — A face do S. Brás de Évora, 
inclinada para cofronto. 



353 



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Fig. 27 — A Rainha D. Leonor de Aragão, 
mãe do Príncipe D. Fernando. Obs. : Notar 
a forma inestética do nariz. 





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Fig. 28 — Condestável e Mestre de Aviz, 
D. Pedro. 



Fig. 29 — D. Pedro no retábulo da Adora- 
ção dos Magos, em Barcelona. 



23 



355 




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Fig. 30 — D. Jaime, filho do Infante 
D. Pedro. 



Fig. 31 — Retrato de D. Jaime, existente 
em XJpton House (Inglaterra), identifi- 
cado pelo arquitecto José Cortez. 



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Fig. 32 — Medalha do Cardeal D. Jorge Fig. 33 — A face da estátua jacente do 

da Costa. túmulo do Cardeal D. Jorge da Costa. 



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357 




Fig. 34 — O Cónego Jorge da Costa 
no Políptico. 













Fig. 35 — O bispo de Viseu D. João Vicente, 
no Políptico. 



Fig. 36 — O bispo de Viseu D. João Vicente 
num painel de azulejos em Arraiolos. 



359 






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§111, 




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Fig. 37 — O Infante D. Pedro, 
no Políptico. 



Fig. 38 — O Infante D. Pedro 
(Retratos e Elogios dos Varões...) 




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Fig. 39 — O Infante D. João, no Políptico. 



Fig. 40 — O Infante D. João, na árvore 
genealógica do 3.° Conde da Feira. 



361 




S"™fS.»«fotff: 




Fig. 41 — O Infante D. Fernando 

(o Infante Santo), no Painel da Defensão 

da Fé. 



Fig. 42 — O Infante D. Fernando nas 
«Anacephaleoses». 




Fig. 43 — O Rei D. João I numa estampa 
do Museu de Aveiro. 



24 



363 




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Fig. 44 — O Conde de Avranches, D. Álvaro 
de Almada, no Políptico. 



Fig. 45 — O Conde de Avranches nos 
«Retratos e Elogios dos Varões e Donas...» 





Fig. 46 — Retrato de Aires Gomes da Silva, 
no Políptico. 



Fig. 47 — Cabeça da estátua de Aires Gomes 
da Silva em S. Marcos de Tentúgal. 



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365 



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FIg. 48 — Nossa Senhora da Conceição 
( Museu Metropolitano de New York). 



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Fig. 49 — Pintura de um museu de Marselha (cerca 
de 1460-1470). Obs. : Notar a existência de uma por- 
ta e três frestas na abside. 



ÍNDICE 



ÍNDICE 



O POLÍPTICO DE «PORTUGAL, DEFENSOR E APÓSTOLO 
DA FÉ» 

Págs. 

Painel da Vida Eternal 12 

Painel da Dilatação da Fé 12 

Painel do Voto da Cruzada 16 

Painel da Pregação do Evangelho 20 

Painel da Defensão da Fé 24 

Painel da Santa Glória 24 



INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO POLÍPTICO DE SÃO VICENTE 
DE FORA 

I — História 

Nota preliminar 29 

Os Filhos de D. João I 35 

Os Filhos de D. Duarte 36 

Os Filhos do Infante D. Pedro 36 

Os Filhos do Infante D. João 93 

Os Filhos do i.° Duque de Bragança 40 

Os Filhos de D. Afonso V 40 

Os Filhos do Infante D. Fernando 42 

Os Filhos do 2. Duque de Bragança 42 

O Príncipe D. Afonso 42 

A Família Noronha 43 

O Infante D. Pedro 44 

A Tragédia do Infante Santo 55 

As Santas Vidas do Infante D. Fernando e do Cardeal D. Jaime 60 

Os Testamentos de D. Afonso IV e da Rainha D. Beatriz .... 61 

Os Testamentos da Rainha D. Isabel 62 

Os Testamentos do Infante D. Henrique 63 

O Testamento de D. Afonso V 65 

Alguns Papas do século xv 65 

Os Concílios de Constança e de Basileia 67 

A Ordem de Cister 68 

A Ordem de S. Francisco 

A Congregação dos Cónegos Seculares de São Salvador de Vilar 69 

de Frades 74 

Organização Eclesiástica do Reino no Fim da Idade Média ... 85 

Alguns Arcebispos de Lisboa 86 

D. Pedro de Noronha 86 

D. Luís Coutinho 87 

D. Jaime 87 



370 



Págs. 

D. Afonso Nogueira 89 

D. Jorge da Costa gj 

A Instituição da Ordem da Cavalaria 92 

A Ordem da Jarreteira 93 

As Ordens Militares 04 

A Ordem dos Hospitalários de S. João de Jerusalém .... 95 

A Ordem dos Templários 96 

A Ordem dos Cavaleiros Teutónicos 96 

A Ordem de Calatrava 97 

A Ordem de Santiago da Espada 97 

A Ordem de S. Bento de Avis 98 

A Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo 100 

A Ideia de Cruzada em Portugal 102 

As Ordenações Afonsinas 104 

Os Estados Sociais no Século xv 104 

As Escolas da Sé de Lisboa 106 

O Paço da Alcáçova 107 

As Precedências dos Fidalgos na Corte 108 

Oficiais-mores da Casa Real e do Reino no Século xv 110 

Alguns Condestáveis de Portugal 110 

Os Magistrados no Século xv 111 

As Guerras contra os Mouros 112 

O Voto da Cruzada de D. Afonso V 121 

Apontamentos sobre a História dos Descobrimentos 126 

O Povoamento da Ilha da Madeira e dos Açores 142 

Alguma Cronologia Histórica 145 



II — Iconografia 

Apontamentos de Iconografia 157 

São Miguel, Anjo Custódio de Portugal 165 

Os Apóstolos 167 

As Cartas (ou Epístolas) de São Paulo 174 

Apontamentos de Liturgia 181 

Missas Votivas 183 

Apontamentos sobre Indumentária Litúrgica Medieval 185 

O Culto das Relíquias na Idade Média 190 

A Tamareira 102 

O Bordo 102 



III — História de Arte 



Apontamentos sobre Alguns Pintores do Século xv 195 

Thierry Bouts 201 

Robert Campin jn< 

Jacques Daret 200 

Os Van Eyck iqq 

Hugo Van der Góes 202 

Hans Memling 202 

Antonello da Messina 201 

Roger Van der Weyden 200 

Konrad Witz 200 

Apontamentos sobre a Pintura Flamenga do Século xv 202 



371 

Págs. 

Alguns Artistas Portugueses do Século xv 203 

Francisco Anes de Leiria 204 

João Anes 204 

Gonçalo Eanes (pintor do Rei D. João I) 203 

Gonçalo Eanes (iluminador do Rei D. Afonso V) 204 

Vasco Eanes 204 

Vasco Fernandes 205 

Afonso Gonçalves 204 

Álvaro Gonçalves 205 

João Gonçalves 204 

João Gonçalves (o Moço) 205 

Nuno Gonçalves (pintor do Rei D. Afonso V) ...... . 203 

Nuno Gonçalves (doutor) 205 

O Painel de São Miguel, do Museu do Prado . . . 206 

O Painel de Nossa Senhora da Conceição, do Museu Metropolitano 

de New York 209 

ROTEIRO PARA A IDENTIFICAÇÃO DAS FIGURAS DO 
POLÍPTICO 

A Chave do Enigma dos Painéis 213 

O Tríptico do Voto da Salvação das Almas 214 

Personagens do Painel da Pregação do Evangelho 214 

Personagens do Painel da Defensão da Fé 216 

Personagens do Painel da Dilatação da Fé 218 

Os Painéis da Cruzada 218 

Personagens do Painel do Voto da Cruzada .......... 219 

Personagens do Painel da Vida Eternal 221 

Personagens do Painel da Santa Glória 221 

ICONOGRAFIA DO POLÍPTICO 

Principais Documentos para a História dos Painéis 225 

Apontamentos para o Estudo dos Trajes e Armas do Políptico . . 226 

Iconografia do Tríptico do Voto da Salvação das Almas .... 232 

Iconografia do Painel da Vida Eternal 233 

Figura 1 233 

Figura 2 234 

Figura 3 234 

Figura 4 234 

Figura 5 235 

Figura 6 235 

Iconografia do Painel da Dilatação da Fé 235 

Figura 7 235 

Figura 8 235 

Figura 9 236 

Figura 10 236 

Figura ii 237 

Figura 12 238 

Figura 13 2 3 g 

Iconografia do Painel do Voto da Cruzada 238 

Figura 14 238 

Figura 15 241 

Figura 16 243 

Figura 17 243 

Figura 18 245 

Figura 19 247 



372 



Págs. 

Figura 20 249 

Figura 21 249 

Figura 22 250 

Figura 23 250 

Figura 24 25 o 

Figura 25 25 1 

Figura 26 251 

Figura 27 25I 

Figura 28 252 

Figura 29 252 

Figura 30 . 252 

Iconografia do Painel da Pregação do Evangelho 253 

Figura 31 254 

Figura 32 256 

Figura 33 256 

Figura 34 257 

Figura 35 257 

Figura 36 258 

Figura 37 259 

Figura 38 259 

Figura 39 259 

Figura 40 260 

Figura 41 260 

Figura 42 260 

Figura 43 . 261 

Figura 44 261 

Figura 45 262 

Figura 46 262 

Figura 47 . 263 

Iconografia do Painel da Defensão da Fé 263 

Figura 48 264 

Figura 49 264 

Figura 50 266 

Figura 51 266 

Figura 52 267 

Figura 53 267 

Figura 54 267 

Figura 55 267 

Iconografia do Painel da Santa Glória 268 

Figura 56 268 

Figura 57 270 

Figura 58 271 

Figura 59 272 

Figura 60 273 

PERSONAGENS REPRESENTADAS NO POLÍPTICO 

D. Álvaro de Abreu (Bispo de Évora) 259 

D. Afonso (i.° Duque de Bragança) 234 

D. Afonso (Marquês de Valença) 249 

D. Afonso V: 

No Painel da Pregação do Evangelho 254 

No Painel do Voto da Cruzada 241 

D. Álvaro Afonso (Bispo de Silves) 272 

Dr. Diogo Afonso (o «Manga- Ancha») 261 

D. Álvaro de Almada (Conde de Avranches) 267 

Frei João Álvares (Secretário do Infante Santo) 270 

Álvaro Gonçalves de Ataíde (Futuro Conde de Atouguia) .... 261 



373 

Págs. 

Fernão Lopes de Azevedo (Embaixador) 267 

Cónego Jorge da Costa (Futuro «Cardeal de Alpedrinha») .... 260 

Soeiro da Costa (Mareante) 237 

Rui da Cunha (Prior da Colegiada de Guimarães) 262 

Vicente Dias (Mareante) 268 

D. Diogo (Filho do Infante D. João) 266 

D. Duarte (Rei de Portugal) 233 

D. Fernando (2. Duque de Bragança) 249 

D. Fernando (Filho do Rei D. Duarte) 256 

D. Fernando (Conde de Guimarães, futuro 3. duque de Bragança) 250 
D. Fernando (O Infante Santo): 

No Painel da Defensão da Fé 266 

No Painel da Pregação do Evangelho 257 

No Painel da Vida Eternal 234 

Lançarote da Franca (Mareante) 235 

D. Frei Nuno de Góis (Prior do Crato) . . . 235 

João Gonçalves, o «Zargo» (Mareante) 237 

Dr. Nuno Gonçalves (Desembargador e juiz dos feitos del-Rei) . 251 

Nuno Gonçalves (Pintor do Rei Afonso V) 250 

Infante D. Henrique (3. filho do Rei D. João I) 245 

Infanta D. Isabel (Duquesa de Borgonha) 243 

Rainha D. Isabel (Mulher de D. Afonso V) 238 

D. Jaime (Filho do Infante D. Pedro): 

No Painel da Pregação do Evangelho 258 

No Painel do Voto da Cruzada 243 

D. João (Filho do Infante D. Pedro) 257 

Infante D. João (Filho do Rei D. João I) 264 

Príncipe D. João (Futuro Rei D. João II) 247 

D. Frei João Manuel (Bispo de Ceuta) 263 

Olivier de la Marche (Cronista de Borgonha) 271 

D. Duarte de Meneses (Conde de Viana) 250 

D. Henrique de Meneses (Conde de Valença) 252 

D. Pedro de Meneses (3. Conde de Vila Real) 251 

Dr. Afonso Nogueira (Futuro Arcebispo de Lisboa) 260 

D. Fernando de Noronha (2. Conde de Vila Real) 235 

D. Pedro de Noronha (Arcebispo de Lisboa) 234 

D. Rodrigo de Noronha (Bispo de Lamego) 252 

D. Sancho de Noronha (Conde de Odemira) 251 

D. Pedro (Filho do Infante D. Pedro) 256 

Infante D. Pedro: 

No Painel da Defensão da Fé 264 

No Painel da Santa Glória 268 

Gomes Pires (Mareante) 238 

João Rodrigues (Cónego de S. Salvador de Vilar) 259 

Mestre Vasco Rodrigues (Cónego de S. Salvador de Vilar) ... 259 

Aires Gomes da Silva (Regedor da Casa do Cível) 267 

Dr. João Fernandes da Silveira (i.° Barão de Alvito) 273 

Rui de Sousa (Cavaleiro) 252 

Martim de Távora (Meirinho-mor) 267 

Gonçalo Velho (Mareante) 236 

D. João Vicente (Bispo de Viseu) 260 

SIMBOLISMO DO POLÍPTICO 

Simbolismo do Tríptico do Voto da Salvação das Almas .... 277 

Simbolismo do Painel da Pregação do Evangelho 279 

Simbolismo do Painel da Dilatação da Fé 283 

Simbolismo do Painel da Defensão da Fé 286 



374 



Págs. 

Simbolismo do Painel do Voto da Cruzada 2 gg 

Simbolismo do Painel da Vida Eternal 288 

Simbolismo do Painel da Santa Glória '.'.'.'.'.. 

Simbolismo Geral do Políptico "....' 



RECONSTITUIÇÃO DE ALGUNS ASPECTOS DA VIDA DE 
NUNO GONÇALVES _ 

RECONSTITUIÇÃO DE ALGUNS ASPECTOS DA VIDA DE 
JOÃO ANES 

RECONSTITUIÇÃO DA HISTÓRIA DO POLÍPTICO 

A COMPOSIÇÃO DO POLÍPTICO . 



estampas. 
Índice . . 



290 
291 



293 

301 
307 
317 



IMPORTÂNCIA DO POLÍPTICO 3 i 8 

Consequências para a História da Civilização 318 

Consequências para a História de Portugal ' ) ' " *ig 

Consequências para a História da Arte '.'.'.'. 322 

APÊNDICE 



3 2 5 



«ACHADOS», NÃO RELACIONADOS DIRECTAMENTE COM 

O POLÍPTICO, RESULTANTES DO PRESENTE ESTUDO 327 

ALGUNS LIVROS EXISTENTES NO MERCADO, ÚTEIS PARA 
O ESTUDO DO POLÍPTICO ..... 



33i 
333 
369 



COMPOSTO B IMPRESSO NAS OFICINAS 

da GRÁFICA DE COIMBRA 

BAIRRO DE S. JOSÉ, 2 COIMBRA 



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ADENDA E CORRIGENDA 

Pág. 239 

Eliminar, na linha 22. a , a palavra «cada». 

Pág. 264 

Eliminar a frase: «A espada que sustenta, ornada com placas de ouro, 
deve representar a que o Infante recebeu de sua mãe D. Filipa de Lencastre 
para combater na tomada de Ceuta pois, para ser retratado, não deixaria de a 
usar». 

Substituir a frase eliminada pela seguinte: «O estoque que tem à cinta 
é a insígnia do seu cargo de geral-capitão da guerra» ( x ). 

Pág. 279 

Acrescentar, a seguir a (5): «O triângulo simboliza também a fé de 
Cristo, no qual existem a verdadeira carne, alma e divindade» ( 2 ). 

\ Pág. 300 - 

Eliminar a frase: «A assinatura de Gonçalo Anes no Políptico prova que 
foi colaborador na sua execução». 

Pág. 309 

Eliminar a frase: «Na execução deste trabalho teria sido ajudado por seu 
pai o pintor Gonçalo Anes». 

Pág. 331 

Acrescentar: «José Moreira de Campos, O Infante D. Henrique e os Desco- 
brimentos Portugueses». 



Ç) Artur Moreira de Sá, Alguns Documentos Referentes ao Infante D. Pedro, 
Lisboa, 1956, pág. 35. 

( 2 ) Frei Álvaro Pais, Espelho dos Reis, estabelecimento do texto e tradução 
do Dr. Miguel Pinto de Meneses, Lisboa, 1955, Vol. I, pág. 7.