Skip to main content

Full text of "A guerrilha de frei Simão: romance histórico"

See other formats


Google 



This is a digital copy of a book that was prcscrvod for gcncrations on library shclvcs bcforc it was carcfully scannod by Google as part of a projcct 

to make the world's books discoverablc online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 

to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, cultuie and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the original volume will appear in this file - a reminder of this book's long journcy from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materiais and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prcvcnt abuse by commercial parties, including placing lechnical restrictions on automated querying. 
We also ask that you: 

+ Make non-commercial use of the files We designed Google Book Search for use by individuais, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrainfivm automated querying Do nol send automated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machinc 
translation, optical character recognition or other áreas where access to a laige amount of text is helpful, please contact us. We encouragc the 
use of public domain materiais for these purposes and may be able to help. 

+ Maintain attributionTht GoogXt "watermark" you see on each file is essential for informingpcoplcabout this projcct and hclping them find 
additional materiais through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legal Whatever your use, remember that you are lesponsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countiies. Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we can'l offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search mcans it can bc used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite severe. 

About Google Book Search 

Googlc's mission is to organize the world's information and to make it univcrsally accessible and uscful. Google Book Search hclps rcadcrs 
discover the world's books while hclping authors and publishers rcach ncw audicnccs. You can search through the full icxi of this book on the web 

at |http: //books. google .com/l 



Google 



Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de bibliotecas até ser cuidadosamente digitalizado 

pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. 

O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro 

de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio 

público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam 

uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem descobertos. 

As marcas, observações e outras notas nas margens do volume original aparecerão neste arquivo um reflexo da longa jornada pela qual 

o livro passou: do editor à biblioteca, e finalmente até você. 



Diretrizes de uso 

O Google se orgulha de realizar parcerias com bibliotecas para digitalizar materiais de domínio púbUco e torná-los amplamente acessíveis. 
Os livros de domínio público pertencem ao público, e nós meramente os preservamos. No entanto, esse trabalho é dispendioso; sendo 
assim, para continuar a oferecer este recurso, formulamos algumas etapas visando evitar o abuso por partes comerciais, incluindo o 
estabelecimento de restrições técnicas nas consultas automatizadas. 
Pedimos que você: 

• Faça somente uso não comercial dos arquivos. 

A Pesquisa de Livros do Google foi projetada p;ira o uso individuíil, e nós solicitamos que você use estes arquivos para fins 
pessoais e não comerciais. 

• Evite consultas automatizadas. 

Não envie consultas automatizadas de qualquer espécie ao sistema do Google. Se você estiver realizando pesquisas sobre tradução 
automática, reconhecimento ótico de caracteres ou outras áreas para as quEus o acesso a uma grande quantidade de texto for útil, 
entre em contato conosco. Incentivamos o uso de materiais de domínio público para esses fins e talvez possamos ajudar. 

• Mantenha a atribuição. 

A "marca dágua" que você vê em cada um dos arquivos 6 essencial para informar aa pessoas sobre este projoto c ajudá-las a 
encontrar outros materiais através da Pesquisa de Livros do Google. Não a remova. 

• Mantenha os padrões legais. 

Independentemente do que você usar, tenha em mente que é responsável por garantir que o que está fazendo esteja dentro da lei. 
Não presuma que, só porque acreditamos que um livro é de domínio público para os usuários dos Estados Unidos, a obra será de 
domínio público para usuários de outros países. A condição dos direitos autorais de um livro varia de país para pais, e nós não 
podemos oferecer orientação sobre a permissão ou não de determinado uso de um livro em específico. Lembramos que o fato de 
o livro aparecer na Pesquisa de Livros do Google não significa que ele pode ser usado de qualquer maneira em qualquer lugar do 
mundo. As consequências pela violação de direitos autorais podem ser graves. 

Sobre a Pesquisa de Livros do Google 

A missão do Google é organizar as informações de todo o mundo c torná-las úteis e acessíveis. A Pesquisa de Livros do Google ajuda 
os leitores a descobrir livros do mundo todo ao m esmo tempo em que ajuda os autores e editores a alcançar novos públicos. Você pode 
pesquisar o texto integral deste livro na web, em |http : //books . google . com/| 



1 



ALBERTO PIMENTEl 



«MMÉVPÉ 



A GUERRILHA 



DE 



FREI SIMÃO 



ROMANCE HISTÓRICO 



\ 



■ 



, ^vmvv 




I 

I LISBOA 

I 

! Livraria dk António Maria Pereira — Editor 

50, 52 — Roa Angntu— 52, 54 



1895 






.iii^ 



Jt » ' * " 



\. 



^- l 



t 



~\ 



•- / 



A GUERRILHA DE FrEI SimXo 



tlSÈOÁ 

l^pographia e Stereotjpla Modemá 

li — Apottolm^l.* 

J895 



ALBERTO PIMENTKL 



A GUERRILHA 



DE 



FREI SIMÃO 



ROMANCE HISTÓRICO 




LISBOA 
Livraria de António Maria Pisreira— eutor 

5o, 53 — Ru Auguitt^- 52, 5^ 
1895 



> 



:" / r e, 



DUAS PALAVRAS 



Passei o dia 9 de setembro de 1894, em Gezár, na 
casa onde nasceu frei SimSo de Vasconcellos, o pro- 
togonista doeste romance. A amável hospedagem com 
que alH me recebeu o sr. Alfredo Praça de Vasconcel- 
los; bacharel em mathematica pela Universidade de 
Coimbra e sobrinho de frei Simão, largamente me 
compensou dos incommodos da jornada. Eu ia, me- 
diante prévia auctorisaçSo, colher mformações directas 
sobre um assumpto que me indicara em Lisboa o meu 
illustre amigo o sr. visconde de Villa Mendo : o assum- 

{)to d*este uvro, cujos pormenores estudei com desve- 
áda exactidão. 

A' roda do meu primoroso hospedeiro estavam reuni- 
dos em grupo todos os velhos de Cezár que ainda ti- 
nham conhecido frei Simão de Vasconcellos. Trez 
apenas. Ouvi da sua boca a narração de interessantes 
minúcias biographicas. Por favor do sr. Vasconcellos 
compulsei vários documentos de fisimilia, posteriores 
ao auto-de-fé em que as justiças miguelistas pulverisa- 
ram o archivo da sua casa. 

Creio que este romance deverá o «sens du réel», 
que porventura o vitalise, á profunda impressão que 
recebi, n'esse dia, em visina ao solar do Outeiro, sob 
os tectos que abrigaram parte da atormentada existên- 
cia de frei Simão ; e em passeio pelos campos de Ce- 
zár, acompanhado pelos uhimos contemporâneos do 



frade guerrilhenro, que paraTam reatando lembranças, 
mencionando logares e factos, e cujos cabellos bran^ 
cos se doiravam a espaços com algum alado raio de 
sol que luciolava os frocos verdes do arvoredo. 

Procurando, no pouco que me era possível, retribuir 
a patriarchal cordeaUdade da hospedagem, pedi licença 
ao sr. Alfredo de Vasconcellos para lhe onerecer este 
romance,*-* a historia da sua família. 

Vi que as lagrimas lhe saltavam dos olhos n*esse 
momento; Olhando fito em mim com o olhar embacia* 
do^ o sr. Vasconcellos respondeu- me: 

— Comprehendo a sua intenção, e agradeço-lh'a. 
Mas se v. quer dedicar o seu livro a um parente do 
frade do Outeiro, peço-lhe que o ofTereça á memoria 
de meu pobre irmão, o major Augusto Cézar de Vas^ 
concellos, morto na mallograda revolta de Braga em 
1862, no cumprimento do seu dever. 

E as lagrimas abafavam -n*o n'uma commoção tortu- 
rada. 

E' pois á memoria doesse infeliz sobrinho de frei Su 
mão de Vasconcellos que eu dedico a chronica fiel da 
attribulada existência e corajosa morte do tio. 

Outras jornadas emprehendi por amor da verdade 
histórica. Duas vezes tive de ir á Villa da Feira para 
reconstruir o episodio da evasão de frei Simão de Vas*- 
concellos, da cadeia d*aqnella villa. 



t)a primeira véz nâo pude colher as inforálaç6éà que 
desejava. A meaioria dos velhos sobreviventes estava 
confusa e hesitante, quasi apagada. Da segunda vez, 
caminhei ao acaso, dirigindo-me, por palpite ou intui- 
ção, ao primeiro homem encanecido que encontrei. 
Felizmente, elle poude indicar-me a pessoa que repu- 
tava habilitada para esclarecer-me. Assim fiz ; e assim 
foi. 

Desde essa hora, o romance estava completo. E, 
emquanto o escrevia, eu comprehendia a exacta aífir- 
mação, oue aos indiíferentes de hoje parecerá arrojada 
hyperbole, contida n^esta phrase de Alexandre Hercu- 
lano: «A guerra da restauração de i832 a i833 éo 
acontecimento mais espantoso e mais poético d'este 
século.» 

Lisboa, i3 de junho de 1895. 

Almrto PiMEimu 



Flor dii Táji»';ii 



■'iiír voiilmlc» quv »i'tit.ni u cuena. 
Rraí (iarvia fe Htiwairu\iM~t\ i- 
rialolriigin», caiiloSMIl. 



Os VasconceUos, de Cezár, gente de boa raça, 
aparentados com muitas famílias illustres, en- 
tre as quaes os Pintos de Parámos, os Tavares 
e Pereiras da Terra da Feira e os Córte-Keaes 
de GafanliSo, tinham como representante, no 
fim do século passado, José Hernardo Pereira 
de VasconceUos, marido de D. Annã Margari- 
da de Almeida Cabral. 

D"estc casamento nasceram cinco filhos e qua- 
tro filhas. 

Sobejavam a José Bernardo meios de farta 
subsistência para tão numerosa prole, pois que 
as suas propriedades se estendiam desde Cezár, 
na comarca da Feira, até á vilia de Arouca, on- 
de possuia a quinta do Outeiral. 

José Bernardo fixara residência, depois de ca- 
sado, na casadofluteiro, em Cezár, e, graças á 
sua abastança, podéra dar uma coilocaçào de- 



Romance histórico 



cente aos cinco filhos varões, destinando uns á 
vida monástica, outros á carreira das armas, 
segundo a tradição grada daquelle tempo. 

Simão, que nascera a 28 de setembro de 1789, 
entrou na ordem de S. Bernardo, e professou 
em Alcobaça. José vestiu o habito benedictíno 
no mosteiro de Refoyos de Basto. 

Joaquim Maria e Frederico sentaram ambos 
praça no regimento de infanteria 6. Eram duas 
creanças, quando em 1808 foram reconhecidos 
cadetes. Fizeram a guerra peninsular, sendo 
Joaquim Maria gravemente ferido, em uma 
perna, na acção de 31 de julho de 1813. 

António, o filho mais novo, ficou, em rasão 
de sua pouca idade, sob a tutella paterna, quan- 
do os irmãos, seguindo cada qual seu destino, 
se ausentaram da casa do Outeiro. 

No fim do anno de 1814, Joaquim Maria íoi 
promovido a tenente para infanteria 13. Mas 
obteve depois transferencia de arma, passando 
a servir em cavallaria. 

Frederico era, em 18 19, alferes ajudante de 
infanteria 18, aquartelada no Porto. Casando 
com D. IMargarida Fontana, pediu a demissão, 
pura e simples. Mas o governo concedeu-lhe a 
reforma em attençào aos bons serviços, que ti- 
nha prestado durante a guerra peninsular. De- 
via ter sido o coronel com mandante d'aquelle 
regimento, Bernardo Corrêa de Castro e Se- 
púlveda, dedicado protector de Frederico Pin- 
to, quem, junto do governo, interveio para que 
a demissão fosse substituída pela reforma. 

Em 1820 rebentava a revolução liberal do 
Porto, e Frederico, apesar de ter renunciado á 
vida militar, interessou-se, com enthusiasmo e 



A guerrilha de frei Simão 



convicção, pelo bom êxito do movimento revo- 
lucionário, que os portuenses haviam prepa- 
rado. 

E' de presumir que as ligações de Frederico 
com o corcnel Sepúlveda o acirrassem nos ideaes 
do constitucionalismo. 

Joaquim Maria, promovido a capitão e collo- 
cado em cavallaria 6, dragões de Chaves^ re- 
sistiu, obstinado, ás suggestões absolutistas dos 
Silveiras, recusou-se em 1823 a acompanhal-os 
no movimento que principiou em Villa Real no 
dia da procissão de Passos. 

Seriam apenas rasões de caracter politico as 
que crearam ao capitão de dragões essa dura 
situação de intransigência em que teimosamente 
se conservou até á morte? 

Não. Quando um homem pertinazmente salta 
por cima de todas as conveniências pessoaes, 
com os olhos fechados, esse homem obedece, 
por via de regra, mais ao impulso do coração 
que do espirito. 

N'aquella epocha de fluctuações e incertezas 
politicas, as opiniões transformavam-se com os 
acontecimentos do dia, ao sabor dos interes- 
ses de cada individuo ou de cada familia. O 
próprio monarcha dava o exemplo aos que o 
tinham visto jurar a constituição nas Necessi- 
dades e haviam de ver depois ir a Villa Fran- 
ca ao encontro do filho. Mas os que não abdi- 
cavam de suas crenças, e preferiam o martyrio 
á transigência, esses tinham o coração dilace- 
rado por algum golpe profundo, que resultara 
de vinganças partidárias exercidas contra elles 
mesmos ou contra as suas familias. 

As feridas do corpo podem esquecer-se, de- 



Romance histórico 



pois que cicratisáram ; mas as da alma parece 
reverdecerem com o tempo. 

Joaquim Maria de Vasconcellos amara em 
Chaves uma menina, sobrinha de um abastado 
proprietário realista. 

Ahi por 1822 o idyllio derivava mansamente, 
meio velado pelo disfarce com que o capitão 
de dra,gões queria occuhar um segredo, que 
punha em xeque as suas convicções politicas^ 
aliás notórias. 

André Pinto, o tio da menina, era absolu- 
tista ferrenho, multo nas boas graças dos Sil- 
veiras; pessoa de tamanha confiança para elles, 
que não duvidavftiti encarregal-o de importan- 
tes commissòes políticas. 

Não tendo filhos, a sua herdeira presumpti- 
va era a sobrinha, uma rosada transmontana 
de vinte annos, vasada nos moldes das mulhe- 
res fortes d'aquella provincia alpestre, onde o 
ar, coado atravez das montanhas, é puro e sa- 
lubérrimo. 

Não tinha que ver com a vaporosa idealisa- 
ção da Margarida de Gcethe aquella Margarida 
Cândida, de Chaves, a quem António da Sil- 
veira, futuro visconde de Canella-s, pozera a alcu- 
nha de Flor do Tâmega com uma galanteria 
alfacinha que tinha aprendido em Lisboa, du- 
rante os tormentosos dias em que, como pre- 
sidente da junta do Porto, fez parte do gover- 
no constitucional, de arrependida memoria para 
elle. 

Realmente, floria nas faces de Margarida 
Cândida, presumptiva herdeira do abastado 
André Pinto, o carmim vivo dos cravos e das 
papoulas. Não era a mulher que parece quebrar 



A guerrilha de frei Simão 5 

pela cintura, flexível como a haste de um lírio. 
Tinha a belleza da saúde e da mocidade, algo 
serrana,* mas esoulptural. 

Joaquim Maria era um guapo homem. Al- 
guns velhos de Cezár affirmam ainda hoje que 
fora «o homem mais bonito do seu tempo.» A 
farda de capitão de dragões e o garbo militar 
com que sabia uzal-a, davam realce aos dotes 
physicos que o distinguiam. Fica pois cabal- 
mente explicada a fascinação que elle exerceu 
no espirito de Margarida Cândida, apesar de 
ser alguns annos mais velho do que ella. 

Mas o amor, se não conhece idades, desco- 
nhece também as balisas partidárias, que extre- 
mam os campos políticos. 

Assim foi que Joaquim' *Maria, tão constitu- 
cional como todos os seus irmãos, á excepção 
de frei José, que era realista, se deixou capti- 
var da graça desaffectada da sobrinha de An- 
dré Pinto, silveirista da gemma. 

A mascara do disfarce cahiu, logo que as la- 
vas do amor vulcanisáram o coração dos dois 
namorados. 

André Pinto percebeu a inclinação da sobri- 
nha, contra a qual rompeu em desabridos im- 
propérios por amar um pedreiro-livre. 

Pretendeu desacreditar^ familia de Joaquim 
Maria e, por isso, dizia em voz alta que José 
Bernardo de Vasconcellos era filho de uma 
camponeza de Santa Christina de Mansores, 
chamada Maria Josepha. 

Um flaviense de boa fé, muito intimo do fi- 
dalgo de Paiva, Martinho Pinto de Miranda 
Corrêa Montenegro, contestou que, por este 
seu amigo, sabia de sciencia certa que o avô 



Romance histórico 



de Joaquim Maria mandara educar o filho, e o 
deixara seu herdeiro; que, não obstante a crean- 
ça ter sido baptisada como filho de pães in- 
cógnitos, José Bernardo requerera e obtivera a 
legitimação em 1819. 

André Pinto barafustou contra esta replica, 
insistindo em depreciar a linhagem do ceipitào 
de dragões. 

Mas o flaviense escreveu ao fidalgo de Pai- 
va, o qual lhe respondeu por escripto, dizendo: 

«Muitas vezes ouvi a meu pae, o sr. Ber- 
nardo José Pinto Montenegro, encarecer a ge- 
nealogia do avô e pae de Joaquim Maria de 
Vasconcellos, nossos parentes. São legitima ge- 
ração de Sebastião Lopes Godinho, da casa de 
Cezár, homem muito fidalgo e descendente de 
Gil Garcia, e de João Carvalho, fidalgo da casa 
d'el-rei D. João III, casado com D. Anna Men- 
des de Vasconcellos. A familia de Joaquim 
Maria está aparentada com a melhor nobreza 
da sua comarca e provincia, e eu honro-me de 
ser seu parente. 

«A legitimaçC^o de José Bernardo fez-se se- 
gundo o disposto nas leis canónicas e civis. Na- 
da ha que se lhe oppôr, a não ser qualquer má 
vontade acintosa.» 

O flaviense mostrou esta carta em Chaves, e 
André Pinto, vendo-se contraditado, mudou de 
rumo, no empenho de combater o capitão de 
dragões por qualquer outro modo, mais efficaz 
e menos contestável. 

Enfurecido com o mallogro da sua propa- 
ganda de descrédito contra a familia de Joaquim 
Maria, correu as casas de muitos dos seus ami- 
gos políticos, desabafando a berros desentoados. 



A guerrilha de frei Simão 



Um d'elles, que gostava de recorrer a pro- 
cessos summarios quando liquidava contas com 
inimigos, disse-lhe peremptoriamente: 

— Homem! não ha nada como cortar as ques- 
tões pela raiz! 

— :Mas a difficuldade está em desaterrar a 
raiz . . . 

— Ora adeus! A raiz d'esta questão éo amor 
de tua sobrinha ao capitão Joaquim Maria. E' 
ou não é? 

— Certamente que sim. 

— Já vês que ficam assim muito simplificadas 
as coisas. . . 

— Não percebo! Eu não as vejo nada sim- 
plificadas! 

— Oh! homem! O capitão é a causa da in- 
quietação em que vives, porque sendo nosso 
adversário politico, dos mais intransigentes, 
fez andar á roda a cabeça de tua sobrinha. E* 
ou não é? 

— Pois é mesmo! E d'ahi? 

— Ora se o capitão desapparecer, tua sobri- 
nha não ha de ficar eternamente a amar um 
morto. . . Percebes? ' 

— Percebo. 

—O que dizes então? 

— Que para isso não precisava eu de vir pc- 
dir-te conselho. P2' conveniente proceder com 
certa diplomacia, chegar a uma solução sem 
assumir publicamente a responsabilidade d'ella. 
Este negocio, encabeçado em politica, corria 
melhor. 

— Bem entendo. Gestas de pannos quentes. 
Pois eu cá não sou d*esses. 

— E' certo que o capitão me desinquieta a. 



S Romance histórico 

- ■ ■ r I , iw 8 

sobrinha, e este negocio é particular, apenas 
diz respeito á minha familia. Mas, por outro 
lado, o capitão é nosso adversário politico, e 
procede acintosamente para me desgostar. En- 
tendo, pois, que o negocio deve ser resolvido 
sob o ponto de vista das conveniências parti- 
dárias . . • 

--N'esse caso, vae consultar os Silveiras. 
EUes que te aconselhem, que teem obrigação 
de o fazer. 

André Pinto foi a Villa Real consultar o con- 
de de Amarante, mas com tanta infelicidade 
que, quando entrou na casa da Calçada, estava 
Manoel da Silveira n'um dos seus dias de obum- 
bramento intellectual. 

O conde ouviu-o, e nào respondeu nada. 

André Pinto sahiu dizendo com os seus bo- 
tões: 

— Está hoje tolo de todo! Paliei com uma 
pedra. 

Lembrou-se de ir á quinta de Canellas con- 
sultar António da Silveira, que era mais atila- 
do do que o sobrinho. 

Expoz lhe o negocio. " O fidalgo respondeu 
com promptidào: 

— O que me diz, sr. André Pinto, envolve 
uma questão politica, que é preciso ter em 
vista. 

— Diz v. ex.* muito bem. Assim mesmo é 
que é. Devemos proceder todos de accôrdo. 

— Ora, attendendo ás rasões politicas, sou de 
parecer que o capitão Joaquim Maria não deve 
ser perseguido. 

— Como.M perguntou, fulminado, AndréPinto. 

— O que a mulher não conseguir, ninguém o 



A guerrilha de frei Simão 



consegue! disse axiomaticamente o tio do conde 
de Amarante. Eu me explico. Talvez o amor 
consiga trazer insensivelmente o capitão ao 
nosso grémio. O amor costuma fazer milagres. 

— Nunca de bom christão bom mouro, nem 
de bOm mouro bom christào! replicou, trium- 
phantemente a seu ver, André Pinto. 

António da Silveira, que enxergou n*esta 
phrase uma grosseira allusão ao seu breve tran- 
sito pelo constitucionalismo, replicou de so- 
brecenho carrígadp: 

— Todos os homens podem reconsiderar, 
quando não sejam tolos ou maus. Adeus, sr. 
André Pinto. 

O tio de Margarida Cândida sahiu recuando, 
ás mesuras, sem ter percebido bem o motivo 
do súbito agastamento do fidalgo de Canellas. 

O que é certo é que esta replica mal-hucáo- 
rada assegurou a vida de Joaquim Maria. 

André Pinto, em caminho de Chaves, matu- 
tou na rasão que teria António da Silveira para 
esperar um possivel reviramento politico do 
capitão de dragões e, sem ousar oppôr-se for- 
malmente á opinião do ex-presidente da junta 
do Porto sobre a reconsideração dos homens, 
não deixou de achar um pouco duro que se 
comprassem silveiristas á custa do dinheiro 
que era seu, e que a sobrinha devia herdar. 

Comtudo, tendo sabido de casa acceso em 
cólera contra Margarida Cândida e o capitão, 
voltou, depois do que se passara com António 
da Silveira na quinta de Cantllas, menos bra- 
vo, se bem que visivelmente concentrado. 

Logo que teve ensejo, chamou á puridade 
«ma criada a quem confidencialmente havia en- 



IO Romance histórico 

carregado de vigiar, na sua ausência, todos os 
passos de Margarida Cândida. 

— Ella viu-o? perguntou de afogadilho An- 
dré Pinto. 

— Viu-o, sim senhor. Viu-ô do muro do 
quintal. 

— E tu então que «fizestes»? 

— Eu fui logo a correr, e disse-lhe: «Menina^ 
veja o que faz, não queira dar mais desgostos 
a sfeu tio». 

— E ella o que respondeu.?^ 

— Ora o que respondeu?! Disse-me assim: 
«Eu cá não faço mal a ninguém. Meu tio tam- 
bém namorou.» 

— Mentira! replicou André Pinto. O meu ca- 
samento foi fallado. Não sabias responder-lhe? 

— Eu sabia cá, sr. André! Uma pessoa fica 
ás vezes embuchada com certas respostas. 

— Es uma lesma! Tu e um pannal de palha 
valem o mesmo. 

André Pinto ficou a pensar no caso e de si 
para* si julgava- se ainda mais tolo do que a 
criada. 

— Andei em correrias, reflexionava elle, e 
emquanto andei por lá, a rapariga fazia-mc o 
ninho atraz da orelha. Se não tenho ido a Ca- 
nellas, estava habilitado a tomar a resolução, 
que muito bem me parecesse. Assim, fiquei 
preso ao conselho de António da Silveira, com 
os braços atados. Preciso encher-me de rasào 
para levar o fidalgo a mudar de parecer. O que 
me resta fazer é ficar de atalaya sem espantar 
a caça. Custa; mas não ha remédio, depois do 
que se passou em Caneilas. 

Margarida Cândida desconfiou da inesperada 



A guerrilha de frei Simão il 

metamorphose de brandura, que se tinha ope- 
rado no tio; teve medo de que occultasse al- 
guma perfídia machiavelica. 

Apezar da vigilância de André Pinto, ella 
encontrava sempre meios de a illudir. A's noi- 
tes, quando o tio ia concertar com os outros 
silveiristas o plano da contra-revoluçâo restau- 
radora que devia rebentar em Traz-os-Montes> 
Margarida Cândida, subindo ao muro do quin^ 
tal, trocava de fugida algumas palavras com o 
capitão. 

O assumpto d'esses rápidos diálogos conti- 
nuava a ser a reserva, apparentementc bonan- 
çosa, em que André Pinto se mantinha. 

O capitão de dragões, apezar de querer tran- 
quiliisar o espirito de Margarida Cândida, de- 
nunciava-se, involuntariamenre, também ap- 
prehensivo e receioso, porque bem sabia elle 
que os ódios políticos em Chaves, quando por 
momentos se acalmavam, resurgiam a breve tre- 
cho mais rancorosos. 

E acabando por confessar um ao outro as 
suas apprehensões, suspeitavam de desgraça 
immmente; mas separavam-se jurando inabalá- 
vel constância, por maiores que fossem os tor- 
mentos por que ambos houvessem de passar. 

Mal podiam suppôr que a metamorphose de 
André Pinto fosse devida á entrevista com An- 
tónio da Silveira, então adversário politico de 
todos os constitucionaes, porque se desaviera 
com elles em Lisboa, a ponto de ter sido man- 
dado recolher, no meio de uma escolta, á quinta 
de Canellas. 

O capitão de dragões conheceu que estava 
sobre um vulcão, mas o seu coração não vacil- 



12 Ramance histórico 

lou um momento. Acontecesse o que aconte- 
cesse, Margarida Cândida continuaria a ser a 
única mulher capaz de o fazer affrontar a mor- 
te, se tanto fosse preciso. 

Graças á lembrança de António da Silveira, 
chamavam-lhe a ella a Flor do Tâmega. Pois 
bem! esse valoroso capitão de cavallaria 6, que 
tinha vindo das campanhas da guerra peninsu- 
lar, em que tantas vezes encarara a morte de per- 
to, estava resolvido a tomar por divisa, no resto 
da sua vida, a bella Margarida do jardim fe- 
minino de Traz-os-Montes, e a defendel-a até 
ao sacrifício com o heroismo dos cavalleiros 
da idade-media, tão romanescos como deste- 
midos. 



# 



II 



Adens ao convento 



...e lhe deram os vestidos seculares, 
í|ue re(|uereii aiicioso de prosegiiir os 
actos du sua liberdade por que suspi- 
rava. 

Fni Anlonio da Piedade —«Espolho 
de penileiíles», tom. I, 



As quatro filhas de José Bernardo de Vas- 
concellos chamavam-se Maria Albina, Anna 
José, Antónia, e Maria Henriqueta. 

Todas ellàs lindas mulheres, parecendo ser 
a belleza apanágio de familia, tanto nas senho- 
ras como nos homens. 

Maria Albina era a mais velha. 

Anna José, branca como as irmãs, tinha co 
mo ellas uns olhos de puríssimo azul, e cabei- 
los castanho-claros. A cor dos olhos reprodu- 
zia-se em todos os filhos de José Bernardo. 
Se porém alguma das quatro irmãs se avanta- 
java ás outras em belleza, era D Anna a mais 
formosa, segundo o testemunho dos contempo- 
râneos. Diziam-n'a encantadora. 

O pae, ao rebate dos primeiros achaques, en- 
carregou Frederico da administração da casa^ 
que consistia principalmente em prasos de livre 
nomeação. Entregou-lh a, reservando o rendi- 



I4 Romance histórico 

mentos da quinta do Outeiral em Arouca para 
seus alimentos, de seu filho António Pinto, o 
mais novo, de sua filha Maria Henriqueta, que 
se destinava á vida monástica, e de D. Theresa 
Bernarda de Vasconcellos, sua irmã d*elle. Os 
outros filhos, José, Simão e Joaquim Maria, 
estavam em posição de não carecer de auxilio 
paterno. 

Desde o casamento de José Bernardo o do- 
micilio da familia Vasconcellos era, como dis- 
semos, na casa de Cezár. 

Não primava pela grandeza da traça o solar 
do Outeiro, como ainda hoje se pode verificar, 
mas denunciava a nobreza de origem dos seus 
habitantes no brazão em madeira que coroava 
o tecto da sala de entrada e no qual se liam os 
appellidos de gloriosos ascendentes — Leites e 
Aniaraes^ Mor eiras e Vasconcellos, 

Quem hoje fôr a Cezár com o intuito de visi- 
tar a casa do Outeiro, poderá reconhecel-a de 
longe pelos altos cedros, que a ensombram. Mas 
€stas arvores são relativamente modernas. O 
mesmo se pode dizer de uma pequena sala de 
entrada, á qual se sobe por alguns degraus de 
pedra, c que está mobilada com cadeiras de 
couro, tauxiado nos espaldares e assentos. 

Tudo o mais conserva a feição que tinha o 
solar no tempo de José Bernardo e dos filhos. 
O edificio é de um só andar, a pequena al- 
tura do solo, com janellas de differente feitio, 
voltadas ao nascente. 

Entrava- se então noOuteiro por umaporta fro- 
nha, chamada a Porta vermelha^ que abre so- 
bre um pateo de pedra, separado do pomar, 
cujo nivcl lhe é inferior. A sala de recepção 



A guerrilha de frei Simão IS 

era a de entrada, brazonada no tecto. Seguia-se, 
para o interior da casa, um corredor que da- 
va ingresso aos quartos de cama. 

Fora do edifício ficavam as dependências do 
solar, as officinas agricolas, a habitação dos ca- 
seiros, e a capella de familia, hoje desmante- 
lada. 

A esposa de José Bernardo havia fallecido, 
deixando tia alma do viuvo um denso negru- 
me de saudade, cada vez mais cerrado pela 
tristeza da inércia, a que a doença o ia redu- 
zindo. 

Viviam muito solitárias as quatro meninas, 
orphãs de mãe, e privadas da tutclla vigilante 
do pae, achacoso e triste. 

Frei José tinha comprado a Quinta de D. 
Maria, a dois passos do Outeiro, e doára-a a 
todas as quatro irmãs para sua habitação. Mas 
no Outeiro ou em D. Maria a solidão era igual 
para ellas. 

Quatro irmãos, ausentes: José e Simão cada 
um em seu mosteiro; Frederico no Porto, Joa- 
quim Maria em Traz-os-Montes. 

Frei Simão, cujo caracter enérgico e deste- 
mido animo nunca poderam deixar-se domar 
pelo habito de S. Bernardo, a si próprio quiz 
justificar a ideia de que a sua presença se tor- 
nava necessária em Cezár, para companhia e am- 
paro das irmãs. 

Era até certo ponto um pretexto, por isso 
que as quatro meninas ainda tinham o irmão 
mais novo, António, e a tia, irmã do pae, que 
podiam acompanhal-as. 

Mas frei Simão, a quem a vida religiosa só 
repugnava pela disciplina monástica e pela su- 



r6 Romanre histórico 

jeiçào claustral, lançou mão d'esse pretexto pa- 
ra insistir no pensamento de obter a seculari- 
sacão. 

A liberdade de acçào e o regresso á terra 
natal, aos campos da sua infância, sorriam-lhe 
como um sonho de felicidade. 

EUe havia adquirido propriedades em Alco- 
baça, comprara ahi a quinta chamada do Mogo, 
mas o seu espirito nunca se apegara tanto ao 
torrão florente e ubérrimo da Extremadura co- 
mo aos campos de Cezár, menos pittoresros cer- 
tamente, mas mais suggestivos para elle, por- 
que desde creança os conhecia e amava. 

Dispondo de um animo capaz de tentar em- 
presas difficeis e de arrostar com obstáculos, 
frei Simão requereu em Roma a secularisaçào, 
allegando o pretexto que as circumstancias de 
família lhe forneciam. Mas não confiou tanto 
na justiça da allegação, que não pensasse cm 
reforçar o pedido com valiosas recommenda 
ções para o núncio em Portugal, monsenho' 
Vicente Macchi, para o embaixador portuguer 
em Roma, conde do Funchal, e para o cardeaz 
Pacca, prosecretari ") de estado na Santa Sé. 1 
Succedia que o cardeal Bartholomeu Pacca 
tinha estado como núncio em Lisboa, para 
onde viera em maio de I795> sendo então ar- 
cebispo de Damietta. Vinha já de represen- 
tar o Papa na corte de Luiz XVÍ, d'onde se 
retirara quando o scisma rebentou. Demorou-?e 
em Lisboa até l8oo. No principio do anno se- 
guinte, Pio VII chamou-o a Roma, deu-lhe o 
chapéu cardinalício, e investiu-o nas fi.rxçôes 
de prosecretario d'estado. Bartholomeu Pacca 
soffreu, ao lado do Pontífice, as prepotências 



A guerrilha de frei Simão 17 

■de Napoleão I. Esteve preso em França, por- 
que o imperador via nelle o instigador da bulia 
d'excoaimunhâo com que havia sido fulminado. 
Em 1^14 voltou com Pio VII a Roma, e reas- 
-sumiu as ftincçôes que axites desempenhava. 

Durante a sua nunciatura em Portugal, o car- 
deal Pacca creára em Lisboa muitas relações 
com pessoas de alto valimento, persónas gra- 
taSy que lhe podiam recommendar, com effica- 
cia, qualquer memorial. 

Nâo se vae porém a Roma n'um dia, di2 o 
-proloquio, tão verdadeiro em relação ás pes- 
soas cocnoaos negócios. Demais a mais, a po- 
litica napoleonica continuou a dar que fazer á 
Santa Sé: em 18 15 Murat marchmi sobre Ro- 
ma, e o cardeal Pacca, depois de ter protes- 
tado contida a violação do territcwio e nomea- 
do uma junta provisória para govei'nar a ci- 
dade sagrada, fugiu. 

A pretensão de frei Simão de Vasconcellos 
foi retardada por todos estes accontecimentos 
políticos. 

Mas quando em junho d 'esse anno o cardeal 
Pacca voltou a Roma, redobraram-se junto d'eUe 
as instancias movidas por frei Simão e aucto- 
risadas com a informação favorável do geral 
da ordem de S. Bernardo e do bispo do Porto. 

Antes de sahir como enviado extraordinário 
para Vienna, em 1816, o cardeal Pacca referen- 
dos, a 17 de março, o breve de secularisaçào 
de frei Simão de Vasconcellos, com o funda- 
mento de poder «prestar auxilio a quatro ir- 
mãs germanas, somente emquanto d elle care- 
cessem», e com a reserva «de trazer. sob o ha- 
bito de presbytero secular algum signal do seu 

2 



l8 Romance histórico 



habito monástico, e de observar a parte sub- 
stancial dos votos da sua profissão». 

Frei Simão era então um homem de vinte 
e sete annos. Louro, de olhos azues — esses 
bellos olhos que caracterisavára toda a sua fa»- 
milia— largo de hombros, peito amplo, cabeça 
desenvolvida, estatura regular. 

Gom grande alegria recebeu elleo breve que 
o emancipava da vida conventual. 

Mas não despiu a coguUa branca, nem tirou 
o chapéu preto, nem desatou o cordão que en- 
rolava á cinta. Sahiu assim de Alcobaça, e as- 
sim, indo alem da imposição que superiormen- 
te lhe fora feita, o viam os seus parentes e vi- 
sinhos desde que regressara a Cezár. 

Certos visinhos não o tornaram a ver com bons 
olhos, porque o temiam como homem e o abor- 
reciam como frade secularisado, que não se 
pejava de mostrar-se inclinado á corrente de 
ideias revolucionarias que tinham vindo de 
França. 

Mas frei Simão, fazendo-se lavrador ou tra- 
balhando n*uma improvisada officina de me- 
cânica, que montara na casa do Outeiro, dava 
mediana importância a visinhos de ao pé da 
porta. 

Alguns mendigos de Cezár, da Feira e de 
Oliveira de Azeméis iam esmolar ao pateo da 
casa do Outeiro. Frei Simão soccorria-os. Ani- 
mados por este precedente, alguns trabalhado- 
res recorreram ao frade para que lhes empres- 
tasse qualquer quantia de que urgentemente 
precisavam. Frei Simão attendia-os, e pergun- 
ta va-lhes: 

— Quando julgas tu poder pagar? 



A guerrilha de frei Simão 19 



3SB 



— Saiba vossa reverencia que d'aqui a seis 
mezes. 

— Pois bera. Dou-te outros seis mezes de es- 
pera, mas toma sentido, que se d'aqui a um 
anno me faltares, comigo terás de haver-te. 

Se, passado um anno, o devedor ia pagar 
pontualmente, conquistava por esse facto a sym- 
pathia e confiança de frei Simão: podia contar, 
de futuro, com a sua algibeira. Se faltava á fé 
do contrato verbal, o frade, quando acontecia 
encontrar o devedor, crescia para elle, coléri- 
co, de bordão em punho, ameaçando punil-o 
corporalmente. 

Frei Simão tinha uma justiça propriamente 
sua, principalmente baseada nos dictames da 
consciência: bom para os bons, severo para com 
os delinquentes. 

E em questões de dinheiro era de uma me- 
ticulosidade intransigente, tanto em relação a 
si mesmo como aos outros. 

Frequentemente percorria todas as proprie- 
dades da familia desde Oliveira de Azeméis até 
Arouca, auxiliando na direcção agrícola dos bens 
o irmão Frederico, antes e depois de casado. 

Pela irmã mais velha, que lhe era especial- 
mente dedicada, soube frçi Simão que D. Anna 
José correspondia ao amor de um rapaz, natu- 
ral do Fundão, de appellido Fonseca, e sobri- 
nho de um visinho do Outeiro. 

O frade não conhecia o namorado da irmã, 
que só apparecia em Cezár no tempo das fe- 
rias, mas acertou de se encontrar com elle na 
occasiào em que o general Gomes Freire e os 
seus companheiros de infortúnio já estavam 
entre ferros corno réos de alta traição. 



20 Romance histórico 



Gostou do rapaz, que era elegante, alto, mo- 
reno, cheia a physionomia de vivacidade penin- 
sular: os olhos, muito pretos e luminosos, de- 
nunciavam-lhe o ardor da imaginação insoffrida. 
O estudante e o frade começaram por con- 
versar de superficialidades cerimoniosas, vindo 
frei Simão a «?^er que José Máximo da Fon- 
seca cursava ainda preparatórios no CoUegio 
das Artes, porque o pae levara tempo a con- 
sentir em que trocasse a agricultura pela vida 
litteraria. 

Mas o estudante, com a confiança que lhe 
inspirava o facto de frei Simão ser irmão da 
mulher amada, e liberal convicto, não tardou, 
a abrir-se em confidencias com elle. 

Contou-lhe que em Coimbra era caloiro do 
alumno de medicina José Maria de Lemos, pa- 
rente próximo do bispo-conde, e único estu- 
dante que admittiam ás suas conferencias os 
organisadores da loja maçónica Sapiência^ a 
qual no anno seguinte começou a funccionar 
perto do Collegio Novo. 

Pela convivência com o Lemos, a quem era 
cegamente dedicado, ganhara José Máximo de- 
cidido enthusiasmo pelos principios liberaes, 
que sentia não poder defender ainda a peito 
descoberto em razão de ser estudante de so- 
menos categoria. 

Contou-lhe mais que quem o recommendára 
ao académico Lemos fora o major reformado 
José Máximo Pinto da Fonseca Rangel, seu 
padrinho e parente, que de uma quinta de 
Traz-os-Montes tivera de evadir-se para Hes- 
panha, por estar implicado na mallograda re- 
volta constitucional de Lisboa. 



A guerrilha de frei Simão 21 



• Todo o seu desejo era vingar algum dia. os 
trabalhos que o padrinho estava soff rendo por 
amor da liberdade. 

Revelou a frei Simão que escrevera uma ode 
em honra de Gomes Freire, e que a mandara 
ao padrinho para Hespanha. 

Finalmente, segredou-ljie que occultava as 
suas ideias ao tio de Cezár, que não podia ver 
liberaes, e qiie lh*as occultava porque gostava 
de vir passar com elle as férias. 

N*este lance, calou José Máximo, discreta- 
mente, a razão capitcU por que preferia Ce- 
zár ao Fundão para passar as férias, a qual 
razão vinha a ser estar namorado de D. Anna 
de Vasconcellos, a mais linda entre todas as 
irmãs de frei Simão. 

O frade comprehenheu José Máximo, e af- 
feiçoou-se-lhe pela concomitância de sentimen- 
tos liberaes, que os igualava em pontos de vis- 
ta politicos, apesar do frade ser alguns annos 
mais velho que o estudante. 

Frei Simão gostou do rapaz, poeta da li- 
berdade aos vinte annos. 

Mas Ignacio da Fonseca, o tio de José Má- 
ximo, surprehendendo-o uma vez a conversar 
com frei Simão, empoleirados ambos no muro 
de um atalho, berrou com o sobrinho, quando 
elle entrou em casa, e prohibiu-lhe expressa- 
mente que mantivesse relações com um sujeito 
de tão más ideias, disse Ignacio da Fonseca, 
e peiores sentimentos. 

José Máximo, tendo inquadrada na alnia ar- 
dente a imagem de D. Anna de Vasconcellos, 
ió a ella via eraquanto Ignacio da Fonseca ber- 
rava. E para evitar a contrariedade de ser 



22 Romance histvrico 

^ • == 

expulso de Cezár, metteu-se debaixo dos pés 
do tio, attríbuindo a um encontro casual a con- 
versação no atalho. 

— O que te disse elle? perguntava apopleti- 
co o lavrador. Havia de faliar-te d 'esses ma- 
rotos de Lisboa, raça infame de pedreiros-li- 
vres, corja maldita de maçons, que querem 
dar cabo da Santa Religião e d*El-Rei nosso 
senhor. . . 

— Não falíamos de politica, meu tio, respon- 
dia José Máximo mentindo com quantos den- 
tes tinha na bocca. Que me importa a mim a 
politica ? 

— Mas o que te esteve então elle dizendo ? 
— Contou-me historias dos frades de Alco- 
baça. 

— Bonitas historias deviam ser essas ! con- 
tadas por um frade impio, que abandonou a 
casa de Deus para vir ser vadio e espião na 
sua terral 

— Espião ! exclamou involuntariamente José 
Máximo. 

— Espião, sim, que se não pode dar um 
passo sem ser presentido por elle. Mas que 
tome cuidado, que assim como Gomes Freire 
e os outros estão com a vida por um fio, bem 
lhe pode acontecer o mesmo, e não se perde 
grande cousa. 

— Eu ignorava que o tio não queria que f al- 
iasse com frei Simão. Mas para o futuro cum- 
prirei as suas ordens. 

T— Eu sei lá I Tu foste levado á pia do ba- 
pti^smo por um maçon (referia^se ao major re- 
formado Fonseca Rangel), tens o mesmo nome, 
podes ter também as mesmas manhas do teu 



A guerrilha de frei Simão 23 

padrinho. Mas põe os olhos n eile, que lá anda 
a monte por Hespanha, por ser jacobino e 
cuspir na sagrada face de Jesus Christo. 

— Meu padrinho fazia isso ? perguntou José 
Máximo com inadvertida incredulidade. 

— Pois o que fazem todos os pedreiros-li- 
yres, toda a cáfila dos maçons ?! Se o náo sa- 
bes, não o queiras saber, porque mettes a tua 
alma no inferno. Juizinho, sr. José Máximo, e 
não me ande por esses campos de Cezár a ler 
livros que não sei d'onde lhe vieram, nem a 
cochichar com o frade do Outeiro, que fez 
pacto com Satanaz. Que livros são esses que 
tu lês ? 

—São os meus livros de Coimbra, tio. 

— Pensei que fossem de França ou de Hes- 
panha . . . Estás em ferias, não estás ? Pois 
descansa, e diverte-te. Pega n'uma espingarda 
e atira aos pássaros. Isso é que é divertimen- 
to próprio de um rapaz, quando não tem que 
fazer. 

José Máximo, logo que o tio voltou costas, 
foi esconder entalada n*uma trave do sótão a 
Folhinha do Père Gérard, publicação revolu- 
cionaria, vinda de França, de que um francez, 
Jacques Borel, havia mandado imprimir em 
Pariz doze mil exemplares, que, traduzidos em 
portuguez, foram expressamente destinados a 
Portugal. 

Esse era o livro que elle, dias antes, andara 
lendo por disfarce nas circumvisinh ancas do 
Outeiro, de modo a poder ver de longe D. 
Anna de Vasconcellos, que de quando em 
quando chegava a uma das janellas empana- 
das por uma espessa cortina de parietárías. 



24 Romance histórico 

£Ue bem tinha visto passar o tto, de enxa- 
da ao hombro, em direcção á presa^ cujas 
aguas ia soltar para a rega. 

Todo o cuidado de José Máximo, n*essa oc- 
casião, foi mostrar-se muito absorvido na lei- 
tura, para evitar que o tto podesse suspeitar 
que a cabeça de D. Anna José estava esprei- 
tanio por sob as bamboiinas da trepadeira. 

Mas, se se livrou de um. perigo, cahiu n'ou- 
tro, porque Ignacio da P^onseca, se não suspei- 
tou do namoro, desconfiou do livro. 

Ainda bem que o lavrador lhe manifestou 
essa desconfiança, porque José Máximo prevê- 
niu-se escondendo a Folhinha do Père Gérard. 
Se Ignacio da Fonseca a tivesse podido haver 
á mão, decerto a teria ido mostrar ao abbade 
Moreira Mala ou ao padre António Pinheiro, 
que Jhe abririam os olhos sobre a inconveniên- 
cia de til leitura,^-^uma peste revolucionaria. 

O abbade Moreira Maia era um conservador 
sincero, mas tolerante, talvez porque a Índole 
sentimental lhe amaciasse as convicções politi- 
cas. Fra um poeta, que amava os versos e as 
flores. Posto gostasse de exteriorisar um granr 
de respeito pelas tradições fidalgas, de exhibir 
pomposamente cavallos e lacaios, dedica va-se 
a cultivar os canteiros no jardim do presbyte- 
rio, jardim embonecado de estatuas mytholo- 
gicas, com dísticos em verso compostos pelo 
abbade. 

Todos os dias Moreira Maia descia a escada 
de pedra do Passal para ir tratar das suas flo- 
res. Só depois de satisfeita essa predilecção ar^ 
tistica, vestia uma casaca de seda verde, ulti- 
mava a sua toilette elegante de cavalleíro. 



A gu£r rilha d^ frei Simão 2$ 

Quando sentia o tinir das ferraduras do ca^ 
vallo impaciente no largo que se defronta com 
a egreja, e a meio do qual se levanta um cru* 
zeiro, era que o abbade apparecia á varanda 
aberta, que então havia no Passal, calçando 
ainda as suas grandes luvas de anta 

Depois, de chicote debaixo do braço, aper- 
tando por ventura algum botão das luvas, des- 
cia a escada, e examinava o cavallo, que um 
lacaio segurava pela rédea. 

Se não tinha qualquer observação a fa^er, 
montava com firmeza, e lá ia, como se dizia 
então, fazer estremecer as pedras das ruas em 
Oliveira de Azeméis. 

Este typo de abbade, dado a proezas eques- 
tres e venatorias, padre enxertado em spartmath 
foi muito vulgar n'aqueile tempo. 

A sua toilette mundana era a casaca. 

O famoso bispo santo de Bragança e Miranda, 
D. António Luiz, que por esse tempo era assum- 
pto de contradictorias opiniões, queixou-se en^ 
carta ao abbade de Rebordães de que, ao tomar 
conta da sua diocesse, o commum da clerezia^ 
trazia casaca, salvos alguns raros ecclesiasticos, 
mais pios, que usavam uma chamarra aberta; 
€ accrescentava que &ó á força de advertências 
conseguira impor o habito talar cerrado na 
forma dos cânones. 

Mas o bhpo smUo não fizera escola nem en- 
tre os prelados seus coUegas, nem entre o clero 
de Bragança e outras dioceses. O que em ge- 
ral os ecclesiasticos vestiam fora da egreja era 
a casaca de seda. O abbade Moreira Maia não 
^ingularisava, pois, uma excepção. 

E, com a liberdade então permittida á sua. 



26 Romance histórico 

classe, passava grandes temporadas longe da 
parochia, em festas de sport e distracções ar- 
tísticas, sempre com um certo cunho de ele- 
gantes mundanidades. 

Levava com sigo para as caçadas e demais 

excursões recreativas todos os seus lacaios, to- 

. dos os criados de libré, em numero ostentoso. 

Na abbadia ficava apenas uma criada velha, 
Gertrudes Magna, tia do padre António Pinhei- 
ro, que ella havia creado de pequenino, e que 
o abbade escolhera como coadjuctor, para 
curar a parochia durante as suas longas e fre- 
quentes ausências. 

Este padre era um espirito concentrado, que 
fugia ao mundo. Vivia habitualmente no Pas- 
sal de Cezár, mettido no seu quarto, entregue 
á leitura dos livros santos, e sempre prompto 
ao trabalho parochial, que o abbade tantas ve- 
zes declinava n*elle. 

' Vivia uma vida simples, frugal, inteiramente 
opposta á do abbade. 

Era uma alma sincera, incapaz de ódios, mas 
a quem causavam horror todos os inimigos da 
religião christã, suppostos ou verdadeiros. 

Frei Simão, para elle, estava n'este caso. 
Horrorisava-o, porque era pedreiro-livre, se- 
gundo se dizia, e os pedreiros-livres, sobre não 
ter religião, insulta vam-n'a. 

Por sua parte, o abbade Moreira Maia não 
podia gostar, como realista que era, do frade 
constitucional do Outeiro. Mas não o detesta- 
va, porque o seu animo era avesso a persegui- 
ções facciosas e porque, respeitador da tradi- 
ção das famílias, reconhecia em frei Simão um 
•homem de boa linhagem. 



A guerrilha de frei Simão 27 

José Máximo, depois das explicações que ti- 
vera com o tio, resolveu escrever a frei Simão, 
communicando-lhe que Ignacio da Fonseca via 
com maus olhos que publicamente conversas- 
sem um com o outro. ContavaJhe o caso da 
Folhinha do Père Gérard. E pedia-lhe que con- 
tinuasse a ser seu amigo, e a manter relações 
com elle, embora precisassem, d*ali em deante, 
occultar discretamente as suas entrevistas. 

Para ser mais uma vez agradável ao tio, José 
Máximo limpou uma espingarda velha que en- 
controu a um canto da casa, e foi caçar. 

Completando o disfarce, o estudante dispa- 
rava muito tiros sempre que avistava Ignacio 
da Fonseca trabalhando nos campos com os 
criados. 

O tio, ouvindo as detonações successivas, 
olhava para o ar e, como não visse passar ca- 
ça, ria-se, e dizia para os criados: 

— O diabo do rapaz entende tanto d*aquilIo 
como de lagares de azeite ! 



# 



III 
Loneura revolucionaria 



Que erradas contas tai a pbantaBial 
Potstudopilra em morte, tudo eiii vtnto. 
Triste o que esp«j'a! triste o que conllaj 
l^ímOes— «Sonetos-. 



A l8 de outubro de 1817 ardiam nas foguei- 
ras do Campo de Sant'Anna em Lisboa os ca- 
dáveres dos patriotas líberaea, que haviam sido 
condemnados pelo crime de leâa-magestade e 
alta traição. 

A respectiva sentença ordenava que os cor- 
pos de doze conspiradores, depois de terem pas- 
sado pelo garrote, depois de lhes haverem sido 
decepadas as cabeças, fossem queimados, e as 
suas cinzas lançadas ao mar. Apenas abria ex- 
cepção, pelo que tocava á infâmia posthuma da 
fogueira, para quatro réus. Mas a todos envol- 
via na consficaçâo dos bens que possuíssem. 

O tenente-general Gomes Freire de Andrade 
foi executado na "torre de S. Julião da Barra, 
longe dos seus companheiros de desgraça, por- 
que se receiou que o supplicio n'uma praça pu- 
" blica desse origem a manifestações populares, 

O crime d'esses doze patriotas, e de outros 



3o Romance histórico 

que foram condemnados a degredo, consistia na 
aspiração de libertarem o paiz da tutella do 
marechal Beresford, como primeiro passo para 
a conquista de um regimen de autonomia con- 
stitucional. 

A denuncia foi feita ao próprio marechal 
por três indivíduos alliciados pelos conspirado- 
res. Beresford tratou de coordenar as provas 
da conspiração. Depois entregou o processo ao 
conselho da regência, para que o fizesse sub- 
metter a julgamento summario, sem admissão 
de recurso ao rei, que estava no Rio de Ja- 
neiro. 

Mal podemos imaginar hoje a profunda sen- 
sação que este lúgubre acontecimento causou 
nos espíritos fanatisados pelo ideal da liberda- 
de. O sangue das victimas clama vingança. As 
fogueiras de Lisboa aqueceram, ao longe, nas 
províncias, o desejo da desforra. Só Lisboa fi- 
cou como que mergulhada n*um enervamento 
de pasmo e terror. 

Todas as esperanças dos liberaes se volta- 
vam para o norte do paiz, especialmente para 
o Porto, terra clássica das arremettidas cora- 
josas. 

Suspeita va-se vagamente que não ficariam 
inertes alguns homens de grande valor, cujo 
espirito era reconhecido n aquella cidade como 
affecto ao progresso das instituições politicas. 
Indica vam-se nomes: o do desembargador Fer- 
nandes Thomaz e o do advogado José Ferreira 
Borges, secretario da Companhia dos Vinhos. 
José Máximo já tinha voltado a Coimbra quan- 
do o garrote e o fogo fizeram abortar em Lis- 
boa a primeira tentativa de revolução. 



A guerrilha de frei Simão 31 

1 

A tal ponto se exaltou, que abandonou o 
Colleg^io das Artes e, deixando uma carta con- 
fidencial ao seu veterano Lemos, sahiu de Coim- 
bra. 

Chegou de noite a Cezár e foi bater á porta 
da casa do Outeiro, dizendo -se portador de 
uma mensagem secreta para frei Simão. 

Após breves momentos de espera, o ex-frade 
de Alcobaça appareceu a receber o mysterioso 
mensageiro. Ficou admirado de ver afi, áquella 
hora, José Máximo da Fonseca. 

O estudante não justificou a visita senão pe- 
las exaltadas palavras com que rapidamente 
denunciou o estado do seu espirito. 

Vibrava indignado pelos acontecimentos de 
Lisboa. Sentia-se incapaz de estudar, revolta- 
va-o a ideia de receber a instrucção pela taça 
da tyrannia, segundo o seu próprio modo de 
dizer. Preferia ser soldado e conspirador onde 
quer que a causa da liberdade carecesse dos 
seus serviços. Se fosse precisa uma cabeça para 
o sacrificio, da melhor vontade ofFereceria o 
seu corpo ao garrote e á fogueira. 

Frei Simão teve um momento de bom con- 
selho fazendo notar a José Máximo que elle ar- 
riscava o seu futuro, e incorreria não só no des- 
agrado, mas até no ódio do tio. 

O estudante respondeu com fogosa convic- 
ção: 

— Que me importa arriscar o futuro, se es- 
tou prompto a arriscar a vida ? ! 

Frei Simão, encantado com o animo valo- 
roso daquelle rapaz, que pelo ardor do sangue 
parecia seu irmão, deixou cahir a mascara, e 
também por sua vez clamou por vingança con- 



32 Romance histórico 



"17" 'I 



!^WW^^>« 



tra os algozes de homens cujo único crime era 
amarem a liberdade e a pátria. 

Estabelecida uma intima Gommunicaçâo en- 
tre o frade e o estudante, como se uma cor- 
rente eléctrica os inflam masse simultaneamen- 
te, frei Simão contou a José Máximo que tinha 
recebido uma carta do Porto, de seu irmão 
Frederico, que em linguagem nublosa lhe dava 
a entender o que quer que fosse de possivets 
combinações revolucionarias. Frei Simão sus- 
peitava que Frederico o saberia por confiden- 
cia do coronel Sepúlveda. 

— Pois vou ao Porto ! disse com resolíição o 
estudante. E parto já. 

' — Já ? ! exclamou com surpresa frei Simão. 

Correu o frade a uma das janellas e abriu-a 
de repente. 

A madrugada clareava o ceu n'uma alvura 
nitente de leite crystalisado. 

— Não ! disse elle. Os criados de seu tio, 
e talvez elle próprio, já devem estar a pé. Se- 
ria uma imprudência inútil atravessar agora 
Cezár, podendo ser surprehendido. Vossa mer- 
cê fica n'esta casa até que escureça, e partirá 
de noite. Dar-lhe-hei uma carta para meu irmão 
Frederico, que mora a Santo Ovidio, perto do 
quartel. Só lhe peço, como retribuição, que, 
n'uma cifra que logo combinaremos, me vá in- 
formando do que se passar no Porto. 

Ficar n'aquella casa até á noite! Passar um 
dia inteiro sob o mesmo tecto que abrigava 
D; Anna de Vasconcellos ! Só este programma 
de felicidade o poderia deter na sua louca 
aventura de ir ao Porto. Se fora o amor que 
o trouxera a Cezár, a pretexto de desabafar 



A gueyrilha de frei Simão 33 

com frei Simão, seria ainda o amor que o 
reteria ali durante umas felicíssimas vinte e 
quatro horas, que passariam rápidas como um 
sonho. 

José Máximo, olhando para dentro de si, 
sentia-se heroe. No meio d aquella familia li- 
beral, Anna de Vasconcellos seria decerto a 
primeira pessoa que lhe eng^randeceria a cora- 
gem e o arrojo, e era justamente a seus olhos 
qUe elle ambicionava ser heroe laureado ou 
victima celebre. Pouco lhe importava que acon- 
tecesse uma ou outra cousa, comtanto que D. 
Anna o considerasse como um homem da es- 
tatura moral de frei Simão, capaz de arrostar 
com ódios acerbos e de manter até ao heroís- 
mo as suas fortes convicções politicas. 

Quiz frei Simão que José Máximo fosse des- 
cançar algum tempo da fadiga da jornada. 

O estudante obedeceu por delicadesa, porque 
não sentia cansaço nem somno. 

Deram-lhe o quarto dos hospedes^ sempre pre- 
parado nas casas hospitaleiras da provincia. 

José Máximo deitou-se, mas não conseguiu 
adormecer. A sua fogosa imaginação ardia em 
sonhos de vaga felicidade. Cria-se já um heroe 
na atmosphera d 'aquella casa, a que o coração 
o prendia. A imagem de Anna de Vasconcel- 
los, que devia estar ali perto, sorria-lhe como o 
anjo da victoria, que lhe promettesse os louros 
de um duplo triumpho. 

A's oito horas da manhã, frei Simão bateu 
á porta do quarto do hospede. Eram horas de 
almoço. José Máximo não se kz esperar muito 
tempo. O coração salta va-lhe do peito em pal- 
pitações desordenadas. Era que se aproximava 

3 



34 Romance histórico 

O momento de, pela primeira vez, poder fitar 
rosto a rosto a mulher amada, que até ahi ape- 
nas tinha contemplado de longfe. 

Durante o almoço e as breves horas que se 
lhe seguiram, o precoce revolucionário do Fun- 
-dão sentiu-se cobarde deante de D. Anna de 
Vasconcellos, a si próprio se extranhou pelo aca- 
nhamento que o enleiava. Cerca do meio-dia, o 
acanhamento converteu-se em extasi quando, na 
sala nobre do Outeiro, a formosa menina dedi- 
lhou timidamente cythara franceza, em honra 
do seu hospede. Ao declinar da tarde, o estu- 
dante tinha ganhado coragem, a ponto de, já 
senhor de si, poder dizer de fugida a D. Anna 
de Vasconcellos uma coisa que ella sabia a 
preceito : «Amo-a como se pode adorar um 
anjo. » 

A esta incendida declaração de amor respon- 
deu uma onda de sangue, que do coração su- 
biu ás faces de Anna de Vasconcellos. 

Pelas oito horas da noite, frei Simão chamou 
á parte José Máximo, que se preparava para 
partir, e disse-lhe: 

— Vossa mercê c«'tamente leva pouco di- 
nheiro comsigo. Bolsa de estudante costuma 
ser magra. 

José Máximo respondeu, de prompto, que não 
precisava dinheiro. 

— Ha de precisar, replicou frei Simão, pelo 
menos para as primeiras despesas. Depois, meu 
irmão Frederico, como n'esta carta lhe recom- 
mendo, olhará por vossa mercê. 

José Máximo quiz ainda resistir á oíferta, mas 
frei Simão entregou-lhe uma peça de ouro, dez 
crusados novos, e, como galanteria, a titulo de 



A guerrilha de frei Simão 35 

recordação d'aquella visita, um napoleõo, moeda 
franceza que Junot havia introduzido em Por- 
tugal, e que tinha corrido com o mesmo valor 
das peças portuguezas: 6jJ400 réis. 

— Esta moeda, disse o frade referíndo-se ao 
napoleão^ ficou com algumas outras no pé de 
meia da minha familia como memoria histórica 
de uma epocha nefanda. Quero eu que vossa 
mercê a possua como um vademeco que lhe ha 
de espiritar o amor á pátria e á liberdade, quando 
se lembrar de que os tyrannos pretendem es- 
cravisar os povos não só pelo ferro, mas tam- 
bém pelo ouro. 

José Máximo agradeceu, confundido, a gene- 
rosa dádiva de frei Simão, e sahiu da casa do 
Outeiro tão fascinado pela recordação deliciosa 
d*aquelle dia como pela ambição de poder ser, 
àos olhos de Anna de Vasconcellos e da pá- 
tria, um libertador audaz, um redemptor im- 
mortal. 

Metteu por atalhos até encontrar, á distancia 
de uma légua, a estrada real de Coimbra ao 
Pprto. 

Graças á generosidade de frei Simão, pode- 
ria fazer o resto da jornada mais commoda- 
mente, logo que encontrasse no caminho um 
almocreve ou um lavrador que lhe quizesse alu- 
gar um macho. 

Marchou desembaraçadamente toda a noite. 
Só quando já alvejavam os primeiros clarões 
da manhã, descançou recostado ao tronco de 
uma arvore, por alguns momentos. Então uma 
voz de camponesa, plangentemente cadenciada, 
começou a cantar a pequena distancia: 



36 Romance histórico 

Quem quer ver ura infeliz, 
Que nasceu ao pé da faya? 
Não ha desgraça nenhuma, 
Que n'este infeliz não caia! 

José Máximo, instincti vãmente, levantou os. 
olhos para a arvore a cujo tronco se tinha en- 
costado: era uma faya. 

Esta coincidência impressionou-o. 
EUe tinha bebido com o leite materno a cre- 
dulidade nas supertiçôes populares. Os agou- 
ros são a tea de aranha em que se enredam 
muitas organisações audazes, que não costu- 
mam tremer deante de perigos reaes. Um va- 
go presentimento intimida-as mais do que um 
franco adversário. E comprehende-se que seja 
assim, porque os fortes, por isso mesmo que 
não receiam os homens na lueta com elles, ape- 
nas podem acobardar-se deante do poder mys- 
terioso que regula os acontecimentos humanos.. 
Aquelle rapaz, que parecia haver nascido 
para luctar, tinha, como Achilles, um calca- 
nhar vulnerável: era a indole supersticiosa 

Por isso, ergueu-se rajpidamente, seguindo- 
jornada para fugir a esse logar de triste re- 
cordação, — como quem se dá pressa em cortar 
o inesperado encontro de um ruim agouro. 




IV 



A ÍDÍcíapo 



...a elli; aprouve que uão per offi- 
cio, mas per iudiguaçSo, Dão por 
premio, mas de graça, e mais oue- 
recido que convidado... 
Joãu de Barros — «Década pri- 



meira». 



José Máximo chegou ao Porto e correu a 
«casa de Frederico Pinto para lhe entregar a 
carta de frei Simão. 

Eram as suas credeuciaes de revolucionário: 
desejava apresental-as sem demora. -• 

Na casa de Santo Ovidio, o camarada de 
Frederico Pinto disse-lhe que o sr. alferes aju- 
dante devia estar no quartel. 

José Máximo atravessou rapidamente a rua, 
foi procurar o ajudante. Pelo Campo passeia- 
vam alguns officiaes, mas o estudante, tão ce- 
go ia, que não fez reparo n*elles. 

Chegando á porta do quartel, perguntou á 
sentinella: 

— Pode dizer-me onde está o sr. alferes aju- 
dante? 

— Acolá, conversando com o nosso coronel, 
respondeu a sentinella. 

Então José Máximo viu que effectivamente o 



38 . Romance histérico 

I" ' a s 

coronel e o ajudante andavam passeiando junta 
ás arvores, que ao oriente marginam o Campo 
de Santo Ovidio. 

Dirigiu-se para os dois e, parando deante 
d*elles, disse tirando o chapéu: 

— Desejo entregar ao sr. alferes uma carta 
de frei Simão de Vasconcellos. 

Frederico Pinto mostrou-se algum tanto in- 
quieto: receiou más noticias de Cezár. 

— Peço licença ao meu coronel . . . disse elle. 

— A' vontade, respondeu Sepúlveda, aífas- 
tando-se um pouco, e continuando a passeiar» 

O ajudante leu com visivel interesse, e a sua 
physionomia, durante a leitura, revelava sur- 
preza. 

Quando chegou ao fim da carta, mediu com 
um olhar perscrutador a pessoa de José Máxi- 
mo. Tudo o que se estava passando lhe devia 
parecer muito extraordinário, porque Frederi- 
co Pinto mostrava-se enleiado, sem atinar com 
o que havia de dizer. 

Felizmente encontrou uma formula dilatória, 
que lhe permittiu tirar-se do embaraço. 

— Folgo muito de conhecer o sr. José Maxi^ 
mo, e, como deseja meu irmão, estou inteira- 
mente ao seu dispor. Louvo a sua patriótica 
resolução, e oxalá que ella possa ser útil á sal- 
vação do reino. Mas vossa mercê coroprehende 
que n'este momento não podemos along3.r-nos 
n*uma conversação, que lhe aproveite. O meu 
coronel está esperando por^mim. A'manhã fal- 
laremos, se me der o prazer de procurar-me 
em minha casa. Acolá. . . 

E indicou-lhe o prédio em que morava e que 
Jqsé Máximo já aliás conhecia. 



A guerrilha de frei Simão 39. 

O estudante retirou-se um pouco contrariado. 
Imaginava eile que o mesmo seria chegar ao 
Porto e iniciar-se no segredo das combinações 
revolucionarias, 

Frederico Pinto contou ao coronel Sepúlve- 
da o que acabava de passar-se. Leu-lhe a carta 
de frei Simão, accentuando os periodos que di- 
ziam: 

«Este moço possue uma alma generosa e he- 
róica. Adivinho n*elle um homem de acção. 
Aproveital-o será bem servir a pátria. Entrego- 
t*o para que o protejas e dirijas.» 

Sepúlveda riu doesta inesperada apparição 
de um rapaz exaltado até á loucura do heroísmo. 

— Feliz idade ! disse o coronel. Mas desgra- 
çada familia, a quem elle decerto prepara os 
grandes desgostos que resultam das contingên- 
cias politicas. 

— O que eu não sei é o que lhe hei de di- 
zer ! Oue vá estudando, é talvez o melhor con- 
selho que posso dar-lhe. E se elle quizer ficar no 
Porto, offerecer-lhe-hei o auxilio que precisar. 

— Sim, respondeu Sepúlveda muito reflexi- 
vo. Mas não me parece conveniente que o hos- 
pede em sua casa. O rapaz é exaltado, pode 
comprometter o hospedeiro. De mais a mais, 
ninguém tem o dom de adivinhar ao certo 
quanto tempo durará ainda a incubação de 
graves acontecimentos. E leitibre-se o ajudante 
de que, se o seu casamento se antecipar, o que 
é possível, a presenjça de um hospede perma- 
nente Bcr-lhe-ha incommoda. 

— Tudo isso me tinha lembrado, coronel, e 
foi essa a razão de lhe não oíferecer a minha 
casa. 



40 Romance histórico 

■ ■■■-^■1- ■ ■■■■■■ ■■■■■ ■- ■ ■ ■ ^_^^^^ ^———f«J^^^»JM^^ ^ ' _ * ^—M^^ 

— Mas, continuou Sepúlveda sempre reflexi- 
vo, eu hei de fallar n*este caso ao Fernandes 
Thomaz. Veremos o que elle diz. Entretanto o 
ajudante vá-lhe dizendo que espere, sem lhe 
dar outras explicações, que nos possam com- 
prometter. 

— De certo, meu coronel. Farei isso. 

Aquillo, no Porto, estava ainda muito atra- 
zado. Refiro -me aos trabalhos preliminares da 
revolução. Fernandes Thomaz pensava n'elia ; 
Ferreira Borges também. Sepúlveda estava dis- 
posto a auxiliar o movimento. Mas nào passa- 
va tudo ainda de vagos projectos, descosidos 
e nublosos. 

Comtudo, o coronel, logo que esteve com Fer- 
nandes Thomaz, contou -lhe a historia de José 
Máximo. Riram ambos com o caso, mas Fer- 
nandes Thomaz, com a sua intuição de revolu- 
cionário, acabou por dizer: 

— Quem sabe se o rapaz nos poderá prestar 
para alguma cousa, visto que frei Simão o 
afiança ! Veremos. 

Trez dias depois, José Máximo escrevia pa- 
ra Cezár a frei Simão. A sua carta, em cifra, 
denunciava certo desalento.. 

«Seu irmão, diziarlhe elle, recebeu -me muito 
bem, mas, quanto ao que nós sabemos, apenas 
me disse: Espere. E eu estou esperando que 
o coração da pátria accorde. Ardo na febre da 
impaciência, e receio que ella chegue ao perío- 
do agudo do desespero». 

Aproximando-se o natal de 1817, José Má- 
ximo consultou Frederico Pinto sobre se de- 
veria ir, como costumava, passar as ferias em 
Cezár. Já o ralavam saudades de Anna de Vas- 



A guerrilha de frei Simão 41 

concellos. E^ pdo que tocava á revolução, não 
estava menos atormentado, se bem que Fre- 
derico Pinto lhe tivesse dito uma ou outra vez 
com mais alguma decisão: «Isto vai indo.» 

Que fosse a ferias, açonselhou-lhe d ahi a dias 
o alferes ajudante, para que o tio de Cezár não 
desconfiasse da sua estada no Porto. Mas -con- 
cluiu por dizer lhe em tom imperativo: «Vos- 
sa mercê deve voltar depois do Natal, porque 
parece que os seus serviços vào ser aprovei- 
tados.» 

Oh ! que doida alegria a que estas lacónicas 
e mysteriosas palavras deram a José Máximo ! 
\h. ver Anna de Vasconcellos e entrar, finalmen- 
te, nos s^redos da conspiração. Sentia-se duas 
vezes ditoso. Sob esta agradável impressão 
partiu para Cezár. 

Uma vez em ferias; tudo se passou como de 
costume. José Máximo, de arma ás costas, ro- 
deiava, com disfarce, a casa do Outeiro, para 
avistar Anna de Vasconcellos, que perpassava 
no pateo de pedra voltado para os campos ou 
assomava de fugida a alguma das janellas vira- 
das ao nascente ou passeiava com as irmãs no 
souto de Santa Luzia. 

. N'aquelle tempo Cezár era uma terra morta, 
;m.uito solitária. Não a povoavam, como hoje, 
prédios garridos, de brazileiros dinheirosos. 
As duas torres da egreja, uma sem sinos, pa- 
reciam envergonhadas, em sua modéstia, de 
defrontar-se com as estatuas pretenciosas do 
jardim do abbade, — única pompa evidente em 
Cezár. Obasto pinheiral da serra do Pinheiro, 
ao norte, eccuhava n'uma solidão melancólica 
alguns vestígios de construcções célticas, ruínas 



42 Romance histórico 

do passado. E ao sul, a capellinha alvejante da 
Senhora da Graça erd a única nota risonha, 
que quebrava a monotonia triste do pinheiral» 
prolongado e basto. 

José Máximo não aguentaria o aborrecimen- 
to de Cezár, se a imagem de Anna de Vascon- 
cellos, vista de longe, não pairasse sobre toda 
aquella adormecida solidão de pinheiros e cam- 
pos de milho, illuminando-a como uma aurora. 
Mas forçoso era contentar-se com isso, vêl-a 
de longe, a discreta distancia, e com alguma 
secreta entrevista que tinha com frei Simão na 
espessura da serra do Pinheiro e em que jun- 
tos scismavam no que viriam a dar as myste- 
riosas combinações revolucionarias do Porto. 

Chegado o dia de Reis, José Máximo, ar- 
dente de impaciência, mandou um adeus escri- 
pto a D. Anna de Vasconcellos e partiu. 

Ao cabo de algumas semanas de espera no 
Porto, passado o dia 21 de janeiro de 1818, 
Frederico Pinto disse-lhe com grande reserva: 

— Amanhã, pelas oito horas da noite, vossa 
mercê irá á casa n.® 32 da rua das Taypas. Su- 
birá cautelosamente até ao primeiro andar, e ahi 
baterá quatro pancadas na porta, com os nós 
dos dedos. Sede dentro lhe responderem com 
idêntico signal, vossa mercê poderá entrar com 
plena confiança, porque estará entre amigos, e 
fará o que lhe disserem. 

José Máximo não dormiu essa noite, nem te- 
ve vontade de comer no dia seguinte. 

Dirigindo-se, á hora convencionada, para a 
rua das Taypas, entrou na casa que Frederico 
Pinto lhe indicara, e bateu quatro pancadas na 
porta do primeiro andar, com os nós dos de«^ 



A guerf ilha de frei Simão 43 

dos. Houve um momento de silencio e de de- 
mora. Mas outras quatro pancadas responde- 
ram de dentro, e a porta abriu -se. 

José Máximo, entrando, viu três homens 
sentados a uma mesa, sobre a qual ardia um 
candieiro de latão com três bicos. Todos os 
trez homens tinham a cara coberta por uma 
mascara de panno preto, similhante á dos Far- 
ricaços das procissões de penitencia. 

Este apparato de mysterio, em vez de ma- 
guar José Máximo, agradou-lhe, porque lhe deu 
a impressão de estar n'um club revolucionário^, 
em exercicio de funcções. 

> Desde aquelle momento também elle era um 
conspirador. 

Convidado a expor as suas convicções poli- 
ticas» José Máximo fel-o com desembaraço, até 
com exaltação. 

Applaudiram4he a fé patriótica, própria de 
corações generosos^ mas recommendaram-lhe 
discrição e prudência. 

— ^Tanto mais, disse um dos mascarados, que 
a missão de que vossa mercê vae ser encarre- 
gado, requer um longo e sabto disfarce. O nos- 
so uaico receio é a pouca idade de vossa mer- 
cê, que o pode fazer cahir em surprezas e ar- 
madilhas. 

José Máximo replicou com grande energia 
de caracter que, qualquer que fosse a missão 
que lhe incumbissem, saboria desempenhal-a 
com tino e perseverança. 

Havia nas suas palavras uma rara dedica- 
ção partidária em tão verdes annos. Sentia-se 
n aquelle meiço, quasi imberbe, a alma de um 
conspirador por vocação. 



44 Romance histórico 

Um dos mascarados, ouvindo a profissão de 
fé de José Máximo, passou a expor a missão 
que Ibe destinavam. 

Precisavam conhecer a maneira de pensar 
das principaes au^tortdades civis e militares do 
Porto com relação ao projectado movimento 
revolucionário: sondar até que ponto poderiam 
contar com a sua tolerância ou apoio; e sobre- 
tudo ser informados com solicitude do que se 
fosse passando em casa d*essas auctoridades, 
especialmente da qualidade? e numero das pes- 
soas que com ellas tivessem mais demoradas 
conferencias. 

— Para isto, disse um dos mascarados, pre- 
cisa vossa mercê tomar um disfarce qualquer, e 
esse disfarce não poderá deixar de ser o de uma 
occupação humilde, que vossa mercê suppor- 
tará com paciência e habilidade. O mais con- 
veniente seria o de serviçal, por se adaptar 
melhor ao nosso plano, visto ser pessoa de 
portas a dentro. 

— Obedecerei incondicionalmente, respondeu 
José Máximo. 

O inesperado d'este lance excedia todas as 
previsões, todos os seus sonhos de conspira- 
dor. A surpresa como que o aturdira por ins- 
tantes. Mas um dos mascarados, julgando erra- 
damente que José Máximo esfriara perante o 
sacrifício que lhe era exigido, procurou dissi- 
par-lhe suppostos escrúpulos, dizendo: 

— Os nossos adversários auctorisaram pelo 
exemplo os meios de que lançamos mão. Pois 
rião é verdade que, na mallograda tentativa do 
aDno passado, um desembargador, ajudante do 
intendente geral de policia, não duvidou intro* 



A guerrilha de frei Simão 45 

duzir-se no cárcere de um dos conspiradores, 
o architecto Sousa, para lhe arrancar revela- 
ções? Comtudo nós apenas procuranrios o bem 
da pátria; longe está do nosso animo o perse- 
guir individuos e fazer victimas. 

— Todos os meios são bons, quando ôs fins 
os justificam, respondeu resolutamente José Má- 
ximo. 

— Muito bem I Vossa mercê terá que sahir 
de tempos a tempos da casa que o receber co- 
mo serviçal, para com o maior disfarce ir re- 
latar á pessoa, que mora no Campo de Santo 
Ovidio, tudo o que tiver visto e ouvido. Con- 
vém que adopte um nome supposto, e uma 
supposta naturalidade. Pode vossa mercê dizer- 
se nascido no Alemtejo. Quanto ao nome, pode- 
rá ser Manuel . . . Manuel ... 

— Do Nascimento, atalhou um dos outro» 
mascarados. Ficará vossa mercê uzando o so- 
brenome e o appellido de uma famosa victima 
da inquisição, o illustre Filinto Elysio, 

— Mas convém que nós assentemos no seu no- 
me de guerra para, no caso de qualquer occor- 
rencia desagradável, sabermos que vossa mer- 
cê e Manuel do Nascimento, por exemplo, são 
uma e a mesma pessoa. 

— Serei pois Manuel do Nascimento, respon- 
deu José Máximo, e natural do Alemtejo. O 
resto é comigo, e supponho que vossas senho^ 
rias não terão motivo para arrepender-se. 

— Assim o esperamos. Vossa mercê, segun- 
do o nosso plano, terá que estacionar em va- 
rias casas, taes como a do governador das jus- 
tiças, juiz de fora do eivei e presidente do se- 
nado, roas por agora importa que vá offerecer- 



46 Romance histórico 

se á do governador das armas, o tenente-ge- 
neral Filippe de Sousa Canavarro, que precisa 
de um serviçal, segundo noticia que temos. Co- 
mo decerto lhe serào exigidas abonações, vos- 
sa mercê indicará João Pereira da Costa, seu 
antigo patrão, residente em Beja, negociante e 
proprietário, como pessoa competente para in- 
formar sobre seus costumes. O governador 
mandará decerto escrever para Beja, e de Beja 
lhe responderão satisfatoriamente. Isso é com- 
nosco. 

Pouco tempo durou a audiência. 

José Máximo, feliz por poder prestar um ser- 
viço á causa da liberdade, sahiu da casa da 
rua das Taypas e foi passeiar para o Campo " 
da Cordoaria, muito ufano de si pela confiança 
que n*elle depositava o club revolucionário do 
Porto. 

Ora esse club não representava por então se- 
não o pacto secreto de trez patriotas, que tantos 
eram os mascarados, a saber: Fernandes Tho* 
maz, Ferreira Borges e Silva Carvalho. 

Eis o núcleo do famoso Synhedrio^ que pla- 
neou a revolução liberal do Porto. 



# 



V 

I Fresca Ribeira 



E por mclbor pAssar a vidacon 
dissiiiiulapgo ini! mudei neatea tr»- 
joe; nae o íogsr níu sofTrla mút. 

Bernardim Hi beiro — ■ Meai ai e 



Trez dias depois, José Máximo da Fonseca 
estava ao serviço do tenente-generat Canavar- 
ro, na qualidade de segundo criado. 

Foi admittido sob condição, emquanto se es- 
peravam as informações que o governador man- 
dou pedir para Beja, e que o rapaz julgava lhe 
seriam honrosas. 

Effecti vãmente, assim aconteceu. O Synhe- 
drio tinha preparado bem as coisas. O infor- 
mador bejense chegava a lastimar que um ser- 
viçal tâo activo e obediente como Manoel do 
Nascimento tivesse tomado a resolução de ir 
para o Porto, talvez seduzido pela esperança 
de maiores interesses, pois que outro motivo 
não' havia. 

Todos, em casa do governador daa armas, 
gostavam de José Máximo, incluindo o_ Tei- 
xeira, criado grave [ou escudeiro, como entào 
se dizia, espécie de mordomo, que era difficil 



48 Romance histórico 

de contentar pelo que respeitava ás qualidades 
dos seus subordinados. 

Teixeira era um homem de sessenta e cinco 
annos, que entrara ao serviço da familia Cana- 
varro quando tinha apenas quinze. Considera- 
vam-n*o mais um amigo da casa do que um 
criado. Alto, sêcco, de maneiras exemplarmente 
compostas, nâo deixava nunca a sua casaca preta 
muito escovada e a sua gravata branca muito 
clara. 

Havia sido educado em casa de uma familia 
nobre de Traz-da-Sé, onde o pai fora também 
escudeiro. Essa familia extinguira-se, e cUe ti- 
vera de procurar coUocação em outra parte. 
Entrou na casa dos Canavarros, e nunca mais 
de lá saiu. 

Aprendera desde pequeno a respeitar Deus, 
o Rei, e os patrões. A consciência da sua posi- 
ção levava-o, porém, a jamais discutir qualquer 
assumpto, que fosse ext ranho ao cargo que des- 
empenhava. 

Mas tinha convicções intransigentes, embora 
não ouzasse nunca formulal-as em voz alta. 

Detestava os maçons, porque tinham fama de 
ser inimigos da religião e do throno. Nas .horas 
vagas, mettido no seu quarto, lia as publica- 
ções contrarias á maçonaria. Sobre a sua mesa 
de cabeceira estavam A nova sentinella contra 
maçons^ a Atalaya contra os pedreiros-livreSy 
a Historia certa da seita dos fran-massões 
(sic), 

José Máximo percebeu rapidamente o feitio 
do Teixeira. 

Poucos dias passados, teve occasião de en- 
trar furtivamente no quarto do escudeiro, e de 



A guerrilha de frei Simão 49 



lêr os títulos daquellas brochuras. Os factos 
confirmavam assim as suas previsões: tinha dé 
tratar com um adversário politico, encapotado, 
más inoffensivo. 

Procurou conquistar-lhe a amisade, dizendo 
uma vez, em voz alta, de modo que o Teixei- 
ra podesse ouvir: 

— Ha criados tào atrevidos, que até se met- 
tem em politica I Eu cá não fallo n*aquillo a 
que não sou chamado. Respeito Deus Nosso 
Senhor, abaixo de Deus o Rei, e depois do 
Rei os meus patrões. Gosto de rir com todos, 
e não offender ninguém. 

Uma das feições que José Máximo adaptou 
artificiosamente ao seu espirito foi o humor 
alegre, a jovialidade expansiva. 

As criadas do general riam dos seus ditos 
facetos, da sua inalterável bonhomia. 

—O Manuel, dizia uma serigaita, a Cathari- 
na, já muito amoriscada d'elle, está sempre na 
fresca ribeira ! 

— ^Pois eu, sr.* Catharina, até era conhecido 
na minha terra pelo Fresca Ribeira ! 

E José Máximo desatava a rir, a rir, como 
se effecti vãmente fosse o homem mais feliz 
d*€Ste mundo. 

EUe conheceu, desde o primeiro dia, a cabe- 
ça leve d'esta Catharina, mas achou que po- 
deria tirar dahi argumento quando fosse pre- 
ciso despedir-se do serviço do general para 
passar a outra casa. 

E não se enganou. 

Teixeira começou a achar raras e estimá- 
veis qualidades no «Manuel», a tal ponto ique 

ia tendo com elle menos reservas do que 

4 



5 o Romance histórico 

com todos os outros criados, passados e pre- 
sentes. 

Um mez depois de estar ao serviço do gene^ 
ral, José Máximo, teiido sabido pela primeira vez 
ao doipingo, aproveitou a occasiào para com- 
municar a Frederico Pinto as suas observações. 

Metteu-se n*uma mercearia da Ribeira, e es- 
creveu-lhe uma longa carta, da qual a revela- 
ção mais importante dizia que a pessoa que 
repetidas wezç:& procurava o governador, e se 
fechava com elle longo tempo, era o sr. Melloy 
presidente do senado da cantara. 

Esta revelação, transmittida ao Synhedrio 
por intermédio do coronel Sepúlveda, foi tida 
como de bom agoiro. 

O presidente do senado passava por ser um 
homem a quem as ideias modernas não repu- 
gnavam. 

Seis mezes depois, José Máximo fazia uma 
revelação ainda mais importante: tendo sahido 
o Teixeira para visitar o Lausperenne, pude- 
ra escutar á porta de um gabinete em que o 
governador das armas e o presidente do se- 
nado estavam conversando, e ouviu, distincta- 
mente, dizer o general: 

— Se isso vier, não tomarei a iniciativa, mas 
hei de respeitar a opinião da cidade. As ideias 
não se afogam impunemente em sangue. Quan- 
do se reprimem hoje pela violência, resusci- 
tam amanhã mais exaltadas. 

Isso^ na opinião de José Máximo, era a re- 
volução constitucional. Não podia mesmo ser 
outra coisa, a julgar pelo tom de confidencia 
em que ambos estavam conversando á porta 
fechada. 



A guerritita de frei Simão 5 1 

Quando José Máximo se via só, pensava, 
<:om infensa saudade, em Anna de Vasconcel- 
los. Mas não podia abandonar o posto de hon- 
ra que lhe fora confiado, e resignava-se lison- 
geado pela ideia de que na casa de Cezár era 
coniiectda, pelas suas cartas a frei Simão, a ex- 
tranha aventura politica que elle, por amor da 
liberdade, estava correndo no Porto. 

Embora frei Simão lhe não respondesse, por- 
que José Máximo assim Ih o recommendára, a 
fim de não receber cartas que, por frequentes, 
se podessem tornar suspeitas, a familia de Ce- 
zár conhecia a enormidade do sacrificio que lhe 
fora exigido, e a coragem com que elle o ao» 
ceitára. 

O SynkedriOy que a pouco e pouco ia au- 
gmentando em numero, teve casualmente a con- 
tra-prova de que as informações de José Máxi- 
mo, a respeito do general Canavarro, eram se- 
guras. A certeza desta importante adhesão 
fortaleceu muito o plano do movimento. Desde 
esse momento os fautores da revolução con- 
taram com o apoio da guarnição do Porto. 

José Máximo recebeu ordem para, aprovei- 
tando o primeiro pretexto, se despedir da casa 
do governador das armas. 

Esse pretexto tinha-o elle de remissa havia 
muito tempo: era, como sabemos, a persegui- 
<jào amorosa que lhe fazia a leviana Catharina. 

José Máximo disse em confidencia ao Tei- 
xeira que, guardando respeito á casa do gene- 
ral, se ia despedir por aquelle motivo. Teixei- 
ra, muito pesaroso, respondeu logo que quem 
devia ser despedido era a Catharina. Mas José 
Máximo objectou-lhe que não queria prejudi- 



52 Romance histórica 

car uma pobre nvulher, a quem a sua má ca- 
beça bastava para desgraça: ao passo que elle, 
como homem, encontraria sempre mais faeil 
collocaçâo. E despediu-se. 

Experimentado pela prova de dedicação que 
acabava de dar, José Maxtmo foi encarregado- 
de outro serviço, ainda muito mais importan- 
te do que o primeiro. 

Certo o Synkedrio do apoio do general das 
armas, achou que não valia a pena sondar o 
animo das outras auctoridades. 

Por isso, Fernandes Thomaz escolheu José 
Máximo para seu amanuense, espécie de chan- 
celler encarregado dos sêllos privados: era, alem 
de uma prova de consideração, também um 
premio merecido. 

Desde esse momento, José Máximo deixou 
de ser Manuel do Nascimento, o Fresca-Ribei- 
ra^ natural do Alemtejo, para subir a mais ele- 
vada categoria, passando a conviver com os 
deuzes do constitucionalismo no olympo revo- 
lucionário do Porto. 

Foi então que elle poude conhecer Fernan- 
des Thomaz, Ferreira Borges, José da Silva 
Carvalho, Duarte Lessa e outros, que lhe ap- 
pareciam já sem disfarce, — com plena con- 
fiança. 

Entrado o anno de 1820, rebentou em Hes- 
panha a revolução liberal, que restaurou a con~ 
stituição de Cadiz. O povo, amotinado, obrigou 
Fernando VII a revogar todos os actos com 
que tinha combatido a liberdade. E como o rei 
catholico cedesse promptamente, os revolucio- 
rios hespanhoes imaginaram que estava defini- 
tivamente restabelecida em Hespanha a idade- 



A guerrilha de frei Simão 53 



der-oiro do constitucionalisnio. Que fugaz illu- 
sâo de políticos de boa fé, muito theoricos ou, 
como boje diriamos, muito nephelibatas! N'isto 
se pareceram os de cá com os de lá. 

' O que é certo é que a revolução de Hespanha 
alentou o animo dos conspiradores do Porto.. 
k O Synhedrio ia augmentando em numero: 

eram treze os seus membros. Declanafaixirae 
adhesôes até ahi latentes. Por exemplo, o coro- 
nel Sepúlveda, aliás tâo dedicado á causa da 
revolução, começou a frequentar as reuniões 
realisadas em casa de Fçrn^indes Thomaz. 

Meiado julho, attento o estimulo que viera 
de Hespanha e a apathia de Lisboa, resolveu 
a junta revolucionaria do Porto não deixar es- 
friar esse estimulo e tentar ainda vencer o re- 
traimento medroso da capital. 

Por este motivo resolveu-se que Fernandes 
Thonoaz viesse a Lisboa. Veio, e trouxe comsigo 
José^ Máximo, que retomara o seu antigo dis- 
farce de criado, para o acompanhar. 

A regência do reino, avisada de que Fernan- 
des Thomaz tinha partido para Lisboa, expe- 
diu contra elle apertadas ordens de prisão. 

Um dia, Fernandes Thomaz tinha sahidp lo- 
go pela manhã para avistar-se com um amigo, 
que morava ao Arco da Graça. José Máximo 
ficou em casa a preparar-se para ir entregar 
umas cartas, que o desembargador havia escri- 
pto na véspera á noite. 

Descia elle a escada, no seu disfarce de cria- 
do, quando entraram dois beleguins. 

— Olá! ó rapaz! perguntou-lhe ura dos esbir- 
ros, tu és criado cá da casa? 
— ^Sou, sim, senhor. 



$4 Romance histórico 



— Dize-nos uma coisa: não está aqui hospe* 
dado um sujeito que veiu do Porto? 

José Máximo respondeu sem a menor hesi- 
tação: 

~Está, sim, senhor. Está lá em cima, no 
quarto. Chegou ante-hontem. 

■ Os beleguins subiram a escada contentíssi- 
mos, e José Máximo, não menos contente, cor- 
reu ao Arco da Graça a avisar Fernandes Tho-r 
maz do que se tinha passado. 

Foi tão feliz, que o encontrou no caminho, 
de volta para casa. Fernandes Thonnaz retro- 
cedeu, e n*essa mesma noite retirava com José 
Máximo para o Porto, demorando-se, de pas- 
sagem, algumas horas em Coimbra, para con- 
ferenciar com o seu particular amigo José Ma- 
ria da Encarnação. 

José Máximo tinha ganho, definitivamente, 
as suas esporas de ouro de conspirador. Se 
não fosse elle, Fernandes Thomaz haveria sido 
preso, e a revolução do Porto teria abortado. 
Fernandes Thomaz, bem como todo o Synhe- 
drio^ reconheceu, com palavras de muito lou- 
vor, esse importante «erviço. 

Sepúlveda felicitava-se de ter concorrido pa- 
ra a iniciação de um tão importante e dedicada 
auxiliar. 

A felizmente mallograda occorrencia de Lis- 
boa determinou o Synhedrio a precipitar os 
acontecimentos. 

No dia 24 de agosto rebentava no Porto a 
revolução. Todos os coronéis dos corpos da 
guarnição a apoiaram. O tenente-general Ca- 
navarro adheriu, como se esperava. O senado, 
da camará também. 



A guerrilha de frei Simão 



55 



No Campo de Santo Ovidio, á frente das 
massas populares, que davam vivas á tropa, 
distinguia-se José Máximo, cujo chapéu andava 
n*uma constante rodaviva, regendo os compas- 
sos do enthusiasmo revolucionário, como se 
fosse a batuta de um maestro. 

Numerosos grupos percorriam as ruas da 
cidade, acclamando os vencedores. 

Na occasiào em que um d'esses grupos pas- 
sava pela porta do governador das armas, Jo- 
sé Máximo avançou e, fazendo concha com 
ambas as mãos sobre a bocca, berrou para uma 
das janellas, em que a doidivanas Catharina 
parecia muito admirada de o ver: 

— O' sr.* Catharina ! agora é que eu estou 
na rainha fresca ribeira ! 

O Teixeira, muito contrariado com os acon- 
tecimentos d'aquelle dia, mas sempre muito 
discreto, abstinha-se de fallar, comquanto não 
pensasse noutra coisa. 

— Parece impossível, matutava elle, que o 
sr. general deixe em liberdade todo este des- 
aforo! Até os criados de servir já se mettem a 
patriotas ! Pois o Manuel era um bom rapaz, 
mas corromperam-n'o ! Que pena e que des- 
graça! 



# 



Ilna nívea em ceu azai 



Oue segundo a que julgo vis 
Frei Agostinho á« Crui — 
poeEiaai. 



Quando a noticia da revolução do Porto che- 
gou a Cezár, frei Simão de Vasconcellos, deli- 
rante de alegria, quiz com me moral- a festiva- 
mente. 

Embandeirou aa janellas da casa do Outeiro, 
e mandou á Feira, por um próprio, comprar 
morteiros e bombas. 

Estas demonstrações de jubilo irritaram pro- 
fundamente os visinhos que eram absolutistas. 

A cada morteiro que estrondeava de dia ou 
de noite, Ignacio da Fonseca, desesperado, la- 
mentava que o sobrinho estivesse ausente, por- 
que, dizia clle, havia de o mandar disparar 
muitos tiros, por troça, ao pé da casa do Ou- 
teiro. 

Na sua opinião não havia ninguém como José 
Máximo para dar tiros á tôa. 

O abbade Moreira Maia nâo gostou da «func- 
çanata» do Porto, como elle classificou i 



5? Romance histórico 

mente o inicio do movimento liberal, mas isso 
não o impediu de montar a cavallo como tinha 
por costume. Padre António Pinheiro, porém, 
encerrado no seu quarto, rezava de joelhos, 
com os olhos fechados, e, ao entrondo de cada 
detonação festiva na casa do Outeiro, estreme- 
cia de terror como se o mundo desabasse em 
torno d'elle. 

José Máximo, no dia vinte e seis de agosto, 
ao fim da tarde, sahiu do Porto depois de ter 
ido perguntar a Frederico Pinto se queria al- 
guma coisa para a sua familia. 

Este irmão de frei Simão tinha casado havia 
um anno, como já sabemos. 

Frederico Pinto, constitucional dedicado, dis- 
se a José Máximo que abraçasse por elle o ir- 
mão, ao qual, aproveitando o ensejo, escreveu 
uma carta. 

José Máximo recebeu a carta aberta, roas fe- 
chou-a na presença de Frederico Pinto. E partiu. 

Fez a jornada a cavallo, acompanhado por 
um arrieiro, que despediu a uma légua de dis- 
tancia de Cezár, no ponto em que tinha de 
abandonar a estrada real do Porto a Coimbra. 

Não desejava ser visto por ninguém da casa 
de Ignacio da Fonseca, mas já o não assustava 
a hypothese de que o tio viesse a saber que 
elle estava em Cezár. 

A embriaguez capitosa da víctoria duplica- 
va-lhe a ousadia. 

Em caminho do Outeiro, viu por entre as 
plumas amarellas de um campo de milho, que 
pertencia ao tio, apparecer uma cabeça de ho- 
mem. Cozeu-se com o muro do atalho, e pas- 
sou. 



A guerrilha de frei Simão 59 

^^ f ■ - I ■■II I I — . 

Na casa do Outeiro foi recebido como um 
vencedor. Frei Simão deu-lhe uma boa dúzia 
de abraços muito expansivos. 

Anna de Vasconcellos felicitou-o com ternos 
olhares, mais gloriosos para José Máximo do 
que uma coroa de louros. E o estrondo dos 
morteiros, augmentando, reavivou o desespero 
de Ignacio da Fonseca e o sobresalto do pa- 
dre António Pinheiro. 

Largamente contou José Máximo os traba- 
lhos por que tinha passado no Porto, a sua 
ida a Lisboa com o desembargador Fernandes 
Thomaz, factos de que em carta cifrada havia 
mandado summaria noticia a frei Simão. 

Estava encantado de ouvil-o, o frade. Sen- 
tia-se orgulhoso de ter inventado aquelle re- 
volucionário, por cuja intervenção coUaborára 
também no movimento do Porto. Era como 
que uma vaidade de editor, que acabasse de 
dar ao prelo uma preciosa obra até ahi inédi- 
ta e, portanto, desconhecida. 

— E, agora, o que tenciona vossa mercê fa- 
zer ? perguntou frei Simão a José Máximo. 

— Eu sei lá ! Estou ao serviço da junta pro- 
visional, e farei o que me mandarem. 

— Volta então para o Porto? 

— Tenciono voltar esta noite, porque apenas 
pedi licença por vinte e quatro horas. 

— Que pressa ! Tem vossa mercê deante de 
si um bello futuro. Mas pena é que não ado- 
pte uma carreira definida: a das armas ou a 
das lettras. São as únicas que no nosso paiz 
dão presentemente accesso ás maiores honras. 
Por que não pensa vossa mercê em continuar 
os seus estudos ? 



6o Romance histórico 

— -Farei o que os meus amigos quizerem que 
eu faça. 

Lembrou-se José Máximo de entregar a car- 
ta de Frederico Pinto a frei Simão. 

O frade leu -a com interesse, e chamou em 
alta voz as irmãs para repetir a leitura. 

Frederico Pinto convidava Anninhas — como 
na familia lhe chamavam — a ir passar algum 
tempo no Porto, em companhia da cunhada. 

«Individualiso a Anninhas, dizia o ex-aju- 
dante de infanteria l8, por ser a mais nova 
das manas, e por isso a que menos falta po- 
derá fazer no Outeiro. Seria muito agradável a 
minha mulher ter aqui uma menina da sua con- 
dição e do nosso sangue com quem repartis- 
se as alegrias e os cuidados de mãe feliz e de- 
dicadíssima. O nosso P^rederico promette ser 
um rapagão sadio e forte. Mas a Margarida 
queixa-se de que eu não tenho geito nenhum 
para ajudal-a a enfaixar e adormecer creanças.» 

Mal podia imaginar José Máximo que essa 
carta, de que fora portador, havia de lhe dar tão 
agradável surpresa. Ficou doido de alegria. An- 
na de Vasconcellos também não poude dissimu- 
lar todo o contentamento que a alvoroçou. 

Consultada por frei Simão, respondeu de 
prompto que acceitava o convite. As outras 
irmãs sorriram, e frei Simão imitou-as invo- 
luntariamente. José Máximo, vendo sorrir as 
trez senhoras e o frade, também deixou entre- 
ver um sorriso, de que chegou a envergonhar- 
se. Só Anninhas, cahindo de repente era si, 
ficou n*um pudibundo enleio, que a tornou 
mais graciosa. 

Durante o dia, José Máximo, aproveitando 



A guerrilha de frei Simão 61 

um momento de estar a sós com frei Simão, 
dissê-lhe improvisamente: 

•^Tenho que fazer um pedido a vossa reve- 
rencia. 

—Um pedido! exclamou o frade. 

E receiou que José Máximo se lembrasse de 
pedir-lhe a mão de Anninhas. Frei Simão ado- 
rava esse rapaz, é certo, mas não poderia con- 
sentir n*um casamento, que desde logo não ga- 
rantisse a independente subsistência dos côn- 
juges. A suspeita de ter que recusar, quando 
quereria conceder, sobresaltou-o dolorosamente. 

— ^Um pedido, repetiu serenamente José Máxi- 
mo. Vai vossa reverencia fazer-me o favor de 
acceitar uma restituição, sem que se dê por af- 
frontado. 

— Como?! perguntou frei Simão cada vez mais 
surprehendido. Uma restituição?! 

— A ultima vez que estive n*esta casa obse- 
quiou-me vossa reverencia com uma peça de 
ouro, dez crusados novos e um napoleão. Res- 
tituo a moeda portugueza, e guardarei a de 
França, como recordação histórica, a que a si- 
gnificação, que vossa reverencia lhe deu, du- 
plica o valor. 

- Mas então, perguntou o frade, vossa mer- 
cê não precisou tocar ri'esse dinheiro?! 

José Máximo sorriu e respondeu: 

— Esquece-se vossa reverencia de que fui du- 
rante algum tempo serviçal assalariado do go- 
vernador das armas do Porto?! Depois d'isso 
subi de categoria e tenho recebido honorários 
pelo meu trabalho de amanuense da junta. Quiz 
fecusal-os, mas o sr. Fernandes Thomaz disse 
que, conhecendo os meus apuros, não podia dis- 



^2 Romance histórico 

pensar-me de receber um modesto estipendio. 
A minha hesitação cessou completamente quan- 
do elle accrescentou que apenas queria remune- 
rar os serviços materiaes, porque não havia 
ouro que pagasse uma dedicação sincera. Ora 
eu repito a mesma cousa a vossa reverencia: 
restituo aqui lio de que não precisei, mas per- 
manecerei devedor insolúvel pela gratidão eter- 
na que devo a vossa reverencia. 

Frei Simão estava como absorto deante d a- 
quella hombridade de caracter, daquelle orgu- 
lho de fidalgo pobre n'um moço que, por servir 
a liberdade, se tinha sacrificado ao ponto de 
^ssoldadar-se como serviçal. E quasi sentiu re- 
morsos de ter receiado que José Máximo lhe 
quizesse pedir a mão da irmã. «Não! pensava 
o frade, um homem doestes fará minha irmã 
princesa ou não casará jamais. E' muito altivo 
para lhe impor o sacrificio da pobresa. Os ca- 
racteres que mais facilmente se sacrificam são os 
que mais obstinadamente procuram evitar o sa- 
crificio alheio.» 

Frei Simão conhecera a preceito a alma de 
José Máximo. Abraçou-o visivelmente commo- 
vido, e guardou o dinheiro sem oppôr maior 
resistência. 

Foi já de noite que José Máximo sahiu do 
Outeiro para o Porto. 

Nunca elle havia trilhado aquelle caminho 
em tão alegre disposição de espirito. 

A causa da liberdade estava ganha. Com a 
excessiva credulidade que é própria da gente 
moça, imaginava José Máximo que a revolução 
liberal era um monumento inabalável e dura- 
douro como as pyramides do Egypto. Tão cego 



A guert ilha de frei Simão 65 

de enthusiasmo estava, que nem a lição do que 
se tinha passado em Hespanha lhe acudia á 
memoria ; não se lembrava de que, depois da 
revolução de Cadiz, Fernando VII se repatria- 
ra em triumpho e fora acclamado rei absoluto 
peias tropas do general Elio, com applauso da 
nação. O que José Máximo apenas via ou que- 
ria ver era a victoria da liberdade em procis- 
são festiva pelas ruas do Porto, e a ventura 
que n*aquella cidade o esperava na hora em 
que Anna de Vasconcellos lá chegasse. O co- 
ração e o espirito estavam satisfeitos. Parecia 
a José Máximo que todos os ideiaes da sua 
vida tinham attingido uma realidade tão feliz 
como perdurável. 

Ao entrar no atalho que cortava os milharaes 
de Ignacio da Fonseca, viu, de repente, trez 
komens sentados no rebordo do muro, que era 
feito de pedras soltas. Conversavam fumando. 
José Máximo não gostou do encontro, mas não 
se acobardou. Levantou a gola da niza, derru- 
bou o chapéu sobre a testa, e seguiu. 

Tinha já passado pelo grupo, quando um dos 
trez homens gritou: 

— O' sr. José Máximo! 

P^ez que não ouvia. Mas outra voz insistiu : 

— Então não quer o sr. José Máximo jogar 
o entrudo comnosco ?! Ora quem elle é! O so- 
brinho do patrão! Vá com Deus, sr. José Má- 
ximo, e boa viagem. 

Nem uma nem duas. José Máximo, que dis- 
tinguiu perfeitamente a voz de Manei Zarolho, 
criado de seu tio, foi andando sem respon- 
der. Mas levou a certeza de ter sido reconhe- 
cido pelo grupo. 



f 



64 Romance histórico 

Justamente esse criado era o que andava tra- 
balhando no campo quando José Máximo pas- 
sara para o Outeiro. Viu o sobrinho do patrão^ 
e asseverou aos outros dois criados que era 
José Máximo em carne e osso. 

— Aqui anda marosca por força ! accrescen- 
tou. De casa do frade não sahe cousa boa. 

Eram as ideias do patrão, a opinião dos abso- 
lutistas dé Cezár com relação a frei Simão de 
Vasconcellos. 

— Homem í pode ser que te enganasses, obje- 
ctaram-lhe os outros. 

— Qual historia! Não conheço eu outra cousa! 
Senão p*ra quê, havemos de desenganar-nos. 
De dia ou de noite, elle hade sahir do Outei- 
ro, e como foi ás escondidas decerto se não 
demora muito. Havemos de vêr-lhe a figura. 

Esperaram-n*o, e reconheceram-n*o, apesar 
de José Máximo não tef respondido. 

O povo parece gostar de ser alviçareiro de 
ruins novas, sobretudo quando se lhe afigura 
que o revelal-as pode parecer dedicação pelo 
interessado em sabel-as. 

Correram pois os trez criados a dar conta a 
Ignacio da Fonseca do que se tinha passado. 

O lavrador, que andava aturdido com a re- 
volução do Porto, ficou boqui-aberto. 

Deu-lhe um bate no coração. 

— Quefem vocês ver, disse elle, que meu so- 
brinho vai feito com frei Simão e com toda 
essa maldita cambada de pedreiros-livres ? 1 
Pois se assim for, não quero que torne a pôr- 
me a vista em cima, nem tornar a vêl-o n'este 
mundo ou no outro. 



j 




VII 



Ansustías 



A vida, se a não desejara para 
vos servir, pouco me dera perdel-a 
aqui ... 

Francisco de Moraes— «Palmei- 
rim de I.Dgl aterra». 



— E a Flor do Tâmega? pergunta decerto 
a leitora, aborrecida de não ter tornado a re- 
ceber noticias de Chaves. 

Tem razão, minha senhora. Mas antes v. ex.* 
se interesse pelos personagens d'esta novella,que 
se enfade de os ver e ouvir. Essa pergunta é 
uma prova de que v. ex.* tem seguido a nar- 
rativa até ao momento em que estamos agora. 

Pois, muito respeitosamente, vou informar 
v. ex.* do que continuou a passar-se em Cha- 
ves, depois que no Porto rebentou a revolução 
de 20. 

André Pinto, soffreado pelo conselho de An- 
tónio da Silveira, já despeitado com os consti- 
tucionaes, não se atreveu a fazer novos des- 
tempêros contra a sobrinha nem contra o ca- 
pitão de dragões. Amaciou, mas apenas appa- 
rentemente. O seu despeito não era menor por 
concentrado. 

5 



66 Romance histórico 

Desde o momento em que António da Silvei- 
ra deixou de presidir á junta do governo por 
incompatibilidade com os seus colle^as de Lis- 
boa, que se desfizeram d'elle, toda a familia dos 
Silveiras ficou unificada no ódio ás novas insti- 
tuições politicas. 

Trataram logo de conspirar, atiçados de Que- 
luz pela rainha D. Carlota Joaquina, que re- 
gressara do Brazil com a corte, e que só podia 
contar com as provincias, visto que Lisboa aca- 
bara por adhcrir ao movimento do Porto. 

Em Chaves, o conciliábulo dos conspirado- 
res reunia-se em casa do juiz de fora, António 
Bernardo de Figueiredo, e ahi concoriam to- 
das as noites vários militares, alguns abbades, 
e outras pessoas em correspondência com os 
Silveiras. 

André Pinto era certo. 

Tratando-se de procurar attrair ao conci- 
liábulo outros militares, de quem ainda se du- 
vidava ou de quem se receiava mais, alguém 
fallou no capitão Joaquim Maria de Vascon- 
cellos. 

André Pinto abanou a cabeça, em signal ne- 
gativo. 

Mas não obstante esta manifestação, que se 
tornou suspeita, porque toda a gente já sabia 
em Chaves que o capitão namorava a sobrinha 
de André Pinto, resolveu o conciliábulo que o 
coronel reformado Manoel Caetano Teixeira 
Pinto ficasse encarregado de vêr até que ponto 
se poderia contar com a adhesão d'aquelle of- 
icial. 

O coronel desempenhou a sua missão o qaais 
habilmente que poude, mas Joaquim Maria re- 



A guerrilka de frei Simão Ç?J 

pelliú com energia todas as propostas que lhe 
foram feitas. 

Vendo-se rechaçado, o coronel procurou fe- 
rir a corda sensível dó amor no coração do ca- 
pitão de dragões. 

Lembrou-lhe, sem rebuço, que, amando elle 
uma sobrinha de André Pinto, e sendo André 
Pinto um dos mais conspícuos membros do 
conciliábulo, decerto proviriam grandes des- 
gostos de uma tão intransigente obstinação. E 
que pensasse serenamente, porque esses des- 
gostos iriam reflectir-se, principalmente, n'uma 
pessoa que ou havia de submetter-se ou des- 
graçar-se. Referia-se a Margarida Cândida, pre- 
sumptiva herdeira de André Pinto. 

Respondeu Joaquim Maria que a sua honra 
o impedia de adherir á projectada contra-re- 
volução, porque todo o homem que não res- 
peita as suas próprias convicções, se deshonra 
a si mesmo. Que, visto que a sua inclinação 
pela sobrinha de André Pinto era conhecida 
em publico, só lhe restava, ainda que para o 
fazer tivesse de despedaçar o coração, mandar 
dizer a essa senhora que a desligava do des- 
tino de um homem por quem, se continuasse a 
amal-o, teria que soffrer grandes amarguras. 

O coronel transifmittiu ao conciliábulo a res- 
posta de Joaquim Maria. 

André Pinto sorriu ironicamente e commen- 
tou: 

—Então não dizia eu que aquiUo é um pe- 
dreiro-livre dos quatro costados?! 

Ninguém se atreveu a responder-lhe. 

Joaquim Maria cumpriu o que dissera. Es- 
creveu a Margarida Cândida uma lotíga carta, 



68 Romance histórico 

regada por abundantes lagrimas, que pareciam 
envergonhar a farda de um dragão de Chaves. 
Dizia-lhe um eterno adeus, e pedia-lhe que se 
conformasse com a vontade do tio, para evitar 
desgostos e soffrimentos, dos quaes o menor 
seria a pobresa a que elle certamente a con- 
demnaria. 

André Pinto, recolhendo do conciliábulo, cor- 
reu a dar parte á sobrinha da resposta do ca- 
pitão. 

— E agora, perguntou elle, ainda não terás 
vergonha de namorar um descaradissimo ma- 
çon, para quem vales menos do que a Consti- 
tuição?! 

— Agora, meu tio, respondeu ella com firme- 
sa, agora é que eu acho que elle é, mais do que 
nunca, um homem digno do meu amor. 

— Ah! sim! exclamou Andrç Pinto muito apo- 
pletico. Ah! sim! pois eu te ensinarei, minha 
tonta! .. 

E fechou-se no quarto a pensar na melhor 
maneira de castigar a audácia da sobrinha. 

A sua primeira idéa foi expu!sal-a de casa: 
que fosse comer o pão que o diabo amassou. 
Pedisse esmolai de porta em porta, já que nào 
tinha juizo nem vergonha. 

E deitou-se com esta idéa. 

Mas de manhã accordou com outro projecto, 
que pareceu ser conselho do travesseiro. 

Mandal-a-ia para um convento, e esse con- 
vento seria o de Arouca, onde havia uma freira 
sua parenta. 

Margarida Cândida, por sua vez, respondeu 
ao capitão narrandò-lhe o que se tinha passado 
com o tio. Não podia dar mais eloquente fes- 



A guerrilha de frei Simão 69 

posta á carta em que Joaquim Maria lhe dizia 
um «adeus eterno.» Fosse muito embora eterno 
esse adeus, ella não amaria jamais outro homem:, 
a prepotência de André Pinto não conseguiria 
vencer a sua constância, que era inabalável. 

O conciliábulo de Chaves jurou pela pelle de 
Joaquim Maria. Se vencessem, como espera-, 
vam, haviam de casttgal-o. severamente. 

£ André Pinto, desenvolvendo uma activi- 
dade extraordinária, como quem tem sede de 
vingança, mostravarse. encanzinado em adean- 
tar os trabalhos preparatórios da contra-revo- 
lução. 

O seu desejo seria mandar desde logo a so- 
brinha para o convento de Arouca, mas temia- 
se da influencia da familia do Outeiro junto do 
governo e das cortes de Lisboa. Receiava que 
ou não admittissem Margarida Cândida no con- 
vento ou que a flzessem sahir de lá pouco de- 
pois de ter entrado. 

Os dois namorados esperavam todoâ* os dias. 
a realisação das ameaças de André Pinto. O capi- 
tão de dragões sabia que os conspiradores tra- 
tavam de apressar o movimento em toda a pro- 
víncia de Traz-os-Montes, e prevenira o general 
da província; fizera mais, escrevera cartas ano- 
nymas aos ministros, avisando-os. 

No dia I de fevereiro de 1823 o governo 
•chamara a attençào do congresso para a ne- 
cessidade urgente de tomar medidas repressi- 
vas. Por sua parte, os Silveira^, vendo que o 
governo estava prevenido do que se passava 
em Traz os-Montes, trataram de pôr quanto 
antes a revolução nã rua. 

De feito, no dia 23, por occasião de sahir 




Jo Romance histórico 



em Villa Real a procissão de Passos, Manuel da 
Silveira, segundo conde de Amarante, soltou 
o primeiro grito da restauração. 

A villa esteve em festa todo o dia e toda a 
noite. 

Os revoltosos partiram d 'ali para Chaves, 
onde foram recebidos triumphalmente com re- 
piques de sinos, foguetes e vivas. 

O conde de Amarante, saudado pelo povo 
flaviense, fora hospedar-se em casa de Diogo 
Pereira de Lacerda, amigo de André Pinto. 

Duas horas depois de ter chegado a Chaves, 
Manuel da Silveira mandava chamar a casa de 
Diogo Pereira o capitão Joaquim Maria. 

—r Capitão, disse-lhe o conde de Amarante, 
entregue-me a sua espada. 

—Nunca! respondeu com altivez Joaquim 
Maria. Reconheço a patente de v. ex.*, mas re- 
conheço também que v. ex.^ está em rebelliào 
aberta contra o governo legalmente constituido. 
Recuso pois obedecer lhe, visto que v. ex.* é 
o primeiro a dar o exemplo de desobediência 
e indisciplina. 

O conde de Amarante não era homem para 
responder de prompto a um tal rasgo de audaz 
eloquência. Ficou assaralhopado, mas André 
Pinto mandou-lhe soprar ao ouvido que met- 
tesse na cadeia o capitão de dragões. 

E assim se fez. 

Manuel da Silveira, sem se importar com a 
destituição de todos os titulos, honras e mer- 
cês, decretada em Lisboa, continuava a intitu- 
lar-se conde de Amarante, e a pregar a «guer- 
ra santa.» 

O general Luiz do Rego era encarregado 



A guerrilha, de frei Simão Ji 



pelo governo de organisar uma divisão contra 
os Silveiras. Isso dava mais ajgum cuidado ao 
conde de Amarante do que a exauctoração e 
o sequestro com que de Lisboa o fulminaram. 

Mas a sorte mostrou-se propicia ao conde na 
batalha de Santa Barbara, junto a Chaves, ferida 
no dia 13 de março, e os absolutistas ganharam 
alma nova com esse triumpho obtido sobre as 
tropas liberaes. 

Rego, desesperado pelo revés que soffrêra, 
tratou de concentrar forças em Amarante, para 
impedir que os rebeldes podessem passar ao 
Porto. 

Feriu se nova batalha, d'esta vez na ponte 
de Amarante. 

A sorte mudara. Os silveiristas, desalojados 
por uma valente carga de baioneta, metteram- 
se ao Marão, emigraram para Puebla de Se- 
nabria. 

André Pmto seguiu o destino dos seus cor- 
religionários: fugiu também para Hespanha. 

Em Chaves, o corregedor da comarca, dou- 
tor Joaquim Bernardino Rodrigues Coimbra, 
ordenou ao juiz de fora subtituto, porque o ef- 
fectivo tinha emigrado também, que instauras- 
se devassa contra os fugitivos pelo crime de 
rebelliào armada. 

As portas da cadeia foram abertas a Joaquim 
Maria de Vasconcellos, e a outros presos poli- 
ticos. 

Um momento de felicidade sorriu aos dois 
namorados, que, sem obstáculos, podiam ver- 
se, e fallar-se, e mutuar-se ternissimos protestos 
de eterno amor. 

Mas a devassa contra André Pinto e os seus 



^.^ Romancei histórico 

co-réus fora instaurada em Chaves no dÍ4 28 
de abril e um mez depo.is o infante D. Miguel 
fazia a Villa-f rançada^ o poder absoluto era 
restabelecido em Portugal com o applauso da 
nação. 

Os emigrados repatriáram-se, victoríosos, e 
Joaquim Maria foi de novo preso. Amarrado 
de pés e mãos, açoutaram-n'o no cárcere, na' 
presença de André Pinto, que estimulava os 
flagelladores, gritando-lhes: 

— Dai cabo d*esse diabo, que só se perdem 
as que cahirem no chão. Força, rapazes! 

Foi fácil a André Pinto obter de D. João VI 
um aviso régio pelo qual o mònarcha fazia sa- 
ber ao respectivo prelado que — «era servido 
conceder licença para poder ser admittida ao 
noviciado e profissão da vida religiosa no real 
mosteiro de Arouca, da vossa obediência, Dona 
Margarida Cândida Pinto, sobrinha e pupiila 
de André Pinto, natural da Villa de Chaves, 
visto n*ella concorrerem as qualidades neces- 
sárias: pagará a prestação annual e vitalícia de 
sessenta mil réis, e não dará dote, propinas, 
nem outra alguma cousa a qualquer titulo que 
seja, nem ainda mesmo a titulo de esmola.» 

Era uma ordem categórica, que saltava por 
cima de certas formalidades estabelecidas para 
taes casos. O rei mandava admittir Margarida 
Cândida não só ao noviciado, mas também á 
profissão. Tudo isto se conseguiu com uma 
simples pennada. 

André Pinto, para coroar a obra, imaginou 
fazer passar a sobrinha, quando a enviou a 
Arouca, pela prisão onde Joaquim Maria jazia 
entre ferros. 



A guerrilha de frei Simão 



73 



Por entre as lagrimas que lhes turvavam a 
vista, poderam os dois namorados trocar um 
fugitivo olhar n*esse lance de suprema angustia. 

Saciada assim a vingança de André Pinto, 
•quiz elle ver-se livre de Joaquim Maria, que foi 
desligado do regimento de cavallaria 6 e de- 
portado para Aveiro. 




Enlre ferros 



DeEpallsmo cniKl! Iur Tbcr i»ja... 

Com Juvc le medisle. 
AlUvn leTinlando t vi i sem pejo 
Aulrapijpliago erii. Invada em i!ai 
Honstru sem Ivi, quu as íris Lodai 
E arrnelra sem vergoiih 
O código da sabLi Natuiora 
Maj^iuuia d'A]uriia— •Uliraj jioe 



Margarida Cândida entrou no mosteiro de 
Arouca com a firmeza dos martyres, que não 
tremem deante do sacrifício. 

Depois que em Chaves trocou com Joaquim 
Maria aquelle saudoso olhar afogado em copio- 
sas lagrimas, nunca mais tornou a chorar. A 
sua angustia concentrára-se n'um silencio dolo- 
roso, estrangulado. Liam-se-lhe no semblante 
os signaes de um grande soffrimento, mas os 
olhos conservavam-se enxutos e o oUiar sereno 
contrastava com as frequentes contracções ner- 
vosas do rosto excessivamente pallido. 

Toda a communidade de Arouca, com exce- 
pção d'uma única pessoa, era absolutista. 

Margarida Cândida foi, portanto, recebida 
com uma irritante seccura, quasi hostilidade. 

Percebe-se. Era um adversário que chegava; 



76 Romance histórico 

raaís um, porque no mosteiro já havia outro, 
D. Ernestina de Carvalho, ainda aparentada 
•com o coronel de milícias reformado, Manuel 
Monteiro de Carvalho, um dos justiçados do 
Campo de Sant*Anna,.em 1817. 

Esta senhora era orphá de um guarda-livros 
do Porto, que nenhuns bens tinha deixado. Foi 
soccorrida, bem como a mãe, por um to viuvo 
•que vivia em Lisboa e tinha apenas um filho, 
que se destinava ao curso de leis. Mas como es- 
te tio morresse, tendo gasto com a própria fa- 
milia e com a do irmão todos os seus honorários 
de funccionario publico, Ernestina teve de so- 
licitar a entrada n'um convento, até que o pri- 
mo se formasse e podesse ganhar dinheiro pela 
advocacia. A viuva do guarda-livros ficara re- 
sidindo no Porto, e vivia pobremente de dar li- 
ções de primeiras lettras por casas particula- 
res. 

Ernestina de Carvalho, constitucional por tra.» 
dição de família, foi a única pessoa que no mos* 
teiro de Arouca disse a Margarida Cândida 
uma phrase amoravel. E só muito de fugida 
lha poude dizer, porque toda 3 communidade 
vigiava attentamente os passos das duas reco^ 
Ihidas, que entraram precedidas da reputação 
de constitucionaes. 

Ernestina, no momento de abraçar Margarida 
Cândida, segredára-lhe com solerte disfarce: 
a Pode contar comigo.» 

Esta simples phrase foi para a sobrinha de 

André Pinto como que uma promessa de ami-^ 

sade e auxilio, que lhe deu maior coragem para 

o sacrificio. 

. Ernestina sentiu-se desde logo attraída para 



A guerrilha de frei Simão JJ 

aquella pobre menina de Chaves, que tinha a 
seus olhos o duplo prestigio de ser constitucio- 
nal e de o ser por amor de um homem. Ba«ta 
ria a primeira circumstancia para a recommen- 
dar. á condolência de quem estava ligada por 
laços de parentesco á memoria de um dos jus- 
tiçados de Lisboa; mas o facto de se inscrever 
voluntariamente no martyrologio dos consti- 
tucionaes por dedicação ao capitão de dragões 
Joaquim Maria de Vasconcellos, era um tão 
-galante heroismo, que sobredourava, aos olhos 
de Ernestina, aquelle predicado. 

No mosteiro de Arouca sabia-se, de ante- 
:oiâo, toda a biographia de Margarida Can- 
:dida. 

Fora André Pinto que informara a freira sua 
parenta sobre o delicto amoroso da sobrinha,, 
historiando-o miudamente. E' certo que pedira 
segredo, e soror Maria das Cinco Chagas, ao 
receber a extensa carta do primo de Chaves, 
talvez quizesse guardal-o. Mas, a meio da lei- 
tura, ou os óculos se lhe começaram a emba- 
ciar ou ella achou tão monstruosamente inte- 
ressante a narrativa, que reconheceu a neces- 
sidade de desabafar com alguém. Ambas as 
coisas seriam talvez. Soror Maria das Cinco 
Chagas mandou chamar soror Genoveva do 
Espirito Santo para que se encarregasse de 
continuar a leitura da carta de André Pinto. 

Ora sempre que uma freira mandava cha- 
mar outra á puridade, havia caso grave no 
mosteiro, fosse de politica domestica, algum 
assumrpto de portas a dentro, ou de politica 
externa, alguma noticia importante que tivesse 
vindo de fora. 



78 Romance histórico 

Soror Genoveva correu trigosamente ao cha- 
mamento. Estava rezando aos santos predile- 
ctos da communidade, S. Bernardo; S. Pedro, 
S. Paulo e Santa Mafalda, quando a criada de 
soror Maria das Cinco Chagas lhe bateu á porta 
da cella. Ouvido o recado, soror Genoveva dei- 
xou em meio o Padre-nosso que todos os dias 
rezava a Santa Mafalda, certa de que esta Santa 
coroada, por ser pessoa de casa, nào se oífen- 
deria com a interrupção. 

Chegada, sem demora, á cella de soror Ma- 
ria, e sabendo do" que se tratava, nào se limi- 
tou apenas a continuar a leitura da carta; quiz 
recomeçal-a, glosando-a periodo a periodo com 
muito piedosas exclamações, taes como esta: 

— Que rica peça nos mandam para cá! (refe- 
ria-se a Margarida Cândida). E* lé com cré ! 
Ha de fazer uma boa parelha com a outra! (a 
outra era Ernestina de Carvalho). 

Soror Maria das Cinco Chagas recommen- 
dou o maior segredo a soror Genoveva do Es- 
pirito Santo, e ambas estavam convencidas de 
que, para nào dar maus exempl4Ds á communi- 
dade, era de toda a conveniência que fossem 
ignorados os factos escandalosos narrados na 
carta de André Pinto. 

Fizeram pois o pacto de guardar sobre o caso 
absoluta reserva. 

E, sempre com a discreta intenção de man- 
ter o sigillo ajustado, soror Maria das Cinco 
Chagas contou muito confidencialmente a his- 
toria de Margarida Cândida á madre escrivã, 
que era um poço sem fundo para guardar se- 
gredos, e soror Genoveva do Espirito Santo, 
nào menos confidencialmente, revelou o con- 



A guer filha de frei Simão Jg 

theúdo da carta a outras madres, que, posto 
escrevessem menos do que a escrivã, fallavam 
mais do que ella, por serem muitas. 

Dentro de duas horas, toda a commuaidade 
de Arouca conhecia a biographia amorosa da 
menina flaviense, que lhe iam mandar, por or- 
dem de el-rei, para que a tivessem bem. guar- 
dada e bem vigiada no mosteiro A noticia, 
com todos os seus pormenores, incluindo o de 
Joaquim Maria ser irmão do frade apóstata, de 
Cezár, até chegou ao conhecimento de Ernes- 
tina de Carvalho, que, pelo labéo de constitu- 
cional, não «bebia do fino» em bisbilho tices de 
convento. Mas outra soror qualquer achou que 
seria conveniente avisal-a do que se passava^ 
com o fim altamente moral de a admoestar di- 
zendo: 

— Veja agora a menina, que tem a cabeça cheia 
de minhocas constitucionaes, se mostra mais 
juizo do que a tal Margarida Cândida, de Cha- 
ves. 

Não se offendeu Ernestina de Carvalho,, ao 
contrario do que se poderia esperar, com a pi- 
caresca phrase: «minhocas constitucionaes». Per- 
doou-a, contente com a boa nova de lhe annun- 
ciarem uma companheira, que pensava politi- 
camente como ella, e que tinha uma historia 
amorosa muito suggestiva de sentimentalidade 
romântica. 

Soror Maria das Cinco Chagas, quando sou- 
be que já corria em todo o mosteiro a noticia 
da próxima chegada da sua parenta de Cha- 
ves, e das secretas razões que a motivavam, 
agastou-se com soror Genoveva do Espirito 
Santo, que costumando aliás ser também um 



^So Romance histórico 

poço sem fundo, d aquella vez alcatruzàra in- 
discretamente um segredo baldeando-o de cella 
em cella. 

Mas soror Genoveva do Espirito Santo re- 
pelliu energicamente a accusação de que se di- 
zia victima innocente, accusando por sua parte 
soror Maria das Cinco Chagas de lhe ter re- 
commendado silencio, indo, pouco diepois, met- 
ter tudo no bico á madre escrivã, què, na opi- 
nião de soror Genoveva, era mais falladora do 
que uma gralha. 

A phrase que Ernestina de Carvalho poude 
segredar disfarçadamente ao ouvido de Marga- 
rida Cândida, logo no dia da chegada, deu 
alento á pobre menina de Chaves, porque lhe 
deixou entrever a esperança de ter uma confi- 
dente sempre que o seu attribulado espirito ca- 
recesse de expansão, e muitas vezes seria. 

Quanto se enganava, porém, Margarida Can- 
didal Fraco auxilio lhe poderia prestar Ernes- 
tina de Carvalho, sempre espionada pela com- 
munidade. A phrase «Pode contar comigo» re- 
velava apenas um impulso de espontânea sym- 
pathia, de instinctiva condolência, mas difficil- 
mehte poderia traduzir-se em factos, e a prova 
não se fez esperar muito. 

Como a biographia de Margarida Cândida 
já era conhecida no mosteiro quando a abba- 
deça recebeu a ordem do prelado, [acompanha- 
da de uma copia do respectivo aviso régio, 
para ser admittida a sobrinha fde André Pinto 
não só ao noviciado^ mas também á profissão^ 
a communid&de redobrou de vigilância com o 
fim de não deixar aproximarem-se uma da ou- 
tra as duas meninas constitucionaes. 



A guerrilha de frei Simão 8l 

De modo que decorreram muitos dias sem 
que Ernestina de Carvalho e Margarida Cân- 
dida podessem trocar entre si outra qualquer 
phrase, tantos e tão desconfiados eram os mui- 
tos olhos e ouvidos que constantemente as es- 
piavam. 

A sobrinha de André Pinto poude reconhe- 
cer que a sua solidão naquelle mosteiro teria 
de ser maior do que no primeiro dia se lhe afi- 
gurara. 

E seria realmente assim, se, passados uns 
quinze dias, Ernestina de Carvalho, sahindo do 
coro hombro a hombro com Margarida Cândi- 
da, sem lhe dizer palavra, lhe não tivesse ín- 
tromettido rapidamente nos dedos da mão di- 
reita um papelinho vincado ém muitas dobras. 

Logo que entrou na sua cella, a sobrinha de 
André Pinto fechou-se por dentro, e leu so- 
fregamente o bilhete de Ernestina de Carvalho, 
que lhe dizia: 

«Escrevo com o meu próprio sangue e com 
o bico de um alfinete para lhe repetir o que 
lhe disse no primeiro dia: Pode contar comigo. 
Sou a sua única amiga n*esta casa. Mas por isso 
mesmo que estamos rodeadas de inimigas, não 
podemos fallar, como tem visto. Resta-nos ape- 
nas o meio de trocarmos os nossos pensamen- 
tos por escripto. Mas como nos não dão papel, 
nem pennas, nem tinta, aconselho-lhe que se não 
qu4zer ferir-se para escrever com o seu próprio 
sangue, como eu agora faço, pnocure colher na 
cerca algumas amoras sem ser vista, para es- 
crever com o summo d'ellas, que produz uma 
tinta sofFrivel. Eu pude encontrar este bocadi- 
nho de papel em que lhe escrevo; mas a me- 

6 



82 Romance histórico 

nina vá arrancando algumas folhas ou margens 
dos livros de orações, que já lhe deram decer- 
to, e aproveite-as para escrever-me. As suas 
cartas e as minhas devemos escondel-as debaixo 
da pedra curva no tanque da Cozinha velha. 
Mas é preciso todo o cuidado para não sermos 
vistas. Mais uma vez lhe repito, minha boa ami- 
ga: «No pouco que eu puder, conte sempre co- 
migo.» 

Este bilhete deu algum lenitivo ao coração 
amargurado de Margarida Cândida. Não lhe 
promettia, como ella desejava, uma franca con- 
vivência, sem péas e sem obstáculos, com a boa 
Ernestina de Carvalho, que a Providencia lhe 
deparara ali, no cárcere conventual de Arouca. 
Mas dava-lhe ao menos a certeza de que sob 
as abobadas do mosteiro havia um coração, 
que comprehendia o seu sacrifício, e que o las- 
timava espontaneamente. Os grandes desgraça- 
dos parecem-se com os pequeninos pássaros 
que pousara sobre um frágil ramúsculo: qual- 
quer ponto de apoio os aguenta. A vida hu- 
mana conserva-se ás vezes suspensa sobre um 
abysmo por um ténue fio de retroz. 

Margarida Cândida respondeu agradecendo 
reconhecida a commiseração de Ernestina de 
Carvalho, e acceitando-a. Como era natural que 
acontecesse, pedia-lhe que descobrisse utn meio 
qualquer de se corresponder com Joaquim Ma- 
ria. Mas para onde? Para a cadea de Chayes, 
julgava Margarida, porque nada mais sabia do 
que se tinha passado depois da sua entrada 
no mosteiro. Receia va, porém, que Joaquim 
Maria, na qualidade de preso politico, não rece- 
besse a correspondência, que lhe era destina- 



A guerrilha de frei Simão 83 

da, Lembrou-se então de que o melhor seria 
dirigir as cartas para a casa do Outeiro, fre- 
guezia de Cezár, pelo correio de Oliveira de 
Azeméis. 

Pobre menina! as cartas! Se nem papel teria 
para escrevei- as! 

Ernestina de Carvalho respondeu por sua 
vez que era completamente impossível achar 
um meio de correspondência com quem quer 
<^ue fosse. 

«Poucos dias depois de eu ter entrado no 
convento — dizia ella — quando ainda governa- 
va a Constituição e as Cortes funccionavam em 
Lisboa, facto que cá dentro do mosteiro pin- 
guem queria reconhecer, escrevi a minha mãe 
um bilhete em que lhe pedia que empenhasse 
o conde de Rio Maior em tirar-me d*aqui, por- 
que as freiras me oífendiam a cada momento, 
só porque eu pertencia a uma família liberal e 
sou a noiva promettida de meu primo Jayme, 
estudante de Coimbra, liberal também. Ui» dia, 
estando á janella, vi passar um almocreve e 
atirei-lhe, da grade abaixo, o bilhete, embru- 
lhado n'um crusado novo. Não sei se essç pa- 
pel chegou ao seu destino; mas ou minha mãe 
o não recebeu ou não conseguiu arrancar-me 
d'este infertio. Esperei que o almocreve tor- 
nasse a passar e me trouxesse alguma respos- 
ta. Nunca mais, porem, o tornei a ver! Foi-se 
arrastando o tempo com um vagar, que che- 
ga a causar desespero, até que a menina, en- 
trando aqui, veio ser minha companheira de 
infortúnio. Poucos dias depois da sua entrada 
vi passar um pastor sito. Fiz-lhe signal para que 
esperasse. Atirei-lhe da janella outro bilhete 



84 Romance histórico 

para rainha mãe e o ultimo dinheiro que pos- 
suia, e era pouco. N'esse bilhete alludia eu ao 
primeiro, prevenindo o caso de não ter sido 
recebido, instava com minha mâe para que 
conseguisse a minha sahida, antes mesmo da 
formatura de meu primo Jayme, e contava-lhe 
que estava aqui outra victima como eu, mas 
recentemente chegada, e essa victima, escusa- 
do será dizer-lh*o, era a menina. O pastor cer- 
tamente entregou o bilhete, porque tornou a 
apparecer d ahi a dias, olhando muito para a 
minha janella. Perguntei-lhe por gestos se tra- 
zia alguma resposta. Entendeu-me, e mostrou- 
me um papel. Fiz-lhe signal para que esperas- 
se, emquanto eu ia vêr se conseguia encontrar 
uma fita, um cordel, qualquer cousa com que 
podesse guindar o bilhete. Quando voltei á 
jânella, já não vi o pastor. Sabe o que aconte- 
ceu ? Da portaria tinham visto o que se passara, 
arrancaram ao pastor a resposta de minha mãe> 
porque a própria abbadeça m*a mostrou, sem 
m*a deixar lêr, e eu conheci a lettra. E, ber- 
rando como uma possessa, a abbadeça disse- 
me que nem eu tornaria a receber bilhetes de 
minha mãe, nem minha mãe receberia de Arou- 
ca outras noticias alem d'aquellas que a meu 
respeito ella abbadeça lhe quizesse mandar. 
Que desaforo ! que descaramento ! e que tyran- 
nia! Pois isto tudo passou se assim mesmo. O 
que será agora, que a façanha do Infante em 
Villa Franca subiu á cabeça das freiras ! faça- 
nha que ellas apregoaram ao mundo, durante 
trez dias e trez noites, com ensurdecedores re- 
piques de sinos. Minha pobre mãe foi atroz- 
mente enganada quando consentiu que esco- 



A guerrilha de frei Simão 85 

Ihessem para mim este convento, peior que a 
inquisição. Mas, quem sabe? talvez que todos 
os outros sejam o mesmo ! Pela morte de meu 
tio, ficamos desamparadas, e meu primo, para 
frequentar a Universidade, teve de requerer 
um subsidio; mas eu, emquanto Jayme nào se 
forma, preferiria ser guardadora de cabras a 
viver aqui recolhida, se soubesse o que isto 
era.» 

Margarida Cândida viu fugir-lhe a ultima U- 
lusâo, e com ella a ultima esperança. A sua 
desgraça era sem remédio. Só lhe restava en- 
viar atravez d*aquellas altas montanhas graní- 
ticas o seu pensamento, como uma ave erran- 
te, ao encontro de Joaquim Maria, dizer -lhe de 
longe, sem que elle a podesse ouvir, que o 
amava com a mesma firmesa e com a mesma 
dedicação. 

Um anno se passou, lentamente, na absoluta 
ignorância de tudo quanto houvesse succedido 
fora do convento. 

Ernestina de Carvalho, n'um dos bilhetes que 
deixara no escondrijo combinado, aconselhou 
Margarida Cândida a que se recusasse a pro- 
fessar violentamente. Dizia-lhe que o costume 
era reunir-se o capitulo, convocado pela abba- 
deça, para declarar se queria acceitar a noviça 
como religiosa. Que se o capitulo decidia, por 
votos, afirmativamente, a noviça tinha de re- 
querer ao prelado que nomeasse um commis- 
sario para proceder ao interrogatório, a que se 
chamava a exploração de vontade. No dia em 
que o commissario chegava, a noviça era pos- 
ta em plena liberdade fora da porta principal 
do mosteiro, e ahi interrogada sobre se era a 



86 Romance histórico 

mesma signatária do requerimento, se o fizera 
sem pressão e violência ou se havia sido per- 
suadida, indusída ou constrangida a professar 
o estado de religiosa. 

Margarida Cândida, que ignorava todas es- 
tas circumstancias, ficou, desde o momento em 
que as conhecera, firmemente resolvida a as- 
signar o requerimento para ter occasiào de de- 
clarar alto e bom som ao commissario que era 
constrangida a professar pela coacção de An- 
dré Pinto. D'este modo, conseguiria o seu fim 
na presença do commissario, porque o requeri- 
mento tinha pouco valor: se ella se recusasse 
a as'signal-o, facilmente poderiam falsificar-lhe 
a assignatura. Melhor seria pois mostrar-se 
submissa para ter occasiào de que o commis- 
sario podesse ouvir as suas categóricas decla- 
rações. 




IX 

IHIÍMO desengato 



Oh segredoE do Amor quem os alcança ' 
Uns caro; uee em vivo ri>|;u «Tende. 
A autrus iieg-a de si toda espemofa. 



Ignorava Margarida Cândida que o rei havia 
ordenado que dia professasse, e que o prela- 
do, enviando para Arouca uma copia do aviso 
régio, implicitamente auctorisava a dispensa 
das formalidades reguladas pelo concilio Tri- 
dentino e pela constituição do bispado. 

Pois fa/ia-se isso, quando nâo se simulava o 
cumprimento d'aquellas formalidades substi- 
tuindo a noviça por outra qualquer pes.soa do 
seu sexo, 

D'esta vez, a única prescrípçâo respeitada 
foi a de que entre o primeiro dia de conven- 
to e a profissão devia medeíar «um anno per- 
feito e acabado.» 

Preenchido um anno completo. Margarida 
Cândida foi chamada ao templo, e ahi recebeu 
aviso para immediatamente professar. 

Reagiu energicamente, rompeu em lastimo- 



88 Romance hhtorico 

so^ clamores, protestando contra a violência dfe 
que era victitna, pois que nera tinha requerido, 
nem a sua vontade havia sido explorada pelo 
interrogatório de um commissario. 

— Olha a doutora! exclamou uma freira. Co- 
mo seria que a outra teve artes de lhe ensinar 
tudo isto! 

Mas como a resistência de Margarida Cân- 
dida não afrouxasse, outra freira, simulando-se 
muito compadecida de sua desgraça, disse-lhe 
ao ouvido; 

— Se a menina amava sinceramente aquelle 
homem, não terá decerto duvida em professar, 
porque elle morreu. 

— Morreu! repetiu Margarida Cândida n'um 
grito estridente, que reboou no templo. 

È cahiu sem accôrdo contra o peito d 'essa 
e outras freiras, que acudiram a amparal-a. 
. Ao cabo de poucos minutos. Margarida tor- 
nou a si, n'um abatimento de corpo e de espi- 
rito, que fazia d'ella um authomato. 

Cortaram-lhe a trança de cabello, que era 
farta e bella; impozeram-lhe o veu da ordem, 
que ella recebeu sem reluctancia. 

E, n'esse momento, o sino do mosteiro do- 
brou n*uma resonancia fúnebre, que parecia ge- 
mer nas quebradas das serras imitando os ar- 
rancos plangentes de uma voz humana. 

Ernestina de Carvalho, que estava na sua 
cella, sahiu ao corredor quando ouviu dobrar o 
sino. 

Viu o corredor deserto. Esperou que passas- 
se alguém. Algum tempo depois assomou ao 
longe uma criada, que era ajudanta da sachris- 
tã. Quando a criada se aproximou, Ernestina 



^^- i 



A guer filha de frei Simão 89 

de Carvalho perguntou-lhe cheia d*ura tào vi- 
Vo interesse, que se poderia dizer presentimento: 

•^-Quem morreu, sr.* Carmo? 

— Nào morreu ninguém, respondeu a criada 
com accentuada ironia; foi a sr.^ D. Margarida 
Cândida que professou hoje. Já pertence ao nu- 
mero das esposas do Senhor. 

— Desgraçada menina! exclamou Ernestina 
fechando a porta da cella com um movimento 
de odiosa repulsão. 

E a criada, arrastando os passos ao longo do 
corredor, foi resmoneando indignada: 

— Que fígados de pedreiro-livre que tem esta 
rapariga! Nem santa Mafalda lhe vale! Ha de 
ir direita para o inferno com o marido que lhe 
destinam, e que é tào bom como cila! Cruzes, 
canhoto! Até parece que cheira aqui a enxo- 
fre! 

Soror Maria das Cinco Chagas escreveu para 
Chaves informando o seu parente André Pinto 
dos bons serviços que lhe havia prestado jus- 
tamente no momento em que Margarida Cân- 
dida oppunha mais escandalosa resistência á 
profissão. 

a Para a desarmar e quebrar-lhe as forças — 
dizia a freira — tive a feliz idéa de lhe mandar 
dizer que o tal capitão de dragões havia mor- 
rido. Ora foi como se se deitasse agua no fo- 
go! E depois tudo se consummou sem maior 
escândalo.» 

Soror Maria das Cinco Chagas orgulhava-se 
da sua imaginosa invenção, que cortou o nó 
gordio, valendo a espada de Alexandre. 

André Pinto vangloriou-se de ver realizada, 
com tão feliz êxito, a sua obra de tyrannia, e 



90 Romance histórico 

espalhou em Chaves a noticia da profissão da 
sobrinha, como se se tratasse de um triumpho 
obtido por elle próprio. 

Houve quem escrevesse a Joaquim Maria para 
Aveiro informando-o, com damnado propósito, 
da profissão de Margarida Cândida. Fora An- 
dré Pinto, que ditara a participação a um ama- 
nuense, para esse fim convidado e assalariado. 
Era o golpe de misericórdia da sua vingança 
contra o capitão de dragões. 

Joaquim Maria recebeu na cadeia de Aveiro, 
onde estava com outros presos políticos, a ter- 
rivel noticia, que desde logo acreditou porque a 
esperava. 

Elle conhecia bem André Pinto, e sabia que 
a sua perseguição iria até ao ultimo extremo 
da perversidade. 

Desde esse momento a vida tornou-se-lhe 
um fardo inútil. Tudo estava acabado para todo 
o sempre. 

No dia seguinte, quiz levantar-se do catre e 
não poude. Faltaram-lhe as forças. 

Foram dizer-lhe que, para aproveitar os «be- 
néficos effeitos da amnistia», podia justificar o 
seu procedimento perante a Commissâo de re- 
habilitação que o governo absoluto havia creado 
em Lamego. 

— Não quero justificar me, respondeu Joaquim 
Maria. A minha consciência está tranquilla. 

Frei Simão de Vasconcellos, vendo o irmão 
profundamente desalentado, e cada dià mais 
doente, lembrou-se de ir a Arouca averiguar 
pessoalmente se a noticia da profissão de Mar- 
garida Cândida era verdadeira. 

N'uma das suas frequentes visitas á cadeia 



A guerrilha de frei Simão 91 

de Aveiro, resolveu proceder a essa averigua- 
ção, sem dizer nada a Joaquim Maria. E, etn 
vez de recolher á casa do Outeiro, seguiu jor- 
nada para Arouca, tomando em Macieira de 
Cambra um ligeiro disfarce. 

Entre-sorria-lhe a vaga esperança de que a 
informação fosse falsa, e de poder vir dizer ao 
irmão: «Resurge de ti mesmo, porque a tua feli- 
cidade não está ainda completamente perdida.» 

Mas, a espaços, também elle próprio des- 
animava, porque as vinganças politicas, espe- 
cialmente na província, attingiam os maiores 
excessos. Até por experiência própria o sabia. 
Em Cezár, a casa do Outeiro estava rodeada 
pelo ódio dos visinhos, e se não fosse o terror 
que lhes inspirava a valentia de frei Simão, o 
ódio absolutista teria já explodido brutal- 
mente. 

Um dos mais encarniçados inimigos de ao 
pé da porta era Ignacio da Fonseca, depois 
que teve a certeza, pela denuncia dos criados, 
de que José Máximo viera furtivamente á casa 
do Outeiro entender-se com frei Simão para 
algum fim politico, suppunha elle. 

Logo os criados de Ignacio da Fonseca fi- 
zeram correr em toda a freguezia a íioticia de 
que o patrão nunca mais daria a benção ao so- 
brinho, nem o queria tornar a vêr, noticia que 
frei Simão se apressou a transmittir para o 
Porto a José Máximo. 

E como por essa mesma occasião appare- 
cessem derrubadas algumas arvores na quinta 
do Outeiro, e incendiadas algumas medas de 
palha, frei Simão tratou de conter em respeito 
os seus inimigos, que deviam ser principalmen- 



g2 Romance histórico 

te os criados de Ignacio da Fonseca, rondan- 
do por horas mortas, de clavina aperrada, as 
im mediações da casa. 

Uma noite pareceu a frei Simão que dois 
vultos de homem procuravam encobrir-se cora 
o tronco das arvores. Metteu a clavina á cara, 
« disparou. Sentiu depois rumorejar a folha- 
gem como agitada pelo rápido movimento de 
alguém que fugia. 

No dia seguinte appareceu junto a um cas- 
tanheiro, em cujo tronco a bala de frei Simão 
fora cravar-se, um chapéu de palha, velho, sem 
fita. Esse chapéu fora reconhecido como sendo 
o de Manei Zarolho, criado de Ignacio da Fon- 
ieca. 

Frei Simão mandou hastear o chapéu no to- 
po do castanheiro, como ousada provocação a 
novas investidas. Mas os assaltantes não volta- 
ram, receiosos da clavina de frei Simão e dos 
^eus mortíferos zagalotes. Tomaram ainda maior 
medo ao frade. 

Chegando a Arouca, frei Simão entrpu no 
pateo do mosteiro, e dirigiu -se á porteira per- 
guntando-lhe se podia fallar á sr.* D. Marga- 
rida Cândida, de Chaves, que lhe constava es- 
tar ali recolhida. 

Bem sabia elle que a resposta seria negati- 
va. Mas fizera a pergunta unicamente com o 
fim de poder colher alguma vaga informação. 

— Soror Margarida do Amor Divino, respon- 
deu a porteira, não recebe, nem falia a ninguém. 

— Soror Margarida!? -repetiu com fingida sur- 
preza frei Simão. 

— Sim, porque professou ha coisa de mez e 
meio. 



^ã 



A guerrilha de frei Simão 9 j 

Frei Simão deitou conta ao tempo decorrido 
desde que a noticia chegara ao conhecimento 
de Joaquim Maria, e disse menta'mente: «E* 
isso. Ha mez e meio.» 

— Então é absolutamente prohibido fallar- 
Ihe? 

— São ordens superiores, que nos cumpre 
respeitar. 

— Está pois em cárcere privado?! 

— Está na observância dos deveres que lhe 
foram impostos, respondeu a porteira, com ris- 
pidez, fechando rapidamente o ralo da porta- 
ria. 

Mas não o fez tão rapidamente, que não ou- 
visse ainda dizer ao desconhecido : 

— Tempo virá em que justemos contas. 

O desejo do frade seria ir procurar um ma- 
chado, com que fendesse a golpes hercúleos a 
grossa porta do mosteiro, para arrancar da 
clausura Margarida Cândida. 

Mas essa loucura, a realisar-se, daria apenas 
um resultado ephémero, que custaria certa- 
mente a liberdade de frei Simão, se lhe não 
custasse também a vida. 

A ideia de que deixaria exposta a grandes 
perigos a sua familia de Cezár, especialmente 
suas irmãs, caso fosse preso, conteve-o. 

A phrase do desconhecido, ouvida pela por- 
teira, e transmittida á madre abbadeça, causara 
enorme alvoroto no mosteiro. 

Aquellfe homem, apesar do seu disfarce, era 
um padre, era decerto frei Simão, o frade após- 
tata, como os absolutistas lhe chamavam; era 
um inimigo perigoso por audaz. 

A abbadeça ordenou logo que Margarida 



94 Romance histórico 

Cândida fosse internada na casa-forte do mos- 
teiro, defendida por grossas portas de casta- 
nho, chapeadas de ferro, e expediu aviso ás 
auctoridades da comarca para que sem demora 
mandassem vigiar e guardar o edifício, amea- 
çado de um assalto. 

D'ali em deante uma força de milicias occu- 
pava militarmente o pateo do mosteiro, pos- 
tando sentinellas em torno d*elle. 

E as freiras, quando se lembravam de frei 
Simão, estremeciam de horror, soffriam hyste- 
rismos de medo, como se estivessem ameaça- 
das da visita de Satanaz em pessoa. ' 



# 



X 



M«rte redeniptora 



Muito ordinário é mandar dos 
Deus trabalhos, para serem meio de 
o buscarmos: e também instr<imen- 
to de nos fazer raerc^. 

Frei Luiz de Souza— «Historia de 
S. DomiDgos»,^iiv. ]Ii, cap. XIY. 



O valle de Arouca, fertilisado pela agua de 
dois ribeiros, o Marialva e o Silvares, que ahi 
se fundem no rio vulgarmente conhecido pelo 
nome de Arda, é fechado por cerros alterosos, 
de uma melancolia agreste, ao sul a Freita, de 
este a noroeste a Mó e o Gamarão. 

A villa ainda hoje conserva o tom geral de 
uma povoação serrana, em que choças primiti- 
vas, feitas de colmo e barro, se agrupavam ao 
capricho de becos tortuosos e im mundos, on- 
de, por entre um lastro de matto seco, os cer- 
dos fossavam, as gallinhas esgaravatavam no 
chão. 

O mosteiro, talhado em grande, contrasta 
com a rusticidade ingénua da povoação, que 
lhe fica próxima. 

E', na phrase de um estimável cultor das 
lettras, uma como rútila jóia engastada n*um 
áro de rocha viva, o granito das montanhas 



g6 Romance historiei 

que circumscrevem o valle, e de basto arvwe-* 
do, em que a oliveira frondosa predomina. 

Apenas as nuances da vegetação, desde a 
clara esmeralda do linho até ao verde cinzento 
do olivedo, suavisam, no valle, a impressão 
produzida pelo aspecto oppressivo das monta- 
nhas severas. 

No topo da Mó alveja a capellinha da Se- 
nhora d 'essa invocação, d 'onde a vista abrange 
um horisonte amplissimo, recortado pelo con- 
torno das serras distantes, que se esfumam ao 
longe n'um traço sinuoso de carvão azulado. 

Passa, á distancia de duas a trez léguas apenas, 
caracter isan do aquella riegião alpestre, o rio Pai- 
va, confrangido entre negras penedias, espuman- 
do quando salta de fraga em fraga, represando 
charcos sombrios quando descansa utn momen- 
to, e resoando, como um clamor subterrâneo, 
surdo e rouco, na angustia do seu attribulado 
percurso até ao Douro. 

Um trecho do Paiva, era Alvarenga, chega a 
ser medonho no perfil alcantilado, pardo e nii, 
das vertentes escabrosas, que se eriçam em blo- 
cos amontoados e revoltos, calcinados e bra- 
vios. 

O Paiva recebe, em Paradinha, o curso do 
seu affluente Paivó, também uUulante e torvo, 
de margens desgrenhadas e duras. 

Parece que, em toda essa região, a impres- 
são da agua completa a da terra, e que um ne- 
gro Cocyto foi intencionalmente conduzido por 
entre montanhas tartáricas, como uma integra- 
ção adequada de um scenario sinistro 

Frei Simão, quando sahiu do páteo do mos- 
teiro, e encarou o agro cariz d'aquellas ásperas 



A guerrilha de frei Simão 97 



serras escalvadas, sentiu-se subitamente appre- 
hensivo, abalado no seu animo forte e cora- 
joso. 

Uma vaga sensação de mal-estar, que pela 
primeira vez o assaltava, obrigou-o a sentar-se 
n'uraa pedra e a deixar-se ficar meditando pen- 
samentos fugidios e confusos, que mo lestamente 
se succediaiii e baralhavam. 

Sobre as montanhas pairavam densas nuvens, 
laminadas de um azul-ferrete metallico, quen- 
tes de electricidade latente, o que aliás é vul- 
gar n*aquella região. A atmosphera estava aba- 
fadiça, espessa. De quando em quando cabiam 
grossos pingos d agua, que a terra parecia sor- 
ver sofregamente. 

Assim esteve durante quasi meia hora, alhea- 
do n*um tumulto de idéas sombriamente in- 
coercíveis, que ao mesmo passo o prendiam e 
sobre saltavam. 

Por fim, querendo esclarecer a si próprio a- 
surpresa d aquella extranha preoccupação, attri- 
buiu-a a um sentimento de justa repulsão por 
todo esse drama de tyrannia que se urdia na 
treva, no interior de um convento, em torno 
da sobrinha de André Pinto, o prepotente sil- 
veirista de Chaves. 

Frei Simão, fanático pela liberdade, ideali- 
sando eldorados de paz e de felicidade social 
sob a reconquista da democracia parlamentar, 
quanto elle se illudia! odiava aquelle cárcere 
monástico onde uma fraca alma de mulher ge- 
mia oppressa e captiva, sem esperança de, co- 
mo elle, poder emancipar-se da tutella da com- 
munidade e da escravidão do claustro. 

Assim explicou frei Simão a si próprio ess.e 

7 



98 Romance histórico 

desuzado torpor que por momentos lhe enti- 
biou o espirito, rijo como o ferro em lances de 
maior tortura. 

Relacionou mentalmente com o supplicio de 
Margaria Cândida a desgraça de Joaquim Maria, 
degradado das suas dragonas de capitão, preso 
e enfermo, cahido n*um desalento que dia a dia 
se tornava maior e mais profundo. 

E achando que a causa da sua indefinida 
preoccupação não podia ser outra, esforçou-se 
por combatel-a, readquirindo a habitual ener- 
gia d'animo 

Um espirito menos forte haver-se-ia deixado 
enleiar pela apprehensào de que ha estados de 
alma, súbitos e insistentes, que se devem attri- 
buir a uma dupla vista, a uma lúcida e inex- 
plicável previsão do futuro, que vulgarmente 
se traduz pela palavra presentimento. 

Elle não. Elle não era homem que como Jo- 
sé Máximo se deixasse avassalar por supersti- 
ções e preconceitos. Envergonhado d'esse mo- 
mento de cobardia, que o retivera ali, levan- 
tou-se, relanceou sobre o mosteiro um olhar de 
ódio, que era uma nova ameaça mais eloquente 
talvez do que as palavras que a madre porteira 
lhe ouvira, e serenamente, a passos firmes, foi 
ao encontro do criado, que o esperava segu- 
rando a égua. 

Frei Simão cavalgou com agilidade, e par- 
tiu sem tornar a pensar n'aquella meia hora de 
extranha indecisão doentia. 

Chegando a Aveiro, encontrou o irmão no 
mesmo estado de torpor, que dia a dia o ia 
definhando. 

Joaquim Maria passava a maior parte do 



A guerrilha de frei Simão 99 

tempo no catre, d'onde apenas sahia por instan- 
cias de frei Simão. Mas assim que o frade se 
ausentava, Joaquim Maria voltava para o catre. 

O cirurgião da cadeia prescrevia-lhe uma 
therapeuticareanimadora. Vinham os remédios, 
e o doente emborcava-os da janella a baixo. 

Mal tocava nos alimentos. Tinha um fastio 
mortal. 

Durante o dia cahia por vezes n'um langor 
em que sonhava meio-accordado. Não dormia, 
e comtudo perdia o conhecimento de si pró- 
prio. Mas velava as noites n*uma insomnía tran- 
quilla, muito lúcido, pensando em Margarida, 
e crendo que lhe seria permittido encontral-a no 
ceu, — n'um mundo sydereo onde a Providen- 
cia devia compensar os tristes e affligidos. 

A' volta de Arouca, frei Simão procurou, 
com a facilidade dos ânimos fortes, incutir 
alento ao irmão, insinuando a esperança de que 
a má noticia vinda de Chaves teria, tido ape- 
nas em vista aofo^ravar a sua tortura. 

Um espirito menos corajoso que o de frei 
Simão haver-se-ia traído pelas lagrimas, pela 
sentimentalidade expansiva que involuntaria- 
mente vae até revelar uma verdade, que se de- 
sejava encobrir. 

Mas nunca a esperança pareceu aquecer tão 
sinceramente o coração do frade como n*aquella 
hora em que elle era o primeiro desilludido. 
A cada mentira piedosa com que procurava 
galvanisar o doente, correspondia, sem que o 
sçmblante o denunciasse, o pungir de uma dor 
intima, e profunda. 

Um mez depois, Joaquim Maria era um ho- 
mem irremediavelmente perdido. O cirurgião 



100 Romance histórico 

disse-o a frei Simão de Vasconcellos, que so- 
bejamente o sabia. 

O próprio doente tinha a consciência do seu 
estado, porque abruptamente pediu ao irmão 
que o ouvisse de confissão pela ultima vez. 

Frei Simão não se mostrou abalado. Escu- 
tou impassivel. Joaquim Maria recordou sere- 
namente todos os actos da sua vida, que re- 
velavam a limpidez de uma alma honesta. Re- 
ferindo-se á perseguição politica de que era 
victima, disse ao irmão: 

— Tudo perdoo ao homem, que me reduziu 
a esta desgraça. Morro sem ódios, e certo de 
que Deus terá compaixão da minha alma. Sor- 
rí-me até a ideia de, perseguido pelos homens, 
ir descançar na paz eterna da morte. Ao con- 
fessor não tenho mais que dizer, mas resta-me 
fazer ainda um pedido ao irmão e ao amigo. 

— O que é ? perguntou frei Simão, levantan- 
do-se com súbita energia, como se adivinhas- 
se o que Joaquim Maria lhe queria dizer. 

— Não penses em vingar a minha morte,. 
Simão, porque sou eu o primeiro a perdoal-a.. 
Mas peço-te que procures arrancar a um infa- 
me supplicio a alma torturada de Margarida. 
Se algum dia a liberdade tornar a raiar n'este 
desgraçado reino, peço-te que te lembres de 
Margarida na hora do triumpho. Se a morte a. 
não tiver libertado, liberta-a tu, corre ao mos- 
teiro de Arouca, faze abrir de par em par as 
portas do cárcere, e dize a Margarida: «Meu 
irmão morreu amargurado pela ideia de ter 
sacrificado o mais leal dos corações; cumpro a 
sua vontade vindo quebrar os grilhões que tão- 
barbaramente escravisaram a martyr.» Para 



A guertilha de frei Simão loi 

mim, Simão, não resta a menor duvida de que 
André Pinto obrigou Margarida a professar. 
Conlieço de sobra a obcecação feroz dos abso- 
lutistas de Chaves, d'elle principalmente. E 
tenho a plena certeza de que Margarida não 
recuaria perante o sacrifício de toda a sua vi- 
da na hora em que a abandonasse a ultima es- 
perança do seu dedicado amor. A noticia deve 
pois ser verdadeira. 

Frei Simão tinha ouvido o irmão com essa 
attençào plácida, mas absorvente, que é apa- 
nágio dos fortes. O seu olhar era vivamente in- 
cisivo, mas as linhas da physionomia não pas- 
mavam pela menor crispação nervosa. 

— ^Juro-te, disse elle com decisão, que se 
morreres primeiro do que eu, o que só a Deus 
pertence saber, hei de cumprir religiosamente 
o teu legado. A minha primeira homenagem á 
liberdade, se ella de novo felicitar este paiz, 
será a redempção da mulher que tão nobre- 
mente amaste. E agora, alma justa e boa, te 
absolvo, em nome de Deus, de tuas faltas ve- 
niaes. Eu, misero peccador, sinceramente rogo 
ao Todo Poderoso que me ensine a imitar o 
teu exemplo. 

E cnisando sobre a fronte pallida de Joaquim 
Maria a benção absolutória, proferiu em voz 
baixa as palavras do ritual. 

Depois despediu-se, e sahiu. Sentia-se op- 
presso, precisava respirar o ar puro que vinha 
da barra em brandas. lufadas, as quaes passa- 
vam sobre a ria sem a fazer ondular. 

Junto ao cães, um hiate de cabotagem pa- 
recia dormir immovel sobre a agua espelhan- 
te, E um barco de pesca deslisava suavemen- 



102 Romance histórico 

te, aproado ao oceano, esbatendo-se na clarida- 
de olympica dá atmosphera marítima. 

A quietação da paizagem e a luz gloriosa 
do ar contrastavam singularmente com a do- 
lorosa concentração, que opprimia o coração 
de frei Simão. de Vasconcellos n*uma treva de 
noite funda. 

Chegado a Cezár, disse á irmã mais velha: 
* —Vou amanhã solicitar as devidas licenças 
para que seja permittido a um moribundo vir 
expirar nos braços da sua família e em sua 
casa. 

A irmã ouviu-o em lagrimas. 

O cirurgião dos presos, ouvido sobre o re- 
querimento de frei Simão, informou que Joa- 
quim Maria estava irremediavelmente perdido^ 
e poucos dias teria de vida. 

Mas esta informação não conseguiu abalar o 
animo duro da justiça até o ponto de conce- 
der que o capitão fosse transportado para sua 
própria casa. O mais que se concedeu foi que 
a familia de Cezár escolhesse habitação dentro 
da cidade de Aveiro ou perto d*ella, onde Joa« 
quim Maria podesse ser recebido, sob fiança 
de uma familia conhecida. 

Frei Simão obteve a annuencia da familia 
Rangel de Quadros, do Carmo, que se prestou 
a receber o preso, e a responsabilisar-se por 
elle. 

Joaquim Maria sahiu da cadeia para a casa 
do Carmo nos primeiros dias de outubro d'esse 
anno de 1833. 

Frei Simão e D. Maria Albina, a irmã mais. 
velha, acoiTipanharam-n'o. 

O doente quiz que lhe fossem ministrados os 



A guerrilha de frei Simão 103 

últimos sacramentos, e serenamente os recebeu. 

O frade velava -lhe o leito, como enfermeiro 
dedicado. Ficou só, ao lado do irmão; fizera 
recolher a Cezár D. Maria Albina, e prohibira 
ás outras pessoas da familia que fossem alan- 
cear com a sua presença os últimos momentos 
de um moribundo. 

No dia 12 de outubro, que completava seis 
semanas de enfermidade, Joaquim Maria sen- 
tiu avisinhar-se a morte. 

Apertou nas suas as màos do frade e cra- 
vou n'elle um olhar insistente, que a agonia 
embaciava. 

Frei Simão comprehendeuessc olhar, e disse 
ao moribundo: 

— Não me esqueço do que prometti. Vac 
tranquillo 

E não podia ser mais tranquilla a morte de 
Joaquim Maria. 

Foi o frade quem amortalhou o irmão c 
quem acompanhou o esquife á egreja do con- 
vento de Santo António. 

Quando frei Simão voltou á casa de Cczár, 
disse ás irmãs: 

— Rezai por elle. Deus ha de premial-o, e a 
liberdade o vinefará. 




Borrasca de eíum« 

EViume um fofiniui' ateado em 



IK chammi 



- --„- - juem eul 
E aio tú arde o «éco, 



José Máximo foi desde o inverno de 1820 
até junho de 1823 empregado como amanuen- 
se supranumerário na secretaria municipal do 
Porto. 

Ignacio da Fonseca repellira-o, logo que sou- 
be que elle fraternisara com frei Simão nas 
alegrias do triumpho constitucional de J820, e 
mandara dizer para o Fundão, ao irmão e á cu- 
nhada, que o sobrinho, em vez de estudar em 
Coimbra, perdia o tempo em machinações po- 
liticas, que o desviavam do cumprimento dos 
seus deveres. 

Causou horror ao pae de José Máximo a no- 
ticia de que o filho estava filiado na seita dos 
pedreiros-livres. Conchavado com oirmâo, tra- 
tou de averiguar miudamente qual tinha sido 
a vida de José Máximo nos últimos tempos. 



I06 Romance histórico 

Ignacio da Fonseca foi de propósito a Coim- 
bra para colher informações, e veio a saber que 
o sobrinho abandonara' as aulas do Collegio 
das Artes, ausentando-se sem dizer para onde. 

Bastaram estas denuncias, aliás incomple- 
tas, para que Ignacio da Fonseca recolhesse 
indignado a Cezár, e participasse ao irmão que 
estava resolvido a renegar um sobrinho indi- 
gno da sua estima. 

O pai de José Máximo afinou pela cólera do 
irmáo. A mãe chorou amargas lagrimas pela 
sorte do filho, cujo destino ignorava, mas não 
poude abrandar a indignação do marido e do 
cunhado. 

Os criados de Ignacio da Fonseca espalha- 
ram em Cezár, para que chegasse ao conheci- 
mento de frei Simão, que «tanto o tio como o 
pai do sr. José Máximo não queriam tornar a 
saber d'elle.» 

Frei Simão mandou esta ruim nova a José 
Máximo, para o Porto, e dizia-lhe por essa oc- 
casião: «Parece que estou condemnado a não 
poder escrever a Vossa Mercê sem ter que lhe 
dar noticias desagradáveis. Não bastou com- 
municar-lhe que os criados de seu tio o reco- 
nheceram quando Vossa Mercê veio a Cezár. 
Agora os mesmos criados espalham por aqui 
que seu pai conhece tão bem como seu tio o 
facto de Vossa Mercê haver abandonado Coim- 
bra. Apenas me parece que a sua familia ignora 
o que Vossa Mercê tem passado depois que se 
retirou das aulas: se o soubessem, não teriam 
deixado de o dizer e commentar. 

«Eu passo aos olhos do sr. Ignacio da Fon- 
seca por ser o desencaminhador, o génio maii 



A guerrilha de frei Simão 107 

de V^ossa Mace, e o fallatorio que por aqui vai 
tem visivelmente por íim iipontar-me á indigna- 
ção das. gentes como perverter politico de mo- 
ços incautos. Mas eu, que no caso sujeito es- 
tou bem com a minha consciência — Deus o sabe 
e Vossa Mercê também — não me incommódo 
com as injustiças que contra mim partem de 
visinhos rancorosos.» 

Esta carta de frei Simão entristeceu José 
Máximo: elle conhecia o animo rispido do pai, 
e calculava, por isso, quanto a mãe teria soífrido 
desde que no Fundão se soube que abandonara 
as aulas de Coimbra. 

Sentiu remorsos de ter dado esse desgosto á 
santa creatura que o adorava, e que elle já nem 
sequer via ha tanto tempo, por isso que, como 
sabemos, costumava ir passar as ferias a Ce- 
zár. 

Não lhe pesava a ideia de não poder espe- 
rar da familia quaesquer recursos pecuniários. 
Incomraodava-o pouco, isso. Estava habituado 
a soífiêr incommodos desde que tomara o dis- 
farce de serviçal em casa do general Cana- 
varro. 

Depois da victoria constitucional do Porto, 
arrumaram-n*o na secretaria do senado com ufn 
crusado novo por dia. Trez moedas chegavam - 
lhe bem para viver. Mas aquclla situação era 
por de mais obscura para satisfazer o seu ani- 
mo; equivalia a um beco sem sahida. Repugna- 
va-lhe ter que passar a vida na passividade in- 
glória de humilde copista, elle, que tudo tinha 
arriscado para fazer vingar a conspiração libe- 
ral do Porto. 

Em muitas horas melancólicas reconhecia que 



io8 Romance histórico 



frei Simão acertadamente lhe havia dito que 
só pelas armas ou pelas lettras se podia con- 
quistar ren:>me e posição. E no fundo do seu 
coração sentia pena de ter abandonado as au- 
las de Coimbra, fechando sobre si a porta de 
um futuro brilhante. 

Principiou a reflectir sobre a illusâo dos 
triumphos politicos, em que os primeiros são 
-os últimos, e os últimos os primeiros. Orgu- 
lhosamente recordava que fora elle que em 
Lisboa livrara Fernandes Thomaz das garras 
da policia, e que se Fernandes Thomaz hou- 
vesse sido preso, a revolução do Porto teria 
abortado. 

Pois, não obstante, atiraram-lhe com um ma- 
gro osso, como a um rafeiro, e nunca mais se 
tornaram a lembrar d'elle. 

Fazia-lhe falta um diploma lilterario. Se o 
possuisse, poder-se-ia nivelar corti os corypheus 
do constitucionalismo, haveria sido eleito depu- 
tado ás constituintes, teria conquistado no par- 
lamento um logar distincto. 

Mas já ninguém parecia lembrar-se da abne- 
gação, com que, no disfarce de Fresca Ribeira^ 
se havia sentado ao tinélo do general Cana- 
varro, comendo entre os outros criados. 

O amor de D. Anna de Vasconcellos era a 
única amarra que o prendia a uma vida des- 
contente, e a uma esperança duvidosa. EUa fi- 
<:ára no Porto, em companhia de Frederico 
Pinto, e ficara, certissimamente, por causa 
d*elle. 

A principio, José Máximo ia aos domingos 
pjassar a noite a casa de Frederico Pinto, e ve- 
lozes lhe corriam ahi doces horas, que lhe da- 



A guerrilha de frei Simão 109. 

vam alento para ir esperando um futuro in- 
certo. 

Mas ura dia soubera por D. Anna de Vas- 
concellos que o irmão lhe tinha dito : 

— Não admitte duvida que José Máximo te 
ama, e que tu o amas também. Mas devo fa- 
zer-te vêr que elle tem um caracter exaltado,, 
um animo fogoso, ao qual uma esperança tran- 
quilla não bastará a dar felicidade. E* pois pos- 
sivel que pense, n 'alguma hora de impaciência,, 
em antecipar um casamento, que as condições 
da sua posição social não podem auctorisar 
por emquanto. Se elle te propozer um rapto,, 
recusa-o, porque tens obrigação, como mulher 
digna que és, de não vexar a nossa familia e 
envergonhar a minha casa. 

Anna de Vasconcellos teve a imprudência de 
contar isto a José Máximo, que se indignou 
com a certeza de que Frederico Pinto suspei- 
tava da sua lealdade de cavalheiro. 

— Teu irmão não me conhece ainda ! excla- 
mou elle exaltadissimo. 

E nunca mais voltou a passar os serões do 
domingo um casa de Frederico Pinto. 

Não contente com isto, aconselhou Anna de 
Vasconcellos a que voltasse para a casa do Ou- 
teiro. 

— Prefiro a tua ausência, disse-lhe elle, a ter 
que supportar a idea de que por tua causa me 
não fazem inteira justiça. 

A pobre Anninhas, muito arrependida da in- 
confidência, procurava desculpar o irmão, e re- 
sistia, com lagrimas nos olhos, ao alvitre de 
voltar para a casa do Outeiro ficando José Má- 
ximo no Porto, 



1 IO Romance histórico 



' A' força de rogos carinhosos conseguiu ella 
cjue José Máximo não insistisse pelo regresso 
a Cezár, mas não poude obter d*eUe que vol- 
tasse aos serões do Campo de Santo Ovidio. 

José Máximo tornára-se sombrio, concentra- 
do. A esperança abandonava-o. Escrevia a D. 
Anna de Vasconcellos longas cartas, cheias de 
desalento, que todas as noites ella içava por 
um cordão de retroz da rua para a janella. Elle 
considerava-se uma alma incomprehendida pelo 
commum das pessoas, habituadas a medir o es- 
pirito humano pela bitola da vulgaridade egois- 
ta. Mostrava-se desacoraçoado do futuro, que 
previa « fértil e estrondoso em desgraças. » 
Este era o diapasão constante da sua corres- 
pondência amorosa. «Sinto remorsos, escrevia 
elle uma vez, de ter feito a infelicidade de duas 
mulheres que eu adoro: minha mãe, e tu. O 
meu amor tem o triste condão da lepra: é con- 
tagioso na desgraça. Perdoa-me, bella alma, 
pura como as estrellas e delicada como as flo- 
res, perdoa-me o ter -te infelicitado só porque 
o meu coração te escolheu para amar-te entre 
todas as mulheres:» 

Anninhas lia estas despJcntadas cartas, e cho- 
rava. Ella mesma, habituada á linguagem som- 
bria de José Máximo, começava a tremer pelo 
futuro, receiava-o. 

Assim decorreram dois annos n'uma tortura 
de amor, cujas angustias a imaginação ardente 
de José Máximo parecia comprazer-se doloro- 



samente em augmentar. 



Quando á contra-revolução transmontana de 
1823 succedeu a desgraça de Joaquim Maria, 
mais se exaltou ainda em negras visões e ap- 



A guerrilha de frei Simão 111 

prehensões sinistras a phantasia lúgubre de José 
Máximo. 

«Vai-se cerrando em torno de nós, escreveu 
elle a D. Anna de Vasconcellos, uma atmos- 
phcra caliginosa, que parece aviso da nossa per- 
dição futura. A desgraça pelo amor entrou já 
na tua famlia. Fui eu que a trouxe com a mi- 
nha má sina? Não sei. Mas firmemente creio 
que não deixarei de exceder o cruel destino de 
teu irmão Joaquim, e que tu não terás que sof- 
frer menos que Margarida Cândida.» 

No fim de maio d'aquelle anno o infante D. 
Miguel restabeleceu facilmente, com a jornada 
de Villa-Franca, o poder absoluto, de que o 
rei D. João V^I, bem aconselhado, conseguiu 
apossar-se. 

Os deputados liberaes, os famosos implanta - 
dores do constitucionalismo de 1820, fugiram, 
emigraram. 

José Máximo estava tão desanimado, que in- 
diffcrentemente recebeu, no primeiro momento, 
a noticia da restauração. 

— Tanto valem uns como os outros. Não me- 
rece a pena escolher entre liberaes e realistas» 
disse elle no segredo da sua alma. 

Esperou durante alguns dias que o despedis- 
sem da secretaria municipal do Porto. Mas nin- 
guém pensou n'isso. Os vencedores não o en- 
xergavam na obscuridade do logar que desem- 
penhava. José Máximo encarou principalmente 
a questão por este lado, e a sua tristesa augmen- 
tou. Todavia repugnou-lhe viver accommodati- 
ciamente á sombra de um regimen de que era 
adversário intransigente, e foi elle próprio que 
abandonou o seu logar na secretaria. da camará. 



112 Romance histórico 



Conservava alguns recursos amealhados na 
estricta economia em que tinha vivido desde 
que, contrariado por todos os acontecimentos 
que o leitor conhece, fugia a distracções e passa- 
tempos. 

Estava indeciso sobre o caminho que devia 
seguir, quando, por occasião da romaria do 
Senhor de Mattosinhos, D. Anna de Vascon- 
cellos o avisara de que toda a familia de Fre- 
derico Pinto ia ali cumprir uma promessa que 
tinham feito durante a recente doença do pe- 
queno Frederico, e que ella nâo podia deixar 
de os acompanhar. 

Se bem que contrariado, José Máximo foi 
também a Mattosinhos. Uma romaria era para 
elle uma bacchanal do catholicismo; aborrecia- 
Ihe. Mas o amor conseguiu vencer a sua re- 
pugnância ás romarias. 

Anninhas logo o enxergou mesclado entre a 
multidão que borborinhava no adro da egreja. 
E comprehendeu o sacrifício que elle devia es- 
tar fazendo no meio de romeiros, que traziam 
no chapéu o registo do Senhor de Mattosinhos 
adornado com laços escarlates, — a cor syra- 
bolica da restauração. 

Depois de cumprida a promessa, quando a 
familia de Frederico Pinto sahia do templo, foi 
demorada no adro pelo encontro com um ca- 
pitão de infanteria i8, em cuja companhia an- 
dava um rapaz flammantemente entrajado ao 
garrido. 

• Frederico Pinto parecia tratar com muitas 
attenções o pintalegrete, que o capitão lhe 
apresentara, e que elle por sua vez apresentara 
á mulher e á irmã. 



A guerrilha de frei Simão 1 1 3 



<«i*-** 



José Máximo viu isto, e doeu-se. «De mim 
duvidam, pensou elle; áquelle, estimam-n'o. 

Notou que, no momento em que a íamilia 
de Frederico Pinto se dirigia para o sitio on- 
de a estava esperando o carroçâo, Anninhas era 
contrariada pela insistência com que o taful 
estoiradinho lhe dirigia a palavra. 

Justamente n*essa occasião um andador de 
capa de seda branca aproximou se de José 
Máximo pedindo-lhe «esmola para Nosso Se- 
nhor de Mattosinhos.i 

* Mettendo a mao á algibeira, e deixando 
cahir um vintém na bandeja, José Máximo per- 
guntou abruptamente ao andador, indicando- 
Ihe o galan do arraial: 

— Conhece aquelle rapaz ? 

O andador respondeu im mediatamente: 

— Se conheço? ! E' o filho do sr. Rodado, 
das Casas Novas. 

—Rico ? 

— O sr. Rodado, que é este anno o juiz da 
nossa confraria, veio de Manaus podre de rico, 
e mandou fazer as maiores casas que ha em 
Mattosinhos. 

— Huum ! rugiu José Máximo n'uma cólera 
surda. E o que faz elle, o filho ? 

O andador estava morrendo por taramelar. 

— O sr. Manelsinho é estudante de Coim- 
bra. 

— E' estudante de Coimbra e está agora 
aqui ? ! 

— Veio de propósito á festa por p pae ser 
juiz, e vai-se embora amanhã. O sr. nunca ou- 
viu dizer que quem tem dinheiro faz tudo o 

que quer ? I 

8 



114 Romance histórico 

Esta resposta despertaria decerto alguma re- 
plica agreste, se a attençào de José Máximo 
não fosse subitamente attraída por um inci- 
dente inesperado, que augmentou a sua cólera^ 
A familia de Frederico Pinto entrara no carro- 
ção, e conjuntamente com ella o capitão de 
infanteria l8 e o estudante de Coimbra. 

Subitamente, o coração de José Máximo pa- 
receu querer saltar-lhe do peito n'uma fúria 
leonina. Era o ciúme que despertava ; — o ciú- 
me, sentimento que José Máximo desconhecera 
até então. 

Ao mesmo tempo resurgiam no desalentado 
amanuense da secretaria municipal todos os 
seus fogosos instinctos de revolucionário, como 
se accordassem de um longo somno violenta- 
mente sacudidos por um braço de ferro. 

Reapparecia n*elle o homem forte, prompto 
para a lucta, destemido até á audácia. 

O carroção partira ao passo lento dos bois 
corpulentos e tardos, que o lavrador ia picando 
com o aguilhão como para regular-lhes a an- 
dadura no momento de arrancar. 

O rosto de D. Anna de Vasconcellos deaun- 
ciava-se constrangido, ao espreitar para o ar- 
raial, onde José Máximo íicára acompanhando 
com um olhar desvairado o rodar vagaroso do 
vehiculo. 

Pensando n'esse inesperado adventício, cuja 
apparição lhe fizera despertar uma súbita tem- 
pestade na alma, José Máximo monologava 
apprehensivo : 

— Se elle veio de Coimbra de propósito para 
assistir á romaria, e se deixa a romaria para 
ir para o Porto, é porque está nacDorado. E 



A guerrilha de frei Simão 



IIS 



porque elle é rico, e porque segue a carreira 
das lettras, porque, n'uma palavra, representa 
«um bom partido», todo o mundo, a família 
de Frederico Pinto principalmente, ha de acon- 
selhar Anninhas a que me esqueça para poder 
ser esposa feliz nas Casas Novas do brazileiro 
de Mattosinhos, como co-herdeira dos seus mil 
<:rusados e dos seus palacetes. 

E, jneneiando a cabeça, sorria de desdém, 
de amargura, de raiva. 

Era o ciúme. • . 



# 



XIÍ 



Separação inesperada 



Cuida que por fugir a um mal mais forte 
Se ofiereceu esta alma a ti captiva, 
A sofTrer este mal da tua ausência 
Que me consume o siso, e a paciência. 

Francisco d' Andrade — lO primeiro 
ceco de Diu». 



Ardia José Máximo em impaciência de che- 
gar ao Porto e saber de D. Anna de Vascon- 
cellos o que se tinha passado durante o ca- 
minho. 

A' meia noite, hora aprazada para a troca 
da correspondência amorosa, José Máximo le- 
vava na algibeira, quando chegou ao Campo 
de Santo Ovidio, um bilhetinho em que, por 
excepção, pedia a Anninhas que o lesse e vol- 
tasse logo á janella, pois que, acontecesse o 
que acontecesse, precisava fallar-lhe. 

Anninhas adivinhara-lhe o pensamento ou 
antes também ella se não contentaria com nar- 
rar-lhe por escripto as suas impressões d a- 
quelle dia; quereria contar -lh'as de viva voz. 

Por isso, certificando-se de que toda a família 
da casa dormia, resolveu demorar-se á janella, 
desobedecendo, por uma só vez apenas, á im- 



Il8 Romance ki^tarica 

■ir ' - - , , =t 

posição de José Máximo, que, desde que nàa 
voltara a casa de Frederico Pinto, se limitava 
a trocar rapidamente uma carta por outra. 

Anna de Vasconcellos acabava de dizer a José 
Máximo que ao menos n'essa noite se demorasse 
um pouco mais, o que elle aliás vivamente de- 
sejava, quando, na claridade, um vulto de ho- 
mem surgiu d'entre as arvores do Campo de 
Santo Ovidio, e parou em ifrente da janella. 

José Máximo, de costas voltadas para o Cam- 
po, não o viu. Deu tento, porém, de que D. 
Anna fizera um movimento brusco, aprumando o 
busto e retraindo-se, ao mesmo tempo que dizia: 

— E' elle! 

José Máximo suppoz a principio que D. An- 
na tivesse sido surprehendida pelo irmão, mas 
não vendo apparecer ninguém á janella, e não 
sentindo rumor no interior da sala, cuja vidra- 
ça se conservava aberta, voltou-se, procurando 
explicar a si mesmo a razão de tão extranha oc- 
correncia. 

Viu então parado em frente da janella o vul- 
to de um homem. 

Atravessou em poucos passos a rua, e cara i- 
nhou direito ao vulto. 

Reconheceu-o. Era o estudante de Coimbra, 
o pintalegrete do arraial de Mattosinhos, que> 
não contando certamente com tão audaz arre- 
mettida, recuou dois passos. 

José Máximo perfilou-se com elle, mediu-o 
sobranceiramente de alto a baixo, e disse com 
desabrida provocação: 

— Ah! é o mesmo palito das sécias, que eu 
vi hoje no arraial de Mattosinhos! 

Manuel Rodado não lhe respondeu; mas pro- 



A guerrilha de frei Simão II9 

curava affirmar-se nas feições do homem que 
o insultava. 

José Máximo tinha-o visto de dia; foi-lhe, 
portanto, fácil reconhecel-o. 

Manuel Rodado, que o via pela primeira vez, 
apenas podia valer-se do auxilio do luar, para 
fixar-lhe a physionomia. 

Se nâo fosse a lua, não o teria conseguido, 
porque as ruas do Porto eram n'aquelle tempo 
tenebrosas por falta de illuminação publica. 
Atravez de um «titulo» das Ordenações enxer- 
gamos ainda hoje a escuridão das antigas noi- 
tes portuguezas, porquanto esse «titulo» dis- 
põe: «E os que forem achados depois do sino 
(de recolher) sem armas, e com candea accêsa, 
ou lanterna, ou outro lume, indo pela rua para 
algum certo logar . . . não serão presos, nem 
pagarão pena alguma.» 

Ora só tempo depois de ter occorrido este 
encontro no Campo de Santo Ovidio ordenou 
o governo, por decreto de 5 de outubro de 1 824, 
que a cidade do Porto e Villa Nova de Gaya 
fossem illuminadas por candieiros de azeite to- 
das as noites em que não houvesse luar, consi- 
gnando-se a esta despeza o rendimento da «pon- 
te de barcas» e a imposição de dois réis em 
cada arrátel de carne de boi e de porco. 

— O que faz aqui? perguntou José Máximo 
com maior desabrimento. 

— Ora essa! replicou o estudante. A rua c do 
rei. 

— Do rei! repetiu José Máximo ironicamente. 

E arremessando-se sobre o filho do brazi- 
leiro empolgou-o em ambos os braços, sope- 
zando-o com músculos de aço. 



120 Romance histórico 

Manuel Rodado procurava defender-se dos 
pulsos rijos de José Máximo, sem o conseguir. 
Os seus olhos, brilhantes como os de uma fera 
na escuridão, insistiam em reconhecer a phy- 
sionomia do aggressor. 

José Maxixno, augmentando a pressão dos 
braços, revessou agilmente a perna direita e, 
firmando-se solidamente, baldeou no chào o es- 
tudante, que ficou estatelado sobre a relva do 
Campo. 

Depois crusou os braços e, serenamente, disse: 

— Se grilas, mato-te. 

— Não grito, respondeu o estudante meio so- 
levantado sobre o cotovelo esquerdo. Não grito, 
mas havemos de tornar a encontrar-nos. 

— Quando quizeres, poltrão! Em Coimbra, 
por exemplo. 

José Máximo viu impassivelmente levantar-se 
o estudante, apanhar o chapéu que lhe tinha 
cahido da cabeça, e affastar-se coxeando. 

Dados alguns passos, Manuel Rodado vol- 
tou-se para traz, e disse: 

— Até á vista. 

José Máximo repondeu: 

— Até sempre. 

Pouco depois pareceu a José Máximo que 
D. Anna de Vasconcellos tinha voltado á ja- 
nella. Aproximou-se; reconheceu-a. 

A pobre menina perguntou, com voz tremula 
de com moção, o que tinha acontecido. Estava 
agitadíssima, n*um grande sobresalto. Receiava 
alguma desgraça. 

José Máximo tranquillisou-a dizendo: 

— Não houve nada, socega. Os pintalegretes 
são sempre cobardes; tão atrevidos com as 



A guerrilha de frei Simão 12 1 

I t ■■■■■■ ■■ > ■ I B j^ ^^^M^ 

mulheres como pusillanimes com os homens. 
Foi ao chão, mas levantou-se. E houve por bem 
retirar-se prudentemente. 

Contou então Anninhas que, durante toda a 
jornada de Mattosinhos ao Porto, o filho do 
brazileiro a perseguira com insistentes galan- 
teios, e que, desde que chegaram, tinha appa- 
recido dezenas de vezes no Campo de Santo 
Ovidio, o que ella sabia por lhe ter dito uma 
criada: «O' menina! anda ali um rapaz p'ra ci- 
ma e p'ra baixo a olhar para as nossas janel- 
las.» 

— Foi talvez tua cunhada ou teu irmão que 
te mandaram dizer isso, observou José Má- 
ximo. 

— EUes? Não! respondeu Anninhas. Fallaram 
da nossa ida a Mattosinhos, e nem sequer allu- 
diram ao filho do brazileiro! 

— E' um plano, manifestamente. Trata-se de 
casamento rico, e é natural que elles t*o acon- 
selhem. 

— Olha que me oífendes . . . disse maviosa- 
mente D. Ánna de Vasconcellos. 

— Não fallo de ti; fallo d*elles. Eu sou um 
escripturario, um simples amanuense; o pintale- 
grete, alem de rico, é estudante de Coimbra. 
Mas também eu o hei de tornar a ser. 
— Tu?l 

— Sim. Tomei hoje em Mattosinhos esta re- 
solução. Medi toda a extensão da minha des- 
graça, e quero resistir-lhe. Lembraram-me as 
palavras de frei Simão, que no Outeiro me 
aconselhou um dia a voltar para Coimbra. E 
voltarei. 

— Queres então separar-te de mim ? 



122 Romance histórico 



— Tontinha ! Se é por tua causa que cu am- 
biciono um futuro brilhante! E' preciso não 
perder tempo. Muito tenho eu já perdido. 
D'aqui a cinco annos poderás ser minha mu- 
lher. Terei então conquistado o direito a pe- 
dir a tua mão, de cabeça levantada. 

--Mas eu hei de ficar aqui ? 

— Onde quer que fiques, estarás sempre pre- 
sente á minha alma e ao meu amor. 

-^No Outeiro estarei muito mais perto de 
Coimbra. 

— Então sempre tu receias que teu irmão e 
tua cunhada procurem desviar-te do meu des- 
tino I 

— Não receio. Nem elles o tentaram por ora, 
nem o consegfuiriam. Mas, peço-t'o eu, quando 
fores para Coimbra, passa por Cezár, e dize a 
frei Simão que eu desejava voltar para o Ou- 
teiro visto que tu sahes do Porto. 

— Pois seja. E por que lhe não escreves tu? 

— Porque costumo entregar a meu irmão 
Frederico as cartas que escrevo para o Outei- 
ro, e não quero que elle supponha que vivo 
aqui contrariada ou desgostosa. Tinha ficado 
no Porto por tua causa. Estava bem emquanto 
tu aqui estavas. Mas se vais para Coimbra, fi- 
carei melhor estando mais perto de ti. 

— Pois amanhã mesmo cumprirei a tua von- 
tade?. 

—Amanhã ? Já ? ! 

— Náo devo demorar a minha resolução. 
Tenho pressa de me igualar aos que se nobili- 
tam seguindo a carreira das lettras. Não valho 
menos do que elles, e não quero que no futu- 
ro elles pareçam valer mais do que eu. 



A guerrilha de frei Simão I23 

Anna de Vasconcellos conhecia a firmesa de 
animo de José Máximo; não lhe fez a menor 
objecção. E com o coração dilacerado de sau- 
dade e os olhos afogados em lagrimas se des- 
pediu d'elle, descendo de mansinho a vidraça, 
com os braços trémulos de com moção. 

José Máximo foi, como prometteu, pela casa 
do Outeiro, caminho de Coimbra. 

Abriu-se expansivamente com frei Simão con- 
tando-lhe minuciosamente tudo o que se tinha 
passado no Porto. Revelou-lhe os seus desgos- 
tos e desalentos políticos. O frade comprehen- 
deu-o, porque também estava desalentado des- 
de que vira afundar-se em Villa Franca a li- 
berdade nascente. Joaquim Maria tinha naufra- 
gado com a liberdade; achava-se a esse tempo 
preso em Aveiro, ainda vivo mas implacavel- 
mente perseguido. Esta serie de dolorosos 
acontecimentos acabrunhara o animo varonil 
de frei Simão. 

A identidade de circumstancias aproximara 
mais um.a vez, intimamente, aquelles dois ho- 
mens. 

Depois das confidencias politicas, vieram as 
confidencias amorosas. 

José Máximo fallou a repeito de D. Anna 
com a sinceridade de quem não estivesse na 
presença de um irmão d'ella. Amava-a mais 
do que nunca, mas tudo lhe fazia lembrar que 
não se encontrava em situação de desposal-a, 
corao tanto ambicionava. Até Frederico Pinto 
lh'o fizera recordar, receiando que elle ousasse 
raptar-lhe a irmã. Contou que, por este moti- 
vo, nunca mais tinha voltado á casa de Santo 
Ovidio. 



124 Romance histórico 

— Não o sabia, disse frei Simão. Meu irmão 
não mo mandou dizer, porque calculou decer- 
to que essa noticia me seria desagradável. Mas 
parece-me que Vossa Mercê viu indevidamente 
um aggravo pessoal no que era apenas um avi- 
so cauteloso de irmão mais velho. Frederico 
arreceiõu-se talvez do caracter fogoso de Vos- 
sa Mercê e da impetuosidade das suas paiicões. 
Mas eu não teria dado o conselho porque co- 
nheço tão bem o seu coração ardente como a 
sua honradez inabalável. Comtudo — accrescen- 
tou o frade — se me achasse collocado na situa- 
ção de Vossa Mercê, eu teria procedido como 
Vossa Mercê procedeu. 

José Máximo contou o episodio da romaria 
de Mattosinhos. 

O frade sorriu, mas d*ahi a pouco disse, re- 
ferindo-se ao filho do brazileiro : 

— E' notável! Sempre que os amigos sahem 
por uma porta, os inimigos entram por outra! 
E* o que também me tem acontecido. Fica 
Vossa Mercê tendo mais um inimigo. 

O assumpto culminante d*esta entrevista era 
a resolução que José Máximo tomara de ir con- 
tinuar os seus estudos em Coimbra, resolução 
com a qual se relacionava o pedido, que D. 
Anna de Vasconcellos mandava fazer, para re- 
gressar á casa do Outeiro. 

Frei Simão applaudiu com jubilo aquella re- 
solução, recordando as palavras que, annos an- 
tes, n^essa mesma casa, havia dito a José Má- 
ximo. 

— Mas, perguntou o frade, de que tenciona 
Vossa Mercê viver em Coimbra? 

— Do meu trabalho. Ensinarei o que me en-» 



A guerrilha de frei Simão 125 

sinaram de latim, philosophia racional e moral 
e rhetorica; e, emquanto não firmo créditos de 
leccionista, viverei do meu pé de meia. Com 
Ímprobo trabalho poderei habilitar-me a ulti- 
mar ainda este anno o estudo da geometria, 
sem cujo exame já não é permittido a ninguém 
raatricular-se agora no primeiro anno jurídico. 

Frei Simão admirava cada vez mais a cora- 
josa e nobre alma d'aquelle rapaz, já tão con- 
trariado, em verdes annos, pelos duros traba- 
lhos da vida. 

— Mas uma vez na Universidade poderá Vossa 
Mercê receber o subsidio, que a muitos estudan- 
tes é concedido, do cofre da Intendência e da 
Casa Pia. 

— Não me repugna esse auxilio, justamente 
inspirado pela necessidade de soccorrer os es- 
tudantes que se encontram nas minhas circum - 
stancias; porém n*um regimen em que a cama- 
rilha predomina, só os aulicos poderiam obter- 
ni*o, e eu não conheço os aulicos, nem quero 
conhecel-os. 

—Nem só os aulicos teem valimento. Além. 
do que, eu sei que muitos estudantes despro- 
tegidos teem solicitado e obtido o subsidio por 
um ou outro cofre. 

José Máximo encolheu os hombros, como si- 
gnificando que desejava pôr de parte aquelle 
assumpto. 

Depois transmittiu a frei Simão o pedido de 
D. Anna de Vasconcellos repetindo as rasões 
allegadas por ella. 

— Fique Vossa Mercê tranquillo, respondeu 
o frade, que a sua commissão terá bom despa- 
cho. Anninhas é um anjo, e eu irei ao Porto- 



1 26 Romance histórico 



fazer sentir a meu irmão, com a delicadeza íjue 
o caso requer, que nós os do Outeiro temos 
tanto direito como elle á companhia de um 
anjo. Se meu irmão vier, porém, a perceber 
que o pedido partiu d'ella, aconselhal-o-héi a 
desculpal-o, porque o amor sincero merece o 
respeito de quem o comprehende. E a Anni- 
nhas é uma alma sincera. E' um anjo, creia; 
um anjo digno de Vossa Mercê. 

José Máximo despediu-se eíFusivamente do 
frade, cujo animo forte já havia despertado de 
um desalento passageiro, e que por isso Hie 
disse ao limiar da porta, como se não receiasse 
ser ouvido: 

— Até á liberdade, meu amigo. 

— Que não voltará mais, replicou José Má- 
ximo. 

— Ha de voltar, porque está no coração do 
homem, é uma aspiração ingenita da natureza 
humana. 

— Ha muitos séculos, respondeu ainda José 
Máximo, que o espirito do homem vive escra- 
visado. A sua força de resistência é menor que 
a pressão esmagadora dos factos. 

No caminho José Máximo avistou um criado 
de seu tio. Era o Manei Zarolho, que estava 
ali a espional-o, porque tinha constado que José 
Máximo passara para o Outeiro. 

Ao contrario do que costumava fazer, José 
Máximo parou o cavallo, e chamou pelo cara- 
ponez. 

— Meu tio está bom? perguntou-lhe. 

— Vae indo como Deus é servido. E o sr. 
José Máximo vae para Coimbra ? 

— Não. Vou para o Porto. 



A guerrilha de frei Simão 



127 



José Máximo quiz desviar da sua passagem 
por Cezár a suspeita de que a noticia de re- 
gressar a Coimbra significasse uma reconcilia- 
ção com o tio pelo arrependimento do seu pro- 
cedimento anterior. 

A pequena distancia iria José Máximo, quan- 
do frei Simão se sentou á carteira para escre- 
ver a frei António Lino, seu antigo condiscí- 
pulo e confrade, cuja família tinha alta cota- 
ção na corte, pedindo-lhe que obtivesse para 
José Máximo da Fonseca, natural do Fundão, 
o qual se habilitava á matricula na faculdade 
de leis, o subsidio pecuniário destinado a estu- 
dantes pobres. 

«Eu, um vencido, que nada pediria para mim 
aos vencedores — dizia frei Simão de Vascon- 
cellos — ajoelho n*esta supplica, com as mãos 
postas, implorando o teu valimento e de teus 
parentes. « 




V oriculo 

A eiperjuocia das cousaí, Foi a •me 
áiicobnu t uatureiadVJIas. u dos eltii- 
to< que viu, Hprnpriou b tnuiLBi, os íi- 

Ínilli'adns <|ue t<:ein 0$ daa plantas 
'aqui tiveram bub urigcn], elnda que na 
idbIb iIVIIcí nlo fiiram tio duBcobértoe, 
por iaduatiia humana, codid sabedoria 
divina; p<ii'qnanU> quando BStarm dlier- 
sos lo^-ares da sagrada BscriplurB [alia 
de planta» e flores. Nisis quer yut: piir 
elUs SH entendam bs signiui-ajaBS que 
tuen, que BspBlatrasquuauani. 

Frei Isidoro Barreira— •Trictado das 
8lgnil1i:sç6e9 das plantas, flores e fni- 



José Máximo foi encontrar Coimbra no apo- 
geu do enthusiasmo absolutista. 

A maioria dos lentes e dos estudantes deli- 
rava com o triumpho alcançado em Villa Fran- 
ca pelo infante D. Miguel. 

O claustro pleno resolvera celebrar a restau- 
ração dos inauferiveis direitos com grande 
pompa religiosa, a que não faltaria a organísa- 
ção procissional de um préstito académico, es- 
pécie de cortejo patriótico, que nascera da en- 
genhosa imaginação do lente de cânones José 
Caetano da Silva. 

A faculdade de theologia propunha-se gar- 



I30 Roíftance histórico 

gantear 2 e Deums e declamar panegyricos co 01 
o intuito de fazer crer que o Todo Poderosx) 
interviera na queda do constitucionalisa^o. 

E as outras faculdades, salvas algumas ex- 
cepções pessoaes, fraternisavjam com os lentes 
de theologia, arrastando no enthusiasmo res- 
taurador os respectivos cursos universitários. 

Os cathedraticos e estudantes liberaes viam- 
se esmagados pela corrente triumphante do 
absolutismo; nào ousavam reagir contra adver- 
sários ébrios de gloria, que pareciam insaciá- 
veis de commemorações festivas. 

José Máximo, que sahira do Porto aborre- 
cendo a politica, não tratou no primeiro mo- 
mento senão de habilitar-se ao exame do ulti- 
mo preparatório que lhe era exigido, a geo- 
metria. 

Estudava com grande applicação, procurando 
abster-se de versar assumptos extranhos áquella 
disciplina. Mas não o fazia sem sacrifício, por- 
que o seu temperamento era irritável, ccmo sa- 
bemos, e a sua paixão politica tão sincera como 
exaltada. 

Não obstante, dominou-se a ponto de assis- 
tir á famosa procissão dos lentes, em julho, e 
apparentemente sereno, se bem que intimamente 
indignado, viu desfílar, caminho de Santa Cla- 
ra, essas duas longas alas de cathedraticos, que 
iam agradecer a Deus a restauração do poder 
absoluto. 

No dia seguinte, porém, deixou-se ficar em 
casa, sobre os livros, á hora em que a maioria 
dos estudantes se apinhoava n'aquelle teopiplo 
para ouvir a oração evangélica recita.da pelo 
doutor frei Manuel de Almeida, monge de Al- 



A guerriUta de frei Simão 131 



•cobaça, lente de prima na faculdade de theolo- 
gia, e pregador de fama. 

A sua falta foi notada por um estudante, pri- 
meiranista de direito, que espionava na sombra 
todos os paíisos de José Máximo. 

Era Manuel Rodado, o íltho do brazileiro de 
Mattosínhos, que procurava occa&ião de vingar 
o desaire soffrido no Campo de Santo Ovidio 
e que, como todos os poltrões, planeava en- 
trincheirar-se nas suas prerogativas de primei- 
ranista era relação a um caloiro do CoUegio das 
Artes, para reaKsar impunemente a vingança. 

Todos aquelles que aspiravam a honrarias 
nobilitadoras abraçavam interesseiramente a 
causa da restauração, cujo triumplio lhes abria 
estrada larga por onde chegassem a conquistar 
os favores da Coroa. 

Manuel Rodado estava n'este caso. Ao di- 
nheiro do pai apenas faltava a consagração no- 
bliarchica de um habito de Christo. 

O infante D, Miguel, que voltara de Villa-Fran- 
ca como um vencedor a quem D. João VI nada 
poderia negar, acalentava indirectamente as as- 
pirações dos plebeus ambiciosos dando o exem- 
plo de admittír á maior intimidade, como Luiz 
XI, pessoas de humilde, senão rasteira origem. 

Manuel Rodado teria talvez esquecido o seu 
encontro* com D. Anna de Vasconcellos, no adro 
da egreja de Mattosinhos, como effectivamente 
«squecêra tantas outras pequenas aventuras 
amorosas, que se repetiam todos os dias, se 
não se relacionasse com esse encontro o facto 
de um pobre diabo como José Máximo, que não 
tinha onde cahir morto, o haver preterido e de 
cnais a mais maltratado. 



132 Romaftce histórico 

■ ■■ ' 1 . . =^ 

Rodado tratara de coihêr informações a res- 
peito do homem a quem D. Aiiiia de Vascon- 
cellos distinguia com o seu amor. Essas infor- 
mações obteve-as principalmente de pessoas ab- 
solutistas, que lh'o inculcavam como um aven- 
tureiro miserável, que em 24 de agosto de 182a 
andara atirando o chapéu ao ar pelas ruas do 
Porto, e a quem os vencedores constitucionaes. 
haviam dado por compaixão um osso para 
roer. 

E fora este bohemio sem eira nem beira que 
se atrevera a baldear sobre a relva do Campo 
de Santo Ovidio o mais acabado peralvilho da 
romaria de Mattosinhos, o filho do rico brazi- 
leiro das Casas-Novas, pintadas de verde-gaio! 

Não importava muito a Manuel Rodado que 
D. Anna de Vasconcellos continuasse a mostrar- 
se-lhe esquiva; o que lhe importava, e por isso 
se lembrava d*ella tantas vezes, era vingar o in- 
sulto que recebera da mão do supposto aven- 
tureiro, que não traria um chavo na algibeira. 

Affigurou-se ao filho do brazUeiro que o re- 
traimento de José Máximo em Coimbra era de- 
vido ao receio de qualquer aggressão por parte 
dos estudantes absolutistas, especialmente d'élle 
próprio. 

Deu, pois, esta interpretação ao facto de o 
não vêr na egreja de Santa Clara, quando a fina 
fiôr da mocidade tradicionalista se agglomerava. 
deante do púlpito onde frei Manuel de Almeida 
fazia a apotheóse da auctoridade dos reis co- 
mo delegação do poder divino. 

Mas, na duvida, não era Manuel Rodado ho- 
mem que, para desaffrontar-se, se aventurasse 
a arriscar pela segunda vez as costellas. 



A guerrilha de frei Simão 133 

■— ^>^^^— ^i— — ^— ^— — ^^"^^^ww I I ^m^^^mmtmÊÊmmÊmmmmm t i iii ■ i !■■ ifc»^^^^ ■ ■■ ■ iiii i w^mm^mm-mm^^^ 

^i^"*^P*— i— ■■ 1 — ■ »^^^^— —^—^—1^11— 1^1— ^—i^M ■ II I ■■■ ■ ■■■ I llli^l— ^1» 

Esperava cautelosamente a occasião de po- 
-der vingar-se, quando tivesse as costas quen- 
tes, e essa occasião, se não se tinha azado n a- 
quelle dia, facilmente a poderia encontrar na vi- 
da de Coimbra, em algum inevitável conflicto 
travado entre estudantes absolutistas e libe- 
raes. 

José Máximo recebera uma carta de frei Si^ 
mão, que ^he dava duas noticias agradáveis: 
participava-lhe que D. Anna já estava na casa 
do Outeiro, e felicitava-se de ter obtido um 
obsidio da Intendência, com cujo auxilio José 
Máximo poderia frequentar a Universidade sem 
maiores privações e trabalhos. 

Feito o ultimo exame de humanidades, com 
um prodigioso esforço de intelligencia e appli- 
•caçâo realizado em pouco tempo, José Máximo 
foi a Cezár agradecer mais aquelle testemunho 
■de estima, quefr^i Simão tão espontaneamente 
lhe havia dado. 

E o desejo de tornar a vêr Anninhas com- 
prazia-se de encontrar um tão justificado pre- 
texto, como era o da gratidão e reconhecimento 
pelo favor recebido. 

José Máximo sentia-se um homem feliz ao 
entrar na casa do Outeiro. 

Suppunha-se nobilitado aos olhos de D Anna 
de Vasconcellos pelo próximo ingresso á car- 
reira universitária, que lhe promettia uma po- 
sição social digna da consideração publica. Por 
occasião da romaria do Senhor de Mattosinhos 
achava-se ainda n'iim plano inferior ao de Ma- 
nuel Rodado; agora^ sendo pobre, ia nivelar-se 
litterafiamente não só com os filhos dos ricos, 
mas até com os filhos dos nobres. 



134 ' Romance hislorieo 

Frei Simão louvou-lhe o esforço intellectual 
com que em tão pouco tempo conseguira des* 
embaraçar-se das disciplinas professadas no 
CoUegio das Artes. 

José Máximo allegou modestamente que já 
não era hospede em geonnetria, por isso que 
mais ou menos a versara antes de abandonar. 
Coimbra. 

— Agora, disse-lhe frei Simão, precisa Vossa 
Mercê pôr todo o seu cuidado em evitar os 
perigos da politica de Coimbra, que, segundo- 
o que me consta, está mais brava do que nun- 
ca. Os lentes são fanáticos, os estudantes são 
moços, e, como taes, exaltados: o exemplo doa 
lentes estimula-os, e a certesa da impunidade 
torna-os destemidos. O que fazer então? Evitar 
com prudência todo o pretexto para uni confli- 
et o, em que a victoria seria delles, que em Coim- 
bra não teem quem os reprima, e que em Lis- 
boa teem quem os proteja. Olhe Vossa Mercê 
para isto que lhe digo, como sendo o conselho 
de um amigo sincero, que lhe quer como a pes- 
soa de familia. 

O que frei Simão dissera com tão bom juízo» 
repetira-o pouco depois Anninhas com maviosa 
ternura. 

Fora o próprio frei Simão que proporcionara 
aos dois namorados o ensejo de poderem fal- 
lar sem testemunhas. 

— Vamos ali ao pomar, gozar a sombra, dis- 
sera elle. Anda dahi, Anninhas, para fazeres 
as honras da casa ao nosso hospede, emquanto 
eu vou regar as minhas flores. 

C) pomar da casa do Outeiro, ao qual se. des- 
cia pela escada de pedra do páteo, era peque- 



A guerrilha de frei Simão 1 55 

no. fíõje quasi não existe. Encostado á parede 
do èdificio havta ura canteiro, onde frei Simão 
cultivava algumas flores. Sob umà macieira, 
um banco de cortiça era o poiso predilecto do 
frade. 

Anha de Vasconcellos e José Máximo, tendo 
descido as escadas, ficaram por algum tempo 
dfe pé, junto á macieira, cuja sombra cobria o 
banco. 

Frei Simão pareceu desde logo muito entre- 
tido em regar as flores do pequeno canteiro, 
que era em Cezár a mais alegre das suas dis- 
tracções. De costas voltadas para os dois, an- 
dava curvado, simulando dar ahiaxirtiã attenção 
ao que estava fazendo. 

Anninhas entretanto dizia a José Máximo: 

— Êu não te sei aconselhar com os argumen- 
tos do mano frei Simão, mas peço-te que sigas 
os seus conselhos, e que não queiras saber mais 
de politica. Ah! como eu detesto a politica, 
que tanto nos faz soff^rer aqui pela hostilidade 
de quasi todos os nossos visinhos! 

— Podes estar certa, respondia José Máximo, 
de que apenas pensarei em ti por amor dos li- 
vros, e nos livros por amor de ti. 

N'este momento frei Simão voltou-se e fin- 
giu-se muito admirado de os vêr ainda de pé. 

— Então, disse elle, não teem ahi esse banco 
de cortiça para sentar-se?! Olhem qiie eu, em 
começando a jardinar, esqueço-me do tempo, 
e fal-os-hei aborrecer com a demora. 

Frei Simão, que nunca tinha experimentado 
as doçuras bucólicas do amor, comprehendeu- 
as n'esse momento, adivinhou-as. 

Sobre o banco de cortiça cahia a sombra 



136 - Ramance historiai 



fresca da macieira, onde as andorinhas [Mptta- 
vam n*uma alegria discreta, parecendo que, 
n*esse feliz parlamento aéreo das aves, cada 
orador alado pedia a palavra por sua vez, para 
não perturbar o coUoquio do amor humano. 

Sobre o pequeno canteiro, matizado de co- 
res vivas, em que a florescência da vegetação 
accentuava tons variados e nitidos n'uma poly- 
chromia risonha^ as flechas doiradas do sol in- 
cidiam, aqui e além, por entre as franças das 
arvores, na cofoUa das flores, que as abelhas 
procuravam. 

Na orla extrema do pomar, onde a sombra 
era mais espessa, passavam na verdura da horta 
grandes borboletas brancas volitando aos pa- 
res n'uma chorea infatigável. 

A agua cabia n*um improvisado tanque, de 
que já não restam vestigios, por uma calha de 
barro, cantando como uma ama somnolenta, 
que, já fatigada, acalenta uma creança rebelde 
ao somno. 

Uma branda sensação de mollesa parecia ca- 
hir da sombra do arvoredo e do despenho mo- 
nótono da agua sobre o tanque. A paz campe- 
sina envolvia a atmosphera no longo espregui- 
çamento d'um corpo sào que adormece entre 
branco linho muito fresco depois de um banho 
consolador. 

Anninhas tinha nos lábios cor de rosa a 
eloquência espontânea que as mulheres na- 
moradas possuem na primeira inspiração do 
amor — volata do coração que accorda em ex- 
tasi. 

José Máximo, como todos os homens que 
jsurprehendem os encantos d*essa eloquência 



A guerrilha de frei Simão 137 

iparaviihosa n'uin colloquio tranquillo, ouvia-a. 
n'uma embriaguez de fascinação. 

As palavras que até ahi havia trocado com 
D. Anna de Vasconcellos, no Outeiro ou no 
Porto, sempre a medo e de relance, não lhe ti- 
nham annunciado essa verbosidade apaixonada, 
«ssa fluência de phrases simples e carinhosas, 
que affluem aos lábios de uma mulher quando 
pela primeira vez pode dizer, numa Jiberdade 
honesta, quanto tem sentido e sonhado. 

Mas o coração humano contém em si mesmo 
o segredo de atormentar-se na felicidade, que 
nunca chega a ser completa por isso mesmo. 

O homem, mais do que a mulher, obedece a 
uma fatalidade torturante, que o leva a procu- 
rar as preoccupações dolorosas nos momentos 
em que a paz e a esperança pareciam aposta- 
das em sorrir-lhe. Uma súbita desconfiança in- 
vade-ihe a alma, como um veneno de lento ef- 
feito, que vae a pouco e pouco anesthesiando 
a sua victima. 

Foi José Máximo quem se lembrou de con- 
sultar o oráculo, que, segundo a superstição 
dos amantes, falia nas folhas das plantas, quan- 
do consultadas por elles. 

Estava ali perto um tufo verdejante de tre- 
vo, que adivinha os segredos do amor. 

—Para nós sermos inteiramente felizes, dis- 
sera José Máximo, só é preciso que as folhas 
do trevo confirmem as tuas doces palavras. 

E o oráculo, consultado folha a folha, af fir- 
mara o amor de D. Anna de Vasconcellos. 

EUa rira crystallinamente no seu triumpho 
como uma alma sincera, que não se teme do 
s egredo dos oráculos. José Máximo riu também, 



Í38 Romance histórico 

entre envergonhado do riso de Anninhas e con- 
tente do resultado da consulta. 

Frei Simão voltou-se de súbito, sorrindo por 
contagio, com um olhar alegremente investi- 
gador. 

— E' o sr. José Máximo, disse Anninhas, que 
festa consultando as folhas do trevo como cá 
fazem os camponezes. 

E, de repente, como que arrependida da sua 
própria franqueza, corou de pejo. 

Frei Simão ficou encantado com o primiti- 
vo bucolismo d*aquelle casto idyllio amoroso 
e, para salvaguardar a sua auctoridade de ir- 
mão mais velho, procurou illudir o sentido da 
resposta, dizendo: 

— Ah! o sr. José Máximo lembrou-se de con- 
sultar o futuro! Pois o futuro, meu amigo, per- 
tence a Deus. 

E Anninhas acudiu de prompto como se 
quizesse valorisar a resposta do oráculo, que 
lhe tinha sido favorável: 

— Mas quem faz nascer as plantas senão 
Deus? 

Frei Simão, comprehendendo o lance, res- 
pondeu : 

— Tens razão, Anninhas! 

E cufvou-se de novo a regar as flores e a 
pensar em que jamais, na sua vida monótona e 
árida, tinha tido motivo para consultar os orá- 
culos do amor. 

José Máximo dissera baixinho a Anna de 
Vasconcellos: 

^-E' verdade! Consultemos o futuro. 

E, desfolhando o trevo, dizia: Feliz^ infeliz, 

A ultima folha respondeu: Infeliz, 



A guerrilha de frei Simão 139 

— E' notavell exclamou José Máximo, lem- 
broiido-se subkatnente da cantiga qu€ tinha ou* 
vido ali em Q^sêx^ quando descafli^ára por ai-- 
gui» oK^menlios, havta set« aaiios, sob a sovti- 
bra de uma faya, na estrada. £' notável, repi- 
sava elle, a insistência de um ruim agoiro ! 

E repetiu a Anninhas a cantiga que entào ti- 
nha ouvido : 

Quem quer ver um infeliz, 
Que nasceu ao pé da faya? 
Nâo ha desgraça nenhuma, 
Que n'este infeliz não caia! 

Anna de Vasconcellos, para dissipar as appre- 
hensões aziagas de José Máximo, procurou rir 
com esforço. 

Frei Simão perguntou de longe: 

— Tornou a fallar o oráculo? 

E Anninhas respondcai: 

— O mano quer salierílO sr. José Máximo fi- 
cou agora muito triste porque o trevo lhe disse 
que não havia de ser feliz! 

— Nunca vi homem intelligente, replicou frei 
Simão, que não fosse supersticioso. Chega a pa- 
recer ás vezes que a intelligencia, descontente 
de si mesma, quer nivelar-se com a fé cega doa 
ignorantes ingénuos! 

— Ouviste? perguntou Anninhas a José Má- 
ximo. 

José Máximo não respondeu, de preoccupado 
que estava. 

Angustiava-o a tortura que elle próprio in- 
ventara. A serenidade rural em que o pomar 
umbroso pareceria adormecido no fundo de 



140 Romance histórico 

um stereoscopo, se não fosse o voo inquieto 
das borboletas brancas e dasf abelhas loiras» 
encontrava no peito de José Máximo uma. forte 
resistência, que já lhe não deixava tranquillo o 
coração como meia hora antes. 



# 



XIV 

A' Porta férrea 



miro- Escol alisca, que todo e qualijuur 
Novato levti ■ »na Invtstldi, c pague a 
au9 ptlínti!: Não resista co«ijii mitré a 
nenliupia dVaUs cousas; o que deve pe- 
dir e. i|ue seja suave: para o qoe quanto 
aoã dlcCeriuB e ii^uriait bòc^ tapada, e 
quanto i patvnic, mio á bolsii. 

Silveira Malhio - .Vida e- fdlis-. 



Matriculado na faculdade de leis e cânones, 
cujo curso era commum até ao terceiro anno, 
José Máximo não passou impunemente pela 
Porta Férrea, segundo a tradição académica. 

Já Nicolau Tolentino havia dito rcferindo-se 
a Coimbra e ás caçoadas, por que os novatos ti- 
nham de passar: 

Povo revoltoso, e ingrato 
Dentro em seus muros encerra; 
Em vão de adoçal-o trato, 
E' um titulo de guerra 
A chegada de um novato. 

José Máximo conhecia de sobra a vida de 
Coimbra, e esperava por isso a troça; mas, pelo 



143 Romance histórico 

facto de ser já conhecido, julgava-se a coberto 
das máximas torturas de que o Palito métrica 
falia va: 

tum ccetera turba 

Kodeat miserum; truxque investida começat. 
Principio quatuor mandat aparare sopapos, 
Et simul haud cessant miseri cuspire bigotes, 
Donec sella chegat lumbp ignponenda rebeldi. 

Manuel Rodado combinara porem com ou- 
tros segundanistas que José Máximo fosse 
o principal alvo da troça feita aos novatos. 
<2ueria iniciar a sua vingança, e, como era ri- 
co, remunerava bisarramente a adhesão dos 
condiscipulos aos seus planos. Era elle quem 
na borga pagava as despezas de comes e be- 
bes, as merendas de manjar branco «no fresco 
pateo de Cellas», as ceias na estalagem do Paço 
do Conde ou na tasca do Alexandre Ramalhaes 
ao fundo da rua das Sollas; daqui o seu pres- 
tigio, porque em primasias de intelligencia não 
se assignalava Manuel Rodado. A academia, 
sempre alegre e epigrammatica, pozera-lhe uma 
alcunha feliz, que ao mesmo passo alludia á 
garridice e á pecunia do sujeito: era o Nar^ 
riso doirado. 

José Máximo passou á Porta. Férrea por en- 
tre duas filas de segundanistas, entre os quaes 
estava o filho do brazileiro. 

Não reagiu contra a tradição académica do 
canellãOy no pi;imeiro dia de aulas, apesar de 
perfeitamente ter distinguido, na hilaridade dos 
trocistas, as risadas alvares, muito sarcásticas, 
de Manuel Rodado, o qual, vendo a submissão 



A guerrilha de frei Simão 143. 

— ■■' '■ " ■-. ■ ' i ■■ - ■■«= 

de José Máximo, julgou que podia exceder-se 
seno perigo de resistência. 

Não obstante ter grande amor ás costellas,. 
entendeu que José Máximo, a julgar pelo seu 
retraimento e submissão, não era boai.epi que 
tivesse coragem de repetir em Coimbra, no seia 
da academia, a pimponice valentona do Cam.po 
de Santo Ovidio. 

Por isso, no immediato dia lectivo, quando 
José Máximo recebia, á Porta Férrea, a segunda 
dose d.e canellâo^ ouzou passar-lhe a mão pela 
c^ra. 

Teve resposta prompta. José Máximo Cez pé 
atraz, e descarregou -lhe na face uma sonora 
bofetada, que deixou aturdido o filho do bra-^ 
zileiro. 

Armou-se uma baralha de mil diabos. Mui- 
tos segundaokistas cahiram sobre José MaximP^ 
que, cego de cólera, respondia energicamente 
coro murros e pontapés. Tamanha ccM^agem 
exhibiu no maior aperto do tumulto, fazendo 
frente ao grupo dos aggressores, que alguns 
estudantes dos últimos annos intervieram era 
favor de José Máximo, defendendo-o. 

Um d'elles, que se chamava Jaymie de Car- 
valho, quintanista de direito, por alcunha o 
Sam Bartholotneu^ cobriu José Máximo com a 
pasta. 

A academia t^mia o valor d'este quintanista, 
cujas idéas liberaes justificavam a alcunha. que 
os estudantes absolutistas lhe pozeram por allu- 
são irónica ao dia 24 de agosto, em que a Egreja 
celebra a festa de Sam Bartholommi, e em que, 
trez annos antes, rebentara no Porto o movi- 
mento constitucional. 



144 Romance histórico 

José Máximo, quando a pasta protectora de 
um quintanista temido lhe permittiu explicar o 
seu procedimento, disse que tinha dado sobejas 
provas de submetter-se á troça e de sujeitar- 
se ao canellão^ mas que a sua dignidade nào 
lhe permittia tolerar as provocações de um ini- 
migo pessoal, que, para vingar-se de um inci- 
dente particular occorrido entre ambos, se aco- 
bertava cobardemente com a tradição acade- 
fiiica e com o auxilio dos condiscipalos. 

Esta leal explicação causou no auditório uma 
impressão excellente. Todos os veteranos^ Jay- 
me de Carvalho em primeiro logar, applaudiam 
o procedimento de José Máximo. E muitos dos 
segundanistas, que o tinham aggredido, acaba- 
ram por dar-lhe razão. 

Discutia-se animadamente o caso nos grupos 
da Porta Férrea, quando appareceu um verdeal 
que, por ordem do conservador Cabaças^ vinha 
averiguar o que se tinha passado de extraor- 
dinário. 

Como José Máximo estivesse ainda rodeado 
pelo grupo mais numeroso, que o escutava com 
agrado, foi a José Máximo que o verdeal se 
dirigiu, abrindo caminho atravez do grupo. 

Interrogado, José Máximo respondeu que por 
sua parte nada sabia do que se tinha passado, 
mas que estavam alli muitos estudantes que 
poderiam informar, querendo, o sr. conserva- 
dor. Nenhum se mexeu; todos encolheram os 
hotnbros sorrindo, menos Manuel Rodado. Jay- 
me de Carvalho acabou por dizer ao verdeal 
que se fosse em paz, porque não havia motivo 
para qualquer procedimento. 

A academia, onde o elemento aristocrático 



A guerrillia de frei Simão 145 



era sanhudamente absolutista, deixou-se impres- 
sionar de uma súbita sympathia por José Má- 
ximo, a quem, desde essa hora, ficou conhe- 
cendo pela alcunha de Martim Monh^ em me- 
moria da sua façanha da Porta Férrea: façanha 
que no enthusiasmo do primeiro momento fora 
pelos estudantes igualada á do heroe da porta 
do Castello de Lisboa no tempo de Affonso 
Henriques. 

Manuel Rodado sentiu-se corrido. Desappa- 
receu. Mas nunca o seu rancor a José Máximo 
fora maior do que quando, ao pensar nos acon- 
tecimentos daquelle dia, percebeu que tinha in- 
directamente concorrido para dar vantajosa evi- 
dencia ao novato, que pela segunda vez o des- 
feiteára. 

E fora effecti vãmente assim. Durante o resto 
do dia e á noite não se fallou em outra coisa nos 
vários cenáculos de conversação académica. 
José Máximo tornára-se conhecido de todos, e 
estimado de muitos. Era já, na linguagem es- 
colástica, geralmente designado por «Martim Mo- 
niz». Alguns estudantes absolutistas, com a ver- 
satilidade própria da juventude, pareciam que- 
rer mudar de opinião, qualificando de insolente 
reacção o procedimento de José' Máximo, que 
tinha esbofeteado a academia na pessoa de Ma- 
nuel Rodado. Mas outros, mais persistentes na 
primeira impressão recebida, replicavam que 
José Máximo respeitara as praxes universitá- 
rias submettendo-se ao canellão, e que apenas 
tomara como oífensa pessoal a provocação que 
partira de um seu antigo inimigo. Accrescen- 
tavam que não era no meio da coUectividade 

académica que devâam liquidar-se as penden- 

10 



146 Romance histórico 

cias individuaes. Posta a questão n'estes termos, 
ninguém ouzava quebrar lanças em publica de- 
fesa de Manuel Rodado, suspeito de cobarde. 
A pusillanimidade é o sentimento que mais re- 
pugna ao espirito dos novos, sejam quaes fôr as 
suas tendências politicas e sympathias pessoaes. 

Alem d'isto, os apologistas de José Máximo 
punham em relevo a correcção da sua resposta 
ao verdeal, quando appellára para o testemu- 
nho da academia; e contrastavam esse nobre 
procedimento com o de Manuel Rodado, que 
nem sequer tivera a coragem apparente de sor- 
rir disfarçando um mesquinho resentimento. 

O incidente da Porta Férrea estabelecera li- 
gações de amisade entre Jayme de Carvalho 
e José Máximo. A intimidade cresceu de pres- 
sa, porque não é próprio de gente moça mo- 
derar as suas expansões. 

E cada dia uma nova revelação vinha estrei- 
tar os laços de amisade que uniam aquelles 
dois académicos, attraidos um para o outro pela 
coincidência das suas inclinações politicas e va- 
lorosas aventuras. 

José Máximo contou a Jayme de Carvalho a 
historia do seu amor por D. Anna de Vascon- 
cellos para explicar a causa remota do conflicto 
com Manuel Rodado. Dezenhou-lhe o perfil in- 
sinuante de frei Simão, o destemido liberal de 
Cezár. Jayme de Carvalho ouvia-o sorrindo, 
sem comtudo mostrar-se surprehendido. 

— Esse frade, disse Jayme, tem um irmão 
que está agora preso em Aveiro por vingança 
de um silveirista de Chaves, que se tem valido 
da politica para o perseguir por motivos par- 
ticulares. Não é verdade.^ 



A guer filha de frei Simão 147 

■ ^^m^m^ . ! I 11 I I I . M I, 

. — E' verdade! Mas corao sabes tu isso? 

— Esse irmão do frade ama uma menina, que 
está no convento de Arouca. Não é também 
verdade? 

— E' verdade! Mas explica-te! Como sabes tu 
isso? 

— E essa menina tem no convento uma única 
amiga, que, alem de minha prima, é minha noi- 
va. Sabias? 

— Não sabia! 

— Pois é isto mesmo. 

— O* homem, dá cá um abraço! exclamou 
«Martim Moniz» caminhando de braços abertos 
para «Sam Bartholoméu». Não ha coincidências 
absurdas. O acaso é mais engenhoso nas suas 
combinações do que a chimica! 

E depois d'esta affectuosa expansão de re- 
cente amisade, que parecia já tão solida como 
se fosse muito antiga, entraram em pormeno- 
res. 

José Máximo dissera a Jayme de Carvalho: 

— Põe-me ahi a tua vida em pratos limpos. 
Quero saber tudo. 

— Eu sou pobre, disse Jayme. 

— E eu também, disse José Máximo. 

— Mas eu sou mais pobre do que tu. 

— Mais pobre do que eu não ha ninguém: 
nem. mesmo tu. 

— Recebo subsidio da Casa Pia. 

— E eu da Intendência. Quem t*o arranjou? 
—Foi o conde de Rio Maior. E a ti? 

^— F^oi frei Simão de Vasconcellos por inter- 
venção de um frade absolutista de Alcobaça. 

— Outra coincidência: somos dois pobretões 
subsidiados. 



148 Romance khtorico 

— E* verdade! Parece que tínhamos nascida 
para ser amigos! 

— Tens razão. Eu sentia-me s<5 em Coimbra,, 
disse Jay me de Carvalho, no meio d'esta grande 
recova de burros arreatados á Universidade. 

— Mas vamos á historia dos teus amores comi 
a amiga da Flor do Tâmega. 

— Quem é a Flor do Tâmega? 

— E' a menina de Chaves tào desgraçada- 
mente amada pelo irmão de frei Simão de Vas- 
concellos. 

— Eu sabia apenas que se chamava Marga- 
rida Cândida. 

— Pois chama. Mas foi António da Silveira, 
o apóstata de Canellas, que lhe poz a alcunha 
de Flor do Tâmega, 

— Não sabia. E pôde sahir do bestunto de 
um Silveira uma tão delicada alcunha ? 

— Parece incrível, mas é verdade ! 

— Por morte de meu pae achei-me na impos- 
sibilidade de concluir o curso. 

— Que pena seres já tu quintanista, quando 
eu ainda sou novato ! 

— Deixa lá ! Quando dois homens nascem 
fadados para amigos, não é a formatura que 
os pode separar. 

— Também tens razão. 

— Mas se a morte de meu pae me prejudi- 
cou, maior prejuízo causou ainda a minha tia 
e minha prima Ernestina, de quem meu pae 
era ô único amparo. Minha prima, graças ain- 
da á protecção do conde de Rio Maior, entrou 
no mosteiro de Arouca, aonde eu, logo que 
possa, a irei buscar para ser minha mulher. 
Olha que é uma linda rapariga, minha prima ! 



A guerrilha de frei Simão I49 



— Faço ideia. 

— Fazes ideia ? Pois eu não faço. 

— Como assim ? ! 

— Não faço ideia como ella estará agora, 
atormentada, flagellada pelo despotismo poli- 
tico, das venerandas madres de Arouca, que 
nem sequer a deixam escrever-me só porque 
minha prima pertence a uma familia liberal, 
apezar de eu ser o seu noivo. 

— E apesar de seres o seu noivo, talvez que 
te não seja fácil tiral-a do convento quando a 
quizeres ir buscar. Pelo menos hão de empre- 
gar dilações, exigir longas formalidades só para 
contrariar-te e contrarial-a. O absolutismo é 
como as feras: não larga facilmente uma vic- 
tima. 

— Ora essa! Minha prima pertence á sua fami- 
lia ! Para que servem então as leis, que nós 
vimos estudar em Coimbra ? ! O convento de 
Arouca não é uma cadea legal; não tem maio- 
res privilégios do que as outras casas monás- 
ticas. 

— Em conventos, meu amigo, não ha que 
fiar e escolher: são todos mais absolutistas do 
que o infante D. Miguel e sua mãe. 

— Nem minha prima poude escolher, porque 
veio de Lisboa licença para entrar no de Arou- 
ca. Precisava ir para um: foi para aquelle que 
lhe designaram. 

— Mas se tua prima não pôde escrever-te, 
como sabes tu o caso àdi Flor do Tâmega? 

— Minha prima escreveu á mãe apenas dois 
bilhetes desde que está em Arouca, e se o con- 
seguiu fazer foi porque um almocreve e um 
pastor levaram os bilhetes ao seu destino. No 



i5o Romance histórico 

primeiro, contava a perseguição politica de que 
estava sendo victima dentro do convento ; na 
segundo insistia sobre o assumpto e participava 
que já tinha uma companheira de desgraça^ 
certa menina de Chaves, Margarida Candida,que 
ali entrara por castigo de namorar um capitão* 
de dragões, muito lilDeral, irmão de um celebre 
frade, também liberal, residente em Cezár. Mi- 
nha tia recebeu esses dois bilhetes, e não tor- 
nou a receber nenhum outro. Mandou saber da 
abbadeça se minha prima passava bem de saú- 
de. A abbadeça respondeu que Ernestina go- 
sava a melhor saúde d*este mundo, que estava 
excelkntemente, e que em havendo alguma no- 
vidade a participaria, mas que só a ella, na 
qualidade de prelada, pertencia avaliar a oppor- 
tunidade das relações epistolares das suas su- 
bordinadas com os respectivos parentes. Dize- 
nie agora se acabaram realmente os cárceres e 
torturas da Inquisição ou se continuam func- 
cionando, sempre em nome de Deus, no mos- 
teiro de Arouca, para honra e lustre da reli- 
gião catholica, apostólica, romana. 

— Ha effectiva mente ainda muito que derru- 
bar e combater! accrescentou José Máximo, 
pensativo. A arvore da tyrannia, comquanto 
abalada desde o século passado pelos venda- 
vaes revolucionários, tem raizes profundas, que 
não poderão ser extirpadas facilmente. Mas eu 
já não me proponho auxiliar essa empresa de-^ 
molidora. Toda a minha ambição é obter paci- 
ficamente uma carta de bacharel em leis e ir 
depois esconder-me n'algum canto da provín- 
cia com Anninhas e com a tranquilla felicidade 
da minha consciência. 



A guerrilha de frei Simão 151 

— Meu amigo, tu ainda cá tens que ficar du- 
rante cinco annos, e olha que te nào ha de ser 
fácil resistir impunemente a todas as provoca- 
ções politicas, a todas as insolências irritantes 
com que os altaneiros realistas, que ahi pas- 
seiam de grimpa levantada, procuram açular a 
nossa cólera para esmagar-nos depois. 

— Hei de conseguíl-o; sabel-o-has. 

— EUes não pensam senão em irritar-nos com 
successivos reptos. Agora lembraram-se de imi- 
tar o exemplo dos lentes secundando o famoso 
préstito de José Caetano com um outeiro na 
sala grande dos actos e nào sei que mais fes- 
tanças provocadoras. 

— Deixal-os! Eu não quero saber d'isso. 

Fffecti vãmente, os académicos absolutistas 
planearam commemorar solemnemente a queda 
do constitucionalismo. O plano vingou, de ac- 
côrdo com os lentes. 

Em fevereiro de 1824 um triduo de ruido- 
sas festas foi como um novo cartel arremessa- 
do á face dos estudantes liberaes pelos absolu- 
tistas. A provocação chegou a ponto de convi- 
darem o famoso dominico Rochinha, muito 
constitucional, e cathedratico de theologia, para 
recitar a oração congratulatoria. Queriam com- 
promettel-o pela recusa. Mas o doutor Rocha 
acceitou, comquanto o machiavelismo do convite 
irritasse profundamente o animo dos liberaes. 
D'este propositado rastilho nasceu o incêndio. 

Emquanto na sala grande dos actos se cele- 
brava o annunciado outeiro com tumultuosos 
incidentes, no páteo da Universidade, vistosa- 
mente illu minado, a festa era perturbada pela 
expansão do despeito liberal. 



152 Romance histórico 



Ao passo que no outeiro os estudantes con- 
stitucionaes, como um que se chamava António 
Feliciano de Castilho, recitavam composições 
poéticas, em que o amor da liberdade trans- 
parecia ouzadamente, promovendo tumulto en- 
tre as duas facções adversarias, no páteo da 
Universidade os retratos da familia real e os 
emblemas allusivos á Restauração eram derru- 
bados por mâo desconhecida. 

Castilho tinha conquists^do um logar saliente 
no seio da academia pela circumstancia de ser 
cego e poeta. Estudava pelos olhos dos ir- 
mãos, e avantajava-se aos irmãos no boleio dos 
versos e na delicadesa da inspiração, sendo 
que todos os Castilhos eram apaixonados cul- 
tores das bellas-lèttras. 

António Feliciano descobrira a veia poética 
de José Máximo, e instou-opara que concorres- 
se com elle ao outeiro. Procurou demovel-o 
com a leitura do Sonho de Fénelon, que escre-. 
vera expressamente como protesto contra os 
intuitos absolutistas daquella commemoraçào 
litteraria. José Máximo resistiu, desculpando-se 
com a insufficiencia do seu estro indigno de 
hombrear com o do joven Milton portuguez. 
Mas prometteu a Castilho ir ouvil-o, e foi. 





XV 



Politica de eslndanles 



São cousas de moços. 

tiil Vicente— Farca du «Juiz da Beira.» 



Na sala grande dos actos, José Máximo e 
Jayme de Carvalho, sentados um ao pé do 
outro, assistiam ao outeiro. 

N'um dos bancos anteriores estava Manuel 
Rodado no meio de um grupo de estudantes 
absolutistas, que denunciavam uma super- 
abundância de enthusiasmo, suspeita de copio- 
sas libações intencionalmente liberalisadas pelo 
filho do brazileiro. 

Todo este grupo se voltava frequentes ve- 
zes para traz, olhando zombeteiramente para 
os dois académicos constitucionaes, sorrindo e 
faltando d'elles com escarneo. 

José Máximo disse para Jayme de Carva- 
lho : 

— Eu cá faço de conta que não é nada com- 
nosco. 

— E eu também. 

Quando os poetas absolutistas subiam ao 
estrado, a facção liberal arrastava os pés rui- 
dosamente. 



154 Romance histórico 

O obeso conservador Cabaças^ alcunha que 
resultara do seu feitio espheroidal, rompia logo 
coxia acima, á frente dos ver deães, para suf- 
prehender em flagrante delicto os pateantes. 
Mas a pateada cessava, para começar de- 
pois. 

Ouviam-se vozes de — Fora! fora! 

E o grupo de Manuel Rodado, pondo-se de 
pé, olhava acintosamente para José Máximo e 
Jayme de Carvalho, como se quizesse indicar 
ao conservador que elles eram os cabeças de 
motim. 

Mas os dois mantinham-se imperturbavelmen- 
te serenos, facto que aliás era notado pelo cor- 
po cathedratico, que occupava as tribunas de 
honra. Uma vez aconteceu que o próprio rei- 
tor, vendo que o Cabaças observava os dois 
amigos, lhe fizera signal de que o tumulto par- 
tia de outro ponto da sala. 

Os poetas liberaes eram festejados pelos 
seus correligionários com enthusiasticas mani- 
festações de applauso. José Máximo e Jayme 
de Carvalho abstinham-se, mas abriram exce- 
pção para Castilho, a quem deram palmas, e 
que fora obrigado a repetir muitas vezes o So- 
nho de Fénelon, 

Cresceu com esta ovação a cólera dos abso- 
lutistas, a breve trecho atiçada pela noticia, 
que logo circulara na sala, de que tinham sido 
despedaçados os emblemas que ornamentavam 
o páteo da Universidade. 

O reitor entendeu que era mais prudente en- 
cerrar o outeiro^ e a onda dos estudantes gal- 
gou desordenada para o páteo, onde se trava- 
ram pequenos conflictos, a que a ronda uni ver- 



A guerrilha dè frei Simão I55 

sítaria, Cabaças á frente, logo acudia, varrendo 
adeante de si a multidão. 

José Máximo e Jay me de Carvalho passaram 
indiíferentemente atravez da turba, seguidos a 
pequena distancia pelo grupo de Manuel Roda- 
do, que, vendo-os caminhar pausadamente, co- 
mo quem vae prevenido para uma aggressào,. 
não ouzava atacal-os. 

José Máximo chegara a dizer para Jayme de 
Carvalho: 

— Não estamos armados. O melhor é irmos 
para casa. 

--Pois vamos, mas de vagar. Salvo o caso... 

— Bem sei que caso é, atalhou José Máximo; 
salvo o caso de nos aggredirem. 

Mas a aggressão não veio. José Máximo en- 
trou em sua casa com Jayme de Carvalho e,. 
apenas acabavam de entrar, quando todas as 
vidraças estalavam com uma rajada de pe- 
dras. Uma baia, entrando por uma das janellas,. 
zuniu sobre a cabeça de Jayme de Carvalho. 

— Isto agora é mais serio! exclamou José 
Máximo. O ficarmos aqui encurralados já não- 
seria prudência, era vergonha. 

Foi direito ao quarto de um condiscípulo,, 
onde sabia haver um bacamarte. 

— Está carregado, felizmente! disse elle após- 
sando-se da arma. 

— E eu? perguntou Jayme de Carvalho. 

— Tu? Procura por ahi um punhal, uma ben- 
gala, qualquer coisa. 

Nova saraivada de calhaus bateu contra as 
portas das janellas, fazendo tinir o pouco que 
restava das vidraças. 

José Máximo desceu de um salto a escada, e 



1 56 Romance histórico 

abriu a porta. Jayme de Carvalho, armado de 
um cacete, seguiu-o immediatamente. 

Apenas José Máximo assomou ao limiar, foi 
agarrado pelos estudantes absolutistas, que se 
perfilavam ás hombreiras. Jayme de Carvalho, 
brandindo o cacete por sobre o grupo, descar- 
regava bordoada a torto e a direito n'um rá- 
pido sarilho de esgrima. José Máximo poude 
libertar-se, mas o grupo, sentindo a pequena 
distancia um extranho tropel, largou a fugir 
em debandada. 

Vinham fugindo, em sentido opposto, alguns 
estudantes, que corriam gritando: — Fujam! fu- 
jam! Mataram o Cabaças ao Arco do Bispo. 

Toda a caterva desappareceu como por en- 
canto, e José Máximo e Jayme de Carvalho en- 
traram precipitadamente em casa, fechando a 
porta. 

Subindo á sala, disse Jayme sentando-se, 
muito fatigado, n'uma cadeira de pinho: 

— Ora aqui está no que vieram a dar os nos- 
sos planos de prudência! 

— E' verdade! Mas fomos provocados. Só se 
nâo tivéssemos sangue nas veias! 

— E se effectivamente mataram o Cabaças^ 
teremos alçada, pagará o justo pelo peccador, 
quem sabe se não seremos também arrastados 
na rede? 

— Nós?l exclamou, José Máximo. Mas o que 
temos nós com isso?! 

— Temos que somos constitucionaes, e é o 
peior que podemos ser n'esta occasiào. Esta- 
mos á mercê das vinganças e das delações de 
todo o fiel patife absolutista, como o Narciso 
doirado^ e quejandos. Pois olha que qualquer 



A guerrilha de frei Simão 157 

complicação me faria agora diíFerença, no quin- 
to anno! 

— E a mim, no primeiro! disse desalentada- 
mente José Máximo, que se lembrou de Anna 
de Vasconcellos, dos seus ternos pedidos para 
que se abstivesse de politica, bem como dós 
prudentes conselhos de frei Simão. Melhor eu 
não tivesse ido ouvir o Castilho! 

— O que está feito, está feito! apostrophou 
Jayme de Carvalho. Vou embora, preciso 
dormir. 

— E' mais prudente que fiques. Se mataram 
o Cabaças^ e se te apanham na rua, corres o 
risco de ser preso para investigações. 

— Mas olha que não deixa de ser compro- 
mettedor o facto de não ficar rtn casal 

— Também é verdade. Vou acompanhar-te. 

— Não quero! 

— Mas quero eu. . 

— E' tolice. Dado o caso de eu encontrar a 
ronda, que necessidade tens tu de ser também 
preso? 

— Seguirei o teu destino. 

— Muito obrigado. Mas se for preso, prefiro 
que tu o não sejas, porque poderás mais facil- 
mente justificar-me. 

Perante este argumento, José Máximo deu-se 
por convencido. Ficou. Deitou-se. Mas não pou- 
de conciliar o somno. A imagem de Anninhas 
apparecia-lhe lacrimosa a lastimar-se de não te- 
rem sido attendidas as suas supplicas. E a folha 
de trevo, consultada como oráculo, revoluteava 
no cérebro de José Máximo á semelhança de uma 
borboleta negra, presaga. 

Jayme de Carvalho não teve pelo caminho 



158 Romance histórico 

qualquer mau encontro. As ruas estavam de- 
sertas, dir-se-ia que o terror fizera dispersar 
toda a academia, n*uma noite de festa e de luar, 
véspera de feriado. 

— Alguma coisa grave se passou effecti vã- 
mente! tinha pensado Jayme de Carvalho. 

Os seus companheiros de casa, que já ha- 
viam recolhido todos, contaram-lhe que a ronda 
da Universidade fora atacada a tiros de baca- 
marte no Arco do Bispo, mas que o Cabaças 
não morrera, como a principio constara. Ape- 
nas o meirinho e alguns verdeaes tinham ficado 
feridos. O caso, porém, não deixava de ter gra- 
vidade. 

— Quem foi que atacou a ronda? perguntou 
Jayme de Carvalho. 

— Vá lá saber-se! Fomos nós, foste tu, fo- 
ram todos os que não são absolutistas. E* o 
que ha de dizer-se. 

— Eu não ataquei ninguém; mas olhem que 
fui atacado. 

— Foste atacado?? perguntaram-lhe. 

— Pelo grupo do Narciso doirado^ que ape- 
drejou a casa de José Máximo. As pedras não 
passaram das vidraças, que ficaram partidas, 
mas eu senti zunir uma bala por cima da ca- 
beça. 

— Patifes! disse um estudante. 

— Vamos nós fazer o mesmo ás janellas do 
Narciso.^ propoz outro, mais exaltado. 

— Não sejam tolos! respondeu Jayme. Eu vou 
mas é deitar-me. Boa noite, rapazes. 

No dia seguinte corria em alguns circulos 
absolutistas a seguinte versão: 

Manuel Rodado e outros estudantes, que re- 



A guerrilha de frei Simão 159 

colhiam do outeiro^ tendo encontrado ao Arco 
do Bispo um grupo que lhes pareceu suspeito, 
perseguirara-n'o para reconhecel-o. Dois indivi- 
dues d'esse grupo entraram em casa de José Má- 
ximo, e como ahi mesmo fossem vigiados, sahi- 
ram á rua armados de bacamarte e cacete. Esses 
dois individuos tinham sido reconhecidos: eram 
José Máximo e Jayme de Carvalho. O primei- 
ro não poude fazer uzo do bacamarte, porque 
o seguraram. O segundo descarregou muitas 
cacetadas contra os seus perseguidores, um 
dos quaes, Manuel Rodado, ficara ferido na 
cabeça. 

Esta versão tinha por fim insinuar que José 
Máximo e Jayme de Carvalho não eram ex- 
tranhos á emboscada do Arco do Bispo. 

A versão liberal contava os factos como el- 
les realmente se tinham passado e preconisa- 
va o denodo dos dois amigos, que fizeram fren- 
te a um grupo numeroso, abrindo a cabeça a 
muitos absolutistas. 

Este acontecimento vinha coroar a repu- 
tação de valente, que José Maximp tinha ganho 
á Porta Férrea. Pelo que respeitava a Jayme de 
Carvalho, a sua reputação estava feita, e fora 
elle próprio que engrandecera a gloria do seu 
amigo divulgando os serviços prestados á cau- 
sa da liberdade no Porto e em Lisboa. José 
Máximo havia-lhe contado, no decorrer do 
tempo, todos os episódios da sua aventurosa 
existência. 

De todos esses episódios o que mais exal- 
tara a imaginação da rapaziada havia sido a 
metamorphose em criado de servir sob o dis- 
farce de Fresca Ribeira. 



l6o Romance histórico ' 

Muitos académicos liberaes foram a casa de 
José Máximo felicitai o; entre outros, estivera 
ali António Maria das Neves Carneiro, natural 
do Fundão, seu patrício e amigo de infância. 

N*esse improvisado parlamento constitucio- 
nal discutiram-se durante longas horas os acon- 
tecimentos da véspera. Reconhéceu-se a neces- 
sidade de uma forte concentração de elementos 
partidários como núcleo de resistência contra 
as insidias e perfídias da facção contraria. Fo- 
ram indicados os nomes de José Máximo e Jay- 
me de Carvalho como sendo os dos académi- 
cos que inspiravam maior confiança para a or- 
ganisação e direcção dos trabalhos do partido. 
E d'esta acclamação unanime resultou achar-se 
José Máximo envolvido nos negócios politicos 
da academia, que vinte e quatro horas antes 
estava resolvido a evitar completamente. 

Um dos últimos estudantes que sahiram foi 
António Maria das Neves Carneiro. 

José Máximo, muito pallido, chamou-o de 
parte, e disse-lhe: 

— O' António, tu viste por lá minha mãe? 

E rebentaram -lhe as lagrimas, embaciando- 
lhe a vista. 

— Vi, sim, respondeu Neves Carneiro. Vive 
muito atormentada por tua causa. E encarre- 
gou-me, a occultas de teu pae, de te dar um 
abraço, quando estivéssemos sós. 

José Máximo abriu os braços, e apertou Ne- 
ves Carneiro contra o coração. 

N'esse momento, chorava copiosamente. Pa- 
recia-lhe que tinha sentido palpitar, na dôr e 
na desolação, o coração de sua mãe. 

O governo mandara uma alçada a Coimbra 



A guerrilha de frei Simão 1 6 1 

j^ara syndicar dos acontecimentos de fevereiro, 
que, segundo a phrase de um eh ronistá** con- 
sciencioso (l >, os ódios e malevolencia do par- 
tido absolutista adrede exageravam para se 
vingar dos seus adversários. 

Sabia-se, apesar do segredo da alçada, que 
José Máximo da Fonseca e Jayme Henrique de 
Carvalho tinham sido compromettidos pelo de- 
poimento de Manuel Rodado e outras teste- 
munhas absolutistas. 

Foram horriveis de anciedade os dias que 
para aquelles dois estudantes decorreram, desde 
que chegou a alçada e morosamente funcc'o- 
nou para que não ficasse por averiguar o me- 
nor delicto, até que em 30 de abril se mallo- 
grou em Lisboa o novo movimento prc movido 
pelo infante e pela rainha, recolhendo-se D. 
João VI a bordo da nau ingleza Windsor Cas- 
tle e sendo D. Miguel obrigado a retirar-separa 
o extrangeiro. 

O mallogro da abrilada pela intervenção da 
diplomacia causara dolorosa impressão a to- 
dos os absolutistas, incluindo os de Coimbra, 
que tinham julgado aberto o caminho da re- 
acção sanguinária pelo assassinato do marquez 
de Loulé em Salvaterra. 

Lastimavam a ausência do infante, e receia- 
vam que se robustecesse a politica moderada 
e conciliadora, adoptada nos processos gover- 
nativos depois da restauração de Villa-Franca, 
e que fora a causa determinante do segundo 
movimento tentado por D. Miguel. 



o sr. Joaquim Martins de Carvalho. 

U 



i62 Roman.e histórico 

I I ■■' ■ «^^^^ 

Tinham razão para receiar, porque assim veio 
a acontecer. 

A amnistia de 5 de junho de 1824 suspen- 
deu as perseguições politicas; deteve o gladio 
da vingança. 

Ficaram por este motivo sem effeito os pro- 
cessos instaurados nas devassas a que a alçada, 
que cm fevereiro tinha ido a Coimbra, proce- 
deu rigorosamente. 

José Máximo e Jayme de Carvalho poderam 
respirar desafogados. Mas esse mesmo facto, 
que significava um ténue triumpho obtido pe- 
los liberaes sobre os absolutistas de Coimbra, fez 
augmentar o prestigio politico de José Máxi- 
mo, deu-lhe maior importância partidária. 

Estava livre, graças á amnistia, mas, infe- 
lizmente, a politica havia-o empolgado de no- 
vo, fazia-se em torno do seu nome, de prefe- 
rencia a Jayme de Carvalho, uma atmosphera 
de celebridade capitolina, porque José Máxi- 
mo, como primeiranista, era o sol que nascia, e 
Jayme de Carvalho, estudante do quinto anno, 
era o sol que ia desapparecer. 

A politica é sempre a mesma em toda a 
parte. 



^ 



XVI 



Falso IrJnmplii) 



N3o era a demliiia de um ainiplc: 
iiilni-lriinue a n-^unli- aBFicnav*. fi': 
» ilemUaio da c^usa roDSUluduiiaL 

1). Alllouiu da Costa — -flisloría dl 



N'um dos últimos dias de fevereiro de 1826, 
Jayme de Carvalho, que havia mais de um anuo 
tinha estabelecido banca de «lettrado» na ci- 
dade d'Evora, para onde fora advogar por sug- 
gestão de um alerntejano seu contemporâneo 
em Coimbra, aprcsentava-se na portaria do 
mosteiro de Arouca, acompanhado de uma se- 
nhora, a reclamar a entrega de sua prima Er- 
nestina. 

A senhora que o acompanhava era a mãe da 
secular. 

Jayme, que se estrelara com felicidade, e es- 
tava fazendo importantes interesses, poderá 
preparar com um certo conforto o seu larcon- 
jogai. 

Depois requereu ao respectivo prelado a li- 
cença indispensável para Ernestina sahir do 
convento. O prelado despachou favoravelmente, 
e Jayme, munido d'essa licença e acompanhado 



104 Romance histórico 

de sua tia, que tinha deixado o Porto para ir 
viver com elle em Évora, foi a Arouca buscar 
a prima que queria desposar. 

A abbadeça, irritada, como todos os migue- 
listas, pelo exilio do infante, refinara em ódio 
aos liberaes, e enfureceu-se sobremodo com a 
•visita d*um pedreiro-livre, que, de cabeça alta,, 
com òrgulliosa altivez, ia dizimar-lhe o sagra- 
do rebanho, arrancando uma victima ás vin- 
ganças da politica monástica. 

De roais a mais, creando difficuldades á sa- 
bida de Ernestina, obstava á constituição odio- 
sa de uma nova familia maçónica, no que jul- 
gava prestar um dedicado serviço á causa do 
absolutismo e da santa religião. 

Portanto, vindo á grade receber essa imper- 
tinente visita, peremptoriamente declarou que 
o documento apresentado, salvo o respeito de- 
vido ao despacho episcopal, não era bastante 
a justificar a entrega da educanda. 

Disse que Ernestina de Carvalho fora rece- 
bida por ordem do governo, medeante aucto- 
risação do prelado. Ora, o documento que lhe 
apresentavam, se tinha authenticidade eccle- 
siastica, carecia de sancção civil. 

— Nos tempos que vão correndo agora, accres- 
tára a abbadeça com ríspido azedume, a desor- 
dem nas coisas publicas não pode ser maior, 
porque todos querem mandar. Tenho aqui, é 
certo, a auctorisação do nosso reverendo pre- 
lado. Mas se eu deixar sahir a menina sem. 
mais formalidades, e amanhã o governo do 
reino se lembrar de perguntar-me o que fiz eu 
de uma secular que por elle me fora entregue, 
não sei o que hei de responder. Vá poií5 Vossai 



A guerrilha de frei Simão 165 

•Mercê entender-se em Lisboa com os ministros 
d'estado, traga da chancellaria da corte uma 
ordem que invalide a que me enviaram para 
-receber a educanda, e eu lh*a entregarei então 
sem o menor impedimento. Nós, que fomos 
educadas a respeitar o poder real, não estamos 
habituadas nem dispostas a fazer coro cora os 
revolucionários que o pretendem abalar. 

Jayme de Carvalho ficou fulminado com esta 
recusa formal. Quiz argumentar, discutir com 
a abbadeça, que, sem mais explicações, incli- 
nou levemente a cabeça, e sahiu da grade. 

— Não ha que ver! disse Jayme a sua tia. 
Tenho de ir a Lisboa! José Máximo parece que 
adivinhava! Espero que não terei mais demora 
•do que chegar e voltar. Por isso resigne-se mi- 
nha tia a ficar aqui em qualquer casa que por 
alguns dias a queira receber, evitando assim, 
na sua idade, os incommodos de uma segunda 
jornada. Eu sou novo e forte, não me fatigarei, 
nem demorarei muito. 

Nenhuma das familias pobres de Arouca quiz 
receber a tia de Jayme de Carvalho, quando se 
soube que ella era a mãe da secular constitu- 
cional, originaria de maçons. Receiavam a có- 
lera da abbadeça, e da communidade. Entre 
as familias nobres uma lhe daria certamente 
pousada, era a da quinta do Outeiral; mas José 
Bernardo Pereira de Vasconcellos estava a esse 
tempo em Cezár no solar do Outeiro. Só em 
Sobrado de Paiva foi possível encontrar hos- 
pedagem, graças ao silencio que tia e sobrinho 
aprenderam a guardar sobre o motivo da sua 
jornada, 
Jayme de Carvalho chegou a Lisboa em tão 



i66 Romance histórico 

má hora, que foi encontrar agonisante, nos pri- 
meiros dias de março, el-rei D. Joào VI. 

Os ministros não davam audiência, nem des- 
pacho. Passavam o dia na Bemposta, muito 
preoccupados com a magna questão politica da 
successão ao throno. 

Fora do Paço boquejava-se que o rei já 
estava morto, mas que o governo, para fazer 
vingar a hereditariedade de D. Pedro IV, e ter 
tempo de nomear a regência interina, occulta- 
va a sua morte. 

Os constitucionaes contradictavam este boa- 
to, e os miguelistas, mostravam -se muito exal- 
tados contra a postergação dos direitos de D. 
Miguel, por isso que D. Pedro, depoiâ da in- 
dependência do Brazil, não era para Portugal 
mais do que um principe extrangeiro. 

D. João VI fallecêra antes ou depois de ter 
apparecido o decreto, que reconhecia a succes- 
são de D. Pedro e nomeava a regência provi- 
sória. Mas a sua morte fora declarada official- 
mente, e seguira-se o funeral e o luto da corte, 
de modo que Jayme de Carvalho não poudc 
obter uma audiência da infanta regente. 

Procurava todavia os ministros, expunha-lhes 
o estado da «sua questão», eos ministros, que 
estavam a ver no que paravam as modas e que 
não queriam indispôr-se abertamente com ne- 
nhum dos dois partidos militantes, respondiam 
que o assumpto era melindroso, e que não po- 
diam dar despacho sem levar primeiro o nego- 
cio ao conhecimento da «senhora infanta D. 
Isabel Maria». 

Jayme estava ainda em Lisboa, sem conse- 
guir uma resolução do poder executivo, quan- 



A guerrilha de frei Simão 167 

do chegou, pela corveta Lealdade^ a noticia de 
ter D. Pedro outorgado a Carta Constitucional. 

Apesar, de muito contrariado por tão extra- 
nha demora, agora prolongada pela ausei)cia 
da regente, que estava era tratamento nas Cal- 
das da Rainha, Jayme saudou com enthusig.s- 
mo a resurreição do constitucionalismo que ia 
inaugurar, pensava elle, uma nova epocha de 
felicidade para Portugal. 

O ministério e a regente receberam com do- 
lorosa surpreza a constituição que viera do 
Brazil, e adiavam de dia para dia não só o ju- 
ramento da Carta, mas também todos os negó- 
cios que podessem augmentar o descontenta- 
mento dos miguelistas. 

De modo que não foi possível a Jayme de 
Carvalho obter um despacho, simples na appa- 
rencia, mas gue certamente desagradaria a 
communidade de Arouca, porque era transpa- 
rente a intenção dilatória da abbadeça. 

De repente, porém, Saldanha, governador das 

armas no Porto, Saldanha que, um anno antes, 

h avia cavalgado em triumpho, na volta de Villa 

Franca, ao lado do infante D. Miguel, arvorou- 

e em defensor da Carta e principal propulsor 

^o seu immediato juramento. 

Logo que isto constou em Lisboa, surprc- 
hendendo o espirito intransigente das primei- 
ras familias da nobreza absolutista, com as 
quaes Saldanha estava aparentado, Jayme de 
Carvalho metteu-se n'um vapor, e sahiu de 
Lisboa para o Porto. 

O seu fim era obter a protecção de Salda- 
nha, a quem logo tratou de procurar. 

Foi recebido sen demora, e expòz ao gene- 



l68 Romance histórico 

ral o «estado da questão*. Saldanha, caracter 
impressionavel e coração ardente, muito impe- 
tuoso e algo romanesco, acolheu com viva sym- 
pathia o jovem advogado, que implorava o seu 
valimento. 

O general disse resolutamente a Jayme de 
Carvalho: 

— Vou fazel-o acompanhar por um ofíicial 
da minha confiança, que irá encarregado de di- 
zer á madre abbadeça o seguinte: «Ou ella en- 
trega já a menina que acintosamente retém 
ou eu pessoalmente a vou lá buscar». 

Jayme cahiu de joelhos deante do general, 
abraçou-lhe as pernas, beijou-lhe a mão, não 
obstante Saldanha forcejar por levantal-o. 

N*aquelle momento histórico, Saldanha era o 
papão dos miguelistas, que o odiavam mas te- 
miam. 

A abbadeça de Arouca, vend^> na grade um 
official bigodoso a intimar-lhe a ameaça de 
Saldanha, tremeu como varas verdes, amaldi- 
çoou a Carta, mas entregou Ernestina de Car- 
valho, e o casamento effectuou-se alguns dias 
depois, em Évora. 

Jayme escreveu para Coimbra uma longa 
carta a José Máximo contando-lhe miudamente 
os trabalhos que passara para arrancar Ernes- 
tina do convento, a intervenção magnânima de 
Saldanha, e o triste destino de Margarida Cân- 
dida que, segundo Ernestina lhe revelara, fora 
illudida para professar. 

Acabava por congratular-se pela outorga da 
Carta, e estimulava-o a mais do que nunca exer- 
cer a sua influencia sobre a academia para 
combater á mão armada, se tanto fosse preci- 



A guerrilha de frei Simão 169 

so, a opposiçâo que, segundo se dizia, os reac- 
cionários preparavam. 

Saldanha conseguira impor-se á regente de 
modo a fazer jurar a Carta e a ser chamado ao 
poder como ministro da guerra. 

Os absolutistas preparavam, effecti vãmente, 
um golpe de mào. O norte e o sul do paiz, agi- 
tado por elles, acclamavam D. Miguel rei de 
Portugal. Em Traz-os Montes o marquez de 
Chaves soprava á fogueira da reacção. O Al- 
garve, imitando o AÍemtejo, fazia um pronun- 
ciamento militar, que Saldanha, já ministro da 
guerra, fora suffocar pessoalmente. 

A academia de Coimbra não assistia indif- 
f crente ás luctas politicas do momento. 

José Máximo, o chefe constitucional da aca- 
demia, entendera-se com o deputado Alvares 
Pereira, que tinha ido áquella cidade expres- 
samente para mover os estudantes a armaram- 
se pela defesa da Carta. 

Não é fácil imaginar a actividade, o zelo, o 
enlihusiasmo, que José Máximo desenvolveu na 
organisação do batalhão de voluntários acadé- 
micos, cujo com mando fora confiado ao major 
de milicias de Tondella, Feio de Figueiredo. 

José Máximo escreveu a frei Simão de Vas- 
concellos narrando-lhe tudo o que se estava 
passando em Coimbra, e o frade, muito exal- 
tado pelo novo advento do constitucionalismo, 
rcspondia-lhe de Cezár: 

«Se o batalhão académico carecer de um 
capellão, aqui estou eu, não precisam procurar 
outro. Tanto me faz ir combater inimigos ao 
longe como arcar com os de ao pé da porta, 
que não levam comigo a melhor.» 



170 Romance histórico 

Já nâo era o mesmo homem prudente, que 
tinha aconselhado José Máximo a abster-se das 
luctas politicas. Renascera n*elle o fogoso re- 
volucionário; a liberdade embriagava-o como 
um vinho capitoso. A perseouiçáo que lhe fa- 
ziam os seus visinhos absolutistas de Cezár 
irritava-o, enfurecia-o. 

Na casa do Outeiro havia uma pessoa que> 
no fundo do coração, amaldiçoava a liberdade 
resuscitada: era Anninhas, que tremia pela sorte 
de José Máximo ao aferil-a pelos acintes com 
que os visinhos de Cezár inquietavam o frade. 

Mas nào ouzava expor os seus receios na 
presença do irmào e das irmãs, a quem o es- 
pectro de Joaquim Maria, a victima da liber- 
dade, a todo o momento clamava: «Vingança! 
vingança!» 

O deputado Alvares Pereira, que era tam- 
bém coronel do exercito, dizia vendo dia a dia 
o infatigável ardor com que José Máximo tra- 
balhava na organisaçào do batalhão acadé- 
mico: 

— Que pena que este rapaz nâo seja mili- 
tar ! E* uma vocação perdida ! 

Manuel Rodado, bem como outros estudan- 
tes absolutistas, fugiu de Coimbra. 

Quando se notou a sua falta, disse José Má- 
ximo: 

— O Narciso fez mal em fugir: eu nem dava 
por elle ! 

O batalhão dos voluntários académicos mar- 
chou para Vizeu, a reunir-se, na Beira, ao exer- 
cito de operações. 

Os reaccionários foram batidos, e tiveram 
de refugiar-se em Hespanha, onde achavam 



A guerrilha de frei Simão I/I 

protecção. Voltaram de novo, avançando pelo 
Minho, ameaçando o Porto. Foram batidos 
segunda vez pelos constitucionaes portuguezes^ 
porque a divisão ingleza, que o governo recla- 
mara, chegou até Coimbra, parou ahi, e d*ahi 
tornou para Lisboa sem tomar parte na lucta. 

A Carta triumphára, e o batalhão académico 
recolheu a Coimbra, coberto de louros. 

José Máximo, que se tinha batido com louco 
denodo, ^ra o heroe do dia, o alvo de ruido- 
sas manifestações por parte dos académicos. 

Corações enthusiastas, poetas da politica, co- 
mo esses generosos rapazes se illudiam com o 
seu próprio triumpho! 

O systema constitucional apenas vigorava 
nominalmente. Funccionavam todas as velhas 
molas do antigo regimen. Saldanha, afFastado 
temporariamente do ministério por motivo de 
uma longa doença, já não era um obstáculo^ 
que impedisse o passo á reacção descarada. 

José Máximo, o grande vencedor académico, 
e os seus collaboradores nas victorias do bata- 
lhão dos voluntários, soffreram, dentro de pouco 
tempo, a primeira disillusão. 

O conservador Cabaças recusou- se a pagar 
aos estudantes subsidiados as mezadas que elles 
recebiam pelos cofres da Intendência e da Casa 
Pia. O reitor não quiz mandar-lhes abonar as. 
faltas. 

Que atormentado triumpho! Os vencedores 
pareciam vencidos, e os vencidos vencedores. 

Mas Saldanha, restabelecido, voltara de novo- 
á gerência da pasta da guerra, para se demo- 
rar pouco tempo, porque nas regiões do poder 
a corrente predominante era a absolutista. 



172 Romance histórico 



José Máximo lembrou-se de escrever a Jay- 
me de Carvalho pedindo-lhe que sem demora 
fosse a Lisboa interceder pelos estudantes junto 
de Saldanha. 

Jayme partiu immediatamente. Saldanha re- 
conheceu-o, e perguntou-lhe cora alacridade 
irónica: 

— O que?! Tornaram-lhe a roubar sua espo- 
sa?! D 'isso são elles capazes! 

Jayme sorriu, e explicou a triste sifciação dos 
estudantes de Coimbra. 

Saldanha obrigou os coUegas a consentirem, 
muito contra sua vontade, que fossem abona- 
das as faltas e pagos os subsidios aos estu- 
dantes. 

Mas esta e outras imposições do ministro 
<la guerra exasperaram a tal ponto os sectários 
do absolutismo, e a própria regente, que Sal- 
danha foi demittido e os tumultos, a que a sua 
demissão dera logar em Lisboa, duramente re- 
primidos. 

A perseguição aos liberaes era aberta, cla- 
ra, e temerosa. O miguelismo triumphava á 
sombra da Carta. Mais um passo, e o absolu- 
tismo derrubaria o anteparo da Carta, por traz 
do qual se acobertava. 

Esse passo deu-o imprudentemente, talvez 
forçado pelas exigências da diplomacia, o pró- 
prio D. Pedro, nomeando D, Miguel seu logar- 
tenente no reino e escolhendo-o para marido 
de sua filha. 

D. Miguel jura a constituição, assigna o con- 
trato csponsalicio, e chega a Lisboa no dia 
22 de fevereiro de 1828. 



^^^^^^^M^^^^^^^^^^í 



i^^mi^^^^^mM^^^ 



XVII 



o crime do Caríaxiiiho 



Ao mesmo tempo, porém, que alta* 
mente nos pronunciamos contra os in- 
divíduos que praticaram tão grande cri- 
me, temos obrigação de dteclarar cm 
testemunho á verdade que na sociedade 
dos «divoriignos» não se decidiu nem st^ 
trufou da morte dos membros das depu- 
tações. 

Joaquim Martins ^e Carvalho— «Apon- 
tamentos para a historia contemporâ- 
nea.» 



Os primeiros actos de D, Miguel como re- 
gente, conjugados com o enthusiasmo poputar 
que o saudava como rei, deram rebate nos ar- 
raiaes do constitucionalismo, causaram uma 
anciosa desconfiança nos espiritos mais exal- 
tados. 

Entre as sociedades secretas de Coimbra 
avultava a dos Divodignos^ que funccionava 
na rua do Loureiro, junto ao Arco de D. Ja- 
cinta, e que na sua maior parte era constituída 
por estudantes. 

José Máximo, disputado por todos esses clubs. 
revolucionários, a todos pertencia, e não pou- 
cas vezes teve de arriscar a sua influencia pes- 
soal para conter os ânimos fogosos dos con- 
frades e evitar inúteis desatinos de paixão po- 
litica. 



1/4 Romance histórico 

A chegada de D. Miguel, os seus primeiros 
actos como chefe do estado e as manifestações 
calorosas com que a opinião publica o recebe- 
ra, atiçaram a indignação das sociedades se- 
cretas de Coimbra, onde todas as noites eram 
proferidos discursos violentos e gizados planos 
audaciosos. 

Os lentes absolutistas, a cujos ouvidos che- 
gavam os eccos ameaçadores dos clubs maçó- 
nicos, tratavam, por sua parte, de cortar os 
voos aos estudantes demagogos, como elles os 
classificavam. 

Assim pois, sob pretexto de dar as boas- 
vindas a D. Miguel, resolveram, de accôrdo 
com o cabido, enviar deputações a Lisboa. 

Mas logo correu entre os estudantes que a 
fim secreto da jornada dos cathedra ticos era 
apresentar a D. Miguel uma relação dos aca- 
démicos liberaes, que deviam ser riscados e 
perseguidos. 

Reuniram-se im mediatamente todas as so- 
ciedades secretas para tratar do assumpto. 

José Máximo entendeu dever assistir, de pre- 
ferencia, á sessão dos Divodignos^ por ser o 
club mais ardente e numeroso, portanto aquel- 
le que offcrecia maior perigo de desvairamento. 

Accrescia também uma circurastancia espe- 
cial para inquietar o espirito de José Máximo 
com relação á assemblea dos Divodignos, 

António Maria das Neves Carneiro, seu pa- 
tricio e amigo, então alumno do segundo anno 
de mathematica, era não só ura dos académi- 
cos liberaes mais exaltados, mas também ini- 
migo pessoal de um dos lentes da deputação. 

Ora se taes motivos o faziam temido e pe- 



A guer filha de frei Simão 175 

rigoso, na matéria que se ventilava, ninguém 
melhor do que José Máximo podia dispor de 
auctoridade bastante a reprimil-o e contel-o. 

Portanto, de combinação com o sextanista 
da faculdade de leis, Francisco Cesário Rodri- 
gues Moacho, que era o presidente da socieda- 
de dos DivodignoSy José Máximo, então no seu 
quiíito anno, concorreu á sessão de animo fei- 
to para abafar as tempestades de cólera, que 
certamente esbravejariam na boca de António 
Maria. 

Como se esperava, foi este estudante que 
apresentou e arrebatadamente sustentou uma 
proposta incendiaria, cuja summula se cifrava 
em que uma delegação dos Divodignos fosse 
arrancar dâs mãos dos lentes, no caminho, não 
só as felicitações de que eram portadores, mas 
também, e principalmente, a lista das proscri- 
pções académicas. 

José Máximo combateu tenazmente a pro- 
posta. 

—De que servirá, perguntava elle, apprehen- 
dermos os papeis que nos denunciam culpados, 
se esses papeis podem ser facilmente substituí- 
dos por outros, com a circumstancia aggra- 
vante para nós de havermos violentamente inu- 
tilisado os primeiros ? Pensais^ acaso, que a 
deputação se não defenderá á mão armada con- 
tra a nossa investida?. O que irá, pois, fazer a 
commissão dos Divo dignos!^ Matar ou morrer: 
eis o triste dilemma, a deplorável consequên- 
cia a que forçosamente havemos de chegar. 

— Terás tu medo pela primeira vez na tua 
vida? atalhou ironicamente António Maria. Se 
tens medo, fica. 



176 Romance histórico 

A assembléa não applaudiu a ironia, mas' 
fanatisada pela eloquência do violento orador» 
não a castigou com o menor signal de repro- 
vação. 

José Máximo, a quem a popularidade faltara 
n*esse momento, como sempre tem acontecido 
aos chefes politicos, por mais adorados que ha- 
jam sido, ficou profundamente maguado com o 
aparte irónico de António Maria. Ter medo, elle! 
Nunca o tivera; não o teria jamais. Tantos annos 
de prestigio estavam a pique de ser prejudica- 
dos por uma simples phrase. Repelliu-a, pois. 

— A minha lealdade, exclamou elle com gran- 
de vehemencia, obrigou -me a mostrar-vos os 
perigos da erapreza; mas o meu brio pessoal, 
injustamente aggredido, obriga-me também a 
dizer-vos que, aconteça o que acontecer, estou 
prompto a acompanhar-vos. 

Estas palavras causaram um movimento de 
applauso na assembléa. 

José Máximo sahiu d'ali rehabilitado, mas 
triste, apprehensivo. 

A deputação mixta da universidade e do 
cabido partiu de Coimbra na tarde do dia 17 
de março. 

A' noite, depois das dez horas, partiram por 
sua vez os estudantes. 

António Maria, alma d'aquella empreza, tra- 
tou de evitar que não faltasse nenhum dos que 
para desempenhai a se tinham offerecido. A* 
ultima hora, o estudante Urbano de Figueiredo 
parecia arrependido, pretextou ter muito que 
estudar para se habilitar a fazer acto. António 
Maria replicou offerecendo-se para leccional-o, 
e allegando que seria apenas ida por volta. 



A guerrilha de frei Simão 177 

José Máximo partira só, pensativo, contra- 
riado por um presentimento doloroso. 

Davam onze horas na Sé quando António 
Maria sahia pela estrada de Lisboa, acompanha- 
do do estudante Domingos Joaquim dos Reis. 
Ambos levavam espingardas, para justificar o 
disfarce de uma supposta caçada na Arri- 
fana. 

António Maria vestia esse celebre fato, que 
tanto o havia de comprometter depois: fardêta 
de saragoça preta, á caçadora, calças brancas, 
chapéu redondo de copa alta; dois punhaes no 
cinto. 

A deputação dosjentes e dos cónegos foi 
pernoitar a Condeixa. 

Os estudantes chegaram por alta noite á 
quinta do Freitas, próximo á villa, e ahi espe- 
raram que amanhecesse. 

Nenhum d*elles sentia cansaço nem somno: 
e José Máximo menos que nenhum. Estava in- 
quieto. 

— Somos treze! pensava attribulado, n*uma 
torturada excitação nervosa. 

Notara que os companheiros levavam armas 
de munição, com cartuxos embalados, e pu- 
nhaes. O aspecto d'este arsenal ambulante con- 
frangera- o. 

— Tu não vens armado? perguntou-lhe An- 
tónio Maria. 

— Não pensei n'isso, respondeu José Máximo. 
Não venho para matar. 

— Mas, segundo o teu famoso dilemma, po- 
des vir para morrer. Pega sempre um punhal 
para te defenderes, se for preciso. 

Isto disse António Maria tirando do cinto 

12 



17^ Romance histórico 



um dos dois punhaes e dando-o a José Máxi- 
mo, que o recebeu com indiíferença. 

Aos primeiros alvores da manha, os estu- 
dantes sahiram da quinta para antecipar-st; á 
passagem dos lentes. 

José Máximo lembrou-se de que esse dia era 
uma terça feira, e esta ideia mais contribuiu 
para inquietar o seu espirito propenso a su- 
perstições. 

Chegando ao Cartaxinho, uma légua ao sul 
de Condeixa, os estudantes fizeram alto. Tapa- 
das as caras com lenços, esperaram embosca- 
dos. 

Das sete para as oito horas da manhã, avis- 
taram quatro caléças, ladeadas por cavalleiros, 
e acompanhadas por gente de pé. 

Na primeira caléça ia o deão António de 
Hrito e Castro com um criado, e outro á estri- 
beira; na segunda, o cónego Pedro Falcão Cotta 
e Menezes com um sobrinho, e outro a cavallo; 
na terceira o doutor Matheus de Sousa Couti- 
nho, lente de cânones, com o doutor Jeronymo 
Joaquim de Figueiredo, lente de medicina, acom- 
panhando-os a cavallo José Cândido, sobrinho 
do doutor Matheus; na quarta ia o doutor An- 
tónio José das Neves e Mello, lente de philoso- 
phia, com um filho, já bacharel. Seguia-se a ca- 
vallo o official da imprensa da universidade, 
Francisco de Assis e Mattos. Fechava a comi- 
tiva a recova das bestas de carga, que os ar- 
rieiros e criados acompanhavam a passo. 

Quando a deputação se aproximou, os es- 
tudantes correram sobre ella, investindo com 
as armas engatilhadas. 

Os primeiros a avançar foram António Ma- 



A guerrilha de frei Simão IJg 

ria e José Máximo, ambos por differente moti- 
vo: o primeiro, por nào poder conter a sua 
impaciência; o segundo, para não parecer co- 
barde. 

Fizeram apeiar os viajantes, e obrigaram-n*os 
a subir uma coUina, protegida por um vasto 
pinhal, a leste da estrada. Ahi retiveram os ca- 
leceiros, arrieiros e criados, emquanto os len- 
tes e demais pessoas eram conduzidos para 
uma baixa, a maior distancia, sitig sombrio e 
solitário. 

Escoltados uns e outros, foram os criados e 
arrieiros intimados a ir buscar todas as car- 
gas, malas e bahús para junto do pinhal. 

Obedeceram. E os estudantes revistaram as 
bagagens, apprehendendo os papeis e valores 
que ellas continham. 

José Máximo, immovel, nào tocou nas baga- 
gens; nem olhava para ellas. 

Era tamanho o terror dos assaltados, que 
nenhum d*elles ouzava resistir. 

Derrubada e manietada com cordas a cria- 
dagem, voltaram-se as attenções dos académi- 
cos para o pessoal superior da caravana. 

Uma voz perguntou: 

— Devem também ser amarrados? 

— Não! gritou José Máximo. 

Mas outra voz replicou com azedume: 

— Devem ser seguros a punhal e tiro. 

E logo explodiram trez descargas á queima- 
roupa, fulminantes. O doutor Matheus e o dou- 
tor Figueiredo cahiram varados instantânea- 
fpente. 

O instincto de conservação sobrelevou então 
a surpreza, o terror dos restantes assaltados, 



l8o Romance histórico 

que travaram desesperada lucta.com os assal- 
tantes. 

Fora medonha a carnificina, successivas as. 
descargas, e os golpes de punhal. 

Os dois membros do cabido conimbricense,, 
o deão e o cónego, defendiam-se com valorosa 
desespero. 

Por isso o grosso do bando académico con- 
vergiu sobre os dois: o deão recebeu vinte e 
sete ferimentos, feitos com quartos, alguns, 
grãos de chumbo e punhal triangular; o có- 
nego foi alcançado vinte vezes pelas armas dos 
Divodignos, 

José Máximo, n*uma allucinação de intrepi- 
dez, cobria com o seu vulto o corpo do doutor 
Neves, para livral-o da morte, e ao mesma 
tempo furta va-se aos golpes com que era ata- 
cado, por supporem alguns dos da deputação- 
que elle disputava esse lente como presa em 
que quizesse c«-"var-se. 

A sangrentíssima lucta foi presenceada, do- 
alto de um outeiro, por umíi mulher da Venda 
Nova, que principiou a gritar. 

Como era dia de mercado em Condeixa, pas- 
sava gente, boieiros e lavradores, que logo acu- 
diu. O povo corria, vozeando, na direcção do 
logar do conflicto. 

Os estudantes, vendo-se ameaçados de perto,, 
trataram de fugir, mas como casualmente trans- 
itasse pela estrada real o general da Beira 
Alta, Agostinho Luiz da Fonseca, acompanha- 
do pelo filho e escoltado por alguns soldados 
de cavallaria, foram perseguidos pelos soldados 
e povo. 

Nove dos académicos cahiram, não sem ai- 



A guerrilha de frei Simão l8l 

guma resistência, em poder dos seus perse- 
guidores. Nenhum d*elles era José Máximo. 
O povo e a cavallaria, com o general á fren- 
te, bateram em todas as direcções os arredo- 
res do Cartaxinho, procurando os outros qua- 
tro estudantes, que não poderam ser encon- 
trados. 

Os presos foram recolhidos á cadeia de Con- 
deixa, e vigiados por uma enorme multidão, 
que a todo o momento ameaçava linchal-os. O 
mercado da villa e as granjas mais próximas 
tinham-se despovoado completamente, logo que 
soou a noticia d'essa horrorosa tragedia. 

O general Fonseca, reconhecendo que não 
era possivel encontrar os quatro fugitivos, man- 
dou para junto da cadeia alguns soldados da 
sua escolta, a fim de conterem o povo, e en- 
viou uma ordenança a Coimbra, a pedir o im- 
mediato auxilio de uma força de caçadores, que 
aliás não se fez esperar, 

José Máximo da Fonseca fugiu só, como ti- 
nha sahido de Coimbra. 

Foi correndo n*uma carreira cega, desespe- 
rada. Por muito tempo ainda ouviu o clamor 
•do povo, que perseguia os fugitivos. 

Depois, como ' a distancia augmentasse, ro- 
deiava-o apenas o grande silencio de monta- 
nhas, que elle não conhecia. Corria sem destino, 
evitando sempre as povoações, e obliquando 
instincti vãmente para este como a procurar sal- 
vação na fronteira de Hespanha. 

Exhausto, arquejante, faminto, com os pés 
golpeados escorrendo sangue, anoiteceu-lhe 
ii'um pinheiral cerrado. O cansaço vencera-o. 

Atirou-se para o chão. Pouco lhe importaria 



l82 Romance histórico 



n*aquelle momento que o encontrassem e pren- 
dessem. 

Mas devia estar já muito longe de Condeixa, 
comquanto não soubesse onde estava. 

Estendera-se sobre a terra dura, eriçada de 
cardos, espécie de leito de Procusto, mas a.s^ 
dores da alma sobrepujavam, n'aquella hora 
tremenda, as dores do corpo. 

Deitado de recovo, não podia adormecer, 
apesar de extenuado. Pensava, começava a fa- 
zer-se-lhe nitida a desesperada situação, que a 
destino lhe preparara. 

Todos os trabalhos da sua revolta existência 
desfilavam n'um cortejo fúnebre, redivivos por 
uma grande lucidez de memoria, e a imagem 
de Anna de Vasconcellos, triste e lacrimosa, 
n*uma angustia abafada, sem blasphemias e des- 
esperos, apparecia como no topo de um Cal- 
vário ideial, ao lado de outra mulher, que sus- 
pirava n*um anceio profundo, como o do nau- 
frago que respira a custo. P2sta mulher conhe- 
cia-a José Máximo, divisava-lhe as feições, via-a 
como se estivesse ali presente: era sua mãe. E 
entre elle e ellas estava um abysmo sombria 
e vasto como o fundo do mar. Era a eternida- 
de, o «nunca mais»>, o impossível, a morte em 
nome da lei, mais hoje ou mais amanhã, em 
qualquer parte, por denuncia, perseguição, ou 
acaso. 

A noite estava escura. O rumor dos campos 
dezertos, esse sussurro, vago e confuso, que 
parece ser a respiração da terra adormecida, 
zumbia-lhe aos ouvidos, aturdia-lhe o cérebro, 
como o revolutear de um vespeiro^ De espaço 
a espaço a aragem ullulava na rama dos pi~ 



A guerrilha de frei Simão 183 

nheiros imitando os gemidos de alguém que 
devia estar chorando ali perto. . . 

Eram ellas, as duas mulheres queridas, a- 
correntadas em espirito ao seu infortúnio inex- 
cedivel. 

José Máximo só a si próprio accusava da 
sua desgraça. Deus avisara-o, por muitas bo- 
cas e por muitos prenúncios, mas elle não lhes 
dera ouvidos, nem mesmo ás meigas supplicás 
de Anna de Vasconcellos. A cantiga que fal- 
ia va da faya, a folha do trevo, o numero 13, 
a coincidência da terça feira tinham sido, de 
certo, pensava elle, outros tantos avisos, que 
despresára. Despenhára-se voluntariamente, e, 
no fundo do abysmo, sentia-se abandonado de 
Deus, que não podia absolvel-o depois de o ter 
avisado. 

A fadiga fizera-lhe perder a consciência de 
si mesmo. Cahira n'uma somnolencia povoada 
de visões sinistras, cortada de sobresaltos e 
convulsões, de gemidos angustiosos. 

Como se fosse accordado por surpresa, abriu 
os olhos cheio de afflicção, circum vagou um 
olhar espavorido, a',tentando nos pinheiros que 
no primeiro momento lhe pareceram outros tan- 
tos aguazis gigantes, que o tivessem cercado 
durante o somno. 

Vinha rompendo a manhã. 
Levantou-se a custo, estonteado por verti- 
gens, que o cegavam. Sentia fogo no cérebro. 
Palpou a fronte, que escaldava. 

Forcejou por caminhar, fugir. Durante meia 
hora arrastou-se a passos incertos, agarrando-se 
por vezes ás urzes do caminho para não cahir 
ao chão. 



184 Romance histórico 

A região montanhosa da Beira Baixa devia 
denunciar-se jána corda sinuosa dos montes, no 
relevo macisso das serras. 

Mas José Máximo nào via, não podia olhar 
fito. Os olhos fechavam -se-lhe n'uma languidez 
nublosa, vidrada. 

Iria cahir prostrado por um grande desfalle* 
cimento, quando avistou um pastor, sentado no 
alto de um rochedo. 

Acenou -lhe com a mão, chamou-o. Depois 
scntou-se, recostou, exânime, a cabeça. 

O pastor, vendo-o desfallecido, ergueu-o ao 
hombro, levou-o para junto dos penedos, que 
davam sombra a um trecho do monte. Deitou- 
o ahi. 

José Máximo dormiu longas horas. Quando 
ao fim da tarde accordou, tinha sede. Bebeu 
agua da cabaça do pastor. Reanimou-se. Sen- 
tia-se fatigado, mas a febre tinha diminuído. 

Encarando entào no perfil duro das monta- 
nhas, que se desenhavam ao longe, perguntou 
ao pastor que serra era aquella. 

— E' a Gardunha, senhor. 

José Máximo ficou espantado. Não tinha re- 
conhecido essa longa serra, que é uma ramifi- 
cação do Hermínio, e que se ergue alterosa no 
Fundão, sua pátria. 

Obedccen ^o á suggestào inevitável que ater- 
ra natal exerce sobre os criminosos, foi cami- 
nhando na direcção d'essa serra longínqua sem 
com tudo querer demandar o Fundão, onde ti- 
nha uma familia que perdera. 

Comeu o pão negro e umas azeitonas, que 
lhe tinha dado o pastor. E ganhou forças 
para andar durante quasi toda a noite. 



A guerrilha de frei Simão 185 

Quando amanheceu o dia 20 de março, em- 
boscou -se n'um pinhal, para descançar, e para 
<;vitar a luz do dia. 

O sol, ascendendo n*uma serena eíFusào de 
luz, dava-lhe o desespero que sentem as almas 
attribuladas quando se defrontam com a paz 
eterna da natureza, insensibilidade ou despre- 
so, que justifica a eternidade da creaçào. Se 
«Ha compartisse das nossas dores quotidianas, 
acabaria por soífrer e envelhecer como nós 
mesmos. 

Passou ahi todo o dia pensando na sua des- 
graça irremediável. Parecia-lhe que a visão de 
Anna de Vasconcellos ficava já a uma distan- 
<:ia infinita, insuperável, mas como que sentia 
bater mais perto o coração de sua mãe. 

Quando anoiteceu, poz-se de novo a cami- 
nho, sem saber ao certo para onde. 

Ao romper da manha do dia 21 tornou a 
esconder- se. Ao fim da tarde, seguiu jornada. 
Teria andado meia légua, quando sentiu a cer- 
ta distancia o trote pesado de um cavallo. Sal- 
tou da estrada para o monte, e poz se á es- 
preita, agachado. 

Viu que o cavalleiro trazia calças brancas e 
chapéu redondo de copa alta. Lembrou-se de 
ter visto alguém assim vestido, havia pouco 
tempo. Continuou a espreitar, e reconheceu An- 
tónio Maria. Levantou-se. O fugitivo, que cui- 
dadosamente vinha olhando a um e outro lado 
da estrada, viu-o logo. Reconheceu-o também. 
A surpresa dos dois foi igual. 

— Como ficaste tu para traz ? ! perguntou 
José Máximo. 

António Maria parou o cavallo, depois de 



I86 Romance histórico 



se ter certificado bem de que não era seguido. 
Contou que tinha ficado escondido na quinta 
do Freitas, d'onde sahira no dia anterior, já 
de noite, acompanhado até ao romper da ma- 
nhã por um guia. Historiou como perdera no 
pinhal de Palha Canna a sua fardeta, que le- 
vava ao hombro quando fugia, os seus papeis, 
o punhal, e a bolsa de coiro, e como esses ob- 
jectos poderam ser encontrados por dois ho- 
mens, que dedicadamente o haviam protegido. 

--Para onde vais tu? perguntou-lhe José 
Máximo. 

— Para o Fundão. E tu ? 

— Eu sei lá para onde vou ? ! Tu tens fami^ 
lia no Fundão, mas eu posso dizer que a nãa 
tenho já. 

Insistiu António Maria para que montasse 
com elle no mesmo cavallo. 

— ^Vais derreado. Anda comigo, que este ca~ 
vallo poderá por emquanto com nós ambos. 

P^raca resistência oppoz José Máximo. Aquel- 
les dois homens eram attraidos pela mesma 
suggestào. 

PIm caminho, não trocaram uma única pala- 
vra sobre os acontecimentos do dia l8. José 
Máximo evitou esse doloroso assumpto, causa 
da sua desgraça. Que diíferença entre José Má- 
ximo e os estudantes presos, que a essa mesma 
hora, na cadeia de Coimbra, onde tinham en- 
trado no dia 19. só lembravam o nome de An- 
tónio Maria para o amaldiçoar! 

— Malvado homem, que nos metteu n'is- 
to! diziam elles carpindo a sua própria des- 
graça. 

Seriam dez horas da noite, quando chega- 



A guerrilha de frei Simão 187 

■ 

ram ao Paul. Viram a cabana solitária de uni 
cantoneiro. 

— Precisamos descançar aqui algum tempo. 
Se não for assim, disse António Maria, o ca- 
vallo acabará por negar se. Vamos bater á 
porta. 

Bateram. O cantoneiro perguntou quem era. 
Responderam que dois rapazes do Fundão, que 
pediam pousada. O catoneiro, a quem aquella 
voz não pareceu extranha, accendeu a candeia, 
pendurou-a, e veio abrir. 

— Aqui tens o nosso cavallo em penhor da 
nossa boa fé, disse António Maria entregando- 
lh'o. 

— Vou desapparelhal-o, respondeu o canto- 
neiro, e amarral-o áquelle pinheiro acolá. 

— Não, replicou António Maria, deixa-o es- 
tar sellado, mas dá-lhe umas sopas de vinho, 
se podes. 

O cantoneiro foi preparar as sopas. Quando 
entrou, fez maior reparo nos dois viajantes, 
que já estavam deitados sobre uns molhos de 
palha sêcca, ao lado de um. caldeireiro ambu- 
lante, profundamente adormecido. 

A cabana do cantoneiro era um albergue de 
viajantes miseráveis. 

— Mas não me engano! apostrophou elle, pe- 
gando na candêa, e elevando-a á altura dos 
olhos. Vocês são. . . 

António Maria poz sobre o nariz o dedo in- 
dicador da mão direita, intimando silencio. 

Pouco depois da meia noite, José Máximo^ 
que não pudera adormecer, rastejou sobre a 
palha para accordar António Maria e o canto- 
neiro. 



l88 Romance histórico 

Sahiram os trez a desamarrar o cavallo. 

— Aconteceu-nos uma grande desgraça, disse 
António Maria ao cantoneiro. Nào nos denun- 
-cies. 

E, descalçando um dos sapatos, tirou d*elle 
dinheiro em papel, — um papel humedecido e 
roto. 

— Isso chega, disse José Máximo ao canto- 
neiro, para repartires com o caldeireiro o que 
elle entender que vale a sua ferramenta, por- 
que a vou levar comigo. Dás licença, António? 
Eu não trago dinheiro, 

— Trago eu. Mas para que queres tu uma tão 
incommoda bagagem? observou António Ma- 
ria. 

José Máximo nào respondeu. 

O cantoneiro prometteu guardar silencio: 
lembrou que conhecia os dois desde pequenos, 
e que por caso algum quereria perdel-os, visto 
ter-lhes acontecido uma grande desgraça. 

Os dois estudantes montaram a cavallo. Par- 
tiram. 

Pelo caminho António Maria tornou a per- 
guntar a José Máximo para que levava elle os 
utensílios do caldeireiro, que eram pesados e 
o embaraçavam. 

— E' porque tu, no Fundão, tens família, que 
te proteja, e eu não tenho. Seguirei logo para 
Hespanha, feito caldeireiro ambulante. 

Entrando ainda de noite no Fundão, foram 
bater á porta da familia de António Maria, cu- 
jo pae, medico do partido ali, ouviu com do- 
lorosa attenção a narrativa da desgraça do 
filho, sem todavia o repellir. 

Combinou-se que ambos fossem ficar, por 



A guerrilha de frei Simão 189 

cautella, a casa ^e uma visinha, e que ambos 
seguiriam depois para Hespanha, cada um por 
caminho diíferente. 

— Eu acompanhar-te-hei para guiar-te, disse 
amqravel mente o pae de António Maria ao fi- 
lho. 

— Só eu não tenho quem me guie! pensou 
José Máximo. 

E, n'um relance de pungentissima angustia, 
disse, muito commovido, ao medico: 

— Vossa Senhoria vae fazer-me decerto o 
ultimo favor que tenho a pedir-lhe. Diga a mi- 
nha mãe, sem que meu pae o suspeite, que 
fujo para Hespanha, e que esteja á janellalogo 
que nasça o sol. Quero vel-a pela ultima vez. 

O pae de António Maria sahiu immediata- 
mente. 

Ao romper da manhã José Máximo passou, 
de ferramenta ao hombro, por deante da casa 
em que nascera. 

A mãe, im movei d*encontro ao peitoril, viu 
o filho, e cahiu desamparada no chão. 

José Máximo ouviu o baque do corpo, e quiz 
abrir a porta da sua casa, entrar. 

Mas, sentindo n'esse instante a voz sobresal- 
tada do pae, deitou a fugir. 

N'uma posada da fronteira, amarrou uma fai- 
xa sobre os olhos, deitou pólvora no fundo 
de um prato, incendiou-a, e inclinou o rosto so- 
bre a chamma. 

Queimou as faces para desfigurar-se. 

• — Do homem que eu fui e que não posso tor- 
nar a ser, disse elle comsigo mesmo, nada mais 
restará do que a consciência da própria des- 
graça. Se minha pobre mãe e Anninhas forem 



IQO Romance histórico 

obrigadas a ver a minha cabeça pendurada da 
forca, não me reconhecerão ao menos, duvida- 
rão de que seja eu . . . 

E, pegando d'um canivete, retalhou com fun- 
dos golpes, estoicamente, as faces crestadas. 

Depois internou se na Extremadura hespa- 
nhola. 



# 



Vse viclis 



Havia na casa do Outeiro um criado, que a 
família de frei Simão distinguia entre todos os 
outros. 

Chamava-se Francisco José Marques, mas era 
sempre tratado pelo appellido. 

Natural da frej;uezia de Sanfins, comarca da 
Villa da Feira, entrara muito novo ao serviço de 
José Bernardo Pereira de Vasco ncellos, e pelo seu 
génio alegre e humilde fizera-se estimar pelos 
amos, que o mandaram ensinar a ler e a escre- 
ver. 

Ninguém tinha tido tanta paciência como eite 
para trazer ao collo e adormecer nos braços a 
pequenina Anninhas durante os dias da primeira 
infância. 

Quando a menina chorava, o Marques acudia 
muito solicito e dedicado a distrail-a e acalen- 
ta 1-a. Passeiava-a longo tempo, cantarolando; 



192 Romance histórico 

Dorme, dorme, 
Minha menina Rú-Rú. 
Cantam os anjos 
E dormes tu. 

Era elle sempre o primeiro a desculpal-a na» 
suas perrices, e procurava entretal-a contando- 
Ihe historias, que ella a principio ouvia com 
pouca attenção, depois com muito interesse. E 
quando os olhos da menina amorteciam na lan- 
guidez do somno, o Marques, já cansado de 
contar historias, ia dizendo de vagar, espace- 
jando lentamente as palavras, ás vezes até as 
syllabas: 

Era uma vez 

Uma menina chamada Victoria. 
Morreu a menina,. . 
Acabou-se a historia. 

Anninhas já o não ouvia: tinha adormecido. 

De todas as pessoas da casa a mais estima- 
da pelo Marques era, pois, a sua menina^ como 
elle dizia orgulhosamente. Mas toda a familia 
do Outeiro o considerava, pela sua dedicação 
á casa, como o primeiro dos criados, — mais um 
amigo do que um serviçal. 

O génio alegre do Marques, a agudeza de 
espirito que revelava em muitas observações e 
muitas phrases de uma graça desaffectada, 
quasi ingénua, tornavam-n'o agradável no trato 
domestico, as pessoas da casa riam-se de ou- 
vil-o, chegavam a puxar-lhe pela lingua, quan- 
do estava de maré, o que quasi sempre acon- 
tecia. . - 



A guerrilha de frei Simão 193 

Identificado com a familia do Outeiro, o Mar- 
ques era liberal como os amos, sem comtudo 
saber muito bem no que consistia a liberdade 
constitucional, e quaes fossem as suas vanta- 
gens politicas sobre o absolutismo. Mas seguiria 
frei Simão para onde elle fosse, prompto a de- 
fender a causa que elle defendesse. 

Depois que veio D. Miguel, o Marques disse 
uma vez a frei Simào: 

— Papeis, nas màos de ignorantes como eu, 
apenas costumam servir para embrulho; mas se 
fôr preciso, deixar-me-hei embrulhar por um 
certo papel. 

Este papel era a Carta. 

— O quê?! perguntou frei Simão. Eras capaz 
de assentar praça ? 

— Se Vossa Reverencia me dissesse — Mar- 
cha^ eu faria logo: Um, dois, trez. 

E fingia marchar, pondo ao hombro um cabo 
de vassoura^ á laia de espingarda. 

No dia 20 de março andava frei Simão re- 
gando as flores do seu pequeno jardim; o Mar- 
ques trabalhava no pomar contíguo. 

Anninhas estava debruçada no parapeito do 
pateo, que sobranceava o pomar. 

Na casa do Outeiro, uma atmosphera de pe- 
rigos e sobresaltos cerrava-se ameaçadora cm 
torno da famil a Vasconcellos. A vida era ali 
mais triste do que nunca. 

Depois que D. Miguel chegara, e dissolvera 
as cortes, os absolutistas de Cezár tinham le- 
vado a sua ousadia até ao ponto de proposita- 
damente irritar frei Simào. Se não iam mais 
longe, se não tinham chegado ainda á provo- 
cação directa, era porque temiam a valentia do 

13 



194 Romance histórico 

frade. Elles bem sabiam que frei Sim:'io fora 
uma vez a Macieira de Cambra, terra de va- 
lentões, castigar por sua própria mào um ho- 
mem, que acintosamente lhe havia enredado um 
pleito de familia. Fora, castigara o homem, e 
voltara incólume a Cezár. Como esta façanha, 
contavam-se outras. De modo que os visinhos 
absolutistas, apesar de espicaçados por Ignacio 
da Fonseca, não tinham passado ainda da pro- 
vocação indirecta. 

Por exemplo. Uma tarde passava frei Simão 
á Fonte da Pipa, perto do matto de Algiboa, 
quando uma voz rompeu a cantar ironicamente: 

E* certo, e mais que certo 
D. Miguel ser nosso rei. 
E' certo, e mais que certo, 
Que assim é que manda a lei. 

Pareceu a frei Simão que era a voz do Manei 
Zarolho. Parou logo, procurando descobrir a 
pessoa que cantava. Mas a voz calou-se, e o 
frade seguiu pausadamente seu caminho. 

Eram prenúncios de tempestade imminente, 
que a ninguém da familia do Outeiro passavam 
despercebidos. A todos se antolhava ameaça- 
dor o futuro. Era visivelmente chegada a vés- 
pera de graves acontecimentos. 

Por isso também Francisco Marques parecia 
agora, mais do que nunca, empenhado em des- 
viar os tristes presentimentos e vagos receios, 
que pesavam sobre o espirito da familia do Ou- 
teiro. 

Vendo Anninhas debruçada no parapeito do 
pateo, dissera jovialmente o Marques: 



A guerrilha de frei Simão I95 

— Olha a minha menina como está tristonha! 

Pois antes das vindimas ha de estar mais ale- 

I gre. (V sr. frei Simão, por que será que cha- 

rnam cabra ao sino que em Coimbra manda os 

estudantes? 

Anninhas sorriu levemente. 
I — Como sabes tu isso ? perguntou frei Si- 

i mão. 

— Foi o sr. José Máximo que m*o disse uma 
vez. Mas eu fiquei a scismar n'aquelle nome. 
Será porque os cinco annos dos estudos teem 
tantos espinhos como as silvas, que as cabras 
costumam roer? 

Frei Simão e Anninhas riram do jovial des- 
conchavo. 

— E' porque o sino berra como uma cabra^ 
disse alegremente o frade. Se não for isto, é 
porque está empoleirado na torre como as ca- 
bras no pináculo dos rochedos. 

— Ah! tornou o Marques, isso quadra- me. 
Mas pena é que não esteja tão alto, que se não 
possa vêr de Cezár! . . . 

Tiniu agora mais crystallino o riso de Anni- 
nhas, a quem as facécias do Marques distraíam 
das vagas apprehcnsões com que ella pensava 
no futuro e sempre em Coimbra desde que José 
Máximo tornara a envolver-se nas questões po- 
liticas da academia. 

Bateram á Porta vermelha. Anninhas reti- 
rou-se para dentro de casa. 

— Vae vêr, ó Marques, disse frei Simão bai- 
xando a voz. 

Mas como o criado se demorasse a conver- 
sar fora da porta com a pessoa que tinha ba- 
tido, frei Simão perguntou de rijo: 



196 Romance lustorico 

— O* Marques! quem está ahi? 

— E' o Zé de Oliveira, por causa da rega. 

— £>iz4he que pode levar a agua amanha. 

O Zé de Oliveira era um visinho, um amigo^ 
a quem frei Simão cedia, alguns dias na sema— 
na, a agua precisa para a r^a. 

\'oltou o Marques, apparentemente tranquillo. 

— Ora o diabo do homem! disse elle olhando- 
para as janellas sobranceiras ao pomar, não es- 
teve comigo ás voltas, que sim e mais que tam- 
bém, que ha ahi uma certa cachopa, que me 
quer fallar casamento?! 

— Ainda ias a tempo! respondeu frei Simão. 

Mas como reconhecesse que ninguém os es- 
tava ouvindo, o Marques disse a meia voz: 

— O' sr. frei Simão, faça favor de vir aqui 
ver esta amendoeira como se vae a pôr bonita.. 
Está aqui está toda coberta de flor. 

— Tenho mais que fazer agora. 

— Mas faça favor, que tem aqui uma curzi- 
dade (curiosidade). 

Frei Simão foi, um pouco contrariado, por 
comprazer com o Marques. 

— Então o que é.^ perguntou elle entrando 
no pomar. 

— Faça favor de vir ver ao perto. 

E como frei Simão se aproximasse, disse- 
lhe baixinho: 

— O Zé de Oliveira trouxe uma ruim no- 
ticia. 

— O que foi?! perguntou frei Simão com in- 
teresse. 

— Disse constar que os estudantes de Coim- 
bra mataram ha dois dias em Condeixa uns 
lentes que iam para Lisboa. 



A guerrilha de frei Simão 197 

— Ora essa! exclamou frei Simão. Será isso* 
verdade?! 

— Ha de ser, senhor, porque as ruins novas 
^ão sempre certas. 
. . — E fallou-te no sr. José Máximo? 

— Não, senhor. Disse que tinham sido os es- 
tudantes. 

— Cala-te, e vae ouvir o que se diz por abi. 

Frei Simão ficou muito inquieto. O Marques 
sahiu, e voltou ao cabo de uma hora. 

— Está tudo cheio do tal feito dos estudan- 
tes. Paliei com o Breca (era um criado de 
Ignacio da Fonseca) que me contou que o 
^mo, ao saber a noticia, tinha dito que o so- 
brinho ainda havia de passar grandes traba- 
lhos por causa da politica. Longe vá o agouro! 

— Mas fallou-tc no sr. José Máximo? 

— Não, senhor. Só me disse isto, e eu vol- 
tei-lhe as costas. 

— O' Marques, tem paciência, vae a Coim- 
bra saber o que se passa, disse frei Simão 
muito apprehensivo. 

O Marques obedeceu como um cão; dir-se- 
hia que d 'ali a Coimbra era um pequeno pas- 
seio, tanto á pressa o Marques se preparou 
para sahir. 

As noticias que elle trouxe, vinte e oito ho- 
ras depois, eram más. No dia 19 tinham che- 
gado a Coimbra, presos, nove estudantes por 
terem assassinado dois lentes no Cartaxinho. 
Segundo ouviu, o povo, quando elles chega- 
ram no meio da escolta, enchia a Ponte, e se- 
guiu-os pela Couraça. de Lisboa acima em ta- 
manha quantidade, que não caberia um alfine- 
te. Nenhum dos presos era o sr. José Máximo, 



igS Romance histórico 

mas elle nâo estava em Coimbra, diziam que 
tinha fugido. 

— Mas está criminoso também? 

O Marques respondeu com desalento: 

— Dizem que sim, senhor. 

— Que desgraça! que desgraça! exclamou 
frei Simão. 

— Eu fallei até com a servente. Disse-me que 
o sr. José Máximo tinha sabido de casa no dia 
17 a noite, e que ainda não tinha voltado, por- 
que, segundo os estudantes contavam, andava a 
monte. 

— Meu Deus! Olha, Marques, eu vou a Coim- 
bra. Toma sentido. Aqui, na minha ausencia> 
não entra ninguém. E' preciso que as senhoras, 
não fallem com viv'alma. 

— Vá V^ossa Reverencia descansado, respon- 
deu o Marques abafando de tristeza. 

— Descansado! repetiu frei Simão. 

O Marques nào tivera coragem para dizer 
o mais, para contar tudo. Elle tinha ouvida 
em Coimbra que José Máximo e outro estu- 
dante, também do Fundào, foram os primei- 
ros a assaltar as caléças em que os lentes 
iam. 

Preferia ter morrido pelo caminho, arreben- 
tado de tristesa, mas Dcus nào lhe fizera a von~ 
tade. Vêr assim desgraçada a sua querida me- 
nina, quando, d'ali a mezes, devia ter o seu 
noivo formado! Eram pragas, deviam por força 
ser pragas de Ignacio da Fonseca. 

E cuspia trez vezes no chão. 

— O' Santa Virgem do ceu! pensava elle com 
os olhos afogados em lagrimas, pelas dores 
que atormentaram no Calvário. o vosso sagrar 



A guerrilha de frei Simão I99 

do coração, valei á minha pobre menina, levae- 
me d'este mundo se eu tenho de vêl-a infeliz. 

E ficava encostado ao cabo da enxada a 
scismar n'aquella grande desgraça. 

De uma vez Anninhas viu-o da janella, e dis- 
se-lhe: 

— O* Marques, estás a pensar na cachopa, 
que quer ser tua mulher? 

— Ah! a menina ouviu? Pois é mesmo: estou 
a pensar na cachopita, que não pode ser mais 
infeliz. 

— Porque? 

O Marques corrigiu-se sorrindo e dizendo: 

— Porque ella que se vira para um velho, é 
porque já nenhum moço a quer. 

— Pois vê lá se te resolves, e casaremos no 
mesmo dia. 

PVei Simão, chegando a Coimbra, foi hos- 
pedar-se na estalagem do Paço do Conde. 

Principiou ahi mesmo a colher informações, 
que o aterraram. O estalajadeiro asseverou-lhe 
que António Maria e José Máximo estavam im- 
plicados no crime. Contou, segundo a versão 
dos estudantes presos, que tinham sido aquel- 
les dois os que primeiro atacaram as caléças. 
E accrescentou que, tendo José Máximo com- 
batido, nos Divodignos^ a proposta de Antó- 
nio Maria, para irem esperar os lentes ao ca- 
minho, muita gente se admirava de que elle se 
avantajasse aos outros, com António Maria, na 
arremettida, se bem que alguns explicassem 
que o fizera para não ser alcunhado de co- 
barde. 

— Deve ter sido assim, pensou frei Simão. 

Proseguindo, o estalajadeiro disse mais: 



200 Romance histórico 

— Que toda a indignação dos presos era con- 
tra António Maria, que fora quem os perdera. 
Que era uma pena ver tantos rapa^ces de boa 
familia desgraçados por a loucura d*um só; nào 
só desgraçados, mas também infamados pelo 
roubo das bagagens. 

— Duvido, observou convictamente frei Si- 
mão, que José Máximo se associasse a essa in- 
fâmia. E' preciso não o conhecer. 

— Lá isso assim é, commentou um criado, o 
Agostinho, porque o doutor Neves veiu dizer 
que conheceu perfeitamente José Máximo pela 
voz, apesar de elle ter a cara tapada como os 
outros, quando gritou que nào maltratassem os 
lentes, e diz que nào sabe ao certo, pela atra- 
palhação em que estava, se José Máximo era 
um que o cobria com o corpo, mas que lhe 
parece que sim. 

— Tudo isso são attenuantes. Melhor elle se 
tivesse apresentado á justiça. 

— Qual! replicou o estalajadeiro. Fez muito 
bem em fugir, porque o castigo ha de rer se- 
vero para exemplo de todos. Dos estudantes 
que faziam parte da loja da rua do Loureiro 
já não está em Coimbra nem um único. Fugiu 
tudo. Até fugiram os que não foram a Con- 
deixa. O Moacho, que era o presidente, e es- 
tudava para capello, já desappareceu tam- 
bém. 

N*isto entrou na casa do jantar, e pediu o 
seu candeeiro para recolher-se ao quarto, um 
sujeito de boa apparencia. 

O estalajadeiro piscou o olho a frei Simão, 
como a recommendar-lhe silencio. 

O criado Ago.stinho deu o candeeiro ao hos- 



A guerrilha de frei Simão 20 1 

pede, e o estalajadeiro, após alguma pausa, 
•disse quasi ao ouvido de frei Simào: 

— Este sujeito é de Lisboa, e dizem que veiu 
•cá para ver se salva um dos presos. 
— Qual preso? 

— Domingos Joaquim dos Reis, que é filho 
do capitão-m<5r de Cintra: muito rico. Veja 
Vossa Reverencia! uma creança de vinte annos! 
Mas parece que nem o dinheiro o salvará, por- 
<]ue consta que o ministro das justiças mandou 
ordem ao Cabaças para activar as averigua- 
ções. Isto é uma grande desgraça ! Bem faço 
•eu que me não metto em politica: em primeiro 
logar, porque tenho de viver com todos ; em 
segundo logar, porque não quero desgraçar 
a minha familia. 

Frei Simão estava fulminado pelas más no- 
ticias que lhe dera o estalajadeiro, e que foram 
confirmadas pela voz de todas as pessoas a 
quem poude ouvir sobre o assumpto. 

Recolheu ao Outeiro mergulhado em pro- 
funda tristeza, mas resolvido a contrafazer-se 
para que nenhuma de suas irmãs soubesse o que 
se tinha passado. 

Apenas se abriu com o Marques dizendo-lhe 
em segredo: 

— Pobre rapaz! está perdido! E' certo que 
fugiu. Mas occultaremos a verdade. Nem uma 
palavra, entendes? Nem uma palavra. 

E nem Anninhas nem as outras irmãs de frei 
Simão tiveram noticia da tragedia do Carta- 
xinho. 

Ahi por abril, frei Simão disse que ia a Coim- 
bra visitar José Máximo. Receiava que D. An- 
ua notasse á falta de cartas d'elle Ausentouse 



202 Romance histórico 

por trez dias: esteve em Oliveira de Azeméis. 
Quando voltou, deu boas noticias de José Má- 
ximo: que se havia desculpado de nào ter es- 
cripto por se aproximar o fim do anno lectivo^ 
e estar muito sobrecarregado de trabalho. Mas 
que gozava perfeita saúde. 

— O peior, pensava frei Simão, é quando o 
fim do anno lectivo chegar. Pobre Anninhas! 

A l6 de maio rebentou no Porto -a revolu- 
ção contra o governo de D. Miguel. Frei Si- 
mão estava no segredo do movimento. Fora 
prevenido por PVederico Pinto, que a junta re- 
volucionaria nomeara commandante da compa- 
nhia dos Matutos e officaes de tanoeiro de Villa 
Nova de Gaya. 

A revolução alastrou desde o Porto até Coim- 
bra. 

Km Cezár, o frade, armado á frente dos seus 
criados, sahiu a proclamar a rebellião contra a 
auctoridade do regente. Ninguém ousou oppor- 
se-lhe. Todos os visinhos absolutistas trataram 
de esconder-se. 

P^oi porém ephemero esse movimento, que 
terminou tristemente, e que teve a Belfastada 
como vergonhoso epilogo. 

Hsmagada a revolução, os absolutistas de 
Cezár sahiram da toca, mas o frade esperou-os 
resolutamente. Não fugiu. Acceitou a sua po- 
sição de vencido, e preparou-se para resistir 
aos ódios que, contra elle, se desencadearam 
então aberta e ostensivamente. 

Preveniu-se andando de espingarda ao hom- 
bro e substituindo o habito por uma jaqueta^ 
para nào ser tão facilmente reconhecido de 
longe. 



A guerrilha de frei Simão 203 

Uma vez, em Pedra-Mar, frei Simão encon- 
trou um dos seus adversários. Iam ambos ar- 
mados. Instinctivamente metteram a espingarda 
á cara um do outro. Estava de per meio uma 
arvore, um pinheiro, que ambos queriam apro- 
veitar como resguardo. O absolutista, a tào pe- 
quer.a distancia do frade, receiou-o. Frei Si- 
mão não queria disparar senão em legitima 
defesa. E assim andaram por algum tempo á 
volta da arvore, dizendo um ao outro «Dispa- 
ra tu», «Dispara tu primeiro», sem que nenhum 
dos dois disparasse. 

O frade não se acobardava, nem retraía. Ia 
aonde precisava ir. Tinha que fazerem S. João 
da Madeira, e foi. Demorou-se ali, • no logaf 
mais publico da povoação, conversando á porta 
do ferrador. Era na praça actual, agora mo- 
dernisada pela construcção de um chafariz. S. 
João da Madeira faz muita differença do que 
então era. A egreja, por exemplo, tinha, n'esse 
tempo, voltada para o mar a porta,^ que actual- 
mente olha para os montes escalvados de Ma- 
cieira e Nogueira. Mas o alpendre do ferrador 
ainda lá se conserva, na praça. 

Pois bem. O frade, depois de ter tratado os 
seus negócios, recolhera a Cezár pela estrada 
solitária. 

No caminho, passou por uns trabalhadores, 
que andavam n'uma segada, e que se atreve- 
ram a resmonear, quando elle pas.sava: «Frade 
fora». 

Frei Simão saltou da estrada para o campo, 
correu para os trabalhadores, parou deante 
d*elles. Calaram-se, as.sombrados de taaanha 
audácia e coragem. 



204 Romance histórico 

- 

Ignacio da Fonseca e os outros absolutistas 
de Cezár reconheceram-se pessoalmente impo- 
tentes para esmagar o frade. Recorreram, por- 
tanto, ao auxilio das auctoridades, sempre dis- 
postas a perseguir os liberaes. 

Ainda assim, as auctoridades não foram 
d 'essa vez tão audaciosas, que investissem logo 
com o frade. Começaram por fazer um rodeio. 
José Bernardo de Vasconcellos estava então na 
casa do Outeiral em Arouca, em companhia do 
filho António. Maria Henriqueta, a filha mais 
nova, havia entrado no mosteiro daquella villa, 
a titulo de educar-se. As freiras não ousaram 
oppôr-se á admissão da filha do fidalgo do Ou- 
teiral, seu próximo visinho, e Maria Henriqueta 
de preferencia escolheu aquelle mosteiro attraí- 
da ali pela presença da mulher, que o tio, Joa- 
quim Maria, tinha amado até á morte. 

Na tarde de 17 de setembro d'esse anno de 
1828, José Bernardo de Vasconcellos foi pro- 
curado na quinta do Outeiral pelas justiças da 
comarca de Arouca. 

Sahiu a recebel-as na sala nobre do edifício. 

Disseram-lhe ao que iam': sequestrar os bens, 
que achassem pertencer a Frederico Pinto co- 
mo implicado no mallogrado movimento do 
Porto, de 16 de maio. 

Serenamente, José Bernardo contrapoz que 
era verdade ter elle doado aquella quinta, e 
outras, a seu filho PVederico, mas que por con- 
trato tinha reservado os rendimentos dessa 
propriedade como alimentos seus, dos dois fi- 
lhos mais novos, e de uma sua irmã. 

Para justificar o que dizia, apresentou o con- 
trato assignado por Frederico Pinto. 



A guerrilha de frei Simão 205 

O juiz, ouvidas as declarações de José Ber- 
nardo, mandou proceder a sequestro na proprie- 
dade, de que constituiu depositário o próprio 
José Bernardo, com reserva dos rendimentos. 

Era o inicio das perseguições officiaes con- 
tra a familia Vasconcellos. 



# 



A n(» m hon»i 

naiuu a epucha úos i 



itanHUinaraa 



Ignacio da Fonseca foi á Villa da Feira di- 
zer ao corregedor da comarca, Francisco Mon- 
teiro Moiiráo Guedes de Carvalho, que se o se- 
nhor D. Miguel era, desde o ultimo dia de ju- 
nho, rei de Portugal, por vontade de clero, no- 
breza e povo, como se provara pelo voto una- 
nime das cortes geraes dos trez estados do 
reino, justo parecia que os mais encarniçados 
adversários da politica triumphante nào cam- 
peassem em plena liberdade vexando os vassa- 
los fieis e dedicados. 

— l'or que me diz Vossa Mercê isso? pergun- 
tou MourSo Guedes, 

— Porque frei Simão de Vasconcellos passeia 
livremente por Cezãr, de arma ao hombro, 
pondo em risco a tranquillidade dos seus visi- 
nhos. 



2o8 Romance histórico 

— Ainda nào é tarde, replicou o corregedor, 
para justarmos contas com os nossos adversá- 
rios, que não sào poucos. Não se vae a Rema 
n*um dia, mas, caminhando sempre, lá se che- 
ga. Vossa Mercê sabe que a família Vasconcel- 
los já começou a experimentar a acção da jus- 
tiça. 

— Se Vossa Senhoria se refere ao supposto 
sequestro feito na quinta do Outeiral, em Arou- 
ca, dir-lhe-hei que decerto José Bernardo se fi- 
cou a rir, por isso que lhe foi attendida a re- 
clamação relativa a alimentos. 

— Mas a propriedade ficou sequestrada, e al- 
voroçado, pelo facto do sequestro, o espirito 
publico d*aquella villa contra a familia de José 
Bernardo, que ali suppunham superior ao al- 
cance de qualquer represália. Tanto assim foi 
que José Bernardo já retirou do mosteiro de 
Arouca um filha, que lá estava a educar, reco- 
nhecendo d'esse modo que lhe era hostil o ani- 
mo das pessoas gradas da villa, incluindo as 
freiras. 

Eífectivamente, tinha sido assim. 

Depois do sequestro, as freiras de Arouca, 
vendo a familia de José Bernardo razoírada ao 
nivel commum de todas as outras famílias per- 
seguidas por liberaes, perderam o respeito á fi- 
lha do fidalgo do Outeiral a quem nào poupa- 
vam allusões pungentes e irritantes. 

D. Maria Henriqueta mandou dizer ao pai 
que a fosse buscar. 

José Bernardo foi; teve a filha alguns dias, 
poucos, em sua companhia, e resolveu transfe- 
rida para o convento de Santa Clara no Porto. 

Do Outeiral, D. Maria Henriqueta escreveu 



A guerrilha de frei Simão 209 

para Cezár contando o que se tinha passado, 
e dando interessantes pormenores sobre a triste 
existência de Margarida Cândida no mosteiro 
de Arouca. 

Referia que a infelicissima freira lhe tinha 
dito em segredo: 

— Se algum dia a liberdade me pudef abrir 
as portas d'este mosteiro, correrei a Aveiro 
para ir dizer a Joaquim Maria, sobre a lage da 
sua sepultura, que o amo na morte com a mes- 
ma dedicação e lealdade com que o amei em 
vida. 

Frei Simão leu isto, e commoveu-se. 

--Pois esteja Margarida Cândida certa, ex- 
clamou elle, de que ha de cumprir a sua von- 
tade, porque eu mesmo lhe abrirei as portas 
do mosteiro. Assim o prometti a Joaquim Ma- 
ria; assim o farei. 

José Bernardo mandou o filho António acom- 
panhar ao Porto D. Maria Henriqueta, que, 
para completar a sua educação, entrou no con- 
vento de Santa Clara (l). 

Ignacio da Fonseca replicou ao corregedor : 

— O que se faz em Arouca importa-me menos 
do que o que se passa em Cezár, onde vivo e 
tenho propriedades, e ond'.% portanto, a mi- 
nha vida e haveres correm grande risco, vista 
a impunidade de que frei Simão de Vasconcel- 
los está gozando com verdadeiro escândalo de 
todos os fieis vassalos d*el-rei nosso senhor. 



(1) Esla senhora, tendo tomado gosto ávida conventual, veio, 
mais tarde, para as Commendadeiras de Santos, em Lisboa. Saiiiu d*a- 
Ji, veljia e doente, para ir residir nurii prédio da Travessa do Con- 
vento de .lesus, onde raileceii ha cinco annos, como consta do obi- 
tuário da freguezia de Santa Catiiarina. 

14 



210 Romance histórico 

— Pois vá Vossa Mercê socegado, disse Mou- 
rão Guedes, que eu mesmo me encarregarei da 
prisão do frade. 

— Essa resposta agrada-me. Sr. corregedor, 
diziam os antigos portuguezes que quem o seu 
inimigo poupa, nas mãos lhe morre. Recebo 
as ordens de Vossa Senhoria. 

Mourão Guedes conhecia de sobra o frade 
do Outeiro para não reputar fácil a tarefa de 
prcndel-o. Acautelou-se, pois, requisitando, para 
ir a Cezár, uma partida de tropa de linha. E, 
tomada esta precaução, sahiu um dia da Villa 
da Feira com destino á casa do Outeiro. 

Fez cercar o edifício, e passou-lhe busca. 
Frei Simão não estava, por mero [acaso, por- 
que o frade olhava pouco á sua segurança in- 
dividual. 

As irmãs ficaram muito assustadas com a 
presença do corregedor e da tropa. Quando 
frei Simão recolheu a casa, pediram-lhe, exo- 
raram-n*o a que tivesse mais cuidado em si. 
O frade ria do mallogro casual da busca, mas, 
a instancias das irmãs, e para tranquillisal-as, 
prometteu lhes que d'ali em deante tomaria 
maior cautela. 

Mourão Guedes não gostou nada de ter es- 
pantado inutilmente a caça. Era de suppôr 
que, depois d'aquelle mau êxito, frei Simão 
se preparasse para baldar uma nova tentati- 
va de captura. Ou se entrincheiraria para re- 
sistir, hypothese consoante á sua tradição de 
valor, ou se homisiaria, o que daria em resul- 
tado o cómico mallogro de uma segunda ten- 
tativa. 

Reflectindo, achou que era melhor renovar 



A guèrf ilha de frei Simão 211 

a diligencia, mas abster-se elle próprio de tomar 
parte n'ella. 

Chamou, portanto, ao seu gabinete o major 
do regimento de milícias da Villa, João Fran- 
cisco Pinheiro, e encarregou-o de ir a Cezár, 
com um batalhão do seu regimento, capturar 
o frade. 

— Se frei Simão não apparecer, disse Mou- 
rão Guedes ao major, é preciso cobrir a infeli- 
cidade da sortida apprehendendo os papeis po- 
líticos e causando a maior somma de prejui- 
iíOs, que for possivel. 

O major entendeu, e marchou com o bata- 
lhão para Cezár. 

A única prevenção de frei Simão de Va.scon- 
cellos limitava-se a pernoitar na habitação do 
caseiro, próxima ao solar. 

O batalhão, que tinha sahido da Villa da 
Feira durante a noite, cercou ao romper da 
manhã a casa do Outeiro. 

Frei Simão viu a tropa, pegou na escopeta, 
€ preparou-se para sahir. 

— Que faz Vossa Reverencia? perguntou-lhe, 
muito afflicto, o caseiro. 

— Pensas então que me hei de deixar apa- 
nhar como um coelho na toca? replicou o frade 
aperrando a arma. 

— Mas podem matal-o, senhor! 

— Tudo leva as mesmas voltas. Elles, depois 
de terem dado busca a toda a casa, procurar- 
me-hão em todas as dependências da quinta, e 
achar-me-hão aqui. Isto não falha. Ora da prisão 
á forca não dista mais d*um passo. Sei o tempo 
em que vivo, e a gente com que estou. Vou 
fugir, para salvar a vida. Se me matarem, tan- 



\ 



212 Romance histórico 

to monta que seja hoje como amanhã. EUes: 
juraram-me pela pelle. Encommendo a minha 
alma a Deus, que espero perdoará os meu» 
peccados. 

E abriu a porta. Dados alguns passos, en-^ 
controu dois milicianos, dos que constítuiam o- 
cordão do cerco, e que se abrigavam, escondi- 
dos, detraz de um pequeno muro. 

— Quem se mexer, morre! gritou frei Simào, 
mettendo a arma á cara. 

Os dois milicianos ficaram tomados de assom^^ 
bro deante do frade, cujo valor conheciam. 
Frei Simão passou por entre ejles, empurran- 
do-os com violência; e, saltando rapidamente 
o muro, desappareceu. 

Quando os milicianos se recobraram. do as- 
sombro d'aquella resistência heróica, já se não 
via o frade. Ouviram -se ainda alguns tiros^ 
disparados pelos soldados, mas foram perdido».. 
O major Pinheiro ficou desesperado cõm a 
fuga de frei Simão, que o batalhão perseguiu^ 
mas não encontrou. 

Tratou, ao menos, de cumprir a segunda par- 
te do programma. 

Todos os objectos de valor, incluindo as ai» 
faias da capella, e o próprio cálix de que frei 
Simão se servia quando dizia missa, foram car- 
regados n'um carro, e conduzidos para S. João 
da Madeira. 

N'ura armário encontraram os soldados al- 
guns pergaminhos de familia e titulos antigos» 
a que o major não reconheceu interesse politi- 
co. Por isso, limitou-se a raandal-os queimar 
n*uma grande fogueira, que se accendeii no pa- 
teo da casa. 



A guerrilha de frei Simão 213 



Os absolutistas de Cezár enraiveceram-se 
•com o desastre d'esta segunda expedição. Igna- 
cio da Fonseca foi ao Porto pedir ás justiças 
►que promovessem uma terceira diligencia, que, 
por mais apertada, pozesse termo ás zombarias 
de frei Simão. 

D'ali a dias, o corregedor Mourão Guedes 
recebia na Villa da Freira ordem para colher 
ás mãos o frade de Cezár, vivo ou morto. Era 
-quasi uma censura á inefficacia da sua perse- 
:guiçào. 

Estava-se em maio de 1829, ^^ auge das re- 
presálias sangrentas. Um forte destacamento 
de policia do Porto foi mandado expressamente 
Á Villa da Feira para proceder á captura de 
frei Simão de accordo com uma companhia dé 
milicianos. 

O frade, sempre destemido, estava em casa 
na momento em que a policia e os milicianos 
a rodearam. 

Vendo-os, saltou por uma janella para fugir. 
Uma cadellinha, muito sua predilecta, saltou 
após o dono. O frade, que vestia uma jaqueta 
de cotim azul e branco e levava uma arma na 
mão, deitou a correr. Os soldados fizeram so- 
bre elle vários tiros, mas nenhum o tinha ainda 
alcançado. Na Serenada, uma das balas matou 
a cadella. Então frei Simão, indignado, voltou- 
se para traz, apontou a espingarda, e desfe- 
chou. Redobraram os tiros dos perseguidores, 
mas o frade, fugindo sempre, chegou a Villa- 
rinho. Ahi um dos tiros alcançou-o pelas cos- 
tas. Frei Simão tentou proseguir na carreira, 
jmas as forças faltaram-lhe. Estava ferido. En- 
vco-stou-se a uma arvore para não cahir: o san- 



214 Romance histórico 



gue repuxava a jorros da ferida, escorrendo 
pela jaqueta. 

Foi-lhe dada voz de prisão. 

O com mandante do destacamento, que era 
um official de milicianos, mandou procurar um 
carro para conduzir o preso á Villa da Feira. 

N'este momento appareceram, correndo em 
grande affliçfio, D. Maria Albina e o criada 
Francisco Marques. 

Foi o Marques quem alvitrou ao com man- 
dante que, transportado em braços o ferido até 
á casa do Outeiro, poderia um carro da casa 
ir leval-o á Villa da Feira. 

Assim se resolveu. Pelo caminho, frei Simào 
ia perdendo muito sangue. Quando o ferida 
chegou ao Outeiro, onde as outras irmãs o re- 
ceberam chorando angustiosamente, e emquan- 
to se apparelhava o carro, frei Simão pediu 
um confessor. Julga va-sc em artigos de morte. 

— Deixemo-nos de historias ! respondeu des- 
abridamente o commandante. 

O frade replicou com extranha energia: 

— Se me não derem um padre, confessar-mc- 
hei a uma pedra. 

O official encolheu os hombros, e disse: 

— Isso de pressa, que não ha tempo a per- 
der. 

Sahiram um criado e dois milicianos á pro- 
cura do primeiro padre, que apparecesse. 

Nem o abbade nem o padre António Pinhei- 
ro estavam em casa. Apenas appareceu o pa- 
dre José Pedro, da Herdade, que era um dos 
adversários politicos de frei Simão. 

Os milicianos, apenas o viram, intimaram-n'a 
a acompanhal-os. 



A guerrilha de frei Simão 215 

Frei Simão, quando o viu entrar, tornou a 
dizer: 

— Se me não dessem um padre, confessar- 
me-hia a uma pedra. 

Queria decerto significar, com a repetição da 
phrase, que não via no adventicio o adversário, 
mas unicamente o sacerdote. 

A confissão foi interrompida, porque, sendo 
muito abundante a hemorrhagia, frei Simão 
teve uma demorada syncope. 

— Sr. official, disse D. Maria Albina ao com- 
mandante, meu irmão, n*este estado, vai mor- 
rer pelo caminho. 

— Mas eu tenho instrucções para o levar 
vivo ou morto. 

— Morto de pouco pode servir á justiça, que 
o mandou prender, respondeu D. Maria Albina. 

— Também é verdade. . . disse o official. 
Vou mandar uma ordenança á Villa a pedir 
instrucções. 

Foi a ordenança e, passadas algumas horas, 
voltou com um officio em que o corregedor 
Mourão Guedes dizia ao com mandante que 
guardasse bem o preso até ao dia seguinte, 
porque o doutor Pedro José Corrêa Ribeiro 
iria logo pela manhã a Cezár para informar 
do estado de frei Simào. 

Durante a noite, o frade, recostado n*uma 
cadeira, por não poder conservar-se deitado no 
leito, agitava-sc em dolorosas convulsões, e ti- 
nha vómitos de sangue. 

A ferida, que, junto á columna vertebral, 
atravessava a região superior do thorax, san- 
grava copiosamente. A clavícula esquerda es- 
tava quebrada, e o braço paralysado. 



2i6 Romane hhtorico 



Frei Simào disse a D. Maria Albina: 

— Não me satisfez a confissão, que fiz ao pa- 
dre José Pedro. Peço á mana que mande cha- 
mar o abbade ou o padre António Pinheiro. E 
diga-lhes que tragam os sacramentos, que me 
quero preparar para morrer. 

O ábbade Morreira Maia tinha ido n*esse diau 
pela manhã para Oliveira de Azeméis. Foi o 
padre António Pinheiro que levou o viatico a 
frei Simào. 

Padre António entrou muito pallido. Orde- 
nou aos soldados que se affastassem, emquanto 
ouvia de confissão o ferido. Ajoelhou-se, muito 
trémulo, junto á cadeira de frei Simão, e incli- 
nou o ouvido á boca do frade. 

A confissão não durou mais de vinte mi- 
nutos. 

Em seguida, padre António ministrou a com- 
munhão ao ferido. 

Frei Simào disse-lhe com voz sumida pelo 
cansaço: 

— Muito obrigado, sr. padre António. 

Na physionomia de padre António Pinheiro 
lia-se, n'esse momento, um mixto de consola- 
dora surpresa e de compaixão dolorida, que 
lhe dulcificava a pallidcz da com moção. 

As irmãs do frade velaram toda a noite junto 
á cadeira do ferido, que já consideravam mo- 
ribundo. Frei Simão arquejava, com os olhos 
fechados. O sangue manchava as compressas, 
logo que eram postas com mais dedicação do 
que sciencia pelas pobres senhoras. 

Alta noite, o frade poude reconhecer a voz 
de Anninhas como sendo de uma das pessoas 
que velavam a seu lado. 



A guerrlllta de frei Simão 2 1 7 

Moveu, com difficuldade, o braço direito, 
único que lhe restava illeso, e tocou com os 
dedos, muito ao de leve, a cabeça da irmã. 

— Minha pobre Anninhas! disse elle anciada- 
mente. Minha pobre Anninhas! 

E cahiu por algum tempo em maior e mais 
atormentada prostração. 

Padre António Pinheiro, entrando na abba- 
dia de Cezár, ia tão pensativo, que Ger::rudes 
Magna não ouzou perguntar-lhe logo se o frade 
do Outeiro já tinha morrido. 

O padre recolheu -se ao seu quarto, e fe- 
chou-se por dentro. 

A tia foi algumas vezes espreital-o pela fe- 
chadura da porta: ouvia-o rezar, se era que 
não estava fallando só. 

A' hora da ceia, Gertrudes Magna atreveu- 
se a chamar o sobrinho. 

— Não queres hoje cear, António? perguntou 
ella. 

O padre abriu a porta, procurou ageitar um 
sorriso, que nasceiTtriste, e respondeu: 

— Não, minha tia; quero apenas um copo 
d*agua. 

A velha deu alguns passos no corredor, mas 
voltou atraz e perguntou: 

— O que me dizes tu de frei Simão ? Corre 
por ahi que já morreu ... 

— Não tinha morrido quando eu de lá vim, 
mas está para isso. 

Acaba o seu tormento. Deus o vae jul- 
gar. 

— A justiça de Deus, replicou o padre, é me- 
nos cega que a dos homens. Não fallemos de 
frei Simão, não falle d'elle, minha tia, sobretudo 



2l8 Romance histórico 



para fazer coro com a demência das paixões 
politicas. 

Padre António estava visivelmente impres- 
sionado pela confissão do frade. Mas não nos 
é dado saber ao certo os motivos da sua com- 
moção: só elle os conhecia, e nào os podia 
revelar. 

Logo pela manha chegou a Cezár o doutor 
Corrêa Ribeiro, que a muito custo poude sus- 
pender a hemorrhagia. 

Declarou elle por escripto que frei Simão 
nào se encontraria em estado de ser transferi- 
do para a Villa da Feira antes de trez dias, 
pelo menos. A sua vida corria imminente pe- 



rigo. 



A pedido das irmãs do ferido, o doutor Cor- 
rêa Ribeiro ficou em Cezár. 

E ao cabo de alguns dias, mais de trez, elle 
próprio e D. Maria Albina acompanharam o 
carro de bois em que o frade foi cundusido á 
cadea da Villa. 








XIX 



Nas ffarras da vinj^anca 



O ódio e a viiijiança de ini- 
migos pessoaes puubáin um in- 
íiocenle a dois passos do palibu- 
lo ou ensinavam-lhe ocaminlio 
dos presídios africanos 

halinoiioeliio— «Elofenos ara- 
deniifos» tom í. 



A cadea da Villa da Freira subsiste ainda 
hoje tal como era no tempo em que ali esteve 
preso frei Simão de Vasconcellos. 

Fica na Praça, a meio da qual se levantava 
então o pelourinho, ag^ora substituido pelo cha- 
fariz, que pertencera ao convento dos Loyos. 

A cadea, certamente construida no século 
passado, é um casarão de dois andares, não 
contando as janellns lateraes á dupla escada 
de pedra, que dá accesso ao edifício. 

Em cada andar, quatro janellas por banda, 
gradeadas de ferro. O ultimo tem a meio o 
sino, e nivela-se com o prédio contíguo, de 
que era então proprietário o irmão do conde 
das Antas (l). 

A cellula que frei Simão occupou era a do 
ultimo andar, encostada ao prédio visinho. Ti- 



(!) Este nredin pertence hoje ao sr. conselheiro Francisco de Cas 
Iro MulLoso l'ereira Côrle Heaí. 



220 Romance histórico 

nha, como as outras, um forte tecto de casta- 
nho, e solidas paredes. 

No dia da chegada do frade, toda a popu- 
lação da Villa da Feira se alvoroçou e reuniu 
na Praça para o vêr. Comquanto fosse rara a 
semana em que não entrasse na cadeia um 
preso absolutista, a lenda que se fizera em torno 
do nome de frei Simão de Vasconcellos exci- 
tava vivamente a curiosidade, dando ao facto 
da sua prisão um interesse excepcional. 

Toda a gente desejava vêr esse destemido 
frade, que tanto custara a cahir no laço, e do 
qual se contavam proezas de extraordinário 
valor. 

A população reuniu-se não só na Praça, em 
frente da cadeia, mas ainda se espraiava em 
grupos pela estrada de Cezár, até grande dis- 
tancia. 

O aspecto da multidão, na Praça, chegava 
a ser pittoresco, posto que nos trajes das mu- 
lheres e dos homens uma cor única predomi- 
nasse, — o vermelho, cor garridamente festiva 
e, n'aquella occasião, tri ^mphal. Era a cor sym- 
bolica do absolutismo, adoptada nos lenços 
das mulheres e nas gravatas e topes dos ho- 
mens. 

O dia estava magnifico de sol, a primavera 
aquecia, illuminava a encosta viridente do Cas- 
tello, que desde a Praça se avistava pela em- 
bocadura da rua Direita, como um bello panno 
de fundo. O alcáçar moirisco, todo afogado em 
hera, recortava sobre a frondosa matta, que o 
rodea, as suas quatro torres, de corucheos py- 
ramidaes, muito elegantes, rematados em tuli- 
pas de granito. 



A guerrilha de fr^i Simão 221 

Nos grupos fallava-se a respeito de frei Si- 
mão e, comquaato se fizesse justiça ao seu va* 
lor, a impressão geral era d alegria, por ter 
cabido nas garras da justiça um tão perigoso 
absolutista, que, além de preso, estava grave- 
mente ferido, isto é, inutilisado. 

— Vocês, dizia, no seu grupo, um popular, 
conhecem o Ignacio Brandão, de Roussas? 

— Muito bem! 

— Pois o frade sempre era homem, que lhe 
metteu medo! Haverá agora trez semanas, pas- 
sava o frade em Santa Marinha, uma légua de 
Arouca, pouco mais ou menos. Ahi vem o fra- 
de! disse o Brandão vendo-o a pequena distan- 
cia. E metteu a arma á cara, para lhe atiíar.— 
Sou eu, respondeu o frade; atira. Pois não ati- 
raste! Sabem vocês o que fez o Brandão? Lar- 
gou a arma, e deitou a fugir! 

— E em S. João da Madeira o que aconte- 
ceu com os homens que andavam tia segada t 
dizia outro popular. 

— E quando elle foi a Macieira de Cambra, 
sósinho, bater n um homem! accrescentava ain- 
da um terceiro popular. 

— O frade tinha o diabo no corpo. Deus me 
perdoe! exclamava uma mulher. 

— Tinha, mas foi apanhado, com uma chum- 
bada na aza: é pássaro que já não foge, ape- 
sar de bisnau. 

— Quem avisou agora o com mandante do 
destacamento, de que elle estava com certeza 
na casa do Outeiro, foram as cunhadas <io Jor- 
ge e o Canedo de Vermelhinho. 

— Ora adeus! quem lhe preparou bem o laço 
foi o Ignacio da Fonseca. 



222 Romance histórico 

— Olha! lá vem a raadama, com uma bilha 
d'agua na mào. E* para o quarto do frade, cer- 
tamente. 

Referiam -se a madame Cadillon, mulher do 
carcereiro, Francisco António das Neves, o da 
Travessa. Era uma franceza, que tinha ido 
para a Villa como criada de um juiz de fora, 
e que depois casara com o carcereiro, estabe- 
lecendo no Rocio uma estalagem. 

Effectivament« madame Cadillon tinha sido 
encarregada, pela familia do Outeiro, de mo- 
bilar o quarto de frei Siraào, nào se poupando 
a despezas. 

Quando o carro que conduzia o frade appa- 
receu no topo da estrada de Cezár, toda a mul- 
tidão se condensou em tropel para esperai o 
na passagem. 

O carro vinha coberto, de modo que frei Si- 
mão só poude ser visto na occasião de o tira- 
rem em braços á porta da cadeia. 

— O homem vem por um fio ! coramenta- 
va-se. 

— Parece moribundo ! Este já nào chega a 
ir á forca . . . 

— Elle vem tão mal, que trouxe o medico 
comsigo ! 

— E uma das irmãs para enfermeira! Olha! 
Já vae ella a subir agora as escadas. 

Effectivamente, o estado de frei Simão con- 
tinuava a ser muito grave. 

Logo que elie chegou á cadeia, o doutor 
Corrêa Ribeiro mandou chamar o cirurgião 
Soares de Albergaria para confererxiarem so- 
•bre o tratamento a seguir. 

Combinou-se que, .passados alguns dias de 



A guerrilha de frei Simão 223 

repouso, se sondasse a ferida com o estilête, o 
que até ali não tinha sido possivel fazer pelo 
receio de avivar a hemorrhagia. 

D. Maria Albina ficou na Villa, hospedada 
na estalagem da Franceza, para assistir ao cu- 
rativo do irmão, uma vez por dia, o que o dou- 
tor Correia Ribeiro pudera conseguir, por o 
julgar indispensável, segundo requerera e attes- 
tára. 

Na casa do Outeiro passava-se, na ausência 
de frei Simão e de D. Maria Albina, uma vida 
solitária e triste, sempre alvoroçada pelo re- 
ceio de prováveis aggressões e perseguições. 

Os visinhos estavam victoriosos, triuraphan- 
tes. Todas as vantagens da occasião eram d'el- 
les. Não se sabia quando frei Simão poderia 
recuperar a liberdade, nem mesmo se chegaria 
a rccuperal-a. O futuro era, para aquella fami- 
lia, uma duvida atroz. 

D. Anna e D. Antónia não sahiam de casa, 
nem falia vam com qualquer pessoa extranha. 
Francisco Marques cumpria pontualmente as 
ordens de frei Simão. Como um Cerbéro, um 
cão de guarda, vigiava, noite e dia, as duas 
senhoras que lhe haviam sido entregues. Sem- 
pre receioso de alguma investida dos visinhos, 
dormia sobre uma esteira, com uma escopeta 
á mão, no corredor sobre o qual abriam as 
portas dos quartos interiores. 
^ Os outros criados também não se deitavam 
nunca sem primeiro ter verificado a segurança 
das fechaduras e ferrolhos, e se as espingardas, 
sempre carregadas, estavam no seu logar. 

Anninhas era a mais triste e apprehensiva 
das pessoas da casa. Comquanto continuasse a 



224 Romance histórico 

ignorar a desgraça de José Máximo, inquieta- 
va-se cotn a falta de noticias de Coimbra. 

Sentia-se fatigada, tinha de interromper mui- 
tas vezes a costura por lassidão nos braços. 
Lastimava-se. Perdera o apetite e o somno. 

O Marques ouvia os queixumes da «sua que- 
rida menina» e dizia-lhe, por serenal-a, que sa- 
bendo naturalmente o sr. José Máximo o que 
tinha acontecido a frei Simão, não quereria es- 
crever para o Outeiro na ausência do chefe da 
familia, porque o fazel-o poderia parecer abuso 
de confiança ou falta de respeito. 

EUa ouvia-o melancólica, mas as palavras 
d*esse bom amigo não conseguiam apagar as 
suas apprehensòes e duvidas, por igual inquie- 
tadoras. 

Um dia, pela manhã, a familia do Outeiro 
foi surprehendida por um agudissimo grito, de 
uma expressão de dor dilacerante, que partira 
do quarto de D. Anna. 

Todas as pessoas da casa acudiram espavo- 
ridas, e foram encontral-a de pé, com o braço 
direito agitado por um tremor nervoso, os de- 
dos da mão justapostos e ligeiramente curvos, 
a cabeça pendida mas firme, o olhar cadente e 
spasmodico, a physionomia paralysada n'uma 
immobilidade de estatua. 

No chão, a. pequena distancia, viram um pa- 
pel aberto. Apanharam-n'o, e leram-n*o. 

A lettra e a orthographia revelavam um dis- 
farce grosseiro. O texto do papel dizia: 

fjosé Máximo foi um dos estudantes de Coim- 
bra que mataram os lentes em Condeixa. Anda 
fugido e a sua cabeça vale muito dinheiro a 
quem o entregar morto ou vivo. Se não sabiam 



A guerrilha de frei Simão 225 

esta grande novidade ficam-n'a sabendo agora, 
para seu regalo, porque foi essa maldita raça 
de pedreiros-livres do Outeiro que o perdeu. 
Lá se foi utn casamento pela agua abaixo. Deus 
escreve direito por linhas tortas.» 

Tratou-se de averiguar como esse papel fora 
parar ás mãos de D. Anna de Vasconcellos. 
Quem lh*o entregou? como chegara até ali? 

Uma criada lembrou-se deter visto pela ma- 
nha, quando ia soltar as aves, um pequeno, pa- 
pel entalado debaixo da vidraça na janella da- 
quelle quarto. Pensou que a menina o deixaria 
ali por qualquer motivo ou que ali teria ficado 
casualmente, quando o deitasse fora. N'uma 
palavra, não ligou importância ao facto. 

Francisco Marques chegou a suspeitar da 
cumplicidade d*essa criada ou de qualquer ou- 
tro serviçal. Mas, proseguindo em averiguações, 
descobriram-se as pegadas de alguém que ti- 
nha de noite saltado o muro para ir coUocar o 
papel na janella. 

A honra dos criados esta salva, e era fácil 
atinar com a origem do maldito bilhete. Viera 
de casa de Ignacio da Fonseca, o visinho que 
mais podia interessar-se n'uma vingança, que 
aliás representava a desgraça do sobrinho. Pou- 
co lhe import«iria isso: o prazer da vingança era 
indispensável ao seu coração rancoroso. Se não 
bastasse esta circumstancia, que cabalmente ex- 
plicava a proveniência do papel, accresceria ain- 
da a de serem os criados de Ignacio da Fonseca 
os que, por mais próximos visinhos do Outeiro, 
melhor conheciam os cantos á casa. Quem foi col- 
locar o papel n'aquella janella, sabia perfeitamen- 
te que era ali o quarto de Anna de Vasconcellos. 

15 



226 Romafice histórico 

Muito afflictas, as pessoas da casa trataram 
de soccorrer a pobre menina, que, convulsio- 
nada na oscillaçào rythniica dos braços, não 
fallava: os lábios premiam-se um contra o ou- 
tro violentamente. 

Dir-se-hia que esse extranho grito, que estru- 
gira como um silvo, fizera estalar todos os mús- 
culos da larynge, todas as cordas vocaes de 
D. Anna de Vasconcellos. 

Pediram-lhe que se deitasse para descançar 
algum tempo. EUa tentou andar mas hesitou, 
n*uma dolorosa perplexidade. Instaram, suppli- 
caram. Deu então alguns pequenos passos, cur- 
tos e incertos. Depois precipitou-se n'um Ím- 
peto de propulsão, perdendo o equilíbrio. 

O Marques amparou-a a ponto, tomou-a amo- 
ravelmente nos braços, foi recostal-a no leito. 
Mas o tremor, o spasmo e a mudez continua- 
vam ainda. 

Partiu um criado para a Villa da Feira a 
chamar o doutor Correia Ribeiro. 

Quando o medico chegou a Cezár, cahia a 
noite. Contaram-lhe o que se tinha passado. 
Correia RiBeiro, depois de ter observado atten- 
tamente D. Anna de Vasconcellos, disse que a 
causa da doença fora a commoção moral. Dia- 
gnoticou de tremor nervoso. Tinha já visto ou- 
tros casos na sua clinica. Mas notou certas dif- 
ferenças alarmantes. Expoz que em geral as pes- 
soas atacadas eram maiores de quarenta annos; 
que a marcha da doença costumava ser lenta, 
progressiva, e termmar ou por complicação de 
uma affecção intercorrente ou, na velhice, por 
esgotamento nervoso; que os doentes fallavam 
ainda que com difffculdade, custando a pro- 



A guer filha de frei Simão 22/ 

nunciaçào de cada palavra um esforço consi- 
derável da vontade. 

Ora, no caso presente, declarou ás pessoas 
da casa que não podia deixar de extranhar as 
■circumstancias da idade juvenil da doente,, da 
invasão brusca e intensa, e da aphonia com- 
pleta. 

Receitou um preparado de belladona, por 
^er um um medicamento de reconhecida acção 
anti-convulsiva. E disse que voltaria no dia se- 
guinte para acompanhar a marcha da doença, 
ainda na esperança de que D. Anna recupe- 
rasse a voz, por ser a aphonia, n*esta espécie 
mórbida, um caso novo na sua clinica. 

Eis o que a experiência lhe dictava; sabia 
principalmente o que os factos lhe haviam en- 
sinado. 

Se elle possuísse toda a sciencia do seu tem- 
po, poderia ter justificado o diagnostico da 
paralysia agitante çom uma brochura que so- 
bre o assumpto dera á estampa, onze annos 
antes, o medico inglez Parkinson. 

Os professores do protomedicato tinham-lhe 
ensinado o que Galeno dizia acerca do tremor 
paralytico e do tremor clonico ou antes do 
tremor e da palpitação\ mais nada. Mas a ex- 
periência guiara-o a conhecer praticamente os 
caracteres fundamentaes da doença, a sua mar- 
cha normal, e etiologia. 

Anna de Vasconcellos não readquirira a voz. 
Estava completamente privada de communicar, 
fallando, os seus pensamentos, em virtude da 
aphonia; e escrevendo, em virtude da con- 
vulsão e deformidade da mão direita. 

A sua vida era pois uma tortura horrorosa. 



228 Romance histórico 

Pensava, recordava, vivia o bastante para ator- 
mentar-se pela memoria; mas não podia sahir 
de si mesma para desabafar a sua dor. 

A aphonia hysterica, como diria um medico 
do nosso tempo, privava-a de communicar pela 
palavra com o mundo exterior, se bem que D. 
Anna, no segredo do seu espirito, talvez agra- 
decesse a Deus o ter perdido o uzo da pala- 
vra escripta ou fallada, que só poderia servir- 
Ihe para insistir nas recordações cruciantes do 
passado. 

Chegou a inesperada noticia á cadeia da Villa 
da Feira, e frei Simão disse á irmã mais velha: 

— Vae tu para o Outeiro. Eu vou indo me- 
lhor. Melhorei o que podia melhorar. O resto 
não tem cura. A nossa infeliz Anninhas preci- 
sa mais de ti do que eu. Logo que me deixem 
sahir d*aqui ou que eu possa sahir, irei vêl-a. 
Cumpra-se a vontade de Deus; acceitemos re- 
signados a desgraça com que experimenta a 
nossa fé. 

Padre António Pinheiro, se tivesse ouvido 
estas palav/as, não as extranharia. 

O virtuoso sacerdote, conversando com Igna- 
cio da Fonseca, que bramia maldições contra 
a familia do Outeiro, especialmente contra o 
frade, disse-lhe serenamente: 

— Julgo frei Simão um crente, a quem as 
paixões humanas teem allucinado, mas cuja 
consciência não conserva ódios nem rancores. 

— Ora essa! sr. padre António! observou, in- 
dignado, Ignacio da Fonseca. Não sabe que os 
pedreiros-livres não crêem em Deus, e que são 
capazes de mentir a Nosso Senhor por isso 
mesmo que não o temem?! 



A guerrilha de frei Simão 229 

— Sei. Mas Deus é misericordioso, e ouve os 
que lhe imploram a conversão das almas trans- 
viadas. Frei Simão seria favorecido pela mise- 
ricórdia divina. Não affirmarei que seja um 
bom catholico o frade que voluntariamente des- 
piu o habito, mas cuido não errar dizendo que 
descubro n'elle a consciência tranquilla de um 
bom christào. 

— Fraca consciência a que não tem remorsos 
dos seu crimes! 

— Conheço de ha muito tempo os erros de 
frei Simão, mas desconheço os seus crimes. 

-— Pois não foi elle que perdeu meu sobrinho? 
Não foi aquella maldita casa do Outeiro que o 
perverteu?! 

— Quem perdeu e perverteu seu sobrinho 
foram as idéas d 'este século corrupto e impio; 
foi a corrente das paixões desenfreadas e lou- 
cas. Vossa Mercê, sr. Ignacio, falia da sua pai- 
xão, e eu comprehendo-o, e lastimo os seus 
desgostos. Também frei Simão se deixou tocar 
por essa desgraçada corrente, que lhe allucinou 
a cabeça, mas que não conseguiu, creio eu, mi- 
nar-lhe ainda o coração. 

Ignacio da Fonseca não podia duvidar das 
crenças politicas de padre António, mas ficou 
pensando que o espectáculo dos grandes cri-- 
mes, que a liberdade tinha commettido em 
França, Hespanha e Portugal, lhe haveria es- 
curentado a razão. 

Padre António vivia muito concentrado, re- 
sando prostrado no oratório, e teria enlou- 
quecido de terror na meditativa solidão do 
presbyterio. O facto de ter sido chamado para 
confessar frei Simão de tal modo abalaria a 



230 Romance histórico 

sua debilitada intelligencia, pensava o tio de 
José Máximo, que não conservava uma limpi- 
da recordação d'esse facto. Não ouvira o fra- 
de, não soubera explorar-lhe a consciência, es- 
tivera junto d'elle sob a commoção do terror. 

Ora a verdade era que padre António fora 
á casa do Outeiro muito constrangido pela sup- 
posta aproximação de um impio. A pallidcz 
que levava nas faces o denunciava. Mas a im- 
pressão com que voltara era de grata surpre- 
sa, por haver encontrado uma consciência ho- 
nesta, até meticulosa, a par de um cérebro arden- 
te, exaltado pelas paixões politicas da epocha. 
Frei Simão podia ser um desvairado, e era-o,. 
mas tinha horror. ao crime e ao sangue. Padre 
António voltara do Outeiro com esta agradável 
convicção. 

Quando D. Maria Albina chegou a casa, a 
estado de Anninhas não tinha soffrido alteração. 

O doutor Corrêa Ribeiro, reconhecida a inef- 
ficacia das applicações da belladona e do ópio, 
limitava-se a evitar que sobreviesse o maras- 
mo pelo confinamento no leito. Procedia de ac- 
côrdo com o parecer unanime de outros colle- 
gas, de muitas léguas ao redor, que tinham- 
ido observar, por curiosidade, esse extranho 
caso de aphonia na paralysia convulsa. 

Obrigava a doente a levantar-se todos os 
dias. 

Vestida, não sem difficuldade, pelas irmãs, 
Anninhas erguia-se a custo, lentamente; hesita- 
va durante alguns segundos, até que se resol- 
via a dar alguns passos, timidos a principio, 
rápidos depois, com o corpo muito inclinado 
para deante, como se fosse a cahir. 



A guerrilha de frei Simão 231 

Francisco Marques amparava-a na propulsão, 
receioso de a ver perder o equilíbrio; era a sua 
muleta. 

Um dia, Anninhas, depois de ter hesitado 
ainda por mais tempo que de costume, avan- 
çou, n*essas carreiras vertiginosas que a irma- 
navam a uma creança quando ensaia as primei- 
ras passadas, na direcção do corredor, que con- 
duzia ao pomar. 

Francisco Marques não quiz contrarial-a ; 
acompanhou-a amparando-a. 

Como se subitamente se houvesse fatigado, 
Anninhas sentou-se no banco onde tinha esta- 
do com José Máximo no dia em que elle con- 
sultara a folha de trevo. Mudava de posição a 
cada momento, voltando o tronco para o lado 
direito e para o lado esquerdo, com a cabeça 
erecta, o pescoço rigido. Com o olhar muito fi- 
xo, encarava nas arvores e no banco, onde pa- 
recia notar um logar devoluto junto a si. O 
Marques e as outras pessoas da casa, muito so- 
bresaltadas, queriam tirai a d'aquelle banco, 
comprehendiam o que se estava passando no 
seu espirito, mas não ouzavam compellil-a a le- 
vantar-se. 

Como porém o tremor dos braços augmen- 
ta.sse quando Anninhas rastejou os olhos pe- 
las folhas verdes do trevo, Francisco Marques 
soergueu-a delicadamente, e com affavel pres- 
são a foi obrigando a entrar em casa. 

Mas reparou em que a propulsão era então 
menos violenta, e em que, pelo contrario, ha- 
via tendência para a retropulsão, como tibia 
manifestação talvez do desejo que a doente 
provavelmente sentia de permanecer no pomar. 



^ti:^^^rstTcei/-- o trevo consul- 

,- /) Ana» de ^^l^^josé Máximo e ella esti- 

*,j., no dia ^'Vj„o banco de cortiça, fallára 

Jr-r-iitt ali sentaa j^gj e irremediável ver- 

tí.K.'*- . senhora tivesse lido algum dia 
^^ *.P je Camões, lá haveria encontrado 
âeSpresago: 

O trevo, que é sentido apartamento. 



# 



XX 

o nftpolrilo de ouro 



HrniutOit etltíi bem. que be 
Bocage— rO-le ã (' 



José Máximo, entrando em Hespanha, pas- 
sou unia vida miserável até chegar a Ciudad- 
Rodrigo. 

A ferramenta de caldeireiro apenas lhe ser- 
via para disfarce, pois que elle ignorava com- 
pletamente o officio. Pensava em aprendel-o, 
acceitando a indicação do acaso. Mas faltavam- 
Ihe recursos, que aliás podia ter, para os pri- 
meiros dias de jornada. Logo explicaremos 
este caso. Viu-se, pois, na necessidade de ir 
mendigando, pedindo pelo amor de Deus um 
bocado de pâo. 

Seguira em direcção a Ciudad-Rodrigo por 
lhe parecer que a sua presença n'uma cidade 
daria menos nas vistas do que eir; qualquer 
das pequenas povoações fronteiriças, como 
Zarza ou Perale^. Obedecendo a esta conside- 
ração, não queria comtudo affastar-se muito da 
raia portugucza. O coração — a saudade e o 



234 Romance histórico 

amor — prendia-o a Portugal. Receiava saber o 
que teria acontecido a sua mãe e a Anninhas, 
mas desejava sabel-o. Pobre mãe! teria talvez 
morrido de afflicção ao vel-o tão desgraçado. 
E Anninhas? Quem o podia saber! A fronteira 
de Portugal levantava-se agora entre o passa- 
do e o presente, impenetrável como a mura- 
lha da China. 

Chegando a Ciudad-Rodrigo, viveu na maior 
miséria os primeiros dois dias. P^smolava pôr 
portas. Foi, no terceiro dia, bater a uma, em 
cujo páteo uma creança bem vestida, e senta- 
da ao sol, estava estudando em voz alta. Era 
um menino de doze para treze annos de idade. 

Quando o pequeno estudante deu com os 
olhos em José Máximo, teve um movimento de 
repulsão. Aquelle caldeireiro fez-lhe medo, tão 
feio era depois que queimara e retalhara a 
rosto. 

José Máximo comprehendeu a impressão que 
produzira, e disse ao menino, em correcta pro- 
sódia hespanhola: • 

— Não tenha medo de mim, que não faço 
mal a ninguém. Sou um desgraçado caldeirei- 
ro, que, por falta de trabalho, se vê obrigado 
a pedir esmola. 

O menino deteve-se indeciso, e o caldeireiro 
disse ainda para captar-lhe a sympathia: 

— Vi que estava estudando latim. Custa-lhe 
a decorar as declinações? 

O pequeno ficou admirado da pergunta, 
achando, sem medir todo o alcance, que não 
fazia sentido a profissão d'esse homem com o 
facto de conhecer a existência das declinações 
latinas. 



A guerrilha de frei Simão 235 

José Máximo, vendo a surprcza que causara, 
arrependeu-se do que dissera. Podia ter-se de- 
nunciado n'aquella hora. Mas conheceu também 
que, na alma do seu interlocutor, succedera á 
surpresa do primeiro momento um tal ou qual 
respeito pelo mendigo que parecia saber maÍ3 
do que elle. 

Perguntou-lhe o menino se sabia latim. 

José Máximo, não querendo contradizer-se 
flagrantemente, disse-lhe que alguma coisa tinha 
aprendido em pequeno, mas que a sua má ca- 
beça o levara a abandonar os estudos, pelo que 
se vira na necessidade de procurar um officio. 
Que pozesse o menino os olhos n'elle, e na sua 
desgraça, para estimular- se a estudar por amor 
do futuro. 

A mãe do menino, andando na sua lide do- 
mestica, ouviu estas ultimas palavras, e veiu 
vêr quem era a pessoa que tão acertado conse- 
lho estava dando a seu filho. 

Ficou também surprehendida ao vêr o mise- 
rável caldeireiro, pouco menos de hediondo. 
A sua .surpreza subiu de ponto, quando a crean- 
ça noticiou á mãe que aquelle homem sabia latim. 

Mas, após um momento de reflexão, talvez 
de desconfiança, disse a hespanhola ao filho: 

— Que tonto que tu és! Elle sabe lá latim! 

José Máximo off'endeu-se com estas palavras, 
e repetiu a breve narração que tinha feito mo- 
mentos antes, quando estava só com o menino. 

E, rapidamente, declinou os nomes latinos 
que lhe occorreram, sem emperrar n'um único 
caso. 

Mãe e filho começaram a interessar-se pelo 
mysterioso caldeireiro. A hespanhola disse-lhe 



236 Romance histórico 

que, se tinha fome, lhe daria de comer, a troco 
d'elle ensinar a liçào ao filho. 

José Máximo confessou a verdade: tinha real- 
mente fome. E, agradecendo á Providencia 
este soccorro inesperado, sentou-se no páteo a 
ensinar o menino. A breve trecho assakou-o a 
ideia de que por aquelle caminho chamaria so- 
bre si justificadas suspeitas. Mas logo se acal- 
mou dizendo de si para si: 

— Se tal acontecer, foi Deus que me depa- 
rou esta creança para me punir. 

O caldeireiro, a pedido do menino, voltou no 
dia seguinte para tornar a ensinar-lhe a liçào. 
A hespanhola queria que o seu filho soubesse 
muito bem latim, porque o destinava para clé- 
rigo. O pae do menino quiz d*ahi a dias ver o 
caldeireiro. Fallou-lhe, observou-o, e disse á 
mulher: 

— Este homem teve educação. Aqui anda 
grande mysterio. 

José Máximo mostravase muito grato áquella 
familia, que lhe matava a fome, e que todos os 
dias lhe proporcionava occasiào, durante algu- 
mas horas, de esquecer os seus dolorosos pen- 
samentos. 

Estabelecida uma corrente de sympathia en- 
tre os hespanhoes e o caldeireiro, José Máximo 
julgou dever responder com lealdade ás repe- 
tidas perguntas que, com insistente curiosida- 
de, lhe fazia o pae do menino. 

Contou a sua vida, as suas aventuras politi- 
cas, os seus infelizes amores, e a parte que to- 
mara involuntariamente no assassínio dos len- 
tes de Coimbra. 

A hespanhola chorava de o ouvir, e o ma- 



A guerrilha de frei Simão 237 

rido mostrava-se muito interessado pela sin- 
cera narrativa. 

José Máximo revelou também o desejo de 
saber noticias de sua mãe e de Anninhas, bem 
como de conhecer o epilogo da tragedia do 
Cartaxinho. Explicou as razões por que não que- 
ria escrever a frei Simão de Vasconcellos: era, 
principalmente, a vergonha da sua própria in- 
fâmia, e, secundariamente, a probabilidade de 
que a carta fosse interceptada e a justiça de 
Portugal viesse a conhecer assim o seu paradeiro. 
Por este motivo não queria também escrever a 
um amigo, residente em Évora, e ahi estabele- 
cido como lettrado, porque receiava compro- 
mettel-o e comproraetter-se. 

O hespanhol, que era negociante, prometteu 
a José Máximo valer-se das relações commer- 
ciáes que tinha em Portugal, na cidade da Guar- 
da, para saber o que elle tanto desejava. 

Passaram-se mezes sem que viesse resposta. 
O hespanhol insistiu nas perguntas. O corres- 
pondente da Guarda respondeu que os estu- 
dantes presos pelo crime de Condeixa haviam 
sido enforcados em Lisboa no mez de junho. 
A isto poderia ter respondido já, mas espera- 
va, para o fazer, pelas noticias que pedira para 
o Fundão e Oliveira de Azeméis, as quaes não 
haviam chegado ainda. Tornaria, porem, a escre- 
ver. Admirava-se, sobretudo, de que do Fun- 
dão, por ficar a menor distancia, lhe não tives- 
sem respondido logo. 

— Enforcados! exclamou José Máximo ao ou- 
vir a noticia. A morte com infâmia, de baraço 
e pregão, talvez com a cabeça decepada e as 
mãos cortadas. Ohl é horrível! é horrível! 



23 B Romance histórico 

Trez semanas depois, chegava a Ciudad-Ro- 
drigo nova carta do negociante da Guarda. 

O seu correspondente do Fundão pedia des- 
culpa de não ter respondido im mediatamente 
por se haver esquecido da pergunta na azáfama 
dos negócios. 

Dizia que a senhora, de quem lhe pediam 
noticias, se apaixonara a tal ponto peia des- 
graça do filho, que morrera um mez depois do 
assassinato dos lentes, justamente no mesmo 
dia e á mesma hora em que o crime havia sido 
commettido. Era uma coincidência notável, que 
tinha impressionado muito os habitantes do 
Fundão, os quaes se lastimavam de que dois 
patricios houvessem tomado parte n'aquelle 
horrendo crime. Dos dois, um, o filho d'aquella 
senhora, havia fugido para Hespanha, segundo 
constava; o outro. Neves Carneiro, fugira, acom- 
panhado pelo pai, também para Hespanha, e a 
justiça por pouco que o não tinha apanhado no 
Fundão. 

José Máximo ficou profundamente impres- 
sionado com a morte da mãe, cuja responsa- 
bilidade a si próprio imputava, e com a extra- 
nha coincidência, que a elle, mais do que a nin- 
guém, por ser extremamente supersticioso, se 
affigurava acontecimento sobrenatural 

A sua tristesa augmentou. Leccionando o 
menino, alheiava-se a espaços, muito abstracto, 
I>erdendo o seguimento das idéas. 

-^Que estávamos nós dizendo? perguntava 
cUe quando despertava das suas atormentadas 
abstracções. 

Sentia um recôndito desejo de fugir para 
mais longe de Portugal, de ir procurar a morte 



A guerrilha de frei Simão 239 



em terra onde não fosse fácil encontrar quem 
lhe podesse avivar memorias do passado. 

Mas prendia-o ainda á pátria a agridoce cu- 
riosidade de saber noticias do Outeiro: queria 
averiguar se também ali seria despresado, ou 
esquecido. 

Essas noticias chegaram tardiamente, posto 
que pouco minuciosas, em junho de 1829: Uma 
das meninas da casa, que namorava um dos estu* 
dantes homisiados, havia sido atacada de para- 
lysia ao ter conhecimento do crime do Cartaxi- 
nho. Perdera, com grande surpresa dos médicos, 
o uzo da voz. F*rei Simào havia sido preso, e esta- 
va na cadeia da Villa da Feira, sem que se podes- 
se aventar que destino viria a ter: talvez a forca* 

Fulminado por este novo golpe, despenha- 
do n'um inferno de remorsos, de angustias so- 
bre angustias, dilacerados os últimos laços que 
o prendiam a Portugal, resolveu abandonar a 
Hespanha, como se, aífastando-se da fronteira 
portugueza, quizesse fugir ás chammas que es- 
brazeavam o inferno da sua tortura. 

Ia perder o auxilio (^ue tão compassivamen- 
te lhe prestava aquella familia hespanho!a. Mas 
entendia que merecia esse castigo a si próprio 
imposto: devia morrer na desgraça quem só 
desgraças havia semeado em torno de si. 

Procuraram os hespanhoes demovel-o d esta 
resolução, que foi exposta com firmesa. José 
Máximo resistiu, e acabou por dizer: 

— Eu trago comigo o contagio do infortúnio, 
e não quero que elle alcance uma familia, de 
quem tantas mercês tenho recebido. Se eu fi- 
casse, isso viria a acontecer fatalmente, não 
sei como, mas aconteceria de certo. 



240 Romance histórico 

Esta consideração fez maior impressão á hes- 
panhola do que ao marido. 

Quando José Máximo se despediu, toda aquel- 
la familia chorou, principalmente o menino. 

O hespanhol quiz entregar ao infeliz portu- 
guez uma bolsa com dinheiro. 

José Máximo recusou-a, agradecendo. 

Toda a familia insistiu vivamente para que 
acceitasse. 

José Máximo quedou-se pensativo alguns 
momentos, e disse por fim: 

— ■ Acceitarei, com uma condição. 

— Qual? perguntou o hespanhol. 

— Que usted acceitará em troca, e como tes- 
temunho da minha gratidão, este napoleão de 
ouro, que me deu um dia frei Simão de Vas- 
concellos, e que eu sempre procurei conservar 
não obstante ter padecido fome. 

O hespanhol ficou a olhar para o portuguez, 
muito commovido. 

José Máximo pediu uma tesoura, descoseu o 
forro do casaco velho que vestia, tirou o na- 
poleão que trazia escondido, beijou-o, com os 
olhos razos de lagrimas, e ofTereceu-o ao hes- 
panhol, cuja mão beijou também. Depois ac- 
ceitou a bolsa. 

Passado um anno, em 1830, quando cons- 
tou em Cíudad-Rodrigo que um dos estudan- 
tes portuguezes. Neves Carneiro, havia sido 
preso em Zarza, e entregue ao cordão dos sol- 
dados de D. Miguel que o esperavam na fron- 
teira, disse o hespanhol á mulher: 

— Isso mesmo aconteceria ao pobre Máximo» 
se não tivesse fugido. Coitado ! O que será fei- 
to d'elle agora ? 




^M^^i^^^P^^l 



^mis^^MxSím^ 



XXI 



A paralylica 



La paralysie agitanto n^est 
pas seultímèiit une inaladie des 
plus tiistes eii cc qu^eile prive 
íe malade de lusage de ses 
inenibres et qu'elle ie rèduit tôt 
ou lard à une inerlie à peu prés 
absulue: c est encore une afle- 
ctiiin cruelle par suite des sen* 
sations pèoibles (|u' eprouve Ie 
malade. 

tlliarcot — «(Kuvres rom|il<V 
tes», toine I. 



Havia já quatorze mezes que frei Simão es- 
tava encarcerado na cadea da Villa da Feira. 

Graças á sua robusta compleição poderá re- 
sistir a morte, mas o braço esquerdo ficara 
leso, e o ouvido correspondente perdera a au- 
dição. 

Não afrouxava, porem, com estes sofFrimen- 
tos o valor do seu animo corajoso, e muito me- 
nos o incommodava a ideia das enormes des- 
pesas que tinha feito no cárcere, onde, duran- 
te todo esse tempo, havia sido visitado, duas 
e trez vezes ao dia, pelo medico e cirurgião. 

O frade reagia, como um forte, contra a op- 

pressão da desgraça, que teimava em perse- 

guil-o. Pensava na maneira de subtr%ir-se ás 

garras do absolutismo, de fugir, para correr a 

IG 



242 Romance histórico 



Cezár, a abraçar a pobre Anninhas, victima de 
um destino crudelissimo, e a justar contas com 
os seus adversários políticos, para vingar as 
desgraças que elles haviam acarretado sobre 
toda a sua família. 

Arriscaria a vida ? I^ouco lhe importava isso. 
Em risco estava ella desde que o feriram e 
prenderam. Parecia até que uma extranha fa- 
talidade o quizera salvar dos ferimentos que 
recebera, para lhe preparar um género de mor- 
te mais affrontosa, na forca, ás mãos dos seus 
inimigos. 

Mas não queria agora morrer sem primeiro 
ter ido a Cezár: ao menos isso, já que não po- 
dia ir também a Arouca, libertar Margarida 
Cândida, visto que a acclamação de D. Miguel 
havia estrangulado todas as liberdades publi- 
cas em Portugal. 

Entrou o frade de ponderar os meios que 
poderiam facilitar-lhe a evasão. Eram difficeis 
de encontrar, a não ser pela connívencia do 
carcereiro. Resolveu-se a preparar o terreno 
para subornal-o. Mas o carcereiro, sem repellir 
abertamente a proposta de uma transacção 
n*esse sentido, temia-se da severidade com que 
certamente seria castigado. 

— Para evitar esse perigo, ha um remédio, 
disse-lhe frei Simão. Vossem^^cê foge também 
comigo. 

O carcereiro pensou no caso, e acceitou o 
alvitre. 

Resolveu-se a fuga, mas reconheceu-se que 
não poderia realisar-se pela porta do edifício, 
sob qualquer disfarce, porque 'as sentinellas ti- 
nham instrucções muito severas. 



A guerrilha de frei Simão 243 

Foi frei Simão quem se lembrou de que a 
evasão só poderia eífectuar-se pelo telhado, 
saltando os fugitivos para cima do prédio con- 
tiguo. Eáta operação seria fácil, mas o abrir 
passagem pelo grosso tecto de castanho, seria 
difficil. Era precisa a intervenção de um car- 
pinteiro. 

Adoptou-se o expediente de requisitar os 
serviços de um carpinteiro de confiança, com 
o pretexto de que se tornava urgente con- 
struir um armário na cellula do frade. 

O carcereiro, sob sua responsabilidade, cha- 
mou um carpinteiro de Milheiros da Feira (i), 
de quem era amigo intimo. 

Em vez de se fazer o armário, fez-se uma 
abertura no tecto. 

Frei Simão, cuja franqueza de caracter che- 
gava ás vezes a ser imprudência, foi visita- 
do na cadeia, no dia destinado á evasão, por 
uai visinho de Cezár, Manoel Francisco Relva, 
miguelista moderado, e excellente homem, 
muito respeitoso para com a familia do Ou- 
teiro. 

A* despedida, o frade disse-lhe sacudida- 
mente : 

— Fujo hoje. 

— E' impossível! respondeu assombrado o 
Relva. 

— Vossemecê o saberá, replicou frei Simão. 

Effecti vãmente, o frade e o carcereiro fugi- 
ram n*es.sa noite, subindo ao telhado da cadeia, 
e passando ao da casa visinha. 



(1) Este carpinteiro de Milbeirós da Feira ainda vive. Cliama si> 
António .loaquiin Corrêa Paes. 



244 Romance histórico 

.1. 

Privado do movimento do braço esquerdo^ 
pode calcular-se que prodigios de equilibrio e 
de esforço não teria frei Simão operado para^ 
n'essas condições, realisar a evasão. • 

De telhado em telhado, pela viella de Ro- 
lães, foram os dois fugitivos descer á Eira. 

Ahi despediram-se um do outro. 

Frei Simão dirigiu-se para casa do capitão 
Varella, de Espargo, onde pediu abrigo por al-^ 
guma horas. 

Contra o conselho d'este amigo, quiz mudar 
de escondrijo, e seguiu jornada, durante a 
noite, para S. João da Madeira, contando com 
a protecção de outro amigo não menos dedi- 
cado que o capitão Varella. 

Em S. João da Madeira soube que os seus 
adversários políticos reclamavam que se galar- 
doasse com o laço da forca a provocadora 
zombaria da evasão. Era á conta de provoca- 
ção irritante que elles lançavam mais esse acta 
de audaciosa coragem. 

A casa do Outeiro fora eíFectivamente cerca- 
da e revistada durante duas noites consecutivas. 

— Que infâmia! exclamou frei Simão quando 
o seu amigo de S. João da Madeira lhe deu 
noticia do facto. Nem sequer respeitam a des* 
graça, a doença de minha pobre irmã! 

Ao cabo de quinze dias, constou-lhe que era 
no Porto que as justiças o procuravam; já ha- 
viam dado um assalto á casa de Frederico 
Pinto. 

Então achou que seria menos perigosa a sua 
ida a Cezár. Tomou um disfarce, que as barbas 
crescidas durante o tempo da prisão completa- 
vam, e metteu-se de noite ao caminho. 



A guerrilha de frei Simão 245 

Encontrou na estrada um homem, que, ape- 
sar da escuridão, fez reparo no frzide. Era um 
vendilhão de peixe miúdo, que costumava per- 
correr as povoações com grandes cargas de 
sardinha fresca de Espinho. Frei Simão conhe- 
ceu-o, mas ficou duvidoso sobre se também te- 
ria sido reconhecido; notara apenas que o ven- 
dilhão o olhara com curiosidade. Tanto bastou, 
porém, para que pensasse em acautellar-se. 

Como? e aonde ? Quanto mais se aproxima- 
va da sua terra natal, mais devia temer a per- 
seguição. 

A noite ia alta, não tardaria a arraiar a pri- 
meira claridade da manhã. Não sabia a que 
porta podesse bater sem o perigo de uma de- 
nuncia, quando avistou as duas torres da egreja 
de Cezár. Lembrou-se então das palavras da 
Sagrada Escriptura: pulsate et aperietur vobis, 
•O abbade era um absolutista moderado; mas 
frei Simão conhecia-lhe bem a alma incapaz de 
uma vingança politica; quanto ao padre António 
Pinheiro, bastou recordar-se das doces palavras 
de charidade evangélica, que elle lhe havia dito 
quando o confessara. 

Resolveu-se a ir pedir abrigo á abbadia. E 
foi. 

Bateu á porta da Residência na occasião em 
<|ue o padre Pinheiro, na ausência do abbade, 
estava fazendo as orações da manhã. Uma voz 
^perguntou de dentro: 

— Quem está ahi? 

Frei Simão conheceu a voz de padre Antó- 
nio, e respondeu: 

— Um desgraçado. 

Sentiu dar volta á chave. A porta abrira-se. 



246 Romance histórico 

« 

Padre António achou em frei Simão um ho- 
mem desconhecido; nào sabia quem fosse. O 
seu primeiro movimento denunciou talvez al- 
guma inquietação. 

Frei Simão disse-lhe, parado no limiar: 

— Vejo que o sr. padre António me nào co- 
nhece. Pois eu sou um desgraçado. Chamo-me 
frei Simão de Vasconcellos. 

— Ah! exclamou padre António com o rosto 
.subitamente illuminado de uma alegre tranquil- 
lidade. Seja bem vindo a esta casa. Se fosse 
um desgraçado, teria aqui o seu logar; mas 
não são desgraçados aquelles a quem não falta 
a misericórdia de Deus. Porque a verdade é 
que, no meio das angustias que tem padecido, 
Vossa Reverencia recebeu do Todo Poderoso o 
favor da resignação ou da coragem, que jamais 
o desamparam. 

Frei Simão explicou o seu de.sejo de ir ao 
Outeiro ver a pobre paralytica, e o receio de 
poder ser denunciado pelo vendilhão que en- 
contrara no caminho. 

— Espreitaremos a occasiào de realisar o seu 
justo desejo, respondeu-lhe padre António. Vos- 
sa Reverencia deve considerar-se aqui em in- 
teira segurança. Eu sou ministro de uma reli- 
gião de misericórdia: adoro o Deus do Calvá- 
rio, que morreu perdoando. O sr. abbade, quan- 
do voltar do Porto, comprehenderáe desculpará 
o meu procedimento. Também não estão cá os 
criados, porque, segundo o costume, acompa- 
nharam seu amo. Minha tia é uma alma honesta 
e leal, incapaz de fazer aquillo que eu não de- 
sejar que ella faça. De modo que nào deve 
Vossa Reverencia receiar da sinceridade dos 



A guerrilha de frei Simão 247 



hospedeiros, mas apenas desculpar-lhes a insuf- 
ficiencia da hospedagem. Comtudo, quem está 
habituado a duros trabalhos não tem tamanhas 
exigências de bem estar como aquelles que nas- 
ceram e teem vivido felizes. 

— O que eu não queria era incommodar o 
sr. padre António, e muito menos compromet- 
tel-o no caso de uma denuncia. 

— Comprometter-me?! Pois acaso compromet- 
te-se um sacerdote quando exerce uma das 
obras de misericórdia: dar pousada aos peregri- 
nos.^ De mais a mais, toda a gente aqui suppõe 
que Vossa Reverencia, depois da sua fuga da 
Villa da Feira, tinha ido esconder-se no Porto. 

- A minha fuga deve ter causado grande 
indignação. Mas o instincto da liberdade é in- 
nato no homem. Obedeci a elle. 

— Assim é. As paixões politicas são por via 
de regra intransigentes; nào poupam os adver- 
sários. Era pois natural que a noticia da eva- 
são causasse surpresa e até cólera. Estamos 
n*uma epocha calamitosa, de sentimentos fo- 
gosos e cegos. Mas feHzmente Vossa Reveren- 
cia dispõe de um animo forte para arrostar 
com todos os perigos. Agradeça-o a Deus. Se 
a historia da evasão, que aqui se conta, é exa- 
cta, ò .sr. frei Simão operou prodigios de per- 
severança na adversidade. 

O frade descreveu minuciosamente todos os 
episódios da fuga. Havia nas suas palavras um 
vivo colorido, que padre António admirava, e 
que o impressionava muito. 

— Meu Deus! o que tem passado! exclamou 
padre António quando frei Simão concluiu a 
narrativa. 



'248 Roman -e histórico 

— O que eu tenho passado! repetiu com pro- 
funda tristesa o frade. E a minha pobre irmã 
paralytica, perdida talvez para sempre! A mi- 
nha pobre Anninhas! Deus perdoe a quem lhe 
fez saber a ruim noticia, que a reduziu á vida 
de estatua. 

— Deus perdoe. Mas não façamos juízos te- 
merários. Deus tomará contas ao verdadeiro 
culpado. 

N'isto sentiu-se levantar o fecho da porta 
da cosinha. 

— E' minha tia, que vem da horta, disse pa- 
dre António. Deixe-me Vossa Reverencia ir 
avisal-a do que tem de fazer. Entretanto, venha 
descançar ao meu quarto. 

Frei Simão ficou só no quarto de padre An- 
tónio, onde a mobilia contrastava, pela humil- 
dade, com as cadeiras, contadores e tambore- 
tes, que opulentavam a sala de recepção do ab- 
bade Moreira Maia. 

Parou um momento a olhar para um peque- 
no papel pregado na parede. Era uma tabeliã 
das mis.sas que padre António devia dizer 
n*aquella semana. Sob o titulo de V.vos e de- 
funtos^ frei Simão leu o seu próprio nome. Era 
o terceiro da lista, e coincidia com aquelle mes- 
mo dia da semana. 

Foi grande a commoção do frade. 

— Que santa alma a d'este padre! disse men- 
talmente. 

Il, como padre António se aproximasse, frei 
Simão de Vasconccllos, quando elle voltou, ca- 
hiu-lhe aos pés, de joelhos, beijando-lhe a mão. 

Padre António, muito surprehendido, aben- 
çoou-o, dizendo: 



A guerrilha de frei Simão 249 

Nào tem Vossa Reverencia que agradecer* 
Buscae e achareis, diz a Bíblia. O que Vossa 
Reverencia aqui tem, é Deus que lii'o envia e 
concede. 

AUudia á hospedagem; nào suspeitando de 
que o frade houvesse lido a tabeliã das missas. 

— Agora, continuou, são horas de eu ir para 
a egreja. O' minha tia, disse levantando a voz, 
faça favor de picar o sino. Vão sendo horas. 

K tornando a voltar-se para frei Simão: 

— Vossa Reverencia não pode ir á egreja, 
mas pode acompanhar-me em espirito. Deus 
está em toda a parte. 

— Ouvirei d'aqui, em joelhos, a missa que 
V^ossa Senhoria vae celebrar. Estas pare.des 
serão transparentes para a minha fé n'esta ho- 
ra de ofratidão fervorosa. 

Padre António não comprehendeu o duplo 
sentido d'estas palavras. 

Quando o sino tangeu pela segunda vez, o 
coadjuctor de Cezár foi vêr á tabeliã a tenção 
da missa d'aquelle dia. Não denunciou no ros- 
to o menor signal de surpresa pela coincidên- 
cia. Sahiu sem olhar para frei Simão, dizendo 
um affectuoso: Até já. 

Passado um quarto de hora, frei Simão, que 
estava de joelhos rezando com as mãos postas, 
voltado para a egreja, sentiu bater de rijo á 
porta da cosinha. 

Procurou coacentrar-se na oração, quando 
ouviu fallar; não queria ser perturbado. Mas 
parcceu-lhe ouvir o seu nome, pronunciado por 
uma voz de mulher, e cedeu á tentação de es- 
cutar, apurando o ouvido direito, que restava 
illeso. 



25o Romance histórico 

— Era elle, sr.* Gertrudes, dizia a interlocu- 
tora da tia de padre António. Disse-me o Elias 
peixeiro quebra elle, com umas barbas gran- 
des, que até parecia um salteador. Arrenego 
eu o homem ! 

— Nào raettas a tua alma no inferno, mu- 
lher 1 respondia Gertrudes Magna. Trata de 
vender o teu pão fresco, e nào andes a dar no- 
ticias que podem causar desgraças, e que tu 
nào sabes se sào verdadeiras. O Elias peixeira 
pode ter-se enganado, e de certo se enganou. 

— Elle disse que se nào era o frade do Ou- 
teiro, o diabo o jurasse. 

— Credo ! mulher ! que logo pela manhã co- 
meças a fallar no cão tinhoso I Tu encarregas 
a tua alma ! O que consta é que o sr. frei Si- 
mão está escondido no Porto. Lá era elle tão 
pouco atilado que viesse metter-se na boca 
do lobo ! Olha que eu quero a minha sêmea 
mais leveira. Nào sabes que já nào tenho den- 
tes ? ! Melhor tu olhasses mais pela vida ! 

N*este momento o sino dava o signal de — 
Levantar a Deus, 

— Vai-te embora, mulher, disse a velha Ger- 
trudes Magna. Deixa-me rezar um Benidito entre 
a hóstia e o cálix, já que nào posso ir á missa 
para ter o almoço prompto a meu sobrinho. 

Frei Simão continuou acompanhando men- 
talmente o cânon da missa. 

— Hoc est enim corpus meum^ pensara elle, e 
conservava-se recolhido como se tivesse nas 
màos a partícula sagrada. 

Na cosinha, Gertrudes Magna concluía em 
voz audível a oração correspondente ao levan- 
tar da hóstia. 



L 



A guerrilha de frei Simão 251 

— . .tào real e perfeitamente como está nos 
altos céus. 

Augmentára, com o dialogo .^ue tinha ouvi- 
do, a fé de frei Simão de Vasconcellos. Senão 
fora o Passal, estaria, áquella hora, em perigo 
de perseguição. O peixeiro havia-o conhecido 
ou pelo menos suspeitava da sua chegada a 
Cezár. A faltar-lhe a protecção que encontrara 
na abbadia, o fugitivo seria recapturado e posto 
em maior segurança. 

Quando padre António voltou da egreja, frei 
Simão saudou-o dizendo: 

— Foi, pode dizer-se, um Te-Deiim laudamus 
rezado. 

Padre António illudiu a resposta observando: 

— Sempre temos motivo para louvar o Se- 
nhor. Que Elle se digne continuar a proteger 
os que carecem da Sua protecção. 

— E eu mais do que ninguém, replicou o fra- 
de contando ao coadjuctor o dialogo que tinha 
ouvido. 

— Não importa, disse padre António. Vossa 
Reverencia pode considerar-se, debaixo d'este 
tecto, ao abrigo de perseguições Ninguém se 
lembrará de o v'r aqui procurar. E, ouvindo 
esse dialogo, já tevj occasião de experimentar 
a lealdade de minha tia. Deixemos passar o 
vento da desconfiança, acalmar-se o mar das 
.suspeitas. O peior é de Vossa Reverencia, que 
terá de permanecer alguns dias aqui. Quando 
julgarmos opportuno, irá ao Outeiro ver a sua 
familia, onde aliás não convém que se demore. 

Aconselhado pelo coadjuctor, frei Simão de 
Vasconcellos cortou as barbas, que já tinham 
sido notificadas pelo vendilhão de peixe. 



252 Romance histórico 

O boato da apparição do frade em Cezár cor- 
rera durante um ou dois dias, mas padre An- 
tónio, a qiiem Ignàcio da Fonseca e outros vi- 
zinhos fallaram no assumpto, foi de parecer que, 
depois das duas buscas dadas pela justiça á 
casa do Outeiro, frei Simão não iria metter-se 
por muito tempo na boca do lobo. Ou não te- 
ria vindo ou já se teria retirado. 

Ora o coadjuctor havia dito a frei Simão: 

— Se me communicarem a suspeita da vinda 
<ie Vossa Reverencia a Cezár, responderei, sem 
encarregar a minha alma, com a subtileza do 
franciscano, que enfiou uma das mãos pela man- 
ga da outra e affirmou que por alli não tinha 
passado certo criminoso. O meu dever é servir 
A Deus, e Deus manda dar pousada aos peri- 
grinos. Vossa Reverencia, na situação em que se 
acha, não é senão um perigrino. 

Quando chegou a noite em que frei Simão 
tinha de ir a Cezár, padre António disse-lhe 
com uma resolução que não estava muito nos 
seus costumes de malleavel brandura: 

— Eu vou com Vossa Reverencia, sem o me- 
nor intento de prejudicar o recato das suas ex- 
pansões. Mas como hospedeiro, quero correr a 
mesma sorte do hospede. 

Frei Simão procurou demovei -o do propó- 
sito; não conseguiu. 

—Figuraremos, insistiu o coadjuctor, ir le- 
var o viatico a um moribundo; quod Deus aver^ 
tat. Vossa Reverencia veste uma das minhas 
batinas e cobre um dos meus capotes; são an- 
dainas velhas, mas que servem para de noute. 
Preveniremos assim o caso de algum mau en- 
contro, o que aliás não é, de esperar. Mas, de 



A guerrilha de frei Simão 253, 

passagem, ninguém poderá averiguar se Vossa 
Reverencia é o nosso sachristào ou algum ec- 
clesiastico, que accidentalmente seja hospede 
do sr. abbade. 

E, receioso de que frei Simão podesse ver 
n'estas involuntárias palavras alguma allusãa 
pungente, accrescentou com promptidão: 

— E não se enganarão n*este ultimo caso, 
porque Vossa Reverencia, se deixou o convento,, 
não deixou a Deus. Eu o sei. 

Frei Simão não conseguiu, mais uma vez, 
evitar que padre António Pinheiro o acompa- 
nhasse. 

Sahiram ambos da abbadia, alta noite, cami- 
nhando em silencio. A distancia é pequena: os 
dois edifícios, o Passal e o Outeiro, avistam-se 
um ao outro. 

A familia de frei Simão estava prevenida. 
Foi Francisco Marques quem veiu abrir, discre- 
tamente, a Porta Vermelha, E logo após elle 
correram pressurosas D. Maria Albina e D. 
Antónia (l). As lagrimas d'estas duas senhoras 
diziam mais do que as palavras, n*aquelle lance 
solemrie. 

Padre António assistia, como em extasi, a 
esse commovente drama intimo, em que uma 
familia estreitava, no infortúnio, os seus laços 
de extremoso afFecto. E mais uma vez, depois 
que conhecia de perto frei Simão, o coadjuctor 
de Cezár lastimava a cegueira das paixões po- 
liticas, que fazem com que os adversários se 
apreciem uns aos outros com revoltante injus- 



(1) Esta irmã do Trci Simão vi>iu a casar, riaU tarde, oa casa do 
Bairru, c(d Arouca. % 



254 Romance histórico 

tiça. Ali estava elle no meio de uma famiiia 
de malhados^ e não poderia encontrar outra 
mais respeitável, nem mais exemplar na resi- 
gnação christà. 

O frade encaminhou-se, seguido pelas irmãs, 
ao quarto de D. Anna. 

Padre António quedou-se no corredor com 
delicado propósito ; mas frei Simão, voltan- 
do-se, e vendo-o parado, disse-lhe amoravel- 
mente: 

— Venha comigo, sr. padre António. Todos 
somos famiiia. 

Anninhas estava sentada n*um canapé: os 
braços ligeiramente desviados do tronco; as 
mãos tremulas - com os dedos muito juntos, o 
pollegar sobreposto ao index — apoiadas na 
cintura; os joelhos tendendo um para o outro 
n*um movimento de adducção; os pés metti- 
dos para dentro; a cabeça pendida para deante. 

Não viu frei Simão logo que elle entrou no 
quarto. Mas quando os seus olhos encontra- 
ram o vulto do frade, que, commovido, esta- 
cara deante do canapé, os lábios da pobre 
senhora, ordinariamente cerrados e ás vezes 
franjados d*espuma, abriram-se n'uma indis- 
criptivel sensação de surpresa, e um grito, agu- 
do, vibrante, como aquelle que se seguira á 
leitura da carta anonyma, eccoou no apo- 
sento, ouvindo-se em toda a casa. 

Frei Simão, chorando effu si vãmente, avan- 
çou abrindo os braços para a irmã, que procu- 
rava levantar-se do canapé, e padre -António 
Pinheiro, cahindo de joelhos, disse em voz al- 
ta, uma voz repassada de uncção religiosa, este 
versículo de David: 



A guerrilha de frei Simão 255 

— Domine^ lábia mea aperies: et os meuni 
annuntiabit laudetn tuain. 

Senhor, abrirás os meus lábios: e a minha 
boca annunciará o teu louvor. 



# 



XXII 

IVevisito il» frade 



Frei Simão, exultante de alegria, csquecera- 
se de si mesmo para só se lembrar da irmã, e 
dissera a padre António Pinlieiro: 

— Aqui tem a rasão por que eu queria vir a 
Cezár. Dizia-me o coração que a pobre Anni- 
nhãs, se me tornasse a vêr, recuperaria a voz. 
E assim aconteceu! Deus louvado! Louvado 
seja o Senhorl 

— Louvado seja! respondeu padre António 
Pinheiro. 

Anninhas estava ainda convulsa, nAo podia 
andar, mas faltava, fallava menos do que cho- 
rava, abraçando o irmão e as irmãs. 

— Foi um milagre! exclamava D. Maria Al- 
bina. 

— Deus, respondeu padre António, nâo falta 
nunca aos que se lembram de recorrer á Sua 
misericórdia infinita. Mas não queiramos mais 
do que podemos receber. Esta senhora - indi- 
cando D. Anna —está fatigada da commoçào 



25^ Romance histórico 

extraordinária por que passou; precisa descan- 
çar. E o sr. frei Simào, que deve julg^r-se con- 
tente com a felicidade obtida, não deve demo- 
rar-se n'esta casa. E* prudente voltarmos ao 
Passal, que não vá alvoroçar-se a freguezia 
com a noticia de que alta noite se ouviu gritar 
alguém na casa do Outeiro, — o que significa 
algum acontecimento importante. 

Frei Simão concordou e, abraçando as ir- 
mãs, despediu-se. 

— Até quando, mano? perguntou D. Antó- 
nia. 

— Eu sei lá?! respondeu frei Simào. Sou 
uma ave errante sem ninho certo. 

O frade e padre António recolheram ao Pas- 
sal, e estiveram conversando largamente du- 
rante o resto da noite. 

Frei Simào disse ao coadjuctor: 

— Agora, meu amigo, visto que minha irmã 
está salva de maior desgraça, Deus louvado! 
resta pensar em mim. Refiro-me, sr. padre 
António, á minha liberdade individual, a esta 
miserável liberdade, cheia de duvidas e de in- 
certesas, que eu mesmo, se a quiz possuir, tive 
de rehaver violentamente por meio de uma eva- 
são, — como um salteador ou como um assassi- 
no. Mas o meu egoismo não pode ser tão exi- 
gente e tão cego, que procure acorrentar as 
pessoas, que eu mais estimo, aos perigos da 
minha aventurosa existência. Uma d'essas pes- 
soas é, alem da minha familia e de um desgra- 
çado que devia fazer parte d'ella, Vossa Senho- 
ria. Por isso, beijando as mãos ao meu gene- 
roso hospedeiro, e certificando-o de que lhe 
serei eternamente grato, vou-me por ahi fora, 



A guer filha de frei Simão 259 

não sei se como um peregrino sem norte ou 
-como uma fera, que tem de emboscar-se por 
selvas e juncaes para não ser perseguida pelos 
homens. 

O coadjuctor, com semblante mortificado, 
ficou-se a olhar para frei Simão. 

Ao cabo de alguns momentos de doloroso 
silencio, disse elle: 

— Pois que ! ? Vossa Reverencia, que obteve 
-esta noute uma singular mercê, já descreu da 
misericórdia divina ! ? Se os bens da terra não 
duram muito, porque a alma precisa purificar- 
se pelo sofFri mento, os males não duram sem- 
pre. Sem esperança, a vida tornar-se-hia um far- 
do insupportavel. Mas a clemência de Deus 
creou a esperança como lenitivo ás dores ter- 
renas: é um raio de sol que adelgaça as trevas 
do soffrer humano. Todavia, para merecer as 
boas graças do Senhor, é preciso que o homem 
nãodesagradeça, por actos de desatino, os favo- 
res que a Providencia lhe quer dispensar. Sahir 
daqui, sofFra Vossa Reverencia que eu o diga, 
é uma imprudência sem justificação possível. 
Para onde vai, para onde quer ir o sr. frei Si- 
mão ? Está enfastiado da minha companhia ? 
Tem razão. Mas o sr. abbade voltará do Porto 
ao cabo de alguns dias, e com elle poderá pra- 
ticar e conviver com maior agrado. Entretan- 
to, fique, eu lh*o peço, em nome da charidade 
christâ, que sinceramente chorará se amanhã 
tiver noticia de que as paixões politicas fize- 
ram mais uma victima. . . 

— Oh ! sr. padre António ! como eu lhe 
agradeço essa terna piedade para com um des- 
graçado! Vossa Senhoria tcm-me amparado na 



26o Romance histórica 



dor como um pai carinhoso, cuja imagem eu 
conservarei eternamente no coração agradeci- 
do. Mas o dever de um fugitivo é... fugir. 
Para onde vou? Dir-lh*o-hei com o coração nas. 
mãos. Procurarei um grande centro onde a tem- 
pestade das paixões humanas menos se sente 
por ter maior terreno para espraiar-se. Vou 
para o Porto, onde os visinhos incommodam 
menos, e onde ninguém me enxergará para al- 
vejar-rae com os golpes da vingança. 

— E aqui? perguntou padre António descon- 
soladamente. 

— Aqui, respondeu frei Simão, a minha tran- 
quillidade seria absoluta se apenas dependesse 
de Vossa Senhoria e do sr. abbade. Mas um 
acaso, o próprio faro da vindicta politica po- 
dia descobrir um dia o meu escondrijo, ama- 
nheceriam os com o Passal cercado por um corr 
dão de soldados, que viriam levantar a lebre, 
e eu teria contribuido para acarretar trabalhos- 
e perseguições sobre esta abençoada casa, onde 
a virtude mora. 

— A virtude! repetiu com suave tristeza o 
coadjuctor. A virtude! A tão deshumana eno- 
cha chegamos, que já o não esquecer de todo 
a doutrina do evangelho parece virtude! Vir- 
tuoso, eu! Não, meu amigo (permitta-me que 
também lhe dê este nome) eu sou um conser- 
vador por amor da solidariedade das institui- 
ções sociaes, que são apenas o reflexo das in- 
stituições divinas, onde o principio da suprema 
auctoridade é a lei suprema de que depende a 
harmonia do universo. Não odeio a liberdade, 
mas temo-a, porque foi em nome d'ella que a 
republica romana se dilacerou e que a repu- 



A guerrilha de frei Simão 261 

blica franceza se tornou sanguinária. Se alguém 
me podesse asseverar que seria possivel a ra- 
dicação de um regimen de liberdade moderada 
e sábia,^ tendo por base a egualdade christà, 
eu, sacerdote de Christo, abençoaria esse rtr 
gimen como uma aurora de paz, que viria fa- 
zer a felicidade dos homens. Não defendo o rei 
porque é rei; o humilde Jesus nunca o foi, se- 
não por irrisão na cruz do Calvário. Defendo, 
43Ím, a ordem, a obediência indispensável á nia- 
«utenção das sociedades constituídas sobre o 
principio da auctoridade. Temo porem as de- 
masias do povo, que, na sua cegueira, forçou 
a mão dos julgadores do próprio filho de Deus, 
•e que não poderá ser mais. clemente para com 
os filhos dos homens. A revolução franceza 
desacreditou-se pela loucura sanguinária e Ím- 
pia, que não poupou o throno do Altissimo. 
Eu, indigno representante da Egreja Catholica, 
não posso pensar de outro modo, mas também, 
t:m nome da Egreja, não posso deixar de ser 
benigno para com os que, inspirados por um 
sentimento nobre, e até christão, o levam com- 
tudo ás vezes aos últimos excessos do fanatis- 
mo, condemnavel não só n'elles, mas em todos, 
vencidos ou vencedores . . . Vossa Reverencia 
desculpe. Eu precisava abrir-lhe a minha alma, 
porque ao hospede em quem se confia deve ser 
franqueado o coração e a casa, e eu não tinha 
honrado ainda inteiramente a sinceridade da 
hospedagem. Fil-o agora, porque a occasião 
^geitou a confidencia. E, porque peço a Deus 
•que me não deixe cegar de todo o entendi- 
mento, nem endurecer o coração, aqui estou 
para continuar a offerecer a Vossa Reverencia, 



202 Romance histórico 

sob minha responsabilidade, a sombra d'este 
tecto, e a lealdade do meu peito. 

Frei Simào, muito commovido, olhava amo- 
ravelmente no coadjuctor, e chorava, pela se- 
gunda vez na sua vida. 

Dir-se-hia que as lagrimas, por tão longos- 
annos represas, haviam tomado gosto a mino- 
rar os trabalhos de frei Simão. 

Facilmente poderia o frade responder á sin- 
cera mas vulnerável argumentação do coadju- 
ctor. Não o quiz fazer, para não correr o risco 
de parecer ingrato. Estivera ainda tentado -a 
dizer-lhe que as grandes com moções sociaes 
são, como os grandes cataclismos da natureza, 
o prologo da paz e da ordem, que não se es- 
tabelecem nunca sem reacção; que Deus tirara 
o mundo do cahos, e que precisara tempo para 
agrupar harmonicamente os elementos e regu- 
lar as leis por que se regem os astros na sua 
eterna gravitação; que a obra dos homens não 
podia ser mais rápida que a de Deus, mas que 
os primeiros desatinos de uma instituição so- 
cial seriam indispensáveis para tornar apeteci- 
da a ordem e pacificação, que llies haviam de 
succedcr, como a bonança succede á tempes- 
tade. 

O que frei Simão quiz ver, nas palavras do- 
virtuoso coadjuctor de Cezár, não foi a sua sin- 
cera dialéctica, mas principalmente a sua gran- 
de alma, santificada por nobres sentimentos,, 
cheia de generosos impulsos ; — alma ao mes- 
mo tempo timida e forte, mas clara como o 
crvstal. 

Abraçou-o, sentiu consolação em pôr o co- 
ração de padre António d 'encontro ao seu co- 



A guerrilha de frei Simão 263 



ração reconhecido; mas insistiu na ideia de 
partir, procurando um destino, que, embora 
fosse desgraçado, o fosse apenas para elle. 
Frei Simão deixou o presbyterio durante a 



noite segumte. 

Padre António veio despedii-o fora da por- 
ta, n*um anceio de commocào, que lhe rouba- 
va, por momentos, a luz dos olhos e lhe em- 
bargava a voz. 

Gertrudes Magna, a respeitosa distancia do 
sobrinho, chorava limpando as lagrimas ao 
avental de sirguilha. 

Dir-se-hia que se ausentava n'aquella hora 
uma pessoa de familia, o pupillo querido de 
duas almas virtuosas. 

O coadjuctor, quando o vulto de frei Simão 
desappareceu por entre as arvores, disse com 
desalento á tia: 

— Decerto o não íorno a ver. . . 

- —Cruzes! Longe vá o agouro! respondeu Ger- 
trudes Magna, procurando reanimar o espirito 
do sobrinho. 

— Não fallo por mim, minha tia; mas por elle. 
Ku vivo aqui em plena paz; elle vai sem saber 
para onde e para quê, e os perigos gostam de 
experimentar a coragem dos fortes. Aos fra- 
cos, que lhes não offereceriam resistência, des- 
presam. 

Padre António não poude pregar olho toda 
a noite. Revolvia-se, agitado, no leito; volta- 
va-se de um lado para outro, inquieto. 

Ao entre-luzir da manhã poz-se a pé. Ajoe- 
lhou deante do oratório, e esteve rezando longo 
tempo. 

Quando Gertrudes Magna veio perguntar se 



204 Romance histórico 

podia ir picar o sino, o coadjuctor, muito ab- 
stracto, disse-lhe: 

— Olhe que me parece que o nào torno a 
ver. . . 

— Deus ha de fazer tudo pelo melhor, res- 
pondeu Gertrudes Magna, porque elle ou nào 
será pedreiro-livre ou nâo parece da laia dos 
outros. 

— Pedreiro-livre! Ha-os, decerto, mas frei 
Simão não o é. Uma cabeça de fogo, sim. Nào 
estivesse ausente o sr. abbade, e veriamos o 
que eu faria. 

— E que havias tu de fazer, padre António.^* 

— Iria com elle por ahi fora; buscaria livral-o 
dos perigos a que o seu animo ardido decerto 
o exporá. 

Gertrudes Magna largou a rir, a rir. 

— Ora não querem lá ver! O padre António fei- 
to peregrino por montes e valles, como uma ove- 
lha desgarrada, que se tresmalhou do rebanho! 

E ria, ria. O sobrinho nào a ouvia rir. 

Cerca das nove horas da manhã, quando o 
coadjuctor tinha acabado o frugal almoço, ba- 
teram á porta,'^ ^ 

Padre António dis^e, com alvoroço, á tia: 

— Faça favor de ir abrir. 

Pensou de repente que frei Simão se teria 
arrependido, e voltado para traz. 

Mas conheceu a voz de Ignacio da Eonseca. 

— Que tolice ! pensou então padre António. 
Elle arriscava-se lá a voltar de dia, mesmo que 
resolvesse voltar ! 

E foi receber á sala Ignacio da Fonseca. 

O tio de José Máximo vinha, disse elle, vi^ 
sitar o sr, abbade. 



A guerrilha de frei Simão 265 

— O sr. abbade, respondeu padre António, 
não está cá; mas eu tenho muito praser em 
receber a visita e qualquer ordem de Vossa 
Mercê. 

Emquanto isto respondia, accentuava-se no 
espirito do coadjuctor uma justa extranhesa. 
Pois seria crivei que Ignacio da Fonseca nào 
tivesse dado pela sabida do abbade, que, se- 
gundo o cosLume, partira com grande estré- 
pito de cavallos, e cortejo de criados? Nào 
era. Entào havia qualquer motivo secreto n'es- 
ta inesperada visita. 

A breve trecho, notou padre António que 
Ignacio da Fonseca nào só nào fallava de po- 
litica, que era o seu thema predilecto, mas pa- 
recia preoccupado em observar o que quer que 
fosse. 

~ O sr. abbade, insistiu padre António pro- 
curando esclarecer a suspeita que lhe assaltara 
o espirito, foi ao Porto visitar os seus paren- 
tes. Costuma sempre dcmorâr-se alguns dias. 
Mas admira que Vossa Mercê não soubesse da 
sua ausência . . . 

--Não sabia . . 

— Vossa Mercê parece-me hoje muito dis- 
traído! Tem algum negocio grave, que lhe dê 
cuidado } 

Ignacio da Fonseca mostrou-se contrariado 
com esta pergunta do coadjuctor. 

— Eu ! ? Não tenho nada que me dê cui- 
dado ! 

E, levantando-se de repente, fingiu dar gran- 
de attenção a um retrato, em gravura, que 
pendia da parede. 

— De quem é este retrato ? 



266 Romance histórico 

— Do grande Bossuet, bispo de Meaux, glo- 
ria da Egreja Catholica. 

— Ah ! náo sabia ! Sempre o sr. abbade tem 
aqui cousas muito bonitas! Olhe que lindo con- 
tador ! é o melhor que tenho visto ! 

— Vossa Mercê já o tem visto, decerto, mui- 
tas vezes. E' que não fez reparo . . . 

— E que lindas talhas da índia ! Sempre te- 
nho ouvido dizer que o sr. abbade é quem, 
n'esta comarca, possue melhor serviço de lou- 
ças finas. Nunca lh*as vi. Estão na sala do jan- 
tar ? 

— Estão. E como Vossa Mercê é amigo de- 
dicado do sr. abbade, e pessoa de confiança 
na casa, nenhuma duvida tenho em mostrar- 
Ihas, se lhe apraz. 

• — Pois acceito, c estimo vel-as. 

Já não restava duvida, no espirito do coad- 
juctor, de que Ignacio da Fonseca ia ali com 
segundas vistas, tão extraordinária era a igno- 
rância, que simulava, sobre as loiças do Pas- 
sal, que mais de uma vez devia de ter vi.sto. 

Quando se dirigiam para a sala do jantar^ 
Ignacio da Fonseca, vendo entre-abcrta a por- 
ta do quarto de padre António, olhou, de pas- 
sagem, para dentro do quarto. 

Não passou isto despercebido ao coadjuc- 
tor. 

O tio de José Máximo deu mediana attençào 
ás loiças da índia, de que aliás nada enten- 
dia. 

— E como vai por cá .sua tia, a sr.* Gertru- 
des Magna ? 

- Como velha, coitada ! EUa ahi está na co- 
sinha. Se Vossa Mercê quer vel-a, poje entrar. 



A guerrilha de frei Simão 267 

»^^^^"— ^■— ■■^■^"■^^"-"^ ■ ■ I I ■ I ■■ I ^— ^ 

Ignacio da Fonseca aproveitou logo o offe- 
reciraento, e enfiou pela cosinha jdentro. 

Mostrou-se jovial com a velha, dizendo-lhe: 

— Ora viva ! viva ! Parece mesmo uma rapa- 
riga ! 

— Salvo o caruncho, que já não é pouco, 
respondeu a tia do coadjuctor. 

— Qual caruncho ? ! Mas para que trabalha 
ainda vossemecê ? 

— Eu trabalho porque quero. Ahi está o 
sr. Ignacio com a mesma teima de meu sobri- 
nho ! A mim o que me pesa é que seja pouco 
o trabalho quando o sr. abbade cá está, porque 
entào não falta por*qui criadage. Mas agora, 
que somos dois, faz-se todo o serviço com uma 
perna ás costas, e ainda sobeja tempo. 

— O peior é se vem por ahi algum hospede, 
cuidando que o sr. abbade está em casa. 

Padre António ficou receioso da resposta que 
sua tia ia dar. 

— Isso sim ! respondeu ella. Sâo cousas que 
logo se sabem, porque o sr. abbade nào vai em 
segredo p'ra parte nenhuma. 

Padre António tranquillisou-se. 
— Pois muito estimei vel-a, sr.* (lertrudes, 
tão bem disposta como parece! 

— Isso é dos bons olhos com que Vossa Mercê 
me vê. . . 

E, no corredor, Ignacio da Fonseca, parando 
de súbito á porta do quarto de padre António^ 
perguntou: 

— Este é o seu quarto, sr. padre António.? 

— Sim, senhor. Se Vossa Mercê quer entrar? 

O tio de José Máximo entrou, e, n'um lance 
de olhos, viu tudo. 



268 Romance histórico 

^—O sr. padre António, disse elle, parece, 
mettido n*este quarto, um frade do Bussaco! 

— Porque?! * 

■— Porque é o aposento mais pobre da casa! 

— Cada um, replicou o coadjuctor, deve vi- 
ver em conformidade com o seu nascimento. 
Eu nasci sobrinho da criada do sr. abbade, e 
assim quero viver para não vexar a minha pró- 
pria familia. Que pensaria o sr. Ignacio da Fon- 
seca a meu respeito, se cu me collocasse em 
aífrontosa opposiçào com os hábitos humildes 
de minha tia, — uma pobre criada do Passal? 

— Sim ... lá issso! 

— O sr. abbade nasceu rico, e vive como nas- 
ceu, mas não tapa os ou vides aos clamores da 
pobresa que generosamente soccorre. Eu nasci 
pobre, e pobre quero viver. Não invejo a feli- 
cidade dos outros, porque não sou, felizmente, 
cego do entendimento. A Deus o agradeço. 
Mas ha cegos, cegos do corpo, e também do 
espirito, que mettem ã sua alma no inferno, 
aquelles porque se desesperam contra a misé- 
ria em que vivem; estes, porque não pensam 
senão em oífender a Deus e em provocar a 
justiça divina. 

Ignacio da Fonseca não gostou da severida- 
de com que padre António pronunciou estas 
ultimas palavras. 

— Elle desconfiaria de alguma cousa? per- 
guntava a si mesmo o tio de José Máximo 
quando sahia do Passal. 

E padre António, fechando a porta logo que 
elle sahiu, foi direito á cosinha, e disse a Ger- 
trudes Magna: 

— Que grande ousadia esta! Elle veio espio- 



A guerrilha de frei Simão 269 

nar-nos! Suspeitaria da estada de frei Simão 
aqui? Então é certo que eu sou um cego, ura 
imprevidente, e que quem tinha razão era o 
nosso hospede. Está-me parecendo que os des- 
graçados são como as gaivotas, que presentem 
os temporaes. Bem fez frei Simão em voar para 
longe, em fugir para o Porto. 

Ignacio da Fonseca, chegando irritadíssimo 
a casa, disse ao Manei Zarolho, um rapazote 
vesgo, de má cara, que costumava comprehen- 
der e executar todos os planos secretos do 
amo: 

— Tu és uma grande besta! Isso é que tu és! 
Vires dizer-me que » vistes» luz, fora das horas 
do costume, por baixo da porta na sala da Resi- 
dência e que, escutando á fechadura, «ouvistes» 
a voz do coadjuctor e outra voz que era a de 
frei Simão! Logo me quiz parecer que tudo 
isso cheirava a asneira grossa! O padre Antó- 
nio recebia lá um pedreiro-livre, um*alma de 
chicharro, que tresanda a enxofre! E eu tão 
tolo, que acabei por dar-te algum crédito, quan- 
do tu teimavas que uma das vozes era a do 
frade malhado! Eu já te devia conhecer, gran- 
de burro! 

E o Manei Zarolho resmungou por entre 
dentes: 

— Quando me mandou ir pôr o papel na ja- 
nella do Outeiro, com risco de lá deixar a vi- 
da, como já tinha deixado antes o chapéu, não 
me chamou elle grande burro! Deixa estar, meu 
patife, que eu, para outra vez, te mandarei bu- 
giar. 

N*esse momento, o Zarolho nutria no cora- 
ção uma surda cólera contra o amo, que aca- 



2/0 Romance histórico 



bava de o insultar, esquecendo os seus dam- 
nados serviços. Mas contentou-se apenas com 
resraonear, porque, como todos os cobardes, era 
capaz de morder na sombra, posto fosse abso- 
lutamente incapaz de, no ataque ou na defesa, 
aífrontar a luz do sol. 



# 



l^H^^^^fM^^^f^i^^ 



^^^H^^^^^aH^^^ 



XXIfl 



A orgâiiisacSo da guerrilha 



Que me siga quem tem a vaidade 
De ouvir bailas sem nunca tremer; 
Que me siua quem quer liberdade, 
Quem nào teme na lucta morrer. 

Luiz Augusto Palmeirim— oO guer- 
rillieiro». 



A vida de frei Simão no Porto era a de um 
foragido sempre receioso. 

A celebridade tornava maior o perigo. Ti- 
nham soado ao longe as suas façanhas de li- 
beral: principalmente, a resistência aos milicia- 
nos em Cezár, c a aventurosa fuga da cadeia 
da Villa da Feira. 

Quando o frade ali chegou, Frederico Pinto 
andava escondido, por isso que, na qualidade 
de com mandante dos voluntários de Villa No- 
va, havia adherido, como sabemos, ao mallo- 
grado movimento de l6 de maio de 1828. O 
governo de D. Miguel, além de lhe ter man- 
dado sequestar a propriedade do Outeiral em 
Arouca, privou-o da reforma que lhe havia 
sido concedida. Nào tendo emigrado para a Gal- 
liza, como tantos outros, Frederico, abando- 
nando a casa em que ultimamente morava na 
rua da Cruz, a Cedofeita, escondera-se, sem 
comtudo sahir da cidade. 



272 Romance histórico 

Foi um amigo commum dos dois irmãos quem 
tratou de acautelar a existência do frade, fa- 
zendo-o esconder n*uma agua-furtada do Pas- 
seio das Virtudes, pequena mansarda onde mo- 
rava uma cega protegida pela familia d'esse ca- 
valheiro. 

Da janella da trapeira, sobreposta ao segundo 
andar do prédio, podia ao menos frei Simão 
distrair os olhos por um dos mais formosos pa- 
noramas da cidade. 

Avistava ambas as margens do Douro, — a 
direita, accidentada em pittorescos degraus na 
quinta das Virtudes, prolongando-se com as 
montanhas da Torre da Marca e da Arrábida 
até descer para a reintrancia do Ouro e torne- 
jar pela estrada de Sobreiras á Foz; a esquer- 
da, coroada de pinheiros no alto, povoada, so- 
bre o cães, de grandes armazéns ribeirinhos e 
do convento umbroso de Val-Piedade, recor- 
tada salientemente na curva que, junto á Fura-- 
da, boja para o rio. 

Ao fundo, o mar, a amplidão infinita da agua 
e do ceu csbatendo-se n'um azul longínquo de 
saphyra embaciada para alem da barra. 

Do meio da saleta, que era o seu único apo- 
sento, podia frei Simão abranger esse vasto pa- 
norama, tão bello como melancólico, sem com- 
tudo se expor a ser visto por quem andasse pas- 
seiando no paredão das Virtudes. 

Entretinha-o muito o espectáculo que diaria- 
mente lhe offerecia o convento de Val-Piedade,, 
por cuja calçada transitavam a toda a hora os 
frades mendicantes, que sahiam em peditório, 
le recolhiam com grandes esmolas, muitas d*cl 
as em fractos e cereaes, pesadas cargas que- 



A guerrilha (íe frei Simão 273 

OS donatos, vestindo a sua roupeta de sarago- 
ça, transportavam após os frades, de quem eram 
criados. 

Ao fim da tarde desciam rio abaixo as lan- 
chas dos pescadores de Valbom e paravam em 
frente do convento, d*onde o padre porteiro as 
abençoava para que tivessem abundante pesca- 
ria. Quando as lanchas recolhiam do mar, tor- 
navam a parar junto ao convento, acostando ao 
cães para dizimar o peixe que, em retribuição da 
benção recebida, era repartido com os frades. 

A egreja de Val-Piedade, virada ao nascen- 
te, encimando uma extensa escadaria, comquan- 
to fosse uma das melhores do Porto, não tinha 
torre, mas os sinos, coUocados n'um campaná- 
rio sobre a portaria, passavam por ser dos mais 
sonoros e afinados da cidade. 

Sempre que os ouvia, frei Simão de Vascon- 
cellos sentia rebates de vaga saudade pelos 
dias que em Alcobaça vivera contrariado, por- 
que esses dias da mocidade, se os cotejava com 
os trabalhos do presente, chegavam a parecer- 
Ihe felizes. 

Algumas vezes, alta noite, o frade, sedento 
de liberdade, sahia á rua para exercitar as per- 
nas, que a reclusão entorpecera. 

A solidão era ali profunda, quasi sepulcral. 
Frei Simão podia, sem perigo, dar alguns pas- 
seios em frente das casas. Mas quando sentia 
os passos de algum raro transeunte, que vinha 
dos Fogueteiros ou subia a calçada da Espe- 
rança, recoihia-se, por cautela, dentro do por- 
tal. Depois recomeçava o hygienico passeio, até 
que o ceu principiava a dealbar-se no oriente, 

por cima da casaria da cidade. 

18 



2/4 Romance histórico 

Nào recebia noticias do Outeiro senào por 
intermédio de Francisco Marques, que de tem- 
pos a tempos, e nào sem algum risco, ia levar- 
lh'as pessoalmente. A correspondência escripta 
poderia, ainda que houvesse disfarce no ende- 
reço, ser aberta no correio e denunciar a resi- 
dência do foragido. Por isso fora supprimida. 
Todas as noticias eram verbaes, transmittidas 
pelo dedicado Marques, — um postilhão audaz. 

Por elle sabia o frade que D. Anna, comquanto 
houvesse recuperado a voz, continuava a soffrer 
as convulsões nervosas de que tinha sido ata- 
cada, e que se n'uns dias a agitação era me- 
nor, n\)utros dias recrudescia. Fallava pouco, 
e nunca para fazer referencia ao incerto destino 
de José Máximo. 

O doutor Corrêa Ribeiro, que uma vez por 
outra ia a Cezár, dizia que D. Anna era um phe- 
nomenal exeiíiplar pathologico, uma caprichosa 
organisação hysterica, vibratil a todas as com- 
moçòes, e que um medico não podia fazer pro- 
gnostico seguro, visto que só as commoções oc- 
casionaes tinham absoluto império sobre aquella 
organisação. E citava, como prova, a súbita 
aphonia, que também subitamente desappare- 
cêra. Mas nào desesperava da cura completa, 
antes a esperava, se José Máximo voltasse. Com- 
tudo uma ruim noticia poderia exacerbara doen- 
ça e conduzil-a rapidamente ao seu periodo ter- 
minal, ao total esgotamento do systema nervoso. 

Todo o arrazoado do dr. Corrêa Ribeiro vi- 
nha a resumir-se n*uma formula hoje geralmente 
acceita pelos pathologistas modernos: que a pa- 
ralysia estabelece a transição entre as doenças 
do espirito c as do corpo. 



A guerrilha de frei Simão 27 S 



D. Anna passava longas horas silenciosa, mui- 
tas d'ellas encostada a uma das janellas da ca- 
sa, com o olhar triste perdido nos pinheiraes 
sombrios. 

Contara Francisco Marques a Frei Simào, 
com as lagrimas nos olhos, que «a sua rica me- 
nina» tinha dito um dia: 

— Não sei se Deus me favoreceu mais quan- 
do me tirou a voz se quando m'a restituiu . . 

E frei Simão, muito pensativo, respondera : 

— Entendo . . . 

Os visinhos de Cezár, segundo também 
Francisco Marques contava, pareciam satisfei- 
tos com as desgraças que tinham chamado so- 
bre a casa do Outeiro, especialmente com a au- 
sência de frei Simào. Só uma coisa mostravam 
■desejar ainda: era haver ás mãos o frade para 
mandal-o pendurar na forca. E como o suppu- 
nham refugiado em Arouca, para lá mandavam 
instantes solicitações reclamando a prisão do 
fugitivo. 

Assim foram decorrendo os mezes até que 
principiaram a correr incertas noticias de que 
D. Pedro, finalmente resolvido a reivindicar os 
direitos da Rainha, ia arregimentar os emigra- 
dos para invadir Portugal. 

Estas informações, a principio dúbias, fo- 
ram-se accentuando, correndo com insistência. 

Constou depois que o imperador estava na 
Terceira, onde assumira a regência, e prepa- 
rava uma expedição com dinheiro que podéra 
levantar nas praças extrangeiras. 

O boato fora confirmado. A expedição libe- 
ral viria, mas não se sabia ao certo se desem- 
barcaria na Madeira ou no continente. 



2/6 . Romance histórico 

Finalmente, na noite de sete de julho de 1832^ 
eccoou no Porto uma noticia de grande sensa- 
ção: a esquadra de D. Pedro estava á vista. 

No dia seguinte, a noticia irradiou por mui- 
tas léguas em roda do Porto: chegou até Ce- 
zár. 

Francisco Marques não poude conter a sua 
impaciência e metteu-se ao caminho para ir 
saber se o boato era verdadeiro ou não. 

Entrou na cidade mais facilmente do que 
suppunha. A confusão no exercito miguelista 
era enorjne. O Marques encontrou já na estra- 
da muitas familias absolutistas, que por cau- 
tela fugiam. 

Na madrugada do dia nove batia elle á por- 
ta da mansarda de seu amo. A cega, muito 
agitada, cheia de medo, disse -lhe que o sr.. 
frei Simão tinha sahido, doido de alegria, ain- 
da com de noite. 

O Marques subiu á Cordoaria, onde encon- 
trou alguns curiosos, que o informaram do que 
se passava. 

Disseram-lhe que a expedição tinha desem- 
barcado na véspera junto a Villa do Conde,, e 
que estava em marcha para a cidade. 

O Marques não quiz ouvir mais nada. Met- 
teu pela rua de Cedofeita adeante, para seguir 
a estrada de Villa do Conde ao Porto. 

Cerca das oito horas da manhã encontrou na 
Carvalhido a guarda-avançada do exercito li- 
beral. 

Deu-lhe vivas, gesticulando como um posses- 
so. Não sabia se havia de voltar para traz, se 
proseguir até encontrar o grosso do exercito» 
Adoptou este ultimo expediente. Foi andando. 



A guerrilha de frei Simão 277 

A* medida que avistava as tropas libertado- 
ras, uma nova vibração de enthusiasmo lhe 
sacudia os nervos. 

Perguntou pelo imperador. Responderam-lhe 
que nào tardaria muito. Com effeito viu appa- 
.recer D. Pedro, seriam umas onze horas da 
manhã. 

O imperador vinha mal montado, mas ao 
Marques pareceu que jamais um general aper- 
tara sob os joelhos um cavallo de maior preço. 

E ficou n*uma allucinação de jubilo quando 
viu frei Simão, de jaqueta, cruz ao peito, cha- 
péu emplumado de hydranjas, e escopeta ao 
hombro, dando vivas a D. Pedro, cujo cavallo 
o frade seguia a pequena distancia. 

Atravessou de um salto para junto do amo, 
vque lhe disse muito excitado: 

— Ah ! és tu ? ! Ha novidade ? 

— Nenhuma. Vim ver isto. 

— Chegou a nossa hora, finalmente! exclamou 
frei Simão. 

Il logo continuou a gritar: 

— Viva o imperador ! Viva a rainha ! Viva a 
Carta ! 

D. Pedro tinha ficado muito surprehendido 
quando frei Simão de Vasconcellos correu a 
beijar-lhe a mão na estrada, levantando enthu- 
siasticamente no ar o chapéu florido das cores 
constitucionaes. Sabia que os frades lhe eram 
adversos, e a extranhesa do caso fizera-lhe agra- 
dável impressão. Um movimento de sympathia 
brilhara nos olhos expressivos do imperador. 

Frei Simão, acompanhando sempre D. Pe- 
dro, seguira-o até á Praça Nova, onde o prín- 
cipe apeiára para entrar na Casa da Camará, 



278 Romance histórico 

■ 

N'essa occasiào era estentorosa a voz do fra^ 
de, quando gritava: 

— Viva o imperador ! Viva a rainha ! Viva 
a Carta ! Viva a liberdade ! 

D. Pedro sahiu do palácio municipal para se 
dirigir ao dos Carrancas, onde ia hospedar-se. 

Tudo isto se realisára n'um triumpho paci- 
fico: o exercito de D. Miguel tinha retirado 
inexplicavelmente. 

O frade acompanhou D. Pedro á Torre da 
Marca, e ahi continuou a vozear, em frente do 
palácio, gritos atroadores. 

O imperador viera a uma das varandas para 
agradecer a ovação com que alguns grupos» 
frei Simão á frente, continuavam a acclamal-o. 

Dando com os olhos no frade, tornou a re- 
parar n'elle, que gesticulava freneticamente 
com o braço direito, agitando o chapéu, e com 
a cara no ar, muito afogueadas as faces. 

Momentos depois, o marquez de Loulé, cu- 
nhado do imperador, dava ordem a um criado 
para vir á rua chamar um frade, que tinha 
hydranjas no chapéu, e estava dando vivas. 

P^rci Simão galgou dois a dois os degraus 
da escadaria de pedra. 

D. Pedro não tardou a recebel-o, de pé, a 
meio da sala grande de entrada. 

O imperador, esvelto, moreno, queimado do 
sol dos trópicos, cora a barba crescida, o olhar 
incisivo e luminoso, denunciava comtudo na 
physionomia um certo cansaço e o que quer que 
fosse de amargurada expressão. 

— Como te chamas ? perguntou D. Pedro ao 
frade. 

— Frei Simão de VasconccUos. 



A guerrilha de frei Simão 279 



— A. que convento do Porto pertences ? 

— A nenhum, meu senhor. Sahi ha dezeseis 
annos de Alcobaça por um breve pontifício. 
Desde então não tenho feito senão amar a li- 
berdade e soffrer por ella. Mas estou prorapto 
a dar a vida por Vossa Magestade e pela cau- 
sa da Rainha, que é a causa da liberdade e da 
pátria. 

O imperador, em cujos olhos passara um re- 
lâmpago, que lhes augmentou o brilho, mos- 
tra va-se cada vez mais surprehendido e inte- 
ressado. 

— Bem está ! disse D. Pedro. O que tiveste 
n'esse braço ? perguntou reparando que o fra- 
de movia com difficuldade o braço esquerdo. 

— Fui ferido pelas costas quando tentava es- 
capar ao destacamento que cercou a minha casa, 
e que me perseguiu a tiros. 

— Mas, apesar de ferido, podeste fugir } 
— Cahi e apanharam-me. Da segunda vez não 
fui tão feliz como da primeira, em que conse- 
gui salvar-me. 

— Estiveste então na cadca ? 

— Sim, meu senhor, na da Villa da Feira, 
mas evadi-me e tenho estado escondido desde 
então. 

O imperador trocava com o marquez de Lou- 
lé um olhar de profunda surpresa. 

— Tens então, meu frade, passado muito? 

— Nem Vossa Magestade pode imaginar ! A 
minha família está desgraçada. Malvados! Um 
só de meus irmãos, frei José, pregador geral 
da ordem de S. Bento, foi realista, mas tssc, 
em vez de perseguir alguém, morreu de des- 
gosto em Lisboa, o anno passado, quando sou- 



28o Romance histórico 

bc que tinha entrado no Tejo a esquadra fran- 
ceza, e que o barão de Roussin havia sido man- 
dado a Portugal para calcar aos pés o direito 
das gentes e vexar uma nação, cujo governo, 
cobarde perante o extrangeiro, apenas sabia ser 
tyranno com os naturaes que politicamente o 
hostilisavam. 

— Frei José, teu irmão, replicou o impera- 
dor, podia ser um realista, como tu dizes, mas 
era principalmente um portuguez, que zelava a 
honra da sua pátria. 

— E* certo, meu senhor. Ao menos resgatou 
pela morte o erro das suas opiniões politicas, 
aliás inoífensivas. 

— Quero ouvir-te com mais vagar. Volta cá 
ás sete horas da manhã. 

— A's sete horas?! perguntou frei Simão es- 
pantado de que um príncipe lhe marcasse uma 
hora tão matutina. 

— Sim, amanhã ás sete horas. Adeus. 
Durante o dia, D. Pedro tornou a lembrar-se 

do frade, com essa agudeza de memoria, que é 
peculiar aos Braganças. Apesar das graves pre- 
occupações que lhe agitavam o espirito, o im- 
perador pediu novas informações a respeito de 
frei Simão de Vasconcellos. 

Contaram-lhe a historia, muito conhecida, da 
resistência á escolta, da prisão e da fuga. Des- 
crever am-lhe o enérgico perfil moral do frade 
já legendário pelo seu valor, e dedicação á cau- 
sa da liberdade. 

D. Pedro, que via enublado o futuro apesar da 
facilidade com que entrara no Porto, consolou- 
se até certo ponto com a certeza d'essa dedicação 
pessoal, que podia valer muito como exemplo. 



A guerrilha de frei Simão 28 r 

E, no dia sej^^uinte, cumprindo a sua promes- 
sa, recebeu frei Simào, que, ás sete horas da 
manhã, já encontrou as salas do palácio cheias 
de officiaes superiores. Estavam ali, entre ou- 
tros, o marechal conde de Villa F*lor, com man- 
dante em chefe do exercito, o coronel de ca- 
vallaria D. Thomaz de Mascarenhas, que se di- 
zia ía ser nomeado governador militar da cida- 
de, o tenente-coronel José Baptista da Silva Lo- 
pes, chefe do estado-maior, o tenente-coronel 
Diogo Thomaz de Ruxleben, director da inten- 
dência geral de viveres e transportes, e alguns 
officiaes extrangeiros, taes como o sr. de Saint- 
Léger, ajudante de campo do imperador, e o 
sr. de Lasteyrie, neto do general Lafayettc. 

Quiz D. Pedro ouvir a narrativa das perse- 
guições soffridas pelo frade e sua familia. 

— Apenas posso conceder-te vinte minutos, 
mas desejo ouvir-te, disse o principe. 

Frei Simào resumiu as violências politicas 
de que seu irmão Joaquim Maria fora victima, 
e impressionou o imperador, quando contou 
como havia promettido ao moribundo ir arran- 
car Margarida Cândida ás grades do mosteiro 
de Arouca no dia em que a liberdade resur- 
gisse. 

— Chegou essa hora, disse4he D. Fedro. Pois 
não crês que a nossa causa ha de triumphar.^ 

— Creio, meu senhor, mas é preciso não pou- 
par nem deixar em descanço o inimigo. Elle é 
poderoso pelo numero. Não se i Iluda Vossa 
Magestade com o dia de hontem. 

O imperador, visivelmente triste, ficou a 
•olhar no frade, muito fito. 

Depois frei Simão bosquejou os infelizes amo* 



282 Romance histórico 

r€s de José Máximo, o liberal exaltado, com 
Anninhas, rnja doença descreveu também a 
traços largos 

— Pobre senhora! disse commovido o impe- 
rador. Eu tive na minha familia um triste exem- 
plo do que são as doenças nervosas. Minha 
avó . . . Mas nào sabes — perguntou com súbita 
transição — o que é feito do estudante? 

— Não sei, meu senhor. Comtudo José Má- 
ximo era tão brioso, que receio nào lhe soífres- 
se o animo resistir á nódoa do roubo feito aos 
lentes. 

— Foi eífectivamcnte um desatino, disse D. 
Pedro, que nada aproveitou á nossa causa. Me- 
lhor elles viessem agora defendel-a com as ar- 
mas na mão. Ahi trago eu um dos estudantes, 
o Solano, que é alferes de caçadores 5, ^ que 
procura resgatar pelo arrependimento e pelo 
valor a memoria do passado. 

Frei Simão roçou muito de alto pelos seus 
próprios soffrimentos e trabalhos, mas voltou 
a fallar no juramento que tinha feito ao irmão 
moribundo. 

— F como pensas em cumpril-o? 

— Com os meios que Vossa Magestade se di- 
gnar fornecer-me. 

— Quaes? 

— Dezoito ou vinte homens á minha escolha 
para organisar uma guerrilha. Nós não temos 
guerrilhas, e comtudo são um excellente meio 
de propagzinda para levantar a opinião nas pro- 
vindas. 

— Tens rasão. Vou dar ordem para que te se- 
jam concedidos os homens que escolheres. Mas 
lembro-te que não podemos distrair muita geate. 



A guerrilha de frei Simão 283 

— Poucos me bastam, meu senhor, comtanto 
que eu os escolha. 

— Concedido. Até á vista, frei Simão, e boa 
fortuna. Enthusiasma-me bem essas aldeãs. Vou 
dar ordem. Espera, que te será entregue ago- 
ira mesmo. 

O frade sahiu, e D. Pedro veio aporta, cha- 
mando para fora: 

— O' Villa PUor! vem cá. 

N*esse mesmo dia, frei Simão principiara a 
recrutar os seus companheiros de aventura 
pelas boas informações, que a respeito d'elles 
poderá colher. Dois, como que lhe cahiram do 
ceu. Um era o Marques, que por caso nenhum 
se dispensou de seguir o destino do amo. O 
outro era José de Oliveira, que já conhecíamos 
da casa do Outeiro, e que as irmãs de frei Si- 
mão, inquietas pela demora do Marques, tinham 
mandado ao Porto para saber noticias. 

No dia 15 de julho a guerrilha estava prom- 
pta a marchar. 

O desejo do frade seria dirigir-se logo a Ce- 
zár, para tranquillisar as irmãs e justar contas 
com os seus adversários, seguindo depois para 
Arouca a cumprir o juramento que fizera. 

Chegara a dizer a Francisco Marques: 

— Vamos n*um pulo ao Outeiro socegar as 
senhoras. Se encontrarmos a geito Ignacio da 
Fonseca, pedir-lhe-hei que restitua a saúde a 
minha irmã Anninhas. * . 

Mas frei Simão foi despedir-se do imperador 
na noite d'esse dia. 

D. Pedro, que, como sabemos, se levantava 
muito cedo, jantava tarde, nunca antes das 
oito horas, porque primeiro cuidava dos nego- 



284 Romance histórico 

cios da guerra que de si mesmo. A vida tra- 
balhosa do Porto veio a ser a principal causa 
da sua morte prematura. 

O imperador recebeu frei Simão quando aca- 
bou de jantar. Estava no Paço o conde de 
Villa Flor, que assistiu á audiência. 

Então D. Pedro lembrou ào frade a conve- 
niência de se demorar algum tempo pairando 
nas cercanias do Porto para facilitar a passa- 
gem dos fornecimentos e limpar do terreno as 
pequenas guerrilhas, que se entregassem á pi- 
lhagem. 

Teremos occasiào de ver que esta indicação 
era previdente; mas podemos saber desde já 
que ella contrariou a impaciência do frade. 

Pouco antes da guerrilha partir, Francisco 
Marques perguntou a frei Simão: 

— Sempre vamos então a Cezár? 

O frade respondeu de mau humor: 

— Fica sabendo que não tens d*aqui em 
"deante o direito de fazer perguntas. Ks solda- 
do, cumpre-te obedecer-me, como eu também 
obedeço aos meus superiores. E mais nada, ou- 
viste? 



# 



XXIV 

José Máximo 



vsRRhuDdu e pobre, e aa 

Cí qUBiilo finvilmim 

evoDilre Kejcuisno— lA t 



José Máximo da Fonseca não se julgou se- 
guro em Hespanha, onde a seita apostólica» 
protegida pela Princeza da Beira, poderia per- 
seguil-o, se' descobrisse a sua identidade. 

Depois de ter passado enormes trabalhos, 
dos quaes o menor seria a fome, nietteu-se aos- 
Pyreneos, caminho de França. 

Singular apego parecia ter á vida este des- 
gfíçado homem, a quem ella pesava como um 
infortúnio irremediável. Só a esperança alimen- 
ta a existência dos infelizes, e José Máximo- 
havia perdido a esperança. Por isso acho eu 
singularissima a energia com que fugia aos al- 
gozes um homem, que fora o primeiro algoz 
de si mesmo. 

Em França, como em Hespanha, vivía famin- 
tamente do seu officio de caldeireiro ambulan- 
te. Se ganhava dois ou trez sous, nâO ambicio- 
nava mais, e aturdia-se interessando- se pelos- 



2 86 Romance histórico 

acontecimentos políticos que prefaciaram a que- 
da de Carlos X e o advento de Luiz Filippe 
ao throno. 

José Máximo odiava Carlos X, que fizera cor- 
rer o sangue do povo, e via no duque de Or- 
leans o salvador da França constitucional. 

A accidentada odyssea d'cste principe, que 
tinha abraçado os princípios de l/Sçeapplau- 
dido a tomada da Bastilha, o seu alistamento 
no exercito republicano, o seu exilio na Suissa, 
a necessidade de vender os seus cavallos e de 
desempenhar o logar de professor de geogra- 
phia, os seus longos errores pelo norte da Eu- 
ropa, a sua viagem ao Novo-Mundo, todas as 
aventuras politicas d'este principe liberal, que 
conspirava ao lado dos constitucionaes e de 
Lafayette, faziam com que José Máximo en- 
contrasse affinidadcs biographicas entre o des- 
tino do duque de Orleans e o seu. 

A 29 de julho de 1830, José Máximo ban- 
deou-se com o povo, que invadiu o Louvre e 
as Tulherias, e que saudou com enthusiasmo a 
reappariçào da bandeira tricolor, proscripta ha- 
via quatorze annos, sobre o zimbório do palá- 
cio real. 

Viu o general Lafayette occupar o Hotel de 
ville^ convertido em quartel-general da insur- 
reição. 

Quando soube que Carlos X havia retirado 
as Ordenanças e demittido o gabinete, sorriu 
de desdém, repetindo a phrase de Schonen, que 
desde logo se tornara celebre: «// est trop 
tardl» 

Parava ás esquinas das ruas de Pariz e com- 
mentava com fervorosa adhesão os pasquins 



A guerrilha de frei Sifnâo 287 

que proclamavam o duque de Orleans como un 
roicitoyen escolhido pelo povo e baptisado pela 
revolução. 

Um legitimista, que o ouviu sustentar estes 
pmncipios democráticos, não lhe reconheceu a 
qualidade de extrangeiro, tào bem José Máxi- 
mo fídlava o francez, mas foi reflexionando com- 
sio[^o mesmo: 

— A canalha quer a Carta, embriagada pelo 
poderio de fazer e desfazer reis! O futuro es- 
magará a canalha. 

Estas palavras bem as podia ter pensado al- 
gum absolutista portuguez em 1826. 

No dia em que o duque de Orleans entrou 
em Pariz, como logar-tenente general do reino, o 
espirito de José Máximo delirou de jubilo quan- 
do viu representado o ideial de uma realeza 
democrática, meio republica e meio monarchia, 
na pessoa de um príncipe que se apresentava 
aos seus súbditos como um burgucz patriota: 
de chapéu baixo e rozêta tricolor na botoeira. 

Na proclamação em que o duque de Orleans 
falk u aos habitantes de Pariz havia uma phrase, 
que recordava a José Máximo outro ideial já 
para elle consagrado pelo sê!lo angustioso das 
suas próprias lagrimas. Era esta: «í///^ Cliarte 
será d é sor ma' s une verité», Parecia-lhe ser tra- 
ducção fiel do grito constitucional que Sal- 
danha tinha levantado no Porto para fazer ju- 
rar a Carta de D. Pedro. 

Confundido com a multidão, José Máximo 
viu o duque de Orleans apparecer a uma das 
janellas do Hotel-de-Ville desfraldando a ban- 
deira tricolor. N'esse momento a monarchia, 
personificada em Luiz Filippe, recebia da re- 



288 Romance histórico 



publica, representada em Lafayette, o baptismo 
da democracia; surgia, segundo a própria ex- 
pressão de Lafayette, um throno popular, eni 
nome da soberania nacional, rodeado de insti- 
tuições republicanas. 

A onda de liberdade, que inundava a Fran- 
ça, chegava até ao coração de José Máximo. 

A fogosa imaginação do infeliz portuguez 
acreditava mais do que devia na sinceridade da 
politica. KUe, um exaltado, cnganou-se, o que 
aconteceu também a Lafayette, porque a mo- 
narchia de Julho não foi a melhor das republicas. 

Mas José Máximo, cabeça enthusiastica, ar- 
dente de ideiaes generosos, cria na redempçào 
da França pela liberdade, e na sua influencia 
como elemento modificador do velho regimen 
politico de toda a Europa. 

Assim como o ébrio entrevê, atravez dos 
fumos da embriaguez, as imagens confusas da 
vida real, José Máximo, recebendo directamen- 
te as impressões da «grande semana de Julho», 
enxergava ao longe, perdido nos nevoeiros do 
passado, o vulto de D. Anna de Vasconcellos, — 
a sombra querida que povoava todo o .seu mun- 
do de recordações dolorosas. 

Em seguida á tragedia do Cartaxinho, José 
Máximo, julgando-se irremediavelmente perdi- 
do, apenas pensara em apagar em si mesmo o 
labéo de um crime monstruoso, a que involun- 
tariamente se associara. Até a physionomia des- 
figurou n'um momento de desespero. Agora, 
ainda que novos acontecimentos políticos vies- 
sem absolver o criminoso, tudo estava perdido 
para o homem que já não poderia voltar sobre 
o passado. 



A guerrilha de frei Simão 289 



Dado que cheg^asse a realisar-se a hypothese 
de D. Anna de Vasconcellos resistir á commo- 
ção do primeiro momento, elle nâo ouzaria ap- 
parecer-lhe na hediondez do seu disfarce. 

Por isso procurava embriagar-se com o pri- 
meiro vinho que encontrava á mão, e a liber- 
dade era ainda, como sempre fora, a melhor 
embriaguez para um espirito que tanto amava 
a liberdade. 

Proclamado rei Luiz Filippe, a revolução de 
julho foi como uma corrente eléctrica, que im- 
mediatamente poz em vibração a Bélgica, op- 
premida pela HoUanda. 

A 24 de agosto são destruídos em Bruxellas 
os preparativos das festas publicas, que de- 
viam realisar-se em honra do soberano hollan- 
dez. Era o prologo da independência, o cartel 
de desafio arremessado por um povo oppremido 
contra os seus dominadores. A Bélgica suble- 
vava-se para quebrar o jugo que a prendia á 
Hollanda; de novo se insurgia, sedenta de li- 
berdade como no tempo do dominio dos roma- 
nos, dos hespanhoes e dos austríacos. 

José Máximo foi attraido por esse sympa- 
thico movimento de toda a Bélgica; precisava 
continuar a embriagar-se politicamente para 
supportar a vida com menos enfado. 

Não vacillou, pois, um momento. 

Com a sua ferramenta de caldeireiro ambu- 
lante, metteu-se ao caminho, dirigindo-se para 
o norte, procurando a fronteira. Seguindo a 
estrada de Lille, ladeada por campos abertos, 
que de nenhum modo representam qualquer 
divisão natural entre os dois paizes, José Má- 
ximo, chegado á fronteira convencional da 

19 



290 Romance histórico 

França c da Bélgica, esperou que anoitecesse 
para illudir a vigilância do posto de registo de 
Hertuin, onde os passaportes costumavam ser 
visados. Ao transitar de paiz para paiz, o po- 
bre foragido precisava recorrer aos processos 
de que se valem os contrabandistas e os saltea- 
dores, porque nenhum documento legal podia 
apresentar para ter direito ao livre transito. 

Foi encontrar cm Bruxellas um espectáculo 
mais dramático ainda do que aquelle que havia 
presenceado em Pariz, porque em França, Car- 
los X tinha abdicado logo que soube que quinze 
mil parisienses, commandados pelo general Pa- 
jol, se aproximavam de Rambouillet, mas em 
Bruxellas, nos últimos dias de setembro, quinze 
mil hollandezes incendiavam a cidade com ba- 
las ardentes e foguetes de Congreve. 

E ao chammejar sinistro dos incêndios, o 
povo belga defendia-se heroicamente, como um 
leão. 

José Máximo largou os seus utensílios de cal- 
deireiro, e pegou n'uma arma para sustentar a 
resistência de um povo escravisado contra as 
prepotências do rei dos Paizes-Baixos. 

N*um dos mais calamitosos dias da subleva- 
ção, quando Bruxellas parecia uma fornalha ati- 
çada pelos hollandezes, José Máximo encontrou- 
se na barricada da porta de Hal com um vo- 
luntário extrangeiro, que immediatamente re- 
conheceu. 

O tiroteio era vivíssimo, a lucta desespera- 
da, mas os hollandezes foram rechaçados, e 
trataram de vingar-se atirando para dentro da 
cidade as bombas incendiarias, os Congreves 
destruidores. 



A guerrilha de frei Simão 29 1 

Na primeira hora de descanço após a refre- 
ga, José Máximo chegou-se ao voluntário, e 
disse-lhe abruptamente em francez; 

— Não esperava vir encontrar aqui outro por- 
tuguez a defender, como eu, a independência 
da Bélgica! 

O voluntário inediu de alto a baixo, com sur- 
presa e desconfiança, José Máximo, cuja phy- 
sionomia lhe devia ter produsido repulsão. 

^— Engana-se ! Eu não sou portuguez, res- 
pondeu, no mesmo idioma, o voluntário. 

— Prouvera a Deus que me enganasse, repli- 
cou José Máximo, porque então não teríamos 
occasião de reconhecer-nos um ao outro como 
victimas de uma grande fatalidade . . . 

— Senhor ! exclamou o voluntário, avançan- 
do para ]^sé Máximo. 

— Francisco Cesário Rodrigues Moacho! bem 
vês que te conheço. Não receies atraiçoar-te, 
porque estamos n'um paiz que ama a liberdade 
até o ponto de querer conquistar a sua inde- 
pendência com as armas na mão. E, quanto a 
mim, fica sabendo que nada tens a temer, tam- 
bém. Somos dois emigrados, pelo mes 110 mo- 
tivo. . . 

Rodrigues Moacho ficou surprehendido com 
as palavras d*essc extranho homem, que não 
conhecia. 

José Máximo percebeu o que sz passava no 
espirito do antigo presidente da sociedade dos 
Divodignos, 

— Não me conheces, disse elle, e tens razão. 
Do homem que eu fui não resta senão a tor- 
mentosa memoria de mim próprio. Na matri- 
cula da Universidade chama va-me José Maxi- 



292 Romance histórico 

> i 

mo da Fonseca; mas entre a academia talvez 
que não esteja ainda apagada a lenda portuen- 
se do Fresca Ribeira . . . 

—Tu ? ! 

— Eu mesmo. 

— Mas essas queimaduras e cicatrizes ? ! 

— São o disfarce de um criminoso ou, antes,, 
a mascara do foragido, porque Deus sabe se 
estou innocente. 

Rodrigues Moacho ficou horrorisado com a 
narrativa dos soffrimentos e trabalhos de José 
Máximo. Combatendo um ao lado do outro, 
como voluntários, pela independência da Bél- 
gica, a antiga amisade dos dois académicos de 
Coimbra renascia e retempera va-se na adversi^ 
dade de um destino commum. 

O baterem-se pela liberdade, posto que env 
terra extranha, era para elles um lenitivo que 
a coincidência de se haverem encontrado tor- 
nava ainda maior. 

Mas o exercito hollandez, repellido em Bru-- 
xellas e outras cidades do Brabante, havia-se. 
refugiado em Antuérpia, seu ultimo reducto» 
no território belga. 

Rodrigues Moacho e José Máximo tiveram,, 
pois, que depor as armas, ainda antes do mez 
de novembro, que foi quando, intervindo a di~ 
plomacia, as potencias tomaram conta da ques- 
tão e reconheceram, na conferencia de Londres,, 
a independência da Bélgica. 

Não permittiu Rodrigues Moacho que José 
Máximo continuasse a vestir a sua blusa de 
caldeireiro ambulante, e a exercer esta profissão,, 
mas José Máximo parecia contrariado de ter 
que obedecer a tão dedicada exigência. 



A guerrilha de frei Simão 293 

Juntos davam longos passeios pelo campo» 
conversando memorias e tristesas de sua vida 
com mu m. Mais de uma vez metteram pela lin- 
da estrada que de Bruxellas vai ao bosque de 
Soigne e fizeram, sem quasi dar por isso, um 
passeio de cinco léguas. Duas suggestões, por 
igual attractivas, os chamavam para aquelle si- 
tio: a belleza do bosque, pelo meio do qual 
passa a estrada, e a recordação histórica da ba- 
talha de Waterloo, onde o colosso napoleónico 
desabara. 

José Máximo, que detestava os tyrannos, — 
e assim classificava elle Napoleão — ligava, com- 
tudo, ao vencido de Waterloo uma saudosa 
memoria da sua própria existência: o napoleão 
de oiro^ que frei Simão lhe havia dado, que elle 
conservara nas maiores privações, e que offe- 
recêra aos seus dedicados hospedeiros de Hes- 
panha. 

Um velho camponez explicou aos dois por- 
tuguezes, n*um d*esses passeios, que a batalha 
não terminara precisamente ali, em Waterloo, 
aldca onde estivera o quartel-general inglez, 
mas á distancia pouco mais ou menos de uma 
milha, em Haiesainte. 

— Aqui ou ali, pouco importa,*respondeu José 
Máximo, o que é certo é que este ceu viu des- 
penhar-se o monstro, que devorava nações e 
despedaçava exércitos. Napoleão cahiu porque 
.acima da sua ambição pessoal não haviaum ideial 
«de justiça, um principio de philosophia social. 
'Os princípios triumpham sempre; é questão de 
tempo. Os homens succedem-se, e passam. 

Por muitas vezes Rodrigues Moacho notara 
que José Máximo parecia constrangido com a 



294 Romance histórico 

cordeal hospedagem, que lhe dava; e até o ou- 
vira referir se vagamente a sahir da Bélgica. 

— Mas onde queres tu ir? pergunta va-lhe, ad- 
mirado, o ex-presidente da sociedade dos Di^ 
vodignos. 

— Eu sei lá! Pergunta tu á folha seca, que 
o vento despegou da arvore, onde ella irá pa« 
rar! Não sabe! 

E encolhia melancolicamente os hombros. 

Na primavera de 1831 chegou á Europa a 
noticia da revolução do Brazil e da abdicação 
de D. Pedro. 

Este acontecimento pareceu produzir uma 
grande impressão no espirito de José Máximo. 

Um dia, Rodrigues Moacho, ao accordar pela 
manhã, deu pela falta do amigo. Não o encon- 
trou, mas achou uma carta, que explicava a 
sua ausência: 

«Meu querido Moacho. 

«Deste -me, durante muito tempo, uma cor- 
dealissima hospedagem, de que eu conservarei 
gratidão eterna Mas não era digno de um ho- 
mem consciencioso e válido viver indefinida- 
mente dos fivores da amisade. Parto, sem sa- 
ber para onde. Voltando á miséria em que vi- 
via antes de te encontrar, continuo a justa ex- 
piação dos meus erros passados. 

José Máximo.» 

Rodrigues Moacho exclamou ao ler esta ines- 
perada carta: 

— Sempre digno, até mesmo nas mais teme- 
rárias resoluções. Loucura da honra, a sua! 

Moacho, que nunca mais sahirá da Bélgica, 
não tornou a ver José Máximo da Fonseca, 



A guerrilha de frei Simão 295 



D. Pedro desembarcou em Cherbourg a 12 
de junho. Mas o brigue francez, que conduzia 
a rainha de Portugal para a Europa, teve mais 
demorada viagem, só a II de julho aportou a 
Brest. 

Era a segunda vez que essa linda princesi- 
nha, ainda na infância, sahia do Brazil, onde 
nascera, para vir correr aventuras politicas no 
Velho Mundo. 

Em 1828 partira do Rio de Janeiro desti- 
nada a educar-se na corte de seu avô em Vienna 
até que chegasse á idade de desposar o infante 
D. Miguel. Em Gibraltar, o marquez de Barba- 
cena, que acompanhava a jovem rainha, saben- 
do da usurpação realisada pelo infante em Por- 
tugal, mudou de rumo e levou D. Maria da 
Gloria para Londres. 

Na corte de Jorge IV, aquella linda menina, 
que contava apenas nove annos, foi recebida com 
honras reaes, mas nada tão falso e illusorio co- 
mo essas honras, porqwe a filha de D. Pedro 
IV começou por onde alguns reis tecm acaba- 
do: perdeu a coroa, de que o tio se apossara. 

Em agosto de 1829 D. Maria voltava para 
o Brazil, acompanhada pela princesa de Beau- 
harnais, que ia ser sua madrasta. 

Agora, dois annos depois, voltava á Europa 
como filha de um principe desthronado, sendo 
ella mesma desthronada também, 

D. Pedro, que de Cherbourg tinha ido para 
Londres, tornou a França, ao encontro da 
filha. 

Celebrava-se em Pariz o primeiro anniversa- 
rio da revolução de Julho. Os ânimos estavam 
ainda muito agitados, os legitimistas não ti- 



296 Romance histórico 

nham perdido occasião de provocar tumultos, 
m;ts as festas do anniversario deram aos pari- 
sienses um espectáculo alegre, que é a coisa 
que elles mais apreciam. 

Ao lado de LuizFílippe apparer.êra n'esses 
dias festivos o desthronado imperador do Bra- 
zil: D. Pedro atirava o seu chapéu ao ar, quan- 
do ouvia vivas aos polacos, que a Rússia esta- 
va absorvendo pela força, e apertava, como 
Luiz Filippe, a mão ás deputações de operá- 
rios. 

José Máximo da Fonseca viu isto, esta con- 
fraternisaçÃo de dois reis democratas com o 
sentimento popular, e também atirou ao ar 
enthusiasticamcnte o seu velho chapéu de cal- 
deireiro ambulante, á semelliança do que tinha 
feito no Porto nos dias felizes de 1820. 

D. Pedro voltou, com D. Maria da Gloria, a 
Londres, e ahi, sob o tecto de um hotel-, essa 
jovem, mas desditosa rainha, recebeu das mãos 
' dos seus partidários emigrados a offerenda de 
um sceptro de oiro, quando era certo que nin- 
guém n'essa hora era menos rainha do que 
ella. 

José Máximo, em Pariz, evitava os emigra- 
dos portuguezes, alguns dos quaes reconhe- 
cera. 

A' volta da Bélgica, como antes, vivia só, 
no seu humilde mi.stér de caldeireiro, não se 
aproximando de ninguém. 

Era, como elle tinha dito a Rodrigues Moa- 

j, a folha seca varrida pelo vendaval. 

Em agosto, D. Pedro, sempre a braços com 
incertesas e fluctuações da sua complicada 

uação, voltou a Pariz. 



A guerrilha de frei Simão 297 

Luiz Filippe fez honra aos seus hospedes e 
offereceu-lhes castello de Meudon, pondo á 
disposição da familia de D. Pedro cavallos é 
carruagens, e ás suas ordens uma guarda de ca- 
pitão. 

A nove kilometros de Pariz, perto da mar- 
gem esquerda do Senna, Meudon, cora o seu 
outeiro, o seu castello e o seu bosque, é um 
sitio delicioso, que os parisienses adoram, es- 
pecialmente os namorados e os poetas. 

D. Maria II parecia uma fadasinha, branca 
e loira, destinada a povoar harmoniosamente 
aquelle bosque encantado, onde os castanhei- 
ros e os carvalhos deixavam cahir a doce som- 
bra dos dias calmosos do estio. 

Tinha então apenas onze annos, mas era um 
formoso esboceto de mulher: carnação feita de 
leite e rosas, olhos castanhos e vivos, cabeça 
altiva, boca a que o beiço grosso dos Bragan- 
ças não prejudicava a graça nem a firmesa. 

Apezar de creança, havia na sua plástica a 
redondez de formas que desabrocham cor- 
rectas, e no seu porte um cunho de reflexiva e 
consciente nobrcsa, que ia bem a uma prince- 
sa desthronada em plena infância. 

José Máximo, sempre solitário, galgava de 
propósito a estrada de Meudon para ver a jo- 
vem rainha de Portugal. Algumas vezes encon- 
trou no caminho, á ida ou á volta, o cura Dupan- 
loup, um padre de cerca de trinta annos, novo 
mas virtuoso c illustrado, que D. Pedro havia 
escolhido para director espiritual de sua filha (l). 
E José Máximo ia pensando comsigo mesmo: 



('1 Monsfiihor Oupanioup foi depois uraa daá glorias do episco. 
pado fidiicez. 



298 Romance histórico 

— Que este padre consiga firmar no coração 
da pequenina rainha as raizes da fé christà, 
porque ella, que parece ter nascido para soffrer, 
precisa encontrar no naufrágio da sua mallo- 
grada realesa alguma tábua de salvação, — a 
melhor. 

José Máximo sabia já as horas a que a rai- 
nha de Portugal costumava passciar de carrua- 
gem em Meudon, quasi sempre acompanhada 
pela sua preceptora D. Leonor da Camará. 

Um dia, em pleno outomno, a receita do cal- 
deireiro ambulante excedeu o orçamento ordi- 
anrio: ganhou mais alguns sous do que o cos- 
tume. Correu a comprar um ramo de marga- 
ritas, atou-o com uma pequena fita azul, e ca- 
minhou para Meudon. 

Era a hora em que a rainha passeiava no 
bosque, cujas folhas o outomno começava a va- 
rejar. 

José Máximo aproximou-se da caléça, estcn- 
deu o braço direito, offercceu o ramo. 

A jovem princesa teve um momento de he- 
sitação, mas D. Leonor da Camará disse-lhe 
que acceitasse o bouquet, 

A carruagem continuou rodando, e José Má- 
ximo seguiu-a com os olhos, pensando, não já 
na rainha, mas em D. Anna de Vasconcellos, 
que a rainha tanto lhe fazia lembrar na côr das 
faces e na dignidade graciosa do porte. 

Em fevereiro de 1832, D. Pedro partiu de 
Belle-Isle com a expedição para os Açores. 

José Máximo ficou. 

— Eu associei-me a um crime — raciocinava 
elle — em nome da liberdade do meu paiz; des- 
honrei-a e deshonrei-me. Acceito o horror da 



A guerrilha de frei Simão 299 

expiação, c a consciência não me accusa de 
cobardia, porque ainda não vai longe o tempo 
em que senti assobiar as balas dos hoUande- 
zes n*uma terra extranha. Um soldado deve 
poder combater de rosto descoberto, e eu te- 
nho vergonha de mim próprio. Se algum dia 
a saudade da pátria apertar tanto comigo que 
lhe não possa resistir, entrarei no meu paiz 
com o mesmo disfarce com que fui obrigado a 
sahir de lá. Sou um anonymo; envileci o meu 
nome. Já não sou ninguém. 



w 



XXV 

Deus escreve direito por llnhíis lorlas 



1 Deus; que 
""o fundiir 

icuao ac eira, mas de 
t Manuel Beruirdee— 



' Quando a expedição liberal desembarcou, as 
tropas miguelistas que tinham acampado junto 
a Villa do Conde, calculando que era impos- 
sivel a sua juncção com as do Porto, retiraram 
sobre a estrada de Amarante; e as que esta- 
vam postadas em Leça, avançaram para a ci- 
dade, passaram o Douro de madrugada, corta- 
ram a ponte, e alojaram-sc nas alturas de Vil- 
la Nova. 

Assim deixaram o campo livre aos rocem- 
chegados ! 

Para responder ao tiroteio que de Villa No- 
va era dirigido contra a cidade, algumas em- 
barcações da esquadra de D. Pedro, subindo o 
Douro, estacionaram defronte das posições oc- 
cupadas pelos miguelistas e obrigaram-n'os a 
desalojar. 



302 Romance histórico 

Uma divisão liberal, passando o rio em bar 
cos, foi em perseguição do inimigo. 

Assim também perderam os miguelistas uma 
excellente occasião de fortificar-se logo em Villa 
Nova, e o medo foi tamanho que Santa Martha, 
não se julgando seguro em Grijó, retirou sobre 
Oliveira de Azeméis. 

Frei Simão ficou pairando, com a sua guer- 
rilha, nas visinhanças do Porto, em cumprimen- 
to das ordens do imperador. 

Não tinha um momento de descanço. Umas 
vezes combatia contra as guerrilhas miguelis- 
tas, como aconteceu na tarde de 1 1 de agosto, 
em Avintes, onde perseguiu alguns homens do 
visconde de Montalegre, atravessando o rio em 
seguimento d'elles até ás portas da cidade, em 
S. Cosme; outras vezes, como na noite d*ess.e 
mesmo dia, em Kspinho, batia os piquetes, de 
soldados ou de paisanos armados, que preten- 
diam impedir a passagem de fornecimentos 
para o exercito liberal. 

A Chronica constituciojial do Porto com- 
meraorava estes feitos de frei Simão, noti- 
ciando no seu numero correspondente a 14 de 
agosto: 

«Sabemos com certeza que a guerrilha con- 
stitucional commandada por frei Simão, surpre- 
hendeu no dia 11 do corrente ás IO horas da 
noite, no logar chamado Espinho, uma guarda 
de 20 paisanos ali postada para impedir o for- 
necimento d'esta cidade. A nossa gente lhe ma- 
tou 4, prendeu 6, e o resto fugiu dispersado. 

«O mesmo commandante perseguiu em Avin- 
tes na tarde de 11 alguns ladrões da força do 
visconde de Montalegre, e veiu batendo a 



A guerrilha de frei Simão 303 

estrada até ás portas de S. Cosme nVsta ci- 
dade.» 

No fim de agosto ainda a guerrilha de frei 
Simão pairava sobre a margem esquerda do 
Douro, vigiando a cidade. 

A Chronica de 28 d 'esse mez publicava a se- 
guinte informação datada do dia anterior; 

«Hontem pelas nove horas da noite pegou 
em armas toda a guarnição da Serra, porque 
os rebeldes se haviam aproximado das nossas 
linhas. A guerrilha de frei Smiào retirou al- 
gum tanto, porque a força inimiga, dividida 
em duas columnas, mostrava apparencias de a 
querer flanquear. Em consequência da parte 
dada por frei Simão, foram immediatamente 
reforçados todos os nossos pontos; a força 
com mandada por frei Simão matou trez guer- 
rilheiros, e ao romper da manhã o campo es- 
tava limpo de inimigos. Soube-se que a força 
que está nos Carvalhos consiste em duas peças 
de artilheria, alguma cavallaria, parte do regi- 
mento 24, e guerrilhas.» 

Frei Simão, impaciente de ir a Cezár, apro- 
veitou a evolução que fora obrigado a fazer 
na noite de 26 de agosto, para affastar-se do 
Porto. Salvava-se ao mesmo tempo de ser flan- 
queado pelas duas columnas inimigas, e reali- 
sava o seu mais ardente desejo. 

Muitas vezes tinha elle pensado em que uma 
bala miguelista o poderia matar antes de justar 
contas com os perseguidores da sua família e 
de arrancar Margarida Cândida ao cárcere con- 
ventual de Arouca. Kssa ideia atormentava-c, 
mas, no momento em que o perigo era immi- 
ncntc, quando chegava a hora de combater, 



304 Romance histórico 



frei Simão arremessava -se, destemido, contra 
os seus adversários, e o receio da morte apa- 
gava-se completamente no seu espirito. 

Os adversários detestavam -n*o, porque o te- 
miam. Esse representante do clero liberal, tào 
valente como guerrilheiro e tão celebrado pela 
sua já lendária dedicação á causa da Rainha e 
da Carta, irritava os miguelistas a ponto que 
julgavam um grande triumpho o poder surpre- 
hendel-o e aniquilal-o. 

Frei Simão apenas dispunha de um braço, 
como sabemos. Mas na destresa da pontaria 
não o excediam nem igualavam os melhores 
atiradores. 

Todas estas circumstancias avultavam a len- 
da da sua heroicidade, e chamavam sobre elle 
a attenção e o ódio dos adversários. 

Desde o mez de agosto que no Porto deixa- 
ram de receber-se noticias de frei Simão. 

O imperador, que de nada se esquecia, pen- 
sava algumas vezes no seu famoso guerrilhei- 
ro, e respondia aos que lhe falia vam d 'elle : 

— Frei Simão deve estar a caminho de Arou- 
ca, se já lá não estiver. 

Houve quem perguntasse a D. Pedro: 

. — Mas que razão poderia elle ter para tão 
aventurosa marcha? 

D. Pedro respondeu laconicamente: 

— Um juramento. . . 

O que é certo é que, na Chronica constitu- 
cional do Porto, se fez um longo silencio sobre 
o destino de frei Simão no decurso de agosto 
a setembro. 

Mas nós, que temos presentes os autos de 
summario e a respectiva devassa rapidamente 



A guerrilha de frei Simão 305 

•• ' m I ■ 

instaurados mais tarde contra frei Simão, e 
que podemos, por outras noticias fidedignas, 
corrigir o que ha de invenção facciosa n'esses 
documentos judiciaes, vamos encontrar a guer- 
rilha no dia 8 de setembro em caminho de 
Cezár. 

Não podemos comtudo explicar a demora da 
marcha, a hão ser pelas difficuldades do trans- 
ito provenientes do encontro e das escaramu- 
ças com numerosas guerrilhas miguelistas. 

Diz a devassa que frei Simão tinha sahido 
do Porto na noite de sete de setembro. Não é 
exacto. O silencio da Chronica constitucional 
abona a negativa. Frei Simão não tornou a en- 
trar na cidade, o que seria contradictorio com 
os fins da sua missão. Também diz a devassa 
que a guerrilha se compunha de cerca de qua- 
renta homens. Pode ser que tivesse augmcnta- 
do em numero pela adhesão de alguns volun- 
tários, mas quando sahiu do Porto não excedia 
vinte homens. 

O que é certo, porém, é que frei Simão, com 
a sua gente, appareceu em Cczár no dia 8 de 
setembro pela manhã. 

Toda a guerrilha, incluindo o com mandante, 
vestia jaqueta de policia, como então se dizia, 
com boné listado de azul e branco. 

Pelo querespeitava ásua pessoa, parecia a frei 

Simão que o uniforme militar era mais decente 

do que o habito arregaçado, a calça justa, as 

botas de montar, a banda e a espada á cinta, 

o bacamarte a tiracol com que ordinariamente 

os frades miguelistas se exhibiam no comman- 

do das suas respectivas guerrilhas. 

Frei Simão aperxas trazia, como distinctivo 

.20 



3o6 Romance histórico 

^^^^■^^^— ■ ■ ■ I ■ II ■■! ■» I^B^^^^I^^^^B» ■ ■■ I H ■ ■ I I I ■■^^^^■^ I PM I ÍM ^— ^il^i^^^— ■ ■ ■ —■i^^■^^— 

— ^■i^ ■ II I 11 II III I ■■ ■ I ^^a^M^ 

do estado ecclesiastico, a cruz peitoral entalada 
entre a camisa e a jaqueta. 

A devassa, no seu propósito de aggravar as 
responsabilidades de frei Simão, diz que elie 
entrara em Cezár dando tiros, matando, incen- 
diando. Não foi assim. 

* Logo que chegou, o frade deu voz de des- 
canço á guerrilha, e foi, elle só, bater á porta 
do Passal. 

Alguns timidos camponezes, que se metteram 
cm casa cheios de medo quando avistaram o 
frade do Outeiro á frente de um bando de ho- 
mens armados, julgaram que era chegado o seu 
ultimo momento. 

Mas, depois que elle passou, espreitaram-n*o 
com olhos de lynce, nào sem alegre surpresa 
por a guerrilha nâo ter incommodado ninguém. 

Viramn'o dirigir-se ao Passal, e conjectu- 
raram que o abbade e o coadjuctor seriam, por 
sua categoria, as primeiras victimas da vin- 
gança de frei Simão. 

O povo, tendo sempre ouvido dizer a Igna- 
cio da P^onseca e outros absolutistas que o fra- 
de era maçon, julgava-o inimigo irreconciliável 
do throno e do altar. 

Frei Simão, sem fazer reparo nas flores e 
estatuetas do jardim, subiu a escada de pedra 
e entrou na Residência, nào como um adversá- 
rio, mas como um pacifico e agradecido amigo. 

Padre António Pinheiro não estava. Tinha 
ido a Oliveira de Azeméis confessar, por de- 
dicação, um velho entrevado, antigo parochia- 
no de Cezár, que mudara de terra, e nào qui- 
zera mudar de confessor. Mas o abbade Morei- 
ra Maia, que era, como sabemos, um migue- 



j 



A guerrilha de frei Simão 307 

lista tolerante, e que por padre António havia 
sido informado de tudo o que se passara com 
frei Simão, recebeu delicada e bondosamente 
ossa inesperada visita. 

— Não quiz passar aqui, disse4he o frade, 
sem vir agradecer o hospitaleiro acolhimento 
com que o padre coadjuctor me deu asylo, 
quando d*elle careci. Agradeço em primeiro 
logar ao sr. abbade, porque estive sob o seu 
tecto, e á sombra da sua tolerância; mas de- 
sejo mais uma vez testemunhar a minha gra- 
tidão áquelle que, na ausência do sr. abbade, 
tão bem comprehendeu e honrou a hospitali- 
dade christã. 

O abbade explicou o motivo da excepcional 
ausência de padre António; e frei Simão mos- 
trou sincero sentimento de o não poder ver e 
abraçar. 

— Vossa Reverencia, apostrophou, de golpe, 
Moreira Maia, veio só?! Não vê que soou a ter- 
rivel hora de uma guerra fratricida, e que, por- 
tanto, se expõe a novos e grandes perigos?! 

— Vejo, respondeu o frade, mas tenho ple- 
na confiança na minha guerrilha. 

— E' pois certo o que constava! Vossa Reve- 
rencia vem a Cezár em som de guerra!? Vae 
então correr sangue! Oh! que desgraça! que 
desgraça! 

— Os meus homens estão acolá em descanço, 
com as suas armas ensarilhadas, respondeu 
frei Simão indicando o sitio onde a guerrilha 
fizera alto. Bem vê Vossa Senhoria que não te- 
nho pressa de fazer correr sangue, comquanto 
tenha fome e sede de justiça. 

— Mas, por Deus! sr. frei Simão, se as minhas 



308 Romance histórico 

supplicas podem valer de alguma cousa, suppli- 
co-lhe que seja generoso e magnânimo. O san- 
gue nào remedeia as desgraças consumadas, 
antes as aggrava, porque atiça os ódios ê cla- 
ma vingança. 

— Vossa Senhoria, que sempre tem sido to- 
lerante, e cujo coração padre António conhecia 
melhor do que eu quando me offereceu segura 
hospedagem, afere os sentimentos alheios pe- 
los próprios, e não poderá comprehender, por 
isso, quanto os meus adversários teem ferido, 
esmagado o meu coração, quanto as minhas 
desgraças, devidas a elles, e as de toda a mi- 
nha familia me teem feito soffrer ha tão longo 
tempo! 

— Pelo amor de Deus! sr. frei Simão! lem- 
bre-se de que Jesus Christo perdoou aos dei- 
cidas que o crucificaram. Tem soíFrido, é certo, 
não o negarei eu, mas pague-se da sua desgra- 
ça deixando que os outros, errantes agora e 
foragidos, soifram igual tormento. Não exa- 
gere a sua desforra, não appelle para o mor- 
ticínio. 

— Vossa Senhoria sabe que eu não sou uma 
fera, mas esperei, sofFrendo, a hora da justiça, 
da justiça apenas, sr. abbade, e essa hora aca- 
ba de soar. Acceitarei as resoluções da Provia 
dencia. Foi Deus que assim o quiz. Os desí- 
gnios da Providencia acceitam-se, não se dis- 
cutem. Esteja Vossa Senhoria tranquillo. Eu 
vou ali ao Outeiro ver minhas irmãs, que não 
sabem o que é feito de mim. 

— Só isso? perguntou o abbade tremulo de 
com moção. 

N'este momento, frei Simão viu a cabeça 



A guerrilha de frei Simão 309 

branca de Gertrudes Magna espreitando avida- 
mente a meio do corredor! 

— Venha cá, disse-lhe o frade, venha cá, santa 
e boa mulher, a quem devo muita dedicação. 
E' digna do virtuoso sobrinho que tem, — con- 
cluiu frei Simão voltando-se para o abbade e 
abraçando a velha. Mais uma vez, ao sr. abba- 
de, a padre António, a esta boa crealura re- 
novo a expressão de um eterno reconheci- 
mento. 

E sahiu, saudando respeitosamente o abbade. 

Gertrudes Magna, petrificada a meio da porta 
do corredor, exclamou soluçando: 

— Deus tenha piedade d'elle, que grandes 
perigos anda correndo! 

— Nem eu sei, replicou commovido o paro- 
cho, como elle poude chegar até aqui são e 
salvo! 

— E logo o meu padre não estar cá hoje! 
Bem dizia elle que não tornava a ver o sr. frei 
Simão! Também me parece agora que padre 
António dizia a verdade! 

O frade foi d'ali direito, com a sua guerri- 
lha,- a casa de Ignacio da Fonseca. Dispòz em 
cordão os guerrilheiros, e elle mesmo quiz ba- 
ter á porta. Ninguém veio abrir. Tornou a ba- 
ter. O mesmo silencio. 

— Ou abrem ou metto a porta dentro! gri- 
tou, com cólera, frei Simão. 

Então, um criado, tremendo como varas ver- 
des, veio abrir. Era o Manei Zarolho. 

Frei Simão, acompanhado apenas por dois 
homens, entrou altivamente. 

— Dize a teu amo, ordenou elle ao Zarolho, 
que lhe quero fallar. 



3 lo Romance histórico 

1 - — -— - - — — -. — 

— Meu amo, respondeu muito gago o criado^ 
nào está em casa. 

— Veremos isso, respondeu frei Simão en- 
trando. 

E começou a revistar minuciosamente a casa^ 

N'um dos quartos interiores encontrou a mu- 
lher de Ignacio da Fonseca, que estava de joe- 
lhos, com os olhos fechados, rezando dcante 
de um oratório. 

— Nào tenha Vossa Mercê receio, disse-lhe 
o frade. Devo suppol-a isenta de toda a culpa. 
Ninguém ousará maltratal-a. Mas seu marido 
onde está? 

— Meu marido, respondeu a pávida mulher^ 
abrindo a custo os olhos, meu marido fugiu de 
casa. 

~ Ah! fugiul Era a consciência do crime! EUe 
bem sabe que na casa do Outeiro ha uma po- 
bre crcatura, que lhe nào tinha feito mal ne- 
nhum, e a quem cUe condemnou a um soífri- 
mento atroz. 

— Meu Deus! meu Deus! 

— Se seu marido temesse Deus, não haveria 
feito o que fez. Fugiu? Pois bem, a justiça de 
Deus o alcançará onde quer que elle esteja. 

Frei Simão continuou a revistar todos os 
compartimentos do prédio. Ignacio da Fonseca 
nào apparecia; devia effecti vãmente ter fugido. 

Voltando ao quarto onde a dona da casa es- 
tava ainda ajoelhada, o frade disse-lhe.com in- 
timativa: 

— Senhora, os seus criados nào lhe fazem fal- 
ta, c eu preciso augmentar a minha guerrilha. 
Leval-os-hei comigo. Devem estar bem arma- 
dos. E a vida de Vossa Mercê responderá pela 



A guerrilha de frei Simão 3 1 1 

^-n — iT iiiiiiiiiii i' 

■^-■■fc^MWTM IIM ■ ■ I ■! J ■_ ^1 _ ,_± , I, , J ■ ■■ ■ I I I _ Jl II I _LI I I I - !■ " I !■ IM 

segurança da família do Outeiro. Ella por ella. 
Tendo fugido o dono da casa, não são pre- 
cisos aqui os criados, porque não ha quem 
os dirija. E na ociosidade poderiam lembrar- 
se de praticar algum malefício. Previno assiiii 
novas calamidades. Para o serviço de Vossa 
Mercê cá ficam as suas criadas, que devem che- 
gar. Dito isto, pode Vossa Mercê ficar tran- 
quilla, porque não correrá risco algum, se a 
minha infeliz familia não for aggravada. 

(^s criados de Ignacio da Fonseca não oífe- 
receram resistência a entrar no meio da guer- 
rilha. O frade distribuiu-lhes as armas e petre- 
chos que encontrou na busca a toda a casa. 

- O que tentar fugir, disse clle mandando 
marchar a guerrilha para o Outeiro, será fusi- 
lado como desertor. 

De todos os criados, o que mais tremia era 
o Manei Zarolho. 

Frei Simão pouco se demorou no Outeiro. 

Anninhas, que se alvoroçou ao vél-o, sentiu- 
se mais convulsa, mas o frade procurou aquic- 
tal-a dizcndo-lhe que a liberdade triumphava, 
e que o futuro compensaria todos os trabalhos 
e desgostos do passado. 

Era um meio indirecto de lhe dar uma vaga 
sensação de esperança. 

D. Maria Albina informou á puridade o irmão 
de que Anninhas continuava no mesmo estado, 
umas vezes peior, outras melhor, mas sempre 
concentrada e melancólica, fallando pouco. Ti- 
nha dias em que o tremor quasi cessava. Mas 
n'aquelles em que recrudescia, D. Anna passava 
muito mal as noites, apenas dormia somnos 
curtos, queixando-se de calor excessivo. 



312 Romance histórico 

^^^^■^^^^■—^-^^ ■ ^»^— ^^^^^^^^^^^^^^^^^^^ 

Desde que ella tornara a ver o frade, quando 
fugiu da cadeia, a doença entrara n'um período 
irregular, caprichoso, que principalmente pare- 
cia depender das modalidades psychicas, e das 
variações da atmosphera e da temperatura. 

Não era já a marcha franca, da paralysia agi- 
tante, mas uma irritabilidade nervosa, extre- 
mamente susceptível, que mantinha, comtudo, 
visíveis affinidades com essa terrível enfermi- 
dade no seu mais exacto diagnostico. 

Frei Simão dissera a D. Maria Albina: 

— Aqui só a inesperada apparição de José 
Máximo nos podia valer. 

— E o mano não sabe nada a esse respeito ? 

— Nada ! respondeu com funda tristeza frei 
Simão. 

Sahindo do Outeiro, o frade disse ás irmãs, 
principalmente a D. Anna, que estivessem tran- 
quillas, porque ninguém as incommodaría, e ac- 
crescentou, mostrando-se alegre e confiante, que 
não tardariam muito os dias felizes da victoria 
e da paz. 

Anninhas ouviu -o sem parecer acredital-o. 

K frei Simão sahiu com o coração amargura- 
do por comprehender a impressão que as suas 
palavras deixaram no espirito da irmã. 

Poz em marcha a guerrilha, e abalou com 
ella, internando-se no pinhal. 

A breve trecho mandou fazer alto. 

Ordenou aos criados de Ignacio da Fonseca 
que dessem quatro passos á frente. 

— Quero saber, intimou elle, quem foi que 
poz aquellc maldito papel na janella do Ou- 
teiro. 

P"ez-se um silencio profundo. O Manei Zarô- 



A guerrilha de frei Simão 313 

lho batia o queixo n'uma sezão de medo, quasi 
terror. 

— Foste tu, poltrão? perguntou o frade. 

— Fui eu, meu senhor, por ordem de meu 
amo. 

O Marques ia a metter a arma á cara. 

— Não quero que o mates! gritou o frade. 
Não faltarão balas para elle. Não ha maior cas- 
tigo para os poltrões do que prolongar-lhes a 
torturado medo. 

E, voltando-se para os fieis camaradas que o 
tinham acompanhado desde o Porto, disse : 

— Muita vigilância com este canalha, e com 
os outros. Vamos acampar aqui, porque eu 
quero observar se, suppondo-me já longe, ha 
novidade em Cezár. 

Receia va o frade de alguma represália con- 
tra as irmãs. 

Estabelecidas sentincUas no improvisado 
acampamento, frei Simão adormeceu. Estava 
fatigado physica e moralmente. 

Dormiu cerca de trez horas, e foi accordado 
á voz de alarme pelas sentinellas, que tinham 
avistado um forte destacamento de milicias. 

O frade ergueu -se de um salto, esfregou os 
olhos, cresceu na grandeza do seu vulto, como 
se o ódio o agigantasse. 

Dispoz a guerrilha em linhas de atiradores. 
Na frente, os criados de Ignacio da Fonseca. 
O Zarolho, mettido na fileira, batia os joelhos 
um contra o outro, tremendo de medo. 

— Cara pVa frente, cobarde ! gritou-lhe frei 
Simão. 

O Zé de Oliveira, que tinha boa vista, disse 
ao commandante: 



314 Romance histórico 

— E' um destacamento de milícias da Feira, 
que vem de Oliveira d 'Azeméis. 

E era. Tendo cheo^ado a esta villa a noticia 
da aproximação da guerrilha, o destacamento 
de milicias da Feira, que ali estava, sahiu em 
marcha forçada á procura de frei Simão. As- 
sim conseguiu vencer cerca de trez léguas em 
pouco mais de duas horas. 

Ignacio da Fonseca, que por cautela se ti- 
nha ausentado para Oliveira d'Azemeis, quan- 
do soube o motivo por que sahia o destaca- 
mento, resolveu acompanhal-o. Julgava fácil o 
destroço da guerrilha, e não quiz perder por 
isso o ensejo de completar a sua vingança. 

— Olha ! exclamou um dos criados do Fonse- 
ca, o nosso amo também lá vem ! 

— Também ? ! rugiu frei Simão. Fogo, rapa- 
zes ! fogo ! 

O destacamento respondeu logo á fusilaria. 

O frade obrava prodigios de valor, comnian- 
dando a guerrilha, e carregando elle próprio, 
apezar de quasi lhe faltar o braço esquerdo, a 
sua espingarda. 

Logo aos primeiros tiros, o Marques, como 
o Zarolho recuasse, empurrou-o para a frente 
com um pontapé. 

O tiroteio foi cerrado, vivo. 
. A primeira linha da guerrilha tinha cabido 
quasi toda. O Zarolho ficara de costas com 
uma bala no peito. 

— Que o diabo te leve ! praguejou o Mar- 
ques. 

Frei Simão disse: 

— Foi a justiça de Deus! . . . 

Como a fusilaria começasse a afroxar por 



A guerrilha de frei Simão 315 

parte do destacamento, o frade comprehendeu 
que lhe tinha causado grandes perdas. 

— Avancemos, rapazes! gritou elle. 

E a guerrilha, enthusiasmada, avançou car- 
regando. 

O resto do destacamento, muito dizimado, 
recuou. 

Frei Simão estimulava os seus guerrilheiros 
gritando e correndo: 

— A elles, rapazes! a elles! 

Os milicianos começaram a dispersar-se, fu- 
gindo. O fogo da guerrilha perseguia-os; var- 
ria-os a saraivada das balas. Na debandada, al- 
guns dos milicianos cahiam, outros fugiam á 
morte com desesperada velocidade. 

Quando o terreno ficou varrido, frei Simão 
fíu reconhecer os cadáveres e apossar-se das 
armas que jaziam com elles. 

— Olá! apostrophou o Marques, que grande 
patife aqui está dormindo a sua somneca! 

Era Ignacio da Fonseca, que tinha o craneo 
esmigalhado. 

— Justiça completa! exclamou frei Simão. 
Deus fez justiça completa, e nós combatemos 
honradamente em campo aberto. 

Quedou-se o frade, encostado á espingarda, 
a olhar para o morto. 

Um turbilhão de pensamentos remoinhava no 
espirito de frei Simão. 

— A pobre Anninhas, pensava elle, estava 
vingada. Fora a Providencia, parecia, que pre- 
parara aquelle desenlace. Ignacio da Fonseca, o 
auçtor do bilhete, ali estava morto, a pequena 
distancia do Zarolho, que fora pôr na janella 
esse maldito papel. Como a mão poderosa do 



i 



316 Romance histórico 

■ ■ II ■ I I ■ » I » . 1 11 I ■ I !■ 

destino combinara os acontecimentos, de modo 
que fosse feita justiça simultânea e completa! 
Os outros criados de Ignacio da Fonseca, que 
tantas vezes, por ordem de seu amo, tinham 
vexado a familia do Outeiro, ali tinham tam- 
bém morrido, á voz do chefe d'essa familia, va- 
rados talvez pelas balas do próprio amo! 

Frei Simão mandou tocar a descanço. Mas 
clle não descançou, esteve recordando todas 
as extranhas circumstancias, todas as notáveis 
•coincidências d*aquelle rápido combate. 




XXVI 

Os fiisiliiHeiíIfls de Vmn 



o desejo de frei Simão em, atravez de todos 
os perigos e contrariedades, marchar logo so- 
bre Arouca. 

Mas, dentro do termo da Villa da Feira, ti- 
nham-se levantado guerrilhas miguelistas, que 
todos os dias iam engrossando, e que impor- 
tava bater. 

Assim lh'o representaram alguns influentes 
constitucionaes, que enthusiasmados com a der- 
rota inflingida aos milicianos, correram a pedir 
auxilio ao frade libertador. 

Uma d'essas guerrilhas era de Santo Izidoro 
de Romariz, e frei Simão voou ao seu encontro. 

Depois de uma ligeira escaramuça de meia 
hora, a guerrilha miguelista foi destroçada, os 
chefes fugiram. 

A fim de evitar que reapparecessem no dia 
seguinte, o frade quiz dar-lhes caça. 

Informaram-n'o de que um dos chefes, o mais 
perigoso, tinha ido esconde r-se na casa do 
Boiz. 



3i8 Romance histórico 



Frei Simão dirigiu-se ali, e encontrou, do- 
minadas de grande terror, muitas senhoras que 
se haviam refugiado n'aquella casa. 

— Estejam Vossas Mercês tranquillas, disse- 
Ihes gentilmente o frade, que nós não vimos a 
perseguir as damas, mas apenas a saldar con- 
tas com os nossos adversários, que nos perse- 
guem a ferro e fogo. A melhor defesa do sexo 
feminino é a sua própria debiHdade: respeita- 
mol-a, como devemos. 

E, n'um rasgo de cavalheirismo medieval, 
desandou pela porta fora sem querer effectuar 
a busca. 

— Rapazes ! disse frei Simão aos seus guer- 
rilheiros, eu sei o que é a angustia d'uma 
mulher attribulada. D*isso tenho exemplo na 
minha própria familia. Aqui está a razão por 
que não teimei em entrar na casa do Boiz. Se 
ali encontrássemos um marido, um filho, um 
irmão de qualquer d'aqucllas pobres mulheres, 
matal-a-iamos de desgosto. Achei, pois, que o 
melhor era não procurar, por tal preço, inimi- 
gos nossos, que não deixaremos de encontrar 
em barda com as armas na mão, sejam esses 
mesmos ou sejam outros. 

Os liberaes de Cezár, que aliás não eram 
muitos, enthusiasmados com a victoria de frei 
Simão, e considerando-a já um definitivo trium- 
pho, tiveram a sua hora de embriaguez poli- 
tica, depois que o frade se ausentou. 

Incendiaram e saquearam algumas proprie- 
dades, de preferencia as dos mais encarniça*- 
dos adversários de frei Simão. Eram movidos 
pelo desejo de vingal-o, e á sua familia. 

A devassa imputa pessoalmente ao frade to- 



A giiei-rillia de frei Simão 319 

das essas represálias, chegando a dizer que el- 
le, em Cezár, lançou por terra uma imagem de 
Christo^ que br ando -Lhe um braço. Esta nota 
tornava-se precisa no processo para fazer acre- 
ditar que frei Simão era efFecti vãmente pedrei- 
ro-livre. 

Não apparece na devassa noticia do comba- 
te em que a guerrilha venceu as milicias, junto 
a Cezár. Percebe-se. Os miguelistas occultaram 
o desastre, por ter sido completo e esmagador; 
mas afeiaraiil o procedimento do frade para o 
condemnar em saldo de contas. 

Todavia um homem de pé descalço foi, a 
correr, levar a noticia da victoria de frei Si- 
mão ao alferes commandante da guarda da 
Farrapa, e dizer-lhe que o frade, depois de al- 
guma demora, mettera pela estrada da Venda 
da Serra. 

O alferes tratou logo de levantar as suas 
ordenanças, enviando ao mesmo tempo o alvi- 
çareiro a Arouca com aviso ao capitâo-mór 
para que lhe acudisse com reforço. 

Foi no sitio do Soutello que o alferes alcan- 
çou o frade, cerca das trez horas da tarde. 
Travou -se encarniçado combate, que frei Simão 
demorou propositadamente até ao escurecer, 
com o fim de aproveitar a noite para seguir ca- 
minho de Arouca. 

Eff activamente, só ao lusco-fusco foi que o 
frade se retirou sobre o rio Arda, que atraves- 
sou a vau, dirigindo-se pela serra de S. Marti- 
tinho ao monte da Corugeira. 

A esse tempo chegava, em reforço, o capi- 
tão-mór de Arouca, que a guerrilha recebeu 
com uma descarga. Diz a devassa que n*essa 



320 Romance histórico 

occasiâo, respondendo as ordenanças com mui- 
ta fusilaria, frei Simão fora ferido. Nào é exac- 
to. O frade passou incólume, seguindo cm di- 
recção a Arouca, a coberto dos montes e da 
escuridão da noite. Descendo pela serra da Mó, 
foi, muito fatigado pelos trabalhos d*aquelie 
dia, pernoitar na casa da sua familia, no Ou- 
teiral. 

Frei Simão suppoz que as ordenanças lhe 
teriam perdido o rasto, e que ninguém saberia 
da sua chegada ao Outeiral: planeava, pois, dar 
ao romper da manhã um assalto ao convento, 
aproveitando a ausência das ordenanças. 

José Bernardo de Vasconcellos, quando viu 
o filho entrar na quinta, com a guerrilha; cheios 
de fadiga, derreados de cansaço, teve uma 
exclamação de profundo desalento: 

— Ah ! meu filho, que te vens metter no meio 
dos nossos inimigos ! 

Frei Simão sorriu e disse: 

— Quiz a todo o custo chegar a Arouca, por- 
que tenho a cumprir um juramento, e receei 
que o tempo me faltasse. O tempo ou a vi- 
da. . . 

Mas ainda de madrugada já a quinta do Ou- 
teiral estava cercada por todas quantas orde- 
nanças poderam reunir-se. 

Não obstante, frei Simão deu ordem á guer- 
rilha para que forçasse a passagem. 

Pediu-lhe o pae que tal não fizesse. 

— Meu querido pae, respondeu frei Simão, 
aqui não ha outra cousa a fazer. 

As ordenanças apontaram armas contra a 
guerrilha, quando a viram assomar audazmente 
ao portão da quinta. 



A guerrilha de frei Simão 321 



Soou a primeira descarga, e o fumo ennove- 
lou-se no ar toldando, como uma grande e es- 
pessa nuvem, o azul puríssimo da manhã. 

Frei Simão, respondendo ao fogo, poude fa- 
zer recuar ura troço das ordenanças, e abrir ca- 
minho. 

Debaixo de uma chuva de balas, dirigiu-se 
para a serra da Ffeita, onde queria tomar po- 
sição. 

Mas as ordenanças perseguiram-n o em tanto 
numero e com lanto desespero, que a guerrilha 
se desconcertou: uns fugiram para a banda de 
Alvarenga; outros, com frei Simão, foram cor- 
rendo sobre S. Pedro do Sul pela serra de Bus- 
tello e Cabreiros. 

Sempre perseguido, cada vez com maior en- 
carniçamento, frei Simão julgou que poderia 
desnortear as ordenanças escondendo-se para 
deixal-as passar. 

Diz Soriano que o frade se metteu n*um cór- 
rego da ribeira de Raques(l) Era, diz a de- 
vassa, um barroco da ribeira de Adaufe. 

O ardil não dera o resultado que frei Simão 
esperava. As ordenanças descobriram o escon- 
drijo e atacaram-n*o. 

O frade conhecia toda a desvantagem da sua 
posição, logo que o ardil falhasse. 

Mas não desanimou. Estimulou, com enérgi- 
cas palavras, a coragem dos guerrilheiros, e or- 
ganisou de prompto a defesa. 

O resto da guerrilha bateu- se com assom- 
brosa bravura, apesar de muito castigado pelo 
fogo dos miguelistas. 



(!) «Historia da guerra civil», ferceira e( ocha, tomo IV, papr. 4. 

21 



322 Romance histórico 



Foi longo e renhido o combate, e as muni- 
ções de frei Simão eram já escassas. 

A devassa, para engrandecer a victoria, diz 
que os guerrilheiros presos eram vinte e um, e 
que tinham os boldriés ainda municiados de 
cartuxame. Seria preciso nào conhecer frei Si- 
mão para acreditar que elle nâo luctasse até es- 
gotar as suas munições. 

Francisco Marques disse ao frade: 

— Sr. frei Simão, eu vou atar o lenço na es- 
pingarda para acabarmos com isto, que já não 
pode durar muito. 

— Nào! nunca! replicou, indómito, o frade. A 
inimigos encarniçados não se pede paz. Quando 
se nos acabar o ultimo cartuxo, que nos matem 
ou que nos prendam, pouco importa. Tanto 
monta morrer hoje como amanhã. 

E até gastar o ultimo cartuxo, a guerrilha 
de frei Simão sustentou, com heróico denodo, 
o tiroteio. 

A derrota estava prevista; era certa. 

As ordenanças cercaram a guerrilha, cada 
vez mais redusida pelo morticinio. 

Eram onze horas da manhã. 

Frei Simão e seis dos seus valorosos com- 
panheiros foram presos, condusidos a Arouca, 
onde entraram ao som festivo dos sinos do mos- 
teiro, que repicavam em triumpho. 

As freiras, engalanadas com laços de fita 
escarlate, davam vivas a D. Miguel I, nas ja- 
nellas do edifício. 

Na cella da abbadeça houve beberete de vi- 
nho fino do Porto, esponjado em pào de lo 
de S. Bernardo, guloseima lendária n'aquelle 
mosteiro . 



A guerrilha de frei Simão 323 

Margarida Cândida chorava, abraçada a ura 
crucifixo, na hora em que o frade de Cezár, ir- 
mão de Joaquim Maria, passava, entre as or- 
denanças, caminho da cadeia. 

Frei Simão, na attitude de um vencido que 
tem a consciência de haver cumprido o seu de- 
ver, atravessava por entre a multidão, que o 
cobria de injurias, sem baixar a cabeça nem o 
olhar. 

Mas ao passar em frente do mosteiro, a ca- 
beça descahiu-lhe, o olhar rastejou no solo. 

Uma onda de tristesa inundou -lhe o forte co- 
ração. Tudo estava perdido. Ia morrer, sem ter 
cumprido o seu juramento, realisado o seu 
ideial. Via a Terra Promettida, sem poder en- 
trar os seus muros, transpor as suas portas. E, 
de súbito, lembrou-se da inexplicável melanco- 
lia que o acommetteu, annos antes, a ultima 
vez que ali estivera. «Era um aviso de Deus!» 
pensou o frade. 

As madres, parecendo-lhes que frei Simão ia 
succumbido, esganiçaram-se em redobrados gri- 
tos de alegria, vivas a D. Miguel I, ao correge- 
dor, e ás ordenanças, que também festejavam 
com palmas. 

Após curta demora em Arouca, foram os 
presos condusidos a Lamego, e d*ahi para Vi- 
zeu, onde entraram no dia 19 de setembro, atra- 
vessando por entre os apupos, os insultos, as 
pragas da multidão, que enchia as ruas. 

Frei Simão e os seus companheiros tinham 
feito toda a jornada a pé, com inquebrantável 
coragem. Caminhavam para a morte com a fir- 
mesa de verdadeiros heroes. 

Em Vizeu estava funccionando o tribunal de 



324 Romance histórico 

terror^ a commissão mixta, composta de trez 
magistrados civis e de quatro vogaes militares, 
que os ia julgar e que, fatalmente, os cohdem- 
naria. 

Este sanguinário tribunal já havia mostrado 
o seu implacável rigor na sentença que, em 
agosto, pronunciara contra trez sacerdotes li- 
beraes. 

Eram elles os padres Lauriano António Pinto 
de Noronha, Caetano José Pinheiro e António 
Alberto Pereira Pinto Monte-Roio, que foram 
presos quando navegavam Douro abaixo com 
o propósito de reunir-se á expedição liberta- 
dora no Porto. 

Ia também com elles frei Joaquim dos San- 
tos Pereira, mas esse, por haver sido ferido 
gravemente no peito com uma bala, não foi logo 
julgado, e assim logrou salvar a vida, porque 
o tratamento não tinha ainda acabado quando 
a liberdade triumphou (i). 

Menos felizes, os seus trez companheiros fo- 
ram arcabusados no Campo da Ribeira em Vi- 
zeu, no dia 23 de agosto. 

Só em dezembro, a Chronica constitucional 
do Porto tinha noticia relativa ás primeiras vi- 
ctimas daquelle tribunal de terror. 

No numero do dia 3 dizia o órgão official 
do governo de D. Pedro: 

«Já se contam trez individuos espingardea- 
dos por estes monstros. As primeiras victimas, 
segundo nos consta, foram trez clérigos; esses 
apregoados defensores do altar e throno fol- 
gam de banhar as mãos no sangue dos minis- 



(1) Fiei Joif(uim morreu cónego da Sé de Lisboa, cÔrca de 1874. 



A guerrilha de frei Simão 32 S 

tros da Religião, quando estes fieis á legitima 
Rainha, e inimigos do perjúrio e da usurpação, 
recusam tornar-se cúmplices do crime de seus 
algozes!» 

Frei Simão, cuja importância politica era 
maior que a dos outros ecclesiasticos até ahi 
julgados pelo tribunal de Vizeu, sabia que se- 
ria condemnado á morte, mas essa certesa em 
qada lhe quebrantava a hombridade de cara- 
cter, que sempre conservou, 

— Para mim, rejeitaria a generosidade dos 
usurpadores, se elles podessem ser generosos 
alguma vez, dizia frei Simão ; mas só eu devo 
ser responsável pelo levantamento da minha 
guerrilha, e pelos seus actos. 

Repugna, por inverosímil, a affirmaçào da 
devassa quando diz que frei Simão declarou 
ter acompanhado a guerrilha forçadamente. 

Ao contrario, elle procurava salvar da morte 
os seus homens de armas, inculcar-se como 
único e verdadeiro culpado. 

De nada valeu, porém, essa nobre tentativa. 

No dia 16 de outubro reuniu-se a commissão 
mixta, e summariamente condemnou á morte, 
dentro de vinte e quatro horas, frei Simão de 
Vasconcellos com os seus seis companheiros de 
guerrilha. 

Eram elles : 

Antoíiio Joaquim, natural da cidade do Por- 
to, furriel do batalhão de caçadores n.® 12. 

Joaquim Gonçalves, natural da freguesia de 
Casaes, concelho e comarca de Penafiel, soldado 
do mesmo batalhão. 

P>ancisco José Marques, natural do logar e 
freguezia de Sanfins, comarca da Villa da Fei- 



326 Romance histórico 

ra, soldado do batalhão da Serra, organisada 
no Porto. 

José de Oliveira, natural do logar de S. Geão^ 
freguesia do Souto, lavrador, soldado do bata- 
lhão de Vtlla Nova, organisado no Porto. 

Joaquim José da Silva, natural do Porto, fre- 
guesia de Santo Ildefonso, soldado de caçado- 
res 2. 

Luiz Ferreira da Costa Sant'Anna, natural 
de Ranhados, próximo a Vizeu, residente na 
Porto, e hortelão dos Loyos. 

Frei Simão julgava que eram esses os seus 
únicos guerrilheiros que tinham sobrevivido ao 
combate na ribeira de Adaufc ; mas um d*el- 
les, José Ferreira, natural de S. Martinho de 
Argoncelhe, termo e comarca da Villa da Fei- 
ra, poderá escapar-se no caminho, sendo, po- 
rém, recapturado pelos miguelistas, e também, 
mais tarde, condemnado á morte. 

Immediatamente á leitura da sentença, frei 
Simão e os seis guerrilheiros foram introdu si- 
dos no oratório em uma das aulas nos claus- 
tros do Seminário. 

O frade, muito sereno, pediu que lhe man- 
dassem um confessor, papel e tinta. 

Confessou-se ao religioso que lhe enviaram, 
e que, depois da confissão, se lhe mostrou muito 
aíFeiçoado. 

Em seguida tomou apenas um caldo, e sen- 
tou-se a escrever tranquillamente. 

Começou por uma carta a seu irmão Frede- 
rico Pinto. 

Tenho-a deante dos olhos: a lettra é firme, 
clara; nem uma entrelinha. 

Diz assim: 



A guerrilha de frei Simão 327 



«Vizeu em o Oratório, 16 de outubro 

Mano do C. A*manhan vão pôr termo acs 
meus trabalhos, estimarei seja o ultimo sangue 
que se verta: por outra via te escrevi que creio 
ahi te será entregue, pessoalmente. Peço-te me 
ajustes contas com todos os acredores, e me 
descncarregues a rainha alma: visitas á Mana, 
pequenos e mais família e que me encommen- 
dem a minha alma. ao Creador; peço-te se o meu 
sangue te servir de alguma cousa ajudes as 
Manas com especialidade Maria e Anna que 
muito tem sofFrido. Adeus Este religioso a 
quem sou muito devedor fica com as minhas 
declarações que te enviará ou ás Manas de ellas 
ter resposta. {Sic) Adeus. Teu mano afFectivo 

F. Simão.» 

Dobrou o papel, e sobrescriptou: 111."^^ Sr. 
Frederico Pinto Pereira de Vasconcellos. 

— Agora, disse elle voltado para o religioso 
que estava rezando, vou fazer as minhas decla- 
rações. Mas é trabalho que requer mais vagar, 
porque n«^o desejo que me esqueça nada. 

Escreveu seguidamente duas folhas de papel 
almasso, que também tenho deante dos olhos. 

A mesma firmesa de lettra; e uma só entre- 
linha, apenas. 

Sào, effectiva mente, declarações sobre nego- 
gocios domésticos, menção de quantias que lhe 
deviam ou de que era devedor. A sua placidez 
de espirito era tamanha, que não se esqueceu 
de mencionar pormenores sobre a administra- 
ção da casa. Refere-se escrupulosamente ás 



32 8 Romance histórico 

missas que deixou por dizer, e que quer sejam 
ditas sem falta. Torna a recommendar as ir- 
mãs, especialisando Maria e Anna, aconselhan- 
do aos seus que «vivam bem e sejam amigos.» 

Depois de ter escripto por mais de uma ho- 
ra, frei Simão sentou-se de fronte do crucifixo, 
que tinham posto no oratório, e assim se con- 
servou meditando durante toda a noite. 

Ao romper da manhã tomou outro caldo, e 
ajoelhou largo tempo em oração. 

— Irmão, disse-lhe o religioso, creio que se 
avisinha a hora tremenda. Veja se quer mais 
alguma cousa de mim. 

— Sim, meu padre, quero entregar-lhe as mi- 
nhas declarações; mas ainda me falta escrever 
mais alguma cousa. 

Tinha apenas traçado duas linhas, quando a 
porta se abriu. 

Era o momento fatal. 

Frei Simão entregou as declarações e a carta 
ao religioso, a quem abraçou e beijou a mãe. 

Depois sahiu serenamente e assim se dirigiu, 
no meio da escolta de milicias de Bragança, 
para o terreiro contiguo, chamado de Santa 
Catharina. 

Ahi abraçou os seus companheiros de des- 
graça, pedindo-lhes perdão, e agradecendo-Ihes 
a sua lealdade. Ao Marques abraçou por duas 
vezes. Não chorou. Tornou a abraçar e a os- 
cular o religioso, que lhe havia assistido. 

Firmemente foi coUocar-se em alvo na linha 
dos condemnados. 

Ouviu-se então a voz de apontar. 

Frei Simão, erguendo o braço direito como 
para deixar o peito bem a descoberto, gritou; 



A guerrilha de frei Simão 329 

' ■ ■ 

— Viva Deus ! Viva a liberdade ! Viva a 
Rai. . . 

A voz de fogo cortou, nos lábios de frei 
Simão, a sua ultima palavra. 

Sete homens cahiram varados pelas balas. 

Vizeu estava em festa. A Ínfima plebe dan- 
çava á roda dos cadáveres, tripudiando n'um 
festim selvagem, que durou todo o dia. 

Alguns dos cadáveres ensanguentados foram 
levados de rojo até ao fosso onde costuma- 
vam lançar os animaes mortos, 

O religioso impediu que o de frei Simão ti- 
vesse igual destino: elle mesmo o acompanhou 
á capella de S. Martinho. 

A Chronica constitucional^ continuando a re- 
ferir-se ás sentenças do sanguinário tribunal de 
Vizeu, noticiava no dia 8 de dezembro a mor- 
te de frei Simão, e no dia 15 renovava o as- 
sumpto, dizendo: 

«Foi espingardeado a 19 de outubro passa- 
do (aliás 17, como se prova pelas declarações 
e carta que examinamos) o patriota frei Simão, 
cuja severidade de alma e firmesa, no meio 
dos tormentos que padeceu, chegou a assom- 
brar os próprios algozes que o condemnaram.» 

E era verdade. 

O frade constitucional de Cezár morrera como 
ura heroe, christã e politicamente encarado. 

Sobre este e outros exemplos de grandiosa 
dedicação architectou a liberdade a sua con- 
quista. 

Esquecel-o é um crime, e comtudo, ás vezes, 
completamente o esquecemos ! 



Epilflgo 

Esiee fln os uiipellios, ciu^ 



Em agosto de 1833 Margarida Cândida teve 
occasiào de recuperar a liberdade, e recupe- 
rou- a. 

P>ei Simão não poude chegar a abrir-lhe as 
portas do mosteiro, mas a sua famiiia, na pri- 
meira hora de triumpho, logrou nâo só cum- 
prir a promessa do frade, mas até vingar por 
um acto publico a morte d'ellc. 

Segundo a informação publicada pela Ckro- 
nica no seu numero correspondente ao dia 31 
d'aquellc mez e ar.no, o capitao-mór de Arou- 
ca, sabendo que se tratava de acclamar ali a 
senhora D. Maria II, mandou prender o capi- 
tSo d'ordenanças, por suspeito de proteger a 
conspiração, e com o fim de o enviar á com- 
missâo mixta de Vizeu. 

«Este acto de violência, diz &CkroHtca, des- 
pertou o brio dos conjurados, e por diligen- 



332 Romance hhtorico 

cias de António Pinto Pereira de Vasconcellos» 
que com zelo incançavel fez deliberar o resto 
dos amigos apalavrados, no mesmo dia se di- 
rigiram á cadea, soltaram o preso, e conclui- 
ram depois o acto solemne da acclamação da 
senhora D. Maria II.» 

António Pinto Pereira de Vasconcellos era, 
<:omo se sabe, o irmão mais novo de frei Si- 
mão. Mas um documento de familia diz-nos 
que o pae, apesar de velho e doente, também 
se associou á conspiração planeada pelo filho 
mais novo. 

«O capitão-mór fugiu — prosegue a Chrotiica 
— com os abbades de Santa Eulália e S. Sal- 
vador, bem como as freiras do convento, exce- 
pto quatro. D'estas tem voltado algumas, sa- 
bendo que reina a boa ordem, e que não se 
commettem as violências com que o partido da 
usurpação intimida os povos, fazendo-lhes crer 
que as vinganças e a desordem é ao que aspi- 
ram os constitucionaes.» 

Margarida Cândida foi das freiras que fugi- 
ram, e não voltaram. 

Teve razão, porque a hydra do absolutismo 
não ficara ainda esmagada em Arouca. 

O capitão-mór fugitivo requisitou forças que 
fossem prender José Bernardo Pereira de Vas- 
concellos e seu filho António, motivo por que 
ambos emigraram para o Porto. 

A dentro das trincheiras liberaes, no Porto, 
-António Pinto, no empenho de fazer triumphar 
a causa que lhe tinha victimado dois irmãos, 
tomou sobre si a tarefa de organisar um bata- 
lhão de voluntários de Arouca, que se lhe fo- 
ram reunir. 



A guerrilha de frei Simão 333 

Saibamos o destino de Margarida Cândida^ 
depois que fugiu do mosteiro. 

Restaurada a liberdade, appareceu em Avei- 
ro uma senhora vestida de preto, e acompanha- 
da por uma criada, sua única familia. Alugou 
casa n'aquella cidade, e ali se domiciliou. To- 
dos os dias, pela manhã, visitava a egreja de 
Santo António, e orava longo tempo ajoelhada 
sobre a sepultura de Joaquim Maria de Vas- 
concellos. 

Esta senhora era a sobrinha de André Pinto. 

O tio vivia ainda, mas estava refugiado em 
Hespanha, temendo-se principalmente dos seus 
adversários politicos de Traz-os-Montes. Cons- 
tava que tinha feito testamento deixando a 
pessoas extranhas algumas propriedades que 
tinham escapado á voragem de grandes despe- 
sas politicas. Mas, vindo a morrer em Hespa- 
nha, nào se lhe encontrou o testamento, pelo 
que Margarida Cândida se habilitou á herança. 

Em Aveiro suppunha-se que a familia Vas- 
concellos de Cezár tinha estipulado a Margari- 
da Cândida uma mesada, que ella receberia em 
quanto os tribunaes a não reconheceram como 
herdeira do tio. 

Ninguém revelou a D. Anna de Vasconcellos 
o fim trágico de frei Simão, mas é de suppôr 
que ella suspeitasse o que tinha acontecido, por- 
que os seus padecimentos aggravaram-se desde 

1833. 

A enfermidade de que soíFria pareceu reto- 
mar o seu antigo curso, por algum tempo in- 
terrompido, ou pelo menos attenuado. Sobre- 
veio a difficuldade dos movimentos, a atrophia 
gordurosa dos músculos, a inércia, a cerrada 



334 Romance histórico 

tristesa que obscurecia o espirito, mas o tremor 
nervoso tinha diminuido. 

Quando, porem, o periodo terminal da pa- 
ralysia agitante tendia a accentuar-se, uma 
doença intercorrente, em 1 837, apressou a morte. 

D. Anna de Vasconcellos foi sepultada na 
egreja de Cezár. 

O pai, acompanhado por alguns amigos, trou- 
xe, uma noite, o féretro da filha para a capella 
de familia, onde se acha depositado. 

Do fim de José Máximo da Fonseca sabe- 
mos pelo livro do sr. Martins de Carvalho, in- 
titulado Apontamentos para a historia contem- 
porânea, 

«No dia 15 de dezembro de 1865— diz' este li- 
vro, a pag. 102— fallectu em uma casa da mi- 
sericórdia de Lagos, no Algarve, um individuo 
com o nome supposto de Manuel do Nascimen- 
to, e conhecido pela alcunha de Fresca Ri- 
beira, 

«Este individuo, que tinha por profissão ha- 
bitual concertar pratos e outros objetos dç 
louça, e que se apresentava como caldeireiro anc^ 
bulante, tinha o rosto desfigurado com pólvora 
c com algumas cicatrizes, 

«Era em todo o Algarve, em Beja e outras 
povoações do Alemtejo, voz gend que este ho- 
mem fora um dos que tomaram parte no crime 
commettido no dia iS de março de I828. 

«Via-se que nào era o que inculcava, porque 
mal podia comprehender-se que, sendo elle o 
que dizia, fallasse com correcção as línguas fran- 
cesa e hespanhola, e tivesse conhecimento mui- 
to regular do latim.» 

Os últimos annos da existência de José Ma- 



A guer filha de frei Simão 335 

■ - ■ ■ — 

ximo foram .a suprema miséria de um desgra- 
çado. 

Quando em Beja apurou discretamente que 
D. Anna de Vasconcellos tinha morrido, tor- 
turada por tâo longos soffrimentos, começou a 
embriagar-se, o que até ali jamais havia feito. 

Os curiosos, explorando o ébrio, faziam-lhe 
perguntas, a que elle então respondia, dizendo 
inconscientemente a verdade: Que tinha sido 
estudante de um e outro direito em Coimbra; 
que tivera parte no crime do Cartaxinho ; que 
fugira e andara emigrado pela Bélgica, França 
e Hespanha; e que ainda durante o governo de 
D. Miguel viera por algumas vezes a Portugal 
a vender matalauva^ sem que ninguém o re- 
conhecesse, graças ao seu completo disfarce. 

Apesar de embriagado, José Máximo chora- 
va, n*uma funda tristeza, quando fazia estas re- 
velações. 

Mas nunca pronunciou uma única phrase al- 
lusiva a D. Anna de Vasconcellos. 

Esse segredo era para clle tào instinctiva- 
«lente inviolável, que nem a «verdade do vi- 
nho» lh'o podia arrancar. 

O sr. Martins de Carvalho completa as suas 
informações escrevendo : 

«Dizia-se em Beja e no Algarve que este ho- 
mem era natural d*uma terra do Alemtejo, onde 
tinha familia. 

«Em Beja ensinava aos estudantes do lyceu, 
quando com elles se encontrava no largo d 'este 
edifício, latim, lógica, e outros preparatórios, 
recebendo por isso o que lhe queriam dar. 

«Conta-se que um seu contemporâneo do 
Alemtejo, fallando com elle, o reconhecera ; 



336 Romance histórico 

que instara para que deixasse a vida em que 
andava, e que até lhe dera facto novo para ves- 
tir. Apesar d*isso, continuou sempre até morrer 
no seu modo de vida.* 

Faremos ligeiros commentarios a estas infor- 
mações. 

O dizer-se que o Fresca Ribeira era natural 
do Alemtejo proviria do facto de elle, no tem- 
po em que no Porto adoptou aquella alcunha, 
se inculcar como natural d'essa provincia. 

A circumstancia de José Máximo, no regresso 
a Portugal, onde certamente o attrairia a sau- 
dade da pátria que refina nos desgraçados, não 
sahir das provincias meridionaees, a mim mes- 
mo a explico pelo horror que experimentaria 
em tornar a vêr as regiões do norte do paiz, 
onde a felicidade lhe tinha sorrido no amor. 

Era-lhe dolorosa consolação poder erguer os 
olhos ao ceu da pátria e pisar terra portugue- 
sa, sem comtudo ter animo para transpor a li- 
nha ideal, que na carta geographica de Portu- 
gal separava o seu passado do seu presente. 

Para atormental-o, bastavam-lhe as dilace- 
rantes recordações que levava em si mesmo 
para toda a parte. Mas aclarar a memoria de 
tantos logares conhecidos, visitando-os, recon- 
stituir scena a scena o drama da sua existên- 
cia pela exacta renovação do proscénio e do 
scenario, seria sacrifício superior ás forças de 
quem já tão quebradas as trazia pelos embates 
e conflictos de um amargo destino. 

O contemporâneo que, fallando com elle no 
Alemtejo, o reconhecera, devia ter sido talvez 
Jayme de Carvalho, o marido de Ernestina. 

Assim acabou no catre de um hospital, ul- 



A guerrilha de frei Simão 337 

timo paradeiro de todos os desgraçados, aquel- 
le enthusiasta poeta da liberdade, que, melhor 
orientado, poderia haver prestado ao seu paiz 
relevantes serviços e occupado os mais hon- 
rosos cargos na gerência dos negócios públicos. 

Mas, na miséria em que viveu, a morte foi 
p&ra elle um beneficio da Providencia. Desde 
1828, José Máximo da Fonseca não era senão 
o epitaphio ambulante de si mesmo: epitaphio 
em que não se lia um nome, nem uma data, 
mas apenas, como acontece algumas vezes, uma 
simples invocação á piedade dos viandantes. 

Quem em Beja ou no Algarve via passar o 
caldeireiro, coberto de remendos e cicatrizes, 
e sabia que elle preleccionava aos e(4:udantes 
varias disciplinas, teria porventura dó d'esse 
mysterioso homem, que, apesar de redusido a 
tão humilde mister, denunciava haver tido mais 
alto nascimento e uma selecta educação litte- 
raria. 

A piedade que elle inspirava era como que 
o Pater noster do viandante ao passar pela 
cruz negra das encruzilhadas sinistras. 

Havia ali uma victima, cujo nome se igno- 
rava. 

«Emquanto ao seu verdadeiro nome — pero- 
ra o sr. Martins de Carvalho com referencia 
ao Fresca Ribeira — e á sua naturalidade, nem 
mesmo embriagado o revelava.» 

Os restos mortaes de frei Simão de Vascon- 
cellos foram em 1836 trasladados, com os dos 
seus guerrilheiros e outros martyres da liber- 
dades, por iniciativa de uma commissão patrió- 
tica, para um mausoléo de honra levantado nos 

claustros da Sé de Vizeu. 

23 



338 Romance histórico 

A trasladação realisou-se com grande pom- 
pa religiosa e apparato civico. 

A tradição refere que o corpo de frei Simão 
estava ainda incorrupto quatro annos depois 
do falleci mento, quando o transferiram da ca- 
pella de S. Martinho, que já não existe, para 
o moimento da Sé. 

Também em Cezár me asseverou um con- 
temporâneo de frei Simão, e seu intiiho, que 
elle costumava trazer cilicios por baixo do há- 
bito monástico. . 

A inscripção lavrada no mau sol éo dos libe- 
raes arcabusados em Vizeu consta de texto la- 
tino e respectiva traducção, que diz assim: 

^Pela adhesão á liberdade^ carta e rainha 
Maria 11^ por iniquas sentenças foram inno- 
centemente condemnados e fusila dos no ànno de 
i8p e iSjj, 

(Seguem-se os nomes dos liberaes portugue- 
ses, incluindo o de frei Simão, e de alguns nes- 
panhoes^. 

<iiDescanfam suas cinzas tCeste monumento ^ 
o qual em det estação da execranda tyrannia 
d/aquelle tempo, e para memoria perpetua de 
varões tão beneméritos da pátria os cidadãos de 
Vizeu religiosamente e por commum subscripção 
lhes dedicaram no dia 26 de agosto de iSjó. 

Esta glorificação pósthuma explica o motivo 
por que, na capella de familia, em Cezár, falta 
o cadáver de frei Simão de Vasconcéllos. 

Frederico Pinto, que, durante o cerco do 
Porto, voltou, espontaneamente, ao serviço mi- 
litar, sendo ajudante do batalhão de voluntá- 
rios de -Santa Catharina, foi mais tarde empre- 
gado publico ao serviço da fazenda nacional. 



A guerrilha ãe frei Simão 339 

Casou em segundas núpcias com D. Anna 
Clementina Pereira Berredo, da itlustre familia 
dos Berredos de Gaya. 

Morreu desastrosamente no sitio das Barran- 
cas, estrada dos Carvalhos, por se ter empina- 
do a égua que montava, ficando elle esmagado 
na queda, sob o peso do animal. 

O cadáver de Frederico Pinto foi condusido 
á capella de familia, onde jaz. 

Um filho de Frederico Pinto, o major Au- 
gusto Cezar de Vasconcellos, morreu tragica- 
mente, cumprindo o seu dever de militar, ás 
mãos dos soldados que o desrespeitaram na re- 
volta de Braga, em 1862. 

Também os seus restos mortaes estão na ca- 
pella de Cezár. 

O primogénito de Frederico Pinto teve o no- 
me do pai, e já não existe. Foi elle que forne- 
ceu ao dr. Henriques Sêcco as ligeiras informa- 
ções que a respeito de frei Simão este profes- 
sor agrupou no primeiro volume das Memorias 
do tempo passado e presente. 

Na casa de Cezár vive actualmente, como re- 
presentante da familia do Outeiro, outro filho 
de Frederico Pinto, o sr. Alfredo Praça de 
Vasconcellos, engenheiro civil, que ha alguns 
annos abandonou a engenheria pela vida agrí- 
cola. 

Foi elle, mais uma vez o direi, que teve a 
paciência e a bondade de me dar muitos escla- 
recimentos que lhe pedi sobre a vida e morte 
de seu tio frei Simão. 

FIM 



índice 



Paginai 

I— Flor do Tâmega 1 

II — ^Adetts ao convento^ 13 

III — ^Loucara revolucionaria 29 

IV — A iniciaçio 36 

V— O Fresca Ribeira 47 

VI — Uma novem em cea azul 57 

VII^AngUBtias 65 

VIII— Eatre ferros 75 

IX->Ultimo desengano 87 

X — Morte redemptora 95 

XI— Bomisca de ciúme 105 

XII — Separação inespelrada 117 

Xm O oráculo 129 

XIV- A' Porta Férrea 141 

XV— Politica de estudantes 153 

XVI-FhIso triumpho 163 

XVII— O crime do Cartaxinho 173 

XVIII-Vae victis 191 

XIX — A caça ao homem 207 

XIX (repetido) — Nas garras da vingança . . . 219 

XX — O napoleao de ouro 283 

XXI — A paralytica i 240 

XXII-^Previsio do frade 257 

XXIII — A oriranisaçio da guerrilha. 271 

XXIV— José Máximo 285 

XXV — Deus eecrtíve dirc*ito por linhas tortas. 301 

XXVI— Os fuailamentos de Vilteu 317 

XXVII— Epilogo 331 



ERRATAS lAlS IMPORTANTES 



Pag. 13-14, ondo ae lê — o rendimentoB — leia-se — o ren- 
dimento. 

Pag. 16, linb. 21, onde se lê^monsenho — , leia-ae 
monsenhor; linb. 22, onde se lê — portuguer, leia-se — 
portugaez; Hnh. 23, onde se lê— cardeaz, leia-se — car- 
deal. 

Pag. 17, linh. 21, onde se lê — accontecimentos, leia-se 
— Hcontecimentos. 

Pag. 43, linb. 4 e 6, onde se lê — três, ieia-se — três. 

Pag. 174. linl^.'16, onde se lê —a fim, leia-se— o fim; 
}.ag. 17, onde sé lê — secreto, leia-se — occulto. 

Pag. 213, linb. 8, onde se lê— Villa da Freira, leia-se 
-VilladaFeiía. 

Pag. 219, numeração do capitulo, onde se lê — XIX, 
leia-se XX; mesma pag. linb. 1.', onde se lê — ^Villa da 
Freira, leia se — Villa da Feira. 

Pag. 22Õ, linb. 22, onde se lê^está salva, leia-se— es- 
tava salva. 

Pag. 227, linb. 9, onde se lê— um um, leia-se- um. 

Pag. 272, linb. 34, onde se lê— -le, leia-se— e; linb. 35, 
onde se lê — as, leia se — las 



/r