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Full text of "Albino Forjaz de Sampaio; escôrço bio-bibliográfico por João Paulo Freire (Mário)"

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JOÃO PAULO FREIRE 

(MÁRIO) 




Albino 
Forjaz de Sampaio 



(Escorço blo-bibliográfico) 







-5—^ 



Editores - SANTOS & VIEIRA 

EMPRESA LITERÁRIA FLUMINENSE 

125, Rua dos Retroseiros, 125 

LISBOA 



Albino FoFjaz de Sampaio 

(Escorço bio-bibliográfico) 



Editores — Santcs i Vieira — Lisboa 
O Tip. da Imprensa Portagnesa ^ 
Kna Formosa, 112, Porto | ilCSIIIX 



DO MESMO AUTOR 



OBRAS PUBLICADAS 

Recordações para a Tellúee (Eígotado) (1908) 

Dor (ine mata (Esgotado) (1909) 

Santa Relisiâo! (Esgotado) (1911) 

Ditosa Pátria: (Esgotado) (1917) 

CamiUo C&stello Branco (A Campanha da Lapide) . . . (1917) 

Entre Gigantes'. (\fi edição) (Esgotado) (1917) 

Terra Luza (Camillo em Vandoma) (1917) 

Camillo Castello Branco e as Quadrilhas Nacionaes . . (1917) 

Entre Gigantes ; (2.» edição) (\ni\ 

Affonso de Domellas ('"*) 

Camillo Castello Branco e Silra Pinto (1918) 

Impressões da Guerra (1919) 

NO PRELO 

Em serriço da Cruz Vermelha 
O fim do Mundo no Anuo 2000 

EM PUBLICAÇÃO 

(No Boletim da Sociedade Portugueia da Crni Vermelha) 
Tma Tlagem á America do Sul (Três republicas de relance) 




Editores — Santos é Vieira 
EMPRESA LITERÁRIA FLUMINENSE 
125 — Bn» doe Retroseiro« — 125 
USBOA 




Por contrato com o autor, a propriedade 
literária absoluta desta obra pertence exdn- 
sivamente aos editores Santos & Vieira. 




Decorum idest, quod qua- 
qtia persona dignum est, et 
cuilibet rei consentuneum. 

Cícero. 



\ 



EXPLICAÇÃO 



Esta tremenda crise de papel que o conflito eu- 
ropeu desencadeou em todo o mundo, ligada a uma 
desmedida desvergonha em avolumar lucros fabu- 
losos pela certa e sem trabalhos — não digo quem 
— colocou a indústria editorai num pé atraz, à ma- 
neira do Senhor dos Passos, perante os fazedores de 
livros, a tal ponto que, só navegam neste mar pro- 
celoso de escolhos e recifes, os meninos bonitos das 
várias coteries nacionais, os endinheirados ou ainda 
um ou outro felizardo que chorou venturas e delí- 
cias no ventre auspicioso de sua ilustre madre. 

Nanja os que, desprotegidos ou orgulhosos vi- 
vem fora dos cenáculos e não estão sob o olhar 
protector dos deuses da empenhoca. Para esses a 
crise aumenta, avoluma-se, montanha de desculpas 
a desabar ironias na sua inflexibilidade dorsal. 

Este ligeiro escorço de bio-bibliografia nunca se 
escreveu para sair isoladamente. Fazia parte, com 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



outros, do segundo volume dos Homens do meu 
tejnpo, cujo primeiro volume, já lavadinho e pronto, 
espera o fato domingueiro de uma editoração para 
assistir aos lausperennes das vitrines. 

Exigências, dificuldades, desculpas, levaram-me 
a esperar melhor monção e favónios ventos, me- 
tendo o volume no recanto pacato de uma gaveta. 
E porque este estudo sobre Forjaz de Sampaio fosse 
coisa de pouca monta em gastos de papel, um edi- 
tor benévolo e amigo pegou-lhe e eu não deixei o 
certo pelo duvidoso naquela esteira do velho afo- 
rismo de que mais vale um pássaro na mão que 
dois voando ... 

Neste país fazer livros é ainda córnea ocupação 
que não dá pataco limpo para as exigências do pe- 
tróleo. Faz livros, por sport e por luxo, quem tem 
dinheiro para os editar, ou quem possui situações 
grimpantes para se fazer valer. 

Que eu não tenho grande razão de queixa, va- 
mos lá com Deus. . . 

Da minha pena tenho vivido, trambulhão aqui, 
ponta de faca acolá, mas todos os meus livros me 
teem sido pagos em dinheiro de contado, sem cartas 
de empenho, nem favores de costa acima. 

E tenho encontrado editores honestos, gente 
limpa, homens de palavra. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



Só outro dia. . . 

Eu conto. Foi com o primeiro volume dos Homens 
do meu tempo agora na gaveta. Procurei um editor — 
não cito o nome, nem a terra do cavalheiro, por 
vergonha da espécie — e mostrei-lhe o original. O 
homem gostou. Achou bom. Achou mesmo óptimo. 
E em certa altura, julgando-me igual a muitos, sor- 
rateiramente, assim como quem se baba de gozo 
perante escândalo de acepipe, propôs a coisa: 

— Ahl mas o seu livro, e.xcelentel Creia: você 
até pede pouco pelo original. Lá por esse lado ! . . . 

E fazia um gesto de nababo não dando valor às 
Hbras. . . 

— Há a questão do papel... Mas isso reme- 
deia-se. Talvez... Compreende... Simplesmente, 
você, tem que cortar uma das críticas. . . a de Fu- 
lano. Bem vê, somos amigos pessoais... Muito 
amigos. 

— !? 

— Pouca coisa, não é verdade? E depois se você 
quisesse... Aí onde elogia Cicrano, com quem 
tenho as relações cortadas... se você quisesse... 
uma bordoadazita valente, convinha-me. 

— !I1 

Escuso dizer-lhes o resto. O livro foi para o 
canto da gaveta, que isto de manejar uma penna é 



10 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

ainda — para os que teem a espinha recta e a cons- 
ciência limpa — uma bela e sagrada manifestação de 
independência e de carácter 1 

Meteu-me nojo, muito nojo, o Himalaia de po- 
dridão que tal proposta representava. E o livro não 
saiu e já agora não sairá por emquanto . . . à espera 
de um editor que mo pague sem olhar aos amigos 
a proteger, nem aos inimigos a anavalhar. 

Irral que esta falperra das letras tem ainda em 
Portugal encruzilhadas infamantes ! . . . 

E publica-se assim antecipadamente este escorço 
de crítica feito com aquela honestidade e aquela in- 
dependência que a porca da vida, hoje mais do que 
nunca, de todos nós exige. 

Para quê mentir, bajular, vergar a consciência 
de uma análise ou de uma idea, às conveniências 
de uma amizade, ou à moeda prostituída de uma 
compra, material ou moral? 

Que me importa a mim o conceito alheio, se eu 
peguei na pena, não para escrever ao sabor dos ou- 
tros, mas para obedecer à minha inteligência e se- 
guir, com rectidão e justiça, o caminho traçado pelo 
meu estudo ? 

A mim me basta e me consola o poder excla- 
mar no fim dos meus trabalhos — é honesta a minha 
obra. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 11 

Tudo O mais é manigância vil que não serve 
sequer para abrir os alicerces a uma barraca de feira 
onde tripudiem palhaços ! 

Há que fazer justiça aos outros, não pelo que 
êles são, mas pelo que êles valem. Para mim, à 
minha mesa de trabalho, não tenho amigos, nem 
conheço inimigos, precisamente como o médico, na 
mesa anatómica, ao procurar a causa da doença, 
não pergunta que fato trazia a vítima. 

É preciso ser recto, ser justo, e sobretudo ser 
honesto. 

Se me reconhecerem estas qualidades tenho o 
quantum satis de justiça que ambiciono. 

E agora, meus senhores, vai subir o pano . . . 



i 



Albino Forjaz de Sampaio 




no Dicionário Bibliográfico 



Eu podia, seguindo velhas 
usanças de outros que para aí 
se guindaram aos pináculos da 
fama e das sabenças genealó- 
gicas e bibliográficas, escarra- 
pachar para aqui tudo o que 
há sobre Albino Forjaz de 
Sampaio, como sendo sciência 
minha. 

Podia. . . Mas era desonesto e hoje mais do 
que nunca é preciso dar a todos exemplos de hones- 
tidade a ver se isto muda, se voltamos á vida sa, 
laboriosa e honrada, . . E assim, aqui teem os lei- 
tores a transcrição do que sobre Forjaz de Sampaio 
há-de dizer, quando se publicar, o i." volume reedi- 



Aibino Forjaz de Sampaio 

Por Prancisco ValeaçA 
(OoBUamU — 1904) 



14 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

tado, do Inocêncio, que Álvaro Neves está traba- 
lhando. Foi Álvaro Neves quem teve a gentileza de 
me fornecer a cópia que reproduzo e são de Álvaro 
Neves estas notas, que hão-de pertencer a pági- 
1^213 37, 38, 39/40 e 41 do Dicionário Bibliográ- 
fico, 

Há nelas porem lacunas que não podiam passar 
em julgado, assim como também após o trabalho 
bibliográfico de Álvaro Neves outros volumes de 
Forjaz apareceram. Para que tudo se complete, as 
lacunas desapareçam e os novos trabalhos se men- 
cionem, irei anotando em diferente tipo e composi- 
ção recolhida, tudo o que de novo souber e que o 
Dicionário Bibliográfico do Inocêncio não irá possuir 
pela pena de Álvaro Neves. Ficará assim esta obra, 
tanto quanto possível, útil e completa. 

E sem mais preâmbulos mãos à obra: 



Albino Maria Pereira Forjaz de Sampaio, conhe- 
cido no meio literário por Albino Forjaz de|Sam- 

paio, filho de António Maria Pereira Forjaz — que 
foi caixeiro das livrarias Orcei e Manuel de Almeida 
Cabral, em Coimbra, Ferreira e Tavares Cardoso, 
em Lisboa — e de D. Maria Antónia Pereira Forjaj 
Nasceu em Lisboa, aos 19 de Janeiro de 1884. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 15 

Há erro no nome do pai. É Albino Maria Pe- 
reira Forjaz e não António. Na certidão de baptismo 
afirma-se ter o escritor nascido a i6. Foi engano de 
quem participou o nascimento. 

Após os primeiros estudos viveu durante anos 
« laboriosa e estreitamente entre um escritório de 
companhia de seguros e a colaboração nalgumas 
folhas que lhe pagavam artigos pelo preço por que 
às esquinas os moços de corda não querem mais 
fazer recados», como em 1910 escrevia a seu res- 
peito Fialho de Almeida. 

Tenho sobre a banca a vastíssima bagagem lite- 
rária de Forjaz de Sampaio iniciada aos 14 anos. 
<Estreou-se com o artigo sobre a Typographia em 
Portugal. Esse escrito é a revelação do seu enge- 
nho subtil e o prenúncio duma tendência investiga- 
dora. Surge o segundo trabalho e desaparece esse 
desígnio, tomando o artista, por temperamento, a 
fase romântica, poética, sentimental. Desse período 
— de poeta — legou composições impressas, depois 
inteiramente repudiadas ». Todavia, porque correm 
impressas, entendi registá-las, conquanto isso muito 
pesar cause ao escritor. 

Forjaz de Sampaio começou a constituir biblio- 
teca aí por 1909, possuindo actualmente alguns mi- 
lhares de volumes. Se é apaixonado bibliófilo não é 



16 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

menos apaixonado coleccionador, sendo já grande 
as suas colecções de autógrafos e teatro de cordel 
dos séculos XVII a princípios do XIX a qual se com- 
põe de quási tresentas peças. Possue também os 
clássicos em primitivas edições. 

Da sua colecção de teatro de cordel apresentou 
o catálogo à Academia. Compõe-se de mais de 800 
peças. A Academia, achando valor ao catálogo, por 
proposta do presidente Braamcamp Freire e de Hen- 
rique Lopes de Mendonça deliberou imprimi-lo em 
separado, tendo para isso solicitado o parecer da classe 
de letras que o deu favorável. Foi relator H. Lopes 
de Mendonça. Já começou a impressão. 

Em 10 de Maio de 1911 foi nomeado arquivista 
chefe da Biblioteca e Arquivo do Ministério do Fo- 
mento. 

Ern 1905, por proposta do escritor italiano co- 
mendador António Padula, foi eleito sócio corres- 
pondente da Societá Luigi Camoens, de Nápoles. 
Em Maio de 191 7 foi eleito sócio correspondente 
da Academia das Sciências de Lisboa. — E. 

295) Reino Perdido. Ao Heliodoro Augusto da 
Nova no dia do seu aniversário of. do a. e de Filipe 
Nunes da Silva (Soneto) 28-io-çoi. Sem indicação 
<le tipografia. Folha medindo 310x230. 

296) Violáceas (vinheta). Lisboa, içoi. No verso 
da capa : « Tiragem numerada de 5 exemplares em 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 17 

papel de linho, 45 exemplares em papel coucké*. 
Na primeira página começa a composição encimada 
com a dedicatória aos seus íntimos Heliodoro Au- 
gusto da Nova e Francisco Ferreira Alves Teixeira, 
continuando na página 3, sendo a segunda página 
em branco. E um < excerto da Via-D olorosa, em 
preparação > naquela data, mas nunca publicada. 
Imprensa de Libanio da Silva. Lisboa. 

As Viohktas são anteriores ao Reyno Veràido. 
Nem estes nem A% moiras passaram de um número 
restrito de amigos. 

297) O So/ do Jordão. Lisboa, 1Ç02. Livraria 
Central de Gomes de Carvalho, 24-6 pág. Este livro 
provocou as invectivas da crítica. Teve uma tiragem 
de dois exemplares em papel Whatman. O folheto 
fecha com o soneto Ao cair da folha que interna- 
cionalizou o autor. 

298) As moiras. Ao Henrique Marques Júnior. 
Poesia escripta expressamente para ser recitada no 
dia 6 de Julho de IÇ02, 21.' anniversario de Henri- 
que Marques Júnior, e baptisado de sua querida 
irmã. Folha de 4 pág. 

A tiragem limitada foi, creio, de 15 exemplares 
e não entrou no mercado. 

299) Versos do Reyno. Lisboa. Tip. da Empresa 

tOtJkl DE SAJirAIO 2 



18 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

da Historia de Portugal, içoj. 64 pág. com o re- 
trato do autor, por A. V. Migueis. 

300) Ao cair da folha. Soneto. Tradticções : fran- 
cesa de Henri Faure; allemãs de Louise Ey e do 
Dr. Wilhelm Stork; ingleza de Edgar Prestage; ita- 
liana do Dr. Bobbio Porzia; hespanholas de D. Cár- 
men de Burgos y Segui e D. Manuel Lorenzo D'Ayot; 
sueca do Dr. Gõran Bjõrkman. Lisboa. Viuva Tava- 
res Cardoso, iço^. — 16 pág. dedicadas «á Ex.™* 
Sr.* D. Olga Moraes Sarmento da Silveira, home- 
nagem de admiração pela sua individualidade artis- 
tica>. Começa pelo soneto em português. No fim 
do folheto : « Acabou de se imprimir este volume 
aos trinta de Agosto de mil novecentos e quatro na 
Typographia Oriental em Lisboa >. 

3c i) Palavras Cynicas. (Em curandel: «Todo 
o homem tem em si a sua tragedia. .. devo mos- 
trar com sinceridade a minha tragedia. — Sien- 
kiewikz»). Lisboa. Livraria editora Viuva Tavares 
Cardoso. igo§. Lisboa. Tip. de Francisco Luís Gon- 
çalves. 136 pág. divididas em oito cartas ou capítu- 
los. Foi este livro, escrito no género schopenhau- 
reano, que tornou conhecidíssimo o autor, e mereceu 
larga crítica. 

Cândido de Figueiredo, escreveu a propósito, no 
Diário de Noticias de 20 de Maio de 1905: <Um 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO IQ 

livro pessimista e blasfemo, primeiro livro, em prosa, 
de um moço laborioso, inteligente e audaz. . . > 

302) Nos annos de uma Rosa. 2j-io-go6. Pla- 
quete anónima inserindo três quadras e tendo no 
fim : Tip. Paulo Guedes âf Saraiva. Lisboa. Edição 
particular de 40 exemplares numerados. 

303) Chronicas immoraes. (Em curandel : « O 
que melhor se ria será o último a rir-se. — F. 
Nietzsche»). Lisboa. Livraria clássica editora de A. 
M. Teixeira éf C^, igo8 — 288 pág. Dedicatória : 
ao Dr. Brito Camacho. Este volume é constituído 
por artigos publicados anteriormente em A Lucta 
e na Revista Litteraria Scientijica e Artística de 
*. O Século >. Eis o sumário: Crónicas imorais — 
Juízo do ano — Artistas — Jettatore — Os mineiros — 
Um sábio português — Emigrantes — Gabriel d'An- 
nunzio — Um poema — Oriente — As flores — Quanto 
custa uma mulher? — O Teatro Nacional — D. João 
da Câmara — Arte de Reinar — Religiões — Gomes 
Liai — Naufrágios — Goron — Mercedes Blasco — A 
deliciosa mentira — Estátuas e comendas — A tris- 
teza profissional — A morte — Poetas — O Tempo — 
A decadência do jornalismo em França — O Carna- 
val — Academias — O passado — O calor — Os basti- 
dores do génio: Zola, Wagner, Gorki — A tortura 
do estilo, Eça de Queiroz. 



20 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

Este livro foi motivo de vários enfados para o 
autor por ter aparecido anotado sobre a mesa onde 
trabalhava, e junto da qual se suicidou o conhecido 
boémio Dr. Alberto Costa (Pad-Zé). 

Há 2.' edição de Santos & Vieira. Lisboa, 191 5 
(2.», 3.° e 4.» milhar) 287-1 pág. 3.' edição de 19 18 
(5.°, 6.° e '].° milhar) 273-1 pág. Tem um «Prefácio 
da 3.* edição». 

304) Lisboa trágica. (Aspectos da cidade), [em 
curandel: Esta imensa cidade de quatrocentos mil 
habitantes e seis milhões de egoísmos ... — Fialho 
d' Almeida] com um retrato do autor por António 
Carneiro. Lisboa. Santos âr Vieira, editores. Em- 
presa Litteraria Fluminense. 

É constituída pelos capítulos seguintes : 

Dedicatória (A Fialho de Almeida) — Symphonia 
de abertura. A Cidade — Lisboa trágica — Do anoite- 
cer á madrugada — A Vida — Da Loucura á Enxovia 

— Conto do Natal — Uma noite de rusga — Vidas som- 
brias. I: Os Vagabundos — Vidas sombrias. II: Abys- 
sus abyssum invocat — Gente de Fogo — A Expiação — 
Comedia burgueza. Sonata de Inverno — Noite de em- 1 
barque — Historia de um polichinello — Prazeres que ■ 
matam — «As sombras da casaria...» — Os pobres 

— Depois da morte - O ventre da cidade — Vidas 
sombrias. III: Elegia de uma flor fanada — Noite 
morta— Vidas sombrias. IV : No Hospital. — Amanhã. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 21 

305) Como se implantou a Republica em Portu- 
gal (Notas dum revolucionário). Lisboa. Editores, 
Santos <5r Vieira. Empresa Litterária Fluminense, 
igio. — 1 90 pág. 

E muito interessante como repositório de do- 
cumentação histórica. Insere as proclamações da 
Junta Revolucionária e os primeiros editais do Go- 
verno Provisório. 

306) Como se implantou a Repuilica em Portu- 
gal. 2.* edição no mesmo ano e igual à anterior. 



A 1.' edição saiu anónima e a 2.* que é muito 
aumentada saiu cora o pseudónimo de Freitas Sa- 
raiva. A bandeira da capa da primeira é a bandeira 
da revoluçno, encarnada e verde, a da 2.', a bandeira 
da República, verde e encarnada, particularidade que 
talvez nem todos tenham noudo. 



307) Palavras Cynicas. 2.' edição. Lisboa, içii. 
Editores, Santos 6^ Vieira. 144 pág. Tem um < Pre- 
facio da 2.* edição >. 

308) Prosa vil. (Em curandel : « Cousas do 
mundo, umas que vão, outras que vem, outras que 
atravessam e todas passam. — P. António Vieira)». 
Editores, Santos <5^ Vieira. Empreza Litterária Flu- 
minense. Lisboa. 228 pág. Dedicatória: < Ao Dr. 
Cassiano Neves ». Eis o sumário : 



22 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

< Quando o fado é rigoroso ... — O fado — Fra- 
gmento duma carta — Loucos — Políticos — A Dança 
— João Rosa — Chapéus e animatógrafos — Viagens 

— A questão ortográfica — Oscar Wilde — Teatro da 
Natureza — A gastronomia, sciência da vida — Scena 
primitiva — O Senhor Richepin — Na Boa Hora — 
Jornais e jornaUstas — A Religião do Riso — A Paz 

— CatuUe Mendes — A conquista do céu — Os San- 
tos populares — Revistas do Ano — Ferrer — Camilo 

— Deuses — O museu instrumental — O Chantecler 

— Motins, Bernardas e Revoluções — O ódio — Os 
desherdados — A alma das cousas — O Público — 
Gente moça — índice (pág. 221-222). — índice de au- 
tores citados (pág. 223-226) e crítica a Lisboa Trá- 
gica por Manuel Penteado, do Jornal do Coviércio >. 



Há 2. a edição 1917 (3.° e 4.0 milhares) 218-6 
j. No prelo 33.* edição (5.° e 6.° milhares). 



309) Os Palhaços, acomodado à scena portu- 
guesa e representado no Jardim da Estrela em 10 
de Agosto de 191 1. O crítico teatral do Diário de 
Notícias escrevia a propósito desta peça: 

« Como trabalho literário, afigurou-se-nos ser 
muito apreciável, dispondo bem logo de entrada o 
espectador o prólogo, em verso de boa cadência. . . > 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 23 

Foram traduzidos e escritos com um, hoje, dis- 
tinto médico. Foram representados e publicados anó- 
nimos. 

Traduziu também A casa feli-{, de Benavente. 

310) Palavras cínicas, j." edição. Mesmo editor 
da 2.* edição. igi2. 

311) República Portuguesa. Ministério do Fo- 
mento. Relatório sobre a Biblioteca e Arquivo Geral. 
Junho de içii a Janeiro de içi2 por Albino Maria 
Pereira For jaz de Sampaio . . . Lisboa. Imprensa 
Nacional igiz. 87 pág. 

3 1 2) Palavras cínicas. Do mesmo editor e igual 
à 2.* edição, se fez ainda no ano de 191 2 o 4.**, 
5.", 6.'' e 7.'» milhar deste livro. 



(4.0 a 7.0 milhares). É de 191 5, 145-1 pág. 
Saíram mais as seguintes edições : 4.* (8.° a 1 1.» mi- 
lhares). Lisboa, 1916, 143-1 pág ; 5,* (12.° a 14. "* 
milhares). Lisboa, 1917, M0-4 pág.; 6.* (15.** e 
16. ° milhares). Lisboa, 1918, 140-4 pág. 

Tudo isto se refere ao n.** 310 que assim se du- 
plicou. 



313) ^J- Biblioteca de s ciências contemporâneas. 
Artur SchopenJiauer. Dores do mundo. A metafísica 
do amor. A morte. A Arte. A moral. O Homem e a 
Sociedade. Tradução prefaciada por. . . Editores, 



24 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

Santos âr Vieira. Empresa Litterária Fluminense. 
Lisboa. 191 3. 

314) Idem. Com o mesmo frontispício se fez 
uma separata das 24 pág. do prefácio. 



Foi de 100 exemplares a tiragem. Tem 2.* edi- 
ção esta tradução de Schopenhauer, mesmo editor» 
1918 — 214-2 pág. Do prefácio desta edição fêz-se 
uma separata de 32 exemplares com frontispício e 
capa própria intitulado Schopenhauer. 



315) Lisboa trágica. 2.* edição, igual à pri- 
meira 191 3. 

A I.* edição é de 1910 e tem 271-1 pág. 
A 2.^ é de 1914 e tem 221-3 P^g- -^ ?•* ^^ '9^7 
(5.° e 6.° milhares) e tem 231-1 pág. A 4.* de 1919 
(7.0 e 8.° milhares) e tem 231-1 pág. 

316) Gente da Rua (novela). (Em curandel: 
<Não se corta ao destino a garra adunca. Uns 
teem na fronte o selo da desdita. Outros ... os 
outros, não nasceram nunca — N. de Lacerda»). 
Editores, Santos âr Vieira. Empresa Literária Flu- 
minense. Lisboa. 1914. — 156 pág,, 3 de apreciações 
a várias obras do autor. É dedicada «a Bento Mân- 
tua, à sua obra, à sua amizade > . Impresso na Tip. 
da Imp. Literária e Tipográfica. Porto. 



ALBtNO FORJAZ DE SAMPAIO 25 



(i.°, 2,' e 3.° milhares). Saiu 2.* edição (4.0 e 
5.0 milhares), mesmo editor 191 7 — 158-2 pág. 



317) República Portuguesa, Ministério do Fo- 
mento. Relatório sobre a Biblioteca e Arquivo Geral. 
Janeiro de içi2 a Dezembro de içij, por Albino 
Maria Pereira Forjaz de Sampaio. Lisboa. Imprensa 
Nacional, içi^. — 20 pág. 



Forjaz de Sampaio tem publicado mais os se- 
guintes livros : 

a) Grilhetas. Em curandel : < . , . fechei a porta 
do mundo por detrás de mim e lancei a chave pela 
janela... Nada mais, nada mais no meu antro, do 
que o trabalho e eu ; éle devorar-me há e depois 
nada mais haverá, nada mais ! > Emile Zola. Lisboa, 
editores. Santos & Vieira, 1916 — (i.", 2,0 e 3.0 mi- 
lhares) 252-4 pág. 

Compõe-se : da dedicatória Ao Dr. António Au- 
rélio da Costa Ferreira e Este livro... — Resposta a 
um inquérito — Máscaras. Silva Pinto — Na hora da 
morte. Silva Pinto — Bulhão Pato — Ramalho Orti- 
gão — Gimillo. Camillo Castello Branco — Fialho. 
Fialho d' Almeida — Fialho d' Almeida no teatro — 
Eça de Queiroz. Velhos papéis. Eça de Queiroz co- 
merciante. Uma carta inédita — Jules Claretie — In- 
quéritos de jornal. Como trabalham os nossos escri- 
tores. Fumam? cigarro, charuto ou cachimbo? — 
A margem de alheios livros. «Outros tempos», de 
Júlio Dantas — «Evolução do teatro», por Eduardo 
Noronha — «Flores do mal > — Figuras gradas. Bento 



26 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



Mântua — Eduardo Schwalbach — Annibal Fernandes 
Thomaz — Latino Coelho. 

íiá 2.* edição, revista e aumentada. Mesmos edi- 
tores. Lisboa, 1919 (4.0, 5.0 e 6.° milhares). Tem um 
«Prefácio da 2.* edição». 

b) Vidas sombrias. Em curandel. «De todo o 
escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu 
com o seu sangue. Escreve com sangue e aprende- 
rás que o sangue é espírito». F. Nietzsche. Dedica- 
tória: To Miss Annie. To her proud and suffering heart. 
Corapõe-se dos seguintes artigos: Intróito — Vaga- 
bundos I — O filósofo — Vagabundos II — O pai — 
Filhos — O sonho — O bêbedo — O cigarro — A morte 

— O amor — Um conto banal — O frio — A velha 

— Amor que mata — A órfã — O abismo — O álcool 

— A professora — Carne de embarque — Famintos — 
O enterro dos regicidas — O 14 de Maio. Na Morgue. 

Lisboa, editores Santos & Vieira. 1917. (1.°, 2.® 
€3.** milhares) 255-1 pág. 

c) Tibério, filósofo e moralista. Em curandel. 
« O que Esdras escreveu nas margens do rio dos sal- 
gueiros melancólicos, junto a Babilónia, há mais de 
25 séculos, ainda se conserva: «A verdade é eterna 
e não perece nunca : vive e vence sempre. > Draper. 
Dedicatória. A Delfim Guimarães, poeta e amigo. 

Compõe-se dos seguintes artigos: Prefácio — 
O optimismo do pessimismo — O elogio — Amor, 
dinheiro, casamento — O elogio da cana anónima — 
Agiotar — O elogio das feias — Do roubo — Donde 
vem o mal — A côr das horas — A mentira — A mu- 
lher do próximo — A geografia — Barbaridades — Os 
Amigos — Movimento associativo — Da hipocrisia — 
A mulher que passa — Todos somos filósofos — A 
felicidade — A loucura — A paciência. 

Lisboa, 1918 (i .*> e 2.» milhares). Está no prelo a 
2." edição. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 27 



d) /í Avalanche. (À margem da grande guerra). 
Era curandel. <0 que tem a força está c por cima 
das leis. . . > Aos meus olhos a minha propriedade 
estende-se até onde se estende o meu braço ; eu rei- 
vindicarei como meu tudo o que sou capaz de con- 
quistar e não verei à minha propriedade outro domí- 
nio real mais do que a minha força, única fonte do 
meu direito». Max Stirner. 

Compõe-se da dedicatória adiante transcrita e 
dos seguintes artigos: A Avalanche — A margem da 
grande guerra. A arte da guerra — A Alemanha — 
Deutschland Qber alies — A idea da força — A arte 
alemã — A Germânia aventureira — Cidades flutuantes 

— Guerra em tempo de paz — A Bélgica — A Ingla- 
terra — A invasão da Inglaterra — Jellicoe — A icono- 
grafia da guerra — A arte e a guerra — A espionagem 
alemã — O jornalismo e a guerra — Civilizados! — 
O pan-germanismo — A indemnização ■:— Deus e o 
kaiser — .Vo coração da guerra. Soldados de Portugal. 
A caminho do front I a VIII — No front IX a XIV 

— A «trincha ». 

Lisboa, 1918. 224 pág. (i.» a 4.° milhares). 

e) Os 'Bárbaros. I — António Nobre. Em curan- 
del : < Olhai-me, doutores I Há doidos, há lava na 
minha família. . . António Nobre— Só». Editores, 
Guimarães Sc C.«. Lisboa, 19 18 — 108-4 pág. (i." e 
2.» milhares). 9 ilustrações — A. Nobre em 1888, 
1894, sem data, o áltimo retrato, um de R. Gameiro, 
um de A. Carneiro, outro de Th. Costa, a casa de 
Seixo, e a casa onde o poeta faleceu ; a fechar, um 
autógrafo. 

Co.m -o dramaturgo Bento Mántua escreveu : 

f) O Livro das Cortesãs — Antologia de Poetas 
ponugueses e brasileiros. Lisboa, 1917 — 235-5 pí^g-. 
ilustrado por Alberto de Sousa, António Soares, F. 
Valença, H. CoUomb, José Malhoa, Martinho da 



28 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



Fonseca, Menezes Ferreira, Roque Gameiro, Saave- 
dra Machado, Santos Silva (Alonso) e Stuart de Car- 
valhaes. 



Tem no prelo: Formosa Lusitânia. 
Foi já publicada, anónima. 

Prefaciou : José Duro. Fel (i8ç8). içjó. Livraria 
editora Guimarães âr' C." Lisboa, prefácio que corre 
de pág. 5 a 1 3 ; 

Cartas de Camillo Castello Branco. Com uma 
introdução e noticia bibliográfica por Albino For jaz 
de Sampaio. Publicadas em fac-simile por Manuel 
dos Santos. Lisboa. Livraria Manoel dos Sintos. 
igiò. A introdução vai de pág. 5311; 

Noutros tevipos, por António Aurélio da Costa 
Ferreira. 

O Fã prefaciado é 2." edição. Das Cartas de 
Camilo tiraram-se apenas 40 exemplares. 

Prefaciou mais : A Musa Loira. Contos imorais 
de Beldemónio. 2.* edição. Lisboa, 1917. (Tirarara-se 
10 exemplares em papel.de linho). — Terra alheia, 
contos traduzidos por Henrique Marques Júnior. Lis- 
boa. 1904; Escrínio de jóias, contos de Grimm, tra- 
dução do mesmo. Lisboa, 1909; No caos da ide-a, por 
Fernando Caetano Pereira. Coimbra, 1916; Heras e 
Violetas, por Guilherme Braga, }.* edição. Lisboa, 
1917; Ilusão Desjeita, por D. Maria 0'Neil, 2.* edi- 
ção. 



<! 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 29 

Colaborou em: O Eco Tipográphico — A Hunui' 
nidade, de Coimbra — Revista literária, scientifica e 
mrtistica d' O Século — Os Serões — A Actualidade — 
O Imparcial — I Ilustração Portuguesa — A Chronica, 
que dirigiu — O Heraldo, que fundou e de que se 
publicaram 4 números — A Folha do Sul, de Novo 
Redondo — Diário da Tarde — O Xuáo — A Sátira 
— Varões Assinalados — Novidades — A Lucta — A 
Noticia — O Século. 

Há ainda larga colaboração sua em A Humanidade, 
de Coimbra e no In memoriam, de Fialho de Almeida; 
e nos Almanaques: da Lucla para 1910, dos Theatros 
1903, Palcos e Salas 1909, da Pararia António Maria 
Pereira 1917. Colaborou também no Portugal Médico, 
do Porto, de que há duas separatas : Medicina, lite- 
ratura e história, 30 exemplares; e A literatura e os 
Médicos, 32 exemplares. 

Críticas à sua obra: Do Sr. Dr. Cândido de Fi- 
gueiredo, no Diário de Noticias, de 20 de Maio de 
1905, bem como dos Srs. : 

Armando de Araújo, no Arco íris, de 28 de Maio 
de 1905; 

Abel Botellio, em O Dia, de 30 de Maio de 
1905; 

Marcos Martins, no Nove de Junho, de 3 de Junho 
de 1905; 



30 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

Alfredo Pimenta, no Arco íris, de 22 de Janeiro 
de 1906; 

Alberto A. Insua Escobar, no Heraldo, de De- 
zembro de 1905 ; 

Francisco da Silva Passos, no jornal Republica^ 
do Dr. Artur Leitão. 

Além de muitas outras não assinadas. 

No livro de Henrique Marques Júnior, intitulado 
Esboços de critica^ encontra-se um capítulo a seu res- 
peito, assim como no livro de Fialho de Almeida 
Saibam quantos . . . e Avelino de Sousa, no livro in- 
titulado O Fado e os seus censores . . . Lisboa. 191 2, 
ocupa-se de Forjaz de Sampaio. 

O artigo de Silva Passos foi publicado no Liberal 
e não na República. Podem ver-se ainda artigos de: 
Fialho d' Almeida, sobre a Lisboa trágica, do Saibam 
quantos... (veja-se Palavras cínicas); Eduardo Schwal- 
baçh, sobre a Gente da Rua, do Jornal de Noticias (ve- 
ja-se Crónicas imorais); Abel Botelho, sobre as Pala- 
vras cínicas, de O Dia (veja-se Lisboa trágica); Manuel 
Penteado, sobre a Lisboa trágica,, àe O Jornal do Co- 
mércio (veja-se Prosa vil); Aníbal Soares, sobre a 
Lisboa trágica, do Correio da Manhã (veja-se Gente da 
rua); Júlio Dantas, sobre a Gente da Rua, de O Pri- 
meiro de Janeiro (veja-se Grilhetas); Augusto Gil, so- 
bre os Grilhetas, de A Lucta (veja-se Vidas sombrias); 
Silva Pinto, sobre Crónicas imorais, do Para o fim t 
Saldos (veja-se A Avalanche); Eduardo Schwalbach, 
sobre Tibério, filósofo e moralista, do Jornal de 'Noticias 
(veja-se António Nobre). 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 31 



Também a seu respeito escreveram Henrique de 
Vasconcelos na Luta, Rocha Martins no Diário Ilus- 
trado, Manuel de .Sousa Pinto na Máscara e na Atlân- 
tida, Delfim Guimarães nas Noindades, Alfredo Gális 
no Tempo, Júlio Camba no Heraldo de Madrid, Al- 
maquio Diniz no livro Moral t Critica, Ribera i Ro- 
vira no Portugal literari, Angel Guerra na Lectura e 
Lourenço Gaiola no Diário de Notiãas. 

E já agora para completar tanto quanto possível 
estas notas íaça-se ainda mais este pequenino acres- 
cento que não deixa de ser interessantíssimo : 

IcoNOGR.\FiA — 'Portrait-charge de F. Valença 
(Terra Alheia), caricaturas de Saavedra Machado, 
Amarelhe, Collomb e Alberto de Sousa. Retratos: 
lápis, de António Carneiro; óleo e carvão, de Alfredo 
Migueis; pastel de Martinho da Fonseca. 

A seguir ao estudo sobre António Nobre, Albino 
Forjaz de Sampaio pensa escrever um largo estuda 
sobre Eça de Queiroz, para o que já anda carreando 
o indispensável material. 

No prelo estão já os seus livros Jornal de um 
rebelde. Cantáridas & Violetas, devendo seguir-se-lhe 
o Cosmopólia já preparado para a impressão. 

E fecham-se aqui as notas e os acrescentos. 
Agora, vamos ao resto. 




MONOGRAMA 
Por Santos Silva (Aloiuo) 



Bisantinices de um linhagista 



Sobre o nome de Albino Forjaz de Sampaio 
criou-se há muito uma lenda que vinha sendo co- 
chichada aos ouvidos de toda a gente — e dizia que 
o Albino era Albino mas não de Forjaz nem de 
Sampaio. Que era Albino Cunca, 

O talento crítico em Portugal por via de regra 
dá nisto, neste cuscuvilhar pelintra em volta de uma 
assinatura, como se fosse a assinatura que fizesse o 
homem e não o homem que fizesse e engrandecesse 
ou deprimisse a assinatura conforme a sua inteligên- 
cia e o seu porte. Ultimamente as duas facções polí- 
ticas, monárquicos a um lado e republicanos a outro, 
arranjaram para gáudio seu fe dos coevos derranca- 
dos que os apoiam, dois cabreons — para os primei- 
ros Albino Forjaz de Sampaio; para os segundos 
António de Monforte, pseudónimo de António Sar- 
dinha. 

rotJAz DC sjuiPAio 3 



34 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

Tratemos do primeiro e ouçamos isto que vale a 
pena : 

« O autor das Palavras Cínicas e quejandas mons- 
truosidades literárias usa indevidamente os apelidos 
meus e de minha família. Não pode mesmo figurar 
neste Livro de Linhagens como uma vergôntea dessa 
linha mais que duvidosa. Desde porém que se serve 
abusivamente deles, é bom que aqui fique exarado 
que nada, absolutamente nada, tem com os diversos 
ramos de Pereiras que usaram ou usam os apelidos 
Forja\ e de Sampaio. 

«É Albino Cunca e nada mais. Tenho disso co- 
migo as provas documentais. Seu pai era natural de 
Tentúgal e filho de pai incógnito. Sua avó uma 
Cunca de pé descalço, dos Cuncas dessa vila, alguns 
dos quais conheci e um ainda conheço, pobre diabo, 
que foi arrendatário de umas geiras de terra da casa 
de meu pai. Provindo do povo, seria por certo mais 
honroso, decoroso mesmo, para o democrata Albino 
Cunca usar este apelido de que adomar-se com penai 
alheias que tanto cheiram a talassismo. 

« Que a uma preta do Congo, seu pai, o fami- 
gerado Cabinda José Macoco que foi meu cosinheiro, 
pusesse o nome de Ana Forjaz Macoco, querendo 
assim, na sua boçal estupidez, honrar a madrinha de 
batismo, minha irmà, vá lá. Que um outro preto 
também do Enclave de Cabinda envaidecido por eu 
o nomear regedor do Povo Grande, passasse a usar 
apelidos meus, não admira. É isto vulgar na preta- 
Ihada ao sentir-se ufana de honras. E vulgar já foi 
até no Ultramar muitos governadores serem os pró- 
prios a mascará-la com pomposos nomes. E se bem 
me recordo, há em Africa um Mariano Grilo de Car- 
valho, um Fontes Pereira de Melo, um Andrade 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 35 

Corvo, um Guilherme de Brito Gipelo, e muitos 
outros, todos de côr preta. Mas fazê-lo a si próprio 
um branco, e um branco que tem inteligência e 
ilustração!!! Só um Cunca, ou um Ligório. > 

(Livro de Linhagem — Tomo I, páginas iii, 
ao fundo, em nota composta em corpo 8). 

Para que conste, acentuadamente afirmo que é 
cópia textual na qual respeitei além da gramática a 
esplêndida virgulação do II. ""^ e Ex."" Sr. Jaime Pe- 
reira de Sampaio Forjaz de Serpa Pimentel. 

E agora já que transcrevi a acusação do sr. de 
Pimentel, é lógico e é justo que transcreva igual- 
mente a resposta do sr. Albino Forjaz de Sampaio, 
que veio inserta na Luta, Ano ii — N.° 3:834, de 
quinta-feira, 31 de Agosto de 191 6, com o sub- 
-título — Um Conselheiro e que para aqui também 
se transcreve na íntegra. 

Ei-la : 

«Não conhecem? Pois chama-se Jaime Pereira 
de Sampaio Forjaz de Serpa Pimentel. Tem muitos 
trabalhos que nunca ninguém leu e Deus permita não 
seja obrigado a ler. Tem além disso dezasseis meda- 
lhas, incluindo alguns maus hábitos, a comenda de 
S. Gregório Magno, e muita prosápia. Esta é que o 
faz dar ao gozo das gentes porque o nosso conse- 
lheiro tem a mania da parentela nobre e a mania de 
escrever. A primeira leva-o a supor-se descendente 
de não sei quem que veio de algures, a segunda, a 
peor, incontestavelmente, levou-o a escrever um li- 



36 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



vro que intitulou Livro de linhagens. Traços hislórico- 
-genealógicos da minha família, suas ascendências e alian- 
ças e subsídios para a história genealógica de algumas 
famílias portuguesas. Tirou apenas 200 exemplares da 
obra genial e está publicado o i.° volume. E nêle 
que a pág. 141, o conselheiro, em nove páginas e 
meia desvanecidamente fala de si. Diz como em me- 
nino e moço êle já era o agradável Lulu que ainda 
hoje é. Mas contado não tem graça. Ouçamo-lo. 
« Atraia-me o mar. Fascinava-me. E de compleição 
débil, pareceu-me que o ar do mar, respirado a lar- 
gos pulmões, me retemperaria como de facto retem- 
perou o corpo. Teria vocaçào para a vida marítima, 
eu tão amimado pelas tenras carícias dos meus bons 
pais?... Teria a paixão do mar, e de tudo quanto 
é ou dele vem ? » Sabem se o conselheiro já era 
criança gostava de marujos ? Pois gostava, o facto 
é que escorregando, escorregando, chegou a capitão 
de mar e guerra. 

Dedica o seu livro de linh.igem ao sr. D. Ma- 
nuel e escreveu, como bom talassa que é, vários ar- 
tigos que intitulou Monarquia sim; República não. 
Pela pátria, pelo Rei, etc. Um belo dia reforma- 
ram-no, dando-o, é claro, como incapaz de todo o 
serviço. Pois vai daí o conselheiro escreve : 

«Incapaz de todo o serviço, sim; mas... capaz 
de todo o serviço me julgarei ainda, se Deus me 
der vida e saúde, se para o triunfo de uma causa 
justa a que felizmente ainda aspiram todos os por- 
tugueses sinceros, bons, respeitadores e admiradores 
desse passado, monárquicos ou republicanos que se- 
jam, se necessitasse do meu já enfraquecido braço, 
da minha sempre pouco esclarecida inteligência ; por- 
que se é honra e dever de todos esses portugueses 
contrapor os seus esforços à obra negativa do re- 
gímen implantado em 1910 e à quási total anarquia 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 37 



em que a nossa querida pátria se esfacela, essa honra 
e dever quero-os também para mim. Corre-me ainda 
nas veias esse sangue de antepassados meus que sou- 
beram bem viver e morrer, e esse sangue dá-lo-hei, 
se tanto fôr preciso, para ressurgimento, se ainda fôr 
tempo, da minha pátria, porque ainda felizmente me 
resta alguma esperança xx) futuro de Portugal, a des- 
peito de tudo... e de todos». Há nisto tudo uma 
passagem tocante : é quando êle fala na sua < sempre 
pouco esclarecida inteligência >. É realmente verdade. 
Nasceu tolo e débil, coitadinho. O ar do mar robus- 
teceu-lhe a compleição, mas de caco ficou sempre 
como nascera. Nem com o ar do mar. 

Em 5 de Outubro não estava cá. Senão... senão 
estava implantada a República. 



Ora eu nunca tinha ouvido falar do conselheiro, 
nem sabia que o conselheiro existia até um amigo 
me mostrar o livro e o retrato que o acompanha. 
O conselheiro usa óculos, tem uma dupla coleira 
honorífica e um ar espavorido de tonto fardado que 
lhe vai a matar, a êle e à prosápia. De caminho há 
a pág. m do cartapácio, depois de depreciativamente 
me chamar «democrata», a seguinte afirmação: «O 
autor das « Palavras Cínicas » e quejandas monstruo- 
sidades literárias usa indevidamente os apelidos nuus 
e da minha família >. O itálico é nosso. 

Ora em primeiro lugar quem deu ao conselheiro 
autoridade para fazer crítica literária ? 

O conselheiro que escrevia de uma sua mana 
que morreu de nove anos de idade: «foi uma criança, 
toda candura e bondade, desaparecida no primeiro re- 
florir da vida> e de D. Carios: «deixou na terra, a 



38 ALBINO FORJ>Z DE SAMPAIO 



par de actos que tanto ennobreceni a sua memória e 
que o tornarão heroicamente célebre quando a Histó- 
ria tenha para êle louvores que ainda hoje lhe não 
são conferidos, um rasto inextinguível de luz que 
promana das grandes e excepcionais faculdades men- 
tais e de trabalho que possuia em tão elevadíssimo 
grau ! » Heroicamente célebre ! O diabo não tem 
sono. Monstruosidades literárias o que eu escrevo. 
Prosa genial a deste Acácio. Ó conselheiro, então, 
por quem é. . . 

Quanto aos apelidos, eu sou filho de Albino 
Maria Pereira Forjaz e neto de Jacinto Pereira de 
Forjaz Sampaio. (Livro de Bap. Pena. 1884, fl. 
15. V.) Que raio de nome queria o conselheiro que 
eu usasse ? Meu pai não foi conselheiro nem vis- 
conde. Foi caixeiro de livraria. No Orcei e no Ma- 
nuel de Almeida Cabral, em Coimbra, na Livraria 
Ferreira e Tavares Cardoso, em Lisboa. Foi um 
homem honrado. Eu fui aprendiz de marceneiro 
como o general Carlos Ribeiro e marçano de droga- 
ria como pessoa que não tem prosápia e que não 
trabucando não manduca. Que tem tudo isso de 
extraordinário ? Nunca me inculquei parente do con- 
selheiro. Tenho livros. Não foi por me dizer parente 
de Nun'Ál vares que o editor mos pagou. Tenho um 
emprego público. Não foi por dizer que o conse- 
lheiro era meu tio que o arranjei. Que demónio 
quere, pois, este pobre homem, que abomina os de- 
mocratas ? 

Respondo hoje ao conselheiro porque, ao que 
parece, sou já tão célebre que as gazetas se entreteem 
nessas lerias a meu respeito. Há três anos, no dia 
em que embarquei para o estrangeiro, essa mesma 
notícia deu a volta ;is gazetas da boa causa, dizen- 
do-se até numa delas que eu ia em cviajata de re- 
creio por conta do Estado». Fui. Fui a França e 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 39 



Inglaterra, mas o Estado não deu para isso um cei- 

til ('). 

Uso os apelidos que meu pai me deixou. Que 
me quero aparentar com o conselheiro ? Livra. Não 
há decretos que obriguem a ter tolos na família. O 
que está provado é que os plebeus que me forjaram 
nio foram nunca nem fâmulos, aios, escudeiros, 
eguariços, capelães, mordomos, pagens ou criados 
em casa dos pais do conselheiro. E não foram por- 



(*) Em setembro de 191 3. Forjaz de Sampaio, visitou a 
França e a Inglaterra. E vai daí um jornal monárquico, saraco- 
teando-se, esguichou : 

vAclcranio. O Albino Cunca. A propósito da viajata de re- 
creio, poT conta do Estado, do arquivista do ministério do Fo- 
mento e redactor da Luta, sr. Albino, dois jornais de Lisboa. 
O Unhrrsal e os RiJicvlos, acentuaram usar este afilhado do 
sr. Camacho e autor das Palavras cínicas um apxílido que não 
tem, em vez daquele que lhe pertence e que, sendo muito de- 
mocrático, devia ser preferido. 

Efeaivamente existem dois documentos elucidativos, o pri- 
meiro passado numa paróquia de Lisboa e o segundo, ainda 
mais curioso, na da freguesia de Tentúgal, demonstrando que o 
sr. Albino Forjai de Sampaio é legal e domocráiicamente o 
sr. Albino Cunca, filho da sr.' D. Maria Antónia das Neves 
Oliveira e neto de D. Rosa Cunca e de Bento Cunca. » 

Palavrinha! Até parece prosa do sr. de Serpa Pimentel... 
Mas porque não publicará Sua Ex.' os tremebundos documentos 
que possui ? 

Também Os Ridículos, de 3 de setembro inserem versalhada 
de um ul D'Artagttan sobre o mesmo assunto. Ex digito gigans f 
A prosa corre parelhas com os versos. A campanha deve ter 
saído do mesmo altíssimo cérebro... por igual, e em jactos 
cianúricos. 



40 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



que então teria o conselheiro saído muito mais es- 
perto. 

Quanto à prosápia deixo essas lerias de parentes 
toda ao conselheiro. Certamente o primeiro avô dele 
foi Caim, visto Abel ter morrido sem geração. De- 
pois descende de Nun'Álvares, diz. Está bem. Mas- 
olhe, conselheiro, os versos de Sá 3e Miranda : 

E senhor, grande trabalho 
Escrever de gerações. 
Nem todos são Scipiões 
E podem cheirar ao alho 
Ricos homens e infanções. 

Quem o mandou, conselheiro, ao senhor, um 
marítimo, meter-se nessas cavalarias? Ora diga- me cá: 
Com a publicação do Livro de Linhagens (talvez por 
cruzamentos com mercadores) a sua sombra cresceu ? 
O senhor deixou de ser o asno que era dantes? O 
que eu não supus é que ser mestre-sala da Liga Na- 
val dava assim volta aos pergaminhos de uma pessoa. 
Descanse, conselheiro. Eu não sou da sua família. 
Parente do conselheiro, o conselheiro de compleição 
débil a quem o mar fascinava ? Não. Fica o conse- 
lheiro entendido. Agora se se torna a meter comigo 
eu vou a essa trela toda de parentes e completo o 
seu livro com apontamentos inéditos com que o con- 
selheiro dará três pinotes. Percebeu ? Bem. Fica toda 
a gente elucidada. Jaime Pereira de Sampaio Forjas 
de Serpa Pirtientel. Já conhecem o conselheiro ? 
Folgo. 

Nietzsche dizia : « Também me agradam muito 
os pobres de espírito : apressam o sono. » Mas o 
conselheiro é demais com aquela mania das grande- 
zas e a não falar senão dos parentes . . . 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 41 



E diz dali o plebeu José Agostinho de Macedo : 
<Que homem de merecimento seria reputado este 
mentecapto se continuasse a emmudecer ! > . . . 



Safai Que a gente vem toda em linha recta do 
mestre pai Adão e as aristocracias — as melhores e 
as maiores — são hoje e foram-no sempre as da 
honra e do trabalho 1 



Verduras da mocidade... 



Como se viu já, Albino Forjaz de Sampaio co- 
meçou a sua produção em 1901 com as Violáceas 
e não com o Reyno perdido como atrás se transcre- 
veu e rectificou, e publicou mais cmco opúsculos 
até às Palavras Cínicas que foram, literariamente, 
a sua marcação de lu^ar na Literatura Nacional. 

Todas estas primeiras produções são em verso e 
bem fez Forjaz de Sampaio em pôr de parte as 
Musas que lhe eram avessas e enveredar pela prosa 
onde é Mestre, como os melhores da sua geração. 

Reyno Perdido, é um soneto, de sabor requinta- 
damente Sòsista^ embora, ironias da pena, o seu 
último livro agora publicado ' seja uma tremenda 
análise de crítica à obra de António Nobre. Até a 
maneira de o epigrafar o demonstra — Reyno Per- 
dido — com y, coisa que Forjaz de Sampaio já hoje 



1 0% Bárbaros, i.° — António Nobre. 19 19. 



44 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

não escreveria por certo. Depois lá vem o verbo 
botar, o verbo alembrar, e a palavra soidade a cor- 
roborarem a minha afirmação. 

As Violáceas, é uma poesia, de pouco valor evo- 
cativo, fraca pincelagem, acção desconexa, e versos 
dolorosamente feitos e havidos em parto cezariano. 

Vem depois O Sol do Jordão onde os versos 
peoram, quere na técnica quere na idea. Aparece 
pela primeira vez na obra incipiente de Forjaz de 
Sampaio, o espírito satânico a empurrá-lo para a 
triste celebridade das heresias à Richepin, com ver- 
sos tão desgraçados como estes : 

... O choro d'uma amante, amargo como um ralo 
E que hoje p'r'ahi anda esculpido por um hereje 
Debruça-se a tremer, amantemente esquivo 
Mais uma desgraçada p'r'ahi a desgraçar. 

Isto apenas para amostra, que na essência nem 
vale a pena tocar. E o lixo moral de todos os que 
começam vexando Deus e cuspindo no sentimento. 
Porcarias . . . 

As Moiras, são uma pieguice inofensiva, destas 
que todos nós fazemos e que não fazem mal nem 
bem . . . antes pelo contrário. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 45 

■ E na ordem cronológica temos os Versos da 
^ Reyno — 162 quadros que salvam as primeiras pro- 
duções do autor porque não sendo afectados teera 
grande sabor popular, sentimento, e uma certa mes- 
tria já no expressar da triste filosofia dos tristes, 
característico muito da eleição de todos os poetas 
de Portugal desde Bernardim Ribeiro, o poeta das 
Saudades, até António Nobre, o patriarca da Dor 
metrificada. 

Ora vejam isto e digam-me se não há aqui be- 
leza de expressão e de sentimento: 

Ai de mim, que vivo só, 
Lindos olhos que me ledes I 
Káo lii paredes mais tristes 
Do que estas quatro paredes. 



E mais isto: 



A Mágua foi minha mãe, 
Mas ter só mãe não nos basu ; 
Meu pai chamou-se Desgosto 
E Dor a minha madrasta. 



E ainda isto: 



Por muito que tu me queir;<s 
Nunca o teu amor me bonda ; 
Também a areia da praia 
Nunca se afasta da onda. 



46 * ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

Versos do Reyno mesmo brochados valem de 
facto todas as suas primeiras produções, juntas e 
encadernadas em percalinas ricas. 

Em 1904, publica-se o soneto Ao Cahir da Fo- 
lha com as respectivas traduções. Este soneto, muito 
fraco nas quadras, tem a beleza suprema do último 
terceto que vale bem a celebridade das traduções: 



Não, mas deixa lá, 



Podia a santa afligir-se ! E agora, 

— Sempre são mães ! — quando te fores embora 

Nunca lhe contes o que vai por cá. 

Este final é de uma grande beleza de sentimento 
e de uma rara felicidade métrica, o que, como já 
acentuámos, não é usual encontrar-se em Forjaz de 
Sampaio. 

* 

Uma novidade bibliográfica me forneceu ainda o 
ilustre bibliógrafo sr. Henrique Marques Jiinior. E 
uma folha de papel intitulada A festa (Folha Comme- 
morativa). Ao centro a fotografia da artista Alice 
de Carvalho, do Teatro Chalet da Feira de Belém, 
e aos lados duas poesias : Saudação rubricada por 
Líbano; e Conselho subscrita por Nardoma. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO AT 

Líbano é o anagrama de Albino, e este Albino 
é o nosso biografado. São sete quadras apenas, já 
hoje desconhecidas e esquecidas e que se reprodu- 
zem para o competente estudo dos progressos do 
autor : 

Com treze anos somente 
Saber chorando cantar, 
E cantar tão tristemente 
Que faz a gente chorar ! 

Depois, um riso nos lábios, 
Um riso no coração, 
Um triunfo cada noite. 
Em cada acto : uma ovação ! 

Assim a vida te passa 
Entre um pranto e uma risada, 
Adorando toda a gente, 
Por toda a gente adorada. 

Teus lábios teem o segredo, 
O segredo ou quer que é 
Que embriaga as multidões 
Na graça de um couplet. 

Ai vida da nossa vida 
Leva-se esta vida aos ais : 
Fala verdade a cantiga, 
Muito fumo. . . e nada mais! 

Senhores, que menos vale 
Uma feira que um salão ? I 
Nas feiras há muita alma. 
Bate muito coração. 



48 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



Foi o povo que te adora 
Qiae me ensinou a cantar, 
Para que por mim e êle 
Te viesse hoje saudar. 



Tudo isto são apenas. . . verduras da moci- 
dade. 

Que diferença porém que vai destas verduras, 
aos versos A Um Velho LivrOy já hoje também raros, 
escritos em comemoração da Festa da Associação 
Tipográfica Lisbonense e Artes Correlativas, em abril 
de içió. São três quintilhas só e vale a pena con- 
frontar : 



Velho Hvro encanecido 
Do tempo de Guttenberg 
Papel do tempo amarelido, 
Impresso em tipo sumido, 
Como a minh'alma te quer ! 

Velho livro encanecido 
Do tempo de Guttenberg 
És o avôsinho esquecido 
Do livro de hoje, garrido, 
Que a gente de hoje prefere. 

Mas se o livro moço e querido 
Preteriu o ancião. 
Velho livro encanecido. 
Vives no olvido, perdido, 
E neste meu coração ! 



I 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 49 

Ou este soneto mais moderno ainda, mais forte, 
mais lúcido, mais dentro da mestria da técnica: 

ESPIRITUAL 

A MISS ANA 
Figura de encanto e di ternura 

Hei-de beijar-te os olhos, docemente 
Hei-de oscular-te a boca, insaciado ; 
E, num beijo veemente e demorado, 
Correr todo o teu corpo alvinitente. 

Beijar-te ansioso, indómito, fremente, 
Sentir pulsar-te o coração amado, 
E tornar a beijar o já beijado, 
Apaixonada, estremecidamente. 

E se me fosse dado a punição 
Escolher, em castigo da paixão 
Que me desvaira e faz enlouquecer, 

Com que prazer levara a vida inteira. 
Novo Ahasverus, sem tédio e sem canseira 
O mundo do teu corpo a percorrer ! 

Pub,"* na Alma Nova — 1916. 

A diferença, bem visível, é considerável, mas, 
apesar disso, ainda lhe prefiro a prosa. 
E vamos a ver porquê. . . 



tOXIkZ Oe SAMPAIO 



Na prosa da vida 



Palavras cínicas 

Aquelas produções, analisadas no capítulo ante- 
rior, denomina-as o escritor, á maneira de Vítor 
Hugo : * as asneiras que eu fazia antes de nascer > . 
E assim o primeiro livro de Forjaz de Sampaio 
pode classificar-se as Palavras Cínicas. Foi sem 
dúvida o seu primeiro livro, aquele que o atirou 
para o mundo das letras e do escândalo, o que em 
volta do seu nome concitou mais ódios e aplausos, 
o mais discutido e o mais vendido também. Vai 
hoje no i6.° milhar ç venderem-se em Portugal 
e Brasil dezasseis mil exemplares de uma obra é 
galgar de um salto o escalão da celebridade. Vale 
este sucesso as Palavras Cínicas} Sim e não. Livro 
doentio, feito para épater, como tal a sua prosa é de 
mestre e o sucesso compreende-se; mas nem a 
prosa das Palavras Cínicas é a prosa já feita e 
segura da Avalanche, nem tem a beleza e a sinceri- 
dade da Gente da Rua. Examinemo-lo. 

No prefácio da 2.* edição, Albino Forjaz de 



52 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



1 



Sampaio, seis anos após o manuscrito, declara que 
não mudou de ideas, antes pelo contrário esse pe- 
ríodo de tempo só conseguiu ratificá-las. E explica: 
— «eu não mudei porque a vida não mudou >. E 
mais adiante, afirma: «creio que este livro, escrito 
para ser meditado e seguido, será ainda acolhido J 
com amor». 

Ora as Palavras Cínicas nem foram escritas para 
serem meditadas nem são, nem jamais o foram, aco- 
lhidas com amor, O amor é um sentimento nobre 
das almas sãs. As Palavras Cínicas são o condi- 
mento das almas depravadas pelo vício, derrancadas 
pela miséria ou espesinhadas pelo egoísmo. E estas 
almas não amam, odeiam. Não sentem amor, teem 
raivosos desesperos de impotência. Logo este livro 
de Forjaz de Sampaio não é dos bons, dos humil- 
des, das almas de sentimento. É dos maus, dos 
egoístas, dos perversos — e nunca por estes podia 
ser acolhido por um sentimento que as suas almas 
doentias já não possuem, que os seus corações em- 
pedernidos na miséria e no vício já não sentem. 
Morreram para a flor da graça e do sentimento e 
na estrumeira de todas as indignidades já nSo pode 
florescer o amor ! 

Também neste prefácio Albino Forjaz de Sam- 
paio nega o sentimento da gratidão na esteira de 



I 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 53 

Silva Pinto. Outra afirmação à sobreposse. Outra 
afirmação para épater a conjugar-se com a afirmação 
final do negativismo que já passou à história. Hoje 
a existência de Deus, como princípio, como base, 
como ponto de partida de todo o existente já não 
oferece discussão, tão reflectida e unanimemente 
assente por todos os espíritos cultos se encontra. 
Mas é que para aquela qualidade de gente a que se 
dirigem as Palavras Cínicas era necessário afirmar 
aquilo, condição sine qua non o livro ficaria manco. 

Eu não acredito que Albino Forjaz de Sampaio, 
espírito lúcido, inteligência clara e robusta, se apre- 
sente ainda com o velho balandrau do negativismo, 
e muito mais do negativismo à outrance. 

Este prefácio é de 191 1. Estamos em 1919, 
e oito anos de ponderação e de estudo hão-de ter 
forçosamente orientado o seu espírito para um 
campo menos pernicioso e mais humanamente belo. 

Mas continuemos a análise e vejamos a primeira 
carta, que o livro de oito cartas se compõe. 

« 

* ia 

Se tivéssemos que classificar, à distância de mui- 
tos anos, o autor das Palavras Cínicas, conhecen- 



54 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

do-lhe apenas este livro, Albino Forjaz de Sampaio 
seria justamente alcunhado como um dos mais per- 
versos monstros morais do seu tempo. Mas observan- 
do-o bem, analisando-o com meticulosidade chega-se 
à conclusão de que o abuso dos palavrões, nomea- 
damente as palavras rascantes — pulha, canalha, pros- 
tituta, etc, — empregadas em excesso, prejudicam as 
muitas verdades nele expendidas, o bom senso crí- 
tico muitas e muitas vezes exposto e tornam-no 
inutilmente odiado e doentiamente procurado sem 
outro resultado mais do que aquele que o seu autor 
quis obter ao escrevê-lo — o tornar-se conhecido, fa- 
lado, discutido. 

E um livro onde se encontra muita verdade, mas 
que os palavrões e as blasfémias inutilizam para a 
crítica sã, justiceira, imparcial. 

É ver a primeira carta. Dirige-a o autor a um 
suposto amigo para lhe falar de quê? Da vida, 

« A vida é a escola do cinismo » diz-lhe logo 
Forjaz de Sampaio, de entrada. Primeira afirmação 
falsa, à sobreposse, para espantar o burguês que o 
ler. Porque, evidentemente, se Forjaz de Sampaio 
dissesse — «a vida é para os maus uma escola de 
cinismo > — estava certo. Que se os maus em con- 
tacto com a maldade peoram, os bons, olhando a 
vida, tornam-se melhores, ganham mais coragem no 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 55 

sofrimento alheio para fortalecerem a própria resi- 
gnação. 

€ Sê mau, cínico, hipócrita e persistente que ven- 
cerás >, escreve. Outra afirmação gratuita que uma 
só verdade encerra. O pensamento era este — sê per- 
sistente e vencerás. Mas isto já estava dito e redito 
através os séculos e as religiões e Forjaz de Sam- 
paio nada ganhava em escrevê-lo de novo. Porisso 
acrescentou então os palavrões indispensáveis aos 
espíritos doentes que só assim o admiravam num 
ambiente de ódios e de imprecações. 

E linhas mais abaixo vêem estes dois períodos 
que a pena de Forjaz de Sampaio já hoje não es- 
creveria : 

« Não ames nem creias. Todo o homem que ama 
é homem perdido, e todo aquele que crê nunca será 
ninguém. > 

Ora isto só se pode escreve/ por troça, por cha- 
laça ou por maldade, A vida inteira da Humanidade 
o desmente, e só o desejo de se tornar notado, de 
fazer barulho podia produzir tal aleijão filosófico, 
que é desmentido pela própria vida social do autor 
das Palavras Cínicas. 

«Tudo é egoísmo!», exclama a páginas 13 e a 
páginas 16 fala na morte de um justo. Se tudo é 
egoísmo como se compreende que hajay«j/í?j? 



56 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

«Depois da morte há o nada>. Quem lho afir- 
mou ? 

A páginas 1.^ há esta inconcebível blasfémia que 
eu não escrevo sem repugnância : — t Da mulher 
honesta à prostituta não há diferença, a distância 
de uma à outra é nula». 

E a páginas i6 há catorze linhas contra Deus 
que eu não transcrevo, tão disparatadas elas se me 
afiguram, tão más, tão repugnantes, tão fora de toda 
a análise crítica elas são. E seguem-se-lhe as falsíssi- 
mas noções sobre a vida dos pobres e dos miserá- 
veis, cuja religião do ódio só existe, felizmente!, no 
livro de Forjaz de Sampaio — para fechar a primeira 
carta com este pensamento : « A vida é uma cana- 
lhice, uma farçada, zifna luta brtital, como diz ali o 
TourgueneíT». 

Ora Tourgueneff chamando-lhe uma luta brutal 
estava bem e tinha j-azão. Forjaz de Sampaio cha- 
mando-lhe uma canalhice é falso, exagerado e não 
consegue exprimir um sentimento de justiça, nem 
tem uma sequer tolerável expressão de verdade. A 
vida pode ser, num oic noutro caso, t uma cana- 
lhice», mas não o € na generalidade, nem o foi 
jamais. 

Antes pelo contrário a vida é uma grande coisa, 
uma coisa bela quando a olhamos pelo lado do sen- 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 57 

timento, da gratidão e da honra, palavras que Forjar 
de Sampaio fingiu não conhecer ao escrever as suas 
Palavras Cínicas. Quantos exemplos de sentimento- 
não tem dado o coração humano, quantos motivos 
de gratidão não existem comprovadamente efectua- 
dos, quantos exemplos da mais inconcussa probidade 
nos não legaram nossos pais e não conhecemos nós 
ainda hoje?! 

Na segunda carta há o mesmo diapasão, a mesma 
tecla matraqueada cada vez com mais fúria e sempre 
com a mesmíssima falta de sinceridade e de verdade. 

« Quantas vezes perguntaste onde estavam a Bon- 
dade humana, a Justiça humana? Quem te respon- 
deu? Inútil pergunta». 

A afirmação é que é inútil. Ai de nós todos se a 
Bondade humana fosse um mito, se a Justiça humana 
não existisse. Não é preciso ir buscar exemplos ao 
alfobre abençoado de todas as religiões e principal- 
mente ao catolicismo. Na vida prática mesmo nós 
temos todos os dias centenas de exemplos, milhares 
de exemplos a contradizerem as palavras de Forjar 
de Sampaio. 

Também pela sua desbragada monstruosidade 
não transcrevo nem comento as páginas 24 até 
páginas 29 ; elas desonrariam a pena de um es- 
critor se não' fossem a rapaziada atrevida e incons- 



■58 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

ciente de um talento desorientado que se quis impor 
a uma sociedade de frívolos berrando e batendo as 
palmas. 

Mas já a páginas 29 vem esta afirmação ajuizada 
e sã : — «O crime é um negócio, a vida uma escra- 
vatura. A alma é escrava do crime, a carne é escrava 
do gozo». 

Está certo. Quebram-se as grilhetas dessa escra- 
vatura tornando a carne liberta do gozo; a alma 
purifica-se na meditação das coisas belas e no horror 
ao crime ganho na perfeição das consciências. 

Mas a alma é aquele espírito imaterial e eterno, 
que nunca pode ser lama (páginas 30) porque jamais 
se corporiza. E por isso as referências à alma, às 
estrelas e à hóstia, são blasfémias, heresias, tolices 
que um espírito bem formado não escreve e que 
Albino Forjaz de Sampaio não voltará a escrever a 
menos que não tenha enlouquecido. 

Mas vejam que belo período este ainda nessa 
mesma página: « — Há a lama vestida de pérolas e 
a vestida de escrófulas, a lama toucada de sedas e 
de setins e a vestida de crostas e farrapos. » 

Eis um pensamento que pode figurar em todos 
os livros e em todas as épocas e que podia ter 
saído da pena sublime dos maiores escritores de to- 
dos os tempos. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 59 

Para que misturar de seguida o nome de mulhe- 
res profanas com o nome da Imaculada ? Para quê e 
porquê? Para irritar os crentes? Fraco gosto. Por 
inspiração e por talento? Como pode haver talento 
numa irritante blasfémia de taberna? 

Não. Forjaz de Sampaio apenas ganhou escre- 
vendo assim uma triste celebridade que só os vo- 
lumes seguintes vão apagando, mercê do incontes- 
tável valor de Sampaio maculado pelas heresias, 
protérvias e blasfémias das Palavras Cínicas. Não 
vale a pena i-las analisando uma a uma, nem eu 
nem os meus leitores ganhavam coisa de geito no 
exumar destas misérias. O que eu faço, o que eu 
vou fazer é arquivar aqui os pensamentos aprovei- 
táveis e sãos que existam, como flores raras flores- 
cendo na podridão de um cemitério, nas páginas 
:iinda não analisadas das Palavras Cínicas e que se 
encontrem, de páginas 31 em diante, neste exem- 
plar do 15." milhar que tenho presente. 

Vejamos: 

» Recordas-te da pieuvre ? A dor é a pieuvre. En- 
laça os corpos, as almas, suga-as, bcbe-as em vida. 
A alguns deixa somente o esqueleto. » 

(Pág. 32) 

Há aqui uma contradição com um outro pensa- 
mento de páginas 3 1 : « Tudo é dor. A dor é igual. 



60 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

Senti-la maior ou menor é diferença dos nervos que 
a sentem, como a grandeza dos que a vêem. » Se a 
dor é igual, a comparação falha com a pieuvre — 

que a alguns deixa somente o esqueleto. . . 

«Quem distinguirá lá em baixo no ventre da 
terra a carne de Impéria da carne de Chénier, a ossada 
de Gilbert da ossada de Ravachol?» 

Certo. Simplesmente as almas que animaram 
esses corpos putrefactos tomaram diferente rumo. 
Já o dizia Junqueiro: num cárcere fechado a alma 
de Locusta — num relicário de oiro a alma de Pla- 
tão. . . o que está em contradição com o pensa- 
mento anterior ao que acima deixámos e em que 
Forjaz de Sampaio afirma: — cAbre um crânio e 
vê se distingues a alma de Dante da alma de Caim, 
a de Inocêncio III da do galego ali da esquina. » Este 
pensamento não só é inferior como prosa, mas de- 
monstra o mais absoluto desconhecimento de Albino 
Forjaz em assuntos de teologia até mesmo daquela 
teologia que toda a gente medianamente conhece- 
dora das religiões percebe e compreende. Aliás sa- 
beria que a alma de Inocêncio lll poderia ser igual 
à do galego, que as almas se não avaliam pelos do- 
tes de inteligência que demonstraram mas pelas vir- 
tudes que possuíram. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 61 

<Há alraas cuja treva é maior que a noite, cons- 
ciências cuja lama é maior que a de todos os pân- 
tanos da terra. > 

(Pág. 33) 

Há. São as almas vilíssimas dos maus, e seria a 
alma do próprio autor deste livro, se éle sentisse 
este aleijão moral, esta enormidade perversa que 
vem a pág. 34 e que começa : Filhos fecundados em 
plena bebedeira, etc. Mas não o sente. Mas nunca 
mesmo o sentiu 1 E eu que detesto a censura, que 
não posso tolerar a coacção às manifestações do 
pensamento, compreendia-a para um caso destes, 
porque essas dezasseis linhas de prosa doentia, es- 
critas só para maguar e irritar, são daquelas que a 
desinfecção moral não pode tolerar, não devia mesmo 
consentir. 

cO amor é dos romances. > 
(Pig- 45) 

Seis anos depois, no prefacio da segunda edição, 
o autor concede-o, pelo menos, àquele estudante 
que se mata porque a sua costureira lhe não quere o 
amor . . . e já mesmo no livro àquela outra que des- 
pedaçou do quarto andar o corpo na calçada, etc. — 
pág. 53 e 54- 



62 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

« Não há crime nenhum que não tenha saído de 
um ventre de mulher, nem que uma cova não con- 
tenha. » 

(Pág. 51) 

Não é um grande pensamento, mas é um pensa- 
mento verdadeiro. Forjaz de Sampaio entra depois 
no aviltamento dos máximos insultos a todas as 
mulheres, para só haver uma clareira de tréguas na , 
descrição da tela de Rochegrosse, pág. 59, 60 e 61 f 
até às duas primeiras linhas de pág. 62 em que a 
prosa máscuJa de Forjaz de Sampaio sem a preo- 
cupação do insulto nos dá, em violentas pinceladas 
de artista, a grande tela da Angoise humaine. Depois 
relembra-se do fim propositado do seu livro e des- 
camba novamente nos forçados e repelentes para- 
doxos de toda a obra. 

A quinta carta não tem perdão, não tem des- \ 
culpa, não se tolera. A avalanche dos despautérios é » 
extraordinariamente confrangedora. Não se pode des- \ 
cer mais, não se consegue ser mais estapafúrdio em i 
afirmações horripilantes de doido. É uma vesânia pe- | 
rigosa e criminosa, fruto, ou de uma doentia predis- ( 
posição para o crime ou de uma criminosa brincadeira ; 
de mau gosto. Há ali pensamentos que confrangem, i 
outros que chocam e ainda outros que fazem vibrar j 
todas as cordas da niaior repulsa por mais insensível 1 
que se queira ser! 



1 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 63 

Na sexta carta em que diminui o vocabulário 
grosseiro há um acréscimo grande de negativismo e 
sendo a menos irritante é por certo a mais perigosa. 
E, para não desmerecer em tudo das irmãs, vêem as 
páginas finais io6 e 107, todas uma blasfémia pe- 
gada, repetição das muitas que este infelicíssimo 
volume contêm. O pessimismo mantêm-se nas car- 
tas restantes e vai até à última palavra do livro que 
mais valera nunca tivesse sido escrito. Até meio, 
além das muitas repetições das palavras bandalho, 
malandro, patife, pandilha e outras, contêm quinze 
vezes a palavra canalha e seis a palavra prostituta^ 
Como vêem o livro foi feito para alarmar, espantar 
o burguês que se vai indignando e o vai comprando, 
lendo com entusiasmo artigos e livros contra êle 
onde há os mesmos excessos de linguagem e os 
mesmos palavrões. Não vale a pena. Se me per- 
guntam: — Deve ler-se o livro Palavras Cínicas? 
Respondo terminantemente : não. E um desperdício 
de tempo, quando não é um prejuízo moral. E esta 
a minha impressão sobre o primeiro livro de prosa 
de Albino Forjaz de Sampaio. 



^4 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



Crónicas imorais 

Crónicas imorais é o segundo livro de prosa do 
autor das Palavras Cínicas. São crónicas que todos 
nós já lemos na Luta quando ali foram publicadas i 
e, valha a verdade, são doutro estofo. Há nelas 
observação, disciplina de nervos, ironia cáustica, por 
vezes afirmações ainda negativistas, blasfémias para 
entreter o espirito avançado dos leitores, mas desa- 
pareceu já o palavrão, a indecência, a pornografia 
do livro anterior, A prosa é mais sadia, as ideas i 
mais bem lançadas, e o que ressalta é um azedo i 
conhecimento dos homens maus e das coisas más, 
apontados sob um critério schopenhaeuresco e uma 
ironia meio camiliana,, meio Silva Pinto, mas mais 
deste panfletário do que de Camilo, que a prosa 
azeda de Forjaz tendo muito de Silva Pinto, pouco 
se aproxima da prosa mordente do Solitário de 
Seide. 

Forjaz de Sampaio não sabe rir — sabe escachar 
de alto a baixo as ideas e os adversários. Não há 
na sua prosa uma clareira de graça — há catapultas 
de finas observações ou montanhas cerradas de exa- 
geros. 

Não é um emotivo — é um panfletário. Não esti- 



i 




Aspectos do gabinete de trabalho do e-cntor 

iClichéx de Furtado S- lltia 



' 




Albino Forjaz de Sampaio na sua fase poética 

rCarlratnra de F. Vulençaf 
1902 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 65 

mula — arranha. Não esmaga — fere, deixando as 
pústulas ao ar, ou rasgando novas feridas. 

A sua crítica lembra um exército atravessando 
um campo semeado — vence o inimigo, desbarata-o, 
criva-o de setas, mas estraga a fecundação da se- 
mente que já não poderá dar o trigo loiro da graça 
e da fartura. 

Ou semelha-se ainda àqueles sangradores de al- 
deia que curam os doentes — matando-os. 

No entanto estas Crónicas imorais são já a 
amostra segura de um escritor. A prosa é cheia e 
bem proporcionada, e os tipos focados dançam ma- 
cabramente a movimentada dança de S. Vito, e 
expõem à plena luz da crítica os seus defeitos, alar- 
gados, ampliados pelos traços firmes e seguros da 
caricatura mais do que da análise. Que, muitas ve- 
zes, o lápis de Karan d'Ache é preferível ao bisturi 
de Pasteur. , . 

Leia-se aquela crónica Artistas (pág. 19). Há 
verdade naquilo. Em Os mineiros, falha o conheci- 
mento do meio. É uma crónica bebida no Germinal, 
mas que não representa a verdade. É que Forjaz de 
Sampaio nunca viveu entre mineiros, não conhece 
o meio, o trabalho, os ganhos, as exigências. Viva, 
como eu, durante meses, no contacto dessa gente e 
as suas opiniões modificam-se. Já no artigo Emigran- 

P0KJA2 DE SAMPAIO 5 



66 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

tes a prosa toma elasticidade de artista. Há visões 
soturnas de fome e de miséria, e a sua prosa entoa 
e canta toda uma sagrada litania de desgraça. 

Emfim o livro distancia-se bastante do primeiro 
— para melhor; e aparte uma ou outra escapadela 
negativista que só serve para amolecer uma geração 
já de si abúlica e parva, as Crónicas imorais do- 
cumentam um período da nossa vida, da nossa so- 
ciedade e sobretudo da época decadente, frouxa e 
má que atravessamos. 

Mas o artigo que mais me satisfaz é o último — 
A Tortura do Estilo. Neste artigo Forjaz de Sam- 
paio é bem o escritor moderno, cheio de talento, de 
observação, de análise. A análise é a sua mais alta 
feição literária, e na Tortura do Estilo ela apresen- 
ta-se-nos já forte, decidida, mais vocação do que es- 
forço. Que pena Forjaz de Sampaio não nos dar só 
páginas assim ! Que pena para nós e para a literatura 
portuguesa tão falha destes estudos, tão pobrezinha 
destas indispensáveis vocações de crítica literária 1 

A Tortura do Estilo fazia só por si honra bas- 
tante ao espírito observador e crítico de Forjaz de 
Sampaio. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 67 



Lisboa trágica 

Em a Lisboa Trágica, que é o seu terceiro livro, 
nesta ordem cronológica que vamos seguindo, a 
prosa de Forjaz de Sampaio torna-se já de uma rara 
perfeição, de uma grande elasticidade. As ideas são 
mais perfeitas, a análise mais humana, a ironia mais 
profundamente equilibrada. E, tirante a Sinfonia de 
abertura onde há ainda pronunciados laivos do espí- 
rito negativista dos dois primeiros volumes ja anali- 
sados, encontra-se por exemplo a análise realista, à 
Zola, na crónica Do anoitecer à madrugada, com 
fortes pinceladas de colorido, perfeito conhecimento 
dos caracteres focados, e uma especial ligeireza de 
pena que torna a acção desenvolvida, de fácil com- 
preensão para o simples leitor e de meticulosa ele- 
vação filosófica para o rebuscador analista e exi- 
gente. E até o tipo doentio do seu bardo de Lavos 
é exacto, seguro, completo. Vejam este amanhecer 
lisboeta e digam-me se não há aqui beleza, obser- 
vação, firmeza de linhas e de análise: 



«...A hora avança. Não tarda que a luz venha 
surgindo lentamente, numa lentidão assusudora. 
Começa a clarear um pouco. Um homem apressado 
apaga bruscamente a luz do gás, que nos candieiros 



68 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

ainda crepitava. A linha dos telhados começa a de- 
buxar-se no escuro e uma luz difusa, se abre em 
leque das bandas do horizonte. Já todos os galos 
cantam. E lentamente, como o comboio de um exér- 
cito, começam passando em fila, carregados de hor- 
taliças, no seu rodar áspero como um chiar de nora, 
os carros para o mercado. O som das horas já não 
vibra tão alto e começa a anonimar-se na turba dos 
mil ruídos da cidade que se espreguiça. É ma- 
drugada. » 

Em A vida há a mais as três últimas linhas da 
crónica, blasfémia que, nada representando ali, para 
coisa alguma serve. E uma escrófula purulenta a 
manchar a linha perfeita e nítida da observação cruel 
da vida. 

Da Loucura à enxovia, odisseia de um louco que 
a falta de documentos arremessa para o buraco ' 
húmido e infernal de um calabouço, é uma página 
que há-de servir, anos volvidos, para a reconstrução 
selvagem de uma época criminosamente burocrata, 
e o nosso Governo Civil tem ali uma nítida foto- 
grafia das suas maiores vergonhas. 

O Conto do Natal é um quadrozinho inferior, 
sem relevo e de filosofia barata que podia muitís- 
simo bem não ter sido incluído no volume. Mas se- 
gue-se Uma noite de rusga e são páginas belíssimas 
de observação e estudo, páginas da Lisboa miserá- 
vel e andrajosa, da Lisboa que se deita de mance- 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 69 



bia com os percevejos das casas para pernoitar, da 
Lisboa que vegeta, esfomeada e vadia, nas alfurjas 
e nos alcouces. Páginas que marcam, páginas que 
vincam uma personalidade literária, observação que 
sintetisa o espírito analítico de um escritor e que 
não desonravam, quando assinadas, os nomes con- 
sagrados dos melhores realistas da última geração. 
Vagabundos é uma página sangrenta de ver- 
dade ; Abyssus abyssum invocai, um nítido cliché 
das roletas pataqueiras ; a Gente de Fogo um qua- 
dro soberbo da vida de fábrica, junto aos altos for- 
nos, fabricando o gás que há-de alimentar uma ci- 
dade inteira. A Espiação é a torturada notícia de 
um crime vulgar a que Albino dá, em duas pincela- 
das, as precisas cores do alargamento para se ver 
melhor — e fê-lo com mão de mestre — ; na Sonata 
de inverno, a mesma visão nítida das imagens, a 
mesma percepção de análise, a mesma acuidade nas 
imagens. Há nesta crónica frases e pensamentos de 
um rigor inexcedível: 



« O miserável que constituiu lar é mais miserá- 
vel do que nunca, se tem coração. > 

« Bemdito seja o sono, seja embora o frio seu 
cobertor. > 



70 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

A Noite de embarque são sete páginas soberbas, 
de um colorido intenso e que marcam como páginas 
de um jornalista de raça, que sabe ver, analisar e 
sentir. 

A colectânea fraqueja na História de um Po- 
lichinelo e nos Prazeres que matam, para se elevar 
um pouco em As sombras da casaria... e em Os 
pobres e tomar a feição negativista no Depois da 
morte que termina por este pensamento — «entra 
connosco a suspeita de que a angústia da vida não 
termina nem ainda mesmo no Alem» — o que vem 
corroborar em cheio a minha asserção de que o es- 
pírito filosófico de Albino Forjaz de Sampaio já hoje 
não escreveria as páginas das Palavras Cínicas. 
O ventre da cidade é o jornalista a afirmar-se de 
novo, o repórter a demonstrar a sua energia visual, 
a sua percepção analítica. 

A Mi mi da Elegia de uma flor fanada é um 
tipo bem lançado, bem estudado, e a descrição do 
meio, da habitação e da vida íntima dos desgraça- 
dos é perfeita. Na Noite Morta há a verdade que 
todos nós sentimos, nós os que nos acostumámos 
aos longos calcurriamentos pelos bairros escusos em 
noites de sonho e de mistério a ver, a analisar, a 
observar. E as palavras de Forjaz de Sampaio, tor- 
nam-se-nos vívidas, sentidas, de um especial sabor 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 71 

ao agridoce travo do recordar. E assim aquilo. No 
Hospital é uma página de história da revolucioná- 
ria Lisboa de hoje em que o autor da Lisboa Trá- 
gica nos pinta magistralmente a noite de i8 de ju- 
nho, aquela noite histórica da chegada de João Franco 
ao Rocio, com tiros, espadeiradas, gritos, todo o me- 
donho inferno das noites de tumulto na quadrilate- 
rada praça de D. Pedro ; e a crónica dessa noite 
vem completada com uma espécie de diário de um 
internado em S. José, páginas de amargura, de uma 
verdade igualmente flagrante, onde perpassa toda a 
regelada angústia das velhas paredes do velho Hos- 
pital de Todos os Santos. Que pena o bom senso 
não ter indicado a Albino Forjaz de Sampaio a ne- 
cessidade de cortar as linhas que se seguem às in- 
terrogações — Mas morre? E a sciência? B Deus? 
— de pág. 212, que nada valendo, só servem para 
perturbar o desenvolver da acção sem prestígio nem 
valor. E chegamos à última crónica do volume — 
Amanhã. São cinco páginas apenas. Leiam-nas to- 
dos, meditem -nas todos. São páginas de blasfémia, 
mas são páginas de análise. São heresias e ronqui- 
dos de desespero, mas são ponderáveis considera- 
ções às causas desta débâcle que estamos presen- 
ciando. E há ali — creiam-no todos também! — muito 
que aprender e meditar para que se evite exacta- 



72 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

mente aquele amanhã que o espírito azedamente pes- 
simista de Albino prevê, quanto a mim, com grande 
justeza de vista. 

E aqui está o que se me afigura ser a Lisboa 
Trágica, de Forjaz de Sampaio. 






Prosa vil 

Segue-se-lhe a Prosa vil. São crónicas igual- 
mente. Mas cada vez a prosa de Forjaz de Sampaio 
me vai agradando mais, parecendo mais lógica, mais 
humana, menos agressiva. As duas primeiras cróni- 
cas rezam do Fado e valeram ao autor uma tre- 
menda réplica de Avelino de Sousa ^. 

Nessa réplica A. de Sousa, exagerado como . 
todos os fanáticos, agride sem tom nem som, me- 
tendo à bulha Camilo e Silva Pinto para acobertar 
palavrões que quere atirar a Forjaz de Sampaio 
. por detrás da cortina. Avelino de Sousa, traba- 



* O Fado e os seus censores. / (Artigos coligidos d'/í Vo^ do 
Operário) / Crítica aos detractores da canção nacional / Com uma 
carta do ilustre poeta e dramaturgo / Dr. Júlio Dantas / Preço 
ICO réis / Composto na vila Tomás da Costa. 6, 4.° porta G / 
Impresso no Largo da Abegoaria, 27 e 28 / 1912 / Lisboa / Edi- 
tor, o Autor / Depósito, Rua General Taborda, 25, '/c D. Cam- 
polide / 56 páginas, com o retrato do autor em medalhão. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 73 

Ihador honrado, tipógrafo de mérito, camarada de 
apreciáveis dotes a dentro das redacções, não pre- 
cisava quanto a mim ser grosseiro para defender 
o Fado — que uma causa tanto mais se defende 
com quanta maior serenidade se ataca o adversá- 
rio. No fundo estou convencido que estão ambos 
de acordo — ambos gostando do Fado, mas vendo-o 
através prismas 'diferentes. Claro que o Fado nãa 
é uma canção nacional se o consideramos sob o 
ponto de vista oficial, e é este o caso de Forjaz 
de Sampaio, mas é nacional se o damos como 
expressão do doentio sentimento da raça. Eu por 
mim declaro sem mais preâmbulos que é de todas 
as canções a que mais me comove e por conse- 
quência a que me faz vibrar mais intensamente 
a minha emotividade de meridional. . , e de por- 
tuguês. 

Agora pergunto — Forjaz de Sampaio exagerou 
o ataque? Sem dúvida, como Avelino de Sousa exa- 
gerou a defesa. Árcades ambol 

E ambos se me não engano deixaram na gaveta 
os melhores argumentos pró e contra, e principal- 
mente o não nos terem dito, um e outro, onde 
começava e onde acabava o Fado, no campo poético 
como no campo musical. 

Mas deixemos isto que nos levaria longe de 



"74 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

mais na análise de um incidente que só serviria 
para nos afastar do fim deste livro. 

No Fragmento de uma carta há a ironia da vida, 
o conhecimento da sociedade com a indispensável 
pontinha da boa troça portuguesa; Políticos é uma 
pincelada de mestre a marcar a época frívola de vi- 
deirinhos em que caiu uma raça que se abocanha e 
se morde para obter — abençoada gente — uma série 
de empregos que dêem dinheiro e não dêem traba- 
lho. Crítica bem lançada, com proporções, a verdade 
paira nela como o azeite ao de cima de água; A 
Dança, crítica de teatro, é mordente sem exageros e 
agrada pela crueza da verdade exposta. Depois vem 
yoão Rosa a piedosa evocação do grande mestre ainda 
quente no seu leito de morte; Chapéus e Animató- ^ 
grafos, óptima blague que nos aflora aos lábios sem 
dificuldade o sorriso das coisas graciosamente reina- 
dias; Viagens é um belo estudo caricatura sobre os 
teói-icos que são paralíticos e fazem viagens pela 
Bcsdecker e pelos itinerários da Cook; A questão 
ortográfica é a sua opinião sobre ortografias com as 
divergências dos mestres — e vêem exemplos de 
Aulete e de Vieira, de Herculano e do sr. José Ve- 
ríssimo, de Latino Coelho e de Castilho, de Garrett 
e do sr. Cândido de Figueiredo, de Fihnto e de 
Camilo. 

% 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 75 

A opinião de Albino cifra-se numa linha — <não 
liga importância nenhuma à questão ortográfica > . 

É uma opinião. Eu, escrevendo, esforçar-me hei 
por seguir sempre a ortografia à antiga portuguesa. 
No entanto nos meus livros há, à conta dos tipógra- 
fos, ou dos editores, ortografias para todos os pala- 
dares. É que hoje é impossível escrever-se um livro 
numa certa e determinada corrente ortográfica. Cada 
compositor tem a sua mania e a sua sciència certa e 
se nós fôssemos a emendar, cada livro teria que ser 
composto pelo menos vinte mil vezes, se tivesse mil 
palavras. . . 

Na crónica Oscar Wílde há análise, há graça e 
há filosofia. E para que analisar mais crónicas.^ 
Todas elas revelam um espírito arguto, superior. No 
entanto na sua prosa há ainda, uma vez por outra, 
falhas, deslizes, negligências. 

Eis um exemplo : 



< E os pintores de oleografias deixarão de repro- 
duzir os canais de Veneza, cmde na água verde em 
reflexo de prata se esbate um luar de balada. Uma 
gôndola desliza, onde, numa canção sentida, um 
Romeu suspira e passa >. 

A conquista do Céu — pág. 143. 



76 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

Uma revisão cuidada faria desaparecer um da- 
queles onde, repetição que tira toda a graça e toda 
a leveza ao período. 

De todo o livro há porém duas crónicas que me- 
recem especial menção. Uma para condenar in li- 
mine. Chama-se Os santos populares: arrevezada, 
satânica e ignorante. Outra para apoiar e para con- 
denar. Intitula-se Camilo e nas suas referências ao 
Mestre é de uma alta sensibilidade artística e de 
uma flagrante justiça de português honrado que 
sabe ajoelhar comovidamente perante a maior glória 
literária que possuímos, perante o mais formoso e o 
mais elevado espírito de toda a nossa vastíssima 
literatura. Mas é injusto nessa crónica Forjaz de 
Sampaio quando deprime a glorificação de Camilo 
pela estátua. Não. As estátuas não servem apena^ 
para que tim gato sobre elas esguiche a sua injúria 
liquida. Servem acima de tudo para que os pobres, 
os humildes se descubram ao saberem-lhe o nome, 
e neste caso, mortos os ódios que Ele levantou, para 
que nós todos o glorifiquemos à luz do sol, depois 
de o termos entronizado no íntimo dos corações. 

E a Prosa vil termina pela crónica Gente moça 
que vale também, para fechar, uma referência muitc 
especial. Nesta crónica, onde há bom senso e justí 
apreciação da época que atravessamos, há igual 



1 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 77 



mente, vistas bem as coisas, a condenação dos pri- 
meiros dois livros do autor — Palavras Cínicas e 
Crónicas imorais — '^ox terem contribuído para o am- 
biente de dessòramento moral que na Gente moça se 
Iponta e justamente se estigmatiza. 
Exemplifiquemos : 

cSe o amor, pela falta de cultivo, como uma 
planta rara se estiolou e morreu, a mocidade faliu 
fraudulentamente ». 

Pela falta de cultivo não é bem. Antes pelo der- 
rancamento do eu moral produzido pelas extrava- 
gantes teorias que se estão repisando com certa des- 
façatez, desde a segunda metade do século XVIII e 
principalmente em toda a vasta e maldosa desorien- 
tação do século XIX. 



<0 homem tem evolucionado muito. Antiga- 
mente existia uma época na vida que se chamava 
mocidade. 

< Amava-se, amava-se a valer. Era a época da 
galantaria, da paixão. E o homem era nessa época 
como os heróis antigos. 

«Tudo isto passou. A mocidade morreu. Hoje 
nasce-se velho. Ainda menino, logo se começa a 
deitar contas à vida. Assim, aos doze anos, já um 
fedelho conhece as mulheres como os seus dedos, 



78 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



começa a queixar-se do estômago, foi preso oito 
vezes com resistência ao captor, e com pronunciadas 
olheiras e a espinha curva sabe de experiência pró- 
pria o nome e o resultado de certas especialidades 
farmacêuticas >. 



Muito bem. É isto na generalidade. Felizmente 
a geração nova vai modificando um pouco os seus 
gostos, os seus hábitos, os seus costumes, para me- 
lhor. Mas na generalidade é assim. E eu acrescento : 
— é exactamente por isso, por essa miséria moral 
apontada por Albino Forjaz de Sampaio, que as 
suas Palavras Cínicas vão no i6.° milhar, e as suas 
Crónicas imorais, no 7.°! 

E que a obra má e perversa e amoral de Vol- 
taire, de Oscar Wilde, de Richepin, de Jean Jacques, 
de Zola, de Schopenhauer, e de tantos outros, conti- 
nuada e seguida fetichísticamente em Portugal por 
Guilherme Braga e por Guerra Junqueiro, por Eça 
de Queiroz e por Abel Botelho, pelo sr. Alfredo 
Pimenta e por Albino Forjaz de Sampaio, para não 
citar mais gente, não podia dar outro resultado se- 
não esse — a derrancação dos costumes, a perda da 
virilidade juvenil, o amortecimento de todas as vir- J 
tudes da alma e de todos os valorosos excessos da ' 
juventude. Daí a velhice dos rapazes — caqueticos < 
na alma e no corpo, fedendo a coeiros e já herejes, 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO TO" 



ainda imberbes e já rufias, mal entrados na vida e 
já entronizados na desvergonha. 

Foi o schopenhaurisnw e o realismo, a heresia 
à Voltaire, e a filosofia á Wilde, o negativismo ale- 
mão e o niiUsmo russo, as ideas avançadas, o des- 
respeito pelas velharias, o ódio à tradição, que lhe 
deram — a essa mocidade pervertida e anémica — 
a dose de veneno indispensável, a intoxicação do seu 
organismo arrendado pela sífilis e da sua alma putre- 
facta a desfazer-se no monturo de todas as ignomí- 
nias! 

E é talvez com um profundo arrependimento 
por ter contribuido também para essa decadência 
que Albino escreve ao findar, quási, a última crónica 
da Prosa vil: 

«Suprimido o amor, o homem entendeu decre- 
tar a supressão da mocidade. Acho qtu jè\ mal. 
A mocidade era útil, era precisa, quanto mais não 
fosse para a gente a recordar com saudade ou se 
envergonhar dos seus desvarios quando chegasse a 
respeitável. » 

Certo. Assim é e assim devia ser. E o primeiro 
rebate na consciência de Forjaz de Sampaio que 
podia acrescentar, à guisa de ?nea culpa: — pesa-me, 
leitor, de ter contribuido para esse estado da nossa 
derreada juventude com a minha prosa irreverente e 



SO ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

satânica, de que já hoje, como vês na Prosa vil, me 
vou lastimando e arrependendo. 

Sim, — que a Prosa vil é bem diferente da prosa 
primitiva de Forjaz de Sampaio, prosa que vai dia 
a dia melhorando, como eu e tu, leitor benévolo, 
iremos analisando com vagar e com satisfação. 



Gente da rua 

Gente da Rua, não é um livro de crónicas, é 
uma novela, baseada nos moldes da escola realista, 
e. que como tal apanha flagrantemente o meio polí- 
tico-social português dos nossos dias. Toda a acção 
do livro gira em volta de três figuras principais — 
Silvino, repórter de um jornal avançado, espírito ro- 
mântico, coração aberto para o bem e para o per- 
dão; Cláudio Costa, orador de comícios, que se 
vende mais tarde por uma situação bem remune- 
rada, e Corália, uma corista barata que Silvino 
arranca do enxurro para ela o trair ignobilmente 
com Cláudio, seu amigo. Das figuras secundárias, 
todas profundamente marcadas e devidamente ana- 
lisadas, há ainda a destacar a Mariana e o Joaquim | 
Algarvio, dois tipos lisboetas optimamente focados, f 
■cheios de vida, de verdade e de observação. 






i 
li 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 81 

Todo O livro é escrito naquela linguagem crua e 
rascarrte de Albino Forjaz de Sampaio, e há nele 
termos, adjectivação, arrojos que marcam a indivi- 
dualidade definida de um escritor que vale e que se 
impõe perante os escritores do seu tempo, criando 
uma linguagem e uma construção muito sua e muito 
fora da banalidade comezinha dos que se arrastam 
julgando que fazem prosa. 

Assim temos olhos machadantes (pág. 8), grevis- 
tas assembleavam (pág. 9), estrupidando ferragens 
(pág. 11), simu7n-verbo (pág. 19), o caso é que pa- 
rece que o peito de Maria Antónia se avulcooit por 
Cláudio (pág. 35), o desaforo açaviou-se (pág. 35), 
criaturas transloucas (pág. 38). as lâmpadas scente- 
Ihando (pág. 40), fumo que araòescava (pág. 41), fa- 
rinha de velhice salpimentando-lhe a barba (pág. 41), 
sacolejava a lanterna (pág. 49), gesto parafusante 
(pág. 50), Gonçalves piluleiro (pág. 56), bandós fan- 
chonos (pág. 57), criada pi^-^nentosa e suja (pág. 57), 
egoismou-se (pág. 63), cirandava (pág. 74), naquele 
cinema da memória (pág. 107), antes que a devo- 
rasse o gusano da podridão (pág. 109), homens ve- 
niajavam (pág. 139). fazer salama (pág. 142), ânsia 
fermentes cível (pág. 1 50), castrar a maré (pág. i 50), 
a seda verde da lâmpada eléctrica dava uma luz^^- 
numbrosa (pág. 151), e outros que não vale a pena 

TOVKZ Dl Sampaio é 



82 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

^i 

transcrever. De lastimar é que o autor da Gente da \ 
rtia caia por vezes em repetição de palavras como por . 
exemplo nioquenqueira que Forjaz emprega sete vezes 
em situações iguais, nas 156 páginas do livro, e se 
descuide também na perfeição de um ou outro pe- 
ríodo deixando passar — Vai tudo ai por pó de gatoí 
(pág. 35) o que não representa sequer a linguagem 
do nosso povo que quando não diz pelo pó do gato 
diz inquestionavelmente p'lo pó, mas nunca por pó, 
E a páginas 34: 



« — Mas a quem sais tu assim ? perguntava-lhe 
às vezes a mãe. Mas nada. Era delgaducha, franzina j 
e olheirenta. Muito mais, incomparavelmente a mais 
viciosa do rebanho » . 



Ora isto está incompleto. Não tem sentido, nem 
tem gramática. Claro que bastava a Forjaz de Sam- 
paio uma cuidada revisão e estas coisas desapare- 
ciam. Mas essa revisão não se fez e nós não podemos 
perdoar a Forjaz de Sampaio essa negligência pelo 
aperfeiçoamento da sua prosa, embora lhe louvemos 
muito a sua exuberância produtiva. 

Também encontro um pensamento disparatado, 
um paradoxo sem pés nem cabeça. É quando, a pá- 
ginas '/i, escreve: 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 83 



«Não longe, na manhã de um dia radioso e 
lindo, cheio de sol, um daqueles dias em que apetece 
ser morto, estava Silvino ainda deitado ». 



Sublinhei o paradoxo, e por mais que pense não 
vejo como, num dia de sol claro e lindo, a pedir 
paisagens belas, horizontes largos, apeteça a alguém 
se7' morto por causa disso. Mas em compensação há 
neste livro belas coisas, grandes coisas, em análise, 
em observação, em sentimento. Há o psicólogo, o 
repórter, e o historiador. Há páginas que são clichés. 
Há pensamentos que valem por um livro inteiro da 
mais espiolhada psicologia social. Depois o tneio jor- 
nalístico, o jneio operário, o meio oficial e sobretudo 
o meio emporcalhado de certas casas de hóspedes, 
aparecem no livro de Forjaz de Sampaio, tão nítidos, 
tão claros, tão verdadeiros, que é preciso conhecê-los 
bem de perto para avaliar o extraordinário valor de 
observação e o cuidado escrúpulo analítico dessas pá- 
ginas de uma perfeição e de uma beleza críticas di- 
gnas de um escritor que se prese e que valha. 

E ver: 

< O ambiente estava cheio de ameaças e a cidade 
tinha o ar meditabundo e preocupado de um homem 
a quem nasceu um furúnculo sob o colarinho». 

(Pág. 8) 



84 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

E O ôvo de Colombo ! Tem elevação o pensa- 
mento? Não. Mas tem justeza. E a justeza quási 
sempre prefere a elevação da linguagem mormente 
quando, como no caso presente, se não está retori- 
cando, mas dando aos leitores a impressão nítida 
de um facto. 

Outro : 

«Cláudio voltara de novo à vida associativa. Nin- 
guém sabia bem o que o chamava ah, que êle não era 
operário^ nem a causa de tamanho interesse pelos operá- 
rios. Mas êle apresentava-se como defensor dos opri- 
midos, como revoltado, como verberante de todas as 
iniquidades sociais e com tais palavras de passe con- 
seguiu ser considerado e até indispensável. As multi- 
dões gostam sempre dos charlatães. Adoram o brilho tanto 
quanto odeiam a profunde\a>. 

(Pág. 37) 

Há ou não verdade nisto? Sublinhei o preciso. 
Estereotipa-se aí em meia dúzia de linhas toda a psi-l 
cologia desses aventureiros que se introduzem nasj 
classes pobres, que a orientam, as exploram, as le- 
vam para a miséria e para a ruína de movimentos 
aparentemente justos, mas que falham sempre, e a 
cuja ameaça para os governantes eles trepam, eles 
criam situações pingues e vantajosas. 

Albino Forjaz o apresenta na extrema nitidez 
destas palavras: 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 85 



< Falava-se vagamente em que êle queria ser de- 
putado para ir ao parlamento dizer da justiça dos 
humildes. Mas tudo isso era vago. 

<Que, porém, contenta va-se em ser uma espé- 
cie de dono do operariado, em ter na mão as asso- 
ciações » . 

(Pág 58) 

E mais adiante, na entrevista de Cláudio com o 
Governador Civil, Forjaz de Sampaio dá bem a nota 
do seu valor como psicólogo escrevendo : 

« Cláudio estava estarrecido. Achava deveras 
simpático o Governador Civil e via muito bem o que 
êle queria. Ah! Êle não era tolo. Aquele homem 
afável queria comprá-lo. Chegava pois a ocasião, a 
sonhada ocasião de se vender, de subir, de ser alguém. 
Sempre fora ambicioso, e se recorrera aos operários 
é porque sabia que eles eram o grande rebanho de 
que se faz o que se quere. 

«. . .e quando Cláudio saiu tinha aceitado outro 
charuto e fora acompanhado até à porta pelo sr. Go- 
vernador Civil que o tratava já por meu «caro 
amigo ». 

(Pág. 44) 

E o final deste capítulo é soberbo, de uma estra- 
nha e rara felicidade: 

«Era uma da madrugada. Cláudio subiu a gola 
do sobretudo, o seu pobre e verde-negro sobretudo 



86 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

de golinha de veludo, e ao ar fresco da noite aspirou 
com delícia as primeiras fumaças do seu charuto, o 
charuto caro, homenagem da Ordem, tributo insi- 
gnificante à sua obra de revolta e demolição». 

(Pág. 45) 

A casa de hóspedes da D. Rosa é flagrante de 
verdade e justeza; as suas figuras são reais, vívidas, 
humanas; e as duas criaturas Corália e Silvina, bem 
apanhadas do natural, são óptimas, perfeitas, com- 
pletas, os episódios bem desenhados, nitidamente ex- 
postos desde o encontro no Magina até à scena final. 
Já o mesmo não acontece à figura principal — o Cláu- 
dio — que sendo uma figura essencialmente realista 
termina com uma nota arqui-romântica perfeitamente 
dispensável e que destrói um pouco a beleza homo- 
génia da figura. Vem a páginas 154. Transcrevo: 



« Apavorado (Cláudio) buscou um chapéu mole, 
pôs pelos ombros um varino, o mesmo com que outrora 
fugira à policia acompanhado por Silvino e que por inex- 
plicável fatalismo conservava ainda». 



O que é inexplicável é esta conservação do va- 
rino, absolutamente inadmissível em quem, como 
Cláudio, teria até todo o cuidado em fazer desapare- 
cer, de diante dos seus olhos, tudo quanto lhe fizesse 



Á 



ALBINO FOR JAZ DE SAMPAIO 87 

recordar o seu passado de menetir, o seu tremendo 
passado de vendido e de traidor. 

Para quê conservar o varino? Para quê guardar 
como um tesouro essa coisa, que ao seu orgulho de 
guindado da sorte, havia de aparecer constantemente 
como um fantasma ou como um remorso? Não. Se 
este pormenor ficava perfeitamente bem num ro- 
mance romântico, fica detestávelmente mal num ro- 
mance realista. 

Há também empederniu-se (pág. 62) e empederniu 
(pág. 65) que me parece ficaria melhor cmpedreniu-se 
e empedreniu do verbo empedrenir — duro como pe- 
dra. E possível que Forjaz nem nisso pensasse um 
segundo, tanto mais que todo o mundo escreve e 
diz empedernir embora diga e escreva pedra. 

E para findar direi, resumindo: Gente da noa, 
dos quatro livros analisados, o melhor, é um grande 
€ formoso livro de análise e de crítica que uma fu- 
tura edição há de pulir, lapidar, tirando-lhe os pe- 
queninos senões que a lufa-lufa da produção deixou 
passar. Gente da rua marca uma época, descreve o 
finalizar de um regime e carreia para a História de 
hoje que se há-de fazer um dia, vastos elementos de 
análise, de nítida observação e de profundíssimo es- 
tudo. 



88 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 




Albino Forjaz de Sampaio 

Caricatura de SAAVEDRA MACHADO 



É o segundo livro que este amigo 
Escreve e dá à loz, com muito agrado ; 
Por isso deve ser elogiado 
Conforme era casos tais me desobrigo. 



O livro d'hoje e, ao que suponho, o antigo 
São de homem de talento e revoltado, 
Tanto que no prefácio tem cuidado 
De se indispor cora todos — não comigo. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 89=^ 



Adoro quem se mostra independente. 
Quem vai zurzindo a tono ou a direito 
Esu chagada, miserável gente. 

Vá, sen Albino, qae tem alma e geiío ! 
Ponha-me em sangue os outros, se é valente 
Corra-me a pontapés o preconceito ! 



De O Seatlo, suplemento (1908) 

Grilhetas 



X. P. 



Segue-se-lhe, cronologicamente, o volume Gri- 
lhetas. 

O autor o diz : — trata de escritores e Albino 
acka que o nome está be^n, dado o trabalho intelectual 
ter na nossa terra equivalência à cotidenação penal 
de trabalhos forçados. 

Começa pela Resposta a um inquérito, autobio- 
grafia onde há muita blague à mistura com muitís- 
simas verdades e uma ou outra afirmação paradoxal. 

« Pode ser-se sonhador, utopista, visionário, mas 
com a algibeira vazia o sonho, a utopia, a visão, 
há-de ser sempre a moeda que nos falta». 

(Pág. 12) 

Não é verdade. Camões não foi rico, Bocage não 
foi rico, e Camilo viveu como Albino Forjaz o apre- 
senta mais adiante e como todos nós sabemos. Isto 
cá por casa. Lá por fora veja-se Milton, Shakespeare, 
Dante. Veja-se Daudet e Zoia. As suas melhores 



■90 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



obras, as de mais chispa, as de mais talento foram 
feitas quando eles não tinham « com que mandar 
tocar um cego». O próprio autor dos Grilhetas^ 
que tinha quando escreveu as Palavras cínicas, as 
Crónicas imorais^ a Lisboa trágica} 
Outro paradoxo: 

«... os Lusíadas, a Ilíada, o que os senhores 
quiserem, só são adoráveis vistos através de uma boa 
digestão » . 

(Pág. 10) 

Também não é verdade. Através uma boa diges- 
tão o que é agradável, e sobretudo o que sabe bem, 
é um bom charuto. A beleza das grandes obras pri- 
mas, geralmente, é vista à luz de uma vela, na tra- 
peira de um quinto andar, quando se tem a alma 
cheia de ilusão e o peito cheio de fé I Então, sim. 
Então é que a chama bemdita do Ideal, sobe, às 
cavalitas do Pensamento, até tocar as nuvens, para 
pairar lá muito em cima, lá muito alta, onde lhe 
não cheguem as flatulências das boas digestões. Não 
será assim ? 

Mas aqui está um belo, um grande pensamento 
— grande e verdadeiro: 

«... tudo, todos se vão no dia em que de pobre 
se desce a miserável » . 

(Pág. 13) 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 91 

Todo O resto do artigo é uma blague pegada, 
prosa irónica com seus laivos de repulsa, mas fica-se 
sabendo (pág. 14) que os seus deuses são Camilo e 
Fialho, e assim, mesmo sem querer, Albino Forjaz 
de Sampaio, vai dizendo as suas preferências sobre 
escolas literárias. . . 

E seguem-se as máscaras e vem Silva Pinto a 
cujo estudo eu ja largamente me referi no meu livro 
Camilo € Silva Pinto, que a casa Guimarães & C* 
editou e que o leitor pode ler se quiser, compran- 
do-o. 

Depois Ramalho Ortigão que foi bem aquilo que 
Albino nos apresenta por mais que zoilos de vária 
espécie digam o contrário em desabono da irreve- 
rência do autor do Grilhetas. Em Camilo Castelo 
Branco, Forjaz de Sampaio analisa as relações de 
Camilo, escritor, com a casa editora, já extinta, Matos 
Moreira, cujos copiadores de cartas Albino leu, co- 
lhendo aí apontamentos curiosíssimos e indispensá- 
veis ao grande estudo que um dia se há-de fazer 
ainda e que, por emquanto, é obra fragmentada, 
caboucos a que cada um de nós tem dado a sua 
enxadada, sem outro fim que não seja o de abrir 
os alicerces *do grande edifício a construir. O artigo 
em questão, sob este importante ponto de vista, é 
óptimo. 



92 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

Depois Fialho. E a figura do prosador admirável 
do Paiz das Uvas sai da prosa de Forjaz mais co- 
nhecido e mais compreensível. 

Segue-se-lhe Eça de Queiroz e Jiiles Claretie. No 
primeiro aparece, numa revelação perfeitamente iné- 
dita, o lado comerciai do autor dos Maias. E que 
belo, que profundo estudo de comparações e de aná- 
lises onde sobressai a fina ironia de Eça bras-dessus, 
bras-dessous com o romantismo de Mariano Pina. No 
segundo, simples esboço de figura, evoca-se uma 
carta do escritor de Les Ingrati ao autor dos Gri- 
lhetas, em que este é saudado pela beleza do soneto 
Ao cair da folha que Albino lhe mandara. E aqui 
noto eu o desfazer de uma <^/ii;^^-paradoxo de For- 
jaz. Neste mesmo livro Albino escreveu a pági- 
nas 12: 

«Arte? Artistas? Não acredito. Criaturas que 
precisam de comer. Gente uma por fora outra por 
dentro. Egoístas, egoístas apenas». 

E a páginas 45, referindo-se à espantosa activi- 
dade do falecido director do Temps: 

«É que esse artista era uma criatura infatigável v 
que tomava o trabalho não como um duro fado a cum- 
prir, mas como uma deleitosa tarefa a executar ^k 

Sublinhei a contradição. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 93 

Ora quem leia só uma ou outra obra de Forjaz 
de Sampaio e as não conheça a todas pode muito 
facilmente tomar a nuvem por Juno e julgar que as 
excentricidades de Forjaz de Sampaio são afirmações 
feitas a sério. Que o não são demonstra-o suficiente- 
mente o que aí fica. 

A fechar o livro vêem mais três capítulos — In- 
quéritos de jornal, A margem de alheios livros e Fi- 
guras gradas. No primeiro fica-se sabendo como 
trabalhavam ou trabalham Abel Botelho, A. Lopes 
Vieira, Malheiro Dias, Schwalback, Eugénio de Cas- 
tro, Fialho, Gomes Leal, D. João da Câmara, João 
Penha, Júlio Dantas e Teófilo Braga; e se uma boa 
parte da gente em evidência no nosso tempo é ou 
não fumadora, e o que fuma. São inquéritos interes- 
santes, jornalísticos, cheios de humor e de vivaci- 
dade. No segundo analisam-se livros de Júlio Dantas, 
Eduardo de Noronha e Delfim Guimarães. E no ter- 
ceiro há elogiosas referências e justos comentários a 
Bento Màntua, Schwalback, Fernandes Tomás e La- 
tino Coelho. 

E todo o livro é curioso, interessante, em elevada 
linguagem de prosador já feito e seguro dos seus 
méritos e da sua prosa. 



94 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



1 



Vidas Sombrias 

Uma tarde no seu gabinete de trabalho da Bi 
blioteca do Ministério do Comércio, de que é di- 
rector arquivista, Forjaz de Sampaio, entregando-me 
o último dos seus volumes publicado, dizia-me: 

— Aqui tem você mais um livro meu. E por 
sinal um dos meus livros de que vai gostar. . . 

E passou-me para as mãos Vidas Sombrias. For- 
jaz de Sampaio, não se enganou. É para mim, de 
facto, o melhor, o mais belo, o mais são e o mais 
humano de toda a sua obra já vasta e barulhenta. 
E um livro cheio de piedade e cheio de amor. Livro 
das lágrimas, das dores, dos desânimos, da miséria 
— é todo um livro bem do coração, é todo uma 
grande tragédia de sentimento, em que a bondade e 
a verdade palpitam e em que os miseráveis, os po- 
bres, os famintos, os deserdados, todos os que so- 
frem e todos os que lutam, todos os que escavacam 
a alma e o peito na penedia aguda e hostil da des- 
graça, todos os que se afogam no mar sem fundo 
das lágrimas martirisantes, todos emíim os que es- 
trangulam a alegria de viver na corda rígida do Azar, aA| 
se apresentam tais quais são à luz magoante de uma 



i 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 9& 

análise feita aos raios X da observação, mas feita 
com arte, com talento e com piedosa ternura! 

Ah! que belo fora que toda a obra de Forjaz de 
Sampaio fosse assim humana e sentida, verdadeira e 
leal 1 Que enorme monumento literário, cheio de ver- 
dade e de carinho, de sentimento e de análise, não 
teria já hoje o autor das Vidas Sombrias! 

E um livro que se lê com o cérebro e com a 
alma, e em que é preciso enxugar, uma vez por 
outra, os olhos humedecidos. Não há palavrões para 
épater le bourgeois, não há esforços de retórica, não 
há efeitos de pirotecnia literária. E um livro calmo^ 
sereno, tranquilo como a água límpida de um lago^ 
livro de tragédias que se compreendem na própria 
calmaria da acção. Não arripia, sensibiliza. Não cega, 
ilumina. A vida é assim, para os pobres, para os 
humildes, para os desgraçados. A existência dura e 
adversa tem aquelas dores, aquelas mágoas e aque- 
las filosofias. 

Mateus, o velho trapeiro, com c a sua filosofia 
especial que o tornava quási feliz», é um poema de 
dor, de amargura e de lágrimas, dor que se petri- 
fica, amargura que se anquilosa, lágrimas que se cris- 
talizam, nos longos solilóquios mentais, através as 
ruas da cidade, a derrear-lhe os ombros a «sacola 
de variegadas cores » até se ir amouchar, noite já, no 



^ ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

seu antro húmido e frio, encolhendo ainda filosofica- 
mente os ombros magros à teimosia impiedosa da 
gota de água que lhe perturbava o seu bom humor 
de pária, a sua filosofia de miserável farrapo humano. 

O Filósofo — vida de amor, desfiada lágrima a 
lágrima, pelos lábios da velhota «tão antiga no bairro 
<:omo êle>, são das páginas mais belas que Forjaz 
tem escrito, cheias de vida, de sentimento e de ver- 
dade. 

O mesmo direi do pequenino episódio, sentimen- 
tal e terno, do moço de bordo, e reforço a minha 
opinião, com as páginas soberbas daquele Pai, viúvo 
e tristonho que andava à procura do fiador, em- 
quanto lá em casa a filha morta lhe apodrecia já, 
porque ele, o desgraçado, nem dinheiro tinha para o 
enterro. Depois a história simples daquele moço de 
fábrica, bom, pontual, obediente, trabalhador, posto 
na rua pelo capricho de um novo mandão, cegando, *f 
na fúria de ter perdido o sustento dos filhos, e ma- 
tando na epilepsia racional, humana e lógica dos sen- 
tidos. . . Que beleza de figuras, que explêndido apa- 
nhado de sentimentos! 

E que lindo poema O Sonho, feito com todas as 
tintas amargas da ilusão, desfeitas na dura realidade 
de uma mansarda pobre e triste. 

E O bêbedo ? Há ou não absoluta verdade naquele ] 



I 



i 




Albino Forjaz de Sampaio 



ClieJiè de Furtado <f Heu/ 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 97 

borrachão ignóbil que concordava com o amigo « em 
que um homem não é de ferro, e que um bocadito 
de libardade não fica mal a uma pessoa * ? E que pro- 
funda e amarga verdade esta num simples comentá- 
rio do escritor: 

«Liberdade chamava o bêbedo o meter-se no 
carvoeiro cora a féria e a só sair de lá quando a tasca 
fechava e o dono punha os fregueses na rua, tendo- 
-Ihes trocado o dinheiro por vinho». 

E aquela mulher, fêmea que a todos os bofetões 
se submete, cadela que lambe a mão brutal do dono 
— só por que êle, um bêbedo e desordeiro, é o pai 
dos seus filhos . . . E isto assim, pois não é? Quantos 
€xemplos não temos nós aí diariamente? Quantos?! 

E o volume é assim — O cigarro, A morte, 
O amor, O frio, A velha, A órfã e todos os outros, 
uma infinidade de episódios roçados pela asa negra 
da Desgraça — livro de um sonhador e de um filó- 
sofo, de um poeta e de um analista, livro humano, 
livro onde a verdade canta e ri e chora toda uma 
grande tragédia de sofrimento 1 

Vidas Sombrias é de facto, dos livros deste es- 
critor, até hoje publicados, o melhor. A própria 
linguagem é mais forte, mais bem equilibrada, mais 
justa. É um livro que ficará a marcar algo de valia 
na produção literária de uma época. 

rOKJAZ DE SAMPAIO 7 



98 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



A Avalanche 



A Avalanche é o poema das trincheiras. Poema 
feito de esperanças, na luta épica dos campos ensan- 
guentados da Flandres e nas enxovias húmidas das 
trincheiras. Vejam a beleza desta dedicatória: 

« A todos, que ao frio, à neve, à chama rubra 
dos incêndios, ao troar do canhão, ao enervante cre- 
pitar da fuzilaria, na incerteza das águas do mar, na 
planície desolada da Flandres, na noite negra das trin- 
cheiras ou na noite vermelha dos hospitais, souberam 
lutar, combater, sofrer, morrer, honrar a Pátria — 
Soldados de Portugal, dedica o autor». 

'^ ~^ São meia dúzia de linhas vibrantes,, 

pensamento alto, coração sadio e forte, 
e pulso firme de escritor, fazendo vi- 
brar intensamente a corda do senti- 
mento. São meia dú- 
zia de linhas que 
'r^^Í^-^^~^' >» '^ marcam a elevação 

de todo o livro, que 
traçam a sua directriz, que rasgam aos 
olhos do leitor a larga estrada do mais 
acendrado patriotismo a percorrer. 

O tenente Albino Forjaz de Sampaio 

Caricatura de H. COLLOMB 
De O Século tómico (1918) 




ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO ÇQ 



O livro tem duas partes distintas: A margem da 
grande guerra e No coração da guerra, uma fazendo 
parte da outra incidentalmente. Na primeira há a 
filosofia e a história da guerra vista sob o prisma 
democrático; a segunda são paisagens, impressões e 
episódios colhidos no próprio teatro da guerra onde 
batalharam soldados de Portugal. Na primeira há 
observação e história, muita leitura, vastos conheci- 
mentos e acima de tudo isso uma clara psicologia 
das gentes que fizeram a guerra. 

Não discuto as opiniões expendidas. Nem estes 
estudos teem esse objectivo, nem eu me quero imis- 
cuir em observações políticas, numa obra meramente 
literária. 

Na segunda parte, a observação natural, a graça 
expontânea e aquele quid de prosa genuinamente 
portuguesa e sentimental sobressaem a ponto de tor- 
nar a leitura, ademais de interessante, graciosa e pi- 
toresca. 

Não é uma obra homogénea. Mas é uma obra 
que Tiá-de ser lida com prazer mesmo quando estas 
coisas da guerra de hoje já não despertarem entu- 
siasmo na política dos interesses agora em jogo e à 
bulha. 

A guerra não deu em Portugal obra de fôlego. 
As crónicas de Adelino Mendes, Augusto dè Cas- 



100 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

tro, Hermano Neves, Forjaz de Sampaio, Almada 
Negreiros, Paulo Osório, André Brun, Xavier de Car- 
valho, José Pontes e Mário de Almeida, para não 
incluir as minhas, são todas meros episódios, pontos 
de vista jornalísticos, apreciações sobre o joelho, mais 
ou menos bem lançadas com maior ou menor chama 
de sentimentalidade. Obra de gabinete, ponderada, 
valiosa em absoluto, história sem rancores, análise 
sem política, observação sem facciosismos nem par- 
tidarismos não houve para aquém dos Pinneus, em- 
bora a tentasse esboçar no Porto, Bazílio Teles, um 
velho republicano que, por isso mesmo, foi logo pela 
turba alcunhado de germanófilo e de traidor — pelos 
próprios partidários ! 

E mesmo assim a obra deste escritor foi quási 
insignificante, simples opúsculos, sem largx)s rasgos 
de crítica desafogada. 

No entanto afirmo, foi esta a única tentativa sé- 
ria em Portugal. Não quere isto dizer que os livros 
de guerra dos escritores apontados não tenham, cada 
um de per si, o seu valor restrito e relativo. Como 
não quere dizer também que A Avalanche não seja, 
como já disse, um belo e formoso livro de guerra, 
com muita observação, com bastante viveza e prin- 
cipalmente com aquele fogo sagrado do patriotismo i 
indispensável ao fim que Albino Forjaz de Sampaio] 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 101 



tinha em vista — a propaganda e a justificação da 
nossa participação na guerra. 

E ainda o livro denota que, se Albino Forjaz de 
Sampaio tivesse querido, teria feito a obra de verda- 
deiro cunho histórico, cuja lacuna apresentei e ficou 
infelizmente em aberto. Isto se demonstra exuberan- 
temente nos capítulos da primeira parte de A Ava- 
lanclie, cuja soberbia de expressão é admirável pela 
sinonimia: a Deutschland úber alies e A arte alenta, 
onde há uma acuidade crítica espantosa e uma jus- 
teza de vista muito para louvar. . . e meditar. 

Emfim — da primeira parte sai demonstrada a 
tese de que a Alemanha, que só teve génio na imi- 
tação, no aperfeiçoamento, na adaptação (pág. 41), 
foi um pouco a oficina da Europa, mas nunca o cé- 
rebro do mundo (pág. 42); da segunda parte, hino 
de amor à raça portuguesa, tira-se a bravura, a cora- 
gem, o bom humor e a estupenda adaptação do sol- 
dado português. 

E o livro de Forjaz de Sampaio marca assim 
mais um escalão valioso na série de crónicas já coor- 
denadas nos volumes anteriores e onde a prosa muito 
pessoal do autor da Avalanche se vai tornando cada 
vez mais homogénea e apreciável, vista através da 
sua originalidade e do seu vigor de repórter e de 
crítico. 



102 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



A Avalanche foi causa ainda de azeda disputa e 
acerada má língua nas gazetas de Lisboa e Porto 
contra Forjaz de Sampaio. O «escândalo Forjaz» 
deu colunas (^). Misérias, porcarias a que todos nós 
nos habituámos há muito neste pequenino país de 
coisas pequeninas. Não vale a pena recordar ódios 1 
e transcrevê-los. Para quê.'* Mas o «escândalo For- 
jaz » deu uma réplica de Albino e nessa réplica, feita 



(•) Tendo causado estranheza que o sr. Albino Forjaz de 
Sampaio fosse equiparado a tenente, em consequência da sua 
nomeação para o desempenho de uma comissão de serviço junto 
do corpo expedicionário português, era França, informa m-nos as 
estações competentes que aquela equiparação foi concedida em 
virtude do determinado no § i.° do artigo j.» do decreto n." 
2866 de 30 de novembro de 1916 e por analogia com o precei- 
tuado no artigo i.° do decreto n." 29 11 de 28 de dezembro do 
mesmo ano para os 2."^ oficiais telegrafistas e das pagadorias, 
visto o sr. Albino Forjaz de Sampaio ser arquivista-chefe do mi- 
nistério do comércio, a que corresponde a categoria de 2.° oficial. 
Quanto à comissão de serviço de que foi incumbido o sr. Forjaz, 
é eia de confiança do governo, que a reputa indispensável neste 
momento e da qual em ocasião oportuna dará o devido conheci- 
mento ao paiz. 

(Nota Oficiosa, emanada da Arcada e publicada 
no Século de 20-XU-917). 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 103 

com muito sangue frio e desusado bom senso, expli- 
ca-se tudo. Cortemos-lhe as ferroadas directas e apre- 
sentemos a defesa que vale a pena ler e arquivar. 
Veio na Luta, n." 4247, de 21 de janeiro de 1918. 
E dizia assim : 

cOra vamos a isto. 

Havia no miniãtério da Instrução uma comissão 
cujo fim era a propaganda de Portugal intra e extra 
fronteiras, comissão de que faziam pane criaturas que 
muito considero e de quem me honro de ser amigo. 
Um belo dia propus a compra de uma edição de ar- 
tigos meus, crónicas que tinha publicado sobre a 
Alemanha. A comissão achou que seria melhor fazer 
eu um livro novo, de impressões directamente colhi- 
das no front. livro curioso e vivido. Concordei e 
propus-m^fazê-lo. Receberia para isso 3:000 francos, 
foi o que pedi. Em troca daria artigos de propaganda 
nos jornais onde costumo colaborar, publicaria um 
livro de 240 páginas, com um mínimo de tiragem de 
3:000 exemplares e daria à comissão, que é como 
quem diz ao governo, 200 exemplares. Tal o negó- 
cio. Foi o casO aprovado pela comissão e aprovado 
pelo conselho de ministros Afonso Costa. Estava a 
coisa neste pé, isto é, fecha.lo o contrato entre o 
* escritor Albino Forjaz de Sampaio e o governo por- 

tuguês, quando a revolução surge. Todos os negó- 
cios de publicidade foram novamente a conselho e o 
conselho aprovou novamente o que já aprovado 
estava. E' que o conselho reconheceu que o negócio 
nada tinha de imoral. 

O governo dava-mc 3:000 francos, 858/00 es- 
cudos ao câmbio. Eu dava-lhe além da publicidade, 
Ja propaganda, do meu nome e do meu trabalho 



104 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



200 exemplares, que a 6o centavos cada, valem 120 
escudos. Dir-se há que os exemplares não são dinhei- 
ro? Pois são, porque o editor os paga ao depósito de 
papel, à tipografia e impressão, ao brochador e ao 
moço e eu lhos pago a êle, porque o governo mos 
pagou a mim. 

Ouro é o que ouro vale ou les affaires son hs 
affaires. Ficou já a verba moralmente reduzida a 
setecentos e tal mil réis, um fortunão. 

Em segundo lugar os tais 3:000 francos foram 
para tudo, sem encargos de maior. Para eu pagar 
comboios, comedorias e fretes, para publicar um 
livro, para escrever artigos, para dar duzentos exem- 
plares ao governo, para sofrer frio e neve, para 
dormir incomodamente, para poder lá ter ficado com 
uma bala na cabeça, porque, julgo que é uma coisa 
que na guerra possa acontecer sem parecer extraordi- 
nário a ninguém, nem mesmo a quem morre. Ora 
tudo isto por 846Í00, para mim, que tenho uma 
casa com arte, uma livraria preciosa, comida regular 
e boa cama, acho que não é de locupletar-se a gente. 

Mas ainda há mais. No dia 18 de dezembro o sr. 
Forjaz de Sampaio comprou na casa Thos, Cook te. 
Son um bilhete de ida e volta a Paris. Custou-lhe 
109ÍI640 réis. Ora já os malvados 700 escudos estão 
em 600 apenas. O sr. Forjaz demorou-se na viagem 
24 dias. Numa média de 50 francos por dia, pão ne- 
gro e café sem açúcar, o sr. Forjaz gastou mais 
1.200 francos. 

Agora ponham cartas, guias e plantas, trabalhos 
publicados sobre a guerra, e há-os bem curiosos, 
bem interessantes, quer como técnica, quer como 
arte, Le Feu e UEnfer, de Barbusse, a Ma Piiu, de 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO lOS 



Paul Lintiér, Los cuatro gitutes dei apccalipsis, de 
Blasco Ibanes, Les premiérs ant mille, de lan Hay. 
Tudo isto havia que se comprar. Resumo : os senho- 
res sabem quanto eu ganhei com o escândalo da 
rainha ida ao front ? Os senhores sabem com quanto 
eu regressei a Lisboa, com quanto num envelope eu 
dei entrada na estação do Rocio? Pois com uma nota 
de loo francos que rebatida dois dias depois no 
Crédit me deu 29Í400 e duas moedas espanholas 
de 10 cêntimos e 2 francesas de 5. Conservo-as para 
recordação. 

Agora outra coisa. Eu fui como tenente. Parece 
extraordinário e todavia não houve coisa mais regular. 
Como quereriam os tais, os outros, os aqueles, que 
eu fosse? A' paisana. Ignora-se cá em Portugal que 
é defeso a paisanos o campo das operações. Para ir 
ao front vesti-me de tenente. E' uma coisa que sem 
favor a lei me concede. Já tinha vestido a casaca 
para ir a uma festa em casa do dr. Manuel de Arria- 
ga; para ir numa das máquinas do rápido do Porto 
me vestira de ganga azul, e para fazer uma viagem 
na casa das máquinas do paquete 'Parto me vestira 
de fogueiro. 

Tenho ainda um smoking, um frak e tudo isto 
comprado antes da famosa negociata dos três mil 
francos, que um famoso siácio julgava serem três 
contos de réis. 

Embora a farda de tenente me ficasse a matar, 
despi-a em Bayonna. E' que cu tive sempre pouca 
querença para as fardas. E entre a de tenente que um 
decreto me emprestou e a da Academia que ganhei 
pelo meu trabalho, a da Academia é muito mais vis- 
tosa. Mete espadim, chapéu armado e não é ainda 
acessível aos granujas literários que dão tacadas nas 
gazetas. 

Tem a minha ida uma outra parte, reservada até 



106 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



seu tempo. Essa porém não custou um real ao esta- 
do. Parece que ficamos entendidos, hein?» 



E aqui está o c escândalo Forjaz » ! 

Nesta dolorosa e triste época morai que atraves- 
samos a palavra honra passou por tais e tantas 
transformações que estes ataques são já o pão nosso 
■quotidiano sem que ninguém tente explicá-los, bus- 
car-lhes a origem e aplicar-lhe o indispensável cau- 
tério. 

Dividida a sociedade portuguesa em partidos que 
são quadrilhas, melhor ou peor organizadas, a digni- 
dade do adversário é coisa de pouca monta nas ga- 
zetas da coscuvilhice indígena; e assim, fácil nos é 
assistir às mais tremendas acusações, morais ou polí- 
ticas, sem base nem documentação, e que, por via 
de regra, ou caem no olvido, ou redundam em equí- 
vocos que hão-de ser, mais tarde ao fazer-se a his- 
tória deste período desvairado e patológico, terríveis 
escolhos e emmaranhados meandros que os escritores 
dessa época com dificuldade vencerão. 

As palavras perderam já o seu significado justo, 
lógico e ponderado, para se transformarem em per- 
feitas vacuidades, que nada distinguem, nem mar- 
cam, nem classificam. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 107 

Os palavrões pnlha^ cattalha, ladrão ^ já não che- 
gam, e inventam-se termos pejorativos os mais dis- 
paratados e decadentes como demonstração da viri- 
lidade de uma raça: — formigas, lacraus, trauliteiros, 
adelaides e muitos outros, que são o pratinho obrigado 
das invectivas políticas. Os homens perderam aquela 
serenidade das límpidas consciências e agridem-se 
lançando uns aos outros punhados de lama e lodo, 
de onde em onde laivado a sangue em injustificáveis 
tragédias fraticidas. Tudo se desmorona, tudo se 
desconjunta, tudo vai numa impetuosa loucura de 
furacão para o abismo negro e apavorante da anar- 
quia do sentimento, igual, senão peor, à anarquia 
das ideas. 

Como travar a marcha desenfreada desta caval- 
gada para o caos inevitável e certo? 

Não sei — não vejo como. 

A questão entre nós já não é de princípios. Não 
há maioria monárquica nem maioria republicana. De 
um lado colocaram-se apenas os indiferentes, os nu- 
los, os apáticos. Do outro a turbulência de um novo 
estado de coisas, de uma nova transformação das 
sociedades cuja volta ou é tão grande que cai na 
posição anterior, ou tão violenta que só há-de dei- 
xar no campo ensanguentado da luta, destroços 
fumegantes, que hão-de ser — ai! dos que o não 



108 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

quiserem ver agora! — os básicos alicerces de uma 
sociedade nova, argamassada em sangue. 

Até hoje, os de cima teem procedido nos desvai- 
ramentos do egoísmo, como se a Besta Humana 
fosse insensível ao chicote injusto e bárbaro. Tempo 
virá em que, os debaixo, no lógico desforço de ve- 
xames inúteis, quando não hediondos, realizarão a sua 
assemblea geral, pela Força contra a Força, pela 
violência contra a violência, pela indisciplina dos 
párias contra a indisciplina dos Pangloss. 

E depois. . . 

E depois será o que Deus quiser e os homens 
maus vêem de há séculos preparando. 

E mais uma vez então serão proféticas as brôn- 
zeas palavras do Solitário de Vale de Lobos, que 
muito se isolou dos homens para evitar o contacto 
das feras: 

« Naquele pais, seja qual fôr o seu grau de civiliza- 
ção e poderio, onde falece o amor da pátria, onde os 
vidos mais hediondos vivem à lu:( do Sol, onde a todas 
as ambições è licito pretender e espirar tudo, onde a lei, 
atirada para o charco das ruas pelo pc desdenhoso dos 
grandes vai Id servir de joguete às multidões desenfreadas, 
onde a liberdads do homem, a magestade dos príncipes e 
as virtudes da família se converteram em três grandes 
mentiras, hd ali uma nação que vai morrer » . 

(Alexandre Herculano — História de Portugal 
— Tomo II, livro ii, págs. 201-202 da ediç, de 1916). 



1 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



109 



Falou assim o grande mestre da História Portu- 
guesa. Oiçam-no todos se ainda é tempo, — que este 
<caso Forjaz» junto a muitos outros de igual jaez 
que nem vale a pena citar, está já sob a alçada 
destas palavras proféticas, que valem bem a trans- 
crição para que se meditem como havemos mister , . . 

Que a tempestade vem cerca, e a trovoada 
começa a ouvir-se já . . . ao longe e ao perto. 



Tibério, filósofo e moralista 

Tibério, filósofo e moralista. 
Abra-se o livro. O prólogo, sete 
páginas apenas, é cheio de verve, 
de graça, de filosofia, de lógica 
e de bom humor. É uma porta 
que se abre de par em par para 
que o leitor entre no templo de 
Tibério, sorridente, bem disposto. 
Mas quem é Tibério ? Tirante um 
ou outro exagero de caricatura, 
Tibério é Forjaz de Sampaio : 
<é uma criatura normal, equilibrada, perfeita. As 
suas ideas são as de toda a gente com a diferença 
apenas de que Tibério diz em voz alta o que toda 
a gente esconde de dizer >. (Pág. ii). 




Albino Forjaz de Sampaio 

Caricatura 
de H. COl LOMB 



110 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

Pelo menos no Prólogo assim é. Vejamos no 
resto. Há, ou não, nas páginas do Tibério^ filósofo e 
moralista, lógica, bom senso, precepção e verdade? 
Se há! Há até páginas que tanto podiam estar ali, 
como num tratado de meditações para um rigoroso 
exame de ascetas, ou num livro de solilóquios 
para satisfação de consciências atribuladas. E abrir 
esta crónica, por exemplo, a páginas 2i e ler: 



«Nós os pessimistas devemos tomar a vida 
má, como ela é. Quando ela se nos apresenta risonha 
é por que quere converter em ironia o nosso moda 
de ver. E é que a maioria dos homens não vê, não 
sabe ver que a Morje, a liquidatária fatal, está es- 
piante a cada passo. No rebite da chapa de um paque- 
te, no parafuso de um rail de comboio, na curva de 
um caminho, na neve que cai, num revólver que se 
dispara, num cavalo que se desboca, num elevador 
que se despenha, num motor que pára, num freio 
que não funciona, num tubo que se quebra, numa 
lâmina que espera, num prato que nos apetece. E 
anda, sonha, vive, goza, como se tivesse que viver 
mil anos ou não morrer nunca.» 



Ora digam-me se não há toda a verdade e toda 
a exactidão nisto, e se estes períodos não podiam 
fazer parte de um capítulo de Kempis na Imitação 
de Cristo} Simplesmente Forjaz de Sampaio, anti- 
-espiritualista não dá a toda esta série de casualida- 




Albino Forjaz de Sampaio 

(Caricatura de /■'. Valenral 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 111 

des da matéria, uma finalidade lógica no destina 
superior das almas. Se o fizesse, o seu pensamento- 
completar-se-ia e a sua obra seria perfeita. Assim 
a matéria na sua apreciação exclusiva dá a aridez da 
acção desenvolvida e mata quási por completo os 
altos voos do Pensamento do crítico e do filósofa 
que fica a determinada altura da viagem para ater- 
rar imediatamente nos domínios inúteis da blague. 

A crónica G elogio é esplêndida de flagrantíssima 
verdade. Amor, dinheiro, casamento, é a íntima me- 
ditação das asperezas da vida e da inutilidade da 
idea nos ergástulos da fome. É verdadeira, com a 
vantagem de ser humana. . . 

E segue-se O elogio da carta anónima, com o 
qual de maneira alguma concordamos mas que ape- 
sar disso contêm verdades e análises flagrantes à 
vida e aos sentimentos do nosso tempo. Se bem 
que a carta anónima «é de algum modo a voz que 
teme ou que odeia > como assevera Forjaz de Sam- 
paio, o que tem lógica, ela porem não é nunca 
ca voz amiga que previne >. Carta anónima é sem- 
pre o máximo expoente de uma grande baixeza ou 
de uma suprema pulhice. 

A mão que não assina uma carta que escreve é, 
completamente,- a mão canalha que assassina pelas 
costas. De maneira que a carta anónima nem é 



112 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

curiosa, nem eficaz, e muito menos se pode escrever 
que vale uma epopea (sic)! e que o fazedor de tais 
protérvias pertence a uma santa instituição. Albino 
Forjaz de Sampaio, nesta crónica voltou um pouco 
aos seus tempos e às suas afirmações das Palavras 
Cínicas, e exactamente por isso, esta crónica é uma 
das mais frouxas e das mais infelizes do autor. 

No pequeno estudo Agiotas há fina observação, 
argúcia, bem raciocinada lógica, e uma agradável 
pontinha de blaguista schopenhaueresco de que Albi- 
no gosta muito nos seus paradoxos diabólicos. Mas 
no fundo a Verdade impõe-se, torna-se maior, flutua, 
como o azeite ao de cima de água. . . 

O elogio das feias é meia dúzia de páginas be- 
líssimas, de uma encantada filosofia de justiça, arga- 
massada no profundo conhecimento da alma das mu- 
lheres. 

Na crónica Do roubo há, em contraste, a doentia 
preocupação de dizer coisas irritantes, inaceitáveis, 
atrevidos pensamentos para cocegar o burguês; isto 
mesmo se avoluma e cresce desproporcionadamente 
na crónica seguinte Donde vem o mal de que só se 
aproveita o vocabulário apropriado e certo a servir 
o ttesloucamento da idea. 

Outra esplêndida crónica A cor das horas a que 
eu riscaria apenas a excrescência dos últimos perío- 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 113 

dos de páginas 91 que servem para quebrar a ele- 
vação filosófica das páginas antecedentes, admiráveis, 
formosíssimas e que só poderiam ser escritas por 
um requintado espírito de elite. 

Uma outra crónica que valia bem a pena fazer 
desaparecer do livro, intitula-se A mentira. E falsa, 
banal, sem elevação, sem filosofia, sem chispa alguma 
de talento. O mesmo se dá com A mulher do pró- 
ximo que não sendo banal é má, que tendo vivaci- 
dade e análise é perversa. Forjaz tomou a parte 
pelo todo e generalizou. Não sei se notaram já que 
o autor do Tibério, filósofo e moralista, sempre que 
pode é desagradável para com as mulheres a quem 
nega qualidades e em quem só encontra exagerados 
defeitos. Esta nota predomina em todos os seus li- 
vros, torna-se uma scie, mania por vezes irritante, 
quási sempre injusta, muitas vezes demasiadamente 
agressiva, e na generalidade insultuosa para a bon- 
dade, para o coração e para a lealdade das mulhe- 
res. Eu sei que o autor faz isto por blagtie, mas é 
que de tanto martelar esta nota a gente pergunta 
que mal lhe fariam as pobrezinhas? Depois, as mu- 
lheres, em geral não se defendem e mau seria que 
a escola das Palavras Cínicas tivesse adeptos e a 
filosofia de A ' mulher do próximo fosse seguida. 
O lar já tão machadado por filosofias avançadas, 

rOVJAZ DE (AMPAJO 8 



114 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

deterioradas e anárquicas, transformar-se-ia num caos 
de ignóbil perversidade. 

Segue-se mais uma crónica boa, perfeita, homo- 
génea A .geografia, obrigando a meditar no nada 
das grandezas da terra que os caprichos do azar, da 
fortuna, ou das armas, transforma e modifica; e vem 
logo a crónica Barbaridades onde Forjaz de Sampaio 
defende as touradas à espanhola contra as touradas 
à portuguesa. E não há ninguém que ao ler a argu- 
mentação sensata de Forjaz de Sampaio não esteja 
de acordo com êle, o que não quere dizer que defen- 
da a estúpida selvageria dos touros. O que êle diz, e| 
eu concordo, é que entre a brutalidade das hastes* 
limpas à espanhola, e a velhacaria dos embolamen- 
tos à portuguesa, é por aquela. E com justas razões. 
Eu também, embora repute ambos os espectáculos | 
de uma vergonhosa e deprimente estupidez para a 
humanidade que se gabarola de civilizada e que no 
fundo, assistindo e gostando de tais perversida- 
des, fica vinte furos abaixo da humanidade dos 
brutos. 

A crónica Os Amigos é a continuação de O elo- 
gio da carta anónima e ficam-lhe bem os mesmos 
comentários acima apresentados, ademais de ter no- 
vas afirmações descabidas e inexactas. 

Vem depois a Movimento associativo que não 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 115 

presta ; e segue-se-lhe a crónica Da hipocrisia de que 
se aproveita apenas o comentário final. 

A Mulher que passa é uma crónica deletéria. Todos 
somos filósofos é um simples escorço de taboletas filo- 
sóficas sem mais vantagens do que as da enumeração. 

Mas surge-nos logo A Felicidade e a pena de 
Forjaz de Sampaio, rasga, corta, profunda, analisa, e 
os seus conceitos e as suas conclusões são claras, 
humanas, completas. Seis páginas que valem um 
tratado de filosofia social. 

A Loucura é outra esplêndida crónica. O assun- 
to já de si nada banal, torna-o Forjaz de Sampaio 
mais interessante ainda. Esta crónica é uma das mais 
preciosas do volume sendo igualmente uma das mais 
eruditas e ao mesmo tempo das mais completas na 
concatenação dos argumentos. Perfeita. Prosa ele- 
gante, absolutamente ligeira, sem deixar de ser más- 
cula. E tem arrojos de pensamento que são verdades 
incontestáveis. Vejam isto: 

«Às vezes a loucura passa, sopra, vem de longe, 
galga fronteiras, atravessa os mares. Chama-se Moda 
e obriga as criaturas a ser ridículas. Chama-se gongo- 
rismo, nefelibatismo, simbolismo e obriga-nos a ser 
parvos. Dá na pintura e toma os nomes de impres- 
sionismo, futurismo ou qualquer outro pretencioso 
e vão.» 

Óptimo, não é verdade? 



116 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

E o livro fecha com chave de oiro. A Paciência 
é uma crónica não inferior à antecedente. Tem graça, 
tem espírito, tem verdade. 

Lê-se de riso nos lábios e a dizer que sim com a 
cabeça. E' uma crónica que dispõe bem, que tonifica, 
que nos enche de conforto e de esperança. E' tónico 
e refrigério. Alegra e consola. Há ali experiência e 
perspicácia. A vida é aquilo. A arma dos que triun- 
fam sempre, está ali. 

Em resumo : Tibério, filósofo e moralista^ cuida- 
dosamente revisto, cortado, emendado, nos pequeni- 
nos senões da lufa-lufa da produção, fica um livro 
excelente, cheio de graça, de humor e de verdade 
— que êle tal como está já é um grande livro, um 
belo livro. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 117 






^ . ^ /^* -, . _ ^ - 

Ao/ui^J^ 




118 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 



Os Bárbaros — António Nobre 

António Nobre, é o primeiro volume de uma série 
que sob a designação geral de Os Bárbaros, Forjaz 
de Sampaio se propõe escrever. 

São 105 páginas, apenas, de crítica impiedosa 
ao autor do Só, que sai dos ásperos comentários 
deste livro, reduzido à justa e lógica proporção do 
seu valor. 

Biográficamente, bibliográficamente e iconográfi- 
camente António Nobre é um livro completo. Dá 
gosto ver trabalhar assim. Sobre o ponto de vista 
porem dos fundamentos literários que levaram Forjaz 
de Sampaio a escrevê-lo, não reputo o doentio poeta 
das Despedidas como elemento que valha o desper- 
dício de tanta energia e de tanto trabalho malba- 
ratado. 

Que é na literatura nacional o autor do Só? Um 
poeta que a aura do sentimento bafejou, mas cuja 
obra nem criou escola, nem sequer vincou o seu 
meio e a sua época. 

Pernicioso seria António Nobre se a geração que 
se lhe seguiu o imitasse. Mas assim, isolado na sua 
torre de Anto com os seus pessimismos, as suas 
neurastenias e o seu delírio de grandezas, António 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 119 

Nobre é já hoje uma pálida sombra de Torturado 
que uma ou outra menina clorótica, sentidamente 
recita, e que nós todos admiramos apenas pela soma 
enorme da sua doentia emotividade que é todo o 
seu apregoado talento. 

E nada mais. 

Isto porem não' tira absolutamente nada ao valor 
real da obra encetada por Forjaz de Sampaio que 
eu desejaria ver mais profícuamente empregada em 
vultos de maior tomo. 

Há a páginas 79 uma ligeira referência à pessoa 
que ao autor forneceu indicações sobre o plágio do 
soneto Menino e Moço. Fui eu. E porque no primeiro 
volume destes estudos, Homens do rneii tempo e das 
minJias relações, a entrar no prelo, documentada- 
mente cito o facto, o que já aliás estava feito antes 
de falar com Albino F. de Sampaio, de mais refe- 
rências me abstenho agora. 



Páginas dispersas 



Crónicas e prólogos . . . 

Há agora que contar ainda na obra de Forjaz^ 
de Sampaio, a obra avulsa — artigos de jornais, não 
coleccionados ainda, poesias dispersas e prólogos em 
obras várias de autores portugueses e estrangeiros. 

Destes destacam-se os prólogos da Musa Loira, 
de Beldemónio; das Dores do Mundo, de Schope- 
nhauer; e de (9 Livro dos Cortesãs, colectânea poé- 
tica, feita com Bento Mântua. 

Na Musa Loira há o sentimento ; nas Dores do 
Mundo a análise filosófica, a crítica perspicaz, o es- 
tudo scientífico e doutrinário do assunto; no Livro 
das Cortesãs, a erudição feracíssima, vastos conheci- 
mentos da matéria, toda uma biblioteca de observa- 
ções e de história. 

Já agora um debique. A páginas 6 do prólogo 
das Dores do Mundo vem a frase latina nil novi sub 



122 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

sole. É asneira. Vem no Ecclesiastes e escreve-se 
assim : 

l^ihil sub sole novum. 

Como vêem é destas asneiras que até nos Mes- 
tres se apontam. Camilo dá-nos de presente num 
dos seus livros um escultor chamado Milos (!); e 
Vítor Hugo, nos Miseráveis, dá como divisa a um 
personagem vagabundo o Errar e humanum est! 

Não podia ter Forjaz de Sampaio portanto me- 
lhor e mais honrosa companhia. . . 



E fechemos esta análise. Albino Forjaz de 
Sampaio é dos nossos escritores contemporâneos o 
mais fecundo, o mais arrojado e quem aí maneja 
com mais talento a prosa viva e faiscante de cro- 
nista moderno. E temos dito, mas repete-se: E me- 
díocre como poeta, desorientado como filósofo, eru- 
dito como escritor de recursos, e jornalista como 
convêm às exigências do jornalismo moderno. 

Quando quiser fazer obra de fôlego e deixar o 
caminho fragmentado que tem trilhado até hoje será 
o primeiro dos escritores do nosso tempo, na crítica 
psicopatológica dos caracteres, na descrição dos cos- 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 123 

tumes da sociedade, na filosofia dos modernos conhe- 
cimentos e sobretudo nos arrojos comparados das 
observações históricas. 

Que Albino Forjaz de Sampaio, tem para isso 
talento, erudição, nervos e aquela divina chispa da 
palavra que encanta e que deleita, que comove e 
que instrui e que faz de um livro o nosso maior 
amigo e o nosso mais fiel e mais querido compa- 
nheiro ! . . . 



\ 



Forjaz de Sampaio . . . 




Albino Forjaz de Sampaio 

ACADÉXICO 



na Imortalidade 



Forjaz de Sampaio é académico 
desde m.aio de 191 7. E assim como 
houve quem se atirasse a ele por 
assinar artigos com o seu nome, e 
por ir a França como tenente, assim 
apareceu também um escarcéu de 
impropérios à sua entrada nos imor- 
tais. Foi o desabar do mundo! Na 



^"de "h! coiiomb Ordevi (^) escreveu-se uma estirada 
/?M«í.Part.<gu€ja(i9i8) coluna dc prosa para o comparar. . . 
ao marechal de Saxe, herói em Fontenay e analfa- 
beto em letras! O Combate (^), transcrevendo uma 



(1) 20 de maio de 1917. 
(*) 3 de junho de 19 17. 



126 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

avinagrada prosa contra ele, comentava-a tão desa- 
bridamente que a censura de então lhe cortou o co- 
mentário deixando-lhe um largo espaço em branco ! 
A República (^) frisava o facto de não terem sido 
académicos Eça e Fialho e de o não ser ainda Jun- 
queiro. Também citava Camilo. Asneira. Camilo foi 
académico. Mas adiante . . . As Novidades (^) citando 
o mesmo facto aludia lacrimosamente à juventude 
do novo académico e lastimava-se dos caprichos do 
destino complacente (sic) que tanto protegia o endia- 
brado autor das Palavras Cínicas. A Capital ('), 
A Luza, de Viana do Castelo (*), O Século nas suas 
edições da noite (^) e da manhã (^), O Pais, do Rio 
de Janeiro (^), e a Ilustração Portuguesa (^) foram 
unânimes em louvar o gesto da Academia e a elei- 
ção do novo imortal. Se outras gazetas disseram 
algo não o sei. Destas apenas tomei nota. 

Agora falemos nós. A entrada de Forjaz de 



(1) 15 de maio de 1917. 

(2) 14 de maio. 

(3) 12 de maio. 
(*) I de junho. 
(5) 15 de maio. 
(^) 24 de maio. 
(') 2 de julho. 

(*) N." 587, de 21 de maio. 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 127 

Sampaio na antiga Real Academia das Sciências nem 
desonrou os manes da Academia, nem as letras pá- 
trias. Uns e outros ficaram bem com a entrada do^ 
autor da Gente da Rua no velho casarão a Jesus. 
O facto de lá não terem entrado Eça, Fialho, e Jun- 
queiro, só quere dizer que a Academia se arrepen- 
deu de velhos pecados elegendo seu par o jóven 
escritor da Avalanche. Pois quem queriam os senho- 
res que ela elegesse? 

Dir-me hão: está vivo ainda o poeta sublime 
dos Simples. . . E depois? O facto de existir fora da 
Academia o nome de Junqueiro pode inibir de para 
lá entrar um outro escritor que a essa Academia se 
impôs pelo seu talento e pela sua audácia? Não. 
Quere apenas dizer que ninguém até hoje propôs 
Junqueiro para uma vaga de Imortal e que o poeta 
admirável da Musa em férias desprezou esse acin- 
toso esquecimento não se propondo a si próprio. 

Ora Forjaz de Sampaio fez toda a sua carreira 
literária a murro. Para entrar nas galés da pena 
usou um nome e contestaram-lhe o direito a esse 
nome. Para fazer os seus livros teve que galgar por 
sobre montanhas de impropérios. Lógico era que 
para entrar na Academia, que é a mais alta distin- 
ção que teem as letras, toda essa gente esbrave- 
jasse. 



128 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

O que há de extraordinário nisto? Claro, eu sei, 
daqui a duzentos anos, o académico Forjaz de Sam- 
paio terá isso na sua vida de letras como um sim- 
ples episódio que nada representa; e mesmo hoje 
quantos dos que lhe acicataram a entrada, nos jornais 
e nos cafés, lhe foram depois dar amigavelmente a 
palmadinha dos parabéns, a fehcitá-lo . . . pela me- 
recida honra. 

Se o mundo é assim. 

E depois . . . Depois para que não dizê-lo ? Os 
que se insurgiram nas gazetas e nos cafés contra a 
Imortalidade de Forjaz de Sampaio, fizeram-no ou 
por inveja ou por política — que o caso passava a 
ser justíssimo, se em vez de o terem nomeado a 
êle Albino, os tivessem imortalizado a eles críticos 
do Albino. Então já não havia Eça, nem Fialho, 
nem Camilo, (apesar de Camilo ter sido académico!) | 
nem Junqueiro, e a Academia tinha praticado o mais 
belo gesto de toda a sua vida. Assim, foi. o diabo. 
As rãs saíram para fora de água, e à beira dos pân- 
tanos coaxaram, coaxaram, até vir a noite negra do 
desprezo e recolherem de novo para os limos . . . 



ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 129 



O caso Forjaz académico é toda a vida nacional. 

Tudo quanto se faz neste jardim da Europa tem 
seis milhões de jardineiros a criticarem, a dizerem 
mal. 

Isto, na política, na sciência, nas artes, em tudo 
emfim quanto seja trabalhar, pensar, produzir. 

Rasga-se uma estrada. Há logo quem repare não 
ter sido o traçado feito, mais por aqui ou por ali. 
Constrói-se uma casa. O estilo não é mau, a casa é 
boa; mas se fosse assim e assado, cosido e frito, a 
coisa era melhor. Inventa-se um aparelho. Ah I se 
fosse lá fora o que não seria aquilo! Faz-se um livro. 
Que sim, e tal, e coisas, mas se o autor não fosse 
burro teria encaminhado a acção desta e daquela 
maneira. Etc, etc, etc. ! . . . 

E quem diz isto? Todos os que percebem tanto 
de estradas como eu de lagares de azeite; todos os 
que jamais seriam capazes de mandar construir uma 
capoeira; todos os que nunca inventaram coisa al- 
guma; todos os que, analfabetos de origem, refina- 
ram no estado primitivo; todos emfim os que vivem 
para aí inúteis, intrigando, mexericando, mordendo 



rOUÀ2 DE SAJIPAIO 



130 ALBINO FORJAZ DE SAMPAIO 

reputações, mascando invejas, impotentes para o tra- 
balho, infecundos e paralíticos, vesgos da alma e 
tortos do corpo, cuspindo ameaças, bolsando impro- 
périos, entravando, numa palavra, a energia e a 
acção dos outros. 

Ora foi por cima de todos eles que Albino Forjaz 
de Sampaio passou. Neste país para se trabalhar, 
para produzir e para vencer é preciso olhar em 
frente e marchar sem desânimos. 

Foi o que êle fêz e venceu. 

Muitos que para lá quereriam entrar, alguns até 
— quem sabe? — com muitas medalhas, e muito 
lento. . . dos outros, ficaram de fora, a morderem-se 
de inveja, alcandorados no himalaia das suas vai- 
dades. Tenham paciência. Vão-se contentando com 
as medalhas que inventam e com o fatiteuil acadé- 
mico do matemático Cabreira. 

E já me não parece pouco . . . 



FiNis — Laus Deo. 



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ÍNDICE . 



pái. 

Explicação 7 

Albino Forjaz de Sampaio no Dicionário Bibliográfico . 13 

Bisantinices de um linhagista 33 

Verduras da mocidade 43 

Na prosa da vida. — Palavras cínicas 51 

Crónicas imorais 64 

Lisboa trágica 67 

Prosa vil 72 

Gente da rua 80 

Grilhetas 89 

Vidas sombrias 94 

A Avalanche 98 

Tibério, filósofo e moralista 109 

Os Bárbaros — António Nobre 118 

Páginas dispersas. — Crónicas c prólogos 12 1 

Forjaz de Sampaio. . . na IraortaHdade 125 



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Freire, João Paulo 

Albino For jaz de Sampaio 



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