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PQ 92S1 
.C575 

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ALVORADAS 



ALVORADAS 



POR 



^Uxaxùxe ina (^oiutìcào 



PORTO 

TYP. DE FRANCISCO GOMES DA FONSECA 
Rua do Bomjardim, 72 

1866 




S8r7a70 

'29 



A se\i pae 



ILL.^^ SNR. 



BERNARDINO SIMÒES DA CONCEigÀO 



O Auetor 



A MEU PAE 



Se tudo quanto vive é grato ao Deus da vida, 
se a fior deve o perfume ao sol que a fecundou, 
cu, pois que vejo em si a imagem reflectida 
' de Deus, sol da minh'alma, a fior d'alma Ihe dou. 



m m DE PROLOGO 



N'esta luta fecunda dos espiritos, 

que tem por vasta arena a imprensa - um mundo - 

e por meta o ideal, 
na phalange dos que andam trabalhando 
por levantar a Deus, ao Bem, um tempio 

das ruinas do mal; 



— 10 — 



n'esta cruzada santa do progresso 
que traz todas as almas empenhadas 

que sabem crèr e amar, 
nao é nunca de mais qualquer esfor90j 
nao é nunca de mais qualquer obreiro 

que queira trabalhar. 

Neophyto sem nome e fraco e debil, 
nao me arreceio pois de vir à festa, 

festa de communhao ; 
nao temo ser expulso d'este tempio, 
que nao trago na capa dos hypocritas 

en volto coragao. 

Bem nu de mais temo eu que elle se mostre 
n'este tempo em que dizem que os poetas 

jà sorriem do amor; 
do amor!... a cousa santa entro as mais santas, 
entro os homens mulher, Deus entro os idolos, 

entro os espinhos fior. 



— li- 



se amar é ser creanga, estou no bergo ; 
poeta e nao amar!... nao sou poeta 

nem o desejo ser, 
que nao acho eu ahi cousa mais bella, 
mais formoso ideal, mais santo enlevo 

do que seja a mulber. 

Mas mulher qtie nos erga e nos levante, 
mas mulher que nos mostre em caso riso 

um mimdo a conquistar, 
mulher que nos nao seja mansenilha^ 
mas arvore de vida a cuja sombra 

possàmos descan9ar. 

Mulher comò a Brunhilt dos Nibelungen, 
que so qu'ria cingir ao peito altivo 

peito d'um heroe ; 
mulher que nos console e nos anime, 
quando formos vasar-lhe na alma candida 

a màgoa que nos doe« 



— 12 — 



E eu dei com almas d'estas no meu transito ; 
deixeij pois, corno deixa um namorado, 

cantar o coragao, 
e se mirrha levei a outros idolos 
foi por sentir ferver dentro do craneo 

a mesma inspiraQao. 

Ide, pois, ó meus versos, ide em bando, 
corno notas dispersas d'esse cantico 

das aves da manha ; 
tendes por certa a gloria... da indiffrenga; 
se qualquer alma, pois, vos der abrigo, 

essa alma é minha irma. 



RILIGIO 



(A Cixstodio José Dxiarte) 



Nào digam qiie depois da palpebra cerrada 

A luz que em nós brilhou nào dura um só instante, 

Que a sombra é sempre sombra e o nada é sempre nada... 

carvào em crystal é um puro diamante. 

(Gustodio José Duarte.) 



Pois a minha alma é pó quebrado o vaso ? 
Entào corno é que a idea se aniquila?. . . 
Onde se esconde està intima sybilla 
que me diz que inda ha luz depois do occaso ? 



— 14 — 



Quem pensa no infinito volve ao nada ? 
Qiiem sonila o goso eterno ha-de acabar ? . 
E' bem inutil, pois, este aspirar 
a urna ventura, aqui nunca encontrada. 

fogo que me anima, ai ! nào, nào finda!.. 
E' mais que pò a chamma de uma idea, 
e este intimo anhelar que me incendéa 
ha-de encontrar seu goso em vida infinda ! 

A lagem tumular é o firme apoio 
d'onde nossa alma anciosa vòa ao ceu^ 
terra que impura limpha recebeu 
para a golfar mais longe em claro arroio. 

Nao vejo aqui na terra mao tao forte 
que possa aniquilar-me o pensamento, 
e Deus, dando-me a luz do entendimento^ 
nao póde, sendo justo, dar-lhe a morte. 



— is- 



serei eu corno a folha desprendida 

que um sopro eleva e um sopro volve ao chao, 

eu, que sinto banhar-me a inspiracao 

se penso bem nos gosos de outra vida!... 

Eu, que me vou sentar sobre a montanha 
às horas langorosas do sol posto 
e às solidoes contar o meu desgosto, 
corno se mo entendéra fada estranha?!... 



E é pó.,. e é tudo pó?!.. Mas, quem blasphema?!.. 
acaso póde, loucos, ser um Deus?!... 
Olbae... olhae a abobada dos ceus: 
dizei-me se entendeis esse poema?... 

Dizei-me se esse turbilhào de estrellas 
langadas pelo espaco corno a areia, 
acaso as procreou, ou se uma Idea, 
n'um tempo que eu nao sei, foi accendél-as. 



— 16 — 



Ea Cerro o olhar e vejo!... Como é isto? 
Que forca aqui da terra eleva ao ceu 
minha alma quando o corpo adormecea, 
entao que eu para a terra nao existo?!... 

Loucos !... ha n'esta vida tal ventura 
que possa completar qualquer destino?... 
e eu quando a um pensamento a fronte inclino... 
é para o ver morrer na sepultura ? 

Loucos!... Pois eu que penso, e quero e sinto, 
que sei que existe Deus — o immenso amor — , 
que busco, sequioso viajor, 
sem vél-o, mas que existe bem presinto, 

nao sou mais do que o verme que se arrasta?!.. 
(Ou mesmo nao serei eu tanto ainda... 
quem sabe se a existencia n'elle finda, 
se apenas està vida aqui Ihe basta!... 



— 17 — 



Quem sabe ?) . . . Oh ! eu . . . eu sei de mim um pouco : 
cu sei que Deus nao póde ser o mal, 
sei, pois, que està minha alma è immortai 
— raio de cuja luz é Deus o foco ! — 



2 



ACTRIZ 



Eiiailia. das Neves e Souisa. 



Fundi n'um typo só a arte e o genio, 
juntae estes dois bellos ao das fórmas, 

ao bello da mulher; 
mettei-lhe n'alma a inspiragao dos anjos, 
e sobre o pedestal da caridade 

adore-a qaem souber. 



— 19 — 



Sente-se orgulho ao vér-te portugueza !... 
a terra de Camoes é tua patria, 

escolhida de Deus !... 
Està nacao colosso inda em ruinas 
faz brotar d'entre as pedras desconjuntas 

urna fior dos ceus. 

Scintilla-te no olhar vago e profondo 
aquelle fogo santo dos prophetas 

que vem do coragào !... 
Em ti ha nao sei que de um bello antigo 
que faz lembrar a Sapho erguendo a fronte. 

ébria de inspiragào. 

Como anjo da poesia, ora a tua harpa 
desferes sobre a aresta de um abysmo 

das tormentas a luz, 
outras vezes serena e pensativa, 
corno anjo da saudade, vais sentar-te 

junto aos degraus da cruz. 



— 20 — 



E's corno Orpheu das tradicgoes da Grecia, 
arrastas na harmonia do leu genio 

mondo apoz de ti !.. . 
Creio, corno Platào, mulher, ouvindo-te, 
n'uma existencia incerta de oiitra vida 

passada, onde te ouvi 

Tu és que se sente e nao se exprime... 
és corno a fórma angelica do bello 

no seu maior fulgor!... 
és a poesia immensa do universo, 
vaga, incerta, reunida n'um só typo 

pelas maos do Senhor. 

Quem te souber cantar que o faga... eu calo-me ; 
és comò a luz do sol ante meus olhos, 

nao te posso filar !... 
Sinto-me estremecer de enthusiasmo, 
mas eu, bem vés, nao tenho a voz de Homero 

e nao te sei cantar. 



DE NOITE 



Archanjo, nào te assuste da noite a magestade 
e vem, pallida virgem, sentar-te ao pè de mim ; 
estende ao largo a vista no azul da immensidade 
e le no livro eterno de paginas sem fimo 

Que vès? — incompr hensivel ! — E' Deus. . . nào tenhas medo. 
Que mais ? — Milhòes de estrellas ! — E' o throno do Senhor. 

Depois? — Là surge a Ina detraz do arvoredo! — 
E' urna onde anjos queimam incenso ao Creador. 



— 22 — 



— Eiasinto-me opprimida!— Reclina-te em meu seio, 
que eu canto ao som das vagas e dorme-te a sonhar ; 
esconde-me os teus olhos. . . no azul dos ceus eu leio 
mysterios d'esse affecto que exprime um teu olhar. 

Perfumes que da encosta voais na aragem mansa 
da noite socegada, quedae-vos ora aqui, 
adejai sobre os labios da virgem que descanca 
em paga ireis mais ricos, mais suaves d'alli. 

Eil-a a estatua de neve, que de espuma se veste!... 
Como a dormir é linda. . . Nào dorme, pensa em Deus, 
lirio que fecha o calix e o perfume celeste 
no zephiro das tardes envia para os ceus. 

0' lua, nao m'a roubes, ou leva-me com ella 
de manso pelos ares immerso em teu palor, 

tu tens milhoes de estrellas, e eu só tenho està estrella. . . 

0' lua, nao m'a invejes, nao m'a invejeis, Senhor. 



ROUXINOL 



E' noite ; tudo dorme, 
e até là em baixo o mar ; 
corno para scismar 
calou a voz enorme. 

Da terra os seios tumidos 
arfam, por que o ribeiro 
no tronco do salgueiro 
imprime os labios humidos. 



_ 24 ~ 



No campo é calmo tudo ; 
a aragem sobre a fior 
suspira ébria de amor 
e da-lhe um beijo mudo» 

Ao longe o ceu desmaia, 
e aos valles, da montanha 
desce urna brisa estranha 
sobre a foiba da olaia. 



Là surge da assomada 
a lua pelo ceu... 
lirio estremeceu 
ao vèr a sua amada!.., 

A rosa da campina 
córou ao ver-lhe a face, 
corno se divisasse 
rosto que a fascina. 



— 25 — 



E' noite ; e do arvoredo, 
là em baixo aos salgueiraes 
de quando em quando uns ais 
sahem corno em segredo. 

Depois pelas escarpas 
repetem-se cadentes, 
corno notas plangentes 
de solitarias harpas... 

E' rouxinol da margem 
que envia às solidoes 
d'alma as inspirafoes 
nos perfumes da aragem. 

Treme-lhe a voz, e o canto 
sae-lhe corno inspirado, 
tao doce e apaixonado 
que mais parece um pranto. 



— 26 — 



E cala-se um momento, 
corno para aspirar 
no palor do iuar 
um novo pensamento. 

Depois baixinho, a medo 
modula branda nota 
que vae perder-se ignota 
nas sombras do arvoredo. 



Entào ébrio retoma 
a lyra de crystal, 
e ao canto o salgueiral 
de amor agita a coma. 

Tado treme e delira, 

ludo anceia, enlouquece !... 

e rouxinol parece 

que mais e mais se inspira. 



* 

— 27 — 



Eil-o acaba tremente 
soltando um longo ai... 
Que foiba ao rio cae 
e desce na corrente? 

E' elle, que, poeta, 
su'alma aos ceus envia 
em ondas de barmonia, 
chrysallida inquieta. , 



DESENGANOS 



(Ao Snr. J, T), Flamallao Ortigao) 



Fallece-me a coragem n'esta luta ; 

nao quero mais erguer que é sempre em^^balde 

meus vòos para a luz ; 
que Iute quem tiver forcas p'ra isso ; 
eu nào ; deixo no meio da montanha 

està pezada cruz. 



— 29 — 



Sacudo pó da veste em desalinho 
e vou sentar-me à sombra do arvoredo... 

preciso descanQar; 
quebrou-me exforgo debil... dei um passo; 
mas logo vi que as forgas me faltavam 

para poder andar. 

Romeiro de um so dia, jiilguei sempre 
que para ver a Meka desejada 

bastava a fé e o amor ; 
loucura de fanatico!... a Victoria 
nao se alcanca por crér muilo na causa, 

precisa-se valor 

Conheci o meu erro muito cedo... 
Inda bem... inda bem que nao fui longe 

do tecto paternal; 
se me tornasse a noite no caminho 
nào podia guiar-me para a volta 

fumo do casal, 



— 30 — 



E eu amo tanto a vida socegada, 
a vida junto ao lar, a vida obscura, 

a vida seni rumor!... 
Os conselhos de um pae que nos adora 
e as caricias da irmà disputam mimos 

a qualquer outro amor. 

Alli nào custam lagrimas as palmas; 
alli nào ha traigào em nenhum riso, 

nem o insulto vii; 
quando o pezar a fronte nos acurva, 
ha sempre um seio amigo onde escondel-a... 

e anno é sempre Abril ! 

anno é sempre Abril, e eu amo as flòres, 
as noites de luar, um ceu de estrellas, 

rio e OS sals^ueiraes !... 
Eu jà pedi a Deus outr'ora os gosos 
de uma vida agitada e concedeu-m'os... 

ai ! nao os quero mais. 



— 31 — 



Tomou-me bem depressa o desalento. 

Depois julguei ouvir soar no espago • 

a palavra de Deus, 
senti banhar-me a luz do enthusiasmo, 
e ergili, ébrio de amor, de fé e crengas, 

a vista para os ceus. 

Julgava eu que o Senhor tambem me dera 
aquelle fogo estranho dos prophetas 

que OS faz estremecer!. . . 
Quiz lér tambem no livro dos destinos, 
mergulhar meus olh^res no infinito; 

mas. . . nào passei de qu'rer. 

Subi a tarde aos cimos da montanha 
ver sol afundar-se todo chammas 

nas solidoes do mar, 
ouvi estremecendo a voz dos ventos, 
senti a inspiragào banhar-me o rosto; 

mas... nao pude cantar. 



— 32 — 



Cantar!... Como cantar o que em minha alma 
se passava a taes horas, se hoje mesmo 

inda nào sei dizer ? !... 
Cantar?!... Como cantar a immensidade, 
a luz, ceu, o mar, se o livro eterno 

só Deus sabe lér ? ! 

Embalava-me a vida um còro de anjos, 
banhava-me a pupilla um raio de ouro, 

a inspiragào do amor !... 
Um riso de traigao toldou-me os ares, 
collocando-me o ceu a uma distancia 

que eu nao posso transpòr 

Embora ! Nào fallemos do passado, 

de uma illusào de amor que ao dissipar-se 

OS seios me rasgou ! 
Nao é para tristezas o momento, 
quero entrar a sorrir-me no caminho 

que a razao me apontou. 



— 33 — 



Mas volto a face às bandas do Oriente, 
e prostro-me por terra ante os fulgores 

da luz que eu adorei ; 
se eu nao posso seguir mais adiante, 
quero saudar aqui todo o romeiro 

que va onde eu nao sei. 

Outr'ora desejava muito as palmas, 
d'essas que as mais das vezes só ao tumulo 

concede a multidào, 
boje, que me encarei no proprio orgulho, 
retiro mal ferido d'està luta; 

mas salvo o coragao. 

E eu tenho quem me entenda os cantos da alma, 
Jà agora nao procuro outras victorias, 

nem quero outro viver; 
a irma quando me estende os bragos, rindo, 
compensa-me sobejo os poucos louros 

que eu podesse collier. 

3 



SIMILIA SIMILIBUS 



Vés?... quando à tua face o pejo assoma, 
corno no ceu a nuvem matutina, 
ou quando esse rubor que te illumina 
escondes a sorrir entre a aurea coma, 

parece-me estar vendo n'esse pejo 
a timidez da pomba que tem medo 
do mais leve sussurro do arvoredo, 
cuidando que o rumor Ihe pede um beijo. 



— 35 — 



A ti tambem... meu Deus !... ludo te assusta !... 
Que medo podes ter quando eu te fallo?... 
Por que córàs assim quando eu me calo?... 
Parece que até mesmo a olbar te custa! 

Se te fallo de amor nao me respondes, 
se vou para beijar-te ris córando, 
e concedes o beijo, mas curvando 
a fronte ao seio, aonde tu m^a escondes. 

Esconde; olba, eu, por mim, nao me arrenego; 
que te digo é que esse teu receio 
faz às vezes com que eu te beije o seio, 
corno errando o caminbo — se estou cégo ! — 

Desterra para longe esse embarago ; 
vamos, olba p'ra mim, mas sem tal pejo; 
vamos, se nao córares dou-te um beijo, 
se córares... entào... dou-te um abrago. 



NO TUMULO DE UMA CRIANQA 



Passou corno nas harpas da floresta 
passa às noites a brisa do Occidente, 
passou corno nas agoas da corrente 
passa lirio que o vento arranca à leiva; 
passoQ corno nas auras um perfame, 
sem deixar mais vesligios que a saudade, 
passou, rosa de um dia, à immensidade, 
a procurar em Deus a eterna seiva. 



SONHOS 



(A Pedro de Lima) 



Sonhos doirados de gloria, 
quem vos desfez, meus amores, 
pombas e chuva de flores 
do meu carro de victoriaj 



— 38 — 



còro alegre de andorinhas, 
que logo de madrugada 
me cantava urna alvorada 
de sobre as casas visinhas, 

anjos pallidos que eu mudo 
via cercarem-me em bando, 
se me assentava scismando 
a minha meza de estudo, 

grupo de sylphos travessos, 
que me appareciam a sesta 
na luz vaga da floresta 
e a tarde pelos cabegos... 

Quem vos desfez, meus encantos, 
meus sonhos de raocidade... 
sem me deixar, é verdade, 
um so de tantos e tantos?.,. 



— 39 — 



Inda assim o amor — que louco ! — 
é minha esp'ranca e meu rumo, 
ai! mas vae-se comò o fumo, 
desfazendo a pouco e pouco. 

Se ao menos està... mentirà 
m'a nào dissipasse a vida, 
eu dava por bem perdida 
loda a gloria que antevira. 

Oh! a multidào com palmas 
nunca exprime o que se exprime 
no beijo longo, sublime 
da fusao de duas almas. 

Como eu dera de bom grado 
todas as glorias do Dante 
por um beijo delirante, 
por um collo perfumado ; 



por um seio, um agasaiho 
onde a minha fronte mesta, 
corno n'am dia de festa 
repousasse do traballio; 

por ter quem n'um riso brando 
me revelasse os mysterios 
d'aquelles versos aerios, 
que eu julgo escrever sonhando; 

por ter quem estas doidices 
dos meus vinte annos escaQos 
repr'hendesse com abragos 
e acalmasse com meiguices; 

por ter quem algum deseja 
no meu resto descobrindo 
viesse correndo e rindo 
satisfazer com um beijo ; 



„ 41 



por ter quem, leve e ligeira, 
com medo qiie ea despertasse, 
ao meu leito se achegasse 
sentando-se à cabeceira ; 

por ter quem, quando me visse 
sobre algum livro scismando, 
sosinho, gesticulando^ 
m'o roubasse e m'o sumisse; 

por ter quem, vendo-me triste, 
sinta a tristeza comigo, 
por ter na vida um abrigo, 
por ter um anjo, se exisle ! 

0' meus amores risonhos^ 
ó meus amores serenos, 
nao me fujais vós ao menos, 
jà que nào tenho outros sonhos ! 



AVE CHRISTE! 



(A J. Maria. Regalla) 



A Italia era o prostibulo das ragas. 
Roma, a heroica Lucrecia dos Tarqainios 
tornara-se a bacchante dissoluta 
dos festins dos Caligulas e Neros. 
mando, acorrentado ao Capitolio, 
segando Prometheu de um drama borri veL 
estorcia-se em ancias de agonia 



— 43 — 



sentindo nas entranhas as cera garras 

da escravidao — abutre hediondo. — Os homens 

eram vendidos em leilào aos centos, 

ou rasgados no Circo pelas feras 

aos applausos de uma plebe infrene 

qae levava Vitello sobre o escudo 

e assassinava Cicero na estrada ! 

A terra estremecera a tantos crimes ; 

depois, ébria de sangue e de lorpezas, 

cahira extenuada de cansago 

e par'cia dormir um somno eterno. , . 

Foi entao que dos lados do Oriente, 

das montanhas distantes da Judéa 

se ergueu o sol da Redempgào humana. 

Roma, cega das noites de Suburra, 

sentindo a luz de aurora tao esplendida 

chover-lhe sobre as pustulas sangrentas 

raivou blasphemias de um furor selvagem, 

e louca pela idèa de vinganga, 

cabaleando embriagada e tropega, 

comò um homem que sae de uma taberna, 

cahiu ao tropegar nos proprios idolos ! 



_ 44 — 



Sobre as ruinas do colosso informe 

ergueu-se entào a cruz do Christianismo, 

arca mysteriosa de allianga 

salvando a humanidade de am diluvio. 

Salve, arv're symbolica da idea 

que faz de um homem bom um Deus de graga l 

Salve, ó luz benefica dos mundos, 

phanal de esperanca a encaminhar os povos 

à futura existencia de alem tumulo ! . . . 

Eu creio em ti, ó victima do Golgotha ! 

Das f ridas do teu corpo incorruptivel 

cada gota de sangue é um mar de vida ; 

dos teus labios, cerrados perdoando 

deriva a fonte pura da verdade ; 

a teus pés, magoadas e sublimes, 

pranteia a Magdalena e chora a Virgem ; 

clarào que te cerca a fronte loura 

é luz que vem dos ceus e inunda a terra I 

Salve, salve, ó victima do Golgotha I 



HARMONIAS VAGAS 



Desprende as azas no espaco, 
anjo immenso de poesia, 
leva-me aos ceus, à harmonia 
dos mundos d onde Vieste, 
desata os lagos da vida 
ai !.. . mas leva-me coQìtigo, 
nao me deixes, meu abrigo, 
nao me fujas, fior celeste. 



— 46 — 



Soltas as roupas na aragem, 
as louras trangas ao vento, 
no vago do firmamento 
longo olhar embebido, 
foge, vai, mas nào me deixes, 
meu doce anhelo mais santo. . . 
anjo, envolve-me em teu manto, 
nas pregas do teu vestido. 

Como a Ina às horas mortas 

ergue a cabega em segredo 

por detraz do arvoredo 

de uma solitaria aldéa, 

tu tambem ergue o teu rosto, 

desprende as azas. . . ai !.. . foge. . . 

quero entrar comtigo hoje 

no ceu, tempio da idea. 

Là vem surgindo da serra 
a pensativa dos ermos... 



— 47 — 



é a bora de nos perdermos 
no seio da eternidade !... 
Sobe à crista da montanha, 
soltas as trangas, ascende... 
teus Yòos ao largo estende, 
pelo espago... à immensidade!... 



Entorna da lyra aeria 
mais um canto, tim canto vago... 
olha : é tao sereno o lago, 
tao sereno o firmamento! 
Vem, deixemos està vida, 
que eu na terra viva morto, 
só depois de em ti absorto 
acharei meu pensamento. 



SOLIDÀO 



(A J. Dias d'Oliveira.) 



Vai-se-me a vida em sonhos de ventura; 
Jà mesmo dentro d'alma se me apaga 

a espVanga de gosar; 
e aquella imagem, toda formosura, 
(J'um futuro de amor jà nao me affaga 

meu constante sonhar. 



— 49 — 



Julguei retél-a um dia ; e ebrio e louco 
de ventura dei-lhe o que sentia 

de bom no coragào!... 
Fui mendigo, em sonhos rico ha pouco, 
que acorda e sobresalto e ve vasia 

e pobre a fria mao. 

Estendo ao largo a vista no horisonte 
e perde-se-nae o olhar na immensidade 

de um areal sem firn!... 
Se volvo ao que bei passado, ao dia de honte', 
é tudo gelo, bruma, escuridade, 

nao sei por onde vim. 

Longe, bem longe, incerta, vaporosa 
julgo estar vendo a imagem pensativa 

d'um bello e casto ser, 
orna-lhe a fronte pallida e formosa 
a aureola de uma luz que me cativa... 

ai ! mas nao é mulher! 

4 



Agitam-se-lhe os labios ao de leve, 
ergue a fronte e sorri, falla ao infinito... 

Gloria ! — Meu Deus, que luz ! 
Loucura!... a ave nocturna nao se atreve 
a sol fitar e foge dando um grito 

do brilho que a seduz. 

Como a virgem que junto da corrente 
se vai sentar sosinha e distrahida 

scismando sern pensar, 
eu vejo deslisar-se brandamente 
um dia apoz mil outros d'està vida 

sem goso, nem pezar. 

Eu quero em meu baixel, a vela ao vento, 
vogar em mar revolto, oh ! multo embora 

me sorva um escarceu ! 
De que me serve està alma, o pensamento 
se nao ti ver o seu gosar de uma bora?... 

so morre quem viveu. 



— 51 — 



E a Vida assim tao Ma, tao deserta, 
tao inutil, embora socegada 

nao tem gosos p'ra mim !... 
Apraz-me a vaga torva ondeando incerta... 
nao amo a symetria compassada 

nas flores de um jardim. 

Eu quero o mar, a laz, o ceu, o espaco 
e meu barco saltando ondas de espuma 

ao largo pelo mar, 
sentir-me preso à vida por um lago 
que me pague as caricias uma a uma, 

que chore se eu chorar. 

A hera tem o muro onde se abraga, 
a fior tem outra fior que a comprehende, 

toda a magoa tem do, 
a vide tem o olmeiro onde se enlaga, 
ao pobre a caridade a mao estende, 

Senhor, e eu vivo só. 



— 52 — 



Assento-me ao banquete dos prazeres 
corno um conviva taciturno e frio 

que nao ama ninguem ; 
comò sorrir de impudicas mulheres 
que riem p'ra agradar, eu tambem rio 

se vejo rir alguem. 

Mas sinto o gelo na alma ; nunca um rise 
em mim traduz a intima ventura 

do que na vida ere ; 
ao longe, no futuro, nao diviso 
nem uma rosa, um ponto de verdura 

que uma esp'ranga me de. 

Do bergo à campa é solitaria a estrada; 
sou comò a harpa suspensa na palmeira 

tocando à solidao, 
um som 'de corda em paramo estalada 
p'ios ventos do deserto e qual poeira 

perdido na amplidao. 



— 53 — 

E quando alfim no extremo do caminho 
langar um olhar amortecido à vida 

para dizer-lhe adeus, 
oh I corno agora e sempre orphao, sosinho, 
Senhor, nao terei urna yoz querida 

que me chame dos ceus? 



PRECE 



Qaem me diz o que eu sinto se ao sol posto 
me vou sentar nos cimos da montanha?... 
Qae sons, que melodia de harpa estranha 
me torna o olhar em fogo e em fogo o rosto ? 

Que vejo alem, nas faxas do Occidente ? 
Que sede do infinito me devora ? 
Acaso a luz que esse horisonte córa 
me falla da que brilha eternamente ? 



— 55 — 



Desejo o ceu^ voar na immensidade 
perder-me n'esse mar dias sem termo, 
buscar na solidao e de ermo em ermo 
uma alma igual à minha em mocidade. 

Eu sinto em mim o peso do infinito, 
um desejo de amor ardente e vago... 
apraz-me às noites só ir junto ao lago 
sentar-me sobre as rochas de granito. 

Oh ! quem me dera as azas da aguia altiva, 
buscar no espago o ar que est'alma anhela, 
fugir, correr voar de estrella a estrella, 
vèr pó està prisào que me cativa, 

vagar incerto na amplidào do espago, 
transpòr a curva azul do firmamento 
correr nos ares comò corre o vento, 
cahir alem dos mundos de cansago!... 



— 56 — 



E eu amo tudo: o monte, o prado, a rosa, 
ceu, a terra, o sol, o mar, a espuma ; 
quero, pois, estas formas urna a uma 
juntal-as n'uma so e mais formosa ! 

Oh ! rasga o espago, emmana?ao divina, 
e senta-te ao mea lado, anjo formoso, 
vacuo da minha alma enche de goso, 
é ao peito que me arqueja a face inclina; 

murmura-me essas fallas de ternura 
que jà te ouvi em sonhos de crianga, 
surge no ar, estrella de bonanga, 
illumina-me a vida de ventura. 

Ando sempre a estender pYa ti meus bragos, 
comò Christo os estende a humanidade, 
e em vez de me abragar a uma verdade 
so encontro por meus frios espagos. 



— 57 — 



Vem, pomba, dar-me a nova da bonanga, 
illuminar-me a vida de ventura, 
murmurar-me essas fallas de terniira 
que jà te ouvi em sonhos de crianga. 



Aos 



ACADEMICOS DE 63 

(Na noite de um beneficio que elles deram no theatro de S. Joào do Porta 
a favor das victimas da ultima insurreicào polaca.) 

Eis pois mais um conviva à meza do progresso!... 
Eis mais um nobre esforgo, eis mais um arremesso 

na estrada do porvir !... 
Um povo ergue-se alem, do Vistula, inspirado 
langa um grito no espago ! . . . Quem tao potente brado 

deixaria de ouvir ? 



— 59 " 



Escuta-o Portugal, e su'alma estremece 

de puro enthusiasmo, o olhar Ihe resplandece 

da luz da inspiragào!... 
E ardente, nobre e grande, encara a immensidade, 
e manda ao povo irmao, na voz da mocidade 

um abrago de irmao. i 

Oh ! terra de Camoes, nem tu, nobre, podias 
renegar o valor e a fé que em outros dias 

provaste a combater!... 
E' teu irmao de certo, é teu irmao nas cren gas 
povo que prefere a luz às trevas densas 

e diz : — Quero viver ! — 

E luta e ha-de viver que Ihe assiste um direito 
mais santo que Deus nos infundiu no peito: 

ser livre por pensar ! 
Deus fez-nos a alma livre, é livre a intelligencia 
do homem, ou da nagao que busca a luz da sciencia 

para se allumiar. 



— 60 — 



Quem poderà suster a estrella nos espagos ? 
Quem pode a urna nagao fazer cruzar os bragos 

e prohibir-lhe a luz ? 
Entào é urna chimera a palavra do Eterno ?... 
E', pois, um sonho mau, um escarneo do inferno 

Golgotha e a Cruz? 

Pois povo que luta, o povo grande e nobre 
ha-de ser sempre o lodo, o miseravel pobre 

que nos estende a mao? 
Que fez entao o Christo em subir ao Calvario ? 
Que fez ensanguentando a tela do Sudario, 

se existe a escravidao ! 

• 

Mas vós, cuja alma incende o fogo da sciencia, 
que adorais està luz ctiamada intelligencia, 

corno OS Incas o sol, 
que estremeceis de amor à voz da Liberdade, 
corno estremece a fior a viva claridade 

de um formoso arrebol, 



— 61 — 



fizestes bem em vir; aqui a vossa crenga 
é Evangelho saato, é urna fè immensa 

igual à vossa fé !... 
Ouvindo atravessar o espago o vosso grito, 
corno a um sopro de Deus, d'umi impulso infinito 

erguemos-nos de pé 1 

Bem vindos, pois, irmaos; bem vindos,.pois, de novo, 
filhos da liberdade, apostolos do povo, 

à terra liberal ! 
Nós saudamos com vosco essa primeira bora 
de urna grande nagao, comò jà foi outr'ora 

saudado Portugal. 



EXCOMMUNGADO 



(No albiartì d.e Ciastodio José 
Diaarte) 

I 

Era moQo e poeta e bom e louro,.. um Christo; 
e pagao corno Goethe, havia n'elle um mixto 
de Phidias e Platao, de artista e pensador 
que fariam querer e amar a propria dòr 
só para se estudar no grande livro da alma. 



— 63 — 



A fronte um pouco baixa e pensativa e calma 
par'cia procurar na terra — a grande mae — 
as fontes de onde jorra a forga, a vida e o bem. 
Em seu olbar sereno havia um que de vago 
que fazia lembrar um socegado lago 
reflotindo no espelho a cupula dos ceus 
profunda corno o eterno e immensa corno Deus. 
Em seu pallido rosto, a sombrear-lhe os labios, 
Yia-se a ruga leve e modesta dos sabios, 
nao filha do desdem, mas filha do saber. 
Espirito de Vico em peito de mulher, 
austero scismador, tinha na sua estante 
a par de Hegel Camoes e de Pascal o Dante. 
E sonhava, aquella alma, ébria de multa luz 
no abrago fraternal do Crescente e da Cruz. 



II 



Era moQO e poeta e bom e louro e triste ; 
amava quanto soffre, amava quanto existe, 



e tinha para tudo o que é sublime e bom 
no coragao um canto e em sua lyra ura som. 
Fallava em redempcào, em destinos dos povos, 
em idades de luz, em horisontes novos, 
no progresso do bom, em Deus e no porvir, 
comò se jà no mundo estivesse a cahir 
a beuQao do Senhor no dia das venturas 
em que elle ha-de descer à terra das alturas. 
Um dia ouviu-o alguem, andando elle a scismar 
urna tarde na praia, estas phrases soltar : 



III 



— (( Se nao existe Deus, comò é que o pensamento 
chegou a conceber um Deus um só momento?... 
podia acaso urna alma arder n'um grande amor 
sem a idea do bem, do justo e do melhor? 
Se a natureza é Deus nao creio no infinito ; 
alem da creagao e do mundo que habito 



— 65 — 



ou ha-de preexistir o immenso, o eterno ser, 
cu eu que n'um momento o pude conceber 
sou esse creador, e caio no impossivel. 
Existe Deus portanto, um Deus indivisivel, 
consciente, infinito, eterno, sabedor, 
causa de lodo o bem, fonte de todo o amor, 
que prende a terra ao ceu pelo lago da idea, 
a Vida a cada corpo, o mar ao grào de areia, 
mastodonte ao verme, a pianta ao minerai 
e homem comò um fillio aos seios do ideal. 
Como é que sem um Deus haveria a verdade 
a virtude e o bem, o mando e a immensidade? 
E tu, ó grande mar, comò é que sem um Deus 
servirias de espelho às estrellas dos ceus? 
E tu, meu coragao, que aspiras o infinito 
andarias em balde a suspirar, proscripto, 
por um mundo melhor, um mundo todo luz 
sem n'um Golgotha, alfim, depòres essa cruz ? 
0' verdade sublime, ó infinito anceio, 
pois hei-de eu ter cà dentro, aqui dentro do seio 
uma cousa que sonha a eterna perfeigao, 
e ha-de ella estar sujeita às leis da corrupcào, 

5 



— 66 — 



corno urna cotisa vii sem luz, nem consciencia?!.. 
Protesta, ó coragao, protesta intelligencia ! 



IV 



Era moQo e poeta ... aos vinte annos raorreu ; 
e um bom de um sacerdote excommungou o atlieu 
que nao cria na Igreja, em padres nem nos santos^ 
e dissera a expirar à màe lavada em prantos : 
— •(( Abengòa-me, ó santa, e dà-me a extrema uncgào 
de um teu abrago, ó mae, ó grande coragao, 
onde eu sempre encontrei a superficie e ao fundo 
consolacoes do ceu para as magoas do mando^, 
biblia onde eu aprendi a sciencia do amor, 
d'aquelle amor do bem puro de magoa e dòr, 
ninho que me acoitava em horas de tristeza, 
tempio onde eu adorei a Deus e a natureza, 
ó santa pelo amor aos humildes e aos teus, 
abengòa-me tu, que me revelas Deus. 



VISAO 



(A Ch-eria-bino Lag 



Ai ! quem me dirà onde 
eii possa ir encontral-a 
a visao que me falla 
e sempre se me esconde ? 



— 68 — 



Em sonhos me namora, 
e acordado me foge... 
ea quero vél-a hoje, 
eu quero \él-a agora. 

Eu quero ouvir o harpejo 
da sua voz suave 
comò canto de uma ave 
em seu primeiro adejo. 

Eu quero vél-a ao perto 
e em seu olhar divino 
lér todo meu destino, 
comò n'um livro aberto. 



Quero ver se acordando 
em seu rosto diviso 
aquelle mesmo riso 
que eu Ihe via sonhando. 



— 69 — 



Quero ver se ella ainda 
tem um vestido leve, 
mais branco do que a neve, 
qae a fazia tao linda. 

Quero saber depressa 
em que jardim de amores 
nascem d'aquellas flores 
que ella traz na cabega., 

E quero que me ensine, 
para poder cantal-a, 
a lingua que ella falla 
e que se nao define. 

Quero cantar-lhe as magoas 
que eu tinha antes de vél-a 
e que eu só e sem ella 
ia contando às agoas. 



— 70 — 



Quero dizer-lhe tudo 
que minila alma sente, 
e abragando-a tremente 
dizer-lb'o outra vez mudo. 



Qaero vér-lhe os cabellos 
d'aquelle estranho louro 
que me parecem de ouro 
a mim, que cego ao vél-os; 

e desatar-lh'os, rindo, 
do seu timido enleio, 
em ondas pelo seio 
que arfando a està trahindo. 

Quero esconder nas trangas 
a minha e sua fronte, 
ninho em chorao da fonte 
de duas pombas mansas. 



_ 71 — 



Eu qu'ria à sua face 
unir tanto o meu rosto, 
que anjo do desgosto 
nunca Ih'a divisasse. 

Ai ! quem me dirà onde 

eu possa ir encontral-a 

a pomba que me falla 

e ninho em que se esconde ? 



AO PARTIR 



Adeus... nào chores... tem animo 
hei-de voltar, meu amor!... 
Ta, filha, pede ao Senhor... 
pedo que eu volte depressa. 
Nao quero vér-te assim tremula 
abragando-me a chorar... 
Coragem!... hei-de voltar 
quando menos te parega. 



73 — 



Olha... esconcle-me essas lagrimas.», 

eu nao choro... tu bem vés.., 

D'aqui a um anno talvez 

eu volte co' as tuas flòres, 

Que importa, pois, està auzencia, 

se temos tanto porvir? 

Eu quero vér-te sorrir. 

sé minha amiga... nao chores. 



Nao chores ; basta o martyrio 
de pensar que vou viver 
longe de ti... sem te ver... 
ve que existencia me espera ! 
E' forga partir... abraga-me!... 
Vamos, nao chores... adeus!... 
— Quem ao menos, grande Deus^ 
estas lagrimas tivera ! ~ 



AO REI 



No sec'lo pensador em qae vivemos^ 
nós, OS filhos do povo, jà podemos 

erguer a fronte aos ceus ; 
nao nos cega de um rei a magestade ; 
ha acima da c'ròa a liberdade. 

e acima d'està Deus. 



— 75 — 



Cahiu emfim o sceptro ao despotismo!... 
a ceremonia augusta do baptismo 

nao é formula va!... 
todos tem um logar a mesma ceia ; 
um rei nao é um sceplro, é uma idea 

da liberdade irma. 

E a liberdade é o facho que alumia 
a palavra da lei — essa poesia, 

essa luz da razao — ; 
povo heroe sublime do poema, 
rei mesmo povo n'um diadema 

que se charaa nagao. 

E um povo assim se aos pés de um rei se prostra, 
é que ve n'elle o. homem que Ihe mostra 

caminho a seguir, 
é que vé n'elle a mào tres vezes santa 
que aos ventos do progresso nos levanta 

pendao do porvir, ^ 



— 76 — 



porvir!... oporvir!... cousa sublime!... 

idea que se sente e nao se exprime 

comò a idea de Deus !... 
mysteriosa visao da humanidade!... 
Yoz que faz levantar a mocidade 

a fronte para os ceus ! 

porvir!... o porvir!... Ha quem me diga 
que mysterios o espafo infmdo abriga 

na sua vastidào?... 
immenso de uma idea nao se pinta ; 
segredo da portentosa tinta 

nao sai do coragao. 

porvir!... que nos falla do infinito, 
comò do Iman o solitario grito 

nas torres de Stambul!... 
tudo que é grande e bom, sublime e vago, 
mas onde se ve Deus, comò n'um lago 

firmamento azul ! 



— 77 — 



E rei é està idea grandiosa, 
a columna de luz, mao poderosa 

que nos conduz ao bem!,.. 
é Moysés, que à frente do seu povo 
Ihe aponta no porvir destino novo 

segaindo-o elle tambem. 

E' este rei que eu hoje aqui saudo; 
homem que nos faz do sceptro escudo 

e do throno urna grei ; 
em quem o pobre encontra sempre um brago, 
e que sabe apertar no mesmo lago 

a liberdade e a lei. 



Salve, pois, digno irmào d esse monarcha, 
Tito no coragào na alma Petrarcha, 

que Deus nos quiz levar!... 
Este povo, que adora a liberdade, 
tambem se curva aos pés da Magestade 

que a sabe respeitar. 



so^ 



Oh I que saudades tao longas 
pode ter um coragao^ 
quando na aurora da vida 
ve em torno a solidào!... 

Vinte e dois annos!... que inuteis 
se as rosas da mocidade 
me vao cahindo urna a urna 
aos ventos da soledade!... 



— 79 — 



Vinte e dois annosi... e quantos 
outros mais eu viverei 
sem ter visto aquella imagem 
que em longas noites sonhei ! 

Sonhar. . . sonhar!... é a vida; 
a realidade é tao fria 
para as almas possuidas 
do demonio da poesia!... 

A poesia, aquelle abutre 
eterno de Prometheu 
que roe de continuo as almas 
que ousaram subir ao ceu ! 

Dai-me a existencia um so dia, 
Senhor, corno a certas flòres^ 
mas dai-m'a chela de affectos 
mas dai-m'a chela de amores. 



— 80 — 



amor . . . o amor é a vida, 
e eu ainda nao vivi... 
e uma alma assim tao sosinha 
nao sei que faz por aqui. 

Faz que ea faco, que pego 
às rhimas aquelle harpejo 
que nao pude achar ainda 
nas rhimas doidas de um beijo. 

Faz ^ue eu faco, faz versos 
a amantes que nunca viu, 
imaginando que sente 
paixoes que nunca sentiu. 

Le Pelrarcha, e suspira; 
le Lamartine, e entristece; 
le Camoes, mais triste fica; 
le Byron e empallidece. 



— 81 — 



E traz a cabeca em chammas, 
traz em fogo o coragao, 
e tem uns amores loucos 
com nao sei que apparigao. 

E passa corno urna sombra 
n'esta vida, que Ihe é noite, 
Sem ter collo onde se abrace, 
Sem ter seio onde se acoite. 

Ai I comò é longa està vida 
para um pobre coragao, 
que nao tem, sendo poeta, 
quem Ihe de a inspiragao!... 



A CAMÒES 



Influencia fatai da tua estrella ! 

Ha destinos assim, e o teu, poeta, 

quasi nos faz descrér da providencia! 

Em cada fior achaste mil espinhos ; 

tua alma toda luz, e fogo e crengas 

finou-se de saudades n'um exilio I... 

Pagaram-te um poema corno a Iliada 

co' a enxerga do hospital!... Rafa de frades!. 



Mas mundo córou de tanta infamia, 
astro a brilhar no seio do infinito, 
e adora-te depois do teu occaso. 
Ta, pois, qae n'esta vida foste um martyr, 
na morte, corno o Christo, nos pe*rdoa... 
bem cara està vergonha temos pago. 
Ai ! da nagao de heroes que ta cantaste 
talvez nem a memoria hoje restasse, 
se teu livro nào fosse o que tu foste : 
a luz suspensa ao carro do progresso 
tornando vulto ao passo que se avanga 
na noite do porvir ! 

Salve, poeta, 
monumento gigante do passado 
erguido nos confins da nossa gloria ! 
Morreu comtigo a patria... tu disseste-o ; 
mas se te deu o leito da miseria 
teve ella o jugo vii dos sessenta annos... 
Perdòa a desgragada... é tua patria. 



ADORMECIDA 



Silencio!... fallai baixo... dorme a bella; 
adeja-lhe nos labios um sorriso, 
que dissereis um ar do paraiso 
a perfumar-lhe as faces, a envolvel-a, 

Silencio !... fallai baixo, que ella acorda, 
e é maldade acordar quem sonha rindo ; 
deixai, deixai que expanda assira dormindo 
jubilo em que o seio Ihe trasborda. 



— 85 — 



Nao sabeis que existencia é um sonho quando 
brota em sorrisos taes n'uoi labio puro !... 
E' corno se ao sahir de um antro escuro 
entrassemos n'um tempio venerando. 

Que linda !... Ai ! eu nao sei se a fior curvada 
ao beijo perfumado de uma aurora 
tem mais mimo e frescór do que ella agora 
assim, soltas as trangas reclinada. 

Eu jà vi nos meus sonhos, pelas sestas, 
surgir ao pé de mim, mas nao sei d'onde, 
um anjo que se curva e que me esconde 
nas trangas que eu jurava serem estas. . . 

As trangas eram de oiro... vi-as perto; 
e mesmo ar socegado, e o mesmo riso, 
e se a dormir seus olhos nao diviso 
nunca eu de uns olhos soube a cor ao certo. 



— 86 — 



Nao é visao, nao é... Visoes tao bellas!... 
E urna visao nao dorme, nem respira ; 
e se ha visoes assim, quem nao suspira 
por ter n'um sonho urna visào d'aquellas? 

Quem a vida levàra assim sonhando!... 
Ao menos nao te vira a ti dormindo, 
anjo, que me roubaste a alma sorrindo 
sem eu saber por que, nem corno e quando. 



EN AVANT 



(A G-diltLermie Braga.) 
# 

Desfez-se à immensa luz da idea nova 
a sombra qae pesava corno um crime 

por sobre as multidoes; 
vulto informe e vào da idade media 
esconde-se nos antros do passado 

solfando imprecagoes. 



— 88 — 



Compr'hendeu-se afinal que a vida é santa 

por que é Deus que a dispensa, o Deus-bondade 

e nào Deus rancor. 
Christo, louro Glho de urna virgem, 
surgiu de novo abengoando os mundos 

com palavras de amor. 

A verdade!... a verdadel... eis nosso rumo! 
Nào me venham dizer que o pensamento 

nào nos conduz aos ceus ; 
eu creio na rasao corno em Deus mesmo, 
creio no sentimento, irmao da idea, 

filha do proprio Deus. 

s 

Creio que a intelligencia é a luz espiendida 
guiando a humanidade pensativa 

a futura Chanaan, 
cada homem um ser que traz na fronte 
escripto desde o bergo o seu destino, 

mystico — En avant ! — 



— 89 — 



Eu vejo em ludo a grande lei do Eterno 
cada homem depoe no aitar da vida 

a offrenda ao Creador ; 
Kepler offerta a lyra das espheras, 
Gutemberg a palavra do universo 

e Fulton o vapor!... 

Colombo arranca ao seio do Oceano 
a perola escondida das Americas 

mostrando-a à luz do sol, 
e a humanidade inteira solta um grito 
vendo raiar da fronte de Luthero 

mais um grande arrebol. 

Nós, que abrimos as portas do Oriente, 
que andamos pelos mares recolhendo 

Malaca, Ormuz, Ceylào, 
nós, primeira nagao da nova idade, 
curvàmos a cabega laureada 

à voz da Inquisigao ! 



— 90 — 



Que longa somnolencial... mando absorto 
rias augustas conquistas da sciencia 

esquecea-nos por firn, 
e em quanto nós resando adormeciamos, 
là fora erguia a voz para o infinito 

Descartes e Franklin. 



Afinal acordamos do lethargo ! 
Abengoada a aurora d'esse dia... 

Portugal nao morreu! 
Ao sol da liberdade tudo esplende!... 
Garrett encontra a mascara de Eschylo, 

Catào é Prometheu! 



Herculano desfaz na mao robusta 
OS velhos preconceitos dos fanaticos 

e escreve os seus Annaes, 
Castilho encontra a lyra de Virgilio, 
e ouvindo-a Portugal cobre de beijos 

OS Passos e os Leaes. 



— 91 — 



Sejamos dignos de tao boa heranga, 
nao paremos estaticos olhando 

tao illustres brasoes, 
falle em nós este santo amor da patria, 
avante no caminho das conquistas 

que nos chama Gamoes ! 

Avante !... E em cada peito o enthusiasmo 
faga nascer a fior abengoada 

da espVanga do porvir!... 
mando jà sentiu que caminhamos, 
a terra promettida jà se avista, 

agora é proseguir. 



JOELHOS 



OS teas oìbos kngaidos 
° Pomba adormecida < ' 
aspirar a vida 
'"^ de um tea olhar. 

f^-osteass.ostren.„as 
e as forni.s de/icadas 

^^ofa'-e as aln^ofadas 
^ aeixa-te adorar. 



— 93 — 



Ergue-te, virgem pallida!... 
fascine-me um teu riso ; 
abre-me o paraiso 
dando-me a inspiragào. 
Quero contar-le em jubilos, 
em beijos e em loucuras 
as fundas amarguras 
da minha solidào. 

Meu coragao tristissimo, 
corno a pomba sem ninho, 
tem vivido sosinho 
buscatido-te a cantar ; 
e este viver na ausencia 
vai-lhe matando o alento, 
ave que contra o vento 
voou atè cangar. 

Ai ! nao negues ao timido 
consolagoes e vida... 



— 94 — 



Meu Deus, se a flòr pendida 
nao pode reviver? !... 
Oh! pode, sim, eu quero-te... 
quero viver urna bora, 
embora... muito embora 
venha perto o morrer. 

E's, corno as virgens, pudica, 
és, corno OS anjos, casta ; 
um teu olhar me basta, 
vivo de um teu olhar, 
que nos teus olhos humidos 
ha nao sei que de vago 
que faz lembrar um lago 
visto à luz do luar. 

Desprende as azas lucidas, 
doirada borboleta, 
e torna-me poeta 
e torna-me cantor, 



— 95 — 

dà-me o baptismo angelico, 
de um teu brando carinho... 
eu vivo tao sosinho !... 
Oh 1 dà-me o teu amor. 



PEJO? 



<r — Juro-te, guardo segredo 
se tu me deres um beijo ; 
nao te convences, bem vejo, 
mas juro, nào tenhas medo. 

E se alguem m'o perguntar, 
hei-de negar, affianco ; 
podes ficar em descango, 
ninguem ha-de suspeitar. 



— 97 — 



Mas se tens inda receios 
de que eu nào seja discreto, 
lembro-te um meio selecto... 
talvez melhor dos meios : 



Em vez de vires aqui 
dar-me um beijo envergonhado, 
eu fico sendo o culpado 
dando-te os beijos a ti ---- » 

Com taes vantagens à vista 
hesitou, mas foi cedendo... 
Eu porem fiquei sabendo 
que era urna grande egoista. 



A 



UM ARTISTA BRAZILEIRO 



Um dia urna alma grande, um grande genio 
pensou ver muito ao longe no liorisonte 

fantasticos jardins, 
e transpondo o Oceano, aguia alterosa 
poisou beijando a terra promettida 

em ignotos confins. 



— 99 — 



Depois ergueu-se: a luz dos inspirados 
brilhava n'esse olhar que elle estendia 

ao largo pelo mar !... 
Os ventos sussurraram nas florestas 
e ao longo das quebradas corno qu'rendo 

esse vulto adorar !... 

Das rochas espumaram mil torrentes, 
OS eccos acordaram assustados 

dos homeus ao labor, 
e carro do progresso arando os plainos 
deixou apoz de si do immenso transito 

um estranilo rumor!... 

sol, que ao levantar-se vira pàramos, 
doirou a tarde o tecto dos palacios 

e cimo às cathedraes; 
e a lua, que esentava pensativa 
canto ao sabià, ouviu scismando 

da lyra os meigos ais. 



— 100 — 



Tudo tremeii, brilhou, falgiu no espago 
corno se o proprio Deus elaboràra 

segunda creagao I... 
E via-se um povo de hontem indo à frente 
dos mais povos na estrada do progresso 

ébrio de inspiragao! 

Eis, pois, a tua patria, ó nobre artista ; 
doirou-te o bergo a luz de outro hemispherio, 

um sol inspirador ; 
depois scismando à sombra das florestas 
aprendeste harmonias nao sabidas 

no seu vago rumor!... 

Abriu-te a patria os seios uberantes, 
e a seiva fecundante do talento 

nas veias te ferveu !... 
Ergueste ao ceu a fronte abraseada... 
Era chegada a bora dos prodigios ; 

tu'aUfia estremeceu. 



— 101 — 

Sentiste entao arfar-te o peito em ancias, 
corno se te fallasse o ar là dentro 

e transposeste o mar!... 
A chamma do talento é corno a estrella, 
quer espagos sem firn e ceus sem termo 

para melhor brilhar. 

Vai, pois, vai teu caminho, oh ! mas na volta 
à patria, nao deslembres està terra, 

velho Portugal ; 
e leva a teus irmaos um longo abrago, 
um abraco estremoso, que Ih'o enviam 

OS netos de Cabrai. 



MARIA 



Entre as sombras da immensa procella 
ha no ceu sempre um raio de luz... 
teu olhar, comò o brilho da estrella, 
OS meus passos na vida conduz. 

Bebé a fior n'um sorriso da aurora 
luz e selva, perfume e frescor, 
e a minha alma, que os risos te adora, 
bebé o ceu n'um teu riso de amor. 



— 103 — 



E's centro divino a que tende 

meu ser, sequioso de beni, 

és a Cruz que os dois bragos me estende 

corno a um fillio os estende unia mae. 

E's a fiamma sagrada da idea 
que a minha alma no escuro desceu 
e a palavra de amor que incendeia 
e thesouro que é meu e só meu. 

E's vaso de mystico aroma 
que urna fada me deixa aspirar^ 
e salgueiro de tremula coma 
que desenha no rio o luar. 

E's a rosa onde a brisa suspira 
comò beijos furtando-lhe a rir, 
és a corda mais doce da lyra 
que eu por ti tentarci desferir. 



— 104 — 



E's a bella das bellas, mais linda 
do que as santas de mais devocao, 
e se és bella nas formas, ainda 
és mais bella em grandeza e paixào. 



GOlVOS 



Fugiu-me corno a luz foge da sombra, 
fugiu-me corno a estrella à tempestade, 
fugiu-me sem deixar mais claridade 
que um sol depois do occaso deixa à alfombra» 



Fugiu-me comò a luz de um bello dia, 
fugiu-me comò a concha foge à vaga, 
comò a virgem que em sonhos nos affaga 
fugiur^me quando os bra^os Ihe estendia. 



— 106 — 



Fugiu-me corno a nuvem do Occidente, 
leve e da cor da rosa, foge aos ventos, 
fugia-me corno os grandes pensamentos 
que ella soube inspirar-me brandamente. 

Fugia-me corno o adeus foge na aragem, 
fugiu-me comò um ai foge do peito, 
comò ainda de junto do meu leito 
me foge, se desperto, a sua imagem. 

Fugiu-me comò a sombra do meu vulto, 
fugiu-me corno o riso dos meus labios, 
Fugiu-me comò foge inda aos mais sabios 
segredo da morte, o mais occulto. 

Fugiu-me comò a pomba da esperanga 
Sem me deixar o ramo, e eu vago incerto 
nos mai^'es da existencia, o ceu coberto 
Sem bussola, sem leme e sem bonanga. 



Pensar eu que me deste 
n'um teu sorriso o ceu, 
e ver que te escondeu 
a sombra de um cypreste 



Pensar eu que vivia 
da luz do teu olhar 
para t'o ver fitar 
na luz do eterno dia, 



è ver-me compellido 
a renegar da fé 
em Deus, se Deus nào é 
palavra sem sentido. 



— ao8 — 



Nao tens seio onde te escondas, 
coragao, perdeste o rumo ! 
Se a ventura é corno o fumo !... ' 
Se a desgraga é corno as ondas, 
que apoz uma, que ergue o vento, 
vem um cento. 



LA DANCEUSE 



Quando em requebros languidos, 
airosa borboleta, 
a sorrir inquieta 
pizas de leve o chào, 
parece-nos que as sylphides 
da grega antiguidade 
sao mais urna verdade 
que poetica ficgào. 



— 110 — 



A arvéloa que se langa 
pelos ares cantando 
alvo cysne boiando 
n'am lago todo anil, 
nào tem o teu encanto^ 
n5o tem essa belleza, 
vòa aquella mais preza, 
aste é menos gentil. 



Quando em teus vòos rapidos 
nos foges vaporosa, 
ou afrouxas langorosa 
corno para adejar, 
pareces-nos a dryade 
de urna encantada selva 
que vem dancar na relva 
em noites de luar. 



— Ili — 



Tu, n'uraa volta breve 
sobre o pé pequenino 
Oli n'um giro continuo 
corno louca de amor, 
semelhas foiba solta 
ao vento dos espagos, 
ou fada que em seus bragos 
endensa alguma fior. 



SANTELMO 



Deixa qae pouse a fronte em teu regalo 
viajante morto de cansago, 

coberto de suor; 
nao te ha-de macular o pó da estrada, 
hei-de lavar-te a veste perfumada 

com lagrimas de amor. 



— 113 — 



Foi longa a minha via dolorosa, 
caminho nào tinha urna só rosa 

nem urna folha só !... 
Este exilio de amor foi-me um deserto, 
até proprio ceu achei coberto 

por turbillioes de pó. 

Nào sei corno vivi ... se aquillo é vida, 
vèr a arvore da fé loda despida 

e morto o coragao ; 
ter sempre os olhos Atos no passado 
e um dia vél-o em fumo dissipado... 

ai ! nào é vida, nào. 

A vida és tu, porque eu morri perdendo-te, 
nào por que te nào visse, estava vendo-te 

mesmo longe de ti ; 
morri por que julguei que renegàras 
aquelle santo amor que me juràras... 

e a que eu tambem menti ! . . . 



— 114 — 



Menti doido de amor, na desp'ranQa, 
a chorar... a chorar corno a crianga 

que nào sabe negar!... 
Menti-te na loucura, no delirio!... 
impunha-me a mira proprio este martyriO:, 

querendo-me vingar! 

Ai! que inferno deamor, meu Deus, que inferno!... 
E eu sempre a vér-te em sonhos o olhar terno 

e riso Yirginal!... 
Fugia de mira mesmo... estive louco; 
depois veio o lethargo pouco a pouco 

e adormeci no mal 1 

Que Vida de loucuras!... que demencia! 
Futuro, coracao, intelligencia, 

tudo prostitui ! 
Arrastei-me no lodo comò um verme 
procurando matar-me ou esquecer-me 

para sempre de ti. 



Opéra-se hoje em mim novo genésis, 
depois de ter libado até às fezes 

meu calix de dòr ; 
brilha em minha alma o iris da bonanga, 
allumiou-me o abysmo a luz da esp'ranga. . . 

sorri-me o teu amor. 

Ergo-me à luz da vida estremecendo ; 
anda a sorrir-me tudo o que estou vendo... 

tudo hoje me sorri !... 
Tudo em torno de mim traja de festa ; 
até vago harpejo da floresta 

me vem fallar de ti. 



Cobre-me um ceu de amor todo alegrias ; 
ha perfumes no ar e melodias 

. que eu nào sei d'onde vem. 
A Vida!... a vida!... eu quero-a!... E' tao formosa 
quando temos na terra mao piedosa 
que nos conduz ao bem! 



— 116 — 



Deixa que pouse a fronte em teu regago 
viajante morto de cansa^o, 

de um longo caminbar ; 
foi tao grande o martyrio d'està auzencia, 
que eu preciso do abrigo da innocencia 

para me repousar. 



BRINDE ACADEMICO 



Quem um dia surgiu do baptismo 
que a sciencia nos dà para o bem 
nao se curva ante o vii despotismo 
nem humilde se dobra a ninguem. 

Embalou-nos o som da peleja 
que fez pó todo o sceptro dos reis, 
e està luz que em nossa alma lampeja 
só DOS manda curvar ante as leis. 



— 118 — 



Quem um dia sentiu dentro d^alma 
justo orgulho de ser portuguez 
encontrou jà no bergo urna palma, 
que ningiiem calcara a seus pés. 

Chove a luz a torrentes do espaco 
sobre as almas que a idea incendeu; 
nós sentimos o mystico abrago 
que a sciencia inda jovens nos deu. 

Sòmos filhos de heroes, somos povo, 
temos intima fé no porvir : 
Portugal ha-de erguer-se de novo 
e nos ceus de outra idade fulgir. 

Desfraldémos aos ventos da aurora 
pendao que a Victoria conduz!... 
Nao ha sangue nas lutas de agora ; 
falle em nós sempre o verbo da Cruz. 



— 119 — 



Resurjamos à voz do infinito!... 
futuro nos chama... é partir! 
— Portugal! — seja pois nosso grito 
Ao porvir, meus irmaos, ao porvir ! 

Ao porvir, ao porvir, à Victoria!... 
Surja a terra do Gama outra vez ! 
Levantemos nos bragos da historia^ 
solto ao vento, o pendào portuguez • 



MAGDA 



(A Ernesto Pinto d' AlmeidLa) 



A's vezes quando vejo pensativo 
ceu ir entre as sombras desmaiando, 
quando o vento do mar — leao captivo — 
parece a voz de Deus os soes chamando, 



„ 121 — 



figura-se-me ver-te, ó branca imagem, 
envolvida na luz do firmamento, 
e ouvir a tua voz, solta na aragem, 
murmurar-me nao sei que estranho alenlo. 

E sinto aliviar-se està saudade, 
que me nao foge da alma um só instante 
depois que revoando a eternidade 
de meus bragos ficaste assim distante. 

Tao longe!... E eu sera saber se alem da morte 
ha mais vida do que està onde se encontram 
as almas que attrahiu o mesmo norte, 
OS seres que um destino igual affrontam. 

Quem, meu calix sagrado, te ha partido ? 
0' Cruz do meu aitar, quem te ha quebrado ? 
Thesouro sem igual, quem te ha sumido?... 
Biblia do meu amor, quem te ha fechado? 



— 122 — 



Quem fez d'aquelle amor urna lembranga? 
Quem fez de tado aquillo urna saudade ? 
quando, apenas no goso de urna esp'ranca 
sentia em mim o ardor da mocidade?... 

Quando, louco de fé, mogo e amante, 
me andava o peito a arfar em devaneios, 
comò a virgem que aos gritos de um infante 
sentia entumecerem-se-lhe os seios?... 

Fechou-se-me o poema do universo ; 
jà nem sei lér no livro das estrellas, 
meu olhar em sombras sempre immerso 
nao póde, inda que tente, percebél-as. 

Parece que nas dobras da mortalha 
se foi comtigo o amor da propria vida, 
por que eu nao acho aqui nada que valha 
a magoa de te ver de mim perdida. 



— 123 — 



Perdida corno a luz que o vento apaga ; 
perdida corno a fior que o vento leva ; 
perdida corno a perola na vaga ; 
perdida corno o fumo que se eleva... 

Perdida corno a areia no deserto, 
perdida corno a voz na immensidade ; 
perdida corno a estrella em ceu coberto; 
perdida para mim na eternidade. 



A 



ARTHUR NAPOLEÀO 



Espera. Tambem eu quero saudar-te, 
por que eu tambem, idolatra do bello^. 

creio na inspira?ào ; 
tu exprimes a idea na harmonia, 
eu busco traduzir pela palavra 

OS sons do coracào* 



— 125 — 



culto é mesmo, a forma é que é diversa; 
mas tu comò os antigos sacerdotes 

ou druydica vestal 
és só que conheces os mysterios 
da religiào do bello, do intangivel, 

do immenso, do ideal. 

Viu-te nascer o Porto, onde um archanjo 
te deu beijo santo que é o baptismo 

dos grandes e dos bons; 
e apenas deixas, timido, o teu bergo 
langas no espago um grito que se muda 

n uma chuva de sons. 



Era bello entao ver-te inda crianga, 
Messias quando infante, confundindo 

a todo sabedorl... 
Era bello entao ver-te, arvéloa implume^ 
alando-te às regioes serenas da arte 

com azas de condor !... 



— 126 — 



Pasmaram do prodigio os mais descrentes ! 
E' que a luz de um talento assim fascina 

quando nos fere o olhar ! 
Póde fitar-se a alampada das noites ; 
nias sol, o priaieiro dos prodigios, 

nào se póde fitar. 

Ergueste aqui os teus priraeiros vòos ; 
depois, firmando o pé, subiste aos ares 

rass^ando a immensidào!... 
A andorinha quer sol e vida e flores, 
e tu sempre encontraste primaveras 

em cada regiao. 

Cada som que enviavas aos espagos 
parece que levava em si envolto 

germen de urna fior, 
por que chegando às almas dos que ouviam 
transformavam-se todos em grinaldas 

e em canticos de amor ! 



— 127 — 



A's horas do descango tinhas sempre 
genio da Victoria junto ao leito 

velando-te o dormir, 
e por sobre o docel o archanjo pallido 
da patria abria as azas luminosas 

olhando-te a sorrir. 

Abriste ante a columna do teu genio 
urna estrada da luz que tarde ou nunca 

vento ha-de apagar !.. 
Pódes pousar a fronte corno Tito, 
soubeste comò poucos n'esta vida 

dia aproveitar. 

Mas tu inda nem pensas no descango, 
teu dia nem mesmo vai em meio, 

estio comecou ; 
e agora tendo em vista novos rumos 
vens de novo inspirar-te aos ceus da patria; 

foi Deus que te guiou. 



— 128 — 



Podes seguir avante o teu caminho ; 
bem vés, tens a Victoria mais que certa... 

aqui tudo o faz crér: 
este poYO de irmaos que te estremecem 
melhor te diz n'um bravo clamoroso 

que eu nao sei dizer. 

As almas corno a tua sao as aves 
que só sabem voar na tempestade, 

e a gloria é um vendavel; 
mas na louca vertigem dos triumphos 
nào deixes esquecer um grande nome, 

a patria, Portugal *. 



♦ Recitada no theatro de S» Joào do Porto pelo actor Santos ao Lit2 
Portuguez. 



NA ALDEA 



(A J. M. Nogiaeira. Lim.cL) 



A aurora jà purpuréa 
toda a banda do Oriente, 
a pé, meu corpo indolente, 
a pé, que estamos na aldéa ! 



— 130 — 



Em quanto me estou lavando 
oigo fallar um creado 
entre bocejos ao gado, 
que escuta ruminando. 

• 

Abro depois a vidraga 
e a brisa da madrugada, 
fresca, leve e perfumada 
pelas faces me esvoaga. 

E vejo ao tanque do poco 
irem lavar-se os creados ; 
e fumo de alguns telhados 
jà presagia o almoQO. 

E do pomar lodo flòres, 
onde gorgeiam mil aves, 
vem perfumes tao suaves, 
vem tao suaves olores!... 



— 131 — 



Desgo depois à cosinha, 
onde estala urna fogueira 
de paus velhos de parreira 
ou de estacas de urna vinha. 

Alli mocoila corada 
dà-me os bons dias com pejo 
por que se lembra de um bejo 
que eu Ihe dei n'uma esfolhada. 

(Conselhos de algiima velha, 
pejo da rapariga ; 
pois se eu achàra urna espiga 
entre as outras tao vermelha !...) 

Saio entao, e logo à porta 
sinto um rafeiro ao meu lado 
latir alegre e orvalhado 
por ter dormido na horta. 



— 132 — 



Adiante um perdigueiro, 
que vai doido de contente 
a ladrar a toda a gente, 
alvorota um gallinheiro. 

Depois a matilha inteira 
por sobre os montes de mato 
persegue um pobre de um gato, 
que Ihe foge na parreira. 

Mais longe uma rapariga, 
a quem sei dos conversados, 
vem de olhos no chào pregados 
por que foi a desobriga. 

Depois encontro um visinho 
a porta da sua adega 
e que todo se arrenega 
se nao Ihe provo do vinho. 



— 133 — 



Mais abaixo o bom do abbade 
vem contar-me quantas petas 
leu nas ultimas gazetas, 
que vieram da cidade. 

E accendendo as maravalhas 
dos seus gostos reaccionarios, 
vai contando os casos varios 
de sanguinosas batalhas. 

Narra-me entao co' a bengala 
as guerras do Piomonte, 
e successo de Aspromonte 
em que figurou a baia. 

E assim de quadro em quadro, 
cada qual mais feio e tosco, 
vamos a parar comnosco, 
sem dar por isso, no adro. 



— 134 — 



Quando a aurora purpurea 
toda a banda do Oriente, 
quem pode ser indolente 
na primavera e na aldéa ? 



DESAPONTAMENTO 



a.lb"u.m d.e Antonio Moiatinlao 
d.e Soiasa.) 



Eramos sós n'uma sala; 
ella em silencio, eu fallava ; 
e a mim tremia-me a falla 
e a ella a mao que eu beijava. 



— 136 — 



Amo-te, disse-lhe, e ella 
córou, corno adivinhando 
que, se pallida era bella, 
era mais bella córando. 

Pedi-lhe baixinho um bejo, 
e ella curvoii a cabega, 
e depois disse com pejo 
« Nao é cousa que se pega ! » 

— Nao é ? mas rouba-se — E n'isto 
(Vejam corno eu ficaria !) 
à porta da sala avisto 
um priminho que se ria. 



A 



FRANCISCO TABORDA 



Doirou-te a fronte augusta o sol da intelligencia, 
deu-te beijo de amor a pallida Psyché 
que se chama talento, essa estranha demencia 
dos homens corno Tasso, ou Dante ou Mahomet. 



— 138 — 



Dos homens corno tu, dos homens dos prodigios, 
dos homens que vao sempre atraz de urna visao, 
que Ihes deixa ao passar na terra por vestigios, 
aqui um Capitolio, além um Pantheao. 

Semeadores do bem, do bello e da verdade 
deixaes em cada sulco uma esteira de luz, 
e colheis muita vez por messe a crueldade, 
a fome, a ingratidào, a cicuta ou a cruz ! 

A historia é a ingratidào cantada n'um poema ! 
E' grande, bem o sei, do grande Vasco a nau ; 
mas onde irei eu lér o ignorado lemma 
do triste scismador dos ermos de Macau. 

espirito de Deus passou por sobre os povos 
erguendo ao firmamento as almas corno soes, 
e rasgando no ceu mil horizontes novos, 
fez do sangue dos bons surgir centos de heroes. 



— 139 — 

E agora, Deus loiivado, a c'ròa da desgraga 
jà raro vetn cingir urna fronte real, 
e quando um pensador diante de nós passa, 
nao vai para morrer na enxerga do hospital. 

Entre nós e o passado ha um profundo abysmo, 
entre nós e o passado ergueu-se a inquisicào, 
essa idea infernal, n^mà do despotismo 
que transforma o algoz em deus de redempcao. 

Outra idade nos luz, outro porvir nos chama, 
e, se nào temos jà mais terra a descobrir, o 
temos mundos sem fim que o sol do amor infiamma, 
OS mundos do ideal, os mundos do porvir!... 

Os mundos do traballio, os mundos da sciencia, 
esse mytho real da escada de Jacob ; 
mundos de que é Colombo o genio, a intelligencia, 
um Victor Hugo,um Talma,umKant,umMirabeau. 



— 140 — 

Tu, corno elles tambem ungido do talento, 
encontraste na scena a virgem do ideal, 
e, pallido de assombro, olhando-a iim so momento, 
gritaste, ébrio de amor : — Afinal !... afmal !... — 

Entrara-te no peito a sede da Victoria, 
inandava-te a mente a luz da inspiragao, 
e atirando-te cego a conquista da gloria 
choveram-te na estrada as flòres da ovagao : 

Agora, ó lutador, jà vés postar-se em ala 
povo, grande heroe, para te ver passar !... 
Converteste o theatro em recinto de gala, 
e palco para ti fez-se de throno aitar ! 

Doira-te a fronte augusta o sol da intelligencia, 
deu-te beijo de amor a pallida Psyché 
que se chama talento, essa estranha demencia 
quo a nós, filhos da luz, nos faz erguer de pé. 



INDICE 



A meu Pae. ....... 7 

Em vez de prologo . 9 

Riligio (a Custodia José Duarte). ... 13 

A* actriz Emilia das Neves 18 

De noite 21 

rouxinol 23 

Desenganos (ao snr. J. D. Ramalho Ortigào). . 28 

Similia similibus 34 

No tumulo de urna crianca 36 

Sorihos (a Fedro de Lima). . ... . 37 

Ave Christel (a J. Maria Regalla). ... 42 

Harmonias vagas 45 

Solidào (a J. Dias d'Oliveira) 48 



142 INDICE 

Prece 54 

Aos academicos de 63 58 

Excoramungado i^no Album de C. J. Duarte). . 62 

Visào (a Cherubino Lagoa) 67 

Ao partir. 72 

Ao rei 74 

Só 78 

A Camòes. 82 

Adormecida, 84 

En avant (a Guilherme Braga). . . , 87 

De joelhos 92 

Pejo? . 96 

A um artista brasileiro 98 

Maria 102 

Goivos 105 

La danceuse 109 

Santeìmo H2 

Brinde academico 117 

Magoa (a Ernesto Finto d'Almeida). . . . 120 

A Arthur Napoleào. 124 

Na aidèa (a J. M. Nogueira Lima). . . 129 
Desapontamento (no Album de A. Moutinho de 

Souza) . . 135 

A Francisco Taborda l37 



Erratas 



Pag. 


1 LiN. 


Erros 


Emendas 


47 


1 12 


viva 


vivo 


61 


' 12 


san dado 


saudada 


99 


11 


do immenso 


no immenso 


141 


, 8 


endensa 


endeusa 


127 


! 8 


da luz 


de luz 


1-28 


1 9 


vendavel 


vendaval 



J}1 




027 250 924 4S