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Full text of "A lyrica de Anacreonte"

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'ou TTfel.S^r*" 



de aotomayord',J^ifíieida 
, CouM of Santa ôulaita 







^"— - - - -^^^H 

^^ A fi^l 

ANACREONTE 

^^ ANTÓNIO FBUCI/ISO DF. CASTÍlIiU 

LIVUARIA 
•J*l .Cnlvitilii .lo o.it.l.i-í.. :to 








1 



*• 



A LYRICA 



DE 



ANACREONTE 



VERTIDA POR 



ANTÓNIO FELICIANO DR CASTILHO. 



PARIS 

TYPOGRAPHIA DE AD. LAINÉ ET J. HAVARD 

RUE DES SAINTS-PàRES, 19. 
1866. 



â* 



Q^3^.Ll ^^ 



NARVAIIi CeiLEtE LIIIIAIIY 

COUNT OF SANTA EUUUA 

COLLECTION 

filFTOF 

JONN •, iinSM, Ia 

MAY 28 1924 



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' li 



AO 



AUGTOR DA PAQUITA 



SAÚDA 



O TRADUCTOR DE ANACREONTE. 



■^ 



ÁCÊRCA 



DE ANACREONTE 



Já alguém disse que o povo mais ditoso seria 
aquelle cuja historia fosse mais insipida. Não en- 
ristamos lança em favor da máxima, nem contra 
ella. Ouvimol-a applicada ás mulheres, e ficámos 
scismando que bem poderia ser mui verdadeira; 
pelo menos, se confrontamos no espirito do nosso 
interior estas mulheres de conquistada e esplen- 
dida fama : baroneza de Staél , condessa du De- 
vant, condessa de Girardin, lady Montague, com 
aqueiroutra sobre quem se lia em antiga lapide 
romana : — Sepulchro não formoso de formosa 
mulher. Foi caseira; fiou lã; — dão-nos tentações 
de apostar, que mais bemaventuranças caladas 
consumiria aquella só á sua parte, do que todas 
estas quatro, e quarenta como ellas. Quanto a 
homens porém, (se paradoxo é,que nol-o perdoem 
os caçadores de famas) quanto a homens, abraça- 
mos a sentença a olhos fechados : aquelle que 
mais dá ao mundo em que fallar, é o que mais o 



— 8 — 

semeia de invejas, ruins plantas que nascem logo 
ouriçadas de espinhos para o seu cultor, e, se 
vem a dar flores, não é senão depois de cem 
annos , e para coroar a urna de quem apenas as 
sonhara. 

Para ser em tudo singular este bom Anacreonte, 
este sympathico Lafontaine dos Gregos, cujo nome 
nos está pedindo algumas linhas de commemo- 
ração, viveu elle tão emboscado em sua regalada 
obscuridade, que mal lhe sabemos da existência. 
Lyra tão festejada entre os antigos; lyra crea- 
dora de um género em que se conservou única a 
fluctuar , sempre coroada de rosas frescas , por 
cimadas vagas de todas as revoluções litterarias; 
lyra que ainda agora dá échos, e namora cora- 
ções em todos os pontos da terra , parece ente 
mais real que o seu próprio dono. Deixou-a elle 
vir boiando para a posteridade, e ficou-se descui- 
doso e esquecido, sem que. nenhuns vivas nem 
morras quebrassem jamais o sonho florido, em 
que todos os largos annos se lhe deslisárão. 
Acontecimentos d'elle, em vão os pedimos á histo- 
ria; as suas acções, forão cantigas e mais nada; 
os seus dias , não passarão de umas odesinhas 
perfumadas, que os amores, as graças, e a phi- 
losophia da indolência lhe inspiravão sem lh'as 
elle pedir, e que a Grécia, attenta a tão nativa 
melodia, e tão afinada pelas delicias do seu solo, 



— 9 — 

da sua religião, dos seus ares, e das suas ondas, 
decorava como se as recordasse, e as guardava 
como em manhã de primavera se colhem violetas 
para ataviar festins, sem mais se pensar na escon- 
dida planta que as brotou . 

A grande gloria para Anacreonte , que nunca 
talvez d'ella se lembraria, e^ se se lembrasse, sem 
custo a alborcava por uma taça mais de vinho 
velho de Chios , principiou tarde ; assim o per- 
mittírão os deoses benéficos, para o não desaso- 
cegarem. Afortunado velho! A vida sem celebri- 
dade, serena e incógnita, como um arroio acober- 
tado de ramas densas para banho de nymphas ; e 
os^ louros só para o tumulo que já não sobresalta 
a mediocres ! 

O pouquissimo que d'este mancebo annoso nos 
conservou a tradição, eil-o aqui : 

Na Jonia, região marítima da Grécia, entre o 
Meandro e o Hermo ; terra abundosa de bellas 
cidades, de varões celebres, de campos amenissi- 
mos, que lhe grangeárão o titulo de yoríít^mc/tt das 
violetas; n'aquella Jonia, cujo dialecto, cujas dan- 
sas, cuja musica, rescendião voluptuosidade, e se 
harmonisavão tão bem com a sua architectura es- 
belta e graciosa, — nasceu Anacreonte, 53^ annos 
antes da nossa era, na cidade de Teos , a qual , 
sem elle, bem se pudera jazer para sempre es- 
quecida sob o seu chrisma bárbaro de Boudroun. 



— 10 — 

Alli nasceu, e só alli devia nascer; pois em que 
outra parte se houvera desenvolvido tão a pleno 
em ares tão seus, e tão viçoso, o seu espirito , 
reflexo das rosas, e écho dos alaúdes, hálito 
da ternura, reminiscência ou an núncio de idade 
áurea 

Qual a sua linhagem fosse, nem se acerta, nem 
nos importa muito ; pergunta alguém á andorinha 
do seu beirado, d'onde veio ? Appareceu alli para 
cantar e augurar alegrias á pousada : que adviesse 
de perto ou de longe, que tivesse aberto os olhos 
entre cornijas de palácio, ou entre florinhas rústi- 
cas, balouçadas ao zephyro sob a orla de um 
telhado de choupana, é a andorinha; e quem 
vê e ouve a andorinha não pensa em nobiliários ; 
pensa em primavera e contentamento. Dizem que 
sua mãi se chamava Eétia; que nionta isso? se 
lhe não dessem um nome de mulher, cuidal-o- 
hiamos filho occulto de qualquer das musas, 
gerado pelo próprio amor n'alguma sesta de 
verão entre as espessuras selváticas do Parnaso. 
Assim como sete cidades se disputarão o berço 
de Homero, entre quatro diversos pais vacillão 
os biographos de Anacreonte : seria Scythino? 
seria Eumelo ? seria Parthenio ? seria Aristocrito ? 
Se as amigas de Eétia confidencialmente lh'o 
perguntassem, talvez lhes responderia que ne- 
nhum d'esses : porém sim um cysne , alvo como 



— II — 

o de Leda, que n'um sonho deante-manhãde estio 
lhe apparecéra todo namorado, com um coUar de 
jacinthos, e tão rescendente a néctar, que outra 
coisa não podia ser senão deidade. 

Continuando ainda a tactear pela cerração dos 
tempos, dizem historiadores ser antiga a genea- 
logia do nosso poeta. Oh ! se elle os ouvira n'essa 
faina... talvez lhes não perdoasse uma ode epi-- 
grammatica. Elle , que nem do amanhã tinha 
cuidado, e não pensava na sua morte senão para 
melhor beber, podia lá ouvir, sem muito riso , 
que, para o festejarem a elle , andassem procu- 
rando outros, e desenterrando defuntos ! ? Pare- 
ce comtudo que era familia de grande conta , 
por virtude e haveres , representação e antigui- 
dade , introncada , segundo nol-a representão , 
com a d'el-rei Codro, libertador e derradeiro mo- 
narcha dos Athenienses. Pois que seja muito 
nas boas horas parente de Sólon , de Dropidas , e 
de Critias; de Sólon que fez leis, de Dropidas que 
fez versos , de Critias que fez versos e tyrannias. 

Cá para nós esses nomes, nem tirão, nem põem, 
lustre ao de Anacreonte. Anacreonte em nossa 
imaginação está mui bem assim como o vemos 
sem accessorios e solitário. Se porém vos dá gosto 
constellar de esplendores a scena para o folgazão 
do nosso velho, a quem um myrto florido basta- 
ria, não vos faltão no seu tempo varões que a 



— i2 — 

historia fundio agigantados, e sobre-dourou para 
mais respeito. A'quelles dias pertencerão Poly- 
crates de Samos, Hipparco de Atlienas, Pisistrato, 
Amasis , Cyro , Cambyses , Pithagoras. De todos 
estes só Pithagoras é que nòs serve a nós ; que, 
a despeito das suas philosophias sóbrias, aguadas 
e taciturnas, tinha no rol, por certo escasso, dos 
seus amigos , ao nosso insaciável amador de to- 
das as beldades e inexhaurivel panegyrista de 
todos os bons vinhos e de todos os folguedos 
delicados. A medalha de Anacreonte devera ter 
Pithagoras no reverso; um ao outro se realção 
e completão péla contraposição; são o dia e a 
noite; a noite, meditativa e profunda; o dia, 
immenso e luxuriante. 

O hymno a Vénus, desabrochada ao sol d'entre 
as espumas do Egêo, tinha apenas desabrochado, 
elle também, d'entre os lábios do poeta, quando 
já todas as barcas d'aquellas namoradas paragens 
o entoavão com alvoroço ao compasso de seus 
remos. O harmonioso nome de Anacreonte, do 
velho divino que ensinava amores aos mance- 
bos , e prazeres á própria Grécia , volitava com 
as auras pelos échos das ilhas e das costas d'a- 
quelle mar tépido e resplandecente. Lá se dif- 
funde ainda mais , lá se vai terra a dentro por 
toda a parte. 

Cada povo ambicionava conhecer , ouvir e 






— 13 — 

victoriar homem tão extraordinário , que bem 
podia ser ApoUo mesmo, novamente metamor- 
phosésido em mortal, e que^ para maior disfarce, 
velasse com barbas de prata, e raras cãs na fronte 
magestosa , a sua eterna mocidade. D'esta vez 
não baixara a guardar os rebanhos de Admeto ; 
viera sim a retemperar a poesia , e ver mais de 
perto as donzellas das regiões que sempre a todas 
preferio. 

Em Samos foi regiamente . hospedado de Poly- 
crates; tão regiamente, que, recebendo o príncipe 
a pomposa embaixada do satrapa sardo Oroetes, 
tinha sentado junto a si, hombro por hombro, e 
como rei com rei, o nosso poeta, que talvez lá 
por dentro bocejasse n'essa hora, morto por se ir 
estirar para cima da relva do jardim ; que para 
elle uma harenga de embaixada não lhe valia, 
não, o mais singelo gorgeio de passarinho, ou 
um estremecido arrulho de rola homisiada ao 
longe entre as ramarias do pinheiral. 

Tinha-o presenteado o soberano com uma bolsa 
de cinco talentos (cerca de doze mil cruzados). 
Alvoroçou-se o poeta, como qualquer poeta se 
alvoroçaria. Chegada a hora de se ir ao leito, 
recolhe-se ao aposento, despe-se, reclina-se para 
dormir, invoca Morphéo, e Morphêo, pela pri- 
meira vez de sua vida, nem por longe lhe volteia. 
Recorre a Baccho por intercessor; mas a taça 



— 14 — 

perdeu a virtude ; a chuva de ouro matara as pa- 
poulas. Cresce a noite, e a vigilia cada vez mais 
acesa; sem dormir, sonha. Todo aquelle ínetal 
se lhe está successivamente transformando pe- 
rante a fantasia , em perfumes e grinaldas , em 
citharas de marfim marchetado, em Hebes e Ga- 
nimedes, em leitos e mantos de purpura, em flau- 
tistas e festins, em esculpturas, em pinturas, em 
trirémes e viagens ; troca prazeres por prazeres ; 
liba cada um ; em nenhum se detém ; possue todo 
o mundo; mas a si, não se acha; a paz do inte- 
rior, o descanso, desamparara o-no para sempre. 
Corre ao aposento dePolycrates, quando a aurora 
está ainda em duvidas de se erguer, e acordando- 
o sobresaltado : — «Guarda o teu ouro, amigo » — 
lhe diz elle — « quero mais ao dbrmir do que ás 
riquezas. Midas mereceu as orelhas que os deoses 
lhe puzerão; e Danae, se alguma coisa deu pelas 
opulências de Júpiter, não foi a delicia do dormir 
nas horas em que as estrellas estão rociando somno 
por toda a terra.» — Largou o sacco, e voltou 
com um respiro largo para o leito, onde Morphêo 
já o esperava, e onde dormiria, sem sonhar, qua- 
torze horas. 

Muitas das suas odes contra a riqueza , voto 
que nascerião da lembrança de tão má noite. Hoje 
a sciencia demonstra que o dinheiro é o grande 
estimulo do progresso , e até o civilisador e o 



— 15 — 

moralisador por excellencia; e que os despeitos 
e imprecações de quasi todos os poetas contra 
ellè , arrufos são de amantes mal favorecidos : 
con#b não podem alcançar, praguejão. Tenha 
embora razão a sciencia , que lh'a não quero eu 
negar ; mas Anacreonte era assim , e se assim 
não fosse, não era Anacreonte. Ignorava economia 
politica; paciência ; mas em troca, fazia versos, e 
desfructava felicidade como ninguém , semeando 
gloria como poucos. 

Era Hipparco fdho de Pisistrato, suave e apra- 
zivelTyranno de Athenas, solícito em darão povo 
os passatempos e festas com que os ânimos se di- 
vertem dos tumultos, afogando em prazeres o 
amor da liberdade ; manda o mui politico Hip- 
parco armar uma alterosa galé de cincoenta remos, 
mastros dourados e velas de purpura, e a despa- 
cha, porto Piréo em fora, á busca do homem da 
lyra prodigiosa. 

Convidado de tão cortez príncipe, e mais ainda 
por ventura attrahido da fama do requintado e 
folgazão viver da grande Athenas, e da formo- 
sura e donaires das habitantes, levanta-se Ana- 
creonte d'um banquete, abraça os convivas, re- 
nova a grinalda, tòrna-os a abraçar, enchuga o 
ultimo copo, e lá se parte encommendando-se ás 
Nereidas , aos Delphins , amigos dos poetas , e á 
deosa nascida das ondas, a quem elle com seus 



— 16 — 

cantos augmentára adorações. A constellação da 
lyra preside á sua derrota. 

Não é invenção nossa esta gentil viagem. Narra-a 
Platão, o pintor eloquente e apaixonado da -phi- 
losophia ; Platão, outro parente , outro nobili- 
tador da familia de Anacreonte, como o próprio 
Hipparco e Pisistrato, que também se dizião pro- 
génie de el-rei Codro. 

Na popa da galé, que varre com festões ver- 
des as espumas, avulta em pé Anacreonte, manto 
de gran retine ta a esvoaçar-se-lhe com as auras, 
diadema de bastas flores na cabeça, barbas per- 
fumadas de essências, sobre o peito a lyra, e os 
olhos a cambiarem brilhantismo e alegria com o 
mar Jonio ; assumpto era que o não perderia 
Apelles, se já fora nascido. 

Deixamos a cuidar o como este génio huma- 
nado seria recebido das turbas ao desembarque, 
regalado por Hipparco, ambicionado nos banque- 
tes, escutado nos passeios dos pórticos, mostrado 
a dedo nas ruas, nas festas de Minerva, de Vénus, 
e de Baccho. Por trinta e *cinco andão no seu rol 
de amores as desinquietadoras que o seu coração 
por alli encontrou. 

Ainda n'esse tempo não erão nascidos Éschylo, 
Euripides, Sóphocles, Aristóphanes, Critino, e)Me- 
nandro ; o theatro grego não existia. Os cantos de 
Orphéo e de Lino, erão nimio graves para ânimos 



r . 



— 17 — 

tão voláteis e divertidos. O venerando Homero , 
cantor das glorias nacionaes , e gloria nacional 
também , devia ser mais estudo que delicias. 
Nas artes de desenho nao apparecêrão ainda 
Phidias, Praxiteles, Zeuxis, Apelles, Parrhasio, 
Timante, Scopas, Myron, Lysippo, bem que a 
esculptura e a pintura fossem já sabidas da in- 
fância ; o bello , decisivo e immortal , vinha 
amanhecendo nos céos gregos. Com que enthu- 
siasmo não devia ser logo admirado na capital da 
Attica €Ste filho de Teos , em cujos cantos se 
espelhavão todos os primores da natureza, da 
religião , do espirito , e dos affectos ? ! Nos seus 
* fugazes poemas passavão por diante da alma as 
estatuas, os painéis, as taças esculpidas, as gri- 
naldas , as choréas , as galas do toucado e do 
vestido, as festas rústicas e as religiosas, e uma 
philosophia que, pela sua indole fácil e com- 
moda , se podia dizer um dos elementos da at- 
mosphera, respirada a peito cheio n'aquella re- 
gião. 

Nada d'isto dá quebra á verdade do que nós 
diziamos a principio. Em tão variados gozos ve 
mos apenas prazeres, como os deoses os podem 
receber nos fumos do incenso , e nas festas de 
suas aras; e prazeres que, para o nosso desambi- 
cioso commodista, bem podião ser aguarentados 

com o captiveiro da celebridade entre cortezãc, 

2 



— 18 — 

» 

e em palácio. A gloria, se a fundo o conhecemos, 
não o namorava alli; a gloria, a verdadeira gloria, 
universal, perdurável e eterna, forma-se insen- 
sivelmente com os séculos ; que só d'elies é que se 
fazem, como as grandes arvores, as grandes famas. 
Nada podia transvial-o dos seus singelos gostos. 
Tratava mão por mão com os sábios e poetas, que 
a munificência do príncipe attrahia á sua' corte : 
Pithagoras , Democedes , Simonides , Chérilo , e 
quantos outros ? mas como se a familiaridade de 
bons amigos fosse pouco para o desfofrar de 
pompas palacianas, usava ainda furtar-se a miúdo 
á cidade, e passar tempos esquecidos, a sós com 
a natureza, n'uma aprazivel solidão campestre, 
que possuia á beira do Egêo. Alli é que era o 
espairecer-se a seu talante , revezando passeios 
meditativos com lidas rústicas. Alli se lhe ião os 
olhos pelas ilhetas lá ao longe, para voltarem a 
recahir com mais deleite nos vinhaes que elle mes- 
mo ajudava a vindimar, nos rosaes d'onde tran- 
çava as suas coroas. Alli se banqueteava com a sua 
pomba, tão ufano que nem que fora ella uma 
princeza. Alli entoava os seus hymnos á primavera. 
Alli, no inverno, era elle em pessoa, o que se le- 
vantava a deshoras, para abrir aporta ao amor, 
se perdido e alagado lhe vinha requerer pousada ; 
elle em pessoa que ia acender o seu lume para 
o agasalhar. 



■ 1 • ■ j. 



— 19 — 

O seu hymno á cigarra, tão candidamente in- 
vejoso, ninguém que tenha alma o lerá sem logo» 
ver por dentro todos os amenos recantos do espi- 
rituoso coração de Anacreonte : o viver do in- 
sectozinho musico, solitário, descuidoso, libérri- 
mo, era para elle ideal de felicidade. 

Morto Hipparco, pela civica vingarí^a de Har- 
modio e Aristogiton , volve á terra natal o nosso 
poeta. Estava porém no livro dos fados que não 
havia de ser o seu gracioso berço o que lhe ser- 
visse de sepulchro. Vendo a sua Jonia invadida e 
senhoriada de inimigos, elle, o poeta da paz, da 
independência e do prajer, foge espavorido com 
outros seus conterrâneos, e vai-se demandar asylo 
em Abdéra, cidade da Thracia. Foi Abdéra terra 
de entendimentos crassos e de espiritos rombos, 
segundo narra a triste de sua fama. Que vivenda 
para um filho da Jonia, e idolo, ha jiouco, de Athe- 
nienses ! De crer é que, mais ainda que a velhice 
e o desterro, ares assim estúpidos o matarião. 
Cantai lá delicadezas entre bárbaros ! ou \ÍYei sem 
cantar, se a natureza vos fez rouxinol ! 

A mesa regalada de outr'ora. . . resumio-lh'a o 
fastio em passas de uvas. A graínha de imia, ca- 
hindo-lhe um dia no esóphago, o afogou aos or- 
tenta e cinco annos de sua iaade. Dir-se-hia que 
Baccho muito de industria escolhera aquella 
ténue sementinha do seu fructo , tanta vez ce- 



— . 20 — 

lebrado por Aiiacreonte , pa^a o recompensar 
dos hymnos com um trespasso instantâneo e sem 
moléstia. 

Um epitaphio, que outro poeta grego lhe en- 
genhou , rezava assim : 

O que mil vezes vos cantei na lyra, 
Iirda aqui mudo m*o ouvireis dizer : 
Beber! beber! emquanto se respira; 
Sendo-se pó, não ha já mais beber. 

Por dous modos oppostos ha sido Anacreonte 
conceituado: moralistas inexoráveis, comquanto 
lhe confessem o talentq^ dâo-no por um vicioso 
miserável, encharcado nas sensualidades; de grege 
porcurn. Outros, sem lhe escurecerem as tendên- 
cias terrestres, essência do seu composto, ideali- 
são-no todavia , e nao ha louvor moral que lhe 
não liberalisem ; dão-no por sapiente, e para esse 
conceito se abonão com duas tao respeitáveis 
autoridades , como são Sócrates e Platão. Que 
averiguem, se puderem, lá essa contenda uns com 
os outros ; nós, fora de um e de outro fanatismo, 
só dizemos : que não é costume de devassos per- 
didos o viverem oitenta e cinco annos; é quem 
sabe quantos mais não viveria o bom do nosso 
velho, se não fora a maldita passa ! 

Deduzi da sua poesia o quinhão largo, reque- 
rido por uma religião tão sensual ; outro quinhão 



f . 



. ítóí . 



— 21 — 

para a moda, que, em cidades tão ricas e flores- 
centes , pouco se prende com escrúpulos ; outro 
emfim não menos copioso para a hyperbole do 
enthusiasmo, e pôde ser que nos fiqxie apenas um 
honesto epicureo, d'estes de que todos nós have- 
mos de ter encontrado, cá na nossa christandade, 
boas amostras em ruim 'prosa. Mal iria a quem 
trova, se lhe tomassem todos os versos por histo- 
ria ! Por contas bem contadas , mais vinho que 
vinte Anacreontes haveria despejado só á sua parte 
o nosso árcade Elpino Nonacriense no seu volume 
grosso de dithyrambos , com ser um venerando 
desembargador do paço; e em mais galanteios 
cem vezes, borboleteou por ahi qualquer Elmano, 
Belmiro ou Camões. 

Uma só coisa ha em que o velho nos destoa 
de veras, peccadoraço contra as leis do gosto e 
as da natureza, posto que também para ahi lhe 
attenuem imputações os costumes do tempo e o 
exemplo dos immortaes. Merecia que o amor o 
tornasse a fustigar, e mais rijo, com a hástea de 
jacintho; mas se o deixássemos açoutar a elle, como 
acudiríamos a Sapho ? Recubramos os mortos 
celebres, coln a lousa que se tornou ara. Os sécu- 
los devem ser indulgentes. 

Confessemos antes : que, para darmos sentença 
sobre a moral de Anacreonte, nos minguão fun- 
damentos. Affirmando louvor ou vitupério para 






— 22 - 

elle, em tudo que não for poesia, andaríamos 
temerários e em grande contingência de aleivo- 
sos ou de crédulos. A escassa porção que dos 
seus muitos escriptos nos ficou, interpretada á 
boa parte, segundo convém e o pede a equidadej 
não revela certa philosophia? uma philosophia 
desestudada? uma philosophia de Índole e de or- 
ganisação, se assim se pôde dizer, repassada de 
optimismo , de indifferentismo , de sensualismo, 
de bemquerença, e de indolência? philosophia 
improductiva , mas innocente pelo menos, re- 
vestida dos mais brilhantes e seductores matizes 
da imaginação, do affecto, e do estylo ? philoso- 
phia, que é entre as philosophias o mesmo que 
entre arvores fructiferas uma só de vista e regalo, 
ou um dia festivo, encravado nos de lida, gran- 
geio e negocio? 

Outros produzem alimentos para a alma, para 
o espirito, ou para o coração : este deu-nos um 
condimento aromático, saboroso, excitativo, cuja 
virtude bem poderá ser corrigir cruezas indi- 
gestas de muitas alimentações substanciaes . 

O que é verdade, é : que os Athenienses, gente 
que também disputava de moraes, assim como 
cultivava as artes e os deleites, consagrarão a 
Anacreonte uma estatua, par a par com as dos 
seus Péricles e Xantippo; e onde? na alcá- 
çova; no próprio recinto a que presidia o santo 



— 23 — 

vulto da deosa da sapiência , padroeira da ci- 
dade. 

Não pára aqui. Em Teos erigírão-lhe tumulo 
honorifico, e ainda outra estatua lhe dedicarão. 
A sua effigie tornou-se vulgar assumpto de pin- 
tores, e até em medalhas se esculpio. 

E também inda aqui não pára. Trechos mui exph - 
eitos de escriptos seus nol-o debuxão, com a mais 
verosimil naturalidade, homem tão desespinhado 
de invejas, ódios e maledicências, como puro 
de ambições e avarezas. 

Pensai bem tudo isto primeiro que sentencieis, 
se por força quereis sentenciar. Nós Fá vos deixa- 
mos n'esse fantástico tribunal, e vimos sentar- 
nos a respirar poesia diante do nosso velho, que 
se está sorrindo de taes disputas ; queremos antes 
empregar o tempo em o escutar e repetir, se pu- 
dermos , os seus cantos. 

Mui felizes nós, se, échos frouxos e longinquos, 
fizermos n'uma ou n 'outra nota reconhecer a 
divina toada d'estas canções inimitáveis. 



ANARPE0NT02 



QAAI. 



(X • 



EIS KieAPAN. 

&ek(ú 8h Káíjxov a^eiv • 
H pápêiTOç &è j^opíatç 

ÉpWTa [JIOÍJÍVOV 715(^61. 

H[x.£it{;a veQípa Trpcóviv, 
Kal TYjv XúpYiv ocTracav , 
Káyò) (Jièv í^ov aôXouç 
Hpa)cXsouç • "XápT) íè 
ÈpcDTaç ávT6f cSvei. 
Xaípoite XoiTCÒv Tipt-tv , 



— 26 — 



Hpa>6ç • -fi XiípY) yàp 
Movouç ÉpcúTaç a^ei. 



i. 



DA SUA LYRA. 

De Atridas os feitos , de Cadmo os louvores 

tentei celebrar; 
e a lyra rebelde só cantos de amores 
me quiz entoar. 

Impuz-lhe outras cordas. . .Trabalho perdido! 

A lyra troquei ; 
aos feitos de Alcides a nova convido . . . 

e Amor^ lhe escutei ! 

Adeos, grandes homens I Buscai n'outra lyra 

o vosso louvor! 
A minha nâo sabe ; não pôde ; suspira 

só cantos de amor. 



— 27 — 



P'. 



Eli; rYNAiKAi:. 



í^úfftç xepara Taúpoiç 
Iloícoxíviv ^aywotí;, 

AsOUffl y[Í<5\L^ ÒÍOVTWV, 

Totç lyGrjíTtv to vydctov, 
Toí; ôpveotç Tceracôai, 
Tot; ávSpádiv (ppóvYi[xa. 

Ti oOv ÃíÃwdt ; xáXXoç, 
A>iT ádm^wv aTuadõv, 
Avt' èyyéiúv áTuávTwv. 
Ntxa íè xal aíívipov 
Kat TiUp )caXY( Ttç ouça. 

2. 

DAS MULHERES. 

Deu ao touro a natureza 
duras pontas por defeza ; 
ao corcel a pata bruta ; 
pé volante á lebre hirsuta ; 



— 28 — 

ao leão presas tyrannas. 
Deu ao peixe as barbatanas ; 
vòo ao pássaro ; ao varão 
deu emíim, deu a razão. 

A' mulher a natureza 
já nâo tinha mais que dar ! . . . 
Tinha apenas a belleza ; 
só com isso a pôde armar. 
Quem por lança e por escudo 
tem belleza , que mais^quer ? 
Vencem ferro, e fogo, e tudo, 
os encantos da mulher. 



t'. 



E12 EPOTA. 

MedovuxTiotç TTOÔ' ôpaiç, 
2Tp£(peTat 5t' Ãpjcioç yjÍyi 
KaTa J^etpa tviv Bowtou, 
MepÓTCWv èe çG^a TçávTa 
KeaTai xottco ^«(xevTa, 
Tót' Epwç eirtcTaôetç [Jiei» 

« Tíç » l<pYiv « Ôúpa; ápáaaei; 






— 29 — 

«» Kará (xeu cj^tTeiç ôveípouç. » 
O â' Epo); « Ãvoíye « (pYiíjív. 
« Bp6(poç etjAi • (JLYj (póêvicai. 
« Bpejrottai íè, xáasXyivov 
« Kati vJxTa 7ueTCXávyi(xat. " 
E>.8Yi<7a, TaíjíT' á)couGa; • 
Avà &' euôu ^ríjç^vov ã^iaç, 
AvécúÇa. Kal ppsçoç (A£v 
Ècopcõ çepovTa toÇov 
nTspuyáç Te )cal (papeTpvjv • 
Ilapà Ã' ÍgtÍyjv xaGí^aç, 
naXá[/.âiç Te jç.^i'?»? aÒToO 
Àv£Ga>.7rov, è)c &è j^aÍTY); 
ÀTreôXiêov òypòv u^wp. 
O Ã', eTrel )cpuo; (xeGí^ce, 
« <t>gp€, » (pYicí « TuetpadtójAat 

« TÓÃe TO^OV, èç Tt (AOt vuv 

«^ BXáêeTai Ppayeica veupví. » 
Tavuet âè, xaí (/.e TtíiTTei 
Meffov 'íivap, wcTwep oIffTpoç, 
Avà í* aX>.eTat xayaí^wv, 
« Seve, » â*, eíire, « auyyápYiÔi • 
«^ Kepa; áêXaêèç [A8V ecTi 
« 2ii oè xapÃtav rovsQaetç. » 



— 30 — 



3. 



O AMOR TRANSIDO. 

A noite passada, 

á hora em que a Ursa 

mais perlo discursa 

da mão do Boieiro ; 

e o somno profundo 

no grémio fagueiro 

por todo esse mundo 

restaura os morlaes, 

em meio era a noite ; 

o exemplo dos mais 

no leito eu seguia ; 

sereno dormia . . . t 

A* porta imprevisto 

Cupido me bate ! 

A' pressa me visto ; 

redobra o rebate? 

acudo a correr. 

a Sou eu, — diz de fora ^ — 

a não tens que temer ; 

<c sou um pequenino 

a que vaga , a tal hora , 

« molhado e sem tino, 



.'^.- -^ 



— 31 — 

« perdido no escuro , 
» pois lua não ha ! » 
Ouvil-o gemendo 
De mágoa me corta ; 
a lâmpada acendo , 
franqueio-lhe a porta. . . 
em casa me está ! 
Descubro (em verdade 
mentido nâo tinha) 
gentil criancinha 
com arco e carcaz. 
Remexo nas brasas 
da minha lareira ; 
restauro a fogueira ; 
as mãos, que são gelo, 
lhe aqueço nas minhas, 
lhe espremo o cabello, 
lhe enxugo as azinhas ; 
já frio não faz. 
« — ^Vejamos se a chuva 
(Dizia e sorria) 
« a corda do arco 
« me não damnaria ! » 
Levanta-o do chão ; 
recurva-o, dispara 
no meu coração. 
A frecha que o vara 
parece um ta vão. 



— 32 — 

Eu, dores damnadas, 

e o doudo ás risadas, 

de gosto a pular ! 

— « Meu caro hospedeiro, 

(me diz prazenteiro) 

« agora é folgar . 

« Permilte me ausente ; 

« meu arco está sào .... 

« Quem fica doente 

« é teu coração ! » 



è'. 



1:12 EAYTON. 



ÈttI (xupTtvaiç repeívatç, 

ÈttI XwTtVatÇ Tg TZOÍOLIÇ 

2Top£(ja;, ôeXct) Tcpomveiv, 
O &* Epcoç, yiTwva írícaç 
Tirèp auysvoç TuaTrúpco, 
Máôu [Aoi íta)coveÍTC(). 
Tpojrò; ap[jLaToç yip oía 
BíoTOç Tpfijç^ei xuT^iGÔelç, 
ÒXíyv) Se >cetao[Ae<7Ôa 
Kovtç, ôçtêwv ^oOevTwv. 



-ií^ 



«.iL, 



— 33 — 

Ti (75 Ãeí T^íÔov (xupí^eiv ; 
Ti &è yví yeeiv (xoÍTaia ; 

MúpKTov, póíotç ^è xpaTa 
nú)ca(70V, xáXei 5' éTaípviv. 
Ilpiv, Epcoç, em (a' áireXôeív 
Yirò vepTspwv j^opetaç, 



4. 



VIDA APROVEITADA. 

Em colchão de murta e lodâo 
reclinado em ócio brando , 
ir as horas encurtando 
praz-me em doces libações. 
Presa em nastro de papyro 
no hombro a veste airosa e lassa, 
vem Amor que me enche a taça 
de almo néctar e canções. 

Gomo férvidas quadrigas 
vâo-se a vòo os dias nossos ; 
do que foi, só resiíío ossos 
que o sepulchro em pó desfaz. 

3 



— 34 — 

• 

Insensato, porque espai-zes 
sobre um mármore os aromas ? 
Porque, ó louco, a flux nâo tomas 
libações, que á terra dás ? 

Gasta em mim, que índa estou vivo, 

as essências voluptuosas ; 
engrinalda-me de rosas; 
o meu bem me vai chamar. 
Antes de ir, lá sob a terra , 
ás choréas dos finados, 
os solícitos cuidados 
quero, Amor, afugentar. 



e'. 



EIS POAON. 

Tò f óíov TÒ xa>.XíçiiXXov 

KpoTaçoKTiv ápjxoaavTeç, 
lIív(opL£v áêpà yeXwvTeç. 
Póíov, & (pepidTov avôo; ! 



■■»■? 



«•^# -^- iL%.- 



— 35 — 

Póíov etapoç asXv)(xa' 
Pó^oL xal ôeotffi TepTTvá • 
Póícty ToTç ó iratç KuOiípYiç 
2T6f £Tai )caXouç louXouç, 
XapÍT5(7(yt cuyj^opeuwv. 
Sre^ov ouv (xe • xal, Xupí^wv 
Ilapà (ToTç, AióvuGS^ gv)Xo?ç, 
Mexa xoupviç PaftuJtoXiuou, 
ro<íívoi(7i CTeçavÍGJtotç 
neTCU)ca(7(j!.évoç, jj^opeúaflfí 



5. 



ROSAS. 

Misturemos com Baccho a rosados amores. 

As rosas sâo bellas. 
GrÍDaldas bem frescas , tecidas só d'ellas 
nos cinjâo, nos ornem, fieis bebedores, 

o rir e o folgar. 

O* minha cara rosa, ó rainha das flores 

que traz primavera ! 
Delicia dos numes ! és tu que em Cythera , 
na dansa das graças, ao Deos dos amores 

costumas toucar. 



— 36 — 

Já, já, todo um rosal ! vai hoje grande festa ! 
Grinalda queremos 
tao farta de rosas, que nao revelemos 
aos outros dansantes a calva da testa , 
pois vamos dansar. 

Dansar (ai que prazer !) de Baccho em torno ao templo 
com moca, desvelos 
de quantos a avistâo ; pçitinhos tao bellos 
que os olhos me endoudâo^ se em dansa os contemplo 
co'a dona a pular ! 



ç'. 



i:PfíTIKON. 

^TCf ávou; (xàv xporáf oiai 
Poíívouç (7uvapjX.ó(7avTeç, 
MeÔuo(xev áêpà yeXwvTcç • 
ITTÒ Pap6ÍT({) Ãè xoiípa, 
KaTaJcíaaoiGi Ppép.ovTa^ 
nXoKá[xotç f ápoucja dúpcjouç, 
X>.ioavoí7çupoç j^opEiíei. 
Aêpoj^atra; ^' ajAa-acoDpoç 

2T0(/.áT(0V áííí TTVeÓVTWV 

Karà thdctí^wv áOiípei 



— 37 — 

ripojç^éwv >.iyeíav ò(X(páv. 
Ò Ã' Epcoç ó j^pudoj^aiTaç 
Mera tou xaXou Auaíou, 
Kai T7iç xoX^ç KuÔTÍpviç, 
Tòv èiTTÍpaTOv yepaioiç 
Kâ>[JLOv [jLeTeiai jj^aíptóv. 



6. 



FESTIM. 



A' mesa, convivas! na fronte mil rosas, 
nas bocas mil risos, nos seios amor ! 
Mocinha ligeira, que é flor de formosas, 
dansando, meneie, nas màos graciosas, 
thyrso de heras tremedor, 

regulando os passos 

com que leve gyra , 

aos certos compassos, 

dictados da lyra. 

Mocinho entretanto, de coma a undular, 
macia, fragrante, de bafo cheiroso, 
derrame dos lábios cantar voluptuoso. 
O louro Cupido virá jubiloso, 
com Lyéo e Cypria honrar 



— 38 — 



o nume^ que aos bródios preside e pÕe regra 
e em annos serôdios me activa e me alegra. 



C 



AAAO EPaXIKON. 

Xa>.£7rw; Epwç pam^cav 
Èxe>.eue cuvTpoj(^á^£iv. 
Ata &' ôÇewv (/.' ávaupwv, 
Su>.ó)rcs>v Te xai çpapáyywv, 
Tpoj(^áovTa TeipEv í^pcoç • 
RpaítY) íè pivòç «XP^* 

À//C' * » / /O 

vcbatvs, X3CV aTreabyiv. 

O 5' Ep(t)ç, [X8TW7ra aetwv 

A7ra>.orç TTTepoídiv, etTuev • 
« 2'j yàp ou íuv/) f iX^Gai. » 



7. 



FRACO PARA AMANTE. 

Amor, que sempre irêfego, 
turbar meus ócios sinto, 



— 39 — 

co'uma hástea de jacíntho 
me entrou a fustigar : 

— « Anda comigo , apressa-te ! 
« Corre ! » — o cruel dizia ; 

E eu, trôpego, corria, 
corria a tropeçar 
por e^ínhaes selváticos, 
montes, correntes, fragas ; 
cahe-me o suor em bagas ; 
abafo ; vou morrer .... 
Amor se ausenta , dando-nie 
co'as azas no semblante : 

— « Fica (me diz), amante 
Nunca has de DÍr a ser! » 



ti' 



ONAP. 



reyavupiévoç Auatc»), 
Èíóxouv axpotci TapGotç 
Apop.ov tl)}cuv jxravueiv^ 
MeTÒc ?7apO£V(úv áôúpcov. 



— 40 — 

E7:exepTO(i.ouv íè TuaíÃe; 
A7ra>.WTepot Auatou, '* 

Aaxc6u{;.a (xoi ^.eyovreç, 
Ata Taç xaXà; sxeivaç. 

ná>iv n08>.ov xaOeú^etv. 



8. 



SONHO TRUNCADO. 

Em cima da fofa purpura 
dormitava certo dia , 
inda inquieto, e alegre o espirito, 
pela bacchica alegria; 

E sonhava, em dansa rápida, 
retoicar com mocas bellas. 
provocál-as, provocarem-me, 
ver-me doudo andar trás ellas. 

De moei tos finos, cândidos, 
mais que o próprio Deos do vinho, 
de redor me andava rindo-se 
um hgeiro burburinho. 



— 4.1 -- 

E então ellas, formosíssimas, 
me atira vâo de uns farpões, 
que tem de uso irem no intimo 
traspassar os corações. 

Quando eu ia todo lépido, 
abraçar, beijar as bellas .... 
com meu sonho e o bando abgero 
desparecem todas ellas ! 

Yi-me só na minha purpura 
arrancado a tal prazer. 
Ai! senti, senti, declaro-vos, . 
não tornar a adormecer. 



0'. 



E12 nKPISTEPAN. 

« Èpa<ju.t7) TTeXeta, 

« Iloôev, Tuoôev TTETacai, 

« nóOev [xúpcúv ToaouTcov, 

«» Èir' TQspo; ôéouda, 

» Ilváeiç Te xal t|/e)cá^8iç ; 

« Ti; eíçj Tl cot (xíXet 8é\ »» 



— 42 — 

" — Àvaxpewv (x* Itzb^l^i 
« IIpòç Tcat^a, icpòç BáOu^Xov , 
« Tòv apTt T(õv áTrávTwv 
« KpaTOUvra xai TÚpavvov. 
« Ileirpaxe (x* tq KuÔTÍpTi , 
« AaêoOaa [xtxpòv i!(/.vov. 
*» Èyà) 5' ÀvaxpeovTi 
« Aiaxovb) TOdaCÍTa. 
« Kal vGv otaç èxetvou 

« Kat ÇTidtv euôew; (/.£ 
« ÈXeuOepTiv tcoiyícêiv • 

yo) de, xr,v açvi jjle, 
« AoúXy] [jLev& Tuap' auTqi. 
« Ti yáp (Jie Ãei ireTadôat 
" ÕpT) Te xal xaT* áypouç , 
« Kal Ãáv^pectv xaôí^etv , 
<t íayoD^av aypiov ti; 
« Ta vuv eòo) (itev apTov , 
'^ AçapTradaoa ^^ipwv 
« ÀvaxpeovToç auTOU* 
« IXieiv ^é (xoi $t^(t)Gi 
« Tòv otvov ôv xpoTTÍvet. 
« n^ouca &' av j^opeucw , 



— 43 — 

« KL ai ^ecjTroTTQv ejAotaiv 
« IlTepotct duyxaXútJ/a). 

« Ej^ei; aTravr' • dcTreXôe • 
« AaXtGTepav jjl sÔTixaç , 
« ÃvÔpwTçe, xal xopcovviç. » 



9. 



O TRANSEUNTE E A POMBA. 

o TRANSEUNTE. 

— D' ONDE vens tu, pombinha, 

minha hóspeda celeste? 

De que paiz trouxeste 

o cheiro seductor, 

que em nós de ti derramas, 

dos céos qual desce ás ramas 

orvalho creador ? 

Dize, avezinha linda, 

se, embaixatriz, és vinda 

novas trazer de amor ? 

A POMBA. 

— Pois vais ouvil-o. 
De Anacreonte 



— 44 — 

ao seu Bathyllo 
mandada vou ; 
porque o conheças 
signaes te dou. 

Bathyllo é moço, 
que &z de amores 
muito destroco 

9 

nos corações; 
rei ou tyranno 
das af feições. 

Fui predilecta 
de Cytheréa ; 
ao seu poeta 
ella me deu, 
quando este um canto 
lhe offereceu. 

Sou d'^elle agora 
serva e correio ; 
vou-me n'esta hora , 
e á pressa vou 
dar esta carta 
que me entregou. 

Fez-me promessa 
que, em eu voltando, 



— 45 — 

logo me cessa 
a escravidão ; 
mas eu deixáUo ! 
Juro que nâo. 

Como ! libéria 
por valle e monte, 
buscando, incerta, 
silvestres grãos , 
eu , que o pão furto 
das suas mãos ! 

Que em sua taça 
bico o meu vinho ; 
depois^ com graça, 
entro a dansar. 
e na cabeça 
lhe vou pousar ! 

e em vindo o somno 
logo na lyra 
do nosso dono 
me empoleirei ; 
e durmo a noite , 
que nem um rei ! 

Adeos , amigo ! 
Já de sobejo 



— 46 — 

pairei comtigo. 
Pobre de mim ! . . . 
Nem uma gralha 
pairava assim. 






E12 EPaiA KHPINON. 

ÉpcoT» XTÍptVOV Tt; 

NeTivÍYiç eirtóXet. 
Eyò) ^l oí TCapacjTá; , 
« Iloaou ôeXetç » ípyiv « aoi 
« Tò Tuj^ôèv 6>C7?píci)p.ai; » 
O o' eiTte ^(úpiá^ídv • 

« Aáê' aUTÒV ÓTCTTOdOU X^ç. 

« Õtcwç àv êxjJiaOTiç viv , 
« Ou)c eípLi xapoTÊ^aç, 
« AXX* ou OAcú Guvotxetv 
« ÉpcúTi iravTopéxTa. » -^- 
u Aòç ouv, Ãò; auTÒv iíjaív 
« Apaj^fjLYjç, xoíXàv cuveuvov. » 
Épcoç , Gu Â' euÕeo); p.8 
núpwcov • et Se (ay) , cu 
Karà çXoyòç TaxvícT). 






— 47 — 



10. 



UM CUPIDO DE CERA. 

Olha o Cupido de cera 
que vende aquelle rapaz ! 

— « Vem cá; és bel Io esculptor ! 
« A figura d' esse amor, 

« por quanto m'a venderás ? >» 

Em seu doríco dialecto 
o moco então me volveu : 

— « Dar-me-has o que fôr razão ; 
« tomára-o fora da mâo ; 

« nem é este o officio meu. 

« Jà lá em casa este demo 

« ninguém o pôde aturar ; 

« tudo nos queima. » — « Pois bem, 

« se uma drachma te convém, 

fc toma. Está-me a namorar ! « . . 



« Agora o caso é comigo, 
« Amor : este peito meu, 
« é abrasar-m'o jájá; 
«< quando nâo. . . sabido está, 
« quem te derrete sou eu . » 



— 48 — 



ia'. 



EIS EPaiA. 

ETcetO Epcúç çiXsív p.e • 
Èyò) í', eycúv voy)(JLa 
A6ou>.ov, oux ETreiGÔyiv, 
Ò í', eOôu TÓÇov apa; 
Kal jç^puceviv çapsTpTiv, 
Máj^Yl (/.£ 7rpou)ta>.eÍTO. 
Káyít), Xaêwv Itt' <S[Jt.cov 
©ápTij^', OTTíúç Àj(^tXXeuç, 
Kai ^oOpa xal po8ÍY)v, 
Èp.apvá[it.Yiv EpwTi. 
ÉêaXX', èyè) Ã' eçeuyov. 
iiç d orjK er £tj(^ oigtouç, 
Hcyjf^aXXev, eiô' éauTov 
Af YÍxev et; péXe(i.vov • 
Mecoç Sè xapSÍ7)ç (jlsu 
Eouve, xaí [/.' eXucev. 
MaTYjv S' 8j(^(ú PoeÍYjv. 
Ti yàp páXwfjLsv eÇw, 



Éi^— Jfc'l I 1" I— iá'i 



— 49 



11. 



CAPITULAÇÃO. 

• 

Sim, oh ! Sim, amar jâ quero ! 
Bem m'o propunha Cupido ; 
e eu, néscio, eu, louco perdido, 
seus convites a esquivar! 

liCva do arco e da aljava, 
ã guerra me desafia ; 
Achilles, em bizarria, 
nâo me pudera igualar. 

Já peito d 'armas revisto ; 
já entro em campo galhardo, 
brandindo na dextra um dardo, 
e na sinistra um broquel. 

Eil-o frechas e mais frechas 
me arroja, com mão certeira; 
e eu, carreira e mais carreira, 
sempre a fugir do cruel. 

Mal vio seu carcaz vazio, 
e que inda me nao ferira, 
elle próprio, ardendo em ira, 
se me arroja qual farpão 



— 50 — 

A'quelle tiro, desmaio, 
pois veio a mim, tâo direito, 
que, atravessando- me o peito, 
se entranhou lio coração. 

Já nâo quero mais escudos ; 
capitular é prudência. 
Que aproveita a resistência 
a quem destruido é já ? 

E provocar males novos ; 
e até de delirio passa 
defender, por fora, a praça, 
se dentro o inimigo está. 



i6'. 



EIS XEAIAONA, 



Ti <jot ôeXeiç TrotTÍao), 
Ti, xtóTtXv) y6>.tíov ; 
Tà Tapda (yeu Ta xouça 
6eX6iç Xaêcov ^a>.i^(t> ; 
H [i,aX>.ov evíoôev (yeu 
Triv yXwdcav, wç ó Tvipeu; 



— 51 — 

Èxeivo;, exOepí^ce) ; 

Ti [X8U KOik<ú>í ÔV£tpCt)V 

Í*7?opOpiaici fcdvaiç 
Àf vípTraca; Bá6uXXov ; 

12. 



MA VIZINHA. 



Tu andas, certo, a lentar-me 
co'o leu pairar, andorinha ! 
Se te apanho, inda não sei, 
por seres tâo má vizinha ^ 
a pena que te darei ! 

Queres que te corte as guias? 
ou faça o que fez Thereo, 
que, segundo a historia áiz, 
te arrancou pela raiz 
a lingua, flagello seu ? 

Inda bem nâo rompe o dia, 
já na beira do telhado 
começas a papear! 
Lá se vai Bathyllo amado! 
Lá se estraga o meu sonhar ! 



— 52 — 



^y'. 



EI2 EATTON. 



Tòv -^fjLÍÔTiXuv AttiV 
Èv oípsdtv powvra 
Aeyoudiv è>c[AavY)vat • 
Ol ^è KXápou Trap ojj^ôaiç, 

AáXov 7CIÓVT8Ç u^cop, 
MefjirivÓTE; Powdtv. 
Èyè) ^è, Tou Auatou 
Kai TOU (JLupo'j xopedôeiç 
Kal TÍ; etJL^ç éraípTiç, 

13. 

delírio perpétuo. 

Quando Atys effeminado 
vagava, de amor perdido, 
diz que andava delirante, 
là nos montes , incessante , 
por Cybelle a vozear. 






— 53 — 

Diz que na ilha de Claros, 
quem da fatidica veia, 
sacra a ApoUo, as aguas bebe, 
tanta fúria em si concebe 
que anda sem tino a bradar. 

Pois também eu (mas banhado 
em suavissimas essências, 
e ébrio de vinho e de beijos) 
cifro todos meus desejos 
no de sempre delirar! 



i8'. 



E12 EAYTON. 



Asyooctv at yuvatxs; • 
« Avaxpétóv, yepwv et* 
« Aaétóv lijoTCTpov , aÔpet 
« Ko[iaç (xèv ou)c st' ouaaç, 

Èyè) Sè tÍç xó(jLaç (Jièv, 
Eít' etolv, eÍT áwvi^ôov, 
Oux oíía • TOUTo 8* ofôa, 
Í2ç Tco yepovTi p.aXXov 



— 54 — 

Ôdcx) iç(koLç Ta MoípYiç. 

U. 

A CALVA. 

DizEM-ME as mocas, rindo : 
« — Meu pobre Anacreonte ! 
« Deveras que estás velho ! 
o Vai ver, vai ver no espelho 
•c a calva d'essa fronte ! » 

Se é calva ou não é calva, 
nâo sei, nem tal me importa. 
Sei que o prazer e amar, 
se tenho a morte á porta, 
mais devo approveitar. 



ts'. 



£12 TO A^eONOS ZÇN. 

Oí (jLot (/.eXei Ta Fuyeco, 
Tou Sap^ícov ávaxToç • 

Ouíà çôováco Tupávvoíç. 



— 85 — 

È[/.ol (jlsXei [AÚpoidiv 
KaTaêpejç^giv Oiuvívvjv • 
È(xol (AeXet pó^otatv 
KaTa<JTá(p£iv xápviva. 
To GYÍpiepov (jLeXet [aoi* 
Tò ^* aCípiov Tiç ol^ev ; 

i2ç OUV ET eUÒl 8(JTIV. 

Kal mve, )cat xúSeue, 
Kal GTcávÃe tw Auatcp, 
Mv) voDfToç, ív Ttç eXôv), 
AéyY) • « 2è p.*/) Sei tcÍvsiv. 



15. 



ONDE ESTA A FELICIDADE? 



Deixar lá Gyges, o rei sardo ; 
nunca a tyrannos invejei. 
Thesouros ! eu nem os aguardo, 
nem os pedi y nem pedirei. 

O que eu só quero é bons aromas 
por estas barbas esparzir ; 
rosas tecer nas raras comas, 
e nâo pensar no que ha de vir. 



— 56 — 

O que ha de vir . . . quem no adivinha ? 
Faz bel lo dia ; approveitar ! 
A taça enchei, que eu encho a minha : 
ao bom Lyéo convém h*bar. 

Batendo na porta a doença 
sahe pela janella o prazer . » 

« — Venho cassar tua licença — 
(diz ella) ; acabou-se o beber ! » 



ȍ'- 



i:i2 EAYTON. 

O o 0L\> í>puycov áiiTaç* 
Eyct) o è(/.àç áXwaetç. 

Ou Tce^òç, ooj^l vYÍe; • 
2TpaTÒ; èl xocivò; aXXoç, 
A tu' 6(JL(JLáT(»)V (xe páXXcov. 

16. 

EPOPEIAS. 

Tu celebras as guerras thebanas; 
Outro canta as batalhas troyanas ; 



— 57 — 

Eu só posso das minhas derrotas 
a historia narrar. 

Nem peões, nem cayallos, nem frotas, 
me hão vencido ; outro exercito o ha feito, 
que dos olhos as frechas ao peito 
desfere a matar. 



cC 



EIS KOPHN. 



È TavTaXou ttot* earvi 
Atoo; $puy(í)v ev ojç^Ôaiç, 
Kal Tcatç ttot' opvtç Itctti 
Ilavítovoç jeki^áy, 
Èyi) S' eaoTCTpov etviv, 
Õttcoç ást pXeTrinç (/.s • 
Èyò) j^iTCúv yevotfAYjv, 
Õiítóç áel çop^ç [AS. 
iSwp ôeXft) yevedôat, 
Õttcoç (je /.p^^f^ "Xoúco). 
Mupov, yuvai, yevotjxTiv, 
Õtcíoç eyó d' áXeí^o). 



— 58 — 

Kai TatvÍY) $è (jl^oOuiv, 
Kai (jLcepyapov Tpaj^YÍXw, 
Kal aávíaXov yevot[Ayiv. 
Movov TTOclv irocTei [jlc. 

17. 
METAMORPHOSES DE CUBICAR. 

Fez-se Niobe em pedra, e Philomela em pássaro. 

Assim 
folgaria eu lambem me transformasse Júpiter 

a mim. 
Quizern ser o espelho, em que o teu rosto plácido 

sorri ; 
a túnica feliz, que sempre se está próxima 

de ti; 
o banho de crystal, que esse teu corpo cândido 

contém; 
o aroma de teu uso, e d^onde effluvíos mágicos 

provém ; 
depois esse listão, que do teu seio túrgido 

faz dois; 
depois ... de teu pescoço o rosicler de pérolas ; 

depois . . . 
Depois ! Ao ver-te assim, única, e tao sem emulas, 

qual és, 



— B9 — 

até quizera ser teu calçado, e pisassem-me 

teus pés ! 



tV. 



E12 nOTHPION APrrPOYN. 

Tòv apyupov Topeuwv, 
HçatdTe, (JLot TCotYjaov, 
riavoTuXíav (xèv oujrt, 
(TÍ yàp \k(íyjx\fs% )cá[Aoí ;) 
IIoTYÍptov ^è xot^ov, 
Õaov íiívri, PaÔuvaç. 
IIoÍei ^e p.01 )caT^ auToD 

Míj GTuyvòv ilpb(i)va • 
(Ti nXeiaííov (JiáXei (jloi, 
Tl í' ádTepoç BowTeo) ;) 
AXV á(jL77áXouç jjXoáaaç, 
Kal pÓTpuaç yeXtõvTaç, 
Kal Matvá^aç Tpuycidaç. 
Iloíet íè Xnvòv oívou, 
Kal )(^pu<J60uç TuaToijívTaç 



— 60 — 

Ò[i.oD xa^ô Auaíct) 
Epo)Ta )cal BáOuXXov. 

18. 
OS LAVRADOS DA TAÇA. 

Nem Vulcano, à tua vista ^ 

mestre artista, 
pôde a palma requerer. 
Toma prata ! uma obra quero, 

cujo esmero 
vença a quanto pôde haver. 

Nâo sâo armas, peitos, malhas 

(de batalhas 
nâo me importa e nada sei). 
D'esta prata se me faça 

uma taça 
funda, amplissima e de lei. 

Nâo lhe esculpas, no contorno, 

por adorno, 
céos nem gruppos sideraes ; 
pois que importa a Anacreonte 

o Orionte, 
o Boieiro, e outros que taes? 



■^. 



— 64 

Antes cerco de parreira s, 

e ligeiras 
por sob ellas me porás 
as Bacchantes vindimando, 

lindo bando, 
folgazão, gentil, loquaz. 

• 
N*um lagar, co'o Deos de Naxos, 

pisem cachos, 
em porfía de embriaguez, 
meu Bathyllo, o meu querido, 

e Cupido 

E estes de ouro, todos três. 



E12 TO AYTO. 

KaXXtTej^va, TÓpsudov 
Eapoç xuTueXXov yÍoy) • 
Tà Tcpwô* ^(Atv Ta TepTCvà 
Po^a çspouaav âpniv. 
Tòv apyupov í* áTrXworaç, 
nÓTOV TCoíei (xoi Tepirvov. 



— 62 — 

My) tõv irap' oívo) TeXerwv 
Sêvov Tt (xoi Topeiídriç, 
My) çeuxTÒv í(jTopYi|Aa • 
MSXXov TTOtci Atòç Y^^^^ 
Bájcyov eCítov íp.ív, 
MiJaTtv Te Twv Tróôtov KiÍTupiv 
TfjLevaíot; jcpOToOaav, 
Xápaaa' ÉptóTaç ávoTrXouç, 
Kal XápiTaç yeXwaaç. 
Ttt' a[jL7r€Xov euTreTaXov, 

SuvaTTTe xoiípouç eOTcpeTretl; • 
Áaa $Yj ^oiSoç áÕupi^. 

19. 
OUTRA COPA. 

O' portentoso artista ! outro vaso de esmero 

me has de agora lavrar. 

Gravada n elle quero 

a estação, que dá vida, 
a flórida estação, de rosas bem cingida. 

Faze-me, doesta prata, um vaso em que se possa, 
por gosto, demorar 



.. ? :. 



— es- 
cola vista a mente nossa ; 
em roda nâo lhe ponhas 
sacriticios de horror, ou fabulas medonhas. 

Grava-lhe antes Evan, progénie do alto Jove ; 

dá-lhe por digno par 
• Cypria, que nos promove 

anciãs de terno gozo, 
ella e elle cantando a hymenêo jubiloso. 

Adiante lhe põe, mas sem arco, os Amores 

e as Graças a folgar, 

á sombra dos verdores 

de um parreiral que ria, 
recurvado ao pendor da uva luzidia. 

No mesmo abrigo emíim, quero que representes, 

a scena a completar, 

muitos mocos contentes, 

saltando ao som da lyra 
de Phebo que em galhofa almas canções inspira. 



64 — 



x'. 



E12 TO AEIN niNEIN. 

H yí (Jt.eXaiva Tuívei, 
nívei Sè Sevípe' auTvív • 
nívei 6a>.a<;<;a 5' aCpaç, 
Ò Ã' YÍXioç ôáXacdav, 
Tòv Ã' í>.iov ceXvívT). 
Tt p.01 (Jiáj^eíjô', érarpot, 
KauTô) ôéXovTi mveiv; 



20. 



O UNIVERSAL BEBER. 






A terra bebe a chuva. A planta suga a terra. 

O mar engole o rio. O sol absorve o mar; 

e a lua absorve em si o resplendor solar . . . 

Pois, se eu bebo também, porque me fazem guerra ! 



/ 



— 66 — 



xa'. 



E12 EATXON. 



^ / 



Ao TÊ (Aoi, òoV, fc) yuvawceç, 
Bpof/. íou TCtetv ap.u<jTt • 
. TttÒ JcaujAaToç yàp yj^Ív) 
Ilpoíoôeiç ávaaTgvá^o). 
A0T6 í* ávôecov èxetvou* 
2Te(pávouç Ã', oiouç Tuuxá^o), 
Tà [/.sTcoTuá (/.oii 'luwcatet. 
Tò í è )cau(/.a twv ÈpcoTcov , 

21. 

ARDOR inextinguível. 

Oh ! enchei, bellas damas, enchei ! 
Lançai mais ! em bastando, eu direi. 
Bebi muito, e inda a sede me abrasa; 
guapas damas, enchei pela rasa ! 
Da cabeça ao calor murcha está 
esta cVôa, trançai-me outra já ! 
Não poderem , nem vinho nem flores 
acalmar-me este fogo de amores ! . . . 



o 



— 66 — 

EI2 BAerAAON. 

KaôííTW )ca>.òv to íev^pov 
Â^TcaXàç ^'eaeKje jratTa; 
Ma>.axa)TáT(x> xXa^ídXco. 
Hapà §* auTÒv epedí^ei 
nyiyyi fáouda luciôouç. 
Tíç av o5v ópôv TcapeXôot 
KaTaycóytov toioDto; 

22. 

A BATHYLLO. 

Meu Bathyllo ! o bem que estamos 
n'esta sombra deleitosa ! 
Como esta arvore é viçosa ! 
Como alastra os flóreos ramos, 
que aura embala a suspirar ! 
Ouve a fonte , que murmura 
nâo distante d'este abrigo ! 
Com tal céo, com tal verdura, 
com tal paz, com tal amigo, 
quanto é doce o repousar ! 



— 67 — 



x/. 



E12 ^lAAPrYPON. 

O TT^ouToç et ye yi^f^jcoíj 
Tò ^^v Tçapetj^e ôvviTOtç, 
ÈxapTepouv çu^ádacov, 
Iv', av OávaTOç eTreXôvi , 
Aáêv) Tl, jcal Trape^ÔY). 
Et S' ouv (/.Y) TO irpiaíiGai 

Tò Ç-ípV ?V6CTl ÔVTlTOtÇ, 

Tl tlolí (/.flCTyjv (jTevá^o); 
Tt xai yoouç irpoTrejiLTCct) ; 
©avetv yàp eí ireTrptóTai , 
Tt XP^^^Ç oxpeXet (xe ; 
EjjLoi yevoíTO Tuíveiv, 
IltovTi S' oívov -jí^uv 
È(/.orc (píXotç auvetvat, 
Èv í' áTçaXatct xoiTaiç 
TeXeiv tÍv ÀçpoíÍTav. • 

23. 

A VERDADEIRA RIQUEZA, 

Se o ouro de Pluto 
nos desse mais vida , 



— 68 — 

juntar montes de ouro 
tomara por lida ; 

E em vendo que a morte 
me vinha apanhar^ 
dar-lhe-hía metade, 
por me ella deixar. 

Porem se a existência 
nâo vem por tal preço, 
que vai o ter ouro ? 
Já nâo n^o appeteço. 

Porque hei de eu ralar-me 
com prantos, com ais ? 
Por mais que façamos , 
nascemos mortaes. 

A mil opulências, 
enlevo de avaros, 
prefiro os bons vinhos, 
amigos bem caros, 

e aquellas doçuras 
que ás vezes também 
nos braços mimosos 
me of feria o meu bem. 



yt:^... 



— 69 — 



xí'. 



£12 EAYTON. 

ÊTreiívI PpoTÒç ÍTÚjf^ÔYiv 
BtÓTou Tpíêov óÃeúeiv, 
Xpóvov ?py(tíV ôv 'n:apr,>.6ov , 
õv ^' e^o) ^pa[ji.eiv oux ol^a. 
MeôeTfi (Jie, çpovTÍíe;* 

MyjÍÍV '(JLOt Xal ÚpLÍV £(JTO. 

npiv ip.£ çôádfi TÒ TfiXo;, 
Ilaí^ci), y6>.á9(d, ^opeúdct) 
McTa ToD TcaXoD Auaíou. 

24. 

A ESTRADA DA VIDA. 

Nasci mortal ; agra ou macia, a estrada, 

levál-a ao cabo é lei ; 

vejo a porção que andei ; 
a que me espera . • . em névoa é sepultada. 

Cuidados insanos, 
enxame voraz, 
deixai-me estes annos 
volverem-se em paz. 



— 70 — 



Se ao tumulo opaco 
por força me hei de ir, 
comtigo, meu Baccho , 
dansar quero e rir. 



xe'. 



EIS EAYT.ON. 

Orav TUKo tov otvov, 
Eíí^ouaiv aí {xépi[/.vai , 
Tt (xoi yótóv, tÍ (jLoi Tuovtóv, 
Ti [JLOi (jieXei (JLepi[JLV(5v ^ 
©aveiv (jLe íci, xav (xí) ôeXtó • 
Ti tÒv píov xXavtÕpLai ; 
IIta)(JL£V o5v TÒv otvov 
TÒv Tou xaXou Auaiou. 
2í>v T(o íè xtvetv 'óixaç 
Eííouciv at (jLepijAvat. 



25. 

FORA CUIDADOSI 

Quando bebo, dormem-me 
os ruins cuidados. 






— 71 — 

Eu pensar solícito 
em carpir meus fados ? ! 
Qual é d'isso o préstimo ? 
Pois (ou queira ou não) 
hei de, entre os cadáveres 
ter o meu quinhão. 
Quando a vida rápida 
me abre dous caminhos, 
trocarei o flórido 
por calcar espinhos ? 
Reine Baccho ! empinem-se 
vasos redobrados ! 
Quando bebo, dormem-me 
os ruins cuidados. 



xç'. 



£12 EAYTON, 

Õrav ó Báy,y(oç etaeXôvi , 
Eu^ouGiv aí p.£pi[JLvai* 
Aoxwv Ã' ejç^etv Ta Kpoíaou 
Qík<ú xa'Xct)ç áeííeiv * 
KiaaodTefyiç ^è xeijjiai, 
IlaTà) Ã' airavTa OufjLw. 



— 72 — 

Ot:\i^\ iyiú èe xivo). 
í>gp' iiLoí xtÍTreXXov , & Traí • 
MeôuovTa yáp (as xeradat 
IIoXu xpeíaaov, í ôavóvra. 

26. 

ANTES ÉBRIO DO QUE MORTO. 

Nao ha dôr em tanto excesso, 
que resista ao bom Lyeo : 
em bebendo, igualo a Cresso ; 
canto ufano ; o mundo é meu ; 

coroa de heras me imponho , 
vou -me á cama, e jazo em paz ; 
em negócios nunca sonho ; 
sonho só no que me apraz. 

Vós, se é esse o vosso gosto, 
para as guerras vos armai. 
Eu cá, bebo ; e viva o mosto ! 
Rapazinho, enchei-me, andai ! 

Isto sim, que dà conforto ! 
Estirar por estirar, 
antes ébrio do que morto, 
exleixar os mais fallar ! 



— 73 — 



xÇ'. 



£12 AI0NY20N. 

ToO Aiò; ó iraíç , ó Báxjj^oç , 
O Xuaíf pcov , ó Xuaio; , 
Orav 8t; çpeva; toc; é(xàç 
EtaeXÔ-^i (JLeôuíÓTaç, 
Ai^ádxei [JL8 )rop8U6iv. 
E)(^(it> Ãè xat Tl TepTuvòv 
O TÍcç [JieOaç épadráç* 
MstÍ xpÓTtóV, (jl£t' tó^a; 
TepTrei [/.e x AçpoÃtTa, 
Kal TToXiv 6sX(o ^opeueiv. 

27. 
OS SEUS GOSTOS. 

Inda bem não me é cá dentro 
de Jove o filho, Lyeo, 
já meu gáudio nâo concentro, 
já em mim sinto outro eu, 
já com elle entro a dansar. 

Mas pensais que eu me limite 
só nas glorias do beber ! 



— 74 — 



Cantos, musica, Âphrodite, 
sâo também o meu prazer ; 
sempre e sempre hei de bailar. 



XY|'. 



EIS KOPHN. 

Ãyg, ^(úypáçtóv apiGTS, 
Fpácpe, ^(ofpáfcov apiare, 
PoJiYlç xotpavÊ Te^ç^vYi;, 
ÀireouGav, w; av eÍTTO), 
Fpáçe TÍjv £(jL7)v éTaípv)v. 
Fpáçe p.01 Tpíjj^aç to TupwTOv 
ATToXá; T8 xal [xeXaíva; * 
O Ãè XYipòç àv ÃúvYiTai, 
Epáfe 3cal [/.úpou TTVEouaaç. 
Fpáçe Ã' éÇ oXviç Tuapet^ç 
Tttò luopfupaiTi j^aíraiç 

ÈXeçávTlVOV [XÍTCtlTTOV. 
TÒ p.8GÓf pUOV ^è p.^' [JLOl 
AláxOTUTC, p.7ÍT8 (JLldye ' 
jreTO) Ò , OTTtóÇ 6)C£IVY) , 

TÒ XeXviGoTcoç cúvoçpuv , 



f 



— 75 — 

BXefápcov S' Ítuv xs>.atvyiv. 
Tò 8t ^Xé^^LOL vuv áXy)9(oç 

AtuÒ TOU TTUpÒç TTOÍvidOV, 

A|JLa yXauxòv , wç ÀGvfvYiç , 
Aaa 8' uypòv, wç Kuôrípviç. 
Fpáçe ptva xal Tuapetàç , 
Póía Tw yocXaxTi (JLtÇa;. 
rpáçe x^tXo;, Ota Ileiôoíjç , 
npoxa'Xou[JL6vov çiXYi[Aa. 
Tpuçepou í' e<yw yeveíou , 
Ilepl >.uyííva) Tpay víXco , 
Xápixeç TUÊTOivTo Tuaaai. 
StoXkiov to Xoittòv aÒTviv 
iTroTropçupotdt ttêtuXoi;* 
AiaçaivETCit) ^à (lapxâv 
ÒXíyov, tÒ (7c5(jl' eXeyj^ov. 
ÀTueyef pXéTUco yàp auTvív • 
T!(xyoLy >tyipè, xal XaXvíaetç. 

28. 
RETRATO DA SUA NAMORADA 

VÁ lá, meu pintor de fama, 
primoroso meu pintor ! 



— 76 — 

Rei (que assim chamar-te podes) 
d'ess'arte, que lá em Rhodes 
tem ganho tanto esplendor. 

Vá ! Retrata a minha dama ! 
Pouco importa longe estar ; 
como ella é, posso eu dizêl-o. 
Negro, macio cabello 
pÕe-lhe em primeiro lugar. 

Olha ! se a cera o consente, 
faze-o também rescender ; 
quaes duas brilhantes ondas, 
por sobre as faces redondas 
da ebúrnea fronte a pender. 

Separar inteiramente 
nâo convém , nem confundir 
os arquinhos dos sobr'olhos ; 
negro cilio, erguidos olhos, 
alma tímida a exprimir ; 

Olhos ! como os de Minerva 
no azulado seu volver ; 
como os da mâie dos Cupidos, 
levemente humedecidos 
de ternura e de prazer. 



— 77 — 

A' face, ao nariz conserva 
o encarnado e fresco alvor ; 
náo ha tinta assim mimosa ; 
mistura o lyrio co'a rosa, 
e tens-lhe acertado a côr. 

Pinta os lábios, e escondida 
entre elles a persuasão ; 
da boquinha o geito imite 
fazer aos beijos convite 
co'o suave da expressão. 

A' barba que a amor incita , 
ao collo, que em candidez, 
vence alabastros e neve, 
um enxame vago e leve 
de graças convém que dês. 

Uma veste purpurina 
lhe lança agora a final ; 
mas dispÕe-lh'a por tal arte 
que deixe sonhar-se em parte 
o seu corpo divinal. 

Concluíste .... Obra divina ! 
Concluiste . . . . E ella ! é ella ! 
(Quero- te, amigo, abraçar) 



— 78 — 

« Minha amada ! .... oh ! como és bella ! 
«<Falla-me! deves fallar! » 



E12 NEUTEPON BAeYAAON. 

Fpáfe [xot Bá6uX>.ov oiíto),. 
Tàv éTaipov, (úç otoáaxct). 
AiTrapàç xófxaç i70Íy)<70V , 
Tà (Jièv Iv^oôev, [/.eXaívaç , 
Tà 5' 8; axf ov , lóXiáeraç • 
EXixaç Â' áXeuõápou; ;aoi 
HXoxájJLcov , ataJCTa Guvôelç, 
Ãf>£ç, cbç OéXcdGi, xeTcOai. 
ÀTuaXòv Ãè xal ípoacoíeç 

KuavcdTepY) ^paxóvTCtiv. 
MeXav o(ji(j!.a yopyòv £<iTa>, 
KexepaajjLevov yaXYÍvv), 
Tà p.èv iÇ ApYioç ?Xxov, 
Tò Sè TÍç xaX^ç KiiÔYfpviç, 
Iva Tiç TÒ (jt.£v foêíTai 9 



"«.'■■M ..1 mJJm 



— TO- 
TÓ 8' aTu' eXmâoç xpejAocTat. 
PoítvYiv 8\ àizoioí (/.yjX.ov , 
XvoÍyjv TToíei Trapsi/ív 
Èpiíôyijxa í' wç av AtíoOç 
Aiívadai PaXetv, xotYi<ydv. 
Tò íè j^etXoç oux êt' olía 
Tívi jAot rporcj) TuoiYÍdeiç 
AtcoiXòv, yejjLov te IletÔoQíç. 
lo dê Trav, o XYipoç auTOç 
Èjç^eTO) XoXcõv (ytWTTYÍ. 
Mexa íè TirpodcoTTov Igtcú 
Tòv À^évi^oç TuapeXôwv 
ÈXeçavTivoç Tpáj^viXoç. 
MeTa(/.á^iov íè Tuoíet 
Aioujjiaç T£ j^eipaç Epj/.oij , 
IloXu^euxeoç ^£ (JLyipouç, 
Atovu(7tr,v íè vv)^uv. 
A.7raXí5v ^' uTrepôe [/.yipâv, 

MvipWV TÒ TTÍJÍp ejróvTcov , 

AçeXví TTOiTOfiov ai^co, 
IlaçÍYiv OeXoutyav íSti . 
í^6ov6py)v ejç^etç ^è tsj^vy.v , 
Oti (JLvj Ta vcoTa ^et^ai 
Aiívaaat • Ta 5' ív áasívct). 



— 80 — 

Tl (xe Ãet luó^a; ÃtÃáa)C€iv; 
Aáêe (xidôòv, cGffov eíirjjç. 
Tòv ÀiuoXXwva Ãè toCtov 
Ka8eXct)v, Tcotei Báôu^Xov 
ílv Ã' èç 2áp.ov ttot' eXôvjç , 
rpáf e ^oiêov è)c BaOúXXou. 

29. 

RETRATO DE BATHYLLO. 

PiNTA-ME agora Bathyllo, 
Bathyllo, o meo predilecto, 
como t'o vou figurar ; 
cabello á nascença preto, 
nas pontas ja de outro estylo, 
que lembre o esplendor solar. 

No alto as madeixas 

em nó comprimidas, 

depois esparzidas 

em livre ondear 

A' joven fronte macia, 
pura como o orvalho puro, 
dêm c'rôa de perfeição, 
sobr'olhos de azul escuro, 
do ei^curo azul que se havia 
tomar, pintando um dragão. 



JhMBÉÉJiiaÉiiMfcw u" ■ ■ ft"i: 



— 81 — 

Os olhos bem negros 
inculquem firmeza ; 
serena lhaneza 
lhe adoce a expressão. 

Vê se em seu olhar, exprimes 
duas cousas que em mistura 
sabe elle só reunir : 
de Vénus meiga brandura, 

de Marte assomos sublimes 

A repulsar e a attrahir, 

por modo que, ao vêl-o, 

esperança e receio 

no fundo do seio 

se deva sentir. 

Por suas faces (osadas 
derrama, igual à de um pomo, 
alva penugem subtil ; 
mas summo tento, em ver como 
nos dás a cor bem corada . 
do seu pudor juvenil ! 

Seus lábios tâo finos, 

e tão convincentes, 

duvido os presentes, 

pintor meu gentil ! 

Em summa, se te é possivel, 
faze que seja fallante 



— 82 — 

a cera d'este painel : 
fronte bem larga e elegante, 
pescoço ebúrneo e flexível 
de Adónis cópia fíel. 

No peito e mãos lindas 
sem medo figure-o 
um joven Mercúrio 
teu sábio pincel. 

Nas coxas Pollux valente ; 
e no ventre arredondado 
um donoso Bassaréo. 
Sobre as coxas, encantado, 
thesouro de um fogo ardente 
mostre, mostre, amigo meu. . 

vir já despontando 

a férvida idade, 

que a paphia deidade 

ao gozo elegeu. 

Mas a tua arte é ciosa ; 
as costas do meu Batliyllo 
não m'as pintará talvez ; 
e é pena, que em tudo aquillo 
de que n'elle a vista goza 
. nada igual ás costas vés. 
Dos pés graciosos 
que posso eu contar-te? 



I 

I 

} 

— 83 — i 

Esmera tua arte, 
fazendo-Ihe os pés. 

Que hei de eu dar por tal pintura ? 

Todo o ouro do Pactolo 

tanta valia não tem . 

D'aquella estatua de ApoUo, 

portento de formosura, 

faze, Bathyllo, o meu bem : -^i 

e ÂpoUo, se em Samos i 

quizeres fingil-o, i 

do próprio Bathyllo ( 

copía-o também. 



V. 



E12 EPfíTA. 



1/ 



Al Mouaai tòv EpcoTa, \ 

T(j> KoX^ei Traptôcoxav. j 

Kal víjív TÍ KuÔÊpeta 
ZiQTet, VJTpa çepouGa, 
Au^aaôai tÒv ÉpwTa. 
Kàv XuGYi 8í Tiç auTÒv 



— 84 — 

30. 

AMOR PRESO. 

Ao Deos dos amores 
as musas um dia 
com laços de flores 
lograrão prender. 

Soberba era a presa, 
velàl-a cumpria. 
Por guarda a belleza 
lhe forão trazer. 

Entre anciãs immeusas 
procura-o Cyprina ; 
dá mil recompensas 
a quem lh'o trouxer. 

A Amor dá regalo 
prisão tão divina ; 
escusão soltàl-o ; 
ser livre não quer. 



— 85 — 



Xa'. 



EIS EYPfiOHN. 



Ò TaCpoç ouTOç, (O Tuat, 
Aoxei Tiç eivai [xoi Zeuç. 
í>ápei yàp áfAçl vojtoi; 
2t^(úvtY)v YuvatKa* 
Ilepa íè TwOVTOv eupuv, 
TejJLvet T6 xDjxa )(^7)>.at(;. 
O0)c àv 5è Taupo; oXXo; 
ÈÇ aylXT); eXaaôelç 
ÉTuXeuce ttiv ôáXaacav , 
Eí (AÍ) (jlóvoç y' èxetvoç. 

31. 

MEDALHA DE EUROPA 

Guapo touro, ó moço, vemos. 
E, sem duvida nenhuma, 
o senhor dos céos supremos, 
que transnada a salsa espuma. 
Olha a tyria, moça linda ! 
Como a leva I é Jove amante. 



I 



l 



— 86 — . 

Pelo mar nâo vi ainda 

outro touro , e tao flammante ! 



l&. 



EI2 T0Y2 lUYTOY EPÍlTAi:. 



ÈTctGTaGat xaTeiTueiv , 
L xufxaT oiòaç 6'jp6lV 
Tà T^ç oXt); Oa^áaoriQç, 
2è T(ov èjxwv EpÓTwv 

MÓVOV TCOW ^OyKJTYÍv. 

npíõTov (xàv 8$ Aônvwv 
ÉpcúTaç 6i)co(7tv Oèç, 
Kal TTfiVTejcatSsjc' aXXouç' 
ÉTuetTa í' sx Kopívôou 
0è; óppLaôou; ÈpwTwv • 

AjOLiflÇ yáp 8(7TIV , 

Õtttou tloíXolí yuvaijceç. 

Tíôei íè Aecêtoii; (xot, 

Kai (xexP' '^^^ Icàvcov, 
Kal . KaptYjv Pcííov ts * 



— 87 — 

Ti ÇTÍç; — Àet X7)pí^ 6eç. 
OuTTCo 2upouç c^eÇa, 
.OuTco) iróGou; Kavtóêou , 
Ou TTJç airavT* èj^oúc»ç 
KpTÍTViç, Sttou TToXeaciv 
. Èpo>; eiropYio^fit* 
Ti cot OiXeiç ápi6[JL(ò 
Kat Touç raíeípwv èxTÒç, 
Touç BaJCTpúov t6 x' IvScov , 

32. 
AMORES SEM LIMITES. 

Vamos ! Se podes contar 
quantos astros vâo nos céos, 
quantas ondas vâo no mar, 
numera os amores meus ! 
Poe-me, em primeiro lugar, 
em Athenas vinte amores , 
lindos todos como as flores; 
junta mais quinze... (Nao minto; 
junta quinze e pouco pões). 
Em Corintho... oh! emCorintho 



— 88 — 

computa-os por legiões ! 
(Corintho na Âchaia 6ca ; 
uenhuma terra haverá 
de moças bel las tâo rica) 
mas o rol nâo finda là ; 
Lesbos^ Caria, Jonia, Rhodes, 
não me engano... afouto podes., 
dous mil amores marcar. 
Que hesitas ! assenta ! assenta ! 
 pagina é corpulenta ; 
nâo te fallece lugar. 
Inda te eu não disse nada 
de Ganopo, Syria, Creta 
(Creta, a ilha decantada, 
que entre os prazeres vegeta, 
e por cujas cem cidades 
de amor as festividades 
tem contínua duração). 
Tem paciência ! ajunta agora 
turba de amores, que mora 
calada em meu coração. 
Em Bactria, na índia ou Gades, 
quem julga acabar-se o mundo ? 
há mesmo, e além, vê deidades 
este amor em que me inundo, 
e arde por todas... mas basta ! 
Para todos meus amores 



— 89 — 

uâo ha pagina assaz vasta; 
nem também calculadores . 



EIS KOPHN. 

Tàv iro^iàv eôetpav 
MtqÍ' , oTi ffoi TrápeffTtv 
AvOoç áxfxaiov âpaç , 
Táf^à çíXTpa Siá^Tiç. 
Õpa xáv GT6<pávoia:tv 
Ôicíúç icpáiçet tÒc ^euxà 
í^o&otç xpíva TrXaxávTa. 

33. 
BRANCO E VERMELHO. 

Fugis de minhas cans ? 
Fugis-me, por viçosas ? 
Volvei, volvei, louçans! 
Nas cVôas mais formosas 
se enlação, como irmans, 
á ílòr do lyrio, as rosas. 



- 90 — 



XS'. 



£12 EAYTON MEMEeYSMENON. 

Ã96Ç [/.e , Touç Oeouç ^oi , 
niefv , iristv ájjLuffTt. 
©eXco, ôéXci) p.avívai. 
ÈjxaíveT* ÀXxjxatwv ts, 
X' ó XeuxoTcouç ÒpeGTTiç , 
Tàç (jLTQTepaç XTavovTeç* 
Èyò) Ãè, (jLy)5eva XTaç, 
nia>v o* epuôpòv oívov, 
©eXco, ôeXft) (jLavívat. 
Èjjiaíveô HpaxXíç Trplv, 
Aeivriv xXovcõv f ap6Tpy)v 
Kal tóÇov íçÍTeiov 
ÈjJiaiveTO Tcplv Ataç 
Mer' aGTutooç scpa^aivcov 
Tíiv ExTopoç (Aflcj^aipav • 
Èyò) 8\ Ij^tóv xutteXXov, 
Kal (jTe[^.(xa touto yaÍTaiç, 

Ou TOQOV , ou lLÓÍjOLlfOL>^ , 

0é>.(o, ÔeXío (xavYÍvai. 



■».■ 



— 91 — 



34. 



delírio. 

• 

Pelos deoses todos, deixem-me virar 
cangirÔes bem grandes ! quero delirar. 
Sim ; quero delirar ; delirar" é bom. 
Tártaros de Orestes, íurias d'Alcmeon, 

não virão turbar-me como aos matricidas 

Eu não sou como elles ; nunca tirei vidas. 
Vou achar somente (juro que adivinho) 
sonhos cor de rosa n'este mar de vinho. 
Hercules furioso dlphito co'as settas 
não os tinha destes, como nós, poetas; 
nem o Ajax do escudo, quando là de Heitor 
esgrimia a espada, cego de rancor. 
Cangirâo por armas, e por elmo lyrios, 
deixem-me á vontade cá nos meus delirios . 



Xe'. 



EIS XEAIAONA. 



2u (xèv, çÍXt) j^eXtíòvj 

0epet 7c*X£)Cgiç xaXtriv, 
X6i[/.ô)vi á^' elç a(pavTo; 



— 92 — 

H NfitXov, 71 Vi MéfAçiv 

ÉpCúÇ &' cUl TT^áxei (JL6U 

Èv 3cap^ÍY) 3caXiyfv. 

IIoôoç S' ó (jLev iTTepouTai, 

O Ã' WOV itJTlV á3C(JL7]V , 

l>07) de yiv£T aisi 
Kej^YivoTwv veoTTwv. 
Èpa>n^6iç ^6 (Jiixpouç 
Ot (JLet^oveç Tp8çou(yiv 
Ot íè TpaçÉvTSç euôuç 
náXiv 3cuou(7iv oX^ou;. 
Ti p-í^oç ouv yév7)Tai ; 
Ou yàp côávco tocou touç 
Ép(i>Taç exêoTÍaab. 

35. 

A ANDORINHA. 

Gentil andorinha, 
que yens annualmente, 
na bella estacão, 
tecer-me vizinha 
o ninho innocente 
da tua affeicâo ; 



— 93 — 

e a annuncios de inverno, 
temendo sentil-o, 
lá vais, a cantar, 
refúgio mais terno 
pedir ao teu Nilo, 
de Memphis gozar ! 

Vem cà, passarinho ! 
Amor n'este peito 
nâo faz nunca assim ! 
È ninho, e mais ninho ; 
um ido, outro feito ; 
renova-os sem fim : 

Ver um Cupidinho 
como abre as azitas 
tentando avoejar ! 
Este, inda no ovinho, 
est' outro, as casquitas 
já quasi a largar ! 

De bicos abertos, 
nenhum dos mofinos 
se cala jamais ! 
Os jâ mais espertos, 
aos mais pequeninos 
mantém como pais ; 



— 94 — 

Depois, os mais novos, 
apenas creados, 
produzem também ; 
de todos vem ovos ; 
dos ovos , dobrados 
amores provém. 

Sâo taes seus clamores, 
que ás vezes abalos 
de raiva me dâo ; 

mas tantos amores 

Como hei de eu lancàl-os 
do meu coracào ? ! 



V. 



EI2 TO ANETfíS ZJ^N. 



Tl [JL€ Toiíç vojjLouç íiíácxeiç 
Kai piQTopcov áváyxaçj 
Tt oé [JLOt ^oywv togoutcov 
Ttóv p.y)íèv tóÇe^ouvTWv; 

MoíKkoV 8í8oLG7L€ TTlveiV 

ÀTTa^òv 7uó(/.a Auaíou • 
MaX).ov ííSaoce içaí^etv 



— 95 — 

Ilo^iai ax/foudi Tcápav. 

Aòç S^cop, páX' olvov * S} Trai , 

Tílv ^ujj^yfv (JLou xápwdov. 



36. 

A VERDADEIRA ARTE. 

Vâns artes de rhetoricos, 
sophisticos enredos ; 
estes meus ócios quedos, 
hei de os por vós deixar ? 
Pobre homem, com que fruclo ? 
Eu que jamais disputo, 
nem quero disputar ! 

Em vez de cousas frívolas, 
quero artes de proveito : 
a de arraiar meu peito 
co'o bacchico licor ; 
a de travar choréa 
co'a amável Cytheréa, 
co*a amável mãi de Amor. 



— 96 — 

Olha estas cans ! apressa -te ! 
Místura-ine agua e vinho ! 
Breve me ireis sozinho 
no tumulo esconder . 
Venha um delirio ainda ; 
mal que a existência é finda ^ 
findou todo o beber. 



XC. 



Eli: TO EAP. 



ííe TTCd;, capoç çovávToç, 
XápiTEç pó^a ^puouaiv. 
lie TTtóç xujia 6a>.áccT)ç 
ATça^uverai ya>.YÍV7i. 
we TUfúç vÍGca >co>.upLêa. 
lie irwç yepavoç óieiíei. 
ÀçeXwç i' eXapiiJ/e Titocv • 
NeçeXôiv (jxial iovouvrat, 
Tà PpoTtóV i' eXajxij/ev epya. 
KapTTOMJi yaía TrpoxuTTTet, 
Kap-TTÒç èXataç TrpoxÚTCTet' 
Bpo[JLtou CTE^eTai v^^xa* 






— 97 — 
KaTa çóX^ov, xaik xXôva, 



37. 

PRIMAVERA. 

Foi-SE a quadra fria ! 
Os bous dias tornao ! 
Olha como adornâo 
graças os rosaes ! 

Olha o mar ! que espelho ! 
Como nadão, mansos, 
mergulhando, os gansos 
pelos seus crystaes ! 

Como os grous viajão ! 
Que áureo sol tâo limpo ! 
Claro o azul do Olympo 
nuvens já nâo tem. 



Em seus chãos lavrados 
o cultor exulta ! 
A semente occulta 
já viçando vem ! 



— 98 — 

O olival rebenta 
pompa verde c prata ! 
pâmpanos desata 
baccliico vinhal ! 

D'entre as folhas novas 
ri na flor a fruta ! 
Vê I respira ! escuta ! 
Festa universal ! 



Xr/. 



EIS EATTON. 
Eyò) yipwv (jlsv etat, 

Kàv ÃgyíffTi (/*e yop£'ísiv, 
2xYÍitTpov eycd tÒv ácjcóv 

O vápÔYl^ o' OUOfiV EdTlV. 

IlapeaTCt), xal [j(,ay6<76co. 
ÈtAot xÚTTfiX^.ov, w Trai, 
MeXij^pòv olvov 'firí*jy 



?» •_ i-L 



— 99 — 

Èyx,8pá(7aç, cpopricov. 
Èyíb ygpcúv (jLfiv eíjAi, 
2eiX7ivòv &' ev (/.e<rot<jt 
MtjjLoújJLevoç j^opeudtó. 



38. 



UM VELHO DANSARINO. 

Sou velho, sou velho! Quem falia de idade? 
Os moços que apostem comigo a beber. 
Quereis que dansemos ? com toda a vontade , 
e até vossas dansas me obrigo a reger. 
Andai ! nâo preciso de arrimo ou bordão ; 
\ereis como salto co' um odre na mão. 

Se ha hi quem deseje medir-se comigo, 
que saia a terreiro, que prestes me tem. 
Rapaz, dá-me as armas ! um copo de amigo, 
um copo do linto, que sabe tão bem. 
Ao velho Sileno não cedo em feição ; 
dansar também posso de copo na mão. 



— 100 — 



Aô'. 



EIS srMnosioN. 



J l.-X 



Õt' ey6> TZKú TOV otvov, 

Tóxe (zeu '^Top tavôèv 
Aiyatvetv apj^erai Moudaç. 

Õt' èyíú m<ú tÒv oÍvov, 

ÀTroptTTTOVTat [JLEpi[JLVat 

no>.uypovTiíí; Te PouXal 
Èç áXtXTUTTOuç ávÍTa;. 

Ot' iyíú m&> tÒv oívov , 
AucriTnífjwúv tots Báxj^oç 

Ilo^uavôefftv ^L èv aupat; 
Aoveet, (jieÔYi yavwcraç. 



» ' X 



Òt' 6y6> TTltó TOV OÍVOV, 

2Te(pávouç avôe^yi TcXeÇaç , 
ÈwtÔelç íè T(^ }cap7Ív({>, 
BioTou [xeXTUo) yaXyívYiv. 

T eyO) TTtCi) TOV oivov, 

Mtjpcd euwíei* TeyÇa; 



— iOl — 

Aefjiaç, áy^oXaiç ^è xoúpviv 
KaTÍyíúv, Kiíirptv áetòw. 

Ot' iyíú Tzífú tÒv otvov, 
Yirò xupToTcrt xuicA^oiç 

TÒv èjJLOV VÓOV ÍT^káGOLÇ^ 

©lácrct) Tép7ro[/-ai xotípcov. 
Ot' èyò) iríco tòv oIvov, 

TOUTO [JLOt (JLÓVCJ) TO xépíoç , 

Tout' iyiú Xaêíi)v aTTOÍdO). 
Tò ôavetv yàp [/.eTa luávTcov. 



39. 



O QUE VAL NA VIDA. 

Quando vinho bebo, raia-se-me o peito ; 
converso co'as musas. 

Quando bebo vinho, conselhos engeito, 
e ás auras confusas cuidado e pezar 
atiro, que os sumao, por longe, no mar. 
Suave delírio me trava do siso. 
Rescendem-me flores ; 



- - --" :2gu|f|||||^^^_,^^^_^ 



— 102 — 

coroo -me, danso, canções improviso 
aos bons bebedores, (|ue sabem viyer 
no brando regaço do fácil prazer. 
Depois de bebido, de essências me inundo ; 
e assim perfumado, 

aperto em meus braços, comigo confundo 
corpinho encantado de moça, que vem 
ás festas de Yenus comigo também. 
Depois de esgotada, com toda a franqueza, 
a taça espaçosa, 

alegro os amigos, conversa-se á mesa, 
das horas se goza ; que em torno de mim, 
havendo bons vinhos, é tudo um festim. 
Negócio, sem risco, só este concebo, 
só este que eu faço ; 

aqui tudo é lucro, pois lucro o que bebo ; 
no rápido espaço da vida mortal, 
só isto se colhe, só isto é que vai. 



— 103 — 



f-'. 



EI2 EPfíTA. 

Epwç ttot' èv póíoioi 
Kot[jt.&)[/.evy)v jxCkiTTOLV 
Oujc eííev, a^>.' érpófiv). 
Tòv íájCTuXov iraTayÔelç 
Tãç yfitpoç, à>.oXo(;6' 
Apa[JLà>v íè xal TreTacrÔslç 
IIpò; r/iv )ca^7)v Kuôvípviv. 
" Õ^(o>a, [Ji^Tfip, " elTTfiv, 
« Ô^tó^.a, )tá7roOvTÍGX&). 

« Õçtç (/-' eTU^S [Al/CpÒç, 

»» MáXtTTav 01 yg(opyot. » 
\ &' etTrev • « Et tò jtcvrpov 

« lIoveTç TO TÓCÇ [JLsXtTTaÇ, 
" IloCOV ^OXEIÇ TTOVOOfftV, 

« Epcoç, offou; (JÍ) páX).etç: » 

40. 
O AMOR E A ABELHA. 

Amor um dia 
rosas colhia; 



— 104 — 

nâo altentava 
que uma occultava 
o leve insecto 
que suga o mel. 

Trépida zune 
a abelha, e pune 
co'o vivo espinho 
o alvo dedinho 
d'esse indiscreto, 
com dôr cruel. 

Amor, gritando, 
parte chorando , 
vòa ao materno 
regaço temo, 
e alça, mesquinho, 
querella tal : 

— « O' mãi, soccorro ! 
« Vale-me! eu morro!... 
« Vê ! vê ! que dores ! 
« N'aqucllas flores 
« um dragãozinho 
«< me fez o mal ; 

« fera mui brava, 
« mas que voava 



— Í05 — 

« co'umas azinhas 
«c como estas minhas ; 
« abelha a chama 
« o lavrador. » 

— « Se uma abelhita 
« tal dor te excita, • — 
diz Vénus : — « pensa 
« que dor intensa 
« dão a quem ama 
« farpões de Amor. » 



fjia'. 



E12 SYMnOSION. 

Aiapòv m&)[iL8v olvov, 
Ava[JLeXij;o(X6v &è Bájcj^ov, 

Tòv èçeuffiTÒcv ^opeíaç, 
Tòv oXaç TToÔouvTa [loXicàç, 
Tòv ó(xÓTp07rov EpwTi, 
Tòv èpwjxevov Kuâvípviç, 
Al' ov -n Méôv) Xoyeúh , 
Al* ôv 'fi Xáptç ère/ôvi, 
At ov áfATuaueToti AuTra , 



— 106 — 

Al' õv euvá^er' Avia. 
Tò (zèv ouv TTOjJLa xepaaôsv 
ÀTcaWi çepouct Tcaràe;* ^ 
Tò Ã* ayoç Treçeuye [Jiiyôèv 

Àv6[JL0TpÓÇW ôlieXV/). 

Tò (JLèv o5v TTojjia >fltêcú[JLev, 
Tàç íè çpovTtíaç (/.eOâu-ev. 

1 1 yap satt <Jot TO xepòo; 
Ô^uvcú(iLÍv6> [;.£pí[jLvaiç; 
Ilóôev oiÂa[/.sv tÒ (xeX^.ov ; 
O píoç PpoTOiç i8y{koç, 
Me6Ú(úv 6eX(ú ^op£tj6iv, 
M6[iLupi(;[xévoç ^è TraíÇstv 

Mera xal }ca>cov yuvatxâv. 
MAero) Ãè toI; ÔsXougiv 
Ocrov ECTTiv £v (jiepíjjLvat;. 
l^apoi irta)|Aev olvov, 
Àva[i.€X;{/0[X6v íè Báxyov. 

41. 

GLORIA A BACCHO. 

Rosto alegre e beber, beber vinho e cantar 
o bom do nosso Baecho, inventor do dansar, 



— 107 — 

o amigo das canções, n'uin coro prazenteiro, 
de Vénus o mimoso, o socío ao Deos frecheiro I 
Se a embriaguez vem delle, ufanos confessai 
que ha, das graças no rol, uma de que elle é pai. 
Onde elle entrou, desfez-se o pezar e a tristeza. 
Quando uns mocinhos vejo, em flor de gentileza, 
virem trazer-me, cheia, a taça, em que me ri 
mixto co'a pura lympha o néctar de rubi , 
co'os ventos voar deixo os sombrios pezares ; 
se hâo de dar temporal, dêm-n'o por esses ares. 
Toca a afogar uo vinho o enxame zunidor 
dos cuidados ruins ; quem pôde intVêsse pôr 
em lhes servir de pasto ? o bem ou mal remoto 
é a todos occulto, e o fim da vida ignoto. 
Quero beber, bailar, fragrâncias rescender, 
e com moças louças tripudiar de prazer. 
Rale- se quem quizer ; bebamos nós contentes ; 
cante-se gloria a Baccho, o bemfeitor das gentes ! 

j 

KPllTIKON. 

íloOsO) [/.àv AlOVUGOU 

<ttXo7uaty(Jiovoç J^opeta; • 
^Ckétú 8\ OTav gÇ'^'éou 
Mera <ju[jL7rÓT0u >upí^a). 



— 108 — 

Xreçavíçjcouç Ã* uaxívOcov 
KpoTaçoKTtv âjjLçiTç^eÇaç, 
Mera Tuapôevwv áôúpetv 

$6ÓV0V 0Ú3C olS' efJLÒv lÍTop, 
ÍÔóvov oOjc oíía íaíxTÓv. 
Oi^oXoi^opoio y'X(í)TT/iç 
^euyco páXe[JLva scouça. 
2Tuyá(o {/.aj^a; Tuapoivouç 
no^u}ca)[JLOUç xará ÂaiTaç. 
Neo6Y)>.ÍG' à(xa xoúpat; 
YtuÒ PapêÍT(j) j^opeucúv, 
Btov YÍcru)^ov f €pa>[JLev. 



42. 



A VIDA A MEIO PESO. 

Pois Baccho ama os jogos, seus coros eu amo. 
Ao pé de convivas, de buço a apontar, 
da lyra suave meus versos derramo. 

Inda acho mais doce na fronte enlaçar 
mimosos jacinthos, e entre alvas donzellas, 
bem puras» bem lindas, correr e brincar. 



— 109 - 

Invejas?... que invejaâ!... que tenho eu com ellas? 
Que roão nos outros, se querem roer. 
Más línguas detesto, jamais gostei d' ellas. 

Das mesas grosseiras nâo posso soffrer 
os ralhos e as rixas ; não quero que a ira 
de mateis delicias que gera o beber. 

Dansando com moças ao rhythmo da lyra, 
ranchinho em que as graças apontão em flor, 
ao peso da vida metade se tira ; 
o resto é jâ leve ; supporto-o sem dôr. 



f*Y'- 



EIS TETTirA. 

Ore ísvSpswv st;' a^cpcov 
ÒXtyTiv ípocrov TreTwWJcwç , 

2à yap ígti xaivá Tuavra, 
Òiuóca pXé^ei; ev áyporç, 
X' ÓTTOda yepouctv líXat. 
2u íè cpiXía yecopywv , 



— 110 — 

Attò [JLYlÒeVOÇ Tl pXáTTTtoV 

2u íè TtJJLlOÇ PpÔTOldlV , 

6£peoç yXuxuç irpoçYÍTVi;. 
4>iX^ouot [i.ev cre Mouaat, 
4>iXeet ^è $oi6oç auTÒç, 
Atyupíiv &' e^cúxev ot[jLYiv. 
To Ãè yípa; oíí ae Teípet. 
2oçè, yviyevviç, çt^uirve, 
À7;aÕY)ç, ávai[JLÓ(7oepxe , 
2^8 íòv £1 Osoiç 0(/.OlOÇ. 

43. 
A GIGAUHA. 

Feliz cigarra, invejo-le ! 
Pousada lá nos píncaros 
treslas folhudas arvores, 
que bem que te has de estar ! 

Gòtta de orvalho niinima 
te sobra dé Castalia ; 
que do Parnaso aos cânticos 
desbanca o teu cantar. 

Quanto nos dias plácidos 
os campos têm de flórido. 



— Hl - 

de ameno, de fructifero, 
dominas ! tudo é teu ! 

A amiga és tu do agrícola ; 
para ninguém maléfica; 
por seu arauto musico 
o estio te elegeu. 

Estimâo-te as Piérides. 
Ama-te o nume delpliico ; 
D'elle te veio em dadiva 
esse primor de voz. 

Da torra ó filha ingénua ! 
A todos tào sympathíca ! 
Exempla dos descommodos 
que pesao sobre nós ! 

Toda fervor poético ! 
Em hymnos sempre extáticos 
soltando de continuo 
delicias musicaes ! 

Leve, subtil corpúsculo ! 
Quasi incorpóreo espirito I... 
Dás-me ares, minha ah*gera, 
dos entes immortaes. 



— 142 — 



í^a', 



ONAP. 



ÈÃoxouv ovap Tpoj^á^etv, 
IlTépuya; çepwv ex* âpicov • 
O Ã' Ép(oç, e)(^(tív (JLoXiêíov 
Ilepl Totç JcaXotç tcoÃúdcoiç , 
ÈÃícoxe zat xtyavev. 
Tt ÔeXet S' ovap toS' eívatj 
Aoxew í' eycoye, 7:o>.'Xorç 
Èv Épwdi [jie TuXaxívTa, 
Âto^iGOaveiv [iièv oXXoiç, 
Evl TcjiÃe ffuvíeôívai. 

44. 

SONHO-REALIDADE? 

Sonhei que andava, alígero, 
por campos a correr ; 
de chumbo amor calcado, 
trás mim todo açodado 
lidava em me colher... 

Colheu-me. Que prognósticos 
estes serno!... já sei : 



— H3 — 

rompi mil outras redes, 
mas doesta em que me vedes 
jamais me soltarei. 



as'. 



EIS TA TOY EPllf 02 BEAH. 

O ávYip ó TTiç KuôvípYi; 
Ilapà AY)[/.víaiç xajJLtvotç 
Tà pe>.TQ Ta tõv ÈpcÍTCôv 
Èwoei, Xaêtóv dí^Tipov. 
Àxi^aç Ã' lêaTTTe KuTTpiç, 
MeXi TO yXuxu >.aêoijí(ra • 
O Ã' Ép(i>; yoX-Av l[xi<yyev., 
Ó Ã' ApYiç, iroT è$ áiiTÍç 
^Tiêapòv Âopu xpa^aívcov, 
BáXoc euTáXiC ÉpcoTOç * 
O Ã' Epo);, « To§' ácTTiv » eíirev, 
« Bapú • ireipácra; vovícretç. » 
EXoe^ev páXejjivov ApYi; • 

T77e[JL6l^ía(76 KÚTCptÇ. 

Ó &* ApTjç áva<JTevá$aç, 



8 



^^te 



--'-' -- '*^^^^'*-- -"^ - -- - — ■*-'-» 



— il4 — 

« Bapú ! »» Ç7)(jtv • « apov aOxo. * 
O í' Épo);, « Éj^' auTÓ », ©Yiaív. 



45. 



CUPIDO E MARTE. 



UxM dia o marido da bella Cyprina 

de aceiro forjava na Lemnia oflficina 

a usada encommenda das setlas do Amor. 

Cyprina em mel puro tempera-lhe as pontas : 

Cupido, após ella, deitando outras contas^ 

em fel as re tinge, de acerbo amargor. 

Eis entra Mavorte, que vem da matança ; 

e, ufano brincando co^o peso da lança, 

de arminhas tâo leves escarneo lhe faz. 

— « Sao leves ! Nem todas (responde o frecheiro). 

« Talvez que mal possa com esta um guerreiro. 

« Ahi tens ; expVimenta ! Depois m'o dirás. » 

Mavorte a recebe da mâo do menino. 

Cyprina surri-lhes (surriso divino !). 

Mavorte suspira : — « Que peso que tem ! 

« Nâo posso com ella. Retoma -a, Cupido ! » 

Cupido zombando lhe volve atrevido : 

« — Conserva-a comtigo, que está muito bem. » 



— 115 — 



f^ç'. 



E12 EPfíTA. 

XaXewòv to [xtí ^iXídar* 
Xa>.eTCÒv §è xai çiXficrai • 
XaXewwTepov íè TrávTcuv 
ÀiroTuyj^aveiv çiXouvra. 
Fívoç oòÃèv et; EpwTa • 
2o<pÍYi, Tp()iro; iraTEtTat • 
Movov apyupov ^Xeirou^tv. 
ÀtcoXoito TTpíOTo; auTÒ; 
O tÒv apyupov çiXyída;. 
Aià TouTov ou/C áSeXçòç, 
Aià TOUTOV ou Tox^e; . 
noXe[j(.oi, çovoi, íi' auTOv. 
TÒv íè x^^pQ^i óXXújJLSdôa 

Alà TOUTOV ol ÇlXoUVTÊÇ. 

46. 

O AMOR E O OURO. 

O não-amar é custoso; 
custoso é também o amar: 



— 4!6 - 

porém custo redobrado 

é amar . . . e o objecto amado 

nâo podermos alcançar. 

Nos amores, hoje em dia^ 
nobrezas' nâo têm valor ; 
virtude a ninguém conquista ; 
o que attrahe, que prende a vista 
é só do ouro o esplendor. 

Mal haja o que ha dado ao ouro 
primeiro a sua aífeiçâo ! 
Doesse impio metal o brilho 
inimisa o pai co'o fílho, 
separa o irmão do irmão. 

Gera guerras e homicidios . . . 
Mas de tudo o mais atroz 
é que aos pobres amadores 
d^elle nascão tantas dores. . . . 
ai tristes, tristes de nós ! 



— 117 — 

EI2 TEPONTA. 

$tX(3 yípovTa Tepicvòv, 
4>tX(õ víov yopeuvív- 
ríp(i>v Ã', orav j^opetív), 
Tpíj^aç yepcov |jl£v ècrriv, 
Ta; ^6 f peva; veá^ei. 

47. 

QUE É VELHICE? 

Um velho alegre me apraz , 
e apraz-me um rapaz bailando. 
Das cans a côr pouco faz ; 
velho, que baila cantando, 
parece velho, e é rapaz. 



£12 AIONTSON. 



Ó tÒv 8v iróvoi; áxetp^ 
Náov, iv Tcáôoiç árapêí, 



ir 
1. 



— H8 — 

RaXòv èv TCOTOiç j^opeuriòv 
Tc^íwv, ôeò; xaríXôcv 
A^caV-iv PpoTowi çíXrpov, 
lloõov adTOvov, xo|x.í^a)v 
Fovov áp-ireXou, tòv oívov, 
ne77e^Yl[x.^vov Ô77(opatç 

Iv\ OTaV T5(AVa)(Tl PoTpuv , 

Avocoí ftévcocri wávTc;, 
Ãvodoí íeaaç ôyjYiTÒv, 
Ãvocroi yXuxúv xe ÔjjjlÒv, 
È; cTOu; çavevToç oX^ou. 



48. 



O OUTONO. 



O nume, que aos moços redobra vigor, 
que os torna mais vivos nas guerras do amor, 
mais prestes na dansa, mais ledos á mesa, 
Thionéo, já là desce co'a doce riqueza 
d'aquelle seu philtro que aos pobres mortaes 
dissipa os cuidados! o bem, que aguardais, 
o néctar, ó sócios, já lá se adivinha 
nos cárceres verdes da túrgida vinha ; 



— 119 — 

por orn, está preso ; mas cai lios em flor 
jâ dão antegostos do mago licor. 
Oh ! quando crescidos;, maduros, corados, 
lustrosos, fragrantes, os virmos cortados 
co'os verdes sarmentos para ir ao lagar • . . 
de que alma saúde nôb se ha de gozar ! 
Ai ! quadra das quadras ! outono festivo ! 
Nâo tardes ! nâo tardes ! em ti é que eu \ivo, 
Chegando as vindimas^ parecem nascer 
nos corpos as forças, na mente o prazer. 



ue'. 



KIS A12K0N EXONTA AOPOAn HN. 



Apa Ti; Topeuae ttovtov, 
Apa Tiç [JLavetGa rej^va 
Aváj^eue xOfxa Ãícxco 
ÈttI vwTa TYÍç ÔaXaTr/jç ; 
Apa tÍç UTcepOe }.euxàv 
A7ra>.áv jç^ápaÇe Rúrpiv 
Nooç gç Geou; áepôsiç, 
Maxápa)V çúctoç ápyáv; 



— 120 — 

O 8é viv eJeiÇe yu[iLvàv, 
X* Saa [íly) Oefxiç ^' ópaorOai, 
Mova xú[x.a<7iv xoXoirreu 
ÀXa>.7i(JLeva í* èir' auTa^ 
Bpúov tà; uTcepSe Xeuxòv 
ÀTraXoy poouç yaXyívaç, 
A6[x.aç Èç tcXÓov f apouca, 
PÓ610V TapotOev eXx6i. 
Poíécov í' íÍTrepôe [iia^cõv , 
Àica^^ç Iv6p6e ^eip^ç, 
Meya xO|x.a i:fma TgjJLVci. 
Míaov auXaxoç ^è Kuirpiç, 
Kptvev (úç ioiç éXij^ôèv , 
Atafaíverat yaXTQvaç. 
Yirèp ápyupo) í' oj^ouvTai 
Em Ãe>.çt(rtv j^opeuTaíç 
AoXepòv voov [xepoircúv 
Epoç, lp.6poç, yeXtóVTEç, 
Xopòç íj^ôútóv Te xupròç, 
ÈttÍ xujxaTcov XuêlGTWV, 
na<pÍY)ç Ta (7(o[j(.a irai^ci, 
Iva vYÍj^erai yeXwcra. 



— i21 — 



49. 



SOBRE UMA EFFIGIE DA VÉNUS MARINHA. 

N'£STA medalha esplendida, 
^ que engenho sobre-humano 
encerraria a túmida 
face do infindo Oceano ? 

Que portentoso artífice, 
cheio de luz divina, 
o aviventou co'a Cypria 
figura alabastrina, 

com Vénus, filha e júbilo 
do liquido demento — 
Vénus, de quem celícolas 
houverão nascimento? 

Somente o que é mysterio 
lhe esconde a lympha sua : 
fartâo-se os olhos ávidos; 
em tudo o mais é nua. 

A onda a embala plácida, 
como embalar costuma 
em calmaria tácita 
floco de argêntea espuma. 



— 122 — 

O corpo esbelto e cândido 
nas aguas estendido 
fende, co'o seio túrgido, 
o pego adormecido ; 

e as vagasinhas languidas, 
que o seio ergueu ante ella, 
voltâo a depor ósculos 
sobre cerviz tâo bella. 

Entre violetas lyrio 
parece á flor do mar, 
buscando a vaga próxima, 
que se ergue e a vem buscar. 

Do mundo inteiro os déspotas. 
Amor, audaz Desejo, 
sobre os delfins do séquito 
na prata expressos vejo. 

Peixes em copia innumera 
brincão cercando o lindo 
corpo da Deosa Paphia, 
que os olha e se vai rindo. 



— 423 — 



V . 



i:i2 PO AON. 

2TcçavYi<popO'j |x.eT ípoç 
nEXo[xai pó^ov Tápeivov 
SuvÍTaipov òÇu (xíXireiv, 
TóÃe yàp ôefiSv aYi(JLa, 
Tóíe xat PpOTÔiv yápYi[iLa, 
Xápicrív t' ayaXji.' ev wpaiç 
no>.uav6£(ov Èpárcov, 
À<ppoSt<7t({v t' aOup[iLa. 
TóÃe >cal [x.£XY)[JLa [xúôoiç, 
Xapísv çuTov T6 Moucôiv. 
rXuxí) )cal TTOtoijívTt Treípav 
Ev áxavôívaiç áTapTuoi; • 
rXuxu Ã' a& ^aêóvTi, ÔáXweiv 

IlpoaáyovT' ÉpwTo; avôo;. 
Àaoyo) tÓÃ' aÒTÒ TepTTvòv 
GaXíaiç re xal Tpairí^at;, 
Ãiovuoríaiç O* éopTatç. 
It ò aveu poòou yevoíT av; 
PoÃoSáxTu>.o; (xàv Hw;, 



— i24 — 

Poiáyfouç Âè xáf poeira 
Ilapà Tâv oofâ)V xáXeiTai. 
Tó^e xai vo<Toi<7iv ápxet, 
Tó^e xai vexpotç á|jLÚv6i, 
ToÃe xal XP^^^^ Ptaxai. 
Xapíev ^óÂ(i>v Ãè yfípa; 

Xapoiníç ot' èx ôa^ádoviç 
AeÂpoa(i>[JLév7)v KuOyfpy)v 
EXo^eue itovtoç i^f^j 
noXe[x.ox^ovov t' ÀÔtívyiv 
Ropuf ^C e^etxvue Zeuç^ 
^oÇepíiv ôéav ÒXujjltuíj), 
ToTC xai poòcúv ayYjTwv 
Náov ?pvoç ívôide Xôà)v, 
Ilo^u^aí&aXov Xo^eu[j(.a • 
Maxápa)v Oeâv ^' õpXoç, 
Póíov àç yívoíTO, vlxrap 
ÈwTeyÇa;, áverei^ev 
Àyípwj^ov e$ áxávônç 
ÍutÒv ájjLêpoTov Auato). 



— 125 — 

HYMNO A* ROSA. 

Primavera graciosa, 
volve a nós engrinaldada ! 
Vou cantar na lyra a rosa 
delicada ; 

da mâi das flores 

a flor amada. 

D'entre os flóridos cardumes 

rosa é hálito de numes ; 

aos mortaes rosa fascina ; 
predomina ; 
diadema às graças, 
brinco a Erycina. 

Cara a todos nossos mythos, 
é das musas festejada ; 
d' entre espinhos infinitos 
quanto agrada 

irmos furtai- a, 

tenra e corada ! 

Quem n'a traz diz que é ventura 
na amorosa mão retél-a, 
e entre os dedos com brandura 
revolvêl-a. 



— 126 — 

Meiga alvorada 
nâo n'o é como ella. 

Praz a rosa ao que tem siso ; 

faz a gloria de uma festa ! 

n*um banquete adorna o riso; 
a amor presta ; 
bacchicas pompas 
que sab sem esta ? 

Róseos tem a Aurora os dedos; 
braços róseos a Napéa ; 
nos poéticos segredos, 
sempre a Déa 

faces de rosa^ 

foi Cyiheréa. 

Mal nenhum resiste á rosa ; 
rosa as campas guarda, enfeita; 
rosa é velha e inda se goza ; 
nao se engeita; 

inda é, no aroma, 

joven perfeita. 

Vou contar seu nascimento : 
Já do mar, que azul se ria, 
tinha o salso espumeo argento 
posto ao dia 



— 127 — 

Veiuis, que espumas 
alva escorria; 

Já da fronte omnipotente 
Palias férvida sahíra : 
divindade armipotente, 
sempre em ira, 

que estragos, mortes, 

fogo respira ; 

quando a terra, em competência 
de prodigios tão fallados, 
fez brotar, por excellencia, 
de seus prados, 

a rosa cheia 

de mil agrados. 

Porque a rosa fosse rosa, 
quanto rosa ser podia, 
cada nume á já formosa, 
á porfia, 

dentro em seu néctar 

banhava e ria. 

Eis a origem dos primores 
com que a rosa na campina, 
em seu throno de rigores 
é divina ; 



— 128 — 



e assim lhe querem 
Baccho e Cyprina. 



va'. 



EIS OINON. 

Tòv (le^avoj^pwTa Porpuv 
ToikifOiç fepovTSç áv^peç. 
Mexa irapãávcúv, ètt* â|JLCt)v 

Movov ápaeveç irarou^iv 
SraçuXív, XúovTeç olvov. 
Meya tòv Oeòv jtpoTouvreç 
ÈiriXiQvtoiatv upLvotç, 

EpaTOV TPtOotÇ ÓpÔVTSÇ 

Neov áç ^eovra Báxjrov. 
ôv orav Tctri yepatòç, 
Tpo(JLepotç Tcoatv j^opéiíei 
IloXtàç Tptj^aç Ttváaawv. 
O 5è TuapÔÉvov Xoj^TQffaç 
ÈpaToç vEoç eXuGÕstç, 
ÀiroXòv èé[LOLç j^uÔetcav 



— 129 — 

2)cteptôv uirspOe (puX^cov^ 
Beêapr,[JLevYiv èç ííiuvov, 
Èç epwT' awpa ÔeXyet 
TIpo&ÓTiv yá[/.<ov yevEdÔat. 
O íè, (jLvj ^oyotGt TcetÔíov, 
ToTS piin ÔeXouaav ayj^at • 
MezoL yàp vewv ó Báxj^oç 
Meôucúv araxTa Tcaí^et. 

51, 

VINDIMA. 

Curvo o dorso com cestas de cachos, 
correm lestes muchachas, muchachos, 
co'os thesouros da vinha ao lagar. 

Cantão mocos de Baccho os louvores, 
entre a espuma dos rubros licores 
jubilosos a uva a calcar. 

Cada ancião que d'alli sahe bebido 
vai, já outro, das cans esquecido, 
os pés frouxos na dansa agitar. 

Entretanto um feliz namorado 

busca a moça em quem pôz seu cuidado, 

e que ás sombras se foi reclinar. 

9 



V 




-- 130 — 

Despertou a... supplíca piedade. 
Meigo implora o que a surda beldade 
quer inteiro a hymenéo consagrar. 

Quer, mas como? Por mais que resista, 
surda aos ais a violência a conquista. 
Logra Amor a Hymenêo desherdar. 

A que excessos nâo podes, ó Baccho, 
junto a Amor, qual velhaco a velhaco^ 
gente moça brincando arrastar ! 



v^S'. 



KIS EAYTON. 



Õt* èy(o ^6 víoiç é|AiXouvT' 
Èdopco, irápcdTtv ííÇa. 
ToTE 8iiy tot' èç j^opeÍTiv 
Ò yfipwv èyè) 7irT6poíi{i.ai. 
nept|jLetvov [AS, Ruê^fêa. 
Ilapá^oçy OeXcd aTé<pe(7Õat * 
IloXtòv íè yípaç sjcáç • 

NÍOÇ SV V80tÇ yOfBÚGtí). 



— 131 — 

AlOVUffÍYlÇ &Í (AOt TtÇ 

depara) poov aTC* oTCÓf/iç, 
Iv' íÍt) yepovToç áXxíiv, 
Ag§ay))toTOç (xèv etireiv, 
Aeíar,)toToç íè Trtvetv, 
XaptávToç ^è (xavYivoet. 

52. 

AI, KYBEBAl 

Em te eu vendo, assim louquinha 
entre a alegre mocidade, 
já me esquece a idade minha, 
já nâo tenho a minha idade. 
Já sou outro do que fora... 
Aí, Kybeba, ai tentadora ! 

Já tenho axas para as dansas ; 
dansar quero; aguarda um pouco ! 
I)'essas rosas que ora entranças 
me engrinalda, que estou louco 
Ai, Kybeba, ai tentadora ! 
Dos meus annos és senhora. 

Fora as cans, fora a velhice ! 
Co'os mancebos sou mancebo. 



\ 



Lá verás se o que te eu disse 
lhes não cumpro, e danso, e bebo. 
Ai, Kybeba, ai tentadora, 
venha a taça inspiradora ! 

Mostrar quero aos mancebinhos 
quem é valido, eloquente ; 
quem tem estro para os vinhos ; 
quem delira amavelmente. 
Eis o velho, ó seduetora, 
de que Amor te fez senhora ! 



vy'. 



EI2 TOrS EP11NTA2. 

Ev í(7J^t0tÇ (XeV tTTTTOl 

Kai riapGtoi»; Tiç ávípa; 
Èyv(opt(y8v Tiápaiç. 
Eyo) Sè Touç spõvTa; 

E/ou(7t yap ti ^ctiTTov 




— 133 — 



53. 



PINTA DOS NAMORADOS. 

Pela marca de fogo impressa n*um cava lio 

é facil estremai- o; 
como é fácil dizer de um homem com tiara, 

que a Parthia o procreára. 

Pois eu, quem tem amor de súbito o adivinho 

por certo signalzinho, 
que me inculca por fora o que ha de interna ardência. 

Digão lá que não serve a larga experiência ! 



FIM DA LTRICA DE ANACREONTE. 



4"l U. 



:i* 



CONSTANTINO, 



REI DOS FLORISTAS. 



Sob as profundas arvores, 
reino dos meus penates, 
onde de Roraa e de Attica 
devoto hospedo os vates, 
do meu rosal ao hálito 
sonhava Anacreonie. 
Eis vejo o velho a rír-se-me, 
rosas na calva fronte, 
na mão dourada cythara, 
todo a exhalar perfumes, 
míxtos de myrtho e pâmpanos 
de Baccho e Amor, seus numes. 



— 136 — 

Da mesa dos celicolas, 
onde esgotara as taças, 
volvia á terra flórida 
na alva estação das graças, 

pois Yenus fulgentissima 
da beira do horizonte 
com languido murmúrio 
chamara Anacreonte. 

Sobre a cortiça rústica 
sentou-se-me fronteiro, 
pés nas violetas mórbidas, 
de costas ao loureiro. 

E em brando som, que aos zephyros 
doçura ensinaria, 
ou disse, ou no meu extasi 
sonhei que assim dizia : 

« Já que te inspira 
a primavera, 
que amei também, 
renova a lyra ; 
surge, e a Cythera 
comigo vem ! 
Echo amorosa 
sabe inda cantos 



— 137 — 

que eu lá brinquei ; 
vem ! d'elles goza ! 
Em seus encantos 
te endeosarei. » 

£ eu, cedendo ao seu convite, 
fui trás elle, no meu sonho, 
dos Amores e Aphrodite 
ao paiz almo e risonho. 

Echo, a nympha namorada, 
logo alli reconheceu 
na selvática morada 
ser entrado o cantor seu. 

Vio-lhe cans, quaes lhe não vira 
quando as mágoas lhe narrava - 
mas, fiel a amor e à lyra, 
vio que a mente lhe viçava ; 

vio que inda era um dos amantes 
da canora primavera, 
um cultor, qual fora d'antes, 
da poética Cythera ; 

e então, meiga e complacente, 
fez-me os cânticos ouvir . 
que do amável indolente 
decorou para o porvir ; 



^^^-— -* — . — .-..-^ 



— 138 — 

os quaes logo no meu peito 
novos échos despertando , 
no som luso, ao Pindo aceito, 
vao co'as auras adejando : 

Era a turba dos Cupidos, 
erâo dansas folgazãs, 
Baccho em thalamos floridos, 
culto e festa ás nove irmãs ; 

era a gárrula andorinha, 
era a pomba mensageira, 
o rosal, a murta, a vinlia : 
tudo á sombra da oliveira ; 

era a estridula cigarra, 
recatada e tão feliz, 
e os cuidados já sem gana, 
e inda as brancas juvenis ; 

e as beldades aos cardumes, 
e a riqueza sem tliesouros; 
e um cegar d' inveja aos numes, 
e um surrir até dos louros. 

Era a infância, era a innocencin, 
n'um continuo renascer; 
e uma eterna imprevidência 
n'um fadário de prazer. 



— 139 — 

Quem a taes seducções resistira ! 
« Sol da Grécia, bradei, tu me inspira! »» 
Per si mesma enflorou-se-me a lyra, 
e os cantares que ouvia entoei. 

Mui feliz, se em meu languido metro 
dei uns longes ao menos do plectro 
de quem teve das Graças o sceptro, 
de quem foi nas delicias um rei ! 

Odesinhas de amor, immortaes borboletas, 
lindas filhas do nada, assim como as violetas, 
que sois vós no vergel immenso da poesia ? 
sois como ellas aos pés da matta espessa e fria : 
nuncias da primavera . Ao inoço e á namorada^ 
que importa o duro tronco e a altíssima ramada ? 
vão co'os olhos na relva á busca da violeta, 
e correm cá e lá seguindo a borboleta. 

Volitai, volitai, mariposas doudinhas ! 
(mas sois d'Anacreonte ; olhai que nao sois minhas). 
Onde é que heis de ir pousar ? No seio das três bellas 
irmãs de Amor? mas vós vindes dos seios d' ellas. 
Nos vasos dos festins? é pouco. Sobre a aljava 
do Amor? o fero Amor do vosso rir se aggrava. 
Onde pois ? n'uns jardins que o próprio Anacreonte 
quereria habitar... tanto do estro a fonte 



i 



— 140 — 

esplendida os fecunda, os enche de belleza, 
e andíio n'elle rivaes a arte e a natureza. 

Eia ! aos jardins de Constantino, 
cantos de eterna mocidade I 
ao novo elysio, em que o destino, 
por um condão raro e divino, 
concede á flor perpetuidade ! 

Não conheceis o feiticeiro, 
que iguala e vence a mesma Flora ? 
Este Vertunmo verdadeiro ? 
Anacreonte, a quem adora 
maravilhado o mundo inteiro? 

Ouví-me pois ; e a grega musa, 
que tantas fabulas dourara, 
confesse attonita e confusa, 
que a extrema terra, a terra lusa, 
maior portento hoje depara. 

Paris, esta (ilha da obscura Lutecia, 

a Athenas do mundo, maior que a da Grécia ; 

Paris-Babylonia, Paris a vaidosa , 

monarcha das flores o acciama, e se goza 

de o ver em seu grémio furtar-lhe um trophéo ! 

Sim, foi aqui mesmo, que as mãos triumphantes 
do génio brotado lá sob o meu céo 



— 141 — 

logrei entre as minhas colher palpitantes ; 

e ufano exclamei-lhe : «« Meus versos de amores 

a ti se consagrem, poeta das flores, 

a ti, summa gloria dos montes nataes. 

Meu nome ao teu nome d'est'arte enlaçado, 

zombando do tempo, da inveja, e do fado, 

irá d'entre os astros fulgir aos mortaes. » 

Portugal! Portugal ! que de grandezas, 
não procria o teu âmbito apertado ! 
Que musa excede ás musas portuguezas ? 
qual deu pelo orbe mais fastoso brado ? 
Aos teus heróes das máximas emprezas, 
tinha-os de palmas teu Camões coroado ; 
ás Bellas tuas, e às do mundo, agora 
cinge teu Constantino os dons de Flora. 

No Mantuano cantor e no Meonio 
teve porém Camões predecessores ; 
e nunca a inspiração do coro aonio 
deixou jamais de eternisar cantores. 
Antes de Constantino, só Favonio, 
Cybele, e Phebo, produzião flores ; 
Constantino as produz não menos bellas, 
e de igual viço, e de mais vida que ellas. 

O destino 
deu às rosas 



— 142 — 

ser formosas, 
nada mais; 
Constantino 
sublimou- as 
a coroas 
immortaes. 



Quem te deu tal condão, sciencia, industria, p\x magica, 
artista creador, sem medo a imitadores? 
Roubaste vivaz fogo á azul morada olympica, 
ó Prometheo das flores? 

Não : foi, certo, amiga fada, 

quem, movendo áurea varinha, * 

em purpúrea madrugada 

ao teu berço debruçada, 

te abraçou, te foi madrinha. 

Dulci-olente o seu bafejo 

entre os sonhos da innocencia 

se enfiltrou em ti n'um bejo; 

fez-te da alma etherea essência, 

deu-lhe os sylphos por cortejo ! 
« Cresce, infante, « 

disse entào a voz amante, 

«• Cresce, infante, e reinarás. . . . 

Vida sempre reflorida, 
seja a vida 

que te eu fado em gloria e paz. » 



'i 



■ A. ' ^ . 



- H3 — 

Cumprio-se : eis-le occupaudo um sólio florescente 
rodeado de amor na capital do mundo, 
co'as mulheres por corte, e moço eternamente, 
n'uma aurora sem termo, e sem cansar fecundo! 

Vai, progride, até que um dia 
já te canse a gloria immensa 

d'esla esplendida Paris; 

pensa então na pátria, e pensa 

nos teus montes, na poesia 

dos teus annos infantis ! 

Flor das almas, a saudade, 

dentro em ti reverdecida, 

pedir-ie-ha que a vás depor 

onde, em mansa obscuridade, 

a matriz da tua vida 

rebentara em cliâo de amor. 

Sim, a terra do estrangeiro 

doure embora os dias nossos, 

tudo e tudo offerte em dom ; 

que onde o olhar se abrio primeiro 

é só lá que ameno aos ossos 

cobre o teixo, e o somno é bom. 

Longe funéreas arvores ! 
O dia é só de flores. 
Voai, meus leves cânticos, 
do sol nos resplendores. 



iiaf tuàna do cncnntudur, 
iinn niiius n que inil UM:it1<i 
graio daria Amor. 



Artokio [-"bluíuno hv, CASTILHO.