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Full text of "A mocidade de D. João V, romance"

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dbyGoOgi- 



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MOCIDADE DE D. MO V, 



POK 



X.. A. REBELLO DA SILVA. 



TOMO I. 



LISBOA 

TTMflBAiPHIA DA BBTISTA DNlVlUSAt 
' Rua doi Fanqueiros, 8S 

18S1 

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lOAN STAOC 



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f ^Sl 



DUAS PALAmS BR lIPUaçÂO. 



EscRETBNDO esta noTdla, o auetor protesta 
que Bio quíz fazer senão um romance. 

Serft pouco» nSo duyida , mas contenta-se. Se 
a leitura entreter e as scenas não desagradaram^ 
fica tão satisfeito, como se lhe coroassem o li- 
vro dos louros ressequidos, que teem andado 
por todas oraçSes da praça publica, desde Mãsa- 
oiello até Jeronymo Paturot, de ridicula memo* 
ria. 

Depois de acabado este quadro, quasi familiar, 
dos costumes portugueses no século XVIU , de* 

" íl 000 r I 

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II 

via conformar-se á moda e encarregar os perso- 
nagens de um papel philosophico-social , profun- 
damente regenerador. Apesar do lustre , que o 
romance podia receber da sua novidade, resistiu 
á tentação ; sempre entendeu que a arte nâo pre- 
cisa do foro pequeno da politica para ser a pri- 
meira entre as illustrações intellectuaes. 

O que o famoso romancista escocez conseguiu 
fazer dos seus heroes , procurou o auctor imitar 
de longe a respeito das figuras deste ensaio. O 
seu desejo era animal-as de modo , que , portu- 
guezas nas feições, nas idéas^ e no viver, en- 
trassem facilmente na intimidade do publico , 
como amigos, ou conhecidos seus antigos. 

O seu receio é da ter ficado ainda muito atraz 
da realidade poética ; por isso que na passagem 
do mundo ideal para a manifestação do mundo 
positive raras vezes é conservada a admirável 
similhança , que faz a gloria de todos os prínci- 
pes da arte. 

 idéa, que houve, desenhando nas horas va-^ 
gas as scenás deste painel imperfeito, era com 
pôr uma espécie de Trilogia que désse-Vulto e 
càr á época essencialmente dramática, que entre 
nós é dominada pela figura do sr. D. João V , 
espécie de rei popular no meio do seu absolu- 
tismo. As qualidades e os defeitos do monarcba ; 



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Ill 



o seu fausto, a âua generosidade, e as paixões 
que se lhe attribuem, indicaram-no como aquelle 
dos nossos reis modernos, de quem o poro se lem- 
braria com mais interesse. Orgulhoso como Luiz 
XIV, e amigo de aventuras como o califa de 
Bagdad, D. João y saiu sempre de todos os encon- 
tros perfeito cavalheiro, e magnânimo Soberano. 

A Mocidade^ que hoje se publica, é apenas o 
prologo de todo o drama. Âs outras duas partes 
mais extensas, mais vivas de acção e de colorido, 
talvez, hão de seguir-se ã exposição (se ella 
for feliz) e completar o quadro, começando pelo 
rei , que na mocidade apparece de longe, e com 
o caracter pouco assente, que a verdura dos an- 
nos ainda exigia que se lhe desse. Dos outros 
personagens , alguns morrem na primeira parte , 
e na segunda, em virtude da sua provecta idade ; 
e os mais interessantes , com as modificações do 
tempo e das idêas, continuam, concorrendo com 
o Salomão portuguez, tão peccador e devoto, até 
aos ultimes annos da sua vida. 

Se este ensaio merecer alguma attenção do 
publico, protesta o auctor não desanimar, e conta 
pôr na tela do romance uma época , a seu vêr . 
a mais curiosa de todo o século XVIII em 
Portugal. Se o livro mergulhar no esquecimento, 
ha de sentil-o infinitamente, mas ganhará ao 

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jMtM ttia desengano atemp<^ ficando, livre para, 
se occupar de coisas maia da eua Tocaçao. 

Depois disto nada tem a accrescentar* Á eri* 
tiea pertence louvar ou castigar o que a obra 
trouxer de bom, ou de m6u ; e sem vaidade nem 
servidão Ifae wirega a sua causa. Nada ha mais 
ínsulso do que a mania de querer à força de pro* 
loquiose de citações postiças, remar contra a opi- 
nião incutindo a leitura do romance ou da poe- 
sia , que o gosto publico oigeitou. 

O milagre de animar as estatuas não cabe nos 
dias em que vivemos, £9te nSo é o século das 
Galatheas e Pigmaliães. Ou a obra tem valor, e 
vive do seu mérito ; ou morre do frio incurável 
da idéa e da execução, caso desesperado que 
não remedeia o vesicatório impertinente de um 
discurso de Gil Anms , aborrecido em todos os 
legares e em todas as questões. 



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MOCIDADE DE D. JOlO V 



CAPITULO I. 

«x X VEilDADB DU UH BltrÃU NO ADRO DE â. DOAUNGOS. » 

— « Ninguém me diga : « eu desta agua n5o 
beberei.» Padre Procurador, nào somos nada 

. neste mundo. » 

— « E' verdade , Thomé das Chagas. Entào 
que quer ? Pagam-se os peccados. » 

— « E eu sem pregar olho toda a santíssima 
noite. . . e vai, e sahe-nos uma destas ! Os nossos 
padres como estão?» 

— « Mortiíicadissimos ! . . . Apesar de toda a 
grandesa de alma isto che^a ao vivo. » 

1 

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2 A MOCIDADE 

— c< Pois nSo ! E o excommungado papel nSo 
haverá meio de se lhe acudir?» 

— «A Provisão do Desembargo do Paço ? Eu 
não sei, por mais que scisme. E' Ccesar in Ccb- 
sare ! Sempre é ir de El^rei para £l-rei. Como 
os padres de S. Roque hão de rir-se a esta hora ! » 

— a Pois elles com isto tem alguma coisa ? » 

— <( Teem tudo, Thomé. V. mercê não per- 
cebe, mas percebo eu. A pedra veio da sua mão ; 
e os padres da Companhia atiram certo. . . Não 
importa! O jogo continua, e no fim se verá 
quem perde. » 

— « Não suppunha. Ora esta ! Com que an- 
dam os Jesuitas no caso 7 d 

— <( Em tudo , irmão Thomé. Nestes reinos , 
faz-se alguma coisa que elles não cubram com 
a sua roupeta ? » 

— « Parece impossivel ! . . . Até no Desem- 
bargo do Paço ? . . . » 

— « Em toda a parte. A Companhia appare- 
ce á cabeceira de Eí-rei, se adoece, no seu ora- 
tório se resa, á mesa dos seus tribunaes se des- 
pacha. . . » 

— <( Então se está em todos os legares? ...» 

— « Sabe e aconselha tudo, é verdade. Só dft 
Santa Inquisição não venceu por ora nada, nem 
hade conseguir, era quanto florescer a Ordem do» 



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BB D. JOÃO V. 3 

Pregadores, institaida para confusSo dos herejes 
e acoite dos hypocritas. . . Aqui tenho o texto 
do primeiro sermão na capeUa real , e qae man- 
dem refutar-me pelos seus casuistas e doutores. , • 
O que lhe digo Thomé das Chagas, é que o pia* 
no dos Jesuítas , o negro e maldicto plano dei- 
les. . . » 

— u Jesus da minha alma ! » 

— <t E^ abolir a Santa InquisiçSo , e enterrar 
nas suas ruinas a ordem de S. DcHoaingos. A in-* 
veja rala-os. » 

— « Por isso as prophecias s3o tantas e o povo 
anda tão inquieto. Sabe V. Rev."* o que^ di- 
zem ? . . . Que bade nascer em Babylonta o An- 
techristo. O certo é que para as bandas da Sé 
apparece já um lobishomem ; e ao pé de Santa 
Engracía qoeíxam-se os visinhos de que sahe. . . » 

— «Um demónio!... Pois atreye^e com 
essa chécha cabeça a prescrutar os altos mysK 
terios de Deus? Não são precisas maravilhas. O 
Antechristo nasceu já. » 

— «Santa Barbara , S. Jeronymo ! Ábrenunr' 
€Ío ! Vade retro ! » 

— Cale-se, homem. Que escarcéos são estes? 
Mas a culpa é minha. Para que lhe estou eu 
a fallar de coisas superiores á sua rasão ? Dei- 
xemo-nos disto. Mas a Provisão, esta. pedra- 



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4 A JIOCIDABÊ 

da na cabeça, hei de ficar assim com alia? Va- 
mos. » . 

— ((Uma esmolinha por alma dos fieis de- 
functos , minha devota ! » 

Gritou o Sr. Thomé, interrompendo eshof^- 
cio o dialogo , jâ cortado pela súbita meditação, 
em que o padre mestre se abismou. 

Em quanto este passeia preocupado e fallando 
só , e aqaelle apara a esmola na pia bandeja , 
observemos de perto os protogonistas da scena. 
Entremos no escorregadio campo da&expUeaçòes 



E' justo principiar pelo mais graduado. 

O mestre Pr. João dos Remédios , da ordem 
de S. Domingos, ex-DeíiAidor e digníssimo Pro- 
curador do convento de Lisboa, era um frade de 
nome na corte e na égreja. A opinião dos eru- 
ditos vaciHava entre elle e o ^adre Chagas, pre- 
gador de grande fama. Se o padre Chagas limava 
mais os sermões e possuia o segredo de commo- 
ver o auditório, o Sr. Fr. João não conhecia emulo 
na vehemencia dos affectos e nas explosões de 
uma voz sonora. Formado ín ulroque jure gosava 
nó foro da reputação de ser um segundo Pegas. 
Se o negocio valia a pena, Sua Reverencia fe- 
chada nariquissima livraria do convento, cobria 
quatro cadernos de papel da sua lettra garrafal , 

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X>E D. JOÃO V. 8 

^ lançava sdbre a parte adversa uma allegaçio 
fulminante , que fazia pular a veneranda cabel- 
leira ao Desembargo do Paço, e roer as unhas 
Bo douto patrono contrario. 

Quando muito, inculcava cincoenta annos o 
sábio procurador; porém a certidão de baptismo, 
menos citada por elle do que as ordenações, 
addfcíonava uns cinco ou seis de mais acinoa da 
conta redonda. — Apesar de gordo, os movimen- 
tos ndo tinham nada de acanhados ou desairosos ; 
« figura era mais vistosa do que esbelta. Arre- 
dondado e muito cheio o seu rosto, com duas 
covinhas aos lados das faces, quando ria, espiri- 
tualísava-se com facilidade ; e a bocca fina e chis- 
tosa dava-lhe grande animação: as mHos bem 
tratadas e macias , e o pé bem calçado e pequeno, 
tinham degancia, e distincção. Já se vé, que 
vivendo no secuk), sem vaidade, podia contar com 
o voto das damas, que é voto absoluto em oh- 
jectos desta importância. 

Sem ser Lavater, custava pouco a notar que a 
applicação constante ás lettras sagradas e profa- 
nas, e o uso do púlpito, imprimiam em sua 
reverencia um cunho particular. As inllexôes e 
os gestos do padre procurador tinham aquella 
exageraçôó theatral , que é uma segunda natu- 
reza para os que faliam em publico muitos annos. 



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6 A MOaDÀ0E 

A estatura seria desempenada, se o trabalho do 
bofete a não tivesse curvado um pouco. O olhar 
teria mais viveza , e o sorriso mais agrado , se 
o primeiro não adormecesse tanto a miúdo, -e o 
segundo brincasse com menos ironia aos cantor 
da bocca. A oscillação do lábio superior, alguma 
coisa grosso, e a das azas do nariz bastante víh 
vas, depunham que o frade doutor não era tão 
humilde e paciente, como o estado monn^tico 
requer. Em fim, grandes entradas em uma testa 
espaçosa e elevada , e a ruga da profunda refle* 
;sSo cavada na frooite , asseguravam que a agu- 
deza do espirito e o talento existiam dli para 
compensarem os defeitos de um caracter sincero 
e forte, mas irascivel e imperioso. 

Mais gordo do que magro, como se disse, 
mesmo até mais obezo do que gordo, a^ cores 
florescentes do rosto eram um testemunho irre- 
fragavel da sua inclinação As doçuras da vida , e 
mais ainda aos prazeres da meza. O Sr. Fr. João 
trazia um barretinho curto, deitado para a nuca, 
deixando assim descoberta sempre a parte ante- 
rior da cabeça, que era realmente bella. A Pro- 
visão do Desembargo do Paço, enrolada na mão ; 
servia-lhe de leque ou de compasso , segundo a 
ira lhe fazia subir o sangue ao rosto, ou lhe 
descompunha o gesto em accionados violentos* 



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BE D. JOÃO V. 7 

Durante o dialogo , que ouvimos , o padre mes- 
tre tioha puchado e repellído o barretinho da 
testa para a nuca umas poucas de vezes, e ba- 
tido o pé com Ímpeto outras tantas. Via-se bem 
que o reverendo batalhava com a ira , que era o 
seu demónio familiar, e que o demonia mais 
vezes ganhava a palma,, do que a santa doutrina 
theologica. 

Em tudo era o segundo interlocutor o anti- 
poda do sábio jurisconsulto , que dado á conver- 
sação e gostando muito de fallar elle só (quando 
não estava preocupado), encontrava no irmão Tho- 
mé o ouvinte mais paciente e convencido, que 
a verbosidade podia exigir para se apascentar. 

Trinta annos seriam a edade do milagreiro, 
se caras, como a delle, tivessem edade possivel, 
ou a deixassem colher em flagrmte. Era um 
esqueleto estuando e desengonçado , com os os- 
sos em reacção permanente contra a carne, 
com os nervos a encordoarem a secura da pelle 
verdenegra que o colffia: em fim parecia um 
paradoxo da figura humana, desses que a natu- 
reza forma a capricho , quebrando o molde para 
Bão ficarem cópias. 

Aos doze annos, tinha já a altura de um ho- 
mem e a magreza de um galgo ; e até aos vinte 
ainda espigou que mettia medo» 



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8 A MOCÍD.VOÍÍ 

O esganado pescoço sustinha a cabeça do Sr. 
Thomé, cabeça esguia adiante, e alterosa na 
coroa , aonde se empinava uma nuca' insolente , 
servindo de prego á peruca alaranjada, ignóbil 
capacete de clinas e estopa , que vinha arri-* 
piar-se em molhos estupentados sobre o cabeção 
da golla., e armar nm bico de sanefa quasi á 
flor das sobrancelhas , espavoridas á raiz da mais 
depremida testa. 

Seguia-se a cará do honradíssimo servo de 
Deus. Imaginem-se uns queixos afunilados, re- 
^ irando-se alguma coisa para a barba ; sobre os 
queixos grude-se a pelle còr de coquilho, col 
lada ás jnaçàs do rosto , acerejadas de roxo-terra 
c um pouco proeminentes; arme-se esta quasi 
caveira, forrada de pergaminho, de um nariz 
de ponta de lanceta , com a corcova e o cava- 
lete de rigor ; e depois de considerado este e^' 
candalo de carne e osso, digam se era possivel- 
que Deus creassc uma figura tao exótica , sem 
misstlo especial. 

Os gestos condiziam com a pessoa. Escarne- 
cer do próximo é pcccado ; mas qual seria o 
Santo, que deixasse de se rir, vendo os pés 
eternos e inchados do cotovellos pondo os calca- 
nhares a meia legtia um do outro? Quem fica- 
ria serio, quando aquelle esqueleto rompia em' 



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DE I>. JOÃO Y. 9 

compasso fúnebre a sua marcha , içado em duas 
pernas de cegonha, e dando aos braços com a ele- 
gância dàs asas de um morcego. A todas as outras 
prendas acrescia um ar de bolina que lhe der- 
reiava o lado esquerdo , e um geito de pescoço , 
que o fazia cabeciar para o hombro direito. Em 
ódio à linha recta a barba fincada no peito , fu^ 
rava-o se tivesse corte, e as costas podiam ser- 
vir de modello a um arco de ponte. 

Enormes óculos de azelha , apertando o na- 
riz, proporcionavam ao nosso devoto a commo- 
didade de lançar a sua vista de lince por de- 
baixo dos vidros. As cannellas sem barrigas de 
pernas , enfiavam-se em meias bicolores, de lã 
grossa com pontos azués nos buracos numero- 
sos ; calções velhos e cujos , com largas passagens, 
e bello xadrez de remendos , serviam de bainhai 
ás coxas delgadas como floretes. Cor de pulga a 
vestia encolhia-se no encovado peito, para dan- 
çar em plena folga sobre o súpposto ventre. Já 
no fio a casaca-giteo , verde-garrafa , e de uma 
baeta lansuda, fugia do corpo ao dono, como 
os judeus ao fogo do Santo Officio. 

O Sr. Chagas , (Deus tenha tido misericórdia 
com a sua alma!) animava as graças da phisio- 
nomia , por meio de um risinho amarello e beato. 
Quando alguma coisa merecia o seu agrado (caso 



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10 A MOCIDADE 

raro) ouviain--se em applauso estrepitoso as e^tri^ 
dulas gargalhadas do devoto ^ desafiDadas em fal-- 
sete. DeSaíxo dos beiços sorvidos ^ em crua 
guerra cpm as gengivas, encavalleuraLvam-se os 
mais negros e limosos dentes, arremetteado 
pela bocca fora. Os olho6 vesgos , enviusaudo a 
ví^ por duas frestas , e a voz de tiple muita 
agrodoce , salgavam as reticencias e momi- 
ces abeatadas, que elle chamava as suas ma- 
neiras. 

Soh*e o trajo profano o irmão Thomê, ver^ 
dadeiro cabide huitiano , pendurava aos hombros 
o inseparável balandrau das almas, desbotado e 
roto, com um registo de S. Domingos e do Ro- 
zario cosido & murça, e seu rdieario de prodi- 
gioso tamanho pendente de um fio de vistosas 
camandulas. £m uma das mdos trazia a salva ^ 
representando as almas do purgatório , entre ala- 
baríntadas chanunas. Â outra dava a beijar aos 
fieis um nicho de porta de vidro , rallo de mea- 
lheiro por baixo, e dentro S. João Baptista e a 
sua ovelha. 

O todo deste embirrento figurão era mais as- 
tuto, do que boçal. A simplicidade estava por 
fora , e a velhacaria por dentro. Eis em resumo 
a vera effigie do Sr. Thomé das Chagas, anda- 
dor das almas, primeiro servente do padre Fr« 



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:M 0. JOAQ V. il 

iíi$i$iâúê Remedi€6; e sacristfto da missa dos 
IMliogas e Qiiintas-feiras , no oraUMrío de Diego 
^ Mendonça Corte Real ,, secretario das Merc^ , 
de.el-rei D. Pedro II, nosso senhor. 

Resta dizer mais, que o logar .d« scena era o 
■adro do am^ento de S. DomiiB^os de IísIkhi; 
q a hora , as sete horas da manbfi do dia 20 
àio mez de Novembro de 1706. 

Já se vé qni$ o dialogo; que ouvimos, foi um 
.pouco matinal ; mas nossos avte oram madrugin 
-dores, -seguindo aipda o antigo adagio que (Uz : 
€< deita-te ao sol posto, mas ergue*-te com es- 
tr^Uas no céu. » Demais, tendo a Provisão do 
J)eEembargo sobre o bufete podia o padre procu- 
rador conciliar o somoo? Depois de voltas e 
mais voltas na cama , levantcb^e ; poz««e & ja*- 
,ndla a espmtioro dia; puniu o gato; acordou 
os seus dois canários e o verdilhão ; e por fim 
aos primeiros clarões da aurora , resolveurse a 
ir tomar um banho de ar. Vestiu-se ; pegou na 
Provisão ; desceu á portaria ; e como o inverno 
^a secco, d'ahi a ajguns minutos, tinha o gosto 
de tiritar de frio, gelado como um sorvete. 

Deitando os oihos pela praça achouHi deserta. 
Chegando ao cunhal viu o» vinte e cinco arcos , 
que se abriam para o rocio , desde a Ritesga até 
ao adro do convento, e augmenbou a sua me- 



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i2 A MOCIDADE 

lancolia. Tão cedo, dormia tudo. Nem um* dm» 
duzentas logeas portáteis, que se armavam de^ 
baixo dos arcos apparecia ainda. Ninguém fte^ 
gava o toldo diante da testada dos logares ; nH^ 
se movia um adelo^ capeHista, ou fanqueiro a 
arrumar o panno de linho , as rendas , ou as chi* 
tas da sua (eira. Os próprios mariolas^ tSo bali* 
çosos e activos , ressonavam profundamente nas 
suas possilgas. Defroifte do cunhal do primeiro 
arco, ao murmúrio das aguaá o Neptuno dè 
Rocio da peanha do chafariz, estendia o tri^ 
dente com marmórea indiíFerença. 

Fr. João rondou de passeio toda a arcada até 
â escadaria do grandioso Hospital de Todos os 
Santos, pêlo sitio aonde ainda hoje estio S. 
Domingos e a Praça da Figueira. Depois, quando 
voltava scismando , perto do cruzeiro do convento , 
appareceram-lhe as estiradas pernas do irmão 
Thomé , a quem o zelo dava azas e que vinha 
a galope pedir alviçaras pelo resultado da de- 
manda , que nSo podia suppor perdida. 

Duas palavras , agora ,' para explicar o enigma 
da Provissão , que tirava o somno ao padre Pro^ 
curador e fazia da cara do Sr. Thomé a publica- 
fórma de utn « Miserere. » 

O Hospital de Todos os Santos era proprie^ 
tario de alguns dos arcos do Rocio, e arrenda- 



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vflHOfr aos h>gt9tas por dois mij réis mnuaes cada 
ufli; A ocdom de S.. Domingos, possuía os arcos 
do lado. ^ adro e debaixo do dormitório de 
eima, e os frades contentaram-se muito tempo 
com a metade do [Nref o exigido pelo Hospital. 
Tudo corria em santa paz, quando eleito Pro- 
yíneialiiavo, este, contara o voto do seu defini- 
tofÍQ , levantou a renda para dar uma bofetada 
9em mSLO c na soberba do seu visinho. Ardeu 
Tríq^a J Os veodilhoes gritaram « aqui d'el-rei p , 
piX)testando sem pejo nem temor contra uma le> 
6So enorme , que os fecia pagar a elles as culpas 
de terçeico. 

-«. Em tão melindrosas circumstancias, o ante- 
cessor de Fr. João , chamado Fr. Chrisostomo 
Borrego , cahiu na simplicidade de citar os re^ 
friK^taríos para arredarem as tendas da parede 
sob pena de dot9 mil réis de multa. Não espe^ 
jaram por segunda intimação os vendilhões; e 
requerendo vestoria ao Senado da Camará , vie- 
ram pôr a feira diante da testada dos arcos. Da- 
qui se originou a perdição dos frades. Com o 
Auto de Vestoria os belAirinheiros provaram que 
nloroecupando terreno do convento lhe não de- 
viam pagar nada ; e a demanda , muito feia desde 
o principio, concluiu pela famosa Provisão do 
Dezembargo , declarando as testadas do?^ arcos 



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If A MOGIDADC 

livres, e absolyendo os feiraútes deairendomeitto 
e aluguel pelas occupaf^m. Ainda por cima o* 
convento pagou as custas ! Deste modo , os pa- 
dres de S. Domingos d^am os seus arcos de 
graça pelos quererem alugar muito caros. , 

Quando Fr. João dos Remédios entrou a ser- 
vir , o negocio estava muito mal %urado ; traloii 
de lhe valer ; mas era tarde. Pouco habituada a 
revezes , este cahiu-lhe como um raio em cima 
da cabeça ; e n9o o querendo imputar á notória 
injustiça da causa, preferiu attribuiK-o ao ódio 
antigo e á rivalidade entre S. Roque e S. Do^ 
mingos, entre os Jesuitas e os Pregadores. Se 
elle se enganava nio se sabe ; mas que a Provi»- 
são deu grande gosto aos padres da Companhia , 
é caso averiguado. 

Desta opinião do Procurador da Communidtde 
nasciam as pesadas reflexSes, que lhe ouvimos, a 
respeito dos filhos de Santo Ignacio, viiinhos- e 
inimigos da ordem inquisitorial. 

O padre mestre Remédios ainda estava infor*< 
mando o Sr. Thomé do succedido, e o noMi> 
Andador , moralisando o caso com o notável ada- 
gio — u ninguém me diga, eu desta agua não be- 
berei » — , quando um homem , escapando pdas 
costas do Dominico e do seu acolyto, ainda no 
maior calor ddt sua conversação, passou por el^ 



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BE B. JOZO V* IS 

les como uma sombra , e foi eocer^0e eom a pn 
lastra do primeiro arco, depois de observar os 
oradores. O cbapeo de abas largas e copa baixa 
era um cbapeo de Jesuita , e carregado na testa 
encobria-^Ihe a parte superior do rosto« A capa 
de panno preto embuçada escondia-4he a barba 
e o corpo todo. Donde se collocou, tudo podia 
vér e ouyir perfeitamente. 

Um quarto de hora depois, outro bomem, 
atravessando do palácio do Duque de Cadaval, en- 
trou na egreja, e feitas as suas devoções, tomou 
agua benta , e veio para o adro assentar-se no 
poyal da cruz levantada defronte da portaria* 
Alii , cofiando uma cabelleira mal empoada e de 
guedelhas á antiga , espécie de floresta virgem , 
poz o cbapeo de lado sobre a copa , arregaçou os 
punhos de Hollanda encardidos , afinou o laço da 
gravata, e sacou por fim do bolso da esbeiçada 
casaca de tafetái com botões do tamanho de ro- 
dinhas de fogo um tinteiro de chiífire e um cotto 
de penna. Depois, montando o joelho direito a 
cavallo no joelho esquerdo, principiou a rabiscar 
em um papel com o maior socego do mundo. 

Assim dispostas as figuras succedia, que o sá- 
bio theologo tinha, nas suas costas, o homem em- 
buçado, e o Andador das almas cobria com a 
longa pesspa o risonho escrevente ; tudo isto de 



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i6 à. MOCIDAQE 



certo sem nenlnim ddles se ler ajustado, nem o 
pensar , â excepção do Jesuíta. Esse é provável 
que soubesse a razão por que alli se achava. 



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CAPITULO II. 



MAIS YAL SO QUE MAt ACOMPANHADO. 



Depois do episodio da esmola o padre procu- 
rador e o devoto' acolyto ficaram callados, um 
defronte do outro, alguns instantes. As sobran- 
celhas do Sr. Thomé das Chagas ^ ora subiam â 
raiz do cabello, ora baixavam a tocar nas ca- 
pellas dos olhos, o que neste digno cavalhteiro 
significava que reflectia no caso, n5o percebia 
nada , e desejava muito perceber. Fr. João scis- 
mava carregando na ruga frontal , e brincando 
com os pollegares um em roda do outro. Era o 
seu gesto usual , quando compunha. 
2 



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18 A MOCIDADS 

A íiual o andador arremetteu ás suas duvidas 
Gom denodo , expelliu da garganta o pigarro ma- 
tutino , e com a vozinha doce como pastilha e 
arrastada como perguiça do Brazil , continuou o 
dialogo , interrompido pela sua jaculatória ás al- 
mas. 

— « Com que — disse em tom insinuante — 
V. Rev."*" julga que o papel não tem cura , e 
é obra. . . » 

— «Dos herejes, dos christjios novos, dos 
inimigos de Deus e da sua gloria. Digo , creio , 
e affirmo , irmão Thomé » — respondeu Fr. João 
irado. 

— « È muito , padre mestre. Atrever-rse esta 
gente. . . . Jesus! £ então no Desembargo do 
Paço. . . . Bem rosna o povo , e no fim de tudo , 
é elle que tem rasão. h^ de cima, donde se 
espera o exemplo vem o peccado ! Estft^mps per- 
didos, devoto S. Domingos da. mipHa alma! 

Mas Fr. João dos Ren^edios já o i>ão escu- 
tava. Distrabido voltour^e copi^ iippaciepcia , foi 
direito ao homem do tinteirp , po^rse diante delle . 
^em o ver ,• e abrindo a provisão leu-a a meia 
voz, fazendo-se a cada lii^ba maí^ corada do que 
uma romã. Thomé d^s Chagas cuidava entre- 
tanto, que o p«|dre mostre, estava dictiMido e quç 
Q outro servia de seu escrevente ; pot* is&o não 



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"BE D. JOiO V. 19 

fez maior reparo, e entrou a scístnar também, 
olhando para as barcarolas dos çapatos com a 
mesma complacência, com que o peru ha de 
olhar para as pernas do payfio. 

Quem estava em braza era o homem do poial , 
victima innocente da hermenêutica do procura- 
dor , que plantado a dois passos Mie lhe tirava 
a luz, e lhe fazia ainda em cima voar o papel, 
com o vento da capa , que o frade estava a tra- 
çar com ímpeto repetidas vezes. 

Por fim o pobre homem, desenganando-se , 
poz-se de pè , cortejou o sen algoz com ar sup- 
plicante, e disse-lhe com cert^ requebro: 

— «O padre mestre d& licença?. Sou poeta 
de casa do Sr. Duqse , e amigo intimo. ... do 
escudeiro particular dê S. Ex.^ âahi de casa e 
vim até aqui por ar^ar, e para tér taitibem se 
acho a chave de um soneto , que se me engas- 
gou na segunda quadra. . . . Agora mesmo. ...» 

De tudo isto apenas chegou aos ouvidos do 
frade absorto a penúltima palavra. Nem sequer 
viu aquelle homem roliço , curtinho , flexivel , e 
todo cortezias, que de pé, epn quarta posiçSa 
de dança, e boeca cheia de rizo, o compri- 
mentava , meniando o chapelinho amaçado , do 
modo mais obseqtiioso do mundo. 

— « Agora ? — atalhou o aerio frade , cui- 



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20 À MOCIDADE 

dando que respondia ao irmào Thomé. —«- Agora ! 
Sabe o que se pôde fazer? » 

— ^ « Sei, sim Sr, ; agora segue-se acabar o meu 
soneto , ouvir a minha niissa , e ir almoçar do 
que Deus nos dá , se V. Rey.™* não ordena o 
contrario. . . . y> 

O poeta , estava um arco dizendo isto ; tinha 
o braço na mais elegante ciirva , e o pé lançado 
airosamente com toda a galla da corte , esperando 
talvez uma cortezia, e o campo livre em res^ 
posta ; mas se esperava illudiu-se. 

-— « Ojptis et okufnperdidi ! » -^^ exclamou elle, 
ouvindo o frade pagar os seus primores com a 
mais secca e impertinente interjeição. 

— <c Hum ! » — exclamou Fr. loão dando aos 
hombros, e mudando de posição. Desta vez Th 
cou de todo âs escuras o poeta. 

— « V. Rev."* perdoará , mas , como tive a 
honra de lhe dizer , medito um poema , um so^ 
neto. Prouvera a Deus que me visse livre delle!... 
Tem conceito e consoante obrigado. . . . Mas na 
verdade estou pregando aos infiéis ; o padre nem 
\ê nem ouve ; e o peior ainda é que pegou de 
estaca defronte de mim. E esta ! » 

— r- « É caso irremediável. » — proseguta Fr^ 
Joào, passeiando sempre do mesmo lado e faK 
lando alto ao pé do poeta» 



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life b. jOAO V* 21 

-^ « Que tal ! Irrremediavel ! mas veja , Re-» 
Véfèúdissimo ^ tenha consciência. Deita-me a 
perder — gritou o niagarefe de methaphoras com 
grande impaciência. — Irretnediavel é só a morte. 
Deixe-me V. Sapiência dois minutos vêr a Phebo, 
to divino Apdllo pbr algutts chamado Hypérion , 
e se Consultando com elle eu nào achar a 
rima. ...» 

''-^«Não acha tiada, hão tem sabida 

— replicou Fn João absorto. -^Digo-lhe que 
t)Bo ha sahida. Não é capaz. ...» 

— ^ « Pois sustento eu que sim , que ha , e que 
sou capaz ; e tanto sou que já athei. . . ■. ouça o 
)[mdre> ^ . . 

Temendo ser enfadonho , 
Agora os sonhos envio; 
Sendo que foi desvario.,,, 

Fr. João parecia escutal-o attento. 

— «Então? Que me diz o ftev.™"*? É ma- 
gnifico, óptimo, nãò? O que foi o sonho se- 
não o que São todos os áonhos: — erros do ca- 
pricho , cuidados da alma , cathalogos da memo-^ 
ria , e enganos da idêa ? Logo o que são sonhos ? 
Desvarios ! E o que é desvario ? Sonho , perfeito 
^onhoi Eis aqui $mmdum artem comp o seu 



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22 A XOCTDADK 

creado Bo-nardo Pires achoa o mais engenhoso 
^neeito e a mais opulenta rima. . « . Mas isto 
siifi^ede só a quem bebe do ikio era Aganij^ 
oomo hei de fmw na dedicatória , que servirli 
de postilblo a Ap^M^ld. . , . » 

Ê o modesto cuHor das Musas , lio euthusiiísmo 
do seu triumpho, amarrotava de gosto as calças 
imperiaes , largo e impertinente anachronisoM» a 
que o (KHidenmaTa a bolsa ; e eom a outra nâo 
sacudia pela manga o nosso padre procurador, 
que tendo o indece curvado diante da bocoa , tm 
ar de quem apanha uma idèa vadia, o fulminou 
com um furilrando — « deixenne ! » 

— «O frade n5o está em si , o Crade viu 
bixo — resmungou o poeta descontente. — Que 
demónio de hom^ai! Que o deixe? Mas é in- 
verter as rimas. Eu é que morro porque elle 
me desassombre a mim. Nfio se irá este espan- 
talho daqui ? Ao menos , Rev.™® — gritou com 
força — livre-me da sua capa , por todos 05 San- 
ctos do Paraiao ! £ o manto de Niobe , é a noite 
da imaginação, é o cárcere das Musas. . . ora 
graças a Deus, foi-se. Por lá o tenham bastante 
tempo , que nHo deixou saudades. 

Sendo que foi desvario... 
Veremos se fecho entretanto a quadra. » 

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B« O. MOSO V. 23 

N& sbStraeç^ ò paéfe jproeuradofr deixando b 
^etó em pai , foi eiA^ando a tes^ta e abrindo 
a caixa do tabaco , procurar o seu priíneiro pouso. 
Afli íiAkotí à Saa ^itaâa de afrrostrinha , sorvida 
de tfegár e fem três tempos , escorvou e carregou 
t) natíz ^ e fecolhido õ lenço na manga , tocou ná 
taíttph fià tatta o rufo do costume com os dois 
dedo^ dá inâo direita. Foi entSío que de todo 
cahiu em si,'é olhando deu por Thomé dsís 
Chagas de joelhos e braços ábettos á pbfta da 
Igreja, com a bandeja das alma^ e o nicho de 
S. ioíto adiante de fei. 

Mas o padre mestre tinha necessidade de des- 
éfogo , e o aiidador das alhiàs servia-lhe de vaso 
]f>ftra eipectorãt as frás. 

-^ tt Thtiihé , if Md Thomé ! j) — • chamou o 
íevérehdo irfipacientê. 

^^tt Estou á primeira missa, meu padre. Ahi 
toií àos pés de V. ftev."^ » 

— ^tíAwdè. Tenho que lhe dizer. írá logo dã 
ntttibá parte á rua da Calcetaria , a casa de 
Diogo de llteildoíiça com ufna carta. . . . Quero 
poí* fim sàbér ! .... Esta proviáio nâo é natural. 
Tràctaiíi dé métter o alvião aos cunhaes do nosso 
convento; tentam arrazal-o pelos alicerces. . . . 

-=^<í Sâtita Maria, Mâi de Deus, orai por mim 
jJéccàdot- ! -^ gfítòu o irmão das almas desenros- 



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âi A XOaDÀI^ 

cando de um ímpeto a soa eterna pessoa. — Den 
tar a baixo uma Babylonía destas, quem é o 
ímpio ? . . . » 

— ttThomé das Chagas, V. mercê excedeu- 
se. Ào convento do nosso padre S. Domingos 
chama Babylonia ? Lembre-se que era a cidade 
da profana(^o , a mãi dos vicios , e veja o erro 
que disse. Nâo responda. Sei que o não fez por 
mal : peccou yenialmente. ... »• 

— «Mea ciilpa, mea máxima culpa! Pro- 
metto duas coroas a Nossa Senhora e uma esta->> 
çao ao Santíssimo , mais o jejum de pão e agua 
Sexta feira* ...» 

— a Está bom , está bom. Não é preciso tanto.. 
Gosto de o vér devoto e com temor de Deus. 
Está absolvido. Tornando ao que lhe ia dizendo : 
esta gente não descança em quanto não subver- 
ter tudo. Atiram de longe á Inquisição , porque 
tem medo de se chegar ; mas em nós se vin- 
gam e por nós começam. Inde ircel A Or- 
dem dos Pregadores primeiro, e o Santo Of- 
íicio depois, eis o plano. No íim mettem-se 
de dentro como na Universidade e nas eschó- 
las , como em toda a parte , segundo o costume 
delles. » 

— « Perdoe-me padre procurador , mas eu não 
creio. Pois ha hereje capaz de tirar os autos de 



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1>£ B. JOÃO IP. âà' 

lè ao poYo , uma consolação tão grande aos fieis 
de Christo. ...» 

— « Por isso mesmo ! O amor do povo enfu* 
rece-os; por elle sobre tudo é que abcNrrecem 
mais a Inquisição. Da primeira vez foi o padre 
António Vieira quem traçou o projecto. Deus 
lhe tenha perdoado ! Ficaram mal é o mesmo ; 
iresovam. £nganaram-6e da primeira vez? Não 
importa ; emendam desta o golpe. ... A que 
horas estará levantado Diogo de Mendonça?» 

— «Com as seis o acha V. Rev.™* ao hu- 
fete. » 

— «Esão?» 

— «isto são sete horas, o muito. Mas daqui 
á Calcetaria ainda é um bocado. » 

— «Não. importa, esperemos as oito. Digo- 
Iho eu , Thomé das Chagas , o ultimo cometa 
não appareceu debalde. Prognostica mortes, guer- 
ras e ruínas. Veremos aonde tudo isto ha de ir 
parar! Metteram o reino nesta guerra por causa 
doallemão. ...» 

— r«Do archiduque, segundo diz el-rei de 
França ? » 

— «Do rei catholico , D. Carlos III , segundo 
diiz em Portugal el-rei D. Pedro, e em Londres 
os seus amigos herejes. ...» 

— ^í< Bem mo prognosticou hontem a santinha 



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26 A MOCIDADS 

da tia Perpetua das Dores, dando-irie a beijar 
o rozario, depois do terço — Thoihé , fllho, 
encommende^e muito a Deus. O Ante-Christo 
corre às sottas por Híspanha, e de Hispanha a 
Portugal não é dento um pulo. » 

— «Coitada da serra die Deus. Oxalá que 
assim eetíio ella houresse muitas ! Mas a culpa 
disto sabe de quem é ? Esta provisSo ha de se 
dizer que foi feita íio Terreiro do Paço. É falso ; 
nSo foi. Donde veio, e quem a dtctou foram 
6» padres de S. fioque. É obra da Companhia 
de Jesus. 

— « Pois não ha temor de Deus ? Padre mes- 
tre , esses hereges são da Companbiá de Judas , 
e não da de Jesus. Mereciam, Deus me perdoe ! 
que lhes queimassem as roupetas na fogueira, e 
os entaipassem vivos no Santo Ôffieio. >r 

— « Thomé. Não diga isso. . . » 

- —«Digo e affirmo. E ao Desembargo da 
mesma maneira. Eu cá arrastavaH> de carocha e 
sanbenito ao primeiro auto de fé. >y 

— « E o presidente da mesa também ? » 

— « Porque não ? ReverjBndissimo, quem acom- 
panha eom herejes , bereje é. >» 

— «O Dtíque de Cadaval , D. f^uno Alvaíres 
Pereira, meu senhor? Exclamofi o poeta que ha 
bocado roia as unhas de desesperação^ interróm' 



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DB D. JOÃO V. 27 

pído poh) dialogo. -^-^ Nfto é no presideiite do Dor 
^mbargo do Paço, no Duque meu amo, que o 
mochilla deste gato pingado põe a bocca excom^ 
mungada ? Ouçamos o coUòquio. Segundo parece, 
promette muito. » 

-«^tfThòmè das Chagas «-^observou Fr. João 
que se tinha rido da justiça musnlmana dq digno 
milagreiro — sabe que mais? Se o ouvisse al^ 
guem de easá do Duque , ou de S. Roque , Y . 
mercê nSo via sol nem lua na eadôa« Tome um 
conselho. Falle menos e respeite mais os padres 
da Companhia e o Duque de Cadaval. 

<«^<x Salva nBo bme a minha alma, padre 
mjQIrtre , se eu deixasse de fazer o que disse. Je- 
suitas. Desembargadores, e judeus, que são todos 
o mesmo , levava-os de sociedade até ao auto da 
fé. . . Quanto ao Duque, oiço rosnar, que está 
sendo alma e correio dos herejes ; e apesar de 
dizerem que elle é esmoler e temente a Deus , 
cá para mim sei , que nem tudo o que luz é oi- 
ro. . . De El^^rei não admira, depois da doença , 
andft*^lhe a cabeça á roda. . « )i 

-«-^ « Âh mofino judas ! Sezdes te peguem — ^ 
rogio o poeta exacerbado.--^ O que aquelle sa^ 
iafrairio desenrola l Felizmente apanhas-me de pa- 
pel e pentta^ Os padres da Companhia e o De- 
wmfanrgo ao luàie. Bera ! Cá escrevo. O Duque 



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28 À JttOCIDABE 

meu amo, alma e correio de herejes. Nio tenl 
duvida ; cá assento. Em fim £l-rei, nosso senhor4 
que Deus guarde, maluco, ou pouco menos, pois 
lhe anda a cabeça á roda. Fica registado. Deixa 
estar meu Longuinhos, chupado das bruxas, que 
vais dar um par de voltas á roda da forca^ Deito 
já a correr para o. palácio. Nós veremos, deixa 
estar ! » 

E o nosso poeta^ assentando o chapéo sobre a 
cabelleira com o punho , arrancou a trote para 
o Paço do Duque, com a espada a bater^he nas 
barrigas das pernas , e as abas da ampla casaca^ 
enfunadas ao vento. Ia aos pulinhos , e cantaro- 
lava em voz esganiçada estes maus versos hespa- 
nhoes: 

Non dirá rai Senor Padre , 
Si es de menor sentimienío , 
Ver muerto ai dueno querido 
Que ver-lo en poder ageno. 

Nem o Sr. Fr. Joio, nem o virtuoso Thomé^ 
o viram atravessar a praça, porque o primeiro 
olhava ha bocado para um velho, que estava alli 
perto fallando com um soldado, e o segundo 
passava miúda revista a todas as peças do seu 
mealheiro. Assim o nosso Bernardo Pires esca-^ 
pou ás reflexões dos dois respeitáveis inquerído^ 



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m j>. jolo t. 29 

ires; e qual outro Ofestes, vexado das fúrias, for 
depositar no seio do escudeiro , seu amigo , os 
segredos , que lhe enchiam o coração de fel. 

Entretanto o padre mestre não tirava os olhos 
do velho ; e este a passos lentos também se apro^ 
ximava cada vez mais da portaria , conversando 
sempre com* o soldado. Â vista do reverendo 
exprimia assombro e uma espécie de terror ; o 
seu espirito lutava cóm a memoria; excessiva-* 
mente abertos e sem pestenejar os olhos do 
theologo não largavam o recem-chegado ; estu- 
dando<-lhe feições e gestos com uma tenacidade 
incrível; via-se que o Procurador de S. Domingos 
duvidava e cria ao mesmo tempo ; observava-^ 
que lhe subia do coração á bocca um nome, mas 
que temia illudir-se julgando impossivel existir 
ainda a pessoa , a quem pertencera. Eis a causa 
da sua curiosidade , sé era só curiosidade o sen- 
timento que o agitava. 

Fr. João, por fim , não se ponde ter, e foi di- 
reito aos dois homens, que naquelle momento 
chegavam, justamente ao cruzeiro do convento. O 
Sr. Thomé , apesar de ser bem pouco feminino 
em tudo, herdara de nossa mãi Eva boa dose do 
peccado original, e tinha terriveis cócegas de es- 
cutar quanto se passava á roda da sua veneranda 
pessoa ;' o Sr. Thomé, pois, como verdadeiro dis- 



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30 A KOaDADB 

cipulo da devota Perpetua dts Dores , a iiielh<^ 
bruxa golhilheíra do seu bairro, foi^se aproxi^ 
mando pé ante pé, com passadas de IS, e ou-^ 
vido â lerta, para tentar fortuna. O fociafafo pie- 
doso do aantan^ dava ares do focinho do gato# 
quando fareja a presa, e cosido com o cha^ 
faz a policia da sua gula, para quô lâo lhe es- 
cape a ceia. Mas por mais cauteloso, que se mos^ 
trasse, o nobre Thomé perdeu o melhor daseena* 
Peccou, talvez, por excesso de prudência ! Á sua 
chegada , já estavam conduidos os preliminares 
da conferencia , e o padre mestre , benxendo-se 
e chorando de alegria, já apertava nos braços 
com o maior extremo, o mesmo vdho espigado, 
rijo, e esperto, que lhe causara tamanha sensa- 
ção apenas o vira. O Ândador das almas foi, por 
tanto , constrangido a contentar-se com a parte 
menos interessante da peripécia. O Procurador 
de S. Domingos estava perguntando ao seu amigo 
Philippe da Gama como alli viera ter direito. 

— «Eu t'o digo em duas palavras — respon- 
deu este. Para se ir bater á porta duas cousaa 
sao precisas, ter casa e saber aonde etla é; Com 
mil demónios ! Eu estou fora ha doze annos , e 
sem noticias pelo menos ha sete completos. Quem 
tem bocca vai a Roma, diz o rifeo,. mas esta 
Lisboa não é Roma, é uma l<Aw ; e um homem 



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DãK D. JOÃO V. 3t 

não pó^e andar por ella toda a perguntar á gente 
que vé : « faz favor , dá*me nçticia do sujeito da 
capa parda ? » Por tanto , puz^me 9 scismar , e 
eis o q^e fiz* Lembrou-me o meu antigo amigo 
Fr. João e o seu convento ; se não deu ainda os. 
fios á teia , ningueq^ melhor sabe ensinar-*me a 
casa. 3e morrão, paciência! Talvez algum do& 
frades possa valer-mQ neste apuro. Vim por isso 
direitinho como um fuso ao Rocio. Na rua dos. 
Ot^ives vejo um homem parado e pei^unto-lhe : 
is çpnhece o padre Fr, João dos Beme<ílo^ da or- 
dem 4o S.Oomingoa? <tQue resposta cuidas, que 
me deu o excommungado ? 

« What do you say ? » 

Era inglez ! Safei-me. Entro na rua dos eseu- 
deiros, acho outro estafermo embasbacado para 
uma porta , pergunto o mesmo , e diz-me : 

« Wím verhngm sie ! » 

Era allemão. Caspite! Pernas para que te 
quero^ Já bem azoado chego ao {locio, e -descu- 
bro um soldado, fallo-lhe, e chapa-me 

M €he skíe toi pw capo di Caio Mário? » 

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32 [A MOCIDADE 

Fiquei varado! Por fortuna passava aquelfo 
soldadD portuguez ou gallego, que n9o sei aindft 
o que é , e com um boticão arranquei-lhe meia 
dúzia de palavras, que o maldito vendeu a tostão 
cada uma. . . 

Dize-me Fr. João , isto é Portugal , ou que 
demónio é ? O que anda por cá cheirando tanta- 
gento de todas as naçSes ? » 

— « Veiu na armada dos alliados, e está chu- 
pando a olha da panella portugueza. Edificam a 
Torre da Asneira , e fazem a confusão das lin-> 
guas , como vés. Vamos ao que importft. Já ali- 
moçastes ? » 

— n Estou em jejum natural. » 

— « Então vamos á mmha ceíla. Temos muito 
que fallar, e em quanto almoças saberás noti- 
cias. . . » 

— « Haja methodo , Fr. João. O homem não 
vive só de pão. Minha mulher?» 

— «Está bem. Inconsolável com a tua perda, 
e chorando seu marido como deve e elle me- 
rece. » 

— «Obrigado, Fr. João, muito obrigado. São 
favores! Com que escapou á magoa da minha 
morte aquella santa creatura ? Ainda bem. E aa 
pequenas ? » 

— «Louvado seja Deus, esfôo lindas como 



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t>E D. JOiO V. 33 

doas perchas. Semente a mãi queixasse áe que 
acha a mais mva um tamto leve da cabeça. Vei^ 
duras da idade. » 

-^«Está feitot E onde está ella?» 

— «Quem, Cecilía?)» 

— i( Sim homem , a mais nova. » 

— c<Metlei]ha a mai em SaiAa Clara no mo^ 
teiro, a vér se educada lá assentam dsí eahe^. 
A maisjelba, tua filha Thereza^ tení mnitb 
juízo e Tive com tua mulhar em caza do eom- 
mendador, do tio delia, homem honrado, bom 
catholico, e menos mal de bens da fortuna. » 

— «Hum! ora muito me contas. Famoso! 
Veremos tudo isso. » 

— «( Não tens mais pressa do que eu. Almoçai 
e vamos logo. » 

^*^fiiMeno fima^ Fr» Joáo, como diria o ho- 
mem de Caio Mário. Uma ressurreição nSo é 
obra grossa que se leve assim de uma corrida. 
Isto da gente sãhir da cova e if parecer á fa- 
milia, é j^oco sadio. ..4 Não quero de^a- 
ças. Demos tempo ao tempo. O peior está pas- 
.sado. » . 

— «Já não digo nada , Philippe. Tu o lés , e 
tu o entendes. » 

— «Está claro. A propósito, disse Philippe, 
virando e revirando o cjbapeo aprezilhado e guar- 



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34 À itocifiÂM 

i^Í4lo à aotigni '^ iMKles âmrHÉoe se miÀeL míl^ 
Hier t«m0U estado ^m abundai oupcia»?» 

— « Ora essa ! Uma Senhora TÍrtaosa e hcch 
Ibida!. . Dms td feúàM^ Pbtf se te idigo^ que 
ainda não deixou de cb^nat » tua ialtâ. » 

— «Âhi< VÊmmo é que.» pulga jM^rde. Não 
4[Osfto. diB feiitts,4is fegrnii»^ nem mésmor da que 
hft ém CbimlM. . i mUlfal» que dborà nuita Mi 
MMrtfa> é jNHrfne jj^rwriíài MtnK. Acrodttfthiu^. 
£ se diimteí dcrtegulMlai diora • primeifof^ qnei^ 
jlbe:n)^ttev cidDMS. AH ^ jtftll Entendo ^ agera: «i^ 
tendai; o tío^ aOámikeoiãdut^ fue e&pmé de 
homem é ? Àpost0< qui» ainda nãò fat cpiarenta 
annos^ e que choram ambo» a minha tm»rie^ éfH 
#aA€tt )>aa?» 

— « £ eu sem te jperceber ! TeUs iotèa. Pèe 
m*ÍA qiaaretitBi e acertai a idad^ dc^ Cemmen^ 
'dador. »> 
. ^*^ « Oitenta: aiitiM? 91 : 

u -^«lEncàiS. Poiay atMeVesMse aiiíeppov?» 
- o^^Fr. João^ nada.cfe )uiãoa ^làepnrim ! 
Viat0 eonftinttar viuva mttniia mnlber^ e lero»" 
tenta annos o Commendador^ mudo de epiniia^ 
£m abMfatido ramos de pamie toniar pesse^ 
Servirei de procurador aos mena íhHetèdo» d^ 
reilos. )> . 

•^«Entíio a<ás be» da Biototitív 



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BB b. JOÃO V. âo 

^^^ « Fr. Joôo o (fim dizent as obras de mtsé-* 
ríedíáin ? Coiisokii os trisêes e ttsitaí os enfer- 
itvgís^ Y<mje cmmM os triste». 

«-^« Aniéaí bem, aiiidgt bem. Mas ahnocemoo 
jprimeiro. Èspere-me Thomé, ^e eu não tardo. 
Tem de Yewt ^ cartar, cpie lhe disse, k Catee- 

^-^iiSitáí, BéTesendisBino^ 1» 

padre sdbfin è^ÍB para a celía con» o sea 
amigo PkíUfqie, e o nossir aridador, depoodo e 
%m àevêl»^ mdsõ de S. Jofto , pltntoií-se á porta 
da i^ja, caçando as eàtá9]m dos fieis, que irnsi 
màtttdO', oti fne vinham entrando* O seiá itf 
cMipui^ido e focinho penitente eram um tman 
ftbeiiçoado , qiie âiuaca deixava de atraMr a pie* 
dade das iíeMas ^ sobre tudo á das v^as e |u« 
bihidas; 

Neste moniftntò, o homem, que no capitulo 
imteeodi^te deixarmos eseoiriíão com tanta cau*- 
táls alta? da píhtstva do primeiro arco, safaiu 
do sai pouso a farta-^ássof toreen pelas costas 
do^ milag^iffOi e pt^ndo-Uie de teve a mão n0 
líonsbro , disse com grande saavidadOi 

— « Irmão Thomé , p«M5 Chrísti ! % 

^mú cobra , tevaotsuda aos seus pés de' t^é-= 
peiile\) lâi» fazia dar ao andridor ctos aknas t^ 
inanfao p«lo^ como elle dèu, nem o obrigava a 



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36 À MOCIDADE 

YÍrar-se logo com tantp sobresalto. Âquella era 
a saudação usual da Compahhia de Jesus ; restava 
saber se também seria Jesuíta quem a dava. Era ! 
A palidez do Sr. Thomé não se enganava. Via 
diante de si a fatal roupeta. 

O Jesuita mostrava setenta annos ; os cabellos 
eram raros e brancos como neve, naquella ca- 
beça , que tinha a puresa e a poética inspiração 
dos mais bellos typos do apostolado, como os 
concebeu o pincel dos grandes mestres. . . Al- 
guma cousa curva , a sua estatura , apezar disso , 
parecia elevada e magestosa. Segundo se via , a 
idade carregando sobre ella , e ainda mais talvez 
os trabalhos do que a idade , inclinavam a fronte 
para o chão , como a arvore antiga se descabe do 
tronco, e quebrando-se a pouco e pouco vem 
beijar a terra : mas nos momentos de ardor re- 
ligioso , ou de enthusiasmo vivo , a fronte do Je- 
suita, sabia aliviar-^ do pezo, e sacudindo os 
annos como Lazaro o sudário , era capaz de 
se levantar orgulhosa e firme, de um impeto 
juvenil, pondo nò céu a vista, a esperança, e 
o pensamento , e doirando-se nestas occasiões de 
um resplendor particular. 

A» rugas , cruzavam-se na testa , cujas entra- 
das altas iam per(fer-se nas raras madeixas pra^ 
teadas , que se annejlavam , acompanhando o 



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DE D. JOÃO V. 37 

rosto, cujas feições nobres eram sobre o com* 
prido, cujas foces eram desmaiadas da palidez 
usual nos que, vivendo de mais a vida do espirito, 
trazem estampados no rosto os cuidados da intel- 
ligencía. Ainda belios , eram pequenos , mas ex- 
pressivos os seus olhos. Meigos no repouso do 
animo , e um pouco tocados daquella doçura trans- 
parente , que sabe afiar a vista e enturval-a , para 
ferir ou esconder, podiam illuminar-se , que- 
rendo , e reflectirem nas chamas concentradas ou 
em relâmpagos terriveis 6s vezes, toda a elo- 
quência da paixão , da cholera e da amizade. . . 
Nestes momentos, pouco vulgares, era uma trans^ 
figuração completa : remoçava-se a phisionamía , 
apagavão-se òs signaes da idade , o corpo crescia 
magestoso, a cabeça pousava-se erecta, os olhos 
ardiam mais e diziam tanto, como os do man- 
cebo mais novo na existência e mais forte nos 
trabalhos. 

Ninguém tão simples e affavel como o padre ; 
os seus braços estavam sempre abertos para to- 
dos ; o sorriso dormia e accordava com elle ; o 
corado , morto para o rosto , e a alma sem es- 
pelho na vista , se gemiam ou se allegravam , era 
dentro de si mesmos , longe do exame e da in- 
discrição dos homens. Aquella face passiva e 
risonha ; aquella voz igual e sem paixão ; aquelle 



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3S "^À MOGIOADff 

dfatr iram^^nte « «em|ire tKo fuoáo que bío 
deixava e&treyer um ^egredo^ eram ab]»mo6 aonde 
perdia o esludo e a aBal]f«e o ^baervador mais 
fiagaz. A irosÉad» fazia o pader do p^tã ; t á 
lerça de yonlade, paca veneer ^ «miífos., prifiár- 
fiioM Teeeendo-se a si. Nunoa & aembbdnte Iw- 
«iittio fai iiina mascara tão perfeita ; ivaucm nifH 
guem , antes ou di^ifi , soube eseravispr ikiat& 
aespotjcamente o espírito e a nofeer^. 

Só uma oaifia pào sabíii ocefdtar : -^o gmo \ 
Poucos seriam mais fauiaiidi», e apesar diaso^ e 
talvez por isso , era tal a dignidade do aeu porte , 
as suas maneiras respiravam tanta grandeza, diH 
quella que vf m ife Oieus ; e mesaio aereoa « de pro- 
pósito apagada , a sua vista raiava com iai^ por- 
der , que sem o oonfaecerem , quantos o vian ín- 
clinavám-se em espirito diante delle , advidbanda 
um desses homens , que sio potencias da torra 
por ordena e lei da intelligencia , como o^ rei^ 
peto direito do sangue e do nascimento. 

Ao andador das almas foi o que sueeedeu. 
Apenas o enearou , e viu fitos noa seus os oibofi 
do jesuitâ, dizendo tanto e pareoeiído inertes^ 
apenas sentíti aquelle soiriso fino deseer^lbe do 
rosto á alma, e tocar-lha no mais intima, a 
fndo posta de leve pareceu-lbe que pesava ^ seu 
bombro como uma torre; e abysnuidio paaçoti 



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hu n. JoIo y . 39 ' 

Ioga de roxo a azul ^ e de azul a cor de en- 
xofre; em doas segundos a cara prodigiosa da 
saatarrão parec4a um arco irijs na variedade dos 
cambiantes. Entretanto sua paternidade não lhe 
dizia mais do qiie isto : 

^-^« Filho, vi dalli e ouvi tudo. Sabe,, que 
gostei muito do seu inod<o? V. mercê foi bem, 
foi optiniamente* Quer dar-me unia palavra ? » 

Porque o seguiu q Sr. Thomé sem resistência , 
mudo cúím um 4efuncto^ e cambaleando, coma 
um ébrio ? 

Porque a Companhia de lesus era aquelle pa- 
dre. Impenetrável nos'designios, suave nas fal- 
ias ^ mas terrivel uas obras l 



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CAPITULO III. 



UM RETRATO EM VM CONVENTO. 



No princípio do século passado toda a Lisboa 
corria ao mosteiro de Santa Clara , de religiosas 
seraphicas, attrabida pela sumptuosidade das func- 
coes divinas e pelo agrado seductor do locutório. 

Âlli desciam as devotas bellas t9o compadeci- 
das , e brilhando com tanta graça , que o mundo 
desmaiava ao pé da sepultura, aonde os olhos 
das defunctas eram tSío lindos e sabiam dizer 
tudo!... Segundo affirmam os poetas contempo- 
râneos , a prisão dos corações do calipba Haraun- 
Areschild , não era nada ao pé do encanto dos 



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42 A VOCIDÀDI^ 

maviosos sorrisos , que os seduziaiiL £ a yerda<fe' 
é qw aiada hoje xescemiçaí aos perfomes frei- 
raticos aquelles sonetos e glosas, em que os vates^ 
accesos na sacfa chamma, refinavam a vida» muita 
mais ideaU que a ronceira existenoia desta época 
de prosa ruim e de algarismos falsos^ 

Estavam então em moda «cos amores freiratí^ 
cos » indigno termo applicado por legulejos mal 
creados á casta adwação » que ardendo sobre si 
mesma « se conmví^ em vwfam% não ousando 
profanar o objecto querido. Pelo menos assim ex- 
plicavam os amadores estas embiocadas paixões, 
tão melindrosas como sentimentaes. Se era ista 
só, ou alguma. CQiisa mais « que responda a cons- 
ciência delles ; a minha ha de suppor sempre a 
melhor. 

Mas el-rei D* Pedro ç ç3 ;rabji;^ntas miiiis- 
tros do seu con^elbq ^ Siímny das paixdes f^rjsipbi- 
cas qoisas capazçs de eirifiôr os cabellos * um 
cçtssaco do Wolga ! Coipo a raposa achava ^s uvas 
verdes , elles achacam immoral a pasmaceim na 
locutório , e deitaram um alvarA contra os Nar- 
cisos da clausura, que levantou alaridos medonhos. 
O efiteito da ca^ancuda lei , como era de espe- 
rar, foi salgar mais o^to aojieccadfi^ (se pec- 
cado haWa) com a desãiediencía putdica. A ala 
dos freiratico^ namorados ficou Qrme, juranda 



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9B Oi. ãmo V. 43 

eEtennkar os oMíiiidias e ateiides alé A qiiiotA 
^erafãD* Aswii a fietnsoídade tliQfi^gK» dê «u» 
mogcstade serviu apews. para.empMt de uma ih»- 
vem de fMpma e aatg^ os.davQtoi (^Mleiras 
do sen cpinêlMii cfejio, Mlmaii« é jfí^9 wwMe 
4a josti^ii ( « aa Iratai tmmpaaa-^ ^ueôoiaa eoDr 
iiainsiim a inr «honar á grade mwi osfiareiítes a 
iyraafláa Iwata da 1^ , aomlmda Mnpve daa |ifr- 
\»a6 da fanatíoa dw»É>ia. 

£ aomi aia^iiaaia ét aucaoilar aaaiiii? Erain 
tlíodelicadea.Qa aeíôa que o bmial eastig«vA, e 
(do SaQtfli aa faoea f w a cioaa toalfaa aroartalbava ! 
9feo leria grande crueldade «abrigar eabelba ca- 
pthu»^ tio cedo «aftei^adaa em ^a, t lompcrem 
de (èdo oom o ieealo? IVirque e fiara que? Sfe 
hem aerviani a Deaa , qae mà foitiam as imor 
ceotea « ottiande par àivtnofM pnia tMi dnaa hòr 
ras peca o mmda? Ê certo, que nen eBa$ ful- 
giam , e alguma alé deaejavft engaMar-ae de loBge 
que iaaae , eom a iua iaaagem;; oem os homens 
deboairam as portas à» papatao aonde môratam An- 
jos tão meigos e amigos da teira. Reinava atb 
am aoda a fevça o y^tso de Ciaelhe^ 

aimor, ésimmartel! $&w» m&ouofml^ 

As memnrias do tempo nm cbeía6:destas pair- 



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44 A mocidadk 

xões, Qorês sem finícto, todas gelo por tira como 
a sepultura em que se crearam ; mas ainda quen- 
tes por dentro do incêndio, que as abrasou. Sé- 
culo singular, em que as dores excmciantes do 
amor se consolavam com a severidade; em que 
a espiritualidade do aflfedo imperava scdire os sen- 
tidos!... Escrava dos impossíveis sentimentaes, a 
poesia procurava as trevas, cantando em um 
limbo , donde a esperança nunca descubria o ceu 
por mais que subisse, aonde os anjos nio podiam 
trazer a redempc^o for mais que descessem ! 

E apesar disto eram felizes ou julgavam sèl-o. 
Podesse fallar a sombra de D. Joto V , do rei 
freíratico por excellencia, que ella o diria.... 
Quando o SalomUo portuguez buscava o devoto 
asylo do mosteiro de Odivellas, a magia da soli- 
dão era grande, pois tão' adormecido se esquecia 
alli , e tanto a custo o arrancavam delia. Destas 
viagens ao ceu , como rei discreto , D. João V 
guardou segredo ; e dos contos que o povo fez y 
e do mais que então se disse , só Deus sabe a 
verdade ! 

No anno de 1706, todos os dias sobre a tarde, 
bellos ranchos de fidalgos , mais ou menos nu- 
merosos, saiam pelo postigo do arcebispo, e vi- 
nham, de galope, desfillar ao adro de Santa 
Clara. Á mesma hora , também , as jeiozias do 



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mosteiro deixavam etitrever as lindas ca{»tivas , 
que nSo se cançavam de applaudir o garbo e a 
destreza dos cavalleiros. 

Até á noute recebiaiiHse as visitas no locutó- 
rio ; depois de escurecer tudo vmha para o adro 
illuminado , que era õ theatro desta corte primo- 
rosa. O mote erusava-^ com a glosa ; as palmas 
do repentista inspirado com a estrepitosa ovaçSo 
do seu antecessor. Â serenata interrompia o ma- 
drigal , e o solau , acompanhado á viola , suíFo- 
cava o pomposo elogio de ignorada deidade. O 
soneto, o poema-rei destas palestras de Apollo, 
ou sem sabor ou sibilino, coxeava atraz do con- 
ceito obrigado. As freiras de cima , e os cava- 
lheiros do baixo, ligavam aquelles alambicados 
trocadilhos , favos de mel , libados no fanokoso li- 
vro dos « Ghristaes d' Alma. » Nada igualava as 
delicias destes serões ao divino, em que a re- 
clusa, pondo a vozinha em ponto de rebuçado 
para engraçar mais, lembrava o aehrostico, esse 
terrivel « capo lavoro » do outeiro , ciyo enigma 
ajustado e decorado entre a musa e o vate can- 
tava as finezas de um novo Petrarcha aos ouvi- 
dos nada cruéis da segunda Laura. 

Choviam entSo em manná de abundância so- 
bre o pamaso ambulatório os papeliços de pasti- 
lhas e os gulosos fartes com o sabido sobscrípto 



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46 A liottMIMê 

dé e^fMMf ágttáésas gid|mM^ é Âlai iiJoci> 
ea(k)5. D^ ôrdíiMârio a deipeM poética' dky òateíM 
era feita peia imagiiiaçM AtgsÉhi de ãoBÍÉtos 
Elpínoí i dilMMg psr fe^fcm eftni $b^ sia» pen- 
na^ 89 graMlai loqtiaMS , a pfe$a àt una easan 
ou de um janltf . 

Ife taiPdé é» masai» dttfr ê* <pi6 o 9dI Haaeâi 
Oo aata^ (Mra oam^nli^def Sk Daningaar a» 
n<)i^iça9 e adUcandas do opufetito imrteiro^ as^ 
settlada9 em «slvado Mm, nas dkteitoflas M«aaH 
das que civcmidaipafli as |aidnis è» daosdoy so^ 
Rhavam eam a kata apeleeida 4» le dahàr m 
cèRtwa pefo pasMfia da laide. limas: daffodta daa 
outras, esílaa lanutam o« eesimí ftw w im as Mn» 
^ias ; aqaeHM botdavam de branco oa de ímn 
tíz ; e algamas ftaiam as-reidi» á fran^aia^ eternri 
diese^pera^o' dM bHroa €0ii«eia|Ma*ea8^ 

Da doa poltrona' de pair sento, <*otti aàsei^ 
de moBcovift e espaldar esguia, c^aifC^Jacto' de' pvc^ 
go6 amareHoS) a soror regétita éspiíeÉtaaa- im* 
cima do lí«rro e por debaii» dm òcíàm a iiiquíiãte 
fAalatige <so6íiáda á sua vigílaum. E apesar èa 
seiot MMmetí^ à^ teaetatel iMdre, e erii 
despreso da sua a«eto»Íd»diB ^ o cbUreada marami^ 
riiibo de risilês é de vMes tii^ parava. A éenspírà-' 
çto trama^ar^aevicisAio eta faoe di^podie» (ieapottol^ 
tio sefero èm iégèt aquéSe po^ fasiiiiinai. 



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á etdeira da regente^ mm ttajam o habilD ^ o 
^yeH branco d» mmifBS^ e a ootra veMia à M^u^ 
hr^ com elegante s^frii<;tdaàe. Aymêlla i^egral, 
t|ae afaria paf« a vavanifov e^via ao meio detlaâ, 
€ por isBo oa dmiílí AanA» os boràiâQsy ou fal^ 
hrsiú ente si^ e!9|NamcHiiii a vista jpeto ^o e 
jMte: ftxm 9^ «aèliic&Aií(Í0^ M^tfo inor tífliida e 
'SQove^ que iy o deMta daa iU^dencias iMimas 
^^basr ami^s foT»iom>r 

k secufaor tem dí6iaBei9 aânoi» q;aa«i4o m»(o, 
«e dira Cecitía ^ a filha da Fil^ipe da^ Gama , de 
quem o ar. Fr. M^ iiltifaa^ 8e« aâtiga* amigo, 
éándcHlbe motàism àef eatô» A névi^a cbmiavflHse 
Cafliarfaia dfe AitÍMii(te> e porteneia a mia femi^ 
fia pokrê:, pasÉm ilki^e da eòittet perdendo 
Bua mãe on tettfa klodd mtim pafa o eoavento 
ée Mie afinoB^ a ei^ttir ^ Mmptf da« pi^ofiss&o. 

Geôlia era ma tanto baka ; tíite «iqiieUa 
^estetBÉa qiia 6 fefça/ A^ fffimoda e deHcMda pareee 
frágil nas. donarila»; qu«: á muiiler feita acerei 
«eaílft mn atraetifô aMs^, fuaiídit» a symetria das 
ynoporçdeB lhe realça a gi^aça. A tl^iliilídade , 
«9SI fpie: o cof po cedia eém dfésteijt^ natural à» 
aiaia 6apriohc(sa& ondulações^ («vestia óa seuâ me- 
iMPes. gestos t menema dte ínfiniâi gmiièt^. 

O tesfc) n&oliaèa a pareM seria e q^m s^ 



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44B ▲ XfOCIDADE 

pre fria do typo clássico ; era aniiaado da eiqsres- 
são meridional, menos correcta e mais ideal, 
cuja mobilidade reflecte a alma , e traduz a vida 
em toda a opulência juvenil. Â tes, sem ser da 
alvura deslavada e marmórea das ruivas, era 
branca , porém a miúdo illuminada das rosas 
transparentes, que acende a menor comoção do 
sangue ou do espirito na phisionomia portngueza. 
As posições da cabeça , com o requebro da mais 
casta voluptuosidade , exprimiam sempre alguma 
cousa, na graça e no abandono quasi infantil, 
em que se esqueciam. Pequena e engraçada a 
bocca não se descompunha com o riso solto , que 
tanto desforma a formosura, abria-se como a flor 
abre o botão ; e se podia ser accusada era do re^ 
cato, com que escondia de mais dentes admi^ 
raveis pela igualdade e pureza do esmalte. 

Sobre o coUo pousado em toda a riegancia- 
grega, verdadeiro collo de garça dos poetas, 
brincavam em spiras luxuriantes os cabellos cas^ 
tanhos cendrados. Uma fita , posta em bandó , 
retinha as tranças, que d^is de emoldurar e 
rosto , esperguiçavam os anneis perfumados pelo 
mantinho de seda preto, que tanto fazia sobre- 
sahir o mimo e alvura da pelle. Os cabellos as- 
sedados, que soltos arrastavam pelo chão, apa- 
nhados na coroa de uma cabeça do mais per- 



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M D. JOÃO V. 49 

leito modello , pareciam seguros apenaà por nim 
rosa branca ^ seu único enfeite. 

Vendo-se o pé estreito e arqueado dir-se-hia 
que só alcatifas saberia pisar , tão breve e subtil 
se pousava no chão. As mãos na brancura trans* 
parente , azulada de vei«s fínissimas e esfumadas^ 
ttiofitrav&m aquelle melindre aristocrático , que é 
a sua belleza. Os dedos , de um côr de rosa ti- 
bh , afilavamHse nas pontas com o geito provo- 
cador^ que faz julgar a vida paga$ sentindo-os 
castos e trementes entre outros dedos extremosos. 

Mas o prestígio áà vista é que lhe dava um 
enlevo irresistível. Eram negros os olhos, não 
daquelle preto escuro e firme ^ que só diz impé- 
rio ; mas do outro preto , também fechado como 
a noite , mais raro ainda , que fuzila reflexos azu- 
lados, por eifeíto da luz, subindo a iuilamijniar 
a pupilla , e rosando-se ao atravessar o claro es- 
curo da orbita. Debaixo de sobrancelhas , dese- 
nhadas com estrema pureza em arcadas de uma 
curva ideal, ostas pupillas assetinavam-se, ba- 
nhando a vista em brilho cristalino, e húmidas 
de fluido siiave, vinham sobresaltar a alma, in- 
sinuando-se no coração ! 

Era fascinadora e invencivel a sensação elé- 
ctrica de taes olhos! E ou os seus raios, avelu- 
dados nas sombras das pálpebras, temperassem 
4 



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oO k MOCIDAME 

« int«mi<i«de da Itu , ra na saa magnética btànê»^ 
parencía se accendette t fogo da paitik^, é Mto 
<(ae diiia tanta coufti raira à tonhura ^lles, é 
fMvavel 4ue fosse tSò terrível a M^<Mt5 ^ tnn 
ira, què depois de ifistM omii tei» fieafam lúP* 
dêâdo «"alma j^ «Mipe. 

Nenbnma pl^rase pAde ekprimif a melattoMki 
ééleste, qoé tomatam, ^qtiattdo tneio adonnecl- 
d6s è elevafido-êe lânguidos pftm o eèiá^ pftrecisfli 
subir èm um raio de «^1 , e fi^rdefMi-M eem elle 
M infinito. A graça^ à fteduoffio» é o império fil^ 
^iftador de taes olhoê, mais ^Mbe» do que pe- 
ninsulares , mais de israelita <iiie de cireâssistia , 
sem as eovinhas arredòfidftdes aos éanios dâ m^ 
rituosft bo(^a , sem « animação d«cpielltt portil^ 
gttèzes feições, faria Suppor que o Iwça de Gè» 
eilia èra um rosal de BÂgdnd, o» mais ^«Mo^ 
aigmn oásis da Palestina. 

O justtihò òom guarftiçdes de lelílha ^ vMfè&^ 
lando o seio virginal ^ apert&va sobre â esbelta 
eifitura, deixando advinbar formas elegantes, 
que * idade detia sfttedondar. Se no coi^ ^ eomo 
}á d^, predominais o mimo delieado e um 
pouco frágil da flor ; a perfeição de afguns con- 
tornos , e á expresslo de outros , revelavam já em 
muitas cousas ámulber, cujabellefea, rica de setVi 
é ainda tenra e melindrosa de músculos. OlbMidtt 



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it U. Jõ5l(> V. SI 

^j^ f^ltíyté^^bêttíff^ o tosta, %è âà pai-- 
tè^Wt^iiíl^iftf iattÂdiÊ^ â^ com dlis; 

que o sangue impetuoso seria prompto é^m in^ 
lMftÀ«íMf-($ dofá^; é ^Uè oá olIkiS) agora sère- 
«d8r^iA6aib«t^ VolfêBBMi ii^adès^ j^detia^ fti- 
iílÊ»'mí ai«íi4K|«ftM;e^ mm ns tem^^estadeà d'almff. 
-í- »». €áft»iiift de Alfeôldei à tíotiçâ , êfa for- 
HlO&a (iiMlieiÉ , pyrèm de tittà k^Ietá mái» $e^ 
i«fèp. A« lei^ ifitMto r^tare» é delíeôdas ti^ 
^Mm Wí^ mtíeà^áé^t ^ iMun^ft pespoito. Wb 
imb; ê&mpm pftlíMo, p^ocb dá afma ^ i^eflè- 
4Âíá i á li^nqtiíHlUtoâé efa A áâa èxpr^o úídf- 
il«ria. A M ám òlhféi, civi ({ue bfi)t»áVa d fíno 
« cIbí^ miA dà tofAira^ flArei^^ ui«i tafyto frocisct^ 
tStn^aiafétà fèOèxtVâ ^iii«láCSo a «[lié oâ ac^i^ 
ttfitvfi^â/^d nmisdi rm^hi^tn ób segrede» mais 
iiflílínté^ db tibn^.^A eáláluta íiSt> era «cima da 
líl^&l^ ihtts é/seu Ardii tiobresa ittn potioo p&t-^ 
pendicular a fazia suppor uma ou duas lifihas 
^Bh eM. Afs msi^ hòíúte^ apesar dé magraá ; e 
4( @ôè «la |)6llè tit^atífé ft ãlt\itft fria âfeiâ is&iirâft, 
i$MipIé«»Vitm « ffti^tytíoiftfã dá liOViçã^ |4li»i)6^â<]^a 
i^rfe^ gl^e^-^wco é^s^sitd^ é j^r isso Mesmo 
i«ri(c»ttdo^ Ulfli earácftèr 6^t ^ mmit áisétos 
pbtm^i, e de IMfM* diéll^g, i^e^hà^ infeliz, 
^ôtti §6 buiAtehr áíè m^ènor ^teuiwe. A opjw^i- 



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S2 A MOCIDADS 

e a terna e concentrada amizade de Cathartnt 
era sem duvida a verdadeira causa da intimidade, 
que as unia. 

D. Catharina de Athaide podia ter maia do» 
annos do que 9 sua amiga, mas a experteacia 
da reflexão é precoce quasi sempre em earacte*^ 
res como o seu. Costumada a conter-se e a ob- 
servar, nunca cedia ás sensações repentinas, des^ 
confiando muito de si , e não pouco dos outros , 
também. A honrada pobreza da sua casa, cuja 
fidalguia fora desattendída pela ingratidão real , 
í^ervia-Ihe de estimulo para redobrar o resguardo 
do seu tracto. Se vivesse em opulência , a bon- 
dade do coraçSo inclinal-a-hia á convivência fa- 
miliar das outras meninas ; mas com a sua es- 
treiteza de meios intendeu que devia ser cortes 
e agradável, sem esquecer o sangue donde pn^ 
cedia, nem permittir aos outros que o esqueces- 
sem. 

Com Cecilía dava-se a excepção única, admit- 
tida por D. Catharina no seu invariável systema. 
Á educanda soffria e perdoava tudo. Com a im- 
petuosidade de génio , que lhe ei;a natural , a fi- 
lha de Filippe da Gama ria e chorava sem mo- 
tivo , e quasi sem provocação ; e momentos de- 
pois passando da altivez á humildade, e do des- 
dém á compaixão, não sabia explicar a rasão des- 

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D£ D. JOÃO V. dS 

tas variações. Como acontece ás vezes , enganar- 
se-bia com ella quem tomasse a sua exaggerada 
sensibilidade por indicio de fraqueza de vontade ; 
debaixo das apparencias de leviandade encobria 
grande firmeza de animo. Um pouco dada á tra- 
vessura e à malicia do epigramma , e viva como« 
fogo, Ceciliaera o idolo do convento, aonde to- 
dos a adoravam. 

Julgando seu pae morto na índia havia sete 
annos , amava a mãe com um extremo arreba- 
tado, e. tinha ao commendador uma aíFeição quasi 
filial ; este pela sua parte idolatrava a « menina 
bonita*» e não podia passar um mez sem a vér. 
€om sua irmã Theresa, Cecilia parecia mais secca 
e reservada, o que procedia do ar de auctoridade 
com que a mais velha a aconselhava em muitos 
casos. No fim de tudo tinha um coração de oiro, 
ainda verde das illusões da mocidade , ainda vir- 
gem nos infinitos thesouros de abnegação e sen- 
sibilidade , que o enriqueciam. Àquelle , a quem 
uma vez ella chegasse a amar com verdadeira 
ternura, devia reputar-se um homem ditoso. 

Depois do retrato, que acabamos de fazer — 
a um « sim » de lábios aonde o amor sorria com 
tanta graça , a uma. promessa de olhos tão elo-' 
quentes na paixão , só Deus podia pôr o preço , 
se é que ha na terra preço que os pague. 



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CAPITULO IV,. 



»E O HABITO NÃO FAZ O MONGE, O VÉU NAO 



sentaddf w ^49ft ào lavor ; C^eilia l^rdu^do aw<i 
escarpa cf«» * st» aetiviáftife febril ; Catteritioi 
xii«t»i9a4o im ^míhiq d« fr<¥a4ftl €Wi o costumado 
soc^o, 

A ^cw^» mm a ^rbawtre os ^dos, de 
vez em quando jogava um «orriso tr«ve$so 6 sm 
coaipaidi^ra , e , «^$ar <k {irovocaQ$o directa , 
esta não levantava QS ioi]>9S^ mas sorria-s«. Pa- 
racíam ambas cainhada» dç foHar tantoí do que 
tivbam longe àp .owaçlo e tâo pouoo do- qv*e «'^^'^ 
endtomeiite 9eiiAtam» 



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o6 A MOCIDADE 

Por fim Gecilia impaciente deixou escorregar 
o bordado de cima dos joelhos , e atirou a agu- 
lha com enfado , inclinando-se depois para a sua 
amiga. Assim esteve esperando minutos que uma 
palavra lhe desse a nota do dialogo ; porém es- 
perou debalde : D. Catharina nSo disse nada. A 
pobre Gecilia , afrontada com o silencio , e ex- 
halando um grande suspiro , resolveu-^ a rom- 
per o tiroteio. 

— « Aborrecido dia , Catharina ! » exclamou 
ella com impeto. — Ai , menina , muito feliz és 
tu!» 

— « E sou , bem vés >» replicou a noviça com 
o mais duvidoso sorriso. 

— «Olha, minha Consolação , continuou Ge- 
cilia , dando-ihe este nome tomo é costume en- 
tre amigas nos collegios — nSo sabes o que eu, 
se fosse má , devia dizer da tua resposta ? » 

— « £ porque não dizes , minha Alegria ? » 
observou Catharina com toda a tranquillidade. 

— « Porque tenho medo desse teu ar. Depois , 
affligias-te se eu fallasse. . » 

— <( Não , minha jóia ; tu nunca me affliges. » 

— «O callado é o melhor. » 

— «Pois eu digo, já que tu não queres. 
Achas que vivo muito triste, para ser feliz? 
Enganas-te, meu amor; fui «empre seria. Que 



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DE D. lOÃO V* ST 

chora muito com saudades do mundo , para me 
desapegar sem pena delle ? O coração , sim , 
chora, porque é de carne; mas o espirito está 
contente. Sem sacrifício não se serve a Deus, 
nem ha merecimento em o servir. Disse-te que era - 
feliz, e sou; porque tenho tudo o que <fesejo)» 
-^Não, Catharina; conheço-te, leio-te por 
dentro, vés? Basta de brinco!» 

— d Tu sabes que sou pouco amiga de rir. 
Nio brinco , fallo serio. » 

— « Falias serio ? Ora dize , dissimulada , das- 
me noticia de certo retrato, que de relance vi 
uma vez?... 

— « Que retrato ? . . . Tens lembranças ! » 

£ a bella noviça , vermelha e assustada , le- 
vava as mãos depressa ao ^io , no gesto de su- 
mir alguma coisa. Ceoilia olhava para ella sor- 
rindo , e este olhar malicioso mais augmentou a 
confusão da sua amiga. 

— «Não te assustes, menina, disse a edu- 
canda rindo. Não é coisa do outro mundo. Fat- 
iava daquelle retrato, que disseste que se per- 
deu. Ora , se me não engano , achado está , e 
muito perto do teu coração. » 

— «Percebo agora, acudiu Catharina grace- 
jando constrangida. É verdade, trago um re- 
trato , mas é o de meu pae. » . 



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l^«^ com qu^m 96 parece i» teu retrata? i» 

^-«-^ Nfio. Alguma idéa tua ! » 

-r^fíCom c«rto o05ciaU we pw how d* 
s^, todo» 06 (Uas v^ p«riid« m rttA« d»-* 
fixxnte âa tua janetia * d'p^ híq tira os olbis. . .» 

w-n«Pelo a»ar ^ D«ua» Cwtíia! >> . 

— «Jesus, que medas l E por t9b^. pojiet fi<* 
ca^ ))raQca 4^omo uma dW&nt»? Sotl^, <iti8 tem, 
menina? Se vi um homem Q^m di^ ruft, |«r 
is^ nã(^ m(Nrro mai^ ced«, cr^ii» «u. i» 

-^«Mas ^ qui9 s3^ tiidk^ sQppo6Íete&. S^ r<^. 
trato. . .digo, esse moço n9o tem nada. ^9 M 
escoada, t, . . hida aer mea ire^Ks » v 

— K Ora v^am.. Seado dok irmíoa Mnea me 
faltaste $eiâo de um ! Estava»^ mai ow» eite-s 
aio?* 

Era tjk> pen^traiiitç a irama 4e q«e CeaiU(k 
aíTectava a sua falsa inoceroia , que dlaaa lagri*-' 
mas saltaraadi do&Olhoa da noviça, deseorolaiâo- 
se vagarosa» pela$ face$. A aiougada ímmWr 
ciiya travessura as folia correr), estava morta per 
desatara rir; mas <h» presenoa daquella di9rviva. 
e sincera, deitou-^e-lbe noa brai^ ateagandb*^ 
e beijando*^ eom e^iítremosa efftoss». 

— ^íí Perdoa^me, Catbarina ! Foi malfeito* T» 
nèo merecias. . . Mas tamben pturque teencobrat 



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i^:ti» iPn%^? ' • í^^\á»& que elk jiSp i;jd)^ gm^ 

4í^ 1101 sc^gsredp ? )) 

^ -*-. « Nâo , min,bd JQÍ9» 3ex qve t^o$ juizo , m«$ 

não uw delle sçpipre, » 

jj -r- « Obfig^ ! EstQtt.entàQ iitacJvi4a.. & mit 

nha amiga ? » , . . > f 

: ^^ 1í:l&^s^, «í^H. ^ M^ çaiQ tcf ^^ Affligiste- 

me , oieq amor. » 

£ ^rrií^bx 6^ 4)pi^4fi4e , por entre a3 Lagri- 
^n^;^rai^ .Qru2|iu<^^ D. CatlWinft deu-^lbe um 
})eijo com infínita amizade. 
,.>^ifrííàfl| te'rifm?dio^-7^jy<>5eg»ÍQ ella.de- 
))f4^.%q(^$s^Trmçrbei a^est^^adi;^ tãp curiosa; 
y/WS^r ^:V*?c¥i ^ e« ;di;(ei;, mewji^?» 

^'T- tf ji^iç), Ojiero jabfír tudo. í^ E q j(içd9 de 
^iUafY-;eF|^uidjgt pa^a P fir^ âjvve4C«;vci^ a j)fm^ 

, -.^aÇro^nettçs^egriôdo?» 
,. i-iT-ítJi^re. E tu, a mm-, promçtteç?,» 
; T^^cPçi^ ti9 QiQYâi já tem segredos o teu 
corjiçi^, Cfci4ftK 

r*Tr<f>Oh, *e tem! E foiíf^ nàp? e talvez 
ff^c^ do que.jallga^. , . Â gente cresce ^r^it 
depressa, Catharina. Olha , meu amor , sei muitas 
çpuíi^; ^vinl^o.^mivítes n)^; q uma delias é 
es^ag-tfV amas! Farín » t^a confissão pelo pri- 
meiro mandame]|;itQ.». 



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60 A MOClOTABtt 

' — « Amo ! » — murmurou a noviça , tremult 
de voz, quasi ao ouvido da sua amiga. )> Amo 
sem esperança, sem mais esperança do que a 
de ndo chegar a ver o fim do meu engano, se 6 
engano ; da minha illusão , se me illudo. Bem 
vés o triste amor que é. » 

-^ <x E nSo juras em v&o? Amas e crês como 
em ti f» 

— « Firmemente ! Mas de que serve ? » 
— «De tudo. Não professaste; és livre; diris 
a tua mSo, . . » 

— « Ai Cecilia , nlío ! O habito é mortalha. 
Devo a meu pai este sacríficio pela sua tenrara. 
Não ha logar, fio mundo, em que eu caiba senão a 
cella do convento. . . Dos bens, que tivemos, 
só ha em nossa casa hoje a gloria éd um nome 
que deve acabar como principiou, honrado e 
puro. Uma filha dos Athaides, querida , não entra 
em casa de ninguém mendiga. . . Não podendo 
ser esposa de nenhum homem, serei esposa de 
Christo. . . é como se faz na minha famiHa. » 

— «Pois levando-lhe esse coração, e tanta 
belleza, não lhe levas um dote, que não tem 
preço?» 

— «Achas bastante? Talvez elle dissesse o 
mesmo , o amor cega. E depois ? . . Não. £ re- 
solvida. Ficarei sepultada aqui. » 



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HS D« joiov. 61 

' --*-«Mts porque o vés aioda, porque o não 
desenganas?» 

D. Catharína olhou fito para Cecília ; e pe- 
gando-lbe na mSo depois com força, disse na- 
quele tom ailbgado , que ás vezes é mais vebe^ 
men|^ do que a mais alta voz : 

— <ç Porque a paixão que lhe tçnho pôde mais 
do que o dever. No dia em que o perdesse estalava o 
€OFB(}ão no peito. Tenho medo de mim, tenho medo 
delle nesae dia, vês ? I Deus te Uvre, pela sua graça, 
de um amor assim ; é a alma e a fé, é a salvação 
ou a morte de uma vida inteira. Não o desen- 
gano , porque ainda me desejo enganar a mim. Sou 
•uma fraca^midher e a morte Ceiz-me horror , sobre 
tudo a morte lenta e inconsolável , que me espera. 
Quero esgotar de todo esta illusão suave. £ como 
ac(Mrdarei eu delia meu Deus 1 ? . . . Percebes? £i^ 
tendes agora porque me callo, devendo fallar? 
Sobes porque não lhe digo que morro , que morri 
. para o mmido e para dle? Parque em cada dia 
vivo só os poucos, momentos em que o vejo. » > 

Ella ch<»rava dizendo isto, e Cecília unia as 
suas lagrimas ao pranto amargoso , que a deses- 
peração exprimia dos olhos da sua amiga. Cin- 
gisdo-a com os braços o eubrindo-a de carinhos, 
a pobre menina exelaoiott com wtbusiasmo ao 
mesma tempo : 



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6fi À MOf:iDAi»# 

-^«Mífiila B¥MgÊi, mífifhft imit, h^ée sal- 
var-te, porque se eu lhe disser; elte UBtflfeftí! 
teée. ..» ' 

— «Elle! quem?-^i»tertt>ttipèil €}«t*«rflMi 
ti&m um g&êU)áetérf6T *-^Gm\\é será^ceftá «Mis 
uma desgraça? Aiftás cMiè «a? Dillé! àMd^ b 
tiíste ^ quiiiido ^ como ? Querida meÉkiè, oito bem ^ 
p9e a vísia em tuim T ! i» 

Cecilia ouviam sottifvdò tòM: ttiítMh. If^Mf 
a p^m tê ottios^ tí^éenéctam-se / ú iíMí IháilM; 
e beik domo utn attjò ^iie ^ê ^^«1 ãtt^ h(lMi4ti^ 
humanas tia mais i^aéíciM ínÈOòén^f^ ^ di^se tiAl- 
tada e co<iteti(5idai 

--^ a 0)ba Cfiftftarítia , te fei 'betíi §e ma) , «So 
sei ; o que sei é que « sittlo Sempre afei^ pé de miiti 
e qtie eslA em tudo 6 qti& eu ^^ é piãMò. Aimfe 
elle n«o ehègdu e já itte estfi ftíllfttidci^ JA ^isffiia pii^ 
mim e me chama t á mfába ttkmi è§ta cbevè^-A 
^a imagem f o mm e&pit^ tivé eem a <Mle 
na ausência; Dia e Mvte^ o c^fr^Ko i^pettMie 
cofm jubilo duas* pàlatras , que tsãd é ^u hmé, 
êomeci amet. Pòr e^té hMM^'^ Cá^rinfa, dei- 
tfttiHtè mà peMí", eu quÊite jBHibfty. . . Rfi«ftá éiM; 
que me estendesse os brâ^, qner«ndd efte, 
▼ia*me fugir alé do <5ett páfra <> Seguii^ . . i Meti 
amor, nlKK^res, pKerÍMi^!'Véi; Sé'<etlè p6dèi 
mais do que eu ! . . . Não padecei Mmbélfr M? 



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BC D. joko *Y* 63 

«OciíoApts.aiada tento: quanda duas almas que 
ise amain assim ^ chegam a ^r^e^ diae^ dixe> 
aié afM^^fttai «n minutos, cni um sorriso^ as 
it^iiMB de iilaitDS atínoat » 

«•-«1» Calaste ^ oaiarte! Bsia tida pmMttMi a 
aqMaràttiâ ^ mai aSo a dá o muadoi, lifto se fè?e 
aento no oeii« » 

^'^nTúmimA Aa tM*a. €fè e ama €cmo ea. 
AiMRaea^ ôam a fé e varáB^.,» 

-!^ « Oxalá 1 Más, miiAaCedlia^ aecreica««ôa 
ISatfaaríMi ceqi afiactaosa tmtezav ^ ^o nova 
ainda , tiro sincera ! Esse coração tilgMMHtt, 
tronfia ]iMÍto deaaak . . Toma aèntido 1 Ndo (ens 
fii 4ie ta iddetidà. Meu «mer^ aòautela^te ; 
Aoai^ títeste il^rafio para te Iriígar. i> 

*^u Bem 8<Í5 Cathatifii. Sm orpta ^ é Pei^ 
dade, mas o nome de meu pÀ è «ÂrigaçSo, e 
jMt i^ d^mrtreaa ea o^Mkndorei.até 4le mim. 
NSo tenho irmão, mas tenho animo e contada: 
e para não precisar de vingança liaita qne me 
respeite como devo. Sd laainfa sarfirai de irmão 
e de pai ao meu amor e a mim i m Beas que lè 
na Imnha alma sabe le (irometto omM Té e se 
creio com fervor. 1 . » 

E por um gesto sublime , CeeiKn ^ «flectindo 
nos olhos a exquisita asnsíbtMade á^ coração , 
rfjoelhou lentamente aos pés ãe €fltfcãrina, le- 



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64 A MOCIDÁIIE 

vantando a mSo ao ceu , como quem pronuneti 
um voto irrevogável. 

 noviça olhou para ella sem severidade. Co^ 
nhecia-a muito para davidar da abnega^^o , (fàt 
exprimiam as suas palavras. Sabia, que esia pai- 
:xão embora fosse uijíl mal , era já um mal irre- 
mediável. Por experiência sabia mais, que no 
primeiro ame»*, quando se cré e se adora assim, 
esse amor é a própria vida e só com ella expira. 
Foi, portanto, para sondar a chaga e sem es- 
perar remédio, que D.Catharína perguntou com 
melancolia : 

— (( DirHne4ias como elle se chama ? » 

— « O nome que todos lhe dão não sei. De 
mim quer só aquelle nome tão doce, que diz só 
« bocca da irmã e da esposa. Chama-se João. » 

--<cÊ fidalgo?» 

« Não sei ; mas todos me parecem pequenos 
ao pé delle. » 

— «È nobre?» 

— «É; se eu o amo!» 

— «É rico?» 

— a Para mim. Não te disse que o amo ? » 

— « E se fosse pobre ? » . 

— << Amava-o. » 

— «Se fosse mechanico ? » 

— « Amava-<) ! . . , 



y Google 



M D. JOÃO V. 65 

^--- « Se te levasse longe dos teus e de mim ? » 

— « Amava-o ! . . . com amor de filha , de 
irmã, e de amiga ^ com todo o amor que nos 
dá « ceu , e o coração encerra. 

' — « E enganaíido-te não o aborrecias ? » 

— « Nilo ! » 

— « E preferindo outra não o odiavas ? » 

— « Não ! » 

- — «Eseelle não podesse, ou não quizesse 
senão amar , acceitavas ? » 

— « Morria , ou acceitava ! » Murmurou Ce- 
cília sem hesitar. 

— « Mesmo um amor sem nome , digamos 
tudo , mesmo um amor sem esposo ? » 

— « Sim ! Tudo menos arrancar a alma do 
corpo , para arrancar a sua imagem. » 

— « Então Cecilia , exclamou Catharina , so- 
luçando , e com as mãos erguidas , então boa ou 
má eis a tua sorte. E' o primeiro e o ultimo dos 
teus amores; para ti acabou-se o riso e a ale- 
gria ; fugiu a mocidade. Colheram-te, pobre co- 
ração ! A tua alma , que eu conheço , está aos 
pés desse homem , vencida , escrava , para elle 
a perder ou a salvar! Cecilia, és mulher. 
Não procures as illusôes da meninice, porque 
perdidas não tornam ; cuidas que podem voar , 
livres, Jcomo d'antes? . . se o teu senhor mandar, 

X 5 

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66 k MOGIBÀl^B 

O coração qté do ceu ha de cahir á sua voz, coólid 
a' ayesinha ferida cahe na terra para morrer. » 

-^ « E que importa , ge elle amar, se fôr fe-^ 
liz?» 

— « Feliz ! Peus o permitta. Poisam amar-te, 
querido anjo , como tu deves ser amada , para 
viverei?. . . Nâo è a hora do passeio? Vamos ao 
jardim ; quero saber tudo. » 

£ dandp o braço a Cecitia, a noviça desceu 
adiante de todas para tomar o sitio que desejava. 
Com effeito apenas o sino bateu a hora suspi- 
rada, as agulhas ficaram no ar sem âair mais 
um ponto 4 e os bastidores desert^ia i^o viram 
mais um fio ; em toda a casa do trabalho se fez 
uma verdadeira mutação de tbèatro, Âquelle 
bando de pombinhas -, doidçsjandç e cwrendo em 
tropel, rindo e fallan(io altO) foyi, a saltar os 
(degraus das escadtes, precipitar-s^ na cçrea ^ Wo 
eíperando por ninguém, nçm olhando para trai. 

A regente depois ^ metter os ocido» entw a 
íplha do livro ascético, que estava lendo, eo^ 
j^eaindo de sciatíca çfe^onica , e oa^Qntk) da sm 
^sthma incurável , sahiu logo atraia para acQise 
j^ç^nJiar o en:^a9^e , jâ dividido em ranflios « va*' 
gw^ndo peta» arcadas ruas ^ jardim ; estas re- 
gando a roseira ou o alecrim pr^lectf, aqaeUi^ 
t$migalh9.nd<) pao aos pei:<í;es do tao^nei e «^ 



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M D. JOÃO V. 67 

Vnais novas provocando os dois caxorrinhos da 
abbadessa , cuja beatifica digestão foram pertur- 
bar os latidos dos seus quadrúpedes validos. 

Entretanto debaixo de um carramanchão re^ 
tirado , Ceeilia e Catharina , as duas amigas, de 
mãos dadas e com o rosto chegado^ conversavam 
com a maior viveza* 



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CAPITULO V. 



PETRLS IN CUNCTIS EST PETRUS IN VINCULIS. 

A PASSO cheio, mas não precipitado/ o jesuíta 

adiante e logo atraz o andador das almas , am- 

. bos chegaram ao arco das portas de Santo AntSo. 

O primeiro risonho e sereno ;• o segundo cada 

vez mais escravo do terror. 

O dia amanhecera limpo e claro ; o ar estava 
frio e secco ; e nas ruas o silencio era completo. 
Todas as portas e janellas fechadas davam testi- 
munho do recolhimento dos visinhos. 

O jesuita parou debaixo do arco , e de leve , 
muito de leve , pousou outra vez a mão no hom- 
bro do honrado Thomé. Se visse desabar a abo- 



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70 A MOCIDADE 

beda não se encolhia mais o milagreiro, tre^ 
mendo como yaras verde». 

A Yoz do padre acompanhou o gesto; era 
uma voz limpida e vibrante; quasi tão suave como 
o timbre da voz feminina ; mas que apesar da 
melodia tinha umagrcMloce que arranhava mais, 
do que a rudeza de algumas falias ásperas. Certo 
geito estrangeiro na accentuação das vogaes dava 
um cunho partiwlw it wlmQf^ phrases. 

Algumas vezes a vista parecia desbotada, e ar- 
mavanse então de uma doçura felina que fazia 
esfriar as pessoas para quem olhava. O sorriso 
impenetrável era acerado de ironia , e cortava 
como o fio de um stilete. Nestas occasiões a ama- 
bilidade do padre metia medo. 

Em gefiil o sewUvi^r do íomitft qe« nesta 
occasiãot eff irttaoso e i?ellwm>; a vista pitrfimda 
e pfisetniQjbe ^ des^w que em nm rolatiee medem 
Cl vee» hida; e a boôoa, riMiha ou «tei«,^ sei%- 
pre em guarda , nuncn deicobria^ ^ p^nmne^to* 

As feÍQdes. kffi aooimds^, a testo «lia ^ bom- 
beedit , e o Qa^ix «tiiiUn^, viríl^, o^ boi» C^rm^do», 
caindo wm grus^i» letircieMiív^im m ows j ura a- 
pressão o t^ das phisioiíomitfl ít^lioi^», ei^ 
íuitira e profundidade €«fHii9 {|«iJm<Mte os eb- 
annndiares poucQ acodtiunados a í(ktor|re|at4is« A 
idade^ oarèandoc^ eabçU<is, ctio^vt fk aan» ^,^ 



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DK D. iOÃO V. 71 

miigestade uma figura , aoiMk o dedo de Deus 
imprimia com distíncçào o cunho indelével da 
génio e da grandeza. 

A sorrir , e senifure um faTo de mel nas pa* 
kvras, o reverendo padre, rompeu as hostilida- 
des « deixando cahir amigável , mas utn pouco 
m«U peiMa ^ a mão direita no bombro da sua 
victima. 

*^ « Como |à lhe disse ^ filho ; gostei de o 
ouvir « goatei muito. Yé-se bem o seu zelo pela 
religião ^ e o grande temor de Deus. Depois , é 
bcmn catholico ^ ama e rebita a santa inquisi- 
ção. Fallou bem, faltou optimameate. Conven- 
cettHne ! » 

Este elogio succarino amargava como absynto 
ao honrado andador. Extático, com a peruca des- 
^onhadá, e os olhos de sentinella ao sorriso do 
faàíe^ Thomé afinava os ouvidos^ penando a fogo 
lento e em trances mortaes todos os se«s pec- 
cados. O jesuita observada, sorria-âe para dentro, 
e fingia^se desentendido. 

— cc Não responde ? Noto agora : V. mercê não 
está bom ; tem alguma coisa ? » 

— *■ « Não é nada ; estou melhor ! » O devoto 
engasgouH^ sem folgo para mais. Muito desejava 
•creioeiítar : « Tão bom te visses tu , desalmado 
hypocrita ! » mas faltou4he o animo. 



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72 A MOCIDADE . 

— « Está melhor? ora ainda bem. Ndo nos 
adoeça. Sabe do que isso prppede provavelmente ? 
Do calor que toma pela religião. A carne não 
pôde com o espirito. . . £ eu , filho, receio que 
venha ainda &r fazer-lhe muito mal o seu -espi- 
rito. . . Ora pois ! Repito ; gostei dé o ourvir ; 
pareceu-me libio o padre Fr^ João; desconbe- 
ci-o ! Será bom apertal-o. Olhe , Thomé , tenho 
scismado ; o seu conselho de curar a heresia a 
ferro e fogo, digo-lhe que o acho menos mau ! ? 
mas dos executores vae tudo. Gom peque- 
nas correcções na forma, estou em que será 
muito útil e agradável a Deus e á egreja. >» 

— c< Misericórdia ! Peccavi , reverendo padre^ 
peccavi! » 

— « Quem não pecca , filho ? Como ia di- 
zendo : acho-lhe razão , é das obras de miseri- 
córdia castigar os que erram. Disse muito bem. 
Y. mwcé tem génio e habilidade. . . para casos 
de consciência. Tirei informações a seu respeito 
e satisfizeram-me. Não havemos de consentir que 
a luz de um entendimento claro se esconda nessa 
humildade... Não deseja figurar? Pois sim! 
Isso c muito louvável; mas todos hSo de co- 
nhccel-o ao menos ! As nossas missões da Ame- 
rica pedem homens, assim zelosos da cura das 
almas c do serviço de Christo. » . 



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MD. JOÃO V. 73 

> — « Valha-me Deus! Errei contra a com- 
panhia; mas, y. patanidade, accuda-me pelas 
chagas do Salvador ! Nãa me deite a perder ! » 

— a Socegue , filho. Se lhe digo que estimo 
a sua habilidade ? — e que V. mercê tem muita 
é inegável. Ora, fallou da Companhia de Jesus. 
A esse ponto ia eu chegar agora. Ainda assim ! 
Teve caridade comnosco. Castiga o corpo, e 
lembra-se da alma. — Foi onde gostei mais de 
o ouvir. Estava inspirado ! O embusteiro , o hy- 
pocríta , pondo a nossa capa , nem por isso é mais 
jesuita do que o moiro ou o idolatra. No seu 
corado escarneceu de Deus e da Companhia ; e 
entre a salvação de um e a salvação de todos, 
optar pek) interesse maior é a doutrina do ins- 
tituto. >» 

— « Milagrosa Vii^em do Cabo , valei-me ! » 
— murmurou o irmão das almas, cujo pavor 
crescia em proporção da sinistra amabilidade. 

— « Invoca a Mãe de Deus ? Boa fonte pro- 
cura ! Louvo-lh'o muito. Tomando á Companhia. 
Dizia eu que o seu conselho era bom ; e refle- 
ctindo , acrescento , que o acho óptimo. Ê pre- 
ciso um exemplo , e vamos dal-o ; senão ouça : 
É da. cidade de Évora, não?» 

— «Sou, meu padre. Lá nasci e me crea- 
ram. » 



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7i À MOCIDADB 

— ((Muito bem. Eattio estA^noeaâo de no» 
ajudar , se quízer ^ a serrir a Deus e A relifbo^ 
Sendo de Évora, conheceu por forga um tal 
Onofre Crespo, algum tempo familiar do nosso 
padre Simões^ Havia de conhecer I « . . EUe é 
da sua idade, trinta annos > pouco mais ou me^ 
nos. » 

O Sr. Tbomé, ouvindo a eitação» fes-^se fuUo , 
e sentiu fugir o lume dos olhos. Três veies apol-' 
pou o chio com os pés , como quem etperímanta 
as pernas para uma boa ciHTida , e outras tantas 
consultou o rosto do jesuíta com os olhos atieio^ 
SOS. Inutilmente I A eterna aíbbiiidade do padre 
desarmava â soa penetração. 

A pergunta era naturalíssima ; e não teria aiH 
sustado o milagreiro , se não reflectisse que os 
jesuítas 9 por desgraça, sabiiun quanto quêriasfi. A 
intensidade do medo, e a violência do ataque, 
restitttiram-^lhe a clareza do íntendímento« Ape^ 
nas percdbeu por onde vinha o assalto armouHse 
de prudência e de simplicidade. O padre afdver- 
tiu a mudança , e sorríuHie de novo. Applaadii^ 
se talvez por encontrar o adversário mais forte 
do que suppunfaa. 

— « Que figura tem esse Oifofre Cfeâpo ^ meu 
padre? — perguntou o devoto com a possível se- 
renidade, depois de poucos instantes de paosa 



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BE D. JOÃO V. 7S 

p^— Hft da bsiv^r aígnaes; V. paternidade^ de 
c^rto oft mandou tirar. Está averiguada a histo- 
ria io eriBie? . • . • se eUe eommetteu crime. 
Com esse apoatamenta talvev eu podesse lenv- 
brarnone. « . . Aiada que sahi tSa novo da cidade 
que pouQ^ 0ie reoordõ. ...» 

*-*Ê natural V. mercê tinha vinte annos^ 
quando mudou de terra , segundo me diss^am. 
Ha de tembrar-ee« Foi por esse .|kempo. » 

— cEsteja V^ paternidade certo; se eu o co- 
nhecer l Nada ha que eu nio foça pelo intaresse 
da santa religião. 

Como bem táctico o Sr. Thomé cobria a re- 
tirada com UBM demenstracio sobre a frente do 
inimigo. — « Sendo comigo -^dizía para si — o 
jeswta descalçardes e apanho^iii. Seado com ou-^ 
tso^f se o oonbeQo , deauacio-Os do céu lhe ven 
aba O rwiedio; se aio o ceabeco, arahos es- 
tamos salves^ Em tedooca^o a charidade começa 
per aiis. » 

Mais animado com este raciocinío , o aadedor 
accQDimodáMi ai p^uca, afinou as oamandulas , e 
a^paoiMe da sua. ajb» vulgar e disaimuiâda íhh 
pudea(9iaw 0,)esiiita, com um risinho falso, es*- 
tava-Of toado por daitro. Era evidante que o par 
dre assiatia em espirito ã desaforada ccmiedía ^ 
que em monologo corria- na abna do milagreiro. 



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76 A. MOCIDADE 

— « Falia com juiso — respondeu sua paterni- 
dade com todo o socego; nem se esperava me- 
nos do seu zelo. Quer ouvir os crimes do hypo- 
crita e conhecer a arvore pelo fructo ? Ê justa 
Felizmente temos aqui as cópias. A Companhia 
sabe que os seus inimigos não descançam , e conta 
com elles. Está armada! Ora leia á sua von- 
tade. » 

E o jesuita , metendo a m9o no seio , tirou 
um maço grosso, e entregou-o ao Sr. Thomé, 
sempre com o riso na bocca; ao mesmo tempo, 
disse-Ihe : 

— «Sabe lèr, bem sei, e até seus princípios 
de grammatica. Sei mais aonde estudou , e quem 
foram seus mestres. 

-^« Gosto pouco disto — rosnava o devoto 
entre dentes: — Este padre sabe de mim pelo 
menos a metade do que eu sei , e queira Deus , 
que não saiba tudo. Em íim, veremos! Ha 
de correr, como uma lebre, aquelle que me 
apanhar. )> 

E abriu o maço com algum tremor nos de- 
dos. Em quanto i ia, arrepiando as solnrancèlhas 
e engolindo em sécco, a vista escrutadora do 
padre não perdia o menor dos seus movimentos ; 
era uín exame de consciência feito in anima vili 
segundo o methodo jesuitico. 



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QB D. joie Y. 77 

Em substancia resavam os papeis das proeaas 
de um Roberto Macário , verdadeáro cavalheiro 
de industria ao divino, e famoso mestre na con- 
sumada arte de enganar o próximo. 

Onofre Crespo,, natural de Évora, e filho de 
pães incógnitos , fora rectdbido por caridade em 
casa de uma beata viuva, chamada Perpetiui das 
Dores. Antes de ser ccMdhecida por hypocrita , a 
beata era confessada do padre Simões, lente de 
theologia no coUegto dos jesuítas , e engomava 
a roupa para aquella piedosa casa. Quando Ono- 
fre tinha doze annos entrou nas classes do col- 
legio , e estudou latim , lógica , e rethorica. Aos 
dezoito principiott a ouvir theologia , e a ajudar 
á missa ao seu mestre e protector, o padrê Si- 
mões. Parecia o exemplar do perfeito devoto. 
Ninguém foliava menos , nem resava tanto , con- 
servando-se mais tempo de joelhos e braços er- 
guidos. Vqamos como se aperfeiçoaram estas 
prendas. 

O padre Simões costumava depois do jantar 
disiarahir-se com um passeio pela cidade , le- 
vando em sua companhia o Sr. Onofre Cre^. 
'Uma tarde entrou com elle na loja de cei!to ou- 
rives, seu amigo, homem rico e honrado,. e 
pozrse a apreçar prata lavrada , até o valor de 
cem moedas, tudo objectos diversQS. Era uma 



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7S k MoQDkm 

«ncomtnenda, e eomo queria servir, regateou, sà« 
hindo por fim muito suado e^sem eoneluír o 
ajuste i porque desejava saber a vMtade do com* 
prador. Fazia vento quando voltaram para o col- 
legio, o padre cobstipou-se, e fieou surdo do 
defluxo. Três dias depcns^ justamente no dia em 
que fazia vinte annos^ o virtuoso Ooofre a|qpaH 
receu de manhi na loja para leVar a prata da 
parte do jesuíta ^ diiendo ao ourives que fcsse 
com elle se queria receber o dinheiro. Ainda 
era cedo , e quando entoaram na egrqa , o pah 
dre SimOes estava confessando a Sr/ Perpetua. 
«Espere um instantinho «^«^ disse o devoto ao 
ourives — eu avião o padre mestre. ^ 

Com eflSeito cbegou-^se a eUe, e em quanto a 
penitente começa em jaculatórias espírituaes , 
que atroam a egreja , o Sr. Omrfre absí^can» e 
muito chegado ao jesuita profere algumas pahK 
vras , que o ourives não percebeu , graças ás ox*- 
clamações da beata ; mas que não o inquietaram 
em virtude da resposta cb paAr^ , dada muito 
alto , como é eostume doa surdos. Viraudo^^e 
para elle , o~ confessor disse : « Pois sim ^ sim. 
Cerni muito gosto, é mu instantinho «m quanto 
avio esta devota e logo lhe' falto, n Depois ftpa- 
randano cesto, que o Sr. OMfna tramnamto, 
acrescentou ; « Leve^aaie isso fsra o meu quarto^ 



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BK B. jroÂo V» 79 

^ com cuidado. >0 meão Onofre nSo esperou 
segunda ardem; n)doii sobre os calcanhares^ e 
oabiu immoáiatamente da egreja ^ fatendo a sua 
eortecia aos santos com a mais espremida com^ 
fiunc^o. 

Quando a beata se leTantmi para resar a soa 
peitttoncia^ o padre Simões, chamando o cre<- 
êar^ assooiHfle, saudoo-o com a mSo, e disse: 
H ajoeihe e diga o acto de contricçSo » -««-V. pit* 
temidade pendoará, mas eu não venho oonfes^* 
salame. '^^ « Essa éboa 1 Pois ndo quer que eu o 
<Híiça?ik««*^SimSr. ; mas não é do confissão: vim 
para receber as ordens do padre mestre. -^ 
^ Quaes ordens? )» ^*^ AqueUa continha que sabe« 
—^ « Não percebo ! V. mertéestèemseojoíao?» 
»*«^Por signal em }epim ainda; V* paternidade é 
que está distvahido* Fa}Io da prata. . . «^ « Ah ! 
Foia não ! Desculpe I esta cabeça } Ê negocio feito^ 
já sabe. Appareça por cá tfsaanhãi cedo, para o 
acabarmos. Não quer mais nada?»^**» Beijo as 
«fios da V. paternidade. -^ « Nte se esqueça. 
Traga a conta e o recibo»-^ vem tudo, pa^ 
én mestre. 

Naqndlo dia faltou ao jesuita o sen andarilho 
Onofte; mas nãa lhe deu cuidado ; tinha pedido 
Koança para ir a uma romaria, a seis legoas da 
distancia da cidade, e juigau-o de viajem. Na 



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SO A MOCIDADE 

manhft seguinte davam nove horas, é entrava o 
ourives pela cella do padre mestre ccmi a sau- 
dação usual: — Deus seja nesta casa! — «E o 
ajirie a V . mercê ! respondeu o religioso , che- 
gando-Ihe um moxo para defronte do maciço 
contador de páu santo torneado a que escre- 
via. » — Acpii está agora a relação da prata , e 
o preço das peças marcado á margem. — «Dé 
cá. Assim é que eu gosto. Contas* claras. » — 
Agora se V. paternidade quer, vamos conferir o 
dinheiro. ^ — « Se o acha certo para que é isso ? 
E a prata ? » — Veiu a que o padre mestre man- 
dou. — « Pois sim ; mas que é delia ? » — Na- 
turalmente está aonde V. paternidade a poz— 
rqriicou o ourives rindo. — « Aonde eu a metti ? 1 
Está zombando? Pois não me dá a prata e quer 
que eu saiba aonde a guardei?» — Não dei a 
prata ? — acudio o mercador fazendo-se branco. 
Desde hontem aonde está ella senão em po- 
der do padre mestre? 

— «Não brinque. Falle serio. — «Muito serio 
fallo eu. Por signal que Y. paternidade me di^se 
que voltasse hoje pelo dinheiro. » — « Pelo dinhei- 
ro? Ahiestá outra. Oh, Sr. Irinocencio Pires, não 
me faça cahir em scismas ! Pelo amor de Deus ! 
Pois o rapaz, o Onofre não lhe levou hontem o 
dinheiro, seriam oito horas da manhã? Cetn 



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DB B. JOÃO r. 81 

moedas em dobrões de^oiro, contados pela mi- 
nha mão?» 

-^ « V. paternidade faila muita verdade^ mas 
eu não i^i nerh um ceitií, quanto mais cem moe- 
das em dobrões. Quando mandou buscar a pra-: 
ta. . .» — «Eu? Não mandei tal! Até lhe pedi 
que m'a guardasse! Não leu a minha carta ?)> 
-^^ — «Â sua carta? Qual carta? Não me deram 
senão este recado hohtem da parte de V. pater- 
nidade, que entregasse a prata e fosse logo ao 
collegio. O Sr. Onofre depois metteu a prata no 
cesto, e eu acompanhei-o á igreja, onde por or- 
dem do padre mestre esperei que a devota aca-^ 
basse a confissão. » 

. Um raio fulminava menos o jesuita. Perce- 
beu que estava roubado , e roubado duas ve2es. 
-: — « Não recebeu o dinheiro ? perguntou convul- 
so» » — «Nem cinco réis! E o padre mestre não 
tem a prata ? » exclamou o ourives atterrado« — 
tdVem uma culher! Meu amigo, estamos rou- 
bados, V. mercê na sua prata, e eu no dinheiro 
alheio. . . O que é isto?» 

£ o jesuita, empurrando com força uns pa- 
peis em cima do contador, deu com a vista em 
uma carta, fechada^ lacrada , e com sobrescripto 
para elle. Abriu-a, leu-a, e roxo de raiva, 
pas8ou-a em silencio ao ourives. Este poz os 
6 

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82 A MOCIDADE 

óculos e todo tremulo leu alto o que se se^ 
gue : » 

« Meu respeitável mestre ! V. puternidad^ , e 
eu enganamôHM)s um com o outro. Servia-o para 
ganhar algum reuiedio para a telhice^ e até hoyè 
áffirmo-lhe que não sei a côr do seu dinheiío. .0 
padre mesUre suppos que eu me habilitava para 
sasto , por isso me poi quadí a jejwn de pSo e 
agoa. CÂra o nosso moralista o padre Bauntus, 
previu Da Sunma Pecoatwmm^ editio quinên^'^ 
fug. mihi 213 e 214, esto eaao de coftscieDCia, 
aonde dii : « que pôde o servo a quem nko pagam, 
«pagarHie por suas mãos, com tanto que lâo 
« tire mais do que lhe deverem , settdo pobre e 
« desamparado. » Sou pobre , e ainda por cima 
«orphao. Cà levo por tanto, s^utndo tio bom 
H eoiaselbo , os vinte dobrões e mais a prata no 
K valor de duientas Aioedftf . É quanto c^dculo , 
K que devia receber em oito annos de serviço , e 
« nSo o (aço caro^ Ficam os calçOes e a roupeta, 
4l 4ue V» paternidade me deu « porque bem etêr 
a minados , estão uma rede de pardaei. Taadiaft 
«deixo a Summa de Baamus, aitidA mareada 
« dtãío loeo , mas descanee V. paternidade ^ de^ 
«eorei-a primeiro. Ajuiio que o padrt mestre 
« dará o dinheiro por bem empregado , Vendo o 
« frueto da(t doutrinas de um doU melhores Ca«» 



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BÈ D. JOÍO V. 83 

fc suisúfi da companhia. Com elles protesto vtrer 
€( e morrer , dando ao exceliente mestre que m'os 
«ennnou^ os parabéns pelo gosto que lhe hade 
« cansar o meu exemplo. Se o dinheiro se foi, a 
f( gloria da theologia ficou, e ainda assim V. pa- 
<c ternidade compra barato. Conto acabar muito 
« rico e ir como um foguete direito ao ceu. Re- 
f( commeiMle^me a Deus nas suas orações, e seja 
« amigo deste seu discípulo , que lhe beija as 
«mãos. Benedicite^ padre mestre t Até ao dia 
« de juízo. Ti 

— «Ah patife, ah hypocrital — gritou o je- 
suíta desesperado com o roubo, e sobre tudo com 
a citação do padre Bauny , cuja doutrina pouco 
mau, ou menos, era a tirrocada peio Sr. Onofre 
Crespo. ^( Para isto aqueci a vibora 1 Bem feito 1 
Sabe o que elle me disse na igreja ? Que tinha 
V, mercê grande devoção de se confessar comi- 
go. »'•«*- Perece V. paternidade? A prata não 
sthta das attnhas mios se «ão oiço o padre mes- 
tre dizer: «leve-a ao meu qcrartotn-^^Mías eu 
jttlgaeí quebra a miiiha roupa !-^«Ka<]la; era 
a mmha prata. i>«— « V^hacol Pdiidé ! » 

Emqoanto os padecentes de^fenam ^ roubo 
e tfpeitam as nãOB na cabeça , o devoto por «res 
e teátos eiiega?a a Mottte-Mór. Perto <fe vilhi , 
dssmhm de img^ um carefNr^ muito bem mofi- 



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84 A MOCIDADB 

tado. « Álli está o que me era preciso. Vinha do 
ceu um ^ cavallo assim ! » Dizendo isto comsigo 
entrou a scismar e apeou-se do macho, que es- 
tava no lastimoso estado da mulinha do Palito 
Métrico: 

« Cortabat fíos almas quicumqae vídenti ! x> 

Quando o marchante (era marchante o ho- 
mem) se chegou ao pé delle , achou-o â borda 
do poço desfeito em lagrimas : 

— «Salve-o Deus, que tem V. mercê?» 

— « Ah , sr. ,. não me diga nada. » 

— « Qual I O que o afflige ? Diga ; desaíTo- 
gue ! )> 

— «Não tem remédio. Cahiu-me no poço a 
imagem de Nossa Senhora. Era de oiro, e não 
sei nadar. » 

— «É só isso?» 

— a Acha pouco? Se não fosse prenda de mi-- 
nha mãe, não me affligia tanto. Más deu-m^a 
ella á hora da morte... ^ 

' — « Console-se, que ha remédio, homem ! Eu 
nado como um peixe e se lhe não tiro a imagem 
do fundo do poço, ninguém a tira. Segure-me 
o cavallinho , e livre-o de algum couce do ma- 
cho , olhe que «lie não se confessa. Está bom. 
Cuidado com essas bolças, que não estão vazias ! 



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DE D. JOÃO V. 88 

Sentido ! — Se larga da mão esse demónio saiba 
que o não apanha senão em Aldea-Gallega — é 
um virote a fugir. » 

Dizendo isto o marchante despia-^se na maior 
boa fé e deitava-se ao poço. A agua andava funda 
e o bocal não se podia alcançar debaixo com a 
m^o. Apenas o pobre homem mergulhou , o de- 
voto Onofre saltou no cavallo, segurou as bolças, 
e enrolando a roupa n^uma trouxa , prendeu-a 
á garupa. Depois chegou-se á bpcca do poço e 
todo assucarado perguntou para baixo : 

— «Está lá?» 

— « Cá estou ! » ' 

— « Deixe-se estar. Ainda não achou ? » 

— « Não vejo nada ! » 

— « Pois eu já achei. Aonde quer que fique 
o cavallo e as bolças ? » 

— «Ah ladrão ! Espera ! Aqui de El-rei ! Es- 
pera ! » 

— «Não enrouqueça sem' precisão. Estánie 
aboberando ; fique de gaiola , e dè muitas gra- 
ças a Deus, porque não tem grilhão ao pé nem 
grade á roda. Sahe fresquinho como uma alface. 
Adeus. Saúde. Olhe , o seu fato vae na garupa , 
escusa de procurar por elle ! Para outra vez seja 
mais leve em vir ao de cima d^agoa , e menos 
fácil em se deitar á bóia. » 



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86 A MOCIOAiHi 

O triste marcfaaote eêcoajurou-se dentro do 
poço uflMifl poucaâ de horas, e o honrado Onofre 
não parou senão em Aldéa4iallega , aonde en- 
tregou o cavailo quosi arrebentado i díiendo da 
parte da sua victima , que a esperassem por todo 
o dia seguinte f infaUivelinente* Depois destas 
duas proeaas veio para Lisboa , e oonstou que 
mudAra de nome, mettendo-«e donato na Pe- 
nha de França^ A sr,^ Perpetua das Dores , di- 
gna mãe adoptiva deste bom moço, vivia tansH 
bem na oârte com elle, e ambos se remediavam, 
comendo os ovos da gallinba de ouro apanhada 
em Évora e Monte-Mór. 

O andader aeabnndo de lér os papeis estava 
frio de neve e cuberto de suores. O jesuíta nunca 
tinha tirado os olhos de cima delle. Apenas viii 
a leitura concluida, estendendo a mão, disse: 

-^a Que me dit filho? Tinha génio o hypo- 
crita ! Forte pena ! É verdade vamos aos signaes... 
esquecel-oft-ia eu? Nada; cá estão. £ esta!... 
Ê \k mercê tirado por uma penna. Nem dois ir- 
mãos gémeos ? ! Que singularidade ! » 

• — « Jesus bento nome de Maria ! V. paterni- 
dade att^ra-me ! Isso é engano. » 

— <x Esta claro ; o que ha de ser ? Um mero 
acaso!... Entretanto é mau. Bem sabe o6 tnoo- 
centos , que morreram de uma folsa sinúlhança , 



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DiE D. JOÃO V. 87 

por íUwlu) da jui^ttça; dív-se depois, eu cuidei, 
eu suppuz, mas o morto não resuscita. Deus 
nos livre de inimigos , e de más parecenças , so- 
Jire i«do, em devassa aberta, ou em denuncia 
ao Santo Officio. » 

-^^iíW, paternidade zomba ! aecudiu o devoto 
sorrindo cem uma visagem avinagrada. » 

«-^ H Falio nwito serio* É peior parecel-o , do 
que sèl-^. Nio disse nem digo outra coisa, n 

--^ « Corpo Santo do meu Deus l Ê possivel 
qua o justo pague pelo peccador? Que sirva de 
i^rime a cara a um innocente... » 

-^ « Entio I Nnaca ouviu que pela booca morre 
p^M? Aqui o innocente morre por ter a cara 
d^ peccador. Nio se amofine , porém , o bomem 
ha de appftf^eaer... » 

^^alfas V. paternidade percebe que o nome, 
a menor dilTerença de {ei^çÕes... o 

'-^^ Vaftia-nos Deus, Thmíé, valba-nos Deus ! 
Eu percebo , bem v6. Os moralistes são da sua 
opinião « e também eu sou ; mas que quer I Se 
06 ministros ateim»n , e nio sentenceiam seiúo 
pela tonb^aria ! Noto a reconvenção , não preciso 
que a faça. Y, mercê defende-se com a diiFe- 
reȍa do nome ? Ora muito bem. Mas os juices 
bão de responder , e aqui entre nós com sua ra- 
sto talvex , que os nomes mudam e as pessoas 



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88 A MOCIDADB 

iicam ! Terá de justificar , terá de provar , bem 
sei que não é nada para ura homem honrado; 
que nunca se chamou Onofre, que sempre foi 
Thomé. Isto, jâ se vé, é fallar por exemplos, 
nada mais. Não se assuste. » 

1 — <c É que V. paternidade pinta tanto ao vivo ! » 
observou o devoto arripiado como um janeiro. 

• — « Ha muito do vivo ao pintado, nâo tenha 
receio. Mas parece um laço do demónio. Ora 
oiça : são os signaes : n Rosto comprido e olhos 
pardos. Um pouco vesgo. » Observe mais, escute ! 
« Altura ? Um palmo acima da ordinária. » Tal e 
qual \ — Thomé encolheu-se. — ►« Côr esverdeada, 
tirante a cobre. » — O devoto sentia a cara em 
brasa, e julgou-se côr de pimentão. — «Nariz 
aquilino e uma verruga na ponta. » O nosso amigo 
metteu as unhas a igual verruga para a degolar. 
«( Maneiras beatas e um ar no lado esquerdo. » 

r — «É mentira — berrou o milagreiro — é 
. mentira !-p-* Isto foi geito de nascença.» 

— Rmm habemus confitentem ! — disse o pa- 
dre de modo que o andador ouvisse ; e mais aho 
accrescentou : « Ora pois ! Nelle é um ar, em V. 
mercê é que foi um geito de nascença ; pôde 
admittir-se. Digo-lhe , porém , que a similhança 
é fatal... Occorre-me ajgora ! Temos o remédio 
fBio pé de casa. Dè-me um abraço polo que vou 



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DE D. JOÃO V. 89 

dizer. Sabe que chegou o nosso padre Simões, e 
está em S. Roque? Pois é verdade. — Bem- ve- 
lhinho , coitado , mas rijo ainda. Quiz assistir aos 
«xames. Iremos lá , e elle nos dirá... Tem alguma 
coisa, filho?» 

' Toda a impudência do irmão das almas soço- 
brou com este ultimo golpe. Conheceu que es- 
lava dentro do laço e que todos os meios de se 
«escapar tinham sido previstos com engenho e as- 
túcia superior. Então , mas tarde , entendeu o 
conselho salutar do dominico — « que a respeito 
dos jesuitas o melhor era fatiar menos , e acau- 
-telar-se mais. » A forca e a fogueira já lhe dan- 
çavam diante da vista. Sentia o corpo em brasa 
e a garganta preza. 

Por isso , depondo a dissimulação , deitou-«e 
•aos pés do jesuita , que o levantou com benevo- 
lência , sem se desarmar do seu sorriso. 

— «Pelo que vejo teme que se enganem os 
olhos do padre Simões ? Não estranho ; é natu- 
ral. Mas que remédio ? V. mercê queixava-se da 
heresia e da impiedade; até confundia a nossa 
roupeta com os peccadores que a vestem ; um 
exemplo é indispensável : magoa-me vêl-o afflicto ; 
mas , diga , no meu logar , o que fazia ? » 

— « Fui temerário, meu padre, e Deus cas- 
trga-^me. Se a justiça sabe estou perdido. . . » 



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90 A UOQDADfi 

— « Nio O quefQ eng/m^ri aio se pimpite- 
Nao «reio, nSo posio Mveditar q«e V. lúerc^ 
tenb« medo de si a esse ponto. Seja fiMrte $ ani- 
menge. (^a pois ! Fallou da companhia sem te- 
mor de Deus e sem charidade ctffistST $e o sen 
coração Ih^o diz,«~que e«t r<fNÍto, gostei de o 
ouvir e acho que faUou muito bem^^«e o fav 
coração o accusa , pensa, exoogite coisa do a(^^ 
viço da <M)mfanbia , em que &«« a rqMsraeio. . . 
O mal pagaHse com o bem , ha de t«r ouvido^ 
atguma ?ez. » 

— « CtealA que eu pedeMe, meu padn^! » 

— <( Todos podemos a)gima caÍ9a. Ha íniim^ 
gos, o mal de quem os olo tem; ajudemo^noft 
uns aos outros... Siga por este themo » que ha do 
acertar. Diga-me ; porque se «Ao ha de p6r uma 
pedra em cima do tal roubo de Évora ? Assim 
como assim o dinhetno está peidido ; o que lb& 
parece ? Deixemoa o homem , e nto se frUe mais 
nisso. » 

— « Acfao exeellonte , justtssimol >^ 

— «Previ logo que mereeía a sua approva-- 
(%o. EatSo, ainda nte achou aada no eapttido 
das reparações moraes?» 

— ií Meu padre— exclamou o decoto em mm^ 
-^nio attinjo, nlo descubro, v^ 

— «Admira! Ora lorne a reieçíir: irâde 



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0fi D. ioiov. 91 

vag«r. Q adagio dii;: ajuda-me que eu te ajuda- 
rei. Temoa iniinii^oa. Ora ae V, mercê podesse, 
se y. mercê <|uize8ae , a companhia por exem- 
plo resistia melhor aos seus ; e eom os padres de 
Jeaus da sua parte o sr. Thomé acbava-ae tam- 
bém mata forte; fig4rei a hypothese: agora tice 
a condhasSo. Ainda não entende? 

-^K Ckmefio a peroebcar, meu padre. » 
~-< £sttmo! Vamos ^imamente. Com va:- 
dade , responda-me , oio leva uma carta 6 Cal- 
cetaria, a casa de Diogo de Mendonça, creio 
eu; da parte do padre João. dos Remédios, 
de S. Donwgos, ao secretario de estado de 
£lrrei nosso senhor? lesho uma idéa con^- 
fusa. • . V^a se mo ajuda. Estau perdido de me- 
JBorin !..,.)» 

— « £ o que V, paternidade diz. Levo-a em 
aendo oito horas. » 

— <c Óptimo ! Pode-me diaer agora o cami- 
Bhot que conta s^uír para casa de Diogo d^ 
Afendonça 7 » 

— Irei por onde V, paternidade quizer. n « 
— a Valha-o Deus , homem ! Pois eu quero, 

ou peço aytgnma coisa? Se deseja aervtr a com- 
panhia , se o seu. ppra^ o accnsa de ter for- 
mado juiios temerários a resfieite d^ , digo só 
i}ne iria de cpuninliín per Santo Antio, e re- 



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92 A MOCIDADE 

conciliaTa-me com algum dos padres, comigo 
por exemplo , antes de entregar a carta. » 

— Mas é ir a Roma para chegar a Paris , 
reverendo padre. » 

— « E duvida, por um pedaço mais, ganhar as 
indulgências da viagem ? ! . . . Indo pw Hespa- 
nha chega mais depressa , é verdade, mas pôde 
cahir nas mSos dos inimigos. Indo de volta por 
Ualia demoranie, mas chega com certeza. A 
paciência, filho, faz prodigios. » 

— <i Mas se não levo a carta fechada, se a 
entrego aberta. . . » 

— « Aberta ou fechada quem fallou da carta ? 
depois V. mercê deve notar que ha olhos que 
Idem tudo , até por cima do sobscripto. O Sr. 
l'homé põe a sua carta , aonde quer ; para tra- 
tar primeiro da sua alma; ella é o importante. 
Observe que não estou suggerindo traiçSo nem 
inconfidência — longe de mim tal idéa. V. mercê 
não abre , não mostra , nem lê a carta. Agora 
se outro o fizer por interesse ou por curiosidade, 
o que temos nós com isso? Non mea culpa ^ 
acabou-se ! » 

— « Irei por Santo Antão, de caminho^ como 
V. paternidade aconselha. . . » 

— « Observo-lhe que eu não aconselho nada. 
Deus me livre. Entenda-mo-nos ! Quem aconse- 



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BK B. JOÃO Y. 93 

lha parlicipa do acto praticado. . . O que tenho 
feito apenas é dizer: «em seu logar, no seu 
caso de V. mercê, ia â Calcetaria passando por 
Santo Antão. Percebe ? » 

— « Percebo de mais , meu padre. » 

— «Por onde tenciona voltar? » 

*-^« Virei pedir a absolvição á casa professa 
de S. Roque. » 

— <x Fará muito bem. É preciso tempo, sem- 
pre , para se formar uma verdadeira contricção* 
Vejo que intende as cousas — havemos de dar- 
nos perfeitamente. Ouve? Em chiando matide 
chamar logo o padre Simões ; ha de reconcilial-o 
com muito gosto. » 

— a O padre Simões ! Jesus do ceu ! » 

— «Socegue. O nosso querido irmão tem a 
vista cançada, não conhece ninguém. Haden) 
tractar com muita caridade ! » 

— «Posso então ficar certo?» 

— « Gertissimo, filho. Tudo bem pensado, estou 
pela sua opinião. Deixaremos em paz o Onofre. 
Diga-me, sabe de uns papeis da inquisição, que 
tinha o padre Fr. João dos Remédios , ha coisa 
de dois dias? — Tenho aqui uma nota. . .» 

— «Eu verei. Sendo preciso V. paternidade 
pôde contar. . . » 

— c< Pois nãp conto ! Por ora , não. Veremos 



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94 A MOCIDADE 

depois. Ande, vá com Deus que se fai tarde. Nlo 
quero que o nosso padre procurador espere por 
minha culpa. Quanto «o tal Onofre Crespo , se 
ouvir faltar delle. . . » 

— «O que heide feier?»—*- «clamou o de- 
voto ainda tremulo* 

— K Besar-lhe por alma, filho. Agora me lem-^ 
bra que falleceu. » 

— <cDeus o tenha A sua víatâ?» exclamou o 
andador , levantando os olhos ao cen. 

E com um sorriso (abo ambos se apartaram 
seguindo cada qual para seu lado. O Sr. Tbomé 
voltou para S. Domingos ; o jesuíta entrou fira 
o seu coUegio. 



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CAPITUIéO VI. 



O PADU Fr. Joio dos Rettiodios e ò seu amigo 
Filippe^ desctodo do dormitório, cingaraiii ao 
enueíro» quando o relógio dava oito horas da 
mwbft ; ao inéaaio tempo^ ainda tremulo da ri* 
aia do lerrivel Onofre CreiBpo, iqppareda o v. 
Tknmé das Chagas, do lado de Santo Antto. O 
procurador entregou-lhe a carta ^ e o doToto^ 
depois de beijar a manga , como Judas beijou a 
Clôistot Jiartíu dinsito para o cdlegio dos je- 
suítas. 

*-«« Agora estamos desembaraçados; podemos 
ir ^«••diise o doainico ao seu amigo» 



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96 A MOCIDADE 

— a Fr. João , cada qual é como Deus o fez. 
Assim não quero. Sou teimoso i escusas de té 
cançar ; nem que me levem arrastado ! » 

— « Valha-me Deus , Filippe ! Queres que eu 
appareça adiante , e prepare o animo de tua mu- 
lhe\?... » 

/ — «Quem te pega? Dize-lhe, ouves? que 
s/u o maior amigo do heroe elogiado : e não ã 
enganas. Tens até licença para fazeres um poema 
épico. Anda; põe-te ao fresco; dispõe essa 
gente. ...» 

— «Só uma coisa te peço , Filippe ; trata o 
commendador com respeito. É homem de qua- 
lidade, grande sábio, e está costumado a toda 
a contemplação : talvez o aches um tanto esqui- 
sito ; mas é de excelletite coração. Não ha nin- 
guém isempto de defeitos, tu o sabes. » 

— « Pois sim , vae socegado. Poremos o coní- 
mendador macio que nem um veludo, úão te- 
nhas cuidado. Acredita que não me obriga a vi- 
rar de bordo com toda a sabedoria ! Ao primeiro 
tiro , dísparo-lhe a metralha , e bum ! leva salva 
real ; tu verás. » 

— -«Deus permitta! Então, daqui a meia 
hora ?. . . » 

— « Está dito. Daqui a meia hora. Ouve cá. 
O commendador é curioso, gosta de raridades ? » 



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BE D. JOÃO T. 97 

^- <t Foi sempre o seu vicio. » 

—^«Famoso homem I E de animaes? Tetiho 
uma idéa. Bem ! Dou-lhe um presente de deitar 
a mão abaito. Mas é que elle merece-o. Quem 
levou para casa minha mulher, e aturou as ver- 
duras das raparigas ? Adeus Fr. João. » 

O c(Hnmendador Lourenço Telles morava na 
rua das Arcas. A sua casa ^ de dois andares , ti- 
nha varanda saccada< A parede sahia por cima 
da porta ^ abocetada em forma de armário , muito 
similhante a algumas, que ainda hoje vemos no 
antiquíssimo bairro de Alfama. A rua era menos es- 
treita e menos mal assombrada do que as da visi- 
nhança ; podia até passar por alegre em vista dei- 
las. Lourenço Telles occupava a casa toda ; e em 
perto de cinco annos, só três ou quatro vezes 
tinha sabido a pagar algumas visitas de cumpri- 
mento. 

Na sala , aonde ó commendador persistia mais, 
rasgavam-se três janellas grandes ; e a claridade 
animava-a, entrando â vontade. As paredes eram 
forradas de coiro vermelho com lavores de prata ; 
a papeleira de pau-santo , lavrada com primor , 
e ornada aos cantos de cabeças de cherubins , e 
de columnas torcidas com capiteis floridos, attes- 
tavam a opulência do velho erudito. Um escri- 
ptorio (secretãiria) precioso de charão , embutido 
7 

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98 A MOCIDADE 

em arabescos chinas , e otnado de afmarios^ de 
pinrtas dè espelho, defróate da papeleira, tinha 
a gaveta cabida , e Sii6tentá?a uma escrevmiffba 
de feitia e dimensOes curiosas. Cadeiras de co^ 
tas e pés arredados, abertas eaí bellis^tiai fa- 
lha, vestiam o aposento; nos assentos repre- 
sentavam, em matt2 delicada, algumas scenas 
da Eneiada, e os espaldares Variados trata- 
vam as mais raras aves do Ganges e do Nilo. 
E^an bordadas na A^«, e a perfeição do tra- 
balho parecia inimitável As aHas estairtes, lot- 
neadaB e entalhada» é capricho, vergavam com 
o peso dos volumes. Em tim bofefe, coberto de 
damasco, brilhavam duas jairras do Jâp&o, da* 
quelle barro transparefttè como vidro, daquelte 
axttl e oiro finissimos , Cujo segredo hoje se per- 
deu talvez. Duas talhas da índia, grandes e 
magestosas, aos cantos da casa, descançavam 
sobre leões doirados. As cortinas das janelW, e 
os reposteiros das portas, em varetas prateadas, 
on^vam as pregas de vistosa tela verde , apsr^ 
nhadas em cordões de seda, com belotas de 
oiro. 

A cadeira do commendador era semi-círcular , 
assento de estofo carmesim, costas abertas em 
grinaldas de rosas , imitando um açafete de flo- 
res; pés de garra, com seu globo nas unhiè* 



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Dl ir. JOÃO V. 99 

Pèitíi» &htitib te éapríchioso , em ífm a arte se 
aDnèâun^com ^ comniodidade. Diante de si um 
vi^adcr gnoáe, t&aoiíeiíi de pau-santo^ de pé 
taiTsHltf àè passarinhos em ramos de acantho , 
96vm de basca de escrever a Louçenço Telles^ 
e yimnk em cima deUe varies . livros , um eo^ 
^ittiete eom arroK coddb , e um pucharo de ge* 
leia ««peciaL Ao tado um epatador de pa« da 
Iflidiai^^ marebetadb de griphos de madre^rola , 
êim ifMngeê nos péi, sustentava dms pagodes 
de marfim e uma curiosa fonte efaineza. 

tí ctnpfiieniiadoir devia ter sido ò que se cos- 
Uísia^ diíer um iMmitò homem; e, apesar dós 
seua ottttta «nos, e dos estragos áà doíonça, a 
9fiá veShíce não era repugnante. Os olhos azues 
um pouco dflitiagídos de cdr, poeém de uma 
kn ainda clara; a pdte branca e r(»ada, posto 
çpae cheia de^ rugas ; a bocca fina e pequena ; e 
M boa» pKopcxTQSes db corpo ^ dayam^lbe niíuHo 
agradaível apparaiicia. As feiçSes regulares e « 
af cèseiiufoso, U^ncSam respeito, e não ceos^ 
Ira&gíam, O sorriso , abrkido a phisionomia , era 
jfmkl e^t^bistosa^ porém rara vex irónico. Via-* 
sd iiosán^ o^genario o t^po corteisão em toda 
a? pureia. Na rcàidade , poucos homens tinham 
vúlo o obisrvado mais ó mundo; poajeos o te- 
mmf^ ^oímIo tanto, vivendo na sociedade esco*- 



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100 A MOCIDADE 

Ifaida cÍDcoenta annos, CO01O elle, san eoimnet-* 
ter um soUecismo de ceremoníal , ou esquecer « 
mais insignificante fbrmali<hde. Nestes pontos 
era e fôra sempre o manual da polidez ; e em 
toda a parte, por onde yiajou, deixara honrosa 
memoria de si. Escravo da moda, Lourenço 
Telles parecia o Mathusalem mais namcMrado de 
Lisboa. Um moço peralvilho — um frança , como 
então se chamavam os petimetres — não o ex- 
cedia^ no apuro, que ainda dedicava ás ruina» 
da eclipsada elegância. 

A cabelleira penteada e lustrada de preciosos 
óleos , soltava em toda a frescura dos polvilhos y 
sobre os hombros , as bolsas de canudos annel* 
lados , a que só dava a sezão devida o calor do 
forno. Os çapatos de salto , com tacões verme^ 
lhos , tinham o verniz transparente , que o gosto 
de então exigia imperiosamente. Os topes ou 
rosetas de fitas , em vez de fivelas , assentes longe 
do peito do pé , disfarçavam a sua grandeza , tor^ 
nando-o & vista mais breve e airoso. A volta de 
cambraietá de rendas era daquellas , que enro- 
ladas no pescoço por uma ponta , devia o criado 
apertal-as com força para ficarem justas^ e o san- 
gue rebentando das faces. Calções estreitos do 
corte mais moderno; botões de diamante do» 
punhos do camisote; bordadura esplendida na 



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BB D. JOXO V. 101 

\esiia ; franjõés de oiro no canhão das luvas , es- 
quecidas em cima da cadeira ; e roupas de cham- 
bre de seda « primavera » , de flores e ramos lar- 
gos , soltas por cima do fato , completavam o es- 
merado vestido do velho-menino. O chapéu, guar- 
necido e apresilhado com primor, estava ao 
lado do espadim de copos dourados, e punho 
cravejado. A bengala de unicome, de castão 
de oiro com sua esmeralda engastada, via-se 
ao lado da cadeira. Toda aquella múmia , (por- 
que a mag|reza do commendador era extrema) 
rescendia aos aromas mais custosos. 

Um gato de casta franceza , quasi da espécie , 
hoje chamada « Angora » estava deitado aos seus 
pés , branco e assedado como um arminho , in- 
dolente e gordo como um sultão ; e enroscava-se 
em um coxim , com as patas dobradas debaixo 
da cabeça, enrolando o corpo na voluptuosa 
curva , que exprime a suprema beatitude da raça 
felina. Um dos olhos meio fechado espreitava a 
sala, em quanto o outro dormitava piscando- 
ae com delicias , como para dizer â restea do sol 
que o aquecia: — sou completamente feliz! 

Da outra parte , sobre meia columna de no- 
gueira , pousada em uma peanha , um papagaio 
cabaciava no poleiro ou dava bicadas no come- 
doiro , soltando roladas stridulas. 



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102 A MPCfBADIS 

De vet: «m quando ^ Lourenço Tie&s 4ay« uo^ 
cidber de arroz ao Liado, e podia-lhe o jpé, ior 
teitomiMeiído pwa isso a mais iateiasaaote kih 
tora ; oa deixava engulir uma aop* de gdef a ao 
gato , com eminente riwo de uma Carpa wb •cal- 
ções, Ott na mm de seda c6r de rosa. Oque se 
notara neste velho singular , era a g^niça inusíta , 
que lhe realçava as acçOes, ainda as mm rídi- 
eulâs. Era a naturalidade e o ar de grandeza, 
que reve&tiam este mixto de ancião e de mancebo, 
fallaado de erudição como um sábio, discor- 
rendo como um pbilosopho « e figurando oomo 
peralvilho impenitente! 

Em cima do v^d(»* estavam abertas mttilas 
cartas com as assignatunis de D. Lim da Cu- 
nha, do conde de Tarouca, e de Diogo de 
Mendonça , provando que ^a activa a w» cor- 
respondência com estes homens raiinentes^ Pa- 
peis de versos em francez e castelhano , as obras 
de Tácito e de VirgiliQ, o Orlando do Ârioâtos 
e as tragedias de Pedro CorneiUe , encaderpadas 
em veludo , a par do livro de Horácio , aberto 
e sublinhado quasi em cada verso, attestavam 
que lhe era familiar a conversa^ das musas an- 
tigas e modernas. 

O commendad<>r não estava só ; faria-Jhe com- 
panhia um homem alto e delgado, dq presença 



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D£ P. JOÃO V. 103 

geatil , e tracto ma3fÂ>so. A cabeça deste Qào se 
ornaya dos faUes massacrôcos de canudos, que 
se enrolavam pelos homhros de Lourenço Telles ; 
entradas grandes em uma testa elevada e calva ^ 
da mais beUa expressão ; a pelle íiua , e oor de 
rosa desbotado; o rosto comprido sobre o oval, os 
olhos ras^idos e cheios de animação ; e uma bocca 
pequena e séria , com soíFriveis dentes , c<Hnpu- 
nhaiB aquella profunda , clerical, e sareaa phi- 
sioncmaía , capaz de inspirar um excellente pai- 
nel de S. João Cbrisostomo. Os gestos do per- 
sonagem eram graves e compassados ; o riso dis- 
creto; as palavras poucas e pesadas a minutos. 
A estatura arquea^a'-«e alguma coisa , como é de 
uso nos erudUos; o corpo, apesar de magro, 
tinha certa elegância ; as tíbias extensas e nada 
grossas tornavam-lfae as passada3 longas e ma- 
geatosas. Vestia sempre cdres escuras ; e o talhe 
«neio secular e meio profano tího desmentia a 
g;ravidade da poesia. A bengala de castão de 
porcdana japonett , de £sitio exótico , servia-lhe 
«ai» de taboleta , que de encosto ; assim como 
ia antiquíssimo annel egypcio , de um só rubkn, 
mettido no dedo à maneira episcopal , jera os- 
tentado com estudado dcisleixo. Sinetes de cama- 
feus, em vidrilkos pretos, pendiam dos dois re- 
Í6J06 que trazia. Este uniforme sçientiSco-^irda- 



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104 A MOCIDADE 

ticio, tinha a vantagem de poder figurar a<i9 
crédulos, que o sábio era pelo menos um bispo 
in partibus infidelium. Toques originalíssimos no 
gesto solemne , e na contracção mimica do rosto , 
completavam este retrato. A caixa de oiro oval ^ 
de tampa lavrada, abria-^e lentamente, e le* 
vantava o sabor das citações ao oráculo com a 
clássica pitada. 

Esta figura agradável , e nada antipathica , íat- 
zia*se chamar o abbade SiWa, posto que muitos 
lhe negassem a abbadia , e que outros maliciosos 
jurassem que nem ordens sacras tinha. O abbade 
honrava as casas dos fidalgos de frequentes visitas; 
e servia de conselheiro aulico aos seus illustres ami- 
gos nos casos intrincados. Com as senhoras dócil 
e sociável a ponto de se lhe prestar como escu- 
deiro servente ; umas vezes, oh excesso de civili- 
dade ! qual ama carinhosa , levando os cachorri- 
nhos de fralda nos braços ; outras , feito estribeiro 
ou volantim, e sustendo na fuga a hacanea valida ás 
delicadas clientes. Finalmente senhor dos segre- 
dos de toucador, e modista masculina , compondo 
â franceza ou á alemã esses empinados toucados, 
cujas grimpas foram as delicias de nossos avós. 
Génio universal a arte poética e a arte da cosi- 
nha, os tractados scientificos e os roteiros de 
bailes e festejos eram versados por elle com 



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DE D. JOAÓ V. lOK 

m&o diurna. NHo admira , pois , que esta utili- 
dade huniana , <;ujotbeatro era a boa companhia , 
tivesse de mais ainda a rara prenda de ser 
para os estudiosos itm archivo ambulante de no* 
ticia& microscópicas, um catalogo etèrrio de 
supposto$ manuscriptos , que se dignava conde- 
corar de títulos imaginários. O erudito cobria a 
nudez do espirito e a pobreza do sizo com a Sua 
dignidade perpendicular ; e affectava a sciencia 
infusa , esbrugando as pbrases e deixando-as ca- 
fair a uma e uma como pérolas. Era auctor de 
cinco tractaditos notáveis pela magreza do texto 
e bydropica inchação das notas, e ainda mõis 
peia exquisitice dos assumptos. 

No primeiro , confessou que dez annos cavara 
os minas históricas até averiguar , se acaso certo 
viso-rei da índia monreu ou nâo de bexigas doi- 
das ! No segundo , (a obra prima) doze ânuos 
consumiu em apurar a natureza do milagre, que 
despegou as pernas a AfFonso Henriques. E para 
eterna gloria da sua época ^ descobriu um perga- 
minho cheio de nódoas , que era (dizia elle) uma 
doação authentíca toda do punho do conquista- 
dor de Lisboa « de mui buena letira » em que 
se declarava ter sua mercê ElHrei sido curado pela 
virtude da famosa receita da podrága, achada 
na caveira de Santo Thyrso pelo seu ayo Egas Mo- 



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106 A M0C1I)A{>í; 

niz. No terceiro ofHisciite (coisa sublime!) ebe- 
gou a reunir mm eollec^ de máximas autho^ 
grapbas de todos os reisdePif^tugal, eomecando 
em Luso e Aludis , e acabando em D. Joio IV, 
com a qual vingou os reaesgarafonhos do egqtie- 
cimento calygraphieo. Fínafanenle, as paginas 
mais variadas da sua penna eram sem queatio 
duas memorias consagradas a provar que as bar- 
bas de D. João de €astro entraram ruivas quando 
as empenhou em Goa , e sahiram pretas quaado 
as resgatou. Cinco pc^inas de lexto, em cada 
uma^ locupletadas com setenta pagiaas de nolas 
enchiam de erudiçio este ensaio capillar; só a 
venda avulsa rendeu para o eacriptor chflffidoso 
vestir seis orphSos de ambos os seicos. 

O ccrnimendador e o alAade conversavam havia 
tempo de obras clássicas e de estylos litteraiios. O 
Aristarcho ecckjsiastíeo opinava a favor dos mo- 
dwnos, o enidito seeular defendia a sabia anti- 
guidade. Ambos revolviam nomes, datas, e tí- 
tulos de livros , com a &ciUdade do anatómico 
estudando i» anima vUu 

— « Sustento !**<- exclamou o oenuosendador 
— Alnram Tácito» e verão. Nenhum moderno era 
capaz de oserever assim» Dou o meUtor diâoiante 
se apparecer exemplo. » 

-«-<c Ah, commendador, e a jpoesía ? Fa- 



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^ftp.jolojy. 407 

4a )i9ia «Off^Çte a fàmc d^ Arjosto, o divií- 
no?» 

*^/c< ^ísíMq^ asteB d^Ariosto ei^tâtiu Apuleo ! 
(AtítB$ do Ortoado houvç o Burro de Oiro. — 
T^^ta de piftturas livi«6 , de phantasias vivas ? 
Âbi. as i^eba» 0^ ^noderoos não o excedem. » 

Observando isto LoiBsnço Telles sorvia com 
ddiiciaa' uma pitada , e fechando a caixa , cuja 
«t^mpa representava unia Veuus «m admirável 
nadez , deu na tira da camisa dois piparotespara 
•acudir o tabaco. 

— r f( Nenhum dos modernos , — continuou elle 
4^pois-T « nei4imi9t disse com un^ pfarase o que 
Tácito insinua quando quer. Por exemplo : « ipm 
etíam pwíe $wmm ! » «Era cmel até na paz ! » 
— Meu amigo hoje ha outras glorias « mas em 
historia ^ cof^ abnubei Esconda-se o rosto ! Os 
Tácitos e os Polybios nao se repetem, a 

— ^xc Mas a clareza, passando, por Tácito , faz-se 
obscura como a noite? — sugeriu o padre. 

-r* « jDitos escbolasticos ! Não o conhece quem 
quer, é verdade; mas conversado com famili^ 
ridade percebe-^ iogo. » Acudiu o erudito esfre- 
^ndo as mios cem velocidade. 

rr-^Q qiãe é defeito., hade concordar— ^prqh 
seguiu o abbade pouco lisongeado da e^e^ç^o 
(le TnSuQsdo seu amigp.(«)rí-lieRd^ra-6^ da Ho- 



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108 A tfOCIOÀM 

Tacio? Â brevidade topna-meiibíKno? Bré- 

vis esse laboro obscurus fio ? 

— « Parece-lhe então Horácio claro? Pois eu 
não acho ; e lido com elle todos os dias. Veja a 
Ode Cur me quereUs eúcanimas tuis ! o poeta jura 
ser inseparável de Mecenas até na morte. . . )» 

— «Jurou falso! — interrompeu o ecclesias- 
tico , rindo estrepitosamente. Mecenas se espe- 
rou o amigo inseparável , fez muito mal. . . » 

— « Perdoe 1 Calumnia Horácio : Non egoper- 
fidum dixi sacramentum / E é verdade. Não pro- 
nunciou voto perjuro. Para eterno lucto das Mu- 
sas , seguiu o seu carpere iter comités parcui ; 
morreu no mesmo anno. » 

— «É a versão vulgar, atalhou com um sor- 
riso vaidoso o critico abbacial. — Mas os homens 
doutos , Sr. Lourenço Telles , separamnse do vulgo 
servil dos commentadores. Em um manúscrípto 
raríssimo , que achei na Bibliotheca do Duque, 
enriquecido de preciosas notas de Petrarcha , 
o erudito, descubri a verdadeira data da sua 
morte. » 

— « Abbade , está bem certo de que o viu ? 
— perguntou o commendador com ironia. -*— 
Pôde saber-se o titulo desse prodigio , se existe 
o titulo?» 

— « Amanhã » Vi 6 manuscripto , Sr. Lou- 



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BB D. JOÃO V. 109 

renfio Telles. Digo^lhe que o vi»» — respondeu 
o ecclesiastico , corando e balbuciando. 

— « Pois , Sr. abbade , Já nao é pouco ; parece- 
me que ninguém mais o tornará a vér. A mim 
bojo basta-me isto. Obiit HoratÍMs q^rmo cetcais 
£9^ 0odem qua Mecenas, O que significa: Ho- 
rácio morreu de 39 annos de idade ^ no mesmo 
aonó, em que falleceu Mecenas, £ o que dizem 
todos, até nova ordem do seu manuscripto ima- 
gtni^o* Será modesto mas é verdadeiro. » 

-^«Imaginário? — exclamou o abbade al^ 
çando a dextra com dignidade — « imaginário ! 
Sr. Lourenço Telles, louvado Deus, sei latim e 
agradeço-lhe a traducção infantil , com que me 
regalou. Quanto ao Petrarcha, elle e eu rimo- 
QO» da simplicidade dos remendões de livros que 
são o seu Evangelho, n 

' —«Linda imagem! Pois não! O Sr. abbade 
jfn não pôde acompanhar senão com Petrarcha 
para se rir da minha simplicidade. Exceljente! 
Man áabe uma cotSa? O seu manuscripto aposto 
que existe na lua, aonde pára aquelle famoso li- 
vro dos Paiões , que me fez procurar três mezes 
e que teve a crueldade de imputar ao pobre 
Garcia de Resende, que Deus tem em santa 
glorit?)! 

— «Quem não vè, não acha ~- respondeu o 



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IICÍ A ]|fÕaDAl5E * 

ecciesiasliéa em ár de moift.— -O St. commeni^ 
dador entende mais de cortetia9 e meminig, áú^ 
que de antigas leftras. >v ~ - 

— « Non e§o offmdartmgiê! ih fUpstatWíOm 
me tocam. — exclamou Lourenço Telks eémoé 
olhosjscintilfoiítes. -^ Conbeço^me I Oxalá ifúà 
outros íhíessmt o mesiíio! » 

— «C^ modéstia rara ! » — atailiMa abbaéc» 
com indignação. r 

— <iDe certo — prosegttíu o erudito cwn as 
faces acesas— mas graças a Bei» aindai^ nS»-6% 
o ridiculo papei de muita gente , tradusiida ow^ 
tintanui Gias , por Gias de ittio na dntiv. » . 

— <cÉ fabo!)»^^ gritou o abbide dando um 
pulo. 

-^«Não se agoniei falio de um panro, nfio 
fallo de um sábio da sua reputação. O sócio ás 
Petrarehat. . iv-^-Loorenço T^es aqui abei- 
lou a cabeça com malicia , e riuHie alto e imito, 
tempo. 

— «A alhisflk) errou o aho!*«^«« bradou 4^ 
reverendo critico fulo de de raita. 

^— «Nío me parece!»^— respondeu ó neB» 
liecamettte. 

-^<*8r. Lourenço Telles.»-— continuou' o ièn 
bade — c( saiba que despreso as satyras^^^^-que 
thé cothppdéço dòs satjirícosv» 



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DB D. jaÃOV. 111 

•4^aFai tíoito hoDkl Bfto^e B^iiãa face, t 
ofièrece a outra. [Que mais?» 

•^«Qtte ]iiab?)»-^prosegiMii o «cleiiaslico 
recmàtateBào com a sondiaria pco^oesdon do 
velho sábio. — <(N8o ignoro ^ que a velfake é 
eoduca e imetiL 9 

-^n Obrigadbstmo lJ«o é tio fafeo como gros- 
seira CoBttBue!» 

-^«SÍDi 9r«^ contíiim. £ sendo , poueo ad- 
mira q«e o vento da vaidade entre na cabeça 
ouça de algumas múmias , e sussurre lá por denr 
too. Ê disto que proeede hcrer tanto sábio iné- 
dito^ tanta sangaesuga de cHafOesI. . A plebe 
dos aoctores posthumos é maior do que a plebe 
de Atb^ias, que vendia o voto. . • » 

— «Pare um momento, abbade, deixe-me 
extasiar 1 Nunca houve retrato nais parecido: 
dou-lhe 09 parabéns ! »— Disoado isto Louienço 
Telles esteva roxo de ehoferay tinha-se encos* 
tado á soa muleta , e tomava rapé a miúdo e 
com soífireguid&o , indicio vehemente do furacão 
que o revolvia — « Olhe nfto falta é sw maravilha 
sODfo um rotulo ^ — proseguiu exaltado. — a Po- 
nha-4he o nome do indigesto collector de potra^ 
nhãs, do inimigo jurado da verdade e da rasão, e 
diga affi^to: Eece homo l kqá está o alarve ! Per- 
doe a traducç&a livre. De certo, qoem inventou as 



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112 A MOCIOADS 

garatujas latinas dos xeis Luso e Âbidis, e teve 
o despejo de aífrontar a seriedade publica attri-" 
buindo a uma caveiraa cura das pernas de Aifonso 
Henriques , quem fei isto sem lhe cabírem as 
faces no chão, está julgado I » 

— a Não me altera com a invectiva ! )>«—ac- 
-cudiu o abbade rangendo os dentes. — a Estou se- 
reno, rio-me, vejal » — De feito quizrir-^et po- 
rém o esforço heróico, malogrourse^ e sahiu-lbê 
uma ejaculação, que era o meio tcsmo entre um 
Irouxo de choro e um espirro. 

— a Deixe a capa de Gesar, abbade I » -^ex- 
clamou o implacável commendador. w-^Não se 
ria assim, que fai dó« Sirvft-lhe isto de lição para 
se expor menos de outra vez. Não fallo da carta 
authentica de Affonso I , isso é abaixo da cri- 
tica* São romances, que em o sr. morrendo nin- 
guém faz, como ninguém os tinha feito antes . .>. 
Á propósito I apuremos bem a moléstia do Viso- 
Rei. Animo ! Olhe que ha muita gente boa ca- 
paz de morrer de bexigas doidas. » 

«— « A baba de um Bavio não deslustrou as 
paginas de Ennio 1 » disse o ecciesiastico repol- 
treando^se, branco-de cera , e cruzando a perna 
com indiiferença olympica. 

— « Julga ? II ^<" perguntou o velho erudito com 
escarneo. » -^ O Sr. abbade é nm poço de sciencia. 



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M D, ;roAO r. 113 

toertence jáem vida â posteridade. Salve modesto 
Enmol p 

— « Compadeço-me da sua ignoitméia. » — 
acudiu o abhade com a voz cava e irritada — «O 
Sr. D. Affonso Henriques, filho da rainha D. 
Thereza. . . 

— » « E do Conde D- Henriqiie; * * » ^—-ajuntou 
Loutenío íclles, rindo. 

. -*_ a Neto do rei de Castelia. . . » — continuou 
o ecciesiastico. 

— « Justo ! Neto de seus avóft ? Pelo amor de 
Deus; não me recite uma das suas notas im- 
mortaes. » 

' <^— « Chamado pdlos contemporâneos o (7on- 
quistador, . . » 

— ■' « Pelo contemporâneo Faria e Sousa ? Ora 
ãideus l Querem vér que lhe achou a lettra coxiu) 
lhe desettbriu o rétralo? ; 

-r— « Nèorae confundeni as interrupções, es- 
teja certo. Continuarei. Soube escrever como uni 
clérigo. » ' 

— a Comme um clerc! Francez puro. Bellis- 
simo! Ê digno da veracidade caligraphica de 
Luso e Abidis In 

: — ■' « Repito-lhe^ a sua ignorância é lastimosa ! » 
—-acudiu 6 abbade aceso em vivissimas cores e 
com «ma aiir<Mra boreal a invadir-lhe a calva. 



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114 A MOCIl^AMI 

— tf Tem rasão. Sem ella nSo se escreríft um 
livro sobre as barbas de D.^ João de Castro. » 

— <c As barbas são históricas ! » 

— «As barbas sim , mas a cdr nSro, Porque 
omittiu o barbeiro que as ôortou? A posteri- 
dade deria conhecel-o. Tenha paciência ! Não 
nos deixe a historia cdxa á falta desta perua es- 
pecial. » 

— tf Escarneça, zombe dos heroes* Iffetta a 
ridiculo as glorias pátrias. » 

— tf Río-me da miséria da apologia. » 

-^ tf Os morcegos do Parnaso esfMintani-se da 
novidade. . . » 

— tf Fazem peíor; mordem-se de ínvqa, dih- 
bade! » 

— tf As grafitas honramnie nSo puUíeando 
nada. » 

— tf Se os papagaios abocanham tudb l » 
Estava neste grau de amenidade a dii^puta, e 

efaammejavam os olhos dos dois athletas ^ cpiando 
Jasmin, o escudeiro do commendador, ousou 
devassar o tear de Penélope , com o recado de 
Filippe da Gama , que ba^a á porta durante o 
conflicto dos eruditos. O padre mestre Remédios 
tinha prevenida Lourenço Telles da visita do seu 
amigo , e por isso era já esperado. A próxima 
enjtrada de um estranho lembrou aos beJlig^aii<- 



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M D. JOÃO V. 115 

tes clássicos o famoso : Quos ego ! . . Sed motus 
prmtat componere fluctus. » 

Olharam, pois, um para o outro com indi- 
zível expressão, e a um tempo correram a mão 
pela testa; enchugaram a bocca com o lenço 
almiscarado , e de repente deram á phisionomia 
a serenidade , que muitas vezes cobre o maior 
ódio , servindo de mascara aos bons actores na 
sociedade culta. Depois Lourenço Telles, sen- 
tou-se, engatilhou o rosto em um sorriso obse- 
quioso ; consultou um espelhinho oval e doirado, 
que tinha ao pé de si ; e acbando-se irreprehen- 
sivel no semblante e no vestido, ordenou a Jas- 
min que fizesse entrar o capitão , prcparando-se 
para o receber com a graça primorosa da sua 
experimentada pòlide?. 



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CAPITULO VIL 



tUSSES ABRAÇA PENÉLOPE ! 



O domínico tinha dito ao commendador , que 
Filippe era recem-chegado da índia e amigo ve- 
lho do marido da senhora ; acrescentando que 
trazia duas excellentes noticias , consistindo a pri- 
meira em sér falsa a sua morte , e a segunda em 
que o deveriam esperar por todo o mez na volta 
da náu de viajem , que estava a chegar. Execu- 
tando as instrucçôes recebidas , o padre preparou 
o animo de Lourenço Telles para sopportar como 
christào a entrada de seií sobrinho. Em quanto 
os dois antiquários se feriam no seu pugilato lit- 
terario Fr. João passou^ ao interior da casa e prip- 



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118 A MOaDADS 

cipiou a confortar a sr.* Magdalena da Gama 
para a dispor a resistir à alegria repentina da 
boa nova , que vinha annunciar-Ihe. 

Assim precedido pelo seu embaixador , Filippe 
apresentou-se no Sancta Sanctorum do sabio la- 
tinista , devidamente annunciado pelo cartaz. En- 
tre portas , o capitão da índia , com o tremendo 
chapeo de três quinas arvorado na mão , incli- 
nou-se , piscou os olhos como se lhos assombrasse 
o sol , e com o balanço de corpo , característico 
dos embarcadiços , decidiu-se a introduzir a sua 
pessoa sem maiores preâmbulos. O commendador 
aberto de phisionomia, affavel e obsequioso , pou- 
sou as mãos no maciço velador , levantou-se al- 
gum tanto firmado n'ellas, e fez-lhe uma pro- 
funda cortezia. O abbade regis ad exemplum em- 
punhou a bengala, e appoiado no seu castão, 
elevou-se â altura requerida, abaixou a cabeça 
as linhas precisas , e tornou a cahir lento e so- 
lemne no assento da cadeira. 

Filippe da Gama tinha promettido ao reli- 
gioso , seu amigo , duas coisas pouco fáceis : — 
luctar com a erudição do commendador , e dei- 
xal-o encantado. Com a sinceridade desabrida , 
e o génio inflamável, que lhe conhecemos, a 
tentação do marido da sr,* Magdalena sobre o 
seu erudito parente, deyia exceder as forças do 



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^ B. JOÀO V. 119 

tentador. Dos bons estudos , que tinha cursado , 
. o nosso capitão apenas retinha de memoria os 
farrapo^ dos «artapacios e esses mesmos não os 
entendia. Quanto á cultura e delicadeza das ma- 
neiras^ em eonílicto com o primoroso Lourenço 
Telles, o digno Sindabd portuguez o que podia fa- 
zer senão serzir alguma lentejoula mareada ás 
felpudas amabilidades do marujo e do soldado, 
formado nas pragas do convez, e doutorado na 
aschola do sertão? 

O capitão empregou a meia hora de espera, 
eoncedida ao padre seii amigo , em engenhar o 
plano de operações para casa do tio sábio; em 
coJligir o drama, da sua vida ; e aproximar o de- 
senlace ^ a peripécia fínal , em que devia dizer 
o : « coaheces-me » de rigor , nos braços da es- 
posa. Â par da importância do assumpto. não se 
esqueceu da beliscar a memoria e de vilicar o 
cérebro para obter o sacrifício de três phrases de 
Cícero , e de uma sentença moral , bagagem scien- 
tifíca bem leve, mas a seu ver sufliciente. De- 
pois de armado dos pós até á cabeça, na sua 
opinião , levantou a aldraba , e com grande con- 
fiança deu entrada na sala achando-se em pre- 
sença dos Âristarchos , ainda ensanguentados da 
discussão horaciana. 

-^«tFaz íavor de entear !>> — acudiu logo a 



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120 A MOCÍ0ABB 

obsequioso cotnmendador. — « Queira desculpar 
se recebo tanta honra assentado, mas estou preso 
por ordem de quem pôde : « — acrescentou com 
um surriso amargoso. — «O sr. abbade Silva, 
meu amigo , fará as minhas vezes. Então vem 
cançado ? Está suado ? O seu ohapeo incom-^ 
moda-o ! 

— « Nem cançado , nem suado , muito agra-r 
decido. Tenho andado milhares de legoa» pelo 
sertão , sem me virem os bofes á bocea ; quanto 
mais com duas passadas do Rocio aqui ; eu não 
costumo suar no inverno com frio. Irra ! está de 
fazer da gente caramellos ! » 

— « Vé-se que o sr. viajou muito no sertão ! » 
— ^suggeriu o abbàde forcejando de balde por de- 
sapossar Filippe do chapeo casquete. Isto passa^ 
va-se ainda ao pé da porta da entrada. De re- 
pente o capitão resolvido a entrar em batalha, 
e um pouco agoniado pela requintada polidez 
dos dois eruditos , sacudiu o pescoço , carregou o 
sobr'olho , enxotou o abbade com a mão sem ne- 
nhuma ceremonia , e dizendo comsigo : — « vou 
deixal-o embaçado ! » — dirigiu ao commenda- 
dor a seguinte phrase de Cicero ; — « Meam erga 
U benevolentium fctcile pajiciesl ' 

* Facilmente verás a benevolência que me inspi' 

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DB D. JOÃO V. ISi 

Aa mesmo tempo arrefnètlia á cadeira de Lou- 
renço Telles , cuja vista extática exprimia o maior 
espanto , diante da vehemencia , e da crueza sa- 
piente do seu hospede. O abbade Silva , enco- 
lhendo os hombros , tornou a sentar-se , tocando 
cravo por distracção sobre o castão japonez da 
apparatosa bengala. 

Entretanto o'commendador, citado em latim, 
julgou da sua honra , acudir á lingua sabia no 
estilo de Cicero : — « Mi/ii in vestris commodls 
migendis grata animi bmevolentia defectura non 
est. » * 

O erudito pronunciava cada palavra com o ri- 
gor , e o perfume" clássico do amador entendido. 
Todavia comsígo murmurava : ~ u Que espécie 
de homem será este ? » 

Por desgraça , Filjppe da Gama , segundo no- 
tamos, tinha o ouvido latino muito surdo; repe- 
tia de c6r, e nem percebeu o que disse nem o 
que lhe responderam. Por isso, em quanto o 
douto interlocutor se banhava na pura latinidade , 
O capitão, perdendo os arções do primeiro bote, 

ras. Filippe estropia o latim, dizendo: perjicies em 
legar de perspicies. 

• Tenho o maior desejo de vos ser cm tudo agra- 
dável. 



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122 A MOCIDíílDB 

valeuHse dos caxorros da |H*oa , % segundo tinha 

protestado ao frade , disparou ao acaso outra baila 

. rasa. — <x Qucero cur tam suUto mansus est ? » *' 

Lourenço Telles deu um pulo , e chegou para 
si a campainha de prata, para esconjurar as si- 
labadas e os erros que lhe escorcharam os ouvi- 
dos. O despropósito era flagrante. Quanto ao ab- 
bade, levantou os olhos ao céu; desencruzou as 
.extensas pernas, e aproximou o chapeo de bor- 
las verdes. Ambos se julgaram em presença de 
uni maníaco. — « Medoro torce il nazo ! » — acu- 
diu o auctor do Opúsculo sobre as bexigas do 
Viso-Rei. 

O capitão lanhava o latim, mas de italiano, 
percebia alguma coisa, assim como de inglez e 
bespanhol , em virtude da f ua intimidade com os 
negociantes destas nações.- Sem demora deitou ao 
abbade um olhar mortifero, e voltando-se mais 
<para elle, chapou-lhe muito serio a memorável 
.sentença: 

, «Bellum est sua vitia nosse! > 

Um salto do compilador de notas , o risito 
amarelo do commendador ao epigramma clássico, 

• Pergunto, qual é o motivo, porque tão de 
repente amançasle ? Filippe estropia a phrase , di- 
zendo mansus est em vez de tnamuetiis fu^ii! 



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BB D. JOÃO V. 123 

e um mio stridulo do gato valido , formaram am 
accordo perfeito, depois da valente citação. 

FiUppe, obedecendo aos repetidos signaes de 
Lourenço Telles tinha arrastado um tamborete , 
e' .procurando a melhor posição , não reparoqi , 
que um dos pés ameaçava a cauda de Mtnete. Ao 
sentar-se cahiu em peso sobre ella, e arrancou 
ao mart^rísado gato os Isunentos , que retalhavam 
o coração do sábio commendador. Este desespe- 
rado , agitou-se fazendo por sorrhr , consolando a 
victima com sopas de geleia , e dizendo ao mesmo 
tempo com muito agrado ao seu hospede : — « Não 
é nada! Agradeço infinitamente o seu incom- 
modo ! Toma um copo de vinho , uma culbet de 
doce? Se me fizesse o obsequio de se chegar 
mais. « • estou um pouco surdo. » 

Era um meio delicado de salvar o gato de se- 
^ndo encontro; porém o raio foi cahir mais 
longe. Ainda não tinha dito estas palavras já 
uma espécie de terremoto abalava a columna na 
sua peanha , sacudia a gaiola , e derrubava o pa- 
pagjãio de cabeça para baixo, dançando, sus- 
penso no grilhão, entre gritos agudissimos. Fi- 
lippe voltou-se admirado , ao passo que Lourenço 
Telles , branco e convulso , exclamava — « Santa 
Barbara ! » — precipitando-se em soccorro do pa- 
pagaio. Chegou tarde "porém ; a mão nervosa do 



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12Í A MOaDADB 

capifSo já empolgava a ave pela cabeça , e a re^ 
punha no poleiro , mais magoada do soccorro do 
que da queda. 

— « Pelo que vejo o sr. commendador é amigo 
de brutos?» — perguntou Filippe limpando a 
língua aos cantos da bocca, e introduzindo a 
furto um rebuçado de tabaco. 

— «Sim, Sr., sou curioso» — replicou o 
velho com certa finura irónica. — «Jà creeí 
quatro cães , oito gatos , e três papagaios. Mi-^ 
nete, que vè , é bisneto da « Sultana » que trouxe 
de França na minha ultima viajem. Estou com 
muita penai Morreu o meu sauguim de uma 
cólica de uvas. ...» 

— «Sào animaes friorentos! Sabe, este seu 
papagaio não é feio. Falia bem ? » 

— « Ensinei-o eu ! » 

— « Pois , Sr. , se o apanhasse no Brazil , 
quando fui á rossa em Minas Geraes. . . . 

— « Não o deixava escapar ? . . . » 

— « Está brincando ! Sal , pimenta , e espeto 
com elle ! olhe que é um bocado saboroso. » 

— «O Sr. come papagaios ? »— • acudiu o Com-r 
mendador espavorido , e abanando as mãos para 
chamar o sangue ás extremidades. 

— «Como, sim Sr.^ e também macacos* 
Digo-lhe que sâo gostosos. Parecem mesmo 



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DE D. JOÃO y. 12$ 

creanças assadas!» — E Filippe ria-se com vi- 
isivel sati^façad^ 

— « Que homem ! » — disse o abbade recuando 
a cadeira, em quanto os olhos azues do seu 
amigo se espantavam com terror. 

— (( E se nos nao devora , nio é por sua 
culpa l » acerescentou Lourenço Telles , sorrindo 
contrafeito. 

O capitão estava tão contente que julgou ma- 
gnifica a sensação causada pelas suas opiniões 
quasi antropophagaS. 

— «É verdade. » — continuou com certo or- 
gulho — «Prefiro o papagaio. É carne verme- 
lha, aromática, e saborosa, Quero ensinar a 
cosínhal-o. Supponha o sr. conmiendador , que 
matanws este. Agarram-se-lhe as azas. . * . » 

Aqui a acção ia ' seguir a palavra ^ quando 
Lourenço Telles seriamente assustado lhe sus- 
pendeu docemente o braço , dizendo : 

— « Entã^, o Sr. pretende comer o meu pa- 
pagaio?» 

— (<Nada, por ora não. Era dar idéa, . • ♦ » 

— «Mas eu não gosto de idéas; digo, não 
gosto de guizados exóticos. » 

— « São scismas. Tudo vaô do costume. Na 
America , por exemplo , quando me doiram carne 
de cobira a primeira vez, qual! nem á mão de 



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126 A HoaDAns 

Deas padre. Depois chachava nella como rebu- 
çado ! » 

— « Cobras ! Também come serpentes ! » mur- 
mnroa o commendador quasí parvo de nojo. 

— «O congro nSo é tao bom. Pois o la- 
garto? Delicioso ! Branco e tenro como frango. » 

— « Este homem , se entra na arca de Noé 
nSo deixa senão os ossos!» — rosnava o abbade 
abismado. Lourenço TeHes torcia-se como um 
parafoso , e a custo reprimia o que lhe vinha á 
bocca. Vendo os olhos do hospede fitos no gato 
com certa complacência , disse-lhe rindo de um 
riso forçado : 

— « Ia apostar , que também me diz que não 
desgosta de gato ^ e que é bom ? » 

— ^ « De certo. Parece lebre. E em mojangé : 
asseguro-lhe que se grita por mais. » 

— « S^il a le comr aussi ãur que la tête^ fio\íi 
sommes perdus ! w ' observou o Commandante ao 
abbade , que respondeu com um gesto de acquies- 
cencia. E tocando a campainha com força , vi- 
rando-se para Filippe , disse : 

— <fVou mandar chamar a senhora. Ha de 
tòtar anciosa de o vêr. » 

* Se o coração do homem é duro , como a ca- 
beça, estamos perdidos. 



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DK D- Joio ▼. 127 

— Estou &s ordens do sr. commendador. » 
A cortezía refinada do erudito penava a fogo 
lento. A entrada abrupta do capitão, o sen la- 
tim salpicado , e. as violências commettidas con- 
tra o gato e o papagaio ^ a par da nauseabunda 
saliva do tabaco , e dos cruentos dogmas sobre 
a arte da cosinha , causavam-lhe um tedio , um 
horror , e uma aSIicçSo , que o cobriam de suo- 
res frios, inspirando-lhe a deliberação de sacu- 
dir pela porta ou pela janella o grosseiro perso- 
nagem , que se introduzia em sua casa com tanto 
desafogo. Mas , escravo da polidez , levou a he- 
roicidade a ponto de continuar o dialogo : 

— « Viajou muito , segundo observo. » 

— <c Menos mal I Tenho visto meu bocado de 
mundo. Andei pela China , pela índia , e pela 
America. . . mas como o sr. commendador ainda 
n^o vi senão uma pessoa. » 

— « LisoDJeia-^me ! E em que me pareço com 
ella?» 

— « Em ser um janeiro penteado, n 

— a Com effeito?» 

— «Pelas sete orelhas de Belzebutl Aposto 
que o sr. commendador nuo morre antes de 
ençommendar a mortalha , para ir um palmito 
á cova. ...» 

Lourenço Telles agradeceu o insulto, como 



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128 A MOaDADE 

se fosse um elogio. Estava ardendo , ma» repri- 
mia-se. 

— « Acha-me exótico ? » 

— «Nada! Acho-o divertido. Assim embo- 
necrado e com os pés para a cova, sabe quem me 
parece? O Ra já de Singapura. Com noventa 
annos feitos deu-lhe em casar com uma rapariga 
de quinze ^ e toda a noite das bodas andou 
n^uma dobadoura. Por s^ignal que dois dias de- 
pois foi a pique* 

O abbade desatou a rir e o commendador 
acompanhou-o visto não ter outro remédio. 

Neste momento Jasráin y o creado francez de 
Lourenço Telles , entrou na saia participando 
que a senhora vinha já. Jasmin era muito for- 
malista , e dez annos mais novo do que seu am^. 
Trazia á cabeça uma cabelkira immensa , das 
mais fartas de que havia noticia* 

O abbade Silva , como bèm. educado , enten- 
deu que um terceiro era demais; por isso, e 
para se eximir áa aíiabilidade do nojsso Filippe 
da Gama, pegou no chapéu, eomprimentou 
amigavelmente o seu iiluátre adversário, e en- 
caminhou-se para a porta da escada, precedida 
por Jdsmin. O douto clérigo notara certo ruido 
forte na ^escada , mas o calor da conversação e 
a singularidade delia, tinfaam-no distrabido. 



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BE D. JOÃO V. 129 

Agora , aproximando-«e da porta , sentiu-o cres- 
cer, e olhou para o escudeiro, que punha a 
mão na chave. 

O capitão perguntava nesta occasiâo a Lou- 
renço Telles : 

— « Como gosta de animaes , dois de mais , 
não lhe fazem transtorno ? » 

— « São o meu recreio ! 

— « Pois , se dá licença , offereço-lhe » 

NSo pôde acabar. Apenas se abriu a porta da 

escada para sahir o abbade , entrou de roldão no 
aposento um tropel medonho. — Um macaco dis- 
forme, descomunal, horrendo, precipitou-se , 
cingido de uma corrente pela cintura. De ras- 
tos , atraz delle , vinha um preto corcunda , pro- 
curando contel-o inutilmente. Ladrando e arre- 
mettendo, um cão de compridas felpas, e gi- 
gantescas proprçôes, entrou cubrindo a reta- 
guarda do ruidoso séquito. Era o presente de 
Fílippe da Gama ; era o « Tigre » e o « Simão » 
com que esperava captar a benevolência do seu 
parente. Proh pudor! O creado velho deu um 
salto de medo , gritando com força « Morbleu ! » 
O abbade, sem gota de sangue no corpo, poz- 
se em defeza com a bengala em guarda de flo- 
rete. O commendador , aterrado com a invasão , 
segurava-se meio de pé ao seu velador. Só o 
9 

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130 A IIOCTDÁDB 

nosso capitão ria e esfregava as mSos, gritando 
ao abbade — « Torce il nazo Medoro ! » 

O macaco, verdadeiro Simia Satyrus de Li- 
neu , investiu pela casa , arrastando em ar de 
ceppo o pobre preto atraz de si. Apenas avistou 
o escudeiro e o clérigo , foi direito ao primeiro 
e pelou-Ihe a cabeça da vistosa peruca , arrega-' 
nhando os dentes ; foi direito ao segundo tirou- 
Ihe a bengala das mãos, quebrou-lha no corpo, 
por fortuna era fina ; e usurpou-lhe o respeitá- 
vel chapéu abbacial , regalando o dono ao mesmo 
tempo com uma sova de coices. O pobre anti- 
quário cahiu , e todo amarrotado e vexado , con- 
seguiu salvar-se da ira do mono. — Feita assim 
a sua preza , Simão chegou-se ao espelho , en- 
caixou a cabelleira e encapellando-lhe por cima 
o chapéu do abbade , deu um salto â gaiola do 
papagaio, aggarrou-a, poz uma das mãos no 
hombro do commendador , e depois um pé , e 
guindou-se deste modo á janella que dava para 
o telhado , cuja beira escolhera para recosto , em 
quanto embalava o « Lindo » no meio de guin- 
chos e biocos infernaes. 

Não é fácil pintar o pavor e a indignação de 
Lourenço Telles. Tremulo de susto procurava o 
florete e não o achava ; tinha-se resolvido a va- 
rar o mono. Olhava inflammado- para o nosso 



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DB t>. JOÃO V. 131 

íoapitão, o qual ajudando a erguer o abbade, es- 
gotava da janeila um copioso vocabulário de pra- 
gas contra o macaca. Neste terrivel transe o 
cão , espectador rosnante até alli , decidiu-se a 
entrar em scena ; o que fez saltando no gato , 
que a sua presença obrigava a assoprar com o 
contra-baixo de uma ronca prolongada. O infe- 
liz «Minete», feito um ouriço, debaixo da ca- 
deira de seu dono , repellia o dente com a unha, 
e com Marte favorável sustentava o assalto de que 
ficaram cruentos signaes nó focinho do inimigo 
e nas pernas do commendador. O velho erudito 
entre as garras do gato e os dentes do cão , per- 
dido de cholera , descarregava ás mãos ambas , 
e de cutello, um volume monstro das obras de 
Santo Agostinho sobre o dorso canino. 

Este episodio durou minutos. Filippe, o creado, 
e o preto, conseguiram por fim desapossar o 
macaco da sua presa , e desalojar o cão. Simão 
foi algemado com a sua corrente ; e Tigre con- 
tido pela bengala de seu dono. A paz renasceu 
no agitado aposento, e olhando uns para os 
outros , e vendo-se quaes ficaram do combate , 
os actores da farça, proromperam n'uma gar- 
galhada estrepitosa e cordeal ; Jasmin com a 
calva nua ; o abbade roto e amarrotado ; e o 
commendador com um mappa geographico nas 



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132 A MOaDADG 

meias , das unhas de « Minete. » Esta rizada , 
que celebrou a concórdia do reino animal , era 
repetida da rua por quantos viam prezo à janella 
sacada um mono disforme, enfeitado com sua 
cabelleira de caxos, e chapéu de clérigo. 

Seguiu-se Filippe da Gama a dar as explica- 
ções sobre o attentado ; o orador provou a boa 
intenção e absolveu-se do resto. O discurso foi 
acceito ; Lourenço Telles era muito cortez para 
lhe observar a diíFerença que havia entre um 
sauguim e o hediondo mono, que mettia a sua 
casa a saque. Âpezar disso não se esqueceu de 
chamar Jasmin e de lhe dizer ao ouvido com ira 
concentrada : a Empoisonnez-moi le singe au plu- 
tôt ! Quel animal affreux ! » 

O abbade applaudiu, e Jasmin ouviu a or- 
dem cruel com visivel satisfação. 

Entrava então na sala a sr.* Magdalena da 
Gama, e o commendador, encostando-se ao 
braço do abbade , retirou-se , precedido por Jas- 
min com o papagaio , e seguido de « Minete » 
que se retirava magestoso com as honras da 
guerra. Lourenço Telles ao pé da porta viu o 
padre Fr. João , e a despeito da sua polidez não 
poude conter-se , que lhe não dissesse : 

— (( Padre mestre, o seu amigo é um homem 
inaudito. Come lagartos e papagaios; desfecha 



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DE B. JOÃO V. 133 

em latim com as pessoas , que nào conhece ; e 
acaba por introduztr em minha casa um macaco , 
que moeu o abbade , roubou a peruca ao meu 
escudeiro , e por um segundo não almoça o meu 
papagaio. Gosto pouco de o vér com a senhora. 
Em todo o caso Jasmin não o perderá de yista 

Ce monsteur du lion lá 
Est parent de Calígula. 

Ah , inimitável Lafontaine \ Até logo Fr. João ; 
é nosso hoje?» 

O frade abaixou a cabeça, e encolheu os 
hombros. — « Valha-me Deus com este Filippe ? 
Sempre hão de parar nisto as suas graças \ » — 
E foi atraz do commendador para lhe desvane- 
cer os preconceitos. 

Entretanto o honrado Filippe tinha o coração 
melhor do que a cabeça. Vendo sua mulher com 
o luto de viuva , e lendo no seu rosto as sauda- 
des e as lagrimas de muitos annos, custou-lhe 
a reprimir-se que a não apertasse nos braços. Pas- 
sou-lhe da idéa a novella que tinha urdido , e 
faltou-lhe o animo para exacerbar a dôr nas cha- 
gas vivas desta alma magoada. Em presença de 
Magdalena esqueceu-se do que soffrera- e lembrou- 
se do muito que a sua ausência a fizera padecer. 



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134 A MOGIDADS 

A felicidade, que o mundo pôde dar, prome- 
tia sorrir-lhe naquelies olhos ainda bellos , quando 
os enchugasse ; chamava-o por aquella bocca fiel 
em guardar os juramentos, que uma vez pra- 
nunciava. Confuso e perplexo, o capitão ora 
olhava para o chão , ora embebia a vista em sua 
mulher , scismando sobre o que dôvia dizer. Ma 
gdalena rompeu o silencio , depois de breve 
pausa. 

— « Aqui estou , sr. ! Venho receber da sua 
bocca a vida ou a morte. Fr. João disse-me. . . » 

— « Fr. João é um asno ! — exclamou Fi- 
lippe. Se lhe disse que seu marido era morto 
enganou-a. Posso jurar-lhe que está vivo. Nin- 
guém o sabe melhor do que eu. » 

Magdalena levantou os olhos com viveza , mas 
não os fitou na pessoa que lhe fallava. Comtudo 
percebia-se que o som da voz a fazia estreme- 
cer. 

— «Fr. João é incapaz de mentir — respon- 
deu com ailguma severidade. — Apenas me in- 
formou de que tinha chegado da índia um 
amigo seu e de meu marido, que Deus haja; 
e com um suspiro Magdalena accrescentou : — 
Fr. João disse-me depois, que havia' esperanças 
vagas Em fim disse-me que noticias exa- 
ctas só o sr. as podia dar. » 



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PI D. Joio V. 13tf 

— «Fr. João fallou bem — acudiu Filippe 
com entbusiasmo. — Mais exactas ninguém , sr.* 
Magdalena. Ora diga*me : tinha muito apego a 
seu marido?» 

— « Ah , sr. ! » 

— « Não ha rosa sem espinhos ; bem sei ; 
Filippe é vivo , mas pôde ter casado na índia. . . » 

— «Meu marido sabia que. tinha mulher • 
filhas , meu marido não casava. £ o sr. se fosse 
amigo delle também não dizia essas coisas â sua 
viuva. » 

— «Salva tal agoiro! Mas se lhe affirmo, 
senhora , que Filippe não morreu ! . . . É boa ! 
Acredite sr.* Magdalena , o seu homem não tem 
maior amigo do que eu e Fr. João. Pôde crer. 
Mas a verdade primeiro. Filippe escapou duas 
vezes por milagre , está vivo e são , e volta qual- 
quer dia. ...» 

— «Bem dito sejaes, meu Deus! — soluçou 
Magdalena, levantando as mãos ao ceu com ef- 
fusao. — Agora, senhor, podeis levar-me, já 
não faço falta. Minhas filhas tem o amparo de 
seu pae ! » 

£ as lagrimas, desta vez serenas, correram de 
alegria por aquellas faces , que o pranto cavara 
tantos annos. 

— «A sr.* Magdalena é boa mulher de seu 



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136 A MOGIDÀDJB 

marido , é excellente mâi de suas filhas. Deus 
hade-lh^o pagar. » — Disse o capitão, que sentia 
os olhos arrasados de agua, e que roia as unhas 
com anciã para disfarçar. 

— a Cumpro o meu dever. » 

— a Por dever só não se ama assim. Extreme 
é mais do que dever. » 

— « Amo-K), como a mulher deve amar o es- 
poso da sua alma, o pai de seus filhos, e a ale- 
gria do seu coração. . . Não sei que haja no 
mundo maior extremo. 

— « Esquece o amor de mai ? » 

— « Tem rasão. Pôde ser que estremeça mais a 
minha Cecilia, talvez ame tanto a minha Thereza. » 

. — « Hem ! Estimo ! Sabe que Filippe está ve- 
lho , rabujento , e somitigo ? é verdade. » 

— « Acha leve a sua cruz, para elle a trazer 
sem tristeza e enfermidade? Quinze annos de 
trabalhos, ausente de mulher e filhos, exposto a 
tantos perigos mortaes , um rapaz , quanto mais 
elle que não era moço, não o supportava sem ficar 
velho e desenganado, sem perder o gosto do 
mundo , como eu perdi. » 

— « Pois eu, minha senhora. . . Faz favor de 
olhar para mim. Que tal me acha ? » 

— « Eu ? Que hei de achar ? » 

— «Perdoe — alguma coisa acha por for- 



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DB D. JOÀo y. 137 

ça. Que tal ihe pareço, diga sem ceremonia?» 

— « Essa é boa ! Muito bem. » 

— «Um! Esperto e bem consenrado? Gra- 
ças a Deus sempre rijo e valente, e mesmo 
pobre como Job, alegre que nem am passari- 
nho. » 

— «Ê a maior fortuna que pôde ter. » 

— «Diz muito bem, sr.* Magdalena. Que lhe 
palpita esse corado de um marido nos meus ter- 
mos?» 

— «Sr. capitão! Lembre-se que sou mulher 
de um amigo seu ! » 

« — Lembro, lembro. Aqui para nós. Filippe 
não merecia a Deus uma senhora tão bella e vir- 
tuosa. . . £ um maganão ! » 

— «Se para isto me desejou fallar, ha de per- 
mittir. . . i> 

— «Não permitto. Quero, mando que íique. 
Tenho direito. . • » 

— «Caia em si, veja o que diz. Sinto ser 
obrigada a observar-lhe que tem bem pouca de- 
licadeza de sentimentos. Como senhora deve res- 
peitar-me; como mulher, e mulher infeliz de 
um amigo seu , devia ter compaixão de mim. E 
entre tanto ha meia hora. . . 

Filippe estava extasiado; mas ainda luctava 
para não revelar o incógnito. Emfim não se pôde 



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13S A MOCIDADE 

ter, e no estrebilho popular disse estas palavras 
da cantiga : 

« Aí , esposo da minha alma y 
Aí , triste de mim sem ti ! 
— Que darias tu , senhora 
A quem n^o trouxera aqui ? • 

Magdalena escutou, com sobresalto, a cantiga 
valida de seu marido. Via-se que os seus olbos 
anciosos advinhavam o segredo, mas que receiava 
enganar-se ainda. 

— Ha meia hora, que te fallo, e ndo meou 
ves ; que te chamo e não me respondes ? Magda- 
lena, o que davas tu a quem trouxesse teu marido 
aqui ? Um beijo por ti , outro por nossas filhas 
querida mulher. . . Deus não quiz que morrêsse- 
mos separados, quando sempre vivemos unidos. » 

— « Filippe ! Filippe ! marido da minha 
alma ! » 

— « Muito mudado estou , pois minha mulher 
me não conhece ! » 

— «Agora, agora! Sinto, conheço... Per- 
doa ! Custava-me a crer tanta felicidade. Estou 
costumada á desgraça , Filippe ! . . 

— « Pois julgaste , querida mulher , que ou- 
tro , primeiro do que eu , havia diíer-te que teu 



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Ds D. JOÃO y. 139 

marido vivia ? Olha o teu annel , lembrag-te ? O 
retrato de nossa filha , vêl-K) ? » 

— «O coração devia dizer-me, os olhos de- 
viam vér que eras tu , e$poso da minha alegria. 
E eu duvidei! Meia hora pude estar ao pé de ti 
sem te conhecer ! A voz. tinha-a na alma » sa- 
bes ? as feições é que não me pareciam tuas. Es- 
tás tão mudado , tão brancQ , barba e cabellos I 
E não admira ; com tantos trabalhos ! £ eu pa- 
reço a mesma ? n 

— « Estás a mesma , a mesma és sempre ; a 
minha santa mulher. Que é das nossas filhas; 
quero^as vêr , . quero-as beijar. Estou soffrego. 
Duas vezes que tive a morte ao pé de mim cha- 
mei por elias e por ti , primeiro que chamasse 
por Deus ! » 

— u E sem Deus , estavas comigo agora ? Fi- 
zeste mal 9 Filippe. » 

— «Magdalena; tens razão. Vamos vêr.,,» 

— «Hoje achas só Thereza. Cecilia está. em 
Santa Clara. » 

— « Não para freira espero em Deus ! Lou- 
vado seja a Providencia, temos. cabedal para do- 
tar nossas filhas ambas. » 

Neste momento a porta da sala abriu-se, e o 
commendador entrou pelo braço de Fr. João dos 
Remédios , que vinha contendo o riso. O abbade 



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140 A MOGIDADB 

seguia-0, lamentando com Jasmín a perda do 
seu chapéu. 

— « Ent&o minha sobrinha fallou bastante de 
seu marido com este sr. » — perguntou Lourenço 
Telles, sentando-se na cadeira. — «Trouxe-lhe 
boas noticias. Como se demorava. . . » 

— « Âh , meu tio , trouxe-me a consolação , 
que podia dar-me neste mundo. Trouxe meu ma- 
rido ! » 

— «Seu marido?» — exclamou o commen- 
dador estupefacto. — « Onde está elle ? » 

— « Aqui em corpo e alma » — atalhou Fi- 
lippe saudando-o — nEcee hamol Este é o ma- 
rido, e esta é a mulher, falta só a sua benção , tio ! » 

— « Seja feita a vontade de Deus ! » — gritou 
Lourenço Telles engolindo uma grande culher de 
geleia para se reanimar. — « Posí fata quiescit ! 
Sobre queda couce — murmurou contricto — So- 
brínho esta casa chega , escusa de procurar ou- 
tra. » 

— « Obrigado , tio. Era a minha tenção. » 

— « Mas podia não ser a minha. Agora como 
parentes e com franqueza vou pedir-lhe três coisas. » 

— « Diga , tio. » 

— « Não traga monos nem caens de fila. Não 
coma diante de mim cobras nem gatos. Quanto 
ao papagaio. . . » 



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BE D. JOÃO V. til 

— « Fica perdoado ? Concedido tio , e eu ga- 
nho por cima. Preste-Joâo ! » 

O negro corcunda chegou-se. 

— Leva o Simão e o Tigre á cella do er. Fr. 
Jo%o , em S. Domingos. Depois yolta que tens 
que fazer. » 

— « Nada , ponho embargos ! A minha cella 
não é pateo de bixos. » ' 

— « Cala-te, Fr. João, não lejas creança. Dei- 
xa-me tiver bem com o tio. . . Dà o mono a 
quem quizeres. » 

— « Com essa condição. . . » 

— « Agora, sobrinho , tenho a honra de lhe 
apresentar o Sr. Âbbade Silva, erudito res- 
peitado de toda a cdrte, e auctor de varias 
obras. » 

— « Sou um seu admirador. » 

— « Espere ! lam-me esquecendo duas coisas 
essenciaes. Se lhe não custar muito, falle-me em 
portuguez; e se quizer mascar tabaco... » 

— « Mau ! )) — resmungou Filippe. 

— « P<ide mascal-o... n 

— c< Bem ! » — exclamou o capitão animado. 
. — te Na cosinha ou no quintal. Nesta sala 

nunca. » 

— « Amen! Se nos díi licença, tio, adeus até 
ao jantar. » 



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lis À MOCIDADlí 

— «Sem ceremonia, se acaso se desgostar do 
papagaio... » 

— « V. mercê come-o ? » 

' — « Isso é no Brazil. Cá dou-o de presente. 
Tenho uma arara, e gostava...)) 

— «Veremos! A casa é grande; é natural 
que chegue. Adeus, filhos, vão, estejam á sua 
vontade. )) E vendo-os sair accrescentou : 

*— «Então que diz a isto o nosso Fr. João?» 

— « Que altos são os juisos de Deus ! )> 

— « E o abbade ? » 

— « Que vae tudo bem ; e melhor iria se eu 
não ficasse sem chapéu. )) 

— «Pois eu digo que ha meia hora tinha 
vontade de deitar meu sobrinho da janelia abaixo ; 
fez um barulho incrível, padre mestre! Mas 
agora... )) 

— Agora , commendcdor ! )> 

' — Agora, para que hei de mentir? Acho-o 
bom homem e de excellente coração. No fim de 
tudo queria obsequiar-me... Ha de pulir-se; ha 
de pulir-se com o uso da corte. Jasmin ! Hoje é 
festa nesta casa. Jantam cá o abbade, o sr. 
Fr. João , e meu sobrinho Filippe. . . quero um 
ou dois pratos da tua mão. Um dia não são dias. 
— Sabes que o macaco vae viajar — accrescentou 
baixinho. — O preto leva-o á c^lla de Fr. João. >» 



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HK B. JOÃO y. 143 

— « Pobre ir. Fr. Jo5o! » 

— « Olha , Jasmín , diz a meu sobrinho, que 
o mande antes pôr em casa do abbade. Quero 
que aprenda a dizer em que anno morreu Ho- 
rácio. Anda , Jasmin. Ê uma idéa óptima ! » 

O creado sahiu logo, e d^ahi a pouco o negro 
expellia diante de si o monstruoso Simão , que 
passando pelo abbade arreganhou os dentes , em 
quanto o commendador ria e esfregava as mãos. 



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CAPITULO VIII. 



PStO AMOR SB GANHA O GBU ! 



Catharina e Cecília conversaram, muito ten^ 
po, no jardim, na mais intima confidencia. Des- 
maiou o sol na copa das arvores ; o ceu princi- 
piou a. empallidecer com as primeiras sombras do 
occaso ; e nos caracoleíros e madresilvas , a can- 
tiga dos rouxinoes ia adormecendo em notas 
expirantes, até se calar de todo. Estava pró- 
xima a hora , em que a terra se banha na luz 
pallida e saudosa do crepúsculo. 

Entretanto^ nem o rápido fechar da tarde, 
nem os raios do sol , descorados jà , e o buH- 
cio nos tufos de myrtho , e nos taboleiros de 
10 



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146 A MOGIDABB 

flores, nem a alegria das companheiras, que a 
rir e a correr passavam diante delias , desaper- 
tavam as m&os, unidas,. das duas amigas, ou 
seccayam as lagrimas que fugiam serenas e quasi 
desapercebidas dos olhos de ambas. Algumas ye- 
zes as rosas do pejo acendiam-se no seu rosto; 
outras a pallidez da commoção affugentava-as. 
Para ellas o mundo encerrava-se no coração e na 
alma que viyia do amor {arwrosp , que a espe- 
rança da solidão inflama de saudades e cuidados. 

Gecilia foi a primeira que fez um esforço para 
romper a fascinação deste colloquio. Leyantan- 
do-se de. rqiente , amosiiido a mM d^entre as 
da sua amiga, olhou com yiveza em redor 
de si ; Catharina seguiu-a com sobresalto. Âpe- 
saa entraram na rua principal do jaidun vkam 
a regente e um padre da companhia de Jesas. 
Ob modos inquiatôs e escrutadores , com que erte 
par aeraphico obsenraya tudo de una e eutia 
parte , sem alterar a s^annidade dos passos , in- 
dieayam que procurava alguém. 

-^c<É soror Mónica y»'^^ exclamou Cecília. 

~- « É o padre Ventura 1 » -^ disae Catharíoa 
com alvoroço. 

— a Não te diâa eu? » —^tornou a primeira. 

r- Cecilia , não sabes ^ que. quem espera , de* 
iespera 7 » — respondeu e segunda. 



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ra Wé SOÃO V. 147 

A presença de um padre jesuita no jardim de 
Santa Clara , e sobretudo nas horas de recreio , 
era um acontecimento pouco ordinário. Comtudo 
parecia evidente, que S. Paternidade tinha me^ 
recido as sympathias das noviças e educandas, 
porque em logar de fugirem do seu encontro , 
procuravam-no beijando4he a manga, t fazen- 
do-se muito vermelhas , quando tocava de leve 
com o dedo na iace a alguma. Havia já três 
meaes , que o conheciam , e sabendo a qualidade 
de visitador e reformador , em que fora investido 
pela Santa Sé, (o que o trácia ao convento re- 
petidas vezes) imploravam a sua itttercessio , sem* 
pre efficas, para mitigar o rigor dos castigos, 
impostos pela prepotencia da abbadeça. S. Pa« 
ternidade nfto se escusava , e salvo um pequem 
sermão á paciente, aecudia sempre em atudUo 
im opprimidsn. Assim tinha attraMdo a con- 
fiança daquella população feminina , que debaixo 
do glorioso pendão de S. Francisco caminham 
pdb estrada da graça e da salvação. 

CecBia não podia demorarnsie miúto tempo na 
mesma idéa. Emquavto o padre e a regente 
mediam as passadas , virou-se para Catharina e 
disse em ar magoadoc 

• *^«Ho}e morra 6 aède a minha roseira 
branca!» 



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148 A MOCIDADE . 

— « E O meu craveiro amarelk) ? » — respon- 
deu Catharina. 

— «Olha, acudiu Cecília, o padre já nos 
viu , e chama-nos ! Então ! Não éramos nós a 
quem procuravam ?!...» 

— « Â ti , pôde ser ; mas a mim , porque ? » 

— « Porquê ? Não sei ; mas é. a ambas. Olha 
o dedo da regente , que parece um ponteiro. , . 
faz-nos signal ; estás desenganada ? Vamos ? » 

Partiram , ligeiras e airosas , como duas gra- 
ças , que fugissem ao bello grupo de Canova. No 
meio da lameda encontraram o religioso e soror 
Mónica. O jesuita, por caridade, encurtava o 
passo para não esfalfar a pobre freira , cujo can- 
caso , exacerbando-se em frouxos de tosse , lhe 
tomava a respiração n^uma pieira cavernosa. A 
sciatica não concorria menos para tornar des- 
iguaes e lentos os seus movimentos. O padre ti- 
nha os cabellos brancos , % fronte ampla e os 
olhos penetrantes e reflexivos do jesuíta, que 
vimos conversar amigavelmente com o sr. Thomé 
das Chagas no Arco de Santo Antão. Era sem- 
pre a mesma bocca , em que florescia um sor- 
riso eterno, era o mesmo rosto passivamente af- 
favel, e a mesma expressão diplomática. S. Pa- 
ternidade, desde que chegou a distancia propria, 
fallava á freira com os lábios, e ás duas amigas. 



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BE D. JÒÃÓ V. 149 

coíii a yista ; e é jasto ácerescentar , que a lin- 
guagem muda dos olfaós foi mais eloquente do 
que as doutas palavras da sua homilia. 

— « Pois sim , Yae muito bem , leia a madre 
Santa Thereza , que lê um santo livro: Grande 
doutrina! A «Mística Cidade de Deus» tam- 
isem. Vou mandar*-lha e os « Exercicios » do nosso 
patriarcha Santo Ignacio. . . . verá que bons guias 
lhe dou para acertar no caminho da graça .... 
Mas a^nde está esta querida soror, a madre 
abbadeçá ? » 

— « V. Paternidade sabe , que jâ lie mandei 
recado, ^o horas de já ter acordado da sua sé^ » 
— respondeu soror Mónica , no tom plangente 
e precioso , que é característico das freiras ve- 
lhas. 

— « Algum motivo ha , esteja certa. O peior 
é demorar-se Se tivesse a bondade soror Mó- 
nica ! Se repetíssemos o recado ! » 

A regente e:2^halou um suspiro capaz de co^ 
mover um Adamastor , acrescentando com en- 
fado: 

— « Não percebo , padre mestre. Y. Paterni- 
dade não é pessoa que se faça esperar. ... Eu 
mesma vou. Meninas fiquem. )) 

— «Os deveres desta santa casa desculpam 
tudo )) — observou o jesuíta , sorrindo-se. Nào 

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IfiO À MOODAOS 

lhe €rt deseenhecida a lucta capital»!* !9iid€- 
aera iníinigas morUe^ as duai veneráveis religio- 
sas; e tinha, boas rasSes para se limitar a orna 
perlsita neutralidade. 

Soror Mónica retirava^-se coxeando, quando 
Gecilia é Gatharioa chegavam ao pé do jesuita , 
e beijando^lhe a manga , lhe tomavam a faen^o. 
Apenas a regente esteve a boa distancia ^ o pa- 
dre Ventura deu alguns passos mais para ellas, 
e pegando na mão a andMis , respondeu á sau- 
dação com bondade paternal. A sua voz era entre 
seria e joviaL Toda a intenção estava na vista 
o não nas palavras , segutido o costume. 

— <( Deus as faça santas, filhas , e as abençoe ! 
Então D. Catharina, vamo-nos alegrando? Es- 

^ tamos já mais conformados com o habito ou ha 
ainda grandes saudades do mundo , <{Ue nos não 
deixam amar a Deus como boa religiosa ? » 

Catharina corou ; tremula e conliasa nada res- 
pondia ; mas Cecilia acudiu logo com a costu- 
mada impetuosidade: 

— « Acha V. Paternidade , que Deus quer 
promessas que excedam as nossas forças ? 

— « Gecilia ! » — interrompeu a sua amiga. 

— « Ah , a minha doutora ! » — *óbservou o 
jesuita com o seu nso fino. — « Respondo com 
outra pergunta : ponha o caso em ;sí a xnioàa 



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jm D. jíoio Y. 151 

donselfe Theoibni , e digt : fe iÍ!Keflie á6 eiM- 
liHsr eake ^ denrecet de íksa fUfaft, e a iH«rto 
doB Mtíiim, <|ae o faculo chaina amor, dei- 
xava norrer aeu pae de fieoa , ou ohadeeia^lfae^ 
saerifioanda^^e?» 

-^«Nio ha pae q^ man» da ieUeidade da 
sua filha. » 

"^ « MmíAd bem. Conpara eutto a jgloria de 
senrír a Deus com a fallivel alegria que ilude 
oaiiomei»? Eatto -que diz ? » 

««^«lilfiii paàre^ dígo:$ó oque neensinacaM. 
De?eHie «nar a Deus .a<Aee todas as coifas y e 
defiMS a naaios irmiíQa^ mm» :a náa meamos, a 

— *-«EioáUe»te!! Stfaa que aprofeita a dou*- 
tiiM nerta casa?i> — rredacgaia o padre no 
mesmo tom. Depois toniaiid(Hse serio disae : — 
«D. Cíatbarína, Meditei sobre o sen case; e 
oommuaiquei-K» sem revelar a pesaoa^ enten- 
de-ae, aos mm satÂos dos nossea padres. Ê ver- 
dade ; « o 4pie |ulga que disseram elles ?a. 

— « Que devia professar t» 

•— « Respire. Nem tanto ; disseram que ^n- 
Ire o amar de Deus, e o anor humano, nlo 
hafarefierenoia raaoaveL • . . não acha, tambean ? » 

«-*- «Deeidemcatlkxgueeumao posso escclher?» 

— « Também não decidiram. iDistínguem ! Os 
nasasosfiasuiaiasiiio i^^ndos /em distinecões ! Se 



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lc>2 A MOCIDADE 

O coração ^ entrega exclusivamente a Deus , ha 
a vocação sincera, o esposo acceita a esposa. Mas 
se a alma recahe nas saudades do mundo e se 
lembra mais da terra, Deus não quer , Deus não 
permitte um vinculo que a bocca fónna e o co- 
ração desmente. Não é este o seu caso , D. €a- 
tharina ? » 

— «Ah padre Ventura ! Sou indigna da graça 
de Deus , bem vejo ! » 

— «Âfflictos nos vemos; pois sim; mas, 
animo , e resignação ! Entre dois males irreme- 
diáveis , optar pelo menor é o dever do ^cbrís- 
tão. Deus não manda impossiveis ; amor e obe- 
diência á sua Lei , é o que EUe ordena. Abra- 
ham não matou Isaac. . . . Medite neste e^i^m- 
pio ; humilhe-se , e teiíha fé. » 

— ^crBem humilhada estou na presencia da 
minha fraqueia ! O que posso fazer; se Deus me 
não chama , se tenho o coração escravo das pri- 
sdes do mundo ? E meu pae , o que dirá meu 
pae , se chega a saber ? . . . » 

— « Seu pai não é um tyranno , ha de con- 
formar-^e com a vontade de Deus. Uma alliança 
virtuosa e honrada é sancta aos olhos da Infi- 
nita Bondade. Nem todos podemos servir a Dens 
da mesma maneira. » 

— <i Ai 9 padre Ventura ! Conhece meu pai , 



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DE D. JOÃO y. 1 53 

e sabe a firmeza da sua vontade. Disse uma yez 
que não me podia casar ;. e essa alliança; . . i» 

-^ « Ha de fazer-^se.^ . . As coisas é qae muda- 
ram , não foi seu pai , D. Catharina. Uma aíFeição 
honesta em que envergonha ? O Conde suspirai 
pelo momento de possuir uma esposa virtuosa ; 
seí-o ; disse^mo elle. Havemos de convencer seu 
pai. O Conde de Aveiras ^ amigo e valido do 
Principe Real , que amanhã (quero dizer) , que 
de om instante para outro , altos juizos de Deus ^ 
pôde subir ao throno. . . » 

-™^ « V. Paternidade não ignora a ingratidão 
da corte , e a nossa familia. . . » 

'. — <í Sei tudo 9 filha ! . . mas confiemos em 
Deus. Um genro poderoso vale muito , e seu pai 
tem pratica do mundo , percebe as coisas. Esteja 
certa , não resiste. Peço oito dias. . . » 

'—«Oito dias? E julga V. Paternidade que 
meu pai approva. . . » 

-^í<Ha de approvar. » 

— «E Deus?» 

— «LembreHse de que padeceu para a sal- 
var , e veja se pôde querer um sacrificio superior 
á nossa força ? Diga-me : e se houvesse meio de 
conciliar-mos as duas coisas , servindo a Deus , 
e vivendo no mundo, ficava mais tranquílla? » 

«— c( Oxalá , meu* padre ! » 



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154 A MOCIDADS 

— « Dè moitas graças a Deus; o neio existe. 
O habiU) não fas o monge ha de ter oufido ; e a 
verdadeira (abusara. é >o recato da alma , e a in- 
noceneia do coraçio. Com o vestido seovlar , e 
a liberdade do corpo pede ser escrava de Deas. 
Temos os exenúoios para mortificar t> esfâríto, a 
obedi^icia a. superiores espírítuaes para nos vat^ 
por um vinculo sagrado ; ha a afanegaçào da pesh 
soa e da vontade para interesse^ santa inte- 
resse 1 de muitos. . . e tudo isto faz o sacri&cb 
completo. Se quizer , D. Catharina , aeii mulher 
de seu marido , eesposa «de Deus , <(aantoá graça 
da perfeita religiosa. . . »> 

—*« Aonde, e de que siodi>^ padre Ven- 
tura?» 

-^w No mtitutodo Patnandia Santo l^eto. 
Pôde ser ter^eim doaooiedade de Jesus. Ou*i)to 
ao maê creia «m Deus e tenha esperança. A pa- 
ciência vence tudo. » 

O padre duplicou a força ^a este proaaissa <smk 
um gesto magestosoe expressivo. Vixendo-se de- 
pois para Oecília acrescentou em tem jovial : 

«-^«£ a memoa bonito o que^diz? Mo ha 
nesse coração pequeno e alegre nenhum peocado 
escondido^ que se confesse fn 

— «Ai pndre Vtsitodor , nenhum ! » — Tes- 
pendeu ella vermelha come uma rosa e dando á 



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faocfli O »eio MriHo trvmw», que 4Í0!eBgiifdb 
a tornaTa. — «Não tesho mions.; « wm níft- 
g«iem me^frar. » 

-7- « Sim ? Vejam a iowcivt dbs homefts? Po^ 
bre freíriíihai Hei de dar«4fae uma «dtieia para 
a ONí^olar. a 

— «Mas 60 oSo êitoa triate! 

<--*« Atoda bem. Lembra-ae de soa pai ? » 

— «Oh, muito, muito I-***4Ciidiu Cecília, 
cabindo logo em melatioolía rcAexiya. Tenho-o 
pfeamte como le o vime, Olba padre mtetne 
qwntos $&o hoje ^ mes 1}^ 

— «Porque?» 

-^«Porque está faaando dofl» «amas que elb 
me tare oos faragos e me beijou a adtima vet. 
Querido pai j Partiu e não ternau maia. . % Mal 
^ahia eu que^e deapedia paca aampre. » 

— «EÔgane^tae; ba de vrf-Oi» 

— «Jío eéu. Hle era bom; eslá iá. » 

-^^.Sapero. em iem Ghrísto que lá iremos 
todos. Mias. seu pai , Geeilia , dSo morreu. • . i» 

— ^^tt Meu pai?*. E V. Paternidade nfto me 
dtfia nada! Ab« a minha maí, a minha que- 
rida mail. . » 

— « Enlfto ! NSo sio eoiaas, que se levem a 
chorar. . . Lagrimas e desmaios ? . . E para a 
tdstem oqae veierva entio ? Aiegriaa taes » quando 



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156 A MOl^lDAta 

Deus as mándu, eleva-^ o é8(ril4tó «ò céâ, e 
'acceítam*-se ccmi jubilo.» 

— ; « Também se chora de alegria ! Meu pai 
^ito ! Ainda o tomarei a tdr ! » 

— «E finais depressa do que julga. Está em 
Lisboa, em sua casa. Chegou hoje ; e é natural 
que venha aqui amanhfi. Gomo elle ficará satis- 
feito de vér uma filha. . . digna do seu amor se 
proceder bem sempre. » 

— «Ah, padre Ventura, se elle soubesse! 
ۈtharina, querida, agora mais do que nunca 
peço a tua amisade. . . Diz-me o corai^o que 
chegou a hora. . . » 

— « De algumi lhe ter amor ? d — atalhou o 
jesuíta eto tom malicioso. Depois tomando ar 
serio , mas nSo severo , proseguiu : — « D. Ca- 
tharina pero^, e eu entendo. Soc^ue Ceei- 
lia. O Conde de Aveiras é o maior amigo , que 
tem um cavalheiro moço , que a viu em S. Do- 
mingos faz hoje cinco metes ; que lhe declarou 
o seu amor uma sexta feira á noite, aqui nesfe 
jardim quinze dias depois ; e que , hontem , aindu 
hontem , lhe escreveu por certa beata uma carta 
para lhe dizer , que viria esta tarde ao convento, 
custasse o que custasse. . . Nlo é tudo assim , D. 
Cathariria ? » 

As duas meninas olharam uma para a outra 



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BBfi. ÍQÍ0 %. 1S7 

tão fiasmadas, tto coBftisas , que o padre Ventura 
uSo pôde suster o riso apesar da sua gravidade. 
Neabnína se atrevia a fietUar de eavergcobada. 

— «Admiram-^e? Nfio estranhem^ Sâo mila- 
gres da. nossa roupeta! CecSia eu não censuro, 
nem approvo. Os jesuttass ha. de oonven€er'-se , 
são melhwes do que diz a madre t^^deça, que 
é uma santa pessoa. . . )i, 

- — « Mas quem revelou a V. Paternidade ? . . » 
interrompeu Gecilia com as faces a arder. 

— « Provavelmente alguém que o sabia. Fi- 
lha, nada se faz , que se i^ descubra. Repito ; 
nSocendemno, nem approvo, entenda-me bem ! 
Isto não é o casamento de D. Catbarina. . . Co- 
nhece- o amigo do Conde de Aveiras? Se xtòo 
sabe , pelo menos suspeita quem elle é , e o que 
hade vir a. ser?. . » 

— .<xÊ:o homem, que amo! Não sei mais, 
nem preciso » atalhou Ceeilia em um repente de 
enfado. O jesuíta olhou para eUa alguns instan- 
tes, leu no seu.ro^o a verdade e a innocencia, 
e meneou a cabeça com mais peear do que se- 
veridade. 

— « Ah , Cecília , receio que do. coração v©-: 
nha a sua morte. Jactem. idade;, defve meditar.* 
olhe que o sacfifieio é grande aos olhos de.Deus,- 
e immensO' aos» ottios do mundo» » 



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il^ Jí tfOaOADI i 



múu CotharÍDa, a cpiem nio eseapoa a intençiet 
com qoe o jeMHta> praferili as vltitnas palarrái. 

— (cA verdade assusta ,. fiiha. — Respondeu 
elle. — Se a suaaoiiga Soubesse a que Cuia« era 
menor o mal Antes de entreger assim a sua 
alma, dena saber a quem. • .Deus permitta que 
se não arrependa e depois cbora. Nio digo mais ; 
não sei seaãaittò.k> 

— ccE euf-^aea(&i Cecilía exaltada *~ sei 
que o amo « quç seu amada. Que nio terei es- 
poso ^ ou que será eUe. ;• » 

— <x Valha^nes Deus ! Quer iazer de mim seu 
confidente ? Eu lAo entendo de paixões munda* 
nas. Confessor posso absolver da culpa^ ima vez. 
que o coraçio seja bom , e o seu é bom, Cecí- 
lia, oxalá que a cabeça assentasse um pouco. 
Amifo, digo-lhe que fei mal, que faz muito 
mal em se fiar dos oUios. Lembre*«se de seu pai ; 
veja o desgosto de sua mii. . • Sobre tudo , o 
mundo, respeite, o mundo. Quanto ao mais Deus 
é menos rigoroso do que alguns theologos. . . e 
ha exemplos. Se a culpa aproveita a nossos ir- 
mios , se a mentira os salva , peccámos sempre 
mas é peccado muito próximo da virtudes . . Um 
instante de síneera oontri^# píóde laval^o. Ju** 
dith também peceou, gloriosa cu^, que for 



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BIT D. JOto V. 1S# 

a Ubenlade do seu porro ! Nada é absoluto neste 
yalle de lagrimas. Se fossemos perfeitos éramos 
santos. Mas de téras , nHo sabe quem é o amigo 
do Conde de Ateiras?» 

— K E V. Paternidade ? » — exclamou Catha- 
rina. 

— ^ « Eu ? ! Nao tê que estou perguntando ? 
Cecília , tracte de se cíonGrmar na terdade antes 
de decidir. Olhe para a sua consciência e lucte 
em quanto titèr forças; se nío poder tencer-se 
procure remir o peccado pêlo exercici^) da vir- 
tude. . . A yo2 do mundo nem sempre é verda- 
deira ; ouça antes a voz do ceu. Saiba que para 
O serviço de Deus importam menos os meios do 
que os fins. » 

— K flSo entendo , padre Ventura ! » — repli- 
cou Cecília ingenuamente. 

— «Entenderá um dia. Nao é a madre ab- 
badeça , que alli vem ? Pois sim , filhas , ha di- 
versos modos de ganhar o ceu. Cecilia, a verda- 
deira virtude dao está na bocca do mundo ; D. 
Catharina lembrense do que eu disse do nosso 
Instituto. . . Amem e esperem ambas , e serSo 
salvas ! . . . Ora venha a nossa querida abbadeça, 
que já nos ia tardando. » ' 

— «V. Patemidadebem sabe o peío da minha 
jcrm. . . , Bens m'a tire depressa tle cima dos 



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460 jA ifOCIOADfi 

hoDibros!»-^ exclamou a freira com maueiráfi 
beatas, e aífectadas. 

— « Ora pois , louvado seja Deus por tudo ! » 

— a Aonde quer V. Paternidade que o receba ?^> 
— « Aonde lhe fòr mais agradável, Eu não 

escolho. » 

— tt Meninas , não sabem que a hora do re- 
creio acabou? Beijem a mão do sr. padre Ven- 
tura , e peçam-lhe vénia. . . » 

— « Dá licença , querida madre ? . . . Cecília 
ha de receber um recado de casa. Não sabe ^Seu 
pai , que diziam morto , está vivo e chegou a 
Lisboa.» 

— ^«Deu graças a Deus por tamanho mila- 
gre , Cecilia ? » — exclamou a abbadeça. 

— «Já cumpriu os seus deveres ; parece-me 
que não ha inconveniente em a deixarmos vèr o 
seu parente. . . creio que é parente ? . . » 

— « É primo ! ]» — atalhou . Cecilia intrepida- 
mente. 

— « O seu primo » — repetiu o padre com egual 
denodo — «Naturalmente não são coisas^ que se 
digam diante de todos em. um locutório. A.gra- 
vidade do negocio desculpa. . . » 

— « E onde está o seu parente , menina ? » 
-^interrompeu a abbadeça. 

— ff Na grade , segundo me informam » — 



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DÇ B. JOÃO V. 161 

obs^¥ou O jesuíta. — «É melhor irmos para a 
casa da secretaria ^ que se pôde reputar extra 
clausura: e deixaremos os dois primos em li- 
berdade . . . bem Yé , querida abbadeça , este 
caso sabe da regra geral. . . » 

— « Apesar disso, é contra o uso. Entretanto 
y. Paternidade manda ! Menina, vá subindo ; eu 
dou as ordens. Assistirei á sua yisita. » 

— aExcellente! Assim não ha peocado. Va« 
mos! i> 

E tomando pela rua , que ia dar â porta re- 
servada, o padre Ventura mostrou que sabia 
perfeitamente o caminho. A abbadeça seguia-o , 
rosnando : 

— «Não percebo tal breve de Roma, nem 
taí visita! O padre santo não podia nomear o 
nosso guardião em logar deste jesuita? Nossa 
Senhora nos acuda ! » 

— «Não, soror; disse o padre virando-se 
com ar severo — Sua santidade sabe que não é 
permittido ao guardião ser juiz em causa própria. 
Querida madre, n^o se esqueça, peço-lh^o muito, 
de que não peccamos só por obras ; por temeri- 
dade de pensamentos ainda ás vezes se pecca 
mais • . Cuidado em não cabir ! d 

Esta ultima advertência tinha dois sentidos. 
Podia referir-se á lição moral , que acabava de 
11 

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16$ A MOGEIDADS 

dsp, 6; 869 O sev tpjfhoaenifr; ou sdnteiMe rifo^ 
iír ao mmitikeÊàf^ sdMreMAtados fos râcftpáM â 
freiras vendcMe- colhiéa ^s flamante mspiiMra^ 
$ãa contr» a seu visitador. Fesse o que fosse, l^« 
Paternidade continuou a subir a escada eon» 9 
soeego ovdtnaFio; e a abbadeça, eimrrigida pela 
inura duo^ Mvido» iteliano, & seriamente^ assustada 
pelo ar de* a«istoridad&, que ¥m assumir ao je- 
suiCa , HSd^ profsriv um» stf^ palarmi mais. Assim 
chegaram ambos á secretaria do mosteiro; 



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CAPttVhO IX. 



*-iÍNDlí ífiú- síÈ- íírtHrf tisai o ÉMl 



As òtàem der aBfiàtíeíâ- foi'am cttihpiítfes' sem 
detttona r otites db Cecilhr entrar mr safa da se- 
cretaria , xã It esperara o seu- jmreiite. 

Bste líSo esperou sem grande incpiíetaçao a 
momentd de a vêr na. grade, a esta: hora deserta*» 
ôsed desassocegò percebia-se na passeia impa- 
, ciente, em que mediar o apposeiítò, cotrtandScr 
oí mintitos r e no arsobresaftadb, con* qnie ofhaw 
parti ff porta , se ourir aignm riííâé. Depoiff 
disto ê inutir dizeir, qim se llíe abria o paraisa 
diante ctes offios, ntr moAntenttr èril que mi con- 
vidado a ttocíar a ímporttma puBBdida* do Io- 

I 

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164 A MOCIDADE 

cutorio pela casa reservada aonde podia fallar , 
sem ser escutado por freiras curiosas e ávidas de 
enredos. 

A disciplina do convento fora violada. O favor 
que se lhe concedia ^ era uma excepção , de que 
gosavam só os príncipes, os cardeaes, os bis- 
pos , e os confessores da ordem ; o saudável ter- 
ror incutido pelo jesuita conseguiu mover a ve- 
nerável abbadeça a auctorisar uma innovação, 
que ia servir de saboroso pasto ás murmurações 
das filhas de S. Francisco. 

Logo que o primo de Cecilia entrou , fechou- 
se sobre elle a porta , e appareceram , primeiro 
a abbadeça e o padre Ventura , e logo depois a 
educanda, que tinha vindo de volta. Os dois 
religiosos , sérios , e revestidos da gravidade fria, 
que diz a um desconhecido , que o recebemos , 
mas nos acautelamos: Cecilia, vivamente agi- 
tada, comprimindo o tremulo coração com a 
mão ainda mais tremente. Encontrando o olhar 
affectuoso , mas discreto , do hospede , a pobre 
menina sorriu com tanta suavidade e timidez , 
que ojesuita deixou escapar um gesto de receio; 
mas cahindo em si poude conter-se , e em um 
instante os olhos explicaram tudo ao seu amante. 

O parente de Ceciffa mostrava dezoito annos « 
e talvez ainda os não contasse completos. Tinha 



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DE D. JOÃO V. 16B 

O , corpo bem proporcionado e esbelto ; a pre- 
sença agradável e insinuante , apezar dos ares de 
grandeza , que tornavam quasi aprumada a sua 
estatura , dando certa côr altiva aos gestos. As 
sobrancelhas desenhavam uma curva muito viva , 
excessivamente escuras e bastas talvez desces- 
sem pezadas de mais, carregando os olhos. As 
pupillas pardas raiavam luz tão clara , illumlnan- 
do-se á menor commoção , que bem poucas pes- 
soas poderiam soffrer , sem abaixar a vista , o 
relâmpago que as fulminava. Era a mesma força 
e magestade , que deu a Luiz XIV a vantagem 
de atterrar tanto com um voiver d'olhos , como 
com as mais severas palavra^, que profere a 
bocca do rei. 

O rosto do mancebo, mais trigueiro do que 
alvo, pouco rosado, era animado e nobre de 
feições ; correspondia bem á expressão da vista. 
A testa elevada e espaçosa , serena reflectia a 
intelligencia , contrahid» inculcava a impetuosi- 
dade do animo. Os beiços cheios c vermelhos , 
com o superior alguma coisa revirado e terso , 
annunciavam um caracter viril ; o beiço inferior 
muito mais grosso e descabido , indicava grande 
propensão aos deleites sensuaes. Menos séria, 
esta bocea , aonde ás vezes a ironia se espiri- 
tualisava com chiste, podia adoçar repentína- 



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16(S A 4ipaD4J>S 

mentia a sçvieridade jda pjbjb^iooQinia. nmi fiui^i 
,aquiUoo jRãp descalua na poiíta, q m m^hsm 
indicadas e laceis de se entum^er inculcavam 
um génio forte ,e irritável. Em todo o $eu as- 
pecto lia-se yontade firiije , talentiO prompto , |;e- 
nio arde^te » e constância de idéas , pmito promr 
pta em degeaerar em obstipação, A delicadeza 
da pelje e a pureza dqis veias , azulaqdo-se trans- 
parentes como únissimas spmWaç , provav/iip que 
o typo aristocrático era conservado na sua far 
milia em toda a perfeição. 

Os cabellqs sem pós i^em peruca fugiam sol- 
tos pelos bombros, enrolandp-se em annei^ de 
bello castanho claro. A mâo pequena , cheifi ^ e 
macia , parecia mão de senhora. O pé airoso e 
pequeno pizava com jgraça ; os mpyimentos res- 
piravam elegância e dignidade desafectada; a^ 
maneiras eram n^turaes , e dotadas de exquisita 
jdistínc^. Bonitos dentes brancos e iguaes ap- 
pareciam, quando sorria, no meio do carmim dos 
beiços , ainda corados de todo o calor da juven- 
tude. O seu porte inculcava mais o fidalgo e p 
militar , do que o plebeu e o negociante. Até a 
voz sonora tinha a firmeza de tom , e a inflexão 
imperiosa , que dã o uso do poder hs pei^soas 
mais aífeitas a mandar do que a obedecer. 

Trajava uma casaca sem enfeite nem bor^ 



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M D. JOÃO y. 1$T 

dura ; parem ^ Tolfai ^^mada 4e ^rén^fts |»raoÍ9- 
sfts» posta ao pescoço com o desgarre coTtesãOi 
l)rigava com a modesta ^ppareficia da vestia « 
dos calções. O <3aiBÍsote de fiiui cambray esooa- 
didHse mal , ^ aos botões de l^rilhaotes que o or- 
navam ; dois rubis de grande vedor» os^uecidos 
w& súoetes do relojo , desueotíam « sinqJícidad^ 
estudada do resto do fato. A espada , boa íolha 
de Toledo , própria para duello , e bem lavrada , 
pe&dia de rioo talím. As luvas de oanbão viam- 
se euroladas doutro dos copos da espada. De $eda 
côr àd rosa, a meia vestia t9o juata que pare^ 
cia estalar na perua ; e os çapatos com rosetas 
ou topes de fita , nada tmbam que invejar aos 
do íidailgQ mais primoroso. No dedo brilhava um 
anual com três diamantes, o no chapéu uma 
presilha sem jóias accommodava-^ á niediania 
de. pjirte do trajo. A um observador não podia 
escapar que o mancebo , prívaado-se de quanto 
forma a opulência do vestido , nâo se despira 
dos objectos que são inherentes á verdadeira aris- 
tocracia ; a finura da roupa branca 9 e o valor 
das pedras, que trazia, accusavam->uo de que- 
r^ disfarçar uma posição em tudo muito supe- 
rior ao que r^resentava. 

A sala , om que se achavam , tinha duas ja- 
nellas altas, abertas em vãos profundos, uma 



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168 A MOCIDADE 

uma quasi ao fundo, mas do mesmo lado da 
parede , a ootra , collocada ó ilharga da porta , 
por onde entrara o primo de Cecília. Quem se 
recolhesse ao cubiculo formado pela primeira 
janella nem via nem era visto pelas pessoas en- 
tretidas no recanto da segunda. No meio da casa 
levantava-se um enorme bofete de páu santo tor- 
neado , carregado de livros e papeis de escriptu- 
ração. Defronte , na parede opposta 6s duas ja- 
nellas, estava um grande crucifixo, sobre uma 
banqueta doirada , com duas alampadas accesas. 
Uma dúzia de cadeiras de assento e espaldar de 
muscovia acabavam de vestir o apposento. 

A vista do mancebo primeiro fitou-se nos 
olhos pequenos e sagazes e na bocca sumida e 
barba avançada da abbadeça , que da sua parte 
«ão o examinava com menor attenção. Dahi pas- 
sou a estudar o rosto sereno e impassivel do pa- 
dre Ventura ; porém a vista deste , não menos 
firme e mais profunda , encontrou a sua sem se 
abaixar , e nada disse ou deixou advinhar. A cor 
subindo ás faces do primo de Cecilia , e a fronte 
carregando-se de repente , apenas chamou um ar 
de riso aos lábios do jesuita. O seu aspecto era 
todo respeito frio e civilidade discreta ; mas os 
olhos ousavam mais : e firmes declaravam que nada 
do que via era para elle segredo , que sabia co- 



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DE D. JOÃO V. 169 

nhecer as pessoas, porém que as não descu- 
bria, e que estava disposto a conter qualquer 
palavra ou acto donde resultasse prejuiso aos 
outros. 

 abbadeça , respondendo com uma secca me- 
sura â cortesia bem pouco profunda do mancebo, 
rompeu o silencio. 

— «O Sr. padre Ventura disse-me (expoz ella) 
que o senhor é primo desta menina , e traz no- 
iicias importantes. . . Entendemos que este logar 
era itiais conveniente do que o locutório para 
uma conversação de tal natureza. Pôde fallar. . . 
desculpará de certo que o meu dever me obri- 
gue a assistir á sua conversação» — O rosto do 
primo de Ceeilía tomou de súbito as cores afo^ 
gueadas do orgulho oílbndido , os olhos, a prin- 
cípio tímidos , fusilaram de cholera , e teve de 
morder os beiços, fazendo-lhes sangue, para re- 
primir uma resposta severa que lhe subiu á bocca ; 
conteve-se, mas ficou callado. Somente ouvindo 
citar o jesuita encarou-o de novo com attenção , 
examinou-o em um olhar perscrutador , e incli- 
nou de leve a cabeça para elle. Era fácil perce- 
ber, que scismava no modo porque um padre 
que não conhecia adivinhava os seus segredos, e 
lhe servia de protector silencioso. Do jesuita a 
sua vista recahiu sombria c concentrada sobre a 



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170 A MOGIPABE 

abbad^ça , a i^uem se b8o dignou honrar asm 
juma »ò palavra^ 

O padre Ventura sobretudo o que temia emm 
as imprudências, e achava o primo de Cecília 
muito moço ^e nuiito ir^ascivel , para subjugar as 
paixões , diante da provocação deliberada de uma 
freira contumaz e quizilenta ; além disto lia nos 
olhos da educanda (e o padre visitador eabia ler 
no rosto dos outros, como em livro- aberto) que 
ella tremia iguaes receios , e preseutia próxima 
a tempestade: por isso, o nosso jesuitâ previ«- 
dente e valedor interpo&«e a tempo para evi- 
tar uma s^^na violenta, recorrendo, s^undo o 
seu costume « aos melifluos circumloqiAios que 
ninguém empregava com mais habilidade. 

— ff Se dá licença , venerável irman , inter- 
rompeu elle , não acho inconveniente em fica- 
rem aqui os dois primos um instante. . , são ne- 
gócios de familia, negócios caseiros, como se 
diz no mundo. . . Cecilia não é freira , não se 
lhe pôde applicar a disciplina em todo o rigor. . « 
Depois , confesso-lhe que pouco me devo demo- 
rar, e vou commonicar-lhe coisas que não po- 
dem passar dos seus ouvidos* » 

— «Obedeço, padre visitador!)» — replicou 
a abbadeça com azedume. — a São ordens de 
V. Paternidade, não poií^o C^t^ir; mas sempre 



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B£ D. joip y. 17t 

d}gp pe lavo aè miojtias ^lSo9. e nSo respondo 
seiíSQ ,poj: pain»,. » 

— «íJS DàQ faz pouco, ipíaba iman« Eu res- 
poniem do resto. Bem vê, não ba escândalo; 
uma secular pôde repeber ps seus parentes e ou- 
yil-os em .tern>.os honestos, ã vika de pessoas 
maiorps de toda n, excepção.., . o perigo, respei- 
tável ^padre, o grande perigo ^ os abusos, que 
deçgrai^adamente vemos em tanta casa de Deus« . ^ 
nâo fello desta , Dens me livre. Esperemos quf 
dê um exemplo útil , advertindo pela sua auste- 
ridade a relaxjifião das outraSi. O peccado irre- 
missiypl, como e^ di?ia, é converter-se a clau- 
suj-tí em abrigo , çm çiprisco de adores profanos 
e quasi públicos, e abrindp-íie qs wllos dos lo- 
cutórios ao vicio e á seducçâp. Eis o mal ; mas 
ha de curar-se c(m a ^uda de Peu^. Esperemos 
tudo delle. » 

— « Menina ! — r gritou a freira , convulsa e 
suffocada, — sabe quem manda aqui? Já ouviu 
as minhas ordens ? Veja p que o seu parente lhe 
quer, e depois, peça-lhe licença, e retire-se 
immediatamente. Irà fazer as suas orações àquelle 
oratório. » 

Ç o dedo mirrado e eterno da venerável serva 
de S. Francisco indicava uma porta , fronteira 
à.dft entrada,, que dayft;|^ra a çapíçllinha inte- 



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17â A MOCIDADE 

rior aonde costumava fazer as suas devoções. Ce- 
cília abaixou a cabeça , pallida e desorientada ; 
o mancebo desfechou uma vista de ódio mortal 
tão ardente, que se a freira o visse, esfriava até 
ao coração. O único a quem o rasgo de auctori- 
dade da abbadeça não alterou foi ojesuita, a quem 
a seta era apontada ; apenas um sorriso amargo 
e desprezador lhe fugiu pelos beiços , encres- 
pando levemente os cantos da bocca. Revestido 
logo de ar severo, e tornando a estatura erecta 
de um só movimento cheio de magestade , não 
precisou senão de levantar para ella os olhos para 
lhe abater a soberba, e a confundir na vaidade. 
É verdade , que a chamma que luziu nos olhos 
do padre brilhava tão viva ; é certo que o gesto^ 
de que a acompanhou era tão firme e tão pode- 
roso , que o próprio parente de Cecilia , pouco 
aíFeito a deixar-se dominar, não soube encubrir 
as suas sensações, e recuou involuntariamente. 
Entretanto nem um dos músculos da face do 
jesuita se descompoz com a ira, se ira havia 
nelle ; nem uma só nota acre ou resentida lhe 
tremeu na voz ; somente, por eíFeito natural do 
sentimento da superioridade, a sua voz lenta 
encheu o aposento , sahindo vibrante , e accen- 
tuada da bocca do filho de Santo Ignacio. Âpro- 
ximava-se mais do timbre metálico do sermão ; 



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DE D. JDAO V. 173 

mas não reyia a menor expressão de cholera , ou 
de paixão. Era fria , pausada , e grave como de 
costume. 

— «Cecilia — disse elle com a maior sereni- 
dade — pôde ouvir e responder. Esteja em quanto 
lhe fòr preciso; e prohibo-lhe que deixe esto 
quarto sem minha venía. Falle sem temor, a 
esta janella, que ha de ter muito que dizer e 
que sdber l . . . Não lhe recommendo modéstia e 
eircumspecç&o, porque lhe foço justiça. Não ignora 
o que deve a si e a esta casa. É quanto basta. )> 

— fc V. Paternidade esquece que eu estou aqui, 
ott julga que já não sou a prelada deste con- 
vento? )í — atalhou a abbadeça verde de orgu- 
lho, e de desesperação. 

— « Eu já lhe perguntei alguma coisa , , ma- 
dre abbadeça? Ou essa interrogação imprópria 
involve a temeridade e a desobediência de que- 
rer pedir-me contas ? Ora bem ! Espero no Se- 
nhor que a soberba e a rebellião não achem 
guarida nesta santa casa ; mas se por desgraça 
se introduziram aqui , temos na igreja de Deus 
o remédio. . . por mais altas e seguras , que se 
julguem. Vamos, querida irmã, já Ih^o disse, 
pouco posso demorar-me. » 

Balbuciante e tremula a a|)badeça seguiu o 
padre visitador em um estado , que fazia com- 



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174 A MOaDADE 

cesse soBre cr séti dotttettfo ^ attiiátfe 4e iigc^. 
Aonde ha vontade e poder a occasíão nírif Mta^y 
e a sua consciência acciwava-a de gravés negligen- 
cias em mais de um ponto. Decidiu-se, portanto, 
a evitar segundb confRcto , e a détorar este hkí- 
milhaç9o, como aviso salutar, embora losse ermar* 
goso. Da Stta pairtef o^ jfesufto, saflsfeitô^ dh^ y^dkh 
ria , ou fezendo poueo ca^ò délFa ,* voltotr hgtf ff 
èoçntú , quer lhe êra haftituall Obtftte d* ffitt*, e^ 
dada a demonstràçãb precisa , entendia ò^flÚh-^ 
mente que o meio dte' (íolher ás rantageiír ií5o 
consiste em apettaií ãb mái^o^ai^. fbi pdf isèty 
que os dois reKgiosoíT se retiraram' ao cubilb- dtf 
primeira janella , deixando em plena Itberdsíde^ 
a filhff de FiKppe dà Grài» e o sf^u atnántèf, que 
seguinda o «onseffio A) padre yenttira^ se redõú 
Iheram ao v9o , aonde podiam éster sefn, sttàft* 
vistos nem «uvidòs: A aftbadeça' e o jèíáriUtodéSíí-^ 
âppareceram logo no recanto profecfor', que c»*' 
separava completamtenté da educanda e do itott-* 
cebo. 



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fMtn .Vf"}"^ '■'■"''^'^■' "■>* '^Mmé^^m^n tij^Vin' 



cAmxszo X. 



ÊCai £. SMlH^it 



)f9im^ o; itf8»i0^ aèíaiilotMè e recuou; quiií 

gMi-4hd ifHM cK 4orftção; a «hm eimoreeia nM 
olhos, e a yoz gemia nos lábios em murntorioi 
teroos; Hor m^§e da oMrmoçto afocHiMHSid mi si- 
leam^e ouihmi d& beèjofii o» dedo» fOSado^^ qtlc^ 
o lefaidwilii' ktandfliMBttto^ trmimidot èò f râsnr 
eiHvQ OS seos, fM se Um ítíusnàò fittafo^ otnadoss 
em os êf^ítBBT. 

HieadoiwwHi com a nisto, m. ^héf « pritsc^' 
era doqaente mm itieífitice. A dott^ta, ao^sò^ 



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176 A MOCIDADE 

bresaltodo amante, gosara o seu tríumpho. Sea- 
tindo-se arrebatar em radiosa agHa^, pel» 
suas contava as pulsações do coração ^ que batia 
alvoroçado como o delia , ambos abrazados na 
chamma , que arde tanto , se é viva e vem de 
dentro. 

O seu nome, que na bocca do mancebo era 
apenas estremecido por um suspiro , chegava-lhe 
aos ouvidos, como suave exhalaçfto, em uma 
nota divina desse cântico , qae o coração em ju- 
bilo só entoa pelo amor. Inclinada e timida^ 
Cecilia não sabia de palavras, que exprimissent 
o seu enlevo. Ao pé de si tínba o amante; ro- 
çavam pelos delle os seus cabellos ; aquelles olbos^ 
reviam a sua imagem ; aquelle espirito não via 
outra lux. ^ . . A donzella desfall^cida de ternura ; 
com as mãos a conter o seio palpitante ; com 
doce nome nos lábios , cedeu ao tremor eléctrico 
da paixão , e deixou fugir a alma atraz das il- 
lusoes. 

Espirando angélica doçura , a sua vista apa- 
gava-se a medo na sombra das assedadas pesta- 
nas ; e em delíquio pensativo , ora fugia de si 
mesma entre o veu das pálpebras descabidas; 
ora accesa de repente, illuminava-se raiando cheia 
de brilho e de poder. Os beiços abriam-se, como 
o botão abre a flor ; e perfumados da fragantia 



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M B. JÕAO V. 177 

da inâocencia^ entre sorrisos voavam a colber 
os suspiros do mancebo. Nas faces a côr a avi- 
var e a sumir-se ; na vista os desejos castos a 
esconder-se e a apparecer ; na bocca o amor 
brincando no meio de rosaS' e mbins. . . . Que 
fascinante enlevo ! 

Aquelles cartos momentos viram em rapto 
sublime o coração de um fundir-se no coraçio 
do outro ; a vista embeber-se na vista ; e uni- 
dos em espírito serem a mesma alma « o mesmo 
fogo, uma só paixSo. 

Era admirável a expressão que dava ao rosto 
o enlace de duas almas extremosas, felizes de 
({oanta ventura se pôde gozar no mundo. Com 
a mão pendente e a cabeça inclinada sobre o 
coUo , Cecília conao que dizia : ^- nio falles ! — 
Deslumbrado e vaciUando , o mancdiK) , com os 
olhos expirantes , respondia : — adoro-te ! — Pe- 
los beiços de ambos passava o ligeiro frémito, 
que é a melodia do affecto , quando trasborda e 
vem perder-^ na palavra humana, incapaz de 
o traduzir. 

Nos olhos de Cecília raiou a esperança que 
brilha uma vez na vida. As pupillas húmidas, e 
as palpbbras languidas, a uma e uma deixavam 
fugir as lagrimas , que sio tio doces e amargo- 
sas, se a alegria as faz correr, e a saudade as 

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178 A MQCIDADfi 

i«qol|ie ÔBfQi» como peralM aberta» ao túor 
4a paiiio t o enroladas palaa bcef da betlosa* 

Qttauto tempo estariftm assim oalladoi e ^n^n- 
vmànào, mm e\le^ souberam 9 wm pôde di- 
zar^se. Na vida ideal nio »^ cootam as boref * 
Somente, serenado o primeiro impuiso» nhã- 
ram-sé outra vez 9a terra, a deram o nkimo 
a ena ao ceu. , 

A domseUa delicada, jÀ paUida^ jà pwada, 
emia da commoçao que a arrebatava, O corpo, 
e recuava um momeuto, era para flexivaJ e 
ff94^um se deteucar logo para o manceba. A 
mio frouxa, deseièia nas rolos erguidas para 
a suster. Esquecida e carinhosa aqwlla mio, 
tbesouro do amor, dei^ou-se prooènr entre os 
dedos eonvidsos do amante , e estramaoendo com 

a fogo dos beijos, oao fugiu A soduoolo 

doa olhos o o extasis da alma , espirituaUsando o 
semblante, davam ao silencio da ternura , ft qaaii 
immobtUdade ebeia de delicias, uoia oxprsssio 
adorável ^ que (ária em vista deUa paUidaa e frias 
as caricias mais ardentes. 

A booca do manc^, assastada primaiio, e 
arrebatada depoift, cobria da beijos a mio de. 
CoatJâft; e mais andaz ff^ ãm, quia atrever^e 
a ftttbir das mios ao rosto. Bastov um muio 
para a suspender. Ao mdsmo tas^ a voz da 



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BB D. joXq r, t79 

educanda, suaipe e Tepmadte da attraeção ilM* 
sistivd , que é o maior poder da mulher , aquella 
voz infantil na frescura, maviosa na doçura^ e 
tão persuasiya como a paiitão , ?eio pdr termo a 
uma sce&a , em que ambos gosa^am e padeeíam 
muito. No meio de um sorriço, cuja ironia doce 
toda era amor, a linda menina a&stou de 
leve o amante, com um gesto delicado, e in- 
cKnando a cabeça suavemente para elle^ excla « 
mou coni ceita lânguidis oa falia : 

-><-.« Ás santas nunca se beijou aenão a mfto. 
A bocca é para pedir a Deua pelos peecadores. » 

f«^« Olha -*^ exclamou elle erguendo as mãos 
e cahindo em adorafsllo «^^ A alegria enloá-^ 
qu6ce! . . . .Estou ao pó de ti^ yejo^te^ ^ ^^o 
o posso crer ainda. Se soubesses com que sai^ 
iíàe esperei este dia, e o receie ifue tive de 
que elle não chegasse! . . . Cecília ^ a felicidade 
imagina-se, descfa-se^ mas assim de repente ^ é 
como a dôr, custa a supportar. Dize«-ni6 cpw 
tão é BDiiho I Pelo meu amor te peço i oompa- 
dece-te de mim; sou indigno de te vêr: faemt 
sei , : ma» fierdoa«-me; nie te oíbndai ; nSo^ ou- 
Te«me! SiJTaHBie! i> 

•««^ K Com tão poQ^ lé achas que será possi-* 
TelT-^ acudiu ella rrisonlia« ^^^ingrato 1 Hd da 
pegaiute na mio e pd-a sobre o toraçiot pnra 



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180 A MOCIDADE 

sentires que não bate menos do que o teu ! £01 
que esperas , se os blhos estão a vêr , e tu aão 
acreditas?» 

— <r>No teu amor! » 

— «e É milagre ! E não receias. ...» 

-^ « O receio é só de te perder. . . . Creio em 
ti. . . . Como em mim. » 

— « Como em ti? Será bastante? » — ata- 
lhou ella , maliciosa na duvida que fingia. 

— cc Não ! Creio como em Deus. » 

— « É demais ! Mas se ama» sem féé . . » 

— « Sem ella eu não podia viver ! 

— (( Morre-se por tão pouco ? » — perguntou 
Cecilia entre seria e jovial. 

— « Mor^ , se o incrédulo perdeu a espe- 
rança toda. D — insinuou o mancebo; e lendo 
nos seus olhos a ternura , acrescentou : — <( £ 
elle poderá salvar-se ? » 

— « Talvez ! . . . dize-lhe que ame e creia 
sempre. » 

— « E promettem ouvil-o ? » — acudiu com 
fiogo. 

— « Estariam ao pé delle se o não ouvissem ? » 
A pausa , que interrompeu o dialogo , nascia 

da anciedade. Este gracejo, no estilo melin- 
droso dos amores vulgares , era muito falso para 
ccHrresponder ao profundo affecto, que os domi- 



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DE D. JOÃO V. 181 

nava ; e ambos conheciam que deviam aprovei- 
tar a occasíão. Entretanto , nenhum tinha animo 
de soltar a primeira phrase, tão custosa de ex- 
pellir do coração , se vem delle , e não da bocca , 
os juramentos , que a consagram. 

Cecilia, observando que o mancebo luctava 
comsigo , e não se atrevia a fallar ,' poz os olhos 
no chão , e com o rosto affogueado , ousou ser 
a primeira a declarar os sentimentos da sua 
alma. Na altiva innocencia , tão segura que 
nada receia, e adorando com a devoção exal- 
tada do amor virgem, a educanda^ pegou na 
mão do amante e exclamou depois em voz tre- 
mula : 

— « Callas-te ? Queres que eu , mais timida , 
antes de te ouvir , diga que amo ? Acredita , se 
Dão o sentisse não te illudía. Sou alegre, sou 
até creança , como elles dizem , mas o coração 
se uma vez prometteu nunca mais se esquece. A 
occasião em que te vi , os momentos em que 
foliámos , os juramentos que escrevemos , estão 
firmes ; foram feitos diante de Deus , e gravei-os 
com o sangue da minha alma ! A ventura , ou 
a desgraça , que posso esperar , entrego-as nas 
tuas mãos. ... O mundo, se me escutasse, ac- 
cusava-me : é mal feito , bem sei : uma donzella , 
que se estima , não diz de repente a um homem 



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183 A UQCIDADE 

O que eu estou aqui disendo. Mas sAcs ! O re- 
cato é dt alma ; e para me guardar, é de mm 
o meu amor e a tua bonra. Confio em U ! 7 Se 
abusasse!, vés ! despresara^te , e quando se des^ 
presa. ... o amor caUu e vão tem virtude ; ta 
e eu somos incapazes de Ibe darnoies essa morte , 
não é assim! » 

Elle corou e esbpemeeeu ouyindo esta confia- 
sio ingénua. Bm quanto Ceciiia fallavtt , contem- 
plou--a perdido no enlevo , que é a declaiaçio 
aais lisonjeira. Depois , ás ultimas piírases , em 
que o rosto da sua amante era uma rosa no cnr* 
mim e os olhos affectoosos ibe penetravam o co*- 
ração , tornou a ajoelhar e com respeitosa ter* 
Biprà exclamou : 

---K Fiaste na minha honra! Se a bocca t^o 
não sabe dizer , pergunta ao coração , que 16 m 
meu , e elle. . . )> 

*-*« Responderá por ti ? a -*** aeudiu a edu- 
canda sorrindo com malicia — « Mas o que lhe 
bei de eu perguntar, se elle é mudo, ae nio 
falia? Sabes o que jurava, sem ^ meu espe- 
lho ? Que tão feia nasci , Deus me não castigue ! 
que até a lisonja se não atreve a enganarnne. » 

— a Porque és bella de mais , porque lia nai 
teus olhos a pureza de um anjo , é que os pec- 
cadores não ousam levantar a vista. » 



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DE D. JOÃO V. 183 

-^ « EDgAoattiHse ! Sou miiUwr e deprate desço 
do altar. . . n -^ atallum Cecilia , obrigando o 
mancebo a ei^uer o joettu> do chSo. — «Va- 
vam l ^^ prosaguiit impaciente -^ disseste-me que 
Ytnha^y e. . . » 

-*- a E vim }aFar*te que és a tui da minha 
vida« e lâo digo ametade do qtie sinto! Tent 
razão; aMi um incvedalo^ um posillanimel Es- 
tremepo^te^ e callo*me e perturbo^me, quando 
o eoraffio está a estalar no peito, e a alma não 
pôde já com a Micidade. . . Cecilia , boje sei : o 
amor é só mna ve2 na Tida. Se adivinhasses eom 
qifto saudade te íaHo na ausência ; a magna com 
te chanto ; e o jubilo que me alvoroça se onço 
o teu nome^ o tea doee nome . «. E a^ra, ?te ! 
tmno como uma oreança ; affbga*se*me o cora- 
ção ; e nSo posso, não sei senão deitar^meaosteu^ 
pá» repetindo até que tats acredites: — amo-te, 
adoto4e, e é a primeira vez que. amo 1 Cecilia, 
juro.pek nassa esperança ^ ainda mulher ne- 
ihoma foi mais querida do que tn. Eu que não 
devo inclinar a cabeça seiião a Deus , que não 
ajoelho senão a Christo, olha estou prostrado, e 
deixo onrrer j» lagrimas s<dire as taas mãos. . . 
Diie y anjo do meu amor, estes olhos chorosos , 
este coração tremenle , não o attestam nsais do 
que juramento» e promessas ? » 



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184 A MOCIDADE 

— « Neste instante ; agora 1 Atteode*me, Jíofo. 
Tenho medo de tanta felicidade. Sempre me dis- 
seram que muita ventura de repente era indicio 
de desgraça. Sou fraca , sou mulher , e tremo 
que o amor que é a minha luz se apague , nto 
sei por que mãos , nem de què modo. Tenho 
medo! . . E é tão forte que me tira a alegria , 
e ás veses o coracSo fica negro de tristeza. » 

— « Que loucura ! — acudiu elle, pegando-lhe 
na mão. — Não tenhas receio senão da morte : 
porque só morto deixarei de amar-te. » 

— a E o tempo , João ? Nunca ouviste , que 
assim como nas flores a fragrância dura pouco, 
o amor dos homens é .curto è facil de mur* 
char?. . O mundo, aa armas, outras paixdea 
consolam-D^os depressa; mas nós, coitiHkis, nto 
temos seiâo memorias e saudades. . • Desculpa ! 
Não jures , não digas nada ! Para què ? bem sei : 
estes instantes, o dia de hoje, o de amanhã , 
são ineus ainda, mas depois?. . . é o méu re- 
ceio , o meu presentimento. Rainha, dava-te uma 
coroa ; simples donzella , não tendo fidalguia nem 
thesouros, dei-te quanto possuia de precioso: a 
alma , o coração , toda a ventura que posso. . . vi- 
ver. . . comtigo. . . não tinha senão isto ; entre- 
guei-to! . . . Que mais queres que sacrifique?» 

— « Cecilia ! E reinar sobre esse coração , é 



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DE D. JOÃO V. 185 

pequena glorta ? Porque choras ? Duvidas de 
mim ? » 

— «Não. Creio de mais: é o meu temm*. 
Jn^s que vivia se me tu faltasses? O dia em 
que vir morta nos teus olhos a minha esperança , 
a hora em que o coraçdo, procurando o teu , o 
i^o achar , acredita-me , Joio , é o diâ e a hora 
em que morreu a tua Cecilia. y> 

— <c Sc^ elle também o ultimo da minha vida ! 
Não , anjo da minha alma , socega. Em quanto 
respirar não existo senão para ti. . . Esses bellos 
olhos estão tristes e chorosos ? Quero-os firmes no 
império que lhes dei. . . lagrimas , e estamos jun- 
tos ! ... O que farás enUlo na ausência ? Vamos ; 
uma bocca , que o amor formoa em um sorriso , 
hei de vel--a seria e pensativa? . . . Cecilia , Ce- 
ciiia , não vés que a minha alma suspira nos tais 
Idiios, e que o meu coração geme com o teu si-- 
lencio? » 

Ella ouvia-o com jubilo. Alva e trem^te a 
tcíão sem fugir deixava-se det^pela do mancebo, 
nos olhos do qual ardiam mil carícias. A vista , 
cheia de ternura , quebrava os raios languidos 
em doces lagrimas, que aveludando-lhe o bri- 
lho , a faziam extasiar eléctrica e fascinante.^ A 
cabeça descahia frouxa e negligente sobre o coUo , 
como se inclina ao sol a íflor consumida. . . 



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1^ A .MOCIDADE 

De repente, escutando m ultímas {Milarras do 
mancebo , tremeu-lhe nos beiços um suspin> ; a 
yiata iaztlou; e um sormo indefinível encheu de 
espirituosa anímaçSo o rosfeo , em que as cotei) 
da esperança renasciam ditosas. Neste momento 
esqueceu tudo. Um dos braços , em coUar deli-* 
cioso 9 cingia o corpo do amante ^ apertmdo-lhe 
o coração contra o seu , . que não palpitara me- 
nos apressado ; e com a face unida á diette, e os 
olhos perdidos nos seus olhos, inclioouHie tanto, 
que o haMto suspirara sot^re a respiração ardente 
do mancebo. Depois cheia de pejo , eseairlate ds 
pudor, fagitt, hesitoi», e voltando en, um im** 
peto irresiatvvei , pousoihjfae a booca ligeira'* 
mente na fronte. 

O fogo, a flor de um beijo, peísson de lereâ 
fiii eirtremeoer a alma do amante , ({ue voou aios 
lábios a absorver o perfume, e gozar a.doíçuniw 
O que ambos sentiram, a pureza deste. oacdo 
em que desmaia- o amor virgem , só pede apre^ 
cntlK) quem nas anciãs deste martpio, tão cnid 
e tãosnave, aprendeu a conhece quanto eile 
doe , e se deseja. 

Apenas a eacpbsão do aíFecto assereDou «m 
pouco, Cecilia envei^onhada escondeu o rosto 
entre as mãos ; e a8 li^rimaa soltas e-abrasadas 
gotejaram uma atraz èk outra. De jodhos-^ raan- 



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OB B. Hão V. 187 

téhOf beij«m-Uie o» deão» eonvulsoif e entre 
meiguiced e estremiM» foFeej^va por Ibe descobrir 
00 lindos olboft^ tpm o pegar tomava tilo perigo* 
99B^ Asúm decorreram minutos, até. que eUa 
pallida da lucta interior^ e endiagando o pranto^ 
kiftt&toii a cabefa, ^iizendo com tristeza : 

--^«Foi um» fraqueta, JoSo; nSo oie des- 
pnstes I . • • )^ 

-*- <x Despresar-te ? 1 « . • quando te ddknro^, o 
me fases, o mais felisi dos homens. » 

<^-*^ d O temp«k é precioso. . . ouve^me. Meu 
pae está ¥tvo^ ebegou hontem. Em dois dias vou 
sdiír do eon¥6nlo> aonde odbi as doces e eter^ 
nas memorias da minha vida. Se não toraar a 
vèr-^te, eite aunei è para te lembrares de mim. « ; 
Promettes q^ , uma vea mv dta ao m^ios « 
olhando para elte, darás ima saudade, umdi 
lenbranoa è toa Ceciita ? a 

E passourlfae no dedo uma <x memori)) » cuja 
brilfarâte sapfaâra era pura e azul como o eeu 
que os escutava. 

— « Acceito ! ~ eiíclamo«. elle com fervor. -— 
Será o símbolo da nossa uniSo, JuíTo diante de 
Deus nao receber outra miilhef , em quanto qui* 
zeres ser minha ; e solnre a mi«ha alma e a mi- 
nha honra protesto antes HMxnrer do que não 
eumpiír .. >> 



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18B A MOCIDADE 

— (( Olha — respondeu CeciKa ccfm suavidade 
— o futuro nfto sei , mas sinto que talvez estas 
sejam as ultimas horas de felicidade. . . Amo-te, 
^ João I . . . Amo-t€ como nSo posso amar outra 
vez ; e digo-f o ; nSo tenho pejo ; nSo me enver- 
gonho. Seguir-te-hei a toda a parte; a minha 
alma és tu, e longe de ti n&o vivo. Se me cha- 
mares 9 ouvirei aonde quer que esteja ; e cheia 
de orgulho , radiosa de jubilo , hei de vir , e ao 
pé de ti , e juntos , a tua alegria será a minha ; 
a tua dòr consolar*se-ha no meu seio ; compa- 
nheira inseparável achar-me^has sempre unida á 
tua vida. . . em tudo. . . Sabes o poder que tens 
sobre mim ; de que servia negal-o ? Quando o 
amor é assim , o coraçSo de um vé tudo no co- 
ração do outro. Em paga do affecto de minha 
irmã ,' e do extremo de minha mãe ; pelo res- 
peito de meu pae , por quanto estremeço , por 
quanto posso sacrificar ; não peço senão amor, o 
teu amor , que é a única existência que hei de 
viver. . . Pela terniu^a dos que mais estimas, pelo 
carinho destes instantes , não me enganes I Ju- 
ra-me, que a tua Gecilia, perdendo tudo, achará 
o amor por que suspira ! Vês tu 1 > sem elle não 
respiro , e o remorso será o teu castigo I x> 

E meia ajoelhada, o pranto corria, os soluços 
estalavam , e convulsas as suas mãos apertavam 



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DB D. JOÃO V. 189 

anciosas as, do mancebo. A eloquência do gesto 
e a express&o dos olhos era quasi divina. Elle 
erguía-a com ternura ; adorava-a com suspiros ; 
e arrastado aos seus pés, repetia com fervor: 

— « Amo-te , adoro-te ! Quem não te ha de 
amar ? » 

— <c Serás fiel ? » 

— «Sempre! » 

— « Não amas outra ? » 

— « Ninguém te iguala ! » 

— « Serás meu , só meu, como eu sou tua ? » 

— « Cecília , Cecília ! Não vês que tanta ale- 
gria mata 1 Ahres-me o ceu , e não reparas que 
nos esperam as saudades ? » 

— «A saudade também CQnsola. Quando penso 
em ti a minha alma vive. Diísi^te que amava e 
o meu amor é assim. Já te perguntei quem eras ? 
Nunca'; porque o coração te conhece l Mas ha 
um segredo que me occultas. Porque não decla- 
ras o teu nome ? Meu igual , quem te impede ? 
Meu inferior , eu descerei. « . » 

— QcE fidalgo, e grande?» — atalhou elle 
com um sorriso. 

— « Subiria eu para te encontoar. n 

— a Não, querida, eu é que preciso subir para 
te igualar. . . Rainha davas-me a corda ; juro que 
se desejo um tbronó, é pura te assentarei nelle. 



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i90 A MOaOADB 

Um dos meus. . • um dos hcmnm reis, D^ Pedio 
que chamam o Crud, não coroou rainha a linda 
Ignez? Senhora do meu coração, qaem diria 
que um império é muito pelo teu sorriso?» 

— a Lisonja ! os reis querem liberdade ,* e o 
amor é escravidão. » 

— c< Em que são de rosas as cadeias ? Vés , 
a poesia segue-te ; és a bella musa deate sitio. . . 
Olha, Gecilia, sabes o que lhes falta a elies, 
aos príncipes ? É quem os queira por amor. Fe- 
liz daquelle qm foi amante antes de ser rei ! o 

— « Mas responde ! Quem és ? » 

— a Um homem que desejava ser Deus para 
viver comtigo eternamente. » 

— E que não é rei , ainda que tenha os me- 
recimentos ? — accrescentou ella , sorrindo com 
malícia. —*Dize 5 e conde és? » 

— « Não« Mas os condes. . . . » ' 
— « Valem menos. Queres que diga?.De8e^ 
java-te grande fidalgo. Gomo haviam de cair 
bem as gallas da corte em tão airoso corpo ! — , 
proseguiu Cecília , admirando^ com innoeente 
desvanecimento -r—E os bordados e os diamantes 
que bonitos ficavam ornando esse peito que é 
tão nobre * . . . Olha , eU fisna-te rei , se fosse 
Deus ! » . . 

— (< Querida , — acvdiu o mancebo um pouco 



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M D. JOXO V. Í9ti 

perplexo^-^a yerdt^ra galle de iim.cavallmro 
é a aspada ! n 

•*-^« £ teu pae como se cháina? n 

-«■,« Pedro ! » 

^— « E o teu nome todo ! » 

•~« D. João de Villa Viceja, n 

^K Então âi fidalgo? y> • 

^»^n Sou. » 

— « És titular? » 

-^ii Na fomília, de que descendo, o titulo 
é o direito; e tem custado caro. » 

—«És militar? » 

— ^íiO& fidalgos portugueies, Cedlia, nach 
tmí soldados. )» 

— « £ as^im como sou querethme , amai- 
me? Detisas por mim as damas, as fidalgas? i> 

*-^ K Anjo da minha alma » por ti deixara a 
^incesa mais põd^sa. » 

— :« D. João — exclamou dia com enthi^ 
m^o -*^ pobre, amaYa«-te I Mecbameo, ad^aya- 
ta ! Sem parentes nem riqueza , quma-^te com 
igual estremo. O meu amor te serviria de pae, 
;de fortuna , e de nobreza. » . . 

— ** « £ eu , Cecília , pela ahna de minha mSe 
protesto, que por ti esquecerei família, poder, 
e gmndeza , se. . . . » 

— i< Se Deus não ordenasse que respeitasse- 



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192 A MOCIDADE 

mos em nossos pães a imagem do Creador ! » -^ 
disse ama voz grave atraz delles. VirouHse e 
achou o padre Ventura. Na luz dúbia do ere- 
pusculo apparecia já de longe o habito da ab- 
badeça , recolhendo-se ao oratório. 

— « Padre , cuidei que estava só ! — excla- 
mou o mancebo no mesmo tom , e com espirito 
igual ao de Luiz XIV, dizendo: — «SenhMnres, 
El-rei esperou ! » , 

— « É só esteve — replicou o jesuita serena- 
mente — Apenas ouvi as ultimas palavras, e 
essas não diziam nada , porque n%o quero crer 
que dissessem muito. . . . Entenda , Gedliit , seu 
primo tem deveres pesados. Roguemos a DeiEK 
que o auxilie para elle os desempenhar com 
gloria. Se o ama, segundo o século, pôde contar 
com o seu coração ; não conte com mais nada. » 

— a E que mais posso desejar? »— resp<MH 
^u ella singelamente. 

— c( Conforme ! Ás vezes , ignorando o yalor 
das coisas, damos de graça grandes thesoiros> 
e sabendo depois arrependemo-nos s^ reme^ 

dio Mas isto são horas de sair. Repito : 

seu primo tem deveres ; e estou certo que em 
poucos dias elle mesmo dirá. ... d 

— « Padre ! » — gritou o mancebo mordaido 
os b^os. 



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Ds B. JOÃO r. 193 

'—«O meu nome é JuHo Ventura! — acu- 
«liu- o jesuttà oppondo esta observação cortez á 
exclamação quasi inciyíl do mancebo : — seu 
primo — proseguiu virando-se inalterável para 
« donzeHa , — foi sempre bom e justo. Sabe que 
o sangue que Ibe corre nas veias é do mais il- 
lust^e, e conhece que um fidalgo portuguez é o 
symbolo da honra. . . . Isto bem considerado ha 
de inspirar-lhe uma resolução virtuosa ^ digna 
delle 9 e em harmonia com as suas obrigações. »» 

— «Se V. Paternidade sabe a quem falia, 
aoonsdlho-o a que não contiuMd » • — interrompeu 
o laancebo com modos rmp^iosos. O padre sor- 
riu-«e ; e no mesmo tom natural , continuou : 

-r- « Aconselha mal , é o que faz. Na Com- 
panhia , ba de saber , costumam experimentar- 
DOS desde noviços para todos os lances e traba*- 
Ihos. . . . Quem prega na America, na China, 
e nõ Japão , conhece ao que se expõe ; sabe que 
pôde morrer pela verdade ; comtudo isso, o Evan- 
gelho chegou pela nossa bocca ás regiões mais 
barbaras; e a cruz arvomda por nós e regada 
pelo sangue dos. nossos martyres está de pé e 
floresce. . . . Cuidei que lhe tinham ensinado 
isto. h 

— «Sei tudo o que me diz! — accudiu o 
mancebo um pouco humilhado da lição — mas 

13 * 



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194 A MMaDADI 

O serviço de Deus fião tem nadbi com • que- es- 
tava tractando, quando Y. Paternidade me in- 
terrompeu indiscretamente, i» 

— a Tem tudo; á censura é injieta. A sua 
conversação nfio podia dmrar; e ha promessas 
tombarias a que é prudente valer a tempo .... 
Diga-me : era melhor que viesse a abbadeça em 
meu logar , e ouvisse? . , . » 

■— « Pois ella havia de atrever-se ? . . . » 
-— « Â separar doas primos? Ê simples. Fa- 
zia o seu dever. Sejamos rascáveis. O que lhe 
disse , Cecília , é exacto. Seu primo tem grana- 
dos obrigações a cumprir. Fidalgo, a sua honra 
é sagradb : portuguez , ámanhft , hoje mesmo , 
pôde s&r chamado ôs armas, e ha de ir. . . ; )» 

— c< Hei de ir , padre ? Ás ordens de quem ? d 
— clamou o amante de Gecilia cheio de orgu- 
lho e de cholera. 

— « Ás de El-rei e da sua pátria julgo eu. . . 
Creio que obedecerá a ambos. » 

— a Mas isso tudo' o que tem com o ndsso 
amor?» — perguntou com timidez a donzetta. 

— « Muito ou nada , filha. Se nos limitar- 
mos ao estado, em que nascemos, a nuvem 
passa por cima e não nos toca. Se nos exceder- 
mos , pôde acontecer que nos alcance. O raio 
procura mais as emincaeias. Deixemos, poiéA, 



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DE D. JOÃO V. 195 

M rilègDfiae* QnBf saèèv éo tem dereres feaa- 
do», seB«piriiiK)r3 Vept!» 

E tirando «m carta 4o> aoio^ catoegoa*^ fria- 
HMitir ao naimba^ Este apenaslea o sokcpipto 
sobresaltou-se,. e <Mniièo ptra o jesaika menof 
arme do qoe antes*,, perguntota : 

— <(Quem lhe deu esta casl»}» 

'-^c A pessoa qm 9 escrmem. » 

— «Ent3o 8d)e?. . .w 

-*-^ «Tudo» O' qur m& dímni;^ » 

D. João abriu a carta e leu-a agitado. De re- 
pente fez-se k^Dcòy e dan^ alganMS volta» pela 
fasa com infieto^ mamummi; 

-^ « BfsseranF-lhé Utà»}; Mó importa.. Co- 
miga perdem, pekfarf» 4 qaanda tfSo eoisegueih 
pela brandura. Veremos se este casarasado' se toÉ 
BÕa quercÉd» eu ! » 

AÔilflHulo o primeiro accesso, cbtgaa^e a- Cef- 
eiiia d! disse^ tora infinita termarfei : 

-^orSou obrí^of a salbit. Esta caria èna 
rcdidade hnportante-s & t»mo di6se ó' padre. . . 
Ventura. . . tenho deveres a cumprir : mas socegar 
qfaerida , o priniMo der todos é amar-te. Em 
poiHM dia» nos veremmí ;: bemi sbIks^, jAb poa^a 
com as saudades da tua ausência. » 

ist^foèditid anieia voa; apesar dr. pcwcatição 
ícsuita sorriffHie, ianh? adíaiite parar Itte akrir 



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196 A MOfilDADE 

a porta da escada particular. Passando fov Cecí- 
lia , attonita da repentina despedida , o padre se- 
gredou-lhe ao ouvido estas palavras : 

— • «t Eu não4he dizia que seu primo tinha de- 
veres , e que havia de cumpril-os ! » 

Ao sahir da porta D. João olhando para elle 
com attenção, disse-Ihe: 

— « Padre Ventura , fez-me um grande ser- 
viço. Se houvesse dois cavallos ! ? » 

— « Esperam enfreados no pateo do mos- 
teiro. » 

— «y. Paternidade é magico?» 

— « Deus me livre. Mas sabendo de que se 
tractava preveni as coisas. Acha que fiz mal?» 
■ — « Padre Ventura , procure-me. Preciso fal- 
lar-lhe mais de vagar. » 

O jesuita inclinou-se profundamente e reco- 
Iheu-se para o vfto da janella, deixando em li- 
berdade os dois amantes. Vendo que o não ob< 
sorvavam , o mancebo ajoelhando quasi aos pés de 
Cecilia entregou-lhe um pequeno maço lacrado , 
dizendo : 

— « É o meu retrato. Lembra-te com elle de 
quem fica penando até tomar a ver-té. Adens, 
adeus 1 x> 

E arrancando-se de um impeto ao encanto 
que o ligava , sahiu precipitadamente. A doo- 



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BB D. JOÃO V. 197 

zells , mettendo o retrato no seio , pensativa , le- 
vantou os olhos , e achando callado ao pé de si 
o jesuita , perguntou-lhe : 

— «A carta , meu padre , é de muito valor ? » 

— c( Filha , aquella carta vale uma coroa. >» 

— «Então D. João é?. . .» 

— « Mais baixo , de vagar ! ... £ um homem 
que está a receber a maior herança de Portugal. » 

£lla não 'percebendo , declinou a vista , sus- 
pirando ; e seguiu o padre , que lhe offereceu a 
mão com amisade para a conduzir ao oratório 
da abbadeça. 



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CAPITULO XI. 



MUITA ftULttA PABA NADA ! 



Vamos á rua das Arcas, a casa de Lourenço 
TeJles. 

Seriam oito horas da noite , quando uma pan- 
cada forte na porta da rua , despertou da espé- 
cie de somnolençjij^, em que ia cahindo, toda a 
família reunida ^p escriptorio do Commenda- 
dor. 

O velho erudito, deu um suspiro e pousou 
o livro, que estava ruminando. No meio do so- 
bresalto , a sr.^ Magdalena da Gama deixou es- 
capar uma estação do seu ros«*io. O abbade 
Silva pulou na cadeira; e o lápis quebrou-se- 



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200 A MOCIDADE 

lhe nas pregas do toucado , que desenhava ; em 
quanto Cecília e Thereza , uma sentada a bor- 
dar ao pé da outra, levantaram a vista para 
Jasmin, que sahiu do canto da sala e a um 
aceno de Lourenço Telles , . acudiu á escada ^ 
com um castiçal de três braços , a Cm de reco- 
nhecer as visitas. 

Ainda fora da porta, estas faziam já uma bulha 
intolerável, fallando, e rindo estrepitosamente. 

No reino animal , o alvoroço era igual. Mi- 
nete esperguiçou-se , apontou as orelhas , e cóm 
abrimentos de bocca , assentou-se aos pés de seu 
dono na conspícua posiçfio, que decidiu o ab- 
bade Casti a honrar os gatos com a intendência 
da policia. O papagaio espanejou-se , e entufado 
viròu-se para o abbade Silva , e chapou-lhe a 
pergunta, ensinada por Filippe — «O abbade 
quer chapéu ? » — escoltada de três risadas rou- 
cas , e discordes. A circumspecta Minerva , que 
presidia ao laboratório do erudito , escandalísada 
fugiu diante da invasão dos bárbaros. 

Como dissemos, o Commendador pousou o 
livro , e virado para o abbade , observou-lhe : 

— « Sào novas loucuras de meu sobrinho ,- 
quer vér ? Isto é umas sobre outras ! » 

— « Ouço vozes diíFerentes » — respondeu o 
sábio archaista. 



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DE D; JOÃO V. 201 

— a Medor túrce o nariz \ » — gargarejou o 
papagaio, empertigando^e no poleiro. 

— « Maldito animal! y» — rosnou o antiquá- 
rio muito vermelho da risadinha das meninas ; 
e oilendido com o presente de uma ameixa cu- 
berta , premio de Lourenço Telles ao plumoso 
satyrico. 

— « Jasmin ! » — exclamou o velho erudito 
com impaciência. 

Ao som da campainha , tocada com força j o 
escudeiro appareceu entre portas. 

— « Quem fai tanta bulha ? » — perguntou 
9eu amo. 

— « O sr. Gapitfio. » 

— « Quem vem com Filippe? » 

— a O sr. JoSo dos Remédios , quasi a ras- 
tos. ...» 

— « Fr. Joio a rastos ? O que me diz ? E os 
outros ? » 

No encarquilhado rosto do escudeiro )ia-se 
grande constrangimento ; seu amo e toda a fa- 
mília viam-no , e por isso porfiavam no interro- 
gatório. 

— « Nâo conheço » — replicou Jasmin , en- 
colhendo os hombros. 

•»— « Nío conhece ? Quantos slo ; também nío 
sabe ? » 



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208 A KDCIDÀPB 

— « Um só ! » ' 

— « Que Jãgura é ? • . . » 

O escudeiro torceu-se, e deu á iuz a evasiva 
segumte : 

— «Não tem figura possível ! » 
' — «i Ora essa? Mas Jba de parecer^ie a mn 
homem, espero em Deus. » 

— c( A um homem não sei, mas ao demó- 
nio , parece-me que sim. Pelo menos tal e qual 
o pintam nas egrejas. » 

A lingua pegava-se-lhe ã cada palavra. O ea- 
cudeiro nunca fòra medroso nem visionário ; a 
sua opinião , e sobre tudo o susto com. que a 
manifestava causaram , portanto , profunda sen- 
sação em Lourenço Telles. O calafrio, que fez 
aninhar a familia, e o próprio abbade, á roda da 
sua cadeira, visitou-lhe também a espinha dorsal. 

Na véspera ao jantar tinha ateimado com Fi- 
lippe, que o diabo não podia apparecer em forma 
visivel ; e seu sobrinho , partindo nozes , e re- 
gando^s . de copiosas libações de excellentd vi- 
nho, apostara dobrado contra singello, em como 
antes de quarenta e oito horas havia de conven- 
cer o tio sábio. O velho erudito riu-se e citou 
o varão tenaz de Horácio, appellando para o 
abbade, que encolhia os hombros com n^do de 
Filippe, e bastante igualmente da forma vi*- 



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^B B. .rOAO y. 2ft3 

sW«e) do 4aiMiiio. FmlmeDt^ o noiao capitão, 
vendo fiuas filhas muito riMobaa^ e .§ua mulber 
^o^iida^, 6 J«ai9ÍJi tusaiodo {lará eogulir a gar- 
^Jhadfi aac^a » quto Ibo fonuigava m garganta , 
levaotiw-se mbdadot e empraioa os iocr^u- 
los pftfH recobenem o diabo em casa no dia se- 
^auate. £i» a arasãOn porque mais ou menos tre- 
fnermB todojsf 9 oi«viodo quo o teatqidor se achava 
á (K>i!ta i na %iira om que o pintaoi os bomeos 
seu kiimj^a. 

— ^<< O 4Í9bo? J* — exclamou l-ourenço Tel- 
les^ pondo o fispi4ÍRi *i5ohre a meza^ — « Meu 
afdbríaho ati^eveu^ae amatter^me o demónio em 
easa ? >i . 

•— 1( Aasim o supponho:»-^ replicou o escu- 
deiro owa pa¥Qr. ^ 

-«^ <r Fecàem a porta. Ponbam*no fora» — 
gmtfou o latinifita, taxendo-ae branco, como a 
Um da «na cainúsa , e olhando para o abbade , 
4iie estava cèr de cré^ e fi^m os bi^açoç. dece-' 



'¥. Â quem? » — perguntou Jasmin muito 
pálido -^c(.A,o damonio, ou ao sr« capitão? » 
-*^«( A ambos, a an^s, eu não. exceptuo! » 
— retomou o Commendador i^om a maior ve- 
bameiíeiia i deixando eabir a .^ixa do tabaco , 
ixm dar por isso. Np chSo, ^Hou fóra a t^pa, 



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204 A MOaDÀDB 

e O pó acre e subtil subiu ao feciuho de Mi- 
nete. Jasmin já tinba sabido. 

Exaceii)ado com o suplicio anti-canonico do 
rapé, o gato espojou a caboça no sobrado, ati- 
rou uns poucos de pulos, e com o ardor dos 
olhos e do focinho, investiu ás longuissimas tí- 
bias do abbade , que tinha a desgraça de se achar 
defronte. Entretanto o papagaio, subimfo e 
descendo do poleiro , gritava , atroando tudo. 

O episodio de Minete náo diminuiu o susto 
da familia. Victima do attentado, o pobre ab- 
bade resistia frouxamente : as unhas do aggres- 
sor eram fortes e nada escrupulosas. Em quanto 
dois olhos phosphoricos o fascinavam , as garras 
dos pés arroteavam-lhe a meia de seda e a bar- 
riga da perna , e as das mãos cfaegavam-Ihe ás 
coxas , e aos calções de veludo preto. Nova re- 
sistência , novos arranhões , segunda derrota ! 
Então , o compilador de notas , vendo-se feito 
mastro da gimnastica felina , acreditou que la- 
ctava com o demónio, e perdeu o animo. A 
phisionomia solemne descompozHse , a dignidade 
pevidosa fugiu; e gago, convulso, e torcido 
em gestos de terror , deu tal espectáculo de si , 
què os circumstantes benziam-se attonitos. A 
transformação do profundo oráculo em Laocoonte- 
palhaço, marinhado pcír um gato, era na rea- 



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BBDu JOiO V. 20B 

lidadé a maior queda', que podia dar a digni- 
dade do sábio, e a magestade do sacerdote. 

O pugilato durou instantes. Sentido dos le- 
ves repelldès do erudito , MineU subiu por elie , 
assanhado em nAios e assopros atterradores. O 
ecclesíastico , inutilmente , recorria ás armas es- 
piritíiaes do exorcismo, ás armas clássicas da 
lingua lithurgica , e ás armas terrestres de duas 
mãos tremulas e arranhadas. O gato ganhou a 
yietoria. Conquistando o hombrodochronista de 
Affonso Henriques , fez d^elle ponto de apoio ; 
e 08 pés escorregando pelas faces rasgavam-nas 
em arvoredos de planta militar. Minetey demo- 
Tou-^se pouco nas alturas ; e saltou logo em pezo 
á gaiola do papagaio , que veio de pancada acima 
da cabeça , e de lá acima do joelho do atribu- 
lado antiquário. Em epilogo de tantas desditas , 
a ave prieferiu uma coisa do critico a outra qual- 
quer coisa, e pegou-lhe com o bico para não 
corrsr contara seu gosto. 

Não é possivel descrever o effisito do combate 
nos espeeta<feres. Era a idéa de todos , que só a 
presença do demónio podia arrojar Minete ao 
inaudito escândalo de tractar o abbade como 
rato guloso ou pardal lascarino. Lourenço Tel- 
les mettia dó. Ora dirigia ao seu douto amigo 
consolações patheticas , sem lhe acudir ; ora in- 



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396 A IKlCiDAVJÍ 

crepava o §ào com as mais severa» aptttfopheá. 
A queda da gaiola ^e a fiiga cstrepitoss 4e» etfi- 
minoso^ obri^famrod' a ralíoar*^ mnã^ecoo»^ 
temado na poltrona , cubrhi o rosto com o seu 
lenço, como Agameraiiaii para nfte aasistôr ao^a»^ 
crificio. 

A sr.^Magdalena ei^uíeias ntes aio» cou; Jqs- 
min na eseaãe,^ em nenie -ie seu aono^ ptoUbi»' 
a entrada ao capitão Filippei As duas meainaf » 
sentadas^ no oamapé^ com; a^ mão na booca , dtt^- 
fatam o riso para n&o. espirrar de repente y id-. 
trajando a indignação do autor da» bexigas :do' 
Viso-rei. 

NÍDgoem soccorria o abbade. Per fin» eUe 
decidia-^, e foi o defensor da eoxa.iBfasnada^ 
rompendo a união bypostalica do papagaio com 
a sua earne. Um Talrâte pontapé cnvioa depòtf' 
gaiola e pássaro de preseiite á prnnaiTai talha, dar 
índia, que arrebcaiou peb bojo. O estrondo^ 
deste novo desastre , e o» gritos do) papagaia &- 
teram pular o erudito sobre a mokta; QoMdo 
ebegou appresshdo a acudir ,^ não ao amigo ge^ 
mendo com a mão no fenmr , masí à sua &m 
estrabusaisdot entre cacos de barrO' preoioao»^ deu 
um suspiro e levantou os braço» aO' facto. O 
pássaro tinha «ma perna desloeida ! Biartana af 
abbade. 



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DF D. lOAO Y. 807 

O GoAmendador dítigiunse a d)e e parou 
com dua9 reficencias admiraTeis , ama no gesto ^ 
outra na voz ; o Zoilo de Tácito nem sequer re- 
compensou com um volver d^oIhoB esta mímica 
lacrimosa. Eslava fazendo o inventario das farpas 
e arranhões; e ora fechava um olho, ora outro, 
para se convencer de que possuía ambos sem íesSo. 

G Commendador consolava-o, despendendo 
suavíssimas citações bucólicas, sem esquecer o 
« Stint nobis eastanew moHes et prem copia kh 
elis ; » porém o infortúnio obdurava o coração do 
amigo ; e à eloquência do erudito , elie , com os 
beiços brancos e a bocca engatilhada em um sor- 
riso páliido , só respondia , encolhendo os bom- 
bros: 

— « Quem tem onças , põe letreiro á porta. » 

— a É a primeira vez qaeMinete se exeedeu ! 
Tem sido um borrego sempre. Ccmdidus atque 
duldssimus! » 

— <x Obrigadissimo I Estou aleijado para três 
semanas. )» 

— « Melhor o fará Deus ! . . . Nunca vi o Jih 
neU assim. . . b 

— «Pois viu-0 hoje. É lindo, n5o acha? M» 
o Sr. Lourenço Telles nio se desengana. Ainda 
hei de vêl-o com um olho» de mencn^, por obra 
e graça de Mmeíe. Deixe e^tatl » 



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2Ó8 A MOCIDADE 

— «Soc^ue, abbftde. Foi tiido casual. N(o 
fios admiremos. Não diz o poeta latíno « Homo 
sum et uihíl. . . » 

— a Pois Dão 1 a et nihil a me alienum puto ? » 
Só o que deve Doter é que T^encio não fallou 
de gatos assanhados , e que citando-o mal , ati- 
rou ás pombas. Mas é mania! Commendadiu:, o 
seu gato , o seu papagaio , e seu sobrinho , são 
três selvagens conspiradores para me aleijarem. 
Declaro-lhe , que não volto aqui sem prévia re- 
clusão dos três. » 

— «Então quer que eu metta Filippe em 
uma gaiola ? » 

— «Metta-o n^um tonel, ou na cadeia, aoode 
quizer I Digo-lhe isto : elle é o peior de todos. 
Quem faz Collecção de feras sustenta-as á sua 
custa , e não com o sangue das visitas. Se a sua 
casa é um pateo de bichos previna a gente ! . . . 
Estou um Lazaro. Ahime! » 

— <( Thereza 1 » — gritou o Commendador , 
corrido desta vez e com sincera compaixão do 
abbade. 

— ^<Estâ curando o papagaio» — respondeu 
sua irmã. 

— a Nox vomica era o remédio, que elle me- 
recia ! » — rosnou o padre. 

— « Mau ! Irás tu, Gedilia. Acompanha o nosso 

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ujs D. JOÃO y. â09 

tbbade e ensin^he o meu quarto. Que lhe tra- 
gam vinagre , paches , e agua tépida. Chama 
depois Jasmin para o ir curar. Meu amigo, ande 
não se deixe esfriar. O vinagre cura. Bem sabe : 
a sero medicina paratur , cum mala per longas 
invaluere moras ! » 

O abbade sahiu pela mão de Gecilia; e o 
Conunendador, seriamente irritado, levantou-se, 
e foi direito â janella para tomar o ar. Apenas 
deitava o pé adiante e firmava o passo, sentiu 
que lhe estalava uma. coisa debaixo do taeSo. 
Abaixou-se ^ olhou, e levantou logo a vista e as 
mãos ao ceu , com profunda magua. A tampa da 
sua caixa,; a preciosa miniatura da Vénus de 
Medíeis, em vinte bocados, attestava a perda 
mais sensivel para o nosso antiquário. Desorieor 
tado com o ultimo revez , virou-se para Magda- 
lena, e disse-lhe cheio de cholera: 

— <( Minha sobrinha, seu marido foi uma praga, 
que me cahiu em casa. É a peste , a fome , e a 
guerra do meu descanço! » 

Quando acabava estas palavras ouviu novo ala- 
rido já no cimo da escada , como se as vozes de 
fora respondessem em coro á sua apostrophe. 
Filippe trovejava, o procurador de S. Domingos 
perorava ; Jasmin fazia o contralto soíFrivelmente ; 
e no meio da altercação dos três, acima delles todos, 
14 



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210 A MOGIÔABl 

um tiple racbado e embirrento , Soltava iisá4í- 
nfaas de fakete , em gorjeios <]e setnifosaí. Lou- 
renço Telles tapou os ouvidos , e apertou depois 
as mãos na cabsça exclamando com tombria re- 
solução. 

— <K Jasmin , deixe entrar^ . . Quero vèr tité 
onde isto chega ! HUax in liminê latrat ! » O 
Cbmmendador alludia aos latidos do Tigte^ acor- 
rentado na logea, e impaciente de enb*ar lio 
festejo. Apenas o velho sábio curvara o indico e 
o pollegar para colher a pitada , que salgava ás 
citações ; e achando de menos a caixa^ exhalava 
«m suspiro fúnebre ; appareceu na sélã, a passos 
lentos uma figura, que não podia ehaitiar-^ 
ttem satânica nem phantastica, mas que difficul- 
losamente caberia no molde admittido gerálosíetife 
j^ra a espécie humana. Era um honiem, de 
certo ; mas um homem parodia. Vendõ-ô, edtra- 
nbava-se pouco a opinião do ôscudeim valido , e 
desculpava-se o sobresalto, com que Loi^enço 
Telles e sua sobrinha o encararam. 

Este homem inculcava mais de quarehtã an- 
Àos ; e talvez cincoenta. Tinha 6 cabeça , nua e 
ealva , como um joelho. Desta superSéie lisa e 
espelhada sabia uma estriga de cabell^ grisâlhdB 
e sedosos, erríçada com insolência. A êátiiga 
ptrfilava-se no meio da calva, como um péfia- 



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M O. JÕ40 V. 211 

tkó de mòtieo, ò que daya certo ar exótico e 
quasi diabólico ao possuidor da raridade. DeA- 
tendo da cabeça , (esconça e um pouco depre- 
mída nas fontes) para o rosto ^ achava-se o oiho 
direito desapparelhado ^ e o esquerdo perfeito de 
mais, isto é de tal vi veta, que parecia saltar na 
gente. Des{^ezando a moda , cresciam-ihe das 
orelhas , largas como leques , até â articulação 
dá mandibula , umas suissas ou tufos de barba 
musgosa de três côres , preta « branca , e ala- 
ranjada, que lhe armavam duas bambineilas nos 
esquinados queixos. Ò hombro direito era mais 
alto do que o esquerdo , e no jogar dos braços 
derreava-se a compasso do quadril desengonçado. 
Um peito de rola, excessivamente convexo ; um 
ventre de papo de borracho, arredondado e proe- 
minente ; a altura equivoca do corpo , hesitáçSo 
bnitesca entre a estatura do garoto e a altura 
do homem feito, realçavam a pittoresca, e no- 
víssima configuração desta coisa , que a penúria 
da lingua nos obriga a chamar humana , porque 
era muito aplainada para orango-tango, e muito 
tosca para rudimento de qualquer das raças ad- 
mittidas. 

A sua maior singularidade consistia na perna 
esquerda , torcida como um parafuso, e servindo 
de baíBe a moTimentos heróicos, executados com 



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212 A UOGIDADB 

suprema agilidade. Andando fincaya o pé no chão, 
e girava sobre elle como sobre a ponta de uma 
verruma ; quando ria eram sempre gargalhadas 
de escarneo , lambidas em um torcicolo dos bei- 
ços, e apimentadas de visagens variadas. Se fal- 
lava , (e fallava muito) tinha inflexões doútoraes, 
e gestos volúveis; fallava a lingua; fallava a 
perna-verruma inquieta e aos pulinhos ; fallava 
o hombro perfurante fazendo negaça ao hombro 
correcto ; fallava em fim, mais que tudo , a pas- 
mosa elasticidade do corpo desencadernado em 
momices , e tregeitos origínaes , que pena foi 
perderem-se pela obscuridade do personagem, 
aliás seriam a fortuna de um actor de farças bem 
jocosas. 

Domingos José Chaves (era o seu nome chris- 
tdo) nascera feio como Bertholdo, eloquente como 
Demosthenes , ladrão e velhaco como Gusmão de 
Alfaraxe de gloriosa memoria. Domingos José 
Chaves era da familia de Hoffinan pela figura ; 
da de Caillot pela extravagância picaresca; da 
de João Paulo Richer pela verbosidade plebeia. 
Mandrião como a perguiça , petulante que nem 
mulato rico, e cynico como o cynismo, fazia 
negocio em tudo, e venderia a carne ao Judeo 
de Shakespeare , se lhe fosse rasoavelmente in- 
demnisada. Por divertimento tinha aberto no 



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BÊ D. JOÃO V. 213 

pasmatorio das Chagas uma aula pratica de pes- 
coções^ e regra o curso, vendendo a face ás bo- 
fetadas dos discípulos , a tostão cada uma pagas 
á vista ! 

A expressão do semblante era travessa , jo- 
vial , e profundamente truanesca. Lia-se-Ihe na 
vista a giria da abençoada raça dos Lasarilhos; 
achava-se-Ihe no sorriso sagaz e pedante um ar 
de parentesco com o nosso amigo Sancho Pança. 
Grande vivadidade nas gaifonas (tinha uma col- 
lecção inexhaurivel) ; o talento da parodia , ele- 
vado ao sublime, copiando homens e animaes 
admiravelmente , desde o moxo até á ran ; e o 
geito de passear, torcendo o corpo em piruetas ; 
davam-lhe uma phisionomia tão exquisita, tão 
origina] , e tão impagável , que vivera sempre á 
custa alheia , pregando logros ao género hu^ 
mano. 

Já dissemos : a cara exprimia finura e astú- 
cia, mas tião maldade. Às maçans do rosto eram 
achatadas e largas; os queixos esbrugados em 
roda, e devassos excessivamente. O beiço supe- 
rior vincado, de ambos os lados do nariz (que era 
dogue puro) até aos cantos da bocca, arregaçava- 
se em forma de cortina , diante dos cinco den- 
tes , que 'Serviam de sentinellas perdidas ás gen- 
givas , orpbans dos restantes. Este figurão trazia 



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214 A IIOCII^ABB 

na bocca um cachimbo apagado; e sobre os cal- 
ções muito risonhos nas costuras, cinco, oito, 
infinitas vestias e perpões de todas as cores, 
esta verde garrafa , aquelle amarello cujo , uma 
asul , outra encarnada , emfim uma loja de adelo 
completa. A camisa tinha a alvura de uma bel- 
leza de Guiné. As ^neias, a direita de seda , no 
.3u tempo côr de rosa , mostrava as passagens 
de linha enroscadas por ella acima como lacraus. 
A esquerda de lan parda, com pontas verme- 
lhas , parecia arrancada á canella mythologica do 
Sr. Thomé das Chagas. A dextra empunhava um 
cacete curto e grosso , de que se ajudava para 
as suas corridinhas de gafanhoto. Similhante ao 
louva-Deus , o Sr. Domingos José Chaves con- 
quistava o seu caminho ás cotovelladas na linha 
recta. A outra mão segurava o carapuço , agudo 
na ponta , e largo na bocca , parecido ao funil , 
quasi pyramidal , de que a imaginação vesga de 
um poetastro toucou a serombatica fronte do sá- 
bio Abacadabro. 

Logo que se viu dentro da salla. Domingos 
fez o seu exame em um abrir e fechar de olhos ; 
riu da talha partida e dos pagodes chinas ; metteu 
a mão na caixa das ameixas doces e tomou-lhe 
o gosto ; contrafez as passadas solemnes do v^ 
neravel Fr. João dos Remédios , que o seguia ; 



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DE D. JOÃO V. 21K 

eacaboa por imitar OS equil^rios 4a corda bamba , 
rodando sobre a perna verruma para o sitio, 
donde o Commendador estupefacto assistia ás suas 
evoluções com a mais furiosa indignação. As pi* 
metas do nosso amigo eram regidas por umas va- 
riações de assobio , executadas com infinitas mo- 
mices em toda a graça e requebro possivel , no 
meio das risadas estrepitosas de Filippe , que se 
revia no seu hospede ; apesar da ira silenciosa 
de Fr. João que o excommungava mentalmente ; 
e sempre em proporção dos movimentos de reti- 
rada de Lourenço Telles, que não sabia se 
acreditasse na ^visita do demónio, em presença 
deste aborto , parodia satânica da creatura hu- 
mana. 

Fr. João e Filippe tinham entrado logo atraz 
de Domingos ; Magdalena e Lourenço Telles ben- 
ziam-se. As duas meninas detraz do frade e de 
seu pai , estendiam o pescoço para vér melhor , 
por cima do seu hombro as proezas do nosso 
amigo. Ninguém tinha dito nada ainda. Por fim 
o Commendador, olhando para Fr. JoSo excla- 
mou muito cholerico : 

— «O que é isto, Fr. João?» 

O padre mestre encolheu os hombros, franziu 
a sobrancelha , e pqchou com anciã o barretinho 
para a nuca. 



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216 A MOCIDADS 

— a Filippe, o que é esta coisa que me trouxe 
para easa?» 

— «A sua bençam tio ! » — respondeu o ca- 
pitSo , que se divertia immenso com o susto do 
erudito. — « Então crê ou não crê no demonipT 
Eu n&o lho dizia ? ! » 

Domingos càquerejou a sua risadinha de fal- 
sete , visitou de novo as ameixas doces , e ficou 
em descanço de movimentos geraes, mas sem- 
pre activo de tregeitos faciaes. O padre Remé- 
dios descarregava sobre elle , e sobre Filippe a 
a vista flamejante. O Commendador , sentado, 
com sua sobrinha ao lado , e suas netas atraz da 
cadeira, mais sereno abriu a conversação po» 
uma gesto sublime ; depois com gravidade se- 
vera , poz termo aos estalinhos de postilhão, que 
Filippe disparava com oi dedos : 

— « Meu sobrinho , v. mercê não descança sem 
dar comigo na sepultura. Anda cavando a mi- 
nha morte ! >» 

E o velho sábio enternecido com a bypothese 
teve a bondade de derramar duas ou três lagri- 
mas sobre a sua falta. Limpando depois 09 olhos 
proseguiu cada vez mais irritado. 

— «Quem é este palhaço?» 

— « È o nosso guarda-portão ! » 

— «Falle serio; se não me respeita, rc5* 



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DB D. JOiO V. 217 

peite a casa de sua moUier e de siias filhas. Não 
tenho guarda-portão , nem costumo ajustar os 
criados no inferno, a 

— « Qual inferno , tio ! Este homem é o Do- 
mingos. Pois n&o o conhece ? » 

— « N5o tenho essa honra » — replicou o eru- 
dito , inclinando-se irónico. Elle é que faz o fa- 
Yor de olhar como sua a minha casa , saqueando 
as melhores ameixas cubertas que este anno re- 
cebi. » 

— « Âquillo é graça ! » 

— «Bastante pezada. Mas quem é então o 
senhor. . . . amável ? » 

— « É o mestre do Simão .' » 

— «Que Simão? V. mercê falia por enig- 
mas!» 

— «Eu? estou a morrer de fome, tio! O 
Simão ? pois não sabe ? É o nosso macaco .... 
aquelle que. ...» 

Lourenço Telles levantou-se horrorisado ; cha- 
mou Jasmin ; e todo tremulo gritou-lhe : 

— «Chame os criados e ponham fora a pau 
esse macaco.» 

— « Não é preciso. ...» 

— «Eu é que mando ! Atreve^e a trazer um 
flagello assim para minha casa , depois do que 
^lle fez. e eu lhe disse ? » 



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218 ▲ lICkCIOAM 

•*>^«Mas, ido se arrenegue, tÍQ. Q toon^^ 
D&o veia. É verdade que lhe alluguei quarto « 
tomei mestre. . . . x> 

— « Mestres ? ! » — exckmou Lourenço Telles, 
cheirando vagarosamente a sua pitada , colhidi^ 
na caixa de Fr. João. — « Mestres a um macaco ? » 

— -aSim senhor, e três nada menos. Um 
de esgrima ; outro de exercicio militar ; e este 
que é a pessoa que o ensina â dança. » 

— a V. mercê endoudeceu ? » 

— a Ê uma especulação ! O mono faz o exer- 
cicio militar de sargento até soldado , pela or- 
denança nova. O mono joga a espada preta e o 
pau , que é um gosto. O mono baila excellen - 
temente. O meu Simão é um portento. » 

— « Pois , sr. Filippe , fará favor de me pou- 
par o desgosto de admirar os progressos do seu 
alumno. Não quero nem vêr a sombra do por- 
tento ! » — exclamou em segunda recrudescência 
de cholera o conunendador. 

— « Tenho pena ! Havia de gostar. Em fim ^ 
são antipathias. Mas ao menos concorra com 
três moedas para a sua educação ! . . Está dito. 
£ um anno de sacrifício. Depois vendemol-o 
por um dinheiro louco. » 

Lourenço Telles suspendeu nò caminho a pi^ 
tada , e encarou o capitão : 



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im j>. ãúào.y, 219 

r-%Q&e eu pague os mestres ao macaeo? 
lE^ ^m sm jiúso? Ha só uma «despem que ai 
farei de boa mente. È enterral-o. « 

— «Deix(ç-se disso, tio,!» 

* — «Sabe o que V. mercê faz com as suas 
loux^uras ? Olhe a minha cai^a ? n» 

— «Está um caco !^) — respondeu ò capitão 
QOHi soberano desdém. 

— «È um caço ? ! Admiro a sua indiffereiíca ; 
não sabe quem ma deu e o que valia ? Nem lhe 
importa! Vê aquella talha ? » 

— u Parece uma baleie espipada ! » — repli- 
cou, o sobrinho , rindo, 

— « Acha-lhe graça ? Pois destruiu um jogo 
de talhas , que não ha outro hoje em Lisboa. » 

— : « Eu ? Mas já estava assim , quando «i- 
trei ? ! » 

— « Não estaria , se V. mercê não quisesse 
entrar. » 

— « Ah , é outrp caso ; deixe estar , tudo se 
remedeia, menos a morte. Tenho duas talhas 
do Japão muito melhores. E dou-lhas, mais uma 
caixa antiga , de guardar os grillos de Cleópatra, 
segupdo me disseram uns judeus , que vale dez 
bonecas , como a quç tinha na tampa da sua 
tabaqueira. » 

— «Filippe, tome sentido. «^Si m'/-, Gnna 



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220 A MOaDÁDE 

petis , nil . tibi , Gnna^^ nego t » — exclamou o 
erudito mais consolado. — « Entende este terso 
de Marcial?» 

— c( Não senhor , mas é o mesmo. E o tio 
mtende ? » 

— «Julgo que sim» — replicou o sábio com 
um sorriso vaidoso. — « Diz o poeta «que se 
nada lhe pedirem, nada negará.» Percebe? 
Aquella caixa, meu sobrinho, era um monu- 
mento, uma raridade. Foi o capricho de um 
grande pintor. Em fim ! parce sepultis ! Tome- 
mos ao caso. Quem é esta cara de mau ladrão, 
que está devorando as minhas ameixas ? D^onde 
sahiu aquella figura ? » 

— « Domingos José Chaves á falia ! » — gri- 
tou o capitão em voz de buzina. Faça já a con- 
tinência ao tio ! « 

— a Aqui estou, illustríssimo sr. capitão Filippe 
da Gama! Voluit facere uvas, fecit autem 2a- 
bnMcas. » 

— «O que diz elle ? » -^ perguntou o Com- 
mendador com o ouvido escandalisado dos sole- 
cismos macarronicos deste Bertholdo. 

— « Digo , excellentissimo doutor commenda- 
dor , que o sr. capitão , querendo fazer vinho 
fez vinagre ! » 

Domingos, dizendo i^to ría-se com a bocca , 



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DE D. JOÃO V. 22 1 

Gom a perna^|»arafQso, e com todo o corpo ^ 
methamorphoseado n^ama pelotica. 

— « Maroto !»-r— gritou Filippe vermelho de 
raiva. 

— « NSo me faz favor nenhum , illustríssimo 
senhor» — respondeu o ciníco, arremedando a 
luta continua entre o padre Remédios, o bar- 
retinho, e a nuca. 

— «Mas, em fim, quem é V. mercê?» — 
perguntou Lourenço Telles aturdido. 

— «O excellentíssimo sr. commendador , quer 
que falle em prosa , ou em verso ? » 

— <c Falle como souber. O essencial é res- 
ponder^me. O que faz V. mercê ? » 

— c( Excellentissimo senhor , a prova de que 
não faço nada » — replicou o reu, fallando do 
papo ; « é que vim aqui para fazer alguma coisa. » 

— ccBem se vê; e não esteve ocioso! — 
acudiu o velho erudito, olhando com saudade 
para a caixa das ameixas. E o que sabe fazer ? » 

— « Sei comer, e dormir , sei dançar , e ves- 
tii^; nas feiras e festas canto; e na comedia, 
sou encanto ! » 

— «Bravo! Não é pouco? Mas enganou-se 
n^uma coisa. » 

— « Qual , excellentissimo senhor ? » / 

— «Na porta. V. mercê4a, pelo que vejo* 



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ao pateo ddi eomedras , e aqm é a rua das Ar- 
cas. » 

— « J&cwía cí justas , ^wíp íí6í /apo queixi- 
moniasl O sr. Commendador faz-me a esmolia 
de uma pitada, qúe tenha de mais?» 

— « Domingos José Chaves » — disse o eru- 
dito que se divertia com o interrogatório — «o 
que pede quando se ajusta n'uma casa?» 

— «Uma bagatella, excellentissimo Com- 
mendador Lourenço Telles ! Além do pio quo- 
tidiano, peço vinho á discrição, e a minha 
pitada vadia. Nunquam me deixeê sine eheirare 
pitadam ! » 

— «Gosto do seu latim. Não pede mais 
nada ? » 

— « Sim senhor. Quero os sabbados livres. » 

— «Os sabbados ? » 

— « Para apanhar rãs ! » -— disse o cpica 
tiriumphante. Apanho-as e depois fumo-as!» — 
Dito isto representou em saltos de louva-a-Deus 
a pantomima da sua caçada extravagante. 

— « Fuma ràá ? » 

— « É verdade. Vendo-as aos boticários para 
comprar tabaco. Não alugo, empresto o meu 
zelo ás casas aonde sirvo. Os sabbados sSo as 
minhas rendas. r> 

— a Tem estado em muitas casas? )» 



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DE D. JOio V. Siââ 

— • « Servi jâ dezesete amos è meio , exeel- 
lentíssimo sr. doator. Com a sua honrada casa 
fáz dezenoye. » 

— « Gomo faz essa cóiita ? » 

— • <( O uUimo amo , que tíve , foi o anão dó 
Duque. Era meio amo. Em casa do sr. Com- 
mendador ha uma arara , um gato, e um papa- 
gaio, todos três muito mal creados ; pelo menos 
dfib que fazer por meio amo. Por isso o anão é 
os animaes , um ; o sr. doutor dois ;. dezesete e 
dois dezenove. Isto é conta de gis , que não far 
lha um tris. » 

— « Soffrivel ! È tirou alguma coisa das ca- 
Mrá , aonde serviu 7 vt 

— « Muito , excellentissimo sr. ; porém mu- 
déi-me. » 

— « Porquê ? » 

-^— « Como faziam de mim armazém , puz es- 
eripfos. Até o anão trepou por mim acima , é 
teve a confiança de me dar um bofetão I » 

— « Sim ? » 

— « Não tive remédio , paguei-lhe. A noite, 
bebeu ópio no vinho e depois, callado como uma 
liédra , e embrulhado em uns cueiros , íbi den-^ 
tro de uma condeça para a roda. LA ficou.. >» 

— «Metteu o anão na roda?»— ejtclamou o 
Conrniendador , desfechando uma risada cordcal, 



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224 A MOCIDADE 

que todos acompanharam. — «E o que succe- 
deu ? » 

— «Houve mosquitos por cordas, excelIeiH- 
tissimo sr. I Quando em vez de uma creança yí- 
ram um anão , que fallava pelos cotovellos, gri- 
taram « Aqui dei Rei » houve chufas e beliscões ; 
elle engalfinhou-se na regente ; e por fím deita- 
ram-no â rua em cueiros, e entrou descalço era 
casa. Assim apanhou o reumathismo, que o to- 
lheu da perna. 

— c( Muito nos conta Domingos ! Filippe este 
homem é seu creado ? » 

— a Se o tio manda eu digo que sim. » 

— « Pois que fique. Domingos, eu dou cama 
e mesa aos creados, mas não dou acepipes, nem 
doce. As ameixas e as cidras são sagradas ; tome 
sentido ! » 

— ^^«Sim, excellentissimo sr. Tractal-as-hei 
como sagradas. Só em jejum é que farei o sa- 
crificio de commungar com ellas. » 

— «A ceia está na mesa ! disse Jasmin en- 
tre portas. 

O veího erudito levantou-se , deu o braço a 
sua sobrinha, fazendo signal 6s meninas que 
fo^em adiante. Caminhando, dizia a Fr. João: 

— <c Decididamente é dia de S. Bartholomeu. 
O demónio anda solto. Que é do abbade?i» 



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D& D. JOÃO T. 22S 

— «Já nos espera na casa de jantar. )» 
— « Bem. Veremos se ainda não se acabou a 
noite ! » 



i3 



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CAVITUIiO XII. 



ntlPPB BU TBRBA P AMIGOS. 



Â?siíAS O commendador entrava na casa de 
jantar ; e Domingos largava o eterno rabicho do 
Sr. Jasmin: mal o abbade gemera três suspi- 
ros aflautados conchegando os parches de di- 
versas cores, quQ lhe faziam da cara um mappa- 
miindi; outra pancada na porta da rua deixou 
ficar a todos suspensos, com a mão nas costas 
da cadeira , porque desta vez a irregularidade da 
visita não tinha explicação possivel. 

'^ a Quid rnihi cum Agammrum ? — exclamou 
Lourenço Telles , virando-se com enfado para o 
inventor do livro dos Pavões ; este encolheu os 



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228 A MOCIDADE 

hombros , e calou-se entrincheirado na sua di- 
gnidade teza e engomada. 

Entretanto reluzia a prata das terrinas e ta- 
lheres; a louça chineza, em relevos caprichosos, 
brilhava pelas variadas cores , e pela diversidade 
das figuras e flores. O caldo de arroz, e o gallo 
do estilo ; o prato obrigado de ervas coroado de 
torradas recortadas ; as tortas e outros acepipes 
perfumavam a salla. Os vinhos eram excellentes 
e faziam sede espelhando-se no christal das gar- 
rafas. Fructas seccas em cestos arrendados, uns 
de louça , outros de prata ; e delicados doces «m 
vasos de vidro campeavam nos magnifícos appa- 
radores de páo sancto , levantados de dmhos os 
lados da casa. O abbade , em virtude de posse 
immemorial exercia o officio de trinchante mór ; 
e apesar dos maiores tormentos, exacto 'niòdcs- 
empenho das augustas funcções, floreteava a faca 
e o garfo sobre o cadáver do acerejado gallo. ^ 

Todos esperavam de pé a volta de Jasintn , 
despachado por seu amo ás regiões sombrias da 
logea para saber o nome do interruptor das do- 
çuras culinárias. O escudeiro demoròu-se pouco, 
voltando com uma boquinha espremida , que na 
sua opinião tinha a malicia de um sorriso iró- 
nico. Da visagem do fiel correio tirou o com- 
mendador o mais favorável agouro, e setitou-se 



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DE D. JOÃO V. 

completaníieQte socegado. O resto da família imí- 
toa-o, com uma longa interjeição na vista. O 
abbede, impassível, recolhido, e solemne como 
sinomo sacerdote que era d'aquelle sacrifício, 
ameaçou as juntas do gallo , eom o garbo de 
uma pratica feliz. Entretanto Jasmín apoderava- 
se do ouvido do commendador , e dizia*lhe um 
segredo; o velho sábio deu um pulo, esfregou 
as mãos , olhou para as meninas e sobre tudo 
para Tfaeresa , e . em voz baixa passou algumas 
:ordens, que o escudeiro cumpriu logo, saindo 
noa bicos dos pés , em ar mysterioso. Esta scena 
quasi theatral redobrou a curiosidade , e tornou 
mats /repetidos os pontos de interrogação de 
Ilagdalentt.para suas filhas, e de Filippe para 
Magdalena. 

Começou a cêa pelo caldo ; e Lourenço Tel- 
1^, bebendo com pausa, corria os olhos pelos 
circumstantes, ilnpeneti^avel con^o um cardeal no 
conclave, malicioso que nem um, critij^o roido de 
inveja. Quando os seus olhos encontravam os de 
Thdresa,^ boca um pouco sorvida do antiquário 
deixava fugir um sorriso equivoco. O nosso ca- 
pitão tra curioso copio uma velha , e remexia- 
se impacíeQte, ardendo em desejos de chapar uma 
pergunta na bochecha do tio sábio ; porém conti- 
nha*^e sentindo ; os. signáes com que o cotovello 



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230 A MOCiBADt 

de sua mulher não cessava de lhe reeomnMfidar 
a prudência. Lourenço Telles gosava interior- 
mente da perplexidade de seu sobrinho , e eada 
vez estava menos disposto a pôr-lfae termo. Para 
desviar qualquer insinuação dirigiu-se de repente 
ao padre mestre Fr. João dos Remédios, aise»- 
tado ao pé do abbade ^ perguntando^Ihe : 

— « Então o que nos diz dos negócios da ma 
devota communidade o nosso padre procurador? » 

Era tocar na corda sensível. O procurador so- 
bresaltou-se ; puxou o barretinbo para a testa ; 
dobou os pdllegares um em roda do outro ; e res- 
pondeu com melancholia : 

— « Digo que vão o peior f^ivel , st. Lou- 
renço. Está correndo o prazo fatal , a todos os 
respeitos bem fatal ! » 

— « E depois ? » 

— «O que quer?! Ficaremos espoliados ^ e 
ainda por cima escarnecidos. Seja feita a vontade 
de Deus. EUe o dá , e elle o tira ; altos mTste 
rios seus ! » 

— « Não gosto de o vêr assim, tr. João ! — 
Horácio diz : — AUior Itali€õ ruini$. Seja supe- 
perior á desgraça. Pois um homem lido e pra- 
tico em negócios forenses desanima tão de- 
pressa ? » 

— « Ah , commendador , isso era n'outro 



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DB D. JOÃO V. S31 

tempo 9 mjRS boge!.;; Em fim âo eolpas, que^se 
eMío pagando I 

««— « Dtticta m^úrum immieritus lues? Est&o 
pendido o peccado antigo? Vamoei qòe seja 
(acudiu o latinista). Animo grande! Talvez el-rei 
mais bem informado... » 

-~c<BI-rei? Os jesuit^s^, devia direr. Não 
espero nada delles. Saiba que não descançam em 
quanto nós lâo humilharem de todo. Âsám se 
diz em S^ Boque pêlo menos. Sed cor cmtrictum 
H kumiliatfjím Detc^itton despiciat! Levantaremos 
o coirai^o a Deas^ .pofiado nelle toda ã. espe- 
rança* Sr. Lourenço Telles, a ord^ de S. Do- 
mingos itfqpellari do rei 4a terra para o rei dos 
censl 

— « Louvo muito : porém antes de ceder pw 
qoe não tentam lòrtqna ainda ? IMga-me: sup- 
posido es jninistres do desembargo illudidos, te^ 
mos ain^a os secrdsams de estado^. » 

— a Engana-se ! — clamou o dominico, dando 
loiras h ira — tribimaes e secretários de estado 
}unani fidelidade. á companhia.de Jesus antes de 
•a jurannn ^a- «l-^rei ; os siinistros ssbem que o 
verdadeiro despacho não é no Ter<reiro do Paço, 
mas na casa professa de S.. Boque. O sceptro está 
nas mãos omnipotentes de um ministro, mais 
poderoso, que. todo o clero, mdireza e povo deste 



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232 A mociDAVE 

reino. D. Pedro II, commendador, já.nao é.o 
mesmo homem ; está ascético edoénta; vive triste 
e descon6ado da saWação... . Quon reina em seu 
lògar é o padre confessor Sebastião de Magar*. 
Iha^!» 

— « Não acredite ! São historias. » 

— « São verdades, meu amigo. Nada se laz 
senão pelo voto do confessor; .até o meteram na 
conselho de estado, entre a primeira fidalguia !..• 
Elle é que animou os vendilhões a desobedecer- 
nos; com elle sè aconselharam; e.por eUe.foi 
dictada, em pleno claustro, essa vergonhosa pro- 
visão, que poz aos. pés de meia. duEia de* rega- 
toes a ordem dos pregadores 1 Sabè-se tudo! » 

— « Ahi está porque vão tão mal as coisas... 
Mas empenhem^^e vossas reverendiasimas, tra- 
balhem... Preso por um, preso por mil. Queí- 
xemHse ; digam a verdade a el-rei ; smba todo o 
reino, que estamos sendo governados pela rour 
peta de St.** Ignacio. » 

— « Esse é , e foi semfMre , o meu parecer ! 
Mas vão lá fallar em tal ao nosso defeiitorío? 
Meteram-se na demanda , chegaram ás ultimas 
extremidades, e agora encolhem-se. Esperem e 
verão o resto... Calam-se? Os jesniitas lhe dirão 
o mais. Vencido, mas não convencido, tentei 
resistir e expár-me, sem expor nin^em. dmr 



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DE d: JoiQ V. 233 

puz o sertfiio dá capella real ; e , tomando para 
tèfxto o fermento -dos pharhteas; carreguei a mão 
no retrato da soberba e dacabiça da Companhia , 
avisando el-rei e a corte.- Dictei-o , decorei-o, e 
Q%0' disse nada á ninguém. O que imagina que 
succedeu? Bebenta-me um aviso, em que me 
dizem;, que estaca dispensado de pregar na mi* 
fiba :semàna, 'e que.de futuro intendesse que 
^a tontade desua magestode/qtie os ^pregado- 
res da sua real capella' se abstivessem de discus* 
s&eS'politicas! Fiquei' parvo 1 -O sermão estava 
nsí minba gaveta^ a chave no meú* bolso, e ape- 
sar <dissotrnfaam-4no visto, /tinbaih^no lido!')» 

.iú. Cf. Alguém: o descobriu! por força:.. » ' 
í —« Ninguém'; cominendador ! Se eu díctei 
o sermão <aò escrevente -, 'boníem :desmemorifNlp 
e fiel; estivemos sempre !sós;e'nt:nca o mostrei 
a pessoa alguma ! Agora expliquem-me como o 
viu o padre confessor, porque é indubitável que 
o viu ; e senão como citou elle de propósito a 
•ordem do .discurso, e até as pro()rias palavras, 
no sen aviso!? Nãò pódé attribuir-se senão a 
bruxaria! » 

— ^« É bixo de sete cabeças' Agua benta 
com ellc ! — gritou Filippe. 

— «Parece incrível! — observou Lourenço 
Telles. E o que tenciona far©r ? » ^ 



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234 Á HÓdDADB 

— « Resta-me ainda um meio. Quero tenter 
o ultimo recurso; não o declareis» nem deelaro 
a ninguém. Veremos se adivinham. )» 

— ^^«c Ha de custar I» 

— «Eu digo só — veremos l Ha dous para 
três mezes tudo nos desanda ; nunca fui visioná- 
rio; não sou supersticioso: agora vou-me fa- 
zendo. Se traço um plano , acho^ c(Nrtado : e^ 
crevo um papel? É contar com oittro, como se 
o meu estivesse á vi^. Os segredos do definito- 
rio, cujas actas tetiho debaixo ieciíave;, apre** 
goçim-se em S. Roque no dia seguinte. Dè prof- 
posito, escolhi um leigo e um servente, quasi 
idiotas, que nSo sabem ler nem escrever. Quem 
rouba o segredo dás minhas chaves , e copia os 
papeis do méu bofete? Isto dá comigo cbicbw» 

— « Melhor o fará Deus, padre mestre; Quer 
do peito ou da asa do gaik)? Um copo de barra 
a barra?» 

— « Obrigado í Trago um fastio : mortal ; baí^ 
tara um didal de vinho. Persisto, Sr.hoat^isíço 
Telles: a Companhia de Jesbs acbòn modo de 
viver no meio de nós. Senta-se ao nosso conse- 
lho, participa dos nossos segredos , e Id por cima 
do hombro quanto se escreve. É horroroso! Scwn- 
dei , put escutas , não vi nada, não há nada de 
novo ! São os mesmos prelados ; é a messma 



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DB D. JOÃO V. 23S 

gente. £ apôzar d'isso juro , protesto : o auxilio 
•de um hemem poderoso allumia os actos da 
companhia. Diogo de M^donça, que é todo 
nosso , como sabe , acfaa-se em ígual apuro ; e 
não cbega mais adiante do que eu. Se vae a ex- 
por em conselho algum negocio ^. dos que eUe 
costuma estudar comsígo, o padre confessor sorri- 
so^ e £1-Bei. entra a repetir4he o que passou 
de mais particular ! Ah commendador sou cas- 
tigado pelo meu orgulho. Âttribui á scieocia hu- 
mena o que era devido ao auxilio divino, » 

As lagrimas cabiam pela cara abaixo a Fr. 
João ; a voz sonora suifocava^-se., e o desalento 
prostrava-lhe a physionomia, tao risonha ou im- 
periosa d?ani;es. Sentia-^ ferido mortalmente^ e 
nem tinha a triste consolação de descubrir o ini- 
migo occuUo , que o desasocegava. 

-^ « Ora pois , Fr. João ; — acudiu Lourenço 
Telles— é preciso valor e conformidade. O môii 
tempo ha de passar. » 

— «Nao creio.» 

— « Deixe estar. Então Filippe não diz nada ? » 

— n Digo que as tortas são excelentes, e que 
o vinho é soíFrivel. » . 

— Não diz pouco. Então isto sempre é me- 
lhor do que os lagartos, que o regalavam na 
America ? » 



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236 V A MOCIDADE 

' — « Lé com lé , e cré com cré. Cada terra 
com seu uso, cada roca com seu fuso! » 

' — « Famoso rifào ! Muito bem ; e Theresi- 
nha , não lhe diz nada o coraçfto ? Aposto , que 
dava um beijo no avósinho, se elle lhe dissesse 
uma coisa. . . » 

— « Eu não sou curiosa , meu avô ! » 

— « Nem tanto como Eva ? Pois sim , mas 
está corada que nem uma romã ; porque abaixa 
os olhos ! ? Âh , Theresa , mais custa a apanhar 
um coxo do que uma rapariga namorada. . . » . 

— « Meu avô , então ' » 

' — « Theresa ! — gritou Filippe — Prohibo- 
Ihe que se faça vermelha. )i 

«E esta! exclamou o commendadòr, Fi- 
lippe, V. mercê não está em si. Prohibe a sua fi> 
lha o mudar de còr. ? » 

— « Prohibo , sim senhor , os pães são senho- 
res absolutos dos 'filhos. Não quero que Theresa 
core ; sei o que digo. » 

— «Diz uma loucura. Vamos, abbade, en- 
cha ò copo e deite vinho a Fr. João. Gecilia , 
peça licencia a sua mãe , e seu pae que lhe dé 
um didal de muscatel , mais a sua irman. Estão 
promptos ? Á saúde de um amigo desta casa , 
que nos fez a honra de a procurar, e ficará 
n'ella como filho , espero eu. » 



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DE D. J04O V. 237 

i 

' Quando levavam 08 copos á bocca abriu-^se a 
porta e Jasmín disse alto : a É o Sr. Jeronymo 
Guerreiro ! » : i 

— « Que vem corresponder á amisade das pes- 
soas que ama e respeita' como segundos pães ! », 
acudiu um mancebo esbelto e bem proporcionado, 
que entrou na casa atraz do escudeiro , e se di- 
rigiu logo aocommendador e a Magdalena, a 
quen^ abraçou muito tempo,! depois de lhes bei- 
jar a mão. Todos se levantaram e o rodearam, 
6écilia olhando estremosa para sua irman com. 
um sorriso angélico: Theresa, com algum sobre- 
saftov e as mais vivas cores no rosto. Só o po- 
bre Filíppe - não conhecia ' o recemrcheg^do , e 
fbkia por ' isso^ um: 'papel desgraçado dando & ca- 
beça; desengonçanfio o corpo,' e- chamando Jas-. 
min com momices tèlegr^pUcas;, que o escu- 
deiro teve a.níalicia de não perctíber :: . : i 

— « Queni é este senhor ? » — perguntou por 
fim ao àbbade. , » 

— «r Seu tio lho dirá n — replicou o, eccle- 
siastico seccamente. O capitão ficou, portanto, 
em jejum , como estava. , 

Jeronymo Guerreiro tinha vinte e oito annos. 
A testa espaçosa ábri'a-se ampla aos vòosda ima- 
ginação , que brilhava nos seus olhos ; , as bossas^ 
frontaes <ksinvolvidas aceusavam-se acima das 



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2d8 A MécnoABE 

arcadas superoiliares , tornando maia fanda a 
ruga vertical , que a reflexão costuma ^avar* O 
nariz levemente aquilino, nem grande, sem 
pequeno , cahia com graça , dando vivessa ás fei- 
ções despidas da regularidade , que torna femi- 
nino de mais o semblante de alguns homens; 
porém animadas da belleia geral que é a terda*- 
deira formosura de um rosto viril. As pupil}ds , 
pardas, luminosas, e vivas sem excesso, tii^ham 
aquella força de penetração, que parece incutir 
a ahna de quem olba no mais secreto piensa- 
mento da pessoa que é vista. 

Pretas e carregadas as sobranodbas, quan- 
do a testa se contrakia, uniam-se^ forman^ 
^ do uma linha escura e continua , debaixo da 
qual as pupillas chamejantes , sem a bocca fal-- 
lar , exprimiam toda a vehemencia de nm ca 
racter forte , de um animo robusto , e de um 
espirito accessivel ás paixões, e á generosida- 
de de sentimentos. Nestes olhos , rasgados , fir-^ 
mes , e penetrantes , fallava o ooraçfio , e re- 
flectia-se a alma, como se observa nas phisiono- 
mias meridionaes , que nHo degeneram do Ver- 
dadeiro typo. 

Bigodes pretos bem fendidos cubriam^-lhe 
o beiço , encaracolando as guias á oriental ape- 
zar da moda , que mandava ra^ eserupulosa- 



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menta até ii mais lofe penugan. O reito da 
cara, barbeado em todo o rigor da qioclia,. dava 
realoft á bocea rmnha e animada. Npo usava 
de pemca ; os próprios cabellos penteados á mi- 
litar , e só com um ar de póz , desciam em an-* 
neis, acompanhando as faces, e cahindo sobre 
o hombro. À estatura, duas Unhas acima da 
mxiiaaría era levada com elegância; o corpo 
esbelto , os membros seccos, e nSo magros , in- 
culcavam robi^test e agilidade em todos os mo- 
vimentos. Os pulsos eram fortes , a mão regu- 
lar e bem feita; a pelle muito fina tinha a 
còr bastante queimada das estaçSes, como acon-- 
teceaos trigueiros, quando se exp9em á incle- 
mência do tempo. 

A conGguraçSo da parte anterior da cabeça , 
a expresslk) do rosto, e a sagacidade da vista 
diziam que o valor do soldado se unia ao enge- 
nho> subtil do inventor; que mesmo a braços 
com o maior infortúnio , a ârmeza do coraçSo 
e a lucidez do espirito |iaviam de luctar e ven- 
cer , até onde podesse luctar e venc^ o homein. 
A esta organisaçfto moral, bem rara, junctava 
as qualidades phisicas* Tinha uma força extraor- 
dinária; um lance d^olbos infallivel; uma des- 
treza incomparável. Na sua mSo a espada era 
um raio ; as bailas nfio erravam ; e os cálculos 



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230 A MOGIDADB ^ 

do inimigo Buccurabiam adivinhados por uma pe^' 
neiração maior. i > ; i . 

O chapéu do uniforme \, agaloado ,\apifesar de 
pouco airoso, assentava com' desgarre ;milítar. A 
farda , espécie ^ de . sobrecasaca :;moderna çi çahiá 
um pouco acima' dp joelho; còm^ bandas de ffnro 
verde, gummè^ida por ambos os lidos de passa-, 
manes de retroz,' e duas ordeitô de^bofSes da 
goUa ao fím do. saio.- Sobre 08!quadris>, .ciatora 
alta , viam-^e .as duas ' portinholas de lesootíihà , 
as casas, monstros: abei:tas . em fio delseda , e òs^ 
hoU)és der ródinhâ.prateados ^, c)asÂcosr nos filho» 
de Marte. Os.catíbões da.maiiga, Jargoscolno.boc^ 
ca de morteiro, revirados e^pregiaudosquasi pelo 
sangradouro por dois botões, deixavam vér a ca<- 
misa finíssima desde o punido até meio ante-bráço. 

O periquito, ou tira arrecada, apparecia com 
três dedos de largura , entre a farda e a vtetia , 
em toda a. elegância. Á roda da Icinta estava 
passada a banda com largas bcH^làs de seda , des- 
cendo ^até ao: meio da perna. A espada, com- 
prida, de copos doirados,. vinha suspensa em, um 
talim bordado. Os calções justos e affiveladòs 
abaixo do joelho, e á meiaipiídiada com es- 
mero , completavam' o trajo) do capilãaJeròByiào 
Guerreiro, o official mais eatimado do ȏrctto , 
e mais bem acceito das damas. ' 



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DE ». JoÀo r. 231 

Õ comiiiendador estremecia este mancebo, que 
tinha sido seti pupillo depois de perder o pai aos 
quinze anoos , e a mBi poucas horas depois de 
nascer. De uma casa rica, do sangue fidalgo dos 
cavalheiros de provincia, Jeronymo Guerreiro 
ftra desde os doze anitos educado por Lourenço 
Telles, devehdo-lhe a variada ihstrucçào que 
possuia , e as delicadas .maneiras que o torna- 
vam distincto. O velho erudito amava o seu pu- 
prllo como filho , applaudindo muito por isso o 
seu amor a Theresa , á qual logo destinou uma' 
parte na herança da sua avultada fortuna. A vo- 
cação de Jeronymo chamava- o para tf carreira 
militar ; e graças á intimidade do tutor com os 
homens poKticos conseguiu merecido accesso. 
Tendo servido cinco annos na marinha real, des- 
gostoso de viver ausente das pessoas que presava, 
passou para o exercito na arma de cavallaria , e 
foi então que viu e conheceu a familia de Fi- 
lippe da Gama. Na guerra da successào obteve o 
posto de capitão , com que el-rei o premiou de 
serviços relevantes. 

Forte como Achilles , e astnto como Ulisses , 
tinha um corpo insensivel ás fadigas, e um eá- 
pinto que se deleitava oom os perigos, arrostan- 
do-os pelo gosto de os encontrar. No conflicto 
dè iima carga de cavallaria , viam-no amigos e 
16 

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23S A JI6CIDADI 

inimigos, risonho, sereno « invulnerável , abrir 
eamíobo até chegiar ao nraio arrttcado. Debaixo 
de um chuveiro de bailas ouviam-no citar fria- 
mente um v^rso, ou dizer lun gracejo, com a 
placidez do académico na sua jpoltrona curuK O 
Marquez das Minas, o primeiro capitão desta 
guerra, só delle coofíava emprezas temerárias. 
Os outros generaes respeitavam o seu valor ^ o 
seu talento, e o seu raro sangue frio. 

£ verdade que elle da sua parte também sa- 
bia Cazer-se respeitar. Um mestre de campo tra* 
ctou grosseiramente a officialidade do sou regi- 
mento; devoraram todos a ai&onta em silencio; 
Jeronymo não disse nada, fez-se branco somente, 
e frisou as guias do bigode entre o iadice e o 
polqgar. Quem o conhecia previu um desfor^. 
Depois de tudo concluído , o mestre de campo 
recolbia-se a Elvas , quando viu o nosso capitto 
correndo sobre elle com a velocidade do relâm- 
pago. Chegando ao pé do official , já transido 
de medo , Jeronymo perfilou o cavalio com o 
delle ; pegou-lhe na mão , e disse-lhe secamente, 
mas sem . alteração de voz : « lembra-se do ^ue 
disse ? » O mestre de can^ ia descu^r-se , 
porém não teve tempo , porque ibi logo atalba- 
do : — « Não responda , que posso ter vergonha 
de o ouvir. Receio que a sua espada seja mais 



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DB IK JfOAO T. 233 

mtktt da ^tie a Ktigaar. Estamos sds i trazemos es-'' 
padas ; é o ({ue basla. yi O pobre homem saarsh, 
tremia, e càhira-se. <»<— Percebo ! coRtmuoa o 
capttílo. Ora bem! Podia matal-o, ou cortar-íhe 
a cara com este chicote; ma* nHo quero. V. m. 
nfo Tale umft carga de pístollà ; e respeito a farda 
apes»t de despresar o covarde que a veste. Fi-* 
que eutendendk) , porém , que se tomar a desço-' 
medir*^ , torço-ftie o pescoço , e viro-Iho para ' 
as costas; ao mettos uma vez na sua vida olha-' 
rá de fretité para o itiimigo. Tome sentido!)»* 
Dítò isto flton-o e sacudiu-lhe o braço com 
tal doçura que uma semana esteve em trata- "^^ 
mento. 

Em quanto se deram estas explicações indis- 
pensáveis o commendador mandava preparar o 
quarto do capit&o, sentâva-o ao lado de Theresa, 
e fatfa-lhe o prato, setititido-se remoçado com a 
sua pfesença. Fifij)pe já tinha obtido algumas in-' 
fórma^S^ e olhava par* o recem-chegado com 
tal curiosidade, que Lourenço Telles julgou con- 
vénietite apresental-o ao sèu pupillo para acau-* 
tclar um relance, qnti delicadeza do sobrinho 
tornava mais que provavell . , . - 

— <í Jerénymb, aqui está um defuncto ressus^ 
citado! É tneu sobrinho Filippe da Gama, qué' 
julgámos morto, em quanto eHe comia lagartos 



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234 A }kfactDj^>s 

€ serpezàtes nos serUtoi^ da America. Veni achar- 
Bos mais felizei do que. nos deixou, a 

£' inútil acrescentar que Filippe recebeu do 
mancebo «s devidas felicitações , dadas da abun- 
dância do coraç&o^ como era natural da parte 
do amante para o pai da mulher, que adorava^ 
Acabado este incidente tomou-ae geral a coa- 
Tersac^o, e Lourenço Telles encetou o capítulo 
escabroso dos casamentos de inclinação» ponto 
que discutia todos os dias com seu sobrinho, para 
o trazer ã observância dos respeitos consagrados 
ao bello sexo. Apenas o antiquário expoi o as- 
sumpto, Theresa fez-se muito vermelha ; Jerony mo 
sorriu para disfarçar o sobresalto; Magdalena sus- 
pirou ; e Filippe tomou a palavra e principiou a 
refutação das ideas ultra-líberaes do velho sábio : 

— « Com licença do tio — disse elle cm alta 
voz — esses amoricos são asneiras. Um casamento 
é um casamento, e nSo me contem historias. 
Faz-se negocio ou não se faz. £u tenho dez, a 
mulher traz vinte, serve-me, e caso. Magdalena 
que o diga ; nunca lhe puz os olhos em cima 
senão oito dias antes de irmos á egreja. O mais 
é frioleira. Sei o que digo, » 

O commendador estava em brasa. Tossia, es- 
carrava y contorcia-se , e mostrava jpor todos os 
mtàos imagináveis o seu enleio. 



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pfi D. JOÃO y. 23S 

— c(Ent&o compara as mulheres a um fard» 
e troca-as a dinheiro? Casa-se por uma conta de 
sommarTf Que seja prendada ou tola; que ame 
ou aborreça o marido ; que traga á discórdia ou 
a paz ao seio da fámilia , isso nBo vale nada. O 
essencial, é que derreie quatro gallegos com o» 
dobroens do dote ? » . 

— «Tal e qual! Eu cá penso assim. NSo me 
failem de rolihhas e de rouxinoes ; pão pão , e 
queijo queijo ; o mais é farelorío ! » 

— c( Bem se vé que sahiu do sertão ! » excla- 
mou ò erudito escandaiísado. 

— í( É a minha birra , e acabou-se ! Não en- 
gulo gato por lebrfe: Ent]!o que quer? Chega um 
bonecrito de alcorce e entra a suspirar diante 
de uma espevitada ; fazem-se piegas ; piscam os 
olhos ; pizam-se , choramingam , e dizem aos 
pais que estão namorados e querem casar. Bello ! 
Se fosse eu, pegara de um páu e curava-os logo ; 
mas ba estômagos para tudo. A mãe, tão tola 
como elles, deixa-os ir ou encobre-os. O pae faz 
beicinho e cede. Casam ; e dahi ? No fim de dois 
mezcs fòi-sé o amor e fica a pobreza. Esgata- 
nham-se e desquitam-se. Ora muito obrigado! 
Para cá vinham de berlinda. Meta-se alguém 
nisso ! » 

— •' « Filippc ^ bem diz :o abbade , v. mercê é 



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2^6 A MOCIUAUK 

um sehagem ! » gritou Lourençg Telte^ fvermelbo 
áe raiva. 

— «O abbade ? l » — clamou o sobrroho, dar- 
dejando ao defensor do5 reiscaligrapbos um olhar 
ferino — « Pois o abbade tem a conãánça de me 
chamar selvagem ? £ então que capo ! Meu díwifjf> 
feche a bocca, e não engula gato por lebre. En- 
saboe € penteie os caensiohos da marquesa das 
Minas^ edeixe-sede meter o nariz na vidaidbeíi, 
senão agouro-lbe que morre sem costellas. -» 

— « Sr. Filippe ! j» — bradou o sypok>gista da» 
barbas históricas — « não se exceda comigo ! Es- 
tou cansado de aturar a sua brutalidade. )» 

— ((Sim? Porque não nos deixa em paz? 
Quem lhe pega. Favoreça-nos com a sua au- 
sência. » 

— « Filippe , disse o commendador, pondo^se 
em pé, côr de purpura, dê immediatamente uma 
satisfação ao sr. abbade Silva. E se elle lhe fi- 
zer a honra de a receber, sente-se e porte-se 
com decência. Senão pegue no chapéu, 6 saia. » 

O capitão 9 olhando de revoz, resmungou uma 
satisfação ao abbade , que a ouviu com a digni- 
dade Imaginável. Esta noite cotouHse a noventa 
por cento acima do par o seu ódio ao frescm- 
tador das bexigas doidas. Lourenço Telles, mais 
sereno depois desta penitencia , suppoe a occa- 



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M ». JOÃO V. 237 

9iãa opfXHrtuna para tirar uma eonelusão posi- 
tiva, e por isso proseguia : 

— « Sustento que o casamento de interesse 4 
mu» tyrannia ; e Theresa , que o diga ; se ella 
não amasse o noivo quasi desde creança ; se elle 
nSo a adorasse também, desde que a conhece, 
daríamos consentimento para a sua nniSo, minh(i 
sobrinha e eu ? De certo , não ! Prezamos mais 
a felicidade de Theresa do que as maiores ri- 
quezas ; e graças a Deus , o que temos ainda 
chega para a ddar. . . Mas que tem v. mercê 
Filippe? Que olhos tão espantados! Estamos em 
família ; isto são coisas sabidas, j» 

— «O que tenho ? » — exclamou Filippe es- 
fregando a testa e muito corado. — « Tenho tudo. 
Pelo que vejo trácta-se de casar minha filha , c 
por muito favor dizem-me duas ou três palavras. 
Vae bonito. Aposto que a idéa sahiu dos cascos da- 
quetta saresma? Aqui por força anda o abbade, 
e a sua mania casamenteira ! Isto um dia acaba 
mal ; eu deito-me a perder com este parasita. » 

A alloeução de Filippe e a sua aposirophe ao 
al>bade Silva foram tão abruptas , que desata- 
ram todos a rir , menos a victima , que repetia 
a meia voz : 

— «cNão ha que vér. Q selvagem cada vez 
está peior!» 



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&3S A UOí^IUlVBiS 

Acalfiiado o vm , citado Filippe « 4é oovo 
para se conter em termoi hábeis sob pena à% 
exclusão, continuou o dialogo: 

— a Posso saber quem é a jóia , que o ti^ 
me encaixa para genro ? » 

— « Um cavalheiro de prQvi^cia dos mais il* 
lustres ; uma pessoa a todos os respeitos capaz de 
fazer a felicidade de Theresa. Quando v. mercê 
andava pelos matos do Brazil a assar macacos , 
sua mulher e eu demos a nossa palavra , e ajus- 
tou-se o casamento. Cuidei que estava infor- 
mado. » 

— '< Não estou, nâo sr. ! » — Deixa estar sou- 
sinha que tu as pagaras ! disse depois olhando 
para Magdalena cheio de cholera, — « Sabes desta 
embrulhada, e não me dizes nada?! Fazes de 
teu marido um pâu mandado! Eu te ensina- 
rei.» 

— « Filippe ! » — acudiu Lourenço Telles in- 
dignado. — <f Isso não são termos de fallar a uma 
senhora ; nem de fallar a ninguém. Não me obri- 
gue a dar algum passo que lhe seja muito sensí- 
vel. Se não sabia , sabe-o agora. Bem vê , The- 
resa não podia casar sem licença de seu pae. » 

— « Agradeço-lh'o muito. Até ahi chego eu 
sem ir a Coimbra. Tanto não sabia de nada, que 
vem cá amanhã um antigo amigo para lhe mos- 



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DC; D. JOJk) V. £39 

trar Theresa ^ , e uo caso de Ifae setvir elle a le- 
var se^ o iio não mapda o contrario. » 

— a O que é mais que. pvÒTavèl ! — Que idade 
tem o seu anligo amigo? » 

•—^ A, Sessenta e oito aonos. Homem madiiFO, 
pé de boi , ca dos meus; émfim. 3» 

— c( Famoso ! Aladuró que nem uma soryt ? 
E á %ttra ? » 

— a Sofri vlel ! Para diser a^ verdade, um pouco 
p9Íor do que eu , níias é* que eu. . . » 

— « Eotendo ! E génio ? d 

-e-^aO geèio, tio 9* o génio. . . é (tiscoaito; 
rào o nego. Homem do; mar costumado a cingir 
com um cabo o mai» pitítado; mas olhe ^ fóiii 
dos repentes é:um cordeiro. Se a ultima mulheit^ 
que teve. . . » 

— «Ah, já é viuvo?'» 

-*-r a Três vezes ! e o maldicto é capaz de en* 
Vftttvar quarta. » 

•—^« Isso é consolador l » 

•r- « Então o que fiei elle á ultima mulher ? » 
. <^— «Quasi nada, tia Dett4he o seu eiisino. 
fira atrevida de lingua, e Bernardo era estanco 
quaite(é o seu defeito ^ tiodos temos por onde 
perdar)Qão soffre graças; A Verdlide é qiieihe 
qudbpou os braços, e abriu a cabeça umas pou- 
cas dé veaes; assim mesmo morria por elle t» 



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240 A MOCIM0B 

-*-<(SíiB? — ^itou O velho erudito qut st 
contWera a custo. — Pois, sr. Filippe, saretse 
gaDego tíver a lembrança de entrar, sé (pie seja 
entrar aesta casa , conte que sabe peia jauella 
.a pontapés dos meus lacaios. Um bá»do ! Um 
bruto ' Um marujo ! V. mercô é idiota , é i»- 
capaz de estar diante de gente, n 

— «Tio, tudo isso assim será, mas per«> 
guRto; quem é o pai de Theresa? 

— V. mercê não é nada! Quero diser, eM 
doido. Não se arrisque a desoiKdeceivme tra- 
zendo aqui similèante compendio de vicios ! Que 
os meus olhos o não vejam por seu bem e delle. 
LembiKHlhe que ha torres em Portugal , e qoa 
tenho amigos. Agora, se deseja conhecer o 
noivo de Theresa, levante a vista, e compana, 
(se não tem vergonha de o faser) o alarve de 
que fallou ao meu pnpilfe Jeronymo Guerreiro. 
Dé graças a Deus ! O amor que elle tem a sua 
filha ha de decidil-o, apeear do que ouve, a 
ligar-se com um sogro oomo V. meroé. » 

Qs cbrcurastaiKtes estavam corridos da seena , 
que presettoeavam. Magdalena, cboirosa, solu- 
çava ; Theresa olhava para leronymo com ar 
flopplicante ; Geciiia, vormelha, como uma rosa, 
pcliecia por sua mie e por sua irml , ao mesmo 
tempo. O pupillo do conunendador encolhia oi 



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Dfi P» JOÃO Y. 241 

' ium3>roi(i) IriíMiva o bigode 4;om os dedos ^ e aot- 
WAva TberQsa com m olhoi. O éMàt , cúm o 
i^fito embutido em paches, re as «dres da iia 
4Mieesa$. mss Jaces, encostava a b«rba á palma 
^a mdo, QQfA tt^eaeiosa dt^idade. Fr. Ja&xr, 
eMvulfio e envcargoiíbado, amiudara par baigoo 
da nica» os pontapés nas camltas de Filippe , 
para ^ advertir, da sua incõngriieDeía , e reòeiMi 
em paga «ma Uaçpbemía oa uma iniieifaí^ 
jatali Finalmente J^raayv^ Gneireiro levan- 
toii*se, e cliegaiido-se a Filippe, disae-lhe oam 
roapeito ^ delicadeza : 

— :<( O sr. Filippe p<ide estar certo de cpiesoa 
iDcapaz de receber a mão de Theresi contra 
voiHade de seu pae. » 

*-r-:« Sim? JEkimo. Afoa nãe t»ha cuidado; 
até ^0 levairtat dos ^cestos é a viodtma. i> 

— ' <c Nfto gaste cêca oom nuns def utitos , Je- 
roayraa* » — ,^ttdiu Louresco Tdka. 

— -« Pos^ ^h^ que defeitos devo corngir 
pAFâ m^iecer a sua hmináel » 

----«Pôde, sim seobor. Mas antes, fat (ah 
Yor , respoode-me a «ma coisa ? » 

— c< Com todo o gosto, yt 

— « Esteve íik^a do reioo ? » 

— « Çiqeo annos. » : 

— « Bom. Viu tó traetar algum pae como 



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243 A MOCIDADB 

€u SOU tractado? Âgcnra quer- que* Uie árga a 
verdode? O qué'eu áesejo ^ra Theresa é um 
marido , que não caia do bote com o balanço 
da maré; e não efifie de medo vendo um jaca- 
reu empalhado, (^ero má marido homem , « 
iiio um marid# piegas, enjoado, e todo sopí- 
nbas de mel. Percebe? Islo não tem replica. O 
tmhor é um militar de agua doce , e^ ASo me 
eonvèm. Adeus meu amigo , tenho dito. » ' 
.. — « JérooymoídehDe esse' urso ! -^ gritou ^ 
cttmmenda^r com a ira* a fu»]ar nos olhos; 
porém o mancebo fez que não percebia; e sem 
ãe desarmar da paciência , com que ouvira tudo, 
continuou: . i . . 

— c< Engana-se. Antes desta farda vesti a dá 
marinha rnl. Não ser se a» ondas da bahia de 
Biscaia, e dô^ golpho Pérsico tôo doces ; ou ^ as 
aguas de Gòa, de Malaca, e da America, s9o 
serenas: ^gan» quem as navegou. O que sei é 
que vi fuetlar os raios no Gabo da Boa Espe 
rança, e ouvi rugir o pampeiro nas costas dd Brar 
si]. €reio que isto chega para não enfiar no mar. » 

— « Falia serio? È dos meus?» 

— « Muito serio. » 

— « Bem I Porque níò dizia iáso , homem ? 
Toque! O que fazia nesses assada, aqui para 
nós^, da pelle do d^nonio? »' 



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-í— .tf Qiiaes.asaqidoí ? >. 

--^« Os pampetro&! » 
.,-^.« Ah! .Foaco.mf^is ou menos, a que fii 
•BI Sblaca < em lum dia de tona^nta. LÔmbra- 
M da nau. Qm$êi§àa da Tijo? » 

~^ « PoÍ6 1^0 lemlHro i Bonita quilha , ^ 
signall) Tanta m^ lembro s V^^ se elia n9o viesse 
a Malaca .estava agora na. barFÍga de algum tu- 
bardo. Foi . sabbado , dia de S, Barthoiomea , 
nlo me esquece nunca. SaU do porto, na -minba 
lancha, com a raanhS de rosas, e o mar de 
leite. Sobre o meio dia carregou o tenipo, e 
levantooifa o vento ;---*aquelle excomui^ad^ 
vantíiibo qoe sabe ; que é um cavallo á desfi-* 
lada. Bomi estamos servidos. Âmaina-se a valia ; 
vamos a ramos;, qual I Pah, pah! Era eada« 
pancada no costado, qiie gemia a lancba. Safa!' 
Em fim, psra encurtarmos rasães., uma <Hida 
como uma montanha desaba^ apfinhji .a -casca, 
de noz atravessada, e vira*ma de tampos paaa 
o ar. NBo sei como , açbei-me acavallo no mas- 
tro, e aganrei-me. Digo-Ihe que nunca bebi tanta 
agua em minha vida , pnpb ! O caso é que es- 
tava a vinte braças do porto ; via os amigoa /al- 
iando muito , mas sem holirem pé nènji mão , e 
eu a afogar^me.por um triz. Que amaldiçoada ca- 
nalha é aquella gente baça ! Oe repente um e»* 



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344 A «(ICIDAIDE 

ealersinho lahe pela popa dá^ »»«, é bãlétrdt' 
qui, boleu dacolá, proa abaixo, prda ditam, 
yf^yH> ?eficerH(ii6 a corrente, cortar o tuClo, a 
d^l^ir^ie ao pé de mim. Nmea o perdi dá 
idéa! Trazia só uni rapaz de den^ «Mtfos; a 
clrara escorria-lbe da cabeça até aos pés. Vinha 
amarrado peia cintara; e remava coma quatro 
bons makiros és TezM não remam. Mesmo^jt ao 
pé de mim bate nma rajada , e orna onda , <p)^ 
ntetleu o escaler quasi debaixo de agaa. . . . Bs^ 
tamos gualdidoê, disse eu! Qual! O escaler tirit 
com orna força tal, e nma ra{nde<, que a se- 
gunda onda nio o apanhou já atraTess<RÍlo. D^ 
pois o rapa* deiton^me um cabo , eu segui^V 
e d^abi a nada. aehei-me dentro. No meio d^ 
petígo, com a morte diante de si a cada ins- 
tante, juro-lhe que a creança estava socegâdí 
como se passeasse por sua casa. Hei dè lembrat'- 
me sempre do sorriso, com que me díM' 
« Chegue-se um pouco; o mdhor da festa àíndâ 
nSo passíou ! » Com effeito disseram-me depois , 
que tinha sido o diabo ! » 

— «( Dissêram-lhe? Pois nío ia dentro?» 
— interrompeu o velho erudito, que se agasa- 
Ihiava com a sensaçSo égoista , que dá o con- 
chego , quando sentimos assobiar ó vehle e (Ja- 
hir a chuva, áchando-nos ao pè' dè um bom fo^. 



L^ 



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BB 9. joie if^ 34S' 

— 4i0Í80era]R, sim scsihcr: poi«p^ un ho- 
mem não é de ferro ; e não sei tomo, «o eo-- 
trar para o escaler apashei uma brecha n» ca- 
beça, que me estaiu em sangue* O caso é quê 
perdi k>go os sentidos, e quando tomei a mim 
esteve pa eama , e a salvo de todo o perigo. » 

-*«-«£ nuiica soube quem era o rapaz ? >> 

— a Nunca ! Na madrugada do dia segBtote v 
sahiu a nau, e por mais que perguntei, nem 
rasto do meu tritlo* Dava mil dobrões a quísm^ 
me desse noticia delle. ía á índia outra vetv* 
olé se bia. » 

-^«Nâo é preciso, sr. Ftlippe » — atalhou 
Jaronymo sorrindo. Depois levando as mãos «os^ 
esbejios^ espalhou*^ pelo pescoço^ deu ao rosto 
unu expressão risonha e audaz, e carregando 
os olhos de luz , atirou com um gesto de sum^ 
ma ousadia a cabeça para traz, duendo em voz 
firme 9 porém juvenil: <i Capitão, nestes nMe- 
res, os homens kasem a vida a juros,. e um 
deacuido custa caro. Bebe um copo de agua 
ardente de caju? » 

— « É elle, é elle! » — gritou Eilippc abra- 
çando e beijando o mancebo. >>**-^ São as pala- 
vras que me disse. É a sua figura, o seu mpdo, 
a sua voz. Magdalena , filhas , ajoelhem ! Aqui 
este quem salvou seu pae. » • 



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246 A «dcíBAte' 

hso Bio vale nada. » 

— • É um hetoei Iteto-llie a^ vidai. » — 
dtmavft Filippe. 

--^•fDe?e-á a Deus. Sabe o que Ihè jpeço? 
Para outra, vez tenha iftaiícharidedééoíhnoM, 
com os soldados de agua doee. Conheço mil , 
mais destemidos do que éu no 'mor. i^ - 

-*-« £s6a é que eu não creio i Pois sr. Jero-' 
nymo, corac&o nàs nfôos, veja o que mimda/ 
porque tudo o que teolio é sM. Sem cerèmonitft 
Gosta de Theresa e ella do sr. Jeronynfio? Ca- 
sem , quando qqi2erem ; - dêmos que ella nio 
queria, era o mesmo, casava com anginhoa^ nss 
dedos. Quer Cecília? Prompto! Quer «mbasr 
faço-me turco, e dou^lhas. È claro comb agfiti. 
Salvoa-me a vida. Eu cá penso a^im. n 

Jeronymo aorria^e e i^pondia a Filippe com 
abraços. Lourenço Telles esfregava as mãea da 
prazer ; e as meninas choravam de riegria. 

— « Ab, Jeronyrao!» — «disse o velho eru- 
dito — «os rapazes de agora sabem mais doqiie 
os velhos. Conheceu Filippe, e calou-se. Que- 
ria esperar a occasi9o, e confundir esta Epbi- 
genía masculina, dando-lhé o Orebtes, que 
chorava ? » r 

— f( Cartas na meza , jogo liso ! — respondeu 



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BE D. JOÃO y. 247 

o mancebo. Ao principio &ão cooheçi: o sr. Fi- 
]ippe. Depois de o vêr e ouvir um pedaço é que 
me affirmei nelle. Estimo infinito , que um acaso 
feliz me proporcionasse a occasião de.... prestar 
ao pae de Theresa um serviço insignificante. » 

— « £ sem saber ainda que o ^a ! » 

— « De' certo j> — accudiu Filippe. — «Eu 
casei no Porto , e de lâ parti para a índia. Três 
annos depois deram-me por morto. Minha mu- 
lher veio para casa do tio. ...» 

— « Seis mezes depois da sua partida. É evi- 
dente; nesse tempo nem leronymo conhecia 
ainda Theresa. Embarcou também um mez an- 
tes ^ella vir para Lisboa. Mas , diga , sobrinho , 
que tal acba seu genro ? » 

— « Óptimo , tio. Ouve ; se amanhã vier ? . . » 

— «O elephante do seu amigo ?....» 

^ — «Justo ! Domingos que o sacuda. Oh , tio 
quando. hão de elles casar? « 

— «Se Theresa nae fizer as vontades ; se rou- 
bar ao seu noivo dois beijos para dar ao avosi- 

nho, em fim se não pedir muito Casam 

daqui a oito dias. » 

— « Theresa , falle , dê os beijos , peça ao 
avô 1 » *-^ gritou Filippe. 

— « Peço eu ; ella dá-me procurac&o . , . . » 
— disse Jeronymo sorrindo. 

17 

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248 A MOCIDADE 

— ^ d De vagar com os dois beijos I Para esses 
não admitto procuração » — acudiu o yelho cheio 
de jubilo. 

— «Posso agora dizer duas palavras a The- 
resa , e dar uma lembrança a Cecilia ? » 

— (xJã lhe disse: o que è meu, é seu. O 
que quizer. Sei o que faço » — respondeu Filippe 
sepultando as mãos no enorme bolço da casaca. 

Jeronymo disse duas palavras á sua noiva, que 
entrou logo com a irman para a saleta imme- 
diata ; em quanto o mancebo ia de volta buscar 
o presente que trazia à menina bonita do com- 
mendador. — Apenas elles desapsoeceram , Fi- 
lippe, saltando aos beijos em sua mulher, com 
grande escândalo do abbade, e muitas risadas de 
Lourenço Telles , exclamava : 

— « Tens mais juiso nas solas dos pés do que 
eu em toda a cabeça , Magdalena. O rapaz é 
uma pérola. Mas ha de levar um dote. . . de ar- 
rombar o costado aos invejosos. Tu verás t Hei 
de dar que Jfallar em Lisboa ! » 

— a Pelo amor de Deus , sobrinho É capaz 
de me deixar sem uma cadeira, se lhe dá para 
fazer bulha!» 

Todos se riram ; e Lourenço Telles, retirando- 
se de parte com Filippe e Magdalena começou 
a tractar com elles das condições do casamento. 



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índice dos capítulos. 



Duas palavras de explícaçSo i 

CAPITULO 1 — A verdade de um rifto no 

adro de S. Domingos i 

CAP. II — Mais vai só que ma! acompa- 
nhado , . . . . 17 

CAP. IH — Um retrato em um convento 4t 
CAP. IV — Se o habito não faz o monge , 

o veu não faz a freira S6 

CAP. V — Petrus in cunctis est Petrus in 

vinculis 69 

CAP. VI — De um argueiro faz-se um ca- 

valleiro 98 

CAP. VII — Ulisses abraça Penélope!. .. 117 

CAP, VIII— Pelo amor se ganha o céu. . . 146 

CAP. IX — Donde não se espera vem o bem 1 63 

CAP. X — Luz e sombra 1 « . . 17S 

GAP. XI — Muita bulha para nada ! 199 

GAP. xu — Fílippe eu terra d^amigos . • 227 



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HOCDiWE DE D. MO V, 



POK 



Lf A. EEBELLO DA SILVAí 



TOMO II. 



LISBOA 

TTrOGRAPHIA DA REVISTA UNIVERSAL 
Rua dof Fanqueiros, 8S 

1852 



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i "i ' w 



MOCIDADE DE D. JOÃO V. 

ft®Sfi£S(BB. 



CAPITULO XIIL 

KEM irDO O QUE LUZ É OIRO ! 

Davam nove horas na egreja do Loretto. O 
dia agreste e carregado estendia sobre a cidade 
nm toldo de nuvens. A chuva cahía miúda e con* 
tinua ; a espaços os echos repercutiam o surdo 
e rolante estampido dos trovões , voz lúgubre da 
tempestade , que circulava ao longe os horison- 
tes. O clarão açafroado dos relâmpagos lanibia 
de vez em quando a corda dos montes, que além 
do Xejò , e defronte de Lisboa, levantam uma li- 

T. M 1 

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% A UOCIDADE 

nha cinzenta e irregular, neste momento qoasi 
fechada por mna coptína áe- ehwcir osi . - - 

y iam-se as ruas desertas ; apenas uma ou ou- 
tra mulher , encolhida de frio , embuçada no 
manteo até á altura dos olhos , pizava as cujas e 
mal unidas calçadas. Somente se divisava o ca- 
pote 1^ o çhsypop de. qunfar do jwfi^m activa, sal- 
tando pé aqui\ pe acotó os- riachos que se cru- 
zavam dos beccos e travessas. As janellas com as 
rotulas corridas , e as portas cuidadosamente cer- 
radas , inculcavam que a população , recolhendo- 
se, fugia da tormenta, já eminente sobre a ci- 
dade. 

Na casa professa de S. Roque , no dormitório 
de cima, havía.um japosefitqiÇiflsKOSo, agasalhado, 
e cheio de estantes, que o vestiam d^alto abaixo, 
chamado a secretaria reservada. A. imagem do 
patriarcha St.^ Ignacio, curiosamente lavrada, 
^rg^ifi-se no topo em .vulto quasí n^ti^al , qllu- 
miada, por duas alampadas. Doze poltroiu^t Uf- 
gas e maciças circumdavam um dess^es l^fete^ 
gran^qs para o njiajor aposento,,, e pps^dos p^ra 
9 mdhor sobrado. Tinteiros e pdgtas^ de papais; 
livros de cpmmerciq monstruosos ; maçoi^ 4e c9St 
tas; ^ cofres mafc^e^<jbs de dif&rçntc^. tama- 
nhos; çybriam 9 I;^f@te. D^e^rp^te d^ poirt^da 
£0trad^ ^bri^-se outci^ raa^Siejstf^ita,, cuja cMi9 



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mata «empre o Superior. Esta easa fechada er^ 
um sagredo impaoètrav^I para os padres que nto 
lof mavam o dafiaitorío secreto da companhia àm 
Jesuf. 

Seriam oito minutos depois das nove horas. O 
sino da egreja toteava á ultima missa, ehamande 
os fieis á oraç&o e ao sacrífieiò. Qa eonfessores» 
efaeiòs de aoimo, eiobuçavam-se aas capas, açor 
diiido a espertar o selo das devotas. Os pkiksQr 
phos e os litteratos reviam as mais escabrosas par 
ginas 4os seu» livros, eoaiparaiido te^s e cor* 
rigindo notas. Os caiseírofi de roupeta , sentados 
ao Welb, eseriptiiravam a contabilidade da con- 
^^^e^çiov mais rica a complicada talvez, do que 
a 4a oas» dos oontòs d'el-rei. Em fim os politi*- 
cos, os conselfaeiíros :occúltos , com mil catitellas , 
esqui vavanHse, apparecepdo logo depois na secre-- 
tarm reservada. Em toda esta religiosa casa uiiiiH 
se a actividade á bem calculada dktríbuiçlo do 
iFahalho. Tiido se mukiplicafva desde o acelo até 
i riqueza. 

O conselho secreto havia duas lu^as que áa^ 
rà^a na casa indicada ; as portas estavam esoru- 
pnloaameote fachadas; os reposteiros ootridos; as 
grossas paredes eram discretas; os-altds sòbradsii 
lâo deixavam passar a voz. Em face da entrada 
vifl^« a porta de uma eelb , á ({cuid de vea en 



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f A ItfOCIDABS 

quando apparecia a cabeça branca e a vasta 
fronte do padre Ventura. Espreitava um mo- 
mento, encolhia os hombros, e tornata a sumir- 
se sem mais alteração. Esta scena muda k«pe* 
tiu*^ umas poucas de vezes. De repente ouviu- 
ae o rodar de uma sege ; sentíu-se parar á por- 
taria ; e viram todos apear um jesuíta ; passados 
minutos o passo firme e a alta estatura do padre 
Dotaram-se em direcção á casa das conferencias^ 
Chegando á porta o jesuita deu com a mão eerU> 
numero de toques ; esperou um instante ; e foi 
immediatameiite :admittido. 

Entfio é que o padre Ventura saia da cella , 
e de capa , com o chapéo na m&o , como quem 
vinha de fóra, seguiu as pisadas do outro jesuita* 
Somente nos signaes variou de numero e de força; 
Os seu» eram mais rápidos, e mais rijos. De 
dentro responderam com um toque de preveni^ 
para verificar a identidade do adepto ; e ouvid» 
nove pancadas suecessivas a porta descerròu-^se ; 
a entrada foi-lhe patenteada ; e todas as difficul- 
dades desappareceram. 

Entrando, o padre Ventura achou-^ diante do 
Superior^ e trocou com elle o toque symbolico 
dos definidores occultos da companhia. Cinco só- 
cios compunham o definítmo secreto da provin- 
eia de Portugal; e pestes, quatro estavam assenr 



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todos C0ta grmdes pastas de papeia abertas 4iaDte 
de si. O confessor de^. Pedro II, o padre Se- 
bastião de Magalhães, tiomem gordo, corpulento, 
e coinpiiss9do eiit palavras e gestoç, passeava pela 
qasa olbando de revez para o recemcbegado é 
que provavelmente o viera interromper. 

O padre Ventura ndo porecia o ní>esmo homem, 
Tioba despido a pbysioQomia da eterna dSTabili-^ 
dad!e , que lhe servia de mascara. O sorriso per-^ 
m^pentç já não (IcMnescía nos lábios; riscolhianse 
aos cantos da booa em uma prega mais severa 
do qtue amena« Os olhos tinham luz, mas refle- 
xiva o penetrante; as feições tinham expressão, 
porém fria e concentrada. Apesar dos annos o 
corpo bem direito carregava sem fadiga o peso 
da idade; a cabeça nHo descahia nem se íboIÍt 
nava para a terra; pelo contrario firme. e reso- 
luta « olhava talvez de mais para cima , para as 
alturas do ceu. As maneiras, d^antes encolhidas 
e humildes, desatavam-^e a^ra com o desemba- 
raço que dá a força e o poder. Do homem velboi 
do antigo jesnita obscuro, obedíentOi e passiva, 
que todos conheciam, nada restava. A chrysalida 
rompera o cárcere, voando sdíta e forte pelos es^ 
paços infinitos da liberdade. 

Costumado aos segredos tortuosos da politica 
jesuiUcK , o Supçrjor i^o agourou nada boro 4o 



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8 A HMiDAM' 

(8os(Á>lta tfanisforfiia^o; e qnit séieltm h''èqoelii» 
rosto impenetrável a pHmeíra ptrase doeifygma r 
debalde! a finutâ davifila desarmou o s^U olhar; 
á itigetioidâde , verdadeira ou Sngida, do sem-^ 
blante derrotou as iiiterrogaçõesi De^ta Veí a 
sphinge cónfiitidía Oedijpo ! Desesperando da atia« 
l^se tacita o reverendo padre appcttoq para a pa^ 
hvra, fítnWio do oi^^atfao de levantar sequer uma 
pòitla ao vea que lhe eneUbrfa o tinfj^teirio, IPor 
ifl$o compondo o rosto e a tM exolamoa com n 
ttiaift assocárada benevolência : 

-^(t O qde é istd! Unhamos entre ndis mnt 
irmão distindot T.paternidade^neubHndoa sua 
t)ualidade ignota o prejui«ò qtie Ytos fez, pénten-* 
éo-áe u^ voto respeitável ? ^ Uma setisfoçSo no» 
resta ; não foi por nossa culpa ! Jii!gàmol^> eti-^ 
tregue â dllrec^o espiritual das ahoas { dízia^^^m 
que passava è índia, â China,., é o que nos de-i 
trem a saber de Roma, 

Um ^rti^mais do que amarello^ fugindo pe^ 
los beiços flrios do italilano, provocou no illustre 
areópago ^ ainda maior euriosifdade. Depois a 
bella fronte do padre Veutuira derribou->se sObre 
os sobrolhos ; a vista cortante e aguda cratouHM 
no coração do interlocutor e dos ouvintes; e ca-r 
hiu depois indiferente em um maço de papeis 
que trazia na mão o confessor d^el-rei. Aateède 



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réS^poriddr,'^ f aA^è VeMãrá Umlià de teve, b in- 
eUncfiHié cmA respeito: depois, segundo o teu 
eodtutlie, dí^sé roplicdiido 6 tàlúiUtó ibatá protf tnèí : 

— ée è Verdade 5 a diré6ç»<» esj)ínt6al íbi é ha de 
ser Mm^te a eeiuiraçãò ptererida da riiinha vida. 
Auxiliar a í)r6gaçdb do evangelho nò Oriètrte otf 
M Amertea; <;ot*ar o fàcto da tQniéé lias ttvas 
pcrt-puras do naftyriò i padre provincial , eis 0^ 
tolo ardente do mea ebraOSo, jà ftío e cançádo' 
para eeisas mais aetivas. N&tí quíz , nem qtiero 4 
aiilda holje tn«dar de èamibíio... EHtli^taritò, beilí 
sab^ I déf ' mÀSo nãó temo^ senSo ás boas obMs , 
que se eontam no eeu. O corpo ha de it parrf 
ènde lhe disserem'; a voi^cle ha de .ser uma es- 
eFava.,i Pedi qte me dáíassenv morrer nos ser- 
tt5eí?, cravado ha arvoítí^ atanéfíado áo bràseirW 
enfi que ás iMlos do» selvagens expirtfram tantos 
sdnctos da nossa eompantiia!,,. E<^pei^aVa esta 
graça depois dè uma vèlhíM trabalhosa !... nâd 
pôde ser! A soberana sabedoria do gera) qnii 
èutra Céiêa— i-S(^a ferta a ^a vontade na terra, 
e a de Peus no ceu. Nfio mé qàeíxo ? alégro-me, 
£ mais ume dõr que offereço Aquelf^ que pade- 
ceu tántaS por me salvar... » 

« De certo ! Mas estiVeraòs todos até hoje ení 
completa ignoi*ancía... Apenas, pòr ôcéásiâo da sua 
vinda se rios i kz saber que úm soein' nosso , v. 



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paternidade, devU <r .em mavfo i^asa. a InáMi ! 
!lplra impossível adivinhar t-^» insistido provincÍAU 
derrotado na. sua penetração, e cada vez também 
mais sequioso de devassar um iiegredio importante. 
pepoí$ y, paternidade pela sua; parte, nunca to-* 
çpu.em ficar ou sair, e de tudo isto r^esulia... ^ 

— « Que não souberam nada, £ exacto» Pois 
a mim soccedeu^me outro, tapto. Posso-]h'o as- 
ipegurar : . é a verdade. Chaguei aqui deveiido 
partir, e achei ordem de esperar, Y. r^verend&s-^ 
sima até, se me lembro, (oi quan a intimou* ., 
Não soinos sei)h,orps,. obedepi ! Mandaramrme tí^ 
Yer só e silencioso ; aaleir^mer Hoje quem pôde 
diz-me;-«f^o mudo deve fallar; o paraíitiet) deve 
caminhar; e aqui, estou no meio, de ^ÓH tirando 
tanta sati^façio da obediência, comooutrias coi-i 
iados vivem soberbos cem a idolatria do paço ^ 
lionde a nossa pobre e remendada roufieta devia 
fipparecer meigos, para não (altar onde.tfto.pre-^ 
cisa é, » 

Dizendo isto, os olhos do padre conio duas 
bailas mettiam o veneno da aUiisao na alma 
do confessor 4^ el-rei , a quem visivelmente a 
dirigia. Este sentiu a ferida pela dàr , e levan^u 
a cabeça cheio de espanto, Sebastilk) de Maga- 
lhães mediu o aggressor de alto a baixo com a 
altiva do poderoso; disparou^lhe por baixQ das 



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lodeHas dè nàm dos iamUrnsos oecuids um olhar 
de dó; e «eaboa a siia- repILca tacita per um» 
YiSagMi, que chamou o 4{iMSxe inferior quasi a 
duas linhas de altura do lafaío superior. Feít0 
isto' o reverendo sábio contiiiHou a escrel^r se-« 
renaraente sem íazer mais caso da iofima ema** 
toqa:^ qtte se atrevia a dar t$o gcosseiros pipa*^ 
rotes na sua corpulenta e conspícua pessoa. O 
superior é que intendeu que lhe coavinba dtzei» 
duas palavras para incensar o idolo. ; 

-^« V. paternidade^iÊ claro, ;ndo deseja. ceá*« 
sixrar as ordens de Bo^a; se vamos ao paço^^ 
se àlgiuem moca lá, é fior tnera obediência. A 
nossa littmildade dá-se mal uaqaelles ares« . . ; * 
Lembro^Ihe que no seu zelo demasiado offendeii 
pessoas. virtuosas, que em serviço de I>eus> e,dá 
Companhia se resignam âs tribulaçõeí è amar-* 
guras.. . ^ . . » 

f^—tií Qoe o oiro d6 aos avarentos e o podcnr 
aos ambiciosos?» — ^ atalhou o padre Tontura 
sorrindo com ironia. Depois em voz sevara pro** 
seguiu: — O peior é que se não vé gemer a 
alma desses martyres eúindestinos; è^se « viste 
se volta para a carne , acha-^se que floresce per 
milagre da penitencia ! . . . . Ora bem* Sabe o 
padre .provincial aonde Santo Igtiaoio escreveu a 
nossa rej^a ? Na eruz de Christo^ Sabe aonde a 



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meãfioii? No tnao^ e nio^Db fá\snib.(M. a 
«m dw pabitza, hamiidacby e sacriíiciói A 
legra quer <|ue o hMiem; no¥0 iiapa o kcNODeBi 
Túlho;.qtte a alma delxe*>o corpo, « b sangue 
eorra ^as teias, ae preeiio'fòrl Siáriíme dolh 
tfflflia, ;jnn que o iudividiio é iiBnnolido.Ã buna-i 
BÍ^áde^ á fionto de sermos na' mão dps supe^ 
tioras a bastão do cego, um instrumento |nss»o) 
de riosicbmferar-iiios a>un»cadarrer « coisa morta^ 
que vae para:, onde a leTam^ e fioa aofds a 
pSe^ .., •• Foi' ò qoa.iáe ensindram ) éi o quo está 
na lei. -Ageva ae «esto ppoviocia cbamsn mar^ 
táfica^o à gula y pobrau ao.fousta, efawnildade 
ao orgiribo « digo <aé y qne ainda é • innís falso o 
gabgpeiiaik» o «nraç&o dos maus^ io que á saa 
)itaguaj CMtt^ âs ordens de que falia, padve 
pnmncsalv »te tiãram de Roma, s&o d» Hísh 
pauha ; e executando-as pecca duas Tezes. Gui-i 
dei que sabiaitiaqiir já , que falleoeu Tírso^jron- 
çalviea^. e c|ue. Miginsi Angelo l^mborim ^ sen 
socqessery év boja o geral da oonip«nhia<!' n 
' O eífeiliv de apostroplie-Cot knfnedtato e faU 
minentej O fogo qne •dtamnieaftt da vista ido pat. 
Are Ventura ^ a dignidade.doi festo , e a fihiiesB 
da TOit angrilentavamJhe a forca,, pelrefieando 
os accesseras. O cotrfessor de D. Potro ]I, no 
qual de direito reoabia a melhor parte da^^en^ 



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dá irft apopleltea aí fesfUmçM gemat fio |wvlo 
riNica e tmerudmt ^n UitM <hí áiites fergM 
cttflntiettm e lifid^ n» htê& câdt i^«e Mia-» 
flieeíàm iMíi'; M âliraft dós <!}b^ dmairettM, « 
â» pQliínàs 4iM;aito^4 MltiVaA M eara d<i«gg»9^ 
^r\, dardejeodiy, raids de cítolera. Siunensnsn^ 
éia «trtftfa pei*âiéb <itt etfbeça. O q«ie»fto itff^riof 
krgD «tu tirma de pà j^to <ia bailia, ioúmm 
ft)scé9 âe gordura qu& se pèígúnfêm detla^ b • 
iriíiiciik] t^ettiut» q4ia eiltailiavdi^' lí foíçM Am lin- 
ces, to^feiMta d0 i}M(dr'#Éftet)Mr iit6 M Itigar cwm 
a 3!^ie4ta9«l fiapadav ^<fo talo «Miéídd' p«la 
i^to 4a fii^a iè deK»0Mi|MÍtiba , èfuer^epava, è 
é»íigifnrva d^ -iim toédo Itnsrift^i. ViKpsiidiad* 
« «Beifrii^id» Ml pMBetíÇA dok ms adiAidiittM^ 
«lie, o pdlciitad& (]ii^ ttniia fiafa tasea a diarm 
èi real «on«èídn«ta, a-diavè do poder! A in-»- 
dignação tolMfií^lhe ar fáHâ ; e o p«í^e SdMstiao 
A^ Bfágfithde^/iiisttaff«ílifi«flte.aalô«iiM5, exprimia 
o horroi* é a ifa ff^ meio dè visageuva fems^^ 
e de gésMs ot^riipi^os. Se a aloqti«aoia> do^ odí* 
eotisegiiHitse desatafMfte, pôde «ffimar««6 ifUe as 
¥«tritiaa ieCitttfO achariam fitai maia lemvvel^ 
do cftfe s% PhifKppiícffs de D^eáttÉenea. 

O pr<itiYid«l liii<iia ^ivfeAo ^raéler , e muito 
^eppoata or^sAça^ph^ci. Mègn) ;E>€ÍMiNtefk«ji^ 



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13 A HMIPAIW ; 

<t«an(}& o pungem os \olhos ^^iqoiHidaSfmtural^ 
m«iit& 8i»ni»in-se quaisi até^.á^nuc»;, e 06:beí- 
fofl delgados tornavam^e impereeptiveis ^ aor 
passot que. a pallidez u^ual d^tiota«a oon uma, 
odr térrea «e biliçça, que mettia medi9. Foi « 
que Ibe $uccedeu iieste lance : aomeiíte houve 
da maisiiin ^ymptoma nova; o «orriso lívido, fpi^ 
rara vez lhe visitou, os lábios , voHeava ooovulaa 
em redor da bocca parecido 6 conlra^^^ ner*^ 
losa > que. arregíBça o bei^o ddf fein , «e odo a 
uib solrrii« bunwDO. Mais iiritado do que o pa^ 
éreooR&sftor^ 'mmt(^ lotaisanoioso pov ivingaQça^ 
d& que 0;toi]!(surado Yitellio; só eapaz.de.esbra* 
vejar em acoe^jsos de i«offô|iaiva. lOV^vIuçâiOit a 
a<iperiar tinha. as palavra» dooes^ é as^mafl^iim 
pambosas» que toiniam mais odiefia a.atfoeí-n 
dade. Era uma crueldade fria, inexorável, e 
dissimulada, que antes de (erír .eakuliuirà todas 
as dores e tormentos que podia owMr. 

Beve&tido da suprema auctoridade em Ptirtu» 
gal,.e affeitoé servidão quasi abjecta doa infe- 
riores,. 0. prelado^ oom o rei da suafMirt^» po- 
dia tiiido no presente, e ^temia^se pouoô do. fo^ 
turo, que está nus ^rnSoa de Deus, Sentia menas 
a oíFensapessoal, do que a injuria, do seu go^ 
varoo. O que mais o feriu JSiMs.a audácia dofobs- 
euro jesuíta ; se nlo a i^firtaase a tempo » a sua 



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M 1>. JOXO V. i% 

iMga^)experièiieto'adv«rtt(i-fhè, que ttão «ra fircil 
antever líté énde podia <;liégar. I^etttdava kBo^ 
gai^ A tiasciença , ou abdicar ^ pocter ; nentrâma 
outra hypothesé éra admissível. i)e certo o pa- 
Are i^liano contava com o apoio de Ron^ ^ e 
nâo se expunha cegamente; mas de Ròtna a 
Portugal é longe ; e elle em sua casa e na* auá 
terra era senrlpre absoluto, Depois de salv^a sua 
tiifluencia responilería ao geral , e se nedessarió 
fosse com uma ordem regia na mio; o caso em 
defender-se a tempo , e suppla^tar a tempo um 
emulo, que n«i impenetrável politica da compa^ 
n^a nSo ^fs^n àlti seài mii$s9o ^secreta. Feitas 
esta» reflexões' arrn(ju-se de voirtadey e prepa* 
nm-sè para niostrm^ a todos* que tinha oèbombroft 
fortes para o peso^ qde podia cabir sobre el- 
tes. 

-^ « V. paternidade excedeu-se 1 » -^ disse ao 
italiano com a brandãrahypôcrita:-^ Sinto que 
se e^«fecesse Aé sèu logar, e nio respetlasse o meu^ 
Esperemps em Deus , que «sqa a «hima^vez ! Cot 
mo imiSo^ad^irto^doseu peidcado; como prelado 
sou «èrigada^ a- mais; diéfvo eoim*gitro^ Ficai sas* 
penso de 'Voto é exercicio por um anno. Diga a 
culpa ; eèít joelhos, antes de iie recolher ao 
careelre para irecordar ^os seus esorcicíos espiri- 
taae$i peça da joelhos perdoo na. pessioia do$ 



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H A jmciMJm 

fendeu com. a* c^lomiitii 4e ^m liithei^. -p 

O padre Ventura sorrí«-i;e .q crumra as bra* 
çoa, medindo o tyraBDele ewi a yúita, e fulmín 
napda^ com a serenidade da iwto. lia l^spoita 
que lhe deu» admirava a eiLtreiM doçura da 

— a Sabe ba q/unto anitos eo choro neita 
valle de lagrimasit e quantos boje mesmo conto 
de. noTÍciado e pix^fissJko ? >? 

^n-.<i Digita ciilpaf eb^deçaI»-*-^baM o 
padre 6d»aatiiQ arremettendo c^m impeto. 

^^ « Nio <e aga$te , padna mestre ^ heá dedt- 
ser as suas, aa minbai, e as culpas da todas 
dós; o tempo ebe^I Obn^re, porém* l^esibo 
setenta annos de idade ; e YÍsto esta rm^i^eta de 
escravo de Jesus Christo , ha quarenta e cinco 
pelo jnenos» Preguei na.GbíM e no ilupio; es- 
tive na America- e na índia ; de and^ doa tró- 
picos ^ e> também dn^ g^los do norte» sei pnr ex- 
periência 9 ifàQ os onbro; apa^ndam por noti- 
cia. .. . Fadepi (orno e seda ;, vi a: marte mais 
cmel uma9< po^am de vezes diante dea otbos. Os 
idolatias Majfam-in*e;M braseiro ; e a .miseriQor'* 
dia ile Deus ^aleUrme sen^pre.até h^.u . , » 
. —«Padre Ventura « era meiber~* gritou o 
prfelftào*^q«« noa obadecesae^^l Tiide isso pmva 



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WH? m. Mio ir. IS 

64 v^. ^uer ft fSit idade « a» sois peregrinaçd» ^ 
Alo. demm- ot.qufi^dâvta to, «niiita «pcpeneBcú 
e humildade*' Sêvà» ^&Mm^ lobrig^do a notart 
4bac ^confesse a. cfilpa ^ e fiiç^f peniteaeia delia ^ 
iwffque peeeouà v . 

T-^K Saberbos sio oa juiaes qos . senteoemMi 
^atra a lei -*— réptícou o padre Ventava cam mai 
gasto cbetò de magestasa tqdigiiação.-*r-SdbeiÍM; 
4a iiriqiie$»poj*<|ire tèeai: na bacea a= paz a na aor»- 
«ão ecrfio ; perversos^ poaqUe reaagam do/i^omi*- 
flo^e da palavra do mestre pii^a saoiaTem aaím^ 
fetos dfi vii^Qça. CuM^ ^u^ o renona é a ver^ 
4ade se oaiMi^ sa a aúi^ lÍAgaa ficar sileih- 
eioaaTlolga fua.^othés daa ««ptioi nãoaMMi 
a capado jesuíta,, a! pokre cafM da peaagriíiai» 
fKiatft por c^lla^ do manto caal í I^adrè provtneíai 
com a minha idade viu nunca a ovelha áaompi^ 
«nbair oop: o lóHao , «oqi a ave adarniepeir ao pé do 
fni^luifDeJ Paáae.Seiíaiítiao de liagalhftes, aiipp8| 
^queoa quarenta annoa de habito não enstiiâm a 
^sepaior o ti^ígo do}oío?« NâO' ae engonem. Sei ô 
j|iie dígo^; « pafsp'0 qoe-devo; nada mais! )» » 

-*<T«Nem lima palavra v padre Ventara! ok^ 
€limoa o^saparior^ oailondo finalaiiepta irarau. 
^do tenij» quelae afamo «bio aio afpalla?a n 

— «Cmo aiaDéascv paéra ^tiperíèr ! A jas^ 
tica .divinaxastíga niealí^rfèi ente 4^ n^Mo 



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étts fiecoadoí ; te nlo pmhi ó» hjrpecrila»^ espero 
qm nho puoirái o moradista por que 06 chama 
pela odiosa palavra i i|ue es deiígna ! » 

« — f*J)e íoelhp», diga acutp, obedeça^ ca... » 
— «( Manda-me pôr a mordaça na booca, come 
lés. o gcÉnd Tirso Gonçalves a qbi deftoidor aus- 
ierov-quenão quiz ouvir? «Di^nlfae que o desejr, 
«as oào -pôde. Esse padre , deve eoDÍieeelH> de 
nome, era Miguel AngebiTwnbunBÍ, hoje summe 
pmladodr companhia* Sabe o que soecedeii 
4'attt? Tirso (jonfalves pouco depoin morreu, e 
Miguel Angeb exaltado pela afihmta e pek re- 
^àaçdo sobíu i cadeira do defwicto per vote 
yilMime. Pocqtie só pude reger oa outros, qaem 
è capau de se vencer a si ! . • a 

r-^« É de mais ! £ em despreso da minha ao- 
eloridade?. .» 

. ^^ « Porque a tenbo superior ! Porqne posso 
precipítal-o do alto da soberba ! exclamoQ o pa- 
dre Ventura em voz imperiosa, e com gesto so« 
berano. Para ler nocoraçio do homem é preciso 
despilH) da mentira. Li no seu, padre provkieíaH 
cemo leio^ no de. todos tos que o ajudam a arrui- 
Mff a disciplina da companhia* Ora bem! Hn 
meia hora que lhe estou, ensinando o caminho , 
6 arredando os paaaoa do abismo*; mes està-es- 
effíptoque ecego fingirá vér, e será despenhada t 



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Be¥iá eoadoiP dàs minhas palaTlsa9(e iMo |lroK» 

^iie o logar e:ioede a sua perspicácia) ,.que Bestn 

idade; e com os quatro fotos ^ sabendo o ^go^ 

Terno e a regra do lustituto noihum infefíor 

falta ao prelado como eu fáUei sem auetoridade 

sufficiente ! Chegou o dia de acudir aò navio que 

perde o rumoi e de útst do leme o máu pik)tOt« 

Quero que a antiga divisa da companhia 4 o 

verbo de fogo do seu poder, o espirí lo da sua força, 

resplandeça aos dhos do mundo como nos. anti* 

g€» tempos. Á maior gloria de Deus I Ad majih' 

rem Dei gloriam ! Eis as lettras sagradas do te-^ 

nente de Deus na terra! Cumpra 1 De hoje em 

diante, neska casa, o g^fnl sou eu; ningutm 

mais tem poder aqui. Tal éa minha vontade! tf 

Dizendo isto^ tirava do seio um pergaminho 

revestido do sellodo geraH e lacrado com astuk 

ciaes d& teu annel. Este diploma era a. nomoa^ 

ção do padre Júlia Ventura para o ; carga; de vi-» 

sitador assistente nas provrnetas <de Hiapanhâ e 

Portagal, com direito de suprema decisíko sobre 

of negacioá^ e absoluta aoctoridade sobra os pre^ 

lados, devendo respeitar-«se as suas ordens tfia in-^ 

teíra e cabalmente coiHo se do próprio gerai fes^ 

sem emanados. > 

É imp(issivel descrever o estado, em que fi» 
cafam o confessor ,• o provimeial, e os accessoiea 

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iiaote th repestís» revelado. O medo^ o^ctuoe, 
c,a raiva , «m tod» o cabr que oa abrazava, sut* 
Wam-Ibe ao ro&tot e pintaFaiií^se dom \ÍYem. 
GadafrfiysiQnomia era líitia impreea^l eádageato 
«ma blasphemía iaciU eonira o poder inviskd, 
que os desterrata d^ governo pai^ a humildade 
da obediência. Edtretasto eta de diamante 
kiço qile 09 uma a Roma ; nem seqilet imagina-* 
ram rosifittr^ Os titoes TeiM$ldoa cait^aram com 
a montanba « antes de escalar ú Olymi». 

. DepoiA de lera provisão dn g^»U com a bocca 
cheia de fel 4 e de dar a todos conheeimenK^ 
delia f ú superior tiroti tim livro do seu iirmaM 
aeereto e i^iston o (atai diploma ; ea acceàMtei 
pallidos o túauiiksí assignaram com elle íe a rcH- 
voiucfio ficou ooDSummtda. De cabefá inclinada^ 
•Ibosiio châo^f e hrUços cabidos, esperavam ent 
riknoio ^ (fiAe a f ot ào novo pir^lade Ibei f^U 
tuisse a ferça e o movimento* 

Este pbservava^s catlado n sómeate a soa vista 
faUava por eile« quanda feria no imto.à. um^, ^ 
^oUa na passagem o máu pemameolo , q^ Ibe 
devorava o ooraçâo« O somse|) o sereno, e doce 
soBTÍso do antigo padne Ventura^ britcava^be 
outra ve2 nos lábios; e a luz redesiva e pea^. 
trante dos seus olbos realfava a finura da pbyiio^ 
nemia* Termina^ a leitv^a e ^ ragisto^ Ofáte? 



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M D. JOiO T. 19 

lifitio pediUf e recebeu todas as chaves ; qaebrou 
à petína doutada do ptelado para indicar a suspen- 
são áú seu governo; e a passos lentos mas 
firmes^ foi sentar-se na cadeira de espaldar cle- 
Irado thrôno 4 donde os reis da companhia inti^ 
mavam ás tndía^ e ás Américas , á metade do 
mundo conhecido , as suas leis e vontade omni^ 
potente ! 



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eAPITULO ZIV# 



EGCE SACBRDOS MAGHVSt 



Os defiAÍdoreg olhavam ung para os outros 
§em força de proferir a menor palavra. Não se 
ouvia senão a respiração mais ou menos alta das 
seis pessoas qae alli estavam reuqidas. Por fim 
o visitador assistente deixou cabir de súbito a 
vista cheia de severidade sobre o confessor d^et- 
rei , dirtgindo-lbe as primeiras palavras que di- 
zi4 depois da sua elevação ao supremo poder na 
jfwovincia de Portugal A proDuocia pausada 4 e 
a aceentuação estrangeira davam ainda mais força 
a eada syllaba e maior expressão a cada phrase. 
O tom em que fallou era firme sem ser altivo* 
frio aeni ser glacial. 

— d Padre Sebastião de Magalhães ! Não Ifaç 



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tS A MOaDADB 

ppreoe muito pezado o cargo de confessor d^ek 
r$3i de Portuga! ? Septe-se com animo para ar-» 
rostar ps perigos da grande batalha que está ^ 
fomper por ^stes dias? Qlhe bem! )> 

O infeliz theologo estava tão pe(|uepo , agora , 
fipesaf da corpolpncia, quanto costuin9va inohar-f 
se nos djas çaáiQsps 4^; feti ppder, Quvindo n 
pergunta dp m'à^ agouro abaixou ainda mais 09 
plhos , e encolheu-se todo n^ sua roqpeta sen^. 
abrir a boca. O visitador esperou um instante ^ 
p vendo que n&o respondia proseguiu : 

— (( Deus é que dispõe do coração dos prin-: 
cipes. Quem sabe que a salvação ou a ruína de 
milhões de hon^ens ^qiende delles, trenA» di| 
mponsabili^ade de os ^ingjiPt porque « cJuiye 
da consciência é a «have do covaçtpf dii^ rei& Pa-^ 
drè Magalhães, pondere isto ; e antps de respõn-^ 
der vejii bem sp pikle com a cfusc Q vpi Canelo 
prra tem iim juiz no ceu, que ii I)ei|s. Q isev. 
0onf6S8ot tm éoiSi o éo cea qup ^ a ioAnita áe^ 
meneia ; oiitro da terra, |tjgfxro9o na jintioa, qinè 
^ a companhia. Agora que p {^ilvek-tt ^ içi^nía^ 
Vne : « pirtá no caso de pes auxiitec étn^ ímda tfom ' 
mdlp ^ Porte ? Diz-np9 qoe o coraçSQ 4u i^i uBm 
varia em nepbqma circumstâiieia ? £m uima 'pli^ 
lavra segiira-nos o bom despacho de quMto m 
pedir a sMft^iqagpstade? p -^ 



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0B 1^ siA&b Y. £3 

Srooni os ^ikm isravados ntf ^pittslonoeitta do 
pobneíiYiteHío de roupeta, o -pádrè Ventura caU 
feu-flé;.d& repaote, deixaodchlhe 3t|9pensa sobÉo 
a • cabeça i}ina espada de dois games* O ceofes^ 
sor tinha só um gesto para rpvelár a prostraçii^ 
doontfDO; guando o temporal era forte, desça-* 
hiaiii^be as faoes Sobre as rosoas da segunda 
batba , ç iDetade da cara escondia-se .qo peito ^ 
em quMito os olhos do cdr incerta enviusavam 
a idfcta por cima do ensinado ventre , para ehe^ 
gar ao i^rbcntor ém <^^ punha <r alvo , e 
deatá pèsiçfto (perdo&-se-nos a onsadia) parecta-f 
se aó>fa(in*a6ho anmado levaotando o papo para 
samip o bieOé * 

Eotaíiadb entre as eunhas das fi*es ihtaes inter^ 
rogeçdes ^ padre ^confessor tinha mais vbntade de 
refvQscar^ as fauces com um :6opo de exoellent^ 
vinho « « era apreciador ; do que de m onterraf 
de todo com uma resposta imprudente e pi!ecipi^ 
tada, Preso por ter cão, e preso por iião o ter« 
era atroz em realidade! 

Depois de muito soísmar, julgou melhor sahit 
dle i áo que porem-no fora ; preferiu as hooraU 
do sacrificio á apupada de uma queda desastrosa; 
Suppoe que o queriam tirar da oôrte, e que de^ 
mtMrari-se mais um dia era o cumulo da temeria* 
dada. for isao levantairiò a cabeça cotA alguma 



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fif . A liOGIDftDB * 

energia', e fíNiendorse branco corna a cal Tira dea 
á luz, com fisiyel ddr, a reonncia formal dó seu 
ekiTado cargo* O visitador ou?io-o sorrindo , e 
beiigcando a oretha esquerda, gesto oom que ex-^ 
pressafa o maior grán de satisfaçfio. 
- «rrhr (c Em tempos ordinários aceitei o logar por 
obediência , disse o padre Sebastfto , expellindo 
cada palavra e esbrugando cada syllaba por entre 
os dentes, como se as letras lhe oortassem p eo-r 
ração. -«—As coisas mudaram, e nSo dev^ fiiter 
de mim melbov conceito do que os meus supera 
riofes. O coraçSo doa reis está na mio ée Deus, 
V. reverendissima o dfôse ! e acreseentarei , m 
cauda venenum — debaixo dos pés do homem os 
trabalhos. Perguntado, poia, se em tudo o que 
8è pedir haverá bom despacho, digo que nio sei ; 
ecomo alguém talvez mais-b&bil ouse responder 
que sim, resiguo o cargo nas mfios do prelado, e 
peço licença para viver felfi no meu antigo col-r 
ieglo de Évora. » 

Um suspiro involuntário ^ mas sincero , reve^ 
lott a peiía que o pobre jesuita sentia de ir ser 
felii. O visitador acariciou-o com a visto, amt-*^ 
ihou-o com o sorriso, e deixou o conduir na ín- 
tima persuasão de que a sege voltava sem Bile ao 
palãGto de Alcântara, lionde então residia D. Per- 
dro {L Depots, o italiano reeolheu-se mentid;>' 



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mente, ésdiíiott n hit da fisti/e firantiu 00 cm* 
toe da boca. 

-r^c Padre confessor -v^ disse por Hm olhando 

recto o firme para a victima — quk eKpertinen«- 

tal-o. Se me disaeise que sim oio podia servir a 

cobipandía, e era preciso liraI-*o dà corte. Noto 

i»ein o que ¥0& diifr. V.. paternidade (aqoi bà só 

irniAoa) tem errado, errado muito na sua ditoc^ 

$&o espi?itttaK Náo somoa jansenistas I À (orça de 

escrúpulos e de terrores moraes sei que fez de D; 

Pedro II um rei fraco , e incapas de pensamen- 

toê grandea; se Ronui lho disser uma coisa e nóa 

AQtra, eederá ao papa eom medo das oensuraa^i 

Bem vè o perigo que pôde haver. Reia que nto 

-servem para ai , ndo servem para os outros , e 

melhor é levar a pancada de um sceptro, do que 

estar alado ao Icáto de um paralytieo. Queremos 

reia que tenham vontade sua « e coração forte ; 

eusla a faiel«os nossos, bem sei, mas ficam maia 

aegmros. Não edifique em areia, se deseja dura»- 

çao. £rraram assim com o principe D. Theodo^ 

aiõ^ e eile morreu-inos snecombido! Padre Se- 

bastiio, acilda po mal em quanto i tempo ; Gon«- 

ibrte o auimo e esclareça a rasão d'el-rei... não 

de ipopente, popico a pouco. DeikoK) vèr petois 

«eus olhos algumas coi»|s; leve-o pela mão só 

metade do camiohp. A respeito da euría, iem^ 



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M « JKMlDâDSci 

farrjMiide que em ftoma só 4 f w núàHi^mm^k 
tramontanos. Com esta regra que lhe deti 4)»nfti^ 
lÉMiri a servir a Deus , a aKm ,. e A.c#mfMAhia 
ao ké«r de 4M>Qfe8sor... Tem al^ma .eâisa 9l^ 
ser?... Nao aceita 7»,.Talle'ae«i|e»9r. » 

— « Aoeilo , padre visitador.! ^i^^^^^rilau o.}»t 
mita mais co» o gesto, 4o qoe.voealineiite, tia 
engasgado em jidiila se adMiYa.--nAeeito hmIío* 
aes» . . a honra de ser útil & eoiíApaidiiA, Mas Và 
lovereadissifipia dâ^me veoia iMfa ivAadasoulpa?» 

-^uFallela 

-^ « A opioifto de Y« re«eretidi8siuia(]fei seni^ 
pre a minha ; até represeotei para Bona o anl 
<|ue podia «tgHirrse ! NiH) me ouvifam^ , ^ Eieh 
cutor passivo Qumpri as4irdeus; foi ^siymrQ.deU 
la$^ » 

Como se yé, o respeitarei thealago^ia i^susaii* 
tendo t e.n^uperaadk) aqueUa eioqueicia firme ^ 
que assentou eip cheio no sennio «evblnciaoa^ 
rio, meditado pelo iraoundo pràeuradbr ém à»^ 
asioicòs. 

; -^M Executou as ocdens^ bem aeij^t^ acudiu 
aevenamente o italiaiio *^. por : isso i^ é dâpMo 
e continua. ÂgCHra entende melhor como de¥6 
liaifertse ? Ainda bem ; estinio que o speu f oto sa 
conforme: prefiro >seropre a obediência lYísIuataK 
ria>: Mas sabe que uio chiaram a Bomâ «a 



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iMfreiMitaçitos, 4c fie faMa?? Ora JHp»! Pénfa^ 
«MM todos imito eom isso , -e v. ^tienidade mm 
à0 iffp» qiágwm. ^ ... jha avisos que dadds jl 
È^mpo Talam mUlii6es. Àh, fradreSetiasliftoi» a. 
^rtuna é muttô £aisa . • ;. YaJhaHooB Deua. ' Ai^ 
firmò-lha (|ae nãó iei d^ premio bastante (laca 
quem na oecaaito pro|iría &esie^ o qae- devia 
ter<4e {eito^ Emfini^» paeie^eía ! a 

Fallaado àsaífli o pá^ra Ventwa mostrvra 
tabia sinceridade t q^e o ieopfesáor de el*rei coi* 
fiieçòtt à acrediM»p qffe «Ao «alava tio mal coa| 
lelle , Gomo sappunha, 

C&QSBiavakiiHi^o 4p otnmipslo gmva; n^s 
fSlà tiodá prméi de fiie «aiata ifinioceirija nell». 
Eni /Mas as nêeiísídes delicadas eBcreyerà coni 
bm itibHnaçfta para Roma a pedira novaa w^ 
4ensç i^dialde porém, nlinoa recebeu raspaaka. 
Agora percebia a re^o, A respoâta faltava ; por 
que aa suas eosreapondencias erêm interceptadas 
INI peio menos mutiladas na celIa do prelado , o 
jutnioO) a qqeiti pelp 90» «ar^ oonipètia espe^ 
di-las ao geral. 

Cotti pavfidi^ fl^tad eaempio» o Sqperior « fign^ 
randorse amigo íntimo roubava^^lbo systemalica- 
mente o conceito e a ioftirencia om Roma , sup- 
firiímiidô y oq faiendo suas as iofommiçdes do 
icoiífessor. Cooliecida a traição, ateou-se de re^ 



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n A UKimkííM 

fénte 00 piit* do pid» Mmúíú «|tfrfb «£9 
intcofOt^ decidido, e eterno que se chama edi» 
de finde, m eãa tem. egiial no mondo* Oa olhea^ 
primeiro, o gesto depois, deolaranim ao falso 
emige a ruptura da antiga aiiiança e a goerm 
impiacarel que ia sufastitiii^a ; . pata a lingua 
áuDCciesfr foi preciso mais tempo } deoeneram 
alguns ^minutos antes do queixo inferior eahir 
iia sua posiçio natorid, desloeado p^ raiva ; e das 
idéas oonfundidas pela revelaçfto do visitador 
iMMentaaem, pennittindo qpaiqiieF inanifeslaçie 
vocal* 

Porfim , em quanto o provineial^ amarello de 
^idm parecia snmmk^se pelo chio abaixe, Mr 
iminade pelos coriseo* que dardejavam os olhos 
<b padro Sebastião , e pela sorriso cortante que 
4es lábios do pa<ke Ventiva lhe ia mordect fie 
ceraclo., o rubicundo e corpal^feo confessor reSr 
'pii««a cem mais gosto, e tomava melhor o pulso 
ás difficuldades que o cercavam. Resolvido a 
castigar immediatamente a n)á ié do superior , 
descarregando sobre elle a culpa,.. que Ibe impu-. 
4Bvam, 6 jesuita aindii convulso da comõçSo que 
sentira , exclamou 1 

"^^«fie o meu crime é a falta, que v. rever 
rendissitna nota, devojustificar-me • . . Acpii eslt 
<|aem viu eouYtu ler as informações. •• Âlli 



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C8tár'i égònlmeiíte , <(Qeni as reedmi dr midM 
mão , e approTOU em consellidt . ; Agora , aceor* 
so^me^ife sinápKcidade e neglrgéneia por não ei» 
cFerèt por duas vias t accnso a pmke superior da 
ter subtrahido^ oceuUado^ mutilado ^ não/si» 
qual , diversas informafOes que dei a tempo 4 « » 
È o tpie tenho a dizen n . . 

•*—« Quando' fòr occasilo eu ex|rfÍGarei 4 é * » 
^i-^ disse o provinèial derrotado. 

-^ « De cefto ! *^ atalhou o vÍ6Í(Étdor..-T«^I)a»e 
explicar. Pa^e eofife^sc» ^ fioo4he Cneodo ínais 
justiça; Socegue ; darer colita ao- GeraL Agora 
passemos aos negoetos de fân 9 .ás coisas: bIIml- 
mariíias. Padre Teller, eih que estado está o 
Japão 7' Perdmoa ou < ganhamlas muiias alans 
para jDeusf » • o ! r. ' : 

' «-^^a O Jàpto ato se eonutírte, mai^ridali » 
^-^ respondeu o acoessor interrogado. «•*»-« Todos 
os dias o nosso missionário , o nni<to (pie ninda 
lá téméSt' ríoi escreve pedindo que^ o dasd)»- 
giiem. . * . » : ( 

— «Do perigo de padecer pela fé? NSo.páda 
serí Qiiè n&o desanime'^ e tenha diaDtedos<>Uios 
o exemplo de S.-PraDcisco Xavier. . ..«O sol^ 
dado de "sentinella a um pasto deve iicar « ainda 
quet^ibá, ainda que <Ye}a que vae ^morrer; 4.4 . 
é o nosso caso; Pdh*e Tdies , sei o «que eslá nas 



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80 M MÓCmàVÈ 

tsèB JMpdifl, nko preetsa dmr nteis. Sei famblebl 
^e é amiga do missioDam^ que proeiíra tírat-o 
do Jap&o e dár«-lfae uma tfldeta m Aiheríca. Ora 
pèis! Os negócios y^ malf ponfiiè ^ zelo es^ 
fria. « . . Para outra vez demore menos a lisspoata; 
quem está longe, jà que nftò yé, preci^ mn 
?ir os superiores. ... A propósito ^ diga ao pa*^ 
dre Sihra (creio que é o seu nome) ^ que se cum- 
prir bem as ordens , será mudado par» a ètatr» 
ttégemi 4 . .Sé cumprir, percebo? Ab v padre 
8iiii8es oono vae a China? TrrtiaUMhte múto^ 
de certo ^ mas a seara nio amadnmse^ O qué 
nos di2 dé mais particular f » 

*-^<( Que fiio se tem posto os mèhs^ e por 
MO se (rtô adianta nada » r^replifiâil o jesuíta, 
cruzando a tista com o prelado. Qiia éb poupa 
em Gantlo, em Fekin , e náa prcnrindas, e que. 
se gasta de mm em outros paitea. fiif nfto com- 
prar-moa a tòlorBocia dos mandarioaf os déhtes 
do lobo nSo deíxani fugir o cordeir». Tudo se 
remedeia ^ menos o medo da morte em gente 
fraca. » 

-*-« Tem ivsSo.. Quando nio se iisnkifjí nfeo 
se colhe. Orar bem ^ Os bossos missionarjoa es^ 
queeem-^w mnílè dé que o alo ; e dás queremos 
apóstolos na Chifna e nio sapatcaa m índia. A 
cruz }á tem raízes fuadas liaqiaailaa partes ; o caso 



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OK 0. JOiO JT. ti 

exa fttanlBiAtqi. Agora sé dí ntto kbrífirciii^ ,p»« 
foifa caiift... 08 ^are» alti s&o. fiiialsi >e muito sqdi'^ 
to» a tentpóraes. ^ t ^ Deixe, cstanr, padm SímOi»'; 
hatemas d^ i^oidar da Cbtna ; as soas nàisèoê 
hão de floteseer. » . . Vejamos a Amenea/padm 
NubeB ! O qae trai o seu correio ? » . 

— -a Ha dois aiiQOS que peço providencias é 
Afio sott oiividoii-'^ respondeu o velho defiiii4ap 
com certo .desgosto.. Fax-se poueo ou nenkant 
easo ilas ordeas de Lisboa ; apesar do# capiudoà 
entram todos pelas aldeiaa e vexpm os^ ifldibs. . i 
Não 08 ensinam ^ maltratam-nos ; e toâo ^ ismfm* 
pio é tirar grandes cabedaes* ... . ii 

-»^ « Donde não os ha% É verdade l firta gante 
eiiida qiie o Mto nHo è sangue , e por uma ru-* 
pia arrilca e oorpe e a alma. Coâtinite. » 

-r^ « Depois oa últimos deer eto» de Roma des** 
agradaram. Gastasse muito 4^m ostontoções , -em 
t^nquetes ^ e .. iiâo se melhora mída. Tintiaoioa 
um enrgrahetrb a caualisar os rios e deapeáiram»^ 
no; As plantaçSes nao se cuidam; tudo é poueo 
para C^las e regalos. . » . » 

-**^ i< Não diga mais$ vejo que è sineero. Fal- 
la*-se na corte e em toda a pai*te da riqueaa do 
Aosae canimèrcio» De qué s^rre^que os outros 
saibam Sé nés cornos pobres m abastados? A 
caaa da Aieco rendeu oito mil jieaos íé^a .o ura^ 



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fl A ifOCWAl» 

lor dat mercadorias? Bem. Más JHnUlfltaraBY^ 
na a unt negociante de Gordo¥a« Valha-iiòs Dew I 
Eacarevil ao procitrador geral que desfaça o con-* 
tracto por todos os modos. Eu nfto quero que a 
mio dps estranhos tome o pezo ao nosso eofre, 
ou que os de fora vejam tanto como nós no in- 
terior do governo. Entende ? Sai as ordens que 
expediu para o Braztl. Beforme-as. O geral Tirso 
Goflçalvesy era hispanhol, levava tudo a ferro e 
hgf9i TosquíanHme as <HreIfaas muitos rente, pa- 
dre Nunes 4 e por um aítatel de )ã mais não 
4|iiero. perder a res/ Istd é figura. As aldeias dos 
Índios são nossas,. mas nolíssa é, também a ttrra^ 
e nem fút isso a esgotanios. . . ^ » 
, r-r« Ê exactamente o meu voto> padre Visi- 
tador. Representei o perigo de uma sublevaçio 
dos Índios , e mandanam-^me que obedecesse/ / . » 
-T-^ Mandaram mal 4 «stà claro* Se oM for- 
mos melhores do que os soldados, os. índios fo- 
gem de nós e vão para quem os chamar. Osael** 
vagens são cqmo as creanças querem lÉÍmo. 
Ganhámos aquelles territórios galmo a palme t 
com a cruz na mão, e o amor de Deus na hecca ; 
chegamos pela paz a ser mais fortes do que os 
castellos e os terços de el-rei. . . . Agora veaam- 
me , roubam-me os indios ? ! E se eUes se le- 
vantaram? Se os bispanhoes, ou ea franceies 



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Dt D. Jô^b V. 33 

vièrèfhí?''NS<y se apodet^aih dà colónia, e ti3o^ 
se mettem de dentro, e nâo' ficamos nós de 
fóra ? . ."■/. Esta gente nío vô nada f Padre Nu- 
nes é preciso que a ignorância se desbaste com 
patisà, com tento; ilem sabiòs que intendam 
de' thai^,'ti)Sth rústicos '(|ue saibam de menos. 
Os rebatihos tSo atraz do (iá^or i os homens nem 
sempre. Levém-hos pélòamòr; que o Bom fár- 
se-ha melhor , è do iniiàigo far-áe-ha um amigo. 
Lémbrem^se de que olíão, até o Hão, lambe 
as mãos que o curam : se o coraçSo dós Índios 
não fòr nossb ou ^tiyer com outrem , que é o 
mesmo , o governo da companhia dura poucos 
annos *riá América. Bepare nisto, e acautele! 
Ah; padre Sities^ tem susto da índia? Estamos 
em bloqueio ?'Nao ihiportá. Deus proverá. Falle. 
Sabe, e pôde dar 'boa conta. O que nos diz?» 

-^«'Qiie é mft qtiestao , padre visitador! A 
cttria insiste; os vigários apostólicos, francezes e 
italrános , segundo informam de Roma , breve- 
mente vao sahir para as igrejas do Oriente por 
nomeação da propaganda 

— « Para as apanharem de súbito ? Paliaram 
muito alto , padre Siiies , e por iáso verá que 
perdefm a partida. A batalha é perigosa , con- 
fesso, mas querendo Deus ha de ganhar-se. Deixe 
estar. Mandam á índia , á China*, ao Japão os 

T. II 3 

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34 4 HOGIBAD^ 



vigários aposUílicQS? ©em! Agora pf^ua^: ba 
pastor sem rebanho? Quem Ib^s d^r^ pp3^ ou 
os. seguirá, se nós não qvi^ermos? Não rede- 
ctiram nisto; pois valia 9 pena. Para governar 
não hasta a Yon^4<^^ é preciso o ^a^er; e eUe$ 
das missões nãp s^hçm n^. Yãq com 09 olhos 
tap^oa. . . . hão dg cabif f dígMho eM. d 

— « Éntrçtapto não ^çs^pijii^ni; » — «\cqdiu 
o accessor — rucontapi (\brigar os nossos mt^- 
sionarios a rçcQnhec^r a sua auctorida4^. J^^- 
lam dfis çeqsuras de Boms^ ...» 

— « Ou obrigarão, ou não, p^dre Sines. 
De longe tildo é m(ul. Depois engançim-se ; quem 
lhes diz a elles qye é lã , e não íom perto r que 
nos hão de encontrar? Boma, çqi b^Uas au- 
thenticas, qão reconheceu o padroado portu- 
guez? Pode expedir oqtras, oontradizendo^se 
em presença de temtos reis oiFendidos pçla i^ur- 
pação ? Nãp cr^Mi 1 Os vigários apostólicos não 
levam senão lurevc? cl^indestinoÃ. . . . Ora o, ver- 
dade é uma só. Se o papa disae em pubUco que 
as egrejas do Oriente eram de qi;iem as íundou, 
não pôde dizer em particular o contrario. Não 
defendenios senão a gloria e a boa fé do pontí- 
fice , se accusarmos de falsidade os breves , e de 
calumpiadores os vigários. ... Já percebe? Com 
o sceptro de el-rei D. Pedro fecha-se-lhes a en- 



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DB p. loÃo y. 3 o 

trada. . . . Aquellas egrejas da índia tem muito 
sangue portuguez nos cimentos , nSo se largam 
aflstm de graça. De mais, a propaganda quer a 
crue no Oriente ^ mas gosta delia encastoada em 

pedraria Um prego de oiro na roda , que a 

roda iia de parar. » 

«-^*E Dto deíxaiiioa nenhum padre de fora 
nas missões ? Pareee*flie que é o mais conve- 
niente desde já ? » — Insistiu o padre Nunes , 
olhando para o vifttador com a vista cheia de 
sagacidade» 

-^ « Nem am só , observa muito bem. Se lá 
entram , gostam ^ e ateimam. Prudência e sere- 
nidade ; não é preciso mais. Nada de nos exal- 
tarmos; nada de nós excedermos. O nosso es- 
cudb é el-rei de Portugal. Cubra-se a compa- 
nhia com elle , que o ndo ha melhor. ...» 

**-^it X% notícias de Roma ainda faliam mui- 
to. .. » 

— «Em quê?» 

— «N^uma reconciliação. Parece que o car- 
deal secretario insinuou, que a profiaganda não 
eslava longe de nomear os nossos missionários 
seua vigários apostdkos. » 

--*--« Sim? tannbem tenho idéas vagas disso. 
E entio ? se a propaganda o quer, que remédio ! 
Oínatitoto da companhia nao è absoluto; neste 



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36 A MOCIDADE 

caso manda obedecer. Seremos vigários apostóli- 
cos. Resistindo á nomeação dos padres de fóra 
das missDes defendemos dnrei de Portugal , se- 
nlipr natural. Aceitando a nomeação de Roma 
servimos o papa, senhor espiritual. Q.mais não 
é comnosco. Não é este o seu voto, padre Sines ? » 
— « Se V. reverendíssima permitte , (4)servo 
s6 que ficaremos mal olhados aqui, e talvez ex- 
postos. . . » 

— a É possivel. Mas ficaremos bem em Roma. 
Depois , tudo se acommoda ; neste mundo é as- 
sim. Cá diz-se que é melhor sermos nós, vas- 
sallos da coroa , e vassallos fieis, do que estran- 
geiros tirados das corporações religiosas sera raiz 
nem terra em Portugal. Lâ faz-se vakr o perigo, 
o sacrificio a que nos expomos por mera obe- 
diência. . . Ainda tem alguma duvida? t» 

— a Ainda ha o negócios dos quindenios, que 
em dinheiro vai muito , que em consideração 
vai tudo. £ os dois juntos parece impossível que 
se vençam. » 

— « Sepei^ados é que não se ganhavam. Optar 
entre dois males pelo menor é a verdadeira re- 
gra. Os quindenios não se pagam sem razão suf- 
ficiente. El-rei D. Pedro comprometteu a sua 
dignidade a nosso favor ; deste lado estamos se- 
guros. Agora veja bem ! E se o interesse maior 



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1)£ D. JOÃO V. 37 



I 



disser que se paguem? Não devemos perder o 
menos e salvar o mais 7 Por exemplo, se pagando 
nós os quiodenios, a propaganda nos fizer vigários 
apostólicos no oriente , não vale a pena ? » 

— V. reverendíssima de certo prevê todas as 
consequências ! » — exclamou o provincial, con- 
vulso e suíFocado de medo diante da audácia 
desta politica. 

— <x Pois não prevejo ! ? £ verdade ; ha de 
rebentar um temporal , em que sendo mau o pi- 
loto podia naufragar o baixel de Santo Ignacio 
nesta costa de Portugal , que não é pouco brava... 
às vezes. — Replicou o visitador sereno e risonho. 
Hão de estranhar , censurar , exterminar até al- 
gum de nós, o padre provincial por exemplo. 
Mas quid inde ? Â companhia ganha , e o indi- 
viduo perde. Isso o que prova é a necessidade de 
termos amigos, poderosos e muitos. Padre con- 
fessor , padre provincial , o que ha a este res- 
peito ? Contemos as forças antes da batalha. . . 
Quem rS) é por pós é contra nós. Estou ouvindo. » 

E encostando-se ao largo espaldar do seu 
throno sacerdotal, inclinou a face á mão, e ficou 
immovel. O superior e o padre Sebastião suspen- 
deram um instante a vista agressiva, que troca- 
vam , desde o principio da conferencia , para se 
consultarem sobre a resposta mais opportuna. 



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38 A BáOGIDADR 

Ambos tr^niam dos perigos , que iam correr, 
Irrigados a servir de instrumentos a uma po- 
litica, que nos seus cálculos sinuosos, jogava 
sem escrúpulo coro a coroa do rei e a tb^ra do 
papa , desarmando um pela mllo do outro. Nào 
i^gnoravam, que a cbolera de D. Pedfo II ,' es^ 
carnecido no seu poder, e ludibriado na sua bae 
fé , cahiria fulminante sobre os motores osteo^ 
sivos da companhia. Percebiam optimamente que 
os deixaram nos seus cargos para representarem 
o papel de bode emissário dos hebreus. A socie- 
dade impunha-Uies os seus peccados , e deimth 
vaH)S lapidar por quem quisesse. Entretanto obe- 
decer era o que lhes cumpria. O que valiam ou 
significavam elles diante do engrandecimento e 
gloria da companhia? 

Òs outros accessores estavam confundidos. De 
repente viam cahir das nuvens no meio do con- 
selho este homem, duas^ horas antes tão obscuro, 
que alguns nem o nome Ibe sabiam ; e achavam^ 
no senhor absoluto do poder na opulenta sack^ 
dade a que presidiam. Depois, ainda mal resta- 
belecidos do abalo da transfiguração^ repenUna , 
ouviam-no expor os negócios e propor as deei'- 
soes com a certeza dos factos, e a sciencia do 
mundo, que constitue o génio transcendente dos 
talentos governativos^! Élles os sábios, os e«pe- 



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DB B. 30kú T. 39 

rientes, approtados na paciente politica da com- 
patihfa, comparando-se ao visitador , eram obri- 
gando» a confessar , que via melhor , c Ha mais 
longe do que os seus olhos cançados de tantos 
annos de estudo ; eram forçados a reconhecer que 
era nma hora de exame e de analjse o novo pre 
lado adtaMára méis a resolução das dilBculdades 
do que todos ellea juhtos , e o geral de Roma 
nos uhimos vinte annos. 

Entretanto todos se viravam para os dois de- 
Bnidores rtfterpellados pelo visitador e liam no 
seu rosto nma derrota completa. O provincial 
priítfétro , e o padre Sd)astião logo depois « bal- 
bctehinmi erii phrases timidas, em explicações 
acanèadas , algumas desculpas sobre o desleixo 
qtte trnba havido em fortificar a companhia por 
meio de allianças firmes com os poderosos e com 
o povo. O quadro qvre traçaram nada tinha de 
risonho. Sem actividade nem discernimento go- 
saram as delicias do poder, adorniecendo com o 
canto da «ereia , sem fazerem caso do passado , 
vivéndb do presente , e de^acurando o futuro. Á 
medida que os ia ouvindo , o italiano carregava 
mafe sobre as duas profundas rugas frontaes , e 
tfpagava im lábios ò sorriso. Para o fim os que o 
observavam pasmaram da magestade que expri- 
mia o gesto e a phisiononiiar do visitador. Crés- 



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49 4 »of;i^^f>^ 

ceado m cadeira , deitando hm%s pelos olbos , 
não parecia um homem , mas uin Deus, quando 
alargando o braço , impoz silencio , e desatou a 
final em torrentes a indignação que UiQ trasbpr- 
dava da alma : , 

— « Basta ! ; — exclamou elle. O .pemjiameoto 
que nos fez grandes e nos deu um imi^rio em 
cada estado ^ perdeu-se ! Q ^pirito que vivia ein 
nós, fugiu ! Tirso Gonçalves, cçnsunwou-s^ a tua 
obra ! O orgulho e a riqueza jpaata^am a com- 
panhia. Padre provincial, a braços QOffí a maior 
íucta , diz-nos que dispoz tudo^ para se perder» e 
não previu nada p^ra se ganhais* , Depois ,de simi- 
Ihante confissão não ficam sem lúz.QS seus olhos 
e sem falia a sua lingua? Enterrou os talmtos, 
como o servo mau do evangelhp, e appareçe diante 
da face do Senhor sem ao menos se humilhar? 
Padre confessor, está a concluir. este, reinado,, 
porque D. Pedro II (já i^ão é segredo) uão vai 
â próxima campanha , vai para S. Vicente de 
Fora : o que preparou para a influencia da com- 
panhia na corte não ficar sepultada com o mo- 
narcha? O príncipe real ó n^Qç^, e generoso, é 
grande de animo , e maior de coração ; o que 
fez V. paternidade para que o filho, continu^isse a 
obra do pae? Os mancebo^ levam-^e pelo cora-, 
ção , que é o amor , e pela cabeça , que n^ sua 



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Dfi IX.' J0ÍO V. 4i 

idade' é a iauaginaçãOi-O que deu ao coração do 
princifie? Â:ríyalidade louca, ridícula, de seu 
irmão o ÍRÍaiite D. Francisco! O que oífereceu 
à sua imagioaçãp? A vaidade das armas, os duel^ 
hf^ nocturnos qu^ podem entretes* um úiestFe de 
esgrima, iças que iiBo oecupam meia hora a ca- 
b^ de um Eei! O: prineipiBíSÔBba com a>ma- 
gnigceneiã, adora a formosiirav e à!iníbicioQa the* 
SOUTOS, pprque deseja ^r genisreso; quer que o 
aupiem como komem e não como senhor, e niti- 
guem, nenhum, soube entrar na sua alma (que 
er^ tão focil), e apoderar-^e delia ! Pois este prín- 
cipe, que nào fizeram nosso amigo^ digo^lbo eú, 
é tiipído a acanhado, porque não se conhece; 
pi3i»ham-4he a coiâa na cabeça, e verão se mente 
ao âaiigue real., Preparem-se , que vão sentir o 
peso ao scei^ro de Luiz XIV ! Não odistíiaiam ; 
não ,0 entacem ;iOs turaços apaíxottados de nma 
La Yalliere, que o estremeça, e verão se olha 
fito para nós, e nos deix<a socegados reinar mais 
do «que elle nas índias; ser tudo e o rei quasi 
nada: na America! O príncipe quando se chamar 
D. João V mosltar o que éy e o que pôde ! Espe- 
reoi, que hão. de saber o> orgulho, .'B força ide 
vontade, e a goiadeza d'akna que doimem ainda, 
mas.depressa.acçirdarão no heixl€{ir.Q do t^MPono... )> 
— « V. reverendissíma não íginor&qnede Ro- 



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42 A UúGl9km 

ma w nos disse, qiie entretivessétlMs ^em^e a 
rivalidade do pdncipe com o ffifáAté... CoMMo aa 
casa real muitas veces os irmfio» ^gUndos teAi 
a reinar, jolgo que foi a rasão^ pcfi^e..< » 
' -M^« Então ?* paternidade ^6 qfnr ô infeiíle 
D. Francisco pede ser o Aflfonso III ^ cê o P^ 
dro II desta épi^7 Imagina que ú bistoria vífa 
é cbmo ft fioMáa de am livra qnie se dò6#tf d«iè 
se quer, e basta decorar^set Os filbos sumidos 
reinaram, quando vadiam maíís do que osl p^ímo^ 
genitoa : o lefto ó mais forte do que o lèbo pér- 
qoe é lefta. Esta mÁ politica' é que nos poê úo 
estado em qae nos vemoa; 9^m permita que s0ja 
ahida tempo de lhe aeadir f Vei^éfinos^ sé eú, es^ 
tr^ngeiro, penso melhor e posso mais dlo que pa- 
dres portogue^es e encaneí^tdod tia cdfte ! Teata- 
rei a fortuna ; e $e fòr felk apretfderllo eoiMigo 
a levar oa h^sMiaB peto eoraçSo. I^à^aenlosa ou- 
tro ponto. Depois do principe^ ha dois^ hometis 
que podem maito, parque merecem tud^r o 
marquèz das Minas, e Diogo áé Ifétidonça- C&í^^ 
te-Real. O prt^meiro é hoj^e o* nosfeo^ conde- de 
YAh Flor i a melhèr espada- de Pbt^tígal i o se- 
gundo' esoonde^e; mas aSo tem medo d^ se Míe- 
dít com os grainfitea mi^istroã^ da^ Eai^pa^ O qm 
fez a com{ia^iai pára os ter da saa parfeT Naêa^T 
nem obseqaiass nem louirores^ áetn serWçoir} Ao 



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UB ik. mAo V. 43 

pé d'el-rei o padre confesior nio se lembrou 
deites! Ê preciso que D; Pisdro IÍ escrev» ao 
marfuez um» carta do aea punho ; e que o hoíste 
com as suas gniças« Ainda é mais M^essaPiO que 
a inarqueza mha a qUéi» dete eitc» fnvoret, e a 
infliwfiieia que os alcançou. Convêm em todos od 
legares faaer boas auaen^ii» m Diogo de Metidont» , 
,eseiiiaíFcDtaQ9es meteis no rora^do prindpe. 
O cx)tiniHiD do uknifliar é tudo para af cdmpatihift ; 
ohegAmos á< miierw de não ter tà unv rélo nosso. 
FaREemos só inimigos! O conde Almtrainte, o 
conde da Vidigneír», tem-^os ódio ; vv. pater- 
nidades nllo se Imibfam de que efíe é descen- 
dente de Viasooi da 6sam, e qoe nó?, moutáftído 
o éabo da (Bea Espevanç» todos^ os annos i Mo 
podemos estar raajf oom os neloe de quem o do- 
bro» primeira? t Padre Sebastião, no consdbo 
ultranMiriDO estamos de menos, e n& conaetho de 
estiNia appwetemo» de mais. V. paternidade nii> 
devia minca entf ar ia. A fidalguia calla^^, po- 
rém murmura ; acredvie ; tiã<» ièe perdoa nem â^ 
companhia o arvejo de hombreav com ella. Joio 
FsaaiO' Oliva- queria na cúria e M9 congregações 
os jesuítas , mas sem roupetdv Tinfta rasae>. Ê 
melhor que noe sintem- sem nos tér. . . » 

— ^«'V, FCneveitdisBinM, dá lioetoça?» 

— «Diga 9 padre SdNurtii^. » 



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4*4 A ifOCODADE ' 

* 

•***-« Se entrei para o conselho de estado pedi 
vénia primeiro e recebi ordem expressa* Ente»- 
deraiii em Roma , que era bom ^ estar um de 
nós no centro da politica do estado* • . » 

-^ « Entenderam mal« Ora drga-me : dirigindo 

a consciência, do rei não descobre os segredos do 

seu coração ? Que necessidade ha de que os 

mais conheçam a sua iniluencia , se em particu- 

Ifiur, e com humildade, consegue o mesmo? Be- 

pare , padre Sebastião ; a com^nhift dere ser 

como a arvore ; as ramas que se vêem olham 

para o ceu; as raíxes, (e é onde está a força) 

como vão por baixo da terra, podem chegar 

mais longe. Benovararanse as antigas dísciMrdias 

com a inquisição? O que esperam dbto? P«rd^ 

tempo sem proveito. O padre Vieira aoctor do 

plano morreu ; os apiiros da guetra da súcçessão 

passaram ; esta de be}e é lima briga de creanças 

ao pé deita; os judeus não podem fazer-nos bem 

e pelo contrario fazem-Hos muito mal. Não nos 

cheguemos de mais ao lome, porque o lume 

queima. Precisamoa dos inquisidores como elles 

precisam de nós ; e quando se precisa « ha uaíão 

e nunca hostilidade. 

— « V. reverendíssima sabe, julgo eu, que 
nos provocaram. . . .estávamos em paz, e de 
caso deliberado fizeramrnos-^ et. injuria. ...» 



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DS ]>. J9A0 V. 4K 

-^ « De prender um.soeio nosso? Sei muito 
bem. Olhe^ o padre Vieira, que era o bomem 
que s^ , prend^am-no elles da mesma forma, 
e até o condemnaram ,. e nem por isso noá foi 
peior. Bastava. obrtgaI*os a ^soltar o nosso sócio. 
Uma lição pequena; uma correeç&o fraterna, 
como levaram agora, os dominicoa no desembargo 
do Peco. ... Âivpadre superior^ isto vae mal, 
vae pessimamente ! Temos uma cr-uz pesada , e 
não vejo o Cyrineu, que ba de ajudar a le- 
vantal-a. ... d 

— c( Assim mesmo ainda ha muita gentes . . » 
— insinuouv timidamente o si|iperior. 

— n Gente ba , mas devotos da companhia , 
homens nossos , que. é delles ? D'antes , para 
tudo havia servos de Christo; hoje, falkm, e 
não fazem nada; ora, palavras leva-as o venéo; 
as obres é que ficam. Soube-se noutro tempo 
mais do covação humano.; e desaprendemos cada 
dia ; que*é o peior. . . . Valha-me Deus ! Quando 
nos persegairam , appareceram os Jacques Cle- 
mentes, e os Ravaillac. . . . eram assassinos, pec- 
caram, de certo; mas sabiam morrer. Se a 
desgraça nos visitasse hoje , díga-nie , acha que 
alguém nos conhecia? Ora pois! Não ande ás, 
escuras , porque tropeça. Padre superior , quer 
saber a causa do mal ? Não ha zelo ; falta a fé. 



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46 » ÊL MOCIBABE 

A pafabola do ^o de noBtania é unia divina 
promessa do SalviKlor. i • esqueôemo-oos délla. . . 
é os montes cada Yez> sio mab altog diante de 
nésl Ai&ottxa<-«e mnito, descaida-ae tudo no 
ensino da mocidade , padre confessor, . , . n 

— Cf £ verdade , qne não vamos t2K> bem oono 
de antes; d -«^redarguia o superior t confuso da 
lucidez com que a vista do seu prelado chegava 
até ao fimdo das coisas mais recônditas^***» « mas 
trabalha-se.. As outras ordens religiosas por ema- 
lação não nos deixam , e ás vezes 

— fc Sabem mais do que nós , e oflhscamHOos, 
não é a verdade^ padre superior? x>-^ atalhe» 
Q jesuita com o seu sorriso frío-*^» Ahi está 
de que eu me queixo. Se elles andam, é que nós 
estamos parados , acredite. Se ensioar-^mos me- 
lhor e mais depressa, otheque os nfio vâo cha- 
mar & elles. Depois, já lh(& disse, sei tudo,. vi 
todo pelos, meus olhos; para isso vm tnes me*' 

zfis nesta easa Ora oiça , e medTte. Sabe 

como a companhia imdoQ esse impeario Ião grande, 
qne abre os braços por todo o mundo ? Quer 
que lhe diga como conquistou tanto sem exér- 
citos e sem generaes? Far viriude só da pala** 
yra de Deus! Os principes teem a espada; ma» 
a espada fere. Nó»fomos de joelhos, como Chfrísto, 
e levamos o amor e a eharidade áquellescpie^ 



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Di| i>. m9 y. 47 

^t^fM». a ferro e tpfô, . . 4 £Hf9s y^neerm 

a di^r^nfia ? liQmbre^ , que em Â^mft q9 Ce- 
ssões ps^apaaí) « ç o Me#^& fii^o^ ! Ê porqiAç 
u ^p^dil (^efer^-fo , a çQi^oa cabe , q rei . morre ; 
ma^ o eprac^o ^ a alma cio hwieHft $âQ aen^pre 
Q& in/a»ioQs., Se Mfoa geração aoaba » yen», ^ga 
outra «w-aj P (^ oasa to4p -.^ mmi sobre « que! 
está pçlQ íoa^r e. pela f$ ; # ter a 4^ Yom uas 
mãos pelo . efis^ipo e pela esperança* ... O filbo 
respeita o paif, o 4isqipM}o cr^ 00 EOestre. .... 
o a;km »ap Ç3^cepçQ(3S^ 

— « É o meu Yoto; é o que tenho (Jitoe: 
feita sempre » ! -^ acudiu o padre ^ba$tiaa de 
lyiag^lbdefi» com ar trij^mpbaute. 

. — <ii PqÍP dissQ iBuito bem^ padre jiiesU'e ! 
Desgraçadamente aâo p atenderam. . . . Por esta 
regra, pi^i^erám^s « e pela 4?^pre^^ Haveoios, 
de caJ^ir, . . . pwrque nàp Ha m^ grande, e fôffte 
qufi pom ^r eternat . < ». . ao m^n^ quc^ uao. 
seja iK>$ uqssos dias , qu^ vao vejam q$ uei^os 
olbfMf a r^U^? \ Copsotemea ^ afflic^ , ac«da-$e 
aios pobres, e resgatemos os capl^ivos. ;C4fi4a que; 
Je^us Ch,ri^ foi cham^ os ric<^ a os {elides 
para ediin^ãff' a sua egirej^? N$o vê, que lOS po- 
br^ eo^. humildes é que a (u^ida^ami tào se- 
gura que dezoito sequlos a uílO abalarauí : tào 



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48 A MOCIDADE 

grande que nha ha parle' do mando, aonde ^Mo 
tenha muita$ portas? O nos90'érro\ e oHie, que 
DOft ha de matar! ~*0' noíso erro tem dídé es- 
qwoer^mbs que somos ricos « nSo para desfriH 
ctar, mas para grangear. Seíizer^-mosbem ao 
proonmo, elle por força nHo feje de nós, Soje 
para nós. E se nos procurarem iodos, astarenu» 
sós ? Se iM quiwrem todos , somos fracos ? » 

-»<« Como já observei, )»«-* respondeu ocon- 
fessor de el-rei— -« da milha parte n&ò me te- 
nho descuidado. Sou íneansavel na corte. Os 
príncipes e os fidalgos não chamam outros mes- 
tres » 

— «A corte é pouco; a eorté só Mb é nada, 
padre Magalhães! » — atalhou o visitador severo" 
— O estado comp5e-se de clero, nobreza, e 
povo ; e repare que as duas classes São muito 
peio que representam , mas ao pé da ultima sSò 

quasi nada em numero IMga-rae: nSovê 

que o povo todos os dias sobe? £ se die subk- 
tanto que chegue ao lado da fidalguia e do clero? 
Acredite-me ; é preciso que todos nos oiçam e 
nos vejam ; se não tivermos o povo por exenctto 
e o rei por ministro , não temos senão apparen- 
cias ; e das coisas o que importa é a realidade. 
Accusam-nos , bem sei , de quereremos apagar 
a sciencia , e escurecer a rasão. Chamam^-nos 



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BE 0; #pia v« 49 

«imbio«0^&, áob«!bo^ , é' exclusivos. . . :. nSo oos 
ceilbQQfai^, -é Q que^é; faliam sem «aber.o que 
disem. lloif^^ía Mo de saber lEUes vivetfi c^ada 
um- Qm swea^^ quando muito no seu remo; 
n6» 'memmteahtUiài^ o mundo, ^e estamos em 
toda^ a>ipfaii$/ . ... Jutg^ que este .seculoé o se-^ 
culo«pa99^0f;iicií^m que tudo «ao bucólicas « ju- 
bilas , e .i^cções: de grafias ; esperem pelo tempo 
que.i» 1#iiipo<lbefr dirá o.que é. Estes reis e estes 
ministilo^.^ «padre: Sebastião, aiulSío cegos, e são 
muito peqjueuQS 9 niaí^i pequenos ainda do. que a 
t^rrd'9 ^e n^o .podem cond o peso. . . .Ateimam 
qiiatC^tà .tudoptiradorO ti^ vae a con^er! . . . 
£ep$fim; , nem. pensam, díeêm que o silencio é a 
consciência , e que a rasão humana pôde enc^r- 
cerarr^e: .>. ..icoitodosJ .Anibas ellas vão tSo de- 
prd668^, e e^tS^ijà tãQ\lon^.delle6.(e até de nós) 
que iSe <«£io dobr^moS: o passo pafa as acompa- 
nhar s<fi)gQiii-OK)S,perdemTTse no caminho, en- 
tmmr.a.4<ídçÍQr! que s3a creançaaç e. deitam por 
tenracO ^bom ero mau ,: o sagrado e o pfophaiio. 
A pklâspphia , que encetem tanto essa g^nte , 
as, ;&bulftS:^ as novellas»,! todas essas comedias e 
tragedia^ que açlaádMi ^ao maus ^jrmptomas. » . 
doixem /correr os annos-- Oi hao de a^barrlhe a 
gostQwf. . . mas a comfiBúQhia é que atravessa tudo, 
fóttras. erg^eciip ! O^^l&lNós sabemos, e elles 
T. n. 4 

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nfk>. Conheeendo o mal, ^?eiidò o perigo, 
podiatnos dv « mão ao {irogrMo« ({«efemoego, 
para eAlo sé tido proeipítar do fepOHto. ..«.«- 
úm id^ei a cnt , quo é o €Í¥ÍKsoçÍO , Éã» ¥1- 
cilasto, e<^ throno, qsnd é » cadetiH tido «lAiMe. . . 
Quando noi perderem dièert^ se vhM meliior 
do que nós) A rasâo humano^ ba dê ievanlpir-se 
coptra elles , e não a (ImirdieneB ; e opr^reaso, 
perdido, e cego, ha de pa8Bar4lkea fop cima 
do éorpo, deixando-os no chSo, picados, e 
mortos. . . . Padre pro? ineial , aúida hte de oho- 
rar por imís até os inimigos ; digo os íninâgos 
porque eedo ou tarde o^ nossos iiiimigos lAo de 
ser os reis e 0$ minictro». Deíxâl-<)s! Elles 
aprenderão A soa custa, n 

Unto lagrima apontou aos olhos desto bomom, 
que lia com tanta sagacidade no fsfturo as-Mbos 
ainda enn^aèis da historia» A voz, feremia e 
yibrava com as intima» oonmioçSe» dà aitna. •— 
Expondo a tbeoria, a^Mlas, mii$ lotfièa da 
politica jesiiitka; fundando nío amor eenatidade 
poder temporal , a monarofcia uttifferaal , a 
que aspirou sempre a famosa eompanbia , eujo 
sócio €^ , olhava com saudade para ^ pásaado , 
eom trísteia para presente , e com terror para 
o futuro. O enigma sòeíM (A ^i^tlo' preoeupafa 
as intelUgenciasextraordinâtías. No pritioipíodo 



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msaXú XVlII j6 íA^mn tremia de encòntt^^ 
diante (fe ái^ t«i^tiYithttietite ^ <ésda forQo latente, 
invévieivel^ qii6 i^velAda ^ etpfosSo, toitiou 
t^dirpo « flírma nds atas 4e liictá éa t^volui^ão 
rrabóei:^. O jesuíta ainda eria nò poder da w- 
ctoridade para suster ou desviar a tor^ate ; ainda 
imagitiata«, que depois ^ imprensa, e diante 
de Voltaire 4 nega^ atrojáda, elegante, t 
earopea de todas tíê crenças , era posUiVel d(- 
cet m Sòl qa« pafadM , e á luz que brilhasse me- 
nos 1 . w 

Entretanto as sua^ palavra^ ^hiam tahto do 
tx)ràçao, e pintavam com tàntà verdade, que os 
accessores^ confusos^ atterradoB, e mais exacto, 
deslumbrados 4 do clár&o desta immeiísa intelK- 
geiídia^ que vin^ sabia ^ e previa tudo, nào ou- 
^vam tiem descer ao fundo d^alma para se in- 
tettogarem Acerca delia. O visitador desde esta 
conferencia oc<^upou de direito o ^ummo poder. 
Estavam tio lottge delle todoá, que a inveja 
mesmo tí&ò efa possível ^ ficata-lhe multo alto. 
Etoltados pelo etempío e pela energia de «m gé- 
nio di^inctov o setttimenté único, (jue se apossou 
delias^ fai o desejo de se moM;iHirem dign6s de o 
avxiUar na escabrosa feconstrucçílo da influencia 
da éom^tihia. O padre Yentnhi ^ satisfeito deste 
pensamanta, qne estdva no rosto e m> coração 



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52 A MOOiDADE 

dos seus executores, despedi-ros, ^^eodó-lhes 
com agrado algumas phrases lísoQgeiras; 

Quando ia a sabir o padre ^Simões , que era 
o ultimo , o visitíiidoir deteve-o pelo braço ,. e es- 
fregando depois as mãos^ disse como seu pla> 
eido sorriso: 

— «Então, padre Sinoí^s, não lh'o dizia eu? 
Deposemos os, soberbos : agora vamos exaltar os 
humildes ! Estas lições . não cabem . no chão. 
Veja , exami ne , e avise-me de tudo* como até 
aqui. . . Tem feito á companhia e ao geral maior 
serviço ^ do que imagio^. » , 

E apertàndo-lhe a mão deixou-o saUir. È iau- 
til acrescentar que ás informações deste confi- 
dente perspicaz, e ignorado dos mais. aecessores, 
eram devidas as idéas exactas e o conhecimento 
profundo e minucioso dos factos, que habilita- 
ram a capacidade extraordinária do visitador a 
ser mais sábio e mais pratico em cada negpcio 
do que o defínitorio, encanecido no estudo e 
meditação das diifficuldades do governo. 

Apenas se viu de todo só o padre Ventura dea 
duas voltas á chave e fechou-se. na secretaria. 
Depois foi direito a um arn^ario secreto sumido 
n^um recôncavo da parede ; tocou a mola., fez 
saltar a gaveta, e tirou delia. um cofre, pequeno 
folheado de tartaruga com frizos de oiro embu- 



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DE D. JOÃO V. S3 

tidos. Dentro do cofre estavam só dois maços de 
cartas , cuja leitura o preocupou tanto , que a 
sineta repicou duas vezes , chamando ao refeitó- 
rio , sem elle sequer levantar a cabeça , apertada 
entre as palmas da mão , em quanto os cotovel- 
los se firmavam sobre a mesa. Um sorriso mais 
agradável do que irónico, uma expressão mais 
curiosa do que sagaz , acompanhava os inciden- 
tes da leitura. Finda ella o italiano tirou duas 
cartas do primeiro maço e metteu-as no bolço do 
peito ; e repondo tndo no seu logar , dirigiu-se 
à porta 9 que abriu , em quanto dizia a meia voz, 
fatiando comsigo mesmo : 

— « Veremos se este papel faz o milagre !. . . 
Este homem, dizem elles , que é nosso inimigo ? 
Pois sim, será ; e se dentro de quinze dias, por 
empenho nosso, o fizermos primeiro ministro?... 
EsiSi gente não sabe que só o Salvador era capaz 
de resistir levado ã montanha da ambição. O 
tempo a ensinará. » 

A quem se referia o jesuita? 

Brevemente elle mesmo dirá. Escusado é, por 
tanto , sermos indiscretos. Por muito correr não 
se chega primeiro. 



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CAPITULO XV. 



UMA SERVA DE DEUS ! 



Agora , pddindo Ikenç* a um amigo wm^^ 
eoAraremós na sua cbonfvana , como dieiam em 
estilo pastoril na epocba deâta hmií verídica hts^ 
tona. O honrado lliomé das Chagas desapp«re* 
cett ha tdnpo, e 6 preeiso sabermos noticias 
suas. TeDH» sido ingratos esquecendo^nos de o 
procurar ; mas elle fino , como um coral ^ não 
pede ter deixado de fezer-^se uttl ^ sobre tudo a 
si. Deve esttf oocupodo. Vamo^ vér. 

A escolha das posições faz o general ;.e o noss^ 
amigo saiiiar estai regra ^* como sabia a casbistiea 
do padhei Baimiy ,. o mnitaB coisas mm^ O Eaeas 
de Évora, salvando os penates, e .chaniande 
tempo depoiSr eoimo aua fid €ireiisa'i ar vrrUiosa 



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g6 A MOCIDADE 

Perpetua das Dores de Maria Santíssima , tinha 
farejado o sitio mais commodo de Lisboa , para 
assentar um acampamento. Depois de boas infor- 
mações e attendidas as leis da hygiene , da tác- 
tica, e da liberdade de industria, optou pelo 
becco do Manquinho , posição estimável a todos 
os respeitos. 

O becco do Manquinho era, no anno de 
1706 , e continuou a ser até ao terremoto de 
1755 , uma espécie de corredor enviusado , es- 
curo, ladeirento e^ lodoso, cheio de cotovellos 
como os pés do devoto , esbeiçado de paredões , 
e de barracas arruinadas , como o vestido mila- 
groso do Bertholdo Seraphico. Este logradouro 
dos amigos da obscuridade , que de longe m»is 
parecia um cano de despejo , do que uma rua 
habitável, tinha nove palmos de «lal-gb^ e ses- 
senta de comprido , na segunda v<M(li ^que^ fazia 
para enteslar com o largo doa Escudeiros. A 
estas consoladoros proporções juntada ai «dm uma 
->eberta em forma de boeca de gavpafáo ^ à qual 
sabia para a Âlfurja, oatra víelki torcida , na 
largura de sete palmos, até ao becco dos /Na- 
morados, nome vaidoso, que o lamacènto^e es- 
guio passadiço devia tx'Oear pelo afppéUiob mais 
verídico de becco dos Ladrões. . f ' : 

Á vista da exactitóima desorípç^Sies q*e>i^»ba 



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de -se lèr , íivaàa .dos moniuiientos da epocha^ 
poQco resta a /acrescentar. Em dia de dílig^a^ 
cias da justiça ^m itectoa das èarracas , coroa* 
das de trap^FinUas. afuniladas^ poáiamiatoir.laQii 
escapatória aos : morcego».' e^ abutres deste bairro ; 
e ds mais delicados de tionscienèi^^ e por isso 
menos promptos eipi -evitar o contacto dos bder- 
guina 9 se okòvia^.não .qiterendo safair de ema 
o(mi agua até aio joelho, preferiam atravessar 
uma taboa oomot^p^ile , da janella para janella, 
em toda a largu|:a.do becco, o qufe lhes f^opor- 
cionava a commodidade de visitarem os seus ami- 
gos, viajando, aeriam^ote sem. passaroUa. Deus 
noS' i livre de maiis pensamentos ! Slas estas en- 
cruailbadas V feitas de^. propósito oomo^ tocasse 
sapos , não se pareciam mal com uma caverna 
de* trataittes ,> admittida mesmo a virtude e amor 
do proximoi do principal locatário , o sr. Tho- 
mé das' Chagas. O cortiço estava cheio de vesr 
pas , eomo é de suppor ; > e as vespas usam de 
(erpão ; qualquer, dos moradores etn 'perigo , fu^ 
gittdo; pelos telhados, e sdyiaado aos tenebrosos 
desaguadoiros, podia faotlmentâ deixar a justiça 
parva no meio da^ mms bem conoebidas evolu* 
çftea.^ 

O sr. Thoihé das Chè^gas. vivia com certo eon*- 
chego.^ Quer fosse herdeiro do velhaco Onofre 



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è^ A imciBAnE 

Crespo, quer tivesse acfaad» tfaesoufoeacoBdklb 
âebaiiib€^ d» pedra da chamÍBé, a Teidade é.<|iie 
se tractef a ás mil maravillas para um viilfio 
ruim. Todas as peqweoaB eónaolaçdea, com «pie 
um devoto corrige nos dias gordos a magnsza 
do fameítcalelmn, estavam en&xAaám m disr 
pensa em gdosoo eaobos do paios e chouríçes, 
ou em didettosas K&bas de garrafiss de geaoino 
e madofo vinho. Fiel à raodeala fortuoc do seu 
pupítto, a tia Perpetua deseontavit oito bons 
por dta nos lidas da saivaçio^ pasa tractarda 
cosinha e da roupa dO' sr. Tbomé r e resnuo- 
ga«do o se» padre nosso , ou esbrugando o seu 
rosarí<^, ponfaa toda a caso bonita e cbeinsa 
como um palmito. D^em a tenka^ em gkariat ^ 
tia Perpetua! 

NoVdi», em que estamos , um acto de r^- 
boNião- inaudtl» acabava d» se consimniar eo^ 
tra os^ moradores dk) beeco do Ittanquínho, fe- 
ridos no» socvatíssimosr diroitos. de caminb^e 
passagemi A barraca doi sr. Tbooié das Chag^^ 
Ibrmav» uat do» inmmieKavm cotcnaeHos do csr- 
rodor ^ aonde braço dot pouoo» opolentoi mestre 
de otnras a Irauitára. & dUa èeacaiçii fasia* «ibs 
cova grande entre ella e os três casebres aiuda 
mais eaéocosi^; que Ibe fioavami defironte ;- s^o 
o do mei» » tenda , » espelunca db âiitoo baif- 



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Disn, 4^àQ V. 69 

risia» QOfead» do&iiiHMnsesci^eis loire» da estilo, 
rortifíead» c^m as gloviomis barricas^ cpie o €od- 
shbkho tirav» ào^ porio e «mpmmMra paia a parta. 
Á esqperè^ habitava vm vat^nvw) tíígs»^ anwkK 
tado t e pro^so a viii^r « pergmça da nnlete 
cono oa saltei ittortaes doa» dbdas. Na direita vi*- 
via o. sineiro da j^cbía , entre oa flates kiste- 
rieoa^ a m mwmuracfca eteriuift de três beata» 
velhas, que eram a cauda da serpente, cuia 
cabaça ven^Ma» afppavecâa na beoco dos Nano- 
radoa, qiiartel^^&aral daa gatimoa da cidade èt 
Lisboa^ e mvk faftigtch 

Ei^an siat^ bor«s dia manfeS f^ aiiida< não o se* 
rianr viesm^ ;. eomeçana a aailirai! o dia ; e uan 
chwíeiro teimoso , puthado |elò vante»,, açoiteia 
as jandlas , eom vidraoas de papal de cantodifta^ 
quando o illustre vetenso^atãriíi ft poit», ttgfmmr 
toroli e pé sadio,, e a perva: vádida: fera do ^u 
tegudo. S^ndo ar sw betta esipressilo, ia> faier 
ai consoada à tenda d<k tía^Br»,. cam dais %es 
pasaadoft e ma dósei stapeitaiirel de agoeraedenle^ 
pM'<9 eviuigair asf buowiMes do< eateoaago ^ e* le^ 
hahÂbtai^ o sjrstdiiift narrauK Be sepctite o f^ 
rioso monumentcl^ dat gitarsa òd snonfisa» ik» 
um gritoit e esi^peotofCM nraa Uasfenria ^ a que > 
respondeu , nsya^^iei ecb» , roas à iminansa^ boooa 
dcvJtwpradQ teqdhíro 9 que/ d» aito degraa áà sua 



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60 A MOdBÁBE 

porta, e sepultado «té ás or^lbasem um agudo 
carapuço de lã , amaldiçoava em phrase clara e 
voz ialfelligivel a causa dos seus males. Ao duetto 
dos dois bftíxos associou-se pouco depois o* tenor 
do siaeíro^ e o sopraBo e tiple das beatas , cujas 
coifes e cupeHos mal assentes tremiam com a 
raiva do areópago fèoiiniDO , fflitlbado^diante dos 
degra«K^ de punho fechado, e olhos scintillan- 
tes. 

Qual era- o motivo , que provocava esta elo- 
quência no becco do Manquinho ? Qiiem desa- 
fiava a ira guinchadora das matronas ; a faria 
pausada do mercieiro, e a cholérá militar, e 
qmsi: episcopal, do soldado e do- siMiH6? O 
roais exiguo< e desj^resivel ente ! Utn galopim, 
de oito. B nove amios! Olhemos para- a rua e 
adiaremos 0^ corpo de delicto. 

A cova entre a casa do sr. Thomé, e as três 
barracas tinharanse convertido^ em lago , graças 
à seíencia hjidreuliea do gaiato já citado, o qual 
muito senhor de. si, e a coberto da vingança dos 
inimigos, apparecia a cavallo em um barril pe- 
queao, talvez empalmado á tenda. Um caHãxo 
de papel pardo còroava-lhe a cabeça; uma canna 
de enxqtar peros servia^lhe de sceptro. Ta- 
pando as saídas á agua da chuva que fõtà co- 
piosa itoda a nottte, o velliaco alagftra o beceo, 



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08.0. Mio V. 6á 

guasi até ,à entrada: d/a^^Alfiiija, e feaíatia iofiar 
^ido. á; execr^íãO: das \mU$ , da tia .Perpetua , 
e 4^ todQ^.o^fi»oi:ador^&» cço^emuados a^^^f um 
I^sdtio ^ barrigas das pe^nas^ Gaao.,t^t«ssQm a 
tQDiciridade de^ sair da porta. 

Em virtude deste grave, acoBteeiai^o yjiaAih 
se^.^ pojs, em aç,ç3o.bellÍQa,,^ velbas ^e^reahii'- 
das e alvoroçadas como jtffuxas ; e, jio t^eip p tèfir 
deiro teito Júpiter statpr^ e Icun^atâ^ndo o h^r- 
ríl dçitado ,ao .lago , . e>o si^o de p^pel pardo 
convertido em elmo impçríal. Ãb ling^as das ma- 
tronA$r afiadas pela raiva, esquartejavam a som- 
bra do rapaz ; a i^uleta do. soldado juravarJíie per- 
les os^os^ e a.jSíai^}ia do verd^egi^o^negoiE^i^Rtede 
quartilhos ajtcoava o céu e a terra... \No meio do 
alarido o gar^to.ría,.patiah4ivae assobiava <^mum 
desplante capaz dç enfureceria propm;pacienpia; 

Entretanto, .vendo o veterano arriscar o sea 
único pé, o no$so amigo, saltou como um foguete 
de cima. do buqephaljo de pâu, e rolounlhV di- 
reito á canella quando. estaya cortao^Q as, ^guas 
eqm serena precauçSo. O Marte do Manquinbo, 
em perigo flagrante, esqueceu a fraqueza dos alin 
cerces, perdeu o. equilíbrio e a muleta, e cabiu 
de costas no pântano artificial no meio dos cla- 
mores do tendeirp, qne apanhou de rosto a chuva 
poucQ. odorífera qu^ espirrou do baque do sol- 



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62 A M<ICI0AW 

4dfo. fititrelaMa HO rapaz mi^oís p\Ao^ mdleir- 
se na Alfurja, e d'atkt*«VitrM no heccó úús Na- 
morados dando tímàas que ounitim tnnito tempo 
eom «tleneioni indignaçSo, e geatos ftiiibmidos, 
as victímas lodibríÀdafs. N^ mom^ento cttttco a 
tia Perpetm foi eonsbtin^dft a suspender a Ver- 
fina que pronuncíafYa cmtm a depratada moci- 
dade, acudindo á vok do sr. Tbomé das Chaga!?, 
que a chamara. Pouco depois fechou a soa praia, 
deixando oa aHíados em murmurado, entnsgues 
á mofina sorte que « perseguia. 

A figora do nobre andador das almas em ha- 
bitoB menores faria estalar de riso nm bonzo, qae 
é o symbolo da gravidade. Em vet da capoeira 
de crinas e «stopa roça que na rua lhe servia 
de peruca , o devoto trazia &s cabritas, empolei- 
rada na alterosa nuca, uma coifa de mulher, cu- 
jos folhos sujos e amarrotados cabiam d^ambos 
os lados até ao pescoço como orelhas asininas. 
A esguia canella com a traçada meia bicolor 
eheia de pontos, e o enorme pè de sete cotovel- 
loi acalcanhando as chineHas largas como fahias, 
davam-lhe exolka apparwicta. Em mangas de ca- 
ihisa , o puido Calção , e ^ babadouro *esgaio 
todo franzido em roda, torítafvam-*no a pubKca- 
fiírma de um barbeiro de entremez. Thomé das 
Chagas acabava de fechar O' sobscrípto de um 



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DB^». Mio t. 63 

maço de {^àpé»; « qiMiiâo a tia Pei^tua entrou 
na casa de jantar, siispeiidià ae peito o relicário 
com i> ^MofMie cflflar de eamandnlaA. Os elhitos 
eirritBadea do Hiilagreíre ^taramnie na^ beata , e 
06 dedos tortos e pardos coçaram a nnea , gesto 
niiifto ftsual ; ao mesmo tempo exclamava : 

— « Torno a dizep4ho : isto é obra dos meus 
inimigos rel^iosos ! » 

— « Anjo brato do men divino Jesus ! — 
ffcnditt a sn P^petua persignando-se, e lagri* 
mejando. — Qaem «os hn de querer mal, filbo 
da mínlia abna? ]>eixa-«te dessas tfiMfmM (que- 
ria dizer iHidMJmeusanctinho. . . Aquilio 6 idéa 
da Tfbora maldicta dotapact Deus o tolha de 
pés e mSes. Nosso Senhor me penioe ! » 

— txCharidade, tia Perpetua, mais chari- 
dade ! " — exclamou o sanUro eom soberana digni^ 
dade. — Está eseripto tia sagrada paginas Nao 
desejarás o mal do^ten próximo, n 

-^« Uma paretesia o seque ao aborto do in- 
ferno, e à boa refe da mai ; que rtve ootno um 
brutinho, fora da' lei de Cbristo. . . Arreda-to 
tentação do demónio. N9o que elle se não ^, pa- 
rece mesmo o Ante-Christo r sabbado de Nos^ 
Senhora é hoje. .» E lascarino? Ai e Jesus! 
Hontem se me descuido nõo lambia aqueHe ba- 
zeHsco oespecione ào nbsfjo tmimiTf Saffâ^! com 



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6Í é WHmAièE^ 

o demónio; emif^^Q^e Ore^do ^lll^^(^cll>.mor- 
taU. • . Âye Jtlaria, çbim.à^gt^f^. . .n 

Coroaitdo a inaledi/^poeia í^/mAi^Víífih ia |tia 
Parpatua , acaiiipaiifei(Hi-^; d^. Xm « m^swas . i^ 
alto abaiw â imugem. da sW^ora.idas .Djartes^. 
posta eq^ c^mp de lupaibaoquf^rcomsua .t^ár: 
lha deiqlhos muito. lavados. ,<;. <. ... '{ . 

 beata carregava com mais d^ 3^$eDta aa-^ 
nos; e er^ baisca^: corcovada, e magrissima* Uma 
bocca sorvida, d'onde .serratirav^m >os dentes 
em debandada.; çlhpg .p^qtt€^<^, ,d)otoadQS. de. 
marroquim, viúvos de.,pesli8Miiis.e apresiU^^dos 
nos cantos, eomo o)faQ$ de fiHmti; pêUe çoi; de 
cqbre, quasi viscosa cqiqo ^pelle^d^ si^pent^:jim 
nariz adunco d^ bico. de, p^iptagaio; "e uma barba 
revirada, d^vam-lhe inquestionável .direito a rei- 
vindicar a. belleza picara da famosa dama Leo- 
nai^a, que Deus tem. Vestia uma tupica sem 
cauda, talhada em ÍQrma 4&ihabito, ;Com o ine- 
vitável çapello escuro, framido, e affçgado á 
roda do pescoço, que subia, jnleriçâdo e eteq^o, 
com um feixe de cDidoT^ias- tesas , sustentan^ 
no cimo a cabeça, proporcipualmente pequena 
de mais, do mewo modo que ivn poste suporta 
ama lanterna. ,; 

Quaodp sorria,' o amarello riso desta, bocca 
sem deites fugia, como um reptil, por cima dos 



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DB D. JÍOAO V. 6S 

beiço» delgados, palHdos e sumidos ; quando se 
if ava, a iuz baça dos olhos , encovaudo-se, pare- 
cia accesa dentro das (»-bitas yasías de uma ca- 
Teira. O formidável rosário pendia do cinto de 
couro e chegava qoasi aos pés. Um registo da 
Senhora das Dores, com as sete espadas dis- 
postas em forma de rosa dos ventos , via-se co- 
sido sobre o lado esquerdo do peito. Por baixo 
da tjiínca percebia-se o cilicio de propósito mal 
occulto ; e de uma algibeira sahia como por des- 
cuido o cabo das disciplinas. 

Para maior mortificação, ás sextas feiras o 
seu travesseiro era uma caveira , e a sua cama 
as taboas duras da casa. A par disto uma lingua 
viperina, o caracter mais enredador, e a cons- 
ciência tão curtida no erro, que era de todo 
insensivelao remorso. Tal era a virtuosa Perpe- 
tua, comadre de três sacristães , e auctora de 
singulares remédios contra sciáticas e sesôes. A 
sua avareza igualava a hypocrisia com que ado- 
rava a Deus na própria acçfto do peccado, que 
elle mais condemna. A única boa qualidade, que 
se lhe conhecia era uma aÉFeiçSo verdadeiramente 
maternal pelo sr. Thomé das Chagas , que para 
ella reunia todas as prendas imagináveis, desde 
a formosura de um Adónis até á sabedoria de 
um Sócrates. ^ 

5 



T. n. 



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66 A liOGIDADB 

O milagreiro' passeiam pela a^la ecim desa- 
90cego, em quanto a nr. Perpétua feiia mesuras 
fr Virgem, e arreganhava pára ella em sorrisos 
asquéroaos a bocca iendida de orelha a orelha. 
Perfiin o nosso amigo parou diante da matrona, 
e eom a melotia que lhe conheeemos: 

— « Sabe, tia Perpetua — disse elle — que es- 
tou âneiado de frac{ueza ? Nio se almoça por cá 
èita manhs ? » 

— ^ « O que diE o méu saBtinho ? » — replicou 
a yelha , cingindo a orelha e(mi a mão , como 
Qsam 06 qtíe ouTem pouco. 

— tt Digo que tenho fome e quero comer » — 
etelamon Thòmé, hsvatitando a voz, e sentando- 
se eem for(a na immensa poltrona coxa^ que 
fmá cortejas sobre três pés â mesa de jantar. 

— « Ai, meu Jesias do céu I . . Hoje é dia de 
jejum, filho; e úlò deveis tocar em boccadof 
iue dè gosto ao paladar. . . Deus nos acuda! 
Vade retro tentaçáo. . . Resai-me um padre nosso 
e uma Ave Maria 6s almas; é a receita de fr. 
Thimoteo para as debilidades de jejum , com que 
O demónio nos tenta. . . Também eu , Nosso Se- 
nhor Mbe o qne tne custa ; até a luz dos olhos 
flte foge ás vezes. . .» 

— * Tia Perpetua — atalhou o sr. Thomé, sem 
pestenejar sequer nem desengatilhar um só dos 



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b]^ d. jíoão V. 67 

musculoB da íáce armaite à c^mpniiGfaai-^cada 
um (az o bend que pôde oeste mundo para gsh 
uhar o outro ! fr. Xhímoteo é um santo; eu sou 
um peccador : e as almas nao comem nem be^ 
bem. . * Sou débil , e sujeito a espasmos , por 
isso tirei dispensa. Dé-me de almoçar; acabemos 
com isto. i> 

— « Âb , se o meu santinho tem dispensa é 
outra coisa. . . olha, filho, é um pullp em quanto 
a tia Perpetua tempera uma assordinha , que os 
anjos haviam de gritar por mais. . . Ajas pri* 
meiro a salvação ! , . mundo , diabo e carne < fi- 
gadais inimigos do homem^ eu vo$ excommu&go ; 
não quero por vós me perder para todo o sem-* 
pro amen Jesu&I. . » 

— « Nem eu , tia Perpetua. Mas avie^se. » 

— «Ahi vou, ahi vou já! — E virando-se 
para a imagem da Virgem com três mesuras e 
muitas gaifonas, a beata proseguiu: — £ vós, 
bemdita Senhora , não comeis nem bebeis , mas 
cada vez estais mais bonita. Ave Maria cheia de 
graça ! . . Fazei , Estrella do céu , que o conde 
se lembre da vossa serva com os seis cruzados , 
que disse, e prometto uma coroa de prata para 
essa divina cabeça , e um vestidinho novo, todo 
bordadq^ . . Pedi por mim , bemaventurada Se- 
nhora, e tocai no coraçlío ã menina, que Quça 



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68 A MOaBADlC 

o que lhe heide pedir. Sahre Rainha, estreita dú 
mar! Bem sabeis, minha Senhora, cfae estio 
muito caros os tempos, e eu preciso de raaniétf 
e çapatos ; a renda da casa come com os pdmefl 
à meza , e o quartel está á porta. . . Se nào me 
faltasse, não tos importunava. EntSo, Virgem 
Puríssima , nada quereis á vossa escrava , nem 
um recado para o nosso Menino Jesus , o doee 
Jesus da minha alma, aiiivio dos adictos, vív» 
columna do throno de Deus Padre ? ! Logo em 
S. Domingos heide contar-lhe como estais triste 
com saudades suas. . . Sante Maria, mãe de Deus, 
rogai por mim , peccadora ! . . Perdoai a minha 
confiança, divina Senhora, mas se ella casw 
com o conde hei de comprar-vos um Menino Je- 
sus de barro , e nunca mais estareis sosinha e 
chorosa, como agora. . . Pelas sete dores da Pai- 
xão , Virgem Consoladora , fazei este milagre á 
vossa serva e pizai aos pés com a serpente a quan- 
tos me quizerem mal, que tenham má hora na 
vida e na morte, e assim seja para todo o sem- 
pre , amen ! » 

Este desaforada jaculatoria , em que a beato 
peitova a mãe de Deus para a converter em sua 
cúmplice , associando-a ás torpezas das suas in- 
fames esperanças , era acompanhada de um sem 
numero de sorrisos, e beijos na imagem* O sr. 



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M D. JOÃQ y. 69 

Thomé das Cbagas, mesmo, acostumado como es- 
tará a espectáculos similhantes, e pratico de 
mais como era no officio, enjooa-^e da scena es- 
caedalosa e poz-^lhe termo, gritando pelo almoço 
em tom , que não admittia replica. 

Á TÍsta da peremptória intimação cessaram as 
«poatrophes da tia Perpetua e chegou finalmente 
a assorda e uma garrafa de vinho. Em quanto 
dle enchia a bocca , arrumava a beata a casa , 
AiUando só e benzendo-se a miúdo com a cruz 
do seu rosário. Depois do primeiro assalto, mais 
tranquillo de estômago o illustre Thomé, de 
óculos assestados, virou-se para a matrona e per- 
guntou em voz adocicada : 

— «O conde vcúo hontem ? » 

— « Pois não veio ! O rico fidalgo da minha 
alma... Olha, meu santinho, deu um cruzado â 
velha para rapé , e promessa de oirtros seis se 
arranjarmos... » 

— « Hum! rosnou o devoto abanando a ca- 
beça solemnemente. — Não sei o que diga... Tia 
Perpetua, tenho medo de a vèr nestas alhadas. 
Honra e proveito não cabem n^um saco. » 

— (c Alhada!... Alhos são tormentos , filho. 
Graças a Deus sou conhecida; aqui não entra 
calção de homem , que dé que fallar ao mundo. 
Pobre sim , mas honràdihha. » 



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70 A MOCIDAINC 

-^c( Qõem falia nisso?... V. mereê mette-f e 
muito pela terra , e um dia vem uma pechra e 
apanha-a. £ o.qué eu <figo. »' 

— a Aí Dto , fíiho , estae quietinho. O meu 
Jesus da minha alma sempre me ba de Taler. 
Mas o conde... bisarro e galante moço, deveras! 
£ depois o bonito modo... encanta. Sabes? deu- 
me uma carta para o convento. » 

. — « Para a freira de Santa Clara ? » 

— « Freira?!... Então Píerpetua das Dores 
de Maria Santíssima é qualquer mulherinha psra 
aiidar pelos conventos desinquietando as esposas 
de Deus Menino? Â sr." D. Catbariíia de Atbaide 
ainda não professou , e se metto a m9o no fogo 
sei o que faço pelo amor do conde e ddla... Ha- 
dchlhe dar estado , e tel-a cem toda a honesti- 
dade. Não me ouça o meu anjo da guarda, se eu 
fòr capaz... » 

— a Pois sim , tia Perpetua ; nii^oam j«lga 
o contrario. Então o conde de Aveiras sempre 
Cf sa com ella ?... E o pae ? » 

— « O pae está renrlenle. É mn Ékla^o muito 
soberbo , e como vive pobre , e não tem para o 
enxoval, torce-se todo... Ora ! Por fim está mor- 
rendo.., Anda um jesuita tractando disso, ura 
tal padre Ventura... » 

— « Ah, o padre Ventura ! Muito bem. Pois 



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UB D* joÀo V. 71 

se eUe «nda metido na dança, respoado eu pelo 
resto. » 

— «c O meu cantinho conhece jd padre? )i 

— fl Alguma coí^... porque? » halbucm o 
devoto tornando-ae cor de rapé {nrineeia. 

'. — a Olha, nSo sabes, filho, estou muito mal 
com o padre Thimoteo... não gosto <}e confesso- 
res de levante. D^antes eram duas , três horas^ 
agora nlo me ouve npm meia 1... Assim não 
presta ! Vou deixalro. Queco que me falle, ao pa- 
dre Ventura... » 

— a Tia Perpetua, disse o andador das al- 
mas desenroscando gravemente a longa e esguia 
pessoa r-r<- o padre Ventura é meu coafessor, e 
não me convém que elle saiba todos os peccado$ 
da easa. Tenho minhas rasdes. Quem quíaér, 
menos elle. Deixe vér.a carta do coode. n 

— a Deus nod acuda ! Vêr a carta do conde? 
Santa Maria rogae por nós ! O meu santinibo uEo 
repara que ella nem lacrada está ao menos ? » 

— <x Por isso mesmo« Gosto de saber o que 
vae pelo mundo. Ê para meu goj^erno. » 

— a Se prometteis... olhae filho, que oiro é 
o que oiro vai. Temos aqui o peru para a íesta, 
e gordinho, gordinho... não m^o deiteis pi voar... 
Esta carta , ah se eu soube^e lér ! » 

-f-.« Set eii; dê cé. d 



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72 A MOCIDABB 

E O Dosso Thomé desatou sem ceremooia o 
laço d^amor, em que ia dobrado o bilhete do 
conde para D. Gatharina. Leu, releu, e deco- 1 
rou ; depois restituiu-o com profunda serenidade, 
tornando-o a fechar como vinha. 

— <K Então ? » exclamou a beata, ardendo em 
curiosidade , virando e revirando a carta nos de- 
dos. 

— « É tudo santo e justo. Os meios são pe- 
rigosos ; porém os fins , louvado Deus , não po- 
dem ser melhores ! d respondeu eWe arregalando 
os olhos devotamente. 

— « Mas? » 

— « Mas não é nada, quasi nada, tia Perpe- 
tua. O conde pede á menina que se prepare esta 
noite para sair do convento. Diz-lhe como; e 
que o padre Ventura em uma sege a irá depo- 
sitar em casa de pessoa virtuosa, aonde fique até 
se receberem... O negocio vae bem encaminhado, 
vae excellente. Não que o padre Ventura sabe o 
nome aos bois!... Agora o pae que se faça fino, 
que resista... Tia Perpetua, é preciso levar esta 
carta, que chegue a horas. » 

— a Bemdita e louvada seja a Virgem Maria l 
Estou aqui e estou na rua. Em ouvindo as três 
missas do costume , pernas a caminho... » 

— <c Âpprovo o seu zelo. E o o&tro fidalgo ? » 



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DB D. JOÃO V. 73 

— (« Esse não diz o nome ! Esteve cá, mais o 
conde. É bonito rapaz também , mas a gente 
com elle tem menos confiança... tomara saber 
quem é ; dava um cordão novo a Santo António 
se o bento fradinho... » 

— «Tia Perpetua , tome cuidado ! Olhe que 
pela boca morre o peixe. N&o meta a mão na 
toca , ás vezes traznse vibora... Diga-me, elle não 
lhe deu recado?... » 

— «Ai, pois nfio deu. Por signal vou logo 
levar uma carta siia á rua das Arcas a casa do 
commendador... Não sei porque havia de resus- 
citar o enguiço do tal capitão. Olha se elle sou- 
besse o muito que engraço com tal figui^o não 
me punha mais os olhos. » 

— «O capitão Filíppe da Gama é muito amigo 
do nosso padre mestre. Livre-se de que a apanhe 
em alguma, olhe que elle não é para graças... » 

— « Santa Barbara e S. Jeronymo , advoga- 
dos dos trovões ! Tão nova me fazeis que deixe 
cova debaixo dos pés , ou me escape coisa por 
onde perca... Perpetua das Dores não é de hoje 
nem de hontem... elle não tem senão dois olhos, 
e eu por ora vejo bem sem óculos. A carta ha de 
ser entr^ne ; fica descançado, meu santinho. Aí, 
filho, a sr.* Cecília é uma flor, uma pérola! 
Olha , o annel que me deu a ultima vez , estfl 



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7* A íHWDAPB ■> 

alU ao pe$cp^ dp Menii^Q lei^m cie Simiíq Aoto- 
mo. K vardfide qw dft teidfiS as y§?s^ ípie vi« e 
coAv^r9W CQin o SdaJ^o feibi4li^ fw p |:<ip^d^, q 
ensúaei-llie a iii^qeii:!^..^ » 

— « Âh ! então elles já sa tínbflin ft^ilado? <i^ 

— ii Ha qiie tempos; foi até .dq convento. 
Ab primeiras duas v^zes foi uia inwlwtí^íi, 4k 
de ci0i« dQ muro , eUa de traz dp caramancbaa. 
 ultima diz que o padre Ventura é fue luraih 
jou t|id4>... O que dir& a ocrrta? n 

-r^« Dqixe jêr! » 

— r«. Anjo bento, m$i$ oUia, y.ew lecb^* » 
— « Não é oada; é a obr^ia- Sei abril-a. » 
Empregando um ^procesao usado em Santo Aft* 
tão o nosso amigo abriu a carta , ley-a e dee^* 
rou-«a, e tornando a pegar a cibreia, entre- 
gou*a depois à beata comp a dp QO»ií^ 4e Avei- 
ras.. 

— c< O que dixeis/destaf ãlbo? » f^erguntou 
a sr." Perp€^tua; 

— « Que a daoça é peíor. Gonyídam a sm 
pérola , a sua Gecilía para d^aqw a três dias ap^ 
parecer no mirante do jardim «j^s de« fama 
da ní$ite , onde Uii^ dirio poisas que ^e não po- 
dem escrever. » 

~>€( Ponho as oAos no ífego e» «leiAi 
vae. \y > 



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UB o. JOio T. 7& 

•^— x< ká; e 4ef0ÍB? n ) 

-^ « O que i|t de iiar «glá qm màoe de Deug;. 
Não sou capa nem i?oov«ÍTa. So dois passarinho» 
fcgem da gaiel|a, dei'sd-os, eites &aeiii mal a al<- 
^[ooip ? ilMiakGeciiia está mi sua casa ; a mãe e 
o p«e que aguanleoi ; eusm de fóra, e Tejo caras 
nSò T^ ieòraftaf... Agnm Deiqui ègUs paocàta 
nmindi9 ! Se o ineu sauliolio oão quer mais nada 
you-Me arrastando á pnssa, e de 4â dar ordem á 
viés... Âi ! esto fiernes estão jâ tnropegas. Thomé^ 
lédiae-me bem a )iOFta> e a c^ave na mão do 
liJB^ulio. Se jantas» em S. Jkmvngos diiaeÍH>, que 
é escusado gastar km^ sem firoveíto... Jesus da 
mtniia alma! fiem <diz' a rifão: « já fui moça, 
já fui rosa, hoje não tenho senão espinhos, » An- 
tes tudo era para mim um pufe; agora são lé- 
guas de iBieus... Adeus ^ a benção de Nossa Se^ 
nhora te cidira e te ilUimine I Ave Maria, cheia 
de graça... » 

O rosloda oraOão pecdeuhse na distancia, por^ 
que a sr/ Perpétua ia a sair quando a princi- 
piou. Tbomé vendo-a cerrar a p^a encolheu os 
hombros, e enfiou logo «s mangas da cosaca-gi- 
bfto , poz por cima lanMMo balandrau , e pa- 
gando depois no seu nicho e na bandeja partiu 
atraz da beata, fechando- a pmrta a duas soltas, 
e deixando a diate na tenda, como the fi^ra re- 



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76 A HOCIDADK 

commendado. Durante o dialogo com a sr/ Per- 
petua tmha-M escoado toda a agua, é.,o becco 
do Manquinho já se pedia passar a váu. 

O nosso andador ia a virar para a rua doa 
Escudeiros eogolphado em serias cogitacSes, quan- 
do sentiu pesada, como chumbo , mio estranlra 
sobre o hombro. O primeiro gesto foi encolber 
o lado oiFendido ; o segundo virar a cabeça cau- 
tamente e reconhecer o agressor. Achou diante 
de si o estupendo chapéo, a montanhosa peruca, 
e o rosto illuminado de sorrisos do poeta Bernardo 
Pires, aquelle vate engasgado em um soneto, que 
vimos em S. Domingos jurando pelos ossos ao 
Sr. Thomé das Chagas, vista a incontinência da 
sua lingua. 

O poeta matinal vinha fresco e gracioso com 
a capa embuçada ás canhas , uma capa ampla , 
e desbotada, que lhe amortalhava metade da burba. 
Cruzando os pés com elegância, e dando ás cw- 
tezias a mais preciosa afinação , o sr. Bernardo 
Pires passou a mão dineita por baixo da capa, e 
levou-a lenta e grave ás abas do amaçado cha- 
péo ; saudou com elle o seu interiocutor , e en- 
tre dois, sorrisos sonegados pelos cantos da boca, 
e lambidos á flor dos beiços, disse-lhe : 

— « Queira desculpar se o importuno; mas 
antes que o divino Afxillo suba mais idto com os 



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ra 0. Joio V. 77 

fhtOe$ de bgb preciso de duas palaixas em par- 
ticalar, sen<h> do seu agrado. » 

— f< Mas eu v^o tenho a honra de o cohhe- 
eer! » acudiu o devoto pasmado com a lingua*- 
gem florida , e 09 requebros mesureiros do Nar- 
éiso épico. 

— Nfto importa, meu presadissimo senhor; 
conbeço-o eu. Nilo se chama o sr. Thomé das Cha- 
gas ? Não é andador das almas em S. Domingos ? o 

— « Um seu criado para o servir ! Nesse caso 
o melhor seria voltarmos atraz ; d^aqui a minha 
casa sfio duas passadas... )> 

— « Nada de incommodo ^ sr. Thomé ! P«- 
rambuletnuê! verbo latino que significa andar de 
passeio. Se faz favor , siga-me ; e de caminho 
conversemos. » 

— « Mas aonde? Para què? » 

— *-« Eu lhe digo : sou poeta, e as Musas co- 
nhecem*-me. Faço metaphoras e sonetos e apo- 
logos. Vivo de glosas e idilios, com v. mercê 
das gathetas bentas... Tudo isto é noite escura , 
por ord, para o sr. Thomé ; mas eu lhe abro já 
uma janeila para encher de claridade a sua alma. 
Eu me explico em estilo vulgar , e por um mo-^ 
mento desço do Parnaso ao aprisco dos mortaes... 
Hontem morreu o mordomo de um fidalgo , o 
mais alto de quantos eu conheço e quero que se 



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78 A IMKWA^B. 

co&besam 69» PoitugaL O ineFddq» partiu destfs 
inundo um pouco â Kg^^ira^ is^o é^i sem coaSfir 
9ão nem sacramentoí», piNr^e boKiem morto não 
tâUa, e a sua d^enga fei a morta..^ Em tal eaao 
nSo sei se íbi bem se foi mal eom Deas i e Bóêf 
seus amigos , queremos saíval-o , e metel-o do 
céu a todo o casto; percebe? B«Uoj Mas para o 
arrancar do inferno pelos cabeUos, e digarae a 
verdade, o homrado mordooio pelo menos tem os 
pés dentro da caldeira de pex porfoe acabou em 
peccado mortal... >» 

— « Ah ! » — acudiu Thomé ^ b«Mndo-se e 
abanando o esganado pescoço com sianma cir- 
çumspeeção : — « Ah I entfto jalga que ella não 
estaya em estado de graça? É graye, muito 
grave ! De que falleceu ? » 

— í( De uma indigestão ! Esqueceu-^se de to- 
mar as.Ipffguras ao estômago ^ bebeu um garrar 
fòo de vinhOf e arrc^ntou. « . , Mas tornenif» 
ao caso : como ia ditendo : havemos èfi pregar 
o logro ao demónio e metter o homem vestido 
e calçado no céu. . . . faça favor ^ venha oiivindo 
e andando, o passeio é perto* Quantas missas 
acha que serão predsas para faier estalar a eas^ 
tanha na boeca ao fero Plutão do sombrio r^- 
no ? . . . . » 

— « Nao pQreebq* . * . i^ 



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DE 0.' JOftD V. 79 

*^ OK Tmii hisBor. Este máUMd cMtumet . . . • 
PergMto: quâfitas iíiíbíqb d0\^md!i HNMdar dir 
i0t pm^ pôr o moiiloiho btàiicd e puco coma 
um seràphitn? » 

O ^tid«kr Víh um exeellente negocio na apo- 
Xheosé do beberrãm; è almodo as larga» ofelhasv 
e jogando as eternas* pa9dadtô4 foi indo atrat 
da r&ãemoi e seguindo a piteta^ em quanto 
irespoAdia: 

-^ <t Isso depende.v. ha quem diga que o s^l^* 
crificio é tudo^ e o saoerdotô nada ; tettbo ou** 
tro modo de pensar. Ainda que a estnola seja 
HftMS aTQrttada gánhansie mrufto ^n rtet iftn padre 
de c^onscieneia o que se interesse fá» deftin- 
cto». * . - » 

-^a beu no Tinte, meu amigo ! É a minha 
scisma. Ora eu julguei sempre que só o sr. Tho- 
mé ei^a capaz de desenterrar o padre , jA se sabe 
mediante um modesto horiorario. «... » 

— « DeÍ3ie^mo-nos disso ! » — acudiu o devoto 
sentindo encarquilharem*^e já os dedos em volta 
do numerário, e pegarem como visco as palmas. 
•— *«[ Nada de simonia! No serviço, do pronimo 
posso aceitar uma esmi^ forqúe sou. pobre ^ 
mas não recebo sallaria Se quef lambrarnse das 
almas. . < . » 

Estendeu-lhe o nicho a beij» < com o jallo 



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80 A MOGIOADS 

para fi^, inculcando que o seu thesouro tinha 
aquella entrada. O poeta deu pios oaculoB no 
santo; tirou o chapéu; e levou a mão ao bolso da 
vestia ; mas tirou-a vasia fingindo mudar de idéa : 

— <c Nfio trago prata » — exclamou elle. — 
« E de mais estamos áo pé da casa. É adiante 
da esquina , áquelle beoco. » 

— « Mas aonde vamos nós, no fim de tudo? » 
— gritou o milagreiro um pouco inquieto, vendo 
fugir a esmolla , e render o caminho , apezar da 
isca com que o vate o ia entretendo. 

— (X O sr. Thomé conhece o sitio? » 

— « Nada ; nem sei onde estou. Fám de meu 
bairro ando ás escuras ; sou mesmo um parvo. » 

— « Pois eu lhe digo ! Estamos em terra co- 
nhecida. Desta porta para dentro é aonde a the- 
soura da Parca , a cruel Atropos. . . . h 

— <f Trapos? Mora aqui algum algibebe ? » 

— « Sim, senhor. Um algibebe de obra larga. 
O coveiro de S. Julião. Foi elle quem me en- 
commendou as missas. » 

Thomé das Chagas deu um puUo e um grito ; 
e tentou virar para traz. O grito achou diante 
a mSo. do poeta e voltou embaçado para a bocca. 
O pullo achou defironte o corpo de Bernardo Pi- 
res , e converteu-se quasi em cabriola. Depois 
o pobre devoto sentíu-se agarrar , e metter quasi 
á força para dentro da porta. 

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CAPITULO XVI. 

NJEM Bt , NEM TU. 



O potos Thomé das Chagas principiou a re- 
ceiar uma traição , apenas se viu nas garras do 
poeta, e na escura logea para onde elle o em- 
punhou com bastante sem-ceremonia. O nosso 
amigo era muito sensivel , e excessivamente ner- 
voso ; e tinha suas rasões para não andar de dia 
sem cautela, e de noite sem lanterna. Durante a 
conversação singular , que se ouviu , tinha atra- 
vessado, sem dar por isso, umas poucas de ruas, 
escorregado por cima de outros tantos becos la- 
íhàcentos ; e quando lhe perguntaram com ar de 
escarneo se conhecia os sítios , achou-«e des- 
orientado, e na realidade não sabia aonde estava. 
As ultimas palavras do curioso dialogo tinham 
sido proferidas diante de uma porta quasi cer- 
rada , no meio de uma viella deserta e sombria, 
T. n 6 



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82 A MOCIDADE 

cheia de montões de caliça e de paredões caídos ; 
entre duas ou três barracas esbeiçadas e pendi- 
das. Â porta tinha um ar apopletico ; a casa era 
a imagem da eternidade ; as paredes esburaca- 
das, e uma seara viçosa de arroz de telhado e 
mais hervas parasitas, crescendo livremente por 
entre as desconjuntadas telhas, davam-Ihe uma 
apparencia menos que humilde. 

O poeta encostou o hombro â porta e levou-a 
quasi ás costas para a forçar a conceder entrada ; 
e ella perra e dorida, gemendo e estalando, re- 
signou-se por fím a deixar aberto um espaço 
suiBciente por onde o vate introduziu o andader, 
e atraz delle a sua exigua pessoa. Subindo a es- 
cada , cujos degraus se empinavam trémulos de 
velhice , e rangendo de podres , os dois heroes 
acharam-se defronte de outra porta , irmã gémea 
da porta dolorosa, que deixavam ás cortezias 
atraz de si. Servia de fecho um cordel , e de a^ 
gola um cavaco atado a elle. O poeta puxou o 
cordel , metteu o joelho , e atirou logo para den- 
tro o sr. Thomé das Chagas^ Apenas os seus olhos 
rodearam a casa , aonde o introduziam , o mila- 
greiro deu um berro , deixou cair o nieho e a 
bandeja ; e girando sobre os calcanhares , como 
uma ventoinha, quiz investir pela escada abaixo* 
A evoluçSo , porém , estava prevista : o sr. Ber- 



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BE !). JOÃO V. S3 

iiáfdò fites , vitido átraz , tinha fechado a porta. 

A èfflsft mfetecía os terrores do hotiradtt Thomê, 
e erá a ahte-salft do cemitério. Entre aá bambí- 
néltái de téas de aranha e os listões ?erdené- 
gros y 4ué nihnchatám pfcredfes e teòtos , rasga- 
va-^ Uitiá jÀnella estreita cdnl rotula de páii. 
Cinco ou seis ossadas , oii faiais eiacto , cinco ou 
seis éorpos iíial consumidos , estavam encostados 
em i^edor dó aposetlfo. Mortalhas quási podres 
petidatadáS ^ gtinaldas cujas, caitões arromba- 
doÁ i ^ftnhds dé enterro pingados de cera , es- 
qiiélétdl ineio atmados , postos em èirames , e 
muitos bims espalhados ^elo sobrado , formavam 
as tapeçarias e a mobilia do antro fúnebre. N6 
meio dtí quártb utha thésa , uma bilha , è duas 
cáneóaá pereciam a ironia víta do espectáculo dá 
lÃorté no que a dissolução tem de lúgubre e de 
hò)ri'0^oso. Qiiantò mhii á vista paraVa no qiia- 
dtb i tááto maia frio ié contrangia o corãçaò. O 
pbbte Thomé dà^ Chagas hão tk>eniid §ó , estáVá 
cabiiidó no chão por instahtês tratisido de thèdo f 

-^ « Até que chegámos » — ph)clámou o poeta, 
tlMtadò á cápb è descobrindo a prodigiosa casaca 
de pòlrtitibotaá dè escotilha é botões de rodinha. 
Lit«i1^-Se depois dò ^eteráuò chapèd , e poz- 
Ihê «cA léitaa dá cò^a úfn pai de florétéé , que 
ttàíià eSéondldoS debaiirtf dó braço. 



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84 A MOCIDADE 

— a Pôde descançar um minuto ! - — dhae elle 
respirando e batendo os pés no chão com força, 
em risco de abrir duas clarabóias no sobrado 
podre. — Está no pórtico da eternidade , e estes 
moradores do escuro reino não dizem nada ! » — 
Ao mesmo tempo indicava os defuntos hirtos e 
encostados em roda da casa. 

Thomé das Chagas nem pestanejava ; a lingua 
tinha grude que a pegava ao ceu da bocca. Ber- 
nardo Pires, com um sorriso boçal , escorria en- 
tretanto a bilha, dando-lhe palmadas no bojo 
com a familiaridade de um amador. Depois vÍt 
rou-a de bocca para baixo , e a rir muito ex- 
clamou : 

— €(Nem lagrima! Bebemos tudo por alma 
do mordomo. Está nos Elysios, se Charonte lhe 
foi propicio ! Â propósito, sr. Thomé , as missas 
que lhe disse parece-me que vem tarde : o ho- 
mem está salvo ! . . Fiquemos no introibo desta 
noite, mais do gosto do meu defunto amigo, que 
não sei como não resuscitou para nos acompa- 
nhar. . : A respeito de missas, se v. mercê quer, 
deixe algumas pratas que eu as mando dizer por 
sua intenção ; aqui para nós , em boa amizade , 
aquillo era anzol para o trazer aqui , e p^ou ; 
nunca esperei tanto da sua bondade. Ora como 
conto despachal-o depressa , peço-lhe que dé no 



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DE D. JOÃO V. 8d 

outro mundo muitas saudades deste seu admira- 
dor ao velho e pançudo Simão de Oliveira , nâo 
se esqueça ! . • . 

O milagreiro com os olhos esgazeados, pegou 
machinalmente no chapéo do poeta , cravou-o na 
estopentada peruca , e tratou de sair sem mais 
rodeios. 

— «O que é isso, sr. andador das almas, 
assim nos deixa? — gritou o vate espremendo a 
bocca em um sorriso alambicado. — Vae atraz 
das missas , ou procura as galhetas por estar 
secca a dorna? (a dorna era a bilha). Então 
leva o meu chapéo? Deixa-me sem o seu corpo 
e a minha cabeça? Sacro Apollo! Que pressa!... 
onde vae , onde vae ? 

— « Vou dar o seu recado ! replicou em voz 
rouca o devoto , - fazendo uma pirueta para ^e 
apossar da porta. 

— « Mais de vagar, mais de vagar ! Olhe que a 
viagem é longa. Escolha primeiro o habito e a 
carroagem , faça favor. Repare que tem de ir 
pela posta até ao Averno. 

— «O habito, a carroagem ? . . . acudiu o servo 
de Deus , esbugalhando os olhos. 

— « De certo. Não cegue as duas estrelfas da 
alma , que são as janellas do sentimento. Sir- , 
va-se dos seus olhos, já que as Eumenides com- 



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86 A MOCIDADE 

passivas Ih^os n$p airaacam^ • • O qy|e lhe difse 
era metaphora em acçSo. Para qnç Niemoii ^^ 
aqui ? Para o mais infeliz se apartar da bello 
seio de Gyhelle, nome qae os antigos deram á 
tefra, nossa mãi, e comparecer no tribunal de 
Míqos , entrandci pela porta de j^^-oserpi^a.. . « 
Não percebe ? » 

— « Nem meia palavra * Digo-lhe quo vxe deixe 
!$air , senão grito « Aqui d^el-rei ! » 

— «Oh c€ec%tas mentis ! exclamou o vate er- 
guendo anibos os braços ao ceu com burlesca 
veheíjiencia. — Oh divina musa, o que te £01- 
zem estes zotes do Parnaso ! . . . Pois, SiT. Thomé, 
uma vez que as graças de Âpollo e das nove ir- 
mãs o não illuminam, prepare-se que vai ouvir 
,a bosina de Marte. O habito que lhe disse , em 
língua do povo, na lingua tosca e salois^ que v. 
mercê falia e entende, é uma dessas mortalhas; ; 
a carroagepi , um desses caixões. Sou clemente ! 
Antes de o ferir, como Achilles feriu Heitor, 
quero deixal-o em vida determina^r o seu en- 
terro , como fòr mais do seu gosto. Agora jà 
percebe ? » 

E fazendo uma visagem lúgubre , com, a qual 
ampiou as balofas bochechas, ainda inflamma- 
das em fogachos vinosos , o sr. Bernardo Pires, 
cruzou os braços bem alto sobre o peito , qúei- 



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DE D. JOÃO V. 87 

mando eom a laz das pupillas cór dfe alface a 
esquálida fnmte do milagreiro. 

— a Então matam-me aqui , sem cotíBssSo nem 
sacramentos?)» — exclamou o devoto, fazendo-se 
côr de café e torcendo o corpo, como se visse já 
no ar o punhal de uma quadrilha de malfeitores. 

£ verdade I respondeu o fabricante de glosas, 
pondo-se no recto com desplante. Estou aqui 
para ser a tesoura da parca , e cortar-lhe os fios 
áa vida. O que tem a dizer a isto ? 

— a Tenho muito, tenho tudo ! Hei de resis- 
tir, vou gritar. . . » 

O poeta, encolhendo os hombros, soltou uma 
risada solemne e harmoniosa, e pegon em um 
dos floretes. 

— ^«Ha de gritar! EtitSo porque? 

— ' « Essa é boa ! O senhor dfz que me ha de 
malar , e admira-se. . . » 

— « Mas eu mato-o academrcamente, com pre- 
ceito e regra. Assim, digo-lhV eu , é um gosto 
morrer. » 

— a Morra o senhor. En estou muito contente 
vivo. » 

— «• a lilato-o como RoldSo matava os. moiros , 
em combata singular. » 

— « Nem singular nem plural í . . . Eu nffo 
sou homem de brigas ; eslá enganado. » 



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88 A MOCPADJE 

— «Olhe O que perde, sr. Thomé. Sei o jo- 
go, e prometto varár-lhe o eoraçao á terceura 
estocada. x> 

— « Obrigadissimo ! mas eu não quero ; dei- 
xe-o assim como está, que está muito bem. » 

— c( Jesus, que teima! gritou o poeta, assu- 
mindo o ar aíFavel de um paladino de Âriosto , 
e forçando a mão rebelde do devoto a empu- 
nhar o florete desembainhado, — Deixe-se de 
contos ; tudo é principiar. Âchilles fiou n^uma 
roca e depois foi o terror de Troya. . . Suba 
comigo á altura dos heroes; exercitense na grande 
sciencia de morrer com arte. . . vamos , pegue 
no florete; mais alma, homem, mais alma! 
Faça-se ainda mais feio.' . . bello ! quero dizer 
horrendo. Asseguro-lhe quede viseira caída pôde 
desmamar creanças. Agora esse braço esquerdo 
para cima ; a mão bem alta ; arredonde mais o 
cotovello. . . óptimo ! » 

— «Mas o que esta o senhor a fazer de mim! 
atalhou o servo de Christo, obedecendo como 
um autómato e cada vez mais espavorido. 

— <x Estou-o educando para não deshonrar as 
sabias lições de Palias. Vamos. Firme! Agora 
rompa. Esse pé , escorregue sobre esse pé ; li- 
geireza, flexibilidade, sr. Thomé! Ah! Mais 
largo ! mais. . . Safa ! São duas pernas de com- 



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DE D. JOÃO V. 89 

passo como a légua da Povoa. Bom ! Agora atire 
á muralha. Um dois, um dois! Tem cinco mi- 
nutos para aprender a cahir com graça. » 
- — fi Cahir , cahi eu nas mãos de um doido ! 
gemeu o milagreiro em voz baixa; depois vi- 
rando a cabeça por cima do hombro para recti- 
ficar a posição do inimigo, insistiu com de- 
sesperação. — Mas o que quer o senhor de 
mim?i> 

— a Quero matal-o ! bradou o assassino das 
rimas em voz cava e com accionados olympicos. 
A vingança é o néctar dos deuses ; e eu sou uma 
Juno masculina. O sr. Thomé oíFendeu mortal- 
mente um amigo de Bernardo Pires, e oíFender 
o meu amigo é ser meu inimigo. ^Prepare-sc ! 
O dedo da parca está sobre o ponteiro da vida. 
Nas aguas tenebrosas Gharonte, o barqueiro do 
inferno , tem o bote á espera. . . resigne-rse ; e 
para o consolar prometto-lhe um epicedio. Avie- 
se , pegue na espada ! » 

— «Almas bentas, valei-me! Sr. Bernardo 
Pires , eu não sei jogar o florete. 

— « Melhor ! Morre mais depressa : — replicou 
o vate magnânimo , crescendo-Ihe os brios com 
o desalento alheio. 

— a Mas eu preciso viver ! » 

— « Asneira ! o que é a vida ? um sonho ...» 



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9A A MOCIDADE 

— f Aa menos dê-me Ugnfo , deiie*iiie tra- 
tar da atma. . . » 

— H Yá djeseançado : j& arranjei tudo. O atu 
enterro está justo. Ácbamo-nos em campo neu- 
tro. . . o ceipiterio é alli adiante, n 

— « Santo breve da marca ! n 

•^— « Em abrindo. aqueUa porta . .. Até a oova 
Iftt de estar feita. » 

— (( Santo nome de Jesus ! Mas sr. Bernar- 
do, o que fiz eu ? Pelas ch«^as de ChrUto l Di- 
ga-me o meu delieto. » 

— «Quer saber porque morre. Tem rasão; 
e ser& satisfeito. Ora responda : quem é o du- 
que de Cadaval , IX NunO' Alvares Pereira^ men 
senhor? 

. -^ <c Um fidalgo temente a Deus , muito es- 
moler, grande amigo de eWci e dbi santa rdi- 
gi^. . . » 

— c$ Ah sr. Tbomél . . . Em fim reapeilo a 
dignidade dos seus últimos instantes . .. Retiro 
a esponja d^ fel. Porque nlo feUou v. mereé as- 
sim o outro dia ? Para que me expoz a carregar 
toda a vida com o remorso dn sua morte ? . . . . 
Díga-me : iembira-se do cruzeiro di^S. Domin- 
gos ; recorda-se do que lá pregou, haxierá una 
semana ? Quem blasfemou qun o òiqne do Ca- 
daval eca herege e amigo dos judeas ; quem o 



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Dfi p. JoIo V. 91 

qiiiz a^ado tom $^nbçDÍto e carocha» no Qutç 
da fé? &te9 borrores, e outros jmk fui ^v 
Bernardo Pir^^ ou íqí o sr, Thomé d$is Cba* 
gas quem os deitou pçja boca fora ? » 

O devoto sentii^do-se pos dentes do lojro abaixou 
^ cabeça e recolheu-se confuso na tristeza do seu 
cprf^ão. Bernardo Pires, recuando o corpo so- 
1^*0 fi perna es^querda perfilada ; arremettendo ás 
nuveps com a começa ; e pondo o braço em po- 
sição xqoiresca p];oseguiu de p^ito incbado, c; 
çoandp as phrases : 

— «Se não tivesse de cruzar a espada com 
a 6^99 fazendo-lbe a hoqra de o pôr por meu 
igiíaJl . .. çhamava-Ifee dipagâp da bowa, e gihoia 
disL reputaçã^o all^çia. São me^pboras arrojadas ^ 
porém Ucitas. Pizia-Ihe : um arenque de frade , 
qma, toupeira de sacl^^ista , um ipoçbila de dor- 
ipitoi^io, quando nçiorde assim com' o escorpião 
da li.Bgua, atassalhando taesi pessoas, corta-se- 
Ihe a mão direita e o pé esqueirdoí, e furam-se- 
Ihe os beiços com um ferro em braza . .. ». 

•^-r-«Valba-me St/ Anna e S. Jfosé! — bal- 
buciou Thomé fuhninado e fugindo com o corpo. 
Q que diz ? O sr. Bernardo Pires^ não ha de ter 
a crueldade ? ! . . . Aqui ha gente escondida ? . . . » 

— « Socegue. Istp é. hyperbole ; íaMei çm hy- 
potbese. ÇIstQu sii^» Ministro e ve]:4ug9 4a^ mi- 



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92 A MOCIDADE 

nhãs vindictas sentenceio e executo. Ora bem ! 
Como ia dizendo : as carnes tremeram do que 
lhe escutei ; os ouvidos recusaram acreditar. . . 
a ira gritava: mata-o! mas a prudência res- 
pondia: espeta! optei pela prudência e parti. 
Chegando a casa , chamei o escudeiro do duque 
e meu particular amigo ; vieram a conselho mais 
três creados velhos ; e decidiu-se que o sr. Tho- 
mé fosse apanhado ã noite, metido em uma casa 
solitária , esta por exemplo , e ahi, trema ! ahi 
engraixado vivo , puchando-lhe o lustro á escova 
dois robustos pretos de Guiné ! . . . » 

Ouvindo a segunda hypothese, mais ignóbil e 
não menos crua , o sr. Thomé atirou um formi- 
dável pulo á porta , que dava para o cemitério. 
Esta cedeu e entr'abriu-se , e um intervallo lú- 
cido no meio do delírio do terror mostrou ao 
devoto , que não podia escolher nielhor posição 
para qualquer occorrencia. Entre tanto o sublime 
vate , correndo a vista orgulhosa por toda a sua 
exigua pessoa, e afofando o ar com a dextra cheia 
de magestade, depois de breve pausa continuou 
o relatorio entre dois sorrisos, um ridículo, por- 
que era burlesco, outro parvo, porque tentava 
ser irónico : 

— « Achei indigno de mim o supplicio da gra- 
xa ! Um poeta laureado em três outeiros não 



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DH D* JOÃO, V, 93 

baixa a mal de um remendão de escada. . .nió 
mancha a alvura de cysae com a vil untura de 
pós de çapatos , mesmo para f^zer preto um ho- 
mem branco. . . Regeitei, e dissuadi-K». Encar- 
regaram-me então da vingança geral ! lembrou- 
me embainhar-lhe a espada no corpo uma noite 
ao. canto de um becco: ha exemplos. históricos; 
mas tive medo de subir com elles a escada da 
forca. Occorreu-me fazer-lhe sete satyras a fio, 
e apregoal*-o em oitavas pelos cegos; mas podia 
acontecer que se não vendessem, e por cima pa- 
gar eu o papel e a impressão. Até na vingança 
a economia é santa! Por fim, hontem resolvi 
que o mais simples era trazel-o aquL, e fazer- 
lhe a honra de um desafio á empada sem teccei-. 
roB. . . da apparencia de um duello , porque sou 
o melhor discípulo de Vicente Nemour , e com 
uma imbrocaSa envio o inimigo ás Gorgones e 
Megerai^, sobretudo não jogando outras armas 
senão o hyssope e a caldeirinha. . . Tenho tido 
trinta desafios , e sabe porque nunca fui preso 
nem se soube? Porque homem morto não fal- 
ia; e homem que briga comigo, acredite que 
é homem que não torna a pisar a terra ; vai di- 
reito para]o outro mundo! 

Este epiphonema ameaçador era acompanhado 
de gestos lacrimosos. Para lhe dar mais eíFeito, 



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94 A MOCl^AHB 

O pdeta limpou àoí^ oUm dtiáB lagrimas stop)^ 
tus com ttmkfneidhode alvura suspeita e de «t- 
cambraia franceza. Esta bda alma^ com o sètt 
pranto imagluario^ fazia ás hotirag fuâebre^ da 
imaginaria vietimai Era a iombra do boMrô^ 
limpando a aombra de um catallo ci»n a aom- 
ln*a de uma esocnra , segundo resa a parodia da 
Eneiada. 

£m quanto o pierio vate sepultava oâ inortoa^ 
ideaes, sacrificados nSo com espada , niai com a 
lingua, o andador das almas principiou a résia- 
beleeerHie do àUlto^ e a carar-nse do (nrimetro »• 
bresalto da imàginaoão. Mais familiarísadd còm 
a casa, e bem certo de que todos os inimigos éé 
rednsiàm ao paroleiro vale, tomou ò pulso á sM 
coragem, e atreveu-se a estudar de mais perto 
o coração do Rodamonte do Parnaso. No meio 
dos rompantes que lhe Saiam pela bocca fâra M 
gtrandolas, eomo foguetes 4 o devoto começou a 
suspeitar que tudo aquiiio eram úmm^s áem 
baila, trovBo sem raios.' O poeta laufieaão pédía 
esconder uáia boa dose de bf alurá nc^atfi^ , é 
a sua physionomta ff»ignifiõante era o meiios bél^ 
Itoòsa possiveL 

Thomé das Chagas « ém quanfô elle delatava 
em easeataa de sediças e Côroa^adai íma^èné a 
torrente éa aua chdera, foi-m á refleétir de vá- 



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Dl D. JOÃO V. dS 

gar sobre o caso « e achou qaé este Ajax ridi- 
«ido, esbravejando com o florete ^ c talharido o» 
ares ^ promettia mais uma soena de entremez do 
que um éombate serio, a quem lhe apoàtasse ao 
peito três a quatro palmos de ferro. Mais aUi^ 
viado da sua perturbaçfto^ o servo de ChHsto 
lembrou-se de que léra uma fabula, em que o 
burro, orúeando dentro da peile do ledo, en-^ 
obeu as selvfts de terror ; mas denunciado pelas 
orelhas I ficou burro, e fugiu do mats despresir' 
vel contendor. Por isso resolveu-se a tentar for- 
tuna, e, animado pela ferocidade theorica desta 
paBthera de metas de seda^ decidiu escapar ao 
Miles ghriosus de Lisboa^ tortk o estratagema das 
<)O0iedias velhas , remédio efficas i>ara os valeu-' 
tes ficarem a pedir confissão. Feito este çileolo, 
o iUustre Sactistão me^nor contrafeíH»e , sacudiu 
o longo e esguio corpo, escorvou as goelas para 
tornar a fi>z clara ^ e cõnipomio os oeulos em 
som de guerA , preludiou a entrada em soena 
p^ um formidável giro ié florete ^ ^oe fes re* 
€uar o poeta sohresaltado tnais de quadro pastsos. 
Ao mesmo tempo o milagreiro exclamava : 

-^«S^. Bernardo Pifes, Deus é.}uáUyl Cono- 
tava assassinar o sacristfto die byssope e cadeiri- 
nha « pois saiba que antes de entrar nò serviço 
dft agréjft eètíVe ao seirvtfò àé el-rer. Quík ex- 



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96 A ilOC1DAD£ 

perimental-K) ; soffiri com paciência. . . mas é pre-^ 
ai90 dar-Ihe uma liçio. Conselho por conselho ! 
Tome as suas precauções. Olhe que os dois últi- 
mos castelhanos que matei, foi abrindo-lhes a 
cabeça até aos dentes. — Depois ajoelhando e 
pondo as mãos com os copos da espada entre el- 
ias, proseguiu com devoçfto: — Senhor Jesusida 
minha alma , bem o sabeis , é em defesa pro-^ 
pria ! Tende misericórdia com este homem, que 
vae apparecer na vossa divina presença, tão mal 
preparado para as terríveis contas que tem de dar 
diante da vossa justiça! — Acabada a depreca^ 
ção, Thomé levantou-se, imiteu a posição mar- 
cial que vira em Lisboa e Évora a alguns offi-^ 
ciaes , e gritou : — Vamos , sr. poeta ! em 
guarda já ! x» 

Dizendo isto , o devoto parecia de bronze por 
fora , mas estava uma abobara por dentro. Este 
momento era terrivel. Se o vate acceitava o car- 
tel e cruzaíva a espada, Thomé teifcionava roet- 
ter os hombros â poria do cimiterío e escapar- 
se. Hesitando elle, ou evadíndo-se, ficava des- 
mascarado , e pagava capital e juros do medo 
que lhe fizera curtir. O raciocinio, portanto, 
não peocava nem na forma , nem na materia. 

O poeta é que já não sabia aonde estava. Ho- 
mem de pacificas inclinações , tinha ideado este 



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Dfi D. JOAO V. 97 

lábce (iomo ideava as suas trovas , que os zoilos 
chamavam pecas. O sangue mettia-lhe horror, 
sobre tudo o seu ; uma espada nua fazia-]he agas- 
tamento de coração. A arte de esgrima , que 
alardeara , era uma impostura famosa, como era 
outra desaforada mentira os dois golpes mortaes 
de Thomé nos hispanhoes, dos calcanhares dos 
quaes teria fugido até Âldea-Gallega. . . Em todo 
o caso, o poeta via de repente um Roldão diante 
de si , e faltava-lhe o animo para ser Oliveiros. 
A gente nasce , não se faz. 

O plano caía , portanto , pela base. Os cálcu- 
los eram admiráveis , mas peccavam n'uma ba- 
gatella ; tinha esquecido ao vate prever a hypo- 
these do andador das almas levantar a luva , e 
acceitar o cartel. Esta falta desconcertou pela 
base os bem elaborados projectos do nosso amigo. 
A sua idéa era simples , como todas as grandes 
idéas ; reduzia-se a intimidar o devoto, coagindo-o 
a desdizer-set e a pedir a vida ; mas para isso 
tornava-se absolutamente necessário que o sr. 
Thomé tivesse medo , e o milagreiro , entalado , 
deixou os logares communs, e optou pela valen- 
tia. Diante da soluçSo inaudita do problema, uma 
transpiração duvidosa , que elle chamava excesso 
de marcial ardor, borbulhou na magnânima fronte 
do filho de Apollo. Em logar de se pôr no recto, 

T. JI. 7 

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98 Á UOCIDAJDB 

respondendo á esp«da com a e^Mtda , ainda n^ 
cuou dois passos mais; bai^u a ponta do fio* 
relê , e de revez observou pelo canto do olho se 
a porta da escada lhe ficava perto. Tomadas es^ 
tas precauções , virou-se para o adversário « que 
tinha o pierio chapeo atarantado na cabeça ^ e 
entre um sorriso mavioso e um gesto assucarado^ 
exclamou abrindo os braços : 

— « Àve , bis terque ave l Achei um homem« 
Pelos manes de Aristóteles! O phiiosopho qa6 
ao meio dia o procurava á luz da lanterna , en^ 
trando aqui apagava a candeia, porque achava 
dois. Cedant arma ! como diz Tullio Cícero. Fa^ 
çamos tréguas i e conversemos. » 

— a Sr. Bernardo Pires, tenho pressa ; e agoiQ 
n&o se trata de metaphoras, trata-se de brigar. 
Demais o tenho eu aturado. . . Estou canç»do ; 
aturdiu-me duas hwas. . . vou livrar a terra de 
um estopador eterno , e Lisboa de um malsim 
de sonetos, capaz de endoidecer até os sábios da 
Grécia. Vanios , defenda-se 1 » 

£ o devoto , brandindo ao acaso a longa es- 
pada, descarregou-a na mesa« que servia de 
trincheira ao vate , e cravou nella bons dois de- 
dos de ferro. Bernardo, mais branco do que os 
fabulosos bofes da camisa, que eram russos, fur- 
tou o corpo ao golpe, apesar de estar a três dis^ 



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DB D. iOJkO T. 99 

toffciQg do 9eu alcance , efi^olheu-se por detraz 
da m69a ^ e lemt»*ado das tertíveis cutiladas ce- 
rehraés do sr. Thomé boi çastelhaaos , armou-se 
da bilha^ que levantou como escudo, em quanto 
se retirava èm degordera direito á porta, agi- 
ta&do o florete como um moreego agita as azas : 
-— « Viva Marte , deu» dâ guerra ! gritou elle, 
Mm bellioa^ donato, modete a impaciência, e 
Dão enroBf ue as serpentes da calumnia no çapa<4 
cete onde pousa o sábio mocho de Minerva I Fa^ 
vetP Hiigm»! Freio m Uagua, e abracetno-nos. 
Deixe o frio Borees tiritando, e a canicula uríd» 
abraisatdo. . » » * 

— « Sr. poeta, isto não é negocio de abraços. 
Briguemos ! » 

— «Oh! glorioso ardor!... sr. Thomé ^ tt 
musa sauda*^ ! Gomo ReinaUoi, dé-me a ^rupa 
da «ett coricel, e i&tmigos paladinos vamos juntos^ 
banher a alma na divina onda do Permesso , do 
rio da amizade. . , Ab! i»aero Afiosto, quem to^ 
poderá , nio digo e^eoder , senSo imitar ! » 

— *- < Advirto-lhe que estou 45sperando ; » ^-^ 
acudiu o devoto , fazeod^^se oadn ve? mais Ct^rte 
com > ai ^evoloçõas olratoriats do ndr^nslirio. ^- «c O 
dMife fiio é com 01 vonios e $$ metaphoras, é 
cpok ir; Bm^nardp Pires. Mande fmmt o tai 
^rííoi^ »enio engo o braço^ e nSo se queixe... >►: 



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100 A HOGIDADB 

— c( Tem rasão, fallarei em língua vulgar. Ea 
me explico. Dizia-lhe que isto não é sangria de- 
satada ser hoje , e já. Temos tempo. Depois re- 
flectindo, creio que houve equivoco, ouvi mal 
talvez ; o sr. Thomé de certo queria dizer que 
desejava assados de carocha e sambenito os ini- 
migos do duque de Cadaval. . . » 

— « Nada , não houve equivoco. Ouviu muito 
bem. Sustento o que disse e o que nto disse 
Âffirmo e confirmo. » 

— « EntSo , meu amigo, dè-se ao mundo um 
grande exemplo ! Quebremos o alfange da Parca ; 
enganemos a morto, que bem o merece. Betra- 
cte-se ! Tenha a bondade de dizer o contrario do 
que disse , duas palavras pro forma — ou eu as 
digo , e o sr. Thomé ouve e cala-se ; ora como 
retractio non est conmium , o que significa, que 
a emenda não é infâmia, arranjamos o negocio, 
e o sangue de dois campeões não rega de pur- 
púreos veios os penetraes do tumulo. . . » 

— « Se tem medo, sr. Bernardo, conffesse-o e 
vá-se embora. Eu não desdigo nada , não con- 
sinto nada. Acabemos com isto. » 

— « Medo ! ? Esse filho da noite e de uma 
lebre macha , acaso entrou nunca no coração de 
Bernardo Pires? Medo, eu, poeta laureado, 
adorador constante de todas as bellas , e em es- 



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BK D» JOÃO V. 101 

pedal fiel captivo da maga Belisa , cujo nome 
profano deve ser Isabel, a estreita dos meus 
olhos , cuja doce alcunha é a Coração ! Medo ! 
Essa palavra vae derramar ondas de sangue, 
grosseiro sacristão. Primeiro a funda e depois a 
espada. Morre endurecido no erro já que des- 
presaste a vida. Deus tenha a tua alma em 
gloria! » 

Unindo o acto á palavra , e fechando os olhos 
para não vér o sangue da victima , o poeta ati- 
rou a bilha pelos ares , abriu a porta , e com a 
espada na mão precipitou-se pela escada abaixo, 
gritando : — « A clemência tem limites ! » 

No meio da estrepitosa saída , um dos de- 
gráos de fraco e podre exbalou um gemido e 
foi abaixo ; o pé do vate desceu com elle , e o 
sr. Bernardo Pires acbou-se preso pela perna, 
vendo por cumulo de desgraça em cima da ca- 
beça a espada do andador das almas, que o 
perseguia denodado. 

— « Renda-se ! d — gritou o devoto açoitando 
os degraus a ferro frio , mas sempre a rasoavel 
distancia do inimigo. Este , apesar disso , en* 
colhia o pescoço e piscava os olhos , cada vez 
que a sombra da espada innocente apparecia na 
parede. 

— a Pare , estou rendido ! » — clamou o poeta 



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Aé ma gaiola , agitando os braços em sigotl ckr 
perigo. — « Olhe que me faa partir umacaMlto ! n 

— « Pois entregue-se ! Para cá o florete » — 
dizia o heróico Thomé. — « Depois saberá as eoa- 
dições com que lhe perdoo. » 

— a Não abuse da desgraça x» — ehwaiiii- 
gott o paladino dos aerostickos e eokhms. — 
« Áhi tem a maldita espada. Faça favor , aju- 
de-me a sacar o pé de dentro desta capoeira ; e 
dé-me esse chapéu, que ienbo frio na catieça. i» 

— « O chapéu está prisioneiro de guerra . . . >» 
-<- gritou o sn Tbomé, recebendo as armas vir- 
gens do inimigo. — << Agora ouça. Conhece a 
Coração , a ciganita do pateo das Comedias ? Não 
era delia que faltava ha pouco? » 

— a Aime / » — suspirou o vate estercendo-se 
— « oxalá não conhecesse ! Adoro^a. É a flor 
que perfuma a minha poesia , é a suave Egaria 
deste Numa. . . » 

— Deixe-se de historias ; e vamos ao caao* 
Como o trata ella ? » 

— H Com os rigores de um t^ra hyrtano. Ot 
seus olhos para todos de mel ferem coaio bal-, 
las , se olha para mim. Sou o seo fiel coptiH» , 
respiro só para a idolatrar , e aquelb mão de 
alcorce , nunca me tocou de leve. . . Ainda tioo* 
tem lhe pedi um osculo , e den-me. . . )» 



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DS P. 4QÍO V. 103 

-^ « Ab 1 devi-lbe mn beijo. Bem ! &lle, diga, 
com mil basiliscos! » 

— a Duas tremendas bofetada^, uma de cada 
UÍQ V P^f^ v^ endireitar a cara , disas ella ! . . . 
Ah, tyranna Belisa, as seta» àã teus lindos 
olhos, , . » 

— <x Deixe as setas , e sentido com as nava- 
lhas! » — acudiu o milagreira 9 soltando a ri- 
sadinha fals^ do costuma. Não se meta {»elo Egypto, 
sr. Beirn^rdo « olhe que pôde ir por seu pé ^ e 
¥oltar ás costas de ^rem. 

T^m Então e^re-^e perigo? «r^Melamou 
yatf (sobresftltado, 

— « C6 e h mkB Í9â9» ha ! ^ foa the 
di|;o. Qra b^m* Saiba que sou seu rival segundo 
a «anve. Ando eonv^r^udo a Coração , ^ftorqua 
era pena corpo tão gentil perder a. alma. . . Ora-r 
ça$ a Dend ella ouve-<me. Nao creio nos meus 
mereeimejplos, $(^ creio no poder de Jesus Christa, 
fkOfi^ red^Piptor. . , Ê uma inclinação honesta , 
«m honra da egreja; portanto, sr. Bernardo, 
ou y. n9erQé jiira de não t(n*nar a desinquietar 
a Coração , m e^ dei^ c^ír a espada como fiz 
aos bi^panhoes, e enterro*^ debaixo destes de- 
tm«^. Pro^iette ? . . . » 

-«- tf Tirenaia a vida , ims deixe-me a escurt 
noite dos meus e^idAdos. n 



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iOi A HOCIDA|)X 

— a Muito beoi , ser satisfeito. Rese o acta 
de contrição. 

— « Espere , espere ! Que génio assomado ! 
Pois ha de degolar um poeta por causa de uma 
figura de rethorica? » 

— « Então deixe a rapariga em socege, se 
não quer partir para a eternidade em dois mi- 
nutos. O que decide ? » 

— ti Fico. Tenho muito que fazer no mundo. » 

— « Veja bem o que diz. Promette. ...» 
— « Não prometto , reconsidero. Se ella vivo 

me esbofeteia , o que será depois de morto ! Re- 
gale-se , e ature-a , que não leva mau castigo. 
Não lhe seguro os ossos a um ceitil. » 

— n Isso é por conta minha e delia , não lhe 
dé cuidado. Olhe que se o apanho em alguma 
emboscada. . . » 

— « Eu não sou melro para andar por bos- 
ques ! Abjuro o traidor Cupido , detesto a las- 
civa amante de Marte Rufião, e protesto viver 
e morrer em puro celibato. Estou curado ! Prc- 
ferir*me a osga torrada deste sacristão ! . . . » 

— 1( Então, visto estarmos concordes » — ata- 
lhou Thomé que não ouvira a ultima parte da 
jaculatória, nada lisongeira para o seu amor 
próprio — « não quero demoral-o mais. Sou um 
seu venerador, sr. Rernardo Pires, j» 



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DE D. JOÃO V. 105 

— « Um momento ! » — gritou o vate. — 
« Solte-me as asas , digo os pés , que sendo ras- 
teiros, em estylo culto se vestem de pennas. 
Muito obrigado.' Adeus generoso inimigo ; se 
qúizer uma decima para o seu noivado , procure 
Bernardo Pires, poeta laureado, morador em 
casa do duque de Cadaval. Adeus, venturoso 
mortal; diga á ingrata Belisa, que até morrer 
adorarei os lindos pés, que são zephyros na dança, 
e as castanholas, que dão mate ao coração. » 

— « Olhe a sua capa , sr. poeta. Ahi vae. 
Até mais vêr. » 

E Thomé das Chagas , descobrindo em si uma 
qualidade nova, o valor, depois de viver trinta 
annos antes de a achar, atirou de cima da es- 
cada a desbotada capa ao infeliz rival. £ste que 
morria por estar a cem léguas do theatro da sua 
vergonha , fez-lhe uma ultima cortezia , levando 
a mão á altura , onde devia estar a aba do cha- 
péu aprisionado , e saip. Já fora da porta levan- 
tou os braços ao ceu e exclamou : 

— « Vou tosquiado! Perdi um florete, um 
chapéu , e uma rapariga ; mas levo o corpo in- 
teiro, que é o essencial. Nada de graças! Se 
mato o sacristão tinha de mudar de ares , e ainda 
por cima ficava sem almoço, e cheio de remorsos. 
Quem as armou que as desarme. 



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lOÇ A UOGIDADE 

Da &ua parte, o aodador da3 fAwí%9 apesar 
da bravura , limpava o saor frip da testa , en- 
direitava a casaca , e pegando na bandeja e a9 
seu nicho, saiu da casa sem olhar para traz, 
desceu a escada a furta^passo, e já na rua, 
ajoelhando beato e contricto , desafogou em um 
suspiro, exclamando: 

-*— a Bemdito e louvodo seja Nosso Senhor 
Jesus Christo. Sempre escapei da boa l » 



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CAPITULO XVII. 



MBNTISA E VBa»Al>8. 



Foi sempre um homem activo e previsto o sr, 
Tliomé das Chagas 1 O se« tempo valia dinheiro, 
e a sua memoria era exacta como um chrono^ 
metno. Apeoas desembaraçado das perseguiçõesi 
éo poeta laureado , olhou em redor de si, orieun 
tott-^M ^ tomou o caminho mais curto. O seu 
ipasso aocelerado disía que o episodio bellicoso 
lhe tinha roubado uma hora pek> nenos , e que 
Bio qaere»do facer es^r&r nioguem multiplicava 
a comprida pessoa, e era igual â sua reputa- 
ção. 

Em virtude deste calculo sim^icissimo o glo- 
rioso andador das almas correu direito á porta- 
ria de S. Domingos , e chegava á cella do pa- 
dre fr. João dos iRemedios , justaineote, quando 
o relojo do ooiiivento , dompassado e grav« , ba- 
tia as Qove da manhÂ. 



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108 A MOCIDADB 

Thomé louvou a Deus. Só meia hora se tiob» 
atrazado no desempenho dos seus deveres. Sua 
reverendíssima passeiava pelo gabinete, e em 
gestos altivos , e voz sonora , dictava um papel 
forense ao desmemoriado escrevente , cuja dis- 
creta estupidez o padre mestre abençoara em 
casa de Lourenço Telles. O nosso devoto respi- 
rou , e foi logo tomando posse da situação. De- 
pois, apurando as sensações auriculares, resu- 
miu espirito e corpo nas immensas orelhas, ávi- 
das e curiosas. 

A eloquência do procurador desenrolava-se 
entretanto em períodos extensos, cadentes, e 
ameaçadores, accusando a companhia de Jesus 
de rebellião premeditada contra a magestade do 
throno e a santidade da egreja. A minuta da 
allegaçao tremia nas mãos do orador, que a ia 
limando, entre furiosas pitadas, e estrugidos as^ 
soados , e tio meio da commoção vehemente que 
retarda ou precipita o homem , cuja imaginado 
laboriosa acode com variadas expressões á tra- 
ducção do pensamento. 

Passados instantes, Thomé sacudiu a cabeça e 
elevou os hombros á altura das infinitas orelhas. 
A este gesto succedeu um sorriso verde, — bur- 
lesco arremedilho do fino sorriso do padre Ven- 
tura nas occasiões escabrosas. Feitos estes sig- 



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DE B. JOÃO T. 109 

fiaes teiegraphicos entre a alma e o corpo, tirou 
do bolso o nosso amigo um papel e poz-se a es- 
cutar, delapis nos dedos, escrevendo tanto quanto 
dietava o procurador de S. Domingos. 

Este em uma investida heróica entrou peia 
cella dentro , de braço alto e lenço fluctuante ; 
e se o andador das almas é homem menos acau- 
telado, colhia-o em flagrante delicto de men- 
tira capital, descobrindo-lhe uina prenda nova 
e occulta , a arte caligraphica reduzida ao me- 
tfiodo mais expedito. 

— «Ah estava ahi, Thomé ? » — disse o re- 
verendo, assoando-se e escorvando o nariz com 
muita complacência. 

— «A sua bençSo , padre mestre ! » — res- 
pondeu o devoto , afivelado na contrícçâo , que 
lhe servia de viseira. — « Peço desculpa , vim 
mais tarde ; mas espero em Nosso Senhor , que 
n8o fizesse falta. » 

— « Não fez. Como a noite passada estive ao 
bofete até ás onze, agora mesmo principio a di- 
etar... V. mercê, hontem, é que sahiu tarde, muito 
tarde I Que horas seriam, Thomé das Chagas ? n 

— « Uma hora da noite , reverendíssimo » — 
acudiu o milagreiro com certa escuridão nas fa- 
ces , o que nelle correspondia a fazer-se bastante 
vermelho. 



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110 à lioaiUDE 

-^ « Jintaimi^. Uim hora ! £ o qttej dmi» 
o leigo d» portaria. £ aonde esteve todb ésaè 
lempO) pôde saber-^se? » 

— « Na capélta de cima , a rezar. £stWe pa^ 
gando uma promessa. » 

•— * « Âh ! Mvito bèm. Sabe que pegtiei no 
somno \úgo<i e de modo que nio aenli raai$ 
nada? -» 

^^ « Que admirado ! V. reverendisaima anda 
eançado. . . • » * 

— « De espirito e de corpo, irmSo Thonté; 
e Deus me dé forças pela sua iafinita miseri- 
córdia. Arranje-me a cella e nio se v& em*^ 
bora. . . . bem ! » E outro sim » -^gritou eUe « 
continuando a dictar da porta do quarto *-^« pro* 
Tara na real presença a soberba monstruasa da 
sobredita companhia ^ que nem respeita a Beas, 
nem teme o condigno castigo da sua terríMê' 
dade. ...» 

-^ <K iniquidade 1 a «^ repetiu o «acrevente , 
como ecbo infieL 

— a Espere I -~ E fr. Joio , magestoso e yer-' 
melho da etcitaçfto mentai, rodeou o grande 
eontador de pau santo; e pondo oa olhes no 
tecto firmo« o período coo uma tnèiewla fut* 
nhada na mesa , que a fez tremer e á casa toda* 

Duas horas depois o procurador expedk o à^ 



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DK D. joio y. 111 

kstrc ir. Thofité com ama earte a Diogo de 
Mendonça, e a passos lentoa encaminhava-^, 
meditando, para a rua das Arca», aonde o es- 
peravam para jantar Lourenço Telles e seu so- 
brinho Filippe da Gama* 

O devoto , depois de pesquisar se algoem lhe 
seguia o rasto , em vez de seguir direito 6 Cal-^ 
cetaria, tomou para o lado de Santo Antão, e 
viu, mesmo debaixo do alpendre, ama sege 
parada, com os cordões, o cavallo transparente , 
e o esgalgado e faminto bolieiro , que naquelle 
tempo constituiam a trilogia de um vehiculo 
desta denominaçSo , antes de aperfeiçoado com 
outro cavallo espectro, duas rodas de azenha, e 
uma capoeira suspensa , como boje o vemos» 
Hia a pôr o pé no degrau , quando se eaoon-' 
trou cara a cara com o padre Ventura , que o 
recebeu quasi nos braços, entre voa sorriso 
mavioso e esta jovial exclamação : 

— .« Orá, bem vindo seja o nosso aodador 
das almas 1 Então o que o traz a esta sua ca- 
sa ? » 

•*— c( Venho eúnfesiar-^mt / » **- replicou o mi-* 
lagreiro , beijaodo-ibe a osanga ^ e dirandu parft 
todos os lados inquieto. 

-^Ah! E as culpas pafecem-lhe grandes f 
Não pôde com ellas até á naíte? » 



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112 A MOCIDADE 

— « É preciso dizel^as já. Até as puz neste 
papel para me não esquecer alguma. » 

— « Percebo! É tudo? » 

— « Ainda ha. . . . » 

— c( Espere ! Olhe , suba. . . . Não ! Venha 
comigo; como são duas palavras, a cella do 
porteiro é bastante. Diga-me : vem de S. Do- 
mingos? » 

— <x De lá sahi. » 

— « Óptimo! £ a devota communidade? » 
— « Espera amanhã estar melhor. » 

— « Ora, Deus permitta! Estimarei muito.» 
Os dois entraram ; e minutos depois chegou 

o padre Sebastião de Magalhães, trotando na 
sege do paço, e apezar do frio ardendo em 
calma. 

— « Aonde está o padre Ventura ? » — per- 
guntou ainda de dentro da sege. 

— « Aqui , aos pés de V. reverendissima » 
— respondeu o italiano que vinha sahindo. 

O confessor de el-rei, apesar da sua corpu- 
lência, de um pulo atirou-se ao chão, e não 
bzendo caso de Thomé , que se lhe prostrava aos 
pés com momices respeitosas, pegou na mão 
delicada do visitador, e antes de fallar moeu- 
Iba , no apertão das suas , indicando assim a 
gravidade do negocio. 



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Bi 0. iÚAÚ V. 113 

^^ « Mais de yagar , padre mestre í^rcebo 
optimamente. Adeus, sr. Thomé; nSo se es- 
queça. As culpas São grandes, tinha rasão; 

mas a penitencia as expiará e não ha de 

ser pequena. Ora pois ! Quer mais alguma coi- 
sa? » 

— ff A sua benç&o V padre mestre. » 
""^tt Deus o faça um santo. » 

E sustendo com um gesto a impaciência do 
confessor , vãú o deixou fatiar senão depois de 
Thomé ter desaparecido. 

— « Aquillo é um pobre fanático que me des- 
assocega todos os dias com os seus escrúpulos de 
.consciência. . . . Agora, nós. Então ha novidade 
pelo paço? Está peioi^ el-rei? » 

— « S* magestade está melhor. » 
-^-^ <i Ainda bem. E o príncipe ? » 

— a Sua alteza teve ordem de prisão. » 

— « Sinto muito. » ^ 
«—«O infftfite 1). Francisco trabalha. . . , » 
— « Também sei. » 

— « E logo no conselho de estado. ...» 

— « Decide-se o casamento do princípe. Es- 
tou avisado, n 

O padre Sebastião olhou cheio de assombro 
para o superior. Parecia-lhe quasi um prodígio 
que soubesse tudo ,e tão depressa. 

T. II. ^ 

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114 DE ]>• mXo V. 

.^ « EitreUnto receio q«e & «Iteii. . . • » — 
insistiu elle. 

— c Nia receia. $. altesa ik qm nio red«»- 
dimente ao conselho de astadd ,. eoMR> dâsse en 
particubr a el-rei , sm pae. » 

— « Deus nos acuda ! Sabe v. reverendissima 
que el-rei fa|U da a m^tcF m t^ne? » 

— « Sabe V. paternidade « que t, nMigestade 
nam sempre bz o qpia di»? » 

-^^ Uai é que o inbiite embníUka tudo! £ 
apezar de ser um pouco líive e hm dd ea* 
baca.* ».» 

— «Doidot dfoiaaAe» díi{al»««^ «tolha 
ík fiiYor. a 

— <s Mesmo doido l Sabe v. ceferendissima 
que acha quem o siga» e diM» ou trea pessoas 
de muito coneeitK^ paca el-<rei noaso seaiboi 7 Por 
isso temo. « • * a 

— « Não tema. d 

— « Mas pôde vir iwaa onlean peaigoast digo- 
Iho eu padre visitador. » 

— «Não vem aada» affirmi^lhoeu, padre 
confessor. Olbe^ os reis que morrem nanca me- 
teram medo aos reis que ficam; acredite iste: 
e apesar das suaa melhoras o sr.. D» Fedra U 
esti vmiU^ doentet muito ma). . . ora o prineipe 
ha de casar, mas é depois. lia da casar na casa de 



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Áustria , mas não é já. QqeranoIrO KkKqívq uns 
dias, mais uns dias. Fallousi %^ fAtovil^)» 

— «Da parte dQ 9Q1& mg/fito pd?. « 
•^«E cbffD« £ goum^ a rot^ii? . . 9 

«-- « O p«ÍQ«ipowvdi« NãQx^poAdoM {wlaTra » 
— «( Ah ! . . E á carta de s. snagcitadlQ? i> 
«^« A coyrU? . « £« rSo^ ^im^ que l^ei uma 
carta. » 
*^i(Diga eu: o a r^spoiti?»^ 

— « Trago-a neste papel — murmi^w 9 con- 
Teiaor cadt ^ess nwífiwQQfaiid^ dunto d^ copiosa 
noticia do podre Ye«bira,-.ir.FalU^i9 muito 4» 
P«i3^ do priocijpie por cirta dniMi. • > » 

— « « Ab 1 . >^ 

— «Uma D. Catfaarina de Attiaidir, mnm 
em SaAta Clar«« . • » 

— <x E vão tomar-se providencias. . . » 
.-*-«Sim?» 

— -ifEUiei jurw Dor alma è$ «eu paci, « , » 

— » V. paternidaao oSo deve dwMor jwar •^ 
rei • porqua 4 poecadOf £ dapai» ? » 

— -« Souba-fiaqu&f^ altasa ovtove npnibrefi ve^ 
xea am Santa Clat^. • . x> 

-^aCoift e(feito?j> 

•M^E dç todaa teye grmdw oolloqww ^^^m 
a noviça D. CatbaFÍlM. P 



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116 A MOCTBAra 

— «EstSo certos?» 

— « Gertissimos ! » 

— « Pois não sabem nada ! » 

— a Entto o príncipe nlo esteve em Santa Cla- 
ra ? >^ — exclamou o confessor absorto e recuando. 

— « Esteve ! *> 

-^c<Não fallou três vezes á mesma dama?» 

— « Fallou ! » 

— « E a dama nfio é D. Catharina de Atháide ? » 

— « Não ! » 

O padre SebastiSo de MagalhSos estacou : com 
os olhos esgazeados e as palmas das mSos vira- 
das para o seu interlocutor parecia repellir a 
vis9o de um fantasma tenebroso. Â firmeza da 
negativa fulminava-o. 

— «Se não é D. Catharina então quem é?v 
— gritou elle no estouvamento causado pelo sea 
espanto. 

— « V. paternidade esquece que é só confes- 
sor de el-rei, e que eu pergunto e não costumo 
ser perguntado? — atalhou o padre Ventura, 
manso de tom, porém severo de expresáão. — 
Basta que lhe diga que está ás escuras. S. al- 
teza ama tanto D. Catharina de Atbaide , como 
V, paternidade cré em Mafoma. Julgo que nem 
a viu ainda. Descanee. Â corte não dá cuidado. 
Dos nossos negócios como vamos ? » 



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M 0. JOÃO ▼. 117 

• — n A questão da America parou; » 
^^ « Não importa. )> 
-— (( Os domíoieos acomodam-se. » 

— c< ERgana-^e : estão em armas. » 

— « Não transpira ! » 

— « Ha mais alguma coisa ? » 

— «Temos el-rei de pedra e cal no caso dos 
quindenios. » 

— (xÉ preciso pol-o de oera. Os quiedenios 
talvez se paguem. » 

— « Pagam-se ? ! j» — clamou o confessor at- 
lerrado. 

— « É mais que provável. E o padroado ? » 
-^ « Está nas mãos de Diogo de Mendonça. 

Mas D. Tbomaz de Almeida prometteu. . . » 

— a Se prometteu nada faz. É o costume. 
Falle a ét-rei, e levem o negocio ao conselho de 
estado ; é melhor. » 

— «E se Diogo de Mendonça o demorar ? » 

— «Não demora. Para a semana dá-o despa- 
chado. » 

— «Então?. . » — acudiu o padre Sebastião 
com uma grande interjeição nos olhos. 

— « Confio que Deus nos ajudará. » — repli- 
cou o Italiano com um ponto final na voz. 

— « V. reverendissima sabe tudo. Só me resta 
pedir as suas instrucçôés. » 



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118 A HQtlMM 

— <i Sfid flMÍ9% ^pêÈtè SèbMiilô» ObQH , teja, 
e falle o menos que souber ; pm^m ^ cahr a 
tempo é a iMi^ iscíefid«. EMims ntts tesperas 
de grandes pt/A^^ Quem ^So «s (MMMsde mais 
respeito para o infante D» Ffimetoco^ m eHe res- 
peita alguém Tu 

'^«Nio fli« qMt mèl ô tittqw éé Cadayal 
D. Nuno.» . 

-^«Netl belAi vvVMs.i» 

— «Boque Monteiro Paim «OM^kk^ 

•^«fetoè, pM" fbVi^a ! D 

— « Senre-o de rastos o secretario dé €8Mh 
D. itfeotMtt de Àlni^ida. % 

^^«f^tiÂem é àiAltrà). Que tnaiêt» 
^« OòMile 4e$. JetM) pi^r ésâg^to <)«el«fe 
de s. «Itdfca^ . . » 

— « Ettá ))èrèi«it do ifUMíòt ««> lodo*?» 

— « SSo os principaes. » 

-^ ^ E T. páterttiddb ? Dk»etiBftn-4ne quetam- 
lieín tinte M graçaft de s. nMéfea séfenimna. » 

— «As vezes faz a honra de me ouvir, m»... * 
--^iiMas V. ^atemidtide sabe qttd % coração 

dos príncipes é intoíiitottte, o que é perigos 
ÈtkT rm andMçSo? A^itti o esperava^ Nso ticre- 
dite nos médicos, padf^ mestre ! Efle^ ^Ifeom '^ 
el^rei meiho^ , quando s. «nagestade ti^ík quasi 
na sepultura. Âffirmam q«e B. áfteta I^Í) ^ 



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im Ih Mio V. 110 

jHÍAciíie D. ioSo idto chega aoi demto «imos , 
e emfiisegiii«HÍhB qnlMdevèi*<i séb]?0?ifer, pan 
gloria delle e felicidade destos teiíioi, áqueÚes de 
seus irmiofl que lhe contem « im de vida cu- 
bicando a herança. . • padre Sebastião, quem 0^ 
para por çifotos de defuncto arriflca-^ a andar 
deetalçe-^é o adagio. Eãtm mteim de ieiarte 
D. Francisco , e todas as suas conspinçdeft umk 
niacas não Talen um cabeilo ; o q«e fMMlem é 
oietter na torre algum tonto , o« exterfliiMr da 
corte dois ou três crédulos ; o mats, digo-Hio em^ 
é iawú e deof^emee. V«rá! Se o inCinte não 
pede oQtnaigo, se elle tião tem eebeça pam aí, 
como ha ie «r 4^beça de um reino, e chefe 4e 
tanta getáel •. Em pd«cas lioras, «m «n ac- 
cesso de kiocam põe ét rastos ^ fet «em iníflii^ 
^§m c^Htees a^nelles que mais o ajudarem e q«e 
elle mais procura. £ uma prafbeeia ■miÍMi, e eiiie 
tem, eata »fae certas Depois, a. afteaa está acos- 
tumado ás feras do meste, e por isso iiio adk 
mira que muito mal conheça os homens. Ás ve- 
zes no rio descuida-se com uma pontaria, e cahe 
ferido um marujo das vergas. . . Ora , quem as- 
sim tem a vista fraca não ha de nunca achar os 
degraus do throno. Aposto que é do meu voto , 
padre Sebastião ? Os absurdos não reinam ; so- 
bretudo os de carne e osso. » 



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120 A '«OCIOABE 

O confessor de el-^rei tinha o rosto vermefiio 
eomo lacre, e nSo levantava os olhos. Porfiai 
em voz biMxa disse : 

— «V. reverendissima ordena alguma coisa 
mais?» 

— cíQue teàha saúde. . . A propósito, pode- 
rei fallar ao .príncipe amanhã e a s. rai^estade 
esta noite?» • 

— «Â 8. magestade de cei^ito. £l-rei estima 
os nossos padres. Agora, estando o príncipe eom 
ordem de prísSo é que não sei. . . r 

--^aSe é difficjl obter audiência? vNSo im- 
porta; arranjaremos isso. Adeus, padre con- 
fessor. Beije por mim a mão de el-rei. » 

£ sorrindo sempre metteu^se na sege e pai^tiu 
com toda a rapidez. O padre Sebastião ficou dois 
minutos a olhar para o chão ; depois, arrancando 
um suspiro , exclamou : 

— « Dez annos dava eu da minha vida , se 
entendesse aquelle homem ! » 



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CAPITULO XVIII. 

EM QUANTO VENTA MOLHA A VELLA ! 



D. Pedro II fazia a sua residência nos paços 
•de Alcântara. Era alli ^ que sendo ainda infante, 
pousara o primeiro osculo de vassallo, já tre- 
mulo das anciãs do aiFecto , na mão da princeza 
D. Maria Francisca Isabel de Saboya, que ia 
ser rainha , e ã qual o seu coração e a fortuna 
4eram depois o suave nome de esposa. 

Mal cuidava Affonso VI, armando com pompa 
estes aposentos reaes, que a delicada mào de 
lima dama havia de pegar no sceptro com tanta 
força, e quebrar-lh^o sem piedade. Mal previa 
então o herdeiro dos duques de Bragança que, 
envenenadas por uma paixão ardente , as ambi- 
ções do infante se levantáriam^tapto que olhas- 
sem destemidas para a çbrôa, rompendo a lucta 
dos dois irmãos , lúcta knpJi^cwej , cujo premio 
era o throno, cuja esperança era o «mor,- e as 



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A MOaDADB 

suas delícias a fieço de umipiaailratrteidto*.. « 
Vendo-se declinar rapidamente, duas vezes 
viuvo , e sentindo sempre o coraçSo carregado 
do lucto da primeira esposa , D. Pedro II , por 
instincto, procurava es sitíos« <Mide a fortuna 
o fizera monarcha e ditoso amante. Quando el- 
rei silencioso e solitário pisava as salas e as ga* 
lerias desertas, nas quaes em dias venturosos 
colhera as flores tão mimosas da paixão , e ou- 
vira de uma bocca adorável as promessas dese- 
jada6, a saudade, sombra {riangente d'aqpiella 
que tanto amou > aeguia-o por toda a parte, aqoi 
lembrando iun sorasot alU uma psJavfa, em- 
cbeado tudo com a memoria da mídfaer que 
chorava, Proaimo a entrar no tumufe da cspoM» 
<» irmão podi« curvar a cabaça ao remem « nw 
o amante, se erguia os olfaos ao oéu erasóptn 
attestar a dor com as soas lagrimas. . . . 

Elnrei D. Pedro habitava os quartos de Ma 
primeira nralher. As custosas armaoics, q«e 
tantos 8cirtx)s cassaram ao iitebie secretario As- 
tooio €avide , ainda eram os mesmas ; os mor 
veis , as guiuraiçdes » as tapeigarias , « as aiea- 
tiias, disfiostns ao .gosto àã primeira fsiaha^ 
ceaservaram-se como as eUa deixara , aervindo 
de memorias á magw do monarefaa, magua fiie 
tolvez (>r«cipltott os dias da segfànià «pposa, D. 



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M n. Joio V. 123 

•ibría de NewbHrg»^ inconsdivri for v£r a 
ionriíra 4e um septtkíre mais poderaaa no co- 
raçtío ée seu matiifo do que a lat éo» Hidbs 
oNÍMt dnejoflDS do rànar aobre quem não que- 
ria ser «aoravo deiks. 

Soriam quatro iMMriB do dia 4 de daBembro 
de 1704. Ò teaifK) aio esteva chuvoso ; mas 
«Ofmva um vealD húmido. A manhft tiaba sido 
traMÉPosa para o moaaTofaa ; o despacho oom os 
aecf«tario6 de eatedo ; a ctonfiBraocia com o mi- 
iiiitm iagloi lord icÁm Methweo ^ e o exame 
de algitns papeis^ oeeaparam eWeí «té á orna 
hova , <em que por costasie inalterável se assen- 
tava á mesa de jantar. iSua mageMsde repetia 
muitas v«tes « ^nde aMxima de qee — csn nto 
se >eoinen|Ío bem, por ierçe se haria de trabalhar 
«iai;«^e OMipria-^a com o appetite ctrioso, 
que «ntSo deorava as qualidades de algons prín- 
cipes reinantes, tomando^w sem disputa os prí- 
moiros gastroaomos dos sees estados. 

A «escolha e a qoaatidade dos menjares , na 
vaal ucharia de Akantara , não deificavam nada 
a d«»qar; o p6de*^ crer^ que a Jaminta ima*- 
^m da dieta fiigiria honH)rísada ^ se penetrasse 
na «casa , acede o filho de D. Joio iV honrava 
« nnemorta celíttiiria dos ViteHios em cc^píooos 
«ecrificíMk 



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124 A M6GIDADB 

D. Pedro II tinba habites enraizados/ D^s 
mais firmes e elegantes cavalleiros do seu tempo, 
nutria pelos exercícios equestres um goato deci- 
dido, que nem a idade nem os pesares podiam 
diminuir. Apezar do conselho dos médicos, e dos 
incommodos , cada vez mais frequentes , que lhe 
minavam a saúde, apenas acabava de jantar, 
sua magestade descia ao picadeiro, e entreti- 
nhanse dims e três horas a cavallo no meio do 
applauso dos camaristas e da «admiraç&o dos pi- 
cadores , porque , sem lisonja , era um mestia 
consummado. Quem o conhecia , não ignorava 
que a melhor occasião de alcançar delle qual- 
quer mercê era á entrada da missa e á sabida 
do picadeiro. Talvez nSo houvesse exemplo de 
ninguém achar a munificência do príncipe infe- 
rior â sua devoro ou á sua satisfoção , se tinha 
conseguido emboscar-^ nas proximidades das 
duas portas da fortuna. 

Neste dia , o mesmo em que passou a confe- 
rencia de Sebastião de Magalhães com o seu vi- 
sitador, o sr. D. Pedro fizera prodígios, e re- 
c6lhia-se radioso. Á porta , sua magestade achou 
o padre confessor. Sacudindo com a vara o f6 
que lhe cubria> as largas e pezadas botas ; con- 
chegando a bella casaca de picador ; e compondo 
os punhos e a tira de renda amarrotadas , o mo- 



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DE D. JOÃO V. 125 

narcha sorríu-se , e deu a mão a beijar ao menr- 
toT espiritual. O jesuíta poz o joelho env terra , 
e murmurou em toz submissa algumas supplicas, 
que tiveram favorável acolhimento. Depois disto, 
el-rèi seguido do primeiro camarista de semana 
entrou no paço , e chamando o seu guarda-roupa 
foi-se mudar de trajo. 

A casa , em que D. Pedro II expedia o des- 
pacho e dava audiência , era a antiga casa , cha- 
mada do cr Estrado » toda forrada de damasco 
escarlate com sebre-portas e janellas de brocado, 
ornadas de guarnições de oiro. O bofete mar- 
cbetado, cuberto de um panno de veludo azul 
com os escudos reaes nas pontas, servia de 
carteira e carregava, além da immensa escre- 
vaninba de prata, com grande quantidade de 
livros e papeis. Um crucifixo alto de marfim le- 
¥antava-«e no t6po da sala , defronte da cadeira 
do monarcha : vinte laminas grandes de bronze, 
em molduras pretas entalhadas , com bellos pai- 
néis de fina pintura , enfeitavam as paredes. Se- 
guia-se para o interior a casa do « Oratório » 
com sobre-portas e guarnições de Ihama carme- 
sim repassada, abrindo duas sabidas para a <x gal- 
leria da rainha» armada de telas amarellas. 
Era por esta gaHeria que se passava da casa do 
«Estrado » e do « Oratório » para a alcova e 



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quartos partíciílares da el-4:eL Segundo a eti- 
qu/cita Pão lum mais cadatras da ^laoi a appíi- 
ratoM iK^trona de veludo franjado, aoodâ jpre- 
sidia o s^^berano, e assentos de doimasco roso 
sem franja oem espaldar, em qne os principes 
assistiam «o conselho » quando eram chamados. 
Os secretários de estado despachavam em pé; 
ou de joelhos nas coxins, collocados em volta 
do bofete; e os conselheiros de estado davam 
o seu voto em bancos , dispostos em scmieir- 
culot da ambos os lados da cadeira reaL 

Antes da « casa do Estrado » havia mais três 
salas exteriores: — a sala dos Tudescos, aonde 
estava a guarda alemã; — a saki da tocha » 
aonde o porteiro da canna , revestido da capa a 
insignias do seu cargo , cumpria as «rdens de 
sua magestade — e a sala do doceU immensa 
quadra forrada de preciosas tapeçarias t repror 
sentando a vida do sábio de Israel , o rei Salo- 
mão. Estas salas davam entrada umas |iara as 
outras, e abriam as estreitas, a altas janellas 
para a bella varanda de pedra, que deitava so- 
bre o Tejo , costeando esta ala do palácio , ou 
quinta real. Da casa do « Esteado » ía uma es- 
cada particular até ao jardim , fechado da gros-^ 
SOS muros, a armado com a impertinente sy-* 
metria, que era impreterível naquelle tempo. 



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BB ». mko V. 1X7 

Hm kMCa depoíi de imitar da picaria, D. 
PadfO II« preoaáMÍo ]ido manfuei de MartaNa , 
sea gentil-honieiii da camará, e por dois pa- 
geii$ em corpo, Totidos de preto, entrou na 
caaa do c Eatrado. » Os pagens correram o re^ 
porteira, e ficaram um didEronte do ontro, guar- 
dando a porta, que abria para a saia do do- 
cdL O BMirqiiec^ de pé, é dota pasaos atras 
da cadeira da lett amo, esperava silencioso as 
suas ordens. 

A alegria do rei tiniia desapparectdo. Um 
veu de melancolia reflexiva entríatecia*tbe o 
roato^ cuja expieasio era severa e carregada. 
D. Pedro II , robusto de corpo , e na idade de 
cíncooBta e oito annoa, ainda promettia a quem 
o coÉkemphTa as forças extraordinárias de que 
a natureza o dot&ra. De elevada estatura e ma- 
gestoaa parte^ oa ottioa pretos, grandes, e ras- 
gaA)t, tiidiam as sobrancelhaa bem arqueadas e 
escuras; antes da moléstia, que o consumia, 
bcibavam cheios de vivezn ; e agora ainda eram 
faceta de' animar se alguma repentina comoção 
lhe vinha inflammar o animo. Trigueiro e de 
pouca còr, o beiço inferior bastante grosso dea- 
cahia como o de seu pae ; e um modo áspero 
de encarar as pessoas que o desgostavam des- 
pedia os importunos. Â cabelleíra descia em três 



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128 A MOCIDADE 

cachos grandes de anneis até aos bombmí^ e 
lambendo-lhe a testa, dava anta sombra trister 
á phisionomta , já de si pezada. Sua tnagestade 
appareceo vestido com a maior simplicidade ^ 
para nAo diz^ negligencia ; e distifthído n^n 
tinha virto o seu camarista de semaúa, qae es- 
perava iomovel qiie os olhos de el**rei o des- 
cubríssem, tendo entrado algons; instantes depois. 
O monarcha acordou da sua meditado, e ex-^ 
balando um suspiro: 

— « €oDde »^— disse elle » — ^ chame o pa- 
dre confessor. » : 

— Cl S. reverendissuna espera as ordens de 
V. magestade. « 

— « Que venha ! E o conde de Pombeíro? » 

— « Entrou agora mesmo mt sdb da todia. v 

— « Va-o buscar. » . 

Momentos depois, o padre Sebastião^, saindo 
da casa do a Oratório , » e o capitão das guar- 
das , conde de Pombeiro, entrando^ pela sala do 
docel, incUnavam-se beijando a mão de ei-r^. 

D. Fedro II olhava para o jesnita e pareci» 
conkariado da seu silencio. Entretanto, disfar- 
çando na frieza do tom o grande interesse da 
pergunta , abriu a «conversai^ak) ; ; « 

— « Esteve com S. alteza^ padre Sebastião^? t» 
— interrogou elle. 



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HK D. XOÃO V. 1^9 

^ «-«tt Saberá V. mageslade que sim. n 

- -<— « Cofkimuoicou-lhe as ordens de seu pae T » . 

— « Obedeci a V. magestade. » 
•-*-« K então? » 

--^.«.S. aUeasa nio se dignou responder. » 

— "U Ah! » — exclamou o monarcha enru- 
gando a fronte e com um grande brilho na ?ista. 
— «r S. alteia não deu resposta? » 

— « Nenhuma, dsolutunente, meu senhor. » 

^— « Ayisou o príncipe de que ordenei que- 
assista hoje ao consdbo de estado? » 

— « Cumpri as ordens dè El-reí. i> 
« E o que disse? » 

— « Que estando preso não podia sabir sem 
umt ordem expressa de el-rei seu. pae. » 

-^« Muito bem ! S. alteia não disse mais 
nada ? i» 

' — «Mais nada. Afaaixou-me de lere « cabeça, 
e virou-rme as costas. 

— « . Conde de Pombeiro » — disse D. Pedro, 
virando-se para o seu capitão das guardas — 
« daqui a meia hora irá cpm o inCotute D. Fran- 
cisco, em um coche da casa, aos paços da Bi- 
beira , e debaixo de prisão condusirá ò príncipe 
real á minha presença. O iirfante recebeu as 
ordens. Pôde retir«r-se. Padre Sebastião, fi- 
que! » 

T. H 9 

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130 ▲ MMIDAOE 

— « V. laageflkade ]Mnutte? Qnem. ha de 
receber a espãa de S. alteia leal? » — per-- 
gantou o Conde de Poiabeiro miuto péllido. 

— a Ninguém. Dirá o conde ao príncápe que 
el-rei ordena que lha entregue elle próprio. » 

Apenas nda o capitão das guardas , D« Pedro 
II le^vantou^^e com ÍBipeto « e olhando para o 
seu confessor , exclamou : 

— «Ê poneciso um exemplo! Ou S. alte» 
dsedece e tenho fiflio , ou maado pre^rar na 
torre os quartos, em que Islleceu o príiKápe D. 
Theodosio. Nio hei de conseirtír que se levante 
uma creança contra a minha vontade, e con- 
trarie projectos úteis á sua gloria, e á fS^icidade 
destes reinos. . . . Marquei, vi a casa de O. 
Luiz de Athaide , e- diga-lhe dè ardem de el- 
rei , que venha amanhã sem falta ao paço , de- 
pois da missa. Se D. Luiz pergwtar o motivo, 
deve responder que é segredo de estado. Estas 
loucuras hão de acabar por uma vez. ... » 

— a V. magestade permítte uma observaçlo ? » 
—acudiu t) confessor, logo que o marques de 
Marialva se ausentou. 

— « Diga. » 

-~«( SiMqpeito (pie os amores attriiiaidos a S. 
alteza são fiâlsos. » 

— « Ah ! » 



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k MOCIBADti 131 

**-^« 80Í de boa fonte que o príncipe meu 
senhor nem conhece a D. Catharina de Athaide: » 

— « infoJMflffam tnal o padre! . . . » — ex- 
dainoii el-rel colérico. — « S. alteza por causa 
detié é que liie desobedece, e eu não quero 
quem ííieite resistências ás minhas ordens. D. 
Catharina ha de sahir de Portugal, ou ha de 
professar dentro de três dias. . . Veja se che- 
gou Diogo dé Mendonça, ou se estará no paço 
o vedor FemSó de Sousa. » 

Eái preciso que a irritaçSo do monarcha 
fosse grande para tractar com tanto desabri- 
mento o seu confessor. Esle, vendo os ares 
reVèltos, encolheuHse na ádà roupeta, e sahiu 
de Goetes viradas para a ^fta , com três pro- 
fundes cortesias, que ínais pareciam genuflie- 
xSes humiVssimas. Depois, nietténdo as mãos na 
manga, firaetou de procurar o vedor para lhe ser- 
vir de para-raios, visto estar eminente grande 
teiâpéstade no animo dé el-rei. »> 

8. tíiagestade achou-^ então completamente 
só. Ia escurecendo , è tendo mandado vir lur, e ' 
olhado^ impaeièàte para a porta umai j^ucas de 
vezes , abriu umr liví^ ét capa de pergaminho , 
onde égtavom íãnçadas as -^c^n*» êa vedoría — 
e cometeu * examinar os castellos de âlgarism^ - 
que lhe enchiam as paginas, líestes exercícios -^ 

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132 A MOaDADB 

arithmeticiys o yeio ainda encontrar o Yedtr ía 
caw real. 

D. Pedro encarou severamente o yeiho fidalgo, 
deu-Ihe a mão a beijar com firieaEa , meneaad» a 
cabeça, e franzindo o sobrolho. Ás contas, que 
tinha diante de si , fauam o eífeito de um caus* 
tico , exacerbavam a sua irritação. 

— <x Assim não. admira , n!lo ha dinheiro que 
cheguei — gritou el*-rei, batendo no livro com 
o punho fechado. — Fernão de Sousa, fazem da 
minha casa um pinhal , todos me roubam, e ta 
deixas roubar. » 

— « Saberá v. magestade. . . » 

. — « Sei , digo-te que sei ! Brada ao ceu ! Lan- 
çam-me de contas, sabes quanto? Seis contos e 
oitocentos mil réis este anno. Mas de qué , santo 
Deus, de quê? Da ucharia da rainha ^, que Nosso 
Senhor chamou para si. Depois de Deos ser ser- 
vido levar a s. magestade, depois de morta, 
€usta-me tanto ou mais que, durante a aua pre- 
ciosa vida. . . Fernão de Sousa , ha quantos an- 
nos falleceu a rainha, minha senhora?» 

. — « Em 4 de agosto fiassado fez sete annos. » 
—Respondeu placidamrate o vedor. 

— «Para quem é então a uçharía?. . Qaam 
me come tantos contos de róis, quem me saqueia 
este dinheiro enorme?» 



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M D. JÒAO V. 133 

•^ u Ninguém , meu senhor. » 
--^«Ninguém? — ^exclamou o monarcha ab- 
lorto com o absurdo. — Ninguém^ dizes tu?» 
— « Informe-se v. magestade. » 
-^(xMatam-se as aves?» 

— a Sim , meu senhor. » 

— « Compram-se os mantimentos ? » 

— « Compram , meu senhor. » 

— «Em fim gasta-se o dinheiro, perto de 
sete contos de réis? » 

— « Sim , meu senhor, i» 

— « Agora O' ladrSo ! Quem é que me devoí^a 
tanto pombo e tairto doce? » 

— «O ladrSo ? — balbuciou pasmado o oificial 
mór da casa. — O ladrão só se é a real munifl- 
cencia de v^ magestade. » 

— «A minha munificência? — gritou o rei 
leTaataodo as màos ao ceu^ cheio de assombro. 
--^ Atreves-te a dizer que eu sou o ladrão da mi- 
nha casa?» 

— «V. magestade não se rouba, deixa gastar. » 
-^«Eu deixo gastac! . . » — repetiu o prín- 
cipe , cujos braços descahiam frouxos de pasmo. 

— « É a verdade , senhor. Todos os dias tra- 
balham as cozinhas e se põem as mesas. » 

— a Como no tempo de s. magestade a rai- 
nha? — atalhe^; D. Pedro irónico. 



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134 A MOCIDADE 

— d Exaetapieote ; e todos os di«s k hora do 
estilo o trínch^ate e o copeifo levant^pn qb pra- 
tos e mandam. . • » 

— «Que ^ levem para onde elles querem? 
— gritou o monarc)ia.^ — Isso esperava eu.» 

— a Perdoe, v. magestade ! Mandam-noa con- 
sumir, .., » — Refriicou o vedor com um gesto 
sublime. 

D. Pedro II apertou as mios na cabeça sem 
iizer palavra. 

— '( É o costume da casa real. — proseguiu o 
official mór serenamente. — Em quanto el-rei 
não ordena o contrario continua tudo. . . ocdf- 
nados f mesa , e despezas avulsas, i» 

O vedor fallava com a grandeza de ahna de 
um creado temente a Deus e cônscio d^ seus de- 
veres. O monarcha duvidava se tinha diante de 
si um velhaco , ou simplesmente um idiota. 

— <cE as rações?» — perguntou o soberano 
com um sorriso contrafeito. 

— « Dão-se. » 

— « E as damas ? » 

— « Recebem todas. » 

— « Sem servirem ! E os creados da casa da 
.rainha ? » 

— a Recebem todos.» 

— « Fazem muito bem ! Não morreu nenhum? » 



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BB B. i0ia V. 13l5 

-~« Morreram três. O dinheiro desses é iiqp- 
plicado em missas pela soa alma. ^ 

— «E eu pago esta cera de ruins defonc- 
losT» 

— « V. magestade paga. » 

— a Agora quero a rasào. Senhor vedor, sabe 
que isto nio ha de sahir barato a alguemi^ já que 
me custa a mim^tSo caro?» 

-—«A rasão é aão ter subido ordem de Ei- 
reí para aealmr o real estado da casa da senhora 
rainha. » 

— «Mas Mleceu ou iiSos. magestade ha sete 
aQMsT» 

•*--*- € Menos para a sua real casa. L& n8o consta. » 

— Aonde aprendeste, Fernão de Sousa?» — 
exclamou D. Pedro furioso. 

— «No ^Ilegio de Santo Antão, saberá el- 
rei. — acudiu o vedor com muita innoceneia. 

— ' aEn8Ínaram4e bem ! r^ 

-^« A respeitar e amar eWei, sobre todas as 
coisas, depois de Deus. ^ 

— «Donde a tua sabedoria coiiige que me de- 
ves arruinar?» 

— a Meu senhor, os -sobejos do rei são a ale- 
gria do pobre. )> 

— « Grande máxima ! £ enfâo ? » 

— « E então , como estes seis contos e oito- 



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13i6 A MQCIBAIUK 

centps mil réis sustentam dusentas luoilías, eo- 
tendi que v. ma^gjsstade de propósito fechava et 
olhos*» 

— «Eu nomeei-te vedor, ou esmoler, Femio 
de] Sousa?» 

— «Vedor, saberá v. magestade. » 

— a Ora bem- De hqje em diante ficarte en- 
tendendo que não fecho os olhos , mas os abra. 
Quero um risco nas reaes cozinhas, e oirtro maior 
se é possivel nessas mesas e apparadores. , . Tens 



Fern&o de Sousa extasiou a vista , e levou o 
dedo indicador á boca em ar de suspenAo men- 
tal Era evid<ente que lhe parecia monstruoso e 
inaudito, que o soberano, por amor de sete con- 
tos de réis, fizesse tanto arruido, e desse ordens 
tão rigorosas. 

D. Pedro , da sua parte , estava perplexo en- 
tre o riso e a ira. A longa e secca figura do seu 
vedor, perfilada e satisfeita de si, respondendo 
sobre as mais estúpidas prodigalidades .com o 
aprumo do homem seguro de ter cumprido re- 
ligiosamente o seu dever, era um espectáculo tão 
original , tão esquisito e inesperado , que o mo- 
narcha . não se podendo conter mais , encostoo- 
se á cadeira, e desafogou em frouxos de estron- 
dosas gargalhadas. Este accesso de hilaridade pas- 



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M D. Jolo r. 137 

80Q por cima do lembhnte do official mór da 
casa, deixando-o ciomo o aehava. Fernão de Sousa 
continuava firme na espasmódica e engomada gra- 
vidade, incapaz de permittir que um só dos mús- 
culos da sua pbysionomia se desafinasse, descom- 
pondo a solemne e tesa importância da etiqueta. 
— «Porque me apparecem estas contas no fim 
de sete annos? — perguntou el-rei. 

— «Todos os annos rem; mas v. magestade 
gó hoje ae dignou examinal-as. x> 

— «Ah I E a minha approTação ? » 

— «Entende-se, que s. magestade a dè, 
quanda íOo censura. » 

— «Bem! Más não sou informado da aiM^e- 
aentaçio?. .» 

— « El-rei sabe tudo ! » 

— «Entfto, el-rei até advinha, Fernio de 
Sousa 7 » 

-*-« NSo, meu senhor. Mas o costume é nllo 
se dizer nada- a v. magestade antes que se digne 
perguntar. » 

— «Vamos ! Quanto rendem as jugadas e di- 
reitos reaes de Cintra?» 

— « Um conto quatrocentos mil réis. » 

— « E o pescado e os direitos de Aveiro 7 » 

— «Setecentos e quinze mil réis, nos últi- 
mos sete mezes. » 



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138 A KOCIBAra 

— « Agora a despessa 1 • • O que tke íitenun ? » 
-^«Distribuíram-^ em esmolas aos confeii- 

tos pobres. » 

— « Admirável 1 . . E depois ? » — exclamou o 
principe enfadado. 

— « Depois^ ifuiis nada. Eram as ordens de 
s. magestade. » — replicou o vedor, já nm pouco 
tímido. 

--*« Eu taes ordens n&o dei \ d 

— «Deu-as s. magestade a rainha, de sau- 
dosa memoria , e é o mesmot, como eKrei sabe. 
Eram relidas da sua casa% » 

— « Famoso ! Em todos es negócios da veda- 
ria ouve primeiro a Diogo de Mendonça, meu 
secretario das mercês, e entende-te com elle. £a 
passarei as ordens. FernSo de Sousa, aeho4e li- 
beraldemais: e nio quero ârruinar^me por causa 
da etiqueta , como um dos reis catholicos soffo- 
cou ao seubrazeiro por falta decreado^ que lh'o 
tirasse. . . percebes ? » 

* — «V. magestade permitte?» 

— d Falia ! » 

— « Posso saber se incorri no real desagra- 
do ?» , 

— «Para que?» 

— «Para me retirmr ás minhas tenras.» 

— « Não ! Mas eu quero saber do que é meu, 



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m D. JOÃO V. 139 

e tu. Dão salies do teu, nem do «Ibeio ; por tanto 
o secretario das mercês te «fadará. . • Âh, Diogo 
de. Mendonça, sabes uma novidade? Soa mages- 
tade a rainha não falleceul Pergunta ao vedor 
. Fernão de Sousa ? )> 

Diogo de Mendonça entrava neste momento ; 
e ouvindo el-rei dirigir-*lhe esta objurgatoria sor- 
siu-se com a metade do rosto, que tinha virado 
para elle , dando um ar magoado á outra me- 
tade, e:(posta & vista do fidalgo. Para não res- 
ponder logo, o astuto ministro, quebrando^^ de 
corpo para o lado esquerdo^ foi a pasyos vagaro- 
sos ajoelhar-se diante de eKrei e beijar*-Ibe a 
npjo* 

— «y. magestade ordena que me retire?» 
— perguntou o vedor muito vermelho. 

— « Não, espera ! » ..Diogo de Mendonça^ como 
te disse, s. magestade a rainha não morreu. » 

— «Por mais que deseje, não posso ter a 
fortcina de entender a v. mogesitade. i> — repli- 
cou o secretario , furtando-se ao encontro. 

— « £ verdade. Acabo de pagar sete contos 
de réis da sua ucbaria neste anno , pelas contas 
do meu vedor. » 

?— u A munificência de v. magestade é infi^- 
nita. O que são sete contos de réis»? Não é el- 
rei o paç de seus vassallos 7 » 



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140 A MOCIDADK 

O vedor respirou; O ministro tomara o i6u 
partido. D. Pedro 8orría--se. 

— (( Parece-me, que és do Toto do vedor, dei- 
xas pdr a mesa aos mortos para engordar os vivos. » 

— «Eu, senhor?! cuidei que v. magestade 
fallava jocosamente. Pois ha quem roube a v. 
magestade , e nio esteja castigado ainda ? b 

— «Diogo de Mendonça, ninguém me rouba. 
Sri>erás que o ladrtío sou eu. » 

— «Agora nto percebo; perdoe v. mages- 
tade ! Pois el-reí que é a si^bedoria mesma. . . » 

— «Eu me explioo. Nilo se expediu ordem para 
acabar o real estado da casa da rainha , qoe 
Deus tem ; e FernSo de Sousa, meu vedor, de- 
cidiu que a despeça devia continuar , como em 
vida de s. magestade. » 

— «Por Deus! e decidiu bem, perdoe v. 
magestade. » 

— «Decidiu bem?» 

— «De certo. A obediência é louvave). O ve- 
dor não teve ordens. . . » 

— «Mas quem é então o culpado, porqqe sem 
duvida alguém teve a culpa?» 

— « Quem lhas não communicou ; mas a be- 
nignidade de V. magestade ha de valer-Uie. » 

— « Visto isso, Roque Monteiro deve á minha 
casa sete contos de réis por anno? . . » 



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BC P. iOÃÔ V. 141 

. >^«Pois eu disse que era Boque Monteiro? 
Perdoe t. magestade \ Eu ndo disse. » 

-"-««Que em sete annos ísacem ?»-^ prose- 
guíu el-rei , figurando nfto oavir. . 

-^«Quarenta e nove contos justos.» — con- 
cluiu o vedor com a sua inevitável certeza de 
calculo e obedecendo á interrogação da vista de 
s.^ magestade. 

Diogo de Mendonça fingia-se abismado* O seu 
rosto fez-^e a mascara da tragedia á forca de ex- 
pressão dolorosa. Ajoelbando aos pés de el-rei 
com duas lagrimas quasí visíveis nos olhos e a 
mais artistica rouquidAe na voi, o secretario das 
mercês [exclamou : 

-^«V. magestade é clemente! Foi incúria 
delle, mas quem é perfeito, quem não as tem ? 
Faz-se meu inimigo , bem sei : mas nSo impcMrta, 
é bom ministro. Dizem mal? Também de mim ! 
Deus sabe. Não os acredite v. magestade. Que- 
rem persuadir que elle se avença com os com- 
pradores da casa real e recebe alças dos estran- 
geiros? . . por Deus ! Ponho as mSos no fogo. . . 
é calumnia. o 

— « Ah ! » — grHou el-rêi, ouvindo os capitu- 
les accusatorios pela primeira vez. 

— « Nâo Ifae dé V. magestade ouvidos. — ex- 
clamou o defensor zeloso, r^ Ignoro a raifto 



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142 A HOCIBABE 

per qoe elle m^ quer ihal : eu nunca lho déte^r ; 
mas isso quiHfem? A verdade deve^e dízèr. tio- 
que Monteiro é devoto e honrado. Até lhe le- 
vantanoL que não ouve missa. . . parvos ! » 

— « Mátt catholico , an ? » — acudiu D. ^Pe- 
dro, sevCTamente. 

— «Nao acre^e, meu senhor. Elle tomou 
capellão. . . para a família ; e ouve-a nmito cedo*! 
N&o é hereje ; nada disso tem ! Ah ! a inveja é 
feia. N&o me imputaram a extori^ de um cru- 
cifixo de mar&n feito na índia, dizehdo que desde 
a peanha até ao resplendor todo elle «ram [ie- 
dras preciosas? . . pobre de mim ! » 

— «E então?» 

— « N8o era !. . E os Velhacos sabiam-no. Salva 
a reverencia de tSo devota imagem, era um bocado 
de marfim bem tosco dé lavor, e roido dos vef- 
mes. . . Indaguei quem serik o pae da noticia. . » 

— «E deseubristes o teu' Anito?» — insis- 
tiu o monarcha , rindo^se. 

— «Foi tao felir quesini! Mas sem ordem 
expressa nSo posso declarar. . . )i 

— « Vamos ! » 

— «V. magestade manda?» 

— «Mando.» 

— «Foi Roque Monteiro ^ coitado ! Sem mal- 
dade. . .por desfastio. » 



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DE D. JOÃO V« 143 

— cEitu a dafentM-o7! . .E áqpois?)» 

— 4(€oQVidei-o para almoçar, e mais is três 
pessoas que o tinham ouvido. » 

— «I Havia de ser divertido. . . Fallaste-lbe do 
Santo Cbristo?» 

— <t Obríguei-o adner maravilhas deite! Tam- ^ 
bem não linha outro remédio : os outros estavam 
alli. ]» 

— «Nâo foi méu. Que ínafô?» 

— «Tra^i-lbo. Não quiz que oln^a tfio pre- . 
ciosa ficasse em outras nÂos. » 

-<-*«£ €omprou-o? x> — gritou o fNrincipe, rindo . 
muilo. 

-^ « Que remédio l EUe até é que lhe fez o 
preço, ji 

— r«Sem vêr?» 

— «Quem louva estima. Gustou-lhe trèsentos^ 
mil réi^. E salva a devoçfto^ o objecto nSo vale 
dez : duvido que mos dessem. i> 

— «Exodlente, Diogo de Mendonça!» 

— flc Pedirei a v. magestade q graça de no- 
tar que não disse nada em desabono deHé. » 

— «Pelo contrario I e iaz-te honra. Fernão- 
de Souaa, as eòntas da vedoria serão despachadas 
por Diogo de Mendonça. Podes «ahir. i» 

O sr. D. Pedra II era jiraganoa- legítimo no 
gosto de se informar das anecdottó curiosas da 



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144 A MOCIDADS 

eorte , fiiiiilMrâiiido-9e pán ei8e fim coar ai 
pessoas, <|ue o podiam satisfazer, A historia do 
crucifixo alegrou-^) iimieiiso e esleve-a crie* 
brando com discretos commentaríos. Ao mesmo 
tempo entranhava-se no seu espirito o desbro- 
ravel conceito, que o Tolpino corteiSo sonbe in- 
sinuar a respeito da probidade do seà emub* 
Desde este momento Roque Monteiro , justifi- 
cado pelo secretario das mercês por niãm bea 
fiy perdeu o credito na opinião do príncipe; e 
Diogo de Mendonça, que uma difamação yirt- 
gar teria envilecido, arvorado em patrono ofi- 
cioso do seu inimigo, passou aos olhos do mo- 
narcha por uma alma generosa e um cfín^o 
de pomba. O vedor que era amigo de Bofue 
Monteiro, admirado dia nobreza de sentimentos 
do secretario das mercéa, sahiu> da casa do 
c( BMrado » com as lagrimas nos (rfbos^ can- 
tando os seus Iouv(ffes» 

Assim que o vedor sahiu, el-rei tomando ar 
serio, vÍFou-se para o seu ministro, dizendo: 

— « Oxalá que fosse ludo i^radavd , como a 
tua historia, Diogo de Mendonça. O peior é 
esta guerra e não haver dinheiro. O ultimo car- 
reio trouxe noticias do exercito? » 

— < Boas, parabéns a v. magestade. » 

—.«Então?» 



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1>E D. JOÃO V. f 45 

— <c O visconde de Barbacena , mestre de 
campo general do Âlemtejo, acaba de dar uma 
lição ao marquez de Resburg , governador de 
Badajo2. Tomou-Ibe os gados , que iam á feira 
de Guadalupe , e derrofou-lhe tresentos cavallos 
e quinhentos infantes. » 

— « Viva o visconde ! E o marquez das Mi- 
nas?» 

— « Sabe-se que entrou em quartéis com o 
seu exercito nas fronteiras de Murcia e de Va- 
lência. y> • 

— - c< E os francezes não disputaram a passa- 
gem ? O marechal de Berwick ^ esse heroe que 
nos ha de pôr sem um palmo de terra em Cas- 
tella, não lhe oíFereceu batalha? » 

— <c O marechal é habil ; mas confia em ou^ 
tro general melhor: — o tempo! Desgraçada- 
mente parece-me que elle tem rasão. » 

— « Entortaram-«e muito as coisas , é ver- 
dade, Diogo de Mendonça. Os hispanboes es-* 
tão frios; passou a occasião. Ah, se o archidu^ 
que , digo , se el-rei eatbolico D. Carlos III se- 
gue o nosso conselho e se reúne em Madrid ao 
marquez das Minas. . . » 

— « Era partida ganha , meu senhor ! Mas 
succedeu-nos a historia do general Pardinhas. 
V. magestade ha de sabel-a que é curiosa ! Vie- 
T. n V 10 



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i4$ A MOCIDADE 

ram dizer4hec*^0 inimigo está h vista. — Que 
espere , em qtí^nto acjBibo o meu pltno. — Tor- 
Daram-lbe d'ahi a pouco, exclamando: — ge- 
neral , já atacam as nossas linhas l — Nâô im- 
poitSt deiíi^ein-me resolver este equação. — ^Mnito 
tempo depois levantou-se e pediu o seu cavallo. 
— 'Aonde vae y, ex,% disse um ajudante. — Essa 
é boa ! vou commandar a batalha. — Â batalha 
está perdídfi. Agora tracte de fugir. — É pena ! 
aciíáiu elle muito plaeido , se esperam meia hora 
mais, não me escapa nem um tambor ! -^ £I-rei 
catbolico, que Deus guarde, fez o mesmo. Se 
n$o pár^ (res semlinasi ara hoje rei de Hispa- 
nha. »^ 

— «Então /Diogo de Meuà»nça, jogamos 
sem esperança ? » - 

*—4ii Longe á^ mim assustar a v. magestade. 
Eu não disse tutito, Mas a vardade é que o mtr- 
quez das Minas « entrando em Madrid , levan- 
tou o bollo , e que s, magestade catholica o re- 
po2 outra vez por não andar depressa. O resto 
está Das m^ãos de Dauf , a não pôde estar me- 
lhor. » 

— « E o dinheiro ? » 

— « Infelizmente ! . . . Não ha dinheiro. Pois 
o tabftco rçtídeu! Mas nada chega. ^ 
-^ f( Qâ Hibsidiois doB IdUados tardam » 



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1)E D. JOÃO V. 147 

"•«-^ d É «osttnne. As promessàà viem depressa. 
Sào tão leves ! » ' 

*«-- « E leniãb ? » 

— a Desertam-nos soldados , «[ueixa^se a eorte, 
e o reino diz que não pôde com o pesó« ...» 

— <f É preciso que possa ! )i 

■«^«c Assim digo eU; más elles respondem, 
que madeiro velho não deita sangue. » 

— (( Diogo de Mendonça \ sabe Deus que não 
foram levianos^ ou aàibicioses, os peilsamentos 
com que ajustei a liga e declarei a guerra^ Fi> 
lippe^ duqiie de Anjou^ ào throno 4 era el^ret 
de França reinbndo sobre HÍ9(^anfaa. E Castella 
ooííi 06 Pyrinneus de menos muito grande era ; 
depois ninguém podia com ella; ff 

— « Certaraehte : Gastella só jâ não é nada 
bom visinho , o que seria ceunindo-^s^ Hispanha 
e França? A coroa fica muito larga para uma 
cabeça , ò. ó muito pequena para três. Não sou 
medroso y v« niágestade sabe! pol:ém, digo^» qué 
o nmis provável era não gostairem de a vèr se- 
não em duaSi Se os déixasaem vinham até Lis- 
boa. . . . Porque não? Este rio é tão bom* por- 
to 1 .. . Lft tem França ourives finos ^ |)ara or- 
nar depois o diadema ; e eKrei Luíb XIV assim 
niesnio talvez ainda a achasse pobre/ il verdade 
qu9 mà neto pôde etfiviar a coroa de Fitippe 



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148 A MOCIDADE 

II , feita em Thomar ; essa aposto eu que ser- 
ve! » 

— « Diogo de Mendonça , os francezes teem 
espias na corte. » 

-^ « Ck>itados l ... E nós espias aos espiões. » 

— i( Então conheces quem os avisa ? » 

— « Perfeitamente ! Úm genovez , chamado 



- « E nfto prendes o agente ? )» 

— a Deus me livre. Este conheço eu , outro 
que venha é que não sei 1 ... • Demais , assim 
com o homem solto temos noticias de graça , e 
meténdo-o na cadeia , havemos de pagal-ias. » 

— « Por onde mandam a correspondência? i» 

— « Pelos recoveiros da fronteira. » 

— « Seguraste os recoveiros ? » 

— a Estão seguríssimos. Comprei-os. » 

— «Ah!» 

— a Sabe V. magestade que el-rei Luiz XIV 
deseja a amisade de Portugal. Até expediu um 
pleno poder em branco a certo padre da com- 
panhia. Toda a cautela é pouca com os jesuí- 
tas. » 

— « Diogo de Mendonça, não quero que me 
entendam com os padres da compsinhia. » 

— ff Deus nos livre , senhor ! Depois , não é 
comigo. Sabe v. magestade que o conde da Erí* 



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DE P. JOÃO V. 149 

ceíra, D. Francisco, é bom poeta? O soneto 
d^elle á morte do visconde de Fonte Arcada me- 
rece lido. ... Se eu estivesse ainda no meu 
tempo. ...» 

— « Âh , Diogo de Mendonça , temos-te ou- 
tra vex com saudades de Apollo? Voltas a es- 
cravo das musas ? — disse el-rei sorrindo. S. ma- 
gestade era muito inclinado a bons versos , e ge- 
ralmente se attribuia o valimento do secretario 
das mercês ás bellas poesias , que lhe escapavam 
nas horas vagas. Se assim era , foi talvez excep- 
ção da regra. 

— « Escravo , meu senhor? Só do Santíssimo 
de santa Engracia e de v. magestade. » 

— « Bem dito e louvado seja o Santíssimo 
Sacramento da Eucharistia, e a Conceição imma- 
culada da virgem puríssima santa Maria ! » — 
exclamou el-rei, pondo-se em pé e recitando em 
alta voz , segundo costumava sempre que ouvia 
fallar no Sacramento. O ministro repetia mais 
baixo e não menos piedoso egual jaculatória. 

— « Vejamos o soneto do conde ! » — acudiu 
D. Pedro, depois de se benzer, e tornando a 
assentar-se. 

— «V. magestade desculpe , mas eu nio sei 
do soneto senão uma quadra. » 

— « Dize-a. » 



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t$0 A MOGIPABE 

— ^<( i esto.; 

N0k cana} o iropkieijk ámoJtt seguro ; 
Em Castello Rodrigo vence a Hispanh^.; 
1^ tez áfií Montes Claroi a façanha 
$eu^ non»e claro , até no tempo esquço., x> 

— r « Bra^,» çoi>dç da ÇiíiGoira ! -r^ gritou elr- 
r€Í Sdlisfei^., » 

— tt Sobrado o çQoceitp do ultino^; verso! .. . ^ 
— accudiu o muiisteo — a E era. um nome clisuro 
o de Pedro Jaques de Magalhães ,^ visconde de 
Fonte Arcada. Entrou hoje ^a secretaria o re- 
querimento de seu filho ^ pedindo a congrmação 
do titulo. , , . » 

— « Que Ibje será expedi4H; não te esqueça. 
 memoria, do visconde ha de ser honrada comQ 
foram illustres os serviços à minha coroa, n^ 

— <i Um monarcha assiijn faz. heroes ait& da 
gente fraca ! » : — exclamou o secretario djas mer- 
cês, fingindo-se arrebatado. O astuto n^injstro^ que- 
ria serwr o filho do visconde , e convertia o 
soneto em memorial. Já se vê que bem conhe- 
cia o seu augusto amo! 

— « Heroes sempre nós tivemos. » — disse o 
monarcha. — « Agora o dinheiro é que nunca 
sobejou. . . . E os vinte mil homens que estou 



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DE •• JOÃO V. ISl 

apromptioda para » camptiiftaf segôinte, c^mo 
ha de ser isto ? » 

— « Sé um empréstimo , seolhor. » 

— «0^ vinhos teem: tido e^traeçSo depois do 
traetado » — accÉdro o prinerpe — « 0$* h<Mttefi9 
de Degoeio do Porto podiam 9Jâdar-mfe. » 

— c( Os inglezeshebem menos vinho do Douro 
do que Ptntu^l Ihesf gasta de fazmdasr, depois 
de revogada a pragmática. Sabe et-rei que bBo 
dá uma coi»a para a oivtra?. . . O tracta^lo de 
1703, . . >y 

— K É a ki mais sabni do meu- reinado'! » 
— interrompeu D. Pedro , sevek^amente. 

— «, Assim o dizem todos! w — aceadiu ase- 
cvetario , cubriado a cova com o pé — <x É ver- 
dade que {echou as fabricas e fiará de Portugal 
uma vinha grande ; pôde ser que não haja qúemi 
beba tanto vinlM> ; mas o tempo a justf^cará. 
V. magestade permitte que proponh» a despa- 
cho as mercês que trago consultadas ? » 

-^ tt Depois do< conselho de estado. A propo^ 
sito : como vão as três fragatas que mandei ar- 
mar? » 

— a EstSo promptas. Sabem dentro de uma^ 
semana , se houver dinheiro. » 

— «Se houver dinheiro ! Sempre o mesmo 
estrebilho. Peçam-no aos negociantes da junta 



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1K2 A MOCIDADE 

da compaobia do Commercio. Como está a casa 
das missões? » 

— « Roque Monteiro informará a t. mages- 
tade. Os negócios de Roma , diz o secretario de 
çstado , que estão cada vez mais embrulhados. » 

— «Já sei. Se um dia chego a cançar. . .• 
verão os cardeaes. )> 

— « V. magestade não ha de perder esyi reai 
serenidade, que tão bem lhe fica. Patiens quia 
qBtemus! È o motto da companhia de Jesus. 
« Persiste e vencerás ! » traduzi eu. . . . El-rei 
permitte que eu introduza logo um official doi 
seus exércitos do Âlemtejo ? » 

r-7-«Quem?)) 

— « Cbama-se Jeronymo Guerreiro. Se v. 
magestade o conceder , contarei logo a sua ul- 
tima proeza de Badajoz. É um segundo cavai- 
leiro Bayard, sans peur et san$ reptvehe. » 

— « Pois sim , logo. )) 

— « S. alteza real e s. alteza sereníssima ! » 
•r— disse o. conde de Pombeiro, annunciando á 
porta. » 

— « Diogo de Mendonça retire-se. . . . e agra- 
deça a Deus os bons filhos que lhe deu ! » 



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CAPITULO XIX. 

ANT£S QUEBRAR QUE TORCER. 



Apenas o conde de Pombeiro annanciou os 
príncipes , escureceu-se com ama nuvem a phi- 
sionomia de el-rei. Despedindo o secretario das 
mercês, qae diagnosticou a repentina mudança 
com a finura de cortezão, sua magestade encos- 
tou os cotovellos aos braços da cadeira , carre- 
gou o semblante , e disse em voz clara : 

— « Entrem , ss. altezas ! » 

O príncipe real vinha adiante. Trazia a ca- 
beça alta , os olhos firmes e aquelle geito da 
bocca particular , com que depois de rei , se 
mostrava o seu desagrado, faiia tremer os mais 
poderosos da sua corte. S. alteza chegou ao pé 
da poltrona de seu pae, inclinou-se, beijou de 
leve a mão, que nem lhe oíFereciam, nem reti- 
ravam ; e endireitando-se depois, com o mesmo 



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154 A MOCIDÁDB 

silencio, pegou na esfmda, e pousou-a oo es-^ 
trado em que o monarcba dcscançava 05 pés. 

O íorante D. Francisco, mais novo um anno, 
e mais branco do que seu irmão, dando nas fei- 
ções alguma idéa da belleza feminina de sua mãe 
e recordando huúÍo a seu tio Affonso VI no 
olhar volúvel e quasi alienado, aproxímava-se 
do outro lado do bofete , cuja cabeceira occu- 
pava a poltrona reaL D. Pedra II para castigar 
o seu primogénito estendeu a mão ao infante, * 
lançou-Ihe a benção, e com um gesto meigo, 
apartou-lhe da testa as madeixas de um casta- 
nho tão aberto que pareciam louras, S. mages- 
tade observava aa mesmo tempo no seoablaAte 
do príncipe real o eíFeito. das caricias paternas e 
entristeceu de todo,, notando que s. alteza, em 
pé no vão de uma janella, estava olhando para 
fora , sem fazer caso do que passave a reda 
delle. O pae suspirou ; e o rei ofifendjeu-se 1 En- 
tretanto do que estava no coração dos três , se 
alguma coisa subia ao rosto, era uma somlura a 
tal ponto fugitiva , que facilmente se illudiria o 
melhor observador. 

£l-rei continuou a affagar a cabeça do infante 
em . quanto lhe perguntava ; 

— c< Estam contentes os teus mestres ? Foste 
ás fragatas novas , que se estão armando ? » 



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k hociuadb ISS 

-t^«Si«i ^ mw «mb»^- Toda 9 manhã andei 

*T^.cr O max éi a. tua, p^ípOo. Havonoft de fazer 
dí^ ti um almivanti^ £ Wuem aoivdb ^stiye3te , 
qx^ bA^ te yi.?í>; 

-— .«.Nia caça todo <> diaw. Salnç v. magestade 
qf^ ine. a<»b^i pei;4i<^? »^^ E q inlaute desatcMi 

-»^« Ah,^ cuidado ! Nada de i^ndar só. » 

-^ « O i^aBQ João é que aado só. Olhe^ meu 
pae, ha dois dias, se a ronda nâo acode, mar 
ta^wi-no; ^ esqiâaa da i:iia dd$ Áreas,, perto do 
recanto, do painel Faziât escuro^ e chovio. . • £u 
sei Uiàfí-. EU^r nSiO; gosta: (p&. ^- digfi . • mas a 
mif» qju^ me importa l fk 

£ s. alteza, (aliando assim, divertia-se em 
beliscar a^ costas, da mão oom velocidade ,. di- 
zendo- muito depressa : (c Joanico, Joanico, quem 
te deu tamanho, bico ? >x 

— ^ c( Eu já. prohibi as. corridas nocturnas e os 
desafios á espada preta : mas y. alteia não quer 
attender a que são de perigo para a sua vida, e 
de inuito desaire para a casa. real — acudiu. D^ 
Pedrot severamente , obrigando o príncipe a to- 
mar parle na conversação. -^ Daqui em diante, 
será necessário sahir acompanhado pelo capitão 
da^^Quardus. . . é q modo. d^^ prevenirmos maior 



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1S6 A MOGIPADB 

desgosto. — E augmentando-se^he a irritação 
com o silencio do príncipe, accresbentou. — A 
corte está escandalisada ; e eu nio devo permit- 
tir que o herdeiro da coroa, alia noite, ande ccht- 
rendo as ruas como um espadachim , contra as 
minhas leis, entrando nas lojas, rivendo com o 
baixo povo, e dizendo galanteios debaixo dás ja- 
nellás das familias honestas I . . Não se lembn 
de que estão em Lisboa os ministros estrangei- 
ros , e que a Europa v6 e sabe tudo pelos olhoi 
delles?» 

O príncipe deixou fugir pelos cantos da bocca 
um ar de riso ; e armando o seu acatamento de 
mais orgulho, do que podia ter uma replica ve- 
hemente , inclinando-se á admoestação paterna , 
só redarguiu : 

— « V. magestade permitte ? » 

-^ « Falle ! . . sou pae , e prezo a sua gloria ; 
sou rei, e alegro-me sempre que acho innocen- 
tes e não culpados. Ouviu o infante? O que 
responde?» 

— d Duas palavras, apenas senhor , — acudia 
o príncipe. — Deploro o ter incorrido no desa- 
grado de el-rei, mas consola-me a esperança de 
que o exemplo de v. magestade advogará a mi- 
nha causa. . . 1» 

— «O meu exemplo? v. alteza atreve-se?.. » 



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DB D. JOlO V. ÍÍ7 

— <( Ouça-me el-rei e julgue ! A vida ido está 
menos exposta entre duas espadas do que na praça 
diante das marradas de um touro I ? . • e pela 
fortaleza do seu animo e apesar do susto de to- 
dos nós, V. magestade não se conteve e arros- 
tou os maiores perigos. Gommettendo a peito des 
cuberto essas proezas, que nos enchiam de ad- 
miração e de temor, el-reí bem sabia que po- 
diam cubrir de luto seus filhos e o reino. . . Ê 
o motivo porque appello para o coração de meu 
pae, certo de que ficarei desculpado na presença 
do soberano. » 

-— « João — atalhou IX Pedro, corando e mor- 
dendo os beiços— -sabes, quasdo queres, ser 
mais velho do que a tua idade! Tomando, 
depois um tom severo,, acrescentou, a O pa- 
dre Luiz Gonçalves, seu mestra é quem ensinou 
a V. alteza a deitar em rosto a seu pae essas 
fraquezas ? » 

— « « O padre Luiz Gonçalves ensinou-me que 
a fortaleza é; uma das virtudes reaes. . . v. ma- 
gestade sabe, que D. João II, que a historia 
chama o príncipe perfeito, não duvidava ex- 
por-se ao encontro de um touro, e ao punhal da 
um traidor; e ninguém tmctou de fraqueza a 
magnanimidade do seu coração. . . )> 
^ — a Muito bem l os tempos são outros : — 



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iSÂ A JÉOCIDAHB 

disse ei^m adoçado feia etpiieiçfiro do pHcieifie. 
-«-Demtit, iiSo ({ueroque a Vitfe e o samgiie lAo» 
meus vassallofi paguem as \iffl» de esgtimâ é^ 
V. alt^a. » 

*^c( Meu pae n^id ignwat ^ alguma ves 
correu tangue. «« foi das miato veias ; « se me 
esqueci de que soa príncipe^ tiranâo a espada 
para um fa«all<K fui sempre Áltio de v. mages^ 
tade porque neulium ainda se queixou de mim. » 

«^ « Mas T^ eltesa^ se o maUsse mi fosse morto, 
o que fticia?-*-- interrompeu o infante aos pult^ 
uhos detraz da poltrona de seu pae» 

— - n Se o matasse dava uma pensfiò k viuva. 
Se fosse morto tifio fazia nada. Òt fieava v. ai^ 
teza; e é natural que o neino^ tendo a fortuna 
de ser bem governado y nao sentisse a minha 
falta. Pe^-lbe , nien irmio^ que se assuste me^ 
nos oom os meus perigos. Zele mais os seus e os 
alheios. » 

— « Eu não preciso de conselhos! » — 
gritou o infente ameaçando oom o panlio fe- 
chado. 

— « Francisco t. « . exclamou eKrd sevsm. n 
-^0 principe real n&o tem acima de si senfio 
seu pae. É mais velho! . • n 

— « Um anno ma» ou menos títo é n»- 
da, respondeu o infante ^ tíndo-se* Aqui está 



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BB D. JOÃO ¥. 1^9 

s. inugettode, meu pae^. foi rei, sesdo mais 
noyo tio que ãieu tio D. Afonso. . • » 

A allusão grosseira moFtificKMi D. Pedro. O 
rei t deixando cahir a cabeça com melancolia , 
Bãa di^se tiflda. O príncipe D. João, dominando 
o íofontet dd toda a altura e firmeza da sua 
dignidade , replicou Jhe «enenamente : 

— « Não aconselharei ninguém a que repita 
a expmeocia^ Os três estados levati taram re- 
gente a s. magestade , porque o a:. D. Aífonso, 
meu tio^ era lim rei. . . . qué não reinava. V. 
alteza deve deixar-se de loucuras ; não lhe ficam 
bem. Senão , eu o farei arrepender ! »' 

— «O mano João tem a confiança de me 
chamer louco? » — gritou o infante. 

— '« Não lhe quiz chamar peior. Diga-me v. 
alteza: deitou ao Tejo a espingarda com que 
esta manhã arcabuzou nas vergas da nau um 
marujo , um vassallo de el-rei , que lhe estava 
dando os vivas? Se não me «ngano está a ex- 
pirar. ... Estas caçadas hão de sahir-lhe caras ^ 
meu irmão. Não se atira aos bomens como aos 
brutos , pcurque, um dia, algum pode defender- 
se , e v. alteza dâ-nos desato grande. ...» 

A vista de D. Pedro II fila e terrivd fulmi- 
nou o infante e gelou-the a liegua. Depois s. 
magesladò levaQtou*<se.cou impeto^ foi direito 



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160 DB D. JOiO V* 

a elle , e sacuâiu"^ pelo braço , de filmia que 
foi cabir ao lado opposto da sala ; ao mesmo 
tempo el-rei exclamava ; 

— « Vae ! Hades ser a desbonm do meu 
nome! Mas ea te porei aonde ã tua maldade 
Dio sirva de horror e não ^seja o martyrio da 
minha vida. . « . Não tomes a apparecerme . r . . 
Sabe! » 

— «O marujo está melhor !»—* murmurava 
o infante recuando. 

— « Sabe! » — replicou el-rei com um gesto 
absoluto. 

— a Deixe estar, mano João, que ea me \eBt- 
brarei. ». 

— « y . alteza peça a Deus que eu í0b es-^ 
queça ! » -*- respondeu o príncipe viramlo-lbe as 
costas. D. Francisco sahiu mordendo os nós dos^ 
dedos com tregeitos de maniaco. 

D. Pedro 11 ficou alguns instantes convulso e 
abatido , com a cabeça entre as mãos e os co- 
tovellos nos joelhos ; com a vista no chão , e osr 
olhos arrazados de agua. Suspiros de aSlicção 
gemiam-lhe no peito ; e a pallidez , entre fortes 
arrepios nervosos, annunciou a crise moral, a so- 
bre-excitação do espirito provocada por esta scena. 

— « Filho és , e pai serás, . . . é verdade ! » 
-~ murmurou elle em ímm voz— «( O throno 



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BS D. JOXO V. 161 

já md cuãtou caro neste mundo , e ftSo sei no 
outro o que será! Tirei a mulher a seu ma- 
rido. ...» — accrescentou , levantando-se cada 
vez mais tremulo — « fiz do amor e do ciúme 
degraus , e subi por elles. Levei á mão ã ca- 
beça do rei e tírei-lhe a coroa. Mau irmão , le- 
vei a deshonra e a infâmia ao leito de meu ir- 
mão, e torneiro a fabula dos vassallos. Deus 
puniu-me! O que amei não existe. O que dese- 
java fugiu para sempre. A minha Isabel , a única 
filha delia , aquelle anjo , retrato de sua mãi , 
consolação das mais vivas saudades, era muito 
boa, não devia ficar comigo; não era deste 
mundo , e Deus chamou-a. Bemdito sejaes , se- 
nhof ! .... A primeira esposa , a alegria dos 
meus dias, o premio do meu d^icto, penou as 
suas dores, gemeu os meus remorsos, e deixoií- 
me sem um herdeiro a esta coroa de espinhos 
do meu crime. . . . Fui obrigado para ter suc- 
eessor a abraçar sem paixão outra mulher , que 
nunca teve marido , e em um purgatório de ze- 
los e de maguas pedia ao ceu o descanço da 
morte , porque já não podia com a sua cruz. . . 
E era eu a cruz , e fui eu o algoz que enchi de 
fel aquella vida tão curta nos dias , tão longa 
nas atribulações ! . . . Ficaram-me estes filhos , 
filhos de ddr para sua mãe , e de esperança para 
T, n. 11 

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ÍQA a M0C3BÁPE 

mim; eran o meu orgulbo; a Provideada fez 
delles o açoite do meu castigo. Não bastará ainda 
meu Deus? . . « » --^ proseguiu mais agitado e er- 
guendo as mãos — a Este coração, que se atnda 
sente alguma coisa é a morte da alma , não são 
sufficientes as dores que o ferem « e as saudades 
que o cortam ? A expiação quando estará com- 
pleta ? . . • « A penitencia , as mortificações ^ e o 
temor da Tossa justiça , não podem absolver o 
peccador , que poe a sua confiança no ceu , e a 
todas as horas pede ser despenado das trevas do 
seu desterro?...» 

Uma pausa , affo^da em lagrimas , succedeu 
a esta interrogação sombria de uma consciência 
cheia de terrores, de um peito ralado de ago- 
nias. A pallidez crescia , o tremor augmeutava , 
e os olhos fundos, allumiando-se de brilho si- 
nistro 9 refiectiam os delírios e o pavor , em que 
o espirito se abysmava. 

— «D, Affonso » — proseguiu em tom cavo 
e mysteríoso — « rei sem corôa^ Deus vingou-te ! 
Morreste viuvo ^ e tua esposa viva, arrancada 
dos teus braços , repousava sobre o seio de teu 
irmão ! Viste-me com o teu mai^to real. nos hom- 
bros; padeceste, chifraste por Causa do ipiía 
annos inteiros. • . . e ap^ar.de tudo, o teu mar- 
tyrio não foi nunca ne» metadie d» meu , até 



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A HoaiiABir Í6S 

tM minbas boras mais Míml.. quuMiaeHa existia 
ainda! Ao menos tu, em ciida manba goeraBir 
pia, farmaTas \m desejo e poáip» oonsolar-to. 
cem alguQia esperaiiQa ; ma& os meus diaa todoí 
sio noites , em qve teobo medo de olhar para 
dentro da minha alraal Tn atè morrer espor* 
raste seippre* . . • e Deus se ta nto restituiu tm^ 
teita, no eçu d<^«4e copoa melher que a que 
eu ... . tirei : a dos que eberam por justiça , a> 
quem a sua mão eiixu^ as lagrimas. Rovbdrte 
o amor de nossa mãe , a temára de toa espo», 
o respeil^ dos vassaltos , e vejo^te s^pre , w^-^ 
pre y como rei , batendo^qie oom o seeptre noi 
hmnhroy e onçe-te sempre diier-an.padepe que 
tambeip eu padeci I Quando ella, a tua mu-r 
Ibet y adoeseii, vieste IQnaiBda a minha Isabel ^ 
foi unir-fW a sua mSe , apparQces1|e ( ; . . . Slbo 
haTorà soeego para a tua alma, nfe perdoarás^ 
nau rendo que do meu eoraçto tem eorvida 
tab^ sangue, que jfà nip ba nelle mais para Ia<* 
w a Aodaa dp paecado? . ... O que desqo,. 
ou pesso querer de mpndo?' Â merte^ fe». 
m^ts l . . . A vidaf . . . natfi-«ie ! . . . Jlem te. 
Kmfol £ ella, a tua miittMr, a miabaespesa, 
a outrft vitíie do me» crime, e chama^m^ da 
sepultura ! . . . Como é surda a sua vos t Como 
aquettsa albas sf m \úz f«uin| frio at4 èú e^ntro 



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164 A MOaDÁDE 

d^alma! Sorrí<»8e, acena-me que a siga. Era tua 
primeiro, por isso a levaste. Está alli, aUt! 
No mesmo logar sem|Hre em qae jiiráraos o 
amor incestuoso, unidos pelos homens, separa- 
dos por Deus! Senhor, este peso é muito forte 
para o cora^^o de um homem I Senhw, este sello 
de fogo arde muito, e a coroa não chega para lhe 
esconder a nódoa. Porque me persegue até aqui 
a tua Toz, elamando : — Caim aonde está Abel ? » 

O suor corría-lhe em bagas pela testa ; as fa- 
cas encovadas tinham a c^ térrea do cadáver ; 
a quatro e quatro as lagrimas cahiam pelas fa- 
ces. O frio do horror , aquelle gelado e doloroso 
frio , que faz a mfio da morte sobre o coração^ 
tremia-lhe com todo o corpo. Os olhos espanta- 
dos e incertos sumiam-se e n&o viam nada em 
roda de si , porque estavam fitos no mundo in- 
visivel, seguindo os fantasmas da consciência. 
Uma tosse crua e áspera affogou-lhe as ultimas 
palavras na bocca, e tingiu-lhe a côr esbranqui- 
çada dos beiços de sangue vivo e spumante. Com 
ambas as mãos sobre o peito, curvado ás dores 
phisicas, como ha pouco se inclinava á dòr mo- 
ral, o monarcha foi sentar-se na sua cadeira com 
um gemido, e encostando a cabeça ao espaldar, 
fechou os olhos. 

O principe tinha presenciado, primeiro com as^ 



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Dfi D. JOÃO V. 16K 

sombro , e depois com summo cuidado , este ac- 
cesso que presagiava ataque mais fatal. Vendo 
seu pae desfallecer lembrou-^se de chamar os mé- 
dicos, mas receiou que tornando a si elle rqpe^ 
tisse as exclamações , que seria imprudente con- 
fiar de estranhos. De joelhos, com as mãos de 
el-rei entre as suas, cubria-as de beijos af- 
fectuosos pedindo a Deus abbreviasse os m<Mnen- 
tos de uma crise , que ameaçava encher de la- 
cto a monarchia. Por fim D. Pedro abriu os 
olhos e affirmou-se de vagar. D^ahi respirando 
mais desafogado, disse revestindo-se de espi- 
rito: 

— « Entrou alguém aqui? )> 

— « Ninguém, meu senhor. Estivemos sós. » 

— a Ouviste muitas cousas desacertadas, que 
teu pae disse? d 

— <c Como el-rei fallava só , retirei-me para 
não o perturbar. » 

— ^ Fizeste bem. Não é bom que saibam des- 
tes ataques... João, podes pôr a tua espada; 
só te prohíbo que a tires sem minha ordem. De 
hoje em diante procura merecer a amisade de 
teu pae, e a confiança de el-rei... Ainda não 
chegou o conselho de estado? »^ 

— «V. magestade padeceu tanto ? ! » — ac- 
cudiu o príncipe. 



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1Q6 A II0CI9AW 

*-^ a SsttHi melhor > Deus Im de pmaiUir 
4«te fique béni de todoi. » 

O fiomeo de immaroha £i2Ía das «suas palavras 
o €^ilega da triBte aeeaa^ quei acabava de .pasâir. 

— r'« ^loios |)róseguiu í). Pedro, duas causas 
ae pii^m «este, muiidí» c a dasobedieaGk aofs paas, 
è o sacrílega aes í&è. Medi4i^ bem! Has de m 
pae, e iMrev^atete aerto rei.^. Respeka-me jiara 
fie te resp^tem; <d)eâeeeHpie, ^ queres que te 
el)edeoam. ^ 

«— (( V. itiâigestade sabe — respondeu o piÍB- 
eipe-^que «6 Deus pede mudar e eçMraçào 4o 
homem. Sou o primeiro vassaílo da coroa, sea o 
primogénito da famiJía real. Diga e^tí uma pa- 
lavra^ deshetde-me ^em ella« e obedeço sem me 
^«eixar... Poabo aos seus pós o fue luais iaveja 
faz. Peçam-me todos os sacrificios..^ h 

D. Pedro abra{«m o filh^ cem teruiira excla- 
mando : 

— « O ieu am^r aisigoi l(»ão> «ão será teu 
pie? *> . 

— « Peçata-«S6 tudo» meiíos.v. » — proscguiu 
o priocipe com firmeza. 

— « Mends? » — aoudiu et-rei suspenso. 

— « Menos a hOnta ; essa é que eu não deu. » 

— « Alguém peditt-a a v, alteaa? ^-—obser- 
vou D. Pedro seccamente. 



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ÍKB 0. JCdlO V. l«y 

*-^ ií Ninguém^ TCfd agora. Tinha itdo engano 
mea. » 

Houne am momeiíto em qiia o fiiht) nos bra- 
ços do pae desviara a visla e fugiti de fiem oUiog, 
temendo desmaiar da primeira resol^ão. É que 
aekára lierniira^ e esperada encontrar rigor. 

— « £ ten pae era capaz de querer que ex«- 
poeessésr a toa hoimi? Néo é «lia também sita?» 
disse el-rei carinhosamente. 

— r c JLQfoge de mim <stippdk>. Os aeos écse^ 
jos são jUÊSÍois seanfure: tnas v. magestâde sabe^ 
que^ ta tces dltts<, esta ê a primeira fe« em que 
o achei nos meus braços como pae, ovrmkle^ine 
conM> amífft. QauAo ãs ordees de e)-rei eram 
taes que 'diante do amor de meu pae Mo me 
qnero lenbrar deUas. » 

— « Essas ordens eram. . . ? » — acudia O. Pe^ 
dro , soltando o íittio do abi^iço em ({ue ia aper-^ 
taw- 

— « Impossiveis, para nSo 4i«er cruéis 1 » — 
replioou'este com um oUiar cheio de decisão. 

-*^ « ' Bem i »> ^-^iaeereseen tou Criamente o mo- 
narcha » — « Dir-me-ha v. alteea aonde eatá o 
impessífel ? » 

— (c Julgar-me capaz de prometter, e ^ oão 
cmiprjr. *» 

— « E porque ? » 



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}68 A MOCIDADB 

"- « Porque sendo príncipe aon o primeiro fi- 
dalgo portugaez ; e um cavalheiro não engana os 
homens, e muito menos uma senhora. » 

, — a EntSo* V. altesa confessa que deu pro- 
messa de princípe a uma dama ? » 

— c< Perdoe , v. magestade ! Prometti como 
cavalheiro e basta. Etrei bem vê. » 

« — « V. alteza não podia promeKer nada! Ti- 
nha auctoridade minha ? » 

•-— -« Tii^ mais ! O «mor para jurar, a honra 
para. cumprir, e Deus por testemunha. » 

-*- a Ah ! » -^gritou el-rei empàlUdecendo com 
a irA — « Eptão reincide, ateima? n 

«— « Sinto magoar a v. magestade; mas já 
nto sou senhor da mão que el-rei me pede. A 
honra de um príncipe é a sua palavra , e essa 
não me pertence, estíi dada. x> 

'-^«t Eu desligarei a v. alteza ! » 

— « Só uma pessoa pôde desligar-me ; e não 
é el-rei , nem eu. » 

-^ « El-rei pôde tudo , príncipe D. João. » 

— « Neste, caso el-rei p4de tanto como o ul- 
timo vassallo. » 

— « Veremos!... D. Gatharina de Athaid«, 
cuja ambição é causa... » 

— c( D. Gatharina? » — ^ exclamou o prineipe 



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DV 0. JOÃO v. 169 

— « liBo se admtfe v. altetô !-*- Estou infor- 
mado. Sei até as vezes que fei a Santa Clara. 
Em três dias, ou D. Catharina faz a sua profis- 
são de religiosa, ou casa e sahe de Portugal por 
alguns annos. » 

— ff V. magestade foi illudido! » 

— <x A honra de v. alteza também lhe per- 
mitte enganar seu pae 7 » 

-^ « Â verdade manda-me fallar , quando el- 
rei fere injustamente' os innocentes. Mas desde 
que V. magestade duvida da minha honra-, é 
meu pai , é meu rei. . . o que posso é incli- 
nar-me deplorando o seu engano. » 

— « Então V. alteza nega ? » 

— ff Desculpe v. magestade ! — disse D. João, 
pondo os olhos com altivez nos olhos de seu pae, 
e dando ao rosto um ar de nobre orgulho. --— Se- 
ria indigno que duas vezes no mesmo dia o prín- 
cipe real dissesse a verdade e não fosse acredi- 
tado. Diante da persuasão de el-rei caUo->me, 
porque não posso mais ! d 

— ff Entre , Duque ! — gritou D. Pedro ,ao 
duque de Cadaval, que apparecia á porta, e que 
elle chamou satisfeito de cortar assim as expli- 
cações violentas. O príncipe recuou alguns pas- 
sos e ficou silencioso : — São horas do conselho? 
— continuou o monarcha. — * Hoje pouco nós 



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170 A MOODÀDK 

^Mnòimiiflli. Sabe ]>. Nvao ? y^a-m» fineado 

*-^ «O que díiet eu, «eabor 7 le^ndeu o ^»- 
que, sofriod<Hie.» 

— « Diga o que quízer , que nSo é c&fia de 
dizer senfto a yerdade. Estou muito velho; e é 
firecíso procurar ^ueeeèsor. Trictamo) de casar a 
João« O conde de Villar-Maior estt ahí?» 

-^^ n Acabo de o deixar na sala da tocha. » 
^-^«Viaa carta para o ioiperador?» 
-^« Sim , EBeu senhor. » 
-*— < Ordeaei m secretario de estado qae Mm 
mostrasse. r> 

— <xE s. alteia está aatíafeito^ como todos 
des^aniDs? — pe^gitatov ovelhofidai^, olhando 
para e pcinei^, que «fto díxta nada. » 

— «S. ritoia, duque -^respondeo h^ d--rèí 
oarregaBde ^obre cada palarra e áitaudo «m seu 
filho «s ikilhos oheioB de fHMler e de magestade — 
51^ qbe os prineipes oio toem outra paiaciD 
senão o bem do estado. Nestas coisas, a ca- 
beça , e uio o caraçio, é <pie dectdeUíL. . . são 
08 espkdioa da copoa 1 E como seria p^goso 
desviar da regra, esteja oeifto de «pie d prin- 
GÍpe neu filho ha de oaiifarisar^Ae omn a vim- 
tade da «eu fae^ ancon as éntens ide dket. 
(^ue anti» o oénselbo de aitadoi )» 



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Ai ipiírta» (âcluiramHK s^bre ^. laitwo coose- 

.Um^q « até A 4^sa do 4ocel «e dôspovoou, fi- 

Mfiik n^felite «pejM» ò inlatiitâ D. SraacísGOi e os 

ctmdes deS. Joftoo de Vilkr-Maiot^osquaes con- 

urersaY^iiii baixo, mas aaimados ao vão. de uma 

.Janelk. 

< Na i^ala da tocba dava^i s^ horas nq reló- 
gio do fatacio, 'qnèiodo eetrava o packo VeDtura ; 
^Mm^ loaiiHitps depois, em unifoirme ríco,.cho- 
.gou t> <afilaa J6rooy«K) tiuorr^ro» que não re- 
paraodo no je^ta ibi dar o seu noaie' ao por- 
teiro da canw^.dejclaraBdo segundo o estilo q«ie 
a ^1i introductor à presença de el-rei iiavia de 
«er Dímgo d^ lCè«doBça Corte-Reai. O porteiro, 
ak|i|[amdo«9 ^^puIoBtaifacesem cinco roscas semi- 
circulares^, sonrtu-se bemgaafijieiíte, e informpu-^b 
dè ^pie e aecretario das mercês estava no paço , 
€)fif»raiião<|iije acabasse o céciselho de estado ; mas 
x[ue flaturfâoieiite despachava em algum dos ga- 
bipeti» resbfvndos , por isso não a{>parecia «as 
salas. O mancebo fez^Ihe uma ^^ortezia, e foi «c^ 
costar^e modestameitte h parede aa outra ex- 
U^enidade da vasta quadra , aonde já se achava 
•p visitador da confanhia de Jesus. 

Quando o capttSOiJerooymo ievaaiou a vi^ta 
já t achou oa «Iboà do, jpadtfe y«diiiui» a exami- 
m)-o. o ieMíia : l^iia tje$g^ kofAd mais Cftr 



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172 A MOeiDÀM 

Yada, e o sorriso um pouco vago , eraio,8iececle 
quando a memoria, perdendo de rista uma ootta, 
chama em seu auxilio todas as reoerdaçõev que 
a podem suscitar. Esta phisionomia , cujo cuidio 
era particular , cuja grandesa e sagacidade eram 
indeléveis, também despertou mil lembranças ao 
noivo de Theresa , mas não sabia dizer de re- 
pente aonde a vira , posto estivesse certo de qoe 
pelo menos uma veas na sua vida, e em occasião 
solemne , já lhe tinha apparecido este homem , 
esta figura plácida e impenetrável : nio lhe oc- 
corria , porém, nem como, nem aonde. 

Por isso, sentiu palpitar o coraçSo com força, 
e baixou a vista diante do padre Ventura, cu- 
jos olhos, descendo do rosto ao coração, parecia 
que iam queimando por onde passavam. 

— « Não se lhe figura qae nos encontrámos 
já? Longe daqui, em outros legares desertos; 
talvez em dias de parigo e de sacrificio? » — 
perguntou o jesuita, com certa melancholia, e 
uma longa interrogação na vista. 

— « Julgo que V. paternidade se não engana. 
Estou-o conhecendo, mas não sei dizer de donde. 
Creio que alguma vez falíamos; estou certo: a 
sua voz não me é estranha... » 

— a Ora veja ! Eu já achei e passaram por 
tnim roais annos. Talvez que o ul^ap dia , ea 



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BB t^ JOlO V. 173 

qtte nos enoonte&moa, fosse o dia em que no& 
despedíssemos para sempre. Acredite em mila- 
gres ! ... Sem ellés não estava aqui nenhum de 
nós; e não fuja de um resuscitado, porque o 
vem aòhar cora muitos cabellos brancos e bas* 
tantes trabalhos de mais... Ainda não se re-^ 
corda?)» 

•~ ff Eu já vi a v. paternidade ! » — exclamou 
o mancebo com vehemencia^ — « Jã estivemos 
ambos... » 

— a Com a morte dknte dos olhos, e Jesus 
na boca , diga ! » 

t — « É por signal?... » 

— a Dei-^lhe eu um annel, e disse4he três 
palavras. » 

— « É verdade ! Foi... » 

— «Na America. Ora, o annel conserva-o 
ainda, d^aqui vejo. As três palavras e o seu voto 
é que não sei... Esqueceram-lhe ? Era natural. » 

— c( Espere! Eram? » 

— « Uuitopara quem sabe o que ellas val^n... 
Então V ainda não se lembra do meu nome? » 

— « Ah! O dia de S. Bartholomeu! V. pa- 
ternidade é... » 

— d Não diga mais... Esse nome e o homan 
qne o tinha morreram na America , em Roma , 
aonde quer que ficou o missionário, que nós 



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174 A HOCIDAM 

canheMiioi ambos... Hoje >vè j^ «psias « p»» 
dre Mio Vmhmí , que teio beijar a idIq db ^ 
rei , e dá iDJSnitas graças a Dei» , «Beontrando 
vivo Q felias^^vejo qtie é feliE ! «««m um compa^ 
nheiro dos seus trabathoa... Esqueça o priaiem 
Dome , e apesar d<^ segundo acredite que o 1m^ 
mem d9o mudou , e é o mesmo sempre. » 

— hW. pateriíiàaiíê aalniíl Vu^ atiidcii aa bra- 
zéiro, ouvi os descatitea barbatoa doa ailva- 
gens... y> ' . ' 

— » E toma i Vei^aiie seta inaif leite do^e 
algumas cicatrizes , prova da qué XamUem 
ha valor em pregar a ^ entfe 0| idolatras? Não 
se adimre ! &ttvemof atnboi em perigia, eu pri- 
meiro é verdade ; mas ponha os olhos era ai ^ 'ar- 
di ga-me: quem o salvou f »' 

— « Foi Deus que trouxe de repente... i» 

— «Os flefs que me desatarain da arvorai « è: 
me livraram dos tractos? Entfio, bm yà;. niaá 
deixemos essa historia. Aqui me tem, sem meia 
cuidados do que saber ae posso ajbrafar «m ir- 
mKo ) ou se estou feHamla a um estrodio.,. Nãài 
diz nada ? )> 

— « Digo que Deus é grande, e infinííe a Mum 
poder. » 

— «E que daremos triibalharp^ra maior gte** 
rio $uã, não dix? » . . 



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DE ». Joio V, 175 

— nAi íkojorem Dei... » 

— « Gloriam! É a àism. da compaiilua. At- 
tenda-Die, filho. Esteve depois com os nossos, re^ 
petiu o Yoto que lhe tomei na véspera do mar- 
t}TÍo?... Falle sem receio — aqui n5o ha pe- 
rigo, Aquelle é terceiro, nào ouve » — e 

olhando para o porteiro da canna traçou com o 
dedo indicador um signal sd;)re o peito ^ a que 
este correspondeu incUnando-se quasi até ao chSio. 
— Estamos sòs , bem observa I » — proseguiu o 
padre. — «Repetiu o seu voto? Vejo que simi 
Também serviu a companhia em espirito e von«* 
tade? Espero que servisse! E se eu lhe pergun- 
tasse, irmão, padeceria pe\a causa de Deus e.da 
egreja?... » ^ ; 

— « Respondia que eUa é paciente poirque é 
eterna. » 

— « Muito bem. Patiens quia i»ternu / É o 
symbolo. Dé-me um abraço. Raras vezes j^q en- 
gano. Quando o vi deliberado diante da morte 
qne ambos esperávamos, percebi qciB se . o 
o coração da creança já não yacillava, o que ia- 
ria o homem depois de feito? Irmão Jeropymo,, 
a companhia precisa de todos os seus filhos^ Ha 
de chamal-o ; e eu respondo que vém. 

-«- ff Jurei obedieoçia, padrç Ventura. » 

— «Mas boje cusfaelbe? Um bço carnal 



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176 A< MÒCIBABE 

prende-o?Diga, confesse... N8o se envergonhe... 
É moço e n5o fet voto de castidade. Se ama é 
porque é amado. Filho, a companhia não eúge 
impossíveis. Somente acautele-se ; ouça o meu 
conselho. O seu coraçSo é grande e forte... cui- 
dado! São os que mais depressa cahem. Não 
deixe que a imagem de uma mulher o leve todo 
atraz de si... Olhe que não ha morte peior. » . . 

— í( Meu padre, a esposa que escolhi...,aKrr.- 

— i< É virtuosa e bella, ia dízer-meí Não 
importo, ame-a, mas depois de Deus. Ora pois ! 
Alegremo-nos em Jesu Christo. Conto com « 
sua firmeza. Aonde mora? » 

— <c Na rua das Arcas, em casa do meu tu^ 

tor. » ^ 

— « Lourenço Telles , commendador de S. 

Miguel das Minas? » 

— « Quem disse a v. paternidade?... v 
— < Sempre me dizem tudo. » 

— a Mas isto?... » 

— « E a sua noiva é filha de um capitão de 
navios, negociante rico, cuja irmã esteve de se- 
cular em Santa Clara ? d 

— « Estou pasmado!... » 

— a Admira-se ? . . Diga-me : no tempo , em 
que era marítimo, se lhe dessem um navio atava 
o leme e deixava-se correr em. anore secca ? 



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n p. JOIo V. 177 

Nfio! Deixara-se nayegar sem derrota em risco 
de perder a emÍ>arcaçião e affogar as tripalaçdes ? 
Também nlo. Ora sapponba que eu soa o pi- 
loto e que faço diligencia por salvar algum bai- 
xel do naufrágio. » . E olhe que o temporal é 
maior do que se cuida e vem tão perto que o 
estou sentindo. Affirmo-lhe que se perdem mui- 
tos que julgam salvar-sé! Mas, vamos ao què 
importa. Quero que yã a S. Roque < ahfianhã — 
é melhor depois ; ás nove horas em ponto. Posso 
esperal-o?» 

— *- a Irei tomar a bençfto de v. paterni- 
dade. » 

•*— «E fallaremos do noaso tempo. Creia que 
posso e quero ajudal-o. Depois qne nos perdemos 
de vista o sr. Jeronymo está capitão , segundo 
vejo ; melhorou ; eu, com a minha roupeta sem- 
pre, se não .valho mais do que então, menos 
também não. Os annos dão auctoridade , final- 
mente , não peiorei. Aqui está o que é. Não se 
esqueça de que o espero em S. Roque ás nove 
horas. Acabou o conselho de estado. » 

EíFectivamente tinha acabado; e el-rei fallando 
alto da porta da casa do estrado , para a sala do 
docel , tão alto que se ouviu tudo na casa da to- 
cha , disse para fora ; 

— « Conde de Villar Maior , prepare-se ! 
T. u 12 

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17ft A MOCIDADE 

Em quinze dias parte para Vienna meu. em- 
baixador , a pedir a mão da arcfaidoquesa D. 
Harianna de Áustria para s. alteza o príncipe 
D. João. » 

— « S. alteza casa ? » — perguntou o capit&o 
.ao padre. 

"^ (X El-rei diz que $im , ò príncipe diz que 
mo. . .«—replicou este sorrindo-se. 

-— «£ V, paternidade ? D 

•—«Eu?., digo só: veremos! Separe-se de 
mim. Essa gente, que sahe , não é bom que nos 
yeja fallando. Neste mundo, filho^ a habilidade, 
a grande habilidade , consiste em mostrar por 
féca o contrario do que vae por dentro. É o 
que el-rei agoca fez. » 



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CAPITULO 3US. 



SUA ÁLTBZA O INFANTE D. FRANCISCO ! 



' D. Pedro, depois dè entrar tia salla do doceK 
e de dizer em alta vez ao conde de Villar Maior 
Fernão Telles da Silva, o que onvimo» no eapi- 
talo antecedente , voltou á casa do « Estrado >» 
aonde o ficarani esperando o príncipe real, o du- 
que de Cadaval , D. Nuno Alvares Pereira , e 
Diogo de Mendonça , o qual , simples secretario 
das mercês nSo tinha entrada no conselho de 
estado ; apresentando-se porém , apenas viu qne 
acabardr 8. magestade foi direito á sua pol- 
trma , deu algumas ordens ao camarista de se^ 
mana, e lançando a s. altecá real um olhar 
pcjfscratador, énterroct-^e com certa complacên- 
cia na sua cadeira , e dando a m9o a beijar ao 
fHfao df sse cem anctoridade : 



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18(k A MOaDABI 

-V- a Podes recolher-te ; mas fica certo » Joio. 
O dito, dito! » 

— tt Deus melhore a prçciosa saúde de v. ma- 
gestade ! » — respondeu s. alteza com um sor- 
riso , que era mais do que uma repulsa , pcnque 
chegaya a ser um desafio. 

Apenas saiu o principe, el-rei virando-se para 
o duque de Cadaval , com agrado , exclamou : 

^*-«( Duque; os rapazes de agora são peiores 
que 08 do nosso tempo \ Tem sido uma campa- 
nha para obrigar Jofio a ter juiso. Veja se o 
duque D. Jaime nos ajuda. Meu filho ouyo-o. » 

— <K Fait-lhe essa honra , meu senhor... mas 
V. magestade permítte? S. alteza é muito pare- 
cido a sua augusta avó, a sr.'^ D. Luiza de Gus- 
mão, se ouve a todos, não se guia senão por si. » 

— a Bem sei. João é teimoso , e isso é o 
meu desgosto. Aonde está o infante? » 

— « Haverá minutos vi a s. alteza conver- 
sando na salla do docel com o padre confessor 
e o conde de S. João. » 

— « Ah l Diga-me, duque : ha algqm segredo 
para achar dinheiro? Diogo de Mendonça, que 
nos corre com o armamento da guerra, sustenta 
que navios e soldados temos nós, agora com que 
os armar!... » 

— É a difficuldade ? » -— acudiu o duque sor- 



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ns f». JOÃO t. 18 i 

rindo-se. « No tempo d'el-rei D. Joào IV, 4^ 
saudosa memoria, não se esteve melhor, e che- 
gou a rainha D. Luiza, minha senhora, a empe- 
nhar todas as jóias... » 

— « Mas as decimas, duque ! Deus me per- 
doe , mas suspeito que as decimas são comidas 
no caminho. Vejo os contadores muito gordos , 
c tudo quanto é meu tão magro que faz dó. >» 

Diogo de Mendonça riu-se com a metade do 
rosto que olhava para o duque, e fez uma con- 
torsão lacrimosa com a outra, que estava exposta 
ao régio exame. O duque tomava liberdades de 
velho, e tinha um genip forte. Por isso apanhou 
a luva no ar e respondeu logo. 

— « Quer V. magestade que eu explique, por- 
que a decima rende pouco e o reino emmagrece 
quando os cobradores engordam ? » 

— « Diga ! » 

— « Saberá el-rei que isto não é meu ; é de 
um homem que está no real desagrado, mas que 
não deixa de ser de conselho , muito sábio , e 
bom portuguez ? » 

— « Quem ? » 

— « Luiz de Yasconcellos e Sousa , conde de 
€astelIo Melhor , e secretario da puridade que 
foi do sr. D. Affonso. 

— « Ah!... » — clamou el-rei, dando um 



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18fS A HOGIDADfi 

pulo 19a' cadeira cema se o mordesse uma yíbora, 
e conglobando na sua interjeição o ódio e as la- 
ctas de muitos annos. 

— « Posso continuar? » — perguntou o du- 
que , aífrontando com dignidade a repentina al- 
teração, que apparecia no semblante de Pedro II. 

-— <í Continue ! » 

— a Luiz de Vasconcellos, que nos governou 
com sabedoria , e que eu me não consolarei de 
ter ajudado a derribar — perdoe v. magestade, 
é o que sinto! — jâ estaysi no conselho de es- 
tado quando s. magestade a rainha mãe se quei- 
xou um dia do mesmo que el-rei acabava de di- 
zer. O conde tem um modo de sorrir que é só 
delle ; do seu modo de fallar e conversar só ob- 
servarei que até os próprios inimigos gostam. » 

— «O duque por exemplo ? » -— interrompeu 
D. Pedro com ironia. 

— « È verdade 1 Não torna cá tão cedo mi- 
nistro como elle : os seus successores é que o fi- 
zeram bom... Nem vejo capaz de o su|^rir se- 
não este, e havia de ser menos paceiro e mais 
aberto. » 

Diogo de Mendonça, para quem era o sobscri- 
pto, fez uma cortezia muito séria ao duque e el- 
rei desatou a rir. 

— « Vamos ás decimas, duque ! — es^clamou 



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DS D. JOÀO V. 183 

o monarcha. — « Olhe, estamos a muitas legoas 
delias... » 

— - « Já vou, senhor 1 Desculpe v. magestade ; 
s9o achaques da idade. Os velhos tem estas im- 
pertinências , e no capitulo das historias do seu 
tempo ainda mais... €k>fflo disse, a rainha mãe 
queixoo-se e Luiz de Vasconcellos sorriu-se. Ora 
s. magestade, hespanhola e muito viva, como el- 
rei sabe. Mo gostou, e levou o caso a mal O 
Castello Melhor era ainda rapaz , e ninguém lhe 
fazia a experiência què ao depois mostrou : era 
natural q\ie a rainha se enganasse com ék. Para 
o confundir s. magestade exclamou : 

— • « Ri-se, conde ? Melhor seria que nos dis- 
sesse o modo de acudirmos a tamanho erro. b 

— c< Se V. magestade ordena ! » — respondeu 
elle muito sereno. ^ 

— «Diga! » 

— « V. magestade permitte-me um apologo ? » 

— «O que quizer ! » . 

— « L4iiz de Vasconcellos tirou de cima do bo- 
fete o areeiro e vasou a areia nas mãos. — <x Aqui 
está — disse elle — isto é o que o reino paga I » 
Fez correr depois a areia de nâo para mão : 
quando chegou ás da rainha vinha na terça par* 
te. »— E aqai este o que v. magestade íecebe ! » 
-~ concluiu por fim. 



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t84 ^ jwroaDADfi 

: «Expliqne-sel» — obsenou a sr/ D. Luits 

meia suspensa. 

— «É/acil, minha senhora! A areia foi-se 
pegando ás mãos; e como passou por muitas/ 
nào se admire v. magestade se a maior parte fi- 
cou pelo caminho. O mesmo succede ás deci- 
mas ; a praia e o oiro ainda se pegam mais , e 
por isso resta apenas o que v. magestade vè ! São 
tantos a contar e tantos a arrecadar queaiodaé 
milagre o dinheiro que nos deixam ! » 

 rainha Bcou pensativa ; e desde esse dia at- 
tendeu mais eCastello Melhor, apesar de pouco 
engraçar com elle« Eu digo hoje a el-rei o mes- 
mo; e acrescento de minha casa: — applíque- 
mos a fabula, senhor! e ver-«e-ha que ella é 
boa, e a moralidade certa. » 

— «A resposta foi engenhosa. Mas nao me 
disseram que o conde estava cego?» — observou 
el-rei. 

— «Ainda nào. Vê bastante para servir el- 
rei até no conselho de estado, se o chamarem... » 

— « Bem I . . Appareça mais vezes, duque* Faz 
sempre muito boa companhia. Então?. . » 

— (c Bejo a mao a v. magestade e tomo as 
suas ordens. » 

— «O duque tem graça e discrição! — re- 
flectiu el-rei assim que o velho fidalgote auseo— 



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DB D. JOÃO V. i8S 

Um^; demais gosto da sua Traiiqueza. . . Diogo 
de Mendonça , tu que toste poeta , e desconfio 
qae ainda o sejas ás escondidas , a que o com- 
paravas?» 

— <xÁ um mealheiro antigo aberto no fim 
de muitos séculos. » 

— «A rasao ? » 

-— « Porque tem moedas raras, oiro fino, mas 
infelizmente com ellas ninguém pôde acertar as 
contas. . . Não parece o mesmo a v. magestade ? » 

— « Achas então , que n56 corria ? i> 

— «Os cunhos são antigos de mais, senhor ! n 

— «E apesar disso tem juiso, e é de bom 
conselho. . . Que despropositadas gargalhadas são 
aquellas? » 

— « É s. alteza sereníssima com o padre con^ 
fessor e o conde de S; Jbão» — respondeu o se- 
cretario das mercês , que fora á porta e voltava 
encolhendo os hombros. 

—í-w Porque ri tSo alto s. alteza?» 
— -«Ignoro, mas é íacil saber-se. O sr. in- 
fante tem a falia tão forte, que prestando atten- 
ção, V. magestade ouve. » 

— . « Os cabreiros — dizia o infante — estavam 
no chão á roda; a fogueira a arder: e a malga 
cheia ,de assorda no meio. Rabeando com fome , 
cheguei-me, e os villOes julgam que se levanta- 



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186 A MOGIDADB 

ram ? Pedí-lhes agasalho e por moitíD &vor duH 
aeram: — asseote-ae e coma do que houTor. — 
Mas não ba culher? — ccHrtarain logo um eaiito 
de broa, vasou^se por dentro á ponta da nava- 
lha, e deram*m*o, espetado em um caniço, ber- 
rando : — não se esqueça de a roer depois 1 -^ 
Biram-se da^ graça ; e eu de rastos pelo chão fui 
obrigado a tirar da gamella atraz do maioral, 
nem mais nem menos do que se fos^e um men- 
digo , ou um guardador de porcos. » 

— «Coitada da pobre gente — acudio o con- 
fessor — se elies soubessem que era v. alteza \ ^, . 
Assim mesmo deram o que tinham. . . » 

— «Esperei Mas olhe que os ensinei. Aoa^ 
bada a ceia appareceu o meu veador e os crea- 
dos do monte ; viram-me, e nomearam-me. En- 
tão é que, sabendo que era o infante, os cabrei- 
ros se pozeram de joelhos e mãos postas. . . a 
boas horas ! » 

— c( E V. alteza , mandou-lhes signaes da sua 
grandeza?» — interrompeu o coude ite S. João. 

— « Oh ! pois não ! virei^me para elles muito 
risonho , e disse-lhes : meus amigos Soi o ajuste 
comer cada nm a sua culher. Eu vou roer a mi- 
nha , hão de roer . as suas: . . Ora as culheres 
delles, eram. . « não advinham!|. . )i—- gritoa o 
inlante rindo como um perdido. 



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MS D. wio y. 187 

-^^Dejfio ? » — dísseramo jesuita e o coDde, 
— «De chi&el»-^ concluiu s, alteaO' com 
estrondosas risadas. 

— « E elles ? » — perguntaram os dois. 

— « Roeram-nas 1 E se o vcador nào pedisse, 
ainda em cima mandavdH)s para a cadéa. » 

O confessor e . o conde olharam um {)ara o 
outro. Esta graça do infante esfriou muito o zelo 
de ambos pelo seu serviço. 

— «Ah, Diogo de Mendonça — dizia el-rei, 
ao mesmo tempo , corando muito — haverá cas- 
tigo igual ao que Deus me deu com este filho? 
Informa-te amanhã, e manda recompensar. essa 
pobre gente < ., ^ 

— «Perdoe v. 9ltezal — disse a confessor, 
apenas o riso do infante Ihe.permittiu fallar— <- 
£l-f ei D. João IV , seu avô, uma vez andando 
â caça perdeuHse também e foi dar a um raucho, 
que repartiu com qlle da sua pobreza. Somente 
Bo fim , é que se deu a conhecer pelas provas 
da real munificência ; e rogam-se mil bens ainda 
boje a s. ms^gestade pela esmola qúe deixou. Pa^ 
receme que este exemplo. . . » 

— « Padre confessor , sabe que ine disseram 
hontepi um^ cousa a seu respeito ? m -r- interrom* 
peu o. iufante dando piparotes nas.or^has, e 
pondo-as côr de cereja. 



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188 A MOCIDADI 

— «O que é meu senhor ? » — perguntoir in- 
nocentemente o religioso. 

— K Que V. reverendíssima era de Braga , 4 
devia andar de braga «o pé. » 

— « Sr. infante ! » — clamou o padre. 

— «Ainda mais, espere' — proseguiu s. al- 
teza, piscando os olhos ao conde de S. Joào. — 
Disseram-me, que duas raparigas como duas es- 
trellas. . . » 

— « Sao sobrinhas ! » — gritou s. reveren- 
dissima. 

— «Deus o sabei» — respondeu o serenís- 
simo algoz, fazendo tregeitos acompanhados de ri- 
sadas , que valiam por um libello famoso. 

— «O que a v. alteza vale!.. » — disse o 
jesuita convulso e côr de betarraba. 

— « Não se arrenegue,padre mestre. Sei muita 
coisa ainda ! . . E por signal as dotou em vinte 
mil cruzados cada uma , do dinheiro que os in- 
glezes lhe deram para enganar meu pae. )» 

O confessor passou de repente de rubro a côr 
de cré, e foi-lhe preciso segurar-se á janella para 
não cahir redondamente. Àfflicto e vexado, o 
tonde de S. João amparava o religioso, que sen- 
tia chiar os miolos na cabeça como elle depois 
disse. Uma apoplexia pairava sobre a rotunda 
personagem : o conde , indignado, entendeu qu^ 



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por honra raa deiia intçrpor-sè e acabar com 
esta seena. 

— « Repare, y. alteza ! s. reverendimina é con- 
fessor de el-ret e nSo é de suppor que s. mages- 
tade leyé a bem graças tão pesadas. . . » 

O infante disparou na cara do fidalgo a gar- 
galhada mais insolente ; e recorrendo ao ordiná- 
rio estrebilbo principioa a beliscar as costas da 
níão, dizendo alto; — «Joanico, joanico qaem 
te deu tataianho bico?» 

Em um momento fez-se de mil cores o conde. 

Violento e cholerico mordeu os beiços cóm tanta 

raiva , que espirrou o sangue deiles. Ao. mesmo 

tempo, medindo o príncipe de alto a baixo» 

• dízta-Jhe em yoz presa de furor: 

— «Agradeça v. alteza a Deus a minha pa^ 
ciência 1 Se não fosse quem é e eu. respeitasse 
menos él*rei. . . n 

*— « H atayanne oJoU das ioiiaf /» — gritou 
o sr. D. Francisco, fazendo tourinha do yelhoi 
militar , e contrafazendo-rlhe os gestos em rídi-- 
cuias momices. - 

A allusão resumia' para o conde todas as in-- 
jurías. Na campanha de 1704, sendo geueral. 
aócusaram-no da não scAer aproveitar a occasíão» 
perdendo-se pòr sua culpa Alcântara e Badajoz, ' 
que wm podiam cahir na mB6. Em um pasquim; 



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190 A MOCIDAM 

affixado na lua b«rraca, escrevefa mn éifinuadBr 
que a causa da inac^o foram as botas de scíte 
léguas do illustre general* 

Effectivamente sua senhoria era achacado da 
gota e as enormes botas pareciam doas torres. 

O primeiro movimento, tendo-se mattraotado, 
foi deitaiv-se a perder , lythograpbando a cabeça 
do insolente no tae&o das botas alludídas ; o se- 
gundo, mais prudente, reduiio^^ a hitrincfaei- 
rar-se na dignidade do homem catamniado: 

— «V. alteia decora bem os pasquins dos 
meus inimigos 1— disse com amargnra.*-^Ye* 
remos se é do agrado de el-rei que os creados 
da sua casa estejmi expostos a ouvir coisas, qae 
fora do paço e em outra bècca teriam exemfátf 
castigo. Conte r. alteca que hei de informar a s. 
magestade. »• 

— «Olhe, conde, e nto se esqueça: diga-lht 
mais que jft Mnipou a cara da bofetada do almi- 
rante de CasteNa^ Parece que ainda a Iam in-^ 
chada.» 

O fidalgo soltou um rugido, e lirou meia es- 
pada. Esta segmda affironta era peior; e alliidía 
àt voz de traidor que o almirante lhe dera em 
Entremos, e à oerrecçlo instantânea afpptíoad» 
peio conde fr face do castelhaaio, idonde rearitm 
a «Bte cahir inMttediatamtate oom ooma apofiltisia^ 



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BB B. JOÃO V. 191 

de que expurou hents depois. O infante tranatoF* 
nav« ; mas assim mesmo o punkal entrou até ás . 
guardas. 

— «Não me tente v. alteza 1» — gritou elle, 

•^->« Conde de S. Jofto — disse eWei, appa- 
recendo de;repente eom semblante severo -^con<* 
dusa s. alteza sereníssima, debaixo de pri^o^ á 
Corte ReaK O conde responde*me por elle até 
segunda ordem. Infante D. Francisco, peça per-^ 
dAo ao padre confessor e ao conde de S. João do 
seu atrevimento. . . » 

-r- ^Nao quero pedir perdão* . . » — gritou o 
iiifiiiite em. altos gritos. 

*-^« Hades pedir, que mando eu, e agora de 
joelhos. . • «— »- exclamou el-rei» pondo^lhe as mfios 
nos hondbros com tanta íbrca ^ que o . fez cahir 
de bruços. — Falia, ou pelo sangue de Jesus 
Clttistoesqueçò-me de quem sou l O conde acom- 
panba^e. Toma sentido I Se te escapar a menor , 
palavra ou a menor acçSo de offensa , hoje mes- 
mo vaes dormir á Torre. Sou eu que t^o prometto. 
Sahel..» 

El*rei, muito pallído, recoiheu-se depois; e 
o infante, rasgando o lenço entre os dentes, par-* 
tfttt a correr adiante do conde de S. JoSo, que a 
euato b ponde seguir de longe,, 

D. Pedro firou-^ cem «un grande suspiro para 



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192 A MOaDADI 

o seu confessor e fNira o lecmUírío ân mmés^ 
«xelamando com a elocfueocia da tristeta ,- mais 
nos olbos e no rosto do que nas palavras : 
. —«Estes fiihos!. .» 

Os dois sinceramente commoyidos tnclinaram- 
96 com respeito diante da dor do pai, e da coih 
fàsào do rei. 

D. Pedro calou-se ; o seu coraçHo jft nfio po- 
dia com as anciãs. Também os conselheiros nSo 
diziam nada ; porque, um silencio assjra não ousa 
ninguém rompel-o senio para reaniiftar a espe^ 
rança, e alli não era possivel introduzil-a. Passa- 
dos alguns minutos, D. Pedro leTantou lenlfr- 
mente as pálpebras, que tinha baixas, para es- 
conder taWez as lagrimas, e pondo os olhos no 
crucifixo, exclamou com as mãos erguidas e 
grande paixão no gesto : 

— aÂcceitai esta coroa de espinhos, senhor; 
e possa ella resgatar-me perante a vossa justiça ! » 

«-^ « Âmen ! » -^ respondeu o padre confessa. 
. S. reverendíssima ia espairecendo á «ae£da 
que a real consciência escurecia. Medico da alma^ 
sabia que esta precisava delle para adormecer , 
ccmio as vigílias do ópio para socegarem. O seo 
predominio nunca estava tão seguro^ como nas 
horas de deliquio, em que o espírito do príncipe^ 
quebrantado e timorato, vJnfaa ahraçarnse ft eruz 



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BS B. wlo V. 193 

4Íõ SftW&(for, pediâdo^lbe paz e esquecimento. 
Nestas oecasiões, o padre Sebastião, abrindo com 
tê promessas divinas as portas do céu, tinha a 
certeza de obter da (raquesa do penitente quan> 
tas concessões desejasse extorqair-lhe. 

D. Pedro, que o tractava uma hora antes 
quasí com desagrado, olhava agora para elle com 
profunda an#iedade. Tinha-se tornado um autó- 
mato , e d»edecia machinalmente. Este poder vi- 
sível do padre explicava a sua influencia. Diogo 
de Mendonça, religioso mas hão fanático, de- 
voto sim, mas não supersticioso , persignava-se 
mentalmente, e em silencio ia responsando a di- 
gnidade da corda e os interesses do estado , offe- 
recidos em holocausto pelos remorsos do príncipe 
ao jesuita, cuja roupeta negra era neste momento 
um panno fúnebre lançado sobre o throno viuvo 
de rei, e sobre a monarchia privada de cabeça ! 

Quem visse a scena que descrevemos, nSo po- 
deria negar que D. Pedro II era como se não 
existisse, e que durante o interregno, a socie- 
dade de Santo Ignacio , pegando na mão passiva 
do rei , confirmava com ella o seu poder ; por- 
que o rei já não tinha de homem senão os ter- 
rores, e a companhia unia o arrojo â intelligen- 
cia subindo os últimos degraus do throno , e en- 
costando-^ com orgulho ao sceptro da monarchia ! 
T. n. 13 

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194 A «OaPADB 

D. Pedrot eom tok fraca, e olhar itoAtám^ 
YoItoiMe para o canfessor , e p^nguotoa : 

— « P. SebastiSo, diaserannse por miiiha ia- 
tençSo as trinta missas do costume? » 

— c< Sim , oieu sr« l » 

<-— « Deohse esmola aoa treze pobres que eu 
disse? x> 

— « Também se deu* i» 

— ^ « A confraria de Santa Engraeia já reo^* 
beu o frontal novo , que mandei ? » 

— *« Hontem, meu sr.! £ mais o aaerario de 
prata para S. Julião. » 

— <x Bemdito e louvado seja o Santisaimo St- 
eramento do altar!*.. » -^exclamou el^r^, peií- 
do-«e de pé. 

— « E a immaculada Conceito da Vii^gem 
Maria , Senhora Nossa ! n •«- aocrescentou o je- 
suíta , cruzando os braços devotamente, 

— « Está certo ; eu rezaria as minhas Hotas^ 
falt^ a alguma devoçio?» 

— «y. magestade é bom catholico; cumpriu 
todos os seus deveres. » 

— «Mas estes desgostos não sÍo naturaes. . . 
Que dia é hoje?» 

— «Sexta, feira ^ dia da morte e pâixio de 
Jesus Christo , Senhor Nosso. » 

— «Se^ta feira ! . . — gritou D. PedrOt fa- 



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BS D. JOiO T. \Q& 

teoikHlc braqcQ e todo tremulo -^ Sexta feira, e 
V. revi^repdissíma oao me avisa ? l fstou perdi-- 
do ! . « AquelUs perdizes , aquelas perdizes ! . . . 
O qve suooedeu foi castigo. Comi carne á sexta 
feira f padre SebaitiSo! não cumpri q jejum, e 
dormi descapcado pa mioba pama; esta gente 
não me ài% U9da de propósito. Se Nosso Senhor 
me K^bama dp repente morria em peccado mor- 
tal. . . Que sacríiegip } Perdi?; á se^pta feira \,.n 
— <t Observo a v. magestad^ -^ at^lboigi o je^ 
suita, interiormeotís cbeio de jubilo^ ma3 m ex- 
teiior figurandoH^ perple^p — que é çaao grave, 

f-^ JSssf mas custa*-me pelo meuQs meio se- 
cuk) íg pwgfitorio!^ clamou D. PedWi pa^ 
aeíaudo agitado. -^ ;^ por wa culjpia , padre Se- 
basti%9 , por culpa sua , Deus o sabe 1 » 

— « É grave — tornou o confessor serena^- 
mfinb^*->^mA8 temos remédio. » 

^^«N9o importa 9 comi perdiz! £ agor« me 
r^^l^do : njip me pu?eram m Jfm^ um^ e^ama 
cte peí^f S$o diabrur^s dos medico^ , dos bere- 
Im do» mediíji^. , . Quem mfmd^ fiar^me Telles 
e tí^Q perguptur uada? Pequej, fsqm 1 devia le- 
vaobir^fim logo. Autes coippie^ p9o secco. Tiuba 
a mmbft çopwi«iiPÍa tranq^iUa. » 

-^«Nlio a^ag^re V, m^gestadet O coraçio 



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196 A MOCIDADE 

eslÀ puro, se peccou fói ignorância. . . Entre- 
tanto, para diíer a verdade o caso parece^me in- 
trincado. . . TaWez sessenta missas e uma boa 
esmola ás missSes da propagaçSo da fé. . . Em- 
fim^ aqui está o sr. Diogo de Mendonça, excel- 
lente canonista, e elle explicará a y. magestede. . j» 

— « Pobre de mim l Eu que n9o valho nada ! . . 
Aonde falia v. reverendíssima citar Direito quem 
é tão esquecido, modéstia á parte . .. Ha de per- 
doar , mas eu nfto fallo. » 

El-rei olhou para o secretario das mercês, 
como o leproso do Evangelho para o medico di- 
vino. O manhoso cortezdo , apesar do seu tacto 
e conhecimento dos homens, apesar de saber de 
côr o caracter e as fraquezas do monarcha , es- 
tava absorto com a scena, e não fazia senão di- 
zer comsígo: — triste rer, a que estado te re- 
duziram ! 

Quando o jesuíta citou a sua auctoridade em 
Cânones, apezar de costumado a cohibir-se , as- 
sim mesmo custou-lhe muito a conter-se, para 
dão denunciar na physionomia o seu ardente de- 
sejo de pegar no padre ^'pela roupeta , ir a uma 
jânella, e baldeal-o sem confissão nem sacra- 
mentos. Comtudo, feita a profissão de humil- 
dade académica , e ferida a lancetada nos theo- 
lógicos talentos do confessor, o ministro , lendo 



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DB D. JOÃO V. 197 

no semUante de el*rei uma ordem formal re- 
síg&ou««e , e subiu ao palco. Como babil come- 
diante obrigou logo o rosto a moldár-se ás cir- 
cumstancias, e os olhos a pasmarem a vista, de 
modo que exprimissem uma longa e casuística 
interrogação mental. 

Depois da perplexidade, o secretario das mer- 
cês , enrouqueceu a voz , apoutou os óculos en- 
tre o Índice e o polegar , e meneando a cabeça 
fio tremulo mais artístico , principiou a repre- 
sentar, o que fazia sempre, mesmo até dormindo, 
acrescentavam os seus inimigos. 

— a Que posso dizer, em caso tão grave, esco- 
lho dos maiores doutores que sSo a gloria da igre- 
ja ? » exclamou lançando as palavras seccas e vi- 
bradas. « Temos aqui um sábio , um theologo , 
um^ amigo espiritual de v^ magestade ? E quer- 
se que falle eu, o menos capaz de acertar! Ya- 
iha-me o ceu 1 Em que escrúpulos estou met- 
tido. Obedeço , mas Deus sabe se é com ddr do 
meu coração ! Direi a verdade. V. reverendís- 
sima rí-se? Pois é assim. Nunca me fez mal 
senão a oimia boa fé, a minha nimia boa fé ! ... 
Mas sempre aifirmo, e v. reverendissima co- 
nhece-o melhor do que eu , que ha muita difFe- 
r^iça entre dogma e disciplina. Concordam to- 
dos nisto , até o padre Molimi aquelle grande 



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198 A MOClMDt 

mestre da cb&scteficia ! O jejum líefMl9 pt^ceíto 
da igreja nãú é dogma i peceou v. mag^stáAs ? 
De certo ! Sou justo , corto direito* E tíé pee- 
cou bastante ; ehtetido , porém ^ que o caso tillo 
pede tantos temores ; e S; tevéire&diSsima o diltt. 
Sustento eu que ndo ; ha qâèm me poiSft eõfe>- 
testar? Quanto á penitencia... nSo KèA^ não 
me pertence ; tom&)ra achal-a òondigm dos mens 
grandes pecéados , mais numerosos desgraçada- 
mente do que os cabellos da cabeça , (e tenho 
bem poucos já ! ) por enfermidade de «spirito e 
simplicidade de animo^ Depois , C&mò oS m^i- 
cos probtbiram a V. magestide. ...» 

— « Nao me fallem dos médicos! »*— gritou 
el-rei irado — itfto de mettet-me no inferno. 
Quero despedir os misdicos ! » 

— « Socegue v. magestade»^'^ acudiu O con- 
fessor — « Jesus Christo deix?6u na isua igr^a 
remédio para todo o género dè peccadò. Qaiz 
ònvir a opiniSio do sr. Diogo dé Meâdòtiçè ^ ^ 
em Cânones é ò nosso mestre, e esilMi aot- 
forme. . . » 

— « Muito òbfigàdò «i y. neter^ttdiftitod ! » 

— « E!-rei » — continuou o padre -— « mMida 
dizer sessenta missas, e para íua mortifiOi^e j^ 
jua émánhã , sabbado de Nossa ãeyibdfti. (Mlb 
dias consecutivos nto come pèrdíft, M ootm 



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DE D* JOio y. 199 

ave de apetite. Parece-^me »— acrescentou olhando 
para D^ogo de Mendonça — a que asaim ficwá 
tudo sanado? » 

-*— aPois nio? £ ainda temos de sobre- 
cellente as indulgências I ? »<•*— acudiu esta com 
uma seriedade iiresistÍTeL » — O caso, atte»- 
da^nie t« magestade , é não comer perdiz esta 
semana, segundo nota s. reverendissinia ; e de- 
pois as missas ; as missas per causa do purgato*- 
rio. . . . Isso , e uma esmola. — » 

— « Ás missões e aos captiros? » — inter- 
rompeu o confessor. 

— - c< Pois a quem ? Santa applicaçiD ! » -^ 
ooncimo o ministro sem deaengatilfaar um dos 
músculos da face — « Sabe v^ ínagestade que ha 
fornada em Roma? Queoem lá os quindenios 
atmtdos dos bms da companhia de Jesus. £ 
tiles não são tolos ; a esmola é menos m&. Soa 
santidade amf»ça o geral com as censuras. . . » 

Dep^s do desastre das perdizes , el-rei estava 
de cera. Olhando para o confeasor , perguntou- 
Hm , tossindo : 

-^<( O que Uie parece, padro mestre? » 

-«*4< Sou de voto que se espece ! » — replicou 
ertè um pouco etathado ~- « é. santidade insis^ 
é Mo é bom. V. magestade Teri se os pr^ados 
ék ccnftnlM dev^m ekpâr-ae ás censuras do 



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200 A BfOClBASE 

papa^ ou obedecer ao seu rei legitimo. ...» 
O secretario, das mercês e o jesuíta trocacao» 
um lance dè olhos, que valia por duas estoca- 
das. Diogo de Mendonça conseguira o seu ^m : 
tinha obrigado os padres a desembuçarem-âe ; e 
com a usual finura logo percebeu >que o di- 
nheiro dos quiodenios sahia caro a Portugal, 
não se pagando senão em proveito da companfaia. 
O confessor, obrigado a descubrir-se , meditada 
no modo de castigar a cilada. EWei, olhando ^^ 
ora para um*, ora para outro, não dizia nada , 
á espera que o esclarecessem. Por fim impa* 
ciente, perguntou: 

— <( Então o que havemos de responder aa 
núncio apostólico ? » 

— a Se V.' mogestade o ihanda e s. reveren- 
díssima o deseja , esperemos ! Em quanto espo- 
ramos, descançamos! — disse o secretario das 
mercês, ladeando a posição para a levar melhor. — 
Se querem a minha fraca opinião, eu que em 
matéria de escrúpulos um cabello me parece:um 
varão de ferro, estou de pedra e cal neste ne- 
gocio. A cúria não tem direito ; e a honra -da 
coroa ficará comprometlida. . . Perdoe, v*. ma- 
gestade se fallo a verdade, mas é o meu' defeito.; 
e deste npo me curo. S. revereiídissima dirá qual 
seja de mais utilidade para a companhia ; está 



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DK »« JOÃO V. 201 

de dentro, e sabe nniíto mais. Até nSo ha ne- 
cessidade de Ih^o perguntannos. Quem viu aquel- 
les fiipeís de tanta sabedoria , todos escriptos do 
seu. punho, reata-lhe admirar a firmeza de suas 
paternidades e. contar com elles. » 

— «Ora ahi teem o grande amigo , que nos 
arranjotto padre Ventura! — rosnava Sebastião 
de Magalhães, vermelho como lacre e seriamente 
atormentado. — Que vibora! Saberá v. mages- 
tade — disse alto — que a companhia não ha de 
querer senão a gloria de el-rei e o esplendor da 
monarchia. . . » 

— «Eu não dizia? — exclamou logo Diogo 
de Mendonça com falso enthusiasmo — S. revê- 
readissima, o nosso doutor subtil, o nosso Scotto, 
era incapaz de emittir voto menos auctorisado. 
Asseguro a v. magestade que não ha maior amigo 
da sua coroa. Não se pagam os quindenios ! Como 
canonista protesto que o direito nos assiste ; por- 
tuguês e vassallo fiel , ainda que morra , hei de 
sustentar que o contrario nos deshonra. . . . 
V. magestade ordena; respondemos ao núncio 
nesta conformidade? D. Thomaz de Almeida 
encarregou*me de receber as ordens a este res- 
peito. )» 

— a Acho bem. Responda que não. » 

— «Ah padre Ventura , padre Ventura I — 



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202 * A MoaDÀttB 

bramiu o codiessor apopleticô -*^ olha a* boas 
obras do homemEarrfto ! FicaiiMS bonitos t^i 

S. reverendíssima mettea a barba no peito e 
pousou os olhos confusos no empinado tentre; 
sem isto é provável que a suacholera se exacer- 
basse ainda mais, colhendo na passagem o olhar 
irónico e victoríoM) com que o ministro oeiebpim 
a sua derrota. 



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CAPITULO SXt. 



DUAS POTENCIAS ! 



A NUVEM tinha pi^s^áo ; o caio de consèien- 
eia das perdíteB estavA esqaècido^ £l-rei, adiando 
o corpo íobre o pé dífeito ^ contertiô em balanço 
familiar a sua poltrona , itidicio evidente da re- 
gia alacridade. O confessor creacia com indigna- 
do ^ e o ministro fana««e peq^ieno , prova de aè 
achar grande. D. Pedro II, tinmdOHse para Diogo 
éo Mendonça , cujo vttUmento augmentóra desde 
«I díssert;açao canónica sobre o jejuni> esclamon : 

— '« Vamos á historia do teu protegido, » 

— « Qual htotoria , men sr* ? » 

^ A A ido teu capifâo Bécynrão. Não foi Bayardo 
^ne disseste? Sabes que mais, Di^ò de Men- 
úim^t Ainda te «leho mnitò poeta. Emftm, va- 
mos a ftt. » 

— « Pet*8 t. iftagastadet Ptós eu chemei 



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204 A MOCIDADB 

Bayardo ao homem 7 É verdade não ha mehor 
soldado ; roas Bayardo Cm demais... por sigoal , 
espera alli fóra a graça de beijar a mâo de el* 
rei. » 

— « Primeiro a historia. Tem algmna coisa, 
padre Sebastião? » 

— Não , meu senhor. Ousarei lembrar nova- 
mente a V. magestade a audiência do padre Ven- 
tura? » 

— « Yirà o padre também... Diogo de Men- 
donça , estou ouvindo. » 

O jesuíta furioso interiormente, por causa 
da preterição^ foi bastante fino para tentar o su- 
premo esforço de um sorriso, que Ibe saiu a mais 
forçada e azeda das suas visageos. O secretario 
das mercês não perdia de vista o revm.^, por den- 
tro rindo-se do seu desgosto, por fóra aÔectande 
uma innocencia primitiva. 

Esta historia era um favor de el-rei , que se 
propunha grangear em proveito doxapitão e do 
seu amigo Lourenço Telles ; porque , apesar dos 
calumniadores, Diogo de Mendonça, accusado 
de ser o mais espirituoso cómico da corte, e de 
fingir no seu coração, vasio e desamorovel, todos 
m> sentimentos, estimava pouca' gente e poucas 
vezes , mas quando era amigo sabia séi-o. 

— «O visconde de Barbacena, siberà v, ma- 



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géstade*— principiou o ministro-^ diz do capi- 
tão Jeroifymo Guerreiro , que é a mais fina em- 
pada de cavallaría , e a melhor cabeça de conse- 
lho em ardis de guerra... » 

— «O exórdio promette » — acudiu o mo- 
narcha — « Queira Deus que n5o te cances an- 
tes de chegar ao fim... » 

— « Não ha corpo sem cabeça, meu sr. ! » — 
respondeu o secretario das mercês com summa 
gravidade — « E se o exórdio parece forte a v. 
magestade, a narração me saWará... Tractava-se 
este anno da occupaçfto de Alcântara ou de Ba- 
dajoz, que se perdeu na outra campanha pelas 
demoras do conde de S. João, coitado!... A pri- 
meira dificuldade consistia em achar um lingua 
entre os castelhanos ; porque era- loucura metter 
com os olhos tapados o nosso exercito mesmo na 
boçca dos canhões... » 

— «De certo! » — observou el-rei, acele- 
rando o vai-vem da sua poltrona. 

— <c Mas quem seria o rato^ capaz de pôr o 
guizo ao gato? — porque v. magestade percebe 
que os francezes apanhando o espia roubavam-no 
para os não alliciar, e arcabusavam-no depois 
para não fallar. Como pouca gente gosta de ser- 
vir de mira aos mosquetes de uma companhia 
tíe soldados... i» 



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306 i «ociPiU^B 

— a £ Qqai entra nós , Dic^ de MeD^eiifa 9 
ha de ser iniiíto desagradável ! — *^ tornos a cur- 
var el*m, balaȍaiid(Hfe na cadeira, 

— » É verdade ! No ça^ fresepte at^ se po- 
dia apostar noventa contra dois em como as pro- 
babilidades eram de ficar no meio da jornada com 
doze balas na cabeça , chumbo de mais para alvo 
tão pequeno, n 

— c( Diabólico I » — acudiu D, Pedro, esfre- 
gando as mãos, 

— « Nao admira, pois» que os officiaesi se iofr 
sem escusando dO/modo que o visconde, muito 
cholerico, segundo é publico, fez-rse branco, com9 
a tira da camisa • e chegou a disser que iria eUe t 
se ninguém fosse, pois tanto valia morrer de \m 
tiro em batalha , como levar dej( bejles no c^^-' 
ção atrais de mu fosso. » 

— « Argumento forte, Diogo de Meodonça ! » 
-^notou el-rei. 

— «Infelizmente nipguem se convenceu I )* 
— prosegniu o seoreterío sorrindoHie, ^^ « Nesta 
oecasi9o entrava Jeronyme CriierreifQ e o general 
batendo-lbe ne.bombro, gritou nmito emmado; 
--« Aqui estA quem vai gapheir um [?osto, ou 
levar um peitilho de belas, e ^edajenl F<w este 
respondo eul M^-^Jero^yíno infermoi»^, envia 
as instrucções , e muito serio , muito sei^eoo , fei 



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"Qma eotteía «o visconde, a sem diaer mais na- 
da. . . 

— a O qw fea? >>—r gaitou eWei. 
<-^ fc Partia 9 meu senhor ! 9 

— a Partia !?..)» — exclamou o príncipe , 
levantando-se. 

r-« HL Immediatamente 1 « . . E como suppoe v. 
magestade qae elle entrou por Hispanha 7 Em 
trajos castelhanos, a pé sobre duas muletas, fin- 
gindo'Se càxo e tartamudo. . . . Em vez de um , 
pregou dois logros aos franeeses. v 

— a Bello estratagema ! E fiogiu^ae bem ? 9 

— <c Tão bem, que fpi até Madrid sempre 
mettido pelas portarias dos conventos e pelos 
pateos dos fidalgos , vendo e ouvindo tudo ; e 
como parecia ter a liugua aioda mais tolhida 
do que as pernas, e a sua mala era o alforge á& 
pedinte , não lhe perguntou ninguém d'onde era 
nem para onde ia. . . « Parvos ! » 

— a No mundo tudo são apparencias! vf-^ 
interrompeu o padre Sebastião , olhando para o 
historiador coin yisível intenção, 

— « Santa verdade 1 i> — exclamou este que*- 
brando os óculos, comp em certos dramas o 
protagonista estala a espada no joelho — a E en** 
tão? Não quebrei os ooiJos? . . . Sâo tudo ap- 
parencias, V. reverendisaima o disse 1 Tudo é 
comedia. ...» 

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268 A MOaDABE 

— a Menos a morte , Diogo de' Mendonçt i> 

— accudiu el-rei entristecendo. 

— « Essa é tragedia ! . . . Para que falíamos 
nós de morte? V. magestade graças a Deus^ e 
todos esperamos Tiver largos e felizes annos. . . 
Longe vão os cuidados ! » 

— « E o nosso capitão ? i> — perguntou d-rei. 
— « Quando se acbou informado voltou co^ 

xeando para Elvas com os alforges cheios de es^ 
molas e de noticias. O que suppSe el-rei que 
lhe havia de oceorrer? . . . Pagar-se da jornada 
por suas mftos ! Fazer dos castelhanos banquei- 
ros de v. magestade ! . . isto dé rapazes !...>» 

— a Como ? » 

— «Eu digo a V. magestade , Jeronymo é 
muito callado, e quando fónna um plano rumi- 
na-o comsigo ; ora em elle achando a ideia , al- 
guém por forca acha de menos alguma coisa ; 
fallo dos inimigos. Quando se recolhia , notou 
que os gados levados â feira de Guadalupe iam 
formosíssimos , e pareceu-Ihe mal nSo serem 
delle, e serem de seus donos. ... V. magestade 
sabe : cortar os viveres em campanha 6 tio me- 
ritório para o soldado, como dar de comer a 
quem tem fome na paz de Deus. » 

— «As obras de misericórdia ás avessas? d 

— disse D. Pedro, rindo. 



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DE D* Joio V. 209 

^— •'« Ás direitas, meu senhor. A charidade 
benii ordenada começa por nós. Assim , aquelle 
menino. . . (desculpe v. magestade ; é mau cos- 
tume que tomei ; chamo até meninos aos velhos 
-—a s. reverendissima talvez, pôde bem ser! j 
O caso é que o nosso capitão ^ sabendo quj& os 
gados ficavam dois dias em um logar da raia 
para descançar , deixou-se ficar com elles ; e teve 
artes (demónio do rapaz ! ) de fazer que lhe of- 
ferecessem comida e dinheiro pelos guardar de 
noite ^ com promessa do dobro se quiaiesse acom- 
panhal-os. . < » 

— ^ « E acx^eitou ? » 

-^ « Foi tão feliz que o obrigaraiti a acceitat ! » 

— " « Mas elle fingia-se tartamudo ? » 

— ^ « É o melhor da historia. Como nào po- 
dia gritar derâm-lhe um tambor e disseram que 
tocasse nelle em sentindo tropel. Feito o ajuste, 
os guardadores dormiram a somno solto ; e como 
a quem dorme^ dormem os cuidados, elles fica- 
ram, e os gados foram^e. » 

— ' a Ah ! » — gritou el-rei com alvoroCo. — 
a Como foi , como foi ? )> 

— « Com a maior simplicidade. Dormiam ao 

pé delle três soldados de cavallaria ^ com ordem 

de não largar os rebanhos; Beberam e deitaram- 

seu Na segunda .noite, Jerony mo, quando os 

TOM. n. 14 

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210 A MOCIDAPE 

yíu ferrados no somno amarrou-os, poi-lbes 
mordaças na bocca , e rompeu depois o tambor. 
Montado na melhor égua, com um pampilho 
na mão, entrou em Portugal e chegou a Elvas, 
seria meio dia. Os guardas , que ficavam no to- 
gar , a meio quarto de legua, não sentiram nada ; 
e acordando ao nascer do sol trataram de ajun- 
tar os bois. . . Não havia bois. Acharam as mu- 
letas do coxo , os três soldados presos , e sou- 
beram então que elle tinha duas pernas famo- 
sas , e fallava como um doutor. Quizeram tocar 
a rebate no tambor, estava roto! Quizeram 
correr atraz do inimigo , não tinham cavallos. . . 
Peio seguro Jeronjmo levou os pés de mais aos 
Philisteus ! Assim , quando sahiram ao campo , 
e deram aviso ao conde de Resboorg em Badajoz, 
andavam já os nossos batedores & pressa reco- 
lhendo os toiroB desgarrados. O peior foi que 
em vez do seu gado , o conde de Resbourg en- 
controu o visconde de Barbaoena, que lhe as- 
sentou ainda em cima a mais completa der- 
rota I. . . Aqui tem v. magestade como este anuo 
a feira passou de Guadalupe para l^vas, lou- 
vado sqa Deus ! n 

-^ c( É uma grande iaçaiiha , Di^ de Men- 
doaga. E os hispanhoes? » 

— ^«c Om m pon se It eomm^mt Disseram 



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DÉ í>. JOÃO V. 211 

qttê el %&rrò fue téntacion dei demónio, . . . ló- 
ios! » 

— ^« Diogo de Mendonça é preciso ptemeiar 
o capiUo. )» 

— K V. HíBgestade obrará como grande rei. 
Um habitosinho deChristo e utna tença... » 

— « Elle é casado? » 

— « Está era perigo de o ser. » 

— ^« EnSk) lhe succedeu mais nada? Os cas- 
telhanos forte odto lhe hão de ter ! » 

— 1< toe morte. Mas elle com os gados ficou 
melhor, y* 

— - « De certo* Introduze-o ! » 

Minutos depoi!( Jeronymo inclinava a cabeça 
e dobrava o joelho diante de el-rei ; e s. ma- 
gestade dando-Ihe a mão a beijar com aífabili- 
dade , admirava o ar brioso do capitão do seu 
exercito do Alem-Téjò. 

— <i Jeronymo Guerreiro » — disse o mõ- 
narcha — estou conttfnte com o teu serviço. Con- 
tinua e lembra-te que el-^rei deseja ter occasiâo 
de premiar. ... O bastão de mestre de campo 
costuma aebei^-se Aa triâcfaeira de uma praça 
de guerra , ou apanha-se n« niéio dos terços do 
inimigo. . . Diogd de MendoUçà * já recebeu as 
minhas ordens A tetii yespeit«r. )P6des Miirar^té. >> 

O mancebo éheio Aa jiAiiò f^ eittb recépçiiii 

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212 A UOCIDADE 

dístincta , tornou a beijar a m5o do monarcba , 
e inclinando-se apenas disse : 

— «A minha vida é curta para agradecer a 
munificência de v. raagestade. » 

Depois fez as cortezias da etiqueta e sem 
nunca virar as costas retirou-se. 

— «Diogo de Mendonça» — exclamou D. 
Pedro — « gostei do teu protegido ; falia com 
muito acerto. Podes dizer-lhe que lhe faço mercê 
do habito e mais da terça. . . » 

— « É de justiça , roeu senhor. Quando v. 
magestade o poz aos peitos de um preto , seria 
admiração n3o o conferir a um official brioso. » 

— « De um preto ? » — gritou el-rei com 
Ímpeto. 

— a Sim, meu senhor. Domingos Pires é ne- 
gro como azeviche , e de mais a mais barbeiro 
de profissão. . « . Sinto na verdade , mas parece 
notável que assente bem o vermelho sobre o 
.preto e que a navalha dê o habito. » 

— « Padre Sebastião, isto o que quer dizer? » 
, — clamou o monarcba fazendo-se branco. 

— A Senhor ! » — accudíu tremendo o confes- 
sor — não fui eu. . * « » 

— « Tem rasão. . . foi o. infante. Ah, Fran- 
cisco, Francisco! O habito jde Christo a um 
preto 9 a um barbeiro ! Que vergonha. . . Diogo 



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DB D. JOÃO V. 213 

% 

de Mendonça, como se ha de valer agora a 
isto ? » 

— « Só com o painel da misericórdia ! O ha- 
bito está enforcado no preto. Tire-se o negro 
para sumir o habito. Não vejo outro remédio. >» 

— fíEntào?» 

— « Mandemos o pae Domingos a tomar ares 
pátrios. Despacha-se para Guiné. ...» 

— «Para o fim do mundo! — gritou el-rei 
furioso. — Um barbeiro preto com o habito ! ? . . 
Ah , Francisco ! Diogo de Mendonça despache o 
negro e salve o habito. . . » 

— « Occorre-me outra coisa; . . » 

— « Diga. » . 

— « Há de haver por força algum branco deste 
nome. Procuramol-o e da-se-lhc o habito, tíize- 
mos depois ao negro que foi engano. EJIe acre- 
dita ! . . Tanto rnais quanto de noite tudo é preto, 
e até os gatos brancos são pardos. » 

— «Excellentet — disse el-rei a rir. — Mas 
Diogo de Mendonça, tu, porque eiiLpediste essa 
mercê?. . » 

— «Eu, setohor? Não sabia. V. magestade è 
justo; é sábio, mandou as suas ordens, obedeci. 
Não tenho a rol os pretos forros que andam a 
eaíar Lisboa , ou a escanhoar as barbas aos ma- 
telotes. Ia a sahir hoje , c apparecê-me na es- 



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$14 A MOCIDADE 

ça^a uBi negro. . . bom n^o ! Vale eem mil 
réis, posto no Brazi). Cuidei que o moleque pe- 
dia esmola. . . desgraçadamente a^radeeia-me e 
seu despacho. — Pois eu despocHeí-o ? — v. s/ 
deu-^-me o habito de Christo, » 
— 1< E vossemecê quem é ? » 

— « Sou Q barbeiro .do$ creadoç do ir. infante. » 

— aE eu dei-Ihe o habito, está bem certo? 
— • « Vem neste papel » — E vinha. . . por Deus ! 
— Disse ao preto , que voltasse ; mas pelo se- 
guro esqueci-me e o diploma íieou no bolso. 
Aqui o tenho. » 

— c( Pois vá , ]>iogo de Mendom^a , e veja se 
desencardimos a ordem de Christo de tal bor- 
rão. . . padre Magalhães , acabemos a noite. O 
seu recommendado pôde vir. . . Ai que filhos me 
dea Deus ! » 

O secretario das mercês sabiu logo, e instan- 
tes depois entrpo q jesuíta, com os olhos hdiítm 
e bumildes. Á porta ^ quando se inc]ii¥>u para 
Ql-rei y poz-lbe a vi^ta com a força de intuição , 
que era o dom precioso do seu génio ; e leti-}he 
na anciedade , em que a dor contrahia as fei- 
ções, na pallideii cubrindo a (a^e de um vço, e 
na tristesa mortal dli phisionomia^ o^ progressos 
e % crise de mna çpi«cmid^de rápida, que ,^ 
médicos não tinbaiv sabido. a^jvjnbar. O. padre 



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DB D. JOiO V. 215 

Ventura entendeu logo que el-rei D. Pedro era 
como se estivesse já em S. Vicente de Fora, ao 
lado de seus pães. 

El-rei, também, com a firmeza de tacto, que 
dá a pratica de conhecer os homens, achou o 
jesuita superior á sua humildade, e muito maior 
do que a obscura posição, que figurava. Exami- 
nando-o silendosaraente , estendeu-lhe a mãp, e 
sem saber porque chamou a si toda a penetra- 
ção, como se um instincto secreto o avisasse de 
qiie tinha diante de si , em vez de um religioso 
vulgar , uma potencia senhora do coração dos 
outros, porque dominava o seu, exclusiva e abso- 
luta, porque na sua mão o poder era único, por- 
que a vontade e a intelligencia eram absolutas. 

O padre linfaa-se curvado ; nem tanto que o 
respeito apparecesse como servidão , nem tào 
pouco que tomasse a cdr de orgulho. Pousados 
na mão, o-monarcha sentio que elle tinha os 
beiços ainda mais frios do que o sorriso. 

r — «Sebastião de Magalhães^ — observou D. 
Pedro — pesando as palavras e pondo os olhos 
como duas sentinellas no descorado semblante do 
jemiita — o meu confessor, pediu-me ama au- 
dteaeia da parte de r. paternidade. Deve saber 
que D. Pedro II muitas vezes se tem levantado 
da mesa pan deferir aos mtis obscuros vassallos. 



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216 À MOCIDADE 

NSo precisava de empenhos , padre, para chegar 
á presença de el-rei. Uni soberano tenoi abriga- 
çHo de ouvir a todos, como espera que Deus o 
ouça a elle. » 

O jestiita sorriu-se, mas ndo abriu a pbisi<K 
nomia. Á vista do principe escorregou, por ella 
sem poder entrar no coraç^ão. Aqueila face im- 
peiíetravel era o mesmo que o aço de Milão nos 
guerreiros antigos, flexivel como seda, resistente 
como ferro. 

-^ i( As virtudes d^el-rei são a felicidade do» 
seus vassallos, e a admiração dos estrangeiros » — 
respondeu s. paternidade tomando a inclinar-se. 
n Se eu viesse por negocio meu , diria ao sobe- 
rano : aggravaram-me, sr. , e peço justiça ! e es 
tou certo , o ouvido de ei-rei , que é o ouvido 
de Deus, havia de escutar-me. Mas eu venho fal- 
tar á consciência ; por isso espero a occasiâo , 
dando a Deus infinitas graças, porque me atten- 
dem , e me não despedem. » 

— « Então o padre acha que a minha cons- 
ciência está em^ perigo ? » — acudiu D. Pedro 
sobresaltndo. 

— a Sim , meu sr. ; mas creio , tombem , na 
grandeza de v. magestade, e na graça de Deus. n 

— ^ « E é o que o trai? » 

— « E o meu dever, mais o serviço de el-rci. » 



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DE D. JOÃO Y. 217 

— «O meu serviço ? » 

— « E o de Deus! w 
— « Explique-se! » 

— « El-rci sabe qae as lagrimas do innocente 
sâo de sangue , e que Deus m conta contra os 
perseguidores, porque Jesu-Christo , que nunca 
chorou por si , muitas vezes chorou por nós. A 
mâo de el-rei, levantada neste moniento, faz cor- 
rer lagrimas de deslionra é de vergonha, que se 
não forem enxutas, hfio de cair de fogo sobre a 
cabeça do peccador. A coroa , sr. , fica na terra 
mais o corpo ; e diante do juiz a alma do rei 
peza menos ás vezes que a do escravo , porque 
só peza segundo os seus mereciniintos. » 

— « Padre Ventura , falle ! Se peccámos fa- 
remos penitencia ; se alguém se queixa de nós 
ha de ter justiça. A quem aggravou sem causa a 
mâo de el-rei ? >^ — disSe o principe muito agitado, 

— « Uma innocente foi calumniada ; e el-rei, 
sem a ouvir, acreditou a calumnia. É mal Teitò, 
sr. , Deus perdoa muito aos homens , e esquece 
pouco aos reis. » 

— « De quem falia v. paternidade? p — ex- 
clamou D. Pedro II , cheio de terrores espiri- 
tuaes, e curvando-se involuntariamente. 

— <« De D. Catbarina de Athaide , noviça em 
Santa Clara, n 



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218 A MOCIDADE 

— a Ah ! I» — gritou el*rei , pondo^e de pé . 
com os olhos fitos e tneio accesos de ira. 

— c< Está innocente , está pura , fpi calum* 
ntada! » — proseguiu o jesuíta, deixando cair 
cada pbrase, pexada como ferro, sobre o espi- 
rito do príncipe. 

— a Mas eu sei o contrario ! r> — disse o mo- 
narcba, recuando diante da voz do padre, e dos 
seusi olhos irresistiveis. 

— « V. magestade jiào sabe nada » — res- 
pondeu fríamente o jesuita. 

— í< Ah ' Então V. paternidade é que sabe, e 
é que é o rei ? » 

— « Eu é que sei, v. magestade o disse: c 
sei porque não sou rei. » 

— « Mas el-rei também é pae ^ » 

— « Basão de mais. Os últimos a saber a 
verdade nestas coisas são sempre os pães. » 

— ' « Então protesta-me que D. Catharina está 
innocente? Que. o principe real não foi a Santa 
*Clara ? » 

— « Não alBrmo senão que s. alteza nunea viu 
nem (aliou a D. Catharina. Não sei, e não digo 
mai3. ». 

— « B as provas , padre ? » 

. . — « Tenho-as todas í — refdicoii • visttad<Mr 
elevando a voz. 



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BC D. JOÃO V. 219 

— « Quem deu o direito a t. pater oidade de 
falUr alto diante de mim? » ^-exclamou o prín- 
cipe , refugiando-se atraz da sua coroa , porque 
se via fraco de coraçSo para resistir. 

— « Quem tem na sua mão vassallos e reis. 
Quem disse a Lazaro, ergue-te ! e ao cego, vè 1 
Foi Deu^, sr. f E Deus, também, que fez os 
reis â sua imagem , foi quem Ih^ confiou um 
sceptro , que é vara de juatiça , e não açoute de 
tyrannos. » 

Paliando as^im , o padre Ventura assumia 
aquella auctoridade , aquelle poder de vontade e 
de eloquência , que o tornava inspirado nas oc- 
casiões perigosas. £l-rei, vacillante, e quasi ven- 
cido senão convencido , sumía-se na cadeira , e 
baixava os olhos para não sentir sobre o coração 
a vista profunda e cortante do jesuita , que lhe 
causava uma dôr mcHral , a<inde quer que se fi- 
tava. 

— « O padre engana-se. Quem lhe disse que 
D. Catharina era innocente? » — exclamou in- 
sistindo. 

— « Disse-o ella » e sei-o &a\ w 

— « Grande prova ! i> — gritou el-rei com im-- 
peto. — « Disse-o ella. E depois ? » 

— k Depois ainda accrescentei mais : -^ e sour 
be*o eu. » 



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220 A MOaDADE 

— « Ah , então?... » 

— (( É claro. D. Catharina não recebeu a s. 
alteia , porque o não podia amar. » 

— « Não podia amai-o ! ? Porque ? » — acu- 
diu o pae , desta vez mais offendido no orgulho 
do que o rei na vontade absoluta. 

— <i Porque os ambiciosos só é que amam por 
calculo e tendo o coração fechado : uma paixão 
verdadeira crê em Deus, e não espera, nem de- 
seja mais do que ser feliz. » 

— « Ah ! » — tornou el-rei a exclamar, ferido 
por esta allusão. — « Continue ! » 

— « E o coração da mulher , que está pura , 
das mulheres como D. Catharina, é muito grande 
para se fazer assim pequeno, e muito nobre para 
se envilecer a esse ponto. >» 

— « Continue! » — acudiu o principe, cer- 
rando os dentes , e empallidecendo mais. 

— « Acabei, sr. : D. Catharina ama o conde 
de Aveiras , e por isso el-rei bem vê que é im^ 
possível outra paixão. » 

— «O padre esquece que o amor do prin- 
cipe real... iisongea o orgulho, e que as damas 
se levam todas pela vaidade? » — atalhou D. Pe- 
dro cora um sorriso frio. 

— « Orgulho e vaidade são duas coisas, e não 
uma. O orgulho sem soberba eleva o espirito , 



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BE B. JOÃO V. 221 

n5o o declina. O príncipe real , perdoe v. ma- 
gestade, para D. Calharína é muito, e muito 
pouco. Muito pelo grande respeito que lhe deve. 
Muito pouco , porque ella pôde subir até seu es- 
poso , e não quer descer até á sua infâmia. » 

— «Não creio! » — murmurou o príncipe 
abalado, mas insistindo sempre.-— ^« Ás minhas 
informações... x> 

— « São falsas, falsas!... como o coraç&o que 
as envenenou. » 

— «Sabe de quem falia, padre Ventuía? )» 
— gritou el-rei parando diante delle, e amea- 
çando-o com a voz, com o gesto, e com a vista. 

— « Nào me pertencem os segredos de el- 
rei ! » — acudiu este , encontrando o seu olhar 
firme com a vista irritada do monarcha. — d Mas . 
repito ; quem quer que foi , mentiu a v. mages- 
tade , disse uma calumnia, e commetteu um cri- 
me. Isto affirmo eu de coração tão sereno, e san- 
gue tdo quieto como na America glorifiquei a 
Christo, sabendo que arriscava ò corpo, mas exal* 
tava a alma.' Sou velho; estou cançado; e depois 
de muitos trabalhos sei por experiência, que um 
dia de mais ou de menos nSo é nada; que uma 
cella pobre e estreita como a minha, ou uiti Ca- 
labouço sem luz, éqoasi a mesma coisa. De toda 
a parte se vé a Deus. » 



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322 A MOaDADE ' 

Este valor frio , esta abnegação pessoal , este 
desafio manso e apostólico do religioso inerme à 
cdera do rei, envergonhou D. Pedro< Os brafos 
cairam-Ihe> sem alento ; e a vista esmorecida per- 
doa o fogo. Atando o dialogo, o príncipe disse 
com bondade um pouco forçada : 

— « Ora vamos, padre Ventura ! Sejamos ra- 
soaveis. O interesse que toma por D. Cdtharina 
não me parece natural. Nlio lhe é nada, creio 
eu... » 

— «V. magestade engana-se. Sou seu confes- 
sor, seu pae espiritual, aquelle a quem Deus 
disse -^ ama a mitiha filha, e esforça-te por a 
salvar. » 

— « Mas se fôr culpada? »^ — observou el-reí 
com preoccupaçao. 

-^ « E se fdr innocente ? » — replicou o je- 
suíta , dando á vo2 expressão particular. 

-— '« Meu Deus iliuminae-me ! » — gritou D. 
Pedro, perdendo a cabeça, e sentindo recrudes- 
cer as <tóres phisicas pela intensidade desta agi- 
taçSo. — « Padre Ventura , isto não sto coisas 
para decidir de leve. » 

— « Por isso digo eu : antes de castigar , eU 
rei devia ouvir, m 

— a Mas eu nio puni aiâda... rt 

— « E^rei fez mais. Naasó puftiu a quem 



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PE D. JOÃO V. 223 

julga criminoso, mas a quem sabia que era ín-» 
nocente. » 

— «O padre mente!... » — gritou D. Pedro 
exasperado. 

Alguma c6r veio rosar de leve as faces palli^ 
das do jesuita. Os olhos accenderam-se ; as rei-" 
ções mortas animaram-se; a cabeça pousou-se 
erecta e altiva ; a vista devorou entre chammas 
a palavra affrontosa ; e o gesto , cheio de força ^ 
repelliu-a com magestade... Foi tudo instantâneo 
porém; o poder da vontade domou a ira em 
um momento e fez descer a mascara outra 
vez sobre o rosto; quando respondeu, a sua voz 
tinha mais doçura , se é possivel , do que antes 
de receber a maior' injuria. 

— c< Senhor !,.. » — ■- exclamou elle — « Agra- 
deço a v. magestade. Jesu-Christo , meu mes- 
tre, também recebeu na faee uma afironta e 
respondeu com a paciência. A verdade mata, 
sr. ! . . . E quando vim aqui sabia f já , que ou 
t> méu corpo ou a minha alma haviam de 
sair martyrisados. Y. magestade preferiu a al- 
ma*., é mais glorioso. Entreg<^lh'a ; pôde satis^ 
fazer-se. » 

D. Pedro percebeu que tinha caido moral- 
mente aos pés deste poderoâo «dtersario. Depoié 
da injuria brutal aia lhe restavam sen&o dois 



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221 A MOCIDADE 

caminhos — sair como rei, ou passar por tyrantío; 
Escolheu o mais nobre. 

Olhando em redor de si ^ deseubriu o padre 
Sebastião de Magalhães sumido com a parede , e 
desejando que ella se abrisse e o escondesse. O 
confessor tinha a cabeça quasi cosida ao peito; 
as roscas das duas barbas pendiam-lhe frouxas e 
tornavam-lbe as faces abjectas. A pailídez mor- 
tal , a immobtlidpde estúpida , e o suor (rio em 
que nadava^ e que a miúdo embebia no seu lenço, 
faziam delle o retrato do pavor , colhido em fla- 
grante. 

El-rei teve dó do padre Sebastião, e admirava 
o padre Ventura* Por isso, virando-se para © ul- 
timo , disse-lhe com nobreza : 

— a Desculpe, se me excedi sem querer!... 
Âsseguro-lhe que el-rei não disse nada; e es- 
pero que não lho faça saber , porque havia de 
magoar-se, como se morresse um de seus (i- 
Ihos. » 

— « V. mag^tade acreditará que só nae lem- 
bra... de que el*rei era digno de uma coròdif se 
a não tivesse jà » — respondeu o jesuita ^ ineli- 
nando-se commovido. 

— « Sebastião de Magathãçs — proseguiu o 
monarcha — agradeço-lhe o ter-me introduzido 
o padre Ventura. Os vm ganham sem^e em co- 



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iihecer os homens como elle. Vamos ! Eu dizia 
que D. Catharioa me parecia culpada. ». 

— (( £ eu, que ella era innoceate ! » — repli- 
cou o italiano, percebendo a delicadeza do prin- 
eipe 5 que fora atar a conversação justamente ao 
ponto em que o rei se esquecera de si , e des- 
cera pelo precipicio da cholera a par. do súbdito. 

— ^ a £ sendo assim o que conclue ? » 

— a Que el-rei feriu mortalmente três inno- 
cantes! j» 

— •« Como? » 

— «A honra vai mais do que a vida , e a 
honra de uma dama, de uma sr.*^, cujo sangue 
é tfto illustre , cuja familia se enobrece de uma 
pobreza gloriosa, porque está sem macula, é um 
thesouro que não tem preço... » 

— « Ainda não percebo, padre Ventura... » 
-^■^ atalhou el-rei carregando mais o rosto. 

— <c Um momento mais, e el-rei verá!... D. 
Catharina accusada de uma fraqueza por v. ma- 
gestade, pelo primeiro cavalheiro da monarchia... 
ficou deshonrada toda a sua vida, se el-rei a não 
salvar. » 

— <c Mas eu não a accusei : somente... » 

— <c Ahi está: $omente!?... El-rei não pôde 
ignorar que duvidando sametUe da honra de uma 
sr.^, e eWrei duvida, porque o disse !... matou-a 

T. n. 15 

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226 À 1I0GIDA»B 

a clla^ a aei» pae , e a seo esposo «o» olbot do 
mundo. » 

— «I Padre Vcatora, aeredile quo este s^re- 
do... » 

-^« Nto é flegiede? Smo«o como r. mages^ 
fade. A. oòrte , vendo s. alteia reat no desagrado 
de seu pae, indagou a eausa; e o sr. iafente, 
entrando no paço, pegou na honra de uma dama, 
e atirou^ som piedade && bocca» da ealumnta. » 

— « Valha-me Deus ! Está certo ? n 

— - a Gomo de estar aos pés de v. mageslade ! 
D. Luia de Âthaide é fidalga antigo. Ha de pedir 
jualica a e)-rei da s«a honra maculada ; e como 
el*vei acredita que soa filha é eaipada... D. Luiz 
de. Âthaide pado aebar n^ suave um saicidío 
do que a sua infâmia* » 

— « Jesus 1 3» 

— « O conde de Areiraa adora a Ik. Catba- 
fina , e jA tem hcenço de seu pae para a pedir. 
Sahendo da nódoa c[m imprimia no credito da 
sua noiva a mão de elnrei, mSo que nSo pdde 
obrigar a ap«^a)«a : a conde oa er aa infâmia 
delia e padece pela sua honra ; ou não acredita 
e a desgraça é maior aiada , porque aio estát em 
sen poder vingar a íuDOoencia que debalde absol- 
wfia^ se o mando peta bòoca de ^-rai a eoa* 
deauHflse... jEm amhop os casos v. magestade fe- 



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ns D. JOio Y. 227 

nu o conde, aviltou o pae^ e derirnirou a ftlha I 
£ isto, sr., aos olhos de Deos é tremenda respon-* 
sabilídaée. n 

D. Pedro II apertaiva as mSos na cabeça , e 
sentia-se profandamente agitado. 

— « Mas sabe de certo o padre , que ella é 
ínnoceate? Sabe que foi mal infermado ? )> 

"^ f( Juro diante de Deus , que s. altesa reai 
era ineapai da trat(^o, qae lhe imputam. IK Ca- 
tharina é a noiva do seu veador, e o príncipe 
sabe dos seus amores ^ e até se interessa a favor 
d'ellts. .. Demais, amaohà mesmo devia ella 
sair de Santa Glara e refugiar-se no deposito de 
uma £nnilia honrada para se receber de lá com 
o conde de Aveiras, caso seu pae negasse o con-* 
sentimento. Aqui teni v» majestade a prova. » 

E deu-lhe duas cartas. Uma do conde, oatra 
da noviça , em que se marcava o dia e hora da 
evasão, e respirava em cada linkè ^MiueNe entra- 
nhavelamor, quB elnrei pdr experie«ieta • êòdhi&- 
cia ; que é a primeira e aHtma paísio quando 

cbegft a doelarar-sei \ > 

. ^^ « £9tx>u coh^BBcidé^.! ^r^iexélamon o moaftr- 
oha-rtT* Agora diga-mc oipadrb; ctoíiosahadíítret^ 
mediar o mal?5i._ \/.| r''\ : >■'... .• i fw.^ 

— « Como rei , senhor ! — respondeu^ o ■je-' 
siiMtiiiciiiaiido»*se;*-t^Umat ofdtaiit^ii aa se- 



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228 A MOCIDADS 

cretario das mercês , passada a requerimeato da 
conde de Aveiras e D. Catharina pôde saoar me* 
tade. Mande el-rei que eu a tire do convento e 
a deposite em casa de Lourenço Telles^ commen- 
dador de S. Miguel das Minas. . . » 

— « Em casa de homem só ? » 

— <xNio, meu senhor. Vive com elle uma 
sobrinha casada, e estão duas meninas; uma 
delias foi educanda secular em Santa Clm... » 

— « Bem ! Traz o requerimento ? i> 

— « Sim , meu senhor ; está aqui. v 

— <x Dé cá ! »— E o monarcha escreveu a ordem 
logo. — (K Procure amanha o secretario Diogo de 
Mendonça e vKo ambos a Santa Ciara. Que mais 
é preciso ainda ? » 

— «A outra metade , para ser a reparado 
perfeita. >» 

— « Diga ! n 

— «( Conviria mandar chamar D. Laii de 
Athaíde amanhã, antes que elle saiba... y^ 

— « Amanhft depois da missa estará aqui. » 

— «E ordenar-ihe que dè o seu eonsenti- 
melito para a allíança de sua filha com a easa 
éb Aveiras. Naturalmente v. magestade diz-Mie 
que tudo isto se faz por supplicas de s. alteia 
real... » 

~ <( Dir4liD4iei a elle ; e far-«e-lia constar 



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DB i>. JOÃO V. 329 

na corte. O dote da condeça é o meu presente 
de noivado. » 

— « Feito isto ▼. niagestade sahou os três in* 
noceotes , e diante de Deus ficará como um rei 
justo. As graças do soberano lavam tudo ; e el- 
rei constituindo-se, protector de D. Catharína, pro- 
va que B estima e a põe acima das calumnias... 
Obrigado, senhor ! . Beijo as mitos de v. mages* 
tade quasi como beijaria os pés a . Chriato ! Se 
o coração do pae foi severo, a alma do rei foi 
grande e generosa. . . Pagou nobremente o erro ! » 

— « Acha ? » — acudiu D. Pedro sorrindo-se. 

— a Acho , meu senhor , e sem lisonja. Este 
acto se fosse o ultimo de v. magestade — aceres- 
centou o jesuita com tristeza — era sufficiente 
para dizer a Portugal ; perdeu^se um rei ! » 

— « Diga-me , padre Ventura , julga que 
esta reparação é bastante aos olhos de Jesus 
Christo para elle interceder por mim diante de 
seu Eterno Pae? » 

— c< Senhor , o» peccados do homem expiam- 
se peia penitencia , e com o arrependimento. Os 
erros dos principes quer Deus, que sejam remi- 
dos por acções de rei. V. magestade foi como 
Deus neste caso , restituiu a vida a três pessoas. 
O mais , o passado , deve lembrar como lição 
6 aviso, mas sem terror. . . . Jesus Christo não 



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230 Â BioaoiíM 

monea pelos anjos, paâeeen pelos boma»* Se 
não houvesse senão justos. ... o reino da <^eu 
era menos glorioso de aleaacar. » 

-^ a Adeus ^ padre Ventura , venha vèr^ne. 
Pareee-me que a noite acabou aidJior do 4^ 
]«lgémos. » 

*— « Graças á grandeza díi el-reil > — obaer^ 
vou o jesuíta ineliaando-se para beijar a mão 
do monardia. 

A( Não! Graças k dedicação do padre. Ti* 

rou ao pae um grande peto de cima do coração ; 
e salvou o rei de uma injustiça flagrante. . • . Não 
se esqueça: jHrocure ]>iogo de AJendonça. Eu 
farei o resto. » 

Quando passava pelo confessor o jesuita dai- 
xou-lhe cabir no ouvido estas palavras , que en- 
cerravam muitos volumes de politica e de mo- 
ral i 

— « Viu ? . . . Os reis é preciso que dles 
queiram; e sabendo-se o caminbo do seu cora- 
ção, quasi sempre querem. Padre Sebastião 
dhe o mal ! Os portugueses perdem um bom 
monarcha ; e o peior 6 qne depois de mater o 
lei, deixar^nos morrer também o homem^Nâó 
entendeu nem a alma nem o coração deste prín- 
cipe ! Podia-mos fazel-o grande a elle , e ser- 
mos grandes nós com eUe. . . . V« patermda-r 



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])E D. JOÃO V. 231 

de não qutz ! Seja feita a vontade de Deus. » 
Três minutos depois D. Pedro II levantando 

a cabeça d^entre as mãos , e formando com os 

olhos uma longa interrogação, perguntou ao 

confessor : 

— « Este padre Ventura , está certo de que 

é só o que parece? » 

— « Certissimo , meu senhor. » — Acudiu o 
jesuita ainda convulso da jaculatória do visita- 
dor, e estremecendo com a pergunta do real 
penitente. » 

— « É pena* Se não fosse estrangeiro, era 
um homem que amanhã fazia secretario de es- 
tado , e a companhia de Jesus devia tel-o feito 
seu Geral ha muito tempo. . . . Venha ajudar- 
me a rezar as minhas Horas. » 

Sebastião de Magalhães não disse nada , mas 
tremeu involuntariamente , ouvindo as penúlti- 
mas palavras do monarcha : 

— « Geral ? » — murmurou seguindo a D. 
Pedro até ao oratório — « Ainda não ! Mas ama- 
nhã , mas um dia cedo ? . . . . Em todo o caso 
tinha rasão o padre Ventura: perdeu-se um 
grande rei , e por minha culpa. Paciência ! Se 
me enganei com D. Pedro II, D. João V. me 
vingará; » 

Mal previa o padre que dizia uma profecia. 



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CAPITULO ZZII. 



UM PORTUGUBZ ANTIGO. 



D. Pedro II cumpria a promessa. No dia se- 
gainte 6s nove horas da manhO, s. magestade, aò 
sair da missa , passou a dar audiência na casa 
do « Estrado » a D. Luiz de Âthaide, que o es- 
perava em companhia do marquez de Marialva , 
genttl-homem da sua camará. Os dois fidalgos 
conversavam confidencialmente ; e o marquez pro- 
curava socegar o animo do pae de D. Catharina, 
cujas faces animadas e gestos violentos mostra- 
vam uma grande agitação. 

£l-rei entrou na salla, bastante pallido e aba- 
tido. Respondendo 6 genuflexão de D. Luiz com 
benevolência, insinuava-lhe que o chamava como 
amigo. Da sua parte o vassallo, tanto tempo des- 
prcsado , e sujeito As privaçOes de uma pobreza 
honrada , mas orgulhosa , reflectia no semblante 



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2;34 A MOGIDÀDS 

grave a severidade que era licito patentear em 
tal occasião. Os dois (Nrotogonistas da sceiia(p(ff« 
que o marquez saiu apenas entrou D. Pedro) me- 
diram-se alguns instantes em silencio, preparan- 
do-se para sustentar dignamente o seu papel. 

D. Luiz teria sessenta e seis annos ; mas os 
trabalhos e os' desgostos íaziam-no mais velho. Os 
cabellos todos brancos , a vivacidade ainda pouco 
amortecida dos olhos, e a regularidade das fei- 
ções, davam-lhe um aspecto insinuante e vene- 
rando : a voz cheia de firmeza era agradável ; e 
as maneiras a certo arrojo delicado e cavalheiro 
uniam a mais attenciosa urbanidade. 

— « D. Luiz, estimei esta occasião — disse d^ 
rei. — desejava conhecel-o. Porque não o tenho 
visto ? » 

O fidalgo sorríu-se com amargura , e respon-r 
deu, beijando a mãa: 

— a Sou telho , .sr..; e os velhos na corte pa- 
recem cousas d0 outro mundo. Depois, d^e 
que me fiz esquecido ninguém mais se l^abrou ; 
por isso intendi que tinha sido prudente reti- 
rando-me. Para que havia de enfadar? Já. são 
sirvo para nada. » , 

— -aOj homens do seu merecimento não <»« 
quecem , e a prova e ^ue eu lembreinne. »» 
• — ^, Beijo as .oAos de v» magestede I » r^ r^U:? 



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M 9. loie y. Ít3& 

eou o paé de D. Catburitta com a laesma digiiFr 
àwit cesfmtosa. O sm rosto^ porim, mostrava que 
sabia o valor das expressões graciosas, de que 
insam os soberanos para adoçar as injustiças. 

— « Sabe para que q mandei clwmar ? » — ^ 
peiígantou de repente D. Pedro , olhando muito 
fito para elle. 

^-r-« V. magestade esp^o que se dignará di-* 
zer-m^o. Mas eu estava deteoninadp a vir, ainda 
que el*rei mê não chamasse. » 

— « Então porquê ? » 

— c< Porque. a pobreza é honra, mas a villania 
nâo ! V. njagestade podia julgar indignos de pre- 
mio os insignificantes serviços de um soldado; 
mas el-reiy qu^d é pae, aào pôde cubrir de infâ- 
mia os cabellos brancos de outro pae, nem ar- 
rastar a reputação de um nome illustre pelas ma~. 
ledicencias da sua corte... Â honra de minha filhst 
não é só delia, é da fidalguia portugueza ; e desde 
hontem o nosso chefe, el-rei, manchou-a par% 
toda a vida ! £m Lisboa não se falia senão dos 
amores do principe real com uma noviça de Santa 
Clara ; e a calumnia, invocando a palavra de v. 
magestade, tem a audácia de por a bocca em D. 
Catharina de Atbaide !... Saahor, o pae, o chefe 
da familia, sou eu ; e pela sua gloria só eu hei da 
responder aos homens e a Deus. Na casa do& 



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236 À MOdDÁDi 

Athaides nunca houve bastardos, nem ha de ha* 
Vèr, em quanto D. Luiz fôr vivo. Indaguei a ter- 
dade ; lancei-me aos pés de s. alteza real, e te- 
nho a sua fé de que todo é falso, falso ! percebe, 
el-rei?... porque sendo exacto, como a pessoa do 
princípe é sagrada, o meu sangue apagaria a nó- 
doa... Agora peço justiça a v. magestade; peço 
reparação ! Queixo-me a el-rei da oíFensa que re- 
cebi de D. Pedro 11... » 

O monarcha ouvia-o com bondade. Longe de 
sç aíQigir, o seu rosto tomava alguma animação , 
é com mais doçura do *que firmeza, respondeu, 
pegando-lhe na mão, que D. Luiz tractava de re- 
tirar : 

— « Veio tarde. El-rei jô fez justiça ! » 
Apesar da gravidade com que as pronunciou^ 

estas palavras feriram o pae de D. Gatharina, em 
vez de o tranquillisar. Suspeitando que o monar- 
cha declinava a reparação por meio de uma eva- 
siva o fidalgo irritado fez-se pallido; e com 
semblante severo e olhos altivos replicou aspera- 
mente: 

— « Senhor, se ha quarenta annos em Mon 
tes Claros eu soubesse que este era o premio do 
meu sangue, a espada ficava na bainha ! A co- 
rda de V. magestade eu, nós todos, é que Ih^a po- 
zemos na cabeça ; e para nos tractar assim el- 



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0K ©. J0A0:V. 237 

rei de Cástella era melhor... Ao metios esse não 
nos devia nada ! » 

Ouvindo a apostrophe orgulhosa, D. Pedro II 
recuou dois passos. Â vista faiscou, e a estatura 
tornon-se erecta de repente. Lançando ao velho 
militar um desses olhares que partindo do rei 
dizem que a sua cholera é a cholera do ledo , o 
príncipe contendo-se a custo, disse-lhe severa- 
mente : 

— « D. Luiz esqueceu, parece-me, que está 
faltando ao seu rei ! O duque de Bragança não 
quer ouvir ; mas D. Pedro II sabendo é obrigado 
a castigar. » 

O antigo soldado era uma alma que não co- 
nhecia o medo. Tão firme na honrosa intrepidez, 
como o rei na sua força ; tão altivo do seu nome, 
como elle da sua corda, respondeu com a vista irri- 
tada ao olhar ameaçador do monarcha, e a voz, 
mais alta ainda, proferiu um cartel audacioso, 
sabendo que lhe podia custar a liberdade. 

— « El-rei deshonrou a minha espada — el- 
clamou com extrema solemnidade — fez do meu 
nome, antigo como o de v. magestade, o ludi- 
brio da corte, aonde as línguas são mais com- 
pridas do que as armas... El-rei falta. ao seu jura- 
meaio, não guarda os nossos foros : a coroa não 
nos cobre, fere^nos ! De hoje em diante ficámos 



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à3t A MOCIDABB 

quite». Nio tornarei a sentr a casa de Bragança. 
A familia dos Athaides, cheia de gloria na Asta, 
e em toda a parte aonde se deu uma batalha, 
acabou, porque d-rei de Portuga) disse uma ca- 
lumnia, e é rei... nSo responde seiâo a Deus! 
Ao menos a espada de meus ffvós não ver6 esta 
vergonha ; ahi a deixo para casttgo dos ingrato» 
que sustentou ! » 

Dizendo isto atirou a espada nua aos pés da 
D. Pedro ; e cruzando os braços, eiclamou com 
a cabeça arguida : 

— 4( Agora façam do corpo o que quizereoii 
Pôde V. magestade sepultar-me em uma torre. 
É o roodo de occoUar nm borrão nos escudos 
da fidalguia portugueza. » 

Attofiito do arrojo, o imoarcha no primeiro 
impulso deu com o pé na espada e atTastov^a 
cheio de ira. Depois, com a mfto no punho do 
florete, dirígki«*se a D. Luiz. Estse, sen recuar 
nem empaltideeer^ Tsndo a sua valentei espada 
pizada aos pés, clamon cortado de amargara: 

-*-« O marquea de Marialva fozia mais oaso 
de uma espada U.. É verdade que^a marques era 
um heroe... Senhor ! •-^-prosegniu exakando-se— 
dava o meti saiigoe para outra pessoa pniticÉr a 
acção de vi- magestade re juro que essa .e0pHÍA 
não era arrastada pelb chão sem levar oimstgo 



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olguem^. Louve a Deus el^-rei t Estamos sós, 
e a paciência é maior do que a offensa. > 

Duas lagrimas escaparam pelas faces do an- 
tigo soldaclo ; e senlindl^as queimar, enchugou-as 
com 99 costas da mão, e abaixou a cabeça, con- 
fnso tahea da primeira firaquefla da sua tida. 

O príncipe tinha tido tempo de reflectir ; e 
convencido de que a sua precipitação em accu- 
sar sem provas fòra causa da magoa que atríbo* 
tava aqueHe coração, compadeceiHse, e admirou 
o arrejo, o leal orgulho que o elevada contra a 
magestade da terra, sem outras armas senão a 
constância para soífrer. D. Pedro, jâ o vimos, 
sabia apreciar ne&tes tonoes a verdadeira gran- 
deza d'alma ; e conhecendo^ o seu logar, perce- 
beu que a rei nesta oceasíão, para ser rei, devia 
descer e não punir. 

Demais, aqueUas lagrimas só a agonia podia 
arrancal-as , porque eram mais do que sangue ; 
pareceu-Ihe glorioso enchugal-as ; e não traspassar 
de mais dore» a alma do infeliz. Feitas estas re- 
flexões, a que deu força a lembrança das suas 
promessas ao padre Ventura, D. Pedro II, em 
toda a magestade da soa elevada estatura, foi di- 
reito â espada, levantou-a do chão, e chegando- 
íe ao veHio fidalgo, meteu-lha n» bainha, di- 
zendo: . . ' 



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840 .A aioaDADiE 

— 4c D. Luiz, ambos nos excedemos, creio eu ! 
Guarde essa espada ; não é minha, nem sua, é 
da historia. » 

A reparação era digna de um monarcha ; o 
pae de Catharina não pôde resistir-lhe. O joelho, 
antes rebelde, dobrou-se , e a yoz de firme pas- 
sou a tremula : 

— « Senhor ! — acudiu já sem occultar as la- 
grimas que saltavam pelos olhos — é uma espada 
que perdeu a honra, que nunca roais posso ti- 
rar. Não sabe v. magestade o que todos dizem ? 
Minha filha está sendo amante do príncipe D. 
João!... Sou o pae delia, sei que é falso, e não 
me atrevo a levantar a mãol... O seu único dote 
era a boa fama, e essa... » 

— a Está el-rei aqui para dizer que está pura, 
como desejaria a de suas próprias filhas ! — iu- 
terrompeu D. Pedro com dignidade. — « Se um 
erro involuntário oiFendeu uma familia distincta, 
sou o primeiro cavalheiro portuguez, e hei de cum- 
prir os deveres que me impõe o sangue. D. Luii, 
levante-se ! Se me ouvisse tinha sido menos in- 
justo. Também sou pae; avalio a sua dòr; e ad- 
miro o seu caracter... Tudo pôde reparar-se que- 
rendo Deus. » 

— « Comp , sr. ! É impossivel ! » — gritou o 
desditoso pae, apertando as mãos com angustia. 



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BE D. JOÃO V. 241 

— fc Do modo que direi. Sabe aonde sua fi- 
lha está a esta hora? » 

— <x Em Santa Clara. » 

— c( Engana-se. Ha de vir em caminho para 
casa de Lourenço Telles, commendador de S. Mi- 
guel das Minas. Mandei-a tirar do comento p<^ 
ordem regia , e encarreguei o secretario das mer- 
cês de a executar. » 

— - « Senhor^ senhor t » -^ exclamou D. Luiz 
deítando-se de joelhos aos pés de el-rei. — « V. 
magestade acabou de nos perder ! Amanhã a voz 
geral... d 

— c( É que D. Catharina casa em uma famí- 
lia tão illustre como a delia ! -^ atalhou el^rei 
sorrindo — « Diga-me : qual é o mal de que se 
queixa ? » 

— (c A calumnia dos amores de s. alteza com 
minha filha ! » 

— « E se el-rei hontem recebesse um reque- 
rimento, pedindo ordem especial para o casa- 
mento de D. Catharina com o veador do prín- 
cipe, o conde de Aveiras, por se amarem extre- 
mosamente ? E se a causa de sua filha se fazer 
religiosa sem vocação, e chorando o mundo pelo 
contrario, fosse unicamente o seu respeito e obe- 
diência, quereria seu pae a infelicidade eterna 
delia ? Confesse, D. Luiz, sendo isto exacto, não 

T. n. 16 

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242 A HOCIDAPE 

Gn bem passando a ordem e mandando-o cha- 
mar para lhe pedir que coqcorde, e permitta o 
casamento? » 

Extático, o antigo fidalgQ, olhava sem fallar. 
Achava-SG em um mundo inteiramente novo. £n^ 
taretanto o sen orgulho ainda foi bastante para o 
anifnar a exprimir uma espécie de recusa. 

— « Sendo exacto — disse elle — e eonce- 
dendo^me el-rei a graça de o publicar, estamos 
salvos, dSo ha duvida ; mas D. Catharina é muito 
pobre para o conde de Aveiras, e eu muito al- 
tivo para aceitar como esmola uma alliança que 
d^ve ser igual a todos os respeitos, n 

-^(( Sejamos rasoaveíslr-* observou D. Pedro 
—A honra primeiro que tudo; mas depois da 
honra, menos fidalguia, e mais ternura. D. Ga- 
tbarina pré^a o conde ; elle merece-a : o que ha 
de ser, seja!... Dei a minha palavra; e quero 
illustrar a casa de Aveiras, honrando-a com uma 
condessa da minha escolha. É coisa feita, D. 
Luís! — accrescentou sorrindo. — Sou o padri- 
nho ; e as jóias «e o dote da condessa ficam por 
conta do meu presente de noivado : mas dentro 
em poucos dias casam ; e hoje publica-^e na corte. 
Agora fallemos dos serviços do pae. Estou infer^ 
mado, e sei que estão por galardoar. D^ Luiz , 
faço-lhe mercê de uma commenda de três mil 



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jm D. Jolo V. SliS 

cruzados cotoi 80ÍNrevivencia no esposo de sua fi-* 
lha. Creio que assim acabaram os seos escropa- 
los»? 

— <x Mas resta-me o remorso de conhecer t&o 
tarde o magnânimo coraçSo' de ei-reh Senhor ! -— 
exclamou lançando-se aos pés do soberano, e cu-* 
brindo-lhe a mão de ósculos respeitosos — dei- 
xe-me v. magestade expiar o meu erro no exer* 
cito do marquez das Minas. Talvez eu lá nfto seja 
tão velho como aqui. x> 

' — « Não, D. Luiz, na idade, em queestamos^ 
é preciso descançar. Deixemos colher alguns lou- 
ros também aos moços. Se eu fallecer prímtriro 
— proseguiu com tristeza — lembre-se de mim, 
e conte alguma vez esta historia aos seus netos. 
Os reis gostam de ser estimados, mesmo depois 
de mortos. Ê a penitencia que lhe imponho pe-< 
lo... arrebatamento de seu génio. » 

-*- « Deus ha de aíTastar de nós tamanha oa7 
lamidade » — acudiu D. Luiz enternecido. 

— « S. alteza real !»-*- annunciou o marquez 
de Marialva. 

Segundo o estilo, D. João vinha saber da saúde 
de seu pae, e oíferecer*lhe os seus respeitos. De* 
pois de o abençoar, o monarcha abraçou-o, e vi- 
rando-se para elle com bondade : 

— « V. alteza — disse el-rei — ha de ter gosto 



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244 A MoaDAns 

em conhecer um fidalgo do0 que estiveram em 
Montes Claros com o marquez de Marialva. . Se 
deseja saber como foi a derrota dos castelhanos , 
pergunte a D. Luiz de Athaide, que elle lh'o dirá. 
É um dos poucos que restam ainda de uma das 
maiores viotorias da restauração. » 

O principe olhou para seu pae , e deu a mão 
a beijar a D. Luiz. S. alteza, percebia-se, não 
podia combinar este agrado repentino com a 
severidade da noite antecedente. Da sua parte^ 
D. Pedro desejando evitar qualquer explicação, 
acudiu logo : 

— ((Ás informações que tive hontem eram 
falsas ; e em prova da minha amizade, saiba v. 
alteza que os seus desejos estão satisfeitos. Â ro- 
gos meus D. Luiz auctorísa o casamento de D. 
Gatharina de Athaide com o conde de Aveiras, 
seu veador ; determinei ser o padrinho da noiva ; 
e espero que v. alteza estimará sel-o também do 
conde. » 

O principe inclinou-se com respeito. Voltan- 
do-se depois para D. Luiz accrescentou : 

— «O pae de D. Gatharina pôde estar certo de 
que o marido de sua filha é digno das graças de s. 
magestade, e das virtudes dos seus antepassados. » 

— « Obedeço ás ordens de el-rei e de v. al- 
teza! i> 



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DE D. JOÃO y. Si4ii 

— «o conde pae está na sala do docel ; po- 
dem fallar ambos. » 

— « Adeus, D. Luiz! — gritou eWrei — Não 
se esqueça. Em poucos dias faz-se o casamen- 
to. » . 

Quando oTidalgo saiu, D. Pedro, pegando na 
mSo de seu filho com amizade disse-lhe : 

— « João, teu pae foi severo pelo grande amor 
que o cega. Ainda subsiste a tua repugnância a 
casar na casa de Áustria ? » 

— -«A minha mSo nSo é livre, já o expuz a 
V. magestade. » 

— « E se amanhã fosses rei ? » 

— « Era o mesmo. » 

' — « Deves a honra a alguma dama ? » 
— « Devo amor , que não é menos. » 
' — « E se ella te desobrigasse ? » 

— « Como a primeira paixão dos principes é 
o bem do estado, verdade que v. magestade hon- 
tem me deixou gravada, livre a minha palavra, 
farei o que mais convier ao esplendor da coroa, d 

— « E até lá? » 

— « Até lá... nada! » 

— «O nome dessa dama ? » 
— « É um segredo. » 

— « Para teu pae ? » — observou D. Pedro 
sorrindo. 



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246 A MOCIDADB 

— c< Sobretudio para el-ret! »«— resqpondeu o 
príncipe com outro sorriso. 

— « £ se o deseubrirmos ? » 

— « Gomonik^acceito a minha palavra, senão I 
livremente restituída — acudiu s. alteza fria- 
mente — é natural que eUrei nào descubra nada ! » 

D. Pedro desgostoso despediu o principe com 
o gesto, e retirou-se. Nessa tarde chamou os mé- 
dicos e o seu confessor ; e como no dia seguinte 
não houve audiência nem despacho, o povo dizia 
em voz geral que el-rei adoecera gravemente. I 



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índice dos capítulos. 



CAPITULO xni — Nem tudo o que luz é 

oiro! 1 

CAP. XIV — Ecce saccerdos magfius! ... 21 

CAP. XV — Uma serva de Deus! ^ 85 

CAP. XVI — Nem eu nem tu 81 

CAP. XVII — Mentira e verdade 107 

CAP. XVIII — Em quanto venta molha a 

VELLA ! 121 

CAP. XIX — Antes quebrar que torcer. . . 151 
CAP. XX — Sua alteza o infante D. Fran- 
cisco ! 179 

CAP. XXI — Duas potencias ! 201 

CAP. XXII — Um portuguez antigo 133 



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V. 



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