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Full text of "Anais de Arzila, crónica inédita do século 16"



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THE ROYÂL CANADIAN INST!T!JTF 



1^.?-^ 



ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE LISBOA 

COMISSÃO DOS CENTENÁRIOS DE CEUTA E ALBUQUERQUE 



COMEMORAÇÃO 

DO 

QUINTO CENTENÁRIO 

DA 

TOMADA DE CEUTA 



I.' SÉRIE— TEXTOS HISTÓRICOS 



k 



Anais de Arzila 



CRÓNICA INÉDITA DO SÉCULO XVI 



BERNARDO RODRIGUES 

PUBLICADA POR ORDEM DA ACADEMIA DAS SCIÈNCIAS DE LISBOA 
E SOB^' DIRECÇÃO 



DAVID LOPES 

SÓCIO EFECTIVO DA MESMA ACADEMIA 



70M0 II 

(i525-i535) 

SUPLEMENTO 

(i536-i55o) 



ACADEMIA DAS SCIÈNCIAS DE LISBOA 

Rua do Arco a Jesus, ii3 
LISBOA 



Coimbra — Imprensa da Universidade — 1919 



G10421 

^. 7, ò-iT 






ADVERTÊNCIA 



Este segundo tomo dos Anais de Ar{ila devia ter como intro- 
dução a história de Arzila durante o domínio português. Feito 
esse estudo, vimos que, pela sua extensão, êle engrossaria dema- 
siado o tomo, e decidimos, por isso, publicá-lo em volume à 
parte. Cumpriremos assim a promessa que fizemos no primeiro 
tomo, p. XXXIX. 



David Lopes 



índice de matérias 

Damos entre parênteses quadrados o» anos dos Anais de Arzila na ordem cronológica. 



Advertência . 



Pis- 



LIVRO TERCEIRO 
Da capitania de António da Silveira 

Capitulo I — De como e em que tempo António tia Silveira tomou a capitania [Ano de iSaS] 

e governança d'Arzila; e alguas cousas mais com a tomada da molher e 
filho de Diogo da Silveira 3 

Capitulo II — De como e em que tempo o grande e muito afamado Diogo da 
Silveira veio buscar e tomar a fé de noso senhor Jesu Cristo e do grande 
contentamento que o capitão e toda a vila ouve com sua vinda 5 

Capitulo III — De como Diogo da Silveira tomou dous mouros da sua terra e 
do que mais pasou antre António da Silveira e Dom Duarte de Meneses o 
d'Evora capitiio de Tangere sobre irem fora 8 

Capitulo IV — De como em tempo de António da Silveira capitão d'Arzila foi 

morto Amelix e se noméão algumas pesoas que á sua morte se acharão . . 9 

Capitulo V — Da natureza e calidade de Amelix e brevemente algúa parte de seu 
grande animo e ousadia e liberalidade e um dito que Mulei Abrahem por ele 
dise 12 

Capitulo VI — De como pasou o feito do Alborje em que morrerão cincoenta 
mouros e cativarão corenta e sete todos da terra de Diogo da Silveira e seus 
parentes e amigos i6 

Capitulo VII — Como outro mouro cativo se tornou cristão e do que mais pasou [Ano de iSiâ] 

até a saida do ano de mil quinhentos e vinte e cinco 20 

Capitulo VIII — De ua entrada e cavalgada que o capitão António da Silveira 
fez entrando com sua bandeira e jente pola boca de Capanes correndo pri- 
meiro o alcaide d'Alcacere 23 

Capitulo IX — Como el-rei de Féz deceo abaixo e correo a Tangere e Arzila e 

correndo do Tojal matou Ca atalaia e cativou outra 36 

Capitulo X — Em que se conta a causa porque se moverão Mulei Abrahem e o 
alcaide d'Alcacere a se verem no noso campo e se concertarão a correrem 
Arzila em dia asinalado de Corpo de Deos ay 

Capitulo XI — De como Mulei Abrahem e o alcaide d'Alcacere correrão Arzila 

e do dano que fizérão e de como armarão com almogavares a« 



Pág. 

Capitulo XII — Proscguindo adiante se conta como a jente saio da cilada e o 
que o capitão fez até chegar ao tabuleiro do Facho donde fazendo volta lhe 
matarão o cavalo 3i 

Capitulo XII — Proseguindo se conta de um soberbo recado que o alcaide d'Al- 
cacere mandou ao capitão António da Silveira e da reposta e o que mais se 
pasou 34 

Capitulo XIV— Proseguindo se conta o que pasárão Diogo da Silveira e Fernão 
da Silva que com o adail se acharão ao porto do Canto e se lançarão pêra 
o campo e de como cativarão a Manoel da Silveira que com eles ia ... . 87 

Capitulo XV — De como o capitão tomou úa aldeã chamada Alinaçar sendo com 
ele Francisco de Meneses de Tangere com trinta de cavalo e o que mais so- 
cedeo com Dom Duarte sobre ir Francisco de Meneses sem sua licença . . 41 

Capitulo XVI — Das mudanças em que João da Silveira andou com a jente 

indo-se pêra terra de mouros até se tornar 43 

Capitulo XVII — Proseguindo com João da Silveira se conta como se tornou 

pêra Arzila e do que ordenou 46 

Capitulo XVIII — De como João da Silveira se tornou a ir e levou um sobrinho 

de sua molher cativo e de sua morte 48 

Capitulo XIX — De como Gonçalo Pérez de Galhegos cavaleiro e pesoa princi- 
pal da cidade de Xerez da Fronteira veio a Arzila a cumprir um desafio que 
tinha aprazado com cide Bujima meio irmão do alcaide d'Alcacere 5i 

Capitulo XX — De como ficando cide Abbeluhaded irmão do alcaide em seu 
lugar correo Arzila e lhe matarão a cide Hamete filho do alcaide seu irmão 
dentro das tranqueiras sendo fora Artur Rodríguez com almogavares e como 
se salvarão 53 

Capitulo XXI — Como Artur Rodríguez escapou e se salvou com todos seus 

companheiros 55 

Capitulo XXII — Como o alcaide d'Alcacere correo Arzila e se salvarão no So- 
veral alguns de cavalo 56- 

(Anos de 1527 Capitulo XXIII — Dalgúas cousas que pasárão entrando almogavares de ua parte 

e 1528] e da outra 58 

Capitulo XXIV — De como muita jente correo a vila d'ArziIa estando o conta- 
dor Diogo Mascarenhas pescando em Brias com vinte de cavalo e como se 
salvarão e o que mais socodeo este dia 59 

Capitulo XXV — Do que mais aconteceo a Luis Valente e Jerónimo Afonso que 

detrás do contador se vínhão recolhendo achando os mouros de diante . . 61 

Capitulo XXVI — DalgCías almogaverias feitas por Artur Rodríguez e por Afonso 
Barriga e Estêvão Fernàndez almocadens que neste tempo fôrão fora e ou- 
tras entradas por Diogo da Silveira feitas , 64 

Capitulo XXVH — Em que se conta brevemente como el-rei que logo foi de Féz 

veio correr a Tangere e desbaratou cincoenta de cavalo de Tangere .... 67 

Capitulo XXVIII — Como el-rei Bohaçum rei de Féz foi deposto e tirado de rei 

e levantado Mulei Hamete e do que mais socedeo 68 

Capitulo XXIX — Da causa porque Mulei Hamete filho maior d'el-rei Bohaçum 

veio ter a este reino e da honra e mercê que d'el-rei noso senhor recebeo. . 71 

Capitulo XXX — Como el-rei de Féz com muita jente correo Arzila e saindo do 
Tojal chegou até a Bica e achando-se o capitão António da Silveira na praia 
lhe matou sete mouros de cavalo 7a 

Capitulo XXXI — Como fôrão resgatados Lourenço Pírez de Távora e Manoel 

da Silveira e o que mais se pasou 74 

Capitulo XXXII — Como uns almogavaies d'el-rei e da companhia do alcaide 



Mafote correrão Arzila e o capitão António da Silveira lhes armou e des- 
baratou e tomou e como António Freire se asinalou 76 

Capitulo XXXIII — Como se perderão outros almogavares do Farrobo no porto 

do Canto com as espias que o capitão ordenou 79 

Capitulo XXXIV — De como os alcaides d'Alcacere e Jazem armarão com al- 
mogavares estando todos em Bugano e do grande risco que o capitão 
pasou 81 

Capitulo XXXV — De duas almogaverias que juntas se fizérão em que Fernão 
d'Alvarez Cabral foi por capitão da Oa e de como os capitães d' Arzila e de 
Tangere tomarão úa aldeã e nela nos matarão a Jorge Sande 83 

Capitulo XXXVI — Doutra almogaveria que Diogo da Silveira fez indo Thomé 
de Sousa por capitão de cincoenta de cavalo e outra entrada que o capitão 
fez dando a dianteira a Dom António d'Almeida filho do conde d'Abrantes 85 

Capitulo XXXVII — De úa entrada e cavalgada que o capitão António da Sil- 
veira fez á ponte d'Alcacere em que tomou três mouros de cavalo 87 

Capitulo XXXVIII — Que conta de outra cavalgada que o capitão António da 

Silveira fez no campo de Benamares 88 

Capitulo XXXIX — De duas corridas que o alcaide d'Alcacere fez a Arzila de- 
pois das entradas do capitão 89 

Capitulo XL — Como o capitão António da Silveira ententou tomar a boiada 

d'Alhaute pasando o rio de Larache em barcas e como não saio com ele 90 

Capitulo XLI — De como o capitão António da Silveira tornou a ementar de 

pasar o rio de Larache em barcos metendo-os de noute pola barra gS 

Capitulo XLXII — De como o alcaide Mafote correo Arzila sobre noute e de dous 

mouros honrados que lhe matamos ao Rio Doce 96 

Capitulo XLIII — Como úa galé emperial se alçou e veio a poder de Mulei Abra- 

hem com o capitão Protudo 102 

Capitulo XLIV — Dalgúas mudanças que antre el-rei de Fez e Mulei Maçoude 
ouve e de como foi morto Mulei Maçoude e seu estado e casa dado a Mulei 
Abrahem 104 

Capitulo XLV — De outras entradas e corridas que o capitão António da Sil- 



veira fez. 



107 



Capitulo XLVI — Como Mulei Abrahem deceo abaixo e nos correo e do que 

mais pasou e dalguns recados dantre ele e o capitão António da Silveira. . 108 

Capitulo XLVII — Como o capitão António da Silveira foi á ponte d'Alcacere 

mandando correr com almogavares e armou ao alcaide in 

Capitulo XLXIII — Da batalha e desbarate que o capitão António da Silveira 

ouve com o alcaide d'Alcacere em que o alcaide foi desbaratado 112 

Capitulo XLIX — De ija notável almogaveria que Fernão Nunez alcaide-mór fez [Ano de 1529] 
sendo ele capitão e a licença sua e Artur Rodríguez e Afonso Barriga e Es- 
têvão Fernândez almocadens 120 

Capitulo L — Como el-rei de Féz deceo abaixo e correo Arzila e a Tangere e 

do que o capitão ententou e dalgúas escaramuças que se travarão 121 

Capitulo LI — Como o capitão António da Silveira queimou o pão d'Algarrafa 

em vingança da tala que el-rei nos fez 127 

Capitulo LII — De úa grande e notável almogavewa que Artur Rodríguez fez em 

Çumete a qual chamamos «a das muitas cabras» 129 

Capitulo LIII — Como se perderão oito de cavalo atalhadores ou monteiros que 

o capitão mandara fora em dia de Nosa Senhora d'Agosto i3o 

Capitulo LIV — De como o alcaide d'Alcacere nos tornou a armar deitando-se 

em Mejileo e os almogavares em Tendefe e não fez nada e se tornou. . . . i35 

ANAIS DE ARZILA B 



Pig. 

Capitulo LV — De um feito notável que por mar aconteceo a Pite João bombar- 
deiro d'Arzila indo de Portugal pêra a dita vila sendo acometido de um bar- 
gantim de mouros i36 

Capitulo LVI — Como Lopo Mêndez de Vasconcelos morador d'Arzila e capi- 
tão de úa caravela d'armada foi acometido de três fustas de mouros e doutra 
peleja com Qa nao francesa i38 



LIVRO QUARTO 
Da segunda capitania de Dom João Coutinho conde do Redondo 

Capitulo I — De como Dom Duarte capitão de Tangere veio visitar o conde e o 

que mais socedeo 143 

Capitulo II — Em que se côntão algSas visitações e como o alcaide de Alcacere 

nos armou com almogavares e cativou um Álvaro Gonçálvez 145 

Capitulo III — De como Jorje da Silveira foi entrar da outra parte da ponte 

d'Alcacere e tomou dous mouros de cavalo 146 

Capitulo IV — Como o conde deu licença a Álvaro da Cunha que fose entrar 

e como Diogo da Silveira que foi por almocadem tomou gado d'Agoní e 

dos liões e do que mais pasou 147 

CAPiTtn.0 V — Como Diogo da Silveira tomou três mouros e duas egoas. .... i5o 
[Anodei53o] Capitulo Vi — Como el-rei noso senhor Dom João o terceiro mandou fazer as 

estrebarias pêra o ifante Dom Luiz pasar i52 

Capitulo VII — De como os do Farrobo e de Alcacere tomarão cada um sua 

atalaia i53 

Capitulo VIII — Como João Vaz se foi tornar mouro e um filho e um moço e 

o conde mandou espias fora 154 

Capitulo IX — Como o conde tomou e matou vinte e dous almogavares .... i56 
Capitulo X — Como o conde tomou outros almogaveres d'Alcacere que pasárão 

pola barca de Larache 160 

Capitulo XI — Da morte do alcaide de Alcacere e como se tornarão cristãos 

dous negros • 164 

Capitulo XII — Como Dom Duarte capitão de Tangere se ajuntou com o conde 

pêra ir tomar úa aldeã ao campo de Alcacere e o que mais lhe aconteceo 166 
Capitulo XIII — Como Alebenaix com sua quadrilha de almogaveres cativarão 

a Artur Rodríguez e Bastão Vaz e Artur Ortiz fujio 167 

Capitijlo XIV — Como el-rei de Fez correo Arzila eTanjere e não fez nada por 

ser sentida sua vinda por a descubrir Artur Ortiz que vinha fujindo de ca- 
tivo 169 

Capitulo XV — Em que côntão alguas cousas que pasárão depois da corrida 

d'el-rei 174 

Capitulo XVI — Como Artur Ortiz foi outra vez cativo e pagou o resgate de 

ambas as vezes 175 

Capitulo XVII — Como Diogo da Silveira fez algumas almogavarias em que 

tomou mouros e mouras 177 

Capitulo XVIII — Como Diogo da Silveira tomou o marido desta moura. . . . 179 

Capitulo XIX — Em que se conta de outras almogavarias 180 

Capitulo XX — De alguns montes e de um cavalo de Manuel Núnez que desapa- 

receo 182 



CAriTULO XXI — De algúas montarias • • • '* 

Capitulo XXII — Como Lopo Mendez adail tornou a entrar com corenta de ca- 
valo e sendo sentido nos armarão e matarão dous homens - ' j ' ' 

Capitulo XXIII - De como almogaveres mouros nos correrão e tomarão duas 

atalaias em Tendefe ■ ' ' 

Capitulo XXIV- De algúas entradas que João Vaz Maio elche fez na costa do 

Algarve e o dano que fez ," ' 

Capitulo XXV— Como João Vaz tomou os vendeiros da Venda de Santane)os 

á boca do rio de Sevilha e os da Carvoeira nas Áreas Gordas e outros. . . 190 
Capitulo XXVI — Do que aconteceo aos turcos que em Çalé ficarão curando-se 191 
Capitulo XXVII- Que conta da armada que este ano veio ao Estreito^ . ... .9^ ^^ 

Capitulo XXVIII — Em que entra o ano de trinta um e da perda dos hlhos de l 

^ . . . . IQ4 

Dom Duarte ^^ 

Capitulo XXIX — Do socorro que a Tangere veio i97 

Capitulo XXX -Como os fidalgos que em Tangere estávão se ajuntarão no 

campo de Arzila .' j '^ 

Capitulo XXXI — Como Bernardim da Silveira fez ua entrada e tomou dous de 

cavalo e os de pé nos matarão Rui Veloso • • • 200 

Capitulo XXXII — Como Mulei Abrahem correo Arzila e o que fez 202 

Capitulo XXXIII — Do que fez el-rei de Fez sobre um judeu que de Arzila fujio 

com fazenda fiada levantando-se sem querer pagar 204 

Capitulo XXXIV— Como um criado do conde que tinha cargo dos cativos levou 

dez e se foi com eles tornar mouro 205 

Capitulo XXXV— Como neste ano de trinta um foi ao Estreito por capitão-mor 

Dom Gonçalo Coutinho e do que lhe aconteceo 208 

Capitulo XXXVI — O como se ordenou a morte de Dom João Vaz 209 

Capitulo XXXVII — Das entradas que fez em seu barco João Vaz elche temera- 

211 

nas PAno de i532l 

Capitulo XXXVIII — Como um frade da ordem de S. Francisco morreo pre- L 

gando a fé "* 

Capitulo XXXIX — Como se tômão os liões e como os correm 217 

Capitulo XL — Como de Larache fujírao nove cativos e se salvarão os sete . . 218 
Capitulo XLI — Como o alcaide armou com almogaveres e tomou úa atalaia 219 
Capitulo XLII — Como um mouro do Farrobo se vei» pôr em ferros por amo- 
res de Oa molher • • *^° 

Capitulo XLIII — Da vinda de Manoel Coutinho a fazer-se cristão e de como foi 

fora e da morte de Artur Rodríguez 221 

Capitulo XLIV- Como Mulei Abrahem veio abaixo em pesoa d'el-rei e correo 

Tanjere e Arzila e não fez nada 223 

Capitulo XLV— Como o alcaide de Benjija correo Arzila e o conde determinou 

de o ir buscar e pelejar com ele 224 

Capitulo XL VI — Como o conde se determinou de pelejar com o alcaide de 

Benjija e o desbaratou 227 

Capitulo XLVII — Do mais que o conde ordenou depois de ser na vila e como 
o alcaide de Benjija lhe mandou Qa lança que tomou a um cristão e o conde 

o mandou visitar 20 

Capitulo XLVIII — Como Mulei Abrahem e o alcaide de Alcacere e Benjija cor- 
rerão a Tangere e matarão a Diogo de Torres filho de Álvaro Torres e 

outros homens e da vinda de Alexecorão a Arzila 232 

Capitulo XLIX — Como a jente correo a vila e Rui de Melo se lançou connosco 

e foi o conde ferido ^4 



Pág. 

Capitulo L — Em que se prosigue o que mais se pasou neste dia com a tomada 

de Fernão Díaz homem de bem aSy 

Capitulo LI — Em que se conta e se prosigue o dia de sábado e como nos sal- 
vamos os que na Atalaia Ruiva éramos 2 38 

Capitulo LII — Como se soube que era cativo Fernão Díaz ferreiro e como Ali- 
xarife veio á vila em busca de uns papeis que perdera aquele dia vindo a 
cavalo 241 

Capitulo LIII — Como indo buscar úa negra fujida tomamos dous mouros e ou- 
tras cousas 242 

Capitulo LIV — Como a fusta de Larache tomou um barco em que o conde man- 
dava úas cartas o alcaide e as mandou ao conde 244 

Capitulo LV — De uas brigas que ouve em Arzila entre fidalgos 245 

Capitulo LVI — De outras graves brigas que ouve por algúas vezes entre Diogo 

Soárez e Vicente Queimado 247 

[A«o de i533] Capitulo LVII — Em que se faz menção do ano trinta três 248 

Capitulo LVIII — De outros desmandos piores que se fízérão e fazem nos luga- 
res de Africa e de um que fizemos 25o 

Capitulo LIX — Como uns almogaveres saltearão a Jorje Vaz de Magalhães e 

se salvou 25 1 

Capitulo LX — Como se perdeo Roque de Farão com a quadrilha d'aLmogaveres 253 

Capitulo LXI — Como Alebenaix se perdeo e foi tomado cativo negando-se polo 

não conViCcerem 254 

Capitulo LXII — De algúas entradas e almogavarias em que não fizemos nada 256 

Capitulo LXIII — Gomo se perderão uns almogaveres de Alcacere 257 

[Ano de 1534] Capitulo LXIV — Como neste ano de trinta quatro el-rei veio abaixo a correr 

Tangere e Arzila e foi sentido 258 

Capitulo LXV — Como a Atalaia da Ruiva foi salteada e se salvarão pelejando 260 

Capitulo LXVI — Como os alcaides correrão Arzila e matarão IVIanoel da Costa 

e seu jenro e o que socedeo 262 

Capitulo LXVII — Como el-rei de Féz correo Arzila e o que aconteceo nesta 

corrida 266 

Capitulo LXVIII — De úa sorte que aconteceo a Francisco Pinto com um mouro 

que veio a saltear uns moços 268 

Capitulo LXIX — Como o conde foi a Benamares 270 

[Ano de i535] Capitulo LXX — Lembrança da tomada de Túnez polo cmperedor Carlos Quinto 272 

Capitulo LXXI — Como Dom Aleixo foi este ano por provedor dos lugares de 

Africa 274 



SUPLEMENTO 
[Ano de 1536] Arzila de 1535 a 1549 

Carta de Mulei Abrahèm ao conde D. João, capitão de Arzila 281 

Carta do capitão de Arzila a el-rei D. João III 282 

Carta do capitão de Arzila a el-rei D. João III 284 

[Au» de 153;] Carta do capitão de Arzila a el-rei D. João III 286 

Carta de Mulei Abrahêm ao capitão de Arzila 287 

Carta do capitão de Arzila a el-rei D. João III 288 

(A«» de 15381 Carta do capitão de Arzila a el-rei D. João III 289 



[Ano de i54o] 



PAg. 

Tratado de paz entre el-rei de Portugal e o de Fez, pelo tempo de onze anos. . 291 

Carta do conde D. João Coutinho, que fora capitão de Arzila, a el-rei D. João III 296 

Capitania de Dom Manuel Mascarenhas [Ano de 1539] 

Carta de D. Manuel Mascarenhas, capitão de Arzila, a el-rei D. João III 297 

Carta de Sebastião de Vargas, feitor do trigo em Fez, a el-rei D. João III ... . 299 
Carta do capitão de Arzila a el-rei D. João III sobre as dívidas ao bacharel 

Duarte Rodrigues 3oo 

Carta do capitão de Arzila a el-rei D. João III 3oi 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 3o3 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 3o5 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 3i5 

Carta de D. Manuel de Mascarenhas a ei-rei D. João III 3i8 [Ano de 1541] 

Carta de D. Manuel de Mascarenhas a el-rei D. João III 3ig 

Carta de D. Manuel de Mascarenhas a el-rei D. João III 321 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 322 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 323 

Carta de Lourenço Pires de Távora, embaixador enviado ao rei de Fez, a el-rei 

D. João III 328 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 334 

Carta de Sebastião de Vargas ao capitão de Ceuta 336 

Carta de Sebastião de Vargas ao conde do Vimioso, D. Francisco de Portugal 

vedor da fazenda 340 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 341 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 342 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 343 

Carta de el-rei D. João III a D. Manuel Mascarenhas 344 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 345 rj^^^^o de 1542] 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 346 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 347 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 348 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 35o 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 35 1 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 352 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 354 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 357 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 358 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 35g 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 36o 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 36 1 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 364 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 366 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 368 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 370 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 372 

Carta de Jacó Rute a el-rei D. João III 3^4 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 3y4 

Carta, de Sebastião de Vargas ao conde do Vimioso 376 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 379 



[Ano de i543] 
[Ano de 1644] 



[Ano de 1545] 



Pág. 

Carta de Sebastião de Vargas ao conde do Vimioso 38o 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 38i 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 384 

Carta de poder e procuração de el-rei D. João III a D. Manuel Mascarenhas para 

assentar pazes com el-rei de Fez 386 

Carta de el-rei D. João III a D. Manuel Mascarenhas 387 

Carta de el-rei D. João III a Jacó Rute 390 

Carta de el-rei D. João III a D. Manuel Mascarenhas 390 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 392 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III 393 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. . : 394 

Carta de el-rei D. João III a D. Francisco Coutinho 395 

Treslado de duas cartas sobre tréguas com os cristãos: uma de el-rei de Fez a 

Jacó Rute; outra do alcaide de Alcácer Quibir ao mesmo 395 

Assinado de el-rei de Fez a Jacó Rute com poder para assentar pazes com el-rei 

de Portugal. Treslado 396 

Carta de el-rei de Fez a D. Manuel Mascarenhas 397 



[Ano de 1547] Capitania de D. Francisco Coutinho, conde do Redondo 

Instruções que levou Jorge Pimentel quando foi a Beles, de mandado de D. João III, 

para concluir um acordo com el-rei de Fez contra o xerife 398 

Carta de el-rei D. João III a el-rei de Fez 4o3 

Carta de el-rei D. João III a el-rei de Beles 404 

Carta de el-rei D. João III a Jacó Rute 404 

Carta do feitor de Andaluzia, Diogo da Costa, a el-rei D. João III 402 

Carta de Luís de Loureiro, capitão de Mazagão, a el-rei D. João III 407 

Carta de D. Afonso de Noronha, capitão de Ceuta, a D. Nuno Alvares Pereira, 

que o fora antes dele 408 

Carta de Francisco Botelho, capitão de Tânger, a el-rei D. João III 410 

Carta de D. Francisco Coutinho, capitão de Arzila, a el-rei D. João III 412 

D. João III manda Estêvão Gago ao rei de Castela para o informar dos negócios 

de Marrocos e assentar com êle no caminho a seguir 41 3 

rAnodei548] Carta de Jerónimo Dias Sanches, escrita de Tetuão, a D. Maria de Eça, mulher 

do capitão de Ceuta, D. Afonso de Noronha.. 416 

Carta de Jorge Pimentel a el-rei D. João III 418 

Carta do mesmo a el-rei D. João III 419 

Carta do guardião do convento da Conceição, de Arzila, a el-rei D. João III . . 421 
Carta de D. Maria de Eça, que estava por capitão de Ceuta, em lugar de seu ma- 
rido, D. Afonso de Noronha, a el-rei D. João III 424 

Trechos de uma carta de Francisco Botelho, capitão de Tânger, a el-rei D. João III 425 

Carta escrita de Arzila a el-rei D. João III 4^6 

Regimento de Lourenço Pires de Távora quando foi ao imperador Carlos V por 

embaixador de el-rei D. João III, para residir na sua corte 428 

Trecho de uma carta de Francisco Botelho, capitão de Tânger, a el-rei D. João III 430 

[Ano de 1549] ^^ novas do xerife, rei de Fez, são estas 43 1 

Carta de D. Afonso de Noronha, que fora capitão de Ceuta, a el-rei D. João III 435 
Carta de el-rei D. João III a D. Afonso de Noronha, que fora capitão de Ceuta, 
nesta data encarregado de dirigir as obras do forte do Seinal em Alcácer 

Ceguer 437 



Regimento que levou Luís de Loureiro quando foi a Andaluzia fazer gente de 

guerra para defesa dos lugares de Africa 438 

Carta de el-rei D. João III a Luís Coutinho, capitão das caravelas da armada que 

andava na costa do Algarve 441 

Carta de el-rei D. João III ao conde do Redondo, capitão de Arzila 442 

Carta de el-rei D. João III aos fidalgos, cavaleiros e moradores de Arzila. . . . 443 

Lista dos fronteiros de Arzila ao tempo do seu despejo 443 

Carta de el-rei D. João III a António de Sá, fronteiro em Arzila 444 

Carta de el-rei D. João III a D. Pedro de Meneses, capitão de Tânger 445 

Carta de el-rei D. João III a Estêvão Gago, seu embaixador em Castela 446 

Carta de el-rei D. João III a Luís de Loureiro 447 

Carta de el-rei D. João III a D. Pedro Mascarenhas, encarregado de inquirir do 

estado das obras militares mandadas fazer em Tânger e no Seinal 447 

Carta do embaixador Lourenço Pires de Távora a el-rei D. João III 449 

Carta de el-rei D. João III a Luís de Loureiro 454 

Carta de el-rei D. João III a Luís de Loureiro 456 

Carta do capitão João de Loaisa a el-rei D. João III 456 

Carta de el-rei D. João III a Estêvão Gago, seu embaixador em Castela 458 

Apontamentos de el-rei de Beles sobre o negócio de Arzila, mandados a el-rei 

D. João III 460 

Provisão passada pelo príncipe de Boémia ao provedor e pagador das armadas 

de Málaga para que seja autorizado Luís de Loureiro a recrutar até 4.000 

soldados 461 

Carta do infante D. Luís, irmão de el-rei D. João III, a Lourenço Pires de Távora, [Ano de i55o] 

embaixador na corte de Carlos V 462 

Carta de Lourenço Pires de Távora ao infante D. Luís 466 

Carta de el-rei D. João III a Lourenço Pires de Távora 468 

Carta de el-rei D. João IIÍ a Lourenço Pires de Távora 470 

Trecho de uma carta do secretário de Estado, Pedro de Alcáçova Carneiro, a 

Lourenço Pires de Távora 471 

Trecho de uma carta de Lourenço Pires de Távora a el-rei D. João III 471 

Alvará de D. João III a favor de D. Francisco Coutinho, conde do Redondo . . 472 [Anodei55i] 
Carta do secretário de Estado a D. Francisco Coutinho, confirmando a mercê 

dos 3oo:ooo reais 473 

Resposta de D. Francisco Coutinho, conde do Redondo, a uma consulta, segundo 

cremos, de el-rei D. Sebastião 474 [Ano de ? ] 



APÊNDICE AO SUPLEMENTO 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 479 [AnodeiSSgl 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 483 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 487 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III 489 



CORRIGENDA 



A primeira forma é a errada e a segunda a exacta; o primeiro algarismo indica a 
página e o segundo a linha respectiva. 
Corrija-se: 



primeiro 
Christo 
Alé Benaix 
Alé Moquique 
Alé Benaix 
Benamandux 
Alé Barraxe 
vinho 
adentro 

meio 

da 

Thomé 

Viera 

corregada 

tomado 

vertudas 

Alé Barraxe 

romperiamps 

nossos 

e 

atalar 

capitães 

Liões 

serra 

Pírez 

sala 

fomos 

Barbarroxa 

Qem 

as 

i535 

arzila 

nominação 

ANAIS DE ARaiLA 



3- I 


das notas 


: terceiro 


5-.9 




: Cristo 


12-23 


(25, 26) 


: Alebenaix 


i3-32 


(33) 


: Alemoquique 


i3-35 




: Alebenaix 


24- 5 




: Benamendux 


28-33 




: Alebarraxe 


32-12 




: vinha 


54-39 




: a dentro 


61- I 




:, 


82-32 




: Meio 


83-12 




:de 


85- 2 


(9, 16, 22) 


:Tomé 


86-11 




:, 


90-22 




: Vieira 


92- 4 




: carregada 


93-1 5 




: tomada 


102- 9 




: vertudes 


107-14 




.•Alebarraxe 


122-29 




: romperíamos 


125- 4 




:nosos 


125- 6 




:o 


128-27 




:a talar 


144-29 




: nosos 


147-33 




: liões 


149- II 




: terra 


153-7 




: Pérez 


183-19 




:sela 


195-19 




: fõrão 


272-10 


(20,24,31,35) : Barba Roxa 


273-19 




: Quem 


275- I 




: asi 


277- 2 




:i536 


279- 9 




: Arzila 


279-20 




: dominação 





— XVIII — 




Abraein 


281- 5 


: Abrahêm 


Abraem 


284- 2 (5) 


: Abrahêm 


Abraem 


287- 2 


: Abrahêm 


Abrahem 


288- 3 (6) 


: Abrahêm 


[dantes].' 


288-38 


: [dantes?] 


Abraem 


291- 4 


: Abrahêm 


Mazcarenhas 


297- I (4) 


: Mascarenhas 


Ehiaque 


3o6- 3 


:Ehia que 


Veneza 


3ii- 3 


: Veneza 


deila 


338-16 


: de Ha 


Mrscarenhas 


344-18 


: Mascarenhas 


asy 


348-13 


:a sy 


el-rei 


35o-i5 


: el-rei D. João III 


servjço 


358-21 


: servjço 


aparecer 


370-22 


: a parecer 


fosse 


373- . 


: não fosse 


e 


375- 2 


:o 


Escuza 


379-9 


: Escura 


capilayas 


379-16 


: capitanyas 


i544 


379-36 


:.545 




381-29 


: — 


pezar 


387-27 


: pesar 


eerto 


393-25 


: certo 


apezar 


397- 4 


:a-pesar- 


se 


397- 5 


: supriína-se 


a ver 


41 1-1 I 


:aver 


55 


425 (número da folha) 


:54 


6 


4G8-23 


= 9 


da 


479-26 


:de 


e seu filho Xulla 


alcaide de 487-19 


: sufrima-se 


Mequinez 






caiu 


488-27 


:cala 


yça 


488-33 


:Yça 



Além destas correcções, devemos indicar também algumas irregularidades que o 
texto apresenta, por culpa nossa. Assim, há nele, por vezes, hesitação no emprego de 
certas formas, quer de nomes comuns, quer de nomes próprios: «almogaveria», 16-14, 
17-23, 83-11, etc; «almogavaria», 50-18(29), '77-26 (3o), etc; «almogavares», 29-9 
(32), 3o-5, 145-15, etc; «almogaveres», i5i-i6, 160-4, 164-8 (10), etc; «Alé Barraxe», 
«Alé Benaix», etc, por nAlebarraxe», «Alebenaix», etc. Ainda que umas e outras formas 
existam no original, nós tinhamo-las uniformizado e adoptado no tomo i «almogave- 
riasu e ualmogaveres», bem como «Alebarraxe» e assim devíamos ter procedido nestes 
casos referidos. 

Há, igualmente, muitas hesitações na nova ortografia e mais especialmente na acen- 
tuação. 

Todavia, várias formas parecem inexactas, mas estão deste modo nos códices ou 
documentos manuscritos, assim: «ponte», 145-37, talvez «ponta»; «este», 1 53-26, talvea 
oestu" ; «cabo», 186-18, talvez «rabo»; oestrcito», 192-24, talvez «esteiro»; «Povos», 
194-1 3, «Povoa», etc. 

O documento lxvh devia preceder o ucvi : neste pede-se a el-rei de Portugal socorro 
contra o xerife e naquele já se manda embaixador negociar esse socorro. 

O documento Lxxxix não deve ser de 29 de Junho, como se vê da sua comparação 



com o documento xcvi. Luís de Loureiro foi mandado duas vezes a Andaluzia; a pri- 
meira talvez em Fevereiro ou Março, como mostra a narrativa de Andrade, Parte iv, 
cap. 35; e a segunda em 3o de Junho, aparentemente para prover de gente os lugares 
de Africa, mas, de facto, para despejar Arzila. 

O documento xcvi, já referido, devia preceder todos os documentos que teem a data 
de 3o de Junho, visto tratar-se nele de medidas que preparam o abandono de Arzila^ 
que nesses outros se diz como se deve fazer. 

A data do documento xcvii não parece exacta; é, talvez, 17 de Agosto, como se 
depreende do documento seguinte. 

O documento c é certamente de Agosto, como se vê do conteúdo ; do mesmo modo 
o Cl, comparando-o com a parte final de c. 

O documento civ é de 1549, como mostra o seu conteúdo. 

O documento cviii é de 9 e não de 6 de Junho, como se vê do documento cii. 



Neste lugar, à falta de outro, fazemos os nossos agradecimentos à 
Imprensa da Universidade. Os Anais de Arzila devem muito à solicita 
competência do sr. Cândido Augusto Nazaré e dos seus colaboradores. 
Por isso, aqui lhes exprimimos todo o nosso louvor. 



ANAIS DE ARZILA 



LIVRO TERCEIRO 

Da capitania de António da Silveira' 

CAPITULO I 

De como e em que tempo António da Silveira 

tomou a capitania e governança d' Arzila ; e algíías cousas mais 

com a tomada da molher e filho de Diogo da Silveira 

TANTO que o conde Dom João Coutinho foi embarcado com a condesa, 
sua molher, e filhos e casa pêra Portugal, ficando António da Sil- 
veira por capitão e governador, não sem algum desgosto que dal- 
guns criados do conde ouve, os quais, não oulhando, nem lhe lembrando 
ser ele dito capitão primo com irmão da condesa e pedido e requerido 
polo conde pêra em seu lugar ficar, e serem suas mostras de excelente 
capitão, mostrando ser muito magnifico, nobre, prudente, sufrido, e que 
sua cavalaria era mais da que a um capitão é necesaria, e, sem quererem 
exprimentar a muita nobreza e mansidão dele dito capitão e de sua mo- 
lher, Dona Jenebra, murmurando, soltarão algijas palavras que nos ouvidos 
dos ditos senhores não soarão bem; e, posto que muito bem se pudera 
desiraular e pasar por elas, deitando mão [delas] - se ouvérão algum tanto 
regurosos, especialmente contra Anrique do Rego, almoxarife e pesoa 
muito honrada e da criação do coudel-mór, tio do dito capitão : tirando-lhe 
o oficio e tomando-lhe conta, foi causa que se viese pêra Portugal, e em 
casa do conde faleceo. Tãobem por esta causa se veio Caterina Afonso, 
sogra de Lopo Mêndez de Vasconcelos, e com ela o dito Lopo Mêndez, 
o qual não tardou muito que não tornou e foi bem recebido dele dito 
capitão, e lhe tornou seu oficio de almotacel, que nos lugares d'Africa é 
honrado e de muito proveito ; e depois o dito Lopo Mêndez o servb 
muito bem e lealmente, asi com sua pesoa, como sendo capitão de Ga 
caravela d'armada, das duas que el-rei, noso senhor, traz 3 no Estreito. 

I. Livro primeiro. Da capitania de António da Silveira] /. em todos os mss. — 
2. [delas] /. A. — 3. traz] trazia B N L M. 



— 4 — 

Pois sendo António da Silveira capitão e estando a vila muito falta de 
jente, e não aver nela mais que outenta de cavalo, e isto por aver pasado 
o desbarate e morte de Dom Manoel de Meneses com toda a mais jente 
da vila, e tãobem virem com o conde os seus e alguns moradores, e neste 
tempo estava tudo ás escuras, por estarem os portos cerrados e não ir, 
nem vir ninguém de terra de mouros, e isto polo conde, antes que par- 
tise, deitar mão de úa cáfila e a não leixar ir até não se pagarem algúas 
dividas que se devíão, e por isto, ficando o alcaide escandalizado, não que- 
ria que ninguém fose, nem viese, o que era em muito perjuizo de nós 
outros, que, sempre que vem cáfilas, os capitães sabem novas e avisos, 
polas quais mandão fora, ou se guárdão, — pois não avendo nova de 
nenhúa parte e o capitão desejando muito de saber o que se pasava, 
mandou tomar úa lingoa por Artur Rodriguez, o qual foi duas vezes fora 
sem a poder tomar; e, estando o capitão com este cuidado, lhe trouve 
Deos um mouro que se veio tornar cristão, o qual não tinha lingoa pêra 
falar, nem ouvidos pêra ouvir, e foi logo conhecido que era um mudo que 
foi cativo de um armeiro e que, ajudando a seu senhor, sabia alimpar e 
estofar um capacete e úas armas brancas. O capitão ficou confuso, 
quando o vio mudo e que nenhúa cousa ouvia, nem falava, mas logo, 
poios muitos acenos e jeitos que fazia com as mãos e rosto, foi entendido 
que queria duas cousas, e deu a entender queria ser cristão, fazendo o 
sinal da cruz e pondo-se de joelhos, asinalando pêra a igreja, e, sendo 
levado á igreja, se fez cristão, confirmando a f é e baptismo os padrinhos. 
O capitão lhe fez logo dar a tença d'armeiro por estar de vago, e a teve 
por muitos anos, servindo na vila d'armeiro. 

Tãobem por seus acenos deu a entender que não avia ninguém [no 
campo] ' e que homens e molheres andávão segando e que fosem trazê- 
los *, e que lhe coriasem a cabeça se não fose asi. Com esta tão cerrada 
nova, o capitão deu licença a Afonso Barriga, pedreiro, e a Estêvão Fer- 
nândez, que, por saberem o campo, servíão d'almocadens e tinhão já 
pedido licença pêra irem fora, e, indo com dezasete ou dezoito de cavalo, 
se fòrão lançar na ribeira da outra parte de Benagorfate, e, vendo que os 
de Zahara andávão largos, saindo tomarão três mouros e duas mouras, 
úa delas com úa criança, e esta é a molher c filho de Diogo da Silveira; 
e, posto que Afonso Barriga pudera lançar mão dalgúas vacas, não se 
quis embaraçar e, com seus mouros e mouras, se veio pêra a vila, donde 
fôrão recebidos do capitão com muito grande contentamento e alegria, 
por ser esta a primeira cousa que em seu tempo se fez, e ter largas 
novas do que desejava; e, vendidos estes mouros, Fernão Caldeira com- 
prou a molher e filho de Diogo da Silveira. 



I. [no campo] /".A. — 2. eque... andávão segando e que fosem trazê-los] somente, 
segando e que fosem por eles R N L M. 



— 5 — 

Com a nova destes mouros, o capitão deu algum proveito á vila, 
dando-lhe toda aquela semana guardas largas, e indo a monte se trouxe ' 
muita carne, mel e cera e outras cousas do campo, e com isto somente 
se contentou por alguns dias, até que Deos trouxe Diogo da Silveira em 
busca de sua molher e filho, com a qual vinda veio toda a filicidade e 
boa ventura, e com sua vinda começou levantar cabeça, trazendo presas 
de mouros, mouras e gado, com que a vila tornou em sua prosperidade, 
crecendo em jente de cavalo e em abastança, como se logo verá come- 
çando de sua vinda e grandes feitos e de sua pesoa e calidade, e certo 
que, ainda que é vivo, se pode sem algúa lijonja louvar : isto podem ver 
no seguinte capitulo. 

CAPITULO II 

De como e em que tempo o grande e muito afamado Diogo da Silveira 

veio buscar e tomar a fé de noso senhor Jesu Cristo 
e do grande contentamento que o capitão e toda a vila ouve com sua vinda 



Dous meses avia que António da Silveira era capitão d' Arzila e a 
governava, quando o muito afamado e estimado Diogo da Silveira, 
alumiado pola graça do Espirito Santo, veio buscar e demandar a 
fé de noso senhor Jesu Christo. Foi causa e principio desta sua vinda a 
prisão e cativeiro de sua molher e filho, que avia um mês que fora cativ^ 
por uns almogavares d'Arzila, de que fora almocadem Afonso Barriga, 
pedreiro, como no capitulo atrás ei apontado. Pois tomada por António 
da Silveira a governança e capitania d'Arzila em o primeiro dia de maio, 
que foi dia dos bem aventurados apóstolos Santiago e São Felipe, do 
ano da salvação do mundo de mil e quinhentos e vinte cinco anos, pois, 
antes que este mês de maio saise, foi presa e cativa esta molher de Diogo 
da Silveira com seu filho, que fôrão causa de tanta filicidade e bem aven- 
turança, como Arzila teve, até que, por nosos pecados, foi dada a final 
sentença que se entregase a quem nunca teve, nem tinha esperança de a 
aver, com a perdição e destruição de todos nós outros os moradores 
dela. 

Pois antes que o segundo mês pasase e pasados quatro ou cinco dias 
depois de Sam João, dia de muita calma, que, por não aver que fazer no 
campo, as atalaias sairão muito tarde, e, chegando Pêro Fernândez o Torto 
á Atalaia Ruiva, vendo junto de si um homem de cavalo, fujio, dando 
rebate até [a] ^ Atalainha da Atalaia Ruiva; e, posto que o de cavalo o 
chamava e lhe fez sinal que o esperase, não parou até [a] =" Atalainha, 

i. se trouxe] e se trouxe A; se trazia B N L M. — 2. [a] /. em todos os mss. 



— 6 — 

donde já estávão outros três ou quatro de cavalo, e, vendo-o vir pola 
estrada, o esperarão, e, chegando a eles, lhes preguntou que «quem era 
capitão». Pêro Fernândez o Torto lhe respondeu que António da Sil- 
veira. O mouro de cavalo lhe dise: tChegai ao capitão e lhe dizei que 
o mouro de seu primo, Eitor da Silveira, o vem buscar, e eu vos fico que 
ele vos dê boas alvixeras e vós pedi-lh'as». Pêro Fernândez, quanto o 
cavalo pode, chegou ao Facho, donde já o capitão estava com todos nós 
outros, que aviamos saido a repique. Com as novas de Pêro Fernândez 
o capitou folgou muito, parecendo-lhe que era alfaqueque e que se abri- 
ríão os portos, que muito desejávamos, e, dando a andar, o foi receber á 
carreira do Almirante, e, chegando ao mouro, ele se deceo e se veio ao 
capitão, dizendo: «Senhor, muitos dias ha que desejava fazer isto, e oje 
com catorze de cavalo estivemos em Tendefe e dahi na Atalaia Ruiva e 
eu por seu almocadem, c desejava de me mesturar com vós outros e os 
entregar, e eles, sospeitando algúa cousa, não quisérão esperar, e do Zam- 
bujeiro me apartei deles e me venho pêra vós e quero ser cristão, e espero 
em Deos que minhas obras sêjão testemunha da vontade que trago». O 
capitão conhecendo-o, que fora cativo de Eitor da Silveira, seu primo, 
filho do coudel-mór, o abraçou e o fez cavalgar, e, tratando-o com muito 
amor e gasalhado, lhe preguntou polas novas da terra, ao que o mouro 
respondeu que o campo era seguro e que podia dar guarda donde mais 
proveito fizese. O capitão muito contente o mandou com Fernão Rodrí- 
guez Colares e o entregase a Dona Jenebra, mo!her dele dito capitão, e 
que mandase todos ir á guarda, e ele se ficou com a guarda até bom pe- 
daço da noute; e, quando foi na vila, achou que Dona Jenebra lhe avia 
feito muita honra e gasalhado, de que o dito capitão, seu marido, foi 
muito contente, e, fazendo-lhe muita honra, quis que fose seu ospede, 
pondo-o á sua mesa e dormindo em sua casa; e sabendo dele sua boa 
entenção, e como tinha sua molher e filho cativo em poder de Fernão Cal- 
deira, e dando-lh'a a faria cristã, o dito capitão e sua molher fôrão tão 
ledos que não cabíão de prazer, e, fazendo-lhe muitas ofertas, lhe prometeo 
que logo lhe daria sua molher e filho, e logo os comprou por cento e 
cincoenta cruzados, os quais cento e cincenta cruzados el-rei, noso senhor, 
liberalmente mandou pagar ao dito Fernão Caldeira, e fôrão todos três 
feitos cristãos com muita honra de António da Silveira e de sua molher, 
Dona Jenebra, sendo seus padrinhos, e ele tomou o apelido do dito capitão 
e ela o de sua molher, Dona Jenebra, chamando-se ele Diogo da Silveira, 
e ela se pôs nome Jenebra de Brito, e o filho António de Brito, e, dentro 
em sua casa, em Ga torrinha que cai antre as portas da Ribeira e se serve 
pola ante-camara e recolhimento dele dito capitão e a guarda-roupa, foi apou- 
sentado Diogo da Silveira e sua molher, comendo sempre á mesa do dito 
capitão, e sua molher e filho com a dita senhora Dona Jenebra, fazendo-lhe 
sempre muita honra, favor e mercê, até que, avendo o dito capitão úas 



casas, que fòrão de António Pimenta, lh'as deu e lhe fez mercê delas, 
nas quais ele viveo e teve até o despejo da vila. 

Era Diogo da Silveira natural de Benagorfate, de ija das principais 
aldeãs, chamada Çahara, de muito honrados parentes e muito cavaleiros, 
em que os alcaides muito confiávão: e ao noso despejo era adail d'Alca- 
cere Quebir um seu primo, chamado Airaeçure, de grande pesoa e de 
maior cargo. Foi Diogo da Silveira cativo no ano de mil e quinhentos e 
dezasete e comprado por Eitor da Silveira, filho do coudel-mór, que em 
Arzila estava por fronteiro, que, por Diogo da Silveira ser mancebo e 
muito bem disposto, o quisera trazer a Portugal, mas ele foi logo resga- 
tado por doze quintais de cera, por ele, já neste tempo, ter duas mil e 
tantas colmeas suas, todas na serra de Benagorfate. E Diogo da Silveira 
homem de grande corpo e de muito boa e jentil desposição, muito alvo 
e de poucas carnes, muito bem acostumado e o melhor regrado, asi em 
sua casa, como fora dela, e homem que falava muito bem e de grandes 
enxemplos, ditos tanto ao preposito que toda pesoa folgava de o ouvir. 
Com sua pesoa afeiçoava ' que todos o amasem ' e lhe desejasem ' todo o 
bem ; muito amigo de sua casa, molher e filhos, finalmente, nenhúa cousa 
lhe falta de homem muito honrado. 

Pois tenho contado as calidades e pesoa de Diogo da Silveira e o 
tempo em que se fez cristão, parece-me razão entrar no grande golfão 
de seus grandes feitos, socedidos por sua grande e boa fortuna e muita 
prudência, ajudando-o noso senhor Deos, pois ha trinta e cinco anos que 
faz a guerra e está antre nós outros, nunca lhe aconteceo desmancho, nem 
revés do que ele queria, nem perdeo homem que em sua companhia 
levase, tendo neste tempo trazido a Arzila e tomado com suas mãos e 
ardis pasante de setecentos mouros, homens e molheres e creanças, ainda 
que a guerra, fazendo seu oficio, lhe gastou e consumio a poder de muitas 
lançadas três filhos, como muito mais largo se verá poios sucesos que 
neste tempo pasárão e eu nesta obra entendo escrever, querendo e aju- 
dando-me Deos. 



I. afeiçoava.. . amasem... desejasem] afeiçoa.. . amem... desêjão B N L M. 



CAPITULO III 

De como Diogo da Sih'eira tomou dous mouros da sua terra 

e do que mais pasou autre António da Silveira e Dom Duarte de Meneses 

o d'Evora capitão de Tanjere sobre irem fora 



MUITO poucos dias pasárão, depois que Diogo da Silveira foi cristão 
com sua molher e filho, que não pedio licença pêra ir fora; e, 
posto que Arzila estava quebrada e nela não avia outenta de 
cavalo, por não aver dous anos que fora morto Dom Manoel de Meneses, 
filho de Dom João de Meneses, por alcunlia Ladrão, e neto do conde de 
Cantanhede, capitão d'Arzila, com [casi] ' toda a jente da vila, como atrás 

fica apontado, o capitão lh'a deu, e com ^ de cavalo se 

foi a Çahara, donde tomou da sua própria aldeã, donde era natural, 
dous mouros ^; e, vindo á vila, foi muito grande o conten- 
tamento que o capitão, António da Silveira, teve, por Diogo da Silveira 
começar a se umiziar, e tãobem, como a vila estava quebrada e desfavo- 
recida, [muitos] ■• murmurávão e não confidvão nele, e crecia a inveja de 
verem a honra que o capitão lhe fazia, — pois chegado Diogo da Silveira 
á vila com estes dous mouros, que fôrão os primeiros que ele tomou, e, 
feitas polo capitão as preguntas acostumadas, pôs em vontade ir fora ; e, 
por ser necesario mais jente da que em Arzila avia, pêra donde Diogo da 
Silveira o queria levar, logo aquela noute mandou dous de cavalo a Tan- 
jere a chamar a Dom Duarte de Meneses, o d'Evora, capitão da dita 
cidade, que com ele se viese ajuntar e ambos irem a fazer o feito que 
Diogo da Silveira lhe dava. 

Tanto que Dom Duarte vio as cartas e recado de António da Silveira, 
mandou logo ao adail e contador, Diogo Mêndez d' Azevedo, que em um 
navio d'armada, de que era capitão Bastião Coelho, viese a Arzila e 
tomase enformação de Diogo da Silveira e dos dous mouros, o qual 
Diogo Mêndez, ao outro dia, por fazer levante, ao meio-dia, chegou a 
Arzila; e, sabendo António da Silveira como se vinha a enformar da nova 
e ardil, fez logo embarcar, no mesmo navio de Bastião Coelho, a Diogo 
da Silveira e aos dous mouros, que Diogo Mêndez os levase a Tanjere, 
pêra que Dom Duarte melhor se informase deles; e, partindo logo Bas- 
tião Coelho, por o levante ser muito, depois de andar ás bombardadas 
com úa nao, foi surjir a Almadraba, duas legoas de Tanjere, donde logo 

I. [casi] /. A. — 2. . . .] em branco A ; certos B N L M. — 3. . . .1 em branco A B N; 
sem branco LM. — 4. [muitos]/. A. 



viérão ter cinco ou seis atalaias, e Diogo Mêndez d' Azevedo, tomando os 
cavalos ás três delas, cavalgando ele em um e Diogo da Silveira noutro, 
e os doLis mouros no outro, se fôrão á cidade ; e, posto que Dom Duarte 
de Meneses era capitão percatado, visto a' Diogo da Silveira e a nova dos 
mouros e o requerimento do capitão, António da Silveira, detreminou de 
vir a Arzila e não pasar da serra do Farrobo ou de Benamares, e man- 
dando logo a Diogo da Silveira e aos mouros [e] = a ^ Bastião Coelho, que 
na Almadraba estava, se viesem pêra Arzila, e que ele viria por Tagadarte, 
e que mandasem barcos que os pasasem, e se fez prestes pêra logo par- 
tir. 

Chegando Bastião Coelho a Arzila, que, por 'fazer levante, não tardou 
duas oras, e com ele Diogo da Silveira, e dando a nova ao capitão, Antó- 
nio da Silveira, como Dom Duarte vinha, e que não queria ir á ponte 
d'Alcacere, nem á terra dele Diogo da Silveira, somente ao Farrobo ou a 
Benamares, António da Silveira não quis e, mandando logo a João Mo- 
niz, adail, a Tagadarte, onde já os barcos estávão, lhe mandou que disese 
a Dom Duarte de Meneses que a nova que tínhão era pêra poderem ir 
correr ao campo d'Alcacere, que se pêra o ardil a que era chamado que- 
ria ir o pasasem, e senão pêra o Farrobo e Benamares não ha' necesidade 
de se ajuntar com a jente de Tanjere, nem de levar mais jente que a 
sua; e com este recado Dom Duarte não quis pasar, como capitão per- 
catado e prudente, pois de necesidade avia de estar quatro ou cinco noutes 
fora de sua cidade, e sendo sentido se podia ajuntar muita jente, e, avendo 
seu conselho, especialmente com o adail Diogo Mêndez d"Azevedo, que 
pesoa muito honrada e muito cavaleiro era, se tornou ; e desta maneira se 
desfez por então esta ida e ajuntamento, e os ditos capitães ficarão des- 
gostosos por alguns dias. 

CAPITULO IV 

De como em tempo de António da Silveira capitão d'Ar:^ila 
foi morto Amelix e se noméão algíías pesoas que á sua morte se acharão 

P ASANDO estas cousas em Arzila no principio da capitania de António 
da Silveira, se esteve dous meses sem mandar fora, não leixando 
d'aver todalas mais semanas e dias rebate e repique, especialmente 
dados por Amelix, com que tanta opresão e dano dava a Arzila e a Tan- 
jere, levando muitas atalaias e muitos homens de cavalo e de pé, como 
por esta obra se parece, correndo um dia a Arzila e outro a Tanjere, e 

I. aj a maneira de B N L M. — 2. [e] /. A; que N L M. — 3. a] como B ; com N L M 
— 3. ha] avia B N L M. 

ANAIS DE ARZILA * 



dia de dous e tres rebates, como foi este dia de sua morte, e foi tantas 
vezes siguido e persiguido do conde e dos capitães de Tanjere e Alcacere 
Ceguer, armando-llie com escuitas e espias de pé e de cavalo, e com 
darem costas ás atalaias e deixarem jente em cilada, sem nunca o pode- 
rem aver, antes, indo aigúas vezes fujindo e meio perdido, voltava e, 
matando um e dous e tres de cavalo, se livrava e salvava, como parece 
quando matou ao Grou e a Luis de Veiros, e outra vez ao pai de Diogo 
Lobo e de Cristóvão Lobo, e em Tanjere quando cativou a Diogo Pereira, 
fidalgo e morador em Tanjere, com as quais cousas e cativos que levava 
era muito nomeado e temido; pois fazendo ele a guerra com muita ousa- 
dia e muitos e grandes ardis, se lhe chegou o dia em que finecêrão e aca- 
barão seus feitos e vida, como aqui direi. 

Pasados alguns dias, depois que Diogo da Silveira tomou os dous 
mouros, e chegando o dia do glorioso anjo Sam Miguel do dito ano de 
mil e quinhentos e vinte e cinco, ficando Diogo da Silveira com quinze 
de cavalo aparelhando cavalos e alforjes pêra ir fora, o capitão foi dar a 
guarda na aldeã de Alccasapo, donde Diogo da Silveira avia d'ir ter com 
ele e ver os que com ele ião e lhes lançar a benção e os encomendar a 
Deos, e, mandando descobrir os Barreiros e a Aldeã Velha, mandou a 
Artur Rodríguez, almocadcm, que, com dez ou doze de cavalo, lhes dése 
costas, e ele se foi paseando caminho d'Alecasapo; e, chegando as atalaias 
á Aldeã Velha, lhes saio Amelix com dezoito ou vinte de cavalo e as 
correo até desta parte dos Codesos, donde Artur Rodríguez as recolheo, 
e Amelix se tornou pêra os Codesos, donde esperou, a ver que fazíão as 
atalaias, donde, vendo o capitão e seu guião recolher-se pêra a atalaia 
dos Caminhos, esperou. Artur Rodríguez, vendo que os mouros não 
fizérão nada, tornou a mandar tomar os Codesos, e, tornandolhe a sair 
Amelix, veio casi a se mesturar com Antão Rodríguez, o qual, estando á 
fala com ele, se recolheo pêra Alecasapo, e Artur Rodríguez, mandando 
recado ao capitão, como era Amelix, se foi casi de volta trás ele, o qual 
vendo que Artur Rodríguez o seguia, dizendo palavras desonestas contra 
o Artur Rodríguez, remeteo com ele, dizendo : «Não te contentas com 
teres vendido tua lei. senão que ainda me queres persiguin, e, voltando 
a ele, o trouxe até muito perto do capitão, o qual, vendo tornar os mouros 
d'Alecasapo e vendo-lhe o cabo, esteve quedo, o que vendo Amelix esteve 
quedo [tãobem] ', e virando Artur Rodríguez foi logo com cie com alguns 
dos do capitão, que já érão com ele, entre os quais era Dom Jorje de 
Noronha e Dom João de Sande e outros moradores ; e, vendo Amelix 
jente de capacetes, e que o capitão estava quedo, se recolheo pêra o 
porto d' Alecasapo e o pasou com propósito de voltar sobre ele, como 
voltou, e, sendo da outra parte e vendo ir pola varzia bem vinte de 

1. [tãobem] f. A. 



cavalo, e que todos ião demandar o porto, esperou na varziota que os 
nosos entrasem nele e, vendo-os dentro no porto, voltou com entenção 
que os que achase no caneiro de os alancear e matar, como já avia feito 
muitas vezes. 

É esta ribeira larga, e á saida faz ou fazia um caneiro de mais de um 
Jogo de mancai, cerrado de úa parte com úa carriceira e da outra de úa 
silveira que o tápão todo. Neste caneiro cuidou Amelix que acharia 
alguns dos nosos em que se cevase, e, não achando ainda ninguém, ele e 
dous primos seus mais ■ escorregando os cavalos, que por sua vontade vié- 
rão cair polo caneiro abaixo, até dar no largo da ribeira, donde já acharão 
oito ou dez dos nosos, em que entrávão Dom Jorje de Noronha e Dom 
João de Sande e outros moradores, em que entrava Jorje Manoel, que 
pouco avia que sairá de cativo, e, vendo-se Amelix antre os nosos, sem 
fazer mostra de virar o cavalo, chamando por os primos, pôs a lança nos 
nosos, dos quais fôrão recebidos e derrubados e pasados de muitas lan- 
çadas. Não nomeio o primeiro que lhe pôs a lança, pois se acharão^ tais 
cavaleiros, fidalgos e moradores, que cada um deles se encontrara com 
um gigante armado, ou com um Eitor ou Archiles, quanto mais com um 
mouro desarmado, sem outra cousa mais que ua adarga e lança. Depois 
ouve algúas perfias antre Dom Jorje e Dom João, querendo cada um que 
a sua lança fose a primeira que o pasara e pinchara fora do cavalo, mas, 
como a confiança que cada um tinha de sua pesoa era pêra outros maiores 
feitos, se contentarão com se acharem á sua morte e em poerem as lanças 
em o mais afamado homem que em aquele tempo avia em toda a Africa 
e o que mais dano tinha feito em cristãos; e afírmão que depois da morte 
d'Arroaz, que ele tomou cargo de almocadem, com sua pesoa e os do 
Farrobo e Benamares, que podíão ser até vinte de cavalo, cativou e matou 
pasante de cento de cavalo, asinalando sua pesoa com ser o primeiro que 
punha a lança e chegava ^ aos que tomava ou matava, e com ter outras 
muitas nobrezas, fazendo muita honra aos que cativava, sem despojar 
nenhum, e fazendo-lhes honra e gasalhado em sua casa, antes que os 
levase a Mulei Abrahem. 

E, porque entendo dizer algúa cousa de sua pesoa e feitos e cali- 
dade na fim deste capitulo, irei por este feito adiante, contando o que 
mais socedeo de seus companheiros, os quais, ficando sobre a barranca 
e vendo dentro da ribeira Amelix e seus primos derrubados e alanceados, 
e jente armada de couraças e capacetes, e que o capitão vinha já polas 
lombas abaixo com seu guião a demandar o porto, desemparando a ri- 
beira, se pusérão em fujida, tomando ametade deles pola ribeira acima, 
com entenção de se embrenharem, como de feito fizérão, e os outros 

I. mais] mas A; /. BNM. — 2. pois se acharão] pois se achando A; por se acha- 
rem B. — 3. chegava 1 chegar A. 



tomando o caminho dos Barreiros e d'AIó Maçus; mas Dom Jorje de No- 
ronha e Dom João de Sande e Artur Rodriguez e Jorje Manoel e os que 
com eles érão, vendo já o capitão junto consigo, pasárão a ribeira e os 
seguirão, de maneira que, a poder de muitas lançadas, matarão sete e 
tomarão um vivo; e, depois de recolhidos d'Almaçus, vlérão buscar a 
ribeira do Freixo, donde os embrenhados, por ser noute, se salvarão, per- 
dendo os cavalos; e, com este grande contentamento e dita, se recolheo 
o capitão, trazendo um mouro vivo e sete cabeças, em que entrava a de 
Amelix, que, certo, merecera que lhe fora feita muita honra, que não em 
poder de rapazes, e asi trouve treze cavalos, em que avia muito bons 
jinetes. O capitão, António da Silveira, ouve o cavalo de Amelix e o 
mandou a el-rei, noso senhor, mais pola fama de quem era seu dono que 
por ser muito fermoso, por ser um cavalo castanho e muito comprido e 
de pouca tripa, mas, como Amelix era homem pequeno e de poucas car- 
nes e andava desarmado e o cavalo farto, o não sintia e sempre se punha 
diante de todos seus companheiros. O mouro comprou Dom Jorje de 
Noronha e o trouve pêra Portugal, mas não tardou muito que lhe não 
fujio e se tornou pêra o Farrobo. 

■ Com esta morte de Amelix ficou Arzila e Tanjere desapresados de 
tamanho ■ contraste -, como em Amelix e nos cavaleiros do Farrobo tinhão, 
porque neste próprio dia de Sam Miguei, em que foi a morte de Amelix, 
se perdeo em Tanjere outra quadrilha do Farrobo, de que era almocadem 
Alé Benaix, almocadem muito nomeado, que antes e depois fez muita 
guerra, e, perdendo a mór parte de sua quadrilha, ficou ele cativo com 
outros quatro ou cinco de cavalo; e com o cativeiro de Alé Benaix e morte 
de Amelix, tivérão as atalaias algum sosegopor alguns dias, mas, como Alé 
Benaix foi logo resgatado e o Farrobo se tornou a povoar doutros cava- 
leiros, a guerra tornou a seu ser, como adiante se dirá. 



CAPITULO V 

Da nalure:{a e calidade de Amelix 

e brevemente algãa parle de seu grande animo e ousadia e liberalidade 

e um dito que Mulei Abrahem por ele dise 

POIS tenho chegado com Amelix ao dia das alabanças e contado sua 
morte, parece-me bem contar algúa cousa de sua natureza e cali- 
dade, e algúa parte sumariamente de seu grande animo e ousadia i 
e asi de sua liberalidade, que, tendo recebido muitas dadivas d'el-rei e de 

I. tamanho] tamatiho A. — 2. tamanho contraste] tão terribel adversareo B N L M. 



— i3 — 

Mulei Abrahem e doutros alcaides, asi em dinheiro como em peças, e asi 
tendo ávido muito proveito de suas partes dos que cativava, tudo gastava 
em convites e beberetes, chamando e tendo consigo todoios cristãos cativos 
que podia aver no lugar donde os fazia, e com isto ficou sua casa tão 
pobre que, depois de sua morte, foi sua molher cativa de Fernão Cal- 
deira e não teve com que sair de cativeiro, até que Mulei Abrahem pagou 
por ela cento e cincoenta cruzados, mandando resgatá-la, e a levou a 
Lexacorão, um dia antes que o conde Dom João Coutinho fose ferido, 
que foi no ano de trinta e dous, como em seu lugar se dirá. 

Era Amelix natural da serra do Farrobo. Chamamos-lhe asi por úa 
grande farroubeira que no cume desta serra está e por ela é conhecida, 
que, parecendo a serra do Farrobo mais de vinte legoas ao mar, parece 
torre ou casa a farroubeira que no cume dela está ; e é bom sinal aos 
navegantes e navios que na boca do Estreito se áchão. Tãobem é cha- 
mada dos mouros «Alharrobo», pola mesma farroubeira se chamar asi, 
mas o seu próprio nome em arábigo é «Jibel Alhabib», que soa «a serra 
amiga», por chamarem a serra «jibel» e o amigo «alhabib», e ambos 
estes nomes juntos se châmão «serra amigai. Esta serra do Farrobo 
está quatro legoas d' Arzila; aparta-a do noso campo úa grande ribeira 
que vem de Benarróz e de Benahamede e se mete no rio de Tagadarte ; 
da úa e da outra parte vão mui excelentes terras, e asi o são todas as 
ladeiras dela. Vão por esta serra mui espesos soverais e carvalhais e 
fontes e córregos de muito excelentes agoas, e boas aldeãs, em que está 
Arraihana, da qual, úa vez que o conde de Borba a tomou, trouve dela 
noventa e cinco almas, em que entrávão sesenta ou setenta molheres, que 
em alvura e fermosura se comparávão a rostos celestes, e, com ser muitas 
vezes tomada e roubada, nunca se pode despovoar. Outra aldeã desta 
serra se chama Aljebila, não foi, nem é menos que Arraihana. Outras 
muitas aldeãs ha nesta serra, e a mais principal é a que châmão do Far- 
robo, da qual e das outras sairão tantos e tão nomeados cavaleiros e 
almocadens, dos quais nomearei alguns de meu tempo, antre os quais foi 
Alé Moquique, que eu não alcancei', que, por ser tão nomeado, ficou até 
[a] 'gora nome ao porto donde ele morreo o porto d'Alé Moquique, depois 
deste foi Timão Hurraix, Ostacis Azus, o velho, que em poder de Dom 
Manoel Mazcarenhas morreo, Arroaz, Alé Benaix, Amelix, de quem vou 
falando, e outros, como Mafamede Hiunes, Alé Çaidão e Nijar : todos 
estes morrerão ás lançadas no campo d'Arzila e de Tanjere e são dinos 
de memoria, por sua muita cavalaria. 

Pois tornando a Amelix, por quem trouve tudo isto, sendo mancebo, 
começou a andar em companhia destes almocadens e neste oficio foi 
cativo em Tanjere e trazido a Portugal, donde fujio em um barco; e tor- 

I. que eu não alcancei]/. L; nos outros mss.f. todo o capitulo. — 2. [a]/. AL. 



— 14 — 

nado ao Farrobo, andou sempre com Arroaz e, morto [Arroaz] ' na praia 
d' Arzila, pasado de um pelouro d'espingarda, como já apontei, logo ficou 
por cabeça daquela quadrilha, que Arroaz trazia, com a qual fez a guerra 
que por este sumario parece, e outras muitas cousas por que tenho pasado, 
especialmente em Tanjere; e, porque algúas delas são dinas de memoria, 
porei brevemente algúas delas muito pêra notar. Ua quando cativou a 
Luís Machado, amo do conde Dom João Coutinho, e a João Fernândez 
de Borba, pesoas honradas, que, andando o conde a monte nas aldeãs, 
avendo vista dele, se veio por encubertas com nove de cavalo e, andando 
á sua vista, tanto que Luis Machado e João Fernândez se apartarão trás 
um porco, logo os apanhou, e asi fez em tempo de [António da Silveira] ^ 
a João Velho e a outro de cavalo. 

Pois em Tanjere lhe acontecerão muitas sortes, antre as quais foi 
quando cativou a Diogo Pereira, fidalgo e pesoa principal de Tanjere, o 
qual, correndo a Tanjere e tomando úa atalaia, que fora d'Arzila, que 
avia nome João Mealho, se recolheo caminho da serra da parte d'Alca- 

cere, mas, como se achase o adail ^ com alguns de cavalo, 

o seguirão de modo que lhe fizérão leixar a João Mealho, com algúas 
lançadas de que logo morreo, e alguns dizem que os nosos o acabarão de 
matar, cuidando que era mouro, por estar vestido em úa aljaravia; e 
vendo-se Amelix persiguido dos nosos, especialmente de Luis Valente, 
d' Arzila, de quem tenho feito menção, que ali se achou, por morar em 
Tanjere em aquele tempo, o qual por ter o mais lijeiro e milhor cavalo 
que em aquele tempo em Arzila avia, nem em Tanjere, o qual ia sempre 
á fala com Amelix, o qual, indo já demandar o cume de úa serra, pare- 
cendolhe que pola serra abaixo serião os nosos mais senhores deles e, 
não levando mais de oito companheiros e consigo nove, vendo o adail 
junto consigo, posto que ia armado de couraças e adarga, se veio encon- 
trar com ele e casi estivarão abraçados, e alguns, que com o adail ião, 
voltarão, fujindo pola serra abaixo; e afirma Luis ^^alente, que a úa ilharga 
ia, que não voltarão mais com Amelix que três de cavalo, e que os outros 
tomarão ■• um córrego pêra se decerem e, perdendo os cavalos, se embre- 
nharem e salvarem suas pessoas; mas, vendo Amelix que chegava a jente 
de repique, se apartou do adail e, chamando os companheiros, se pôs no 
cume da serra, onde esperou um pouco, ou por fazerem outra volta, ou 
por descansarem os cavalos dos companheiros, e, vendo a Luis Valente 
em bom cavalo, lhe dise, jurando polas barbas: «Ah cavalhero, por estas 
barvas que si aquelhos no vinierom tan cerca que ninguno de vos otros 
bolvera oy a Tanjer!»; e nisto chegou Diogo Pereira, armado, e outro 
fidalgo, que por sua honra o não nomeio, e, bradando com o adail como 

I, [Arroaz]/. A. — 2. [António da Silveira] em branco A. — 3. . . .] em branco A; 
sem branco L. — tomarão] tomávão A. 



— i5 — 

não dava nos mouros, quisera tomar o cume da serra, ainda que Luis 
Valente lhe dise: «Leixemo-los debruçar e ficar ao sopé», mas Amelix, 
entendendo-os, voltou com eles e, encontrando-se com Diogo Pereira, fôrão 
ambos ao chão e, vendo que os que com Diogo Pereira érão, voltarão, 
fujindo pola serra abaixo, e Luis Valente, que junto com Diogo Pereira 
estava, lhe dérão úa lançada á mão tinente poios lombos do cavalo, que, 
ficando a lança empenada, começou a dar couces com a raiva da morte, 
de que logo caio morto, mas Amelix, fazendo cavalgar a Diogo Pereira e 
não o querendo matar, polo conhecer, se tornou a pôr no cume da serra 
e, sem ser mais seguido dos nosos, se tornou a recolher de seu vagar. 
Bem parece que algúas vezes a fortuna ajuda aos ousados, que, achando-se 
Amelix casi perdido com oito de cavalo, por sua ousadia e esforço se 
salvou e alcançou vitoria. 

Outra vez, andando sete de cavalo de Tanjere monteando, vendo-os 
ele os teve em espia e, vendo-os cansados e carregados de carne, os íoi 
esperar ao porto [por donde avião de pasar pêra se virem á cidade '], e 
pondo-se-lhe diante, dizendo: «Apeai-vos se não quereis ser todos mor- 
tos», e, vendo-se com as lanças quebradas de montearem, posto que 
antre eles avia mui estremados cavaleiros, se renderão, não sendo os 
mouros mais que treze de cavalo e os nosos sete, em que entrávao quatro 
ou cinco comendadores, os quais érão Miguel de Seabra e Fernão de 
Seabra e seu irmão Eitor de Seabra e Fernão de Pontes e o apontador 
dos contos e o mazmorreiro, todos estes do abito de noso senhor Jesu 
Cristo, e outros dous de cavalo, de maneira que desta vez Amelix levou 
com treze companheiros sete cavaleiros, era que entrávao seis comenda- 
dores. Certo que foi feito de muito louvor e de grande dita e muito mór 
manha, pois os leixou cansar e quebradas as lanças e carregados de carne, 
em parte onde nenhum se pudese salvar; e rendidos os levou ao Farrobo 
a sua casa, donde os festejou oito dias, e dahi os levou a Xexuão, donde 
Mulei Abrahem estava, vestidos e calçados com seus jibões e cavalos, 
como os avia tomado. 

Um dito de Mulei Abrahem, que por ele dise, não é razão que fique 
por escrever, o qual é que, por esta tão boa presa, alem do que Mulei 
Abrahem era obrigado a dar a Amelix por cada um cristão, lhe fez muita 
mercê a ele e a seus companheiros, mas ele, tomando a seus companhei- 
ros e aos mais cristãos cativos que pode aver, se pôs a beber, o qual 
beberete durou tanto até que se acabou o vinho e o dinheiro; e, que- 
rendo-se vir pêra o Farrobo e achando-se sem vinho e sem dinheiro, por 
um seu primo, que nesta cidade está feito cristão, que se chama António 
Anríquez, mandou pedir a Mulei Abrahem mais dinheiro, dizendo que 
não tinha com que se ir. Mulei Abrahem meio espantado lhe dise: «Que 

I. [por donde avião de pasar pêra se virem á cidade] em branco A. 



— i6 — 

fez de tantas' onças?» António Anríquez respondeo: «Cide, já são idas, 
que todas são bebidas, e cada um ouve sua parte». Logo respondeo um 
dos beneaxus -, pesoas honradas e parentes do dito Mulei Abrahem: «Ame- 
lix é pêra gastar quanto dinheiro e vinho ha no Algarve ^\i A isto res- 
pondeo Mulei Abrahem: «Antes é muito pêra louvarmos a Deos, pois o 
fez com a mão aberta e pêra que nós, vendo o que ele faz, façamos outro 
tanto», e, mandando por dinheiro, lhe deu dous punhados, quanto com a 
mão pode tomar, dizendo-lhe um dos beneaxus: «Não lhe 4 dês até que 
não este' a cavalo, por que não se detenha». Palavras fôrão estas de 
Mulei Abrahem conformes a suas obras, pois tantas e tão asinaladas 
nobrezas se podem dele dizer que se faria grande escretura, o que não 
sofre esta breve obra, e por tanto leixarei Amelix, pois já é morto e dele 
dito algúa parte de louvor, e tornarei a Diogo da Silveira e contarei como, 
vindo de úa almogaveria e dando-lhe o capitão costas, desbaratarão cem 
homens de pé e sete de cavalo, sem se salvar nenhum, e foi um dos 
grandes feitos de nosso tempo. 



CAPITULO VI 

De como pasoii o feito do Albor/c em que morrerão cincoenta mouros 

e cativarão corenta e sete todos da terra de Diogo da Silveira 

e seus parentes e amigos 



MUITO contentamento ouve o capitão, António da Silveira, com a 
morte de Amelix, e ouve que Deos lhe fizera muita mercê, por 
em seu tempo se desfazer um tão manhoso e valente adversairo, 
como Amelix e sua quadrilha era, e todo um mês deu muito proveito á 
vila, dando guardas largas e dias de monte, com que se metia na vila 
muita carne, mel, cera e muita lenha, mandando sempre atalhadores, 
escuitas, espias, fora, pêra que, segurando o campo, se aproveitasem dele 
sem algum perigo, e com esta boa ordem pasou todo o mês de outubro; 
mas, sendo chegado o dia de todos os bemaventurados santos, tendo-lhe 
pedido licença pêra ir fora, Diogo da Silveira levou em rol vinte e cinco 
de cavalo, e mandou a António Freire, criado do conde, que com ele fose 
e requerese os que com ele estávão no rol, pêra que, vendo que António 
Freire era o primeiro do rol, com milhor vontade quisesem ir; e, com toda 
esta delijencia, quando viérao a cavalgar, não se pusérão a cavalo mais 

I. tantas] quinhentas L. — 2. beneaxus] benaaxuz L. Ignoramos a significação deste 
vocábulo. — 3. Algarve: é o Algarve d'atem-mar. — 4. lhe] lho L. — 5. estêj esthe A; 
esievez L. É forma antiga por esteja. 



— 17 — 

que dezanove homens, e, vendo o capitão, António da Silveira, que não 
cavalgávão mais, lhes deitou a benção, dizendo a António Freire: «Os 
que fáltão tem impedimento por seus cavalos, e eu não tenho vontade de 
esta vez mandar mais que vinte de cavalo; e portanto vos encomendo que 
acompanheis e favoreçais a Diogo da Silveira, por que, vendo o que vós 
fazeis, fáção todos outro tanto, e o que não vos quiser obedecer e seguir 
vos encomendo que o mandeis caminho da vila», e, dizendo todos que 
faríão o que Diogo da Silveira e António Freire ordenasem, sairão pola 
porta da Ribeira e fôrão caminho de Benagorfate e da banda de Çahara. 

Junto da aldeã estivérao esperando que rompese a alva, dizendo Diogo 
da Silveira a António Freire e a Diogo Delgado, que oje é veador do conde 
do Redondo, e a João de Deos : «Eu não ei d'enirar na cilada senão rom- 
pendo o dia e portanto tende bom tento, porque daqui á cilada ha um 
bom pedaço», mas eles, enleados com a escuridão da noute e com a 
muita agoa que chovia, o fizérão andar, e se foi meter em cilada muito 
antes de menhã e antes do que era razão e ele quisera; e, sendo já bom 
pedaço do dia pasado e não tendo visto sair da aldeã cousa viva, come- 
çarão os nosos a monnurar, dizendo que não era bem estar mais ali, que 
se saisem, que podíão ser sentidos, e que tardarem tanto em sair o gado 
e jente da aldeã era porque se ajuntávão pêra os virem buscar, e os mais 
que nisto perfiávão era Antão Rodríguez e seu jenro Jorje Vaz de Maga- 
lhães, que oje vive na índia, na cidade de Goa, que, por Antão Rodríguez 
ser homem velho e usado nas almogaverias e aver andado em companhia 
de Jorje Vieira e de Gonçalo Vaz e Pêro de Meneses, tinha muito conhe- 
cimento do campo e da experiência daquelas entradas e saidas, e, tendo 
alguns que o ajudávão, insistio muito em que logo se saisem; mas António 
Freire, mostrando mais constância do que sua idade e cargo requeria, dise 
a Antão Rodriguez e a Jorje Vaz, seu jenro : «Nós outros não nos avemos 
de sair senão quando a Diogo da Silveira lhe parecer, e vós e voso jenro 
vos podeis ir por este córrego abaixo e nos esperai de maneira que não 
sejais vistos». 

Com estas palavras sosegárão todos e a chuiva começou a estear, e 
logo Diogo da Silveira, vindo da atalaia, dise: «Já o gado começa a sair» 
e, por verem iías vaquinhas junto de si, lhes sairão e as tomarão, que 
fôrão trinta e sete, as quais érão de um tio de Diogo da Silveira, e com 
elas se sairão fora da serra; mas, tomado o rebate por toda a serra de 
Benagorfate e das aldeãs dela, fôrão logo com eles alguns de pé e, recre- 
cendo mais jente, se ajuntarão com sete de cavalo e quisérão pegar com 
os nosos e lhes tirar o gado, mas Diogo da Silveira, fazendo tanjer o gado 
com quatro de cavalo, com os outros quinze vinha em corpo, casi á fala 
com eles, os quais, não se contentando de chegarem ao pé da serra, se 
viérão polo campo após os nosos e, pasando Ulefe e Sinete, chegarão até 
o Alborje, donde Diogo da Silveira esteve á fala com eles, dizendo-lhes 

ANAIS DE ARZILA 3 



— i8 — 

que doudice era virem três legoas jente de pé de trás de homens de 
cavalo, e que estando o capitão no campo nenhum podia escapar. Logo 
lhe responde© um seu tio que todos folgaríão de morrer por se vingarem 
dele, e que maldita fose a terra que o criara e a mãe que o parira, e 
outras muitas pragas e maldições, como homem magoado, e, fazendo 
muitos sinais com as adargas e chamando a outros magotes que ficávão 
cm Sinete e polo caminho, que andasem e chegasem e se ajuntasem com 
eles, pois até [a]li ' não avia costas não as tinhão dali adiante ; mas Diogo 
da Silveira, vendo estes mouros já no campo e sabendo do capitão que 
o avia d'esperar, lhe mandou um de cavalo com recado, o qual o achou 
em Aimenara, duas legoas d'Arzila, com a mais jente que na vila avia, 
que não seriamos outenta de cavalo, e vendo vir um de cavalo, que era 
Justiniano, atalaia, nos pôs em confusão até chegar, mas, tanto que o 
capitão teve recado que os mouros vínhão trás Diogo da Silveira, com um 
troto cerrado começou a caminhar caminho do Aiborje, mas logo nos 
começamos a estender quanto os cavalos podião, e assi chegamos bem á 
longa a Diogo da Silveira, o qual ouvindo a grita que levávamos e conhe- 
cendo ser o capitão, e outrosi conhecendo que os mouros, que pegado 
com ele vínhão, que érao cento de pé e sete de cavalo, se retirávão pêra 
se fortalecerem em uns canaveais da aldeã do Aiborje, com a mais jente 
de pé, que atrás vinha, voltou logo com eles e foi recebido dos sete de 
cavalo, pondo-se por amparo e escudo dos de pé com tanta constância e 
firmeza que, podendo-se todos sete salvar, fôrão todos sete polo chão a 
poder de muitas lançadas, e asi outros de pé; mas, vendo já chegar o 
capitão e que alguns de cavalo érao já com Diogo da Silveira, se reco- 
lherão a uns pardieiros e canaveais da mesma aldeã, mas, como o capitão 
chegou, logo fôrão rompidas e pasadas de úa parte á outra, especialmente 
por Dom Jorje de Noronha e por Dom João de Sande, que, tanto que 
chegarão, se lançarão dentro dos pardieiros e das canavieiras, aventu- 
rando suas pesoas e cavalos, pois fôrão recebidos nas lanças e adargas 
de mais de cento deles, recebendo algúas lançadas em suas pesoas e 
cavalos; e, com esta fúria com que estes bons fidalgos e bons cavaleiros 
entrarão e os romperão, o feito do Aiborje se acabou com a ajuda de 
muitos moradores honrados, que, não querendo que estes fidalgos lhes 
fizesem ventaje e como mais destros e costumados em semelhantes casos, 
metendo-se a cavalo e a pé por dentro dos pardieiros e canavieiras, fizérão 
que uns ficasem alanceados e outros rendidos e com as mãos cruzadas 
pedisem a vida, de maneira que dos cento de pé que ao Aiborje chegarão 
com os sete de cavalo não escapou um só, ficando corenta e sete cativos 
e os outros todos mortos; e, posto que se pudérão alcançar alguns dos 
magotes, que por os outeiros e caminhos parecíão, o capitão os não quis 

I. [a] f. A. 



— 19 — 

mais alargar, por ser já muito tarde e os seus poucos e cansados, e, con- 
tentando-se com a mercê que Deos llie fizera em aquelle dia e fazendo 
despojar os mortos e recolher os vivos, com muito grande alvoroço falou 
e recebeo a Diogo da Silveira, que derredor de si tinha muitos parentes 
e amigos, em especial dous primos, que em lugar de irmãos tinha, um 
deles o Almesure que, em tempo do alcaide Laroz, foi adail d'Alcacere, 
e outro seu irmão mais velho ', que, por ter recebido dele muito e boa 
irmandade, desejou de lhe dar a liberdade e o leixar livremente ir, e com 
esta vontade dise a Artur Rodríguez que como faria para aquele seu ir- 
mão não ser cativo e o soltar livremente. Artur Rodríguez lhe respondeo 
que o comprase, porque, com suas partes e as que todos lhe daríão, o 
forraria ; e, sendo isto ouvido por João de Deos e António Freire, lhe 
disérão qua o pedise logo ao capitão, e vendo que se pejava o disérão 
logo ao capitão, o qual, usando de sua natural vertude e liberalidade, 
chamando a Diogo da Silveira, perante todos lhe dise: «Tudo istcKé voso 
e se a todos quereis soltar o podeis fazer, que todos seremos contentes, 
e se alguns o não forem eu lhes pagarei suas partes». Diogo da Sil- 
veira e Artur Rodríguez lhe beijarão as mãos, pola mercê e honra que 
lhe fazia, e, dizendo que não queria mais que aquele seu primo e irmão 
pêra negocear o resgate do outro irmão e primos que [a]hi = ficávao, o 
capitão lhe dise que o levasem á vila e o vestisem de grã. Logo Fernão 
Caldeira, como sempre acudia ás mortais, asi com sua lança como 
com a aspereza de sua lingoa, dise ao capitão: «Senhor, já que lhe que- 
reis fazer mercê e boa obra não lh'a façais má, em o poer em sospeita 
com os mouros, e asi cheio de sangue e com a aljaravia e çapatos com que 
saio oje de sua casa o leixai ir». A todos pareceo bem o que Fernão 
Caldeira dise; e, tirando o capitão um barrete vermelho de sua cabeça, 
lh'o deu, e asi o fez o mesmo Diogo da Silveira e António Freire e Diogo 
Delgado e Artur Rodríguez e outros muitos, e, beijando os estribos ao 
capitão, se despedio, acompanhado de barretes e desacompanhado de 
irmãos e parentes e amigos, e, apartado do capitão, logo foi mesturado 
com outros mouros, que de vinte e de trinta ^ estávao em magotes, alguns 
polo campo de Sinete e de Ulefe. O capitão com todos os seus se re- 
colheo á vila, trazendo corenta e sete mouros vivos, dos quais morrerão 
três, por virem muito feridos, e sete cavalos ; tãobem ouve alguns feridos 
dos nosos. 

Com grande alegria e contentamento foi o capitão recebido na vila e 
Diogo da Silveira louvado ; e os mouros e cavalos e gado vendido se 
repartio por todos igualmente, somente a Diogo da Silveira, que o capitão, 
por consentimento de todos, lhe deu ura dos milhores mouros da presa, 

I. velho I venho A. — 2. [a] /. A. — 3. que de vinte e de trinta] que em vinte e de 
trinta L ; que de 20 em 20 e 3o em 3o B N; que de 20 em 3o M. 



e asi o milhor cavalo, com que ele foi muito contente, e muito mais o foi 
o capitão com chegar recado que el-rei, noso senhor, mandava pagar a 
Fernão Caldeira os cento e cincoenta cruzados da molher e filho de Diogo 
da Silveira. 

CAPITULO VII 

Como outro mouro cativo se tornou cristão 
e do que mais pasou até a saida do ano de mil quinhentos e vinte e cinco 



COM a morte de Amelix e com este feito do Alborje, andávamos já 
tão contentes e soberbos que nos parecia que Deos era de nosa 
parte, e que já podiamos cometer um grande feito; e, vendo os 
mouros cativos a honra que Diogo da Silveira do capitão e fronteiros e 
moradores recebia, avendo-lhe inveja, causou que um mouro, meu cativo, 
que fora guarda da ponte d'Alcacere Quebir, e sabia muito bem a ribeira 
da Ponte, dizendo-me que o disese ao capitão e o que sabia, e, alem de 
se oferecer que tomaria as guardas, lhe daria Ga aldeã, junto d'AIcacere ; 
e, dando eu conta disto ao capitão, foi falar com ele á orta do doutor 
meu irmão, donde eu falei com ele e levei o meu mouro; e, estando todos 
três, e João de Deos por lingoa, o capitão ficou contente do mouro e, 
deitando mão das promesas que o mouro prometera, logo ordenou de o 
mandar fora e, tirando-lhe os ferros, lhe deu vinte cinco de cavalo e, 
entregando-o ao adail, João Moniz, que como capitão e maioral destes 
almogavares ia, que por ele olhase e o levase a bom recado, se foi á 
Ponte, donde falsando a ribeira, como homem que a muito bem sabia, 
tomou dous mouros de pé, que por guardas estávão, e com estas duas 
guardas se veio á vila, vindo João Moniz e os companheiros muito con- 
tentes do mouro e de sua viveza e saber. O capitão foi muito contente 
do novo almocadem, e dos dous mouros me deu um, o que eu quis esco- 
lher, e, por não valer tanto como o meu, o capitão me rogou o tomase e 
que ele ficava de refazer-me em presas que o mouro fizese até cem cru- 
zados, que por ele me dávão de resgate, e, fazendo-o cristão, lhe pôs 
nome António da Silveira, como a ele dito senhor; o qual não durou na 
cristandade um ano e, fujindo pêra os mouros, me levou úa moça mou- 
risca, das milhores e mais fermosas que na vila avia, como logo adiante 
se dirá, de maneira que de sua cristandade eu fui o que mais perda 
ouve. 

Pois sendo este arrenegado e mao cristão favorecido e honrado do 
capitão, lhe quis dar a aldeã d'Algorfa, junto d'Alcacere, e, posto que a 
empresa era muito verde e árdua, por ser esta aldeã d'Algorfa meia legoa 
alem d'Alcacere, dizia este mao cristão que daríão nela á meia noute, e. 



por estar em terra chã, depois de roubada, se podíão recolher de noute 
e vir amanhecer á Ponte, porque o alcaide, ainda que tomase e ouvise o 
rebate, como de força avia de tomar, por esta aldeã estar á vista, não 
avia de sair até ser menhã, e que a este tempo seriamos á Ponte, e, posto 
que chegasem a nós, seria á longa e cansados, com que o capitão podia 
pelejar. 

Posto que todas estas razões tínhão muitas contrairás pêra as desfazer 
e confundir, o capitão mandou dar ás trombetas muito contra vontade 
dos mais ou todos os moradores, e, saindo da vila, fomos muito cedo ao 
Zambujeiro e, tomando o caminho e estrada d'Alcacere, iamos através de 
Taurete, quando, como quem acorda de um pesado e profundo sono, 
vimos o erro que fazíamos, em travesarmos aquelas varzias de Taurete 
tanto de dia, que muito bem podíamos ser vistos de todo o Soveral, que 
vai d'Alfandux até Alvalate, e asi da outra parte d'Alhadra e Taliconte; 
e começando a murmurar e dizer que iamos mal e descubertos, de maneira 
que Brás Fernândez, amo do capitão, que nesta jornada levava a bandeira, 
por impedimento de António Rodríguez, dise ao capitão: «Senhor, toda 
está jente vai descontente, por irmos mal e descubertos; por iso veja vosa 
mercê como vai e donde nos leva». António da Silveira, como excelente 
e prudente capitão, fazendo logo parar a bandeira e o fio, fez chamar a 
Fernão Caldeira e a Pêro López, escrivão do almoxarifado, e a Pedro 
Afonso Homem, e, dizendo-lhes que não olhasem senão ao serviço de 
Deos e d'el-rei, noso senhor, disesem o que lhes parecia ; e, como estes 
bons e honrados cavaleiros disérão que não era razão irem mais adiante, 
asi por irem descubertos, como polo ardil e impresa que levávão não ser 
para um só capitão e com tão pouca jente, porque ao campo d'Alcacere 
não se sofria ir menos de duas bandeiras e com quinhentas lanças, o 
capitão muito leve e sem algúa pesadume mandou logo tornar a bandeira 
e jente, vindo todo o caminho escaramuçando e tão alegre como que trou- 
xera úa boa cavalgada, com que deu a entender que folgava da tornada, 
e desta maneira chegamos á vila ainda de dia, tão contentes todos que 
nos pareceo que aviamos acertado um grande feito. 

A esta ida e cavalgada, que tenho apontada, que do caminho nos tor- 
namos, donde o mao cristão, que fora meu cativo, nos levava, tãobem ia 
por almocadem e autor desta ida um dos dous mouros que ele tomara á 
Ponte, que Jorje Manoel ouve, que por serem ambos companheiros e 
amigos se concertarão, dizendo queríão dar ambos aquela aldeã tanto 
perigosa e donde se tanto aventurava, pêra que sendo desbaratado o 
capitão eles podesem ter feito iJa notável façanha, não sendo nenhum 
deles pêra cometer algiía que boa fose sendo da nosa parte, nem sendo 
da parte contrairá, asi por serem de pouco animo e forças, como de muito 
roins rostos, e pela experiência que tivemos deles nunca prestarem no 
tempo que antre nós estivérão, nem depois antre os mouros, donde 



muito tempo cstivérão; e parece, por estes dous mouros tão inabiles e 
pêra tão pouco, ser verdade o que os homens de pequenos ânimos come- 
tem muitas vezes grandes feitos, de que ha muitos e mui grandes feitos 
e exempros de muitos casos que são acontecidos polo mundo, que, por 
não parecer que homem tão idiota como eu são ' conto cousa somente o 
que vi e ouvi, não trarei somente o de João Vaz o Maio, que sendo um 
fraco pescador, natural de Tavila e morador em Arzila, por pouca cousa 
se foi tornar mouro e levou um seu filho e outro filho de um seu vezinho 
e amigo, e com este começo se encrueleceo de maneira que em quatro 
meses que viveo, sendo mouro, levou cativos mais de dozentos cristãos, 
como adiante, Deos querendo, contarei. 

Pois tornando a estes dous mouros e almocadens, em que vou falando, 
tivemos muita sospeita e certeza que iamos vendidos; e, pêra ser asi, 
não era mais necesario fazer outro ajuntamento o alcaide que, tanto que 
se ouvise o rebate e fogo da aldeã, sair com trezentas lanças de cavalo, 
que d'Alcacere e dalgúas outras aldeãs derredor logo se podíão ajuntar e 
nos sair diante -. Esta sospeita teve o capitão, António da Silveira, por 
já começarem a vir alfaqueques e recados antre ele e o alcaide, e tãobem 
porque, ao terceiro dia de nosa tornada, nos correo o alcaide d'Alcacere 
com muita jente, que pasávão de mil de cavalo, e, metendo-nos polas 
tranqueiras a dentro, até a orta do doutor meu irmão, quis noso senhor 
Deos que não recebemos dano, somente nos levarão dous ou três asnos 
do pé do Tambalaláo, donde nunca mouros chegarão, porque, vindo pola 
parte da Couraça dez ou doze de cavalo e não vendo quem lh'o estor- 
vase, chegarão á vinha d'Alvaro Velho e. vendo os asnos no chanzinho 
de António Freire, que ao pé do baluarte do Tambalalão estávão, e, 
posto que ao pé do baluarte e no muro estava jente de pé com bestas e 
espingardas, dous de cavalo chegarão e os levarão diante de si, estando 
alguns em condição de se lançar na cava, o que fizérão se os outros dez 
ou doze remeterão a eles; e, posto que do muro e de baixo lhes tirarão 
com algúas bestas, eles levarão sua presa, que, por ser tão perto, se 
sintio, e, sem fazerem outro dano, se fôrão, e nós ficamos muito contentes 
por nos avermos tornado, porque tanta jente não se podia ajuntar senão 
em quatro ou cinco dias, e, se fôramos, era per força acharmo-los á 
Ponte, por onde aviamos de pasar e aviamos de ser vistos e sentidos dos 
guardas e atalhadores, que o alcaide sempre diante de si traz, quando ao 
campo vem; e logo mandou resgatar o mouro de Jorje Manoel, e o meu 
se foi, como logo se verá, Deos querendo. 



I. são] veja-se tomo 1, p. 4, nota. — %. iamos vendidos... e nos sair diante] nos le- 
vávão vendidos porque depois o capitão e fidalgos e cavaleiros moradores cairão todos 
na verdade porque como o rebate se dera e fora ouvido sairá o alcaide d'Alcacere com 
trezentos de cavalo que com as aldeãs se ajuntarão e nos sair diante B N L M. 



— 23 



CAPITULO VIII 



De úa entrada e cavalgada que o capitão António da Silveira fe:{ 

entrando com sua bandeira c jente pola boca de Capanes 

correndo primeiro o alcaide d'Alcacere 



P ASADO este ano de mil e quinhentos e vinte cinco, primeiro da capi- 
tania de António da Silveira, em que Amelix foi morto e nele ser 
a vinda de Diogo da Silveira, com o qual o capitão e moradores 
muito contentes érão, tirando noso senhor Deos de noso estorvo um tal 
adversairo, como Amelix, e trazendo a Diogo da Silveira que, em lugar 
de Pêro de Meneses, parecia muito necesario á vila, mas este contenta- 
mento não durou muito, pola pancada que logo o ano seguinte o capitão 
e a vila ouve, como logo adiante direi. 

Pois chegado o dia do bemaventurado Santo Estêvão, um dia depois 
do nacimento de noso senhor Jesu Cristo, nos correo o alcaide d"Alcacere, 
saindo das Furnas, e, sem ser visto, chegou até o Laranjal, que, por ser 
dia santo, não érão fora, e as atalaias estávão ao derredor da vila na tor- 
rinha do Mar e na Gorda e em Muliana e no outeiro de Fernão da Silva; 
e viérão matar dous homens, alem do Facho, um couraceiro e outro ar- 
meiro, os quais estando em Muliana com Rui de Melo, fidalgo e novo na 
terra, tanto que ouvio o rebate veio rijo demandar o Facho, donde eu me 
achei com Pedro Afonso Homem e Brás Simões; recolhendo ' ao Rui de 
Melo e as atalaias, ficarão os dous companheiros alanceados, antes de 
chegarem ao tabuleiro do Facho; e com este dano e com ija mula de 
Lopo Mêndez se recolherão, mas cobrou sua mula Lopo Mêndez, que a 
demandou ás atalaias, por ser homem que sabia muito bem demandar e 
arrecadar o que lhe parecia que lhe devíão, e tãobem sabia pagar muito 
mal o que ele devia, como em muitos lugares se fará dele menção, por 
ser pesoa muito honrada e depois andar por capitão de úa caravela d'ar- 
mada, das do Estreito, e depois servir de adail muito honradamente com 
muitos e bons criados, como em seu lugar e tempo se dirá. 

Logo entrado janeiro de mil e quinhentos e vinte seis, alguns almocadens 
da vila pedindo licença pêra ir fora ao capitão, fôrão tomados alguns 
mouros por eles, com a nova dos quais o capitão deu campo largo, em 
que a vila ouve muito proveito, trazendo muita carne de monte, mel, cera 
e lenha ; mas, como Artur Rodríguez tomase dous mouros de cavalo, 

I. donde eu me achei... recolhendo] donde nos achamos três e um de nós reco- 
lhendo B N L M. 



— 24 — 

armando-lhe e correndolhe até as tranqueiras d'Arraihana, fôrão alcan- 
çados e trazidos á vila, e, feitas as preguntas acostumadas e dando boa 
nova, que era estar cada um dos alcaides em sua casa, o capitão, António 
da Silveira, mandou dar ás trombetas e, com bandeira e guião, foi entrar 
e se foi deitar em Benamandux, á entrada da boca de Benamares, e sendo 
pasado meio dia, indo um grande pedaço de milhora, corremos o campo 
tão largos e com tant-afouteza que alguns de cavalo chegarão á boca de 
Benearróz e de Benahamede, e em um córrego, que vem de Benamaçuar, 
se lançarão três ou quatro mouros de pé, vendo-se já alcançados de cinco 
ou seis de cavalo, os quais decendo-se a pé e entrando poio córrego foi 
Afonso Pinheiro, atalaia, de quem já tenho feita menção, que com Roque 
Ravenga escapou a nado pelo rio de Tagadarte, • — pois chegado Afonso 
Pinheiro aos mouros e vindo a braços com um outro, com úa agonia ou 
punhal o matou tão prestes que, quando os companheiros chegarão, era 
já tão mal ferido que logo morreo; os companheiros o tirarão e o trou- 
xérão a Benamendux, donde o deixarão mal enterrado, em úa cova feita 
com os cotos das lanças e pontas das espadas ; e nesta corrida e caval- 
gada se tomou úa razoada presa, tomando sete ou oito mouros e pasante 
de cem cabeças de gado vacum. O capitão veio contente, por ser esta a 
primeira vez que tirou bandeira fora. Foi esta cavalgada, especialmente 
o gado, vendido por excesivo preço e nunca visto, valendo um boi cinco 
mil reais e úa vaca três mil reais; e neste ano começamos a fazer aigúas 
lavouras ao derredor da vila, ainda que el-rei de Fez nô-las veio comer 
dous ' anos. 

Por nacer desta cavalgada tomar Diogo da Silveira um mouro ás 
portas da vila, o porei aqui. Desta cavalgada se deu um boi á bandeira, 
como é costume darem sempre úa jóia -, polo trabalho que leva, o qual boi 
se deu a António Rodriguez, do conde, por levar a bandeira por seu pai, 
Artur Rodriguez, que, por ser muito velho, não ia fora, do qual boi en- 
tendo de contar que, ficando úa noute fora da vila e chovendo e fazendo 
escuro, se veio á porta da vila, donde esteve esperando que algum lião 
viese ter com ele e matase sua fome nele, mas outrem o tirou dese cui- 
dado, porque, acertando quatro mouros de pé vir ao derredor da vila a 
buscar aigúa cousa que fora ficase, vendo o boi estar á porta, o tomarão 
e, deitando-lhe úa corda de palma, que para semelhante cousa trazião, o 
mais escuso que pudérão, fôrão demandar a praia e, pasando polo pé do 
baluarte de Santa Cruz, fôrão vistos de Roque de Farão, que acertou de 
ser roída aquele quarto da prima, e como era homem do campo e per- 
visto, afirmando-se do que era, sem dar rebate, o veio dizer ao capitão, 
que ainda o achou á mesa, e cora ele Diogo da Silveira, e, afirmando-se 
Roque que três ou quatro mouros de pé levávão um boi, fez logo o 

I. dous] dos A. — 1. jóia] jóia ou peça L; peça BNM. 



— 25 — 

capitão que Diogo cia Silveira se pusese a cavalo, e asi Roque com outros 
quatorze ou quinze de cavalo, que logo pudérão ser chamados, os mais 
do capitão, os lançou fora pola porta da Ribeira, indo Roque diante bus- 
cando o rastro, e ao Rio Doce dérão com ele, e, conhecendo Diogo da 
Silveira que levávão o caminho d'Alecasapo, os siguio, e através do Palhe- 
gal dérão com eles, e, remetendo-o Roque, levou um poios cabelos e os 
outros se salvarão e se apartarão todos três, de maneira que não fôrão 
mais vistos, e com o boi e um mouro se tornarão á vila, achando ainda 
o capitão, que por eles esperava. Deste pequeno feito foi o capitão muito 
contente, por a Diogo da Silveira lhe socederem as cousas em bem, e, 
abraçando-o, lhe deu muito louvor, e asi louvou muito a Roque, por não 
dar rebate, e o seu quinto deu a Diogo da Silveira e a Roque, que o par- 
tisem polo meio ambos. Pola menhã toda a vila folgou com o mouro 
tomado, e mais António Rodríguez com o seu boi, ainda que ele foi um 
dos que aquela noute fôrão fora, e tãobem era António Rodríguez, veador 
do conde. O mouro ouve Dom João de Sande e o trouve pêra Portugal, 
donde lhe fujio e tornou pêra o Farrobo, donde era. Com a nova deste 
mouro foi Artur Rodríguez fora com vinte cinco de cavalo, e não fez 
nada, por estarem a recado, que, tendo nova dos três mouros, que esca- 
parão, como o capitão tinha lingoa e nova pêra entrar, se ajuntarão e 
armarão com jente de pé; mas não tardou muito que o capitão não tornou 
a ir fora com sua bandeira e jente, levandoo um mouro a Ga aldeã, e 
pasou desta maneira. 

Um mouro a cavalo se veio tornar cristão e, sendo conhecido de Diogo 
da Silveira e ser criado do alcaide d'Alcacere, o capitão lhe fez muita 
honra, e, tornado cristão, lhe puserão nome João da Silveira, e o pôs á sua 
mesa, antre muitos fidalgos que na vila estávão, c certo que ele, em sua 
pesoa e conversação, parecia aparelhado pêra todo o bem, e, porque 
adiante direi os abalos e mudanças era que andou jugando com a fé e 
como acabou, como suas obras merecíão, neste lugar somente direi como 
nos levou duas vezes fora. 

A úa foi esta, que, levando o capitão com toda sua jente e bandeira 
pola boca de Benamares dentro, indo ao longo da ribeira junto dos fachos 
de Mençara, se deixou vir a menhã, de maneira que amanheceo antes que 
chegasemos á aldeã, donde iamos, e, vendo o capitão que não podia fazer 
cousa que boa fose, por sermos descubertos e ser já menhã, mandou 
voltar a bandeira e nos tornamos pola faldra de Benamares, e junto com 
as tranqueiras nos sairão quatro ou cinco de cavalo e obra de cem mou- 
ros de pé. os mais adargados, com os quais alguns dos nosos fôrão travar 
escaramuça, mas eles estivarão ás tranqueiras com tanto concerto e re- 
cado que os nosos se tornarão, sem se fazer cousa que pêra escrever seja 
pêra o capitão, que no Tojalinho estava muito perto de suas tranqueiras, 
£, saindo-nos da boca por Benamandux, nos viemos á vila; e porque, 

ANAIS DE ARZILA 4 



— 26 — 

antes que desta aldeã, chamada Alinaçar, tornasemos com o dito João da 
Silveira, em Arzila pasárão muitas cousas e muito grandes, que não é 
pouco de contar e escrever, deixarei a ida pêra seu tempo e irei contando 
o mais que pasou em Arzila, indo polo istilo que levo a meter-me em um 
revoltoso labarinto, donde ouvera mester outro que milhor contar e com- 
poer o soubera fazer que eu. 



CAPITULO IX 

Como el-rei de Fé^ deceo abaixo e corrm a Tanjere e Arzila 
e correndo do Tojal matou fia atalaia e cativou outra 



NÃO tardou muito que el-rei de Fez com todo seu poder não deceo 
abaixo, pêra correr a Tanjere e Arzila, e, pasando por noso campo 
sem ser sentido, correo a Tanjere, da qual corrida o capitão, An- 
tónio da Silveira, foi avisado, asi pola artelharia que ouvimos, como por 
cartas do capitão de Tanjere, Dom Duarte de Meneses,o d'Evora, que 
logo aquela noute, por um barco que a Arzila veio amanhecer, avisou 
como lhe correra muita jente, e que era el-rei, com a qual nova o capitão 
esteve a bom recado, trazendo seu campo recolhido e suas atalaias ao 
derredor da vila, quanto bastava pêra o gado comer e beber sem perigo, 
pois el-rei, por força, quando tornase, avia de dar vista á vila; e, com 
esta ordem, estando duas atalaias no Tojal sobre o Rio Doce e outras 
duas sobre o vale de Jorje Vieira, todos quatro homens de bom recado, 
estava el-rei em Alfandequim, um tiro de besta ou d'espingarda deles, e, 
vendo que as atalaias estávão a bom recado, por estarem todos quatro a 
cavalo, se detriminou el-rei de os mandar saltear a pé e, pêra se fazer ', veio 
Alebenaix, que pouco avia que sairá de cativo de Tanjere, porque Mulei 
Abrahem não leixava estar os cavaleiros que o servião muito tempo em 
cativeiro, o qual Alebenaix com outros sete ou oito do Farrobo, a pé, polo 
ervaçal e com as barrigas polo chão e as lanças polo alvado, se viérão 
sobacar junto das atalaias, sendo um Francisco López Galeguinho, homem 
mancebo, asaz vivo e esperto e de bom recado, e o companheiro o Encal- 
mado; e, tendo Francisco López o milhor cavalo que na vila avia, e que 
não avia oito dias que por ele dera quanto tinha, dando por ele corenta 
cruzados e um mourinho, que valia outros tantos ou mais, a Antão Rodrí- 
guez, doendo-se do cavalo, que comprara pêra salvar sua pesoa, se acertou 
a decer e, tomando o cavalo polas rédeas, foi salteado dos de pé, que 
junto com ele estávão, com tamanha grita que o cavalo lhe fujio das 

I. fazer] fazer bem B N L M. 



— 27 — 

mãos; e, como Francisco López era liomem vivo e acordado, pondo a 
delijencia na salvação dos pés e dcitando-se polo Tojal abaixo, se pudera 
muito bem salvar dos de pé que trás ele vinhao, mas, como seu fado era 
chegado, ele foi logo alcançado da jente de cavalo, que logo saio do Pon- 
tal, e com infindas de lançadas ficou morto, e o companheiro, deitado fora 
do caminho, foi cativo e levado a el-rei pêra lingoa; e Fernão Machado e 
Pêro Fernàndez o Torto, que sobre o vale de Jorje Vieira estávão, vendo 
salteado Francisco López com homens de pé, lhe quiséráo acorrer, como 
bons companheiros, e, correndo pêra o Tojal, se acharão atalhados da 
jente de cavalo, que do Pontal saio, e, não podendo tomar o Rio Doce, 
tornando por detrás, se lançarão polo porto d'Alemoquique e, não podendo 
tomar a vila, por a jente ser primeiro no Facho que eles, se deitarão polo 
campo e, tomando a Atalaia Alta e Mijeleo, se salvarão. 

O capitão, António da Silveira, tanto que saio a repique e vio a praia 
cheia de jente, se deixou estar no adro, por dar lugar á artelharia, mas os 
mouros, como érão muitos, rompendo o valo do Rio Doce, se pasárão ao 
Facho, donde o capitão se foi ás tranqueiras, por travar algúa escaramuça 
com eles, o que não ouve efeito, que, como jente cansada e que avia dias 
que andávão no campo, se recolherão. Logo ao outro dia fomos por 
Francisco López, o qual achamos despojado de toda carne, ou de muitas 
lançadas, ou comesto' dos adibes; e deixou Joana Fernàndez, sua molher, 
muito moça e asaz fermosa. Fiz esta tão meuda relação, por ser esta a pri- 
meira vez que el-rei em pesoa correo Arzila em tempo do capitão António 
da Silveira, e, se Francisco López tivera o recado que o capitão lhe enco- 
mendou estivese, el-rei se tornara desta vez sem fazer cousa algúa. 



CAPITULO X 

Em que se conta a causa porque se moverão Miilei Abrahem 

e o alcaide d'Alcacere a se verem no noso campo 

e se concertarão a correrem Arzila em dia asinalado de Corpo de Deos 



MUITO cuidado e trabalho me tem dado a ordem e maneira que terei 
em contar o desmancho e desordem do dia de Corpo de Deos, 
em que Álvaro Pírez de Távora foi morto e seu irmão Lourenço 
Pírez de Távora cativo, com Manoel da Silveira e outros dezasete ou 
dezoito moradores, antre mortos e cativos; e porque neste dia aconte- 
cerão muitas cousas e todas em um mesmo tempo, e posto que a tudo 
ou ás mais delas eu fui presente e nesta cidade estão pesoas que tãobem 

1. coraesto : isto é, comido. 



— 28 — 

se acliárão nelas e ouverão mais parte do trabalho e medo que eu, por 
Francisco Lionárdez ser em aquele dia cativo com muito risco de ser 
morto, e Diogo da Silveira, que foi derrubado, que, tornando-se a pôr a 
cavalo, não podendo aver a vila, se lançou ao campo, donde se salvou, 
os quais me podem reprender, saindo da verdade, todavia, conheço que, 
pêra poer cada cousa em seu lugar, ouvera mester outra pesoa que o mi- 
Ihor soubera contar, pois em mim outra coisa não ha, somente a confiança 
de ser lembrado do que em meu tempo pasou, conhecendo que a policia 
e bom falar desta corte e reino a não ha em mim, somente a anteguidade 
em que me criei, a que sou muito afeiçoado, fazendo-me nunca mudar a 
petrina de seu lugar, quando a costumávão polas verilhas, como no prin- 
cipio tenho apontado ; e, com esta ordem e condição, irei meu caminho, 
lembrando o que este dia de Corpo de noso senhor Jesu Christo pasou, 
ordenando-o ele asi por seus secretos juizos, o qual pasou desta ma- 
neira. 

O costume que avia em Arzila era honrar e celebrar os semelhantes 
dias com úa solene procisão, disparando muita artelharia, que, por sua 
ordem, os baluartes dcitávão de si, em tanto que a procisão andava pola 
vila, e as portas se não abriáo até a tarde, que, descobrindo as atalaias a 
Atalaia Ruiva e o Corvo, bastava pêra o gado sair a pacer poucos boca- 
dos. Pois sendo já tanjida a bespera deste dia de Corpo de Deos do ano 
de mil e quinhentos e vinte e seis, as atalaias sairão a fazer seu oficio, 
saindo até o Facho o adail João Moniz e Diogo da Silveira com outros 
seis ou sete de cavalo. Em tanto que eles vão descobrindo, contarei 
como Mulei Abrahem e o alcaide d'Alcacere se virão no noso campo e 
viérão correr em o mesmo dia a vila, o que pasa asi. 

Neste tempo morreo o belicoso e guerreiro rei de Féz, Mulei Mafa- 
made, e, tendo seu filho, Mulei Hamete, muito homem e pêra ser rei, 
leixou o reino a Mulei Bohaçum, seu irmão, por erdarem os irmãos o que 
foi de seu pai, porem a seu filho, Mulei Hamete, deixou por huzir ■ e er- 
deiro, que por morte do irmão tprnase o reino a ele, o que foi causa de 
muitas disenções e deferenças e causa da morte d'cl-rei Mulei Bohaçum. 
Desta ordem e eleição d'cl-rei novo, .Mulei Abrahem, filho de Ale Barraxe, 
não foi contente, pola muita amizade que antre ele e Mulei Hamete avia, 
e quizera que logo ficara por rei. Este descontentamento deu logo a en- 
tender, não querendo ir a Féz, nem a chamado d'el-rei, nem lhe quis dar 
obediência, antes escreveo a Mulei Hamete que, se ele se fizese rei, ele 
era seu e o serviria como leal, e, porque estas mudanças e deferenças 
érão de muito peso, quis Mulei Abrahem conformar-se com o alcaide 
d'Alcacere Quibir, seu cunhado, irmão de cite - Olim, com quem Mulei 

I. huzir [= uzir] : o mesmo que alguazil, alvazil, etc, isto é ministro de estado. Pro- 
núncia do árabe vulgar. — 2. cite, senhora, /e»!Í»i»io de cide, senhor. 



— 29 — 

Abrahem era casado, que era o mais valoroso alcaide do reino, e, concer- 
tados, se viérão ver ao nosso campo; e, porque estas vistas não soasem 
em Féz mal do alcaide, se concertarão que era pêra correr Arzila, como 
correrão com asaz dano da vila, e, porque as cousas deste dia fòrão mui- 
tas, as repartirei em mais que neste capitulo, por não enfadar aos que o 
lerem e por que milhor se entêndão as particularidades deste dia. 



CAPITULO XI 

De como Miãei Abrahem e o alcaide d'Alcacere correrão Arzila 
e do dano que Ji^érão e de como armarão com almogavares 



TANTO que nestas vistas e junta de Mulei Abrahem e do alcaide d'Al- 
cacere se deu a ordem que llies milhor pareceo que teríão na que- 
bra de Mulei Abrahem e el-rei, o dia de Corpo de Deos, que 
aquele ano caio aos vinte nove de maio do dito ano de mil e quinhentos 
e vinte e seis, se viérão lançar no Palhegal, sobre o porto d'Alemoqui- 
que, muito perto da vila, ao qual Palhegal alcançava um tiro groso que 
na vila avia, que agora está em Tanjere, chamado Lião, e, mandando 
meter no porto a Alebenaix, almocadem do Farrobo, com vinte dous de 
cavalo, lhe mandarão que correse ás atalaias até as tomar ou encerrar ', e 
que se recolhesem polo porto do Canto, um tiro de besta mais alem que 
o d'Alemoquique, porque, indo alguns dos nosos após eles, lhe ficasem 
os alcaides e jente ao través e, saindo, os atalhasem, de maneira que os 
que pasasem após eles se perdesem, e, com esta ordem, se veio Alebe- 
naix meter na ribeira ou porto; e, porque destes almogavares saio um 
notável feito de um dos cavaleiros do Farrobo, chamado Alé Çaidão 2, o 
qual, polo ardil ser mais efeituado, se ofereceo a cerrar a tranqueira da 
Pontinha, no valo do Facho, pêra que alguns, se a viesem demandar, vindo 
fujindo, se perdesem, e, pondo-o por obra, se veio meter em. úa ribeira, 
junto da tranqueira, pêra que, tanto que ouvise o repique e rebate, correr ' 
a tranqueira, e, com esta ordem, os alcaides e Alebenaix e Alé Çaidão espe- 
rarão [que] 'í as atalaias os fosem descobrir, como fôrão, e, tendo descu- 
berto Bugano e o Corvo, iia foi descobrir a ribeira, donde lhe sairão os 
almogavares e a viérão tomar sobre o vale do Facho, á vista do adaii, 
João Moniz, e de Diogo da Silveira, os quais, pasando o vale, fôrão logo 
com os mouros e, conhecendo ser Alebenaix e os do Farrobo, os seguí- 

1. encerrar] encerar A, mas anteriormente sempre como no texto; ensacar B N L M» 
— 2. Alé Çaidão] Ali Çaidão L; Ali Saidão BNM. — 3. correr: antigo imperfeito do 
conjuntivo, como já dissemos no tomo i, p. 433, nota 2. — 4. [que] f. A. 



— 3o — 

rão, mas, como os mouros érão mais de vinte e os nosos seis ou sete, se 
fôrão detendo, até chegarem alguns mais, mas Alebenaix, como homem 
manhoso, vendo os nosos junto de si, deixando o porto d'Aiimoquique, 
foi demandar o do Canto, que, como está dito, é um tiro de besta mais 
alem, por lhe ficar a jente ao través: certo cegueira grande dos nosos e 
pêra reprender, que vendo deixar os almogavares o porto mais perto, por 
donde se milhor podíão recolher e salvar, e ião buscar o mais cumprido, 
sinal era pêra ver que tinhão costas, mas, como dizem, a ora má toda 
razão é cega; mas, como a este tempo o capitão chegase ao Facho com 
alguns de repique e vendo os seus ir nas lombas do Corvo, apegado com 
os almogavares, pasando o vale, se foi poer sobre o Corvo, donde logo 
fôrão com ele os mais da vila, e, vendo já o adail com alguns desman- 
dados ao porto do Canto, lhe pesou, mas Álvaro Pírez de Távora, que 
com ele estava, lhe pedio licença, e alguns dizem que lh'a não quis dar e 
outros que lh'a deu, que com vinte de cavalo não pasase o porto e, 
achando nele o adail, de sua parte lhe disese se recolhese e não fose mais 
adiante; mas como a este tempo, com muito alvoroço, chegasem Cris- 
tóvão Rodríguez Chamiço, que já tenho nomeado, que Dom Jorje tirou 
a Amelix, e Estêvão Fernândez, atalaia, dizendo : «Mouro tomado, mouro 
tomado!» a qual nova e alvoroço, o primeiro que a tomou foi Dom João 
de Sande, e logo arrincou detrás de Álvaro Pírez, e asi o fez Lourenço 
Pírez de Távora, seu irmão, e Manoel da Silveira e outros muitos mora- 
dores, os quais o capitão não pode ter, posto que andou ás trochadas com 
todos nós outros, espancando a uns e nomeando a outros, de maneira que 
se lhe soltarão mais de corenta de cavalo, sem os poder ter, e com os 
mais se deixou estar, desejando que o adail não pasase o porto, com o 
qual era Diogo da Silveira e Fernão da Silva, que, como neste tempo não 
queria consentir que ninguém pusese a lança primeiro que ele, tãobcm foi 
dos desmandados. 

Em tanto que estes desmandados vão fazendo o desmancho que fizé- 
rão, contarei como se tomou este mouro, de que a nova chegou ao capitão, 
que foi causa de maior dano. Já neste capitulo apontei como Ale Çaidão, 
da companhia dos almogavares, se ofereceo cerrar a tranqueira da Pron- 
tinha, donde o valo do Facho se ajunta com o Rio Doce. Pois tanto que 
ouvio o rebate, saindo da silveira, se veio á Pontinha pêra a cerrar, donde 
já achou a Vasco Morgado, que oje é vivo e vive no Cabo Verde, que, 
achando-se sobre a Pontinha, visitando uns fios que [a]hi ' tinha armado 
ás lebres, e, vendo ao adail arrancar do Facho e pasar o vale, quis tra- 
vesar pola Pontinha e se ajuntar com ele, de maneira que ambos se acha- 
rão á tranqueira, os quais ambos se fôrão encontrar, por ambos não terem 
outras armas que suas lanças e pequenas adargas, mas o mouro, como 

..[a]/. A. 



— 3i — 

vise vir gritando Estêvão Fernàndez, . que vinha demandar a tranqueira, 
logo se rendeo, pedindo que o não matasem, e, preguntado que jente era, 
dise que Alebenaix, e, por tãobem chegar o Chamiço, ficou o mouro em 
poder de Vasco Morgado, que muito bom cavaleiro é, que com ele se 
veio á vila, acompanhando-o já outro homem de pé. O Estêvão Fer- 
nàndez c o Chamiço fòrão demandar o capitão, que fòrão causa do dano 
ser maior, e Vasco Morgado trouxe o mouro á vila, donde já chegou com 
rebate de ser jente grosa, por o facheiro capear e a jente vir pegada com 
o capitão; e sem duvida que o mouro fora morto dos rapazes se soubérão 
o dano que já era feito e se fazia, mas Vasco Morgado o entregou á porta 
da vila a Álvaro Velho, sobre-rolda, e se foi ás tranqueiras, donde já o 
capitão estava com nós outros bem agastado. 



CAPITULO XII 

Proseguindo' adiante se conta como a jente saio da cilada 

e o que o capitão fe\ até chegar ao tabuleiro do Facho 

donde fazendo volta lhe matarão o cavalo 



POIS tenho dado a entender donde os alcaides Mulei Abrahem e o 
d'Alcacere estáváo, e asi os almogavares, e [o] ' mouro como se 
tomou, e asi o capitão donde estava e como a jente se lhe soltara, 
agora tornarei a contar como a jente saio da cilada e como chegou ao 
capitão, antes de chegar ao Facho, e o dano que fez, o que pasa desta 
maneira. Da atalaia do Palhegal, donde os alcaides estávão, virão muito 
bem tudo o que seus almogavares fizérão e como os nosos ião após eles, 
e asi donde o capitão estava e os que dele se avião apartado, e, vendo 
que os seus érão sobacados e metidos no porto do Canto e que os nosos 
érão já na varzia, sairão, dando logo amostra das bandeiras, e mais de 
mil e quatro centos ou mil e quinhentos de cavalo fôrão vistos do capitão 
e de nós outros e vindo demandar o porto d'Alemoquique, e, como aquele 
pouco espaço de terra chã é descuberta =, logo fôrão no porto e, pasando-o, 
fôrão com o capitão, o qual, visto o desmancho que já era feito, querendo 
remedear algúa parte dele, se deixou estar, recolhendo a si muitos que da 
vila vínhão e outros que a ele se vínhão salvar; e foi esta detença tão 
proveitosa que muitos dos que érão perdidos se salvarão, porque, vendo 
os mouros dianteiros o capitão estar quedo, não ousarão cortar os que 
vínhão fujindo, com medo do capitão dar neles e os levar até o porto, o 
que se pudera fazer se o capitão estivera com toda sua jente, como já 

I. [o]/. A. — 2. de terra chã é descuberta] é terra chã e descuberta BNLM. 



- 32 — 

outra vez cometeo, e, com este receo, se detivérão até as bandeiras pasa- 
rern e, pasadas, fôrão logo nas lonnbas com o capitão, o qual se começou 
a recolher com brados de Fernão Caldeira e de Pêro López, escrivão, e 
outros que dizendo-Ihe não ser razão de mais estar ali se começou a re- 
colher, vindo, todavia, alguns dos nosos a fio, metendo-se sempre connosco; 
c, sendo já em baixo no vale, nos matarão a Vasco Lourenço Aljofarinho, 
que, vindo diante de Dom João de Sande, caio antes de chegar ao vale 
e foi logo morto, e por eles pasou Dom João de Sande tão rijo que os 
mouros e nós ficamos espantados, por aver diante dele Já muitos mouros, 
e certo que ele vinha no milhor cavalo que em Arzila de Castela entrou, 
chamado o Ravenga, por aver sido de Roque Ravenga, e a meu parecer 
diria que Dom João de Sande vinho sem lança, pola já ter empregado, e 
logo matarão a João Díaz, do conde, e alcaide do mar d'Arzila, que de- 
trás de Dom João vinha, e asi a Duarte Páiz, criado d'el-rei, e outros 
que já ficávão atrás mortos com Álvaro Pírez de Távora e João Vaz Aljo- 
farinho e Francisco Lionárdez e João Marinho, do capitão, que detrás de 
João Vaz vínhão, não podendo aver-se com o capitão, correrão ao longo 
do vale, indo alguns mouros detrás deles, e, chegando ao porto do Camelo, 
João Vaz, que ia diante, se deceo, e dizendo a Francisco Lionárdez; 
«Apeai-vos aqui e mouramos como homens com nosas lanças nas mãos, 
e não nos matarão, indo fojindo, e por detrás», e logo Francisco Lionárdez 
foi a pé, e, juntos ambos, chamarão a João Marinho, o qual, não podendo 
tomar o porto, nem ajudar-se com eles, foi morto junto deles de muitas 
lançadas; e, acabando de fazer esta obra, começarão outro tanto aos dous 
companlieiros, Francisco Lionárdez e João Vaz, mas, achando-os com as 
lanças nas mãos. os fizérão afastar da silveira, não querendo nenhum ser 
o dianteiro em chegar a eles, e com esta pouca detença se juntarão corenta 
ou cincoenta de cavalo e tendo grande barafunda, porque os não entrávão 
e matávão. Um mouro honrado de Mulei Abrahem, chamado Bujima ', 
lhes falou, dizendo que se entregasem, e, por João Vaz dizer que se não 
avião de entregar, por que os não matasem como ao outro, o mouro 
começou a bradar e dizer: « Yo soy de Mulei Abrahem y su criado y 
pariente y prometo de no os matar ' y no querais morir como perros pues 
está ^ aqui mucha gente y no ay en que os defender ny esconder» * e tanto 
perfiou, fazendo afastar os outros pêra a parte d'Arzila, que Francisco 
Lionárdez se detreminou d'entregar, contradizcndo-lh'o João Vaz, porque 



I. Bujima] Benjuma B N L M. Nos passos a seguir igualmente assim. — 2. matar] 
matay A. — 3. está] no está A. — 4. y prometo... ny esconder] y vos prometo de vos 
não matar e nã queyraees morir como perros pues está aquy mucha gente e nõ hay em 
que vos defender nem esconder L ; yo os prometo de no mataros y no queirais morir 
como locos pues está aqui mucha gente y no ay con que defenderes ni esconderos B 
NM. 



— 33 — 

o avião de niatur depois de tomado, e que o mouro, [ajinda ' que quiscse' 
não no avia de defender dos outros, e, polo muito que o Benjima fazia, 
Francisco Lionárdez se saio e se entregou, e logo João Vaz, chamando 
Benjima, um dos mouros d'Alcacere, o tomou nas ancas, e ele tomou a 
Francisco Lionárdez e, não querendo juntar-se com os outros, que todos 
érão d'Alcacere, se veio com ele só caminho das bandeiras, donde ainda 
pasou muito risco e medo de ser morto, porque topando com outros 
[mouros] = andou ás lançadas com alguns, até chegarem outros de Mulei 
Abrahem que o favorecerão e acompanharão até sobre o vale, donde já 
as bandeiras estávão. 

E tornando ao capitão que, pasando o vale, logo a jente foi com ele, 
mas, como ele vinha cerrado e sobindo pêra o Facho, não ousarão apegar 
com ele, receando que voltase [e] ^, pola ladeira abaixo, os levase até o 
vale, mas, tanto que fomos no tabuleiro do Facho, logo pegarão tão rijo 
que ao capitão foi forçado voltar, mas a volta foi tão fraca, por culpa 
do capitão não trazer a )ente requerida e avisada, que todos ou os mais 
nos desculpamos que o não ouvimos, mas ele, dizendo: «Volta!», virou, e 
outros quinze ou vinte que junto dele se acharão, e, metendo-se antre os 
mouros, lhe dérão com íia lança d'arremeso na testa do cavalo, com tanta 
força que, ficando empenada, o cavalo caio morto no chão, mas o capitão 
foi logo fora dele e com muita presteza se pôs em outro que um criado 
seu lhe deu, que, vendo a seu senhor a pé< se lançou fora do cavalo e 

lh'o deu, e, tomando-o o capitão, o criado, que 4 avia nome ^, 

foi logo morto de muitas lançadas, junto do cavalo do capitão, o que foi 
por culpa sua, porque, tanto que deu o cavalo, se pudera lançar á tran- 
queira ou ao valo, porque, tanto que o capitão foi a pé, se alevantou 
grande grita, asi dos de cavalo como da jente de pé, que estava no Facho, 
dizendo: «O capitão a pé!i Todos voltamos, e, fazendo afastar os mou- 
ros, teve o capitão lugar de se poer a cavalo e ele de tomar a tranqueira 
e o valo, mas pareceo que, tomando algúas lanças do chão, esperou que 
se derrubase algum mouro pêra lhe tomar o cavalo, mas, sendo já os 
mouros muitos e com vitoria, tornando a pegar connosco, nos meterão 
polas tranqueiras dentro ás lançadas, com asaz desgosto do capitão, asi 
polo dano feito, como poios moradores não voltarem com ele, e, asi polo 
contrairo, louvou muito aos que com ele se acharão, especialmente a Fer- 
não de Matos, que com Dom João de Sande foi a Arzila e já era casado 
com Caterina Afonso, que nesta cidade anda, e depois lhe fez muita honra 
e mercê, polo ver junto de si, ao tempo que o cavalo caio, e não se pode 
tirar aos moradores voltarem sobre seu capitão e se poerem diante até 
tomar cavalo, e depois o conheceo e os louvou. 

I. [aj/. A. — 2. [mouros]/. A. — 3. [e]/ A. — 4. ...] em branco A. — 5. o criado... 
avia nome] o criado antes que o tomase B N L M. 

ANAIS DE ARZILA 5 



-34- 



CAPITULO XIII 



Proscguiiido se conta de um soberbo recado 

que o alcaide d'Alcacere ttiatidou ao capitão António da Silveira 

e da reposta e o que mais se pasou 



POIS já tenho a Francisco Lionárdez e a João Vaz em poder dos al- 
caides, onde os trouxérão muito contra sua vontade, e o capitão 
metido polas tranqueiras dentro, faltando-lhe bem trinta de cavalo, 
ei estado e detreminado se tornaria a contar o que aconteceu ao adail 
João Moniz e a Diogo da Silveira, que ao porto do Canto estavão, e asi 
aos fidalgos já nomeados e outros muitos moradores, de como uns fôrão 
mortos e outros cativos e outros se salvarão, ou me tornaria ao capitão; 
e, por estar mais perto dele, me cheguei a contar um recado e desafio 
que o alcaide d'Alcaccre com asaz soberba lhe mandou, o que pasou desta 
maneira. 

Estando o capitão á tranqueira de Baixo, acompanhado ' de todos nós 
outros, com muita tristeza, por alguns mouros andarem com aigúas 
cabeças nas pontas das lanças, o alcaide, com muita soberba, mandou 
um recado ao capitão, e, fazendo um mouro sinal que queria falar ao 
capitão, o mandou chegar e, metendo-se connosco, foi logo conhecido que 
era Alé Algazí -, cavaleiro do alcaide d'Alcacere, c, chegando ao capitão, 
lhe dise: «Senhor capitão, o alcaide meu senhor diz que ele está ao Facho 
com sua gente, prestes pêra pelejar convosco, se quereis, em nome de 
Deos, vosa cabeça com a sua, ou tantos por tantos». Recado, certo, foi 
este mais de bárbaro soberbo que de capitão arrazoado, pois em tempo 
de o mandar visitar e consolar, como logo aquele dia fez, depois de ser 
satisfeito do capitão com muita honra, como logo direi. 

Visto o recado e desafio do alcaide polo capitão, António da Silveira, 
muito manso e sem nenhija cólera, nem soberba, lhe respondeo e, com a 
palavra mansa e cheia de muita freima, de que ele era muito senhoreado, 
lhe dise: «Vós tendes cincoenta cruzados de mim, se iso que dizeis vier 
a efeito, e um capelar de ezcarlata, por isso fazei com o alcaide que cum- 
pra o que dizeis, que eu, vedes-me aqui, estou prestes»', e, chamando a 
João de Deos, lhe dise : «I com este cavaleiro e dizei ao alcaide que sou 
contente, e logo se quer sua pesoa com a minha, em nome de Deos, se 
tantos por tantos que nos mande contar e se aparte de maneira que seja 
logo» ; e com isto deu a andar pêra o Facho, dizendo-nos a todos: «Muito 

I. acompanhado] acompanhados A — a. Alé Algazí] Ah Gazi B N L M. 



— 35 — 

bem sei que bastais pêra dous tantos como vós outros; se o alcaide quiser 
a mim só, eu espero em Noso Senhor de vos tirar de trabalho, e, não 
querendo senão tantos por tantos, tãobem espero nele que nos ajudará, 
pois lhe temos tão conhecida ventaje». 

João de Deos chegou ao alcaide, que já pasava o vale, e dele foi bem 
recebido, por aver cinco anos sido seu cativo, e, dando-lhe o recado do 
capitão, com muita soberba, dizendo abesmille '», que quer dizer «em 
nome de Deos», com muita fúria tornou o cavalo e começou a tornar pêra 
o Facho, e asi tornarão todos os seus e sua bandeira, tão cego que outra 
cousa não dizia senão: «Até a tranca ^» ; mas Mulei Abrahem, como o vise 
tornar e soube o que era e o recado que ao capitão mandara, veio com 
muita fúria a ele e, bradando muito rijo, o reprendeo e o fez tornar muito 
mais manso do que dantes parecia, e, vendo a João de Deos, lhe dise; 
«Dizei ao senhor capitão que lhe peço muito por mercê que não olhe ás 
palavras de meu cunhado, que são de louco, e que oje foi noso dia e 
outro será seu, e que estes são os fruitos que a guerra dá aos que a úsão, 
e que meu cunhado está arrependido em o mandar anojar, e que ele e eu 
faremos o que sua mercê mandar, e que não olhe ao recado mao, e que 
agora avião trazido a Lourenço Pírez de Távora e a Francisco Lionárdez 
e a João Vaz, e que avendo outros vivos lh'o faria saber», e o alcaide 
muito manso lhe deu um fino bedem; e, tornando a mandar ao Alé Al- 
gazi com João de Deos, nos viérão tomar ao Facho, e Alé Algazi fez 
muitos oferecimentos ao capitão de parte do alcaide. O capitão, já mais 
desagastado, com desejos de saber de seu primo Manoel da Silveira e de 
Álvaro Pírez de Távora, e de Manoel da Silveira se era morto, porque, 
sendo morto, logo sua cabeça avia de ser trazida aos alcaides, — pois 
tornando João de Deos, os foi tomar ás lombas do Corvo, donde já Ma- 
noel da Silveira estava, asaz mal ferido de três lançadas, Ga delas asaz 
perigosa, por ser por de baixo do braço dereito. Os alcaides ouvérão 
sua vitoria por muito mór em terem cativo a um primo do capitão, e, com 
este contentamento, mostrarão todos quatro cativos a João de Deos e lhe 
deixarão falar com eles, e, parecendo a Francisco Lionárdez e a João Vaz 
que João de Deos vinha tãobem cativo, o receberão com lhe dizerem : 
«Venhais muito eramá ^b, e João de Deos lhes respondeo : «Asi estiveseis 
vós outros como eu venho, pois venho a saber de vós outros» ; e, depois 
que lhes preguntou por Álvaro Pírez de Távora e Diogo da Silveira, se 
quis tornar, mas logo Lourenço Pírez de Távora lhe dise que lhe parecia 
que vira levar a um mouro o cavalo ruço de seu irmão, e, pois ele não 
era na vila, erajnorto. 

Dali se detriminárão os alcaides de mandar visitar ao capitão, o que 

1. besmille] bezmile L. — 2. trancaj tranqueira B N L M. — 3. eramá] expressão an- 
tiga por em hora má. 



— 36 — 

fizérão por Benganeme, pcsoa muito honrada e conhecida e da criação 
do alcaide, e filho do outro Benganeme que morreo na almogaveria de 
Nuno Fernândez de Taidc, como em tempo do conde de Borba já ei 
apontado, e com ele tornou o Alé Algazí e João de Deos, estando o ca- 
pitão com todos nós outros ainda no Facho, e Benganeme fez muitos 
oferecimentos de parte do alcaide, e Mulei Abrahem mandou dizer seme- 
lhantes palavras que as primeiras, que a guerra fazia seu oficio em dar 
semelhantes desgostos, e que muitos érão lançados pêra o campo, que os 
mandase recolher, porque eles os não mandaríão buscar, nem esperar, e 
que Manoel da Silveira e Lourenço Pírez de Távora seríáo bem tratados. 
Com tantos oferecimentos o capitão ficou muito sospeitoso, parecendo-lhe 
que tudo era a fim de saberem se Diogo da Silveira era salvo e, não 
sendo na vila, o esperarem, por Alebenaix dizer que o vira ao porto do 
Canto, e ser Diogo da Silveira a cousa que eles mais desejávão aver, e, 
como capitão sábio e prudente, quis prover e remedear que o não sou- 
besem e, fazendo muita honra a Benganeme e a Alé Algazí, os quis deter, 
trazendo-os à vila, mandando primeiro avisar a Jenebra de Brito, molher 
de Diogo da Silveira, que não chorase, nem mostrase sentimento, porque 
aqueles mouros não vínhão senão a saber se era na vila, pêra o manda- 
rem buscar e esperar, e com eles se veio á vila, donde esteve muito pouco 
espaço, e ele na vila veio João da Silveira, mourisco, que achando-se ao 
porto do Canto com Álvaro Pírez e os outros, vindo-se recolhendo e 
vendo os mouros diante, alanceando seu cavalo, se deixou quebrar antre 
uns fectos ', donde não foi visto, e, depois, tomando a ribeira, veio sair ao 
Rio Doce com sua lança nas mãos. Muito folgou o capitão cora a vinda 
deste mourisco, parecendo-lhe que, pois Deos o avia salvado, asi salvaria 
a Diogo da Silveira e aos outros que ao campo se avião lançado, e, com 
este alvoroço, não podendo sosegar, se pôs a cavalo com toda a jente, 
levando aparelho pêra trazerem os mortos, se foi ao Facho e, despedindo 
os dous mouros, lhes dise que disesem aos alcaides que, mandando-lhe 
um dos cativos, Francisco Lionárdez ou João Vaz, lhe daria Alé Çaidão, 
que aquele dia fora tomado, pois doutra maneira não avia de sair de cativo 
senão o mouro por João Vaz, como depois saio. 

Partidos estes dous mouros, o capitão mandou descobrir as atalaias, 
a Ruiva e Bugano e o Corvo, e não tardou muito que vimos asomar polo 
caminho das vinhas um de cavalo, o qual fòrão reconhecer alguns de 
cavalo, dos quais tornou logo Artur Rodríguez, mourisco e almocadem, 
pedindo alvixaras, que era Diogo da Silveira. O capitão lh'as deu muito 
boas, dando-lhe todo um vestido de pano azul de Ingraterra. Foi tanto 
o alvoroço e contentamento do capitão, em ver salvo a Diogo da Silveira, 
que parecia não sintir a perda que aquele dia recebeo, e logo ali contou 

I. fectos] feytos L ; feutos B ; fetos N M. 



-37- 

tudo o que no porto do Canto se pasara, e como Manoel da Silveira ficara 
em poder dos mouros, e de como ele se apartara do adail e de Fernão 
da Silva, o que pasou desta maneira. 



CAPITULO XIV 

Prosegtiindo se conta o que pasárão Diogo da Silveira e Fernão da Silva 

que com o adail se acharão ao porto do Cauto e se lançarão pêra o campo 

e de como cativarão a Manoel da Silveira 

que com eles ia 



PARECIA já que tardava em não dar razão do adail e de Diogo da Sil- 
veira, que trás os almogavares ião, e o que lhes aconteceo; e pois 
já está entendido todo o mais que em aquele afortunado ' dia acon- 
teceo, até Diogo da Silveira chegar ao capitão, e, deixando-o em querer 
gastar e trazer os mortos-, o que do dia ficava pasa asi: que, sendo já 
os nosos ao porto do Canto com os mouros, e vendo Alebenaix o fio da 
jente, que polo Corvo abaixo decia, por poer os nosos em mór cobiça, 
alargou ou fez alargar a atalaia que levávao cativo de Tendefe, detendo-se 
da outra parte do porto, como que queríao fazer algúa volta, mas, tornando 
a enfiar e pondo-se em fujida, posto que João Moniz, adail, como homem de 
recado não quisese pasar e requerese que não pasasem, todavia, seu sogro, 
João Coelho, mais alvoroçado do que requeria sua idade, pasou logo da 
outra parte, bradando e gritando que pasasem, e vendo os almogavares 
que voltávão com muita fúria que vendo a jente e bandeiras ir caminho 
do porto d'Alemoquique, o que ele tãobem vio, e gritando: «I-vos, i-vos!» 
tornou pêra pasar o porto e, não o podendo tomar, se lançou por cima 
de ua silveira ou carriceira, donde logo foi morto de muitas lançadas, e, 
querendo o adail, seu jenro, recolher e acudir, foi ferido de úa mortal 
lançada que o pasou de úa parte a outra, de que viveo, e Diogo da Sil- 
veira derrubado, e, os mouros por tornar a pasar e os nosos por lhe 
defender o porto, ouve algúa detença. 

Entretanto as bandeiras, tendo pasado o porto d'Alimoquique com a 
jente, sobíão polas lombas do Corvo acima, e, posto que os das lombas e 
outros que ião na varzia vendo a jente dávão rebate e se tornávão donde 
tomávão o rebate e víão a jente, os do porto do Canto estávão tão embe- 
bidos que, quando de lá sairão, já não virão remédio pêra se ajuntar com 
o capitão, e, todavia, Álvaro Pírez de Távora e seu irmão Lourenço 

I. afortunado] mal afortunado BNM. — 2. e, deixando-o... os mortos] e deixando 
que em buscar e trazer os mortos ficava gastado B N L M. 



— 38 — 

Pírez de Távora e os outros que se perderão e muitos que se salvarão 
cometerão as lombas, donde Álvaro Pirez de Távora foi morto com muitos 
que em sua isteira vínhão e Lourenço Pires de Távora cativo, e os que se 
salvarão foi pola muita detença que o capitão fez nas lombas do Corvo, 
como já fica apontado. Vendo Fernão da Silva e Diogo da Silveira e 
outros seis ou sete de cavalo, que com Manoel da Silveira fôrão, os der- 
radeiros que do porto sairão, a varzia e lombas do Corvo ocupadas já 
com a jente dos mouros, todos juntos tomarão ao longo da ribeira de Bu- 
gano, com vontade, se pudesem tomar a Atalaia Alta, averem o Soveral, 
mas Alebenaix e os almogavares, pasando o porto, logo fôrão junto com 
eles, e, levando-os apertados em dereito da fonte de Bugano, o cavalo de 
Manoel da Silveira deu a fé de todo e, apertando os mouros, com ele lhes 
ficou nas mãos, rodeado de muitas lançadas, das quais o defenderão ir 
bem armado de muito boas armas, as quais cobria úa fina marlota que 
levava vestida de úa grã rosada, e, conhecendo que era pesoa nobre, uns 
polo tomar vivo e outros polo matarem, fizêrão grande detença e acabarão 
de o render com três lançadas, afora outras muitas que as armas defen- 
derão, mas, como os mais érão do Farrobo e costumados a tomarem 
vivos os alcançados, lhe dérão a vida, ainda que alguns lembrarão a morte 
de Amelix, que pouco avia fora morto, sendo uns seus parentes e outros 
seus companheiros e amigos. 

Nesta detença, que estes mouros fizérão em a tomada e prisão de 
]\Ianoel da Silveira, tivérão lugar pêra se alargarem dos mouros o adail 
e Fernão da Silva e Diogo da Silveira, os quais tomando o córrego do 
Malhão, Diogo da Silveira, que seu cavalo sintia algíãa cousa fraco, se 
lançou no córrego e, metendo o cavalo em um pego cuberto de úa carri- 
ceira, com lança na mão se saio dele e se veio meter num bisnagai, junto 
da casa de Simão da Fonseca, em vista do seu cavalo ; o adail e Fernão 
da Silva e seus companheiros, tendo vista dalguns mouros, que pola Ata- 
laia Ruiva ião, carregando a Mijeleo, fôrão tomar atalaia sobre si e, vendo 
que os da Atalaia Ruiva e alguns almogavares carregávão ao rosto d'AI- 
fomar, por donde virão ir outros dous ou três de cavalo, que por antre 
as varzias tomarão, se leixárão estar e, não vendo ninguém, ao quarto 
d'alva viéráo demandar a vila, com muito trabalho que levarão em trazer 
ao adail, João Moniz, que, como vinha pasado de úa grande lançada e 
com falta do sangue, muitas vezes se esmoroceo; mas como ele era homem 
de grande esprito, tornando em si, dizia que o não deixasem, porque ele 
se esforçaria a vir como veio, e, sendo curado, sarou de úa grande ferida, 
mas o capitão deu logo o oficio e cargo de adail a Fernão Rodríguez 
Colares, seu criado, e não lh'o quis tornar depois de são, pondo-lhe algúa 
culpa, que por ele ir trás os mouros se fez o desmancho. Tornando a 
Diogo da Silveira, tanto que vio despejada a Atalaia Ruiva e não ouvio 
artclharia, como homem sábio e prudente, vendo que érão oras da jente 



-39- 

ser recolhida, e que sabendo os alcaides serem muitos lançados pêra o 
campo, e que avião de saber que ele era um deles, e como fose noute os 
avião de mandar esperar ás tranqueiras e tomar-lhe os caminhos, tornou 
a buscar o cavalo e, achando-o bom, se pôs em cima dele e, tomando o 
ribeiro de Jil da Mota abaixo, veio demandar a vila e sem achar contraste 
veio ter com o capitão, como atrás fica apontado; e com isto acabo de 
contar todo o mais que esta afortunada tarde em Arzila pasou, não sem 
muito trabalho meu em trazer á memoria cousas que depois de pasadas 
fícão detrás das costas, como em tomar enformação das particularidades 
deste dia da maneira que são contadas ', Porque, antes que estes alcaides 
saisem do noso campo e se apartasem, pasou Mulei Abrahem algúas pra- 
ticas e razões com os cativos, e asi a repartição deles e a afeição que 
Mulei Abrahem tomou com Francisco Lionárdez, fazendo-Ihe honra e 
mercê, parece-me que tudo será aprazível de ouvir e se saber, o porei 
aqui. 

Aquela noute não pararão até chegar a Alicototo, ao pé de Benagor- 
fate, donde logo veio infinda jente de pé com sua adiefa de comida, como 
o tem de costume, e Mulei Abrahem fez curar a Manuel da Silveira e a 
Lourenço Pírez, que feridos ião, e, trazidos ante Mulei Abrahem, lhes 
dise: «Senhores, nós estamos no campo, donde é razão que vos mande 
atar e guardar, mas, como fidalgos e cavaleiros que sois, se me prome- 
terdes de não fazer roindade, dormireis aqui em minha tenda». A estas 
palavras respondeo Francisco Lionárdez, como homem despejado, e pare- 
cendo-lhe fazia no partido dos fidalgos: «Senhor, entregue-m'os vosa 
senhoria a mim que eu darei conta deles». Mulei Abrahem lhe respon- 
deo: «Que segurança terei eu?^» [Respondeo o Francisco Lionárdez] ^ : 
«Minha palavra, que sou mais fidalgo que nenhum que aqui está». Mulei 
Abrahem lhe respondeo : «Por mi lei, rico estar eu, que nom sabia ter 
cativo tão bom fidalgo : eu quero que vós me deis conta destes fidalgos» * 
e, mandando pôr guardas derredor da tenda, mandou que estivesem sol- 
tos. Fôrão estas praticas causa de Mulei Abrahem o resgatar logo, e o 
mandou com seu recado a el-rei, noso senhor, e ao xarife, rei de Marro- 
cos, e depois de lhe tirar a mór parte do resgate e sempre lhe fazer 
muita honra e mercê, dando-Ihe por muitas vezes cavalos e bois e vacas, 
e isto basta pêra se entender o que entendo dizer ao diante, no que soce- 
deo a Mulei Abrahem e a Mulei Hamete, filho d'el-rei morto, fazendo-o 
rei de Féz e tirando o reino a Mulei Boaçum, tudo pola industria e saber 
e manha de Mulei Abrahem. 



I. e com isto. . . são contadas] /! B N L M. — 2. terei eu] tenei eu A ; terne yo B L M; 
tendre yo N, — 3. [Respondeo o Francisco Lionárdez] /. A. — 4. Por mi lei... destes 
fidalgos] Por mi ley rico estoy yo que no sabia yo tener cativo tam buen fidalgo. Yo 
quiero vos me deis cuenta destes fidalgos B N L M. 



— 40 — 

Pois tornando aos alcaides, logo ao outro dia pola manha, juntos os 
cativos e cavalos e armas e despojo, tudo foi logo vendido, avendo os 
alcaides os quatro cativos, e deles fizérão logo úa parte a Mulei Hamete, 
filho d'el-rei morto, de que Mulei Bohaçum foi queixoso, a ele não lhe 
darem parte. Aquela manhã, antes que fosem vendidos, foi trazido a 
Mulei Abrahem um relicairo e úa cruz de ouro que foi tirado a Álvaro 
Pírez, as quais relíquias Mulei Abrahem mandou a Lourenço Pirez, man- 
dando-lhe dizer que aquelas peças acharão a seu irmão, que as tomase, 
consolando-o. 

Tãobem podem dizer muitos como foi logo conhecido Lourenço Pírez, 
sendo tão moço e não avendo três meses que estava em Arzila e estando 
neste tempo os portos cerrados, que não ia, nem vinha ninguém? A isto 
digo que não ia pesoa a Arzila que logo se não soubese em terra de mou- 
ros, poios que ião e por cativos que cada ora tomávao, quanto mais que 
diz Francisco Lionárdez que, trazendo Lourenço Pírez diante de Mulei 
Abrahem e do alcaide d"Alcacere, logo um mouro lhe dise: «Lourenço 
Pírez ayer ninho y oy venir a guerra», e, querendo negar, lhe tornou: 
«Eu estar cativo de Dom Gonçalo Coutinho que tener la quinta em Capa- 
rica, junto com voestro padre, e cada dia conhecer a vós e a voestros 
hermanos». Pasado isto, Mulei Abrahem, tomando consigo a Manoel da 
Silveira e Francisco Lionárdez, dali mandou visitar ao capitão António da 
Silveira, escrevendo-lhe como ele levava seu primo, por ir mal ferido, e 
a Francisco Lionárdez, e o alcaide a Lourenço Pírez e a João Vaz ; e 
desta maneira se acabou esta junta destes alcaides que tanto dano fizérão, 
sendo pasado tudo isto que tenho contado em quinta-feira, dia de Corpo 
de Deos, do ano atrás dito de mil e quinhentos e vinte e seis. 

Porque, logo ao domingo seguinte, eu ouve úa perda [que] ' pêra mim, 
e - ser em principio de meu mundo, foi muito grande, [a porei aqui] 3, a 
qual foi que, tendo em minha casa o mourisco que foi meu escravo, 
que, como está dito, se fez cristão e avia tomado dous mouros á ponte 
d'Alcacere, e tendo eu úa moça mourisca, asaz branca e muito jentil 
molher, que se chamava Isabel, levantando-se esta moça Isabel a ir por úa 
talha d'agoa, domingo de madrugada, a Açacaia, como é costume, o mou- 
rico e mao cristão, ficando amedrentado do dia pasado de Corpo de Deos, 
detreminando de se ir pêra os mouros, e querendo levar algúa pesoa pêra 
pagar o que tinha feito, se foi á moça e, pondo-lhe a espada nos peitos, 
dizendo-lhe que a mataria se se não fose com ele, porque a avia de levar ou 
a avia de leixar morta, e, levando-a ao Miradouro, a lançou do muro 
abaixo, por um cabrestílho atada nele, e a si após ela ; e, sintindo eu que 
o mourisco era fora de casa, temendo-me, fui logo em pé e, chegando ao 
Miradouro, topei com o cabrestilho na bombarda, chamada o Grifo, e, 

I. [que] /. A. — 2. e] por B N L M. — 3. [a porei aqui]/, em todos os mss. 



— 41 — 

fazendo repicar, foi logo toda a vila em pé, e asi o capitão, e sabendo o 
que era e pedindo-lhe licença pêra com vinte de cavalo os irmos buscar, 
pois não podião ser senão muito perto, por aver muito pouco ' que érão 
fora, o capitão em tanto que esteve em duvida, fomos postos a cavalo muitos 
amigos meus, mas, como Fernão Caldeira chegase ao terreiro, contradise 
a ida fora, dizendo ao capitão que não era bem dar-nos a porta, por aver 
três dias que nos correrão mil e quinhentos de cavalo e que podíao estar 
no campo, e que um mourisco não parecia razão ir-se sem seguro e sem 
os alcaides o saberem, e que o mouro que viera com a carta de Mulei 
Abrahem, que ontem se avia ido, podia falar com ele e levar recado pêra 
o virem esperar cento ou dozentos de cavalo. Com estas razões, o capitão 
nos mandou decer, ficando eu muito agravado de Fernão Caldeira, ainda 
que sem razão, por suas razões serem muito soficientes, mas o perro 
esteve três dias embrenhado em Alfomar, íja legoa da vila, que, por ser 
já menhã, não pode pasar dali; mas, como o não fôrão buscar, eu perdi 
minha escrava moça, que bem valia cem cruzados, e outros cento que 
polo mourisco o capitão ficou de me dar das presas que ele fizese- 
Tãobem neste feito eu recebi agravo do capitão, porque, ficando deste 
mao cristão um cavalo e armas, que Álvaro Pirez e seu irmão e os mais 
fidalgos lhe dérão, encavalgando-o e armando-o, o qual cavalo e armas o 
capitão tomou pêra si, parecendo razão e justiça darem-m'o, como fazenda 
de ladrão que me avia furtado Ga escrava, mas, como com os capitães 
ninguém se pode poer em justiça, ele ficou com ele e eu com toda a 
perda. 

CAPITULO XV 

De como o capitão tomou úa aldeã chamada Alinaçar sendo com ele Fran- 
cisco de Meneses de Tanjere com trinta de cavalo e o que mais socedeo com 
Dom Duarte sobre ir Francisco de Meneses sem sua licença 



NÃO poso negar que não fiquei descansado em sair deste dia de 
Corpo de Deos, em que foi necesario escrever cada cousa por si, 
acontecendo todas em um tempo e dentro de meia ora, e, pois 
que já tenho dado a entender como milhor soube e pode, pasarei ao que 
socedeo mais adiante. Sabendo Dom Duarte de Meneses, o d'EvoraT 
capitão da cidade de Tanjere, o que em Arzila avia pasado, pesando-lhe 
muito, mandou logo visitar ao capitão, António da Silveira, a qual visi- 
tação fez Francisco de Meneses, almocadem e pesoa muito honrada, que 
pêra ela lhe pedio licença, que, sabendo que Diogo da Silveira escapara, 

I. pouco] puquo A. 

ANAIS DE ARZILA 6 



— 42 — 

o queria ir ver e visitar a Arzila, por ficarem em muita amizade, quando 
Diogo da Silveira esteve em Tanjere e pousar com ele. Dom Duarte lh'a 
concedeo e Francisco de Meneses veio a Arzila com trinta de cavalo e 
foi muito honradamente recebido do capitão, o qual vendo em Arzila a 
Francisco de Meneses com os trinta de cavalo, querendo mostrar aos 
mouros que não ficava quebrado, mandando primeiro a Artur Rodríguez 
fora com vinte de cavalo, o qual tomou dous mouros na boca de Bena- 
mares, e, tendo deles nova pêra ir fora, deu conta a Francisco de Me- 
neses, rogando-lhe quisese ir com ele a tomar Ga aldeã que João da 
Silveira, mourisco, lhe dava; e esta presa dava o capitão a este mou- 
risco, por o umiziar, que, como se avia ido o outro, desejava que se não 
fose estoutro. Francisco de Meneses foi contente de ir nesta cavalgada 
e, falando com sua companhia, todos discrão que farião o que ele lhes 
mandase, pois com ele érão vindos. 

O capitão mandou dar ás trombetas, e, levando-o João da Silveira pola 
boca de Bcnamares, chegamos a tempo á aldeã, que mandando o capitão 
decer trinta de cavalo com outros vinte de pé, que da vila fôrão em aze- 
melas e em outras mulas de serviço, com os quais João da Silveira deu 
na aldeã, e, como a nosa jente era pouca e as casas muito espalhadas, se 
não rodearão mais que quatro ou cinco, das quais se tomarão dezasete 
almas e cento e vinte cabeças de gado vacum e outro golpe de meudo e 
algúas egoas, e com sua cavalgada se recolherão pola boca de Benamares 
fora, e sem algum impedimento fomos na vila. Pola quebra pasada a 
vila começou a tomar algum folgo, levantando a cabeça. O capitão pagou 
aos de Tanjere suas partes, e mais do que lhes vínhão, e a Francisco de 
Meneses contentou com lhe fazer mercê de dous bois e duas vacas e Ga 
dúzia de cabras, da qual mercê os de Tanjere fôrão murmurando, dizendo 
que Francisco de Meneses devia de partir com eles; e, chegados a Tan- 
jere,' teve Francisco de Meneses com Dom Duarte outro desgosto, repren- 
dendo-o, porque fora entrar sem sua licença, e que não ouvera de pasar 
seu mandado, que era fazer a visitação a que ia, e sobre isto o teve 
alguns dias preso, o qual muito agravado se veio pêra Arzila; mas, como 
Francisco de Meneses era pesca pêra não ser agravada e de quem o 
capitão e cidade tinha muita necesidade, por sua pesoa e muitos serviços, 
o capitão, Dom Duarte, o mandou logo buscar, e daqui se recreceo quebra 
antre Dom Duarte e António da Silveira; e acrecentou mais um navio de 
trigo, que vinha pêra Arzila, ir ter a Tanjere, o qual Dom Duarte tomou 
e fez descarregar, ou por ter necesidade, ou por o mestre lh'o requerer, 
que o navio fazia muita agoa, de que António da Silveira ficou escanda- 
lizado; e, vindo a Arzila João Fernãndez Berrio, capitão de Ga caravela 
d'armada, que trazia o navio que em Tanjere descarregou, o capitão, 
António da Silveira, o reprendeo e, querendo-o castigar, o prendeo, que 
não saise da vila, mas, como aquele dia correse jente grosa pola praia e 



-43- 

o capitão estnndo no adro, recolhendo sua boiada e campo, e como os 
do navio d'armada visem a jente pola praia, com o traquete davante se 
veio poer aos Mastos e com a artelharia fez afastar as batalhas dos mou- 
ros, ficando um cavalo ou dous mortos ao pé do outeiro de Fernão da 
Silva, e, vendo João Fernândez Berrio os mouros, se meteo em ija barca 
com dous berços e fez afastar os mouros de toda a praia, indo ele ao 
longo do Rio Doce, do qual navio e barca os mouros receberão muito 
dano e mais que da vila, polo qual o capitão, António da Silveira, foi tão 
contente do que Berrio e sua caravela fizérão que, esperando-o na praia, 
lhe fez muitos oferecimentos e ficarão muito amigos, e o João Fernândez 
Berrio sérvio muito bem aquela vila, em tanto que durou o tempo de sua 
capitania; e a amizade dos capitães se fez desta maneira, que vindo ter 
a Tanjere Dom António d' Almeida, filho do conde d' Abrantes, que vinha 
pêra Arzila, Dom Duarte, por lhe fazer honra, o quis acompanhar e o 
trouve a Arzila com toda sua jente, e foi do capitão muito honradamente 
recebido e servido, asi dele como de sua molher, e ficarão conformes e 
amigos; e com isto os leixo e pasarei a outro capitulo, em o qual entendo 
contar o suceso do mourisco João da Silveira. 



CAPITULO XVI 

Das mudanças em que João da Silveira andou com a jente 
indo-se peva terra de mouros até se tornar 

POIS tenho antre mãos a este João da Silveira, mourisco, e que foi 
guia e almocadem desta cavalgada, atrás contada, pareceo-me bem 
não o leixar dantre as mãos até o leixar apousentado no inferno, 
donde, segundo nosa santa fé, ele está. Desta cavalgada foi o capitão 
muito contente de João da Silveira, fazendo-lhe muito mais honra e mercê, 
e lhe mandou dar cincoenta cruzados pêra um cavalo e armas, polo que 
avia morto o dia pasado de Corpo de Deos, e mais lhe mandou dar do 
seu quinto dous bois e duas vacas, e o casou com Joana Fernândez, 
molher que foi de Francisco López Galeguinho, que os mouros matarão 
no Tojal, como fica contado, a qual Joana Fernândez era muito moça e 
asaz fermosa, tinha úas boas casas e outros bons achegos de casa, de 
maneira que ele vivia honrado e abastado com sua molher, que, certo, 
em ferraosura e feitos era pêra servir outra pesoa de muito mais sorte ■ e 
calidade, e tãobem ele era dela muito contente e namorado ; mas o diabo, 
fazendo seu oficio e junto com sua pouca firmeza e fé, o danou de mã- 

I. sorte 1 honra BNM. 



— 44 — 

neira que cometeo um feito asinalado e se ir pêra os mouros, como se 
foi, não danando mais que a sua alma, a qual negoceação pasou desta 
maneira. 

Avendo el-rei de Féz de ir a Marrocos fazer guerra aos xarifes e 
levando ao alcaide d'Alcacere Quibir consigo, como pesoa principal, o 
qual, tendo já amizade com o capitão, António da Silveira, lhe mandou 
pedir emprestados dous mil cruzados, os quais o capitão lhe emprestou 
€m cincoenta quintais de lacar d'el-rei, noso senhor, que em Arzila estávão, 
ainda do tempo da feitoria, e, pêra segurança deste lacar, deixou estar 
cm penhor a um mouro honrado, que se chamava Isa Xicarra ', e a um 
judeu, tãobem pesoa honrada, que avia nome Hiunes'; e, estando este 
mouro e judeu em Arzila, em úa pousada sobre si, o João da Silveira 
tratou com o Isa Xicara que, dando-lhe o alcaide seguro, se iria e lhe 
entregaria úa quadrilha de almogavares, e, porque Isa Xicara não con- 
fiava dele, lhe deu um capacete, que fora do capitão, que mandase ao 
alcaide, pêra estar mais certo e vir, ou esperá-lo ao campo, donde ele dizia 
que levaria trinta de cavalo. Isa Xicara, como homem prudente e de 
bom recado que é, pois ainda é vivo, pois foi polo alcaide Laroz justiça 
d'Arzila, depois de noso despejo, mandou o capacete ao alcaide, sem ser 
sentido; mas, como o demo faz descobrir as cousas mal feitas, ordenou 
que João da Silveira, não podendo ^ poer por obra o concerto e temendo-se 
do capitão saber algúa consa e lhe preguntar polo capacete, detriminou 
de o dizer ao capitão, e, tomando ao capitão, lhe dise o que pasava, e que 
ele tinha dado o capacete a Isa Xicara, pêra que, mandando-o pola culpa, 
fose cativo e a cáfila se perdese; e, posto que ao capitão lhe pesou e não 
lhe pareceo bem, todavia, lhe dise tivese aviso, que não fose o capacete 
sem ser achado, e, partindo a cáfila, um domingo pola menhã, por já do 
sábado ficar tudo fora, no adro, somente alguns judeus que na vila dor- 
mirão, quando pola menhã fòrão pedir as chaves, o capitão foi logo em 
pé e, tomando consigo a Diogo da Silveira, se foi ao adro e, fazendo abrir 
todos os lios e fardos, não se achou nada, de que o capitão ficou muito 
sospeitoso de João da Silveira e, sem dar a entender cousa algíia, des- 
pedio a cáfila e se tornou á vila; mas João da Silveira, vendo que o 
negocio se ia descobrindo e que o capitão lhe não dava licença pêra ir 
fora, tratou com Isa Xicara que mataria a Diogo da Silveira, que era a 
cousa que os mouros mais desejávão, e logo começou de se chegar a ele 
tanto que Diogo da Silveira o entendeo e se começou afastar dele, e, 
um dia que o capitão ia a monte, João da Silveira lhe dise: «Compa- 
nheiro, vamos oje crestar». Diogo da Silveira lhe respondeo : «Vós e eu 
sabemos o campo, por isso podeis ir por donde quiserdes e não me bus- 

I. Isa Xicarra] Isaxisera BNM; Isaxicera L; mas a seguir sempre Xicara B N L. 
— 2. Hiunes] Yhunes B N L M. — 3. podendo] podesse BNLM. 



-45- 

queis, que não tenho de ir por donde vós fordes, porque vendo-nos juntos 
não sospeitem que falamos em algúa traição». Aqui, diz Diogo da Sil- 
veira que lhe respondeo por aravia: «Vós sois muito cerrado e ninguém 
pode entender voso coração». A isto lhe respondeo: «Todos entendem 
meu coração, que, asi como meu rosto é craro e limpo, asi o é ele, e 
agora conheço que o voso não está bom, por isso não me vades buscar, 
porque vos tenho de matar, primeiro que vós a mim». Respondeo ele: 
«Se vós sois contra mim, companheiro, quem será por mim?» «Ele e 
vosas obras», respondeo Diogo da Silveira; e logo, dando conta ao capi- 
tão, lhe dise : «Senhor, se eu matar a João da Silveira crea que o fiz por 
asegurar a minha cabeça, porque me parece que não anda bom». O 
capitão lhe agardeceo e o aconselhou, como amigo verdadeiro. 

Depois disto, indo Diogo da Silveira a monte com dez de cavalo, á 
ribeira do Amame, e tendo já mortos quinze ou vinte cabeças, o João da 
Silveira foi ter com ele com suas couraças vestidas debaixo do pelote, 
mas Diogo da Silveira deixou logo o monte e lhe dise: «Não é bom mon- 
tear com couraças», e, todavia, lhe fizérão parte da carne. Logo em outro 
monte, andando Diogo da Silveira e Brás Fernândez, amo do capitão, 
apartados, foi João da Silveira ter com eles, mas Diogo da Silveira, 
vendo-o, logo dise : «Amo, eu ei oje de matar a João da Silveira, porque 
me vem buscar pêra me fazer outrotanto». «Eu vos ajudarei», dise Brás 
Fernândez, «mas não seja sem vô-lo merecer», mas ele, vendo-o a recado, 
se afastou deles e logo pôs por obra de se ir como pudese; e, estando o 
capitão na guarda, ao pé da Atalaia Gorda, Artur Rodríguez, mourisco 
e almocadem, pedio licença ao capitão pêra chegar a Bugano com cinco 
ou seis de cavalo matar um porco que vira na fonte. O capitão lh'a deu, 
e, apartando-se com Afonso Barriga, Estêvão Fernândez e outros, João 
da Silveira se apartou com eles, com entenção do que não pode executar 
em Diogo da Silveira o fazer em Artur Rodríguez, mas ele [era] ' logo avi- 
sado de Diogo da Silveira, dizendo-lhe que se guardase e oulhase por si, 
mas eles, batendo a canavieira ^ da fonte, deitarão um porco fora, o qual 
pasando a ribeira tomou por antre as varzias, e João da Silveira só após 
ele, sem Artur Rodríguez querer pasar, por não ter licença do capitão, e, 
esperando que João da Silveira tornase, aguardarão um pedaço e, vendo 
que não vinha, se viérão pêra o capitão, o qual, vendo-os vir sem ele, 
logo dise a Diogo da Silveira e a Fernão Caldeira: «João da Silveira é 
ido, praza a Deos que não deixe feito algum dano!» e, chegando Artur 
Rodríguez, lhe contou como desaparecera. O capitão deu graças a Deos 
em não deixar feito algum dano. 

Tornando a João da Silveira, tomando por Almenara e por Alhadra, 
foi sair á estrada d'Alcacere, donde alcançou a Isa Xicara com a cáfila, 

1. [era]/. A. — 2. canavieira] canavieiria A; canaveira BNLM. 



-46- 

que aquele dia avião ' partido da vila, mas Isa Xicara, tanto que o vio 
junto de si, fez deter a cáfila e lhe requereo que se apartase deles, e dali 
mandou um mouro ao capitão, por escusar achaques de capitães ; e ele, 
chegado a Alcacere, foi muito bem recebido e favorecido de cide Naçar, 
filho do alcaide, tomando-o por seu e dando-lhe de comer, mas do alcaide 
cide Hamete foi pouco visto e olhado, polo qual logo intentou de fazer 
outro abalo, como se verá ao diante, ou logo. 



CAPITULO XVII 

Proseguindo com João da Silveira se couta como se tornou pêra Arzila 
e do que ordenou 



ESTANDO João da Silveira em Alcacere, tornado outra vez mouro, por 
Qa de duas cousas, ou por ambas, tratou de se tornar outra vez 
pêra Arzila, [a]inda ^ que de cide Naçar foi muito bem recebido, 
como já ei dito. As causas fôrão o pouco favor que no alcaide sentio e 
a outra foi a lembrança que teve de sua molher, que era moça e fermosa, 
a qual, vendo-o perdido, não lhe ficou cousa que não fizese pêra o trazer 
a terra de cristãos, fazendo muitas devaçÕes, romarias de noute e de dia, 
até, segundo fama, intentar fazer feitiços, que, como moça, tudo o que 
mouras e más cristãs lhe dizíao e insinávão fazia, polas quais cousas ele veio 
a intentar de se tornar a vir e, por intercesão de meu compadre, Jcão Vaz 
Aljofarinho, que cativo estava, e asi Miguel Fernândez Centeo, entregaria 
úa quadrilha d'almogavares, com os quais se viria deitar em Tendefe, e 
que, correndo após as atalaias, pasaria o ribeiro de Jil da Mota, e que este 
sinal daria pcra o capitão saber que não érão mais que ahnogavares. O 
capitão deitou mão deste trato, e, correndo alguns dias, João Vaz saio de 
cativo polo mouro que se tomou em dia de Corpo de Deos, em que ele 
foi cativo, e trouve a concrusao, e, pêra João da Silveira ser seguro do 
capitão, lhe mandou duas regras em um papel, em que ião úa dúzia 
d'agulhas de çapateiro, que Miguel Fernândez Centeo mandou pedir, as 
quais palavras não dizíão mais que isto : «Eu vos receberei com a von- 
tade e rosto dantes e não me lembrará nenhija cousa». 

Pois tanto que estas agulhas e papel fôrão ter á mão de Miguel Fer- 
nândez Centeo, ele ordenou de poer por obra o que tinha asentado e, 
pedindo licença, lh'a deu ^, desejando de o omiziarem, e, com trinta de 
cavalo, veio donde avia ficado, e se tornarão sem fazer nada, polo capitão 

I. avião partido] avia partido L; partio BNM. — 2. [aj/. A. — 3. lh'a deu] lhe foi 
*lada B N L M. 



— 47 — 

estar dando a guarda ao longo do Rio Doce, e posto que logo, em ouvindo 
o rebate, se pasou ao Facho, e poios mouros se irem recolhendo e, o que 
é mais certo, polo capitão não estar confiado nele, não quis alargar jente 
de si, nem a aventurar, como era muita razão, mas, como logo viese 
cáfila, que já a este tempo vínhão todas as semanas, e disesem que os 
almogavares érão d'Alcacere e João da Silveira era o almocadem e guia 
deles, o teve por certo, e ordenou que o adail, Fernão Rodriguez Colares, 
levase sempre consigo quinze ou vinte de cavalo, como pêra favor das 
atalaias, pêra que, sendo necesario pegar com os mouros, se achase groso ; 
e asi pasárão alguns dias, que sendo dia de Sam Sebastião, ano do Senhor 
de mil quinhentos e vinte e oito, sendo o capitão com todos nós outros 
ao longo da ribeira do Amame monteando, por dar costas a Artur Ro- 
driguez, que era fora com vinte de cavalo, o qual tomou aquele dia um 
mouro e oito bois de arado, dentro da boca de Benamares, pois neste dia 
do bem aventurado martire Sam Sebastião, estando duas atalaias na 
Atalaia do Mar, homens de muito bom recado, os quais érão João Fer- 
nândez, jenro de Nuno Alvarez de Carvalho, e o companheiro Vasco 
Morgado, de quem já tenho feito menção, estávao apartados e em cima 
de seus cavalos. João da Silveira, que neste dia vinha com entenção de 
entregar seus companheiros, vendo de Tendefe donde estava o campo 
recolheito daquela parte e que as atalaias não pasávão do mar polo cór- 
rego abaixo, veio polas saltear, e, emparelhando com Bastião Fernândez, 
lhe correrão até sobre as vinhas, sem o poderem alcançar, mas Vasco 
Morgado, que ao longo do mar vinha e fora de caminho, quando chegou 
á torre do Pombal, achou três mouros de diante e, posto que ele é ' muito 
valente homem, achando seu cavalo cansado de pasar por terra atoladiça 
e o seu caminho ser mais comprido e ele apertar muito seu cavalo, por 
os mouros lhe virem atalhando, como viérão, e, pondo-se derredor dele 
e não vendo ninguém que lhe valese, se rendeo, os quais três mouros érão 
o mesmo João da Silveira e Isa Xicara e um ferrador d'Alcacere, valente 
homem que sempre era dos dianteiros, e desta vez levarão cativo a Vasco 
Morgado, por não aver desta parte do Facho ninguém, somente as ata- 
laias da Ruiva. 

O capitão ficou agastado em não se achar na vila e desimulou esta 
vez o milhor que pode, tendo, todavia, que João da Silveira tinha cum- 
prido o que ficara; mas ele, vendo que a cousa se alargava e que avia já 
muita sospeita dele, e que depois disto pedira licença ao alcaide e que 
não lh'a quisera dar, temendo-se dele, detriminou de se vir como pudese, 
e o pôs por obra, que, vindo sua Páscoa, pedio licença a cide Naçar pêra 
vir ^ ver sua mãe e parentes a Benarróz, donde ele era natural, e, dando- 
lh'a, lhe deu ou fez mercê de algijas peças de seu corpo, e, vindo-se á 

1. é] era B N L M. — 2. vir] ir B N L M. 



serra com outros parentes e amigos, furtando-lhe a volta, se veio a Ar- 
zila e, sendo visto das atalaias, se deu um grande rebate e, saindo o 
capitão a repique ao Facho e dahi ás lombas do Corvo, chegou Estêvão 
Fernândez com a nova ser João da Silveira. O capitão folgou muito e o 
esperou e recebeo com bom rosto e gasalhado, e asi o fizérão todos os 
fidalgos e fronteiros e moradores da vila, e ele abaixou a cabeça, mos- 
trando muita vergonha. O capitão se veio á vila e o acompanhou até a 
Misericórdia, donde aquela noute ficou, acompanhado de muitas pesoas. 
Poi este dia um dos mores alvoroços que na vila ouve, folgando todos 
com sua vinda, asi por ele ser aprazível, como por sua molher ser criada 
na vila e lhe quererem bem, e o capitão o tornou a poer á sua mesa, mas 
não com a vontade que sohia, mas ele, sintindo algum desfavor, logo 
intentou outro movimento pêra se ir, como se foi. Veio João da Silveira 
esta vez com um saio de grã e marlota de seda azul e bedem e cabeçadas 
e cinto de prata e estribeiras prateadas da pesoa de cide Naçar. 



CAPITULO XVIII 

De como João da Silveira se iornou a ir 
e levou um sobrinho de sua molher cativo e de sua morte 



COMO João da Silveira foi em Arzila, logo foi arrependido, sintindo 
no capitão algum desfavor, e asi em Diogo da Silveira e Artur 
Rodriguez, que, sendo eles mouriscos e muito honrados e favore- 
cidos, se afastávão o mais que podíão dele, não o conversando, nem, lhe 
dando parte de seus ardis e negócios, antes os encobríão dele. Era a 
causa que um primo de Diogo da Silveira, pesoa muito honrada, que se 
chamava Almeçure, e cavaleiro do alcaide, lhe mandou dizer por Vasco 
Morgado, que logo saio de cativo, que se guardase de João da Silveira, 
porque o avia de matar, que não vinha a outra cousa. Tãobem o mesmo 
mandou dizer outro irmão de Artur Rodriguez, tãobem cavaleiro do 
alcaide, chamado Alataix, que se guardase e não se fiase dele, que, pois 
o não matou da outra vez, quando se foi, agora o poria por obra, e, sin- 
tindo João da Silveira andarem percatados estes dous homens, que ele 
esperava que o favorccesem, lhes falou: «Companheiros, se vós outros 
me desfavoreceis quem olhará por mim? Eu ando corrido e aver- 
gonhado e, quando ando com vós outros, cuidarão que está o que fiz 
esquecido: por tanto olhai por mim». Diogo da Silveira lhe respondeo: 
«Quem ouverde ganhar o coração de seu imigo ha de ser com boas obras: 
trabalhai de servirdes ao capitão e fazer algúas cousas boas pêra vos 
umiziardes e nós vos ajudaremos em tudo o que pudermos •, e, como os 



— 49 — 

mouros não desêjão mais que nosas cabeças, as avemos de guardar de 
vós e de todos os mouriscos, até que desejem a vosa como as nosas, por 
iso fazei o que nós fazemos». Disto que o primo de Diogo da Silveira 
e o irmão d'Artur RodrigLiez mandarão dizer, ou por ser verdade, ou por 
danarem a João da Silveira, eles lhe dérão credito. 

Desta fala ficou João da Silveira descontente e logo detreminou de se 
tornar pêra os mouros, intentando primeiro fazer algúa cousa asinalada, 
matando ou levando alguém. O primeiro que intentou [foi] ' cometer sua 
molher que se fose com ele, dizendo-lhe estas palavras: «Eu não vim 
buscar senão teu rosto, e agora estar eu como molher que fazer mal a 
seu marido e depois de tornar pêra ela sempre ela ter vergonha e medo, 
e seu marido sempre cuida que ela ser roim, por isto, se queres ir comigo, 
vamos pêra Portugal ou Castela, ou pêra os mouros, porque [o]- boi não 
pode ver o rosto do lião» . Sua molher, Joana Fernândez, como o entendeo, 
chorando, lhe respondeo: «João da Silveira, vós não matastes, nem levastes 
alguém, nem fizestes treição, nem pecado se não a Deos: ele vos per- 
doará, pois o tornastes a buscar, e ao capitão sérvio muito bem, e, se 
algúa sospeita tem, ele a perderá, e amenhã virá o conde e a condesa que 
me criarão e vos favorecerão». Ele lhe tornou em reposta: «Eu não 
poso olhar o rosto do capitão e estar diante dele como boi diante do lião, 
e já te digo verdade que me tenho de ir, e vamos pêra onde quiseres», e, 
como desta vez e em outra, não lhe saise a seu preposito, asentou de se 
umiziar e ir como pudese, matando ou levando alguém; e por me pagar 
a muita amizade e vezinhança que com ele tinha, em eu ser o primeiro 
movedor de se ele vir, escrevendo-lhe a Alcacere a João Vaz e a Vasco 
Morgado, meus compadres e amigos lhe falarão, e tendo eu negoceado 
o seguro do capitão, quando João Vaz saio de cativo, e por sua molher, 
sendo veuva de Francisco López Galeguinho, e depois, estando ele mouro, 
não me sair de casa, por ser sua casa pegada com as minhas e os quin- 
tais rotos, e por ser ela veuva receber da minha molher, que Deos aja, e 
de mim bons conselhos e vezinhança, e por tudo islo detreminou de me 
pagar e tapar sua traição com me matar, parecendo-lhe que o podia fazer 
a seu salvo, pois dele me não guardava, e um dia que o capitão ia a 
monte, e estando eu pêra me poer a cavalo, ele entrou em minha casa, 
dizendo : «Vezinho, vamos oje ambos, e voso moço e meu cunhado levem 
os odres e enchê-los-emos ambos de mel». Eu lhe respondi: «Não lei- 
xarei oje de matar um porco por todo o mel, porque eu fujirei de úa 
abelha». Dise ele : «Eu e os moços crestaremos e se vier ter algum porco 
tãobem o mataremos». O moço meu, que oje vive no porto de Santa 
Maria, e chama-se Jorje Garcia, e é mestre de úa sua caravela grande e 
honrada, que bizcainho era de nação, como estava já apalavrado de ir 

I. [foi] /A. -2. [o]/. A. 

ANAIS DE ARZILA 7 



— 5o — 

com outro moço, e, por tomarem algúa parte de mel pêra si, nunca o 
pudemos armar que fose coimosco, e em verdade que me dise que não 
queria ir com mourisco que o matase e a mim com ele. «Não o fazes 
senão por furtares o mel que trouxeres», lhe dise eu; e, postos a cavalo, 
fomos juntos até Aldeã Velha, donde, não querendo eu apartar-me do 
capitão, ele com seu cunhado, João Fernândez, irmão de sua molher, se 
apartarão ' pêra Almenara, e dahi travesou a Alfandux e, tomando a lança 
e espada ao moço e cunhado, llie dise que o mataria se não fose com ele, 
e diante de si o levou polo Soveral até Larache, e dali se foi a Alcacere e 
dando o cunhado a cide Naçar, polo que lhe avia trazido, e com este moço, 
que levou a cavalo, pagou a sua molher o que lhe devia, e foi recebido e 
perdoado do alcaide. Pois aquele dia, tornando o capitão pêra a vila, já 
noute, e eu com minha parte de carne, sua molher foi logo em minha 
casa c, preguntando-me por ele e sabendo que se avia apartado com seu 
irmão, [logo dise: «Jesus que farei, que me levou meu sobrinho!»] ^, como 
molher que dele tinha má sospeita, mas eu, como lhe isto ouvi, como 
quem acorda de sono, logo me pareceo que era ido, e que, requer^r-me ' 
irmos juntos, era com entenção de me alancear, e, indo-me ao capitão, 
lhe contei o que pasara e que sua molher me disera, e logo o teve por ido 
e me dise que agardecese a vida a meu moço, e asi o dise Diogo da Sil- 
veira, que á mesa estava com ele, e desta ida ficou o capitão asaz agas- 
tado e trabalhou por lhe buscar a morte, a qual se lhe ordenou desta 
maneira. 

Vindo el-rei correr Arzila com muita jente e chegando pola praia até 
a Bica, o capitão, fazendo-lhe resistência, lhe matou sete ou oito mouros, 
como ao diante se dirá, e, recolhendo-se os mouros polo Facho, o capitão, 
com toda sua jente, se foi ao Facho, donde ainda andávão muitos mouros 
ao longo do valo., e, indo por estoutra parte, eu e António Freire e o 
doutor, meu irmão, e João de Deos e Artur Ortiz e outros, até dez ou 
doze de cavalo, viemos á fala com eles e, ajuntando-se muitos da outra 
parte, eu preguntei por João da Silveira, o qual foi logo chamado e, che- 
gando aos outros, tirou a adarga de baixo da perna e a embaraçou, ainda 
que vestido num capuz azul, e, preguntando quem o chamava, lhe pre- 
guntei como estava, querendo-o reprender da treição que comigo queria 
cometer. Ele respondeo : «Como estou? Como aquele que anda com o 
mundo, asi estou eu». 

Desta falta tão pubrica foi a vila toda cheia, preguntando me sua mo- 
lher por ele e, soando muito mais do que foi, o pôs em muita sospeita; e 
como logo fose d'Arzila Hiunes, o judeu que em Arzila estava de penhor 
do dinheiro que se emprestou ao alcaide, e Artur Rodríguez era segredo 

I . apartarão] apertarão A. — 2. [«logo dise. . meu sobrinho !«]/ A. — 3. requerer-me] 
requer-me A; requcrêlo BNLM. 



— 5i — 

lhe rogase avisase a seu irjnáo, Alatais, que não viese em companhia de 
João da Silveira, porque lhe fazia saber que avia de entregar úa quadrilha 
d'almogavares, o qual judeu logo o dise ao alcaide, o qual, ajuntandoo 
com a fama e sospeita, logo o mandou enforcar de úa torre abaixo, e 
desta maneira acabou depois de três vezes mouro e duas cristão. Táo- 
bem se soou que este recado, que Hiunes levou, foi encaminhado polo 
capitão, encomendando-o ao judeu, por ser muito seu servidor, que o 
danase com o alcaide. 

CAPITULO XIX 

De como Gonçalo Pére^ de Galhcgos cavaleiro e pesoa principal da cidade 

de Xere'{ da Fronteira veio a Ar\ila a cumprir um desafio que linha 

apra:{ado com cide Bujima meio irmão do alcaide 

d'Alcacere 



EM tanto que estas mudanças e idas e vindas de João da Silveira 
pasárão em Arzila, da maneira que as tenho contadas, muitas 
outras cousas pasárão neste meio tempo, polas quais pasei, por 
levar enfiado ás cousas e mudanças deste mourisco até o leixar apousen- 
tado no inferno, e, tornando ás cousas que mais pasárão, irei contando 
aigúas e as mais notáveis; e, por a vinda de Gonçalo Pérez de Galegos, 
cavaleiro principal da cidade de Xerez da Fronteira, a Arzila, a um desafio, 
ser cousa notável e honrada, porei como e porque se moveo a o aceitar 
ou cometer, e se veio neste tempo a Arzila, donde esteve muitos dias, 
esperando pola concrusão dele, e se achou em aigúas cousas donde mos- 
trou sua valerosa pesoa. 

Antão Rodríguez, castelhano, morador d'Arzila e pesoa honrada e 
conhecida, costumava ir muitas vezes a Castela, e de Xerez da Fronteira 
trazia cavalos e potros pêra sua pesoa e de seus filhos, e tãobem pêra 
vender, polo qual era muito conhecido dos principais de Xerez; e, por 
outra parte, servia muitas vezes d'alfaqueque, donde tãobem dos mouros e 
alcaides era conhecido, como em tempo do conde tenho dito, e, indo um 
dia por mandado do conde a Alcacere, topou com el-rei e Mulei Abrahem 
na Atalaia Ruiva, donde apostou com Mulei Abrahem que não tomaria a 
Roque Ravenga, que detrás dele ia descobrir a mesma atalaia, e iMulei 
Abrahem, por ganhar a aposta, correo após ele até entrar polas tranquei- 
ras, e dali o despedio com lhe dar cinco dobras d'aposta e um bedem de 
sua pesoa, e, por ser muito antigo e bom cavaleiro, era muito conhecido 
e honrado. 

Pois estando em Xerez em casa de Gonçalo Pérez de Galhegos e 
antre outros cavaleiros, preguntando-lhe meudamente polas cousas dos 



— 52 — 

mouros, veio Gonçalo Pérez a dizer se conhecia algum mouro que se 
desaliase com ele, e, por Antão Rodríguez dizer que si, conhecia muitos 
que se matasem ' um por um, Gonçalo Pcrez lhe dise que lhe daria logo 
um bom poldro se o fizese, o qual lhe deu e entregou, jurando de lh'o 
pagar se não fizese que o mouro saise ao desafio, e logo Charles de Va- 
lera, que todos conhecemos, dise a Antão Rodríguez que ele seria o 
segundo se outro mouro quisese sair a ele, ou serião dous a dous, que 
eles estávão prestes. Antão Rodríguez poios atarracar se obrigou a lhe 
dar outro mouro, e com este concerto Antão Rodríguez veio a Arzila, e, 
pedindo licença ao capitão, o mandou a Alcacere por alfaqueque. como 
outras muitas vezes o tinha feito, e, praticando com os mouros, logo lhe 
sairão dous cavaleiros principais, um deles cide Bujima Bemhaulá, irmão 
bastardo do alcaide, e cide Abdalá Celema Lavete, os quais ambos disérao 
que viríão a Arzila, tanto que [a]hi ^ fose Gonçalo Pérez e Caries de Va- 
lera, e, vindo-se Antão Rodríguez, o fez logo saber aos ditos Gonçalo Pérez 
e Caries de Valera, os quais se fizérão logo prestes, e Gonçalo Pérez pasou 
logo a Arzila com um muito bom cavalo e armas, o que Caries de Valera 
não fez, por as justiças do emperador e do duque, seu senhor, o prenderem 
e não consentirem que pasase. Depois que Gonçalo Pérez foi em Arzila se 
pasárão muitos recados antre ele e cide Bujima Benhaulá, sem aver con- 
crusão, por o mouro não cumprir e o alcaide escrever ao capitão, António 
da Silveira, que ele não queria que, pois érão amigos, que recrecese cousa 
pêra ficarem mal, e que algum dia mostraríão pêra quanto cada um era; 
de maneira que não ouve concrusao, posto que Gonçalo Pérez esteve 
esperando em Arzila mais de seis mezes, e polo alcaide ir neste tempo a 
Féz e levar consigo a cide Bujima, a qual ida do alcaide foi era ajuda de 
descompoer el-rei de Féz, Mulei Bohaçum, e enlejer a Mulei Hamete, 
filho d'cl-rei velho, como ao diante direi, Deos querendo; e porque, es- 
tando o alcaide em Féz nesta negoceação, juntamente com Mulei Âbra- 
hem, causador e movedor deste negocio, o alcaide seu irmão correo Ar- 
zila, donde lhe matarão a cide Hamete, seu sobrinho, dentro das tran- 
queiras, em cuja morte se achou o dito Gonçalo Pérez de Galhegos e foi 
ura dos que lhe pusérão as lanças, o leixarei, por contar como pasou e 
o risco que Artur Rodríguez com íía quadrilha d'almogavares pasou, e 
como e por donde se salvarão, sendo aquele dia entrado á ponte d'Alca- 
cere. 



I. matasem] mataríão BNI. M. — 2. [aj/. A. 



— 53 



CAPITULO XX 



De como ficando cide Abbeluhaded irmão do alcaide em sen lugar correo 

Arzila e lhe matarão a cide Hamete filho do alcaide seu irmão dentro 

das tranqueiras sendo fora Artur Rodrigue\ com almogavares 

e como se salvarão 



EM tanto que o alcaide esteve em Fez, ficou por alcaide de Alcacere 
seu irmão cide Abbeluhaded Laroz, o qual o foi depois muitos 
anos, asi alcaide d'Alcacere como d'Arzila; [e, vendo que seu irmão 
tardava, veio correr Arzila] ', trazendo muita jente e quatro sobrinhos, filhos 
do alcaide seu irmão, e, partindo da Ponte, donde ajuntou toda sua jente, 
se veio meter era ua cilada, antre as Atalaias Altas d'Alfomar e Tendefe, 
que, por ser esta a primeira vez que nela entrou jente, lhe ficou por 
nome a cilada do Alcaide, e certo que era em lugar e parte pêra a vila 
receber muito dano, e estando as Atalaias Altas tomadas e o capitão, 
António da Silveira, dando sua guarda na Atalaia Ruiva, acompanhado 
de todos os fidalgos e muitos moradores, por aquele dia ser fora Eitor 
Rodriguez com almogavares, os quais érao entrados á ponte d'Alcacere, 
donde a jente esteve e pasou, — pois estando tudo sosegado e o capitão 
esperando por seus almogavares, que já érao oras de serem vindos, os 
mouros arrebentarão da cilada, e, sendo logo vistos e tomado o rebate, o 
capitão recolheo sua guarda e boiada com muita delijencia e presteza, e, 
chegando á tranqueira do Laranjal, érão já os mouros com ele, e tãobem 
muitos que da vila saião a rapique, mas os mouros chegarão com tanta 
fúria que lhe fizdrão alargar a tranqueira, e, sendo despejada, logo cide 
Hamete, filho do alcaide d'Alcacere, cuberto de iía saia de malha e de 
sua adarga, chamando por alguns criados de seu pai e nomeando-os, 
tomou o barrete vermelho antre os dentes e foi o primeiro que pola tran- 
queira entrou, e asi o fizérão mais de cento de cavalo, e ao Lameiro, um 
tiro de pedra da tranqueira, apegarão com o capitão, o qual dizendo : 
«Volta!» voltarão todos os que detrás vínhão, e, achando a cide Amete 
diante, os mais lhe pusérão as lanças e, deitando-o fora do cavalo, dérão 
com ele no chão, pasado de úa mortal lançada que, tomando-o por antre 
a saia de malha e o arção da sela, lhe entrou por úa verilha e lhe saio 
ao quadril; mas, como a rua era estreita e cheia de jente, os mouros não 
voltarão, antes, varados ás lançadas ', receberão os nosos que com eles 

I. [e, vendo... correr Arzila] /. A. — 2. varados ás lançadas] varadas as lanças BN 
LM. 



-54- 

cstivérão ás lançadas, mas os mouros, vendo o filho do alcaide a pé, 
fizérão muito polo cobrar, como cobrarão, especialmente três de cavalo que, 
saltando a pé, se pusérão diante dele, os quais érão o Isa Xicara e o fer- 
rador e Bencabo, os quais, pondo as lanças em Dom João d'Almcida, irmão 

de Dom João de Sande, e em Francisco de Melo, filho de ' 

Dom Abade de Pombeiro ^, os derrubarão dos cavalos, que, por caírem 
antre os mouros, correrão muito risco, mas logo fôrão socorridos, apesar 
de muitos mouros que sobre eles carregarão, asi poios matar, vendo-os 
a pé, como por socorrerem ao filho do alcaide, que a pé estava, e cada 
úa das partes se contentou com cobrarem os da sua, ficando, todavia, 
antre os mouros os dous cavalos dos nosos, convém a saber, o de Dom 
João d'Almeida e o de Francisco de Melo, e não se pode tirar aos três 
mouros, que a pé saltarão, fazerem-no, como valentes homens, pondo-se 
a pé diante do filho do alcaide, que, por estar mortalmente ferido, não o 
pudérão poer tão cedo a cavalo. Tãobem o capitão, António da Silveira, 
foi muito contente dos seus, que, posto que érão poucos, tivérão o rosto 
quedo e não deixarão pasar nenhum mouro o Lameiro, os quais, recolhendo 
ao cidc Hamete, mortalmente ferido, não tivérão mais nenhúa conta con- 
nosco; todavia, da outra parte do Facho, matarão este dia duas ou três 
pesoas, Ga atalaia e outros dous moços, que da guarda andávão desman- 
dados, que, vindo-se recolhendo, acharão já os mouros diante. O alcaide, 
vendo seu sobrinho tão mal ferido, posto que teve nova dos almogavares 
das guardas que deixou detrás de si e doutros crestadores, que com seu 
favor andávão a crestar, que os virão entrar no Soveral, não teve conta 
com eles, nem os mandou buscar, nem esperar, tanto era o sentimento 
que levava do sobrinho, por ser a primeira vez que em pesoa do irmão 
trouxera jente a seu cargo, o qual, primeiro que a Alcacere chegase, 
morreo. 

Muitos dos nosos se gabarão, depois que se soube quem era, e que 
não levou mais que úa só ferida, que lhe pusérão a lança; e, como ele 
vinha diante de todos e como o capitão voltou e ficou logo antre os nosos, 
foi muito craro porem-lhe muitos as lanças, asi na adarga como na saia 
de malha, e com a força que lhe pusérão vir ao chão, mas não se soube 
cuja era a ferida, porque juntamente lhe pusérão as lanças o Dom João 
d'Almeida e o Francisco de Melo, derrubados, e asi Fernão da Silva e 
Gonçalo Pérez de Galhegos, que ao desafio fora, e Francisco Luis, cava- 
leiro da casa do cardeal ifante Dom Afonso, a quem eu ouvi dizer que 
cinco lanças o lançarão fora da sela, finalmente, o capitão se recolheo, 
por entrar muita jente pola tranqueira adentro e estar a rua já muito 
cheia, e os mouros se contentarão com cobrarem o filho do alcaide e os 
dous cavalos de Dom João d' Almeida e de Francisco de Melo. 

I. ...] cm branco A. — 2. filho de . . . Pombeiro] filho do abade de Pombeiro B N L M. 



— 55 — 

O capitão esteve aquela noute asaz agastado e descontente, em não 
saber nova de seus almogavares, e, por ver recolher os mouros muito 
depresa, parecia-lhe que os ião buscar, e, com este cuidado, esteve até 
que todos vicrão salvos e sem nenhum contraste, como aqui se pode ver, 
mas, tanto que pola menhã se vio com seus almogavares na vila, de muito 
contente mandou ao Francisco de Melo um muito bom cavalo de sua 
pesoa, polo que diante dele perdera, e ao Dom João um mouro muito 
mancebo e bem desposto e de resgate, mostrando muito contentamento 
com todos. 

CAPITULO XXI 

Como Artur Rodrigues escapou e se salvou 
com todos seus companheiros 

MUITO bem sei que me ei detido em contar o que neste dia se pasou, 
sem fazer menção dos almogavares, e ei posto em desejos, aos 
que este capitulo lerem, de saber o que pasárão e como se sal- 
varão, os quais, pasando a ribeira da Ponte, por um porto que Artur 
Rodríguez sabia, pola outra parte da ribeira veio buscar as guardas, como 
jente que d'Alcacere vinha, e não vendo pesoa por todas aquelas grandes 
varzias, em duas grandes legoas que ha de través da Ponte á Pontinha, 
se veio dereito á Ponte, donde achou as choupanas e o rastro fresco do 
alcaide e sua jente, que aquela noute dali avia partido, e, achando a 
Ponte destapada, conheceo que a jente era a correr a vila; e, como Ar- 
tur Rodríguez era já esperimentado, seguindo o rastro veio um pedaço 
por ele, vendo se topava algúas guardas que com favor da jente andasem 
a crestar, mas, como não topasem ninguém e a terra ser rasa, se meteo 
polo Soveral e, dando vista ao campo, se veio pôr sobre Alfandux, por 
dar vista ao Zambujeiro e estrada d'Alcacere, e, estando ali, ouvio a arte- 
Iharia e conheceo que a jente corria a vila, e não tardou muito, ainda que 
tarde, que não virão a jente e bandeira ir seu caminho; e Artur Rodrí- 
guez, avendo conselho com António Freire, Diogo Delgado e Fernão 
Meirinho e outros homens do campo, asentárão que podíão tomar lingoa, 
ou serem vistos dalgíías guardas e crestadores, e que podíão deixar jente 
que os esperasem poios caminhos ou ás tranqueiras, que de tudo se guar- 
dasem, e, sendo noute, se fòrão por dentro do Soveral, guiando-os Artur 
Rodríguez, muito bem viérão sair á praia de Benamourel, e por ela se 
viérão meter debaixo das Furnas; e porque se temíão que os esperasem, 
por ser terra apertada e não podíão sair senão por um só caminho, se 
decêrão dous de cavalo, um deles João de Deos e outro Simão López, 
facheiro, e a pé viérão acima, por antre as daroeiras, e, não sintindo nin- 
guém, chegarão até o ribeiro de Jil da Mota e, não vendo, nem sintindo 



— se- 
riada, se tornarão aonde deixarão os companheiros, e, não os achando, 
ficarão espantados e, buscando o rastro da praia, por ver se avia entrado 
algúa jente com eles, não acharão outro rastro somente o seu e, vendo-se 
sós, se viérão á vila ao longo do mar, e, quando a ela chegarão, dérao 
grande rebate ao capitão e a toda a vila, parecendo-lhe serem todos per- 
didos e escaparem aqueles dous a pé, mas, depois que fôrão diante do 
capitão e contarão o caminho que avião trazido, e donde e como se apar- 
tarão de seus companheiros, o capitão teve esperança que os traria Deos 
em salvo; os quais, vendo que João de Deos e o companheiro tardávão, 
e que podíão já ser tornados, e vendo-se metidos naquele recanto, donde 
não podia nenhum escapar indo os buscar, e parecendo-lhes que João de 
Deos, pois tardava, seria tomado, ou se viria pêra a vila, não querendo 
tornar com recado a seus companheiros, se sairão dali com entenção de 
tornarem a demandar o campo, e, por o cavalo d'Artur Rodriguez ter 
levado muito trabalho, por ir sempre rompendo o mato e ir cansado, ele 
o deixou embrenhado, e, cavalgando no de João de Deos, tomarão por 
Alhazana acima e, por antre Atalaia Alta e Mijeleo, viérão demandar a 
cilada do Alcaide e, travesando polo rosto d'Alfomar e por antre ambas 
as varzias, viérão á vila ante-menhã, de que o capitão e toda a vila foi 
asaz alegre, e logo o capitão mandou buscar o cavalo de Artur Rodriguez 
e o trouxérão, que foi muito não topar com ele algum Hão, por aver 
muitos derrador da vila em aquele tempo. 



CAPITULO XXII 

Como o alcaide d'Alcacere correo Ar:^ila e se salvarão 
tio Soveral alm/ns de cai'alo 



NÃO se tardou muito que o alcaide, estando em Fez, soube a morte 
de cide Hamete, seu filho, e logo se veio a Alcacere e, primeiro 
que sua vinda se soubcse em Arzila, nos veio correr com muita 
jente, e, deitando-se na fonte d'AImenara e pondo guardas derrador de si, 
esteve esperando que fose ter com ele algúa quadrilha d'almogavares ou 
monteiros, e acertou que aquele dia seis ou sete de cavalo fôrão ter com 
as atalaias de Tendefe e, dizendo-lhe que queríão ir montear a Çael, as 
fizérão ir descobrir a Atalaia Alta e o Arrife, e as atalaias, que no rosto 
d'Alfomar estávão, vendo que se melhorávão, fizérão outro tanto, ou por 
lhe fazerem boa companhia, ou por sospeitarem que ião a monte, por 
fazerem outro tanto, e vendo as do Pereiral, que érão as do seu través, 
o rosto d'AIfomar despovoado, dérão um bravo rebate, e saindo o capitão 
cora toda a jente a rapique e sabendo que não fora a nada se tornou, 



-57- 

mas, como com este rebate se ajuntasem em Tendefe quinze ou vinte de 
cavalo, e vendo que não era nada, se detriminárão ir a monte ao vale do 
Aduar, não muito lonje deles, mas Afonso Barriga e seu jenro e Fernão 
Machado, por conselho de Pêro Fernândez o Torto e atalaia, se apartarão 
e se fôrão pola praia a Benamourel, donde o Pêro Torto Fernândez dise 
que andava um porco ruço muito grande, e asi se apartarão seis de 
cavalo. 

O alcaide, tanto que soube que as Atalaias Altas érão tomadas, pare- 
cendo-lhe que o campo andava largo, deu a andar e se veio ao Marme- 
leiro, donde correo a vila, sem fazer nenhum dano; e como os monteiros, 
que no vale do Aduar andávão, ouvisem as bombardas e se viesem reco" 
Ihendo á Atalaia Alta, dela virão a jente e bandeiras pola Atalaia Ruiva e 
Gorda e, tornando-se a sobacar, fôrão demandar o porto da Palmeira e, 
pasando-o, se meterão no Soveral, sendo Artur Rodriguez, almocadem, 
o que os guiava, e indo com eles António Freire e Fernão Meirinho e 
Diogo Delgado e outros moradores, mas Artur Rodriguez, temendo-se 
que os buscasem e não fizesem como os dias pasados, pois já a jente ia 
sobre eles com muita presa, vazou logo o Souveral e, em anoutecendo, 
saio ao campo, e, travesando todo o campo e pasando por Taurete e 
Alhadra e o Xercão, se pasárão ao outro campo d'Alfandequim, e com 
muito bom resguardo d' Artur Rodriguez os trouve á vila pola menhã, 
mas eles fôrão recebidos do capitão com os mandar todos á torre presos 
e os castigou em lhes mandar tomar no cileiro úa fanga de trigo a cada 
um. 

E tornando aos outros seis de cavalo, que em Benamourel érão, de- 
pois de mortos três ou quatro porcos, vindo sobre o Cabo Branco, virão 
sobre as Furnas jente de cavalo, e logo virão as bandeiras e jente ir 
caminho da Atalaia Alta e, conhecendo que era jente, porque não ouvirão 
a artelharia com o tom do mar, ficarão muito confusos, porque vindo pola 
praia, á boca de Çael ouvérão vista de Artur Rodriguez e António Freire, 
que decíão rijo a demandar o porto da Palmeira, e, parecendo-lhe que 
érão monteiros, não ouvérão fala deles, nem eles os verem ', por irem ao 
longo d'agoa, e, parecendo-lhe que já aqueles érão mouros, não se sabíão 
detriminar; mas, como érão homens do campo, deixando a carne muito 
manso, por que os cães ficasem com ela, como fizérão, por virem cansados, 
tornarão a demandar a praia á Mizquita, e por ela tornarão a Benamourel 
e, metendo-se por o ribeiro acima, por não fazerem rastro, tomarão o 
Soveral, donde deixarão os cavalos, posto que Fernão Machado, por ser 
novo, não quisera deixar o seu, dizendo que ele no seu cavalo tornaria a 
demandar a praia, mas Afonso Barriga e Pêro Fernândez, rogando-lhe os 
não leixase, porque não se podia salvar e perdendo-se érão todos perdidos, 

I. verem] virão B N L M. 

ANAIS DE ARZILA 8 



— 58 — 

poios buscarem c esperarem, e dando razão que os mouros, por não bus- 
carem e esperarem os almognvares pasados, se avião salvado, e que agora 
os avião d'esperar, e com isto fizérão que ficase e, embrenhando os cavalos 
em um córrego e atados muito bem, se afastarão deles o mais que pudé- 
rão, mas enleando-se se tornarão a lançar muito perto deles e estivérão 
toda a noute; mas sendo menhã sintírão os mouros darem com os cavalos 
e fazerem grande gritaria, e sintindo que os cavalos érão achados, e que 
os buscaríão, Afonso Barriga, tomando a seu jenro e a Fernão Machado, 
tomou polo córrego" abaixo, e Pêro Fernândez e os outros pêra outra 
parte, e não ousando sair do Soveral aquele dia, nem a noute seguinte, 
estivérão até o terceiro dia, que, não sintindo ninguém, se sairão ao campo, 
e, uns por íia parte e outros por outra, viérão demandar a vila; tendo-os 
já por perdidos, fôrão muito bem recebidos do capitão e lhes levou em 
conta a rezao que dérão, em não cometerem a vila tão cedo, e, como 
chegarão, o capitão mandou soltar Artur Rodríguez e António Freire e a 
seus companheiros, e o capitão se contentou com somente perder seis 
cavalos; e o alcaide se tornou bem descontente, por se salvarem todos, e 
logo mandou cáfila por saber quem érão, e, sabendo que Artur Rodríguez 
era o que os guiou, asi a estes como aos outros almogavares, foi muito 
mais pesante e desejoso de o aver ás mãos. 



CAPITULO XXIII 

Dalgãas cousas que p asarão entrando almogavares 
de íia parte e da outra 



NÃO faltarão neste meio tempo muitas entradas d'almogavares de Ga 
parte e da outra, especialmente feitas por Artur Rodríguez, entrando 
três ou quatro vezes, donde em algíias fez presa, tomando três 
ou quatro mouros e mouras, e asi outra vez, indo com licença do capitão 
a monte, foi amanhecer fora e, querendo primeiro segurar-se e estando 
pola menhã esperando que se dcscobrise Muliana e da outra parte Buabe, 
virão três crestadores que, dos cabeços de Burrumede ', se ião meter na 
volta da ribeira e, sendo vistos, os fôrão buscar e os tomarão todos três, 
e, não leixando de montear, viérão carregados de carne e trouvérão três 
mouros e o mel que junto tinhão. Tãobem neste tempo, tendo muita 
privança com Mulei Hamete, filho de el-rei de Féz o morto, o alcaide 
Mafote ', e ^, presumindo de cavaleiro, veio em pesoa correr Arzila como 

I. Burrumede] Buramete B NLM. —2. Mafote] Mafofe B N L M. — 3. ej/. B N LM. 



-59- 

almogavare, não trazendo mais Je cincoenta de cavalo, c, ' deitandose 
detrás da Atalaia Ruiva, correo detrás as atalaias e, deitando o Caraujo 
fora do caminho, o carregou pêra as Furnas e, chegando sobre o mar e 
decendo do cavalo, lhe deu duas lançadas, de que logo morreo, e, errando 
a vereda e caminho por donde decem abaixo ', chegou o alcaide Mafote e, 
tomando-o nas ancas do seu cavalo, se tornou polo caminho da Ruiva 
com somente quatro de cavalo que ti verão com ele, o qual esteve per- 
dido, asi ele como os seus, que por ele esperarão^ na Ruiva, como homens 
de guerra, estando o capitão cora toda a jente no Facho e o adail Fernão 
Rodríguez nos Forninhos, e Mafote com quatro de cavalo e o Caraujo 
nas ancas pasáráo por junto dele, adail, que a por-se-lhe diante ficava o 
alcaide atalhado e os seus se pudérão perder, seguindo-os, mas a jente 
estava tão escarmentada do dia de Corpo de Deos que o adail não ousou 
sair da comisão do capitão e Mafote se recolheo a seu salvo, levando úa 
atalaia que era o Caraujo, e oje é vivo e feito carreteiro, por nosos peca- 
dos, sendo em Arzila cavaleiro e homem que servia d'atalaia e em tudo 
o em que o mandávão. 

Tãobem Alebenaix não deixava de correr, fazendo muito dano, por ser 
do Farrobo e trazer consigo os companheiros de Amelix, que todos érão 
muito bons cavaleiros e ousados e que todos sabíão muito bem o campo; 
e com isto pasarei a outras cousas mais grosas. 



CAPITULO XXIV 

De como muita jente correo a vila d'Ar:^ila 

estando o contador Diogo Mascarenhas pescando em Brias 

com vinte de cavalo e como se salvarão e o que mais socedeo este dia 



TORNANDO ao ano do nacimento de noso senhor Jesu Cristo de mil e 
quinhentos e vinte sete, polo qual tenho pasado por ir ao cabo com 
as idas e vindas do mourisco João da Silveira, como fica apontado, 
pois aconteceo que, estando o capitão, António da Silveira, dando sua 
guarda ao longo do Rio Doce, ao tempo que o rio pasava Diogo Mazca- 
renhas, filho do adail Fernão Mazcarenhas, que poucos dias avia que de 
Portugal fora e levara comprado o oficio de contador da dita vila d"Ar- 
zila, que servia Fernão Caldeira polo filho de Pêro López d'Azevedo, 
como em tempo do conde está declarado, — pois sendo Diogo Mazca- 
renhas entregue do oficio de contador, alvoroçado, como homem novo que 
ia de Portugal, e não como quem se criou e naceo em Arzila, induzido 

1 . decem] decião B N L M. — 2. esperarão] esperavão B N L M. 



— 6o — 

por alguns seus amigos, vendo que o capitão mandava descobrir a Aldeã 
Velha, lhe pedio licença pêra ir ao porto de Brias a pescar á cana e a 
tirar ostras de mergulho. O capitão lh'a deu, vendo que em Brias po- 
díão estar seguros, sendo a Aldeã Velha tomada, e logo se apartou Diogo 
Mazcarenhas, Simão da Fonseca, João López Requeixo, Luis Valente e 
outros quinze ou vinte de cavalo e, levando consigo António Pimenta e 
Bastião Fernândez Vesugo, homem de pé, pêra de mergulho tirarem as 
ostras, sem esperar que as atalaias descobrisem seus postos, se fôrão de- 
feitos ao rio. O capitão estando sobre os Caminhos, esperando que as 
atalaias chegascm a seus postos, que érão a Aldeã Velha e os Barreiros, 
e pasando os Codesos, elas dérão um bravo rebate falso, com o qual o 
capitão se recolheo até o Rio Doce, donde o rebate cesou e as atalaias 
tornarão a aparecer nos Codesos; mas Mulei Abrahem e o alcaide d'Alca- 
cere e Mafote, que já o era de Jazem, que na cilada de Barraxe estávão 
com três mil de cavalo, pêra aquele dia correrem a vila, vendo o rebate, 
parecendo-lhes que fora a eles, sairão da cilada, e tornando a dar outro 
segundo rebate, e vendo o capitão arrebentar a jente, recolhendo sua 
guarda e boiada, que já cora o primeiro rebate estava ao Rio Doce, se 
pasou da parte do Facho, desemparando a praia e o Rio Doce, e isto fez 
por se achar ás tranqueiras, donde tinha armado úa tranca corrediça, pêra 
que, entrando jente por ela, corresem a tranca e ficasem de dentro e 
fosem alanceados, mas este ardil não ouve efeito este dia, por a jente vir 
toda demandar o Rio Doce, e alguns que ao Facho fôrão ter não ousarão ' 
entrar, vendo o capitão junto da orta do doutor meu irmão; mas Diogo 
Mazcarenhas, e os que com ele érão, pasárão muito risco de não se per- 
derem todos, e se salvarão em a muita delijencia que pusérão em fujir 
no primeiro rebate, o qual os tomou já no rio, e, tomando o rebate, se 
pusérão ao caminho, sem esperar uns por outros, e o dianteiro foi Simão 
da Fonseca, escrivão dos contos e muito amigo de Diogo Mazcarenhas, 
ao qual João López Requeixo, chegando a ele, lhe dise : «De que fujimos?» 
Simão da Fonseca lhe dise: «A atalaia d'Alfandequim despovoou muito 
rijo e não é razão que nos recolhamos de vagar, não tendo Alfandequim 
povoado, pois é nosa candea», [d]a = qual delijencia foi causa Fernão Mei- 
rinho que, chegando as atalaias d' Alfandequim e vendo a jente vir polo 
caminho d'Alecasapo, fez despovoar as atalaias muito rijo, que foi causa 
que, vendo Diogo Mazcarenhas e os outros companheiros a Simão da 
Fonseca de diante, todos o seguirão até o Rio Doce, donde já as ban- 
deiras e jente érão, e, como os dianteiros vínhão ao longo do valo, eles 
tivérão lugar de se vir ao longo da praia, parecendo, aos que diante deles 
vínhão ao longo do valo, que érão mouros, e os [que]^ detrás [vínhão]* não 
os podendo alcançar, e asi se salvarão, chegando ao pé do baluarte da Praia, 

1 . ousarão] ousavão B N L M. — 2. [J] /. A. — 3. [que] /. A. — 4. [vínhão] /. A. 



— 6i — 

e se fôrão juntar com o capitão; que, vendo o peso da jente ao Rio Doce, 
os teve por perdidos, todavia, ficarão atalhados da outra parte do rio, que, 
não podendo ajuntar-se com o contador, Luis Valente e Jerónimo Afonso e 
os dous de pé, a que logo tornarei, tanto que [contar como]' os mouros 
viérão matar a Rodrigo Afonso de Farão, pai de Roque de Farão — , o qual 
estando aquele dia pacendo com seu cavalo e dous bois desta parte do Rio 
[Doce] -, junto da fonte d' Álvaro Graviel, donde tinha um pouco de pão 
sameado em Ga muito roim terra, e tomando o rebate, o cavalo, que era 
poldro e novo, lhe fujio, e se deteve tanto, andando polo tomar, que, quando 
desconfiou dele, foi vendo as bandeiras e jente, que pola outra parte do 
rio vínhão, terem já pasado o rio, e outros que, pasando o porto d'Alemo- 
quique, vínhão já cruzando ao Facho e as Pontinhas, e, alargando o ca- 
valo e tomando os dous bois diante de si, se começou a vir; mas, como 
a este tempo chegarão dous mouros que sobre as Pontinhas, donde esta- 
vão, deles foi visto, o viérão alcançar no meio do adro, junto do baluarte 
de Santa Cruz, donde o matarão á mingoa de não aver um só de cavalo 
naquela parte, por serem todos ás tranqueiras com o capitão, e, quando 
um só de cavalo acodio aos brados que de cima do baluarte dávão, já lhe 
não pode valer, nem os mouros tivérão vagar de se decerem e lhe tira- 
rem as couraças que tinha vestidas, e asi acabou Rodrigo Afonso, per- 
dendo o cavalo e bois com a vida, estando em lugar seguro e muito perto 
da vila, e donde ele estava via a jente desde que arrincou da cilada até 
pasar pola boca do Rio Doce, e asi os outros que polo porto d'Ale- 
moquique pasárão, de maneira que, por estar só e não querer alargar o 
cavalo com tempo, foi causa de perder a vida e o mais. 



CAPITULO XXV 

Do que mais aconteceo a Luis Valente e Jerónimo Afonso 

que detrás do contador se vínhão recolhendo 

achando os mouros de diante 



TORNANDO a Luis Valente, que com o contador, Diogo Mazcarenhas, 
era, posto que vio ao contador e a Simão da Fonseca e os outros 
vir fujindo pêra a vila, vendo ficar a Jerónimo Afonso, ferrador, 
que em aquele tempo era novo na terra, e que estava despido pêra se 
meter na agoa, como António Pimenta e Bastião Fernândez, não o que- 
rendo leixar, esperou por ele, e ambos, vindo um bom pedaço atrás, 
quando chegarão á vista do Rio Doce, virão já a jente e bandeiras na 

i. [contar como]/. A. —2. [Doce] /. A. 



— 62 — 

praia, e, conhecendo que tudo érao mouros, tornarão pêra trás; mas, 
como os mouros ouvesem vista deles, os seguirão, indo muitos de cavalo 
após eles e indo alem de Santa Caterina, que é o meio caminho, toparão 
o António Pimenta e Bastião Fernândez, poios quais pasárão, dizendo-lhe 
que se botasem ao mar, porque os mouros ião em seu alcanço, os quais 
vendo os mouros junto de si asi o fizérão, deitando-se ambos ao mar, 
mas, como o vento e a agoa lhes dése no rosto, não podendo trazer o 
rosto na vila, como barco ou navio que arriba, virarão' as costas ao vento, 
caminho de Tanjere. Os mouros, vendo-os deitar ao mar, se detivérão, 
parecendo-lhe tornaríão cansados demandar a praia, e, com esta pouca 
detença que os mouros fizérão, Luis Valente e Jerónimo Afonso tivérão 
lugar de pasar o rio e se ir embrenhar a úa das aldeãs e, deixando os 
cavalos em o mais escuso que lhe pareceo, e asi um mulato novo que 
Luis Valente levava após o cavalo, se afastarão e tomarão a atalaia, pêra 
ver se os mouros ião ter com eles, e virão chegar trinta ou corenta de 
cavalo e embaraçados * por antre as aldeãs com os muitos rastros que 
fizérão, primeiro que na brenha entrasem, e, vendo ser já tarde, se tor- 
narão, fazendo muita matinada, como que púnhão culpa aos dianteiros 
perderem-nos de vista, mas Luis Valente, sendo já noute, como homem 
do campo e acordado, que sempre foi, tornando a buscar os cavalos e 
pondo-se neles, asi ele como Jerónimo Afonso, tornarão a demandar o 
porto de Brias, donde Luis Valente, leixando a Jerónimo Afonso com os 
cavalos, veio a pé espiar e ver se sintia alguém no porto e, não sintindo 
cousa algíãa, o pasou, e polo meio da varzia se viérão lançar no Tojal, 
não ousando cometer o Rio Doce, nem a praia, sospeitando os esperaríão, 
pois sabíão que érão lançados ao campo, como de feito os esperávão cento 
de cavalo, os quais estivérão toda a noute ao longo do valo do Rio Doce, 
esperando se alguém vinha demandar a praia, como de feito veio o An- 
tónio Pimenta e outro homem que eles matarão, como logo direi ; e asi 
esteve Luis Valente e seu companheiro até que foi menhã crara, que vio 
a vila e praia e que na vila não avia rebate, nem rapique, cometeo a praia 
e se veio á vila, sem achar mais que António Pimenta e o companheiro 
mortos junto da vila e junto do adro, que, vindo-se de noite muito can- 
sados e cortados da agoa e frio, fôrão vistos dos mouros que os espe- 
rávão e os matarão, e asi esperarão até que foi de dia, e ao tempo que 
eles despejarão o Rio Doce e a praia a cometeu Luis Valente, o qual foi 
muito bem recebido do capitão, por se saber bem salvar, e asi de toda a 
vila, por ser natural e pesoa muito honrada e bemquisto. 

Tornando a António Pimenta e a Bastião Fernândez, que na agoa 
ficarão, sendo-lhe o vento e agoa contrairo, se leixárao ir na volta de 
Tagadarte, indo sempre muitos mouros á sua vista ao longo da costa; e, 

I. virarão] virão A. — 2. embaraçados] ençarracados A. 



— 63 — 

sendo já noute e os mouros tornados, sairão a terra da outra parte de 
Tagadarte e, tomando a pasar o rio, se viérão pola praia, mas eles vínhão 
tão cortados de andarem muito tempo na agoa e do frio que, posto que 
António Pimenta era homem mancebo e revolto ' em carnes, acabou de 
enterecer = de todo, sem poder dar paso, e, visto por Bastião Fernândez 
que António Pimenta não podia bulir-se e vindo ambos em couros, lhe 
dise que se não agastase, que ficase, que ele viria demandar a vila e se 
Deos o salvase diria ao capitão que mandase um barco pêra ele, e asi o 
leixou e chegou á vila sem topar mouro, nem cousa que o estorvase, que 
parece não érão ainda os mouros na praia; e tanto que o Bastião ^ Fer- 
nândez chegou e o capitão soube que António Pimenta ficava enrilhado 4, 
não como a homem preto, senão como que fora ^ Qa pesoa principal, asi 
pôs logo muita dilijencia em mandar um barco esquipado com seis homens 
com roupa e pão e vinho e outras cousas pertencentes pêra o esforçar; 
e, sendo já recolhidos no barco e o Bastião Fernândez, que já estava re- 
pairado, asi de roupa como do estômago, que com eles ia, ouve referta 
se, esforçando-se o António Pimenta, viria por terra e érão dous, e eles 
iríão ter a Tanjere, por o tempo ser vendaval e não servir pêra poderem 
tornar, e nesta referta um galego, mais farto de vinho que de rezão, 
tomando Ga borracha de vinho e pão e algúa cousa das que levávão pêra 
meter na boca, dise aos companheiros: «Ide vós outros por mar e eu irei 
por terra, e asi o não erraremos», o qual foi ter com ele, e, segundo pa- 
rece, depois de resforçados, se vínhão ambos pêra a vila, e defronte do 
adro, sendo vistos dos mouros e sendo o galego alcançado, foi logo morto 
de muitas lançadas, e o António Pimenta se tornou a deitar á agoa e, 
como vinha fraco e muito enrilhado, não teve força pêra se soster e, fal- 
tando-lhe as forças, se afogou, e pola menhã fôrão ambos achados na 
praia, o António Pimenta afogado e o galego pasado de muitas lança- 
das. 

Parece que quis Deos que pagase o que devia, porque dizíão que este 
galego foi o que matou em Tavila a Rui de Melo da Cunha, tirando-lhe 
com úa besta, e, feito este tão mao feito, se foi pêra Arzila, u '^ se fez 
pescador, e, estando salvo, se ofereceo pêra pagar o que devia, como pa- 
gou. 



I. revolto] envolto BNLM. —2. enterecer] entanguecer BNM; entengacer L. — 
3. Bastião] Estêvão A. — 4. enrilhado] entanguido B N ; entenguido L M. — 5. não como... 
que fora] não como homem preto que era mas como ele fora B L ; /. N M. — ó. u: onde 



64- 



CAPITULO XXVI 



Dalgíías almogaverias feitas por Arlur Rodrigue:; e por Afonso Barriga 

e Estéi'ão Fernândei almocadens que neste tempo fòrão fora 

. e outras entradas por Diogo da Silpeira feitas 



COMO a mais da guerra que neste tempo se fazia era com almoga- 
vares, entrando [um dia] ' Artur Rodríguez com vinte cinco de cavalo 
e estando em cilada ao pé d'Almeida, sobre o Castelejo, sobre úa 
cevada que já estava começada a segar, e vendo que ninguém vinha a 
ela, se melhorou ao pé d'Arraihana, donde foi dar com alguns mouros 
que alimpando favas estávao e, matando um, tomarão dous mouros e 
duas mouras, um dos quais era irmão de João Preto, mourisco, que em 
Arzila era cristão e casado e homem de campo, e outro era moço e irmão 
das duas mouras, as quais érão moças e muito fermosas, tanto que avia 
muitos anos que outras tão fermosas não avião entrado em Arzila, as 
quais érão d'Arraihana, aldeã do Farrobo, donde as molheres são muito 
alvas e muito fermosas. Fez a fermosura destas duas irmãs esta almo- 
gaveria mais lustrosa e afamada, por estas duas irmãs, as quais ambas 
comprou o capitão, pêra acompanharem a sua molher Dona Jenebra de 
Brito, polas quais deu mais preço do que outro algum morador quis dar; 
o irmão delas comprou Paulo Majolo, meu cunhado, o qual não tardou 
muito que o não resgatasem, e asi fizérão muito por resgatar as duas 
irmãs, mas a senhora Dona Jenebra nunca as quis poer em resgate e as 
trouxe a Portugal, donde depois fôráo cristãs e oje são casadas e honra- 
das. 

Não tardou muito que Afonso Barriga e Estêvão Fernândez, almoca- 
dens, e outros cristãos e moradores não pedirão licença pêra irem entrar 
aquela parte do Farrobo, e, dando-lh'a o capitão, com quinze ou vinte de 
cavalo se fôrão lançar em Tesmuz, sobre o Castelejo, donde virão dez 
ou doze de cavalo que em cima dos seus cavalos andávão debulhando úa 
eira de cevada, que era a própria cevada em que Artur Rodríguez avia 
estado, quando tomou as duas irmãs, á qual os do Farrobo avião sameado 
em uns monturos de Gas aldeãs velhas, que ao pé d' Almeida estávão, 
vindo em um só dia a semeá-la e em outro segá-la e em outro debulhá-la, 
em cima de seus cavalos, por ser desta parte da ribeira e em parte donde 
a não podião recolher sem muito perigo deles. Pois andando eles debu- 
lhando, ouve Afonso Barriga vista deles e, vendo-os de lonje, os estranhou, 

I. [um dia]/. A. 



— 65 — 

parecendo-lhe nos vestidos jente de guarnição, especialmente um que 
andava vestido em um bedem branco que, por sua alvura, lhes pareceo 
aos nosos ser camisa mourisca, e, avendo seu conselho, se afirmarão ser 
jente de fora, porque jente do Farrobo não trazia camisa mourisca em dia 
que fazíão seu trabaiiio, e, asentado por Afonso Barriga serem ospedes, 
o quis fazer saber ao capitão, que aquele dia andava daquela parte a 
monte no Pedregal, e mandando um de cavalo, veio ter com o capitão- 
e, dando-lhe recado do que era e lhes mandase mais jente, ou ele em 
pesoa fose ter com eles, o capitão, parecendo-lhe ser tarde, o não quis 
fazer, antes, mandando um homem á vila, mandou tirar quatro ou cinco 
bombardas pêra que os seus se recolhesem, como recolherão, que, ouvindo 
a artelharia e sabendo a vontade do capitão, logo se viérão, mas com 
esta artelharia todos os mais que andávamos fora do capitão recebemos 
dano, porque, tomando o rebate das bombardas, deixamos a carne e nos 
recolhemos, e afirmávamos que neste dia leixamos mais de cem cabeças 
de porcos mortos, mas o capitão, todavia, trouxe os que tinha morto •, 
mas, sendo Afonso Barriga na vila e tomando o capitão sua enformação, 
logo o outro dia nos mandou fora a cincoenta de cavalo com António 
Cabral, irmão de Fernão d'Álvarez Cabral, dando-lhe por almocadem a 
Diogo da Silveira e a Artur Rodríguez e aos mais que com António Ca- 
bral quisérão ir, e chegamos a Tesmuz, donde vimos os mouros ao der- 
redor da eira ou eiras, e, partindo Diogo da Silveira a jente, tomou úa 
melhora e, saindo aos mouros, lhes tomou o porto da ribeira, mas os 
mouros, que todos andávão com os cavalos em oso, tendo a cevada meia 
limpa e os telizes colheitos ' e os mais cheios de cevada pêra a levarem 
nos cavalos, os quais, tomando o rebate em cima dos cavalos, dérão con- 
sigo na ribeira e, deixando os cavalos, se meterão por ela, e, chegando 
os nosos, não pudérão pasar a ribeira, por ser muito forte, e tãobem por- 
que fôrão logo socorridos de muitos mouros de pé adargados, que logo 
acodírão do Farrobo, Aljebila e Arraihana, e, tirando todos os cavalos da 
ribeira, os trouvérão á vila, muito contentes por leixar os cavaleiros do 
Farrobo a pé. Erão os cavalos nove, entre os quais viérão muito estre- 
mados jinetes, entre os quais foi um fouveiro que o capitão, António da 
Silveira, comprou, que ele trouxe a Portugal e o deu a el-rei, noso senhor, 
por ser muito manso e muito largo, e certo que foi um dos mais honrados 
cavalos deste reino. Com esta presa de nove cavalos e três ou quatro 
telizes de cevada nos recolhemos, saindo da vila Qa ora de sol, e tornamos 
á bespera tanjida. Foi António Cabral muito bem recebido do capitão e 
doutros fidalgos que na vila avia. 

Os cavaleiros do Farrobo fôrão logo tornados a encavalgar, porque^ 
tanto que se soube em Féz, os da mezquita maior logo lhe mandarão outros 

I. colheitos] cozeitos BNM; coseitos L. 

ANAIS DE ARZILA r> 



— 66 — 

muito bons cavalos, porque esta mezquita tem cargo de os prover, pois 
que fazem a guerra, quanto mais que Mulei Abrahem, sendo seus, os 
provia, de maneira que a nenhum cavaleiro do Farrobo leixava estar em 
cativo, pondo outro cristão por ele. Neste tempo Diogo da Silveira foi 
entrar, dando o capitão esta licença a Tomé de Sousa, filho do abade de 
Rates, que oje é veador d'el-rei, noso senhor, cora o qual fomos cincoenta 
de cavalo, indo o dito Tomé de Sousa por noso capitão, e Diogo da Sil- 
veira nos guiou e levou a Agoni, aldeã principal de Benagorfate, sua terra 
dele, Diogo da Silveira, e, correndo o campo até dentro das tranqueiras, 
matamos um mouro e tomamos dous e, sem algum contraste, nos viemos 
á vila, trazendo estes dous mouros com que o capitão muito folgou, por- 
que Diogo da Silveira, sempre que ia fora, mostrava pêra quanto era. 

Não pasárão muitos dias, depois desta ida de Tomé de Sousa, que o 
capitão, tendo boa nova, deu outra licença a Fernão d'Alvarez Cabral, 
irmão de António Cabral, e cora ele fomos cincoenta de cavalo, indo 
tãobem outros fidalgos que na vila estávão, em que entrava seu irmão e 
Dom João de Sande, e Diogo da Silveira nos meteo antre Agoní e Çahara 
e, correndo pola parte d'Agoni, nos espalhamos, de maneira que alguns 
chegarão á ribeira de Mençara, e desta corrida tomamos cinco mouros 
vivos e seis vacas e três asnos carregados de trigo, e, recolhendo-nos sobre 
tarde pola boca de Capanes, nos seguirão por dentro da serra mais de 
cento e cincoenta mouros de pé e quatro de cavalo, e viérão até sobre 
Alicototo,' mas, não ousando sJir da terra, nem decer abaixo, se deixarão 
ficar, indo, todavia, Diogo da Silveira á fala com eles, mas eles, vendo 
que éramos muitos, se leixárão ficar e nós com nosa almogaveria nos 
viemos á vila, donde chegamos de noute, sendo do capitão muito bem 
recebidos, e ao outro dia os mouros vendidos asaz bem, por neles aver 
homens abastados, que Diogo da Silveira muito bem conhecia, polo qual 
conselho o capitão comprava os milhores e que mais proveito e resgate 
lhe podião dar, e, por isto e por sua calidade e saber, era do capitão tão 
favorecido e honrado que, alem de tudo, lhe fez mercê de Qas casas 
muito grandes e boas que ficarão de António Pimenta, preto, que mor- 
rera afogado, como atrás fica apontado, que, por morrer sem erdeiro, 
ficávão a ele capitão, nas quais casas Diogo da Silveira viveo até o des- 
pejo da vila e lhe fôrão pagas da maneira das outras. 



67- 



CAPITULO XXVII 



Em que se conta brevemente como el-rei que logo foi de Fé:{ 
veio correr a Tanjere e desbaratou cincoenta de cavalo de Tanjere 



PARECE rezão, pois ei contado e dado rezão dalgúas cousas feitas por 
almogavares, pasar a outros mores feitos, e por ser um dos mais 
asinalados a vinda de Mulei Hamete, que logo foi rei de Féz, por 
desbaratar no campo de Tanjere ao almocadem velho, Álvaro Fernândez 
Lião, que com cincoenta de cavalo achou no campo, polo qual feito pasa- 
rei, contando somente como esta jente correo a Tanjere e o dano que 
fízérão, e como correo Arzila. Neste tempo Dom Duarte de Meneses, 
capitão de Tanjere, deu licença ao almocadem velho que com cincoenta 
de cavalo fose á serra de Ciguidelí esperar almogavares, donde esteve 
dous dias e duas noutes, sem ver, nem sintir cousa de que se temesem ; 
mas, como estava fadado ser ao outro dia sua perdição, dizem os de 
Tanjere que eles, a noute dantes, se anunciarão, de maneira que, não 
bastando fazer toda a noute fogo, em que asarão muita carne e coelhos 
que tmhão morto, atando-se uns aos outros com cabrestilhos, se trazíão 
em leilão e se vendíão como cativos, dizendo: «Tantas onças dão por este 
cristão?» e, posto que isto seja falso e abuso, a eles saio verdadeiro, por- 
que algiãas guardas, que Mulei Abrahem trazia diante de si, vendo o fogo, 
os sintírão e contarão, e aquela noute [foi levada a nova] ' a Mulei Abra- 
bem, que junto com Benamaçuar estava com toda sua jente, esperando 
por Mulei Hamete, filho d'el-rei de Féz, já morto, que ao outro dia se 
avião d'ajuntar na ponte de Gosma, três legoas de Tanjere; e, tanto que 
Mulei Abrahem teve nova dos cristãos, mandou logo recado a el-rei que 
andase e não descansase, porque tinhão os cristãos no campo, e mandou 
ao almocadem, Alebenaix, que o guiase e pasase a serra do porto d'Al- 
feixe, e que ante-menhã fose no campo de Tanjere, e ele, Mulei Abrahem, 
foi amanhecer no porto d'Anacisa =, esperando que a menhã mostrase o 
que os nosos farião, os quais, tanto que foi menhã, como homens que 
outra cousa lhes não lembrou que avião d'achar senão o que eles ião bus- 
car, que era até aquela ora esperar almogavares e dali por diante porcos 
pêra montearem, e, apartando-se de dez em dez 3, se espalharão polo 
campo monteando; mas logo Mulei Abrahem deu neles, e alguns, que 
dele se afastávão 4, fôrão dar na jente d'el-rei, de maneira que de cincoenta 

I. [foi levada a nova] /. A. — 2. Anacisa] Anafisa B L M ; Nasifa N. — 3. dez em dez] 
dous em dous B N L M. — 4. afastávão] afastarão B N L M. 



de cavalo se perderão mais d'ametade, c os que escaparão os mais per- 
derão os cavalos, embrenhando-se poia serra, e destes com muito risco 
viérão três de cavalo a Arzila, indo muitos mouros depôs eles até o rio 
de Tagadarte, o qual pasãrão a nado e viérão ter a Arzila, dos quais 
era um João Fernândez o Bravo com outros dous companheiros, com a 
qual nova o capitão, António da Silveira, andou muito recolheito e a bom 
recado, e mandou logo um barco a Tanjere a saber do dano feito, porque, 
segundo o Bravo, João Fernândez, dizia, não podia deixar de ser muito, 
como foi, mas a cidade este dia não recebeo dano. Ao terceiro dia correo 
toda esta jente Arzila e saio do Palhegal e, pasando o porto d'Alemoqul- 
que, foi logo no Facho, e quis Noso Senhor que não fizérão dano, por o 
capitão andar muito recolheito e trazendo sua boiada a bom recado ; e, 
com esta vitoria, se recolherão pêra Féz, dizendo que fizérão esta ganima ' 
pola alma d'el-rei morto. 



CAPITULO xxvni 

Como el-vei Bohaçum rei de Féi foi deposto e tirado de rei 
e levantado Mídei Hamete e do que mais socedeo 



POR neste tempo aver em Féz mudanças, por despoerem e tirarem a 
el-rei Bohaçum e enlejerem a Mulei Hamete, filho ' erdeiro de 
Mulei Mafomede, o guerreiro rei de Féz, e, por o movedor e prin- 
cipal autor deste tão asinalado feito ser Mulei Abrahem, tanto conhecido 
e noso vezinho, pareceo não sair fora da ordem e preposito em contar este 
feito, o qual pasou desta maneira. 

Já atrás fica apontado como, por morte de el-rei Mafomede, ficou por 
rei Mulei Boaçum, seu irmão, de que Mulei Abrahem foi muito descon- 
tente e não quis ir a Féz, nem lhe dar a obediência, porque quisera que 
ficara por rei o Mulei Hamete, e por neste tempo resgatar a Francisco 
Lionárdez, um dos quatro cativos de dia de Corpo de Deos, que já dise 
lhe cairá em graça, o qual foi resgatado por trezentos cruzados, e ficando 
o capitão por eles, o mandou a Arzila, escrevendo a el-rei, noso senhor, 
pedindo-lhe deixase pasar a Francisco Lionárdez por Çafim com seu re- 
cado aos xarifes, reis de Marrocos e de Suz, pêra se liar com eles, se 
el-rei de Féz quisesc ir sobre ele, e, sendo Francisco Lionárdez em Mar- 
rocos sobre este negocio, se pasárão estoutras mudanças e cousas que 
agora direi. Desejando el-rei Mulei Bohaçum de trazer a sua obediência 

1. ganima: entrada em terra de inimigos para prear. Galima em castelhano. — 
1. filho] feilho A. 



-69- 

a Mulei Abrahem, quis vir abaixo a correr a Arzila e a Tanjere, pêra com 
este achaque se ver com ele e se fazer seu amigo e, quando o não pudese 
fazer, o prender, e com todos os alcaides se saio fora de Féz, do que logo 
Mulei Abrahem foi avisado por Mulei Hamete, ao qual ele responde© que 
fizese por se adiantar e ver com ele, primeiro que el-rei decese abaixo, e 
a el-rei escreveo ou mandou dizer que viese, que ele e seu cunhado o 
esperarião no campo pêra o servir, como fizera sempre. Com este re- 
cado el-rei ficou confuso e praticando' com seus sobrinhos e filho e outros 
alcaides, o Mulei Hamete, como pesoa mais principal, desculpou a Mulei 
Abrahem, dizendo que estava em serviço d'el-rei e que lhe desem licença 
que ele viria abaixo e lhe tiraria algúa sospeita, se a tinha, e prometia de 
o levar a el-rei, e com isto se adiantou d'el-rei, vindo com ele todos os 
mais alcaides do reino; outros dizem que veio sem el-rei lhe dar licença, 
nem o saber, e foi aconselhado de Mulei Maçoude, filho de Mulei Naçar, 
senhor de Mequinez, e de outros alcaides, que se tornase pêra Féz e espe- 
rase a ver em que parava esta ida e vistas de Mulei Hamete e de Mulei 
Abrahem, mas Mulei Hamete, filho d'el-rei Mulei Bohaçum, que depois 
esteve neste reino, que muito cavaleiro era, não quis mostrar fraqueza 
em se tornarem a Féz, antes fez que ao longo do rio d'Arga esperasem 
o recado de Mulei Hamete, o qual foi da vitoria e ganima que ouvérão 
no campo de Tanjere, e trás esta nova lhe fôrão cartas de Mulei Hamete 
do que fizérão em Tanjere e quantos cativos e cavalos levávão, dando 
toda a mais da honra a Mulei Abrahem, que por sua industria e manha 
se perdei ão os cristãos, e que Mulei Abrahem e seus irmãos ião com ele 
a Féz a servir a el-rei. 

Com estas novas folgou muito el-rei, Mulei Bohaçum, e, por o sobri- 
nho vir muito posante e trazer muita jente, não ousou esperá-lo no campo 
e ouve por seu conselho de se ir pêra Féz e o esperar nele e, por lhe 
fazer mais honra, o sair a receber fora da cidade e tendo junto de si Mulei 
Maçoude, que, por ser filho de Mulei Naçar e senhor de Mequinez, era o 
maior senhor do reino ; mas Mulei Hamete e Mulei Abrahem levávão 
outro preposito, diferente do seu, porque praticado o negocio antre ele.s 
foi que Mulei Hamete se fizese rei, dizendo Mulei Abrahem que, se ele 
quisese ser rei, ele viria a Féz e poria sua pesoa e estado polo fazer rei, 
e doutra maneira não iria ver o rostro a Mulei Boaçum, seu tio; por este 
reinar ser tão cobiçoso o aceitou e logo arrancarão pêra Féz, indo com 
eles o alcaide d'Alcacere Quebir, que era o mais valeroso do reino, e, 
chegando ao rio de Cebú, que é o que comunmente châmão da Mamora, 
seis legoas de Féz, Mulei Hamete se adiantou com os alcaides que com 
ele érão, deixando a Mafote, alcaide de Jazem, seu privado, em seu lugar, 
com a bandeira e jente, mandando-lhe, todavia, que em tudo fizese o que 

I. praticando] praticado A. 



— IO — 

Alulei Abrahem lhe mandase, e disese que ao outro dia a oras de comer 
entrase em Féz. 

El-rei, tanto que soube que o sobrinho ia a ele, o saio a receber com 
toda a corte, fazendo-lhe muita honra c gasalhado, o beijou no rosto e se 
tornarão pêra Féz, a esperar que Mulei Abrahem entrase ao outro dia, 
dizendo Mulei Hamete algúas desculpas de Mulei Abrahem, que el-rei 
recebeo; e ao outro dia, que Mulei Abrahem avia de entrar, el-rei se foi 
pêra o banho, donde em úa casa, que pêra esperar os ospedes tinha, e 
tendo juntos seus sobrinhos e filhos, esperou que Mulei Abrahem entrase 
e lhe viese falar, o qual chegou ás portas de Féz acompanhado de muita 
jente de cavalo, asi da sua como de muitos que o sairão a receber e ver; 
e, entrando antre as portas que châmão Albabceba, que quer dizer «a 
porta do Lião», donde continuadamente está o alcaide do Cequife ' com 
trinta ou corenta homens, ordenados pêra guarda daquela porta, tendo 
muitas lanças, chuças e alabardas arrimadas ás paredes, e asi pinduradas 
adargas, saias de malha, corpos de couraças, capacetes, tudo pêra favor 
do alcaide e guarda da porta; e estando o alcaide á porta com sua lança 
na mão, acompanhado de corenta até cincoenta homens armados, Mulei 
Abrahem chegou acompanhado de mais de dous mil de cavalo, seus e de 
Mulei Hamete e de outros muitos de Féz, qne a o receber e ver sairão, 
e, tanto que foi diante do alcaide do Cequife, lhe preguntou por quem 
tinha aquela porta e cidade. O alcaide respondeo que Deos enxalçase a 
Mulei Bohaçum, seu senhor. Logo Mulei Abrahem lhe dise : «Não hás de 
dizer asi, senão Deos enxalce a Mulei Hamete, rei de Féz» ; e, ficando o 
alcaide embaraçado, ele em alta voz começou a dizer: «Alá ençor Mulei 
Hamete e Alá aix Mulei Abrahem!» e logo todos os seus, a grandes 
brados, disérão como ele, o que quer dizer «e Deos enxalce a el-rei Mulei 
Hamete e viva Mulei Abrahem!», e, deixando logo ali ao alcaide Mafote 
em guarda da porta, se foi com toda a jente ás casas d'el-rei, dizendo o 
apelido, o qual foi logo dito a el-rei e ouvido dele e de toda sua casa, e, 
ficando espantado, dise aos sobrinhos: «Traição é isto!» e mais dizem 
que dise contra o sobrinho: «Se tu queres ser rei toma o reino, que eu 
em minha casa estou contente», mas, como Mulei Abrahem entrou, logo 
foi encerrado em úa camará, e, apoderado de toda a casa e molheres 
d'cl-rei e saindo polas ruas e cidade, fez que os almeriques ' ou ' adais 
fosem pregoando: «Deos enxalce a el-rei Mulei Hamete!», de maneira que 
naquele dia foi obedecido por rei em Féz o novo e em Féz o velho, sem 

I. alcaide do Cequife : isto é alcaide do Castelo. <iHa na cidade de Fe^ o Velho um 
governador que chamam alcaide do Acequife [é o inesmo nome com o artigo árabe], o 
qual vive sempre na alcáçova^ e tem a seu cargo a guarda da cidade... ^ [Marmol, Des- 
cripcion de Affrica, L. i\,fol. g5\- Veja-se Do^iy, Supplément aux dictionnaires árabes, 
},p. 663. — 2. almeriques] almariquis B N M ; almariquim L. A significação deste vocá- 
bulo, parece ser a de pregoeiro, arauto. — 3. ou] e B N L M. 



— 71 — 

aver pesoa que ousase fazer, nem dizer outra cousa, posto que o Mulei 
Bohaçum era muito bemquisto, por ser muito bom homem e manso e 
quieto, e sempre pedio que o leixasem em sua casa, que ele alargava o 
reino a seu sobrinho, mas não lhe prestou nada, porque el-rei novo o teve 
preso até que morreo, e afírmão que foi mandado afogar; e, porque 
depois disto socedeo a causa de sua morte e a vinda de Mulei Haraete, 
seu íilho, fujir e vir ter a este reino, donde recebeo muita honra e mercê 
d'el-rei, noso senhor, brevemente contarei o que mais pasou. 



CAPITULO XXIX 

Da cansa porque Mulei Hamete filho maior d'el-rei Bohaçum 

veio ter a este reino e da honra e mercê 

que d'el-rei noso senhor recebeo 



SENDO Mulei Hamete rei pacifico e quieto, tendo, todavia, preso a seu 
tio, el-rei Mulei Bohaçum, se lhe ofereceo guerra com os xarifes, 
reis de Marrocos e de Suz, e, fazendo seu exercito o maior e milhor 
que pode, e deixando ordenadas as cousas do reino e boa guarda em Féz 
o novo, onde deixava o tio preso, caminhou sobre Marrocos e, estando 
sobre ele e os xarifes encerrados dentro da cidade, lhe chegou nova como 
em Féz ouve ' movimento, porque os filhos d'el-rei, seu tio, o quisérão 
tirar da torre donde estava preso; e, tanto que teve esta nova, levantou 
o arraial e se tornou a Féz; o qual movimento foi que, sendo el-rei em 
Marrocos, Mulei Hamete, filho maior d'el-rei Bohaçum, se concertou com 
os principais de Féz o velho e em íla menhã de sesta-feira, em abrindo 
as portas, entrarão mais de cento de cavalo com Mulei Hamete, bra- 
dando: «Deos enxalce a el-rei Mulei Bohaçum!» e, matando alguns dos 
que estávão á porta com o alcaide do Sequife, pasárão á torre, não espe- 
rando que a jente de pé entrase, que, com outro seu irmão, chamado 
Mulei Naçar, vinha, que já era ás portas, mas, como o alcaide acodio 
com mais jente, botando [fora] * os que á porta ficarão, tivérão lugar de 
cerrar as portas, ficando Mulei Naçar de fora com toda a jente de Féz o 
velho, que, pêra livrar a seu rei, toda vinha com boa vontade; mas, como 
Mulei Hamete não teve o socorro e favor do irmão, não tão somente 
tirou a seu pai ^, mas antes, não podendo resistir ao alcaide do Cequife, 
leixando os cavalos, por não ser preso se lançou por cima dos muros fora, 
e, fujindo d'el-rei, se veio a Azamor a Dom Álvaro d' Abranches, e dahi 

1. ouve] avia B N L M. — 2. [fora] /. A. — 3. tirou a seu pai] pode tirar o pai da 
prisão B N L M. 



— 72 — 

pasou a este reino, donde esteve até que el-rei, noso senhor, lhe ouve 
perdão d'el-rei seu primo e se foi pêra Féz por Arzila, fazendo lhe muita 
honra e dando-lhe dez cruzados pêra cada dia; mas el-rei, tanto que 
chegou a Féz, dizem que fez matar ao tio preso, ainda que eles dizem 
que faleceo de doença na prisão. Destas cousas e morte d'el-rei Mulei 
Bohaçum pesou muito a Mulei Maçoude, filho de Mulei Naçar, que era 
senhor d'ametade do reino, por donde se causou sua morte, como adiante 
se dirá; c com isto, que basta pêra se entender as mudanças que ouve 
pêra vir a ser rei Mulei Hamete, que o reino de Féz teve até que o xarife 
lh'o tomou e tirou com a vida, como em seu lugar, Deos querendo, se 
dirá, tornaremos á nosa ordem, que somente é contar os feitos e casos 
acontecidos em meu tempo. 



CAPITULO XXX 

Como el-rei de Fé^ com muita jente correo Arzila e saindo do Tojal 

chegou até a Bica e achando-se o capitão António da Silveira na praia 

lhe matou sete mouros de cavalo 



SENDO el-rei de Féz pacifico e seguro [em seu reino] ', sem contradição 
de ninguém foi obedecido, ainda que todos desejávão a soltura d'el- 
rei [Bohaçum] ^, e, por mostrar que era imigo de cristãos, úa das 
cousas que primeiro fez foi decer abaixo e correr a Tanjere e Arzila e, 
saindo de Féz com todos os alcaides e muita jente, entrou no noso campo, 
trazendo cinco ou seis mil de cavalo, e, sem ser sentido nem o sabermos, 
se viérão meter em cilada no Tojal, sobre o Rio Doce, com trazerem um 
bravo ardil, que, andando a boiada pacendo e tendo a sesta no adro, 
mandaríão romper o valo com homens de pé e, sendo o valo do Rio Doce 
roto, virião tomar a boiada ao pé do outeiro de Fernão da Silva ou no 
adro, donde costumava ter a sesta. Pois estando el-rei e Mulei Abrahem 
e o alcaide d'Alcacere com outros alcaides no Tojal, donde víão a praia e 
a vila e a porta da Ribeira, e asi a boiada que no adro estivera tendo a 
sesta, e já se começava a alargar contra o pé do outeiro de Fernão da 
Silva, mandarão a Alebenaix, almocadem do Farrobo, de quem o ardil 
era, que com cem homens de pé com enxadas viesem romper o valo. Não 
parecendo cousa viva pola praia, aconteceo que, sendo já oras de se dar 
a guarda e sendo o dia do adail, Fernão Rodríguez Colares, a quis dar da 
outra parte do Rio Doce; querendo [sair]^ pola porta da Ribeira, Rui Car- 
valho, porteiro, lhe não quis abrir [a porta] ■•, que foi causa de aquele dia se 

I. ["em seu reino]/. A. — 2. [Bohaçum]/. A. — 3. [sair] /. A. — 4. [a porta] /. A. 



-73- 

salvar a boiada e os mouros receberem o dano que receberão, porque, 
saindo pola porta da vila, o adail tomou ao longo do valo com quinze oii 
vinte de cavalo e todos os moços de bestas de serviço, que por lenha e 
erva ião, e indo as atalaias diante, como é costume, mas um moço, filho 
de Nuno Alvarez de Carvalho, por nome Jil de Carvalho, que em um 
cavalo de seu pai ia, saindo correndo do adail ao longo do valo, pasando 
polas atalaias, não parou até dar com os mouros de pé e, dando rebate, 
[os] ' virão em cima do valo, que, cuidando que o capitão era, se quisera 
lançar da outra parte, mas el-rei e jente, que no Tojal estava, logo fòrão 
na praia e não pararão até o baluarte da Praia, ficando até o Rio Doce e 
Tojal cheio de jente e bandeiras; mas, como o capitão, António da Silveira, 
saise primeiro a rapique, como é costume, e vise a praia cheia de mou- 
ros, se foi ajuntar com o adail e, recolhendo-se de dentro do baluarte da 
Praia com obra de corenta de cavalo até cincoenta, ficou antre os mouros 
e a porta da Ribeira, não podendo os que da vila saião ajuntar-se com 
ele, e foi a causa que, sendo o capitão fora com os que primeiro sairão, 
a boiada começou a entrar e embaraçou a porta da vila, de maneira que 
nenhum de cavalo saio até ela não ser toda dentro, e, saldos até o pé de 
Santa Cruz, vendo toda a praia cheia de mouros, não ousarão, nem po- 
dião ajuntar-se com o capitão, que de dentro do baluarte da Praia andava, 
o qual vindo-se recolhendo, chegarão os mouros tão rijo que em dereito 
do baluarte lhe ferirão António Rodriguez, alcaide do coco, e derrubarão 
e malferirão a Manuel Tavares, pesoa muito honrada, que em companhia 
de Manoel da Silveira fora, mas o capitão voltou com eses poucos que 
com ele éramos. 

Digo que me achei ali, asi eu como o doutor meu irmão, donde logo- 
se derrubarão três mouros e cobramos a Manuel Tavares com três lan- 
çadas, afora outras muitas que as armas defenderão, fazendo-os afastar 
algum tanto, entre tanto que o capitão teve lugar de tomar outro cavalo, 
porque se achou no fouveiro do Farrobo, que, por estar muito folgado, o 
achou muito pejado, mas sendo já em outro cavalo e vendo diante de si 
a Fernão Diaz, filho d' Álvaro Diaz, ferreiro, e a Vilha Nueva, que com 
duas bestas a pé andávão antre os de cavalo, e não tirávão tiro que nãa 
empregasem, dos quais vio cair um mouro com sua seta metida poios 
peitos, o qual logo polo capitão e poios seus foi alanceado; e aqui fôrão 
derrubados outros dous, um por Diogo da Silveira, que logo foi morto de 
muitas lançadas, sem os mouros terem animo pêra os resistir, e, mostrando 
muita fraqueza, se começarão a recolher pêra o adro, indo já nós outros 
de volta com eles; mas, como nos visem tão poucos, sendo já na área 
solta, querendo fazer rosto, um cavaleiro do alcaide d'Alcacere, Alcoudefe 
chamado, e pai destoutro Alcoudefe que todos conhecemos, virando, como 

1. [os] f. A. 

ANAIS DE ARZILA IO 



— 74 — 

bom cavaleiro que era, foi recebido na lança de Fernão da Silva e d' An- 
tónio Freire e doutros, de tal maneira que ele e o cavalo ruço ficarão 
ambos pasados de muitas lançadas. A esle tempo, ajuntando-se já os 
que em Santa Cruz estávão, outro mouro se veio meter antre eles e nós, 
mas ele foi pasado de três lanças ', sem seus donos se detriminarem qual 
fora a primeira, as quais estávão na mão de Pêro López, escrivão do 
almoxarifado, e de Pêro Fernândez o Torto e de Fernão Machado, que oje 
é' estribeiro do conde rejedor ^, e não tão somente o mouro mas o cavalo 
trouxe úa lançada, de que morreo em casa de António Freire, que deste 
feito foi quadrilheiro. A este tempo, alguns dos nosos chegando em cima 
do Barreiro, alguns dos mouros voltarão com eles, e, virando-lhe as costas, 
um mouro com úa lança d'alto deu úa grande lançada a Jerónimo Afonso, 
por úa nalga, tomando-o por antre as couraças e a sela, e, sendo Já nós 
outros no adro, sendo tudo cheio de mouros, que recolhendo-se ião, foi 
ferido Pedro Afonso Homem, meu compadre, de úa besta, por úa perna, 
de que sarou. Foi este dia o capitão muito contente de todos, por anda- 
rem muito cavaleiros, [e os louvou] 4, e asi o fez a João Díaz e a Viiha 
Nueva, com quem em aquele tempo estava de quebra, por vender vinho 
muito caro, e o abraçou e perdoou, e ficarão amigos. 



CAPITULO XXXI 

Como fôrão resgatados Lourenço Pire:{ de Távora e Manoel da Silveira 
e o que mais se pasoit 



EM tanto que estas mudanças pasávão, se veio a efectuar o resgate 
de Lourenço Pírez de Távora e de Manoel da Silveira, sendo o ne- 
goceador deste resgate o grande Fernão Caldeira, a quem o capitão 
encomendou e mandou a Mulei Abrahem a Xexuão, e, sendo muito bem 
recebido, se concertarão cm cinco mil cruzados, que fôrão logo pagos, e 
em cima dos cinco mil cruzados se obrigou Fernão Caldeira a dar úa 
moura muito fermosa da condesa, molher do conde Dom João, a qual 
Mulei Abrahem por sua fama muito cobiçava, e, pêra segurança desta 
moura, lhe leixou quatrocentos cruzados em prata lavrada [em penhor] ^, 
os quais ele avia de tornar, dando-lhe a moura, que Fatema a fermosa 
avia nome, e por a condesa não querer dar a dita Fatema, por ser sua 
camareira e a vestir, Mulei Abrahem se ficou com os quatrocentos cru- 
zados e o feitio da prata, e a Fatema, depois muitos anos, se fez cristã e 

I. lançasj lançadas BNLM. — 2. oje é] foi B N L M. — 3. rejedor] do Redondo 
antes que fose pera a índia B N L M. — 4. [e os louvou]/. A — 5. [em penhor] /. A. 



-75- 

a condesa a casou com Nicolao Fernàndez, criado do conde e seu. Poiír 
feito este resgate, Mulei Abrahem os mandou a Arzila muito honrada- 
mente, asi acompanhados como em lhes fazer mercê de muito bons cavalos. 
e vistidos á mourisca, de pelotes de seda e bedens finos, e asi fez mercê 
a Fernão Caldeira de outro cavalo e um vestido todo de zarzagania, que 
é úa seda lavrada de vermelho e branco, á maneira de torna-sol. Che- 
gados a Arzila, fôrão do capitão honradamente recebidos. 

Pois sendo estes dous fidalgos fora de cativeiro e em Arzila, socedêrão. 
todas as mais mudanças e cousas contadas, e asi a vinda d'el-rei abaixo 
e a corrida da praia, em que, antes que el-rei se tornase a recolher, se 
perdeo úa quadrilha d'almogavares da companhia ' d'el-rei, e outro caso, 
por donde socedeo a morte ao alcaide Mafote, as tornarei a poer neste 
lugar. Aconteceo asi que, o dia que a jente d'el-rei correo a Tanjere, 
um mancebo, irmão do almoxarife, Vicente Fernàndez, pyr nojo que dizem 
que teve de sua molher, polo reprender de algum jogo ou braganteria, de 
que ele seria viçoso, se lançou com os mouros, vindo ter á ponte de 
Gosma, donde el-rei já estava apousentado em cima de seu cavalo e suas 
couraças e adarga e lança, o qual vinha preguntando por Mulei Abrahem;, 
mas as guardas o trouxérão ante o alcaide Mafote, e, preguntando-lhe a 
que vinha e que queria, dise que se vinha pêra Mulei Abrahem e buscar 
seu favor, de medo do capitão. Dom Duarte, e Mafote lhe preguntou se 
queria ser mouro, e, como lhe respondese que não queria senão a Mulei 
Abrahem, o Mafote com nojo o mandou logo matar, dizendo que donde 
el-rei estava como preguntava por outrem : tanta era já a privança e valia 
de Mafote que tomou ceumes de preguntar por Mulei Abrahem e não por 
ele. 

Deste tão abominável feito pesou muito a el-rei e muito mais a Mulei 
Abrahem, que, guardando-lh'o ^, foi causa de sua morte, matando-o por 
sua propia mão, como ao diante se dirá, mas por então o disimulou. 
Todavia, queixoso d'el-rei em o não castigar, por lhe fazer ofensa em 
matar o cristão que vinha buscar seu favor e pesoa, e com esta queixa, 
desemulando-o, se despedio d'el-rei e se foi a Xexuao a sua casa, dando 
algijas justas rezóes, ainda que a vontade não ia muito em serviço d'el-rei, 
polo nojo que de Mafote lhe ficava, a qual despedida Mulei Abrahem fez 
depois d'el-rei correr outra vez Arzila e se foi aoXercão; e, levantando-se 
el-rei pêra a ponte d'Alcacere, donde se foi apousentar, tomou o caminho 
de Benarróz Mulei Abrahem e dahi se foi pêra sua casa, donde o leixa- 
remos por alguns dias, e contaremos como da Ponte se apartarão almoga- 
vares e viéráo correr Arzila e como se perderão, sendo todos d'el-rei e 
de Mafote. 



I. companhia] companha A. — 2. guardando-lh'o pêra seu tempo BNLM. 



-76 



CAPITULO XXXII 



Co»io mis almogãJ>ares d'el-rei e da companhia do alcaide Mafole 

correrão Ar:{ila e o capitão António da Silveira 

lhes armou e desbaratou c tomou e como António Freire se asinaloit 



SENDO el-rei recolhido á ponte d'Alcacere, seis legoas d'Arzila, certos 
mancebos da criação d"el-rei e do alcaide Mafote, favorecidos do 
favor d'el-rei e do alcaide, se ajuntarão até vinte cinco de cavalo e 
■se viérão ao campo d' Arzila, e, metendo-se na Atalaia Ruiva, esperarão 
que as atalaias fosem descobrir, como ordinariamente o fazíão cada dia, 
e correndo-lhe as matasem ou tomasem; mas o capitão, António da Sil- 
veira, tendo nova de um negro, que se veio deles pêra nós, de como el- 
rei era recolhido e levava o caminho da Ponte, parecendo-lhe tempo 
desposto pêra mandar espiar fora, fez ajuntar os homens do campo e se 
concertou com eles desta maneira: que, sintindo jente grosa e dando-lhe 
aviso, lhes daria cincoenta cruzados e lhe faria os alforjes, e sendo almo- 
gavares e os tomasem que de um só mouro fose pêra eles, e asi até cinco 
não averíão mais que um, e, pasando de cinco, averíão dous, e pola 
mesma maneira se faria dos cavalos; e com este concerto começarão a 
ir fora, e logo a primeira noute acertarão os mouros a entrar, e, ao outro 
dia pola sesta, sendo as atalaias na folga do meio-dia, as espias, que 
sobre a fonte da Atalaia Ruiva estávão, virão os vinte cinco mouros de 
cavalo meter na cilada, e, sem serem vistos, se viérão á vila a dar a nova 
ao capitão, o qual fazendo ajuntar a Diogo da Silveira e aos moradores 
que lhe pareceo, se ordenou da maneira que lhes avião d'armar, pêra sem 
nenhum perigo os tomarem, ou ao menos tomasem lingoa, de quem sou- 
besem quantos érão e se tinhão costas, parecendo ao capitão que jente 
cansada e que se ia recolhendo, depois de aver corrido duas vezes, não 
era rezão que tornasem atrás, e que aqueles podíão ser almogavares fur- 
tados que, parecendo-lhes que ficava o campo seguro, por estarmos ame- 
drentados, eles podião a seu salvo correr; na qual se enganarão, porque 
o capitão, dando esta dianteira a Lourenço Pírcz de Távora e a Manoel 
da Silveira, seu primo, que pouco avia que sairão de cativos, que pois 
ambos fôrão companheiros ambos fosem neste feito, pois o fôrão em 
cativo ', e encomendando a Diogo da Silveira que com trinta de cavalo os 
metese ao pé da Atalaia Gorda, junto com o caminho da Ruiva, encomen- 

I. forão companheiros... cm cativo] forão companheiros neste cativeiro o fosem 
neste feito B N L M. 



— 77 — 

dando-lhe e mandando-lhe que sem tomarem lingoa não pasasem da 
Ruiva. 

E com esta ordenança do capitão, Diogo da Silveira levou a Lourenço 
Pírez de Távora e a Manoel da Silveira com os trinta de cavalo polo 
vale do Facho e os meteo na cilada da Gorda, indo Roque Ravenga des- 
cobrir a Ruiva, lhe sairão os mouros até emparelharem com os nosos, os 
quais, conhecendo a Roque, por ser ezquerdo e trazer um cavalo quatralvo 
muito lijeiro, que fora de Dom João de Sande, desconfiarão de o tomar 
e, anteparando-lhe, lhe sairão os nosos de través e tão juntos que logo 
fôrão três levados nas lanças, e o primeiro e que mais diante vinha foi 
um filho do alcaide Acuar de Jazem, pesoa honrada e que em ausência 
dos alcaides ficava por alcaide, o qual vinha junto de Roque Ravenga em 
cima de um fermoso jinete com um pelote de veludo pardo e úa. jaqueta 
de cetim cramesim, o qual foi logo pasado das lanças de Gramatao Télez 
e Diogo Delgado, que diante sairão, e, ficando logo os dous mortos, o 
outro foi tomado vivo, e, preguntado por Diogo da Silveira quantos érão 
e se tínhão jente, dise que não érão mais que os que paredão, e logo sem 
mais ordem se lançarão após os outros que, não podendo os dianteiros 
tomar o caminho da Ruiva, se lançarão polo córrego da fonte abaixo e, 
pasando o ribeiro, se lançarão pêra a cilada do Alcaide, donde os mais 
fôrão mortos e cativos-, mas um pajé do alcaide Mafote, de muito manhoso, 
se deitou pêra a Atalaia Ruiva, por onde os traseiros ião, o qual ia cape- 
ando com sua adarga, como que chamava a jente que saise, mas este foi 
logo alcançado e trazido ao capitão, o qual, dada a ordem como está 
apontado, com toda a jente da vila, que seriamos mais de cento de cavalo, 
nos viemos a meter junto dos Forninhos, e, saindo com o rebate, vimos 
os nosos de mestura com os mouros, e, vendo-os vazar a Ruiva e os nosos 
após eles, com um troto cerrado nos fomos á Ruiva, donde lhe fôrão tra- 
zido os dous mouros vivos e o despojo do filho do alcaide Acuar, e, tendo 
a nova por certa, se não pode escusar que nos não soltasemos outros 
mais de vinte de cavalo, que ainda fomos até ensecar os derradeiros, e 
o capitão, mandando muito depresa tomar a Atalaia Alta de Tendefe, se 
foi ao Jiestal, donde esperou poios seus que nos recolhemos com muito 
trabalho, pola grande calma que aquele dia fez, que, asi por ela como por 
a corrida ser de duas legoas e mais, nos rebentarão dez ou doze cavalos. 
Destes almogavares se perderão treze ou catorze, os seis cativos e os 
mais fôrão mortos, alguns se salvarão embrenhados na ribeira d'Alfan- 
dux, e se trouxérão treze cavalos, em que vínhão muito honrados jinetes. 
Recolhidos os nosos ao capitão com toda a presa dos seis mouros e 
os treze cavalos, nos entristeceo faltar António Freire, criado do conde e 
pesoa honrada, que da companhia de Lourenço Pírez de Távora falecia, 
mas não tardou muito que o vimos vir polo rosto d'Alfomar abaixo, tra- 
zendo um mouro e seu cavalo diante de si, com o qual se achou só na 



-78- 

varzia do Zambujeiro, e o mouro, que cavaleiro era, vendo-se perseguido 
de um só cristão e que não parecia outro, voltou sobre ele e se veio encon- 
trar com António Freire, bem cuberto de sua adarga, e, pasadas as adar- 
gas ', se viérão a abraçar de maneira que ambos fôrão ao chão, como 
cavaleiros andantes, mas como António Freire fose armado de couraças, 
se meteo cora o mouro, que dando-lhe duas ou três feridas o rendeo e, 
atando-lhe as mãos com um cabrestilho, o fez vir diante de si, trazendo 
tãobem o cavalo. Com a vinda de António Freire se acabou o feito deste 
dia com grande contentamento do capitão e de todos nós outros, e, com 
os seis mouros e treze cavalos, o capitão se recolheo á vila, e nestes seis 
mouros veio Maçoude Ale Belebí, pesoa honrada e da criação d'el-rei, 
que, depois de resgatado, salvou que não matasem a Rui Cordeiro, criado 
do capitão, António da Silveira, de quem ele foi, quando Roque de Farão 
se perdeo, como ao diante se dirá ; e tãobem ouve o capitão o pajé do 
alcaide Mafote, que saio por quatrocentos cruzados. As partes não 
sairão grandes, pola perda que ouve dos cavalos que se perderão, em 
que algúas pesoas fôrão culpadas que fizérão o que não devíão com seus 
cavalos, mancando-os poios enjeitar á cavalgada, por lh'os pagarem. 

As espias ouvérão um mouro mancebo e dous cavalos, que repartirão 
por oito companheiros que érão, os quais érão repartidos de dous em 
dous. O mouro, que ouvérão á sua parte, venderão a dous mercadores, 
um Gonçalo Fernândez, que ora vive em Xerez da Fronteira, e outro 
Anrique Gômez, que vive em Mertola ; e, vendo-se o mouro mancebo e 
soberbo e antre a molher e cunhadas de Gonçalo Fernândez, parecendo- 
Ihe que, sendo mao servidor, o darião por pouco resgate, se pôs em não 
as servir e em as amedrentar, não querendo servir, nem moer úa pequena 
tarefa que lhe dávão, e, quando as molheres o reprendíão, dizia que era 
doente do coração, que se o agastasem que se lançaria em um poço que 
diante estava, e, fazendo elas queixume a Anrique Gômez, bradando com 
ele, o quis castigar. O mouro vendo-se afrontado respondeo que não 
avia de moer, e que logo se lançaria no poço, por eles perderem seu 
dinheiro. O Anrique Gômez, que homem é, o levou nos braços e o 
levou á boca do poço e o lançou dentro, e com ele quantas pedras avia 
polo patim, e trás elas Ga tranca e úa ou duas lanças. A grita das mo- 
lheres acodimos muitos, e eu, por ser vezinho, e apartando o Anrique 
Gômez, me pus á borda do poço e vi o mouro que com os olhos estava 
vendo como se guardase das pedras e paos que seu senhor lhe lançava, e, 
chamando-o que saise, me preguntou se estava ahi seu senhor, e, deitando- 
Ihc úa corda, se saio sem ajuda de ninguém, e, sendo reprendido dos outros 
mouros, ficou tão corrido que se foi lançar aos pés do capitão, pedindo-lhe 
o comprase, que não queria ver o rosto a suas senhoras. O capitão man- 

I. adargas] lanças A. 



— 79 — 

dou chamar a seus senhores e, dando-lhes mais do que custou, lh'o comprou, 
e não tardou muito que não foi resgatado juntamente com os outros dous. 
Foi este feito de Anrique Gômez olhado e gabado, por ser feito d'omen; 
e depois pasou ao Peru, donde andou muito tempo e pasou muitos desas- 
tres e se vio em muitos perigos nas revoltas dos Piçarros, sendo ele da 
parte dos Almagres e chegado ao João Centeno, mui nomeado nas revoltas 
do Peru, e veio a escolher Mertola pêra descansar de tantos trabalhos e 
gastar o que trouxe, que pêra ele não foi pouco. 



CAPITULO XXXIII 

Como se perderão outros almogavares do Farrobo no porto do Canto 
com as espias que o capitão ordenou 



DESTE feito, por ser nas barbas d'el-rei e de tantos alcaides e sendo 
os mais dos almogavares de Fez e da criação d'el-rei, foi o capitão 
muito contente e logo asentou com as espias que iríão fora quando 
as ele mandase e lhe parecese tempo; e, asentado asi, se pasárão dous 
meses, que, parecendo ao capitão tempo, as tornou a mandar fora, e, 
continuando toda úa semana, virão entrar no porto do Canto úa quadrilha 
d'almogavares, e, trazendo a nova ao capitão, detriminou de lhes armar, 
parecendo-lhe por muitas rezões que não podíao ter costas, e porque 
estávão em parte que não podíão entrar com eles que não fosem vistos, 
e por diante lhes não podíão sair senão lonje, o capitão mandou a Fernão 
da Silva com vinte cinco de cavalo da outra parte do Rio Doce, que se 
metesem no córrego das Fontainhas de Pêro de Meneses e que com o 
primeiro rebate corresem a lhe tomar o caminho d'Alecasapo, e ao adail 
Fernão Rodríguez e a Diogo da Silveira que um a um se chegasem a 
Bugano, como homens que a fazer erva ião, e ele com toda a mais jente 
se deixou ficar na cabeça do vale do Facho, estando ele só nas lombas 
do Corvo, á vista donde os mouros avião de sair, e com esta ordem os 
foi descobrir Vicente Vaz, atalaia, ao qual os mouros sairão e o seguirão 
até as primeiras lombas do Corvo, conhecendo que o Vicente Vaz ia tra- 
vesado na sela, como homem que esperava por eles; e, vendo Vicente 
Vaz os mouros parados, voltou logo com eles, que fez aos mouros muito 
rijo tornarem a demandar o porto, donde já os que sobre o porto ficávão 
por atalaia lhes dávão rebate, por verem o adail e a Diogo da Silveira 
que a mais correr os ião demandar, mas, antes que ao porto chegasem, 
o Vicente Vaz, que em muito bom cavalo ia, se meteo antre eles e, 
pasando um mouro com a lança, deu com ele no chão, sem falar palavra, 
nem dar nova de quantos érão, posto que foi preguntado, e, com este 



— 8o — 

ficar desta banda do porto, os companheiros o pasárão, mas logo virão 
vir os dous de. cavalo, que por atalaia ficarão em cima das lombas, por 
já Fernão da Silva e os que com ele éramos sermos tanto avante como 
eles, e, vendo-se perdidos, se lançarão por Redemoinhos acima; mas, 
como nós outros chegasemos a eles, fôráo logo quatro ao chão pasados 
de muitas lançadas, dos quais veio á vila Alima, trespasado de úa lançada 

de Ga parte a outra, e outra dada por Francisco Pinto a ', 

ambos do Farrobo, e ambos sararão das maiores feridas que até oje se 
virão em Arzila, e os outros se fôráo pola ribeira de Redemoinhos acima, 
mas, como todos iamos de mestura com eles, não ouve mais lugar que 
apearem-se e logo érão tirados fora, de maneira que, de catorze almoga- 
vares que érão, se não salvou mais que um só, e dos outros fôráo mortos 
cinco ou seis, ainda que os dous mortalmente feridos com outros cinco 
cativos; dos feridos ouve um Paulo Majolo, meu cunhado, e outro 
Simão dd Fonseca. Érão estes almogavares da serra de Benarróz e 
de Benamares e alguns do Farrobo, que, achando-se no coco de Benar- 
róz, se concertarão a vir tomar úa atalaia, e ficarão todos, e asi os cava- 
los. 

Recolhido o capitão com esta vitoria, fôráo os mouros vendidos e os 
cavalos, mas não se repartio a presa até que os dous mouros feridos não 
fôráo seguros e sãos, os quais sararão das mores feridas que se virão, 
por ambos serem pasados de úa parte a outra, especialmento o que Fran- 
cisco Pinto ferio, por ser com úa lança de monte, e ser o ferro muito 
largo e fazer grande entrada; e certo que se tivérão algúas grandes her- 
dades ou morgados que deixar e muitos que sobre suas curas andasem e 
os cerujães e as cousas necesarias de sobejo, não leixárão de morrer, e, 
tendo tudo ao contrairo e curados em cima de úa esteira ou manta ', fôráo 
sãos, ajudando-os a boa ventura e saber do Iccenceado António Gômez, 
que os curou. 



I. ...]/. este passo BNLM. — 2. e certo... esteira ou manta] e certo que se fôráo 
de preço de resgate e tivérão alguns morgados nã escaparão, mas estes fôráo curados 
em cima de úas esteiras e mantas BNLM. 



CAPITULO XXXIV 

De como os alcaides d'Alcacere e Ja^em armarão com almogavares 

estando todos em Bugano 

e do grande risco que o capitão pasou 



POR estas duas quadrilhas d'almogavares, que em Arzila se perderão, 
fomos todos os moradores tão contentes que já nos parecia teríamos 
a barba queda ' a cada um dos alcaides nosos vezinhos e desejá- 
vamos de nos topar com o alcaide d'Alcacere, que o mais valeroso e 
soberbo do reino era, e tanto que poucos dias avia que de cruel mandou 
por dous cristãos d'Arzila matar um filho seu, já homem e bom cavaleiro, 
por ser tocado do pecado mao, mandando a João Vaz Aljofarinho e a 
Pedro Anes de Baltar que o afogasem úa noute : feito, certo, de valeroso 
capitão se nele resprandecera outra algúa vertude, o qual, vendo e pare- 
cendo-lhe que era tempo aparelhado pêra recebermos algúa pancada, 
ordenou de nos armar e, ajuntando-se com o alcaide Acuar de Jazem com 
muita e boa jente, que pasávão de mil e quinhentos de cavalo, se veio 
lançar em Bugano, muito perto do Facho, mandando primeiro ao almo- 
cadem Zanaca que com vinte cinco de cavalo se metese na mesma cilada 
de Bugano, por que, se ouvese espias, visem aos almogavares e viesem á 
vila com a nova, e eles tivesem lugar pêra depois entrarem na cilada, sem 
serem vistos. 

Pois entrando os vinte cinco de cavalo pola menha, fôrao vistos e con- 
tados por Vasco Morgado e seu companheiro, que em aquela parte por 
espia estava, e, vindo-se á vila, deu a nova certa ao capitão, de como em 
Bugano érão entrados vinte cinco de cavalo, afirmando ser jente limpa e 
de capelhares e adargas. O capitão logo asentou de lhes armar, e, posto 
que lhe pareceo teríão costas, seria da outra parte da ribeira, e polo pé 
do outeiro de Fernão da Silva tomamos o vale do Facho e, chegando á 
primeira covoada, apartou a Diogo da Silveira, que com o adail e com 
trinta de cavalo se fosem polo vale acima, por estar mais perto de Bu- 
gano e sairem de rosto aos almogavares, que doutra maneira não podíão 
entrar com eles, mandando, todavia, o capitão que, se até [a]- ribeira^ não 
tomasem lingoa, a não pasasem, e com esta ordem o mesmo Vasco Mor- 
gado os foi descobrir, e saindo-lhe os almogavares os seguirão até averem 
vista dos nosos, e saindo-lhe de rosto se lançarão pêra a atalaia do Corvo 
e polo Meloal e os nosos os seguirão até a varzia, e pasando a ribeira a 

I. queda] tesa B N. — - 2. [a] /. em todos os mss. — 3. ribeira] riba B N L M. 

ANAIS DE ARZILA ' I 



— 82 — 

pasou tãobem Jorje de Sande, fidalgo e morador dArzila; mas Diogo da 
Silveira, que ainda sobre a varzia ficava, como vise os mouros espalha- 
remse sem tempo, e um leixar o cavalo e meter-se na ribeira, e outro ir 
demandar a lomba dantre ambas as varzias, bradando, chamou pola jente 
que saise, conhecendo que era manha e que tínhão costas, deu um grande 
apupo, e, tomando-o Artur Rodríguez e os que em baixo ião, se recolherão 
com muito grande presa, e, tornados todos acima ás lombas, donde o 
capitão estava, não faltou quem disese que os mouros érão já perdidos e 
que polo rebate falso se avião salvado, e, preguntando o capitão porque 
se dera o rebate e quem o dera, não ouve pesoa que ousase dizer que tal 
rebate dera, conhecendo no capitão estar agastado e o rebate parecer 
falso, e, todavia, o capitão soltou palavras ásperas, dizendo que algum 
covarde ou fraco o dera ; mas logo foi arrependido e deu muitas graças a 
Deos pola mercê que aquele dia lhe fez, por estar aparelhado um dia de 
juizo, porque, se a jente sairá da cilada ao tempo que os nosos érão na 
varzia, nenhum deles escapara, mas eles esperarão que o capitão decese 
tãobem, ou ao menos chegase até a atalaia do Corvo, pêra eles ficarem 
antre nós e o Facho; mas como a este tempo Vilhalva, castelhano e bom 
cavaleiro e milhor taverneiro, fose paseando ter á cilada de Bugano, por 
ver o rastro dos almogavares e a cama donde estivérao, por ver quantos 
érão, e fose dar com a jente, que abocada estava pêra sair, a qual saio 
toda em ala e foi logo vista de nós outros, que um tiro d'arcabuz deles 
estávamos, e, acodindo ao apupo de Vilhalva, vimos toda a jente junta 
connosco e, tomando um troto cerrado, nos ouvemos no vale do Facho, 
donde toda a jente chegou a nós, mas não ousou pegar, parecendo-lhes 
que voltasemos com eles; e ao pasar do vale nos caio um irmão de Jorje 
Pírez, almoxarife, e se embaraçou de maneira que, primeiro que o puse- 
semos a cavalo, fizemos aigúa detença e os mouros acabarão de engrosar, 
e, pasando a Tranqueirinha, viérão ao tabuleiro do Facho, sem os mouros 
chegarem a nós, temendo, todavia, a volta por eles nos ficarem de baixo, 
mas, como fomos no tabuleiro, apegarão tão rijo que nos meterão pola 
tranqueira dentro, e asi o fizérão pola outra do meio, sem dano nenhum 
noso, vindo todos apinhoados, esperando que o capitão chamase por 
volta . 

Aconteceo um caso de notar, que um cavalo de Diogo d"Avila meteo 
polo lume da ferradura da mão um canelo doutro cavalo, e se travarão de 
tal maneira que, não podendo dar paso, fizemos muita detença, primeiro 
que úa das ferraduras se arrincase, que doutra maneira não se pudérão 
soltar; e aqui se bradou por volta, mas os mouros érão tantos e tão cer- 
rados que o capitão, vendo os cavalos desembaraçados, nos fez recolher 
até a tranqueira do Meio, donde esperamos que eles quisesem entrar a 
força das lanças, o que não fizérão senão ás espingardadas, e quis Deos 
que este dia não recebemos dano, sendo aparelhado pêra um notável des- 



— 83 — 

mancho. Ao Diogo d'AviI;i, estando travado, como tenho dito, lhe dcráo 
com um pelouro d'arcabuz que, quebrantando-lhe o couro ou úa ou duas 
laminas das couraças, ficou amasado, sem lhe outro dano fazer, ou por 
vir fraco, ou pola fortaleza das couraças, que fôrao de Dom Vasco Cou- 
tinho, conde de Borba, a quem o Diogo d' Ávila muitos anos servira d'es- 
cudeiro e de veador. Os mouros se recolherão este dia sem fazer cousa 
algúa, perdendo, por não sairem mais cedo da cilada, trinta de cavalo, que 
nenhum se podia salvar, c por eles se podia dizer «quem tudo quer, tudo 
perde» '. 

CAPITULO XXXV 

Be duas almogaverias que juntas se fi\éyão em que Fernão d'Alvarei 

Cabral foi por capitão da fia e de como os capitães d'Ar:{ila e de Tanjere 

tomarão Cia aldeã e nela nos matarão a Jorje Sande 



APONTADO fica como, vindo pêra Arzila Dom António d'Almeida, 
filho do conde d"Abrantes, foi ter a Tanjere, e Dom Duarte de 
Meneses, capitão, por lhe fazer honra o acompanhou com seus 
filhos e com toda a jente de Tanjere até Arzila, donde do capitão, António 
da Silveira, foi muito honradamente recebido, e antre eles ficou asentado 
que o mandase chamar como tivese boa nova, e se ajuntaríão pêra irem 
tomar algúa aldeã ; e por neste tempo Artur Rodríguez ir fora e tomar 
dous atalhadores de cavalo, que de Benamares ao Farrobo atalhávão, com 
a nova dos quais o capitão, António da Silveira, mandou logo recado a 
Dom Duarte chamando-o, pois tínhão nova pêra poderem entrar; e por 
conhecer que Dom Duarte não avia de sair fora sem ter toda a segurança 
de saber certo os alcaides serem em Fez, pois era tudo necesario, pois 
de força avia d'estar fora da cidade quatro dias com suas noutes, tempo 
em que se podíão ajuntar duas mil lanças; todavia, polo mais segurar, 
tornou a mandar Diogo da Silveira fora com cincoenta de cavalo, dando 
esta licença a Fernão d'Álvarez Cabral, com os quais eu fui, e guiando-nos 
Diogo da Silveira fomos correr Agoní e, correndo até a Ribeira Grande, 
donde vimos pasar algijas bestas, tomamos cinco mouros, que do coco 
d'Alcacere vínhão ou ião, com seis vacas e três asnos carregados de trigo, 
e, pola presa que tinhamos de vir com tempo, foi logo o trigo derramado 
e, o mais rijo que pudemos, nos recolhemos; e, chegados á vila, o capitão 
mandou logo outro recado a Dom Duarte, o qual já o tomou no campo, 
vindo polo porto d"Alfeixe a se juntar connosco, e, saindo o capitão da 

I . quem tudo quer tudo perde] quien todo lo quiere todo lo pierde B N ; quem todo 
o quer todo o perde LM. 



-84- 

vila, nos fomos aquela noute juntar, antes que á ribeira chegasemos, 
donde asentárão ' de irem tomar Aljebila, aldeã do Farrobo, e pasando 
a ribeira e caminhando pola serra acima e mandando decer cincoenta de 
cavalo, que a pé desem na aldeã, com o mór silencio que pudérão dérão 
nas casas, as quais já achamos despejadas, que sintindo-nos antes que a 
elas chegasemos as tínhão despejadas das pesoas e gado, que, sendo já 
menhã, nos sintírão ir pola serra, e outra cousa se não achou mais que 
úas poucas e roins alcatifas, que de cama se servem, e meadas de la e 
avondança de manteiga e queijo; e como a grita era já muita e acudise 
jente de pé das aldeãs da mesma serra do Farrobo e Arraihana, com os 
quais alguns dos nosos fôrão travar, mas como logo fose derrubado Jorje 
de Sande, fidalgo, de úa azagaia que, pasando-lhe o capacete e a cabeça, 
deu com ele morto no chão e, fojindo o cavalo pêra baixo, ele ficou logo 
em poder de quinze ou vinte mouros de pé, que já ahi érão, e asi foi 
pasado outro homem de Tanjere de outra lança, que logo abaixo morreo, 
e ao longo de úa barranca ficou mal enterrado, — com estes dous arre- 
mesos os mouros de pé nos cometerão de maneira que os capitães fizérão 
logo sair a jente da aldeã; e como Dom Duarte vise sair de úa casa a 
Pêro de Baba, seu criado e sobre-rolda de Tanjere, a quem em aquela 
jornada tinha encomendado seus filhos, Dom Fernando e Dom Diogo, o 
qual Pêro de Baba trazia úa panela ou alcola de mel e trabalhava pola 
poer a cavalo, e, remetendo o capitão com ele, lh'a fez alargar, dizendo: 
«Olhai a quem encomendo meus filhos, que os deixa por se tornar col- 
meeiro e se fartar de mel» e dando com a panela no chão se fez em 
pedaços, e com asaz presa nos saimos da aldeã com algúas cabras, que 
os de Tanjere levarão, e, sem fazer outra cousa mais que leixar dous 
homens mortos, nos viemos até Darbufez, donde nos apartamos da jente 
de Tanjere, e, polo porto d'Alfeixe, fôrão pêra sua cidade e nós pêra a 
vila, donde chegamos a oras de bespera, cansados e descontentes pola 
perda de Jorje de Sande, que morador d'Arzila era. 



I. asentárão] asentamos A. 



— 85 



CAPITULO XXXVI 



Doutra almogai>eria que Diogo da Silveira /è^ indo Thonié de Sousa por 

capitão de cincoenta de cavalo e oiiíra entrada que o capitão fe^ dando a 

dianteira a Dom António d' Almeida filho do conde d' Abrantes 



NÃO se leixárão de fazer neste meio tempo outras entradas e almo- 
gaverias, asi da úa parte como da outra, em que Artur Rodríguez, 
Afonso Barriga, Estêvão Fernândez tomarão alguns mouros e gado 
groso e meudo, e asi os almogavares d'Alcacere e da serra levarão algúas 
atalaias, mas como o capitão dése licença a Thomé de Sousa, que depois 
foi governador do Brasil e ora é veador d'el-rei, noso senhor, que com 
cincoenta de cavalo fose fora por capitão deles, e Diogo da Silveira que 
o guiasse, com os quais Diogo da Silveira entrou pola boca de Capanes 
e corremos Agoní, e, sobindo pola serra com grande rebate, junto das 
tranqueiras matamos um mouro e tomamos dous cativos, e, sem outra 
contradição, nos recolhemos muito contentes, e asi o foi o capitão por 
Thomé de Sousa fazer presa e trazer estes dous mouros da mesma aldeã 
de Diogo da Silveira, que já andávão tão recolhidos e amedrentados que 
não ousávão sair das tranqueiras, nem lavrar sem atalhadores e fachos, 
e, tomando-lhe os atalhadores, sem rebate entramos algúas vezes, e, 
achando o campo largo, fôrão muitas vezes roubados e suas pesoas mor- 
tos e cativos e despojados de seus gados. 

Pois chegado á vila Thomé de Sousa com estes dous mouros, não se 
pasárão muitos dias que deu o capitão outra licença a Dom António 
d' Almeida, filho do conde d' Abrantes, que com cincoenta de cavalo fose 
fora, mas, como Diogo da Silveira, almocadem, vise o tempo de muita 
agoa e chuivoso, e que as ribeiras ião cheias, fez com o capitão que ele 
em pesoa fose fora com toda a jente e bandeira, e, mandando dar ás trom- 
betas, saimos da vila, e, entrando pola boca de Capanes, se apartou Diogo 
da Silveira do capitão, indo com ele Dom António d'Almeida, cuja licença 
era, e asi todos os mais fidalgos da vila, em que entravão Lourenço Pírez 
de Távora, Manoel da Silveira, Dom João de Sande e outros muitos mo- 
radores, e fomos por todos setenta de cavalo, com os quais Diogo da Sil- 
veira se foi meter junto das casas d'Agoní, ante-menhã, fazendo grande 
agoa, e o capitão com toda a outra jente levou Artur Rodríguez e Roque 
de Farão, que já sabia muito do campo, e o meterão na Ribeira Grande, 
que corre polo pé d' Agoní, pêra que, se alguns mouros saisem após 
Diogo da Silveira e viesem pola serra abaixo, lhe saisem e os atalhasem; 
e com esta ordem se veio a menhã com muita agoa e chuiva, e, deitando 



seu gado fora das casas c currais, foi logo atalhado por Diogo da Silveira 
e poios que com ele éramos, e deccndo logo pola serra abaixo com ele 
e com um só mouro, que com ele tomamos, foi logo a grita e rebate na 
aldeã, e asi nas outras junto dela, e logo acodíráo mais de dozentos 
homens de pé com tanta presteza e fúria que lhes parecia que, antes de 
chegarmos abaixo, nos tirasem o gado, e ajudou-os a esta fúria e che- 
garem a nós úa detença que com úa necesidade fizemos, a qual foi que, 
vindo recolhendo o gado, o cavalo de Dom António d'Almeida meteu úa 
perna antre duas pedras ou talisca, de maneira que nunca a pode tirar, 
por muito que fizérao, decendo-se quatro ou cinco dos nosos, e, descon- 
fiados dele, lhe tirarão a sela e deixando-o ; por que não ficase aos mou- 
ros, António Freire lhe deu úa grande lançada, com a qual o cavalo 
estrebujou com tanta força que tirou a perna da talisca, e asi veio abaixo, 
donde caio morto da lançada; e com esta detença os mouros chegarão, e 
outros vínhão tomar a dianteira ao gado, com os quais alguns dos nosos 
voltarão e os fizérão deter, de que Diogo da Silveira ouve asaz menen- 
coria e os foi recolher. Foi causa esta pequena volta dos mouros para- 
rem e o capitão sair da ribeira, parecendo-lhe podia chegar a eles, mas, 
como a terra era roim e muito fragosa, não pudérão subir acima, donde 
os mouros pararão e se fizérão fortes, e, certo, que estava aparelhado 
outro dia do Alborje. se os mouros viérão mais abaixo, que, posto que 
visem setenta de cavalo, bem lhes pareceo que tanta jente não teríão 
costas, e que não érão mais que os que parecíão, e que, antes que abaixo 
chegasem, os podião embaraçar e lhes tirar algúa parte do gado; mas, 
como os mouros visem o capitão e bandeira sair da ribeira, pararão todos 
e tivérão que se avião salvado aquele dia, e nós, recolhido noso gado com 
um só mouro, chegamos ao capitão, trazendo cento c setenta cabeças de 
gado groso, e pola boca de Capanes e pé d'Alicototo nos recolhemos com 
nosa cavalgada e chegamos á vila, que foi grande beneficio á vila, por 
termos muita carne e muitas pesoas se proverem de vacas e bois. 

E, por neste tempo o capitão ter nova que el-rei de Féz era ido á 
guerra dos xarifes, não tardou muito que não mandou dar ás trombetas 
e ir fora, por conselho de Diogo da Silveira, e, entrando por Sinete e 
Hulefe, fomos correr a Çumete, da outra parte de Agoni, e tomamos 
dous mouros e um cavalo e úa egoa e dezaseis bois d'arado, os quais 
mouros estávão por atalaias no facho, e Diogo da Silveira, indo de me- 
lhora a os saltear com vinte de cavalo, foi visto e se deu o rebate e, cor- 
rendo após eles, os alcançou, e nós outros, que com o capitão iamos, 
corremos a aldeã e, junto das tranqueiras, alcançamos os dezaseis bois, 
que os ião recolhendo, e, vendo-se apertados, os alargarão. O capitão 
foi muito contente destas duas entradas, por ser úa trás a outra e por a 
jente d'ArziIa andar já contente e favorecida, e já intentávamos em ir 
correr Alcacere, como fomos, por o capitão desejar muito esta ida; e tão- 



-87- 

bem porque neste tempo tínhamos outro mourisco, que se veio tornar 
cristão, que, sendo guarda da ponte d'A!cacere, se veio pêra nós e se 
chamou Jorje da Silveira, que muito tempo viveo antre nós outros, em o 
qual o capitão, António da Silveira, tinha muita confiança, que, por ser 
guarda de cavalo e por saber a ribeira, podia fazer guerra a Alcacere, 
que era o que mais desejava, falseando a Ponte e guardas, como muitas 
vezes este Jorje da Silveira fez, asi em tempo deste valeroso capitão, 
como em tempo do conde Dom João Coutinho até o tempo do conde 
rejedor, como em muitas partes desta obra se dirá. 



CAPITULO XXXVII 

De úa entrada e cavalgada 

que o capitão António da Silveira /t'{ á ponte d' Alcacere 

em que tomou três mouros de cavalo 



SABENDO o capitão, Antonio da Silveira, que el-rei de Féz era ido á 
guerra de Marrocos, e que os alcaides nosos vezinhos estávão cada 
um em sua casa, mandou dar ás trombetas e foi correr o campo 
d'Alcacere Quebir, por mostrar ao alcaide que o não arreceava, e se com 
ele se topase o avia d'acometer, pois o ia buscar a sua casa; e, indo ama- 
nhecer á Ponte, se foi meter em cilada na ribeira, abaixo da Ponte, e 
mandou a Diogo da Silveira que com trinta de cavalo fose com Jorje da 
Silveira a tomar os facheiros que estávão sobre a Ponte, porque Jorje da 
Silveira, como homem que sabia a terra e fora ali guarda, dezia que os 
podíão tomar e, tomados sem rebate, podiamos ir onde estão outros 
fachos, no Rur, que dão grande vista, por ser toda a terra chã, e dali a 
dentro podiamos achar presa em muitas segadas e milharadas, que do rio 
Rur até Alcacere ha. 

Partido Diogo da Silveira do capitão, já menhã, e indo por donde 
Jorje da Silveira o guiava, antes que ao facho chegasera toparão com um 
dos facheiros, que vinha a tomar fala das guardas da Ponte, e, saindo-lhe 
de mãos á boca, foi logo tomado, o que não pode ser sem ser visto do 
companheiro que no facho ficara, e, derrubando o facho, deu rebate, e, 
correndo Diogo da Silveira a ele, foi logo alcançado, e asi outro mouro 
de cavalo, que d' Alcacere carregado de pão e de maçãs vinha pêra as 
guardas da Ponte, e, posto que Diogo da Silveira correo por todas aquelas 
varzias até o Rur, não vio outro nenhum de cavalo, e com estes três de 
cavalo se recolheo pola Ponte a dentro, mostrando ser almogavares e que 
vínhão fujindo. O capitão esperou grande espaço, parecendo-lhe que o 
alcaide viria trás eles, e, vendo não parecer ninguém, saio da ribeira com 



sua bandeira despregada, e, por junto da Ponte, veio demandar a Figueira, 
donde todos em ala ' demos vista ao campo d'Alcacere, e asi da banda 
d'Algarrafa, e, vendo que ninguém nos vinha demandar, nos recolliemos, 
trazendo três mouros de cavalo, os quais todos três acertarão a ser tortos, 
ou de nuvens nos olhos, de que se causou grande riso antre nós outros; 
e desta ida d'AIcacere ficamos muito contentes por nos parecer que o 
alcaide não ousou demandar-nos. 



CAPITULO XXXVIII 

Que couta de outra cavalgada que o capitão Autonio da Sth-eira 
fe\ no campo de Benamares 



P ASADO esta ida d'Alcacere ou da Ponte, em que nos pareceo que o 
alcaide nos receava e não ousava sair, nem chegar á Ponte, lugar 
acostumado a que com qualquer rebate o viamos vir a repique, 
asi por nos amedrentar como por favorecer os seus e pôr novas guardas 
nos portos por donde nós outros pasavamos ou nos metíamos èm cilada, 
o capitão, António da Silveira, por não deixar pasar o tempo em que a 
guerra se podia fazer, pois em aquele tempo e sazão el-rei era na guerra 
dos xarifes, reis de Marrocos e de Suz, e na terra não ficava mais jente 
que pêra a guarda dela, mandando dar ás trombetas, por conselho de 
Diogo da Silveira, que nesta entrada nos guiou, fomos correr a Benamares 
e, entrando polo pé de Benamendux, nos metemos em cilada muito perto 
da ribeira, e, sendo o Tojalinho tomado e o facho erguido, o capitão 
mandou a uns sete ou oito de pé que salteasera o do facho, o que fizérão, 
de maneira que foi tomado sem o facho cair, e, saindo nós outros da 
cilada, nos espalhamos, de maneira que chegamos até a boca de Benar- 
róz e ao facho de Alenaçar; mas, como a ribeira e campo todo está 
sojeito á serra e ás casas, fomos logo vistos em saindo da cilada, e dando 
grande rebate e grita se tomou logo da úa parte e da outra, mas a nosa 
corrida e delijencia foi tão larga que alcançamos úa rezoada presa, ma- 
tando alguns mouros, que, defendendo-se antre Qas daroeiras, quisérão 
resistir, e tomamos vivos nove mouros e corenta cabeças de gado vacum, 
todos bois, e asi tomamos nove bestas e quatro cavalos, duas egoas e três 
asnos. O capitão se foi com sua bandeira ás tranqueiras, junto das casas, 
donde esteve á fala com os mouros, até nos recolhermos e nos virmos 
ajuntar com ele no Tojalinho, e, tornando noso caminho, nos viemos muito 
contentes com toda nosa cavalgada, que pêra o tempo era asaz grande. 

I. alai ella A. 



CAPITULO XXXIX 

De duas corridas que o alcaide d'Alcacere fei a Arzila 
depois das entradas do capitão 



P ASADO estas entradas e cavalgadas feitas polo capitão, António da 
Silveira, tanto a meudo, por não deixar pasar a ocasicão que o 
tempo lhe oferecia e dava lugar, pois a terra estava desposta e 
aparelhada pêra a guerra se' fazer, pola falta da jente que era ida á guerra 
do xarife, rei de xMarrocos, mas o alcaide d'Alcacere, vendo-se apresado 
e querendo mostrar que ficara pêra guarda e defensão da terra, ajuntando 
a mais jente que pode, se veio lançar nas Furnas, muito perto da vila, 
com entenção e vontade de fazer o mais dano que pudese; e, saindo ás 
atalaias que estávão na atalaia do Mar, lhes não deu lugar a enfrearem 
os cavalos, os quais érão Vicente Vaz e Dente d'Alho, e, pondo-se em 
cima de seus cavalos, os governarão com os cabrestilhos, que nas cabeças 
tinhão, não sem muito risco de seus donos, especialmente de Vicente Vaz 
que, ao pasar do ribeiro de Jil da Mota, foi lançado fora do cavalo; mas 
como sua salvação estava, depois de Deos, em não perder o cavalo, 
levando o cabrestilho na mão o teve tão fortemente que se tornou a poer 
a cavalo, já antre os ferros das lanças, e, seguindo-os, os meterão pola 
tranqueira do Cano Quebrado, por donde tãobem a boiada se recolheo, 
a qual andava nos chãos do doutor meu irmão, e tomando o rebate, foi 
encaminhada á tranqueira, e, se os mouros corredores e dianteiros ousarão 
entrar pola tranqueira, muito bem pudérão alancear o boieiro e as ata- 
laias, que na traseira vínhão; mas como ouvesem vista do capitão e dal- 
guns de cavalo, que a repique saião, que por antre o gado trabalhávão 
por se poer na traseira, o que não podião fazer, por o gado vir apinhoado 
e encher toda a rua, e, tornando-se [os mouros] ■ e travesando os chãos, 
se fôrão ajuntar com sua bandeira, que no outeiro de Pêro Cão foi ter, 
tendo mortos dous homens que á torre do Mar andávão ás perdizes, um 
Domingos Gamenho e outro Alonso o Negro, de quem já fiz menção, que 
na peste enterrava os mortos, que, por ser homem de bem, tinha cavalo 
e estava asentado na ordenança da vila, e, por ser bom besteiro e conhe- 
cer a caça, se ajuntou com o Domingos Gamenho, e, não sintindo, nem 
vendo os mouros, fôrão ambos mortos. 

Este dia os mouros se tornarão sem fazer outro dano, mas o alcaide, 
não contente desta entrada, não pode sosegar sem tornar outra vez cor- 

I. [os mouros] f. A. 

ANAIS DE ARZILA '* 



— 90 — 

rer, parecendo-lhe faria mais dano, e com esta detriminação se tornou a 
lançar antre ambas as Atalaias Altas com mais de mil de cavalo, e, cor- 
rendo a vila, quis noso senhor ordenar de maneira que não fez nenhum 
dano, posto que a guarda era fora e estava asentada ao pé da Atalaia 
Gorda, a qual se recolheo sem os mouros chegarem ou dela averem vista, 
e asi da boiada, e, espalhando-se alguns dos corredores polo Laranjal 
abaixo, fôrão ter ao longo do mar, contra os quais o capitão mandou ao 
adail que com trinta de cavalo fose ao longo do valo e da vinha de Jorje 
Lionárdez vise se os podia atalhar e carregar ao mar, o que não ouve 
efeito, porque, sendo vistos dos que ao Facho estávão e das bandeiras, e, 
carregando pcra a Tranqueira Nova, donde o capitão com toda a jente 
estava, nos fizérão recolher ás espingardadas, e asi nos viemos abrigar 
com o valo da orta do doutor; e neste recolhimento dérão com um pelouro 
perdido a Antão Rodríguez, de quem já fiz menção no desafio de Gon- 
çalo Pérez de Galegos e de cide Bujima, o qual pelouro [entrou] ' polo 
pescoço, dando-lhe na nuca ou celebro, deu com ele do cavalo abaixo 
sem bulir pé, nem mão, nem a lingoa, somente estremecendo-se, da ma- 
neira que cai um boi quando o magarefe o eogota ^ e lhe mete a faca polo 
toutiço; e, caindo do cavalo antre nós outros, foi tomado e trazido a sua 
casa, donde dahi a três dias faleceo desta vida, antre sua raolher e três 
filhas, sendo homem de muito serviço e que muito tempo continuou as 
almogaverias de Jorje Viera e de Gonçalo Vaz e de Pêro de Meneses, 
dando sempre muito boa conta de si, como bom cavaleiro que era, e 
muito bemquisto dos capitães e de toda a vila; e com estes dous feitos 
desarmou o alcaide d'Alcacere de toda sua fúria. 



CAPITULO XL 

Como o capitão António da Silveira 

ententou tomar a boiada d'Alhaule ^ pasando o rio de Larache em barcas 

c como não saio com ele 



NENHÚA cousa OS capitãcs d'Arzila mais desejarão que descubrir e 
achar porto ou pasajem no rio de Larache, pêra pasar e fazer 
dano da outra parte, e foi muito buscado polo conde de Borba e 
por Dom João de Meneses, seu cunhado, e depois polo conde do Redondo, 
e nunca foi achado até em tempo de Dom Manuel Mazcarenhas, seu 
cunhado, como em seu tempo se dirá. 

I. [entrou] /. A. —2. eogota] sogota BM; segura N. Cogotar: subjugar pelo ca- 
chaço. — 3. AlhauteJ Alhaudete B N M. 



— 91 — 

Pois desconfiados de acharem e descobrirem porto naquele rio, causou 
acrecentar o desejo que a pasar á outra parte todos tivérão; o capitão, 
António da Silveira, tendo o mesmo desejo, e desconfiado ' de pasar polo 
porto, detreminou de pasar em almadias e, pondo-o per obra, mandou 
fazer Ga a maneira de leito, de quatro paos compridos, e nas pontas 
muito bem atados quatro barris ou meias pipas, e antretexidos no meio 
com taboas e arcos e canas, em que pudesem pasar dez ou doze homens, 
e pêra isto avião de levar duas maromas ou grosas cordas, que a braços 
tirasem por elas, asi de íãa parte como da outra, pêra que os que por ela 
pasasem trouxesem o gado d'Alhaute, que está esta aldeã ao longo do rio, 
meia legoa de Larache, o qual no verão vinha pacer por úas grandes 
varzias, que ante o rio e a aldeã se fazem, de grandes ervaçais e mora- 
çais, e, tomando e carreando o gado á borda do rio, o fizesem deitar a 
nado da outra parte á nosa, e desta maneira nos aproveitasemos dele ; e 
tudo ordenado, tendo boa nova, foi pôr em efeito a obra, que cuidado 
tinha, e, andando a noute, fomos amanhecer acima de Xeimes 2, em úa. 
ponta do Soveral, junto do rio, donde estivemos defronte da aldeã, vendo 
a jente dela e a boiada vir estendendo-se pola varzia, e, depois de farta 
e que a sesta entrou, se foi recolhendo a um esteiro, que por meio da 
varzia pasava, polo qual esteiro avia alguns arvores, donde o gado foi 
tomar a sesta ; mas como fose rodeado de cincoenta homens dos nosos, 
que na almadia avião pasado com o adail Fernão Rodríguez Colares, [tan- 
jendo-o] ^ o trouxérão á borda do rio, o qual era tanto que o pusemos em 
duas mil cabeças ; e, como foi á borda do rio, parecendo era todo noso, 
fizemos destoutra parte úa rua, partindo-nos polo meio, mas, como ele 
começase a remuinhar e os nosos a o apertar, tendo já alguns bois atados 
com cabrestilhos pêra os trazer a nado e o outro se lançar trás eles, foi 
tanta a grita dos nosos, bradando-lhe e gritando-lhe, pêra que se deitase 
á agoa, especialmente de Jerónimo Afonso, ferrador, que em camisa 
andava, que o gado se começou a espantar á fala e á grita dos nosos, 
que, fazendo cabeça ao longo do rio, começarão os dianteiros de fazer 
caminho aos traseiros, fazendo fio se estendeo todo polas varzias, como 
cousa que estava acostumada a fujir da borda do rio, e soubemos que ás 
vezes o trazíão á borda do rio, e, dando-lhe grita o tinhão acostumado a 
fujir, de maneira que ficamos sem úa só res, 

E, como já a este tempo acudisem mouros a rebate e visem pola 
varzia jente de pé, e alguns que vínhão em egoas e potros, em oso, pare- 
cíão de cavalo, o capitão mandou que, leixando a perfia do gado, em que 
não avia confiança, se pasasem desta nosa parte; e, começando-se a vir 
na almadia, viérão os homens de lanças, ficando os de bestas e arcabuzes 
pêra a derradeira, e quando veio a derradeira pasada, em a qual vinha 

I. desconfiado] desconfiados A. — 2. Xeimes] Xeimez L. —3. [tanjendo-o] /. A. 



— 92 — 

Baltesar Vaz, alfaiate, que oje é rendeiro do paço da Madeira ', em Lis- 
boa, que, por ter arcabuz e ser homem de animo, se leixou ficar até o 
derradeiro caminho, o que lhe ouvera de custar a vida, por não saber 
nadar, porque, vindo a almadia corregada de homens e a corda da outra 
parte larga e pondo mais força do necesario, por já com a maré correr 
muito a agoa e serem muitos os que tirávao, que fizérão rebentar a corda 
ou maroma, e, como a almadia não vinha a meio rio, a agoa, que vinha 
tesa, a levou polo rio acima, carregando-a á parte de Larache. Os que 
dentro vínhão, avendo-se por perdidos, se lançarão á agoa, confiados mais 
no nadar que em outra maneira de salvação, ficando, todavia, nela Bal- 
tesar Vaz e outros dous besteiros, que, por não saberem nadar, não ousarão 
desemparar a almadia, e nela lhes dava a agoa pola cinta; mas vendo 
Baltesar Vaz que os mouros érao já á borda do rio, e, vendo-se perdido ^, 
fazia mostra de se lançar á agoa, e a almadia com a enchente se afastava 
da vista de nós outros, e, levando da espada, cortou as cordas e ataduras 
de um dos barris e, abraçando-se com ele, se deitou fora da almadia; mas, 
como ele não tratou a amizade do barril com tanto amor e delijencia como 
o barril quisera, não querendo ir em sua companhia, dando íía volta ou 
tombo, se despedio dele, e, deixando-o ir ao fundo, se foi com a corrente 
o rio acima; mas, como Baltesar Vaz tornase sobre a agoa e se vise de 
todo perdido, mostrando muita delijencia e animo, se ouve outra vez aos 
paos da almadia com muito trabalho, apegando os outros dous compa- 
nheiros nele ; mas como a este tempo já ouvese alguns mouros a nado 
derrador deles e da nosa parte chegasem alguns nadando, entre os quais 
era o adail Fernão Rodriguez e João Vaz, criado do capitão, que por 
falar muito chamávamos Grajao "*, e um Pedro, criado de Tristão de Melo, 
e bradando-lhe o fizérão desaferrar a almadia, ficando os dous besteiros 
em poder dos mouros, donde logo fôrão mortos á borda da agoa; os que 
nadando andávão, ajudando a Baltesar Vaz, se virão em muito trabalho, 
ajudando-lhe o milhor que pudérão, todavia, rogando-lhe não apegase de 
nenhum, de maneira que lhe empedise o nadar, e, como já derredor dele 
érão muitos dos nosos com lanças, os mouros não ousarão tornar á agoa, 
ainda que era muito acima donde o capitão ficava, mas, como chegase 
Roque Ravenga e Artur Rodriguez com um feixe de tábua seca e Baltesar 
Vaz pegase nele, logo se ouve por seguro, e sem trabalho o encaminharão 
á nosa banda, vindo mais de vinte dos nosos derrador dele; e, com sal- 
varmos Baltesar Vaz e deixarmos dous homens mortos e meia dúzia 
d'arcabuzes e bestas perdidas, nos recolhemos por dentro do Soveral e, 
vindo demandar Benamourel, saimos á praia e dahi á vila, donde chega- 



I. que oje é rendeiro do paço da Madeira] que oje anda nesta cidade e foi rendeiro 
do pescado L ; /. este passo em B N M. — 2. perdido] perdidos A ; /. este passo em B N M. 
— 3. Grajao] Graa João L: Grã João;/, este passo em BNM. 



-93- 

mos, com não se falar senão na delijencia e animo de Baltesar Vaz em se 
salvar; mas o capitão, ainda que este caminho e entrada lhe custou dous 
homens e algúas bestas e espingardas e a vida de Baltesar Vaz, com 
tanto risco seu e doutros, que polo salvar se deitarão á agoa, não perdeo 
a esperança do gado, vendo quão levemente foi rodeado e trazido á borda 
do rio, e, tanto que á vila chegou, logo pôs por obra de tentar a pasagem, 
como logo direi. 

CAPITULO XLI 

De como o capitão Aníonio da Siheira 

tornou a ententav de pasar o rio de Larache em barcos 

metendo-os de noiíte pola barra 



VENDO o capitão, António da Silveira, a desposição do rio de Larache 
e o espaço que da aldeã d'Alhaute ao rio avia, e como o gado pa- 
cia tão largo, estendendo-se pola varzia, não tão somente ententou 
de tornar a ententar a tomado do gado, antes cuidou e ententou de tomar 
a aldeã d'Alhaute, e logo se detreminou tornar e o pôs por obra, metendo 
dous barcos de pescar pola boca do rio e pasando por Larache em o mór 
escuro da noute, e neles pasarem outenta ou cem homens que desem na 
aldeã e a tomasem, e poios mesmos barcos se tornasem e pasasem o rio; 
e, mandando ir por mar dous barcos, dos da vila, de cinco remos cada 
um, com cinco ou seis arcabuzeiros e um bombardeiro, pêra governar um 
berço que em cada um dos barcos ia, os mandou ir por mar e que, o 
mais surdamente que pudesem, pasasem por Larache, de maneira que não 
foseni vistos nem sintidos, e, polo rio arriba, fosem até onde ele estava, 
o que era acima de Xeimes, defronte da aldeã; e, ordenado isto dos 
barcos, se foi cora toda a jente ao lugar asinalado, donde chegamos á meia 
noute, e, esperando que os barcos chegasem, ouvimos o rebate em Larache 
de muitas e grandes gritas e muitos fogos, e trás eles tirarem alguns tiros 
que em Larache avia, e logo lhe responderão da mesma aldeã d'Alhaute 
com outras semelhantes gritas e fogos, e asi por outros lugares ao longo 
do rio até Buxarem, iãa aldeã muito grande, que duas legoas de Larache 
está, que parece que não pudérão os barcos pasar por Larache que não 
fosem vistos e sintidos, e, como estávão d'aviso e tínhão guardas á boca 
da barra, e em duas torrinhas que sobre o rio estão, tão perto da agoa 
que estão em cima de úas pedras cerradas do mesmo rio, vendo-os pasar, 
dérão aquele aviso e rebate á aldeã; e, vendo o capitão o ardil desfeito 
e que não se podia fazer nada, por estar tudo avisado, desconfiado de 
pasar á outra banda, mandou a Artur Rodríguez que com vinte de cavalo 
viese o rio abaixo a favorecer os barcos, a qual ida foi muito necesaria^ 



— 94 — 

porque, vcndo-se os barcos dentro do rio e desconfiados de tornarem a 
sair pola boca, vínhão desejando de se lançarem em terra, parecendo-Ihes 
que as gritas que da outra parte soávão érão bastantes a os tomar; mas, 
como sintirão Artur Rodríguez e os que com ele ião, que da nosa parte 
lhes falarão, chegando a terra, ficarão descansados e com o favor dos 
nosos chegarão até onde o capitão estava, o qual, receando que á tornada 
os barcos recebesem dano, os quisera logo mandar arrombar, e, todavia, 
mandou ao adail Fernão Rodríguez que os viese favorecendo e provasem 
a sair pola barra fora, e, não podendo, arrombando os barcos, recolhesem 
a jente deles e se viesem por terra, levando o adail vinte de cavalo, e 
pêra os berços que nos barcos ião os carregasem em úa azemela; mas, 
como os dos barcos se virão sem o capitão, foi tanto o medo deles que 
não dando polo adail, pondo as proas em terra, se começarão a sair 
desemparando-as, de maneira que nem os berços quisérão tirar, o que 
vendo Rodrigo d'01anda, que um dos bombardeiros era, arrincando os 
berços do banco deu com eles no rio, e, tomando os remos nas mãos, 
começou arrombar os barcos até se encherem d'agoa, e isto feito se 
pusérão diante dos de cavalo [caminho da vila] ', donde chegamos muito 
cedo, por aver do rio á vila não mais de cinco legoas, asaz pequenas; e 
desta maneira se desfizérão estes dous ardis da pasada do rio de Larache, 
os quais se ordenarão com os mores alvoroços que a guerra podia enje- 
nhar, por serem ambos artificiais, e não ha duvida se ^ os barcos pudérao 
pasar sem serem sintidos que não ^ se fizera boa presa, tomando a aldeã 
com cem homens que pêra iso ião ordenados. 

Esta aldeã de Alhaute é Qa terra alta e muito chã, avendo dela ao rio 
menos de um quarto de legoa, sendo todo este espaço de úa grande var- 
zia que o rio com cheia toda cobre, e polo pé dos altos, ao longo da var- 
zia, vai úa mui fermosa ribeira, povoada de muito e bom arvoredo, os 
mais freixos e borrazeiros ■♦. Desfeitos estes dous ardis, donde o ganho 
deles foi leixarmos dous homens e dous barcos e dous berços, os barcos 
tirarão os mouros e deles se servirão de pasajem e de pescar, e nós che- 
gamos á vila mais cansados dos ardis desfeitos que do trabalho do cami- 
nho, que por ele viemos monteando, o que nos ouvera de custar caro por 
Mulei Abrahem este dia estar no noso campo, e leixou de correr a vila 
por aquela noute ouvir a artelharia de Larache e não saber donde era, e 
a que esteve sospenso e sem se detreminar até o outro dia lhe chegar 
recado d'Alcacere, e soube o que era, por os de Larache mandarem logo 
de noute este recado do rebate a Alcacere, o qual chegou ante-menhã. 

Pasado este dia da nosa tornada, em o qual Mulei Abrahem esteve 

I. [caminho da vila]/ A. — 2. se] que se L; /. este passo em BNM. — 3. não] /. L; 
/. este passo em BNM. — 4. borrazeiros] bazarreiros A; /. este passo em BNM. Nome 
vulgar de certos salgueiros : veja-se António Pereira Coutinho, A flora de Portugal, 
p. i5<j-i6o. Falta nos dicionários. 



-95- 

em o noso campo sospenso até saber donde as bombardas érão, ao se- 
guinte dia se veio lançar em Redemoinhos, parecendo-lhe que por virmos 
cansados as atalaias não iríao largas, e asi como o cuidou asi socedeo, 
porque não pasando as atalaias do Corvo e da Ruiva e do mar, atalaias 
que bastávão a dar de comer ao gado, teve Mulei Abrahem tempo de 
pasar com toda sua jente antre ambas as varzias, donde correo pasando 
a ribeira de Bugano, donde, com a detença que nela fez, se tomou o re- 
bate tão bem que, quando tornou a pasar o córrego do Lião pola Atalaia 
Gorda e foi na Atalainha das Palmas, não vio cousa a que pudese fazer 
dano, por aquele dia não aver guarda e o gado, asi vacum como meudo, 
andar dentro dos valos; mas, estendendo-se os corredores polo Laranjal 
abaixo, cenjirão até o mar, e, vendo vir um homem de pé da vinha de 
Luis Machado, que Álvaro Trancoso se chamava, o matarão, o qual tinha 
um filho cativo e andava sobre o resgate do filho, e veio cair antre dous 
mouros d'Aicacere que o receberão nas lanças, e, não se contentando com 
tirar a vida a este mezquinho e pobre homem, ainda ouvérão vista de 
Lourence Anes, pescador, que sobre íia pedra pescando á cana estava, o 
qual, por ser velho e estampado, se veio meter com eles e o matarão, 
podendo-se meter na agoa ou deixar-se estar na pedra, donde os mouros 
não podião entrar senão a pé e correndo muito risco, porque o capitão, 
das tranqueiras, donde estava, vendo alguns corredores travesar o Laranjal 
e irem demandar o mar, parecendo-lhe daquela parte avia alguns desman- 
dados, mandou ao adail que com vinte de cavalo se fose àquela parte, 
mas, como os mouros que lá fôrão érão poucos, tanto que tirarão a vida 
a estes dous pobres pescadores, tornando-se ás bandeiras, se recolherão. 
O capitão, vendo como os mouros correrão fraco, se foi ao Facho, 
donde conhecemos não ser mais que Mulei Abrahem com três bandeiras 
de Xexuão, Tetuão e Targa, e logo ali o capitão foi visitado de Alhadide, 
criado de Mulei Abrahem, fazendo-lhe saber que mais por segurar os seus 
que por nos fazer dano era entrado em o noso campo, e que ele soubera 
que o dia dantes estivérão em Larache, e que lhe mandase dizer como 
vinha e o que pasara, e que ali vínhão cartas de Lourenço Pirez de Tá- 
vora e de Manoel da Silveira e doutros cativos. O capitão lhe mandou 
agardecer sua visitação e o mandou visitar com ' Brás Fernândez, seu 
amo, que fora seu cativo e sabia bem aravia, e isto por saber que jente 
era e se se ajuntara ao rebate de Larache; e, ido Eras Fernândez, conhe- 
ceo alguns d'Alcacere, aos quais lhe tomou o rebate estando já com Mulei 
Abrahem, porque os outros, que á Ponte estávao, tanto que ouvirão o 
rebate, pasando o rio, acudirão a Larache e não se acabarão d'ajuntar, e 
Mulei Abrahem, por não estar tanto no campo, quis correr só, conhecendo o 
tempo e estarmos cansados, e tãobem por se vender ao alcaide d'AIcacere. 

I. com] por BNLM. 



-96- 



CAPITULO XLII 



De como o alcaide Mafote correo Ar:{ila sobre notite 
e de dons mouros honrados que lhe matamos ao Rio Doce 



P ASADAS estas cavalgadas e entradas feitas polo capitão, António da 
Silveira, tanto a meudo, por não deixar perder a ocasião que o 
tempo lhe dava, em tanto que el-rei era na guerra de Marrocos 
contra o xarife, como já apontei, e os alcaides estávão em suas casas, 
entendendo mais em guardar suas terras que em fazer guerra, ainda que 
não faltarão rebates, especialmente almogavares, asi da serra como d'Al- 
cacere, entre as quais vindas cativarão algúas atalaias fazendo seu oficio 
de descobrir, entre as quais foi cativo Martim Gonçálvez Ramirão e João 
Fernândez Cão, e asi se fizérão por nosa parte outras, tomando alguns 
mouros e gado, que, por não fazer tão meuda relação, paso; mas, como 
elrei foi tornado a Féz e Mafote seu privado, e o alcaide de Jazem decese 
de Féz a ver' e visitar sua terra e casa, querendo mostrar-se mais valeroso 
e ousado que os outros alcaides nosos vezinhos, com somente setenta ou 
outenta de cavalo que, polo acompanharem, com ele viérão de Féz, os 
mais deles nobres, como se usa e costuma acompanharem e servirem aos 
privados e os comprazerem, se veio ao noso campo com ousadia de cor- 
rer Arzila, e, com estes poucos companheiros, se veio ao XercSo, duas 
legoas e meia da vila, esperando que alguns monteiros ou desmandados 
fosem ter com eles, e, vendo aquele dia as atalaias largas, que estávão na 
Pedra Alta e em Almenara, por aquele dia o capitão dar guarda em Ale- 
casapo, se pôs a montear ao longo da ribeira do Amame, mandando as 
atalaias descobrir a Pedra Alta, pêra que ele pudese bater e montear a 
ribeira seguramente; e, levantando-se a guarda e o capitão tendo morto 
alguns porcos, se veio caminho da vila, ficando ainda da outra parte da 
ribeira Fernão Caldeira e outros mais de vinte de cavalo ; e, vindo o ca- 
pitão com toda a guarda diante de si, desta parte das Alagoas se deu o 
rebate, asaz bravo e grande, porque o alcaide Mafote, tanto que vio des- 
povoar as atalaias da Pedra Alta, tomando um troto se veio após as 
atalaias e, vendo-as na Aldeã Velha, saio após elas, as quais logo 
tomarão o rebate, e os mouros as seguirão pola estrada até o Rio Doce. 
O capitão, posto que já era tarde e posto o sol, recolhendo alguns de 
cavalo, antes que fose sobre o Rio Doce nos ajuntamos com ele mais 
de outenta de cavalo, sem sabermos o rebate donde era, ainda que nos 

I. ver] vir A. 



— 97 — 

parecia que na nosa traseira era; e, vindo esperando por Fernão Caldeira 
e poios que atrás ficávão, chegou João López Requeixo e Fernão Machado 
e outros três ou quatro de cavalo, trazendo sua carne ante si, e asi che- 
gou Bastião Fernândez, jenro de Nuno Alvarez de Carvalho, ila das ata- 
laias, dizendo que era jente grosa que sairá da Aldeã Velha e corria 
sobre noute, e logo João López Requeixo e Fernão Machado disérão ao 
capitão que eles estávão na varzia do Amame e virão arrincar os mouros 
da Aldeã Velha, e, por os verem poucos e raros, cometerão a estrada e 
vínhão tanto á longa, que se sua mercê dése na dianteira os desbarataria, 
e com isto o capitão, sem mais aguardar, se veio ao Rio Doce com von- 
tade dali pelejar com eles; e tãobem lhe dise o Requeixo que Fernão 
Caldeira vira os mouros, e, recolhendo os que com ele érao, se fora pola 
outra parte da ribeira, e que iríão demandar o porto d'Alfandequim, e 
com um troto pasamos a agoa do Rio Doce, e, em a pasando, chegarão 
a nós dez ou doze [mouros] ' de cavalo, e, vendo-nos pasados, um deles 
pasou a agoa mais abaixo de nós e os outros viérão a poer os pés na 
agoa, e ficando cinco ou seis na ladeira. 

Tanto que Diogo da Silveira, almocadem, vio o mouro ter pasado a 
agoa remeteo a ele de mais lonje do que era necesario, ainda que ele diz 
que por travar fala com ele, o mouro, tornando a pasar a agoa, se ajuntou 
com os outros e bradando uns com outros se começarão a recolher. O 
capitão, que já era na praia com todos nós outros, vendo que os mouros 
não queríão pasar, antes se recolhíão, parecendo-Ihe que a causa de não 
ousarem pasar era Diogo da Silveira e o adail, que ao Rio Doce ficarão 
com doze de cavalo, dise a nós outros: «Estai quedos, irei recolher estes 
que fícão atrás», e, chegando a eles, dise: «Porque não andais, e, se não 
quereis andar, porque não voltais, pois que estes mouros estão perdidos ?» 
Ainda as palavras não erão ditas quando todos arrincárão com santiago 
na boca, os quais érão o adail, Diogo da Silveira, Fernão da Silva, Do- 
mingos Martinz, seu criado. Dom Gastão Coutinho, filho de Dom Diogo 
Coutinho, irmão do conde de Marialva, Francisco Luis, do cardeal ifante 
Dom Afonso, Garamatão Télez, Fernão Machado e outros até doze ou 
catorze de cavalo, mas logo se pôs diante todos Garamatão Télez, por 
ter o mais lijeiro cavalo que na vila avia naquele tempo, o qual logo foi 
com os mouros, e, poios ver ir juntos e receando não viesem mais de trás, 
foi dando folgo ao cavalo até dar vista á cumiada das Fontainhas de Pêro 
de Meneses, onde Fernão da Silva e o adail e Francisco Luis chegarão a 
ele. 

E aqui tornarei a nós outros, que, vendo os nosos pasar a agoa, arrin- 
camos com grande grita e logo fomos da outra parte do rio com o capi- 
tão, ao qual fizemos deter por vir da vila grande rebate, e asi o dávão 

I. [mouros] /. A. 

ANAIS DE ARZILA l3 



-98- 

muitos de pé e de cavalo que sobre o outeiro de Fernão da Silva estáváo, 
e foi o rebate tão bravo que fez ao capitão não ir por diante, porque, indo 
subindo [as ladeiras da outra parte do Rio Doce] ', fôrão tantos os reque- 
rimentos que muitas pesoas lhe fizérão, dizendo, que pois o rebate vinha 
da vila, que podia vir jente polo porto d'Alcmoquique, ou por antre as 
varzias, e pola Pontiniia viríão sair ao adro, ou os do outeiro víão pola 
estrada vir muita jente. Os que mais apertarão neste requerimento fôrão 
Pêro Leitão, pesca honrada e homem velho, que o capitão, António da 
Silveira, levou de Beja, e Simão Rabelo, almoxarife que então era: de 
tal maneira apertarão estes e outros que o capitão esteve quedo sobre as 
Fontes, mas, depois que soube o que aquela noute socedeo, os tratou 
muito mal de palavra, e o senhor Fero Leitão não tornou mais á sua 
graça, e Simão Rabelo, de corrido, mandou a Tanjere comprar o milhor 
cavalo que na cidade avia, e asi teve sempre muitos bons cavalos e de 
muito preço \ e tivemos que se o capitão fora por diante e alcançara lin- 
goa que Mafote se perdera, porque todos fôrão desbaratados e os mais 
se lançarão á ribeira do Amame, que, vendo que os nosos ião trás eles, 
se dérão por perdidos, como logo direi, que, indo Garamatão Télez 
diante em seu lijeiro cavalo, foi logo com eles e os mouros se juntarão e 
juntos se desemburilhárão dos nosos, indo Garamatão Télez junto deles, 
esperando aver vista do vale e que os nosos chegasem a ele; mas Fernão 
da Silva, que no seu Pérez ia, tanto que descobrio o vale da Fonte e deu 
vista ao caminho, e não vendo de que temer, travesou rijo, e, travesando 
por diante de Garamatão Télez, pôs a lança no almocadem deles, que 
Alé Hahão avia nome, e o encontrou com tanta força que o lançou fora 
da sela. Diz Garamatão Télez que quando vio Fernão da Silva diante 
de si e pôs a lança no mouro em que ele levava o tento, que ficou cor- 
rido, e, colhendo a lança a si, não quis pô-la no mouro que outrem der- 
rubara, e pasou por eles com entenção de derrubar outro, como logo 
derrubou. 

Fernão da Silva, tanto que pôs este mouro no chão, não teve mais 
conta com ele, porque logo foi pasado das lanças de Fernão Machado e 
de Domingo Martinz e de Dom Gastão Coutinho, posto que Dom Gastão 
afirma que pôs a lança no mouro antes que caise e que o ajudou a der- 
rubar, de maneira que destas duas lanças de Fernão da Silva e de Dom 
Gastão era mortalmente ferido e não ouve mester mestre que o curase. 
Os companheiros não ficarão satisfeitos, porque todos se detivérão sobre 
ele fazendo o oficio da guerra, que é leixá-lo sem vida, nem sangue, e com 
esta pouca detença Fernão da Silva e Garamatão Télez tornarão a chegar 
aos mouros, que juntos ião, e, querendo dar neles, Fernão da Silva 
bradou que lhe acudisem, ao que Garamatão Télez respondeo : sEis-me 

I. [as ladeiras da outra parte do rio Doce] f. A. 



— 99 — 

aqui, companheiro». «Estou sem estjibeira», dise ele, «que me quebrou 
um loro», mas, como Garamatão Télez estava envejado em ter Fernão 
da Silva derrubado um mouro vindo ele diante, o leixou e seguio os 
mouros, os quais, vendo um só de cavalo, fizérao rosto e se detivérão, 
que foi causa de chegarem o adail, Fernão Rodríguez Colares e Francisco 
Luis, e, vendo que se querião lançar ao vale dos Borrazeiros, os apertarão 
e, vendo-se apertados, dise o principal deles, que cide Ornar avia nome: 
«De que fujimos, que não são mais que três?» e virou e se encontrou 
cora Garamatão Télez, mas não receberão dano, por serem tão juntos 
que Garamatão Télez o não pode tomar senão polo pescoço do cavalo e, 
fendendo-lhe o arção, lhe pasou ao quadril, e o mouro, vendo-se só e 
que os companheiros não virarão, nem voltarão, tirando-se da lança, quis 
tornar-se a ajuntar com os outros mouros; mas, como Garamatão Télez 
se lhe tornou a poer diante, se tornarão a encontrar, e Garamatão Télez 
o tomou poios peitos e o mouro tomou o cavalo de Garamatão Télez por 
cima de um olho e lhe fez úa grande ferida, e, rachando a lança, ficou o 
ferro na cabeça do cavalo, e o mouro foi ao chão, e o adail e Francisco 
Luis, vendo o mouro no chão, não tiverão mais conta e pasárão em segui- 
mento dos outros mouros; e, querendo fazer Garamatão Télez outro 
tanto, vio o mouro diante de si em pé com a lança nas mãos, que voltou 
e foi pêra o encontrar e o errou e pregou no chão, mas o mouro lhe 
deitou as mãos na lança e tirou tão rijo que llVa levou das mãos, e Gara- 
matão Télez se lançou fora do cavalo e se foi a ele com a espada na mão 
e um gabão no braço, mas o mouro lh'atirou um golpe e o tomou por 
cima de úa orelha e lhe fez Qa razoada ferida, mas Garamatão Télez 
entrou com ele, tendo ambos as mãos na lança, lhe deu um tal golpe que 
lhe cortou a meia mão ezquerda; mas não foi sem paga, porque o mouro 
lhe deu outra por cima da cabeça, e logo o mouro levou outra por um 
hombro e outra por úa coxa, mas, como estávão a pé quedo, não per- 
derão golpe, que com úa mão tínhão ambos a lança e com a outra se 
servíão da espada ; e nisto o mouro, posto que mal ferido estava, deu a 
Garamatão Télez úa grande ferida por cima da cabeça que o rosto e 
olhos lhe cobrio de sangue, de que Garamatão Télez se sintio e, vendo-se 
desembaraçado, com úa mão alimpou os olhos e com a outra lhe deu 
tamanho golpe que a meia cabeça do mouro foi fendida, e deste golpe 
caio, chamando por cide Hamete que lhe acodise, e trás esta lhe deu 
Garamatão Télez outras até o leixar sem vida, e logo foi tomar seu cavalo, 
e, não vendo pesoa viva, tornou ao mouro e lhe tirou a espada com um 
cinto mourisco e ferros e rede de prata, e se tornou a poer a cavalo com 
três feridas, tomando-lhe tãobem úas esporas pretas e os acicates de 
prata. 

E pois tenho dito, e tanto meudamente, a resistência e morte deste 
mouro, parece rezão dizer sua calidade, e porque veio com tão pouca 



jente. Era este mouro alarve e dos principais do reino de Fez e muito 
valente homem. Eu lhe conheci dous irmãos, que cada um tinha qui- 
nhentos de cavalo: um era o xeque Cide e outro o xeque Caroax. Não 
sei se este xeque Omar era o maior, porque este morreo no ano de mil e 
quinhentos e vinte sete, e eu conheci os irmãos no ano de mil quinhentos 
corenta e dous, que tivemos pazes. Era muito amigo do alcaide Mafote, 
que como privado todos lhe fazíão a vontade e folgáváo de o servir, e com 
prazer viérão ambos de Fez com vontade de correr Arzila, e, mandando 
recado á jente se viese a noso campo, eles viérão diante com somente 
outenta de cavalo, os mais de Féz, e estando no Xercão, onde aquele dia 
chegarão, e, vendo o campo largo e as atalaias na Pedra Alta, esperarão 
que alguns monteiros fosem ter com eles e, vendo que as atalaias se 
recolherão, ordenarão correr sobre noute, como correrão. 

Tornando a Garamatão Télez, que, vendo-se só, esteve suspenso sem 
saber o que faria, se esperaria polo adail e Francisco Luis, parecendo-lhe 
que ião diante, o que não foi asi, porque os mouros, ajuntando-se com 
outros e não vendo mais que dous de cavalo, voltarão com eles, e, lan- 
çando-os fora do caminho que trouxérão, os fizérão tornar por onde Fernão 
da Silva e Fernão Machado estávão com outros, concertando-Ihe o loro, 
e ainda os correrão um bom pedaço e viérão dar com o capitão que 
sobre a fonte de Pêro de Meneses estava asaz agastado, por não saber 
nova deles; e, sabendo como avião morto um mouro honrado e Gara- 
matão Télez ficava com outro, então se agastou muito mais e não avia 
homem que ousase falar, parecendo-lhe que Garamatão Télez era perdido, 
ou que o mouro pudera mais que ele, e nao se tinha dele tanta expe- 
riência, nem nos parecia que saise com a empresa como saio; e António 
da Silveira, como bom capitão, dise que não tornaria á vila sem saber 
dele e como pasou com o mouro, e, mandando alguns diante, deu a andar, 
mas logo veio Roque de Farão pedindo alvixeras, dizendo que Garamatão 
Télez vinha e matara o mouro, a qual nova a todos fez alegre e muito 
mais ao capitão. E chegado Garamatão Télez o capitão o recebeo muito 
bem e lhe preguntou meudamente o que lhe aviera com o mouro, e, por 
Garamatão Télez falar tão largo e meudamente, muitos o não críão, mas 
as mostras do despojo nos fez crer e estar suspensos; e com isto o capitão 
se veio á vila muito agastado polo rebate pasado, dando a culpa dele ao 
sobredito senhor Pêro Leitão e a Simão Rabelo, e muitos parecendo-lhe 
que o adail e seus companheiros não acharão jente até o vale dos Borra- 
zeiros, pois que todos os que chegarão ao Rio Doce érão perdidos; estava 
o capitão muito pesaroso em não aver lingoa, e muito mais em não saber 
certeza de Fernão Caldeira e dos que com ele ficarão, e, temendo-se que 
os mouros ouvesem vista dele e carregasem após ele, ou o esperasem até 
o porto d'Alfandequim, ou ao Rio Doce, tanto que fomos na vila, mandou 
tirar cinco tiros grosos e outros tantos á meia noute e outros de madru- 



gada, fazendo-lhes sinal não viesem demandar a vila; e ao outro dia, como 
foi menhã, o capitão, António da Silveira, se pÔs a cavalo e com todos os 
de cavalo foi ver o rastro e os mouros mortos, e logo no vale da Fon- 
tainha acharão o mouro que primeiro morreo despojado e o cavalo no 
brejio da fonte, e, pasando até sobre o vale dos Borrazeiros, vimos o 
outro cavalo e, correndo a ele, o trouxérao ao capitão, fendo no pescoço 
e na cabeça e o arcao rachado, e vinha guarnecido de estribeiras pra- 
teadas e cabeçadas de prata, ambos ruços e com ricas selas, e logo Diogo 
da Silveira foi dar com o mouro, e, primeiro que outrem chegase, lhe 
tirou úa jaqueta d'azul vis- e outra de baixo de veludo cramesim, as quais 
lhe ficarão com uns borzeguins vermelhos e novos \ O capitão folgou 
muito de acharmos o mouro asi e da maneira que Garamatão Télez Ih o 
disera, e o louvou muito, e, vindo á vila, o foi visitar á cama e lhe tez 
mercê do despojo que tomou ao mouro, posto que o adail lhe pedia parte, 
e sobre isto ouvéráo palavras, mas o capitão, António da Silveira, dese- 
jando fazer-lhe mores mercês, mandou ao adail que não falase no des- 
pojo, e o cinto vendeo Garamatão Télez por dezaseis cruzados que 

pesou. ^ u A 

O capitão mandou ver o rastro que os nosos levarão, e, achando que 
fôrão caminho de Tanjere e que ninguém ia trás eles, foi muito contente, 
e tãobem descuberta a Aldeã Velha, fomos ver a trilha dos mouros e 
achamos tão pouca trilha que nos espantamos em chegar tao pouca 
jente ao Rio Doce, e asi nos recolhemos, pesando-nos por nao seguir 
os mouros, e avendo que o rebate falso fora a causa de sua salvação; 
e logo ao outro dia chegou um barco de Tanjere, e, sabendo estar os 
nosos em Tanjere, o capitão os mandou vir polo porto d'Alfeixe, pois 
tinha boa nova, por tãobem ser vindo um alfaqueque d' Alcácer a saber 
dos dous mouros se érão vivos, e soubemos que o primeiro era o almo- 
cadem Alé Hahão, e o que Garamatão Télez matou era um xeque 
dos alarves, chamado o cheque Afu, irmão do xeque Cide e do xeque 
Caroax, que cada um deles mandava quinhentos de cavalo, e este, por 
ser mancebo e amigo de Mafote, privado d'el-rei, o quis acompanhar e 
siguir neste caminho, no qual lhe custou a vida. 



, vis- do francês bis: escuro? -2. lhe tirou... borzeguins vermelhos e novos] 
estando vistido em um pelote azul vis e debaixo Úa jaqueta d'ezcarlata e as esporas nos 
pés pretas e com os acicates de prata as quais Diogo da Silveira tirou com um barrete 
vermelho B N L M. Todo o capitulo é uma paráfrase de A. 



102 



CAPITULO XLIII 



Como íía galé emperial se alçou e veio a poder de Mulei Abrahem 
com o capitão Protudo 



POIS já ei contado algúas entradas e corridas pola jente d'Arzila feitas, 
asi aimogavares como entradas do capitão, António da Silveira, e asi 
dos alcaides, nosos vezinhos d'Alcacere e de Jazem, e, por aver 
muito que não ei falado, nem tratado de Mulei Abrahem, sendo tanto 
noso vezinho e o mais valeroso dos alcaides, asi por sua grande casa e 
estado, como por florecerem nele muitas e mui grandes vertudas e nobre- 
zas, parece rezão o não leixar atrás, e, por neste tempo aver muita mu- 
dança em seu estado, vindo a ter e mandar absolutamente o reino de 
Fez, irei contando aigúa parte de seus sucesos, que não é pouco; e, antes 
que entre nesta fundura e o pase a Fez, donde gastou o mais do tempo 
que viveo, farei Qa breve menção em como neste ano de vinte sete lhe foi 
ter á mão úa galé emperial e capitainadas oito, que o emperador Dom 
Carlos trazia em guarda de seus reinos, levantando-se alguns forçados 
com ela e com seu capitão jeneral, e pasou desta maneira. 

Estando Protudo ', capitão jeneral das galés d'Espanha, na bahia de 
Cáliz com todas as oito galés, que em aquele tempo érão senhoras do mar 
de Levante, certos forçados, que por suas culpas érão degradados nelas, 
cometerão um notável feito e façanha, não visto, nem crido, ementando 
acometer de prender a seu capitão jeral e se levantarem com a galé e o 
levarem a vender a terra de mouros, e o que mais é d'espantar sairem 
com o feito e com cousa ententada tão fora de toda rezão, sendo autores 

deste feito um Diogo Adão, castelhano, e outro ^, semelhante 

a ele, o qual Diogo Adão tinha cortada a ponta da lingoa por blasfemador 
e arrenegador ; e úa noute, soltando-se a si e a outros secaces, com ajuda 
dos turcos e mouros da galé, encerrando primeiro o capitão em sua 
camará, bradando: «Axora, axora!», deitando suas armas e matando 
alguns que se quisérão defender, aos outros fizérão meter debaixo da 
cuberta e coxia, e, cortando as amarras, se fizérão á vela, e, deitando-se 
fora da bahia, tomarão o caminho de Larache, por mais perto porto; mas, 
como as outras galés a seguisem com vontade de a alcançar, conhecendo ir 
alçada e o vento ser poncnte e muito, não podendo fazer o caminho que 
queríão, abocarão o Estreito, pasando muito perto de Tanjere e Alcacere 
e Cepta, da qual cidade sairão quatro ou cinco bargantins, parecendo-lhe 

1 . Protudo] Protundo B N L M. — 2. . . .] branco em A ; /. B N L M. 



— io3 — 

ser de mouros e que as d'Espanha a vínhão seguindo, mas vendo-a com 
as bandeiras emperiais se deixarão ir ao longo dela, e, sem a poderem 
alcançar as outras, se meteo polo rio de Tetuão até ir varar em seco, 
donde, acodindo muita jente de cavalo e de pé, as outras galés perderão 
esperança de a cobrarem. 

Deste caso foi logo avisado Mulei Abrahem, que em Xexuao, seu asento 
e cabeça de seu estado, estava, cinco legoas de Tetuão, o qual, vindo e 
achando úa tão grande presa de um tão grande capitão e outros muitos 
fidalgos e mais de cento e cincoenta cristãos, dos quais ele tomou por 
cativos todos os que os forçados quisérão dizer que não fôrão no alevan- 
tamento, e, dando liberdade aos turcos e mouros da galé, recolheo pêra 
si ao capitão Protudo com todos os principais cristãos e muita riqueza, 
asi de nauita prata como de muitos reales, que pêra pagamento da jente 
das galés o capitão tinha recolhido, em que afirmávão valer o que ia na 
galé mais de sesenta mil cruzados, e asi toda a artelharia da galé; e aos 
levantadores favoreceo, e deixou em sua liberdade os que não quisérão 
ser mouros, partindo com eles mui largo, dando-lhe dinheiro, vestidos, 
como ordenado cada mês, como a soldados, mas eles fôrão tais que em 
pouco tempo se gastarão e consumirão todos, fazendo-se uns mouros e 
outros por pequenos achaques avendo brigas, ou falando ás mouras, lhes 
mandava lançar ferros e os tomava por cativos, dando-lhes o pago que 
suas traições e maldades merecíao. 

Agora contarei como acabou Diogo Adão, um dos autores deste levan- 
tamento, o qual vindo em úa fusta a fazer mal a cristãos, viérão ter úa 
noute sobre Arzila, e, querendo saber dos navios que no arrecife estávão, 
dise que o lançasem a terra a ele e a outro elche, ou mouro, e chegaríão 
a ver o que no porto avia; e sobre isto se concertarão quatro, dous cris- 
tãos da fusta, ainda que o outro era elche, e outros dous mouros, e, 
pondo-os em terra a Santa Caterina, se viérão á porta da Ribeira, e, dei- 
tando mão das espadas, renderão aos dous mouros, e, tomando-lhe as 
armas, chamarão á porta: o capitão lhes fez abrir e os recolheo dentro da 
vila, e, sabendo o que pasava, os agasalhou, e ao outro dia o elche se 
reconceliou e, mudando o nome, se chamou Francisco da Silveira, e, 
comprando-lhe o capitão os mouros, os embarcou em úa caravela deTavila 
que os trouxese a Portugal ; e, ordenando Deos justo e verdadeiro que 
pagasem o que tão justo devíao, com força de tempo os lançou em Sam 
Lucar de Barramede, e, saltando em terra, tomarão o caminho de Aia- 
monte, querendo lançar-se era Portugal, mas, como fosem descubertos e 
conhecidos, a irmandade os seguio e fôrão tomados e trazidos a Sam 
Lucar, donde fôrão feitos quartos ; e asi acabarão estes dous que a Arzila 
viérão ter. 

A algúas pesoas que este caso lerem lhes fica desejo de saber o que 
aconteceo ao capitão Protudo, digo que não tardou muito que não foi 



— 104 — 

resgatado em dezaseis mil cruzados, e outros dous fidalgos, de nação biz- 
cainhos, donde ele era, em quatro mil, e feito o resgate por Luis de 
Presenda, mercador jenoês que em aquele reino de Fez estava, que por 
sua pesoa e credito aquele reino mandava, avendo mais de quinze anos 
que nele estava, com grande casa de muitas mercadorias e criados, indo-lhe 
muitos navios de Cáliz e Jenoa e doutras partes, asi a Arzila e a Cepta, 
como a Larache e a Çalé, donde em todos estes lugares tinha casa e mer- 
cadorias; e era tanto seu credito, asi em terra de cristãos, como antre os 
mouros, que quem tinha dinheiro nele lhe parecia que era rico, e, alem de 
ser notado deste credito, em seu tempo não houve homem que era jenti- 
leza de rosto e corpo se lhe igualase. Pois sendo feito o resgate, Mulei 
Abrahem, como de sua condição fose o príncipe mais nobre e largo de 
seu tempo, os proveo de bons cavalos e arreios e cousas e peças mou- 
riscas, e, acompanhados de dez de cavalo, os mandou a Arzila, ficando 
por todo o resgate Luis de Presenda, o qual veio acompanhando ao Pro- 
tudo; e, chegados a Arzila, fôrão recebidos com muita honra do capitão, 
António da Silveira, e, mandando um barco a Jibaltar, donde tínhão por 
nova que um filho de Protudo, capitão das galés, estava, veio logo em úa 
galeota por seu pai, e, embarcado nela e Luis de Presenda com ele, se 
pasárão a Castela, alçando-se Luis de Presenda com este grande resgate 
e com outros vinte mil cruzados de partes, especialmente de Jacob Rosa- 
les, judeu, que por este alçamento de Luis de Presenda ficou pobre e per- 
dido, e posto que depois Mulei Abrahem mandou sobre isto sua embaixada 
a el-rei, noso senhor, e ao emperador, a qual não ouve recurso, por ser já 
Protudo morto e seu filho cativo poios turcos e capitães de Barba Roxa, 
rei d'Arjel, e Luis de Presenda ser lançado em Itália, e andar em com- 
panhia do príncipe André Dória por capitão de úa galé, que pêra tudo ele 
era, pêra guerra e pêra trato; e desta maneira saio o Protudo de resgate, 
mas não tardou muito que o não pagou, sendo desbaratado e morto dos 
capitães de Barba Roxa. 



CAPITULO XLIV 

Dalgúas mudanças que antre el-rei de Féz e Mulei Maçoude ouve 

e de como foi morto Mulei Maçoude 

e seu estado e casa dado a Mulei Abrahem 



ESTANDO ocupado Mulci Abrahem em estes negócios da galé e em 
outros de seu estado e casa, socedeo em Fez aver alguns receios e 
mudanças antre el-rei e Mulei Maçoude, senhor de Mequinez, seu 
primo, e, sendo el-rei receoso, escreveo e mandou recado e cartas a Mulei 



— io5 — 

Abrahem, mandando-lhe e pedindo-lhe que logo subise e se fose a Féz, 
por cumprir asi a sua vida e estado. Mulei Abrahem, ávido seu conselho 
sobre o que faria, foi de todos seus parentes e amigos aconselhado que 
não fose, nem saise de sua casa, que tudo érão manhas pêra o colherem 
em Féz e o matarem, e Mulei Abrahem sobre este conselho, ainda que 
contra sua vontade, escusou a ida por então, e com palavras brandas se 
escusou; mas el-rei, que ardia com sospeitas, não pode sofrer que se não 
decrarase, mandando-lhe dizer que não se fiava doutrem senão dele, que 
pois o fizera rei o sostentasc, porque se temia de Mulei Maçoude e não 
se fiava de Mafote. 

Com estas cartas e recado, Mulei Abrahem se detreminou d'ir a Féz, 
e, estando todos seus parentes e vasalos aparelhados pêra o acompanha- 
rem, os despedio, e, com somente dous pajens e Zaraone, seu privado, 
tomou o caminho de Féz, deixando sua casa e estado na milhor ordem 
que lhe pareceo, deixando em Xexuão por alcaide a cide Alele, seu primo, 
e em Tetuão sua irmã, Citalforra ', molher valerosa e que fora molher 
d'Almenderim, e, asi desacompanhado, entrou polas portas de Féz e se 
foi decer em casa d'el-rei; e, apartados ambos, [el-rei] = lhe deu larga 
conta das sospeitas e indícios que tinha de seu primo, Mulei Maçoude, e 
de Mafote, carteando-se ambos, e outras cousas mais secretas, polas quais 
asentárão que Mafote fose morto. Na execução de tal sentença não ouve 
mais vagar que em quanto Mafote tardou, mas quando entrou no banho, 
donde eles estávão no tal conselho, ambos pusérão as mãos nele e o ma- 
tarão, dando-lhe Mulei Abrahem muitas cuitiladas com a sua espada, que 
de caminho trazia, e morto o fizérão lançar em um pateo, donde de todos 
fose visto; e asi pagou a morte do cristão que no campo de Tanjere fez 
matar tanto sem justiça e rezão, somente por preguntar por Mulei Abra- 
hem. Esta morte tão acelerada do alcaide Mafote, tão privado e valido, 
pôs grande espanto e medo em todo Féz, não se tendo ninguém por 
seguro, e pareceo a todos os parentes d'el-rei que nenhum avia de ficar e 
espantados se viérão a el-rei a oferecer-se e por lhe ganhar a vontade, e 
não falávão noutra cousa senão em Mulei Abrahem, c logo dérão a 
alcaidaria de Jazem a Benjija, pesoa principal e muito emparentado. 

Desta morte de Mafote se temeu muito Mulei Maçoude, e logo detre- 
minou de se defender e fazer forte em Mequinez, donde ele tinha toda a 
artelharia e monições do reino, e com esta detreminação escreveo logo 
aos alcaides seus, especialmente ao alcaide de Tedola, chamado Alatar, e 
Azambaca 3, alcaide de Çalé, estivesem prestes se el-rei contra eles fose; e 
o que mais o destrohio e danou foi que ordenou em Mequinez as cousas 
necesarias a sua segurança, e fez úa fala a muitos cristãos cativos que 

I. Citalforra: cit(e), senhora, e Alforra {A\hovva.)ynome de mulher. — 2. [el-rei]/. A. 
— 3. AzambacaJ Azambazar B NM: Azambar L. 

ANAIS DE ARZILA 14 



— io6 — 

tinha, artilheiros e oficiais de todas armas e outros ofícios, os quais seu 
pai fazia trazer de todo o reino c lhe fazia dar molheres cristãs e os casava 
e lhes fazia usar seus ofícios, e destes avia mais de cento casados e outros 
muitos solteiros, que, por não acharem molheres á sua vontade e por não 
fazerem filhos e os leixar cativos, não tomávão molheres. A estes fez 
Mulei Maçoude larga fala, queixando-se d'el-rei, que matara a el-rei, seu tio, 
c agora a Mafote, com achaque que se carteava com ele, e que não era 
senão com achaque de o matar e de lhe tomar as terras que de seu pai 
lhe ficarão, e se o defendesera e saise com vitoria lhes prometia de os 
leixar livres, ou ao menos lhes dar seus fílhos. Com esta pratica foi tanto 
o alvoroço dos cristãos que totalmente o destroírão e matarão. Como 
jente sem cabeça e sem conselho, responderão todos á Ga que todos mor- 
reríáo por ele, e não tão somente se defenderia, mas antes avia de ser rei 
de Fez, e, sem nenhum resguardo, começarão de bradar: «Viva Mulei 
Maçoude!» e não tão somente viva senão : «Deos oenxalce!» palavra 
devida a só pesoa de rei. Foi logo tudo sabido em Féz, e, por que a 
cousa não fose mais adiante, logo el-rei foi com a jente que de Féz pode 
tirar sobre Mequinez, com vontade de o cercar; mas tanto que el-rei sobre 
ele chegou, Mulei Abrahem de manhoso e animoso se entrou dentro em 
Mequinez, e pode tanto sua pesoa que convenceo a Mulei Maçoude e o 
trouxe aos pés d'el-rei com as chaves da cidade na mão, e deitado aos pés 
d'el-rei lhe entregou as chaves; mas el-rei, beijando-o na face, lh'as tornou, 
e, feitas estas amizades e pazes, el-rei se tornou a Féz, sendo Mulei 
Abrahem louvado de todos por estas amizades, e logo el-rei o casou com 
sua irmã, leia ■ Axa, com a qual viveo muitos anos, mandando o reino, 
fazendo obras de excelente príncipe e capitão, e sendo mui louvado de 
cristãos, mouros e judeus, usando de muitas magnifícencias e liberali- 
dades, não lhe faltando outra cousa mais que a santa fé pêra todo compri- 
mento. 

Mas tornando a Mulei Maçoude, como ele fose de seu natural bêbado 
e de má incrinação, tanto que se vio desapresado e em graça d'el-rei, se 
tornou a meter em seus viços acostumados, bebendo dias e noutes, usando 
do mao pecado e outras culpas, e, vindo a Féz, foi logo preso e mandado 
afogar por dous cristãos de Tanjere cativos, um Pêro da Maia, que oje 
vive em Xerez da Fronteira e é corretor de cavalos, e outro seu compa- 
nheiro, os quais, entrando a o servir, lhe deitarão um cordel á garganta 
c o afogarão, deitando fama que morrera de enfermidade. Sua casa e 
estado foi logo pasada a Mulei Abrahem. 

Asi ficou Mulei Abrahem senhor d'ametade do reino de Féz, sendo 
senhor de Mequinez, Çalé e Tedola e todas suas comarcas, asi lugares 
como alarves, pondo alcaides e tirando-os, e, o que mais se deve de notar, 

i. leia: senJiora, sinónimo de cite, que ocorreu já mais de uma vej. 



— loy — 

que sendo bárbaro e casi estranjeiro, por não ser de Féz, nem da linha- 
jem real dos Marins, foi tão bemquisto que não ouve nação que se quei- 
xase de sua governança. 

Os oficiais cativos fôrão pasados a Féz, donde os apousentárão junto 
da casa real com suas molheres e filhos, e d'el-rei e Mulci Abrahem fôrão 
favorecidos e bem tratados, fazendo-lhes mercês a alguns de filhos que 
livremente mandarão a terra de cristãos, como foi Afonso Fernândez, 
ferrador, que Mulei Abrahem mandou livremente com sua molher e dous 
filhos, e Caterina Fernândez, molher de mestre João, e aos filhos de Ber- 
tolameu Luis e outros, que, por lhe fazerem Ga besta ou úas couraças, 
lhes dava um filho, que sem resgate o mandávao. 

Trouxe isto tão largo, ainda que curto, por ser Mulei Abrahem tanto 
noso vezinho e Icixar suas terras, Xexuão e Tetuão, que ficarão de seu 
pai cide Alé Barraxe, por dar a entender como veio a mandar o reino de 
Féz, ainda que nunca leixou de nos visitar e fazer a guerra, como capitão 
animoso, tendo sempre muita amizade e comprimentos com o conde do 
Redondo, Dom João Coutinho, e com os outros capitães, por iãa parte 
fazendo-lhes grande guerra e por outra muitos oferecimentos, como em 
tempo do conde direi, Deos querendo. 



CAPITULO XLV 

De outras entradas e corridas que o capitão António da Silveira fe\ 



EM tanto que estas cousas pasávão antre el-rei e Mulei Maçoude e 
entre os Marins, que todos estávão amedrentados e receosos que a 
culpa de só um não alcançase a muitos, o alcaide d'Alcacere sempre 
esteve em Féz, favorecendo a parte d'el-rei por sua pesoa e muita cava- 
laria, e parecia que el-rei tinha dous esteos nele e em Mulei Abrahem ; e 
em Alcacere era alcaide seu irmão, cide Abuluhahe, o qual entendia em 
guardar a terra com muito recado e prudência, como homem descreto e 
de recado que era, e aigúas vezes que só veio ao noso campo foi armar-nos 
com almogavares e ele lançar-se de longo, que deu azo ao capitão, An- 
tónio da Silveira, a desejar de topar-se e pelejar com ele ; e tãobem, por 
não o deixar pasar o tempo em balde, fazia a guerra apresuradamente, 
asi entrando aigúas vezes com almogavares, das quais entradas tomou 
Diogo da Silveira alguns mouros e gado, e asi [o fizérão] ' os outros almo- 
cadens, Artur Rodríguez e Afonso Barriga e Estêvão Fernândez, os quais 
as mais vezes érão parceiros; e tãobem o capitão entrou com toda a jente 

I . [o fizérão] /. A. 



— io8 — 

e, entrando pola boca de Benamares. corremos o campo até chegarmos 
junto de Fiquer e Benahamede, a qual corrida foi muito grande pêra tão 
pouca jente, e nos espalliamos tanto que a bandeira ficou casi só, mas não 
foi a corrida debalde, porque tomamos oito mouros e matamos três, que 
vindo já na Ribeira Grande se quisérão defender com outros que se sal- 
varão, por serem os nosos muito poucos e cansados, e tãobem se tomarão 
setenta vacas e um golpe de gado raeudo que trouxemos, ainda que o 
tempo era chuivoso e d'atoleiros por estas entradas e corridas; e, pola 
falta dos alcaides, andávão os mouros tão recolhidos que se queixarão a 
el-rei e a Mulei Abrahem, fazendo-lhes queixume dos danos que recebíão, 
e, com este achaque e polo alcaide ser soberbo de condição, pedindo 
licença a el-rei, se veio a Alcacere, e, sem entrar nele, mandando aper- 
ceber a seu irmão e toda a sua jente, entrou no noso campo e esteve 
esperando dous dias que monteiros ou almogavares fosem ter com ele, e, 
não lhe saindo como ele desejava, mandou correr com almogavares, ficando 
ele em Alfomar, os quais desta vez levarão úa atalaia, que avia nome João 
Cão, e asi quebrou sua fúria por esta vez. Com a vinda do alcaide outros 
almogavares da serra se ajuntarão e viérão correr e tomarão outra atalaia, 
que Gonçalo Anes avia nome, e asi nos recolhemos por alguns dias. 



CAPITULO XLVI 

Como Mulei Abrahem deceo abaixo e nos correo 

e do que tnais pasou e dalguns recados dantre ele 

e o capitão António da Silveira 



NÃO tardou muito tempo, depois da vinda do alcaide d' Alcacere e 
desta corrida, que Mulei Abrahem, deixando as cousas de Féz 
asentadas antre el-rei e seus parentes, que não veio abaixo a visitar 
suas terras de Xexuão e Tetuão e Targa, e de caminho nos quis correr, 
e, mandando que toda sua jente o viese esperar ao noso campo, se ajuntou 
com o alcaide d'Alcacere, seu cunhado, e ambos juntamente se viérão 
lançar em Alecasapo e dali correrão pola outra parte do Rio Doce ; mas, 
como a guarda e boiada andase a bom recado, se recolheo sem os mouros 
averem vista dela, e eles e suas bandeiras chegarão até o Rio Doce, e, 
vendo o capitão, António da Silveira, que os mouros não entrávão, nem 
pasávão a agoa e se punhão em ala defronte polo Tojal e terra de Diogo 
Delgado, dando mostra á vila, o capitão, da praia donde estava com todos 
nós outros, abalou e se foi ao outeiro de Fernão da Silva, donde tãobem 
nos mandou poer em ala defronte deles, não avendo mais que o rio em 
meio, do qual já ei feito menção que com duas vigas pregadas úa na outra 



— log — 

se pasa, e, dando vista uns a outros, muito bem conhecemos as bandeiras 
serem d'Alcacere, XexuSo e Tetuao, e, travando pratica com eles, sou- 
bemos ser ali Mulei Abrahem, o que não cremos, por ele estar em Féz ; 
mas ele logo dali despedio a Francisco Lionárdez, que com ele vinha, 
que, como já hei dito, fora seu cativo, e, conhecendo ser pesoa avisada e 
descreia, confiou dele seus segredos, mandando-o a el-rei, noso senhor, e 
ao xarife, rei de Marrocos, em tempo que ele estava mal com el-rei Boha- 
çum, e, sendo tornado com a reposta, achou outro mundo e outro rei, 
como fica contado; e tãobem Francisco Lionárdez fez algúa detença em 
Arzila, não o deixando o capitão pasar, por algum desgosto que dele teve 
em não lhe dar tão larga conta como ele quisera, mas, como a culpa era 
leve e Mulei Abrahem lhe escrevese, Francisco Lionárdez pasou a Féz, 
levando a reposta e todo seu resgate, que érão trezentos cruzados, e, 
sendo de Mulei Abrahem bem recebido e usando de sua muita liberali- 
dade, lhe fez mercê da sua terça parte, que érão cem cruzados, porque 
as outras duas partes érão do alcaide de Alcacere e d'el-rei, como mais 
largo o ei contado, e, dando-lhe um cavalo e um bedem e licença que 
comprase algum gado, o despedio á nosa vista, mandando por ele um 
fermoso cavalo ao capitão, António da Silveira, o qual vinha cuberto com 
um jilele ' ou alcatifa, rica e bem lavrada, e, com dous de cavalo que o 
acompanhávão, chegou a nós outros que, vendo-os vir pola praia e as 
bandeiras e jente ir caminho da Pedra Aha, nos viemos á praia, e Fran- 
cisco Lionárdez, dando o recado que de Mulei Abrahem trazia, dise ao 
capitão que Mulei Abrahem lhe fazia saber que era vindo de Féz, pros- 
pero e contente, que tudo o que lhe comprise de suas terras e estado ele 
o serviria, por ser muito seu amigo e o ter por muito nobre e bom capi- 
tão, e, pêra sinal desta amizade, lhe mandava aquele cavalo que de Féz 
trouxera pêra ele. 

O capitão folgou muito com os oferecimentos e muito mais com o 
cavalo, e de Francisco Lionárdez soube a jente que era e como Mulei 
Abrahem se avia d'apartar na Aldea Velha e tomar seu caminho da Pedra 
Alta e o alcaide o d'Almenara. Logo o capitão intentou ir pelejar com o 
alcaide, e, mandando á vila por doze covados de vilajim^ azul, os deu aos 
dous mouros de Mulei Abrahem pêra dous capuzes, e com eles mandou 
seu amo, Brás Fernândez, a visitar e dar os agardecimentos e o parabém 
da sua vinda, encomendando-lhe olhase o alcaide donde s'apartava, e, 
despedindo-se de Mulei Abrahem, lhe trouxese recado, e a nós outros 
mandou que os que não tivesem armas se fosem armar. Eras Fernândez 



I. jilele] filele BNM. Coberta de lã muito quente e larga com que se envolve o pei- 
toral e garupa do cavalo. Veja-se Dojy, Supplément aux dicionnaires árabes. Filele é 
outra cousa: tecido de la fabricado na cidade de Tafilete. — 2. vilajimj vilhage B N L M. 
Não sabemos explicar este termo. 



chegou á jcnte aos Codesos e foi bem recebido de Mulei Abrahem, por 
aver sido muito tempo seu cativo e por ser amo do capitão, e, falando cora 
ele, foi até [a] ' Pedra Alta, donde o alcaide se apartou, e, segundo pare- 
ceo, Mulei Abrahem entendeo a ida de Brás Fernândez, porque, levando-o 
mais do necesario e requerendo-lhe que o deixase vir, lhe dise : «Dizei ao 
senhor capitão que ele ha governado e guardado sua vila como bom 
capitão, e que se contente e que não olhe a soberba de meu cunhado, que *, 
por minha lei, que queria que lhe dése na cabeça». 

Tanto que Brás Fernândez chegou ás lombas do Corvo, donde está- 
vamos esperando por ele, e dando o recado o capitão se apartou com 
Fernão Caldeira, cuja idade e autoridade era muita, e com Pêro López, 
escrivão do almoxarifado, e Pedro Homem e Diogo Mazcarenhas, conta- 
dor, e o adail e Diogo da Silveira e outros, e lhes pôs em pratica que 
aquela noute seria bem ir dar no alcaide á Ponte, donde de força avia de 
repousar. Ainda que nisto ouve algúas rezÕes, Fernão Caldeira as des- 
fez, dizendo que polas palavras de Mulei Abrahem parecia entender a 
entenção do capitão e a ida de Brás Fernândez, e, posto que disese que 
se apartava da ida da jente d'Alcacere, «quem lhe tolhe ^ que se não 
tornem 4 a ajuntar pêra um feito tão grande como desbaratar um capitão?» 
e, ainda que isto não fose, era necesario ao alcaide levar suas guardas, 
ainda que não fose somente alguns monteiros e almogavares ou atalha- 
dores fosem fora da vila, e que nós outros não podiaraos leixar de pasar 
o Zambujeiro de dia, e, sendo vistos ou sentidos das guardas ou cresta- 
dores, avia tempo pêra se tornarem a ajuntar, quanto mais que o alcaide 
tinha oitocentos de cavalo, os milhores do reino e experimentados, e que 
seu conselho era que se não cometese feito, que avião de ir seis legoas a 
fazer o feito. Ao capitão pareceo bem as rezões de Fernão Caldeira, e, 
tomando o seu conselho, se veio á vila, vindo todos muito contentes por 
nos parecer era o feito um pouco verde, mas era tanta a presunção que 
já tínhamos que desejávamos de mostrar o pêra que éramos. Tendo o 
capitão esta confiança, desejava de cometer um grande feito, como logo 
ao diante cometeo, desbaratando ao alcaide d'Alcacere com toda sua 
jente, como logo adiante direi, querendo Deos. 



I. [a] /. A. — 2. que] e L ; /. este passo em B N M. — 3. tolhe] tolherá L ; /. este passo 
cm B N M. — 4. tornem] torne L ; /. este passo em B N M. 



CAPITULO XLVII 

Como o capitão António da Silveira foi d ponte d'Alcacere 
mandando correr com almosavares e armou ao alcaide 



TANTO que estes alcaides nosos vezinhos fôrão vindos de Féz e cada 
um em sua casa, o capitão andou recolhido alguns dias, mas, como 
teve nova certa estar cada um em sua casa, por mostrar que a 
nenhum deles temia, começou a dar suas guardas ordenadas e trazer 
espias fora, armando aos almogavares se entrasem ; e taobem não deixarão 
de ir fora os nosos almogavares, donde tomarão algúas presas, asi de 
mouros como de gado, e, não se satisfazendo com a guerra se fazer desta 
maneira, detreminou de armar ao alcaide d'Alcacere, e, mandando dar ás 
trombetas, saimos todos da vila, e, tomando o caminho da Ponte, [che- 
gamos á Figueira] ', donde apartou a Jorje da Silveira desta parte da Ponte, 
que com vinte cinco de cavalo pasase a ribeira e fose até donde achase 
mouros, e se fizese sintido pêra que ouvese rezão de vireni após eles, o 
qual Jorje da Silveira, pasando por um porto falso, se meteo tanto dentro 
que em o Rur, úa legoa d'Alcacere, deu com três mouros de cavalo, dos 
quais tomou os dous ; e, tomando-se o rebate em Alcacere, ouvimos a 
artelharia que logo começou a tirar; e, sendo Jorje da Silveira sintido, 
se recolheo dereito á Ponte, a qual achou cerrada de pedra ensoso e com 
grandes madeiros em cima de grandes freixos e sovaro, e nela achou mais 
de vinte guardas de pé e dous de cavalo, os quais, ouvindo as bombardas, 
estávão esperando donde o rebate seria; mas, vendo vir os nosos e conhe- 
cendo serem cristãos, asi os de cavalo como os de pé, dérão consigo na 
ribeira, donde se salvarão, perdendo os dous cavalos e asi algiía caça de 
aves que em duas choças - tínhão. Os nosos chegados á Ponte fôrão logo 
a pé e, destapando-a, dérão com a pedra e madeira na ribeira, e, pasando 
a Ponte, se viérão ajuntar com nós outros. 

O capitão foi muito ledo em ver consigo os seus e trazerem os dous 
mouros e quatro cavalos, e nos fez estar a ponto de guerra, esperando 
que o alcaide viese após eles, mas não tardou muito que vimos vir obra 
de cincoenta de cavalo, os quais viérão á Ponte e, tomando nova das 
guardas, travancárão a Ponte com os madeiros que os nosos dela avião 
lançado, e isto feito se apartarão ao longo da ribeira a visitar os portos 



I [chegamos á Figueira]/. A. — 2. choças] cochas B N M. Talvej coxa : bolsa na 
sela do cavaleiro onde se fixa o conto da lança, segundo os dicionários de Morais e 
Vieira. 



112 

por donde os nosos avião pasado ; e, vendo o capitão que o alcaide não 
parecia e que os que á Ponte chegarão não pasava nenhum, antes parecia 
que se rccolhíao e se tornávao sem pasar a Ponte, o capitão saio da cilada 
e, dando vista á Ponte e aos outros fachos, nos mandou poer em ala, a 
que nos visem, com nosa bandeira de Cristos despregada, e estivemos um 
pedaço bom, e, não vendo cousa viva, tomamos noso caminho da vila e 
com noso paso cheio tornamos asaz contentes, por avermos feito esta 
sobrançaria ao alcaide e com os dous mouros e quatro cavalos. Soube 
o capitão que estes cincocnta de cavalo que era o adail e que o alcaide 
não pasou de o Rur, donde o mouro que escapou lhe mostrou donde 
acharão os nosos e donde os dous de cavalo se perderão, e o alcaide, não 
pasando dali, mandou ao adail que chegase á Ponte e a provese e sou- 
bese se érão mais algiãas guardas perdidas, e visitase a ribeira, de maneira 
que ficasc segura; e estes érão os cincoenta de cavalo que chegarão á 
Ponte; e, provendo tudo o que era necesario, se tornarão a dar conta ao 
alcaide de todo o pasado, e como o capitão estava á Figueira. 



CAPITULO XLVIII 

Da batalha e desbarate que o capitão António da Silveira 
ouve com o alcaide d'Alcacere em que o alcaide foi desbaratado 



P ASADOS os vinte sete anos e todo o mais de vinte e oito de gover- 
nança do capitão, António da Silveira, e pasadas todas as cousas 
atrás contadas, chegou o dia do naciraento de noso senhor Jesu 
Cristo, o qual foi por nós outros guardado e festejado com as solenidades 
acostumadas, e, por neste tempo aver na vila muita falta de trigo, que se 
não comia senão arroz e tâmaras, e os cavalos, por não comerem grão, 
estávão fracos e todos os dias iamos fora a pacer, por a erva ser ainda 
nova e não ser pêra segar, o capitão, querendo prover a que não rece- 
besemos dano no pasto, ordenou de mandar espias fora, asi por segurar 
as atalaias como aos ervejadores, e o dia de Natal á noute fez ir seis 
espias fora, encomendando-lhe tivesem bom cuidado e vejia, porque lhe 
paiecia que os mouros avião de armar e os não tomasem descuidados; e 
logo ao outro dia, que foi dia do bem aventurado mártir Santo Estêvão, 
do dito ano de mil e quinhentos e vinte oito, pola menha, as espias viérão 
á vila, dizendo e afirmando que virão na Atalaia Alta de Tendefe dez ou 
doze de cavalo de capelhares e toucas. O capitão praticou logo na igreja 
esta nova com Fernão Caldeira e Fernão da Silva e com todos os outros 
moradores, que na igreja a esta nova se ajuntarão, e antre todos se asen- 
tou ser jente grosa, pola polideza dos que fôrao vistos, e logo Diogo da 



— ii3 — 

Silveira, como homem de guerra, perante todos dise: «Não ter nós du- 
vida a ser jente grosa, senão a ser o alcaide ou el-rei; e se é o alcaide, 
ele nos correrá oje, que não ha d'estar muitos dias no campo, por aver 
pouca erva e nova e fazer frios, mas se é el-rei, não correrá senão ame- 
nhã ou ao outro dia, porque da Atalaia Alta tomarão oje vista do noso 
campo e verão como vós servis ' e donde vão as atalaias, e vos armarão 
como tomarem a enformação do que virem; e se oje vos não correm, 
sabei que é el-rei». O capitão louvou muito a rezao de Diogo da Sil- 
veira, e asi pareceo bem a todos, e, como já estava acreditado por suas 
obras e bondade, foi de todos louvado, e cora esta pratica nos fomos a 
comer; mas, tanto que o capitão comeo, logo se pôs a cavalo, e, man- 
dando dar ás trombetas, fomos todos com ele armados e a cavalo, e, 
saindo pola porta da vila, da orta do doutor meu irmão despedio as ata- 
laias e ao adail, Fernão Rodríguez, que com vinte cinco de cavalo lhes ^ 
dése costas ás atalaias da Ruiva, por ser lugar mais perigoso. 

Despedidas as atalaias e o adail, o capitão polo caminho velho se foi 
ao longo dos valos, e, por que nos não visem da Atalaia Alta, se foi poer 
ao pé do outeiro de Pêro Cão, e, deixando-nos abrigados com o valo "* e 
outeiro, se foi ele e Diogo da Silveira e Fernão Caldeira a poer em cima 
do outeiro, dando vista ás atalaias, que, fazendo seu oficio acostumado, 
ião tomar seus postos, como tomarão, descobrindo primeiro o Corvo, 
Bugano e a Ruiva, e asi se descobrio a atalaia do Mar; e, seguras as 
atalaias, o facheiro fez o sinal á boiada acostumado, e o adail, vendo as 
atalaias seguras e feito o sinal á boiada, se derramou, e os que com ele 
érão se apearão e pusérao a pacer; e ainda os cavalos não érão desen- 
freados quando a jente saio das Furnas, e, tomando-se o rebate, o capitão, 
por dentro do valo, se foi ao Facho, donde vimos toda a jente e bandeiras 
vir travesando as vinhas, e os corredores cortávão a atalhar as atalaias 
que da Ruiva vínhão, e logo mandou [o capitão] ^ a Diogo da Silveira que 
com vinte de cavalo as fose favorecer e recolher, o que Diogo da Silveira 
fez, que na carreira do Almirante os dianteiros antepararão, e Bastião 
Brás, atalaia, e seu companheiro se meterão com Diogo da Silveira, e os 
mouros o seguirão até o meterem pola tranqueira do Facho. O capitão 
se recolheo polo Facho abaixo, dando lugar que os mouros e bandei'-as 
entrasem e se mesturar com eles e travar escaramuça, e com este prepo- 
sito se veio á tranqueira de Baixo, mas, como vio que os mouros não 
entrávão do Facho a dentro, tornou a mandar ao adail que com vinte de 
cavalo tornase a demandar o Facho, e, vendo que o adail ia mais de 
vagar do que ele queria, dise, contra Diogo da Silveira: «Compadre, i-vos 
pêra o adail e fazei-o andar, e do que virdes me mandai recado». 

Diogo da Silveira chegou ao adail, e, dizendo-lhe da parte do capitão 

I servis] servir A M. — 2. lhes] /. B N L M. — 3. valo] vale A. — 4. [o capitão] f. A. 

ANAIS DE ARZILA l5 



— 114 — 

que andase, se pusérão no tabuleiro do F^acho, e, vendo que toda a jente 
se ia recoliicndo e pasava o vale, Diogo da Silveira tornou ao capitão, 
que já ia pêra cima, e, casi trotando, nos pusemos no tabuleiro. A jente, 
tanto que pasou o vale e nos vio, se fizércío em duas batalhas e se pusérão 
defronte de nós, um tiro d'arcabuz, estando o vale em meio ; e, estando 
asi, julgamos toda a jente em setecentos até oitocentos de cavalo, os quais 
estávão com a bandeira branca do alcaide bem quatrocentos de cavalo, 
e com o guião vermelho, em que estava cide Naçar e outros espalhados, 
julgamos em mais de trezentos; e, tanto que o capitão asentou não ser 
mais que o alcaide, como já trazia concebido em seu peito de pelejar com 
ele, asentou de o fazer, e, apartando-se com Diogo da Silveira, pêra bem 
considerar a jente que era, lhe dise : «Compadre, a minha aleluia é che- 
gada em ser este o alcaide, porque ei de pelejar oje com ele», e Diogo da 
Silveira respondeo: «Senhor, não é tempo agora, que morremos de fome, 
e não ha cavalos». O capitão respondeo que pelejaríao a pé quedo, e, 
chamando por Fernão Caldeira, lhe dise outro tanto: «Compadre, che- 
gada é a minha aleluia, porque ei oje de pelejar com o alcaide d'Alcacere». 
Fernão Caldeira lhe respondeo com voz alta: «Com que cavalos quereis, 
senhor, ententar cousa tão fora de toda rezão, que, ainda que não seja 
mais jente da que vemos, é cousa desarrezoada querer cometê-la com 
cento de cavalo, mortos de fome?» Ao capitão lhe pesou muito de o 
ouvir falar tão alto e embruscado lhe dise : «Com esses que vedes ei-de 
pelejar, porque todos desêjão de o fazer». Fernão Caldeira lhe respon- 
deo: «Eu vos requeiro da parte de Deos e d'el-rei que não cometais tal 
cousa, e se, todavia, o quereis fazer, eu sou o dianteiro». O capitão 
embirrou, e, chamando por Brás Fernândez, seu amo, lhe dise: «Amo, 
i-me pola bandeira de Cristos, e os que quiserem pelejar venham-se pêra 
mim». Aos brados de Fernão Caldeira e á chamada de Brás Fernândez, 
todos nos pusemos ao derredor do capitão, e, tendo-o em meio, nos fez 
Qa breve fala, dizendo: «Senhores e amigos, bem vistes como o dia da 
praia, por não sermos juntos, não fizemos um notável feito, pois vistes 
que, não sendo nós cincoenta de cavalo e sendo el-rei com quatro mil, 
nos dávão as costas e nos leixárão sete homens e seus cavalos, e, se não 
fora tentar a Deos, aquele dia os puséramos em fujida, e no Rio Doce 
com sete de cavalo pusérão em desbarato ao alcaide Mafote com cento, 
e isto é querer-nos Deos mostrar a vitoria; e, por isto que tenho visto, 
tenho grande desejo de me ver com o alcaide, e, pois agora o temos tão 
perto, vos lembro e peço não percamos esta ocasião, nem o leixemos ir, 
gabando-sc que nos correo só, e confio em Deos que nos dará vitoria». 
Todos respondemos que estávamos prestes pêra o servir, e em Deos 
tínhamos esperança que vingaríamos o dia de Dom Manoel de Meneses. 
Com esta pratica já desejávamos de nos ver com eles, que já a este 
tempo ião com suas bandeiras ordenadas por antre a Atalaia Gorda e 



— ii5 — 

Bugano, mas, como Brás Fernândez clicgase com a bandeira, logo apartou 
ao adail Fernão Rodríguez, que com vinte cinco de cavalo fose tomar a 
Ruiva, pcra donde os mouros ião, e, pondo diante de si cincoenta besteiros 
do Algarve, que por soldados na vila estávão e outros muitos moradores 
da vila, besteiros e espingardeiros e outros de lanças, que todos seríão até 
cento e vinte ou cento e trinta de pé e outros tantos de cavalo, se pôs na 
carreira do Almirante, caminho da Atalaia Ruiva; e com esta ordem fomos 
até pasar os Forninhos, donde nos alcançou Fernão da Silva, que doente 
estava e não sairá a repique, mas, como teve nova que o capitão pelejava, 
se armou e se pôs a cavalo, e asi o fez Diogo Delgado em um potro asaz 
pequeno e outros alguns moradores de cavalo e de pé, aos quais o capitão 
recebia alegremente, vendo a vontade com que se ião oferecer á morte. 
A este tempo o adail tomou a Atalaia Ruiva, e, capeando com um brando 
troto, tomamos todos a Ruiva, donde vimos que os mouros tínhão pasado 
as duas Pontinhas e ião seu caminho polo rosto d'Alfomar acima, e nós 
outros, por nosa ordem, levando a jente de pé diante, começamos a decer 
da Ruiva pêra as Pontinhas, e, tanto que fomos antre ambas as Ponti- 
nhas, as bandeiras e jente dos mouros tornou atrás, e, apartando-se cide 
Naçar com o guião e bem trezentos de cavalo, tomando polo Jiestai, 
parecia que vinha a demandar o ribeiro das Pontinhas e se pôr antre nós 
e a vila. 

A este tempo éramos já antre as Pontinhas, que ija da outra ha um 
tiro d'arco, e os de pé érao todos pasados ambas as Pontinhas, e, como 
a este tempo ouvesc algum rabo, Diogo da Silveira dise ao capitão: 
«Senhor, não é tempo de rabo, senão de pasar naquela batalha grande do 
alcaide», e logo o capitão dise a Manoel da Silveira, seu primo, que avia 
sido cativo, que junto com ele era : «Senhor primo, i-vos á traseira e fazei 
andar a todos, e pasemos destoutra parte, primeiro que esta jente nos 
estorve a pasada». «Não é tempo, senhor, de me apartardes de vós», lhe 
respondeo ele, «que os da traseira eles chegarão, tanto que nos virem da 
outra parte». O capitão virou rijo e, chegando á traseira, a fez ajuntar 
com os dianteiros, dizendo algúas palavras a dous cavaleiros que não 
esperava a ser em aquele lugar, os quais não nomeio pola honra de seus 
filhos, mas como a este tempo os mouros estivesem perto e antre nós 
outros dése um pelouro de um espingardão e pasando úa citara de .... 

' do Soveral, pajé do capitão ^, caio aos pés do cavalo, e um Pêro 

Fernândez, escravo de João Fernândez Torres, que depois foi porteiro 
d' Arzila e agora o é de Tanjere, tomando o pelouro na mão e vendo que 
não fizera dano, começou a bradar: «Boaestrea! Boa estrea!» ecomo, com 
este pelouro e outros mais de vinte espingardões que os mouros despa- 

1. ...] em branco em A. — 2. ua citara... pajé do capitão] úa citara de um pajé do 
capitão que dizião Soveral BNLM. 



— ii6 — 

rárão, começamos a remuinhar, Pero López, escrivão do almoxarifado, 
pesoa honrada e criado do conde de Borba, como bom cavaleiro que era, 
dise ao capitão muito alto: «Senhor, agora não é tempo de remuinhar, se 
não pasar, e demos naquela batalha, primeiro que eles dem em nós». O 
capitão pasou logo com muita fúria da outra parte, e asi o fizemos todos, 
pasando uns pola Pontinha e outros polo ribeiro, e, sendo todos da outra 
parte, começamos de dizer: «Santiago e a eles que já fojem!». 

Ainda as palavras não érao ditas, quando a bandeira [do alcaide] ' se 
começou a enrolar, e, enrolando ou remuinhando, nos dérão as costas e 
começarão a fujir, sem mais nenhum tornar o rosto, e, Jevantando-se antre 
nós outros e os de pé Qa grita muito grande: «Já fojem, já fojem, já 
fojem!» os começamos a seguir; mas como logo no rosto d'Alfomar se 
derrubase um mouro, que no corpo c grandeza nos pusese espanto de 
sua grandura e desformidade, e nele os nosos se encarniçarem, e asi o 
fizemos, derrubando neles até [a aldeã]- d'Alfomar, que, por ser o caminho 
e terra estreita, ficarão mortos mais de doze ou quinze, e, pasando o 
estreito d'Alfomar, se derribou Alborgot, pesoa honrada e amei do alcaide, 
que em seu lugar tinha cargo de mandar e arrecadar suas rendas e cousas 
que ao alcaide lhe pertencem; e porque neste lugar o alcaide e bandeira 
ião em um bom corpo de jente, e nós outros, reformando-nos com o 
capitão e tocando duas trombetas, demos outra vez neles, mas como ali 
fosem ao chão outros quatro ou cinco, em que foi Alborgot, aqui se aca- 
barão de desbaratar de todo, mas o alcaide sempre acompanhou sua ban- 
deira, e, indo sempre derrubando neles, pasamos o Zambujeiro, duas 
legoas da vila; mas, como fosemos na varzia de Taurete e a terra fose 
muito larga e nós outros poucos e ralos, eles tivérão lugar de se espalha- 
rem, arredando-se do caminho, e, por ser já noute, ficávao logo salvos ■', 
por não aver quem os seguise e nenhum de nós outros se apartar do 
caminho, asi por sermos poucos, como pola corrida ser comprida e os 
cavalos fracos; e com todas estas cousas foi o alcanço até o poço de Fer- 
não de Xira, cinco legoas e meia da vila, donde o capitão se achou com 
eses poucos que com ele tivéramos, mas não tardou muito que todos não 
chegamos, com que ele foi muito contente, vendo a vitoria que Deos lhe 
avia dado com tão pouco dano dos seus, que não ouve outro senão o 
desastre de Francisco Lionárdcz, o que já contei que fora cativo com 
Lourenço Pírez de Távora e Manoel da Silveira, o qual lhe aconteceo 
desta maneira. 

Sendo ele um dbs dianteiros que o alcance seguíão, foi derrubado ura 
mouro asaz mancebo na varzia de Taurete, e, querendo Francisco Lionár- 
dez levá-lo na lança, o mouro se nomeou, dizendo que era Alatax, irmão 
de Artur Rodríguez, mourisco e almocadem, e por Artur Rodriguez ser 

I. [do alcaide]/. A. —2. [aldeã] /. A. — 3. ficávão logo salvos] se salvarão BNLM. 



— 117 — 

pesoa honrada e amigo de todos, como já em muitas partes ei feito men- 
ção, Francisco Lionárdez, querendo dar-Uie a vida, por ser irmão de tão 
bom homem, o que por pouco lhe não custou a sua, como logo se verá, 
que, chegando-o a si, o quis tomar vivo; mas, como logo chegasem outros 
que o alcance seguíão, entre os quais era João Fernândez Torres, e que- 
rendo levar o mouro na lança, dise contra Francisco Lionárdez: «Pesa 
tal ', agora vos embaraçais com o mouro e leixais de ir adiante». «Não 
mateis o mouro que eu tenho tomado», dise ele, «porque é irmão de Artur 
Rodríguez», e pasando João Fernândez Torres, Francisco Lionárdez o 
quis poer á sua mão dereita, por dar o caminho aos que pasávao, mas, 
como o mouro o vise embaraçado em o defender dos que pasávão, arrin- 
cando um alfanje pesado e agudo lhe deu por cima da cabeça, não levando 
nela senão um barrete de grã, que, fendendo-lhe a cabeça da testa ao tou- 
tiço, deu com ele desacordado e sem nenhum sentido aos pés, mais morto 
que vivo, e se salvou sem aver quem fose trás ele; e, posto que Francisco 
Lionárdez ainda oje diz que a ferida foi de um só golpe, eu falei depois com 
o mouro e me dise que lhe dera dous golpes, ambos na cabeça: parece que 
acertarão em um lugar e fôrão causa da ferida ser grande, ficando Fran- 
cisco Lionárdez mais morto que vivo. Chegou a ele João López Requeixo 
e, sintindo-o bulir com os braços, parecendo-lhe era mouro, levantou a 
lança pêra o acabar d'alancear, e Francisco Luis, cavaleiro da casa do 
cardeal ifante Dom Afonso, lhe bradou que era cristão, polo pelote e cou- 
raças que lhe vio, e, conhecendo quem era, se apearão e, vendo-lhe a 
grande ferida, lhe apertarão a cabeça o milhor que pudérão, pondo-lhe 
muitos barretes uns em cima doutros até chegar o capitão, que, vendo-o 
em tal disposição, mandou a três ou quatro homens de cavalos mais fracos 
o trouxesem á vila, os quais o trouxérão por morto; e topando ao Zam- 
bujeiro com seu irmão, Jorje Lionárdez, que, por não ter cavalo, com 
suas couraças, lança e adarga ia com os de pé, vendo a seu irmão em tal 
desposição, acompanhado de muitos da vila, o trouxérão antes que ama- 
nhecese, donde foi curado sem dar acordo aquele dia, nem outros, e veio 
a sarar ficando, todavia, mal desposto da cabeça, pola falta da muita 
parte do casco que foi fora. e oje é vivo e tem a comenda de Nosa Se- 
nhora d'Aveiro, donde agora vive asaz mal desposto, mas como pesoa 
honrada e de bom juizo que é. O capitão não parou, seguindo o alcanço, 
até pasar o poço de Fernão de Xira, muito perto da Ponte, donde parou, 
não vendo já mouro trás que pudese seguir, e ajuntando os seus e tomando 
lingoa de seis mouros que aviamos tomado, entre os quais avia o xeque 



I. Pesa tal] Pesar de tal L ; /. este passo em B N M. Imprecação usada em expres- 
sões como: pesar de meu pai torto (pesar de minha mãe torta), pesar de Deos, etc. O 
ms. A parece estar incorrecto. Veja-se Francisco Manuel de Mello, Auto do fidalgo 
aprendij, p. 54, ed. Mendes dos Remédios. 



— ii8 — 

Afam ', pesoa muito principal c senhor de muitos aduares, que no tempo 
pasado seu pai, o xeque Afam, corria Arzila com quinhentos de cavalo 
seus, de que o capitão soube ' como era o alcaide d'Alcacere com sete- 
centos e cincoenta de cavalo, e que não avia outra jente algúa; e com 
esta nova chegou até sobre a Ponte, e, recolhendo os dianteiros e não 
avendo mais que fazer, se começou a recolher, despojando os mortos que 
pudemos ver, e asi muito despojo de capuzes, adargas, saias de malha, 
asi dos mortos como dos que fujíão alargávão por ficarem mais leves, e 
desta maneira e ordem chegamos á varzia de Taurete, donde ao capitão 
pareceo bem esperar a menhã, asi por pacerem e descansarem os cavalos, 
como por cobiça de nos não ficarem alguns mouros com a noute no 
campo, ou tãobem cavalos; e, apeados derrador do Sovereiro, ao pé de 
Taurete, demos aos cavalos úa boa madrugada de tagarinha e leituga, que 
lhe dava poios joelhos e a nós outros de muito grande frio. O capitão, 
todavia, pôs guardas necesarias, temendo-se de cide Naçar, que ficara 
inteiro com trezentos de cavalo, como já ei apontado. Ali faltando a 
roupa e crecendo o frio, começarão alguns a fazer fogo de cardos, que 
muitos avia por aquela varzia, de maneira que crecendo se viérão a fazer 
muitas fugueiras, que fôrão causa de pasarmos aquela madrugada com 
menos frio, e que alguns mouros, que polo campo andávão perdidos, se 
salvasem, cenjindo-nos e vendo-nos, e contudo foi tomado um mouro 
que se veio meter antre nós, criado de cide Naçar, mais alto do corpo 
que nenhum homem que naquela vila se vio, o qual comprou Jorje Vaz 
Magalhães, que oje vive na índia. 

Tãobem estando já todos apousentados nesta varzia e o capitão a 
cavalo, que se não deceo, Diogo da Silveira chegou a ele e lhe dise: 
oSenhor, quer vosa mercê comer?» «Neste tempo, compadre, vos alem- 
brou a vós trazer de comer ? Boa confiança era esa que Deos nos avia de 
dar a vitoria». «Esa confiança trazia eu que Deos seria connosco, mas o 
alcaide teve cuidado de nos dar de cear», e, tirando da cevadeira três ou 
quatro roscas d'alfaxor ou d'especia, lh'as pôs diante, com duas empadas 
de sável, dizendo que as tomara da azemela em que vinha o alforje do 
alcaide. O capitão esteve rindo-se, mas não quis comer, o que fizérão 
os que algúa parte alcançarão. Isto tem Diogo da Silveira que nunca lhe 
ficou cousa que despojar, nem buscar. Deste desbarate ouve ele algúas 
peças ricas com que ficou, ainda que tornou úas cabeçadas de prata, com 
que o capitão mostrou folgar que lhe ficarão, as quais viérão a leilão e 
João Fernândez Torrres, que quadrilheiro era, as tirou de poder doutro 
quadrilheiro, que não nomeio. 

Pois pasada a mór parte da noute, todos em pé derrador da labareda 

I. Afam] Afão B N L M. — 2. de que o capitão soube] e dele soube o capitão L ;/. 
este passo em BNM. 



— 119 — 

que os cardos fazíáo, trouxe Deos a menha com tamanha cerração e ne- 
brina que uns a outros nos não viamos, de maneira que, esperando acra- 
rase o dia, mas como, todavia, perseverase, tomamos o caminho do Zam- 
bujeiro com mais cerrado o dia do que foi a noite, que foi causa que nos 
fizese ■ menos a presa, e desta maneira chegamos ao Zambujeiro, donde 
achamos casi toda a vila, e asi o guardião, frei André, com todos seus 
frades, com úa azemela ou duas carregadas de pão e vinho e carne, e asi 
os clérigos com outros homens de pé e oficiais, até algiJas molheres e 
mulatas, e asi muita provisão [de] = vinho, carne, fruitas do Natal que Dona 
Jenebra, molher do capitão, logo, como teve a nova, proveo, mandando 
carregar azemelas e bestas d"albarda de tudo isto e de muitas galinhas 
mortas e asadas, e, chegando já com a nebrina pasada e achando este 
refrijerio ao umano apetito, ouve alguns, dos que a noute e frio avião 
pasado na varzia de Taurete, como dos que da vila sairão, que vínhão 
mais ladinhos ^ e quentes do que da vila sairão; e, levantados do Zambu- 
jeiro, chegamos á vila donde fomos recebidos com todas as cruzes e pro- 
cições e solenidades que na vila se podia fazer. Entrando desta maneira, 
o capitão com todos nós outros se foi á igreja de Sam Bertolameu a dar 
muitas graças a Deos, por tão asinalada vitoria e mercê *, e entregar a ban- 
deira de Cristos ao bem aventurado apostolo Santiago, em cujo altar era 
sua estancia. 

Fôrão mortos neste desbarate cento e cinco mouros e tomados cativos 
sete e noventa e quatro cavalos e três azemelas e mais de outenta adar- 
gas e outros tantos e mais capuzes e sesenta saias de malha. O capitão 
fez quadrilheiros, pêra que pusesem tudo em boa [ar]recadação ^, a 
João Fernândez Torres e a Pêro López, escrivão do almoxarifado, e a 
Martim Boto e ao adail Fernão Rodríguez, que juiz das cavalgadas com 
Álvaro Velho, escrivão e sobre-rolda da vila, érão. O capitão mandou 
dar parte aos frades e clérigos, que fôrão ao Zambujeiro, e comprou o 
xeque Afam por dozentos mil reais, o qual foi concertado que daria por si 
quatrocentos bois e vacas de três anos acima e outros tantos carneiros e 
outras tantas alcolas ^ de manteiga e quatrocentos velos de lã, que ele ofe- 
receo á molher do capitão, o qual resgate não ouve efeito, porque, antes 
que fose junto, o capitão, António da Silveira, se veio pêra Portugal e o 
trouxe consigo, e, dahi a um ano, sendo requerido o mandase a Arzila, 
donde trarião o resgate, faleceo de doença e António da Silveira perdeo 

I. fizese] fose L; /. BNM. — 2. [de] /. A. —3. ladinhos] ladinos BNLM.— 
4. Acrescentam BNLM: que lhe fizera, e, vendo esta amostra de muitas outras vitorias 
que Noso Senhor tem feitas poios seus fieis cristãos, não se devera tanto confiar em 
conselhos humanos que não podem comprender os juizos devinos, e deverão-se ter mão 
nos lugares d'Africa, confiando no ajutorio divino que nunca faleceo, pois a obra era 
tão santa e virtuosa, mas se for serviço de Deos ele tornará a olhar por eles. — 5. [arj 
/.AL.— 6. alcolas] alolas A L ; arrobas BNM. 



este groso resgate, e não tardou muito que este valeroso capitão faleceo, 
e tudo acaba '. 

CAPITULO XLIX 

De íía notável almogaveria que Fernão Niine\ alcaide-mór 

fe\ sendo ele capitão e a licença sua 

e Artur Rodrigues e Afonso Barriga e Estêvão Fernànde\ ahnocadens 



P ASADO O ano de vintouto, em que pasou o que atrás fica apontado e 
contado, e sendo cliegado o dia de janeiro do ano do nacimento de 
noso senhor Jesu Cristo de mil e quinhentos e vinte nove, estando os 
mais dos moradores na Açacaia, recebendo o soP e guardando o dia, 
como é costume naqueles lugares ajuntarem-se os dias de festa e falarem 
em muitas cousas e na governança do reino ou do mundo, especialmente 
na guerra, e mais em o negocio que antre as mãos tínhão de tão poucos 
dias, como era o desbarate pasado. Roque de Farão, mancebo criado na 
guerra e costumado ir em todas as almogaverias, entradas e montes, e a 
continuação destas cousas e ele ser esperto o fez tão pratico que todo o 
campo muito bem sabia, e, quando era necesario atalhar ou buscar e 
mandar dez ou vinte de cavalo por ele, era o primeiro que mandávão, e, 
pêra sair de úa aldeã ou serra e tomar úa melhora, ele era o que guiava, 
e asi o capitão e Diogo da Silveira descansávão quando ele ia diante, — 
pois estando ele nesta pratica dise que se o capitão lhe dése trinta de 
cavalo faria úa boa presa, por serem dias de festa e os mouros lhe pare- 
cer que na festa e desbarate tínhão que fazer, e mais sabendo que os 
cavalos érão d'erva. O aicaide-mór, Fernão Nunez, pesoa honrada, res- 
pondeo: «Se vos parece eu pedirei licença pêra trinta de cavalo, e quero 
ir convosco». Todos alvoroçados disemos que todos iríamos e todos 
tínhamos credito nele. Roque de Farão, e logo o alcaide-mór se levantou 
e foi pedir licença, a qual lhe o capitão deu, mas, chamando Roque de 
Farão e examinando o donde queria ir, lhe estrovou seu preposito, dizendo 
que era lonje, por os cavalos estarem fracos, mas que fose ás bocas de 
Benamares e armase aos atalhadores ; e, despedidos do capitão e postos 
a cavalo, Artur Rodríguez, almocadem, dise que queria ir com Roque por 
seu companheiro. 

Pois postos a cavalo e cerrando-se a noute, fomos postos na ribeira e, 
tomando o caminho do Rio Doce, fomos tomar a folga ao Amame, donde 
os cavalos encherão as barrigas de muita e boa erva, e, tomando o cami- 
nho de Benamendux, entramos dentro da boca ante-menhã, que, como 

2. acaba] se acabou B N L M. — 2. sol] soldo A. 



não vimos atalhadorcs, nem ouvimos rebate, estivemos em cilada até 
pasado o meio-dia, e, correndo as tranqueiras, foi alcançado um mouro e 
um bom golpe de gado groso e meudo, em que avia trinta reses vácuas 
e setecentas cabras, carneiros e ovelhas, e, tomado o mouro e tanjendo o 
gado, demos com ele no campo, primeiro que os mouros fosem ás tran- 
queiras, e, sem nenhum risco, nem trabalho, muito contentes, antes que 
fose noute, fomos juntos com Muliana, vindo o alcaide-mór que não cabia 
de prazer, por ser a licença sua e ele ir nomeado por capitão, e asi Roque 
de Farão por ser a primeira vez que sobre si levou jente ; á meia-noute 
chegamos á vila, sendo do capitão muito bem recebidos e Roque louvado 
e com fama, ainda que durou pouco, como em seu lugar se dirá. O gado 
foi vendido e a vila abastada de boas cabras e leite, asi que foi começo 
de não tardar que não viese trigo de Malega e do porto de Santa Maria, 
que o inverno não pode estrovar que não fizese um só dia de norte, que 
não aviamos mester mais pêra nos virem navios do Algarve e do porto 
de Santa Maria e de Cáliz, e muitos dias de levante com que éramos pro- 
vidos de Jibaltar e Malega. 

Fiz esta memoria aqui, fora de preposito, pêra decrarar que o inverno 
não estrovava irem navios a Arzila, e que o arrecife, de que os que o não 
sabem tem arreceo, não era mao porto senão quando não avia nenhum 
bom, quero dizer que, por muita tormenta que fizese, um só dia de 
bonança ião navios e entrávão nele. 

Tornando a despedir esta almogaveria, logo na entrada deste janeiro 
tivemos abastança de trigo, vinho, carnes e muito mais do contentamento 
da vitoria pasada, o que nos Deos sempre proveja, por sua grande mise- 
ricórdia. 

CAPITULO L 

Como el-rei de Fé\ deceo abaixo e correo Ar\ila e a Taiijere 
e do que o capitão ententou e dalgfias escaramuças que se travarão 

COM a prosperidade e contentamento que na vila avia, Diogo da Sil- 
veira foi algijas vezes fora, das quais idas não fez nada, úas por 
ser sentido e outras por o campo ou campos andarem recolhidos 
e de medo deixarem de fazer suas lavouras e milharadas ; e, com estas 
escramações, el-rei de Féz detreminou de nos correr e deceo abaixo a 
favorecer as serras nosas vezinhas, e, entrando o mês d'abril, com muita 
infinda jente entrou no noso campo, com vontade de nos fazer o maior 
dano que pudese, sendo o principal desta vinda o alcaide d'Alcacere, a 
quem el-rei honrou e favoreceo, dando-lhe muitos cavalos, e asi Mulei 
Abrahem, seu cunhado, com que tornou a refazer sua rua de cavalos, e, 

ANAIS DE ARZILA l6 



correndo-nos por ambos os campos, nos cenjirão toda a vila de mar a 
mar, mas quis noso senhor que não recebemos dano, por o capitão ter 
nova da vinda d'el-rei abaixo e andar recolhido, de maneira que nem ás 
tranqueiras ouve escaramuça, querendo o capitão por esta vez acatar a 
el-rei sua dinidade; e, não fazendo outro dano, logo aquela noute pasou 
a Tanjere, e, correndo-lhe ao outro dia, os achou avisados, por um barco 
que logo o capitão aquela noute mandou da vila ; e, vendo el-rei que não 
podia fazer nas pesoas e gado dano, se tornou aos pães, comendo-os e 
talhando-os todos, donde se deteve trcs ou quatro dias, ouvindo-se a arte- 
Iharia em Arzila ; e sospeitando que se detínhão em talhar e com.er os 
pães e que não leixaria de fazer outro tanto em Arzila, e que de força 
avião de tornar a correr a vila, e cuidando o capitão que sua certa cor- 
rida seria do Palhegal, porque pasando polo porto d'Alemoquique cortávão 
logo ao Facho, por ser ao través, e, tendo isto concebido em sua fan- 
tesia, ententou um feito asaz perigoso e d'espantar, que foi poer era obra 
de pelejar com el-rei e dar em sua dianteira; e pêra isto nos levou dous 
dias, um após outro, ao vale do Facho, donde estivemos em cilada, espe- 
rando que a jente saise e nos correse do Palhegal, e pasase e afiase polo 
porto d'Alemoquique, por aquele ser o seu dereito caminho e cilada acos- 
tumada, quando el-rei tornava e vinha, de Tanjere, que, saindo e pasando 
ao porto e tomando este facho, ficava todo o campo atalhado, e, ata- 
lhando a este perigo, era sempre este porto tapado com forte valo, de Qa 
parte e da outra, e defendido e guardado poios capitães, que algúa pesoa 
o não rompese, nem por ele pasase; mas, como el-rei o leixase roto da 
corrida dantes, tínhamos por certo por ele seria a corrida, o que deu azo 
e ousadia ao capitão cometer este feito tanto arriscado, parecendo-lhe que 
de necesidade avião d'afiar os dianteiros, e que não pasaríao de quatro- 
centos ou quinhentos de cavalo quando os dianteiros seríão connosco, e 
que, dando neles vindo a fio e á longa, os romperiamps e levaríamos até 
o porto e faríamos Ga fermosa matança, por não se poder pasar antes 
qne pudesem ser socorridos de mais jente, por não se poder pasar o ri- 
beiro senão por este só porto ou polo do Canto, que era mais acima, e 
que o noso recolher seria ao longo do ribeiro e viríamos demandar a tran- 
queira da Pontinha, noso dereito caminho, por estar donde o vale e valo 
do Facho entesta neste ribeiro, que, perdendo nesta Pontinha o nome, 
dali abaixo fica em Rio Doce. 

Posto que tudo isto parecia estar feito e mostrava querer-se fazer um 
notável feito, por sermos cento e noventa de cavalo e favorecidos da vi- 
toria pasada, avia outros contrairos: ser a terra muito larga e poderem-se 
espalhar melhor, e, já que com nosa vitoria chegasemos á varzia e porto, 
e de força nos ouvesemos de recolher, aviamos de trazer connosco todos 
os espalhados e os que m.ais pasasem, e na varzia aver caldeiras, e o de 
nós que caise não podia ser cobrado, nem recolhido, e avia de ficar, e. 



— 123 — 

ficando um somente, dava animo pêra pegarem connosco, pois sua natu- 
ral natureza é fujirem dos rostros, quando lii'os móstrão, e pegarem nas 
costas como abeliias; e tãobem da tranqueira á vila não avia valo e ser 
terra muito larga, e podíamos achar jente diante, que pola praia era muito 
certa; e, posto que Lourenço Pírez de Távora e Manoel da Silveira pe- 
dirão ao capitão que a ambos lhes dése a dianteira com cincoenta de 
cavalo, c ele ficase com a mais jente em corpo, ao capitão pareceo milhor 
não os apartar de si, por que não se fizese algum desmancho, porque 
nenhuns apartados guárdão a ordem que seus capitães lhes mandão; e 
deste parecer foi Fernão Caldeira e Diogo da Silveira, que a jente estivese 
toda junta, e não pasase do capitão nenhum, nem fizese mais do que ele 
fizese, o qual, todo aquele dia e o outro qne com ele estivemos nesta 
ordem, esteve com Fernão Caldeira e Diogo da Silveira em cima de nós 
outros, dando vista á outra banda do porto, ás vezes paseando, e ás vezes 
quedos, pêra ver arrincar a jente e considerar os pasados, e se vínhão 
grosos ou á longa, de maneira que lhe não ficase cousa por ver, e com 
toda esta ordem, pasamos dous dias; mas, como el-rei sabia que era sen- 
tido e seu intento era atalhar e comer os pães, asi como vinha de caminho 
com suas batalhas e bandeiras despregadas, pasando o rio d'Alfandequim 
e a mesma atalaia, veio asentar suas tendas no Palhegal, acima do porto 
d'Alemoquique, e, estendendo-se a jente de cavalo e de pé, começou a 
fazer sua obra, segando e talhando os pães, todavia, resguardando-se da 
artelharia, e, por esta maneira, não ouve o ardil do capitão efeito; e^ 
nesta obra de comer e talhar os pães, estivérão quatro dias, avendo todos 
os dias escaramuças com eles ás tranqueiras, das quais naceo um notável 
caso, o qual pasou desta maneira. 

Posto que el-rei com suas tendas e arraial estivese no Palhegal, tão 
perto da vila que, com um tiro groso, chamado o Lião, lhes tirávão e os 
asombrava, e a jente o mais do dia andase na obra de segar e talhar os 
pães, todavia, em pasando os mouros, que polas ortas e pães andávao 
derramados, tomávamos o Facho, asi por lhes dar trabalho e os fazer 
cavalgar e acodir, como por darmos a comer á nosa boiada, que era asaz 
grande, de mais de oitocentas reses vácuas, as quais nas nosas costas 
saião a pacer antre as ortas desa pouca erva dantre os caminhos, — o capitão 
mandou que a metesem em uns cerrados e chãos e comesem os pães 
deles, os quais fôrão o chão de António Freire e o do Gordo e o de João 
Delgado, os quais pagamos no cileiro, repartidos polas reses ; mas, como 
os mouros nos víão no Facho, como que fazíamos injuria e desacato á 
pesoa real, érão logo a cavalo, e, com suas batalhas e bandeiras, nos 
vínhão lançar dela e a poder de muitas espingardadas encerrar na vila. 
Esta ordem tivemos quatro dias, saindo três e quatro vezes cada dia. 

Úa destas, estando o capitão com toda a jente no Facho, eu travesei a 
terra de Lopo Mêndez e fui ter sobre a Pontinha, onde tive um pedaço 



— 124 — 

de lavoura, indo comigo sete ou oito de cavalo, os quais érão Pedro 
Afonso Homem, João Português, Fernão Meirinho e outros que por aquele 
vale tínlião pão sameado; e, achando-o todo cortado á espada, estivemos 
á fala com alguns mouros, que da outra parte do valo andávão, antre os 
quais era um de Benarróz, tão gabador de si mesmo que a grandes bra- 
dos dise: «Conhecer vós outros João Fernândez Bravo?» Respondendo-lhe 
que si, dise: «Yo matarlo!» Isto dizia, porque avia poucos dias que uns 
almogavares de Tanjere, em que ia este João Fernândez Bravo, se encon- 
trarão com outros da serra, e, metendo-se este João Fernândez Bravo e 
João Coelho antre eles, fôrão ambos mortos, como bons cavaleiros que 
érão, e deste feito se gabava este perro mouro, mas não tardou um ano 
que sua cabeça não veio a Arzila, como em tempo do conde se dirá. 

Pois estando nesta pratica, chegou a nós outros o doutor, meu irmão, 
e António Freire, e, reprendendo-me por estar em um potro de menos de 
três anos, que eu ouve do desbarate pasado, e asi por esta causa, como 
porque as bandeiras e jente, vendo o capitão no Facho, o vínhão deman- 
dar, nos tornamos a ele, e no caminho falei com João da Silveira, o elche, 
e pasei a pratica que atrás fica contada, que foi a causa de sua morte, 
como em sua vida e mudanças fica apontado, dizendo que andava com 
o mundo. Os mouros, chegando ao tabuleiro do Facho, fôrão logo se- 
nhores dele, e o capitão com toda a jente se recolheo ao portal da orta 
do doutor, meu irmão, e eles se espalharão poios chãos e tranqueiras; 
mas, como da parte da Pontinha ficasem alguns sete ou oito de cavalo, 
que tãobem ião ver suas lavouras, que daquela parte tinhão, e alguns 
mouros entrasem pola tranqueira da Pontinha e os trouxesem cm voltas, 
até os meter poia tranqueira do Adro,' estes de cavalo, com outros, se 
viérão poer no Barreiro, um tiro de pedra do baluarte de Santa Cruz, 
andando, todavia, obra de trinta de cavalo dentro e fora do adro espa- 
lhados, com medo da artelharia e dalgúa besta e espingarda do muro, em 
o qual avia poucas, por todos os besteiros e espingardeiros serem antre 
as ortas com o capitão; mas, como estes mouros do adro andasem esca- 
ramuçando e a terra fose um terreiro muito chão, um destes mouros caio 
do cavalo, o qual deu animo aos nosos, que seríão dez ou doze de cavalo, 
a remeterem a ele, e, por os outros mouros mostrarem querê-lo recolher, 
os nosos, bradando: «Santiago!», os levarão até fora da tranqueira por 
um grande portal que no valo estava feito, donde de outros, quç nas 
Pontinhas andávão, fôrão recolhidos, não sem muito dano deles, que, 
posto que nenhum caio, muitos dos nosos meterão as lanças neles, espe- 
cialmente Fernão Machado e Domingos Martinz, que estes, pasando cada 
um seu mouro, levarão os pedaços das lanças metidas polas costas, de 
maneira que, ficando antre os seus, fôrão logo mortos, e asi o fez Artur 
Ortiz a outro, e o que Domingos Martinz, criado de Fernão da Silva, 
encontrou foi levado fora dos estribos c posto sobre o pescoço do cavalo. 



125 

de maneira que lhe caio uma espora do pé, a qual Roque de Farão trouxe 
com uns acicates de prata; e, tornados a recolher, virão o mouro que a 
pé ficara, que com a lança na mão e cuberto da adarga se ia defendendo 
e chegando ao chão do Conde, mas, como os nossos ião rijo, foi levado nas 
lanças e logo morto e descabeçado por alguns de pé, que logo ali chegarão, 
e qual tinha a cabeça e barba mais vermelha que úa grã, ou por ser ruivo, 
ou pola trazer alfenada. Este feito saio muito bem a estes desmandados, 
por antre eles não aver cabeça que os rejese. 

Aos brados e rebate que no adro pasávão com estas revoltas e com 
a grita que a jente do muro dava, o capitão com toda a jente se pasou 
ao adro, donde tãobem muitos mouros se pasárão, travesando os chãos 
de Lopo Mêndez e de Fernão Meirinho, e, em pouco espaço, se encheo 
deles todo o campo dantre o adro e as Pontinhas, andando todos espa- 
lhados com receo da artelharia, e alguns se meterão dentro do adro, tra- 
vando escaramuça; mas o capitão, leixando-os andar, se pôs nos Barrei- 
ros, mandando-nos pôr em ala com as costas no mar e o rosto neles, os 
quais, como andasem derramados e antre nós escaramuçando, aconteceo 
a um mouro um caso notável, que andando escaramuçando antre nós e 
dando voltas com o cavalo e revolvendo um capuz, que no braço trazia, 
lhe caio ás mãos do cavalo e logo o mouro foi a pé pêra o levantar, não 
sendo de nós outros mais que um tiro de pedra ; mas, tanto que ele foi 
no chão, todos com grande grita remetemos a ele, mas ele, embaraçando-se 
com a marlota, que vestida trazia, e com o capuz, não pode tomar o 
estribo, e, vendo as lanças sobre si e o tropel dos cavalos, alargando o 
capuz e a lança e tomando a marlota nos dentes pola dianteira, sem o 
cavalo se bulir, se lançou na sela, a tempo que já as lanças o não deixarão 
endereitar nela, especialmente a de Jorje Vaz Magalhães, que ele afirmava 
meter-lhe o ferro polas costas, mas o mouro, asi debruçado sobre o pes- 
coço do cavalo, que ruão e leal era, acertando um portal do valo, se 
salvou, levando ante si outros mais de dozentos de cavalo ; e, como sobre 
as Pontinhas asomase muita jente, o capitão nos fez recolher, sem os mouros 
mais ousarem entrar dos valos a dentro, e nós ficamos falando na ousadia 
do mouro e lealdade do cavalo, que, verdadeiramente, esteve tão quedo 
e leal, esperando por seu senhor, que, posto que sentio o estrondo de 
perto de dozentos de cavalo, não fez nenhiía mudança, até não ver a seu 
senhor sobre si, e, recolhido, apertou tão rijo que o tirou e salvou dantre 
todos. O capuz e lança foi recolhido dos de pé, e os primeiros fôrão 
André d'Elvas, barbeiro, e Fernão Díaz, filho d'Alvaro Díaz, ferreiro, e 
de Vila Nova, mercador, os quais todos três partirão a valia do capuz e 
touca, com que vinha atado, e lança ; e na pratica deste mouro e como se 
salvou, pola bondade e lealdade do cavalo, gastamos aquele dia e outros 
muitos dias. 

Este dia nos recolhemos alegres e com vitoria, pois diante de tanta 



— 126 — 

jente lhe matamos três mouros e outros feridos, e um cavalo tomado, mas 
os mouros, tendo já feito sua obra, que era comer e talhar os pães, se 
levantarão e fôrao seu caminho, el-rei pêra Féz e os alcaides cada um 
pêra sua casa; e asi desta vinda ficou Benjija por alcaide de Jazem, em 
lugar do alcaide Mafote, o qual avia nome cide Hamete Benjija, pesoa 
muito nobre, asi em sangue, como em nobreza de sua linhagem, sendo 
dos mais principais alcaides do reino, e asi por sua lealdade e pesoa muito 
valido d'el-rei e do reino de Féz; e, porque deste alcaide ao diante se fará 
muita menção, asi em Ga mui grande batalha que com o conde do Re- 
dondo ouve, em que ele foi desbaratado, como em outras que em defensa 
do reino com os xarifes ouve, fiz dele esta pequena lembrança, pois desta 
vez ficou por noso vezinho e fronteiro, pois de Jazem a Arzila não ha 
mais que catorze léguas, cinco a Alcaccre e nove de Alcacere a Arzila. 
Recolhido el-rei de Féz, deixando os pães talhados e comidos, não sem 
muitas escramaçÕes dos mouros, nosos vezinhos, que, vendo que Arzila 
ia engrosando com jente de cavalo, e que o dano feito por el-rei e por a 
jente de Féz eles o avião de pagar, pois érão nosos vezinhos e tínhão suas 
lavouras, em que nos podíamos vingar, requererão a el-rei e a Mulei 
Abrahem não nos destroisem os pães, pois eles lh'o avião de pagar, com 
lhes nós destroirmos os seus; mas não prestou tudo isto nada, que, como 
el-rei era novo, queria mostrar-se imigo de cristãos, e que ele proveria de 
maneira que não recebesem dano, e, leixando encomendado ao alcaide 
d' Alcacere a guarda destas serras, se sobio a Féz ; mas o capitão, como 
teve nova ser cada um em sua casa, lhes não deu lugar que pusesem 
guarnição, e logo trás eles mandou Artur Rodríguez e Afonso Barriga e 
Estêvão Fernândez e Roque de Farão que com corenta de cavalo fosem 
entrar e íizesem o mais dano que pudesem, e, posto que ainda era no mês 
de maio e os pães estávão verdes, eles destroírão á espada e com os 
cavalos os mais que pudérão, porque, entrando os nosos junto com Men- 
çara, se lançarão em cilada em um fermoso pão, donde os cavalos tivérão 
úa boa madrugada e parte do dia ; mas, como ao que ião não era mais 
que talhar e cortar, não esperarão que fosem descubertos, nem por outra 
presa, e, saindo da cilada, se pusérão a cortar com as espadas e a pasear 
em ala por donde víão que o pão era mais forte; e com este pequeno 
dano [dérão a entender a vontade que lhes ficava] ' pêra outro mór que 
adiante receberão, queimando-lhe logo muitas eiras e grandes medas, e 
todo o mais do campo d'Algarrafa até Alexarif, com que ficarão asom- 
brados e viérão a não fazer dano nos pães, como em tempo do conde do 
Redondo se dirá. 



I. [dérão a entender a vontade que lhes ficava]/. A. 



127 — 



CAPITULO LI 



Como o capitão António da Silveira queimou o pão d' Algarrafa 
em vingança da tala que el-rei nos fe\ 



O capitão, António da Silveira, nenhum outro cuidado mór tinha 
que como destroiria e queimaria os pães dos mouros, em espe- 
cial os d'Alcacere Quebir, e pêra esta obra mandou fazer muitas 
rocas de fogo, pêra que com elas mais fácil esta crua obra pudese ser 
feita, ou por sua pesca, jente e bandeira, ou por alguns mouros peitados 
que, por dinheiro, quisesem poer fogo, donde mais dano os pães rece- 
besem; mas como o mês de Sam João viese e as calmas tivesem consu- 
mido a verdura do inverno, e tendo boa nova, o capitão, sem mais 
aguardar, mandou dar ás trombetas, levando úa azemela carregada das 
rocas, e, tomado o caminho d'Alcacere, fomos cear á fonte do Zambu- 
jeiro, na mesma estrada d'Alcacere, e dali, por Alhadra e Taliconte, fomos 
amanhecer á ribeira da Ponte, antre ela e o porto d' Algarrafa, donde 
esperamos que o sol e o dia consumise e gastase as umidades da noute, 
e o fogo, com menos trabalho, fizese sua obra e donde a ribeira da Tali- 
conte se mete na da Ponte ; mas como visemos dous fachos, que sobre 
aquela grande varzia estávão, povoados, e que não podiamos pasar ao 
campo d'Alexarif sem sermos vistos e sentidos, e que donde estávamos 
adonde as lavouras érão avia duas ou três legoas, as quais aviamos de ir 
de milhora, por nos pormos da parte de levante, que então ventava, o que 
não se podia fazer, pola jente d'Alcacere, que então saia a repique, não 
nos deixase espalhar, nem estender, como era necesario, pêra que o fogo 
tomase comprida ala, — e, todo mui bera considerado, o capitão mudou o 
conselho e se detreminou ir ao longo da ribeira de milhora correr Algar- 
rafa, e, postos a cavalo e pasando a ribeira de Taliconte e ao longo da 
grande [varzia] ', encubertos com muito arvoredo da ribeira e grandes 
ervaçais, fomos ter junto com o Porto Largo, donde corremos sendo já 
meio-dia e os segadores recolhidos, como é costume antre os segadores 
irem buscar as sombras e ter as sestas nelas e descansar do trabalho do 
dia; e, como o capitão ia fazer mais dano nos pães que nas pesoas, 
repartindo poios corredores as rocas que levava, mandou que, entrando 
o mais que pola serra pudesem com as rocas encendidas, cortasem o mais 
do campo que pudesem, pêra que o fogo em ala cenjise os mais dos pães, 
e com esta ordem arrincamos, espalhados bem polo campo e não parando 

I. [varzia]/. A. 



— 128 — 

até as tranqueiras. Alguns de cavalo entrarão por elas, entre os quais se 
asinalou neste dia Manoel da Costa, natural de Serpa e amo do capitão, 
que, entrando polas tranqueiras diante dos nosos, foi recebido de três 
mouros de cavalo, que ao rebate acudíão, dos quais foi encontrado de tal 
maneira que os dous mouros viérão ao chão, um da lança e outro do 
encontro, e, sendo estes alanceados poios que detrás de Manoel da Costa 
vínhão, o outro se salvou, tornando por donde vinha, e, recolhendo os 
dous cavalos, se recolherão a poder de muitas lanças d'arremesso da jente 
de pé que acudia da aldeã; mas a este tempo, como os nosos chegasem 
ás eiras e outras grandes medas de pão, que da resteva tínhão apa- 
nhado, polo dano dos pardais, que as paveas deles recebíao, usando do 
que lhes era mandado, acendendo as rocas e leixando-as gotejar aquelas 
gotas tão perjudiciais do enxofre, começando a se levantar grandes lava- 
redas de fogo, acrecentou grandes cxcramações antre os mouros e mouras 
que o víão, e conhecerão que eles pagávão o dano feito poios de Féz e 
d'Alcacere ; mas, como o fogo tomase ala, com a calma do dia e o vento 
levante, que a este tempo soprava, em pouco espaço a rejião do ar foi 
cheia de espeso fumo, e o fogo consumiu toda a mais parte dos pães 
d'Algarrafa e doutras suas vezinhas e, estendendo-se, pasou a ribeira da 
Ponte, donde tãobem os d'Alcacere receberão muita parte deste dano, de 
maneira que aquele dia conhecerão que o fogo lhes podia fazer muito 
mais dano do que as nosas sementeiras importávão ; e foi este dia causa 
que o ano seguinte, antre o conde e Mulei Abrahem, se asentou que os 
pães não recebesem dano, o qual concerto durou todo o tempo que el-rei 
de Féz foi rei, mas como o xarife, rei de Suz e de Marrocos, o prendese 
e lhe tomase o reino, que foi na entrada do ano de corenta e nove, como 
tirano e estranjeiro nos mandou atalar e cortar os pães, que érão asaz 
muitos pêra nós e pêra um lugar de guerra, a qual tala começou sábado 
de Ramos e durou toda a semana santa do dito ano de corenta e nove; e 
sem fazer este tirano, nem intentar outra cousa contra nós, somente a 
tomada de Féz, pôs tanto espanto neste reino que logo no agosto seguinte 
el-rei, noso senhor, lhe mandou alargar Alcácer Ceguer e Arzila, avendo 
cem anos que Alcacere fora ganhado por el-rei Dom Afonso o Quinto e 
Arzila setenta e oito polo mesmo rei. Calo os danos que esta leixada 
causou, pois todos sabem as mortes dos capitães de Tanjere feitas pola 
jente d'Arzila e os muitos gastos de soldados e galés que esta leixada 
causou; e, porque neste caso tenho falado mais largo do que me é dano ', 
torno ao noso fogo d'AIgarrafa, donde me apartei. 

Vendo o capitão que era feito o que ele desejava, que era queimar os 
pães, se começou a recolher com o que se pode alcançar, que fôrão seis 
almas e três cavalos e vinte reses vácuas, e, sem nenhum estorvo, com 

I. me é dano] tenho licença, mas a dor m'o causa BNLM. 



— 129 — 

muito contentamento nos viemos á vila, deixando naquela aldeã muito 
dano feito e no campo d'Alcacere Quebir, e ficarão as outras tão temori- 
zadas, parecendo-lhe que nos não contentaríamos com somente o dano 
d'Algarrafa ; mas, como este feito foi mais poios amedrentar e nos satis- 
fazermos que não que o pão recebese dano, o capitão se contentou por 
este ano e eles ficarão escarmentados. 



CAPITULO LII 

De ííã grande e notável ahnogaveria que Artur Rodrigue:{fei em Çiimete 
a qual chamamos «a das muitas cabrasi> 



P ASADO esta cavalgada e queima, não se tardou muito que o capitão, 
António da Silveira, deu licença a Artur Rodríguez, almocadem, 
que fose fora, e com ele se ajuntarão os outros almocadens e 
homens do campo, como Afonso Barriga, Roque de Farão, Estêvão Fer- 
nândez, até corenta de cavalo, e, guiando Artur Rodríguez, os levou pola 
parte de fora de Benagorfate e ante-menhã os meteo em cilada antre 
Çumete e Aliom, levando, todavia, das rocas de fogo, as quais lhe não 
servirão, por estarem já os pães recolheitos e toda a ribeira queimada, e, 
parecendo-lhes que érão descobertos e que não avia cousa viva por aquela 
parte, e que era já pasado muita parte do dia, saindo da cilada, se qui- 
sérão tornar caminho da vila; e, como a terra estava queimada, querendo 
encurtar o caminho, se meterão por antre a Ribeira Grande e o pé d'Agoní, 
que é aldeã que está na ponta da serra de Benagorfate, sobre a ribeira e 
sobre a boca que dizemos de Capanes, mas, como os nosos dérão vista 
a estoutra parte, logo fôrão vistos da aldeã d'Agoni e dando rebate; os 
nosos virão e conhecerão o campo andar desmandado, que, como aquela 
menhã os atalhadores das duas bocas de Capanes e de Benamares se 
ajuntasem, leixando-as seguras, os gados começarão a sair de todas as 
aldeãs vezinhas á Ribeira Grande, como Mençara, Fiquer, Alhazana, e, 
como a terra estava toda queimada, a boiada ou boiadas se deteve nas 
serras, mas o gado meudo, especialmente as cabras, que eles trazem de 
mestura do gado ovelhum, achando a terra queimada, não parou até se 
estender ao longo da ribeira. 

Os nosos, vendo o campo largo e a presa diante dos olhos, correndo 
sem ordem, se estenderão tanto que, pasando a ribeira, se meterão polas 
serras trás alguns de cavalo, que um grande golpe de gado vacum levávão 
recolhendo, o qual fôrão alcançar tão perto das tranqueiras que a jente 
de pé lh'o defendeo, por não serem os nosos mais de três ou quatro; e 
não se contentando de salvarem o gado vacum, vendo ser os nosos tão 

ANAIS DE ARZILA IJ 



— i3o — 

poucos e espalhados, os de cavalo os tornarão a vir demandar, e, querendo 
apegar com eles, voltdrão e derribarão um mouro, dos de cavalo, e que- 
rendo fazer algúa resistência, por ser socorrido dos seus, Simão Vaz Ar- 
ráiz, que foi o que o derrubou, o matou, e se recolherão pêra donde avião 
leixado o gado cabrum, o qual recolherão pola outra banda de Çumete 
com alguns quinze de cavalo, que daquela parte se ajuntarão, e Artur 
Rodriguez, recolhendo toda a mais cantidade de gado que da parte de 
Zahara acharão, se recolheo pola boca de Capanes; e, sendo ainda parte 
do dia por pasar, se viérão ajuntar ao pé d'Alicototo, entrada da serra de 
Benagorfate, com muito contentamento de todos, por tão boa presa, como 
Deos lhes avia dado, e, ajuntando o gado um com outro, pasávão de duas 
mil cabeças de gado meudo e úa moura e um potro, que Fernão da Silva 
ouve, que depois saio muito bom cavalo; e, como o campo era todo quei- 
mado, repartindo o gado em quatro ou cinco magotes, o tanjêrao de ma- 
neira que, antes da meia-noute, chegarão á vila com toda sua cavalgada, 
que foi muito grande abastança pêra a vila, que, enchendo-se os mora- 
dores de cabras de leite, o capitão tomando seu quinto, que pêra Portu- 
gal mandou trazer, as outras comprou Jorje López juntas, de que se 
escolherão quatrocentas cabeças pêra a condesa, que já a este tempo o 
conde era despachado e esperávamos por ele ; e o outro gado macho e de 
menos proveito se cortou no açougue, três arráteis por meio vintém, e as 
ovelhas, por a terra o não poder sofrer, as venderão pêra Castela, e ficou 
por nome a esta almogaveria «a das muitas cabras». Fizérão-se nesta 
almogaveria perto de oitocentos cruzados, e sairão as paites a perto de 
seis mil reais, e com isto andava o capitão tão contente, parecendo-lhe 
leixava a vila avantejada de como avia achado, asi de jente de cavalo 
como de mantimentos, mas a fortuna, imiga destes tais contentamentos, 
não quis que d'Arzila saise tão contente como se mostrava, dando-lhe 
logo ura pequeno açoute, como neste capitulo direi. 



CAPITULO LIII 

Como se perderão oito de cavalo atalhadores ou monteiros 
que o capitão mandara fora em dia de Nosa Senhora d'Agosto 



MUI diferente era neste tempo o cuidado do alcaide d'Alcacere do 
do capitão, António da Silveira, por o alcaide não desejar senão 
fazer todo o mal e dano que pudese a Arzila, e o capitão de a 
guardar e defender, e por esta causa não curava mais que segurar-se, com 
as atalaias andarem recolheitas, quanto bastava a dar de comer á boiada 



— i3i — 

e ao gado meudo, que era muito, e pêra andar mais seguro mandava 
todos os dias cavalgar vinte de cavalo, e, favorecendo as atalaias, ficávSo 
em guarda do gado. Ajudava a este recolhimento as novas que cada dia 
do reino ião, que o conde era despachado, e que seria em Arzila por todo 
o mês de setembro, e, querendo-lh'a entregar prospera e com todo con- 
tentamento, não queria ter pendença, o que se não pode escusar, como 
logo contarei, porque chegado sábado, besperade Nosa Senhora d'Agosto, 
alguns de cavalo lhe fôrão pedir licença pêra irem a montear, e, vendo que 
os que lh'a pedíão érão homens do campo e de bom recado, e que ao outro 
dia era domingo e dia de Nosa Senhora [d'Agosto] ', e que nós não ousa- 
ríamos fazermos obra, nem sair ao campo mais que quanto bastava dar de 
comer ao gado, e que não era rezão ouvese jente no campo, lh'a conce- 
deo com tal condição que não saisem de seu mandado e ordem, e, pre- 
guntando quantos avião de ir, disérão que oito, por não levarem trabalho 
em partirem os quartos. O capitão lhes dise que sairião da vila á meia- 
noute e iríão de dous em dous, e que dous iríão amanhecer sobre o 
Zambujeiro e dous sobre o Xercao e dous em Muliana, e se viríão ajuntar 
no Zambujeiro do Xercão, e que, deixando as estradas e tudo seguro, 
monteasem até noute, porque ele queria, com lhe segurarem o campo, 
dar Ga boa guarda de lenha á vila, a qual seria em Alecasapo; e, concer- 
tado esta ordem, se pusérão a cavalo os da licença, que érão Bertolameu 
Rodríguez, do conde. Pêro Fernândez o Torto, Roque de Farão, que já 
a este tempo sabia muito do campo; os outros companheiros nomearei 
adiante. Se guardarão ou não guardarão o mandado do capitão não me 
entremeto, somente contarei como se perderão. 

Estes, vindo as oras que da vila avião de sair, chamando os compa- 
nheiros, fôrão ter á porta de Fernão Machado, que oje é estribeiro do 
conde rejedor, o qual se escusou, dizendo que seu cavalo estava descane- 
lado e não avia de ir fora até o ferrar, e, não podendo com ele que caval- 
gase, chamarão um seu vezinho, que Fernando Afonso avia nome, o qual, 
sendo ortelão, casara com Felipa Botelha, mourisca, e por esta causa era 
favorecido de Diogo da Silveira e lhe fez comprar cavalo e lh'o asentárão, 
o qual, como vio que o chamávão pêra feito de homens, foi logo em pé, 
tendo que lhe fazíão muita honra em o chamarem e levarem consigo, por- 
[que]' os homens d'Arzila, que lhes parecia que prestávão em montes e almo- 
gaverias, não querião ir senão apartados, e chamávão aos outros^ sofeli- 
ços *, e este, por ser um vilão ortelão, e que avia pouco que tinha cavalo, 
teve em muito ser chamado, o qual aquele dia se asinalou em sua morte 
railhor que nenhum dos seus companheiros, os quais, sendo a cavalo e 



I. [d'Agosto] /. A. — 2. [que]/. A. — 3. e chamávão aos outros] e não chamávão 
aos outros BNM. — 4. sofeliços] sofelicos L;/. BNM. Ignoramos a significação deste 
vocábulo. 



— l32 — 

abrindo-lhc as portas, sairão da vila e, guardada a ordem ou não guar- 
dada, fizérão seu monte e, carregados de carne, se vínhão caminiio da 
vila, dereitos ao Furadouro d'Almenara; mas, tanto que do Zambujeiro 
ao Xercão descobrirão a Pedra Alta, logo virão nela jente de cavalo, e, 
dizendo uns a outros : «Jente está na Pedra Alta !» Pêro Fernândez o Torto 
c João López do Pombal disérão: «O capitão é que oje quis dar guarda 
larga!» e com esta só palavra confuscárão os sentidos, de maneira que 
nenhum repetio mais se érão mouros ou cristãos, somente seguirão seu 
caminho, fazendo-me verdadeiro no que atrás hei apontado, que a nós 
outros nunca nos parece que emos d'achar outra cousa diferente do que 
imos buscar, como estes fizérão, que, sendo mandados polo capitão e 
avisados, não lhes lembrou que outra cousa podíão achar senão porcos ; 
e com esta segurança, não fazendo mais conta da jente que na Pedra 
Alta avião vista, muito seguros seguirão seu caminho, e, pasando o Fura- 
douro, viérão ter sobre os córregos de Redemoinhos, donde em um brejio 
decêrão toda a carne e a quisérão partir, por cada um levar seu quinhão 
ou parte; e ali, por lhes parecer cedo, quisérão bater úa silveira, por 
verem rastro fresco, e, pondo-o por obra, meterão os cães nela, mas Ro- 
que de Farão que, por ser muito fragueiro e desmanchado, por trazer seu 
cavalo fraco, lhes dise: «Eu quero mais pacer que montear!» e tirando o 
freio a seu cavalo o meteo no brejio; mas ainda as palavras não érão ditas 
quando a jente deu sobre eles, que, como lhes saio da parte da vila, os 
rebaterão por donde vínhão, e, tornando a sair polo Furadouro fora, se 
espalharão pêra o Zambujeiro e Alfandux, donde todos se perderão, 
somente Roque de Farão, que a pé ficou, que, vendo toda a jente pasar 
por si e ir trás dos companheiros, com a barriga polo chão, alcançou o 
córrego de Redemoinhos, donde se embrenhou e se salvou, posto que os 
mouros o buscarão, que, vendo o cavalo, não ficou cousa que não busca- 
sem, pondo fogo a toda a ribeira; mas ele, como homem do campo, esteve 
em um córrego d'agoa, pasando o fogo por cima dele, e metendo debaixo 
da agoa o corpo e a cabeça, sofrindo como quem mergulha, que a lava- 
reda do fogo pasase por cima da agoa, que não entregar-se a seus imigos, 
e, meio chamuscado, o leixárão, não o podendo achar, e por Redemoinhos 
abaixo se veio á vila. 

Tornando aos mouros, o alcaide d'Alcacerc, como desejava fazer dano 
á vila, aquele dia acertou destar no noso campo, esperando monteiros ; 
ou por os nosos não guardarem a ordem do capitão, ou por os mouros 
entrarem depois dos nosos ser pasados, eles estávão na Pedra Alta a 
tempo que os nosos travesárão o Xercão pêra o Furadouro, e, como dos 
mouros fôrão vistos e os virão vir seguros, encobrindo-se os fôrão esperar 
diante, donde nenhum deles virara o cavalo; mas, como os virão remui- 
nhar e espalhar, parecendo-lhe que os nosos tomávão sentimento deles, 
correrão a os cenjir e atalhar diante, a que nenhum tomase o caminho da 



— i33 — 

vila, e por esta causa os lançarão pêra o campo, os quais, como os mou- 
ros érão muitos e eles sete de cavalo e cansados do monte pasado, os 
fôrão alcançando e matando, sem nenhum deles escapar, nem fazer cousa 
de que se pudese fazer memoria, nem nenhum deles parecer, nem sabermos 
donde morrerão, por os acharem estremados e espalhados; e, posto que 
todos eles érão bons cavaleiros e se avião visto em muitas cousas e nelas 
se asinalárão, deles não ouve mais nova que contarem os mouros que 
nenhum pelejara, senão o Fernando Afonso, ortelão, que, avendo um cór- 
rego á mão ao Zambujeiro, ajuntou derrador de si cincoenta de cavalo, 
primeiro que o entrasem, e, por o alcaide lhes ter mandado que não desem 
vida a nenhum, o matarão, depois que lhe não ficou cousa por fazer, não 
como quem ele parecia, senão como estremado cavaleiro. Desta maneira 
acabarão estes sete moradores, todos casados, com molheres e filhos, em 
dia asinalado de Nosa Senhora d'Agosto do ano de mil e quinhentos e 
vinte nove, os quais érão Bertolameu Rodríguez, criado do conde de 
Borba, Pêro Fernândez o Torto, João López do Pombal, Luis Díaz, Bas- 
tião Fernândez, jenro de Nuno Alvarez de Carvalho, Fernando Afonso, 
João Fernândez Rapa-pelo. 

Pudera neste dia acontecer outro mór desmancho, que, parecendo ao 
capitão que estes monteiros tínhão atalhado o campo, mandou ao adail 
que aquela tarde dése úa boa guarda de lenha em Alecasapo, o qual, 
mandando as atalaias á Aldeã Velha, deu com os moços na aldeã e varzia 
d'Alecasapo, donde nenhum pudera escapar se os mouros correrão a vila, 
o que leixárão de fazer, por averem vista dos nosos monteiros, e tão- 
bem por o alcaide recear a corrida, por não trazer mais que oitocentas 
lanças, com as quais lhe saio mais seguro levar sete homens e os matar 
e oito cavalos que ementar a corrida. 

Outra cousa notável aconteceo neste dia, que se não pode crer, que 
foi ouvir-se dentro na vila o atambor do alcaide, tanjendo-se duas legoas 
e meia e mais da vila, que, sendo os nosos já mortos e querendo o alcaide 
recolher os seus, estando já em Alhadra, dêrão os atambores a recolher, 
e, estando muitas pesoas asentados na escada dos contos, o ouvirão, 
dizendo uns que ouvião artelharia e outros que tremia a terra, de maneira 
que, pondo-nos a escuitar, nos afirmamos ouvir um rumor d'artelharia, 
mas não que caisemos seríão atambores, e muito milhor se ouvio polo 
campo; e, sem aver nenhúa sospeita, se pasou aquela tarde até chegar 
Roque de Farão, que, sem aver rebate, veio pola ribeira abaixo e saio ao 
porto do Canto e, polas Pontinhas, veio á vila, e, contando ao capitão 
tudo o que vira e era pasado, nos pusemos a cavalo e fomos acabar de 
recolher a guarda, com que o capitão ficou desagastado algúa cousa, em 
toda vir salva sem rebate. Todas estas meudezas soubemos de Roque 
de Farão e de mouros que com o alcaide se acharão neste dia. 

Não quis a fortuna que este valeroso capitão viese ao reino com a 



— i34 — 

honra e contentamento que até [a]li ' tinha, sem que no cabo de sua boa 
governança recebese este desgosto e outro, que logo deste naceo, que foi 
dar-se e ficase mal com dous moradores honrados, um o contador, Diogo 
Mazcarenhas, e Pedro Afonso Homem, e pasou desta maneira. Nestes 
sete moradores mortos, Bertolameu Rodríguez era do abito, e Pêro Fer- 
nândez tinha quatro mil reais de tença de homem de campo. Este abito 
[e tença] ^ quis o capitão que os ouvese Manoel da Costa, seu amo, e Es- 
têvão Fernândez, a quem ele tinha obrigação, asi por muitos serviços, como 
por a molher d'Estêvão Fernândez ser muito de sua casa; e, tanto que 
teve nova serem mortos, quis mandar este Estêvão Fernândez a Portugal 
a pedir esta tença e abito, e, dando-lhe cartas pêra el-rei, noso senhor, o 
fez embarcar em um barquinho de pescar, mandando que nenhúa carta 
trouxese, nem viese em todo o barco; mas como o arráiz do barco, que 
era João Vaz o Maio, que depois morreo elche, tornando-se mouro, 
levando o mesmo barco, que meu era, em o qual fez asaz de dano, como 
em seu lugar direi, descobrise ao capitão que levava cartas, que o conta- 
dor, Diogo Mazcarenhas, lhe dera, tomando-Ih'as o capitão e abrindo-as, 
se escandalizou muito do contador e de Pedro Afonso Homem, cujas érão, 
as quais mandávão ao conde, fazendo-lhe saber ao que Estêvão Fernândez 
ia, pedindo-lhe que ouvese o abito e tença pêra João de Deos, irmão de 
Pedro Afonso Homem, alegando os serviços do dito João de Deos e sete 
anos de cativeiro, em duas vezes que fora cativo, como atrás fica contado, 
e que o capitão queria 3 fazer os seus e pagar-lhe com as mercês d'el- 
rei, devidas aos moradores de mais serviços. Destas cartas e palavras 
se escandalizou o capitão tanto que logo os fez prender, dizendo que os 
avia de castigar asperamente, mostrando-se contra eles mais queixoso do 
que sua freima requeria e a culpa era, e, perseverando, os teve presos 
em suas casas até a vinda do conde, que foi dahi a mês e meio ; mas, 
tanto que o conde chegou, ele em pesoa os foi soltar e lhes pedio perdão 
com tanta umildade e amor que não tão somente pareceo bem a toda a 
vila, mas eles, presos, lhe ficarão em obrigação. 



I. fa]/. A;/ este passo até aoJitndocapItuloBíiLM. — 2. [e tença]/. A. — 3. que- 
ria] querendo A;/, toda esta página nos outros ntss. 



— i35 — 



CAPITULO LIV 



De como o alcaide d'Alcacere nos tomou a armar 

deitando-se em Mejileo e os almogavares em Tendefe e não fe\ nada 

e se tornou 



DESTE feito e suceso dos monteiros foi o alcaide tão contente e 
soberbo, saindo-liie a seu preposito e achar o que veio buscar, 
que, não se contentando com matar sete homens, moradores 
daquela vila, que não pasárão muitos dias que tornou a entrar em o 
noso campo, e, mandando entrar trinta de cavalo no Malhão de Tendefe, 
se ficou com toda a jente em Mijeleo, legoa e meia da vila, parecendo-lhe 
que, sendo os almogavares sentidos, o capitão lhes armase; mas, como as 
atalaias não pasasem da Alfarroubeira e que estávão a pé e que não avião 
de pasar dali, por os traveses estarem já em seus postos, fizérão saber 
ao alcaide o que pasava. O alcaide lhes mandou dizer fizesem polas 
saltear, milhorando-se o milhor que pudesem, e, pondo-o por obra, como 
o campo era todo queimado, fôrão sentidos por Qa das atalaias, e, dando 
rebate, se descobrirão os que no Malhão ficarão, que logo acudirão aos 
seus que polas costas do rosto viérão até [a] ' cilada de Antão Gômez, com 
entenção de se meterem na canaveria ' de Tendefe. O capitão saio a 
rapique com toda a jente, e do Facho, vendo ir os mouros pola Atalaia 
Alta acima e paseando, nos fomos até a Atalainha das Palmas, donde 
soubemos e tivemos recados do rebate, e que as atalaias érão salvas; e, 
vendo o alcaide que não pasavamos dali, se descobrio e se mostrou em 
ala, mais por nos amedrentar que por outro algum fruito. 

Com estas duas vindas do alcaide favoreceo os seus, de maneira que 
logo nos correrão duas vezes almogavares, mas, como nós andávamos 
recolhidos, que não entendíamos senão em guardar noso gado e em lhe 
dar de comer, e eles não ousarem a entrar muito, não fizérão nada; e 
desta maneira pasou o mês d'agosto e todo o de setembro, que chegado 
o dia do anjo Sam Miguel, que cai a vinte nove de setembro, pareceo úa 
grande frota, em que o conde Dom João vinha, e, chegando ao arrecife, 
os navios começarão a entrar cora grande alvoroço e contentamento de 
toda a vila, como aqueles que recebíão seu natural senhor, e tal como o 
conde Dom João Coutinho era ; o qual foi recebido do capitão, António 
da Silveira, com aquele amor e gasalhado e honra que tais pesoas e tão 
excelentes capitães e tão parentes se Jevíão, oferecendo-lhe a governança 

I. [a]/. A —canaveria] canaveira BN L M. 



— i36 — 

da vila, e que logo se fose ao castelo, donde já estava feito e aparelhado 
apousento pêra a condesa, o que o conde não quis aceitar, dizendo que 
não tomaria cargo da vila até sua mercê ser embarcado; e com isto se 
foi pêra ás casas da molher de Fernão Mazcarenhas, que já dantes estávao 
despejadas, e pêra as de Jorje López, pêra as quais foi levado com toda 
a solenidade de alvoroço e amor que se devia, indo toda a clerezia e cru- 
zes diante, cantando e louvando a Deos, e asi danças de homens e mula- 
tas, isto, certo, se deve a tais senhores e capitães, porque deste nobre 
senhor (do Redondo) não se pode dizer, nem fazer tanto que nele mais 
não aja ; porque alguns louvores, se os souber dar, ficarão pêra seu 
tempo, aqui não direi mais que, em trinta anos que foi capitão d'Arzila, 
nunca espancou homem, nem o escandalizou de palavra: exemplo pêra 
os que govérnão. 

Tanto que o conde foi na vila, o capitão, António da Silveira, se fez 
prestes e, aos dez dias d'outubro do dito ano de mil e quinhentos e vinte 
nove, se embarcou com muita saudade de toda a vila, estando a condesa 
na praia com todas as mais molheres, acompanhando a Dona Jenebra, a 
qual se despedio com asaz lagrimas; e, embarcado este valeroso capitão 
e os navios á vela, o conde e a condesa se recolherão ao castelo, e começou 
a entender na governança da vila, como logo em sua governança e tempo, 
Deos querendo, direi. 

CAPITULO LV 

De um feito notável que por mar acotiteceo 

a Pile João bombardeiro d'Ar:^ila indo de Portugal pêra a dita 3'ila 

sendo acometido de um bargantim de mouros 



PARECE rezão que, avendo contado as mais cousas que por terra em 
Arzila acontecerão em tempo deste valeroso capitão, não leixe o 
mar tão desemparado que pareça aver nele toda paz e segurança, 
e portanto direi algiia cousa dalgúas que nele acontecerão; e, por acon- 
tecer um asinalado feito a Pite João, bombardeiro d'Arzila, o contarei. 
Já fica contado que, quando o conde se embarcou, foi em úa caravela 
de Jorje López e de Rodrigo Afonso, a qual se armou na vila de bom- 
bardas e das cousas necesarias á pasajem e segurança, e levando alguns 
bombardeiros da vila, entre os quais foi um Pite ■ João, que por condes- 
tabre foi, por ser pesoa honrada e abastada. Era Pite João natural 
francês e de Normandia; casou em Arzila com úa molher espanhola hon- 
rada e virtuosa. Era este Pite João muito jentil homem e o mais limpo, 

I. PiteJ Peti BN; Piti L M. Ta/vef Pite do francês Pelit. 



-i37- 

asi de seus trajes e casa e mesa, e milhor servido que homem de seu 
tempo. Pousávião em sua casa mercadores franceses, com os quais tinha 
negocio e trato, por cuja causa vevia abastadamente. 

Vindo este com o conde e negoceando em Portugal seus negócios, 
querendo se tornar pêra sua casa, fretou em Aiamonte um barco caste- 
lhano e o carregou de telha e madeira, pêra úas casas que fazia ao longo 
do muro, e, como homem enjenhoso e d'esprito, concertou uns bancos 
dentro no barco, donde pôs quatro berços, por serem bombardas peque- 
nas e de camará, e metendo-se nele, partio pêra Arzila, vindo com ele 
Lourenço Afonso, pescador e morador na vila^ e outros dous homens 
portugueses com duas bestas e três marinheiros do barco, que por todos 
érão sete pesoas; os quais, vindo sobre Tagadarte, duas legoas d'Arzila, 
lhes saio um bargantim de dentro do rio com trinta e seis mouros, e, por 
ser o vento calma, foi logo junto do barco, que vendo-o o arráiz e jente 
do barco se dérão por perdidos e cativos, o que Pite João não fez, que, 
esforçando os companheiros, se pôs em tom de se defender; e, concer- 
tando suas bombardas e camarás, entregou a Lourenço Afonso as duas 
que na popa do barco vínhão, que o arráiz e marinheiros lhes ajudasem, 
e, tomando os dous besteiros, se pôs na proa, donde tinha os outros dous 
berços e algúas panelas de pólvora, dizendo aos companheiros que até ele 
não ser morto não consentisem entrar nenhum mouro; mas, como o bar- 
gantim chegase e envistise [o barco] ', Pite João lhe meteo dous pelouros 
dentro e após eles duas panelas de pólvora, que, levantando grande lava- 
reda e fumaça, fez saltar alguns mouros á agoa e outros lei.xar o remo e 
se anovelarem na popa do bargantim, onde os dous besteiros empregarão 
dous pares de setas; e, vendo-se os mouros saheados e que o barco se ia 
saindo com algum bafo de vento, tornando a tomar os remos, tornarão 
outra vez a o investir, mas achando outra vez prestes a Pite João e a 
seus companheiros [de maneira que] ^ se tornarão afastar a mal de seu 
grado, que deu grande animo aos nosos, e já os chamávão que chegasem, 
o que os mouros receávão polas panelas de pólvora ; e, vendo que Pite 
João era o que os desbaratava e destroia, asi com as bombardas e pane- 
las, como com gritar e animar os seus companheiros, e vendo não serem 
mais de sete homens, e que só Pite João era o que governava as bom- 
bardas, saltando da proa á popa, e que o Lourenço Afonso não lhe vagava 
a encher camarás e as poer armadas e cheias e tirá-las varzias, quisérão 
ver se com quatro ou cinco bestas, que os mouros trazião, podíão mancar 
ou matar a Pite João, e, pondo-se por popa do barco, se deixarão vir ás 
setadas, e tãobem érão servidos dos berços ; mas como já a este temp» 
éramos em socorro do barco três barcos de pescar, que, tomando a vila 
rebate e vendo o bargantim sair de Tagadarte e ir ao barco, saindo o 

I. [o barco]/. A. — 2. [de maneira que] /. A. 

ANAIS DE ARZILA ig 



— i38 — 

capitão á praia, nos embarcamos em três barcos de pescar, em cada um 
oito ou dez homens de couraças e lanças e adargas e alguns besteiros e 
espingardeiros, com entençáo de nos metermos no barco, e, vendo-nos o 
bargantim perto de si, tornou a envestir com o barco, donde Pite João 
com a espada e rodela botou dous mouros ao mar, que no barco entra- 
rão, e, por sermos já muito perto, o bargantim se leixou ficar por popa 
do barco, e nós chegamos e, entrando dendo do barco, achamos os mais 
feridos das setas, e Pite João de duas, e Lourenço Afonso taobera, das 
quais um dos besteiros faleceo na Misericórdia, donde foi levado e curado 
de duas que pola cabeça trazia metidas ; e, dando os barcos um cabo [ao 
de Pite João] ', o trouxérão - á vila, donde fôrão recebidos com muita 
honra e louvor de Pite João. 

Foi, certo, este um dos grandes feitos que por mar são acontecidos, 
e portanto quis fazer menção dele, pêra que outros, que em semelhantes 
lugares se acharem, defendendo suas pesoas, ganhem fama e deixem de 
si memoria. Soubemos ' depois que o bargantim era de Tetuão, e que, 
do dano que recebeo, não pode tornar por mar e se tornou a meter em 
Tagadarte, donde enterrarão quatro ou cinco mortos e levarão mais de 
vinte feridos e queimados, e deixarão o bargantim embrenhado e se fôrão 
por terra, o qual fomos buscar e o não achamos, por o eles deixarem no 
braço que vai á ponte de Gosma, que vai polo campo de Tanjere. 



CAPITULO LVI 

Como Lopo Méude\ de Vasconcelos morador d'Ar:[ila 

e capitão de úa caravela d^armada foi acometido de três fustas de mouros 

e doutra peleja que ouve com úa nao francesa 



POIS ei contado a ousadia e cometimento que Pite João teve pêra se 
defender de um bargantim de mouros, com tão pouca esperança 
de se salvar, quero contar outra ousadia e cometimento que os 
mouros fizérão em acometer ija caravela d'armada que pasou desta ma- 
neira. 

Sendo Lopo Mêndez de Vasconcelos, morador na dita vila e criado 
do conde do Redondo, capitão de iía caravela d'armada, das duas que 
el-rei noso senhor trazia no Estreito, e vindo ao longo da costa de correr 
os lugares de Tanjere, Cepta e Alcacere, e, vindo sobre Arzila já noute 
e com o vento calma, foi visto de três fustas, que dentro no rio de Taga- 

I. [ao de Pite João] f.A.—2. trouxérão] trouxemos B NLM. — 3. Soubemos] 
Soube-se B N L M. 



— iSg — 

darte acertarão a estar, pêra aquela noute pasarem á outra banda de 
Castela, as quais érão de Bélez; e, avendo ido a entrar ao Algarve, donde 
fôrão sentidos, viérao a Larache a se prover e, saindo e indo aferrar o 
cabo, vendo vir a caravela d'armada com calma a remo, se viérão meter 
em Tagadarte, por não serem vistas, mas, como a caravela viese anou- 
tecer entre Tagadarte e Arzila com muita calma, se detreminárão dô a 
acometer e envestir, e, saindo do rio, viérão em busca dela e chegando a 
envestírão e começarão a trepar polas enxárcias muitos dos mouros; mas, 
como a grita e rebate foi muito grande e a pancada que as fustas dérão 
[na caravela] ' mór, todos fôrão postos em pé e, acudindo com lanças e 
espadas, se meterão aos golpes com eles, de tal maneira que os tornarão 
a lançar fora, uns nas fustas e outros na agoa, mas como os mouros 
virão o jogo dos nosos ser com fogo, asi de bombas como de panelas de 
pólvora, que já começávão a ir da caravela ás fustas, não quisérão ter 
cometido o jogo ; mas, como a este tempo saltase fogo em um barril de 
pólvora, que no chapiteo da popa estava, pêra dele se encherem as pane- 
las, e fizese grande espanto aos nosos, por levar pêra o ar muita roupa 
e caxas que sobre a rede ^ estávão, e o fogo derrubar muitos homens por 
cima da cuberta, entre os quais foi o capitão Lopo Mêndez muito mal 
queimado, asi do rosto como de úa ilharga, o que sendo visto dos mou- 
ros, parecendo-lhe o dano era mór e não acharíao defensa, tornarão de 
novo a envestir; mas, como o capitão Lopo Méndez andase em pé, ainda 
que mal queimado, e já os bombardeiros em sua ordem, e cada um 
estivese em seu lugar, e a artelharia começase a fazer seu oficio, e o 
piloto Nuno Martinz e seu irmão, que mestre da caravela era, que natu- 
rais de Tavila érão, como dous jigantes, por serem muito grandes de 
corpo e muito valentes homens, andasem pola cuberta e ametade dos 
corpos parecesem por cima do bordo e pusesem espanto aos mouros, por 
o luar ser muito craro, trabalharão por se afastar da caravela, não sem 
muito dano que receberão, levando muitos mortos e feridos e mais quei- 
mados das panelas e bombas de pólvora, mas não se apartarão tão leve- 
mente que não leixárão dous homens mortos, o contra mestre, que Lou- 
renço Vaz Aljofarinho era, irmão de outro, pescador de Arzila, e outro 
homem d'armas da caravela; ouve outros feridos e queimados, e o pior 
tratado foi Lopo Mêndez, por trazer queimado todo o rostro e um braço, 
aos quais ante-menhã lançarão em terra, e Lopo Mêndez foi curado em 
sua casa e visitado do capitão e de toda a vila, donde ele era muito con- 
versavel, e asi fez curar os outros feridos e queimados, e todos fôrão sãos 
e sem algum perigar; e, em tanto que Lopo Mêndez esteve em cura, ficou 
por capitão da caravela o piloto Nuno Martinz, sendo, certo, pêra outros 
maiores cargos ', por sua grande e boa disposição e muita valentia. As 

I. [na caravela] /. A. — 2. rede] rete A. — 3. sendo, certo, pêra outros maiores 



— 140 — 

fustas se tornarão a meter em Larache, donde soubemos irem jurando 
nunca cometerem outra caravela d'armada. 

Outro caso semelhante a este lhe aconteceo a Lopo Mêndez, ainda 
que não foi com mouros, foi com franceses, o qual foi que, durando o 
tempo de sua capitania e na mesma caravela d'armada, partio d'Arzila, 
levando no navio a Francisco Gonçálvez, que por pagador viera aos 
lugares d'Africa, e tãobem por acompanhar a Dom António d'Almeida, 
filho do conde d'Abrantes, que em Arzila sérvio sua comenda, e outros 
navios que em sua companhia ião pêra o Algarve, os quais, indo sobre 
Lepe, dérão com úa nao francesa, a qual os veio demandar, e, por a nao 
vir de julavento, não pode a caravela tanto que não fose envestida e afer- 
rada, e, ambas aferradas, ouve Qa crua peleja entre a nao e a caravela 
de muitas lançadas e picadas e bombas de pólvora ou de fogo, que pa- 
recia que a caravela e nao ardíão em fogo. e estivérão tão aferradas que, 
arfando a nao, travou de úa bombarda grosa e, arrincando-a da carreta, 
dérão com ela no mar, pola portinhola fora. Não deixávão neste tempo 
arcabuzes e bestas a servir, em lugar d"artelharia, até que gastadas todas 
as monições de cima da cuberta, de panelas e bombas de fogo, cada uns 
por sua parte trabalharão ' por se desaferrar, e não faltando muitos ^ que, 
leixando de pelejar, os que ficávão não entendião senão como se apar- 
taríão, tirando primeiro muitas lanças d'arremeso de úa parte á outra, e 
se apartarão com muito trabalho, cortando emxarcias e cabos que fazíão 
estar liada a nao e caravela; e de tal maneira se apartarão que cada ura 
ouve que lhe vinha bem o apartar-se, polo dano que cada um tinha rece- 
bido, porque da caravela ouve quatro homens mortos, e o mestre dela, 
irmão do piloto, valente homem, pelejando, foi pasado de muitas lanças 
d'arremeso, e outros derrubados com bombas de fogo de cima da alcaceva 
á cuberta, e ouve vinte feridos. 

Nesta brava peleja se asinalou Francisco Gonçálvez, pagador, que, 
por ser mercador, não se esperava dele andar por cima da cuberta sempre 
pelejando e esforçando os que pelejávão, e os que ficarão feridos fôrão 
curados e remedeados por ele á sua custa, dando as camisas e roupa, 
pêra se remedearem. Lopo Mêndez, alem de ser outra vez queimado de 
úa bomba de fogo, lhe dérão da popa da nao com um pelouro d'arcabuz 
que, levando-lhe um pedaço do queixo, lhe entrou pola asilha do ombro, 
e, sendo curado do queixo, lhe ficou o pelouro no peito, e dahi a mais de 
um ano o lançou por baixo da teta dereita, sem nenhum trabalho, nem 
risco, nem sem saber que o trazia dentro em si. 

cargos] sendo, certo, muito soficiente pêra isso e pêra outros muitos carregos de grande 
importância B N L M. 

I. trabalharão] trabalhávSo B N L M. — 1. e não faltando muitos] não faltando mui- 
tas lanças d*arremeso de úa parte e da outra, de maneira B N L M, mas f. tirando pri- 
meiro muitas lanças d'arremeso de úa parte á outra. 



— 141 — 

Tãobem se asinalou nesta peleja Afonso Fernândez, do porto de Santa 
Maria, que a este tempo era já honrado e rico e fazia o negocio dos fei- 
tores de Andaluzia, o qual afirmão que com um pique matou ao capitão 
da nao, que, estando na tolda armado, pelejando e mandando, o Afonso 
Fernândez com um pique, que nas mãos tinha, lhe deu um bote que, 
metendo-lh'o polas verilhas, deu com ele [donde] ' não pareceo mais, e 
dizem que a morte deste [capitão] foi causa que os franceses se quise- 
sem [apartar, e asi] se soube que ouve na nao muitos [mortos e feridos], 

apartando-se de tal maneira que não [ ] tiro de úa parte a 

[ a carav]ela ^ desemparada dos outros navios, que, vendo-a 

aferrada com a nao, a desemparárão e se meterão pola barra de Lepe e 
de Aiamonte e se viérão na volta do porto de Santa Maria, donde os 
feridos fôrao curados e a caravela remedeada. 

AlgíJas cousas outras acontecerão por mar, que não conto, porque é 
tanto o cuidado e receio de entrar no grande mar dos feitos do ilustre 
conde do Redondo, receando não saber dar conta das meudezas de seu 
tempo, que desejo já de sair deste valeroso capitão, e por tanto peço aos 
que isto virem não deitem mão de minha ousadia, somente dos casos e 
feitos, pois não me obriguei a mais que, confiando na memoria pola qual 
sou mandado, contase o que em minha lembrança for e em meu tempo 
pasou, não leixando porem de tomar enformação de muitos que comigo 
e sem mim neste tempo se acharão 3; e portanto se acabou ■♦ este livro 
dos feitos que em tempo de António da Silveira em Arzila pasou ^. 



I A última folha de A está parcialmente rasgada na parte inferior. Reconstituímos 
o texto com B N L M, pondo dentro de [ ] o que falta. — 2. apartando-se. . . e a caravela] 
apartárão-se que não ouve mister quem o fizese e a caravela B N L M. — 3. não deitem 
mão... neste tempo se achárãoj não acusem meu atrevimento que é sem letras nem 
esperiencia, mas com um desejo e amor que tenho em as contar porque em algúa delas 
me achei e tomei enformação de muitos que comigo e sem mim nelas se acharão e con- 
fiando em minha memoria o relatar como pasou, que, ainda que não levo o estilo que 
a obra requere, vai na verdade B N L M. — 4. e portanto se acabou] e asi acabei L ; e 
assim se acaba N. — 5. pasou] passarão N. 



LIVRO QUARTO 

Da segunda capitania de Dom João Coutinho 
conde do Redondo' 



CAPITULO I 

De como Dom Duarte capitão de Tanjere veio visitar o conde 
e o que mais socedeo 



PARTIDO António da Silveira e chegado o conde Dom João a Arzila, 
e como Dom Duarte, capitão de Tanjere, soubese sua chegada, 
ordenou de o vir visitar, e, mandando dar ás trombetas, com toda 
sua jente se veio donde mandou dous de cavalo ao conde, de Tagadarte, 
donde chegou, a fazer-lhe saber sua vinda, que lhe mandase barcos em 
que pasase, o que logo foi feito antes de jentar. Dom Duarte e os seus 
viérão á vila, donde fôrão todos agasalhados, como é costume, compe- 
tindo os de Arzila quem mais hospedes levaria a casa. O conde se foi 
logo pêra Dom Duarte, que em S. Francisco foi pousar, e, praticando 
ambos na jente que tínhão, ordenarão a ir entrar, e logo mandarão cha- 
mar os almocadens, Diogo da Silveira e Artur Rodríguez, e asi os de 
Tanjere, que mui honrados e experimentados érao, os quais érão Fran- 
cisco de Meneses e o Almocadem Velho, e asi fôrão chamados os dous 
adais e pesoas antigas e homens do campo: a todos foi acordado de irem 
a correr o campo d'Algarrafa, e com muito alvoroço ordenarão todos 
ferrarem e prover as cevadeiras, mas não tardou em se mudar o conselho, 
polo que acontece© ás atalaias d' Aldeã Velha este mesmo dia, como logo 
contarei. Este dia o conde mandou a Francisco Lionárdez, a quem tinha 
dado cargo de adail, o qual não pode servir por ser mal desposto da 
cabeça, que mandase as atalaias da parte do Rio Doce que descubrisem 

I. Livro quarto. Da segunda capitania de Dom João Coutinho conde do Redondo] 
/. em todos os ms. A matéria deste livro falta nos mss. A L, que são os mais correctos. 
Damos o texto de B com algumas modificações ortográficas, como dissemos no t. 1, 

p. XXVI. 



— 144 — 

a Aldeã Velha e os Barreiros e dése guarda no aroal ' de Tagadarte, o que 
tudo se fez ; mas como fose tarde e na Aldeã Velha estivesem quatro 
atalaias e se quisesem recolher, as duas fôrão fazer erva pêra si e pêra 
seus companheiros, como era costume, e as duas ficarão em seu posto, 
emquanto as duas fazíão a erva até os Codesões e Alecasapo, e vendo 
as duas que ficarão, que érão António Fernândez Alemão e o Pacheco 
de Tanjere, seria horas de despovoar e se virem aos companheiros, [asi o 
fizérão] ' ; mas como sobre eles estivcse Alebenaix, almocadem do Farrobo, 
com sua quadrilha, esperando que fizesem algum movimento de si pêra 
poderem entrar com eles, vendo-os vir polo caminho, travesárSo por detrás 
e se meterão no compaso que vem a Redemoinhos, com tenção de lhe sair 
diante, o que não pudérão fazer, por serem estas duas atalaias homens 
de bom recado, e os sentirão e carregarão sobre os companheiros, que 
já vínhão com seus atambores de erva, e dando-lhe rebate tornarão a 
demandar a estrada, mas quando a ela chegarão já os mouros érão diante, 
e, como bons homens e companheiros, não quisérão deixar o caminho, e, 
metendo as lanças debaixo dos braços, disérão : «Rompamos e pasemos 
por eles», e asi o fizérão, e António Fernândez alevantou um dos mouros 
poios peitos e lhe fez que não tornase ao Farrobo, e pasado do encontro 
de Oa parte a outra não se alevantou mais donde caio, e o companheiro . 
encontrou outro em a adarga, que a ele e ao cavalo fez vir ao chão; com 
a fúria dos cavalos, que bons érão, pasárão por eles, levando muitas tro- 
chadas poios tomarem vivos, e, quando quisérão vingar os que ficávão 
no chão, não pudérão mais chegar a eles e os seguirão até o Palhegal e 
porto das Pedras, mais por tomarem o cavalo do mouro que António 
Fernândez matara, que no tropel das nosas atalaias vinha e veio até a 
vila. Recolhidas estas duas atalaias e o cavalo, que era um potrancão ^ 
ruço que o conde deu ás atalaias, que venderão por doze mil reais, [os 
capitães se tornarão pêra a vila] ♦. O companheiro de António Fernândez 
Alemão, que foi homem de pé do conde, era natural de Tanjere e cha- 
mava-se o Galego, mas seu nome era Pacheco, tãobem muito valente 
homem, fizera esta sorte, que foi de valentes e acordados homens, e asi 
fôrão louvados. 

Tornando aos companheiros, Mateus Fernândez e Bastião Brás, não 
pudérão lançar os atambores de si tão prestes que os mouros não fosem 
diante e os carregarão á várzea do porto de Amelix e do Amame, onde 
se embaraçarão e tomarão a Mateus Fernândez Pescoço; e, como dele 
tivesem lingoa, que o campo andava largo e a jente de Tanjere estava na 



I. aroal] daroal N M. — 2. [asi o fizérão]/. em lodos os mss. — 3. potrancão] potran- 
cão, mas no capitulo 11 duas vejes potrancão B ; /. N, mas no capítulo 11 potrançam ; po- 
trançam; potrãocão e potranquão M. Em castelhano poiranca é: égua de menos de 
três anos. — 4. [os capitães se tornarão pêra a \'úa} f. em todos os mss. 



- 145 - 

vila, fazendo sinal aos companheiros, tomarão caminho dos Barreiros, e, 
asi por esta rezão como por ser tarde, os mouros não tornarão aos Code- 
sos, onde o mouro ficava morto, e ao outro dia foi o adail com trinta de 
cavalo e o achou no lugar em que caio, asi que neste dia perderão os 
mouros um mouro e um cavalo e levarão outro cristão e outro cavalo. 
Vendo o conde e Dom Duarte as atalaias escapar, por tãobem escapar o 
Bastião Eras, por vir diante e tomar o caminho do vale de Jorje Vieira, 
onde veio sair, e verem ser tomado Mateus Fernândez, desarmarão o con- 
selho e ardil que esperávão fazer, e ao outro dia Dom Duarte se tornou 
polo porto do Alfeixe, e o conde foi com ele até as aldeãs do outeiro das 
Vinhas, onde monteamos, e se deu ija boa guarda á vila de muita lenha 
grosa, e asi de muito mel e cera. 



CAPITULO II 

Em que se cóntão algíias visitações 

e como o alcaide de Alcaccre nos armou com almogavares 

e cativou um Álvaro GoticdlvcT 



LOGO que o conde foi chegado a Arzila, os mouros o soubérão, asi 
por Mateus Fernândez, como por cáfilas que os mais dos dias 
vínhão, e, posto que o conde ficou de quebra com o alcaide, como 
em sua partida se contem, tanto que soube de sua vinda o mandou visitar 
e dar o parabém da sua vinda; a qual visitação mandou fazer por Ben- 
ganeme, pesoa muito principal e muito aceito a ele, o qual veio e com 
muita cortesia lhe ofereceo a amizade do alcaide, e que as cáfilas virião 
asi e da maneira que soíão, pedindo-lhe duas azemalas, que o conde 
levou, muito fermosas, as quais o conde lhe mandou por um homem seu 
em companhia de Benganeme, e o alcaide lhe mandou dous cavalos muito 
fermosos, em especial um ruço claro, que na grandura pêra parecer não 
lhe fazia outro algum ventajem. O conde foi mui contente dos cavalos 
e da amizade do alcaide, ainda que não durou muito, por matarem o 
alcaide em Fez, por desastre, como no progreso do ano seguinte se con- 
tará; e asi tãobem mandou o conde outras duas azemalas a Mulei Abra- 
hem, e ele lhe mandou outros dous cavalos, ainda que não fôrão muito 
bons; por Mulei Abrahem este tempo estar em Féz, poderoso, e ser 
cunhado d'el-rei e senhor de Miquinez e justiça maior do rei, de lá o 
mandou visitar por Caroax, seu privado. Mas com todas estas amizades 
a guerra se não deixava de fazer, porque o alcaide nos veio armar com 
almogaveres e, pasando a ponte d'Alcacere de dia, tomou a ponte do 
Soveral, dando vista ao campo, se veio a Mijileo e dahi mandou os almo- 

ANAIS DE ARZILA ig 



— 146 — 

cadcns Zanaca e xeque Bcnaravia que com trinta de cavalo corresem as 
atalaias da Atalaia Alta, se as descubrisem ao tempo de se dar a guarda, 
o que foi asi, que pêra segurança dela o adail, Jorje Lionárdez, (que, por 
seu irmão Francisco Lionárdez não poder servir, pola má disposição da 
ferida que ouve no desbarate de António da Silveira não podia servir), 
querendo dar a guarda, que o conde mandava dar ao ribeiro de Jil da 
Mota, mandou tornar fora do caminho a Afonso Gonçálvez, castelhano, 
que em um potrancao grande e mourisco vinha, o qual ouve no desbarate 
pasado, que, por o cavalo ser grande e Afonso Gonçálvez piqueno, embi- 
cando o lançou fora de si por Qa ladeira abaixo, onde mais morto que 
vivo foi tomado, e o cavalo o viérão tomar no córrego do Malhão, onde 
se veio embaraçar, que se não cairá não o tomarão, segundo o potrancão 
tinha fama de lijeiro. Tomado o Afonso Gonçálvez, foi levado ao alcaide, 
que em Mijileo estava; preguntando por novas do conde e do campo 
diria o que sabia. O noso capitão esteve quedo no monte das Porcas, 
onde Vasco Morgado, companheiro de Afonso Gonçálvez, veio ter com 
ele, e logo o tornou a mandar ao rosto de Tendefe com outro compa- 
nheiro. O conde saio ao repique ao Facho; vendo os mouros no Malhão 
e na Alfarrobeira, se foi aos Forninhos e dali não quis pasar, por que 
alguns dos nosos, que na Ruiva estávão, não pegasem com os mouros, 
que viérão tomar o cavalo. Nos Forninhos teve o conde nova que levávão 
Afonso Gonçálvez, que, por ser rico e abastado, nos pareceo que não 
sairia de cativo, mas ele mandou vender Ga boa horta por cento e cin- 
coenta cruzados, com que ajudou a seu resgate. Estando asi o conde 
com todos nos Forninhos, e o alcaide, que vio que os seus fôrão seguros 
e que não os seguirão, se mostrou em cima de Mijileo, pondo-se em ala, 
dando vista ao noso Facho, posto que de Mijileo á vila ha legoa e meia. 
O conde sintio esta sobrançaria, mas, por ser a primeira vez, mostrou que 
o não sintia; mandou chamar os moços, que fizesem jiesta ao longo do 
ribeiro de Jil da Mota, e ele se deixou estar com toda a jente sobre eles. 
Recolhidos, se veio á vila, e o alcaide se recolheo, levando esta atalaia, 
que era a milhor e mais antiga e a mais abastada. 



CAPITULO III 

De como Jorje da Silveira foi entrar da outra parte da ponte d'Alcacere 
e tomou dons mouros de cavalo 

O conde, porque os mouros lhe tínhão tomado duas atalaias, dese- 
java de tomar alguns mouros, por lhe não terem ventajem, e 
desejava que fosern de Alcacere, por ser o alcaide o primeiro que 
entrara em seu campo; e, praticando sobre isto com Diogo da Silveira, 



— 147 — 

manJou chamar Jorjc da Silveira, outrosi mourisco e guarda que foi da 
Ponte, e, informado bem do que podia fazer, o mandou fora com vinte 
de cavalo, e todos, ou os mais, fôrão homens do campo, como Afonso 
Barriga, Roque Ravenga, Roque de Farão, que visem o que fazia, o que 
foi escusado, porque Jorje da Silveira pasou a ribeira por parte que não 
foi sentido e foi ter a Oria, e em amanhecendo tomou dous de cavalo 
sem rebate, e veio até o meio da várzea, mas depois de aver rebate não 
estivérão de vagar, porque á Ponte se apearão oito de cavalo e tirando os 
paos fizérão um piqueno de lugar por onde pasarem, sem lhe estorvarem 
o paso mais de cincoenta de cavalo; mas, como fôrão pasados, não para- 
rão, nem deixarão de correr até Taurete, sem ninguém vir após eles viérão 
á vila. 

Com estes dous mouros de cavalo foi o conde muito contente e satis- 
feito, por serem de Alcacere, e deles soube largas novas de todo o reino, 
e como o alcaide de Alcacere era chamado; e dezíão que lhe tirávao a 
alcaidaria e a dávão a seu irmão, cide Abeluahed, que o alcaide não creo, 
por ser o alcaide homem muito valeroso e o mais poderoso do reino e 
cunhado de Mulei Abrahem, que era o que o mandava todo; mas os 
mouros dezíão verdade, que era chamado pêra o mandarem a visitar Ga 
cidade doze legoas de Fez, que se avia alevantado contra Mulei Mafamede 
o Torto, filho de Mulei Nacer; estes matarão ao alcaide por seu des- 
cuido e os ter em pouco, mais que por terem forças, nem fazerem resis- 
tência, como logo ao diante direi. 

Os mouros se venderão e repartirão como era de costume, e os almo- 
cadens. sairão a boas partes, e Jorje da Silveira foi mais olhado e favore- 
cido do conde, porque teve em mais estes dous mouros, por serem de 
Alcacere, por estar picado do alcaide; e, com a boa nova que estes 
mouros dérão, o conde deu licença a Diogo da Silveira pêra ir fora, como 
foi, como adiante se dirá e fará menção. 



CAPITULO IV 

Como o cotide deu licença a Álvaro da Cunha que fose entrai' 

e como Diogo da Silveira que foi por almocadem 

tomou gado d'Agoni e dos Liões e do que mais pasou 



TENDO o conde boa nova dos mouros que Jorje da Silveira tomou, 
ordenou que Diogo da Silveira fose fora, e deu o cargo desta ida 
e que fose por capitão a Álvaro da Cunha, fidalgo muito honrado 
que estava por fronteiro e servindo comenda em Arzila, e ficou do tempo 
de António da Silveira, o qual, asi por sua nobreza como por nos reque- 



rer, fomos com ele bem dez de cavalo, e o conde o acompanhou até o 
Rio Doce, aconselhando-o o que avia de fazer, e asi a Diogo da Silveira, 
como nesta primeira entrada de seu tempo se avião de aver; deitando-nos 
a benção em nome de Deos, se despedio de nós, e por noso caminho ordi- 
nário fomos cear á Pedra Alta e, sendo já noite, fizemos noso caminho 
polo Furadouro do Xercao, e pola volta da ribeira fomos esperar a me- 
nhã junto da serra de Benamares, e rompendo a alva a tomamos e por 
ela fomos dar vista ao campo de Meneara, e sobre ele estivemos grande 
parte do dia; e, parecendo a Álvaro da Cunha e a Diogo da Silveira bem 
corrermos, pusemo-nos a cavalo, e, mandando a dous ou três de cavalo 
que com Artur Rodríguez corresem a uns mouros que lavrávão da outra 
parte da ribeira, e ele com todos os mais corremos entre o pé d'Agoní e 
a ribeira, onde se avião visto algúas vaquinhas, ainda que a corrida foi 
trabalhosa e comprida, porque, antes que da serra saisemos, fomos vistos 
das faldras d'Agoní e dando o rebate se levantou mui grande grita, e asi 
da parte de Benagorfate, como da outra parte de Meneara, que nos fez 
correr a todos de má mente, e em especial aos que iamos com Álvaro da 
Cunha, que como não viamos a que correr, como já iamos pola faldra da 
serra, de muita penedia e córregos, fizemos muita detença, o que não 
fizérão os que com Artur Rodríguez ião, que vendo a presa ao olho fôrão 
logo fora da serra e pasando a ribeira fôrão com os lavradores e, pri- 
meiro que pudesem aver a ribeira, tomarão dous deles, dez ou doze bois 
de arado, e os outros mouros se acolherão á ribeira, onde se salvarão, e asi 
fizérão os dous mouros tomados, se Roque [de]' Farão e Roque Ravenga 
não pasárão a ribeira por um porto escuso que eles sabíão e, talhando-lhe - 
a serra, os fizérão tornar á ribeira e largar os bois; mas nós outros com 
muito trabalho e grande corrida, subindo pola serra junto das tranqueiras 
d'Agoni, alcançamos um bom golpe de gado, que já ia recolhido por 
alguns de repique, que os quisérão alargar de má mente, e primeiro fôrão 
dous deles mortos, porque Manoel da Costa e Jorje Vaz Magalhães e 
Simão Vaz Arráiz, que primeiro chegarão, vendo que os mouros recre- 
ciáo e vendo que o daroal era forte e perto, antes que nós chegasemos 
dérão nos mouros, que oito até dez serião, derribando dous deles, e deti- 
vérão o gado, o que fizérão porque já nós outros chegávamos, e, vendo 
os mouros no daroal, recolhemos o gado e pola serra abaixo o trouxemos 
bem depresa, pola grita ser muito grande, que parecia que toda aquela 
terra e serra vinha cheia de mouros de pé; mas eles, vendo setenta ou 
oitenta de cavalo, não ousarão a sair, e nós trouxemos o gado até a boca 
de Capanes, que pasamos, onde nos Artur Rodríguez alcansou, e junta a 
presa seria cento e dez cabeças de gado groso e seiscentas de meudo c 
dous mouros, e com muita alegria começamos a caminhar; mas, como a 

I. [de] /. B. — 2. talhando-Ihe] atalhando-lhc N. 



— 149 — ■ 

noite viese mui escura e de grande enserração e tormenta e agoa, nos deu 
muito trabalho, polo gado meudo não poder andar, por lhe dar a agoa e 
vento de rosto, o qual vinha repartido em quatro ou cinco magotes e em 
cada magote vinte de cavalo e outras vinte rezes grosas; mas, como 
neste tempo tínhao entrado no noso campo mais liões que outros anos, 
fôrão esta noite derredor de nós tantos que em cada córrego ou ribeiro 
se punhão diante de nós e nos fazíão remoinhar o gado, não ' prestando 
a grande grita que faziamos, dizendo uns aos outros: «Guarda lião, 
guarda lião, cá vai á mão direita, lá vai á mão direita!» e com este tra- 
balho pasamos o Xercão e a Pedra Alta; mas, como fomos entre a Pedra 
Alta e Aldeã Velha e fose serra alta e rasa e sem área, nos enleamos de 
todo polo vento e chuiva que nos dava no rosto, e o muito escuro que 
fazia, e os almocadens por ija e outra parte achasem córregos não sou- 
bérão aonde estávao, remoinhando nos posemos ao redor do gado, com 
o vento e chuva nos dar nas costas; mas os liões, vendo o gado quedo e 
nós outros mais asosegados e sem a grita que trazíamos, nos acometerão, 
e algum mais ousado saltou entre o gado e, deitando os braços e unhas 
em úa vaca das milhores e mais gorda, como tem de costume não dei- 
tarem mão senão do milhor, fez a vaca dar grandes berros e ao outro 
gado fojir e espalhar-se e romper por entre nós e os outros mais liões, 
que tornou a se vir - como dantes. 

Contei esta almogavaria e o que nos aconteceo com os liões, porque 
não ha cousa que nos não aconteça, especialmente na guerra e caça, onde 
soem acontecer casos estranhos, que sendo este animal o mais fero e forte 
das alimárias, e por iso chamado rei delas, e tão real que até este tempo 
não se vio fazerem dano a pesoa que o não ofendese ou anojase, que 
muitas vezes os topávamos asentados e no caminho, falando-lhe rijo se 
alevantava ou asentava, dando-nos a entender que podíamos pasar segu- 
ros, e asi o fazíão arredando-se dele, mas como neste ano, em que vou 
falando, e no de trinta e trinta um até trinta dous ouvese no noso campo 
muitos e os porcos andasem tão atalaiados e sobresaltados se guardávão 
deles, e a fome os fez desenvergonhar e nos cometer e tomar o gado. E 
neste tempo nos aconteceo outras cousas com eles, como foi matar um 
lião António Vezugo, estando [antre] ' setecentos cristãos de cavalo, como 
logo no ano de trinta um direi, quando nos ajuntamos com a jente de Tan- 
jere, quando ao socorro veio, que se perderão os filhos de Dom Duarte. 
E neste tempo se lançou outro lião na cava de Arzila, por comer quatro ou 
cinco porcos que nela andávao, e, do que é mais de espantar, tornar a 
sair, tendo trinta e cinco ou corenta palmos de alto, que, como fose sen- 
tido e do muro lhe desem grande grita, deshonrando-o de vilão, e que 
não sairia dali e seria morto e pagaria a ousadia que teve em entrar na 

I. não] mas B. — 2. se vir] servir NM. — 3. [antre] /. B. 



— i5o — 

cava, o que muito é de notar, que, vendo e sentindo a grita do muro, não 
quis comer os porcos, por não se fartar* e depois de farto não poderia 
saltar o porto que saltou, tornando-se a sair da cava, e, pêra o poder 
fazer, se subio no cano que atravcsa a cava, por onde vai a agoa [á] ' Aça- 
caia, e tantas vezes provou a saltar que pegou as unhas nas pedras e cantos 
de cima, e tanto afirmou que saio fora; e oje em dia estão as unhas afir- 
madas e asinadas nos cantos do alambor % e estas riscas e sinais das unhas 
deste lião parece, por a pedra de Arzila ser arisca e da calidade das mós 
de barbeiro. 

São os liÕes quando estão famintos tão leves e soltos que com quatro 
saltos não ha um cavalo que lhes fuja ; mas, depois de fartos e cheios de 
carniça, fícão pesados em tanta maneira que se não podem bolir e por 
iso com pouco trabalho se mátão. Esta experiência temos feito muitas 
vezes em o noso campo, que, topando lião que avia feito carniça, muito 
frouxamente se defendia e os matávamos ás lançadas, e outros esfaimados 
tão leves e soltos que, ainda um de cavalo se fazia prestes pêra lhe arre- 
mesar, já ele estava prestes a o receber. 

Asi que, tornando a nosa almogavaria de Álvaro da Cunha, posto que 
não foi de grandes partes, fartou a vila de carne, porque, posto que os 
liões matarão muita parte da carne e gado, no sangue tivérão que gastar 
a parte da noite, até nós outros chegarmos a eles e os fizemos meter na 
ribeira do Freixo, donde o conde andou um pedaço do dia na calma, por 
comprazer aos fidalgos que com ele érao; mas, como pareceo mais nece- 
sario dar aviamento que a carne viese á vila, que não pôr a risco algum 
fronteiro ou morador, deixou a ribeira e se veio a Aldeã Velha a recolher 
os seus. 

CAPITULO V 

Como Diogo cia Silveira tomou ires mouros e duas egoas 



POSTO que as almogavarias são riscosas e de muito perigo, desêjao 
tanto os homens de andar nelas e as seguir que peitão e contêntão 
os almocadens, pêra que quando fazem rol os pônhao nele, e isto 
polo proveito grande que delas se tira, e os capitães, por averem o quinto 
do que trazem, e por saberem nova e terem lingoa, e saberem como e 
em que tempo se hão de guardar e dar o proveito á vila ou cidade em 
que são capitães, mui levemente dão as licenças aos almogavarcs, quando 
lh'a pedem ; por estas causas Diogo da Silveira tornou fora depois desta 
almogavaria, que atrás fica, na qual ida levou cincoenta de cavalo, todos 

I. [á] /. em todos os mss. — 2. alamborj atambor B. 



— i5i — 

moradores, e o ardil que levou era lançar-se em íãa estrada ou caminho 
por onde pasasem os que fosem ao soco ou feira que aquele dia se fazia, 
e, estando nesta cilada, pêra tomarem os que polo caminho pasasem, viérão 
ter com eles cinco mouros que de Alcacere vínhão, e, saindo-lhe, tomarão 
os dous que em cima de suas egoas ião, e dos três que logo se lançarão 
por um córrego ou barranco abaixo tomarão um, e os dous se salvarão \ 
dando grandes brados, atroarão toda aquela serra d'Alião, e Diogo da 
Silveira se saio bem depresa, trazendo os três mouros e duas mui boas 
egoas, as quais o conde ouve e as mandou a seu cunhado, Dom Pedro 
Mazcarenhas, a Alcacere do Sal, e os mouros érão de Benamares e dos 
principais daquela aldeã, e em especial um mancebo, chamado Aco Nijar, 
que o doutor Duarte Rodríguez ouve; e porque não tardou muitos dias 
que seu pai ajuntou vinte e quatro de cavalo e veio ao campo de Arzila 
pêra tomar Ga atalaia, pêra por ela tirar seu filho, e nesta vinda se perdeo 
e ficou cativo com os mais dos outros que em sua companhia vínhão, — 
fiz menção deste mouro, pêra o que ao diante se contará dos almogave- 
res, que logo adiante se perderão, e tãobem porque um primo deste mouro 
se fez almocadem, e, por ser muito cavaleiro, nos fez muita guerra, como 
ao diante, no tempo de Dom Manoel e do conde Dom Francisco, direi. 
Tornando a nosa almogavaria, tomados estes três mouros e duas 
egoas, nos pusemos no campo e, pasado a ribeira, fomos sentidos dos de 
Cambaia ', que ainda não tínhão rebate, posto que nós o trazíamos nas 
costas, e, vindo ao longo da serra demandar Sinete, ouvemos vista de um 
golpe de gado que pola serra acima levávão, ao qual corremos, mas não 
pudemos chegar a ele, por o levarem muitos mouros de pé, e dentre eles 
sairão cinco de cavalo que pola serra abaixo nos trouxérão asaz apresados, 
e foi necesario fazermos úa volta, na qual achamos alguns de pé que nos 
pusérão as lanças e ferirão a Manoel da Costa e a Gaspar Fernândez, e 
asi outros dous cavalos; e, quando fomos com Diogo da Silveira, demos 
graças a Deos, que Diogo da Silveira não correo, nem nós o fizemos com 
sua licença, e o conde quisera tirar as partes da cavalgada aos que cor- 
remos sem licença do almocadem, e nô-las teve mais de ura mês; e Artur 
Rodríguez, posto que sempre ia com Diogo da Silveira, pedio licença e 
foi correr ao Farrobo e tomou um atalhador de cavalo. 



I . Cambaia : este nome ocorre aqui pela primeira ve^ e parece-nos alterado. 



l52 



CAPITULO VI 



Como el-rei noso senhor Dom João o terceiro 
mandou fa^er as estrebarias pêra o ifante Dom Luis pasar 



NESTE ano de trinta mandou el-rei a Arzila por feitor e veador das 
obras a Baltesar de Novais, e que se fizesem quantas estrebarias 
coubcsem e pudesem dentro na vila, por todas as partes, lugares 
vazios ; e por este rejimento se fizérão muitas e bem fornecidas de argolas 
e manjedouras e cadeas de ferro pêra prisões, e largas, em que podíão 
caber mil cavalos, e nas da vila outros tantos e maÍ3, de maneira que 
tínhamos sabido que poderíão caber dentro da vila dous mil de cavalo, 
sem dar opresão aos moradores, e tãobem entre o mar e o baluarte da 
Couraça se podia agasalhar muita jente e cavalos, e ficávão muito seguros. 
Por estas mostras e sinais que viamos, tinhamos por mui certo a pasada 
do ifante, que Deos tem, a Africa, principalmente nesta vila de Arzila; 
e um Manoel Homem, cavaleiro fidalgo de sua casa, amigo de um mer- 
cador de Arzila, que se chamava Paulo Majolo, lhe vendeo cavalo e peças 
de jeneta, pêra estar apercebido; e, por o ifante não ir e ir com o empe- 
rador Carlos V, seu cunhado, a Túnez, lhe pagou o cavalo e peças. 

Tãobem os cavaleiros de Xerez de la Frontera, alvoroçados com esta 
nova, lhe mandarão oferecer pêra pasarem com ele mais de cento de 
cavalo, sendo movedor deste oferecimento Gonçalo Pérez de Galegos, 
cavaleiro dos principais daquela cidade, asi por ser abastado e ter renda, 
como por ser curioso a se achar nos casos onde podia ganhar honra e 
servir a el-rei, noso senhor, como pareceo nas vindas que a Arzila fez, 
asi no socorro, quando matarão a Dom Manoel de Meneses, e quando 
veio ao desafio, em tempo de António da Silveira, — pois este nobre cava- 
leiro, alvoroçado com a nova da pasada do infante, veio logo a Arzila a 
ver-se com o conde e dar ordem na vinda dos cavaleiros de Xerez; e tão- 
bem cometeo ao conde que dése ordem como saquease Alcácer Quibir e 
que ele faria vir de Xerez ' cento de cavalo, parentes e amigos seus, e á 
sua custa traria quinhentos ou seiscentos soldados, ao que o conde não 
saio, por não fazer feito com jente que el-rei não pagase ; mas este ofere- 
cimento escreveo o conde a el-rei e ao ifante, e eles lhe escreverão em 
agradecimento de sua boa vontade e serviço com palavras de muita honra, 
e desta vinda, que Gonçalo Pérez veio a Arzila, ficou em grande amizade 

I. e que ele faria vir de Xerez] e quem ele faria vir de Xerez e tãobem cometeo ao 
conde que dése ordem que ele faria vir B M. 



— i53 — 

com Dom Francisco, filho do conde, que foi por governador á índia; e 
levou desta Arzila três cavalos das suas egoas, que as tinha muito boas, 
e os cavalos, a quem as deitasem, comprados a dozentos e a trezentos 
cruzados, e de Arzila mandou levar um cavalo por que deu cento e oitenta 
cruzados a Jorje Pírez, almoxerife, pêra as suas egoas, e era potro de 
quatro anos. 

Falei em Gonçalo Pírez, ainda que é fora da historia e ordem que 
levo, por vir tantas vezes a Arzila e estar nela este tempo em que vou 
falando, e ter feito muito serviço a el-rei, noso senhor, asi no socorro dos 
lugares de Africa, como em favorecer e agasalhar feitores d'el-rei e capi- 
tães e fidalgos portugueses que àquela cidade ião ter, e por ser ura dos 
vinte e quatro que a rejíão. 



CAPITULO VII 

De como os do F ar robô e de Alcacere 
tomarão cada iim sua atalaia 



TORNANDO á lembrança que levo e ás couas que neste ano de trinta a 
guerra de Arzila deu, começando nos almogaveres do Farrobo, 
sendo o mais principal e favorecido Alebenaix, asi por sua pesoa, 
como por ter feita muita guerra em Tanjere, onde foi cativo, e por ser 
seu ardil o do dia de Corpo de Deos, em que Lourenço Pírez de Távora 
foi cativo e seu irmão Álvaro Pírez morto, como íica contado, — pois na 
entrada deste ano de trinta, Alebenaix com sua quadrilha do Farrobo 
tomou úa atalaia de Arzila, que, sendo atafoneiro e tendo casas e atafonas 
que lhe dávao de comer, se fez cavaleiro e atalaia, e oje é vivo e mora 
em Aiamonte ; pois Alebenaix com sua quadrilha se veio lançar no porto 
das Pedras e, saindo as atalaias, lançou fora do caminho a este atalaia e, 
tomando-o, se recolheo polo mesmo porto das Pedras e se foi em salvo 
ao Farrobo, e depois o levou a Xexuão a cide Alele, que por Mulei Abra- 
hem era alcaide, e desta maneira os de Alcácer Quibir nos correrão duas 
vezes, mas não que pasasem, nem decesem [da] ' Atalaia Alta de Tendefe, 
onde úas vezes por serem descubertos, outras por as atalaias lhes fujirem 
a unha de cavalo, se tornarão sem fazerem dano; mas, como porfiasem 
e continuasem, tomarão a Jorje Gômez, ao qual sairão da cilada de Artur 
Gòmez e o lançarão fora do caminho e o fôrão tomar na praia das Fur- 
nas, donde os mouros, que após ele fôrão, não se podíão salvar se alguns 
de cavalo fôrão após eles; mas como o adail andase recolheito, posto que 

I. [da]/. A. 

ANAIS DE ARZILA 20 



- i54 - 

claramente conheceo que vínhão após da ' atalaia, e seu companheiro 
Álvaro de Sousa tornar logo a tomar o rosto de Tendefe e capear rijo, 
chamando alguns de cavalo que favorecesem ao companheiro, o que se 
não pode fazer, posto que ao rosto de Tendefe fôrão ter alguns de cavalo, 
que da parte da atalaia do Mar lavrávão, os quais, vendo que os mouros 
que Jorje Gômez leváváo ião sobindo por Alhazana acima, fôrão dando 
vista até o Malhão de João Mialho, desejando que o adail, que no monte 
das Porcas estava com mais de trinta de cavalo, fose ter com eles, — vendo 
que não fazia movimento, e que o conde parou [á]^ Atalainha das Palmas 
e não fazia movimento de ir por diante, se deixarão ficar e viérão ter com 
o conde e lhe disérão que levavao Jorje Gômez, e que se recolherão por 
entre o Cabo Branco ^ e Alhazana e fôrão demandar [a] ■* aldca de xeque 
Naçar. Por este recolhimento tão largo conheceo o conde que não tínhão 
costas, e dise que bem conhecia que se poderíão alcançar meia dúzia 
daqueles almogaveres, mas ele folgava muito de não aventurar trinta de 
cavalo, e que encomendava muito que não ouvese homem que falase era 
ir trás almogaveres, que por nenhiía causa castigaria um adail, ou qual- 
quer outro homem, senão por fazer um desmancho, e mandou ao adail 
que mandase outra atalaia por Álvaro de Sousa e dése sua guarda do 
ribeiro de Jil da Mota a dentro, [e] ^ se recolheo á vila. 



CAPITULO VIII 

Como João Va\ se foi tornar mouro e iim Jilho e um moço 
e o conde mandou espias fora 



DUAS rezões ouve que obrigasem ao conde mandar espias fora : a úa 
foi ir-se ura morador de Arzila tornar mouro, que avia norae João 
Vaz Maio, e era natural deTaviia'' e dos principais mareantes dela, 
e, por ser curioso de armações de redes e naças, depois que saio de Ta- 
vila, viveo em Olva e no porto de Santa Maria, onde usou por trazer redes 
de caçar " ; e [por]^ perder o dinheiro veio a morar em Arzila com sua casa, 
molher e filhos, e tinha ura barco de cinco remos era que andava a pes- 
car, asi e da maneira que outros quatro ou cinco barcos que estávão em 
Arzila o fazíão; o qual João Vaz o tinharaos por rauito fraco e covarde 
no serviço d'el-rei, e no que os capitães mandávao rauito fraco e negli- 



I. da] de B; a M. —2. \à]f. B. —3. Branco] Biama BM; Biana N. —4. [a] /. B. 
— 5. [ej /. em todos os mss. — 6. Tavila] Arzila B. — 7. caçar] casoar M. Cremos que se 
deve ler: redes de cações. — 8. [por] /. em iodos os 7iiss. Não temos a certeza de ter 
interpretado bem este passo. 



— i55 — 

jente, que, quando os capitães o mandávao que com seu barco fose a 
Tagadarte e aigúas outras partes, que convínhão a serviço d'el-rei e do 
capitão da vila e da republica, as mais das vezes refusava e se tornava 
dando escusas, o que eles dezíão que o fazia por má inclinação e mao 
propósito e inclinação' que tinha; e, com ter isto, era homem quieto e sose- 
gado, e vivia por sua industria de pescaria e trabalho. Ora veja todo o 
fiel cristão os enganos do demónio, que tão astuto e sagaz é por tantas 
vias e modos, de maneira que por suas manhas era conhecido ser enca- 
minhado polo demónio, que, encarregando-o os capitães, por ter barco, 
em ir aos lugares que convinha pêra aver aviso ou descubrir algúa cilada, 
de tudo se escusava ; e, quando não tinha escusa, depois que era no mar 
com seu barco, sempre buscava escusa, que não fora por o tempo que o 
não deixava, e asi outras escusas muito claras que de homem neglijente 
e perigoso nas cousas que convínhão á fé; e asi parece que com a mu- 
dança da fé mudou a condição e fez-se um liao contra sua natureza, 
cometendo cousas contra toda a rezão, indo a Castela e ao Algarve, seu 
natural, com seu barquinho, onde tomou muitos cristãos, e depois em 
fusta, com as quais idas e entradas fez muitas presas e dano na costa do 
Algarve, como adiante se dirá, e a causa que teve pêra se tornar mouro, 
e, o pior de tudo e pêra mais se omiziar, levou no barco um seu filho, 
moço de treze anos, e o tornou logo mouro, e o moço, não o querendo 
ser, o vendeo e foi cativo três vezes, e é um valente homem do mar e 
andou em galés de turcos; e o vendeo ao alcaide, e deixá-lo-emos até seu 
tempo. 

Porque o dia que se foi com seu barco, filho e moço, veio Benga- 
neme, alfaqueque de Alcacere, com recado do alcaide asentar o modo das 
vindas das cáfilas, que se avia de ter de ambas as partes, e o concerto 
feito Benganeme se partio, com o qual o conde mandou um homem seu, 
pêra que na primeira cáfila tornase com úa cáfila de galinhas e outra de 
frangãos, mas ele tardou tanto que bem se pudérão comprar galinhas e 
criar frangãos, depois que em Alcacere esteve, e isto polo alcaide ir a 
Féz, e lá morreo, como adiante se dirá. 

Tanto que a cáfila partio e Benganeme, logo João Vaz se achou menos, 
e sua molher não soube mais dizer senão que disera que de noite avia de 
pescar com a rede, e que aigúas vezes dezia ao moço que levou, que se 
chamava Francisco, filho de um ferreiro, que avião de ir úa noite de 
bonança encher um barco de lingoados. O conde logo dise que fora 
tomado de alguns mouros. Logo aquela noite o conde mandou chamar 
alguns homens do campo, em que foi Artur Rodríguez e Roque Ravenga 
e Vasco Morgado e outros até dez, e lhes rogou que quisesem aquela 
somana ir fora, porque lhe parecia que avião de entrar almogaveres, por 

I. inclinação] condição M. 



— i56 — 

terem lingoa de Benganeme c de João Vaz, e que ele lhe faria os alforjes, 
o que o conde fez, e eles com suas cevadeiras e borrachas prestes pera 
toda a somana, posto que todos avião de vir á vila, tanto que as atalaias 
ouvesem fala delas e ficasem em seus postos; e muito alegres se despe- 
dirão do conde e se fôrão fazer prestes pera sairem em tocando a vela 
d'alva, e avião de ir ás Atalaias Altas, onde toda a somana que Benga- 
neme ali esteve na vila as Atalaias Altas em tocando a vela '. Mandou 
mais o conde ao adail que disese ás atalaias que, pois mandava escutas 
fora pera os asegurar, tivesem bom recado em si e não tomasem os 
postos sem primeiro averera fala das espias, que a seu través avião de 
estar; depois de seguras não deixasem sua atalaia, nem consentisem pasar 
pesoa algúa por elas, e se visem monteiro ou desmando desem rebate, 
porque não queria que lhe tomasem homem, e com esta ordem ficou con- 
tente e satisfeito, e lhe dava na vontade que avia de tomar Qa quadrilha 
de almogaveres, e desejava que fose de Alcacere, mas outros da serra 
tirarão aos de Alcacere deste perigo, por madrugarem mais. 

Tornando ás nosas espias, que começarão a fazer seu oficio, indo ama- 
nhecer a través das atalaias e á vista das ciladas, onde pudesem ver se 
algíía jente se metia nelas, e tãobem seu lugar era em parte onde pudesem 
aver a vila e dar recado sem serem vistos, nem sentidos, aconteceo que 
a segunda menhã, que da vila sairão, Vasco Morgado e Vicente Fernân- 
dez virão entrar na atalaia vinte e dous de cavalo, e, vendo-lhe o cabo, 
que não érão mais, ordenarão que Vasco Morgado ficase sobre eles pera 
ver se entrávão mais e vir com recado; e, com este concerto, partio Vi- 
cente Vaz e, polo córrego dos Atambores abaixo, veio demandar o porto 
das Pedras e, atravesando a várzea, veio ter ao vale de Jorje Vieira e 
vindo ao Rio Doce, dando recado ás atalaias, e que fosem de vagar, veio 
á vila, que logo foi alvoroçada com nova d'almogaveres entrados ; e o 
conde, posto a cavalo, saio pola porta da Ribeira e se pôs no Rio Doce, 
onde, rodeado de todos, ouve conselho, como lhe armaria. 



CAPITULO IX 

Como o conde tomou e matou vinte e dous almogaveres 



PRRiMEiRO contarei donde estes almogaveres érão. Atrás contei como 
um dos três mouros que Diogo da Silveira tomou na estrada, o 
mancebo era de Benamares e tinha pai e parentes. Vendo o pai 

I. onde toda a somana... em tocando a vela: este passo está alterado e não o 
soubemos reconstituir. 



-i57- 

estar o filho cativo, desejando vê-lo libertado, requereo a seus parentes e 
amigos que viesem com ele a tomar Ga atalaia, pêra por ela tirar seu 
filho de cativo. Ajuntou vinte e quatro de cavalo, tomando por guia e 
almocadem um seu sobrinho, que avia nome Alhocem ■ Nijar, que por 
andar em companhia de Amelix e de Alebenaix sabia bem o campo e era 
e é= mui valente cavaleiro; e com estes vinte e quatro se veio a meter 
na cilada dos Bairos, onde as espias os virão, e dérão novas ao conde 
onde ficávão. 

Tanto que o conde teve nova polas espias, cavalgou e foi dar ao Rio 
Doce e, pasada a agoa, chamou Diogo da Silveira e Artur Rodríguez, 
almocadens, e a Fernão Caldeira e a Pêro López, escrivão, e outros dos 
mais antigos, e em publico dise como os almogaveres estávao na cilada 
dos Bairos, e a ele parecia que não tínhão costas, nem érão mais, porque 
o alcaide de Alcacere não avia de atravesar todo o campo pêra armar 
aos Barreiros, tendo Aldeã Velha, Alfomar e Atalaia Alta. Da jente de 
Tetuão se não temia, e aquele dia, Deos querendo, determinava de os 
ensoar e correr até o Farrobo; e, acabando o conde de falar, ordenarão 
que com o adail Jorje Lionárdez fosem vinte cinco ou trinta de cavalo, 
os quais tomasem a várzea do '' Amame, de dous em dous e de três em 
três, como homens erveiros, que ião fazer erva, decendo polo vale de 
Jorje Vieira e dos Borrazeiros, e se fosem ajuntar á fonte do Amame, e 
que dali saisem aos almogaveres, quando viesem após as atalaias; e, pêra 
que estes homens que ião com o adail fosem mais encubertos, os guiase 
Artur Rodríguez, e que nenhum levase capacete, nem adarga, e se ia 
levávão-na enrolada; e, porque o adail não podia sair senão de rosto, 
onde não podia fazer senão muito dano, e os nosos corríão muito risco, o 
conde mandou Diogo da Silveira que com outros trinta de cavalo, que 
logo apartou, e com ele mandou por capitão Álvaro da Cunha, por lh'o ele 
pedir, vendo que nos apartava, e logo fomos apartados trinta de cavalo; 
e, despedidos do conde, Diogo da Silveira tomou o caminho d'Alfandequim 
e, por bai.xo do Pontal e Canaveeira travesamos a várzea e pasamos o 
porto d'Alfandequim, poios córregos do Adail fomos atravesando com o 
rosto em Alimaxuns, onde ouvemos vista de dous de cavalo, que os mouros 
deixarão na atalaia do Pedregal sobre a trilha, os quais dous mouros nos 
dérão a entender que ainda as nosas atalaias não érão chegadas aos Bar- 
reiros, nem os mouros lhe tínhão saido ; e, estando sospensos e esperando 
que eles despovoasem, as vimos arrancar pêra os seus, que já ião fojindo 
e fora do perigo, onde avião deixado ametade dos companheiros. Como 
chegasem a os descubrir, João Conde, atalaia, que, posto que aquele dia 
não fose dos Bairos, pedio ao conde o deixase descubrir, por ser homem 
sem medo e ter bom cavalo e de recado, e soube trazer os mouros trás 

I. Alhocem] Alhasem B N. — 2. é] de B. — 3. do] de B. 



— i58 — 

si até os chegar á fonte do Amame, onde o adail e Artur Rodríguez 
estávão, — pois João Conde chegando, e vindo enlevados dérao de 
rosto com o adail, o qual lhes saio com tanta fúria que logo fôrão derri- 
bados seis ou sete dos que diante vínhão, e o primeiro que derribou 
mouro foi João Conde, que, como descubrio os do adail, virou e levou o 
dianteiro na lança e o pôs no chão, asaz mal ferido ; e, como logo carre- 
gasem sobre ele pêra o matar, Artur Rodríguez o defendeo, dizendo-lhe 
que não ouvese medo, que ele era Alataix e o segurava, que disese a 
verdade : chegou-se a ele, dizendo que não érão mais que vinte e quatro 
e não avia mais jentc. Artur Rodríguez dise aos companheiros que fosem 
até o Farrobo, que não era mais jente que almogaveres, e ele ficou com 
o mouro e o trouxe ao conde, que, vendo d'Alecasapo arrancar os seus, 
com sua jente cerrada foi demandar o porto do Amame e, tomando 
lingoa do mouro que Artur Rodríguez trazia, ficou desabafado e contente, 
e gabou muito a Artur Rodríguez trazer o mouro e tomar lingoa, e dise 
logo que por o adail Fernão Galego não fazer o que Artur Rodríguez fez 
se perdeo com tantos homens e fidalgos, como atrás fica contado. 

Pois tornando ao adail que atrás dos mouros tornara: quando fôrao 
em cima na atalaia dos Bairos, ametade dos mouros érão derribados e os 
mais mortos e cativos, e porque da fonte, donde o adail saio, era ladeira 
acima e os mais dos nosos cavalos dérão o fôlego do trabalho, que não 
podíão ir atrás, nem adiante, de maneira que catorze mouros de cavalo, 
que não correrão abaixo, ficarão com os cavalos inteiros, e de tal maneira 
se sairão dos nosos que, quando chegarão ao Pedregal, ião sem perigo e 
sem nenhum dos do adail, e, parecendo-lhe que ião já salvos, se acharão 
salteados, vendo-nos á sua ilharga ; e como Diogo da Silveira vio os dous, 
que sobre a trilha estávão, decer e correrem pêra se ajuntarem com os 
seus, que polo caminho vínhão, parecendo-lhe que nos víão e que ião dar 
rebate aos seus, dizendo que corresemos, arrancou a eles, e asi o fizemos 
todos, e quando ouvemos vista deles érão já mais avante de nós, levando 
o rosto entre Alimaçus e Benamares, e estendemo-nos após eles e em 
pouco espaço fomos com eles, e os primeiros que a eles chegarão foi 
Simão Vaz Arráiz e Jorje Vaz Magalhães e outros e eu autor de volta. 
Entendendo os mouros que queríamos dar neles, nos ganharão pola mão, 
voltando todos de golpe e com grande grita, parecendo-lhe que lhe vira- 
semos as costas, mas, como nos achasem seis de cavalo juntos e de capa- 
cetes e adargas, os mais pararão, não ousando dar em nós, e somente 
dous adargados fôrão os que chegarão, e um deles deu a Simão Vaz úa 
lançada na adarga e outro ficou pasado das nosas lanças, e os outros se 
tornarão ajuntar e fazer seu caminho. Com esta pouca detença, que 
nesta piquena volta fizérão, nos engrosamos, chegando Álvaro da Cunha, 
Diogo da Silveira, e logo tornamos a chegar a eles, derribando outros 
dous, e os acabamos de derramar de todo, porque Simão Vaz. pondo o 



— iSg — 

rosto no mouro que a lançada na adarga lhe deu, rompeu por eles e o 
encontrou e mal ferido o pasou de úa parte a outra, e o mouro pôs a 
lança em Jorje Vaz e Jorje Vaz o empuxou de tal maneira que com outra 
mortal ferida o pôs em terra. Vendo o mouro que Simão Vaz tornava 
com a lança d'alto se acolheo a Jorje Vaz, pedindo-lhe que o não mata- 
sem e tomasem vivo e ficando ambos embaraçados com este mouro; os 
outros fôrão rotos e todos mortos e cativos, sem se salvar mais que um 
só a cavalo, destes catorze que lhes parecia irem salvos, posto que alguns 
da companhia do adail ião em seu alcance, mas ficávão tanto atrás que 
não pudérão chegar a' ele, posto que correse até Alicototo, que é a entrada 
da serra de Benagorfate. Nós outros da companhia de Álvaro da Cunha, 
despojando os mouros que morrerão, com cinco ou seis vivos e doze 
cavalos nos recolhemos pêra o conde, que á fonte do Pedregal nos foi 
tomar, trazendo outros tantos, de maneira que de vinte e quatro não esca- 
pou senão um de cavalo, que por ter bom cavalo escapou, e o adail ou 
almocadem a pé, o qual, como fica dito, arrancando após João Conde, se 
lançou por um barranco abaixo e o cavalo embicando o lançou de si e ele 
ficou a pé, e, pondo os olhos em Alecasapo, vio sair o conde com seu 
guião e jente e, parecendo-lhe que tinha armado, se lançou fora do 
caminho e se meteo em um cardai, onde ficou sem nenhum dos nosos o 
ver, nem entender nele. Este Alhocem Nijar, que aqui escapou, foi depois 
muito bom almocadem e nos fez muita guerra, como em tempo de Dom 
Manuel Mazcarenhas direi. 

E com esta vitoria o conde se recolheo com catorze ou quinze mouros 
vivos, em que veio Omar Nijar, pai do mancebo e autor desta quadrilha, 
que, parecendo-lhe que vinha a buscar resgate e remédio pêra tirar o 
filho de cativo, ficou ele e os mais de seus parentes cativos e mortos. 
Nesta tão grande desconsolação não lhe faltou vir ter a casa do doutor 
Duarte Rodríguez por compra, onde estava o filho, e dando-lhe fianças 
ao resgate seu e de seu filho o deixou ir a buscá-lo, e o ajuntou e pagou; 
mas primeiro que fose forro vio a seu sobrinho, Alhocem Nijar, cativo em 
Arzila e em poder de Lopo Mêndez, que era a casa do pior cativeiro que 
avia em Arzila. 

E porque falei no mouro que foi pasado de duas lançadas, úa de Si- 
mão Vaz e outra de Jorje Vaz, por secretos de Deos veio a sarar, e Jorje 
Vaz e Tomé do Rego o comprarão e servindo ás somanas as casas; 
estando na de Tomé do Rego, um domingo á tarde, ouve úa enxada á 
mão e matou duas molheres e um moço e se deitou em um poço e se 
afogou, donde foi tirado e por justiça arrastado e entregue aos rapazes da 
vila, pêra o apedrejarem; o demónio tem tanto poder que milhor ficara 
no campo morto e que o comerão os adibes, mas o que está ordenado 

i.[a] eBNM. 



— i6o — 

não se pode escusar. O conde foi recebido este dia dos da vila com 
muita alegria e festa, pola vitoria e mercê que a ele e a nós fez. 



CAPITULO X 

Como o conde tomou outros almogaveres d'Álcacere 
que pasárão pola barca de Larache 



MUITO contente entrou o conde na vila por trazer a presa que trou- 
xemos, por serem os almogaveres os milhores e mais cavaleiros 
de Benamares e do Farrobo e Benarróz, e fez curar os feridos, 
e ao outro dia, que foi Ga quinta feira, até domingo de Ramos, se ven- 
derão os mouros, segurando-os a cavalgada e curando á custa dela; e, 
estando no leilão, chegarão três mouros de Benagorfate, parentes de 
Diogo da Silveira, que vínhão saber os que érão vivos e mortos: fôrão 
bem recebidos do conde e lhes deu licença que andasem e falasem com 
quem quisesem, o que eles tivérão em muito e lho agradecerão, rogando 
a Deos pola vida de tão bom homem e capitão. Diogo da Silveira os 
agasalhou e banqueteou, e, estando-sc asi pêra se irem com a nova que 
vínhão saber, logo a sesta feira, estando o conde no leilão do despojo, o 
sino começou a repicar, e, desfeito o leilão e posto a cavalo, o conde foi 
no P^acho e dele pasou aos Forninhos, onde lhe trouxérão um cavalo de 
um mouro bem selado e bem guarnecido, e soube como do Malhão sairão 
quinze ou dezaseis de cavalo e viérão até abaixo de Tendefe, trás o 
Caraujo, que era atalaia, e Diogo Carneiro, e que um mouro cairá do 
cavalo e o cavalo era aquele, que trouxérão por vir no tropel das atalaias, 
e pasárão o ribeiro de Jil da Mota, onde o tomarão, e que o mouro ia 
nas ancas de um dos companheiros, e que se ião todos acolhendo polas 
Furnas abai.xo. O conde como tinha nova dos mouros tomados, que o 
alcaide de Alcacere era em Larache, e que, estando garamando da parte 
das Alagoas, teve novas de João Vaz Maio ser em Larache, e, porque 
tinha mandado comprar úa fusta a Bélez, se foi a Larache pêra com João 
Vaz praticar na guerra do mar, e parecendo-lhe que os almogaveres vínhão 
por seu mandado e que com eles lhe poderíão armar, e que se os almo- 
gaveres tinhão o alcaide em Mijileo ou em Alfandux que os que ião pola 
praia das Furnas avião de tomar e demandar Alhazana e o arife ' da Ata- 
laia Alta, e com muita presa mandou ao adail mandase descubrir a Atalaia 
Alta e ver os mouros que pola praia ião o fundamento que levávão, e, 

I. arife] arrecife N. Arrife seria melhor. Vem no Novo Dicionário da lingua por- 
tuguesa do sr. Cândido de Figueiredo. Significação incerta aqui 



— i6i — 

como o Malhão foi descuberto, o conde deu a o andar com a jente da 
Farrobeira, onde teve nova que os mouros ião pola ponta do Cabo Branco. 
O conde apartou vinte de cavalo com Artur Rodriguez e o mandou que, 
dando costas ás atalaias, fizese descubrir Mijileo e a Mezquita, que está 
da outra parte do Cabo Branco, e ele esperase ao pé da Atalaia Alta até 
estas duas ciladas serem descubertas, e, depois de descubertas e tomados 
os postos, donde se temia, de se andar ao porto da Palmeira e seguise 
os mouros até Larache, que ele tinha nova que o alcaide não se temia 
dele, nem de sua jente, e que tanto que o vise abalar da Atalaia Alta ia 
já após ele ; e com esta ordem Artur Rodriguez deu a o andar, e, descu- 
berto Mijileo, por cima da aldeã do xeque Naçar, foi dar vista sobre a 
Palmeira, e, não vendo cousa pola praia, por serem os mouros já pasados 
a Barrosa Grande, tomando um troto pasou o rio de Çael polo porto da 
Palmeira, e, tomando atalaia sobre a Barrosa, os vio ir pola praia á boca 
de Benamourel, e, dando-nos recado, partimo-nos direitos á boca de Bena- 
mourel. Quando saimos á praia, os vimos ir diante de nós, e tão lonje 
que nos pareceo que os não poderíamos alcansar, mas, como a maré era 
cheia e eles tínhão caminhado pola área solta, fomos tão prestes com eles 
que nos espantamos e eles mais, e deitarão culpa a fartarem os cavalos 
da agoa no córrego da Mezquita, por onde pasárão, e depois a área solta 
os cansou de maneira que, pasando Belgeles, fomos com eles, mas iamos 
tanto á longa e cansados, e eles tão juntos e cerrados, que não podíamos, 
nem ousávamos entrar com eles até nos não engrosarmos, e o primeiro 
que fizérão, tanto que nos virão, lançarão o mouro, que levávão nas 
ancas, de si, o qual se foi meter em úa carriceira sobre a praia, e polo 
rasto ' do ervaçal, o ^ fomos depois tomar. Os mouros fôrão asi até 
chegarem a um córrego que se faz quando se deixa o caminho da praia, 
que se toma o de cima. Diogo da Silveira, parecendo-ihe que os mouros 
desejávão averem aquele córrego, que é de grandes brenhas de muito e 
forte canaveal e daroal, no qual, deixando os cavalos, se embrenharíão, 
como fizérão, antes que ao córrego chegasem, apertamos tão rijo com eles 
que nas lanças levamos dous deles e os outros virarão e dérão em nós, 
na qual volta nos ferirão dous companheiros, mas deles ficarão logo ali 
quatro, dous mortos e dous vivos, era que ficou cativo um primo d'el rei 
de Féz, que, por ser muito amigo do alcaide, o viera ver e, sem sua 
licença, veio a esta almogavaria, como adiante direi. Taobem aqui ficou 
Aleborgote ^, criado de cide Naçar e filho do Borgote que morreo no 
desbarate de António da Silveira, que foi o que primeiro morreo naquele 
desbarate; e porque deste Borgote, que aqui foi tomado, se fará depois 
larga menção, por ser muito cavaleiro e leal a seu senhor, cide Naçar, 
[não digo nada] *. 

I. rasto] rosto M;/. este passo N. — 2. o] e o BNM. — 3. Aleborgote] Alegrobote B. 
— 4. [não digo nada] f. em todos os tnss. 

ANAIS OE ARZILA 21 



l62 

Pois vendo os mouros mortos e cativos os principais, c que nós outros 
cngrosavamos, e que a praia ia cheia dos nosos, porque muitos do conde 
se apartarão dele, tanto que nos virão pasar a Barrosa Grande, e Diogo 
da Silveira era já connosco, desembaraçados os mouros de nós outros, 
todos juntos se lançarão no córrego que já dise, deixando os cavalos e 
metendo-se polo canaveal e daroal, e três somente, com os cavalos polas 
rédeas, sobirão a ladeira que se faz do córrego pêra cima, o que tãobem 
fizérão alguns dos nosos, e o que primeiro subio trás eles foi Roque 
Ravenga e João Vaz Grajao ' ; mas nós outros, como os cavalos tinhão 
dado a f é e não se podíão bolir, nos pusemos derredor do córrego, e 
outros entrarão por ele, cortando canas e mato, fôrão fazendo caminho, e, 
com a matinada que fazíamos, sairão de lá dous grandes liões, e, pondo 
os olhos em nós, se fôrão paseando, sem nenhum entender com eles, antes 
ficávamos amedrentados, por nenhum dos nosos cavalos poder dar paso ; 
contudo do córrego se tirarão três mouros e outro se matou, e tãobem 
se salvarão nele três ou quatro mouros, entre os quais foi um filho de 
Benganeme, pajem do alcaide, e deixou um cavalo grande e honrado da 
pesoa do alcaide, que se chamava Alaroz. Os que pasárão o córrego 
seguirão os três mouros até a barca, onde matarão um deles, e os dous 
chegarão á borda do rio, onde já estávão mais de oitenta mouros de pé 
que, tomando o rebate, se lançarão ás barcas de dous navios que no rio, 
de Cáliz ^, estávão, á ponte d'area, onde salvarão os dous mouros, que se 
vínhão acolhendo de nós outros, os quais chegarão tão cansados que já 
os cavalos não se podiao mover, e asi os nosos, que, depois de recolhidos, 
vendo João Vaz Grajao' já perto e que o cavalo se não movia atrás, nem 
adiante, remeterão a ele os de pé, ao qual Simão Vaz Arráiz e Roque 
Ravenga e Simão de Matos acudirão e, muito de vagar, ás contoadas, 
retirarão o cavalo de João Vaz e o trouxérão até o daroal, ura tiro de 
bombarda do rio, e ali se ajuntarão alguns, que todos eles não se podíão 
bolir, e, muito de vagar, se recolherão ao córrego, onde o caminho vem 
demandar a praia; e, recolhidos cinco mouros vivos e doze cavalos, viemos 
buscar o mouro que na carriceira ficou, o qual polo rasto do ervaçal 
fomos dar com ele, tão mal tratado da queda e da cabeça que muitas 
vezes estivemos pêra o alancear, por se não poder ter a cavalo, nem vir 
a pé ; mas como chegasemos ao conde, por estar na Barrosa Grande, 
onde nos foi esperar, que são duas legoas e meia da vila, e o meio do 
caminho de Larache, onde mandou pôr em cima de um dos cavalos ao 
mouro e outro nas ancas pegado a ele, e asi o trouxérão, e o conde o 



1. Grajao] Grajão B N M: ocorreu já na p. 92, /. 26. Correcção incerta. — 2. Cáliz] 
Cadiz B N. O sentido parece ser este: dous navios de Cáliz que no rio [de LaracheJ 
estávão. — 3. Grajao] Graja B M; Grajão N. 



— i63 — 

ouve, e depois se tornou cristão e se chamou João Coutinho, e é vivo, 
forro e casado, e serve de comprador á senhora condesa do Redondo. 

O conde se recolheo mui contente, por não perigar nenhum dos seus; 
vindo á vila, fez curar os feridos, entre os quais era um sobrinho de Pêro 
de Meneses, que asi ferido se tornou cristão e se chamou João de Mene- 
ses, e logo no mês de maio seguinte nos deu úa aldeã, alem de Alcacere, 
por nome Algorfa, onde se fez úa honrada cavalgada, como se dirá em 
seu lugar. O conde foi este dia recebido com cruzes e procisão, por 
duas vitorias tão perto úa da outra. Os mouros fôrão vendidos e o 
conde ouve Aleborgote e o parente d'el-rei, Dobedu, por dozentos mil 
reais, do qual ouvérão ' pouco proveito e perderão ' o dinheiro que por eles 
dérão ', por se irem e os levar a ele e a outros nove mouros um criado do 
conde, que tinha cargo da mazmorra do conde, em que entrou o Ale- 
borgote e Ornar Querquí, como adiante se dirá. Foi a vinda destes 
almogaveres pola barca de Larache. Era o alcaide chamado d'el-rei de 
Féz, como tínhamos por nova em Arzila, pêra el-rei lhe dar Teza ^, que é 
úa das principais alcaidarias do reino, e dávão Alcacere a seu irmão, cide 
Abalualecorese, que durou a ser alcaide até o despejo de Arzila, e des- 
pejada lh'a dérão, e a quis antes que Alcacere, e, sendo alcaide dela, 
matou Dom Pedro de Meneses, filho de Dom Duarte de Meneses, capitão 
de Tanjere, e depois desbaratou e matou Luis de Loureiro e a Luis da 
Silva, capitão de Tanjere, como em seu tempo se dirá. 

Pois sendo o alcaide chamado, quis visitar a terra e arrecadar a gar- 
rama que se lhe devia, e, andando da parte das Alagoas, que são entre 
Larache e Mamora, soube como João Vaz era em Larache, e em pesoa 
veio logo a Larache polo favorecer, e, sabendo a tenção de João Vaz, que 
era;ser mouro e omiziar-se, com levar [o]^ filho e o moço que já dise, o quis 
levar a Alcácer pêra com maior honra o fazer mouro ; e porque, antes de 
vir a Larache, este Mulei Jasem f, primo d'el-rei, Dobedu, lhe tinha pedido 
licença pêra vir correr Arzila e tomar úa atalaia, e ele lh'a tinha dado, 
parecendo-lhe que por Larache era mais escuso, apertou com o alcaide o 
deixase vir, o que o alcaide consentio, e, por a jente ser pouca, não levou 
mais de dezasete de cavalo, dos quais escaparão os dous, que já dise, e 
três a pé, e asi se perderão quinze cavalos e onze ou doze mouros, seis 
mortos e os outros vivos. Estando asi escarmentados os mouros e nós 
outros quietos e sem rebate, aproveitamo-nos do campo. Avia gastado 
o tempo em contar como cada um correo e o que lhe aconteceo, e, por- 
que isto é jeral nos lugares de Africa, deixo de contar quantas presas, 
diferenças, até brigas, nos semelhantes dias acontecem, e porque nesta 

I . Estes verbos deviam estar no singular, tuas todas as três cópias os empregam no 
plural. — 2. Teza] tença BNM. — 3. [o]/, em todos os mss. —4. Jasem] Jacem M. Este 
nome parece estar aterado. 



— 164 — 

corrida se salvou um filho de Benganeme c se lhe tomou um cavalo, que 
por ser de Benganeme se chamou asi, até que um lião o tratou mal e 
ficou com úa perna grosa e não igual a outra. 



CAPITULO XI 

Da morte do alcaide de Alcacere 
e como se tornarão cristãos dons negros 



MUI quebrados ficarão os mouros por estas duas quadrilhas de almo- 
gaveres, que se perderão úa após outra e nos dérão lugar a que 
nosas atalaias não fosem tantas vezes corridas, e tãobem o conde 
esteve quedo e não mandou almogaveres fora, trazendo suas atalaias 
largas, dando suas guardas a lenha e erva, e isto por não virem cáfilas, 
nem ter novas de nenhúa parte, nem o homem que o conde mandou com 
Benganeme polas galinhas e frangãos não era vindo, por esta detença e 
polo que os mouros disérão que o alcaide era ido a Féz, como os mouros 
disérão, mas não pasárão muitos dias que fomos fora desta duvida e se 
soube a verdade, porque a dez dias do mês de maio viérão dous negros 
jenofos ■ a Arzila, que d'Alcacere fojírão, tornar-se cristãos, os quais dérão 
nova que o alcaide cide Amete Laroz era morto, e que o matarão em 
Teza, donde el-rei de Féz e Mulei Abrahem, seu cunhado, o man- 
darão. 

A causa de sua morte foi que tinha el-rei dado a seu primo, Mulei 
Mafamede o Torto, a Teza, que era a milhor alcaidaria do reino, por 
ser úa cidade grande e fértil, e está dez legoas de Féz e dezasete de 
Bélez de Comera; e esta cidade é agora o estremo dos turcos que tem 
Bélez ^. Esta alcaidaria deu el-rei a Mulei Mafamede por seus serviços, 
especialmente quando os filhos de Mulei Boaçum cometerão a tirar seu 
pai da torre onde o el-rei tinha preso, como já fica dito no tempo de 
António da Silveira. Pois sendo Mulei Mafamede alcaide de Teza, por 
mandar matar um dos principais xeques da serra, os escandalizou de tal 
maneira que se pusérão em armas e lhe não quisérão obedecer, e foi 
necesario que pêra os asegurar o tirasem de alcaide, e se deu aquela 
alcaidaria de Teza ao alcaide de Alcacere, o qual, confiado em sua pesoa 
e cavalaria, que tudo tinha, se quis ver com os rebeldes ; e, ao tempo de 
falar com eles, recrecendo palavras roins, que não ha siso que baste, nem 

I. negros jenofos: povo da Senegámbia. Rui de Pina chama-lhe Galoí na Crónica 
de D. João II, cap. 32. Os franceses chamam-lhes Yolofs oti Ouolofs. — 2. Bélezj Be- 
fes BM; Bofes N. 



— i65 — 

sofrimento, vindo ás armas, o alcaide foi derribado e pasado de Ga lança 
de arremeso de que morreo. O alcaide não levava jente, e ia de paz 
acompanhado de alguns parentes seus, entre os quais era um moço cris- 
tão, natural de Tanjere, filho de um Álvaro Barroso, hortelão, o qual, 
estando em Arzila negoceando o resgate deste filho, o matarão os mouros, 
vindo da vinha de Luis Machado. 

Este moço, António, se criou com cide Talha, filho do alcaide, e 
aprendeo a ler e a escrever em arábigo, e o trazia o alcaide a cavalo con- 
sigo, e este dia de sua morte lhe levava a lança e adarga; e, vendo o 
alcaide derribado, se pôs diante dele, acusando e doestando aos mouros 
que avião posto as mãos em tal pesoa, e que todos avião de ser mortos 
pola tal ousadia. Dizem que com a lança encontrou um dos xeques e pôs 
tanto medo neles que amedrentados se acolherão, sem se fazer outro dano 
algum, o qual vendo o alcaide e o amor deste moço, António, dise diante 
dos seus, sendo ferido, que tal criação, como a de António, poucas vezes 
se veria, e mandou a seu filho, cide Talha, que se quisese ser mouro que 
como irmão o tratase e amase, e que se o não fizese que o mandase a 
Arzila sem resgate, o que se fez asi, porque mostrou sempre ser cristão, 
e cide Talha o mandou depois a Arzila em cima de um bom cavalo e bem 
guarnecido de sua pesoa, bem tratado e vestido de bedem, e dinheiro, e 
o conde o recolheo e o tomou por seu e se sérvio dele de lingoa e escu- 
deiro, e depois em Portugal o deu a el-rei, noso senhor; e em Qa briga 
ou arroido que os criados do conde ouvérão foi ferido, donde se lhe causou 
a morte, não tendo culpa. De sua morte foi o conde anojado e o sintio 
muito, por sua bondade e mansidão ; asi fôrão em Arzila todos os que o 
conhecíão. 

Trouxe esta morte e a deste alcaide por ser pesoa com quem tínhamos 
continua guerra e muito noso conhecido, e a causa porque tirarão um tal 
capitão de Alcacere e o matarão sem batalha uns bárbaros serranos por 
somente descuido e confiança; e de Arzila nos tirarão um grande e 
manhoso adversário, posto que outro tal nos ficou em seu irmão, polo 
tempo que nos fez a guerra até noso despejo, o qual nunca fez desordem, 
nem desmancho, e fazer sortes grandes, como já tenho escrito. 



— i66 — 



CAPITULO XII 



Como Dom Duarte capitão de Tanjere se ajuntou com o conde 
pêra ir tomar iía aldeã ao campo de Alcacere e o que mais lhe aconteceo 



TORNANDO á nova que os negros trouxérão, tanto que ante o conde 
fôrão e lhes fez pregunta, disérão que o alcaide grande era ido a 
Fez e que lá o matarão os mouros da serra; o conde fez ajuntar 
a conselho os principais e mais antigos da vila e os almocadens, a saber, 
Diogo da Silveira, Artur Rodríguez e Jorje da Silva, e, praticada a nova 
que os negros dávão da morte do alcaide, de que os outros alcaides nosos 
vezinhos estávão em suas casas, os quais érão cide Alele, primo de Mulei 
Abrahem, que em Xexuão era alcaide, e Benjija em Jazem, e o alcaide 
de Alcacere estava com o sentimento da morte do irmão, e por todas 
estas rezões ao conde lhe pareceo bem entrar e mandar chamar a Dom 
Duarte a Tanjere, e ambas as bandeiras irem tomar úa aldeã, ija legoa 
alem de Alcacere Quibir, a qual lhe dava o sobrinho de Pêro de Meneses 
que se tomou nos almogaveres de Larache, e ainda neste tempo estava 
em cama, de Ga lançada da qual esteve á morte; e, polo que se fazia facil 
a tomada daquela aldeã, por estar asentada em terra chã, desejava o 
conde tomá-la ; e os inconvenientes que pêra iso ouve fôrão muitos, os 
principais foi não darem dela fé Artur Rodríguez, nem Diogo da Silveira, 
nem Jorje da Silveira, mouriscos, mas ela era a que o mouro dezia, por- 
que, depois que fui em Alcacere, a vi e saberia ir a eia e levar jente, se 
Arzila estivese em noso poder, e a tomar, como a tomamos, por o caminho 
ser por o campo de Alcacere sem córrego e muito chão, nem ribeira que 
estorve ir a ela, e está parecendo de Alcacere, por estar em cima de um 
outeiro raso, e no meio dela está Ga figueira grande, que de lonje parece, 
que só este sinal abastava pêra levar a ela os que a não sabião. 

Asentou o conde a ida, e, por Dom Duarte ser mui escrupuloso, e 
aventurava estar fora de Tanjere cinco dias ou seis, o conde, pêra o mais 
satisfazer, mandou Artur Rodríguez que com dous de cavalo fose tomar 
úa lingoa, asi por ver se concertava com os negros, como por ser mais 
fresca ; e, como foi noite, mandou a Fernão López Mexia levase Ga carta 
a Tanjere com a nova que tinha, rogando-lhe quisese vir, o que Dom 
Duarte logo fez, que, tanto que vio a carta, mandou ferrar e fazer prestes 
e dar ás trombetas, e á meia noite saio de Tanjere, caminho de Tagadarte, 
onde veio amanhecer, e, achando os barcos da vila, foi logo pasado com 
toda sua jente; chegarão a Arzila, descansarão e comerão até vespora 
tanjida, e as trombetas tocarão e todos fomos a cavalo, tomando a benção 



— lõy — 

do prior e agoa benta; saimos da vila perto de quinhentos de cavalo e 
fomos cear á fonte do Zambujeiro, duas legoas da vila, e, como cearão 
os capitães, caminhamos por Alhadra, e, pasando a ribeira de Taliconte, 
chegamos ao porto d'Algarrafa, onde nos detivemos pêra o pasar todo o 
mais da noite, por trazer muita agoa e o acharmos roim, e foi necesario 
estarem dous homens na vea d'agoa, e fazíão caminho aos que pasávão, 
dando-nos a agoa polas certas; e detivemo-nos tanto em o pasar que era 
já quasi menhã, e asi pareceo que era ardil desmanchado, por não ficar 
tempo pêra podermos chegar á aldeã [e fazer tudo o que todos desejá- 

vão] ' 

* e dar-se a ordem á repartição da cavalgada, o que se 

fez desta maneira: das almas tomou o conde seu quinto, polas avaliações 
que érâo feitas, e as egoas e poldras e asnos, cavalos se venderão a lei- 
lão, e o gado foi avaliado por nós os que fomos partidores, pondo boi e 
vaca no que juntamente vahão, e feita a soma das arrobas, que pasárão 
de onze mil, das quais tomarão o quinto pêra o conde, das milhores que 
parecerão [a]^ António Rodríguez, seu veador, que, como acondesa estava 
em falta de vacas, destetou as milhores pêra leite ; e, como era em maio 
e estávão todas paridas, os mais dos bezerrinhos se perderão no caminho, 
e muitos fôrão mortos e em quartos trazidos. Ficarão desta cavalgada 
d'Algorfa em Arzila mais de mil e dozentas rezes, as quais saimos a 
trinta e nove o homem de cavalo, e valeo a arroba entre nós a tostão e 
no açougue a dous reais e meio o arrátel; e asi darei fim a isto, o qual 
se fez a doze dias de maio de mil e quinhentos e trinta anos. 



CAPITULO XIII 

Como Alebenatx com sua quadrilha de almogaveres 
cativarão a Artur Rodrigues e Bastião Va\ e Artur Orti:[ fujio 



NÃO pasárão muitos dias que não viese a festa do Corpo de Deos, 
a qual se solenizou como tinhamos de costume fazer-lhe Ga solene 
procisão com toda a jente, e por ordem todos os baluartes tirávão 
toda a artelharia até tornar á igreja, que era de São Bertolameu. Este 
dia em esta procisão sairão os da Couraça com Ca dança, de que era 
autor Artur Ortiz, cavaleiro e muito bom homem, indo emmascarado e dis- 
farçado á mourisca, guiando a dança, com o que deu muito gosto á jente, 

I. [e fazer tudo o que todos desejávão] f. AN. — 2. ...] grande branco em B e á 
margem esta nota: aqui falta. Falta, de /acto, a narração do assalto á aldeã. Em M 
falta o branco. — 3. [aj /. B N M. 



— iG8 — 

mas aquele mesmo dia á tarde lhe aconteceo tomarem-no os mouros, com 
que se tornarão a entristecer todos os da vila, e foi desta maneira. 

Saindo as atalaias a descubrir, como é costume, sendo descuberto a 
atalaia d'Alfandequim e a do porto das Pedras, Artur Ortiz, que com 
elas ia, se foi ao longo da praia e com vontade de ir até o rio de Taga- 
darte, buscando algum atum, de muitos que aquele tempo dão á costa; 
mas Vicente Vaz e Bastião Vaz, atalaias, que aquele dia érão d'Alfande- 
quim, vendo a determinação de Artur Ortiz, com cobiça se concertarão 
que Vicente Vaz fose á sua atalaia e Bastião Vaz fose com Artur Ortiz, 
e partisem o que achasem pola praia. Concertados ambos, pasárão o rio 
de Brias e, com o afogamento que ninguém fose trás eles, dérão a o andar 
ao longo da praia, sem descubrirem a aldeã de Brias, onde estávão vinte 
e cinco de cavalo do Farrobo e de Xexuão e Tetuão, e por almocadem 
Alebcnaix e Mafamede lunes, os quais, vendo-os ir ao longo da praia, 
lhes sairão diante e de trás, tomando-os no meio, sem nenhum poder 
bulir. Tanto que os tivérão rendidos e deles saberem que o conde ficava 
na vila, com eles se fôrão caminho do Farrobo, mas não foi sem rebate, 
porque Vicente Vaz, atalaia d'Alfandequim, vio sair os almocadens e deu 
rebate, e asi avia outros que ião trás deles, buscando o que eles acharão 
se os mouros esperarão que eles pasasem o rio de Brias. Dado o rebate, 
saio o conde a repique e não parou até o Tojalinho, onde sabia que o 
rebate era, e do Tojalinho se foi a Alfandequim com todos os seus; e, 
antes que a Alfandequim chegase, soube que érão perdidos Artur Ortiz 
e Bastião Vaz, e dise: «Praza a Deos que não sejam mais os perdidos, 
que bem sabia eu que estes atuns avião de custar caros, polo desmando 
que vai» e, com muita presa, mandou a Vicente Vaz e a João Português, 
sogro de Artur Ortiz, que com muita presa pasase o porto d'AIfande- 
quim e fose dar vista á aldeã de Digo Fernândez, donde a várzea de 
Tagadarte parece toda, parecendo-lhe que os podia atalhar com trinta de 
cavalo, o que se não fez, porque os mouros, tanto que ouvérão tão boa 
presa, como fôrão aqueles dous de cavalo, sem mais parar fôrão demandar 
o porto da Lama, pêra se deles aproveitarem se depôs eles fosem, e, não 
vindo quem os seguise, ao longo do rio fôrão pasar á Pontinha e pola 
outra parte fôrão demandar Almarjacamar, e por detrás do Farrobo se 
fôrão a suas casas, e nós outros com o conde nos recolhemos á vila com 
muito descontentamento, por a perda destes homens. 

Era Artur Ortiz natural de Tanjere e seu pai e ele fôrão criados do 
almirante Dom Lopo de Azevedo, e ficou em Tanjere Diogo Ortiz o 
tempo que foi capitão o almirante cm Tanjere ; sairão Artur Ortiz e seus 
filhos tão bons cavaleiros e homens que merecerão ser criados de tal casa 
€ senhores. 



— lôg — 



CAPITULO XIV 



Como eirei de Fé:{ correo Arzila e Tanjere 

e não fe\ nada por ser sentida sua vinda por a desctibrir Artur Orti\ 

que vinha fujindo de cativo 



NÃO pareça que saio fora do fio da historia, em não contar logo o que 
aconteceo o tempo que Artur Ortiz esteve cativo até que fujio, 
que fôrão de maio até setembro, que, por o ter entre mãos. o 
contarei sua fujida, e logo tornarei ás alraogavarias que neste tempo se 
acontecerão. Os almogaveres que tomarão Artur Ortiz e Bastião Vaz os 
levarão a cide Alele, alcaide de Xexuão, que por Mulei Abrahem nele 
estava, e, sabendo quem Artur Ortiz era, o mandou pôr a bom recado; 
mas, como ouvese de se vir ajuntar no noso campo com el-rei e Mulei 
Abrahem, o mandou levar a Tetuão e que o entregase a Citalforra, alcai- 
desa e senhora dele, e porque tinha parte nele ; e, posto que o caminho 
não é muito comprido, que serão até cinco legoas, foi-lhes forçado dor- 
mirem em úa aldeã no caminho, e, como o hospede os banquetease aquela 
noite com vinho, vendo-os Artur Ortiz esquentados, como era vivo e 
astuto, e a necesidade que aviva os espiritos, tirou alguns vintenzinhos 
que, como cativo, tinha escondidos, e deu-os ao hospede que mandase 
comprar mais vinho, e trazendo-o se raeteo com eles, de maneira que, 
cantando ao modo dos mouros e dando-lhes de beber, os fez cair sopas 
e dormirão carregados de sono e vinho; e asi dérão lugar a que Artur 
Ortiz, que o sentido neles tinha, que fizese um buraco com as mãos por 
debaixo da porta, por onde coube e se lançou fora com os ferros nos 
pés, os quais atarracou com pedaços do fato que ele cobria, e com a 
camisa se meteo pola serra, pondo as costas em Ceita, onde os mouros 
tínhão que avia de ir demandar, e, furtando-lhe a volta, tornou a pôr o 
rosto no campo de Arzila, onde avia dez ou doze legoas de brava e teme- 
rosa serra, e assinalando de dia o que avia de andar de noite. Esteve 
quatro dias primeiro que ouvese vista do campo e teve tão bom tino que 
a cabo das quatro noites veio demandar entre Benarróz e Benamede, e 
aquella derradeira noite veio sair ao noso campo, e de súbito veio dar 
com grande murmúrio de jente, por onde conheceo ser o arraial d'el-rei, 
que ao longo da Ribeira Grande e Arez estava asentado, e, afastando-se 
dele e do noso campo, veio a entrar por Algarrafa, e da outra parte de 
Benagorfate e de Benamares veio dormir á boca de Benamede, pêra ao 
outro dia entrar no campo de Tanjere; e conhecendo ser o arraial d'el-rei, 
pola nova que trazia de cide Alele ter ferrado e ser partido e vir-se a 

ANAIS DK ARZILA 22 



ajuntar com Mulci Abraliem e com el-rei, e afastando-se o mais que pode 
veio demandar o rio d'Algorrif'e ', entre o porto d'Alfandequim e o das 
Pedras, sendo já alto dia quando ao rio chegou, onde esteve esperando 
que as atalaias d'Alfandequim e Alicasapo descubrisem e segurasem; e, 
tanto que as vio seguras, se lançou no rio a nado e o pasou, e, atrave- 
sando a várzea, foi visto das atalaias d'Alfandequim, e logo Qa delas, que 
era seu vezinho, o foi demandar, e, lomando-o nas ancas do cavalo, foi logo 
sobre o vale ^ de Jorje Vieira e deu logo um bravo rebate, pêra que as 
atalaias não fosem por diante e o campo se não alargase. 

Tomado o rebate e o repique na vila tudo foi um. O conde, no Rio 
Doce, lhe pedirão alvixaras, que Artur Ortiz era salvo, fujindo. Dise o 
conde a Vasco Gômez : «Por duas cousas vô-Ias darei: a Qa por a nova 
de Artur Ortiz, e a outra por o rebate ser falso» que tanto folgava e não 
se escandalizava, quando lhe dezião que era falso o rebate; mas, quando 
soube de Artur Ortiz como fujira e que achara a jente em arraial, e que 
era el-rei polas novas que trazia, não lhe pareceo falso e recebeo a Artur 
Ortiz com muito prazer e gasalhado, e a nova que lhe dera d'el-rei lhe 
deu credito, polas cáfilas tardareiji, e logo mandou recolher o campo e 
se veio á praia, onde fez prestes um barco e o mandou a Tanjere, o qual 
foi a salvamento e deu a carta a Dom Duarte do conde; e, recolhendo 
seu campo, os mouros correrão e não fizérão dano, e tãobem o conde 
mandou tirar cinco bombardadas, pêra sinal de Tanjere se guardar, á boca 
da noite, por serem milhor ouvidos os tiros, e de madrugada outros 
cinco, os quais sendo ouvidos dos mouros, que aquela noite entrávão no 
campo de Tanjere, ordenarão que Mulei Abrahem correse a Tanjere e 
el-rei a Arzila e ambos em um dia; e, tornando a el-rei, se veio deitar no 
Palhegal, sobre o porto d'Alemoquique, parecendo-lhe que, por ser o gado 
muito, fose pasar as lombas do Corvo e, primeiro que o recolhesem, 
pudesem pegar nele, antes que pudese entrar pola tranqueira do Facho; 
mas seu cuido ' foi em vão, porque o conde cavalgou com toda a jente 
e mandando tomar as atalaias do Corvo e da Ruiva e do Mar, e, man- 
dando levar o gado á Fonte Santa, o trouxe rodeado até a tarde. El-rei, 
vando que da parte do Rio Doce, nem do Corvo não pareceo cousa viva, 
e que as atalaias do Corvo estivérão a cavalo, por não serem salteadas, 
não quis correr, e, sendo tarde, se recolheo encobrindo-se, por não ser 
visto, e se tornou ao Xercao, onde tinha seu arraial. 

Neste recolhimento se veio pêra nós um elche castelhano em cima de 
um cavalo, e por ele soubemos como Mulei Abrahem correra a Tanjere 
aquele dia e el-rei estivera no Palhegal, c que deixara de correr por ver 
o campo recolhido, e que lhes pareceo que o conde lhe tinha armado, e 
que arreceara que, ao pasar do porto d'Alemoquique, dése nele e, ma- 

I. Algorrife] Algarife R N M. —a. vale] valo B. — 3. cuido] cuidado N. 



— lyi — 

tando-lhe algúa jente, se recolhese pola Pontinha, o que se podia mui bem 
fazer, pola ribeira estar forte e a tranqueira da Pontinlia forte e cerrada 
com facho; e asi dise que lhe parecia que ao outro dia nos correria da 
Atalaia Ruiva. Com esta nova que este deu, o conde ficou contente em 
ter tão certa nova, parecendo-lhe que não podia aventurar mais que úa 
atalaia, e mandou dobrar as velas e roídas, visitando-as e correndo o 
muro, e ao outro dia pola menhá, amanhecendo o barco que fora a Tan- 
jere no recife, soubemos como a jente correo e não fez dano, por Dom 
Duarte andar recolhido e ao redor do seu gado. 

Tornando a el-rei que ao Xercao se recolheo, com acordo e vontade 
de ao outro dia nos correr da Ruiva, onde é mais perto, e não nos dar 
lugar que lhe armasem, e com esta determinação e vontade se veio deitar 
na Atalaia Gorda, que é entre o Facho e a Atalaia Ruiva, e está um tiro 
d'espera da vila, onde esteve esperando que o fosem descubrir. O conde 
[não quis] ' dar portas % que saisem da vila, e muito de vagar ouvio misa 
e foi comer e depois se pôs a cavalo, e tudo afim de os enfadar na cilada, 
que esperar é um grande enfadamento, e, sendo entre as hortas de Fero 
Afonso e as do doutor Duarte Rodriguez, apartou o adail Jorje Lionárdez 
com trinta de cavalo, mandando-lhe que estivesem no F'acho e favorece- 
sem as atalaias que fujindo viesem, e que pois tinha nova certa ser el-rei 
que lhe queria ter acatamento, por ser sua pesoa e escusar toda a pen- 
dência, e que de não receber dano se contentava, por ser a primeira vez 
que el-rei o vinha visitar; e contudo isto o desejo e vontade do conde foi 
ao contrario do que ele cuidava, porque, apartado o adail e as atalaias, 
foi tanta a agoa que choveo que as atalaias não pudérão ir por diante e 
o adail não pode pasar do Facho, e nós, que com o conde estávamos aos 
valos e canaveeiras do doutor, não pudérão estorvar que não nos ensopase 
tudo quanto tínhamos e de tudo correse agoa, e os caminhos érão ribei- 
ras; e vendo João Conde e Vasco Morgado, atalaias, que o jiro daquele 
dia era seu a descobrir a Atalaia Gorda, e a agoa não escampava, dérão 
a o andar com tenção de se porem na Atalaia Gorda e nela esperarem 
até que o dia aclarase e fizese outro movimento, e, querendo João Conde 
atopetar e tomar a Atalaia Gorda, a jente que detrás dela estava em 
cilada lhe saio com tanta presteza e fúria que a guarda e a atalaia da 
Palma e do Lião todas érão cubertas com jente; e, como até o Facho 
todo é úa carreira de boa terra chã, João Conde e seu companheiro se 
pusérão em pouco espaço no Facho e se mesturárão com o adail, o qual, 
vendo a jente ser muita e que pegávão com ele, se meteo dentro da tran- 
queira e, não se contentando os mouros de lhe fazer deixar o taboleiro 
do Facho, se meterão na tranqueira, e os empuxávão e trouxérão até a 
tranqueira do Meio, onde se faz um barranco de barro vermelho e com 

I. [não quis]/. B N. — 2. portas] postas B N. 



a agoa muito escorregadio, e dele á tranqueira ia um remanso de agoa e 
lamaçal que dava aos cavalos por meia perna; neste barranco apertarão 
connosco, vindo aferrados por não cairem, dizendo: «Ninguém caia!» e 
nesta presa Jorje Vaz Magalhães e Gonçalo da Fonseca, criado do conde, 
bradarão por volta, cuidando afastar os mouros e decer a barranca sem 
opresão, ao que alguns de cavalo acudirão e voltarão, parecendo-lhe que 
a honra estava em voltar o rosto aos mouros; mas, como érão poucos e 
os mouros muitos, concedêrão-lhes ■ as costas, e, decendo polo barranco 
abaixo, os mouros lhes viérão pondo as lanças e por cima do arção dian- 
teiro derribarão a Gonçalo da Fonseca, e, como foi no chão ou na lama 
e se lhe revolvese a faldra da malha sobre os hombros, entre muitas lan- 
çadas, que lhe dérão nas armas, lhe dérão Ga por um quadril que lhe 
saia a vrilha, de que foi posto á morte, c quis Deos dar-Ihe vida, e ali 
fora morto e outros com ele, se o conde não acudira a favorecê-los, por- 
que, vendo o conde entrar os mouros de mestura com o adail, temendo 
algum desmancho, se foi com todos á tranqueira de Baixo e, vendo que 
os nosos virando dávão as costas aos mouros: cFilhos», dise, «e amigos: 
olhai que não aja homem que pase por mim e ao recolher nenhum seja 
ousado ficar detrás» e, arrancando com santiago na boca e pasando a 
tranqueira do Meio, tiramos a Gonçalo da Fonseca, que entre os mouros 
estava em pé, arrimado á tranqueira com a lança na mão e adarga ante 
si, levando os mouros pola barranca acima, e posto que em muitos se pôs 
as lanças, em que ouve asaz de feridos e alguns mortos, e vendo o conde 
que se amontoávão e não podíão ir por diante, e de dentro da tranqueira 
avia duas bandeiras, e polo caminho velho entrava muita jente, chamou a 
recolher; e, em virando as costas, os mouros parecíão ovelhas, e a chuva 
não escampava e o caminho ser roim, o conde se pôs na traseira, di- 
zendo: a Nenhum homem fique trás mim e ninguém se me venda em 
fazer rostinho» e, com ele ser o traseiro, decemos o barranco tanto de 
vagar que nenhum caio, mas fomos tão apertados de lanças d'arremeso, 
em que ouve alguns feridos e cavalos mortos, em que entrou um cavalo 
estremado de bom de Fernão Gômez de Sousa e filho do chançarel-mór, 
e ao entrar das tranqueiras nos meterão ás lançadas e cutiladas, de ma- 
neira que a mim me dérão úa cutilada por cima de um hombro, que 
topando na borda do capacete me cortou úa das fivelas das couraças e 
me fez íia piquena ferida no hombro direito, que, posto que não foi peri- 
gosa, foi má de sarar, por ser no alto do hombro. Metidos da tranqueira 
pêra dentro, o conde deu muitas graças a Deos por se desemborilhar de 
tanta jente sem dano, e logo nos fez apartar da tranqueira e nos viemos 
á de Baixo, parecendo ao conde que entrase connosco até nos meter entre 
as hortas, o que eles não fizérão, arreceando darmos neles, ainda que 

I. concedêrão-lhes] socedêrão-lhes BN; cocedêrão-lhe M. 



-173- 

fôrão tão mal tratados da chuva e lamaçal que todos érão sujos do barro 
e molhados da agoa. 

Não é rezão que fique por contar um tiro d'arremeso que vi fazer a 
Jerónimo Afonso, ferrador, que está oje cativo em Arzila e todos os dias 
vê suas casas e hortas, que nela tinha, com muita magoa. Deixo de contar 
quanto e mao cativeiro ele e sua molher tem dado a mouros, seus cativos, 
por onde Deos permitio que viese a saber que cousa era ser cativo. 
Tornando ao tiro que fez, ao tempo que entrei pola tranqueira, vindo com 
o braço doente do golpe que me dérão, o vi estar com a lança d'alto pêra 
arremesar, e, despedida da mão, vi um mouro travesado dela, e, cha- 
mando por ele, dise: «Fermoso remeso!» e demos úa grande grita; mas 
o conde ás lançadas nos fez deixar a tranqueira. Outro remeso fez o 
mesmo na tranqueira de Baixo, em tempo de Dom Manuel Mazcarenhas, 
o dia que o ferirão, que tomando por iia espadoa a um cavalo do alcaide, 
cide Nacer, em que vinha Bubea, seu criado, deu logo com ele morto no 
chão e não ouve mais lugar que pêra lhe tirarem o freo pola cabeça e 
cortarem os loros, pêra tirarem as estribeiras e peitoral, como contarei, 
Deos querendo, em seu lugar. 

Sendo nós outros na tranqueira de Baixo, demos lugar á artelharia 
que jugase; fazendo seu oficio, lançou tantos pelouros contra as bandeiras 
e Jente, que da tranqueira do Meio até o Facho avia, que uns mortos 
outros asombrados os fez tornar atrás e não ousarão vir abaixo, de que- 
brados do dia ser enfadonho, e com alguns mortos e feridos se fôrão 
recolhendo, dando-nos lugar que desemos ' de comer ao gado, que o 
conde mandou lançar fora e, carregando-o pêra o mar, o trouxe derredor 
da vinha de Luis Machado, onde comeo algíía grama e algúas poucas de 
folhas de canas. 

Estando o conde dando este pasto ao gado, chegou Jorje Pasanha, 
que era pajem do conde, que fora com recado a Mulei Abrahem, e João 
d'Oribia e dous mouros que de parte de Mulei Abrahem vínhão visitar o 
conde, e trouxérao dous cavalos que lhe mandava, e dérão por nova aver 
aquele dia muitos mouros mortos, asi das lanças como da artelharia. 
Tãobem este dia Fernão Diaz, ferreiro, e Vila Nova empregarão muitas 
setas da tranqueira do Meio, aonde chegarão ao tempo da volta. 



I. desemos] decemos dar B; decemos M. 



— 174 — 



CAPITULO XV 



Em que se cantão algúas cousas 
que pasdrão depois da corrida d'elrei 



MUITO enfadados fôrão estes dias os mouros, asi polo pouco nojo 
que fizérão, como polo muito dano que receberão, e muito mais 
por ser o dia de muita agoa, que, como todo seu traje na guerra 
a cavalo são marlotas e camisas mouriscas, a chuva e o barro dentre as 
nosas tranqueiras as fez tais que mais semelhávão almagrados que as 
cores de que vínhão vestidos; e com este enfadamento fizérão pouca 
detença nas tranqueiras e logo se tornarão ao Xercão, e Mulei Abrahem 
despedio a Jorje Pasanha e a João d'Oribia, que viérão com seu recado 
e com os cavalos. O conde folgou de saber o enfadamento dos mouros 
e do dano que levávão, e recebeo com muita graça e gasalhado aos dous 
mouros, por serem de Mulei Abrahem, e ao outro dia os despedio, e com 
eles mandou Jorje López, morador, que da sua parte visitase a Mulei 
Abrahem e dése a el-rei o perabem de seu reinado, e da parte da condesa 
levou úa azemela carregada com duas canastras de cousas doces e outras 
cousas de açúcar, com as quais Mulei Abrahem folgou muito e as repartio 
diante d'el-rei, fazendo-lhe comer delas, por se mostrar agradecido, e á 
noite tornou Jorje López e um homem da condesa, que mandava a Alca- 
cere comprar galinhas e frangãos, que Jorje López pedio da parte da 
condesa a Mulei Abrahem lhe dése licença, e asi que lh'o não detivese, o 
que ele fez, e logo dise ao alcaide de Alcacere que o mandase avisar, o 
que tudo se fez. Tornado Jorje López, os mouros estivérão quatro ou 
cinco dias no Xercão, esperando sol que os enxugase; e nestes dias ouve 
rebates de almogaveres sem aver dano. O conde se contentou que desta 
primeira visitação que el-rei fez, depois que ele tornou de Portugal, não 
fazerem dano em Tanjere, nem Arzila, e todos os dias que el-rei esteve 
no noso campo cavalgou com toda a jente, e, segurando as atalaias no 
Corvo e Ruiva e o mar, dávamos de comer ao gado, derredor da Fonte 
Santa, ao longo do mar, lugar onde se podia recolher, posto que a 
comida fose pouca; a lenha que se trazia érão silvas e canas pêra os for- 
nos; pasamos oito ou dez dias desta maneira até vir cáfila d'Alcacere, em 
que viérão mercadores cristãos e judeus, que dérão nova ser el-rei reco- 
lhido e ir caminho de Fez. O dia que esta cáfila veio nos correrão almo- 
gaveres da Atalaia Ruiva e seguirão ao Caraujo muito pouco, que, como 
virão ao adail na atalaia das Palmas, tivérão mão em si e não pasárão 
por diante e se tornarão polo caminho d'Alfomar, donde deixarão cinco 



-175- 

de cavalo que detivesem a cáfila, que dormira na fonte do Zambujeiro; 
e, como pasárão Alfomar, dérão lugar que a cáfila andase por diante, e, 
em topetando o rosto d' Alfomar e as atalaias da Ruiva, as atalaias ouvérSo 
vista dela e, vendo-a junta, parecia-lhe que era jente, dérão rebate e não 
pararão até a atalaia das Palmas. O conde chegou de vagar ao Facho, 
onde vio o campo todo despejado, e esteve esperando que aportalecesem 
poios Pelouros, e, vendo que tardava a jente a aparecer, estava em 
duvida; mas, como o alfaqueque e alguns judeus mercadores, que diante 
vínhão parecendo polo caminho muito de vagar, fôrão conhecidos que era 
cáfila, o conde foi-os receber á Atalainha, onde soube que vinha o seu 
homem, e que el-rei era pasado pêra Féz, e muito contente se veio á vila, 
mandando as atalaias mais largas, e ordenou que vinte cinco de cavalo 
fosem cada dia em guarda do gado, e o campo tornou a andar largo e as 
almogavarias ameudar; e por este tempo se fazerem algúas asinadas, asi 
antes da corrida d'el-rei, como depois, as irei aqui contando. 



CAPITULO XVI 

Como Artur Orti\ foi outra ve\ cativo 
e pagou o resgate de ambas as veies 



ARTUR Ortiz era atalaia e trazia um lijeiro e bom cavalo, em que 
parecia que andava seguro e com pouco medo de se perder, mas 
toda a segurança em Cristo Jesu, que lhe quis mostrar que a 
que em seu cavalo tinha não era nenhúa sem a sua e dando-lhe um 
bravo açoute, ao parecer de todos, em o tirar dentre sua molher e filhos; 
e foi que, indo Artur Ortiz á Atalaia Alta de Tendefe, lhe sairão almo- 
gaveres do Malhão e, carregando ao longo do ribeiro, o trouxérão aper- 
tado com o rosto na Atalaia Ruiva, e, parecendo-lhe viria salvo o cavalo, 
o lançou de si pola cabeça e o deixou no chão e se veio á Atalaia Ruiva, 
onde o tomamos e foi trazido á vila. Os mouros chegarão a Artur 
Ortiz, e com muita presa foi tomado nas ancas, e sem fazerem detença 
se recolherão pola Atalaia Alta e polo porto da Palmeira, indo demandar 
a barca de Larache, donde érão, trazendo por guia e almocadem a Alho- 
cem Nijar, aquele que se salvou nos Barreiros e depois foi cativo de Artur 
Ortiz, trazendo o milhor cavalo que naquele tempo andava em Arzilg ; e 
quando este Alhocem Nijar saio de cativo de poder de Lopo Mêndez, não 
querendo mais viver em Benamares, se pasou com seus parentes e amigos 
junto de Larache, e povoarão úa aldeã, pondo-lhe nome Benamar. 

Tornando á historia, indo estes mouros com sua presa, ia o almocadem 
muito contente, por levar o mesmo que o cativou, como se dirá. O 



— 176 — 

alcaide de Larache, que cide Nacer era, o mandou aferrolhar, mas não 
tardou muito que cide Alele, alcaide de Xexuão, lh'o mandou pedir, que, 
como soube que Artur Ortiz era cativo e estava em poder de cide Nacer, 
alcaide de Larache, lhe mandou recado, alegando ser seu cativo e o não 
perder, pola lei que ha entre eles, a qual é que se na guerra, ou em 
outra parte, perdem um mouro ou cavalo, boi, vaca, em todo o tempo 
que o tórnão a tomar é de seu dono, e por esta lei e rezão o cide Naçar 
o entregou a cide Alele, sem nenhúa contradição; e, tanto que foi ante 
ele, lhe dise estas palavras : «Dios ha querido que tornases a mi poder, 
no será pêra trataros mal, pues lo hizistes como cavallero, pêro el rescate 
que por vos aveis de dar han de ser dos, uno por la primera y otro por 
esta segunda; y por el moro que os ilevava, que murio a poder de açotes 
que le mande dar, me aveis de dar a Mafamede lunes, que está cativo en 
Arzila». Era este Mafamede lunes cavaleiro, almocadera do Farrobo, e 
o que se tomou ao Rio Doce a noite que na praia dérão com o adail 
Fernão Mazcarenhas, e saio cabeça por cabeça por Jorje Manoel, como 
está dito no fim no ano de vinte um. 

Pareceo esta petição de cide Alele muito injusta e fora de toda a rezão, 
porque o mouro somente, que pedia por contrapeso, bastava pêra trocar 
um com outro, pois já outra vez sairá por Jorje Manoel, que tinha as 
milhores casas de Arzila e do milhor resgate; mas foi cide Alele tão cons- 
tante que o que pedio lhe dérão. O conde mandou logo dizer a cide 
Alele por André Banha, alfaqueque de Tanjere e muito aceito a Mulei 
Abrahem, que lhe pedia que se não ouvese tão cru no resgate de Artur 
Ortiz, pedindo-lhe o dése polo acostumado ao que se dávão ' ás atalaias, 
e em cima daria um mouro de que pudesem fazer esmola ; ao que cide 
Alele não concedeo, dando por desculpa que o tinha jurado, e que se o 
não comprise iria ao inferno, e, portanto, podíão falar em outra cousa, 
que aquela não se podia fazer, e que o preço érão cento e trinta e dous 
cruzados, e que se lhe avia de dobrar, pois lhe fujira e fora outra vez 
cativo, e o mouro polo que matara. 

Mas, como neste tempo Mulei Abrahem adoecese, mandou pedir ao 
conde o doutor Duarte Rodríguez, pêra o curar. Dando-lhe licença, 
lhe encomendou muito, ao doutor, o resgate de Artur Ortiz, e que 
o não deixase, ainda que dése por ele tudo o que pedia cide Alele, 
seu amo; e como o doutor era honrado e amigo de Artur Ortiz, e 
mais de seu sogro, João Português, fez com Mulei Abrahem se podia 
aver Artur Ortiz por menos. Respondeo-lhe Mulei Abrahem que seu 
primo, cide Alele, não avia de quebrar o juramento, e que se ele qui- 
sese que lh'o mandaria sem nenhum resgate, mas que o pagaria a seu 
primo. Gratificou-lh'o muito o doutor, e que ele bem sabia o preço das 

1 . Assit7i nos três iiiss. 



— 177 — 

atalaias, mas que o juramento não se podia quebrar. Quando mais 
se não pode fazer, acertou com cide Alele que compriria, asi como 
pedia, e diso mandou recado ao conde, que mandase António López, 
porteiro dos contos, e Duarte López, seu cunhado, amo do mouro, que 
lhe daríão por ele cento e vinte cruzados, ou vinte bois, se Mulei Abrahem 
lhe dése licença; e, feito este concerto, o doutor pedio licença a Mulei 
Abrahem pêra que aquele gado se. pudesse comprar na serra, de que ele 
foi contente, pêra o resgate do mouro, porque com esta ajuda e outras 
que ele esperava podia satisfazer a sem rezão do alcaide, que bem sabia 
que não podia dar mais que vinte cruzados de sua casa, e que tudo o 
mais avião de suprir esmolas. Fez saber o doutor ao conde o concerto 
e licença, que mandase quem trouxese o dinheiro e comprase o gado. O 
conde mandou logo João Português, sogro de Artur Ortiz, com dinheiro 
pêra o comprar, o gado, e foi logo comprado, em que se fez muito pro- 
veito; e el-rei fez mercê a Artur Ortiz da ametade, e asi lhe mandou 
pagar úa certidão de seu soldo, em que montava outro tanto, e o almi- 
rante, cujo criado ele fora, lhe fez ajuda de comprar um cavalo, asi que 
Artur Ortiz saio sem ficar devendo nada, e asi tornou a sua casa, e dali 
em diante não quis servir mais de atalaia ; mas tudo o que lhe mandávão 
fazia mui inteiramente, asi em levar cargo de homens, quando era nece- 
sario ficar sobre úa trilha ou sobre a ponte de Alcacere ou sobre outros 
lugares semelhantes, onde o mandávão por homem de bom recado, que 
sabia muito bem o campo ; e dele farei muitas lembranças muitas vezes, 
por ser pesoa que o merece e nelas se achar, e onde se achava era o 
primeiro que punha a lança, e o deixaremos por agora em sua casa e fora 
de cativeiro, e tornarei a enfiar minhas almogavarias por ordem, desde 
que el-rei se tornou pêra Féz, corrido de não fazer nenhum dano, polo 
aviso de Artur Ortiz. 

CAPITULO XVII 

Como Diogo da Silveira fe\ algUas almogavarias 
em que tomou mouros e mouras 



FEITA a cavalgada do campo de Alcacere e tomada a aldeã d'Algorfa 
por Dom Francisco Coutinho, filho do conde, e apartada a jente 
d'Alcacere e a de Arzila, e cada capitão em sua casa, as almoga- 
varias começarão a correr, indo Diogo da Silveira muitas vezes fora, 
entre as quais foi amanhecer com corenta de cavalo na ribeira de Men- 
eara, e, saindo da ribeira com o rosto em Fiquer, ouve vista de uns poucos 
de bois, e, correndo a eles, os alcançarão dentro da serra de Fiquer e com 
eles dous mouros e úa moura, das fermosas do noso tempo, e, senão 

ANAIS DE ARZILA 23 



— 178 — 

fora lavrada de sinais todo o rosto e pescoço, fora cousa muito pêra ver, 
e ainda asi era muito fermosa e o é oje em dia, por ser muito alva c ter 
grandes feições e perfeições, e foi muito tempo cativa de Lopo Mendez; 

a qual estava com seu marido enxotando os pasaros de Ga ' 

e a seus brados fôrao a ela, e o marido se salvou, e a cativarão a ela com 
dous mouros, e foi muito tempo cativa do dito Lopo Mêndez e de sua 
molher, Maria Cordovil, que oje está por dona em casa de Dom Afonso 
de Alencastro; a qual moura, ao tempo do despejo d' Arzila, se tornou 
cristã e, chamando-se dantes Acima, se pôs nome Caterina Afonso, asi 
como avia nome sua mãe de Maria Cordovil. Deixando a moura e tor- 
nando aos nosos almogaveres, vindo-se recolhendo, trouxérão esta moura 
e dous mouros e uns doze ou quinze bois, e um rezoado fato de gado 
meudo deixou, por não fazer detença e tãobem por na vila aver grande 
abastança dele. Diogo da Silveira se recoiheo pola boca de Capanes, 
onde se ajuntarão mais de dozentos homens de pé, com determinação de 
lhe tirarem os bois que trazíão, mas, como os bois érão poucos e Diogo 
àa Silveira se deu presa a andar a pasar um ribeiro de Capanes, [saio] ^ 
sem contenda, porque, vendo os mouros corenta de cavalo bem armados e 
em boa ordem, não ousarão apegar, antes se afastarão, e Diogo da Silveira 
saio da boca de Capanes e com seus boizinhos e a moura e dous mouros; 
a qual moura ouve Lopo Mêndez, capitão da caravela da armada, posto 
que era mais pêra casa da senhora condesa, e, como Lopo Mêndez e sua 
molher e sogra érão criados do conde, lh'a mandarão pêra casa, pedindo- 
Ihe por mercê Ih'a tomase e se servise dela, pois todos érão seus criados 
e o que tínhão era pêra seu serviço. A condesa a não quis aceitar, pondo 
por escusa que era casada e que seu marido a avia de resgatar, e que ela 
não queria em sua casa senão mouras solteiras que perdesem o amor a 
sua terra e o tomasem a sua casa, mas Deos o ordenou de maneira que 
ela não saio de cativa e se fez cristã, pasando desta maneira. 

Não pasárão muitos dias que Diogo da Silveira em outra almogavaria 
cativou o marido, e esteve três ou quatro anos cativo em poder de Álvaro 
Díaz, ferreiro, de que tenho feito asaz de menção, onde esteve com asaz 
de enfadamentos, por neste tempo os mouros cativarem a Fernão Díaz, 
seu filho, e o alcaide de Alcacere pedir muito dinheiro por ele e em cima 
o mouro, e por o Fernão Díaz morrer cativo, levando má vida e sendo 
maltratado, pola fama que ele e seu pai tínhão que abríão os mouros e 
lhe tirávão o unto, como no cativeiro de Álvaro Díaz disse. 



I. ...] em branco B;/. N M. — 2. [saio] f. em todos os mss. 



— 179 — 

CAPITULO XVIII 

Como Diogo da Silveira íomoii o marido desta moura 



TORNANDO Diogo da Silveira outra vez fora, se foi lançar entre Alião 
e a ribeira d'Alhaim, onde com muito recco estivemos, porque a 
sermos sentidos desem em nós cento ou dozentos vilãos de pé e 
primeiro que saisemos nos tratarão mal; e, estando neste arreceo, Diogo 
da Silveira e Artur Rodríguez e Roque Ravenga, que por nosos atalaias 
estávão, ouvérão vista de três ou quatro mouros que ao coco' de Arva ião 
çoquear \ Os mouros desta serra todos os dias da semana fazem suas 
feiras, a saber, em Alcacere ao domingo, segunda feira em Benarróz e 
em terça em Benabiziquer e em quarta ^ em este Arva, que se faz entre 
Alijar e aldeã dos Negros. Tanto que Diogo da Silveira ouve vista destes 
mouros, tomou doze de cavalo e deixou connosco Artur Rodríguez, que 
esperasemos por ele, e, vindo com algúa necesidade, não deixasemos a 
ribeira; e, apartado de nós, lhe foi sair diante e, remetendo a eles, lhe 
ficou na mão um mouro de pé e o marido da moura fermosa de Lopo 
Mêndez, que em cima de úa boa egoa ia, levando um xuar * ou sotirão -"^ 
cheio de linho e de lentilhas e pasas, que ao coco levava a vender, e 
diante de si levava um fermoso chibarro que logo por nós outros foi feito 
pedaços com a pele, que valia mais que ele, e de sôfregos não esperarão 
aproveitá-la; e, em tanto que Diogo da Silveira preguntava ao mouro 
donde ia e a nova que lhe compria saber, os companheiros encherão as 
cevadeiras do que os mouros levávão pêra vender, que érão pasas, linho, 
lentilhas, e com muita presa se viérão recolhendo pêra nós com dous 
mouros e Ga egoa e dous asnos, e com grande rebate, que já ia pola 
serra, nos viemos saindo fora da serra d' Alião e, polo pé de Çahara, 
viemos demandar Sinete e dali á vila, onde foi muito o alvoroço da nova 
que trazíamos o marido da moura de Lopo Mêndez, índo-o ver como 
homem que tinha tão fermosa molher ; e ao outro dia se pôs o mouro em 
leilão, como é costume, e o ouve Álvaro Díaz, o ferreiro de que tenho 
feito muita menção, e, por pedir por ele mais do que o mouro podia dar. 



I. çocoj coco BNM. — 2. çoquear] quoquear BM; coquear N. Como já vimoSf 
coco significa feira, mercado. — 3. quarta] quinta BM ;/. este plisso em N. A emenda é 
indubitável, porque Arva, que vem a seguir, significa quarta. — 4 xuar : vocábulo árabe 
que significa ceira, alcofa. Veja-se Do:;y, Glossaire des mots espagnols et portugais 
derives de Varabe, p- 35y, nota. — 5. sotirão : sinónimo de xuar, não sabemos explicá-lo. 
Não vem nos dicionários. 



— i8o — 

o teve até que por sua desventura foi cativo Fernão Díaz, seu filho, que 
foi o derradeiro de nove que tevera, e foi feito reo donde era autor, 
pedindo o alcaide de Alcacere por ele mil cruzados e o mouro de seu pai, 
que era o marido da moura, que por muito que o conde fez polo tirar, 
que, ainda que homem de pé fose, prestava pêra muito e sirvia muito bem 
com sua espingarda e besta, ou fose nas tranqueiras, ou no Facho, que 
nunca corria jente sem que ele derribase mouro ou pregase tiro, e em 
todas as cavalgadas era dos primeiros, mandando-lhe dar o conde cavalo 
em que fose, polo bom concerto que em sua besta e espingarda avia, — mas 
foi sua desaventura e de seu pai e mãe tanta que o não virão fora do cati- 
veiro, e morreo por lhe darem muita má vida, como contarei adiante. 



CAPITULO XIX 

Em que se conta de outras almogavarias 



O OUTRAS almogavarias c entradas se fizérão neste verão de quinhentos 
e trinta, as quais, todas não poso trazer á memoria e direi das em 
que me achei. Sendo já entrada de inverno e tempo de chuvas, 
sendo adail de Arzila Lopo Méndez de Vasconcelos, capitão que foi do navio 
da armada, o qual foi homem abastado e ao parecer largo de conciencia 
em suas palavras, e de maneira que, indo frades de São Francisco em seu 
navio, lhe ouvirão algúas que costumava dizer por graça, que a eles não 
parecerão bem, e veio el-rei a ser diso sabedor e o mandou vir d'Arzila 
pêra se mostrar sem culpa. O conde escreveo a el-rei em seu favor, e 
que era honrado e abastado, e que servia de adail muito honradamente, 
e outras cousas que o favorecerão diante d'el-rei ; mas como nenhija cousa 
fica sem castigo, sendo abastado e tendo nove filhos e fazenda, por justo 
juizo de Noso Senhor tudo se veio a diminuir, que nenhúa cousa ficou, 
asi de fazenda como filhos. 

Asi que, sendo ele adail e muito amigo de Diogo da Silveira e conver- 
savel com todos, pedio licença pêra ir fora, e com ele fomos até cento de 
cavalo, e por guia e almocadem Diogo da Silveira, e nos meteo com 
muita cerração pola serra de Benagorfate, e, muito junto d'Agoni, espe- 
ramos esclarecese o dia e descobrisemos em que pudesemos fazer presa; 
e, antes que chegase o que desejávamos ', viérão dar connosco dous mouros 
a pé e, sentindo-nos, dérão grandes brados, e a serra começou a retumbar 
com o rebate e nos fez sair e vir ter á boca de Capanes, e a agoa não 
fazia senão cair e perseverar. Diogo da Silveira, que desejava de fazer 

i. desejávamos] desejamos B. 



presa, nos encubrio na serra de Benamares e por ela fomos dar vista a 
Meneara, onde vimos gado, ao qual saimos em duas quadrilhas, guiando 
úa Diogo da Silveira e outra Artur Rodríguez; logo foi alcansado, e, 
junto das casas, fomos tomar o mouro e matamos outro, querendo-se 
defender, mas logo foi levado na lança de Jorje Manoel; e asi nos viemos 
recolhendo com dous mouros vivos e um que ficou morto e com cem 
reses vacíias e setecentas meudas, e asi pasamos Capanes com ser de dia 
e viemos demandar o Xercão, o qual rio ia com tanta agoa que nos cobria, 
asi que com trabalho pasamos o gado vacum, e o meudo ouve pareceres 
que o deixasemos, e que o conde viria por ele, e João Homem e eu 
fomos os que mais porfiamos em o pasar o rio ' em os arções das selas 
e o pasamos cora muito trabalho, e, depois de pasado, nos viemos 
amanhecer á Pedra Alta; e á Aldeã Velha nos veio o conde a receber 
com a mais jente da vila, e com muita alegria chegamos a ela, não sen- 
tindo 2 o trabalho e cansaso que pasamos, por trazermos toda nosa presa 
em salvo. 

Foi esta cavalgada e almogavaria de muito gosto e contentamento que 
todos tivemos, e por ser a primeira que Lopo Mêndez fez. António 
Freire e eu fomos os quadrilheiros, e, vendido os mouros,"ouve António 
Freire o mais velho, que lhe deu bem de proveito no resgate ; o outro 
mais moço ouve o conde, por Diogo da Silveira dizer que era filho de 
homem rico e honrado. O gado se vendeo arrezoadamente,^_asi o groso 
como meudo, e pagou o quinto ao conde, como é costume. Saimos a 
mais de dous mil reais, e a vila ficou cheia de muitas e boas cabras, por- 
que as que avia do tempo de António da Silveira érão já gastadas, e asi 
estava a vila farta e cheia de jente e gado; e, pêra o gado pacer, ião as 
atalaias todos os dias ao campo, que andava largo, e o conde ia muitas 
vezes a monte, do qual contarei neste capitulo algúa cousa do que neste 
ano de trinta e um aconteceo. 

Nestes dous anos viérão tantos liões ao noso campo que, depois de 
terem gastados os porcos e toda a outra alimária, se vínhão derredor da 
vila buscar de comer, donde afirmo que matamos ás lançadas'vinte e seis 
liões, afora outros que matamos ás espingardadas; e, primeiro que torne 
ás almogavarias, contarei deste monte e da fojida de um cavalo de Ma- 
noel Nunez, que foi do ifante, e fora do conde de Borba, pai do conde, 
capitão de Arzila. 



I. rio] rio começamos B M. — sentindo] sentido B. 



CAPITULO XX 

De algum montes e de um cavalo cie Manoel Núne:{ 
que desapareceu 



UA tarde, vindo o conde da guarda e sendo entre a cava e as hortas, 
úas quatro emas da condesa, que são úas aves grandes que se 
críão nos desertos de Çahara, que são quinze jornadas alem de 
Tafilete e da Ara, donde vem as tâmaras; são da grandura de um car- 
neiro, não vôão cm alto, e parece não se alcvantarem do chão, posto que 
não tênhão mui grandes azas e mui delgada e sotil pena, de que se fazem 
os penachos pêra a guerra e pêra os galantes se porem na cabeça em 
gorras ou barretes ou sombreiros. São tão lijeiras em abrindo as azas 
que, ainda que parecem ir polo chão, não ha cousa viva, por lijeira que 
seja, que as alcanse, até galgos. Digo isto polas experimentar e asi o fez 
o conde. São tão castissimas que não críão casta, posto que aja fêmeas 
e machos. São seus ovos grandes, como se parece poios que estão em 
muitas igrejas dependurados. 

Vindo nós asi, as emas se espantarão e, abrindo as azas e adejando, 
fizérão espantar os cavalos, e recuarão atrás, e entre todos foi um cavalo 
de Manoel Nunez, que já dise, o qual sirvia el-rei muito bem com dous 
homens de cavalo á sua custa, e sua pesoa guarnecida de ricas armas e 
de capelares e jaquetas d'ezcarlata, de maneira que era dos mais luzidos 
fronteiros que avia ; e, asi como se espantou, levantou-se em jemeas e 
ouvera de dar com ele dentro na cava, senão fora acordado, que se lan- 
çou fora, e o cavalo foi socorrido de homens que dele apegarão, lan- 
çando-lhe mão das comas e cabeça e pernas, e com trabalho o ouvérão 
fora, e não perdeo o medo, que, quebrando tudo, como cabeçadas e ré- 
deas, furou por entre nós pola praia até pasar o Rio Doce, indo o conde 
e todos os seus trás dele; mas, como já era noite, perdemos de vista o 
tal cavalo, e, recolhidos alguns que pola várzea fôrão até o porto d'Alfan- 
dequim, e visto não parecer o cavalo, o conde deu licença a Manoel Nu- 
nez, que em outro seu cavalo veio ao Rio Doce, onde o conde estava, e, 
recolhido o conde, pola licença que tinha, requereo sesenta de cavalo, e, 
antes que amanhecese, saimos da vila, e, repartidos em três quadrilhas, 
Diogo da Silveira foi amanhecer á Pedra Alta, e Artur Rodriguez ás Al- 
deãs e Roque de Farão ao Pedregal; e sendo menhã, cortando uns pêra 
os outros, tivemos recado que não parecia cavalo, nem rasto seu; e, como 
o campo era atalhado c seguro, nos espalhamos a bater a ribeira e mon- 
tear, onde se matarão alguns porcos. O conde, tanto que foi menhã, 



— i83 — 

tinha sesenta de cavalo fora, e, o mais do campo atalhado, quis dar úa 
boa guarda e fartadega á vila, e foi aos córregos, onde fez graves cou- 
sas, e de tudo foi bem remediado, asi que graves fôrao todas as cousas, 
cortando alguns até o oso '. 

Pois vendo o conde que Tomé de Sousa insistia e porfiava sobre a 
cabeça, dise que dali por diante lhe dava todos os porcos que ferise e 
dése a primeira lançada, e ele, ainda que parecia graça, deitou mão da 
palavra «estendia^». Alguns porcos, que do córrego sairão, se meterão 
em outro grande e forte, que pêra a parte d'Almenara está, e, como os 
vise tornar logo a sair, parecia que, por aver muitos, saião, e não era asi 
como cuidávamos, porque no córrego avia liões, e, como os porcos os 
sentíão, queríão mais prover a se salvarem, pasando poios ladridos dos 
cães e pola fúria dos monteiros, que sofrer o faro e medo dos liões. O 
conde determinou de a fazer com os cães, mas, como a grita foi grande 
dizendo: «Liões, liões!» e o conde vio a determinação deles, não quis que 
lhe acontecese algum desastre, em lhe matarem algum homem, e dizendo: 
«Estes deixaremos ir sem conter.da, pois não temos lanças d'arremeso, 
nem espingardas com que lhe tirar» : isto dezia o conde, porque sempre 
na sua sala tinha um feixe de lanças cortadas e feitas á mão, pêra se 
poderem arremesar, e tãobem ao derredor da vila, quando avia lião, 
acudíão três ou quatro espingardeiros e com os de cavalo os matávão; e, 
recolhido o monte e guardas, nos viemos á vila, onde, recolhidas as mais 
quadrilhas, não acharão rasto, nem nova do cavalo; mas Diogo da Sil- 
veira, por comprazer a Lopo Mêndez, pedio licença que ao outro dia iríão 
amanhecer a Benamandux. Não ouve mais nova de tal cavalo e, pasados 
estes dez anos, se acharão as estribeiras da outra parte de Tagadarte, na 
serra do porto d'Alfeixe, gastadas do tempo e das chuvas e fogo que por 
elas pasou, e tivemos depois, quando se acharão, que o cavalo não per- 
deo a fúria que levava até chegar ao rio de Tagadarte, e se lançou a 
nado, e da outra parte foi salteado de algum lião. 

Os que fomos na tomada destes dous mouros fomos contentes que 
Manoel Níànez tomase um dos cavalos, e lhe queríamos pagar as cabe- 
çadas e todo o mais, ele o não quis consentir, e o conde lhe fez tomar 
um dos cavalos, que saio um bom rocim, e andou muito tempo nele um 
seu homem, que avia nome Diogo Nunez. 



I . Parece haver aqui lacuna no texto, mas nenhum dos mss. a indica. — 2. Estendia, 
parece ser de mais e está sublinhada em B, talvej para indicar que deve ser suprimida. 



— i84 — 

CAPITULO XXI 

De algtías montarias 



JÁ tenho dito como nestes anos de trinta e trinta um viérão a Arzila 
liões e nos saltearão bois, cavalos, e tínhamos muitos rebates; e 
acontcceo dizer-se ao conde no vale dos Borrazeiros estarem dous 
liões que tínhão morto um cavalo, decepado um porco. O conde dise 
que os queria ir montear e, dando cavalos aos espingardeiros, se foi ao 
vale, e, batendo da úa parte e da outra, saio um lião grande e, vendo-se 
rodeado de jentc de cavalo e cães, tomando alguns entre as unhas, logo 
os matou, mas teve logo a paga, que foi pregado de úa lança que o conde 
lhe remesou, que lhe fez acudir á ferida ; lançando mão da lança, arran- 
cou após o conde, mas logo foi pasado de outras, porque Dom Francisco 
e Fernão da Silva, pondo-se á sua ilharga, lhe empenarão cada um sua 
lança, e [Dom Francisco], pondo as pernas a um jenete, o foi encontrar 
e meteo a lança nele, e nos pareceo que ele e o cavalo fosem feitos em 
pedaços, polo ver tão embaraçado com ele, mas logo foi socorrido do 
conde que com úa lança pasou o lião de úa a outra parte, e, vendo Dom 
Francisco e os que ali éramos o risco do conde, fomos a ele, e teve tantas 
lançadas que logo acabou. O outro, que dentro do córrego estava, 
vendo a revolta se saio e, pondo o rosto no rio, o pasou a nado, sem lhe 
fazerem tiro de nenhum modo, e asi se salvou. O conde, tendo o lião 
morto, o fez carregar na azemala e trazer á vila, da qual caça a senhora 
condesa não era muito contente, por ver o risco em que se o conde 

punha. 
I 

Outro rebate tivemos de outro lião que saio da fonte da Atalaia Ruiva 
e se ia melhorando pêra saltear um cavalo das atalaias. Sendo visto 
delas, se pusérão a cavalo, e, com as remanguesas que fizérão, o facho 
caio e deu rebate, e repicando salmos a repique, e, dando nova que um 
lião quisera saltear um cavalo dos das atalaias, o conde se foi á Atalaia 
Ruiva, e logo o lião foi visto, que paseando se vinha contra o outro do 
Jiestal, mas logo foi rodeado de mais de cento de cavalo, e, tomando o 
conde úa lança, se pôs a jeito do lião e, apertando as pernas ao cavalo, 
quando vio que era tempo, pregou a lança no lião ; mas caro lhe ouvera 
de custar, porque o lião, não tendo conta com a lança, nem ferida, arran- 
cou trás o conde e em poucos saltos foi com ele, parecendo que os pés 

I . . . .] linha em branco B N M. 



— i85 — 

do cavalo se anovelávao, torvado de medo da ferocidade do animal, que 
detrás dele ia, e, lançando-lhe mão de Ga coixa, o fez tomar atrás e o 
deteve e o fez acurvar e cair a Qa ilharga, tendo o cavalo aferrado com 
as mãos. O conde saio dele e, posto em pé, levou da espada, como ani- 
moso cavaleiro, parecendo-lhe que não somente se defenderia, mas ofen- 
deria ; mas isto não foi feito com tanta presa que o conde não fose socor- 
rido de todos, mas primeiro o fez um seu pajem, que avia nome Jorje 
Pasanha, o qual, vendo o lião ir trás seu senhor, arrincou trás eles, e, em 
o cavalo caindo, ele se lançou fora do seu e se pôs entre o lião e o conde, 
de maneira que ambos a um tempo fôrão no chão e sem perigo; ele se 
pôs logo em um cavalo e, parecendo-lhe não ser rezão que o lião se fose 
em salvo, tomando outra lança, a foi empregar nele, e após a sua fôrão 
mais de vinte, que fizérão ao lião cair, e, por muito perseguido, se não 
defendeo; e, tomando-o o conde, o mandou pôr em um cavalo e trazer á 
vila, onde o visem, e tirar-lhe a pele, e o corpo se lançou na praia, onde 
andou sem cousa viva chegar a ele, porque tem tal calidade a carne do 
lião que nenhúa cousa o come se nós outros não. Digo isto porque somos 
tão sôfregos que o que deixão de comer gatos, cães, adibes e outros 
bichos daninhos comemos nós. Fez Deos grande mercê ao conde. 



CAPITULO XXII 

Como Lopo Mênde:{ adail tornou a entrar com corenta de cavalo 
e sendo sentido nos armarão e matarão doits homens 



OUTROS casos e sortes acontecerão neste tempo com liões, que deixo 
por não enfadar, e porque já os mouros me tem por sospeito, 
pois tenho falado em todas as corridas e cavalgadas em noso 
favor, sendo a guerra de Africa de calidade que os mouros a fazem por 
força e nós por manha, posto que neste tempo éramos senhores do campo, 
não avendo medo aos alcaides, nosos vezinhos, por nenhum nos ousar de 
correr só, e pêra o fazerem se ajuntávão dous ou três alcaides, como o 
de Alcacere, o de Jazem e Xexuão e Tetuão, e, quando algum entrava 
da Ponte a dentro, era com muito risco e segredo, e não ousava correr a 
vila, mas mandava almogaveres e ele ficava Ga e duas legoas á ventura 
de nos tomar á longa, indo trás eles, como muitas vezes acontecia, — e 
desta maneira darei rezão d'almogaveres, pois deles ha algúas corridas, 
em que tomarão atalaias, e outra que nós fizemos, em que perdemos dous 
de cavalo. 

Lopo Mêndez tornou a ir fora, dando-lhe o conde licença pêra um 
ardil que Artur Rodríguez lhe dava, que era ir correr a Benamaçuar; e, 

ANAIS DE ARZILA 24 



— i86 — 

por Lopo Mêndez ser amigo de todos, com pouco trabalho nos pusemos 
a cavalo corenta moradores, guiando Artur Rodríguez, e nos mcteo por 
antre a Baiona encabeçada, e, como homem experimentado, pedio aos 
companheiros que nenhum parase, nem fose diante dele; e com este con- 
certo arrancamos e fomos juntos até onde aviamos de ficar com o adail, 
e, quando os almocadens a ele chegarão, érão pasados os mais deles, não 
lhe lembrando o que ele tinha encomendado e mandado, nem a ordem de 
guerra, somente cuidarem que não hão de achar contraste, senão o que 
vão buscar, como já dise; e, pasando Artur Rodríguez o ribeiro, as mou- 
ras se acolherão e deixarão as vaquinhas ', e, primeiro que os nosos se 
acolhesem, matarão Jil Carvalho, filho de Nuno Alvarez de Carvalho, de 
que tenho feito menção, o qual tinha dado tais mostras que se esperava 
dele ser pêra muito; e, com este mancebo lhe ficar nas mãos, carregarão 
os mouros tanto que fizérão os nosos não poder tomar o porto, onde nós 
os esperávamos, e se lançarão ao ribeiro, asaz forte e embrenhado, e nele 
matarão a Vicente Pírez, homem casado, e derribarão Domingos Martinz, 
criado de Fernão da Silva, o qual saio e se ouve connosco, apegado ao 
cabo do cavalo de João Conde ; e após ele pasárão mais de cincoenta de 
pé, os quais levávamos até o ribeiro, e, como estávao com vitoria favore- 
cidos, nos receberão com muita pedra e lanças e com algúas setas, e nos 
fizérão afastar de si com dous ou três cavalos feridos, em que foi o meu 
pasado o pescoço de iía lança d'arremeso, e outra me deu nas couraças, 
que por vir debaixo não fez nojo, e asi foi ferido Jorje Vaz de Magalhães 
e Afonso Gonçálvez, que, por valer a Cristóvão Pírez, lhe dérão muitas 
pedradas e lanças d'arremeso. Depois que alargamos o ribeiro nos 
seguirão pola serra, por nos tomar outro porto que ficava no meio dela; 
os de cavalo nos seguirão, deixando nos os de pé, e viérão á fala e pre- 
guntárão quem era o almocadem, com outras muitas cousas, e, deixando 
a serra o mais que pudemos, nos saímos do mais forte dela, e, com des- 
gosto poios dous mortos, nos viemos á vila, na qual entramos de noite, 
por se nos não enxergar a tristeza que trazíamos; así o conde, como toda 
a vila, lhes pesou muito da perda, asi de Jil Carvalho, como do mais, c 
isto por não ter outro filho. 



i. Deve haver aqui lacuna, mas não vem indicada tios mss. 



— 187 



CAPITULO XXIII 

De como almogaveres mouros nos correrão 
e tomarão duas atalaias em Tendefe 



NESTE ano, almogaveres de Alcacere viérao a entrar, trazendo-os 
lasuque, almocadem, o qual se veio meter na canaveeira de Ten- 
defe, com sós quinze ou vinte de cavalo, deixando outros tantos 
no Malhão, pêra que as atalaias, que o fosem descubrir, ficasem atalhadas 
e não se pudesem salvar; e, como estava ordenado perderem-se ambas, 
se ordenou doutra maneira, que, indo as atalaias pola menha, não pasárão 
da aldeã, donde avião de esperar que a guarda se dése, pêra se melho- 
rarem, e, apartando-se Ga da outra, dando-se vista, desem conta íia da 
outra ; e vendo João Martinz, que era o que na canaveeira estava, que o 
adail com a guarda estávão nos Forninhos, esperando irem as atalaias por 
diante, se pôs a cavalo e se foi ao companheiro, pondo-o a cavalo e 
dizendo-lhe serem horas ; mas os mouros, que sobre aviso estávão, vendo-o 
pôr a cavalo e trespor pêra a outra banda, sairão da canaveeira, e, 
tomando-lhe o caminho da vila, fôrão dar com eles e logo tomarão o 
companheiro, que era castelhano, mancebo de Valverde, lugar que está 
junto de Olivença, e o João Martinz, que a cavalo estava, vendo os 
mouros da parte da vila, se lançou polo outeiro abaixo, por úa vereda 
que, por entre daroeiras e palmeiras, ia saindo por cima d'Alhazana e lhe 
fôrão sair diante, e, querendo João Martinz topetar em cima do cabo, 
achou os mouros diante e lhe abaixou a lança e se entregou. Nisto che- 
garão os que trazíão o companheiro e juntos fôrão demandar a barca de 
Larache, que era então do alcaide de Alcacere, donde fôrão recebidos 
com grande alvoroço, por aver muitos dias que não tínhão tomado homem 
de Arzila. 

E os almogaveres do Farrobo não estivérao sem nos dar muitos re- 
bates e repiques, correndo as atalaias, das quais levarão úa, deitando-se 
em Alecasapo, onde aquele dia era o jiro de descubrir de Luis Franco, 
o qual ', em o tempo que estava nela, o irmão lhe comprou um rocim 
e o trazia consigo na atalaia, descubrindo por ele. Depois começamos 
de montear ás Aldeãs dez ou doze, em que entrava o alcaide mór, Luis 
Valente, Estêvão d'Aires % Francisco Pinto, homens do conde, que pudé- 
ramos seguir os mouros, o que não fizemos, por ouvirmos a bombarda 

I . o qualj o qual trazia B N M. Emenda incerta. — 2. d'Aires] Dares B M ; Soa- 
res N. Adiante, no capitulo lhi, vem a forma correcta. 



do rebate, e nos tornamos ao porto d'Alfandequim, onde esperamos até 
o rebate se asegurar; e, vendo as atalaias seguras, tornamos a noso des- 
mando e nele matamos três porcos, que o conde nos mandou tirar três 
bombardadas, fazendo-nos sinal que éráo almogaveres, e nem por iso 
deixamos de seguir noso desmando, de que o conde se mostrou agravado 
e á porta nos mandou tomar toda a carne e no cileiro ' úa fanega de trigo 
a cada um, e de palavra nos reprendeo rijo, e não nos levou em conta o 
bom rebate que tinhamos em nós, com termos atalaias no outeiro das 
Vinhas, e andar por onde nos não podíão mouros entrar, — de tal maneira 
nos tratou que o monte foi á nosa custa. E com estes cinco homens, 
que se perderão este ano, deixarei a guerra de terra, que nós contra os 
mouros fizemos, e direi parte das muitas cousas que polo março socedêrão 
por mar, em especial pola fojida e tornada em mouro de João Vaz Maio. 



CAPITULO XXIV 

De algúas entradas que João Va:{ Maio elche 
fe\ na costa do Algarve e o dano que fe\ 



Afama que avia de tornar-se mouro João Vaz Maio, não tão somente 
cncheo o reino de Féz e amedrentou o Algarve, donde era 
natural, mas tãobem toda a Andaluzia, a qual costa ele mui 
bem sabia; e asi fez como navios de remo do reino o viesem buscar, 
como viérão dous de Arjel e um de Bélez, outro de Tetuão, de maneira 
que se ajuntarão em Larache cinco navios, em companhia de um de Al- 
cacere que o alcaide mandou comprar a Bélez, o qual cheio de alvoroço 
de ter um arráiz e almocadem do mar em sua terra e porto, e, por ser 
Larache neste tempo seu e por não perder a ocasião que lhe o tempo 
dava c por João Vaz lh'o aconselhar, mandou um mouro, seu criado, por 
nome cide Muça, que fose a Bélez comprar Qa fusta de dezaseis bancos, 
e se foi ao arráiz que a escolhesem e trouxesem, os quais em poucos dias 
o fizérão % e asi mais duas ou três, e, ajuntando-se em Larache com as 
outras e levando por guia a João Vaz, almocadem, fôrão confiados muito 
nele, que era já muito omiziado, asi por se tornar mouro e um seu filho, 
como porque no rio cativarão muitos cristãos, e asi de antes, como adiante 
direi. 

Tornando ás fustas e entradas que fez, fôrão sobre Farão e, lançando 
cem homens em terra, fizérão muito dano em quintais e casas, onde 

I. cileiro] saleiro B. — 2. e se foi... o fizérão: o texto esià certamente alterado, mas 
não o soubemos restituir à sua pureza. 



tomarão cincoenta ou sesenta pescas, acudindo Nuno Rodríguez Barreto, 
veador da fazenda do Algarve, com as principais de Farão e Loulé, e os 
fizéráo recolher ás lançadas e setadas de muitos besteiros que ao rebate 
acudirão, e, sem lhe tirarem nada de sua presa, se embarcarão e se vié- 
rão sobre Áreas Gordas, onde tomarão dous ou três navios e, deixando 
os dous, que de pouca valia érão, trouxérão o outro, que de um Fran- 
cisco de Óbidos, de Tavila, era, que do Cabo Verde vinha pêra Cáliz, 
carregado de algodões e marfins. Com esta presa entrou João Vaz em 
Larache, trazendo setenta ou oitenta pesoas cativas. Chamou-se este João 
Vaz Amete, por se chamar asi o alcaide, cujo Larache era. Foi muito 
bem recebido do alcaide, partindo muito largamente com ele, fazendo-lhe 
mercê e honra. 

i 

Os mais determinamos de nos defender e guardar a verdade, pele- 
jando e morrendo pola salvação verdadeira das pesoas e bons cavaleiros, 
fazendo arrombadas de sacas ^ de algodão e couros, balroando úa cara- 
vela com a outra, pondo a popa de úa com a popa da outra, e cora esta 
ordem e determinação esperávão que as fustas chegasem, as quais não 
tardarão que as dos turcos as fosem demandar, parecendo-lhe que logo 
as rendesem, e não lhes saio asi, porque como a elas chegarão e as inves- 
tisem, deitarão dentro mais de trinta turcos e mouros, entrando por cima 
das sacas % mas mais depresa sairão do que entrarão, porque os das 
caravelas, como valentes cavaleiros, saltarão com lanças e asi os fizéráo 
sair, ficando três mortos, outros mal feridos. 

Vendo os turcos o dano que receberão em navios, e sem artelharia, 
não deixarão ainda de as deixar de acometer, mas não ganharão mais que 
da primeira vez, e, vendo o dano que recebião, se pusérão ás arcabu- 
zadas e setadas poios matar, esperando por João Vaz, que com os outros 
navios fora demandar úa naveta, que contra o Cabo de S. Vicente deitara 
em terra os que nela vinhão, e ela vinha carregada de pastel. Os turcos, 
achando-a despejada de jente, a tomarão e, revocando-a, a trouxérão pêra 
onde estávão á contenda com as caravelas, onde se tinha feito muito dano, 
e não ousávão de as tornar a investir, e esperávão que João Vaz viese 
era todos juntos darem nelas, o que não foi asi, porque os fidalgos e 
homens do mar de Lagos, acudindo a rebate e vendo que as caravelas se 
defendíão, alvoroçados como bons cavaleiros, fôrão ao socorro e se lan- 
çarão em duas ou três caravelas, que na baia estávão; metendo-se nelas 
com suas armas e muitos besteiros e espingardeiros, se fôrão chegando ás 
fustas, que com as caravelas estávão ás voltas, as quais, vendo vir-Ihe 
socorro, se afastarão, levando muito dano de mortos e feridos, e todos 

I. ...] linha embrancoBN; sem brancoM. — 2. sacas] casas B,mas emendado, como 
no texlOy por outro punho e tinta; cazas M. 



— igo — 

merecíão ser louvados. Os turcos e mouros ajuntarão sua presa com 
menos gosto do que cuidávão, por as caravelas se defenderem e matarem 
e ferirem muita jente; no Estreito se detivérão alguns dias, na costa do 
Algarve ' ; e, tornando a João Vaz, direi o que mais fez. 



CAPITULO XXV 

Como João Va:{ tomou os vendeiros da Venda de Santanejos 
á boca do rio de Sevilha e os da Carvoeira nas Áreas Gordas e outros 



JOÃO Vaz, como andava enfrascado no dano que nos fazia, não podia 
ter sosego, e, tanto que teve espalmados os três navios, ordenou de 
tornar fora e saio do rio de Larache muito tarde e com muito res- 
guardo, que não fose visto, nem sentido das nosas atalaias, e aquela noite 
se lançou no mar, e ao outro dia, á tarde, esteve sobre as baias de Cáliz 
e São Lucar de Barramede, que é na entrada do rio de Sevilha, e aquela 
noite foi demandar a terra c ante-menhã se meteo dentro do rio, lançando 
em terra cincoenta homens, e fôrão tomar os vendeiros de Santanejos e 
os que aquela noite na Venda dormirão, e tão prestes que não escapou 
nenhum e tomarão bem quinze pesoas, em que entrarão dous mercadores 
portugueses, que pêra Cáliz ião, e deceparão sete ou oito bestas que der- 
redor da Venda andávão; e, não contente com esta cavalgada, mandou 
polo caminho da praia trinta mouros, que tomasem os que poio caminho 
viesem demandar a Venda e o vendeiro da Carvoeira, que é outra venda 
que está no cabo das Áreas Gordas, três legoas de Santanejos e duas da 
boca do rio, e pêra os guiarem foi um alcaide, que nas fustas vinha com 
o recoveiro que na venda tomarão, e tão bem lhes dise a fortuna que 
tomarão alguns que madrugarão pêra tomar a barca, e já de dia tomarão 
o vendeiro e alguns pescadores de Xobrega, que, como não viao navio no 
mar, se tínhão por seguros; e João Vaz, como foi menhã, saio do rio e 
ao longo da praia foi tomar os seus, e, junto Qa presa com a outra, fôrão 
mais de vinte cristãos os que aquela noite tomarão, e porque vio muita 
revolta em São Lucar, por estar ahi o duque de Medina Sidónia, que 
mandou com muita dilijencia armar úa galeota, vendo as três fustas, e 
asi com mais duas caravelas, mas não sairão a tempo que lhes fizese 
dano; e, recolhendo-se João Vaz, quisera intentar úa caravela que era 
companhia de ija nao estava em Cáliz, mas a viração ventava e a nao e 
caravela fôrão caminho da baia, sem querer entender nas fustas, as quais, 
pasando á vista de Arzila, se ouvérão em Larache. Outras entradas fez 

1. Deve ser o Algarve dalém mar, em Africa. 



19' 



João Vaz este ano, em especial em o seu barquinho, dignas de admira- 
ção, que não conto por não fazer neste ano tanta leitura, mas ficarão pêra 
este ano seguinte ; e, deixando-o agora com o demónio que o trazia, tor- 
narei aos turcos que em Çalé ficarão curando-se. 



CAPITULO XXVI 

Do que aconteceo aos turcos que em Çalé Jicárão curando-se 



ESTANDO prestes os turcos em Çalé, depois de curados, pêra sair, ou- 
vérão vista de Qa caravela e, parecendo-lhe ser navio que o tempo 
ali deitara, com muita presa lhe sairão e fôrão com ele e o toma- 
rão, porque a caravela, vendo sair as fustas do lugar pêra onde ia, não 
se temeo, mas antes se ouve por segura, por a mandar um judeu, que em 
Portugal estava honrado, que se chamava Rosales, e nela ia Rui Mêndez, 
filho de Diogo Sânchez, mercador rico e abastado de Lisboa, Os turcos, 
vendo tão boa presa nas mãos, e que o navio ia rico, por levar roupa da 
índia, que podia valer cinco ou seis mil cruzados, fôrão cheios de cobiça 
e, não lhe lembrando fé, nem verdade, nem que o navio ia pêra Çalé, 
onde eles estávão com seguro, se apoderarão dele e, levando-o consigo, 
se fôrão meter no rio da Mamora, cinco legoas de Çalé, onde o alcaide 
mandou alguns de cavalo com um jenro de Rosales, que labi Sanei Chi- 
quitilha ' avia nome, requerendo-lhe que não tomasem o navio, pois trazia 
seguro d'el-rei e de Mulei Abrahem, e vinha pêra o porto onde eles está- 
vão. Os turcos responderão que eles não vínhão senão a roubar e enri- 
quecer, e, pois a fazenda era de cristãos e judeus, que lh'a daríão se lhes 
desem dous mil cruzados, e que logo lh'os desem, e isto polo alcaide 
falar niso e por o judeu insistir que aquele navio não podia ser tomado. 
O capitão das fustas, com nojo e menencorea, jurou que o levava ao 
cabo de Gué a vender a presa ao xerife, e logo se lançou fora do rio 
e tornou a pasar junto de Çalé. Vendo o alcaide que as fustas pasávão 
e não entrávão, tornou a mandar alguns de cavalo ao longo da costa, 
capeando-lhe que esperasem poios dous mil cruzados. Os turcos se 
fôrão meter em Fadale, porto despovoado, que está entre Azamor e Çalé, 
onde os quatro de cavalo e Chiquitilha falarão ao capitão, que vendo que 
não trazíão dinheiro e que tudo érão palavras, e por estar arrependido de 
averem pedido pouco, dérão á vela e se fôrão caminho de Çafi, donde 
tomarão dous navios com aigúa jente, que na baia estava, e com eles 

I. Chiquitilha] e Iquitilha B ; e Hiquitilha M;/. N. A forma correcta vem algumas 
linhas abaixo. 



— 192 — 

se foi ao cabo de Gué e se meterão no rio de Meça, onde fizérão saber 
aos xerifes de sua chegada e presa, os quais lhes dérão seguro e lh'a 
comprarão toda, em que fizérão muito e bom dinheiro, e feito em ouro, 
esperando polo mês de setembro, pêra se poderem milhor ver com os 
parentes, onde os deixamos. 



CAPITULO XXVII 

Que conta da armada que este ano veio ao Estreito 



A nova destes navios de remo e de João Vaz se tornar mouro chegou 
a el-rei, noso senhor, que neste tempo estava em Évora, e com 
muita presteza mandou que em Lisboa se fizese Ga armada de 
seis ou sete caravelas, por capitão-mór Dom Estêvão da Gama, que de- 
pois foi governador da índia, e em pouco tempo se fez prestes e partio e 
veio direito a Arzila, onde foi recebido com muita alegria e honra, asi 
ele como seus irmãos. Dom Paulo e Dom Cristóvão, que por capitães 
doutros navios vínhão. Levou Dom Estêvão nesta armada quatro galeões 
que se fizérão no Algarve, muito grandes e muito bem armados \ estes 
fôrão com a armada que el-rei mandou a Túnez, em que ia por capitão- 
mór António de Saldanha, em que se fez muito serviço a Deos e ao em- 
perador e ao reino muita honra, por o emperador lhe dar a dianteira na 
bateria da Goleta. 

Tornando a Dom Estêvão e á sua chegada, o conde mandou a Roque 
de Farão com vinte cinco de cavalo ao rio de Larache, por saber a dis- 
posição das fustas e se estávão espalmadas, e achárão-nas metidas polo 
estreito dentro, que vendo a armada se temerão que com os bateis e 
barcas lh'as fosem tomar ou queimar ; e por isso parece ser verdade o 
que já tenho dito, que, como avia navio em Larache, se temíão de lh'o 
irem queimar, como muitas vezes tínhamos feito ; e, como Dom Estêvão 
soube a guarda e resguardo que nas fustas se tinha, não quis intentar 
cousa com que não saise e com o primeiro ponente se foi visitar Tanjere 
e os outros lugares do Estreito, donde enxotou outros navios que se que- 
rião ajuntar com João Vaz de Bélez e Xexuão; e, andando Dom Estêvão 
no Estreito, viérão as duas fustas, que no cabo de Gué fôrão vender a 
presa de Rosales, depois de terem feito seu resgate e fazerem-se ricos. 
Vendo tempo pêra demandar o Estreito, com os primeiros ponentes par- 
tirão, vindo ao longo da costa, pasárão por Çalé e Larache, sem ousarem 
tomar porto no reino de Féz, por lhe não demandarem a caravela que 
mal tomada era •, e, vindo seu viagem, apontando polo Cabo Branco, onde 



— 193 — 

logo fôrão vistas das nosas atalaias e dérão rebates e na vila ouve repi- 
que, e, vendo serem fustas, dérão o sinal acostumado aos barcos de 
pescar, que era úa fumaça ao Miradouro. Os barcos se não pudérão tão 
prestes acolher que não alcansasem um, e o viérão tomar junto do Bo- 
queirão, tanto debaixo das nosas bombardas que os pelouros pasávão por 
cima delas, mas a galeota grande, que diante vinha, como ao barco che- 
gou, tomou sete homens pescadores e o pescado que trazíão e se foi 
caminho do cabo de Espartel, onde estivarão ao outro dia, por não pasa- 
rem por Tanjere de dia, por temor da armada que em Cepta estava; e 
a outra noite pasárão e, estando entre Tanjere e Alcacere, virão vir a 
armada com muita força de levante e, vendo que as caravelas não che- 
gávão, faltando-lhe o vento, como foi noite, tomando o remo nas mãos, 
e se pusérão a balravento da armada, e não tardou que não tardase a 
ventar ponente com muita força, e pode mais que o levante, e Dom Estê- 
vão, tornando a seguir as fustas, as alcansou e, pondo a proa na galeota, 
a investio com um galeão e a fez em pedaços, e fez asi turcos como 
mouros nadarem, e os mais se afogarão, de tal maneira foi a galeota 
desfeita, de modo que não escapou mais que alguns, que na agoa andá- 
vão, que Dom Estêvão quis que tomasem ; a outra fusta, por ser piquena, 
se meteo ao longo da terra e se salvou e, saindo do Estreito, se foi a 
■ Arjel, ficando seu capitão cativo com alguns que tomarão na agua, e 
todos os mais afogados, e todo o dinheiro que trazíão, asi ouro como o 
demais, perdido, sem se salvar nada dele. 

Esta fusta, que aqui escapou da armada de Dom Estêvão, não pasárão 
muitos dias que não fose tomada doutra de Castela, que com ela se topou, 
e cativos os turcos e mouros dela e os cristãos soltos e livres, onde fôrão 
dous dos sete que tomarão no barco de pescar, debaixo das bombardas 
de Arzila, os quais érão João Rodríguez Toucinho, do porto de Santa 
Maria, e João Português, o qual achou sua molher casada, que Brianda 
Vaz avia nome, com um homem do mar, que, por termos nova todos 
érão afogados, o carpio e se casou, e, depois que veio seu primeiro ma- 
rido, deixou o segundo e fez vida com o primeiro e lhe morreo, e se 
casou outra vez com um cavaleiro, bom homem, que, sendo cativo, fale- 
ceo, e ela' oje em dia anda nesta cidade de Lisboa, procurando o resgate 
de Manuel Díaz, seu jenro. 

E asi pagarão estes turcos e mouros a pouca fé e ladroice que come- 
terão em companhia de João Vaz Maio, elche : é Deos tão justo que não 
quis que pasasem sem castigo do mal que tínhão feito. Dom Estêvão fez 
nesta tomada da gaiiota muito serviço a Deos e a e!-rei, e os turcos 
ficarão escarmentados, que não tornarão tão cedo ao Estreito: e asi faço 
fim a este ano de trinta e entro no de trinta um. 

I. elaj ele B;/. N. 

ANAIS DE ARZILA 25 



— 194 



CAPITULO XX,VIII 

Em que entra o ano de trinta um 
e da perda dos Jilhos de Dom Duarte 



Eu me detive neste ano de trinta, por nele acontecerem cousas que 
se não podíao deixar, e, guardando a ordem dos anos, direi do 
seguinte, de trinta um, no principio do qual ouve neste reino de 
Portugal muito trabalho, por aver nele peste e terremotos, com tremer a 
terra e caírem casas e edeficios, onde morreo muita jente ; e tal espanto 
e medo pôs que andávão as jentes espantadas e fora de si, que não ousá- 
vão a entrar, nem dormir em povoado, e saíão-se ao campo, onde dor- 
mião em choupanas e tendas que pêra iso fazíão, e asaz foi isto mais em 
Lisboa e polo Tejo acima que em outra parte, e em especial em Vila 
Franca, Povos, Castanheira, Azambuja, até Santarém, e foi este terremoto 
a vinte de janeiro do ano de trinta um; e, como Noso Senhor é miseri- 
cordioso, ouve por bem sosegar o tempo. 

Levantado o tremor e peste, logo ouve outro rebate neste reino, que 
foi a nova da perda dos filhos de Dom Duarte, capitão de Tanjere, serem 
perdidos com toda a jente da cidade; e esta nova foi causa que os mais 
principais fidalgos deste reino, com muita presteza e gasto, acudirão com 
suas pesoas e jente de cavalo ao socorro de Tanjere, e, como estes filhos 
de Dom Duarte se perderão com a demais jente, direi brevemente. 

Em Tanjere avia um João Rodríguez, almocadem, que muito bem 
sabia o campo e as serras. Este João Rodríguez espiou úa aldeã na serra 
d'Anjera e vio como lhe podia fazer dano e tomar a boiada, e, dando 
conta ao capitão, fez com que os filhos lhe pedisem licença pêra ir fora 
ao ardil de João Rodríguez, o que ele concedeo, por ele não poder ir em 
pesoa, por suas indisposições, e fôrão os filhos, Dom Fernando e Dom 
Diogo, levando a bandeira e a mais da jente de Tanjere, em que ião cento 
e corenta de cavalo, e ao outro dia dérão na aldeã, que Beneolim avia 
nome, e, tomadas algiias almas, lhe tomarão todo o gado, asi groso como 
meudo; mas logo acudirão ao rebate cincoenta de cavalo, que acaso acer- 
tarão a ser hospedes, asi na aldeã como derredor dela, por Mulei Abra- 
hem acertar corroer a Tanjere e acertar aquela noite a dormir em Anjera, 
junto a Beneolim, e cide Ornar Bençalema, seu irmão, que já era alcaide 
de Xexuão, foi o que logo acudio e se achou com os dianteiros. Os de 
Tanjere, vendo jente nova e não esperada, logo se confranjêrão e virão 
o mal daquele dia; por recrecer jente de pé, bradarão que deixasem o 
gado e se ouvesem da outra parte de um ribeiro, temendo-se a o pasar 



- 195 - 

não recebesem dano, e deste parecer fôrãô João Rodríguez, Francisco de 
Meneses e o adail, Diogo Mêndez d' Azevedo; mas Dom Diogo, filho de 
Dom Duarte, o não quis consentir, dizendo que úa cabra não avia de dei- 
xar, e, trazendo sua cavalgada, chegarão á ribeira, vindo já com eles bem 
oitenta de cavalo e dozentos de pé, que os trazíao tão asados que Fran- 
cisco de Meneses e o adail disérão a Dom Diogo que alargasem ao gado 
e pasasem a ribeira, o que Dom Diogo não quis, cousa muito pêra culpar 
a uns tão estremados cavaleiros como ali érão, como o adail e Francisco 
de Meneses estarem polo parecer de um mancebo de menos de dezoito 
anos, tendo eles tanta experiência de guerra ; e por outra parte se podem 
louvar, que, como leais portugueses, obedecerão a seu capitão, posto que 
víão ser necesario o que aconselhávão. Ao pasar da ribeira fôrão os 
nosos tão apertados que matarão ao adail Diogo Mêndez d'Azevedo, pesoa 
valerosa e principal de Tanjere, e com ele morreo Brás Afonso, natural 
de Cepta, que, morando em Arzila, foi casar a Tanjere. A morte do 
adail pôs grande espanto aos nosos, que logo se ouvérão por desbaratados, 
e sem mais esperar se punhão na dianteira. Vendo os mouros a fraqueza, 
e que o gado ficava, por não aver quem o tanjese, apertarão de tal ma- 
neira que, querendo os filhos de Dom Duarte a traseira, fomos derribados, 
e Dom Diogo morto e Dom Fernando o maior cativo ; e, vendo todos os 
seus capitães mortos e cativos, sem mais olharem por nada, dérão á longa 
pondo-se em fojida, não escapando senão a unha de cavalo, que fôrão 
até corenta de cavalo, e fôrão mortos noventa e tantos, e com Dom Fer- 
nando alguns cativos, que seríão sete ou oito. Escapou deste desbarate 
Francisco de Meneses, e seu filho Francisco de Meneses foi cativo e seu 
jenro Gaspar de Meneses, filho de Pêro de Meneses. Neste desbarate 
se asinou cide Abedelá Celema ', irmão de Mulei Abrahem, que, achando-se 
nestes dianteiros, ele foi o acometedor e o seguidor do alcance até junto 
da cidade, e dezíão que os mais que morrerão fôrão derribados da sua 
lança. 

Dous ditos notáveis contarei que fôrão este triste dia ditos por dous 
mancebos, que nenhum chegava a vinte anos: um foi de Pêro Alvarez de 
Souto-Maior, filho de Fernando Anes de Souto-Maior, que, achando-se na 
dianteira, onde Dom Diogo o pusera, e, vendo vir a jente em desbarate, 
trabalhando poios deter, preguntando por Dom Fernando e Dom Diogo, 
e, como lhe disérão que érão mortos, dise: »Não queira Deos que eu me 
salve, deixando meus capitães mortos no campo», e, tornando atrás, se 
encontrou com cide Abedelá Celema, que diante vinha, o qual vendo-o 
moço, ou polo conhecerem, depois de derribado, foi tomado cativo e levado 
a Dom Fernando, que perto dali fora derribado. 

I. Celema] Cema B, mas ii linhas abaixo Celema. Anteriormente^ p. ig4, l. 3o, 
chamou-se-lhe Bencalema 



— ig6 — 

O outro dito foi de Dom Fernando, que, sendo posto entre seus imigos 
e derredor muitos que o conhecerão e o nomeávão por Dom Fernando, 
chegou Mulci Abrahem, e, como era nobre e magnânimo, o fez pôr a 
cavalo, asi a ele como a Pêro Alvarez, e, querendo-o consolar, lhe dise 
estas palavras: «Senhor Dom Fernando, estes são os efeitos da guerra, 
que não favorecem a Ga parte sem dano da outra; mas esta fortuna vosa 
é mais pola soberba e condição de voso pai que polo vós merecerdes». 
Isto dezia Mulei Abrahem por Dom Duarte ser áspero e se dar muito 
mal com ele. Respondeo-lhe Dom Fernando: «Senhor, não vai isto em 
ser meu pai de boa, nem má condição, senão o costume que tem os Me- 
neses, donde venho, derramarem o sangue nos campos de Alcacere, 
Tanjere e Arzila». Mulei Abrahem, vendo a reposta de Dom Fernando 
lh'o teve a bem e lhe pedio perdão, e lhe dise: «Vós ganhastes, senhor 
Dom Fernando» e recolheo a si e o tratou, não como a cativo, senão 
como filho, dando-lhe oito vinténs cada dia, pêra gasto seu e de Pêro 
Alvarez, e pêra um cristão que os servia dous vinténs, e comíão á sua 
mesa com suas molheres Dom Fernando e Pêro Alvarez. O costume de 
Mulei Abrahem era que, como bebia vinho, não entrava pêra onde comia 
e bebia senão cristãos e judeus, seus privados, que ele mandava cha- 
mar. 

Deixando Mulei Abrahem com sua vitoria e a Dom Fernando em seu 
poder, onde morreo de camarás, sem ser resgatado, direi o que Dom 
Duarte fez neste [mal] ' afortunado dia, pois nele perdeo dous filhos e 
vinte dous de cavalo de sua casa, entre parentes e criados, afora os mo- 
radores e fronteiros setenta. Tanto que ouve repique, que ele saio ao 
Facho e recolheo as relíquias que escaparão, de cento e corenta de cavalo 
que com seus filhos mandou, com muita tristeza se recolheo á cidade, 
onde á porta estávão as molheres descabeladas, preguntando poios ma- 
ridos, filhos, irmãos, ás quais respondia ^ : «Fícão como bons cavaleiros 
acompanhando meus filhos» e, vestido um balandrao de escarlata, visitou 
todas as anojadas e consolando-as com seu exemplo, dizendo: «Olhai 
minha perda e que érão meus filhos e a esperança que tinha de suas vir- 
tudes, e de vinte dous de cavalo todos de minha casa sairão sem tornar 
um deles», dando iouvores a Deos que asi o ouve por bem, e desta ma- 
neira se mostrou animoso e [asi] ' a senhora sua molher, e depois se 
recolheo a sua casa e camará, escrevendo cartas a el-rei e asi ao feitor 
de Andaluzia, o qual logo provco a cidade com dozentos soldados e muito 
mantimento, com que a cidade ficou segura. 



I. [mal]/. B NM. — 2. ás quais respondia] os quais respondíão M. — 3. [asi] /. B 
NM. 



— 197 — 

CAPITULO XXIX 

Do socorro que a Tanjere veio 



A nova deste desbarate e perda dos filhos de Dom Duarte chegou a 
el-rei, noso senhor, estando em Alcouchete, lugar de Ribatejo, 
defronte de Lisboa, e alvoroçou tanto este reino e corte que fez 
os mais fidalgos partir ao socorro de Tanjere, e em quinze dias fôrão nele 
mais de cem fidalgos, com seus criados e achegados e armas e cavalos, 
de maneira que se ajuntarão quinhentos de cavalo em Tanjere; e como 
Mulei Abrahem tornase a Féz e el-rel fose este ano a Marrocos, á guerra 
do xerife, e as serras de Tanjere não são pêra tanta e tão honrada fidal- 
guia entrarem sem fazerem algum bom feito, requererão a Dom Duarte 
que fizese com o conde os levase ao campo de Alcacere Quibir, pêra o 
qual requerimento levou a Arzila toda aquela fidalguia, que era a maior 
parte que em Portugal avia, que não se noméão por não enfadar-, e fôrão 
agasalhados em Arzila, com muito alvoroço e gasto de nós outros mora- 
dores, por cujas casas o conde os repartio, e de tal maneira fôrão abas- 
tados que ouvi a Dom Diogo de Crasto e a Dom Pêro Lobo e outros 
fidalgos, em louvor dos moradores de Arzila, que era úa corte e érão mui 
honrados, e merecíão fazerem-lhe honra e mercê, e muitos receberão 
dobrada honra e mercê polo que lhe o irmão tinha dito. 

Foi esta vinda de Dom Duarte com estes fidalgos pêra se tratar um 
negocio árduo e grande, que era saquear Alcacere Quibir, pêra o qual 
feito Gonçalo Pérez de Galhegos, cavaleiro e morador em Xerez da Fron- 
teira, como servidor d'el-rei e do conde, se oferecia trazer quatrocentos 
ou quinhentos soldados á sua custa e dozentos de cavalo, o qual sabido 
por el-rei avisou ao conde que nenhúa jente viese que não fose paga do 
seu dinheiro e mandados por seu feitor, o que os cavaleiros de Xerez não 
quisérão receber paga, senão virem á sua custa, por servir el-rei e ganhar 
honra. Desfeito este conselho e trato que segundo o tempo e disposição 
daquela cidade estava tomada e saqueada, e fora úa das cousas asinadas 
do noso tempo, — tornando á jente que em Arzila estava, entrados em 
conselho em São Francisco, donde Dom Duarte pousava, foi dito por 
Dom Duarte que trazia a cargo tantos e tão honrados fidalgos, de que 
avia de dar conta a Deos e a el-rei e ao mundo, e que a nova que o conde 
tinha era de oito dias, e que neles podia el-rei vir de Marrocos, quanto 
mais que sabendo que estes fidalgos erão vindos, e que avião de querer 
fazer algúa entrada, podião ' tornar do caminho, que se avia de tomar lingoa 

1. podíãoj podia NM. 



mais fresca. O conde contra sua vontade, vendo a de Dom Duarte, 
mandou a Diogo da Silveira que com trinta de cavalo tomase úa lingoa e 
que levase Jorje da Silveira consigo; e indo nós noso caminho pêra tomar 
lingoa de noite, antes de chegar á Ponte, vimos fogos ao longo da ribeira 
e lugares onde parecia sinal sermos sentidos, e, não ousando chegar á 
Ponte, nos tornamos e, com nosa nova e tornada, se desmanchou a ida de 
tant^ e tão boa jente. Dom Duarte quisera que de caminho o conde o 
levara a correr o campo de Meneara e de Benamede: o conde lhe dise 
que lhe não parecia bom conselho, por andar o campo recolhido e o não 
ter espiado. Dom Duarte se tornou a Tanjere com todos os fidalgos, 
somente Dom Dinis d' Almeida, contador-mór, que em Arzila ficou. 



CAPITULO XXX 

Como osjidalgos que em Tanjere estávão 
se ajuntarão no campo de Arzila 



Tornando Dom Duarte com todos os fidalgos a Tanjere, dahi a poucos 
dias o conde teve nova ser el-rei tornado de Marrocos e que fizera paz 
com o xerife, e que tratarão casamentos dos filhos. Eu tive um rol da 
jente que levava nesta jornada, e toda não pasava de sete mil de cavalo, 
e com eles teve encerrado em Marrocos aos xerifes, e Mulei Abrahem se 
vio com eles e os fez obedecer a el-rei e lhe viérão falar e os fez amigos. 
E tendo, como digo, o conde nova de el-rei estar em Féz e Mulei Abra- 
hem em sua casa, que era em Miquinez, e que podia entrar, o fez saber 
a Dom Duarte; e, vindo com seus fidalgos, vista a determinação do conde, 
que era ir correr a Alcacere, Dom Duarte o refutou, dando rezões, di- 
zendo que era muito comprida e que receberíao muito dano das calmas; 
e, por satisfazer a fidalguia, se ajuntarão no Castelo ao pé do Farrobo, 
onde aconteceo um caso, que foi tomar-nos dantre tanta jente um lião um 
homem, e foi asi que o conde mandou que, pois a Dom Duarte lhe parecia 
bem não correr Alcacere, por fazer prazer a tantos e tão honrados fidal- 
gos, tendo boa nova, nos ajuntamos entre o Farrobo e Benamares; e 
estando em úa grande várzea, junto do Castelo, onde a jente de Tanjere 
se ajuntou, e os capitães e almocadens juntos em conselho da maneira 
como nos melhorasemos e corresemos a Benamede e a Meneara, em que 
avia setecentos de cavalo, os mais todos a pé e com os cavalos polas 
rédeas, um fero lião entrou por entre nós, pondo o tento em António 
Vizugo, que falando estava, e a derredor dele sete ou oito homens, re- 
meteo a ele e, pondo-lhe as mãos nos peitos, lhe quebrou as couraças e 
lhe meteo as laminas por dentro dos peitos e, tomando-o nos dentes, o 



— 199 — 

começou a levar. O rebate foi mui grande e dos brados do António 
Vizugo e da fojida dos cavalos, e acudindo os que mais afastados estávão, 
porque os de perto os mais dos cavalos fôrão soltos, e, sabendo que era 
lião, apertarão com ele e lhe fizérao largar a presa, mas ele ficou tal que 
em breve espacio' acabou seus dias. O conde, que a iso chegou, vendo-o 
tão mal tratado, mandou a um seu tio e irmão o trouxesem pêra a vila, 
mas ele logo morreo, e em um barranco o enterrarão, como pudérão, e 
se tornarão a nós. Pois sendo ante-menhã nos melhoramos ao longo da 
ribeira de Benamede, onde estivemos até as horas que pareceo aos almo- 
cadens devíamos correr, e, arrancando da cilada, os mais fôrão direitos 
ao facho de Meneara d'Alemnacer % e outros tomamos pola ribeira de 
Benamede acima, e eu e Simão Vaz Arráiz fomos juntos e companheiros 
até junto das casas, onde tomamos um mouro e duas egoas, que carre- 
gadas de favas ião, e chegamos a úa oliveira, que junto da aldea estava, 
e por dar fé trouxe na cevadeira úa mão cheia de azeitonas, e, com a 
grande grita que os de Benamede trazião, nos viemos recolhendo. Os de 
Tanjere, como não sabíão o campo, todos levávão os olhos no facho, indo 
os fidalgos rogando aos de Arzila os encaminhasem, e o que mais dian- 
teiro foi Dom João de Sande, por ir no cavalo Ravenga, que de Arzila 
trouxe. A corrida foi muito grande e de pouco proveito, por se não 
tomarem mais que oito ou nove almas e dez ou doze egoas e outras tantas 
vacas; e, vindo-se as bandeiras recolhendo, corenta ou cincoenta de cavalo 
vínhão á fala com os nosos, e, vendo João Conde tempo, arrancou a eles 
e derribou um dos mouros e fez que os nosos arrancasem aos outros, e, 
matando um, fôrão tomados dous deles. Depois das bandeiras virem 
juntas com sua presazinha, junto dos fachos de Benamares, um mouro, 
fazendo sinal, veio diante do conde e, com muita humildade, dise que lhe 
trazião duas egoas e um poldro e quatro ou cinco vacas, que pedia a sua 
senhoria lhe fizese mercê das vacas, que era sua sustentação, e pêra tanta 
jente era mui piquena presa. O conde o mandou a Dom Duarte, avendo 
compaixão dele, mas os de Tanjere, quando virão que pedia as vaquinhas, 
as alimparão 3, de que o conde ouve compaixão, e, todavia, lhe mandou 
dar úa egoa, que dise que era sua, e levou seu capuz azul, e asi foi con- 
solado. Asi viemos juntos até Darbejos 4, onde nos apartamos, e a jente 
de Tanjere tomou o caminho do porto d'Alfeixe e nós o de Arzila. 

A presa deste ajuntamento não chegou a pagar as perdas, por nos 
rebentarem alguns cavalos e emmanquecerem outros, da corrida ser grande, 
perto de duas legoas. Este ajuntamento foi o de mais fidalgos que no 
campo de Arzila fôrão juntos, em [setenta e oito] ^ anos que foi de cris- 



1. espacio] espaço NM. — 2. Alemnacer: deve ser Alenacer(ôi< Alinacer) jue ocor- 
reu já muitas vejes. — 3. alimparão : tomarão para si, segundo cremos. — 4. Darbejos: 
deve ser Darbufez que ocorreu já. — 5. [setenta e oito] em branco B. 



tãos, da tomada d'el-rei Dom Afonso até a deixar el-rei Dom João o ter- 
ceiro. 

CAPITULO XXXI 

Como Bernardim da Silveira fe\ úa entrada e tomou dons de cavalo 
e os de pé nos matarão Rui Veloso 



DEPOIS que pasou este ajuntamento, o conde deu licença a Bernaldim 
da Silveira o Drago, filho do coudel-mór, que fose entrar, e, re- 
queridos alguns que com ele fomos, andando a cavalo, sendo já 
noite, se achou menos um judeu, que empenhado estava em Arzila, por 
outro seu irmão levar fazenda fiada e deixar empenhado por ela o irmão, 
o qual, tendo nova ou sospeita que o irmão não podia cumprir, procurou 
fujir; e, por este judeu ser desaparecido, nos tornamos a decer e cesou 
a ida. Ao outro dia, estando o conde na igreja, os acredores, que um 
bizcainho e outros de Cáliz érão, pedirão ao conde lhes fizese justiça e 
não quisese que um judeu viese a enganá-los e lhes levase sua fazenda, e 
que mandase lançar mão de algúa cáfila, como represala, até serem pagos. 
O conde responde© que ele escreveria a el-rei e a Mulei Abrahem, 
pedindo-lhe que não consentise tal engano, e que se fizese prestes um 
deles pêra ir com as cartas, e responderão que mais daríão por um recado 
seu, mandando-lh'o por úa pesoa, que por eles, que érão partes. Aprouve 
asi ao conde e, pondo os olhos em mim, escreveo as cartas, ali na igreja, 
e, recebidas, me pús a cavalo e fui meu caminho; e, pasando pola Ata- 
laia Ruiva, as atalaias se fôrão a mim e me disérão que se topase ou 
vise mouros que lhes fizese sinal, que era abaixar a lança, que levava um 
lenço nela; mas eu, tanto que pasei a fonte do Azambujeiro, topei fora 
do caminho ao judeu morto, nu em couros, com dez ou doze lançadas, e 
depois que o conheci ser Abrahão Trigo, que asi avia nome, me tornei á 
vila e o dise ao conde como o achara. Preguntou de que: dise-lhe que 
de dez ou doze lançadas. Preguntou se achara rasto de muita jente : 
respondi que de quatro ou cinco de cavalo. 

O conde asentou serem espias e ladrões e mandou a Bernardim da 
Silveira que se fizese prestes ; e, sendo já tarde, saimos, guiando-nos 
Diogo da Silveira, e ao outro dia fomos correr entre Alion e Alhazar ' e 
e tomamos dous mouros de cavalo, um deles tamanho de corpo que 
parecia jigante; os quais se tomarão tanto a dentro das terras que tivérão 
ousadia virem trás nós obra de corenta mouros de pé e nos apertarem de 
córrego em córrego, que dávão a entender ter jente diante, mas, pregun- 

I. Alhazar: talve^ Alhazana. 



— 201 — 

tados os dous de cavalo, disérão que não avia jente, nem má nova que 
temer. Entre estes mouros vinha um negro diante, gritando e induzindo 
os outros, e em cada córrego nos deitávão úa ou duas lanças, ao qual 
António Fernândez Manco meteo úa seta poios peitos até as penas. Visto 
por nós este tão bom tiro, arrancamos por entre as daroeiras sobre eles, 
e, como nos espalhamos, Rui Veloso, criado do conde da Castanheira, 
que servia úa comenda, se meteo por entre as daroeiras sobre eles, e, 
como nos espalhamos. Rui Veloso meteo a lança em um mouro e ele lhe 
lançou mão dela, e outros que ajudarão dérão com ele do cavalo abaixo 
e lhe cortarão a cabeça, primeiro que de nós outros fose socorrido, e, 
pêra lhe tirarem as couraças e vestido, foi metido tanto dentro na brenha 
que, ainda que trabalhasemos polo aver, não pudemos e ficou em poder 
deles e recolhido o cavalo, que o mais ficou. Todavia, nesta volta mor- 
rerão quatro vilãos de pé; e, com Rui Veloso menos, nos recolhemos e 
viemos á vila, desconsolados. 

Ao outro dia se venderão os dous mouros, e, estando em leilão, repi- 
carão aos almogaveres que da Atalaia Alta sairão, mas não fizérão dano, 
posto que tinhão o alcaide em Mijeleo, que, tendo rebate como corremos 
Alijar, saio ao rebate e na ribeira d'Algarrafa lhe dérão recado do que 
fizemos, e, mostrando úas couraças novas e úa espada guarnecida de 
prata, disérão que nos matarão um fidalgo. O alcaide, por dar a enten- 
der aos seus que vinha após nós, nos seguio, mas não que ouvesemos 
vista dele. Ao outro dia armou com almogaveres e, vendo que o campo 
andava recolhido e não ião após eles, tomou o cammho do Azambujeiro, 
e, sem dele avermos vista, se tornou a Alcacere; mas não tardou muito 
que, ajuntando toda a jente que pode, que fôrão oitocentos de cavalo, 
tornou ao noso campo e, mandando almogaveres ao rosto d'Alfomar, 
ficou á fonte do Zambujeiro. Os almogaveres desta vez tomarão úa 
atalaia das d'Alfomar, a que chamávão Fernão Machado, e o levarão ao 
alcaide, e, fazendo-lhe as preguntas acostumadas e preguntando-lhe polo 
conde e o campo como, estava e se servia e como os nosos não ião após 
os seus, dando a entender que o conde saise após eles, Fernão Machado 
lhe respondeo, como homem sezudo e honrado, que o conde não saia após 
almogaveres, que, se ele queria que o conde soubese de sua ida, lh'o 
mandase dizer. Desta reposta lhe mostrou roim focinho o alcaide, e 
com eles se recolherão bem depresa, sem parecerem até a fonte. 



ANAIS DE ARZILA 20 



CAPITULO XXXII 

Como Miílci Abrahem correo Ar-ila e o que fe\ 



No fim deste ano de trinta um Mulei Abrahem correo Arzila com 
sua jente, e o ardil que trazia era mostrar ás atalaias um lião 
manso que em sua casa um dos seus cristãos trazia e criarão, o 
qual ardil dczíão que era de Rui de Melo, que a este tempo era lançado 
com ele, tendo molher e filhos em Arzila; e porque se foi e como se veio 
adiante se dirá. Mulei Abrahem partio de Fez com obra de trezentos de 
cavalo, dos mais chegados a el-rei, e no noso campo achou seu irmão, 
cide Abedelá, que o esperava com a jente de Xexuão, e se veio lançar 
nos Codeços com tenção de mostrar o lião ás atalaias d'Alicasapo, mas 
este ardil não ouve efeito, porque o lião não se quis apartar do cristão 
que o criara; e, correndo pola outra parte do Rio Doce, veio com duas 
bandeiras até a praia e as Fontainhas de Pêro de Meneses, e matarão a 
Lourenço Marques, que com uns bois de lavoura de seu pai andava pa- 
cendo, e nas lombas do Corvo se ouvera de perder João Fernândez Tor- 
res, que com seus bois estava pacendo, e lhe fujio o cavalo com o rebate 
e veio ter ao Facho, e um homem de pé o tomou e lh'o levou ao vale, 
onde vinha com seus bois diante de si, e os mouros tão perto que não 
teve mais tempo que pêra cavalgar e tomar o homem nas ancas e alargar 
os bois, com que pagou, e, acolhendo-se, se salvou. 

O conde saio ao repique até a boca do Rio Doce e, vendo que os 
mouros não pasávão e se recolhião as bandeiras, se meteo por dentro do 
valo e se foi ao outeiro de Fernão da Silva, onde deu vista a toda jente 
e conheceo que não podião ser mais que setecentos até oitocentos de 
cavalo, os quais viérão ao longo do rio, por aver fala do conde, o qual 
se foi á borda do rio e preguntou por Mulei Abrahem, e que jente era. 
Respondêrão-Ihe que era el-rei e que Mulei Abrahem ficava no arraial. 
O conde bem entendeo que a reposta foi com manha e que de medo 
dezíão que era el-rei, e, lançando o cavalo, dise: «Dizei a Abedelá Lazema 
que diga a Mulei Abrahem que lhe beijo as mãos, e que oje não quero 
nada dele, pcis o não quer de mim». Isto dise por estar avisado que 
Mulei Abrahem lhe avia de correr só, o qual aviso foi por úa carta minha 
que de Fez lhe mandei, onde estava sobre a fujida do judeu, e o que el- 
rei fez sobre iso adiante se dirá; e o aviso foi que entre outras cousas, 
que o conde me mandou que fizese, foi úa que escrevia a Mulei Abrahem, 
que, ao tempo que Fernão Caldeira resgatou a Lourenço Pírez de Távora 
e Manuel da Silveira, ficou de dar F^atima, criada da condesa, em cima do 



— 203 — 

resgate, e, pêra segurança, lhe deixou quatrocentos cruzados em prata 
lavrada, em penhor. Escreveo o conde que, entregando-me esta prata 
Mulei Abrahem, lhe mandaria Fátima, por a condesater vontade de fazer 
esta vontade a Fátima. 

Quando Mulei Abrahem leo a carta, por ante ■ mim, respondeo: «Isto 
que o conde escreve é velho: olha quebrada no vale nada». Eu fiquei 
embaraçado, sem o entender, mas logo João d'Oribia, que presente estava, 
m'o deu a entender, com me dizer: «Diz o senhor Mulei Abrahem que 
não está já donzela». Era João d'Oribia, bizcainho, morador em Tan- 
jere, servidor de Mulei Abrahem e lhe servia de lingoa, por ser bem pra- 
tico e saber a lingoa arábica muito bem e outras lingoas, ele lhe fazia 
muita honra e mercê; e, como o entendi, dise: «Não está vosa senhoria 
bem enformado, porque a senhora condesa não se serve senão de don- 
zelas, e, quando o não são, é porque as casa e lhes dá maridos honrados; 
e, polo serviço e virtude de Fátima, lhe quer fazer esta amizade e honra, 
em a dar a vosa senhoria, e, não lhe parecendo que não avia de ser hon- 
rada em casa de vosa senhoria, a não tirara da sua»; «Vós dizeis ver- 
dade», dise ele, «yo voi a mi casa a Xexuão y embiare a Juão de Oribia 
ai conde y llevara conclusion», e logo escrevi íJa carta ao conde, dando-lhe 
conta do negocio a que viera, e que el-rei mandou prender o judeu e que 
fosem os mercadores a requerer sua justiça, e lhe dei conta do negocio 
de Fátima, e, encarecendo as palavras de João d'Oribia, escrevi ao conde : 
«O senhor de João d'Onbia vai lá, o que tenho entendido que dará 
trezentas onças por ela», dando a entender que o senhor era Mulei Abra- 
hem e as onças era a jente que de Fez avia de vir com ele, e o conde 
me dise que muito bem entendera minha carta; e, por sua jente morrer 
de fome e os cavalos estarem fracos, o não cometeo, e tãobem porque 
deu conta a Dom Duarte e lh'o estorvou, dizendo que não estava em 
rezão vir Mulei Abrahem de Fez tão pouco poderoso. Polas palavras do 
conde bem entendeo Mulei Abrahem que o conde sabia não ser mais jente 
que a que mostrava, e, fazendo o caminho por Moliana, não parou até 
a terra d'Alicototo, onde lhe cansarão cinco ou seis cavalos, que os liões 
comerão. 



por ante] perante M N. 



204 — 



CAPITULO XXXIII 



Do que fe\ eh rei de Fé-{ sobre um judeu 
que de Arzila fujio com fazenda fiada levantando-se sem querer paga 



JÁ está contado como o conde me mandava a Fez, sobolo judeu que 
achei morto, e me tornei; todavia, a requerimento dos mercadores, 
me tornou o conde a mandar a el-rei e a Mulei Abrahem, que não 
consentisem a um judeu vir com engano, levar fiado a fazenda e não 
pagar. 

Eu parti úa menhã e cheguei á Ponte, onde as guardas sairão a mim 
e me destaparão a Ponte, e úa delas, que foi meu cativo, foi comigo e 
me levou a casa do alcaide, e, lida a carta do conde, me dise que os 
mouros disérao que matarão um cristão e que queria mandar um seu 
criado comigo, e que cide Naçar, que estava de caminho, o podia fazer ; 
e, mandando-me agasalhar, partimos de madrugada e, andando todo o 
dia, fomos dormir a Orgoa, por onde pasa um dos braços do rio da Ma- 
mora, e ao outro dia, estando el-rei no Mixuar ', onde come com a jente, 
chegamos a ele. Eu lhe dei a carta do conde e lhe dise ao que ia, e logo 
me preguntou se conhecia o judeu que trouxe a fazenda, e que o trou- 
xese diante dele. Logo me tirarão muitos citareis -, como que era já des- 
pachado, e muitos cristãos, que ali se ajuntarão dos oficiais d'ei-rei; [eles] ' 
me disérão que fose com os citareis, que ião polo judeu, e com eles me 
fui á judiaria, e trouxérão o judeu diante d'el-rei, e me preguntou se me 
conhecia: dise que não. Lhe tornou a preguntar se estivera em Arzila e 
conhecia a Dom João. Respondeo que não; e asi lhe preguntou se esti- 
vera em Arzila, taobem o negou, que não conhecia a Dom João, nem 
menos estivera em Arzila. Então lhe fez ler os alvarás que fôrão 
com a carta de Dora João, e a escritura e a carta tudo negou, e que não 
conhecia senão a justiça dos mouros e que outra pesoa não conhecia 
de Arzila, e que o mandasem a Jacalá *, que era a justiça de Deos. Isto 
dezia porque entre os mouros não vai alvará, nem escritura, senão é feito 
por seus escrivães, a qual tem tanta força que não ha cousa que a que- 
bre, e, pêra os escrivães darem fé, em úa regra e em um pedaço de 
papel se faz, e a parte ha de dizer o que quer diante de trinta testemu- 
nhas, e, depois de confesar a divida, asinSo dous escrivães duas regras 



I. Mixuar : lugar onde o soberano dá audiência. — %, citareis : moços de «stribeira, 
como já dssemos. — 3. [eleej /. mn todos os mss. — 4. Jacalá : rocáMo, segundo parece, 
alterado, por hacalá : justiça de Deus. 



— 205 

que dizem: iFoao, filho de foão, deve a foão tanto, que se obriga a pagar 
em tanto tempoi. Este modo de escritura não ha cousa, nem fica nota, 
e ao tempo da paga a quéimao. 

Tornando a el-rei, que, vendo a pouca vergonha do judeu, posto que 
pedia justiça, que entre os mouros se costumava, lh'a não quis conceder 
e lhe dise desta maneira: «Certo que tua cabeça é grande, porque tu 
dizes verdade e todos mentem: o cristão mente, os alvarás mentem. Dom 
João mente e tu falas verdade: ora não quero que te valha a justiça a que 
te apegas e quero que pagues» e logo foi tirado de diante d'el-rei e preso, 
e a mim me mandou aposentar na judiaria e que me desem o necesa- 
rio, mas os cristãos, oficiais d'el-rei, me não alargarão e fiquei pousando 
com Rui da Costa, couraceiro, que oje vive e está em Santarém, e com 
Miguel Fernândez Centeio e borziguieiro d'el-rei, que em Arzila foi cativo 
no desbarate de Dom Manoel de Meneses, entre os quais adoeci e recebi 
muito gasalhado e caridade, e dali os conheci a todos. 

Logo fiz saber ao conde, por um mesajeiro, o que pasava e como el- 
rei me proveo com justiça racional, por cima de ser contra a lei que entre 
eles se guarda, a que o judeu quisera que lhe valese, e, pêra milhor avia- 
mento, fosem os seguidores, que o judeu não tinha nada de seu ; os mer- 
cadores fòrão e, vendo o negocio mal parado, se concertarão com o judeu 
e lhe esperarão polo que ficava de lhe pagar, e asi se acabou este negocio 
a que fui a Féz, á custa de minha saúde e pobreza; mas, primeiro que 
de Féz saise, acontecerão dous casos grandes, a saber, um fujir um criado 
do conde, que lhe tinha cargo da mazmorra, com dez ou doze mouros 
que nela tinha de resgate, e ele tornar-se mouro; a outra foi que um 
frade de São Francisco foi pregar a fé de Cristo e se quis deitar em úa 
fogueira grande de fogo e foi visto andar dentro na fogueira, e com pe- 
dradas entrarão dentro na fogueira, como no ano de trinta dous contarei, 
por nele acontecer este caso; e, tornando a Diogo Fernândez e ao segredo 
que tivérão no ardil dez ou doze mouros, [passo ao capitulo seguinte] '. 



CAPITULO XXXIV 

Como um criado do conde que tinha cargo dos cativos 
levou de\ e se foi com eles tornar mouro 



M 



uiTAS vezes tenho falado em Omar Querquí, cativo do conde, que, 
por aver trinta cinco anos que era cativo, era muito ladino e 
discreto e galante português, e tal que, sendo em Portugal pre«o, 



I. [passo ao capitalo seguinte]/, em todos os mss. 



206 

e ante a justiça tomava juramento dos Santos Evangelhos que tal não 
era, e, por mais afirmar, dezia que se tal era se vise em terra de mouros. 
Estas e outras galantarias tinha Omar Querqui. Era cozinheiro do conde 
e tão manhoso e cheio d'ardis que não fojia mouro, nem ia nova de que 
ele não fose o autor, ou ao menos dada toda a ordem que nele era e 
conhecimento, e por isto era muitas vezes pingado e asado e dos mouros 
desejado; e el-rei e os alcaides fazíão muito polo resgatar, mas, polo jura- 
mento que o conde tinha feito, quando o dava por João Vaz, irmão de 
Gonçalo Vaz, como fica dito no ano de vinte quatro, o não quis nunca 
pôr em resgate. 

Neste tempo tinha o conde encomendado sua mazmorra e guarda de 
seus mouros a Diogo Fernândez, seu criado, natural de Britande e sobri- 
nho de João Gonçálvez, de Cáliz ', de quem o conde tinha recebido ser- 
viço e amizade, o qual Diogo Fernândez ao de fora era devoto e sempre 
rezava o mais do tempo, mas o demónio, que entrou nele, fez que dése 
sinal de ser o contrario do que mostrava, por cometer o que direi. Tendo 
amizade com Omar, se lhe ofereceo que o levaria a terra de mouros; 
Omar, como sagaz e manhoso, lhe preguntou porque queria fazer o que 
dezia e desservir ao conde. A reposta foi galante, dizendo que, alem de 
sua amizade, que o obrigava, e por ele o fazer tinha grande vontade de 
se meter frade em Jerusalém e ir por terra á casa santa. Omar, vendo 
que o demónio o queria levar ao inferno, lhe agradeceo a vontade e que, 
pêra milhor se lhe poder pagar, esperasem polo xeque Afahão, que An- 
tónio da Silveira trouxera a Portugal, que cada dia esperávão por ele, 
por ter o resgate prestes. Este espaço tomou Omar pêra que neste 
tempo soubese se era verdade ou algúa manha do conde, e, entretanto 
que isto se tratou, não faltarão astúcias a Omar, pêra saber se este trato 
vinha do conde, e, pêra segurança de todos, fez saber ao alcaide de Alca- 
cere os viese esperar a lugar onde eles não corresem perigo. 

Em tanto que estes tratos andávão entre eles, Omar convidava os 
moços da camará e a Sousa, que tinha cargo da guarda-roupa, e, depois 
de os ter contentes, lhes preguntou quem era o que mais privava com o 
conde e com quem falava apartado na torre ou recolhimento ; e, como 
disesem que não avia pesoa asinada em quem se pusese boca, ele, poios 
tirar a terreiro, lhe tornou : «Dizem-me que Diogo Fernândez, que é o 
mais roim vilão de sua casa, é o que mais priva com ele e com quem fala 
só na guarda-roupa» ; e, como respondesem que não era homem Diogo 
Fernândez com quem o conde falase apartado, com estas preguntas se foi 
asegurando até que veio nova ao conde que era sua irmã falecida, Dona 
Joana da Silveira. 

Vendo Omar o conde anojado e encerrado, dise a Diogo Fernândez: 

I. Cáliz] Cales BNM. Emenda incerta. 



— 207 — 

«Se estais no que avemos concertado emos de ir esta noite, por o conde 
estar encerrado: nunca milhor aparelho podemos ter do que agora temos». 
Quadrou a Diogo Fernândez o negocio e pusérão por obra abrir os fer- 
ros aos que consigo avião de levar, levando-os á atafona do conde, de 
que um mouro tinha cargo e era atafoneiro; e, com as alavancas e cordas, 
abrirão os ferros a Mulei Boaçum, parente d'el-rei, e a Aliborje e a outros 
dez, os mais principais, em que entrávão dous turcos do conde da Casta- 
nheira, que, por serem de resgate, Ih'os mandara pêra se lá mais azinha 
e milhor resgatarem. Estes érão dos que Nuno Rodriguez Barreto 
tomou, como atrás fica dito, no ano de vinte cinco, de maneira que fôrão 
onze com o atafoneiro; e, tornando a entrapar os ferros, como milhor 
pude'rão, se fôrão á mazmorra, e, sendo as onze da noite todos recolhi- 
dos, I Diogo Fernândez] ' abrio a mazmorra e, decendo = abaixo, dise a 
Ornar: «Que fizestes que o conde tem toucinho prestes pêra vos pingar? 
Vinde que vos chama!» e, trazendo-o acima, lhe tirou os ferros, que lar- 
gos estávão ; finalmente, levou onze acima, dizendo que todos avião de 
ser pingados, ficando os outros amedrentados, esperando que os chama- 
sem pêra, sem culpa, serem açoutados ; e, tendo-os asi fora e sem ferros, 
cerrou a porta e os levou polo muro que vai da sala á torre do Sino, pêra 
dali os trazer á cozinha, onde tinhão escada, e por ela sobírão á torrinha 
que cai sobre a praia, por onde se todos lançarão, sem aver sentimento; 
mas, primeiro que da torre do Sino saisem, virão vir a P^ernão Varela, 
bombardeiro da casa da senhora condesa, com úa vela acesa na mão, e 
logo ordenarão de o afogarem e matarem ; e, pasado este perigo, não 
parecendo pesoa, se ouvérão na cozinha e, pola corda que pusérão, se 
lançarão todos um a um, e, como a torre era escusa, se não vio a corda 
até a porta da Ribeira se não abrir; e, andando já em busca de Diogo 
Fernândez, que, por ser já tarde e não parecer, o veador mandou abrir 
e despregar a mazmorra, e, achando os ferros no releixo da escada e onze 
mouros menos, dérão rebate e o sino fez seu oficio e todos fomos a cavalo, 
mas o conde não quis que os buscasemos, parecendo-lhe ser trato entre 
o alcaide e Omar, posto que eles andarão embaraçados, por Omar os 
apartar e que cada um se salvase por sua fortuna ; mas ela lhes foi tão 
amiga que os pôs em salvo ao Farrobo e a Benamares e juntos fôrão a 
Alcacere e depois a Féz, onde Diogo Fernândez ficou como ele merecia, 
dando-lhe três onças por mês, e alguns dias andou com nome de cristão 
e depois o deixou, tomando o de Çoleimão, e porque este se vendeo por 
cristão e o vimos rezar, sem se apartar da conversação dos cativos cris- 
tãos e da duana ; e, depois que Bastião de Vargas foi a Féz por feitor do 
trigo, que el-rei mandou comprar naquele reino de Fe'z, Diogo Fernândez 
se chegou a sua casa e o sérvio, e Bastião de Vargas lhe ouve seguro- 

I. [Diogo Fernândez] f. em todos os mss. —2. decendoj dizendo B M. 



— 208 — 

real e perdão das partes, mas ele nunca se veio e dise que de vergonha 
não viria a Portugal, e que se avia de ir meter frade onde o não conhe- 
cesem, e nunca chegou a efeito, e morreo entre os cristãos cativos d'el- 
rei, confesando a fé de Cristo, — ele lhe valha! mas, secundum legem 
e o que ensina nosa fé, ele se perdeo e foi a casa de Satanaz. 



CAPITULO XXXV 

Como neste ano de trinta um foi ao Estreito 

por capitão-mór d'armada Dom Gonçalo Coutinho 

e do que lhe aconteceo 



A armada que este ano foi ao Estreito era de seis caravelas e ija 
fusta, e por capitão Dom Gonçalo Coutinho, filho de Dom Diogo, 
que os mouros em Arzila matarão, como contei no ano do conde 
de Borba. Era mandado a Dom Gonçalo que guardase a costa do Al- 
garve, por já sentirem o dano que João Vaz e seus companheiros fazíão. 
Aconteceo úa menhã que a fusta de Larache se achou entre a armada e 
a barra de Aiamonte e a de Lepe, e, como o terrenho ventase, ouve a 
armada vista da fusta e a começarão a servir de muitos pelouros, e se foi 
saindo com muito risco até se aver fora dentre as caravelas, por já o ter- 
renho afracar. A fusta de Dom Gonçalo e as barcas a seguíão e, poios 
mouros irem já mancos de alguns remos que a artelharia mancara, 
vendo-se seguros das nosas barcas, determinarão, como desesperados, a 
virar e a investir, por a sua fusta ser maior, e os três turcos, que a Dom 
Estêvão da Gama, conde da Vidigueira, tínhão fojido, saltasem na nosa, 
bradando: «Axora canalha!» fizérão a alguns dos nosos saltar ao mar, 
pêra se recolherem nas barcas, que, vendo levar a fusta, levarão remo, e 
os turcos, não achando resistência, chegarão á popa, onde o capitão se 
defendeo até que a poder de muitas cutiladas foi morto, e asi matarão 
alguns outros que não tivérão acordo pêra se lançar ao mar, nem pêra se 
defender ; e, axorada nosa fusta, pasárão á sua três ou quatro homens, 
que tomarão vivos, e duas molheres solteiras, que na fusta andávão, e 
lançarão duas bombardas ou berços ao mar, e deixarão nosa armada inju- 
riada e se vierão a Larache, e as nosas barcas recolherão os que na agoa 
andávão, e as caravelas chegarão a tempo que não pudérão remedear o 
dano feito. Neste feito desta fusta se asinárão os três turcos, que a Dom 
Estêvão fujírão, os quais viérão ter ao rio de Mertola, onde ouvérão á 
mão um batel, que estava carregado de lenha, e o despejarão e vindo-se 
polo rio abaixo, onde tomarão dous remos de outro barco, que no rio 
estava esperando pola maré; e, posto úa manta, sairão ao mar e, cor- 



209 — 

rendo as Áreas Gordas, pasárão por Cáliz e, travesando, viérão sr.ir junto 
de Arzila, de noite, entre Algorrife e a vila, onde achamos o barco com 
algúas favas verdes e espigas de cevada, que pola serra apanharão, e, 
saidos em terra, se ouvérao no Farrobo e dahi fôrão a Alcacere e a Lara- 
che, onde se meterão com João Vaz, que pêra sair estava na sua fusta, 
onde lhe aconteceo o que tenho contado. 

Deste acontecimento ficou João Vaz mais danado e aceso e soberba 
do que andava, e, por ser a este tempo Larache de cide Naçar Laroz e 
o arráiz quibir ' ter outra fusta de quinze bancos, que cide Naçar mandou 
comprar, e outra de Cela, estes três tornarão logo a ir ao Algarve, onde 
fizérão muito dano em navios que tomarão e, dentro da barra de Aia- 
monte, fizérão despejar a Arrinilha e a Montegordo, mas ela lhe quebrou 
as cabeças, matando-Ihe quatro ou cinco mouros, e um criado do alcaide 
se veio a curar a Arzila, donde morreo de erpes, que em úa mão lhe 
saltarão; e desta vez trouxérão duas caravelas e vinte cinco ou trinta 
pesoas, e, por a armada estes dias ser no Estreito, andarão tão de vagar 
que Nuno Rodríguez Barreto, veador da fazenda do reino do Algarve, 
armou duas caravelas e as correo até a barra de Cáliz, e as fez recolher 
a mal de seu grado, pasando á vista de Arzila, dando-nos muito descon- 
tentamento por não poder remedear tanto dano feito por João Vaz; mas 
Deos, como justo e bom, o remedeou logo, não querendo que permane- 
cese um tão mao homem, e lhe foi tirada a vida, como logo direi neste 
capitulo que se segue. 



CAPITULO XXXVI 

O como se ordenou a morte de João Va^ 



Dous ou três dias avia que João Vaz, á vista de Arzila, se metera 
no rio de Larache com a presa das duas caravelas e vinte cinco 
cativos, desta ultima vez que com as três fustas entrou na costa 
do Algarve, como fica dito, quando úa barca pescareja, das de Lisboa, 
foi sair á Barrosa Grande, entre Arzila e Larache, com dezoito mouros 
e mouras que de Lisboa fujírão, e, varando na praia, se meterão polo 
Soveral e viérão sair á ponte d'AIcacere, onde se salvarão. 

As atalaias de sobre o mar disérão que iãa caravela ou barca fora sair 
á Barrosa. Ao conde lhe pareceo logo serem mouros fojidos e logo 
mandou ao adail que com corenta de cavalo os fose esperar ao rio de 

I. quibir: palavra árabe que significa grande, como em Alcácer Quibir, em oposição 
a Alcácer Ceguer. 



ANAIS DE ARZILA 



27 



Larache ; e, alvoroçados, por tomar os fojidos, nos pusemos a cavalo 
corenta moradores, todos compadres c amigos do adail Lopo Mêndez, e, 
tomando o caminho e praia, pasamos polo caravelão, que com o masto 
baixo e vela estava, e fomos esperar a menhã aos medos de Larache, 
onde andamos buscando o rasto dos fojidos. Não achamos rasto: vimos 
Oas tendas ás portas de Larache, onde estávão Qas amoreiras, parecendo 
a Diogo da Silveira que o alcaide estava nelas e que não pasaria ninguém 
o rio, e, pondo-se a cavalo, dise: «Vamos buscar o rasto dos fojidos, que, 
pois o alcaide ali está em aquelas tendas, não pasará pesoa desta parte: 
afirmo serem cansados daquele dia por dizer ao adail ' : «Compadre, che- 
guemos aos medos e veremos se ha [ah]i - cavalos entre as tendas» e logo 
Pêro Afonso dise : «Eu vos levarei junto do rio» e fomos trás ele oito, 
os quais fòrão Lopo Mêndez e os mais comuns, e, dando vista ao rio, 
nos fez deter, dizendo que saião mouros de um barco, que os deixasemos 
afastar do rio, porque ião contra a barra [a] ^ uns [alfaques] * a pescar aos 
lingoados com úa rede pescadora, que João Vaz levava, e, estando que- 
dos, nos virão de Larache, e, dando grandes gritas aos que pescávão, 
saimos a tempo que os mouros já ião por dentro da agoa um grande 
pedaço, mas Pêro Afonso dise: «Até Tavila podemos entrar», e, entrando, 
chegamos aos mouros, dando-nos a agoa poios peitos dos cavalos, toma- 
mos os cinco; e porque João Vaz, que era um deles, ia nadando, Pêro 
Moreno, que ia em um cavalo piqueno, vendo que o não podia alcansar 
a mão tenente, espedio a lança da mão e quis Deos ir tãobem guiada que 
pasou o João Vaz de Ga parte a outra. Vendo-o em tal estado lhe dise: 
«Olhai como acabais, perdendo a alma e o corpo!» Respondeo : «Asi 
entrou o mundo!» (resposta do demónio). Logo foi pasado das lanças 
que tinhamos, os que estávamos na agoa, asi que de oito mouros, que no 
barco vínhão, um só se salvou, por se tornar ao barco e não aver quem 
a ele fose, e os sete que fôrão na praia os cinco fôrão cativos e os dous 
mortos, com João Vaz, elche (morte tão desejada e necesaria) ; e, como 
Manuel Vaz se vise sem tomar mouro, nem o matar, vendo um em poder 
de João Vaz Aljofarinho, que tinha tomado, aievantou a lança pêra o 
matar e foi-lhe tomada, e, com a fúria que levava, levou da espada e foi 
pêra dar no mouro e deu em João Vaz Aljofarinho ; e, corrido do que 
fez, se acolheo e depois lhe pedio perdão, o que ele fez, e o sofreo cora 
muita paciência. 

E chegando os companheiros, que com Artur Rodríguez ficávão, sendo 
todos na agoa, as fustas nos começarão a servir com tiros de espingardas 
e bestas, e nos fizérão recolher, abrigados dos medos, sem recebermos 
dano, senão a ferida que trazia João Vaz Aljofarinho ; e, por a morte de 

I. Este passo está alterado. — 2. [ah] / B N M. — 3. [aj /. R N M. — 4. [alfaques] 
/. BN 



João Vaz, elche, ouvemos este feito por mui grande, por atalhar com sua 
morte tantos danos, como fazia, e este só homem meteo em revolta a 
el-rei, em mandar armada ao Estreito ; e, muito alegres, viemos buscar o 
rasto dos que no caravelão viérão e, vendo que ião por dentro do Sove- 
ral, nos tornamos á praia, onde achamos os barcos da vila que o conde 
mandara polo caravelão, e, lançando-o ao mar, o trouxérão á vila, e asi 
nos fomos nós outros, sendo recebidos do conde com muita alegria, por 
a morte do elche, porque não desejava outra cousa que avê-lo á mão, ainda 
que fose com lhe perdoar; e muitas vezes lhe tinha mandado dizer que se 
viese, que ele o asegurava, mas o diabo [andava]' tão metido nele, enfras- 
cando-o e danando-o, que o não quis fazer e veio a pagar como está con- 
tado. E logo aquela noite mandou a Jorje da Silveira que com vinte cinco 
de cavalo os ^ fose esperar á ribeira, por dentro do Soveral : viérão e trou- 
xérão os dous mouros de cavalo, os quais dérão novas que dezoito pesoas, 
homens e molheres e crianças, érão pasadas a Alcacere, e que dezíão 
averem vindo de Lisboa, em úa caravela, e depois que se soube que o 
caravelão era em poder do conde, seu dono o foi buscar e o conde lh'o 
mandou entregar, e o trouxe pêra Lisboa; e asi tornarei á perda e danos 
que João Vaz, elche, fez com seu piqueno barco, e, por ser sua morte 
chegada, as contarei. 

CAPITULO XXXVII 

Das entradas que fe\ em seu barco João Va^ elche temerárias 



QUANTO dano recebem os reinos e provincias, as terras e cidades, 
quando alguns dos seus naturais, sendo agravados, e ás vezes sem 
rezão, se pásão aos contrários! Ha [ah]i ^ muitos exemplos, que 
se áchão escritos nas historias antigas, e, deixando de contar o que não 
vi, quero contar de nosos dias o que vimos: a úa foi agravar-se Fernão 
de Magalhães, noso português, e pasar-se ao emperador, oferecendo-ihe 
outro caminho diferente do noso, pêra navegar ás índias, e asi o intentou, 
e foi causa de tantas despesas e gastos a este reino. O outro foi a 
guerra que monseor t de Borbon ^ fez a el-rei de França, seu natural rei 
e parente, pasando-se ao emperador, até ser causa da prisão de tão 
grande e poderoso rei, como foi el-rei Francisco de Vaiois ; e, não parando 
seu orgulhoso coração com tão grande desobediência, intentou outra maior 
contra Deos, que foi saquear a Roma e encerrar o vigairo de Cristo com 
sua corte romana, cheia de cardeais e de bispos e sacerdotes e pesoas 

I. [andava] /. B — 2. os] o B : isto é, os mouros do caravelão.. —3. [ah] / B. — 
4. monseor] monteor M ; monsieur N. — 5. Borbon] Borbão N. 



relijiosas e santas, cousa tão fea que os mesmos bárbaros, turcos e infiéis, 
o não pudérão intentar, e parece que foi permissão divina, que os homens 
não podem alcançar, e asi permitio Deos que ele ali acabase. Quanta 
guerra fizcrão aos mouros de Arzila, Tanjere, Farrobo, Alcacere e suas 
comarcas, Pêro de Meneses, Gonçalo Vaz, Diogo da Silveira, mouriscos, 
destruindo aldeãs, matando, cativando muitos de seus parentes e amigos! 
Alas todos estes tivérão algúa causa pêra o fazerem, mas João Vaz Maio, 
elche, de que quero contar, não teve mais que senhoreá-lo o demónio até 
o trazer ao seu reino; e porque algúas das entradas que fez me ficarão 
por escrever, com sua morte resuscitárão e as contarei, por serem teme- 
rárias e ajudadas do demónio, com um barquinho de cinco remos que não 
valia dous mil reais. 

Feito João Vaz mouro [com] ' seu filho, e vendido o outro moço, que 
levou, ao alcaide de Alcacere, úa noite veio entrar no arrecife de Arzila 
e, de úa caravela, que dentro estava com outras, tomou dous homens e 
um moço, e das outras se lançarão ao mar que só as que dentro estávão ', 
c, posto que ouve rebate e acudimos ao muro, não deixou de fazer sua 
presa, carregando o barco de cera, tâmaras, courama, que na caravela 
achou, e, com três homens e o barco carregado, se tornou a Larache. O 
conde não quis que barca saise após ele, temendo, como era rezão, que 
viese com ele algum navio ou navios de remo, posto que Pêro Afonso 
Homem lhe pedise licença. Esta foi a primeira presa que João Vaz fez, 
<que, por lhe sair bem, ficou tão animado que logo tornou a ir fora no 
barco, e, travesando o Estreito pêra entrar na barra de Saltes, onde 
êntrão e saem todos os dias muitos barcos e navios, por ser aquela barra 
de muitos lugares grandes e ricos, os quais são Oleia, Jibraleão, Paios e 
Mojer, São João, Niebla, Lucena e outros lugares, por esta causa e por 
a barra ser muito boa é frequentada de muitos navios, — entre eles se meteo 
João Vaz, como quem vinha de Tavila ou doutro lugar do Algarve, e, 
vendo tempo, [foi-se a] ^ dous barcos de naças, que mais a seu propósito 
vio, e deles tomou seis homens, e, por não ser sentido, arrombou os 
barcos, que parecese que se avião anegados, e com esta presa se tornou 
a Larache. 

E não tardou muito que não tornou a ir á outra banda, e dentro da 
baia de Cáliz tomou outros seis ou sete homens, andando entre os barcos 
da terra, sem averem sentimento dele, [e] •* tornou a Larache; e destas 
presas fez algúas, primeiro que ouvese nova dele ir a Tavila, onde tomou 
um barco de Visugar, em que trouxe outros seis ou sete homens, seus 
naturais; e com estas presas era tão favorecido do alcaide e acatado dos 
mouros que lhes parecia que com percalços os avia de fazer ricos, e não 

I. [com]/. BM; e N. — 2. Este passo parece alterado. — 3. ffoi-ss a] /. BNM. — 
4. [e]/.BNM. 



— 2l3 — 

arreceávão de entrar com ele; e, já que arreceava de ir á outra banda, 
por já estarem sobreaviso, quis correr os barcos de Arzila e trouxe con- 
sigo íía zaura, e ao longo da praia se veio ao Cabo Branco, úa legoa da 
vila, donde saio aos barcos, que pescando andávão; mas, como as ata- 
laias desem rebate ao mar, a jente acudio á praia e o conde fez meter 
corenta homens na caravela de João Rodríguez Cascaretas, morador na 
vila, e polo Boqueirão a fez lançar fora do arrecife, e, dando á vela, 
seguio os barcos dos mouros, os quais, como virão a caravela, fizérão 
volta, e a caravela os seguio e á Barrosa foi com eles; e, vendo João Vaz 
que a zaura não andava como ele a deixou, vendo-se alcansada, a jente 
se lançou em terra, parecendo-lhe que se pudesem salvar, e, vendo que 
não ião após eles, caminharão pola praia com esperança que, tendo nece- 
sidade, João Vaz os tomaria, mas não foi asi, que, vendo o conde que a 
caravela seguia os barcos e que a viração lhe ventava, querendo-lhes 
tomar a terra, mandou descubrir o Azambujeiro e a Palmeira, lugares de 
sospeita, e, descobertos, alargou a Diogo Soárez o Galego, com o qual 
fomos trinta de cavalo e, chegando sobre a Mezquita, ouvemos vista da 
caravela, que á Tarosa ' estava á corda, tendo já a zaura junto de si ; 
tomando a praia, fomos em Belgeles, onde os mouros ouvérão vista de 
nós e deixarão a praia e se meterão em dous córregos, porque João Vaz, 
vendo-nos ir correndo, não ousou tomar a terra; e como chegamos aos 
córregos, fomos postos a pé, porque Roque de Farão e Roque Ravenga 
a grandes brados começarão a dizer: «Todos são nosos, que se não podem 
salvar, nem esconder!». Por serem homens do campo e sabíão bera 
aquela terra e que os córregos não tínhão mato, onde se pudesem escon- 
der, os mouros, vendo-se perseguidos e nós dentro nos córregos, como 
desesperados, viérão a nós e animados do arráiz como capitão, que Mar- 
mude^ avia nome; em eles virando, Marmude foi pasado das lanças, e asi 
o fôrão dous dos seus companheiros, e Roque de Farão foi ferido, e, com 
a fúria que trazíão, chegarão a Bertolameu Fernândez, da Ilha, e lhe dérão 
duas feridas na cabeça, por lhe tirarem o capacete, e asi nos tornamos á 
praia e viemos a dar com o conde, que, em saber que se não salvou 
nenhum, foi muito alegre, e muito mais o fora se viera na companhia o 
João Vaz, mas ele trazia seu barco pontado. Deixando a zaura, vendo 
tempo e que a caravela andava muito, mas o mais certo era não ser che- 
gado seu dia, ele se acolheo ao rio e nós tornamos á vila com muitos 
mouros e a zaura, que dahi a poucos dias se perdeo no arrecife, em que 
se afogarão dez ou doze pesoas ; e, posto que foi por culpa do mestre ou 
arráiz do barco, ele se salvou milagrosamente, como direi. 

Ouve esta zaura um castelhano, morador na vila, e nela^ ia a Castela 

i. Tarosa] Taroca N. Deve ser Barrosa. — 2. Marmude] Masmude M. — 3. nela] 
nele B M. 



— 214 — 

e trazia sardinha, laranja, fruta. Vindo de Tanjere carregada de homens 
e molheres, como quem pouco recado tinha, podendo dar com a vela em 
baixo e a remos entrar, e, dando-lhe um piqueno mar, a çoçobrou, e os 
que sabíáo nadar sairão em terra e os outros se afogarão, tendo táobera 
o mestre por afogado, por não saber nadar; e ao outro dia entrarão dous 
navios de Málaga carregados de trigo e deles vimos desembarcar o arráiz 
da zaura perdida, o que pôs espanto a toda a vila, por o termos por 
perdido. Contou então seu naufrágio, por dizer que em dous remos o 
levou a corrente, e, sendo já noite, sobre Tagadarte, veio ter íia das cara- 
velas sobre ele e, ouvindo-o bradar, o tomarão. O conde o prendeo pola 
culpa da perda da zaura e o mandou fora da vila e a ela não viese. 
Contei isto polo suceso da zaura que em companhia de João Vaz tomamos. 



CAPITULO XXXVIII 

Como iim frade da ordem de São Francisco morreo pregando a fé 



ALGÚAS cousas deixaria de escrever este ano de trinta um, por não 
serem pêra iso, e, chegando-me ao de trinta dous, primeiro que 
entre nas cousas da guerra, direi como neste ano pasou a Fez ura 
frade da ordem do bemaventurado São Francisco a pregar a fé de noso 
senhor Jesu Cristo, o que contarei como testemunha de vista e o vi e 
falei com ele, e presentes fôrão algúas pesoas que depois nomearei. 

Este frade com zelo santo pasou por Alcacere Ceguir ', sendo capitão 
Pêro Alvarez de Carvalho, e dahi se foi a Féz, e estando ante Mulei 
Abrahem, preguntou onde vinha e o que demandava naquela terra ? Res- 
pondeo que era de Itália, natural de úa cidade não muito lonje de Roma, 
que se chama Espoleto, e que á fama sua e d'el-rei vinha pregar-lhes a 
fé de noso senhor e o bautismo, pois sem ele se não podia salvar. Dezia 
mais que do seu convento ou mosteiro sairão dous ou três companheiros 
com o mesmo propósito, e um fora a Tunez e outro a Tremecem e ele 
viera a Féz, e que um navio português o lançara em Alcacere, onde 
achara um capitão tão nobre que fez muito polo estorvar o caminho, e, 
quando não pode, lhe deu cartas pêra sua senhoria. Mulei Abrahem lhe 
respondeo que, pois viera a sua casa, seria bem tratado até que se tor- 
nase, porque os mouros não tomaríão nada de sua pregação, nem el-rei 
queria que fizese escândalo em sua terra, por onde lhe fizesem algum dano 
e o matasem. Respondeo que por duas cousas fora ter a sua cidade : a 
Ga por tornar a ele e a el-rei cristãos, que érão cabeça do povo, e, sendo 

I. CeguirJ Ceguer M; Quibir N. 



2l5 

eles bautizados, o povo siguiria o caminho que eles tomasem, e, quando 
o não quisesem fazer, receberia morte e martírio, pregando a fé de Cristo. 
Mulei Abrahem sem escândalo lhe respondeo: «Eu falarei com el-rei e 
daremos ordem como vos torneis, e, em tanto, sereis agasalhado na pou- 
sada de Dom Fernando» e o mandou prover do necesario, dando-lhe 
quatro vinténs cada dia. 

E estes dias o conversamos, os mais dos cristãos ; negoceantes e cati- 
vos nos confesamos a ele e, verdadeiramente, parecia aver nele grande 
fervor de fé e sua doutrina era santa e virtuosa e boa. Era homem de 
corenta e cinco anos até cincoenta, cheio de carnes. Como se espalhase 
a fama que em casa de Mulei Abrahem estava um frade que os ia a fazer 
cristãos, acudirão muitos mouros maravatos ', que são os mais relijiosos 
em sua seta, e asi acudirão os mais letrados dos judeus e com todos ouve 
muitas disputas ; e, como judeus e mouros negasem, ele se queixava e 
pedia o deixasem sair polas ruas, dizendo as palavras dos Evanjelhos, ao 
que Mulei Abrahem atalhava com boas palavras; e, como neste dia cor- 
rese um lião, Mulei Abrahem o levou a ver o lião e, andando no corro 
bravo e feroz, el-rei lhe preguntou se em Roma avia liões, e se os usávão 
correr. Respondeo que não, que se os ouvera avia muitos homens de 
boa vida que, com palavras do Evanjelho, os faríão logo mansos. A isto 
respondeo Mulei Abrahem que se ele fizese manso aquele lião se faria 
cristão. O frade se alevantou e dise que ele o faria manso e o traria 
pola orelha em cima da torre onde estava, somente com as palavras do 
Evanjelho, e o faria estar a obediência d'el-rei, e que lhe desem lugar 
pêra fazer o que dezia e veríão quanta força tínhão as palavras de Cristo. 
El-rei, vendo a determinação do frade e a porfia de Mulei Abrahem, tra- 
vou do frade e dise que não queria que em sua casa morrese em poder 
de um lião, e que seu irmão, Mulei Abrahem, o mandaria aos cristãos, sem 
lhe ser feito nenhum dano, replicando Mulei Abrahem que el-rei não 
queria que se pusese em risco e que lhe queria dar dous cristãos, um de 
Itália, pêra que os trouxese a sua terra, e seria milhor que morrer. Sem 
fazer estrondo, dise o frade: «Não venho por cristãos, que muitos ha em 
Itália e Espanha, que ao que vinha era por almas, principalmente pola 
vosa e pola d'el-rei, que são os que eu queria que se salvasem primeiro». 
Com estas e outras praticas se pasou o dia do lião, estando presentes 
Dom Fernando de Meneses e Pêro Alvarez de Souto-Maior. 

Depois disto se ordenou meter-se em um grande fogo o frade, e foi 
desta maneira. Avia todos os dias entre o frade, judeus e mouros dis- 
puta, entre os quais érão dous ávidos por muito letrados, um deles avia 
nome rabi Abraham Almosni e o outro rabi Samuel. Estes como nega- 
sem as conclusões do frade, lhes dise que como negasem a fé devião de 

I. maravato : o mesmo que marábito e raorabuto. 



— 2l6 — 

dizer não e negar a verdade. «É necesario entre nós um juizi^. «Quem 
será?» disérão eles. O frade dise: aEu queria que fose cristão, vós 
quereis que fose judeu, os mouros que fose mouro, e cada um quer sua 
lei; e a que Deos senhor noso imagina e quer é cada um na verdade 
grande, a verdadeira lei, a qual noso senhor quer que se guarde e mandou 
em tempo de Moisés». Dise o frade: lAja pura verdade em tudo e asi 
o mandou e esta será jamais, sem fim, a verdadeira conquista, com que 
perturbarei sempre as jentes, encomendando-lhe a hora em que hão de 
acabar todos, e, tendo ese cuidado, me esforçarei ' na tal encomenda»^, asi 
que cada um acudio por si, como era rezão, e o babo ^ acudio por si e polo 
frade á pousada de Dom Fernando, que era dentro do curar •», e ele saio 
desta maneira: em couro, com Gas siroulas de lenço e um breviário nas 
mãos, e entre elas úa cana de três ou quatro palmos nas mãos e um 
pedaço de purgaminho, em que vínhão escritas certas palavras do Evan- 
jelho, as quais ele trazia estudado em aravia, e, tanto que foi ante Mulei 
Abrahem e os outros alcaides e senhores, que estávao na varanda, dise : 
«Estas palavras são de tal Evanjeiho e querem dizer tal cousa e tal, e 
pêra que as entendais [as aprendi] ^ em vosa lingoajem, e com elas entra- 
rei e sairei deste fogo, sem ter poder pêra me ofender. Úa cousa vos 
digo e afirmo-vos por mui certo que um dos mais malditos diabos que ha 
no inferno e o mais atormentado é o voso profeta Mafamede». 

A estas palavras Mulei Abrahem deu de mão e o babo o empuxou e 
deu com ele dentro na casinha da lenha, e logo os ministros começarão a 
acender a lenha, e tal presa se dérão que por todas as partes a lenha 
tomou fogo; e, sendo já feita em lavareda, dous mouros, ministros do 
demónio, um de úa parte e outro da outra da fogueira, com cada um seu 
fole de pólvora, lh'o arrcmeçárão, e um lhe deu nos peitos e outro no 
toutiço, estando o frade de joelhos, rezando com seu livro aberto, pare- 
cendo rezão que já o livro e ele fòrão consumidos; e como os foles de 
pólvora dérão cada um grande estouro e fizese úa grande fumarada, que 
todo o curral e varandas foi cuberto, e aclarando foi visto o frade em pé 
por entre a lavareda do fogo, que já era toda úa, e o frade se alimpou os 
olhos e rosto da pólvora. Dizem que cometeo a sair por úa das portas, 
e logo os ministros, que andávão botando rama e lenha, vendo-o sair, 
lançarão pedras e ladrilhos, dizendo: «meneai», que quer dizer: odonde 
vem» ? e lhe tirarão com pedras, e, dando-lhe um ladrilho em úa fonte, o 
derribou no meio do fogo. Logo lhe dérão muitas pedradas e lhe lan- 
çarão em cima muitos feixes de esteva; e, como Mulei Abrahem se tirase 



I. esforçarei] escusarei M. — 2. Todo este passo está alterado, como parece. — 3. babo] 
Boba BM; Robô N, mas algumas linhas a seguir: o babo: os habos, e por isso fijemos 
a emenda. Cremos que este vocábulo significa porteiro, ou guarda de corpo, conforme a 
etimologia. — 4. curar] curral N. Adiante assim em B M. — 5. [as aprendi] /. B N. 



— 217 — 

da varanda, foi tanta a jente, que entrou, que os babos, não podendo 
resistir, espaliiárão o fogo e o tirarão inteiro e o levarão arrastando a Féz 
o veliio, por mostrar que era morto e que não sairá vivo, donde os cris- 
tãos ouvérão alguns pedaços dele, que tínhão em muita estima e mandarão 
a este reino. Dizem que entre a cinza se achou o pedaço de purgaminho 
por queimar, que o frade levava na cana, em que ião escritas palavras, e 
que Pêro Martinz, cavaleiro, morador em Azamor aquele tempo, o trouxe 
e o deu ao cardeal ifante Dom Afonso. 

Esta é a historia do frade. Foi em janeiro de quinhentos e trinta dous. 
Fôrão presentes a tudo isto Dom Fernando, filho de Dom. Duarte de Me- 
neses, capitão que era em Tanjere, Pêro Alvarez de Souto-Maior, mestre 
João, Bertolameu Luis e Luis Felipe, Rui da Costa, couraceiro, todos 
cativos, e outros negoceantes, Francisco d'Aguiar, Pêro Martinz, e eu 
Bernardo Rodríguez, e outros muitos mercadores. 



CAPITULO XXXIX 

Como se tòmão os lióes e como os correm 



E porque falei em um lião que se correo por ante ' o frade, muitas 
pesoas se espantarão em ouvir dizer que os mouros correm e 
tômão um lião bravo e o correm em corro cerrado, como os tômão 
e os Hão de calidade ^ que visita muitas vezes os lugares cerrados, bus- 
cando algija besta, boi ou vaca ; como os do lugar o sentem, fazem Ga 
cova ou poço muito fundo e cobrem-no com rama, canas, cousa fraca, 
pondo-lhe o cevo, que é cabra ou chibarro, onde o lião, vindo de salto 
pêra tomar a presa, cai na cova, feita a modo de poço, e fazem-no saber 
a quem tem cargo de mandar por ele, e logo vão oficiais daquele mister 
com duas azemalas e úa caixa, que pêra iso tem feita, como capoeira de 
galinhas, e, chegando á cova, fazem úa mina em soslaio, que vai ter ao 
fundo da cova, e nela põem a caixa, de maneira que o lião não pode sair 
senão metendo-se pola caixa; e, posta esta caixa em seu lugar, dando 
grandes gritos e apupos e deitandolhe muito fogo na cova e murróes de 
estopa ardendo, o fazem entrar na caixa, parecendo-lhe que por ela se 
pode salvar, e, cerrando-lhe as cabeças da caixa com uns paos, que poios 
furos metem, fica o lião na caixa todo apanhado e não pode bolir pé, 
nem mão ; e, posta a caixa em Ca azemala, o trazem a Féz, onde o sóltão 
em úa torre que pêra ele tem e ao tempo que os hão de correr. 

Está a torre dos liões ao canto de um curral, cercado das casas d'el- 

I. por ante] per antre M ; perante N. — 2. Este passo deve estar alterado. 

ANAIS DE ARZILA 28 



— 2l8 — 

rei, que é trato de cem pasos de um canto a outro e argamasado; e nele 
estão sete ou oito covas com seus escutilliões fortes e apertados, que o 
lião não pode meter a unha, e em cada úa destas covas se acolhe um 
homem, que anda no corro ; e muitas vezes se deita sobre estas covas e 
se não quer alevantar, ainda que lhe piquem de dentro dela, porque sente 
o homem dentro e debaixo de si e embirra. Tem os cristãos cativos úa 
carreta com úa caixa, em que vai um homem e leva duas varas com 
grandes novelos d'alcatrão ardendo, cora eles vai dentro; o lião, dando-lhe 
nos olhos e rosto, o fazem alevantar de cima da cova, e com isto se enten- 
derá o mais. 

CAPITULO XL 

Como de Larache fugirão nove cativos e se salvarão os sete 

TORNANDO a falar em Arzila e nos sucesos da guerra, irei contando 
aigúas deste ano de trinta dous, em o qual alguns almogaveres de 
Larache, saindo da Atalaia Alta, viérão até a aldeã de Tendefe, 
após Jerónimo Afonso, ferrador, que, por trazer o milhor cavalo da vila, 
se salvou, vindo á fala com eles. Muito contente e soberbo chegou aos 
Forninhos, aonde o conde estava com toda a jente de repique, louvando 
seu cavalo, que deixara aos mouros, e se tornou a descubrir seu posto, e, 
tanto que foi no Malhão, tornou a dar outro rebate, que nos pareceo ser 
jente grosa, e era um cativo, que avia nome João Martinz, oleiro, que 
fujira de Alcacere com outro cativo do alcaide de Larache, e os mouros 
que correrão trás o ferrador érão vindos em busca deles, e, por dar vista 
ao campo, estávão na Atalaia Alta; e, vendo o campo sosegado e as 
atalaias que ião fazendo seu oficio, ouvérão que os cativos não érão 
pasados e sairão afoutos ás atalaias; e vendo João Martinz, que era Alha- 
zana estava com um dos cativos, o rebate primeiro e as atalaias que tor- 
návão seguras, sairão a elas, e, cuidando Jerónimo Afonso que érão 
mouros de pé que o queríão saltear, deu o rebate, e logo veio um de 
cavalo dizendo que era João Martinz, com a qual nova fôrão todos ale- 
gres, e logo o conde se abalou e fomos caminho da Atalaia Alta, e em 
Tendefe chegou João Martiz ao conde e, tomando nova dele, dise que 
aquela noite fujírão da mazmorra nove cativos c todos pasárão em úa 
barca, e que no rio ouvirão o rebate em Larache, e que, como fôrão 
desta parte, fizérão que se apartasem, por que, se saisem em busca deles, 
não os achasem juntos e queira Deos salvarera-se; dizendo mais que por 
mim mandara dizer a sua senhoria os mandase esperar um dia certo, 
e dezia verdade, porque, vindo um dia de Féz, fiz meu caminho por 
I^arache e me dise que disese ao conde que os esperase, porque tínhão 



219 — 

a mazmorra aberta e prestes pêra fujirem. Eu lhes respondi que não 
avia de ser em tal trato, nem o conde avia de mandar um só de cavalo 
por todos os cativos de Larache, quanto mais por quatro homens não 
conhecidos, á ventura, e não esperasem que o conde aventurase nenhum 
dos seus, nem tivesem esperança por esta via, e os desenganei ; e, quando 
eu dise ao conde que pasara isto com João Martinz, m'o agradeceo, 
dizendo que nunca por ardil de cativos aventuraria um só homem, quanto 
mais por jente que não conhecia; todavia, este dia, querendo favorecer 
os cativos que ficarão embrenhados, mandou a Diogo da Silveira que com 
cincoenta de cavalo chegase ao rio de Çael ■ e á Barrosa montear, e que 
levasem duas trombetas que tanjesem pêra que os cativos saisem ao som 
delas, e asi foi, porque de Çael - e da Barrosa trouxe cinco cativos, que 
estávão embrenhados e sairão ao som das trombetas, os quais todos érão 
homens do mar de Vila do Conde e do Porto. Os outros dois fôrão mo- 
finos, porque os almogaveres toparão com eles e os tornarão a Larache ; 
e desta maneira saio este João Martinz, mas não tardou muito que o não 
tornarão a cativar, como direi. 



CAPITULO XLI 

Como o alcaide armou com almogaveres e tomou ãa atalaia 



NESTES dias os alcaides de Larache e Alcacere viérão ao noso campo, 
e, não ousando correr a bandeiras despregadas, armarão com 
almogaveres, e, ficando os alcaides em Alfomar, úa legoa da vila, 
os almogaveres sairão da Atalaia Ruiva e, entre a Atalainha e os For- 
ninhos, viérão a tomar úa das atalaias, que avia nome o Tubarão, tão 
perto do adail, que nos Forninhos estava com mais de vinte de cavalo, 
os quais, vendo os mouros tão perto, se confranjêrão e requererão ao 
adail desem nos mouros, pois estávão perdidos, e tanto que até a Atalaia 
Ruiva os alcansaríão, ainda que tivesem costas. O adail não quis bolir 
consigo, antes da parte do capitão requereo que estivesem quedos e não 
fizesem desmancho; e, como os mouros se fosem recolhendo, João Por- 
tuguês, nas suas costas, tomou logo a Atalaia Ruiva e, vendo que não 
avia jente, nem costas, fez sinal ao adail que andase, e logo Martire Diaz, 
atalaia, veio dizer que por culpa do adail se perderão os mouros, e foi 
entre os de cavalo grande murmuração contra o adail, que aquele dia foi 
anjo que os guardou pêra que todos se não perdesem, porque, se pegá- 

I. Çael] Calez B M ; Calles N. — 2. Çael] Cale B M ; Calles N. 



— 220 — 

rão com os almogaveres, não pudcrão deixar de ir á longa até dar na 
jente. 

O conde, depois que vio a Ruiva tomada, foi paseando com toda a 
jente até os Forninhos, onde estava o adail, e em chegando lhe dise o 
adail: «Senhor, não me ponhais culpa por não chegar aos mouros, por- 
que me acho neste cavalo que não tem rédea, nem é por ser muito 
manso». Isto dezia porque o ouvérão asi, vendo-o com os mouros, isto 
digo pola certeza que soube do que lhe vi fazer, isto tudo dise polo que 
lhe vi fazer, e isto digo polo que lhe vi fazer. Este [cavalo] ' mandou o 
duque de Medina Sidónia ao conde, por ser perigoso e mordedor, pare- 
cendo-lhe que a guerra o quebrantaria, e depois foi meu e me sérvio muito 
tempo e nele me achei e sai com honra, posto que nunca no campo lhe tirei 
o freo. nem deixei de o ter com úa solta rasa de ferro, porque não pasava 
cavalo que não fizese muito por saltar nele. Com estas palavras que o 
conde dise ao adail ficou desagastado e contente e muito mais vendo as 
bandeiras e jente que se mostrou em Alfomar, que, chegando os almoga- 
veres com sua atalaia ao alcaide e preguntando-lhe as preguntas acostu- 
madas e vendo que o adail, estando tão perto dos seus, não apegou com 
eles, dise: «Dom João tem homem de recado» e, saindo da cilada, dérão 
vista de si a nós outros; e, vendo o conde as duas bandeiras e a jente 
posta em ala, dise: «Amigos, parece-vos que os que fôrão trás os almo- 
gaveres fôrão bem agasalhados daquela jente?» E, louvando muito ao 
adail, lhe tornou a dizer o que lhe tinha dito e dise : «Agora averia eu 
por mais seguro ir demandar o alcaide e pelejar com ele que ir trás almo- 
gaveres, mas lá vos dará Deos outro dia, em que não ajamos enveja a 
este» e, por esta vez, se pudérão ir embora e nós demos nosa guarda, e, 
mandando poios moços, os fez fazer sua erva e lenha, e, dando de comer 
á sua boiada, nos recolhemos á vila. 



CAPITULO XLII 

Como iim mouro do Farrobo se veio pôr em ferros 
por amores de úa molher 



NESTE tempo, um mouro do Farrobo, que avia nome Aiadomarteres, 
que, quando esta historia escrevi, estava cativo em Santarém, em 
casa de Dom Fernando Mazcarenhas, filho de Dom Manoel Maz- 
carenhas, capitão que foi de Arzila, estando o conde no parlatorio, entrou 
pola porta da Ribeira um homem mancebo, grande de corpo e robusto; 

I. [cavalo]/ BNM. 



— 221 — 

trazia úa lança e adarga nas mãos e diante de si dous asninhos, carre- 
gados de cera, e duas vacas e dous bois ; e, posto diante do conde, lhe dise : 
«Senhor Dom João, eu sou sobrinho de Alcematres, cativo de Simão da 
Fonseca, e venho-o resgatar e dar a seu dono esta cera e bois: polo que 
faltar quero eu ficar em cativeiro e em ferros, e que se vá buscar o que 
faltar do resgate e me tirar de cativeiro, comprindo com ele; e seu amo 
deve de querer antes a mim, que sou mancebo, e o poderei servir melhor 
que meu tio, que é velho». O conde lhe preguntou quem o mandava ou 
obrigava a se pôr em cativeiro? O mouro respondeo: «Senhor, eu quero 
casar com úa filha deste meu tio, e ela me dise que se não avia de casar 
senão com quem lhe tirase seu pai de cativo; e, porque me dise que se 
casara comigo se lh'o tirara, venho por ele e trago o que tenho, que é 
isto que vedes; e, se faltar algúa cousa, quero tomar os ferros e tirá-los a 
seu pai, quanto mais que é meu tio». O conde lhe dise que ele se podia 
concertar e fazer o preço dos bois e cera que trazia com Simão da Fon- 
seca, mas que deitar-lhe ferros o não avia de consentir até não vir cáfila 
da serra e de Alcacere, que fosem testemunhas como eie tomava os ferros 
por sua vontade. A tudo dise que era contente, e, vindo Simão da Fon- 
seca, lhe avaliarão os bois e a cera, que pesaria quatro quintais, e se 
entregou de tudo e levou o mouro pêra sua casa, e, como veio a cáfila, 
tomou os ferros por ante os mouros que nela viérão. O tio se foi e em 
poucos dias pagou o que ficou devendo e tirou o sobrinho, que deu mui- 
tos dias em que falar á vila, na constância de um mouro serrano, e foi 
muito louvado, asi de nós como dos mouros. Este Aias se fez depois 
ladrão e salteador, andando em todas as perfeições de ladrão, e asi acabou 
sua vida. 



CAPITULO XLIII 

Da vinda de Manoel Coutinho a fa^^er-se cristão 
e de como foi fora e da morte de Artur Rodrigues 



NESTE ano de trinta dous se veio tornar cristão um mouro, a quem se 
pôs nome Manoel Coutinho, mancebo bem desposto, aparelhado 
pêra todo o bem, e asi saio por seu merecimento e valentia, que 
em pouco tempo mereceo lançarem-lhe o habito e se fez um asinado 
homem, como em muitas partes desta historia se verá, deixando-me Deos 
chegar a seu tempo. Era este mouro de Benaçua, criado de Mulei 
Mafode Baraxe. Veio em cima de um bom cavalo, [com] ' sua lança e 

I. |com]/. BN; e M. 



adarga. Foi bem recebido do conde e asi de Diogo da Silveira, que sem 
receo se confiou dele, o que nunca fez de outros mouriscos. 

Logo como este mouro chegou e se fez cristão, o conde lhe deu licença 
e com trinta de cavalo foi entrar e os levou pola boca de Almarcecamar 
e, polas costas do Farrobo, nos pôs em um caminho, onde tomamos três 
mouros e duas egoas que a um coco ião, e, posto que éramos muito 
dentro da serra e em parte de muito perigo, nos tirou com tão boa ma- 
nha e dilijencia que, posto que ouve rebates e acudirão a tomar-nos alguns 
pasos, nos tirou sem pendência. O conde foi dele muito contente e, tor- 
nado cristão, o recolheo em sua casa e o pôs á sua mesa, entre muitos 
fidalgos, com os quais ele se deu tão boa arte que de todos era amado e 
louvado e mostrandose tão limpo e presuntuoso que dava a entender ser 
toda sua vida cristão. 

Logo Diogo da Silveira foi entrar e, pasando por Capanes, foi a Ali- 
naçar e tomou outros três mouros e um bom golpe de gado, e, por Artur 
Rodríguez ficar por entrar, posto que avia nova d'el-rei sair abaixo, lhe 
deu licença que fose ao Farrobo, onde entrou polas tranqueiras, onde 
acudirão alguns mouros de pé, e, vindo Artur Rodríguez á fala com eles, 
foi pasado de Ga lança d'arremeso, de que logo caio mortalmente ferido, 
e sobre ele acudirão logo seus companheiros, e, por muito que fizérão o 
não pudérão pôr a cavalo, nem recolher, porque foi entre os mouros 
muito grande grita, dizendo: «Artur é morto !i e acudirão tão ousada- 
mente que, posto que os nosos fizérão duas voltas, em que alanceárao 
dous deles, todavia, lhes ficou Artur Rodríguez entre as mãos, onde foi 
logo descabeçado e tiradas as mãos e pés; e os nosos se recolherão, vindo 
Álvaro de Sousa, criado do conde, mortalmente ferido doutra lança 
d"arremeso, que, pasando-lhe as couraças, esteve á morte, e asi ouve três 
cavalos feridos, de maneira que os nosos viérão sem seu capitão e almo- 
cadem e fizérão toda a vila triste, porque Artur Rodríguez era avido por 
muito bom homem e bom cristão; e, quanto esta sua morte nos fez tris- 
tes, tanto mais alegres aos mouros todos, por terem [aj ' esperança perdida 
dele deixar sua fé, molher e filhos, por ser o mourisco que mais se apar- 
tava de conversar cora mouros, nem mouras, senão foi Diogo da Silveira, 
com quem sempre ia fora, mostrando não aver enveja a seus feitos, e por 
ele dise o conde que Arzila perdera um dos bons moradores que nela 
avia. 

Fui tão largo em contar esta morte de Artur Rodríguez, pois se ha 
dito, no principio de sua cristandade, quanto andou danado e com quanta 
prudência e virtude o conde o soube remedear e sosegar, fazendo-o de 
cristão inquieto quieto e leal, pondo-o á sua mesa e casando-o com úa hon- 
rada molher, com que sosegou e se fez o que aveis visto. Depois disto, o 

.. La]/. B. 



— 223 — 

conde casou esta molher de Artur Rodríguez com este Manoel Coutinho, 
com o qual viveo tão honrada e bem casada como com Artur Rodríguez, 
como adiante se verá, se a seus feitos chegar, e aqui o deixemos, con- 
tando o que logo após iso pasou. 



CAPITULO XLIV 

Como Mulei Abrahem veio abaixo em pesoa d'el-rei 
e correo Tanjere e Ar:{ila e não fe\ nada 



TENDO o conde por nova certa que el-rei de Féz tinha sua almahala ' 
fora e fazia alarde de jente, e oficiais artilheiros, asi mouros como 
cristãos, se dávão presa a fazer dous tiros grosos, e, por ter paz 
com os xerifes, parecia querer tentar Arzila ; e, por ter nova de mestre 
João, artilheiro d'el-rei de Féz, em que lhe dezia que aquele apercebi- 
mento parecia ser contra Arzila, o conde, porque onãotomasem de sobre- 
salto e desapercebido, quis ver os almazens, e, vendo estarem desfalecidos 
de munições e outras cousas necesarias, as mandou pedir ao feitor de 
Andaluzia, Manoel Cirne, e asi o mandou pedir e fazer saber a el-rei, 
noso senhor, pêra o prover de pólvora e repairos e outras cousas necesa- 
rias á guarda e defensão da vila ; o qual recado por esta vez não ouve 
efeito, porque o barco de Estacio Nunez, com que estas cartas e recado 
ião, foi tomado da fusta de Larache, mas o alcaide cide Naçar foi tão 
nobre que, vendo as cartas do conde e sabendo que ião pêra el-rei, sem 
as ver, nem as abrir, as mandou ao conde. 

Todo este movimento e apercebimento d'el-rei de Féz se resumio em 
Mulei Abrahem vir correr Arzila e Tanjere, trazendo consigo todos os 
alcaides e jente de Féz, e desta vez não fez nada, por estar o conde 
avisado de cáfilas e mouros tomados, que dezíão que el-rei vinha abaixo 
ás ervas, e o alcaide de Alcácer estar apercebido de muitas farinhas e 
cevada pêra a vinda d'el-rei, de maneira que, correndo Mulei Abrahem 
da Aldeã Velha e o alcaide de Alcacere d'Alfomar, em pouco espaço 
cinjio o campo todo, de mar a mar. O conde, que na ribeira de Bugano 
estava, dando guarda á erva, recolheo sua guarda e boiada e se ouve no 
Facho, sem pendença, e se veio á tranqueira de Baixo, parecendolhe que 
os mouros entrasem dentro no Facho, o que não fizerão senão poucos 
derramados, e a força da jente toda carregou da outra banda do Rio 
Doce e ficando sobre = a bandeira vermelha de Mulei Abra- 

I. almahala] almaja B NM. Já ocorreu este vocábulo com a significação de exercito. 
— 2. . . .j em branco B N ; sem branco M. 



— 224 — 

hem. Alguns pasárao o rio e ao longo do vale começarão a vir mais 
perto da vila, os quais, rompendo o valo, se derramarão polo adro de 
fora e pola fonte de Álvaro Gabriel, porque virão ao conde, que, vendo os 
pasar o rio, se veio ao adro, onde alguns dos nosos travarão escaramuças, 
mas o conde os fez recolher ás contoadas, tratando-os mais como capitão 
riguroso que como o conde Dom João os soia tratar. Digo isto porque 
a mim, vendo-me atravesado. me tirou úa lançada, que me pasou a adarga, 
em que lh'a tomei, e outro tanto fez aos outros, por onde me parece que 
não errei em dizer que homem bom e capitão bom não vi senão nele. 
Os mouros, vendo o capitão dentro do adro com toda sua jente armada 
e em ordem, se recolherão ao Xercão, e do caminho espedio Mulei Abra- 
hem a João d'Oribia e a Francisco Lionárdez, que com ele vínhão, e por 
eles mandou visitar ao conde e lhe mandou um fermoso cavalo, man- 
dando-lhe dizer que vinha pêra ser seu vezinho por alguns dias; e ao 
outro dia correo a Tanjere e tão pouco não fez nada, porque aquela noite 
o conde mandou por Artur Ortiz, e um barco por mar, avisar a Dom 
Duarte, e ambos lá chegarão, e Dom Duarte teve muito recado em sua 
cidade; e do campo de Tanjere se despedio o alcaide de Alcacere com 
os de Féz, e, por dentro das serras de Benamares e Benagorfate, pasárão 
sem dar vista ao noso campo. O conde teve sempre espias, parecendo-lhe 
que, tanto que tornasem, nos correríão, o que o alcaide d'Alcacere não 
quis consentir, pedindo-lh'oos de Féz, que parecendo-lhe que seria menos- 
cabo seu se as tranqueiras recebesem algum dano, que, pois o conde 
estava avisado, não deixaria de lhes armar, e que Mulei Abrahem os 
trouxe de Féz e lh'os entregara sem dano, quis ele fazer outro tanto; e 
por esta maneira Mulei Abrahem ficou em Xexuão, dando ordem ao casa- 
mento de seu irmão, cide Abdalá Celema, com íía filha do alcaide de 
Benjija. 

CAPITULO XLV 

Como o alcaide de Benjija correo Arzila 
e o conde determinou de o ir buscar e pelejar com ele 



MUITO desejei chegar a este capitulo pêra nele satisfazer a muitos 
que, ouvindo dizer que o conde com dozentos de cavalo desba- 
ratou dous mil de cavalo, e perguntão como foi e como ousou 
cometer tão grande numero, pois avia pêra cada um dos nosos dez mou- 
ros, e, portanto, como testemunha de vista, direi como pasou ; e desta 
batalha sai sem aver enveja a nenhum dos que nela fomos, pois meti em 
Arzila úa bandeira real que nela tomei, matando por minhas mãos ao 
alférez que a trazia, e o galardão, que diso ouve, foi ficar de trás de 



— 225 

todos, sem aver mercê, nem ousar falar nela; mas contento-me que temos 
a Deos tão justo e verdadeiro que ha de tomar conta aos que tirão o ser- 
viço a quem o merece, pêra o dar a seus criados e aos que os lisonjêão; 
e, tornando ao feito, pasou desta maneira. 

Era Benjija dos mais antigos fidalgos do reino de Féz e alcaide de 
Jazem, úa das mais principais alcaidarias do reino e quatorze legoas de 
Arzila, e, como ouvese de vir a casar úa filha com cide Abdelá Celema 
irmão de Mulei Abrahem e alcaide de Xexuão, quis de caminho correr 
Arzila, e pêra iso trouxe de Féz seus parentes e amigos, entre os quais 
foi Caroax, xeque dos alarves, e cide Alaxequerão, irmão do alcaide d'al- 
caçova de Féz, e cide Naçar, alcaide de Larache, e outros, e, pasando 
por fora d'Alcacere, entrou no noso campo um dia que o conde com sua 
bandeira fomos correr Alião, e, por sermos sentidos, não se fez nenhúa 
cousa. Viemos por noso caminho, monteando, e, sem rebate, nem impe- 
dimento, viemos á vila, cansados, como homens que vem da guerra sem 
presa; e ao outro dia, que foi quarta feira, doze dias de setembro do 
ano de trinta dous, nos amanheceo na vila o alcaide Benjija com mil e 
oitocentos de cavalo: amanheceo no Xercão, duas legoas da vila, pêra ao 
outro dia se melhorar e nos correr. Muito mais descansado esteve, de- 
pois que teve nova de nós, porque aquele dia partio íia cáfila da vila de 
muitos mouros e judeus, e, topando com as guardas no Zambujeiro, levarão 
a Jibre Judeu e o alfaqueque ao alcaide, que lhe preguntou meudamente 
polo conde e pola ordem da vila e campo, e as guardas onde se dávão e 
o gado onde comia, ao que Jibre satisfez, respondendo como homem que 
sabia o que avia de responder, dizendo que a jente viera cansada e que 
aquele dia não averia atalaias largas, e que eles sairão pola meniiã, ficando 
o conde na cama e não avia pesoa fora. Com este aviso os deixou ir seu 
caminho e asentou correr ao outro dia, mas, como as guardas, que sobre 
o noso campo tinha, lhe levasem nova que as Atalaias Altas érão tomadas 
e que o campo andava largo, logo cavalgou e se veio por Almenara meter 

no Marmeleiro, onde vio que o campo se recolhia ' e o mais 

que era necesario a tal cousa, e os principais érão o João López e Fran- 
cisco Cabral. 

Os mouros, vendo o adail nos Forninhos, não tão somente não pasá- 
rão adiante, antes se recolherão muito depresa. A este tempo chegou 
Fernão da Silva ao conde e dise: «Senhor, esta jente saio do Marmeleiro 
e é pouca, porque eu lhe vi o cabo, e, verdadeiramente, eu a faço até 
quatrocentos de cavalos. E o conde dise: «Asi m'o ^ parece, porque cor- 
reo fracamente, mas não vejo bandeira real, que aquela que parece na 
Ruiva é guião, todavia, quero ver a determinação desta jente» e mandou 
ao adail, que nos Forninhos estava, se fose trás os mouros derramados. 

I. ...] à margem de B sem branco: falta; sem branco NM. — 2. m'o] me NM. 

ANAIS DB ARZILA 20 



— 226 — 

A este tempo pareceo a bandeira e jente do alcaide, que cm Alfomar ficou, 
que, vendo que os seus se recolherão, nos deu vista, pondo-se em ala na 
Atalaia Alta d' Alfomar ; e entre nós ouve grande grita: «Eis a jente e 
a bandeira parece!» O conde ficou suspenso, porque tinha cáfila na vila 
e nova dos alcaides estarem em suas casas, e não se podíão ajuntar em 
três dias, e parecia-lhe que era o alcaide d'Alcacerc que sairá a repique 
o dia dantes, e, por tornar sem ver cristão, quis mostrar aos seus que 
viera após nós, e logo dise muito alto: «Este é o alcaide que ontem saio 
ao noso repique e rebate e quis-nos mostrar que veio após nós e mandou 
que me corresem ametade da jente, e com a outra bandeira ficou, como 
vedes: que seria ' se oje se tornar de autor reo e o que ele cuidou fazer, 
que é amedrentar-nos, fizesemos a ele?» e logo mandou recado ao adail 
que, se os mouros deixasem a Ruiva, a tomase, porque ia nas suas costas, 
o que o adail fez muito bem, porque ainda os mouros não acabávão de 
sair da atalaia quando ele a tomou, e logo mandou recado que não avia 
mais jente até Alfomar, e que, se sua senhoria quisese que dése neles, ao 
pasar das Pontinhas o faria. O conde lhe mandou outro recado, que 
andase e que não travase pendença até ele não chegar, e logo mandou 
Henrique Machado, alférez, tornase á vila pola bandeira de Cristo, o 
que ele fez muito dilijentemente, que com ela nos tomou na Ruiva, onde 
o conde esperou [a]té ela chegar. 

Entanto alguns fidalgos lhe pedirão licença pêra irem na dianteira 
com o adail, e isto lhe pedio mui afincadamente Dom João Mazcarenhas, 
sobrinho da condesa. O conde lhe respondeo: «Senhor Dom João, não 
ei de mandar fidalgo com o adail e os que mandar hão de ser homens do 
campo, e vós ireis onde meu filho for». A este tempo ião os mouros 
polo rosto d' Alfomar acima e o adail em sua esteira, e, tanto avante com 
os mouros da parte dentre os valos das várzeas, ião João Trigueiros e 
Fernão Machado, dando vista aos mouros e córregos dantre ambas as 
várzeas ; e nisto chegou Henrique Machado, com a bandeira, e o doutor 
Duarte Rodríguez, que tornou a curar o surdo que os mouros ferirão. O 
conde muito alegre dise: «Doutor, que vos parece, aguardar-nos-á o al- 
caide?» Respondeo: «Eu cuidei que vós já o não podeseis alcançar: 
que fazemos que não imos por diante?» O conde se deceo de um 
cavalo, asaz bom, que ouvera de João Português, e tomou um jinete que 
fora do alcaide Laróz, por ser de boa rédea e rijo, ainda que dezião que 
tinha dous esparavões, e mandou a Fernão Caldeira tomase o que ele 
deixara, o que Fernão Caldeira fez e, como nele foi, dise: «Eu vos tenho 
dito que, primeiro que deixase de servir-vos, vos avia de ajudar a desba- 
ratar um alcaide: espero em Deos será oje e, com esta minha mão 
canhota, espero derribar um dos principais, pois me destes cavalo pêra 

I. seria] seia [ : será í] M. 



227 

poder ser dos dianteiros». Logo o velho e manco lhe tomou a rédea e 
se fez ter, o que sempre foi. Com estas palavras de Fernão Caldeira 
todos desejávamos de ir por diante e todos tivemos úa grande gana de ir 
diante do conde, dando cada um sua rezão e sua badelada, mas, como o 
conde se endireitou na sela e estendeo as pernas, nos fez calar, sem mais 
pesoa abrir boca, dizendo estas palavras que agora ouvireis. 



CAPITULO XLVI 

Como o conde se determinou de pelejar com o alcaide de Benjija 
e o desbaratou 



P ASADAS estas palavras que o conde teve na Atalaia Ruiva e asen- 
tado de ir buscar o alcaide, pondo-se direito na sela, dise a todos 
os que ali éramos estas palavras: «Senhores e amigos, até aqui 
todos falastes e cada um dise seu parecer e todos quereis vamos pelejar 
com estes mouros: o que vos peço e encomendo não aja homem que 
fale, nem se ponha ante mim, nem se atravese diante, pêra que o veja, 
pois muito bem conheço a todos e sei que o que fica detrás deseja de ir 
diante: e vos lembro que este [é] ' o alcaide de Alcacere e a mesma jente, 
o mesmo caminho em que não ha muitos anos que matarão nosos pais, 
irmãos e amigos, sendo trinta pêra cada um, e eu confio em Deos ele nos 
dará vitoria em nos vingarmos com muita honra nosa: o que vos enco- 
mendo nenhum se detenha, nem embarace, por tomar mouro vivo, por- 
que será estorvar a vitoria que nos Deos dará, que, embaraçando-se um 
de nós com um mouro tomado, dá azo a se salvarem muitos e fazermos 
rabo e adelgaçarmos os dianteiros; e, porque eu espero que o alcaide, 
tanto que nos vir, que não me espere e fará rabo, vos torno a encomen- 
dar que nenhum saia da ordem que então ordenar, que será como o tempo 
nos mostrar». 

Estas e outras palavras dise o conde em jeral, e logo mandou a Diogo 
da Silveira que se pusese no caminho e guiase Henrique Machado com 
a bandeira de Cristo, e, pegado com a bandeira, mandou ir Dom Fran- 
cisco, seu filho, e trás ele Dom João Mazcarenhas, sobrinho da condesa, 
e logo começamos a afiar, sendo eu dos dianteiros; e com esta ordem 
decemos a Atalaia Ruiva e pasamos as Pontinhas e chegamos á aldeã 
d'Alfomar, que, por ser o caminho estreito, nos detivemos até ser noite, 
não querendo o conde que pasasemos até ter nova onde os mouros ião e 
o que fazíão; e, por ser mais certificado, mandou a João Moniz que che- 

4. fé]/. BN. 



— 228 — 

gase ao adail e vise a disposição dos mouros e o caminho que levávão e 
lhe trouxese recado, o qual não tornou, porque, chegando ao adail, lhe 
dise que mandase recado ao conde, porque ele não saberia tornar, vendo-o 
tão perto dos mouros, o que o adail mandou por um de cavalo. O conde 
mandou que pasasemos na ordem que até lá trouxemos, e asi andamos 
asaz depresa, por chegarmos ao adail, e, antes que a ele chegasemos, 
ouvimos úa grande grita que os mouros trazíão após ele, que o adail ia 
pegado com eles. Os dous cides Naçar e Benjija quisérão tomar o adail 
diante, o qual, vendo a jente e a tenção dos mouros, se começou a retirar, 
e os mouros com grande grita arrincárão a eles e os trouxérão afadigados 
até os meter entre nós outros, ferindo-lhe alguns cavalos, e lhe matarão 
um Joane Anes, criado de Simão Rabelo. A este tempo nós iamos já 
correndo, que, ouvindo a grita, arrincamos com um rijo galope, e logo 
chegou um recado por Antão Pacheco, pajem do conde, e, preguntando 
polo conde, lhe respondeo mui alto: «Que é o que quereis?» Disse: «Se- 
nhor, diz o adail que a jente está queda no Azambujeiro e é muita.» 
Dise o conde : «Tornai e dizei-lhe que bem sei quanta é e por iso o vou 
buscar». Dito foi certo este e a tal tempo de tal capitão, como o conde 
era. 

Indo nós asi, os mouros chegarão a nós e, como nos sentirão o tropel 
da jente e as trombetas, que a este tempo tocarão, asi como vínhão tor- 
narão fojindo, e, antes que ao alcaide chegasem, lhe derribarão oito ou 
nove de cavalo, mas nós iamos tanto de mestura com eles que, asi eles 
como nós, demos na batalha e bandeira, e, posto que nos receberão com 
Qa boa çurriada de arcabuzes e espingardas, os empuxamos e lançamos 
fora do outeiro, onde estávão, polo encontro e pancada que neles demos, 
que donde avia de ser de dozentos de cavalo, que nós éramos, foi de 
seiscentos, a saber, dozentos nosos e quatrocentos mouros; e deste encon- 
tro primeiro fôrão muitos derribados, entre os quais foi o alcaide Benjija 
e Alexecorão, e, como o noso encontro foi com grande grita, dizendo: 
«Santiago! A eles que lá fojem!» foi tanto o espanto que o bemaventu- 
rado patrão das Espanhas pôs neles que se pusérão em fojida, e, como 
derribasem ura mouro, começou a bradar: «Senhor Dom Francisco, não 
matar por amor de Deos!» Dom Francisco dise: «Que faremos deste 
mouro que nos embaraça ?» e, vendo a Gaspar Fernândez Manso, lhe 
dise: «Este mouro vos entrego que me deis vivo» e, sobindo o mouro em 
um grande penedo, que no meio do caminho estava, como via vir algum 

cristão, bradava por Dom Francisco ' fazia tudo, pois fazia 

mercês e honra '. 

E, proseguindo nosa vitoria, aqui quisera tomar a lança deste mouro, 
e Dom Francisco m'o não consentio, e me dise que acompanhase a ban- 

I. Não há espaço em branco nos códices, mas o sentido prova que há lacuna. 



— 229 

deira; e, seguindo os mouros que ante nós ião, chegamos ao poço de 
Fernão de Xira, onde, por ser terra apertada, se derribarão outros oito 
e ficarão muitos cavalos, que, apeando-se deles e tirando-se da estrada, 
ficarão salvos, e asi, á larga, posto que éramos poucos, dez ou doze de 
cavalo chegarão á Ponte, e, antes que a ela chegasem, derribarão um 
mouro velho e principal, que disérão que era o alcaide que foi de Gran- 
cilvi, fortaleza que está entre Féz e Tafilete, ao qual estancou o cavalo 
de todo, e sendo derribado por nove ou dez de cavalo, que cuido que 
érão. Os mouros, que na Ponte estávão, vendo quão poucos os nosos 
érão, sairão em socorro do mouro velho e trouxérao os nosos um bom 
pedaço pola várzea, e, tornando-se a recolher, por alguns de nós che- 
garmos ao mouro velho, achamos o cavalo sem sela, que, por ser rica, a 
tirarão, cortando-lhe a silha, e, vindo ao poço, achamos recado do conde 
que mandava saber de seu filho '• 

E não andei muito que não topei com toda a jente, e, chegando com 
a bandeira arrastando, lhe dise como chegamos á Ponte, e o conde muito 
alegre não deixou de andar até Dom Francisco, o qual foi recebido aspe- 
ramente, por se mostrar temerário em corrida tão comprida, e ali lhe 
pedimos quisese amanhecer no campo e não dése lugar a que se salvasem 
mais de quinhentos de cavalo, que andávão espalhados e perdidos polo 
campo, sem saberem onde estávão. O conde fez preguntas aos mouros 
que tinhão tomados e todos falarão por úa boca, dizendo que o alcaide 
era Benjija e o numero da jente mil e oitocentos de cavalo, e muitos 
deles de Féz, que com o alcaide viérão, e não vinha jente de Alcacere. 
Depois desta enformação, o conde dise que não avia de vender a honra 
por dinheiro, que era toda a jente derramada e não queria que nos toma- 
sem embaraçados e lonje da vila, e que quanto mais perto da vila nos 
tomasem tanto eles virião mais cansados, e que andasemos. Vindo re- 
colhendo os cavalos, e, como o conde achase alguns dos seus menos, 
vinha com muito receo se érão perdidos, e, como vínhamos despojando 
os mortos, trouxemos tanto vagar que amanhecemos defronte de Taurete 
e logo ouvemos vista de Fernão da Silva e de seus companheiros, que, 
como cide Naçar com seu guião tomou por entre Alhadra ^ e o Azambujal 
do Xercão, estes que fôrão com Fernão da Silva fôrão em seu seguimento 
e lhe matarão mais de vinte cinco de cavalo, e, vendo-se muito aper- 
tados, fizérão íia volta, em que derribarão o alcaide-mór e lhe dérao 
muitas feridas, de que esteve á morte, e outras lhe salvarão as armas. 
Aqui se asinárão Fernão da Silva, Lopo de Quadros, que, posto que os 
mouros érão muitos, os fizérão alargar e o deixarão mal ferido. 

Tanto que chegarão a nós, o conde foi de todo alegre, posto que o 

I. Linha em branco e à margem: aqui falta o suceso da bandeira que tomou B 
sem branco N M. — 2. Alhadra] Alhandra BNM. 



— 23o 

alcaide-mór vinha mal tratado, e logo ordenou a Roque de Farão com 
trinta de cavalo que fose despojar os que Fernão da Silva e os compa- 
nheiros deixarão mortos, e nós outros chegamos á fonte do Zambujeiro, 
onde foi o primeiro encontro, onde achamos o guardião, frei André Fer- 
não, com todos os frades, e o prior, Francisco Carvalho, com todos os 
clérigos, e homens de pé e moços da vila com asnos e bestas carregadas 
de pão e vinho, carne asada que a condesa e outras molheres, como tivérão 
nova, fizérão prestes. Os frades levarão quatro azemalas carregadas de 
pão e vinho, muita carne, galinhas com que todos matamos a íome: o 
conde foi tão alegre com eles que a todos mandou dar sua parte. 

E porque eu tinha dito que me parecia que cide Buirma, irmão do 
alcaide, era morto no primeiro encontro, levei um dos mouros a o ver: 
dise-me que era um alarve principal e que chamava por um dos seus 
santos, chamado cide Amete Bembicar, que o levase ao inferno. 

Da fonte do Azambujeiro caminhamos pêra a vila, sendo duas legoas, 
e quatro á Ponte, de maneira que foi a corrida e alcanse de quatro 
legoas. Os frades e clérigos todos se pusérão em cima de cavalos mou- 
riscos, e asi outras pesoas que da vila fôrão, e os mais vínhão carregados 
de despojo, a saber, selas, capuzes, saias de malha, adargas, pelotes; e 
com esta ordem, trazendo nosa cavalgada diante, chegamos á vila, que 
nos recebeo com muita festa de artelharia e sinos. 



CAPITULO XLVII 

Do mais que o conde ordenou depois de ser na vila 

e como o alcaide Benjija lhe mandou íla lança que tomou a um cristão 

e o conde o mandou visitar 



TANTO que o conde entrou pola porta da Ribeira, se foi decer á porta 
da igreja de São Bertolameu, onde deu as graças e louvores devidos 
a Noso Senhor, pola mercê que lhe tinha feito, e, posta a bandeira 
de Cristo no altar de Santiago, logo deu ordem na arrecadação da caval- 
gada, dando juramento aos quadrilheiros que pêra iso ordenou, e mandou 
meter todo o despojo de selas, capuzes, saias de malha, lanças e todo o 
mais na casa da alfandega, que, posto que grande era, foi cheia, que, 
posto que os mouros mortos não fosem tantos, mais foi dos que fujírão, 
que deixávão o que levávão, por não lhes fazer embaraço. Os cavalos 
fôrão metidos entre as portas da vila, que pasárão de cento, afora muitos 
que morrerão, asi de feridos como de arrebentados. Os mouros cativos 
que viérão feridos fôrão oito, entre os quais veio um irmão do alcaide 
Maçuar, guarda-mór d'el-rci de Fez; este ouve o conde por dozentos mil 



— 23l — 

reais e deu por si mil e quatrocentos cruzados ; os outros érão todos cava- 
leiros da cevadeira d'el-rei e do alcaide Benjija : fôrão estes mouros todos 
oito levados á condesa que os tratou e mandou curar, como magnifica e 
nobre senhora. Este dia se pasou em grande regosijo e festa, não ficando 
pesoa, nem molher que não viese ver a bandeira que eu tinha á minha 
porta. A mesma tarde se venderão os mouros, vindo primeiro dous de 
cavalo saber do alcaide, se era cativo, porque não parecia. O conde os 
deixou entrar e falar com os mouros cativos, e, não achando nova, nem 
recado do que vínhão buscar, pedirão licença e seguro pêra o buscarem 
entre os mortos; o conde os asegurou por aquele dia e polo outro, em 
os quais levarão muitos mortos e recolherão muitos mouros perdidos e 
cavalos ; e, partidos eles, chegarão outros dous e trouxérão recado do 
alcaide ser aparecido, e fora ter á serra de Benagorfate, e que, por quanto 
ele fora derribado no primeiro encontro, e depois dele ser no chão, se 
topou com um cristão e se livrou dele com lhe tomar a lança, pedindo-lhe 
que soubese do cristão quem era e do que com ele pasara : de tudo lhe 
mandase um asinado ou carta pêra el-rei, seu senhor, saber que não fojio 
e ficou no campo, desemparado dos seus. O conde o recebeo, fazendo-lhe 
muito gasalhado, dizendo que o alcaide dezia verdade e ficou no campo 
como um lião, e que o cristão a quem tomara a lança era um criado seu, 
que avia nome Manuel Navais ', o qual lhe contou como se topara com um 
mouro que vio a pé, por se achar só, e, com um cavalo manco, lhe deixou 
a lança, e foi desta maneira. 

Tinha Manoel de Navais' o cavalo manco e decepado de um porco, e, 
por não ficar, indo seu senhor pelejar, pôs a sela em um cavalo da ata- 
fona e nele chegou a Alfomar, onde fòi a detença; e, quando chegou ao 
Azambujeiro, onde demos nos mouros derramados, pasados, seguindo a 
vitoria que Deos nos dava, não tendo conta com os derribados, nem com 
os que a pé ficávão, e, como ele era o mais traseiro, ouve vista do alcaide, 
que a pé andava, por tomar um cavalo, e, conhecendo ser mouro pola 
camisa mourisca, o foi demandar, parecendo-lhe encontrá-lo, como homem 
mancebo e de pouca experiência, que se a tivera levara a lança d'alto e 
fora senhor do golpe e da lança, pois temos visto muitos homens, por 
quererem encontrar outros a pé, perderem as lanças, como parece neste 
Manuel de Navais; pois indo fazendo muitas cousas, saindo com um 
cavalo dos que polo caminho topou, chegando ao conde lhe contou tudo 
o que lhe acontecera com o alcaide, parecendo-lhe ser pesoa asinada, pola 
espada guarnecida de prata: asi que mandou úa carta a Mulei Abrahem, 
que lhe mandou logo vinte cinco cavalos e el-rei outros tantos, de maneira 
que se tornou a reformar, e a João López^ fez muita honra e lhe fez mercê 



I. NavaisJ Novaes N. — 2. Não se disse quem era este João Lópe^ e o passo deve 
estar alterado. 



232 

de um rico bedem e outras peças, de que veio contente. Outras meude- 
zas pasárão neste desbarate, que deixo de contar por não ser enfadonho, 
somente direi que se tomarão cavalos de cem cruzados e selas de outro 
tanto e adarga de vinte cruzados. Pagárão-se perdas e despezas e saimos 
a vinte cruzados os de cavalo, e se deu parte a frades e a clérigos, quantos 
fôrão ao Azambujeiro. 

Foi tanto o alvoroço desta vitoria que até os cativos de Fez fizérão 
coplas uns aos outros, trazendo aos mouros e elches corridos, e entre 
estes cativos d'el-rei era um bombardeiro castelhano, por nome Rodrigo 
de Malpartida, muito gracioso e cabido com el-rei e com todos os alcai- 
des; este fez úas trovas que são mais pêra rir que pêra louvar, as quais 
achei nesta cidade de Lisboa, que as sabia Qa molher honrada que veio 
do despejo de Azamor, e, por conformarem com o que tenho escrito deste 
desbarate, as porei aqui, ainda que algúas lhe não lembrarão, mas será 
no cabo '. 



CAPITULO XLVIII 

Corno Mulei Abrahem e o alcaide de Alcacere e Benjija 

correrão a Tanjere e matarão a Diogo de Torres 

Jilho de Alvará Torres e outros homens e da vinda de Alexecorão a Ar:{ila 



PARECE que, quando a guerra favorece a ija das partes, logo a for- 
tuna enemiga se arma, ou pola soberba que com as vitorias se 
toma, ou por levantar a parte caida. Isto digo, porque não pasárão 
três meses, depois que o conde ouve a vitoria que contada fica do alcaide 
de Benjija, quando o mesmo alcaide, em companhia de Mulei Abrahem 
e do alcaide de Alcacere, nos dérão Ga boa pancada, em que nos matarão 
e cativarão quinze homens e pusérão a vida do conde em risco, por ficar 
ferido de Ga setada que, entrando-lhe por Qa perna, saio ao quadril, o 
que pasou asi. 

Como estes alcaides estivesem juntos em Xexuão, cabeça do estado e 
senhorio de Mulei Abrahem, a um casamento de Ga filha do alcaide Ben- 
jija com cide Abdelá Celema, irmão de Mulei Abrahem, ordenarão correr 
a Tanjere, onde lhe foi a fortuna tão favorável que, armando com almo- 
gavercs, ouve desmando nos de Tanjere, que sairão atrás deles até irem 
ter com a jente que estava na cilada, onde fôrão mortos seis ou sete 
homens, entre os quais foi Diogo de Torres, filho de Álvaro de Torres, 
que em Tanjere estava por fronteiro com muitos e bons cavalos e homens 

I. Faltam as ditas trovas. 



— 233 — 

« grande casa, e, por lhe acudirem, fôrão cativos António de Souto-Maior 
e João Díaz, filho de mestre Diogo. 

Socedendo asi este feito, os alcaides se recolherão a Xexuão e do 
caminho espedírão a Alexecorão, irmão do alcaide da alcáçova de Fez, 
pesoa de muito credito entre os mouros, que viese a Arzila visitar o conde 
e dar-lhe nova do que fizérão em Tanjere, e pêra falar e resgatar alguns 
cativos e, em especial, o irmão do alcaide Meçuar e os que no desbarate 
de Benjija fÔrão cativos, o qual ao outro dia, que foi domingo, primeiro 
do mês de dezembro, chegou á vila, vindo acompanhado, como homem 
honrado, em cima de seu cavalo e outro á destra e úa mula que lhe trazia 
as armas e seu alcaiatão ' ou tenda e três homens de pé. Foi do conde 
honradamente recebido e, depois de dar as saudações acostumadas e 
contar o que o dia dantes em Tanjere fizérão, e como fora morto Diogo 
de Torres, querendo-se defender, do que a Mulei Abrahem muito pesara, 
pola fama de seu pai e ser moço de muita esperança, e louvou muito aos 
que por lhe valer se perderão, que fôrão António de Souto-Maior e João 
Díaz, e asi afirmou os alcaides tornarem a Xexuão a fazer o casamento 
de cide Abdelá Celema com a filha de Benjija, e foi aposentado em casa 
do adail Lopo Mêndez, que, por lhe fazer honra e gasalhado, o levou a 
sua casa, onde o conde o foi visitar muitas vezes ; e, falando no resgate, 
chegou a dar polo Maçuar mil cruzados e polo mouro de Lopo Mêndez 
qumhentos e poios outros o dobro do que custarão, e nisto gastou seis 
dias, que na vila esteve, nos quais foi banqueteado por Diogo da Silveira 
e António Freire, Jorje Manoel, e á sesta feira, que se avia de ir, eu fiz 
outro tanto, pola amizade e gasalhado que dele recebi em Féz, e por lhe 
falar em dous cativos seus, um Mateus Fernândez Pescoço, meu com- 
padre, e outro um irmão de Rodrigo de Bairos, alcaide 'de Santarém, 
mandando-me o conde fizese poios concertar. A este almoço esteve Dom 
Francisco, filho do conde, e outros nobres fidalgos, companheiros; e, 
saindo pola porta da Ribeira, juntos fomos até onde os de pé nos espe- 
rávão, que érão dous mouros; e, despedido Dom Francisco de nós, os 
outros fidalgos ficamos com eles um grande espaço, esperando um livreo 
que Dom Francisco mandou trazer, e, vindo o livreo e sendo os seus da 
outra parte do Amame, nos despedimos dele, e me dise que lhe dése um 
aviso. Eu lhe dise: «Quisera que viéramos pola Atalaia Ruiva e vireis 
minha lavoura e onde lavro, e m'a defendeseis como vosa, se os mouros 
nos comerem ou atalharem os pães». Respondeo-me: «Não consentirá 
Mulei Abrahem comer os pães, mas eu não quero que lavreis na Ruiva, 
porque não vos salvareis, porque corre muito risco quem ahi o faz». 

Estando nós nestas rezões e nas mais necesarias, asi em Ga cousa 
como em outra, entrou Dom Pedro de Sousa e Afonso Barriga, seu almo- 



I. alcaiatão : tenda que serve de cama em viagem. 



ANAIS DE AR2ILA 



3o 



— 234 — 

cadem, a pedir-lhe ' licença pêra se pôr a cavalo. O conde lhe dise : 
tSenhor Dom Pedro, eu vos porei em Tanjere como tiver boa nova, que 
agora não pode ser». Dise Dom Pedro: «Ir-me-ei só!» Isto porque já 
tínhamos ido duas vezes a Tagadarte, onde Dom Álvaro d' Abranches, 
capitão de Tanjere, avia de vir por ele e, por não ter nova, não veio. O 
conde se agastou polo que Dom Pedro dise e lhe replicou: a O queixume 
que aveis de fazer de mim seja ao conde, voso avô, que sabe que a segu- 
rança e reprensão vos darei como a Dom Francisco, meu filho!» e com 
isto se saio Dom Pedro, dizendo que lhe estorvávão a ida. O conde 
tornou a falar comigo ' e dise: «Amenhã trareis os arados e o direi a Fer- 
não da Silva, que, de segunda feira adiante, não quero dar atalaias lar- 
gas», e mandou dizer a Rui Carvalho, porteiro da porta, que o disese ao 
adail pola menhS, e com isto me fui, tendo o conde asentado que os 
alcaides não podíao fazer movimento de Xexuão até Alexecorão chegar a 
dar-lhe nova, mas não foi asi, porque os achou na ribeira do Farrobo 
com muita jente junta e não esperávão senão por ele, e, logo ao outro 
dia, que foi sábado, nos correrão e fizérão o dano que agora direi. 



CAPITULO XLIX 

Como a jente correo a vila e Rui de Melo se lançou connosco 
e foi o conde ferido 



PARTIDO Alexecorão da vila, despedido de Dom Francisco e dos fidal- 
gos e moradores, que polo acompanhar com ele saimos, tomou o 
caminho do Farrobo e na ribeira achou os três alcaides com três 
mil de cavalo, que não esperávão senão por ele, e logo fôrão juntos na 
tenda de Mulei Abrahem e lhe preguntárão por Dom Pedro, se era par- 
tido a Tanjere, ou se estava em Arzila, e isto pola nova que tinhão de 
irmos duas vezes a Tagadarte e nos tornarmos sem Dom Álvaro de 
Abranches, capitão de Tanjere, ousar vir por ele; ao que o mouro res- 
pondeo que ficava em Arzila e sem duvida esta noite ha de partir, e sobre 
iso ouvêrão conselho e asentárão de o ir esperar ao outeiro das Vinhas, 
caminho de Tanjere, por onde de força avia de pasar, e, pondo as guar- 
das necesarias, esperarão até que foi menhã e, vendo que não ia, se viérão 
meter em cilada nos medos da boca do rio d'AIgorrife, lugar que se não 
descubria, nem ião atalaias, do que sempre murmurávamos c nos temia- 
mos que daquela cilada nos avião de dar Ga grande pancada e avião de 
degolar aquela vila ; mas Deos, em quem está o poder, não quis que neste 

I. Aqui deve haver lacuna. 



— 235 — 

dia fose o açoute tamanho como nos estava aparelliado, por ir descubrir 
úa atalaia sem lhe mandarem, nem ter obrigação, porque Fernão Machado, 
a quem o adail tinha dado a Atalaia d'Alfandequim perpetua, por ser mais 
segura que as outras, tinha armado uns fios ás lebres e perdizes e, por 
os ir ver mais seguro, rogou a Diogo Carneiro, atalaia, que fose descubrir 
os medos, o qual ele fez mais por correr a praia, se achava algúa cousa 
que o mar deitase fora, que por lhe parecer que avia de achar mouros, 
e, tomando a praia, não parou até junto da cilada, sem os mouros o verem 
senão tão perto que, querendo-se encobrir, os vio e, virando-se com o 
cavalo, tornou fojindo e os mouros após ele, e não fôrão vistos senão 
tendo pasado Santa Caterina, que da vila os virão vir pola praia, e, repi- 
cando ao tempo que o conde estava ouvindo misa e saindo a porta da 
igreja, disérão do Miradouro que muita jente vinha pola praia. O conde 
saio pola porta da vila e, ao longo do valo, chegou aos Mastos e vio que 
as bandeiras com muita jente pasávão o Rio Doce, onde muitos se derra- 
marão, a ir tomar a boca do rio a muitos que se vínhão recolhendo, e, 
como a praia era cheia de jente, fez que alguns a não pudérão tomar e 
tornarão pêra trás, e os mais se perderão e fôrão mortos, entre os quais 
que pasárão o rio foi Luis Machado, amo do conde, que no meio da agoa 
caio, por o cavalo o lançar fora de si, sobre o que voltou Artur Ortiz e 
João Português, seu cunhado, e o tirarão fora da agoa; dando-lhe Artur 
Ortiz as ancas as não pode tomar, asi por ele ser embaraçado, como por 
estar molhado e vestido em um gabão, e, posto que os mouros érão 
muitos, fizérão muito polo pôr nas ancas, estando Roque de Farão e Fer- 
não Machado e outros com as lanças varadas, em tanto que Luis Machado 
tomava as ancas, e, como não pode, foi lanceado apegado á estribeira, e 
os nosos se recolherão ao longo do valo. O conde, que aos Mastos 
chegou, vendo as bandeiras e jente que pola praia vinha, se começou a 
recolher com alguns poucos que consigo tinha, mas vendo vir diante toda 
a jente a um de cavalo, parecendo-lhe ser atalaia nosa, mandou a Simão 
da Fonseca e a outros cinco o favorecesem, os quais travesando pêra a 
praia o de cavalo, que adiante vinha, se nomeou, dizendo: «Sou Rui de 
Melol». 

Este Rui de Melo é fidalgo e casado em Arzila com Dona Cecilia, que 
em aquele tempo era muito moça e fennosa e oje parece bem, e o Rui 
de Melo, corrido da mesa do conde, onde comia com muitos fidalgos e 
fronteiros, do vicio que tinha do jugar e beber, se foi a Mulei Abrahem 
e o requereo muitas vezes o fizese mouro, o que Mulei Abrahem não 
quis fazer, dizendo-lhe: «Senhor Rui de Melo, tendes molher fermosa e 
boa molher: eu vos averei mercê d'el-rei e perdão do conde e tornar- vos- 
eis pêra Arzila e fareis vida com vosa molher e filhos». Vendo o Rui de 
Melo que Mulei Abrahem o detinha com palavras virtuosas e tão necesa- 
rias á sua alma e honra se pasou ao alcaide de Benjija, com quem este 



— 236 — 

dia veio, tendo-lhe mandado o conde que se viese. Este Rui de Melo 
está oje nesta cidade, sem fazer vida com sua molher, a qual é favorecida 
do bispo do Algarve, Dom João de Melo, que vendo-a virtuosa e hon- 
rada, posto que parente de Rui de Melo, polo ver desbaratado do vinho, 
ouve d'el-rei, noso senhor, que ela comese ametade da moradia de Rui 
de Melo e ele a outra ametade. Fiz esta declaração por vir em dia tão 
asinado; e, chegado ao conde, lhe dise: «Recolha-se vosa senhoria, que 
esta jente é muita e vem determinada de pegar connosco, e este dianteiro 
é Benjija». O conde veio-se recolhendo ao longo do valo, e, atravesando 
as eiras, os mouros apegarão com ele, e, não tendo conta com os derra- 
mados, se veio o conde, encontrando muitos mouros, e asi foi ferido, 
como João Corrêa, bombardeiro e grande espingardeiro, que asi ele como 
Fernão Díaz, ferreiro, que este dia se perdeo, não corria jente, que 
entrase polas tranqueiras, que eles não derribasem mouro e mouros, ao 
qual João Corrêa matarão entre úas botas de vinho: veio morrer entre 
eles, e, posto que ele estivese debaixo do baluarte da Praia, donde lhe 
tirávão muitas bestas e arcabuzes, não deixarão sua obra. 

Deixando João Corrêa morto junto da porta do Albacar, tornarei aos 
mouros e ao conde que, vendo-se ferido e que os mouros afloxárão e não 
ousávão entrar entre a cava e ortas, onde se recolheo, antes se começarão 
a derramar polas eiras acima, deixando o cargo da jente a Dom Fran- 
cisco, seu filho, se recolheo á vila, por se curar e pôr cobro e remédio a 
sua vida, á qual foi pouco remedeado, por não aver çurjião de dous 
muito excelentes e estimados que na vila avia : o doutor Duarte Rodrí- 
guez era em Fez, por seu mandado, a curar Leleaxa, irmã d'el-rei e mo- 
lher de Mulei Abrahem, e o lecenceado António Gômez Vieira com Mar- 
tim Vaz Pantoja, que oje é adaião da Sé de Lisboa, que mal ferido saio 
de Qas brigas, que com Diogo Soárez ouve. Foi curado o conde por Rui 
Vaz, boticário, polo qual varias cousas acontecerão e, por serem varias 
cousas ', o partirei em dous '. 



I. cousas] causas B. — 2. cousas]/. N. 



— 237 — 



CAPITULO L 



Em que se prosigue o que mais se pasou neste dia com a tomada 
de Fernão Día^ homem de bem 



PROSEGUiNDO cstc dia de sábado, em que o conde foi ferido, indo a 
jente e bandeiras polas eiras acima a demandar o Facho e as lom- 
bas, que dão vista ao vale e á Pontinha, que é um tiro de falcão 
da vila, que foi Deos servido querê-los cegar em não cortarem polo caminho 
velho, e por ele fôrão sair ás ortas do doutor e de Pedro Afonso, e ficá- 
vamos atalhados mais de cincoenta de cavalo, que éramos em estoutro 
campo do Facho e na Atalaia Ruiva, os quais nos salvamos como direi, 
acontecendo que, em topando os mouros com a Pontinha, em ija palmeira, 
onde se dá vista á vila e ao vale do Facho, dérao com Fernão Díaz, filho 
de Álvaro Díaz, ferreiro, em que tenho falado muitas vezes, e com outros 
seis de cavalo, que se vínhão recolhendo com o rebate, e logo ali fôrão 
mortos Luis Vaz e Bento Calado, e Fernão Díaz foi conhecido, como era 
mui nomeado polo feito de seu pai, que já contei no ano de vinte, e, por 
ele ser muito fragueiro, os mouros levantarão grande grita, dizendo: «Olha- 
dide ', olhadide!» que quer dizer: «O ferreiro, o ferreiro!» de Arzila, e foi 
rodeado e tomado vivo, por se acharem ali alguns parentes de um mouro 
honrado que seu pai tinha. Foi levado ante os alcaides, que lhes pareceo 
tínhão feito Ga grande façanha e em especial Mulei Abrahem, lem- 
brando-Ihe como seu pai o enganara, fazendo-se paralítico e endemoni- 
nhado, lhe dise: «Jero - io se os izerdes companhero dei diabo no os tengo 
de crer». Tornando a João Vaz Aljofarinho, que com ele vinha, tanto 
que vio os mouros e os conheceo, deixou os bois que ele e seu irmão Lou- 
renço Jil trazíão, ambos e seu filho Vasco e um homem, seu hospede, 
partirão fojindo pêra o Facho, e, achando o rosto despejado, porque a 
jente toda ia dando vista á vila, e não foi visto dos que diante ião senão 
no chão de Lopo Mêndez, e, levando muitos mouros trás si, foi demandar 
a azinhaga de Diogo Miranda, entre o chão de Pedro Afonso e a vinha 
de Brás Fernândez, e saindo a estrada, como bom cavaleiro, tornou ter 
a azinhaga, achando favor no guião de Fernão Caldeira e Pedro Afonso, 
que pola estrada vinha, os quais tivérão a azinhaga, de maneira que com 
tanto animo que mais de cem mouros de cavalo que nela estivérão os não 
pudérão romper, nem ousarão acometer e tornarão atrás, buscando outra 
pasajem; e a este tempo chegarão alguns dos que lavrávão e vendo as 

I. Olhadide] Alhadide N. — 2. Pêro? 



— 238 — 

bandeiras e alguns mouros e jente vendo que estávamos na Atalaia Ruiva 
com Fernão da Silva éramos perdidos e não tínhamos rebate tanto que 
nos aconteceo o que direi '. 



CAPITULO LI 

Em que se conta e prosigue o dia de sábado 
e como tios salvamos os que na Atalaia Ruiva éramos 



ÉRAMOS na Atalaia Ruiva doze de cavalo, entre os quais era Fernão 
da Silva, Diogo da Silveira, João Carvalho, João Trigueiros e eu, 
Bernardo Rodríguez, e meu enteado, que no mesmo dia deu mostra 
do que depois foi, que, sendo de dezaseis anos, neste dia matou um 
mouro, que foi a causa de nos salvarmos, como se verá, pois, estando espe- 
rando que as atalaias descubrisem seus postos, ouvimos a primeira bom- 
barda do rebate e trás ela outras muitas, e, como a Atalaia Ruiva é Oa 
candea do noso campo e dela viamos tudo e não avia que temer, nos dei- 
xamos estar, de maneira que nós esperamos polas atalaias e elas por nós, 
e, quando vimos a jente no Facho, então nos demos por seguros, afir- 
mando ser o conde; mas, como Jorje Manoel vise recolher-se a Atalaia 
Gorda e Francisco Pinto capear-nos dos Forninhos, despovoamos a Ruiva 
e nós começamos a vir a eles, onde as atalaias d'Alfomar nos alcançarão, 
e asi nos viérão demandar. Chegando aos Forninhos nos dise Francisco 
Pinto: «Ordenai como nos salvemos, que os do Facho são mouros e eu 
vi duas bandeiras no chão de Lopo Mêndez, e me parece o tem dego- 
lado, avendo na praia tãobem jente». Diogo da Silveira dise: «Vamo-nos 
ao Soveral, pois temos ventajem». Eu disse: «Quem me quiser seguir 
venha trás mim, pois esta jente corrco a praia e por ahi se deve de reco- 
lher, e eu vou-me á vila», e, pondo Diogo Rodriguez ante mim, tomei o 
caminho, e asi o fizérâo todos, poio caminho das vinhas viemos demandar 
o Laranjal, que é um rocio redondo de tiro d'espingarda de largo, onde 
o gado pace, quando ha nova e andamos recolhidos, e está entre as tran- 
queiras e um silvado, que chamamos as Vinhas Velhas: tínhamos este 
guardado pêra em tempo de necesidade trazerem silva e tojo pêra os 
fornos. 

Tornando ao recolhimento noso, quando viemos demandar o Laranjal, 
achamos nele mais de cento e cincoenta mouros de cavalo, e, ajuntando- 
nos pcra romper por eles, vimos sair da tranqueira outros quinze ou 
vinte de cavalo nosos, que por nós esperávão, que érão os que da parte 

I . Esta parte final do capitulo deve estar alterada e por isso a não pontuamos. 



— 239 — 

do mar estávão, os quais, vendo-nos ficar, como bons companheiros nos 
esperavão, tendo a tranqueira, entre os quais era já ali Fernão Caldeira 
com os que tivérão a Azinhaga, que, como os de Bugano chegarão a ele 
e soube que Fernão da Silva, seu jenro, ficava na Ruiva, deixando a 
estrada do Facho, como homem sábio que sabia onde avia de acudir, se 
foi á tranqueira do Laranjal e se ajuntou com quem ali estava; e, vendo 
sair os nosos da tranqueira, conhecendo-os, fizemos por nos ajuntar com 
eles, partindo os mouros polo meio, e, sendo juntos com os nosos sem 
outro dano, somente os bois, voltamos sobre João Trigueiro, que ficava 
perdido, que, querendo lançar de si um saco que trazia com semente, se 
lembrarão ', e, ajuntando-se comigo, se lembrou e me dise: «Oroaz !» que 
quer dizer: «Saiamos!» mas, como Diogo Nunez, meu enteado, que junto 
de mim vinha, o conheceo ser mouro, lhe pôs a lança em úa ilharga, di- 
zendo: «Mouro!» e o mouro com a lança nas ilhargas me preguntou: 
«Quem é este?» e, conhecendo eu ser mouro, lhe lancei mão do capa- 
cete; e neste tempo chegou Francisco Pinto e, topetando o cavalo nele, 
foi ao chão, e entanto o mouro foi pasado de muitas lançadas polo pes- 
coço, porque a saia de malha era tal que defendeo o corpo. 

A este tempo os mouros estávão pasmados e, vendo Francisco Pinto 
a pé, com grandes alaridos arremeterão a nós, e, como já éramos trinta 
e cinco, demos santiago neles e os levamos acima até os pôr na carreira 
do Almirante, onde fôrão lanceados alguns, sem cairem, e nos recolhemos 
por a jente do Facho lhes acudir; e nesta volta perdemos Francisco de 
Leirea que, por andar mal desposto dos olhos, foi ter com o valo, onde 
foi morto, e nós ouvemos a tranqueira, na qual achamos quinze ou vinte 
mouros que levávão um bom golpe de gado, os quais fujírão pêra o 
Facho e nós fomos trás eles alguns de nós e, como fomos socorridos, tor- 
namos as rezes, que deixamos ; e, porque a tranqueira era já ocupada 
deles e nos pareceo o não podíamos recolher, eu andei ás lançadas com 
dous bois meus poios derribar, não pude derribar mais de um que á tarde 
trouxe á vila, e, como a jente da tranqueira era já muita e os que viérão 
após nós ocupávão o caminho e nos vimos cercados, atravesamos o chão 
de João Diaz, levando os mouros trás nós pola azinhaga de Jorje Lio- 
nárdez, saimos a tranqueira do Cano Quebrado, onde Dom Francisco, 
filho do conde, nos recolheo; e dele soubemos da ferida do pai e do dano 
que aquele dia era feito, e fôrão entre mortos e cativos catorze pesoas, 
em que morreo Francisco Velho, filho d'Alvaro Velho, sobre-rolda, man- 
cebo de muita esperança, e asi levarão mais de cem rezes, as mais de 
arado. Em companhia de Dom Francisco chegamos á porta de Féz, 
onde achamos Fernão da Silva e Fernão Caldeira e outros nosos compa- 



I. O texto parece estar alterado. 



— 240 — 

nheiros, que, pola tranqueira de João Coelho, se recolherão. O que lhe 
aconteceo contarei. 

Fernão Caldeira, como topou com Fernão da Silva, seu jenro, á 
tranqueira do Laranjal, onde topamos os mouros com as rezes, não tendo 
conta com mais que com reprender seu jenro, lhe dise que os homens 
como ele era mais honra acompanharem a seu capitão, ainda que se 
fose recolhendo e fojindo, que não andar fazendo sortes e matando mou- 
ros, andando desmandado, que cousa era ouvir tantas bombardadas e 
rebates e não se recolher e vir pêra seu capitão, que pelejara e estava 
ferido e tinha muitos homens mortos, e tãobem na vila os tinhão todos 
por perdidos; e com estas palavras tomarão o caminho da vila, e diante 
vinha Diogo Lobo e Francisco Pinto, quebrantado da queda, e Francisco 
Vezugo, Fernão López Mexia, e logo virão três ou quatros mouros que, 
atravesando a estrada e o chão de Roque de Farão, sairão ao caminho, 
por onde eles ião, e, como os mouros virão o caminho cheio de cristãos, 
tornarão a pôr o rosto na vila, buscando porta por onde saisem do cami- 
nho, e, como a não achasem, nem avia salvação, querendo-se [um] ' lan- 
çar ao valo, Diogo Lobo lhe pôs a lança e o ajudou a vir ao chão, e, não 
tendo mais conta com ele, veio atrás o cavalo do mouro, que diante dele 
ia pêra a vila. O mouro, ainda que embaraçado, desque ^ se ouve em 
cima do valo e com sua lança e adarga, tomou caminho do Facho, mas 
como o visem ir e disesem: «Mouro, mouro a pé!» Jorje Manoel, que 
cuidadoso estava, por aver perdido os seus bois, foi trás ele e ao borra- 
zeiro de Brás Simões, onde o valo faz um piqueno pontal, o mouro lhe 
teve como valente cavaleiro, pondo a lança e adarga diante, e, posto que 
tãobem chegou Fernão Machado, não pudérão entrar com ele: foi socor- 
rido dos mouros do Facho, que viérão após Jorje Manoel e Fernão Ma- 
chado até os deitarem fora do chão de Roque de Farão, e, vendo os 
mouros vir polo caminho, Fernão da Silva e Fernão Caldeira e os que 
com eles vínhão se pusérão sobre a tranqueira, com as lanças d'alto pêra 
as arremesar. Vendo-os Fernão da Silva estar armados, por um piqueno 
portal se lançou no chão de Roque de Farão, e, entrando um mouro ve- 
lho, que mais a jeito topou, a ele e ao cavalo derribou e, levantando-se o 
cavalo, o mouro não bolio mais consigo pé, nem mão, e logo Fernão 
Machado lhe tirou os vestidos. Os outros três mouros se salvarão, por 
não aver portal pêra os poder seguir, por todos os mais chãos estarem 
já cheios de mouros. Este dia, posto que recebemos muito dano da nosa 
parte, ouve cinco mouros mortos e viérão á vila três cavalos, em que 
entrarão dous fermosos jinetes e fôrão de muito preço, os quais viérão a 
Portugal pêra Dora João Mazcarenhas. 



1. [umj/. BM. — 2. desque] desde que N; que M. 



— 241 



CAPITULO LII 



Como se soube que era cativo Fernão Día^ ferreiro 

e como Alixarife veio d vila em busca de uns papeis 

que perdera aquele dia vindo a cavalo 



POR ser este o dia que o conde foi ferido asinado, contei tão meuda- 
mente as particularidades dele, pois ouve que dizer na praia e Rio 
Doce, junto do muro, finalmente ao derredor da vila; e nós outros 
demos vista a nosas molheres, que do muro se satisfizérão em nos ver, 
que, segundo a revolta e os mouros seguirão a vila, parecia sermos per- 
didos; e, recolhendo-se os mouros e despejando o Facho, eu e os outros 
quisemos ir por Fernão Díaz, asi por ser perto, como pola vezinhança e 
criação, e, quando fomos sobre a Pontinha, onde João Vaz o deixou 
entre os mouros, o não achamos e nos pareceo ser cativo, posto que o 
lugar não era pêra dar vida a pesoa, por ser á vista da vila, e logo ahi 
achamos sem cabeças os corpos de Luis Vaz e de Bento Calado. Era 
Fernão Díaz tão bemquisto que logo viérão dar boa nova a seu pai. 
E dali fomos buscar Luis Machado ao Rio Doce, onde o mouro, que 
perdeo o cavalo alazão á tranqueirinha de João Coelho, veio ter, e um 
mouro veio ter connosco em cima de outro cavalo e iía bandeirinha na 
lança, e, chegando a nós, dise que trazia recado ao conde e que o vinha 
visitar da parte de Mulei Abrahem e de outros alcaides, e deu nova que 
o ferreiro era vivo. 

Foi grande o alvoroço que toda a vila teve, que pareceo, verdadei- 
ramente, que Deos lhe quis dar dous ou três meses de vida, pêra fazer 
emenda de seus pecados. O conde mandou pedir ao alcaide não con- 
sentise o tratasem tão mal e se esquecese de seus disparates, asi que 
escreveo ao doutor Duarte Rodríguez resgatase este em que tratamos 
e não viese sem ele, o qual chegou a dar por ele quatrocentos cruzados 
e o mouro de seu pai, que estava resgatado em dozentos, e o alcaide o 
não quis dar por seiscentos cruzados, dizendo que seu pai era rico e o 
queria enganar, como fizera a Mulei Abrahem; e, andando neste negocio, 
que parecia darem por ele mais do que era rezão, faleceo, levando 
muito mao cativeiro e vindo-o ver muitos mouros e mouras, pola fama 
que seu pai tinha que comia carne de mouros. 

O mouro foi diante do conde e dise que os alcaides o mandávão visi- 
tar, e que era cousa da guerra o daquele dia, e que em úa barjuleta, que 
no seu cavalo trazia, vínhão uns papeis e contas que pedia lh'os mandase 
dar. O conde mandou vir a barjuleta com todos os papeis e lh'os deu e 

ANAIS DE ARZILA 3 I 



— 242 — 

o mandou agasalhar, e que ouvese paciência, por lhe não dar licença a se 
tornar, que o não avia de deixar ir até se não achar milhor de sua saúde 
e disposição, e por esta causa ficou Alixarife na vila todo o mês de ja- 
neiro ; e com isto acabei o suceso deste dia, em que a vila recebeo perda 
de quatorze homens e mais de cem bois de arado, e em recompensação 
ficarão cinco mouros mortos e três cavalos. 



CAPITULO LI II 

Como indo buscar iía negi'a fujida tomamos dous mouros 
e outras cousas 



SEM OS alcaides fazerem outra detença se fôrão a suas casas e Mulei 
Abrahem a Féz, e logo o alcaide alargou as cáfilas, as quais o 
conde não quis recolher, nem que falasem com elas, e as fez tornar 
da Atalaia Ruiva, por não saberem estar ele mal ferido, e somente a mim 
mandou com úa carta pêra o doutor Duarte Rodríguez, em que lhe man- 
dava dizer que sua molher ficava muito doente, que se viese logo, pola 
qual carta Mulei Abrahem o mandou logo, dizendo-lhe: «Duarte, o conde 
é o que está doente ou ferido, que esta presa, que dão a vosa ida, e pola 
detença de Alixarife, não pode ser outra cousa», e, como logo lá fose ter 
um negro ou mouro, que da vila fujira, e disese a verdade, afirmou ser o 
que sospeitávão ; e, porque a fojida deste mouro foi causa de tomarmos 
outros dous, farei este capitulo. 

Andava em casa do conde um mouro negro que se veio tornar cristão. 
Este, vendo o conde ferido, concertando-se com úa negra de Estêvão 
d' Aires, úa noite se deixarão ficar fora e fujirão. Achando-se menos o 
mouro e escrava, Estêvão d'Aires requereo a seus amigos e saímos a os 
buscar trinta de cavalo, e, repartidos por lugares onde pareceo irião de- 
mandar, quatro de cavalo fomos ter á boca do rio, os quais éramos 
Estêvão d' Aires, Jorje Manoel, Diogo Rodríguez e eu, e estivemos toda 
a noite com os cavalos pola rédea, vijiando a boca do rio não pasasem 
sem os vermos, e, sendo menha clara, fomos buscar a praia e não achamos 
rasto. Quisemos ir buscar o porto da Palmeira, e na varzeota, onde eu 
lavrei nas pazes, nos decemos a cortar com as espadas cada um seu pal- 
mito, poios aver ali grandes : fomos vistos de úa quadrilha de mouros de 
pé que na Barrosa estávão, os quais ordenarão de nos saltear e viérão 
polo córrego das Moreiras abaixo e, chegando ao rio, o pasárão, e os seus, 
deles, se viérão polas carriceiras, aonde nós andávamos, mas fôrão tarde, 
por estarmos já a cavalo, e, como dous cães nosos os sentisem, os segui- 
rão até que vencemos dous destes, que foi parte pêra nos ficarem na mão, 



— 243 — 

e nos afastamos contentes com eles, e asi caminhamos com eles pêra a 
aldeã que está sobre o porto da Palmeira, onde achamos nosos compa- 
nheiros e ordenamos de ir buscar os mouros, mas foi por demais, porque 
logo vazarão e se ouvérão em Benamourel, onde vai um córrego forte de 
grande brenha; e asi nos viemos á vila, com vontade de darmos ura dos 
mouros a Estêvão d'Aires pola negra, mas ela o fez milhor, que, á 
segunda noite, se tornou á vila e contou como nos sentira pasar pola 
Mezquita e de medo nos quisera chamar, pêra se tornar á vila, e o mouro 
a ameaçou que a mataria, e, vendo a má vontade do mouro, o deixou e 
ele foi ter a Alcacere, e dele soubérão os mouros da ferida do conde e da 
detença de Alixarife. 

Os dous mouros que trazíamos, com a nova que dérão que os alcaides 
érão em suas casas e Mulei Abrahem em Fez, Manoel Coutinho pedio 
licença ao conde e com trinta de cavalo foi correr Arraiana e tomou dous 
mouros de pé e trinta bois d'arado, que, pola faita que na vila avia deles, 
valerão bem e os almogaveres ouvérão boas partes, asi que pola fujida 
do mouro negro ouvemos quatro mouros e trinta bois. 

Tãobem os mouros não estivarão quedos, que, sabendo que o conde 
estava ferido, se alargarão a crestar e a fazer suas lavouras e os almoga- 
veres nos viérão a visitar, e quis Deos que não fizérão dano. Ua qua- 
drilha se lançou no porto do Canto e correo as atalaias até o Corvo e, 
não ousando pasar, se tornou. O conde mandou ao adail que segurase as 
atalaias, dando-lhe costas e não fizesem desmando, nem fosem trás almo- 
gaveres. Outra quadrilha d'Alcacere se lançou no arrife ■ da Atalaia 
Alta, esperando alguns desmandados. Favorecia-os a fortuna, de maneira 
que lhes caia nas mãos iía honrada presa, porque, estando no Cabo 
Branco vinte de cavalo, se deu rebate da Cilada, indo a descubrir, e, os 
que estávamos no Cabo Branco paseando, com o rolo do mar não ouvimos 
o rebate, nem a artelharia, e, verdadeiramente, se os mouros nos fôrao 
a demandar, nos tomdrão os cavalos e lanças sem os vermos, e nos 
perdíamos mui feamente, como homens de pouco recado; e com isto 
deixarei a guerra do ano de trinta dous. 



I. arrifej arrique B N ; arique M. A emenda parece segura, como se vê adiante de 
expressão análoga tio fim do capítulo lviii. 



— 244 — 



CAPITULO LIV 



Como a fusta de Larache tomou um barco 
em que o conde mandava ãas cartas e o alcaide as mandou ao conde 



POLA ordem que levo em contar no cabo do ano algúa cousa do mar, 
se nele aconteceo, quisera dizer o como um turco se veio fazer 
cristão e se pôs nome João Martinz, e algúas entradas que fez, e, 
por ele durar pouco, o deixarei, pêra o dizer tudo junto ao tempo de sua 
morte, que foi no ano de trinta três; e, posto que a fusta de Larache fez 
algúas entradas neste verão, como o conde teve nova que el-rei de Fez 
estava fora dele, e mandara fazer alardo e mandara deitar muitas espin- 
gardas poios moradores de Féz e polo reino, e a toda sua artelharia man- 
dara fazer repairos e fazer muitas moniçÕes de cestos, enxadas e picões, 
e ele ter paz com os xerifes, reis de Marrocos e Çuz, espedio um barco, 
em que mandava cartas a el-rei, noso senhor, avisando-o de tudo isto. 
As cartas que no barco ião tomou cide Naçar e, feito um maço delas, as 
mandou ao conde por um criado seu, mandando-lhe dizer que Estacio 
Nunez não pudera cumprir seu mandado, por lh'o impedir úa fusta sua, 
e que dele soubera que aquelas cartas érão suas, que lh'as mandava. O 
conde lh'o agradeceo muito e louvou e lhe escreveo muitos comprimentos, 
e muitas vezes falou nesta cortezia e virtude que o alcaide fizera. 

Neste ano de trinta dous veio ter a Larache Ca galeaça de trezentos 
toneis, em que el-rei de França mandou úa embaixada a el-rei de Féz, em 
que lhe mandou algúas cousas de presente, em que entrávão dous corpos 
de armas brancas, úas pêra sua pesoa e outras pêra Mulei Abrahem. 
Veio por embaixador um jentil homem de sua casa ', a quem acompanhava© 
cincoenta jentis homens da casa d'el-rei vestidos de brocado. Fez-lhe 
el-rei de Féz muito gasalhado e honra e os deteve quatro ou cinco meses. 
Dizem que vinha a tratar amizade com ele e ver o rio de Larache, se se 
podíão recolher nele navios e nãos. Ao tempo de sua partida, entre 
outras cousas que daquele reino levavão a França, fôrão quatro jinetes e 
quatro egoas de cores e dous camelos, e asi levarão um lião e úa onça 
mansos e os cristãos que os criarão e lhe dávão de comer. Desta em- 
baixada se escandalizou o emperador Carlos Quinto e mandou tirar um 



1 . Chamava-se o embaixador Pierre de Pilon e da sua embaixada deu o sr. Conde 
de Castries um extenso relato documentado em «Les sources inédites de Ihistoire du Ma- 
roc, France», I, p. 1-42. 



— 245 — 

estromento a Arzila, e veio um alcaide de corte com dous escrivães de 
Cáliz. 

Neste tempo, que esta galeaça esteve no rio de Larache, fomos entrar 
duas vezes, úa por saber se era verdade que tirara tiros a um bergantim 
noso e que o foi saltear, pasando pola boca do rio. Disérão os que nele 
ião que a galeaça lhe tirara dous tiros e foi mentira, porque nós estivemos 
dela um tiro de arco [á fala]' e com sua barca. E, sabendo nós que estávão 
duas fustas pêra sair, as fomos esperar, se ião tomar agoa ao Pocinho, que 
está da nosa banda, e, estando em cilada nos Medãos, as fustas ambas 
viérão ao poço; e, como homens percatados, trouxérão um francês da 
galeaça e o mandarão ao poço e nos descubrio, e saimos a ele e o toma- 
mos, parecendo-nos que era mouro, e, achando-nos enganados, o solta- 
mos, bem espancado de trochadas por castigo, pêra que outra vez não 
fizese outro tanto, e tivemos pêra nós que ouveramos de fazer presa e 
que nô-la estorvou o francês. Depois disto fojio o capitão da galeaça e 
se veio na barca a Arzila, com alguns que de sua parte érão, por dife- 
renças e brigas que ouve com o embaixador, que, como o capitão era de 
nação jenoês e o embaixador francês e nobre, o tratávão mal, e, agravado, 
fojio e se veio com seis homens ou sete, jenoeses. Estas fustas fôrao a 
entrar, mas não sou lembrado se fizérão presa. 



CAPITULO LV 

De fias brigas que ouve em Arzila entre fidalgos 



PÊRA não me afastar do estilo que levo nesta minha lembrança, con- 
tarei ijas brigas que em Arzila ouve entre fidalgos e pesoas nobres, 
em que ouve feridos e mortos; e, porque muitas pesoas me tem 
preguntado por elas, as contarei o mais breve que puder. Entre os fron- 
teiros e fid;-ílgos, que neste ano de trinta dous avia, era António de Ma- 
cedo, cunhado do fisico-mór, que em pesoa e armas e cavalos nenhúa 
pesoa lhe fazia ventajem. Aconteceo que na pousada de Diogo Soárez 
da Cunha, o Galego, estando jugando a pela Ãlartim Vaz Pantoja, que 
depois foi adaião na sé de Lisboa, se enfadou de António de Macedo 
falar em seu jogo, e, com mais cólera e agastamento do que era rezão, 
lhe dise: «Não faleis em meu jogo, que voso avô não falava, quando o 
meu jugava». António de Macedo respondeo: «Meu avô sempre falou 
entre reis e princepes e sempre lhe fizérão honra e mercê, e asl vos farei 

i.[áfalaj/: BN. 



— 246 — 

conhecer que meu avô e eu somos tão bons cavaleiros como vós». O 
conde mandou preso Martim Vaz á pousada, ao que António de Macedo 
acudio e pedio ao conde que o não mandase prender, que lhe não fizera 
agravo, nem cousa por onde merecese ser preso. Disto se agravou Mar- 
tim Vaz, parecendo-lhe que dava a entender que das brigas sairão iguais, 
e logo asentou mandá-lo injuriar; e ao outro dia, vindo António de Ma- 
cedo e Diogo Soárez e Tomé de Sousa de casa de Lionel Páiz, que do 
bando de Martim Vaz era, por ser da criação e feityra do conde de Vila 
Nova, avô de Martim Vaz, saio um seu criado em cima de um cavalo 
com tenção de atropelar e avexar António de Macedo, o que não pode 
fazer, por todos três levarem das espadas e fazerem afastar o cavalo e 
darem no acomctedor algúas espaldeiradas e o fazerem fujir, correndo 
trás ele. O conde acudio e o buscou por toda a vila e nunca o pode 
achar, e a Martim Vaz reprendeo de palavra, e ficou todavia preso em 
sua pousada; e, por este feito não sair á sua vontade, se escandalizou de 
Tomé de Sousa, que parece que siguio mais o seu homem, ou por falar 
algúa cousa contra ele, e com este desgosto o mandou desafiar por escrito, 
o que dise ao conde, do que ele ficou muito mais escandalizado; e, vendo 
que Tomé de Sousa lhe não acodia, se tornou a Diogo Soárez, seu primo, 
e lhe mandou outro escrito de desafio mais fero e soberbo, no qual dezia 
que estava corrido em desafiar Tomé de Sousa, pois sabia que lhe não 
avia de sair, e que a ele, que tinha fama de cavaleiro e tinha muitos 
homens, se queria matar cora ele, e, saindo-lhe, faria como cavaleiro e 
fidalgo, escusando-o diria o contrario, e que os homens por que andava 
omiziado fôrão mortos á besta e á treição e não como devia, e que a 
rezão que pêra isto tinha era tê-los por imigos, por favorecerem António 
de Macedo. Disérão que Diogo Soárez lhe fora falar e que o não des- 
truise em aver brigas com ele sem rezão, que vinha servir el-rei, por aver 
perdão de suas culpas, e que lhe não merecia desafiá-lo, que, por ser amigo 
de António de Macedo, não era seu inimigo. Nenhúa rezão, nem desculpa 
lhe quis levar em conta, e, tomando úa espada, se saio com ela, donde 
Martim Vaz saio mortalmente ferido na cabeça e em íía coixa, e érão 
grandes [feridas] '. Era Diogo Soárez muito grande em desposição, que 
parecia gigante. Aos golpes acudirão as roídas e, achando Martim Vaz 
maltratado, dérão rebate e a jente acudio ao muro. O conde, sabendo 
este feito, levou os três presos á torre e foi ver Martim Vaz e lhe fez 
pregunta que quem era e onde o ferirão. A reposta foi que não sabia, 
nem sospeitava em ninguém, somente que, estando á sua porta, topou um 
homem e o ferio, sem saber quem era; e, sabendo que Diogo Soárez e 
os companheiros érão presos, pedio que os soltasem % e não se quis curar 
até que soube que estávão todos soltos; e, posto que das feridas estava 

I. [feridas]/. B N M. — 2. soltasemj soltasse N. 



— 247 — 

mal, nunca outra cousa dise. Um criado seu trouxe esta nova a seu p'^i 
o qual logo em Silves mandou fazer prestes Qa caravela, em que mandou 
por ele, vindo o irmão de Martim Vaz, por nome Manoel de Noronha, 
acompanhado de mui honrados homens de Sines e de Santiago de Cacem, 
de donde seu pai era comendador; e, chegados a Arzila, posto que Mar- 
tim Vaz ainda estava em perigo, se embarcou e veio a Portugal, vindo 
com ele o lecenciado António Gômez, muito bom çurjião, e quis Noso 
Senhor dar-lhe saúde e se fez clérigo e adaião na sé de Lisboa. 



CAPITULO LVI 

De outras graves brigas que ouve por algúas ve\es 
entre Diogo Soáre:[ e Vicente Queimado 



DESTAS brigas de Martim Vaz nacêrao outras mais travadas e de mais 
sangue, e foi que, pasando Vicente Queimado vestido em um bedem 
e os cadilhos polo chão por junto de um criado de Diogo Soárez, 
lhe dise algúa palavra de que se escandalizou, por ser da parte de Martim 
Vaz, e, sentindo-o Vicente Queimado, como fidalgo e cavaleiro, o tomou 
entre as mãos e o tratou como merecia, asi de pancadas como de feridas. 
O conde o fez prender e a Lionel Páiz e António Favela, seus sócios, 
que, por parecer cousa d'asuada, o conde se mostrou riguroso. Diogo 
Soárez pedio ao conde os soltase, que seu homem não queria nada deles. 
O conde, conhecendo a disimulação, lhe pôs diante seus omizios e quão 
culpado era. e que não se quisese deitar a lonje, com aver novas brigas, 
e mandase o homem da vila e fose amigo de Vicente Queimado. 
Respondeo que o Galego merecera o que lhe fizérão, e que não tinha 
agravo, nem ódio do que era feito a seu homem, e que sua senhoria 
fizese justiça em satisfazer ao Galego e o mandar a Portugal; e com isto 
lhes tomou a palavra e os soltou, mandando o Galego satisfeito. 

E, como viese o dia de São João, o qual Dom Francisco, filho do 
conde, e outros fidalgos festejarão, jugando as pepinadas a cavalo e a pé, 
andando nesta revolta, Vicente Queimado e seus companheiros, por se 
arredarem de aver algum desgosto, se fôrão pasear ao muro, aonde Diogo 
Soárez os trazia em espia; e, mandando aos seus e os de seus compa- 
nheiros estivesem juntos, se fôrão ajuntar á porta de um fronteiro, que 
Diogo Taveira avia nome, e, tomando lanças e adargas, sobírão ao muro, 
onde os outros andávão, os quais, vendo-os vir com má tenção, se aco- 
lherão ao baluarte Tambalalão, que, posto que tinha a porta larga, era a 
escada atravesada, que as lanças lhe não servirão, e com muita dilijencia 
empuxarão a porta, com porem iãa bombarda com seu repairo e carreta; 



— 248 — 

e, como ali estivesem alguns moradores, um homem mancebo de Lisboa, 
que avia nome António de Moura, o qual, sendo na escada, esteve em 
duvida se sairia pêra fora ou entraria no baluarte, por não ser nas brigas, 
nem se querer achar nelas, mas não lhe valeo, que, chegando um daqueles 
galegos e fariseus, o pasou com a lança, que logo lhe tirou a vida, e logo 
subio pola escada com determinação de lhe cortar a cabeça •, mas Vicente 
Queimado, que vio que a segurança estava em seu braço e espada, em 
si se confiou, como fizérão os mais, pois tanto em si se confiarão. Vendo 
o conde fazia poios prender, tomarão um barco, pasando-se a Tanjere, 
onde ouvérão outro desmancho, polo qual Diogo Soárez se veio a perder, 
pasando-se á índia, onde morreo feito quartos, fora do serviço de Deos e 
d'el-rei. 

O de Tanjere foi aver brigas com Dom Vasco Coutinho, parente do 
conde, dos quais Dom Vasco se não queixava tanto como de Dom Álvaro 
de Abranches, capitão de Tanjere, e, porque Dom Álvaro se quis des- 
culpar ao conde, se virão, o qual com estas palavras respondeo a Dom 
Álvaro, dizendo mal dos homens: «Senhor Dom Álvaro, a culpa está ás 
vezes mais nos capitães que em quem os serve. Meu pai, o conde [de 
Borba] ', foi capitão de Arzila trinta anos e deu muitos mouros, jinetes, 
capuzes, capelares ; tãobem teve valia com os reis, que por ele deitarão 
hábitos e fizérão mercês a muitos homens, e, contudo, não avia quem dele 
disese bem e lhe desejávão tirar a besta. Eu tenho tudo ao contrario, 
que não valho, nem poso dar úa capa velha, nem el-rei por mim fez 
mercê a nenhúa pesoa, ainda que Ih'o bem mereço, e não ha homem em 
Arzila, nem em Tanjere, que não venda e ponha seus filhos por mim em 
cativeiro, e isto bem, que já que lhe não poso dar o que merecem, dou-lhe 
palavras, que são dizer bem deles, e do que o faço úa vez sempre mais 
o faço e não digo mal. Esta obrigação tendes vós e esa deveis ao de 
quem dizeis úa vez bem». 

CAPITULO LVII 

Em que se fa\ menção do ano de trinta três 

ESTE ano de trinta três não sou lembrado que aja socedido cousa que 
mereça ser escrita, como levo de costume, porem, no principio do 
ano, contarei algúas almogavarias e presas que os almogaveres 
fizérão ; e primeiro direi como toda a vila se alegrou com ver o conde e 
já são da sua ferida, e veio ouvir misa, muito vestido, em cima do cavalo 
alazão que se tomou o dia que o conde foi ferido, e saio muito vermelho 

I, [de Borba]/. B N M. 



— 249 — 

e deu vista a toda a vila, alegrando com ela, como seu capitão, dando 
culpa a muitos que caido tínháo em faltas. Três fôrão neste ano cativos, 
que ele estranhou muito, os quais fôrão, um João Gordo, homem velho e 
carregado de filhos, os quais, estando na várzea d'Alfandequim fazendo 
erva, se concertarão irem ás Aldeãs matar um porco; e, como eles todos 
três érão mal alinhados e pouco monteiros, depois que espantarão alguns 
porcos e os pusérão em salvo, carregarão e, vindo carregados, dérão com 
eles no Farrobo, e os tomarão e levarão a Mulei Abrahem a Fez, com 
grande alvoroço, dando por nova que levávão ao filho do porteiro. Rui 
Carvalho. Era este criado do conde de Borba e tinha um filho muito 
honrado e bom homem, que João Carvalho avia nome, e, porque um 
destes cativos era Francisco da Mota, com cuja mãe o Rui Carvalho era 
casado, em lugar de dizerem enteado, disérão filho. 

O outro era Rui Díaz, era natural de Arzila, filho de Diogo Alvarez, 
ferrador, bombardeiro. Parece que Rui Díaz tinha conhecimento e sabia 
da arte da pólvora e de fazer artifícios de fogo, como sabe; pousava em 
Tanjere; mas, como dizem não ha profeta que em sua terra valha, a nós 
nos parecia que não prestava pêra o que saio, porque, depois de ser res- 
gatado com seus companheiros e vindo a Portugal a requerer seu resgate, 
pasando por São Lucar de Barramede, lugar á boca do rio de Sevilha, 
onde estava Qa armada do emperador, que pêra as índias de Castela ia, 
o capitão da armada tinha posto no rio íãa pipa coberta com dez ou doze 
varas de veludo ou damasco, pêra o bombardeiro que na pipa dése com 
um pelouro de espera, e, como lhe tínhão tirado muitos tiros, o Rui Díaz 
se ofereceo, dizendo que era bombardeiro e sabia fazer muitos artifícios 
de fogo. Os castelhanos e bizcainhos lhe oferecerão a espera, que ele 
tomou com muita ousadia e despejo, contra vontade de outros portugueses 
que lhe rogarão que os não envergonhase, mas a fortuna, que dizem que 
favorece aos ousados, o favoreceo, de maneira que ao primeiro tiro 
arrombou a pipa e levou a camisa com que estava vestida, caio em graça 
ao capitão e provedor d'armada, e, com fazer algúas bombas e artifícios 
de fogo, lhe pedio que fose naquela armada, de que o fizérão condes- 
table com cinco cruzados cada mês, e deixou os companheiros e arreca- 
dação do resgate e foi por condestable daquela armada de Castela; e, 
depois que tornou, feito castelhano, o conde lhe deu úa bombarda e se 
fez bombardeiro e o sérvio muito bem. Contei isto de Rui Díaz, porque 
nenhum homem daquela vila saio fora destes reinos que o não tivesem em 
muito e que não valesem mais do que valem neste reino. 

E porque nos ouveramos de perder quinze ou vinte de cavalo, por- 
que, vendo o conde que estes almogaveres andávão, mandou dar costas 
ás atalaias pêra as asegurar e recolher, mandando e encomendando que 
não tivesem mais conta que com as recolher, e que não fose homem 
que fose atrás de mouro, porque lhe pareceo que o alcaide não podia 

ANAIS DE ARZILA 32 



— 25o 

deixar de nos armar, como de feito veio duas vezes ao noso campo, dei- 
tando-se sempre de largo por nos tomar á longa ; e acontecco que um dia, 
que com o adail demos costas ás atalaias da Atalaia Alta de Tendefe, e 
indo segura, quisemos vinte de cavalo ir fazer lenha ao ribeiro d'Alha- 
zana, e, sendo na praia, ouvemos outro acordo e, tomando um galope, 
não paramos até o Cabo Branco, e, deixando os cavalos, nos pusemos a 
pescar e outros a mariscar e apanhar mixilhÕes e caramujos. Os mouros 
estávão este dia no arrife [da Atalaia Alta] ' vendo o campo e ver se 
se avia algum desmando, e, vendo-nos ir correndo ao longo da praia, lhes 
pareceo serem sentidos e que os iamos atalhar, e, não ousando a nos 
esperar, se fôrão, e, ao pasar, vistos das atalaias, dérao um bravo rebate, 
o qual nós não ouvimos, cora o ruido do mar, e estávamos em parte que, 
se os mouros nos fôrão buscar, nos tomávão os cavalos, sem remisao, e 
a nós charaávão um e um ; e nos recolhemos com alguns sargos e as 
cevadeiras cheias de caramujos e mexilhões. 



CAPITULO LVIII 

De outros desmandos piores 

que se Ji\érão e fa^em nos lugares de Africa 

e de um que filemos 



OUTROS desmandos piores e mais feos se fazem nos lugares de Africa, 
e principalmente nós em Arzila, que era tanto o alvoroço em um 
dia de monte ou campo largo que não avia pesoa que não desejase 
de ir fora, uns pola necesidade de trazer um porco pêra sua casa, outros 
um odre de mel, e outros por caçarem ou pescarem e mariscarem, e, em 
um dia destes, outros por galantearem, pois todos trazíão pêra casa pro- 
vimento abundoso a seus corpos. Um dia se foi o conde montear ás 
Aldeãs, e foi o fogo tão bravo e forte, por fazer levante e grande calma, 
que os coelhos, que tão somente tomamos e achamos chamuscados nas 
covas, pasávão de dous mil, e este dia, estando o conde ao porto d'Al- 
fandequim, esperando pola maré, mandou contar os coelhos que trazíamos 
e se acharão mil e oitocentos, afora outros que viérão á vila por outras 
partes. Pudera-se bem dizer neste lugar quão destruidores somos, que 
depois, nas pazes que tivemos, que durarão três anos, os destruímos e 
gastamos o campo de tal maneira que um coelho, nem um porco se 
achava. 

Tornando ao desmando em que falei, pondo-nos um dia no Corvo bem 

1. [da Atalaia Alta] / B N M. 



— 25l — 

vinte de cavalo, pacendo com nosos bois, ordenamos irmos pescar ao 
Xercão, e, tomando o caminho da Pedra Alta, não paramos até a ribeira 
do porto dos Alcaides, três legoas da vila, e, tomando canas e minhocas 
e mais aparelho, que todos traziamos nas cevadeiras, nos estendemos ao 
longo do rio, indo buscar os pegos, que pêra chegar a eles andamos ás 
voltas e nada alcansamos da tal pescaria, e vim queixar-me ao conde; e, 
porque era minha culpa maior que a dos outros, dise-me ser piqueno o 
castigo pêra o que eu merecia e outros da minha calidade, quando fazíão 
desmando semelhante ao que fizemos, e que nenhum cuidado tomava 
quando lhe tomávao um homem que podia tirar a troco de dez cruzados 
mais do que justo, e, se deixava de mandar ao outro dia por ele, era por 
não pôr mao costume e fazer dano a outros; mas, quando cativávão algum 
que a diferença era valer ou poder sair por cem ou cento e cincoenta 
cruzados e pedirem por ele quinhentos ou mil, este lhe dava cuidado e 
era rezão que tivese conta consigo e se não perdese mal perdido, mon- 
teando, fazendo desmancho; e, já que um homem se perde, ha de ser 
fazendo o que deve, acompanhando seu capitão, ou por seu mandado, e 
então sem vergonha pode pedir a el-rei o resgate e mercê e o capitão 
escrever por ele; e, desabafando e castigando-nos e reprendendo-nos de 
palavra, nos mandou dar noso trigo e nós ficamos emendados por alguns- 
dias. 

CAPITULO LIX 

Como U71S almogai'eyes saltearão a Jorje Va:{ de Magalhães 
e se salvou 



ENCADEANDO cstes dcsmaudos e almogavarias, contarei outros em que 
Jorje Vaz de Magalhães mostrou úa ousadia de varão e determi- 
nado cavaleiro e por ela se salvou. Era Jorje Vaz morador em 
Arzila, e ora está na índia com molher e filhos, e vivem na cidade de 
Goa. Por seus serviços e por dar de si boa conta, caio em graça de 
Fernão d'Alvarez, e, apresentando-o a el-rei, o tomou e lhe fez lançar o 
habito de Cristo, cabo da esperança dos homens de Africa, que até aqui 
pode chegar em esperança, pois é asi estimado o serviço de nós outros a 
Deos e a el-rei, noso senhor. 

Tornando a Jorje Vaz, um dia deste ano de trinta três saio em cima 
de seu cavalo e se foi até Alicasapo, e, parecendo-lhe que as atalaias 
estávão na Aldeã Velha e nos Barreiros, se foi á ribeira do Amame e se 
meteo em um porto, e de cima de seu cavalo se pôs a pescar, tão des- 
cuidado como se estivera em Portugal, ou o campo fora largo. Defronte 
dele, nos Barreiros, estava úa quadrilha de almogaveres do Farrobo, cujo 



252 

almocadem era Mafamede Hiunes, de quem já tenho feito menção, por 
sair por Jorje Manoel, os quais, vendo um homem na ribeira, o viéráo 
buscar e, chegando ao caneiro, por onde ele entrou, lhe disérão : «Cava- 
leiro, sali aca e não pesqueis». Ele, vendo-se perdido, deixou a cana e 
quis sair polo caneiro acima; os mouros lhe disérão que deitase a lança. 
aArredai-vos», dise ele, «venha o capitão». O almocadem Mafamede 
Hiunes dise: «Dai-vos, que somos do Farrobo, que não matamos a quem 
se nos dá». Saio Jorje Vaz acima e, pondo a lança em Mafamede, o fez 
afastar de si, fazendo-lhe Ga roim ferida, e, pondo as esporas ao cavalo, 
os fez apartar do caminho, os quais, pondo-se á sua ilharga, lhe fôrão 
dando muitas trochadas, polo tomarem vivo; e, como ele os picase pêra 
Ga e outra parte, os começou a deixar, ferindo outros dous ou três. Os 
mouros, vendo que se defendia e que o cavalo se saio, o quisérão matar 
e o encontrarão juntamente, mas quis Deos que o não derribarão, e desta 
maneira o seguirão até a aldeã d'Alicasapo, e, não ousando sair ao ca- 
minho, o deixarão e ele veio á vila, sem aver rebate, e escapou muito 
mal ferido, pois que, alem de trazer três ou quatro escalavraduras das 
trochadas, trouxe três lançadas e o cavalo outras tantas. Fomos até o 
porto do Amame. 

Não sou lembrado aver cousa que pôr em lembrança, como levo de 
costume, porem no principio do ano irei contando algGas almogavarias e 
presas que os almogaveres fizérão, mas primeiro direi como toda a vila 
se alegrou com ver o conde alevantado e são de sua ferida. Veio ouvir 
misa a São Bertolameu, vestido em um capuz d'escarlata e um barrete 
de grã e botas vermelhas e em cima do cavalo alazão que se tomou o dia 
que foi ferido, que saio um fermoso jinete, de maneira que de vermelho 
saio aquele dia. Deu vista a toda a vila, alegrando com ela, como capitão 
que foi dos milhores dos do noso tempo '. Neste dia os almogaveres ma- 
tarão um criado seu que andava á caça de perdizes, o qual, estando em 
Bugano, pacendo em companhia de três ou quatro de cavalo e vindo 
abaixo, o matarão. 

Jorje Vaz foi depois muito louvado, pola determinação que teve em 
aventurar a vida, antes que perder-se pescando, e foi este dia causa de o 
mandarem ao Maranhão, por capitão de Ga caravela da armada de Aires 
da Cunha, onde está. 



No principio do capitulo dij-se isto mesmo, quási nos mesmos termos. 



— 253 — 

CAPITULO LX 

Como se perdeo Roque de Farão com a quadrilha d' almogaveres 



TORNANDO aos sucesos da guerra, contarei como se perdeo Roque de 
Farão, almocadem, com Ga quadrilha d'almogaveres. Neste tempo, 
o homem que mais sabia do noso campo era Roque de Farão, e, 
quando o conde ia fora, ele era o que guiava, e este costume tínhão uns 
com os outros. Ua vez, estando sobre Taliconte, vio um fumo de cres- 
tadores e, indo-o demandar, não achou nada dele, porque os mouros o 
soubérão enganar, pois, estando no córrego, muitas abelheiras fizérão o 
fogo e escondêrão-se até ver se alguém acudia ao fumo; e desta maneira 
Roque de Farão avia errado algúas presas, até perder-se. Alguns sol- 
dados indo fora alguns dias, feitos monteiros, dizendo não aver rasto de 
jente. Roque de Farão pedio licença pêra sair a tomar um mouro. O 
conde lh'a deu e saio pola porta vespora de São João Bautista com deza- 
sete de cavalo. A ordem que o conde lhe deu foi esta : que em Moliana 
deixase quatro de cavalo e ele amanhecese em Benamandux, entrando em 
Benamares, e que não entrase [a]té ■ não ter recado, onde avião de ficar. 
Estes, que em Muliana ficarão, fôrão vistos dos da quadrilha de Alebe- 
naix, o qual dise aos seus que aqueles não vínhão sós, que ou eles espe- 
rávão ali pplos companheiros, que viesem pêra eles, ou eles se avião de 
ir pêra os companheiros, ae de qualquer modo que seja nos hão de vir a 
cair nas mãos; o rasto parece de quinze ou vinte, esperemos a ver o que 
estes fazem», e asi esperarão que os nosos fizesem algum movimento. 
Estêvão Fernândez, vendo que era já pasado o meio-dia, se pôs a cavalo 
e se foi a Benamandux, onde achou os nosos dormindo debaixo de Roque 
de Farão, que na atalaia estava, e, tomando as lanças polo alvado, Fran- 
cisco Pinto e ele fôrão ter ambos com Roque de Farão e disérão que não 
virão nada e Muliana ficava segura. Roque de Farão lhes dise: «Ficareis 
aqui e eu entrarei e farei por saltear o facheiro de Benamares». «Irei a 
beber», dise Estêvão Fernândez, «que tenho sede» ; «Vamos», dise Fran- 
cisco Pinto, «que eu tãobem ei sede». «Ora», dise Roque de Farão, 
«vênhão os nosos convosco». Ambos se viérão a pôr a cavalo. João 
Rodrigues, vendo-os ir a cavalo, dise: «Onde vão aqueles?» «Irão ver um 

rasto», dise », «de um veado ou lião, que Roque de Farão 

diz que vio». «Esperai que quero ir convosco», dise ele, e, pondo-se a 
cavalo, os mouros dérão sobre eles com grande grita, e, primeiro que 

I . [a] /. B ; todo o capitulo f. em M. — a. . . .] branco em B N. 



— 254 — 

nenhum se pusese a cavalo, forão todos mortos, somente Rui Cordeiro, 
filho de Estêvão Fernânde?, que polo coniiecer Alibenaix, que foi de An- 
tónio da Silveira, o tomou vivo, estando já mal ferido, e Álvaro de Sousa, 
criado do conde, de maneira que todos catorze, os doze fôrão mortos, 
os dous cativos. Roque de Fáráo foi morto na atalaia, que, vendo o des- 
troço dos companheiros mortos, se deixou estar e fôrão a ele alguns 
mouros e o matarão, podendo-o tomar vivo a ele e a todos os outros. 
Os três, que a cavalo se acharão, Estêvão Fernândez, Francisco Pinto, 
João Rodríguez Trombeta, se salvarão, por os não seguirem, e, lançando-se 
por Darbufez, viérão á vila, aonde contarão como seus companheiros érão 
todos perdidos. 

Tendo Alebenaix desbaratado esta quadrilha d'almogaveres, com ca- 
torze cavalos e dois cristãos se foi a el-rei, que á boca de Benarróz estava 
com seu arraial: este era o arraial e jente que o Artur Ortiz topou, 
quando vinha fojindo de cativo. Deste feito de Alebenaix ficamos muito 
escandalizados, com deliberação de não dar vida a mouro do Farrobo, e 
cm especial [ao]' capitão e almocadem, Alebenaix, por matar estes homens, 
estando a pé dormindo, de maneira que todos os pudérão tomar vivos, 
em especial Roque de Farão, que na atalaia se deixou estar, vendo a 
causa perdida e seus companheiros; e, chegando a ele e o conhecerão, 
logo lhe tirarão a vida. 

CAPITULO LXI 

Como Alebenaix se perdeo e foi tomado cativo 
negando-se polo não conhecerem 



ALEBENAIX, como era almocadem e pesoa principal do Farrobo, posto 
que sabia que caindo lhe não avião de dar a vida, não deixou de vir 
entrar e correr as atalaias, das quais tinha tomadas algúas, os 
quais fôrão João Gômez, Martim Díaz, Álvaro de Sousa e outros; e um 
dia toda a tarde quis vir de melhora trás das atalaias d'Alecasapo e, 
tomando rebate, as seguio até as Alagoas, onde deu com doze ou deza- 
seis bois e os recolheo e levou consigo, mas ao rebate acudirão alguns de 
cavalo e, vendo que levava os bois e que érão almogaveres, sem licença 
de capitão, nem do adail, os seguirão e ao posto do Amame chegarão a 
eles, mas não que ousasem pasar por os nosos serem poucos. Alebenaix, 
vendo que estes érão homens de rua e desarmados, não deu nada por 
eles, como que não são estes os que em todas as cousas põem a lança. 
A este tempo saio a jente ao rebate e ao repique, e como Dom Manoel 

I. Lao]/. BN. 



— 255 — 

Mazcarenhas, que em Arzila estava pêra ser capitão, fose ter ás Alagoas 
e soubese como os mouros levávão os bois do contador, Diogo Mazca- 
renhas, alargou-se a si e a vinte de cavalo, que, pasando o porto do 
Amame, chegarão os nosos ao Pedregal, onde os mouros, vendo-se aper- 
tados e que os nosos recrecíáo, largarão os bois e, ajuntando-se, fizérão 
Ga volta, ao pasar de um piqueno porto, onde Amelix matou o pai de 
Diogo Lobo, na qual volta ele se encontrou com André Páiz, natural de 
Santiago de Cacem, que da vila saio com couraças. Ambos fôrão ao 
chão, ficando Alebenaix mal ferido, porque tãobem lhe pôs a lança Pedro 
Fernândez Albolor, e, por este encontro de André Páiz, lhe fizérão mercê 
e honra, lhe lançarão o habito ao noso despejo, ficando outros muitos de 
mais tempo e serviço sem galardoar; e outros homens pusérão lanças em 
mouros, que foi Diogo Rodríguez, Jorje Fernândez, que está nesta cidade 
de Lisboa, velho e pobre, de maneira que os mouros se pusérão em 
fujida, e Alebenaix com suas feridas [ficou cativo] ' ; e, como lhe pregun- 
tasem quem e donde érão, respondeo: «Somos do Farrobo e Alebenaix». 
Os nosos, com o alvoroço de o alcançar, o deixarão em poder de Álvaro 
Fernândez e de outros dous de cavalo, o qual, metendo o capelo do capuz 
na cabeça, por não ser conhecido, o trouxérão a Dom Manoel, que polo 
caminho ia seguindo os nosos, e lhe fez as mesmas preguntas, ao qual 
respondeo que o almocadem era Alebenaix e érão vinte de cavalo. Dom 
Manoel lhe preguntou se lhe parecia que se podia salvar. Respondeo que 
nele e no conde estava [sua salvação] '. Dom Manoel, seguindo os mou- 
ros, o mandou ao conde e, por ser já noite, se não deteve com ele e o 
mandou á vila ; e, vindo diante da condesa, lhe preguntou se lhe parecia 
que Alebenaix se podia salvar. Respondeo: «Eu já tenho segura a vida, 
pois vejo o rosto de vosa senhoria, porque eu são ' e me neguei a vosos 
irmãos e ao conde, tomando figura diferente». A condasa o fez curar, 
dizendo-lhe que, pois Deos o trouxe diante do conde, não ouvese medo, 
ainda que a morte de Roque de Farão fazia que todos lh'a desejasem, e 
desta maneira escapou de ser morto, que verdadeiramente não avia 
homem que lhe não tirase a vida. O conde e Dom Manoel, depois que 
soubérão ser na vila, o tivérão em muito não ser conhecido de quantos 
com ele ião. Era Alebenaix muito conhecido, por ser homem grande e de 
grande nariz. 

Tornando a nosa corrida e alcance -*, em especial de Diogo 

Rodríguez, meu cunhado, que em um cavalo muito lii'>'-o do doutor se 
achou, que nesta corrida derribou cinco ou seis mr- os, tomando vivos 
cinco ou seis, e morrerão sete e trouxemos doze c£.>'albs, e os outros esca- 
parão, por ser noite escura, — o conde se recolheo com todos os seus, e 

i. I ficou cativo]/. BNM. — 2. [sua salvação] /. BNM. — 3. são : está por sou, como 
vimos já. — 4. ...] branco em B ; sem branco N ; tanto que he reais fiquou M. 



— 256 — 

ao outro dia fôrao vendidos os mouros e cavalos, e Dom Manoel ouve 
Alebenaix por cento e cincoenta mil reais, polo qual Mulei Abrahem pôs 
Álvaro de Sousa, criado do conde; e como depois socedeo Mulei Abrahem 
dar de graça a Álvaro de Sousa a sua mollier, Francisca Chamisa, por 
ela lh'o ir pedir ao Xercão, no tempo que veio fazer as pazes, como se 
dirá, Dom Manoel, por lhe não fazer ventajem Mulei Abrahem nesta obra 
de liberalidade tão virtuosa, como é dar um senhor um cativo a Ga mo- 
Iher moça e fermosa, que por sua pesoa se pôs ante ele, pedindo-lhe com 
lagrimas resgatase seu marido e o não pusese polo mouro de Dom Ma- 
noel, que custou mais do que seu marido, Álvaro de Sousa, podia dar 
por si, nem ela podia ajuntar, o qual Mulei Abrahem, não podendo negar 
petitório tão justo, lh'o deu de graça, dizendo que não era rezão que a 
molher moça e fermosa se negase petição tão justa, e, sem resgate, lhe 
fez mercê do marido, polo qual Dom Manoel, tirando os ferros a Alebe- 
naix e vestido de escarlata, o mandou a Mulei Abrahem. 



CAPITULO LXII 

De algãas entradas e almogavarias em que fião Ji:{emos nada 



TORNANDO ao ano de trinta três, em que vou falando, deixando a 
morte de Roque de Farão e tomada de algúas atalaias, direi o que 
se fez por nosa parte. Neste ano foi Manoel Coutinho com trinta 
de cavalo correr a boca de Benamares e tomou dous mouros e um pouco 
de gado. A nova destes mouros deu o conde licença a Dom João Maz- 
carenhas, com o qual fomos perto de cem homens de cavalo, e, tomando 
nosas folgas em o Xercão e em Almenara, nos meteo Diogo da Silveira 
na serra de Benamares, e por ela cedo nos lançamos e tornamos por de- 
trás sem sermos sentidos, nem ouve rebate algum. 

Outra almogavaria fomos fazer com Dom João Mazcarenhas, que em 
trabalho e presa foi semelhante a esta, ainda que diferente no tempo, 
porque foi em úa noite de muita agoa. Partimos da vila a esta entrada 
e nos fomos meter no Azambujal d'Algarrafa, onde esperamos que, pa- 
sada a força da calma, saisem os mouros e gado, onde nos pudesemos 
aproveitar ; e, porque Diogo da Silveira e os que na atalaia com ele 
estávão ouvérão vista de dous mouros de cavalo, que ao longo da Ribeira 
Grande ião, os nosos, enfadados e alvoroçados, lhe saimos sem tempo, 
nem horas, polo que os mouros se lançarão á ribeira, onde, deixando os 
cavalos, se salvarão as pesoas, e nós tiramos um dos cavalos e o outro 
ficou. Estes dous mouros érão guardas da ponte de Alcacere, e por irem 
na cáfila dous mouros resgatados, que de Portugal vínhao, que fôrão 



— 257 — 

tomados no desbarate de António da Silveira —um deles era estribeiro 
do alcaide—, e por terem parentes em Algarrafa com tanto desejo e alvo- 
roço festejávão ' esta alegria, e asi foi a de Dom Manoel Mazcarenhas; 
e pasando por muitas, contarei esta. 



CAPITULO LXIII 

Como se perderão uns almogaveres de Alcacere 

PARECENDO ao condc tempo, mandou espias fora, pola ordem e ma- 
neira das outras vezes, que era de cinco mouros um e outro tanto 
dos cavalos, e, fazendo-lhe os alforjes, dormirão fora toda úa 
somana, e avião de amanhecer a través das atalaias, em parte que visem 
se alguém se metia na cilada, e que pudesem vir dar recado á vila, sem 
serem vistos; e, correndo o tempo que andávão fora, viérão com nova 
que deixávão mouros na Atalaia Alta. O conde, segundo sua conjectura 
do tempo e a maneira do entrar, asentou serem almogaveres e de lhes 
armar, e, pondo-se a cavalo com toda a jente, se foi pôr á horta do dou- 
tor, onde Fernão Machado lhe pedio lh'os deixase descubrir: feito certo 
arriscado e de muito perigo, por lhe sairem os mouros com as lanças nos 
olhos e poderem arremesar e derribar antes que fose socorrido. O conde 
lh'a deu, mostrando ele receber mercê, e logo o conde apartou corenta 
de cavalo com o adail Lopo Mêndez, e Diogo da Silveira os guiase polo 
ribeiro de Jil da Mota, e asi se fosem ao jeito de Fernão Machado pôr 
no Malhão de João Mealho ; e, porque um fronteiro fidalgo, por nome 
Martim Falcão, pedio licença ao conde o deixase ir com o adail e o conde 
lh'a dar, Lopo Mêndez se agravou e dise ao conde: «Senhor, não ha de 
ir comigo fidalgo, não mande a este feito senão moradores». Dise o 
conde : «Por Martim Falcão m'o pedir, que queria ir convosco, lhe dou 
licença, e quero que tãobem vá Bernardo Rodríguez, e a culpa deste feito 
quero que seja vosa e a vós dou o cargo ; e o que vos encomendo é que 
tomeis lingoa e na Atalaia Alta me deixeis Luis Valente, que me dê re- 
cado, porque eu vou trás vós». Lopo Mêndez recebeo isto por favor e 
mercê muito grande, e, partidos, fomos ao longo do mar até o ribeiro de 
Jil da Mota, onde nos metemos a fio, pêra ir até o Malhão a esperar, que 
avia de descubrir a Atalaia, onde parecia que os mouros estávão, mas eles 
se melhorarão e estávão no Malhão, donde sairão a Fernão Machado, e 
Rodrigo de Barros me seguio, dizendo que como era novo não acertava 
no que avia de fazer. Chegamos a cies entre a Atalaia e Mijileo, e, 

I. festejávão] mostrávão M. 

ANAIS DK ARZILA 33 



— a58 — 

vendo-se os mouros apertados e que érão mais que nós, fizérão volta e 
nos encontrarão bem jente de cavalo: dérao em nós doze ou quinze, 
parccendo-lhe nos derribasem e nos afastasem de si, mas eles primeiro 
ficarão três ou quatro no chão, que logo fôrão alanceados, e o almoca- 
dem, que o xeque Benaravia era, o mesmo pasou dentro em Ga silveira 
como dizem acabou Diogo da Silveira e durou alguns anos sem lh'o nin- 
guém saber e muitos de que aqui se não faz menção de sua morte que 
foi no ano de trinta cinco '. 



CAPITULO LXIV 

Como neste ano de tilinta quatro el-rei veto abaixo 
a correr Tanjere e Ar\ila c foi sentido 



UA das cousas que neste ano de mil e quinhentos e trinta quatro 
poso pôr era lembrança foi o cerco de Çafim, que, matando os 
mouros ao capitão, Dom João de Farão, parecendo-lhe o tomasem 
desapercebido e sem capitão, os xerifes, reis de Marrocos e de Çuz, com 
todos seus poderes e artelharia, lhe puzérao um bravo cerco, mas foi 
muito bem socorrido de muitos fidalgos e cavaleiros que el-rei, noso se- 
nhor, com muita presa, mandou ao socorro, asi muitas munições e outras 
cousas necesarias á defensa da cidade e repairo dos moradores dela. 

Neste ano, em Arzila, a guerra se fazia asi e da maneira que os outros 
anos, entrando almogaveres da úa e da outra parte, ainda que nós andá- 
vamos senhores do campo, fazendo nosas lavouras largas e monteando, 
de maneira que nosas Atalaias Altas érão todos os dias tomadas e nosos 
almogaveres érão mais correntes. íão muitas vezes fora, asi Diogo da 
Silveira como Manoel Coutinho, e as mais das vezes ambos; e em Bena- 
gorfate, terra de Diogo da Silveira, esperou úa vez que viesem visitar um 
colmenar ', que parecia que estava escondido e esquecido, armando-lhe em 
duas partes, onde lançou em cada úa das partes oito homens a pé, entre 
os quais foi Manoel Coutinho e Roque Ravenga, e tomou três mouros, 
em que entrou o dono do colmeal, primo de Diogo da Silveira, que, por 
ser rico e honrado, deu por si mui bom resgate. 

Outra vez, tardando as cáfilas, e desejando o conde de saber nova, 
tornou Diogo da Silveira a ir fora e correo Algarrafa de melhora, e, sobre 
tarde, estando o mais do dia seus companheiros metidos na ribeira de 

I. Esta parte final do capitulo está alterada e por isso a não pontuamos. — 2. col- 
menar] colmeal N M, como três linhas abaixo B. É vocábulo castelhano correspondente 
ao português colmeal. 



— 259 — 

Taliconte e ele por vijia e atalaia, não vendo, nem sentindo nada, nos 
fez pôr a cavalo e por um valo nos ouvemos na Ribeira Grande, e, por 
ela acima, ao tempo de recolher, alcansamos três mouros e sesenta cabe- 
ças de gado, porque os mouros que tomamos nos dérao nova do alcaide 
estar na Ponte, esperando por el-rei, que aquele dia era chegado, ou avia 
de chegar, e Calema Laeate Amele ', maioral em Benarróz, era pasado com 
todos os de cavalo das aldeãs, e por esta causa andava o campo largo e 
sem atalaias. 

Esta nova nos pôs em muita confusão, sendo alguns de parecer que 
matasemos os mouros, por nos darem tão certo aviso, ser cousa tão olhada 
e pior feita. Outros fôrão de outro parecer, que deixasemos o gado, como 
fizemos, e tomasemos os mouros nas ancas e nos acolhesemos, até aver 
causa que nos forçase a os deixar. Eu fui o primeiro que tomei nas 
ancas um dos mouros e João Trigueiros outro e o outro João Vaz, e asi 
arrancamos caminho de Sinete, afastando-nos da estrada d'Alcacere, e, 
como a noite logo veio com mui claro luar, nos ouvemos na Pedra Alta 
e á meia noite na vila, onde o conde foi avisado; e logo aquela noite 
mandou um barco a Tanjere com a nova que tinha, que foi causa d'el-rei 
por esta vez não fazer nada, porque, tanto que soube que éramos avi- 
sados, não nos quis correr em Tanjere, que por estar avisado não fez 
nada. 

Desta vez nos correo o alcaide de Alcacere com favor d'el-rei, mas 
não que entrase do Facho a dentro, e ao recolher nos tomarão a João 
Gômez, atalaia, correndo-lhe almogaveres dentre ambas as várzeas, e o 
embaraçarão em Bugano e dele soubérão as novas que saber querião, e 
se tornarão, depois de andarem no noso campo oito ou dez dias; e, de- 
pois que el-rei pasou de Alcacere, as cáfilas tornarão como soião, e nos 
tornamos a alargar, indo a crestar e montear, onde contarei úa cousa, 
que é acharmos no campo um camelo que corria mais que um cavalo ^, e 
parece ser da companhia d' el-rei, que por ali pasou; outros dezíão ser 
dromedário. 



1. Amele : significa em árabe maioral, como se di^ a seguir. 

2. que é acharmos no campo... mais que um cavalo] de um camelo que achamos 
no campo correr mais que um cavalo M. 



200 



CAPITULO LXV 

Como a Atalaia da Ruiva foi salteada e se salvarão pelejando 



MUITO quisera deixar as meudezas que se oferecem de repiques e 
rebates, polo enfadamento deles, mas, como a guerra que se faz 
nos lugares de Africa, a mais continua e perjudicial é de almo- 
gaveres, que são ladrões que nunca repousão, e, por neste ano duas ata- 
laias se salvarem, fazendo um feito digno de memoria, pois se salvarão 
com muito esforço, farei este capitulo, posto que nesta minha lembrança 
muitas vezes se tênhão asinadas. Estando estas duas atalaias, que Artur 
Ortiz e António Fernândez érão, na Atalaia Ruiva, a pé, tendo os cavalos 
poios cabrestilhos, úa quadrilha de mouros, que no Jiestal estava, pare- 
cendo-lhe que estava o campo solitário de homens de cavalo, ainda que 
bem acompanhado de molheres, por ser no mês de maio, ordenarão de 
os saltear a pé, e os oito deles se viérão com as barrigas polo chão e as 
lanças poios alvados até se meterem com as atalaias, e fazendo grandes 
gritas, espantando os cavalos, e os fizérão fujir, mas eles, como homens 
acordados e de recado, ouvérão as lanças ás mãos e ambos, juntamente, 
se pusérão ás lançadas com os mouros ; e como um mouro se abraçase 
com Artur Ortiz, parecendo-lhe que, por ser homem piqueno, o levaria 
sobraçado, mas, como ele era homem pesado e de muita força, o apertou 
de maneira que o mouro se lançou com ele pola barroca abaixo, levando 
já úa lançada que António Fernândez lhe deu, mas Armr Ortiz se ouve 
tão bem que, ficando com duas lanças nas mãos, deu ao mouro duas lan- 
çadas, que fez que não se ajuntase com os companheiros. A este tempo 
António Fernândez, vendo-se só e perseguido e sem companheiro, com 
duas lançadas, se lançou pola barroca abaixo e se ajuntou com ele. A 
este tempo, quatro de cavalo sairão do córrego da Fonte, onde estávão 
apanhando junca pêra artilhos, e, vendo os mouros a pé andar ás lan- 
çadas com as atalaias, chegarão e, pondo aos nosos esforço, foi tanto o 
espanto nos mouros que, dando-se por perdidos, deixarão a empresa das 
atalaias e se ajuntarão, esperando poios seus, que já os vínhão socorrer, 
mas primeiro fôrão mortos e lanceados os mais deles; e chegados dez ou 
doze de cavalo, que os mais ficávão com os cavalos, posto que os nosos 
não érão mais de quatro, se contentarão cora recolher os de pé, e os 
nosos, tomando as atalaias nas ancas, se tornarão á Ruiva, onde se ajun- 
tarão mais de vinte de cavalo que, por serem erveiros e não aver adail, 
nem pesoa a que obedecesem, os deixarão ir, ficando antes do ribeiro do 
Jiestal os dous mortos, e o outro foi morrer a sua casa. Os quatro de 



— 201 — 

cavalo que primeiro se acharão érao João Trigueiros, Vilhalva, Brás Fer- 
nândez e João Pinto, os quais o fizérão milhor que os de Bugano, quando 
matarão o caçador. 

O rebate foi este dia mui grande, por nos chegar nova ao Facho que 
as atalaias da Ruiva érão salteadas e tomadas com homens de pé, e os 
cavalos érão salvos e viérão ter connosco, do que eu recebi muito pezar 
pola desaventura de meu compadre e amigo Artur Ortiz, mas como logo 
chegase outro de cavalo e pedise alvixeras, que as atalaias érão salvas, e 
não somente iso mas que tínhao mortos três ou quatro mouros e ião des- 
baratados, pedindo ao conde mandase após eles, — o conde muito alegre 
as prometeo e logo arrancou com um galope, e não paramos até topar 
com as atalaias, que feridas vinhao. O conde as louvou muito e mandou 
que se curasem e que ele pagaria a cura e gasto até tornarem a servir; 
e, como soube que os mouros tomarão por Mijileo e que levávão o Sove- 
ral na mão, se contentou com o feito, dizendo que pêra um tão bom dia, 
como aquele, não queria dar mais trabalho aos homens e cavalos; e, reco- 
lhendo o campo, nos recolhemos á vila. 

Com este feito tão assinalado da Ruiva, direi outro de outras duas 
atalaias que não tivérão tão bom suceso como o de Artur Ortiz e Antó- 
nio Fernândez, pois fôrão ambas alanceadas e mortas. Pola sesta, indo 
descubrir, como é costume, outras duas atalaias, lhe sairão da Ruiva almo- 
gaveres de Alcacere e, vendo o campo desacompanhado, os seguirão muito 
mais do que era rezão, fazendo grande ousadia, pasando poios Forni- 
nhos, e entrarão polas vinhas, e, sobre o Laranjal, o cavalo de Pêro 
Gômez afracou e, parecendo-lhe que, por ser perto, pouca resistência bas- 
tava pêra se salvar, chamou polo companheiro, dizendo: «Chegai-vos a 
mim, que me perco, e estes mouros vem perdidos ; se nos salvamos todos 
se hão de perder». O companheiro, que homem novo era, se ajuntou 
com ele e ambos voltarão e ferirão um mouro, e os de detrás chegarão 
e ambos fôrão mortos, ou por se não deterem e estarem junto da vila, ou 
por estarem escandalizados das outras duas atalaias, de maneira que 
fazendo pouca detença se recolherão, levando os cavalos e lanças. O 
conde chegou ao Facho com a jente de repique e, vendo tornar os mou- 
ros caminho da Ruiva, se foi indo pêra as atalaias das Palmas, e, como 
não vio surjir nenhúa das atalaias polo Laranjal, parecendo-lhe que érão 
tomadas, mandou a Diogo da Silveira que fose ver o soualho, onde os 
tomarão, e o rasto dos mouros quantos érão, e, entrando polo caminho 
das vinhas, dérão com ambas as atalaias mortas. O conde, como o soube, 
dise: «Eu tenho em vontade não mandar trás almogaveres, polo risco e 
ventura em que um capitão se põem ', e por este ardil, que estes fizérão, 
em mostrar que tem costas, eu creo que as não tem, e, seguramente 

I. põem] assim B M ; /". este passo N. 



— 262 — 

podião ir após eles; mas não quero dar que fazer aos diabrinhos ' e que 
falar ás lingoas dos que podem danar». Pêro Gômez acabou em seu 
oficio que todos temos '. 



CAPITULO LXVI 

Comd*os alcaides correrão Ar:[ila e matarão Manoel da Costa 
e seu jenro e o que socedeo 



Os alcaides de Alcacere e Larache se ajuntarão com Benjija e Ca- 
roax e nos viérão correr com quatro bandeiras e três mil de cavalo. 
Aquele dia me encontrei entre as hortas com Manoel da Costa e 
João Azeitado, seu jenro, e, preguntando-lhe onde ia, dise que ia matar 
um ou dous coelhos a Tendefe, com um forao que levava. «Muito roim», 
dise eu, «a caça de forao nesta terra, por ser forçado andar a pé em lugar 
baixo». «Por iso imos nós dous», dise ele, «que, quando um estiver a pé, 
estará o outro a cavalo, pêra tomar o rebate, quanto mais, senhor com- 
padre, que eu me ando empapelando, porque sei que, se me matarem, o 
meu habito não o hão de dar a meus filhos, senão a quem os oficiais qui- 
serem». Isto dezia porque poucos dias avia que fora de Portugal Fran- 
cisco Lionârdez com habito de Luis Machado, amo e criado do conde, e 
o tirarão aos filhos; e nestas praticas nos apartamos, e ele tomou pêra a 
Atalaia Ruiva e eu pêra Bugano, onde levava três moços d'asnos, pêra 
trazerem trigo que ficava na resteva, e, chegando sobre a fonte, dise aos 
moços: «Não paseis daqui até as atalaias não terem descuberto a Ruiva 
e o rosto de Tendefe, e, avendo rebate, ponde-vos no caminho, que eu 
vos alcansarei» ; e, tomando os atilhos e atando o cavalo a úa palmeira, 
pondo-lhe os cabrestilhos ás cabeçadas, comecei a infiar e, andando nesta 
obra, ouvi o rebate e, pondo-me a cavalo, tornei sobre a fonte, onde vi 
quinze ou vinte de cavalo, que se ajuntarão na Atalainha da Ruiva, e a 
atalaia que tornava a descubrir os mouros, os quais amanhecerão á ata- 
laia do Alcaide, entre as Atalaias Altas de Tendefe e Alfomar; e, ávido 
outro conselho, quisérão recolher e se quisérão chegar á vila, por terem 
aviso das espias, que, por termos recolhidos os nosos pães, andávamos 
recolhidos e as espias curtas, e, saindo-se da cilada, viérão correndo me- 
ter-se na Ruiva, a tempo que as atalaias chegarão a descubrir, e como os 
almocadens, que diante vínhão, que Zanaca e Nijar érão, vendo que a 
jente não era entrada na cilada e podião ser vistos, como homens de 

1. diabrinhos] diabinhos N. — 2. Aqui N Jíf ; aqui falta o cap. 66; B Mpassam tatnbêm 
de 65 para 67. 



— 263 — 

guerra rebaterão as atalaias, por que não ouvesem vista da jente, e, com 
somente cinco de cavalo, correrão após as atalaias e viérão até a Ata- 
lainha, onde Manoel da Costa e seu jenro e Jorje Manoel e Pêro Vaz e 
outros, até quinze ou vinte de cavalo, se ajuntarão; e, vendo que os mou- 
ros não correrão e se recolherão, disérão ás atalaias que tornasem a des- 
cubrir, e que eles se não moveríão donde estávão até os recolher. As 
atalaias, como homens novos que érão e pouco sabidos no oficio que tra- 
zíão da atalaia, posto que valentes homens, os quais érão Jorje Mêndez 
de Paiva, valente e esforçado homem, e outro parente seu, sem espe- 
rarem por capitão ou adail, a cuja obediência érão obrigados estar, tor- 
narão a ir caminho da Atalaia Ruiva, e, chegando, lhe saio a jente grosa 
com muita fúria. Os nosos esperarão, sem se bulir, até recolher a si 
ambas as atalaias, [as quais] ' se pusérão no caminho diante da jente, tão 
mesturados que não cabia úa lança entre uns e outros; parecendo-lhe, aos 
mouros, ser o adail que dava costas ás atalaias, esperarão engrosar e dar 
nos nosos, e, como nos dianteiros vinha cide Habdehamic, primo e 
cunhado do alcaide Laróz e muito cavaleiro, e se pusese á ilharga 
dos nosos, João Azeitado lhe fez rosto, mas logo foi derribado, e, 
como Pêro Vaz Magro disese a Manoel da Costa: «Mátão voso jenro», 
como muito cavaleiro que era, não lhe lembrando o que pouco antes avia 
dito, que se avia de empapelar, voltou sobre o jenro, dizendo: «Volta! 
Senhores, não deixemos matar João Azeitado» e, pondo a lança em um 
mouro, deu com ele sobre seu jenro, mas logo foi pasado de úa parte a 
outra com úa lança d'arremeso e de mão tente % e caio junto de seu jenro. 
Os mouros fôrão logo juntos sobre eles, asi por já serem juntos, como 
polo favor da vitoria. Alguns dos nosos voltarão com Manoel da Costa, 
mas não pudérão fazer mais que, desemparando a Manoel da Costa e seu 
jenro, sairem feridos, era especial a atalaia Jorje Mêndez, que, como valente 
homem, saio com duas lançadas, e, empuxando-os, os pusérão no caminho 
do Facho, onde os mouros apertarão com eles tão rijo e com tanto favor, 
com terem mortos dous homens, parecendo-lhe que Manoel da Costa era 
o adail Lopo Mêndez, asi pola pesoa, como polo habito de Cristo que 
levava, e ^ logo pedirão alvixeras aos alcaides, que Lopo Mêndez era morto, 
que, por ser malquisto, os fez alegres. Na Atalainha das Palmas, cide 
Hadehamic se pôs diante dos nosos, mas Jorje Manoel saio a ele e, 
pondo-lhe a lança, o deitou sobre úa grande silveira, que no caminho 
estava, sem lhe fazer outro dano, por vir armado de úa forte saia de 
malha e úa forte adarga diante. Ali foi Jorje Manoel carregado de muitas 
lançadas, de que saio ferido, asi ele como seu cavalo, o qual saio com úa 
lança pegada, que entrou por baixo da coixa de Jorje Manoel e, entrando- 

I. [as quais] /. BNM. — 2. tente: tenente. — 3. e por que, pedido pelas expres- 
sões tão rijo e com tanto favor, que estão três linhas acima. 



— 264 — 

lhe por entre o couro e as costas, lhe pasou Qa espadoa, e com ela chegou 
ao Facho. 

A queda de cide Adehamec fez parar aos mouros, parecendolhe 
ficar ferido, e, em tanto que o pusérão a cavalo, os nosos tivérao lugar 
de se afastar, e alguns de cavalo mais fracos tornarão polas vinhas abaixo 
demandar a atalaia do Laranjal, aos quais alguns mouros seguirão e ma- 
tarão dous homens, um mourisco, que João Preto avia nome, e outro. 
Eu, que em Bugano estava e tinha três moços a meu cargo, tanto que vi 
sair os mouros da Atalaia Ruiva, a través donde eu estava, e tanto cami- 
nho de andar tínhão como eu, vim demandar aos moços, e, tomando o do 
asno, mais fraco, ás ancas, trazia os outros dous diante de mim, e, quando 
sai a carreira do Almirante, entrei na estrada do Facho e achei-me com 
Jorje Manoel e Pêro Vaz Magro e outros dez de cavalo, que ante os 
mouros vinhão, e, vendo-me embaraçado com os asnos e moço nas ancas, 
apertarão connosco : três de cavalo se meterão entre mim e os moços, a 
um deles pus a lança, fracamente, por trazer cuberto de couro a adarga, 
a qual trazia nas ancas. A este tempo vi junto de mim ao conde, cora 
sua saia de malha e adarga, que, vendo-me sair da cova de Francisco 
Pinto com moços e asnos, e que os mouros emparelhávão comigo, posto 
que chegava de repique e estava só no taboleiro do Facho, arrancou e 
chegou a tempo que, vendo os mouros jente de repique, não ousarão 
chegar, e, recolhendo os cavalos de Manoel da Costa e de seu jenro, que 
de mistura vinhão com os nosos, nós nos ouvemos no taboleiro do Facho, 
onde a jente de repique recebeo ; mas o conde, vendo que a jente era 
muita e as bandeiras e batalhas vinhão ao Facho, se recoiheo, pare- 
cendo-lhe que os mouros, com a vitoria que trazíão, entrasem polas tran- 
queiras abaixo e pudesem voltar com eles ' os que entrarão polas tranquei- 
ras, sendo alguns derramados, que vendo que Diogo da Silveira, que pêra 
faiar com eles se apartou até tornarem a recolher e sair do Facho, — o 
conde, vendo que os mouros não chegávão e se recolhião, se tornou ao 
Facho, onde deu vista aos mouros, que, pasando o vale, se pusérão em 
quatro grosas batalhas, que julgamos serem perto de três mil de cavalo, 
porque as bandeiras de Alcacere em vijita^ tínhão cada Qa mil de cavalo, 
e as de Cide Naçar e as de Caroax alguns mil, e polas bocas de Bugano, 
em ala, se recolherão á Atalaia Ruiva; e nós outros fomos poios corpos 
de Manoel da Costa e seu jenro, que, pola jente toda pasar por cima 
deles, estávão tão moidos e gastados que pudérão caber cada ura em sua 
cevadeira. Foi muito grande a perda de Manuel da Costa, por ser muito 
cavaleiro e necesario pêra um lugar de Africa, e ser homem entremetido 
e negoceador, e não avia homem desencavalgado, ou que lhe aborrccese 

I. Aqui N indica uma lacuna no texto. — 2. vijita] /. N. Ignoramos a significação 
deste vocábulo. 



— 265 — 

o cavalo e lh'o disese, que naquele dia lh'o não trocase, ou lhe metese 
cavalo em casa. Era natural de Serpa e de ' não bem afamado, porque 
avia jente que dezia que na terra tomava dinheiro por fazer delitos, mas 
o tempo que viveo em Arzila viveo muito bem, como homem honrado e 
cavaleiro. Quando saio de casa deixou sua molher amasando e ainda 
estava no oficio quando lhe viérão pedir um lençol pêra o amortalha- 
rem. 

E proseguindo o que mais neste dia socedeo, recolhida toda a jente e 
trasposta a Atalaia Ruiva, o conde entendeo que os alcaides não fazíão 
detença e tomávao o caminho de suas casas, e dise : «Agora daria eu 
licença a corenta de cavalo que fosem correr ao Farrobo, que, com o 
favor desta jente, hão de andar desmandados». Logo Diogo da Silveira e 
Manoel Coutinho lhe pedirão licença, e, dando-lh'a, nos apartamos cin- 
coenta de cavalo, e, pasando pola vila, ouve alguns que tomarão manti- 
mentos e borrachas, e pola praia pasamos a Algorrife e, ao longo das 
Aldeãs, chegamos a Darbufez e nos apartamos [de] ^ Manoel Coutinho 
ao Farrobo, á boca de Benamares; e, como aquele dia com o favor da 
jente o campo andou largo e ouve muitos crestadores, ouvemos vista de 
alguns e, pola parte de Diogo da Silveira, tomamos cinco, e Manoel Cou- 
tinho tomou três, e asi uns como outros nos viemos a ajuntar no caminho 
da torre de Beleta, e com grande contentamento com tão boa presa, como 
Deos nos dera, em dia que a jente grosa nos correo e avia morto quatro 
de cavalo. E, como Manoel Coutinho viese falando com os mouros, 
conheceo entre eles o mouro do Farrobo que matara Artur Ortiz, com 
cuja molher era casado, e, conhecendo-o ^, levou da lança e lhe deu duas 
lançadas. Acudimos logo a lh'o tirar das mãos, mas não prestou, por- 
que, deitando-lhe mão da lança, ficou como um lião: «Nunca eu levarei 
a quem matou o marido de minha molher e o pai de meus filhos» e, 
levando da espada, lhe deu muitas feridas, de maneira que o matou pe- 
rante todos nós outros, que, ainda que nos pareceo mal feito, todavia 
pareceo ter rezão não levar perante sua molher quem lhe matara seu ma- 
rido e pai de seus filhos, e, por ser mouro, o tivemos a bem, e que ficava 
mais omiziado. O conde, ainda que deste feito lhe não pesou, por ficar 
omiziado, todavia o mandou prender e o teve preso até vir a cáfila, e isto 
poios alcaides lh'o não terem a mal, e com esta maneira Manoel Coutinho 
vingou a morte de Artur Ortiz e deu de si mostra de bom cavaleiro e bom 
cristão, até que morreo por um desastre, como em tempo de Dom Ma- 
noel Mazcarenhas direi, querendo Deos. Foi Manoel Coutinho de conhe- 
cimento 4, porque, quando se veio tornar cristão, Artur Ortiz o agasalhou 
e pousou em sua casa, como parentes. 

I. de]/. M; /. este passo N. —2. [de]/. BNM. — 3. o] /. B. —4. conhecimento: 
gratidão. 

ANAIS DE ARZILA 3^ 



— 266 — 

CAPITULO LXVII 
Como el-rei de Fé:{ correo Ar::^ila e o que aconteceo nesta corrida 

COSTUME é OS fidalgos e fronteiros que em Africa estão pedirem ' licença 
pêra irem fora; seu nome fica afamado que acértão de fazer asi 
do bem como do contrario, entre os quais, que neste tempo em 
Arzila estávão, era Fernão Gômez, filho do doutor Álvaro Fernândez, 
chançarel-mór, o qual, tendo licença do conde e a Diogo da Silveira por 
almocadem e guia, foi correr Algarrafa, onde tomou dous mouros, e deles 
soube que el-rei era na ribeira de Benabiziquer e o alcaide na ponte d'Al- 
cacere, onde o esperava com sua diafa. [Com] ^ esta nova, posto que o 
caminho do Zambujeiro lhe não ficava sem perigo, o quisérão tomar, por dar 
aviso ao campo, que aquele dia andava largo, com o favor dos nosos almo- 
gaveres, que pasávão de oitenta de cavalo. A Fernão de Sousa e a Diogo 
da Silveira pareceo que João Muniz, com Roque Ravenga por guia, com 
vinte de cavalo viese por Almenara, e que por ambas as partes a vila 
tomase rebate, e asi se fez, que o campo se recolheo; mas, todavia, o 
almocadem Zanaca e Nijar, que por guardas estávão em Alfandux cora 
cincoenta de cavalo, ouvérão vista de Diogo da Silveira e ouvirão o rebate, 
e, deixando-nos pasar o Zambujeiro, viérão demandar a estrada e tomá- 
rão-nos dous homens de cavalo por dous de pé. 

Com a nova que os mouros dérão da vinda d'e!-rei, ao outro dia o 
conde mandou sair todos os moços e homens de pé e os levou ao lameiro 
de João Muniz, adonde, uns levando pedra e outros com enxadas, con- 
certarão o caminho, por estar roim de quebradas da agoa; e os mais 
fidalgos e cavaleiros uns trabalhava© e outros jugávão as torroadas, 
quando o facho caio e o sino começou a repicar. O conde se pôs a 
cavalo e saio ao Laranjal, e, vendo capear o facheiro, que é sinal de jente 
grosa, se pôs no outeiro de Pêro Cão, onde vio a jente vir por Tendefe 
abaixo e polo monte das Porcas, e, mandando ao adail recolhese a boiada, 
que no Laranjal andava, se deixou estar em Tendefe; e Francisco Car- 
valho os descubrio e, saindo toda a jente após ele, o fizérão tomar o 
porto da ribeira de Jil da Mota, e o cavalo saltou o ribeiro, dando um dos 
maiores saltos que se virão, e o cavalo ficou aspado, sem se poder bolir, 
e Francisco Carvalho a pé, onde o matarão e o cavalo junto. A jente e 
bandeiras, vendo o conde estar quedo junto do Facho, o viérão demandar, 
o qual, vendo o gado e moços recolhidos, abalou para o Facho e logo se 

I . pedircmj pedir B N. — 2. f Com] /. B N M. 



— 267 — 

meteo polas tranqueiras dentro, por não ter recebido dano, mas os mou- 
ros entrarão tanto de mistura e vínlião arremesando que lhe pareceo bem 
fazer ija volta; e porque Dom João Mazcarenhas, filho de Dom Nuno, 
capitão que foi de Çafi, lhe pedio a volta, sendo já entre a tranqueira de 
Baixo e a do Meio, lhe dise : «Senhor Dom João, fazei-vos prestes com 
cincoenta de cavalo», e, como todos se chegasem a Dom João, foi a volta 
de mais de cento, e atrás estes, de maneira que os mouros fôrão levados 
até os levar fora da tranqueira do Facho e com ficarem muitos mortos e 
feridos. 

Mas, como neste tempo el-rei e os alcaides estivesem no Facho, fizérao 
deter os seus e a nós tornar pêra baixo com tanta presa como a que levá- 
vamos, que, como os valos érão rotos dos traveses, acudio muita jente, 
em especial da parte do caminho velho, asi que nos meterão da tran- 
queira do Meio a dentro, ao tempo que Dom Francisco Coutinho ficava 
embaraçado entre mais de corenta de cavalo e entre a tranqueira e o 
Facho, e porque são duas tranqueiras, úa não tendo saida, que não via 
mais que irem ao Facho, e fica o Facho arrodeado de valos mui fortes, 
— pois por esta tranqueira, que não tinha saida, acertarão de ir mais de 
cincoenta de cavalo, como homens que não sabíão por onde ião. Trás 
estes foi Dom Francisco Coutinho com dez de cavalo, os quais érão Dom 
Francisco Floresta de Horta ', seu pajem e camareiro, António de Figuei- 
redo, filho de João de Figueiredo, e Gaspar de Campos, criado do mar- 
quês de Vila Real, Martim Vaz Branco e outros, os quais, vendo o conde 
que se recolhia, deixando os mouros apinhoados, que não tínhão por onde 
sair, se vínhão recolhendo, por Dom João dizer: «Meu pai se recolhe, 
vinde após mim» ; e, como os mouros visem que outros vínhão após o 
conde e que não era mais que um valado entre eles e os mouros, arran- 
carão após os nosos com tanta fúria que, querendo Gaspar de Campos 
fazer rosto, ficou entre eles, e, como ia armado com armas e cavalo de 
Dom Francisco, que o favorecia e tinha em sua casa, não [0]= pudérão der- 
ribar, por ser homem grande, groso e pesado, posto que embaraçado e 
a cavalo, o cercarão e abraçarão dez ou doze mouros, querendo-o tomar 
vivo, e, vendo-se neste trabalho, chamou por Dom Francisco, dizendo: 
«Senhor Dom Francisco que me perdo^», e olhando Dom Francisco, e 
vendo-o em poder dos mouros, chamou a Florestão d'Orta, dizendo: 
Vinde trás mim», e virou e, pondo a lança em um dos mouros, o pasou 
e deu com ele no chão, e vendo-se entre os mouros, levando da espada, 
deu ao outro, que abraçado tinha a Gaspar de Campos, polo rosto, que 
os mais dos dentes lhe descubrio, e, fazendo-o alargar, o trouxe diante de 
si, a tempo que, quando entrou pola tranqueira, estava larga de nós, e 

I. Floresta de Horta] Florestão d'Orta M, como algumas linhas adiante; f. este 
passo N. — 2. [o\f. BNM. — 3. perdo] perquo M;/ este passo N. 



— 268 — 

entre cia e nós estdvão mais de dozcntos de cavalo, e por entre todos 
pasou e se ouve com os outros, que, vendo-o o conde, lhe quisera dar 
com a lança, mas não pode, pola presa com que desejávamos tomar a 
tranqueira de Baixo. Foi este feito de Dom Francisco muito asinalado e 
falado, por ser de idade que não chegava a dezasete anos. Gaspar de 
Campos vive no Pedregao ' e é muito honrado da casa do marquês. Casou 
em Tanjere. Muitas vezes vinha a esta cidade de Lisboa e contava este 
feito. E, como a volta fora grande, alguns dos mouros se derramarão 
poios chãos, onde alguns dos nosos os seguirão, e ao recolher, Henrique 
Machado, alférez da vila, [correo]^ após um mouro no chão de Brás Simões 
e, metendo a lança nele, se meteo entre os outros, que com ele viérão; 
pondo-lhe as lanças o deitarão era íía silveira, onde caio e foi alanceado, 
sem poder ser socorrido dos companheiros. 



CAPITULO LXVIII 

De íia sorte que aconteceo a Francisco Pinto com um mouro 
que veio a saltear uns moços 



UM mouro negro que se veio a tornar cristão, e como Gonçalo da 
Fonseca o pedise pêra o servir e o tivese em casa algum tempo, 
veio a confiar dele tanto que o trazia no campo e lhe fazia a 
lavoura, andando com Qa mula, trazia lenha e erva; e, depois de enfa- 
dado, levando a mula, se foi pêra terra de mouros, e Gonçalo da Fon- 
seca perdeo a mula e o servidor. Era este negro robusto e rijo e de 
muita força e confiado de si, e, do que sabia do noso campo, tentou fazer 
Ga sorte e vir ao noso campo tomar um moço ou dous e os levar cativos; 
e, pondo-o por obra, se veio meter em Alfornax, ija legoa da vila, aldeã 
de forte brenha e zambujal e canaveal, e esperou que fose ter algum moço 
com ele ; e, estando nesta esperança, vio vir polo caminho dous moços 
com suas cargas de lenha e, saindo a eles, os levou ante si á brenha, com 
úa espada nua na mão. Os moços começarão a bradar: cAntonio da 
Fonseca não nos mateis!» Aos brados acudio um irmão de Francisco 
Pinto, a que chamávão d'alcunha o Orelhas, que com Francisco Pinto 
vinhão carregados de carne, que vio reluzir a espada, e, chegando ao 
negro, conheceo-o ^ e, bradando, dise alto: «Francisco Pinto, este é o 
mouro de Gonçalo da Fonseca!» Francisco Pinto chegou a tempo que 
o negro tinha deitado a mão á lança do Orelhas e o tinha derribado do 
cavalo, e, como Francisco Pinto lhe pusese a lança, o negro lhe deitou 

1. Pedregao] Pedrógão M ; /. êsle passo N. — 2. fcorreo] /. B N M. — 3. [o] /. B M. 



— 269 — 

mão dela e, como vinha embaraçado, o fez vir abaixo, e ambos pegados 
na lança viéráo aos braços, e quis sua fortuna que acertou com Francisco 
Pinto, que forçoso e mancebo era, que o levou debaixo e, tirando-lhe a 
espada da mão, o degolou com ela, ficando Francisco Pinto com duas 
feridas, e Orelhas lhe cortou a cabeça, que os moços trouxérão á vila. 
Foi este feito de Francisco Pinto arriscado, por o negro ser homem rijo 
e poder acertar com homem que não tivera tanta força e que fora senhor 
dele, e matando-o levava os moços. 

Outro acerto, como este, aconteceo a uns monteiros, que, andando dez 
de cavalo monteando em Taurete, os três deles fôrão matar um porco 
junto do Soveral d'Alvalate e, em tanto que o partirão, deixarão os cavalos 
pacendo em um brejo, onde acertarão a estar oito mouros de pé cres- 
tando, os quais, vendo os três cavalos e os donos embaraçados com o 
porco e o descuido deles, que lhe podíão tomar, eles, deixando os odres 
de mel e melhorando-se, tomarão os três cavalos e fôrão cometer os 
nosos, e eles se defenderão mui bem com esforço que os outros os socor- 
reríão, mas os mouros, que a cavalo estávao, deixarão os cinco ás lan- 
çadas com os três, parecendo-lhe que abastávão, e, tomando vista dos 
outros monteiros, e como visem que se vínhão chegando, tornarão rijo e, 
cometendo todos juntos os três, os pusérão em trabalho e matarão um dos 
cavalos. Os mouros, não ousando fazer detença, se apartarão e se fôrão 
avendo o Soveral ás mãos ; os nosos três, que Roque Ravenga, Afonso 
Gonçálvez e o Vilhalva érão, se pusérão em um outeiro, donde capearão 
aos companheiros, e, acudindo, [os] ' virão ir a pé e, dando rebate, os 
seguirão e, entrando no Soveral, dérão neles e os desbaratarão, matando 
dous e tomando vivos outros dous; e os dous de cavalo se acolherão, 
indo demandar a ribeira da Graciosa, por onde pasárão, deitando-se 
a nado, que, como os nosos acudirão e os cavalos estávão descansados, 
fizérão-lhe muita ventajem, e tãobem porque os que os seguirão não fôrão 
mais de três, porque os outros ficando a pé e três com os dous mouros 
tomados, e desta maneira os nosos monteiros por três cavalos trouxérão 
dous mouros, que ouve pêra se pagarem os três cavalos, e, o que mais 
foi de rir, trazerem os mouros os odres de mel que tínhão crestados, com 
que entrarão carregados e os moços da vila dando-lhe gritos. 



I. [os]/. BNM. 



— 270 — 

CAPITULO LXIX 

Como o conde foi a Benamares 



A este tempo Diogo da Silveira tomou quatro mouros, indo correr a 
Meneara, os quais tomou na Ribeira Grande, e um deles logo 
dise que queria ser cristão e daria úas casas que estávão em Be- 
namares. O conde ouve seu conselho e asentou í-Ias tomar, contra sua 
vontade, não pô-lo risco que em as tomar podia correr, senão porque o 
conde era de contrario parecer d'outros capitães, que os mais desejávão 
tomar e destruir aldeãs. O conde dezia que mais queria ter povoadas as 
aldeãs de Benamares e Benagorfate e Farrobo que despovoadas, porque 
sempre rendíão, tomando mouros e gado, e, quando avia necesidade de 
aver nova, com pouco risco tomava Ga lingoa ; mas por ora, pondo todas 
estas rezões a um cabo, mandou dar ás trombetas, e, saindo da vila, 
fomos tomar a primeira folga ao Xercão, e, entrando pola boca de Capa- 
nes, faldrejamos Benamares, pola parte de dentro, guiando-nos o mouro, 
e, em rompendo a menhã, o conde fez decer corenta de cavalo que com 
o mouro desem nas casas, os quais, ou por o mouro se fazer erradico, ou 
por não acertar, dérão em um arrecife de pedras, onde em cima dormíão 
algúas cabras, e, á grita que os nosos dérão, acudimos os de cavalo e, 
cercando o arrecife, não achamos mais que cabras. O mouro se achou 
enleado, e, como o arrecife era lugar conhecido e asinado, o mouro e 
almocadem quis ir diante, em busca das casas, e, como já era menhã e 
avia rebate, não alcansárão mais que quatro almas, que de úa das casas 
sairão, que, como as casas érão mais afastadas úas das outras, não 
pudérão chegar, nem queimar mais que úa só casa. O conde como che- 
gou ao recife com sua bandeira e não achou casas, nem aldeã, se reco- 
lherão tão de vagar que o sol era saido quando começamos a sair do 
arrecife, o que fizemos sem pendença, por na serra aver pouca jente e os 
da aldeã principal, que Benamares chamamos, estar lonje e não acudir até 
segurar suas molheres e filhos, que entendemos que se cem vilões acudirão 
nos fizérão dano, segundo a serra' é fragosa; mas juntamente com isto nos 
pareceo um paraiso terreal, e por bemaventurados tivemos os que aquela 
serra' e lugar habítão, porque decemos por entre duas fontes de clara e 
fermosa agoa, que duas caudalosas ribeiras fazião, regando muitas arvo- 
res, entre as quais avia muitas romeiras, cidreiras, laranjeiras que lustrá- 
vão tanto que apagávão a verdura das folhas, e á vista destas fermosas 

I. serra] terra B. 



37 I — 

arvores ha muito grandes e fermosos nogais, e outras arvores mais comuns 
a nós outros, como figueiras, ameixieiras, tudo sombrio e tão saudoso 
que, posto que posuido de nosos imigos, nos pareceo tão bem que ouve- 
mos enveja aos que de tal lugar gosávão. Entre estas arvores avia muitas 
e mui grandes courelas de terra grosa, que no verão abrem grandes gretas 
e dão muito fermoso pão e milho, que eles châmão adorra, que é da 
casta que nós chamamos zaburro, senão que é mais alvo e muito milhor. 
O asento desta serra' de Benamares : está atravesada a sueste de Arzila e 
tem duas legoas de comprido, e da parte do sul vai juntar-se com a de 
Benagorfate e faz úa boca, que é a de Capanes, e fícao as serras tão 
juntas que mui bem se ouve [de úa á outra] ^. Avia nesta serra ' muitas 
e grandes aldeãs, mas muito maior é a de Benagorfate, a qual com tanta 
guerra e dano que lhe fez Diogo da Silveira ficarão oito ou dez aldeãs 
despovoadas ao tempo do noso despejo. Isto basta por agora e tornemos 
á nosa saida da serra '. 

Recolhidas quatro almas e doze vacas, que em íia casa se tomarão, 
as cabras fôrão despedaçadas e feitas quartos, tomando cada homem de 
cavalo seu pedaço, e alguns ouve que as trouxérão vivas ante si; e, saidos 
que fomos da serra, a faldrejamos e viemos a demandar a boca de Bena- 
mares, onde nos viérão demandar três de cavalo. Pedindo licença ao 
conde, viérão ante ele, pedindo lhe fizese mercê e esmola das vaquinhas, 
pêra ajuda do resgate da pobre molher que trazíamos, e isto com tanta 
piedade que a todos movíão a compaixão e éramos de vontade que lh'as 
desemos, mas o conde, como lhe não ficase cousa por entender, dise aos 
mouros que tomasem três bois ou vacas, de que lhes fazia mercê, e que 
as outras érão pêra se pagar o mouro almocadem e algúa perda, se na 
cavalgada ouvese; e, tomando os mouros as vacas, se sobírao ás tran- 
queiras, onde parecia estar cem vilões adargados, e, pasando ao longo das 
tranqueiras, saimos da boca e nos ouvemos em Benamandux e muito cedo 
viemos á vila, e o almocadem se pagou e os almogaveres. O conde o 
recolheo até se mais omiziar, o qual não fez, porque, tornando a ir fora 
com Manuel Coutinho, não fez nada, antes veio preso, porque dezíão se 
meteo por um córrego que não tinha saida, e que, embaraçados os nosos, 
se quisera esconder; e, posto que de todos veio condenado, o conde o não 
prendeo, nem lançou ferros, antes o trouxe em sua casa, dando-lhe boa 
palavra, que ele o mandaria fora, quando ouvese nova, e o mouro, de 
enfadado e desfavorecido, se deixou úa noite ficar fora, mas, como tra- 
zião o olho nele. Rui Carvalho, porteiro da porta, que o vio sair e não 
tornar, o fez saber ao conde, e, fazendo-o buscar, foi achado e trazido 
ao conde, mas não com tão clara prova que parecese que ficava pêra se 
ir; e, feitas as preguntas que pêra que ficava e onde ia, dise que por se 

I. serraj terra B. — 2. [de úa á outra] /. B NM. Veja-se tom. 1, p. g6, l. 10. 



— 272 — 

lavar na couraça, e que lhe parecia que o podia fazer, antes que a porta 
se cerrase : o conde, todavia, lhe mandou lançar ferros e, como trazia 
escrúpulo, se era culpado, depois Ih'os mandou tirar e andou sem eles até 
que se foi; e asi acabarei o ano de trinta quatro. 



CAPITULO LXX 

Lembrança da tomada de Timei polo emperador Carlos Quinto 



NÃO é pcra deixar de pôr em lembrança a pasada que neste ano de 
trinta cinco fez o emperador, Dom Carlos, rei de Castela, em 
Africa, e tomada da grão cidade de Tunez, e a restituição que 
dela fez a el-rei Mulei Acem ', que despojado estava dela por Barbarroxa, 
rei de Arjel e capitão jeral do Grão Turco. As meudezas que nesta 
grande empresa pasárão não poderei contar, somente direi a causa que 
moveo ao emperador a tomar esta empresa e a ajuda que el-rei noso 
senhor lhe fez, e logo torno a minha Arzila; e isto direi por o saber de 
mouros de Tunez que ouve nesta cidade e levei a Arzila e os resgatei. 
Morto el-rei Cimão, rei de Tunez, reinou seu filho Mulei Acem ', o 
qual se mostrou cruel e severo em matar muitos de seus irmãos, e. espa- 
Ihando-se, um veio ter a Milão, a casa do marquês dei Guasto, e outro 
foi ter a Constantinopla ao Grão Turco, que, como ouvese de mandar úa 
grande armada contra cristãos, a encomendou a Barbarroxa, seu jeral, a 
qual veio ter a Goleta, porto principal, junto da cidade, e, tratando com 
os principais sobre a reconciliação dos irmãos, deteve os mais principais, 
por cujo medo el-rei, como era malquisto, desemparou a cidade e se foi 
aos alarves, com quem tinha parentesco por parte da mãe, e Barbarroxa 
entrou na cidade de Tunez e se fez rei e senhor dela; e, como com el-rei 
se. achase Luis de Prezenda, jenoês, de que já hei feito menção, que do 
reino de Féz se alçou com o resgate de Portumao, capitão jeral das galés 
do emperador, este Luis de Prezenda moveo el-rei a que se socorrese do 
emperador, pedindo-lhe socorro, e se fizese seu vasalo, o que el-rei con- 
cedeo, e o Luis de Prezenda veio com este requerimento, ao que o em- 
perador tãobem concedeo, por desarraigar e desaposar Barbarroxa de reino 
tão vezinho aos reinos de Nápoles e Sicília; e, fazendo úa grosa armada 
de muitos navios, pasou em Africa e tomou a fortaleza da Goleta, por 
força de armas, e depois levou suas bandeiras á vista da cidade e a entrou 
e tomou, cativando e matando os mais dos moradores; e Barbarroxa com 
os turcos e mais de sua valia fojio e se foi a Bona, cidade antiquisima, 

I. Acem] Macem B M. 



— 273 — 

dezoito legoas de TQnez, onde se formou algúas galés e se foi por mar, 
como grande e astuto capitão. Desta ida tomou e saqueou um lugar da 
ilha de Menorca. 

Para esta armada e empresa do emperador, mandou ajuda de navios 
armados el-rei, noso senhor, o qual lhe mandou vinte cinco caravelas, mui 
bem armadas com tiros de coxia, como galés, e um galeão grande, que 
naquele tempo era o maior e milhor armado que navegava polo mar, e 
asi mais fôrão duas barcaças com muita artelharia, pêra lançarem jante 
am terra ; fôrão mais duas nãos grosas com mantimentos e munições. 
Destas vinte cinco velas foi por capitão-mór António de Saldanha, e levava 
nesta armada dous mil e quinhentos homens, que nesta empresa se asi- 
nárão, por irem por capitães das caravelas mui honrados fidalgos e cava- 
leiros; e por terra, pola posta, foi o ifante Dom Luis, e trás ele muitos e 
mui honrados fidalgos, que por rol el-rei mandou, com que o emperador 
muito folgou; e, por el-rei ' nesta jornada nomear o conde do Redondo, 
capitão de Arzila, e o desejar, direi o que dise diante de tantos e tão ex- 
celentes capitães, como diante dele avia; o dia que fôrão á vista da cidade 
e Barba Roxa saio com muita jente e ouve entre os de cavalo escaramuça, 
o emperador dise contra o ifante: «Qem nos dera aqui o voso conde do 
Redondo com suas dozentas lanças pêra ser capitão e mandar estes jine- 
tes». Certo que foi muito louvor pêra quem tão lonje estava. Tomada 
a cidade de Tunez fôrão todos os mais dos moradores mortos, cativos e 
trazidos a Espanha, Itália, Alemanha. A cidade foi restituida a Mulei 
Acem -, ficando por vasalo do emperador, com tributo bastante a sus- 
tentar os soldados que na fortaleza da Goleta avião de ficar; mas isto 
durou muito pouco, porque os moradores da cidade de Tunez, escanda- 
lizados da crueza d'el-rei e do saco e destruição de sua cidade por causa 
d'el-rei, se levantarão e lhe tirarão o reino e tomarão por rei a um seu 
filho. 

Pois vendo-se o pai despojado do reino, se pasou a Sicilia, a João da 
Veiga, que estava por visorrei, o qual o agasalhou e o teve em muita 
honra até sua morte; e no ano de cincoenta, por mandado do emperador, 
mandou embaixadores ao filho, rei de Tunez, fazendo-lhe saber que érao 
vindos por mandado do emperador a trazer-lhe el-rei, seu pai, pedindo-lhe 
o restituise no reino e pagase as parias que el-rei, seu pai, era obrigado 
a pagar. O rei de Tunez respondeo ao principe que ele não devia parias 
ao emperador, por não ter o reino da sua mão, como seu pai, e que o 
emperador o tomara a Barba Roxa, rei de Arjel, e com muito gasto a tra- 
balho o rastituio a seu pai, e que por esta causa era seu pai obrigado a 
pagar parias a fazer outros muitos serviços ao emperador, e que ela que 
o tinha da mão do povo, que escandalizado das cruezas de seu pai lhe 

I. el-rei: o autor quis dijer o emperador. — 2. Acem] Macem B M. 

ANAIS DE ARZILA 35 



— 274 — 

tirarão o reino c o dérão a ele, e que se o emperador o quisese por amigo 
e servidor sempre suas armadas acharíao acolhimento em seus portos, e 
pêra refresco da armada lhe mandou um refresco de muitas vacas, car- 
neiros e galinhas; e, quanto ao restituir o reino a seu pai, que o não faria, 
por ele estar mal com o povo, porque, tirando-lh'o, o darião a outro de 
fora, de maneira que ambos ficaríao sem reino e o emperador desser- 
vido; e, com estas palavras e outras, em que parecia ter rezao, se escu- 
sou, e o principe, desta vez, tomou dous lugares, e, fazendo aos mora- 
dores recebesem Mulei Acera ' por rei e ' senhor, os deixou. 

Trouxe isto comprido, por que, já que esta pasada foi no ano de trinta 
cinco, de que vou falando, se saiba a causa porque o emperador tomou 
esta empresa. Porque tenho dito que o Luis de Presenda foi o movedor 
dela e veio ao emperador, tornando com recado e presteza, de certeza 
que o emperador iria em pesoa, foi tomado por galés francesas e levado 
a Barba Roxa, e, preguntando-Ihe pola armada que já soava e se fazia, 
preguntou se o emperador avia de vir nela, ao que respondeo que o não 
sabia; e, ao tempo que dos muros de Túnez virão as bandeiras, em espe- 
cial com as das insígnias das águias. Barba Roxa o mandou vir perante si 
e de iãa torre lhe mostrou as bandeiras e lhe preguntou se aquelas águias 
érão do emperador, e, como respondese que si, o fez enforcar da torre 
abaixo, dizendo-lhe: «Tu o fizeste vir e me mentiste, negando-m'o», e asi 
acabou o misero de Luis de Presenda, sendo um dos mais asinalados 
homens da cristandade, por sua jentileza, disposição e habilidade. Ao 
emperador pesou desta morte de Luis de Presenda e pasou duas cédulas 
de dote pêra casamento de duas filhas, que tinha em Cáliz, as quais 
trouxe Gonçalo Pírez de Galhegos, cavaleiro principal de Xerez de la 
Frontera. 

CAPITULO LXXI 

Co)?io Dom Aleixo foi este ano por provedor 
dos lugares de Africa 



NESTE ano, el-rei mandou por provedor e visitador dos lugares de 
Africa Dom Aleixo de Meneses, filho do conde de Cantanhede, 
para que, correndo os lugares, fizese alardo e vise a jente das 
ordenanças e riscase os que lhe parecese que não érão pêra servir, e asi 
os cavalos ; e, polo que em Arzila fez, parece que asi o faria em os outros 
lugares. 

Tanto que chegou a Arzila mandou fazer alardo c vio toda a jente, 

I. Acem] Macem B M. — 2. c] o B M. 



— 275 — 

as a de cavalo como a de pé, c riscou alguns homens de cavalo, asi por 
lhe parecer que os cavalos érão gastados, como por os donos serem ofi- 
ciais ; e do que mais se pode espantar é ver o pouco que neste reino 
valem os homens que muito servem e merecem em Africa, porque riscou 
dous homens velhos, dos mais honrados e que milhor tínhão servido 
naquela vila. Um foi Artur Rodríguez, juiz e alférez, que o foi mais de 
corenta anos, sendo sempre muito bom cavaleiro e pondo sempre a ban- 
deira em seu lugar e sempre sérvio muito bem; e três filhos que teve, os 
dous érão mortos ás lançadas poios mouros, um á entrada de Arzila, o 
dia que Dom João de Meneses desembarcou, que Diogo Rodríguez avia 
nome; e outro Francisco Rodríguez, que morreo no ano de dezaseis, que 
se encontrarão seis almogaveres nosos com nove mouros, e se apartarão 
depois que Francisco Rodríguez foi morto e Roque Coelho a pé, como já 
contei no ano de quinhentos e dezaseis; o outro era António Rodríguez, 
alcaide da saca ' e veador do conde, muito grande cavaleiro. 

E o outro que se riscou foi João Fernândez Torres, por abastado, o 
qual era rico de casas e terras, e sempre teve dous jinetes na estrebaria e 
mouros que os curávao. Era homem velho, determinado e ousado, e 
que o ano d'antes o vi no vale de Jorje Vieira, diante do conde e de outro 
fidalgo, encontrar um lião, que, estando diante do lião, esperando por 
André d'Elvas, que viese com a espingarda, João Fernândez, cheio de 
cólera e enfadado de esperar, remeteo, dizendo: «Asi pese a tal se mátao 
os liões», e, encontrando-o, pasou como um trovão, e logo o conde car- 
regou com lanças de arremeso e o matarão. Foi esta temeridade de 
João Fernândez Torres atribuída mais ao vinho que a valentia, porque o 
conde ficou enfadado, posto que o lião foi morto, e dise que já João Fer- 
nândez podia escusar de ir fora, polo desmancho que por sua causa 
aquele dia se pudera fazer. 

Outro homem velho foi tã'obem riscado, que pôs escândalo, que foi o 
Jibre Velho. 



I. da saca] do saco B NM. Era o alcaide que superintindia na saída das mercado- 
rias de uma localidade. 



SUPLEMENTO 



ARZILA DE i535 A 1549 



O texto de Bernardo Rodrigues acaba, como vimos, no ano de i535, 
no principio, porque só relata dois sucessos dele : a conquista 
de Tunes e a visitação de D. Aleixo de Meneses aos lugares de 
África. Como, porem, a vila só foi despejada em agosto de ib^g, damos 
a seguir todos os documentos de arquivo que pudemos haver dos anos 
que ainda foi portuguesa. Foram todos copiados dos originais do Arquivo 
nacional da Torre do Tombo e da Biblioteca nacional de Lisboa, con- 
forme se diz nos lugares devidos. 

Alguns só indirectamente importam a arzila: são os que, escritos de 
Fez, de Tetuão e de outros lugares, falam de Arzila ou de factos que 
respeitam á sua defesa e segurança. Estão neste caso as numerosas 
cartas de Sebastião de Vargas, que lançam luz sobre o estado político do 
país. Infelizmente, algumas delas, ainda que sumariadas no índice, não 
foram encontradas, no momento da nossa busca, nos respectivos maços 
do Corpo cronológico do Arquivo nacional. Passavam-se ao tempo 
sucessos graves no reino de Fez, ou sejam as tentativas dos xerifes de 
Marrocos e Suz para se fazerem senhores dele. Nos nossos arquivos 
abundam os documentos relativos a elas. Podia mesmo fazer-se grande 
parte da história dos xerifes com eles, desde o seu aparecimento no Suz 
até que reuniram os reinos de Marrocos e Fez sob a sua nominação. 
Foi, de facto, com eles que teve de defrontar-se o esforço dos portu- 
gueses desde o princípio do século xvi. Esses documentos ajudam, pois, 
a compreender o abandono que se fez de Arzila e de outras praças. 

Para facilitar a composição e a leitura, sem prejuízo da pureza dos 
textos, regularizamos deste modo algumas das variedades gráficas deles, 
a saber: 

1. Os nomes próprios, de pessoa ou de lugar, vão sempre com 
maiúscula, e os comuns com minúscula, nas condições actuais. 

2. As iniciais de documento ou de parágrafo vão sempre com maiús- 
cula, nas mesmas condições. 

3. As abreviaturas foram desdobradas. 

4. Separaram-se as palavras que o devam ser, quando unidas no 
texto. 



— 28o — 

5. R foi substituído por rr nos nomes comuns ; manteve-se nos nomes 
próprios, ou quando inicial de período. 

6. Substituiu-se u por v sempre que tinha este valor. 

No mais reproduzimos fielmente os originais, sem pontuação, sem 
marcação de acentos e com todas as outras irregularidades gráficas dos 
documentos. 

Estes documentos vão dispostos por ordem cronológica ; quando o não 
puderam ser, por não estarem datados, demos-lhe a que o assunto tra- 
tado parece indicar. 



Segunda capitania 
de D. João Coutinho, conde do Redondo 

(Continuação) 

I 

9 DE AGOSTO DE i536 

Carta de Miilei Abraem ao conde D. João, capitão de Arzila. — Dd-lhe 
parte do desastre que el-rei de Fe{ e élc sofreram dos xerifes nas 
margens do rio Guadelabi. — A tribu dos colotos, que formava a 
dianteira do exército, pòs-se em fuga e com ela o resto das tropas reais. 
— Assim o manda di^er ao conde porque tanto o rei de Fe^ como o de 
Portugal desejam atalhar os progressos dos xerifes. 

Manjfico senhor. Porque sej que vosa senhoria terá pajxam de nosa 
mofina e desbarato detremynej a fazer este coreo pêra lhe dar conta tam- 
bém por que lhe averão dito majs do que ha pasado e por yso lho quero 
fazer a saber pojs sam cosas estas que vem por Deus nom lhe podemos 
majs fazer que louvalo nos hotros fornos ate domde ho xarjfe estava sobre 
hum rjo que se chama Guajde Laby e achamolo da hotra parte apare- 
ih[ado] com todo seo enxersjto e pousamos cada hum da sua parte do 
ryo que nom havja majs que ho ryo entre nos hotros e ay nos mando[u] 
acometer mujtos partidos com mujtos santos de nos hotros que todas as 
horas vynhão a nos hotros dizendo que fazya todo quanto lhe pedj^symos 
como quer que hera hordenado per Noso Senhor que havja de aconteser 
o que se fez nunca qujsemos vjr a nenhúa boa concrusão de menejra que 
sesta feyra vynte e quatro de julho detrymjnamos de pasar da hotra 
bamda com a nosa... que tjnhamos e dar no xaryfe ho quall asj foy que 
pasamos dous tjros pyquenos e toda a jente asj el rrej como heu com hos 
alcajdes todos e nos ajuntamos tanto que hestivemos mujto perto das 
tendas do reall do xaryfe e trabamos nos huns com hotros asertarão serem 
djante hos colotos e na primeira afronta loguo nos fugyram e foj de tall 
maneira a quebra delles e quebrarão toda a jente de tall maneira que 
nom se acho[u] com el rrej e heu senão mujto poça jente menos de trynta 
de cavalo que tyvemos que fazer em defendelo ate recolher se a pasar ho 
ryo e djpois de cortado ho ryo que nos recolhemos ao noso reall cujdando a!j 

ANAIS DE ARZILA 36 



— 282 — 

nos tornar a reformar achamos nom aver nenhúa jente que hera toda fogjda 
e tudo estava ja vazio e com mujto trabalho podemos salvar nosas molhe- 
res e filhos e ysto com mujto trabalho e mujtas sehetadas e jente que nos 
defendíamos e todo ho demajs que levamos com todo ho reall asj como 
bestava asentado ho dejxamos sem hotra cosa ergermos este desbarato foj 
por Deus hordenado sem aver peleja nenhúua porque de toda a jente deste 
rejno nom morerão xx pesoas e syncoenta cavalos que toda ha hotra jente 
vejo com seos cavalos e camelos el rrej e heu entramos em Fez a ja des 
dias e todo ho rejno esta asentado e nom hove mudansa nenhuúa da que 
dantes estava hum filho matarão a el rrej estando junto com hele de húa 
espyngarda ysto he ho que senhor pasa ej lhe querydo dar hesta conta 
pelo que sej que lhe a de pezar por noso deshastre espero em Deus nos 
aja de ajudar pêra restetujr ho pasado se vosa senhoria de mjm ho desse 
rejno mandar algúa cosa se fará [mi'|lhor que dantes as mãos da senhora 
condessa bejo e Deste Fez 9 de agosto de i5^6 anos. 

iJ iJjó' ^ ' ^_y=^ ,_» > vAJ 1 

«Por ordem de Abde Alah Ibrahim, filho de Ali, filho de Ráxede, 
xerife Deus excelso o favoreça!». 

Sobrescrito : Ao mujto men3'fyco senhor ho senhor conde dom Joam 
Coytynho. Arzila. 

De Moley Abrahem de . . . De Fez a ix d agosto. Pêra o conde do 
Redondo. — i536. 

Arquivo nacional! da Torre do Tombo, Corpo cronológico, 
parle 2.', maço 5~, ii." 82. 

II 

i5 DE AGOSTO DE i536 

Carta do capitão de Ar:{ila a et-rei D. João III. — Remete a carta de 
Mídei Abrahem sobre o desastre das tropas reais e outra de Rute. — 
Rute queria vir/alar com ele para lhe propor pa^es da parte de el-rei 
de Fe\. — O capitão di\ a el-rei que se deve tomar o partido que mais 
convier, e não aceitasse compromisso com o xerife sem saber o que ofe- 
rece el-rei de Fe^. — Que se devia sobrestar no que respeitava aos 
judeus. — Que havia falta de trigo na vila. 

Senhor. Porque me pareçeo que estam as cousas despostas pêra se 
moverem algúas cousas de servyço de Deus e de vosa alteza lhe mando 



— 283 — 

esa carta de Molley Abraem que me agora mãodou sobre este desbarato 
de el rrey de Fez e asy esoutra que me espreveo Rute judeu que vyve 
em Fez e as asy as forças doutra que tãobem espreve a seu jrmão para 
que as vosa alteza todas veja e posa llamçar mão do que mays vyr que 
compre a seu servyço porque o tempo esta para asy gerra como paz ho- 
ferecydo para mujta cousa de seu servyço e de quoallquer que vosa 
alteza quyger llançar mão esta aberto poder ser agora mays que hem 
nenhum outro tempo e porque me este judeu espreve que quer vyr fallar 
comyguo no que me ja allgúas vezes toqou querya que vossa alteza nom 
liamçase mão de nenhum partydo que se lia cometese por parte do xaryfe 
sem ver ho que qua pode rresulitar ho que me vem acontecer porque 
dy poderá vossa alteza aseytar ho que vyr que he mays seu servyço e 
mays homra de seu rreyno e seu estado porque eu ey que cada hum delles 
que tyver seguramça de vosa alteza ou seu favor aquabara de destroyr o 
outro e pêra que me vosa alteza lloguo rrespomda mãondo lia ese homem 
meu a m.e lloguo trazer rrequado do que a por seu servjxo porque my- 
nha jda esta a pyque e dom Manuel! também aballado ç pareçermya bem 
por agora nom maodar vosa alteza boliyr com os judeus emcoanto se 
estes negocyos abrem por elles e depoys fiqua tempo pêra tudo ho que 
mandar esta vylla começa a ser mall provyda de tryguo e dyzenos que 
nos a de vyr de Lyxboa beziarey as mãos de vosa alteza nam se lleyxar 
esquecer delia porque ate gora nos sostemtamos de nosas Uavoyras. Noso 
Senhor acresente vyda e rreal estado de vosa alteza. D Arzylla a xb djas 
d agosto de myll b'= xxxbj. Ho conde dom Yoam. 

Sobrescrito : A e!l rrey m[eu senhor]. 

i536. — Do conde do Redondo de xb dias d agosto — i536. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.\ maço 5-, n." 84. 



— 284 — 

ni 

3 DE DEZEMBO DE i536 

Carta do capitão de Ar^^ila a el-rei D. João III. — Mulei Atraem man- 
dara rcg)\'ssar Rute, que viera para pa^es, a Fe:^, visto que havia 
tanta demora em ultimá-las da parte dos cristãos. — Di^ que Mulei 
Abraem vai contra Tédula, em poder dos xerifes. — Rute perguntara 
se havendo el-rei de Fe\ guerra com os xerifes el-rei de Portugal 
mandaria a favor de seu amo armada ou gente de Safim e A\amor ou 
iria contra Taricuco e Tafetana, no Su:{, pertencentes aos xerifes. — 
O capitão respondeu que el-rei não tomava compromisso sobre isso, mas 
que nunca deixara de defender os reis seus amigos. — Rute ficara de 
falar sobre isto a Mulei Abrahem e logo diria o que passasse. 

Senlior. Sobre o negoçyo das pazes sobre que veyo Jacob Rutte 
depoys daquy jdo por húa carta que lhe Molley Abrahem mãodou em 
que o mãodava chamar e lhe dezya nella que se fose porque bem ssabya 
que os crystãos não avyam de querer o que elle quysese nem nos ho que 
elle querya asy que era esqusado sua estada e porem que elle esperava 
me espreveo Jacob Rutee de tudo aver fym posto que este negoçyo se 
danava porque se fallava nelle por outras partes e que ámostravão mays 
gosto em se fazer do que elle emtemdya em mym e que me fazya jsto 
saber porque dezejava de me servyr e que eu me devya de por em rre- 
zão por que se não fyzese por mãos doutrem a )sto lhe rrespomdy que 
eu nam sabya quem tyvese mays rrezão de as dezejar que eu por muytas 
rrazões porem que eu lhe sertefiquava que a vosa allteza não ousase de 
lhe fallar nyço senão com lha fazerem tamtas avantagens que emtão lhe 
pudese manyf}'star a merçee que eu rreçeberya em se fazerem porque 
nunqua fallara com vossa alteza nyso que pudese emtemder nelle follguar 
com ellas nem querellas ssenão com mujta homra dee seu estado e de 
seu rreyno e com aver que nos fazya nyço merçe e que se outrem sabya 
outra cousa que o fyzese mujto embora porque eu daquy não querya 
mays que avellas e nysto crea vossa alteza que nom he querer me fazer 
tyzouras senão trazer see allgum negoçyo de qujdarem que vosa allteza 
nyso podya ser servjaio e como todos qucryamos ser os prymeyros por 
o servyr otro que em allgúua cousa faryamos será esta a temção e tamto 
que soubermos de vosa allteza que o nyso nam servymos nom fallara 
nymgem seenão no que lhe mãodarem e njsto mee fará vosa allteza merçe 
se allgíja cousa mãodar ser sem esquamdallo poys não erra as temções 
a seu servyço e eu fyzese jsto saber por que me pareçeo que o devya a 
seu serv3fço e porque não tynha llycensa de vosa allteza para lhe poder 



— 285 — 

dyzer se o nyso desservya e qujdarão que podyão ser ciúmes em que se 
danara mays no negoçyo Molley Abraem vay a Tedulla com três ou qua- 
tro myll de cavallo e com espymgardeyros que pode aver pollo rreyno e 
com duzentos que lhe maodou ell rrey de Belles dyzem que a temção de 
sua jda aguora he que com os mujtos jmvernos e rrebeyras cheas não 
pode ser saquoryda do xaryfee e que eses que ahy estão na fortalleza 
são pouquos e que allguns da vylla querem se dar a ell rrey de F^ez que 
são allguns dos que ahy estavão quamdo se perdeo mas eu qujdo que 
trará de llaa o rrequado que trouxe da outra vees o que for eu ho farei 
lloguo saber a vosa allteza e emtemdo que lleva allguns de Xuxuão e Tu- 
tuão e asy d AUcasere quamto o que vosa allteza apomta em outra carta 
sobre os das fustas que se não acolhesem doutra partee avendo ahy pazes 
o mesmo Rute me fallou nyso e por jso e por não ser tempo de se 
ahymda apomtarem partyqullydades see não fallou mays nyso e asy pra- 
tyquamdo comyguo me dyxe que se ell rrey de Feez temdo pazes com 
vosa allteza lhe comprysee hyr comtra o xaryfee ou o xaryfee vymdo a 
elle see vosa allteza pagamdo lhe elle a despeza se farya armada ou for- 
neçellos seus lluguares d Azaraor e Çaafym de geratee e mamdar por mar 
ou por terra a Tarycuquo ou a Tafetana a jsto lhe rrespomdy eu que 
por apomtamentos que eu não apomtarya nada a vosa alteza para obry- 
gação porem ho que delle vy que nenhum rrey seu amyguo nunqua ouve 
myster de vosa allteza ajuda nem de gemte neem de dinheiro que lha não 
vyse dar nam semdo em partee em que vosa allteza pudese ter obrygua- 
ção de ho não fazer quamto mays quamdo allgum rrey see metese debayxo 
de seu emparo e defeza comtanto que lho não meetese em obrygação se 
não avemdo que vossa allteza lhe fazya nyso merçe e elle rreceberado a 
com as comdyções que elle dezya eu não averyya por mujto vossa alteza 
foUgar de lhe fazer nyso merçee e comtudo fyqua Rutee que da vymda 
que Molley Abraem vyer me esprevera mays de vaguar asy neste nego- 
çyo como no mays que lhe aqueser e de tudo farey ssaber a vosa allteza 
tamto que me rrequado vyer. Noso Senhor acresente vyda e rreall estado 
de vosa alteza. D Arzylla a iij dias de dezembro de j b°xxxbj. Ho conde 
dom Yoam. 

Sobrescrito: A ell rrey meu [senhorj. 

Do conde do Redondo de iij de dezembro. 

Arquivo nacional. Corpo cronológico, parte /.», maço 58, n." 16. 



286 



IV 

9 DE AGOSTO DE iSS; 

Carta do capitão de Arzila a el-rci D. João III. — Remete cartas de el-rei 
de Fei e de Mulei Abrahem sobre o estado de guerra entre cristãos e 
mouros e com alguma raT^ão se queixam eles. — Espera ordens sobre 
isto. 

Senhor. Hojee oyto dias d aguosto depoys de ter espryto a vosa 
allteza e dado esas cartas que me vyerão deli rrey de Fez e trellados a 
que a jso rrespomdy a hum homem que as Uevasse ho corregydor que a 
grão preça as mandase a vosa allteza me tornou este rrequado deli rrey 
de Fez e de Molley Abraem que pêra a mynha arte posto que eu vejo 
que nom pode ser ter paz com ell rrey de Fez e gerra com elle dezeyey 
de ho atochar porque vejo que he querer se vender ajmda que elle aguora 
tem aligúa rrezão de se m[e] yr ho perder ho trato das suas fustas porque 
lhe vyerão dous bargamtys com húa nao tomada como lhe nysoutra 
esprevo e húa fusta de LIarache com jsoutros dozaseys crystãos e porem 
poys jsto nom a de ser quys lhe rrespomder a sua carta as rrazões que 
hy avya pêra não podermos ter paz senão temdoa todos ou gerra como 
damte tynhamos estas cartas de Molley Abraem como vossa allteza vera 
vem mostramdo tamta comtrusão neste negocyo que parese aver hy pou- 
quo que fazer e porem sempre ho desarma com huns byquos em que se 
não pode aver nada por fyrme nem também poder lleyxar de trazer nego- 
cyo nyso vosa allteza me rrespomda o que sobryso a por seu servyço por 
que emtão tomarey tam sertã detrymynação que não amde jsto majs no 
campo e porque por todallas cartas e rrepostas vosa allteza vera ho que 
he pasado nom esprevo mays llarguo sobrysto a vosa allteza senão que 
Noso Senhor acresemte vyda e rreall estado de vosa allteza. D Arzylla a 
ix djas d agosto era de j b^xxxij. O conde dom Yoam. 

Sobrescrito: A ell rrey meu [senhor]. 

iSSy — Do conde do Redondo de ix dias d agosto — iSSy. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico., parte /.*, maço 5g, n." 28. 



287 



V 

29 DE AGOSTO DE ibij 

Carta de Mitlei Abraem ao capitão de Arzila. — Deseja muito que se 
façam pa^es entre os dois reinos; pedia para isso o treslado das que se 
fiíeram com seu pai, Mulei Xeque, e logo tnandari a pessoa de confiança 
com Rute para as assentar. — Está já velho, mas não o conde, porque 
gasta o tempo em servir as damas. 

Mujto manyfyquo senhor. Eu rreçeby as cartas de vossa senhoria e 
nellas vejo a vomtade que tem pêra me fazer merçe a quoall lhe mereço 
eu e quoamto por my fyzer porque crea vossa senhoria que eu não de- 
zejo ali senão servyllo e lleyxo jsto porque sey que a dias que vossa 
senhoria me conhece quoamto senhor ao conserto que me na sua dyz que 
meu pay que Deus tem tynha feito e que também estava nas pazes eu 
senhor dyguo que tudo quoamto meu pay que Deus tem tynha feito e 
asentado que eu ho outorguo e asemto da mesma maneyra que as elle 
tynha asemtadas e feitas pêra que Uoguo vejnha jsto a comcrusao lhe 
peço que me mãode por Rute ho trellado do asemto que meu pay que Deus 
tem tynha asemtado e emtão maodaremos húa pesoa que nos bem pareser 
com Rute pêra que lloguo as asemte com vossa senhoria e não amdare- 
mos em mays dyllações e quoamto senhor a muUa que me vossa senhoria 
mãoda dezer eu lhe beyio myll vezes as mãos e crea senhor que polia 
comfyamça que nelle tenho porque sey que me não a de negar coussa me 
atrevo em mãodar lha pedyr porque não mãodo pedyr a vossa senhoria 
senão como mãodallo pedyr a mynha casa e asy lhe peço que faça esa 
comta da mynha porque nyso rreceberey mercê e quoamto senhor ao 
sombreyro por elle se não agaste porque estava zombamdo e quoamto 
senhor ao que toqua as nosas ydades eu por mym ho dyguo que estou 
ja velho porem com hos tempo[s] que sosederão não he pêra me por 
qulpa e quoamto he ao de vossa senhoria bem sey que nyso foy sempre 
mays mãoçebo que eu porque não gasta seu tempo senão em servyr 
damas não paso mays adyamte porque sey que me emtende vossa senho- 
ria. Beyio lhe as mãos. Desta allmahalla oje xxix djas d agosto de 
yb'^xxxbij. 

Trellado da carta que espreveo Molley Abraem ao comde. 

No verso: Trelado da carta que Moley Abrahem espreveo ao conde do 

Redondo que elle mandou ha el rrey que veyo oge terça feira xxx de 

setembro de iSSy a Lisboa. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.", maço 5g, n." 4l- 



— 288 — 
VI 

i3 DE SETEMBRO DE iSSy 

Cai-ta do capitão de Ar:{ila a el-rei D. João III. — Remete a carta de Mu- 
lei Abrahem sobre pa\es. — Pede o contracto assinado por Mulei Xeque 
para que os mouros não possam sair das condições ai postas. — Se ti- 
vera poderes a pa\ já estaria feita, quando el-rei de Fe^ ia contra Té- 
dula, que era a melhor ocasião para isso. — Como Mulei Abraem 
queria deixar de fora das pa^es Tetuão e Larache e outras vantagens, 
o capitão requereu-lhe praso para pedir instruções sobre isso, mas 
concedendo-lhe tréguas, emquanto elas não vinham. 

Senhor. Hontem que forão omze dias de setembro chegou Mygell 
Sueyro e hum moço d esporas de vossa allteza com estas cartas suas e 
m[e] acharão que aquella ora tynha despachado hum homem a vossa 
aUteza com ese rrequado que Ha vera que maodo e crea que se tyvera 
ho rrequado que agora tenho de vossa allteza que este negoçyo fora 
já acabado e a mym me parese que como compryra a seu servyqo 
porque emtão amdava ell rrey com quebras e hya de camynho homde 
ja gora está tam açerqua de TeduUa e com ho poder que Ueva e seus 
hemyguos ho temerão de maneyra que se rretyrarao hum pouquo atras 
e elles com muyto pouquo se emsobrevesem e se vossa allteza me mão- 
dara do tombo hos asynados da comtradação da paz feita cora Molley 
Xeque asynado por elle eu ho tynha ja atado da maneyra que vossa allteza 
vera por esa carta de Molley Abraem e a verdade he senhor que dos 
vasallos que tem tanto amor o servyço de vossa allteza como eu tenho a 
se de comfyar que oylhe poUo que compre a seu servyço porque em que 
o outros de seu rreyno ho posão mylhor saber servyr ho menos com a 
vomtade de ho fazer nom darey avamtagem a nyngem eu autorydades 
per espryvães seus e asemto dos comtos acho quoamto abasta para me 
não poderem sahyr do em que estão mas somente nom estarem asynadas 
por ell rrey de Fez me faz temer poderem lhe por duvyda porque elles 
são homens que se pegão a muj fraquas rrazões para quebrar sua ver- 
dade se aquesta caravella dei llugar que se posão trelladar hyra ho trel- 
lado a vossa allteza porque eu ja gora não poso tyrar jsto das mãos pêra 
lho mãodar amostrar pêra me qua ajudar dyso e d Allcasere e de Ceypta 
ajmda aguora mãodo hum homem que s[e] acha dysto allgúa coussa e a 
também a rrequeryr lhe que não facão gerra nem na comsymtão fazer 
ate vyrem rrequado meu porque Molley Abraem quoamdo me mãodou 
pergumtar se afyrmarya lloguo a paz e que mãodarya hum homem a capy- 
tollar comyguo rrespomdy eu que comsedemdo me como dansecs [dantes] ? 



erão que ho que pocicrya fazer por elle estar Uoguo em treguoa ate mãodar 
rrequado a vossa allteza porque como elle tyrava Tetuão e Llaraclie e 
nom dava jsto com outros mujtos pomtos da vamtagem que era bem que 
desem a vosa allteza polias rrezões que tynha allegadas eu não estava 
seguro do que vossa allteza quererya fazer porem poys a comsedyão como 
erão que eu tomava sobre mym este tempo emquoamto lhe fyzese saber 
de estarmos seguros asy que elle mãodou mo comseder e ja gora não será 
rrezão fazerem na sem elles sayrem do que tem prometydo. Noso Senhor 
acresente vyda e rreall estado de vossa allteza. D Arzylla a xiij dias de 
setembro de j b" xxxbij. Ho conde dom Yoam. 

Sobrescrito: A ell rrey meu [senhor]. 

... Do conde de Redomdo de xiij dias de setembro que veyo aquy a 
Llixboa a 22 do dito mes. 
Ja em rreposta. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço 5g, n." 5g. 



VII 

18 DE MARÇO DE i538 

Carta do capitão de Arzila a el-rei D. João 111. — Qiieixa-se que 
D. Duarte, capitão de Tânger, lhe tomou um judeu seu, Abrão Ben- 
lemerro, e, não obstante todas as suas instâncias, o não quis pôr em 
liberdade ; pede, pois, a el-rei que o desafronte e lhe mande entregar 
o dito judeu. 

Senhor. Abrão Bemzemerro veyo ter por Castella Allcaser e ho capytão 
d Alllcaser ho nom quys tomar porque vyo que me trazya húa carta de 
mynha sogra e que era coussa que me pertensya e mo mãodou com dez 
de cavallo ho quoall rrequeryo ao judeu se querya que mo mãodase por 
fora de Tamgere e elle lhe dyse que não que querya hyr beyiar as mãos 
a dom Duarte ho quoall dom Duarte lloguo ho premdeo em ferros e eu 
lhe mãodey pedyr ho judeu por húa carta mynha e outra da comdesa e 
elle ho não quys dar e depoys fuj eu em pesoa e fez outro tamto ho 
quoall lhe rrequery da parte de vossa allteza como vera que me fose em- 
trege poys vynha pêra mjm e nenhúa destas coussas não quys eu beyia- 
rey as mãos de vossa alheza mo mãodar lloguo entregar com toda a em- 
menda que mays merece em mo tomar asy vymdo em meu nome e por 
hum capytão voso mãodado com gemte ho quoall não fez a nenhum outro 
judeu de quoãotos d aquy mãodo a Ceypta por hy por Tamgere e de 
Çeypta a mym porque asy esta em costume com quoallquer carta de 

AMAIS DE ARZILA 3j 



— 290 — 

cap3'tão hyr seguro e Pedrallveres lhe deu carta ao Bemzcmerro pêra 
dom Duarte em que lhe fazya saber que V3'nha pêra Arzylla e nom lhe 
valleo nada dysto porque ho rrespeyto porque se este premdya nom no 
tynhão nos outros eu ho tomara em Tamgere se quysera porque eu lle- 
vava gemte pêra yso e elle era com alljaravya c sapatos de Córdova 
homde ho mar cobre quada ves por seu descnfadamento mas os sarguos 
fartão mu3'to senhor eu como em todas mynhas obras sempre rrespeyto 
a sua allteza e a seu servyço nom no quys fazer porque espero ver ho 
castiguo e enmenda que ha por jsto e beyiarlhey as mãos nom me por 
em neçesydade de o eu dever de fazer porque eu lhe dyse que se ho 
tomava por perdydo que era meu se nyso avya jostiça poys mo dava hum 
capytão a qujo poder elle fora ter e qujo podya ser avemdo hy nyso jus- 
tyça e se era avemdo que tynha errado a sua jostiça e a seu servyço pêra 
lho emtregar que eu me avya por emtregue delie por o emtregar a vossa 
allteza quada ves que me mãodase que lho mãodase se não ouvese por 
bem valler lhe ho couto e elle nom qu3's porque amda ja nestes pomtos 
em lhe pergumtar se dar3'a dez myll cruzados por 53^ e que se vossa 
allteza por elle mãodase e lhe elle dese de mão se darya symquo e dysto 
não tenho testemunha porque elle ho pasou so com ho judeu porem eu 
bem creo que a vosa allteza que lhe fallo verdade e que a falia ho judeu 
em me comiar isto porque elle ja fez mays por dinheiro que isto be3nar- 
Ihey as mãos mãodar me Uoguo emtregar este judeu poys vynha a m3'm e 
por o que vossa allteza mãodar eu ey que elle ho avera por tam seguro 
nas mynhas mãos como nas de dom Duarte e peço por mercê a vossa 
allteza que a mays sast3'sfação de mynha homrra mãode fazer por jostyça 
porque delle amte quero dinheiro que nenhija outra sastysfação que posa 
tomar porque isto a elle de symtyr mays que todallas outras e oylhe 
quoarato follga com elle que me comfesou mim hora ho que negou a 
vossa allteza sete anos em ferros e com lhe as torres quahirem na 
cabeça crea vossa allteza que lhe esprevo esta carta com pa3?xão e por 
iso beyiarlhey as mãos mãodar me fazer jost3'ça com brev3'dade poys lha 
peço em me mãodar lloguo entregar ho judeu e se dom Duarte comtra 
elle tem dereito seguro estará em mynha mão. Noso Senhor acresente 
vyda e rreall estado de vossa allteza. D Arzyla xbiij dias de março de 
jb^xxxbiij. Ho conde dom Yoam. 

Sobrescrito : A el rey meu [senhor]. 

Arquivo nacional, Corpo Cronológico, parle 1.', maço 61, n." 21. 



— 291 — 

VIII 

8 DE MAIO DE i538 

Tratado de pa^ entre el-rei de Portugal e o de Fe:-, pelo tempo de oii^e 
anos, sendo procuradores de uma e outra parte o conde do Redondo, 
capitão de Ar:{ila, e Mulei Abraem. Condições dela. — Traslado das 
duas procurações. — E o documento original. 

Aos oito dias do mes de maio do ano do naçimento de Nosso Senhor 
Jhesu Cristo de mil e quinhentos e trimta e oito anos sendo jumtos ssobre 
ho Rio Doce dom Joam Coutinho comde do Redorado do consselho d el- 
rrey de Portugal capitão e governador por ssua alteza da ssua vila d Ar- 
zila e Mulei Abrahem apressentaram as procurações asy do dito rrei de 
Portugal como d el rrei de Fez que tinham e se leram cujo theor he o que 
se sege de verbo a verbo e ho dito Rio Doce he nesta vila d Arzila. 

Terlado da procuração d el rrei de Portugal 

Dom Joam per graça de Deus rrei de Portugal e dos Algarves d aquém 
e d alem mar em Afriqua senhor de Gine e da comquista navegaçam 
comercio d Ethiopia Arábia Perssia e da índia. A quoamtos esta minha 
carta de poder e precuraçam virem faço saber que amtre mim e ho po- 
derosso muito nobre e muito omrrado Hamet rrei de Fez se fala em sse 
asemtar paz d amtre mim e ele e meus rreinos e senhorios e os seus pêra 
se estrevarem e avitarem os danos e males que da gerra se segem polo 
quoal pola muita comfiamça que tenho de dom Joam Coutinho comde do 
Redomdo do meu comselho capitam e governador da minha vila d Arzila 
que em todas as coussas em que ho encarregar me servirá com toda tiel- 
dade e assi como for mais meu serviço e me dará de sy toda boa comta 
e rrecado por esta presemte carta ho hordeno e faço e estetuio no melhor 
modo e forma que devo e posso por meo sofiçiente e abastamte precu- 
rador geral e espiçial pêra ho asemto da dita paz amtre mim e ho dito 
rrei de Fez e de meus rreinos e senhorios e os seus e lhe dou pêra elo 
todo ho meu comprido poder e mandado espiçial e geral de maneira que 
a geralidade nam derroge a espiçialidade nem ha espiçialidade a gerali- 
dade e pêra por mim e em meu nome asemtar e concordar e capitolar 
ssobre ha dita paz com ho precurador do dito rrey de Fez que pêra elo 
amostrar seu sofiçiente e abastamte poder e precuração assinada por ele 
e aselada do seu selo todo aquelo que bem visto lhe for e vir que com- 
pre a meu serviço e que possa capitolar e assemtar e comcordar e pro- 
meter e jurar em meu nome o que heu farei e comprirei e goardarei todo 



— 292 — 

lio que for por ele asemtado comcordado capitolado no dito asemto da 
paz com as condições pactos vimcolos ssob as penas e firmezas que por 
ele for asemtado comcordado e capitolado como se por mim em pessoa 
fose feito outro assi que possa jurar em minha alma que comprirei e goar- 
darei rreaimente e com efeito todo ho que assi por ele no que dito he for 
comcordado asemtado e capitolado sem cautela engano nem desymula- 
çam algúa e que nam hirei nem virei comtra elo nem contra parte allgúa 
dello ssob aquellas penas que por ele dito conde meu precurador forem 
postas e comcordadas e pêra todo ho que dito he lhe outorgo e dou todo 
ho meu comprido poder e com libera e geral adm.inistraçam e prometo e 
seguro por esta presemte carta de ter e manter rreaimente e com efeito 
todo ho que por ele dito conde meu precurador ssobre ho que toca a dita 
paz for comcordado asemtado e capitolado prometido segurado jurado e 
de ho aver por grato firme e valiosso e de nam hir nem vir comtra elo 
nem comtra parte algúa delo em tempo algum nem per maneira algiia ssob 
obrigaçam expressa que pêra elo faço de todos meus bens patrimoniaes e 
da coroa ávidos e por aver os quoaes todos expressamente pêra elo obrigo 
e por certidam de todo ho sobredito mandei fazer esta carta assinada por 
m}'m e aselada do meu selo rredondo das minhas armas. Dada em ha 
cidade d Évora a xxbiiij dias de julho. Pêro Fernandez ha fez anno de 
Nosso Senhor Jhesu Cristo de mill e quinhentos e trinta e sete anos a 
quoall carta de poder e precuraçam hera assinada por el rrey nosso senhor 
e aselada com ho seu sselo rredomdo de ssuss armas. 

Terlado da precuraçam d el rrei de Fe-{. 

Eu Mulei Hamet rrei de Fez servo de Deus a quoantos esta minha 
carta de poder e precuraçam virem faço saber que amtre mim e ho 
muito poderosso dom Joara rrei de Portugal se fala em sse asemtar paz 
amtre mym e ele e meu rreino e senhorio e seus e meus vassalos e 
naturaes e seus pêra se estrevarem e avitarem os danos e males que 
da gcrra se segem e amtre nos he acordado que pêra se entemder 
na dita paz ele envie pessoa com sseu poder ssoficiente e abastamte 
como pêra tal casso se requere a Mulei Abrahem meu em lugar de jrmão 
que pêra ho dito casso hordeno por meu ssoficiemte e abastamte pre- 
curador falar e praticar na dita paz e ambos per vertude de nosos 
poderes acordarem e asemtarem e capitolarem segumdo que em tal 
casso se costuma fazer polo quoal e pola muita comfiamça que tenho 
no dito Mulei Abrahem que todalas coussas em que ho encarregar me 
servira com toda fieldade e assi como for mais meu serviço e me dará de 
sy toda a boa conta e rrecado por esta presemte carta ho hordeno e faço 
e estetuio no milhor modo e forma que devo e posso por meu ssoficiemte 
e abastamte precurador geral e espicial pêra ho asemto da dita paz am- 



— 2g3 — 

tre mim e el rrei de Portugal de meu reino e senhorio e seus e lhe dou 
pêra elo todo ho meu comprido poder e mandado gerai e espiçial de 
maneira que ha geralidade nom derroge a espiçialidade nem ha especia- 
lidade a geralidade e pêra por mim e em meu nome asemtar e comcor- 
dar e capitolar ssobre ha dita paz com ho precurador d el rrei de Portu- 
gal que pêra elo amostrar seu soficiemte e comprido poder e precuraçam 
assinada por ele asselada do seu selo todo aquele que bem visto lhe for 
e vir que compre a meu serviço e que possa capitolar e asemtar e com- 
cordar e prometer e jurar em meu nome que heu ho farei e comprirei e 
goardarei todo ho que por ele for asemtado e comcordado capitolado no 
dito asemto da paz com as comdiçóes pactos vimcolos ssob as penas e 
firmezas que por ele for assemtado comcordado capitolado como se por 
mim em pessoa fose feito outro assi que possa jurar em minha alma que 
comprirei e goardarei rrealmente e cora efeito todo ho que assi por ele 
no que dito he for acordado asemtado capytolado sem cautela engano 
nem desymulaçam algúa e nam hirei nem virey comtra elo nem comtra 
parte algúa delo ssob aquelas penas que por ele dito Mulei Abrahem 
meu precurador forem postas e comcordadas e pêra todo ho que dito he 
lhe dou e outorgo todo ho meu comprido poder e com livre e geral admi- 
nistraçam e prometo e seguro por esta presemte carta de ter e manter 
rrealmente e com efeito todo ho que por ele dito Mulei Abrahem meu 
procurador ssobre o que toca a dita paz for comcordado e asemtado e 
capitulado prometido segurado e jurado de ho aver por grato e firme e 
valiosso e de nam hir nem vir comtra elo nem comtra parte algúa delo em 
tempo algum nem por maneira algúa ssob obrigaçam expressa que pêra 
elo faço de todos meus bens patrimoniaes e da coroa ávidos e por aver 
os quoaes todos expressamente pêra elo obrigo e por certidam de todo ho 
sobredito mandei fazer esta carta assinada por mim e aselada do meu 
selo rredondo das minhas armas. Dada em ha cidade de Fez aos xxiiij 
d outubro de mill e quinhentos e trinta e sete anos o quoall poder de pre- 
curaçam do dito rrei de Fez parecia por ele ser asynado segundo disse 
Amtonio Barrosso morador nesta dita vila d Arzila arábigo que muito 
tempo esteve cativo no rreino de Fez que disse que conhecia ho dito sy- 
nal do dito rrei Hamet ser seu. 

Por vertude das quoaes precurações comtrataram e asemtaram ambos 
jumtamente em nome dos ditos seus rreis rrespeitivamente paz por mar 
e por terra por tempo de onze anos compridos a saber amtre hos ditos 
rreis e ho[s] emperadores na forma e com as condições e capitolos segim- 
tes. 

Primeiramente que todolos mouros que viverem em todalas aldeãs que 
agora estara povoadas do tempo da gerra no campo d Arzila Tanjere 
Alcacere e Ceita duramdo ho dito tempo dos omze anos sejam da jurdi- 
çam d el rrey de Fez e de Mulei Abraem e que queremdo povoar mais do 



— 294 — 

que esta povoado ao presemte ho nom poderam fazer sem liçemça dos 
capitães dos lugares em cujo termo quiserem fazer a t;i! povoaçam e os 
que assi abayxarem ao campo pagaram a el rrei de Portugal de cada 
arado com que lavrarem húa dobra de bamda e el rrei de Fez e Mulei 
Abraem por estes mouros que lhe assi deram de jurdiçam daram em cada 
hum ano ao dito rrei de Portugal dez cavalos bons ssaos e de rrecebim. 

Item. Os mouros de todo ho rreino e senhorio de Fez poderam vir 
vender e comprar toda ha ssorte de mantimentos e todas as outras mer- 
cadorias seguramente dos cristãos e hos cristãos deles como amigos tirando 
todas as armas e monições e todas as outras coussas semelhantes. 

Item. Se alguns navios de rreinos ou senhorios estranhos a saber de 
mouros turcos ou cristãos que nam sejam vassalos do dito rrei de Por- 
tugal nem do emperador vierem a quoallquer dos portos dos ditos rreis 
com pressa de mouros ou de cristãos dos comprendidos nesta paz nam 
seram rrecolhidos nem se comprara nada delles em algum dos ditos 
portos. 

Item. Que ssaindo os ditos navios de quoallquer dos ditos portos 
e tornando a eles com pressa da maneira ssobredita lhe será tomada e 
rrestituida a quem for feita senam forem tantos que conhecidamente se 
nam possam ofender. 

Item. Quoallquer pessoa assi de húa parte como da outra que emtrar 
no limite alheo com gados sem pidir primeiro liçemça e se comçertar 
com ho capitam do lugar em cujo termo assi quiser emtrar com ho gado 
perdera todo ho gado que meter. 

Item. Que quoallquer morador de quoallquer dos ditos rreinos e 
senhorios que comtratar em quoallquer das ditas partes levando coussas 
fiadas de húa parte a outra ou fazendo algúa bulrra ou engano e a parte 
daneficada o for ou mandar requerer ser lhe a feita imtciramente justiça e 
lhe será pago o que lhe for devido. 

Item. Se algum mercador ou quoallquer outra pessoa que levar mer- 
cadorias de quoallquer dos ditos rreinos e senhorios pêra ho outro e la 
cometer algum delito per que mereça pena dar lhe am a pena que por jus- 
tiça merecer em ssua pessoa e na fazenda nam se tocara por que nam 
possa parecer que por lhe tomarem ho seu e com cobiça do alheo se ale- 
vanta falsso testemunho. 

Item. Que quoaesquer cristãos ou mouros que entrarem sem liçemça 
dcmtro dos termos huns dos outros em maior numero que cimquo de 
cavalo juntamente levando lamças pagara cada hum de pena aquilo que 
parecer bem do dito comde e ao dito Mulei Abraem e capitães dos ditos 
lugares a saber ho dito comde e capitães julgaram a pena que hos mou- 
ros merecerem e Mulei Abraem aos cristãos não passando a dita pena de 
cimquoemta cruzados. 

As quoaes coussas todas e capitolos e condições acima decraradas os 



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Fac-simile da foi. iSi r. do nKinuscriío i-SS du Biblioteca Nacional Jc Lisboa. 
— P.ig. 295 e 2y6 desta edição. 



.liais de Arzila, tom. 



— 295 — 

ditos conde e Mulei Abraem per vigor das ditas procurações e em nome 
de seus rreis prometeram hum ao outro e o outro ao outro de comprir e 
goardar pelo dito tempo de onze anos jnteiramente como nelas he conteúdo 
ssob pena que ha parte que nom comprir todas as coussas ssobreditas e cada 
húa delas pagar de pena a outra parte por cada vez que ho assi nom com- 
prir cimquoemta mil! cruzados d ouro e mais todo ho jnteresse e dano que 
por assi ho nom comprir se caussar e a pena levada ou nam levada toda- 
via este comtrato ficara firme e se comprira como se nele contem polo 
dito tempo dos omze anos que se começam por dia de sam Joam deste 
dito ano de millb^xxxbiij e por verdade assinaram hio dito comde e Mu- 
lei Abraem de seus synaes e ho ouveram por bem que a cada húa das 
partes fose dado hum terlado deste comtrato e dous e três e quoantos lhe 
comprisse pêra ho ter pêra sua goarda testemunhas que presemtes esta- 
vam ao dito comtrato dom Francisco Coutinho filho do dito comde do 
Redomdo e dom Manoel Mazcarenhas e dom Ambrossio de Vascooncelos 
filho do comde de Penela e assi cide Ale Barraxa xerife filho do dito Mu- 
lei Abraem e Mulei Mafamede xerife jrmão do dito Mulei Abraem e cide 
Abedulahe Laroz alcaide d Alcacere as quoaes testemunhas assinaram 
aqui neste dito comtrato com ho dito comde e Muley Abrahem. E eu 
Symão d Afonsequa esprivao dos contos d ell rej noso senhor nesta dita 
vylla esto sobesprivy no dito dia e mes e ano. 



"'j L}- ^ C^ f^'^' 



^\ 



O conde dom Yoam 



«... Abde Alah Ibrahim, filho 
de Ali, filho de Ráxede, xerife....» 









c. 






Dom Francisco Coutjnho 
Dom Manuel Mazcarenhas 
Dom Ambrosyo de Vasconcellos. 



«AU, filho de Ibrahim, filho de 
Ráxede. Certificou e assinou o irmão 
de Mulei Ibrahim, Abde Alah Mu- 
hâmed, filho de Ali, filho de Ráxede. 
Deus excelso o favoreça!». 



296 — 



1_jJUc L L> ^Xc i_âJ_j*J oXJjo v_-Jl5_j 

^.^c:J'j oXJ! (Ijj =] 3L. j [?]LiLl. 

i.,.^ |Jx J^ «X?-! ^_^"^_y• ...Àr^^J --i-^"^ 

[Texto árabe bastante obscuro. Certo 
só aí lemos o nome da testemunha Abde 
Aluahide Alarucí, alcaide de Alcácer, como 
se diz no texto português.] 

No verso: Capitolação das pazes d el rrey de Fez com el rrey noso 

s«nhor. 

Biblioteca nacional de Lisboa, manuscrito ij58 [antigo F-4-14], 
foi. ijg r.-iSí r. 



IX 

17 DE OUTUBRO DE i538 

Carta do conde D. João Coutinho, que fora capitão de Arzila, a el-rei 
D. João III. — Dá-lhe parte da sua chegada a Mertola, onde adoeceu 
de febres terçãs. Logo que esteja restabelecido seguirá para a corte. 

Chegey a este Allgarve a dez dias com fundamento de me hyr loguo 
dereito a beyiar as mãos a vossa allteza e adoeçy em chegamdo de trasam 
de que tyve ja quoatro ou symque sazans e vão semdo mays pequenas 
tamto que me mynha doença der lugar loguo m.e hyrey a beyiar as mãos 
a vossa allteza quja vyda e rreal estado Noso Senhor acresemte. De 
Mertola aos xbij dias d outubro de jb'=xxxbiij. 

Ho conde dom Yoam. 

Sobrescrito: A ell rrey meu [senhor]. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço 63, «.» i5. 



Capitania de Dom Manuel Mazcarenhas 



X 

4 DE MARÇO DE iSSg 

Carta de D. Manuel Mascarenhas, capitão de Ar:stla, a el-rei D. João IIL 

— Dá-lhe parte que dois mouros de cavalo, criados do alcaide de La- 
rache, e outro de pé, criado de el-rei de Fe\, se vieram fa\er cristãos. 

— O alcaide de Larache manda requerer os cavalos por um judeu e 
jtm mouro. — O mouro de pé foge com eles para Larache. — O capitão- 
de Arzila queixa-se deste procedimento ao alcaide. — Recados entre o 
capitão e Mulei Abrahem sobre este assunto e outros semelhantes. — 
Um mourisco do conde do Redondo, que havia fogido, pediu seguro- 

para voltar e vai ao reino a seu senhor. — Manda um bombardeiro a. 
el-rei com um rol de cousas necessárias ao provimento da vila. 

Senhor. Depois de ter escrito a vosa alteza outra que não partio pri- 
meiro que esta por não dar o tempo llugar vierão ter três mouros ha esta 
vilia dous a cavallo e huum a pee e me requererão que hos mamdase fazer 
cristãos pergumtei lhe se era agravo alguum com que vinhão que escreverja 
a Mull Abraem por elles que lhe perdoase diserão que não que sua vom- 
tade era ser cristãos erão dous deles os que trouxerão cavallos criados 
do alcaide de Larache e huum majs moço hera criado d el rrey quamdo vy 
sua vomtade os mamdej fazer cristãos este d el rrej majs moço veo lloguo- 
seu paj buscar trazia consiguo outro filho pequeno de dez ou doze anos 
e estamdo haquy heste mouro ja desemganado do filho que hachou cris- 
tão veo huum judeu e huum mouro criados do alcaide de Llarache e me 
derão húua carta sua em que mamdava pedir os cavallos dizemdo que 
herão seus o qual judeu trazia huum seguro do alcaide pêra o majs moçcv 
que ho paj vyera buscar e não porque lho eu vise senão porque elle nam 
ousarja tornar se sem elle e o dia que d aquy partio ho mouro paj da 
moço partio lloguo ho judeu despois dele ser partido com outro criado do 
alcaide com que viera e levou minha rreposta ao alcaide da carta que me 
trouxe depois de ser partido a duas oras poderja ser me vieram dizer 
estamdo na igreja como ho mouro majs moço cryado d el rrey de Fez era 

ANAIS DE ARZILA 38 



— 298 — 

fogido e que ya pollo caminho de Llarache com ho judeu e com ho 
mouro que me trouxera a carta do alcaide e seu paj com ho outro jrmao 
majs moço yam majs diamte a sua vista mamdej ver se o podiam alcam- 
çar chegarão ate o rrio de Larache e eram ja pasados dise a hum omem 
meu que se ja fosem pasados chegase a Llarache e disese ao alcaide que 
não hera bom vizinhar d aquela maneira a quem se vem tomar cristão e 
mamdallo levar poUos seus e que hos avia por presos na sua mão ate 
escrever sobre jso ha Muil Abraem e ver seu rrecado rrespomde me que 
elle darja conta delles quamdo lha pedisem dos seus que ho paj do moço 
e o moço que hele os mandava a el rrej que lia os tinha os outros dous 
vão a vosa alteza os cavallos lhe ficão qua e asy outro que haquj tenho 
que veo estamdo aquy o comde Mull Abraem me escreveo ja duas vezes 
sobre estes cavallos que lhos mamdase heu lhe rrespomdj' a yso que 
serja neçesarjo tãobcm mamdarem de lia alguns que lia são diz Mull 
Abraem a jsto que hos omens que de la fogem não tem cavallo nenhuum 
seu senão do senhor com que vivem que lhes dão somente pêra os ser- 
vyrem neles heu lhe escrevj depois que também hos que de qua yão dei- 
xava© divjdas e alguns suas molheres poderjam ter parte naquillo que de 
qua levam e que per esta rrezão será tãobem alheo o que de qua levam 
os om.ens que fogem tãobem fogio d aquy huum escravo negro de huum 
morador e levou lhe húa azemalla e tornou xe mouro a qual azemalla não 
he parecida nem eles dão comta dela isto fica asy como diguo a vosa alteza 
mande me ho que ouver por bem que nisto faça tãobem huum mourisquo 
que foy do conde ja cristão e lhe fogio a mujtos dias me mamdou haquy 
pedir seguro pêra se tornar mamdei lho e veo se elle se vaj lia a vosa 
alteza o que delle sey he que he homem de bem e paremte do alcaide 
d Alcácer e que por se tornar pêra Deus e pêra vosa alteza leixou casa e 
fazemda que he rrezão pêra lhe vosa alteza fazer merçe huum bombar- 
deiro desta villa vaj lia e leva huum rroll de certas cousas que são necesa- 
rjas pêra artelharja e asy outras de que o almazem tem falta mamde vosa 
alteza prover. Nosso Senhor acrecemte vida e rreall estado de vosa 
alteza. D Arzilla a iiij dias demarco de ib'^xxxjx. 

Dom ALTnuel Mazcarenhas. 

Sobrescr'ito : Pêra ell rre[i]. 

Arquivo nacional. Gaveta 20, maço 5, ;i.° 26. Publicado, em 
tradução francesa, pelo sr. Conde de Castries, Les sour- 
ces inédites de rHistoire du Maroc, France, I, p. 1 14-1 17. 



— 299 — 
XI 

2 DE ABRIL DE iSSg 

Carta de Sebastião de Var^gas, feitor' do trigo em Fe^, a elrei D. João lll. 
— Em carta anterior dissera que convinha tolher que nenhumas pes- 
soas passassem de Castela ao reino de Fe:{ e inversamente pelos males 
que daí procediam. El-rei assim o ordenara já. — Com o pretexto 
de comprar trigo., muitos cristãos-novos sobem os rios da Mamora, de 
Larache e Çalé e vão até Mequine^ e se passam a terras de injieis com 
suas fazendas, com medo da santa inquisição. — Pede que se proveja 
nisto, impedindo-o., e no mesmo se inste com o imperador. 

Senhor. Ao que senhor vosa aheza me spreve que lhe pareceo bem 
o aviso que lhe sprivy dos capitãees não deixarem passar pesoas d Es- 
panha pêra este rreino nem de qua pêra a Espanha e que logo lho nnanda 
sprever pêra que asy o cumprão e guardem vosa alteza aja por sem du- 
vyda que he muito seu serviço e çarrarem se de todo pêra nenhuum cris- 
tão ca vyr como largamente lhe esprivy que o seria muito e muito de 
Deus Nosso Senhor porque ssão muitos os males e desordens que cris- 
tãos ca ffazem affora nosa liberdade perdida e dada aos mouros como- 
em mjnha carta vosa alteza teraa visto peço por mercee a vosa alteza 
que a torne a mandar ver que guardada deve estar e per mjnhas rrazões 
que nella lhe dou vera quão leve he de tolher nj[n]guem vyr ca e o muito 
que njsto se aproveita. 

Item. Senhor pollos rrios da Mamora e Larache e Cale vem a trigo e 
com ssõo delle a este Mjquinez muitos vasalos de vosa alteza a comer carne 
toda esta coresma e muitos cristaãos novos a se ffazerem judeus e trazerem 
ífazendas suas e as deixão ca ja com medo da samta jmquisyçao e depois 
se pasarem afforrados e sem ífazenda que ja ca a tem Ha ha pasajeyros 
que os passão e aa mouros cativos e muitos delles tornados cristãos tam- 
bém estes rrios cumpre a serviço de Deus e de vosa alteza serem çarra- 
dos a vossos vasalos e que de vosos rreinos vyerem so graves penas a 
todos e aos mareantes dos navios taaes que nelles se executem e sejãa 
castigados avendo no Algarve provysão as justiças que o que disto lhe 
ffor sprito per seu ííeitor e autos âeitos per seu sprivão sejão castigados 
e dos castelhanos pello emperador se podem evytar porque não perde 
cousa algúa em suas allffamdegas como largamente o sprivy a vosa 
alteza por amor de Noso Senhor que vosa alteza veja bem mjnha carta 
e mjnhas rrazÕes que pêra tudo dou e mande prover e com brevydade 
como ho ouver por seu serviço e de Deus Noso Senhor ca se diz que ha 



— Soo — 

■cincoenta casaees lia prestes pêra pasar pêra ca de cristaãos novos. De 
Mjquinez ojc ij dias d abryll de jb'xxxix anos. Bastião de Vargas. 

Sobrescrito : A el rrey noso senhor. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.", maço 64, n.' 86. 



XII 

8 DE AGOSTO DE iSSg 

Carta do capitão de Arzila a el-rei D. João III sobre as dividas ao bacharel 
Duarte Rodrigues. — Pede lhe seja pago o que se lhe deve, porque o 
bem merece. 

Ho bacharell Duarte Rodriguez que agora serve nesta villa tem hum 
halvara de vosa alteza pêra que ho primeiro pagador que a esta villa 
veer lhe pague o que lhe for devjdo e porque elle serve esta villa bem 
e a comtemtamento de todos como o comde mjlhor diso dirá a vosa 
alteza esta emdivjdado de maneira que sem mercê de vosa alteza pagara 
mall o que deve pede a vosa alteza lhe mande ser feito pagamento per 
Amtonio de Sampayo que hora esta nesta villa e eu pollo que delle sey 
e como serve ho merece a vosa alteza cuja vida e reall estado Noso 
Senhor acrecemte. D Arzila oje biij dias d agosto de j b'^xxxix. 

Dom Manuel Mazcarenhas. 

Sobrescrito: Pêra ell rey. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.^ ttiaço 65, n." 3i. 



— 3oi — 
XIII 

25 DE AGOSTO DE iSSg 

Carta do capitão de Arzila a el-rei D. João III. — Como já escrevera a 
el-rei, convinha vigiar os mercadores que iam ao reino de Fe\, porque 
eram muito prejudiciais, principalmente ao trato do trigo. — Remete-lhe 
uma carta de S. de Vargas, por onde verá quanto cumpre tomar pro- 
vidências sobre isso. — António de Moura, feitor em Arzila, vai exer- 
cer o mesmo cargo a Larache. — Na barra de Larache está uma nau 
de franceses que vendem armas e cousas defesas aos mouros- O navio 
de armada que está em Ar:{ila poderá pôr cobro nisso, se for man- 
dado. — Di:{ ter nomeado Rodrigo de Bairos alcaide das sacas, por 
ser pessoa própria para isso. Pede por mercê que seja confirmado 
no dito cargo, e não preste ouvidos aos que Li lhe disserem que dai 
pode resultar diminuição da retida da alfandega. — Que um castelhano 
vendera a um mouro uma besta de aço, o qual foi preso e confessou, 
de que se fe\ auto e fará justiça. — António de Sampaio, pagador, 
estava ainda em Arzila e por isso pedia por tiiercê a el-rei que fosse 
pago do que se lhe devia., porque estava individado. 

Senhor. Eu escrevy ja a vosa alteza que devia prover sobre alguns 
mercadores e pesoas que tratão neste rreino pello desservyço que vosa 
alteza niso rreçebia primcipallmente sobre este contrato do trigo como 
creo que vosa alteza será bem emformado e porque eu nos que por 
aquy pasão faço aquele exame que cumpre e vosa alteza me tem mam- 
dado ey que se não podem neste caso avitar sem vosa alteza niso prover 
como agora vir que cumpre a seu servjço, e vosa alteza alem das mais 
enformações pode mamdar ver húa carta que lia mamdo hao conde de 
Penella que hagora me escreveo Bastiam de Vargas sobre este mesmo caso 
e per ella vera quamto seu servyço he fazello e elle terá disto bem enfor- 
mado vosa alteza que ho vee visto tudo mamde ho que ouver por mais 
seu servjço. 

E quamto ao que me mais escreve d António de Moura escrivam desta 
feitoria jr servir seu oficio heu lho dise lloguo da parte de vosa alteza e 
elle se vay a Llarache pêra d ahy fazer ho que em seu oficio cumpre a 
servjço de vosa alteza. 

É porque vosa alteza mamde em tudo ho que mais seu servjço for 
diguo que nesta barra de Llarache fica húa naao de framceses os quaes 
eu são emformado que vemdem mujtas armas e cousas defesas aos mou- 
ros e asy Uacar que he sinal de fazerem mais que ysto ho escrevo a vosa 
alteza e aquy esta Gramatão Telles com ho navio d armada de que he 



— 302 

capitão que fara o que lhe vosa alteza mamdar sobre yso e eu sey que 
estão alguum tanto temidos por elle aquy chegar. 

E porque pêra estas cousas e outras que cumpre a serviço de vosa 
alteza segundo fuy emformado per Ynaçio Nunez e o sam per muitas 
pesoas que de Fez vem me pareçeo ser neçesaryo e serviço de vosa 
alteza aver nesta villa húa garda e alcaide das sacas das cousas defesas 
pêra se avitarem ordcney Rodrigo de Bairos cavalleiro da casa de vosa 
alteza e morador nesta vila pêra servir este oficio por ser pesoa pertem- 
çente pêra yso e que ho servira como cumpre a servjço de vosa alteza o 
que avemdo asy por servjço me fara merçe comfirmallo e mamdar lhe 
pasar sua carta em forma. 

E ajmda que vosa alteza seja disto per algijas pesoas enformado em 
comtrairo per rrespeito da rremda de sua alfamdega eu tenho bem visto 
e praticado o que cumpre a serviço de vosa alteza de maneira que ho 
rremdeiro delia aqueixamdo se de hasy o ordenar por servjço de vosa 
alteza me dise que não no fazemdo acabarado seu arremdamento de que 
pagava quinhemtos mil reaes queria dar mais a vossa alteza trezemtos 
mill que he ver vosa alteza ser seu servjço ho que faço porque eu ey 
que na mão de huum rrendeiro esta desemular neste caso cousas pêra 
virem ha fim de se vemderem em terra de mouros mujtas armas e cou- 
sas defesas como se faz e vosa alteza serja enformado per Ynacio Nunez 
qu[e] em parte o vio e desta maneira que diguo he caminho de se avita- 
rem quamto a per aquy estas cousas. 

E agora fuy sabedor como huum castelhano vemdera ha huum mouro 
que amdava neste campo húa besta d aço e mandej prover sobre yso e foy 
preso e confesou que lha vemdera por três cruzados de que se fez auto 
e se fara comprimento de justiça como vosa alteza mamda per suas orde- 
nações diguo jsto por que saiba vosa alteza o que se mais pode evitar 
avemdo o que diguo por seu serviço no que me fara merçe. 

Amtonio de Sampayo esta jmda nesta villa como escrevy a vosa 
alteza e per que me pode bem pagar o que me he devjdo do tempo que 
ha que estou nesta villa mamdamdo lho vosa alteza far m a muj gramde 
merçe avello asy por seu serviço e mandar lhe que me pague o que achar 
que me he devjdo que pêra qua emdevidado estou pêra os que menos 
devo me faz muj gramde merçe. Noso Senhor acrecemte vida e rreall 
estado a vosa alteza. D Arzila oje xxb d agosto de jb'xxxjx. Dom Ma- 
nuel Mazcarenhas. 

Sobrescrito: Pêra ell rrey. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço 65, n." 52. 



— 3o3 — 
XIV 

12 DE OUTUBRO DE ib3g 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Di\ que o infante 
D. Henrique enviara criados seus a Fe\ para comprar ceihida para a 
sua estrebaria; vieram-lhe recomendados para que os ajudasse no seu 
intento, e eles fizeram a compra sem o ouvir, por preços que êle obteria 
mais vantajosos. Qiieixa-se do seu procedimento, porque daí vem mui- 
tos inconvenientes no trato com os mouros. — Pede instruções para a 
compra do trigo da colheita próxima, e lembra que o lacar, com cuja 
venda se paga o trigo, devia estar sempre á sua disposição, para poder 
reali:{ar a tempo as suas transacções e cumprir as suas ordens. — Os 
preços hão de subir, porque havia muitos mercadores, que danavam assim 
o negócio. Para remediar d grande alta de preços do trigo, lembra 
o emprego dos navios de armada para o seu transporte, tomando o aos 
estrangeiros pelo preço do custo, ainda que isto talve:^ provoque recla- 
mações da parte de Castela, ou represálias em navios portugueses; 
mas aos nacionais deve-se-lhes tomar e castigá-los, por se empregarem 
no seu trato sem licença. 

Senhor. Ho jmffamte dom Amrrique que me spreveo húa carta que 
enviava a este rreino João Pereira seu moço da camará e Bastião Amrri- 
quez a ffazerem algOas cousas de seu serviço e pêra comprarem húa copia 
de cevada pêra sua estrebarya e me derao húa carta do jmffamte em que 
me encomendava que os ajudase averem a dita cevada João Pereira me 
deu a carta e eu lhe rrespomdi que el rrey me tynha dito que nenliúa 
cevada avia de vender ffalando lhe eu em cevada pêra vosa aheza e pêra 
a rrainha e que comtudo que me parecia que a não averão de levar que 
el rrey a não darya que eu o trabalharya de maneira que a ouvesemos 
pêra elles levarão e pêra vosa alteza e pêra a rraynha que ma tynha 
mandado encomendar da ora que me deu a carta o João Pereira nunca 
raays o vy nem me ff"alou e ordenarão de negoçear a cevada per via de 
Roayne per carta que lhe trouxerão de seu jrmão e ssem eu ssaber 
nada a comprarão de boa prata nosa de rrealles a b°xx rreaes a çaffa e 
com xxb por cento que a prata ca mays vali são h'f\ rreaes a caff"a que 
say o moyo a ij b"^ reaes a borda d agoa e com ftrete e gastos sayra em 
Lixboa a iij reaes ff'aço saber a vosa alteza que se ffez sem eu nada 
saber senão depoys de ffeito e que eu tenho por certo que ouvera a cevada 
a cruzado a çaffa que a iij''xx he a mayor careza que nesta terra nunca 
se vyo e porque ell rrey punha duvyda em a dar porque ha ca delia nece- 
sydade ff'azia eu ff"undamento de aver delle a cruzado que hera obrygallo 



— 3o4 — 

a madar pollo muito preço que lhe (íora huum cruzado vyerão estes e sem 
nada eu saber como senhor ja digo a comprarão a bjM a çaffa que dana- 
rão a terra e esta da maneira que o ífaço senhor saber a vosa alteza 
porque como as cousas taees e esta mesma se ffaz por muitas mãos não 
pode deixar de se danar o trato e o negoceo e também lho flaço a saber 
porque se deste preço compre aver se pêra sua estrebarya tenho ja pala- 
vra de ma darem mas he tão cara que he cousa vergonhossa que casy se 
vay ygualamdo com o preço do trigo o que vosa alteza disto ha por seu 
serviço me mande rrespomder e em breve. 

Item. Senhor como digo do trigo e da cevada que se não deve aver 
por muitas mãos asy o digo das mercadoryas que como estão em muitas 
mãos abaxa e vali menos porque cada huum quer vender e hyr se pêra sua 
casa em spiciall estamdo em rreyno estranho digo senhor isto pollo lacar 
que mandey pydir pêra pagamento do trigo de Benjija pêra que com o 
que neile se ganhar fficar o dito trigo a bõo preço que se outro vyer que 
sse aja de vender per outra mão senão polia mjnha que não valera ao 
preço porque me parece que sse ese vendera ífaço também a ssaber a 
vosa alteza porque não sey se o contrato de Benzemeiro dura ajmda 
pêra que traga ca llacar que a poucos dias que a esta cidade veo huum 
golpe delle ou ao menos mande entreter quallquer contrato que ouver ate 
se qua gastar este que peço a vosa alteza o quall lembro que ja ca devera 
de ser em Ceita e posto nesta cydade de Fez pois vosa alteza quer que 
o trigo vaa neste levanjiho e não se aguarde pollo jmverno ao que eu dou 
toda a deligencia que de qua se pode dar pêra o trigo hyr aos rrios nelles 
aja logea que o leve e de Lixboa venha o que peço com que se pague. 

Item. De Malega vosa alteza teraa nova eu tenho carta de Ffrancisco 
de Bayrros seu moço da camará de primeiro deste mes d outubro em que 
me diz que lhe parece que estava aly de vagar segundo o trigo aly se a 
de vagar toco isto senhor por que ja lhe sprevy que o trigo se levamtou 
ca a iij onças mea e me rreceo que suba mays segundo mercadores 
acodem e vosa alteza me deffende que não compre outro trigo a iij onças 
senão o de Benjija e eu querya ver se depoys d ell rrey comprir comjgo 
a copia que me fficou se poderey aver delle mays alguum e se o ouver não 
crreo que mo de pollo preço do contrato pollos muitos mercadores e pollo 
muito preço que se vay damdo por elle isto senhor ajmda esta lomje mas 
como d aqui a Lixboa não se pode cada dia ffazer a ssaber estas cousas 
o ífaço des agora porque se ífor caso que seja o que digo o que me 
manda vosa alteza que ffaça em tal caso me mande sprever pêra que 
posa estar aprecebydo do que ey de ííazer e não me tomem de sobre 
salto como ora foy desta cevada que me convydão com ella a este preço 
e a não ouso tomar e também como fíoy do trigo que ora venderão a iij 
onças mea que também mo davão e o não quis tomar pellas rrazões ja 
aqui ditas e por outras que lhe lia sprevy em biij de outubro. 



— 3o5 — 

Item. Muita parte de se isto emendar serião os navios d armada pêra 
tomarem trigo e cevada que mercadores carregarem porem lembro a vosa 
alteza que o que tomar a estramjeyros que lho a de mandar pagar a como 
lhe ca custar e que não sey se de lhe ser tomado aos taaes se avera 
escamdalo em Castella ou ffazerem rrepresaryas em navios portugeses 
por não hyrem a vosa ffazenda rrequeryr seus pagamentos tudo lembro 
a vosa alteza quanto aos estramjeiros que em vossos vasalos não somente 
a mester tomado mas ajm.da castigados pois sem licença de vosa alteza 
vem danar esta terra o de disto tudo ífor servydo me mande rrespomder 
e ao que per mjnhas cartas todas sprevo que todas pedem rrepostas. 
De Fez oje xij dias de outubro de iSSg. Bastião de Vargas. 

Sobrescrito: A ell rrey noso senhor. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.\ maço 66, n." 4. 



XV 
9 DE DEZEM-BRO DE 1540 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Di^ que lhe man- 
dara cartas por via de Ceuta, em que dava parte de terem chegado a 
Fe:{ Francisco de Aguiar, de A^amor, e um judeu, de Safim, com 
cartas dos seus capitães sobre estarem em guerra com o xerife, e assim 
fora grande erro se tivesse cumprido o que lhe ordenara de di\er a 
el-rei de Fe^ que as tréguas não durassem mais do que até todo abril. 
— Também nelas escrevera o negócio dos porqueiros do campo de 
Tanger, que tanto alvoroço causara entre os mouros. A pedido dele, 
el-rei de Fe{ mandou um cavaleiro ao lugar do acontecimento para 
que se informasse. — No entretanto, chegava a Fe^ a nova de que o 
capitão de Ceuta, D. Afonso de Noronha, correra a Tetuão, havendo 
pa\es entre os dois reinos. — O cavaleiro de el-rei de Fe\ chegou, em- 
jim, e confirmou que os negócios dos campos de Ceuta, Alcácer e Tan- 
ger estavam muito mal, porque mouros e cristãos não cumpriatn as 
pa:{es e exerciam represálias uns contra os outros, havendo mortos e 
cativos de parte a parte. — Vargas queixa-se da falta de energia do 
governo de Fe:{ para coibir os excessos dos mouros: el-rei é bom mas 
fi-aco, e os alcaides vizinhos das nossas praças não cumprem as suas 
ordens, nem impedem os desmandos da sua gente, parecendo que antes 
querem guerra que pa:{. — Di:{ a el-rei de Fq, para se fa^er obedecer, 
que, em ve{ de recorrer aos alcaides fronteiros, que nisso põem má 
vontade, mande a seu flho Mulei Mafamede, justiça maior do reino, 
muito temido nele, que ponha cobro aos desmandos dos seus súbditos 

ANAIS DE ARZILA ^9 



— 3o6 — 

em quebrarem as pa\es. — O seu processo de fa\er justiça era muito 
sumário : uma só pena, a de morte. — Aceitou Mulei Mafamede o en- 
cargo e mandou logo o alcaide cide Ehiaque em nome de el-rei e seu 
fi\esse saber a todas as cabildas, .xeques e alcaides fronteiros que 
havendo pa^es entre os dois reinos lhes mandava que não saissem delas, 
porque seriam obrigados a reparar os danos feitos e castigados seve- 
ramente os culpados. — Por sua parte, os capitães das praças castiga- 
rão os cristãos culpados de violências sobre os mouros. Essas desor- 
dens provêem de se criarem porcos nos campos dessas praças ; e os 
porqueiros são castelhanos e ladrões. — Vargas escreveu aos capitães 
dando-llies parte do a que ia o alcaide cide Ehia, para o receberem 
como convinha ao serviço de el-rei e á reforma das pa-es. — Afirma 
que foi cousa feli\ estar êle em Fe:{ para poder acudir ás más novas 
que corriam na cidade, que de contrário tudo se perdera e as pa^es se 
quebrariam sem remédio, porque el-rei é fraco de vontade, como disse. 
— Escreveu aos capitães que avisassem el-rei, seu senhor, do estado em 
que ficavam com os mouros, e que, se éstesnão cumprissem como deviam, 
lh'o mandassem di^er a êle, para que junto de el-rei de Fe:{ obtivesse 
medidas de repressão. — Pede de 7iovo a el-rei que se não consintam 
mais porcos nos campos das praças, porque todos os males e danos que 
os mouros teeni feito são por causa deles. Estes porcos são de cristãos 
novos e de castelhanos. — Em aditamento, di^ que os porqueiros de 
Tanger mataram um judeu e um mouro ricos para os roubarem, e tal 
nova dera grande abalo em Fe:{, mas constava que o capitão prendera 
já dois porqueiros; sabe-o por judeus e mouros rccéni-che gados, e não 
que o dito capitão o avisasse, como devia, para atalhar o inal que dai 
podia seguir-se. — Havia dias, el-rei mandara-o chamar para lhe apre- 
sentar uma carta de queixumes de mouros de Tetuão. Alguns desses 
queixumes. 

Senlior. Ha poucos dias que sprevy a vosa alteza per cartas que 
flbraom ffeitas a bij e a biij do mes pasado e ííorão per vya de Ceita 
e dom Aíbnso me espreveo que as rrecebera e aas envyava a vosa alteza 
per Pêro Vieira sseu criado que has avia de dar a vosa alteza e em ssua 
mão o quall partyo de Ceita a xbij dias do dito m.es e ffoy aver licença 
de vosa alteza pêra comprar em Ceita huum certo oíTicio. 

Item. Senhor polias ditas cartas ffiz a ssaber a vosa alteza como Ffran- 
cisco d Aguiar morador em Zamor veo a esta cydade com cartas d Am- 
tenio Leite pêra ell rrey deFfez depoys de ja qua ser huum judeu de Çaf- 
fym com cartas de dom Rodrigo seu capitão também pêra el rrey de Ffez 
nas quaees ambos ja lhe íTazião a ssaber como estavão em guerra com o 
xarife e nellas sprevy a vosa alteza a conííusao que ffora se husara de 
hiía carta de vosa alteza que a mjnha mão aquelle tempo me vyera em 



— 3o7 — 

que me mamdava que disese a el rrey de Ffez que tynha mandado que 
as tregoas não lurassem mays que atee todo abryll. 

Item. Per estas mesmas cartas sprevy a vosa alteza os [ajconteçimentos 
de homens porqueiros cativos e mouros e cristãoos matarão tudo aconte- 
cido no campo de Tarajere e asy como a meu rrequerymento el rrey de 
Ffez mandava huum cavaleiro seu a saber destes acontecimentos e apagar 
este íFoguo que se aly acemdia e que também se avya de ver com todos 
os outros capitãees pêra com elles asemtar os males e ordenar como se 
outros não ffizessem e tudo fficase em paz e asosegar o quall cavaleiro 
d el rrey se chama cyde Alexaerrom. 

Item. Senhor depoys deste cavaleiro partydo d aqui estamdo nesta mj- 
nha pousada ffuy chamado e entramdo em cassa d el rrey amtes de o ver 
me vy em affronta de jemtes e povos que davão brados e gritos que dom 
Afonso de Noronha que correra a Tutuão queremdo-me matar e a volta 
de povo o quiserão ffazer entrando mays polias casas homens omrrados 
e offeçiaees d el rrey aos quaees ssem eu atee aquella ora ter nada ssa- 
bydo nem mays do que lhes a elles ouvya dise e também com brados e 
mays queixas que aas suas que não dizyão verdade e mostrey húa carta 
que açertey de levar na mão d outra pesoa e dise esta carta ffala mays 
verdade que todos vos outros com o quall todos amanssaraom que são 
taom valadys que asy como de nada se levantão comomaar asy também 
de nada e com nada se tornão apaziguar e também senhor porque elles 
jerallmente tem por nada quailquer nova ajmda que sseja do turco se 
ma não ouvem a mym e digo que a tenho per carta d outra maneira 
nada errem e como se eu tivese jmteligençias de todo mumdo como me 
vyrão mostrar a carta que digo diserão iso será o mays certo. 

Item. Depoys de asosegados e como eu nada sabya quis ssaber o nego- 
cio amtes de entrar a el rrey e dise ora contay me que nem vos trouxe 
esta nova diseram me huum criado de cyti Alhorra e diz que dom Afonso 
que correo a Tutuão e que levou três mouros e muito gado rrespomdy 
não me ey de bulyr d aqui fcem hyr a el rrey que me mandou chomar ate 
vir ese criado de cyte Alhorra ífoy achado e veo estamdo eu ja ssem 
povo se não com sete ou biij omrrados officiaees e criados d el rrey per- 
guntey o negocio e rrimdo dise atee omde chegou dom Afonso com sua 
bamdeira que os corredores maj^s avamte avião de chegar dise o mouro 
dom Afonso não correo mas cristãos de Ceita vyerão tomar três mouros 
de huum currall que esta junto com Negrão ffiquey descamsado de não ser 
ja o que dizião e começey a zombar e a rryr me dos mouros com quem 
estava assentado e dise lhe tudo isto que este diz ajmda he bulrra que tudo 
he nada e eu tenho diso esta carta e ffuy me a el rrey e elles fficarão todos 
assentando que o que dizia o criado de cyte Alhorra hera myntyra que eu 
sabia tudo o que se ffaz polo mundo. 

Item. Entrey a el rrey e perguntou me se tynha aigúa nova dise lhe 



— 3o8 — 

que não senão a que ouv3'ra a sua porta dise me então cyte Alhorra me 
esprcveo mas tudo tenho por bulrra ate que vos venha a vos carta do que 
pasa rrcspomdy lhe senhor nunca ffaleçem ladrõees que fiação males e 
esta nova algúa cousa deve de servyr ao coxe a saber vosso criado Ale- 
xaerrom que he Ha naqueles campos e elle nos dyra o que Ha vay e tam- 
bém crreo que se alguo he que dom Afonso me csprevera muy cedo 
rrespomdeo me que hera muy bem e que elle avya que não hera nada mas 
que povos não queryão ssempre senão novydades mas nos os rreys dise 
ele avemos de hyr sostemdo e correjemdo os negócios. 

Item. Senhor isto pasado e eu em salvo do tomulto do povo a poucos 
dias veo o cavaleiro Alexaerrom que ja digo que el rrey tynha envyado 
ao campo o quall íTalou com el rrey primeiro que eu o vyse mandou me 
el rrei chomar e dise me ledo vystes ja Alexaerrom dise senhor não dise 
poys elle vos contara tudo o que Ha pasa e ííalaremos depoys disto e do 
negocio de Ceita me contou que em entrando elle polas portas de Ceita 
entrava também dom Afonso muito cansado que ffora a rrepique e correra 
atee Negrão a rrebate que lhe derão que cymquo porqueiros castelhanos a 
saber iiij que fforão de Tamjere e huum dos de Ceyta que saltarão no cur- 
rall que diserão e que levavão dous mouros homens e huum moço e que 
por mays não poderem que deixarão os dous mouros e se embrenharão 
e levarão o moço e que dom Afonso logo mandara chomar huum bargam- 
tym e o mandara Almurça porque ssegundo o que parecia os porqueiros 
t3'nhão comcerto em Castella pêra que tamto que tivessem presa que 
vyese algum barco por elles aqui senhor tive mays pratica com el rrey de 
lhe dizer o que pasara o dia que a nova vyera e como povo me quisera 
matar dise me povo ja sabes o que he elle ffala e eu ouço e crreo o que 
quero etc. 

Item. Senhor me vy e ffaley com Alexaerrom e me dise eu ffuy a 
Tamjere e Alcacere e a Ceita omde dos capitãees rrecebi muita omrra e 
gasalhado e a cada huum delles dey vosas cartas que per m)^!! lhe espre- 
vestes e não vos traguo rreposta porque elles não souberão que eu vynha 
a Ffez e a causa he porque eu achey os negócios tão iryscados e burelha- 
dos que me não atryvy a meter a tesoura nelles ate não dar conta a el 
rrey ja lha tenho dada os negócios daqueles campos estão muy danados 
que os mouros tem ITeitos muytos males ate gora c d aqui avamte segundo 
o que parece cristãoos querem se vymgar que em Tamjere matarão seys 
mouros agora malamente que hyam com asnjnhos carregados de moos 
que tyrarão n Almadrava amtre Alcacere e Ceita Oorão três mouros de 
Tutuão homens omrrados a caçar mell são desapareceydos que nem elles 
nem os asnos nada parece nem se podem achar os mouros estão diso 
empolados e hão se de querer vymgar esta azado ffazer se muito mall e 
as pazes sse quebrarem se rrespomdy ao Alexaerrem que rremedeo que 
el rrey teu senhor era muito ffraca vara de justiça e he muito bõo homem 



— 3o9 — 

e queria que todos taees ffosem e isto não se acha oje no mundo dise me 
este he o mall de que eu estou doemte que el rrey a d acudyr a iso muito 
de vagar porque não he nelle anojar njngem e a o de ífazer a saber a 
estes alcaydes a que os campos são encomendados a saber o d Alcacere 
Quibyr e o de Xuxuão e a cyte Alhorra e elles e cada huum delles ftaz 
o que lhe bem vem e o demo sabe se estes se querem todos paz se guerra. 

Item. Senhor dise ao mouro deixay me cuydar neste negocio e ama- 
nhãa vos rrespomderey e eu senhor tynha ja n alma assentado de ífazer 
o que ífyz loguo como do mouro me apartey mas o mouro dise me como 
homem de bem e que tynha visto quão azado estavão os males e avya 
por certo que as pazes herão quebradas que me rrogava por amor de 
Deus que não tardase no que ouvese de líazer e que tomase bõo conselho 
porque avya muito grande medo a se rromper tudo deixei o fluy me a el 
rrey e tíaley lhe. 

Item. E dise senhor eu ffaley com Alexaerrom e me deu conta dos 
males daquelles campos e como estaa azado tudo se esborromdar e se 
quebrarem as pazes e não por vossa vomtade que bem sey que vossa 
am)zade com el rrey meu senhor vos a temdes e desejaees de em tudo 
a mostrar e por vossa bomdade queres julgar que todos os homens sejaom 
bõos e isto senhor não se pode achar oje no mundo a este negocio 
segundo o que vejo ha mester acuydyr mays rrijo e mays em breve do 
que vos senhor aveys de mandar porque sey que aves de mandar esprever 
aos alcaydes que entemdão njsto e elles estão lia e os campos lhe são 
encomendados per vosso mandado e os males tfazem sse ssem elles a 
yso acodyrem he muy comprido rremedeo outro rremedeo saberey eu dar 
que seja mays em breve tudo rremedeado em paz e asoseguo como eu 
sey que vos desejaees que tudo estee perguntou me como. 

Item. Dise senhor vosso ffilho Moley iMaftomede he novamente justiça 
moor de voso rreyno e ja tenho vysto quanta justiça tem ífeita depoys 
que ho he e ho medo que nesta cydade lhe ja hão manday Alexaerrom 
que lhe va a dar conta destes negócios e elle mandara ííazer justiça e vos 
fficareys ííora do escrrupolo que temdes de não quererdes que se ffaça 
senão per mão dos alcaydes e vosso ffilho mandalo ha ííazer como ju: - 
tiça moor que he e per cyma de todos agardeceo mo muito pydi lhe que 
logo aly mandase chomar Alexaerrom que lhe mandase que logo partyse 
e se ífose a Mjquinez e dese conta de tudo o que vyra e o que pasava a 
seu ffilho o quall logo aly peramte mym mandou chomar e lhe mandou 
que fíose a Mjquinez e desse conta de tudo a seu ffilho e que lhe man- 
dava que mandase njso como delle esperava o quall mouro como saymos 
d el rrey me ífoy bejar a rroupa de ledo de aver que per esta vya os ne- 
gócios sse enmendaryaom em breve porque o ffilho d el rrey não ífaz 
senão a destro e a sestro e ssem proçesos nem contraditas nem autos Judi- 
ciaees cortar cabeças que não ffaz mays senão os presos diante delle que 



— 3io — 

fíez este tall cousa ora seja verdade ora não cortem lhe a cabeça e 
esoutro tall cousa cortem lhe os pees ou as mãos e aconteceo ja mandar 
que cortassem a cabeça a huum mouro tornaram lhe a dizer senhor não 
ftoy asy mas iToy asy e não tem culpa rrespomdeo elle vay fíaça se poys 
que o ja dise corta lhe a cabeça e he de xbiij anos hão lhe ja mor medo 
que a Moley Naçar em seu tempo. 

Item. Senhor o Alexacrrom partyo logo que nunca quis esperar que eu 
sprevese o caso a Moley MatVomede e dise que elle lho dyrya de mjnha 
parte porque na verdade senhor amtre jemte bestiall se achão as vezes 
pesoas outras que taees não ssão e este mouro com zello de homem de 
bem c ftolgar das pazes por ver que cumprem a ell rey seu senhor e tam- 
bém porque veo contemte dos capitãees que lhes ffizerão omrra e mercees 
que eu lho esprevy a todos ífoy voando com prazer deu lhe conta de tudo 
e Moley Maffbmede rrespomdeo logo por elle a el rrey e mandou com elle 
cyde Ehya seu alcayde que oje he e ho hera de Larache dizendo que 
P3rdia a sua alteza que ouvese por bem que Alexaerrom partyse logo e 
que cyde Ehya seu alcayde ffose com elle e huum maharrequim seu que 
he como porteiro da camará e que vemdo laa os povos e cabyldas e jem- 
tes seu alcayde seryão certos que os que males ffizesem que deile avyão 
de rreceber o castyguo. 

Item. Senhor elle aqui de volta de Mjquenez e com esta rreposta ííol- 
fiou el rrey muito e mandou sprever a todas as cabildas e xeques e 
alcaydes cartas que se apregoem hj^mdo por todas as ffeiras e praças 
vezynhos dos lugares todos de vosa alteza em que lhes ffaz a saber que 
elle tem ffeito pazes com vossa alteza o de que esta muy contemte e 
ífolgua muito com ellas que lhes manda e encomenda a todos em jerall e 
asy a cada huum em spiciall que guardem em tudo seu servyço e que os 
que o contrayro flizerem sejão certos que o não hão d aver com elle senão 
com o guazill seu fhlho e que pêra iso vay Ha seu alcayde cyde Ehya 
pêra dello serem mays certelíicados que asy se cumprira e com esta deli- 
gençia ffeyta com os povos e as}^ com os mesmos alcaydes a quem os 
campos florão encomendados o dito cyde Ehya e Alexaerrom e o mahar- 
requim com elles se hão de hyr ver com dom Afonso em seu campo e 
aly asemtarão novamente os negócios todos de modo que seu campo 
lavre e vyva seguro e que se dom Afonso tyver no certo sabydo mouro 
""que dano tenha fleito em seu campo que lho nomeara e elles o castvgarão 
e rroubarão toda a ffazemda que lhe ffor achada o de que sey que elles 
vão desejos porque he rroubar e também por castygarem mallffeytores 
que alem de lhes ser muito encomendado a estes dous mouros elles 
senhor de seu moto propyo sey que vão fíafforaves ao nosa parte e ao 
serviço de vosa alteza. 

Item. Senhor levão pêra que os cristãoos vyvão juntos e que asy 
ordene pêra sua mjlhor segurança. 



— 3ii — 

Item. Que não aja porcos porque os porqueiros ssão castelhanos e 
ladrões e ja a yso se deitão e que sse castelhanos cativarem alguuns 
mouros da terra d el rrey que lhos hão de tornar de veneza se Ha os 
levarem. 

Item. Que todos os males pasados esqueção e d oje avamte se come- 
cem de novo as pazes e que os capitãees castiguem os cristãoos mallífei- 
tores e que Moley Mafíbmede ífara jmteira justiça dos mouros e ellc asy 
mo mandou dizer pollo Alexaerrom que o castigo dos males que a ele os 
deixase que elle me fficava que não pasase como ate ora pasou. 

Item. Senhor isto ffeito em Ceita se hyrão Alcacere e d aly a Tam- 
jere e d aly Arzilla per elles sprevy a vossos capitães todos sua yda e o 
a que hyão e posto que todos e cada huum delles acerqua de vosso ser- 
vyço não sou dyno de desatar a correa de seus çapatos comtudo per 
mjnhas cartas lhe lembro sempre vosso servyço e agora largamente nestas 
vistas e novo asemto que vão ftazer e o como me parece que em tudo e 
em cada cousa se devão aver e asemtar de modo que tudo ffique em tall 
paz e asoseguo quall compre a serviço de vosa alteza e bem e segurança 
de seus lugares e de não averem mays outros taees males como ate ora 
ssão acontecidos. 

Item. Senhor o caso he que estes mouros são ja partydos a ífeitura 
desta a hussar do que lhes el rrey mandou e asy como o aqui sprevo a 
vosa alteza o que senhor poso dizer a vosa alteza e verdade he que vosa 
alteza oje me teve qua que o quis Deus porque certo o negocio ffoy tão 
bamco rroto que eu estive com cartas fteitas d avyso pêra vossos capi- 
tãees se rrecolherem e se porem em salvo e olharem por sy e não por 
vomtade d el rrey que myntyrya se tall disese mas por sua ffraqueza que 
he muito ffraco em acuydyr e atalhar a males primeiro que se ífação e eu 
estava com pensamento de não esperar o ffym de seu rremedeo por ser 
lomgueyro como ja diguo achey este talho de pêra seu íBlho se enmendar 
espero em Nosso Senhor que se enmende e tudo ffique em paz e asose- 
guo em spyciall se estes mouros castigão e rroubão dous pares de mouros 
mallffeitores de que elles levão muito desejo e será castigo que metera 
medo aos mãos e aos paçifficos dará atrevymento pêra com toda segu- 
rança pavoarem aos campos e ffazerem suas ffazendas e asy fficão as 
pazes fteitas de novo ou novamente e não pareça senhor que me gabo em 
dizer que m achey qua porque quallquer criado de vosa alteza que qua 
estivera o ffezera muito mjlhor que eu sou o somenos criado vosso 
fc tão ydyota como de mym conheço que sou mas digo que quis Deus 
achar se qua huum criado vosso pêra njsto vos servyr acertey de ser eu 
que em tudo e njsto ffiz o que pude e com boa vomtade e amor de voso 
servyço. 

Item. Senhor eu esprevy a vossos capitãees alem d outras cousas que 
m€ parecerão voso servyço que do asemto em que cada huum per sy 



— 3ia — 

flicase com estes mouros em todos os negócios o esprevesem logo a vosa 
alteza e de tudo lhe desem myuda conta e que avemdo amtre elles algúa 
pequena defferença a que comprise el rrey de Ffez ou se[u] ffiiho aver de 
prover que com toda brevydade e deligencia mo esprevão pêra lhe envyar 
todas as provissõees necesaryas e compridoyras ao tall negocio os mou- 
ros são lia ydos aos campos e eu aqui sobre aviso pêra acudyr a todo o 
que me spreverem e vyr que compre a voso servyço. 

Item. Senhor os negócios fficão neste estado que serão pêra bem 
prazendo a Noso Senhor parece me serviço de vosa alteza mandar ffavo- 
recer o negocio com mandar expresamente que em Affryca totall não aja 
porcos e a rrazão he porque todos os males e danos que mouros tem 
íFeitos os porcos são diso a causa eu per muitas vezes o tenho esprito a 
vossos capitãees a todos e a cada huum per sy. 

Item. Porcos são alimareas que se crião apartados e de per sy e 
pêra isto asy ser amdão muy lomje metydos em terra de mouros e huum 
porqueiro soo com sua piara em huum vale e outro muy lomje d outro e 
soo com seus porcos de modo que ftazião cobiça e davão materya a 
mouros os cativarem e matarem o que senhor sse não pode ífazer em 
pastores de vacas nem de ovelhas que comumente paceem juntos e os 
mays dos homens que em Affryca são perdidos ate ojc florão porqueiros 
polas causas ja ditas. 

Item. Senhor são muy danjnhos nas agoas que as danão pêra os 
outros guados o de que se agravão os mesmos mouros que nos campos 
lavrão e os cristãos que não crião porcos também se agravão das agoas 
que danão. 

Item. Senhor porcos este ano flizerao muitas perdas em mjlhos que 
em Afí"ryca se dão muitos e bõos mjlhos zaburros e os comerão todos e 
sem enmenda de que seus donos rreceberão perda e se agravão muito. 

Item. Senhor os mays dos porcos que se crião em Aflryca são de 
cristãoos novos e de castelhanos que de Castelia os florão lia criar e cava- 
leiros que vy verão sempre em vossos lugares por sua pobreza não os 
puderão ate ora criar nem crião aue ajmda por proveyto dos taees alguo 
se pudera soffrer mas o proveyto he das pesoas que digo e este he o pro- 
veyto dos porcos serem causa dos males ja ditos e d outro muito ma3'or 
que he porem as pazes em tanta conflbsão que a causa delles chegarão os 
negócios a este estado que novamente lhe esprevo. 

Item. Delles nacce os mesmos porqueiros que são castelhanos e 
ladrõees que se dão a ffurtar como ora flizerao em Ceita no curral que 
ja digo e elles em Tamjere matarão também os mouros que digo que se 
matarão e elles em Arzilla matarão huum judeu e huum mouro que hyão 
pêra Alcacere Quibyr e elles ffarão muitos destes males sse em Aflryca 
ouver porcos e não os avemdo não avera porqueiros ladrõees. 

Item. Senhor a terra d Aflryca he em sy tão grosa que de criação 



— 3i3 — 

de vacas e egoas e ovelhas e muitas lavramças podem ser ricos os cava- 
leiros que nella naceerão e pelejarão e ssem porquos que lhes dane as 
agoas nem comão os mjlhos e vosas pazes em paz e asoseguo e isto se- 
nhor he o que pasa destes negócios e também o que delles me parece. 
De Ffez oje bj dias de dezembro de Í540 anos. 

Item. Senhor estando com esta ffeita e pêra a cerrar veo nova e ver- 
dadeira e certa que ela he que porqueiros em Tamjere matarão huum 
judeu rrico morador em Xuxuão e fFe3'tor de Moley Maffomede de Bar- 
raxe o que ffez muy grande abalo nestas jemtes porque também matarão 
huum mouro em cuja companhia o judeu hya hera homem que tratava 
muita ftazenda por Tamjere e pello rroubarem o matarão veo loguo nova 
que dom João tinha ja presos deus ladroes com que alguum tamto o 
pouvo rrepousou dom João nada me tem esprito nem nada sey senão de 
ouvyda e per cartas que vem a judeus e a mouros este senhor he grande 
esquecimento nao me ífazer a ssaber pêra logo amezinhar as chagas que 
estas novas causão em mouros e pêra amezinhar não me matarem com 
gritas que tudo se torna a mym e isto esta asy ate ora que mais não sey 
que saber que he verdade este Judeu ser morto e per porqueiros e serem 
dous delles presos. 

Item. Senhor oje ix dias deste mes me mandou el rrey aqui a esta 
pousada o seu luely e huum mouro que vyera de Tutuão com húa carta 
asynada por xx homens mouros de queixumes e grandes escrramações 
dizendo me da parte d ell rey que vise a carta e ouvise o mouro e que 
njso esprevese de modo que os males se enmendassem e o caso senhor 
he este. 

Item. Ja atras digo que em Negrão termo de Ceita em huum curall 
se tomou huum moço e como dom Afonso ffoi a iso a rrepique e as de- 
ligencias que njso ffez e mandou ff"azer os porqueiros que tomarão este 
moço seu preposyto herão pasalo a Castclla diz este mouro e asy o diz 
a carta dos queixumes que estando os porqueiros com o moço junto 
dAlcacere em huum mato amdava por ahy perto huum ffilho de Pêro 
Alvarez de Carvalho buscamdo huum ff"alcão que lhe ff"ugyra e que o 
moço se espidyra dos porqueiros e sayo ao estrupo dos cavallos e veo 
ter com o ffilho de Pêro Alvarez e com os que com elle aly herão e 
chorando ho flby aferrar pollo estribo e lhe disera como o levavão cativo 
aquelles porqueiros os quaes porqueiros diz o mouro que sayrão do mato 
após o moço e que o ffilho de Pêro Alvarez os vio e os desomrrou de 
mãos homefts e os deixara hyr sem outro castigo a isto rrespondy que 
poys o moço que levavão cativo hera avydo que estava bem e que quanto 
ao ali que dizia que eu tynha por certo que tall não hera porque não digo 
eu ffilho de Pêro Alvarez mas seus homens se taaes porqueiros toparaom 
e em tall auto os prenderão e levarão presos. 

Item. A voltas destes queixumes e nesta carta dizião que o mesmo 

ANAIS DE ARZILA 40 



— 3i4 — 

moço que escapara contara que conhecera a huum dos porqueiros húua 
jaqueta e húua carapuça de huum dos três mouros omrrados que atras 
digo que fforáo caçar nele amtre Alcacere e Ceita e que desaparecerão 
ssem ate oje parecerem mortos nem vyvos e que o porqueiro lhe disera 
que estes três mouros estavão em Taryffa e que a elle também o quervão 
lia llevar. 

Item. Senlior estes três mouros são mu}' aparentados em Tutuão e 
todos seus paremtes estão muy escandalizados delies desaparecerem e com 
desejos de se vyngarem tenho por certo que também isto ííov obra de 
porqueiros a isto rrespomdy que se elles herão mortos nenhuum rreme- 
dio podia aver como não avia a muitos cristãos que nestes campos se ma- 
tarão depoys das pazes e que se herão vivos que de domde quer que 
estiverem os trarão e que disto ffossem certos. 

Item. Cada paso destes he o aqui d el rrey de modo que se vem o 
mundo abaxo e como se nehuuns males mouros tivessem íTeitos a cris- 
tãoos tomey por assemto que spreverya a Pêro Alvarez como de ffeito 
logo lhe esprevy todo o queixume e enfformação que ca se dera a el rrey 
que me parecia vosso serviço eile se ver com Mahamed Haçim jemte de 
cyte Alhorra e com elle alguuns destes omrrados de Tutuão se pratycase 
no negocio e que se por seu ffilho pasara o tal descuydo com boas pala- 
vras os satysffizese e com terem ja o moço que lhe levavão os porqueiros 

e que se asy não pasara como elles dizião lho ffize a verdade do 

negocio e isto com taees palavras que fficassem em todo bõo asento e 
amjzade e elles ffora destes queixumes. 

Item. Que per derradeiro lhe affyrmase que se os três mouros de 
Tutuão que ffalecera fforem vyvos que per sua parte elle trabalhara que 
os traguão e que de tudo o que com elles pasar me spreva húa carta per 
elle asynada e por ho Hacem e mouros com que pratycar pêra a mostrar 
a el rrej' de Ffez porque sejf que el rrey a de dar muito crredito a sua 
carta porque certo senhor affyrmo a vossa alteza que Pêro Alvasez de 
Carvalho esta qua avydo por tão symgular homem de cavaleiro e hom- 
rrado e sesudo como elle porque certo senhor tall ho he e taees ssão suas 
obras ajmda que o não conheço o que ouço a mouros e cristãos e suas 
obras daom delle testemunho e tenho que o que estes mouros dizem do 
esquecimento do ffilho tenho por myntyra isto he o que he pasado e em 
poucos dias e tudo por porqueiros o demo porcos que tanto dano fíazem 
torno a lembrar a vossa alteza que será seu serviço não os aver e asy 
que os porqueiros que os guardão que os capitãees peramre sy os ffa- 
çaom embarcar e pasar a Castella porque se na terra fficarem sempre 
husarão de seu officio de furtar e matar e vay me parecendo que alguuns 
cristãoos que nestes campos morrerão que porqueiros matarão alguuns 
dcUes poios rroubarem. 

Item. Senhor Alexaerrom e o alcayde cyde Hehya são ydos como 



— 3i5 — 

ja atras sprevi a vossa alteza e sey que se haom de achar lia a morte do 
judeu que agora se matou de Xixuão e a deligencia de justiça dom João 
nisto a de ftazer e asy a estes queixumes ora novamente de Tutuão o que 
será grande bem porque vyrão e serão testemunhas de vista de tudo c 
do que elles lia fizerem os capitães spreverão a vosa alteza e vymdos 
qua do que me contarem e os capitães mo sprcverem ftarey a saber a 
vosa alteza. De Ffez oje ix dias de dezembro de Í540 anos. Bastião de 
Vargas. 

Sobrescrito : A el rrey noso senhor. 

Dos acontecimentos dos campos: 1.* pêra ver. 

Arquivo nacional, Cartas dos governadores dos lugares de Africa, 
maço único, n." jS. 

XVI 

9 DE DEZEMBRO DE 1540 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Di:{ que Mídei Ma- 
famede, fiUio de el-rei de Fe:{, tinha licença de seu pai para lhe vender 
certa soma de trigo, posto a carregar na Mamora, devendo o seu pa- 
gamento fa^er-se depois da entrega. — Maneira como esse pagamento 
se havia de fa\er. — Pede a el-rei que lhe mande dinheiro para isso. 
— Escreve ao feitor de el-rei em Larache que logo vá com navios à 
Mamora para recolher este trigo. 

Senhor. Moley Mafi'ome[de] guazill íElho d el rrey de Ffez veo a esta 
cydade eu o ífuy ver en amtre outras praticas me dise que elle tynha 
licença d e! rrey seu pay pêra de Zagar e de sua terra vemder a carre- 
gar na Mamora duas myll çaífras de trigo e que muitos mercadores lhe 
ffalavão nelle como elle crria que eu terya ssabydo que elle as não querya 
vemder senão a mym e pêra vosa alteza e que se espamtava como lhe 
eu njso não ffalava. 

Item. Eu senhor lhe rrespondy que eu tynha ouvydo que o seu al- 
cayde cyde Hehya tynha envyado húa pesoa a vosa alteza com dous ca- 
valos e que este avia lia de ffalar neste trigo e que a esta causa lhe não 
ffalava esperamdo o que este seu criado lia ffarya rrespomdeo me que 
tali comjssão não levara pêra njsso ffalar que o trigo estava prestes e o 
mandarya levar a Mamora cada vez que aly flbssem navios e pêra que o 
rrecebese e que em seu trigo nenhúa duvyda averya. 

Item. Senhor porque me pareceo vosso servyço não largar este trigo 
e deixalo a mercadores tratey de preço rrespondeo me que o preço avia 
de ser a três onças e mea de rreaees de prata como el rrey seu pay dava 



— 3i6 — 

novamente o seu triguo a vosa alteza mas que me ffarya mays ffavor e 
isto polo de vosa alteza que não querya paga do seu trigo ssenão depoys 
do trigo entregue e que então lhe ffizesse sua pagua. 

Item. Vy senhor que a este preço lho compravão mercadores e vy 
senhor que he ssem perygo de lhe dar dinheiro damte mão como seu pay 
pede e que nenhuum rrisco se corre acceitey o partydo de que me pasou 
huum alvará de que aqui env3'0 o terlado a vosa alteza em que diz que 
nem elle nem seus alcaydes e criados venderão trigo senão a mym e pêra 
vosa alteza e que a paga a de ser asy como ffor entregando o que ífor 
entregue lhe pagarey. 

Item. Me deu outro alvará seu em que da poder ao ífeitor ou a pesoa 
que estever na Mamora que posa tomar quallquer trigo outro que se ven- 
der no dito rrio pêra vosa alteza e a paga será como o seu e que poUo 
asy ffazer não lhe vyria perjuizo nem dano alguum do quall alvará aqui 
envyo o terlado a vosa alteza. 

Item. Senhor na pagua ey de ter esta maneyra a ssaber que tanto 
que huum navio ífor carregado que me tragão conhecimento em fforma 
do ffeitor ou do esprivao que o rreceber da contia do trigo e de como 
fEca sobre elle em rreceita e nas costas deste conhecimento ífara o spri- 
vão de Molei Maífomede huum conhecimento em que rrecebe e ha por 
rrecebido o tarato dinheiro ou omças quanto no dito trigo do conheci- 
mento montar do almoxarife ou pesoa em Arzilla ou em Tamjere em 
cujo poder o dinheiro estiver e hyra huum criado seu de Moley Maífo- 
mede a cada huum destes lugares a rreceber seu dinheiro e com húa carta 
mjnha pêra o dito almoxarife ou rrecebedor em que lhe dyrey que rreceba 
o dito conhecimento do fíeytor e lhe faça o dito pagamento asy como 
veraa pello dito conhecimento do íieitor e asj' vossa ffazenda não correra 
rrisco de se trazer a este rreyno por sua nem os conhecimentos não cor- 
rerão rrisco de se perderem sendo em mjnha mão e eu qua em Fez e 
como se ate hora ffez e as}' será vosa alteza mjlhor servydo em tudo e 
eu ffora de ííadiga de guardar conhecimentos e dar conta e também se- 
nhor sou ja velho e camsado de amdar ffora de vossa graça quero escu- 
sar materya a homens vos espreverem cada dia males de mym porque 
huum spreve que tenho ca xbiiij cruzados outro spreve quo o não avysey 
que tomase navios e isto e outras taaes hão se de apresemtar a vosa al- 
teza per pesoa que me quer pouco bem e sem eu ser ouvydo por todas 
estas rrazóees se ffara como digo e vosa alteza muito mjlhor servydo e 
vosa ffazenda ssegura e ssem correr rrisco o dinheiro nem os conheci- 
mentos do fteitor e a mym será muy grande mercee. 

Item. Senhor pêra pagamento deste trigo de Moley Maâomede mande 
vosa alteza logo e com toda brevydade o pagamento em rreaees de prata 
ou em barras de prata que seja de ley de rreales e digo que a de ser em 
Tamjere ou em Arzilla porque he muito perto de Mjquinez e hc terra 



-3i7- 

mays segura pêra hyrem pollo pagamento que a Ceita e também porque 
os camjnhos pêra Ceita não são oje seguros porque todas aquelas serras 
amdâo alevamtadas e os camjnhos se correm com muito rreçeo salvo se 
Yão grandes caffilas e muita jemte e AÍolei Mofíomede logo me dise que 
seu pagamento que ffosse em Arzilla ou em Tamjere por ser delle perto 
e seu criado hyr soo a rreceber seu pagamento e que hyra a cada huum 
destes lugares mays seguro que a Ceita. 

Item. Senhor porque Molei Maffomede diz que logo vão navios a 
Mamora e que tanto que lia fforem começarão a rreceber trigo eu senhor 
esprevo a Lar[a]che ao ffeitor e officiaees de vosa alteza que se vaa a Ma- 
mora quem Ha haa d estar e que levem por primcipio huum par de navios 
pequenos em que comecem a rreceber e que depoys segundo o negocio 
ffor soçedendo e o trigo acudir asy se vaa provendo de navios que o ne- 
gocio lhe dyraa o que njso se deva ffazer e também aly tem alhorrys em 
que se pode por e em tamto agasalhar o triguo. 

Item. Sey que este trigo que se a de dar logo e que tanto que ffor 
dado que a de querer sseu pagamento pollo que peço a vosa alteza que 
logo com toda brevydade mande vyr a cada huum destes lugares ja no- 
meados a prata pêra lhe pagar Arzilla ou a Tamjere. 

Item. Senhor ja esprevy a vosa alteza que se ífaça Ha conta que três 
onças e mea de rreales asy per conto vale jcxx reaes e pesadas por peso 
mourysco como lhe a de ser pesado ssão mays três por cento que podem 
ser mays casy xxx reaes e asy três onças he mea de rrealles pesadas 
pollo seu peso valem jcl reaes nosos. 

Item. Senhor que ha dias que não chove e vai o ano arremedando 
ho ano pasado e nesta terra como não chove logo as jemtes se encolhem 
e o triguo çesa neste trigo do ffilho d el rrey nenhuum rrisco ha nem nelle 
se avemtura ffazenda porque se o mandar dar avera sseu pagamento e se 
o não der não avera dinheiro como rreza sseu contrato. 

Item. Senhor no contrato com el rrey de Ffez he pello contrayro que 
elle quer o dinheiro damte mão como ha dias que o esprevy a vosa alteza 
por Gonçallo Diaz rreposteiro da rrainha mas se vosa alteza manda acei- 
tar o contrato d el rrey terey esta íForma alem de que vosa alteza me 
mandar que nenhuum dinheiro le darey se vyr que não chove e que^a 
seca vay avamte porque em tall caso esta por mim sem duvyda que não 
dará triguo e chovendo também esta certo aver trigo então lhe darey 
dinheiro na íforma e maneira que vosa alteza mo mandar que iso espero 
rreposta do que digo que lhe esprevy pollo dito Gonçalo Diaz rrepos- 
teiro. 

Item. Senhor a tudo peço a vosa alteza que com brevydade me 
mande rresponder em espiciaíl lhe peço por mercee e com efficaçia que 
mande prover esta prata pêra pagamento do trigo do^ffilho d el rrey por- 
que este a de ser necesaryo muy cedo poys o ífeitof o logo vay por em 



— 3i8 — 

hordem e de o rreceber. De Ffez oje ix dias de dezembro de 1340 anos. 
Bastião de Vargas. 

Sobrescrito: A el rrey nosso senhor. 3.* pêra ler: do trigo do ffilho 

d el rrey. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.', maço 68, n.° g3. 



XVII 
i8 DE JANEIRO DE 1541 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — Pede uma tença 
para um morador antigo de Ar:{ila, pobre e carregado de JiUws, Ber- 
nardo de Afonso Sequeira, que a bem merece pelos seus serviços. 

Senhor. Bernaldo d Afonso Sequeira he huum homem morador nesta 
villa e aqui serve vosa alteza com armas e cavallo he filho de Fernão 
d Afonso Sequeira hum dos primcipaes desta villa e cavaleiro fidalguo e 
que hem esta villa sérvio vosa alteza bem corenta anos e aqui lhe mata- 
ram hos mouros huum filho homem tinha o abito com dez mjl reais de 
temça de vosa alteza e asy sua molher tinha três mjl reais de temça por 
ano do tempo d el rrei dom João e per seus falecimentos não houve Ber- 
naldo d Afonso Sequeira nehúa tença destas poUo não requerer temdo 
pêra iso merecimento poios servjços de seu paj e polo seu e ora lhe fale- 
ceo húa sogra per nome Briatiz Pirez que tinha oito mjl reais de temça 
de vosa alteza de húa cavalaria merçeria e porque Bernaldo d Afonso 
Sequeira he mujto pobre e caregado de filhos pequenos e serve vosa 
alteza nesta vjlla receberej muj grande merçe em lha fazer vosa alteza 
desta temça e não havemdo llugar pêra elle ha faça vosa alteza ha sua 
molher porque de qualquer maneira terão pêra se poderem mjlhor manter 
porque certefiqo a vosa alteza que vivem de maneira que toda mercê que 
lhe for feita será grande serviço a Deus. Noso Senhor acrecente vida e 
reall estado a vosa alteza. D Arzila oje xbiij dias de janeiro de 541. 
Dom Manuel Mazcarenhas. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.', maço 6g, n.° 12. 



— 3i9 — 
XVIII 

29 DE JANEIRO DE 1541 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — Um frade ca- 
pucho apresentou-lhe uma carta de el-rei em que lhe ordem que sátam 
para Fe^ por todo o mês seguinte, os judeus que estavam em Arzila. 
Procedimento insolente do frade.- O capitão pede a el-rei que sóbre- 
esteja na sua ordem, porque com ela sofrerão muito os moradores e 
éle próprio. Os anos passados tinham sido maus e para se sustenta- 
rem eles haviam pedido emprestado aos judeus. - Se el-rei não puder 
confirmar o privilégio dos judeus, que eles tinham por dots anos, ao 
menos autori:{e-os a ficar em Ar-^ila até aproxima colheita, de contrá- 
rio os moradores terão de vender as próprias camas para pagarem as 
suas dívidas. 

Senhor. Huum frade capucho desta casa de São Francisco me deu 
húa carta de vosa alteza em que ha por serviço de Deus e seu que hos 
judeus que hora nesta villa estam se vão pêra Fez e me mamda que hasy 
lho notefique e que seja sem fiquar nenhuum per todo este mes de feve- 
reiro por me ser apresemta[do] a xxbiij dias deste mes de janeiro eu hos 
mandei loguo chamar e lho mandej e que se determinassem lloguo por 
que eu asy o prometia pois mo vosa alteza mandava posto caso que com 
ho padre que ma deu case o não podia fazer por me querer tomar a mão 
niso de maneira que darey sempre testemunho dele parecer mais cavaleiro 
que rreligioso porque quisera no propio dia ver lloguo a execução a poder 
de forca què peramte mim quisera dar a huum dos omrrados hua bofe- 
tada afora outras pallavras de rreguridade leixo as testemunhas que tomou 
e ho auto que fez em terreiro de como elle dava aquela carta de vosa 
alteza pêra se irem os judeus daquele dia a huum mes que so jsto ajmda 
que ho não tivera por carguo bastava pêra não ser menos do que vosa 
alteza mamda. 

Item. Ajmda que pêra demonstração do que me parece diguo senhor 
que nesta villa a três ou quatro anos que não ha pão e que fazem suas 
llavouras e que pêra elas e o mais que ham mester os moradores desta 
villa e os judeus lho emprestao ho que não pode menos ser por não haver 
a quem se peca nem quem no tinha senão helles e certefiquo a vosa 
alteza que ha muitos que lhe devem muito a quatro anos e cimquo e d ay 
pêra qua porque 6qua pêra a paga e da pagua pêra o novo e como vosa 
alteza sebera huum nem outro não vemos a dias e mamdamdo vosa alteza 
que se vão he de per força que se lhe pague o que lhe devem que em 
verdade os moradores tem disto mor pesar do que que eles podem ter 



320 

por se yrem que com esa comdiçam estão ha mujtos dias por lhe não 
poderem pagar e vosa alteza pode verdadeiramente crer que não he huum 
nem três nem des mas os os majs e majs principaees e estão de maneira 
que será necesario vemderem lhe as camas aos que has tiverem por quão 
alcamçados estão e o cramor disto que todos fazem me moveo a ysto 
ajmda que heu sam o que niso tenho parte de major divjda e menos 
tempo pêra a poder pagar de maneira que Tosa alteza veja a opresão que 
todos nisto rrecebem e como lhe não podem pagar ajnda que se destruao 
e que tãobem ho tempo pêra eles he breve e eles tem de vosa alteza 
huum privilegio de dous anos e visto tudo e a necessidade de todos e que 
a todos fará njsto muj gramde mercê aver por seu serviço confirmar lhe 
os dous anos sem mais comdiçáo e se parecer mujto a vosa alteza que 
ha mim não me vaj nisto mais que ficar tomado no meyo de mujtos que 
ho desejão so por este rrespeito que por cima disto todos folgarão e eu 
muito mais seja ate se rrecolher esta novidade que em boa ora vira que 
prazerá a Noso Senhor que será como desejamos pêra então lhe pagarem 
e entanto se começaram de mandar e pagos neste tempo seram ydos sem 
mais se poder rrepicar no caso e certo que vosa alteza fará nisto tamanha 
mercê aos mais moradores desta villa como a causa porque lha pedem 
he serviço a Deus e eu asy a rreceberej de vosa alteza cuja vida e rreal 
estado Noso Senhor acrecente. D Arzila oje xxjx dias de janeiro de i34i. 
Dom Manuel Mazcarenhas. 

Sobrescrito: A ell rrei noso [senhor]. 

1541. De dom Manuel Mazcarenhas de xxix de janeiro. 

Item. Sobre a noteficação que lhe fez o frade dos judeus pêra que do 
dia que lhe fose apresentado se fose[m] pêra Fez. 

Item. Sobre os moradores que ouvesse por bem de lhe mandar la dar 
dinheiro pêra que recoihesem suas cartas. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.', maço 7/, n." -o. 



— 321 



XIX 

i3 DE MARÇO DE 1541 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — O alcaide 
de Alcácer e Rute deram nova que o mouro Bociná, que se levantara 
na serra e fora vencido por Mulei Abrahem, e se julgava morto, era 
ainda vivo e revoltado: que estivesse a recado até que el-rei de Fe:{ 
desse providencias. — Dá conta da perda de algumas atalaias e pede 
dinheiro para ocorrer às necessidades da vila. 

Senhor. Ho tempo e esta barra que não derão lugar a este portador 
partir mais cedo forão causa do tempo oferecer tamta cousa pêra escrever 
jumta. 

Oje sábado xiij dias deste mes de março me mamdou o alcaide d Al- 
quaçere rrecado per huum homem seu de cavalo como huum mouro que 
se chama Boçinaa que se ja levantou no começo destas pazes ho qual 
Muley Abraem foy sobre elle e ho destroyo e o avião ha ele por morto 

agora me mandou dizer ho alcaide como diguo a vosa alteza que 

he vivo e levamtado em húa serra destas pêra ajudar Muley Mafomede e 
que heu que estevese hasy a rrecado como estava hate el rrey vir de Fez 
ou mamdar sobre esta gemte e este mesmo rrecado me deu Jaco Rute 
que hagora a pouquo delia veo veyo de Larache aquy ter comiguo. 

Este mesmo dia me tomarão has atallayas que tinha posto da parte 
da serra huum elche que vinha espiar o campo pêra vir furtar alguum 
guado com hos mouros da serra e comfesou dous outres furtos que tinha 
feitos e que erão em companhya com elle estes mouros que duguo da 
serra ja tenho escrito ha vosa alteza a necesidade que ha nesta villa de 
dinheiro pêra atallayas e pêra outras cousas que cumpre e como e como 
se não pode aver de nenhúa parte portanto vosa alteza mande algija pro- 
visão de dinheiro pêra estas cousas. Noso Senhor acreçemte vida e rreail 
estado de vosa alteza. D Arzilla oje xiij dias de março de ib/Ç\. Dom 
Manuel Mazcarenhas. 

Sobrescrito: Pêra el! rrey noso [senhor]. 

Dom Manuel Mazcarenhas : dinheiro pêra as atalaias. O elche que 
tomou. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.% maço 6g, n." 65. 



ANAIS DE ARZILA 



4> 



— 322 — 

XX 

4 DE JUNHO DE 1541 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Di\ que 710 contrato 
das pa:{es que se querem assentar com el-rei de Fe\ cumpre tomar re- 
féns. Este receia perder-se no ânimo dos mouros se os der aberta- 
mente. Falou-se de seu irmão, que ficaria em A\amor como folgando, 
e essa era a melhor maneira de fa^^er, porque os filhos de el-rei são 
muito moços ainda para isso. — Oferece-se para negociar essas pa\es 
porque entre el-rei e ele ha bom entendimento. 

Senhor. O que a serviço de vosa alteza compre he segurar se d ell 
-rey de Ffez per arreffens e pêra aas aver delle alem delle a iso se pro- 
meter como vosa alteza Ha tem per seu asynado compre muito vosa alteza 
o aprazer em tudo e agora muito mays pêra que lhas posamos arrymcar 
mas segundo o que symto elle as não ousara dar de praça mas embuça- 
das por rreçeo de seus povos que também iso se de praça as dese serya 
causa de seu perjuizo e de o averem por cristãoo e se descobryr esta 
torrelha que elle quer encobryr do que se contrata secrretamente mas 
parece me que as dará como em primcipio per Rute apontarão de envyar 
seu jrmão a vesytar Azamor e fíicar lia âolgando e não com nome de 
arreliem e outra lhe não vejo que desta maneira posa envyar porque 
ffilhos ssão cachopos e não em hydadc nem abelidade pêra os envyar da 
maneira que digo comtudo vosa alteza mande sprever lhe o que diso pare- 
cer e ouver por seu serviço e se a mym o mandar e ca de mym ffor ser- 
vydo bem sey que ffarey njso mays que quallquer outra pesoa por mas 
ter a mym prometydo de rrosto a rrosto e amte elle eu ter credito e 
estar ja njso em ffruto dos cacizes que ssão vyndos e pazes bem me 
parece que nada levarão e não me esquece que elle quis que eu ífose seu 
ffiador que nunca ííarya pazes cora o xarile ajude me vosa alteza com o 
íTavorecer de modo que os negócios não sejão de praça pêra que m.ouros 
o não envergonhem e lhos ífação dar como nesa outra carta miudamente 
vay apomtado que a meu ver por agora elle lhas não dará. Muito desejo 
rreposta das cartas que levou meu ffilho. De Ffez oje iiij dias de junho 
de Í54Í anos. Bastião de Bargas, 

Sobrescrito : A el rrey noso senhor. 
4.^^ pêra ler: sobre aas arreífees. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.", maço 6g, n." 121. 



323 



XXI 

4 DE JUNHO DE i54i 

Carta de Sebastião de Vargas a cl-rei D. João III. — Da parte de el-rei 
de Fe?, escreve-lhe que será grande inconveniefite que penha embaixa- 
dor a tratar das cousas do xerife, como se di\; que será melhor tratd- 
-las éle, porque assim não levantará suspeitas entre o povo. — Queixa-se 
de não ter tido conhecimento desta embaixada senão por el-rei de Fe^, 
que estava na serra combatendo o rebelde Barraxe. — Se el-rei não 
quiser utilizar os seus serviços, mande pessoa que vá com nome de 
agente do trigo ou de outra qualquer cousa, mas não de embaixador, 
porque isso prejudicará muito el-rei de Fe^ e as cousas que se preten- 
dem obter dele. — Se, todavia, é serviço de el-rei que a embaixada se 
faça, o seu parecer ê que se sobreesteja nela e se negoceie primeiro a 
sua ida; e os negócios corram por si, que há três anos serve em Fe:{ '. 

Senhor. Quimta ffeira dous dias deste mes veo Jaco Rute a mym e 
me disse que aquella hora lhe chegara huum cytery dei rrey de Fez a 
grande presa com esta carta pêra vosa alteza e outra pêra elle ha quall 
me mostrou e dizia o segymte. 

Item. Tenho sabido que el rrey de Portugal! envia a mym huum em- 
baxador com muito aparato o que a mym ffora prazer e contemtamento 
se de sua vymda sse não sygysem muitos enconvenyentes e danos de 
meu servyço e seu eu lho esprevo per esta carta que lhe peço que o não 
mande e que se he partydo que o mande tornar e que os negócios se 
facão em todo segredo como ate ora se tratarão dyras a Bastião de mj- 
nha parte que lhe rrogo que com toda brevydade lha envye. 

Item. Lhe dyras que spreva a el rrey todos estes enconvenyentes 
que te aqui sprevo e que eu sprevo a el rrey seu senhor que lhe de cre- 
dito. 

Item. Senhor ffuy disto maravylhado ser el rrey sabedor disto xx 
legoas daquy naquellas serras sem o saber primeiro per mym e bem me 
lembra que ja o sprevy a vosa alteza que serya vosso serviço de todas 
suas cousas eu ser logo avisado pêra que el rrey as soubesse primeiro 
per mym e como compria a voso serviço que per outrem. 

Item. Senhor diz el rrey que elle atee hora teve levamtamento em 
seu rregno tudo por defteito de seu povo que não he tão domado e súdito 

1. Sobre esta embaixada, veja-se o documento que se segue a este e a sua nota 
final. 



-324- 

como os outros povos e que ajmda tem por assemtar Barraxe o quall a 
mayor fforça que tem he a vomtade do povo lhe ser ftavoravell porque 
apregoa guerra com cristãoos e asy o desprazer que o povo tem em seus 

b ãees contra elle seu rrey por ter pazes com cristãos sem olharem 

a outras calidadcs do proveito que das pazes he vymdo a este rreyno e a 
elle seu rrey e o mail que he Barraxe seu vassalo lhe ser tredor e se 
levamtar contra elle. 

Item. Diz que a causa da pouca conffiamça de seus povos e ajmda 
d alguuns vasajos em que a elle devera ter que não tem elle depoys que 
sayo de Ffez os ffoy asemtamdo e asosegamdo com toda bramdura e ssem 
guerra nem outro castiguo alguum ssendo elles muy merecedores de cas- 
tigo rriguroso poys se levamtavão e chomavão o xarife. 

Item. Senhor diz que a vymda do vosso embaxador seria causa de 
seus povos serem sabedores do que ate ora não tem ssabydo porque tudo 
o que he contratado per mym amtre elle e vosa alteza he tydo em tanto 
segredo que nada sse sabe senão em elle e duas pesoas suas esta 
guard em myra que o negoceo. 

Item. Diz que logo se a de saber ao que vem porque qua não ha 
negocio novo e grande a que elle posa vyr a saber de pazes novas nem 
de cassamentos que ca os não ha nem a tfazer contratos que a iso não 
ha de ser envyado senão a negócios da destro3'ção do xarife e que isto he 
dar em sua terra huum pregão pêra que se sayba o que se não ssabya 
posto que em seu rreyno aja algíia sospeita ha ja muitos dias mas como 
nunca de mvm e de mjnha estada puderão allcamçar mays que estar ca 
a triguo este nome ífez perder a sospeita dos outros negócios. 

Item. Senhor diz que alem disto a tomada do cabo de Guer he grande 
crareza pêra o povo saber e mays pola calydade da pesoa que vem que 
vosa alteza lhe manda pydir de praça o que elle a dias vos pede e tem 
concedido como poios apomtamentos esta per elle asynado e lhe tem vezes 
sprito que peça a vosa alteza que escuse a vymda dese seu embaxador 
porque a seu serviço e vosso será danosso. 

Item. Senhor diz que tudo o que per elle lhe pode sprever que lho 
mande sprever na fforma que atee ora se ifez e que lhe pede que veja 
bem ssuas cartas que per meu ffilho lhe spreveo e que nellas vera seu 
desejo e sua amjzade e como lhe spreveo que como acabase esta jornada 
de Barraxe que amtes de tornar a Fez de sua almahala lhe spreverya a 
jemte de pee e de cavalo cora que puderya entrar em terra do xarife que 
vosa alteza lhe mande logo rrespomder a essas cartas e que os negócios 
se tratem em segredo como ate ora vão que a obra os devulgara mas 
que então se divulgarão de maneira que elle e vosa alteza sejão servidos 
ssem elle de seus povos ser desobedecido e isto senhor he o que elle diz 
na carta que spreveo a Rute e que mo discse e eu o esprevese a vosa 
alteza. 



— 325 — 

Item. Senhor o que eu dygo e como quem pouco sabe he que per 
muitas vezes tenho sprito a vosa alteza que a seu serviço compre Moiey 
Mahamede ser sempre rrey de Ffez e que para o ser a de ser ffavorecido 
de vosa alteza per todas as vyas que ftor posyvell porque não ssendo asy 
o xarife entrara nesta terra o que vos serya muy duro e mao vezynho e 
a toda a Espanha e isto lho sprevy com as rrazõees que por então me a 
yso acorrerão. 

Item. Digo que quando estes povos não quisesem o xarife que . . . 
temem de... que pode ser que despusesem Moley Hamet de rrey 
e ffizesem outro que tão jmmjgo não ftosse do xarife nem tão amjguo de 
vosa alteza como este he e isto não serya cousa nova que bem sse sabe 
quantas vezes neste rreyno despuserão rreys e ffizerão outros novos e de 
barro a saber tall que nenhuum sangue rreall tynha e isto por muy pe- 
quenas cousas que huum rrey despuserão e o matarão e ffizerão outro 
porque tynha dous judeus seus privados per que hera governado. 

Item. Senhor se isto asy e se mostra craro que a este rrey compre 
vosso ftavor parece escusado vosso erabaxador poUos danos que elle ja 
diz que delle lhe podem soced[er] e poys a pendemça de Barraxe esta 
duvydossa porque esta apregoamdo guerra contra cristãoos porque diz 
que asy o manda MaSomede e ssendo vassalo d el rrey. 

Item. Quanto mays senhor e muito mays ódio pode naçer nestes 
povos contra seu rrey se de praça vyrem tratar de vosa alteza ou seu 
eixerçito aver de pasar contra o xarife e a matar mouros com ffavor d el 
rrey de Ffez e com sua ajuda que elles dizem que sy que el rrey que se 
vaa vymgar do xarife e do mall que lhe fíez mas que tornar a ganhar a 
terra toda ate Guinee[?] com ajuda de cristãoos que nunca Deus e Maffo- 
mede tall comsymta quanto mays dyrão agora sabendo que vosa alteza 
se quer vymgar do xarife polo dano do cabo de Guer e com ajuda d el 
rrey de Ffez por quaees todas rrazõees parece danoso a voso servyço e 
ao bem d el rrey de Ffez a vymda do seu embaxador. 

Item. Outro muy grande dano de vosso serviço que de sua vymda 
estaa certo soceder vosa alteza ja vee que lho sprevo e veraa per esa 
carta d el rrey que me spreveo que o xarife lhe envya ora pedir pazes e 
a iso são vyndos cacizes as quaees vosso embaxador lhas ffara dar a el 
rrey de Ffez ajmda que não queira em spiciall se o xarife ffizer o que lhe 
elle rrequerer e a rrazão he esta. 

Item. O xarife senhor bem sabe que esta aqui huum criado de vosa 
alteza mas ate oje nunca ali alcamçou de mjnha estada senão que hera a 
triguo e que sou huum homenn velho e sem estromdo alguum nem flausto 
e que pareço que não sou pêra mays que pêra comprar triguo que elle 
sabedor he e bem sey que o pesquisou quanto ffoy posyvell nem o saberá 
ajmda que veja obras que he como o diabo que nunca pode saber de 
Noso Senhor Jesuu Cristo quem hera senão depoys que o vyo na crruz. 



— 326 — 

Item. Senhor vemdo aqui vosso embaxador com auçao apertara as 
pazes e sprevera a caçizes que fiação com el rrey que lhes de e que todos 
ffação guerra a cristãoos e segundo cacizes ssão parvos e quallquer delles 
com sua pregação move os mouros envergonharão tanto a el rrey que lhe 
chomarão cristão se lhas não quiser dar e ajmda el rrey se rreçeara de 
caçizes e povos se levantarem contra elle e isto poderá mays que o que 
elle pode em seu rreyno e que ho ódio que tem ao xarife e comprir lhe a 
dar lhe pazes e o xarife lhe dará quanto lhe pydir de terras qae lhe tem 
tomadas pe desasombado do muito medo que oje tem a vosa al- 
teza. 

Item. Pode se dizer poys que rremedeo digo senhor que o rremedeo 
bem esta visto que ja el rrey o diz e eu asy o digo que os negócios se 
tratem secretamente e com toda desymulação como ate ora se tratarão 
que vay em três anos que os negócios correm sem mouros nada terem 
ssabydo e sendo asy el rrey de Ffez se aproveytara do muy grande ódio 
que tem ao xarife ssem caçizes terem rrazão de lhe h3a-em a mão nem de 
ihe dizerem que o pêra que se mostra cristãoo em ajudar a vosa alteza 
e pode lhe dizer que com vosa alteza tem pazes que lia se avenha o 
xarife convosco que elle não ajuda vosa alteza mas que quer ganhar sua 
terra que o xarife lhe tem tomada e que com vosa alteza nenhuum con- 
trato tem ífeito e que se vosa alteza mandar pasar contra o xarife he por- 
que vos tomarão húa villa e desta maneira e com esta cuberta a d ajudar 
a vosa alteza e elle ganhara sua terra que elle muito deseja e satysffara ao 
muy grande ódio que ao xarife tem e será delle vjangado e não ho obry- 
garão a dar pazes ao xarife e sabendo de praça que vosa alteza e elle se 
contratão contra o xarife será o que ja digo e de fforça sem el rrey ali 
poder ffazer e a isto ser ou deixar de ser não esta em mays que em vyr 
vosso embaxador ou a deixar de vyr veja se quall he mays dano este se 
deixe e se tome o que flor mays proveyto e serviço de vosa alteza e 
mande vosa alteza guardar as ordens em tudo a el rrey de Ffez a saber 
em o ffavorecer poys tanto senhor compre a vosso servyço. 

Item. Senhor se pode dizer que diga mays rremedeo outro poys ca 
estou e o vejo digo senhor que verdadeiramente e ja lho sprevy vezes el 
rrev de Ffez tem ho ódio que vejo ao xarife e que lhe conheço que deseja 
vymgar se delle e que he amjgo de vosa alteza e que da tomada do cabo 
de Geer lhe pesou muito asy como lho spreveo e que spera rreposta de 
vosa alteza de tudo o que lhe spreveo que elle per huum cabo e vosa 
alteza per outro e quebrar a quem por sua parte quebrar que me parece 
que vosa alteza o queyra delle asy como lho espreve ssem dar azo a seus 
povos se levamtarem contra elle ou lhe ffazerem dar pazes em que lhe 
pes ao xarife com se negocearem os negócios em secreto como ate ora 
se flizerão e que quando se devulgarem que seja pola obra que elle de ca 
ffara sem o poderem rreprender de a ffazer e que a pesoa per quem se 



hão de tratar que seja ca vymdo com desymulação e com nome ou de 
triguo ou cevada ou alguum contrato d especearya de modo que nunca se 
symta o que se trata como se pode saber da vymda do embaxador. 

Item. Senhor se dirá Bastião de Vargas lia estays e vedes tudo vede 
o que dizes a isto senhor digo que quisera que el rrey de Fez esta nova 
não soubera nem me mandara sprever o que acima em seu nome sprevo 
e. . - terá credito pêra que eu de mym esprevera o ja dito e mays myu- 
damente porque asy o vejo e asy mo parece verdadeiramente e pola ver- 
dade que devo a Deus e a vosa alteza como verdadeiro criado seu que 
sou e verdadeiro vassalo e portuges ssem outra lembrança algúa de jm- 
terese meu nem de cousa outra que me mova a em tudo deixar de dizer 
verdade a vosa alteza e hussar do com que nacy e sempre husey que he 
ffalar ssempre verdade asy como a eu entemdo e que nunca mynty e por 
isto não ífazer tenho perdido muito e desta perda me contemto. 

Item. Senhor digo que eu sprevy a vosa alteza os dias pasados e 
pedy que me mandase hyr e disto fioy a causa sete meses que avia que 
estava ouçioso e ssem rreposta de vosa alteza e ssem o servyr e avya 
que hera conciencya perder tamto tempo sem servyr vosa alteza depoys 
me mandou que avia por seu serviço mjnha estada o que a mym floy 
muy grande mercee e asy lho esprevy que iso hera o que buscava servyr 
a vosa alteza e gastar estes poucos de dias de vyda que me fficão em seu 
servyço e que poys avia matéria em que servyr e vosa alteza mo man- 
dava que eu sperava em Deus como espero que com meu rremjnho que- 
brado lhe ffaça tanto servyço nesta santa jornada que lhe mereça ffazer 
me mercee e homrrado nesta terra que Deus Nosso Senhor lhe dará e 
asy senhor o torno a dizer e bejar as mãos a vosa alteza por esta mercee 
que he ca se servyr de mym porque com a alma o desejo e spero ser- 
vyr. 

Item. E contudo senhor como quem ama seu servyço digo que se eu 
pêra isto não sou que se busque outro velho e disymulado e não com 
estromdo nem ffausto e que venha com nome de trigo ou doutra quall- 
quer cousa ssem se symtyr que vem aos negócios que se tratão porque 
também será danoso e perjudiciall como embaxador e seja pessoa pêra 
iso que asy a de ser e asy compre a voso serviço que se busquem os 
homens pêra as cousas e não as cousas pêra os homens. 

Item. Senhor com a conffiamça que de mym e de mjnha verdade 
tenho lembro a vosa alteza que ha pesoa que vyese por muy avisado que 
seja eu asy per mjnha vaca e couves e mall sabydo lhe tenho muita 
aventajem que he a enteligencia dos negócios que ha três anos que trago 
amtre as mãos e as praticas d el rrey e de seus officiaees e alcaydes e 
pesoas de que tenho jmteiro conhecymento o de que vyrya muy novo o 
que vyese e começarya de novo o que serya trabalho e desabrymento 
qua a quem com que ouvese de negociar tudo lembro a vosa alteza Nosso 



— 328 — 

Senhor lhe escolha o que íTor mays seu serviço e a mym deixe acabar em 
voso servi[ço e isjto he o que desejo. De Ffez oje iiij dias de junho de 
i54Í anos. 

Item. E se vosa alteza todavya ha por seu serviço enviar o embaxa- 
dor meu parecer he que vosa alteza o mande sobreestar e spreva a el 
rrey de Fez as rrazões que o movem a o mandar c segundo o que lhe 
tornar a rresponder asy ordenara vosa alteza o que ffor seu servyço c 
entretanto os negócios corrão e mande rresponder a suas cartas que se o 
bem ffiz a três anos asy o ffarey huum mes que njsto se pode gastar e 
nada nele se perdera. Bastião de Vargas. 

Sobrescrito: A el rrey nosso senhor. 3.* pêra ler. 

Arquivo nacional. Corpo cronológico, parle i.', maço 6g, n.' 122. 



XXII 

26 DE JULHO DE 1541 

Caria de Lourenço Pires de Távora^ embaixador enviado ao rei de Fe:^, 
a el-rei D. João III. — Conta como foi recebido por el-rei de Fe^ e as 
práticas que teve com êle, para cumprimento da sua embaixada. — 
Falou-lhe das mortes e roubos cometidos pelos mouros ve\inhos dos 
dos lugares de Africa, em violação das pa\es. Asento feito com êle 
sobre os cativos cristãos em poder de Barraxe, .xerife de Xe.xuão. — 
Recomenda Francisco Lionardes e Jacó Rute a el-rei, pois são dignos 
de mercê, pelos seus bons serviços '. 

Senhor. Porque trabalho por m esquecer tudo o pasado nas duvidas aa 
minha entrada nesta terá quero começar esta en dar conta a vosalteza de 
como ja estou neste Tutuão pêra onde parti d Arzila a xi de julho en con- 
panhia dum filho de Hacem que estava por alcaide de Tutuão ao qual el-rei 
mandou com des de cavalo pêra me trazer e ha entrada deste lugar man- 
dou ho alcaide seu pai e o filho d Almandarim que agora he seu enteado 
com gente de cavalo que me sairão a receber desta maneira vim logo a 
casa d el rei onde ho achei com todolos alcaides e homens principais que 
agora nesta terá tem chamados pêra m esperar com elles e mostrar auto- 
ridade e grandeza o que eu entendi em ho ver aguardar me severo e 
asentado com todos os que digo polo qual eu mudei o que trazia asen- 
tado com vosa alteza de fazer comitimento de lhe tomar a mão porque 
areceei por sua seguridade que cuidase que o fazia de sizo e que ma dese 
e por iso quebrei esta cortezia em hir também muito seguro e tirar lhe o 

I. Acerca desta embaixada, vcja-se a nota que damos no fim deste documento. 



— 329 — 

barete de perto com lhe fazer húa mizura asas grande e elle beijou a sua 
mão duas ou trez vezes e me mandou asentar a par de si e certo que se 
outra cortezia lhe fizera que estivera agora bem corido por parte de Por- 
tugal perdoe me vosa alteza sair nisto do que de laa trazia determinado 
porque -o ai fora ero pola maneira com que m esperava e labeo pêra 
começo d enbaxada de vosa aheza depois de me preguntar como vosa 
alteza ficava e eu vinha de caminlio e mostrar alvoroço com minha vinda 
a elle lhe pedi licença pêra me vir a pousada descansar e lhe dixe que orde- 
nase dia pêra me ouvir o a que vinha dij a três dias porque não pode ser 
menos por alguuns enbaraços que elle teve me mandou chamar esperou 
me com Bengija e o seu secretario c Luale sos e depois d algúas praticas 
tive com elle a pratica que trouxe por minha estrução que fose a primeira 
e lha dixe toda sen saltar letra e de maneira que lhes pareceo en estremo 
bem e a gabarão logo huns aos outros e dizendo lha clauzula e clauzula 
lha hia tornando em aravia Jaco Rute que hè grão official disto e estava 
prezente porque sen elle não se faz nada nesta terá e também hi era 
Jerónimo de Montoia que eu tenho nestes negócios pêra me não enlea- 
rem na aravia e ver o que elles sintem do que lhe digo e no cabo desta 
primeira pratica lhe falei na rrotura 'que via nas pazes e na ma guarda 
do asento delas que lhe pedia ordenase como asi não fose pois amizade 
de vosa alteza lhe merecia mandar ter elle milhor tento niso também lhe 
falei nos cativos que tinha Barraxe isto apontei fora da minha estrução 
porque me pareceo serviço de vosa alteza en cada parte que eu hia apon- 
tando a obrigação em que elle era a vosa alteza e o que lhe devia polo 
que tinha feito por elle e as praticas e palavras que erão pasadas entre 
ambos a quada cousa me respondia por si que hera mui grande verdade 
e que asi pasara e que era en conhecimento de tudo e que bem via eu 
que elle não podia responder aaquilo logo que queria dous dias pêra 
cuidar niso e que lhe dese eu aquilo que lhe dixera por palavra por escrito 
pêra o elle mandar por en aravia e milhor responder a tudo e dixe me 
que me asinase no escrito parece me que fez isto por cuidar que aquilo 
era soo o que eu queria e que não avia de falar em outra cousa polo 
qual ficou mui desalivado dos reçeos que tinha do que a que eu viria por 
que entrelles avia sospeita d eu poder quebrar pazes ou apertar poios 
arefens e vendo que não apontava nenhúa destas derão se por fora do 
perigo como homens mãos negoçeadores nesta primeira pratica se não 
achou Bastião de Vargas por inda não ser aqui e de me fazerem crer en 
Arzila que era partido de Fez escrevi em outra carta a vosa alteza que 
estava ia en Tutuão mas en tudo ai he elle presente e lhe dou conta com 
a cautela que me parece neçesaria e a vosa alteza lenbrou tirando lhe a 
sospeita dele cuidar outra cousa filo tão meu amigo que come en minha 
casa e estaa nela senpre a esta primeira pratica que digo rrespondeo el 
rei de Fez por hum escrito feito polo seu secretario e asinado por elle 

ANAIS DE ARZILA 42 



— 33o — 

e mo mandou com me dizer que vise aquilo e se mais tinha que dizer o 
fose praticar com elle o trelado deste escrito en algemia com o próprio 
mando a vosa alteza nele vera o que rrespondeo e porque me parecerão 
palavras sen concruzão como todalas que ate qui são pasadas neste nego- 
cio com que lhe parecia que me tinha satisfeito determinei falar lhe mui 
largamente na concruzão deste caso e querer saber dele a deradeira de- 
terminação a sustançia de tudo vera vosa alteza nese escrito que também 
dei a el rei de Fez por nele pedir no cabo da pratica que lhe escrevese 
o que eu ali pasara com elle pêra o ler de vagar e me responder colhi a 
sustançia de todo o negocio e pus lha nese papel porque a pratica foi 
muito mais comprida porque a quada hum d aqueles pontos dei muitas 
rrezôis neçesarias ao caso e trabalhei por mostrar que não vinha com 
neçeçidade e quando chegei a pedir lhe arefens pêra segurança de tudo 
con lhe fazer crer que era obrigado a os dar poios ter prometidos e 
por se não poder fazer obra sem elles ficou morto segundo logo deu 
a entender porque estava descuidado d eu apontar niso e também em 
me afirmar tanto nos mantimentos o que tudo fiz porque o vi ensistir 
em exercito grande mas pêra se fazer o que vosa alteza puder e lhe 
parecer bem darei abaxo a rrezão tanben me afirmei que vosa alteza 
quisera algúa obra este ano por lhes tirar sospeitas de cuidarem que he 
minha vinda comprimentos e lãobem pêra deixar cabo pêra com achaque 
desta vontade de vosa alteza lhe requerer algúa guarnição pêra logo se 
comprir e a vosa alteza parecer bem a desculpa que dão pêra não poder 
hir contra o xarife este ano estaa crara por quão desbaratados e perdidos 
ficarão todos desta guera do Baraxe e ser ia tarde a esta pratica que digo 
estava so Bengija con elle e não me rrespondeo mais pêra a concrusão 
senão que eu dezia bem e ele viria aquilo e cuidaria o que podia fazer 
até qui he feito no negocio a que me vosa alteza mandou e o que me 
parece diso he que eles mentirão nos mantimentos en todo posto que se 
tornem afirmar que farão niso tudo o que puderem e os arefens que en 
nenhum modo os darão logo e não sei se o farão depois com medo de o 
tomarem muito mal os seus porque pêra amizade com cristãos não podem 
em nenhum modo ser rreis asolutos e de ser certo hir contra o xarife me 
parece que o fará polo ódio em que estaa com elle e polo alvoroço que 
mostra quando lhe falão em o destroir e por lhe ser isto necesario pêra 
cobrar o seu e estar seguro em Fez mas pêra se vosa alteza afirmar e 
fazer de todo conta dele não deve ser sem arefens polo que pode acon- 
tecer quando fosem a sua fiúza [mas parece que se inclinara a dar 542) 
como me agora rresponder que não tardara dous dias com lhe íalar 174) 
175) 116) 20) 18) 2) 11) 5) 342) da maneira que vosa alteza manda por- 
que me parece que s escuzarão 98) i3) 5^2) con dizerem que também 
não tem nenhúa segurança de nos e aqui estaa aberto o caminho pêra eu 
ordenar o negocio como de meu e como queria 23) 194) 28) 20) 23) 144) 



— 33i — 

190) 2) 91) 235) 25) 100) 20) 23) 18) 211) 14) e folgar muito 91) 74) 10) 
229) 14) 5) 190) i56) 20) 18) 100) 91) que será grande u) 5o) 20) 16) 21) 
166) pêra os seus 20) 5) 20) 18) i3) 5o) e a confiança e concelho de ha 
vosa alteza i3) 36) 29) 42) 23) 143) 18) 10) 40) e 9O 5) 41) 2o5) 119) 14) 
5) 5o) 210) 220) 18) he mui bem acertado por lhe dar causa 91) 146) 43) 
169) 7) 91) 7) 75) 74) 25) 2) 420) e rezão pêra obrigar mais 5) 5o) 211) 
118) 229) e a tela senpre 74) 25) 23) i54) mas convém que do que vosa 
alteza ordena 61) 340) se não posa 240) i3) 1Õ9) 18) 211) 14) que ha 91) 
214) 21) 211) 14) 342) 17) 235) 216) 218) 5) 41) 74) 7) 234) 173) ói) 210) 
pêra o 175) 116) 76) 2) que 214) 84) 214) 144) 146) 7) 10°) ^) -'') 8) 23) 
J4)] ■ e não cuide vosa alteza que vou de vagar a concruzão disto porque 
se saise alguum ponto da ordem que se requere danaria tudo por quam 
sospeitosa esta gente he sen ter concelho e saber mui pouco e não se 
aventurarem a nenhúa esperança senão a que mostrar o bem mui craro 
contudo espero de mandar recado disto antes d oito dias a vosa alteza 
não dei inda conta deste negocio a Bastião de Vargas porque afora não 
ser chegado o tempo diso tenho inda sospeitas dele não folgar se aceitar 
algúa cousa das a que venho e poder se hia antecipar enfim que eu nego- 
ceo nesta terá com muitas cautelas por tanto quando vosa alteza quizer 
que lhe eu dee conta d algum negocio mande me a mim sen lho escrever 
a elle que o faça porque o farei a seu tempo e com lhe dizer na sua 
carta que eu o farei me dará o trabalho que agora tenho com lhe dar a 
entender que m escrevao vosa alteza por cifra e que me não entendo 
com ella a qual farei que acabo de saber quando comprir dar lhe a conta 
e a carta en que lhe vosa alteza isto escrevia lhe não pude esconder por 
elle ser prezente quando chegou o mesageiro. 

Item. Acima digo que darei a vosa alteza rrezão pêra poder fazer 
esta gera com a gente que lhe parecer bem sem enpedir ensistirem eles 
em exercito grande o que se poderá fazer dando elles os arefens necesa- 
rios mandar vosa alteza a gente que lhe bem parecer porque são homens 
que nesta parte se lhes pode fazer crer tudo e por iso não ensesti en lhes 
dar a entender que me parecia milhor hiia boa guarnição posto que na 

(i) [mas parece que se inclinara a dar arrefens como me agora rresponder que não 
tardara deus dias com lhe falar no negocio d Azamor da maneira que vosa alteza manda 
porque me parece s escusarão dos arrefeens com dizerem que também nao tem nenhua 
segurança de nos e aquy estaa aberto o caminho pêra eu ordenar o negocio como de 
meu e como queria e parece me que o devem d aceitar e folguar muyto de cobrar 
aquela cidade que será grande desculpa pêra os seus caçises e a confiança e conselho 
de a vosa alteza soltar he muy bom e de a emtreguar a este rrey he muy bem acertado 
por lhe dar causa de mais pendenca com o xarife e rrezam pêra obrigar mais a esta 
guerra e a tela sempre com ele mas convém que do que vosa alteza ordena deMazagão 
se não posa sospeitar que ha de soltar Azamor que seria emconviniemte pêra o neguo- 
cio que sobriso me manda fazer] 



— 332 — 

pratica segunda falei no modo desta gera largamente e pasei com o seu 
parecer por não cuidarem outra cousa. 

Item. Vizitei a mãi d el rei de parte fie vosa alteza mas não lhe dei 
o recado que pêra ela trazia sobre o negocio a que venho porque vi que 
não era parte pêra iso e que desautorizava o negocio fazendo o a Bengija 
dei hum recado da parte de vosa alteza de boas palavras porque ho 
acho seu servidor e com elle soo pratica el-rei estes negócios e sabe mui 
pouco em tudo mas fia se el-rei muito nele e ten no por amigo. 

Item. Dei a el rei as novas que me vosa alteza mandou do cosario 
mostrou que folgava de o avizar diso e dis me que ja tem provido no 
resguardo do que convém e falo a porque se areceão muito de turquos 
elle se hira deste lugar ao que parece antes d oito dias porque não ha 
nenhuns mantimentos nele e são lhe mortos muitos cavalos estando aqui 
com muito pouca gente deixa aqui Çitalfora sua molher aaqual não achou 
nenhum dinheiro do que cuidava e cora que esperava restaurar se vai 
se aos alarves que estão no caminho de Fez dos quais teve sospeita d ale- 
vantamentos os dias pasados e quereles ha castigar com hos roubar que 
esta he a enmenda que se daa nesta terá e nisto se deterá alguns dias 
estou prestes pêra hir com elle dando lhe todavia a entender que deseio 
concruzão neste negocio que tenho praticado pêra me logo poder hir e 
elle lança conta que no canpo d Arzila me acabara de despachar nisto 
se fará o que o negoçeo der e conpre a serviço de vosa alteza como em 
sua estrução manda. 

Item. Falei como ja dise a el rei no desconcerto que via nas pazes 
destes lugares de mortes e rroubos que se neles fazião e que fizese tor- 
nar os cativos de Baraxe ao asento das pazes dixe que com a obra que- 
ria rresponder e que se não iria d aqui nem do canpo sem deixar enco- 
mendado o negoceo a pesoas que defendesen estes danos e que ordena- 
ríamos ambos com dar algum talho a iso bom e quanto aas perdas 
recebidas que trouxesera rrois diso de cada lugar e que faria justiça en 
restetuir isto me parece que faltara porque elles pagudm mal o comido e 
também mostra rrois de muitos danos que mouros tem recebidos e quanto 
aos cativos de Baraxe mandou hos vir pêra mos entregar mas era com 
cautela que me obrigase eu a lhe tornar alguns mouros que nestes 
lugares são cativos depois das pazes não me quis enbaraçar nisto pola 
dilação que se fará em se ver esta justiça polo qual elle asentou deixar 
alguns cristãos en arefens dos mouros e os outros soltalos e os que 
ficão he sen feros e em minha casa e destes cativos de Baraxe faltão 
alguns que mandarão Argel e são espalhados por partes obrigou se o 
Baraxe a tornar os de que ouver testcmuniias que vierão a seu poder e 
de seus vasalos. 

Item. Bastião de Vargas me dise que escrevese a vosa alteza que 
seria bom pêra arrecadação do dinheiro que elle qua enprestou ver se o 



— 333 — 

pode aver en cativos porque trigo o que ouver será pouco e mui caro ea 
negoceos de fazenda não sei se poso falar nem sei se deve vosa alteza 
algúa cousa a redenção ou tem algiía obi-igação deste geito mas sei que 
esta divida segundo estaa que se cobrara tarde e mal meti me nisto por- 
que mo elle pedio. 

Item. Eu escrevi d Arzila em outras cartas a vosa alteza como tinha 
mandado Francisco Lionardes cavaleiro de vosa casa a esta terá pêra por 
elle negocear minha vinda a ella e elle por servir vosa alteza fez isto de 
maneira resguardando tudo o que era necesario que esquecerão todalas 
outras duvidas que punha quem lhe com iso pesava e esperou ate levar 
o filho do alcaide que digo que foi por mim e porque elle he pesoa que 
en tudo saberá bem servir vosa alteza e com ser muito bom homem 
entende esta terá bem e se fia nele Jaco Rute por mão de quem se tudo 
faz lhe pedi da parte de vosa alteza que quisese qua andar comigo por- 
que ho ei muito mister pêra saber cousas antes que se ordenem e pêra 
lançar neles outras como de si muito neçesarias ao caso e não ho tenho 
presente aos negoceos em que falo a el rei e desta maneira me he tão 
necesario que peço a vosa alteza lhe mande que sirva nisto e far me a 
mercê porque com ho obrigar com o serviço de vosa alteza o detenho. 

Item. Jaco Rute he homem de que vosa alteza deve fazer muita 
conta pêra os negoceos desta terá e elle faz os que cunprem a serviço 
de vosa alteza como quem tem seu fundamento niso e não em ai posto 
que qua não fará o que não deve porque he homem de bem parece rre- 
zão fazer lhe ho favor que for posivel e afirmo a vosa alteza que merece 
mostra d agradecimento. 

Item. Tardei tanto em despachar este mensaieiro porque esperei por 
algúa cousa do negoceo pêra escrever do que en tudo for necesario eu 
fazer me fará merçe mandar me avisar logo. 

Noso Senhor vida e rreal estado de vosa alteza guarde e acrecente a 
seu santo serviço. De Tutuão a xxbj de julho de 1541. 

Lourenço Pirez de Távora. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço 70, n." 33- 

Este documento já foi publicado por Álvaro Pires de Távora na Historia de varoens 
illustres do appellido Távora (Paris, 1648), p. 2-]'3i. Publicamo-lo de novo por esta 
obra ser raríssima e porque, pelo seu valor geral, importa também a Arjila. Não en- 
contrámos mais correspondência deste embaixador no Arquivo nacional, mas vem toda 
naquela obra,p. 3i-43. 

D. João III, depois da perda de Santa Cru:; do cabo de Guer, em i54i, desejou 
fa^fer guerra ao xerife e impedir que ele se assenhoreasse do reino de Fej-, como já 
fizera do de Marrocos. Para isso mandou Lourenço Pires de Távora que propusesse a 
el-rei de Fef uma acção comum : ête cometeria o xerife por terra e D. João III envia- 
ria um exército que entrasse pelo reino de Marrocos ; o rei de Fej daria os mantimentos 
necessários; haveria reféns de parte a parte : Portugal oferecia em penhor A^jamor e 
Safim, que era intenção largar. Estas negociações não tiveram efeito. Veja-se p. 26 
da citada obra. 



— 334 — 



XXHI 

26 DE JULHO DE 1641 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Escreve que um en- 
viado do xerife veiíi a el-rei de Fe^ para tratar de pa^^es entre eles. 
El-rei de Fe\ prometeu que as não faria; factos que provam que foi 
sincero. — O alcaide Adel afirmou que em maio próximo estarão 
prontos 3o:ooo de cavalo e a mais gente de pé necessária para cooperar 
com o exército português que deve atacar o xerife. 

Senhor. Envyey os dias pasados a vosa alteza húa carta que el rrey 
de Ffez me spreveo a Ffez em que me dizia que a terra do xarife estava 
como ja mo ffizera a saber e que a elle herão vymdos dous cacizes do 
xarife que elle os levarya comsygo a Xuxuão e temporyzarya com 
elles. 

Item. Sprevy a vosa alteza que após estes veo outro grande caciz 
amtre elles a pydyr pazes e com esta ação de ííazer e conceder tudo o 
que el rrey de Ffez quisese eu sprevy logo a el rrey tudo o que por 
entaom me pareceo necesar}'0 a lhe não dar pazes com todas as mjlho- 
res rrazõees que me ocorerão lembrando lhe que elle quisera que ffose 
seu ffiador que nunca farya pazes com o xarife o grande caciz veo a elle 
e el rrey o despachou quando a este Tutuão chegey faley a el rrey e veo 
a bõo geito poder lhe falar no dito caciz e pazes que lhe veo pydir e 
rrymdo se me dise avyaa me d esquecer a fyança em que vos met}' eu não 
ey de fazer pazes com o xarife. 

Item. Dise me Jaco Rute que ja qua hera diamte de mym que el rrey 
soo per sy despachara o caciz e que el rrey lhe disera o caso todo o xa- 
rife lhe envyou rrequerer que quebrase as pazes com vosa alteza e fizese 
pazes com elle e que farya todo o que elle quisese el rre}^ lhe rrespom- 
deo que pazes com vosa alteza elle as não avya de quebrar em quanto 
vosa alteza com elle aas quisese por asy o ter asemtado e que sua lej' 
lhe manda que mays verdade guardão aos cristãos por serem de fora de 
sua ley que aos mesmos mouros e que a jsto não avia que ífalar. 

Item. E quanto a pazes com o xarife que era mouro que lhas não 
podia negar que as farya com muy boa vomtade com tamto que lhe tor- 
nasse Tedula Ezcura e Tafelete e toda artelharya e monjção que lho 
tomou e satysfizese as perdas que perdeo cousas que não tem rremedeo 
se poderem satisfazer tornando eu a falar com el rrey e tocamdo nesta 
matéria me dise eu não farey com o xarife paz e creo que seu jrmão a 
deseja comjgo porque estão muy mall ambos de dous e esta muy necesy- 



— 335 — 

tado e amda fazendo se forte que faz cava ao castelo de Marrocos tem 
pouco pão e ese que tem guarda o sem dar delle a sua jemte a quall toda 
o deixara o dia que nos vyr hyr contra elle e que o sprivese a vosa 
alteza. 

Item. Senhor me dise cousa que eu ajmda não sabya diz o negocio 
de Moley Aderyz senhor da serra se herrou que hera huum grande pe- 
daço de bÕo negoceo o qual me rreceo que se perca com quanto elle 
levou ao xarife a carta d el rrey e lha deu contudo o xarife he ma homem 
quiçaa lhe buscara algúa escama pêra lhe cortar a cabeça e dise se o ne- 
gocio por aqui vyera nos o encamjnharamos de modo que aproveytara e 
se o xarife o não mata e elle quer será muy danoso ao xarife depoys de 
eu pasar isto com el rrey soube do negocio por huum cavaleiro que aqui 
veo de Zamor. 

Item. Senhor falamdo eu em Fez com alcayde Adell em cousas do 
xarife me dise que fazemos vos cristãos e nos mouros que nos por qua e 
vos por lia ha muy pouco que fazer rrymdo lhe rrespondy quão lomje 
estays de vos parecer isto bem cristãos matarem mouros com vosso favor 
rrespomdeo me esta he mjnha voz e ja o dise a el rrey algijas vezes rres- 
pomdi lhe e que dires a vossos cacizes rrespomdeo me como cavaleiro os 
cacizes ese he seu ofBcio e o dos cavaleiros he o que eu digo vy e contey 
isto a el rrey certefico a vosa alteza que se alevamtou e começa a corre- 
jer a touca tão jmfflamado como se ja se vyra no negocio e dise xeque 
Bastião os cacizes muito valem e hussão de seu offiçio e avemolos de 
ouvyr mas não fazer tudo o que elles dizem que huum oíBcio he o seu 
outro he o da omrra e cavalarya verdadeiramente senhor que segundo o 
que nelle vejo e entemdo elle deseja estes negócios como vyver e que me 
parece que por sua parte não ha de quebrar nem tornar atras trigo nem 
cevada como ja sprevy a vosa alteza muitas vezes não se segue delle que 
o não tem arreffens a meu ver elle as dará mas embuçadas como ja 
também sprevy e que quanto a elle que de sua pesoa se pode conffyar. 

Item. Dise me o alcayde Ladell que mesturarmonos cristãoos e 
mouros não servya nem poderya ser mas hyr vosa alteza ou seu eixercito 
a conquistar o xarife que a elles nada toca pois tem pazes com vosa al- 
teza e que hyrem elles ganhar as terras que tem perdydas nada offemde 
a sua ley mas que ffazem o que devem. 

Item. Elle se promete pêra em mayo vymdoyro ser prestes e com 
XXX de cavalo e a jente de pe a este eixercito necesarya como vosa 
alteza Ha vera per sua rreposta que ao embaxador rrespomdeo. De Tu- 
tuão oje xxbj dias de julho de Í54Í anos. Bastião de Vargas. 

Sobrescrito: A ell rrey noso senhor. 2.^ pêra ler. 1541. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.", maço yo, n." 3i. 



— 336 — 

XXIV 

3o DE AGOSTO DE 1541 

Carta de Sebastião de Vargas ao capitão de Ceuta. — Dd-lhe conta de 
vários sucessos em que el-ret de Fe:^ não usou de justiça com os cristãos, 
como devia. — Citalhorra é sempre muito contrária aos cristãos; o 
meio de a tornar favorável seria cerrar-lhe o porto de Ceuta, de modo 
que de lá não possa refa:^er-se. Não se quebrariam com isso as pa\es. 
— No campo de Arzila os mouros jnatarat?! um cristão e roubaram 
de:{ bois. O capitão da vila, D. Manuel Mascarenhas, usou de repre- 
sálias, mas, antes que el-rei de Fe\ se queixasse do facto, êle, Vargas, 
queixou-se da sua falta de justiça. — Dii que o xerife aperta mais com 
o pedido de pa\es. — Informa que de Safim lhe chegaram noticias de 
o xerife ter cercado a cidade. Pede-lhe que as mande a el-rei seu 
senhor. 

Per Ffernão de Tomar húa escuyta de cavalo de Tamjere rrecebi 
húa de vosa senhoria com outra pêra el rrey de Ffez e outra pêra o eraba- 
xador as quaees trouxe a Tamjere Manuell Diaz e d aly não pasou diz 
que por mall desposto a quall nesta rrespomderey. 

Item. Senhor quanto a tomada do bargamtym e aquecimentos dos 
mouros mortos que de Ceita vynhão e do que matarão n aduana tudo 
qua ssabyamos que Citalhorra he tão prevenjda que nada lhe fíica ao 
tymteiro affora a por todas as culpas a vosa senhoria como vymos per 
suas cartas que el rrey nos mandou mostrar. 

Item. Senhor como vy sua carta me ffuy a el rrey e lhe comecei a 
rrelatar todos os negócios do Contreyras e da nenhúa justiça de sua 
morte e que como de huum mall se segyão muitos males que d ay naceeo 
matarem os dous mouros e matarem ho d aduana e que tudo por sua 
culpa poys não fiez justiça em Tutuão nem em todo este camjnho destes 
campos o de que também ja começavão a soceder males que mouros ja 
ífazião por verem sua líVyeza, 

Respomdeo me a sua gysa que o Contreyras elle nunca soube quem 
o fBzera aqui ouve muitas trepeças que o seu cavalo não se podia escom- 
der sem se saber omde estava e por elle saber quem fez o dano dise me 
que os dous mouros estava certo matarem no homem de cavalo de Ceita 
que lhe acharão o rrasto omde os matarão e que vos não ífazies justiça 
de cousa tão errara. 

Item, Respomdy que mandase lia dous homens em que se ffiase e 
que vyrjão a justiça que njsto vosa senhoria mandarya ííazer d eu o calar 
por rreposta. 



— 337 — 

Item. Quanto ao d aduana dise que isto senhor vos não tocava a vos 
mas a elle que serya causa de njngem querer vyr a Tutuáo e que elle 
mandava que njsto se ffizese grosa justiça e disto será o que ftbr porque 
elle ssempre deu muito crredito [a] Alhorra polo muito que lhe peitava 
quanto mays agora que he sua moiher e lhe peita muito que he de ma- 
neira que dão X cruzados de rremda pola aduana de Tutuão e os não quer 
e quer contemtar Alhorra. 

Item. Senhor quanto ao que se ffez a Fejoo e xxx cruzados que lhe 
levarão pollo porem no Castelejo diz que Alhorra mandou chomar o al- 
mocadem... e lho entregou que lho levasse em salvo com xxx de cavalo 
e que os parentes dos dous mortos saltarão com elle e lhe diserão que se 
o levava que elle averyão que lhe matarão seus parentes e que não ousara 
de o levar a isto não me ffaltarão rrazões mjlhores que a sua dise que não 
podia ser que Alhorra pêra iso levase xxx cruzados rrespomdi lhe vos 
senhor sabeys que eu vos dise em Tutuão que Alhorra levara xbj cru- 
zados avya quatro dias por huum soyço que de Ceita se vyera e vollo 
provey e a iso nada me rrespomdestes como a de deixar de ser isto ver- 
dade e mays sprevemdo o dom Afonso o calar me deu por rreposta o caso 
senhor he que matem cem mouros e matem outros tamtos cristãos nada 
lhe da nem lembra senão emquanto lho dizem e por iso nem ódio 
nem amjzade lhe ffica na cobyça e avareza são seus derradeiros cuyda- 
dos. 

Item. Senhor lhe ffaley nos xbj catyvos esta muy rroym neste nego- 
çeo e dise me que em primcipio vosa senhoria prometera bij<= cruzados e 
que os comprareys com vosso dinheiro e que disto nada ffoy e que os 
navios se íforão e que elle mandara após elles e os comprara etc. a ysto 
rrespomdy que elle por condição de pazes tall não podia ffazer aqui rres- 
pomdeo que sy podya o de que altarquey e com paxão e palavras taees 
que lho ffiz conhecer e que vos senhor pêra isto emprestares iiij'= cruzados 
dise que tall não avya ly lhe senhor vosa carta e lhe dise que o que vosa 
senhoria dizia hera verdade e que elle estava enganado florão as pratycas 
de maneira que me azedey muito e quis tornar a enmendar e a dezer lhe 
que per vosa licença os comprara que doutra maneira o não podia fiazer 
e ffuy rrodamdo a trazer o negocio amjzade e ao muito proveyto que de 
certa tem soma senhor ao todo elle esta fforte e cre que a d aver por estes 
catyvos x cruzados. 

Item. Senhor dey conta disto ao embaxador e pydi lhe que ffose a el 
rrey com voz d outro negocio pêra me ajudar neste destes catyvos e que 
eu alevamtarya a lebre três dias detive esta escuyta por amor disto el 
rrey ffoge a lhe ffalar o embaxador com escusas o porque senhor nos pa- 
receo bem rrespomder vos com nos fficar o negocio no tavolcyro pêra delle 
tratarmos como a el rrey chegarmos o que não pode deixar de ser por- 
que ha negócios a que cumprem ajmda que não queira lhe ffalarmos e 

ANAIS DE ARZILA 43 



— 338-— 

contudo me rreceo que elle nenhúa vyrtude ffara polia quall noso conse- 
lho he parecer lie o cygynte. 

Item. Vosa senhoria seraa lembrado que de Ffez lhe sprevy vezes 
que d Alhorra se não queixasc mays a el rrey que nenhuum rremedio 
tynha e que se ffazia rreo de autor que hera poys em sua mão heram 
enffrear Alhorra com lhe cerrar ese porto porque ella morrerya de Ifome 
e engaffecerya vosa senhoria nunca o quis ífazer as causas porque elle as 
saberá que eu não sey mays que vos ver ser martyre e asy o sprevy a el 
rrey noso senhor muitas vezes. 

Item. O caso senhor he que a mym e ao embaxador e a pesoas do 
conselho que não são pêra nomear nos parece bem e ajmda serviço d el 
rrey noso senhor que vosa senhoria cerre ese porto de todo sem por elle 
pasar pesoa algúa a Tutuão nem nu em camjsa e que vosa senhoria se 
proveja de Castela do necesaryo e que coma as correas dos escudos se 
comprir e isto dous três quatro b meses porque esta muy averyguado 
que el rrey de qua e cyte Alhorra delia vos pyJirão mjserycordia e ífarao 
tudo o que vos quiserdes e isto de pura necesydade porque oje ali não 
tem senão ese porto. 

Item. Senhor alem disto acabarão elles d asentar que Ceita nada a 
mester de Tutuão porque elles cuydão e o dizem que Ceita que engaffe- 
cera e morrera de flbme se Tutuão não flor a cuja causa ousa Alhorra de 
vos avexar e desomrrar e quando isto asy ftbse o que não he poys Cas- 
tella estaa tão perto certo senhor que he ff'orte cousa húa pesoa como a 
vossa rreceber tamtas avexações e enjuryas de húa molher sendo em vosa 
mão não aas rreceberdes e ella vos servyr e adorar aífora de ser menos- 
cabo que cristãos e Ceita sejão súditos de húa molher e ajmda que fl'ose 
homem po}'s são mouros. 

Item. Senhor com se cerrar o porto não se quebrão por iso pazes 
dom Manuell ffez agora huum jugete que lhe bem abala muito depoys 
d el rrey pasar por seu campo lhe matarão huum cristão e levarão dez 
boys mandou polo rrasto ate omdc pasarão e daquella terra lhe trouxerão 
dous mouros e dez boys e deu a entemder que fora pêra per elles se 
saber quem ssão os que ffizerão o ffeito como eu o soube sem ver carta 
de dom Manuell me queixey muy rrijo de modo que não deixey el rrey 
entrar em jogo de se queixar de dom Manuel! ffazer rrepresarj^a ssem lhe 
ffazer a saber de modo que el rrey me conffessou que dom Manuell teve 
rrazão e Barraxe spreveo agora a el rrey que ja tynha presos ffilhos e 
molheres de quem o fez e que elle íTara dellcs justiça e que a sua custa 
dará huum cristão cativo pollo morto e lhe ffara tornar os seus propyos 
boys e ja ffica em posto pêra cada vez que lhe ffizerem algúa rroymdade 
ffazer rrepresarya do modo desta e os da terra com rreceo de ffazerem 
nelles rrepresarya damte mão dyrão quem ssão ou fforcm os mallffeitores 
e isto senhor sey eu rrodear aos negócios que fliquam desta maneira e 



— 339 — 

perdoe me esta descortesya que me gabo mas a materya o daa e pera 
lembrar a vosa senhoria que se se puser em auto de o averem mester 
que o adorarão e de como ate ora esta rrecebe o que ate ora vemos que 
tem rrecebydo de paxão e avexaçõees e tudo por servyr el rrey noso 
senhor e guardar suas pazes que bem o vejo e o entemdo mas os tempos 
senhor ffazem e desffazem os negócios e os negoceamtes per quem qua 
se negocearem como ffoy este de dom Manuell que ja ffica autor e pera 
sempre se por em pee como ora ffez posto que eu lhe sprevy que sempre 
que outra tall lhe soceder que ffaça como ora ífez mas que logo mo es- 
preva e a el rrey de Ffez queixamdo se muito do que lhe ffizeram que 
sse diz que pelejou como lião e depoys pydyr perdão he a concrrusão 
senhor que vos compre muito e a servyço d el rrey noso senhor que cer- 
res o porto e comays e vyvays como puderdes e deixay me qua jugar que 
tudo fiarão e vos rrogarão sempre e nos catyvos fiarão rrazão ajmda que 
não queirão o de que ora estaa muy arredado crendo como ja digo que 
averaa pera elles x cruzados e não crea que njsto posa valer nem vali 
dizer que os navios sayrão de Targa e acompanhados de mouros de 
Tutuão que tudo ffaley que nada me esquece o amor do proveito ou 
cobiça cega este omem de modo que nada se dobra a ííazer se não o que 
lhe elle rrequere e he de seu naturall e no ali não ha lembramça de ódio 
nem amor e nada lhe da dos acontecimentos e isto senhor he o que poso 
e ouso sprever lhe e aconselhar lhe e lho peço muito por mercee que 
estou qua e vejo os negócios e modo delles e vejo que isto he o que 
cumpre. 

Item. Senhor cuydey que em pasando os campos destes lugares 
pudese tornar a Ceita os negócios vão ca de maneira que por agora me 
não poso arredar delles e me compre ser presemte e porver se amtes 
que el rrey saya destes colotos me pagara alguum pedaço do que me 
deve e em tendo lugar pera me hyr crreo que ho fíaça e não per Tutuão 
mas per Tamjere em alguum destes navyos d armada de sua alteza que 
neste mar amdão. 

Item. Cacizes do xarife ssão tornados novamente a el rrey de Ffez 
cre se que cada vez o xarife aperte mays nas pazes que pede porque vay 
vemdo primjcias de cousas que lhe dão rreceos não sey o que será posto 
que este lhe tem muito ódio contudo são mouros que pera contra cris- 
tãos sempre ssão amjgos. 

Item. Crreyo que el rrey noso senhor tenha de Çalíiym novas que o 
xarife o cercara o que por ca tenho sabydo he que elle lamçou esta nova 
de o hyr cercar ou hyr a estorvar as obras que se ffazem em Mazagão 
e pera isto pydio ajuda as mizquitas e lhe derão lij çaffas de trigo as 
quaees rrecoihe e se diz ou me dise el rrey tudo isto e que se tornara a 
soseguar por ca crreo que o espreverey a el rrey, noso senhor esta nova 
mas não sey quão cedo será porque Arzilla amda livre pasagem como 



— 340 — 

tem Ceita se vosa senhoria tyver azado ífazer lhe a saber esta nova asy 
como lha sprevo scrya seu servyço bejo as mãos de vosa senhoria. Deste 
campo deste[s] colotos debaxo de huum teiiz ou maa tenda morrendo de 
ffome' ssem aver que comer nesta almahala nem sse achar por dinheiro 
oje terça ffeira xxx dias de agosto de Í54Í anos. Servidor de vosa senho- 
ria. Bastião de Vargas. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte 1.', maço 70, n." jy. 



XXV 

20 DE OUTUBRO DE 1541 

Carta de Sebastião de Vargas ao conde de Vimioso, D. Francisco de 
Portugal, vedor da fazenda. — Manda-lhe di\er que certo mouro, cava- 
leiro e honrado, agi'avado de seu rei, deixou Fe\, com o propósito de 
ir a Tetuão e fa\er guerra aos lugares em poder dos portugueses. 
Correm perigo os mercadores CJ'istãos desta cidade. — Vargas avisou 
os capitães desses lugares deste sucesso, para estarem precavidos. 

Senhor. He acontecido huum caso novo que ate vermos o tíym delle 
em que para eu mandey avysar os capitãees todos que olhem por sy e 
por seus campos que amdão muy largos e muy cobiçosos pêra mouros e 
o nelles entenderem e o casso he este que Mahamedc Haçym he cava- 
leiro e homrrado e amdava agravado d el rrey desapareceo d aqui com 
todos sseus ffilhos e casa e deixou muita íFazenda de rrayz perdida nesta 
cidade o que se diz he que vay com ser chamado dos moradores de Tu- 
tuão e com ter lia huum ffilho jemrro de cite Alhorra pêra lhe darem a 
vylla na quall naçeo e se criou este ffeito não poder ser senão com ftavor 
de Barraxe e o alcayde d Aicaçere Quibyr que também se mostrão agra- 
vados d el rrey e desejosos de guerra com cristãos posto que a este seu 
desejo me diz el rrey a quem ja njsso ffaley que he myntyra que não 
desejão guerra mas que se querem mostrar valemtes que bem ssabe que 
com a paz enrriqueçem e se este mouro que digo tomar Tutuão tenho 
por certo que a primeira coussa que ífaça com companhyas destoutros 
dous ou com seu ffavor que seja ftazer todo mall e dano em huum destes 
lugares e nos campos que tão largo vyvem e sem lembrança de quem 
ssão mouros el rrey fíoy sabedor desta hyda deste mouro teve o em pou- 
quo como tem todallas outras cousas com conffiamça de sua dita ou con- 
ssolação que descarassa muito ssobre eila acudio avysar cite Alhorra 
depoys delle ser partydo não sey quall primeiro chegara a Tutuão omde 
correm rrisco todos os mercadores que neiie estão e o pa[dre] Contreyras e 
seus companheiros que vem com as esmoUas os capitaêes são ja por mym 



— 341 — 

avyssados e o serão do que qua mays soceder ffaço ssaber a vosa senho- 
ria porque a el rrey nosso senhor nada disto sprevo porque não sey a 
vya quão certa será bejo as mãos de vosa senhoria cuja vyda stado Noso 
Senhor prospere. De Ffez oje xx dias de outubro de i54Í anos. O de 
vosa senhoria Bastião de Vargas. 

Sobrescrito : Ao muy ilustre senhor o senhor conde de Vymjoso meu 
senhor. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.", maço yo, n." iio. 

XXVI 

u DE NOVEMBRO DE 1541 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Por ser serviço e 
desejo de el-rei, ficará em Fe\, depois de partido o seu embaixador. Há 
três anos que está neste cargo e vinte e um fora de sua casa e por isso 
pede que lhe faça mercê, para que as regateiras vejam o seu favor. — 
Pede que lhe mande seu Jilho André, para que o ajude. — Insta por que 
seja despachado, sem demora, o mouro que veiu ã corte. 

Senhor. Ho embaxador me deu húa carta de vosa alteza em que me 
me diz que ho manda hir deste rreino e que haa por seu serviço e me 
manda que queira qua fficar pêra o avisar de todas as cousas que qua 
ssocederem e que comprirem a seu serviço e de todo o que el rrey de 
Fez me disser que lhe espreva e que asy o espreve a el rrey eu senhor 
ssaom vosso criado posto que ja velho pode vosa alteza ordenar de mym 
ssempre e emquanto eu viver como ífor seu serviço que iso me será a 
mym sempre muita merçee e ffico ledo e comtemte poys he servyr se 
vosa alteza de mym e asy o ffarey em todo o de seu serviço como mo 
manda e como eu mays desejo porem senhor lembro a vosa alteza que 
haa xxj anos que sou ffora de mjnha casa e que o sirvo eu ha três anos 
e hora o ffico mais servindo e que he em terra e am.tre jemte tall quall 
he pola quall poso dizer com Ssão Tome domine mite me ubi vis preter 
mauros omde por ssua pouca verdade meu serviço ffunde pouco e amte 
vosa alteza se enxergua muito menos rremando eu ssempre com tamto 
trabalho que cuspo o samgue nas mãos de modo que com menos trabalho 
menos ametade em casa de quallquer primcepe meu serviço ilustrara 
muito ma3's e comtudo ffico ledo e com muito boa vomtade servimdo 
vosa alteza pois mo manda e ho haa por seu serviço no quall desejo 
consumir este derradeiro quartell de mjnha vida peço a vosa alteza que 
avemdo rrespeito a todo o jaa dito se lembre de me flazer a merçee que 
lhe mereço de modo que as rregateiras ha enxerguem em mjnha cassa e 
em m.eus ffilhos e ffilhas que vos sirvo e ffico mais servindo em Ffez. 



— 342 — 

Item. Senhor peço a vosa alteza muito por mercee que me mande 
meu ffilho Amdre de Vargas que ssou velho e me compre estar acom- 
panhado delle e também pêra per elle esprever a vosa alteza cousas que 
ssoçedem que não serão pêra conffiar de camjnheiros. 

Item. Senhor peço a vosa alteza que mande despachar ese mouro 
que Ha amda do miryne de Belez e lhe mande ese mouro cativo porque ha 
muitos dias que lia tem enviado Roque Cerveira a vosa alteza e mouros 
no que querem toda dilação lhe he nojossa e no que delles queremos ssão 
muy ao contrayro compre senhor a voso serviço mandalo despachar e 
logo ou lhe torne a mandar o cristão porque eu não tenho ja rrazão que 
dar a mouros e a may d el rrey que por iso me mata e ja lhe dise que o 
tinha esprito a vosa alteza de sua parte. De Ffez oje .\j dias de novem- 
bro de Í54Í anos. Bastião de Vargas. 

Sobrescrito : A el rrey nosso senhor. Primeira pêra ler. 

1542. De Bastiam de Vargas de xi de novembro de Ffez. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte 1.', maço 7/, n." 2. 



XXVII 
17 DE NOVEMBRO DE 1541 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — A requerimento 
dos moradores de Arzila, o capitão manda um portador a el-rei com 
lima certidão da grande necessidade em que se acha a vila. Pede por 
piedade que seja provida. 

Senhor. Ha rrequerimento desta villa e polia piadade que nela va}' 
alem de quamanha necesidade tem de mantimentos pollo tempo que ha 
que nam he p"ovjda e pollos hanos pasados ho padecem como ja muitas 
vezes escrevj ha vosa alteza mamdo este portador o qual leva certidam 
pêra vosa alteza ser mais na verdade enformado do tempo que ha que 
nos devem e pedir a vosa alteza que por amor de Noso Senhor nos 
queira mandar ser feita mercê alem de njso fazer g-^ande servjço a Deus 
porque certefiquo a vosa alteza que ha maior parte da gemte não come 
ja senão carne e ervas o que não fora se todas ysto poderão haver que 
polia mjsericordia que hestes me pedem a que não poso acodir não houso 
de sair deste castello omde vivo como Deus sabe aquy de nenhúa parte se 
pode aver alqueire de trigo e eu creo que será notorjo asy a vosa alteza 
porque não ha verdade que se escomda posto caso que ha Ceita sobre 
ter rreções jmteiras lhe não devem mes e em Alcacere provisão e em 
Tamgere que halem de se lhe dever algum tanto mais e mjlhor lhe 



— 343 — 

acodio o anno Houveres a Deus agora se dise aquy que vinha pêra esta 
villa huum navio de trigo e foy ter a Cales e hay ho tonnarão todo sem 
ficar alqueire de maneira que vosa alteza pode ter por verdadeiro que 
em nenhuum tempo me podia mais perdoar tamanha empurtunação pois 
ha pêra jso tamanho rrespeito e enformado disto peço a vosa alteza que 
mande despachar este portador que ha outra nenhúa cousa vay e seja por 
alguns dias mais ou aquillo que vosa alteza vir que he necesarjo e de 
qualquer maneira que for em tudo rreceberemos jguall mercee e eu em 
espiciall polia parte que niso tenho alem de ser prinçypall na necesidade 
que pois esta tão sabido he escusado dizello a vosa alteza cuja vida e 
rreal estado Noso Senhor acrecente. Oje xbij dias de novembro de i54Í. 
Dom Manuel Mascarenhas. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parle i.', maço 7/, n." g. 



XXVIII 

2 DE DEZEMBO DE 1541 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Rute tem servido 
com milito amor e verdade e por isso pede para êle mercê, como o pró- 
prio requereu. Sem êle os negócios de el-rei não correriam tão bem 
em Fe\. 

Senhor. Muitas vezes tenho sprito a vosa alteza que Jaco Rute serve 
vosa alteza bem e ffielmentc em todo o de seu serviço e parece me vosso 
serviço ffallar lhe nelle mays craro por que vay de qua o embaxador que 
he testemunha de vista e que vyo seu serviço e verdade em tudo affiyrmo 
a vosa alteza que esta terra e a jemte he de maneira que o vosso emba- 
xador e Bastião de Vargas e outros dez nada de voso serviço poderão 
symgrar avamte sem Jaco Rute porque avemos qua n:iester huum terceiro 
por mays arábia e eloquência que todos tivesemos sem terceiro amtre el 
rrey e nos nada se fiara este terceiro não ho ha na terra que seja ter- 
ceiro pêra mays que pêra dizer e ftazer tudo o que el rrey quiser o quall 
rrey nada quer nem deixa de querer ssomente Jaco Rute lhe ííala em 
todos os negócios de modo que pola mayor parte el rrey toma em tudo 
seu parecer isto porque elle tem saber e audácia pêra asy ser e a outra 
porque el rrey e os de seu conselho todos ssão muy modernos nos negó- 
cios como pasa de cuzcuz e hyr ao banho e certo senhor que tenho apren- 
dido que ja nesta terra ouve pesoas de negocio e que o ssabião oje senhor 
os não ha e como asy seja e Jaco Rute com tanto amor e verdade serve 
võsa aheza vejo que vosa alteza deve ffblgar de o ter neste rreino e que 
sse o não tivera lhe comprira buscalo ou outro tall o porque vos merece 
mercee e elle me dise oje que tynha rrequerymento amte vosa alteza a 



— 344 — 

que lhe não mandava rrespomder amda diso agastado peço a vossa 
alteza que o mande despachar como vyr que he seu serviço pêra que 
sayba o que de sy a de ffazer e não este pendurado ssem tomar concrus- 
são em seu asemto porque elle não ffaz ífundamento de vyver nesta terra 
e tem bulia do papa pêra seguro hyr por toda a cristamdade ate omde 
quiser asemtar ssalvo se ffor servymdo se vosa alteza e podendo elle ser- 
vyllo o quall diz que não pode ser senão tendo seu jrmão em Arzilla pêra 
com elle lia se valer nesta terra e com estas espaldas poder ca valer e 
vosa alteza njso ter penhor de seu servyço ftaço saber a vosa alteza a que 
peço que o mande despachar e ao embaxador me remeto que sey 
que njsto e em tudo lhe a de ffalar verdade porque tudo vyo e notou 
muy bem. De Ffez oje ij dias de dezembro de Í64Í anos. Bastião de 
Vargas. 

Sobrescrito: A el rrey noso senhor. 4.* 

1542. De Bastião de Vargas ij de dizembro. De Ffez. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.», maço 7^, n." 26. 



XXIX 

1541 



Carta de el-rei a D. Manuel Mrscarenhas. — Manda-lhe recolher em Ar- 
zila os judeus, moradores em A:{amor, que fe\ sair de lá. — Se os capi- 
tães dos navios exerceretn violência sobre eles, castigue-os e disso o 
avise. — Os mesmos navios na viagem de retorno que levem lenha para 
A\amor. 

Dom Manuel etc. Ouve por serviço de Deus e meu de mandar des- 
pejar Azamor de todos os judeus pêra este cerquo que se espera enco- 
mendo vos e mando vos que os rrecoihais nesa vila com todo bÓo trata- 
mento como de vos confio e os mandeys agasalhar e sejam de vos tratados 
como he rrezão em nam receberem ofensa de ninguém nem se lhe afastar 
nenhúua cousa do seu e quando chegarem saberes deles se rreceberam 
alguum mao tratamento dos capitais dos navios e sendo asy o que nam 
creo que será castigaloeys com jnteira justiça e farlheys rrestetuir logo 
todo o seu e os navyos que os levarem se os poderdes caregar de lenha 
todos neses soverais com toda seguridade farmeheys niso grande serviço 
c ocupareys niso toda a gente d Arzila ficando a vila e yndo vos a bÕo 
rrecado porque he muyto necesaria em Azamor e fareys cortar toda a 
que poder ser de tal maneira que posa aproveytar pêra rrepairos e 
mandarlheys que se tornem logo com ela direitos a Azamor e se alguum 



- 345 - 

desaguisado elles rreceberem no mar alem de o castigardes farmoeys 
saber. 

Biblioteca nacional de Lisboa, manuscrito ij58, foi. 55 V.-S6 r. 
Minuta. 

Este documento parece ser de i54i. Ele é precedido de outro, dirigido a Antó- 
nio Leite, quando ainda capitão de A^amor, sobre o mesmo assunto. Ora êle deixou esta 
capitania, em que foi substituído por D. Fernando de Noronha, em abril de i54i [Anais 
de D. João III, p. 34o\. Nesta outra carta fala-se da armada de Fernão Peres [foi. 54 v.] 
que devia fornecer os navios para o transporte dos judeus a Arpla. Numa carta a Fer- 
não Peres, datada de i3 de abril de i54i [foi. 5j], se dij que êle «deve estar sobre a 
barra de Azamor ou na baía de Mazagão», e no fim lembra que, quanto ao despejo dos 
judeus de Ajamor, já lhe escreveu. Este despejo foi ordenado, como se di'^, por motivo 
do cerco que se esperava. Ora um documento, também daquela data de i3 de abril 
\fol. 74], escrito a D. Fernando de Noronha, dij entre outras cousas : « . . . e também por 
que estand vós já em Azamor e cerquado. . .». Isto mostra que o dito documento é an- 
terior a abril de i54i. 

XXX 

5 DE JANEIRO DE 1542 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Queixa-se de qite 
certos mercadores, entre êlcs vassalos de el-rei, teem danado o negócio 
do trigo, porqt/e compram por preços superiores aos dos contractos 
feitos: eles mereciam castigo. — Pessoa principal, vinda de Argel, che- 
gou a Fe^; não se sabe a que vem: do que souber escreverá. 

Senhor. Oje ííeita desta soube que mercadores e alguuns deles vas- 
salos de vosa alteza a quem el rrey de Ffez devia dinheiro lhe comprarão 
trigo a três cruzados e meo a çafía que ssão cymquo onças e quarta 
valemdo a muito menos em Lixboa ffizerão conta que o dinheiro nunca 
lhe avia el rrey de pagar e que tomando o trigo asy caro poderão perder 
a terça parte e que o que ouverem pollo trigo iso ganhão de perdido que 
jaa tynhão e ssem esperamça de lho pagarem ffaley a el rrey que poys 
vemdia trigo porque mo não mandava dar a mym dise me que se o qui- 
sese ao dito preço que olharya njso mais que a dous cruzados como hera 
o contrato que o não podia flazer nem eu tall devya de querer isto he o 
que pasa e como qua se cumprem contratos asynados per eile ffaço ssaber 
a vosa alteza que he myntira o trigo desta terra e todo o mays delia pêra 
se pagar o que devem a vosa alteza avara ordem e maneira se meu líilho 
qua vyer ou pesoa outra de conffiamça eu o espreverey a vosa alteza 
como será paguo e não per trigo que o não ha estes mercadores e vas- 
salos vossos dinos herão de castigo poys danão a vossos contratos mas 
elles tem rrezão de arrecadar ssua ffazenda e de a não perderem de 
todo. 



ANAIS DE ARZILA 



44 



— 346 — 

Item. Oje chegou aqui huum cate[?] e pesoa primcipall do Arjell que 
o çanagua ca mandou partyo do Arjcll ha três meses e ffoy no camjnho 
rroubado e deteudo vezes de modo que tardou o tempo que digo podemdo 
vyr em xxb dias e partio amtes do emperador lia ser as vozes de sua 
vj^mda ssão muitas cousa de povo o certo não se sabe mas ssaber se a 
que jemte he de pouco ssegredo e o que o povo diz huuns que vem bus- 
car pólvora e outros que vem com rrecados do turco estranhamdo lhe 
dar trigo a cristãos e ter com- elles pazes outros dizem que a de pasar 
d aqui ao xarife o certo se saberá e o espreverey a vosa alteza e ja tem 
novas que o emperador he vyvo e em Castella e de que não ssão muy 
contemtes com rreçeo de tomar o Arjell. De Ffez oje b dias de janeiro 
de 1542 anos. Bastião de Vargas. 

Sobrescrito: A ell rrey noso senhor. Derradeira pêra ler. 

1542. De Bastiam de Varguas de b de janeiro. De Fez. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte 1.', maço 7/, «.' 54. 



XXXI 

27 DE FEVEREIRO DE 1542 

Carla de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — Dá parte a el- 
reiqiie passou certidão de ter tomado algum trigo, em ocasião de grande 
necessidade, ao alcaide Abedalá. Espera que sua alte:^a não terá dúvida 
em fa\er o seu pagamento, porque foi grande serviço a cedência desse 
trigo em tal tempo. 



Senhor. Ho ano pasado esteve esta villa em tamta opresão de fallta 
de mantjmento que ffoy ncçesaryo huum pouco de triguo e cevada que 
ho alcoyde Abedalla tynha nesta vila que mandava vemder tomar lhe 
algum delle e da cevada pêra se rrepartyr pelos moradores desta vila o 
quall se rrepartyo pelo almoxarife do que haguora huum criado do dito 
Abedalla pedio certidão pêra lho vosa alteza mandar pagar a quall çer- 
tjdão heu lha mandey dar beyjarey as mãos de vosa alteza mandar que 
se lhe pague porque helle fez nyso servyço a vosa alteza em ho dar ao 
tempo que ho deu de tanta neçesydade o triguo que se lhe tomou fforam 
vymte moios e quatro moios de cevada noso senhor acreçente vyda e 
rrcall estado de vosa alteza. D Arzila a xxbij de fevereiro de jb'^Rij. 
Dom Manuel Mazcarenhas. 



— 347 — 

Sobrescrito: Pêra el rrey noso [senhor]. 

1542. De dom Manuel Mazcareijlias de xxbij de fevereiro. D Arzila. 
Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço 7/, n." gy. 



XXXII 

27 DE FEVEREIRO DE 1542 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a elrei D. João III. — Pede mercê 
para dois servidores de el rei, que vêem d corte, um dos quais, mou- 
risco, está bem no caso de ser língua em Ar:{ila. 

Senhor. Com eses mouros d Abidala que a vosa alteza levão huum 
serviço e ao iffante vai António da Costa filho de Djogo Memdez da Costa 
aqui morador por o servir asi ser seu serviço pêra que fosem senguros 
sem lhe ser feyto desagisado como pêra sua linguoa no que lhe conprir 
seu pay Diogo Mendez ha muytos anos que serve vosa alteza e ele nyso 
se criou e por ser pessoa de calidade e de seu serviço cabe bem nele toda 
merçe que lhe fizer. 

Hos dias pasados foy desta vjla pêra sua corte huum Francisco Maz- 
carenhas mourisco naturall do rreyno de Marroquos que se veyo a Fez a 
Abidala e d ay se veyo aqui tornar cristão he pessoa soficiente pêra linguoa 
nesta vila asi por ser pêra yso como por saber muito bem ler e escrever 
mourisco muita merçe me fará mandalo porque cunpre a seu serviço e 
ordenar lhe a tença que nesta vila tinha a limguoa porque socedem mui- 
tas vezes cousas de maneira que por nom aver quem as lea e porque na 
lingoa mourisca carecem algúas cousas de serviço de vosa alteza nom se 
fazerem como cunpre. Deste Arzila ha xxbij de fevereiro de 1642 anos". 
Dom Manuel Mazcarenhas. 

Sobrescrito : A el rrey nosso senhor. 

1642. De dom Manuel Mazcarenhas de xxbij de fevereiro. D Ar- 
zila. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parle 1.', maço 7/, n.° (jH 



— 348 — 

XXXIII 

1 DE MARÇO DE 1542 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D, João III. — Dá novas do 
campo de Ar:{ila; tudo se está aparelhando para algum mau golpe; 
por isso pede a el-rei que mande fa\er certas obras nos muros de Ar- 
:{ila. — Pede armas para os moradores da vila, porque teem muita ne- 
cessidade delas. — Larache está-se fazendo forte: isto obriga a estar 
de atalaia, — Manda di^er que repartiu a gente de cavalo em dois 
turnos para o efeito de ir fora, de modo que quando sair um fique o 
outro e não se percam ambos. Disso preveniu os capitães dos outros 
lugares. — Soube por Sebastião de Vargas novas do xerife, as quais 
manda a el-rei. 

Senhor. Mulej Mafomede esta ha mujtos dias neste campo como vosa 
alteza terá sabido e com sua estada e rrequerimemto aquerio asy mujtos 
alarves e aduares d aquy perto e outra gemte desimulada que vay e vem 
e esta pello campo pello lugar que ho tempo da de sy e com ysto e pello 
que mais delle sey e estar aquy tão perto trago de longe o olho sobre o 
ombro e agora avera seis ou sete dias soube mais que vinha Bemgiya a 
este campo a ver se com ele e d outra parte vinha Abedalla dizem que ha 
emgordar os seus cavallos de maneira que cada huum com sua ma des- 
culpa e com estar o alcajde d Alcaçere tão perto vezinho se estão hagora 
esperamdo neste campo omde esta esta gente desta maneira jumta ende 
Omar almocadem ende Abraem com almahalla de Mulej Mafomede e ele 
he em Xuxuão dizem que ha por tudo em seu llugar e fazer prestes ha 
sua gente por estar deshavimdo d el rrey e ficar asj' levantado ou apa- 
relhado pêra yso foy a causa mandalo el rrey chamar e ele nam querer 
la jr estamdo asy com esta pedra na mão destas divjsões e com ho rre- 
cado que devo a vosa alteza nesta villa me chegou mais esta carta de 
Bastião de Varguas que com esta minha mamdo ha vosa alteza em que 
me confirma o que por qua sabia como vosa alteza per ela havemdo per 
seu serviço vera e senam quem vosa alteza mamdar que pêra yso o não 
escrevo mais larguo nesta minha e visto tudo me fará vosa alteza muj 
grande merçe mandar pois aqueceo agora mais esta lembrança em tempo 
pêra iso que seya esta villa rrepairada nas partes que estão deneficadas e 
de tantos dias como ha que ho escrevo a vosa alteza que so estas duas 
cousas rrequere esta causa ate gora a mjm ha guarda e vigia desta villa 
e rrequerer a vosa alteza o que peço e a vosa alteza mandalo fazer prim- 
cipalmente huum baluarte que he a força desta vila que esta muito caydo 
sobre que tamtas vezes escrevj ha vosa alteza e outras mujtas partes do 



— 349 — 

propio murro da vila alem da cava ter dous hou três pedaços caydos 
peço ysto a vosa alteza porque ho tempo consentira fazer se agora pra- 
zemdo a Noso Senhor antes que pedaço e pedaço va semdo tanto e em 
tantas mais partes que custe muito mais a vosa alteza o que agora se 
pode escusar avemdo asy por seu serviço que em ser Uoguo rreceberey 
muy grande mercê. 

Tãobem mujtos moradores desta villa asy pello tempo ser pêra yso 
como alguns per suas necesidades leixaram perder e desbaratarem se d 
armas de maneira que certefiquo a vosa alteza que tem delias mujta 
neçesidade e porque d outra maneira ser lhe a grande opresão asy a elles 
como a mjm que será em espicial fará vosa alteza muj gramde merçe 
mandar a esta villa alguns corpos de couraças e algúas hadarguas e 
capacetes e asy craraçóes pêra quem nas ouver mester somente e que 
lhe sejão dadas em seus soldos atras porque hasy faz lhe vosa alteza 
pagamento e eles o rreceberam e alem diso em mercê por as não pode- 
rem escusar e vosa alteza será tãobem milhor servido e nelas se porá ho 
rrecado que heu comfio e de tudo ser lloguo crea vosa alteza que vera a 
seu tempo ajmda que tudo prazemdo a Noso Senhor pare com não dar 
mais de sy que este trabalho que per cima desta rrezão me fica sempre 
em descanso. 

Llarache face forte e espicial mamdado d el rrey que toda pessoa que 
nele viver tenha d obrigação besta ou espimgarda vosa alteza tome de 
todas estas cousas o que lhe parecer e mande me o que mais ouver por 
seu serviço lenbrando a vosa alteza o em que heu rreceberej mercê que 
pedir lho tantas vezes he empurtunaçam e vosa alteza ma pode levar em 
conta pois he sobre cousa de que se vosa alteza avia d aver por ser- 
vjdo. 

Eu fiquo d agora por diante com ha gente de cavallo rrepartida que 
não possam jr fora da vila senão ha seus dias asinados quorenta huum 
e quorenta outro de maneira que se algúa cousa for me não faleçam de 
todos mais que estes que se não pode escusar jrem a seus dias fazer suas 
fazendas e lloguo o fiz saber aos houtros capitães pêra estarem a rrecado 
e em todas has mais cousas que cunpre a serviço de vosa alteza heu 
fiquo com haquele e guarda que devo e posto caso que como digo fiquem 
as mais das vezes estes negócios com darem o trabalho deles somente em 
tudo o que peço me fará vosa alteza muj grande merçe porque muitas 
mais se aquece no mais deseado [?] Ilugar jazer a lebre. 

Duarte Fernandez he criado de vosa alteza e tão desejoso de ho ser- 
vir que por esta rrezão e por ser pêra iso lhe dey esta carta ele a leva ha 
vosa alteza que pello que delle conheço se poderá dele fiar ajmda que 
fora de muito major rrecado e certo que o em que vosa alteza o quiser 
encaregar. 

Item. Depois de ter esta escrita me cheguou outra carta de Bastião 



— 35o — 

de Vargas na qual me torna a lembrar o que nesa que mando a vosa alteza 
me escreveo e mais me diz que hos xaryfes estão mujto deferentes e que 
antre eles ha muy grande estrelidade e que vali em Çuz dous almudes de 
trigo que não hc ajmda meio alqueire meio metical d ouro aquy se diz 
que Muley Mafomede se cartea com ho xaryfee e que no caminho se 
acharão ja mouros do xarifee a Mulej Mafome[de] enviados ysto soube per 
huuns judeus que dizem que hos virão não sey quão certo será. Noso 
Senhor acrecente vida e rreal estado a vosa alteza. D Arzila oje o pri- 
meiro dia de março de noite de 1542. Dom Manuel Mazcarenhas, 

Sobrescrito : Pêra el rrei n[oso senhor]. 

De 1 542 — De dom Manuel Mazcarenhas do primeiro de março. — D 

Arzilla. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço 7/, n." gg. 



XXXIV 

18 DE M.ARÇO DE 1542 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei. — Pede para seu filho, D. Fer- 
nando, uma comenda das de quatro anos e para si se lhe torne a sua 
moradia. — O contador da vila Tem ao reino, sem licença do seu capi- 
tão, para pedir mercê. — O almocadem Diogo da Silveira parece que- 
rer ir para terra de tnouros; para evitar isso, deseja que o empreguem 
no reino. 

Senhor. Ajmda que vosa alteza não tinha feita esta mercê a outrem 
semdo tamanha pella necesidade que meus filhos tem de lhe vosa alteza 
fazer merçe me hatrevera a pedir lha pêra eles pois não tem mais que as 
que lhe vosa alteza fizer e rrequerello eu por elles a vosa alteza bem mo 
pode levar em comta pois que halem de filhos não tenho pêra lhe dar que 
ho que per elles fizer e porque huum deles o maior que se chama dom 
Fernando é ja em ydade pêra poder bem servir vosa alteza vosa alteza 
me fará muj grande merçe em aver por seu serviço que ele posa servir 
aqui hOa comemda das de quatro anos e que servirado[o]s posa aver as de 
dous segundo ordenança o quall tempo ele servira posto caso que me 
vosa alteza mande jr e esta merçe averej por tamanha que me não hatre- 
verja nunqua servir lia e tãobem a mim me fará vosa alteza muj grande 
merçe em aver por bem que se me torne minha moradia sem embargo 
de eu ter tirado meu casamento pois não sam o primeiro que jsto peço e 
o que ho vosa alteza tem feito mas amtes em mim pella necesidade que 
diso tenho se enxergara muito mais e será ter mais pêra mylhor me po- 



— 351 — 

der desendivjdar. O comtador desta villa Djogo Mazcarenhas vaj a vosa 
alteza serra a pedir lhe merçe sem me pedir carta pêra vosa alteza nem 
dar conta ao que ya creo que foy querer que pedise a vosa alteza sobre 
cujo serviço o não quis aceitar de mjm a merçe que rreceberej em vosa 
alteza aver por bem que não seja de sy achado que em ser asy me fará 
vosa alteza em especial! mais grande merçe posto caso que he o menos 
do que ele merece. 

Item. Tãobem nesta villa huum Diogo da Silveira almocadem que 
pella ma presemça que ha dias que dele tenho de se querer jr pêra terra 
de mouros escrevj ao conde dom João Coutinho que pedise a vosa alteza 
que la se quisese servjr delle por evitar poder se jr agora o afirmo mujto 
mais por mujtas rrezões vistas cada dia vosa alteza me fará njsto que 
diguo mercê asy por se não jr como pella perda que será se se for. Noso 
Senhor acrecente vida e rreal estado a vosa alteza. D Arzila oje xbiij 
dias de março de 1542. Dom Manuel Mazcarenhas. 

Sobrescrito: Pêra el rrey noso [senhor], 

1542 — De dom Manuel Mazcarenhas de xviij de março. — D Arzilla. 
Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço 77, n." 108. 



XXXV 

20 DE MARÇO DE 1542 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — Manda di^er 
que, por novas de Fe^, trazidas por um judeu honrado, se sabia que 
el-rei de Fe^ tinha feito pa^es com o xerife. 

Senhor. Depois de ter escrito ha vosa alteza estamdo o navio pêra 
partir cheguou a esta villa huum judeu omrrado que desta vila foy de 
Fez o qual partio delia esta sesta feira passada que forão quinze dias 
deste mes de março e cheguou aqui oje vimte dias do dito mes e me dise 
que podia crer que erão has pazes feitas el rrey de Fez com ho xarife e 
que casavão hambos filhos com filhas e que loguo apartavão ha parte trás 
pêra eles e que isto hera asy e que não me certeficase niragem o con- 
trairo eu como ja diguo não perdia esta presunção no rreino do xarife vai 
o alqueire de trigo a omça e meia não ha mais que escrever a vosa alteza 
cuja vida e rreal estado Noso Senhor acrecente. D Arzila oje xx dias de 
março de 542. Dom Manuel Mazcarenhas. 

Sobrescrito ; Pêra el rrey noso [senhor]. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.', maço ji, n." iii. 



— 352 — 

XXXVI 

6 DE ABRIL DE 1542 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — Em contrário 
do que lhe dissera, el-rei de Fe:; não fi\era j)a\es com o xerife, nem 
virá a fa:{er, segundo informações seguras que tem. Desejava, toda- 
via, fa^^ê-las com o rei de Su\ e pedia que o seu embaixador passasse 
por Arzila: dê el-rei ordem para isso. — Pede, por mercê, a el-rei que 
aceite para seu serviço o moço que lhe manda, porque é bom e leal ser- 
vidor. — Manda, também, dois cavalos que pede licença para lhe ofe- 
recer. 

Senhor. Vosa alteza me tem mamdado per suas cartas que mujto parti- 
cularmemte lhe escreva todas as novas deste rreinno de que for sabedor por 
o aver asy por seu serviço que he causa de ho fazer as vezes que escrevo 
a vosa alteza oferecemdo as o tempo posto caso que como desejosso de 
servir vosa alteza em tudo o faça em algúa parte sem outro nenhuum 
alvoroço porque este que diguo he o maior que poso ter sempre e como 
o eu sempre desejei e desejo nam seia oculto a vosa alteza por quão 
certo he sem me mais lembrar que servillo ajmda que mujto mais as no- 
vas posão mostrar em parte de mjm ter alguum desejo de as saber pola 
calidade do negocio delias o que ajmda que fora no servir vosa alteza em 
mais que hasi o desejo mas não que chegue a podello polo comtrairo do 
que vosa alteza mais servido for cuidar soomente nem ter maia alvoroço 
que de toda paz e boa amizade e sostemtalla em tudo do que não semdo 
servido então o terja no que mais fose de maneira que vosa alteza me 
pode aver por sem culpa de lhe escrever tamta nova do reynno e rrey 
pois me não move a yso senão mandar mo vosa alteza e serem tamtas e 
seu fruito é de tão pouqua verdade mujto mais diguo isto porque as pa- 
zes como escrevy ha vosa alteza não sam feitas com ho xarife nem ouve 
mais que virem samtos do xarife falar nelas os quaes ficam ajmda em 
Fez ja despachados de se não fazerem segumdo me certificarão pesoas 
que ho sabiam d aguora e de Ha do que não hafirmo poder ter ajmda seu 
envés como ho mais de quem estas cousas ssão com ho de Çuz me dise 
Jaco Rute que desejava el rrey de Fez de has fazer mas que estava tão 
desvjado que não tinha por la rremedio de falar njso que detreminava de 
mandar pêra esta villa quem pêra iso ordenase pêra d aquy jr em seu 
navio ou de Llarache eu lhe dise que por aquy o podia fazer o que será 
mamdamdo mo vosa alteza avemdo por seu serviço e senão pollo con- 
trairo do que desejase asy he a guerra dos jrmãos vay em mujto gramde 
crecimento segumdo se diz. 



— 353 — 

Item. Não ha guora outras novas que escrever ha vosa alteza senão 
que tado fiqua em calla Mulej Mafom[e]de esta ajmda omde estava não 
faz movjmento nenhuum nem ha nova de jr a Fez do que mais ssoceder 
vosa alteza será sabedor. 

Item. Este portador he hum homem que criey de pequeno que ha 
mujtos dias que me tem carguo de minha casa per que lhe ssão em 
tamanha obrigação e de tam llomge que com conhecer que tenho mujto 
que servir a vosa alteza as mercês que me tem feitas e faz me obriguou 
a pedir mais esta por ele posto caso que todas e tudo e mujto mais 
desejo pêra milhor poder servir vosa alteza e he senhor que rreçeberej 
tamanha merçe em o vosa alteza aver por seu como ouve a propia de 
meus filhos que ja rreçeby que por seu ayo me fará merçe de ho tomar 
o qual se chama Zuil iPinto e alem de me vosa alteza fazer esta merçe 
que será grande meus filhos polia neçesidade que d ysso tem a rreçeberão 
de vosa alteza como eu espero que todos sirvão como devem e são hobri- 
gados e ele taobem pêra por sua pesoa o merecer a vosa alteza alem do 
carguo que me a mjm mais por iso fiqua. 

Item. Por elle mamdo ha vosa alteza dous cavallos que huum deles 
ouve do jrmão d el rrey de Fez os quaes a dias que hamdo escolhemdo 
e que me milhor parecerão dos que pude aver porque a terá quarece ja 
delles como soya peço a vosa alteza que me faça merçe que me leve em 
conta este atrevjmento de ho servir pois esta ssabido que em mujto mais 
o desejo fazer mas de quem tão pouquo pode pêra o que deseja rreceba 
vosa alteza minha vomtade que he tão certa como devo e devem os tais 
vasallos e servidores a seu rrey natural primçipallmente aqueles a que 
vosa alteza fizer tamta mercê como ha mjm que nenhúa lhe tenho ser- 
vida pêra o que Nosso Senhor ordene cousa de seu santo sserviço e acre- 
centamento de rreal estado de vosa alteza em que o posa mostrar per 
obra como desejo e devo pois ate guora o não sirvo com mais. Nosso 
Senhor acrecemte vida e rreal estado de vosa alteza. D Arzila oje bj 
dias d abril de 1542. 

Dom Manuel Mazcarenhas. 

Sobrescrito: Pêra el rey nosso [senhor]. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.*, maço 77, n.° J25. 



ANAIS DE ARZILA 



— 354 — 



XXXVII 

3o DE JULHO DE 1542 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Escreve que el-rei 
de Fe^ o mandara chamar e lhe dissera que era muito seu desejo que 
o conde D. João Coutinho voltasse para capitão de Ar:{ila: que isso 
era muito necessário à conservação da sua amizade. — Pedia, igual- 
mente, el-rei que fosse solto certo mouro que havia cerca de dois anos 
estava cativo, quando o cristão que fora dado por ele já estava livre 
em Portugal. — Pedia, finalmente, que fosse feita justiça a Rute, seu 
criado, que fora demandado em Lisboa, e dada sentença em seu favor. 
El-rei, mal aconselhado, como o são muitas ve\es os reis, mandara anular 
a sentença e citar Rute, por éditos, a comparecer no reino, e embar- 
gando o seu dinheiro, que tinha depositado até se dar a sentença, o que 
não era justo. 

Senhor. Oje domjnguo xxx dias deste julho me mandou el rre}' cho- 
mar aqui a esta mjnha pousada muito cedo pola raanhaa e por ser taees 
horas e tempo muy desacostumado a ffalar corajguo me pos em pensa- 
mentos desvayrados que novjdade podia ser a pêra que me mandava cha- 
mar e não sem muito rreçeo ffuy e o achey com sua mãy soo apartou se 
huum pouquo delia e me chamou pêra perto de sy e me disse Bastião de 
Vargas el rrey voso senhor vos mandou aqui fficar e mo espreveo a mym 
pêra per vos lhe ffazer a saber o que a mym comprir e asy mesmo per 
vos elle a mj^m teres cousas vos direy aqui que vos rrogo muito que lhas 
esprivaees rrespomdi liie que sy ífarya jmteiramente tudo o que me elle 
disessc que pêra iso me mandara vosa alteza qua rresydyr. 

Item. Dise me a primeira seja espreverdcss lhe que o conde dom 
Joam se criou de menino em Arzilla e creçeo e ftoy homem e depoys 
capitão pelejou ffez nos dano e ffizemos lho e comtudo ha vezinhamça he 
ja de tanto tempo affora a de seu pay que ha amtre nos amjzade e lha 
temos e elle a nos e a nossos alcaydes seus vezinhos e sabem nosos 
custuraes e os sabe rreceber e enmendar quando cumprem o porque eu 
o desejo muito em Arzilla e ja esto vos dise algúas vezes pollo quall vos 
rroguo que esprivaees a el rre}' vosso senhor que sayba certo que cum- 
pre muito pêra conservação de nossa amjzade d amtre mym e elle o conde 
vyr Arzilla o mays cedo que possa ser c que o rreccberey em muy grande 
amjzade. 

Item. Dise lhe senhor ha y algúa cousa nova que a isto vos obrygue 
que os capitãees hora ffizesem. 



— 355 — 

Item. Dise me as paxóecs qua e Ha são muitas e a tudo se não pode 
acudir abaste que vos digo que a el rrey vosso senhor e a mym e a nosa 
amjzade cumpre vyr o conde e certo eu ífolgarey muito e não me dise 
mays deste ponto da estada dos alcaydes nos campos este jmverno pas- 
sado lhe naceo apitar na vynda do conde que elle he verdade que muitas 
vezes e em praticas me ffalou no conde sse avia de vyr cedo pêra Arzilla 
e crreo que eu o esprevy a vosa alteza naquelle tempo que mo elle ííalou 
o que symto he que Barraxe e o alcayde d Alcaçere Quebyr desejão 
guerra com cristãos e como per esoutra carta o esprevo a vosa alteza 
amtre outras rrazões e achaques que dos campos trouxerão ffoy dizerem 
que o conde não estava em Arzilla a meu ver quer el rrey ver sse com o 
conde em Arzilla se se escusara do que elles lhe requerem de quebrar as 
pazes e não somente o rrequerem mas embocão cacizes e pesoas outras 
a seu preposyto peramte el rrey. 

Item. Senhor me dise bem ssabeys que na yda de Roque Cerveira e 
vymda pêra qua de Azuz cativo de dom Álvaro eu nunca vos ffaley por- 
que bem sabia da prissão de dom Álvaro e que não se podem os negócios 
espedir tão asynha como as pessoas cuydão Molei Bohaçom envyou o 
cristão a el rrey nosso senhor depoys mjnha mãy peramte mym vos disse 
que de sua parte espreveses a el rrey que lhe pedia quisese mandar ssol- 
tar o mouro de dom Álvaro e eu vos dise ahy quando vos ella ffalou que 
de mjnha parte nada espreveses que eu nada diso dizia nem ate oje vòs 
njsso ffaley sou muy avexado de meus alcaydes e de cacizes que me mui- 
tas vezes envergonhão com me dizerem que vay em dous anos que o 
cristão esta em Portugall solto e ff'orro e que Azuz esta com fterros 
almoffaçando cavalos ao que não tenho licita rreposta senão dizer que não 
he em mjnha mão e desculpo me com Molei Bohaçom que o mandou 
sprever a el rrey que lhe peço que pello meu queyra mandar dar con- 
missão a este negocio poys nunca lhe njsto ffaley e ora novamente lho 
peço e que sse njsto ouver d aver mays dilação que torne vosa alteza a 
mandar o cristão a Ffez que com elle satysftara a seus vassalos e pessoas 
que neste negocio lhe ffalão e o muito emportunão e isto senhor quanto 
a este pomto mas não se pode senhor esprever a vemencia e eftiycacia 
com que mo dise e he verdade que seus vassalos lho ffalão muitas vezes 
e muitas mays vezes sua mãy a mym e peramte elle o diz vejo que se 
elle envergonha e não torna rreposta e rrevolve o rrosto pêra outra parte 
quando sua mãy mo ff"alla. 

Item. Senhor ho outro ponto ffoy que me dise que os rreys todos 
herão enganados e polas pesoas que mays perto estavão de sua graça e 
que elle também adoecia as vezes desta doença e de ser enganado dos 
seus e dise o caso he este que Jaco Rute meu criado ffoy em Lixboa 
demandado per húa pessoa eu esprevy a el rrey sobre este caso e que lhe 
pidia mandasse guardar justiça as partes deu se semtemça por parte de 



— 356 — 

Jaco Rute segundo o que tenho sabj^do per ífalsa enformação de Cristó- 
vão Estevez que he pessoa que tem valia amtc el rrey e que ffaz pola 
outra parte que he seu cunhado pasou el rrey huum alvará pêra anular a 
sentemça que se deu por parte de Jaco Rute e lhe embargão seu dinheiro 
que tinha deposytado ate se dar a ssentemça que se deu e por parte de 
Jaco Rute e mandou el rrey que Jaco Rute ííosse cytado por éditos e 
quanto a nossas leys isto he ssem justiça que vaa meu vassalo a pagar o 
que deve se o deve a outro rreino mas que se o deve que o venhão qua 
demandar e ser lhe a Ifeita justiça e asy também o meu vassalo sse em 
Portugall algúa pessoa lhe dever que o vaa lia demandar e ffar lhe ao jus- 
tiça mas que por éditos ho obrygue a vyr qua de rreino estranho a pagar 
o que qua deve não vejo causa como posa ser e por iso vejo que el rrey 
vosso senhor pasou este alvará por ser enganado vos rroguo que lhe spri- 
vaees que peço a sua alteza que mande por o alvará que envjo na sua 
rrolação do rregedor amte letrados sem sospeita e que se he justiça não 
terá a parte de que se agravar e que se ffoy per ífalssa eníformação o 
mande enmendar como flor justiça e vos rroguo muito xeque Bastião que 
tudo as}^ como vollo digo o esprivaees a el rrej' e que a obra destas cou- 
sas me será rreposta. 

Item. Isto senhor he o que de todos estes pontos pomtualmente me 
dise e por me não hyr sem tocar algúa coussa lhe dise senhor asy passa 
que os rreys ssão as vezes enganados por seus privados e pessoas que 
perto delles amdâo e que o ssoys vos também e rrymdo me dise cada dia 
o sou eu rrespomdi lhe poys senhor se vos vedes enganar como não cas- 
tyga\'s quem vos engana pêra enmenda de outros e rrymdo se dise serya 
muy bom mas não se pode tudo chegar ao cabo e torney a tocar e dise 
senhor dos capitães d el rrey meu senhor tendes alguum queixume novo 
ou coussa nova rrespomdeo me com pesadume que não mas que seus 
allquaydes vyerão dos campos etc. e aqui se callou sem mays me dizer 
somente que tudo esprevese a vosa alteza asj' como mo disera o que 
senhor asj' o sprevo a vosa alteza como dise. De Ffez oje xxx dias de 
julho de 1642 anos. Bastião de Vargas. 

Sobrescrito: A el rrey noso senhor. 

1642 — De Bastiam de Vargas de xxx de julho de Fez. — 3.* vya. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço 72, n." 77. 



— 357 — 



XXXVIII 

20 DE DEZEMBO DE 1542 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III — Manda iioticias 
do reino de Fe{, as quais são mais de guerra que depa:{.—Os campos 
estão cheios de aduares e, se os mouros quebrarem as pa:{es, pode el-rei 
tentar tomá-los. — O xeque de Tafilete, que estava cativo na cidade de 
Marrocos, fugira ao xerife e tornara a recuperar Tafilete, onde está 
por el-rei de Fe^. — Cativem que haja em Ariila algumas casas de 
judeus^ porque por eles é que se obteem novas do que passa entre os 
mouros. 

Senhor. Depojs de ter escrito ha vosa alteza me chegou húa carta 
de Jaco Rute em que m escreve que estando em Allcaçere de caminho 
pêra Fez fallara com ho allcaide d Allcaçere e que lhe dixera aíirmada- 
mente que s avião d ajumtar ho propio allcajde d Allcaçere com Bemgiga 
e MuUey Mafamede e aquillo que Mulley Mafamede determinase yso avia 
de fazer ell rrey. 

Itera. Mulley Mafamede ho que qua pregoa que quer gerra com 
christãos e o allcajde d Allcaçere soltou allguuns mouros que so este ano 
poderjão ter paz e majs não e por vimtura el rrey comçedera no que elles 
quiserem por se não llevantarem com ho Açem que esta em Tutuão 
todos. 

Item. Ho tempo esta haparelhado pêra vosa allteza mandar fazer aqujllo 
que lhe milhor vier porque hos campos estão cheios dos seus aduares e 
elles tem tão mall comprido ho contrato no que por elle são obrigados 
que não ha ja que fiar delles e por tamto se houverem de quebrar isto 
ho tempo pêra vosa allteza se satisfazer de tudo havemdo ho asy por seu 
servjço. 

Item. Tãobem m escrevejo que huum xeque que el rrey de Fez 
tinha em Tafeilete que ho governava quando ho xarife ho tomou lle- 
vou este xeque pêra Marroquos e agora lhe fogio ao xarife e se lhe foy 
pêra o jrmão do xarife que esta em Çuz e lhe pedjo gemte e tornou ha 
tomar ho propio Tafeilete e esta agora por el rrey de Fez ha carta destas 
novas lleva este frade pêra que milhor se veija vai em abraiquo. 

Item. Senhor por causa destes avisos que tãoto cumprem ha servjço 
de vosa allteza me parecia que devia de comsimtir que nesta villa houvese 
quatro ou çimquo casas de judeus ao menos estes majs rriquos que ha- 
quy tratam com suas fazendas porque çertefiquo ha vosa allteza que sem 
viverem aqui allguns judeus vivemos ho majs do tempo has escuras por 



— 358 — 

que não se pode saber cousa d avizo senão por elles de tudo ho que 
qua soçeder escrcverey a vosa allteza a quem Noso Senhor acrecente 
vida e rreal estado. D Arzilla ha xx de dezembro de 1542. Dom jManuel 
Mascarenhas. 

Sobrescrito : Pêra el rrey. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.*, Jiiaço y3, n" 35. 



XXXIX 

1 542 



. Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — Por faleci- 
mento de um clérigo de missa da igreja de Arzila, ele designou para 
o substituir, como é costume, um outro que o bem merece. Tendo che- 
gado a Tânger, para ir pedir confirmação do benefício a el-rei, foi 
detido pelo capitão da cidade, para pedir para outro moço a sua alteia 
este oficio. Quei.xa-se deste procedimento. — No Estreito andam fustas 
a saltear os lugares dele; e os mouros, i>i\inhos da vila e de Tânger, 
estão desaforados. 

Senhor. Huum Manuell d Olliveira clérigo de misa e beneficyado 
nesta jgreja de São BertoUameu falleceo aqui pollo quall fiqua este bene- 
ficyo vago esta em custume os capitais de vosa allteza apresemtarem quem 
lhe parese majs servjço de Deus e de vosa allteza pêra que ho comfirme 
avemdo por seu serujço. Huum Gaspar de Taide clérigo de misa e que 
a mujtos dias que nesta ygreja serve escolhi pêra iso asy por ter toda 
esta vjlla muita devação em sua boa vida e se comfesar a mor parte a 
elle como por ser taobem muito neçecarjo na dita igreja. Eu ho man- 
dey com mjnha carta a vosa allteza pêra que ho comfirmase avemdo como 
digo por seu servjço e foy por Tamgere por não aver aquj embarquação 
dom Joam ho qujs deter e mandar huum moço com nome de clérigo ha 
pedyr ho beneficyo qua tive por nova que ho comde dera o beneficyo 
por l!io jr pedyr primeiro não cuidamdo como lho pedya não me parece 
rrezão que huum moço enviado desta maneira e de Tanjere venha qua 
servir ho beneficyo e deytar fora huum ornem de tão boa vida como digo 
a vosa allteza e de que ha igreja tem tanta neceçidade vosa allteza por me 
fazer mercê e ollhãodo todos estes rrespeitos aja por bem que este Gaspar 
d Ataide entre neste beneficyo pojs ho apresemto com tamtas rrezões de 
que se vosa allteza pode enformar. De qua não ha majs que escrever 
senão que andão três ou quatro fustas neste estrejto a salltearem e tãobem 
estes mouros amdão huum pouquo arroynados porque ha pouquos dias 



— 359 — 

que llevarão deste cãopo três ou quatro omens e de Tanjere outros 
quatro hou cymquo e matarão huutn. Dom Manuel Mascarenhas. 

Sobrescrito: Pêra el rey. 1542. 

De dom Manuel Mascarenhas Da villa d Arzilla. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço yS, n." 2g. 



XL 

3o DE AGOSTO DE 1543 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — Dá conta da 
vitória havida de uns almogaveres que sofreram grandes perdas. 
Seu Jilho mostrou nela muita bravura.— Informa que el-rei de Fe\ estava 
ainda na capital e não ousava sair, por diferenças com os seus alcai- 
des, nos quais não tinha confiança. — Lembra algumas das necessida- 
des em que está Arzila. 

Senhor. Sábado que fcão xxb dias deste mes d agosto temdo man- 
dado escutas fora de todallas partes me vierão com rrequado que erão 
entrados alUnogavres neste campo da parte do Farrobo e como tinha 
tido de mar a mar tomada com as escutas e seguro ate as majs largas 
atallajas e jumtamente com ysto mandey huum barquo da banda de Tan- 
gere descobrjr onde me pareçeo que podia estar gemte e que me fizese 
huum certo synall e com isto feyto armej aos aUmogavres e mandey lia 
meu fiího com ho adaill e t-imta de cavallo com elle pessoas homrradas 
e de rrequado por llugar que mujto prestes podião tomar llimgoa e asy 
foy que em as atallajas descobrindo lhe sairão sai lhe meu filho com hos 
que llevava tomarão logo lingoa e como souberao que não era majs que 
almogavres syguirão ho alcamso ate duas e meia desta villa onde se 
chama AUemaçus e eu em suas costas de maneira que matarão quatorze 
mouros dos primçypaes destas serras e três ou quatro mujto grandes 
allmocadens e tomarão dous vivos e dezaseys cavallos erão por todos hos 
mouros trimta e sete segundo dexerão hos que vivos fiquaram hos majs 
escaparão por bons cavallos e fiquarem d aliem duã rribeira da banda 
da serra de maneira que allguum tamto devem de fiquar quebrados por 
serem estes hos primçipaes corredores desta serra e allmocadens deste 
campo. 

Item. Todos estes omens que foram com meu filho ho fizerão mujto 
bem de suas pesoas em meu filho não fallo porque são mujto parte pêra 
nomear couáa de sua pessoa somente que me fez muito Uedo por come- 
çar tão bem mostrar de sua pessoa que se pode vosa allteza servjr delle. 



— 36o — 

Item. Torno senhor a llcnbrar a vosa alteza as rreçõis desta vila e 
muro e cava e vallos e dinheiro pêra atallajas de qua não ha majs novas 
que escrever senão que ei rrey de Fez não he ajnda fora de Fez hos 
alcaydes dizem estes mouros que trouxe que estaváo de camjnho pêra Fez 
pêra llevarem húa molher d cl rrey hos portos estão ha muitos dias cer- 
rados. 

Item. Por estes mouros que tomej vivos soube que el rrey de Fez 
estivera estes dias pasados raujto rrecurso por certas cousas que soubera 
dos seus alcajdes lhe terem armado Tucão por cuja causa mandou que 
nenhuum allcajde vivese no bajrro honde tem em Fez seu apouzento 
senão arredado e seu filho ho cometeo que querja fazer no caso ho que 
lhe bem parece e diz que não qujz el rrey e tornou lhe a pedir que lhe 
dej^xase fazer ho que fose justiça c nestas dcferemças dizem que estava 
parece me que não ouzara de se sair de Fez pois ysto asy amda. Noso 
Senhor acreçente vida e rreal estado de vosa allteza. D Arzila oje xxx 
d agosto de i543. Dom Manuel Mascarenhas. 

Sobrescrito : Pêra el rrey. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.», maço y4, «.• 12. 



XLI 

18 DE OUTUBRO DE 1543 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — Manda-lhe o 
Jilho de Diogo da Silveira, almocadem da vila, para se servir dele. 
Tanto os serviços do pai, como já os do filho, merecem que lhe faça 
mercê. 

Senhor. Este portador he filho de huum almocadem desta vjUa homde 
agora não ha outro e he omem de mujta comfiamça e servjço e ha mujtos 
annos que serve o qual se chama Diogo da Silveira e tem este filho que 
ja por sua pessoa merece vosa alteza fazer lhe mercê e porque heu são 
testemunha de vista beijarey as maãos a vosa alteza avello por seu por 
que alem de ho merecer seu pay vera a merçe que lhe vosa alteza faz e 
que he rrezão que ha mereça por seu servjço e confiamça pois agora nam 
ha outrem de seu carguo a rrezão que por seu filho dou he que ho dia 
dos halmogavres do meu filho dom Fernando se encontrou seu pay com 
huum mouro e vierão ha ho chão domde bradou por elle o qual acodio 
de maneira soo que encontrou ho mouro e o matou bem e foy sempre 
na dianteira aguora nesta pelleja destes mouros de Llarache que diguo a 
vosa alteza que matarão este almocadem se hachou tãobem e temdo os 
mouros derribado huum cavaleiro desta vjUa que se chama Fernão de 
JNlatos amdando peleijamdo o chamou e lhe acodio e matou muito bem 



— 36i — 

huum dos mouros que ho tinháo no chão e peleijou como devja ate dera- 
deira e por estas rrezões e a de seu pay ser mourisquo e tam necesarjo- 
a esta vjla me fará vosa alteza muj grande merçe avelo por seu pois he 
tanto pêra servjr e mais pêra descanso do pay que não tem outro mjlhor 
penhor. Noso Senhor hacrecente vida e rreal estado a vosa alteza. D 
Arzila a xbiij dias d outubro i543. Dom Manuel Mascarenhas. 

Sobrescrito: Pêra el rrey noso [senhor]. 

Argiiivo nacional. Corpo cronológico, parte i.\ maço y4, n." 20~ 



XLII 

i3 DE MAIO DE 1544 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Está em Arzila, 
sem ocupação, à espera que el-rei tome uma resolução a seu respeito. 
— Qiieixa-se dos frades do mosteiro de S. Francisco da vila, os quais 
estão dando escândalo. — Dá as noticias vindas de Fe^ : a cárie anda 
alvoroçada com os reforços de gente chegados a Ceuta, e bem assim 
com os turcos que se receia venham a assenhore ar- se do reino. — Alcá- 
cer Qinbir teve este inverno os muros destruídos e os reparos que neles 
faiem vão muito lentamente e mal. Por isso os moradores fogem do 
lugar, com receio de alguma surpresa dos nossos capitães, apesar de 
o seu alcaide andar no campo com a mais gente que pode; tem guar- 
das de noite até às portas de Arzila. — Barraxe e o alcaide de Tetuão 
continuam levantados contra o seu soberano. — El-rei de Fe^ devia ir 
a Tajilete contra o xerife, mas não foi, porque não é homem para 
7tada; tudo nele são medos, medo, sobretudo, de que sua alteia lhe 
mande tomar Larache. — De Fe^ diiem que ainda não havia novas de 
Barba Roxa, por via de Argel, jnas esperavam-nas por via de Cas- 
tela, por navios de Cadi^, que entrain continuadamente em Larache 
com mercadorias. — Lembra quanto desserviço é que Fe^ seja assim 
provido de tudo por Larache, que tem bom porto, o que não tem Ar- 
zila. Convém meditar bem neste perigo. — Deixou dívidas em Fe^ e 
pede a el-rei que lhe tnande pagar o seu ordenado para se desempe- 
nhar. 

Senhor. Vou semdo cada dia mays velho e pêra cada vez prestar 
menos peço a vosa alteza por amor de Noso Senhor que se ajaa jaa por 
servydo de mym que haa xxiij anos que sou ífora de mjnha casa e me 
mande o que de mym haa por seu serviço se quaa haa em que o sirva 
cu me m.ande hir que aqui nada ffaço e perquo tempo sem servyr vosa 

ANAIS DE ARZILA 4^ 



— 362 — 

alteza o que ey por muy grande perda pêra mvm porque desejo acabar 
meus dias servymdo vosa alteza. 

Item. Ao conde do Vymyoso esprevo huum pomtinho que será ser- 
viço de Deus e de vosa alteza que em calidade será pomto grande elle 
lho diraa. 

Item. Por descarguo de mjnha conçiemçia lembro a vosa alteza que 
será muito serviço de Deus e seu os mosteiros de São Ffrancisco desta 
villa d Arzilia e asy o de Tanjere serem feitos da ouservamçia poUos 
muitos desastres que íTrades da crrasta qua ífazem aflora rroubos que 
guardiáees rroubão e vão rricos que os mosteiros ssão abastados d esmo- 
las dos moradores aff"ora has que vosa alteza lhes ff^az e as casas mall 
servydas e os guardiáees de mãos enxempros pêra sy de que os súditos 
tomão mas liçõees de que os moradores destes lugares rreçebem escam- 
dallos e se esff"rya nelles a devação. 

Item. Senhor de Ffez aas novas que avia herão aas que haa pouquos 
dias que esprevy a vosa alteza e em mjnha carta lhe env}'ey demtro huum 
esprito de Jaco Rute do que no rreino avya ao que hora vyerão são que 
aas galeotas que em Ffez se começarão haa vaguar no acabar della^que 
tem muito rreçeo desta jemte que vosa alteza manda a Ceita e de j ho- 
mens ffazem v e de xx nav3'os fazem cento também tem muito grande 
rreçeo dos turquos se apousemtarem em alguum lugar desta Berberya 
que tem por certo que lhe tomarão o rreino e ja quando ffoy o negocio 
de Giballtar estamdo cu em Ffez eu vy e semty em ell rrey ter lhe medo 
e rreçeo e eu o esprevy a vosa alteza loguo aquelle tempo e tem casy 
crydo que turcos hão de senhorear este rre3'no de Ffez e isto lhes nace 
da muita ff"raqueza do rreino e do povo e jemte delle. 

Item. Alcaçere Quebyr deste jmverno fficouy estro\'do de muros 
caydos mostrão que os qiferem correjer o que ffazem muy ffraquamente 
e de maa taypa e pior terra o lugar se despavoava a cuja causa o alcayde 
se pos no campo com sua almahalla por segurar os moradores o quall 
alcayde tem muy pouqua jemte comsyguo e com muito rreçeo de vosos 
capitãees darem nelle de noyte o porque tem de cote guardas de noyte 
atee aas portas desta vylla tenho por certo que qualiquer rrebate que suas 
guardas lhe derem de noyte que symtyrão cristãos ajmda que sejao x de 
cavallo que ff'ugyra ate serra sem ousar entrrar em Alcaçere de cuydar 
que o vão saquear cristãos. 

Item. Barraxe e Haçym o de Tutuão estão como sempre alevamta- 
dos contra el rrey o quall ouvera de sayr de Ffez pêra hyr a Taffilete no 
principio desta lua que hora se espede e não sayo o porque affyrmo a 
vosa alteza que nelle não he sayr de Ffez nem he pêra mays que pêra 
cozcuz alem de ser probe e tudo ser amtre elles mjserya e ffraqueza e 
também pode ser que não sayse e se deixe estar com rreçeo que vosa 
alteza o mande avexar com esta jemte que manda a Ceyta a saber no 



— 363 — 

cabo do vcraom e ao tempo que ja cm Ceita líor escusada e ao espidyr 
delia Ilie mande derrj^bar e saquear Tutuão ou tomar Larache o que tudo 
com ajuda de Nosso Senhor serya ííaçill de flazcr em espiçiail tomar se 
Larache como ja per outras cartas o tenho esprito a vosa alteza e quanto 
serviço de Deus e seu serya. 

Item. Senhor me esprevem de Ffez que atee ífeitura das cartas njn- 
gem hera vymdo do Arjell per quem se ssoubessem novas de Barba Roxa 
nem de sua armada e que delie nenhiía nova avia nem se sabya e que 
por qua por vya de Castella per navios muitos que de Calez entrão 
em Larache com muitas mercadoryas espravao novas do dito Barba 
Roxa. 

Item. Senhor lembro a vosa alteza que veja se he servyço de Deus e 
seu estes muitos navios e muitas mercador}'as que diguo que entrão neste 
rre3mo de Ffez per Larache pêra que njso mande prover como ífor seu 
serviço que pêra Ffez outro porto não ha em toda esta Berberya tall 
como o rrio de Larache de seguro a entrada e muito demtro nelle o que 
não he este porto d Arzylia e se vosa alteza não mandar tomar Larache 
ou deffemder a entrada dos mercadores nelle o rreyno de Ffez seraa abas- 
tado de todas aas mercadoryas a elle necesaryas ssem ter necesydade dos 
portos e lugares de vosa alteza affora os proveytos que os mercadores 
rrecebem de entrar por Larache que he quatro iegoas d Allcaçere Que- 
byr omde os carretos ssão de menos custos pêra elles e outras mjudezas 
em que ganhão e rrecebem proveyto que este he o que mercadores bus- 
caom. 

Item. Senhor em Ffez estou empenhado e mjnhas cãas e verdade 
peço a vosa alteza que me mande paguar meu ordenado de que ate oje 
nenhuum pagamento ouve pêra paguar o que devo poys comy e gastey 
dinheiro alheo e tomado a logro por tall que em mjnha velhyçe não seja 
avydo por bullrrão poys Deus seja louvado o não ffuy na juvemtude no 
que vosa alteza me ffara muita merece. D Arzila oje xiij dias de mayo 
de i5i(4 anos. Bastião de Vargas. ■ 

Sobrescrito : A el rrey noso [senhor]. 

i544. De Bastião de Vargas de xiij de raajo. D Arzila. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte /.", maço j4, n." g-. 



— 364 — 
XLIII 

2 DE JUNHO DE 1544 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Manda as noticias 
que Rute lhe escreveu de Fe:{. El-rei não saiu para ir a Tafilete por- 
que é irresoluto e também por causa de casar seu filho pritnogénito. 
Ele está desejoso de pedir pa^es a sua alteia, mas não o quer fa^er sem 
que os seus alcaides lho requeiram, em especial os da fronteira; e para 
isso é necessário que os capitães corram até às portas de Alcácer Qui- 
bir para os alcaides verem as vanta<i;ens dessas pa^es. — Acabadas as 
bodas, o alcaide Bengija irá ajuntar-se com o alcaide de Alcácer com 
desejo de correrem Arzila ou Tânger. Disto foi avisado já o capitão 
de Ar:{ila e mandado recado ao de Tânger. — Vargas acha bem que se 
faça a Alcácer todo o mal que se puder, tnas melhor será mandar 
tomar Larache, como viais de uma ve:{ disse; e depois saquear e der- 
rubar Tetuão, cotno é vo\ já entre os mouros e que sua alteia manda 
fa\er uma fortaleza na boca do rio desta cidade. Muita honra e pro- 
veito virá dai ao reino. — Um mouro de Su\, com três filhos, fugido 
de Marrocos e Fe^, chegou a Arzila e deseja ir bei/ar as mãos a el-rei 
e pedir-lhe licença que o sirva na vila. 

Senhor. Jaco Rute me espreveo hora húa carta em abrayquo a quall 
me leo sseu jrmão messe Rute que nesta villa estaa e por ser em abra}'- 
quo a não envyo a vosa alteza e diz nella estas palavras que sse seguem. 

Item. Os dias passados vos esprevj' d aviso o que então avia e que el 
rrey av}'a de sayr pêra hyr a Taffilette o que não fez a causa que não he 
nelle sayr de Ffez e de cuzcuz e também porque desposou seu ffilho o 
mayor e guazill que he com a ífilha de Mole}' Maçoude seu primo guazill 
que ífoy e que elle mandou matar no negocio das pazes eu o tenho jmvo- 
cado nellas e elle estaa desejoso de as P3'dyr a el rre}' nosso senhor mas 
espera que seus alcaydes lho rrequeyrão e peção por mercee em spiciall 
eses lia da ffromteira pêra os obrygar a não se ífazerem os males que se 
ffizerão nas pazes pasadas e lho pagarem se se ffizerem e pêra isto aver 
eífeito compre duas cousas ha huum que sua alteza mande despachar ese 
çetery d el rrey que lia amda no rreyno e não com rrcposta muito áspera 
e a outra que mande avexar estes mouros com mandar a seus capitãees 
que corrão ate aas portas d Alcaçere Quibyr huum par de vezes que 
ajmda que dano lhes não fiação pysar lhe a terra será pêra elles muyta 
avexação e medo que será grande o essamor que diso vyra a Fez o quall 
essamor ffara muito a preposyto do negocio e el rrey vay temdo modos 
como seus alcaydes lho rrequej'rão. 



— 365 — 

Item. Diz acabadas aas vodas o alcaydc Bemjija sayra ao campo e 
e do dia que sayr a dez dias se ajuntara com o alcayde Laroçy em todo 
caso e com muita jemte e correrão Arzilla ou a Tamjere pêra ffavor desa 
terra de baxo que esta muy desffavoreçida e rreçeosa de cristãos e muyto 
mays pollo nenhuum ffavor que de qua do rrey e rreyao tem. 

Item. Senhor quanto a este pomto loguo avisey aqui a dom Manuell 
e envyey avysar a Tamjere nelles não ha que he guerra mas que ajmda 
ssão pazes ssegundo seu modo de guarda e em Tanjere pyor se guardão 
que aqui era Arzilla. 

Item. Senhor quanto ao que Jaco Rute espreve parece me bem toda 
avexação e guerra que vosa alteza mandar a seus capitães que ffação a 
mouros e correrem Alcaçere Quibyr e tenho por certo que el rrey de 
Ffez não quer guerra e que o que tem ííeito que lho ffizerão ffazer e o 
primcipall de quem elle espera que lhe rrequeyra que peça pazes a vosa 
alteza he deste alcayde Laroçy e após este de Barraxe ajmda que dão 
esta muito em seu servyço e por iso diz Jaco Rute que corrão os capi- 
tãees Alcaçere Quebyr e pisem a terra e digo senhor que bõo seria e 
aproveytara ao negoceo como Jaco Rute diz e asy me parece. 

Item. Mas digo senhor que pêra o negocio madurar ma3's asynha em 
vyr a ffouce pêra que el rrey de Ffez peça pazes a vosa alteza que ave- 
xação a de ser mandar lhe tomar Larache como ja vezes o tenho esprito 
a vosa alteza ssendo asy el rrey não somente pydyra pazes e se ffarão asy 
como vosa alteza quiser mas ajmda se ffara voso vasallo e lhe pagara 
páreas. 

Item. E após tomar Larache lhe mandar saquear e derribar Tutuão 
o que elles ja mostrão que rreçeão ssegundo a muita jemte que a Ceyta 
elles vem que ja nella estaa e cada dia acode ma3's e asemtão que vosa 
alteza manda ffazer húa fforteleza na boqua do rrio o que ambas estas 
duas cousas de Larache e Tutuão ffarão a el rrey de Ffez que de joelhos 
peça as pazes a vosa alteza e se ffaça seu vasalo como haa pouquo que 
disse. 

Item. Alem disto ser servyço de vosa alteza estas duas obras averem 
effeyto e homrra e aumentação de seu estado e de seu rreyno e coroa 
rreall e affora ffama de jmmortall memorya serya muy grande servyço 
de Deus Nosso Senhor tomar vyllas aos mouros das quaees se ffaz tanto 
servyço a elle Deus verdadeiro nos males que aos cristaÕos delles he ffeito 
e se ffaz e se vay azando se ffazer muito mays se neste Larache asseptão 
os navyos de mouros como começão e se vay azando avellos como ja por 
outra carta o esprevo a vosa alteza. 

Item. Senhor averaa biij dias que he chegado a esta vylla huum 
mouro naturall de Çuz e traz três ffilhos e criados que ssão por todos xj 
de cavallo eu ffaley com elle e me dise que sayra de sua terra por 
agravos e se vyera a Marrocos omde loguo após elle vyera húa carta de 



— 366 — 

húa ffilha do xarife que em Çuz esta cazada e dizia ao pay que se guar 
dase deste mouro que hera tredor e que não hera vymdo a eile ssenão 
pêra o matar a cuja causa e por que o xarife o não matase como ffaz a 
muitos se veo a Ffez averaa quatro meses que ííoy depoys de eu ser 
saydo delle e que achou no rrey e nos a elle chegados pouqua verdade 
e que nesa causa se vyera e que querya pasar Ha ao rreyno a hyr beijar 
aas mãos a vosa alteza e pydyr lhe que se sirva delle em cada huum 
destes lugares ífoy meu parecer que o quis dom Manuell de mym que 
ou nom deixase pasar ate o ffazer a ssaber a vosa alteza e com esta rra- 
zão o detém ordenou lhe pêra sua despeza de pessoas e cavalos cada dia 
dous cruzados dom Manuell esprevera a vosa alteza o mays disto o que 
poso alcamçar que homem he de rrespeito amtre alcayde e xeque allguuns 
aduares mostra desejo de mouros correrem . . . ver se com elles elle e os 
seus ffaço saber a vosa alteza. D Arzila oje ij dias de junho de 1644 
anos. Bastião de Vargas. 

Sobrescrito: A ell rrey noso senhor. — 2.* pêra ler, 

1544. — De Bastião de Vargas de ij de junho — Pazes — Larache — 
Tetuão — O mouro a que dão dous cruzados. 

Biblioteca nacional de Lisboa, manuscrito i-5S, foi. 536. 



XLIV 

24 DE OUTUBRO DE 1544 

Carta de D. Manuel Mascarenhas a el-rei D. João III. — Os alcaides 
Bengija e o de Alcácer, segundo novas que recebeu, deviam correr a 
vila ; e assim foi, mas com pouca gente, e não Jii^eram dano. Receia 
nova corrida. — Di-{ mais uma ve^ que a vila morre de fome, e, pôi' 
mais que peça ao feitor de Andaluzia que a proveja, não o tem conse- 
guido. Há dois meses que a maior parte da gente come carne sem 
pão. Á vila devem-se cinco ou seis meses, e às atalaias há muito tempo 
que se não paga e já não querem servir. Pediu algum dinheiro adian- 
tado ao bispo, mas isso é pequeno remédio. — D. Nuno depois de nove 
meses que esteve em Ar:{ila volta ao reino, por se achar doente. 

Senhor. Estes pasados tive nova per huum negro que haquy veo ter 
fazer se christão que me avião de correr Bemgija e o alcaide d Alcaçere 
com hos turquos e gemte d cl rrey foy ysto a xxbj dias de setembro e 
loguo ao outro dia me correrão coremta ou cimcoenta de cavallo os mais 
deles turquos e o alcaide em costas mas louuvado Deus não foy mais que 
mostrarem se sem mais nada. 



— 367 — 

Item. Pasaram se dez ou doze dias que não tive depois disto mays 
nova nenhúa mamdej trimta de cavaiio a serra pêra me tomarem húa 
limgoa trouxerão coremta e tamtas rreses vaquas e fogi lhe huum mouro 
tornej a mandar la vinte de cavallo e ymdo mea legoa desta villa de noite 
chovemdo e fazemdo grande escuro toparão com quatro mouros de pee 
que vinhão caminho da villa tomarão três e fogi lhe huum derao nova 
como o alcaide d Alcaçere estava na serra desviado domde estes de 
cavallo yam tomar a limgoa e que estava esperamdo com toda sua gemte 
por Bemgija pêra me correrem e parece me que pelo rrebate do mouro 
que escapou e pelo tempo ser forte não correrão ate gora creo que serão 
desharmados mas Bemgija esta fora de Fez e em pouquos dias se hajum- 
tão. 

Item. Senhor não sey ja por que pallavras escreva ha vosa alteza ha 
presam desta villa por que craramente se perde a gente ha fome sem 
nenhuum rremedio e mamdo estromentos ha Castella ao feitor como são 
Ja certas crianças mortas de fome rrespomdem que bem sabem que cousa 
são estromentos d Africa parece me que bem abasta morerem os omens 
as lamçadas por serviço de Deus e de vosa alteza de comsemtir em 
cavallos nam fallo por quamtos são mortos e os outros andão pêra iso e 
vosa alteza sabe que como pasa este mes mujtas vezes ajmda que queirão 
prover ho tempo não da Uugar por tamto peço a vosa alteza que nam 
queira que se perqua húa villa de fome porque ha dous meses que ha 
mor parte da gemte come carnne sem nenhuum pão e pode crer vosa alteza 
por verdade que mujtos omens se não vão apanhar palmitos polo campo 
ou avemturarense a matarem nos por matar huum porquo que não comem 
disto senhor avia mujto que dizer mas como vejo não rrespomder a nada 
acabo com pedir a vosa alteza que mamde acodir a esta villa e nam seja 
por seus servjços por que eles mujto merecem senam por amor de Deus 
ou me mamde jr d aquy por não ver perder tamta gemte sem lhe poder 
valer a eles nem a mjm. 

Item. A esta villa se devem cimquo ou seis meses e mais sem ave- 
rem este anno os omens de suas searas cousa algúa porque os que 
colherão algúa cousa foy a semente ora veja vosa alteza se teram ajmda 
mor necesidade do que digo. 

Item. As atallayas ha mujto mais tempo que não são paguas nem se 
podia ja achar huum omem que cavalgase e com hum pouquo de dinheiro 
que haquy estava do bispo e com heu lho amdar pedimdo em pessoa fiz 
servir alguuns pêra alguum pequeno rremedio que se com eles pode ter 
pêra do campo se trazer algúa cousa vosa alteza mamde por amor de 
Noso Senhor prover em tudo como he necesario. 

Húa certidão de que me vosa alteza fez mercê me não he ajmda pa- 
gua e porque pêra me desendivjdar não tenho outro rremedeo vosa alteza 
me fará muj grande mercê mandar ma paguar. 



— 368 — 

Item. Dom Nuno vay em nove meses que aquy esta nesta villa 
e agora por estar mal desposto se vaj não fallo nele a vosa alteza por 
ser parte os meus lembro a vosa alteza por que lho não devo de se agora 
acharem comigo nesta briga mas sempre em tudo forão hos diamteiros e 
vosa alteza ho pode crer asy por verdade cuja vida e rreal estado Noso 
Senhor acreçente. D Arzila oje xxiiij dias de outubro de 1844 anos. 
Dom Manuel Mazcarenhas. 

Sobrescrito : Pêra el rrei n[oso senhor]. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço ~5, n.° io3. 



XLV 

i5 DE NOVEMBRO DE 1S44 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Por muitas ve^es 
pediu que se mandasse prover Arzila com tempo e no verão, por que o 
seu porto é ião mau que durante cinco meses do inverno está fechado à 
navegação. E tanta a miséria que morrem com fome pessoas e ani- 
mais. — D. Jorge tem feito muito bem e socorre os necessitados; mas 
de que serve o dinheiro se não há em que o empregar? D. Jorge tem 
comportamento exemplar e não sai da vila sem licença do capitão. 
Em duas corridas de mouros que agora houve, êle ttiostrou-se cavaleiro 
valente. — D. Manuel, o capitão, está doente e requer que o mande 
voltar ao reino. Os moradores pedem que os j>enha governar o conde 
D. João Coutinho ou seu filho D. Francisco (segundo se depreende do 
modo velado de di:^er do autor da carta). 

Senhor. Per muitas vezes esprevy a vosa alteza depois que nesta 
villa estou a muita ftome e mjserya que nella avya d aver se vosa alteza 
a não mandasse prover com tempo e no verão a causa da maldade deste 
sseu porto e arreçyífe que he mao e pior de navegar cymquo meses do 
jmverno que nenhuum outro que aja em toda esta Berberya o que 
Tamjere e Alcaçere e Ceita tem ao contrairo que de bÕos portos ssão no 
jmverno cada xb dias ssocorrydos de navios de Castella e Portugall com 
todos bastymentos a elles necesaryos do[s] quaees oje ffeita desta carece 
Arzilla que triguo nenhuum tem que dos cem moios que de Mertolla ssay- 
rão haa dous meses entrou aqu}' húa caravella haa xb dias estamdo aqjai 
Luis da Ffonseca vosso criado a quall se rrepartio set quid jmter tamtos 
sayo o de cavalo a bj alqueires e meo de trigo e o de pee alqueire e meo 
e carecida de todos outros mantimentos e he tamta a mjserya ssem poder 
ser socorryda de outras pesoas pollo não terem que he muy grande 
piadade vello e ouvyr tanta piadade cavallos com flome se perderão mui- 



— 369 — 

tos e outros amdavão ja no campo paçendo de dia e de noyte e alguuns 
levarão hora os mouros quando correrão poios acharem ffora como digo 
e a cauza de sua ffraqueza sse rrecolheo a gente a mays perto da villa do 
que soem e os mouros desto vitoryosos posto que rreçeberão dano e qua 
também ouve alguum como por esoutra carta de como tudo pasou o 
esprevo a vosa alteza e vay na verdade porque esta custumo sempre ffa- 
lar e esprever a vosa alteza dom Jorje também carece de mantimento 
porque o arreçyffe não daa vao e asy toda pesoa que o poderya ter se o 
porto se naveguasse em quanto as pesoas o tiverão husarão de húa nuvj- 
dade em quanto puderão sey que ssecrretamente dom Jorje socorre com 
dinheiro aas necesydades mas não haa em que o empreguar e pois senhor 
acaso toquey nelle ffaço saber a vosa alteza que he bõo homem vyve 
muy modesto e asoseguado e todos os seus tem dez cavalos quatro de 
sua pesoa e seys de criados de que he acompanhado não ssay desta vylla a 
pasear flora dos muros ssenão per licemça do capitão que lha pede ssem- 
pre que se quer hyr desenffadar posto que ssão poucas vezes algúa vez 
que lhe vy toquar o caso e a seu tio diz o bispo meu tio tem sse mostrado 
homem e cavaleiro nestas duas corrydas de mouros que correrão depois 
que elle aqui estaa a saber na d Allgoriff'e quando matarão dom Ffer- 
nando Pereyra e agora nesta em que flby derribado como per esoutra 
carta o esprevo a vosa alteza mjudamente como pasou e como testemunha 
de vista e que a todo o negocio fl"uy pressente e com huum capelhar no 
braço e húa espada na mão somente ssem outras armas que outras não 
levava que hya a ffolgar e ssem lembrança de guerra posto que avia sos- 
peita d averem de correr e nem tynha nem tenho outras armas com estar 
cada dia sperando que vosa alteza me mande hyr mas asy ssem mays 
armas posto que me cayssem aas paredes do descustume da guerra com 
tudo senhor ajmda me fficarão os alicerces delia e do com que naçy e 
husey xxx anos de minha mançebya pêra nella ajmda saber servyr vosa 
alteza e o poder bem ff"azer como lho tenho pedydo per mjnha carta se 
Deus Noso Senhor e vosa alteza ífossem servydos de mandar tomar La- 
rache. 

Item. Dom Manuell he doemte haa dias e bem ff"raquo rrequere a 
vosa alteza que o mande hyr dise Mouses Domine miter quem mitendus 
es o mesmo digo e que vosa alteza lhe ffara mercee e aos moradores 
desta vylla também muita mercee que elles o desejão e de vyr quem os 
criou a todos ou quem elles criarão que hos amão. D Arzila oje xb dias 
de novembro de Í544 anos. Bastião de Vargas. 

Sobrescrito : A el rrey nosso senhor. — Segunda pêra ler. — Não serve, 
[Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço 75, n." lOi. 



ANAU DE ARZS.A 47 



— 370 — 
XLVI 

i8 DE NOVEMBRO DE 1544 

Caria de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Dá conta da pe- 
leja que êle e D. Jorge e outros cavaleiros tiveram fora da vila, no 
vale do Facho, com mouros de cilada. Ao rebate acudio D. Manuel 
Mascarenhas e gente de socorro, e foram repelidos os mouros, mas com 
perdas de um e outro lado. O capitão, que andava doente e fraco, foi 
muito mal ferido. 

Senhor. Ssesta fferia que fforão ssete dias deste mes flora de pre- 
posyto e ssem ho custumar pola manhãa cavalgey pêra me hyr dessenfta- 
dar aqui a praya achey a porta da vylia dom Jorje que também hya a 
ff"oIgar com licença do capitão que ssem ella nunca say desta vylla e com 
elle hya dom Pedro Mazcarenhas e Ayres Tavares e outro de cavalo sseu 
criado levavão todos lamças e adargas e espadas e ssem coyraças convy- 
daram me que flosse com elles mays avamte do que hera meu preposyto 
porque hya sem armas algúas com um capelhar vestido e huum som- 
breyro na cabeça e húa espada na cimta somente ffomonos senhor ao 
Ffacho e d aly ffblgando deçemos pêra huum valle que se chama do Ffa- 
cho chegando abaxo do valle se deu rrebate quando logo tornamos acima 
do tavoleyro do Ffacho ftazer synall o â"acheyro que hera o rrebate pêra 
Atalaya Ruyva corremos pêra contra ella polia carreyra do Almjrante e 
e em hymdo ff^ez synall que hera jemte grosa e com.eçou aparecer a diam- 
teira da jemte polia Atalaya Gorda e a este tempo heramos ja com dom 
Jorje doze ou xv de cavallo rrecolhe homens e gados e lavradores que se 
vynhão acolhemdo polias estradas de Bugano e d Atalaya Gorda e com 
tudo rrecolhydo de diamte de nos se veo dom Jorje e nos todos com elle 
ao tavoleyro do Ffacho omde jaa estava dom Manuel capitão armando se 
e dom Jorje apartou se armar se que lhe trouxerão as armas da villa e asy 
a dom Pedro e a outras pesoas que ssem ellas amdavão em suas lavoy- 
ras cheguaão os mouros rrecolheo o capitão a jemte polias tramqueyras 
demtro a troto e asy vyemos todos ssem parar senão a derradeira tram- 
queira que esta junto das ortas e os mouros muy azedos e muy de volta 
comnosco aly voltou logo o capitão soo e sem pydyr volta e ssem ff'alar 
ffby derribado de lamças que nelle os mouros puserão e ffoy causa de o 
derribarem amdar elle doente e muito ftraquo ouve húa lamçada polia 
pomta de húa nalgua que entrou pêra cima pêra a pomta dos lombos e 
outra em huum capacete que o ffurou floy vysto dos cavaleiros e delles 
muy bem socorrydo que se meterão amtre elle e os mouros os que se 
aqui acharão flby Djogo Lobo que ora serve de contador e ssem coyraças 



-371- 

que vynha de sua lavoyra e Fernão da Sylva o quall aly ífoy casy derri- 
bado e huum cavaleiro que se chama Ffernão Machado encomtrou huum 
dos mouros que punhão as lamças em Fernão da Sylva e o derrybou 
hera aqui o alcayde mor e Geronymo de Motoya e Ffrrancisco Pymto 
valente homem e outros de modo que livrarão o capitão então se deçeo 
Ffrrancisco Colaço e o ajudou a levamtar e por a cavalo e o levarão pêra 
a vylla flicarão pelejamdo com os mouros que seryão cl de cavalo xxx ou 
xxxb de cavalo aly a mesma tranqueyra e cora elles dom Ffernando ffilho 
do capitão que também ífoy casy perdido e dom Jorge que na boca da 
tramqueyra de muitas lamças ffoy derribado no chão em húa ladeyra e 
deu dous tombos levamtou se não quis tomar huum cavalo que aly lhe 
davão porque hera amtre os pees dos cavallos dos mouros e dos cristãos 
e se sayo a pee e com adargua no braço que a não perdeo e ffora da 
trisca tomou outro cavallo e se pos nelle e tornou se a seu lugar ajudar 
aos companheiros que ffizerão três ou quatro voltas pequenas e muito ao 
perto que se de mays lomje as ffizerão mays dano se ffizera nos ymjgos 
mas elles amdavão tão azedos que não davão lugar aos cristãos se alom- 
garem mays e por iso elles os íforçavão a voltarem e aquj senhor ífale- 
ceo muita jemte e cavaleiros porque herão em Alfamdequim era suas 
lavoyras e quando acudyrão ja a brygua hera acabada e os mouros apar- 
tados e se hyão rrecolhendo nestes xxxb de cavalo cristãos herão outros 
homens valentes cavaleiros moradores da vylla não conhecydos de vosa 
alteza Symão Vaz valente homem Joam Conde ja muito velho e de muito 
servyço e bem ssem satisffação delle porque he muito prove e ífoy ferydo 
elle de húa seta e o cavalo de húa Ifrecha que avya muitas de que íforão 
ííerydos sete ou oito cavaleiros e muitos cavalos hera aqui huum Djogo 
Çerejo e huum Bastião Frrenandez de Campo Mayor e Joam Vyeguas 
mancebo e bõo cavaleiro que hora lia vay a vosa alteza pêra que o aja 
por seu e bem que o elle merece e outros que nem eu os conheço que 
na villa estou e certo senhor que ífoy trisca bem triscada e bem pelejada 
de muitas lamçadas de parte a parte que também os mouros o ffizerão 
muy bem e morrerão aly a tranqueyra dous velhos a saber Brás Ffre- 
nandez valente homem e Pedro Lopez muito velho e sprivão dos contos 
muy dinos de vosa alteza fíazer mercee a seus ffilhos do que elles tynhão 
de vosa alteza e sayo muito fferydo huum barbeiro e das ííerydas veo 
morrer a v\'lla e a estes três levarão os mouros os cavalos e asy o de 
dom Manuell e o de Ffrancisco Colaço que se deceo a o ajudar a levam- 
tar fficarão três mouros mortos e huum cativo e os cavallos de todos 
quatro e huum dos mortos hera turquo e ffrecheyro haa nova que Alca- 
cere íforão morrer outros quatro e delles hera huum turquo outro e íforão 
álguuns fferydos do campo nada os mouros levarão nem ffizerão dano 
alguum outro que tudo se rrecolheo e se salvou Deus seja louvado que 
asaz de lavradores e jemtes avya no campo e os mouros correrão ffor- 



— 372 — 

çados porque florão descubertos per ties momteiros dos quaes se perdeo 
huum e ffoy cativo e os dous escaparão e a pee que os cavalos se per- 
derão que se os mouros não florão descubertos e correrão a véspera como 
tynhão ordenado haverá muito dano na jemte desta villa e este negocio 
senhor pasou asy todo e o esprevo a vosa alteza muito na verdade que 
não sou parte e sou testemunha de vista e que a tudo ff^uy presemte com 
meu capelhar no braço e mjnha espada na mão amtre ffrechas e spim- 
gardas de que Deus me livrou. D Arzilla oje xbiij dias de novembro de 
i544 anos. Bastião de Vargas. 

Sobrescrito: A el rrey noso senhor. Primeira de novas. 

Arquivo nacional, Corpo cronológico, parte i.', maço y5, n.' loa. 



XLVII 

3 DE MARÇO DE i545 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Pedira o cargo de 
vedor da fa'{enda na índia a sua alfe:{a e não foi atendido. Qeixa-se 
com veemência de que em tão pouco fossem tidos os seus serviços e os 
de seu pai. Seu pai serviu sessenta anos em Africa e nunca teve 
mercê; e êle começou a servir de idade de dezanove anos, gastou vinte 
e cinco em Tânger no serviço de el-rei, recebendo aí muitas lançadas, 
e há sete que serve em Fe^ e Arzila à sua custa: continuar a servir 
assim não é honra mas castigo, e, por isso, pede que o deixe voltar ao 
reino. 

Senhor. De Ffez per mjnha carta que sprevy a vosa alteza lhe 
envyey pidir por mercee que sse quisese servir de mym na Imdea e que 
ffosse no carguo de vedor de sua flazenda por ssaber de mym que o ssa- 
berya nelle servyr e com proveito dela mesma que ssou ofBçiall e a 
entemdo bem esta merece senhor esperey atee hora que ssej' que vosa 
alteza sse manda servyr no dito carguo per outras pessoas que pêra iso 
o serão e muito e que o saberão bem flazer o que he synall certo pêra 
mym que mjnhas coussas e meus serviços ajmda estão amte vosa alteza 
em pecado mortall o que senhor será por meus pecados que contra Noso 
Senhor Deus tcrey cometydo e não porque o mereça a vosa alteza e elle 
Deus verdadeiro ssabe ser isto verdade. 

Item. Senhor vosa alteza por sua muita vyrtude a todos seus criados 
e vasalos ff"az mercee e nas mercees nunca ffiqua aquém dos mereci- 
mentos mas ssempre pasa alem ssomente senhor a mym desfialeçem e 
contra mym dura sua hyra ha xx anos per ffalssas enff^ormaçõees o por- 
que cora rrazão dyrey o que dise Noso Senhor Jeshuu Christo prouterea 



— 373 — 

qui me tradidit tiby majus pccatum abet e perdoe Deus a quem amte 
vosa alteza me dana e a meus serviços pêra que me não ffaça a merçee 
que lhe mereço mas quem tall ffaz naom me pode tyrar ser muito offi- 
çiall de ftazenda e ser tresneto de Garçy Perez de Vargas Machuqua que 
quem £Foy bem se sabe e isto per linha legytyma mascolina e que não 
desgenerey e maladante sseja eu poys nossa nobreza e ha omrra e mere- 
cymentos de meu pay e meus ganhados com a lamça na mão me sseja 
necesaryo deííender com a limgoa pois amte vosa alteza me querem pes- 
soas anjchelar e oscureçer. 

Item. Senhor meu pay morreo com Ixxxb anos de sua hydade e com 
os Ixb de servyço todos em Affryqua e o que por elles mereçeo vosa 
alteza deu tudo a ffilhos alheos e se esqueçeo delle e de seus ffilhos ate 
oje cousa muy desacustumada amte vosa alteza e quem diso ífoy a causa 
eu estou bem vymgado e ajmda mall que não pidia eu a Deus tanta vyn- 
gança senhor eu de ix anos começey a servir a el rrey que Deus tem e 
nas festas do princepe dom Affonso e ssou cavaleiro e de muito serviço 
na guerra e em Tanjere homde gastey xxb anos com muitas lamçadas 
rreçebydas e com outras tamtas dadas a jmmjgos e nunca desservy vosa 
alteza mas ssempre o servy e lhe ffiz muito servyço quando de mym lhe 
ffoy dito o contrayro. 

Item. Senhor vay em sete anos que sirvo vosa alteza qua e em Ffez 
com muito perygo de mjnha pessoa ssem atee oje ífeitura desta ter rre- 
çebydo de vossa ffazenda pêra mjnha despesa huum sso vymtem e ssem- 
pre gastey e muito e a mjnha custa e de mjnha pobreza e cada dia vou 
gastando por cujas causas mjnha estada qua he desterro e não servyr se 
vosa alteza de mym o porque peço a vosa alteza pollo ssamto tempo de 
coresma em que estamos e polia morte e paxão de Noso Senhor Jeshuu 
Cristo que çese ja ssua hyra contra mym que ssou húa estipulla syqua 
como diz Job e me mande vosa alteza licença pêra que me vaa desta 
terra no que vosa alteza me ífara mercee e esmola e a mjnha molher e 
ffilhos que tão estroydos estão com mjnha ausência de xxiiij anos que ha 
que me não vyrão. D Arzilia oje iij dias de março de i545 anos. Bas- 
tião de Vargas. 

Sobrescrito : A el rrey nosso senhor, 

1545 — De Bastiam de Varguas de Arzilia de três de março. 

Biblioteca nacional de Lisboa, manuscrito jj58,fol. 20g, 



— 374 — 
XLVIII 

4 DE JUNHO DE i545 

Carta de Jacó Rute a el-rei D. João III. — Manda uma carta de seu 
senhor, el-rei de Fe\, com t restado, sobre pa\es; e pede deferimento de 
certo negócio que tem na corte. 

Senhor. Como meus desejos sãr sempre servyr vosa alteza e os ser- 
vyços que lhe feytos tenho ey que he ho milhor de meu cabedall falej 
muitas vezes com el rrej de Fez sobre a amjzade de vosa alteza pondo 
lhe diante quanto lhe compre tella elle me deu hum asjnado seu feyto 
por sua mão e letra e me mandou que no caso não falase com pessoa 
algúa somente com dom Francisco Coutynho como vosa alteza vera no 
propyo asynado ho quall eu entregej ao dito dom Francisco com ho tras- 
lado dele pêra que ho mandase a vosa alteza e nyso deterni^nase ho que 
fose seu servjço e porque ao presente neste negoçyo he neçeçaryo segredo 
polo de dom Manuell Mascarenhas parece a dom Francisco bem que 
Francisco Lyonardez levase este rrecado a vosa alteza per vya do conde 
seu pay e ele ho açeytou de boa vontade ao quall Francisco Ljonardez 
eu pidy por mjm pedyse a vosa alteza merçe e justiça sobre certo nego- 
çyo. Beyjarej as mãos a vosa alteza ser lembrado do amor que sempre 
tjve e tenho a seu servjço. Noso Senhor acreçente rreall estado de vosa 
alteza com muitos anos de vyda. D Arzyla aos quatro dias de junho de 
545. Jaco Rute. 

Sobrescrito: Pêra el rey nosso [senhor]. 

1645 — De Jacob Rute de iiij de junho. — De Arzila. 

Biblioteca nacional de Lisboa, manuscrito iy58,fol. 2o3. 



XLIX 

5 DE JUNHO DE i545 

Carta de Sebastião de Vargas a el-rei D. João III. — Di^ que o xerife 
vencedor se concertou com seu irmão vencido e ficou único senhor dos 
dois reinos de Marrocos e Su:{; e vendo-se desapresado do irmão foi 
contra Têdida para a tirar a el-rei de Fe^, mas este acudiu a tempo 
e impediu-o de conseguir o seu intento. — Afirma também que el-rei 
mandou a Jacó Rute uma carta de poder sobre pa:{es. — Lembra que 
muitas ve:{es escreveu quanto cumpria a serviço de sua alte\a que o 



— 375 — 

xerife fosse senhor cio reino de Fe\; agora que um só xerife tem todo 
e poder o perigo é muito maior, e tanto maior que ele tem partido em 
Fe\. — O alcaide dos turcos, que está em Fe^, recebeu notícia da sua 
terra, que é entre a Pérsia e a Turquia, sobre os sucessos de Adem e 
Dio. — Está em Arzila Luís Pereira da Camará onde tem mostrado 
ser muito cavaleiro e pessoa para bem servir sua alteia. 

Senhor. Ho xarife vemçedor se concertou com seu jrmão o vemçido 
e partio com elle dos tesouros que em Marrocos lhe tomou e o arredou 
de sy e he partido camjnho dos termos de Tremeçem pêra o conquistar 
e se fíazer rrey delle como fficou este xarife desabaflado do jrmão loguo 
buscou achaques pêra quebrar com el rrey de Ffez e mandou seu ffilho 
Abdalcader com jemte arremeter a Tedulla a ver se a tomarya e não 
ouve effeito e o mesmo xarife veo nas costas do ffilho com poder e che- 
gou a Ezcura que ssão xb legoas de Tedulla el rrey de Ffez que estava 
pêra sayr pêra contra Xuxuao e Tutuão sobresteve com esta nova e 
mandou alcaydes e jemte sua e não chegarão a Tedulla porque os do 
xarife herão rrecolhidos com muito dano que ffizerão nos pãees e samea- 
dos dos vasalos de Ffez. 

Item. Ha quatro dias que aqui chegarão cyterys d el rrey de Ffez 
com cartas a Jaco Rute em que lhe diz que o xarife se ffazia prestes com 
sua alharqua e artelharya pêra vyr sobre Tedulla e que elle também saya 
pêra o hyr buscar e deflemder sua terra e mandou lhe huum poder seu 
pêra ftazer tregoas amtre dom Manuell e o alcayde d Alcaçere Quibir 
porque o quer levar e sua jemte comsyguo a guerra do xarife o terlado 
do poder d el rrey e rreposta do alcayde a Jaco Rute dom Manuell o 
envyara a vosa alteza e por mym terladado tudo de verbo a verbo o 
envyo ao conde do Vymjoso se vosa alteza o quiser ver. 

Item. Sou senhor lembrado que de Ffez sprevy muitas vezes a vosa 
alteza que compria a voso serviço o xarife não entrar neste rreyno por- 
que ssendo rrey delle serva duro adversaryo a seus vezinhos sendo dous 
os xarifes quanto mays o poderá ser agora que he huum soo e senhor de 
toda a terra e poder que tynhão dous se comete estaa empresa parece 
que não desystyraa delia e que a levara avamte por poderoso que he e 
homem de justiça e limpo do mao pecado e que o muito castigua em ssua 
terra o que ao contrayro sse husa em Ffez e alem disto he xarife e 
parente de Maífomede e porque os mouros o adorão em Ffez ha muitos 
xarifes e os que governão a terra que por todas as rrazões ja ditas lhes 
serão ffavor a elle ganhar a terra a cujas causas e como quem pouquo 
sabe mas porque o tenho bem vysto ouso dizer que comprira a voso 
serviço ser flavoreçydo el rrey de Fez de vosa alteza.