(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Annaes da marinha portugueza. (Acad. das sci. de Lisboa)."

This is a digital copy of a book that was preserved for generations on library shelves before it was carefully scanned by Google as part of a project 
to make the world's books discoverable online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 
to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 
are our gateways to the past, representing a wealth of history, culture and knowledge that's often difficult to disco ver. 

Marks, notations and other marginalia present in the original volume will appear in this file - a reminder of this book's long journey from the 
publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materiais and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prevent abuse by commercial parties, including placing technical restrictions on automated querying. 

We also ask that you: 

+ Make non-commercial use of the files We designed Google Book Search for use by individuais, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrainfrom automated querying Do not send automated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machine 
translation, optical character recognition or other áreas where access to a large amount of text is helpful, please contact us. We encourage the 
use of public domain materiais for these purposes and may be able to help. 

+ Maintain attribution The Google "watermark" you see on each file is essential for informing people about this project and helping them find 
additional materiais through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legal Whatever your use, remember that you are responsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countries. Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we can't offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search means it can be used in any manner 
any where in the world. Copyright infringement liability can be quite severe. 

About Google Book Search 

Google's mission is to organize the world's Information and to make it universally accessible and useful. Google Book Search helps readers 
discover the world's books while helping authors and publishers reach new audiences. You can search through the full text of this book on the web 



at |http : //books . google . com/ 




000029641 U 



/'/ 



ANNAES 

DA 

MAMNHA PORTUGUEZA 

POR 

IGNÂCIO DA COSTA aUINTELLA, 

Více^Âlnúrante da Armada Realy Conselheiro J^Esta^ 

do Honorário^ Conselheiro do Real Conselho da 

Marinha^ e Sócio Honorário da Academia 

Real das Sciencias. 



TOMLO i. 




^J^ 



LISBOA 

Na Ttvooràfia da mesma Academia. 

183 9. 

2^S . e. I^IS .• 



^ • ..' 



« 4^ k • «I • >é ^ -^ 



ARTIGO 

EXTRABIDO DAS ACTAS 

DA 

ACADEMIA REAL DAS SOENCIAS 

DA 

SESSÃO DE 9 DE DEZEMBRO DE 1836. 

JLJetermnã a Academia Real ias Sciencras^ que 
sejão impressos d sua custa ^ e debaixo do seu pri^ 
milegioy os Annaes da Marinha Portugueza, que íbe 
forão apresentados peh sem Sócio Honorário Iffiacia 
da Costa QuintelUu 



Joaquim Jové da Costa de Macedo*^ 
Secretario Perpetuo da Academia^ 



PREFAÇÃO, 



Tl 



■l 



\ MK IMJ ■ IIM^T ■ 1 r T ri^ 

NfitíJtwíiWí txjulçort , tcd <x fttmê dútx tuétm 
Horácio. 



C^gltaU 



t.l:y 



X odos conhecem a necessidade de Iiuma Historia 
corapleta da nossa Marinha , que tamanho brado deu 
no Mundo, e tamanhos serviços fez ao género huma- 
no, reunindo as Nações habitadoras dos extremos do 
Globo, pela Navegação, e Commercio raariíimo, e 
fazendo-as communicar*se humas ás outras os seus co- 
nhecimentos, e as suas riquezas j revolução admirável, 
que mudou a face do Orbe! *^ 

Ainda que os Historiadores , que escreverão aHIs^J 
toria Geral da Marinha de todos os Povos compre*' 
hendèrão a de Portugal , foi de hum modo tao resumi^ 
do, ou tão defectivo era factos esscnciaes, que dei-^ 
xárâo muito a desejar: accrescendo a isto os aleives* 
que alguns nos assacarão, copiando-os ás cegas de Me^'- 
mortas íípalxonadas, e fallazcs de Estrangeiros interes- 
çados em menoscabar a nossa gloria. Da Historia dar 
Viagens eraprehendidas por ordem da Corapatibia daj 
HoIUnda sahirão quasi todas estas imputações, hilmas 
atrozes, outras absurdas; mas quando eu tratar das 

1 



Dossaa admiráveis Conquistas na Asiíi , porei em toda 
a SUA luz esta verdade servindo- me cm parte para de* 
mon?rra-Ia daquclla mesma Hisroria, e então alguiií 
celebres Navegantes do Norte , que os seus Compatrlo* 
tas levantarão até ás nuvens , como se farão novos Ga- 
mas, c Albuquerque^, dcsceráõ a occupar o lugar, que 
lhes pertencer. 

Igualmente demonstrarei, que das três NaçSej, 
Pnrtugoeza, HoUandeza , e !ng!eza , que ifivadírâo , e 
conquistarão huma boa porção da Ásia, foi a Portugue* 
Zã a que menos opprimio os Povos daquclla riquissima 
parte do Mundo, ainda que commctteo vexames^ c 
violências, que a Justiça imparcial condcmna* 

Para dar algumas luzes a quem, com menos ida- 
de, melhor saúde , e mais conhecimentos do que eu^ in- 
tentar fazer a Portugal o relevante servi^^a de escrever 
a sua Historia Naval, reuni nestas Memorias quanto 
achei espalhado por huma multidão cte Authores, qua 
ex professo, ou accidentalraenre tratarão dos fastos da 
jTOSça Marinha , confrontando huns cora outros, e esco^ 
Ihendo nos pontos controversos (que não são poucos^ 
acue me pareceo mais provável. 

, Como não possuia a maior parte dos livros, que 
cta forçoso consultar, vali-me de alguns amigos , e a 
estes, c mais que a todos ao meu erudito Consócio o 
Senhor Conselheiro Manoel José Maria da Costa e Sá 
devo tributar justos agradecimentos i porque não só me 
emprestou quantos rinha ^ e quantos píxlc adquirir^ 
mas empregou nesta diligencia tal efficacia, e zelo, que 
se poderá igualar, porem nunca exceder, j 

Dividi era três Partes estas Memorias: na primei^ 
ra Parte, que consta de três Memorias, exponho as 
Guerms, Conquistas, c Viagens doá Portuguczcíi na 
Europa, na America, c na Africa Occidental ate aa 
Cabo de Boa Esperança., Na segunda Parte ^ <^ue coo» 



sta de quatro Memorias , comprehendo os mesmos ob« 
jcctos relativamente á Ásia, e Africa Oriental. Na 
terceira explico o Governo JPolitico , Administrativo, 
e Económico da nossa Marinha em Portugal , e suas 
Conquistas. 



^#.ir#\J^^#\#^#\i^#^^#^#v^#^>#\#\#r # #v#^#^ 



ANNAES DA MARINHA PORTUGUEZA. 



PARTE PRIMEIRA, 



MEMOUIA PRIMEIBA. 



fi 



Desde n ânno àe 1095* até 1481. Governo do Conde 
D. Henrique j^ e Reinado d^ El Rei D. Âffonso L 



cios annos de Toçy , ou 1096 , começou o Conde D. 
Henrique, Principe da Casa de Borgonha, a governar 
o Estado de Portugal, que lhe cedeo, com independên- 
cia da sua Coroa, o Rei deCastelia D. AfFonsoVL, ha- 
vendo-o ja casado com sua filha a Rainha D.Tercja, cm 
recompensa dos asslgnalados serviços, que ]he fizera nas 
guerras contra os Mouros. Coimbra, Larcego, Viseu, 
Porto ^ Braga , Guimarães, e as terras entre Douro, e 
Minho, Beira, e Trás dos Montes, arrancadas ao ju- 
go Mahometano, compunhâo este pequeno Estado, 
que espantou depois o Mundo com as suas Navega- 
rdes, e Conquistas. 

Posto que as nossas Historias não fallcm de arma- 




áè' maneira , qiie of wtis rtmêifos ficasfscm a coberto 
dos tiros; e as vélas estavao carregadas, para evitar a 
maior facilidade de serem incendiadas, e para poder 
investir , e abalroar o inimigo em algum moracnta 
opportuno, apezar de vento contrario: por quanto os 
combares eráo quasi sempre a remos, e a chusma (no- 
^e 'fcjue se dava aos renieiros) remava cora extraordi- 
nítrio vigor nas occasitíes em cjue importava fazer aU 
gum movimento decisivo, sobre tudo porque os Comi- 
tres nao poupavão os castigos, e mesmo golpes mor- 
taes naquelíes em quem suspeita vão traição , ou má 
Tontâde, se a chusma se compunha de condemnadoffj 
ou prisioneiros, cujo interesse estava em serem tomaJ 
dos. A habilidade da manobra nestes combates singula^* 
res consistia cm abalroar a Galé inimiga em huma li- 
nha obliqua, ou perpendicular ao meio do costado, de 
t]ue no primeiro caso resultavao duas vantagens; hu- 
ma de qucbrar*lhe os remos d*aquelle lado, edestruir-lhe 
a chusma, que ficava exposta aos liros mcrgulhantes 
tios casielíos; a outra , de poder-lhe lançar logo gente 
no convés, onde não havia quem defendesse a entrada; 
por nao terem armas os remeiros. No f:gnndo caso, d 
choque do talharaar, ou esporáo, arrombava o costada 
da Galé, e se nSo a racttia a pique, como ás vezes a- 
contecia, tirava-se a mesma vantagem de lhe matar, é 
ferir os remeiros com os tiros do castctlo de proa , e de 
abordar pelo centro. 

Também succedía ás vezes armarem-se era guerra 
os navios redondos, conhecidos pelo nome genérico de 
Náos, fossem grandes, ou pequenos- A construcção destes 
trx ia m^i^ torpe, e defeituosa : o casco mui curto , c 
alteroso, c u tombadilho, e castello de proa de bas- 
Lii)tc elevação ; p oíístro da meseoa pouco maior que 
b mastro de huma lanchi, com huma vclinha trian^ 
guiar i o muíítru grande, e o do ir^quete teriao sujK- 



■ 
t 
I 



ciente akura , se íevassem mastareos de gávea , que nes- 
ses tempos ainda se não conheciao. O gurupés , quasi * 
tão alto como o mastro do traquete , e fazenda bom a - 
quilha hum angulo demais.de 45''^, sustentava huma. 
verga pouco menor que a deste. Assim o velame des-» i 
tcs navios rcduzia-se a três vélas redondas, e huma 
Latina« He evidente , que similhantes maquinas nao • 
podiáo ter a mobilidade necessária para manobrar na 
presença das Galés, que pela sua agilidade, e auxilio 
dos remos, tomavão todas as direcções que lhes con- 
vinha ^ a despeito dos ventos , huma vez que o mar 
as nâo embaraçasse. 

As Esquadras navegavâo em huma , ou muitas co- 
lumnas, segundo o numero das Galés de que se com- 
punhâo. O lugar do General , ou Almirante era no cen- 
tro, da lioha , òv esta fosse linha xle marcha , ou de ba- 
talha : se navjegava; em duas colvmnás , era a sua a de 
barlavento; ç a do pentro, se navegava era três colum- 
uas. De diat trazia^ sempre a sua bandeira larga, e de 
noi^e farol. na pdpa, como signaes constantes de direc« 
çâo. Os combois navegavâo a sotavento, ou a barla- 
vento da Esquadra , segundo as circunstancias. 

Na pre^nça do inimigo , as Esquadras formavâo- 
se em linha de travez, isto he^ todas as embarcações 
ficando com. as proas voltadas para o inimigo, deixan* 
do só entre si o intervallo necessário para que os re- 
mos de humas não embaraçassem os das outras , e para 
que a» Galés inimigas nao podessem introduzir-se no - 
xneio delias^ porque a Galé investida por ambos os ' 
lados , ou pôr hum lado, e ao mesmo tempo pela proa, 
ou popa , raríssima vez escapava de ser tomada. 

Se huma Esquadra em linha de batalha igualava 
cm extensão a sua contraria , a vantagem era igual , . 
supposta a igualdade das embarcações , e equipagens: . 
mas quaodQ huma Esquadra excedia a outra em aume- . 

2 



lé 

m ât Galés, destacava as que lhe erão desnecessaríasi 
na linha, para atacarem o inimigo pelos flancos, ou re 
taguarda, ou por ambas as partes ao mesmo rempo, e^ 
cm qualquer destes casos , a Esquadra assaltada de* 
frente, c de flanco, oti de rcvez, escava perdida. 

Para obviar a tao graves inconvejiienres, os Gene- 
raes col loca vão sempre algumas Galés atrás dos seus 
flancos, que os cobrissem dos assaltos do inimigo j ope- 
ração era que emprega vão as mais pequenas. 

A linha de ísatalha formava-sc algumas vezes er 
meia lua; mcthodo bom quando a Esquadra excedia 
muito a sua inimiga, porque a cercava desde o princi^ 
pio da acção; ainda tinha seus inconvenientes, e era 
péssimo cm forças iguaes. 

O principio fundamental da Estratégia Naval, era 
o mesmo que hoje; cortar huma parte da linha iními^ 
ga, e cerca-la com forças superiores para a destruir fa^ 
cilmente; isto em quanto ao ataque, e na defensiva to- 
mar huma posição , ou formatura tal , que evitasse • 
aquella catástrofe, ou a fizesse reverter em damno da« 
seu inimigo. 

Algumas evoluções, que hoje são difRceis de exe- 
cutar na presença do inimigo, e pedem muito tempo^ 
c circunstancias particulares, erão então fáceis; porque 
as Galéí, combatendo, e manobrando a remos, podíío * 
chegar*ie ao vento, e tom.^^r a direcçSo que quizessem*'-» 

Naaucife antigo modo de combater, erão qiiast^ 
sctnpre nesastrosas as retiradas feitas na presença déf^ 
hum inimigo audaz j e vencedor, excepto quando huntl'' 
venfo favorável dava meios ao vencido de retirar-se eoi 
< ' .1a, ou de dispersa r*se cm diffcrentes di* 

f ^ of da noite* A razão cra^ pnrque cm hu- 

ma retii^ada feira a renios, a diminuição da» chusiuair^ 
nSo permitrÍ3 que a^ "^^ ' ' ' n*ivcg.^?seníi^* 

fetsnidai^ c com a vci « » ^ aisiip tW^ 



11 

fíhioos inimigos tempo folgado para as cercar, e Ten- 
der. 

Estes princípios devião ser familiares aos bons 
Generaes daquelles séculos, por se deduzirem da boa 
razão , e dos exemplos das batalhas navaes dos Carthfa* 

finezes , Gregos, e Romanos, que pouco dilFeriâo dos 
brtuguezes nas armas , e construcçao dos navios antts 
da invenção da pólvora, e do uso da artilhcria , que 
fez perder ás Galés a sua importância absoluta, como 
«ivios de guerra, e só lhes deixou alguma importân- 
cia relativa até certo tempo, segundo as Castas ou 
mares em xjue se empregavao. 

Não sendo da rainha intenção escrever hum Tra- 
<tado de Táctica Naval antiga , creio ter dito quanto 
•basta para se entenderem melhor os nossos Historiado* 
res, e os factos narrados nestas Memorias. 

No anno de 1 112 falleceo o Conde D. Henrique, 
a quem succedeo seu filho D. Affonso I. (então meni- 
no), Principe igualmente Guerreiro, Politico, e Patrono 
dos homens de génio, cujo longo Reinado foi hu ma se- 
rie de conquistas, e victorias gloriosas, que não me per- 
tence relatar; jxtrêm não esquecerei, que em T160 fòi 
a celebre jornada do Judeo Hespanhol Benjamim Tu- 
dela , o qual partindo de Hespanha por terra , visitou 
•muitas Províncias da Ásia, e regressou á Europa nõ 
anno de 1173, enchendo de assombro os seus contem- 
porâneos , e deixando espalhadas as semenfes do gosto 
das viagens, aue depois fructiíicarão tanto na Períinsulaí. 
II 80 — Achanao-se em Coimbra o fCetebre D, Fuás 
Roupinho , hum dos mais intrépidos , e píedoáòs Cavai* 
4eiros do seu tempo, soube ElRei que andava ^huma En- 
quadra de Galés Mouriscas interceptando as communi- 
lcaç6es marítimas dè Lisboa (i), c encarregando D. 

(1} Para formar a rela ^ destas tKs batalhas , consultei a'Mona^ 

2 li 



Fuás do íraportnnte serviço de as expulsar das Cosratl 
do Reino, o mandou a esta Cidade com ordens para se* 
apromprarera as embarcações necesfíirias, e com ellas 
partio D, Fuás a buscir os inimigo?, que encontrou so- 
ore o cabo de Espichel, onde cruza vão, A if» ou 29 de 
Julho (nisto varião os Escritores) se atacarão as duas 
Esquadras^ c abordando-se vaI(»ro«amentc as Galés de 
huma e outra Nação , segundo o ^ystema daquelle 
tempo, forão tomadas ^ e trazidas a Lisboa todas as 
dos Mouros, com morte do seu Almirante, em cujo 
nome variao os mesmos Escritores. 

Reparada a Esquadra victoriosa, c provavelmente 
nugmentada com as Galés apresadas, segunda vez sahio 
D. Fuás Roupinho a correr as Costas de Portugal , e 
do Algarve, e não encontrando inimigos, que devilo 
ficar cscarmenrados da antecedente derrota , erabocoii 
o Estreito de Gibraltar, centrou na Bahia de Ceuta, 
onde se demorou dois dias, apresando quantas embar*- 
cações inimigas achou alli surtas, que conduzio a Lis^ 
boa. 

1182— Sahio D. Fuás do Porto desta Cidade a 
fazer terceira campanha contra os inimigos da sua Pá- 
tria , e Religião, cotu huma Esquadra de vinte e huma 
Galés; c cruzando na Costa do Algarve, lhe deu hum 
Ponentc rijo, que o forçou a entrar pelo Estreito, co- 
mo de ordinário acontece naquella pragem em prin- 
cipios de Inverno , e a 17 de Outubro se achou defron- 
te de Ceuta na presença de huma Armada de cincocnta 
ç onatro Galés, que os Mouros com muita antecipação 
tinliâo chamado de vários Portos ^ e reutiido naquelte 
para o virem buscar i c a fortuna^ a cajo império ludo 

çhii Lniitan», lomo j.* , L** 11 , Cip.*** jt , «Ji*^ ^ ^^ 

LeSo, Qiranica cTEIRe! U Attonso Henric]ucí — yicgj' J 1 

Reino de Portugal f pag> ija — Anuo Histórico, tomo 3.", pag* 4^$ 
«-A^iificiíOj U^dqIciU dos Rcks de Portugal » Capitulo 2«^ 



13 

obedece, lhe? pçupava agora- esse trabalho. D. Fuás, 
que não Tia Porto, em que recolher-se, nem outra aU 
ternativa , que a fuga , ou a peleja , escol heo esta , reso- 
luto a morrer como até ai li vivera. O combate foi des^ 
esperado, tomo devia esperar*-se do caracter do Gene- 
ral, e dos soldados Portuguezes daquelle século, on- 
de o valor era a primeira, e quasí a uiiica qualidade 
que se exigia dos homens. He lastima, que se ignorem 
as circunstancias desta memorável batalha ! Neila aca- 
bou D. Fuás Roupinhò, « se perderão? onze Galés, sal- 
vando-se ainda as restantes para rrovâ decisiva de quô 
os vencedores ficarão tão derrotados como os vencidos. 
He quanto pude descobrir de acç6es navaes no 
Reinado deste grande Monarcha , que falleceo no anno 
de II 85 3 deixando o Tbrohò a seu filha D. Sancho L 

Reinado d^ElRei D. Sancho 1. 

Este Príncipe teve talentos , e virtudes dignas do 
Throno; e em hum século de caJamidades, de fomes, 
guerras, c pestes, não ^ mostrou o animo de hum gran- 
de Soberano, mas também os talentos de hum consum- 
mado Economista Politico \ tal . he. o elogio , que lhe 
faz hum saBio Escritor Ingíez, que não he proaigo de 
elogios (i). 

Não achei memoria de outra expedição naval em 
todo o seu Reinado, que o cerco, e tomada de Silveft, 
de que vou tratar (2). 

CO Clarke, The Progress of Marítime Discovery , Cap.' i.^ 
(j) Vede Duíirte Nunes de Leão, Chronica d'ElRei D. Sancho I. — 
Historia Geral das Viagens, tomo 2.°, L.*' 2a — Erandáo, Monarchia 
Lusitana, tomo 4.' , Cap.* y.*» , ainda que este Escritor não falia da 
Esquadra Portugueza, de que não teve noticiai -- Accnhe iro, Chroni* 
cas dos Reis de Portugal, Cap.« 9.^ mas conta este facto no anno db 



14 

tt88— Esta Praça, huma das mais fortes do Al- 
garve ^ foi cercada por EiRei a ii de Julho coai hum 
Exercito por terra , e por mar com huma Arnuda de 
mais de cincoentíi navios HoUandezes, Flamengos, Ale- 
^maes, e Dimm.irquezes, que indo para o Mediterrâ- 
neo, aportara a Lisboa, aonde os seus Generaes se con- 
certarão coni El Rei em lhe prestarem todo o auxilio 
para aquella empresa, dando-se-lbes todo o despojo, na 
CISO da conquista. A este grande armamento reunirão 
os Portuguozes outro de quarenta Galés, c Galeotas, 
com muitos transportes de víveres, e munições, Silves, 
depois de huma vigorosa defensa de mnis de dois me* 
2es , cm que se empregarão todas as maquinas de guer- 
ra eniáo usadas, e se derao muitos, e sanguinosos as* 
Siiltos , capitulou no mez de Setembro, sahindo os 
Mahomeiínos com as vidas, e liberdade, que a gene- 
rosidade d'ElRci lhes concedeu , ficando os estrangeiros 
com os despojos na forma do seu contrato. 

Fallecco D* Sancho !• no anno de ixri, deixando 
por seu testamento tao abundantes legados, que a som- 
ma delles deitaria hoje a mais de três milhões, e raeio 
de cruzados (i). 

Rthtado íTElRei D. Jfonso IL 

Nao encontrei nas nossas Historias expediçSo al- 
guma, cm que entrasse a Marinha deste animoso Mo- 
n.irchi ; porque na de Alcácer do Sai apenas apparecè- 
rão Esquadras estrangeiras; ao mesmo tempo, que pa- 
rece incrível , que ElRci não ajuntasse a ellas as suas 
embarcações de guerra. 

Ate esta época , todos os eíFeitos salvos de algum 

(i) Vcílc E^iuidáo, Monafchía Ui^itaiu , tomo 4.' , Cap.^ ^f — 
UuACtc Nunes de Leio 04 QuOiíica deuc R<:i , de que powoe nio Tia 
O tOtttUKIltO. 



naufrágio âcôiítecldó nas Coíttas de Portugal , crSo to- 
mados para a Fazenda Real ; barbaridade que este Prín- 
cipe prohibio por huma lei (l). 

Fallecco D. Aifbnso 11. no anno de 1223. 

Reinado d^EiRei D. Sancho IL 

1240 — No Governo deste infeliz Monarchaj cu- 
jo caracter tem sido pintado com cores dcrnaríadamcn* 
te escuras, não achei mai5 transacções navaes, que o 
cerco, e tomada de Ayamonte, aonde se dh empregou 
todas as forças de mar e tvTra. (2). 

No anno de 1246 foi a jornada de Orpíní, que 
passou á Ásia por terra, visitou multas Províncias, e 
accrescentou interessante? noticias ás que Benjamim 
jiavia communicado á Europa (3)* 

Falkceo D. Sancho II, cm ii^S^ 

Reinado d^ElRei D. Afonso III. 

No Governo deste Monarcha , dotado de Imma 
alma vigorosa, e de grandes talentos políticos, nao 
achei outras expedições maritiraas, que o cerco de Fa- 
ro (4) , e a jornada de Sevilha (5). 

JifO — Esta Praça, a mais forte da Algarve, foi' 



fi) Vede Mofiarchia Lusitana, tomo 4.*» , L° 1 j , Capo 31* 

(2) Dita toma 4.**, Cap.'' 19, 

(j) Neste tempo híivia o singular costume (ou tiibuto) de darem 
©f Jtideoí huma aiicou, e íuima aniaira para caita Nio , ou Galé, quô 
liiReí armava. Monarcína Imitatia , tomo 5,' , L.^ 16, Cap.' ia. 

(4.; Monarchia Lusitana, tomo 4.*' , U" if, Cap^* d,' — Aoe- 
DÍtfiro, Chfonicas âoi Rjrís de Portugal^ Cap* t j.— Duaite Ni^nes^ 
Ojfoiíica de D, Alfonso III. 

ts) Moiíiídiíii Lusitana, tomo 4.*' , pa^v 199, 



cercada pof terra '"peio Exercito, que ElRei cômman- 
dava em peisoa ; e da parte do mar a Esquadra Por- 
tugueza , occupando ?. entrada do Porto » evitava os 
soccorros que da Barberia poderiáo vir aos sitiados , os 
quacs capitularão depois de animosa defensa. 

125*4 — Qiiercndo ElRei satisfazer certa divida ao 
Mosteiro de Alcobaça, assignou-Ihe para seu pagamen- 
to as rendas dos Portos de Selir, e Atouguia, prove- 
nientes ào aceite de balea {i)\ o que prova estarem 
então as Pescarias em estado floreccftte» ' 

1266 — Partio para Sevilha, com grandes forças 
de mar, e terra o Infante D. Diniz, para auxiliar a 
seu avô o Rei de Castella D* AlFonso o Sábio, contra. 
0$ Mouros de Africa^ que havião feito huma invasão 
aa Hcspanha, I 

Falkcco D. Affonso IIL em 1179. n 

Remado d^ElRei D. Dim& 

Este grande Monarcha applicou toda a sua acti- 
vidade a promover a prosperidade publica , e a aug- 
nientar a povoação interior ^ e maritlma do seu Reino; 
c no espaço de dez anrtòs fez de novo òu reparou mais 
de cincoenta Cidades, Villas, e Cascellos (i), Huma; 
destas Povoações de nova creaçao foi a Villa de Pare*' 
des em hum Porto deserto , mas vantajoso para o com- 
iliercio, e pescarias, duas léguas ao Norte da Pedernei- 
ra, cuja Villa durou até aos tempos d*EIRei D, Ma- 
noel, em que as afrôas acabarão de sumir as casas, e 
de entulhar totalmente o Porto (3). 

As jornadas por terra ao C/riente de Rubriquis, 
de Marto Paulo, e de seu pai, e tio, praticadas eaire 

CQ W<?t>aítf»ia Lusitana, totno 5,^, L* 16, Cap,^ (A 

Ca) "^ y Oiroíiica á«te Rçi» 

Cj) ^^ Uukéna, tomo 5,°, U** i6,Cap.** 51. 



J7 

osannos de i25'5 , e iiçç, cujas noticias escritas, oti 
Terb^ies se espalharão pela Europa, despertando o es- 
pirito mercantil adormecido, e o gosto das descober- 
tas, dcvião obrar fortemente s^obre os Portuguezcs, e 
attrahir toda a attenção de hum Príncipe do caracter , 
c talentos políticos de D* Diniz: assim consta, que el- 
le creou esrabelecímentos navaes nos Portos principaes 
de Portugal , e fez plantar o Pinhal de Leiria (i) ; além. 
do melhoramento, que no seu tempo adquirio a con- 
simcçao dos navios redondos, e da regularidade, c boa 
ord;:m que se inrroduzio no serviço, e disciplina raari- 
tima; consequência natural do continuado exercício das 
suas Esquadras , que não só guarda vão as Costas do 
Reino , infestadas das Galés Africanas, e Granadinas, 
mas hiSo insultar os seus Portos , e interceptar-lhes o 
Commerclo ; sem nunca em todo o seu Governo haver 
paz cora os Mahoraetanos (z). 

Cumpre dizer em obsequio da verdade, que D* 
Diniz achou ja o Arsenal da Marinha de Lisboa , de 
<iue se ignora a fimdaçao , porém existia no tempo de 
ÉlRei D. Sancho IL \ e que nelle ja se construiâo gran- 
des navios, prova-sc pela doação, que no anno de iz6o 
fez D, AfFonso IIL de huma propriedade de casas ao 
Constructor João de Miona, por lhe haver construida 
huma Nio (3). O local deste estabelecimento era, pou- 
co mais, ou menos, pelo sitio da Ribeira Velha, por 
dizer a nossa Historia, que as casas da Judiaria se edi- 
iicárão junto ás laracenas ^ termo que na linguagem 
antiga exprimia o mesmo, que Arsenal de Marinha ; e 
sabe-se, que a Judiaria occupava huma parte do Bairro 
de Alfama fronteiro áquellc sitio. 

(1) Hbtoría Genealógica da Casa Real , tomo l.°, pag. aoa» 
(a) AcenhcffO, na Chronica deste Rc;j , Cip.^ 1 4, — Monaichia 
Lusitana , toma í5/ , L.** 1 8, 

to Monarchia úisJt^na, tomo j.^, L** 16, Gap»** ii» 

a 



18 

Aproveitando ElRei a occasião de acharse cm 
Lisboa Manoel Paçanlia, Fidalgo Genovez de grande 
rcpiitaçSo, e experiência no serviço naval, o nomcoit 
Almirante do Reino de jurOj e herdade, por Carta 
passadíi era Santarém no i/ de Fevereiro de 1122 (i), 
jTíi qual assignou também a Rainha, e o Infante D* 
Aflíonso , herdeiro do Reino. Exaqui o cxtncto das 

Êrincipaes clausulas deste importante docume^ito: Q\\e 
IlRei, considerando ser do seu servií^^o, que Manoel 
Façanha ficasse em Portugal , e mais os seus successo- 
res, por seu Almirante para o servir, e a todos os ou» 
tros Reis seus succcssores, lhe dava para sempre em 
Lisboa o lugar da Pedreira, com todas as proprieda- 
des, regalias, e direitos que lhe perrenciSo. Que lhe 
daria mais cm cada hum anno três mil livras em di- 
nheiro, moeda de Portugal (48ckfcooo reis), parcas era 
três pagamentos, no !•'' de Janeiro, no i."" de Maio^ 
e no !•* de Setembro, a começar daquelle anno que 
hia correndo de 1317 (o que mostra ser o Contrato 
celebrado cinco annos antes da Carta). Que este orde* 
nado duraria até lhe dnr alguma Villa, Lugar povoa- 
do, ou Herdade que rendesse igual quantia. 

Que Manoel Façanha, ou seus successores, pod^- 
ria vender o lugar da Pedreira, ou fazer dclle o que qui* 
zesse; mas que o producto ficaria em Morgado na sua 
família, em linha direita, passando do pai ao filho legi- 
timo mais velho Secular, que podesse servir o Cargo 
de Almirante com as condições nesta Carta estabeleci- 
das, de que lhe faria pleito, e homenagem* 

Que Manoel Façanha, e todos seus çucccssores, 
serviria bem, e lealmente, nas Galés, sempre que fos- 
se chamado; mas não seria obrigado a sahir ao mar 
com menos de três Galés. 



(]) Provu á Rbtotá Genealógica, tomo i.**, pag. ^s. 



i9 

Que ?aíiTíi3o EIRci pc?soa1menfè em Carnes n há 

jm Exercito^ c mandando-o chamar, oaconjpanhit 

ria, e serviria em terra. »•" 

Que o Almirante, e seus siKçcssores, se obrigava 
a ter sempre promptos vinte Genovezes iiitelHgentcs na 
navegaçLÍo, pa^ra servirem de Alcaides e Arrji/es das 
Galés j pagando-lhes á sua custa ouando nao estivessem 
er — ^'"^-^rlos no serviço Real ; podendo porém elle em- 
j. s neste intervallo de tempo, em utilidade sua 

própria, no Commercio naval para Paixes estraiigei- 
rtys; Dbrig:^ndo-se a aprompta4os no caso de serem ne- 
ce5sarios para' o serviço Real. 

Que qui^ndo estes vinte homens servissem nas Ga- 
les d^EiRei^ venceriao, o Alcaide doze livras e mela 
( lè^oDrs. ) yor mez, e o Arraes oito livras ( i^zSo), 
alem de pao , biscoito, e agua. 

Que desertando j ou morrendo algum destes vinte 
homens, o Almirante mandaria vir outro á sua custa i 
BC espaço de oito mczes* 

Qtie adoecendo, ou envelliecendo alguns daque- 
It?f homens no servido Real, a Almirante nâo seria 
obrigado* a por outro para servir era seu lugar, senSo 
no caso de fallecimcnto. . i 

Qiie ÉlRei lhe concedia , e a seus successores, a 

2uinta parte das presas , que elle no mar tízesse com as 
íalés Reacs, exceptuando cascos dns embarcações , ar- 
mas, e aparelhos, e Mouro de mercê j por serem coi- 
sas privativamente d'ElRei; mas quanto ao Alouro de 
mtrci^ se ElRei o quizesse tomar para si, o pagaria 
pelo preço então corrente , que erâo cem livras 
{i6áK30ors.) de que o Almirante teria a quinta par- 
te (I). 



(i> AcenKeirOj nas Qvronica? dbs Rci^^ Cip.' ij, pzf; 86' diz 
que noanno de 1275», pondo ElRei D, AfToi^so 111* casa u seu fíJh^ 

'ò ú 



20 

Que o Almirante teria jurlsdicçao, e man^õ 
bre todos os homçns que cora elle estivessem nas Ga^ 
lés d*EIRei, tanto era Frota, como cm Armada (r)J 
ou no raar, ou nos Portos cnde entrasse, sendo todos' 
obrigados a obedecer-lhe como se EJRei estivesse allt 
presente; e todos os que fossem nas Galés obedecerlio 
aos seus Alcaides , como era de co?turn?. 

Que o Almirante poderia castigar nos corpos, sen- 
do com direito e justiça , aos que lhe desobedecessem^ 
como o próprio Rei faria se presente estivesse* 

Que esta jurisdicçao se entendcri:* desde o dia era 
que se armassem as Galés , até ao ultimo dia çm que 
o Almirante desembarcasse. 

Que acontecendo, que Manoel Paçanha, ou seus 
«uccessores , que o Feudo herdassem , não deixasse filho 
varão legitimo, c Secular capaz de servir o Cargo de 
Almirante, ou não havendo outro herdeiro varão legi- 
timo ^ e Secular que delie descendesse por linha direi- 
ta , legitimamente nascido , tornasse o Feudo para a 
Coroa* 

Era consequência desta JurisdicçSo mixta de que 
gosava o Almirante, derao-se-lhe Offici^^es de Justiça 
privativos, Ouvidores, Meirinhos, Alcaides, e Carce- 
reiros^ com appellação dos Alcaides para o Almiraa- 
te , e deste para El Rei. 

As ceremonias que se praticavâo na posse deste al- 
to Emprego, erâo estas: Feita de noite a vigília na 
Igreja, como era usual em todos os actos dos Cavallei- 
xos^ hia o Almirante no outro dia ao Paço, e EIRei 
em sala publica lhe mettia hum annel no dedo da m^ 
direita , e oa mesma huma espada curta , e na mao c»- 

D. Dinit, lhe dcri 40^^000 livrai de rracU, que eráo iguiei 1 i^^^ 

(1.) Noi temfKíf ftnti«;os cKafmvA>ce Frota a hum pequeoo nuinero 
éê fiavioi de guem 9 1 Atmàãà ^ hum grinde oustmo dos okiuhj»» 



21 

querda hum estandíirte com as Arm.is Reacs; e feita 
isto, dava-lhc o Almirante horaenngcm com o jura- 
menio do costtumc (i). 

tz^y — Neste anno , ou no seguinte , mandou Et- 
Rei de Castclla contra Poriugal luima Armada de 
Náos , e Galés ^ a qual entrando em Lisboa , tomou al- 
gumas embarcações mercantes, que estavão carregadas; 
mas o Almirante de Portugal (nao diz o norae) , que 
álH se adiava , armou á pressa algumas Galés e scguío 
os Castelhanos; e alcançandoos no mar alto, lhes deu 
batalha y c os trouxe a Lisboa todos, juntamente com 
as presas j que levavão (2). Esta narração he suspeita, 
por ijiverosimil ; porem foi a única transací^so naval, 

?ue achei hum pouco explicada , por quanto as nossas 
llstorias antigas são em geral silenciosas em objectos 
àc M;i rinha. 

FaJIeceo El Rei D* Diniz 00 anno de 13 2 j.^ 

Reinado íTEIRei D. Afonso IV. 

Este Monarcha^ que nas suas transacções milita- 
res, e políticas sustentou o caracter de hum Heroe, c 
chegou a fazer esquecer os indesculpáveis desvarios da 
sua mocidade, deu todo o seu desvelo á Marinha, c 
ao Commercio que a alimenta. Seguindo o sysreraa de 
seu illustre Pai, conservou sempre huma Esquadra de 
guarda^Costa de iresGal^ , e cinco navios grandes (3)^ 
para protecção do Commercio marítimo, que era então 
grande, principalmente em pescarias, tanto das Provín- 
cias do Norte de Portugal, como do Algarve, das 
quaes se provia o Reino todo, e se exportavao grandes 
quantidades deste género para os Paizes estrangeiros^ 

fi) SeYmm, Noricías de Yot\\i%,ú ^ DHcurso «•♦,§, 1 j. 

(jt) Cuane Nunei , Cíironica át D, Diniz. 

(j> Vede ScveriO}, Noticias de Portugal, Discurso jt.« §, 15^ 



í?c-rro e fora do Medircrrinco. Nem « Pescadores Por- 
rjg j:ze5 ?e re?:r;:^g:2o a peçcar rcs seus ciares, pois 
C'_--=:i rue oç de Lisboa, e Pcrtc rzerlo hum Tratado 
CDn Eii-arvio III. , Rei de Ingiaterra , r:ri pescarem 
D*5 Co5Tas d^quclle PaÍ2, e nis Províncias da França, 
que cntâo depeniião djqueil.^. Corça (i). Enis ntcís 
especulâ-çoes , aae hoje nlvez pareçio a muiros esagge- 
Tãiãs^ erao fáceis naquelles tempos, em cee só Tavira 
tinha seus próprios seteara barcos de pesca , c muitos 
navios de navegado do mnr atto, e as outras Cidades 
mariíinsas de Portugal o mcsnso á proporção. 

No Reinado deste Príncipe secorceçirao a mtix>- 
duzir em Porrugal as Sciencias Marlicrraticas, envoltas 
nas ouimerás da Astrologia Judiciaria (z); e o famoso 
Napolitano Flávio Gioia descobrio a Agulha Náutica, 
posto que muitos anr.os depois he que se achou a sua 
Variação, e se forão pouco a pouco inventando roetho- 
dos miis ou menos foceis e seguros [para a conhecer 
diariamente no mar. Mais tarde descobrio-se , que a 
mesma Vnriajao lambcm variava; e a pesar de milha- 
res de observações, ignoramos ainda as leis, que pro- 
duzem esta segunda Vari.icão; e sò sabemos, que em 
matéria tão importante á Navegação, resta muito para 
descobrir. 

1336 — Deu ElRei o commando de huma Esqua^ 
dra de vinte Gales, guarnecidas com dois mil homens, 
a D. Gonçalo Camelo, que sahindo de Lisboa nos fins 
de Agosto, appareceo na Costa da Andaluzia, e foi 
surgir na bocca de hum riacho, quatro léguas (entendo 

(1) Vcja-« a Memcria soSfc a Guaiiira, de Jcsc Henriçuei F»» 
feira, no lomo 1.'', p^. 1.' das Memorias EcoiKHr?!cas da Acadsmhi 
éz% 5; -rr^us di Lisboa; c tambeni a outra iatcrwsantc Memoru do 
(>}r,*Mr.i:vn ííotclho de l^acerda Lobo, no tomo 4.* pag. )ia da cit»* 
da O>:icjcáo Acidenuca. 

(zy ^ie-D^iaT de Litteraiura da Academia das Scienciai de UibM, 
fxno h"" , paj. 14^ f c K^uiatci. 



23 

léguas de vinte ao gráo) a Leste do Gmdhn^, 
DJecro era asfaltar a Viíla de Lepe , siiUrida na 
inargem eccidenral do mesmo riacho, e huma légua 
distante da sua foz^ Para este fim , passou aos seus ba- 
teis os soldados, que nellcs couberao , e foi desembar- 
car no lugar que bem lhe pareceo, ainda que não sem 
S3ngv!e, porque os Hcspanhoes se oppozerão a dcfcm- 
barcação (i). Ganhada a Villa, e o seu pequeno Os- 
rello, talarão os Portuguezes a campanha por dilatado 
espaço, mas reunindo-se os He^panhoes, capitaneados 
por D. Nuno Portocarrélro, Governador de Lcpc, fò- 
ráo rechaçados com perda, e obrigados a recolher-se 
aos seus navios, levando comsigo os despojos. 

No dia oito de Setembro mandou D. Gonçalo Cst*' 
melo desembarcar hum dcsracamenro para cortar hu- 
nias vinhas , e accdindo o Portocarreiro com muita 
genre, desembarcou D- Gonçalo em soccorro dos seus: 
depois de hum furioso combate, se retirarão os Portu- 
guezes, deixando nas mãos dos inimigos o seu General 
prisjoiíeiro , e levando do mesmo modo mortalmente 
ferido a D* Nuno, com outros dois Fidalgos, que tro- 
carão per D, Gonçalo. Depois desta miserável expedi- 
ção, a Esqundra se fez á vela para Lisboa , e soffreo 
no caminho hum temporal, que a maltratou multo, 
bem como destroçou hum formidável armamento de 
quarenta embarcações, que sahirão de Sevilha em bus^ 
ca da Esquadra Portugueza. 

Neste mesmo anuo fizerao os Hcspanhoes huma 
entrada na Província do Minho, e EIRei D. AfFonso, 
ou por fazer diversão a outra, ou por vingar-se desta , 
mandou sahir de Lisboa o Almirante Manoel Paçanha 
com huma Armada , de que se ignora a força , mis de- 
tia ser considerável , porque a eíla se reunio a Esqua- 

(t") Duarte Nunes, Chroníca di£ Xy, AffOiííO IV- — Monarchia Llf* 



24 



dra que voltara da expediçSo da Andaluzia. Corrco 
Almirante as Costas do Norte da Península até aos con- 
iins das Astúrias (i)^ entrou em todas as Rias, e En- 
seadas, e tomou, ou destruio todas as embarcações ini- 
migas que por ellas encontrou; recolhendo-se por fica 
sem perder hum só navio» , 

1337^ — No princifíio deste anno partío de Sevilha 
huma Armada Castelhana de quarenta Galés , cora se- 
te mil e quinhentos homens, comniandada pelo Almi- 
rante AfFonso Jofre Tenório ; e de Lisboa saliio o Al- 
mirante Façanha com trinta Galés a encontra-la na 
Costa do Algarve j mas huma furiosa tormenta derro* 
tou ambas, com perda de muitas Galés, e gente, reco- 
Ihendo-se aos seus Portos as que se salvarão (2), 

Reparados do modo possível os estragos da tem- 
pestade, partio segunda vez no mez de Julho o Almi- 
rante Façanha com vinte Galés, e no dia 21 encontrou 
em Cabo de S, Vicente a Armada Hespanhola , que o 
buscava cora dobrado numero de Galés, Abordadas hu- 
mas e outras , travou-se huma horrorosa batalha que 
durou largo espaço, em que os Fortuguezes chegarão 
a render nove, porem a immensa desigualdade de nu- 
mero fez mudar a fortuna , declarando-se a victoria pe- 
los Castelhanos, que tomarão a Capitania de Portugal^ 
com algumas outras Galés, raettérão duas a pique, e re- 
presarão as suas; levando em triunfo a S, Lucar (á 
custa de muito sangue) o Almirante Façanha, c sen 
filho Carlos Façanha. O resto da Esquadra Portugiieza 
recolheo-se a Lisboa, ainda que vencida, com hoa^ 

«• (3> 

(t) Mofuidiia Ui^itma, tomo 7.*' , L* í .• , Cap.'* ii« 
(1) Daaiti: Nuties rebta rstc facto no amx» de 1 ))6 , c dá 1 1 
fender <|ae a EscjuaJra Portti^ucza jc pcrdco. Vede a sua Chrotiica, Eu 



i^tii outra opbião, vede Moo;irdiia Lusicatii tomo 7. 



S.SCap.«>i4. 



(1) Monaidii* Lusitana, toiDO ;.•, L.^ 2.^, Cif,** it, c 14^ 



25 



A perda das nove Galés Ostelfianas no principio 
àã ãcção (se he verdadeira), mostra que o seu Almi- 
rante ignorava os elementos da Táctica, sendo tal a 
sua superioriJade numérica , que elle podia cercar logo 
a Esquadra Portugueza , e decidir a victoria; mas he 
inútil discorrer quando faltão dados certos, em que as-* 
ícnte o raciocinia. 

1340 — Neste anno foi a terrivel invaslo dos 
Mouros, que se Ifie mallogrou na bat^ilha do Salado. 
Como elles haviao de atravessar das Costas de Barbe- 
ria para as de Hespanlia fronteiras ao Estreito de Gí- 
braJrar, onde possuião esta Praça, e a de Algeziras, 
concordarão os Reis de Portugal , e Canella em reuni-* 
Tem huma armada, que cruzasse naqucllas aguas, para 
interceptar a passagem dos Mal^ometanos* Este plano 
era judicioso, e de infaUivcI successo, mas falhou na 
execução. Escol heo*se Cadiz para o ponto de reunião 
das Esquadras de Portugal, Cistella, Aragão, e Géno- 
va , de que devia compor-se a Armada, Chegou primei- 
ro a Esquadra Portugueza , comraandada pelo Almiran- 
te Manoel Paçanha ^ e alli adiou a Castelhana de quin- 
ze Galés, e doze Naoe^ de que era General D. AíFon- 
80 Ortiz j e tanto t^mpo tardarão as outras duas Esqua- 
dras, que quíindo a Armadora final sahio, tinha o Exer- 
cito Africano passado o Estreito , e se aclmva em Al- 
geziras prompto a começar as suas operações militares; 
e a Frota de GaJés que o comboiara , estava ja reco- 
lhida aos seus Porros, 

Sahirão de AlgezJras os Reis Mouros a cercar 
Tarifa, Praça então mui forte, e da maior importân- 
cia. A Armada Catholica estcndeo-se por aquella face 
do Elstreito^ a fim de proteger a Praça , e obstar a al- 
gum ataque raaritimo, se os inimigos o intentassem. 
Huma tormenta de vento Poncnte, que sobreveio, pro- 
1 pria daquella estação, a derrotou totalmente, espa- 



2a 

ihaodo os navios por rirtos Portos vio Mediterrâneo, 
c fazendo naufragar muitos em que entrarão oito Ga* 
lés Ostelbanas^ e quatro Nãos Porruguezas» Assim aca- 
bou a campanha (i). 

Ou neste mesmo anno^ ou no seguinte de 1341^ 
come^aník) novamente o Rei de Marrocos a mandar 
tropas a Hespanha , a fim de que unidas ás de Grana* 
da, SC tentasse segunda invasão, mandou ElRei D. 
Afibnso o Almirante Paçaoha com dez Galés bem ar* 
madas em soccorro do de Castella , e juntas no Estrei- 
to as duas Esquadras, iorerceprarão na passagem huma 
Esquadra AtVicana, que de Ceuta atravessava a Estepo- 
na ; e dando-lhe baralha , a derrorirão. 

Neste meio lempo , a Frota Mourisca , que havia 
ja desembarcado em Algezlras as tropas , que conduu- 
ra mra esta nova invasão » achava-se ancorada no Rio 
de Palmones, hunu legua ao Norte daquella Cidade* 
As Esquadms combinadas a fbrSo afai aucar , e depoii 
de grande reâstencia^ toviáffio vinte c seis Galés, e 
ineitéfão nmitis a piqtie, de maneira que poucas embar* 
cagScs cxipífSo. Morrerão nt pdeji os Almirance^ de 
GrtMidi^ e Mairocot; e para makir fbrtnna, achou-w 
abordo de buma Gale quantidade de dinheiro em ouro^ 
€ priâ , ífm de Marrocos se enviava para 
dm sen Eseroio » e rtio a ^rvir pvi o de 
EsN» duas victoriãs cwtário aos iatmigõt nais de oeni 
Binps, e denraiTM ot teus projectos de mvasao (i> 

1343 — Detenmmido EIRei de Casieila a cercar 
Algeiins, pedin anilio aos Frtnctpcs Chrtstloi: D. 
«Mftdoife-Uie o Afaiiiraoie Bi^Aha cmã dez Ga- 
lei, as qoaes «idas it Esquadrss de CasteUa , Ara« 
gSo« e Geoova» bloqueèdb a Fraga por mar» ca 
rj— in o Rei de CmeiU a attiava por tcrca cora busn 



i,L«i«,Q^^a.« 



..^.•s^-,G^-|,tá. 



27 



ícroíio EtcTcítn , que abrio n trinchcii 
n/io: alli concorrcTao muitos Príncipes estrangeiros com* 
tropas, em cujo numero se contou hum grosso destaca- 
mento de Poruiguezes, commandado por D. Alvnro 
Gonçalves Pereira. G cerco foi trabalhoso, assim pela 
resistência dos defensores, como peJas tempestades, e 
inundações dos invernos, pois durou vinte e dois me- 
zes; e só depois da destruição de hum Exercito Grana- 
dino, que intentou soccorre-la^ capitulou a Praça nos 
princípios de Abril de 1344. He provável que as Es- 
quadras combinadas se recolhessem nos máos tempos a 
Gadjz, e remassem ao bloqueio nas estaçSes favoráveis»* 

1349 — Nao foi tão feliz ElRei dcCastella no cer- 
co de Gibraltar 5 que este anno emprehendeo , como fo- 
ra no de Algcziras. Mandou ElRei D, Affonso em 
seu auxilio himi corpo de tropas, e huma Esquadra de 
Gak^: unirão-sc a esta a de Aragão, eCastclLi, e blo- 
quearão a Praça por mar. Começou o sitio cm Serem- 
oro, e durou até ^7 de Março do anno seguinte, dia 
em que o Rei de Castella falleceo do contagio, que as- 
solava, c quasi tinha destrnido o seu Exercito. Com a* 
sua morte se acabou o cerco (f). 

Falleceo D* Affonso no anno de i J5'7* 

Rehado drEíRei D, Pedro L 

No Governo deste Monarcha, terrível aos mios, 
l^ estimado dos bons, só encontrei duas expedições ma- 
rítimas, ambas em consequência de hum Tratado, que 
celebrou com ElRei D. Pedro o Cruei, para o auiciliar 
na guerra contra Aragão, com huma Esquadra de dez 
Gales, pigas á sua custa por três mezes. 

135^9 — Partio eiD Abril de Lisboa o Almirante 



(t> Mdaafdiíi Litsltahry L"^ 



7.", tomo 10.** , Cap»*^ n, 
4 ii 



9§ 

Lançarote Paçanha (a quem succedeo a triffe aventúra^ 
com Violante Va^ques) commandando dex Galés, e bu- 
ma Galeota bem guarnecidas (i). Na foz doEbroco-; 
centrou elle a D* Pedro o Cruel com oitenta Nios de 
castillú áavante ^ trinta e huma Galés^ e quatro na- 
vios pequenos, Éncorporada a Armada, dirtgia-te »i 
Barcelona <, onde o Rei de Aragão se achava ^ cmoi 
Porto nao ousou D, Pedro accommerter, por e^tar dew 
fendido por doze Galés atravessadas na sua entrada, e^ 
protegidas pelos tiros das fortificações. Abandona ndor 
pois aquella empresa, navegou para a Ilha de Iviça^ e 
sitiou a Villa de^tc nome; mas sabemio que o Monar-j 
cha Aragonez era chegado a Malhorca com quarenta 
Galés, levantou o cerco, € mettendo-se em huma graQ*> 
de Galé « a que mandara fazer três castel los, hum na 
popa, outro no centro, e outro na proa, guarnecidos 
de duzentos e oitenu soldados, foi abrigar-se cm Por- 
to Calpe, na Còna de Hespanha, com toda, oo parte 
àã sua Armada. A Esquadra Aragoneza , que o seguia^ 
coromaolada pelo Almirante IX Bernardo Cabreira (o 
seu Rei rinha ficado em Malhorca), veio i vela tor» 
neando a terra, da banda do Levante, e como a Cm* 
ta alli boja muito, nao vio os navios fundeados em 
Porto Caípe; mas duas Galés, que trazia diante, os 
de^cobrlnío, c lhe fizerílo çignaes, o (m^ o obrigou a 
recolher-se no Porto de Dénia , que Ine ficava atmr, 
onde surgio. EíReiD.Pcdro, não o querendo hir atacar, 
pela estreiteza do cana^, em que as Galés Aragonezas es- 
tavãO) continuou a sua viagem para a Bahia de Ali- 
cante, que tinha próxima , onde o esperou seis dias, e 
dalli je rccolhco a Carthagena. A Esquadra Portugue— 
za, hatcndo completado os ues raezes de serviço ^ a 



(t) Rmlo Lopn cu Ghtoúta d^EIRcí IX PodrOj Cip.^ %^ 



que estava obngaoâ , voltou para Lisboa. Esta expedi- 
ção fai o parto da montanha. 

i^<5^ — Partio de Lisboa Lançarote Façanha com 
íez Galés em auxilio de outra expedição contra os 
Aragonezes. Em Carthagena se rcunio esta Esquadra 
com outra de Castella, compondo ambas huma Arma- 
da de trinta Galés, e quarenta Nãos; tnas os ventos 
Levantes nao lhe permitrirão sahir daqueJIe Porto a 
proteger o sitio, que EIRei D, Pedro tinha posto a 
Alicante; e neste meio tempo chegou o Rei de Aragão 
cora hum Exercito em soccorro da Praça , e huma Es-^ 
quadra de doze Galés, com outros na?ios carregados 
de munições; o que sabendo com anticipação D* Pe- 
dro, levantou o cerco, e foi tomar outra posição qua-% 
Iro léguas distante, o que fez entrar o soccorro na Pra^» 
ça. Doze dias depois appareceo a Armada ccmbioada, 
lâ vista da qual os Aragonezes se recolherão a hum Rio 
^visinho, onde D. Pedro os bloqueou; porém hum ven- 
I daval de Levante, que poz em perigo as suas Náos, e 
[sobre tudo a monstruosa Galé Real, que perdeo três 
lancoras^ e aguentou-se á mercê da quarta, o persuadio 
li tomar o caminho dos seus Estados, logo que o tem- 
po abonançou, levando a mesma gloria , queda campa-, 
uha antecedente. O Almirante Façanha retirou*se para 
Portugal (i). i 

Falleceo EIRei D» Pedro !• no anno de 13^7. 

Reinado d' EIRei D^ Fernando^ 

No Governo deste Monarcha sofFreo Portugal tio 

jraprda declinação da sua prosperidade interior, que po* 

'dcriã conduzi-lo á ultima ruína, se os acontecimentos 

successivus á sua morte ^ pondo cm fermentação o mais 



(i) Idem, Cáptuld ^5, 



. v^J .It.l 



Cr,: 



m 



tíbihiâo patríotismd , nSo dessem a conhecer hum no^ 
vo, e inesperado caracter, que mudou inteiramente o 
systeraa político da Europa, e fez cotn que Lisboa 
apresentasse d'ahi em diante huma scena de tal modè 
interessante^ que attrahio sobre si a attengao de todas 
as Nações. 

Na época do fallecimento d'ElRei D^ Pedro L 
era Forrugal hura dos Paizes mais ricos, e fiorecentes, 
segundo os monumentos Iiistoricos que nos restão, por 1 
conter em si as duas fontes principaes das riquezas; nu« 
raa boa Agricultura, e o Commercio marítimo, que 
transportava os seus productos aos outros Povos da Eu- I 
rop3. Todos os Cereaes, c mais géneros necessários á 
sustentação dos homens, abundavão em Portugal (i)^ 
As suas Pescarias crio immensas, incluindo a da Ba« 
lea , e na Costa do Algarve a do Coral , que ainda du- 
rava no tempo de D. Affonso V. (2). Os Portos de 
Vianoa, ATeiro, e Vilfa do Conde ^ e os do Algarve 
não estavão areados, como depois fica rSo, e nelles se j 
construirão navios que levavão a Galliza , e Biscaia , c 1 
aos Portos do Mediterrâneo os productos das Marinhas 
de sal, e Pescarias* Só Aveiro empregava mais de cem 
embarcações no transporte daquelle primeiro género, 
que durou até lyfO (g)i c Vianna possuía' outrai 
tantas, que navcgavão para difFerentes partes (4). 

Os navios estrangeiros aflBuiâo aos nossos Portos, 
por se haverem estabelecido era Lisboa opulentas casas 
de commercio de varias Nações ; c achavão-se aqui 
muitas ve/cs raais de quatrocentos vasos a carregar de 



(O Femlo I^pcs, Qironíc.t d FJRçí D. Fernando, Cap.* S9. 
. («) O.mcimo n* diu ClhroniLd , Lip.*^**^ 90, c 91 — Verte i JW 
pioriA sobre « 4Ítc4(i«JKÍa iks l^eKarJèi, i)«i >iemoi|4$ ià Academia 
Liiboi , totno 4." , p^g, ji2. 

(f) Corogratia Portugueia , tomo a», pag, Hf» 
(4) Idem, loino 1*^, pag* 1^0. j > 



SI 

sâl , c vinho, sendo ta! a exportação diste ultimo ar* 
ligo, que aÔirma Fernjo Lopgs (i)> que hum anno 
chegam ã dõze mil toneis (talvez loneladnSv segundo 
i>rooe'o de fallar daquelles tempos), fora o que leza-r 
tão àepais os navios na segunda cârregâ^ã^s de Marr 
\fê* Por isso crSo tão grandes as rendas das AJfander 
gas , como d 12 o mesmo Historiador (i)\ e asscmbra 
ver os tliesouros que este Mdoarcha adiou por morte 
d^ElRei D. Pedro seu pai, qwe só na Tõrrif dty-Aver 
do Castellú de Lisboa estavao Soo^oco peças de ou* 
ro (ou dobras), e 400Í000 marcos de prata (5); alem 
do outra aver em grande quantidade^ que im cerlos 
lugares peia Reino era posta. 

O génio pródigo d'ElRcl D. Fernando (que aliás 
possuia qualidades estimáveis), c as suas guerras semr 
pre dispendiosas , e quasi sempre impoliticas ^ oti mal 
dirigidas, consumirão tantos thesoui^s , e o constran* 

Í' ;êrão a recorrer ás tristes operaçáes fiscaes , de que fal^ 
ao nossas Historias , cujo resultado foi aniquilar-s^ 
jr fim a Marinha Real , e ver-se Lisboa insultada , e 
[invadida pelas Esquadras de Castella, que este Princi^ 
pe poderia fazer tremer dentro dos seus Portos, 

Deve-se porem dizer, em obsequio da verdade^ 
que elle nao se esqueceo de promover as vantagenç 
do Coramercio Portuguez, e augmento das construcr 
ções navaes no seu Reino; porque depois de publicar 
algumas Leis para restaurar a Agricultura , quasi ar^ 
ruioada pelos estragos da guerra, con^heccudo 05 iute^ 



fi) No píncipjo da Clironica d'EíRci D, Fernantío* 
lí C*) ilí.idtfra. ...,,. ; 

(j) Ibidenw O marco de ouro de 12 quiíates valU naqucUa rpoca 
T\to R-, c cootiiiha 50 dobras, o que dar:a hoje 4:6ccJÍiOCo crtiis^ 
dos, pouco maif ou nienoi. O marca de prata ^alia 97a rs. , c a«ím 
estes 400,^000 marcos produziriáo^ lioje huma bual'4^wai\tj«. Vede m 
HiacnU Genealógica da Casa Keal, tomo i^^ >. livro j. 



nma qoe n Esrrangriros percefailo dos fretes áe cob^ 
dt]cç5o ^ e retoTQo dos seos oavi» , qut rmhao a Lis- 
boa , Ordenou : Que os Portuguezes , que cDasrnrtssem 
navios de cem toneíadas para cima^ podessem corrar 
nas Matas Reaes, e conduzir a Ltsfaoa as madetfas, e 
tDOSiros que qulzessem, sem pagarem oousa alguma, 
nem me^mo os dirdtof doe materiaes^ que tbes rk^ 
sem de fora. Que aquelies, que comprassem, ou ren* 
dessem navios feitos , nâo pguem por isso direttos» 
Que aoi proprietários de ruvios, da primeira viagem 
que sahissem carregados de Portugal, se lhes perdoa- 
riao lodoâ os direitos das mercadorias que levassem , de 
qualquer natureza, que fo<^m , eoo suas, ou alheias: 
E que aos proprietários destes navios se lhes abateria 
metade dos direitos de toda a qualidade de géneros, 
que da primeira torna-viagem carregassem de Portos es- 
trangeiros para Portugal, ou €« géneros fossem seus, 
ou alkeíos. Alem destes grandes ftvores, coacedia-JJies 
também muitas isenções , e prifilegios (t). 

Apôs destas urilissimas providencias, creou EIRet 
iiuma Companhia de Segurança Naval (i), de que fal- 
larci no seu competente lugar j e creio ser a primetca 
desta espécie, que appareceo na EUiropa. Creou igual- 
mente o Posto de CãpitM Mer da Frpía , que era co- 
mo hoje o de Opitao General do Mar i ainda que pa^» 
rece não se estendia o seu commando ás Galés, cujo 
governo competia privativamente ao Almirante, exce- 

Eo na falta destes e só governava tudo quanto era re- 
tivo aos navios de alto bordo. Gonçalo Tenreiro foi 
o primeiro nomeado» Ignora-se o anuo certo desta crea- 



^ 



ao} mas sabe*se, que a 25 de Julho de 1375 lhe fez 



(1) FcmSo T^pct, CapltiHo 90W 
^3 i^^tU) Cipitulo ^s. 



3:5 



mercê ã^Tâfrt 



com a sua RlBcín, f outrírí 
rtTras, em remuneração de serviços (i)* 

1369— Entrando ElRei por Galliza para fa^cf 
jrarrra a D, Henrique de Castella (2), foi huraa Es*^ 
qu.tdra de oito Galés , commandada per Nuno Mar-* 
tios de Góes, auxiliar por mar as suas operaçíícs milira4^ 
re?, onde fez nlgiuna*; presas; mas tendo ElRei ja loma-^* 
do nem resistência as Cidades deTuy, c da Corunha, so-' 
bre o aviso de que D, Henrique chegava com grande 
Fxercito em soccorro da Província invadida, fez reco- 
lher as suas tropas a Portugal; eelle, embarcando- se 

Enquadra ^ veio para a Cidade do Porto. 
Em Míuo deste mesmo anno mandou ElRei D. 
Fernando liuma Arraad.i de trinta e duas Galés, e trin- 
ta navios redondos^ iodos bem armados: comraandava 
^m Chefe o Almirante Lançarote Paçanha, e os na- 
vios redondos João Focim, eruigrado HcspanhoL Esta 
J^rraada fez grandes daranos na Costa da Andaluzia, 
sobre tudo em Cadiz, que foi saqueada, e quasi de- 
struida ^ e dalll passou a bloquear Sevilha, estabelecen* 
do-se as Galés dentro do Rio Guadalquivir, e os navios 
grandes fora da sua entrada. Este activo serviço du- 
rou muitos raezes, rcvezando*se os navios |X3r varias 
vexes ^ vindo huns ao Algarve, e Lisboa a refazer-se 
do necessários, para irem render os outros no bloqueio; 
onde, apezar de todos os soccorros , morrco muita 
gente de enfermidades, principalmente de escorbuto, 
e soffrcrâo as eauipagens fomes , e privações de toda a 
espécie, não so pelo continuo trabalho^ e inclemência 
dos tempos , mas pelo atraso que soiTrião as remessas ^ 
que de Lisboa se faziáo para a Armada, de viveres^ 
munições^ e fardamentos, tudo procedido das estações, 
liaveudo durado este cerco mais de hum anno sem in- 



(1) M0íimTchía Lusitana, tomo 8»<» li* li , Cap.* a6, 

à 



• i .àU 



34 



terropçiio, e Escritor temos, que afiirmaj que duroiT 
vinte mczes (i). 

Vimio neste meio tempo a Sevilha EIRei D, Hen- 
rique, fez armar vinte Galés, que esr,ivao n:íquelle Arse- 
nal, e entregou-as ao Almírinte Ambrósio Bocca^Ncírra, 
lubíl raarinheíro^ que guarnecendo as n melhor, qite pA- 
dc ^ de suldados, e de reniciros ( as Galés erão de rrintíi 
bancos, a três homens cada hum, c deviao ter cento 
c citenra remos, mas por faíta delles, levarão somente 
cera), se. aprestou para pelejar com a Esquadra Por- 
tugueza; cujo Almirante, nno julgr.ndo acertada cora- 
bater dentro de hum Rio estreito, onde a corrente 
efa a favor dos inimigos, pelo Impulso que imprimia 
ás suas Galés, sahio ao largo a tmir-se ao resto da Ar-* 
mada Portugueza. O astuto Bocca-Negra o seguia 
com pouca, pressa algum tempo, como para ganhar es* 
paço em que formar-se, c mettendo se entre tanto a 
Doiíc, fez voltar para Sevilha a sua Esquridra, menoa 
sete Gales, com que se fez no bordo de Oeste, sem per 
visro, e dohnmdo o Caho de S, Vicente, foi buscar o« 
Portos de Galliza, c Biscaia, onde armou ^ e reunia 
todas as forças marítima'?, que por elles achoO, à testm 
das qmes voltou a soccorrer SeviHu. i' 

O Almirante de Portugal rinha occupado de nava 
a sua antiga posição dentro do Gu^Klalquivir^ e estava 
bem descuidado doperií^o, ciue oíimcaçava, quando 
appareceo Bocca-Negra com numa Esquadra formida^^ 
vel , e surgindo na entrada do Rio lhe cortou a safai* ■ 
da para combater, ou reiirar-se» Parece, que os navios 
d*alto bcrdo Portuguezes tinhão então largado o blcv 
qucio, talvez para se irem prover ao Algarve, ou Lis* 
DOá , como costumavão} pois que este acontecimento 



(i) Mtm^íçhh lm\ut\2 , tomo íl***, U° tt , Capi 



fi 



I|,€ tò, Vt 



I 



he yi i6^^mr\o de x^ii. Hum fcHTí estratepemn snlvôu 
[a Esquadra da ultima ruina: tinhao-se tomado duas 
embarcações! inimigas carregadas de azeite^ e o Almi- 
^ranre Façanha , aproveítando-se de huma noite cscirra , 
e de huma forte correnre, as largou incendl^idas pelo 
Rio abaixo, o que metreo os Hespanhoes em tal con* 
fiisão, que corxiíráo, ou largarão logo as amarrrs , pa- 
lia as deixar passar; c as Galés Portuguezaf?, nue as se- 
guião de perto cm linlia mui cerra d. i , gcJtiJjárao ò mar 
largo, e navegarão pira Lisboa a salvamento. 

1^70 — Parrio de Lisboa em Março para Barcelo- 
na huma Esquadra de Sete Gales, para trazer a Infan* 
D* Leonor, filha de Di Pedro, Rei de Aragão, com 
^ qual El Rei D* Fernando se contratara a casar , o 
«juc não teve efFeiro. Estas Galt5s hião soberbamente* 
adornadas, com particularidade a Capitania; e toda 
â gt*ute^ que as guarnecia, incluindo os reme iros, ves- 
tidos de feda de varias cores. Ignoro o nome do Che- 
fe, q lie 'OOtp mandava a Enquadra, senão era o Conde 
D. João Affcmso Tello , a quem hia encarregada a> 
comroissão de conduzir a Infanta, e a distribuição do 
grande cabedal que ElRei mandava (i) para differen* 
tes despesas* 

Na noite de 23 de Fevereiro, deste mesmo anno 
koiíTc tSo grande tormenta em Lisboa , que naufraga- 
rão muitos navios mercantes, è a maior p.rtc de huma 
Esquadra, que se estava armando, em que se affogou 

muita gente. (1). 

', I . , 

^ly Ff. Manoel dos Santos no tomo 8," da Monarcíiia lusitana , 
L* aa, Câp ** i5, diz, ^i»e a Esqliadra leviiva quatm iníl nurcos de 
«UR3,' <t^^ *»<^F valeriáo j :i 5 2^000 cruzados. Duarte Nunes^ de Leão 
n> sua Gif^^inca d'£lRci D, lernando, àn cjuc le%ava dtsoiu ^ainia^s 
dt mtr^\ c f tropo Lopci na Ciuouica vieste Rtf» , Cap.* 4% , csaerei 
cjue eráci vié ijuatra mil m^rcoi lU ottro ^ e protíi nenfyitjUíi, 

C2J FerDão Lopes, Cap.° j 9 — Duarte Munts, Ghrohita do mes* 
PM» lUi* ' • 1 

õ ii 



IJ73 — Em Fevereiro deste anno cercou D. Hl^ti- 
rlqne a Cidade de Lisboa com grande Exercito, e El- 
Rei D, Fernando, que estava embetesgado em Santa- 
rém , expedio logo o Almirante Paçanha , João Fociíu, 
e Vasco Martins de Mello, para armarem os navios 
que lhes fosse possivel , e defenderem o Rio a huma 
Esquadra de doze Galés, com que o Almirante Bocca- 
Negra vioha de Sevilha a bloquear o Tejo, Armadas 
com brevidade quatro Galés , e alguns navios redon- 
dos, se fc3 o Almirante á vela para ir encontrar os 
inimigos-, e pouco se tinha affastíido da Cidade, quan- 
do descobrio algumas Galés Castelhanas adiantadas da 
sua Esquadra, que ja vinha entrando* João Focim, que 
comraandava as Náos, queria com razão, que se abor- 
dassem estas primeiras Gales, que serião inf;illivelmente 
rendidas j porém o Almirante, por cobardia , ou Ígno* 
rancia o não conscncio; e assim vicrão eJlas a salva 
dar fundo diante do Arsenal, ^ apôs dVllas toda a 
Esquadra ^ fazendo o mesmo a Portugueza pouco arre^ 
dada. ! 

Os Hespanhoes reforçarão fogo cora mtiita gente 
as guarnições das suas Galés; e Paçanha, pelo contra- 
rio, abandonou as suas para ir ao Senado da Camará a 
pedir-lhe conselho. Joio Focim dcsembíircou rambem ;. 
6 os soldados, vendo cm terra os seus Generaes fizerâo 
o mesmo, ficando a bordo das Galés, e oavios os mari- 
nheiros , e as chusmas. Aproveitou-se Bocca*Negra 
de occasiâo tão opportuna, c investindo a Esquadra 
Portugueza, tomou alguns navios, mas as Galés escapa^ 
rão fugindo pelo Tejo acima. 

ElRei, indignado da conducta do seu Almirante^ 
tirou-lhe o Posto , c o proveo no Conde D. Joãa 
Affonso Teílo, que tiíiha muito valor, e nenhuma pç» 
ricia naval (r). 

(i ) Fernão U>^t t Ci^** 14^ 
u ò 



37 ^^^ 

' T3r74— Mesre anno, ou no seguinte mandou El- 
Rei D, Fçrnando oCapitíoMor do Mar cem cinco Ga- 
tós bem armadas em auxilio do Rei de Cnstclla, contra 
os Inglezes , as quncs reunindo-se a huma Esquadra 
Hespanhola , que commandava o Almirante Fernão 
Sanches de Torar, forão ás Costas da Inglaterra, on- 
de fizerãti alguns daranos (i). 

1381 — Para obstar ao mal, que poderíao fazer 
ao CommerciOj e Povoações maritímas de Portugal as 
forças navaes, que se prcparavão em Sevilha, fez El- 
Rei D. Fernando aprestar huma Esquadra de vinte e 
humn Galés, huma Galeota, e quatro Káos, que saliio 
de Lisboa s 11 de Julho. Era fcu Alrairante o Conde 
de Barcellos D.João AfFonso Tello, na Gale Real, e 
Capitio Mor Gonçalo Tenreiro, embarcado em outraí 
coramandavão as demais Galés , Estevão Vaz FIlippe, 
Gonçalo Vasques de Mello, Aires Pires de Camões, 
João Alvares Pereira , AfFonso Esteves da Azambuja^ 
AíFonso Annes das Leis, Gil Esteves Fariseu, Ruy 
Freire de Andrade, Álvaro Soares > Fernão de Meira, 
Gii Lourenço do Porto, Estevão Vasques Filippe, ç 
outros* A guarnição da Esquadra chegava a seis mil 
àomens, incluindo soldados^ marinheiros, e remeiros, 
|X)rém a maior pane destes últimos compunha-fe de 
campoDczes, trazidos por força das Proviucias (3): e 

ft> Fernão Lopes, Cap,** çj. 

CÕ F^mío Lopes, Cap** 1^4, 125 , c 1^6. — Tgnorn imzm^ 
fc^ que o Chronbta Fr. Manoel dos SantO"? no tnmo S.®, L** 12, Cap." 
46 , 5e affasra aqui de Fernão Lof>en ( «e^^umclo-o em todo o resto da 
^^crip^So desfa batalha), para dizer, cue a nnsia Eii[iJadra Uvévú »tl$ 
»i' k^mfttt de arwd/ , aíetn ãã chusma Hcs mçrinbdnn ; quando Fernia 
Vo^€% «lítiritu, que na Gaíc Real biáo cím^oiLata hcnum d< armú$ % e 
he evUente, <ue «endo esta a maior, não podíáo tt outras levar maior 
iiiriDe^o de soíJados; nem as Galts admiftem muitos, ermo obiervei 
em hjifra , f|ue n conservava «m Catcliagena para friemoria| uo ant;a 



S8 

como na Tactíca antlg^i quasi todâs as evoluções em 
hunvã baralha se fliziao a remos, e o hom, ou máo re* 
rulrado delias dependia da pericia das chusraas, a estú- 
pida ignorância d:is desta E^qipdra a rcrnava mais 
formidável na appnrencia, do qie na realidade. 

Chegado o Conde de BarceUos ao Algarve, e sa* 
bendo que a Esquadra Castelhana , forte de dezesetc 
Galés, e commandada pelo Almirante Tovar, havia 
pouco se retirara daqueUa Costa ^ o rttribuio a terror 
pânico^ c sem mais conselho, nem disposição, ou pla- 
no anticipado, correu a buscar os inimigos em tanta 
desordem , que acontecendo estarem pelo mar espa- 
lhadas muitas bóias das redes, dos pescadores, a duas, 
e três léguas de distancia , arriarão as velas oito Ga- 
lés, e forão demanda-las a remos: as outras continua* 
rão a navegar com vento escasso, e bonançoso; e aa 
de Gil Lourenço, e de Gonçalo Vasques, por serem 
mais pesadas, e menos veleiras, ficarão á ré, xomosact 
cedeo pnr iguaes rizoes ás quarro Náos; de maneira, 

5ue do7e Galés se acharão avançad.;s a perder de vista, 
LO meio dia de 17 de Julho descobrirão estas os mas* 
tros das Galés Casielhanis, que c^^ " urtas em hum 
lujçar chamado então Saltes* Afti fuies das Leis 

foi quem primeira as vio, c communicou a noticia ao 
Conde, que carregou logo, fazendo o mesmo as mai« 
GuIés, porem não qulz servir-se da Galeora para cha- 
mar o resto da Esquadra, como o Annes lhe aconse- 
lhava, e o senso cummum estava ensinando. Tovar, ob- 
servando a temeridade, e bisonharia do Coiide, veiç 
enconrra-lo com a sua Esquadra em linha, elle no cen-* 
tro, ' ndo a distancia convcnienie, cada Galé daf 
Siias 'Li huma das Portuguczas, cm ouanto a$ 

cinco, que lhe restaváo de vantagem « dobrando a nossa 
linha, a aí^saltavao de reve^z. A victoria não podia ser 
duvidosa^ c a pe&ar da bnu^a resistência individual du9 



S9 



i5c§, e solda dns* qiie durou algnmss Vora!?, tor 
íze Gn!és tomadas, lipverdo de ambas as partetj 
poucos mortos, e muitos ft ridos. 

As oito Galés, que andavao levantando redes C^o»'j 
mo se para Í5sa houvessem sido mandadas) acudirãoj 
tarde, e cm desordem ao combate; e atacadas por to^j 
das as forç?s do inimigo, scPrèrra igual destino. Es*| 
capou a Galé de Gil Lourenço, porque vendo de lonid 
ge a perda da batalha , se poz em fugida , avisando dei 
caminho as quatro Naof?, que nada snbião da acção /] 

Íe todas se recolherão a Lisboa. As Galés rendidas en* 
Irarão em Sevilha, onde ?e mettérão barbaramente 
ferros tcdos os prisioneiros , excepto o Conde , e Gonf>j 
paio Tenreiro (i\ i 

. Com esra batalha parece, que ncaboir a Marinha] 
rortugucza , como se verá nos dous flictos seguintes ^1 
tjn que ella deveria figurar, se ainda existisse. 
Primeiro: Nos fins de Novembro, ou priocipiotj 
<Je Dezembro deste mesmo anno de 1381, achando^s^i 
em Lisboa á Frota Ingleza de quarenta e oiro embarWl 
cações de guerra, c tmnsporte, com que o Conde dl 
Cambridge viera auxil^r a El Rei D- Fernando nest»! 
guerra, que intempestivamente , e contra a opiniac^ 
Unanime de .todo o seu Conselho declarara a D. Joaal 
L de Castella , entrfui no Tejo para a tomar, ou dcs»;| 
Iruir o Almirante Tovar cora a sua Esquadra , ainda f 
'acrancicso da victoria antecedente. Mas ElRei , que] 
ve anticipada noticia do objecto da expediqão, fc2í| 
fccolher no Rio de Sacavém os navios Inglezes, e to-j 
'qs o« mais que estavao em Lisboa, smarrando-se os 
Èlraiorcs na bocca do Rio com as popas para o mar, 
Dem guarnecidos de trçns ^ e outros irtificios, e enge^, 
ubcs usados naquelles itmpos ^ dcícndida a entrada 1 



(1) Finiio lopej no lugai cíííuK t4*ii'(*'í; ioíiuíí « 



4Ç 

com du?!5 grossas cadca?, que a ^travessAvío ; edehtima, 
e de curn parte na rcrra próxima muita gerirc, com 
trons ^ e engenhos para os proteger. O Almirante Hes- 
panhol chegou sem obsticuio a Sacavém, e reconhe- 
cendo a piísição dos navios^ e julgando^a inatacável, 
sahio do Tejo; o que os Inglezes também fizerao a ij 
de Dezembro (i). Admira, que hum Oííicial tao intel- 
ligentc^ coraoTovar^ nao tentasse queimar os navios 
amontoados em hum Rio estreito, aproveitando a occa* 
siao opportuna de maré c vento favorável, que não 
padia fciltar-lhe naquelh cst^íçao ! 

1382 — Segundo: A 7 de Março entrou no Teja 
Iiuma Armada Castelhana de oitenta navios , entre 
grandes e pequenos , cora muita gente de guerra. O seu 
intento era' fazer huma diversão ás operações militares^ 
qne se m^atlcavao no Alemtejo entre o Exercito d*P^I- 
Rci D* Fernando , reforçado com as tropas Inglezas do 
Conde de Cambridge, seu alliado, e o Exercito Hes- 
panhoL Demorou*se a Armada sobre Lisboa até Setem» 
bro, commettendo grandes hostilidades por huma , e 
outra margem do Tejo, sem a menor opposição (2), 
Mas se a nossa Marinha acabou neste Reinado infc- 
Jiz, no seguinte a veremos renascer das suas cinzas, e 
tomar hum alto vôo, que só declinou com a morte 
d*ElRei D. Sebastião. 

Fallcceo ElRei D* Fernando no anno de 1383. 

Reinada iPEJRei D. Joãa L 

« < 

A época mais brilliante da Gloria Portugueza co* 
iDcça no Governo deste illustrado Monarcha, por re- 
rcm nelle principio aquelles immortaes descobrimentos, 
que se forão successi vãmente dilatando, a par dos pro* 

(l ) Fernão Lopss , C^y^.^ i n* 

(í) O iDcimo Histoiiador, Capw^ ijf. 



41 

^m?3s da Scícncía Náutica, e espirito niêt^ntffT^té 
a íinal penetrarem nas extremidades do Globo : hábil 
ICaerreiro, e consummado Politico, soube arrancar os 
j^eus Estados das mSos de inimigos estrangeiros, e do- 
mésticos, e fazendo constantes, c bem combinados es- 
forços para restabelecer o Commercio, e a Marinha 
I que achou destruída , obteve a satisfação de ver sahír 
dos Portos do Reino armamentos consideráveis, e de 
h>ubiica utilidade. 

Os Portos de Lisboa » e Setúbal estarão ainda 
abertas ás invasões dos navios inimigos, que entravao 
kUcs quando bem lhes aprazia, tomando , ou destruin- 
do as embarcações mercantes , que achavSo surtii^. Es- 
tas perniciosas visitas forao obviadas com a constriuc- 
ção da Torre Velha na margem do Sul do Tejo, e a 
do Outão em Setúbal (i). 

No seu Reinado houverao dois Capitães Mores 

Vdã Frota ^ ou Generaes dos Navios de alto bordo; ò 

irimeiro foi AfFonso Furtado de Mendonça , de cuja 

lercê nâo achei a dat^ , e o segundo o Conde de 

ibranches D. Álvaro Vasques de Almada por Carta 

'passada em Cintra a 25 de junho de 1423 , em que se 

declara ^ Que será Capitão Mor pela maneira, porque 

o fora Gonçalo Tenreiro era tempo de seu irmão Èl- 

^Rei D. Fernando (e também no d'ElRei D. Pedro L), 

|C AfFonso Furtado no seu próprio tempo; e que todos 

^Qs Patrões y Alcaides ^ Âr raízes ^e Pintiiaes^ Comi* 

três ^ € Besteiras^ Galeõtes^ mareantes ^ e marinhei* 

\tQS por tal o reconheçâo, e lhe obcdeçáo; e que pos- 

ja com elles fa'z>er justiça , ou em cada bum delles ^ 

[ou como Elle Rei faria, se presente estivesse: e Or- 

[dena a todas as Justiças, que cumpr^o as suas Carta?, 

k mandados em todas as coisas, que elle lhes disser e 



O) Sevcfim, Notiçid5 de Portu;âl, Discuno 3.<? §* ia* 



42 

mandar cm seu Real Nome, e que pertencerem a seu 
Officlo, sob pena de serem punidos como os que não 
cumprem os mandados de seu Rer— (i). 

As clausulas desta Carta sao notáveis, por corn* 
prehenderem grande parte' da jurisdicçáa do Almirante 
do Reino , segundo a determinou EIRei D* Diniz na 
Carta da crcaçao deste Cargo ^ que dei por extracto 
na Memoria do seu Reinado; e pôde d^aqut concluir- 
se, Que o OíHcio de Almirante estava reduzido nas suas 
attrlDuiçâes, o que explicarei melhor quando tratar da 
BOssa Legisíaçíto NaraL 

Antes de entrar cm narração das viagens para de^ 
cobrir novos Paires, cumpre di-zer alguma cousa do 
seu auíhor o Infante D* ílenriqiH: (z). 

Nasceo este magnânimo i'rincipe a 4 de Março 
de T394, e desd« os primejros annos mostrou inclina* 
çáo aos exercícios militares ^ c estudo das Sciencias^ a 
que se applicou desde logo, habilitndo por bum juízo 
são, eexceilente memoria, O seu génio meditativo, e 
indagador^ em breve llie dco a conhecer, que Portugat^ 
encravado por hum lado no extremo Occidental da Pe>* 
ninsula , c cercado de mar pelo outra, nunca poderia 
tornar-se huma grande Potencia, se nao achasse fóra do 
Continente os cfenicntos de força ^ que lhe faltavaa pa* 
ra ser nelle poderoso, creando hum Commerdo ma- 
ritimo com os Puvos de Africa existentes alem do» 
limites, a que se estendia a navegação costeira da Bar- 
beria ; dos quaes davao confusas noticias algumas anti- 
gas Viagens, mais, ou menos ncreditaveis , e asjor» 
uadas realizadas por terra até á Ásia nos dous séculos 
antecedentes. 

Estas luzes lhe bastarão para^ ousar emprehender 

CÔ PíO**a$. i Hiftoria Genealógica, tomo k* , tie pag. 17 ir até 
■74. 
(a) Vede BafTOf , Década u V L*> i.^ ^ Cap^^* a ». 1^ 



43 

t>s primeiros descobriraentus , mandando pequenas emp 
barcaçoes á sua custa ao longo da Costa de Africa pa- 
ra o Sul, que não sendo ainda bem manobradas, e di- 
rigidas , adiantarão pouco os conhecimentos -práticos 
d'aquelles Paizes , como irei mostrando na ordem 
chronologica , que me propuz seguir. 

Nas duas expedições de Ceuta era 1415', c 1419 
^ampliou o Infante as suas ideas nas frequentes conversa- 
ções com os mercadores Mahometanos, que alli concor- 
xiao de Fez, de Marrocos, c de outros Reinos, e Provín- 
cias do cemro.de Africa , que estavao em relações com- 
tnercnes com os do Egypto , e da Arábia. Assim con- 
sta , que por elles soubera dos Jalofos , que confinao 
com as raias Austraes do vasto deserto de Sarah; e he 
provável , que no discurso das suas indagações sobre a 
direcção, e posição daquelles diíFerentes Povos, viesse a 
coníirmar-se em que as Costas da Arábia erâo banhadas 
pelo mar, bem como as da Africa, pela banda do Orien* 
te, noticia de que o seu raro talento talvez conjectu- 
rasse, que continuando a correr para o Sul a porção 
da Costa Occidental d'Africa ja conhecida, se chia- 
ria a hum ponto, mais ou menos remoto, onde for- 
çosamente elia havia mudar de direcção para o Nor- 
deste, e fazer hum Cabo, cuja descoberta seria da mais 
alta importância aos Portuguezes , para abrirem cami- 
nho ás Regiões Orientaes tão cubicadas. 

Séria aqui o lugar conveniente para lembrar os 
deus celebres Mappas, de que fazem menção alguns Es- 
criptorcs nossos: o primeiro trazido pelo Infante D. Pe- 
dro á volta das suas viagens no anno de J428 ; e o se- 
gundo, que se diz achado no Cartório de Alcobaça em 
1528, desenhado mais de cento c vinte amios antes: 
^mbos tenho por apócryfos (i), á vista do que moder- 

0) Vede as duas Mcmcrias do Consellieiro António^ Ribeiro do$ 

G ii 



44 

narnetitc escreverão a favor, ou contra a soa authenti- 
cidade alguns Sábios de abalizado merecimento, 

A fim de promover a execução do seu vasto piar- 
no de descobertas, e melhorar os conhecimentos das 
Sciencias necessárias á Navegação, escolheo o Infante 
para sua morada em 1419 depois que voltou de Ceutsr, 
a posição vantajosa do Cabo de S* Vicente (o Sacrum 
Promontorium dos antigos), onde edificou a Villa a 
que deo nome de Terça*Nabal chamada hoje , Sa- 
gres, em huraa pequena Enseada , que lhe serve de 
Porto , e offerece abrigo aos ventos dominantes no Ve- 
rão. Alli crigio o primeiro Observatório , que vio Por^ 
tugal, c não sei se a Europa, e no seu próprio Palácio 
estabeleceo huma Escola de Mathematicas, de Nauti* 
ca , € de Geografia , para organizar a qual chamou Sa-» 
bios nacionaes, c estrangeiros com vantajosos partidos, 
entre elles o Mestre Jaime da Ilha de Malhorca, fa- 
moso pelos conhecimentos nas Sciencias auxiliares da 
Navegação « que vinha ensinar, e na construcção de 
Cartas Geográficas, auc a Escola de Sagres convertea 
depois em Cartas Hidrográficas Planas, por não servi- 
rem aqucIUs para o uso da Navegação (i), as quacs 
durarão séculos (ainda ha menos de trinta annos não 
kavia outras iiu Mediterrâneo )j até que Mcrcator dcs^ 



SmtOf, a primeira intitulará :^ Sobre ^il^nt Mathemiticor Portuf:iiei«t 
ctc. , e ã segii4ida n Sobre os antigos Mappai Gçot^ra6cof do Iiifaiite D, 
^cdíos=& a IHemOfia do Acaikmrco Sebastião Franciíco de Mendo Trí- 
gozo, que tem poc titulo = Sobre 01^ Descobri mentor dos Fort u^ueiet 
erc, « e todas le adilo no tomo S*^ das Memoriai de Litteratura daAet* 
rtemia Real de Lisboa ^ V^jarse também a Obra do dili^ntc Hmori»* 
dof James Staoier Qarke, imkuladã— Tbe Progrew of Maritime Ptt* 
Lovery , U* a.", Cap.* 1^.^ , que nega a veracidade daquelles Mapfas; 
e a Memoria do Teneote General Stockkr, que vem no volume i,^ 
das suai Obras a paj;. í4í ^ onde d«froe os argumentos a favor d«rileti^ 
(1) Vede o Ensaio sobre a origem das Machcmaticas^ etc do meip 
mo GeneraL 



4S 



'cofifío os princípios fundaraentaes dns Cartas Reduzi- 
das. Fez-se também vulgar o uso da Bússola , e de ou- 
tros instrumentos náuticos noraraente inventados, pos- 
to que imperfeitos, de grande vantagem para os Na* 
vegantes^ que até alli não levavao nem Agulha , nem 
Carta , nem instrumento algum. 

Entre os muitos obstáculos, que cí;te Sábio Prínci- 
pe teve a vencer ^ não foi hum dos menores a preoccu- 
paçaa do Povo, que cegamente se oppunha, gem o sa- 
Der, á gloria , e prosperidade de Portugal j porque ven- 
do4he commetter huraa empresa tão nova, arriscada, 
e dispendiosa ^ na infância da Navegação, murmurava 
insano , accusando de ruinosos os seus projectos , c 
agourando desgraças imminentes , scgiindo o acredita- 
do provérbio = Quem passar o Cabo de Não , ou vol- 
-tara, ou não (i). Dava mais calor a esta inquietação 
30pular a opinião dos Filósofos do século, que apoia- 
los era Escritores antigos, e em alguns máos pnnci- 
oios de Fysica , sustentavão que as Regiões visinlias da 
Zona Tórrida não podião ser habitadas, O tempo, 
|ue sc4 descobre os erros da Filosofia, e os da Politi- 
íca , patenteou era poucos annos os destes Sábios; e en- 
ío os mesmos, que tinhão assignalado o Infante como 
[destruidor do Reino , o exaltarão acima de todos os 
^Príncipes do Mundo, Ordinário resultado de empresas 
felizes ! 

O Infante tomou para sua divisa, como se vê na 
«ua sçpuhuTã =Ta/ent de ifienfaire =.lst{} hsy Fm- 
taàe de fa^er bem. 

1384 — A 6 de Maio do anno de 1584 ficou alo- 
jado no Lumiar El Rei de Castelfa com hura numero- 
so Exercito (2), para dar principio ao cerco de Lisboa 

0) Btrns, Década t.* L*^ i.**, Cap.*** 14, e f. 
U> Vede a^ Memoria!! d*EÍRcí D. Joio I,^ tomo \? ^ Cap,^ aid^^ 
* í«pnnte$* — JVioiiafcliJ* Lusitana j tomo 8** ^ L,** x^ , cjue segue <m 



4G 



logo que entrasse no Tejo a sua Armada , sem a qual 
não julgava prudente começa-lo. 

ElRei D* João (que então só tinha o Titulo de 
Regedor, e Defensor do Reino) achava-se na Capitnl 
com poucas tropas, faltando-llie as das Províncias do 
Norte ^ que marchavao a reunir-se na Cidade do Por* 
to , para serem d'alli transportadas por raar a Lisboa, 
Esra operação carecia de mais tempo, do que tardaria 
a chegada do formidavxl armamento naval , que se fa- 
zia em Castella. Em consequência resolveo-se ElRei a 
armar prorapiamenre todas as embarcações capazes de 
navegar, e expedi-las logo para o Porto, a fira de que 
reforçando-se com os navios daquella Cidade, embar- 
cassem as tropas , c viessem forçar a todo o risco 2 en- 
trada do Tejo ; pois que deste soccorro dependia a 
conservação da Capital , e nella a de todo o Reino. 

Eristião apenas em Lisboa alguns desmantelado! 
navios, faltos de reparos, e de aparelhos, e os Arma- 
zéns quasi nada continhão; e comtudo era de impe- 
riosa necessidade aprestar em poucos dias huma Es- 
quadra. O^zelo, e o patriotismo produzirão aqui os 
milagres, que costumão produzir, sendo bem dirigi- 
dos, cm todas as Nações em que a Moral publica nlo 
está corrompida. Acudirão todos a obra tão nccessa^ 
ria : o Arcebispo de Braga D. Lourenço Vicente , Pre» 
lado cheio de actividade, e do espirito guerreiro do 
século , encarregado por Ordem Regia da superinten- 
dência do armamento, com huma lança na mão, c o 
roquete vestido sobre a armadura, corria a cavallo 
por todas as partes em que havia trabalhos, empregan- 
do ncllcs Religiosos, Clérigos, c Seculares, de qual- 
quer qualidade; e se alguns se aventuravão a quercr-sc 
escusar por motivo do seu caracter sagrado, respon- 

Uiéo 1 Feriiá':) Lopes — Chronica do dito Rei publicada pelo Arcebispo 
Um Koiiii^o cia Cuah^ 



47 



dia: Que tamljera era Sacerdote , como ellesi e Arc^ 
bispo, que era mais do que elles, A bordo dos narios 
Aavia igual actividade, calafetavão-fe huns, aparelha- 
Tão-se outros, embarcava-se em todos lastro, manti- 
mentos, aguada, e rouniçoes de guerra; e em breve 
tempo se aprestarão treze Galés ^ Iiuma GaJeota ,, e sete 
Káos. 

Foi noiDcado General das Galés, 6 da cxpedljãcf j 
Gonçalo Rodrigues de Sousa, Alcaide Mor de Monsa- ' 
lás, e erão Commandantes das outrat^ Ruy Pereira,* 
tio de D. Nuno Alvares Pereira , Goaçalo Vasques de | 
Me/Io, Vasco Martins de Mello ^ AfFonso Furtado de^ 
Mendonça, Estevão Vasaues Filippe, o Ccmn:endíi*| 
dor Lourenço Mendes, Manoel Façanha, Joio RoLlri- | 
guês da Guarda, Aires Vasques éz Almada, Antã<> 
Vasques de Altnada, Gil Esteves Fariseo, e Aires Pi- 
res de Camões. A guarniçád tia Esquadra constava dei 
oitocentos soldados^ e mais de três mil remeiros, el 
marinheiros, (i), 

Bcnico-se na Sé com solemnc pompa o EítaiHÍarwi 

te Real^ entregando*o ElRci cora a sua própria niãal 

ao General^ que o conduzio em procissão até á praia ^,1 

onde embarcou, e foi arvora-lo a bordo da Ga!é Capi*j 

íaaia; e estando para largar, emrárao peJo Rio humal 

Galé, e outros cinco navios Castelhanos carregados de! 

viveres para o seu Exercito, que servirão para o no?- 

sa, seaoo apresados iodos, menos a Galé , que pòdej 

fugir, I 

A 14 de Maio saMo a Esquadra, e aíiídií que' 

vento contrario fez no mesmo dia recolher a^ 

Káos^ tornarão a sahir no seguinte. Na Atouguia 

Qtiia o General ter conxmunlcaçrío com a terra, eWn- 

io-lbe defendida dos moradores por ordem de João 

Tl) Sendo ai Gaícs fMcc)ii«uas, ntccssitava esta Esquadra Jc j^joo 
Mmeitt de r«iiio, c marinliagem^ ~^^ ji:-: 



48 

Gonçalves Teixeira, Alcaide Mor de Óbidos, qal 
seguia o pirrido de Castclia, a quem cHcs obedeciao^ 
mandou o General desembarcar ãlgum.is tropas , e sa- 
queando a Vi lia , pasíiou á Cidade do Porto, 

Vio-se agora o botn resultado da prevenção d*EI- 
Rci em mandar sahir a teaipo de Lisboa a sua Esqua- 
dra , porque a 26 entrou pelo Tejo a primeira divisão 
da grande Armada Castelhajia , que erno treze Galés, 
^ huma Galeota, e três dias depois a segunda de qua« 
renta Náos. Era seu Almirante Fernão Sanches de 
Tovar, e Capitão Mor, ou General dos Navios de al- 
to bordo Pedro Afan de Ribera. Surgirão os inimigos 
em linha pârallela á Cidade , cingindo toda a frontaria 
do Sol desde Santa Catharina ate ás portas da Cruz; 
e por fí5ra desta linha espalharão muitas embarcações 
ligeiras bem guarnecidas, estacionando duas Galés em 
Almada para vigiarem o Rio; de maneira, que ficou a 
Cidade perfeitamente cercada da parte do mar, a unica 
donde podia vir-lhe soccorro: e o Exercito, deixando 
os quartéis do Lumiar, veio no dia 28 (1) occupar os 
postos convenientes para começar as operações do ata« 
que i cuja narração ne alheia do objecto destas MenK>« 
/ias. 

i ,. JíLA entrada da Esquadra no Porto mallogrou o pla- 
fío do Arcebispo de S* Tiago, que poucas horas antes 
chegara com muita gente para a sitiar, e foi vigorosa- 
mente assaltado, e expulso da posição, que occupava, 
pelos moradores reunidos as tropas que desembarcarão 
dos navios. 

Sendo aqui demittido Gonçalo Rodrigues de Sou-» 
sa^ por se toroar suspeita a sua lealdade, ofFcreceo-sc 
em nome d'EIRei ao Conde LX Gonçalo Coutinho 
poderoso Fidalgo, irmão da Rainha D* Leonor Telles* 

CO Acrnbeiro dif , que foi fio dii |O.Cipb^ lU 



'Governador^ e Si^nhor deCoimtvra, que se trocasse o 
partido de óistella pelo do seu Jegitimo Príncipe, se- 
lhe darh o ccramando vmcjo , CGm ouir.!s imporutitcs 
mercês que pedio ; o que ellc acceirou, ceden^lo primei* 
ro Ruy Pereira ^do^ direitos que liaba áquelle Cargo, 

A Cidade concorreo com ^s embircaçcíes, solda* 
dos^ e d^nliwiro cu/íc as circuostancias lhe permittião, e 
<io todo SC orgaai 'CU huma Equadra de dezescte Ga- 
téi^ e outris tantas Kaos (i)^ aqudlas catrpletamente 
srmaias, )x>r imnttr nellus o Coude muita gente sua, 
c estas aind^ íúts^ dt^ algumas cousas, 

Eni quanto sç rcpar^vao os navios armados de no^ 
vo, ííahio a Enquadra a correr os Portos, c Rios de 
Galliza, saqueando humas Povoa^^oes, poado em con- 
tribuição í.>uua:5, e queimando as embarcações surtas, 
Tccolhendo-se a final sem perda , c com dinlieiro que 
chegou para pagar três mezes de soldo a toda a gente 
da guarnição» 

No principio de Julho largou do Porto a Esqua- 
dra, sem esperar por D* Nuno Alvares Pereira (que 
corria do Aleratejo para ser da expedijao), e a 17 
veio surgir em Cascaes, que os inimigos oocupavão, O 
Conde D. Gonçalo , que ignorava o verdadeiro estado 
das cousas em Lisboa , por não ter tomiido lingua, 

I mandou de aviso em hum batel ligeiro a Joaô Rama- 
lho, Cidadão do Porto, rico, intelligente ^ e corajoso» 
o qual entrou em Lisboa sera ser sentivlo das embarca- 
J6es do bloqueio. Informido ElRci de tudo, ficou pe- 
saroso da pouca gente ^ e armas com que vinháo as 
Káos, e sobre tudo de não trazerem D, Nuno AI va- 
tes /e na mesma noite despedio o mensageiro com or- 
dem âo General , que em repontando a maré do dia se- 
guinte, se fizesse á vela, e entrando peia Barra, vies- 

(0 Manoel Sçvefi^Q numer) dczeicte Gak-i, c dcioito Nios. Dii* 

7 



se costeando a margem do Sul cm demanda da Cida- 
de, cobrindo as Náos com as Galés quanto posslvelj 
fosse, pondo todo o cuidado em evitar qualquer com- 
bate, que lhe retardasse a marcha ; m.is se os inimigos^ 
abalroassem, se defendesse cora todo o valor, que elle ' 
em breve chegaria em seu soccorro* 

Expedido João Ramalho com o mesmo segredo^ 
e fortuna com que viera , nessa mesma noite fiz ElRci 
guarnecer de gente alguns barcos grandes, e navios 
nacionaes, ou estrangeiros, que se acharão na Ribeira^ 
e a pezar da honrada opposíçao do Povo , que nao po* 
dia consentir se arriscasse huma vida , de que pendia a 
salvação do Reino, embarcou ao amanhecer cm hunx 
grosso navio Geno vez com quatrocentos soldados, mas 
tendo pouco lastro, e tamanho peso de gcíue era cima » 
deitou-sc á banda, c nao pôde governir; o quê obri- 
gou ElRei a sahir delle. Alguns Fidalgos se mettérao 
igualmente nas outras embarcações, que 6 vento, e 
maré de enchente levarão pelo Tejo acima. 

Entretanto EIRei de Castella, sabendo por espias 
a sahida da Esquadra do Porto, convocou na Igreja da 
Mosteiro de Santos o Almirante Tovar , o General Ri- 
bera , e todos os Commandantes das suas respectivas 
Esquadras, com os Fidalgos principaes do seu Conse- 
lho; e assentancio-se nos degráos áo Altar Mor, e os 
mais em circulo à roda delle, tomado primeiro jura- 
lúcnto de segredo, relatou as noticias que tinha das 
forças daquelle armamento , na falsa hypothese de se 
achar a bordo D* Nuno Alvares com as tropas do Alem- 
tejov e propoz i discussão, se seria mais conveniente 
dar*the batalha dentro do Rio, ou no mar alto, 

O Almirante, abraçando o voto unanime dos Com* 
mandantes das Galés , sustentou que a Armada cru- 
zasse sobre as Bcrlengas, para interceptar, c coniba* 
ter a de Portugal i porque danda-llic batalha no Rlo^ 



51 



|)õâefiaô Vir de Lisboa algumas embarcações armadas; 
que tomassem de revcz os Castelhanos no tempo em 
que combatião de frente com os Portuguezes, que entra- 
vSo. 

O General Ribera , ouvidos m Cnmtrandantes das 
Náos, foi de ôpimão contraria , fufidando^e na impos- 
sibilidade de conservar no mar alto as Niíos unidas 
com as Galés, e o perigo em que separada* incorreriao 
de serem successivamente tomadas pela Esquadra Poi^ 
tugiieza, que vindo ao lonf^o da terra com o vento da es-^ 
lajão, que era a seu favor, as aracaria com roda a 
vaoragem. E concluio propondo, que toda a Armada 
fosse dar fundo em linha acima acBclem, da banda 
do Norte, ficando as Náos na vanguarda ; e quando a 
Esquadra Porrugiieza emparelliasse com cila, todos os 
Davios se fizessem á vela > e a seguissem ; pois rcrráo en* 
tio a seu fivor o vento, c a maré, que lhes daria van- 
tagem: e em caso de desgraça , tinháo os Castelhanos 
segura a retirada para huma, ou outra margem do Te- 
jo, cujos ponrò*; principaes occupavâo as suas tropas ; 
alem dos reforços de soldados, que Uies virião do Exercitou 
Com este parecer se conformou EiRei , e o seu Consè- 
lho. 

He certo, que a Armada Castelhana, combatendo 
dentro do Rio, nâo podia padecer derrota; mas Tam- 
bém não evitava j que a Enquadra Portugueza penerriís* 
$e até á Cidade, sacrificando alguns navios; e a entra* 
da deste soccorro qt^ justamente tudo c que huns que- 
riâo obter , e que os outros devião embaraçar. : 

Em consequência daquella resolução, destacou To- 
varas duas melhores Galés, para cruzarem riuas Icguas 
ao mar do Cabo da Roca, e por ellas soube na tarde 
ào dia i6 a chegada da Esqu,idra do Porro; d que ca u* 
sou grande alvoroço a bordo dos seus n^.vios", onde em- 
barcarão logo de reforj^o muitas tropas; c ao amanhe* 

7 íL 



52 

cer se fez á véía com toda a Armada , ê roíaScS^r 
defronte de Belem» 

Pdas nove Imras da manha de i8, começaiula a 
encher a maré, assomou na ponta de S. Julião a Esqua- 
dra Portugueza, com vento fresco a hum largo, em co- 
lumna cerrada* Formaváo a vanguarda cinco Náos; na 
primeira, e maior de todas chamada Milheira, vinha 
o General dos Navios de alto bordo Ruy Pereira, com 
cem soldados de guarnição; seguião-se a ella a Estrclla, 
Commandante Álvaro Pires de Castro; a Farinheira, 
Commandante João Gomes da Silva ; a Sangrcata , 
Commandante Aires Gonçalves de Fígut-iredo; c outra 
çommandacla por Pedro Lourenço de Távora; nestas 
Nãos se achavao muitas pessoas principaes. Após esta 
divisão, que vinha hum pouco avançada^ marchava o 
Conde D, Gonçalo coní todas as Galés unidas pràa 
com popa; c logo sem intervallo as doze Náos restati*» 
tes, humas e outras embandeiradas, e tocando os insiriK 
mentos de guerra usados naquelle tempo. 

Logo que Ruy Pereira chegou a altura do fljnco 
da Armada Castelhana» orçou para ella querendo rcco^ 
nhece-la, ou provoca-la^ imitando o seu movimento as ^ 
quatro Náos da sua divisão i e neste meio tempo as Ga-^^* 
lés hião passando à voga arrancada encostadas í narre 
du Sul acompanhadas das doze Niíos: e Ruy rerci* 
fa, vendo ímmoveis os inimigos, arribou para reunir-se 
á ^a Esquadra. 

O .\lmlrantc Tovar, julgando opportuno o mo» 
tnento de largar, para se prolongar c<'m a Esqundra ■ 
Portugueza em linha parallcla per barlavento, e inter* | 
ccptar-Uic o caminho de Lifboa , sarpou ao mesmo rrm- 
po, largando 35 amarras; e hia p6r-se em seu alcance^ 
quando Ruy Pereira, que conhecia a importância da 
entrada do soccorro naquclla Cidade^ e estará resolu- 
to, a sacciãcar a vida por obter cão graude rcsuliado^. 



53 

de Io no bordo do Norte com a ftia dIvi<ao; 
iraçnndOj e cortando os navios Castellumos , ain- 
desordenados da evolução, abordou a NáoS. ]c?.o 
'áeArenii, em que vinha o Almirante, fazendo as quatro 
do seu commando o mesmo ás iniffíiigns , que acharão 
inais adiantadas. Esta habil manobra espalhou a confu- 
são entre as Náos Castelhanas^ que por qutrcrLm acudir 
ao seu Almirante, se enredarão hvW'2s com a« outrn.s; 
e as qiic se resolverão a seguir a Esaaadrn Fortugiieza , 
o fizerâo tão tarde, que não pcdérao travar crm elja* 
As ciiico Náos Portuguezas entrt canta,, abalroa- 
das por rodas as partes por inukas Castelhanas, forno 
levadas em montão pela maré, e vento até ao Pontal 
de Ossilhas. Era a bordo de iodas desesperada a pe- 
leja > sobre tudo na do intrépido Ruy Pereira^ onde 
carregava a multidão dos inimigos ^ que elle tinha mats 
de faumâ vez rechaçado, quando huma frechada lhe 
deu peia testa » e o deixou sem vida* Assim acabou glo- 
riosamente bum dos assignalados Varões do seu sccu'- 
Jo, que occupa mui distincco lugar na guerreira fami^ 
lia do Cond estável ! 

Com a sua morte se rendeo a Náo Mllheira, e 
mais duas, salva ndo-se porém outras duas , que vierãa 
surgir na Ribeira, onde se ajuntou o resto da Esqua- 
dra. EIRei sentio, como devia , a perda de Ruy Perei- 
ra no momento em que acabava de gaiiliar huma ver- 
dadeira Tictoria, mcttendo em Lisboa o socccrro que 
a. assegurava do perigo eminente, em que estava; e 
^endo*5e agora com forças marítimas mais respeita'- 
"reÍ55, determinou aproveitar-se (i) de alguma conjun- 
ção de vento, e maré favorável para assaltar » om van- 
t^agem a linha de ancoragem doíi Castelhanos, <^ que 
mào teve effeito pela chegada de ]ium reformo de navios 

(i) Vede a Monarchiíi Lusitarja, tomo %S ^ U" 2} , Cap,' 3i. 



54 

de Sevilha , que elevou n sui Armnda a dezeseis Ga- 
Jéi , sessenta e Imma Náos, e outras muitas embarca- 
ções de guerra mais pequenas. Rni consequência deste ■ 
incidente, mudou EIRei o seu plano ofFensivo em de- 
fensivo, mandando abícar na praia os navios grandes , 
c amarrar as Gales com viradores em terra, e as proas 
ao mar, guarnecidas de cspald6es que cobrírSo das ar- 
mas de arremedo a gente, que as defendia ; e cada liu- 
ma com seu Commandante, e alguns soldados, alem 
da m.irinlngem. 

A experiência mostrou em breve o acerto destas 
medidas , porque a 27 de Agosto (i) , aproreirando-se 
os Hespinhocs de terem maré de cheio de aguas vivas 
í!0 nascer do Sol , saliírao com as suas Gales na direc- 
ção dí Oeste, figurando nos movimentos hum exercí- 
cio de manobras ; e chegando defronte do Arsenal, on*- 
de a nossi Esquadra estava disposta pelo modo que ja 
expliquei, voltarão de repente sobre ella, e vierão ao- ■ 
commetfC'la; fazendo ao mesmo tempo ataques falsos 
da parte de terra, para attrahir alli a attençâo dos cer- 
ca do<7. M 

EIRei, a cujo cuidado não escapava movimento 
algum dos sitiantes por mar, ou por terra, estava na* 
quella occasiâo observando do Palácio do Castello as 
evoluções das suas Galés, c logo que cilas virarão, 
penetrando-lhe o intento, correo a galope á Ribeira ^ 
onde achou ja muitos soldados, e moradores bera ar- 
mados que vinhâo soccorrer os navios, e a sua presen- 
ça influio nelles tal valor, que quando os Castelhanos 
os abordarão, fòrao rechaçados com muitos monos, tfe* 
ridos, e a perda de huma Galé, cujo Commandanrc 
Vasco Martins de Meira acabou na acção, a qual du« 

(O Moairchli Lutitanj, ibí| C»p.* t-i-^Nem Acenliciro, nem 
o Arcebispo U, RcRirij^o faiem meação deste combate ^ «^ue tem com- 
ludo ot cáric£eri$ticof de ve:ôa«kuo. 



hb 



[rôuatéque a vasantc da agua obrifiou os Casullianos 
Urecirar-se, sem poderem recobrar a Galé perdida. 

Aqui esteve ElRei ro perigo mais eminente, por* 
iQue entrando pelo mar dentro a cavallo, lho matarão 
Idchum tiro de arremeço, e ao caljjr, o kvcu ckbai^ 
jo sem que pessoa algunu o visse; mas a Frovidencva 
permittio, que podesse desen.baraçar-se , e saliir a sal- 
vo- 

, Durante o resto do tempo que durou çnc memo- 
rável cerco de Lisboa ^ não achei outra alguma acção 
naval, que mereça lembrar-se. 

14O) — Havendo-se despojado este anno em Lis- 
boa a Senhora D, Brites, filha natural d'EIRfÍ D, 
João, com Thomaz Fit2 Alan, Conde de Arundcl , a 
conduzio a Inglaterra seu irmão o Senhor D. Affbnso, 
cora João Gomes da Silva, Alferes Mor, e cutras 
muitas pessoas de distinc^^ão , em huma Esquadra de 
ires Galés, e vinte e oito navios redondos , entre gran- 
des e pequenos, que chegou aos Portos daquclle Rcl* 
no nos iins de Novembro (i). 

1412 — Não se conhece com certeza a época eni 

3UC, por mandado do Infante D. Henrique, fahírao 
e Portugal os primeiros Descobridores a correr a 
Costa Occidental da Barberia; mas sabe-se, que neste 
anno de 1412 mandou huma embarcação a essa com- 
nússão, e talvez fosse a primeira que dobrou o Cabo 
de Nâo (2), 

As embarcações empregadas nestas viagens crão 
grandes barcos Latinos de coberta , demandando pou- 
co fundo, e pequenas equipagens, sy?rcma bem adapta- 
do ;:s circunstancias j porque os Descobridores paruão 

» 

(1) Chronica de D. Joio I, pelo Afcebispo l\ Rodrigo, Cap.* 104 
Vede ã Hittoria Genealo^^ica, lotr.o 5.", pa^. it. 

(^1) O Cabo dt Sào tná «ííuadn na Cesta OccK^entaí iía Africa 
em aK" jo' de Lat. N., c 6=^ $0' 45'- de Lons. PrcxiiiiO t este Cabo 
li« tiuniA boa Balira^ onde \tm desaguar hum Rio» 



56 



no Veriío, em que dominao ni\ Barbcria os ventos do 
primeiro quadrante, e sobre uido os do quarto, com 
os quaes hiao á pona ^ mas na vcilta para Portugal^ 
como e^^cs ventos ficrivâo ponteiros, era-lhcs ncccssa- 
Tio vir bordejando pnra o Norre , até avistarem algutu 
p ^nro da C ^5;n ia conhecido, donde podessem arraves- 
s ir em bu«:ca dt^s Porto? do Algnrve , sem riaco de se 
desgarrarem para o Occidcnte. Tinlião de mais a van- 
tagem de se poderem chegar bem a terra, ou para 
buscarem abrigo, ou para cxamin-ircm os Rios, Portos, 
e Bailias que descobrissem; c sendo as suas guarnições 
pequenas, achaváo mais facilmente aguada, e refrcícos. 

Nestes descobrimentos empregava o Infante duas ^ 
e três embarcações cada anno (i), e ás vezes mais; e 
assim pornou com grandes despesas até ao anno de 
14^3, sem adiar hum navegante, que se aventurasse 1 
dobrar o Obo Bojador , que parecia tâo terrível antes 
de o ser, como parcceo pouco formidável depois (2% 

Não pude descobrir o nome do Commandante 
desta primeira embarcação, que se diz ter chegado ao 
Cabo Bojador (3), nem as circunstanciai da sua via- 
gem. A cada passo se encontrão destas omissões nos nos- 
sos antigos Escriptores, aié era matérias de grande im- 
portância, 

141S' — Continuou o Infante a mandar outras em* 
barcaçocs a descobrir a terra alem do Cabo Bojador, 
sem neahuma ousar dobra-lo, receando amarar-se tan- 
to, que lu voha não podesse tomar a Costa do Algar- 
ve, pois que ainda se não ousava perder a terra de ví<* 



I 



I 
I 



CO V^eifc BirrfH, DecatU 1,, L.« i., Cap.* J. 

(a) E*u lituado na Uc. N. 2(5* 9'; c Loi\^. y^ 42' 4f''; e tw 
cefcaJo í^e hum recife, que le estende maif cie hutiu lcgU4 aa iiur: 
da jxuttf áo Sul tem ltum.i Ei^tiâ com .incoridouro. 

Ci) F^ÍA e Í>oiisa^ Ásia i^ortu^ucia , tomo i., parte t. 



37 



ta;'c aqtjclle Cibo fahia mais de clncoenta léguas para 
oOccidente do Cabo cie Espartcl (í). 
rt^íK instada a Tregoa com Castella no anno 

de 1411, os valorosos filhos d*EIPvCÍ D-João, Principef-> 
na flor das annos, de raros talentos, ávidos de gloria ^ > 
t cubiçofos da honra de serem armados Cavalleiros, 
que era a maior daquellcs séculos, lembrarão a scuí 
Grande Pai a conquista de Ceuta, Praça no Reino de'' 
Fex, da raaior importância pelo seu Commercio ma- 
rítimo^ ricas manufacturas 3 e situação topográfica na^ 
bocca Oriental do Estreito, de que era Luma das cha^ ? 
y e Gibraltar a outra possuida então pelo Rei Ma- 
kometano de Granada. E ElRei, ou incitado por esta, 
idea, que abonava o Vedor da Fazenda João AfFonso^. 
Jcu tendo ja o mesmo pensamento , parece que formou 
logo o projecto de ampliar os seus Estados com algu- 
jmas Províncias Africanas, para cuja conquista serviria 
"e base de operação aqucUa Cidade j ao menos he cer- 
to, que conservou toda a sua vida o mesmo systema, 
como demonstra hum artigo do Tratado de Paz de' 
431 , de que adiante farei menção (2). 

Approvâdo o plano dos Infantes, a despeito dos 
bstaculos que se oppunhão a tão dispendiosa expedi- 
do, no momento era que o Reino começava a respi- 
rar das calamidades da guerra, á sombra de humi 
Tregoa com os seus irritados visinhos, gastárao-se an- 
los em completar os preparativos, por faltarem na- 
ios, munições, e sobre tudo dinheiro, nervo princi- 
pal de todas as empresas, e muito mais das maritimas^ 
por serem mui complicados, e falliveis os cálculos das 
^uas despesas. Tudo porem vencerão os talentos, e ex- 
periência d'EIRei , coadjuvado da perspicácia , e acti- 

CO FiTÍi e Soitia, A^ia PottugueM , lomò u , parte 1. 
fa) O fuudo da narrativa desta e^ipediçáo Ik r irado das McmO 
ífto d'ElR€J D. João h , xoííiQ j. , C*^^ alp , c seguintes. 



&8 

vidade dos Infantes, e do genio 'grierfeíru Ai Nsçao^i 
Ajuntárão-se a$ somnuis necessárias, independeu-»' 
tes de novos tributos > que nao se podiáo lançar > sem 
convocar Cortes , e descobrir por consequência o segre- 
do^ que cun:ipria guardar-se inviolável: supprio*se esta 
falta com *?Iguns empréstimos, c huttia severa econo- 
mia na administração da Fazenda, Examinárao-se pelos 
Portos do Reino os navios de Guerra, e Commcrcio 
em estado de navegar : reparárão-se os que erão susce- 
ptíveis de fabrico, e frer:irão-se alguns estningeiros, e 
consrruírão-se de novo as Gales que faltavao para 
completar o numero de trinta, de que se queria com- 
por Iiuma Esquadra , cujo armamento se encarregou ao 
Almirante Carlos Façanha; e a Gomes Loureiro a in- 
specção das munições e petrechos, e a compra dos man- 
timentos. 

Alisrou-se a gente de guerra sufKciente, cuja com« 
missão se deu ao Infante D. Henrique nas Provincias 
do Norte , tendo por ponto de reunião a Cidade do 
Porto j e nas outras Províncias ao Infante D- Pedro, 
com o ponto de reunião em Lisboa. 

Era de absoluta necessidade reconhecer o estado 
das fortificações de Ceuta , e os seus meios de defen-* 
sa; mas de hum modo tão disfarçado, que não excU 
lasse desconfiança nos Mouros. Huma e outra cousa 
obteve EiRei com este ardil: Chamou o Prior do Cra- 
to D. Álvaro Gonçalves Camello, e o General do Mar 
AfFonso Furtado de Mendonça , c instruindo-os em se- 
gredo da sua verdadeira commissão, os nomeou Em- 
baixadores á Corte Je Sicília, para representarem 4 
Rainha D. Branca, não ser possível o seu matrimonia 
como Infante D. Duarte, pelos graves inconvenientes 
que se seguirião da união uas duas Coroas , e que cnk 
seu lugar lhe offerecessem o Infante D, Pedro. Partiria 
cstei FidaigQS em duas magnificas Gales, e com prc-*^ 



59 

texto de tomarem refrescos, surgirão em Ceuta , ôncte 
5e dilatarão quatro dias (i) , sondando de noite o Por- 
to, e examinanda de dia a Cidade. Seguindo dafli a 
sua yiagem para a Stcilia, derâo a embaixada á Rainha^ 
e recebida a resposta negativa , que esperaváo , roltá^-: 
rão a Portugal com escala por Ceuta, a fim de recti*» 
ficarem as primeiras observações. ■• 

ElRei os ouvio cm publico, com fingido senti- 
mento do máo successo da negociação , e em particular 
foi bem informado do estado da Praça á viíta de hurti' 
modelo, tjue na sua presença construío , e lhe ex^íi*' 
Gou o Prior do Crato, em que represerftâVa a Cidaídd^ 
com a sua Bahia, e nesta os melhores pontos pára 
ancoradouro, e desembarque. Com estas noticias sé de^- 
terminou de todo ElRei aemprehendcr a expedição,' ea; 
comnmntcou logo á Rainha D. Filippa. O mesntò feià^ 
em segredo ao Condestavcl, que estava no Alemf rio i* 
indo para esse effeito encontra-lo, com pretexto 'doníH^ 
ina caçada a Monte Mor o Novo , onde ouvió áái 
bocca daquelle Heroe a completa âpprovação do^setf 
projecto. Era porem necessário còmmunicàr este aO 
Conselho de Estado, o que fez em Torres Vedriafí 
achármo^e presentes á discussão deste importante negó- 
cio (2), a Rainha, os Infantes, o Conde de BarGd;í 
I08, o Condestavel, os Mestres das Ordens de ChHs-* 
ro, S. Tiago, e Aviz , o Prior do' Crato, o Marechat 
do Reino Gonçalo Vasques Coutinho,. Martini AflSpii'^ 
SC de Mello , e o Alferes Mor João Gomes da Silva/ 

•Parece que ElRei esperava opposição da parte de 
alguns Conselheiros, porque guardando-se ainda AÍ^ 
quelie século o costume do Senado Romano, onde-íw 
votos «e- da vão de maior para menor, e competiiidl> 

, ■ > Oi-'í.'I 
(1) Assim o diz IVIattheus Pi?ano no seu Livro da Guerra dç. Ceu- 
ta 7 nem podia em menos tempo fa7er-se similliante reconhetipíentOi^ 
(,*) Acenhciro, Capítulo 11 vpag; âoç. 

8 ii 



OD 



per cor-- — "ch aos Tnftntes TOtar :iinçs qtie os ou* 
tros C ro?^ ordenou cite ao Condestirel (com 

quem estava de intelligrncin) ciue votasse primeiro, a 
que fez "• *iMndo a opinilo cl*EÍRei, e abraçada es- 
ta fucc core pelos íafant», oenhuni CòiBcIheiro 
otiK>u conrraiiizc-loi, e Peou o negocio por Toto uoanl* 
me approvado. 

Restara huma difficuídade a Tencerr Os Príncipe* 
visinbos, ioquietos nos armamentos dePoniigal, tra* 
tnthavao por descobrir o seu verdadeiro ehjecro; Cas- 
tella« ArJgâo, e Granada mandarão a Lifooa Embai* 
»dores, que yoltárao com respostas satisfectorias , me* 
nos os de Granada , que as receberão equirocas. Para 
engrossar mais o véo com que encobria este mjstcrio, 
mandou ElRet a Fernão Fogaça por seu Enviado ao 
Goode de HoUanda ^ para pedtr satisfação de algaos 
ipiUÍtos. que os Hollande^es commetrério no mir con- 
tra a Bandeira Portug^ieza, ameaçando immedlato rom- 
pwento flo caso de lhe ser nepda. O Conde ^ ja pv^v^ 
lido em segredo» oajÍ9 a embaixada em sda poolica^ 
t deu lal resposta a Fernão Fogaça , que poda imcr- 
pretar-se como huiai declarado de gucm. 

Este no^o ani&tio permdío a todos, que a e^ 
oedifao era contra as Frorlncias maritimas daquelle 
rwmáfe ^ posio que ElRei não o declarasse, nem d^ie 
^taUBMcr qoe qaeria commaiida4a em pessoa ; haveis 
dd n npgjfado por Geoeraca aos liifa.ntes IX Pedro, e 
D. 

A lõ de JoIKo cnrrou em Lisboa o Infante D. 
&wiqse cmii a Esquadra do Pono» composta de sete 
Gttttf eTtflie Nio9, bmnas e outras bem atmídas, 
mmÊÊginàa a bordo muitas, e valcrosaa tropss (i). 
ErãA Comroaadantct das Galés , o próprio Infante (iu« 

CO Srarin dli, 9ie cA> âemmm Ctàh^ e daceeita a tm t» 



ei 

tjuelle sffcuío o General em Clefe ccmtnandíiva o na- 
vio, em que hia a sua Insignta), o Conde de Barcel- 
Jos, seu irmão natural, D, Fernando de Brjígança , fi- 
Jho do Infante D. João , o M frechai GcnçaJo Vasques 
Coutinho, o Alferes Mor João Gomes da Silva , Vas- 
co Fernandes de Ataíde, e Grmes Martins de Lemos. 
Commandavão as Náos, D. Pedro de Castro , Gil Vaj?- 
ques da Cunha, Pedro Lourenço de Távora, Dicgo 
Gomes da Silva, João Rodrigues de Sá, João Alvares 
Pereira, irmão do Condestavel, Gonçalo Annes de 
Sousa, Martim Affonso deSousa, Mar tim Lopes de Aze- 
vedo, Fernão Lopes de Azevedo, Luiz Alvares Cabra!, 
Fernão Alvares Cabral, Estevão Soares de Mello, Men- 
do Rodrigues deRefoios, Garcia Moniz, Paio Rodrigues 
de AraujOy Yasco Martins de Albergaria, Álvaro da Cih 
nha, Álvaro Fernandes Mascarenhas, e Aires Gonçarlves 
de Figueiredo, Fidalgo de noventa annos, quê se veio 
cfferecer ao Infante com taes instancias, que obteve o 
commando dehumaNáo.OíFerecérão-se-lhe também do». 
zeCavalleiros de Baiona: qua si da mesma idade, que ten- 
A) servido em toda a guerra contra Castella, estavãoapo- 
Kntados comendo as tenças que ElRei Ilies havia dado; e 
posto que o Infante procurasse dissuadi-los, vic-se obriga- 
-lo a acceita^Ios. Tanto era o ardor, queanimava a Nação ! 

A morte da Rainha D. Filippa, acontecida nes- 
te tempo; e a peste em que ardia Lisboa, pozerão ain- 
da em contingjencia a expedição; que talvez se não 
realisára , apesar de se acharem feitas todas as despe- 
ças, e o armamento prpnipto, sem a actividade, e re* 
solução do Infante D, Henrioue. 

Finalmente no dia 23 de Julho, deixando encar-^ 
regado o Governo do Reino, cem Titulo de Vice-Rci, 
ao Mestre dcAviz Fernão Rodrigues de Siqueira (i), sç 

O) Acenbeiro, Cap.^ 21 , p9g. 21a» 



C2 



embafcnu RlRci' n^ Gnlé Real^ e na seguinte foí díf 
fundo na Ensenda dt? Sanra Carharinn, para recolher 
alguma gente que fjlmva; c no outro dia ly s»ihio a 
barra com toda a Armada. Hiao nelia embarcados^ 
alem do? Fidalgos ja nomeados entre os Commandan- 
tes de navios, os Infantes D. Duarte, l>. Pedro^ e D. 
Henrique» o O-iide de B.irceIIos, D* AfFonso de Cas- 
caes, filho do Infante D. Joáo, o Coiidestavel, seu so- 
brinho D, Álvaro Pereira , o Mestre da Ordem de 
Chrjsto D- Lopo Dias de Sousa , o Prior do Crato D, 
Álvaro Gonçalves Camello, o Almirante Carlos Paça- 
nlia(r), oConde deVianna D- Pedro deMenezes^ oGe- 
jieral do Mar AfFonso Furtado de Mendonça , c outros 
muitos Fidalgos, c pessoas notáveis, assim como muitoi 
aventureiros illustres Inglezes, Franceses, c Alemães: 
hum Barão destes últimos levava quarenta Cavalleiros 
seus ; e hum rico Inglez chamado Mondo (talvez Mon- 
go) ^ trazia quatro navios á sui custa bem guarnecidos 
4e frecheiros. 

Não ha certeza sobre as circunstancias deste armamcn- 
lo, mas em geral seconcorda em Ihedarcincoenta enove 
Galé$, trinta e três Náos, e cento c vinte navios rac* 
nores, com cincoenta mil homens (t)y nos quaes se 
devem entender (a meu parecer) os soldados, remei- 

(l) Acenherro , no lu^u cttadò, nomei aqui t Lançarote PâÇ»«« 
nlta; o mctmo icí;ue Matthcui Pl/aiío , «f o Arceí>Ísp>o D. Rodrigo á^ 
Curtiu no Cap»* %t ; mas contta qvc aquelle Almirante ftSra im^tsima- 
do «m hcjè no anno de i fS;, Vede a ^io^arclna Lusítini , tomo S.^^ 

(z^ Seçiunáo Mattbcus PÍMno (L' da Gucm Jc Ceuta, pa^, 41) 
constava j Atinada de vinte c sete GjIci (trircmituri) ^ de trintão 
dua* Gal cot os {híftmium^ ^ t se^fcnia e trej na%'io» redíxido* lic traia* 
porte (tiêviffiu a*n;raiÍ4irnm) ^ c de outrat cento e vinte embarci^tet 
•i — íicguíulo a Oironica do Ar*;ebisprt D. Roílii^o da Cunha (C^pJ^ 
J7)t compuníia-sc a Armadi ile trinta e tn^s Nãos grandes, vínt« e le- 
U Caléi de tre« rcm*>í f>or banco, trinta e duas de doif remoi eiclt 
biiico, e ctmo c vinte uavioi peiju^noi^ — O Conde dt Efícelim ^"i* j 



88 

"tos, e marinheiros, ícndt) vínte mil de = ***Veírc$, e 
o resto das outrus duns cUsscs (i). 

A 16 dobrou íi Armada o Cabo de S, Vicente, e 
icofou nessa noite em Lagos. No dia seguinte, Do- 
lingp , desembarcou ElRci eom tcdas as pessoas 
princjpaes^ e ouvio Mhsa na Cinliedrat; acabada a 
qual, leo Fr. João de Xira, Pregador Régio, a Eulla 
da Cruzada, que o Papa concedera cm beneficio drs 
que se achassem na conquista de Ceuta , ficando deste 
modo pafenie o segreda da expedição* Nq dia 30 par- 
tio ElRei para Faro, e acalma ndo. o vento, se demo* 
rou por aili até 7 de Agosto, que seguio viagem com^ 
Poneiíte; c avistando sobre a tarde o Cabo de Fspar* 
tel^ virou no mar, para vir entrar de noite no Estrci-» 
co^ como fez, surgindo em Tarifa. 

Governava esta Praça Martim Fernandes Porto* 
Carreiro, Portuguez , e tio do Conde deVianna; o 
qual sabendo que vinha alli EtRei, mandou a borda 
seu filho com hum grande refresco de vacas, e carnei- 
ros, desculpando-se de não ir cm pessoa, pelas obriga^ 



da át IX João L , t^' f/ , pa». jjj^ afriíira, que era de cínco*nC3i 
e 0ove GaJ« Rears^ f finta c três Nzos grossas, e cento c vinie nar 
lio* pequenos, c mais de cincotnta mil soldados; o que cm subsiaiv 
cia concorda com o epita6o do mesmo Rei, pcsto que este não indi- 
ca o ntimero dos l)omens; por(]ue diz " £"1 ingcuti um um nattirallmú 
Imyavtda f>Qt€nim ^ íum maxíma Chísç pluiifttam éuccnil vi^inii tj^^re^ 
§iitéi ftavighi ^ quarum ffafí ntàmtf^ilar fiMiwrrJ //aviri , ti ^fúmúênt 
ixtitcr^ trirímcí , ín Africam trúnsf&rimik, ;= 

(1} Scvcfim de Faria (Noticias de Portugal, n^curso %P §* 7) 
dii positivamente, qnc ElRei levava vifètc mH homens de Jnjitntena, 
Com effcito , faiendo^se o calculo dos remeiros, c fiiarinhefros neccísa- 
riôi pAra gitaroecer as duientas c doze embafcarúes Kort«írtie7a9, com 
atieru^âo ás suas djíleíciítcs classes, c ao systema dtí orj^niiat^no i^íií 
equipagens cí^rão u?ado , se vera serem precisos mais de vii te nni i*íjs 
pmierrof, e perto de sete mil do* segundos; e se o total eia de cin* 
coenia oiii bomeus, segue-se que o ExcicUq pouwD excedei» a viott; 
xmi. 



64 



fdes do seu Cargo, Náo 



acceitou FJReí o prc^seate, 
respondendo, quer a Armada vinha provida de tudo; de 
que sen rido Martim Fernandes, ícz maur os gidos, e 
Qs deixou abandonados na praia. ElRei, que presava os 
homens de grande espirito, niandou-!!ie varias jóias de 
valor, e mil dobras <?ni huma salva mui rica: os In« 
fantcs imitarão a generosidade Real (i)» 

De Tarifa foi a Armadn ancorar a Algcdras (per* 
tencentc ao Reino de Granada), e os Mouros manda- 
rão bgo hum abundante refresco, que ElRei accei- 
tou, por não lhes dar suspeitas de ir fazer guerra aos 
seus alliado«. Determinava clle atacar Ceuta no dia iz, 
mas sobrevindo grande cerração , com calmaria , levoa 
a corrente quasí até Málaga o« navios grandes , em 
quanto as Galés ^ e mais embarcações pequenas se apro- 
ximarão tanto a C^uta, que multas delias surgirão. 

Esta Cidade, chamada antigamente Septa , tinha 
sido era parte conftruida , e fortificada pelo Impera- 
dor Justiniano, e era a mellior Praça da Mauritânia, 
centro do Commercio de Damasco, da Libia, de Ale- 
xandria , c de outros Reinos , e Estados , com as Na- 
ções de Europa, que por cila exportavão, e recebtaa 
os productos da sua reciproca industria. A Bahia hedcs<* 
abrigada, com fundo pouco limpo, mas assas boa pa- 
ra as embarcações pequenas daquclle tempo, compara- 
da com outras da Barbcria, tirando grande importao- 
cia da sua situação, de maneira que em todas as inva- 
sões da Hespanha tinha servido como de ponte aos 
Exércitos Mahometanos; e o seu Porto de perpetuo 
ninho de Corsários, que em tempo de guerra sahiao a 
correr as Costas da Península , e interccptaváo a nave- 
gação dos Portugueses , e Hespanhoes, Da-se o nome 

(i) Acenfieiro, do lugaf citado, dii que eitii dadivat ti^^erSo lo» 
fãr quando PortivCaiTeira veto a Lisboa ; o mesmo áii o Aíc^bnpo 
Cuíiha no C4p.^ ií ; itus mo uáo parece verosidiil. 



4 



65 

fc Aiffllrtà''^ TmtTiTítmitc pouco alto , eióngti cie mf 
'Jfi3 e meiii , piic constituc a ponta mais saliente dnquel» 
ia parre da Africa, e fica qiiasl separa-lo dò Cont men- 
te pelo mar. Sobre este monte csti cçn^truido oGas*. 
^ello itiodetno' do Facho, situado na Latitude Norte 
lie 3^^ 5*4' > ena Longitude de 12** 5^2' 36'* A Cidade 
Ttaqiielle tempo estava situada na fralda do Almtna dít 
parte do Grcidenre, onde hoje chamão o Bairro- Pela 
tanda do Nascente de^te monte faz a Costa enseada 
ate Caho Ncoro, na qual pot^em ancorar os maiores 
íia vios abrigados dos Ponentes» ^ 

Era Governador^ e Senhor de Ceuta Zalá-Benzalá, 
"Mouro mui poderoso, e rico, que teraendo-se da Ar- 
mada Portugueza, tinha pedido auxilio ao Soberano de 
Fez , e a outros Potentados seus visinhos , dt>s quae^ 
lhe acodio multidão dcgcnre, que alguns avaliâô cm 
cem rait homens. Este, vendo os navios surgirem den- 
iro de alcance , lhes mandou atirar das^ muralhas, o que 
trausou bastante darano, sobretudo tia Galé do Al mi- 
rante, que eétava mais perto de terra; mas longe de 
largar por isso o pono, fez desembarcar alguns solda- 
dos, que travarão com os Mouros huma renhida esca- 
T^muja , cTti que Estevão Soares de Mello se distin- 
^uío, rechaçando os inimigos. '^" - '^ 
* ^'•^* líodia 14 determinou ElRei passar^e para a par* 
ííèGricntal d^Almina , por ser lugar aíbrigado dosPo- 
nenreSj e dos tiros^da Praça, e coma idéa de diròrtir 
a artençâo dos Mouros, para que dcsguarneceséem à 
iadoòpposto, onde pretendi^ fazer o ataqueV'e cbrhd 
ãs Nios estavão longe, mandou busca-las pelo Infame 
D* Henrique com as Galés mais ligeiras; é a Vó, ven** 
do reunida a Armada , ordenou o desembarque fiara b 
dia seguinte- Estando tudo prestes, sobreveio hym í>c- 
vante mui rijo, ainda que momentâneo, e coma a en- 
seada que faz alli a Costa he desabrigada com* aquelle 



66 

yentOj toda a Armada levou ferro, c se tornou a n^ 
palhar. EIRei, com as Galés, e navios pequenos to- 
mou Algeciras, e as Náos, acalmando-lhc logo o ven- 
to, forao levadas da corrente para Leste, Escc inci- 
dente, pirccendo desgraçado, foi causa da perdição 
de ZnU'BenzaIá , porque vendo dispersas as Náos Pon- 
tuguezas, e que as Galés não apparecião, deu por coo» 
cluida a expedição, e julgou acertado despedir os seu$ 
importunos auxiliares, tanto por estar agastado dat 
suas desordens , como na esperança de os poder ajun* 
tar com a mesma facilidade: assim ficou sd na Cida* 
de a guarnição ordinária. 

Entretanto partio segunda vez o Infante D. Hen- 
rique com as Galés a conduzir as Náos para Algeci- 
ra», o que fez com igual fortuna, ajudado do venta^ 
c trouxe a reboque o navio de que era Commandante 
João Gonçalves Homem, que encontrou de noite qua-t 
si alagado , por haver abalroado com outro, 

Reunida a Armada em Algeciras (i), chamoo 
ElRei a conselho, e rejeitando a opinião dos que que-J 
riao se abandonasse a empresa, sahio no dia 20, e ao] 
anoitecer deu fundo defronte de Ceura* Esiavão dj-j 
das todas as ordens gcraes para o desembarque, e ji^j 
amanhecer de 21 , mettendo-se ellc em hum escaler I 
(onde ao entrar se feria gravemente era huma perna) ^ 
correo as erabarcaçíJes das principaes pessoas, ordena»» 
do-lhes, que em vendo em terra o Infante D* Henrique, 
desembaníâssera logo, por lhe haver permittido liccn» 
ga para ser o primeiro, que pisasse a praia Africana. 

Feito o signal na Galé Real para o Infante des* 
rtubarcar, houve nisso alguma demora, o que fez tonai 
que Qutrps impacientes se lhe adiantassem , e d^coireij 

' O ) O Artonymo , que «creveo a Cbronln antif a do Coni^ive) ^ 
Õip.* 7 d da ediqio de LiiboA de IS^^^i ^» ^< ^ reiuiio uà oÀgrm 



"elíes Joáo Foífaça abordou primeiro na sua lanclia"', 
acompanhado de Ruy Gonçalrc*?, e investindo com os 
Mruros, qtie os espera vão, fizciao pi^aça para dcscm* 
l>:4rcarem os que á voga arrancada os scguiao* O Infan- 
te D, Henrique em breve tomou terra com as tropAs do 
seu especial commando, e travou com elles huma rija pe- 
leja, O InFante D- Duarte, vendo seu Irmão ja desem- 
barcado, fez o mesmo, e estes dois Príncipes unidos, 
levarão os Mouros adiante de si até á porta chamada 
d*Alniina , por onde os fizcrão mctter atropellados > 
sendo V^asco Annes Corte-Real o primeiro que entrou 
de envolta com elles, e o Infante D. Duatte o segun- 
do. Esre ataque foi feito com tanto vigor, que os Mou* 
ros recuarão sobre as portas da Cidade , diante das 
quaes resistirão a pé firme algum espaço ; mas cahi'ida 
morto ás mãos de Vasco Martins de Albergaria , huni 
valente e agigantado negro, que servia de antemural 
aos seus, voltarão as costas, indo misturados com elles 
os dois Infantes, o Conde de Barcellos, e outros mui- 
tos dos príncipaes Cavatlciros. O Infante D. Henrique 
com sumrao acordo assegurou-se das portas, cm que 
deixou hum destacamento , e foi tomar posição em hum 
lugar eminente , onde arvorou o seu estandarte , e espe*» 
rou os reforços que lhe erâo necessários para penetrar 
na Cidade, e decidir a victoria, os quacs successiva- 
mente chegarão quando EiRei desembarcou com o In^ 
fante D. Pedro , c o Condestavel. 

Depois de buma serie de combates furiosos dentro 
dos muros, ô fora dcHes, em que os Portuguezes sus- 
tentarão a sua bera provada bravura, o que seria mui 
longo referir aqui circunstanciadamente, foi Ceuta ga- 
nhada no mesmo dia do assalto (i), e Zala Benzalá des- 
animado se póz em salvo com a sua família ao anol- 



(i) O Arcebispo Cunbi diz (Cap,** 94), que íoí' ganlia no Jia aj, 

'à ii 



^8 

t^Ciir, Jargiindo o OstciIIo; o qual, por ser o ponto 
TOais forte, reservou ElRci para as suas armas, 

Ignora-se o nutnero dos inimigos que morrerão, 
ou ficarão cativos^ porem he inconrcstavel que devia 
íer mui crescido: dos Portugtiezes dizem . que sd falta- 
rão oito, que parece incríveL O despojo foi riquissL- 
IBO, tanto era mecaes preciosos, e objectos de comraer- 
cio, como cm artilharia , e munições navaes , e de 
guerra ^ ai em de quatro Galés achadas no Porto» 

Nomeou El Rei para Governador ao Conde de 
Viaiina^ quç pcdio este Orgo por se haverem escusada 
^elle outros Fidalgos, d quem primeiro o offerecêra. 
Deixou-Ihe de guarnição perto de três mil homens (i), 
c aígumas embarcações , com abundantes provisões de 
toda a espécie; e a 2 de Setembro parcio para PoriUí- 
gal , e foi desembarcar em Tavira. 

Não apparecq na relação desta grande expedição 
iTtaritima huma sápakivra^ que denote ouso da anl* 
Iharia a bordo dos navios Portuguezes, havendo-a ja 
nas baterias d^s Praças; c ainda que hum Escritor nos» 
so^ mui curioso indagador das cousas da Marinha, diz, 
que na tempo deste Monarcha se começou a usar de 
artilharia grossa nos navic^ (z), devia ser nos ultimas 
annos do seu Remado, 

1418 — Estaado Ceuta cercada por terra de hum 
grande Eicrcito de Mouros (3) , mandou o Rei de 
Granada huma Frota de sessenta e quatro velas ^ em 
que entravâo onze Galés, c vinte Galeotas, carregadas 
de tropas, e por Comraandance de tudo Muley Qaide^ 



. (1) Chronkà db Conát D. Pedro, Cíp.** eP 
(O Coiito^ l^kinorias MílitArei, Tratado 24 , pag^ 37a. 
(jj Vecfc « Chfor»ic« dí> Aícebisjx> U Roilfgo da Cunhi, ctp? 
^7, — A QiTonica do Con(k l>. Fedro, pot Aíurau, L»** i.* Cip,** 70 
Ui $1 — Owooioi do Priíícif^ O. Joio, pof DamLío de Goci — Me-^ 
looriji^ de D. Joio Uy tomo 3.* , oúdc tiUà doce cerco dtt^Ctut^ 



ceu sobrinho/ para atacar a Cidade da banda dó itiar. 
EtReí D.Jc&Oy que pelo aviso que recebera, ja tinha 
mandado bum bom reforço ^quella Praça , irai soube 
agora por Tarifa da sabida do armamento de Grana* 
da , não perdeo bum instante em concluir os aprestos 
de hum poderoso soccorro, capaz de mallograr as es-^ 
peranças que os seus inimigos funda vSo em hum plano de 
ampanba tâo bem combinado: e era tal a abundância de 
munições navaes, e de guerra nos Arsenaes de Lisboa, que 
poucos dias depois sahio de Lisboa (em Agosto) o in* 
fante D. Henrique por General da expedição , levando 
comsigo o Infante D. Joto ; c para o Algarve expedío 
ElRei os Infantes D. Duarte , e D. Pedro para condu- 
zirem dalli novas forças se necessário fosse.. Não achei 
nos Escritores o numero de tropas , e navios que le« 
vou o In&nte D. Henrioue; o qual chegando a bocca 
do Estreito y encontrou huma Fusta^ em que vinha 
Aftonso Garcia de Queirós com Cartas do Conde de 
Vianna y participando ter liSulejr C^aide ocoipado ja 
com as suas tropas a parte oriental da Almma , combi* 
ciando os seus ataques com os do Exercito sitiante, em 
«quanto as Galés bloqueavâo o Porto. 
.A* vista da Armada Portugueza , entrando vaga«^ 
Yosamente com vento bonançoso pelo Estreito , o Rei 
^e Granada y que se achava em Gibraltar prompto a 
embarcar para se ir unir a seu sobrinho, e gozar do 
rriunfo que reputava facrl, abandonou esta idea, e es- 
Ciolheo por mais seguro ser dalli espectador do snccessov 
A fortuna não q^uiz que o Infante D. Henrique 
tivesse a gloria de destruir o armamento naval de Gra^ 
ííada j porque em quanto navegava a buscar a Praça, 
fazia o Conde de Vianna huma sortida á testa da sua 
^^lente guarnição contra as posições, que Muley Çai- 
íe occupava no monte. A acção ifbi disputada com aes- 
operado valor por este intrépido Gnuiadino,, a qqemi 



70 

$6 festiva hum de dois partidos, ou render*se, oii â«* 
bar pelejando; e este he o que elle briosamente esco- 
Ihco. Para entender a razão desta cruel alternativa ^ 
cumpre saber, que no principio da batalha, as Galés 
de Granada esiaváo surtas na bocca da Bahia, e come* 
çando neste momento a descobrir-sc a Armada Portti- 
gueza , de que os Mouros fazião repetidos slgnaes de 
ambas as Costas do Estreito, toda a sua Frota cortou 
as amarras, c cada embarcação fugio na direcção que 
melhor lhe pareceo, Mulcy Çaide, que não podia em- 
barcar senáo nas praias da Almina aa parte opposta á 
Bahia, chamou a grão pressa as Galés, para saíra- 
rera as tropas que possivel fosse, mas huma única obe- 
dcceo ás suas ordens, e rccolheo apenas cincoenta ho- 
mens: tudo o mais, que estava no monte, foi morto, 
ou cativo* 

Estava concluída a acção, quando desembarcarão 
08 Infantes, que só poderão ver os montes de mortos ^ 
que cobriâo o campo de batalha. Trcs raezes se deti- 
verão em Ceuta , e neste meio tempo o grande espiri* 
to do Infante D. Henrique lhe suggerio a idea de 
tomar Gibraltar á escala ; e ainda que contraria^ 
pela opinião quasi geral dos que chamou a Consell 
deo principio á empresa , e provavelmente a levaria ao 
fim , se as ordens positivas d^ElRei não o chamassem 
a Lisboa* 

1419 — No principio deste anno mandou o Inian« 
te D. Henrique continuar os descobrimentos ao longO 
da Costa occidental da Africa, e as cmbarcajões desti- 
nadas para essa commissâo correrão obra de sessenta 
léguas para o Sul do Cabo de Não; mas não ousárSo do» 
brar o Cabo Bojador (i), 

D.^ anno — Neste anno descobrirão os Portugue- 



(i) íkmU^ de Gon, ChroAka do Principe D. Jola 



por hum feliz acasp a primeira Illia, das que ho- 
Ije possuem no nur Oceano. Estava pesaroso o Infante 
Ue não ousarem os Coniraandanres das suas embarca- 
ções arrostar com os suppostos perigos do Cabo Boja- 
dor, quando se lhe ofFcrcccrão para isso João Gonçal- 
ves, de alcunha o Zarco , e Tristão Va2 Teixeira, Ca- 
v^lleiros da sua Casa, que servirão debaixo das su^ís 
ordens com grande valor nas duas expedições de Ceuta 
(i). Mandou elle aprestar-Ihes huma embarcação, de 
oue deu o coramando a João Gonçalves (talvez por 
|inais idoso) com instrucções para commetter a passa- 
jem do Cabo (i) e no caso de a conseguir, correr a 
">sta para o Sul até onde podesse chegar. 

Partidos os dois Cavalleiros, antes de ferrarem a 
[Çosia d*Africa , lhes deu hum temporal de Levante, ç 
pão podendo bordejar, nem aguentarse á capa, em ra- 
tão da raá construcção , e aparelho das embarcações 
iaquelle tempo, e cfos poucos tonhecimentos da Nau- 
i^] Hinda na infância^ correrão em popa com o tem* 



^i^ OoRoqwí o (ffscolifímento de Porto Santo cm 1419, ffejruín- 

^3o a t>3inii3o de Goc5 (Cbroiiica do Pnncipe D. Jc.ão , Csp.* ?/), e a 

Soares da Silva (Memorias de D, Joáo i." , temo 1.*, cap*^ 76). O 

í*ajdrc António Cof de ifo (Histoiia Insulana , L" 6*^ Cap.* 1,*) dii, 

^ue sem duvida íoi descoberta de 1417 até 1419, ainda qec em ou- 

mifi lugar (L° j.**, Cap.** 1.) pôx ene descobrimento tm 1450, com 

^><9Ut vocação manifesta, coma facilmente »e coi}>e da sua Histotia. He 

preito, que António Gdvâo (Tratado dos De scobfi mentos , pag. »o)^ 

^ Faria e Sousa (Ásia Portugucza, tomo 1.*^ , parte 1." , cyp.** i * , e 

Síí^^itíntcs) dizem que se dcKobrio em 141Í. A as esta opinião parece 

iAsustentaifel , poríjue sendo constante da nrvssa Historia, í]ue o Infan- 

«« se estabeleceo em Sagres no anno de 1419, í^epois de voltar do fioc- 

cofio de Ceuta nos fins de M^^ » ^ <]w^ de bagres ^ ru de la^ci expe-* 

dio a Jrão Gonçalves, ílca evidente, cjuc náo podia este verificar o 

seu descobrimento no anno antecedente* 

(a) A narracío deste dcscolnimcnro he deduiida dos Escrit^ei 
vrieiicionados , e tanibeo) do ^ue dii João de lauos na lya Decad« 1/. 



n 



po , qttisi alapjâdof 3 e perdidos ; e guíadm da Ftovl^ 
d£?ncíj , descobrirão huma pequena lllia desuna ^ onde 
surgirão, e lhe derão o nome de Porto Santo, ]yçÍQ 
íibrigo que acharão. Havia nesta Ilha muito arvoredo, 
c tão grossos Dragoeiros , que delles se fizerão depois 
gamei as capazes de conter hum moio de rrigo, e bar- 
cos que levaváo seií homens (i). 

Forão mui bem recebidos pelo Infante os dois 
Descobridores na sua volta a Portugal, e offerecendo- 
se para irem povoar a Ilha, fez-lhes armar a toda t 
-pressa três embarcações, de que os nomeou Comman- 
dantes, e a Bartholomeu Perestrcllo, Fidalgo da Casa 
do Infante D* João, a quem deu a Capitania da Ilha; 
e acompanhados de algumas pessoas, que para o mes* 
mo fim se oíFerecêrão, levando sementes, e todos os 
instrumentos, e ferramentas necessárias, bem como al- 
guns animaes domésticos, partirão de conserva, e che- 
garão cord felicidade a Porto Santo, onde aconreceo, 
que largando no campo homa coelha , com seus tillios ,^ 
que havia parido na viagem, foi tal a producçao des» 
tes animaes j que chegarão a por quasi em desesperação 
m Povoadores, roendo, e destruindo quanto plama- 
vâa 

,»r, ♦ perestrello, ou ja descontente da Ilha, ou por outra 
qualquer causa, voltou para Portugal , deixando nclla 
p9 dous Descobridores, que a fortuna guardava para 
putra empresa de maior valia. 

*' . I410 — DesGobrio-se de Porto Santo a huma con- 
^dcravcl distancia (1) , hum perpetuo negrume cercado 

(t) Cofvitiro, L* í.*, Cap.« a.*» 
♦ ffl) Na fcbcio do descobrisncnto da Madeira, c arniô em que itic» 
cedeu , fc^ui a Dumilo de Goct (Chroniai do Princrpc D. JòIa, Cip,^ 
•.*0 f » So»rf:% ái Sfiva (Memorfa* cU. ^ tofiio i.*, cip,** 77)t ^ 
/ulonm Gahia (Tritido dcw Dctcobrimeneot , pí*. 21), • JoSo de 
Utm (ptcêdà J.S L* !•<», Up.o j.*^) e h Du^rre Kuim de Leso 



4 



I 



73 

ãe nevoeiros, mais ou menos espessos , qne n^o deixa- 
vão enxergar bera o que era; e ainda que a razão di- 
crava a alguns, que existia alH huma Ilha, a superstl* 

fio figurava a outros cousas sobrenaturaes, e horrorosas, 
íesta perplexidade resolverão-se os dois Descobrido* 
res João Gonçalves, e Tristão Vaz Teixeira a ir pes- 
soalmente examinar aqueilc feiiomcno; cno i»® de Julho 
deste anno, tendo vento favorável, partirão ambos an- 
tes de amanhecer era dous barcos, dirigindo-se ao ne- 
voeiro, chegados ao qual, e ja cercados delle , forão 
descobrindo por entre a névoa huns picos altos, ef logo 
Jiuma ponta de terra , a que derâo norae de S. Louren- 
ço, e adiante da qual surgirão. 

Ao araanhecer do dia seguinte , separárão-se os 
dois Descobridores, para ir cada hura por sua parte em 
busca de lugar próprio para desembarcar , o que Tei- 
xeira fez em huma ponta , que tomou o norae de Tris- 
tão, c João Gonçalves em huma lapa, cujo terreno es- 
tava sovado dos pés dos lobos marinhos, e lhe deu o 
Dome de Gamara de Lobos, que ainda conserva, to- 
mando elle d'aqui o appellido de Gamara para a sua 
-Emília. 

Esta grande Ilha estava deserta , c coberta até ao 
xnar de mui basto, e frondoso arvoredo {donde proce- 
<]ião as névoas, que a cercavão), que não dava fácil 
passagem a quem intentava penetra-lo, e por isso se 
chamou Ilha da Madeira , nem tipha outros habitado- 

C^3wonJca de D, João I., pelo Arcebispo D. Rodrigo da Cunlia, Cap,® 
9S). Ainda que Faria e Sousa (Ásia Portugueza, como 1.^, parte i.' , 
cap.^ 1/^ diz, que ella foi descoberta no aniK> de 1419, he isso em 
consequefTcla de haver marcado o descobrimento de Porto Santo em 
341S; e o Padre Cx)rdeiío (Historia Insulana, L® £.° , Cap.*» 6.°) di- 
zendo também , que a Madeira se descobrio em 1419, mostrou mani- 
festa equivoca<;ão , como ja observei , pondo o descobrimento* de Porto 
^*nto em 1420 , sendo este anterior ao ouiro , oomo elle mesmo afíit- 

10 



res j que immcnsis aves de varias espécies tao innocen- 
teSj que se deixnvao colher i mão. 

Avisado logo o Infiinre D. Henrique da importan- 
te descoberta , e querendo remunerar os serviços dos 
dous beneméritos Cavalleiros, dividio a Ilha era duas 
Capitanias, e as repartio por clles. 

Aqui occorrco hum facto, que seria inacreditá- 
vel, se o testemunho unanime dos Historiadores o não 
abonasse, efoi; que tratando os dous novos Donatá- 
rios de começar a cultura dos seus terrenos, cora algu- 
mas famílias, que para alli transportarão , raandon 
João Gonçalves da Camará roçar , e queimar algum 
mato no sitio do Funchal, e communicando-se o in- 
cêndio aos bosques, de que a face da Ilha estava co- 
berta, nao foi possivel extingui-lo, senão no fim de 
sete annos, com perda irreparável de preciosas madeiras 
próprias da consirucçao naval ; por cuja razão senrio o 
Infante sobremaneira este desastre, como quem tinha to- 
dos os seus pensamentos applicados ao augraento, e 
prosperidade da Marinha. O Padre Cordeiro afErma, 
que cem as madeiras desta Ilha se começarão a fazer 
vavios grandes de gavra ,*e castello (Pavanie nao ha^ 
nfemlo d* antes mais que Caravelas do Algarve ^ e Ba* 
Tineis em Lisbaa (i), 

^ Fe2 o Infante plantar na Ilha bacello de Mal^ra* 
sia , que mandou vir de Chipre^ e cana de assucar que 
lhe veia da Sicília, com Mestres para o fabricarem, 
sendo este género nnquclks tempos de grande preço > 
' e estimação; e achou-fc, que o asmcar da Madeira ex- 

cedia cm qualidade a outro qualquer. 

A Historia desta rica, e deliciosa Ilha he tão co- 
nhecida , que tenho por inútil ser mais extenso, 

14^4 — Como a Infante D» Henrique tinha com- 

(O L* i/,Cap,* 6,» 



I 



7S 

Írado a Maciote Betancourr o dominio das Ilhas de 
ra/içnrore , Forte Ventur.i , Gomeira , e Ferro , perten- 
centes ao grupo das Canárias, cuja historia "melhor se 
poderá ver nos nossos Escritores , que largamente tra- 
tão desta matéria, determinou conquistar as que resta- 
vão por submetter (i), e neste anno fez partir para es- 
se fim huma Esquadra , com dous mil e quinhentos in* 
fantes, e cento e vinte cavallos, e por seu General em 
Chefe D. Fernando de Castro , Governador da sua Ca- 
sa (2). Porém os resultados deste armamento nao cor- 
respondérío ás suas esperanças, nem ás despensas que se 
Szetâo ; porque D. Fernando de Castro , depois de re- 
duzir ao Christianismo alguns dos boçacs moradores 

Ci^ Hum erudito Académico publicou ha poucos annos huma Me« 
mnria (Vede 99 Memorias para a Historia das Navegações , e Descobri* 
jnehtos dos Portuguezes; no tomo 6.^, prte 1.* das Memorias da 
Academia das Sciencias de Lisboa , pelo Senhor Macedo) , sobre a an- 
tiguidade do descobrimento daquellan Ilhas, em que pretende serem ja 
«onhecidat dot Portuguezes no anno de 14^, ou no seguinte. Clarice 
/az menção ^The Progress of Maritime Discovery, L' i.*, Cap.** 
2.^ de huma embarcação Franceza, que por causa de naufrágio apor- 
tou alli entre os annos de 1 536 , e 1 534; e parece ser a mesma, de 
que cora incertesa falia João de Barros (Década 1., L^ i.* , Cap,^ 
11) , collocando com tudo este facto em época mais moderna. 

Eu farei aqui duas únicas refle x6es : 1 / Não parece verosímil y que 

bum Monarcha de tantos talentos , como U Aifonso IV. , em cujo Rei* 

indo se diz haver acontecido aqúelie descobrimento^ não procurasse ti« 

lar delle as importantes ventagens, que naturalmente devia esperar, se 

Aesse reconhecer todas aquellvis Ilhas, que se avistão hu mas das outrú', 

« estabelecesse relações com os seus habitantes ; mas vemos , peio con« 

-Ciario, que se perdeo até a memoria do seu descobrimento. 2.* Obser- 

"vando a posição geográfica das Canárias , e a naves:ação que fazem os 

navios na sua volta para as Costas de Portugal , ou de França , segundo 

^ ventos dominantes nas diffcrentes Gstarôes do anno, he moralmente 

ínipossivel , que algum delles não descobrisse as Ilhas , Sal vagem e d« 

^íiíira; o que não consta haver acontecido. 

(2) Barros, Década i/, L.** i.*", Cap.« 12 — Galvão, Tratado 
^Descobrimentos, pag. 21 — José Soares da Silva, Memorias d'EI* 
^«i D. João I., tomo 1.*=*, cap.' 86. 

IO ii 



daquellas Ilhas, se recolheo a Portugal , e o Infante 
foi obrigado a mandar depois Anrao Gonçalves com 
huma expedição de roenos força , para proteger os no- 
vos convertidos contra a fúria dos outros selvagens. 

1429 — Recebida por Procyrnçao nos Paços do 
Casteilo de Lisboa a 24 de julho deste anno a Infanta 
D. Isabel, cora o Duque de Borgonha Filippc o Bom 
(i)j partio desta Capital em huma Armada de trinta c 
nove embarcações, e dia de Natal do mesmo anno che- 
gou ao Porto da Echise, n.\ i''andres, onde a esperava 
aquelle poderoso Príncipe, Acompanhou-a na jornada 
Jium dos seus irmãos, que alguns dizem ser o Infante 
D* Henrique, e outros o Infante D* Fernando. 

1431 — Partio de Sagres cm hum navio, por or^ 
dem do Infante D. Henrioue, Fn Gonçalo Velho Ca- 
bral , Commendador de Alraourol , com instrucçôes de 
navegar direito a Oeste, e se descobrisse alguma terra, 
voltar logo cora a noticia (2), Com poucos dias de 
viagem avistou huns penedos, que examinou, e aos 
quacs deu o nome de Formigas (3), e dalli tornou pa- 
ra Sagres 1 provavclnnente, porque algum máo tempo 
de cerração lhe obstou a fazer maiores progressos > 
aliás descobriria então a Ilha , que achou no anno se- 
guinte, e não está longe daquelk Baixo* 

A 30 de Outubro deste mesmo anno de 143 1 se 
concluio era Medina dei Campo o Tratado de Par 
perpetua entre Portugal , c Castella ^ eis-aqui hum ex- 



(1) Veja-ie D. António Caetano c!e Sousa» HíHorii Geneilogica di 
C«t» Real Portugutfiâ, turno i,* ^ caip.* 4.^ — José Sotncs daSUri^ 
memorin de D. Joáo 1-, tomo i,« , ctip.' loa, 

(a) Historia Inmlaíia , L.* 4*'^ C^pJ^ l,* 

(1) O Eaixo dâs Fofiniías, flriètdo ena n* *?' 10'' de Lat** 
N. e M I iT í$" <^^ Lon^^ ^ irtii coufa ác liunii milha áe tjr 
Mniio de Noite a Siit^ c disu «ia iUia. de ^anta Maria deio40 tni- 
Ibaa ap Ncidntc. 



I 

4 



77 

tracfo áos artigos mais notáveis deste celebre doctJitief!- 
to diplomático* 

Qiie os Navios de Portugal, e Castclb , ainda que 
!e\rem mercadorias de inimigos , nao poderão ser busca- 
dos, logo que se veja que toda a sua equipagem he da 
sua Nação; exceptuando dous casos: O primeiro, quan- 
do estes Navios levarem a bordo os corpos dos inimi- 
gos. E o segundo , achando-se ancorados os taes Na- 
vios êm Porto inimigo, e tendo a bordo mercadorias 
pertencentes a inimigos, porque então estas Uies pede* 
rão $er tomadas. 

Que 06 Navios de Portugal não poderão tomar, 
nem saquear os Navios de Nações suas inimigas que 
estiverem nos Portos , Bahias, Enseadas, e ancoradou- 
ros pertencentes a Castella , nem ainda mesmo no mar 
até huma légua de distancia dos mencionados lugares: 
praticando reciprocamente as mesmas regras os Navios 
Castelhanos a respeito dos de Portugal, 

Que nos Portos de Portugal , e Castclla se não ad- 
jDÍtririao presas feitas aos seus respectivos Vassallos 
por Navios de outra Nação , com quem estiver em 
guerra hum destes dous Reinos, sob pena de pagar o 
Governo perdas, e damnns aos offtndjdos. Que aconte- 
cendo igualmente estar huma embarcação Portugueza 
em hum Porto de Castella , ou Iiuma embarcação Cas- 
telhana em hum Porto de Portugal, em occasião de 
achar-se alli lium Navio pertencente a huma Nação 
inimiga da sua , e querendo a dita cnr.barcação Portu- 
gueza , ou Castelhana seguir viagem, o Governo não 
deixará sahir em seu alcance o mencionado Navio seu 
inimigo, senão passados dous dias^ debaixo das penas 
ja mencionadas. 

Que os Vassallos de hum dos Reinos de Portu- 
gal, ou Castella, que commcrtessem roubos, e damnos 
contra os VassaUos do ouêio Reino nos Portos^ Cos^ 



f«7 ^ Mares a e!le pertencentes, ou ainda no mnr a 
to, serião presos, e entregues ás Justiças do menciona* 
do Reino, cujos Vassallos offcndérâo, para ali i serem 
julgado? , e punidos segundo as Leis parriculares da- 
quelle Reino: E que igual procedimento se leria com 
CS Nacionaes, ou Estrangeiros que perpetrassem simi«^ 
lliantes delictos contra qualquer dos dous Reinos, e 
aportassem a hum delles, d'onde ser iuo remettidos ao 
outro Reino com os roubos, que se lhes apprehendes- 
sem. 

Que os Reis de Castella promcttiáo nunca pertur-» 
bar, ou inquietar os Reis de Portugal na posse, e qua* 
si posse em que estavão de todo o trato , e terras de 
Guiné ^ com as suas minas de ouro, e quaesquer outras 
Ilhas, Costas, c terras descobertas, e por descobrir^ 
Ilhas da Madeira, Porto Santo, c Deserta, e todas as 
Ilhas dos Açores, e Ilhas das Flores, e assim as Ilhas 
do Cabo Verde (i) e todas as lhas até agora descober* 
tas, c quaesquer outras que existissem das Ilhas Caná- 
rias para baixo, para a pane de Guiné; porque tudo o 
que se conquistasse, ou descobrisse nosdiros espaços, 
álem doqueja estava sabido, occupado, e descober- 
to, ficaria aos Reis de Portugal, exceptuando as Ilhas 
Canárias, Lançarote, Palma, Forte Ventura , Gomeis 
ra , Ferro , Graciosa , Grão Canária , Tenerife, e todas 
as outras Canárias, ganhadas, ou por ganhar , as quacs 
ficariâo aos Reis de Castella. Proraettiâo também estes 
não perturbar, nem molestar quaesquer pessoas, que no 
dito trato de Guiné, e nas ditas Costas, e terras des- 
cobertas, e pur descobrir, em nome dos Reis de Por- 
tugal negociassctn , ou conquistassem , ror qualquer mo- 
do que fosse; e promettiao mais nao mandar, nem 




I 



« 



CO ^^^^ 11^^ t^^ ^ Gorca, e outras IHiots» nas prcximicbcki dt 
Cabo Verck, 



7» 

consentir, antes sim prohibir que, sem licença dós 
Reis de Portugal, fossem negociar ao dito trato. Ilhas, 
e terras de Guiné descobertas , e por descobrir , tanto 
os: seus Vassallos, como outras quaesquer gentes estran- 
geiras , que estivessem nos seus Reinos, e Senhorios; 
nem que nos seus Portos se armassem, ou habilitassem 
para esse fim, nem dariâo a isso em occasiâo alguma fa- 
vor , ou consentimento directa , ou indirectamente; 
nem consentirião armar, ou carregar para aqiiellas par- 
tes de maneira alguma. E assim , se alguns súbditos do 
Reino deCastella, ou estrangeiros quaesquer, fossem 
tratar^ impedir, dam nificar , roubar, ou conquistar 
adita Guiné, trato , resgate , minas, terras, e Ilhas 
delia desoAertas, ou por descobrir, sem licença, e 
consentimento expresso dos Reis de Portugal , serião 
os taes punidos pela maneira explicada no artigo ante- 
cedente. Por fim, prodieftião os Reis de Castelía não 
se intrometterem , nem embaraçarem dalli por diante 
a conquista do Reino de Fez , a qual os Reis de Por* 
tugal poderiâo proseguir pelo modo, que bem íhés 
parecesse. 

Que os Reis de Portugal promettião reciproca- 
mente aos Reis de Castella , de não os perturbar na 
posse, e quasi posse em que esta vão das Ilhas Caná- 
rias ja conquistadas, e por conquistar, etc. (i). 

^4J^ — Tornou o Infante D. Henrique a mandar 
o Commendador Fr. Gonçalo Velho Cabral á mesma 
commissao, a que fora no anno antecedente, e a 15 de 
Agosto rio huma Ilha , á qual por ser dia consagrado 
a Âssompqâo da Virgem, deo o nome de Santa Ma- 
ria , onde desembarcou da banda de Oeste em huma 
pequena praia , que chamou dos Lobos, por haver nel- 



Ci^ Memorias d'£lRei D. João I. , tomo 4.^ , pa^. 270, c seguia* 
tes. 



muitos lobos mnrinlios; e depois de rodeir todsi t- 
Ilha por mar, e de examinar o interior dclla quanto 
lhe pcrmíttio o basto arvoredo, de que estava cober- 
ta, voltou para Sagres, e o Infante alvoroçado com 
esta descoberta , lhe deo a Capitania (r). 

1432 — No mesmo anno de 1432 mandou o In» 
flinte a Gil Annes^ seu criado, natural do Algarve^ 
commandando huraa embarcação , para que tentasse 
dobrar o Cabo Bojador; mas elle, ou contrariada dos 
ventos , ou incitacfo da cubica , sem porfiar no cumpri- 
mento da sua commis?ao, dirigio-se ás Ilhas Canárias 
onde colheo alguns selvagens, com os quaes voltou pa- 
ra o Infante, que o reccbeo mal, e como Gil Annes 
era homem animoso, oiferecco-se a fazer nova tentati- 
va, c ou dobrar desta vez o Cabo, ou acabar na em- 
presa (2). 

14JJ — Obtida licença do Infante, par tio segunda 
ve^ na mesma embarcação, e dobrando finalmente o 
suspirado C.ibo> foi desembarcar em huma Bahia ao 
Sul dellc; e reconhecido o Paiz, e não achando po- 
voação , nem rasto algum de gente , levantou na praia 
íium.i Cru?í de pdo, e contentou-se com trazer dalli al- 
gumas plant.is em hum barril cheio de terra, em pro- 
va de nío íer aquella Região deserta , vindo assas sa- 
tisfeito com tao grande descobrimento, segundo então 
ic rcpiítava a acç.io de dobrar aquelle Cabo, em que 
ie fr«ib;dhava li .1 via tantos annos. 

Chegado Gil Annes á presença do Infante, rece- 
bei cHc O presente daquellas hervas com alvoroço 
maior, do que receberia outra qualquer cousa de gran- 
de valor, premiando com honras, e mercês não soo 
Dcia^brtdor, porem todos os indivíduos da sua embar* 



(i) feifiOi, Decida i/, L^ í.^, Cíp.^ 4.*^ 



81 

eaçSo. Náo sabemos em que ih dobrou éO^ o Cabo 
Bojador; mas he certo, que quando volcoa a Sagres, 
Mara ja no llirono EtRei D. Duarte., <]ue mostrou 
igual prazer ^o do Infante por aquelle ^lescobrimento ; 
o ultkno acontecido 11^ YÍda de seu<?r^nde Pai (i). 
Faleceo ElKei D. João L em 14 4e Agosto de 

«433- 

^iuéiU d'EIRei À JDuMrtc 

Este Prindipe , cbeio âc Talor ♦ de-talentos , r c èt 
iostruc(ãOy subio ao Throno na força da sua idade ^ 
dando aos Portuguezes bem fundadas esperanças de con- 
-tinuarem a gozar >da torrente de prosperidades , a que 
^tavâo -faabicuados de muitos annos. Masossra Reina- 
<do foi tao breve^ como infeliz» Não be do objecto des* 
tas Memorias anaJysar as causas moraes^ e politicas dos 
males que sòíFreo Portugal na vida <leste virtuoso Mo* 
narcha , e dos que se seguirão do seu prematuro fale- 
cimento ; os quaes <:ertamente não ^xisturiâo , se vives* 
-se mais alguns annos« 

Querendo mostrar quanto se Interessava no pro* 
.seguimento das Descobertas y foi huma das primeiras 
^c^ôes do seu Governo fazer Doação das Ilhas da Ma- 
deira , Porto Santo , e Deserta ao Infante D. Henri- 
que, por Carta passada em Cintra a 26 de Setembro 
de 1435 (2) ; e no ânno seguinte , por Carta datada de 
Santarém aos 26 de Outubro ^ ceaeo o Espiritual das 



(O Faria, Ásia Portugúeza, no lu«ar ja citado— -Góes, Chionica 
^Príncipe D. Joáo, Capitulo S.° — GalvSo, Tratado dos Descobria 
«ncntof, pag. aa — Soares da Silva, Memorias de D. Joãol., topao 
. l.' , capitulo 8}— Barr©s, Década i.*, L.» i.«>, Capitulo 4." 

W Provas á Historia Genealógica , tomo 1.®, pag. 44a. 

II 



83 

mesmas Ilhas i Ordem de Christo, de que o infante 
era Grão Mestre (i). 

Confirmou também no Posto de Capitão Mor do 
Mar ao Conde de Abranclies D. Álvaro Vasqucs (ou 
Vaz) de Almada (z) por Carta assignada em Almei- 
rim 2 y de Janeiro de 1434. 

141^4 — Tornou o Infante D. Henrique a mandar 
Gil Annes, e com elle cm outra embarcação maior ^ 
chamada então Barinel (creio que era hum Patacho)^ 
AfFonso Gonçalves Baldaia, seu Copeiro, para pro- 
seguirem o exame da Costa de Africa alem do Caba 
Bojador, como fizerãove favorecidos dos ventos, cor- 
rerão obra de oitenta milhas para o Sul delle, até hxif- 
ma bella Enseada em que surgirão , e pelos muitos rui- 
vos que alli pescarão, lhe chamarão Angra das R»i^ 
'vas , nome que ainda conserva em todas as Cartas (3). 
Examinando o Paiz, acharão rasto de gente, e de ca- 
melos em differentes direcções ^ com cujas noticias re» 
gressirão a Portugal (4). 

1435' — Neste anno mandou o Infante os mesmos 
dous Navegantes, para ccntinoarem os descobrimentos 
além da Angra dos Ruivos; e para que podcssem cxa^ 
minar o Paiz a maior distancia do mar, fez embarcar 
dous câvallos no navio de AfFonso Gonçalves BaldaLu 



CO Memoriai de U JoSo L, tomo !-• , Cap.* Sa, 

(1) Provat ^ tomo i.^, pâer» i7i , » «eguinten. 

()) GaJvío , f>4g* ai — QnomcJi do Principc D. Joáío , Cifv^ 
í/» — EtirCH, Decatla u", U* ».**, Cap* j. — Memorias M IX João 
1, , Capiculo Sj. — Ftfia^ Asia,l*artc 1., toma 1. 

(4) A teria desde o Cabo Eofailar |\ari o Sul l>f moiuanliofa , mm 
Tií pffi^ reis Í>' a mente abaixando parj a EnteaiU , cu Angra dos Ruivm, 
è t^lo tem coí^a «otavei , cjue « fru^a conluícet cIc bnee , te não hwm 
ni*>hie alto, e piram Util , couta de dore le^iia* alím do Cabo, chum* 
èf* Pc/khíi Gfãndcn Ffta Avipã está em 24^ n 
de Lotvg. Tem qtiatro 
a duas bradas de*a^u4. 



de lat, N., e j" 17' 
le^uai de bocca , e luodo de arda , pom lies 



83 

At toas InstfucçSes erao, que procurassem cheg^ir a 
ferra povoada, e colher algum dos natiiraes, que desse 
boa informação do estado daquellas Regiões (i). 

Sahirão de Sagres os dous Descobridores , e do- 
brando o Cabo Bojador , seguirão a Costa , que da 
Angra dos Ruivos para o Sul he muito raza, com al- 
gum mato; e obra de quarenta milhas além delia acha- 
rão huma Enseada, onde ancorarão (2). E como a ter* 
ra era descoberta , mandou AfTonso Gonçalves desem- 
barcar os cavallos, e nellcs partirão armados de espada, 
e Jança, Heitor Homem, e Diogo Lopes de Almei- 
da , mancebos de nobre nascimento ^ educados no Palá- 
cio do Infante D. Henrique, de idade de dezesere ân- 
uos, levando ordem para examinar o Paiz, sem nunca 
se apearem , nem apartsrem hum do outro; e que 
achando algum dos naturaes, e podendo aprisiona-lo 
sem risco seu, o fizessem. Explorarão clles inutílmen» 
te a campanha quasi toda a manhã, e achando-se ja 
mui longe dos navios, encontrarão dczenove Mouros 
de medonho aspecto, cada hum com sua azagaia na raao; 
e láo de súbito foi este encontro, que os moços houve- 
rSo por melhor consellio acommette-los logo, que rc- 
tirar-se depois de vistos, por lhes não dar mais ousa-^ 
dia. Porém os Mouros, espantados deverem homens 
estranhos, de que não tinhio idéa alguma, refugiárao- 



fO E^ta Enseada, ou Angra tfos Cavai íos , está situada m tat, de 
»4*' S' N. c í* 17' de Longitude, Tem sete bcuças de fundo limpo 
de uçz verme llia. 

Cl) Devo aqui advertir, que se acha grande variedade na? Cartas Hy- 
cSrngráBcaf modernas, sobre a posiçãa dos Cabos, Porebs , c t^ahias da 
Cojfa occi denta! da Africa^ desde Cabo Uojadof ate Cabo Verde; por- 
que quasí todaí <^o copiadas das Cartas antigas, e excepto cm alguns 
pontos determinados por Observações Astronómicas , os seus Autbores 
apenas lhes fafem algymas emendas deduiidas do que encontrão em 
IHariís de navios de Còmmercio: por consequência çâo mciecein in- 
teira conilan^ 

\l ii 




B4 

•e cm huraa caverna, que ficava ctebaixo de^hmíí 
nedof^ onde se defendérSo boro espaço, que durou a 
briga, á custa de algumas feridas dos seus, c de huma 
que hum dos moços também recebeo; sendo este o 
primeiro sangue Porruguez, que se derramou naquella 
barbara Região; e vendo os dous, que nao lhes era 
possível forçar a entrada da gruta, vokárâo para os 
navios, onde chegiírâo na raanhâ seguinte. 

Cora tsta noticia parrio AfFoiíso Gonçalves com 
gente bem armada em busea dos Mouros , de que só 
achou algum miserável despojo, que por temor abando^ 
nárâo na caverna; e recolhendo-se aosnavioa, sahio da* 
quella Bahia, a que deo enorac àe Angra dosCavailúSy 
e proseguio o seu descobrimento para o SuL 

Havendo navegado outras quarenta milhas, rio 
hum Rio, que entrava pela terra na direcção de N*E^ 
(he o mesmo Rio do Ouro, de que adiante fallarei), 
c tinha na bocca huma Ilhota de aréa , em que havia 
tanta multidão de lobo» marinhos » que os Portugueses 
08 avaliarão em cinco mil, e delles matarão muitos ^ 
para aproveitar as pelles, que naquelles tempos vai ião 
muito no Commercio. AíFonso Gonçahxs , que a tod<> 
o custo queria levar ao Infante algum natural daquel« 
lei Paizcs, não se contentando de interesses mercantis, 
seguio quarenta léguas mais avante , e chegando a hu- 
ma ponta, a que deo nome de Pedra da Galé (i), pe*- 
Ia similhança que se lhe figurou ter com huma Galé^ 
achou humas redes de pescadores, que parecião ser 
feitas das fibras de alguma arvore , e na esperança de 
lumar algum habitante , desembarcou varias vezes na* 

3uella Costa i mas não achando o que buscava, e tcn- 
o ja os mantimentos gastos, voltou para Portugal (x)^ 



(O Situad* em *i*» «o' àt I«, N. 
(i> Etti rdiçio be tiiaJ^ «k Joáo d 




85 

1437 — No fim do anno de 1435', o Infente D. 
Fernando (o mais moço dos Filhos d'ElRei D. Joío 
L) parecendo-lhe que as rendas que possuía da Atou- 
guia , Salraterra , e Mestrado de Aviz , não erâo suffi- 
cientes para sustentar a sua Dignidade , comparadas 
com as dos Infantes seus irmãos , pedio licença a El- 
Rei D. Daarte para sahir do Reino (i), e ir servir a 
outro mais poderoso Monarcha y onde podesse ganhar 
honras^ e Estados, que em Portugal, pela sua peque* 
nez, nunca obteria. 

Ficou ElRei descontente de similhante proposta , 
e procurando convence-Io com boas ra^Òes, que nSo 
aproreitárâo, rogou ao Infante D. Henrique o persua« 
disse a pôr de parte aquelles pensamentos. Mas este 
Príndpe , affeiçoado por extremo ao plano de conqúis- 
tas na Barberia, imaginado por seu Grande Pai, con« 
fessou'lhe que era da mesma opinião do Infante D. 
Fernando; e pedio-lhe ao mesmo tempo licença para 
com etle passar á Africa, levando os seus criados, e os 
Caralleiros das Ordens de Christo, e de Aviz^ de que 
erâo Grão-Mestres (2). 

A resistência que ElRei oppâz por algum tém^ 
á vontade de seus irmãos , foi vencida logo que o In- 
fante D. Henrique teve a arte de interessar neste pro- 
jecto a decisiva influencia da Rainha D. Leonor; e bu- 

. ma vez approtada a expedição , tratou-se dos prepara- 
tivos necessários. Combinou ElRei com os dous Infan- 

. i 
José Soaiet dt Silva, e da Chronica do Prmdpe D. Joáo, noi lugares 
ja citados» 

<i) Vede Ruy de Pina, Chronica dTfRel D. Duarte, Capitula 
ao, e seguiottl..— Acenheiro , Chronica d'£(Rci D. João I.— «Soaèes 
da Silva, tomo i.**, Capitulo 75, 

Ca) Duarte Nunes de Icáo, na Chronica de D. Duarte, Cap.^ 6.; 
cfiz que o Infante D. Henrique era cjuem movia stu iiirão a fazer es- 

^tcs requerimentos a ElRei, pelo muito que desejava fazer alguma cQQp 
quista ua Africdi 



86 



tcs, que o armamento con?taria de quatro mil cavai- 
los , nove mil e quinhentos Infantes , e quinhentos 
Gistadores (i). Mandárao-se afretar navios aos Portos 
de Hespanha , Inglaterra , Aleminlia , e Flandres, e fi- 
zerão-se aprovisionanTentos de armas ^ viveres, e muni- 
ções, para cujas despczas convocou EIRei Cortes em 
J£vora a ly de Abril de 14^6, e ncllas obteve bum 
donativo, que nao foi pago sem murmurações , porque 
esta expedição tinha por únicos defensores os dous In- 
fantes. 

Os Fidalgos , que EIRei nomeou para ella , per- 
tencentes á sua Casa, forâo: O Conde de Arraiolos, 
seu sobrinho, que hia por Condestavel ; o Bispo d*Eva- 
ra D* Álvaro de Abreu ; o Marechal Vasco Fernandes 
Coutinho; o Meirinho Mor João Rodrigues Couti- 
nho^ seu irmão; Diogo Soares; o Capitão Mor do 
Mar D, Álvaro Vaz de Almada; Gomes Nogueira > 
Ruy Gomes da Silva, Alcaide Mor de Campo Maior; 
Martim Vaz da Cunha; Lopo Dias de Lemos; D. 
Fernando de Menezes; Diogo Lopes de Sousa, c seu 
irmão Ruy Dias de Sousa; Lionel de Lima; João 
Falcão , D. Duarte, Senhor de Bragança, e Pedro Ro- 
drigues de Castro. Dã Casa do Infante D, Henrique 
forâo : D» Fernando de Castro, Governador da sua Ca- 
sa , com dous filhos, D. Álvaro, c D- Henrique de 
Castro; os quatro filhos de D. Álvaro Pires de Castro^ 
D» Pedro ^ D, Álvaro, D. Fernando, e D. Fradique de 
Castro; Ruy de Sousa, Alcaide Mor de Marvão, e 
reu filho Gonçalo Rodrigues de Sousa; João Alvares 
da Cunha; Ruy de Mello, que depois foi Almirante; 
Gonçalo Tavares; Paio Rodrigues de Araújo, c mut* 

O) O me^mn Escritor, no CzpS 7., acrescenta, c ^alnheutéi h^ 
mtf*t i^úra méftartm ai A <í*^i ; o que se deve entender àot nâvioi de 
gtirrf I , qiw cotriboiavãto os ttaiisportes ; m«s parect-nie nuit [iCMCft 
jcmc <ie auií 1)1 agem. 



I 




•7 

tos Commendadorcs, c Cavalleiros da Ordem de ChnV 
to, e outras pessoas nobres. O Infante D. Fern»)do le* 
you os seus criados , c os Commendadores da Ordem 
de Aviz; e além destes, outros que se oflrerecérâo, co« 
roo Fernão de Sousa , e João Telles da Casa do Infan- 
te D.Pedro; e Álvaro de Freitas, e João Fogaça dt 
Casa do Infante D. João. 

Neste tempo, sabendo ElRei que os Infantes IX 
Pedro, c D. João, e o Conde de Barcellos se queixa* 
vão de não terem sido consultados em negocio de tan* 
ta importância, os chamou -ao Conselho em Leiria nó 
inez de Agosto de 1436, e expondo-lhes a matéria, 
com a declaração de estar ja approvada a expedição, 
vão somente por muita P^^te dos do seu Conselho , 
mas ainda pelos seus Confessores , rotárão apesar 
disso contra ella os dous In/antes com grande espirito^ 
e erudição; e o Conde de Barcellos seguio a mesma 
opinião. Tudo porém foi baldado, e EiRei proseguio 
nos preparativos, dos quaes se fazião huhs no Perto, 
onde o Conde de Arraiolos teve ordem de embarcar 
cora as tropas das Provincias do Norte; e os outros em 
Lisboa , para onde elle foi assistir passada a Festa dt 
Páscoa deste anno de 1437, a íim de dar mais calor á 
empresa, que os dous Infantes promovião zelosamente!. 

A 17 de Agcsto foi ElRei á Sé acompanhado dê 
toda a Corte , e com grande solemnidade se benzcô o 
Estandarte Real , que levado em Procissão á Náo Ca- 
pitanea, se entregou alli ao Infante D. Henrique, fi- 
cando ElRei a bordo aquelie dia cem es Infantes; e & 
Armada mudou o ancoradouro pára Eelem. 

A 22 voltou ElRei a bordo da Capitanea a desí* 
pedir-se de seus Irmãos, e entregou ao Infante D* 
Henrique hum Regimento escrito do seu próprio pii^ 
nho , o qual , copiado fielmente da Chronica deste Mc^ 
narcha ^ hê como se segue : 



88 

M IrmSo, Como, prasendo a Deof, chegardcf ã Ca- 
pta, logo me escree ; porque por mar, c por terra poe- 
rey taaes paradas, perque cada dia possa harer boas 
novas j e recados de tós, E, como hy fordes , da fro- 
ta, qoe leraaeç, farees três panes, e em cada huíía mete- 
rees a mais pouca gente qoe poderdes: a huua destas 
partes enviarees sobre Alcácer , c a outra sobre Tan* 
ger « e a outra sobre Arzilla \ por tal que huus com 
receo delia , por se segurarem nom ajam razom de so- 
correr aos outros. E como a a frota derdes este aria- 
mentOy ordcnay logo toda a outra geme por terra, 
com aazes regradas , enviando diante quinhentos gine* 
les que, legoa ou raea, como melhor virdes, ?aao 
diante pelos portos mais seguros que souberdes^ atee 
serdes sobre este lugar; porque como fordes sobrVIIe, 
segundo a muyta artclharia , e boos aparelhos que le- 
vaaes , logo , cora a graça de Deos , som seguro de 
vós , e de vossa gente. Outro $y poerees vosso arrayal 
sobre este lugar, com duas pontas que venfaão beber 
ao mar: e se a gente nom for tanta, que pêra isso abas* 
te, toda via huua das pontas do arrayal venha ao mar; 
pêra da terra da aquém poderdes aver refresco , manti* 
mentos, e socorro, e terdes seguro recolhimento, se 
vos comprir. E como asientardes vosso arrayal, dahy a 
ires dias vos trabaihaae de combater o lugar muy ri- 
jamente; e se deste primeiro ho nom poderdes tomar, 
dahy a outros três dias o tornay, cora todas as forças 
e aperto, a cometer: e se deste segundo combate se 
jvos defender, e o nom tomardes « d^hy a outros dias 
que vos bera parecer, com muita força e grande de- 
terminaçom ho comeiee; e se volo Deos der, como 
|idle espero, iicarees nelle com aquella gente, que ra* 
aoadanientc abastar para ho defenderdes , e a outra 
lue eiiviae com a frota , por escusar a grande dispesa 
que faz com seus fretes. £ se do terceiro combate o 



89 

nora poderdes tomaar , nom estees mais sobrMIe dia, 
ou ora , e recolhee-vòs logo com toda a vossa gente áa 
frota, e vinde-vos a Cepta, onde me esperarees aiee 
ho Março que vem; porque, prasendo a Dcos, entofti 
hyrey com quantos ha em meus Regnos (i). » 

O Infante Dl Henrique, lendo o Regimento, pró- 
roetteo cumpri-lo; e a Armada fez-se logo á vela com 
bom vento. A 27 chegou a Ceuta , que ainda go? orna- 
va o Conde D. Pedro de Menezes, e alli estava ja o 
Conde de Arraiolos com a Esquadra do. Porto. Passan- 
do o Infante mostra ao Exercito, achou quasi seis mil 
Jiomens, metade Infantaria, faltando-lhc oito mil pa- 
ra o numero que deveria levar. Concorreo para este in- 
cidente a repugnância do Povo para a expedição , a fal- 
ta de dinheiro, e a dos navios afretados nos Portos es- 
trangeiros, cjue não vierão, os de Flandres, e Alema- 
nha por motivos de guerra , e os de Hespanha por ob- 
stáculos da parte do Governo Castelhano. Parece, que 
o Infante tinha sahido de Portugal com a espcraqça 
de que chegariâo ainda a tempo as embarcações afre- 
tadas, ou talvez confiado em que lhe basta vão aquellas 
tropas para a conquista de Tanger ; porque este Prin- 
cipe era de espirito guerreiro , e não cedia era audá- 
cia a nenhum do seu século. Assira , contra a opinião 

Cl) Estas judiciosas Instrucqóes mostráo, que ElRei queria preve^ 
nir o desastre que aconteceo, e de certo não aconteceria se fossetii 
executadas. Como Zalá-Eenzalá era Senhor de Tanger, Arzilla, « Alcá- 
cer, ordenava ElRei ao Infante, que mandasse bloquear por mar as 
duas ultinias Praqas, para que aquelle Regulo não tirasse reforqOs com 
que augmentar a guarniqâo de Tanger : e antevendo igualmente , que 
dilatando-se o cerco, acudirião a elle todas as forças de Fez, e Mar- 
rocos , determinava hutii praso suííiciente para se ganhar a Cidade ; ou , 
conliecida a impossibilidade da empresa, embarcar o Exercito a salvo, 
o que náp poderia deixar de realizar-se, construindo as Linhas de mo- 
do, que tivesse segura comniunicac^ão com a Armada. A desgraça quiz, 
que nada disto se executasse, 

12 



9a 

de quasi fô3ô"l) seu CoosçHio , que votava se particí* 
passe 3 ElRci o verd;ideiro estada das coisas» e se es- 
perassem as suas ordens , deierrainou ellc proseguir a 
caiprcsa. 

Parrio para Tar^ger com os navios a Infante D. 
Fernando, e no dia 9 de Setembro marchou por terra 
o Exercito, tomando o caminho de Tcriiao, por nSa 
ser possivef forjar a passagem da serra dos Monos, ou 
BufliÓes, cujos agrestes liabitantcs opposerão a mais 
desesperada resistência a hum destacamento de mil ho* 
mens, com que João Pereira tentou lecouJiecer os pas^ 
SOS (f}» 



(O Darnsifo António de I^mo^, no tomo ^.° L.* iç , CapJ* 4 
<b sua Histofja Geral de Potl uíjal , hi desta marcha do Exercito de 
Ccuti pira Tanger huma trftranha narficão; eis-acjtii as suai palavris: 
** A 9 de lictcmbro paít/ráo (os dom Infaíites} de Ct uta para Tao» 

fer , indo por terra o Inúiite D. Henrique» c por mar o Infame D* 
ernando, que loi encontriíndo a Costa cheia de escolbos^^ c de peri» 
%0ê^ D, Henrique destacou a Jo^ío Pereira com mú homens para obser- 
var oi pas^^os , quaei scrtio o^ niais^ praticáveis para ai náos de ako 
bordo. Ellc cncontrau na marcha, junto i Aímcria , hum grosso esqii»- 
drio de Mouros, que lhe íoi necessário coraWer. Ao ruido da peleja, 
D. fernaiidí» a todo o parmo dcmaiidou^ o lu«;af delia para faicr o des- 
embarque a favor dx diverwo, que entretinlia ú% Mouros, mas nío 
^b«tante a sua dílr^enci.i, e)lc nso pode d^egar te nío de|)ois da ac^lo^ 
que foi glrxiosa para João Fer<rira |>cla fugida prccipita'4a , em que pòa 
os inimigos. D^o elle parte aos Infantes da grande dificuldade, qi»e 
haveria de cxj>òr a armadi a huma pastagem tio j>eríí;os3., como elle 
vinha de obiervar; rrus os Infantes, lonçe de se embaraçaccm cond et» 
ta reílexão, continuarão a derrota p-ira TcMi^o. 

y^ Desta Cidade, pouco antes destruída, fnerao todoí por tnir a bre- 
Vc ni^*ega<;5o ate Taiiger , levando o Conde de Arrayolos a vanguvd^ 
da Ffot» j D. Diw^te de Aleneres o centro., e os Infames cobrindo j re- 
ftguardj. Immediatamente cliegário a Tanger » desembarca rão u tn^ 
Vas Cfc. „ 

l*áira initniccíf) das 'pessoas ^ qtte nSo tiverem cabal conhecimento 
dl Topografia daquelles Paítcs, faref somente as observações seguitieeir 
!,• Qu« 01 ruvbs na derrota de Ceuta para Tan[;er, nSo tem câcvfkãf^ 
uem i^trtg^i que irencer^ [xxque o Estreito be limpo ^ e se passa de 



Marclicu o Exeíxiio quatro Icgous nts oprime iro 
(Ifa : no segundo foi alojar se junto a Teruno, aban- 
donado dos seus moradores, e meio destruído : no ter- 
ceiro e quarto dia mnrcliou oito léguas , achando 
[-abundância de agua, e mantimentos, e pouca rpposl- 
içâo dos Mouro?, A 13 chegou a Tanger, o Velho , 
■ja naquelle tempo despovoado, e alli cncrntrcu o In- 
fante D. Fernando, que havia desembarcado com a 
kgente da Armada ; e juntos forao asseotar o Campo 
^m hum monte da parte cccidental de Tanger (i), si- 
aio abundante de hortas, e pomares. 



Wri, e de noite com tocío o tempo; não havendo ou! ro baixo , que 
itiuai:i pedra (a Pérola) próxima a Cabo Carneiro. 2.* Que Joáo Pereira 
láo foi com *f}i\ hornci^s ohicrvat es passos ttmií ptoúcitV€ti f^^ra tis 
^aàút de alio bordo ^ porque essas não andlo pct cima de njontes ; foi 
L<XAminar se scfia r^^^i^el atra\cssar o Exercito a serra pedregosa de íu- 
flhões. j.' Que Târger está situado quatro miUras altm de Cabo de Es- 
te! , que forma a bocci Occidental do Estreito da banda da Africa: 
Niicsti Praça contio-se nove léguas i Aímina de Ceuta , cxttemo erten- 
^tal àfi mesmr» Estreito; e Tctuão dista perto de seis léguas para o Sul 
da Almitia, ja dentro do Mediterrâneo: d*onde resulta, que a Armada 
[Foriu^ueza, sahindo de Ceirta paru Tanger » não podia fazer caminho 
[por Tetuáo. 4,* Que Almeri^ não está na Costa de Africa, luas na de 
^ie^panfia* 

EsttHi persuadido, qite o nosso Historiador, ^-enendo esta narrati- 
Lva de algum Escfiplor Friíncez, tomou equivocadamente o subítantivo 
Atnitt \>ot AniuiiU ^ em vez de o tomar por Exírciio\ c caliido ncsce 
' rrrOj foi tropeçando cm otitros* 

De re^to, «cria necessário fazer buma Dissertação para notar tmttM 
los descuidos, que em matéria de Geografia se ercontrâo na sua Histo- 
lia Geral, aliás multo e*timavci a outros respeitos; como v,g. pòr Ca- 
^"bo de Mastros .10 Noite de Cabo Verde (tomo 7 ^ L" 27, Cap.** a, 
\p^%* lOi} % e Alcácer Ccgtrcr no Estreito de Gibiaítar (»bi , F..^ iS , 
Op.® 2.^ , pajr, 1S4); e comprel.ender a Illia éo Ferro entre as de Ca* 
^ho Verde (ibidem, pa«f. 11 1), com outraí similbantes faltas. 

(1) Esta Cidjde estK situada na Lat. N. de ís** ^V ^&'\'t Í^"^ 
1^' 4\'* de Lcn;,^ A sua tAvã tt;m três milhat dé comprimento, milha 
meíi tW íaco, t lie fotnfada rebs pontas de Tanger, e ^:a!abafa; c 
desabrigada dos Lev^intes, Cs Poitugueies tinhão construído hum htím 

VI ii 



92 

t Era Senhor , e Governador clesta Tfí 
ààs melhores de Africa, Zalá-Benzalá , que tinha sete 
jnil homens de guarnição, em que entraváo Granadi- 

, nos afamados Besteiros, e estava resohito a defender-se 
até á ultima extremidade, confiado nos poderosos soe- 

^corros que esperava. 

No momento cm que o Exercito Portuguez tonaa- 
va posição, espalhou-se voz de que os Mouros desam- 
paravâo a Cidade ; e como facilmente se crê o que se 
deseja, correo muita gente de pé, e de cavailo a inves- 
tir as portas de que forão rechaçados com perda pelos 
defensores. 

Gastou o Infante D, Henrique até ao dia ao em 
fortificar o seu Campo com hum entrincheiramento , a 
que se dava então o nome de Palanque, e em desem* 
barcar viveres, artilharia, e munições^ e neste mesmo 
dia se deo o primeiro assalto á Praça cm cinco pontos 
ao mesmo tempo ^ conduzindo elle em pessoa hum dos 
ataques i porem os meios de expugnação achirâo-se io- 
feriores á empresa , porque apenas existião quatro es- 
cadas, e essas tão curtas, que não chegavão aos para- 
peitos^ o que mostra a ignorância , ou raalicia das pes- 
soas a quem se encarregou a factura dos petrechos oel- 

. licos. Assim forão os Portuguezes rechaçados , depois 
de longos, e inúteis esforços, com perda de alguns 
mortos, e de quinlientos feridos, tanto na escalada, 
como no investimento das portas, que os Mouros ti* 
nhão murado por dentro, 

Conheceo também o Infante por experiência, que 
a artilheria das suas baterias, por ser de pequeno calí* 

molfte , qtie ot InglcTet ^ruinárão com minas quando abanéonirlo 
aquelíx Pric;a; e as pciir.ii que voarão do molhe ^ inútil isáráo o funclo 
Das vbÍ4nhán(;af da Cidide^ Hiima cníllu a Oeste da ponta de Tanfer 
«tá a pcvpcna Enseada | c Rio dos Judeos , onde embarcou o E^ctçito 
m sua ic( irada. 



93 

bre, não fazia brecha nas muralhas; e em consequên- 
cia mandou buscar a Ceuta duas peças grossas, e no- 
vas escadas. 

Entretanto começavao a chegar do interior do 
Paiz algumas tropas de soccorro, centre estas, e os 
forra gea dores do Exercito h avião frequentes escaramu- 
ças; em huma das quaes carregarão os Mouros em tan- 
ta multidão a hum destacamento de trezentos cavallos , 
que se avançou demaziado , que morrerão cincoenta dos 
Portuguezes, entre elles D. João de Castro, Fernão 
Vaz da Cunha, Gomes Nogueira, Fernão de Sousa, 
Martim Lopes de Azevedo, João Rodrigues Coutinho 
(que faleceo depois das feridas), todos Fidalgos, ou 
Cavalleiros de conhecido valor ; o que causou geral 
sentimento no Exercito: e ainda seria maior a perda, se 
o Conde de Arraiolos não acudisse com huma reserva, 
que linha prompta, com a qual cobrio a retirada até 
se ajuiitar com o Capitão Mor do Mar D. Álvaro 
Vaz de Almada , e outros Fidalgos que havião sahido 
do campo; e reunidos todos, afugentarão os inimigos. 

A 30 apparecco á vista do arraial hum Exercito 
de Mouros, que se dizia ser de dez inil cavallos, c no- 
venta mil homens de pé. O Infante, resoluto a dar-Ihe 
batalha, sahio das Linhas, e foi tomar huma posição 
conveniente, onde fez alto, esperando ser aracado, mas 
sendo passadas três horas sem que os Mouros se mo- 
vessem, marchou a elles para os forçar a huma batalha; 
a cujo movimento se retirarão ás montanhas, d'onde ha- 
Tiâo descido; e o Infante, occupando logo o posto que 
elles largavão, se demorou hum espaço de tempo aguar- 
dando a sua resolução. Por ultimo, desenganado de que 
não queria o pelej r , recolheo*se ás suas trincheiras. 

No dia seguinte repetio-se a mesma manobra , sem 
outra differença , que huma escaramuça com pouco 
cUmno de ambas as partes. 



94 



O dl 



de Outubro foi de 



tiíi 3 de uutuhro íoi de maiof perigo para « 
PortuguczeF, Marcliárfio os Mouros com todo o seu 
Exercito contra os entrincheira mentos, sahio o Infante 
par:! IIics dar batalha formado em duis linhas, de que 
dlc conduzia a segunda, e vendo-os firmes, como que 
não queriiSo combater, pôz em movimento a divisão 
da esquerda da primeira linha, que era a mais forte, 
a qual ganhou huma altura , que cobria o flanco dos 
Mouros, e estava guarnecida com muita gente; e avan- 
çando-se ao mesmo tempo da direita da primeira lú 
nha ^ recuarão os Mouros cm confusão, e desordem, 
largando com perda notável as posições, que occu pa- 
vão. Mas durante a acção, fez-se da Praça huma sor- 
tida contra o Campo, onde ficara commandando Dio- 
go Lopes de Sousa , que repellio valorosamente os 
Mouros, c os fez recolher á Cidade, Deve*se confessar, 
que o plano dos Mouros era bem combinado^ porque 

Sualqucr dos dous ataques, que tivesse feliz resultado, 
cstruiria o nosso Exercito. 

No dia 5* , achando-se reparadas as escadas, e 
construído hum Fone de madeira, guarnecido de cs- 
pingardciros , que se movia sobre rodas, para se empa* 
rclhar com as muralhas, e faciJitar a escalada, expul- 
sando dos parapeitos os sitiados, mandou o Infante dar 
segundo assalto á Praça por hum Jugar, em que as ba- 
terias tinhao arrazado o a!to da muralha. Este ataque 
foi dirigido por ellc próprio, ficando o resto das rrci- 
psis debaiio de armas, commandadas pelo Infante D. 
Fernando, o Conde de Arraiolos, e o Bispo de Evo* 
ra, para faterem f^ice ao Exercito Africano, se duran« 
te a acção qutzcsse investir as Linhas* 

O astalco foi tâo infeliz, como o primeiro, c er* 
cepio huma escada, que se encostou á muralha, e os 
Mouros qucimdráo logo com danino dos que por ella 
subido^ nenhuma das outras a pode ser, nem menos u 



Forte de madeira ; por quanto, como se não fez outro 
nenhum ataque, nem falso, nem verdíideiro, acudio 
toda a guarnição ao ponto atacado , e cora innumcrd' 
veis tiros de fogo, e de arremesso forçarão ot Portu- 
guezes a retirar-se com perda de alguns mortos, c de 
muitos feridos, 

A 9, estando o Infante prestes para dar terceiro 
assalto, appareceo tão grande multidão de Mouros, 
que se dizia com toda a exaggeração , serem sessenta 
xnil de cavallo, e setecentos mil de pé: hc certo, qtte 
cobrião os campos, e os montes que a vista alcançava, 
e que vinhão no Exercieo os Reis de Fez, e Marrocos, 
e outros Régulos visinhos ; e atacando logo os postos 
avançados, abrirão communicação com a Praça, e to* 
ipátao as nossas baterias, com toda a arcilljaria, ma- 
cjuinas, e mais petrechos destinados para o cerco. O 
Infante D* Henriqiie esteve aqui perdido, porque retira n- 
do-seássuas trincheiras, c faiendo a retaguarda, lhe ma- 
tarão o cavallo, e ficou a pé nomeio dos inimigos, don- 
de milagrosamente sahio, sacrificando se para o salvar 
Fernão Alvares Cabral, seu Guarda Mor* 

Recolhidos os Portuguezes ao Carapo, ahi forão 
assaltados pelos Mouros, que não os poderão forçar; 
e para maior desgraça, fugirão para bordo dos navios 
perto de mil homens, sendo muitos da Nobreza. Po- 
rém D. Pedro de Castro, que estava commandando a 
Armada, se veio metter nas Linhas, com outros bra- 
vos soldados, que quizerão participar dos trabalhos de 
que se retiravão aquelles: também os viveres existentes 
jio Campo apenas chegavãn para alguns dias; e era im- 
possível agora desembarca-los dosnavios. No dia seguin- 
te assaltarão osMouros novamente as trincheiras, que se 
liaviâo melhor fortificado, e depois de quatro horas 
de pekja , forão rechaçados com immensa perda sua. 

Achando^se a final consumidos todos os manti- 



mentos, re«oIveo o Infante D. Henrique forçar de noi* 
te a passagem para as praias de Porto dos Judeos , que 
os Mouros intercepta vão, c recolher-se âs suas crabar- 
cações com os que podessem romper; mas desertando 
para elles o Padre Martim Vieira, seu Capellao, refor- 
çarão de maneira os postos, que se julgou irapossivel 
abrir caminho para o mar. Então os Mouros offerecc- 
rão ao Infante deixar embarcar as tropas, ficando-lhes 
a elles o resto da artilharia, as armas, cavallos, ten- 
das, e mais bagagens, sahindo os soldados forruguc- 
zes só com os seus vestidos; c entregando-se-Ihes Cea- 
ta com todos os cativos nella existentes. 

Quando se começava a negociar sobre estas bi- 
ses, como o Exercito Mahometano se compunha de 
Nações varias, conduzidas por Chefes independentes^ 
aos quaes não agradava o Tratado , romperão estes as 
ireguas, e os Portuguezes íiverao que resistir cora o sea 
costumado valor a hum furioso assalto, que durou se- 
te horas, e era que os inimigos forão repellidos com 
grande estrago* 

Neste aperto, determinou o Infante reduzir a me- 
iTor âmbito o seu entrincheira mento^ que era muito ex- 
tenso para táo pouca gente, e aproxima-lo do mar, o 
que se fez em huma noite, cobrindo-sc com huma no» 
va trincheira, melhor que a antiga; operação a que os 
Mouros se não opposerâo, contentando-sc com occu- 
par em força o caminho da marinha , e guardar os pa- 
ços visinhos, do Campo, no qual ja se comiâo os ca- 
vallos, c bestas de carga, e ja morria alguma gente í 
sede; porque dentro das Linhas havia lium único po- 
ço, que mo chegava para dar de beber a cera homens j 
de maneira, que se nao tivessem cabido algumas chu- 
vas , todos teriao perecido. 

Rcnovou-sc tinalmentc o Tratado, acrescentando- 
IJic, que haverk paz por cem annos entre Portugal, 



I 

I 
I 



e todos os Povos da Barbería, Para segurança da livre 
rerirada do Exercito Portuguez, entregou Zaiá-Benza' 
h seu filho ao Infante D. Henrique, ficando en^ refcns 
por eUe Pedro de Ataide, João Gomes de Avelar, Ai- 
res da Cunha j e Gomes da Cunha: e para certraa da 
entrega de Ceuta » e dos cativos, ficou em refcns o In- 
fante D* Fernando, contra vontade de O. Henrique, 
que queria fímr, mas os do Cortselho nno o consentirão. 
Entrcgiie o Infintc? a Zalã-Ben^znlá , que veio bus- 
ca-lo ao Campo , seguio se huma tregoa tnal observa- 
da; em que os Mauros Enxovios assaltarão as trinchei*- 
rsís ^ porém estando mais próximas do mar, forao de** 
fendidas cora riienos risco, e no dia 19 embarcarão as 
tropas á viva força , e só com perda de quarenta ho- 
■mens, no Porto dos Judeos, onde cstavao os bafeis da. 
Armada para as receberem , sendo coberta a retaguar- 
da naquella occasiao critica pelo Capitão Mor do 
Mar D. Álvaro Vaz d*Alraada , e pelo Marechal do 
Reino", que porfiarão ente si largo espaço sobre qual 
seria o uítíino, que se embarcasse. Trinta e se^é dtas 
esteve o Infante sobre Tanger, vinte e cínco sitiante, 
e doze sitiado: a perda do seu Exercito não exccdéo 
a quinhentos mortos, DalII expedio logo para Portugal 
o Conde de Arraiolos com quasi toda a Armada; &tl^ 
le recolheo-se a Ceuta com o resto da gente, '* '>íim-i 
Era quanto acontecia na Africa este desgraçado 
I -st ; tinha ElRei mandado ao Aígarve o Inrante 

-1 ^ '^ para reunir gente, e mantimentos, e soccor^ 
-rcr com elles os Infantes seus Irmaoí, sq Hceessario 
^fo9se, quanâo a 10 de Outubro teve noticia em San- 
earem (omie se refugiara por haver peste em Lisboa^) 
\ de que os Infantes cstavao cercados de Mouros, o que 
^ íhe Causou gravíssimo desgosto, e paixão. O Infante 
13. João , a quem primeiro chegou esta noticia , partio 
^0 com todas as forças de niar, c terra^^' que pôde 



mar , 
13 



^8 

aprestar , mas os ventos forâo tão contrários , que es- 
teve guasi perdido na viagem, e sabendo por fira o re- 
sultaao do cerco, foi a Arzilla, onde tentou inutilmen- 
te algumas negociações sobre a liberdade do Infante 
D. Fernando, que alli estava. 

O Infante D. Pedro preparava também era Lisboa 
hura grande armamento para ir soccorrer seus irmãos, 
o qual não teve eíFeito, por chegarem de Tanger os 
navios da Armada, c Cartas do Infante D, Henrique, 
cm que relatava o verdadeiro estado das cousas; por 
cujos motivos ElRei o mandou recolher de Ceuta^ 
querendo-se aconselhar com elle, 

O resto desta transacção pertence á Historia do 
Reino, e merece a attenção dos homens d'Estado, u 

Falkceo ElRei D. Duarte a y Setembro de 14^2- 

Reinado d^ElRei D. JfQuso V. 

Este Monarcha subio ao Throno cora pouco tna» 
de seis annos de idade , e começou a governar aos qua- 
torzc* A Rainha D. Leonor, sua mli, exerceo primei- 
ro a Regência , que depois passou de hua\ modo pouco 
regular ao Infame D; Pedro i e esta mudança, ainda 
que vantajosa, produzio ódios, e dissenções funestas 
entre grandes Personagens, cuja consequência irame* 
diata (alem do que mais tarde se seguio) foi o comba- 
te de Alfarroubeira, a que se deo o nome de batalha, 
o qual se tornou memorável por acaKirem nelle o In- 
fante D, Pedro, Jmm dos maiores Políticos de Portu- 
gal, e o Conde de Abranches D. Álvaro Vaz, ou Vas- 
quês de Almada, Capitão Mor da Frota, hum dos 
mais famigerados Guerreiros do seu século. 

Estas discórdias embaraçarão por alguns âiinos o 
proseguimento das úteis descobertas começadas ; roas 
como ElRei era de espirito audaz ^ e affeiçoado ás coi^ 



09 

!á ARicl, hvttúis c outras dmtlnúífao^qifaU 
ra interrupção por todo o seu loogo Reinado, 

Ve-se com eíFeito, que etle nuncn perdeo de vista 

te negocio, porque no Tratado da Tãt cora Castel- 

feito na Villa das Alcáçovas a 4 de Setembro de 

I470 , sendo Ministro de Portugal o Barão de Alvito 

^. João Fernandes da Silveira > c de CastclU o Dou^ 

Rodrigo Maldonado, se ajustou = Qiie o Senhorio 

Guiné, que se estendia desde os Cabos de Nao, e 

Jojador até aos índios ittclusivamente , com todos 

us mares adjacentes, Ilhas, e Costas descobertas, e 

>r descobrir, com seus tratos^ pescarias, c resgates; 

assim as Ilhas da Madeira , e dos Açores, e das Fio* 

i , e do Cabo Verde, e a conquista do Reino de Fez, 

casse in sàlidum aos Reis de Portugal , e seus SucceS- 

es para sempre, E que as Ilhas das Canareas, cora 

conquista do Reino de Granada , ficasse in solidum 

losReisdeCascelIa, eseusSucccssores para sempre, >f(t)# 

Este Tratado foi ratificado, e confirmado no tera- 

d^EIRei D. João IL por huma Bulia do Papa Six- 

IV. ^ 

Houverâo neste Reinado cm Portugal dous Cen^ 

les do Mar, ou Capitães Mores da Frota ; o Conde 

Abranches D. Álvaro, que tinha este Cargo desde 

o Conde D* Ferna^ido de Almada 

em Évora a 28 de Fevereiro de 



Liij, e seu filho 
^ passada 



jf Carta 

1440 — Neste anno mandou o Infante D- Henri- 

ue duas Caravelas para proseguirem no descobrimen- 

da Costa da Africa j mas por mios tempos , ou ou- 



, f 1) t^c%fc Duarte Nunes, Qironica íe IX AffonsO V.» Capitulo ídj 
• t Ru^ ãt Pina^ Chrofliça de dito Rei, Csp** acÓ. 

13 a 



100 

tn alguma causa, regressarão a Sagres , sem fazerem 
cousa alguma (t)* 

1441 — (2) Mandou o Infante a Antão Gonçal- 
ves, seu Guarda Roupa, em hum navio pequeno, com 
ordem de ir ao Porto, onde Affonso Gonçalves no an- 
DO de 1434 fizera a matança dos lobus marinhos, c car- 
regar alli de pelles, oaue elle executou j mas como aia- 
da era manceDO, c cutiçoso de gloria, chamou AfFoa- 
so Guterres, Moço da Camará do Infante, e Escrivã» 
do navio, c a toda a equipagem (que pouco excedia a 
yime pessoas), e lhes expôz de quanta vantagem seria 
explorarem o Paiz, para colherem algum habitante que 
levassem a PortugaL Convierão todos , depois de algu* 
inas altercações , cm que fosse elle pessoalnaente a esta 
perigosa expedição; e partindo de noite com oito ho- 
mens, depois de caminhar ires léguas, encontrou hum 
natural nu, com duas azagaias na mão, que hia UQ- 
gendo hum camelo. O primeiro, que travou delle^ foi 
AfFonso Guterres , ficando o Mouro tão cortado do sú- 
bito pavor, que lhe causou a vista dos Portuguez^, 
que sem tentar fugir, ou defender-se , foi tomado. Vol- 
tava Antão Gonçalves alegre para o navio com o seu 
prisioneiro, quando se achou na presença de perto de 
quarenta naturncs , que assombrados da novidade, se 
acolherão a huma ahuta que ficava próxima, abando* 
jiando huma mulher , que foi também logo aprisiona* 
da, Querião os Portuguezes ataca-los, a pesar da des- 
iguakjade do numero, porém Antão Gonçalves, mais 
jprudente, os dissuadio do intento, por ser quasi posta 

••llO ' -> . ■*■ ^'-"i ■^- 

* f 1 ) Eirrot , Becftda 1 * , L^ i. , Ctp,^ 6. - Somcj di S ílvi , Merao- 

riis etc* tomo 1,, Cap.*" ?). 

(a) hvTóf no lugar cita<to — Góes, Chroníci do Príncipe D. Jda 
— Gatlváo, l^rnucto dos De- cobri me ntof^ pa» a} — Fatii e Soufâ,, 
qur erradamente púe csu Uao no aaao de 1440^ Âsii Fotcugticu^ 
tomo 1.% Parte i. 



:I01 

Çe -considerável a distancia a que estairao do mar. 
Assim continuarão seu caminho, sem serem seguidos 
lidos contrários» 

h Recolhido Antão Gonçalves ao seu navio , e estan- 
[♦4o np dia seguinte para se fazer á veia , chegou de Sa- 
_.y por ComiuaDdar)te de huma Caràvdía ^ Nuno 
>i«tão, CavsHeiro da Casa do Infante, mancebo co- 
Irajoso, que trazia insrrucçóes pana p;issar ao Sul da 
rpedra de Galé, e desembarcar em qualquer parte da 
LCo^td ) a fim de tomar alguma Jingua da terra» 
1 Instruído do caso acontecido^ instou Nuno Trid- 

•tao com Antão Gonçalves para que marchassem logo 
j^m busca dos Mouros, e çoócordando elie, partírãti 
(sambos ao anoitecer com a gente mais escolhida , em 
Vcque cntravão Diogo de Yalladaresj que depois. íbi Ak 
l-caidc Morde Vil U Franca, Gonçalo de Gmr3^, e Go^ 
kines Vinagre, ^oço da Camará do Infante 3 rodos hò- 
anens do mais resoluto valor ; e na, mesma noite dterão 
-Tom aqneUes, outrom outros Mouros, onde se travou 
Jjuma fujriosa- briga ^ a pesar da escuridão, que não dei^ 
!^ava distinguir amigos de inimigos , senão por and^ 
[-rem estes mis, e aquelles vestidos. Allí morrerão três 
LíJos Mouros, a hum dos quoes matou Nuno Tristíò 
-com af?sás periga seu, e íícárao cativos dez, com qufc 
.voltarão para os navios ja de dia ; e cm memoria de tio 
importante aconiecimento , armou Cavalleiro Nuno 
Tristão a Antão Gonçalves, donde resultou dar-se en- 
tão áquelle lugar o nome de Parto riõ Catalleiro , quê 
.depois veio a confundir-se com o de Rio do Ouro- 

AclioU'Se entre os cativos hum , que fallava o 

Árabe, e pôde entender-se com hum Mouro , que Nu- 

*jio Tristão levava por interprete; e persuadidos o? dòui 

► Commandanfes, que con^eguirião por seu meio ter pfa- 

tica com os naturacs, puzerão o Língua em terra- com 

a Moura, na csperanga de que víríão resgatar os prisioi- 



m 



oeiros , mas não âcontcceo afsím , porqtlt patsadot 
dons dias, vierao ao Porto cento e cincocnra homens, 
huns em cavallos^ ootros era camelos, querendo attra- 
hir os Portiiguczes a huma cíUda , que tinhao armado 
detrás de liuns montes de aréa , e vendo que nSo sa- 
-liiáo do batel , cm que estavão, começarão a descobrír- 
se, trazendo prezo o Língua, o qual avisou logo aos 
Commandanies, que nao desembarcassem* Os Mouros^ 
desenganados^ atirarão aos do batel algumas pedradas, 
que a ellcs custariâo bem caras, se as ordens do Infan- 
te não fossem positivas, para que se não malrratassera 
desnecessariamente os habitantes , com os quaes só que- 
ria paz, e comraercio. Em consequência, Antão Gosf- 
jâlves, e Nuno Tristão voltarão para bordo dos sew 
navios, fcm lhes fazer damno; e consultando sobre o 
mais, que farião , voltou AntSo Gonçalves para Par^ 
tMgal, trazendo metade dos cativos, de que o Infante 
ficou tão satisfeito, c contente, que, por este e outros 
anteriores serviços, o fez seu Escrivão da Puridade, e 
lhe deo a Alcaidaria Mor de Thomar, c huma Com*» 
jnenda. 

Nuno Trisfão, na conformidade das suas instruo* 
çÒeS) c*;paImou naquelle Porto a Caravela , c seguia x 
Cosu para o Sul , e chegando a hum Cabo , a que chm^ 
mou Calfa Branca (i), em razão da côr do terreno^^ 



--! (i) Efte Cabo tsti situsdo na Lat, N, de áo**- çç', c na tcrtj. de 
Sr^ l', e forma como huma Fcninsula, por detrás da qual entra pmm % 
Noite huma |>rande B^iiía de Jex Jcguas de s^o» e oito á& iargo, cuje 
pont4 <to Sul he o Cabo de Santa Anna. Em toda eiti se pode anccrir 
«m bom fundo de arca, ma^ ha por aiqui muitos baixof. A* roáê 4o Qk 
bo HranirO, vindo do Norte, te aclta sonda a mais de cinco lefuat de 
terra. Pouco ao ^l do Cabo , inclJmndo*sc para o SE, com: hum ptf^ 
cel de maii de vinte e cinco léguas de comprmientOf eooi deSt^utJ bfb 
gúri, ^ue tem dezoito, e vime braças nas suas proximidades. 

Neite parcel naufragou }aitimo\a, c brutalmente a Medusa, Frtj^* 
U rmictxa, no dm È ég JuMio d» tSié^ peltt trtr horas d> 



I 



108 

, desembarcou algumts vezes , c posto que achou redes 

de pescadores, e vestígios de gente , não vio pessoa ai*- 

Funia* Por esta causa» c como os mantimentos se lhe 

acabavão, e a Costa mudava de direcção, encurvando- 

f.«e muito para Leste, com grandes correrítes de agua, 

|ieraeo achar se ensacado em alguma Enseada, de que 

[não podessc sahir, e voltou para Portugal* 

[ O Infante, concebendo maiores esperanças do bom 

Lfesultado destas viagens , mandou a Roma Fernão Lo* 

[pes de Azevedo, do Conselho d'EiRei, que depois foi 

Commendador Mor da Ordem de Chrisro, a represen- 

,tar ao Papa Eugénio IV. os grandes trabalhos, c des- 

Lpezas que lhe custavão aquelles descobrimentos, e o 

[proveito que delles resultaria á Religião Catholica , pe- 

rdindo^lhe para a Coroa de Portugal o Senhorio dos 

[íaizes, que conquistasse, a Indulgência plenária para o« 



IjNrapo excetlecite, liavendo obwrvado ao meio dia a LAtuude de i^^ 
|6'. Sotidtv^i^se de du:is cm duas horis » conejido com vento Wgo n« 
^fumo de SSE , que cruiava o banco, a agua tinha mudado de còr, ptf^ 
^saváo ao tongo do costado muitas larvas de teria com laiies, e pesca* 
^va-sc immenso peixe. A primeira sonda foi de 18 braqas, logo 15 , 9, 
6, c encalhou cm is pés e meio, qua«i na pteampr , e em occasião 
íàe grandes marés. Na baixamar ticou em 1 \ pcs , e mais ao lar^o acha* 
^dU>-ie em partes mák^ em partes menos. £ice pareci um o nome de 
! &nco do Cabo Branco, ou de Argui m« 

Como o Cone rnente Africano ^ chamado Deserto de Sahara , c^uo 
tomeca em Cabo Cantim^ e acaba em Cabo Mhick, se encurva aqui 
mtt Iro para Leste, fica huma espécie de grande Enseada entre a Costa 
Pt este Banco, que se chama o Golfão de Arguim , cheio de coroa de 
[artía , mas com bom fundo nos lugares limpos. Aqui está iítuada a Ilha 
Ide Aiguim próxima á terra, cousa de oito tegiias ao Sul de Cabo bran* 
ICO, e ao pé delia ha outros Ilhotes, Doze, ou treze Jeguat ao ^'ul da 
Filha de AiTíitim está a Ilha de Tider, que he maior, e lia nutras mati 
[^ differentes grandezas. Por toda esta |:r ande Enleada, que acaba erâ 
^Cabo Miríck , ha muitos rillieiros, e correntes àc afua, e infinito pei* 
i, que os Mouros hilo d li pescar; e bojt os habitantes díis Cartarias 
em na Primavera alli a este Golfão, e faiem j^randes síd^ai^óes de peV 
^>f t a maior parte do <^ual pettence á espécie do i:àcaibáo« < 



10« 

qtíe^cabasscnitincjtmlk meritória anipresâ:; aqoe oPoií* 
tifíce amplamenccUic concedcOj por Bulia daud:^ d;? Fio* 
reriçi no anuo de 1442 ; e o Infante D. Pedro, Rcgenrç 
do Rei 110, lhe fez doação dos quintos cjue pcrrencião a 
EJRci , e lhe paíísou Carta para que só elle podcsse coa* 
tinuar o? descobrimentos. í-j t ,1.^, n 

1441— Enviou outra [VTO o Infante ^ Antão Gon- 
çaWes (1) para ir ao Porro do CavaJleiro, levando a 
bordo alguns dos Mouros, que dalli trouxera, os quaes 
diziao ser bem aparentados^ e queriao resgatar-sc por 
Negros escravos, que não falraVao naqucHe Paiz* Apro- 
veitou-se desta occasião hum Fidalgo Aíeraáo, por 
nooae Balthesar, GciKiUHomem da Camará do Impera* 
dor Frideríco IlL , que viera com cartas sua« ao Infan* 
le, para que o enviasse a Ceuta , a fim de ser armado 
Cayalieiro ; e pedio-lhe licença, que obteve, para t^2er 
viagem com Antão Gonçalves, porque j a neste tempo 
dava tão grande brado pela Europa a íaípa dos desco^ 
brimentos dos Portuguezes, que os fazia contemplar 
como superiores aos outros Povos ; e os homens de ge- 
Yiio audaz, e aventureiro desejavao participar com el- 
les da gloria destas empresas, avaliacias cíuão por mui- 
to superiores ás dos antigos. 

Partindo Antão Gonçalves para o seu destino » sof- 
freo huina tempestades que p forçou a arribar a Portu* 

S^;ial, e foi ella tão furiosa, que B.dtlias.ir, indo com 
escJDs de ver huma, se deo por saiisícuo com C5ta, 
e só lhe restava pisar a terra Africana para saciar a sua 
nobre ambição. 

Reparado o navio , volveo Antão Gonçalves a 
^Uâ derrota, e com tempo favorável ancorou no Por- 
M^^^que buscava, onde a troco dos Mouros^ que le- 

^O BttnitpiDiíc»b I*,L»? i.| Cap.^ 7. <'— Galvão, pa|, jtf, opdt 
f6e eica viagem rfti 1441» «*- Faria, As», tomo 1. 1 piit« 1**^Sqí« 
nrs da ^ilva^JUciooriasctu ioibq Up Cap.^ 1|. « 



los 

vm , recftjeo dez Negros de d ífFe rentes terras , sendo 
alguns de Guiné , c considerável quantidade de ouro 
eiíí pò, o primeiro que veio a Portuga! , bem como os 
Negros, Daqui ficou áquelle Porto o nome de Rio do 
Ouro, pelo qual he hoje conhecido em todas as Car- 
tas (i). Cumprida assim a sua commisfâo, regressou 
Antão Gonçalves a Pt)rtugal , trazendo muitos ovos de 
Ema , c outra£ raridades , que o Infante estimou sobro 
maneira. 

1443 — Com estas esperançosas noticias expedio o 
Infanta â Nuno Trlsrao (2) para proseguir o seu an- 
terior descobrimento de Cabo Branco, e com effeito 
passou para o Sul delle, c chegou a huma das Ilhas de 
Arguim, onde vio com extraordinária surpreza mais de 
vinte Almadias (3), cada huma das quaes levava três, 
ou quatro homens , que cscanchados na borda remavão 
com as pernas: tao profunda era a ignorância destes 
Povos, que ainda estavão na primeira infância da Ar- 
te ! Nuno Tristão mandou logo em seu alcance huma 
lancha coro sete homens, que cativarão quaiorze indi- 
víduos; e fugindo os outros para a Ilha, não poderão 
ahi escapar, porque a lancha, deixando os prisionei- 
ros a bordo do navio, foi buscar o resto* 

Desta pequena Ilha passou Nuno Tristão a outra , 



f i) Este Rio, ou antes braço de mar, entra pela terra dentro con- 
de CHJto )^gua«, e he cheio debaixo??, com ijguns Ilhotci. A sua poti- 
Jta ÓQ Norte fica perto de quarenta milhas ao Sul da Anfra dof Cavai* 
I Jos , c eiti situada em sj** 42' de Lat. , c a* i i' de l^n^. A* roda 
l^lla ha lium recife de (ledca, como observou o Capitão Cbss, Inglei 

(1) Galvão, pag, 2j —Faria na tua Ásia, tomo 1., e j. no fim, 
-^ Ctiron^ca do Príncifie IX Joio, Cap,** 8. — Soares da Silva, tomo 
K, Cip,' 84- 

(1) 5áo o raesmo, que as Canoas do Brazil , embar(jat^ões coíiatrui* 
de íuim sô pio, cavado por dentro « e algumai^ tão grandes, 4U59 
'Cem lesscnta pCs de comprida 

14 



ío^ 



í> €fae deo o nome cie I/ha das Gârças ^ pelas muita» 
^ue -matou, colhendo-as á mão ^ c llie servirão de re* 
fresco: c fazendo depois alguns desembarques jia terra 
firme, ètm achar outra alguma presa, voltou para o 
Reino* 

1444 — Vendo os moradores de Lagos a prosperi- 
dade que começava a ter o Commercio maririmo , por 
meio destes descobrimentos , que ja produziao quanti- 
dade de ouro, e de escravos, e que todas as embarca- 
ções nelles empregadas vinhao descarregar áqttella Ci- 
dade, pela habitual assistência do Infante D, Hcnriqut 
em Sagres, formarão, com sua licença, huma Compa- 
nhia, que se obrigou a pagar-Ihe o quinto de todos os 
géneros, que exportasse daquelles Paizes: e em conse- 
quência armou seis Caravelas, de que o Infante deo o 
commando gerdl a Lançarote, que fora seu Moço da 
Câmara, e a quem dera o Alnioiarifido de Lagos; e 
os outros Commandames erão Gil Anncs,quc primeira 
dobrou o Cabo Bojadoí*, Estevão AfFonso ^ Rodrigo 
Alvares, João Dias, e outro (i). 

Chegou a Esquadra á Ilha das Garças, onde ma- 
tou muitas, c querendo assaltar a Ilha de Nar (huma 
das deArguim), por levarem informações de que po- 
derião alli fazer boa presa nos naiuraes do Paiz, re- 
solveo*se cm conselho mandar primeiro espiar a Ilha, 
e cerca-la depois com as lanchas, para lhes cortar a re- 
tirada para o Continente; c em consequência de^te ac- 
cordo, partirão de noite M.irtim Vicente, e Gil \^as- 

3ues, cada hum em sua lancha com qaatorze solAi- 
os, e alguns marinheiros, mas as correntes, que por 



I 



to Vfd< Uarroí, Década u, L»° j,,Cap.* I. — Soarei <h SAri, 
Memoriai ctc. , tomo j,, Cap,^ H — Farta, lomo 1,, ?aitc i.» e 
tomo ). no fim. — ^Ghronka lio Príncipe V\ João, Capw° % , oixk pòe 
CiU Sièit>Jí no aiiiu; de 144J. — C^váo, pag. aj. 




al!i sao mui fortes, e variáveis, os detíverão de modo, 
que roínpia o Sol quando chegarão á IHia; e como se 
jicliavao defronte de huma Aldeã, d'cnde julga vão ter 
ija sido descobertos, determhuirão-se a desembarcar lo- 
m^ por não perderem lenipo em dar aviso ás Carave- 
las; e pondo em pratica este acertado projecto, cativá- 
tão $cn\ resiftencia cento e cincoenta e cinco pessoa ?• 
Estes cativos derao noticia de oue na Ilha de Ti- 
ler^ que ficava próxima, havia também gente, porém 
fendo lá o Commandantc Lançarote com todas S9 Lan- 
Ichas, a achou ja despejada, e quasi o mesmo lhe ac- 
ronteceo em outras, de maneira, que tanto nestas Ilhas, 
^como em algumas entradas que fe2 pela terra dentro^ 
apenas tomou mais quarenta e cinca indivíduos ; e vol- 
tando para Portugal, por lhe faltarem viveres para tan- 
ta gente , colheo ainda quinze pescadores em Cabo 
"Jranco^ e foi recebido do Infante com tantas honras, 
jue pela sua própria mão o armou Cavallciro, e fez 
>urras mercês a elle, e aos outros CommandaDteS| c 
ressoais mais notáveis. 

Havendo ja tratado do descobrimento da Ilha de 
inta Maria, relatarei agora seguidamente o que per- 
tence ás outras, que constituem o grupo chamado dos 
Açores, ainda que achadas em épocas diflerentes (i), 
.-c contestadas» 

liba de S. Miguel — Neste anno de 1444 acooie- 



(1} Ha huma «;rande variedade de opiniões entre os nossos Escriuj- 

sobre ai verdadeiras épcjcas de muitm dos antigos descobrimentos: 

tspií jiestas Memorias o% que me parecerão mais prováveis, sem 

fiHUf na dÍ5cusí5o de cada íiuma deilai , por quanto isso me fbrjgaria 

íawr quaíí outias tantas Djsscrtí»cões , e de resto a cousa seria de pou' 

ít 1 te lesse ; por ser cvrdentc, «que a gloria do-í nossos desccbridorts lie 

mesma em todas as hypothescs; e só quando dous indivíduos reda- 

• tnio a prioridade de huma descoberu, he que merece « pena de rxi- 

naioar-se a qaaj se «ieve actiibuir. 

14 ii 



108 

eco na Ilha de Santa Maria , qtie lium Negro fugido 
avistou do alto de hum monte (i) huma Ilha, que pa- 
recia ser grande, e alvoroçado cora a descoberta, veio 
participa-lo a seu senhor, o qua! indo com outras pes- 
soas certificar-se do caso, e achando-o verdadeiro, o 
Gommunicou ao Infante* Achava-se com este, no mo- 
mento em que recebco o aviso, o Commendador de AU 
mourol Gonçalo Velho, Descobridor de Santa Maria, que 
partio logo por sua ordem a reconhecer a nova Ilha: a 
falta porém de conhecimentos exactos sobre a sua po- 
sição, fez cora que clle não a achasse ; e voltando des- 
contente a Portugal , o tornou a mandar o Infante á 
mesma commissao. Para segurar deiíta vez a viagem^ 
aportou primeiro á Ilha de Santa Maria , e marcando 
dalií o rumo a que a outra lhe ficava, a foi buscar» A 
8 de Maio, dia da Appariçao de S, Miguel, desem* 
barcou em hum íugar, que se chamou depois a Pâva^^ 
çâa Velha , e dando á Ilha o nome daquelle Archan- 
jo, e exarainando-a o raelliror que pôde, veio informar 
de tudo ao Infante, que lhe deo a Capitania delia, 
conservando ao mesmo tempo a que ja possuía de San* 
ta Maria. Estas duas Ilhas tomarão o nome de libas 
dos Açores , pelos muitos que se acháiâo nos densos 
bosques, que as cobriáo , e depois se fez comraum éstc 
nome ás outras daquelle grupo. Parece que S, Miguel 
prosperou em breve tempo, porque no annti de 144I7 
deo ElRei D. AflTonso aos seus moradores o privilegta 
de não pagarem dizima dos producioS| que trouxessem 
a Portugal, 



(>) Veite a Hiítorb fmt»lana, dw^le o Livro ç." até ao Livrei ^.% 

— Fari»! Asi-i PortuçiKia, lomnf i.**, c \P nos Jkiíancs ja ckadoi — 
Soarei dá Silva, Memoriai ét D. Joáo I.^ toirto i ., Capirulos 90, e 91 

— Daniíán ck Goet, Oironica da Príncipe D. João, Capiíuios 8«, e 9^ 

— Ctalvlo, pi;T, }| -CUrke, coma i., L.''!., Cap.^ 2^— AiuiaUii^ 
lortco, t9(Do %, pag. \^ 



109 

rerceira — Tove primeiro o nome de Ilha de Je- 
fus Oristo, por ser descoberta (não se sabe o anno) em 
dia dedicado á celeb^ção de algum Mvsterio : depois 
prevâleceo o nome de Terceira , que Inc pertencia na 
ordem dos descobrimentos destas IJhas ; também se 
ignora o seu Descobridor. Em 2 de Março de 1450 
nomeou o Infante por seu Donatário a Jacome de Bni- 
ges , Fidalgo Flamengo, para a ir povoar, por e^tar 
trnta^ e inhâbitada ^ segundo se explica a mesma Car- 
ta de Doação, o que prova de passagem não ser elle 
quem a descobrio, aliás faria menção deste justo mo- 
tivo. Jacome de Bruges partio logo para a Ilha com 
rfous navios á sua custa, em que levou familias, ga- 
[.doS) sementes^ e quanto era necessário para formar a 
^primeiro estabcfecimento. 

• S.Jorge — Deo-se-Ihe este nome por ser descober- 
••ta a 23 de Abril , dia da Festa deste Santo* Se o seu 
Descobridor foi Vasco Annes Corte Real, he incerto, 
bera como o anno do descobrimento; sabe-se porém, 
que o seu primeiro povoador foi Guilherme de Wan- 
dagara , ou Wanderberg, Fidalgo Flamengo, que de- 
[• pois mudou o appellido era Silveira. 
; Graciosa — O delicioso aspecto desta pequena Ilha 

lhe fez dar o nome de Graciosa. Corre a mesma incer- 
teza sobre o seu Descobridor \ mas o primeiro povoa- 
dor foi Vasco Gil Sodré, segundo o Padre Cordeiro, 
que também assignala o anno de 1450 pelo do seu des- 
cobrimento. 

Faial — Assina chamada pelas formosas, e altas 
faias de que se achou coberta. O seu primeiro Donatá- 
rio foi Jorge de Ultra , Fidalgo Flamengo, que esiiava 
ao serviço de Portugal ; porem ignora-se o nome do 
Descobridor (se não foi o mesmo Ultra) ^ e o anno em 
que se descobrio, 

Pko — Mçreceo este nome por liuma alta mootâíT 



nha volcamcâ , de figora coníci , a qual occupa com t 
sua hãsç quãsi toda a Ilha , e tem de altiira wrtical sa- 
bre o nivel do mar, iiyS tocsas (j). Teve por prí^ 
meiro Donarariu a Jorge de UIrra, e ha a mesma in- 
certeza sobre o seu Descobridor , c a época do desco- 
brimento. 

Devo aqui observar, que estas ultimas quntro Ithas 
estão á vista huroas da*; outras, de maneira, que o pri- 
meiro individuo que desembarcasse em huma, forçosa- 
mente descobria as outra?. 

Flores — Nao se sabe quando, nem quem a des- 
cobrlo: deo*se-lIie este nome, pelas muitas flores, que 
a adornavão. 

Corvo — Esta Ilha he táo próxima á das Flores^ 
que ambas deviao ser descobertas no mesmo dia. Em 
tempo d'ElRei D. Manoel, achou-se na sna parte do 
NO, no cume de hum penhasco, huma estatua eque^- 
. tre formada da mesma rocha, figurando hum cavallet- 
ro montado em hum cavallo em osso, com a mSo eí- 

ãuerda nas çrinsís do cavallo, o braço direito estendi- 
o, e os dedos da mão recolhidos, excepto o dedo ín- 
dex com que apontava para o Poncnte. ÉlRei fez tirar 
o desenho por hum seu criado, e mandou hum Mestre 
inrelligeme para separar a estatua inteira , se fosse pos- 
sivel o que se não pôde fazer, antes a quebrarão em 
pedaços , dos quaes trouxerao para Lisboa a cabeça ^ e 
o braço direito do homem, e a cabeça ^ c huma perna 
do cavallo, com outros fragmentos, que esti verão aí- 
gnns dias no Paço , nao se sabendo o destino que de* 
pois tiverao. Passados annos, indo áquella Ilha o seu 
Dmiatario Pedro da Fonseca, soube dos liabitantes, 
que na mesma rocha , por baixo do lugar onde estivera 
ã estatua, se achavao humas letras emalhadas na pe- 



^{^ vide Tofino , Rctciro âú Ocranò , pd», tt6. 



Ill 

dra, de que com grande trabalho fez tirar o molde cm 

cera ; mas mo se podcrno entender. 

Este focta extraordinário tem si seu favor o teste- 
^iDunho de Damião de Góes, que alem de grandes ra- 
Jcmos, e erudição, conljecco bem as cousas do seu lem- 
[po , c as do Paço. Não sei se isto basta para o acredi- 
riar. 

1444 — Neste mesmo anno de 1444 C^) Dí^^í^ Fer- 
[nííndes, homem valeroso, qoe fora Escudeiro d'E!Reí 

P, João I. , e vivia em Lisboa abastado de bens , 
^querendo agradecer ao Infante algumas mercês que 
\lhe lizcra , armou á sua custa hum navio com de- 
Itcrminaçâo de passar alem dos últimos descobrimen- 
Itos^ e assim o fez; porque chegando ao Rio Sene- 

jal , não quiz ter alli demora, e seguindo para o 
fSuI , avistou humas Almadias de pescadores, ás quaes 
l^e dirigio logo na sua lancha , que levava atoada por 
[popa , e alcançando huma , a tomou com auatro Ne- 
[gros Jalofos, que forão os primeiros colhiaos na sua 
[própria terra, que vierão a Portugal, 

Daqui continuou a sua derrota examinando a Cos- 
Itâ, sem perder tempo em desembarcar, até que chegou 
hum grande Cabo , que se avançava muito para Oes-* 

te, ja conhecido dos antigos pelo nome de Ârsinarium 
[Prtmaníorium , a que chamou Cabo Verde (2) , 



(t) ^Arroç (Decatia i., U* i., Cap^ ç) pôc esta descoberta em 
[1446 — ^O Padfc Cordeiro C^.* i., Cup.** 8) ^^a ^^ H^^a* ^^ ^^^ ^'^^^ 
ide descobertas cm 144$ 5 c bc btim sabido , que o Cabo foi descobcr- 
JfD antes — Galvão fpj^. 24) diz, que o Cabo se descobrro rtn i44^« 
~~ Anno Histórico (tomo 2., pag. 2) diz, que em 144c — Faria, e 
(luares da SiJva (nos Iiigaros acima cití»dos), dijem , que foi deicoberto 
Imm 1446 — Damião de Góes (Cap,*^ 8.) segue qiiasi ^ opinião de Ca- 
ilarwosto , e supjxSe a descoberta cm 144Í — Eu ponho o de scobii men- 
te cm t444j por^jue em 1445 foi a sua primeira vingcm^ cclle cdá por 
' fccibcrto na anno antecedente. 
j^t) C*ba Vcíde, situado i^Lat, N, de 14' 45' c Loiíf. P** js' 4S", 



112 

pelo frondoso árvnreíô, que o cobria; e vetidoque a 
alem dclle, fc encurvava muito para Leste, formanda 
como huma pcnlflsula , e que o vento lhe ficava pontei- 
ro para continTjar o seu reconhecimento, ancorou cm 
huma Ilhota próxima do Cabo, onde matou multas Ca- 
bras, que lhe servirão de refresco, e deixando nella ar- 
vorada huma Cruz de páo , regressou a Portugal , onde 
foi rçccbiio pelo Infante com aquellas honras e mer- 
cês , que clle costumava fazer aos que tão bem o scr- 
viao- 

í^45' — Neste anno mandou o Infante a Gonçalo 
de Cintra (i), seu Escudeiro» c homem valeroso, por 
Commandante de hum navio ^ para continuar os desco- 
brimentos, o qual indo em demanda de Cabo Branco, 
para passar á Ilha de Arguim, em que hum Mouro 
Azenegue (2), que ievava por interprete, lhe promet* 



hc o ponto mais Occidenta! da Africa, e he formado por tiuma penin- 
mh , que sahê do Contigente para Oeite maii de cinco teguás, icnm 
do a sua menor largara de seiscentas toeiaf* Da parte da N.E. tem doui 
montintios^ a que diamáo as Mamai ^ e servem de reconhecimento «os 
Navegantes* Segundo algims Sábios , tjue modernamente examináráo a- 
quelle terreno, estes dou* montinhos são restos de luim antigo Vrlcicw 
Po extremo Occidental do Cabo se estende Ijiima perigosa reitiof^a de 
pedra*» que entra muito pelo m.u, A ponta do Norte do Cabo di«nia» 
se ponta da Almadia; • Calx) Manoel a sua j^onta mais do SuL Kafre 
estas duas pontas estio três pequenas Ilhas, chamadas dj Magdaleoa, cu 
dos pássaros* Em huma delias desembarcou Dinrz Fernandes, se l>c cer- 
to, que o fez tm huma Ilheta fuc (stá p^^adú noCiíbo, coma dir 
Barros; mas eu persuado-me» que eile desembarcou na Ilha Goret^ que 
leiíi^ abf í^o , e fica ló dittantc delle cousa de duas léguas. 

(1) Vede Faria e Sousa ^ Ásia Portugueia, tomo 1. no ílm— *Soft* 
les da Silva nas à^lemorias de D. João 1., tomo 1., ctp.^ S4 — iíar- 
fOf , l>?cada 1., U*' I*, Cap,** 9 — >Gahio, pag, a^ — Góes» Chroni* 
ca do Frincii^ D. João» Cap.^ ^*y onde collcca esta viagem ao anno 
de 1444* 

(a) Of antigos Portupuctcs chamavão Atertesjues aos Povoa, <p» 
l>abitavão da mjir^cm ào Rio Senegal para o Norte, os quaes paiecesQ 
Èct hunui ra<^i mixu de Aial>ca^ e Mouros £afbeíescoS| e sáo da cár^i 



113 

tia boas presas^ entrou em hunia Bahia cousa de deze» 
seis Jeguas ao Norte daquelle Cabo onde o Azenegue 
lhe fugio: e sobre o desgosto deste acontecimento, te- 
ve outro, porque vindo hum Mouro velho pedir-lhe o 
levasse para Porrugaí , por estarem Já cativos, segundo 
dizia 9 alguns seus parentes, depois que eacaminou i sua 
vontade o navio (único fim a que viera) , desertou 
igualmente. 

Agastado j e corrido Gonçalo de Cintra destes en- 
ganos, a que o arrastara a sua nlmia boa fé, intentou 
vingar-se assaltando huma Aldea vislnha; e guarnecen- 
do a sua lancha com doze homens, entrou nessa noite 
por hum efteiro , onde na vasante ficou em seco , e sen* 
do visto de manhã peíos naturaes, o atacarão mais de 
duzentos, c a!li o matarão, com Lopo de Alvellos, c 
Lx)po Caldeira , ambos Moços da Camará do Infante, 
o Piiofo Álvaro Gonçalves, e outros quatro homens» 
salvando-seorestodelles a nado» Estes forão os primeiros 
Poriuguezes, que acabarão naquellcs descobrimentos. A 
Caravela voltou logo para o Keino só com alguns ma- 
rinbeiro^, e duas mulheres que havião cativado em ter- 
ra, ficando áquelle lugar o nome de Angra de Gonça* 
h de Cintra (i). O Infante sen tio por extremo este 
desastre. 

Parece, que neste mesmo anno, por ordem do In- 
fante, se começou a construir hora Forre na Ilha de 
Vrguira , que era então o centro do Coramercio da* 



mcihcof cía»ms, Entendião por Costa t!e Guiné o espaço coítiprelicn- 
dida KTMxt o Senegal fnndc comcí^âo os Ncífros) e a Serra tjcôa. A Cos- 
tA «ia iMaia«;ueta estendia-sc desde Cabo Ledo até Ciibo de Palmas : a 
Casu doi Quáquá$ desde este Cabo ate ao das Três Pontas : a Mina 
desdi; efte ate Cabo Foimoso : o Calabar desde este ate Cabo de LoJkj 
Coo^aives; e Costa de Loango deste para o Sul até Cabo Negro, 
^ij iíítuada na l^t. de 22^ 50', e Long. 2^ 6'# 

15 



]?4 

quellà Cosia , o qtial se concluio, ou arapUou muícoá' 
amios depois (í). 

No mesmo nnno de 1445' fez Luiz de Cadamosta 
a sua primeira viagem á Cosra de Africa (z). 

Achando-se em Veneza, siia parria, com qaasl 
vinte dous annos de idade, e alguma pratica da navc-^ J 
gação do Mediterrâneo, determinou fa2cr huma segun- •] 
da viagem a Flandres (onde ja estivera) , para buscar a A 
fortuna^ que na Itália lhe faltava , e munido de mui 
pouco cabedal, einbarcou-se em humas Galés Venezia» .m 
nas^ que hiáo para aquelles Estados, commandadas por ^ 
Marcos Zen. Sahio elle de Veneza a 8 de Agosío de 
1444, e chegando ao Cabo de S. Vicente, e não po- ■ 
dendo dobra-lo pela força do vento ( provavelmente ^ 
Norte), pairarão as Galés ao socairo do Cabo. Neste 
meio tempo veio a bordo António Gonçalves, Secreta- 
tario do Infante D. Henrique (3), cuja habitação est*t» 



Çi) Eu sigo aqui a Caclamoyto (Primeira Viagem, Cap.^ lo), que 
éh positivameme , que neste antio de 1445 , que ellc correo aqueHa» 
Costn , SC trabalhava no Forte por orciem do Infante. Manoel de Farta. 
€ Sovisa (noa dous fu«;ar€f da sua Asia ja citados) faz tr Soeiro Mendes 
a esta com m mio no amio de 1449. Earrof (na Decad<^ 1., L^ ^«'^«.^ 
Cap,® t,) diz, que foi cm 1461 , e Galvão (pa^, tj) dií , que em 
]46i, D^miáo de Góes (Cap.*^ 8.) inclína-so á opinião de Cadmofto^ 
e aé que em 1461 mandou EIRei acabar o C*utello começado pelo 
Infante* 

(t) Vede as Navegações de CddaníK>sN3 no tnmo 9* da Collecçla 
de r^oticia^ para a Historb, c Gcografii das Na<;6cs Ultramaritiai, pu» 
blicada pela Academia Real das Scienctas de Lisboa — Soares da Sihr4 
(Mcm•^^ias ilc D. Joio I. ^ toaK> 1. , cap."^ ^4) pGe esta Viagem no so- 
no de 1444 — O mesmo hz Daniiáo de Góes (we nio tne en^nc») oa 
CbronicA do FriBcipe D, Joáo^ Cap.** S* — Esta Viagem bc muito cu- -^ 
§mà.y e meracc ktrse imeink no seu Original , ou na Traducçáo actin» M 
citaria: eu aio f--^ -* ';» maii do qtie extract*-U, dtiàiixio de pw<fr ™ 
as soai ^rx)li\ái ^ dot Povoi Africanos* 

o) He mttu piuvavcl^ ^ue fosse Ancio Goo^aK^et ^ leu EicriYÍD 
(b Fui idade. 



fã na« proximidades Saquelíe sítio, e em stm compa-^ 
^nhía o Cônsul de Veneza era Portu^rn!^ trazendo amos-* 
trás de assucar da Madeira*, sríngue de Drago, c ou- 
tros productos das Ilhas, de que o Infante era Senhor, 
esc povoavão enrao^ e relatou aos 5cus compatriotas 
as grandes navegações , e descobertas de novos Paizes, 
que por ordem do mesmo Infante se far.iíío, e es iilte- 
rcsses excessivos que trr<ivão delias os que as emprehen- 
diáov de que Qidamosto ficou tão penhorado, que de- 
pois de certifica r-se da honra , e bom gasulhado que o 
Infante fazia em geral aos Estrangeiros, e quanto fol- 
garia de empregar alguns Venezianos, pela intellígen- 
'^ia que tinhao do Commcrcio das especiarias , se ani- 
imi a ir cora o SccrctnriOj e o Cônsul á sua presença* 
modo coirr que este Príncipe recebeo a Cadamosto, 
[foi para elle tão li^ongciro, que voltando a bordo dã 
WSL Galí, dispoz dos effeitos que trazia , comprou ou* 
que lhe serião necessários para A viagem , que m* 
Jteniava , e estabclcceo-se logo em ferra* 

Passados alguns mezes, no decurso dos quaes sem* 
jre o Infame o tratou honradamente, mandcu-lhe es- 
te armar huma pequena Caravela nova de 45* tonela- 
ias, com algumas peças de artilharia , de que era Com- 
[mandante Vicente Dias; e nclla partio de Sagres Ca- 
damosto a 22 de Março de 144^ , com vento N*N.E. , 
ero demanda da Ilha da Madeira v seguindo o rumo de 
^S.O. 4 O-, e a 25 ancorou na Ilha de Porto Santo, da 
luâl era Governador Bartholomeo Perestrello , cuja 
listancia ao Cabo de S. Vicente avaliou com baítanre, 
jas desculpável erro, era seiscentas milhas (i); e sou- 

fi) Cidamotto atilia sempre 3s di«ttndàs em milhas de Itíilia de 

|o ao 2;f io , mai para evitar qualquer cqiiivocação , tomei o expídien- 

\0, de ndiitn as suis medicõe* ar» sjcral çyfiema da Eurnpa , dando 60 

■iíLKj^ a caia ^í^z aiiim ait 800 milhas de que elle faila neste lugar, 

r^io i^ui^s a 60a múlui ou dfizentas leguat 'marmhn§« ' 

15 ii 



lie 

be haver sido descoberta em dia de Todos os Santos (i] 
de 1417.. 

Examinadas miudamente as producç6es desta Ilha^ 
os seus artigos de Commercio ^ abundância de peixe, e 
extraordinário numero de coelhos, sahio dalli Cada* 
mosto a 28 de Março, e no mesmo dia surgio em Ma* 
chico, pequeno Porto na Ilha da Madeira, que diz se 
povoara em 14:0, e que rinha na época da sua chega- 
da oitocento? liomens , inclusos cem de cavallo. 

Nesta Ilha fez as mesmas^ indagações, sobre a sua 
excessiva fertilidade, belleza de Clima, e abundância 
de todas ;»s cousas necessárias a vida* 

Seguindo a suà derrota para o Sul, avistou as Ca- 
nárias (2), e destas visitou Gomeira, Ferro, e Patroa, 
e dirigindo o seu rumo para Cabo Branco, por evitar 
ensacar-se na grande Enseada que fórma a Costa de 
Africa para o Norte delle , o avistou em poucos dia$. 
Alem deste Cabo a Costa se recolhe para o S.E., ftzeiH 
do hum golfo bastante fundo , chaaiado a Furna de Ar-» 
guim , que tem quatro Ilhas ; a de Arguim, que tomou 
delie o nomei e a única que tem agua doce^ a Bran^ 
ca, a das Garças, e a dos Corações, todas pequenas, 
arenosas, e dcshabitadas» Na de Arguim se construía 
entáo hum Forte por ordem do Inânte, e ex-aqui o 
motivo: Os Portuguezes em outro tempo corriao as 
Costas Uesde Cabo Branco ao Senegal ^ desembarca vão 



(i^ Cadamosto attribtie o norot de Pbrto Santo a ler descoberta a 
Ilha no dia 4t Todos o) Sacros \ porém lie mais natural , que os srof 
DtiCobfidofçs ilye dessem aqueDe nome , por adiarem nella o abrigo de 
que carecia a ^ua fra^iU ^ destroçada embarca<;áo. De resto, etie cotitik 
O que ouvia dizef. Eu creio^ fora de toda a duvida, que tila foi achadbi 
otn mitro dia, 

(a) At Ilhas Caruuriaa fio ooie» e Cadamosto conta somente «ete^ 
ÒM por serem ettas ai ma» priticipaes, ou por oáo tei noiicia daiaoi^ 
liis quatro , que Oà realidade sio lUioies. 



onde se lhes antolhava , assalravao as Aldeãs dos pes- 
cadores, c os levavao cativos; esta guerra durou tre- 
ze, ou quatorzc annos. O Infante mudou este systema, 
prohibio cativar os Azencgues, e contratou com algu- 
mas pessoas particulares concentrar-se todo o Commer- 
cio na Ilha de Argui m , por meio dç huraa Feitoria ai- 
li estabelecida , onde só as Caravelas dos interessados 
são admíttidas, A Feitoria recebe os géneros , que el- 
las trazem, que são tapetes, pannos, sedas, trigo, pra- 
ta, e outras mercadorias, e os vende aos Árabes das 
Caravanas, que para este efFeito vem á Costa do mar, 
a troco de ouro em palhetas, e de escravos Negros de 
que levao cada anno a Portugnl de setecentos a oito- 
centos. Para proteger este trafego, he que se construio 
aquelle Forte, [ 

Os Azenegues erao tao ignorantes na época eni 
que os primeiros Portuguezes a IH chegarão, que vendo 
GS seus navios á vé^la, cuidarão que erao pássaros com 
azas brancas; outros, vendo-os cora o paimo ferrado, 
os tiverão por grandes peixes^ e outros finalmente por 
espectros nocturnos, porque na mesma noite os vinhao 
saltear em lugares distantes huns dos outros. 

De Cabo Cancim para o Sul começa o deserto, â 
que os Árabes chamao Sahara, e confina desta parte 
com os Negros da Ethiopia , e pela do Norte com ai 
montanhas que cercão a Barbaria. A Costa deste deser- 
ro he toda baixa , alva , e arenosa. Cabo Branco, assim 
chamado dos Portuguezes pela cor do seu terreno, he 
cortado em triangulo na íua frente, formando três pon- 
ras, distantes huma da outra perto de huma milha. To- 
da esta Costa he abundantissima de peixe. No Golfo 
de Arguira ha pouco fundo , com muitos baixos de a- 
féa, e alguns de pedra, e muitas correntes, por cuja 
causa se navega só de dia , e com a sonda «a mao. 

Na direitura de Cabo Branco pela teria dentro^^ 



^??^(^nS9?i^f^SmcJo ^ híi huma Cidade sem mtíríi- 
IhiíS chamada Guadem, que serve de cscila ás Orava- 
jias de Torabutu (i), e de ourros Estadas de Negros 
tri2cm pnrJ Barbcria ouro, e malagueta, e levâo em 
retorno prata, cobro ^ e outros géneros. Seis jornadas 
de Guadcm cstíío as minas de &il de TagcM , d'onde 
partem muitas Caravanas carregadas deste precioso gé- 
nero para Toaibi:ui^ que dista quarenta jornadas j ç 
ílíí§ ta Cidade vao a Mclli, distante outras trinta jornas 
das, c alli troclo o sal por ouro cm pá (!)• 

De Cabo Branco seguio Cadamosto a Costa pari 
o Rio Senegal (3), que extrema os Negros dos Aze- 



(i) Esta Cítiade, pela timilfiani^a do nome, parece ser a mesma a 
que Farros c^ama Tuní^nhutu , e os Viajanies Estraní;circ$ Timlf^fieíon, 
oiidc o Major Inglez Dcnham vivco muito tempo de tSiç cm dbnte, 
tf a sitoa no icn Wappa em i $** Z' de tat. N. , c 19' j' de Long,, di»- 
tante iiiaii do diiícntas leí;u.ii da Balvia de Pením, na Co^ta Occidemai 
ót Africa» que fie o ponto que llxs Hca mais próximo. Eu« Pai.» mte- 
riores sáo ainda muí pouco conhecidos, a |>ezar das diligencias do Go* 
vcino Britânico, 

fa) E^c Commçfcio durava ainda neste século, porque Muog Piír- 
kcr faz dcííe mencuo» 

Q) Este grande Rio tem mak de meia )e^na de bccca : a ponta 
do Norte dl sua entrada , chama ja Honta de ibrheria, ^clta-te i)i Lat. 
K. 15** ia', c fíi Loíig, de i^ n' 4$'- A barra arai^^a era mui* 
10 [mai* ao 5ul , mas no aiino de iSia huma ^ritndc cheia abrio chi- 
tra nova, que lind^ se conserA-a. O canal da entrada tem 100 coeias 
ét l^ffP^ ^ de nove are demito pcs de fundo, o qual diminue imiitaf 
\ezef I de modo que nío l« seguro pasmar a barra cm navioi, Cfuç dc- 
/nondem m:\is de dote pci de asua , porque o mar quebra sempte no 
bruico: passado este, achâo-^c quatro braças de fundo. Os Navios podem 
\ubir fei», nu sete léguas pelo Rio acima, c as embarcações pequena» 
nialf de sc^genta. A Ilha de S. Lu 11, Capital dos espbelecimcnrof Fran- 
ceK^, fica poucas tegiiat afastada da entrada; lie pequena, toila de ué^ 
situada na Ijnt* de 16" 4 10 \ c rta Long. de i* 41' 45^%eciivi« 
de o Rio em doiís bnf n? : o de Leste trm çco toesai de lar^o, « o cie 
Oe^te íoc; nnquelle hr que dão fundo os navios, proxrmo d Ilha de S* 
LuÍ7, o Rio tem ntitns ÍWui , todas cobertas de arvotedo. Na cfiaçio 
dat cHuvas ^que de otdinano ;Kâbdi tm Outubco} creice o Rio a víti 



aef ; c as terras áridas destes, das terras ferreis da- 
.ijiielies. Este Rio tinha sido descoberto cinco aiinos an- 
tes (em 1440) por rrcs Caravelas do Infimte, que wU' 
le entrarão, e começarão logo a traficar com os Ne* 
gros, e depois tem continuado a vir alli embarcações, 
A sua foz he de mais de liuma milha de largo, com 
.bastante fundo, e pouco roais ao Sul faz outra bocca , 
com huma Ilha no meio, e destas duas fozes sahem ao 
mar alguns bancos de arca , e alguns parceis quasi Iiu- 
ma milha. De Cabo Branco a este Rio sao duzentas e 
oitenta e cinco milhas (i). As marés sno por aqui regu- 
Jares de seis em seis horas, e a enchente sobe mais 
de trinta e cinco milhas pelo Rio acima; e só com ci- 
la se pode entrar, por causa dos parceis. Todo o Paiz 
he mui viçoso, e cheio de arvoredo. 

Na margem Austral deste Rio começa o primeiro 
Reino de Negros da Baixa Ethiopia , cujos Povos são 
mui azevichados, altos, membrudos, e bem apessoados, 
e se chamão Jalofos (i). Alguns são Mahometanos , ou- 
tros sem Religião* A maior parte delles andão niis , a- 
penas cingidos com huma pelle de cabra : os inaís ricos 
vestem-se de algodão, que nasce no Paiz^ sao fallado- 

fé^ ée dtura na barra ^ e entra tno furioso ^^elo mar, que a cfuas legirj» 
de distancM <id sua bocca se acha agua perfeitamente doce, l^odo ç^to 
* Vaii lie cobeito a imm«nsa dispneia de bciqties ^ e ía^oax^ qut: o fa* 
2£m mui doentio, sobre tudo depois de [lassada a tstacáo chuvosa, for* 
que 0% calores são insvipportaveis ^ c as a^uas , que ikailo cstag'nadas, e 
ciytim ác plantaf ^ e de aiiinidef mortos acrasíados pelas enxuiradas, cor^ 
icfnpcDdo-se logo, eíifipestão, os ares con» «mana^ões pdies, que pro- 
duz«:ni febres da peior quahtkde. 

(1^ Cadamosto conta treíentas c oitenta miUío*? de Itália, que dáo 
ch5T«atas c oitenta e cinco óm tioíi^M, como ja chíervei, e esta dis- 
tanciar emfc Cí»bo Etu^co e o Senegal y he oacta com pouquisiipna 
dtfftireií^a. He pêra, í^ue elie náo n<*» expjícjue cf^rro iredia as distaw- 
c-ia- , nem nos de as prskfirs Ceogf;%íico« dos Faizes que vizitcu 1 

(») O Rei dos JaWos , quando alli chegou racfamoslo j cbairáyft* 
it Zu&boiim^ e era de v^iUe e dous auuoi de idade» 



120 



res^ e mentirosos, porem caritatiros para recollierem 
nas suas casas (que todas são de palha) a qualquer £a* 
rasteiro , que pede agasalho por iium dia , ou por huma 
noite. Os quejiabirão na Costa tem Almadias, em que 
vão pescar i e são os melhores nadadores do Mundo* 
As suas armas sao azagaias de ponta comprida , e far* 
pada j alfanges fabricados do ferro que tirão do Reino 
de Gambia , e rode! las de anta. 

Do Senegal continuoei a navegar ate hum Paiz, 
cujo Senhor se cliamava Budomel , distante oitocentas 
milhas Italianas (seiscentas Porruguezas) daquelle Rio 
(l), por ter boas Informações das suas qualidades pes- 
soaes, que lhe havijo dado os Portuguezcs ; e.surgia 
cm hum lugar , que não he Porto , o qual tem por no- 
me a Palma de BudômeL Aqui começou logo a nego- 
ciar Cadamosto, que levava diversas mercadorias, c sc' 
te cavallos, animaes de muito valor naquellas Regi6es. 
Para este efFeito estabeleceo-se na Aldea do mesmo Re- 
gulo , que constava de cincoenta casas palhaças, e dis- 
tava dezoito milhas do mar, onde foi mui bem tratado» 

SuccedeOj que estando a Caravela ancorada a mais 
de duas milhas ae terra» e havendo grande mar, e ven* 
to, quiz elle mandar a bordo huma carta, com aviso 
de que se dirigia por terra ao Senegal, e em consequen* 
cia cumpria que ella fosse espera-lo naquelle Rio, por 
ser mais facil o embarque , c mais seguro o ancoradou- 
ro* Hum negro , a troco de hum pedaço de estanho da 
valor de quarenta reis, levou a carta a nado, através 
sando o$ baixos da Costa , onde as ondas qúebravao ^- 

(i) Esta dittancii he hum eiro palpiveJ de impies^ão, ou de Gv 
piíta , por<}ue Cadamofto achava^^s entre o i>ci)e^âl c Cdbo Veriic , cu* 
j^ dtttaiicia total lúo dtega a cem milhas. O lugar ouàc elle aiKorou , 
parece licar hum pouico ao Norte da Kihia de Vcíf , defronte de laioa 
filmar, dtstame pouco nuri de srtsciua mitlias do Senegal; 
Cltio, i]ue em vez dtt Soo milhas se devem ler oitenta. 



i 

I 




121 

rlosis, c voltou Cora a resposta ; sem que o dès.mímny- 
se ver cjue o ?eu companheiro (porque partirão deus) 
não ousou passar a arreben ração do màr* 

Concluída finalmente a sua negociação com Budo-i 
jnel no espaço de vi fite e õiío dias do m€z de Nõ^- 
vembro (i), e tendo recebido alguns escravos^ foi-sc 
embarcar ao Senegal na sua Caravela , dt-tcrniinado a. 
<k)brar Cabo Verde, para descobrir novas Regiões, por 
ter ouvido dizer ao Infante, que não longe do Senegal 
estava o Reino de Gambia, em que se dizia havcr^ 
grande quantidade de ouro. Estando para partir, appa-í 
jTcérIo pela manhã duas Caraveías, e chegando á fal- 
[Ja. soube que em huma vinha Amónio de Nollc, Ca-r 
jvalheiro Genovez , e hábil Navegante; ena outra al-j 
l^ins Escudeiros do Infante, e ambas tom intento de 
I passarem o Cabo Verde , e fazerem algum descubri- 

Reunidas as três Caravelas , corrérSo a Costa pan 
ra o Sul, e no dia seguinte avistarão Cabo Verde, que 
listava do ponto da stia partida obra de trinta milh&f 
Xtãlianãs (2). Este Cabo tinha sido descoberto no an** 

(1) Ke conia admir«çe], t^tie sahiculo de Sagres Cadiímofto % 1% 
de IVUrcn, cheirasse oos priíKipiof <k No\en^ibro ao )^%\i è^ iydciTícI* 
Entrou dk cifi Porto Síanto a 2$ , pailio dilíi a 28, c no mesmo díi 
ancorou na Aiadcira, oíidc a dfinoia ^>arcce ter sidu bem pouca: da Ma- 
cieira panou a^i Canarjas , cuja viagem \t sen>prí de jnucos dias, visi-, 
toti rfitas daqii<;lla< Ilhas, c na Palma iião cheirou a deseo l^arcar , por 
coníerquencb também a dtfenta havia de ser jrequcra la Paín^a foi tm^ 
jVff^T'»/ én»% a Cãhú Bran€»\ e daCjMÍ atç ao ^cl;e^«tJ não d«o iundo em, 
psrte ai^iima, por t^Danto diz: Dffois que f^íítíihú^ o Cnhê Vromc^ na^ 
tf€^aHhfi à vnUt dclic fúr néS jau j4?t nat.fi j até no Kn> cLuaMãú iÍo SctiC 
^/. Náf> declara rambem , c^ue se «^en.craase latt Rio, ariíes da a tro-, 
tenótf ti Goiumfíoy c só ipcrciona a sna arccrr^^cm ra Cesta do Ta ir 
^ Eudomel ^ e que te derrcrou ntljc xúntc € iiito éUí ii& mt^ H< A^-y 
%itmtffiê, Ista não se entende lem , mas em a Nota n,^ jo darei al^u- 
IHa eiçpticacáo^ 

(a) Cada mosto saliia do Senegal, 91c fica pouco n.€ nos dç cem mi- 

Iti 



ito antecedente, e deo-se4he este nome por estar povo^ 
do rfe alias, e copadas arvores sempre verdes. Este Ca^ 
bo tem dous montinhos sobre a ponta, a qual cmra 
bastante pelo mar dentro , e deita recifes a quasi meia 
xniíha de distancia. Apparecião sobre o cabo, e á roda 
delle muitiís casas palhaças de habitação dos Negros ; 
e este território ainda pertence ao Reino do Senegal. 
Dobrado o Cabo, virão três Ilhas pequenas não muito 
longe da terra , dcshabitadas , e cobertas de arvoredo^ 
e>ancorando em huma para fazerem agua, nao a acha* 
léio^ mas pescarão muito peixe. Era isto em Junho (i).. ■ 

Sahindo da Ilha no dia seguinte, navegarão á vis* 
ta da terra , que he baixa, e sombreada de mui basto ^ 
c frondoso arvoredo até próximo ao mar, e alem da 
Cabo se encurva , e mette hum golfo para dentro ; pas- m 
>ado o qyat, a Costa he habitada por Negros Barbeei- m^ 
nos, c Serreres, todos independentes, e Idolatràs7 que 
mio reconiiecem Rei^ nem superior algum: sao hosnens 

Mm dí^r^te efe Cabo Vercfo; por conse^ueocia ácic aqui kf-se^ ceora 
t aUeiUa miih4s iuJianas , e nio trinta. 

(i) Esia data he visiveltnente erracfa , pois estando CacfamoftO <••/- 
J« de vinte ^ € 9*ào Hlas do mcz (i< í^ovewhra cotn JJudoniel ^ e indo 
Átii cfflhafcAf por tem ao Senegal, d'oodí logw i faliida cncoiitroti ai 
dtiai Cãrrfx^clas ííe Portugal , não podia achai-se eir. Jmíbo do «mio te^ 
jfutn te «obrei Cabo Verde, mitei teria nos prmcjpios de Orten^fa Mm* 
ainda, qiic sequeira substituir «te mei »o de Junho, cabe-jc eia i outra d il^ 
£Culdade ^ por quanto nc&t« ca«o Cadamosto só poderia voltar ai Ft<tu« 
pi PO ãnr^o de 1446 , e emprchender a «cgundj riagem no dt 1447. 
Ora elle di» foo caprtiilo i.) qtie 00 inrK> seguinte, itlo he^ i>o íuIk ^ 
sCfqoente ao ^3i ^ri primeir^i viagem de 1445 , /km ím»mw it^iii^UBto ^.^B 
de accordo dttti Atttonfo de Noflc , ííhís Cara fretas- ^ a qtie o lofini^^^l 
Mhtou huma ^113 ; o qnc prova , que as Caravelas da primeira vâi|;efi^ 
tmhío dcfsrmavlo^ Por consequência não pode a^miuír^se^ que ^ih w- 
grevçatte deita primeirt viagem, e reparando *m p^^wcos dus ismatcnw 
barci^et, tomasse logo a sahfr para a segunda. Parece-me , i^ue o «tt^j 
Wá em cHicf , que pmou com BudoJnel o met de NovcAl^a , tm 
de drier o mei de MaU, C/nn esta fácil correcfáo^ licarà ciata^ e 
^iiltjíií todíi a ríjTtatiM de Cadimosto, 



T23 

fortes , mui cruéis , c visão Ac setas eiiTenenadas : o 
Paiz he coberto de bosques , lagoas , e ribeiras. 

Correndo cora vento largo para o Sul ^ dcscobr^ 
ráo ham Rio, a que puzento o nome de Barbecim CO»' 
Navega vão elles só de dia , c ao Sol posto surgíáot em 
dez j e doze braças, afastados da terra três, ou quar-i 
tro milhas; e ao nascer do Sol, íevnvâo ancora, sempre» 
com boas vigias na gavca , e na proa , para observarem 
^e o mar arrebentava; e a^im chegarão á foz díe outra 
Rio tão largo como o Senegal (segundo se Uies bgun 
rou), e vendo-o tão bcllo, e o Palz coberto de arvore- 
do âié i agua, largarão ancora , e mandarão examinar 
a terra por hum Negro interprete, de que todos os na- 
vios Portuguezes traziao alguns. Porém logo que liM- 
ma lancha o deitou em terra , lhe sahírao de huma cm^ 
buscada muitos Negros armados , que o matarão. «Por 
fe incidente, qtie demonstrava a crueldade daqueíle 
Povo, se iizerão a vela, e continuando a costear Êuma 
terra baixa coberta de arvores viçosas, chegarão á bocn 
ca de hum Rio, que nao tinha menos de seis milha* 

Ide largo, e ancorarão, na persuasão de ser aquelle a 

[Gambia, como realmente era (2). 

Cl) O Rio Birbecim citá sittiaiJo n* Latitude Norte é/s ^j^Py t nu 
Líwg. de 1° 25 - 

(a) £ite grande R k) be navegável por esp»qo de ctnto c sefsenU^ 

Ic^Qfti ^ i Cataracta , ou Quedai de fsracDndA , onde diega a mate Q 

podem ir eRilijircaçúef de cento e circorita tone Lidas: a sua maior 

Urgura be tie dez milius, e em Joar, distante cinccenta léguas d^ cn* 

kfníd^^ tein hunia m^ha de brgo , e fiuxlo pau navios grandes. A III12 

14^ J4aa«i^ CO) que esta o Forte dos In^lezes , dista vinte c cinco mi- 

I JhAS dl borra. A njelhor estacão p^jL tfntrar uo Rio be de Dczembio até 

IjuiiiiOa poti^ue noi «jeaen de Juilio, Agosto, e Setccnko cresce muito 

(cona 4% duivaft, c corre com fír^di^simo im[eto, O Csbo de Canta AU-» 

jctUp qu^e he 2 ponta do $\i\ dít entfids^ está situ^dq nj» i^t. N. de i ^^ 

1' , e D» Long, de 1 " 2c'* 

A &Mi^io áqt Mandjiigaj, dividida cm vario» Bdnos, pavOa as 
[«tirjens deste Rio ^ uuis ^ i^^^im^^^ kz^km vl^ f^iK^KÍa; ^0 Kc- 

IG li 



124 

No dia seguinte, coin a idea em que estavão os 

Navegantes, de que Ii.i veria alguma grande Fovoaçâa 
próxima da barra , em que achariao muito ouro, man^ 
darão emrar no Rio a Caravela pequena, acompanhada 
das lanchas das outras duas. Esta embarcação, achando 
braça e meia de agua dentro dos bancos da barra , sur- 
gio ^ segundo as ordens que levava , e enviou as lan- 
chas pelo Rio acima , as quaes subindo cousa de mi- 
Hia e meia, acharão sempre fundo de mais de cinco 
biajasi e observando que o Rio dava muitas voltas. 



gfos fiiur fuerrsírof , traidorct, c lacfrtjei , sotne tudo os da margem 
jAustiaf; ps sevrs trajoi ^ armas, c leis sío as mesmas dos Jalofos , c i»^ 
tua? cara* sáo redondas. O Rio l>e abundante de peixe , e tem muitiSp 
t mui fracas JHi« de arvoredo, cum huma , e duas leguai de ext«n* 
jáo ; e ao lotign dai suas margens tudo' são bost^ues , c ruiiís longe pU- 
picies immep^s de pastagens v ^u^ o&eltfantu, búfalos, antas, e ou* 
IrOf muitos animaes sio em riumeio excessivo. 

O ptiocipaJ iu^af, em que oi Portuguezes fiiiío o seu commercio» 
in cUamado Porto do Catulo, a «ter»ta legu^f da entrada ; e fabricava*- 
•e alli naniro sal, qot o» Negros trantpoit.-rváo pela terra dentro a kxi*^ 
fuífirmat distancias. Os Portu^ueies exportaváa deste Rio escraxos, al« 
jjodáa cm rama, c tecidof , cera, marfim, c pedaços de ferro forjado^ 
i^ue levavão a vend«:r ao Rio Grande, e ao de S. Domingos; e tam* 
htm ouro mui fino em p<í, e pedacinhos , cjuc comptaváo em huma 
Aldca charraJa Satuco, a cento e- oitenta léguas da barra, ctijo ouro 
€9 Negros JVlandrniías hún comprar aos Cafres , a troco de m^niUias de 
cobre, cm Caravanas âç três mil homens armados, que gastaváo tets^ 
jneics na («irnada , e juígava-se que hiáo «o Reino de Monomotapa» 

No aimo de 1^78 trouxe^ htima Caravana cinco arrobas, e oito 
artateí^ destí ouro, cjtie ot Portiiguezci não comprario por íalta de 
mcTcadorías própria» daquelte trafico. E lem fim no tnno de 1 f 84 deU 
3(árão de toda este importante commerdo. O Capitai André Gonçalver 
(ou Alvares) de Almada , de cuja Obra (I>icTÍp<;5o de Guiné ctc* Lis* 
boa i^n) ti ei o que relato do commcreio deste Rio, nao etpJtci ai^ 
cau<as deste rnfc^lrz abandono, ou, se at ex^icou , foi mutilado o «eu 
lHanufcrito; pois o Abbade Barbosa f fctbliothecí Lusitana, tomo 1,^ 
pag 1 0) nos informa, qne seu irmão O. Josc L-arlwna tinha huma co^ 
prv, qu;* parfcli original, desta Obra, a qual sahín impresst firíirftwjwft 
étPtfis 1/0 tiUiê^t êfdtm, tjuc làc d€ê hí^ Authúr^ 



12S 

e erâ coberto de espesso arvoredo, tornavao para a Ca- 
rarek quando lhes sahírão de hum regato, que nelle 
desaguava^ ires Almadias com vinte e cinco, ou trin* 
ta Negros^ que as vierão seguindo até pouca distancia 
da Caravela, a qual se puzerao a conciderar, e depoÍ$ 
se retirarão , sem corresponder aos signaes que os Por- 
tuguezes lhes fazião para virem a bordo. 

Na manhã segumte fizerão-se á vela as duas Cara- 
velas, e entrando no Rio, unirâo-se com a pequena, e 
continuarão a navegação, indo e^ra diante, e as outras 
na sua esteira ^ e tendo andado três milhas além da 
banco j apparecerâo-Uies pela popa quinze grandes Afe- 
madias, remando para elhis á voga arrancada. As Ca- 
ravelas voltarão logo sobre ellas , postas em armas, c 
cobertas com os seus toldos, c pavezes , com receio das 
setas hervadas, de que se dizia usavao estes Negros. As 
Almadias dividirão-se em duas esquadras, e cercarão a 
Caravela de Cadaraosto, que era testa de columna : tra- 
ziao ellas mais de cento e trinta Negros, bcllissimos 
homens, vestidos de camisas de algodão branco, com 
chapeos da mesma côr, e por penacho huma penna; e 
na proi de cada huma vinlia hum Negro em pé, co- 
berto de huma rodella. Chegando perto, arvorarão as 
pás, que lhes servem de remos, e ficarão contemplando 
a Caravela , maravilhados de tamanha novidade j e pas- 
sado aígum espaço^ vendo aproximarcm-se as outras 
duas, largarão as pás, e começarão a atirar frechadas* 
A^ Caravelas disparárãa então quatro peçns juntas, a 
cujo estrondo esrupefaaos^ os Negrc?»/ deixarão cahir 
os arcos, e puzerão-se a olhar em rnda pTa todas ay 
partes onde eablão as pedras. Nfío notando porém ou- 
tros eflfcitos destes tiros , e de outros mais oue se segui- 
rão, tomarão os arcos, e continuíirao a tirar furiosai- 
mente^ avisinhando-se mais e mais aos navios. Os ma- 
linhdros^ vendo-os tão perto ^ usarão das suas bestas. 



126 

G Inim filho rntnral de Anronio de Nolle matou Ioga 
hum Negro: os seus companheiros, depois de lhe ar- 
rancarem a será da ferida , e de a examinarem com at- 
tençâo (as «eras das bestas erão maiores, que as dos ar- 
cos), proseguiráo o iU^que, mas em breve forão muitog 
mortos, e feridos, sem sangue dos Portugueses. Verv* 
do-se os Negros cao maltratados, afastárão-se , c forSo 
investir pela popa a Caravela pequena^ que tendo pou*» 
cos homens, e esses mal armados, esteve em grande a» 
perto, a que acudio Cadamosro, que a recolheo nomeio 
das outras , e com o seu fogo obriguu os Negros a pó» 
rem-se ao largo. 

Acabada a peleja , â Caravela da vanguarda deo 
fundo a Iiuma ancora , e as outras duas amarrárão-se a 
eíla, passando huma ca^iêa de ferro de liuma para a ou* 
tra (i) ; e por meio de signaes, c exhortaçôcs dos in^ 
terpretes , diligenciarão attrahir os Negros a bordcx 
Veio com effcito huma Alraadia á falia, e propondo- 
se-Ihc paz, e commercio, responderão os Negros, que 
ja sabião o que se havia passado no Senegal i que ot 
rortuguezes comiao carne humana ; e oue só para esse 
fim compravâo os Negros, e por isso nao queriao ami- 
zade com elles, antes os matariao a todos , se podessem, 
e [evariao o despojo ao seu Rei, que assistia dalli rrcs 
jornadas. Neste instante, refrescando p vento, velejiráo 
as Caravelas sobre as Almadias, que fugirão para terra. 

Cada mosto , e as principacs pessoas daquella expe*- 
diçSo, queriao proseguir o descobrimento do Rio, qtie 
ja sabião ser o Gambia ^ porém os marinheiros instarão 

(t) Vii<se p^r esta pissagém , e por outras muitai dê nmiu Híft^ 
rU , qu: \%\o hi tnv<;nçio moderna (como alguns cu» ião) taliogar it 
anctSfa* em cài2A% de leito , para ancorar com segurança em miot fyn- 
^J^, ^7% prtncípíos dcíte sícub hum Omcial Inglei ai^rfeicoou ai^tielU 
tnti«a rvlíi, cit;tniinii «xc^Ik;ites cadéai de gonios, a que le dá fM>* 
jv o nofl^ dâ aTiáriiií it fiffj. 



por vokarem pani o Reino; e nao os podendo i'edii2Ír 
á obediência^ sahírâo do Rio no dia seguinte, e cosieaix* 
do Cabo Verde, seguirão viagem para Portugal. 

Era qiianto Cadamosto esteve no Gambia , obser- 
vou alguns fenómenos , que hoje deixão de o ser por 
rriviaes , e sabidos , mas que naquelles tcoipos erão áif- 
íiceis; v.g, admirou-se de ver a estrella do Norte mui 
baixa, e de descobrir o Cruzeiro, que cuidou ser a Ur-^ 
$ã Maior do Hemisfério Austral, assim como de nas- 
cer o Sol sempre coberto de hum nevoeiro (l). 



ff) Ot»<efto «HJtf Cadamosto , ícn<ío tãi> prof íxo em descrever inof, 
e co9fUfi3es , não dá a posição Gcogra/íca de nenhum dos Cabos , R ios, 
e i^ortos que avistou ^ ou vizitou » c não meacioiía Ijurna só Obseiva- 
çáo Aiuotiotiuca cm todo o dtcutso da sua viagem i nem ao meno» 4 
LackiKk^ e Longitude estimada de hum ponto qualc]uer. Observo mais, 
que da a torna-vidgem por cmiduida , logo que m*^ntou Calso Verde 
^ara a Norte ^ ao mesmo tempo que cxpendeq toda t derrota que se^ 
^i\o ni ida para o Su\ ; sendo indubitável y que na volta para Portugal 
Olo podia (er a sua viagem de simples Cabotagem; assim parece que o 
seu Livro está tiuncado, e este dtfeito he igualmente visível na Se- 
gunda Via^eni, como adratite se vera. 

H« lastima, que ino tenhamos htírr Diário Náutico Orígioal do» 
iMMCis aiuigos NavegMJies, hfivendo-íe publicado Historias das aiias Via* 
poii deb&ixo do noaie de Roteiros , que não coni^^m 5eiiáo coDe^-* 
coes de notas, mais ou mervos amplas , adornadas de algumas noticias 
Geográficas s o que não ba^ta para constituir hum verdadeiro Diário 
ijtoutko; etí me expHco melhor: Todo o Navegante tem hum Lívto^ 
in <jue escreve dia por dia náo só ns acontecimenros que vão Ocoor* 
ffsifdo , e férmáo a parte histórica da viagem; ina$ tairbem todos 
r^ijue 130 relativos á Arte Náutica, e estes são sempre os que cl- 
Je explica com maior cuijado, e miodeia, por depender disso a sua 
lesponsabil idade pessoaU Deste género não raie lembra de ter Lido nenhum 
ci» Forcufuez. 

Ninguém c^^^a, que só os Nai^egantes modcipos hi^m símiíliantet 
DiaríOf: he certo, que hoje se orgaoijiSo com rnairir perfeição; mas o 
i^i«o comrnum dictava ans antigos, que para irarem conta das suas 
Comrr>issóes^ liics cumpria escrever hrra pnr hor:» cuanio «occedia a bor- 
dei <k>f seus pavios» e a maneira por que dirigião a dejmta, o C;ue cjti- 
^iannfinciouai o estado do tempo, e dos veúcos^ a posiuo dooayiq^ 



T«8 

T44<5— Neste anno hmt de Caáamosto, t AntonW 
Nolle arm.írao novamente duas Caravelas (i), para irem 
completar o descobrimento do Rio Gambia, ohrcndõ 
primeiro a indispensável licença do Infante, que folgou 
tanto com esta dcrermina:ão, que mandou cm compa- 
nhia deli es hyma Caravela sua. 

No principio de Maio ^ahírão de Lagos as rre^ 
Caravelas 5 e era poucos dias vírao as Onarias, onde 
Jiao qiiizerão demorar-se , para aproveitarem o buín 
vento qoe trazião; e seguindo a §ua derrota, reconhe- 
cerão Cabo Branco, do qual se anánírão hum pou- 
co, e na noite seguinte as assalum huma tempesta- 
de de S.O. , com que se puzerâo á capa nu bordo de 
O.N-O. porrres diají, e duas noites, eac> terceiro dia vi- 
rão com espanto duas Ilhas, de que u uno folgarão por sa- 
berem , que erao alnd^ desconhecidas; e dirigindo-se 
a huma, que era grande, rodeariU> alguma parte delia ^ 
até descobrirem hum local , que lhes parecet) bom fnir* 
gidouro; e abonançando o tempo, enviarão huma lan- 
cha bem armada a examinar se havU povoação. 

Desembarcarão os Poritguezes, e não vendo cami* 
nho, nem vestígio algum de gente, voltarão para bor- 
cto; e na manhã segumte mandou Cadamostu á mesma 
diligencia doze homens armados, com ordem de subi- 
rem a hum monte mais alto» e observarem se haviâo 
outras Ilhas, Estes homens acharão n^uitos pombos, 
que se deixa vão tomar á mão , e do monie dcí^cobrírio 
outras trçs Ilhas granJci, huma das quaes hcava para 



a p»Titio com que 
bom mcrInJo ^ nj não. 



ctc 



fossem estas cousas ctaiptii cocn 



.^^Fu eitcxj penuaiido^ que ainda existem alguns Dbrios OrHjime» 
; aiitj^oj Navcgaiites; oxalá que suão i iui pari honn dl 

CO Vcâi a Segunda Via^CiU de Ciiiarnotto nas Memorias da Aca- 
demia ja citadas. 



12» 

D^Nortc 5 e lhes parcceo verem para o Sul a modo de 
outrais; assim as Ilhas ngora descobertas erâo quatro. 

Desta primeira Ilha se dirigirão as Caravelas ás 
otitras duas, que não íicavão tanto a sotavento da der- 
rota , que devião seguir para a sua coramrssão , e ro- 
<3eando huma delias, aue parecia cheia de arvoredo, 
descobrirão a boca de hum Rio, qtie julgarão seria de 
boa agua, e surgirão para se proverem delia. Aqui des- 
embarcarão alguns homens da Caravela, e caminhando 
pela margem do Rio, acharão algumas lagoas de excel- 
lente sal i daqui embarcarão muito , e os navios reno« 
yárao a sua aguada. Colheo^se quantidade de grandes 
tartarugas, cuja carne era tão branca, como a de vitel- 
la , e de oprimo gosto , e por isso salgarão muitas para 
a via vem ; e o peixe era innumeravel, algum de espé- 
cies novas, e muito saboroso. O Rio tinha de largo 
hum tiro de seta , e podia entrar nellc qualquer em- 
barcação de 75' toneladas. Nesta Ilha se demorarão 
dous dias, matando infinitos pombos, e puzerão o no- 
me de Boa Vista i primeira que descobrirão ; e a esta 
segunda o de S. Tiago, por ter ancorado nella dia de 
S. Fiiippe, e S. Tiago (i). 

Partirão as Caravelas na volta de Cabo Verde, 
e em poucos dias avistarão terra em hum lugar chama- 
ria Acho ^uí liuma contradicção manifcsU : Tadamosto conta,' 
<jue nfaio de Lagos no principio do mez dt Maio^ e <]ue deo o nome de 
S. Tiago a esta Ilha , per haver ancorado nclla no dia de S. Fiiippe^ c 
S. Tiago^ que he justamente no primeiro daqnelle mez. Creio por tanto 
haver erro de impressão, on de copista na data da sua sahida de Lagos, 
«screvendo-se Maio em lugar de Àòril. Concorda isto com a narraçáo 
de Góes (Chronica do Príncipe D. João, Cap.^ 8.^, cm que coiloca esta 
Via'<em no anno de 144$), onde diz: Desta vez descobrirão estes Ca» 
valUires as Ilhas de Cabo Verde , levando dezcseis dias de viagem \ e â 
primeira que virão chamarão da B^ta Visla ^ e â outra S, Fiiippe , por 
che-garem a ella no i.^ de Maio% e a terceira chanusvão do Maio pela 
Tuesma razão, 

17 



130 

do « Duas Palmas (i) , mtre o Cabo c o Senegal ; c 
coiv^endo a Costa , na manhã seguinte dobrarão o O- 
bo^ e chegando ao Gambia, cnirár3o logo por elle , na- 
vegando de dia com a sonda na niiío. As Almadias 
dos Negros andavão ao longo das margens , sem ousa- 
rem chegar-se* Cousa de oiro milhas da bíirra acharão: 
liuma Ilhota, era que surgirão, e lhe chamarão de Saa"»! 
Thomé, por ser o nome de hum marinlieiro, que aUi 
«cpuf tirão (i)* 

Deixando a Ilha , continuarão a sua navegação 
lo Rio seguidos das Aímadias dos Negros, que a final, 
attrahidos cora mostras de alguns pannos, e seguranças 
de paz, e amizade, vierão à Caravela de Cadamosto, 
a que subio hum, aue faltava a língua do interprete, e 
fe mostrou maravilltado de ver a grandeza do navio^ 
sobre tudo das velas, porque elles não as usão ttã& $u2 
Almadias; e igualmente se espantava da côr branca ^ e 
do trajo dos Fortugiiezes, Estes acariciárno muito o Ne- 
gro, c ellc disse que esiavao txo Paiz do Gambia, cu- 
jo principal Senhor se chamava Forosangoli^ que liabi* 
tava a nove ou dez jornadas de distancia pela terra 
dentro para a parte do Sueste, e dependia de Melli, 
grnndtf Imperador da^ Negros; mas que haviâo outros 
[inatos Ssínhores menores, que vivião junto das mar* 
icus du llio, e que clie os levaria a hum destes por 
aomc Battimansa, com quem poderiao tratar amizade^ 
Acceitou-síc-lhc a otf erta , e sendo bem recompen- 
ido, ficou a bordo, e as Caravelas continuarão a su- 
ilr o RiO| levando a proa sempre ao Nascente, até^ 
|\ic chcgárío ao Estado de Batrimansa, que ficava per- 

f l) Nit» ticlif* cftí? pofiio nohido em Caru alguma; c creio qiie 
li tf<a*»l»rt» I » lie ('^ili^ncuto, \yot haver »l(i notado aí^uclJas duas ^ 
Mlfif m lun iifiiiicira Vu;;tfin. 
k(«) tie }iti)V4Vitl klMC ci(a.ll[iot.i de S* Thomc seja a JlHâ de Ji 



131 ^ 

to de cincoenta milhas da foz; e aqui a largura do Rio 
itão chegava a huma milha, e era o ponto mais estrei- 
to dellç,^m que desaguavao muitas ribeiras. Surtas as 
Caravelas , mandou-se com hum dos interpretes o mes- 
mo Negro a Baitimnnsa, com hum presente, e propo- 
sições em nome d^ElRei de Portugal, para estabelecer 
boa amizade, e correspondência commercial , o que o 
Regulo acccitou , e por seu mandado vierao Negros 
a bordo^ com quem os Portuguezes vantajosamente tro- 
carão grande somma dos géneros, que levavao , por es- 
cravos, e huraá boa porção de ouro, ainda que inferior 
á quantidade que desejavão* E havendo-sc demorado 
onze dias, como a gente começou a adoecer de febres 
agudas , se íi^i^o á vela. 

Segundo as poucas noticias, que poderão obter, al- 
guns destes Negros são Mahometanos, outros Idolatras; 
<ç os seus costumes, e governo similhantes ao do Sene- 
l^al, porém vestem-se melhor. As suas Almadias não 
tem velas, nem toletes ; os remeiros vão em pé, reman- 
■do com humas pás quasi redondas, fazendo o pohtò 
de apoio em huma das mãos, e na popa vai hum ho- 
mem tamfeem governando com huma pá. Como estas 
-embarcações são muito estreitas, c mergulhão pouco, 
movem-sc com extraordinária rapidez. Neste Rio faz 
maior calor, que no mar, por causa do alto arvoredo, 
cjue assombra as suas margens, onde se achão arvora 
rôo corpulentas , que se médio huma, não das maiores, 
e tinha no pé cento e setertta palmos dé circumfereh- 
cia. São muitos os elefantes^ que cria este Paizy os quaes 
os Negros não sabem domesticar, e os matão com aza- 
gaias, é setas hcrvadasj e de hum pequeno, que elles 
matarão nesta occasiâo (que tériá tanta carne, como 
cíiico, óu seis touros) trouxe Ca<iamosto ao ínfarité 
iiura pé , e parte da tromba salgada , com hum dente 
de outro grande, que cinha doze palmos de comprido j 

17 ii 



132 

CUJO presente o Infante estimou sobremarrcira , e man^ 
dou tudo â Duoucza de Borgonha, Ha rambetn neste 
Rio muitos cavallos marinhos, e infinito peixe. 

Sahidos do Rio, navegarão a Oeste para se afas- 
tarem da Costa, que he mui baixa, e depois continua- 
rão ao Sul, navegando só de dia, com boas vigias^ e 
Íouca véla , dando fundo todas as noites. As Caravelas 
iáo huaaa na esteira da outra, e cada dia por escala 
tomava huma a vanguarda. Ao terceiro dia virão hum 
Rio (i), que teria de largo meia milha ; e logo adian- 
te hum pequeno golfo, ^ue mostrava ser emíx)cadura 
do Rio (2); e por ser ja tarde, surgirão. Na manha 
seguinte se fizerão á véla, e engolfando-se algum tan- 
to, descobrirão outro grande Rio, cujas margens esta- 
vâo revestidas de bellissiraas arvores. Aqui deráo fun* 
do, e mandarão duas lanchas armadas com os inter^ 
pretes a tomar lingua da terra , as quaes voltarão coia 
a noticia, de que este Rio se chamava de Caramansa^ 
Dome do Senhor daquelle Paiz, que habitava cousa de 
sete legoas por elle acima, e nao se achava então alli, 
por haver ido á guerra : por esta causa se partirão na- 
dia seguinte, avaliando a distancia do Rio ao Gambi* 
em çeceata e cinco milhas (3}.. 



CO F^í«ce que teria o Riò dè S. Pedro, oito ou nove ]tgou lO» 
Sul do Gambia* 

(a) Devia ser o Rb de SéV\U Anna, ou a boca do Norte do Rio- 
das CHti^s , que ambos ficáo ao íítil do Rio de S. Pedro, 

(3) O Rio de Casamansa está situado (a |>oma do Norte) na lati* 
Itide de 12* 28', c Irm^^rtuile de i** jo', e dista do Gambia $csief*tar 
mUhai, coin pouira dífícrcn(;a. Podem entrar neiíe cmbarc»<^ôef medim«^ 
5a«, porque tcni duas milhas de largo^, e de três a quatro braç» de 
fundo. Toda a Costa, entr« elle e o Gambia, he guurnecida de reci« 
fe$f a que h; perigoso apro\imar-se. Da banda do Norte da sua entrada, 
fica humi Ilha pequena, chamad.t dos Mosquitos. Este Rto communi* 
ca*fe por dou!^ l>ra<;oi com o Gambia, c por quatro^ ou cmco com o de 
CacbecJb H4bitáo o Paiz entre elle c o Gambia os Arr iates , e Falupos^ 



133 

Continuando a sua viagem , vfrão tnals adiante 
cousa de quinze milhas hum Cabo, cujo terreno era. 
mais alto, e avermelhado, e por isso lhe puzerão o 
nome de Cabo RMo(i)'y e além delle acharão outro 
Rio, que lhes pareceo ter de largura hum tiro de bes- 
ta, e denominarão Rio de Santa Anna; e mais adiante 
outro da mesma grandeza, a que chamarão de S. Do** 
mingos (2); de Cabo Roxo a este ultimo Rio arbitra- 
rão a distancia em quarenta e cinco milhas, pouco mais 
ou menos. . , 

Continuando a seguir s Costa por outra singradn^ 
rã, chegarão á boca de hum grandissimo Rio, que prii- 
meiro cuidarão ser hum golfo (3), cuja largura reputa-- 
lio ser de mais de quinze milhas; e dobrando a ponta 
do Sul da sua foz, descobrirão algumas Ilhas ao mar; 
e desdando saber algumas noticias do Paiz, derão fun* 
do. No dia seguinte vierão duas Almadias, huma mui- 
to grande com trinta Negros, e outra com dezeseis,^e 



Kegrof mui azerfcFiadcM, e boçaes', que curtivãò arroz , milhe, e outro» 
maDlimentos, e muito gado, e são bons pescadores; as armas de que ' 
usão, sáo frecbat, e facas. 

(1) Cabo Roxo está situado na latitude N. de 12^ 17', e longitu- 
ót 1° 32^ A traducçSo diz Cabo Vermelho j mas eu não adoptei este 
nome, por não conrmid'ir este Cabo^ que se acha hum pouco ao Sul d'a* 
Bahia de Ruíisco, em 14' J7' dé latitude, e o'*5 6 de longitude, com 
t> Cabo* de que Êilla aqui Cadamosto, o qual ainda conserva a denomi- 
nação de Roxo. 

(2) Passado Cabo Roxo,, o] primeiro Ria, a que Cadamosto cha- 
mou de Santa Anna, he a Rio de S. Domingos, ou de Cacheo; e o 
segundo, a- que elle deo este nome , lie o braqo do Norte do Rio cha- 
mado das- Ancoras nas Cartas Ingle7as. Os Navegantes , que solhe se- 
guirão, restituirão ao de Cacheo o seu verdade h-o nome, e esquecerão 
o de Santa Anna. Este Rio de Cacheo está na latitude N. de 12^1$'^. 
9 longitude 1** aj'. 

(}) Talvez seria este Rio o braço do Sul do das Ancoras, ou an- 
tes o Rio de Bissau, que pela curvatura da terra se fíguraria a Guiamos^ 
%D muita maior. 



134 



depr»is de fazo 



2Tcm recíprocos signaes de paz* abordou 
ivela de Cadamosro, que tinha a sua 
gJntc cm armas. Os Negros raosrravãose pasmados de 
ver gvnrc bnnca, e da forma ^ c mastreação das Cara- 
velas; porém como nenhum dos inttTpretes o^ pôde en- 
tender, nao souberão os Pomiguezes nada do que dcse- I 
javSo; e só comprirâo alguns pequenos anneis de ouro. " 

Dous dias se demorarão as Caravela?, e conhecen- 
do os Commandanres que «stavio em Paizes novos, onde 
nSo podiao ser entendidos, e que o mesmo lhes siicce- 
deria d*alli por diante, regressarão a Portugal. Neste 
Ria tornou Cadamosto a noEar, que a estrella do Norte 
apparecia muito baixa; e vio hum fenómeno, pnra elle 
novo, c foi ; que a enchente da maré d^jrava quatro ho- 
ras, e 1 vasante oito, e no principio da enchente era tal 
â força da corrente , que ainda surtas a três ancoras 
nSo se podiao as Caravelas aguentar, e algumas vezes 
furão obrigadas a fazcr-se á vela cora bastante perigo. 

Partindo deste Rio, fizerâo-se na volta do mar pa- 
ra reconhecerem as Ilhas (i), que ficâvâo*$ete, ou oito 
legoas da terra fírme, e chegando a ellas, aciíárão duas 
grandes, e outras pequenas: as duas grandes erao mzas, 
com frondosos arvoredos, e habitadas de Negros, cuja 
linguagem náo entenderão. 1 

Daqui túmaraa rumo para as partes das Cbri* " 
jtã^s , fiara as quaes ianto navegarão^ até qye De^s 
far sua misericórdia os coffduzio a hm Porto. 

1446 — Neste anno (se nao foi no antecedente) 
partirão por ordem do Inflmie Antão GonjaUes, c Dio- 
go Âtfonso (z) em duas Caravelas, e com elles Gomes 

ft) l»klo %¥i Rírt de Cttcheo pktt o Sul, ficío <k p»rt« <fc Ocit« 
*,. w ., IHui^ h«mj% povnaJ^^ e outrai fi5o. 

V<^dt P^fffH > IVvati 1/, I^« I., Cjp. ç. — Soirei d« Silvi, 
r.' »^ii !.•, C»;^* «4, — l^iria e Snutji, Atiii foitujuet*, tomo u% 
l^ént I.*, € to.no iJ* «3 61», — Amoiib Giivío , pig. J4. 



13» 

Pires cm huma do Infante D. PedroV cora instrucç6eg 
mra entrarem no Rio do Ouro, e darem principio a 
mrroducçáo do Christianismo entre aquelles Povos, ou 
estabelecerem algumas relações comraerciaes. Mas co^ 
mo regeitárão humas e outras proposições , os três 
Commandanies regressarão para Portugal, trazendo sá 
hum Mouro velho, que voluntariamente os quiz acom-) 

fanhar (e o Infante mandou restituir á sua pátria) , e 
um Negro que comprarão* Aqui ficou entre os Barba-* 
ros hum Escudeiro por nome João Fernandes , com o 
projecto de examinar o interior do Paix habitado pelo» 
Azenegues, para informar depois o Infante do que vis- 
se, ajustando com Antão Gonçalves a época em que 
havia tornar por elle» 

1446 — Partio do Algarve Nuno Tristão (1) por 
Commandante de huma» Caravela , e desembarcando a(> 
Sul do Rio do Ouro, assahou huma A(déa , em que 
cativou vinte pçssoas ^ e cora ellas voltou a Portugal. 

1446 — Nesti? anno cxpedio o Infante (2) a An- 
tão Gonçalves por Commandante de três Caravelas^ 
sendo os outros dous Garcia Mendes, e Diogo Affonso^ 
com ordem de ir buscar João Fernandes (por serenr 
passados sete mezes que lá estava) ^ objecto este do seu 
maior interesse, pelos desejos que tinha de saber por 
elle noticias exactas daquelfes Povos, e dos recursos, 
commerciaes do Paiz , por ser homem que entendia 
bem o idioma dos Azenegues. . , 

Hum temporal espalhou os nanos, e Anta© Gon- 
çalves foi o primeiro que chegou ao Cabo Branco , on- 
de arvorou huma grande Cruz de páo, para servir ás 

(O Vede os Escritores acrma eirados, menos Galvão, que não fat 
n^cncãa desta pequena viagem. 

(a) Vede iiarros , Cap.« it>. — Soares da Silva, Cap.° 8>'. — Far 
^a^c Sousa nos mesmos lugares citados, onde põe esta viagem no íu>- 
*^<fc 1447. — Galvão não faz menção delia* 



136 

mitras CaraveLis de sígnal de haver altí íipbrtado; 
por fazer alguma presa , que lhe compensasse os traba- 
lhos da viagem, depois de desembarcar sem fructo era 
alguns ponros da Costa , dem:iridou a Ifha de Arguim , 
a que a abundância da pesca attrahia quantidade de pcs* 
cadtjres(t), a pesar do risco a que os expunhao os fre- 
quentes assaltos dos Portuguczes. 

Nesta Ilha se lhe reunirão as outras duas Caravelas, 
e como os Mouros haviao desamparado a Ilha, por te- 
rem <lescoberto os navios , desembarcou Antão Gonçal- 
ves m terra firme, e dando em huma Aldea, se bera 
cjuc os Mouros se puzerao a tempo era fuga, como cos* 
tiimavão, cativarão os Portuguezes no alcance vinte e 
cinco , dos quaes Lourenço Dias de Setuval tomou no- 
ve, por ser mui ligeiro» Qiiando vohavao mui alegres 
desta espécie de caçada, encontrarão João Fernandes, 
que havia dias os andava esperando por aouella Costa, 
c posto que muito queimado do Sol, vinna bem pen* 
sadú c gord^ y e acompanhada de alguns Azenegues, 
tanto para o defenderem dos pescadores, como pjra 
traficarem com os Portuguezes ; e com efFeito Antão 
tJonjalvcs lhes. comprou nove Negros, e algum ouro 



(i) Segimw^o o te5tcrnunh£> pfHitfvO c!« ddamo^to, que ]t referi, 
começava-si a construir nesta Ilha bum Forte no anno de 1445 pof 
oriiem do Infante, e conccntcava-se alli o Commercío daquelli Costa, 
cegando cm consequência toda e$ta guerra de asialtos , e cativeiro doi 
mturaes di Paii; mas esta viagem, e as outras emprehendidas neste iiw 
no, e 00 seguinte , desmentem aqiíc lia asserção, c a dificuldade nS« 

Í>/tde resolvcr-se , senÃo ou negando a author idade de Cadamosro , que 
u' mii grand- peíi credito qus lhe dá Damião de Góes, nii iuppoit* 
do cfT,> n^i dictt A^txw Vii/en*. Com cffcho, m nosfO* Hittoritdofei 
s.ír> iitc3ui»'J4*ítfj«. nas cpo:af dos descobrimentos da Africa ! Fu ni<i 
decida a quôtt^n, it»a cada hum a opinião que lhe parecer mai« pm- 
; tfAt*el; k'i lirirtQi q'4e nSõ falta quetu duvide dâ veracidade de Ca* 



nr 



em p6, r por esta càufa chamoii áqueWe Ingaf Câfú^ 
40 Rtsgate ( i \ 

Para celebnr este feliz encontro corti Jo^o Fer^> 
nandes, armou Antão Gonçalves Cavalleiro a Fernãa> 
Tavarej, homem de nobre nascimento, que havendo-se 
achailo em brilhantes acções militares, mo quiz nuncar 
receber siraiUunre honra, senão ne$re Piiz, por <>cr no-* 
vãmente de$cobcrto; e ía^endose á veia para Portugal,. 
veio correndo a Costa, e em Cabo Branco assaltou hu-i 
ma AMca , em qiíc cativou cinooenía e cinco possoasi,' 
depois de hum combate, em cfuemorrcfáo alguns Mou* 
ras; e chegou ao Reino a salvamento, . j 

O Infante folgou muito i^isis de ver João Fernan- 
des, que o ouro, c os escravos que as suas Caravela*^ 
traztão, e dellc soube: Que os Azenegges do inierior 
daquelle Paiz erão pastores, que vivião etn Aduâres, 
o« Tribus, e se nuirião de hervas, sementes dos cam-* 
po5, c gafanhotos scccos ao Sol, ou de Ierf4^ do $ew 
gado, que também ás vezes lhes servia de bebida, por' 
se íúo achar agua, senSo de poços, quasí salobra, ç 
atndtfi em poucos lugares, para onde transporfavão os* 
rebanhos, segundo as estações do anno; e só comião 
carne de alguma caça que matavão, Qiie os habitan- 
tes da Costa erâo pescadores, cujo alimento consistia 
cm peixe fresco, ou secco, sem sal. Que o Paiz era 
todo de planície, parte areal, parte charneca , onde de 
looge em lotige cresciao algumas píilmeiras, c figueiras 
bravas*, e assumi , por falta de poi^rc*s de direcção, quan- 
do os naturaes querulo fiizer huma jornada para mudar 

ventos , eítrellas, e voo 



pactos ^ govc 



pelo^ 



ias aveâ' que ««stwaiuio freciuc-ntar os lugares po- 
t^e as suas habitações erao tendas, em qtje 



-■(Xy ^^^ atitei este Cjbo niircutlo na? CarRirv n^*5 seu duvid^^bs f 
^mi ponu <k terra fronteira a ílita de Argumt, . v 



138 



vi V ião huraás Tflbus independentes das outras | 
tas vezes em guerra pela posse de hum pedaço de terra 
de hervagem, ou de hum poço. E que o seu idioma 
era quasi idêntico ao dos Mouros da Barberia» 

De resto, João Fernandes , ainda que foi logo des- 
pojado dos vestidos por estes Azenegues, nao recebco 
delles outro darano, e habituando-se em breve ao seu 
niodo de vida, e de sustento, nicreceo a confiança de 
Huade Meimom, hum dos principaes Azenegues , que 

outros 



vivia com mais commodidades que os 

<}uem o mandou com alguns dos seus a esperar 



e foi 
os na- 



vios (i). 

1446 -^ Neste anno Gonçalo Pacheco, Thesoorei- 
it> da Casa de Ceuta , rico Cidadáo de Lisboa , armou 
huma embarcação á sua custa , com a necessária liceiH 
ça do Infante, para a mandar á Costa de Africa (2), 
cujo commando deo a Dmiz Anncs da Grã , Escudeira 
do Infante D, Pedro ; e em sua conserva forão Álvaro 
Gil 5 Ensaiador da Moeda , e Mafaldo (não se lhe sabe 
o nome), por Commandantes de duas Caravelas, Che- 
gados a Cabo Branco^ acbáráo hum escrito de Antão 



Ç^i) A narrâíjão de Joio Fernanáes, aioJa cjue tio antiga , cencfwéft. 
com a tio Inglez Mungo Parker, qui? visito» atiticlfe» Paizcs ik» secuJaj 
acti/aJ* 

Çz) Vede os Amhorei ía citadr» : Farm pôc esta Viagem «m 1447. 
Vede SoAres da SiKa, Capitiilos S$ , e S.7. — Fatia e Souii nos 
lu«;afes citados^ que colloca esta expedição cm 1447. — Bvroi n^ 
íugar ji iiidicíido, pag. 87 , dii que as CaravcLs sahíráo de I^gos t 10 
iJ^Asrojro de 1445 , no que ha engano^ pois norréa entre os CoBitmo» 
dantes a Dinii Fernandes, 9 que pnmeiro pMSpu â terra d^s Kêgrêi^ 
isto Ke , a Cabo Vetdc ; e 110 Cap. 9» , pag. 7 j » c 74 o faz deicobridof 
dct« Cabo em 1446» Creio que dcvcin etocar-sc estas datas. 

iV,B. A edição de Barros^ de cjue trato, hc a de 177?, — Goct 
tanabem põe csca Viagjrm (Cá^ 3 ) em 1445 , oa Quotiica do PrtiK^ 
pe U Joâa 



139 



) 



GoiiÇíiTveg, em cflié a^vísJãva a fodo^oí? navios se poiit>?is- 
sem ao trabalho de desembarcarem nlli, por quanto cl- 
le deíxivâ destruída a Aldeã dos Mouros» Com esra 
noticia , e por conselho do Piloto João Gonçalves GaU 
lego, dírigírao-se ú Illvi de Arguim, em qiíe cativarão 
sete indivíduos; e Mafaldo , in^troido por hum dos ca-' 
tÍFVOs, desembarcou' na terra firme, e atacando huma 
Aldeã, tomou quarenra e sete pessoas! depois executa* 
rãò outros desembarques inííDiíisw 

Desconfiados de fjtzerem desta vez mais prezas;- 
pela caureJa com que os Mouros se vigiavao, navega-' 
rSo oírenra legoas de cosra para ô Sul, e dalli voltarão, 
á Ilha das Garças a fazer c n ; e ncstn ida ^ e na 

volta desembarcarão algum zcs , e cativarão cin** 

ctienta pessoa« , com perda de set^ homens, que os- 
Mouros lhe matií^ao em huma das outras Ilhas de At*\ 
gtiím , por metterem a lancha em paragem tal , que fi-í 
ct>tr em secca Na Ilha daâ Garças acharão Vicente^ 
Dias , Commandante de huma Caravela , que se desgar-^ 
rara da conserva de outras ^ que vinhão de Portogal pe- 
lo motivo seguinte: 

Os moradores de Lagos (obtendo licença do In-^ 
fânte para mandarem navios ú Africa) armarão huma' 
Esquadra de treze Caravelas, e htmia Fusta, de que 
«lie nomeou Commandante em Chefe a Lançarote, ja^ 
conhecido pelas suas navegações. Alguns dos Comman- 
dantes erão Fidalgos, como Soeiro da Costa , sogro de^ 
I-^ 'L% c Alcaide Mor de L:igos, que na sua moci- 

dau. ;^,\i Moço da Camará de ElRci D. Duarte, e ti» 

servido com gloria nas mais tamosas baralhas dá*'^ 
<ltiello século, lanfo na França, como na Hcspanha ; e* 
Âívaro de Freitas, Commendador de Aljezur, pratico ■- 
na guerra Africaria : hiSo mais por Conimandanres Ro-- 
^rigo Annes Trí»vasí?os, Criado do Infiinte D. Pedro,- 
P^linçano, que quasi toda a sua vida servira contra os 

i8 ii 



lr*Of 

'Meares ^ toui^^nçaDía^, Geraea Pifcs Picanço, VkeiH^^ 
te Diasv GuíTitííí Pires, Patrão d* EIRei , e outros. 

ri Ao oicsijíu tempo sahlao com igual destino da Ilha , 
Aú Madeira Tristão Vaz» Capitão Mor d<? Mactiiço, c* 
Álvaro de Orr»elIa?^ pada hum em íua Caravela, osí 
quaes, an,i€s de chegarem a Cabo Branco, se retirarão: 
nialtraíjdos do tempo; e em outra Caravela da mesma- 
Ilh^ Alyaro Fernandes, sol^rinha-do Capitão Mor do 
Fiincha] Jo5o Gonçalves, da Camará , que nao anibou^; 
ames seguindo suâ derrota 5 passou mais longe que to- 
dos, como logo se verá. 

Alem destas Caravelas , partirão outras de vários 
P<>rtcs, em <jue forâo Diniz Feroandes^ Descobridor de 
Cabo Verde, por Commandante de liuma de D. Álvaro 
cie Castro, João de Castilha Commandante de outra die 
Álvaro Gonçalves de Ataide, Camareiro Mor d^Et- 
Rei i e dos outros Commandames se ignorâo os nor, 
Jí)ca , mas erio por todas vime e^eis Caravelas ^ e hfk^ 
iD^ Fusta. , ' f[ 

-. : A Esíquídra de LatiçaroÇe snbio de Lagos a fO ife- 
Agosto deste anno de 1446, e teve logo bum lempp^; 
oite separou 05 havias j porcn> bavendo elle dado a Ilha 
«ias Gangas por ponio de reuaiâo, todos se dlrrgiVao a 
eíla, eo priíiKiro que alli ancorou fui Lourenço Dias;« 
erfsta^o a fazer aguada , chegou Diniz- Annes da Grâ .t 
cpfn:^â 3tías três Caravelas, ç sabendo da vinda da E&^.j 
qiiadro, aguardou por eila , para se vingar dos Mou*. 
ru® j que lhe matarão os sete homens* Dnus dias depois ;! 
appaçeceo Lançarote cora nove Caravelas, e prepara n- 
di>se para o assalto, quo projectava dar ^, fugirão en^ 
tretanto os Mouros para o Continente, de maneira que.i 
s4 acháilo doze na Ilha de Arguim, de que cativarão 
qmira^ .morrendo oito na peleja cora os Portugueses, , 
e deaies hum uniço. Soeiro da Costa quiz ser aqui ar* 
z^ado Cavalkiro por Álvaro de Freitas ^^ bavcndo cs^{ 



geitado esta honra era oatfos Paizes depois de adçóet, 
sem comparação mais importantes;. Diniz Annes, tam- 
bém armado Cavalleiro nesta occasião , achando-se com 
falta de víveres ^ partio com as suas três Caravelas para 
Portugal. 

Reunidas agora todas as Caravela? de Lançarote, 
poz elle em onselho atacar a Ilha de Tider; e appro- 
vado o plano, destacou três Caravelas, que de noite se 
mettêrão no canal, que separa aquella Ilha do Conti- 
nente , para evitar a fuga díos Mouros ; os quaes , ape- 
zar disso, favorecidos das trevas, passarão todos á ter» 
rã iirme; e ao amanhecer, vendo, que as Caravelas se 
queriâo retirar, começarão a dar-lhes grandes apupa- 
das , o que ouvindo Diogo Gonçalves , Moço da Cama«» 
ra do Infante, que se achava em huma ddias, convi- 
dou a Pedro Alemão, natural de Lagos, para saítair 
çom elle em ten^; e tomando ambos algumas armas 
ofFensivas, lançárãcKse a nadp^ Os Mouros , julgando 
teríao delles faci) vijctoria, porque a praia era toda de 
vasa solta ,.r08.*YÍerão receber á borda d'agiia com tal 
gritaria , qiie incitados os da Caravela , saltarão logo aò 
smr quantos, sábião nadar , sendo os primeiros Gil.Gonv 
çaJves^ Escudeiro do Infante, e LeoneK5il , e ^todw 
juntos acconunettêrâo os Mouros tão corajosa rnèn te , 
que doze. delles .ficérâo sepultados no Iodo, em que sé 
iQettérão para embaraçar aos Portuguezes de tomarem 
pé no chão firme -^ outros morrerão em terra pelejando j 
e cincoenta e sete yierão cativos p^ra bordo. Nao con<^ 
tentes o^ Portuguezes desta victoria, marcharão no mes* 
mo dia a huma Aldeã distante sete legoas, cuidando 
achar nella os que havião escapado da acção, porém 
tAido estava ja deserto^ e apenas colherão cinco Mouf» 
ros em outra correria , que fizerão no dia seguinte. * 

Depois deste acontecimento, chamou Lançarote os 
Coounandames da sua Esquadra ^ e lhes expoz que ^ se- 



142 

giinio as ifi^trucçôes do Infante, estava cumprida U 
primeira parte da ui^ commtssao , que era destruir 
08 Mouro? da? Ilhis de ArRuim, o que acabavSo de 1 
conseguir ; e restava só executar a segunda parre , " 
que se reduzia a que cada hum delles podia desde 
Jogo seguir livremente o destino que bem lhe pareces- 1 
se. Qtie em quanto a elle, hia correr a Costa para o ■ 
Sut com a sua Caravela, se alguera queria fazer-lhe 
companhia. 

Soeiro da Costa, Vicente Dias, Rodrigo Anneí, 
e Gomes Pires Picanço , por terem as Caravelas mais 
pequenas* e recearem o inverno, qi|e se aproximava, 
determinarão regressara Portugal. Gomes Pire?, AU 
varo de Freitas, Rodrigo Annes Travassos, Lourenço 
Dias , e outros Coramandantes quizerão acompanhar 
Lançarote* 

5r Soeiro da Costa, constltuindo-se Commandante das 
quatro Caravelas pela authoridade que lhe dava o seu 
cargo de Alcaide Mor de Lagos, a cuja Cidade perten- 
fcião, foi buscar Cabo Branco, onde surgio, e cora as 
lanchas entrou sete legoas por hum braço de mar até, J 
huraa Aldeã, em que cativou só nove Mouros, por fii» ■ 
girem os outros, E pouco satisfeito de tSo diminuta pre- 
^a, despedio para o Reino as rres Caravelas, e voltou á 
Ilha de Tider, esperando ainda fazer bom negocio com 
huma Moura, e hum Mouro pequeno, que tinha cativa- . 
do, e promettiao dar por isso grande preço, Chcgido i 
Ilha, cm quanto se ajustava o resgate, derão os Mou- 
ro6 cm reténs hum dos seus maioraes, e Soeiro da Cos- 
ta deo o Mestre da Caravela, e hum Judeo que levava 
comsigo* Entregou-se primeiro aos naturaes o Mouro 
pequeno, e quando Soeiro da Costa esperava o re<:gate 
para lhes entregar a Moura , fugio esra a nado, e lícou^ 
cIlc sem o resgate, e sem os cativos; e para recolher os 
seus douÀ rcfcnSj foi obrigadoa soliar ouis trcs Moi^ 




143 

rós dos que cativira. Com o sentimento deste máo re« 
suirado , voltou para Portugal. 

Entretanto os Comraandantes das três Caravelas 
partirão de Cabo Branco com intenção de fazerem al« 
gum desembarque na Ilha da Palma , e encontrando a 
Caravela de João de Castilha, que se dirigia a Arguim , 
o persuadirão a acompanha-los na sua premeditada ex« 
pedição , no que elle consentio. A primeira Ilha a que 
aportárao foi a Goroeira , onde os Capitães Canareos 
Piste, c Bnidio, que a governavão y os recebêrâo bem , 
confessando-se por muito obrigados ao Infante do tem- 
po que estiverão em Lisboa. Os Commandantes das 
Suatro Caravelas, aproveita ndo-se da sua boa vontade, 
le pedirão auxilio para atacarem a Ilha da Palma , da 
qual os da Gomeira erão inimigos ; e em consequência 
embarcárão-se os dois Capitães Canareos nas Caravelas 
com alguma gente sua, por fazerem serviço ao Infan-* 
te* . ^ 

Ao amanhecer surgirão os Portuguezes no Porto 
da Palma , e desembarcarão logo. Os primeiros habi- 
tantes , que encontrarão , forão huns pastores com mui- 
to gado ovei hum , os quaes fugirão com elle por pe- 
nhascos, e rochedos, que trepavão com extraordinária 
agilidade ; mas seguidos com igual presteza pelos da 
Gomeira, e mesmo dos Portuguezes, de que alguns cahí- 
rão, e hum se fez em pedaços. Neste perigoso alcan- 
ce se distinguio Diogo Gonçalves, que já se havia as- 
signalado em Arguim. Aos pastores acudirão muitos 
dos naturaes, que escudados com os penedos, fazião ti<» 
TOS de arremesso aos invasores , que por fim se retirá- 
i^o com dezesete prisioneiros , em que entrava huma 
xnulher de estranha corpulência. 

Da Palma forão as Caravelas desembarcar os dois 

Capitães da Gomeira no lugar em que os reccbêrãa 

a bordo; e aqui João de Castilha teve a arte de per*^ 



144 

«tindir aos outros Commandantes, que lhes seria maíf 
util fAzerem alguma preza nesta mesma lUia; e ainda 
que elles bem conhecerão a infâmia de similhante pro- M 
cedimeiuo, dominados por huma sórdida cubica, con* 
vierão no projecto. Julgando porém fdze-lo men ís 
odioso; s.ihíráo daquelle Porto, c forão entrar em ou* I 
iro, onde aprisionarão vinte e hum indivíduos , que 
conduzirão a PorrugaL O Infante, irritado desta trai- 
ção, punio os aggressores, fez vestir á custa delles o« 
Canareoíí, e os mandou depois transportar á Gomeira , 
satisfeitos, e contentes com as nierccSj que lhes distrw 
bujo. 

, Despedido Lançnrote de seu sogro Soeiro da Cos- 
ta, seguio ao longo da terra para o Sul are chegar ao 
Rio Senegal; e enrrnndo nelle, mandou Estevão Af« 
fonso cm htrma lancha a descobrir o que podesse. Des- 
embarcou elle sem armas em hum areal , onde vio hu- 
ma cabana, na qua! tomou hum Negro ^ c huma No- 
cra^ ambos de pouca idade; e sentindo pancadas em 
hum arvoredo visinho, foi reconhecer o que era, e deo 
com hum Negro robusto (pai dos dois da cabana) , que 
estava cortando hum páo, e tão attento no que fazia ^ 
que nao vio a Estevão AtFonso, senão quando este lhe 
paz a mão* Vindo ambos a braços, o Negro, que era 
grande, e forte, o levou debaixo; porém acudindo ãU 
guns homens da lancha, fugio por entre o arvoredo, e 
em quanto o busca vão, sahio por outra parte sem ser 
■ descoberto, e correo á sua cabana* Não ach ' 5 
filhos, seguio-lhcs o rasto ate á praia, na qual j 
mui seguro, abordoando-se com Jmm bicheiro, Vic 
te Dias, proprietária da Caravela a que pertencia âf 
I.rnchi, O Negro o invcstio com desesperada fúria, 
dando-lhc primeiro com hunu azagaia de arremesso 

frrios queixos, o que Vicente Dias rctribuio, fazendo- 
la* huma boa ferida na cabeia com o bicheiro j e tra^ 



T45' 

os ambos corpo a corpo , «icudio ao Negro outro 
I $eu, já homem; e com difliculdade escaparia de am- 
Vicente Dias, se não chegasse Estevão Affonso com 
outros companheiros, â cuja vista os Negros se pozerâo 
cm salvo tao ligeiros , que não íoi possível alcança-los, 
Ga!anteou-se abordo das Caravelas com esta aventu* 
ra, e Lançarote conveio com os outros Commandantes, em 
penetrarem no Rio , para o reconhecer todo ; mas hum 
vento furioso, que se levantou, os obrigou a sahir, se- 
parando-se Rodrigo Annes Travassos, e Diniz Dias, que 
se recolherão a Portugal. 

Lançarote com as cinco Caravelas restantes, seguio 
derrota para Cabo Verde, e foi surgir em huma Ilhota 
próxima á terra firme ( i ) , em que matarão muitas ca- 
bras , que salgarão para seu uso; e acharão gravada nos 
troncos das arvores a divisa do Infante, Taient de bien 
faire^ Era isto obra de Álvaro Fernando , que na sua 
viagem veio ter a esta Ilha, e pelejou com seis Alma* 
dias de Negros , de que tomou uma com dois delles ; 
e passando avante descobrio o Cabo àos Mastros (2) 
a que deu este nome, por ter humas palmeiras seccas^ 
que de longe parecião mastros de navios j donde voltou 
para o Reino. 

Lançarote, depois de estar dois dias na Ilha para 
se prover de agua , passou á terra firme, e mandando 
Gomes Pires na lancha a tratar amizade com os Negros, 
egfe nao obteve delles , senão frexadas , de que escanda- 
lizados os Commandaotes das Caravelas, resolverão as* 
Saltar no dia seguinte as Aldeias j porém sobreveio hutn 
temporal, que os forçou a fazer á vela, e a tomar cada 
hutn o bordo que melhor lhe convinha. Lourenço Dias 



^1) Suspeito será Gorca , situada em Lat, N," 14^ 40' lo'', 6 
t^OQg. o' 45, distante 1200 toezas da terra mais próxima* 

( s } He huma ponta da terra pouco ao Sul da Miia de RufiscOb 



14G 



Senegal , onde 



deter- 



correo ate 

h\t3 de armas j e viveres, c volmu a Portugal. Louren- 
ço Pires veio ao Rio do Ouro: aJli comprou hum Nè- 
grOj e reccbeo homa porção de pcHes de lobos marinho?, 
que os Mouros lhe derao, dizendo, que se voltasse na 
aano seguinte, teriiío para lhe vender quantidade de es- 
cravos, e ouro em pci; e com isto se recolheu ao Reino. 

Lanzarote, Álvaro de Freitas, e Vicente Dias, con- 
servando se unidos durante atormenta, fôrao de com- 
mum acorda á Ilha de Tider, em que caplivárao cin- 
coenta e nove pessoas, com que voltánlo a Portugal. 

Diniz Fernandes, e Palaçano, que havendo-se extra- 
viado na viagem das quatorze Caravelas, tinhão navega- 
do em conserva um do ourro, quando chegarão a Ar* 
guím, souberão que os Mouros havião abandonado as 
Ilhas » e em consequência deierminárao hir ao Senegal, 
porque Diniz Fernandes já conhecia aquella Costa do 
tempo que alli veio. Dobrando o Cabo Mirick para o 
Sul (i ), e estando o tempo de calmaria, quizerao el* 
les mandar algucm, que a nado fosse tomar terra, c 
examí.iasse se naquellas proximidades existia alguma Al- 
deia; e posto que o mar andasse banzeiro, e de gran- 
des vagas, doze liomens da Fusta de Palaçano se lança- 
rão a nado, levando armas ofFensivas, e ganhando a praii, 
a fòrao seguindo, até encontrarem doze Mouros, de que 
captivárão nove, e com elles tornarão ao navio. No 
mesmo instante sobreveio tanto tempo, que a Fesca 



C I ) Aímía que Ba^rot ( Cac>. i j , paf. 1 1 á ) nom(2a aqui a panfã \ 
Sfíttta Anti.f ^ r\io mt parece isto e\«icto; poTqite Diniz Fernandes, 
Raíaçanf» vinhão de Arj;uífn , cmmç libas ficão àO Sul íl'aquclla poiftâ, 
CHI Calv> Á< $mx^ Anna» 5Íttiacío tu í.ar* N, ãc^ íj \ < Long i " $9', 
Orj na ^lositio em que c^taváo 45 du« Caravelas, ^ úvAúo que dobfV 
xiCaBo Mirick Tcuja Lat. lâo 19* 17 \ e a Lnnjí, i' 20 ) distante fSifi 
éc vinte , e cinco Itgujif ao Sul do Cabo de Santa Ânua , (^an bktm 
10 4í«negft1, 



14^^ 

«brio, c encalhou na Costa, salvando-se a 'gunrn;ç!ío 'oãT 
Caravela , que correndo com o vento . • chepou a Cabo 
tVerde; e querendo Diniz Fernandes desembarcar, nãtí 
pôde, pelos Negros lhe defenderem a praia com serás 
nervadas. Aqui fez o tempo outra mudança, de que 
Diniz Fernandes se-servio para voltar ao lugar do nati- 
fragio da Fusra, e como o casco ainda ex. ria , desem- 
barcou em terra com PaIa;ano c a sua melhor pente, 
a fim de aproveitar o que podesse; e sahindo-lhe de re- 
pente setenta Mouros detra's de huns montes de aréa, 
onde os aguarda vão escondidos, fòrzo de tal maneira re- 
cebidos dos Portuguezes (suspeitosos da cidade), que a 
maior parte alli morreo, escapando só os que fugirão. 
Depois desta acção, que fez honra aos dois Comman- 
dantes, se fez Diniz Fernandes á vela, e- chegou a Por- 
tugal a salvamento. " 
Assim, de tantas embarcações, que «áhirão csce 
anno para esta expedição só se perdeo hutna. Fusta. ' 

1446 — Deo o Infante o commando de huraa Cara- 
vela a Nuno Trí^çiao ( 1 ) , com ordem de passar 41ém 
do Cabo dos Mastros , ultimo termo do descobrimento 
de Álvaro Fernandes, o que elle executou, descobrindo 
iium grande Rio, em cuja boca surgio; e mettendo-sc 
»a lancha com vinte e dous homens, em que entravão 
-os prlncipaes do navio , entrou com a maré pelo Rio a 
liuscar alguma Povoação, e foi encontrar-sè com treze 
jAImadias guarnecidas de oitenta robustos Negros , que 
€> esperavão em sitio apropriado, por terem já visto b 
navio, e a direcção que trazia a lancha. 

Chegado Nuno Tristão a certa distancia das Alma^ 



(i ) Barros no lugar citado, Cap. 14. — Galvão pae. 24, põe esta 
^ia^em no anno de 144.7 — Faria, nos luí^are? citados, a c:)llocou n, 
«ncfTio anno de 1447 — O mesmo segue Soir es da Silva, Cap. '8& 
-^ Gocs Cap. 8.**, cm 1446. 

19 ii 



148 

dias, EOíou que se dlvidíao, e cuidou ser para fugirem, 
nao soppondo combinação de idcas mil irares em gente 
barbara ; mas enganoií-se, porque os Negros de repente, 
apresenta ndo-se-Uie na frente com uma divisão da sua 
esquadrilha , o atacarão pela pôppa com a outra , cortan- 
do lhe ao mesmo tempo a retirada , e mettendo-o entre 
dois fogos; e como lhes não convinha abalroar a lancLa, 
conserva via o*se sempre a alcance das suas armas missivas, 
lançando sobre elle homa chuva de setas hervadas. De- 
balde Nuno Tristão fazia remar vigorosamente os mari- 
nheiros para abordar Já huma , já outra Almadia, a fim 
de escarmentar os Negros com a morte d^aquelles, a 
quem podesse chegar : as A Ima d ias , que manobrarão 
com admirável rapidez, evita vão o choque, e continua- 
rão o mesmo género de peleja^ A vasnnte da maré veio ■ 
a tempo salvar a lancha, e ao favor d*ella chegou Nu* 
no Tristão a sua Caravela, com dezenove homens mor- 
tos, ou mortalmente feridos, em cujo numero entrou 
clle, com João Corrêa 5 Duarte de Hollanda, Estevão 
de Almeida^ e Diogo Machado, todos de distincto nas» 
cimento, educados de meninos na Camará do Infante^ ■ 
além de outros Escudeiros, e Criados seus •, c para com* 
pletar a desgraça, ao atracar a lancha ao navio, es- 
barrou de modo com a ancora da roja, que morrerão 
mais dois homens. 

Tinhão ficado unicamente na Caravela o seu Escri- 
rão Aires Pinoco, Moço da Camará do Infante, e qua- 
tro grumetes V e cortando logo a amarra, se fizerao ã ve- 
la, c vierão ter a Lagos no fim de dois mezes de hu- 
ma viagem á tôa^ por nenhum delles saber dirigir a em- 
barcação. Deste desastre ficou áquelle Rio o nome de 
Nuno Tristão. ( i Jt __ 

(1)0 Rio de Nm9 Trtttúa «ta ao Sd do Rio Grande , m lit^ 
H> 10^ ** 17 S e Long. 4^ 2S \ Este Rio bâ largo , c rápido d4 coluidAp^ 



14Í» 



O Infante sentio sobre maneira este funesto acci- 
dente, c com a generosidade, que lhe era natura], pre- 
miou 08 filhos , e as viuvas dos que nelle ac*nbárão. 

1446 — Foi mais feliz neste mesmo anno Álvaro 
Fernandes, sobrinho de João Gonçalves da Camará, 
porque tornando segunda vez ao descobrimento de Gui- 
né , passou mais de cem léguas alem do Cabo Verde 
( I ) , onde desembarcando , assaltou liiima Aldeia j 
cujo Chefe matou pela sua própria mão, o que poz em 
fuga os outros Negros, de que mo foi possível alcan- 
çar nenhum, e apenas se recolherão duas Negras, que 
xnariscavâo pelas praias. 

Daqui passou ao Rio de Tabite, (2) e indo reco- 
nhece-lo na sua lancha, o vierão receber cinco Almadias, 
huma das quaes lhe lançou algumas setas hervadas den- 
tro da lanclia, de que elle ficou ferido; mas curou-sc 
com antidotos de que já hia munido; e tentando desem- 
barcar em um areal , o achou defendido por cento e 

onde tem hum baixo : o menor fundo 00 canal ht de três br»f;as. Par©»": 
ce imposjiveJ que Nuno Tristão pasjnsití , sem os ver, por tantos Rios 
mj» considcriveis do que eitc 1 Em fim, não se podem ler as vía^jciij 
d'»que))cs intrépidos Navegantes, sem lastimar a perda, ou sumisso 
«ctuâl dos seus Diários, onde acliariamos muitos factos que os Historia* 
tlores não trazem. 

Da margem Austral do Rio Grande Rtt: i margem Foreal do Rio 
de Nuno, occupavão naqueiles tempos a Costa maritima os Negros Na* 
lás ; c do Rio de Nuno para o Sul aíc ao Cabo da Verg^a, os Fegas; o 
pc}o SenSo %iviáo 0$ Cocolins. Os Kalús erão intratáveis, c «eha^cns; 
rs Begas mais domésticos; portni traidores. Os Portu^uezes lizerão gran- 
de cottinr>crcío por este Rio cm anil (cuja planta levarão d'aqui para as 
lUíjs de Cabo Verde, onde prosperou ) , marfim, e mantimentos ; e 
lambem aqui vinhao Carívvanas da Sertão cnm afíriTm ouro. 

( 1 ) Barros, Cap. 14 — Soares da Silva , Cap. S8 , onde pCe esta 
viagem em 1447 — Faria no« lugares citados, segue o mesmo — Gal- 
vão não falia netla. 

(í ) Este Rio (de que nJo acbei o nome nas C3rta% que possuo) 
be certamente atgum dov que existem entre os Rios de Nuno, e Sei» 
Lite 



150 

vinte Negro?, Álvaro FcrnanJeSj nno querendo ntriscar 
as vidis dos *?eui? cm hum desembarque de viva força, 
por assim lhe ^er muito recon^jnend-rdo nas instrucç6ef 
do Infante ^ e satisilico de haver adiantado o? descijbn- 
mentos d\Tr]Ucllcí Cosra nm?j que os curros Navegante^, 
régresçciti a Portugal, ondj rcccbeo honras, c incrcés 
tanto do Infante D, Henrique, como do Infante D. Pe- 
dro , Regente do Reino. 

1446 — Neste anno partirão de lagos dez Carave- 
las { t ) y de que era Commindante em Chefe Gil An- 
fíês, e os outros Commandantes Fernão Valarlnho, mui 
pracico ni5 guerrus dos Mouros, E tevíio Afíonso, I f>u- 
renço Dias, João Fernandes Piloto, DIopo Gonçalves, 
Gomes Pires, quasi todos Criados do Iníí^nte, e outros. 
Das Caravelas pertencia huma ao Bispo do Algarve, c 
ires aos moradores de f-agos. Esta Esquadra dirigiu-sc 
á Ilha da Madeira, por ordem do Infante, para rece- 
ber alguns viveres , e ajustar-se com outras uuas Cara- 
velas , huiTn d^ Tristão Vaz , c outra de Garcia Ho* 
mem, genro de João Gonçalve*? da Camará. 

Daqui foi á Gomeira entregar os Canareos, que 
João de Castilha, e os outros Commandantes da sua 
conserva haviao d'alli trazido, como já se disse. Gil An- 
nes quiz aprnveitar-se do auxilio destes Canarcos, para 
dar U'n asfalto na Ilha da Palma , o que n3o produzia 
o effVito que esperava, pela vigilância dos habitantes; c 
as duas Caravelas da Madeira, que só a isto vinhao, 
retirárã0'<?e para a sua Ilha, 

A Esquadra segulo a sul derrota para Cabo Ver- 
de» onde nao foi mais feliz, porque os Negros se dcfen* 
diao com vantagem a favor dos bosques, de que o Paiz 
he coberto i c de huma vez morrerão cinco Portuguezci 



( i ) Karros Cáp» 14 — Faria, noi lugarw citados, collod csu viê- 
%tm cm 144/ — Soares dâ Silva segue o mesaia 



lâl 



tidos das sftas hervadas, e â Caravela do Bi<po nau^ 



ragou 



cm um baixo 



Descontente Gil Annes destes máos Fiiccessos, Foi 
Afguim, e no Cabo do Resgate atacou huma Aldeia, 

I em que captivou quarenta e oito pessoas ; e sem ootra 
maior facção se recolheu a Esquadra a Portugal, menos 
festevao Affonso, que veio á Ilha da Palma, e colheu 



luas mulheres , o Que o poz em perigo de morrer cora 



>dos os que cora efle desembarcarão, porque acudindo 
Quilos nnturaes , se desordenarão os Pnrtuguezes na re- 
tirada. Porém Diogo Gonçalves, tirando huma bésra das 
mãos a hum dos seus companheiros, que não sabia, ou 
nno queria servlr-se d*ella , derribou successivameote sete 
dos contrários, sendo hum d^t^Ues o seu maioral, o que 
fex desapparecer os outras ; e os Portuguezes poderão 
enrão embarcar-se, e voltarão para o Reino. 

I447 — Para aproveitar a boa vontade , que os 
habitantes das margens do Rio do Ouro mostrarão a 
Gomes Pires quando ultimamente alli esteve, lhe dco o 
commando de duas Caravelas ( l ), e o mandou a esta- 
belecer cora elles hum commerclo regular. Chegou elle 
ao Rio, e em breve conheceo , que os Mouros s6 bus* 
cavao engana-lo, arraando-lhes ciladas para o surpre- 
hcnder; de que irritado, assaltou a? sua<r Aldeias, ecapti- 
irando oitenta pessoa?;, recolheo-se a Portugal. 

1447 — Náo sendo posbivrl; em consequência des- 
I te acontecimento , organizar o commercio dos escravos 
oom os Mofros do Rio do Ouro , e sabendo o Infiíiite 
p oue os de Meca (ou Metssa ), Cidade siruada entre os 
I Cabos de Guer , e de Não, na Lat. N. 30" y' e Long. 
í8 fo ' j deseja vão a amizade, e commercio dos Portu- 



(O FafU, tonrvi I.* da sua Ásia, Parte k* — Earrof, Cap. i^ 
da Dica J4 i.S L/ i.^ 



152 

guezes, mandou a essa commissão Diogo Gil (i) ho- 
mc?ni experimentado, por Coramandante de huma Cara- 
vela, c com cllc por intreprete João Fernandes , celebre 
pela sua habitação voluntária entre os Azenegue?, E co- 
mo em Portugal se achavao dezoito Mouros ca|.civos na- 
tura es de Meca , que offereciao por si huma certa quan* 
tidade de Nigros , os entregou o Infante a Diogo Gil, 
para que os resgatasse. 

Chegado elle ao Porto do seu destino , c tendo re- 
cebido cinconta Negros pelos dezoitos Mouros, sobre- 
veio tamanha travessia ^ que se fez á vela , deixando em 



Cl ) Barros (a quem seguem Faria, e Soares da Silva nos fugaitt 
já citartos j coltoca esta viagem , e a seguinte de Fcmáo AlTonfo â 
Cabo Verde no afino de 1448; mas parece-me que ha nbto manifesto 
engano j pois diz ( pa». jo), que neste anno ( 1448 ) El^Rci D.Afflm* 
J0 Smhlú da tuUrtú do Infante D. Ptdrú seu th^ e hcuve intaramrttt0 
P0SSC de seus Reinas em idade de dezúiete úmws. Eis aqui este acontecl* 
mento, segundo Ru^ de Pina na Chronica d'£Í-Rei D. Affonso, Gipi- 
lulo S6* Cumprindo £1-Rei quatorzc annos no mtz de Janeiro de 1446, 
ceiebrárão-fc no dito mez Cbrtes Gerses em Lisboa, e alli lhe entregou 
O Infante D. Pedro mm livremente , c sem cartteía ú Regimenta ^ Coo» 
clitido e^e Acto, e achando-se El-Rei na lua Gamara com seu irmío o 
Infante D. Fernando, e 0$ Infantes D. Pedra, e D. Henrique, c outf» 
Fersonageos , pedia ao Infante D, Pedro , que ate ver a qae msf0 ytth* 
ria fa%er , elle inteiramente mandasse , e fizesse em seu nome 9 qua dms^ 
tes fatia, Tre?s dias depois fez o Doutor Diogo Affonso, em iK>nte , e 
na pn?senqa d*£l-Rei, em outra Sessáo das Coites, huma Declaração so 
Jemne desta Reat resolu<^ão. 

Continuou o Infante segunda vez na Regenera do Reino, c oocor* 
fendo oi memoráveis successos, que as Historias nrfcrem, e náo $lo do 
objecto destas Memorias, largou de todo o Governo a El*Rei em Maio 
do anno seguinte de 1447 , senSo foi antes; porque neste mez lie que 
EURei em Santarém tomot» sua casa , e sna mulher juntamente , e ^á o 
Infante se tinha de facto dimittído de todos os negócios da Regência t 
não querendii a^^ignar Dipbma at^um* 

A* vista desta passaçem de Ruy de Pina fica evidentç, que a ditm 
das fia^ens de Diogo Gil, e Fernão Affonso, que Barros, e 0$ teut 
se.^uídores p5em no anno dei44S, derem recuar-se ao anuo antcoednlv 
pelos seus próprios fundamentos. 



153 

terra a João Fernandes, e voltou para Portugal, trj»- 
zendo ao Infante o primeiro Li?ão, que veio daquelle 
Paiz, o qual Infante enviou de presente a hum Fidal- 

fo Inglez seu amigo , que assistia no Principado dQ 
/alies. 

i/^í^j — A fama dos descobrimentos das novas Re- 
giões , e extra nhos Povos, que os Portuguezcs successí- 
vamente fazião^ attrahia a Portugal muitos homens no- 
uveis, curiosos de cousas tão extraordijiarjaf ; e entre 
estes veio hum Gentil Homem da Camará d^ElRei de 
Dinamarca, e por ellc recommejidado ao Ijnfaiite; os 
nossos Historiadores lhe chamão Balart, corroxnpejido 
talvez o nome. Este Fidalgo ardia em desejos de via- 
jar na Costa d* Africa, para examinar de perto as ma- 
ravilhas , que entre os gelos da. sua pátria ouvia relatac 
daquelles climas , em que as arvores nunca se despojáp 
da sua folhagem « e as producçòes vda natureza são to-/ 
ulmente diversas. 

O Infante maor^ou logo armar Tium navio , cujo 
Gommando dêo a Fernão ASbnso, Cavalleiro da Ordem 
de Chrlsto^ aue levava huma mensagem 30 Soberano 
de Cabo Verde; e c<Hn díe se embarcou Balart, cuja 
curiosidade obrigou Fernão Âffbnso a fazer huma via- 
gem costeira até ao Cabo, para Hie ir mostrando todas 
^s Bahias, Portos, Rios, e Promontórios já descober- 
tos ; e por esta causa , e por alguns ventos contrários 
^ãsioa seis mezes na jornada. 

Chegando ao Cabo, logo que os Negros vÍr5o Q 
navio, sahirão a reconhoce-lo , em son) de guerra, nas 
:iuas Almadias; mas explica ndo-lhes os interpretes o 
verdadeiro objecto da viagem, e informados dos presen- 
tes destinados para o seu Príncipe, forão avisar o Go- 
vernador da terra, por estar o Rei dalli oito jornadas 
occupado em huma guerra no serr-ão. Veio elle á praia 
receber em ceremonia a João AíFonso , e a Balart •, e 

20 



jusM a paz, se derao huns aos outros reféns, e cotrte^ 
çpu a eçribelecer-se o tniíico. 

Eiure os género^, qcc os Negros vendério, fbrSci 
algun* dentes de elefante, dos quaes maravlfliado o Di- 
ná ma rquez, oftcreceo-1 hes grande preço, se lhe mostras- 
sem hum destes animaes vivos, oti lhe rrouxessem a p7l* 
le, ou a ossada de algum* Os Negros, citbi cosas do 
premio, prooettêrao tudo; e três dias depois o vierãa 
chamar, para que fosse a hum cerro lugir^ onde rinlião 



hum elefante vivo. Balart, sem mais consideração, nem M 
receio, partio na lancha (única embarcação do navio )^ ™ 

I 



só com os marinheiros que a remavao; e chegando a 
terra, onde as ondas anuavâo de levadío, cahio hunj 
marinheiro ao mar nú momento de tomar huma cabija 
de vinho de paíma, que lhe dava hum Negro; e aiie- 
reodo os companheiros recolhe lo, foi tal a revolta, 
que se atravessou a lancha , e foi a costa. Os Negros 
vendo os Portuguezes cm estado de não poderem dcfen» 
der-se, nem ser soccorridos, derao sobre eíles, e os ma- 
tarão a todos, excepto hum, que se salvou a nado. 

Assim acabou este illustre Estrangeiro ás mãos de 
bárbaros traidores, sem que Fernão AfFnnso podessc lô- 
mar dellcsjusta vingança, porque nem elles tomarão mais 
a bordo ^ nem rinha outra embarcação, em que desem- 
barcasse- Esta desgraça kz com que se recolhesse a 
Portugal» 

14^1 — A 19 de Agosto deste anno se ce!et>rou em 
I^isboa, no Palácio do Duque de Bragança junto álgre* 
ja de S* Christováo, o casamento da Infanta D. Leo- 
nor i"), irmã d'RlRei D. Aftonso, com o Imperador 
de Allemanha Frederico IIL ; e como esta Princeia dc- 



(1) Rui de Pfna , Oireanicsí He D. AíTomo, Capituíoi 1 ji ^ i |b. 
— Itberarin desta Viagem, escrito pnr Nkoíáo 13^ alckenstcin, Pima» 
é UmocJ« Genealógica, tomo 1. pag, 601. 



v]2í ssr cpnduiida por mar i Itália , mandou ElRcI . 
aprestar I;u ma Esquadra de duas grandes Náos, cinco 
içiais pequenas, e duas Caravelas, além de dois rrans- 
pcirtes, que saliírão primeiro com famílias, e trem dos; ■ 
passageiros. Os Commandantes das embarcações, ós- 
seas Officiaes de Guerra , e de Mar , bem como os sol- 
4ado8, e marinheiros forão escolhidos entre os melho- 
res ^ e a artilheria , e munições de guerra eráo sufficien- ] 
les para qualquer occurrencia imprevista; as guarnições 
ciiegavão ao numero de ires mil bomen- , de que a Ca- 
pitania levava quinhentos, Nomeçu ElRei para Con- 
diictor da Imperatriz,, e Capitão General de Mar e Ter* , 
ra da Esquadra ,' durante a sua viagem de ida, e volta, 
o Marquez de Valença. As outras pessoas nomeadas;^ 
para a acompanhar, além do Marquez, e dos Embai- 
xa/iorpsçjp. Imperador,, er^o a Condeça dcVilía Real,^ 
úmt, fiuii^ í)onas.y e outras Criadas ; o Bispcp .de Coim^-.^ 
lu:^ :I^Qpp,'d^ A^^ Lopo Vaz de Mello, Kegedon, 

das Jiistic^á,'2y,v:|.ro de Spífsa , Mordomo Mof., AflFon-. 
$a de,AÍii:ajnda,jGòm0.s .de Miranda, Gomes Freire^ 
João Freire, D> Uiogo de Castello, Fernão da ,SiIvei-^ 
r».^ Martim.^^^^d€s dè Bçrredo, e outros , muitos Ca- 
vallelros. ' r V 

A 1% de Oiitabfo foi ElKeí i Sé com a Impera-^ 
tri2,^a Família Real, c. toda a Corte-, e depoisde ce-» 
lebrados QçOFFicios Divíhòè^ a conduzió ao Caesda Ri-, 
beira, .do.qiíal sihia huma comprida ponte sobre toneis^ 
até á Capitania , que/èstava soberbamente adornada* 
A Imperatriz ficou muitos dias a bordo, esperando ven- 
to opportuno, e etn todos a visitou ElRei : c em hum 
deites, açhando-se. assistido das pessoas do seu Conse* 
Itio, vierãp\,chámados á sua presença os Commandan- 
tes, e mais OíHciáes da Esquadra, e alli derão novo ju- 
ramento de cumprir o que lhes fosse ordenado, ainda 
com risco da sua vida ^ e mandou ElRei , sob pena de 

2iy ii 



156 

morre , que todos obedecessem a qtiahro deferminasse o 
Capitão General. 

No dia Tl de Novembro sahio a Esquadra com' 
bom vento, acompanhando-a ElRei com algamas enr* 
barcações ligeiras mais de huma legoa fora da barra. 

Para evitar o perigo talvez de na ver de continuo a 
bordo dos^ navios muitos fbgrfes accesos, regulou o Mar^ 
quez de Valença as horas de comer por esta maneira : 
Ao nascer do Sol janta vão os marinheiros; elle, os Fi-' 
dalgos^, e todos os Militares antes do meio dia ; e a Im^' 
perattiz , sua familia , e os Embaixadores ao meio 
dia. As céas constavão de conservas ; e pâo torrado 
no forno, ou peixes pequenos salgados. A mesma oi» 
d^m se seguia em toda a Esquadra. 

Navegou esta sempre com bom tempo até emficK 
car o. Estreito de Gibraltar , e a 22 surgio em Ceuta-, 
onde a Imperatriz desembarcou*, e se demorou algo» 
diae, por vir incommodada do mar: a 29 rartio coa . 
vento favorável. Na Costa de Vafença manoou oMap» 
quez huma Càravera (talvez a Âfícante) a buscar car-^ 
ne&^pão fresca, agua, e frucias. 

Passou a Esquadra i vista de Malhorca, c z 6 db] 
Dezembro entrou no Golfo de Leão. Sabindo digite, so* 
breveio-lbe vento contrario, com que se aproximou de 
Marselha, onde estavâo rres Náos, e duas^ Galés de Pi- 
ratas. A Esquadra achava-se então dispersa,, mas reuni- 
da por meio dèsrgnaes, atacou os Piratas, queimou- 
lhes huma das Náos , metteo outra- a pique , c tomou 
outra, escapando as duas Galés ,.^m que os Plratay ti- 
nhão recolhido o mais precioso dos seus muitos ròuBos. 

A EsquadVa ancorou em Marselha , e logo o Gb^ 
vernador veio a bordo,, com as principaes pessoas, e 
hum presente de refrescos ; ^ mostrando-se receoso i 
vista da grandeza doy navios, e quantidade de tropa 
que levavão, perguntou de que Nação erão, e par^ eàr 



157 

le n*tv*eg:tvãb?uissê- se-lhe somente ao príncipTO, qti^ 
rão ChristáoSj c amigos; mas depois se lhe declarou ,^ 
je erão Pomiguezcs, e eile expressou a sua satisfação 1 
)rn outro presente. 

A 8 > estando ainda neste Porto a Náo da Impera- 
riz, se levantou huma horrível tempestade, em que 
^rdeo iodas as amarras^ e esteve em risco de naufra- 
jar*, porém largando a ancora, que lhe restava, com 
ctla se aguentou. As outras embarcações, que sofFrêrao 
" tempo sobre a véla, espalhárão-se. Abonançando a fi- 
lai o vento, e rocegadas as ancoras, sahio a Imperatriz 
íc Marselha a 12 , e encorporados todos os navios, S€- 
jírão sua Yiagem. t.- o>/.ut 

O Marquez, sabendo que em hum Porca prorPm©! 
|c Niza estavão rcui>idos muitos Piratas com intento 
Je o atacarem, fez raetter trezentos Soldados em finma 
!!arave!a, e mandou-a a reconhecer o Pí)rto* Levava o 
>mmandanre os Soldados escondidos, apparecrndo sá 
lie em cmia sem armas; e mandando pedir seguro eo 
!fiefe dos Piratas para entrar, não so lie foi negado, 
)rêm mais de cem homens bem armados saltarão a 
>rda da Caravela; e depois de furiosa peleja, os Pop- 
jgirezes matarão huns, e precipitarão o resto no mar. 
eftes acudirão logo outros iruitos, e chegaiido a este 
?mro as Nãos, o fogo da sua arulheria obrigou todos 
ftrgir; e fazendo o Marquez desembarcar algnma gen- 
?, le retirarão os moradores, que vinhão também con- \ 
^rrettdo em auxilio dos Piratas* TonioLi-ee aqui Iium^^ 
iío navio, que clles linhlo aprerado. Ncfta acfáo ri- 
flo os Portuguezes nove n ort*>s e deT^eseis feridos, 
h habitantes mandarão por ttlrmie do s CavalTeiros a 
bber quem erão os Estrangeiras-, e cvinheceado serein 
Tortuguezcs, ficarão amigcí^. ' \' 

A Esquadra ^ depois de fayer aguada , segujo via- 
gem ^ avistou a Coaega ^ e ancorou em Liume a^ 2 de 



IÔ8 



Fevereiro do anno seguinte , onde â Iinperatfía desei^y 
barcoiu ^ . 

I4ç8 -^ No anoo dç J457 veio a Portugal o Bi 47a dç 
Silves por Legada do Papa OUlisro III. , trazendo a EJt 
Rei a Cruzada contra ns Turcos, que elle acceitny^ e se 
otFercceo servir riííqueUa guerra convdozc mil Jiomcnf 
pagoíí á sua custa par bum íinno, como ji tiofia pro 
JiBcítido, e frito consrruir navios^ com os aprovisiona- 
menros de: armas, c munições necessárias. E persuadi- 
do do que os outros Soberanos Goncorrcrião de boa f4 
para^ a Cruzada, mandou Martim Mendes de Ee^redo, 
Fidalga da sua Casa (r)^ a ElRci de Nápoles D. AÍ 
fonso seu rio*, para iruar aquelle objecto, e pedir-Ihe 
íar^faculdadc de comprar nas seus Esridos os víveres de 
'que carecesse, pof serem alli mais baratos.; mag Qip 
breve o desenganou o seu MinistrQ^ de que não havia 
em Napíolcs, riem nn Itália disposições , ou^ vontade d^ 
«concorrer para a em preza. Esta mesma incerteza exp9^ 
rimentou ElRci quando cominunicou a sua intenção aq^ 
, outros Potentados da Europa: e assim, confoni^ando^ 
cora a opinião do seu Conselho, resolveo intentar a cour 
quista de Tanger^ para- cuja expedição se calculou se- 
rem necessários vjnre e cinco mil homens de tropa^, 
^aiém da marinliagem , e gente de serviço» y e^ 

; Es^a expedição devia fazer^se antes do Bai do ú* 
no; fporém a. peste, que se declarou em Lisboa^ a fez 
•prorogar para melhor tempo, e ElRei passou ao Aleni- 
tejó. Alii lhe chegou noticia de que os Francezes^ não 
obstante a paz em que estavão com Portuga], íazião inál 
roubos no mar aos seus navios; e decermmado a punir 

(O Vede Ruy de Pina, Chronica ãt Dl Affnnso V* , Capituloi 1 tt , 
t 140. — Diiarte Nunei de Lcáq , ChroriTca <lo Jitô Rei, — Dtmílo de 
Gõeí» Quoriíca <Ío f^rhicípe D. Joio, Cap, t<x ali i^« *^ AcíuImívo, 






< 




159 

ttfb'ínftnie plntVrlâ , fez aprcFtar huma A^mada de 
vinte Náõs grosíaí, c outros Navios mcficres, guíirne- 
tídos At muita, e boa genre, ás ordens do Almirante do 
Reino Ruy de Melfo; e estando este a ponto de par- 
tir, recebeo EIRei cerras do Conde de Odemira, Go- 
yernadof de Ceuta, em que lhe pedia soccorro para 
resistir ao cerco, qae esperava do Rei de Fés. EIRei 
lhe enviou logo algumas tropas, com o pensamento de 
ir em pessoa dar batalha ao Monarca Africíino, o que 
não chegou a eíFeito, porque e$ie apenas aviltou a Fran- 
ça, rerírou-se, 

Kesfâ correspondência, que E)ReÍ reVe com oCort* 
de de Odemira, descobrio-lhe o projecto da conquisrk 
êè Tanger; mâs O Conde lhe escrevco, aconselhândo-o 
€|ue fosse antes sobre Alcácer Scguer (i), cuja opinião 
EIRei abraçou: E como a peste continuava em Lisboa, 
escolheo embarcar-se em Setúbal, mandando oMarquex 
de Valença a fazer o mesmo no Porro ^ e o Infame D* 
IJenfique nô Algarve. 

A 30 de Setembro de 145-8 embarcou EIRei em 
Séttíbai na Náo Sanro António, e com elle seu irraâb 
Ò Infante D. Fernando, o Mes i ré de Avia D. Pedro, 
filho do Infante D. Pedro, o Marquez de Villa Viçosa, 
com seus filhos D. Fernando, e D, João, D. Álvaro de 
Castro^ Pedro Vaz de Mello, c outros muitos Fidal- 
gos, e Cava liei ros. Constava a Armada de noventa em- 
barcações , e na manha de j de Outubro chegou a Sa- 



('O FovoacJo maritíiTM n© Costa Oariclental do Remo de Féf , cdW 
ficad;i fobfc o Rio lie Larache , fituad» na latitude N. íS*' 'O', e iongi- 
tíide 11** f$'* No Rio só pedem entrar em bar ca cíSes pequenas; 9s ou^ 
trás dSo fundo em huma Falira abeita, em 10 braças d*agux Fsta Vúín 
cfa cm parte povoada de homens do mir, e dalli íahiáo mtíitoi» Corsi* 
tfòt â insultar «Costas da Península, e a embaiacar o Conimercio; 
t*ti n raíão, porque EIRei prefciio a sua conqujsu á de Tanger,, 
aJW Fuçi íiiiotyt iiíaJt imporcunce. • »'«^ ^^ 



ifres, oHííe o espernra o Infíinte D. Henrique, e o Con- 
de Ac Odemin, que veio de Ceuta com quatro navios. 
No dia seguinte foi RlKei a L'igos\ e se demorou oiro 
di?!S, agiiirdnndo as E«quadris do Porro, e do Monde- ^ 
go , que n?ste infeívillo de tempo se lhe reunirão* ■ 
A TO embarcou * e no curro dia sahio a ouvir Misisa 
em rerra. acompmhido de roda a Nobreza da Armada, 
e .TC.ibada cila. declarou piiblicumcnre, que Iiia atacar a 
Vitb de Alcácer; e agradeceo a todos a diligencia^ c 
lealdade com que o vinhao servir, promettcndo-Ihcs as 
Iionras , e mercês de que se fizessem dignos ; a cujo d is* 
curso rcspondeo, como cumpria, em nome de todos o fl 
Infante D. Fernando. ^ " 

A 12 partio El Rei de Lagos com toda a Arnit» 
da, que constava de duzentas e vinte velas Ti)^ ^ * <4 
por ser o vento ponteiro, surgio na Bahia de Tanger, 
onde se demorou aquelledia, e o seguinte para reunir 
os navios, que as correntes tinbao espalhado; e examir 
nando a situação da Cidade, se debareo em Conselho 
se a devia accommetter, a que se oppôz o Infante D. 
Henrique, com cujo voto EIRei se conformou ; c fa* 
zcndo-se logo á vela, ancorou a 16 ao meio dia em 



(i) Ru]f de Pina diz, que E}Rei leroti iiorttvíof^ e nSo de<:!«n 1 
fori;a do Exercito ; mas já tiiiíia sicío dcftrrmínado cm Cnnsclho, que 
etce comtaria de vinte e cihco mil homens. Gocs dÍ7. , qiic a Armadi eti 
4Jó t%o velas, com vinlc c ftii miJ hom^tvs, O antigo manuscrito do 
Prior do Crato D. Vawo de Almeida traz 2S0 navios, e vinte e dons 
mil homens de tro(^s, com « circunstancia notável de cunar este aimi* 
tnenro cento c quinte mil dobras ^everim de Faria (Noticias de Porto» 
gal, Diicurso k § i $) concorda com Ru)^ de Pina no numero da\ embor* 
caçõet , e não menciona o das tropas, Duarte Nunes (Cap. a 9.) fegoe 
a Ruy de Pina, dando zio vclas a esta Armada, e em quinto auEjMEC^ 
cito %à áh , que no Consdho se determinara ser de vinte mil hotneas. 
Nesta diversidade de opinzóes cada hum se^^utrã a que ll>e parecer mait 
authorÍ7ada ; cm quanto a mim, creio que o Exercito era de viniCA 
cmco mil homens; e a Armada, pela imuos ^ de afo uaviof. 



t 



Alcácer com jps navios raais pequenos, que venciáo me- 
lhor a corrente. 

Sem perda de tempo se preparou tudo para come- 
çar o desembarque i mas como os dois navios , em que 
ii$o os Infantes, haviâo fundeado a duas legoas dedis^ 
taocia , com outras quarenta embarcaçõef, os mandou 
ElRei chamar; e quando chegarão o acharão á testa de 
huma linha de escaleres, e lanchas carregadas de tro- 
pas. Apenas Elllei vio o Infante D. Henrique, pôz a. 
sua flotilba em movimento, e á voga arrancada tomá-> 
rão terra ao mesmo tempo todas as embarcações. Esta- 
vâo formados na praia quinhentos Mouros de <:aTalIo,.e 
muitos mais de pé, que querendo-se oppór ao desembar- 
que, íbrao rechaçados, e carregados com tanto vigor, 
que rotos, e desbaratados , huns íugíráo para Alcácer, 
curros para as montanhas, deixanoo bastantes mortoi 
lio campo, Dos Portuguezes ficarão muitos feridos, c 
mortos o Commendador Ruy Barreto, e Ruy Gonçalr 
ves de Marchena ; e no alcance dos inimigos se adian* 
sou tanço João Fernandes da Arca, Fidalgo valoroso ^ 
e celebre Cortezao daquelle tempo, que chegou ao péf 
das mu(9lJias, e ahi o matarão de huma pedrada, com 
geral sentimento de toda a Corte. 

Naquella noite desembarcou a Ârtilheria, e todos 
06 petrechos, e instrumentos da expugnação *, e no dia 
seguinte assaltarão os Portuguezes as trincheiras avança«> 
das, que os Mouros cinhâo levantado para cobrir, e de- 
fender as proximidades da Praça ; e apezar de grande 
resistência, as entrarão, forçando-os a recolher-se den*' 
tro das muralhas. O Infante D. Henrique tentou que- 
brar as portas, o que lhe não foi possível, pela sua for-^ 
taleza, e pela quantidade dç tiros de arremesso, e ma- 
térias incendiaaas que os defensores lança vão sobre as 
uopas , o que as obrigou a afastar*se do pé das mura- 
lhas, sendo já pobto.o.3ol, em quanto não chegayao: 

21 



írlgumos matutas , e outros crigeiíhos com que renovânfui 
o a>salto* 

El Rei, que corria a cava Ho com o Infonte D; Fer- 
natvlo por rodas as partes onde se pckjava> picado da 
resistência dos Mouros , f&i ao Quartel Jo Infante IX 
Henrique, para ordennr que profeguisse, e fosse gerat 
o assalto, a tempo que este Príncipe já começava a es- 
Cilada, a qual durou até á meia noite, defendendo-se o9 
Mouros com valor indómito. Enrao o Infante, não que* 
rendo sacrificar os seus soldados, mandou retirar as tro* 
pas; e havendo entretanto construído huina barería em 
sitio vantajoso, em que se coMocou hum grosso canhSoí 
^ poucos tiros cahio hum lanço de muralha ^ de 
desanimados os Mouros, capitularão no dia i8. 

Coficedeo-lhes EÍRei , por generosidade , fahír 
iodos livremente com as suas familias , e effeitos, dei- 
xando os Christãos cativos que tivessem; cuja^ Capini- 
)«çâo Be cumprio á risca* Despejada a Villa, consagroo- 
se logo a Mesquita, e nella deo EIRei graças aoOmni* 
porenre pela vicroria. Dilatou -se elle em AI caçar cioeo^ fl 
dias , e deixando por seu Governador a D. Duarte de 
Menezes, com a ge^ite, Artilheria, e munições de guer^ 
ra necessárias, e víveres para três mezes, entrou nodia 
^ em Ceuta, ctjja grandeza comparada com a peque- 
nez de Aicaçar, lhe deo motivos de sentimento, e o ac- 
cendeo em desejos de emprehender maiores conquista»» 

O Rei de Féí, sabendo do cerco de Aicaçar^ par- 
tia a soccorre-lfl, e sabendo no caminho estar toma* 
dtj rccolheo-se a Tanger , ^ fim de reunir o seti Exer- 
cito para a sitiar j de que avisado em Ceuta EIRci por 
B; Duarte de Menezes, chamou as pessoas do seu Goa- 
seMlo, cm que se resolveo, que devia voltar a Portu- 
^1 , nuas que por nío dar a entender que fugia , envia»» 
seí^humT Cina ao Rei de F(*s, desafiando-o^para humt 
blMlISi' oampal^, visto achar-se com forças suffiticnr» 



I6S 

futa 4IM. iA 'esta corittris^ partira em Hihi? tmbap- 
oaçâes Martim de Távora , e Lopo de Ahneida, acdm^ 
pairiíadot tie Itum Rei de Armas, ^ levando huma Câr* 
tm de desafio miada co9H toda a corieúa^ que a Reis 
caavem <!.). O .Mouro , instruído do <objecio da Era- 
Úxtda 9 ^em <te navios eacrando na Bahia de Tanger,, 
lhes mandou atirar ; e com este desengano tornou Lopo 
de Almeida para Ceuta , e Marrim de Távora seguio 
pAta Alcaçâr , onde oi>egárão outros muitos Fidalgos , e 
alguns Booeorros de Ceuta. 

A 1$ de Novembro appareceo o Rei de Fés sobra 
esca Praça *a>m trinta mil Komens de cavallo , multi- 
dão de gente de pé, e muita artiiheria, começando 1#« 
go a formar os seus ataques. 

EiRei sabendo do cerco , e x]ue a Praça estavai 
mal provida de viveres , attendendo á ^eitaçao inveni» 
sa^ imrtio de Ceuta com a ^ua Armada^ e a lo ohtjgpu 
a Aicaçar, intentando metter-lhe soccorro, o que pare- 
oee ímpoBsivel , per estar já completamente ^^ercâda., >e 
as baterias mtmigas descobrirem a praia , eih que «& 16 
podia desembarcar. Nestas circunstancias eácreveo a tX 
Duarte^ ^promettendo-Ihe que em breve tornaria a soe- 
aine-le; e voltando para Portugal, desembatoou em- 
Faro, donde passou a Bvora, temando logo de se refii^ 
ífcr pwni a 'nova jornada da Africa. 

O cerco durou cincoenta e três dias , e a .2 jde J^.- - 
seiro do mino seguinte de 145^ se retkár-ão os Moofoa 
eofh immehSB perda de gente. E consideranáo ElRer « 
fanrâgem fj« restjltaria aqtiella Pfaca dé ter hutfi Mp-' 
riie para nelle se recolherem as embarcações oequènai^ 
como ibc *hav.ia representado D. Dinrxe de lyCeofezfis^ #, 
tfUe 'mesmo o experimenrára qtiaíndo ée ibaldé <a Mis 
sriceorrar, tt«tveo-^e a -manda-lt) feuer , para ct|}o wm 

(1) São as formaes palavras de Damião de Góes lU) C<kp. \J^ 

21 ii 



164 

SC preparado* vinte e seis embíircaçoes carregadat àm 
ftiaferiaes, artiiices, e trabjlhadorcf; necessários. Chtfi^ 
gada esta Frota a Alcaç.ir, começou D. Duarre a con- 
strucçâo do Molhe a iz de M.irço daquelle mesmo an* 
no, é o deixou concluído no íitn de Junho, não obstan^^ 
te a contínua guerra , que os Mouros lhe fizerjo pi* 
ra embaraçar os trabalhos (i). 

1460 — A 13 de Novembro deste anno fàlleceo 
em Sagres , com sessenta e sete annos de idade , o lo^ 
fante D, Henrique, cujos gloriosos trabalhos lhe tem 
merecido huma fama, que só acabará com O Munda 
Os Escritores de todas as Naçòes são unanimes nos elo* 
gios, que fazem aos seus raros talentos, á suamagnani* 
midade, e aos seus conhecimentos mui superiores ao scv 
culo em que viveo; e o cotlocão a par dos melhores, r 
mais benéficos Principes da Europa moderna (2). 

X461 -^ Mandou El Rei a Soeiro Mendes, Fidat* 

(O I^U7 de ?\m (^CàÇK 141 ) fatia em tertnoi genes dSi constni^ 
çâo c^ste Molhe (a que se chamava então Couraça) ; mas no Manuses^ 
to de D. Va^co de Almeida achei as particular idadcs> que rtfifO;^ e ^rem 
a ob^rvaqSo de que custou dez mil dobras. 

(2) Barror ( Diícada i.. Parte i. Cap. i6.) dir , que fallecea « i| 
de Novembro de 146} , com sessenta e sete de idade. — Ruy dbP^ 
na (Chronica de D. Aífonso V., Cap. 144> póe » sua morte emNo* 
vembro de 1460, com cincoenta e sete de idade, o que be equivociP 
qio, oik erro de hnpressáo. — António Galvão (^ Tratado dos Deioo- 
bftrmiitos, pag. 2Ò a coHoca em 1462. — Achiheiro (Chroniat de 
D. Affonso) di7., que foi en> 1461. — DmuíSo de- Góes (Chroniea éb 
Princi))e D. João, Cap. 17., c na Chroiiic» d'ElReí D. Manoel , Ht» 
te 1., Cap. 2).) aflfirma, que o Infante morrto a l) de Noveiahro da 
1460 , com sessenta e sete annos de idadc;. — Duarte Nunes de L^ 
segue a mesma opinião , assim como Jo7e Soares da SíYra. no^ toono l. 
dás suas Memorias ác D. João L — D. António Caetano de Sousa pi»- 
i^iio hum Documento decisivo , que he a Carta de Dsaçfo, que EHUl 
IX Affonso V. fes ao Infante D. Fernando das Ilhas doa Aqoies ^ Biadei- 
ra, e Cabo Verde, datada de Évora a 3 de Dezembro de 1460, nt 
<;iia), fallando do Infante D. Henrique, diz: nuti T»^ que Deês hsjm^ 
Historia Genealógica, tomo 2* Liv. j. Cap» f. pag. iiu 



165 

gò tia sua Câsá, i Ilha de Ãrguim, para constmir hum 
Casrello (se nao foi para acabar o que se diz estar já 
tomeçado), a fim de proteger o Commercio do ouro^ 
Q dos escravos , que neste tempo concorria áqueilas 
Ilhas, o qual era mais vantajoso a Portugal, do que o 
sjstemâ até alli seguido (i). 

. 1462 — Neste anno (ou talvez no antecedente) roan*- 
dou ElReí duas Caravelas para continuarem o descobri^ 
mento -da Costa de Africa: era Commandante de humá 
Pedro de Cintra, seu Escudeiro, c da outra Soeiro da 
Costa (2). ' 

Chegados ás duas Ilhas habitadas , que Cadamosré 
t-econheceo na sua segunda Viagem, defronte dòRio a 
que chamou Rio Grande, surgirão em huma delias, e 
tratarão com os Negros por acenos, por nfoí entende- 
rem a sua linguagem; observarão também , que habita- 
vâo em cabanas miseráveis, e tinhão ídolos de mãdei<* 
ra, que adoravão. Pazendo-se daqui i véla,<e navegan- 
do cousa de quarenta milhas além do Rio Grande, vi- 
rão outro, que teria três, ou quatro milhas de largo, e 
90 chamava Rio de Bessegue (3) , nome de hum Ré« 
guio, que dominava na sua entrada. E proseguindo 
no reconhecimento da Costa, descobrirão hum Cabo, 



fi) Bvros, Década 1, Lír. a. Cap. i. — GalvSo (pag. 2$ ) p6e 
esta expedi^ em 1462. — Faria e Sòtna a coHcca em 1449. 

CO Como túo achei nos nossos Escritores as particu]aridailes dest» 
Víagena cie Htdro dt Cintra ^ aiga a nfkfraçãa <k ÇadampstiO , q|i'e escie^ 
▼eb as notícias que the deo hum Portuguez sm amigo, que parece f»> 
ZUL parte da guarnição da Caravela de Pedro de Cintra ; e ass^igno a es^ 
t» Viagem o anuo de 1462 , por me p arec e r mais provaVef, attendbn- 
ào a que este Descobridor estava de volta em Portugal no t,^ de Fe* 
. Teieiro de 14<$J » época da sahida ^e Cadamosto, Vejio-se ás Memo* 
rias da Academia já citadas, onde vem as Viagens ótste^ Veneziaua 
Faria diz, que-foi em 145}. 

Cj) Este Rio parece ser o de Nuno Tristão- já dbscoberta ' 



^-m 



dcóbn daVerga (T^^qMenlrsNK 



nome 
esscgue cousa 



iria do Rio de Besscgue cousa de cento e quarenta «it*- 
Jbas; c toda a Casta entre estes dous pontos era hum 
fpoiíco montuosa , e coberta de alto e verdejante arvore* 
«da 

Perto de oitenta milhas adiontc do Cabo da Ver- 
^ acbárnoootro mais -alto que todos os nntcccdentes, 
com hum pico uo meio, c sombreado de grandissimaf 
anrorçsyii que pozí^río o aome de Cal>o de Sagres de Gtii* 
iié Ç2), em memoria do Gastello de Sagtes., que o In- 
fame D, Henrique construirei. Os bahitanteç daquellc 
Hío tuUiâd a cór menos preta, que os outros Negros, 
£ erao JdoJatras; âqdavão quaííi nús^ homens, e -mulhe- 
res trtiziáo Curavias as orelhas, e cartilagem do nariz» em 
^>ae cniiavão alguns aimeís de ouro; e os rontos, c cor- 
^s majoaxips com varias figuras: não possuiâo armas 
de femr, fC mantinhao-ge de arroz, miUio, e lesmes, 
^o mtr do Cabo ettevão 4iias Ubás pequenas, huma 
-em distancia de seis , e outra de oito millias « ambai 
^e^habitadas , e basteadas de arvoredo. As Alfnadiaa 
«kaies líitgros erão grandes, c capazw de conter ^lerrin» 
<a a quarenta homens cada humâ , não conheciâo o uao 
fios taletes, e por consequência rícmavao em pé. 

Quarenta milhas alem do Cabo de Sagres virão 
hum Rio, a que chamarão de S, Vicente (3), com per- 
ito de qygtro militas de largura na boca; e cinco milhas 
nnh adiante outro ainda mais largo, que appelIidirSQ 
Kio Verde, por serem estes os nomes das duas Carave- 
las* Toda esta Costa era montuosa , e com bons $ar- 



1X0 ^^^ Cibo Cita sftuado m btitude N. 10° 4'i e lomtftmá^ 

(a) Náo fic pos5tveÍ $abcr*se bojt a que ponu de leria se det» o 
j^p^ lie Cabo dtí ^H^íct* 

(O o Kio dt S. Vicente , e o Rio Verde uJvez que icjáo Of Rm 
das P edraj^tf dr Jga^. 



MT 

_ itt», e ibpm fundo* Correndo) tiniis Vinffe^eqliàtroi 
flilJtaf; descobrirão hum Cabo^ a que derâo o nom« de 
Gabo Ledo, por ser mui vi poso j e alegre -(i) ^ e adiaiH 

(1 j Cabo Ledo (chamacki pelot Inglezes Cabo da Serra Leôt, e pe-' 
lOê Phnceaet Cabo Tagrimy he a ponta do Sulda encima dcrtRio Mki 
tombav ou-dè-Scrra Ls6a ,.skuada na lalitude Ni S^ jcy, e ionvjtud» 
5*' 6'. A ponta do Norte da mesma entrada cbamase ponia de Fularne^ 
0}i lHoL dos Leopardos. Este Rio, hum dos mais formosos da.Afríc» 
Occidental ,. corre de GÚsre para Leste, com huma foz de cinco iegoat 
dè largo atê á Cidade dd Freetown , Qipital dos ettabeíecirAentts lAk 
gleits, comtniida na^mafgiem-Austnil, a doas legqas e meia daentre% 
da. Neste ponto dinUnueu) Rio quasi metade da. sua larguu, cassioL 
coQtiniia sete legoas além da Cidade , onde se divide cm dois bra^ot» 
Hm neire Rio varias Ilhas , e na entrada hunl baixo dé ar€a , que toma* 
dbi» terços da sua latgtira. 

Ol Porti^ezei faiiio aatigaaientc hum vantajoso Coramercionea» 
t« Rio, eoi q«5sa«cha¥ãa«aiU4meot06^de-toda a espécie, ouro extk 
pó^. qoe.vioba doTfcnáo, ferro, algodão, cana de assucar, marfim.,^ 
cera, inaliAgueta, madeiras, e hunisfructa como castanhas, chamadiir 
C6la, que se carregava para d ifferentes Portos , e ilhts, por•te^màHÒ» 
etchnadj* dor ^Negros/. Itr ^ester>motív(BífÍ2aao alli: hum esnèciteimen- 
tO) .dirjgídi9:.p(»eplito.Coii«a da,S4lv», natunl daJUia de.^. TIm^^>^ 
qu* jevou.coaisigo.huni irmáa, e outros teus f.arçntes, e amig^ com;! 
ia tuas ramiítas, e po anno dè t $90 continha a sua povoaçScí qtfinhéo* 
tos 'Portuguezes ; e ainda hoje existem restos das plantaçóet - dc-arvof€9i 
flúetiíerm^ quei íiteião. Focfio pordn destnipuando a terra a pottoftai 
pCMGOt, oi|.p^?«biindono eior^u» otf jdeixe» ro Governo, arpttzar-.dai^ 
suaariccbmaçdf^^^.oti pelaJnsaUibrid^dpudo cli(na,^que be nutado^p^^^, 
os brancos, e ate para os negros de outras Náçócs. 

Como o Paiz ficou abandonado dos Portuguezes, e era já mui co- 
nftècídé^, e^ifiqaeQtido' di^ntvk>reitioigeiios ^ HenriqttO Sldisp*^ IniJ^lez , 
começpa-a ( cr iar'«lii'ham pequeno estabeieckiientoxmv 1.7 &6 , a.mdos 
rrunir nelle os Negros ^núttfzyew'^ qtm havio/ em^Lpndresv. Postoi eait 
énMóda etlc prai6cfo^4 de9truír2h>>of PnncezBs a^povoaçto em 1790; 
nwt' re9C«urou*«e«m -breve , porquei novaoao segi^iste hum iBill do«Par«^ 
Utnento mandou foipmar alH huma. Colónia., eem conseqpencb coi»^^ 
slnH0>se «> pequena Cidade. de Fveetown, qtie tem Go^-eraadun, Go^r- 
nM^ioANtltarv »Ofiíiciae9"Civís necesMcios. A fCompanhia Africana 'está ^ 
saiiliof»- deste Cbmmepcio; e.iem-iS&o che^^i^a a rpof^ulaoõo.dft Colonivi 
a quatro nívil-^eifcenios^ tttrc.^^bpancoc, e oito mú e setecentos.ne^iGsi 
de ambos os sexos^ eaeajquasé^iodoft» tomadot^jiot navios de Esdav^iiiia» 



160 

te delle pela Costa se levanta huma montanha alrifsimâ 
de nmis de cincoenra milhas de extensão, coberta de 
grandes e viçosas arvores; c oiro mi lhas ao mar da ejc- 
iremldade desta Serra ficavão três Uhoras, a maior das 
qiiae$ teria dez milhas de circumfercncia^ a que chama- 
rão as Selvagens , e á montanh.i Serra Leoa, pelo con- 
tinuado rugido djs trovoadas^ que se ajuntâo no seu 
cume, sempre coroado de nuvens. 

Passada a Serra Leoa, toda a Costa era raza , coin 
muitos bancos de arca, que entrao pelo mar dentro^ c 
coufa de trinta milhas da sua ulrima ponta achcirão ou- 
tro Rio cauJaloso, com perto de três milhas de largo, 
a que denominarão Rio Vermelho (0> cuirís aguas, re- 
flectindo a côr do fundo, parecião avermeUiadas, Além 
deste Rio estava hum Cabo, que recebeo o nome de 
Cabo Vermelho, por ser o seu terreno avermelhado^ c 
huma Ilhota deshabitada, que distava dalli oito milhas, 
teve o da Illia Vermelha. 

Dobrado este ultimo Cabo, fazia-$e como hum 
golfo , em que desembocava hum Rio considert»' 
vel , a que chamado de Santa Maria das Neves (i),' 
por ser descoberto oo seu dia (j de Agosto 3; c de 
fronte da ponra do Sul deste Rio , hum pouco ao 
mar, havia outra Ilhota* Deste golfo, ou Enseada sahlão 
muitos baixos de aréa , que seguiao a Costa por dez. 

A esra<^ão dis chuvas come<;a nos fins de M|io, c aaba em Sp» 
tembro , e nella hc que gtassão as mais pct idosas doença», peU t^içt^ 
siva humidade, c calor, que reinão nesta quadra. 

Os gcueros de exportação actuil sáo : arrciz, madeira de Mogttc pt» 
ra obras de marcineria, pao carne, que cin^e de vermelho^ ex€«tl«iii« 
carvalho ptoptia de construcçáo navil , martiin , e algum ourn. 

(i) Rio V^ernietho, Cabo Vermelho, &:c. nau se achão nu C«ts; 
e como eutrc Serra Leoa e o Gibo de Santa Anna Ita muitos Rim, 
baiios, e llliai, he impcsitveJ deierminar hoje os pontos de ^\m cite 
ralU; massuspsítto que o Rio Vermelho he o Rio das Giniboas. 
(j) Mio 10 encoiítra nu Caius o úomt deste R)o. 



16» 

^òirdoze iDÍlh», e nelles quebrava >4mr/e eni grão* 
dissíma a coH^hte, com fortts maréavde enchente, e va- 
gante: chamarão Ilha dos Baixos iquella Ilhota; eaUm 
delia cousa dp vinte e quatro milhas ha hum Caba, 
que' nomearão de Sanra Anna, por ser defcoberto a t6 
de Julho. Este intervallo da Costa he de pouco funda^ 
e pratas de aréa. 

Setenta milhas além do Cabo de Santa Anna achá« 
rio outro Rio, que denomitiárao das Palmas (i), por 
káveretti nelle muitas paimeíris : a sua borra, ainda auto 
parecia larga, era toda cheia de baitos , e de parseis, 
e por i»o perigosa. Do Cabo de Santa Anna a este 
Rio he tudo praia seguida ^ e outras seteíhta milbas málsr 
avante vírâo hum Rio pequeno, a auc pozerao nome dc^ 
Fomos^, porque quando o dercobrírâo se nâo via outiva? 
eousaéffl terra, senSo fumos (2), que fòziâo os naturaes* 
do Pârz. Mais além vime e quatro milhas pelas prai^d 
descobrirSo hum Cabo , que entrava muito pelo mar, '« 
sobre elle apparecia hum monte alto, e assim lhe Cha-í 
mirSoCabo dó Monte (3). Cousa de sebenta milhai» 
Hiaia adiante estava outro pequeno, e baixo, o qual tam^ 
• ■ ' - i 

r (f> O €dio de Santa Anna acha-se na iiftitudtf N. 7« 14', c kx^fif 
tuck «6^ 4S^ e he a ^loota Occidental da Ilha chamada pelof Portiiguc- 
«t o FacnUio, e peloi In|le7es Sherbero , cuja IJha he mui comprida , e 
o' teu extremo Oriental forma a bocca do Rio das Palmas. Ora como o 
CAo de Santa Anna fica para o Sul do Rio, a que os Descobridores' 
dnmirSo *de Santa Maria das Ne\'cs , primeiro havilo elíes descobrir' 
^^«ilA^doque este; mas o contrario apparece nesta narração, poia 
vjráo o Rio em s de Agosto, e o Cabo em 26 de Julho. Não nos de«^ 
ve admirar simithante confusão , porque o individuo , que deo as noti- 
ciai ã Cadamosto, nem era liomem do mar, ;iem podia conservar na mfc- 
iBoria asepoeas díos descobrimentos, as distancias dos lugares, e outras mil 
circunstancias , que se escrevem hota por hora a bordo dos navios, para 
fião esquecerem. 

(íz) He hoje o Rio dasGallinhas na latitude N. 7^ $'• Este Riohe 
piopcèo só para lanchas. 

(O Situado naktitude N. 6^ $5^, e longitude 7^ 24^ 

22 



170 



bem fHOítrava ím^iroa Kant pequena moirfé, e a^ csfo 
poterâo o iiomc Cabo Corre?, ou Mc/ur^do (i)t Aqui 
vifãd maicosífujjos naqiiella primeira ngitc, tanro cm 
ciaria iliis írvoroi? , como pehis praia? , feitos pelos Nc<* 
grod" qoíiBda hoii verão vista dos nossos navios, ounca 
4té então por t^les conliecidos. 

Continuando a costear a praia por e5paço de de2- 
cteis mil lias, obscrviirâo htim Rrande bciíque de arvo- 
res. *tTiui verdes V que se esrendia até ao mar, e lhe cha« 
mÍT^0 Mata de Santa Maria {%)\ e no socairo ddli 
surgirão as Caravelas, i$ quacs vierao alj^mas peque* 
nas Almadias com dons, ou três Negros cada huma^ 
iodos mis, armados de páos agudos, rodelas de ccuro^ 
cucellos, e arcos, com as orelhas, e narizes^ furados^ # 
alguns com enfiadiis de dentes ao pescoço, que parecua 
ser de homens. Os interpretes fa I lá r?o -lhes diflfcrcmcs 
línguas , mas não se poderão entender huns aos outros» 
De três Negros, que subirão a huma das Caravelas» re- 
tiveráo os Porruguezes hum, e deirirao os dous, segun- 
do a ordem que levavão d'ElRei, na qual lhes determi* 
nava , que na ultima terra a que chegassem , e não que* 
rendo passar mais avante, se por ventura os seus imer- 
|Keies nSo fossem entendidos dos naturaet, tTOuares^eni 
^fguns destes por beiti , ou por mal ; porque aprende» 
riáo no Reino a Fallar Português, ou serjão entendidoi 
por alguns dos muitos Negros de varias Naçõe*, que dir 
li «e encontrão, e dariáo informação do seu Paiz. 

Em consequência destas ordens, como oí^ Crirrím^iv 
itantes deierminárao voltar paru Poaupal ^ cr ^x> 

comsigo aquetie Negro, que cm Lisboa achou hqívs^, 
escrava, que o entendeo nau iia lua própria Imgua , 



I 

I 



(O SitiuHo na UrltiitW N, 6' 25 ,« fíni^intí^tf 7*» 17'. 

C») fi«t« M;it0 ík Saiiei MtrU aii^ii conserva n ti^mHr^^e i^a t^n 
mui canh?ciiio do* Pofiu^ucriei , j>or ctmifí^ar atui o Cbmmeic^JdB, 
Íhli;;ticU, q^^ se csU»4ÍÍ4 (juapeutii ie^Doí peU Ceou, 



171 

em ostra qlte ambos fallavâo; e BIRei o maftddu trffné^ 
portar algiins mezes depois em huma Caravela ao mes^ 
mó Ría^ onde fôra tomado, e bem satisfeito das da^ 
dirás que levava. 

, I463 '^ Sendo ElRei D. Âilbnso avisado (i), que 
a Odade de Tanger podia ser surprehendida por fauifi 
iHgiar, onde a muralha era hiui baixa, e poaco vij^tSN 
da, determinou acliar-se cm pessoa naqudla fac^lo*^ 
contra a opinião do G)nde de Vianna D. Duarte de 
Menezes*, Governador de Alcaçai*, que sobre isso llíê 
eKrcreo> pedindo que com dissimulação lhe mandasit 
êlgum reforço de tropas, sem alvoroçar os Mouros com 
U: sua ida , e que elie se obrigava a conseguir a cnrprefi 
zliw As intrigas^ e artifícios do Gdnde de ViHa Real 4 
iâimigo d6 de Vianaa ^ iizerao regeítar os seus conse* 
{boa 9 e fentregar áqueiie a direcção do negocio ^ reoe» 
bwláo kgo adiantado, d tfsèstà ws bens dm Cêroãj o 
premio dés aertiçoa que promettia fazer. 

Cm consequência deste arranjtmento > passou o 
Conde de Vifla Real a G^uta, e dteta Cidade a Tarií- 
fiir, ^onde ae embarcou para Tanger, e ijior algumas pe^ 
aoaa que mandou desembarcar de noite, soube que a 
mvralba estava ninda fio miãsme estadp. Com esta ntttM 
cia ) que participou a ElB^d , fei a Gibraltar ( que -o» 
Hespanhoes htrviâo tomado aos JMour^s tio.ánfio airte** 
cedente), e alistando alii gente de guerra, 'vqImh a CeiH 
fa com cento e cincoenta cavallos, e (quâtrbcefiMM ho** 
loens de pé. O concerto entre ElRei t elk era esre: 
Q^e no dia em que ElRei apparocesse no mar dcfron-* 
te de Taia^er , chegaria o Conde por terra sobre a Cl^' 
dade, para auxiliar a escalada, e impedir os socçorroai; 

(1) VedeKuy de Pina na suaChronica desde Cap. 146 até Cap, I $6. 
— Acenheito nas sifas Gironícas, Cap. 25, que concorda nos factos 
p«4lici^a«t. — « Bamião de Góes na Chronka do PHncfpe 1). João, 

22 ii 



172 



?í)rèm Et Rei rardoii ranto em partir áe Lisoba; cjoe o 
ConJe, não podendo conservar mais rcn:po a gente es* 
trangeirai sem perigo de se descobrir o segredo^ a dct^ 
pedio* 

ElRei, cuja passagem á Africa era já poblica, sahio 
finalmente de Lisboa com seii irmão o Iníaníc D. Fer- 
nando a 7 de Novembro de 1463 , c a 9 chegou a La- 
g0S| onde achou o Conde de Odemira , e o Almirante 
do Reino ; e contra o parecer de rodos os OlBciaes de 
Náutica, se fez á vela com máo tempo, o qual carre- 
gou tanto, que foi aconselhado se recolhesse a Silves, 
para salvar a sua pessoa ^ o que não quiz fazer. Sobre 
a noite dobrou ranto o vento , que todos os navios cor- 
rerão grande risco de se perder, e os mais delles alijá* 
rão tudo ao mar, excepto o navio em que hia EIRet, 
que não consetitio se alijasse cousa alguma. Perdeo-se 
nesta tormenta o navio de IX AfFonso de VaFConcellos , 
saivando-se por milagre a gente , e soçobrou huma Ca^ 
ravela^ em que morrerão Lourenço de Guimarães, cjoão 
Vogado, Escrivães da Fazenda d' ElRei , Gonçalo Car- 
doíío, Escrivão da sm Camará, e o Rei de Armas Por- 
tugal, No dia 10, abonançando o tempo, achou-se 
EÍRei só com oln^fante D, Fernando diante deAIcaçar , 
c coithccendo o Conde de Vianna o navio pelo Esian- 
darte Reaí» lhe veio fallar ao mar, edalli seguio ElRei 
para Ceuta , cm cuja Bahia se ajuntarão no dia seguinte 
os nav^ios da sua Armada, todos destroi^ndos; e pars 
agradecerem a Deos o terem escapado do na^ifragio, <|ue 
trião infaHivet^ fbrão em procissão descalços a Nossa 
Senhora de Africa o Duque de Bragança com seus fi- 
lhos , e rodos os mais Fidalgos» 

De Ceuta voltou ElRei a Alcaçar, havendo primei- 
ro declarado a intenção com que vmlia de tomar Tan- 
f;er j c de Alcaçar destacou doze Gales com gente c^co- 
hida^ para irem tentar a escalada, e por Cbefe desia 



I 
I 
I 



Í73 

expedição Luiz Mendes de Vasconcetlos , Fidalgo mui* 
téhntifll^cntc nas cousas marítimas-, e elle marchou 
pdt^tèfVí çótfí o Infante D. Fernando, o Mejtrtf d'Aviz 
D; Pedro*, d Duque, e todos os outros Fidalgos, e o 
rêtto das tropas. O Conde de Vianna contradisse o ata- 
quVpormar, pela incerteza, e perigos que tem srmilhan- 
tes combinações; mas nâo foi atten^ãido. EIRei chegou 
• Tanger huma hora antes de amanhecer, sem ser sen- 
tido, porém as Galés nâo poderão realizar o /desembar- 
que, pela fiiria domar; e sendo a final vistas pelos Mou- 
ros y dispararão estes a sua artilheria, e accendérâo mui- 
tos fachos. EIRei, crendo que a Cidade era entrada, 
por ser aquelle o mesmo signal que neste caso tinha 
ordenado a Luiz Mendes , que fizesse , marchou para 
tila, c em brere se desenganou do seu erro; e voltan- 
dò^se para as pessoas que o acompanharão, disse: Não 
me deixastes crer ao Conde D. Duarte , tor ventara 
se pfiz^era^ esta. vinda se empregara mel%or. E retii- 
rou-se logo para Alcácer, donde partio para Ceuta corti 
O Infante D. Fernando, Este passou outra vez, com li- 
eenp d* EIRei, para Alcácer, levando comsigo rodos os 
FiAalgos, menos o Duque de Bragança, e o Conde de 
Vllta Reat, a fim de se achar em huma entrada que o 
Conde de Vianna hia fazer no interior do Paiz, a qual 
teviQ lugar no dia 4 de Dezembro; e ainda que custou 
algum sangue, recolherâo-se com duzentos e vinte ca- 
tivos, e grande quantidade de gado, de cuja preza o In- 
fante tomou para si o quinto, que pertencia ao Conde 
como Governador da Praça ; EIRei o safisféz depois pe* 
la Fazenda Real. 

Durante a demora de EIRei em Ceuta , emprehen- 
deo o Infante, sem seu consentimento , o assalto de 
Tanger, e para este cfFeito sahio dé Alcácer a 10 de 
Janeiro de 1464, sem levar comsigo o Conde de Vian- 
na y porque lhe contrariava o projecto, e foi escalar a 



W4 



Pf aça <r^it^ mais v^hr^ que intelligenera* E poifò aw 
rOT Ponuguezes a emrirão logo pelo lugar da tmtrdlba 
Já reconhecido, sobreveio tal deso^rdem ^mrt cHcs, ^ue 
foráo expulsos cqíii perda de duzemos mortos , c cem 
piisioneiros , cm que entrarão muitas pessoas da primei- 
ra Nobreza , como se pode ver nas nossas Hiítorias^ 

Dilatouse EIRei ainda algura tempo em Africa» 
até que em huma entrada imprudente, que fez na serra 
de BenecofiJ , esteve quasi perdido, e «alvoy-se á custa 
da vida do Conde de Vianna , hum dos Heroes do seu 
século j que por acaso tinha vindo fallar-lhe a Ceut^. 
Depois deste infausto successo voltou para Portugal ^ c 
desembarcou em Tavira, 

1469 — Neste anno passou a Africa o Infante D* 
Fernando com buma Armada , em que levava muita t 
boa gente, e foi desembarcar em Anafe, que já tínht 
mandado reconhecer por Estevão da Gama (i), Fidal* 
^o da sua Casa , o qual esteve alli disfarçado em meiv 
cador com huma pequena embarcarão carregada de fi- 
^s, e passas do Algarve. Os Mouros, quando virâo o 
numero dos navios Portuguezes, não ousrirSo oppor-se 
ao desembarque , e desampararão a Cidade e o Caitet> 
lo. O Infante, nao julgando acertado conservar e^sf a coa- 
«quista, mandou queimar a povoação, depois de saquca* 
da, e desmantelar as fortifícaçdes ^ c feito isto, regres- 
sou a Portugal {%)* 

Nesçe mesmo anoo de 1469 arrendou EIRei oCom« 
mercio de Guiné (?) a Fernão Gomes, Negociante de 
Lisboa, por duzentos mil réis cada anoo, devendo à^ 

CO Afmfc 5 ^granvie povoação arruiiuda rn Caiu OcdHenld de Afrk 
^ tituada ni latitude N. ji"* ^i\ ^ longitude lo'' 4^'. Tem hiMOi 
^'" ^' — ►uco ábfigo , em <^ue se piSde sursir por tt ate 2^ hncus-. 



Iblhiix de 



CO 



jf de Pi 



Cp. 



110, 



-Ptiiicii^ IX João, C^, 17, 



Pamiâo de Góes, Qvociica io 



iO lí«írp%i (^ccaik u Lív, t. Cij». $» 



17^ 

mt oiM Contrtctn rinco atihos, obriganSo- 
4eiCobnr á sua custa cem legoas de Costa em cada an^ 
no, a começar da Serra Leoa para o SuL 

1470 — Neste anno descobrio Soeiro da Costa o 
Rio, a que deo o scti nome (i), o qual se conservai 
dinda cm iodas as Cartas. i 

1470 — Partirão de Lisboa por ordem de Femaot 
Gomes, em duas Caravelas (i) João de Santarém, a 
Pedro Escovar, Cavalleiros da Casa d' ElRei , e por seus^ 
Pilotos Marfim Fernandes, e Álvaro Esteves, repurador 
pelo muis liabii do seu tempo ; e correndo a Costa de 
Airicè além dos pontos já conhecidos, descobrirão em» 
Janeiro do anno seguinte o lugar, a que se deo o noma 
ÒB Mina, pelo muito ouro que alli concorria; c nao*j 
longe do qual mandou depois EIRci D, João IL con-^ 
sfníir o Castello da Mina. n 

14/71 — Depois de muitos Confelhos, que ElRTeb 
fex ecn Lisboa no anno antecedente^ e nos principioaf.1 
desce de 1471 sobre a conquista de Tanger (^)^ se de*» 
ddio por ultimo ser mais conveniente a de Arzila (4);! 
e-para cerfificar-se do seu verdndeiro estado de defesa/ 
a- Binadou reconhecer por Pedro de Alcáçova, seu Es-i 
crtfâo da Fazenda, e Vicente Simões, abalisado mari- 



(i') OmcímoBarrt» no lu^ar citaílo. Este Rto está -ititu^do nt' 
Cpsra O^cideiiral dã Africa na íantude N. 5" i j', c lougitodc 15** if',' 
cèn iUt tfifua k^o^^ áquem do Cabo de Três Fonta? 

<t) N20 iicjict « cpocn em que enes dows Descobridores purtiíão pa- 
r» a sui coitimistjo. Vede Earfo^i no lugar acima citado. — GaJváo 
pi?. m|* 

(f) Vetíe a Chfcmica do Prâicípe D. ,loáo, Cap* iS ate Ji.— Ruf 
<W Pina, Cap, 162 até 167. — Acenlictro, Cap. 2|- 

'(4J AixiJa, diftafJte quasi seis IcjíOas ao Sul do Calio de Fspartel, 
t$iá situada oa latitude N. ^5" iO*,-* longitude ia** 12', O seu Por- 
te h« fKCjveno, e não admtttc «mbaicai,ue? grandes; hum reciíe de pe* 
d^^viiÍe<a«ntJidt «m dous ca»taes,x]ie que tem mais íuúdoQÚo 



176 

nheiro^ ds quies disfarçados em mercadores, cumprírao^ 
esta commissao, e com as bo2s informa(,^6cs, que derâo^ 
acabarão de resolver ElKci z tentar a en; preza. i 

^ Comcçárão-se logo a reparar, e afretar navios den- 
tro, e fÒnt do Reino, e a fazer aprovisionamentos die 
munições de guerra, e de bocca para hum Exercito de 
trinta mil .homens; e acliando-se quasi tudo prompro , 
tev^e ElRei noticia de haverem os Inglezes roubado no* , 
Canal doze grandes navios Portuguezes mercantesí; pira- 
taria exercida por Falconbcrg, General do Conde de 
Warvic, que então dirigia despótica mente aquelle Esta- 
do. E tomando sobre isso conselho com as principaes 
pessoas, foi quasi unanime o voto de que se empregasse. 
o armamento actual contra aquella NaçSo, para tomar 
ajusta vingança que tamanho insulto pedia. Em conse- 
quência desta opinião, escolherâo-se os melhores navios, I 
e a melhor gente, e nomeou EIRei por General a D. 
João, filho do Duque de Bragança, para commandar 
esta nova expedição, que se não verificou, porque na 
momento de partir, soube ElRei, que o Conde de War- 
vic, e o Príncipe seu protegido tiohão morrido em hu- 
ma batalha (t) ^ e o Rei Eduardo se achava senhor pa- 



(i) O Condíf át Warvic, famoto Qjcfc de Partido nis guerras ci- 
Yi% át Ingh terra entfc at Cajit de York , c de Lancafter , morrco ' fkt 
batalha de líafnet» ;»anhada a 1 4 de Abril de 1 47 1 pelo Rei Eduardo I V* ^ ' 
e a 4 d) mtfx de IVlaro seguinte foi novamente derrotado pelo nne«vio 
Monarca o Partido Lancauriano na batalha de Teukesbury, e alli assas^- 
nado a ianque frio , por ordem sua , o Príncipe Eduardo, qtie pertencT 
« Cofoa d^quelle Reino. O bastardo de Falconber^ , sendo tomado prí*' 
f tone iro (Vhjco depois de$ta victoria , acnbou de^^olido, ' Talvez ^ 
EIRei D, Affonso tivesse algumas intejli^íencia? sccretti com Edi««^ < 
<k> IV. , por meio do Duque de Borgonlia, e i^or isso os Lancistrlnoi 
ittesiem o roubo Áo^ navios Portuí^uezef. 

Cumpre observar , que ncila época não havia na Injrlaterra hum i& 
mvb da Coroa; Oi Príncípej, quando qiietião íazer hum armamenco^ 
iffetaváo, ou apeivavia embarcações de particulares. Uerui<}uc VU. l<iil 



177 

cifico da Inglaterra ; successo que reduzia o negocio a 
hama transacção diplomática com a Corte de Londres, 
para obter a restítuiç<1o das prezas, como a linal se ob- 
teve (i> 

Desvanecida deste modo a expedição de Inglater- 
ra , tornou ElRei ao primeiro projecto; e como o Prin- 
cipe D.João, i força de instancias, obteve licença para 
a acompanhar ( ainda que contra a opinião do Con- 
selho), não querendo acceiíar a Regência em que que- 
ria deixa-lo, nomeoti EIRei ao Duque de Bragança 
D. Fernando , por Carta Patente dada em Lisboa a á 
de Agosto deste anno, por seu Lugar-Tenente, para 
governar o Reino com a mesma aathorídade, que Elle 
teria , se presente estivesse , durante a sua ausência , e a 
do Príncipe (2). 

No principio de Agosto entrou em Lisboa o Du- 
<iue de Guimarães, Commandante da Esquadra do Por- 
to, e das tropas das Provincias do Norte, por c^cítí 
ElRei esperava para sahir, mas sobrevindo ventos con- 
crarios, partio de Belém a 15* de Agosto, e dois dias 
depois ancorou em Lagos , onde achou prompta a Es- 



o primeiro, que mandou con&truk hum imvio de guerra» Vede Hume, 
tomo )• Cap. 26. 

(i) Duarte Nunes de Leáo (Cap. 40) relata este successo de outro 
modo, dizendo, que ElRci se vingou dos Inglezes, danc^o Cartas de 
Ahrca, pata que os Portuguezes podessem fazer jpreta hoi effeuos a ei« 
les perterKentes ; e que esta rfiedtda froduzio tal comterna^So , què' 
Eduardo IV. mandou Emi)aixadores a Portugal , de que re seg^uio ioiat 
rtnltuiçãê dos htns ronhatíot'^ •€ pâ% ^ e wnízvJt cefn Pvrittgal .^ até ^uè 
4€ uní0 cúM 0S Ktinoi ét CasUllâ, 

(a) Vede a Historia Genealógica da Caía Real., tomo $. Lív. 6. 
pag. 162 , onde vem esta notável Carta ,^'e por eila se demopstra, que 
xíío ficou govemaiKlo ò Conselho de Regench, de què falia Damião de 
<ioes na CÍhronica do Príncipe D, Joáo; hetn podia a Prirceza D.Leonor 
^ficar na Regência, por contar nessa época mui pouco mais de treze 
anDos. 

23 



^78 

qu^ílM do AlgAfve, e o íígoardafa tâmbem o Conde 
de Valença, que ellc maiuiàra chamar a Alcácer» Con-i 
stava a Armada de trezentas e trinta e oito véUs ^ en- 
tre Náos, Galés, Fustas 5 e outrrís cmbarcaçócs de C9r^ 
g^, e vinte e quatro mil liomens de tropas, fóra a gen- 
te do mar f r). 

Em Lagos dilatou-se ElRei sò aquelle di^, e no 
sçguinie ouvio Missa em terra , no fim da qual decla* 
roíi j que o objecto da expedição era a conquista de Ar* 
qfila ', e fazendo-se logo á vela, chegou a 2i a avista-la, 
e surgio já sobre a tarde, estando os Mouros noticiosos 
4a sua vinda* 

Nessa noite se ventilou em Conselho a maneira de 
yerj6car o desembarque, que era perigoso, por estar o 
mar muito agita Jo, rebentanJo em flor no recife, e not 
outros pontos, em que podia teniar-se. Depois de va- 
tios pareceres, dccidio-se, que em amanhecendo , o Con* 
dç de Monsanto D. Álvaro de Castro, e o de Marial- 
va D, João Coutinho, desembarca rião com duas DivU 
s&s de tropas; e que no momento em que chegassem 
á praia, sahisse ElRei dos navios com outra Divísâa^ 
e os petrechos, e ferramentas necessárias, para que n*a- 
quelle dia se occupassem os postos de tal sorte, que a 
Praça não podesse receber soccorro algum. OsdoiísCoii» 
dcs, que erao Generaes de grande experiência, fizcráo 

(O ^ no$«os E«critorc& varilo muito na forci desta Armada. Riif 
^ Fina (C^\ i6í) Ihí M qiuirocentAs e setenta « sete embaroaçúev^ 
t trinta mi! Iion^cns. O Manu^aito de D. Vasco de Almeida du« qiit 
CÇfiitava de trezcptas c trinta velas, e viníc e tics mii hornem; c qut 
a de«f>cra destç armamento fora de ceiuo e trinta e cinco iihI dobm 
Mjmocl Sevcrim de Faria (Noticias de Portugal, Discur» i. $ ij ) 
fíi|fa tonwrnte em dti2«nt^ e %intc vclns. Duarte Nunes de Leio (QÍ<^ 
ifica d*ElRe» D* A(Tnn«o V., Cap. 40) numera treientaa c oito vclai, 
e vinte e vjuacro mil honirri^ de p^uerrn escolliidox. Nesta diveisidftdt 
át oç'mi6i$ cscoJiii a de Damião áa Góes; mas nÍo duvitlo, que ai 
tropas fossem cai maior iiumi:fa 



tio hà^ êhpó^\^e^, que 00 rompfr 63 atvn \ eíf^vfío 
ab^^rhados com a UTra , :iinda c]iie nno poderíSo logo 
-deííembiircnr, pelo muito venro, e mar, que estorvava os 
remeiffo?, e atrAvessava as embarcações carregadas de 
soldados. 

EIRei , observando o perigo em que estavao os 
Condes, quiz ser delle participante, e emb*ircoii com 
o Príncipe nos vasos deninados para a sua Divisão, ft- 
«endo remar com tanta força, que em breve se achou 
no rolo da praia; o que visto da Armada, não ficou 
soldado, que ou cm Caravelas, e Fustas pequenas, ou 
tm faochas, e escairrcs não seguisse o seu exemplo; e 
assim todas as embarcações combatendo, e resistindo á 
fona dos ventos, e das ondas ^ trabalharão coni tal es- 
forço, que tomarão terra, posto que com perda ; porque 
se filrigárlo, ou soçobrarão muitas, cm que se affogá* 
fâo tirais de duzentos homens, em que entrarão oito 
Fidalgos, e outros Cavalleiros, e Escudeiros* ^ 

Tanto que ElRei desembarcou^ sem esperar o Pa* 
laiKjuc, e a grossa artilheria , que vinha na Armada , 6 
fiao podia desembarcar por causa do tempo, formou o 
•cu campo, cobnndo*o com foço, e trincheiras, no que 
te gastou o resto do dia, sem que os Mouros ousassem 
lahir 3 defender o desembarque, ou a perturbar cí^^es 
trabalhos, a pezar de terem dentro dos seus muros mui- 
ta geme de guerra. 

Sem perda de hum instante, mandou EIRei bater 
a Praça com as únicas duas peças, que por mais pcque- 
nat se consegulo desembarcar , e entre tanto os bestei- 
BDs, e espingardeiros atiravão de continuo aos sitiados, 
Hue apparecião nos parapeitos* Depois de três dias de 
Mcess^inte fogo, achava-se em dois lugares arruinada a 
muralha, quando a 24, ao amanhecer, os da Divisão 
de» Condir de Monsanto, que estava de guarda á trin- 
cheira da banda do Castello^ virão bandeira branca em^ 

23 ii 



ICO 



liuma das Torres, e responicndo o G>nde so signa! , 
llie veio recado da parte do Alcaide, pedindo seguro 
para tratar de Ciipitulaçao, o que o Conde communi* 
cou logo a ElRcl, que respondeo, lhe desse todas as 
feguranjas, a fim de que o Alcaide viesse á sua presen» 

Anjaado neíta diligencia, siíspeita-se que algtimaf 
pesífoas de consideração, querendo antes victoria com 
sangue, do que paz, incitarão os soldados a darem im- 
mediatamente o assalto, o que fizerão com tanta fnria^ 
servindo se de algumas escadas, e engenhos, que para 
isso estavão apercebidos, que penetrarão na Praça por 
varias partes, se bem que os Mouros se defenderão com 
o maior valor. El Rei , sibendo que a Praça era entra- 
da , acodio com o Principe ao lugar do conflicto ; e 
vendo que as brechas erão estreitas, e não divão fácil 
subida, e que a grita, e rumor erão grandes dentro da 
povoação , pedio outras escadas , pelas quses subírSo 
muitos soldados^ de que alguns abrirão as portas, e ellc 
pôde enírar com o Principe* Os Mouros, nio podendo 
rcslftir mais, recolhêrâo-se á Mesquita , e ao Caítello. 

Ganhada a ViHa, ordenou E!Rei ao Conde de 
Monsmto, que em*b traçasse aos Mouros a sabida do 
Casfello , e elle dirigio-?e á Mesquita , cujas portas es- 
tavão fechadas^ e trancadas de maneira ^ que só com 
vaivéns se poderão arrombar, c a entrada foi defetidi- 
da pelos Mouros com tanta coragem , que mui poucos 
homens ficarão cativos, semio os mais destes mulhe* 
ret , e meninos, que alli se havião recolhido; c nesta 
cccasião morrco o Conde de Marialva, que EIRei, e 
todo o Reino seniírão muito ^ por ser bura dos mais 
completos Fidalgos, que então havia em ioda a Hcspt- 
nha ; c ÇHC Mon^^rcha, para honrar a sua memoria, ar^ 
uiando Cavalleiro ao Principe ní Mesquita, em que ei- 
lava ainda patente o cadáver ensanguentado do Conde, 



I 




181 

lhe disse: Filho, Deos vos fãf^ íS^4wii Cataikirp^ 
como este que aquijãZ. 

Restava só tomar o Castello, que era forte ,e bem 
guarnecido de gente, e munições. ElRei mandpu logQ 
commetter á escala , e correndo o$ Portuguezes ao as- 
salto com grande ímpeto, montarão a muralha , e for- 
çarão os defensores a iMiscar abrigo nas Torres ^ onde 
poucos se recolherão y porque os de. dentro fechirâo as 
porcas, para evitar que os Portuguezes entrassem de 
mistura com ellcs; e sem quererem render-se, oppoze- 
rão tão desesperada resistência, que os mortos, e feri- 
dos de ambas as NaçÒes estavão cm montes ^ e aqui 
acabou o Conde de Monsanto, de cuja morte irritados 
os soldados , não derão quartel a ninguém. 

ElRei, e o Principe entrarão no Castello, na maior 
força do ataque das Torres, e se comportarão com des- 
temido valor, combatendo o Principe (que tinha dezeseis 
annos) como se fosse hum simples soldado, de manei« 
ra que trazia a espada torcida dos golpes, e ensanguen- 
tada. Os Mouros, que ainda occupavão algumas Tor* 
res , vendo tudo perdido , renderão se á discrição. 

O numero dos cativos passou de cinco mil, em que 
entravâo duas mulheres, e hum filho, e hu^ma filha do 
Molejr Xeque, senhor de Arzila (que depois subio ao 
Throno de Fés) ambos de tenra idade, cuja fijha, e 
mulheres se trocarão pelos ossos do Infante D« Fernan- 
do: e o filho mandou-o ElRei graciosamente a Moley 
IXeque. Morrerão dos Mouros mais de dois u^. Dos 
Portuguezes ignora-se o numero dos mortos, que de ccr- 
^o foi grande. O despojo desta Praça , que ElRei cer 
c3eo todo em beneficio do seu Exercito , avaliou-se cm 
'atenta mil dobras (i); e para seu Governador nomeou 

(O Damião de Góes, e Garcia de Rezende (ChroDJcade D.JoiolL, 
^»p. sO rf«em oitocentas miJ dobras; Kiiy de Pina, c Aceuheiro di» 
^moitcuta mil, o que me pareceo mais provável* 



f^nn^ tteV>iA«rçíf^ t>. Henrique de M^^es , ^ho êò 
il lustre Conde de Vianiia D. Duarte de Meneses, 
i\' ' McVtey XiíqiW^ que neste lempo andava occiípado 
flk j^utriía civil rfe-ITés, «ívi^ado -que ElKei D. Afhyna) 
et^a^a pobre Arisiln , 'nmrchmi a sQCcorrc-Ia ; mas cíie^» 
giflrido a Aloaccr í^ibir, soiibe* que estava- tomada*; e 
Weeàndo, que El Rei quÍ2c«se priosegoir tia guerr», e ihe 
ofesMsse ao projecto, que 'tiwhíi formad<!> de se f^«r Rti 
de Pés , lhe mandou ôfFeíecer tréguas , as qoaes se oo»— 
.duírSio por vinte nnnos , com a8 clausulas que oontSo 
afe" nossas Historias. 

Os moradores de Tanger, aterrados com a tomada 

d^- Arzila, e ííem esperança de soccorro pela guerra ci- 

vil em que ardia toda a Mauritânia, abandonarão a Ci*— — 
dade, fe paiisárão-se com os seus bens para difFctentes -^ 
partes, de que avisado El Rei, mandou a grão pressa — 
marchar o Marquez de Monte-Mor com hum grosso ^ 
d«tacamento pnra occupar aquella Praça , <ronio fez no -^ 
dia l9y achando nella muita artilheria, e muniçdes de^^ 
guerra; e com o Principe, e o resto do Exercito o «e* — 

fuio de perto. Alli nomeou para Governador a Rny ' ^ 
íeilo, que depois foi Conde de Odemira; e derxandc 
lhe huma boa guarnição; sahio a ly de Setembro 
Cixia a Armada-, e entrou em Lisboa a salvamento. 

1472 — Continuando a correr a Costa d^Africm' 
descobridores mandados por Fernão Gomes, descobríc 
FernSodo Pó (i), Cavallciro da Casa Real, humailha, - 
que ainda hoje conserva o seu nome, não obstante clfe^ 
chamar-lhe Ilha Formosa (2) , pelo aspecto qiie apre*^ 
sentava o viçoso,. e copado, quê a cobria toda. 

(O Vede Karros, Dccada 1. Liv. 2. Cap. 2. — António Gilrio^ 
pag. 25. taria , Asij Portusiue7a , tomo i. Parte 1, — Af noticiai 

ile todos estes Escritores ríio muito escacas. 

(2) K^tft ilha Ih: muito alta , e tem o ancomdoiiro em huma Bihfar 
da banda do N.O. com fimdo de vinte braças. A fua liCiHi^^« to^ 



Outros Navegantes Portuguezes , de quem se igno- 
rio or^oflfitSy' d^eobrkio iieete mesma -amia ts-4]ha$ 
de S. Thomé, Príncipe (i), e Anno Bom 2) ; e hum 
F. de Siqueira, Cavai leircjx da Casa. RçaU descobri© 
neste anno, ou no seguinte o Cabo de Sania Cathari- 
na (3), ultimo termo a que chegarão os descobrimen- 
tos no Reinado de D. Afíbnso V. , que falleceo era Cin- 
tra a 28 de Agosto de 1481. 



mada na. Bahia he de )^ ^4', e a longitude de a6^ 5o\ Outros m^ 
9ignSo-lhe differentfe posição. Em tempos antigos riverão os Pottugué* 

wm alll bttnvFwte; ■ ....-- ..-• r - - • . f 

(f ) AJtta de S. Thomé está Leste Ocista com n Rfo^ deGablO'^ 

pouco mais ou menos. O Porto bç da banda. de ie^te^^ e tem pouQ^ 

^undo.; mis surge-se fora delie em cinco, e seis braçasf, aréa,,çpm abrw 

^Q dos Ventos, menos da banda de Leste, que he peF}gosd..KoPòr'te a 

Jètitude' H. he der;', e a longitude dé aç*^ 20' 40'. Ã líha-dt) ft!n2 

cajpe está nã. latitude N. de 1°' ai'', p longitude de a^|^ 57^46^'; TéíH 

Imud bom Farto dabaada de E^NvE*, com fundo dêrcinoo emekiitÀ 

ses» braças e meéa na entrada, todo Iknpo. Antes de cheg^ ao PoftO| 

^em du^B Enseadas com bom fundo, e capazes de muitos navios; «t 

nnttis outra daparte deOeste- con^ quinié* \áÍ<^èÍ ik ífllndò Hnfpo, e boa* 

afeada. Em outro tempo tiravarscr :grande..iftteiiessé destas dms' libas ^ 

cptsao ditei adiínte., , ... .; *. 

. (2) Esta l)ha |ie mui fértil , e aIíai,.;^Tém p ancoradouro datband» 

do Norte, com fundo de área branca, e de seis bradas ptra cima. L«< 

^*«uóc8. !• as*, eloirçitude*2j^45'. ' í 

(3) LatitttdcbdoiCáòo a9.7>jÍ(/\0<t^i)gltiMiè<^ÍlS9 i^5lV • ^ 



184 



PARTE PRIMEIRA. 



SEGUNDA MEMORIA, 

rOUPREHENDENDO DESOR O ANNO DR I48l 
ATE^ AO ANNO DK 1521. 



Reinado d'Elrei D. JoXo II. 



N- 



A ÉPOCA em que este Monarcha subio ao Thro^^^** 
no, a filma das viagens dos Portuguezes fazia esquece» — ^ 
as dos Fenícios , Carthaginczes, Gregos, e Romanos > 
cm quanto as vantagens commerciaes, que ellas prodo^K^* 
zião, erão inferiores ao alto conceito, que tinhâo for- ""- 
niado as Naç6cs da Europa. Achava-se descoberta bu -*" 
ma grande extensão da tosta Occidental da Africa > 
mas faltavao nella estabelecimentos permanentes, á e]^^*(* 
cepçao do Casteilo de Arguim, em que se concentras^^* 
ie o trafico, que alguns navios soltos entretinhâo coi« — n 
os Portos, e Rios mais conhecidos: nem mesmo o Cas^^- 
tello de Arguim se achava agora em situação capaz d^V^ 
preencher similhantes fins, por se haverem ampliad ^ 
tanto os descobrimentos posteriores á sua fundação, qu^M^ 
distava muitos centos de léguas do Cabo de Sanra C^*- 
tharina, ultimo termo a que chegou a bandeira Portt^W* 
gucza no Reinado antecedente. 

KIRci D. João, que era dotado de huma aln^ ^ 
grande, capaz de conceber, e combinar os mais vastc^* 
projectos; que possuia assaz conhecimentos scieniificos^ i 
e sobre tudo o raro talento de conhecer os homens ^ dK^ 



185 



OS snbcr premiar, e empregnr, segundo "o^êíTníêrecí^ 
inenfo; c que rinha idéas ex;icras dos verdadeiros inreti 
rcsses políticos da sua Nação, abalançou-se a comple*, 
rar o plano de seu Tio o Infante D. Henrique, que 
tendia a atcrahir a Portugal o Commercio da Africa, 
e da Asía. 

Para assegurar, e adquirir todo o Commercio da 
«Africa, era preciso empregar maiores esforços, e mais 
bem dirigidos não só na continuação dos descobrimen^ 
tos, porem no reconheciracnio completo dos Portos, 
Bahías, Rios, e Cabos, para depois, com conhecimen- 
to de causa ) se elegerem os pontos mais importantes 
cm que se estabelecessem os depósitos do Commercio, 
de maneira ^ que concorressem a elJcs as Caravanas das 
Cidades do Interior daquelles Paizes, com o ooro, ej 
mais géneros preciosos da sua producção; e pelos mes- 
mos canacs lhes entrassem as manufacturas, e cfteitos 
de Portugal. 

Consistião os géneros ^ qu« se exportavão da Afri- 
jCâ , alétu de extraordinária abundância de ourOj era es- 
cravos, marfim j couros de varias espécies, assucar^ ccs- 
ra, gomraas, almíscar, e malagueta; era troco do? 
quacs davão os Portuguezes missangas, quinquelherias, 
j|erro, e pannos, cura outros vários artigos, de que ti- 
rMvao immensos beneficies; c este trafico, prosperando 
jnuho no Kcinado actual, cresceo ainda mais nos sue* 
cessivos. 

Ale este tempo contentavão-se os Navegantes Por- 
tuguezes com darem nomes aos Cabos, Rios, e Portos 
que descobri ão , e sò algumas vezes Icvantavâo Cruzes 
de pio em lugares notáveis, que no fim de poucos ân- 
uos deixavno de existir: e como nao determinavão a 
posição geográfica dos pontos que reconhecião, vinhao 
outros Navegantes, que lhes ímpunhao diiFcrenres no- 
mes, cuidando terem feito novas descobertas; o que 

24 




não causou pequena confusão aas Hisíorias dos D^^ctv 
brirnentns. 

Conhecendo EIReí a iínporf.mcia à^ formar html 
systema, que contestasse a cerre?.!, e legalidade das def* 
côbertíi5, pois que, segundo os principies de Direito Pu- 
blico praticados na Europa , o simples acro do desço* 
ferimento de hum PnÍ2 conferia íio descobridor certos 
direitos de propriedade territorial , ou ao rtienos de 
monopólio exclusivo do Commercio; ordenou , que ofc 
Com mandantes dos navios com missiona d os para f^tt^^^^ 
tem descobrimentos, levassem a seu bordo, para os col— ^ 
tocar nos lugares que descobrissem, huns grandes mar—— 
cos de pedra (a que se dco o nume de Padrões), qa^^s^ 
tin^hSõ na frente ^t Armas Reaes, e nas costas hum le— - 
treíro em Porruguez, e Latim, em que se relatava 
itomc do Soberano, o do Commandanre do navio ^ e 
tirnò da descoberta, rematando o Padrão com ham 
Cruz no alto. Alguns destes tem sido achados moder 
namente^ como em seu lugar direi. 

Tão occupado andara esfe Príncipe com o pei 
títento de regular, e ampliar o Commercio Africano 
l^ue subindo ao Throno nos últimos dias de Agosto d*- 
T48f^ fez partir nos princípios de Dezembro do 
Aio anno a Diogo da Azambuja com huma Esqudd 
^tã ir fundir o Casrello da Mina. E quando depo 
fconheceo melhor a configuração daquella Costa, e aq 
lidade dos seus Porros , percebendo n vantagem qire 
Ilha deS. Tbomé tirava da sua posição próxima sro R 
de Gabno, fez toda a diligencia pela povoar, e noined^^Q 
por seu Governador cm 1493 ^ Álvaro Caminha (1 3» 
a quem entregou os filhos mt"'nores de ambos o^ sexo»^"*f 
oae se tirárSo aos Judcofç Hcspanhoes refugiados r'*^" 
Portugal no anno antecedente. Com efftiio, aquella 1ÍV^ 




—II 



à 



' (t> Rijy de Pina, Chronica de D, }otò II., Ca^í, tt. 



187 

tm breve epcoDtrotJ em si o Commercio <3a Costa da 
Africa fronteira (i) ^ c chegou no Reinado seguinte a 
hum ponto de prosperidade quasi incrivel. 

(O o cfima de S. Thomé , por mui quente, c mai húmido ht 
mcivo aos brancos, sobre tudo nos mezes de Dezembro, Janeiro, e 
Avererro, que são os de maiores calores: nos de Marqo, e Setembto 
XOttuma chover muito; c nos de Alaio, Junlio, Julho, e Agosto, cm 
que reínáo os ventdi do segundo, c terceiro quadrante, he o tempo 
mais Tresco, e saudável. Em geral hc raro o homem branco, que pas- 
"n de cíncoenta annos de Idade. As doen<;as usuaes sSlo febres agudas^ 
e djmiterías; e os Europeos, quando allí se estabelecem, tem quaii 
âtwnpi€ no principio huma agrave enfermidade , de que muitos morrem* 

No anno de 1 520 continha a Capita] de S. Thomé perto de seus 
centas familias dé Portuguezcs, Hespanhocs, Francezes, c Genovezes, 
1 tnator parte casados, alguns dclles com negras livies naturaes da tei»- 
te^ ^ afgyns com mulatas ; porque a todo o Eoropeo, que hia estabe^ 
^eoerfe na I^ha, assignava o Feitor d'EJRei for via de compra, c « 
jxeço commodo, aquciia porção de terreno inculto, que ,elle podia cul- 
tivar , segundo os meios que tinha para comprar os escravos necessa- 
Hof , pois que estes fazião todos os trabalhes ruraes. ' 

O género principal de^ta Ilha (bem como da do Príncipe} efli 
D-áflOCflr >. cuja cana tardava cinco me/es a amadurecer ; e não obsta»» 
te achor-se em cultura só a terça parte delia, existião em plena actú 
vidade sessenta Engenhos, huns movidos por agua, outros por cavaF^ 
tos , e outros á força de braço , importando o dizimo da Fazèi^da Real 
Hè dote a qvatorze mil arrobas de assucar cada anno ; por ' õíríde péiálk 
calcular-se a colheita em cento e cíncoenta mil arrobas, attendendo aos 
iélbscaif»fnfios t fraudes. Este a&sticar OSo ^ra táo sect>, tl^m tSO alVd 
ccrmo t €pt naquellet terhpos ^e fabricava na Ilha da Mad«5frai • 

AJém do assucar, fazia esta Ilha hum grande Commerdo em èk^ 
tôs, porquê Oella vinhSo reunisse quasi todos os q^ic os PcHtliguezes 
compravio pelos Portos de Guiné, de £enin j e ManicOngô: Wifm oS 
rnoradores provião-sc dos que nece*sitaváo para o séu scIrVíço drtnest"!- 
co, é para a Agricultura, e erão tantos, que mtlftos LârrtdoVés pOf^ 
hiiíò (te x:eiti at<J trezentos de ambos os sexos; ó resto dèllc.V passãvà 
para a Ilha de S. 1'iago, onde conçorriáo a cotiipfa-íoí òs rtavlo^ H<s-' 
panlMíCí , que cotnmerciavâo com as Ir.dias Occidenthei. Esta df ièia 
Ilha servfa de escala, e depOsitó entr^ S. Thohíé e LisbOrf: a^ embrir- 
taçôes Portugitrzíw , que transportarão a S. Thofné os géneros da Furo-' 
pa, tocaváo em S. TiaL'.o, deixavão alli ás vezes parte doi ácui tffeí- 
tos, e hião a S, Thom-i tariegar de assucar para Portugírf. Os Negoci^- 

24 ii 



108 

Attrahir a Portugal o Commercio da Ásia etã 
emprezíi mais difficil, e que exigia vastos preliminares. 
Antes da tomada de Constantinopla por Mahomet IL 
em 145*3, 3S ricas dragas do Oriente erao conduzidas 
áquella Capital ; e os Navios de Veneza , de Génova, 
e de outras Republicas Italianas as transporravão aos 
Portos do Mediterrâneo, Depois daquella conquista, 
que produzio huma total revolução nas relaç5es politi- 
cas , c mercantis da Europa , buscou o Commercio di 
Ásia nova direcção; e entrnndo pelo Mar Roxo no 
Egypta, concentrou em Alexandria o seu principal de- 
posito (r), de que os Feitores de Veneza se apodera- 
rdo^ á sombra de hum Tratado feito com o Sultão da- 
quclle Estado. Esta Republica foi tão poderosa no sé- 
culo decimo quinto , e parte do seguinte, que no anna 
de 1420 pofsuia perto de três mil embarcações mercan— — 
tcs com fcte mil marinheiros de equipagens, ínaís sete-—^ 
centos navios grandes, guarnecidos de oito mil homens ,^*i^ 
c outros quarenta e cinco vasos de maior força, que Ic— — ^ 
vavâo onze mil homens \ e occupava nos seus Afsenaer^^ 
públicos» e particulares dezeseis mil Artífices (i). 

Apezar da apparcncia de força naval , e grandeza-=^ 
que dava aos Venezianos o monopólio das riquezas d<^^ 

ret da mesma Ilh.i de S» Tíi%q UtMa naviot seuf , qu« se empretivl^^^ 
no mesmo trafico j e por rssa vmo esta Ilha cra ciitáo rica, e flore- ^ " ^ 
cenie* 

Vede oR*' a, imitubíio = Naveg»c;ão de Lisboa para a Ilha JgJJg 
S. Xhottic^, no tomo 2, da CoJlecqáo de I^tícias para a Historia da^^^ 
NaçSei Ultramarinas, pela Acaikmia Real das Scicncias de Lisboa. H^^ 
huma MciDOria summamcnte curiosa, escrjín por hum Piloto Porti»— "-^ 
guei, que fci ciiKo ví^gciis de Lwboa a S. Thomc ^ em Navtoi á^^ 
Commercio, tendo a primeifa no anno de ryao, 

(O f^^ nao pretendo faiíf aqui a Historia do Commercio èã Mh^ 
o que pediria huma longa narrai^âo; mat somente dar homa idia Çeitl^^ 
r tuccinca da d»rec<;áo que xfit Commercio leguii para dtegar i Emi^^ 
pé no frmpo dEJKei D. JoSo II, 

i Veih Clafke, lomo i. Liv* 1. Cap. i. 



189 

Oriente, era vrsivel , que se os Portuguezes descobris^ 
sem buma fácil communicaçâo por mar cem a Ásia, e 
alli fizessem bons estabelecimentos nos pontos mais con- 
venientes , todas aquellas riquezas reverterião para as 
suas mãos, e Portugal viria a ser o centro do Conimer- 
cio, não só da Europa , mas de todo o Mundo , como 
acooteceo no scculo seguinte. 

Duas cousas pareciâo necessárias para pôr em execu- 
ção este vasto plano: adquirir noçóes mais exactas so- 
bre a Hydrograiia do Oriente, de que quasi nada se sa- 
bia , e aperreiçoar a Consirucçáo Naval , e a Sciencia 
Náutica, de que dependia a segurança de viagens tâo 
remotas por mares desconhecidos. 

Para achanar o primeiro obstáculo, mandou ElReí 
por terra á índia no anno de 1487 a Pedro da Covi- 
lhã, Cavalleiro da sua Casa (i), e AiFonso de Paiva, 
homens intelligentes , capazes de observar^ e de expli- 
car o que visisem, os quaes visitarão os principaes ror- 
tos do Oriente, que serviâo de escalas ao Commercio^ 
como largamente tratão os nossos Historiadores; mas 
as noticias, Que por este meio tarde se obti verão, não 
abrirão %os rortuguezes o caminho da índia ^ outros 
princípios produzirão este feliz resultado. 

A Astronomia , c a Geografia vierão em soccorro 
da Arte Náutica, e destruirão o segundo e maior ob* 
staculo. Achava-se neste tempo em Lisboa o Astróno- 
mo Martim Bohemus^ digno discípulo do celebre João 
Muiler (2) , com o qual, e os Mestres Rodrigo, e José , 

(1) Ruy de Pina (^no Cap. 21 da Chroníca de D. João II.) cha* 
malhe j9Sa dã Covilhã , e coiloca esta jornada no anno de 1486; a 
ma narm^o be mui differente da de João de Farios (Década i. Liv. \, 
^P* 50> <^^ se pôde ver toda esta importante transacção, que eu só 
indico. 

(2) Vulgarmente chamado 'Re^lo ^cntano , que falleceo cm 1 476 , 
^«^is de publicar hum novo Calendário , e humas Ephenierides pata 
"^iata «mos, com Taboas das Declinações dos Astros. 



190 

àtribos ?^cdlcos da Real Camíira, o Bispd de Ceuti 
Diogo Ortiz, e o Licenciado Calçadilha, Bispo de Vi- 
2^u , formou ElRei hunia Junta de Marhematicos, cu* 
jas Sessões se tinhao em casa de Pedro de Alcáçova. 
Parece que aos trabalhos destes Sábios se dcveo a in- 
VençSo do Astrolábio ,- o melhoramento da Bus!K)la, c 
Cartas Maritimas-PIanas (já inventadas na csco!» de 
Sagres)^ e a formaçSo, ou aperfeiçoamento de novas 
Taboas de Declinações dos Astros. 

Estes conhecimentos Náuticos, vulgarizados entre 06 
Navegantes Portuguczes, os habilitárSo para emprehen- 
fler quaesqucf viagens, afastando-se da rotina antiga, 

?ue era sufficiente para descobrir a Costa da Africa 
Occidental ; poi*que sendo esta seguida do Norte para 
o Sul , logo que huma embarcação via hum ponto já 
conhecido, bastava que seguisse por hum rumo paralle^ 
lo ; e se perdia a terra de vista , mettcndo a proa a 
Leste, a achava outra vez. Agora porém que os Na* 
vegantes tinhâo instrumentos, e princípios scíentificos 
para determinarem cada dia a posição dos Navios no 
alto mar, e dirigi-los para hum ponto qualquer, po» 
dião rodear toda a Africa até descobrir alguma passa- 
gcm para a índia. 

TrabaIliou-$e igualmente em melhorar a Archite- 
ctura Naval: construirão-se navios mais fortes, com 
huma mastreação mais bem entendida , e com maiof 
porão para receberem víveres, c acuada slifficientes a 
huma longa jornada; e andava EiRei (ao embebido 
nestas idéas, que quando Bartholomeu Dias voltou da 
trabalhosa viagem, em que descobrio o Cabo de Boa 
Esperança , o encarregou do corte das madeiras, e cort- 
strucção dos navios, que intentava mandar aO descobri- 
mento do Oriente, julgando com razão, que hutn Ofi- 
cial, que acabava de experimentar as tenipestadef, c p€* 
rigoi daqucHcs mares incógnitos, era quem podift insf* 



!0l 

•car a força , e qualidade das embarcaçccs capazes de Oi 
arrostar t- vencer (i). 

A morte não deo o tempo necessário a este Gran- 
de Monarcha para começar aquella gloriosa expedição, 
que a Providencia re??ervava para o seu feliz Successor. 

Foi Capitão Mor da Frota, durante o seu Reina- 
do, o Conde de Abranches D. Fernando de Almadai; 
por Carta passada em Beja a 14 de Março de 1489, 
em confirmação de outra d'£lRei seu Pai, datada de 
Évora a 28 de Fevereiro de 1456. 

Nos tilrimos annos da sua vida mandou EIRei 
construir huma Náo de mil toneladas, a maior que aré 
alli se tinha visto, tão forre de costado, que a$ balas 
tiao a podiâo passar; a qual fez huma só viagem, cona 
Outros navios ao Mediterrâneo (2). Foi também obra 
sua a Torre de Gipnrica (Torre Velha), que guarnece© 
de nuiita arttlheria ; e tinha determinado levantar huma 
boa Fortalea» na ponta de Belém , onde depois se fez 
a Torre de S. Vicente; de cuja Fortaleza desenhou a 
planta Garcia de Rezende. Estes dous Castellos erSo 
para defender a passagem do Rio de Lisboa para a 
Cidade, c entre elles devia collocar-se aquella grande 
JNáo, como bateria fluciuant«, que já com esse intento 
foi construída. 

Considerando HRei, que para guardar o Estreito, 
•c as Costas de Portugal contra os (^rsarios de Barbea- 
ria, despendia muito nas Esquadras de Náos, -que todos 
'OS annos armava , ideou guarnecer as Caravelas de ca- 
nhões de grosso calibre, que atirassem tiros razantes; 
t como era engenhoso em todas as Artes, e muito in- 
struído na artilheria , achando-se em Setúbal, fez vários 

fi) Segundo Castanheda (Liv. 1. Ca;;. 1.) a madeira foi cortada, e 
Irva^ para bisboa no atino de 1494- 

(a) Vede n Chmnica de D. Joào II. por Garcia de Reztude, oos 
Capítulos 147, e iSi. 



192 

ensaio?, c experiência?, c por fim pôz em pratica o sen 
novo pLuiOj e as Caravelas pequenas e ligeiras âcha« 
ráo-se em estado de combater, e resistir aos navios de 
alto bordo, e multas vezes os renderão; porque as ba* 
las destes, alem de serem de pequeno calibre (ainda se 
não usava enião de artilheria grossa no mar), passavâo 

})or alto, e as balas das Caravelas furarão os navios ao 
ume da agua , e os mettião a pique. 

Forao por muitos annos tão temidas as Caravelas 
Portuguezas , que nenhuns navios, por grandes que fos- 
sem , as ousavão esperar, até que as outras Na96es mu- 
i^áráo de systcma. 

i^8i — Na conformidade do plano, que já tinha 
formado para se assegurar doCommercio da Africa Oc- 
cidental, determinou EiRei mandar construir humaFor* 
talcza na Costa da Mina (i); e pondo este nego.io em 
Conselho, votarão contra ellc muitos Conselheiros, ten- 
do a empreza por arriscada , e até por impossivel , mas 
as suis razv"ies não fizerão impressão no animo Real; e 
apezar de tudo, fez preparar, a grão pressa, huma ex- 
pedição composta de dez navios de guerra , duas gran- 
des Urcas (ou Charruas), e outras embarcações de 
transporte, em que se embarcarão quinhentos soldados, 
e cem Mestres pedreiros, e carpinteiros, muitos man- 
timentos, e artigos de Commercio, munições, madei- 
ras, cantaria lavrada, ferragens, cal preparada, ferra- 
mentas, e todos os materiaes que se julgarão necessários 
para construir hum bom Castello, com as suas offici- 
nas, e accommodaçoes competentes. 

Para General deste Armamento nomeou ElRei t 
Diogo da Azambuja , Cavalleiro da sua Casa, de gran- 
des talentos , c cxptriencia : erao Coramandantes dos 

(i) Vede Ruy iW Fira, Cbionica deste Rei, Cap. a. — G^vio, 
IVaraJo dos Deicobriinrníos, pa::. 26. — Karros, Decaili 1. Liv. j, 
Càp, 1. — liiu c bVusj ; Ásia FoiíLi^ucia, tomo j. 00 fim. 



193 

ootroi natios de guerra Gonçalo da Fonceca, Ruy de 
de Oliveira, João Roiz Gante, João Affonso, João de 
Moura, Diogo Roiz, Bartholometi Dias, Pedro de Evo* 
ra^ e Gomes Ayres, todos homens nobres-, e das Urstft 
Fedro de Cintra, e Fernão AfFonso, j 

 12 de Dezenabro deste ailno de 1481 sahio de 
Lisboa Diogo da Azambuja coni a sua Esquadra , ren« 
do feito partir adiante Pedro de Évora, comboiando ot' 
navios de transporte, com ordem de fazer pescaria na 
grande Enseada , que fica ^o S. E de Cabo Verde, pa- 
ra provisão da Esquadra, e aguardar alli por elle. Pe- 
dro de Évora não só cumprio o que lhe era encarregai 
do, mas assentou pazes com o Regulo Bezcguiche, §0^' 
berano daqnella Bahia, que por muitos annos conservou 
o nome de Angra de Bezeguiche, e parece ser a dá Ilha 
da Goréa, cujas pazes confirmou Diogo da Azambuja ^^ 
que a 14 de Dezembro re reunio á Esqsâdra^ ^ 

Levava elie instrucçóes, para que lUí Coiita da Mk 
na, comprehendida entre o Cabo da^ Três Pontas e ot 
Cabo das Redes (i), construisse hum Castelio nO' lo^ 
cal , que lhe oí&recesse melhores prDporçÒés para am« 
pliar, e proteger o Commercio naquelles Paizes rioit* 
de ouro, e de outros artigos preciosos* 1»- 

Nâo querendo por consequência confiar de pestoai 
alguma hum objecto de tanta importância, qual a esco-^< 
lha de similhante ponto, adiantou-se da Enquadra, e foi», 
reconhecendo , e examinando toda a Costa até chegar á> 
Aldeã das Duas Partes, em que surgio a 19 de JaneifO' 
de 14S2; e aqui achou a João Bernardes, Commandaji» 
te de hum navio d'ElRei, que estava negociando coop 
os Negros, de quem já tinha recebido boa portão de 



(1) Este Cabo chamasse hoje Morite do Diabo, sitoado na latkudo. 
K. s^ 2^'? c longitude iS*^ 23', obra de vinte Icgcas a leste de â.Jor« 
^e da Miusu > 

25 



Ií>4 

miro em pó, c erí» conhecido de Caramansa , senhor 
daquelle Disrricro. 

Das observações que praiicára em toda aquilla Cos» 
ta^ cgacluio Diogo da Azambuja, que este Vviio ore* 
enchia os fins para que El Rei lhe mandava comi ruir x 
Fortaleza, por ser o terreno alto, e defensavcU com 
bom ancorauouro^ e o Paiz bem povoado, e abundiote 
4e pedra de alvenaria j não podendo temer-se faiu de 
subsistências, huma vez que se achasse agua doce em 
di^iancia conveniente, como succedeo, 
**y( Firme nesta resolução, desembarcou no outro dia 
10 de Janeira, e ao pé de huma ancore mandou cele- 
brar a primeira Missa , que se disse naquellas barbar 
Regimes. 

Caramansa veio logo visita-lo, e com alguma díT 
^culdade lhe conccdeo a licença , que pedia, para con- 
struir huma casd na boca do Rio, em que se guardas» 
$401 com segurança os objectos destinados para o Gjm- 
Xiercío, que daiti por diante os Portuguezes queriáo fa* 
aer em maior escdla com os seus Vassalioi^. Os ricos 
presentes, que Diogo da Azambuja fez a Cara mansa, a 
cubica dos ganhos que o trafico prumettia de futuro 
âos Negros, e o appArato de força que apresenta?« & 
Esqurftira , vencerão alguns obstáculos , que se ofierccé- 
tao no proscguiraento da obra, que Diogo da Azambo* 
j» emprehendco com tanta actividade, que no espaça 
de virvfe dias poz ^is muralhas em boa altura, bem ooaio 
o Cavai lei ro, ou Torre de Homenagem, e se acabádb 
nkttitas casas interiores , apezar das doenças ^ e mortes 
de algumas pessoas (i). 

(jy S. Jorge da Mina estí situado na latitude N. 5** to', e km^ 
lutfc* 17^ 10* Tem bom ancoradouro da banda do Sul em nove e ékt 
beaq», fundo de íik4, mas com pouco abrigo. Os Hoiiafidciei to i < 
ria ÇÚM Caftelio 00 anno de 16)7 , c construirão bum Forte 00 mOD^ 
és &Ti4ga, que domma o CastcUo, o tjue era de abwJuu 



Í9é 

A «ta Fòfrateta diamoií emio Diogo da Azam- 
buja CãsUlto de S. Jèrgé da Mina (cònseituida de- 
pois Qdadc pot Carta de íf de Março de 1486), fi- 
cando nclle 'por Governadoi* sAmente eom sessenta húr 
ment 4^ gnarníçáq, dcfspedio o resto da Esc^uadra pa- 
ra Portugal. 

Pasmados dois annos e sete mezes do seu Governo > 
o chanfícm ElRei- a Lisboa , e sem esperar que elle Ihc^ 
fequcresse, premiou os s^us relevantes servi jos com * 
magnanimidade, que costumava. 

14Í4 -^ Neste anrío mandou ElRei a Diogo Cartr^ 
Cavalkiío da sua' Casa, a proseguir o reconhecimento 
da Coita Occidental da Africa , dando-Jlie três doá t\6^ 
Vos Pkdrõès para os Coilotái- nos lugares mais riofav^iia 
qUe descobrisse (i). 

Saftio Diogo Cam de Lisboa , tAo se sabe em qtítf 
dia-, ou mez daquelle anno , cíom derrota âo^ CastelW 
da Mina, para sé prover do qu<í necessário lhe fosse ; é 
seguindo delle para ò Sul, dobrou o Cabo de Ldpd 
Gonçalves (2)', que conserva o nome do seu Descobri* 
dor, e' a}ém dó Cabo de Santa Catharina comrnuoo á 
seguir a Costa, desembarcahdo em alguns pontos, ate 
que chegou a hum largo Rio, em que entrou, e sur^íd 
hum pouco dentro da sua' boca , onde da parte do Sul 
assemini hum dos Padrões, que levava, chamado S. Jor- 
ge (3> 

(i) Vecb Faria, Asía, tomo 1. Parte 1. — Farros, tlecada^i, 
Liv. \. Cap. j. — Ruy de Pina, Cap. 57 , pôe esta viagem doanHd 
-de 1485. 

(2) Este Gabo está situado na latitude S. de 0° 5^% rlbngitude 
«?• 47'; chetão raro, que ai arvores parecem sahir do níar; á rt)dà 
tfelle lie o fundo mui limpo, Ba parte de Leite tem huma Ensead^^ 
^fièt SC pede ancorarem oito, oir dez braças; e da bahda dá Nottc liá 
4>iitra grande Bahia cem bom fundo, ma» tem hum bai>ío na entracb.' 

Çf) NadtTtllè tem^TO davão^e nomes aos Padrões, talvez pafía que 
ficassem aos lugares onde se assentavto 

2b ii 



196 

Este Rio era o Zaire (i)^ assim íiomeado pelos na- 
turaes: os Portuguezes lhe chamarão Rio do Congo , por 
atravessar o Reino deste nome ; e por muitos annos foi 
também conhecido pela denominação de Rio do Padrão. 

Diogo Cam, vendo as margens do Rio mui povoa* 
das, não ousou aventurar-se a penetra-lo, e procurou ti- 
rar informação dos habitantçs , que eráo Negros azevi- 
çbados, e em tudo o mais ^imilhantes aos outros daqueU 
la Costa ; porém os Linguas, que tinha a bordo, mesmo 
os que colncra naqueila viagem, não os entendéiâo, c 
por acenos se percebeo, que tinhão Príncipe poderoso , 
que habitava tantos dias de jornada pela terra dentro. 
£ como ElRei lhe ordenava nas suas Instrucç6es, que 
procurasse ganhar a confiança daquelles Povos, a fim de 
os persuadir a abraçarem o Christianismo , e á estabele- 
cerem algumas relações coinmerciaes com os Portogue- 
^s, e ao mesmo tempo lhe parecerão homens pacífi- 
cos, e de tão boa fé, que vinhão sem receio a bordo do 
seu navio, escolheo alguns Portuguezes intelligentes, 
pelos quaes mandou ao Rei hum presente , indo acom- 

} lanhados de alguns naturaes, ganhados por dadivas que 
hes fez, para os conduzirem á Cidade em que assistia ; 
e marcou-Ihes cerco numero de dias para tornarem ao 
navio* Entretanto continuou a viver na melhor harmo- 
nia com os Negros, que o vinhão visitar, e fazer tro- 
cas de alguns géneros. 

(i) O Zãlre^ ou Rio do Congo tem mais de duas legoai de lar- 
go nik boca, e traz taiua copia de a-^ua , que entra doce pelo mar den- 
tro o espaço de três legras, A ponta do Norte da sua entrada chama-ie 
FoiUa dii Palmeirinha, e está situada na latitude S. de 6® l\ c lon^i- 
tude 2^'^ $'. A ponta do Sul diama se da Mouta Seca, pcvêm iodai 
as Cartas lhe dío hoje o nonie de Ponta do Padrão, aioda que Diogo 
Cam assentou o seu Pairáo mais de liuma legoa distante delia pelo Rio 
dentro. O Capitão Ingiez Maxuall subio por este Rio quarenta e ciooo 
Icgoas, e diz que he navegável por mais quinze, ou vinte ^ e qv^ot 
maiores navios podem entrar nelle. 



197 

vPfl98aHdo-se porém dobrados dias, sem osseusmen* 
sageiros voltarem, nem havendo noticia de lies, determi- 
ix>u regressar a Portugal, e colhendo quatro dos natu- 
lacs para os levar a ÉlRei D. João, sahio do Rio, di- 
zendo por acenos aos outros Negros, que dalli a quinze 
Luas os tornaria a trazer, e que em reféns delles , lhes 
deixava os que levarão o presente. 

Succedeo que estes ouatro Negros erão homens 
principaes, e mais civilizados, e assim aprenderão com 
tanta âcilidade a lingua Portugucza , que quando che- 

farão ao Reioo , poderão dar boa informação do seu 
^iz, o que causou .a ElRei grandíssimo prazer; e pa* 
ra que nao houvesse falta na promessa, que Diogo Cafti 
fizera de os reconduzir á sua pátria dentro daquelle la- 
pso de tempo, o fez partir segunda vez para Congo. 

148J — Sahio de Lisboa Diogo Cam (i) por Com- 
mandante em Chefe de alguns navios (2), levando hum 
Embaixador, que El Rei D. João mandava ao de Con- 
go com ricos presentes, para estabelecer entre amboi 
amizade, e commercio, e o persuadir a abraçar oChri« 
stianismo. Levava igualmente bem vestidos , e trata- 
dos os Negros, que trouxera; e chegado ao Zaire, 
foi o Embaixador de Portugal recebido com grande ai* 
voroço pelo Soberano, vendo que se lhe restituião õs 

(1) Vede Faria no lugar citado. — Ruy de Pina, Capitulot 57, e 
5S. — Galvão parece confundir estas duas Viagens em huma só; 
pag. 16. — Barros no lugar citado diz , que Diogo Cam diegou a Lis* 
boa, de volta da sua primeira viagem, no anno de 1486; por conse* 
^ueocia só neste be que poderia eniprehender a segunda. l 

(a) Ruy de Pina (Cap. 57) diz, que ElRei enviou tuajrota ^rnUh 
Ja^ e provida para multo tempo ^ e no mesmo sentido falia em outro» 
logares. Barros, e Faria nâo lhe dão mais de hum navio: eu segui a 
opinião de Ruy de Pina, não só por ser hum Escritor da rraior atilho- 
ridade nos successos do seu tempo, mas por me parecer natural 1, que 
EJRei mandasse hwna força naval capaz de fazer a <?ua Fandeira tão " 
respeitada, como desejada a sua amizadv^ por aquelles Povos. 



190 

leuí Vííssallos, os quaec contavão as mtiraviHií^s qtie ti- 
nhSo vmo^ e as honras, e mercês que ElRei lhes fite 
ra ; c lísongeodo com a amizade qne lhe offereciíi hunr' 
Monarchíi tao poderoso , e remoto , n«1o sabia dç que 
modo o saiislizcs^e, nem se fartnva de ver, e praticar 
<om ô Embaixador , e mais Officiaes Portuguezesi* 

Parece que Diogo Cam, deixando aqui os seus 
vios com o Embaixador, para negociar o Tratado de 
íCommcrcio, proseguio só o reconheciír'^ -^ ^:* Costa, 
e em 13' de latitude Sul assentou outro : chama* 

udo Santo Agostinho, que deo nome áquelie lugar (iX 
E conrinuando a navegar para o Sul , poz rercc -^ ^-* 
drão em hum Cabo, a que se ficou chamando C i 

Padrão* (2). Desembarcou elle algumaí vezes por esta 
Costa, em que colheo Negro*% que trouxe comíigo, pa- 
ra aprenderem a lingua Portugueza, e sereni depois em- 
pregados em reconhecimentos, como tor^o, 

Deste ultimo termo a que chegara, voltou Diogo 
Cam para a Zaire, cujo Príncipe liie entregou, parj o 
conduzir a Portugal, o seu Embaixador Caçura^ hum 
dos quatro Negros que trouxera da primeira viagem, 
encarregado de hum premente de dentes de elefante, va- 
rias peças de marfim lavrado , e muitos pannos de fo- 
lhas de palmeira, e Cartas para El liei D.João, nas 
quaes lhe pedia Sacerdotes, e Religiosos para o instrih- 
Fcm na Fé Caiholica, e juniamcnic Pedreiros, e Car- 
pinteiros para fazerem Igrejas; e Lavradores para ensi* 



(O Não encontrei cite nome em Cjfta ilvnrni; e «irwli <}oe 
éiJs que o l^aijráo Saino A:;o5tífiho foi awentaflo rm I j** rfc JatittjdeS,^ 
quem «be it: havctá aqin al^jum erro de ifTiprct«5o? He certo, «jise 
aindt ha poucm .innos cxivtii tm Cabo Negro f iituado cm 16* 1 ' dte 
Jutítiule S, ) Uwuià cí^himna de ja^pe com at Armai de Portugal; e per 
'fifo al^unúi Caffírt liie chamáo Cabo do Hâdrlo. 

• (*) Talvei for ctitloc^o este Padiio na Angri de Santo Ambroib, 
cm dl" 6' de Utriude í^uh 



199 

nàrcm osNbgròs a servir-se dos bois na riilnirà das 
terras. Com este Embaixador enviou a Portugal mui* 
tos maocebos de boas famílias ^ rogando, a ElRei os 
HiandjBsse baptizar, e ensinar tudo quanto fosse neces-^ 
sario para poderem doutrinar os Povos quando voltas* 
sem a Congo^ 

Gom isto se recoilieo Diogo Cam a Portugal, on^ 
de chegou no anão de 1489, e foi recebido d'ElReí 
com as honras, e mercês, que costumava liberalizar aos 
Vassallo&teheroeritos. - 

t 1486 .— * Neste anno (i) descobrio João Affbnsd dé 
Arâro o Reina de Benim , situado além da Mina, cnjtt 
Capitai estava sobre hum dos braços^ em que se divide 
a Rio do mesmo noméj em queelJk surgia, e parece 
que antes havia entrado no Rio dos Escravos (2). Des-' 
te PaÍ2 trouxe João Âífonso a primeira pimenta dé 
Guiné, que appareceo em Portugal. O Rei enviou oom 
cUe ham Embaixador a D. João IL , que o tratou Com 
grande magnificência, e o tornou a mandar a Benim 
cooL ricos presentes, e cartas para aquelle Principe, con-^ 
▼idando*o a abraçar a Fé CathoUca ; e com elíe forão 
Sacerdotes, e também Feitores para crearem hífm^ Fen 
toria, que abrangesse o Commercio da pim^hta',^e 6 dOi 
escravos, de que havia quantidade. • - i 

Mas o Christianismo não prosperou' iiaquelle Rtí^ 
no , porque o seu Soberano só buscava aproveitar-se da 
amizade dos Portuguezcs, para se fazer temido dos setis^ 

(1^. Barros,. Década i. Liv. ). Cap. 5. -r— Ruy de ^ina, Ctpí 24. 

(») O' Rio de Benim y cíiamado genHmeme Kio Fcítitiofo, está si- 
tiudo na latitude NI 5^ fi\ e longitude af^ s^ E»{e Rio tem nÉ*H 
de duas milhas de largo, mas não he capaz de enibarcaq^es grandes, 
porque m. sus akura não excede a treze pés, PouCo a^étn da stm entrada 
áwids^se em difftrentes bra<;os^, e penetra imiíto peio Paiz. O R io cfos 
fiKravot íica cinco legoas para o Sal do de Beiíim, e a sua entritda he 
perigosa. 



200 

visinhos; e por caso nenhum queria abandonar os ab- 
furdos da sua Religiáo. Accresce â isto ser o clima mui 
doentio j e ai>sim forão os Ecciesiasticos obrigados a f^ 
lirar-se 5 bem como os Officiaes da Feirorij da pitnen^ 
ta , e ficou unicamente continuando o rrafico dos escra- 
vos, que durou ntê o Reinado d El Rei D. João IlL, 
que ò prohibio. João Affonso, que tinha dirigido o 
esrabelccimento de Benim, foi hum dos que alli falle- 
cêrão. ^ * » 

1486 — Pelas noticias, que João AfFonso de Aveiro (if 
trouxe de Benim , e as que o Embaixador deste Reino 
deo em Portugal acerca da existência de hum poderosa 
Monarcha chamado Ogani , que ficava au Oncnre de 
Bcnim por vinte Luas de marcha (o que equivalia 4 
duzentas c cincoenta Icgoas), a quem os Príncipes des- 
te Estado, quando succedião no í hrono, mandaTão seu 
Embaixador a pcdir*lhe confirma<jão, c era signal deP 
la, recebiao certas Insígnias, entre cilas huma Cruz de 
latão, como a de Malta, para trazerem ao pescoço^- 
e outra mui pequena para o Embaixador; e que o dito 
Monarcha não era visivcl, c apenas o Embaixador ?ia 
as cortinas, que o encobriao ; e se lhe mostrava hum 
pé no acto de despedir: suspeitou EIRei, que este Pa» 
tentado poderia ser o Preste joio, em que tanto se fal- 
lava, e se dizia ser Cbrisião, c andar mettido em cor- 
tinas de seda. Accrcsciâo a isto algumas outras noti- 
cias y que recebera por via de Jerusalém , as quaes a5$e- 
guravao, que os seus Estados ficavao sobre o Egypto, c 
se estendião até ao mar do SuU 

Ajunta dos Marhematicos, que ElRei consultou^ 
combinando todas estas relações com a descrip^o da* 

(O Bacios 1 Década k, Liv* f. Cap, 4. — Faria, Afia, wmo i« 
Paite t, • — Parece ímpossivcl, <)ue Ruy <ie Píiia náo felati»e o do» 
cobf b^iento do CAbo de loa. Esperança , que mudou o Camoicrcio ib 
Mundo I Ta1v€2 s€ perdesse esta parte da sua Cljronica, 



201 

Âfrict de Ptolomeu, e os descobrimentos dos Portugue- 
ses na Costa Occidental, incllnou-se á opinião de ser 
aquelle Príncipe incógnito o Preste João ; e foi de pa- 
recer, que conrinuando-se a reconhecer a Costa para o 
Sul, se chegaria a hum ponto, em que ella forçosa- 
mente devia mudar de direcção para Leste. Esta con^ 
clusão era evidente , e em consequência determinou £1- 
Rei enviar logo pessoas inielligentes , que por mar, e 
por terra tentassem resolver aquelle importante problc-. 
ma. Como eu já fallci dos que commettérâo a jornada- 
por terra , direi agora o que fizeráo os que forâo por ' 
0ian 

Nomeou ElRei para Chefe desta expediç^ão, compôs-' 
ta de dous navios de guerra de cíncoema toneladas (i),. 
c hum pequeno Transporte carregado de mantimentos, 
a Bartholomeu Dias, Cavalleiro da sua Casa, e abaliza^ 
do Navegante : por Piloro do seu navio foi Pedto de 
Alemquer, e por Mestre N, Leitão. Commandâva o se- 
gundo navio João Infante, também Cavalleiro da Casa 
d'ElRei; e era seu Piloto Álvaro Martins, e Mestre 
João Grego. No Transporte hia de Commandante Pe- 
dro Dias, irmão do Chefe; por Piloto João de S. Tia-^ 
go , e por Mestre João Alves i todos estes Officiaes de 
Náutica forão escolbidos entre os mais hábeis. 

Bartholomeu Dias , sahindo de Lisboa pelo meado 
de Julho de 1486, dirigio a sua derrota ao Rio Zaire, 
e seguindo dalli para o Sul a Costa já reconhecida por 
Diogo Cam, chegou a Angra do Salto (ignoro a posi- 
ção-desta Bahia), nome que lhe ficou por haver nella 
colhido este Descobridor dous Negros, que ElRei en- 
tregou a Bartholomeu Dias, para os dcsemoarcar naquel-i 

(1) Pareceni-me estas embarcações de porte demasiac^amcfitc peque» 
no, se as toneladas naqueile tempo erão do xnesmo peso, que são hoje, 
4> que não pude averiguar. 

26 



2)02 

le liigar, cx)mo fez; e para o mesmo fim ferava eito 
quatro Negras de Guiné, das quaes deixou huni% (i) 
lu Angra dos Ilheos (i), onde parece que também dei- 
xou o Transporte dos mantimentos ; e hum pouco ão 
Sul delle assentou em Serra Parda o primeiro Padrão 
chamado S. Tiago , e foi depois surgir na Bahia dat 
Vbltas (3), denominarão que lhe dco« porque fazendo 

(j) O fim politico, por que ElRei mandava introduzir noi Pahes 
ahida incógnitos estes Negros, e Negras, todos bem vestidos, e coiii 
aaoDstrat de ouro , prata , e especiarias , era pari datem idéa da riqueui 
d^ FortugaJ , e das suas Ai madas , e espallniem fanu de que tr«b«lh»> 
▼a por descobrir a índia, e os Estados de hum Principe chamado Preste 
João, que se di^ia occuparem o centro da Africa; pois que desta ma- 
neira talvez lhe*chegasse li a noticia destas cousas, e mandasse alguns 
nitiis^irôs á Costa do mar , onde os navios Pcrtuguezes , que por efb 
trafiGavâo, terião communicação com eiies. Estes Negros hião bem ín* 
staiidos no que havião de perguntar, e dizer, e com promessa de os 
irem depois buscar dí Portugal , por serem estrangeiros naquella Re^iia 
Vt^de B^ros no lugar citado. 

(a) £sta- Bahia está hinn pouco ao Norte da Serra Parda, ow Rosto 
àt Pedra» (como os Portuguezes Itie chamavâo) , onde Eartholoroeu Diai 
ceUecoil o Padrão S. Tiago. Sefra Parda fica na latitude S. 2)^ 37', e 
JoQgitude )a^ lO'* Barros identifica a L'ahia dos Ilheos com a Sena, 
sendo lugares mui distinctos; porque talvez se cria no seu tempo, que 
a Serra Phtda era a ponta do Sul daquella Bahia , de que dista mais de 
Wh legOM. 

Ha outra equivocação neste judicioso Escritor. Dii eUe , qnc Sena 
Fa«la (Gip. 4. pag. 186) estava situada era 24.*^ de latitude e cento e 
vinte legoas distante do ultimo Padrão, que d«:ixou Diogo Cini na 
Manga das AnSas, a qual pÕJ em 22"» de latitude (Cap. j. pag. 175); 
ák modo q«ie a differença entre estes dous Padrões seria de dous gníof 
emlatFitude , ou trinta e seis legoas daquelie tempo. Penuado^me ba- 
v^t aqMÍ*erro de impressão. 

No anno de 1786 Sir Home Popham , e o Capitão TbompscNn, 
artdando examinando a Costa Occidental da Africa , acharão humã Crua 
dí»mtfmorè em hum rochedo junto á Angra Pequena-, na lÉtilucfe S. 
26^ í?', a qual tinha as Armas de Portugal, e huma inscripção , que 
ji se não podia ler; c mostrava ser hum dos antigos Padrões. Clarke , 
tbixío i. Cáp, 2. 

(»0 A sua latitude S. 29 '^ 20', e longitude h"* |o' Ha por aqiii' 
recifes ao longo da Costa , que tem sido pouco examintdti . 



2^3 

títiiios bordos para montar a pon'tt mais Austral dx 
Bahia (que se chama ainda o Cabo das Voltas), eaaq 
opqdecdo consegtiir, foi obrigado a entrar na Bahia, 
em que largou outra Negta , c se demorou cinco dias. * 

Sabindo dalli , dèorlbe iiura N, O- rijo , com o 
qual correo ao Sul treze dias com as vergas arreadas .a 
niek> mastro y levando grande receio dos mares, que 
lhe ptreciao mais soberbos que: os das Castas de Pon^ 
togai y e quasi aíFogavâo os. navios ^ que crâo pequenoa^ 
e iazosL Abonançado o tenrpo , navegou com a prâa 4 
Leste a buscar a terra ^ cuidando que ainda cernia d« 
Norte ao Sul, mas passados alguns dias sem haver via* 
ta dette, tomou o rumo do Norte , não sa^peitandc» 
ter já" dobrado, o grande Cabo, qoe procurava , e foi 
^r CO» favma Bahia , a que chamoa Angra dós Vã* 
qu€Ír9íSi^ c hoje se chama das Vaccas(i), pelo muit» 
gado vaccam que apasceatavão alguns pasioresNegros^ 
cxsmo os de.Uuiné, o6 quaes fegírao levando o gad^ 
apôs de si ; e oomc^ ninguém entendia a sua linguagexa^ 
nao spípâde tirar delles noticia alguma. 

Continuando Bartbolomeii Dias a navegar paraltã^ 
lamente a Costa , vio huma terra alta , que fazia di^a 
pmitaa de acéa taliiadai; a piqsue sobre o otar^ e proxi^ 
mo a elia hum Ilheo pequooo, e parecendo^Ihe o lugar zs> 
commpdado aò seu. intento, assentou nelle o Padcâa 
chamado da Cruz i^) > de que resultou ficar-^se^lfae cba- 



(O Esta Bahia d^s V&cças fica da banda de Leste do Cabo do tp^P^ 
nome, situado em latitude S. ^4^ 30% e longitude 39^ 55/I A WsSml 
tMt hanN k«oa de seio, com 8 e nore braqas de fundo , e abriga dos 
•Itoiemies. . 

(a) O Uieo d^ Cpuk, ihu^do i)ft latiftwde i).^ $$', e longitu4e 
45^2% he onde Bartholomeu Dias levantou o Padrão chamado da Cruz, 
axiida que Manoel de Mesquita Perestreiio lhe chama de S. Gregório, As 
éuai poDtas de^ana, qae lhe ftcão fronteiras na terra tírme, chan^se 
ainda Pisotas daFackão. 

26 ii 



204 

mando o Ilhea da Cruz^ e Pontas da Padrão as duas 
pontas de área. 

Aqui as guarnições dos navios começarão a quei- 
xar-se dos trabalhos de tão longa navegação, e repre- 
sentarão a Bartholomeu Dias , que os víveres apenas 
chegarião para os conduzir ao Porto, em que ficara o 
Transporte; e que esta Costa, correndo quasi a Leste, ^ 
bem indicava fícar-Ihes atrás atgum Cabo, que seria do ■ 
maior interesse descobrir. Vendo elle atalhado o pro- 
jecto que tinha, de continuar a reconhecer aquelles raí- 
zes j desembarcou em terra com todos os OiHciaes , e I 
alguns marinheiros mais experimentados, c debaixo de \ 
juramento lhes pedio o seu voto sobre táo importante 
matéria, por ser este hum dos Artigos das suas Instruo* fl 
ç6es. A opinião unanime foi pela volta a Portugal , de 
que se lavrou termo; mas a rogos seus lhe concederão 
os votantes, que continuasse a navegação por mais dous 
cu três dias; nos quaes chegarão a hum Rio pouco mais 
de vinte legoas distante do Ilheo da Cruz , que recebco i 
o nome de Rio do hífante (i), porque João Infame^ fl 
Commandante do navio S. Pantaleão, foi o primeiro ™ 
que nelle desembarcou. 

Com grande sentimento deo Bartholomeu Dia^ por 
conduido o seu descobrimento, c voltando ao longo da 
Ccsca*, descobrio finalmente o famoso Cabo, a que cha- 
mou Tormentoso^ em razão dos perigos, e tormentas 
que passara cm o dobrar; porém EIRei D.João mudou 
este nome infausto no de Boa Esper.mça, pela que IJ^^i 
promettia do descobrimento da India« J^H 

Feitas as demarcações do Cibo , que julgou necS^^ 
sarias para ser conhecido dos outros Navegantes, assen- 
tou alli Bartholomeu Dias o Padrão S* Filippe (igno- 



(i) O Rb do Infante^ que nlo bs cap»z àe receber gnodet O^ 
troi^ esti situado m bticudc S. lj° i'i c longitude 46'' <&'. 



205 

rsi4ie em que lugar), e seguio em demanda do Porto 
em que deixara o Transporte, a que chegou nove mezes 
depois que delie se separara. Dé nove indivíduos, que 
compunnâo a sua equipagem , haviâo morrido seis , e 
dos três que restavâo vivos, falleceo de gosto, á chega- 
da dos dous navios , o Escrivão Joáo Colasso , que se 
achava em muita debilidade. As mortes dos outros fo^ 
lio causadas pela imprudência de se confiarem dos Ne- 
gros da terra , com quem faziâo algum commercio , os 
quaes se aproveitarão d' huma occasiâo opportuna para 
os assassinarem. 

9artholomeu Dias , recolhidos os mantimentos ; 
queimou o Transporte, que estava comido do gusano (i)^ 
e continuando a sua derrota , ancorou na Ilha do Prín- 
cipe , onde achou doente a Duarte Pacheco, Cavalleiro 
da Casa d' ElRei, que tendo sido mandado por Com- 
mandante de hum navio a descobrir os Rios da Gosta , 
ficara naquella Ilha por não se sentir em estado de ir 
executar a sua commissão ; e enviando entre tanto o na- 
vio a fazer algum trafico, naufragou este, salvando-se 
parte da gente, que também alli se achava. Bartho- 
lomeu Dias, recebendo todos a seu bordo, passou pelo 
Rio do Resgate, e Castello da Mina, cujo Governador 
João Fogaça lhe entregou o ouro que tinha negociado; 
e seguindo seu caminho para Portugal , entrou em LÍ8« 
boa em Dezembro de 1487, havendo dezeseis mczes e 
dezesete dias que daqui partira (2). 

(1) Os navios Portuguezes nSo erão forrados naquelles tempos, e sA 
o foráo depois .da descoberta da Q>ina, onde acharão aquella inven<^ão ; 
e a outra do sahimcnto da popa , qae nas Náos se cliama J/irdtm, 

^(a) I>íve sentipse, que nSo exista o Diário desta celebre Viagem 
tão superior a todas as antecedentes ! E que Joáo de Earros , que pare- 
ce o teve presente, não fiasse delfc ham mais extenso, e mais bem or- 
denado extracto ! Com ef feito custa a aCTeditar ( e he com tudo Terda- 
dc"), que devendo Portuf,al á sua Marinlia a melhor pane da gloria, âm 
jiqueaa, e da grande considera<;;áo a <|Qe chegou ^desde este Reirad^ 



206 

T^87 ^ Em Agosto detee annei i^tiie de LifbM 
huma Armada de trinta navies, |cví\pde mil homeni 
de Infiinteria, c cento c ciricocnta dcCavallaria, algiiiig 
destes últimos Criados d'£il\ei, e o$ Qiuros hoHf Fi^ 
dãlgos , e Cavallciros. Estas çirtbarç9ç6iC9. arrnárâoHte 
em Povos, e Villa Fraaca, por causa da peitç eoi que 
ardia a Capital. Foi wr General da expedição o Mon- 
teiro Mor D. Dicgo de Almeida ; e por seu 8iiccei$or 
no confinando , em caso de vagar , D. Jq30 de At^ide. 
íilfeo do Conde da Atonguia, Igiiora-se o fen s^mo 
deste armamento (i), porque o ChroniíUló db« qnf 
era para bum certo ardil fia Casta da Barkaria \ c 
qve este ardil se desacertou. 

Chegando a armada defronte de Anafe (a)» man- 
dou D. Diogo espiar a terra , e sabendo que a duas lo- 
fKis de distancia estavâo alguos Aduares de Mouros da 
nxovia, fez desembarcar de noite hum forto destact- 
inento de todas as Armas , (^e sjurprehendeo oa Adita- 
res poF tal maneira, que quaisi sem perda sua, cativou 
quatrocentos indivíduos, eutrc liomens, e mulheres , ■»- 
tou" novecentos , c tomou muitos cavallos, t outros de»» 
ppjos, com que D. Diogo se recolheo a Portugal. 

1488 — Andava ElReí com intentos de passar cm 
pessoa á Africa (ou assim o dava a entender), e para 
issQ fazia grandes preparativos ; e querendo enviar pri- 
meiro huma Esquadra forte, que levasse mil homens de 
Infanteria , e quinhentos de Cavallaria, todos Nobras, 
e escolhidos, para a qual havia nomeado por Generaes 
ao Capitão dos Ginetes Fernão Martins Mascarenhas, c 
ao Camareiro Mor Aires da Silva , estando a Elsquadra 
prompta a partir^ veio-lhe aviso da Barbaria^ que eata- 

atc ao dii D. Sebaitiáo, seja a Historia da Mitrinlia a paito que se tch» 
escrita com menos conhecimentos professionaes ! 

Ç^\) Vede Ruy de Pina, Cap. 27. 

(2) Já fíz menção em cHitro iujiir d<sta Cidade » boja Mruioada» 



%So M Motífc» àábedorçs da expedi jão. Mandou logo 
daraítnar a maior parte dos navios, e fez saiiir Fernâò 
Mariind cotíi trinta Caravelas, ê cefnto e cincoenta Cá- 
valléiros^ Fidalgos da sua Guarda, com os quaes desem- 
bàrcoo etíí Arzilla neste anno de 1488; e unido cont 
as tropas da sua Guarnição, e as de Tanger, fez humà 
entrada até além da ponte de Alcacer-Qiiibir, onde ot 
Portuguezes ainda não linhão penetrado , de que se re^- 
colheo com muitos cativos, e despojos (i). 

Esta peauena expedição parece que foi eraprehert^ 
dida com o nm de esconder o verdadeiro objecto da 
grande Armamento, que se preparara, 

1488^ -^ Por este tempo corria mui prospero o Cotú- 
mercio, que os Portuguezes conserva vão com os Negros 
Jalofos , que povoao o espaço comprehendido entre os 
dous Rios Senegal, e Gamoia, cujo Soberano era Be* 
tm>7 (2) homem prudente, e sagaz, que cohhééendo zi 
tamagens que poderia colher do auxilio de Portugal, 
para realizar alguns projectos políticos, deo-se á culti^ 
tar a sua atóÍ2íade. Para este fim abandonando oseftão, 
ireio e^iabel^cer-$e na Costa marítima, onde concorriãtt 
is embarcações Portuguezas com cava lios, e outros ge- 
aeros de muito valor; e tratava os Officiaes, e FeiroreS 
ébm o favor, e verdade, principalmente se erão de na- 
tios d*EIRei, a quem mandava alguns presentes dé 
eo\3ls3íi curiosas , que este Monarcha acceitava , e retri- 
buía com outros. E como ouvio dizer, que Beràoy ti- 
ítha húníi juizo claro, ertvlava-lhe mensageiros pata- d 
pcfsuadirem a deixar o Mabometisrao, e abraçar a Re- 
Agiâo Catholica, de que elle até alli se escusara, posta 
que dando sempre algumas esjjeranças de mudança. 

(1) Ruy de Pina, Cap. }6. 

(3) Ruy de Pina, Cap. ?7. — Barros, Década l., Liv. i. Cap. 6, 
-*-- Fatia > Akià^tOrao 1. íartle i. 



208 

Tal era o estado das cousas , quando Bemojr se 

achou envolvido em liuma perigosa guerra civil, em que 
d fortuna lhe foi contraria; c querendo valer«6e do fa« 
vor d^ElRei, mandou hum sobrinho á Lisboa , a pedir- 
lhe auxilio de armas, e soldados, a cuja proposta re» 
spondeoEIRei , que não o podia ajudar, senão no caso 
de fazer-se ChristíSo ; e ao mesmo tempo lhe remetteo 
J)um presente de cavallos por Gonçalo Coelho, Com- 
mandante de hum navio da Coroa, com o qual se reti- 
rou o Embaixador. 

Passado mais de hum anno, voltou Gonçalo Coe- 
lho a Portugal , trazendo comsigo o mesmo Embaixa- 
dor, que Bemoy tornava a mandar com hum presente 
de cem escravos escolhidos (Ruy de Pina diz, que tam- 
bém trouxe muito ouro), instando novamente pelo soc- 
corro, e prorogando a sua mudança de Religião para 
depois da ruina dos seus inimigos. Mas perdendo ago- 
ra huma nova batalha, íicou tão derrotado, que tomou 
por ultimo expediente fugir ao longo do mar para o 
Castello de Arguim , onde se embarcou em hum navio 
mercante com alguns seus parentes, e sequazes ; e neste 
anno de 1488 entrou em Lisboa, estando a Corte em 
Setúbal. 

ElRei, avisado desta inesperada vinda, o mandou 
hospedar em Palmella, c a to^a a sua comitiva com a 
maior magnificência ; e no dia que entrou em Setúbal , 
o sahio a receber, e acompanhar o Conde de Marial- 
va , com os Fidalgos , e pessoas Nobres da Corte , ves- 
tidos de gala. Estavâo ricamente armadas as casas da 
Alfandega, em que ElRei pousava, e as da Rainha, 
ue erão junto a estas. Achava*se com ElRei o Duque 
e Beja, e muitos Titulares, Fidalgos, e Prelados ^ c 
com a Rainha estava o Principe D. AfFonso. 

Entrando na Sala Bemoy, que parecia de quarenta 
annos , alto , e bem apessoado^ a barba mui comprida ^ 



a: 



209 

e a presença agradável, sahio EfRei dous ou tre$ pas« 
SOS do Throno, com o barrete bum pouco fira ^ c as- 
sim o lerou ao estrado , em que havia huma cadeira y 
jia qual se encostou em pé para o ouvir. Beraojr , e to- 
dos os seus se lhe lançarão aos pés, fazendo acção de 
tomar a terra debaixo delles , e de a lançar por cima 
das cabeças* ElRei o levantou, e por meio de Negros 
interpretes lhe disse, que fallasse. O Príncipe Jalofo, 
com muita discrição , e gravidade , fez hum longo dis- 
curso, em que lhe pertio soccorro, c justiça , usando de 
termos, e sentenças tão apropriadas, que não parecião 
de hum bárbaro \ concluindo a final , que se a esta sua 
pertenção era obstáculo ser Mahometano , como Sua 
Alteza por vezçs lhe insinuara, dle, e todos os seus que 
estavâo presentes^ vinhão a Portugal receber o Baptis« 

IDO* 

Respondeo-Ihe ElRei em termos breves, mas de 
tanta satisfação, que Bemoy bem a mostrou no sem*- 
blante; e d^pedindo-se, passou a visitar a Rainha, e o 
Príncipe D« AíFonso , aos quaes em poucas palavras pe- 
dio a sua intercessão para com ElRei ; e dalli o acom« 
panháiâo todos os Grandes até á casa em que estava 
aposentado. 

Seguirão-se a esta recepção festas de touros, e 0« 
nas , e no Paço sardos de momos , e danças , a que as- 
sisti© Bemoy sentado era cadeira defronte d* ElRei ; e 
depois de instruido na Fé Catholica , foi baptizado a 3 
de Novembro na camará da Rainha , e recebeo o nome 
de D.João, por ser ElRei seu padrinho. No dia 7 o 
armou ElRei Cavalleiro, e lhe deo por Armas huma 
Ouz de ouro em campo vermelho, e o escudo orlado 
com as Qiiisas de Portugal ; com elle se baptizarão ou- 
tros vinte e quatro dos seus. Neste mesmo dia, em acto 
tolemne , fez homenagem a ElRei dos seus Estados. 

Nas conversações particulares, que este Monarcha 

27 



210 

tevt com clle, lhe deô Bemoy muitas noticias do in- 
terior da África, que attrahírão a sua attenção, como 
dizer-llie, que para o Oriente dos Jalofos se esteodião os 
Povos Mozes, cujo Principe nem era Pagão, nem Maha- 
snerano, e em algumas cousas se conformava com os 
costumes dos Cliristáos; o que deo a ElRei fundamen- 
to para crer, que seria o Preste João. Alôm desta ra- 
iêOy desejava ElRei construir huma Fortaleza no Se- 
negal , para proteger o Commercio que os seus Vassala 
los fazião, e para o futuro poJerião ampliar muito 
oiais, servindo-se daquelle grande Rio para penetrarem 
9o centro do Paiz, principalmente consegui ndo*se acon* 
Tersão dos Jalofos ; em cujo caso seria fácil aos Portu- 
piOTXS apoderarem-se de todo o trafico do ouro, que 
do vasto Reino de Mandinga concorria ás feiras deTim- 
bouctore, e Guenná , onde o vinhão buscar as Carava- 
sas do Cairo , de Tunes , e de outros Estados da Mau- 
ntania. 

* Para deliberar sobre esta matéria com a madure^ 
st, que cumpria, fez ElRei vários Conselhos, em que 
«e assentou , que mandasse huma Esquadra de vinte Ga* 
lés bem armadas, para transportar, e restabelecer o Prin«^ 
cipe Jalofo nos seus Estados, para promover logo a 
conversão daouelies Povos ao Christianismo^ e fazer a 
Fortaleza na bocca do Senegal. 

Em consequência armarão-se a toda a pressa vinte 
Caravelas, guarnecidas de muita e bem luzida gente ^ e 
toi nomeado por General Pedro Vaz da Cunha , e se 
embarcou muita cantaria , e madeira lavrada . e os Ar^ 
tifices necessários para a construcção da Fortaleasa. Hiãd 
nesta expedição, além de Bemoy com todos os sees, 
alguns Religiosos debaixo da direcção do Mestre Al ve- 
io , Dominicano , Pregador Rcgio , encarregados de 
conversão dos Negros. 

Chegado Pedro Vaz da Cunha ao Senegal com to- 



ãa a Esquadra , que pAz espanto naquelles Povos , co« 
;nieçou à trabalhar na Fortaleza (de que havia de fictr 
Governador), cujo terreno escolbeo mal, por ser sub* 
mettido ás inundações periódicas do Rio, e ihe come- 
çou a adoecer a gente. Nestes termos, dizendo que Be- 
moy lhe armava traição, o matou ás punhaladas dentro 
do se« pcoprio navio; mas he provável que o fez pw 
temer as doenças do Paiz , e querer voltar para Portv- 
gai, como logo (ez, mal*Íogrando-se com este horroroso 
attentado o fim de huma táo dispendiosa expedida 

Mui ponderosas deviío $er as causas, que obrig(- 
rão hwn Soberano do caracter de D. João II. a deixa r 
impune bum similhante criraç. ^^ 

1489 — Neste anno (i) determinou ElRei mandar * 
constniir huma Villa , com seu Castello, dentro do Rio 
de Larache, para fazer dalli maior guerra aos Mouros 
de Barberia , c obrigar talvez algumas Províncias a su- 
jeitar-se a pagamento de tributo. Preparou-se humaEs^ 
quadra , em que se embarcou a gente , que pareceo suf- 
ficiente; c os Artifices, artilheria, pedra lavrada, ma- 
deira j e mais materiaes próprios para similhante obra^ 
No principio do mez de Junho partio Gaspar Juzarte, 
flonieado General da expedição, com instrucçòes para 
coaie^r logo a Villa , que teve o nome da Grachsa ; e 
não levou maiores forças , porque estava ElRei persua^» 
dido, segundo a informação das pessoas por <]uem mau-* 
doa reconhecer o terreno, que em todo o tempo do an^ 
aa podião entrar, e subir pelo Rio, Caravelas, e na« 
^MSi O que não era exacto. E para remediar qualquer 
incideMe imprevisto, foi assistir em Tavira com a Rai« 
nha j Príncipe D. ÂflFonso, e toda a Gme , onde reco* 
Í3ia avisos diários do que se fazia em Larache. 

(O Ruy * í*™> Cap. 38. — Garcia de Rezende, Capítulos H 

27 li 



212 



Começou-se a obra cora actividade, sendo parte de 
alvenaria, e parte de madeira, e palissadas^ para com 
maior brevidade se pôr em estado de defensa ; mas avi- 
sado desta novidade o Rei de Féz, na raia de cujos 
Estadoá se construía a Fortaleza , convocou os seus 
Vassallos , e Comarcãos , e enviou adiante seu filho 
a ataca-la com hum Exercito, ainda que tumultuario^ 
immenso^ pois se dÍ2 ser de quarenta mil de cavallo, 
€ maior numero de gente de pé, com o qual cercou 
as novas fortificações, e guarneceo as margens do Rio, 
para evitar os soccorros por mar. 

Instruido ElRei deste cerco, e da doença de Gas- 
jiar Juzarte , como tinha prevenido lium grande arnia- 
jnento naval para o que podesse occorrer, expedio Io* 
go a D.João de Sousa, valente Cavaileiro, e do sea 
Conselho, com hum reforço de luzida gente, nomean- 
do*o Governador da Praça sitiada , era que se reunirão 
agora mil e quinhentos Fidalgos, e Cavalleiros da Caia 
Real , a flor de toda a Corte. 

Crescendo porôm mais o poder dos Mouros, e 
noticioso ElRci das desvantagens do Rio, de que pen- 
dia a conservação da Fortaleza, mandou, nesta per- 
plexidade, a Fernão Martins Mascarenhas , Capitão 
dos Ginetes, e da sua Guarda; a D, Martinho de Cas- 
lello Branco , Vedor da Fazenda ( depois Conde de 
Villa Nova); e a D. Diogo de Almeida (que passou 
a Prior do Crato), homens de muita representação, e 
bravos Cavalleiros, aue lhe erâo milito a cceitos, para 
examinarem as localidades , e voltarem a informado da 
yerdadc, a fim de resolver se devia largar, ou sustentar 
a[Gi\iCÍosa. Entrados nella estes Fidalgos, chegou o 
Rei de Féz com o resto das suas forças; e tendo ellci 
por des honra sahir da Praça, em occasiao similhante, 
encorporárão-se na Guarnição, e escreverão a El Rei o 
succedido. Neste tempo adoeceo perigosamcnie D. Joáo 



■ 
■ 

I 
I 




213 

dc Sotisa, e como era forçoso vir curar-se a Portugal, 
ajustou com os três Fidalgos mencionados, que deitas- 
sem sortes, para se decidir a qual havia entregar o 
commando ; e cahindo a sorte em D. Diogo de Âlaieí* 
da , lha entregou logo , e partio para o Reino. 

Os Mouros, animados á vista do pequeno numera 
dos Portuguezes , e do máo estado das fortificaçòes da 
Villa, a combaterão fortemente por varias partes; mas 
Tecd>endo grande danmo da artilheria , e de outros ar- 
tificios de fogo, retirárâo-se fora d*alcance de canhão , 
e empregarão todo o esforço em atalhar a navegação do 
Rio. Para obterem este resultado, o atravessarão de Im^ 
ma a outra margem, em hum lugar abaixo da Fortale- 
2a , onde dava váo , com duas boas estacadas parallelas 
entre si , guarnecendo os seus flancos de trincheira , em 
ique cavalgarão muita artilheria grossa , que batia o ca« 
uai todo, e as proximidades das estacadas. 

Esta obra causou algum susto aos Portuguezes ^ 

principalmente quando souberâo, que o Camareiro Mor 

Aires da Silva, General de huma Esquadra de soccor- 

ro ancorada na fbz do Rio, querendo forçar a entrada^ 

achou taes obstáculos, e resistência nos Mouros, que 

não conseguio chegar ás estacadas, para as destruir, co« 

mo intentava» Porém nada disto fez esfriar os cercados 

da resolução em que estavão de se defenderem até á 

ultima extremidade , ou até chegar hum poderoso soe- 

corro capaz de dar batalha aos Mouros , o qual não 

cíuvidavâo que ElRei conduziria. De tudo isto foi elle 

avisado em Tavira, e sem perder hum instante, expe-* 

úio hum reforço de n^ios a Aires da Silva, com or« 

^em 9 que commettesse de novo a entrada do Rio, e ao 

Buenos retirasse a Guarnição da Villa , que era o que 

xnaiv desejava \ porque pelas ultimas informações que 

^ este tempo já tinha das enfermidades enden^.icas do 

^sâzy c de não ser o Rio sempre navegável, estava re- 



314 

solvido a mandar desmantelar 8 Forrafeza, se iitfo etA- 
vessc de todo concluída. Partido este soccorro, fes Coa- 
. se^ho sobre passar psesoalmente á Africa; e sendo ana« 
nime a opiniào contraria , seguio o parecer de D. Joío 
de Abranches (i), que chegqu por acaso noíim doCon» 
'ffeiho, e que lhe disse, nk> confiasse a empreza, senão 
de si próprio. 

Determinado pois a passar a Larache, o commii- 
1ÚCOU logo aos cercados por meio de alguns Mouros 
peitados; e fazendo chamamento de gente por todoFo0- 
togai , se lhe oíFerecérâo todos , velhos, e moços com a 
Mtlbor vontade. 

O Rei de Féz, sabedor destas disposiçjfes, y^enám 
^r hum iado, que lhe começava a desertar a geoie, 
atormentada, e descontente dos trabalhos do cerco; e 
temeroso pelo outro de ser destruído em huaia batalha * 
campal , mandou propor a Aires da Silva, que tinha po» 
deres de Lugar-Tencnte d' El Rei, que eHe deixaria 
^hir livremente os Portuguezes com a^ armas , artilhe» 
ria, cavatlos, e mais eíFeitos que tivessem, se lhe entre* 
gassem a Villa , e El Rei quizesse confirma r«*lhe o Tra« 
tado , Que seu Pai D. Anbnso V. com elle fiaera no 
tempo da tomada de Arzilla. Aires da Silva , parecen- 
do«ihe isto bem , por ser conforme ás intenções d' El- 
Rei , concluío huma Trégua com o Monarcna Africa- 
no, até á voha de hum expresso que mandou a Tavira. 

Acceitou ElRei a proposta , e para a concluso do 
Tratado enviou a Larache Ruy de Sousa , IX Afibaso 
de Monroi, e Diogo da Silva de Meoezes, todos do 
seu Conselho, e da sua confiança , os quaes jumanieme 
com Aires da Silva confirmarão tudo por hum Tratado 
£^ito em Xames a 27 de Agosto deste aimo: e dadot 

(O Ruy de Pina nS<» faz meneio deste Comelho, que lefeie Gir» 
cia de Rezende , cjue me parece núi vesosimil que honv 



215 

àe pafte a parte 08 necessários, reféns , levantarão ofe 
Mouros o cerco, e os Portuguezes se recolherão á Es«- 
<)uadra com tudo quanto tinnâo oa Graciosa , e chega*- 
rià a salvamento a Tavira, onde forão recebidos d' El- 
Rei y e da Corte com grande prazer, e honra. 

1490 — Neste anno determinou ElRei D.João man* 
dar huma Esquadra (i) com tropas de desembarque a 
Ceuta ) para auxiliar huma surpreza, que se intentava 
fazer ao celebre Alcaide Baraxa , e deo o commando a 
D. Fernando de Menezes, filho do famoso Marqitez de 
Villa Real. Constava a Esquadra de cincoenta navios, 
aiguns de guerra , e os outros de transporte, com muita 
c boa gente, munições, e cavalios. 

D. Ferftando ancorou de noite em Gibraltar, e ten^ 
do alli aviso de seu irmão D. António de Menezes, que 
governara interinamente Ceuta , de que efa então im« 
praticável a projectada sorprcza de Barata, cMveio cpnl 
ellc cm ir atacar a Villa de Targa (l) ; c reformado 
com algumas embarcações de Ceuta , e outras de Hes« 
panba, achoii-6e com dous mil homens, em que entra<» 
rio cento e triaia de cavallo. 

Chegado a Targa, desembarcou logo, e totnVíu a 
Villa, sem perder bom soldado, porque os mofadcfes 
a desaânparirao apenas avistarão a Esquadra. Aprezá^^ 
lâcHte no Porto vinte e cinco embarcações, entre gran^ 
ács, e pequenas, e nos armazéns muitos canh6es, âr-* 
ina^, pólvora, e munições navaes; e libertárã^se alguA^ 
Cbfiatãos cativos. Destruída por ultimo a Villa, e ta<* 
iados os CMipds 4 se recolheo a Esquadra a Ceuta ear^ 
aeegâdd de despojou. 

Mas Dé remando de Meneses , não satisfeito des4- 

(1) Ruy de Pina, Cap. 41. — Garcia de Rezende, Cap. iii. 

(â) "í^a, edificada a cousa de dito legoàs tô Sueste dtf TéttiSo , 
^ <\tta! #e chíma hoje Tagaw , c Rio óoi Aíánlt» aò c,ue banlia oi seUs 
<>^iiros. Nos tempos antigos sahiáo dalli muicos Corsários. 



216 

ta vicíoria, combinou-se' com os Governadores de Tau» 
ger, e de Alcácer para irem assaltar Comice, lugar 
grande, e aberto, situado nas mais ásperas, e altas ser- 
ras da Bnrberia , ao qual os Mouros chamavio o £)sr- 
cantado. Para esta empreza se reunirão todos em Alcá- 
cer, d'onde partirão cora Quatrocentos homens de caraU 
Jo, e mil e duzentos de pe. Chegados a Comice, c ten- 
do occupado os passos mais difíicultosos da serr^ , ata- 
carão o lugar, e o ganharão com assas resistência doa 
Mouros, que querendo salvar-se pelas brenhas, se acha- 
rão cortados. Morrerão delles quatrocentos , e ficarão 
cativos cem. Os Portuguezes queimarão as casas, e com 
muito gado, cavallos, e outros despojos, se recolhér&o 
a Alcácer , perdendo alguns soldados na retirada ; e D« 
Fernando voltou para Portugal. 

14^ — O Embaixador de Congo, que Diogo Cam 
conduzio a Portugal no principio do anno de I489, re- 
cebeo o Baptismo, e os da sua comitiva, com grande 
solemnidade cm Beja , com o nome de D. João de Sou- 
sa. Achando-se agora já todos bem doutrbados nos 
Mysterios da Fé Catholica , determinou ElRei manda* 
los restituir á sua pátria, e nomeou Gonçalo de Sousa, 
Fidalgo da sua Casa , por seu Embaixador, e ao mesmo 
tempo Commandantc de huma pequena Esquadra de 
três navios bem armados, nos quaes se embarcarão, além 
do Embaixador de Congo , muitos Religiosos , de que 
era o principal Fr. João, Dominicano , para começarem 
a instruir aquelles Povos (i), levando todos os Ofiia« 
mentos, e mais cousas necessárias para a funda^ de 
huma Igreja Cathedral ; e munidos de huma Instrucgao 
preparada em hum Conselho de Theologos, e Cano- 



(O Ruy de Pina, Capítulos ^t vxi 6\. — Barros, Decadi i. Lnr. 
3. CapitulcH 9 e io« — > Faria he quem traz os nomes dos dous Cooi» 

mandantes. 



217 

nistas, que EIRei convocou para esse eiFeito, e cuja^ 
sesstíes se faz'áo na sua presença. Conduzia também 
Gonçalo de Souja hum rico e magnifico presente ao Rei 
de Congo , e aos Príncipes da sua Casa. 

Erão Commandantes dos dous outros navios (na- 
quelles tempos o Chefe, ou General de huma Equadra 
commandava o seu próprio navio) Fernando de Avelar, 
e AflFonsode Moura; e Pilatos Pedro de Alemquer, que 
o fora de Bartholoraeu Dias, e Pedro de Escobar. 

Esta Esquadra partio de Lisboa a 19 de Dezeníi- 
bro de 1450, e próximo ás Ilhaç de Cabo Verde falle- 
cérão de peste (que haviao tfontrahido naquella Cidade) 
Gonçalo de Sousa , o Embaixador de Congo D. JoSo 
de Sousa , o Escrivão da Esq[uadra , e outras pessoas, o 
que causou grande terror e consternação; e assim ar- 
ribarão á Ilha de 3. Tiago, onde, por intervenção do 
seu Governador Fernão de Góes, se elegeo por Com- 
mandame da Esquadra a Ruy de Sousa , primo, ou so-^ 
brioÂo de Gonçalo de Sousa , que hia por passageiro. -* 
Seguindo dalli viagem , depois de muitos perigos e" 
trabalhos, chegarão a 29 de Março de 149 1 a huma 
Bahia, que ika por detrás da ponta do Padrão, no Rio 
Zaire. Era Senhor desta Província hum Príncipe cha-. 
mado Mani-Sono, tio e vassallo do Rei de Congo, 
que assinia a duas legoàs de distancia ; o qual acompa- 
nhado de tfes mil frecheiros veio logo visitar os Portu- 
guezes, com grandes festas e contentamento. Ruy de 
Sousa o recebeo na praia á testa da melhor gente da sua 
Esquadra ; cachou nelle tal desejo de ser Christão, antes 
9ue seu sobrinho o fosse, que a 3 d'Abril , que era dia 
de Páscoa, foi baptizado, e hum seu filho a^pda meni- 
no, era liuraa Igreja de madeira tosca, que para esse 
eflFèito se construio, e adornou do melhor modo possí- 
vel-, tomando elle o nome de D. ManoeJ , e o menino 
o de D. António. 

28 



ai8- 

Concluídas estas cousas, marchou Ruy de Sousa poc 
terra para a Corte de Congo, distante cincoenta legoas, 
escoltado por muitos centos de Negros, huns armados, 
e outros para conduzirem a bagagem, achando por toda 
4 parte abundância de víveres. 

Entrou em Congo a 29 d'Abril, sendo recebida 
com a maior pompa e apparato. Começou -se a cdi* 
£car a primeira Igreja (depois Sé Cathcdral com Bispo 
natural do Paiz) no dia 3 de Maio, e concluio-sc no i.** 
de Junho. O Rei quiz ser baptizado no mesmo dia 3 
de Maio, com o nome de D. Joáo ^ e com elle se bapti- 
zarão os seis principaes Grandes da sua Corte; a Rainha 
Q foi no dia 4 de Junho, e recebeo o nome de D. Leonor, 

Depois destes Baptismos, partio o Rei para ir su« 
jeitar á sua obediência humas Ilhas situadas em hum 
grande Lago, d'onde se diz, que sahe o Zaire, asouaeç 
se lhe havião rebellado, para cuja expedição era pma 
^ue levava oitocentos mil homens. Os Portugueses o 
auxiliarão nesta campanha , em que houverao conihgrcf 
sanguinolentos, até que por ultimo o Chefe dos rebel- 
des se entregou á discrição. Acabada a^ guerra , wótto^ 
a Esquadra para Portugal , havendo perdido alguoit 
gente naquella crabalhosa expedição. 

Esta foi a ultima acção do Reinado memoraTc} 
de D. João IL, que trabalhou constantemente não sd 
por explorar as Costas , mas por conhecer as Provinciaf 
centraes daquella vasta Região, e estabelecer cora dias 
relações amigáveis, de que tirasse vantagens o Gominer* 
cio de Portugal; talvez com o projecto, se o descobri- 
mento da índia não podesse realizar-sc, eu ainda retli* 
zado, se je encontrassem naquella navegação obtrtcu* 
k>s taes, que tornassem nullos os proveitos do trafico » 
de empregar então as suas forças em occupar os poniM 
principaes da Africa , de mancixa que se fizesse seahor 
de todo o Commcrcio delia* 



41^ 

A Esquadra mandnxJa ao Senegal, posto que sé 
fornafse inútil ao restabelecimento de Bemoy, produzíd 
ufeis cffcitos, dando aos Negros mui differentes idéas 
dâs que fdrnMTao da força naval de Portugal; porquê 
não tendo até alli visto nos seus Portos, senão peque- 
nas embarcações costeiras (i), rirão então huma Es- 
quadra de vinte navios efe guerra bem guarnecidos dt 
gente, e de arrilheria , que podião em poucas horas ar- 
razar as suas PovoraçÕes, e invadir o Paiz. Assim ca« 
fcneçáfãb as vtirias Naçdés dè Negros a procurar a ami-^ 
zade dos Ponuguezes, tanto pelas utilidades que acha- 
Váo rto seu Gommercio, como para obter a sua ptotec- 
çSo nas guerras e disputas, que dê continuo tinhão hu« 
IMS coin outras , como acontece entre gentes barbaras 
c confinantes ; servindo de exemplo a cada liuma o soc- 
corro enviado a Bemoy. 

Por estas razoes começou El Rei D. João a ser ob^ 
Sequíaáo dos Frincipes Africanos com recados, e presen- 
tes , e com favores aos Ponuguezes , qiie o Commercíò 
ConduJdá aos $eus Portos ; de que clle habilmente se 
áprovciroti para entabolar correspondências com os Re* 
^os das Costas çiarítimas , e por meio destes com tí* 
Soberanos iftaís poderosos do interior , como o doí 
Mandhiga^ dos Moses, dos Fui los, de Turuco! , e Titw- 
Bouctoín, servindt)-se para estas mensagens dePorrugue-* 
ics, c de cttr*ngeiros intelligentes nas li-ngtiasi, e costtí- 
incs dos R)VOS, cujas relações de amizade creiácêrãò .tart-4 
túy qhc já estie Monarcha jnflui-a nos negócios, e Contéri- 
das particulares daquelles Potentados, e creava Feitorias 
no mítrior do Paiz, conlO erigk)' huma na' Cidade de 
Hliadetn', setenta legòas 50 Oi^ieftte do Castello de Ar- 
gjjitty. H! tio tespeitadôs forío no seu Reinado , e ainda 
suutto^ annos depois os Portuguezes, que mandando o 

CO B^ojj Detathi 1. Liv. j. Cap. 12. - 

28 ii 



220 

grande Historiador João de Barros no anno de i^^4, 
Èum mensageiro ao Rei de Mandinga, sobre o Com- 
mercio do Gambia, lhe respondeo, gloriando-se de que 
seu avô recebera huma slmilhante mensagem do ouíixi 
Rei D. João de Portugal. 

1495 — A 6 de Março deste anno (i) entrou cm 
Lisboa Christovão Colombo, vindo do descobrimento 
das Antilhas; e como esta grande novidade obrigou 
ÈlRei D.João a armar huma Esquadra, cumpre-me dar 
aqui huma breve explicação deste negocio, posto que o 
seu objecto seja alheio destas Memorias. 

Colombo , Genovez de Nação , tendo navegado no 
Mediterrâneo, e no Oceano, e muito instruído aa Arte 
Náutica , e na lição dos antigos Geógrafos , velo a Por- 
tugal, onde adquirio mais amplos conhecimentos (2) na 
sociedade , e conversação dos hábeis Pilotos daquel/e 
tempo, e provavelmente no estudo dos Diários dos nos- 
sos celebres Descobridores , que devião ser entSo conh> 
muns, e hoje por desgraça não apparecem. 

Comparando pois o que achava escrito nos anti- 
gos , com os descobrimentos modernos dos Portuguezes 
na Africa Oriental e Occidental , e Ilhas do mar Ocea- 
no, crêo firmemente que existiao terras consideráveis ao 
Occidente da Afrka ; e destes principios mui proTaveis 
tirou consecfuencias falsas^ capacitando-se^que navegando 
naquella direcção, acharia outro caminho para a Índia 
(porque suppunha os limites desta Região pouco distan* 
tes das Illias situadas a Oeste da Costa d'Africa).) sem 

CO Ruy de Pina, Cap. 6^. — Barros, Decadt i. Lir. ]. Qip& tu 
— Faria , Ásia tomo 1. Parte i. — Clarke, tomo i. Li?, i. Capf •. 

(2) P.:rcce que nesta m^sma Escola aprendia seu kmÍo Bufadcv 
7i)eu Colombo^ o qual l^voíi de Poilu^al a Inglatena o conbeciimiiCO 
cbs drti^ Geo[;raficai (aili ijçnoradas); e em 1489 imprimio em Lon» 
óiK' ^ d<rdicanr!n-n .1 Henrique VIL, o primeiro Mappa-Mundi , que ap» 
^auwco liaqu-.lic Pji/. Vcdi Cia(ke no lugar citsulo a pag, 197. 



221 

continuar os descobrimentos alem do Cabo de Boa Es- 
perança, cujas tormentas tinhão assustado hum dos mais 
ousados Navegantes, Bartholomcu Dias. 

Armado destas hypotheses, importunou a ElRei 
£). João papTã que lhe confiasse navios , em que tentasse 
o descobrimento da índia pelo caminho do Occidente. 
Mandou-o ElRei conferir com a sua Junta de Maihe- 
maticos j que reprovou o projecto , por ser fundado era 
meras conjecturas > e na existência quimérica da Uba de 
Cipango de Marco Paiilo* 

Escandalizado desta decisío, passou Colombo a Cas- 
tella , -Qnde obteve 6 commando de três embarcações , 
com que se fez á vela a 3 de Agosto de 1492, e a iz 
de Outubro descobrio a prim.eira das Antilhas, e depois 
algumas outras ,d'onde regressou á Europa, ainda per- 
suadido de que estas Ilhas esta vão próximas a hum gran- 
de Continente , que cria ser a índia ; de cujo erro só o 
desen«nárao uíteriores descobrimentos, passados annos» 

Entrou elle em Lisboa jactando-se de haver ach^ 
do a4Uia'de Cif)aftgo, e. mostrando ouro, e alguns na- 
ruraes do Paiz, que tinhâo a cor, o aspecto, e o cabeU 
lo nao á maneira dos Negros, mas como se dizia que 
os tinhâo os Pq vos Indianos; e ao mesmo passo cxagge- 
rava a grandeza , e riqueza das novas terras ; o que pôz 
ElRei em grande cuidado; e chamando Colombo á^ua 
presença ^.puvio da^ua bpcca a relação da viagem* Esta 
narratiyi^^ e o estranho aspecto dos homens que trazia , 
lhe derao. suspeitas de que seria aquelle descobrimento 
huma usurpação dos seus direitos á conquista do Orien- 
te. Mas ppr não descobrir o seu pensamento, nem se 
mostrar sentido de haver engeitado os seus serviços 
quando elle lhos oflTerecêra , o recebeo graciosamente, 
e com algumas mercês o despedio- 

Convocou muitas vezes EJReí o seu Conselho, no» 
qual prevalecco a opinião, sobre tudo entre os Geogra- 



222 



fos que assistirão a cllc, de que as Illins descobertas por 
Colombo pertcncião ás Conquistas de Portugal. Enr^ con- 
sequência deste parecer, mandou armar liuma Bsqua* 
dra, de que nomeou Commandante em Chefe a D. Fraiv- 
cisco de Almeida, filho do Conde de Abrantes, para ir 
explorar, e tomar posse daquelles novos Paizes, o que 
não chegou a ter efiFeito pelos requerimentos, e protestos 
da Corte de Hcspanha •, até que depois de varias Em- 
baixadas, seconcluio o famoso, e conhecido Tratado da 
diviião do Globo entre os dous Monarchas; Tratado 
fundado em bases arbitrarias, e abusivas, que produsúo 
os resultados que devião esperar-se , porém que naquelíé 
momento evitou huma guerra. 

Falleceo ElRei D. João 11. a 25' d'Outubro de 14^5^. 



Reinado d^ElRei D. Manoel, 



o 



Governo deste feliz Monarcha foi a verdadeira 
Idade de Ouro de Portugal : a sua Marinha descobrío 
á índia, conquistou as melhores Praças marítimas da* 
quella vasta Região, e lançou os fundamentos do gran- 
ae Império da Ásia , que durou até á época ctn que 1 
força , e a traição unirão á Coroa de Castclla a Còrot 
de Portugal , sufFocando os inalienáveis Direitos da. 
Casa Real de Bragança; catástrofe, que attrahío sobre 
esta segunda Monarchia (que gozava das doçuras da. 
paz desde mais de hum secub) a furiosa teittpesiade , < 



223 

que csDTOjeçavfl a. alagar a H,espanha, e acabou destruin^ 
do a sua preponderância na Europa. 

Navegantes celebres, guerreiros afamados, homens 
de Letras, e de Estado forao communs neste Reinado j 
e mostrarão bem ter aprendido na Escola d' EIRei D. 
João 11. , filho do Infante D. Henrique (i). 

Como EIRei conhecia que a prosperidade actua! , 
e futura da Nação Portugueza dependeria sempre das 
suas forças navaes, p6z todos os seus cuidados cm au- 
gmentar a Marinha. A experiência das viagens ante- 
cedentes ensinou a construir melhores navios de Guer- 
ra, e de Commercio. Forâo animadas em varias par- 
tes do Reino as plantaçíes do linho cânhamo, que não 
çrão insignificantes, pois havião Feitores em Santarém , 
Coimbra, e Moncorvo-, e delJe se fabricavao amarras de 
qualidade superior ás de todos os outros Paizcs (2) , o 
que durou até ao Governo dos Hespanhoes , em que se 
aniquilou este ramo importante da Agricultura Nacio- 
nal. Também se estabelecerão Fabricas particulares de 
armas brancas, e de fogo de toda a qualidade ; e huma 
por conta da Fazenda Real na Ribeira de Barcarena, 
cujos Mestres vierão de Biscaia , trabalhava por enge* 
nlios movidos por agua; c em Lisboa creou-se huma 
Fabrica Real dê pólvora (3). Os navios de Guerra erao 
construídos nesta Capital (que continha. dous Arsenae^s 
de Marinha ) , no Porto , e em S. Martinho ^ e os de 
Commercio fazião-se nos estaleiros particulares destes 
«lesmos Portos, e nos de Aveiro, e Vianna (4). To- 
da a artilheria de bronze (quasi a única usada naquel*- 

(1) firuce dtz nas stias Viagens (qSp me recordo em qtie lugar), 
<]ue os Exércitos Portuguezes na Ásia eráo iguaes , ou superiores a tuda 
Quanto a antiguidade nos apresenta. 

CO Sevttim de Faria, Noticias de Portugal, Discurso i. §. 14. 

(^l) O mesmo. Discurso 2. §. 11. 

(4) Couto, Memorias Militares tomo i. p32;t 287^ 



224 

les tempos, e"nos seguintes^ era conáíniida em Fundi- 
ções Rí.aes e particulares (i).. 

Os Arsenaes da Marinha , e do Exercito estavSo 
tão providos de tudo, e era tal a copia de embarcações 
em Portugal, que quando ElRei no anno de lyoS foi 
a Tavira, querendo passar em pessoa a soccorrer o Cas-- 
tello de Arzilla, reunio em cinco dias Iiura Exercito d» 
vinte mil homens, e os navios sufficientes para transpor- 
ta-los á Africa (2). 

No tempo deste Monarcha houverão sempre três 
Esquadras empregadas em fazer guerra a Piraras, c Cor- 
sários, que infestavão o Commercio: huma Esquadra^ 
chamada do Estreito, cruzava pelas Costas do Algar- 
ve, c Barberia , c compunha-se ordinariamente de Fus- 
tas, c Caravelas; outra de navios maiores corria as Cos- 
tas do Norte de Portugal; e outra (que se augmentou 
depois) cruzava sobre as Ilhas dos Açores (3). Para 
promover, e vulgarizar os conhecimentos Mathemati- 
coe, crcou ElRei na Universidade de Coimbra em ifiS 
huma Cadeira de Astronomia , de que foi o primeiro 
Lente Filippe, seu Medico (4); e com o Raby Ábraham 
Zacuto, seu Astrónomo, consultava elle as cousas rela- 
tivas á Navegação (y). 

No seu Reinado teve o Officio de Capitão Mor da 
Frota D. Antão de Abranches, por Carta passada em 
Monte Mor o Novo, no 1/ de Março de 1466. 

(O Assim consta de hum Manuscrito anonymo , que examinei, e 
farece ser redigido pelos aonos de 165$ , no qual se encontrão yaríiBs 
Certidões authenticas , extrahidas dos Livros àt Receita, e Despem ék 
Axmazens Keaes , o qual hei de citar algumas vezes nestas Memorias. 

(2) Góes na Quonica deste Rei , Parte 2. Cap. 39 ; e ScTerim i 
F5^a, Discurso 2. §. 15. 

(j) O mesmo no Iiigar acima citado. 

(4) Ensaio Histórico sobre a origem das Matliemat iças em Portugal 
•te. , pa«:. 26. 

(5) O mesmo, pag. 27. 



225 

A fim de animar, c recompensar os homens, qae 
se dedicavão ao serviço da» Marinha, deo ElRei amplos 
Privilégios aos Piloros , Carpinteiros de machado , e Ca- 
lafates, de que fallarei quando tratar da Legislação 
Maritima: c para melhor defensa do Tejo, construio 
a Torre de Bdem , que era para aquelle século de res- 
peitável força. 

O augmento rápido da Marinha em numero, e gran- 
deza de navios de Guerra , que se seguio ao descobri- 
aiento xla índia (consequência forçosa do «ho voo, que 
cornou o Commercio) prôdti2Ído pela necessidade de 
'mandar alli todos os ánnòs muitos navios, huns para 
voltarem com carga , a que por esta razão se dava o 
iiomç de NJos da carreira j ,outros para ficarem servin- 
do naqueiles Estados, onde se conservavão Esquadras 
permanentes, de que por uitilxio se formou hum Depar- 
tamento separado; tornou .indispensável a organização 
.das lotações , e vencinientos das equipagens dos na- 
vios (i)^ Porem a Disciplina Militar, ainda que nâo 

(f ) Eís-aqui a-que adiei («sà nelle o achei ) no citado Manusat- 
^a A guarn^lo tleterminada para ai Ndos da carreira da Jndía foi pri- 
jmeiro de 120 praças, cJafsiíicadas deste modo: dezeseis OíHcíaes; qua- 
;fenta e dous marinheiros, inclusos dous Estrinqueiros, que serviáo de Ca- 
bos ^ marinheifos, e de Patrões de lanchas, e escaleres; cincoenta Gr^i- 
niete«; quatro pagens; e oito Artilheiros. Os criados do Gommandan« 
te não erão iiKÍuidos ^a lotação* Tinliao o nome de Oífíciaes , Mm 
do Comoiandante , o EKrivITo , o Capellâo , o Mestre, o Contra-Mestre , 
o Guardião, o Primeiro, e o Segundo Piloto^ o Carpinteiro, o Cala- 
-fatc, o Tanoeiro, o Barbeiro (que sentia de Cirui^ão), o Conde ^ta- 
>vei^ o Meirinho (que pertencia ao Corpo dos Artillieiros , e tinha a 
seu cargo a guarda dos prezos , a policia -dos fogões , e as armas , e mu- 
ní^jôrs^ , o Cosinlieiío, e o Mariniieico-Dispenseiro. Aaesceruou-se 
clepois esta lotação com hum segundo Carpinteiro , e hnm segimdo Ca- 
iafate, c dezoito Artilheiros, completando « numero de 140 praças: c 
(^assados annos teve novo augmento, com dezoito mariniieiros, e dez 
?t<umetes, sommando 168 praças; e assim se conservava em a6$4. 
^^uando as Náos levnvão Commandante <m Chefe (^Capitãc Mor), em- 

29 



226 

menos indis()en5a7el , csmrnhou corn passos mu! vaga- 
rosos, talvez por se lhe opporcm alguns prejuízos da- 
quelle scculo; c só muitos aniics depois chegou a hum 

barcavSò a s^u bordo seis Trombeteírbs , ou Citarameleiro^ , q\i« nS* se 
incluião na lotação. 

A raqão diária consistia em arrátel e ttres quartas tie bíicouto, Ihiri 
arrátel de vacca, ou meio arrátel de ^x)rco, e meia canada de vinJK), 
Isto cm dia de carne; e cm dia de abstinência, o mesmo biscouto, e 
vinho, e meio atratel de ^irroi, ou de bncalltóo, ou de queija Agua 
•huma canada ^ra beber, tr cozinhar,, mas co2inhava»ie liuma «d- vez nb 
dia. Dava«5e huma ca:^ada de azoita para 6o praças ,« húvr^ de vina- 
gre para trinta. Além di-stes mantimentos , levava cada Náo hum moio 
de farinha, sai, vinte alqueires de fesumés, oito lie amêndoas, outros 
tantos de ameixas, e huma certa porçáo de mostarda, as&ucar, e mel^ 
tudo entregue ao Commandante .paia o distribuir como quiicsc. fmm 
os doentes embarca vão-se conservas ^ .« putras dietas, 9 huma -om 4um 
boticas. As luzes rixas em huma Não erâi só três de azeite. Os víveMs 
€a}culavao*sd para quatro mezes de dias de carne, e outros tantos d» 
•bstincnria, c o biscouio para dez mezer. 

Os vencimentos eráo regulados da maneira seguinte: O GapHIe- 
Mor vencia óooj^ooo rs. de viagem redonda, c concedi ícvfe^lhe áMm 
criados (nío inclusos na guarnição) , tendo cada hum mensalmente dez 
tostões. O Commandante de huma Náo veneta aoo^ooo rs. de via- 
gem redonda; e tinha seis criados a dez tostâes por mei. O EaorK'ão 
40<^ooo rs de viagem redonda, e i a j^coo rs. de emolumentOL O C^ 
pellão 3(^co rs. mensaes. O Mestre laoj^ooo rs. de~vii|pefn. O Gmv 
tra-Mesrre $o<^ooors. O Guardião i^400rs. por mez, e aj^too tt. db 
qtilntalada ^ que era cert<i gratificação que s* pagava em Lí«boa aditn- 
tsda. O Primeiro Piloto laoj^ooo rs. de viagem. O Segundo Piloto 
1^200 rs. por nnez, e 3(j58oo rs. de ijuintélêda. Os Carpmteiíos , e 
Calafates icb^^>o rs. por mez cada hum, e Jd^çoo n. de f«iifft«lfi/#. 
O Tanoeiro i(j»^200 rs. .mensaes, e igual qtúnUUda. O Meirinho de» 
tostões mensatrs. O Barbeiro o mesmo. Os Estrinqueiros o mesmo, e 
2j)Sco rt. de qumtalada. Os marinheiros os mesmos soldos, e faúíto» 
ktda^. Os grumetes 666 r^ (hx mez, e i(^8oo rs. do ^miniãMé^ Os 
p<i2;ens 400 rs. por mez, e i(J|^200 rs. de ^ulniaMe. O Coodestwcl 
i(fc6oo rs. mema:s. Os Artilheiros dez tostões yot mez. 

VlC-ni destes vencimentos , concedi5o.se aos q4ie andavSo nas Náos 
da Intuía c rtas grat ificaoKfs , e lihcrdadts. Ao Capitão-Mor quime csi- 
xões lo valor de }oo.;J^coo rs. cada hum , de cujos direitos se lhe pec- 
doavão quinze [>or cento, e de Obra Pia 3 j^ooo cs.| e nu's <~ 



227 

gráo de perfeição toferavcl , como itiostrafei com baí- 
tantes exemplos nestas Memorias. 

Nem podia deixar de ser assim y em quánio se nSò 

-vos Fivres* de frrte , c díreíecw. A tada Imm áoii s<nis doze criados 4nT« 
ma caixa do valor de i so^^oco ts. , perdoaiido-se dez por cento , e de 
Obra Pia i^aco rs. Ao Coinoianiianto de Inima Não seb caixões d» 
valor de 2SO(í)oco rs. , abatendo-se-liie quinze por cento de direitos; e 
de Oho Pia z<J>5 00 rs. A caúa hum dos seus cridos, que lhe jx:rtei>. 
riSo, húma caixa Ã&mo^oco rs. , perdoando-lbe dez porcento, e 
4'^ioo'n: dei Obra Pia. Ao &aivâo duas caixas de ^oo^^co rs.;c'4dli 
tnioia, abatend(^-se*Jbe quinze por cento de direitos, e z^^ooo rs. ile 
Obra. Pia ;.e. ma is dous escravos livres de frete. Aa Capellâo liuipa 
caíxa'^ íaO^ooô rs. , pcrdoando-IIie dez por cento de direitos, e 
l^aoo rs. de Obra Pia, e rnais hum escravo livre de direitos. Ao Bar- 
èetffr o ucsrao, excepto escravo, qttc não le tte concedia. Ao Prhiwi- 
ro Piloto duas caixas àt iooj)ooo rs. cad* huma, com o abatimento 
de qakiztf por ceoto , e dê Obra Pia a j^ooo rs. , e mais dous escravos 
lÍYfw db dioenos., . Ao Seguixdo Piloto i.-lnioia caixa de aco(|)ooo n, , 
oom o abatiniento ;de riofe. por céota* dr dirertos, e de Obra 9'\9 
d^looo 11.^ t.nsais (por huma Pro\>fsáo de:'Sut Mi^èstade) dous escra-» 
v<is IkRsde frete,. e dedirckos. Aoitfcistjie duas caixas' de sodj^x^ots. 
tínk binmv oom a abãttmeiHo de ç^útua. por centa, e de Obra Pií 
%tfioo rs. , o mais dous esaavos liyr^s de. direitosr Ao Ootitra-Mestre 
Iwaia âaixa de aooj^ooo rs. » com o ainatiraetito .dv qiittne por cento j^ 
c jt^l^ooQ-rb de Gbta/Pia. M Guardião huaiacaixa..de ijio^ooo ri;, 
dbatewk>4e-Uie dcx por cento, « linha tsais de Obra^Pia r^occ n^^ 
J^ Carpinteiros ) Calafates ,/Tatíoeiros ,: Alarinheabs*Despensefros , c 
Ettcim|aema o muaanalo que. ao Guardião.. Aos Matiaiteiros :o me^tno*^ 
que a estes. Aos Grumetes, assim dos que prtencião aos Officiaesj 
oDRioeoi do aerviqo da Náo, huioa caix;i acada hun de Soçj^oo rs; , 
de que m lhe pesdoavão dei por cento, e de obráPia Soo rs. Aos Pa» 
gene hitm fardo a cada hum do valor de 9 j^jH f>^is, de oue !« lho 
abaeiáQ de» por coata A cada Arcilbeiro liumaxabca de 1 aoj^ooo rs.^ 
de- que se Ibb abatião quinze por cento , e i^aoo rs. de Obra Pia. 

Estes ré^^mentos soffrcráo alterado peio decurso dos tempos, co- 
mo se coUie da narração de Litischot , €\iixe no anno de 1 s & $ passou i 
Ifidta |tt Nio -Poffli^tieaa S. Salvador (Vede a Historia da Nave,i[açâo de 
JWo Ijugues de LifMehot, Hollandez , ás índias Grientaes , Ainsttpdani 
v6|&), aggregado á família do Afcebispo de Goa D. Ir. Vicente da 
E^ncecL, 'Caisisup naqueile Estado até o anno de 1 5SÍ , em que re« 
gressou i Europa; o qual riílata por extenso todos os vencimentos* aos 

2y ii 



228 

CFcasse livini Corpo de Officiaes da Mmnhz Real , 
ÍDSiruidos nas Scienclas Naudcis, ^pplicadas logo á 
pratica da Navegnção,e da l^aciíca Naval ^ ?4?m of 
mancebos, destinados a seguir aquella carreira, percic- 
rem annos em estudar nas Aulas o que Jhes íiade cs- 
qoecer no mar, onde se carece de poucas, c ^oHtkíS 
íheorias, e de muita experiência, que uuíkm he demasia- 
da. 

1497 — EiRci D- Manoel^ logo que sobio aoTIuo* 
110(1), determinou proscguir o descobrimento do Orien- 
te^ e para este fim, achando se em Monte Mor o NofO 
no anno de 1490, leve sobre esta matéria alguns conse- 



individue») que compunhso a guarnição do S» Sdrador, onde le e^ 
contrj algunw differenqa not neus vencimentos, e rações. 

Quero por ajui^ por curiosidade, a ioiacão de humt petfOtfnft 
Fragnta.^ ou Corveta (na<)j%a cm (re7e pc$ de a^ua^, chamada Gúmtio^ 
«|ue no anno d^f 1757 foi mandada cruzar na Coçta do Algar\*e contn 
a Mouros, CT))o Mappa tenho n vhu: Hum Capiíáo áe Ma? e GtKivt, 
dous Capitães Tenencer ^ hum Mestre, hunn G>ntra Mestre , hum G119- 
diSo, três Pilotos, dous Capei lãei , hum Escrivio, hum DeipelueiMl, 
lious Carpinteiroi , dom Cal afarei, dotu Tanoeiros, dout Cirurpriâi» ^ 
doui Saiigradúrcs , dous Cozinheiros, dons Trombet^iros , hum Tmdi»-' 
leiro, lesfenti mariniieiras, trinta grtmietes, e vinte pagens. Tropa 
de Artilhcria: Dous Conde^taveís , hum Meirinho, hum SerrslheirOf e 
trinta ArtiUiciros. Tropa de Infanteria: Hum Capitão, hum Trncn«tt, 
^um Alferes , dous Sargentos , hum Tambor, e ciucoetíta e quatro Sol* 
dado^. 

((> Vede Barros, Decasta^ r. Liv. 4, Capinilot de 1 até 4« Akaé^ 
c]uo eu seguirei em geral a este Escritor, terei com tudo obrh^jda •• 
recorrer aí^íunras vezes a Fernão Lopes de Castanheda (Liv. i, Capituim 
lie I ate 1) parn encher os vácuos, que se encontrjo naqnelle gniide^ 
Histonador^ que parece não teve noticias tio indiriduae» dos acoctêeci^ 
mentos desta primeir.i Vra^m de Vasco da Gama, como obteve Casti* 
nheda^ talvez pela kitur» de aí^um dos Diários da sua Esquftdra, oth 
iiiforma<;áo de pessoas ;i clU pertencentes. Entáo se deve acreditar, qiae 
£ikrros , sabendo as tnesnias particuUriditdes , as desprciassr, sendo rJo. 
sqJIícíco, como era, em aproveitar todas ai ctrcunstanctit, que fio^iCi^ 
relevar as suai belfas des^rípróes, como sabem os que (em li^ dai Wip 
Obr4« 



229 

Ihõé(f)« em que «e dcrâo difFèrêntes rotos, sendo o 
mmor namero, de que a índia se nâo devia descobrir', 
ímidando esta opinião em que , alem de trazer comsigo 
muitos encargos , por ser Paiz mui remoço para se po- 
der conquistar , c conservar , enfraqueceria tanto as for» 
ças de Portugal, que ficaria escc sem as necessárias pa- 
ra a sua conservado» Em segundo lugar, que desco- 
berta a índia y cobraria este Reino novos competido- 
res, de que já tinhSo experiência has^ contestações entre 
ElRci U. Joáo II. e EÍRei D. Fernando de Castella 
pelo descobrimento das AntHhas^ chegando ao ponto 
de repartirem entre si o Mundo em dua^ partes iguaes, 
para o poderem descobrir, e conquistar», £ por ultimo, 
se esta amhiçao de Paizes incógnitos produzira aquelU 
repartição só á vista de algumas amostras dos géneros ^ 
que se tiravâo de Guiné , o que seria , se viesse a Por«- 
lugal quanto se dÍ2Ía das Regiões Orientaes^ 

A estas raz6es se oppozerâo outras mais acceira» a: 
EIRei, por serem conformes a seu desejo; e as princi-- 

Saes , que o movérâo , forâo : ter herdado a obrigaçãot 
aqujella Conquista com a herança do Reine ^ e o In« 
hate D.. Fcunaodç scuh ^i haver concorrido^ para este 
descobrimento quando mandou descobrir as Ilhas de Ca* 
bo Verde, e mais pela singular aflFeição que conservava- 
á memoria do Infante D. Henrique seu Tio, que fora 
o aurhor do novo Titulo do Sedierio de Guine \ resu- 
mindo-se a final na esperança de que Deos facilitaria o» 
meios, que convinhão a bem do Reino^ 

Determinado ultimamente em continuar neste dey* 
cobrimento , declarou , passado tempo ,, em Estremôs a« 

(i) Damfl» d» Góes CK^rte*^* Oip» ^ dá. sua Chionica d'EIRe>: 
Dl Manoel ^ diz , que estes Conselhos fbr5o feitos no mez de Dezembro' 
de«i49$} • que determinado EIRei a continuar o desccinimento óm 
luêhkj nundou logo preparar os naviof^ no que se gastou naais- de bunai 



230 



V^^co da Gama, Fidalgo da sutOsa, porCapUíoMór 
dn Esquadra, qxie queria mandar (i), tanto pela coiti^ 
fiançii que delle fazia , como por ter direito p 
gcm ; por quanto, segundo se diz, seu pai £;:.._ „., 
Gama, já defunto, estata destinado para esta CDmmts* 
5ão por ElRci D< Joio , o qual, depoi? de Rir' ' _^ 
Dias regressar do descobrimento do Cabo de _ , i^s- 
pcrança j, fez cortar as madeiras próprias para navioi 
mt\h c;ipazes; e por esta razão encar EIRei D. 

Manoel ao mesmo Bartíiolomew Dias ti ijo iJc os 

acabar, segundo sabia que convinhão para sòftVer os^mn. 
res do Obo da Boa Esperança; que na opinião dot 
Naveg^jntes começava a crear outra fabula de perigo* ^ 
como antigamente fora a cio Cabo Bojador. È assim 
pelo trab:ilho que Barthofomeu Dias ler ou no apercebi- 
mento destes navios, como para ir acompanhando a Vn$^ 
CO da Gama até o pór em tal paragem, que lhe ftcJí^ 
nsse a sua derrora , lhe deo o commando de hucna das 

, (i) Segundo Góes (no Jiigar acima citaiia), EIRei íci Cocuelhg «h 
bre quem mandaria ao d^scobrinitímo da ludia , c avstrntou-se qutf focie 
Vasco dá Gami , Fidalgo da sua Ca^a, n.Uural de Sines, homem sokev 
fo, e de idade para softrtr os trabaílios ^3 vh^tm : c que quaiido EXRm 
Uie declarou em publico a tua nomiraçáo, Vasco da Gama Ibe |)cdlD'0 
cSeixai$e levar por ccunpanheiro a seu irmão Paulo da Gacna, O ifm 
EIRei lhe cooced^o; e nomeou depob também a Nicoláo Gxrlho, Cft* 
vai !e iro da sua Casa* 

Castanheda díz, que EIRei oífereceo o commando da cxpecNçfo tf 
Piau lo da Gama t que le escudou peia &ua má saúde ^ peduidc^Un» o coi^ 
ferisse antes a seu irmão mais tnoco Vasco da Gama, ;a eKperíni«iCiÉ» 
nas cousas do mar , onde fizera muitos serviços a ElRei D. Joãa IL, e 
p>or ser homem de grandes espíritos; c que EIRei lhe deo logo btavt 
Gommenda, c dirtíiciro paw te aperceber. 

Eu desejaria» que Ca.nanlieda individuasse aqui oi servi^oi «mtrio- 
m de Vasco da Gama, que não achei ecn Eicritof al«unci; ao mcmna 
tempo que me purcce evidente, que ells os ttiiíta feito; porqua nê^ ím 
provável, qtis EIRei eicoJhesi9 para cominaudar timtihame txfxOi^, 
em qu« todo Poctusal in^kà ot olbos, a íuiru booKA nom^o am Art«t 
Náuticas, existindo hum Battholomcu Dias. 



I 



\ 



sai 

<ínkbirta$6e$, qoe de ordinário hiaò a S. Jorge da Mi- 
na. 

Entrado* ji no anno de 149^, em que a Esquadra 
se actraTa proDTpta, tnandou EiRei chamar a Monte Mor 
o Novo a Vasco da Gaiiija ^ e aoB outros Comraandan- 
<es , que erão iPaiilo da Gama seu irmão , e Nicoláo 
Coelho (1); e ainda que Ibe unha já explicado a sua 
dutençâa, e lhe havia mandado f))zer as suas Instruo- 
ições , qoir agora praticar i^to com maior solemnidade, 
fazendo-lhc numa falia publica na presença de algumas 
pessoas. notáveis, para isso chamadas; na qual expoz as 
razoes que tivera para emprehçnder o descobrimento 
da Indi^ y xieduzidas dos benefícios resultantes da propa- 
gação, .da Ké Cathoíica no Oriente, e do augmento de 
gloria, cde riqueza^que esperava de tamanha empreza, 
^ndo eara confiada a hum homem de tanto merecimen* 
^o coma eUcí 

Acabada a pratica , todos os assistentes beijarão a 
.mão a£iRei;'eposto Vasco da Gama dê joeliios, apre- 
:9entou 'O Escrivão da Puridade huma bandeira dp seda 
branca^ 'tendo notriciq aCruz da Ordem de Christo (2)^ 

(O 'Góes (ao lugar citAdo> diz, qvm isto foi no mezxcb Janeiro 

^ Í497Í ^ .. 

(a^ As bandeiras da Esquadra de Vasco da Qama er9o coi;no e^ta; 
e quando, passados annos ^ hoiíverão na Ir.dia Esquadras pertencentes 
tíqiidlefiMo, as suas batiáeiras tinbão no meio as Armas Reaes, e por 
M\o dcUjs a Gru2 da Ordem de Ghrisco ; costume , que durou até aõs 
princfpígs-4o seçiito passack». Couto ^ Memorias Al ii irares , (orno f. 
. pag, 2$ J. Também parece , que ^ Náos da índia tra^ião pintadas nas 
«avia« huinas grandes Cruzes vermelhas, pois, segundo Castanheda, por 
este s^nal conheceo Affonso de Albuquerque a Esquadra de Diogo ]V)en« 
tlet de Vasconce^lof , qtie hia de Portugal ; mas ignoro quando se intro- 
fhttJO MC costurpjí. Casli^nbeda y i^iv. ]• Cap. -^4. 

Devo advertir aqui, que o Capitão Mor, ou Commandante em Che- 
fe de huma Esquadra, ou Divisão de Náos da Carreira da índia, trazia 
batida ira no tope grande , como General ; o ainda que se encontrasse 
com outra Esquadra qualquer ^ não recebia ordens do seu Çbefe. Esta 



232 

sobr: a qual Vasco da Gama deo em voz alta a sr^itts* 
te juramento , por modo de homenagem : <c Eu Vasco 
7f da Gama, que ora por mandado de Vós, mui Alto, 
>9 c mui Poderoso Rei meu Senhor, vou descobrir of , 
» maresj e terras do Oriente da Inda , juro em o signaC 
Ji desta Cruz , em que ponho as mãos, que por serviço ' 
>i de DcoSj e vosso, eu a ponha esteada, e nao dobra- 
99 da ante a vista de Mouros, Gentios, c de todo 0| 
yy género de Povo aonde eu for: e que por todos o%\ 
»9 perigos de agua , fogo, e ferro sempre a guarde ^ c 
9j defenda até i morte* E assim juro, que na cxecu*i 
M çao, e obra deste descobrimento, que Vós, meu Rei 
» e Senhor, me mandais fazer , com toda 2 fé^ Icalda- 
99 de, vigia, e diligencia cu Vos sirva, guardando, c 
99 cumprindo vo«sos Regimentos, que para isso me fb» 
» rem dados, aié tornar onde ora estou ante a preFCii- 
9» çã de Vossa Real Alteza, mediante a Graça deDcos^ 
79 cm cujo serviço me cnviaes. >» 

Feito este jura mento, foi-Ihe entregue a mesma ban- 
deira, com hum Regimento, em que se continha o que M 
devia fazer na viagem , e algumas Cartas para os Frm- ^ 
cipcs Indianos, a que propriamente era enviado, assim 
como ao Preste João > c ao Rei de Calecut, com todas 
as informações, e documentos, que ElRei O. Joao Itofcm 
havido daquellas partes. 

Concluído este acto, partio Vasco da Gatx^ para 
Lisboa com os outros Coramandantes ; e na entrada de 
Julho, achando-se os navios prestes, mandou recolher a 
gente abordo para sahir, sem aitender á eleição dos me- 
zes, porque naquelle tempo não se conheciSo ainda as h 
montões. Esta vão os navios surtos eái Belém , e na v^- I 
pêra da sua partida foi Vasco da Gama ter vigitia com 

ffeemincncia durava H^ m seu regresso a Portugal , aiudâ aue ss rrciài* 
aJiie a Ef^fuadri ao ttw unico envia 



J 



233 

todos os p)mmandantes na Ermida de Nossa Senho- 
ra , que o Infante D. Henrique fundara naquelle sitio, 
em que estavão alguns Freires do Convento de TJiomar 
para administrarem os Sacramentos aos navegantes. No 
aia seguinte 8 de Julho concorreo alli muita gente, huns 
por devoção^ outros para se despedirem dos que par- 
tido ^ e Vasco da Gama cmbarcou-se acompanhado de 
huraa devota Procissão, que os Freires ordenarão, se- 
guida de toda a gente da Cidade, entoando a Ladainha, 
até chegarem á praia , onde estavão os escaleres da Es- 
quadra; e aioeinados todos, o Vigário da Casa os ab- 
solveo na forma das Bulias, que o Infante D. Henriquâ 
obtivera para os que fallecessem nestes descobrimentos, 
c conquistas ; acto que se concluio com lagrimas, como 
era natural acontecer em tal occasião. ^ 

Constava a Esquadra de três navios de Guerra (i), 

(O Ctitanheda alfirma, que EIRei, aproveitando-se das Instrucçucs 
e R^imentos Feitos pelo seu antecessor, mandou construir dous naviot 
das madçiias já cortadas, hum de cento e vinte toneladas, por nome 
S. Gabriel , e outro de cem toneladas , chamado S. Rafael ; e comprou 
huma Caravela de cíncoenta toneladas a hum Piloto chamado Ecrrio, de 
quem ella conservou o nome. E que como nos navios da Esquadra não 
cabilo mantimentos para três annos , comprou mais outra embarcação 
de duzentas toneladas, para ir carregada de mantimentos ate á Aguada 
de S. Braz , e ser alli despejada , e queimada. A guarnição da âqua- , 
dra , segundo o mesmo Historiador, era de cento e quarenta e oito pes- . 
soas; c fifttholomeu Dias só a devia acompanhar ate ás Ilhas de Cabo 
Verde. 

Pedro Barreto de Rezende no seu Epilogo manusaíto dm Víqc-^ 
Réis da Indiá, escrito em i6j5 (Obra db que Barbosa não teve noti«^ 
cia), diz, que a guarnição dos três navios de Guerra era de cento e. 
sessenta homens, entre soldados e marinheiros. 

Faria c Sousa (Ásia Portugueza, Tomo i. Parte i. Cap. 14,) diz, ^ 
qtie a guarniçSò da Esquadra se compunha de cento e sessenta pessoas^ . 
de mar e guerra, e parece excluir a equipagem do navio dos manti- 
inentos , a que chama hum Barco : que Vasco da Gama levava por Con- 
ícaor a Fr. Pedro de Cobilhôes, Religioso da Santíssima Trindade, o 
primeiro Sacerdote que passou ao Oriente: que Feináo iMartins, e Mar« 

30 



» 



234 

é hum Transporte de mantimentos: no primeiro, cha- 
mado S. Gabfiei, hia Vasco da Gama , IcvítkIp por Pi- 
loto a Pedro de Alemquer, que se achara no cfescobri- 
mento do Cabo da Boa Esperança, e por Escrivão Dio- 
go Dias, irmão de Bartholomeu Dias: do segundo na- 
vio, por nome S, Rafael, era Commandantc Pauto dá 
Gama , Piloto João de Coimbra , e Escrivão João de 
Sá: commandava o Bcrrio Nicoláo Coelho, era séu Pi- 
loto Pedro Escolar , ou Escobar , e Escrivão Álvaro dt 
Braga; o Transportes levava só alguns marinheiros, ç 
Commandava-o Gonçalo Nunes. O total da gúárni^o 
ãcsxcs navios era de cento é setenta homens , entre ma- 
rinheiros, e homens de armas (soldados armados ofièn- 
siva e defensivamente) j e o porte de cem' até cento e 
vinte toneladas (i). 

tim AíTonso erio Pilotos, e servido de interpretes; e que entie ot 
soldados se distinguido Fernão Veloso, AJvaro Velho, e os dous imio^ 
Fedro de Faria e Figueiredo, c Francisco de Faria e Figueiredo ^ que 
ftlíecérão no Cabo das Correntes, o ultimo dós quaes era biiJB iUintie' 
fl»eta Latino. 

He preciso saber, que Vasco da Gama levava dez oii dikte dègra- 
dMos para deixar nos Portos, que bem lhe parecesise , os qúaiês o&> afò 
iftciuidos na guami(;áo da Esquadra. 

(i) O celebre Historiador Robertson achou que os três nairiot, d» 
^be se cnmpunlia a Esquadra de Vasco da Gama , erão em demasia pe- 
quenos, e sem a íbrça necessária para aquclla commi&sía (Qarke , TV^ 
íòicy 1. Cap. 2.) 

Eu creio, pelo contrario, que estes navios, relativamente is cv- 
cAmtdncias do tempo , erão mui adequados pra préencfierem os fini , ^ 
qOe EIRei D. Manoel se propunha nesta pri!i)eira expedi^So, os 
se- redu2Íão a marcar a linha da navegação para o Oriente; a'' 
o estado Commercial e Político daquella vasta Regíáo, quasi < 
cida, sem espantar os seus Reis com hum apparato dè forqí, qiiê Ot^ 
obrigasse a Ii;Tartm-se desde logo para niaM«^rar qualquer tentatív^ qpe ' 
oi Portuguezes depois arriscassem para se firmar no Paiz'; e a expmur^ 
e leconhecirr os Portos mais opportunos para arribadas, e cstabcíeçhBfifi 
tCS mercantis. 

Âccresce a estes motivos a facilidade, que dava a Vasco' da X^ãne^ 



239 

. No mesmo dia 8 de Julho de 14,^7 sahiò Vasco da 
Gama com a Esquadra , e o navio da Mina de Bartlio* 
lopieu Dias, dando aos Commandantes por ponto de 
rí^ualao a Ilha de S. Tiago, no caso de occorrer alguma 
separação. Aos oito dias de viagem avistou as Canárias, 
e com a cerração e máo tempa que sobreveio, se apar- 
rirão de noite os navios, reunindo-se no fim de oito 
dhis, menos ode Vasco da Gama, que enconirárâo na 
tarde de 27 , e o salvarão com tiros de artilheria, e to- 
ques de trombeta (costume daquelle tempo) ; e no dia- 
seguinte (i) seguio toda a Esquadra na liha de Sâo» 

a mesma pequenez dos seus navios , para evitar os riscos de hunia na- 
vegaqáo , que além ào ponto a que chegou o famoso Bartholomeu Dias , 
e»a descQDliecida; e ate se ignorava se os navios grandes de quilha acha« 
riáo Portos, Rios, e fiabtas em que se abrigassem das tempestades, e- 
podeswm refazer*se de víveres, e aguada. E da experiência do passado- 
se deduzia, que se devião encontrar naquelles nures virgens muitas. 
Ilhas , e baixos , huns occultos , outros descobertos ; circunstancias em 
que as embarcações pequenas tem toda a vantagens sobre as grandes , . 
n^ só-pelairapideiooiíi que virto.., e manobrão , mas por passarem 
a saívo por cima de bancos, e parceis, ém que os grandes naufrágio ;j 
e adiarem taqibem guarida era Portos , e Rios , onde estes não tem 
fundo sufficiénté para ancorar. 

De lesto. a obter vaçáo critica de Robectson con%'erte-se em louvor* 
da Vaaoo da Gama, porque. ^ndo certo, que merece mais louvor quem^ 
co,m.,poucof meios obcem gnndes resukados, se se conopararem os^es^' 
canoa amíilios que as Artes, è as Sciencias, ainda, infantis naqueile^se-'^ 
ctílo , derfo a Vasco dtf Gama para completar a sua viagem ; com oi: 
immensoi socporros de toda a espécie , que as mesmas Artes , e Scien- 
ciftt cm;|odp .0 seu vigor no século passado fornecerão a Cook , Van- 
cowi;r, e La Ftyiouse, persuado-me, que todo o homem intelligeme,.* 
e desapaixonadp escplheria ser ant^ hum Vasco da. Cama , do que quat*^ • 
qúeír destts illustres Navegantes. 

Porém esta matéria |)edia huma Dissertaçlo , que por não caber 
noi^tsciei^QsJimites de-.huma Nota, deixo para outro tempo. 

(») • ^MI><lQ.3ftKr08 , Vasco. da Gama chegou com treze dias áé 
viagem i Ilha de S. Tiago , isto he , a 21 de Julbo; mas Castanheda, 
e D^raiiçi ác Gim (Paite i. Cap. )$ ) dizem que (bi a 28 , opinião 
qi^.eu>eguL.fundaÀ> na particular individuado, que faz Castanheda 
desta viagem. 

30 u 



23<S 

Tiago j onde gistou pete dias em fazer aguada, c re- 
parar as avarias da tormenra passada. "^ 

A 3 de Agosto partio desta II lia Vasco da Gama^ 
deçpcdindo-se de Bartholomcu Dias, qtK* seguio viagem- 
para a Mina, c ellc para o Cabo de Boa Esperança^ 
jiivegnndo m.iis amnradot em cuja derrota consumio C5 
iTiezcs de Agosto, Setembro, c Outubro, com muitas 
tormentas de ventos^ chuvas, c cerrações; até que achan* 
do-se na altura, que julgou sulHcienfc para ir demandar 
a Costa da Africa, virou no bordo de Lesre, ea 4 
de Novembro descobrio terra com tanto prazer de to- 
dos, que os Commandnntcs o salvarão com os navios 
embandeirados. Porém aproximanJo-se da Costa, e não 
a conhecendo, virou no mar, e scguio o bordo por rrcs 
dias ; e virando outra vez na terra , foi entrar em huma 
grande Bahia, a que póz o nome de Santa Helena (1)^ 
com intento de fazer aguada. Os habitantes vcstiao-se 
de pcllcs, erao pequejios de corpo, mais baços que os 
Negros de Guiné, de aspecto feroz, e fallando parecia 
que soluçavâo. 

Surra a Esquadra , e observando Vasco da Gama» 
que em toda a Bahia n3o desembocava ribeira alguma^ 
cm que podesse fazer agua, enviou Nicoláo Coelho ao 
longo da Costa na sua lancha, o qual descobrio hum 
Rio de agua doce dalli quatro legoas , a que pôz nome 
de S, Tiago, e dclle se proverão os navios (z)» 

No dia seguinte ao da ^ua chegada, desembarccu 
Vasco da Gama com rodos os Commandantes , e Pi- 
lotos para tomar a altura do Sol com hum grande 

(O A Bailia áú Sanu Helena eiiá (a lua ponta do Norte) em ji^ 
31 ' át Jatitude Sul , e i6^ de longitude. Os Povos deita Bahk ilo h^ 
|e diamadoí Hotentotet. 

(a) O bom juiio de Vatco kU Gama lhe fet ver a necefiidbde * 
reuovar a aguaJa , sempre que o podia fazer* Era hunia d» muiintf 
de Cook i^afi conieivAT a saúde da sua gente. 



237 

Astrolábio de madeira de três palmos de diâmetro, 
o qual , posto que mais exacto do que os outros Astro- 
lábios pequenos de metal que leva vão, não podia ter 
liso a bordo de embarcações tão pequenas , que arfavão 
muito com o mar, por ser necessário suspende-lo em 
huma espécie de cabrilha. Alem disso desejava colher 
alguma lingua de terra, e saber a distancia a que lhe 
ficava o Cabo de Boa Esperança , de que o Piloto Mor 
Pedro de Àlemquer se fazia trinta ícgoas (i) , ain- 
da que não conhecia a terra, por h.ivcr passado de 
largo quando foi ao descobrimento do Cabo com Bar- 
tboJomeu Dias. 

Entre tanto afguns Portuguezes, que andávao espa- 
lhados pelas praias e matos, derão com dous Negros, 
que estavão apanhando mel aos pés das moutas com ti- 
ções de fogo na mão , dos quaes segurarão hum. Vasco- 
da Gama , porque não havia quem o entendesse, e clle 
de assombrado não acodia aos acenos, mandou vir dous 
grumetes, de que hum era negro, e estes o^Étovocárão 
a comer e beber j e a final mostrou por acei^ humas 
serras, que serião duas legoas, dando a entender que 
junto delias estava a sua Povoação. Vasco da Gama o 
mandou soltar , dando^lhe cascavéis, contas die vidro ,, 
e bum barrete vermelho, acenando-lhe que se fosse, e 
tornasse com seus companheiros, para lhes dar outro 
ranto; o que cllc fez logo, trazendo aquella tarde dez. 
ou doze, que receberão iguaes presentes} e apresenran- 
cío-Ihes amostras de ouro , prata , e especiaria , de ne- 
nhuma derão noticia. 

No outro dia já com estes vierão mais de quaren- 
ta tão familiares, que hum soldado chamado Fernão Ve- 



(O ^te calculo de Pedro de Alemquer, hum dos melhores Pilotos 
cUqueUe tempo , era sufficientemente exacto , e por is^o mesino deve 
parecer hoje extraordinário. 



23B 



loso pcdio licença a Vasco da Gama para ir com clles 
ver a Povoação , o que lhe foi concedido* 

Partindo Fernão Veloso com os Negros, e reco- 
lliendo-se Vasco da Gama ao seu navio, ficou Nkolao. 
Coelho ainda cm terra para dar guarda á gente, crii^ 
quanto imns apanhavão lenha, e outros mariscaváo la* 
gosta , por haverem alU muitas. Paulo da Gama vendo. 
andar entre os navios muitos baleatos atraz do cardume 
do peixe, foi com dous escaleres a elles , e feriado 
hum , como o cabo do harpão estava amarrado aos to- 
leres do escaler em que ellc hia , esteve quasi virado 
com o barafustar do balcato, de cujo pengo escapou^ 
por ser o cabo comprido, c o fundo tão pouco, que o 
baleato deo em seco, e não pôde mais nadar, o quâi- 
sérvio de refresco. 

Sendo já sobre a tarde, appareceo Fernão Veloso 
descendo por hum monte mui apressado. Vasco da Ga- 
ma , como tinha os olhos em sua tornada, mandou bra- 
dar ao escaler de Nicoláo Coelho, que se recolhia d« 
terra , que torn.isse a ella para o recolher, porque Fer- 
não Veloso nunca deixava de fallar em valentias, quin- m 
do o virão descer á praia, a acinte se dctiverao em o -f 
soccorrer: a qual detensa deo suspeita aos Negros, que 
estavão emboscados, de que Veloso fizera algum signil 
que não desembarcassem* E querendo clle entrar no es- 
caler, arremeterão dous Negros a elle pelo entreter, 
da qual ousadia sahírão castigados, a que acodírão et 
outros} e foi tanta a pedrada, e a frechada sobre o » 
cálcr, que quando Vasco da Gama chegou, fui í^ido 
em huma perna, assim como Gonçalo Alvares, Mci* 
ire do Navio S. Gabriel, e dous marinheiros. Vcodo 
Vasco da Gama, que com elles não havia meios de 
pa2, mandou remar para os navios, e á despedida al- 
guns Besteiros empregarão nelles a sua munição, vct 
nío ficarem sem castigo. Passados quattO dias, deo Vas» 



239 

ço às, Gama á yéla a i6 de Novembro (i), com vento 
S.S.E., seni jeyar informação da terra, como deseja- 
va , porque Fernão Veloso não vio couça que contar, 
senão o perigo que. dizia passar ençre os Negros; os 
quaes tanto que se apartarão da praia, o fizerão tornav 
çòmo querendo-o ter por negaça, par^ quanJo o fossem 
recolher còmmetterem alguma maldade^, como intenta- 
rão. . . i 
Na tarde do dia i8 vio Vasco da Gama o Cabo 
íle Boa Esperança , e como o vento lhe era contrariq 
para o dobrar^ foi de dia no bordq do mar, e de noite 
na terra até ao dia. 20 (2), que cqm menos perigo da 
que se esperava, o dobrou, indo ao Icuigo da Costa com 
\ento em popa, com grandes folias, e tanger de trom- 
betas i e dia de Santa Caiharina (25 de Novembro) che-* 
gou à Aguada de S. Braz (3)^ sessenta legoas alem do 
Ç9bo,.ÊlpQ$to que. achou iíegros decabelio revolto, co- 
mo os passados , estes sem reçjçio algum chegarão aos 
escaleres ^ receber as cousas^ que lhes lançarão na praia , 
e, por acenos coméçáraQ logo a eptender-sc. com os Por- 
tuguezes , e derâo carneiros em troca de outras cousas ; 

• CÒ Sçgfiodo Castanheda, e Góes (Cap. .56) , oue trazem esta pre- 
eh» data da tahida de Vasco da Gama da Bahia de Santa Helena. ^ 

(a) O Caibo de Boa Esperança he o mais famoso, e conhecido de 
tock a Africa^ por isio julgo inútil a sua descrtp^áo) mS advertirei^ que' 
a.Jlabia da.Mçza he. a 'verdadeira Aguada.de Saldanha, onde os Cafres: 
iiutdrío ao y.ic(;-Rei IXPrancisco de Almeida, com a flor dos Officiae»^ 
da índia, que 9 acçmpanhárão na in;)prudtfnte correria, que fez naquelle 
Ptâiz , cintio selvagem. A ignorância dos Navegantes Hollandezet deo o 
nome cia &hia dé Saldanha a outra grande Bahia,* cuja ponta do Norte' 
eitá em i j° 5' de latitude Sul, e.^tf^. lo' de longitude.. A lituaçâo' 
d«f Csbq díe\ foa Esperançi, no ancoradouro da Cidade , he a seguinte : 
Uettude S\fí i)^. $y 24' , f lpngku(te j6* J4' ^5". 

(O A Aguada, ou Kihia d^ S. Braz, tem na ponta de Oeste 54^ 
3 a' de kititude Sul, e 40^ 10' de longitude. Esta Bahia tem três \f 
%oxi de boca , pcuiL fundo limpo , e lia nelia hum Ilhote : abriga muito 
dos ventos Ponentcs. Chamáo-lhe os Inglczes FIcsIi-tay. 




4 



mas de gado vaccum nunca poderão haver dellcs Imraa 
so cabeça; parece que o estimavao, porciuc alguns boíf 
mochos, que traziao, andavao limpos, c bem pensados | 
e vinhâo as mulheres montadas nelles com albardas dé 
tabiia* Em ires dias, que Vasco da Gama se detere, 
tiverao os Portuguezcs muito prazer com elles, por ser 
gente prazenteira, dada a tanger, e bailar, entre of 

?|uaes havia alguns, que rocavão era huma espécie de 
rauras pastoris , que em seu modo parcciao bem. Desta 
Bahia se mudou Vasco da Gama para outra dal li pcno^ 
porque entre os Negros e a gente da Esquadra houvera o' 
algumas contestações, indo elks ao longo da praia cami- 
nhando sempre á vista dos navios, até ancorarem, E por- 
que quando chegarão hia já grande numero de Negrof 
mais em modo de guerra, que de paz, mandou-lhes ati- 
rnr alguns tiros de peça por airo, somente pelos assoin^ 
brar, c foi tomar outro ancoradouro a duas legoas de. 
distancia, onde rccolhco os mantimentos que levava no 
Transporte, e o queimou. r 

Partindo deste lugar a 8 de Dczerabro^.no dia iz 
lhe deo hum temporal cm popa, com o qual correo i^ 
arvore seca; e ainda que Nicoláo Coelho se separou, lo-^ 
go.na noite seguinte se tornou a reunir. Abonançando o 
tempo, vírao a terra no dia i6, onde chamão os Ilbcoí 
Chãos (i), cinco legoas avante do Ilhéo da Cruz, coi 
que Bartholomcu Dias deixou o derradeiro Padrão, A ter- 
ra era graciosa, com muito gado c arvoredo, o aucsc 
percebia dos navios, por irem mui peno delia ; e faico- 
do-se já com o Rio do Infante, capearão de noite, c oo 
dia seguinte saltou o vento ao Levante, com o qual an- 
darão bordejando. No dia 20 passou o vento ao Po- 
nente, e indo reconhecer a terra, ach;írao-sc no outra 
dia com o llhco da Cruz, sessenta legoas a ré do ronfo 

Qt) Ji tratei delles na Viagem de fartholomçu Dm, 



241 

cm que se fazião , de que crão causa as grandes corren- 
tes; mas crescendo muito o Ponente, vercérjo a cor- 
rente da agua , e dia de Natal avisiárão a Cesta, a que 
jChamárâo (i) deste mesmo nome. 

A IO de Janeiro de 1498 (2) indo a gente a quar- 
tilho d'agua, cosinliando-se já com agua salgada, anco- 
rarão denônte do Rio ^ a que dcrão o nome de Rio de 
Cobre, onde comprarão aos Negros muitas manilhas 
deste metal, e marfim, e maniimentos, tencio tanta com- 
munica^âo com ellcs, por Vasco da Gama os sarisfàzer 
com dadivas, que Martím AíFonso, pratico em muitas 
iinguas de NegrotS, e que entendia a destes, foi á sua 
Áidea , cuio Chefe não só o recebeo com grande festa , 
mas quando tornou ao navio, pelo honrar mandou com 
elle mais de duzentos homens. Depois elie e outros 
wicrSo visitar os navios, e em seu tratamento mostravâo 
habitar era terra fria, por virem alguns vestidos de pel- 
les; e por causa da muita familiaridade, que tiveráo 
coxu os Portuguezcs em cinco dias que a Esquadra se 
deteve neste ancoradouro, lhe pôz Vasco da Gama o 
nome de Aguada da Boa Paz. E sahindo a 15* de Ja- 
neiro (3)) começou a afastar-se da terra, com que de 

(1) A tcfrt do Natal comeqa em latitude Sul 12^ 1 7', e 47^ 2' dê 
lonptude, e acaba na latitiide de 50^, e longitude 48'* $8'. O R,io 
do Natal entsa no X3ceano Indico em io*^ >de latitude, e he o maior 
daqueUe Paiz : tem na boca huma barra com dez ou onze pés d'i^«, 
« dentro mais funda 

Ct} Barros diz, que foi a 6 de' Janeiro, dia de Reis, e por isso de« 
■ão este nome ao Rio. Castanheda , e Góes (Cnp. 56) dizem , que fora 
Kx> dia 10, cuja data combina com as circunstancias, que relata o pri- 
eiró destes dious últimos Escritores. Este Rio dos Reis, ou do Co- 
te he o mesmo, que a Aguada da Boa Paz: lie hum Rio pequeno, em 
ue náo podem entrar navios, os quaes são obrigados a dar fundo por 
Va dos recifes. Está na latitude Sul 24* 45', e longitude $1** 4}'. 
m todas as Cartas tem o nome de Rio do Cobre. 
CO .Eacros náo traz as épocas da sahida de Vasco da Gaina da Agua* 

;3i 



^ 



242 

noite passou o Cabo das Correntes (i) ; porque começa 
ta a Costa a encurvar-se para Oeste, e sentindo que t$ 
aguas o apanhaváo para dentro, temeo ser alguma Eo» 
seada penetmnte, d'onde não podesse sahir. 

Este temor lhe fez dar tanto resguardo, por fugir 
da terra, que passou sem haver vista de Sofalla (2), Ci- 
dade tão celebrada naquellas partes por causa do muito 
ouro, que os Mouros alli recebem dos Negros da tei^ 
ra por via do Commercio , segundo depois soube : e t 
24 chegou á boca de hum Rio mui grande, além dellè 
ciiicoenta legoas, vendo sahir delle alguns barcos com 
vébs de palma, equipados de Negros de boa estatura , 
cingidos de pannps de algodão azul , que sem medo ak 
gum entrarão nos navios. Entre estes e outros que coiK 
correrão depois , havião alguns fulos , que pareciâo mes- 
tiços de Negros, e de Mouros. Muitos traziSo torbao- 
tes brancos, e de seda de varias cores, e alguns tam* 
bem entendião palavras do Árabe, que lhes fallava Fer* 
não Martins, marinheiro, ainda que o seu idioma pro^ 
prio ninguém o entendeo. Por estas palavras, e por ace» 
nos disserão, que para o Nascente havia gente liranca, 
que navegava em navios como aquelles , os qutes vi2o 
passar por aquella Costa em differemes direcções. 

Todas estas circunstancias derão grande animo aos 
Navegantes , com a certeza de se irem apr<»ifsando i 
índia, c por e5^ta causa- chamou Vasco da Gama a este 
Rio dos Bons Signaes (3). £ vendo a segurança, c boa 

& da Boa Paz, iiem da sua chegada ao Rio dos Bons Siji^naes; poréffl 
achâo-se em Castanheda, e Damiio de Góes, d'onde as copiei; porqw 
as datas das sahidas , e entradas de Portos são essenciaes na Hbtorii dp 
huma Viagem. 

(O Situado na Costa da Africa Oriental, latitude Sul s|^ 40^1 
longituífc J4* 50'. 

(2) Cidade mui rica pt\o seu Commercio do ouro, situada naCoiti 
Oriental da Africa, na latitude Sul 20*^ 22', e longitude $ }• ai'. 

CO Hste Rio iie a Zambcse, que penetra cento e oitcma legoas pt» 



243 

fé dos Negros no trafico que úahio com os seu$, ven- 
dendo-lhes mantimentos da terra , carenoa , e concertou 
Os navios 3 por virem já miú cujos, e comidos ck> giM« 
AO (i)y em que gastou trinta e dous dias; e neste màiú 
tempo, com autilio dos naturaes, pô^; hum Padrão pof 
nome S. Rafael, dos que levava para este descobrímentm 
Mas para nSò ficar sem desconto de trabalhos, esttt 
prazer das boas novas, adoeceo anui muita gente, de 
que morreo alguma; a maior parte de inchações de per* 
Aâs, á maneira de erisípolas, e de lhes crescer t^nto a 
carne daa geiígivas, que quasi n^o cabia ns boca aos ho^ 
mens' (era a escorbuto , ainda então mal conhecido), e 
assim Gomo crescias apodrecia, e cortarão nella como em 
carne.niQrta(2);. Aqwpl doença vierão depois a perceber; 

Io Imperia de Monomotapa^ e entra no mar por varias bocas, a roab 
conliectda dat quaes Ite a de Quilimane , cuja ponta do Norte ettd em 
litkticJk-S. 17" 47', e longitude 56° ]&. Chamasç-Ihe vuF^rmente 
R» de Sena. 

C'^ o gusano (supposto que este sep o mesmo" qise o do BíslzíI )r, 
róe^ e consome todai as madeiras, excepto as mui amargosas, como a 
TapinTioaa , ou as que tem ali;uns suecos em certo ^ráo venenosos, co- 
mo o -pio de Arco do Para', cuja ^rradura mata alguns Insectos. Asmadei^ 
ias. qoc nlo tem estas propriedades , e só tem á de serem mui compa^ 
ct«t ^ rcf istem mais ou meooi tempo , mas por ultimo Uo destruidaft 
O ptoho he de codas- as madeiras a que elie desfia mais d; prossa. Eu 
vi no Rio de Janeiro o forro do fundo da Náo S. Sel^astião Çque era de 
fnrihó) fiar em menos de Iium anno em estado, que* muitas taboas sç 
achaTSo riidusídaf a poucos íilamentr^ , que Forma\ ão como httmv tem 
4a; e ncata occasiáo he que se cottieo luim gusano, qti$ tintia duat poU 
-Segadas, e a^umas lii>bas de comprido, a còr esbranquiçada, e emcit* 
«do similiiance á minlKXra, excepto a cabeça, que era mais grossa, dp quç 
«3e'^er5a ser, segundo a grandepa do coipo, e terminava em huma boca 
.^^edándi , e atiombetada. Morreo lo<:ó que sé expoz i acç5ò do ar. i 

Algumas pessoas tem lhe dado o nome de Cupim do Mar, posem . 
^ ilt níia teu» a. ininor similhanca com o Cupim ^ que lie hitníi bicíiirilio 
^A^ cúr fkuca> do tamanho, e feitio dos bidiot das fritctas. 

(2) Refere Castanheda, que Paido da Gama viiitava ot doentes de 
<^âai^e de noite ^ consolando«os , c repartindo com elius da stta matalo» 

31 ii 



24 t 

que procedia das cnrncs , pescado salgado , e biscouto 
coriompido de tanto tempo. Tiverão mais douj gran- 
des perigos: hum foi, que estando Vasco da Gama á 
borda do navio de seu irmão em hum bote pequeno, só 
com dous remeiros , e tendo as mãos pegadas nas ca- 
dôas da batocadura, em quanto íiillava com elle, descia 
a agua tão teza, que lhe furtou o bote por baixo, e 
elle, e os marinheiros ficarão pendurados nas cadéas 
até que lhes acodírao, O outro perigo acontcceo a este 
mesmo navio o dia da sua partida, que foi a 24 deFe« 
vereiro: sahindo do Rio, foi encalhar em hum banco 
de arca, onde esteve em termos de ficar; mas vindo 
a maré de cheio, sahio do perigo, com que Vasco da 
Gama seguio seu caminho, indo na volta do mar aquel- 
le dia e noite (i), por se afastar da Costa; e no dia 
seguinte á tarde descobrio três peouenas Ilhas (2), não 
mui dÍ5t.uues humas das outras, cfuas com arvoredo, c 
huma escalvada. Vasco da Gama continuou por cinco 
dias a sua derrota , navegando de dia , e pairando de 
noite; e na tarde do i.* de Março vio huma Ilha pe- 

auona perto da Costa , e três Ilhéos mais fora. Receoso 
c topar de noite com elles, virou no mar; e como 
am^^nheceo, tornou a buscaras Ilhas, desejoso de pas- 
sar enirc cilas; e mandou diante Nicoláo Coelho para 
ir sondando, por ser o seu navio o mais pequeno da 
Esquadra ; mas Nicoláo Coelho errou o canal, e achan« 
do [>ouco fundo, virou, a tempo que sahião da Ilfc^ 
n^ais chegada á terra alguns barcos com velas de estei- 
ra , que Ine ficavão em distancia de mais de huma Ic- 
goa ; e chegando á falia ne Vasco da Gama , lhe disse : 

(1) Biirroi não ímilvidúa circunstancia alguma da viagem de Vasco 
J.I Ciaina, desde o Rio doi Bons Signaes ate Moçambique; as que et» 
ri^tíro são K iradas de Cvtanlieda. 

(j> Frjo as Illus do Fo^o, das Arvores, e a Rao, chamadas at 
lliiai IMinciraf. Vasco da Gama passou sem ver as de AogOKa. 



245 

Que VOS parece j Senhor} Jd esta he outra gente. E el- 
le ihc rcspondeo mui contente, que seguissem o bordo 
do mar, para poderem tomar aquella Ilha, d'onde sahí- 
ráo os barcos ; e que surgirião para saberem que terra 
era , e se achariâo noticias da índia. 

Entre tanto os barcos os seguião sempre , capean- 
do-lhes que esperassem ; e nisto deo fundo a Esquadra 
junto a dous Ilhéos, apartados mais de huma legoa da 
liba , a hum dos quaes deo Vasco da Gama o nome de 
S. Jorge, por ser este o de hum Padrão, que alli met- 
teo. Os barcos chegarão logo cantando, e tocando seu^ 
instrumentos, em signal de festa: os homens, que nelles 
vínhão, erão baços, e alguns brancos, de boa estatura , 
Tcstidos de algodão Hstrado de varias cores, cora turban- 
tes, alfanges, e adagas, e fallavao Árabe. 

Entrados nos navios, hum dos mais bem vestidos 
perguntou o que buscavão? Vasco da Gama respondeo, 
por meio de Fernão Martins , que erão Portuguezes , e 
eJie queria saber, que Ilha era aquella ? Ao que o Mou- 
ro (que depois se soube ser natural do Reino de Fez) 
satisfez dizendo, que se chamava Moçambique (i), de 
que era Xeque Çacoeja , que mandava por costume visi- 
tar os navios, que chcgavão, para saber se vinhão com- 
merciar na Ilha, ou somente prover-se para continuarem 
a iriagcm. Vasco da Gama então hhe disse, que elte vi-. 
nhã iquelle Porto a buscar hum Piloto, que o levasse 
à índia, para onde era o seu destino, e não trazia géne- 
ros para negociar , excepto os precisos para a troco del- 
les comprar o que lhe fosse necessário. Com isto o des- 
pedto>, dando-lhe hum presente para o Xeque, assegu- 
rando-lhe o astuto Mouro, que havia na Ilha quantida- 
de de Pilotos, que sabiao a Navegação da índia. 

(O Esta Ilha he bem conhecida , esta na latitude Sul 1 5*^ ^\ e Ioo« 
^iludc s?'' 27', 



846 

Pouco depois voltou com algum refregca da terra , 
9 hum recado do Xeque, que moveo Vasco da Gama^ 
com parecer dos Commandantes , a entrar no Porto de 
Moçambique, o que fez, indo Nicoláo Coelho diante 
sondando, cujo navio tocou da popa em huma restinga 
da Ilha,. onde deitou o leme fora; porém dando logo 
çm maior fundo , foi surgir junto da Povoação; c apoíi 
ellc toda a Esquadra. Esta Povoação era de casas pa- 
lhaças , excepto a Mesquita , e as do Xeque. Os habi- 
tantqs erao Mouros estrangeiros, que alli se estabelece- 
rão, o commcrciavão com Qiúloa, e Sofalla; c os na« 
turaes do Paiz erao Negros, que moravão na terra fir* 
me. 

Nas Memorias relativas â Ásia , e Africa Oriestaè 
exporei o resto desta interessante Viagem j e agora por 
antecipação direi a conclusão que teve. 

Vasco da Gama na sua torna-viagem para Ponu- 
gal perdeo o navio S. Rafael no mesmo baixo » entre 
Quilóa e Mombaça , em que tocara á ida ; e por eodo 
lhe ficou o nome do Baixo de S. Rafael, salvando-se 
toda a gente, que se repartio pelos outros dous navios; 
A 20 de Mar^o de 1499 dobrou o Cabo de Boa Espe» 
rança. Próximo ás Ilhas de Cabo Verde se apartou del- 
h com tempo Nicoláo Coelho, que a 10 de Jidho che* 
gou á barra de Lisboa ; e sabendo que o seu Gcnevai 
ainda não era chegado, quiz tornar a busca-lo, o que 
ElRci não consentio. 

Vasco da Gama ancorou na Ilha de S. Tiago, e 
entregando o navio a João de Sá, seu Escrivão, anctoii 
huma Caravela, e foi á Ilha Terceira, na qual fàllcceo 
seu irmão Paulo da Gama , que vinha mui doente, c fi- 
cou sepultado no Mosteiro de S. Francisco. Desta Ilha. 
partio Vasco da Gama para Lisboa, onde chegou a 29 
de Agosto, sendo recebido d'ElRei, e de toda a Corte 
com as maiores honras, festas publicas, c demonstrações 



U1 

de ategria. Às mercês que então, e depois lhe fez ElRei, 
forão dar^Ihe o Dom para.clle, e seus irmãos, o Offi- 
cio de Almirante dos Mares da índia , e trezentos mil 
féis de renda , o Titulo de Conde da Vidigueira, e a 
Éaculdade de empregar cada anno na índia duzentos 
cruzados era mercadorias, livres de direitos , o que no 
tempo de João de Barros produzia em Lisboa sete mil 
cruzados , tudo isto de juro , e herdade. E ordenou 
mais ElRei , que ao escudo das Armas da -sua familia 
acrescentasse htsma peça das Armas Reaes do Reim 
(Barros, Cap. ir.)« 

i5'oo — Com a- tolta de Vasco dá Gama a Portu*- 
gal miidárao os discursos, que os homens até alli fazião 
sobre as yantagens da descoberta, e conquista do Orien- 
te, vendo em Lisboa especiaria, aljôfar, e pedraria, 
producçôes daquelles ricos Paizes, que antes olhavão 
eom admiração quando os Venezianos as trazião a este 
Reino. È como pela viagem de D. Vasco da Gama ,. 
íe Conhéceo-, que o tempo próprio para sahir de Lisboa* 
era em Março, e o espaço de tempo que restava án 
epoc» da chegada de D. Vasco da Gama até Março 
do anno seguinte de rjoo, era mui corto, fez ElRel 
C3nselho soore o modo que teria no proseguimento da- 
quella conquista , attentas as informações que dava D« 
Vasco da Gama , e assentou-se em se mandar humâ 
rande força naval , que desse áquelles Povos huma z\xt 
íféa de Portugal ; e igualmente foi fogo determinado d- 
Aumero de Náos, e de soldados, e o Chefe da expedia- 
$ão, para que foi escolhido Pedro Alvares Cabral. 

A 8 de Março de lyoo foi ElRei com toda a Cor- 
te ouvir Missa á Ermida de Nossa Senhora de Bêlera, 
defronte da qual. ancorou naquelle dia a Esquadra. Es- 
teve arvorada no Altar, em quanto se disse a Missa, 
kuma bandeira da Ordem de Ghristo, que o Bispo de 
Ceuta D. Diogo Oriiz (que pregou nesta occasião) hca-^ 



% 



248 

zco no fim da Missa , é ElRei a entregou da sua mão 9 
Pedro Alvares Cabral com grande solemnidade de pa- 
lavras, tendo-o com sigo dentro da cortina, por honra 
do Cargo que levava , em quanto dura'rão os Officios 
Divinos. Concluído este acro, foi levada a bandeira 
com solemne Trucissâo, que Eillei acompanhou até á 
praia, onde Pedro Alvares, e todos os outros Com- 
mandantes lhe beijarão a mao, e se despedirão delle* 
A maior parte do Povo de Lisboa cobria neste momen- 
to as praias, e campos de Belém; e muitos em bateis 
emb:^ndeirados rodeavao os navios , augmenrando esta 
festividade o som de toda a qualidade de instrumentos 
jnusicos (r). 

Constava a Esquadra de doze navios de Guerra, 
entre Náos, e navfos menores, e hum Transpone car- 
regado de mantimentos (2) , todos bem aparelhados , 

(O A. lurrac^o (ksta famosa Viagem foi feita á vista 4os segu iates 
Escritores: Barros, Dccada i. Liv. 5. Capitules i. e 2. — Casunlieda^ 
Liv. I. Cap. jo e seguintes. — Góes, Pa te i. Capítulos $4, çj, c 
17. — Collecção de Noticias para a Historia das Naqdes Ultranurinis^ 
etc. Tomo 1. N. j , qiie contém a Navef^ajgSo do CapilSo Pedrê Aivm* 
rcs Cabral , escrita por lium Piloto Portugacz , çiu kia na *Uã Armaém , 
Capitulos 1- , 2. , e 5. — A mesma Coliec<,ão, Tomo j. N. i , ocufe 
se acha a Noticia do Br<?ii/, Cap. 54. — Corografia Frazilica do Padre 
Manoel Alvares Cabral, impressa no Rio de Janeiro em 1817 , na In- 
troducção da qual (pag. 12 e seguintes) vem huma Caru escrita a 
ElRei i). Manoel, datada de Porto Seguro no 1.^ de Maio de is 00, 
por Pedro Vaz Caminha, que hia embarcado na Náo de Pedro Alva es 
Cabral. — Epilogo Manuscrito dos Vice-Reis, e Governadores da ín- 
dia, etc. , por Pedro Barreto de Rezende , Secretario do Vice-Rel Conde 
de Linhares. — O Padre Ff. Manoel Homem na sua Memoria da De* 
scripqão das Armas Castelhanas , etc. , Cap. 29. — Além de cutros vá- 
rios Escritores, que foi necessário consultar, pela diversidade de opi- 
niões , que «e encontra em alguns factos , e datas. 

(2) 0$ nossos Escritores são unanimes em comporem esta Esquadra 
de treze navios de Guerra, sem fazerem menqSo do Transporte de 
mantimsntos; porem Pedro Vaz Caminha, e o Piloto Portu^uci da 
^ncsma Esquadra , cujas Relações vão citadas , dizem^ que se compunhi 



249 

armado?, e providos para dezoito inezes de viagem. ErSo 
Commandantes dos navios de Guerra (alem do Chefe) 
Sancho de Tovar, que hia nomeado por segundo Cora- 
mandame da Esquadra, Simão de MiranJa, Aires Gomes 
da Silva, Vasco de Araide, Pedro de Ataidc, Nicoláo Coe- 
lho, Bartholomeu Dias, Diogo Dias seu irmão, Nuno 
Leitão, Luiz Pires, e Simáo de Pina. Commandava o 
Transporte Gaspar de Lemos. A Guarnição desta Es- 
quadra ei'a de mil e duzentos homens (i), cnrrc Solda- 
dos, e iharinheiros, toda gente escolhida. Hia por Fei- 
tor da Esquadra Aires Corrêa , e por Escrivães do seu 
Cargo Gonçalo Gil Barbosa, e Pedro Vaz Caminha. 
Embarcarão também nella oito Religiosos de S. Fran- 
cisco, e por seu Guardião Fr. Henrique, que depois foi 
Bispo de Ceuta j e mais hum Vigário, e oito Capellães 
para ficarem na Fortaleza, que ElRci mandava fazer. 

Por hum dos artigos do seu Regimento mandava 
ElRei a Pedro Alvares Cabral, que procurasse ganhar 
a boa vontade de ElRei de Calecut, e persuadi-lo a 
dar-lhe licença para construir huma Fortaleza na sua 
Capital; e em caso de a negar, lhe declarasse a guerra# 
Por oiKro artigo lhe ordenava, que tocasse em Melinde, 

Íara entregar ao Rei o presente , que conduzia, e o seu 
embaixador; e que lhe oíFerecessc à sua amizade par^ 
tudo o que precisasse. Levava também ordem para en- 
viar a Soíalá Bartholomeu Dias, e seu irmão Diogo 
Dias, a fim de negociarem as mercadorias,- de oue hiSò 
carregados, a troco de ouro, de que havia álli míiitã 

dê dott nsvíos , e outra embarcação carregada de mantimentos , opU 
ntSo que me parecco mais segui:a , por ser apoiada com o testemunho 
de doii homens^ ^e htâo nacjuella Esquadra. 

(i) Castanheda, Góes, e Fr. Manoel Homem dizem mil e quir.hen- 
tos homens; Barros, Faria, e Pedro Barreto mil e duzentos. He mais 
provável , que este fosse o numero da gente , attendendo a que os na- 
vios ainda não erão mui grandes. 

32 



250 

quantidade , de cujo Commercio estavão então schhoret 
os Mouros. 

No dia seguinte 9 de Março sahio Cabral de Lis- 
boa com toda a Esquadra. Â 14 vio a Grão Canária a 
três ou quatro legoas de distancia, c passou o dia em 
calma. A 22 dobrou Cabo Verde, e nessa noite se se- 
parou o navio, de que era Commandante Luiz Pires (i), 
que arribou a Lisboa maltratado. Pedro Alvares o espe- 
rou pairando por espaço de dous dias» e como nâo ap- 
pareceo, continuou a sua derrota, E querendo esquivar*se 
is calmarias de Guiné, empenhou-se tanto no bordo do 
S.O. , que a 24 de Abril descobrio terra para Oeste 
por ló"" 30' de latitude Sul, suppondo-se a 45:0 legoas 
ao Gccidente da Africa (2). 

O primeiro ponto que se descobrio foi hum moiw 

(i) Pedro Vaz Caminha, na sua Carta a EIRei D. Manoel , já cita- 
da, diz que Vasco de Ataide foi quem se apartou da Esquadra; mas he 
cquivocáçáo. 

(3) Ésra he a opinião gera! dos nossos Historiadores, contando oesie 
numero o Piloto da Esquadra de Cabral ( já citado ) , testemunha ocu* 
hr; ainda que Pedro Vaz Caminha, outra tenemunha ocular, dii que 
o terra se vio na tarde de 22 de Abril, quarta feira depois cb Ftocot^ 
com as circunstancias de encontrarem na véspera muitas hervis, e naqiK^ 
la manhã de aa muitos pássaros, como era bem natural aue suocedesse: 
concorda porém com o Piloto, em que a Missa foi celebrada cm fm* 
to Seguro no dia 26 , acrescentando , que era Domingo de Paicoeh; e 
Ò Piloto diz ser iu> Oitavar io da Páscoa. 

Barros aílirma , que a terra foi descoberta na latitude de 10% e que 
Cabral a cosCeoudaJli para o Sul ate achar Porto Seguro, oride ae cale* 
brou a Missa no Domingo de Pascoela, o qual , pela sua narração, cabia 
a 29 daquelle mez. A viagem costeira de Cabral até Porto Seguro he 
mais que inverosimil, tanto porque nrste longo caminho de cento e 
ciocoenta iegoaf Iwvia de descobrir a Baliia, e outras abau mas eoSul, 
em que procuraria ab''igar-se; como porque sendo o vento S.E., (aaiim 
o dizem as duas testemunhas oculares) , e estando tile proxinno á 
não podia costear aquelJa |)arte do Brasil, que desde lO** ate i )® ( 
S. O. , e depois ao Sul , com pouca differença. 

Francisco de Brito Freire copiou cegamente este lugar de 
nu sua Historia da Guerra Brasilica, Parte i. pag. ia. 



251 

te alto, e redondo , a que deo Cabral o nome de Mon- 
te Pascoal (i), por ser então o Oita vario da Páscoa, 
e depois forao apparecendo terras mais baixas para o 
Sul com grandes arvoredos. De tarde, aproximando-se 
a Esquadra a meia legoa da Costa , deo fundo de- 
fronte de hum pequeno Rio ; c Pedro Alvares man- 
dou o Mestre da sua Náo cm hum escaler, para ver que 
gente era a que andava pela praia: acharão alguns natu^ 
racs de c6r parda ^ bem dispo. tos, os cabellos pretos, c 
compridof, armados de arcos, e frechas, e todos abso- 
iutameote nús, homens, e mulheres. Como ninguém os 
entendia, e as vagas rebenta vão xias praias, não poderão 
<iesembarcar, e apenas lhes poderão dar dous barretes 
Ycrmelhos, e receber delles algumas obras de pennas 
de varias cores-, e feito isto, recolheo-se o Mestre a 
ÍK>rdo. 

De noite ventou S. E. rijo de aguaceiros , com que 
garrafão os navios, e pela manhã se fez Pedro Alvares 
Obrai á véla ao longo da Costa para o Norte, em bus- 
-ca de algum Porco, em que fizesse agua, c lenha , e po- 
-desse ter melhor communicação com os habitante?, indo 
iD8 navios com as lanchas por popa \ e ordenou , que as 
embarcações pequenas navegassem mais á terra , e que 
-se achassem bom ancoradouro para as Náos, surgksem. 
0>m effeítò, tendo navegado cousa de dez legoas desde 
p jx)nto da partida , acharão huma aberta no fim dos 
recifes, pela qual entrarão, e virão que dentro jse faria 
Jium Porto grande, e mui seguro \%)^ por cuja ícausa 
derão fundo. .. . 

Affonso Lopes, Piloto da Capitânia, <}ue Cabral 

(O ^^ monte ainda conserva o mesmo nome, e está situado em 
17^ %%' de latitude, E não faça duvida ser differente a que liie derio 
4» Pilotos da Esquadra , at tendendo aos instrunnencos, e Taboas daquel- 
J|c tenipo. 

(2} .0 Rio de Ss^ita Cruz, em que ancorou Cabral , e «i qi^ òao o 

32 ii 



252 

-mandara a bordo' de hum dos navios pequenos, por ser 
Jiomem mui hábil, sahio logo em hum escaler a sondar 
o Porto, e nesta occasiao tomou deus indígenas, qoc 
«lavão pescando, e já de noite os cohduzio ti Pedro Al- 
vares, que havia entrado com o resto da Esquadra em 
•seguimento dos primeiros navios , vendo que estes davâo 
fiindo. Os dous prisioneiros passarão a noite a bordo, 
sem quererem comer, e sem responderem aos acenos, que 
se lhes faziao. Pela manhã, vindo a bordo da Capitânia 
•todos os Commandantes , ordenou Cabral a Nicoláo 
Coelho, Bartholomeu Dias, e Pedro Vaz Caminha, que 
os levassem para terra, já providos de camizas, barre- 
tes, campainhas, cascas eis, e outras quinquilharias, com 
tjue forão mui contentes. Na praia cstavao mais de du- 
zentos naturaes, todos nus, com o beiço inferior fura- 
do , e no buraco mettido hum osso , ou huma pedra 
azul ; em fim erão era tudo iguaes aos que anteccdeiKe- 
xnente tinhão visto. 

Estes Selvagens receberão os Portuguezes com gran- 
des festas , o que observando Pedro Alvares Cabral, de- 
terminou qiie naqucUe dia 26 de Abril se celebrasse MÍ9- 
sa, para a qual se armou huma barraca em huma coroa 
de aréa, que na vasante ficava em seco (chama-se boje 
Coroa Vermelha), e Fr. Henrique disse a Missa, e pre- 
gou, assistindo o General com a bandeira Reai^ e todos 
os Commandantes, c pessoas principaes da Esquadra. 
Os naturaes, que estavão pela praia, considcravao mui 
attentos as ceremonlas Religiosas, e acabadas ellas, can- 

nome de Poito Seguro, fica coberto com os recifes, que o abfigío do 
mar, e cabem dentro muitos navios com toda a segurança, tendo no- 
ve e dez braças de fundo; mas a Povoação antiga, que se havu erigi- 
do níste Jocal , foi dejx)i^ abandonada pelos ^us mondores , por ser o 
sitio doentio, e se acha estabelecida onde hoje se chama Porto Se^ino, 
mais para o Sul ; e por consequência este Poito Seguro moderno nSo he 
o mtisino, em que Cabral ancorou , c a que deo este n-^me. Ettâ Costt 
do Brasil era habitada naquelle tempo pelos Índios Tupiniquins. 



2$3 

járão, ç báiláraocom grande alegria, e vierSo atfortipa- 
nhando o «General até se embarcar, mettendc-se alguns 
pela agua, çpMirps nadando atraz dos escaleres. 

Natnesmft tarde voltou Pedro Alvares a terra, e 
-acliando-st hum Rio de agua doce , se começou a fazer 
aguada, c lenha, ajudando os naturaes nestes trabalhes 
iSos marinheiros; e tão familiares se raostravao, que ai- 
.guns Portuguezes forão á sua Aldeã, situada dalli huma 
legoa, d'onde trouxerão papagaios, inhames, e arroz 
em troca de quinquilharias^, que lhes derâo. As casas 
bestes Selvagens erão de madeira , cobertas de ramos de 
arvores; e em todas se virão redes de algodão, em que 
.dormião. Não seJhes vio ferro, nem outro algum me- 
tal, e scrvi20-se de machados de pedra para cortarem 
as madeiras. Todo o Paiz era abundante de aguas, e 
arvoredo; de milho, Ji)hames, e algodão; e as ave? iiiir 
mensas, e de rauiívista^as cores. 

Detevc-se Cabral cinco, ou seis dias neste Porto, e 
,por conselho dos Coromandantes expedio para Portugal 
o Transporte já descarregado dos mantimentos^ que re^ 
partio pela Esquadra; e escreveo a ElRei D. Manoel 
os acontecimentos da sua viagem, e lhe mandou doiGs 
naturaes, que quizerão ir por sua vontade; esta embai^- 
cação sahio de Porto Seguro a 3 de Maio., e.a sua che- 
gada a Lisboa causou grande prazer a ElRei ^ é a todo 
o Reino. Pedro Alvares deò a este Porto o- nome- de 
Porto Seguro, onde deixou dous degradados (hum .dqs 
<)uaes veio depois a Portugal), e mandando levantar, oa 
praia huma grande Cruz de madeira (i), comoeib si^ 

- (O ^ttot dhy que mandou arvorar faurna Crtiz mni grande no c* 
mo da arvore, ao pé da qual se celebrou a Mista. Pedro Vaz Camiúlia 
diz, que mandou levantar na pra^a huma grande Ciuz de páo com a^ 
Armai Reacs. O Piloto da Esquadra (a quem segui) não taila das Ar- 
mas Reaef. Castanheda diz, que era hum Padrão com huma Cruz;, e 
Coçs j que foi huma Cruz de pedra, como por Padrão. 



254 

gnal de posse que tomava para a Coroa Portuçuez;» , 
chamou a todo aquelle vasto Continente Terra ãe San- 
ta Cru^y que depois se mudou em Brasil, 

No mesmo dia 2 de Maio sahio a Esquadra (i), c 
a 12^ appareceo hum Cometa para a parte de Leste, que 
se vio oito noites a fio. A 2O3 navegando a Esquadra io- 
da junta com vento mui fresco, em gavias arriadas 1 
meio mastnreo, e sem traquetcs, com o mar ainda agi- 
tado de huma trovoada do N.E. , que tivera no dia sn-j 
tecedente, com a qual havia corrido toda a noite a ar- 
vore seca ; das 11 para o meio dia se formou huma arru-l 
mação mui negra da parte do N.O. , que de todo sof^j 
veo o venrOj ficando as gavias encostadas aos mastarecs. 
E como os Piloros nno conhecião ainda bem as conse- 
quências daquelle fenómeno, nao se acautelarão, cuid.in-l 
do que era verdadeira calmaria; mas de repeiue soiíre-» 
veio hum tuf^o de vento Sul, que tomando os fia?Í0i 
com D pmno sobre, não lhes dco tempo de arriar, c 
carregar as gavias, e em hum instante soçobrou quatro^ 
sem delles escapar cousa viva ; e os sete restantes esti* 
verão quasi soçobrados , de que escaparão por se lhe» 
fazerem as vela? em pedaços, e quebrarem algumas ver- 
gas , e mastareos, Erão os Commandantes dos quatro 
navios perdidos Aires Gotnes da Silva, Simão de Pina, 
Vasco ae Ataíde, e o celebre Bartholomeu Dias, cujo 
nome durará tanto, como o do Cabo de Boa Espcrin- 
ja, que descobrio* O mar crescco então de cal mantí- 
ra, que humas vezes parecia querer lançar os navios íi4- 
ra de si para a região do ar, e outras vezes sepulra*los 
nos abismos do Oceano. Succedeo aqui acharem-sc as 
Náos de Pedro Alvares, c de Simão de Miranda no ci- 
mo de duas grossas vagas, que se deslisárão rapidamen- 

(1) Eu fifTo eita opifiilo, fundadb no dito «bs óutí teUitimmàÊm 
4viil»m fà cítadit; atiida que (Jastanbcda , e hiftm ánsem^ qm M op 

dia 9 de Mj 10. 



265 

te em sentido opposto, e no momento em que se hião 
abordar ) para se fazerem em pedaços, outra ondulação 
inversa domar milagrosamente as separou. O vento pas- 
sou depois com fúria uq S.O. , e assim poderão os na- 
vios seguir caminho a arvore seca , apartados huns dos 
outros, cada qual como melhor se aguentava. Cabral , 
e outros dous navios (em imm dos quaes hia o Piloto, 

Sue cscreveo esta viagem) tomarão hum rumo; a Náo 
Lei , e outros dous seguirão outro ; e o de Diogo Dias 
x)Utro: logo rrararei deste* 

O raao tempo durou por vinte dias, com poucos in- 
tcrvallos, e sem avistar terra alguma , se achou Cabral 
com os seus três navios a }6 de Julho no parcel de So- 
fala , onde contv eíFçitp dcscobrio a terra , sem a conhe- 
cer, ç correo ao longo delia com bom vento, e aprazi* 
yel tempo, distinguindo grandes arvoredos, e muito ga- 
do. Chegando ás ílhas Primeiras, vio dous navios dç 
Mouros,. que intentarão fugir, mas forão tomados sem 
resistência,, deitando-rse ao mar a maior parte da gente 
(de que alguma se aifogou.) para salvar-se nas Ilhas, 
Destas embarcações era dono, e Capitão Xeque Fotei-^ 
ma, tio do Rei de Melinde , que vinha de Sofala com 
^uito ouro. Peidro Álvares^ sabendo quem elle era , pc- 
zou-lhe muito deste acontecimento, e fazendò-lhe mui- 
tas honras, lhe mandou entregar os navios com tudo 
quanto tinhão. Xeque Foteima o informou das minas 
de Sofala , e de que pertencião ao Rei d^ Quiloa (i) , 
c lhe advertio, que o parcel de Sofala já lhe ficava mui- 
to longe. 

Continuando Pedro Alvares a sua: viagem, ancqrou 
em Moçambique a 20 deste mez de Julho; e passando 
poucos dias depois a Qpiloa, como direi na segunda 

(O Pequi^na Ilha situada em huma Bahia na Costa da Africa^ Orieiv 
tal^ Da latitude S. 8*^ 57', e longitude 58" S 7'. 



256 

par(e destas Memorias, se lhe rennio alll a Náo Rcl 
com as outras duas da sua conserva, que se liaviâo se- 
parado no temporal. 

Diogo Dias, correndo com .a tormenta, foi ter ao 
Estreito da Arábia, e Cidade deMagadaxo (i), c aqui 
perdoo a lancha com toda a sua eqúipagetir , cm conse- 
quência de huma traição dos Mouros; e ficando só com 
sete homens, e sem Piloto, voltou para Portugal, c cm 
Cabo Verde se veio encontrar com Pedro Alvares Qr- 
bral na suh torna-v.ingem, o qual tendo dobrado o Ca- 
bo de Bo:í Esperança a 22 de Maio de 1501, surgio 
por acaso na Bahia de Bezenegue, onde estava fazendo 
aguada a Esquadra commandida por Américo Vespu- 
Cío (2), e entrou depois em Lisboa a 51 de Julho, na- 
vendo-sc-lhe perdido o navio de Sancho de Tovar (de 
duzcn;as toneladas) cm hum baixo na Costa de Melin- 
de, de que se salvou unicamente a Guarnição. 

15*00 — No começo do Verão de^e anna de lyoo (3) 
partio de Lisboa Gaspar Corte Real ^ homem valoroso^ 
e amigo de ganhar honra, em hum navio armado, par« 
te á sua própria custa, parte á custa d-ElRei O. Ma- 
noel, com o projecto de fazer descobrimentos ao No- 
roeste de Portugal , e ver se achava por alll passagem 
para os mares Orientaes: projecto atrevido, e quasi in- 
crivei para aquelle século ! 

Desta viagem nao se sabe mais nada, senSo. o que 
consta dos dous cisados Escritores, isto he, que Corre 

(i) Cidade da Africa Oriental, situada na latitude 2*10 N-, e 
lonijitude 6}'*^ $0'. 

Ca) O Facto hc extraordinário, porem assim o relata o próprio Pilo- 
to da Esquadra de Cabral; e ou aqui estava também Diogo Dias, ou ti* 
nha partido pouco antes para Lisboa. Barros falia do encontro de Cabril 
com Dioiío Dias coiin acontecido na ll/ia d( Cabo Verde, 

(O Uauiiãv) de Gocs , Parte 1. Cap. 66. — Vede a exceJIence Mc- 
n^oria do Snr. Trigoso no Tomo 8. das Memorias de Litentura Port»- 
gucza, pag. jo,'. 



267 

K^eal descobrlo hum Paiz , cuja face do N. E. costeou 
por duzentas Icgoas (i), ^em poder passar roais para o 
Norte, por causa dos gelos, e neves, e regressou a Por- 
tugal coxn quasi bum anno de viagem , deixando' o no^ 
me de Terra Verde áquellé Paiz , que era mui fresco , 
e de grandes arvoredos, e os seus habitantes (de que 
trouxe alguns) de estatjuu-a mediana , alvos , mui barba* 
ros, ligeiros na carreira, e hábeis frecheiros. 

lyoi — Neste anno' mandou EiReí aprestar três 
Náoa, e huma Caravela grande (z), para cujo com- 
inando em Chefe nomeoii a João da Nova, Nobre Gal<^ 
lego, a quem havia dado a Álcaidaria de Lisboa, que 

• 

(i) Sc Corte Real vio a. terra da America por 50^ de latitude Ni., 
como diz GakrSo ^ era for<;osamente a Ilha da Terra Nova , mas parece 
que nío diegou ao seu extiemo do Norte , situado em $2^ de latitude , 
aliás vmiã o Estreito chamado hcije de Eelle»Isle , que dá passagem par» 
• GoUò de % Lourenço, e o grande Rio do mesmo nome , por entre.» 
Costa do Lavrador, e a mesma liba da Terra Nova; e era natural que 
elle opQunettesse ò exame da^elle Estreito, segundo o plano da sua 
rkgémi ov/se cio ò Estreito, a faíta de víveres, e o receio dos frios 
do Invenio o persuádírfo-a regressar a Portugal , para 00 anno seguinte^ 
pios^utr o seu descobrímenta 

. A niba da Terra Nova tinha já sido descoberta por Sebastiáo Ca« 
bote 9 Veue»ãix>, que achando-sc em Inglaterra, se offereceo a Henrí- 
è|ue yn«'pkra ir fá/er ^scobrimentos de novos Pa izes para a parte de 
Oeste; e sahindo de Bristol com dous navios no Verão de 1697 , cha- 
gou a.ver terra por 56* de latitude ; e observando que corria para o Nor^ 
te, temeo os frios daquella Região, e voltou para o Sul« Nesta derrota 
dcscobrio a Ilha da Terra Nova, de cujos agrestes habitantes metteo três 
a iorâú. Seguio depois o fumo úo Sul até 38^ dê latitude; e adhando- 
le já mui filto de viveres , voltou para Inglaterra , onde os Selvagens 
vivéráo muito tempa Os Inglezes não tomáfêo a empiehender esta n»- 
▼cgação, senão paciados muitos annos. Vede Claik, Tomo i« Appen- 
dfx B. 

(a) Vede Faria, Ásia Portugucza Tomo 1. Parte i. Cap. 6. — ' 
O mesmo 1:0 Tomo }. no fim. — Fr. Manoel Homem, na sua Obra 
]i citada , Cap^ 29. — Galvão , Tratado dos Descobrimentos. — Pedro 
Bvie^ de Rezende, já citado. — Coes, Parte 1. Cap. 6j. — Barros, 
Década i. Liv. $. Cap. le. 

33 



258 



èndo 



andava em homens 
que lhe fizera na Marinha 



dalgc 



?Ic 



muiros í^vr- 
$os que lhe fizera na Marinha : esta Esquadra levava 
Quatrocentos homen?;, entre soldados, e marinheiros, Erlo 
Comraandanres dos outros rres navios Diogo Barbosa , 
criado de D. Álvaro (irmão do Duque de Bragança), 
dono do navio; Francisco de Novaes, criado d*EIReij 
e Fernão Vineti, Florentino, por ser esta embarcação 
de Bartholomeu Marchioni , da mesma Nação , e hum 
dos mais ricos Negociantes de Lisboa. Cumpre aqui 
advertir, que ElRei tinha permittido, cm beneficio do 
Commercio, que os particulares armassem navios para â 
índia y tanto para carregarem por sua conta, como â 
fretes ; isto debaixo de certas condiçoeSj huma das quies 
era, que elles apresenrarifio os Comraandantes, os quacs 
ElRei confirmaria; e daqui se seguia, que talvez propu»! 
iháo homens mais aptos para a Navegação, eCommcr- 
cio, do que para a guerra ; pois raras vezes o interesse ! 
particular coincide com o interesse publico* 

Sahio João da Nova de Lisboa a cinco de Março ^ 
e seguindo sua viagem, descobrio huma Ilha pequena i 
era oito gráos de latitude, a que chamou da Concdçao^l 
a qual tomou depois o nome de Ilha da AsceniSo (i)»] 
A 7 de Julho ancorou na Aguada de S. Braz, e achoii.] 
turaa Carta de Pedro de Ataíde, Commandante de huml 
dos navios da Esquadra de Pedro Alvares Cabral, em] 
que relatava o estado dos negócios na índia , cujo avt 
sérvio de governo a Joio da Nova , como se dirá na 
cunda parte destas Memorias ; e concluida a sua a| 
ca, e provido de atgura gado, que comprou aos 
gpos , partio para Moçambique , onde chegou nos prin- 
cípios de AgostOk 

(i) Esta Iliti Mtã fltméã m latitude S. S% e lenjiructe j^ 4Stí 
Tem couja de quatro legoas de^ comprííío , c huma de largo ; hc tnl» l 
tada^ t achácvée ailt muitas e grandes tartAnigas. O Parto fica da Ittiid^l 
do N. O.) com bom fundo de uU lim|jjL 



859 

N« sua torna-viagem para Portugal desccvbrlo a 
Ilha de Santa Helena (i), em que fez aguada, de a^a- 
jieira que ne^ca viagem deixou descobertas três Ilha^, 
AS duas já mencionadas, e outra no Canal de Moçaoi- 
hiqoe, que conserva o seu nome (2). Â 11 de Setem- 
bro de I foz ancorou em Lisboa , e foi recebido d' El- 
JRei com grande honra. 

1501 — Movido ElRei D, Manoel pela reputação 
de habjl Navegante, que tinha adquirido Américo Ves- 
pucU>> natural de Florença (onde nascera em 145^1 , e 
que acabava de fazer duas viagens ás índias Occiden* 
xaes), JJie esçreveo a Sevilha convidaqdo-o para vir a 
jPorrugal, a íim de ser empregado no seu Real Serviço^ 
o qujS elle acceitouj e chegando apressadamente a Lis- 
Íx>a , fichou já trcs navios promptos , em que se embar« 
jGOa, ç sahio deste Porto a 10 de Maio de 1501 (^). 

Jgnor^-se o nome do Chefe desta pequena Esqua^ 
liny.ç^ ççm.ivi^ap er^ examinar^ e reconhecer asCos- 
tas do Brasil (4). Seguio elle ,0 rumo para as Canárias ; 
javistpu-as , e atravessou para a Africa, qUe foi costean- 
do , demorando-se por alli dous ou três dias em fazer 
pescaria de pargos, até chegar á Bahia deBezenegue, 
4auc situou na latitude N. de 14" 30' cçm. bastante exacd- 
<ião; e nella se encontrou çom Pedro Alvares Cabral, 
que volra.va da índia. Gastarão onze dias em fazer 
.agua, e lenha, c partirão em demanda do Brasil, naVe- 
^afxio ao S.0.4 0. 

Cl) Esta I]ha tornou-se tão celebre, que he inútil cli2ef delia cousa 
.alguma. 

(2) A lihsi ife João da Nova, situada no mar da Índia, está na la- 
-Chude 16^ $S' S , e k)ii.i;itude 61^ p^ 

(}) Vedie a CoUfcção de Noticias para a Historia das Naçóes Uitrs- 
oariíMs, já citada, Tomo c. N. 4 pag. 141. 

(4) O Autiior da Corografia Brasílica, na Introducção do Tomo i« 
-pa^ )7 » duvida da verdade dtrstas Viagens, que me pat^^cem sómenct 
cheias àt exagerações. 

33 ii 



260 

No fim 3e sessenta e sete dias de navegação , sem- 
pre com grande trabalho, e ventos contrários, soífrendb 
por espaço de quarenta e seis dias trovoadas , chuvas, e 
cerrações, virão terra no i.** de Agosto pela latitude S. 
^^ 5*" (0> ^ julgarão que distaria setecentas legoas do 
ultimo ponto da sua partida (2). Surgirão a meia le- 
goa da Costa , e desembarcando, acharão o Paiz alegre 
' e viçoso , onde só virão vestígios de gente , e tomarão 
•posse dellfr por ElRei de Portugal. No dia seguinte 
tornarão para fazer agoa e lenha, e então virao no cume 
de hum monte alguns naturaes todos nus, que nao qui- 
zerão descer, por mais diligencias que se fizerão». Estes 
homens erão aa mesma côr, e feições dos que Vespucio 
tinha visto nas Indhs Occidentaes ; e senoò já no fim 
da tarde, se recolherão para bordo, deixando-Ibes na 
praia alguns cascavéis, espelhos, e outras quinquilha- 
rias; o que tudo elles vierão buscar logo que as lan- 
chas se alargarão da terra, mostrando-se maRivilhados 
á vista daquelles objectos tão novos. 

Na manhã seguintej observando-se dós navios, que 
os naturaes fazião muitos fumos , julgou-se que era pa- 
ra os chamar, e desembarcando, virão muitos reunidos 
a certa distancia, que lhes acenavão para qtie entrai 
sem pela terra dentro, o aue ousarão fazer dous- Pariu- 
guezes, obtida primeiro numa repugnante licença do 
Chefe da Esquadra ; e assim partirão com intento de 
examinarem, se aquella gente possuia alguma riqueza, 
especiaria, ou drogas, e levarão iogo comsigo alguos 

(O Parfce que seria o Cabo de S. Roque, que esta em latmKk& 
$^ y''j e iTiais provavelmente algum ponto da Costa ao Sul delle; «lus 
se perder ião nos baixos- do mesmo nome, que oonrem desde o Cibo p 
tà o Norte. 

(2) Esta distancia he excessiva, e o síe todas as de Américo V» 
pucio, por isso náo copiarei mnis nenhuma; e advirto, que os Jttíii- 
uos concavão qudtro milhas por cada legoa; e assim o gráo tinht oiteo* 
ta milhi^. 



261 

géneros de tríifico; tendo porém ordem- de se não dila- 
tarem mais de cinco dias, porque outros tantos se es- 
peraria por íellcs. 

Partidos estes dous homens, recolheo-se a gente a 
1)Of>âo, e dalH' vião todos os dias virem os naturaes á 
praia , mas sem quererem deixar-se communicar. Ao sé- 
timo dia desembarcarão os Portuguezes, e observarão 
•que os Selvagens tinlião trazido comsígo as mulheres^ 
t as mandarão para elles apenas os escaleres se aproxi- 
marão da terra j e vendo-os tão desconfiados, enviárao- 
Ihcs hum moço mui gentil, e galhardo, ficando elles 
nos escaleres para lhes mostrar maior confiança. O mo- 
ço foi sem suspeita alguma ter com as mulheres, que 
formarão hum circulo á roda delle, e apalpando^o, e 
cxaminando-o attentamente,sec8pantavão sobre maneira» 
Entretanto desceo do monte huraa mulher com hum gran^ 
de páo na mão, e chcgando-se por detrás a elJe , lhe deo 
tão forte pancada na cabeça , que o estendeo morto : 
as outras o tomarão logo pelos pés, e o arrastarão pa- 
ra o monte, e os homens correrão á praia, e começa- 
rão a atirar com as suas settas, o que pôz a gente dos 
escaleres em tal confusão, que estando surtos sobre os 
bancos de arêa junto a terra , nenhum atinou a tomar 
as armas, por causa dar muitas frechadas que sobre eN 
Ics chovião. Dispaiárâo-se quatro tiros de canhãa con- 
tra os Selvagens^ que não acertarão *, mas ao ruido del- 
Jes, fugirão para o moote, onde as mulheres esta vão 
fazenda o cadáver em pedaços , e assando-os em huma 
grande fogueira, os mostravão aos Portuguczes, e os 
comiáo;. e os homens lhes diziâo por acenos, que o 
mesmo haviâo feiro aos outros seus dous companhei- 
ros. Mais de quarenta homens queriâo desembarcar, 
para vingarem sirailhante barbsridadej porém o Chefe 
são o quiz consentir, e se fez á véía. 

Seguindo a sua derrota entre o Leite e o Sueste^ 



262 

que he como corre a Costa, fizerâo variai escalat, sem 
acharem gente com quem podcssera tratar; c assim na* 
vegárao até verem que a terra voltava para o S. O, ; c 
em dobrando hum Cabo, a que pozcrâo nome de San- 
to Agostinho (i), que suppozcrâo na latitude S. de 8^ 
principiarão a seguir a direcção da terra , c víríb 
hum dia muita gente , que corria pela praia a ver 
os navios , os quaes por i$so se aproximarão, e man- 
darão alguns escaleres a reconhece-ln. Achando bom 
ancoradouro , e homens de mcliior condição , derão 
fundo , e se deriverao cinco dias commerciando com 
os naturaes , que tinhão muita canafistula ; c três 
delles se embarcarão voluntariamente para Portugal. 

(i) O Cabo de Santo Agostínlio está na latitude S. 8* »2\ e lon- 
gitude J42'' 4$'- 

Bernardo Pereira de Bcrredo na sua Historia do Maranhão, làv. i., 
diz , que Vicente Annes Pinçon , sahindo de Paios em i } de Noverabio 
àe 1499 com quatro navios armados á sua custa, e de outro leu paitn- 
te, tendo licenqa dos Reis Catiiolicos D. Fernando, e Dona IsabcJ parp 
ir fazer descoberta;, tocou na Ilha de S. Tiax<^, d'onde sahio em Janeh 
f o de moo; sendo o primeiro Hespanliol que pas>ou a Línhi, descobcio 
em altura de S" S. o Cabo de Santo Agostinho, a que diamou ÀCon» 
solaqâo , onde desembarcou , e escreveo nos troncos dis an'Ofes ot no* 
mes daquelles dous Monardias , e o seu próprio , com a data da sitt 
diegada. Voltando dulli para o Norte , foi correndo a Costa , enteou no 
Amazonas, que app^liidou Mar Doce; e cortando a Linha, descobrio 
hum Cabo , a que pôz nome de Cabo do Norte , em i^ 40' de latitu- 
de. DhIIí seguindo para Oeste cousa de quareivta legoas, entrou em hum 
Rio, a que deo o seu próprio nome, que ainda conserva, e-C|ue m 
Fiancezes cliamiío Wia^x>c. Em hum alto junto á sua fóz mandou á^ 
poi< o Imperador Carlos V. levantar hum Padrão, para marcar os limites 
entre as Possessões de Portugal e deHespanha, cujo Padrão foi desço* 
Ivtto no anno de 172^ por João Paes do Amaral, Capitão de huma dm 
Companhias da Guarnição do Pará. 

Galvão coíicorda com Eerredo no descobrimento Ho Cabo de Santo 
Aj^ostinho, e RJo d.rs Amazonas por Pinc,on. Porém o Audior da Cero* 
graha l;rasiiica (em a iNota ói pag. 34, Tomo 1. da Introuucção') sim- 
teiua, que Pinçon náo vio o Cabo de Santo Agostinlio antes líe Fedro 
Alvares Cabral o descobrir , rr>as sim o Cabo do Norte. 



C63 

Sàbindo deste Porto, tomitio o rumo do S.O., 
fiiaenda tnuitas escalas, e fkliando com muitas gçntes, 
que os recebião benignamente, por cuja causa se dcmo- 
ráiio alguns dias por acjuelles Portos. Assim íbrão até 
chegarem á altura de 31^ S. Todo o Paiz era muito 
povoado 9 e os naturaes mui domésticos; tinhão a cor 
avermelhada, os cabellos negros, e corredios, andavão 
todos mis , erâo bem feitos de corpo , e o aspecto seria 
gentil , mas tornavio-se feios, porque tinhão 9$ faces, 
o nariz , as orelhas, e os beiços cheios de furos, era que 
snettiâo {)edaços de varias pedras, e de cristal, e ossos 
lavrados com primor. Não virão entre elles ouro, ain- 
da que ti verão noticia de que o havia no Paiz, bem co- 
mo pérolas , e pedras preciosas» 

Dez mezes tinha consumido a Esquadra neste re- 
conhecimento, quando o Chefe encarregou Vespucio 
de ditigir á derrota : em consequência mandou este f a-^ 
iúr iigM^e lenha pêra seis mezes, tempo que os Oífi^ 
ciaes dos navios dizião que elles poderião navegar ain^- 
dà. Aos 1^ dePevereiro de 1502 tomou a Esquadra 
o hidDO do S*0. (i) ,' e por eíle navegou até se 
achar M latitude Sul de 52^ Neste dia lhe deo huma 
wnútatst' ^ S.S.O. com muito mar, e cerração, t 
carreo comi etiã em árvore seca por auatro dias, em 

3iie^ huma terra desconhecidÀ, a quaí costeou cousa 
e víirt legoas*,' e achoa tudo costa brava, sem Por^ 
10^ nem Povoação; o frio era rnsuDporravel, o mar mui- 
to grossa, /e a cerração grande. Nestes termos, sendo 
impossível aguentar-se mais , conveio Vespucio com o 
Chefe em regressar a Portugal, e feito signal de reunião 
i Esquadra , deitarão a popa ^ e a noite , e dia seguinte 
cresceo tanto a tempestade , que estiverão em riscos de 

(O O originai tem o rumo de E.S.E,, mas he hum erro palpável 
^poc mo substituí o rumo do S.O», que he a direcção da Costas 



2G4 



pique* Affím correrão cinco dias $6 com fraql 
tcs arrkiios a menos de meio mastro, navegando sei 
pre ao lí. N.E. , porque queriáo reconhecer a Costa d 
Ethiopia; e a lo de Maio virão Serra Leoa, onde esti 
vcrâo quinze dias a refrescar-se* Dalli se dirigirão aos ^ 
Açores (mo declara a qual destas Ilhas foi)» a que ■ 
chegarão no fim de Julho; e demorando-se outros quirv- 
ze dias, pariírão para Lisboa, e entrarão nesta Cidade ^ 
a 7 de Setembro de lyoi, com dois navios, tendo quei- ■ 
mado o outro em Serra Leoa , por estar incapaz de na- 
vegar, contando dezoito mezcs e vinte oito días de via- 
gem. 

i^oi — A 15^ de Maio sahio segunda vez de Lis- 
boa Gaspar Corte Real (1) para complerar o seu des- 
cobrimento da Terra Verde com dous navios; e che* 
gando á vista dcIIa com boa viagem, se separou a ovk^ 
tro navio, que de balde o procurou depois para se Ibc 
reunir f porque nunca mais o vioi e assim voltou para 
PortugaL 

jjoi — Neste anno determinou ElRei D* Manod, 1 
apezar da opposição do seu Consellio^ e da Rainha ^ ■ 
passar pessoalmente á Africa, para cuja empreza aprçf ™ 
tou hum Exercito de vinte e seis mil homens escolhi- 
dos, em que se contavao seis mil e oitocentos de Ca- ■ 
vallaria (2), e huma Armada de quatrocentas embar- 
cações (3) de Guerra , e de Transporte. Mas ^sx^ ex» 
pedição nao teve effcitOj porque neste mesmo tempo 
ameaça vão os Turcos os Domínios de Veneza na Gre* 
cia com huma poderosa Armada, e aquella Republica^ 
e o Papa implorarão o soccorro d' ElRei D« Manoel, 



I 



C^^ Vede Góes no \m%u acima citado | • 1 Memaia umbttn ca- 
lada, 

C«) Góes, Pafte 1, C;>f^\itulos 47, 51 , e 52, 

i^}} Fr. AÚnoei Homem na $ua Mcmofiii p cícindai Qp. %^ 



2€6 

^nc contocando o concelho, pareceo a todM $e envias- 
se huma Esquadra de trinta navios em auxilio de Ve- 
neza , por Fcrem mui grandes os males qòe se poderiâo 
seguir, se os Turcos realizassem a invasão que projectà- 
vâo. 

Na conformidade deste voto, partio de Lisboa á 
ij de Junho deste anno o Conde de Tarouca D. João 
de Menezes, com trinta navios de Guerra, entre gran- 
des e pequenos, escolhidos dos melhores de toda a Ar- 
mada, guarnecidos com três mil e quíplícntos scldndos: 
^era segundo no commando geral Ruy Telles de Mene- 
zes. Êncorporada com esta, e debaixo das suas ordens^ 
sabíooutra Esquadra, em que hia muita gente Nobre, 
para ficar de guarnição no Castello de Mazalquivir, no 
caso de se poder ganhar de passagem, objecto que El« 
Rei tinha cm vista ; e em segredo encarregou o Conde 
de Tarouca de o tentsr j por quanto, tomado este Cas- 
tello, lhe seria facii apoderar-se de Orão. 

As duas Esquadras dirigirâo-se ao Cabo de San« 
ta. Maria no Algarve, onde se lhe reunirão algumas 
embarcações armadas nos Portos daquelle Reino ^ que 
alli as esperavâo. 

Seguindo a sua' derrota , chegarão as Esquadras á 
Tisca d€ Maznlquivir a 19 de Julho, e por ser já tarde, 
se fez o Conde na volta domar, com intenção de com- 
metter o desembarque no dia seguinte; porém os ventos 
comnH-fW lhe embaraçarão tomar o Porto antes de 23, / 
o <)ue deo -texnpo aos Mouros de se reforçarem, 

Descmbarcirão a final ns tropas, fkando o Conde 
na seu escaler a requerimento dos Fidalgos, que o acom- 
panhavão; e sem opposiçâo chegarão ás muralhas do 
Castello, e começavão a arrumar-lhe as escadas, quan- 
do de repente gahírão de dentro quatrocentos cavallos,' 
e alguma gente de pCj e carregarão os Porrugue/e? com 
tanto vigor, que este€ cheios de terror pânico ^ fugirão 

34 



S6< 

Ml degordenii ^ «e fecolhécao is Jandias, flctu odo i^ 
^uns siorcos no campo. 

Pescomenie deste desastre , fructo da pouca Ifyâ^ 
iplina daquelles ceippos , deo o Conde de Tarouca» com 
Q parecer dos seus ÒfHciaes, por acabada a empreza^ e 
flespedio para Portugal a Esquadra auxiliar; e proaeguin- 
ào a sua derrota, fez escala em Alicante, e nas UhsB 
Baleares; e por ultimo entrou em Cálheri^ Capital da 
Sardenha, para refazer-sc de víveres, em que ae deoio^ 
lou pouco; e tornando a seu caminho, encontrou pdo 
travéz de Tunes huma Carraca , e dous GaJetfes GeiíOf^ 
v^zçs, que hiâo para Orão carregados de merçt^riat^ 
entre as qiraes haviâo muitas pertençenteã i^ Tttroof » 
Mouros , e Judcos. Com estas presas voltou o Cwde a 
Cálhcriy e tomou por perdidas todas as fazeodi», qut 
i)ão crao de Genovczes, ou de outros proprietários Cbriã^ 
taos , carregando-as nos uavios da sua Esquadra ; largoa 
porem a Carraca , e deo liberdade a tefsenta Mour«^ t 
iTurcos, e alguns Judeos, que achou abordo das prezas ^ 
^as quaes levou os Galeõea > por ter neçe^ade dtík$ 
para a sua commis^ão. 

Navegando de Cálheri para a Costa daCraciai oir 
^ntrou três Galés Venezianas, oue o acompaahérao i 
Ilha de Corfú , onde o veio receber ires legôas ao flutr 
Q General da Armada de Veneza, com vmce o tínco 
grandes Galés , e cinco Galeões. Dilatou-se algum leoiT 
fo o Conde de Tarouca em Corfú, e sabend^^^e qoõ 
os Turcos liaviâo abandonado o projecto, que tiawo 
contra a Grécia , e recolhido já o seu Ârmaiiicnto ^ VoU 
tou para Portugal , seguindo quasi a mesma derrota, qut 
^zera á ida, e chegou a Sagres dia de Natal, d'oiidtf 
passou a Lisboa, havendo-sc perdido no caminho coaa 
formenta os dois Galeões Genovezes. Os géneros apreza* 
áijs reparrirâo-se pela gente da Esquadra; e do qulnio^ 
c^ue lhe ro:ava , fez ElRei mercê ao Conde. • 



2M 

Ifiw — Com ik chegada de ftdro Aíyatcs Cb^rd 
ibí EtRei D. Manoel infbrmadi» d^ esrado de guerra^, 
em qu« ficatâo ob Fortugueze$ na liRdfd" com ó Rei de 
Oi&air, e a^im determinou mandar hiitt» gramle for- 
ça; râtat , capas de fazer respeitar a sua Bandeira m>& 
mares Orientaes (i). Em consequência fez rrabaíhar corú 
tanta actividsMte nos Arfenacs, e era tat a ainmdaftcia de 
muniçliea, e petrechos, que nos firts de Janeiro deste an^ 
na de ijoi' se- achavão proniptoe q^in^e navios, doi 
Vinte destinados para^ aquetla viàgtm. IXvidtd^os ElRei 
em dtat &quQdras : a primetra dtas. maiores dez N%os. 
e a a^nda de cinco, íicando o^ resto para se formar 
iauiuii icrcríiu Bsquadto , q^ie* devia partir loge que es- 
tivesse completamente armada* 

Otfereceo SlRei o Coilimando'em'Chefe a-Cãbral, 
maa sabendo este, que Vicente Sodfé estava nomeado 
rara C^mmandame da segunde Esquadra , com hntd 
keghDenfO) qu0 quasi o isef^rarta da sda jurisdicçâo, 
porqM bia ficar estacionário na índia, para fãzér a 
goerM* ao» inimigm do Eseado ; câm^ era homem ãif 
nmtês primares acerca ãa pênt& de benra^ teve svbre^ 
ate ftê^útíú afgtnis referimentos^ aque ElRei Ibef 
nu9 sMisfèk ^ die que resukou ser nomeado em seu lii-' 
gar Db Veado da Gama. 

' Eâo Conii»andai^t6s dos navios de p¥imrira 6s-' 
qoedra D. Luiz Coutinho, Francisco da (!!unba, Jo^^ 
Lopes ferestrello, Pedro Affonso de Agtiiar, Gil' Mà:-* 
toea, Rttjr:de< Castanheda, Gil Fernandes, Diogor ^er^ 
nandes Clorrea , e António do Campo. Commandava a 
segundA- Esquadra Vicente Sodré, tio de D« Vasco^ dta. 
Q^fcem-^ r o» outros Commandantes erao Braz Sodró^ ^eu 
irmáty, Álvaro de Ataide, Fernão Rddriguês Bardaças^ . 

Cl) Vede Barros, Década i. Liv. 6. Cap. i. -*-^ Faria, Eilfopaíoí-- 
fliprtzii — Câstaníicda, Liv. i. Cãp. 14. — ' Obtt, Parte i. tap. 68. 

Rezende no* Epilogo já) citada 

34 li 



e Antor>lo Fernandes. Elegeo EIRei a Estevão áà <?ái* 
ma, primo Ao AlminnT**^ para commandar a rerccini 
Esquadra , cujos Coaimanclantcs erao I.opo Mendes de 
Vasconcellos, Thomaz de Carmona, Lopo Dius, e Joio 
de Bonagracia, Italiano (i). Em rodas estas trcs Esqua* 
dras hiâo mil e oirocenros SoKiados» 

A 30 de janeiro foi ElRei á Sé ouvir Misia^ ç 
depois de acabada, relatando em huraa solemne falli 
os merecimentos de D* Vasco da Gama, o declarou Al- 
mirante dos M^/es da Arábia, Pérsia, e índia. Conclui* 
do este acto, entregou4he a bandeira do Posto qae !e* 
vava, c dalli foi conduzido por todos os Grandes^ entaif 
Fidalgos, que estavSo prementes, com grande pompa até 
ao Cães da Ribeira , em que embarcou. 

A 10 de Fevereiro par tio de Bclem o Almirante 
I>. Vasco da Gama, fazendo derrota para Cabo Verde, 
e no ultimo do mcz ancorou na Porio de Ale (x)^ em 
que esteve seis dias completando a sua aguada , c alli 
\eio ter huma Caravela, que vinha d?* Mina, de que 
era Com mandante Fernão de Montearroio, o qual cri- 
xla duzentos c cincoenw marcos de ouro cm manUtias^ 
e outras jóias que os Mouros usáo* O Almirante^ como 
trarisportãva comsigo os Embaixadores dos Reis de Ca- 
iianof, e Cochtm , mostrou-Ihcs o ouro, para que fou- 
bessem que ElRei D, Manoel era Senhor daquelle Paiz 
da Mina, d*onde lhe vinhao cada anuo doze e quinze 
erabarcaç6c5, cada huma com igual quantidade de ourow 
Os Embaixadores, estupefactos, lhe descobrirão emão^ 



(i> Os ncnsoi Historiadoref pouca* veict concrrdão rwn nomts dot 
CQmmaad4nres j não $ó por falta de boas noticias, iTias porque nadviii 
sticcrdia aáo ir Camin^iiutjate pcimctro nomeado pira hum navb, 
pf» qualquer causa occofbeiitc , e nomcar-jc outro na vcjipen ik |»rtV 
Ía , de fjuc não, úcàvn », og «e perdia a lembrança, , 

(:») BaiTQ] situa cqui^oc^damctue o Porto de Ale no mt9 Í€ Cêkm 
Ytrdc^ d3 qut \í%:i ^uioxc 1'^'^qíj distaiite |>arai o !í. E. 



«69 

fpb u^gaàiM pessóias^dt fiamiHa do Embaixador de Ve- 
iieza cm Lisboa (qae yhnra pedir auxilio contra os Tur- 
cos) lhes caoBárâo em segredo, que este Ministro tinha 
dado soecorros em dinheiro , e muniç6es para se prepa-^ 
rar aquelia Esquadra , por ser a Senhoria de Veneza a 
€naior Potencia da Christandade, e Portugal hum Reino 
mui pequeno, e pobre, que nâo podia sustentar só o tra^ 
£a> das especiarias; acrescemando outras muitas razoes 
para os persuadir, que lhes seria a ellcs mais ranrajoso 
o Comroercio com Veneza, do que com Portugal. Pbrém 
a vista daquélle ouro, que, por ser era obra, razia maior 
¥uIto, capacitou estes Embaixadores Indianos da gran« 
de riqueza de Portugal. 

O Almirante avifou de tudo a ElRei pela mesma 
Caravela ; e a 7 de Março proseguio a sua viagem , n^ 
qual, até ao parcel de SoFala:, teve alguns temporaes^ 
que lhe desaparelharão alguns navios. Dallí expedio Viccn^- 
teSodrécom a maior pane da Esquadra para Moça mbi- 

3ue , e etle foi a Sofala , onde fez o que direi na segun* 
a parte destas Memorias ; e desta Gdade passou a Mo- 
çambique, em cujoBorto ancorou a 4 de Junho de 1503, 
e achou Vicente òodré, que chegara quinze dias antes. 

No r.^ de Abril partio de Lisboa Estevão da Ga- 
ma com a sua Esquadra dexiaco navios (i). A 4 virão 
a Ilha de Porto Santo , e no mesmo dia as Desertas : 
J30 seguinte passarão as llbqsda Palma, e Ferro, e a 15^ 
sís de Cabo Verde. 

CO As nnicas noticias circunstanciadas, que teifios desta VitgeQi^ 
sío- as qve nos deixo» Thonté Lopes, EscrivSo dò navio, que comnian- 
dav> Jòao de Eoaagracia. A sua relaqSo be mUito interessante na parto 
liKCOfica, pela nniucicsa siogelesa com que narva muitos faetos curio« 
fOf 9 e interessantes; mas ne que respeita i Náutica, náo tem ignal me- 
lecimentOy por ser desta mui alkeb a sua profissão, de que se seguio* 
ttferir sinceramente o que ouiia 2 pessoas pouco instruídas naquella Ar- 
te. Vede o Temo 2. N. $ pag. 1,59 da Collec^âo de Noticias i^ara a 
Historia das Nações Ultramarinas* 



Á i8 de Maio , estando ainds disfeifites é» Iiiiliv{ 
vlrio (i) liunia Ilha alta, e frondosa, que Hiespsrton 
da grandeza da Madeira y e jaigárâo nSo ter lido. aiada 
acoberta; á qual tentarão, chegar*se, e nâoiha peraMC» 
tio o Vento. Parece que a derrota desta EsquaÀrs feí 
muito a Oeste, porque a quatrocentas legoas' do Gte 
de Boa Esperança con[>eçárão a sentir gravides fírios^ qpe 
foráo augmentando á proporção que; se apPOiknairSo do 
Cabo, por estarem na estação do Inverno do Hemisábi^ 
rio AUsfral. 

A 7 de Junho os assaltou huma furios».tomienta 
de Oeste, que nessa noite espalliou os navios , de softc 
que pela manha se achou s6 a Náo , de que era Ctoi»* 
mandante João de Bonagracia,. com a Nao^Iiv* No 
quarto das oito para o meio dia, indo os navios em {ku 
pafigos arriados , cresceo tanto o vento, que se quebroa 
a verga grande do de Bonagracia , e rendeo hum mastro 
da Júlia ; e assim^ correrão em arvore seca aquelle dia^ 
e noite com grande susto, è trabalho, pelo muito mar 
que entrava nas Nãos, sobre tudo na JuIia, que agoen^i 
tava menos« No dia 9 at^onançou a tempesude, e tM9 
noa a reverdecer a 11 , seguindo sempre os navios ani« 
mo de Leste. Nos dias 12 e 13, em que julgavío ter 
já navegado quatrocentas e cincoenta iegoas naquette 
rumo , virão pa£ aguas alguns limos , taninhas , loboi^ 
Qiarinhos, e muitas aves de variaa espécies, que sfo si-: 
gnaes de terra j e como estavão mui longe r do Coatinei»* 



(O A existência desta grande IJha he fabulosa; eu impMto, qv»-- 
Thotnc Lope$ vio taJvez o Penedo lie S. Iledro, que está quM bum 
grão ao Norte da Liniia, e lhe paveceo det longe muita maior dO'^a» 
realmente he ; ou que algum curioto i^oorame adultertxft no Original^ 
de Tbomc^ LofM)& a descripçío, que fazia- daquelle Ilbote, acresecniiaD* ' 
do-Jbe, para fazer o caso mais verosímil, a «;ua posição relativa á Ília 
dos Papagaios Vermelhos, e outros absurdos, que supprimi, por SAcna* 
ate irrisórios. 



tf9. AfHcif», ^mectoAinsB t^ne -k f chat ao ws riunhan^r 
SM ^de^ulguma Ilha nao descoberta. , 

A 7 de Juibo; aendo o veoco aí^Aa mui forte, co^ 
meç^rao ft nategar para o Norte , e depois ao N.O. até 
aa^dúi'io, em que viiáo terra distante aJgtimas legoas^ 
ç por ser já no fim da tarde, atravessarão, e ás onsc ho- 
rta derao Ibodo. - Ao amanhecer fbrâo reconhecer a ter« 
ra, e nío podendo tomar lingua, voltarão a ella no ou* 
tro dia, e souberão que estavâo no Cabo Primeiro, do 
qual sahe huma ponta mui aguda pdo mar dentro, e ha 
por alli algumas Ilhotas, e restingas de aréa. Deste Tu- 
gar Bãveguio ciocoenta legoas ao N.E. e N. N.E., e 
chegjárâo defronte da Alagoa, afastados delia vinte e 
çiocò legoas* Cootiouando no rumo de N.E. 4 N. , acha* 
fão-ae quinze legpas ao mar do Cabo das Correntes ^ e 
navegarão depott ao Norte sessenta e cinco legoas, com 
grandíssima falta de víveres» 

A 15 de Julho acharâo^se na boca do Rio de So- 
faJa, e por ser calmaria » surgirão em onze braças, e 
i|saim te conaervárâo por espaço de dou5 dias, em que 
negOQÍáraa aígum ouro com os habitantes , que pam 
iw> oa cogérao* Nette ancoradouro concertarão o mz9f- 
tfo da JuHã, e continuando a sua derrota, entrarão a 
^8 em hunvi Bafeia de pouco fundo, e muitos parcela^ 

3UC tinha sete ou oito legoas de extensão. Sahírão 
ella, e corr^ão ao N. E» 4 N^ mais hum dia, e huma 
noite, e virão o Rio dos Bona Signaes , c depois as Ilhas 
Primeiras, das qunes no dia 21 esta vão já cinco ou seis 
fegoas distantes. Vinte legoas antes de Moçambique 
encontrarão hum baixo mui comprido, que seguia a di- 
xeççt9 da Costa por sete ou oito legoas, e entrava duas 
j^Io mar. No dia seguinte ancorarão ambas as náos 
em Moçambique. 

1502 — Miguel Corte Real, Porteiro Mor d^ElRei 
I>. Manoel^ partio de Lisboa a rio de Maio de 1502^ 



272 

eom três navios (i),Y^ra procurar 8 sen irmâd Ga^páff 
Cerce Real. Chegado á Costa já descol^erta , c querm. 
do examinar os Rios, Canaes, c Bahias que se^ lhe of- 
fercciáo, entrou por luim delles, e mandoii entrar m 
dons navios 'restantes por outros dous Canács , decermt« 
nando-lhes hum ponto, enf que devcriâo reunir-se «té 
20 de Agosto; porém nâo^appareceo mais, e os Com- 
n-.andantes das duas embarcações, havendo-o aguáràadó 

Sor mais tempo que o praso assignado, voltarão para 
òrtugal. Desde então se ficou chamando áquelle Paiz a 
Terra dos Cortes Reaes. 

I5'02 — Neste anno mandou EIRei huma Arma- 
da (2) composta de Náos, Caravelas, e Galés, dividida 
em duas Esquadras , de que erao Commandafites Jorge 
de Mello, e Jorge de Aguiar, para atacarem a Villa de 
Targa, d*onde voltarão com perda de gente, e $cm ft- 
zerem cousa alguma. 

lycj — Vasco Annes Corte Real, irmão de Cas- 
ar, ede Miguel Corte Real, Vedor da Casa d^ElRei 
L Manuel, e do seu Conselho, Capitão, e Governador 
das Ilhas Terceira, e S.Jorge, e Alcaide Mor de Ta- 
vira , intimamente lastimado do desapparecimento de 
seus dous irmãos (3), pedio licença a EiRei para ir em 
pessoa procura-los , a qual lhe não concedeo ; porém á 
custa da sua Real Fazenda mandou neste a^no dous na* 
vios a essa diligencia , de que voltarão sem noticia al- 
guma daquclles dous Navegantes (4). 

O) Vede a Memoria já citada acerca destas Viagens dos OmICI 
Rcjcs , e também Góes no mesmo Jugar citado. 

(2) Gocs, Parte i. Cap. 62. 

O) Vrde a Memoria já citada na Collecção da< Memoria» dé Lhce* 
ramra ±\ Academia das Scíencias, Tomo j. — Goes, parte. i. Gi|>. 66, 
diíVcre cm algumas circunsiiincias, 

(4) Estas frccjuoutes \'iagens á Terra Nova derão a conhecer aosPor- 
tu^^iiezes, de que vr.n!a;:em lhes «ria a pcvaria do 'CacaUnn , c assim 
çicss^o tanto a Navegação ptra aqu<rlie Vaú , aue 1'írr.enrel affirma no 



E 



278 

Ifo? — Confiado ElRei D, Manoel, que o Almi- 
rante D. Vasco da Gama, com a forte Esquadra que 
Jevou á índia , teria restabelecido a paz , e boa harmo* 
nia entre os Portuguezes e.as Potencias Asiáticas, man- 
dou aprestar este anno três Esquadras (i). 

Compunha-se a primeira dos Navios S. Tiago de 
300 toneladas, Espirito Santo de 35:0, S. Christovão 
de 150, e Catharina Dias de 100: era seu Chefe Aífbn* 
so de Albuquerque, c Com mandantes de navios Duarte 
Pachçco Perciía, Ferníío Martins de Almada , jC .outre 
de que se ignora o nome. Hum destes navios era arman- 
do por conta da Casa Alarchioni, e relle 4iia embara- 
çado por Feitor João de EiupoJi, Florentino (2); Fran- 
cisco de Albuquerque, primo de Afibnso de Albuquer* 
que, commandava a segunda Esquadra de três navios^ 
« os outros dous Commandantes erâo Nicoláo Coelho ^ 
e Pedro Va2 da Veiga. Estas duas Esquadras deviao ir 
á índia carregar de especiarias, e voltar logo para Por^ 
tugal,sem ficarem alli servindo. . 

Commandava a terceira Esquadra António de SaU 
danha. Fidalgo Castelhano, e os outros Commandantet 
forâo Ruy Lourenço Ra vasco, e Diogo Fernandes Pô» 
reira', que servia também de Mestre da mesma Náo^ 

seu Roteiro '(^pag. jtOj ^^ antigamente hião todos os annos dos Pof 
tos de Aveiro, Vianna, e outros, mais de cem Caravelas áquella pesca, 
e ainda no seu tempo (eile nasceo em 1650, e falleceo em 1719) se 
hSo nas Cartas Franceza^ , e Inglezas os nomes Prrtuguezes de quasi to^ 
dos os Qbos , Portos , e Eahias da Teira Nova , de que hoje restio ai» 
|:unSf posto €;ne alterados; como v. gr. as Ealiias da Trepcssa, e da 
Grão Prttençéíj convertidas em Eahias de Trtpassas , e de Pleisande. 

(1) Banos, Década i. Liv. 7. Capítulos 2. , e 4. — Castanheda ,' 
Liv. I. Capl 5$., e 64. — Góes, Farte i. Capítulos 77. , e Sc. 

(2) Author da única Historia conhecida desta Viagem, a quem se- 
go irei , por ser testemunha ccular dos factos que narra* Vede a CoHeo- 
cão de Noticias para a Histeria das Nações Ultramarinas, Tomo z* 

J^.« 6. 

35 



27i 

LwaVa iclle por commissao eximinar, e reconhecer o 
Eetreifa da Arábia (i), € cruzar cm quanta a estação^ 
lho permitrisse, sobre o Cabo Giiardafui « para interoe- | 
ptar o Conimercio dos Mouros, 

A 6 de Abril partlo de Lisboa Affbnso de Atbo* 

Suerque, dirigindo-se a Cabo Verde, á vista do qual 
íz conselho com os Pilotos subre a melhor derrota! 
que deveria seguir para o Cabo de Boa Esperança, evi- 
tando a navegação, que conímummente se fazia ao lon- 
go da Costa de Guiné, perigosa pelos seus muitos bai- 
lios, correntesj e calmarias; c dctcrminou-se , que a Et-I 
^adra se engolfasse de setecentas a oitocentas legoas. 
Navegando pois nesta volta vinte e oito diaSj avistou-sc 
Jiuraa tarde a Ilha da Ascensão, debaixo da qual esiivcrSo 
toda a noite em risco de se perderem com temporal dej 
irayessia. Apartados da Ilha , seguirão o botdo do S,0* 
tanto tempo, que se acharão abarbados com a Cotta do 
Brasil, onde ancorarão (não se sabe era que Porto), e 
tivcrão communicaçao com os naturaes, que crão ân-| 
íhropofagos. Do Brasil continuarão a sua derrota pira o 
Cabo de Boa Esperança , e softrérão huma grande lOf- 
mcnta , com que correrão a arvore seca , e nelfa se ef- 
palhíirão os navios, e fui a pique o chamado Catbarina 
Dias* 

O navio , em que hia embarcado João de EmpoU J 

(i) O B^trerta da .^r^ia lic formado de Imma parte pelà Aftkai^ 
Oriental, t Ja outra píb Arábia, Pass:i-st; d^ui ao Mm Vermelho « q^ 
«ío hc realmente senáo a continuar io do mesmo Eitretto, o qoil íu 
cin certo ponto huma garganta miki^ estreita de communicaçao, a qf^ 
X dteo o nome de Estreito de Babe l-Maii dei. Voi ttwiio deite extenso 
Çattil ac tinlilo Of Arabei senhoreado do Commercio da hidU, imei òi 
Viagem de D* Vasco da Gama, e continuarão a commerciar ^wr mtiisti 
aofiof , ainda que a anta de grandes perdas e thcm. Na ss^ipdi fmu 
éÊ9tu Memorias explicarei mais dittusamente e«ca matcria^ anAlfiaoicb » 
filano, que o Grande Albu^uert^ue tinha tormado ptra a conquista 
da Índia. 



S76 

vio a 6 de Jullio o Cabo de Boa Esperança , que do* 
brou, c seguindo a Costa, foi ancorar na Aguada. do 
S. Braz, onde fez agua , e se proveo de vaccas a troco 
de huma campainha por cabeça, por ser este o artigo 
que os Negros estimavão mais ; andavão elJes vestidos 
de pcllcs , erão mui brutos , e ninguém entendeo a sua 
iinguagem. Sahindo desta Aguada , continuou a correr a 
Costa, e tendo sofFrido algumas tormentas, chegou a 
Sofala, e d*aqui seguio para Melinde, onde devia esperar 
por AiFonso de Albuquerque, segundo as instrucçóe» 
que levava , mas nãó' pode ferrar o Porto , ainda que 
nisso trabalhou muito, a fim de tomar hum Piloto, que 
o levasse á índia ; porém as correntes o arrastarão at^ 
Patê, Aqui foi obrigado a dar fundo cm quatro braçaa 
entre parceis; e vendo a estação avançada, deliberou-sô 
o Còmmandante a atravessar para a índia; e tendo na- 
vegado quinze dias, encontrou AfFonso de Albuquerque 
com 06 outros dous navios da sua Esquadra, com gran- 
de alegria de todos ; e na>vegando de xonserva , forSo 
avistar Monte Deli, e chegarão a Cananor a ii dçSe- 
tembro, 

Francisco de Albuqucrqiie sahio no dia 14, e fez 
mais breve jornada , porque ancorou em Anchediva no 
Tiiez de Agosto; mas pcrdco-se-lhe no caminho, sem sa- 
ber-«c como , o navio de Pedro* Vaz da Veiga. 

Apóz estas duas Esquadras partío António de Sal- 
danha ^e o seu Piloto dirigio tão mal a derrota,, que o 
levou á Ilha de S. Thomé, havendo-se já separado da 
$ua conserva o navio de Diogo Fernandes Pcreirj?, 

Dçsta Ilha o conduzio a huma Bahia ao None da 
Cabo de £oa esperança , asscgurando-the qtie já o ti>» 
uha pôf5?ado. Aqui ancorou António de Saldanha, que 
$c achava só com o seu navio, pòr se ter igualmente 
apartado dellc Ruy Lourenço : e na incerteza do Jugar 
cm que estava, subio a iiiima njODt^tíha m^\ alta, a^rha- - 

òõ ii 



276 



tidâ por cima (i); e estendendo os ollios para toÒM 
as partes, via o Cabo, e alem dclle o mar para a baa- 
da de Leste, onde se fazia huma grande Enseada (l). 

Nesta Bahia, em que António de Saldanlia estava « 
e a que deixou o seu nome, foi onde depois matarão os 
Cafres ao Vice-Rei D* Francisco de Almeida. Dobrou 
finalmente o Cabo de Boa Esperança : na segunda par- 
te fallarei do resto da sua viagem. 

Diogo Luiz Pereira foi ter a Melinde, e Ruy Lou- 
renço Ra vasco a Moçambique. 

15'Oi — Neste anuo de lyoj mandou ElRei D. Ma- 
Doel huma Esquadra de seis navios (3) , commandada 
por Gonçalo Coelho, ou fosse para ir descobrir Mala- 
ca,, ou para examinar, e reconhecer a Costa do Brasil já 
descoberta por Cabral (4). Américo Vespucio comman* 
dava huma d^s embarcações desta Esquadra. 

Partirão âc Lisboa a 10 de Maio (5), em direitura 
ás Ilhas de Cabo Verde, em que tomarão toda a casta 
de refrescos, demora ndo-se nisto treze dias. Continuarão 

(t) Giam3i*!ie Koje Montanha dú M4ía* 

(3) He a Kuhia Falsa, 

O) Vede a sígunda Carta de Vespucio noTocnoa* pag. $0 diGoP 
lecq^o ji citada; c Goei, Pane 1. Cap. 6$. 

C4} Goef diz (.positivamente, que Gonidto Coelho tu o Qiefe éeu 
ta E^CjUadra , e que o sen desc iiiú era para a T^rra Santa Crm^, Vcfpu» 
cío, a qviem itgo na Historia desta Viagcra, diz, que a Esquadra pattió 
de Li^bfKT cOíii o projecta de if descobrir huma Ilha chamadm Malata ^ 
mas parctre haver aqui ai^irrn erro , porque a sua ptripria natra^ éà 
bem a cnicudcr o contrario. Era primeiro lugar o rumo^ que a ItM^M 
dia fc^uio quaiido os rentoi. for<;3ráo o seu Qiefc a abaíidonar o plano 
insensato de reconhecer Sena leòa , só a podia conduxir ao Hrnit Em 
fcgundo lu^ar o ponto de reuniáo, que cUe dco aos seuy nmvint, ew 
easo de scfpara<;ão, foi a urra deneberta luj Vidrem panada *, titp he, 
o firasiL Em ultimo lugar vemos que Vtfpucio construio hutn Forti 
no Porto, que descobrio emiJ** de Jatícude Sul; c deixando fidlt gi 
niçlo, voltoti para Portugal ^ o que se olo combuia copi o dcstlOQ 
Eiquadn para /Vlalaca. 
O) ^o«t dá a sabida da Esquadra a ia de Ju^a 



I 



« 



277 

depois a sua derrota com a proa a E.S.E. , porque co- 
mo o Chefe era homem presumptuoso , c obstinado, 
quiz reconhecer Serra Leoa, sem ter necessidade disso, 
c contra vontade de todos os Commandantes. Quando 
porém se aproximarão a ella, forão taes as tormentas, e 
yentos contrários, que em quatro dias que estiverão á 
sua vista ^ não poderão tomar Porto, e forão obrigado» 
a seguir a sua verdadeira navegação. 

Desta paragem navegarão ao S. O. , e tendo cami- 
nhado trezentas legoas, estando já na latitude S. de j*, 
virão buma Ilha extremamente alta, de que poderião es- 
tar distantes vinte e duas legoas , e não tinha mais de 
duas de- comprido, e huma de largo (i). 

Este descobrimento foi fatal i Esquadra, porque 
se perdeo aqui a Capitânia, que era de trezentas tonela- 
das, por máo governo do Chefe, que deo com ella em 
hum oaixo, onde se abrio na noire de lo de Agosto, e 
foi ao fundo, salvando-se a gente*, e nella hiâo todos 
os mantimentos de sobreselente da Esquadra. O Chefe 
mandou o navio de Vespucio á Ilha em busca de anco- 
radouro, em que surgissem todos , e ficou-Ihe com o es- 
caler guarnecido de nove homens, que tinha ido acu- 
dir ao naufrágio da Capitânia. Partio Vespucio, levair^ 
do s& metade da sua guarnição em demanda da Ilha, 
que lhe ficava em distancia de quatro legoas, e achou 
hum Porto, era que podiâo ancorar os navios. Nelle es- 
perou oito dias sem appxirecer embarcação alguma : ao 
oitavo descobrio hum navio, e receoso de que este o 

(i^ Eu mdíno^me a que esta Ilha era a de Fernancfo de Noronha, 
situada na latitude S. 5^ $6', e longitude 34$^ 31', tanto porque a de- 
scripçlo de Américo Vespucio se parece bem com a que ounos fazem 
daquella Ilha, como porque o rumo que teguio d'aJli para a Fahía de 
Xodós os Santos » e » distancia que navegou , não concordão maJ com 
o verdadeiro runu), e distancia entre a Baliia e a Ilha de Fernando, at- 
tcndendo a que Vespucio conta por legoas mais pecjuenas , (^ue as nossa» 
tegoas maritimas* 



278 

íiSo visse, fez-se logo á véla a encontra-lo, pensando 
que lhe traria o escaler e a gente; mas chegando i fal- 
ia, e perguntando-lhe as novidades, íó lhe rcspondeo, 
que a Capitânia fora a pique, salvando-se apenas a guar- 
nição, e que a sua gente, e o escaler havido ido n^ Est- 
quadra. Neste aperto voltarão os navios para a Ilha, e 
•se proverão de aguii e lenha, servindo-se .do batel do 
ultimo que veio. Esrn Ilha era despovoada, tinha mui- 
tas aguas doces e correntes, infinitas arvores, e innu- 
mcraveis aves marítimas e terrestres, que se deixavão 
apanh.ir á mão, e nenhuns outros animaes virão, senSo 
ratos mui grandes, lagartos de duas caudas, e algumas 
cobras. 

Partirão dalli navegando ao S. 4S.O. , porque tra- 
ziSo regimento para que, em caso de separação, se di- 
rigisse o navio extraviado á terra descoberta na viagem 
antecedente. Continuando a navegar com bom tempo , 
aos dezesete dias de viagem descobrirão hum Porto, a 
t]ue pozerão o nome de Bahia de Todos os Samos (i^, 
•que distaria da tal Ilha trezentas legoas. NSo achando 
alii o seu Chefe, nem outro algum navio da Esquadra, 
«pcrárao os dous Commandantes dous mezcs e qua- 
•tTO dias; e vendo que não havia noticia delles, determi- 
narão correr a Costa para o Sul; e sahindo da Bahia , 
navegarão mais duzentas e sessenta legoas, e entrarão em 
hum Porto, em que levantarão hum Forte, onde deixa- 
rão vinte e quatro i)omens dos que vinhão no outro na- 
vio, e pertencião á Capitânia. Neste Porto, que Veçpo- 
cio situou na latitude S. de iS'' (2), c longitude Oeste de 

(1 ) A Fahia está situada na latitude S. 1 }**, e lons:itude j jp* a^. 

(2) Esta latitude he a de Caravelw, porí*m a dbtancia da Úiía a 
c<te Porto Ik' de cem Iciroas ao rumo de Sul , com pouca diffeiençi , • 
Ti.io de dLi2cinat e sessenta, como diz Vespucio; a tua longitude tam- 
bém <;çíi errada, p,^r;]ue Caravelas fica }i** a Oesfe ile Lbboa pouco 
n}-i> ou m?no$ j mas este erro não admira naquellc teaipo. 



279 

Lisboa 37% segundo os seus instrumentos ; estiverSo 
cinco mezes construindo o Fone, que guarnecerão de 
doze canhões, multas armas , e víveres para seis mezes. 
£ despedindo-se dos companheiros, e dos naturaes do 
Paiz, que erão tão pacificos , que Vespucio peaecrou 
quarenta legoas pela terra dentro, acoitipanhado só de 
trinta homens, se tizerâo á vela ao rumo de N.N.E», 
e em setenta e sete dias chegarão a Lisboa a 18 de Ju- 
nho de 15*049 6 forão muito festejados pelos supporem 
já perdidos. As outras Náos da Elsquadra nunca. mais 
apparecêrãOf 

1504 — Neste anno mandou ElRei á índia Lopo 
Soares de Alvarenga (i), com huma bella Esquadra de 
treze navios, os maiores que até áquelle tempo lá tinhão 
ido, guarnecidos de mil e duzentos Soldados, em que 
entravão muitos Fidalgos e Cavalleiros, e abundaníé- 
cnenre providos de muniç&s de guerra. Erão Coitiman- 
dantes Leonel Coutinho, Pedro de Mendonça, Lopb 
Mendes de Vasconcellos , Manoel Telles Barreto, Pe- 
dro Affbnso de Aguiar, AíFonso Lopes da Costa, Filip- 
pe de Castro, Tristão da Silva, Vasco da Silveira, 
Vasco de Carvalho, Lopo de Abreu, e Pedro Diaç. . 
Sahio a Esquadra de Lisboa a 22 de Abrii , e a x 
de Maio chegou a Cabo Verde. Chamou Lopo Soais 
a seu bordo todos 06 Commandantes, Mestres^ e Pilív 
tos, e lhes advertio, que havendo partido tão tarde de 
Portugal, não devião fazer os desmanchos, que até alli 
fizerâo, c sempre por descuidos, como foi abalroaretk 
Jiumas Náos com outras, em que correrão grande peri^ 
go; como também não seguirem alguns navios de noitç 
o seu farol, e huns irem pela sua proa., outros pela pór 
pa, e alguns a seu barlavento* Para evitar estas desor» 

(1) Vede Banos, Década 1. Liv. 7. Cap. 9. — Castanheda, Liv. u 
Cip. 90. — Gocs, Paxte 1. Cap. 96. — faria, Ásia Fort ugueza. 



280 

dcns , mandou lavrar hum Termo pelo Escrivão, a^ 
signado por elle, e por rodos os Commandantes , no 
qual ordenava : ííQiie todos os navios seguissem de noite 
o farol da sua Ndo, e navegassem nas suas aguas. Que 
cm nenhum navio houvesse de noite outra luz, senio t 
dabitácula,ca dacamara do Commandante. QueosMes* 
três, c Pilotos tivessem muito cuidado em que os navios 
se não abordassem; e que respondessem aos signaes, 
que elle lhes fizesse. Que os navios o salvassem de dia, 
c nSo lhe passassem adiante de noite. E que quem fi- 
zesse o contrario, pagasse dez cruzados, e fosse prezo 
até á índia , sem vencer soldo. ?> Como alguns Mestres, 
e Pilotos erão negligentes, e por sua culpa se abalroa- 
vão os navios , contentou-se Lopo Soares com os mudar 
de humas embarcações para outras (i). Deste dia em 
diante navegou a Esquadra em boa ordem. 

No mez de Junho, indo a Esquadra na volta do 
Cabo de Boa Esperança , teve hum temporal , com que 
correo dous dias e huma noite em arvore seca, com 
tanta cerração, que passados dous dias, vírão-se signaes 
de terra próxima, que senão pôde descobrir; c Lopo Soa- 
res ordenou, que a cada ampulheta se dessem aous ti- 
ros de canhão na sua Náo, e todos os navios respondes- 
sem com outros tantos. Abonançando o tempo, achou- 
se de menos a Náo de Lopo Mendes de Vasconcellos ; e 

(i) E^te breve Regimento de Disciplina Naval, que o bom juno 
díctcHi a Lopo Soar^, prova que ate al!i não havia nenhum , govcr- 
nacuiose cada Clhefe de huma Esquadra p;:lo stu próprio discurso, oupe» 
los conselhos dos seus Ofíiciaes d'; Ndutica; e os Comnnandames ddil 
navios pelo mesmo modo. Nestas Memorias se verá , que as Esquadns 
Portu<*uezas navegavão quasi sem^>re espalhadas desde que partiSo do 
Reino , 9epnrando*se voluntariamente os navios huns dos outros; porque 
cada C>)mmandante á ida trabalhava por chegar primeiro i índia; e na 
volta a I j<boa ; doovle se scguiáo immensas perdas ao Estado, e aO 
Commercio; consvrquencias inevitáveis da falta de hum bom Reguli- 
mento para o ser\ iqo Naval. 



281 

'ROUCOS dias depois deo huma Náo tamanha pancada cm 
outra 3, que a brio pela roda de proa , fazendo tanta 
agua, que estava em termos de ir a, pique, Lopo Soa» 
res arribou sobre eila, edisse-lhe, que trabalhassem afoi- 
tamente, porque llies acodiria , como logo fez com a 
sua lancha , ainda que o mar andava grosso. Ao anoi- 
tecer achava-?c tomada metade da agua , e para se aca- 
bar 4e toinar o resto, determinou Lopo Soares, que es- 
ta Káo Jevasse farol toda a noite, e as outras a seguis- 
sem, 2 fira de a soccorrercm, sendo necessário, ç acal^ 
itiando mais o vento no dia fcguinte, vedoa-se de todo 
a aguai ^ ^^ ^'^ ^5* de Junho ancorou a Esquadra em 
Aloçambique. 

1504 — Larache era hum ninho de Corsários; achn- 
vâo-se alli tomadas quatro Caravelas Portuguczas, de 
que i>- João de Menezes^ Governador de Arzilla (cin- 
co kgoas de Larache) estava muito irritado, c mais o 
ficou hum dia, vendo passar por diante dos seus olhos 
fjuma Galé ào Alcaide de Teruam Almandarim, e cin- 
co Gaícotas, que todas hião para Larache. Nessa mes-* 
mm uoiíe mandou clle espiar o Porto ^ e soube qiíc as 
Gatcotas estavão abicadas em terra entre as Caravelas 
aprisionadas (i), e que a Galé estava surta junto a hu- 
ma bateria guarnecida de artilhcria, que defendia a en- 
trada do Rio. Andava então de guardj-costa noEstrei- 
IO de Gibraltar Garcia de MeJIo, AnaJel Mor dos Bes- 
teiros, com ires Caravelas, e armando D. João de Me- 
nezes outras três, que estavao em Arzilla, combinou-sc 
c?oni Garcia de Mello para darem hum assalto em La- 
rache. 

Ka noite de 24 de Julho de 15*04 sahio de Ar- 
aíJla D* João de Menezes com esta pequena Esquadra 
de seis Caravelas, c foi amanhecer sobre a barra de La- 



(i> Coes, ?âr]e 1. Cap, tf. 



ne 



rache, mas sendo os Navios conhecidos pelos Mouros^ 
romperão contra ellcs hum grande fogo de artilhcria. 
p. JoRo, que hia na vanguarda, fez cobrir o costado de 
huma Caravela de colxôes, e saccas de lá (que já trazia 
prevenidas ) sobrepostas humas ás outras , e na enchen» 
te da maré ordenou ao Coramandante, oue fosse anco- 
rar defronte da bateria, o que elle fez. Assombra desta 
Caravela entrarão todas as outras^ apezar do fogo da 
bateria, e da Galé Real, e surgirão hum pouco mais 
acima , onde logo desembarcarão, e se travou hama fif- 
ijosa peleja cora os Mouros, que acudirão eni ninneto 
crescido a defender as suas embarcações , principalmen- 
te a Galé, que apezar de tudo foi queimada , assim co- 
mo três das Caravelas apresadas, que os Portttguezes 
»ão poderio pôr a nado; porém trouxerão comsigp^hu- 
jna dellís com as cinco Grileocas, e dous Bergantlji^j 
sem perderem raais que hum homem , á custa das vidas 
de muitos Mouros. E como a maré começava a Tasar, 
D* João, e Garcia de Mello se embarcarão, e sabírão 
do Rio, conduzindo as oito prezas a seu salvo, qúc 
jbrão ancorar em Arzllla, e Garcia de Mello continuou 
a guardar o Esíreito. 

ElRei estimou sobre maneira esta victork , c ficou 
cntSo fazendo o maior conceito dos talemos, c Ttlor 
de D» João de Menezes. 

jj-Of — Sabendo ÉlRei pelas ultimas notícias do 
Oriente (i)» que longe de achar-se terminada, conti- 
líuava mais furiosa a guerra, convocou o seu Conselko^J 
e debatida nclle ^ questão, assento*u-se que cumpria mu-l 
dar o systema até alli seguido, e mandar buma forte 
Esquadra, parte da qual voltasse com cargjf de espe- 
ciaria, e o resto, coraprchendendo as embarcações mai^ 

(i) Barros, Dccada i. Liv* S. Cap. j, — Castanlieái^ Lhr. 
Ca^, 1. — Fedro fiámro de Rezende, Epilogo dos G<n etOidoPiL ^ 
Goe>| P^fte a. Capitules i,, e 2. 



«83 

peqatMfy Sc^ne servindo na índia ; que se construíssem 
Fortalezas fios Portos mais. vantajosos á s^rança das 
Esquadras, e concentração do Commercio ; e que se es- 
tabelecesse hum Governo permanente naquelle Paiz, pa- 
ra dirigir os negócios Civis, e Militares, segundo as 
InstrucçÔes, c Regimentos que se lhe dessem. 

Para preencher estes diversos fins elcgeo ElRei a 
Tristão da Cunha, que estando prompto a partir, tevt 
huma moléstia , de que por então cegou, e em seu lugar 
foi nomeado D. Francisco de Almeida, filho do Cond^ 
de Abrantes, que acceitou facilmente o Cargo, e ElRel 
lhe assignou bum grande ordenado, a contar do dia quô 
sahisse de Portugal até regressar a elle; e lhe Goncedcd 
mais ter na índia huma Guarda de cem Âlabardeiros^ 
Capelia j e outras preeminências , para que representas- 
se a sóa Real Pessoa ; « a seu filho D. Lourenço de Al- 
meida,- mancebo das maiores esperanç;is , que o acom^ 
paobava , fez também varias mercês. D. Francisco d^ 
Almeida deyia ter titi^o de Governador, e Capitão Ge- 
neral , e tomar or de Vice-Rei logo que ccnsttirisse. For- 
talezas, em Cochim, Qananor, e Coolão; por quanto 
EIRei mandava fazer não. só estas, e a de Anchediv^ 
na índia , mas outras em Sofàla , Quiloa , Mombaça , e 
Moçambique^na Africa Orientai, onde os Môufos con- 
timiavão o trafico do ouro, que eradá maior importsín-* 
da vedár-lhes. Estes, e outros artigos se coâtinhão em 
hum amplo Regimento, que lhe deo para governo, o 
quái copiarei por extenso em outra parte. 

Compunha-se a Esquadra de dezeseis Náo& e 8€ia 
Caravelas (i), com mil e quinhentos soldados de giiârni- 



(i) Earros conta vinte e dous navios, e $6 nomea dczenove Com- 
mandantes. Faria diz que a Esquadra constava de dezeseis Náos , e qua- 
tro Carr.ve)^ y e trás os noines de dczenove Conunandantes. Castanheda 
conta quinze Náos, e seis Caiavdas,.« neonea oatíOi tantos Comman* 

36 ii 



2^4 

ção, tudo gente limpa ^ cm que entravão miiitos FidíiN 
gos, e moradores da Casa Real, os quaes hiSo dcsrini- 
dos para ficarem servindo na liidia por três stnríos^ na 
forma de hum Regulamcnco, que EIRei então kz^ de- 
terminíindo o mesmo tempo de serviço para todos os 
Empregos Qvís, e Militares daquelle Estado. Por e^e 
Regulamento se estabcleceo o soldo de oitocentos réis 
mensaes para os soldados durante a viagem, e quando 
estivessem desembarcados mais quatrocentos réis por mer 
de comedorias, como equivalente da raçáo do mari, 
acrescentando a estes vencimentos zs liberdãder^c quin^ 
takdas de que já fallei ^ das quaes gozavio todos os 
individues que serviáo na Ásia, 

Erao Commandantes das Náos (nao contando o 
Governador), D, Francisco de E^ça, Fernão Soares, Ruy 
Freire de Andrade, Vasco Gocs de Abreu, João da Nc^ 
va , Pedro de Anaia , Sebastião de Sousa, Diogo Cor»^ 
rea Fogaça, Lopo Sanches, Hespanhol, Filippe Rodri- 
gues, LopodcDeos, que era igualmente Piloto , JoSo 
Serrão, Antão Gonçalves, e Fernão Bermudes, Fidalgo 
HespanhoL Comraandavão as Caravelas Gon^lo VSa 
de Gocs, Gonçalo de Paiva ^ Lucas da Fonccca, Lopo 
Chanoca , João Homem, e AniSo Vaz, 

Era quanto se acabavâo de aprestar os navios , foi 
a pique no rio de Lisboa a Náo de Pedro de Anaia, pe- 
lo descuido* do Mestre em mandar examinar as bombat» 
de maneira que de repente abrio tanta agua, que se xâo 
pôde salvar; e por isso Pedro de Anaia partio depois^ 
como adiante direi*. 

Nas ve$pera»^ da sallida da Esquadra veio EIRet 
cuvir Missa á Sé, c alli com grande solcmnidade entre- ' 
gou a D, Francisco de Alaieida a Bandeira Real; e 



CMiífie nenhum C(jnnmiid4ine \ por isso o s«gui. 



886 

«ahindaeste da Sé com os Com mandantes, e Fidalgos 
âã SM Esquadra , toda a Nobreza da Corte o acompa- 
nhou até ao Cftt9 da Ribeira, onde embarcou. 

A if de Março de 15*05' se fee á véld a Esquadra 
coro quinze Náos e seis Caravelas , indo El Rei ao mar 
para a ver sahir , e navegando com bom tempo, avistou 
a jo a Ilha da Madeira, e depois a da Palma ; e se- 
guindo a sua derrota para Cabo Verde, a 6 de Abril 
ancorou no Porto de Ale, em que se achava fazendo 
escravatura huma Caravela Portugueza, e sendo por es- 
ta via sabeder o Regulo do Paiz da chegada do Gover- 
nador , mudou-se com a sua familia para Iruma Aldeã 
fronteira ao ancoradouro-, à qual D. Francisco de Al- 
meida o mandou visitar com hum presente , e elle fhe 
correspondeo com outro de refrescos da terra. Aqui 
completarão a sua aguada os navios', huns nesta Bahia , 
oytiFos nà de Besenegue, que fica. pouco distante, em 
que consumirão nove dias. 

A if de Abril continuou o Governador a sua via- 

Sem, soffréndo atites da passagem da Linha alguns dias 
e calmaria: ecomo havião navios ronceiros, que faziao 
atrazar os outros , convocou os Commandantes, e Pilo- 
tos^ e com o seu parecer organizou duas Esquadras (i): 
)iama' , que tomou para si , de treze Náes , e a Caravela 
de Gonçalo de Paiva, para navegar de noite com farol 
na sua proa; e a outra composta das Náos de Sebastião 
de Sousa, e Lopo Sanches, e das cinco Caravefas restan- 
tes, entregue a Manoel Paçanha , que hia- embarcado 
de passageiro na Náo ConceiçSo^ com seu genro Sèbas« 
tião de Sousa. Os motivos, que teve o Governador pa^ 
M lhe £izer semelhante honra ^ forâo ter ElRei nomea- 

(i) Barros faz esta divisão de Esquadras no Porto de Ale; mas Cas*^ 
f anbeda diz , que foi na occasião da passagem da Linha , o que me pa* 
tfceo mais provável , pelo receio que devião causar as calmarias de ser 
pTOiengada a viagem. 



286 

do Manoel Façanha por Governador da Fortaleza de 
Anchediva, e suspeita que também hia nomeado em se« 
grcdo seu successor no Governo da índia. 

Passada a Linha no dia 5 de Maio, achanda-se a 
outra Esquadra fora da vista do Governador, e havea* 
do calma podre, e mar muito banzeiro, a Náo Bella^ 
Commandantc Pedro Ferreira, que era velha, abrío pe- 
la segunda vez huma agua tão grossa , que foi a pique: 
£aIvou-se unicamente a gente, c hum caixote de prata 
da Capeila do Governador, nos escaleres da Esquadra, 
sendo Pedro Ferreira o ultimo individuo , que sahio da 
Náo, como devia fazer. 

Os Pilotos pòr segurarem- a passagem do Cabo , 
empenharáo-^se tanto no bordo do bui , que cbegárâo a 
40"^ de latitude, onde o frio era intolerável, e acharão 
ventos mui fortes, e trovoadas. A 26 de Junho dobra*' 
fâo finalmente o Cabo , julgando-se distantes delie €ea- 
to e setenta e cinco legoas. 

A 2 de Jiilho sobreveio huma trovoada com tanto 
vento, qne fez em pedaços as vélas das Náos do Gover- 
nador , e de Diogo Corrêa , e levou desta tre^ homens 
ao mar, de que ainda poderão colher hum, apezar do 
grosso mar, por ser grande nadador. Abonançando o 
tempo, c dissipada a cerração, achou-sede menos a Náo 
de João Serrão , pela qual esperou o Governador, e náa 
apparecendo, seguio seu caminho. A 19 de Julho víq 
38 Ilhas Primeiras, e expedindo a Caravela de Gonçalo 
de Paiva para Moçambique, a saber as novidades d* 
índia , foi surgir em Quiloa no dia 22. O resto para a. 
segunda parte das Memorias. 

I5'05: — Desejando ElELei que fosse quanto antesr 
construida a Fortaleza deSofala, de que já tinha encar- 
regado Pedro de Anaia , que não pôde sahir com D. 
Francisco de Almeida , pelo desastre acontecido á sua 
Náo, fez armar a toda a pressa três boas Náos, e ou-> 



287 

tros eantoft navios menores , de que lhe deo o comman* 
do em Chefe para ir cumprir aquella commissáo, deven- 
do ficar por Governador da Fortaleza, que fizesse, com 
Os três navios para sua guarda ; e remetter para a índia 
as três Náos, a fira de tornarem a Portugal com carga 
de especiaria. Os Commandantes que hiao debaixo das 
suas ordens erão Pedro Barreto de Magalhães na Náo 
Santo Espirita ; João Leite na Náo Santo António j 
Francisco de Anaía, filho de Pedro de Anaia, no navia 
S. João; Manoel Fernandes em outro, e João de Quei- 
rós no navio S. Paulo. 

A i8 de Maio de 1505' sahio a Esquadra de Lis- 
boa, e seguindo sua viagem, sendo pela altura de Ser- 
ra LeAa , querendo João Leite fisgar do gorupés hum 
dourado, cahio ao mar, e afogou-se. Os rilotos, que 

firece se haviâa combinado com os da Esquadra de D., 
ranciscò de Almeida, forão buscar 45"° de latitude, 
onde o frio era tâò intenso, que se gelava a agua ^ c o 
vinho, e a gente não podia trabalhar por falta de bom 
vestuário próprio de similhante temperatura. 

Virando depois no bordo do N. E. , tiverão ventos 
furiosos, e tempos escuros, cora que os navios se espa- 
lharão, ficando Pedro de Anaia com o de Francisco de 
Anaia ^ e Manoel Fernandes ; e a 4 de Setembro do- 
brou o Cabo das Correntes (i), e foi ancorar na barra 
de Sofaía. 

Aqui veio ter a Náo Santo António, e o navio São 
^aulo, cujo Commandánte, chegando ao Rio da Alagoa 
com necessidade de agua , desembarcou .aco^iip^nhado 
de vinte homens, tendo o desacordo de levar comsiga 
o Piloto, e o Mestre j e meuendo-se meia legoa pela ter- 

(1^ O Cabo das Correntes est^ situado ni Costa Oriental da Âfrí* 
ó, no Canal de Moçambique j^ na latitude S. 23^ 40^ e Jor.gitiidQ^ 



269 

ra dentro movido da cubica de colher algum gado, &i 
assaltado dos naturaes, de cujas mãos apenas escapou o 
Escrivão João de Gá , e mais quatro homens, todos fe- 
ridos. O navio ficando sem Officlal algum, que enten- 
desse da Navegação, hia perder-se , quando o acaso 
trouxe João Vaz de Almada , a quem Pedro de Anaía. 
dera o commando da Náo Santo António , c proseado 
o navio do necessário, o levou ^m sua conserva; bein 
como a lancha de Pedro Barreto de Magalhães^ que en- 
controu perto de Spfala, cm que este enviava seu írniáo 
António de Magalhães a participar a Pedro de Anaia , 
que ficava com a Náo &into Espirito no Cabo de S. Se- 
bastião (i) , c pedia luim Piloto, que o levasse a Sofa-- 
la, por quanto o seu não se atrevia a isso, por ser no- 
vo naquella carreira. 

António de Magalhães trazia comsigo na lancha 
cinco Portuguezes, que achou no Rio de Q^ílimane, 
que os Mouros lhe entregarão qúasi mortos, c erâo da 
companhia de outros^ que tinhão passado adiante, todos 
da Náo de Lopo Sanches, pertencente á Esquadra de 
D. Francisco de Almeida. Pela confissão destes homens 
constou , que julgando-se quarenta legoas do Cabo das 
Correntes, hia a Náo já fazendo tanta agua, que foi 
forçoso encalhar, onde se salvou a gente, os mantimen* 
tos, muita madeira que levava , pregadura, e aparelhos, 
com que construirão hum Caravelão para passarem a 
Sofala. Porém como Lopo Sanches era Hespanhol, a 
guarníjão não quiz mais obedecer-lhe (2), e dividida cm- 

(0 O Cabo de S. Sebastião está vinte e otto lezoai no Norte ds 
Cabo das Correntes, na latitude S. 22° 6', e longitiiJe $4' 50'. - 

(2) Parece que naquelles tempos quasi todos os individuof a bordo 
de luim navio escavão persuadidos que perdido elle, ficaváo desligadoí 
da obediência do seu Commandante ,^e podiío eleger outro a seu arbí* 
trie ; ao menos na pratica succedeo i^to muitas vezes, como mostrarei 
com exemplos nestas Memorias. Tão ^^miciosa desordem era a co^ise- 



289 

pandos ^ hyns embarcarão com Lopo Sanches no Cara- 
▼elâo, outros resolverão ir por cerra. Estes cinco, que 
escaparão , erSo do numero de huns sessenta , que segui- 
rão seu caminho ao longo do mar, assim como outros 
vinte, que o Rei de Soi-ála entregou a Pedro de Anaia , 
o resto acabou na jornada , e o Caravelão nunca mais 
appareceo. 

1505* — Neste mesmo anno (i) mandou ElRei dous 
navios, de que forâe por Commandantes Cide Barbudo^ 
e Pedro Quaresma , para examinarem a Costa d'Africa 
Oriental desde o Cabo de Boa Esperança até Sofala, e 
algumas daquellas Ilhas, a fim de obterem noticias de 
Francisco de Albuquerque, e Pedro de Mendonça, que 
se sabia terem desapparecido naquella paragem. 

Estes dous navios partirão de Lisboa no mez de 
Setembro, e seguindo sua viagem, quando cuidavâo ter . 
dobrado o Cabo de Boa Esperança , achárão-se na An- 
gra das Áreas, situada na Costa d'Aírica Occidental , 
áiquem do Cabo cento e cincoenta legoas ; e bordejando 
trabalhosamente, chegarão á Aguada de Saldanha, onde 
comprarão alguns mantimentos aos Cafres, e aqui pas« 
sou Cide Barbudo para o navio de Pedro Quaresma , 
por ser elle quem hia encarregado da commissão , e Pe« 
dro Quaresma passou para o seu. 

Dobrado o Cabo , porque os tempos o não deixa- 
rão reconhecer a Costa á sua vontade, principalmente 
no lugar da suspeita , que era na Aguada dé S. Braz , 
estando a este tempo já separado de Pedro Quaresma , 
tornarão-se a ajuntar na paragem em que o Piloto afir- 
mava ter visto encalhada a Náo de Pedro de Mendon- 

quencia <le náo haver hum Corpo fixo de Officiaes da Marinha Real, 
que tivessem huma authoridade deduzida dos seus Postos , e indepen* 
dente de Gommiss6es precárias, para se fazerem sempre respeitados, e 
obedecidos dos que lhes fossem inferiores em gradua(,ão. 

O) Banos, Deçada i. Liv. 10. Cap. 6. — Góes, Parte 2. Cap. 9. 

37 



290 

çâ , vindo efle por Piloto da Náo de Pedra de Abreu. 
E porseresre o lugar da suspeita, deitou Cide Barbudo 
dous degradados em terra , para irem ao longo da Cos- 
ta, e saberem dos Cafres se havia alguma gencc branca 
no sertão. Os degradados voltarão dahi a sete dias áqud* 
le lugar, onde os navios nSo podião chegar cora os Ten- 
ros contrários, e derão noticia de acharem parte docas^ 
CO da Náo queimada , como que viera á Costa ^ sem os 
Cafres lhes saberem dar razão da gente* Por estes signacs 
jljlgárao que a Náo era perdida, e que o fogo fora pos- 
to pelos Cafres para se aproveitarem da sua pregadura, 
O maior mal, que elles fizerão a estes degradados, foi 
despoja-los dos vestidos. 

Dalli partirão os dous Commandantes para Sofàli, 
onde acharão fallecido Pedro de Anaia , e a maior par- 
te da sua gente; por cuja causa Cide Barbudo, deíianda 
jia Fortaleza alguma da sua, e a Pedro Qiiaresma com o 
seu navio, partio para a índia em Junho de ifo6* 

Ifoá — Tinha ElRei determinado mandar á índia 
Tristão da Cunha (i) por Commandante das Nàos da 
carreira, e Aftonso de Albuajuerque por Chefe de oih 
tra Esquadra, para andar cruzando na Costa da Ara* 
bia ; mas com as noticias que lhe deo Diogo FenuJi- 
des Pereira da Ilha de Socotora (z), que descobrio, e 
António de Saldanha, que por alli andara cmzarHo, c 
dizia que os moradores erao Chrisiãos , Vassallos do ' 
Rei Mahometano de F,^rtaque, que possuía huma For- 
taleza na llhâ ; resolvco que estas duas Esquadras te* 
unidas debaixo da bandeira de Tristão da Cunha , liot-l 

^1^ Vede Barros , Década ^ Liv. i. Cap. i . — Faria , tu Atii for* 
idgntn, Tomo }. no Hm; e Europa Portuguexa. — Qstanbedi^ Lhv 
j. Cip, ji. — Goe^, Parte 2* Cajr ai* 

(^) A lllia de Socotoni tem trinta legoas de comprido ; eftl inoidbrj 
defronte do Cabo Guardafui , na boca do Estreito úà A rafa u. Al 
poQta de Leite adiasse na latitude N* la^ao*^ e kmprude ja^ |0^ 



I 



lem fojBflT áiqtitlh Fortdtas»^ e 'à dâsaaetti gvanctida», 
fK> ca» de ser capaz dkso ; € nSó o senda, canatruiomn 
emra. de novoi E para que os Pocwgvzc^ crl q^riquei 
Mickknte podcftem fbirtiíicârr-^ iogo ou naquelle lonr ^ 
cw eníi oiuro mais vantajoso ,. fez embarcav ksma For^ 
taleza de madeira, que se guardava no Arsenal desde o 
tempo em qoe- iotentèu passar em pessoa á Africa ; 
porque* ElRei dava grande importância a possuir eití 
Socototá hum Porto, cm: que padessem invernar, s ptfo« 
Ter*se «.seus: navios de guerra, para sahirem dalli a 
cruzar na» Estreitos da Arábia , e da Pérsia , e eiiibara<^ 

Sirem assim a navegação dos Mouros para a G)sta do 
alabar* 

A peste em que então ardia Lisboa, onde morriâor 
cento e vinte pessoas por dia-, obstou ao recrutamemo 
necessário, por não ousar ninguém vir das* Provindas á 
Capitai,, e UÁ fopçoso mandar embarcar alguns présoi 
já coodemnados. a degredo para outras partes. Em^ íim^ z. 
6 de Aboril de rfo^- sahírâq de Lisboa as duas Esqoa^ 
dras (i). A de Tristão da Cunha compunha-^e de oito 
Nãos , € três navbs menores , de que erão Commandan* 
tes, elíe: na Náo S. Tiago ; Leonel Coutinho na Leitâc 
Vdha; Álvaro Telles Barreto na Garça ; Ruy Dias Pe- 
reira, Alferes Mor, no S.Jorge; Ruy Pereira no S.Vi- 
cente; João Gomes de Abreu na Ajuda; Job Queimada 
exn homà Náo sua ; Álvaro Fernandes na Náo de La- 
gos; Joio da Veiga em hum navio; Tristão Roiz ert^ 
outro navio; e 1 ristão Alvares no navio Santo Anto- 
itío. Muitos, destes navios erão de particulares, afreta-*' 
dos por ElRei. A segunda Esquadra constava de qua- 
tro Náosí e huma Taibréa) ou Setía , de que etiú^ Com- 

<0 Bmos dí2, que «s Esquadras sah/rão ^nl» a tf de Março; Cai^ 
tanlitda, e Gociíi: dizem a 6 de. Abri),, e Fari», que Áffonso d'AibH- 
guerque sahk) a 28 de Marqa 

37 ii 



3d2 

mandantes Affonsa de Albuquerque na Nao Cirnc; Frati- 
cisco de Távora no Rei Grande; Manoel Telles Bar- 
reto no Rei Pequeno, António do Campo no Santo Es- 
pirito j e AíFonso Lopes da Costa na Taforéa. A guar- 
nição destas duas Esquadras era de mil e trezentos sol- 
dados (i). 

As ínsrrucções geraes d*ElRei determinairao, que 
Tristão da Cunha se dirigisse com ambas as Esquadras 
á Ilha de Socoiorá , conservando*se Aflfonso de Alba- 

Íuerqtie debaixo das suas ordens, até se conquistar a 
ortaleza da Ilha, ou se fazer outra de novo, se ^ta 
não se julgasse sufficiente para defender-se de qualquer 
irrupção dos inimigos; e concluído este negocio, detU 
passar á índia com a sua particular Esquadra, para rol* 
tar dalli com carga a Portugal, 

As Instrucç6es de AíFonso de Albuquerque (etn quem 
ElRci tinha a maior confiança), lhe ordenavao, que fi. 
casse encarregado de fazer guerra aos Mouros, que ou- 
rassem continuar a navegação da índia , sahinao pela 
Mar Vermelho, ou Estreito Pérsico; com poder de nu^ 
70 y € mixto Império^ excepto que no caso dos Com- 
mandantes dos seus navios commetterem algum crime 
digno de morte, não a faria executar, mas os remcticria 
presos a Portugal, com os autos das suas culpas, onde 
serião castigados; e que obedeceria ao chamamento do 
Vice-Rei , se este lho requeresse para objectos do seu 
Real serviço. Dco-Ihe tambenn dous Alvarás: hum de 
successão do Governo da índia para quando D, Fran- 
cisco de Almeida acabasse os três annos, que devia ga- 



O) Bairos dmdo a ambas as Esquadras qmtorze ntvjof, notnea com 
tildo quinze Commandantes , além de Tristão da Cunba ^ o <]iir fit 
dezestis crobarcaqúe*». Caítanheda conta só quinic navios, Góes, e Fã- 
rtii dircui, que crio tóeseis , e põem os nomes de nitros Uot^ Gon* 
mandantcsL Fr. Manoel HciTiem, na sua Obra já citada^ cOnoordb cOm 
cttcs dous últimos Historiadores. 



293 

venzTyOa se fallecesse antes disso; cujo Alvará hia sei- 
lado , e no sobrescrito dizia : Este se abrirá quando 
Affonso de Albuquerque o requerer , e no mesmo so« 
brescrito estava assignado ElRei. O outro era para que 
podesse mandar assentar no Livro das Moradias as pes- 
soas, que bem lhe parecesse. 

Estas Esquadras hiao inficionadas de peste , que 
antes da sua sahida morrerão alguns homens a bordo da 
própria Náo de Tristão da Cunha , que seguindo a sua 
derrota , ibi íàzer aguada a huma Ilha, aue fica no ros- 
to de C^bo Verde (i), entSo chamada Ilha da Palma; 
e para sepultar as muitas pessoas, que fallecérâo, se 
construio numa Ermida de pedra e barro , na qual se 
disse Missa , e enterrarão os mortos ; porém tanto que 
Tristão da Cunha chegou á Linha , todos os enfermos 
se restabelecerão. De Cabo Verde forão as Esquadras avis- 
tar a terra do Cabo de Santo Agostinho ; e atravessan* 
do para o Cabo de Boa Esperança , metterão-se em tan« 
ta altura, que os homens mal enroupados soíFrérão mui- 
to do frio, e alguns delles morrerão. 

Nesta travessia descobrio Tristão da Cunha as 
Ilhas*, que se chamão do seu nome (2), e com hutn 
temporal se espalharão todos os navios , indo elle an- 
corar em Moçambique no mez de Dezembro , onde se 
reunirão quasi todos. 

Álvaro Telles correndo com o tempo, sem saber 



(1^ No rosto de Cabo Verde ha três pequenas Ilhotas insignifican- 
tes , chamadas Ilhas da Magdalena, ou dos Pássaros. Nlo he possirel que 
Tristão da Cunha aqui ancorasse com a sua Esquadra , e creio que se 
elle com effeíto desembarcou em alguma Ilha, seria na Goréa (talvez 
naquelle tempo chamada da Palma), que tem agua nativa, e huma'cxr 
oeiiente Bahia. Castanheda diz , que fez aguada na Enseada de Eeienc^ 
gue , e que alli deixou os doentes. 

(a) Estas IHias de Tristão da Cunha são três : a maior he a que está 
mais ao Noite, cuja latitude S. he de 37^ $', e a longitude de s° 4SV 



« 



294 

l>eni por onde bta, passoò por fóra da Ifha de $« Loi^ 
ren^Oy íbi ver a Sumatra, cuidando ser o Obo Giiar«- 
d^i; e conhecendo a final o seu erro^ voltou part o 
mencionado Cabo, onde se deixou ficar cruzando, e fsz 
boas prezas* 

Leonel Coutinho foi invernar a Quíke , c Ri^ 
Pei^ira entrou em htiraa Enseada da Ilha de & Lou- 
ienço (i), chamada Matatana (2) , onde veio a seu boi^ 
do huraa canoa com. alguns Negros, cuja liognagen»- se 
nao entendia ,. mas por acenos pareceo dizecem, ^oe no 
• Paiz havia prata, f de que alguns, traziâo manilhas), crt* 

vo , e gengivre que lhe mostrarão ; por cuja caasa Leoi* 
nel Coutinho tomou dous delles , que levou a Moanii«> 
bique , e os apresentou a Tristão da Cunha ^ e daqui 
Qasceo a &bula de haver naqudla Uha muita pnta, e 
especiaria. 

Job Queimado , que se havia separado huina ooke 
das Esquadras antes de sahirem da Costa de Guiné, nSo 
pôde dobrar o Cabo de Santo. Agostinho, e virando no 
Dordo de Leste, foi avistar a Costa da Africa Occiden^ 
tal , e dalli fói ter á Uha de S. Thomé , d^onde prose- 
guio a sua viagem ao longo da Costa, navegando oom 
terraes, e virações; dobrou o Cabo de Boa Esperança , 
e chegou a Moçambique depois de Tristão da Cunha* 

15*07 — Este anno mandou EIRei aprestar quatorze 
navios (3) , divididos em quatro Esquadras. A primeira 
de duas Náos, commandada por Jorge de Mello Perei- 
ra , embarcado na Náo Belem , a maior que até este dia 
tinha passado á índia ^ e Commandante da outra Hcnri- 

(O A Ilha de S. Lourenço foi descoberta no i.^' de Feircfeiro dt 
1 506 por Fernão Soares , na tua torna-viagem da índia pau PortufraL 

(2) Enseada situada na Costa Oriental da Ilha de & Louvanço ■» 
latitude S. de 21*= 8\ e longitude 66® lo', 

(O Barros, Década 2. Liv. 1. Cap. 6. — Góes, Futc s. Capi 14. 
— Castantieda, Liv, 2. Cap. 72. 



S95 

^que NitfM de LriSo, partio de LisbM a Tl d'At)fiI át 
I5rc7 , com destino á índia , para dalli voltar com car- 
^ de espíeciaria. A segunda de quatro Náos » còm igual 
destino, ciKnmandada por Fernão Soares, e Comman- 
dantes das outras três Ru^ da Cunha, Gonçalo Carnei- 
ro, e João Colaço, partio a 13. A terceira de duas 
N4òs, tãmbem da carreira, commandada por Filippe 
de Castro, e Commandante da segunda Náo, Jorge át 
Ostro, seu irniâo, sahio a 15'. 

A ultima Esquadra partio a 20 , composta de seitf 
navios mais pequenos , commandada por Vasco Gomes 
de Abreu ; nomeado Governador de Sofala , que leva- 
va ordem d'ElRei para construir huma Fonaleza ni 
Ilha de Moçambique, a qual devia ficar comprehendida 
no seu Governo : os Commaftdantes erâó Lopo Cabral 
no navio S. Romão, em que hia embarcado Vasco Go'* 
ntes de Abreu , Ruy Gonçalves de Valladares no S. Si<^ 
mSo; Pedro Lourenço no S. João, e Ijopo Chanoca ent 
Ãuma Caravela -, Martim Coelho, e Diogo de Mello em 
outros dous navk>s , os quaes erâo destinados a servir ná 
índia por três annos. 

Vasco Gomes de Abreu achando-se na Costa de 
Guiné a j de Maio, mandou navegar de noite com fa-» 
rol peta proa da Esquadra a João Chanoca , por ser a 
sua Caravela pequena , e mui veleira , mas pór falta dè 
ir sondando , encalhou em hum parcel da Costa ao Nor- 
te do Rio Senegal , salva ndo-se em terra toda a genfe. 
Os outros navios , que seguiãò a sua popa, não vendo ò 
farol, cuidarão que a Caravela se teria adiantado, pois 
não fizera signal algum, e contrmiáfão a derrota, estan-' 
do a noite de cerração, até que sentindo a arrebentaçãa 
do mar, derão fundo, e pela manhã souberão da perdi- 
ção da Caravela. Vasco Gomes não se quiz arriscar a 
mviar hum escaler a terra, tanto por ser a Costa peri- 
gosa , como porque receou que os Negros a aprisionas^ 



296 

^m j e suspetidendo as ancoras, foi fazer aguada a Bese- 
negue, que lhe ficava perto, onde vierão ter os naufra- 
gados, menos João Chanoca, o Escrivão, e alguns roa* 
linheiros, t^uc o Rei dos Jalofos reteve por quinze dias, 
e finalmente resticuio á força de presentes , depois de 
roubados. 

Partio daqui Vasco Gomes, e havendo soíFrido rnuU 
to raáo tempo, chegou a Sofá la a 8 de Setembro. 

Os navios das outras Esquadras entrarão em Mo- 
çambique, huns cm Outubro, outros ainda mais tarde, 
de modo que nenhum delies passou neste anno á ladia. 
1508 — ElRei D. Manoel illudido com hum proje- 
cto que lhe oíferecérão (o qual a experiência lhe fez de- 
pois sabiamente abandonar), dividio em dous os Estados 
da índia: hum comprehendendo desde Sofala até Diu, 
cujo Governador se recolheria de Inverno na Ilha deSo- 
cotorá, e se intitularia Capitão Mor dos Mares da Elhio* 
pia, Arábia, e Pérsia; ao segundo desde Diu ao Cabo 
Coraorim , residindo o seu Governador, chamada Opi- 
tão Mor dos Mares da índia , na Cidade de Cochcm 
durante o tempo da carga das Náos : ambos estes Go- 
vernadores erão independentes hum do outro, ç tinhlo 
Regimentos separados j devendo-se auxiliar porém nos 
casos de urgente necessidade. E como ElRei mandará 
retirar este anno para Portugal o Vicc-Rei D. Francisca 
de Almeida , e nomeara Affonso de Albuquerque para 
lhe succeder no Governo , ficando assim devoluta a Ca- 
pitania Mor do Mar da Arábia, que este occupava, ele* 
geo para ella a Jorge de Aguiar, Fidalgo da sua Cisi| 
assignando-lhe huma Esquadra de cinco navios do toque 
de cento e cincoenta a cento e oitenta toneladas , a qual 
devia ser augmentada com algumas embarcações da IfH 
dia : erao Commandantes destes navios Duarte de Lemos 
da Trofa , sobrinho de Jorge de Aguiar, e nomeado sea 
successor , em caso delle fallecer ; Vasco dâ Silvein 



i 



297 

Bíogo de Ataidè , Pedro Corrêa , e Diogo Corrêa , se» 
irmão f i). 

FezEIRci também aprestar oito Náos grandes para 
carga de especiarias, e determinou que Jorge de Aguiaí 
as levasse debaixo das suas ordens até Moçambique, oii-* 
de se deviâo apartar para seguirem a derrota da índia ^ 
e elle a de Socotorá ; e para mais o authorizar, quiz que 
entre tanto fosse embarcado na Náo S. João , aue era 
a maior de todas, da qual passaria depois em Moçam- 
bique para hum dos navios da sua Esquadra : erao dom- 
ina ndantes das outras stte Náos Tristão da Silva , na 
Magdalena; Francisco Pereira Pestana , na Leonarda; 
Vasco de Carvalho, no Castello; Álvaro Barreto, na 
Santa Martha; João Rodrigues Pereira, no Bota Fogo; 
João Colaço^ na Judia ; e Gonçalo Mendes de Brito em 
outra. 

Além destas duas Esquadras^ preparou-se outra de 
^atro navios medianos, de que ÉlRei nomeou Com-, 
siandaote a Diogo Lopes de Siqueira, Almotacé Mor;- 
e os outros forâo Jeronymo Teixeira , Gonçalo de Sou-, 
sa y e João Nunes. A commissao de Diogo Lopes era 
para descobrir Malaca, de que se fallava muito em to-, 
do o Oriente (2) , e da qual ElRei queria ter noticias 
individuaes; e na sua passagem devia entrar em alguns 
Portos da Ilha de S. Lourenço (3), e certificar-se se 

Cl) Vede Castanheda, Liv. 2. Cap. 92.— Gocs, Parte 2. Cap. 10; 
e Parte 5. Cap. 1. — ^ Barros, Decadá 2. Liv. 1. Cap. 6.; e Liv. 4. 
Cap. 5- 

(a) fiatro» diz, que os navios erão desesete, e nomca deseseis Com- 
mndustcf. Faria concorda no numero dos navios, e traz os nomes de 
outros tantos Commandantes. Castanheda, numerando só treze Commaii<* 
daotet, nio dedara quantos erío os navios. Góes conforma-se com Fa* 
ria fsa quantidade dos navios , e dos Commandantes. 

CO «A ^^^^ ^^ Madagáscar , ou S. Loiíienqo, tem trezentas legoas de 
comprido^ e cem na sua maior largura ; e hé habitada por varias Nac6es, 
cuTiibus de Negros: tem muitos Portos, e Eahias cspa<,Osas, c cm gc« 

38 



298 

cotneflfeíto tinha minas de prata, ou produzia especinia; 
c se era conveniente fazer-se nella huma Fortaleza, 

Esta ultima Esquadra pártio de Lisboa a ^ de A-brit 
de 1508 , c seguindo sua viagem , a primeira terra que 
vio, foi Cabo Talhado (1), onde fez agua, e lenha; c 
estando na altura dos Medáos do Ouro (2) a 20 de Ju- 
lho y se encontrou com Duarte de Lemos ; e sobrevindo 
hum tempo, este seguio para Moçambique, e Diogo 
Lopes de Siqueira correo com elle até huma Enseada na 
Ilha de S. Lourenço, em que entrou a 4 de Agosto com 
a sua Esquadra , menos ò navio de JercMiymo Teixeira, 
que se apartou. Sahindo desta Bahia , chegou a 10 do 
mesmo a hum Cabo pela parte de Leste da Ilha, ao 
qual chamou Cabo de S. Lourenço, por ser o dia des- 
te Santo. Avante deste Cabo achou humas Ilhas , on- 
de vierao ter com elle dous grumetes, hum Portuguez, 
e outro Gcnovez, da equipagem de João Gomes deAoreu, 
que por alli se perdera. Entrou depois no Porto de Tu* 
rubaia (3) , no qual communicou com o Rei, e reoolheo 
outro Portugucz da mesma equipagem. 

Daqui passou a humas Ilhas , a que pôz nome de 
Santa Clara (4) , pelas descobrir no seu dia ; c desem- 
barcando em huma delias, negociou com os Negros al- 

rat ho mui fértil , e proJuctiva. A sua ponta mais do Sul he o Cabo de 
Santa Maria, situado na latitude S. de 2Ç® 4.0', c longitude 6i* 10'. 
O Cabo do AmSre forma, a ponta mais do Norte, situado na latitude 
II** 5', e lom^itude 67^ 50'. 

(1) Siiu.ulo oitenta le:;oas além do Cabo de Boa Esperan<;i, na Gos- 
ta Oriental da Africa. Latitude S. h" *^ » « longitude 41 "^ 14' 

(a) Dá-se este nome a hum Rio na Costa Oriental da Africa. Ltti* 
lUiVW S. ayo 4$', longitude 50^ 58'. 

(O Nome de hum Reino, que naquelle tempo, se^ndo pvece^ 
nccupava a face do Sul da llfia de S. Lourenço: talvez leri o mesmo a 
ijiie se chama hoje Porto Delfim. 

(4) S.lo duas Ilhas sobre a Costa Oriental ('a Ilha de S. Lourenqoi 
t do Sul esta na latitude 24<' ^9' S. e longitude 6$^ 36'. 



299 

gum gôdo/e outros mantimentos, e se demorou até r2 
de Outubro, que proseguio a sua viagem , e foi ancorar 
em huma PovoaçSo do Reino de Maíatana, onde che^ 
gárSo ot dous homens , que por serem práticos na lín- 
gua Árabe, tinha desembarcado no Cabo de S. Lou*- 
renço, para virem por terra examinando o Paiz, e in»- 
formando-9C das suas producçoes. Estes lhe contarão , 
^ue em toda a sua jorns-ida não virão, senão algum gen^ 
givre nascido espontaneamente; eque acharão dousMou*- 
rbs de Cambaia, que aifi naufragarão havia trinta an- 
lios, os quaes lhe aílirmárão não haver na Ilha outra al- 
guma especiaria. 

Deste lugar foi Diogo Lopes ao Rio de Matatana, 
cm que recolheo mais três Portuguezes do navio de João 
Gomes de Abreu; e continuando a sua navegação ao lon- 
go- da Costa, vio muitas Povoações, e chegou a huma 
grande Blfihia, que chamou de S. Sebastião, por ser des^ 
cobena a 20 de Janeiro de 15'OÇ. Sahindo desta Bahia^ 
se pôt a caminho para Malaca ; mas pelo tempo lhe 
n3c servir arribou a Cochim, onde ancorou a 12 de 
Abril:, sendo bem recebido pelo Vice-Rei D. Francisco 
de Almeida. 

A '9 de Abril sahio «de Lisboa Jorge de Aguiar 
com as duas Esquadras ; e a poucos dias de viagem te- 
ve bum tempo, por cuja causa Francisco Pereira Pesta- 
na arribou a Lisboa com o mastro grande rendido; e 
tornando a partir a 18 de Maio, dobrou o Cabo de Boa 
Esperança^ e foi invernar nas Ilhas Primeiras. Jorge de 
Aguiar arribou á Ilha da Madeira , por se lhe quebrar' 
o mastaréo de gavia, e com elle outros navios; e repa-^' 
rados das avarias, pozerão-se em derrota, porém na 
Costa de Guiné se dispersarão todos com as trovoadas;' . 
e Jorge de Aguiar, indo depois na volta do Cabo (\e 
Boa Esperança, só com a Nao de Álvaro Barreto,, e 
Jchando-se huma noite muito escura na altura das Ilhas 

38 li 



de Tristão da Cunha, sendo no quarto da primi, se l^ 
vantou hum venta rijo, com o aual Álvaro Barreto ái^ 
minuLo de panno, e atrazou-se num pouco da Capitã- 
nea j que por ser huma Náo grande, e possante, corcí* 
nuou com a mesma vela. Ao amanhecer se achou Ál- 
varo Barreto com as Ilhas, e nao vk> mais a Nio Sáo 
João, de que infcrio ser perdida , por quanto segundo o 
rumo, e força de vela que levava, devia esbarrar com 
alguma das Ilhas á meia noite, ou pouco depois (i). 

Os outros navios desta Esquadra farão a Moçam* 
bique a salvamento; e o que soãrco mais incommOiiof 
foi o de Vasco de Carvalho, por se pôr era 47** de lati- 
tude, onde todos padecerão frios intoleráveis, c tDorré<^ 
jão oito homens gelados, 

1508* — Como El Rei D. Manoel não perdia de vis- 
ta a guerra contra os Mouros de Barbcria, seguindo o 
antiga sptema de occupar todas as suas Praças inariti- 
jTias, a hm de não armarem Corsários contra o Com- 
mercio Portuguez, nem os que sahissem do Mediterrâ- 
neo acharem alli guai-ida, mandou no anno de IJ07 a 
D* João de Menezes com quatro embarcações pequenas 
a sondar , e reconhecer os Portos de Aza mor (2) , Ma» 
mora (5)^ c Salé (4)^ em cuja commisslo o accompa- 



(1) Anun te verificou dcpots; c Jorge de Aguiar p*^Ou bem ctn 
a sua tcmeridjje, ou a do seu Pi/oto, em corntr de noít« ás ctcmm 
na pojujtelo ckstas il^ios com vento fresco, AÍoda, que foue em p^fM. 

(2) Cidade na Cri$ta Occident&l da^ Africa: o ancoradouro he ipia 
pd;i qualidade da fundo, t-jtitude N* n^ ^Vi c longitude 9* j^', 

(i5 Mamora Velha lie huma BaK ia na Costa Ocdc^ntal dcAtrkiê^ 
fihJada na íatitude N* {4° i^\ c longitude 1 1** S7» t>»«* CÍf»co liJO» 
de Larache para o Sudoestev Dnta antiga Cidade restio tá hDJ« doyi 
tu mulos de Sanules^ A. Nova Mamora, d imante da Veil>a perto át qua* 
tenta milttii , he huma Cidade grande estendida por bum m<»nte sciottt 
podiHe ancorai a meia kgoa de distancia da terra por 14 bnif;is ^ fimàtt 
ér i«ea. 

(4) O Fotto de Súá^ m Reino de Féz » dista tiiiiU e oito kfpm 



301 

fihou Sebastião Rodrigues Berrio, hum dos maiores Pilo- 
tos , e mais valentes homens do seu tempo , com outros 
hábeis Marinheiros, e Duarte Darmas, grande Pintor, 
que desenhou as vistas da terra, e as plantas que se le* 
vaotárao : sobre cujos documentos , e as informações que 
derão, resolveo-se ElRei ao ataque de Azamor, confiado 
iias promessas que lhe fizera em Lisboa Moley Zeyâo, 
Rei que fora de Mequinez , e ainda posssuia alguns Es- 
tados , com cujas forcas pròmettia auxiliar a empreza , 
o que não cumprio. 

Nomeou ElRei ao mesmo D.João de Menezes por 
General deste Armamento , que constava de cincoenta 
navios, huns de guerra, e os mais de transporte (i), 
em ^ue se embarcarão quatrocentos homens de cavallo, 
e dous mil de gente de Ordenança (a primeira que se vío 
em Portugal) dividida em dous corpos, de que erão 
Gommandantes Christovão Leitão, e Gaspar Vaz. Accom* 

gnhavâo a D, João de Menezes o Conde de Tentúgal , 
. Pedro de Noronha , Luiz da Silveira , depois Conde 
da Sortelha, D. João Mascarenhas, Capitão dios Ginetes, 
D. Nuno Mascarenhas, seu irmão, João Rodrigues de 
Si e Menezes, D. Lu;z de Menezes, D. António de 
Almeida > Pedro Mascarenhas , D. Henrj(^ue de Mene- 
zes, Smao Corrêa, Simão de Sousa Ribeiro, D. Tris- 
tão de Menezes, Francisco de Mendonça, João Ho- 
mem , Simão de Sousa Docem , João Brandão , e outros 
muitos Fidalgos, e Cavalleiros. Era Piloto Mor da Es- 
quadra Sebastião Rodrigues Berrio. 

A 26 de Julho de 150? sahia D.João de Menezes 

aa Sudoeste do Cabo de Espartel , e cinco de Mamora: pode-se ancorat 
defronte delle desde 30 até i4 braqas de fundo limpo; o Ria he de dif^ 
iScil entrada. 

(i) Vede Barros, Parte 2. Capítulos de 27 até ag. — Fr. Manoel 
Deraem , na sua Obra jd citada diz y que fodo perto de três mil ho^ 
nens, « cincoeota navios^ 



de T>isboa . e demorándo-sc em Lagos algiiiis éUíê pai» 
recolher a gente, e navios do Alffarve, foi dalli com 
bom tempo surgir diante do Rio de Âzamor, pelo qual 
entrou com enchente de aguas vivas já sobre a noite a 
12 de Agosto, e no dia seguinte começarão 08 navios 
de guerra a bater a Cidade, a que os Mouros responde- 
rão vigorosamente com a sua artilheria, e pelo Rio abai- 
xo lançarão balsas de fogo, que pozerãò as embárcaç6ec 
em perigo, por ser o Canal estreito, e estarem apinhoa* 
das. 

Neste melo tempo Moley Zeyão enviou hum emis- 
sário a D. João de Menezes com offerecimento àos seut 
servij^^os; mas soube-se logo, que na Praça havia mai^ 
de oito mil homens , e que o mesmo Moiey andava no 
campo em seu auxilio com outros deseseis mil. Apezar 
de tudo, D.João de Menezes determinou desembarcar, 
e assaltar a Cidade da banda da terra , d'onde se deve 
inferir, que o fogo da Esquadra produzia pouco ^ ou 
nenhum eíFeiío. 

Os Mouros, não ousando disputar o desembarque, 
dispozerão três ciladas de mil e duzentos cavallos entre 
a Cidade e a praia , na esperança de cercarem os Porru- 
guezes , e cortar-lhes a retirada. Desembarcou D, João 
de Menezes sem opposição, e formando a sua Infame- 
ria em columna, poz-se na sua frenre com cento c cin* 
coenta cavallos, e do resto formou dous esquadrões: hum 
de cem cavallos, que entregou ao Conde de Tentúgal, 
e outro de cento e cincoenta a D.João Mascarenhas, 
para cobrirem a retaguarda. Nesta ordem marchou di- 
reito á Cidade, d'onde sahio grande numero de gente 
ao seu encontro, que elle rechíiçou , e perscguio até ás 
portas, as quaes os Mouros fecharão, deixando os seus 
do fora. 

Travou-se aqui huma furiosa peleja, que não du- 
rou multo, porque os Mouros das ciladas vierão atacar 



SOS 

os doas esquadrões, que cobrlâo a retaguarda da coTumni 
da Infanreria , a que acodio logo D. João de Menezes ; 
e veodo que os inimigos erâo muitos, e se reforçavâo 
com as tropas de Molev, que tinhâo chegado, marchou 
para o lugar do desemoarque , rompendo pela multidão 
dos inimigos, e conseguio recolher-se ás suas embarca- 
ções sem mais perda , que deseseis Cavalleiros, em que 
entrarão D. Pedro de Noronha , Simão Fogaça , Diogo 
Barreto 9 D. J<wo Henriques, Henrique Rodrigues Alco- 
forado, e Christovão Marques; e seis soldados de pé. 
Os Mouros perderão mais de mil e trezentos homens. 
Nesta perigosa retirada hum Alcaide Mouro matou o 
cayallo a João Rodrigues de Sá, e o mataria a elle, se 
não lhe acudira João Homem, e Diogo Fernandes de 
Faria, que matando o Alcaide^ deo occasião ao Sá de 
montar no catallo deste. 

No dia seguinte sahio do Rio a Esquadra , com 
perda de algumas embarcações , pela desordem que hou-* 
ve na occasião de fazer-se á vela. 

D. Jmo de Menezes foi cruzar no Estreito , segnn« 
do as ordens d'£lRei, e em poucos dias tomou tres^ 
Fustas de Tetuara ; e mandando para Alcácer a maior 
parte dos seus navios, ancorou em Tanger, que gover-^ 
nava D. Duarte de Menezes, e avisou o Conde de Bor- 
ba, Gorernador de Arzilla, para vir conferir com elíe, 
e D. Duarte sobre objectos importantes ao Real Servi* 
ço. Chegado o Conde , cônsul ta vão todos três o modo 
com que atacarião Larache, quando veio noticia de que 
o Rei de Féz marchava a sitiar Arzilla, por cuja causa 
o Conde de Borba se recolheo logo. Com eíFeita a 19 
de Outubro appareceo aquelle Monarcha com hmii Exer- 
cito de mais de cento c vinte mil homens, muita artí* 
Iheria, munições, e petrechos de guerra para atacar a 
Praça , o que começou a fazer no mesmo dia , e conti- 
nuou no seguinte^ em que tendo picado, c derribada 



304 

hum lanço de muraDia, ganhou a Villa depois de huma 
desesperada e m.uadoFa resisrencia , que fez o Conde de 
Borba com os quatrocentos soldados, que unicamente ti- 
nha , conseguindo por iiítimo rctlrar-se íío Castello. 

Ao favor do tumulto, econfusrio de hum sirailhan- 
te assalto j se embarcarão em duas Caravelas João Mar- 
tins de Al põem, e António CordoviL O primeiro ficou 
sobre ancora, batendo com a sua artiíheria o campo 
dos Mouros ; o segundo paríio para Tanger a dar aviso 
a D* João de Menezes, que já tinha chamado de Atca* 
cer os seus navios , e o encontrou no caminho. 

A 23 ancorou D» João de Menezes fóra do recife 
de ArziJta , onde ficou surro três dias, porque os Mou^ 
ros haviâo construído baterias, que enfiavão o lugar da 
desembarque, e o mar andava alterado, e quebrava mui* 
to no recife; e alem disso lúo sabia se o CastcHo esta- 
va ou não tomado. Para sahir deste cruel embaraço 
mandou a Ruy Garcia, e João de Mendonça, honaens 
valorosos, em huma lancha bem guarnecida , coro ordem 
de entrarem a todo o risco no recife, e tomarem faUa 
do Castello, og verem algum slgnal de estar ainda por 
ElRei de Portugal. Entrou a lancha, apezar das balas 
dã artiUieria Mourisca, e os que hiâo nella distinguírio 
huma janella aberta, da qual lhes mostrarão bandeira 
Portugucza; e huma mulher, tenáo hum menino nai 
mãos , bradou: u Portugal , Portugal. *f Com estas boai 
noticias voltou a lancha para bordo da Esquadra, c im» 
mediataraentc fez D, João de Menezes passar dos ni* 
vios grandei aos mais pequenos algumas peças de arti* 
Iheria , e munições» 

Neste tempo vicrâo a nado com cartas do Conde 
de Borba dous Mouros , que se haviSo tornado Chri- 
stãos, hum chamado João Vaz Gaibao , e outro Jo3o de 
Mendonçi , pelas quies soube D. João de Menezes o 
verdadeiro estado das cousas i e veio também pela qkí« 



306 

Tua maneira hum oval lei ro por nome P^dro da Cbsta , 
famoso nadador, que o informou do modo com que 
poderia desembarcar cocnonefiogrifico, e introduzir na 
Castdio gente, e mamimçnto^ , .que Ihç Falta vão. 

Com estas noções se preparou D. João de Menezes 
a SQCcorrtfr a Praça ^ escolhendo para isso as embarca- 
ções que.d^manda.yáo menqsfiMsdo; e publicou, que per- 
doara eiti nomQ'd'ElPL€;4.a todos os homisiados abordo 
dos navios^ qiie no dia seguinte .desembarcassem, e da- 
ria quinhentos <ruzàd0ís ap ^rim^iro homem, que pozes- 
se os pés cm: terra, Prorapto tudo-, fiez-se á vela para 
o recife, e quando vio Jb.um sig«al convencionado , que 
Jhe fez o Conde de Borba.v ^^ q^^ '^i^ fazer huma sor- 
tida , mandou desembarcar as tropas, que já esravâo nas 
lanchas, e escaleres, e rompeo huma furiosa canhonada 
contra a multidão de Mou^ps, que inundavão a praia, 
e a despejarão cm breve. 

D. João Mascarenhas foi o primeiro que desem* 
barcoQ o Corpo do seu commando, mas D. Tristão de 
Menezes gannou o premio, porque a embarcação era 
que hia abordou primeiro a terra. Os Mouros venda 

3UC os Poftuguezes de$embarcavão, correrão d praia, on* 
e forão tratados de maneira pelos que sahião das. laA-^ 
chás, e os da sortida, que recuarão por todas as par- 
tes, c abandonarão huma bateria de seis canhões, á cus- 
ta das vidas do muitos delles , e de alguns dos nossos , 
hum dos quaes foi Maíioet Coutinho. 

No maior ardor do conflicto introduzio-se no Ça^ 
tello D. João Mascarenhas com duzentos homens, e al- 
gumas^ munições de guerra , e boca ; e no dia seguinCA 
entrarão outros duzentos , posto que cora muito perigo» ( 
Comeste soccorro ficou oCastello capaz de defea-! 
der-se, o que não faria se tardasse o soccorro mais hum* 
dia, por se achar todo minado, c a gente ser tão pouca y 
e tão cançada , que já não podia resistir ao trabalho. • 

39 



No mesma dia em que entrou o segundo soc cmwpp 
despachou D, Jôao de Menezes huma CaravcU de ariso 
á EIRei, e outra a pedir aurilio aos Governadores do9 
Porros da Andaluzia, c ao Conde D* Pedro Narirra^ 
Getieral de liuma Armada HespanhoU , que csrava em 
Gibraltar. O primeiro que chegou foÍ o Corregedor 
de Gerez em huma Caravela bem artilhada , c»m tre- 
temoi Besteiros, a qual fez grande daititio aos Mourot, 
ancorando em posií^ao d*onde descobria o seu campo, cô 
Quartel do Rei de Fez ; c mudando de ancoradouro qwTm-» 
éo percebia que os Mouros assesta vão contra eUa hum 
canhão de grosso calibre, que havilo tomado ru Villa; 
de maneira que nunca lhe poderão acenar tiro alguOt 
â pezar do muito dhiheiro que o Rci promcttia a quem 
a mettesse no IuikIo; de que affrontado, mudou o saa 
quartel para lugar mais segato. 

Poucos dias depois do Corregedor chegou o Conde 
Navarro cem rauifos navios , e três mil e quinhentos 
soldados. Queria elle que as tropas combinadai étwcm* 
Marcassem no mesmo instante , c dessem batalha aos 
Mouros; mas ou por ser isto em huma terça feira, que 
D, João de Menezes tinha por dia aziago, oo por lhe 
tíífo parecer a occasiao op]K>rtui>a, cottjo he de pnsu« 
mír, convierão em prorogar o desembarque para o dia 
segitiíite ; e neí^sa noite levantou o Rei de Fez o ci^rcn., 
e íWÍfoij-í?í? para Ar^rlla. 

Em Évora teve EtRei D. Manoel a primeira no* 
ricta êo iirvestime«to de Arzilla , e logo fez escrever 
para fod»>s as Comarcas do Reino i^ pessoas nora reis , 
Ijftf o podiáo servir; e quatro dias depois, que era hum 
Doroingo, havendo já expedido muita gente para o Al* 
garve , recebeo o aviso de haverem os Mouros ganhado 
a Villa , estando então no Convento de S. Francisco pa- 
ia ouvir huma Missa de Festa , e ordenou ao Deão da 
Capc41a Real^ que (omQ a Missa rezada^ c não hooves- 



3tf?7 

oseafántaír, t tellar htima faca fOt)i .an^^dwa , :^ fk^ 
foíi tfef cooicr i pressa, ie^se.i|€i9ped^ da Raii^a^ panip 
sá cooiít 0ète^, oju oito* pcamíid íkxp- {a«m |>fessa , i|ue nu 
«rra: doTAi^arvcr llie r^be^tp^ ft f^ct», 4 4^i €0^H? W 
o <2Bàxéib']i soccorrido 9 pfclo q^e foi com so^íb vAgw: 
tfté^Tavira;^ Er^okiro g ^>9$$ar «m peaspa á Affiç^^M 
aiuotiríd em^fXavira, e oM^o^BprK» do Algarve maip 
•cíeirjnie4tiU4iQlnefts cimivarêHiMÍa^ mvajçjâifS', e Tjvçe 
' €ts^.T:tiZ9Voá.Htt yi^f^ dç fcitbP* purí çran§p<íFiar flj^. 
A> ''ò finrctto. ..' r I^ : :■■',. !.;;!'"..•.'. 

. SitaodO' EIRei' piipi«pir0 ra fager-gç, i ;v^U^ isonítf 
Iriivc^ò Ra dfi FézcIcYiaatêdp o âitio\ e por :pari^çer di^ 
9CU ComccUto idesí^tie da ycn^da^ reraft^oc)o jçqanv^ 
a ArxáUA ai^uas cavioa carreados de (rapps^ nyiiffli^ 
fâcs, «.Artífices p^ra repararem as ffrr^^çi^bsies^ Ao 
Oinde:Ct£éi9ro.Navarro mandou j$eJ8iii^.çr^?;^9s\^^^^ 
«)k aão^ acitimu : tq Corregedor^ )de Gereis , ( q\^ j^evr 
dcD/oâiisnni liomew natBiella ei]^dição),.e ^r ostros O^ 
▼a4leÍToa*da AnâalwU <39Q Ha4>kos com tçn^aç ,çm duaif 
vidas ^Itm rcconfaecímento 4a/presteza cpvo ^ii^' acodí^ 
fao a seccotrer ArzHIa^ '^, j 

B. ^cao de Mtn^ze? ironservqu^s/e dU^te desta^ Pra^ 
ça até chegar todo o soccorro^ que lhe. foi do Algarire^ 
« Tottbu depois a. Portugal , sendo recebido 4*]£ÍRei 
tamaomenciâo ob «eus rdevanres serviços;. ' . /, 

J5»p — PelíTs rtorícias cpie ElRei teve 4a gueriqr^ 
que Uie inâa o Çamorim (i), e ^a Armacja que p $^Í- 
tio )âi> Ggrpto preparava epi Su^ para iav<i4ir a íodia^t 
e unir-je aquelle Príncipe, e a outros seus confederados, 
dt^t^roMim oiAudar buíra forte Esquadra a die»ruk a 
Cid^e de Caiecut ; e papa esta expedição escolhiso \q, 

(O 'Ve^íe larros, Década 2. Liv. j. óp. 9. — Damião de CoçSj 
Parte s. Cap. 40. — Gistanlieda, Liv. a. C^p. 122. ^^^'^ 

39 ii 



308 

JliâPtchal do Reino D. Fernando Coutinho , e fez apres- 
tar quinze Náos guarnecidas de trcs mil soldados (i), 
em (jue se contavíío muitos Fidalgos, e Moradores di 
Casa Real. Embarcou o Marechal na Náo Nazarcth, 
grande e formoso navio; e os outros Commandames 
erão Francisco dé Si na Náo S, Vicenre; Pedro Affbn- 
so de Agui:ir na Ga! lega 5 Sebastião de Sonsa no S. Jor- 
ge; Francisco de Sousa na Boa Venttira ; Ruy Freire de 
Andrade na Garça ; Gomes Freire de Andrade no Bre- 
tão; Jorge da Cunha na Magdalena; Rodrigo Rebello 
na Sebastiana Velha ; Francisco Marrecos em outro Bre- 
tão; Leonel Coutinho n^ Flor da Rosa; Bnz Teixeira 
no Ferros; Luiz Coutinho cm hum navio seu; Praocis* 
CO Corvinej no S- Tiago, de que era Armador; e Jorge 
Lopes na Santa Cruz, de que era igunlmente Armador. 
Estava EíRei prevenido, segundo parece, de que 
haveria alguma difficuldade da parte do Více-Rci D* 
Francisco de Almeida , sobre entregar o Governo da 
índia a Affbnso de Albuquerque; e este aviso lhe veio 
de Gaspar Pereira , Secretario do Vice-Rci, aue trah* 
mem^ que tnâo sabia ser^ ãuthor, Jurz^ e rto. He cer- 
to que o Marechal recebeo instrucç6es publicas, e se- 
cretas para todos os easos , e hia independente da jct* 
fisdicçáo dos Governadores da Índia. ^ 

' A Tl de Mar^o do ijo^ sahio de Lisboa a E^oa- I 
dra; e ainda que teve alguns tempos contrários, chcgott ■ 
toda a Moçambique a 26 d* Agosto do mesmo anno. 
* 15^09 — Tendo o Corsário Francez Mondragnn (2) 
foiibado no mar dos Açores a Job Queimado, Cooi* 



(i) Elffm, c Faria dizem, que o Marrchil Icvoo trw iníf 
do9:Ooe$, e o No^iliarié manutcrito dai FoúnUãs de Pprti$j^mi tó {\m 
c!5« mil c íeiscento»: Fr. Manoel Homem conccdí-líw dob miL Quiti 
ici4t)t 0% Nístorradorei Cra/em a saktda da Esquadra « 12 de Março; mm 
CdSfihHeJa a põe a 20, < Faria a 11 d*AbriJ, 

(a) ^ocs, Parte z. Cap. 42. 



inandante dé hum. navio Portuguez, que vinha da índia 
no anno de ljo8, sobre a restituição de cuja preza fez 
ElRei D. Manoel inúteis representações á Corre deFran- 
ça; soube-se.que o mesmo Mondr^gon armava de novo 
quatro navios para vir esperar as Náos da índia na sua 
torna-viagem a Portugal , e em consequência mandou 
EIRei sanir de Lisboa a Duarte Pacheco Pereira cora 
algumas embarcações, para o interceptar na passagem 
para os Açores ; o que com eíFeito conseguio , encon- 
.irando-o a i8 de Janeiro de 1509 sobre o Cabo de Fi- 
nisrerrac; e depois de huma furiosa peleja, o tomou com 
três dos seus navios, metteo outro a pique, e os condu- 
zio a Lisboa. 

i;io — Este anno partirão de Portugal duas Esqua* 
dras (i) para a Ásia , e huma para a Ilha de S. Lou- 
leoço. 

A xa de Março sahio a primeira com destino a 
Malaca , com|K)sta de quatro navios ^s ordens de Dio- 
go Mendes de Vasconcellos^ e os outros Commandan* 
tcs Bahhazar da Silva , Pedro Quaresma , e Diniz Car* 
niche, Armador do mesmo navio. Todos chegarão a 
Goa a salvamento. 

A segunda Esquadra sahio quatro dias depois des^ 
ta, e constava de sete Náos da carreira, que devião vol* 
tar com carga de especiaria. Era seu Commandante 
Gonçalo de Siqueira ; e os dos outros seis Navios Ma- 
noel da Cunha, Diogo Lobo de Alvalade, Jorge Nu- 
nes de Leão, Lourenço Lopes, Lourenço Moreno, c 
João de Aveiro, que servia também de Piloto. Perdeo- 
se na viagem perto de Moçambique a Não de Manoel 
da Cunha, salvando^se toda a gente: os outros navios 
forão á índia a salvamento. 



(1) Castanheda, Liv. j. Cap- J4. — Barros, Década 2. 
Ca^ 8., e Ijv. 6. Cap. 10. - Gocs, Parte j. Cap. 10. 



Liv. $. 



SIO 

A 8 de AgoMo pnnió J«ât> ^rtiú, CimfWmiáft 
Casa d'ElRei , com outra Esqu<tdra de ttús narios, aen- 
tio os otitfos dois Com mandantes Paio de Si^uva, e Fer- 
ííío Cavalleiro. Levava João Serrão in^tnicçdet para ir 
á Ilha de S. Lourenço estabelecer pazes, e rnto mer- 
cantil eom os Reis de Turubaía , e Maratami* 

Forçado dos ventos, ou por má naviíga^o, foi Oar 
á Ilha de S. Thomé com os navios destroçados, onde 
se reparou; e seguindo ^ sua viagem, chegou ao Porco 
de Antepara ( parece aer a Bahia chamada dos Gale6ei., 
na face do Sul da Ilha ), só com dois navios, porte h»- 
ver separado o de Fernão Cavalleiro , em que goqimm 
víveres, e algum gengivre. Dalli passou ás lUras áe aan^ 
tâ Clara, e a outros Portos , pelos qnaes perdee dois cs- 
<alcre6; e depois de gastar o Inverno correndo A Cottt^ 
sem achar mais gengivre, ou outra especiaria, partio pa» 
fã Goa , onde cbegoii ; e Paio de Sousa foi sarilhado a 
Moçambique. 

Neste mesmo anno mandou ElRei pana <So?cm*- 
dor de (^afim ao famoso Nuno Fernandes de AtÉide, 
com hum Comboi de trinta navios carregadoÉ de tro- 
pas, e munições, e n.uita gente nobre, para ficar de 
guarnição naquella Praça. 

15 II — Neste anno mandou ElRei á índia huma 
Ssquadra de seis Náos (i), de que deo o commaodo a 
D. Garcia de Noronha, sobrinho do Grande Affonso de 
Albuquerque, o qual embarcou na Náo Ajuda (a); eos 
outros Comniandnntes erâo Pedro Mascarenhas na Senlio* 
ra da Luz; Manoel de Castro Alcoforado na Santa Ea- 
temia ; Jorge de Brito no S. Pedro , Chrisrovio de Bii- 

CO Catanheda, Liv. j. Capítulos 71 t ío. — Binot, l^ecitfi t. 
Liv. 6. Cap. 10. c Liv. 7. Cap. a. — Góes náo faz mençáo lirsta Fs« 

cuadra. 

(2) íNjo a. hei o numero de Soldados que levava crtaBsqmrirj, 
n:^K ;,c.in Tairos nof diz, que a Náo Eelem cmiduaia quatiuctntoa, po- 



to na Bekm^ liuma das melhoMs Náos daquelk tmfipo; 
« D. Aires da Gama na Piedade. 

For ajàim incidente que ignoro , sahio primeiro 
D. Garcia & Noronba a iSr de Abril de 15^11 com as 
quatro primeiras Náos; e a 20 D. Aires da Gama, e 
Chrimnrâo de Brko. Estes dois ultimes Commandantes 
aave^isão ufliilos até á altura do Cabo de Santo Agosti. 
pho, onde Imn tempo os apartou. Cbristovão de Brito 
dobrou o Cabo ds Boa Esperança a 2) de Julho , che* 
gou a Moçambique nos princípios de Agosto, e i índia 
Ma Seteabra. IX Aires da Gama chegou pouco depois. 

£L Garcia de Noronha seguindo sua viagem , so- 
ta veoícocMe anto, oue oao pôde montar o Brasil (i); 
€ Ttretndo no bordo de Lesie, ibi huma noite topar com 
fauoi Qhoce, ^e «endo primeiro visto por Jorge de Bríi- 
to , G>mmanaânte da Náo S. Pedro , que hia oa vau- 
gmràãjhz signal aos ootros navios, que assim escapa- 
rão ile m perder (2). Deo»se a este penhadico o nome 
de BntáD de S. Pedra Por idtinK) ancorou D. Garciai 
na lUia de SL Thomé , onde, o ^eu Governador Fernan- 
do fie Xleilo o provêo do necessário ^ e daqui escreveo 
a £iRei os acontecimentos da sua viagem. 

faMmàó ás S. Thomé no 1/ de Agosto , o seu 

demos fvaliar o cocai em mil e seíscencos homens pouoo mais ou me- 
fios. 

-(i) Me havta aimb nequelles Ctmpos hum systema fixo , e conhe- 
cido das derrocas que se de v ião fazer de Lisboa para o Cabo de £oa£M 
pcran^, abundo .as escaçét t doanno; e por ino muitos ^^lo^s , por 
fugirem das calmarias de Guine , onde alguns voluntariamente se biáo 
n^cer« corrjão tanto para Oeste, qõe tiSo podião montar o Calx) dt 
Santo Agostinho, e erío forçados a virar no bordo de Leste em mui 
paquena lâticude^ o que ot levava d amnia Gosta de Guiné , que que*» 
fíão /tv^itar , fiarenA) assim hum rodeie inunenso , afté se mieiitt^m np- 
vãmente em caminho. Mas he preciso também confessar, que os navios 
daquelle tempo não andavão, nem bolinavâo como os de ho)e. 

1^2.) O Penedo de 5. Bedoo tsrá oa iaticode N. de 5 $^ e longitude 



312 

Piloto, por segurança , foi buscar a latituãe de 40^, o&« 
de as equipagens sofFrêrão terríveis frios; c vinda de- 
pois Jeoiandar a terra , e cuidando (nâo sei porque) le» 
var dobrado o Cabo de Boa Esperança , veio enibetes- 
gar a Esquadra cm Iiuma Enseada muito ao Norre do 
Clabo, cheia de b?.ixos, e correntes, que arrasravio os 
navios para dentro; e milagrosamente sahio a salvo pa«> 
ra continuar a navegar bordejando ao longo da Ccsra, 
em que gastou mez e meio antes que montasse o Ca- 
bo. Tantos trabalhos, e tantas mudanças de climas ct* 
nhâo ralado as guarniçres de maneira, que todos os dias 
se lança vão quatro, e cinco mortos ao mar; e os doen- 
tes erão tantos, que não chegavão os sãos para marear 
os navios ; e assim andou D. Garcia á tòa meio perdi- 
do, até que vio a Costa da Africa, a qual os Pilotos 
atarantados nno conhecerão. 

Partio então Pedro Mascarenhas na sua lancha para 
tomar lingua em terra , e saber onde se achavao; c co- 
mo o mar quebrava muito, enviava elle hum Negro, e 
hum marinheiro a nado, que voltarão com resposta de 
que estavão trinta legoas distantes ãquem de Moçam- 
bique; mas infelizmente não pôde Pedro Mascarenhas 
recolhe-los a bordo da lancha, e mandou-lhes que fos- 
sem adiante a huma ponta de terra , que mostrava fazer 
abrigo, e ahi os tomaria, como tentou fazer, porém 
não apparecérão, e depois se soube que os Mouros os 
matarão. 

A ir de Março de iyi2 entrou finalmente a Es- 
quadra cm Moçambique (i). 

1512 — Sabendo ElRci, pelas Cartas que da Ilha de 
S. Thomé lhe escreveo D.Garcia de Noronha, que nao 
lhe era possivel passar aquclle anno á índia, mandou 

(O O trcsmo diz Faria e Sousa, porém Castanheda dá ai sua cbe* 

^nda MO me.' dt Fevereiro, 



3Id 

immeâifltamente aprestar doze Náos com dois mil sol- 

dados de guarnição (tanta era a abundância de navios, 

^e muniçòcs navaes naquclles tempos felizes !) , de que 

formou duas Esquadras, buma de oito, outra de qua- 

^tro Náos (i). 

Commaridava a primeira Jorge de Mello Pereira 
na Náo Senhora da Serra j e erão os outros Comnian- 
danles Jorge de Albuquerque na Nazareth ; Jorge da 
"Silveira no Bota-Fogo j D. João de Eça na Magdale- 
na; Lopo Vaz de S. Paio na Santa Cruz; Gonçalo Pe- 
reira na Conceição; SimSo de Miranda na Virtudes; e 
Francisco Nogueira no Santo António. Da segunda Es- 
quadra era Commarídante Garcia de Sousa na Náo São 
João ;"e Ò8 outros Pedro de Albuquerque na Sebastia- 
na ; Gaspar Pereira , que hia servir de Secretário com 
AflR)nso de Albuquerque, no Santo Espirito; e Roque 
Raposo de Beja cm outra N4o. 

Tinha EIRei ordenado /que os navios partissem a 
dois e dois logo oue estivessem promptos , e se fossem 
reunir em Moçambique , onde esperariao pelos seus re- 
spectivos Qiefes até hum cerro tempo , passado o qual 
deveriaò seguir pára a índia debaixo das ordens do pri- 
meiro delles, que chegasse; mas a 25 de Março de 1512 
sahírão de Lisboa quasi todos os navios. 

Estas duas Esquadras surgirão em Moçaml^ique 
pelo mez de Junho, excepto Jorge da Silveira, que 
passando por fora da Ilha de S. Lourenço, chegou á 
Darra de Goa a 8 de Julho ; e nao ousando entrar por 
serem os tempos mui verdes, foi ancorar cm Anchcdi- 
va; e Francisco Nogueira, que se perdco nos baixos* das 
Ilhas de Angoxa (2) , cm que raorreo quasi toda a gcn- 

(O EaiTOs, Década 2. Liv. 7. Cap. 2. — Faria, A^ia Portirgueia 
Tomo I. Parte 1. Cap. 2. — Gocs não faz mcrit^ão de«ta Esqi*adra. — 
Castanheda falia com assas confnsão no Liv. j. Cap. 88. 

(2) São qaairo pçrcjucnas IJhat situadas sobre a Costa Oriental da 

40 



314 

lê, e ellé, pòr háo tóbèt tiaââf , ficou níi parte sií- 
jerior áó caiscò dia Náõ tòm dois filhou s&ns ; fe quatt- 

a j|3^ Bhxtíró pai-á !itlttia datjuélíâé Ithas, óhde ficárfo 
cativos dos Mouros , mas pouco tempo ddpoiá se rtSí- 
^tárão. 

15' 13. — Neste arttio partio para a índia hiima Éj- 
buadra de três Náos , commaildada por João de Súú$à 
at Lima ria Náo Piedade ; e os outros dois erão Hen- 
rique Nunes de LeSo no S. ChristoySo, e Pranciso6 
Corrêa no Sanio António (i). 

A 14 de Março de ifi^ sahio de Lisboa etta &^ 
^adra , e sobre o Cabo de Boa Esperança $e dispetsá- 
t3o os navios com hum temporal. Jõâò de Sousa de LI*' 
ina chagou a Moçambique a 22 de Junho ; e nos príiic!« 
plús de Julho HcTfrique Nunes de Leão. Francisbo 0>r=- 
rea tomou por fóra da liba de S. Lourenço , coidandô 
^ue entrava pelo Canal \ mas conhecendo depois a terra ^ 
Ètgalo a sua viagem, e dobrando a Ilha pela cabrái dó 
Norte, atravessou a Costa da Africa para vir Buscar 
Moçambique , e perdeo-se no baixo de S. Lazaro ses- 
senta legoas ao Norte desta Ilha. Teve oorém occasião 
de Fa2er jangadas , c com estas , e a lancna , e o escalet 
salvou toda a g^nte, e foi ter a Melinde^ onde achou 
felizmente as duas Nãos da sua conserva. 

ijij. — Agastado EIRei D. Manoet do quebranta* 
fliento das pazes que fizera y e renovara com Moley 
Zeyão, Senhor da Cidade de Azamor, determinou con- 
quísta-Ia^ e para esta commissão nomeou ao Duque de 

Africa, pouco d^tantes de Moçambique, e fcomeíras 1 bum Kio, de 
^e ellas tomáráo o nome.. A Ilha mais do Sul está sitttad» na latinnk S. 
16^ n'j c longitude $8'' lo'. 

(O Harros , Década 2. Liv. 8. Cap. 6. — Faria, Atia Poituguea. — 
Castanheda, Liv. i. Cap. 115. — Esta Esquadra falta em RamtSo de 
Gocs , c na Alemoria de Fr. Manoel Homem. 



816 

Bragns' D^ Jaime ^ $eu âobriíiho, por seu Capitão Mor 
Qinerãl ^^om poderes mui amplos (i). 

COffMit^va ft Armada de mais de quatrocentas e trliv- 
la embarcaçées» emrc navios de guerra , e de transpor* 
te^ na qual^embarcárâo (2)^ além da Marinhagem ne«- 
ocssarift, daífi mil e duzentos homens de cavallo , tinfo 
geilfe bobtef de que duzentos erão acobertados, c qui]»> 
ae Ali) hooiens de Infantería , pagos á custa d' ÉlRei ; è 
o Duque alistou ^nas suas terras quatro mil homens es«* 
colhidos y a seu soldo ^ et dos seus' Vassallos , e creados 
quinhentos € cincoenta de cavallo, em que entravao cem 
jtfobertados. Destes auatro mil Infantes formou o Du» 
c|ue quystro Corpos, de que nomeou Coronéis Gaspar 
Vm , Pedn> de Moraes , Christovão Leitão^ e João Ro« 
dirige, 06 quaes linhâo servido na Itália com boa re^ 
piita{ad;e tanto oa Oíficiaes, como os Soldados, forão 
fârdactoa á taa custa, com gibão^ e gorra de panno bran^ 
ce^ tou huina Cruc vermelha no peito, e outra nas cos- 
tas; a fardamento dos Coronéis, Alferes^ Sargentos, e 
Caboft erft dd leda da mesma câr. Estes quatro Regi>« 
oieDSoa (faUandb na firase moderna) estavão bem diact- 
plioadoa , e instruidos em todas as evoluções militares. 

Nenkeoo BlRct a D. JoSo de Menezes por Capitam 

. (1). Por huma Carta Regia datada de Lisboa a \ d'Agotto de 1 5 1 } ,, 
Ãl^db.a todos os Fidalgos, OíYiciaes, e pessoas dis que se co)i«putihSâ 
ft Fsrtçts àt ato, « Terra, Miipiegadás na expodiçio; em cujt Cana- 
ávm CíAei^eaai fbftnaús palavras: ^' Com a qual Capitania ther damos 
„ ^ao Bu^ue.^ voòm o nos»o comprido poder, e alçida sobre toda a gdii^ 
^ ta da difa Armada, e Exercita, de quaiquei estado, e condido quo 
y, «ja , fira d'elle usar, como Nós f^ssoalmente o faríamos, se pre<en- 
„ se íòswmm , assim no Civel^ como no- Crime, até morte natural in- 
^ chMvi , sem d'eUe em caso algum iavar outra mais appellar,^, nem 
n aMravo-^ porque tudo quewmos ^ e nos praz que façi nelle finu „ 

Qtj Vede Góes, Parta 5. Capítulos 46 e 47. — ^ Hiscorta Genealo* 
gka da Casa Real Hortugucza , Tomo 5 . L\\\ 6. pag. $ o j c seguintes ; 
e a Carta do Duque de Ètagança a EíRei D. Mínod no Tomo -4. das 
ftorai á mesaia Uisroria , a pa^ ^t, 

40 ii 



3)6 

íetieral cfa Armada , e Etercito na atiseícia 
de Bragança. Os priacípaes Fidalgos, que acompanha-» 
vão a este , erao : o Conde de Tentúgal , depois MarA 
quez de Ferreira i D, Fernando de Faro; D* AíFon^o 
de Portugal, depois Conde de Vimioso; D. Fernando 
de Noronha i Ruy Barreto, Alcaide Mor de Faro^ no^ 
meado Governador de Aznnior; o Conde de Borba; 
D* Bernardo Cominho; D< L.iiiz de Mejiezes; D, Hen* 
rique de Menezes; João da Silva , que commandavâ âi 
tropas do Algarve ; D. Aleixo de Menezes (depois Avo 
d'ElRei D. Scb3i;rião) ; Aires Telles de Menezes ; Dio*^ 
go Lopes de Lima, Alcaide Mor de Guimarães; D* 
Bernardo Manoel, Camareiro Mor; D, Luiz da Silveira, 
depois Conde da Sortelha ; João Rodrigues de SÁ e Mcnc- 
zeSj Alcaide Mor do Porto; Ruy de Mello; D. JoSo 
Mascarenhas, Capirão dos Ginetes; D, Manoel Mskscârf 
nhãs, seu irmão; Henrique de Bitancourt ; Franci^o de 
xVbreu; António de Abreu, seu irmão; João deOrnelUt j 
Luiz da Aíouguia; João Esmeraldo; e Christovão Es- 
meraldo, seu irmão, todos Fidalgos da Ilha da Madei- 
xa ; D. Alvnro de Noronha ; D. João de Eça ; João Gon- 
çalves da Camará , Donatário da Ilha da Madeira , qim 
levou vime navios, e seiscentos Iiomens de pé á çua cus- 
ta, e duzentos de cavatJo, de que oitenta erao seus ptrcn- 
tcs, e amigos, ou crcados, cdeo mezj franca a todos; IX 
João Lobo; Martim Vaz Mascarenlias ; Álvaro de Brito; 
António da Cunha; Jorge Barreto; D, Rodrigo d* Eça, 
Alcaide Mor de Moura ; João Soares; D. Jorge Henri* 
oues, senhor de Bubacena; Álvaro de Carvalho, senhor 
de Carvalho; D* João de Casrello Branco, Alcaide Mcf 
da mesma terra ; Diogo de Mendonça , Alcaide Mor à^ 
Mourão; Pedro de Mendonça, scf irmão; Christovãoíte 
Mello; Simão de Sou?a Doccní; João Brandão; Lcoi»cI 
de Abreu, senhor de Regalados; Gonçalo Pinto, Akai- 
de Mor de Chaves j Ruy Va? Pimo^ seu filho, AJcaiic 



aw 



tor á^ lfft>nforte ; Garcia de Mello, An^dcl Mor, a 
>" ' Besteiros, Aloíde Mor de Castro Marim; 
larn xeira de Villa Real, Alcaide Mor de VHIa 

Pouca dê Aguiar vJóao Affonso de Beja, Comtnendador 
^feS^v *r dcBqa; Fernão de Mesquiia de Gul- 
Kr 



irSc 



CO de Pedrosa, Adail Mor; Francisco 



Owlho, Anadel Mor dos Espingardeiros ; Pedro Atfon^ 
80 efe Aguií^r, Provedor dos Armazéns de Lishoa , a 

?uem liião encarregadas as cousas da Armada ; Rujr Dias 
anii Martim Galado-, Lopo Vaís Vogado; Aires Coe- 
; João Patalim, lenhor do Morgado do mesmo no- 
|è; Ruy Palha, que hia por Comniandante dos Bestei- 
de cktallo do Duque ; Sebastião de Sousa , e Pedro 
Castro, Capitães da Guarda do Duque; Henrique 
ihciro, depois Alcaide Mor de Barccllos; João Roíz 
rrio; Pedro Bérrio^ c João Martins de Alpoera^ seu? 
mnhos, rodos ires hábeis Marinheirw* 

Ent quatro mezes c meio se aprestou e$te grande 
amamento, pela summa actividade do Conde de Vilfa 
)va de Portim3o, Vedor da Fazenda; e estando rirdo 
_ )inplo, foi ElRei ouvir Miísa á Sé , onde o Arcebis- 
po D. Martinho da Costa bcnzco o Estandarte Rc.il ^ 
Ic ElRei entregou ao Duque, com honradas, e discre- 
E expressões, na presença de todos os OfR cines, e pes- 
as notav^cis do ExercitQj e Armada. Na tardo domes- 
i>uia entrou o Duque no Paço, acompanhado das mes- 
juas pessoas, a despedir-se d' ElRei, e da Eamilia Real, 

|?e embarcou logo, ainda que por afguns incidentes, 
r occorrcrão , se demorou alguns dias no Rio, dor- 
Ddo sempre a berdo da sua N4o. 
A if de Agosto de IÇ13 ancorou toda a Armada 
^iBelcm: no dia seguinte vcioElRci a bordo visitar o 
^ílqtfe; e fazendo-se os navios á véln , tornarão a sur- 
gir na Enseada de Santa Catliarina , per acalmar o verv* 
'^^ iia o Duque dado bum Regimento aos CommaiP- 



3Ift 



Carnes do modo com qiie liâvilo navegftf , fa 17 mW9 
a barra com tod.\ a Arnuda. Na manha seguinte do^ 
brou o Cabo de S* VicenEe, e havendo çalmarij, foi m 
seu escaler á Bahia de Lagos, e sem desembarcar, f« 
largar algumas embarcaçtJcs do Algarrc, que âchou sur-* 
tas» e as encorporou com a sua Armada, a que perten» 
ciao. A 19 chegou ao Cabo de Santa Maria, e d^ytfh 
dou recolher os navios ^ que estavão coi Faro , e Tant- 
ra , em que se demorou até 29. Aqui chamou a bonjhl 
os Comraandantes^ e lhes fez varias advertências; e poil* 
do-se em derrota para Azamor (l)> foi surgir defroitK 
de^ta Praça a 28 já de noite : e como o tempo HéÍo djK 
va jazigo para entrar no Rio, assentou-se em ConcdliOi 
que o Exercito desembarcasse em Maaagão (s)^ que 
disra quasi três legoas de Azamor, e marchasse dalH 
por terra a atacar esta Praça ; o que se fez. 

Desembarcou o Duque era Mazagâo» sem re9Í9t<n- 
cia , e organisado o Exercito, se poz em m^trcha p«ra 
Azamor, indo a Armada costeando a terra. Moley ZiilO 
tinha dado o governo desta Cidade a Ode Mançor, de 
quem fazia grande confiança, com boa guarnição j c í* 

(1) Azamor era quadrauiguUr, e cercada de muralhas: cofiittvi dB 
luait de cinco mil famílias de Mouros, e quatrocentas de Judeos; ^ 
aeus ha!>ítantes crao assas civilizados, c ía/ião j;randí; commetcio «m 
peixe seco; enttt elles viviSo muitos Negccbntei Fortu^aeirs, A ft* 
vlnch ás Duccatla» em que fila está muida, cOntinlik «^uano Ckftáel 
murad^is: A/amor, Çaíim« Tite , c Almedina; n seu icfreno km mti 
em grãos, e ^ado de coda a espécie. Os Mouros Barbare^cos mooirio 
lodos nos lugares fortííicados ; c os Árabes, mais guerreiros do <^ el- 
les, na campanha, divididos cmTribus, e estas em acinrpQrneflttti 
chamados entío Aduares, de que se contôvão naquella Pro% ioelê tràcm* 
tos e noventa , ctija população txitai te avaliava em oentt> q ^m ^ nà 
mit l»omens* 

(2) Ma^agio, praça marítima na Costa ck fatiaria, btictid*- V ; >• 
18*, e longitude 9** 4j', Tem hurra Enseada perigosa j^to 
fuivdo, c por huma rcttin^a de pcdr«. ^?aqueilè tempo et» l , . 
aberta , qoe os Fortu^ueies convecUrio <kpoi$ em Fra^ foae. 



ÍÍ9 

tcfQ lio catnpo com todas ias %tçàs x)ae úbii i-eunir, j>ti. 
ra dar feitalhâ aos Partugwwcs, segundo dÍ2iía. Tinha 
o Uucnlé ôrâénádo a Pedro Alfortsò xlfc Aguiar, què com 
Ok tiáVite dè ;^rtá entrâi^se no Rio de Azamor, e quel- 
ibatíte lik baldas iticetidiariãs , que os Mouros havrâo fa- 
britado para deitarem fo|p âos navios; o que elle cuqii- 
prjo^ a gp<^r dã bpposiçao da artilheria da Cidade. 

O Exército foi assaltado na marcha pelos Mou- 
ibs 9 que intentarão embaraça-la , mas sendo rechaça* 
doa , se alojou o Duque aquella noite ao longo do 
Rio , tm que a Armada estava já ancorada. No diâ 
seguinte se começou a desembarcar a artilheria , e mu^ 
triçdes para bater as muralhas, e os Mouros tornarão 
à apparecer^ e a rfetirar-se. Al^ns Generaes erâo de 
bpiniao de os atacar , porém o Duque de Bragança 
fe^itôu este parecer , julgando mais prudente tomar 
f)rím<?8t) a Cidade, para depois obrar segundo as cir* 
cunstancias. 

Desembarcada a ahilheria , e posta alguma deltor 
bn bateria, mandou entret<Tnto o Duque encostar man- 
bs i muraãia para a picar , visto que a Cidade nSo ti- 
nha fosso, nem obra alguma exterior, que o embaraças^ 
se , e asshxl se fez debaixo da direcção de D. Jo^ dè 
Meoezes, que provia em rudo. Este ataque durou aié 
ãò fim da tarde, defendendo-se os cercados o inelhoir 
^oe pòdiao, com tiros, e armas missivas, lançando sobre 
às mantas quaiitidade de fogo , quando liuma bala de 
iirtilheria matou Cide Mançor, de a«ja vida parece què 
dependia a defesa da Praça ; porque nessa noite a des- 
ampararão os Mouros com tanta precipitação , que mor- 
irérSo mais de oitenta afogados no meio da multidão, 
que se vasava pelas portas. 

Antes de amanhecer veio hum Judeo Portuguez dar 
esta noticia ao Duque , que tomou posse da Cidade , na 
qual só achou alguma artilherfa, e mantimentos. A fa- 



320 

ina desta conquista fez despovair as Cidades de Tite, e 
Almedina , de que os Portuguezes se apoderái^o. 

Fez depois o Duque huma entrada na Província, 
para castigar os Árabes, que havendo assentado çomclie 
pazes, as quebrarão logo; mas nao achou mais que buoi 
. pobre Aduar com duzentos indivíduos, a que deo Uber- 
dade. E começando a adoecer de hum tumor, que lhe 
vedava andar a cavallo, deixou em Azamor toda a sua 
casa, e tropas, e partio para Portugal a 21 de Novem- 
bro cora dois únicos navios; desembarcou em Tavira, 
e apresentou-se cm Almeirim a ElRei, que o recebeo 
com grandes honra?. 

ij'14. — A 20 de Março de 15' 14 partio para a ín- 
dia Chrísrovão de Brito, commandando huma Esquadra 
de cinco Náos ; sendo os outros Commandántes (i) Ma- 
no:! de Mello , João Serrão , Francisco Pereira Couti- 
nho, c Luiz Dantas: este chegou primeiro a Goa, e de- 
pois dellc em Setembro o resto da Esquadra, 

Em Julho do mesmo anno sahio de Lisboa Luiz 
Figueira por Commandantc de dois navios , e o outro 
era Pedro Annes Francez. Levava Luiz Figueira ordem 
para ir ao Porto de Matatana, na Ilha de d. Lourenço, 
estabelecer huma Feitoria, para negociar o gcngivre, 
Gue produzisse o Paiz; o que nao teve eíFeito, porque 
oepois de estar alli seis mezes recolhido em hum Redu* 
cto, que construio, na falsa esperança que lhe davão os 
liabitanrcs da colheita do gengivrc, se levantarão contra 
clle, por cuja causa se retirou a Moçambique; onde já 
achou Pedro Annes, que manddra naquelk meio tempo 
a reconhecer a Costa de Leste da Ilha, e com effeito 
entrou cm alguns Portos, e no ultimo comprou muita 

(O Barro! , Década 2. Liv. 10. Qp. 2., c Década |. Liv. 1. Cjp. 1. 
— Góes, Parte j. CaLHíuo-? 66 e 67. — Czstar.licda , Liv. 3,Cbj.\I5j» 

cúijt.i só quACro NJos iic:kLu h^^jUAilid. 



821 

quantidade de ambar; e como o vento era contrario 
para voltar a Matatana, foi-se para Moçambique. 

15*15'. — AíFonso de Albuquerque , depois de con-» 
qatstar Goa', Ormuz, «Malaca , três das çrincipaes 
chaves do &)mraercio da índia, pedio a EIRei D. Ma-. 
Boei o Titulo de Duque de Goa , e licença para acabar 
Bclla a sua vida, mais gasta de trabalhos, que de annos; 
mas os seus inimigos tíverâo a arte de insinuar no ani«. 
mo sinccro.fi* EIRei algumas suspeitas contra a sua fide^ 
lidade» exagerando a affirição que lhe tinhão os Portu- 
guezes, que serrião na Ásia, c os Reis, c Povos daqueU 
Jes ricos Faixes^ -que todos folgarião de o ter por seu 
Governador^ ou seu alliado; d^onde concluiâo, que per- 
tendia por áquelle «neio tornar-se independente de Por4 
tttgal. 

Estas pérfidas suggestôes., attrtbuidas naturalmente 
pelo Monarchá ao zelo do Real serviço, o fizerâò rc^ 
solvçr' a mandar por Governador da índia (i) Lopo 
Soares de Alvarenga , que não sendo amigo de Affbnsa 
de AHraqoerque, parecia por isso mesmo mais capaz de 
O fnsr embarcar para o Reino , a pezar de qualquer 
obstáculo que occorrcsse (2). Levava elle Instrucções 
sobre dous artigos da maior importaiKÍa: o primeiro 
para arrazar a Cidade de Goa , e abandonar a Ilha , se 
assim parecesse bem ós principaes pessoas, que serviâo 
na índia (3); e .0 segundo para não occupar a Gdade 
de Adem (4) quando fosse ao Mar Roxo (^). Este pro- 
jecto era talvez o resultado das intrigas dos inimigos de 

(i) Barros, Década ?. Liv. 1. Cap. i, — Góes, Parte j, Cap^ 77, 
— Castanheda, Liv. }. Cap. 152. 

C2} Damião de óoes o diz positiv^amemii no lugar citado. 
* (1) Goes,*Parte 4. Gip. 2. 

(4^) €sta Cidade está situada na Costa do Estreito da Arábia, e era 
naqiHsllef tempos mui cekf brada em todo o Oriente, 

(5) Góes, Paite 4. Cap. 12. 

41 



322 



I 



Aflbnso de Albuquerque, p^ra menoscabarem os sem 
planos da conquista do Oriente, que devlão immoríali» 
zar o seu norae (O* 

Felizmente para Portugal foi o abandofto de Goa 
impugnado por todos os homens, que Lopo Soares ali 
consultou; porém Adem escapou então de completai a 
linha de defensa tão necessária aos Esrados da índia. 

Constava a Esquadra de Lopo Soares de Alraren* 
ga de treze Náos, guarnecidas de mil e quinhentos sol* 
dados, cm que entravao muitos Fidalgos, e pessoas No» 
bres. Com manda vão as Nios Christovao de Távora, 
D. Guterres de Monroy, Hespanhol, Simão da Silveira , 
D, Garcia Coutinho, Francisco de Távora, Álvaro TcU 
les Barreto, D, João da Silveira» Jorge de Brito, Alvaio 
Barreio, Diogo Mendes de Vasconcellos, Lopo Cabral, M 
c Simão da Alcáçova em huma Náo de Armadores dcs- ' 
tinada p.ira a China. Com Francisco de Távora hia 
embarcado Fernão Peres de Andrade, seu cunhado^ que 
ElRei mandava á China com huma pequena Esquadra , 
a qual o Governador da índia lhe havia de forocccn 
Conduzia tambcm Lopo Soares a Mattheus^ Embaixa- 
dor de ^elena , mai do Imperador da Ethiopia, Rei da 
Abissinia (o chamado antes Preste João) , que voltava á 
sua pátria ; e a Duarte Galvão, Fidalgo da Casa d^EIRei, 
e do seu Conselho, hum dos abalisados Diplomacicot 
do seu tempo , como Embaixador de Portugal jtsnto 
iquella Soberana* 

A 7 de Abril parno de Lisboa Lopo Soares de Al- 
varenga j c sem lhe acontecer cousa notável^ ancoroa 



Çi} Arfonso de AJbtx]i}erque tentou éuat veres apoderar-^ cfe^ 
que «ntra\*a ni ma linha de deíenf» da índia, porqwe fechava o EiTret- 
tf> âi Af^ihjíj e a pisw^em derte para o Mar Vermelho, t cortuva jute 
o Commeicin aoi Moutos^ e aos Árabes, e eviuva que os Tmçm «li 
n citabekcesxnu 



a23 

túx Mopitibique, e ^seguindo d'ali a sua viagem, che- 
gou a uoa nos princípios de Setembro, 
f AíFonso Lopes da Costa levava Cartas d' EIRei 
para AflPonso de Albuquerque; concedendo-lhc licença 
para ficar na Índia (i") em qualquer Fortaleza que es:* 
colhesse^ isento da jurisdicçao do Governador Lopo Soa- 
res; e que na sua vagancia tomaria o Governo cora o 
Titulo de Vice-Rci. He certo, que EIRei sentio a inor- 
tç de lâo grande homem, e fez muitas merccs a seu fi- 
lho, como clle lhe tinha requerido na hora da morte. 

15'I5'. — Determinado ÉlRei D. Manoel a fazer 
construir huma Fortaleza em Ma mora , nomeou por 
Capirâo-General desta expedição a D, António de No- 
fonha, depois Conde de Linhares, seu Escrivão da Pu? 
ridade ; e para lhe succeder no commando , se falleces- 
SC, a D. Nuno Mascarenhas, Constava o Armamento 
de mais de duzentos navios de todas as grandezas, c 
pito rail homens de tropas, divididos em três corpos., 
de que crâo Coronéis Tristão da Silva , Ruy de Mello, 
ç, Cnrisiovão Leitão (2). 

Os Officiaes , e pessoas mais notáveis desta expe- 
dição erâo D. Affonso de Ataide, D. Álvaro de Noro- 
oha, D. Bernardo Manoel, Camareiro Mor, D. Gas- 
par, e D. Joâo de Noronha, da Ilha da Madeira, Garr 
cia de Mello, Anadel Mor dos Besteiros, Pedro da 
Fonceca, Lançarote de Mello, António de Saldanha » 
D# Rodrigo de Noronha, D. Pedro de Azevedo, D. An-» 
tonio de Azevedo, seu irmão, Duarte de Lemos, Pedro 
jVIoniz , D. António de Sousa, Tristão da Silva, Ruy 
de Mello, Simão Gelez, Senhor da Torre de Chamor, 
Francisco Lopes Girão, Jorge Corrêa; Christovão Lei* 
tão, Fernão Vaz Corte Real, Vicente de Mello, An- 

(i) Assim o affirma Damião de Goe» na Part« }. Cap. 80. 
(aj Damião cie Góes, Parte 5, Cap. 76. 

41 ii 



lonio Real, Gaspar de Paivi , João Serrão, Tgnacio 
Bulhões» Diogo Berrio (i) ^ e seus sobrinlws Pedro Bcf- 
rio, e João Martins de Alpoem , Estevíío Barroso, Jvâo 
da Costa , Baltliasar de Siqueira, Ruy Varella, Ruy de 
Faro^ Pedro Vieira, Pedro Gonsatvcs de Távora , Dio- 
go Buraca , Architecto encarregado da construcção da 
Fortaleza, Pedro Bentes^ e Garcia Cainho. 

Embarcarão cambem na Armada os Artífices neces- 
sários para a obra da Fortaleza, e muitos homens casa- 
dos, com as suas famílias para a ficarem habitando. 

ElRei confiava tanto no bom succcsso da empresa, 
que deo Instrucçoes a D, António de Noronha , para 
que, concluída a Fortaleza, destacasse D* Nuno Masca-* 
renhas com rrcs mil homens para ir edificar outra cm 
Anafe: o resultado porém não correspondeo ás suas cs^ 
peranças. 

A 13 de Junho de ísry sahio de Lisboa D» Anto- 
BIO de Noronha, e no Cabo de Santa Maria esperou 
até 20 por D. Álvaro de Noronha , e as tropas do Al* 

farvej e reunidas as forças, chegou na tarde de 13 i 
arra de Mamora, onde surgio. Nessa noite entrou a 
Armad.^ no Rio, e Diogo Berrio mostrou a D. António 
o local em qtie ae devia construir a Fortaleza, o qual, 
na opinião dos três Coronéis, e dos- mais Officiaes, pare» 
ceo mal escolhido; e em consequência marcou-se outro 
Biais perto da foz do Rio, de melhor desembarque, e 
com agua próxima* Apôs isto desembarcarão antes de 
amanhecer dois Corpos de Infanreria ^ e hum Forre de 
madeira^ que hia lavrado de Lisboa, e come^ou-sc â 
pòr em terra a artiilieria, e munições ; tudo tsto fein 
obstáculo dos Mouros, que parece náa terem noticias » 
ou suspeitas ilesta invasãot 

(O V^-te por esta litta , que Gots não separou ot nomes âm Com» 
mandante; dún r»«vío$, doi nomes dat pes&Ofts de grande ^tiaJÍ<kfie^ ^m 
secvião nas tropas. 



Na dia segnlnte armou-se o Forte de madeira , e 
começou-se a ccmstrucção da Fortaleza , era que todos 
rrabalhaváo, sem excepção, e com tal actividade, €]u€ 
^m breyes dias se a brio hum fosso de vinte palmos de 
Jargo, c quatorze de fundo, em que entrava a maré, e 
se fechava á vontade para o conservar cheio d'agua. 

Entre tanto os Reis de Féz, e Maquinez acudirão 
a estorvar a obra com hum numeroso Exercito, que co- 
bria dustt: legoas de terreno, e sitiarão o campo dos Por- 
tuguezeS) que scra descontinuarem os seus trabalhos, far 
ziâo frequentes sortidas, cóm perda de muita gente de 
parte a parte; e huma delias tornou-se tão sanguinosa , 
que posto os Mouros fossem rechaçados, liverão os Por- 
tuguezes mil e duzentos homens fora de combate. A pczar 
destes obstáculos, a Fortaleza estava quasi concluida nos 
£ns de Julho. 

Como os Mouros recebião muito damno dos na- 
vios Portuguezes, que ^iém de conduzirem mantimen- 
tos^j e munições para o Exercito, batião os seus quar« 
teis com artiíheria , construirão logo no principio do si- 
tio i entrada do Rio huma bateria mui forte, em que. 
montarão muitos canhões, para lhes vedar a passagem^, 
e cortarem assim todos os soecorros aos sitiados ; que a 
final deviâo achar-se reduzidos a capitular, ou a fazqr 
húmz retirada desastrosa, pois que não tinhâo forças suf- 
icientes para arriscar huma batalha. 

D. António de Noroníia , vendo que a bateria dos 
Mouros o punha em perigo eminente de se perder, man- 
dou ancorar diame* delia hum navio grande, cujo cos- 
tado se reforçou com hum forro de vigas, coberto de 
facas de la, estopa , e algodão-, para resistir ás balas de 
drtilheria, e com a sua dt^struir a bateria, do qual na- 
vio dco o commando a Gaspar de Paiva; mas no fim de 
trinta dias o mettêrão es Mouros no fundo; e D. Anto- 
j3Ío perdeo de todo a esperança de conservar-sc ali mais- 
tempo. 



Tínlia elle escrito a ElRcí^ expondo-lhe o ver< 
rò csírnda das cousas, e recebido ja ordens p?.r.i abando- 
nar a Fo'taIeza, e rctirar-sc, no caso de serem da mcs- 
ma opinião os seus Ofiiclacs, como forâo. Em conse** 
qucncií», a lo de Agrsto se embarcando as rrcpas com i 
desordem, e confusão inseparáveis de similhnntes opera* 
coes ^ c d^s localidades docm^po, e du Rio, K^iisfrj- 
gárao mais de cem embarcações á sabida, rncalhandci 
pelas praias, em que murrco mura gente, e outra tt^ 
stuu cativa , fcm contar n perda da artilitcria , e mani» 
çocK; de modo que apcn.is D. António de Noronha coa- 
duzio a Porrupnl mcrnde do seu Exercito, 

El Rei solíreo este dc?as^re com o maior animo, c 
resignação; e a pezar de tamanha perda, intentou mau* 
dar no mez seguinte o Conde de Borba com outro Exer- 
cito a fi7cr a Fortaleza de Anafe; o que se nao vcrili* 
cou por motivos j que nos sãn desconhecido?, 

líió. — A 21 de Março de içíu partio de Lisboa 
para a Índia João da Silveira (i) commandando liumi 
Esquadra de cinco Nãos, e o> outros Commandamci 
erão Affbnso Lopes da Costa» G.ircia da Co^ia> seu ir- 
mão, António de Lima ^ cFrancisco de Soufa* 

João da Silveira chegou a Quiloa com os mastroi 
rendidos, onde invernou. AfFonso Lopes da Costa ^ e ara 
irmão passarão á Índia; os outros dous Commandantes 
perderão se nos baixos de S, Lazaro, salvando-se Frao* 
cisco de Sousa com toda a sua gente, 

A 24 de Abril sahio de Lisboa Diogo de Unboi 
por Coiumandante, e Piloto de hum navio, que ElRet 
mandava de aviso ao Governador da Índia ^ sobre a 
Armada que preparava em Suez o Sultão do Lgvpra 



(1) íâffos^ VtcuU (- Liv, 1. Op. 3. — Goef, e Ff. MMoei 
Cornem nao folião ràCsín Esçuacin:: iiia» Fx^ia c J:>juva fki drílt rp-çi. 



327 

.• Este Officiál chegou á índia hum mez antes dos 
oavios da Esquadra de João da Silveira. 

1517. — Quprendo EIRei D. Manoel aprovcítar-sé 
dos talentos de António de Saldanha, o mamíou este an- 
no de 1517 a fazer hum rigoroso cruzeiro no mar da 
Arábia contra os Mouros , que por ali passavão á Cos- 
ta do Malabar; c como similhante serviço exigia algu- 
mas embarcações Latinas, que nso podião ir de Portu- 
gal, ordenou ao Governador da Índia lhe desse as que 
^AMSCiD - necessárias. 

Aprestou-se em Lisboa hinna Esquadra (i) de oito 
«Náos, de que elle tomou o commando, embarcado na 
^áo Senhora da Serra; os outros Commandantes erao D. 
Tristão de Menezes, Manoel de Lacerda, no S. Tiago, 
Pedro Quaresma , Rafael Catanho , Fernão de Alcáço- 
va, nomeado Vedor da Fazenda da índia, com pode- 
res que o izentavão do Governador, os quaes não pôde 
executar, Affonso Henriques de Sepúlveda, c outro, An- 
tónio de Saldanha sahio primeiro com cinco navios, c 
peuco depois partirão os outros três, que se lhe reunirão 
em Moçambique , e chegarão todos á índia cm Setem*^ 
bro. 

1Ç17. — Em Junho de 1^17 (2) mandou EIRei D/ 
Manoel htHna Armada de setenta navios de guerra , e 
de transporte, com muita gente de pé, e cem de cavai- 
lo , coramandada por Diogo Lopes de Siqueira , com 
ordem de embarcar cincoenta Cavalleiros em Arziila, e 
-outros tantos em Tanger , e d'ali passar a Ceuta , cujo 
Governador D. Pedro de Menezes, Conde de Alcoutim, 
devia reunir-se a eíle com toda a sua Guarnição, para 
marcharem de commum accordo sobre Targa. O génio 
altivo de Conde, e a desconfiança cm que ficou por se 

(i) Vede Barros» Década 9. Lwr. 1. Cap. 10. — Castanfieda, Liv.4. 
C»p. 26. 

Qz) Gocf, Pirte 4. Capk z^f. 



5^20 



lhe mo d:ír o commando da expedição , a fez millo | 
grar; e Diogo Lopes reí*rLN«;cHi a Portugal, 

lyiS* — Nomeado Governador da Índia Diogo Lo* 
pes de Siqueira, Almotacé Mor, ll>e mandou EIKet D, 
Mniioel preparar Iniitia Eçqifidra de dez Ndo? , d« qoc 
erao Command^ntes Garcia de Sá, Ruy ác Mviío, D, 
João de Lima, D. Aires da Gama , Gonçalo P^^- ■'ueç 
"de Almíída (t), João Gomes, Pedro Pâiilo, J peç 

Aivioi, e Pedro Cabreini (j). Embarcirão nesta r 
dra mil e sei centos Soldados, entre riles niuííos tidal- 
gos, e pessoas Nobres. ' ' ' * *" * '^'' 

A 27 de Março de ijriS sâliio de Lisboa Diogo 

Lopes j e seguindo viagem com bons tempos, si:: 

«a alrura da Cabo de Boa Esperança esbarrar hu 
xc Agulha com a Náo de D* João de L^ma com 19I 
'violência, que enterrou pelo costndo o bico. ~- ^ iri 
que lhe sahe do focinho ; e forcejando, e esr iô 

para arrancalla, quebrou-lhc dentro; o que cú n»^ 

de susto m genrc, que cuidou, no estremecer u^j luviOy 
haver tocado em nlgurn baixo- mnscarenan do depois ctn 
Cochim, se lhe achou a ponta de comprimento de doos 
palmos e meio, preta, aguda, e mui rija^ e áspera (j), 

.' r.'.y , ri — - _ 

(í) Vede Gocs, Parte 4. Cap. }K — C^tanlveda» U**, 4> C||i.4|* 

-,i:arros. Decidi <. LW. j, Cip. u 

(2) í^tros^ e Fjrja dío nove Náos a esta D hcdb^ t 

Gocí clÍD-lhc Je2 , e referem os nom« Kit lod-. . - , ,:iíHlwH<fc 
l^tt;rt raríedjcie le observa toHre a época , ^m qtte eHe chtfoa i fmlia> 
dizeitdo CaitatiliedA, i]yc foi a 7 de Sfteiíibro^ ItoOs^ e Gort - "* ' ^ 
EarU ai». 

(^) No ineu tempo luccesiéráo dois íjctoi sii " " * " n 

eJTi hum navia (creio le dianww Santa Rosa J , /j 

Ria tle Janeiro , fc lhe acln>u no ílmdr> hntna joníj, r^w 

);uj(iava atti aõ ftjrro de díntrci ^ e linha fura<*p »^ iV *ieítc* 

O ic^un<lo , que hc mui*o nuis modcruf^, ci .le 

ef« Mcítre A»itonio da Cwoha Momra ( tjiie u i 

Kcal")» íjue vindo (io Maiaiilúo, ach<iu sj de fcpeotc com irn 
no roíjo, ieiii íaSctcjh j caic attnbmr ú cbus». ***ii irr a cn 



8S9 

DiQgo Lopes dexnorou-se pouco em Moçambique, 
« chegou á índia a 8 de Setembro. 

1519. — Neste anno se armou (i) huraa Esquadra 
de quatorze Náo8(2), commandada por Jorge de Albu- 
querque, embarcado na Náo Guadalupe; os outros Com- 
manaantes erâo Lopo de Brito, Pedro da Silva, João 
Rodrigues de Almada , Francisco da Cunlia , Christo- 
vão de Mendonça na Náo Graça , Rafael Perestrello na 
Rosa , Rafael Catanho, Diogo Fernandes de Beja, Gon- 
çalo Rodrigues Corrêa na Náo Santo António, D. Dio- 
go de Lima, o Doutor Pedro Nunes (3), Manoel de 
Sousa -em hum Galeão (4), e D. Luiz de Gusmão, Fi-. 

«ova, fté quç andando o Carpinteiro por fora examinando as costuras,; 
vio a cousa de meia brac;a abaixo do lume da agua, iium pedaço de 
ponta como de boi aavada no costado. O Bergantim diegou a Lisboa 
tocando sempre á bomba , e o Constructor do Arsenal cortou hnm pe- 
éãip da taboa, em que estava mettida a ponta, que tinha mais de dous 
palmos de comprido, de côr escura, mui rija, e a superfície escamosa: 
persuadò-me que foi conduzida para o Real Museo. 

(1) Vede Barros, Década j, Liv. j. Cap. 9. — Goes^ Parte 4. 
Cap. 16, — Castaniieda, Liv. $. Capitulos de 1; até 18. 

(a) Assim o diz Barros no lugar citado. Faria na Ásia Portugueza, 
e o Nobiliário manuscrito das Familías Portuguezas, no Tomo 5. pag. 
61 2. IXuniáo de Góes conta desaseis Náos, e Castanheda desasete. Eu 
creio, que a differença consiste nos dous navios destinados para a Qii« 
Da , que huns excluirão , e outros incluirão na Esquadra. 

Ó^ Pedro Nunes hia com o Cargo de Vedor da Fazenda nos Estados 
da Indiíy vencendo 400^^000 reis annuaes, e outras muitas vantagens, 
alem de ElRei lhe pagar Tinte homens para o acompanharem. Levava 
clle hum Regimento, que o isentava da jurtsdicqao dos Governadores 
nos casof Civeb, e Crimes , e Jhe conferia toda a admiiiistraçSo da Fa« 
aenda, que elles até ali tinhão, segundo refere Castanheda no lugar 
acima citado. Suçcedeo o que era bem natural , hum conflicto de ju- 
fisdk^ões entre os dois Chefes do Estado, cuja consequência foi voltar 
Fedro Nunes para Portugal. 

(4) Daqui por diante começa a nossa Historia a faliar em Galeões, 
e assim cumpre dizer, que ás vezes osEsaítores chamão com indifferen« 
çk aos navios grandes, Galeões^ ou Náos; mas na realidade os Galeões 
começarão a ser naquellcs tempos os navios propriamente de guerra, e 

42 



_y 



$30 

d^go Hiâ^iíliol V em úútM, que era oíbairfõrnioso; 

e bem armado navio de ttíâà a Esquadra. 

Fartírâd cstâ mosmO' anno ifiai^^ dois navioB com 
destino para a^ China , de que erâa CoiUtA^índàíâtte Dio* 
go Calvo , e Garcia Cainho. 

A ^3 de Abril de 15' 19 sahio a Esquadra de Lis- 
boa, menos Francisco da Cunha, que, por algum inci- 
dífnte , partio a 7 de Junho, e com tal fortuna , que cn» 
trou em Cochira a 10 de Outubro. 

A Esouadra navegou derramada : Diogo de Lima 
:^rribou a Portugal, e náo pôde tornar a sahir. Jor;^ 
de Albuquerque invernou em Moçambique com cita 
Náos; Lopo de Brito, Pedro da Silva, e João Rodri« 

Su» de Almada forao á índia a salvamento. Maiioel 
e Sousa, separado da Esquadra, soíFreo mábs tempos^ 
ç chegando á altura de Moçambique nos fins de Setem« 
Ibro, náo quiz entrar no Porto, a pezar de ter muita fàU 
ta de agua ; e na esperança de poder passar á índia , 
proseguio a sua derrota , em que achou levantes rijos, 
q\]C lhe náo deixa váo adiantar caminho. A final qoia 

Íiuscar o Cabo Guardafui, para fazer agua, que já por 
alta delia levava muitos doentes , e hta deitando mor^ 
tos ao mar. Não podendo ferrar o Cabo , fbi avistar a 
Ilha de Socotorá , que também não tomou » por ster o 
vento por sima delia. Nesta extremidade arribou a bus- 
(ur a terra da Africa mais próxima, e navegou ao lon- 

por isso se êons^rniaò ma» fortes da linh^ d'agua para sima, e monta* 
vSo mais artilhííria AsNdos erão de mnis tonehdas, com grande porio» 
e menos fortc"> de costada Na toma-viagem da índia osG^leócs tiiMo 
ciirregados como as Ndos, de que se seginráo alguns naufrágios , porqo^ 
soífriao .mais dos golpes de mar, e do^ balanços, em razão da ntniía al- 
tura dos Ca^tellos de popa, e proa, representando cada GalcSo o pnfil 
estacto de hiima cortir» flanqueada por duas Torres. Houverlo depois 
altera qões nesrc systema , e constniirão-se Galeóes mut grandes, líndÉ 
que o numero de car.hõe^ , que montavâo , era interior ao que hoje se 
ffaiíca. 



331 

fp delia, caminho de Melinde, determinado a ancorar 
em qualquer lugar , onde achasse agua. Assim obegou a 
Matoa , e dando Rmdo , desembarcou na lancha com o 
Filoto, e quarenta homens armados, para fazer aguada 
fior força y ou por vontade. 

Acfiou-se com effeito huma fonte afastada hum 
pouco do desembarque , em que se começarão a encher 
os barris; e.os naturaes, longe de se opporem, acudirão 
em som de paz a vender gallinlias, e outros comestiJircis, 
o qae iofíindio tão desleixada confiança nos Portugue- 
ses, que na vasante da maré ficou a lancha em secco a 
grande distancia da praia. Manoel de Sousa , conhecen- 
do tarde o erro que commettÊra em não deixar o seu Pí- 
Joto na lanclia com alguns marinheiros, cahio em outro 
«naior; porque devendo reunir logo toda a gente em 
Jium corpo , para resistir a qualquer assalto dos Mou- 
•ros, e-ganhar algum tempo ate a maré. tornar a encher-, 
metteo-se pela vasa com todos os seus , para á força de 
JyrnçoB pôr a lancha em nado. Os Mouros, que escon« 
«lidos ^^reitavão alguma boa occasião de mostrarem o 
•ódio que tinfaão aos Portuguezes , vendo*os atolados na 
a?dsa , sem se poderem formar, nem mesmo usar das ar- 
enas, cor4^1o sobre elles em grande numero, matarão 
todos, e tomarão a lancha» 

A ^ente do Galeão , estupefacta de se ver sem 
<jommandante, nem Piloto, deo a direcção da derrota 
-ao Contra*Mestre , que mui pouco entendia de Nave- 
gação; e iàzcndo-^se á vê{a,^eguio a Costa, e foi sur- 
Sir-em Oja, Cidade dezoito legoas ao Norte de Melin- 
. e. Os Kabkantes receberão bem os Portuguezes, que 
se detiverão aqui seis dias, fazendo víveres, e aguada; 
«fn^s como os desastres nunca vem s(Ss , aconteceo que o 
JRegplp do Paiz deteve o Mestre, e seis homens que 
^ta^Y^açom elle cm terra para ps festejar; e os do Ga- 
leão, cuidando que erão moucos,. ou cativos, e vendoi^e 

42 li 



SS2 

reduzidos a seis homens sãos, e álgiihs enfermôs^^ de 
duzentas pessoas que compunhâo a guarnição, conirSo 
as amarras, e seguirão a sua derrota para Melinde^ qac 
o G>ntra-Mestre varou por ignorância, e foi dar 4 costa 
cm huma coroa junto a Quilôa, onde os Mouros osma^ 
tárão a todos, excepto hum rapaz, que cativarão. 

Dos acontecimentos desta Esquadra resta^me oon* 
tar o &cto extraordinário, e único de hum navio de guer^ 
fia convertido em Pirata (i)- 

Era Commandante de hum Gal^o D. Luiz deGos* 
mão, casado em Portugal, que separando-se do senChe^ 
ir, navegou só, e ao Sul das Canárias encontrou humi 
Caravela Portugueza ; e sabenxla pela^ pratica , oue. com 
dia teve, que vinha da Costa da Mina, e trazia onro^ 
disse em particular ao Piloto do seu Galeão, a fim de o 
aondar: Para que querião mais índia, do que tomaiJa-, 
e passando o Estreito de Gibraltar, irem para o. Levais 
te , onde se jfariãa mais ricos^^? O Piloto , que era Por- 
tuguez, não se deo por entendido, e só lhe respondeo, 
que não tomasse a Caravela. Parecendo-lhe porém itta 
muito mal , o communicoa a quatro irmãos do appellí* 
do de Galvão, que hião com elle embarcados, naturaei 
de Évora , homens de muito espirito, e valor, osquaes 
lhe promettérão oppor-se a qualquer attentado, que D* 
Luiz ousasse commetter. Em consequência aíFastarão-se 
desde logo da sua conversação, e não comerão, nem jo>- 
gárão mais com ello, como costiimavão. D. Luiz, per^ 
cebendo que se penetravão as suas intenções sinistras, 
tratou de ganhar partidistas , e examinando o numera 
de Hespanhoes que tinha no Galeão, achou cinooenta, 

(O. Na relação do caso de D. Lúíz dt Gusnilo iegui a Castanfaedi^ 
com preferencia a João de Earros-, potque a miudeza com que o «fem 
mostra que estava bem informado de tudo; e talvez que Bítios tives» 
algumas razões de circunstancia para não dizer quanto sabia na matertr, 
como de si confessa Damiáa de Góes. 



3^3 

éftes mandou distribuir do vihhò, e agua que bebia; 
dizendo que o fazia por serem homens Fidalgos ; e go- 
xueçoo a tratar com altÍYez os Portuguezes. Quiz: tomar 
)iuma pipa^ d'agua , e outra de vinho a Francisco^ Fer- 
nandes , Ourives , de quem fora hospede em Lisboa , e 
a quem devia singulares favores, c para lhos remunepar, 
segundo dizia ^. o levava comsigo para a índia : e como 
elíe se queixou de lhe tomar a agua , e vinho que em^- 
barcára para algum caso de necessidade, o metteo na 
arca da bomba, a que se oppôz o Piloto^ e os Galvâes, 
protestando que não podiâo consentir simiihante violen» 
clã i e D»^Luiz, receando» alguma sublevação , deixou 
solto o Ourives, sem lhe apprehender as pipas. Obser^ 
Tando então que o Piloto tdrazia sempre hum punhal 
(desde o dia em que fhe fallou em tomar a Caravela da 
Mina), quiz saber a causa*^ e respondendo elle, que o 
aeu punhal não causava prejuizo a ninguém ^ ficarão 
d'ahi poc diante pouco amígos^r 

Chegados á altura do Cabo de Boa Esperança, ti- 
verão hum temporal , em que se quebrou a cabeça do* 
Jeme, e ainda que se tentou em certo modo remediar o 
damno , o Galeão goyefnava tão mal , que o Piloto de- 
clarou, que não se atrevia a dobrar o Cabo com aquel* 
le leme;, e fazendo sobre isso D. Luiz concel lio , çon* 
cordou-se em arribar ao Brasil para fazer hum leme 
nova 

Em consequência dirigio-se a derrota para o Brasil, 
e depois de trinta dias de navegação vio-se a terra. To* 
eou D. Luiz em alguns Portos, sem achar madeira de 
que SC podesse fazer o feme,.c por ultimo entrou em 
Jiuma grande Bahia (talvez a de Todos os Santos), on- 
de desembarcando com o Piloto, o Carpinteiro , e trin- 
ta homens acharão muitas arvores caf>azes pnra a obra- 
que se pertendia. Aqui, parecendo a D. Luiz cccasião. 
opporiuna de se vingar do Piloto, lhe disse algumas pa»- 



334 

lãvríís más, lembra ndo-Ihe as difTerençâs pássadasr; é • 
Piloto, ainda que só tinha da sua parte hum prinio sen, 
e o Carpinteiro, enrestou a lança contra elie. Dl iiiàz 
metteo mâo á espada , e todos os da sua parcialidade, 
fazendo o mesmo os outros dois. Travou«se entre eUcs 
lium bravo jogo de cutiladas; e o Piloto, que ta va- 
lente, fazia praça com a lança, em quanto o primo, < 
o Carpinteiro lhe guardavao as costas. Vendo o He^»- 
nhol que não acabava o negocio tio azinha , ooaio 
cuidara, oíFereceo a sua amizade ao Piloto, chanaiido- 
Ihe irmão, o que elle aceitou j e feiras as pazes, juri- 
rão todos guardar segredo, o que nSo ibi posiivd, por 
«tar ferido o Carpinteiro. 

Passado isto, mandou D. Luiz a terra o Meftft,« 
o Carpinteiro para se fazer o leme, e com dles dois 
Artilheiros, com duas peças de artiiheria pequenas^ ^ue 
montarão em huma trincheira, a iim^de se premunirem 
contra os assaltos dos índios, que já sabiáo serem aiH 
fhropofagos. Começada a obra, concorrerão muitos dei- 
tes com mantimentos do Paiz, que troca vão por anaoet , 
alfinetes, e outras bagatellas, entendendo-se por aoenot. 
Esta concorrência sendo cada vez maior, e sempre de 
hum modo pacifico, animou alguns Portuguezes a ifêm 
a huma Âldea , quasi huma legoa distante, na qual fb- 
rão bem recebidos. Oito dias depois levou o Piloto a 
terra o leme velho, para lhe tirar as ferragens, que ba- 
vião servir para o novo; e não podendo os marinhei- 
ros arrastallo pela praia, que atolava muito, ot ajuda- 
rão no trabalho duzentos Brasileiros. 

Recolhido o leme ao abrigo da trincheira, partio o 
Piloto com alguns homens para a Âldea, e levou comngo 
huma mulher, em torno da qual se ajuntarão os Índios, 
que a contempla vão maravilhados, quando chegou hum, 
que parecia ser o Chefe da Aldea , e os fez assentar em 
silencio, talvez para evitar as coDsequendas dosiSCinti* 




d96 

js 5 qoe ã presença da nitilhcr tinha excitada nelleá. 
Brasileiro, que trazia por disrlnctivo huma espada 
de ofso de peixe, c huma cutella de ferro mui velha, 
diOeaoc^l^oto comestíveis, e em troca recebeo dellc nu- 
4mp cottSiK Acabada assim em paz esta imprudente 
visita, voltou o Piloto para o lugar onde se trabalhava 
no leme, e estando comendo, chegou o Carpinteiro com 
outro homem , c lhe contou que os índios os tinhâo ex- 
pulsado da Aldca , apontando-lhes mais de cera arcos 
armadoâ de frechas; e que lhe parecia bom conselho nao 
irem mais á Aldca* O Piloto, longe de acreditar o que 
tile dbta, marchou para a Aldea acompanhado de al- 
gumas pessoas, c passada huma hora, veio hum grande 
numero de índios correndo, e gritando , trazendo como 
troféos as armas do Piloto, e dos seus companheiros, c 
ít' " logo sessenta e três Portuguezes, que fsravão 
n^ ir.-^eira, sem que as balas das duas peças lhes íi- 
nsiem damno (i), porque se baqueavão no chão quan- 
do viío o clarão da escorva. Finalmente os índios en- 
trarão a trincheira, que parece nrio tinha fosso, nem al- 
tura sufficienre , e aii os defensores $e defenderão ás cu- 
tiladas espaço de huma hora ; porem mortos cincoenta 
c três , os dez restantes se salvarão a nado a bordo da 
lancha , qtie chegou nesta conjuncção. No numero dos 
iiiortos entrou a Coníra*Mcstre, e o Carpinteiro > alem 
do Piloro. 

D. Luiz folgou com a morte dos Galvôes, do Pi- 

(i) NaqueUcs tcmpot ainda nSo havia metralha: annoi depob co- 
]iM^iK«e na índia a carr^^ar as pecas com ^aqu>rrili0f dt seixos redoh- 
dbs, t^uic cm pequeno alcance faz ião ajgum cffeita Tcdas as Artes tem 
« fua infanda* 

Oê fesfenta e tftt Portiiguczcs, que gtiarnrcilío a trincheira, deocr* 
lú ftão ttnlilo mosquetes; se o« tivessem, nunca es Índios forc^túo a 
tntfada; mas as e^p,uias eráo frnca.^ armas contr» as ftcchas (talvez en* 
^reoeíndas) dos fi^asileiros. Isto pro\'a a ignorância , ou a malrçia do 




336 

loto,:e âo8 outros que com elles acabirâo, todos Porta- 
guez^ y vendo-se agora desabafado para o que decenni« 
nava, e foi a terra com quarenta homens bem armadoí 
a buscar os lemes, já que não o fez a soccorrer os seus. 
Três dias se gastarão em acabar o leme a bordo, e em 
o calar, e neste meio tempo repnrtio o fato do Piloto 
pelos Hespanhoes, tomando para si huma vestia escar* 
late, de que mandou fazer outra pela feição da que via 
no retrato de Amadiz pintado em hum lirro, dizendo 
^ue no Mundo houverão dous Amadizes, hum que esta- 
va já morto, e elle o segundo; e outras muitas fanfar- 
ronadiís. Calado o leme, e dizendo-lhe o marinheiro 
João Velho, que o levaria a Moçambique, deo»Ibe a 
pilotagem do Galeão, e se fez á vela. Aos cinco dias 
de viaeem nomeou Meirinho a San-Torreno, Hespt- 
nliol, havendo morrido no Brasil o do Galeão; e no 
mesmo dia o novo Meirinho deo busca a todas ts caí* 
xas, com o pretexto de descobrir alguma fazenda perten- 
cente aos fali ecidos, porém só para tomar todas as armas 
aos Portuguezes, como fez, deixando-as aos Hespanhoes» 
Ao amanhecer do dia seguinte app^treceo U« Luiz 
na tolda armado com a espada na mão, cercado de cio- 
cocnta Hespanhoes, e de outros estrangeiros, todos ar- 
mados, e mandou ali vir o Ourives Francisco Fernaa- 
des , â quem se deitarão grilhões, e disse-ihe que se con- 
fessasse, que o Júa matar , por assim o ter determinado 
fazer, c mais ao Piloto, e aos GalvÒes, pelas disputas 
que com eiles tivera. £ desprezadas as humildes suppli- 
cas do Ourives, o confessou hum Clérigo^ passeando 
ellc entretanto peia tolda, e dizendo a miuao ao Pa- 
dre , que acabasse a confissão. Os Portugueses viao do 
convez este ef^pecraculo , mas como não tinhão armas, 
não SC lhe podião oppor. Concluida a confissão, conto 
D. Luiz para o Ourives, que estava de joelhos comas 
mãos levantadas pedindo o não matasse, e deo-lhe Iwina 



337 

cutilada ', com que lhe cortou huma das míos , e logo 
huma estocada, de que cahio morto; e foi deitado ao 
mar. 

Feito isto, chamou toda a guarnição, e fez*Ihe 
èuma longa pratica , querendo justificar o assassínio do 
Ourives com o fundamento de que este projectava ma- 
talio, ainda que disso nâo tinha prova sufiiciente, e con- 
cluío dizendo : Que como ElRei de Portugal não per- 
doava ao homem, que matava a outro, elle nâo ousava 
tomar á sua presença , nem menos apparecer nn índia 
diante do seu Governador, e queria ir a outra índia 
Wãis segura, que era o mar do Levante, onde andárião 
a- toda a roupa, e íicariâo todos ricos no espaço de hum 
aono, «levando ao mesmo tempo boa vida; e quem nSo 
quizesse acompanhallo , o dissesse, porque lhe dava a 
fé de Fidalgo de não lhe ter por isso má vontade, e o 
desembarcaria na primeira terra que tomasse. Desaseis 
Portuguezes recusarão dar o juramento exigido dos que 
haviío servir com elle, a pezar das grandes diligencias 

Sue para isso fez, por cuja causa fbrão postos em gri- 
Ii6e8^ e dormiâo no convez ao sereno; e mesmo nos 
outros Pòrtuguezes, que se alistarão para ser Piratas, ti- 
pha elle tão pouca confiança, que publicou hum edital , 
para que qualquer Portuguez , que fosse ao fogão em 

auanto lhe fizessem de comer, seria açoutado', c a mão 
ireita pregada no mastro grande: tanto era o receio 
que tinha de ser envenenado ! 

Depois disse ao Mestre Fernão AíFonso , que o levas- 
se ao Estreito de Gibraltar, porque d'aH bem sabia pa- 
ra onde havia de ir, ameaçando-o de lhe cortar a ca« 
beça, se não o fizesse; e pedindo-lhe o Mestre hum at- 
testado d'isso , para sua resalva , lho deo logo. Seguio- 
se o rumo para a Europa , e D. Luiz disse hum dia , 
que estava informado de que os prezos o inrentavão ma- 
tiir^ e porJsso devião ser enforcados, e os fez confes- 

43 



338 

8âr. E para achar alguma prova , deo tratos de polé i 
hum delles , o qual obrigado da dor , disse era verda» 
de, e que os conjurados erão trinta; mas como os Por- 
tuguezes presos não cxcediâo a dezascis, e ninguém ti- 
nha communicaçâo com clles, créo que entrariao no 
conlolo alguns dos seus parciaes, e mandou chamar 
hum João Esteves , Portuguez , que cuidando ser para 
lhe darem tratos, se deitou ao mar, e affbgoiHse*, o 

3ue o confirmou nas suas idéas, e quiz enforcar cinco 
os presos, e mais o Carpinteiro, porém rogando por 
este os Hespanhoes, em actençâo a ter feito o leme, 
perdoou a todos. 

Chegado á altura dos Açores, disse o Mestre a IX 
Luiz , que em certa Povoação daquellas Ilhas pederiio 
fazer aguada, e carnagem, de que tinhão necessidade, 
em que elle conveio ; e entretanto foi surgir na liba dat 
Flores, c antes de communicar com a terra , chegott 
Iiuma Caravela Portugueza , em que vinha hum Nego* 
ciante da Terceira, que era seu dono, a comprar tri- 
go. Logo que D. Luiz a vio, mctteo-se no escaler com 
alguns homens armados, deixando o Galeão entregue a 
Jbum Hespanhol chamado Bezerril, e abordando a Ca» 
ravda , disse ao Negociante , que D. Luiz de Gusmão, 
Commandante daquelle Galeão d'ElRei de Ponugal» 
tiic mandava aquella carta, a qual lhe deo, c nella reh- 
fava, que hindo para a índia, arribara ao Brasil para 
fazer hum leme em lugar do seu , que se quebrara com 
hum temporal, e que os Brasileiros lhe matarão o Pi- 
loto , e oUtra muita gente , e por isso voltava para Fdt- 
tugal mui destroçado, e lhe pedia da parte d^EIRd, 
que viesse com elle a bordo. O Negociante , acieditan» 
do tudo ^ foi logo a bordo do Galeão com o seu Pão- 
to, e alguns marinheiros, a todos os quaes prendeoIX 
Luiz, e tomou aj Negociante o dinheiro, que kvava^ 
c passando a equipagem da. Caravela para o Galeão, 



339 

ieo o commando daquella a Bczerrll , e Ilie metteo ar* 
tilheria , e a gente necessária , e por Mestre è Piloto 
kucn Portuguez, que fugira de Portugal, por ser casado 
trcs vezes , por cuja razão se confiava muito delle. 

Perguntando depois ao Mestre do Galeão pela Po- 
voação ^ que lhe dissera , este o levou a Ponta Delgada 
na Ilha de S. Miguel , onde determinava fugir, já que 
pão o podéra fazer nas Flores. D. Luiz mandou bum 
Hcspanhol a terra para dizer aos habitantes, que quem 
Quizesse trocar carnes por azeite , e vinho , fosse a bor« 
do do Galeão; e com effeito vierão logo três dos prin- 
cipaea moradores com hum grande presente de refres-^ 
cos , e eile os prendeo , declarando-lhes, que não os sol*» 
taria, sem que cada hum lhe desse dez, ou doze bois. 
Neste tempo appareceo outra Caravela , e querendo D. 
Luiz tomalla, mandou o seu escaler, mas estando den* 
tro delle sete marinheiros todos Poriuguezes, fugirão á 
voga arrancada pára terra , dando aviso á Caravela no- 
ramente chegada , t)ue também se pôz em salvo. 

Cbegados os marinheiros á Povoação, requererão 
se prendesse o Hespanhol , que lá andava, como ie fez^ 
porque D. Luiz estava levantado com o Galeão. Âpôa 
isto appareceo buma Naveta y que vinha de S. Thomé^ 
e D. Luiz mandou a ella Bezerril na Caravela , com or- 
dem de a metter no fundo, se não amainasse} porém 
amainou logo, e o Mestre, o Piloto, e o Contra-Mestre 
fi)rão trazidos a D. Luiz , que os ameaçou com tratos , 
se não declarassem o que trazião. Constou do seu de- 
poimento trazerem escravos ^ algalia, marfim, e páo ver« 
inelbo, e pertencer a cdrga a Duarte Bello, Commer- 
ciante de Lisboa. Por ordem de D. Luiz se baldearão 
BO Galeão os jnantimemos , e mercadorias da Naveta , 
e se mettêrão a seu bordo todos os presos. 

Em quanto se andava nesta faina, pedlo-lhe o Mes- 
tre licença para ir a terrn ver buma irmã ^ que ali ti« 

43 ii 



340 



nha , e ellc o mandou no bote da Ora vela com doíi 
marinheiros Hespanhoes, e ordem de nao o deixarem 
desembarcar i mas chegando perto dn praia, o Mesírc 
deitou os dois ao mar, e fugio a nado para terra. D. 
Luiz em sabendo isto, enviou a terra hum cunhado da 
mesmo Mestre, com hum seguro seu para poder voltar 
para bordo; porém o mensageiro ficou também coni 
dle. 

Qiiâiro dias se deteve ainda D* Luiz, e a final par- 
tio para Canárias: no caminho tomou huma Caravela 
carregada de pastel, que hia para Flandres, c outra car« 
regada de peixe secco , e assim chegou ao Porto da Co^ 
ineira com cinco embarcações, onde vendeo os roube» 
que kvava. Seguio-se depois huma disputa entre o Com* 
mandante da Povoação e D» Luiz: o Galeão fez foga 
à Fortaleza, e esta respondco, quebrando-lhe a verga 
grande com huma bala, O Hespanhol vendo-sc impo»- 
sibilirado de navegar, e já assombrado dos seus pró- 
prios crimes, mudou o seu fato, e alguma anilberíi 
para a Caravela de Bezcrril ; e deixando no Porto o Ga* 
leão, e as cmbârcaçòes aprezadas (que se restituirão aw 
proprietários) navegou para Sevilha, onde foi logo pr?» 
zo na Torre da Cidade, em consequência de rcprcWiK 
rações, que a Corte de Lisboa havia feito á de ACadridf 
c querendo descer da Torre por huns Jcnçocs, cahio, e 
íjuebrou ambas as pernas. Hum homem, qite os seus ge* 
midos ali attrahírão, o levou ás costas a hum Conrcii- 
to de Religiosos, do qual consegui© fugir para a Ita- 
Jia, e ncUa acabou desgraçadam^ínte, 

lyiy. — Fernão de Magalhães (i), pertencente ê 

(lO Oi princifMiej Escritores, que comultei para «tcievtr tttt Vii» 
frem, forão: i." joáo de £arros, Dccada }* Lrv^ $« Ciipitutos S, 9, 10^ 
que teve na 9ua mão dcNTii mentos originais ^ e mut prcctOfOs, ét (^M 
tirou o cjuc cfaeveo; e oxalá os tivera copiado todõi, põrqot boft 
desjrs^adametit^ já náo cxiitrm. a*^ DuBtão de Goes^ Ifarte 4. Ctjgb 



S41 

fauma ittustre família , dotado de grande valor , e con» 
stancia , e bem instruído na Arte Náutica, segundo os 
coiíftcdtnénrosdo teu tempo, depois de militar na ín- 
dia , passou a servir cm Azamor , onde sobre a reparti- 
0ÍO do despojo ganhado em huma entrada, se lhe susci- 
tarão tdcs accusaç6es, que foi obrigado a justlíicar-se 
judicialn^nte , sem conseeuir por isso ficar na graça 
d^ElRei D. Manoel, que The negou o augmento dedu- 
^sentos réis mensaes na sua Moradia. 

DeKrenten te deste máo successo, passou a Hespa- 
liba ena 15^17, desnaturalizando-se de Portugal, e levou 
comsigo ao Bacharel Ruy Faleiro, habil Astrónomo .^ 
e a outros Ofiiciaes de mar. Em Sevilha achou estabelo- 
odo ò seu parente Diogo Barbosa, em cuja casa se re- 
colheo, e casou com sua filha D. Beatriz Barbosa; e 
igualmente encontrou outros Portuguezes aventureirosj-e 
oescontentes , todos, ou quasi todos de profissão mari* 

17, que publicou o summftrio do Contrato passado entre o Imperador 
Cárlos.V; fcrnão de Magalbáes , e o Astrónomo Ruy Faleira^ j.^ O 
Kesumo Hbtoricp í!o Doutor D. Casimiro de Ortega, impresso em Ma- 
círld em 1769', que examinou todas as Historias, que tratáo de Maga- 
ihies, aincla que is vezes nSo escolheo o melhor; e nos deixou (co- 
piada de Herrera) 9 lista nominal de todos os individuos, que yokárlo 
daqueUa ceiebre expediqão á Europa; na qual se deve notar, que se 
não tcfaa o nome de Pigaíetta, senio o de hum António Lvmhardo^ qiie 
se diz ser eNe. 4.^ A V iagem á roda do Mundo , do Cavalheiro Antó- 
nio Pigafetta; e a Carta de Maximiliano Transilvano, seu copfsta, |ni- 
bJicadas no Tomo i. daCollecqáo de Ramusio. P*gafetta misturou com 
a narração dos acontecimentos náuticos muitas fabulas absurdas, e tisi- 
▼eis de. sua invenqSo. Não obstante isso, tem servido de texto aos 
Escritores eíf range Sros , que fallârSo daqiíeila Viagem; e he digno de 
mtcenqão , por ser testemunha ocular dos successos , ainda que ignorante 
em Naeegaçlo. %P A Noticia das Expedições ao Esrreito de Magalhães, 
incluida na Relação da Viagem da Fragata Hespanhola Santa Alaria da 
Cabeça, impressa em JVSadrid em 178 S. O Anonymo, que por Orckm 
d' EIRei Catholico a escreveo , he hum Critico judicioso , que rereo , e 
analysou quanto ^chou em Obras impressas, e manuscritas naqitella ma- 
tería; posto que alguma vez se enganou, em citações, como mostrareL 



34^, 



caps^cs por eytas cirrunsíâncías^ 
derem qUtílcjuer expediçSo arrlrcad.i. 

MaíT.^lhScs, c Faleiro oíterccerâo^se ao Imperador 
Cario? V. (que o foi pouco depob) par^i tentarem dtft* 
cobrir liuma nova derrota par;] as Malucas (Ilhas, cpK 
affirmavão estarem fór^ dos limites das Conquista? Par- 
iiígucza? na Ásia ), sem seguirem o camintio do Caba 
de Boa Espemnça , mas achindo alguma passagem do 
mar do Norte ao do Sul , pois que a eristencia dcstt 
havia já verificado Vasco Nunes de Balboa eiti IS'!}. 

A protecção, c diligencias do Cardeal Cisneros^^^e 
a boi informação do Concelho vencerão todas as diffi- 
culdâdes que se oppunhao á accepção do projecto, c 
mallográrão os esforços de Álvaro da Costa, Embaixa* 
dor de Portugal , que procurava arredar Magalhães de 
huma empresa rão prejudicial a sua verdadeira pjfria; 
e parece o havia já persuadido a voltar para PortugaUiH 
mas ficou sem efi^fito esta utilíssima negociação > que 
pouparia muitas i nquiera coes, e despesas. 

Por ultimo Magalhães, c Faleiro contratarão com 
D Imperador huma licença para poderem navegar, c &- 
zer descobrimentos no mar Oceano, nos limites, e de- 
marcações de Casrella ; e para praticarem o mesmo ta 
mar do Sul, sempre dcnrro dos mencionados limiw, 
tem infringirem as demarcações de Portugal , ou faie* 
rem cousa alguma era seu prejuízo; cora outras variai 
clausulas, humas a favor dos dois Descobridores, outii* 
da Fazenda Real, de que se lavrou escriíura cm Valha* 
dolid a 22 de Março de 1518- E no anno seguinte, JÍ 
condecorados ambos cora o Habito de S.Tiago, ePofW 
de Capitães, deo o Imperador em Barcelona bum Re* 

(i) Damilo óe Gocs no Capitulo jcima citado âfíirma ter téIQ ' 
propfin C^rta de AU^:ith3c« a El Rei D« ATanoe) ; tãlvct este Graoáili^ 
narcha nÍo tmlia encio tdéas precisai do merectcnento de |l|i|gakfaio» 
ittudido por ma4 tníorma^úei doi seus íaim^gos. 



343 

nmento a Magalhães para a sua viagem, datado de S 
cc Março deste anno, nomeando-o Capitão General da 
Esquadra , com authoridade de mmtar , e depor Côm- 
inaniafites , e Officiaes, como lhe parecesse mais van- 
tajaso aú Real Serviço \ e para executar justiça ci- 
vil ^ e criminalmente em todos os indivíduos embar^ 
€ados na "Esquadra ^ de qualquer classe que fossem • 

Constava esta Esquadra de cinco navios: no pri- 
meiro , chamado a Trindade , embarcou Fernão de Ma- 
galhães (i), com seu cunhado Duarte Barbosa, c seu so- 
brinho Álvaro de Mesquita , levando por Piloto Este- 
▼ão Gomes , e por Contrâ-Mestre Francisco Alvo, am- 
■bos Portuguezes, e o total da equipagem sessenta e dois 
liomens. Commandava o* segundo, clwmado Santo An- 
tónio , João de Carthagena j e os seus Piloros o Astró- 
nomo André de S. Martin , c João Rodrigues Mafra , 
Portuguez ; e de equipagem cincoenta t cinco homens. 
Gaspar de Quezada era Commandante do terceiro na- 
TJO, appellidado a Conceição^ Piloto João Lopes de 
Carvalno^ Portuguez, e Mestre João Sebastião de El- 
capo; e o total quarenta e quatro pessoas. Do quarto^ 
chamado a Victoria , era Commandante Luiz de Men-^ 
donça, Piloto Vasco Gallego , e total quarenta e cinco 
homens. Do ultimo navio, por nome S. Tiago, era 
Commandante , e Piloto Mor da Esquadra João Serra- 
no, com 31 pessoas; sendo o total dos indivíduos em* 
barcadòs duzentos e trinta e sete homens, em qtie en- 
travâo outros muitos Portuguezes. Destes cinco navios 
crSo dois de cento e trinta toneladas , líois de noventa , 
e hum de sessenta, com víveres para dois annos. 

No i.° de Agosto de 15' 19 sahio a Esquadra de 
Sevilha^ e a 21 de Setembro de S. Lucar de Barrame- 



(i> Ruy Faleiro náo embarcoir, poi lícar doente de accessos de 



344 

da*, com rumo a Canárias. Dco fiindo em Teitcrífc, e 
dcmorou-se quatro dias fazendo agua, c lenha : ali che- 
gou de Hespanha huma Caravela, que lhe levava díffi^ 
rentes efFeitos; por ella recebco Magalhães avisos par- 
ticulares, segundo se disse, de que os Commandantes dos 
-navios hiáo cora propósito de lhe nao obedecer, 

Partio de Tenerife a 3 de Outubro, dirigindo-se á 
Costa de Guine, que avistou, onde soffreo muitas caU 
marias, e trovoadas; e tomando a volta do S. O. dcf* 
cobrio terra do Brasil a 8 de Dezembro, julgando-se 
em 19^ 5*9' de latitude S. e a 13 entrou no Rio de Ja- 
neiro, a que deo nome de Bahia de Santa Luzia, e st 
deteve até 27. Neste intervallo determinou o Astronof^ 
mo S. Mardn â latitude do Porto em 23° 45' (i); e ftt 
outra observ.içâo para achar a longitude, que ainda que 
delicada para aquelle tempo, deo hum grande erro, qac 
elle percebeo^ mas nag soube a que o attribuir. 

Os índios receberão bem os Hespanhoes, trocavSo 
os seus mantimentos por bagatellas da Europa, e offer^ 
ciâo hum escravo por hum machado; Magalhães probi» 
bio este ultimo trafico , por não augmentar bocas, que 
lhe gastassem os víveres. 

A Esquadra sahindo do Rio de Janeiro, navegoo 
para o Sul, e a 10 de Janeiro de 1520 chegou ao Qbo 
de Santa Maria, já descoberto por Solíz (2), além do 
qual virão hum monte fazendo em cima t figura de 
hum chapeo, a que derâo o nome de Monte Vidi (ho- 
je Monte Video), que ficava na entrada do Rio daPhh 
ta. Surgirão en\ cinco braças, e Magalhães destacou o 

CO A pojiqão do Rio de Janeiro, no Ohirr vitorio de & Bento, 
deduzida de muitas Observações, he a seguinte : Ijiticude S. aa* 5) 
50"; Lonjritiide n4" 5 1'» 

(2) João Dias de Soliz, hábil Piloto Portuguez, refu^Mado na ft*" 
panlia , foi o descobridor do Rio da Prata, que por muitos annos con- 
servou o seu nome. Ali foi morto, « devorado pelos índios em i$i5* 



846 

«avio S. Tiago I para examinar se o Rio dava alguitfa 
passagem para o mar do Sul , estando persuadido , que 
4 Natureza abriria algum canal de communicaçâo en- 
-rre ambos os mares ; e bem resoluto , em caso de não 
<iescobrír nenhum , a rodear todo aquelle vasto Contí- 
jiente, de que se não conheciâo os limites, até dobrar o 
ultimo CaDo. Regressou o S. Tiago passados quinze 
dias 9 tendo só corrido vinte e cincp legoas, com a no- 
ticia de que o Rio se dirigia para o Norte. Magalhães 
foi então pessoalmente a bordo do navio Santo Antó- 
nio examinar a largura do Rio na sua boca, e tornan- 
4o ao ancoradouro , se fez á vela a 3 de Fevereiro. No 
•dia seguinte surgio para tomar huma agua que fazia o 
Santo António, Seguindo a sua viagem ao longo da 
terra , de dia a huma legoa de distancia , e de noite a 
cinco , ou seis , tocou em hum baixo a Victoria , ainda 
que Sem receber damno. Chegados 9 40' de latitude , 
começarão a achar muitos frios, e máos tempos; e a 24 
4e Fevereiro , fczendo-se por 42"* 30', descobrirão huma 
grande Bahia, a que chamarão de S. Mathias (i). Re- 
gistoii-a Magalhães , para se certificar se dava passa* 
gem ao mar do Sul; e não achando Canal ^ seguio a 
Costa y e por ultimo ancpr^i^ a 2 de Abril na Bahia 
de S.Julião, que suppôs era 50'' de latitude (2); achan- 
do-se a estacão tão avançada, que os marinheiros oãQ 
podião marear as velas com frio. 

Já nesta época tinha havido violentas disputas 
entre elle e alguns dos Commandantes, por cuja causa 
tirou Q commando do Santo Aniooio a João de.Carr 



(1) £sta fahia tem de abertura vinte e cinco legoas, e quasi outras 
Itfitas de seio: a sua ponta do Norte está na latitude 41° 5', e a do 
^1 cm 42° 4'. * ' 

(ft) A ponta do Sul desta Bahia esti oa latitude 49^^. 3$', e longi»*^ 
twfc jiO" $o\ 

44 



846 

thagena, mettendo-o pre?o a bordo da Conceição, epdi^ 
do em seu lug«r Álvaro de Mesquita» 

Resoluto a passar nesta Bahia os mezes de Mtio, 
Jonho, Ju1Ik>, e Agosto, em q^ie he a força da Invcr» 
Tiúy chamou a concelho os Omclaes, e Pilotos da Es- 
tquadra para oavir os seus pareceres sobre a navegação, 
que restava a fazer; de que se originarão novas paixões, 
porque elle nao recebeo bem nenhum dos inconventcn* 
tes, que Iheopposerao para que náo proseguisse o deiGO- 
i>rimento; e declarou, que em entrando o Veráo, segoU 
ria a sua derrota em demanda do Cabo, ou Estreito até 
75**; allegando, que se os mares da Norwega, e hlan- 
iía, situados em maior altura , erao tão fáceis de nave* 
gar no seu respectivo Verão, como os da Hespanha, ai* 
sim o seriâo aqoelles, E como nesta prntica se mostrou 
isento, e independente dos votos dos CommandanteS| c 
Pilotos , houve entre estes murmurações , dizendo os 

Í)rincipaes, que aquelle descobrimento nao era profci- 
oso a Hespanha i por quanto ainda q* naqiteile Por- 
to, em que esta vão, fosse o Cabo, ou o Estreito procQ» 
rado, já nao era clima para se navegar de tão Io>iigei 
e se os mares da Norwega,, e Islândia se navegavao, 
era por naturaes do Paiz, ou tão visinhos dellc, que em 
quinze dias podlão chegar ao seu extremo: mas vir dt 
Hespanha passar a Linha, c correr a Costa do Brasil, 
exigia seis, ou sete mezes de viagem, e em Climas dfe 
diversos, tudo isto era perdição de gente, e de rtqueiis^ 
que valião mais do que todo o Cravo das Malucafi 
ijuando fosse tão fácil o caminho que restava a fiii' 
pelo outro mar, que ainda tinhâo por descobrir. 

A outra gente commum dizia, que Magalhles, por 

se restituir na graça d*ElRei de Portugal , a quem oí* 

fendera naquella empresa, os queria ir metter em pirtíl 

«ide morressem todos , e depois tornar-^e a Portugal 

Finalmente conspirarão-se os três Commaooatttd 



347 

fo tffe Cartagena , Gaspar de Quesada, e Luiz d*| 
Mendoiíça para prender, ou raarar Magalhães, e vol- 
"^r para Hespanha ; c attribuír depois todo o mal á sua 
rioienra conducra* 

Magalhães , suspeitoso desta maquinação , enviou 
lum escaler a bordo do navio Santo António, c por elU , 
soube que se achava ali Gaspar de Qucsada » Comman* 
dante da Conceição, o qual, havendo soltado a João de 
Carrhagcna , rinha preso a Álvaro de Mesquita , e apu« 
nlialâdo ao Mestre João Elorriaga, que seguia o parti- 
do da lealdade- Ao mesmo tempo teve noticia, que Luia 
de Mendonça , Commandante da Victoria, surro na bo* 
ca da Bahia , estava também levantado ; de maneira ^ 
qite de rodu a Fsquadra sô lhe rcstavao fieis o seu pró- 
prio navio Trindade, e o S. Tiago, Commandante João 
Serrano, que ainda ignorava este successo* 

Magalhães , que nao gastava em deliberações o 
tempo cm que cumpria obrar com vigor, pòz logo a 
seu navio prompto para dar batalha aos rebeldes; e co*^ 
mo sabia que na Victoria havia muitos homens honra- 
dos incapazes de fazerem huma sublevação, mandou a 
seu bordo a lancha , e o escaler com trinta e cinco ho- 
mens escolhidos, ordenando ao Cabo, que os comman- 
dava, qiíe era quanto Luiz de Mendonça lesse huma 
cart2, que lhe levava Gonçalo Gomes de Espinosa, Mei- 
rinho da Esquadra, o matassem; o que cumprirão, re- 
díiaLindo o navio sem outro esforço á obediência do seu 
General. 

O Santo António vinha arriando a amarra , como 
para abalroar a Trindade, a cuja insolente manobra res- 
pondeo Magalhães com a sua artiUieria , mas observan- 
do que (ó apparecta na tolda Gaspar de (pesada , ar- 
mado de lança, e rodela, cessou o fogo, e abordou o na- 
vio, onde «em reslsíencia forao presos Quesa da, e alguns 
fctis ;ipaoiguado$^ e postos a bom recado a bordo da 

44 ii 



348 

Trindade. Restava a Conceição , cujo Mestfe JoSo Se- 
bastião de Elcano, honrado Biscainho, quando Maga- 
lhães lhe mandou perguntar por quem estava aqueUe of 
vio? Respondeo, entregando preso João de Carthagesa* 
Assim se restabeleceo o socego , e obediência em todt 
a Esquadra. Restava punir os principaes culpados, nio 
sendo prudente castigar todos. 

Gaspar de Quesada foi esquartejado vivo , e Luis 
de Mendonça jã morro. E porque na Esquadra nSo ha* 
via algôz, deo Magalhães a vida a hum creado de 
Quesada, cúmplice na traição do amo, para exercer 
este officio. Perdoou-se a João de Carthagena a morte 
natural, comniutando-a em outra civil de perpetuo de- 
gredo naquella terra; c com elle ficou também hum 
Clérigo, que tinha a mesma culpa Ci), com algum btf- 
couto para seu sustento. 

Durante a invernada neste Porto de S. Julião pai- 
sirão as equipagens grandes incommodos, empregadas, 
a despeito dos frios, em reparar os navios dcstroçadot 
•de tão comprida navegação. Aqui tratarão a primeira 
vez com osnaturaes, porque mandando Magalhães entrar 
pela terra dentro alguns homens a descobrir ^ e obser* 

(O O Author da Noticia das Expediç^t to Estreito de Magalbki » 
já citado, diz na nota }.* a^ pag. 189, qiie com JoSo de Carthafena 
ficou abandonado cm terra hwn Ctcng9 Portugucz chamêiê Pedrê Ssã' 
ches àc Rct/na: e cita os testemunhos de Pigafetta ^ e de Joio de fitf- 
r05. Ei9-ac|tth as pakivris de Pigaíctia no Tomo l. de Ramusio, p^ 
39) : ,, Ma Giouanni di Cartagtrnia Io fecero smontare in terra, c ki* 
,, sieme con un piete lo lasciafono in quella terra di PatagonL,» Joio 
de Farros, no lugar citado por aqueiie Author, explica-se ckste modo: 
,, E a João de Catthagena foi perdoada aqueHa morte natural, e bon- 
,, >c oiitra eivei de perpetuo degredo naquella erma terr»; e oomells 
,, ficou também imm Clérigo, que tinha a mesma culpa ^ com triou 
,, nrrate*: de pão a cada hum para se manter.,,. Tsansilvano, itlataivii^ 
o acto (1^ justiça, que fez Magallúes, não falia da ultima circunsttfictt 
pnrticularisa )a pelo Author Hespanho). O Doutor Ortega, na sua Oto 
)i mencionada, pag. 1 ^ , diz que O Qeri^P era Francec: mas pii^ 
rue o seu ap^>elliJo he HespanhoL 



349 

òuvla da outra parte algum tom do tnar, 
promettendo mercês a quem trouxesse boas novas ; pe- 
jierrarão estes vinte legoas pelo sertão, em que gastarão 
dez dias, e conduzirão huns índios corpulentos, vesti- 
dos de pelles (i), aos quaes deo Magalhães alguns pre- 
sentes, e reteve dois dias a bordo cora intenção de os 
Trazer a Hespanha ; mas durarão pouco, por serem cos- 
tumados a outros alimentos j os Hespanhoes derão-llies 
Q nome de Paragõe?, 

Neste mesmo lempo o navio S- Tiago , Comman* 
dame João Serrano, enviado por Magalhães a ver se 
achava algum Cabo, ou Estreito » descobrio cousa de 
vinte legoas ao Sul de S.Julião hum formoso Rio, a 
Quc charauu de Santa Cruz (i) , onde se demorou seis 
dias, matando muitos lobos marinhos; e vendo que não 
Jiavía por ali canal de communicaçao, sahio para o 
Sul; porém apenas teria navegado três legoas, deo-lhe 
hum yento mui rijo de travessia , que lhe rasgou todo 
o panno, e deo com o navio á costa , salvando-se toda 
a gente: os mais bem dispostos vierão por terra buscar 
a Esquadra ^ no que gastarão onze dias, padecendo 
tantos frios, e fomes, que quando chegarão a S. Ju- 
lião, quasi os não conhecião os companheiros; e Ma- 
galhães mandou prompiamente buscar os outros era hu- 
ma lancha. 

A 24 de Agosto se fez Magalhães á véla com os 
quatro navios , que lhe resta vão, deixando enterrados 



(1) A existência dos Gigantes Fatagões está fioje tfemonstrada por 
fttbulota , pelo unanime tenemunho dos melhores Navegantes, reduzin* 
do-se a verdade do fa^to a que este* Índios sáo em peral membrudos ,' 
e ;ipesfOsidos« Pigafrtta foi o ptimeiro inventor desta fabula, copiada, 
e orna-la por Traiuiivano, c acreditada pof Authores faltos de critério, 
e de boa« noticias, 

(x) A ponta do Sn\ do Rio de Santa Qu7 , na Costa Patigonia , 
está situada na liiiitudc S. $0*^ 18' jo'', e Icngituvíe $09^ 4^^ 



3S0 



alguns homens, que fâllecérâo de frto^ e de ^Aúbo^ 
€ costeando a terra , entrou ao Rio de Santa Cruz, Mr A 
achar os tempos raui verdes. Tornou a sahir a i8 de Ou- 
tubro, e a ai dcscobrio Imm Cabo, a que chamou das 
Virgens, por ser o dia da sua Festa, o qual síiug^ em f i* 
de ktirude, e de longitude yi' 30^ e ao Sul em distai»* 
cia de cinco legoas se via outra ponta forntando a baci 
de hum Estreito (i), que pelas fortes mai^s^ e outrct 
signaes inferio ser hurn Canal, que poderia dar paM» 
gem para o ourro mar; e mandou por isso fa^er gran-l 
des festas cm os navios* E porque entre a gente havia 
rumor sobre oí poucos viveres, que existian, pubtico* 
hum bando prohibíndo com pena de morte, que se Al- 
iasse em falta de mantimentos i e embocou o Escfeiio> 
que em partes tinha huma Icgoa de fargurá, e em ourrai 
mais ou menos, cercado de huma e outra banda de fer- 
ras altas, algumas escaldadas dos ventos, e ouirais com 
arvoredo ; e nos cumes das montanhas via-se JMer a 
neve, cooio que ali ficara sem se derreter, c alguma dô- 
dinava a côr celeste» ^ 

Tendo ji navegado peto Elstreito obra de ci 
ta legoas, achando pelas margens Enseadas, R 
esteiros, que entravâo pela terra, passou huma gargan* 
ta mais estreita entre duas serras aitas, e alêra detla rio 
Magalhães, que o Canal se dividia em doÍ8 braço»; 
mas não podendo saber qual delíes o conduziria ao mar, 
destacou pelo braço do Sul a Álvaro de Mesquita » 
navio Santo Anronio, para o examinar; e pelo outro 
huma lancha, que logo regrcfsou, tendo recoohectdo 
somente doze legoas de Canal. Mesquita levava ordcai 
de tornar em três dias com as noticias do que ichâsse, 

<i) A boca do Ertrcito de MigithJ^ he fgrmtda pof doít Çjhm: ^ 
do Norte diama^w daf Virgens, situado ni latitude S, de $»* «o\ • 
lá^n^íutde |C9'* 44' \o'*; e a dc^ Sut li^ o Cibo do £ipiittO S«iCO| 1^ 



«SI 

!ft wvâD jáiiírssiâeBseis, mamdoa outro Vmvlo a buscalio; 
€ ToItM^ este dahi a três dias sem noticia alguma dei- 
Ity 4kae Magaihâes ao Astrónomo S. Mardn, que pr^ 
gnêsticasse pela hora da partida , e a sua interroga- 
çáoi o qual respondeo-, que achava ser o navio tornado 

fra Héspanha , e que o G)mmandante hia preso (i). 
oosto qse Magalhães tâo desse muito credito a isto, 
«^▼ia assim aconteceo ; porque o Piloto Estevão Gol 
MM^ Portiiguez, CO Thesoureiro Jeronymo Guerra, cotn 
# faTor da gente já enfadada de tâo trabalhosa viagem ^ 
makratáfSo, e orendêrao o Commandante em ferros, e 
«rigindo-se o (juerra em Commandante, navegarão pa« 
ra a Europa : passarão de caminho por onde haviâò dei- 
?aadb JííSo de Carthagena, e o Clérigo, le nos fins de 
Março de 15'ai chegarão a Héspanha estes fracos deser- 
tores, inimigos da gloria do seu Soberano, e da súa 
pátria. 

Magalhães vendo-se sem aquelle navio, em qae 
bia seu sobrinho com outros Portuguezes, c que s6 tinha 
tigora a seu favor Duarte Barbosa , e alguns poucos de 
<iuc se poderia ajudar, pois toda a gente Hespanhola es- 
rta^a deile escandalieada, além do aborrecimento que lhe 
cawava aquella viagem, ficou tão confuso, que se não 
aabta determinar; e para justificar-se com estes de que 
ae receava , passou dois mandados de hum theor para 
os dois navios, sem querer que as pessoas principaes 
deites viessem a seu bordo, como homem que não fol- 
gava de ver ajuntamentos no seu navio; e a copia do 

(i) Néqaeffe século confundm-fie a Âstronomit com a Astrologia Jin 
iKemfia; mas no caso presente era fácil conjecturar o que sitccedeo, 
pDique sendo Álvaro de Mesquita sobrmiio do General , e por isso inter 
«essádo na gloria deste, e na sua própria, nSo podia ainiivionallo, senáo 
forçido pelos seus Officiaes, e guarnfçáo, cujo descontentamento, e 
pottco zelo do servl^ do Imperador tráo bem sabidos, e provados pelos 
Woa antecedentes. 



852 

?ue foi á Victoria , de que era entSo Gomniándifite 
)uarte Barbosa , e a resposta de André de S. Martin, 
que âlli se achava embarcado, são da maneira aeguinte: 

Mandado. 

>9 Eu Fernão de Magalhães, Cavaileiro da Ordem 
;> de S. Tiago, e Capitão General desta Armada, aue 
>> Sua Magestade enviou ao descubrimento da Bspecia- 
»> ria, &c. Faço saber a Vós, Duarte Barbosa , CapU 
>» tão da Náo Victoria, e aos Pilotos, Mestres, e Con- 
9> tra-Mestres d^ella , como eu tenho sentido , que a to- 
f9 dos vos parece coisa grave estar eu determinado de ir 
99 adiante, por vos parecer que o tempo he pouco para 
99 fazer esta viagem , em que himos. E por quanto eu 
>> sou liomem , que nunca engeito o parecer , e conselho 
»» de ninguém , antes todas minhas coisas são pratica- 
>f das, e communicadas geralmente com todos, sem que 
>9 pessoa alguma de mim seja affrontada, e por causa 
>9 do que aconteceo no Porto de S.Julião sobre a mor- 
>» te de Luiz de Mendonça , e Gaspar de Quesada , e 
f^ desterro de João de Carthagena, e Pedro Sanches, 
>> Clérigo, vós outros com temor deixais de me díaer, 
>> e aconselhar tudo aquillo , que vos parece que he ser* 
» viço de Sua Magestade, e oem, e segurança da dita 
99 Armada, e não mo tendes dito, e aconselhado: erraii 
» ao serviço do Imperador Rei Nosso Senhor, e iscon* 
» tra o juramento, e pleito, e homenagem que me tcn- 
99 des feito. Pelo qual vos mando da parte do dito Se- 
« nhor, e da minha rogo, e encommendo, que tudo 
99 aquillo que sentis, que convém á nossa jornada, as* 
99 sim de ir adiante, como de nos tornar, me deis tof» 
n SOS pareceres por escrito cada hum per si : declarando 
99 as causas, e razões porque devemos ir a diante, ou nos 
yy tornar, nlio tendo respeito a coisa alguma, porque 



1 



U9 

^rels <Je tJlzer a verdade. Com as quaê^^ras^e^^ -e 
recere» direi o meu , e determinação para tomar 
ff canclmaa no que havemos de fazer. Feito no Canat 
rt de todos os Santos defronte do Rio do llhcOj em 
jf quarta feira ir de Novembro, em 5^3^ de lyioaiínoç. 
>t Foi notificado por Martim Mendes, Escrivão da di- 
jf ra Náo em quinta feira 22 dias de Novembro de 
» 15-20 annos. 91 

Resposta. 

Jf Ao qual dito Mandado eu André de S. Martin 
dei, c respondi meu parecer, que era do theor se* 
gtilnre: 

w Mui magnifico Senhor, visto o Mandado de ¥os- 
sa mercê, que quinta feira 22 de Novembro de 1^20 
itic foi notilTcado por Marti-m Mendes, Esaivao desta 
Náo de Sua Magestade chamada Viaoría, pelo qual 
com effciro manda que dê meu parecer acerca do que 
sinto, que convém a esta presente jornada, assim de 
ir adiante, como tornar, com as razoes <]ue para 
htim , e para o outro nos moverem , como mais largo 
no dito Mandado ?e contem, digo: Que ainda que 
cu duvide, que por este Canal de Todos os Santos, 
onde agora estamos, nem pelos outros que dos dois 
Estreitos para dentro estão, qtie vão na volta de Les- 
te, e Lesnordeste haja caminho para poder navegar 
a Maluco, isto não faz, nem desfaz ao caso, pira 
que não se haja de sa-ber tudo o que se poder alcan- 
çar, servindo-nos os tempos, em quanto estamos no 
Coração do Verão. E parece que Vossa mercê deve 
ir adiante por elle agora, em quanto temos a flor do 
Verão na mão; e com o qnc achar, ou descubrir até 
meado do mez de Janeiro, primeiro que virá de i J2r 
annos. Vossa mercê faça fundamento de tornar na 

45 



354 



f> volta de Hesp:ính3, porque d'ahi adiante Os dias m\n^ 
yf goão ja de golpe, e por razão dos temponies hâo de 
fi ser mais pezados, que os de agora. E quando agora 
» que remos os dias de dezasete horas , e mais o que 
>j he de alvor ida, e depois do Sol po:?to^ tivemos os 
»* tempos tao tempestuoso?, e tão mudáveis, muito mais 
yf se espera que sejSo quando os dias forem descendo 
yy de quinze para doze horas, e muito mais no Inver- 
ti no, como ja no passado len.os visto, E que VosS9 
*> mercê seja desabocado dos Esrreitos a fora para de 
*> todo o mez de Janeiro; e se puder neste tempo, ro- 
»» mada a agua, e lenha que hasia, ir de ponto em 
'> branco na volta da Bahia de Calez Cadix) ^ ou Por- m 
>^ to de S* Lncar de Barra meda, donde partimos, E fa- f 
>9 zer fundamento de ir mais na altura do Polo Ausrral 
9% do que agora estamos, ou temos, coroo Vossa merxê 
>f o dco em instrucção aos Capitães no Rio da Cruz^ 
yf nao me parece que o poderá fazer por a terribilida» M 
» de , e tempesruosidade dos tempos ; porque qttaodo " 
>» nesta, que agora temos, se caminha com tanto tra* 
>» balho, e risco, que será sendo em 6o', c 7y% e tcuit m 
» adiante, como Vossa mercê disse, que havia de ir " 
*> demandar Maluco na volta de Leste, c Lcsnordesre, 
» dobrando o Cabo de Boa Esperança, ou loiige d^dlc, 
>f por esta vez nao me parece; assim porque quando li 
yy formos seria ja no Inverno, como Vossa mercê m^ 
n Ihor sabe , como porque a gente está fraca , e des6- 
>j lecida de suas forç is ; e ainda que ao prcsemc icm 
ir mantimentos que bascem para se sustentar, não sao 
fi tantos, e raes, que scjao para cobrar novas fbrçftS, 
» nem para comportar trabalho demasiado, sem que 
>f muito o sintao em o ser de suas pessoas ; e tãobèio 
ff vejo dos que cahem enfermos, que tarde convalescem. 
ff E ainda que Vossa mercê tenha boat Náos, c bem 
n aparelhadas (louvado Deos)^ comtudo auub £xle- 



355 

H cem amarras, em especial a esta Náo Victoria; e 
f9 alem disso a gente he fraca, e desfalecida y e os man* 
f> timentos não são bastantes para ir pela sobredita via 
>5 a Maluco, e de ali tornarem a.Hespanha. Táobcm 
99 me parece que Vossa mercê não deve caminhar por 
99 estas costas de noite, assina por a seguridade dasN^os^ 
99 como porque a gente tenha lugar de repousar algum 
99 poi/to : cá tendo de luz clara desanove horas ^ que 
>> mande surgir por quatro, ou cinco horas que ficao de 
79 noite. Porque parece coisa concorde á razão surgir 
9> por quatro, ou cinco horas que ficão de noite, por 
99 dar (como digo) repouso á gente, e não tenipestear 
99 com as Náos c aparelhos : e o mais principal por 
•9 nos guardar de algum revez, que a contraria fortuna 
99 poderá trazer, de que Deos nos livre. Porque quando 
99 em as coisas vistas, e olhadas soem acontecer, não he 
99 muito temellos em o que ainda não he bem visto, 
99 nem sabido , nem bem olhado, senão que faça surgir 
99 antes de huma Ivora de Sol^ue duas léguas de ca- 
>f minho adiante, e sobre noite. Eu tenho dito o que 
^j sinto, ç o que alcanço por cumprir cora Deos, e com 
>r Vossa mercê, e com o que me parece serviço de Sua 
99 Magestade , e bem da Armada ; Vossa mercê faça 
^9 o que bem lhe parecer, e Deos lhe encaminhar; ao 
99 qual praza de lhe prosperar vida, e estado, como 
9» elle deseja. >> * 

Magalhães recebendo este parecer, e os dos outros 
Officiaes, como sua intenção não era tornar atraz por 
cousa alguma , c só fizera este cumprimento por sentir 
que a gente andava descontente, e assombrada do cas- 
tigo que dera aos rebeldes , fez huma longa réplica , 
em que deo largas razões pára irem avante ; e que ju- 
tãya pelo Habiro de S. Tiago^ qiie assim Ihje parecia, 
c que todos o seguisseni, porque esperava na piedade 
de Deos, que os trouxera áquelle lugar, c lhes rinha 

4ó ii 



descoberto aquelle Canal tão deseja doj^^ctana^o 
termo d^ sua esperança. Ao ouíro dia, com fesras, c 
salvas de artílheria , mandou levar ancora, e proseguio 
seu caminho; e sem ter visto índio algitm , mais aac 
íilguns fogos na Costa do Sul^ a que por esta causa aco 
nome de Terra do Fogo, desembocou a 26 de Novem* 
bro com os seus três navios no mar do Sul, a cuja o/- 
tima ponta chamou Cabo Desejado (i). 

Entrado no mar do Ponente , a que deo o nome 
de Pacifico, afastou-se da terra, navegando ao N*0* 
Em 5'!'^ ;o' correo ãoNofte, para se aproximar daEqui* 
nocial , fazendo vários rumos entre N.O. c N,N.& até 
16 de Dezembro, qnc estando em 36" 30', arribou par^ 
o N. O. A 4 de Janeiro, em 18"* de latitude seguto o 
caminho de Oesi€ até ao dia 18, que tornou ao ri. O. 
A 10, estando em 15*', navegou 30 legoas a 0,S. O. 
c depois correo a O. N.O. A 24, achando-sc cm i6* 
if de latitude Sul, vio homíi pequena Ilha dcsliabiri- 
da , a que deo o nome de S. Paulo , ou a De^ventu* 
rada (2)* A 31 tornou ao rumo de N. O. e a 4 de 
Fevereiro em 11' 5-' achou outra Ilha, a que cbamoa 
dos Tubarões, pelos muitos que ali havia, 

A 13 cortou a Linha, e continuou a navegar con 
a proa ao N. O* o que foi a causa de n^o achar at 
Malucas, as qiiacs de certo encontraria, se desde catão 
seguisse para Oeste (3). 

(1) A boca do Estreito no Ocearto Pacifico he formAda <b bvdi 
ão Norte pelo Cibo Victoria, situado m latitude 52** aj', e loo^itucfe 
joj'' M'; c da parte do Sul pelo Cabo Pitares» situado na Uttcii(ii 5. 
52° 46', c longitude íO}° iS*. O Cabo Desejado bc buma Pooti èt 
tetra pfoxima ao Cabo Pilíires. 

(a) Esta Jíha aciía-je na latitude S. i*l<* ff*- 

(j) Magailiãej não tinha noções emctat dos >^ ^ibb wuMie 

pelai cartas do seu intimo amigo João Serrão, t; ^ òebaim ào 

Et{u^or (e*tíb dguns minutos ao Norte); titai cm quanto i niã Ut^u 
rud?! era maior «^ incerteza, e tanto maii , quanto Sertio birit euf^ 



367 

A 6 de Março em 13*' de latitiída Norte achou 
muitas Ilhas bem povoadas, cujos habitantes crao tão 
inclinados ao roubo , que furta vão quanto podião al- 
cançar, e por isso ficarão com o nome de Ilhas dos 
Ladroes. Aqui se refizerão de alguns víveres, de que ti- 
nhâo extrema necessidade. 

Continuando a navegação, descobrirão hum Archi- 
pelago de Ilhas , que denominarão de S. Lazaro ( são 
as Filippinas); e em huma delias chamada Mazaguá 
kz Magalhães amizade com o Regulo , entendendo-se 
por meio de huma sua escrava natural da Sumatra. 
DeJIe recebeo víveres, e práticos, que o levarão á Ilha 
de Zebut , situada em 10 de latitude , tendo dez legoas 
de contorno, onde Magalhães ancorou a 7 de Abril , e 
achou neila ouro, e tanto gazalhado no Regulo, que a 

Suiz fazer Christão, o que elle ãcceitou, baptizando-se 
ebaixo do nome de Fernando, com sua mulher, e fí« 
ifaos, e mais de oitocentas pessoas; porém foi mais por 
artificio, que por devoção. Por quanto andava em guer- 
ra com o Regulo da Ilha de Matan , visiirha da de Ze- 
but, contra o qual lhe pedio auxilio, e Magalhães, pe- 
io comprazer, sahio a atacar Matan cem três lanchas, 
em que levava sessenta homens, e desembarcando na 
Ilha, ainda que duas vezes rechaçou os inimigos, que 
erão mais de trea mil, na ultima acção a 27 de Abril 

rado a distancr» a que ettavão de Malaca. Accrcsdà a esta difíiculdade 
outra talvez nKiior; Serrão tinha, ido ns Malucas partindo de Malaca, 
navegando assim dentro do hemisfério Oriental , e Magalhães vioha 
buscallas pelo Occidente , atravessando immcnso espaço de mar inteira- 
mente desconhecido-, que a sua própria opinião figurava muito menos 
extenso; e em- hum século, em que faltavão os nr.eios para se determi- 
nar a lof^itudè a bordo de htin:^ navio com alguma segurança. Em con- 
sequência, passado certo tempo, e vendo elle sem resultado o plano da 
viagem , que coQcebéra > crâo ter já despassado as Malucas ,^ e acFiar-se. a 
Oeste delias; e neste embaraço tratou de achar alguma Hha, em qucL 
lie dessem noticias do rumo ^ e distancia a que lhe âcavão.. 



35Ô 

foi cercado, t íorq^Ao a buscar o abrigo das lanchas, 
liavcndo-se acabado a pólvora aos seus soldados, Ncsu 
retinida, antes que os Hcspanhoes se embarcassem mor^ 
rco Magalhães, que cobria a retaguarda, pelejanda brt» 
vãmente j e outros seis ou sete homens, em que entroa 
o Astrónomo André de S* Martin, c Christováo Rçbel- 
lo, Portuguez* 

Os Hespanhoes que escaparão, reunidos em Zc» 
but, elegerão por General a Dudrte Barbosa, e por seu 
immediato ao Piloto Mor Jo3o Serrano. Succedeo lo- 
go outro desvístre, que fui contratarem pazes os dois Rcw 
gulos inimigos, com condição de que o de Zebut W? 
balhassc pelos matar a todos; e porque não p<Sdc mais, 
colheo vinte c quatro dos principaes, inclusos Duaro; 
Barbosa , e João Serrano, e com simulação de lhes dar 
hum banquete, os assassinou á traição, íicando sá vivo 
Serrano, que foi conduzido á praia para ser resgatado a 
troco de du.is peças de artilheria, e alguma polvom; po- 
rém occorrtJrão tacs circunstancias, que os Hcspanboes, 
temendo nowis traiç6es, por conselho de GonçUo Go- 
mes de Espinosa, se fizerao á vela no mesmo dia l." de 
Maio, e forão surgir na Ilha de Buhol, duas legoii 
desta, situada era 9^ 30', onde elegerão por seu GciK^ 
ral ao Piloto João Lopes de Carvalho, que fazendo 
alardo da gente, achou por todos cento e quintc peí* 
soas, Resolveo se em concelho não ser possível guarne* 
cer os três navios, e em consequência queimou se o dia» 
mado Conceição, repartindo a equipagem pelo» oiilTOS 
dois- 

Continuando a sua navegação, visitarão algumas 
Ilhas, em que comprarão mantimentos, e a 8 de Jutho 
ancor.írão na de Borneo. Aquí foi depoísio do commtii- 
do supreqo João Lopes , e eleito em seu lugnr Gonçafõ 
Gomes de Espinosa , e por Com mandante da Victoru 
João Sebastião de Elcano, 




&59 

Finalmente correndo de Ilha cm Ilha forao fcr is 
Malucas, conduzidos por Pilotos práticos, que cbrigá-' 
rão a isso, ea 8 de Novembro entrarão em Tidore, 
de cujo Rei forao bem recebidos , por estar descontente 
dos Poriuguezes. Em hum mez, que se detiverão ,. carre- 
garão de cravo, e por intervenção de hum máo Pqrtu- 
guez chamado João de Lourosa ( degolado depois por 
traidor em Ternate), passarão á Ilha de Banda. Daqui 
sahírâo para a Europa , mas o navio Trindade arribou 
duas vezes com agu.i aberta , e da segunda se entregou 
aos Portuguezes, tendo- lhe morrido trinta e sete homens 
de fome, e de doenças; c achando-se os outros em tàl 
estado, que nem mover-se podião. António de Brito ^ 
Governador das Malucas, e D. Garcia Henriques trata- 
rão os Hespanhoes com a maior humanidade , e o seu 
Commandante Espinosa passou á índia com alguns dos 
seus, e veio a Portugal em 1^26. 

Elcano levando na Victoria de guarnição quarenta 
e seis Hespanhoes, c treze índios, começou a sua via- 
gem para a Europa a 21 de Dezembro de 15' 21 : tocou 
nas Ilhas de Maluá^ e Timof , e nesta houve hum mo- 
tim a bordo, que custou algumas vidas. Partio daqui 
a II de Fevereiro; navegou por grande altura a dobrar 
o Cabo de Boa Esperança, para evitar o encontro de 
navios Portuguezes, soflFrendo máos tempos, e muita 
falta de víveres. A 8 de Maio vio a Costa d*Africa : a 
30 de Junho estava a vinte c cinco legoas de Cabo Ver* 
de, Fez-se concelho para saber se nas Ilhas, ou na ter- 
ra firme deverião remediar a penúria de mantimentos, 
em que se achavão, havendt^-lhes morrido desde a pas- 
sagem do Cabo vime e buma pessoas: dccidio-se ir ás 
Ilhas. A 9 dejullu) ancorarão na de S. Tiago, e no- 
tarão coro espanto, que estavão em quinta feira, cui- 
dando estariem na quarta j o que attribuírãovà' engano 
seu, não o sendo.. • ^ 



Qliererrdo os Hespanliocs comprar cm terra algunt j 

Negros, e pagallos cm cravo, retiverao os Ponuguc- 
zes hum escaler com treze homens -, c Elcano rcccanJa 
maiores inconvenientes, dío á vela só com dczoiro pcs- 
soas. A 4 de Setembro de 15-22 vio o Cabo de S, Vi- 
cente, ea 7 entrou em S. Lucar dcBarrameda com c|aasi 
rresannos de viagem, e a gloria de ser o primeiro N;t- 
vegante que deo votra ao Mundo, em qtic pe!a sua es- 
tima navegou quatorze mil legoas, cortando seis vezes 
a linha. 

ij'20. — Neste aono mandou ElRei vir A Corte (i) f 
Vasco Fernandes César, que com grande reputação ser- 
via em Azanior o cargo de Adail , c lhe deo o commjfi- 
do de huma Caravela bem armada, para crazar sohre 
as Costas de Barberia , para onde partio, e ms ngnu 
de Alcácer encontrou duas Galeotas Mouriscas guarne- 
cidas de gente, e artilhcria , cjuc o vierao buscar à ▼oga 
arrancada, cuidando o tomanao tao facilmente, como 
pouco antes havião feito a duas embarcações Ponugoc- 
zas carregadas de materiaes para as obras de Tanger, 

Vasco Fernandes forçou de vela para lhes poupar 
o caminho; mas os Mouros conhecendo ter que tratar 
com hum navio de guerra, pozerão-se era fuga, e humt 
das Galeotas, que bolinava melhor do que a Ciravt^Ia, 
escapou 'j a outra perseguida, e acossada a tiros de ca- 
nhão, varou na terra* Vasco Fernandes desembarcou 
logo na hvncha, que conduzia a reboque, e investindo 
com os Mouros, matou dezoito; e antes que o resto 
delles escapasse na serra, chegou Pedro Alvares de õr- 
ralho. Governador de Alcaçar, avisado do conflicto pc- 
lo ruido da artilhcria, o qual ainda collieo trinta prifio* 
neiro*!, que se venderão em Alcácer, de cujo prodacto 
pertenceo metade á Caravela , e ElRei fez mercê dcire 

(l) Vede Goc5 , Parte 4, Cap* $7. 



361 

diíiheiro a Vasco Fernandes Çesar , que havendo recoí-; 
l.hido quanto pôde aproveitar da Galeota, e inutilisada 
o casco , continuou o seu cruzeiro. 

15' 20. — A Esquadra que este anno foi á índia , 
constava de^dez Náos (i) , de que era Chefe Jorge de 
Brito, e os outros Coramandantes Pedro Lopes de Sam- 
paio, Pedro Lourenço de Mello ^ Gaspar da Silva, Lo-» - 
po de Azevedo, Pedro da Silva, Lopo de Brito, Pedro 
Annes Francez, Ruy Vaz Pereira , e André Dias, no- 
meado Feitor para -dirigir na índia a carga dos navios;, 
Jorge de Brito levava rommissão secreta para ir 
f^zer huma Fortaleza em alguma das Ilhas Malucai , e 
a esse fim enviou ElRei ordens particulares ao Gover- 
nador da índia, para lhe fornecer navios, e quinhentos 
lidados y com todos os OHiciaes necessários para a sua 
guarnição. , 

Partio a Esquadra de Lisboa a 6 de Abril de i$io^ 
.e ainda que navegou hum pouco espalhada ^ todos os 
jízvios chegarão a Goa no mez de Seicmbio* 

1521. — Este anno mandou ElRei huma Esquadra 
composta de dez navios grandes, commandada por Si* 
•mão da Cunha, a levar dinheiro para pagamento das 
Praças da Berbéria (como costumava fazer todos os ao- 
.nos).^ coTnmlssao que cumprioj e gastando o resto id^ 
estação favorável em cruzar no Estreito, e Costas de 
.Africa- , se jecoUieo a Lisboa no começo do Inver- 

, ifZT. — :- A y de Abril de 1521 partio de Lisboa 
pára Governador da índia D. Duarte de Menezes , a 
quem ÈlRei conpedeo maior ordenado , que até ali h^- 
via dado a Governador algum, pois com os emolumen- 
to Barros, Década j, Liv. 4. Cap. 7. — Couto, Década 10. Cap, 
.16^ -r— F^a^ Ásia Portu^iueza. Gocs não falia nesta Esi]uadra^,,<j en- 
tre .Of outros Escritores ha diversidade nos nome?} das Cominand^niéf^ 
o) . Góes, Parte 4. Cap. yJJ. — Fr. Manoel, Homem , Ca^, 29^ 



3^2 

tos chegava a trinta mH cruzados. Compunha-fe a Es*^ 
quadra de onze Náos, cujos Commandantes erao: D.' 
Luiz de Menezes, irmão do Governador; D. João de 
Lima (i) ; D* Diogo de Lima j João de Melfo da Sil* 
va ■ Francisco Pereirn Pestana; D* João da Silveira; 
Diogo de Sepuhedíi; Gonçalo Corrêa de Almada , Ar- 
mador da própria Náo ; Vicente Gil,tarabem Arma- 
dor; e António Pisco, 

Com esta Esquadra sahío outra de quatro Níosj 
destinada píira a China, commíindada por Marrini Af^ 
fonso de Mello , e os outros Com mandantes Vasco Fer- 
nandes Coutinho, Diogo de Mello, e Pedro HotiiefO* 
Ambas chegarão a salvamento á índia nos fins de Agos- 
to y ou princípios de Setembro* 

Após estas duas Esquadras parrio Sebastião deSotHJ 
$a por Commandamc de duas Náos, e hum nav^ pcml 
queno; os outros dois erãa Joiío de Faria, Ovalkiraj 
da Casa d*EIRei, e Henrique Pereira. Levava c]fe or- 
dens para construir huma Fortaleza no Porto de Mara- 
lana , em consequência de haverem informado a ElRci, 
que seria conveniente acharem ali aguada, e mantimeJK 
tos os navios que fossem á índia por fora da Hha d© 
S, Lourenço , o que acontecia a alguns, for^dos do 
tempo; e para esse fim conduzia esra Esquadra o% Af» 
tificcs, e materiaes necessários. 

Sebastião de Sousa chegoa só á Ifha^ de S. E-oureo* 
ço , por se haverem apartado delle a outra Náo, c o 
oavio, que se não tornou mais a ver» Tendo ali cspc» 
rada muitos dias, e vendo que não apparccilo^ joigpu 
ambos naufragados, e foi-sc para Moçambique, oodc 
invernou* No anno seguinte se fez á vela para Goa,c 



(O Castanheda, Liv. 5, Cap* 69. — Èarn»^ Decâd» |. Uf. 7* 
C»j>. I. — Couto, Década 10. Cap. i6, — Goci» Purte 4* Cãç, 6f« 
«— Ff» Manoel Homeii] , Cap, 19, — Fatia ^ Asi» Pori uguea^ 



363 

no caminho encontrou João de Faria, qise lhe disse haver 
ancorado antes delle em Matatana, e que por cuidar 
seria perdido, se fora para a índia. Reunidas as duas 
Náos, chegarão a Go^ , e estando a partir para S. Lou- 
renço, vierão de Portugal t>rdens d^ElRei D.João III. 
ao Governador da índia , para que se não construísse 
Fortaleza alguma de novo, e somente se concluisserti 
as começadas. 

lyii. — Continuando Vasco Fernandes César (i) a 
gucrrdar o Estreito , teve aviso, ^ae a Leste do Morro 
de Qibraltar esta vão q4iatro navios artilhados, que no 
dia anf-ecedente tinhão tomado huma Caravela n:vercante 
Portugueza, a qual a Capitanea trazia a reboque. Vas- 
co Fernandes, que hia de caminho para Ceuta, \oltou 
logo a busca-los, e vendo a Capitanea a barlavento, e 
mui afastada dos oiítrcs, passoolhe á falia , e pergun- 
tou , que navio era ? Ao que responderão içando oan- 
deira Ingleza, e acenando-lhe que amainasse. Vasco 
Fernandes pròlongou-se então pela sua aHieta , e rom- 
pendo os Inglezes o fogo^ sem descontinuarem de fazer 
signaes, que amainasse, respondeo vigorosamente cotn 
a sua artiíheria, "o que deo occasião á Caravela Tndt- 
cante4e cortar o cabo do reboque, e fugir. 

Depois de d^ias horas de combate, achava-=se Vasco 
Fernandes com «eis , oh sete homens mortos , e mais âe 
vinte fiaridos, quando o seu Condestavel , que era huitn 
Alemão chamaao Hansfrets, mui corpulento, e valen»- 
te, o qual a pezar de quinze feridas causadas pelos esti- 
lhaços da madeira , não queria curar-se diísendo^ qwe ou 
havia morrer, ou fazer amainir aquelle navio, e fodos 
os outros, se viessem; pegou em hum Falcao-pedreiro, 
cujo leme assentou no hombro, e apontando-o ás òsia- 
gas do navio Inglez, pedio a outro Artilheiro AlemSo 

(i) Gocs , Parte 4. Cap. 78. 

4e li 



364 



(todos os da Gira veta erao desta Nação) ^ que lhe po 
zesse fogo em elle o advertindo i c desta mane: 



fez< 



três tiFOs , 
inastareo : 



com que !he cortou as ostagas, e 
outra bala de íium grosso canhão > c 



ravela trazia na proa, entrando pela popa 



ue a Ca- 
lo navio ^ 
corrco toda a coxía ^ c lhe levou parte da abita. E t€0*( 
do-se os Itiglezes alem destas avarias, com vinte ho- 
mens mortos , e muitos feridos y arrearão o resto do pdn* 
no: os três na.vlas da sua conserva, que lhe nao podiío' 
acudir por estarem sot a v enteados, fizerão o mesmo» 

Vasco Fernandes César, cessando o combate^ or*\ 
denou-lhes que mandassem hum escaler a seu bordo, o' 
que cumprirão; e dando algumas desculpas sobre o fa* 
cto da Caravela Portugueza , qiic etles affirmarao tri» 
zerem comsigo para a livrar dos Corsários Mouros^ qiic 
por ali andavão^ se forao reparar a Cadiz, e Vasco 
Fernandes a Ceuta, 

lyii. — Nesta Praça reparou as avarias do teu brl- 
lliante combate , e se refez de nova gente , e muni- 
ções, e saíiindo a cruzar, encontrou entre MarbclU^ cl 
o Morro (i) seis Galcotas de Mouros, que dividindo- 
se em duas esquadras iguaes , a vicrao buscar com gran-^ 
des alaridos, como quem tínlia por segura a TÍeforíl»fl 
disparando sobre a Caravela muitos tiros de canhão, c~ 
de mosquete; uias tiverao tnl resposta , que não ottsarSo 



aproxima 



Vasco Fernandes, conhecendo o 5cu re- 



ceio, fez remar vigorosamente contra as três C 
. que lhe ficavao mais a geito, e esíavão mui jum,u 
^ ma- das quaes era a Cf^pit.inea ; e esta foi a que rectbcoj 
todo o damno, porque as baías da Caravela lhe rarre* 
rão a chusma, e quebrarão os rcmns de hum lado, com 
que ficou desaparelhada, c adernada á- banda, Acoài^j 
lâO-Jhe todas as outras, que a recolherão emre lii c 



(O Gocs , Pific 4. , Cap. s í* 



365 

tarão ctt^o atordar a Caravela, com o mesYno infeliz 
successò; porcjue Vasco Fernandes, manobrando habil- 
mente, a presentava-lhes sempre a proa, e com tiros de 
coxi^a destroçou outra Gaíeota, matando-lhe a maior par- 
te dos reraciros: o^ qtie causou tal terror nos Mouros, 
que só cuidarfo em fugif ,. aproveitando o vento para 
a Q>sta de Barbería fronteira ^ seguido? algum espaço 
por Vasca Fernandei^, que por ultimo entrou em Mála- 
ga ,. para enterrar alguns mortos , e curar os feridoè , 
quê erao pouco». 

Velcanda depois a Lisboa nos fins de Dezembro, 
' ElRef D; Jóao IIL lhe mandouacrcscentar ao escudo das 
suas Armas,, as seis Galeotas, e por timbre outra. 

1521. — Para transportar á Itália a Infanta D. Bípí- 
tes, desposada com o Duque de Saboia> mandou EI- 
Rei preparar huma* Esquadra , de que nomeou General 
(i) a D. Martinho' de CasteUo Branco, Conde de Vil- 
lá Nova de- Portimão, CO ní poderes- para todos os casos 
eiveis, e- crimes, até' morte natural. Constava de d|sz 
Náos^ dous Galeões, quirtro Galés Reat?s, huma Cara- 
vela, humaFu^ra, e hum transporte com objectos da 
Uxaria- Das quatro maiores' Náos- era Capitanea a San- 
ta Cathariha-, de oitocentas toneladas, feittr* nalddia, 
as outra» três erão, huma de 6^ toneladas, outra de 
35a, e outra de 300; e as seis restantes mais peqtíe- 
Jias. G^ Goromandantes" dè que achei- os nomes', eiâo 
D. FrancÍFCO de Casteílo Branco-, filho primogénito- do 
Conde- Genera li. D;- Francisco dá Gama, primogénito 
do Conde Almirante D. Vasc€>- dâ^Gatina; e Marechal 
D. Álvaro- Coutinho, AfFonso- Pe^es Pa-nroja , genro do* 
General; Ghristovâo de Brito; D. Fernando de- Abran- 
ches,:, e D.. Luiz Coutinho.' AflFófeo de AUbuqoerqèe, 

CO Vede Gocs, Parle 4., Cap. 70. -^ Resende, Hidí dà. íhfanuu 
D. Brites para Sabóia^ - Acenhévoj fag.- 541.: - ^ . 



3Ge 

filho do Grande Albuquerque, commandava hum Ga-| 
leilo de 130 tnncladas, e Fernão Peres de Andrade ou- 
tro de 300. Era rammandaríre em Cliefe das Galés' 
D. Pedro Mascarenhas, depois Vice-Rei da índia; e 
os ourros Francisco de Meilo^ Luiz Alachado, e Gon- 
salo de Carpos. Commandava a Caravela Ruy Meu* 
des de Vasconccllos i c a Fusta Álvaro de Couio, O 
Conde General cml:)arccu na Ca^piranea , de qoe era 
Mestre Pedro de Cavarca , c Patrão Mor Simão V«^ 
hábeis marinheiros. Dcsanoií-se a mcUior Náo , depois 
da Capitanea^ para o Arcebispo de Liiboa D. Mani- 
nho dA Costa (que fallecco na torna-viagera a 3 de 
Dezembro em GibraUar^, e outra para os Ecpbaluda- 
res de Sabóia, 

Prompta a Esquadra, embarcou a Infama coai 
huma numerosa comitiva de gr.^ndí$ Personagens, qtre 
deviao acompanha-la^ e servi-la na viagem; c hc notá- 
vel , que o Conde General levava quatro filhos, trt$ 
genros, e ires netos. Surgio a Esquadra em Bclcm, 
onde ElRei foi visitar a Fillia, com a Rainha, c todt 
a Família Real, e no dia seguinte 9 de Agosto de ifii | 
sahio a barra, e sem outro acontecimento, mais do que 
soíFrcT hum golpe de vento defronte de Cariliagcci, 
em que desarvorou a Náo de Afíbnso Peres Panroja , c 
se rec<ilheo naquJIc Porto; chegou a Villa Franca dz 
Niza a 29 de Sttemhro, e no mesmo \l:a desembarcou 
a Infanta^ por se achar ali o Duque seu eeposo* 

A 13 de Dezembro deste anno de 1521 mateo 
cm Lií^boa ElRei D* Manoel- 

No seu feliz Reinado as Náos da carreira àã Tih 
dia não excediáo a 400 toneladas (i)* Hum Escritor 
nosso (2) calcula em duzentos e noventa e quatro o* bi* 



(Q Scveitm , Disai^so 7, 

(aj Faria, Ásia Paitu^ueia, tomo }. no fim. 



367 

víos que die mandou ao Oriente , de que se perderío 
vinta^ e aeís^ mas eu só achei duzentos e cincoenta e 
oito , e naufragados dezenove á hida ^ e onze na torna- 
YÍagenh As arribadas forão também raras neste tempo, 
e comiDuns nos subsequentes, em que tanto ellas, co- 
mo os naufrágios crescerão fóra de proporção com o 
que antes acontecia. Em. lugar competente apontarei as 
causas desta difl&ren^.. 



S89 



TERCEIBA MEMORIA, 

DO CARD£\L REI D, UENRl^VE Í,® £H 1000* 



ADVEKTENaA. 



Ainda que eu tinha promettido abranger cm três 
Memorias a Primeira Parte desta pequena Obra, rendo 
comtudo que ficarião mui desiguaes em volume, xesol- 
vi-me a dividi-la em quatro Memorias ; o que em nadt 
altera o plano geral , que abracei iia divisão 4k ma- 
terias« 



Reinado d'El!iei D. JoXo III* 



R 



O KEiNADO deste Sabio Monarcha , não só conti- 
nuou a florccer, c prosperar o Commercio Marítimo 
na Africa, e na Ásia, mas ampliou-se muito mais, c 
começou o do Brasil. As carregações das Náos^da ín- 
dia, na sua torna-vingem, crâo calculadas no valor de 
hum milhão cada liuma , e outras vinhiío mais impor- 
tantes, como aflirma hum Escritor HoUandez, que vi- 



369 

Vea alguns annos em Goa (r), e lie opinião corrente 
dos nossos* 

Começarão porém no mesmo tempo os Estrangei- 
ros a iofesirtr as Colónias, e Possessões Portuguçaas do 
Ultramar, e a atacar os seus navios no mar, como já 
na vida do seu Grande Predecessor linbao algumas ve- 
zes feita, c continuarão a f^zer nos Reinados successi- 
vos. Em IÇ50, ou DO seguinte hum navio Francez ar-> 
maciO em IVÍurseilliai foi a Pernambuco, desfez huma 
Feitoria^ que os Portuguezes ^alli tinliâo , carregou de 
Páo Brasil, e deixando setenta homens cm terra para 
Fe forrifícircm , voltava para o Mediterrâneo, quando 
foi tomado (em i^^i) pela Esquadra Portugueza (1)^ 
que guardava a Estreito. 

Em 1534, e ifjy correo Jiuma negociação entre 
a$ Cortes wíe Lisboa , e Paris ^ relativa ás nossas Coló- 
nias, com intervenção do Imperador Carlos V. a quem 
ElRei escreveo muitas Cartas, bem como á Impera-i 
t/iz, e aos Ministros Iraperiaes, sendo Enibaixadoc 
em Madrid Álvaro Mendes de Vasconcellos, tudo A 
fim de se compor o negocio amigavelmente,, e evitat 
hum rompimento (3)* , 

A pe^ar de todas esta^ dili^enciasi^-e riao bastando 
já para guardar as Costas de Portugal, e Açores as 
Esquadras ordinárias, que EIRei trazia sempre no mí»r, 
pela afRucncia Cada vez maior de Corsários, c Piratas 
qt/e concorriâo a romar, ou roubar os navios Portugue- 
zcs, c Plespanhoes, se fez huma Convenção ao anno 



. (O Historia d* Navegarão de João Haguej de Linschot- as Indiw 
th itiu jct. , , 

(1/ AMÍm o escrever* lilRei a Martim Afíonso de Sousa, em data 
de 2t de Setembro de i$j2. Vede o tomo 6. pag. 518, das Pro» 
VâB à Hntorta G«nèalo^ica da Casa Red. í . «^ • . 

(j) E^tj. tninsaiixSo veui expikada 110 N{)biJiario manuscrtto^^dd 
FiiniJias ác Portugal, no tomo j. desde p^g, i6l ate pag. 191» Á ii^i 

47 



370 

de lyy"^ entre ElRei D* João IIL e o Imperador 
Carlos V. (i) na qual se estipulou por parte de Por- 
tugal : 

Que ElRei mandaria armar vinte navios Latinos 
de 25* até 30 toneladas, que andassem sempre á rltiã, 
de terra , para guarda da sua Cosra ^ tres dos quaes ha* 
YÍâo de estar em Cascacs, quatro na Atouguia (lúo 
estava ainda este Porto entulhado , como hoje ) , ooa- 
tro em Caminha, quatro em Lagos, dous em Villa 
Nova de Portimão, e ires em Cozi m br a , ou Sines; 
por serem estes os lugares que os inimigos costumado 
frequentar, e que os navios Portuguexes , e Hcspanliofs 
forçadamente vinhao demandar. Qiie mandaria ijottft^ 
Náos, ou Galedes para correrem a Costa de Ponogal 
mais ao marj e os vinte navios já declarados se reuni- ^ 
não quando cumprisse. Que além destas Esquadras, or- fl 
denaria outra para a Costa do Algarve de quatro em- 
harcaçôes de remo, hum navio grande, e ires Cjirave» 
las, que também se reuniriâo, cada vez que fosse ne* ' 
cessario, com os outros navios Latinos, que hariâo an- 
dar de continuo no Algarve, Que todw estes navios se 
conscrvariao sempre no mar de Vcrao, e de IiiTernô», 
lem se recolherem a Porto algum, senSo em caso dc( 
necessidade, exceptuando as embarcações de memo, que' 
se recolhendo de Inverno. Qiie para as libas dos Aço*j 
res manda lia cada anno no mez de Abril dez naviot( 
de guerra, tres Nãos, ou Galeões, e sete Carai 
Que os navios, que houvessem de navegar patt 
guim , Cabo Verde, Costas de Guino, Mahgiíeta ^ Mi* 
iia^ Ilha de S, Thomé, e Brasil, fossem, e Yies$em cm 
tres monjões : huma em Janeiro, outra cm Alargojft 



(i) Vede a Oironica d' EIRci IX Jr/ão III por Frjmcisco Fr»i%1 
farte 4., V também as Noticus de ?oan^ú por Sevenm ik F« 



371 

conserVa das Náos da índia , e outra em Setemlim» 
Que além dos navios de Guerra , que deyiâo ir naqueU 
Ias monções, ElRei ordenaria, que todos os navios de 
Commercio, ou a maior parte delles, fossem armados; 
c as embarcações j que navegassem para as Antilhas, 
«c poderiâo rambem aproveitar destas monções; o que 
$€T\3 util ás Ilhas dos Açores, que rodas aquellas Frotai 
dcvcriâo demandar na sua volta para a Europa (i), 

Ajusrou-se por parte do Imperador: Que elle man» 
âiria guardar o Estreito, conforme as noticias que ti* 
WS5C dos Turcos , e Fra nce^es, Qiic cada anno envia- 
ria no mez de Abril aos Açores der navios bem arma- 
dos, que andariáo sobre aquellas Ilhas até ao fim de 
Agosto; e outra Esquadra, que deveria cruzar todo o 
anno ao mar do Cabo de S. Vicente, o qual vinhâo 
demandar todos os navios das Antilhas, e Peru. Que 
teria na Costa da Galiza quatro, ou cinco navios de 
guerra para proteger aquelies Porros, e para seguran- 
ça diis embarcações, que em consequência de tempos 
contrários os fossem buscar. Qiie nas navegações dos 
Hespanhoes , Flamengos, e Ponuguezcs dos seus re* 
. spectivos Portos para os da Flandes, fossem reunidos os 
'tiavios, e em duas monções: huma em Abril, e outra 
em Setembro; e os da Flandes para aquelles Portos etn 
outras duas monções, huma em Janeiro, outra em Ju* 
fiJío. Que o Imperador daria ordem para que as Ur- 
C3S que esta vão retidas em Flandes, assim como outra» 
muitas embarcações Hespanholas, c Portuguezas, vie9-# 



Çj) feta distr!buT<;ãt5 d^f Forcas Navae*, alem dç muito despcit* 
dio^a, não parece a melhor possível; e creio se poderiâo obter os me^ 
jvtSi frstiltados, que st buscarão ^ com menor despcza. Quem cjuer 
^ujrd;ir todo^ os pontos de íiuma Jrnlia muito extensa, acha-sc fraco 
cm todos; nia^ cite era o systema da Táctica Terrestre djí|ycíle século^ 
etii que SC nio conhecia a Strategia; c a Táctica Naval toma sernprç 
<M pruicipio* da Tetresife. ^ 

47 ii 



372 

sem* logo tia melhor ordem que ser podesse. Que as 
Armadas de Portugal, e de Hespanha darião auxilio, 
e faror reciprocamente aos navios destas daas Nações, 

Para concluir de íuima vez as contestações, que 
ainda continua vão com Hespanha desde o Reinado an- 
tecedente sobre as Ilhas Malucas, celebrou-se cm Sart- 
goça hum Contracto (i) a 22 de Abril de iç'29 entre 
ElRei e o Imperador, pelo qual e$tç vendeo a Portu- 
gal todos os seus direitos áqucllas Ilhas pela sorama 
de 3S'0(^oo ducados de ouro (outros tantos cruzadai) 
que hcye valeriao perro de quatro vezes esta quantia. 

Neste Reinado fioreceo o celebre Mathematico Pe- 
dro Nunes j Cosmógrafo do Reino, que illuscrou a na- 
vegação com os seus escritos , inventou o anel gra- 
duado, para emendar alguns defeitos do Astrolábio jc 
lembrou importantes mudanças nos Instrumentos Astro- 
nómicos de sombras. 

Occuparao o antigo cargo de Capiíaa Mór Ja 
Fruta D. Antão de Abranches, por Carta de Con- 
firmação passada em Évora a 16 de Abril de if 14^ ^ 
seu filho D- Fernando de Almada, por outra Carta da- 
tada de Lisboa a 15- de Junho de IJ38. 

No anno de 15^42 largarão-se as Praças de Aia- 
mor, e Çafim, c depois as de Alcácer, e Arzilla» fi- 
cando reduzidas as nossas posses&ncs em Barberia aCcr 
ta, Tanger, e Mazagao* O motivo foi a cconomíi 
das despczas, que custava a sua manutenção, pof ki* 
. verem crescido excessivamente as da Asia , e ser fa- 
coso fazer outras muitas no Brasil, cuja colonizado 
principiou, c continuou neste Reinado com louvatel 
actividade. 

As Sciencias^ Náuticas, e as Artes de Constrtic^t 
c Aparelho parece que ficarão estacionarias neste ító- 

£0 ^^^ ^ Tomo 2, pog. 107 dai Provas á Hiscoda Gai«ilQ(^ 



878 

nada- Augtnentou-se a grandeza dos navios, levando-os 
de 400 toneladas a í^oo, e <?oo, sem que a força, e 
estabilidade dos cascos., c o seu panno, c mastreaçaa 
correspondessem áquellas maiores diracnsòcs; assim fi- 
carão os navios menos capazes de resistir aos choques 
dos roares, e dos ventos, do que erão até alli, Accres- 
ceo ainda a desvairada cobiça com qoe se carrega vão 
Dâ índia as Náos , que vinlião para a Europa , nao se 
contentando com abarrotar as cobertas, mas cniulhando 
o convéz cora caixaria y e fardagem , que ao menor 
tempo «e alijava ao man Desta mesma causa proce- 
diâo as doenças, que de commum dccímavâo as Náos 
da índia, tanto á ida, como á vinda. A' ida, sendo 
os vasos poucos, e a gente multa, levava cada Náo de 
700 a Hoo homens^ todos mal accommodadoe; e á vin- 

Hdat posto que os Portuguezes fossem poucos, crao mui- 

^■os 0$ escravos, e os lugares todos cccypados com car- 
ga; de maneira que as equipagens estavão expostas ás 

^jmuria$ do tempo, ( Vede Manoel Severim de Faria , 

^TÍoticias de Portugal, Discurso 7.) 

Eisaqui o quadro das perdas, que soíFreo a Mari- 
nha» e o Commcrcia Desde 15-22 ate 15-5-7 sahírao 

I de Lisboa para o Oriente 228 Náos, e 20 Caravelas, 
das quaes arribarão ao Porto da sahida 12 Náos , se* 
guindo viagem 216, e todas as Caravelas. Perderão-se 
á ida 28 Náos (6 d*ollas com toda a genre), c 3 Ca- 
ravelas. Na torna-vÍE»gem pcrdcraa-se 19 Náos, inelu^ 
sas 1 1 com as suas guarnições. Cada hiana destas Náos, 

Sue vottAva da índia, vinha importando em hum mi* 
ião de cruzados, 

A 21 de Jur>ho de 15:5^7 fallcceo nos Paços da Ri* 
ira ElRei D, João IIL 
1522. — Neste anno partirão a 15 d'Abril (i) sá- 



rÇi) Vede Faiios, Dccada j. Liv. 7. Cap. 7. — Clironica dElRel 



874 



nirnte três Náos, de que erão Commandanres D. Pedro 
de Cíiítetlo Branco, no S. Miguel; Diogo de Mello, na 
Conceição; e D. Pedro de Castro, na Nazurcth, huíM 
das maiores Niios daquelle tempOj mas já mui vdhj* 

D. Pedro de Casrello Branco chegou a Goa t lo 
úc Agosto^ levando a prin*eiia infaasta noticia da mor- 
te d*KlRei D, ManoeL Os outros dois Commandan- 
tes invcrnárao em Moçambique, c sahinJo para Goa 
no anno seguinte, perdeo-se ancorada na b^rra dcsia 
Cidade a Nao Nazareth, salvando-se toda a gcnx^, 

1$!^* — Mandou EÍRei aprestar huma Esquadn 
€Íe seis Náos da carreira, e dois Galeões (r), da qual 
deo o commando a Diogo da Silveira, que embarcoti 
na Náo Siílvador; e os outros Commandantes erão D» 
António de Almeida, no Santo E^^pirito; Pedro da Fon- 
ceca , na Loba ^ Heitor da Silveira, na Burgalexa; Ai- 
res da Cunlia , e António de Abreu era outras deu 
Náosj Simão Sodré, no Galeão S.João, com destino 
a Ormuz j e Manoel de Macedo em outro Galeão^ ijiie 
devia ficar servindo na índia. 

Ena Esqu.idra sahio de Lisboa cm duas di?is6e5, 
a primeira de cinco navios a 9 de Abril; e a 3 de Maia 
a segunda composta do navio do Chefe, e os de Heitor 
da Silveira ^ e António de Abreu. Estes dois ulrimoi 
Comraandantes chegarão a Goa a salvamento. Dos 



D. João Hl., Parte k dp. J4. — Couto, Decadi 10. Cap. |i6b -* 
Fr. Manoel Homem , Memoria da Disposiqao das Annas C»it> 
CafK )2. — Extracto da» Armadas , etc. FollKto cKrito («^(10^0 m 
dh) pelo Doutor Jor^e Coelho, Lisboa I7i6. 

(i) Ff» Mairoel Homem, na obra já citadg, — Tírros , tVcadb )* 
Liv. 7. Qp. 9, — Couto, Decíídm 10, C«p. i6. — Extracto <Ut Af* 
madas já citado, — Faria , Ásia Portu|^ía. *- Pedro Btrreto de lU* 
2^nde, no Epilogo manuscrito dos Více-Rcb, etc. escrito cm i^ff. 
— Chronica dÈlRci a João 111. Parte i, Cap. 46. - Castaillifdi, 
I.iv. 6. Cap. 4S. — Náo actiei o numero de Soldados que eU4 Efjiidra 
levou. 



I 
i 



m 



875 

^ Simão Sodré foi a Orniuz ; D, António de Almei- 
da, e Pedro da Fonceca a Chaul; e o resto invernou 
em Moçambique, cm cuja entrada se perdeo Aires da 
Cunha /salvando-se a gente, e a carga da Náo- 

1J24. — Este anno partio para a índia o seu Des^ 
oibridor, com Titulo de Vice-Rei, o Almirante Con- 
de da Vidigueira D. Vasco da Gama (i). Constava a 
Esquadra de sete Náos grandes da carreira, três Ga* 
Uó^y c cinco Caravelas, huma redonda (hum Patacho), 
e quatro Latinas, levando de guarnição, e transporte 
três mil soldados (2) , de que liuma grande parte erão 
Fidalgos, ou Cavalleiros, e Moradores da Casa Real; 
além de hum reforço de Artilheiros, e marinheiros para 
guirneccr as embarcações daquelle Estado. Embarcou 
o Vlce-Rei na Náo Sanca Catharina, a mesma que con- 
duzio a Sabóia a Infanta D. Brites. Coramandavão as 
Náos, D. Henrique de Menezes, o Roxo, Affonso Me- 
xia, Pedro Mascarenhas, Lopo Vaz de S. Paio, Fran* 
cisco de Sá, Francisco de Brito, e António da Silveira 
de Menezes. Erão Commandantes dos Galeões , D, 
Fernando de Monroy, Fidalgo Hespanhol ^ no S. Jor- 
ge; D. Simão de Menezes, e D. Jorge de Menezes; e 
das Caravelas, Lopo Lobo, na Biscainha; Pedro Ve- 
lho, Christovâo Rosado, Ruy Gonsalves, e Mosem 

k 

^M (í) Barros, Decatfa i, Liv. 9. G»p, 2. Faria c Sôuia , na Fcr- 

^wopa^ e Mh l^oftugueza -^ Fr. Matiocl Honreoi , no lugar acima cita- 
I^Hlo. — Jorge Coelho 5 no Extracto já rncncionado. — Oiroiiica d'EiR«í 
^9b, Jcãollf* Parte i. Cap. 5S. - Caitanh^da, Liv, 6. Gap. ju-^ Cou- 
to, Dccada 10, Cap. 16. — Este^ Escritores variáo nos nomes dos 
Com mandar» tes , e nuiiicro dot naviof* 

(1) Anionio Vaj«na, nji s*a Chfonicíi mariuscfir.i d'ElRei U Se- 
ba^ttio, áh í]ue nesta Esquadra hião 27CO Soldados; c que se dcspen- 
«lerio soojy efmãdoç ^obre o €^11^ citsTava ímwã Esquadra ordíniiría; 
vonica cio mesnio Rei, atrríbuida a 1). Manoel de Wenezcs, coo- 
f<Ofda C0QI eJie aa Faite 1. Cap. 12, 



376 

Gaspar, namral de Malliorca, nomeado Condestavel Mór 
dos Artilheiros da índia» 

A 9 de Abril s.ihio de Lisboa o Vice*ReÍ, caduca- 
do tempos favoráveis, ancorou com roda a Esc^uadra 
em Moçambique a T4 de Agosto, Depois Je renc^rar 
a sua aguada, parrio para Goa, cm cuja travessa não 
foi ião Feliz, porque Francisco de Briro desappareceo, 
6cm saber-se como; e D. Fernando de Monroy tiaufira* 
gou nos bnixos da Cosra de Melinde, salvando-sc toda 
agente, bem como a Caravela de Cliristovâo Rosado* 
O Maliiorquim Gaspar ceve mais trágico 8iicce$so; por» 
que escandalizados da sua áspera condição o Mestre, c 
o Piloto da Caravela, subIev;ín1o contra elle a guarni- 
ção, e o assassinarão, cujo horroroso attcntado pagarlo 
depois com as vidas. 

Em Setembro chegou o Vice-Rei á Costa da In- 
dia, onde fez o que direi na segunda Parte destas Me- 
morias. 

ifiy, — A Esquadra , que este anno se aprestou pi» 
xa a índia (i), constava de seis Náos; com ni anda vi-a 
Filippe de Castro, embarcado na Náo Corpo Santo; 
os outros Commandantes crao Diogo de Mclio^ 00 Pa- 
raizo; D, Lopo de Almeida, na Flor de la Mar^ An* 
tonio de Abreu, na Flor da Rosa ; Francisco de Anaia, 
na Vicroria; e Vicente GIL Armador^ na sua Náo Sao 
Miguel. 

A 25 de Abril se fez á vela Filippc de Castro , c 
na sabida dn Barra naufragou a Náo Victoria, de qie 
SC salvou roda a gente. As cinco seguirão csp.^lliadas 1 
sua viagem, c dobrarão o Cabo de Boa Éspcraci^i, 

(i) E«rTOf, Dccuda j, Liv% to. Cap. 1. — > cie Birrrto yj c^ 

lavIcK — Farid^ na Ásia Porltif;uez<u -* Fr. '' ^-imciiit ji roí^ 

ciooactov -- Extrocro djs Armadas mencionada, — Cjiuj«ijie<di , t.rv.4. 
Çap. 12$. — Qiramca de D. João UK por FcancÍKO «ic Aiidóir, f^ 
te 1. Cap. ig. 



877 

«cepto António de Abreu , c Vicente Gil , que achan- 
do^e a sotavento da Costa do Brasil, peia má navega- 
ção que fizerâo, arribarão para Lisboa. 

Filippe de Castro, correndo pela Costa da Africa 
Oriental com intento de ir a Ormuz, por não poder to- 
mar Goa, foi encalhar de noite no Cabo de Rosalgate^ 
Unto por erro do seu Piloto, como pela falta da boa 
-vigia , cpie devera ter. A Náo ficou inteira, c mandan- 
do elle afretar hum navio ao Porto de Calaiate, em- 
barcou-se com a sua guarnição, e parte da carga , que 
salvou, e foi-se para a índia- As outras Náos chega- 
rão a salvamento. 

I5'25r. — Neste anno succedeo o caso lastimoso de 
D. Luiz de Menezes (i). Sahio est^ Fidalgo de Goa 
na Náo Santa Catharina , e seu irmão D. Duarte de 
Menezes na Náo S. Jorge, com destino para Portugal. 
Entrarão ambos era Moçambique, e depois de repara- 
rem os seus navios de algumas cousas, que necessitavão, 
saliírâo, e navegarão separados. D. Luiz nunca mais 
appareceo. 

Passados annos, morreo em França hum Piloto 
Portuguez, que lá residia, deixando ordenado em seu 
testamento, que se entregassem a ElRei de Portugal seis 
mil cruzados, que elle lhe devia das fazendas que lhe 
tocarão da Náo de D. Luiz de Menezes, a qual fora 
tomada vindo da índia. 

No anno de i^i^i andando Diogo da Silveira 
com huma Esquadra de guarda costa , aprisionou hum 
Corsário Francez, e huns homens da sua equipagem 
lhe descobrirão em segredo, que o seu Capitão era ir- 
mão do Pirata, que tinha tomado a Náo de D. Luiz de 
Menezes na Cvjsta de Portugal, e assassinado toda a 
gente. Diogo da Silveira fez tratear o Capitão do Cor- 

(0 Chronica de D. João IIL Parte i. Cap. 67. 

48 



37Ô 



sarlo , o qual confessou , que era verdade achar-se elle 
com seu irmão na romadâ da Náo, dizendo que cila 
mesma se havia entregado, por fazer tanra agua, qoc 
<e estava inJo a pique ; c que do melhor que acharia 
nella , carregarão o seu navio, que era pequeno, e de- 
pois deitarão fogo á Náo com toda a geme dentro, 

Diogo da Silveira ficou tao encolerizado cora esfa 
narração j que sem querer conduzir a Lisboa os prisio- 
neiros , como devia fazer , os punio de morte* 

l$i6, — Sabendo El Rei da morte do Conde Vke* 
Rei, por hum expresso que lhe enviou por terra (i) D. 
Henrique de Menezes, seu succcssor, o qual chegm J 
Portugal em Outubro do anno antecedente , mandou 
apromptar huma Esquadra , sem lhe nomear Cofntnan* 
dante em chefe, Compunha-se esta de cinco Naof^de 
que erão Coramandantes Francisco de Anaia ^ Tristíb 
Vaz da Veiga , na Flor da Rosa; António Galvão, oo 
Espinheiro; Vicente Gil, na sua Náo S. Miguel, c Aa* 
lonio de Abreu. 

Quatro destes navios sabirao de Lisboa a 36 <Íé 
Março, e António Galvão a 16 de Maio* 

Tristão Vaz, e Francisco de Anaia passáiáo fOt 
fóra da Ilha de S, Lourenço, e chegarão a Cocbím t 
salvamento: António de Abreu ^ c Vicente Gil iotená^ 
rão cm Moçambique. 

António Galvão, chegando a Guiné, gastou per» 
^e quarenta dias a bordejar pela Costa, fazendo bonbs 
curto?! j sem avançar quasi nada, a pezar das insciMiaf 
qut fez ao $eu Piloto para- que seguisse o bordo do 
mar, onde lhe alargaria o vento em se desabrigando 
da terra; mas o Piloto nâo queria ceder, c 

(v) Barros, Liv* 1, Cap, Ó. Pedro Barreto na obn dtd 

Fâfia, na Ásia Portugueia. — Fr, Manoel Homem, na Relação fi 
cionada, ~ Extracto das Armadnf, — Chronica de D. João IIL ^1 
te 2. Cap. 9. -- Cauto, Década 4, Cap. 9. e J>ecada lo. Cjtp^ t6» 



879 

llgumas fracas razões , que António Galvão lhe recebia 
'pelo não depor do seu officio (i). 

Andando neste inútil trabalho, fallou no fim de 
Junho a lujma embarcação Portugueza , que vinha de 
S. Thomé para Lisboa^ cujo Mestre , e Piloto, vindo 
& seu bordo, disserlo que lhes parecia melhor arribar a 
Náo a Portugal, por ser tarde para pa$sar á índia, 
pois apenas se achava em Cabo do Monte. Cora esta 
noticia se alvoroçou a gente, e cufou requerer a An* 
totiio Galvão, que arribasse ^ a que elle não annuio. En- 
tão os dois Officiaes da embarcação de S. Thomé acon- 
selháTÚo ao Piloro, que tomasse desde logo o bordo do 
S* O. para dobrar o Cabo de Santo Agostinho, o que 
elle fez , pedindo perdão do seu erro ao Commandan- 
<e, CO vento lhe foi alargando á proporção que se 
amarava. 

António Galvão, que parece tinha melhores prin- 
cípios de Navegação do que elle, romou d'ahi por dian- 
te o cuidado de observar o Sol , e cartear as milhas; 
€ o seu ponto era tão exacto, que crendo o Piloto, e 
outras pessoas terem já passado as Ilhas de Tristão da 
Cunha, elle affirmou que nâo, e com eíFeito npparecê- 
fão na mesma hora, cm que linha dito se haviáo ver. 

Da altura de 39'' a que chegarão, forão em deman- 
da do Cabo de Boa Esperança , que dobrarão no mee 
de Setembro, António Galvão queria emprehender a 



(O Naquelles tcmpcs era quasi aKsolota a authorlílade dos Pilotos 
€in tudo íjuanto dizia respeito á NaNegacão ; o f]ue se jtil«rava assim 
if^cMsafiOj pbr en^barcai-em muitas vez^s de Comniandaiit^s pessoas de 
pmfisíõe^ mui alheas da Arte Náutica; tudo consequcnciii da íaita de 
hum Cor\yo de Ofíiciaes de fthritiha (como já obsctvci nrstas Memo- 
wusy^ de que se tirassem os Ccjmmaudanies, e Subalternos para guar* 
Itectr os navios da Real Coroa ; f.ilta queproduiio funestos resultados^ de 
qne me proponho tratar em hinTia Disíertatao , ou Memoria «eparída , 
-fotíúc cabât em huma simples Nota o. que tenho a óii^t lu isateria* 

4 b li 



soo 

Viagem por fóra da Ilha de S. Lourenço, e o Pilote 
instava que fosse invernar a Moçambique, dizendo a 
todos, que pir aqucUe ciminho encontrarião muitas caí- 
marias , em que morreriío de fome , e sede, ou se per- 
derião nos muitos baixos, que havião achar; o que amo- 
tinou quíísi toda a gente contra o Commandante, que^ 
rendo-o forçar a ir a Moçambique; e ainda que o Mes- 
tre da Náo Estevão Dias recusou entrar neste conloio, 
o Piloro teve a audácia de ordenar se seguisse o nimo 
para Moçambique; e quando vio que António Galfâo 
estava firme na sua resolução, lavrou hum Termo, era 
que lhe emcampava o navio, por lhe tirar o exercício 
do seu cargo, e lhe requeria da parte d' ElRei fosse ii^ 
vernar a Moçambique. 

António Galváo , desprcsando todos estes prot^ 
tos, sustentou a sua authoridade, e seguio a derroti m 
por fára da Ilha , em que teve alguns venros contra- ■ 
rios , e outros favoráveis ; e nos fins de Outubro se 
achou entre as Ilhas Maldivas, Como cilas mo baixas^ 
€ se vião algumas restingas pela proa , assustou*^ a 
guarnição, e o Piloto, que ja havia reconhecido a fui 
culpa, desanimou outra vez. António Galvão subio á 
gavia com o Mestre, para dalli descobrir melhor o ci- 
nal, e foi rodeando os baixos, que erSo de pedra fi- 
va , e davão indícios de haver fundo bastame ao pi 
delles; é ao pôr do Sol déo alguns nros de peça^ aos 
quaes sahio de huma das Ilhas huma Almadia guaroc- 
cida de quinze homens, cm que vinha hum velho, Cbc- 
fe da mesma Ilha , que lhe disse liia bem navcgandcr, c 
o acompanhou até pela manhã, que sábio d^eoire alfl 
Ilhas. ■ 

Daqui seguio a sua viagem, e a ry de Noten3lm> 
ancorou em, Cochim , onde achou as Náos de Tostão 
da Verga, e Francisco de Anaia. 

1527, — A Esquadra , q^ue ElRei mandou. c$íc ân» 



sai 






no á índia (i), constava de cinto Náos : era seu Che- 
fe Manoel de Lâccrda, embarcado na NJo Ccnceição; 
os nitros Coirmandantes crão Aleixo de Abreu, na 
lebaslianai Ralthasar da Silva, na Flor de la Mar; 
nspar de Paiva , no S. Roque ^ e ChrUtovão de Meu- 
onja, em outra Náo, 

Sahio a Esquadra de Lisboa a 26 de Março, e 

guio a viagem mui derramada. Eahhasar da Silva, e 

ispar de Paiva chegarão a Goa a 7 de Setembro; e 

hristovao de Mendonça a 15 do mesmo. Manoel de 

Ij^acerda , e Aleixo de Abreu, que navegava nas suas 

íiguá5, encalharão de noite, por culpa do Piloto do Che- 

>j em bum baixo defronte da Bahia de S, Tiago, na 

osía Occidental da Ilha de S, Lourenço^ que situarão 

m IQ 30' de Latitude (2.)* 

As guirniçòcs das duas Náos , ao favor das janga- 
as que construirão , pozerão-se em terra , e levantando 
um enirincheiramento , em que recoJhírao as armas ^ 
uniíjõep, e mais efFeitos que poderão salvar, começarão 
negociar com os Negros j troc.mdo géneros por man* 
mentos, que erio escassos naquclk parte da Ilha; e 
Tta esperança de vir algum navio Poriuguez, que os re- 
cebesse a bordo, se conservarão hum anno , sofrendo 
uilas fomes, e miscrias* No fim deste lapso de tem- 
app;ire:eo hum dia a Niío de António de Saldanha, 
esgarradri da Esquadra do Governador Nuno da Cu- 
nha , e os naufragnlos accendcrao essa noite grandes fo- 
gueiras^ desenhando huma Cruz, para significarem que 



Ç^O ^'- Manoel Homeirr, no lu^ar cftaifo. — Conto, Década 4. 
Liv, ], Cap. ç. e Década 4, Liv, 5. Cap. a, - PedfO FaTteto, no Iti* 
jar citado. - Chrnnica de D. João Hl. Farte 2. Cap. 21. — Extracto 
8aç Armadas já citado,— Faria, Aíia Pomigue?.». — Barros, Vecanâã,4^ 

(1) Talvez o Rio chaimdo SaogQ pelos Ingkzcs, em 21° de ktt- 
Ilude SI 



estavíó áli Christáo^ perdidos* Antttnio de Saldttkx, 
(entendendo o signal, po2-se á capa, e logo que aoMh 
Aheceo, foi no bordo da terra , ma» nSo ousem ckègai^ 
se, por nSo ser conhecida; e por oito dias repetio a 
• mesma manobra, indo de noite no mar, e de 4it nli 
terra , esperando que viesse alguma embarcaçSEo de i?i» 
so. Parece que por fatalidade não lhe occorreo, queov 
naufragados podião náò ter em que sahir ao mar, pojB 
náo o fí^erão no primeiro dia da sua Chegada; eqob 
assim <rumpria*lhe a elle mandar a sua lancha bati 
^(larnecida a saber que gente era aquella, e a sondar 
juntamente a Bahia. Por ultimo succedeo o qtie ae de- 
via aíitever , sobreveio huni máo tempo, qoe o obrigm 
a seguir viagem. 

Os miseros naufragados, vendo-se tão crueltiente 
abandonados, e julgando que não tornaríão a veraquci- 
le anno outra Náo, por não ser frequentada aquetiá Gai- 
ta, nem tendo meios de sustentar-se até ao antio leguiJl- 
te, resolverão, por sua desgraça, atravessar a liba n 
sua largura, e irem estabeiecer«se na contra-^oòsta^ fxir 
onde passavão as Náos, que por fora da Ilha tomavto 
o seu caminho para a índia. E formando dois corpos 
dos trezentos Portuguezes, que ainda exisriâo , comiMl- 
terão o erro de marcharem divididos, e mui poucos 
delles apparecêrão depois , como em seu lugar nofatei. 
Suppoz-se que os Negros do sertão , conhecidos por 
bárbaros, os matarão, talvez por falta de disciplina, e 
boa ordem , que foi sempre a causa dos desastres aços- 
tecidos ás guarnições dos navios naufragados, de que 
citarei exemplos ^ assim como do que fizerão alguns 
Commandantes em casos similhantes. 

Mez e meio depois de partidos dali os nauíragi* 
dos, chegou o Governador Nuno da Canha com pariiB 
da sua Esquadra, e só achou hum ^grumete, que iicoa 
por estar doente no momento em que os seus cooipa- 



■jilieiros w pczerao cm marcha , do qual soube o que 
^dxo refericio* 

Neste mesmo anoo mandou ElRei a Diogo Bote- 
lho Pereira (i) por Commandante de hum navio, com 
_prdem de correr a Costa da Africa Oriental , desde o 
~ ibo de Boa Esperança até ao das Correntes, para sa- 
Qf noticias de D. Luiz de Menezes, que desapparecê- 
vindo da Índia no anno de 1525: ; porque alguns na- 
vios chegados a Lisboa tinhao dito, que na paragem do 
"^abo das Correntes virão de noite em terra fogueiras 
fm cruz, que criâo serem feitas por naufragados; pO' 
fém Diogo Botelho náo achou , nem podia achar no- 
ras de D» Luiz, pelo que atraz deixo dito; e indo a 
Lelinde , se encontrou com o Governador Nuno da 
lunha. 

1^28* — Noticioso ElRei das desordens da índia (a), 
procedidas da temeridade com que se tinha aberto a se- 
cunda Via das Successões daquelle Governo, o que deo 
pau^a ás contestações entre Pedro Mascarenhas, e Lopo 
"^az de Sampaio; e sabendo ao mesmo tempo por car- 
as de Veneza, que os Turcos prepara vao huma grande 
^Armada em Suez para invadirem o Oriente, elegeo 
wr Governador da índia a Nuno da Cunha, Vedor da 
''azenda, de quem fazia a maior confiança ; e fez apres- 
ar huma forte Esquadra, capaz de arrostar os perigo- 
>s inimigOa que se esperarão na Ásia. 

Constava ella de nove Náos, hum Galeáo, hum 
lavio ligeiro para expedição de ordens, e duas Carave- 
)s carregadas de víveres ^ e muaições de sobreccUcnte, 

(i> Couto, Dfcada 4, Liv, 6. Cap. k 
- (a) Fr, Manocj- Homerrv, na obra já citada. — Extracto das Armar 
das mencionado. — Castanheda, Liv. 7. Cap. 8ç c seguintei, — Cou- 
to, Década 4» Liv. 6. Cap. }. e Década 5» Cap. 1, c seguintes, — Fa- 
lia» Ásia fortug:ueza Tomo j. no fim. — Pedro Barccto no seu Epi» 
— ^ Ghiopjca ÓÁ D, João 111. Patie 2. dp. 47. 



3d4 

EmbarcíírSo-se duzentos mil cruzados em moeda de ou- 
ro pnra despezas da índia. As tropas de transporre, que 
dèvião íicar ali servindo^ excediao a rrcs mil horatfns, 
em que enrraviío muitos Fid.UgOF, e Moradores diOsa 
Real, que concorreria tí íilisrar-se logo que soobcrlo 
da giirrra que se esperava com os Turcos. Hin tam- 
"bem Jmm cerro numero de marinheiros para guarnece»- 
rem os navios da índia (i>. 

Em Março estava a Esquadra ancorada cm Bel 
esperando tempo conveniente para faliir. Nuno ca 
nha embarcou ema Nao Flor da Rosa; os demais Com- 
ji^andantes erao Simão da Cunha, seu irmão, na Nio 
Castello» que devia exercer na Índia o Posío de Gcl)^• 
ral do Mar; Pedro Vaz da Cunha, outru irmão seu, 
na Santa Carharina; Garcia de Sá, na Victoria ; D, Fer- 
nando de Lima, no Espinheiro 5 D. Francisco de Éfa, 
no S« Tiago; Francisco de Mendonça, no Monserratc; 
João de Freiras, na Biscainha; António de S-^V^^-ha, 
na Ajuda (2); Bernardim da Silveira, no C , c 

Affonso Vaz Zambujo no navio Ligeiro, de que era 
também Piloto. Com manda vão as duas Caravelas Gas- 
par Moreira, e Luiz de Araújo* 

f^ * EIRei foi assistir alguns dias em Bclem para coo- 
cliiir os últimos despachos , e deo hum longo Regimen- 
to a Nuno da Cunha, no qual lhe mandou, alem de 
outras muitas cousas , aue fizesse logo huma Fortaleza 
em Dio, por ser da maior importância occupar aquclk 

(i) Ptfdro Farrtfto, que teve boas informações das causas àoOntm* 
te, diz qiie foríío qujtro mil homem; o mísmo â\i Couto; Qat«Dèe* 
da só falia em três mil, e outrm Escritores em menôt. 

(i) Nesta N:^o Uh embircado Dioito Feniandei de Cafrinbeéi, pi- 
snetro Oiividof tia Ctdade de Goa, que levava com %i%o a Fcrnio li^ 
pes de Castanhedrk, seu f\ÍUo^ ãO qual tlRei manda%a liajar fui lodAi 
para depois escre^^er a Hinofi^i; c se demorou no Oriente perto de án 
nono*!, correndo quast todos aqudles Paiics ate it MoJucai, como 4 
crcvc Diogo de Couto. 



385 

posrO| antes que os Turcos se apodera<:scm delle, pof 
estar a barlavento da Índia ; e construísse outra Forta- 
leza no5 Estados do Çamorim , onde lhe parecesse me- 
lhor : E que no caso dos Turcos entrarem na índia, 
reunisse era Goa todas as forças marítimas do Estado , 
e os fosse buscar onde estivessem , para llies dar bata- 
lha- Igualmente lhe ordenava, que remettesse preso pa- 
ra Portugal a Lopo Vaz de Sampaio, pondo em de- 
posito os seus bens, 

A i8 de Abril sahio de Lisboa Nuno da Conha, 
e navegando a Esquadra toda reunida, menos o Galeão , 
que se apartou em sahindo da barra, hum dia pelas dez 
horas da manhã, arucs de chegar a Canárias, a Náo de 
Simão da Cunha, estando na esteira da Biscainha, Com- 
mandante João de Freitns , seguio tanto avante, que lhe 
deo duas forres pancadas na popa , com que a abrio lo- 
go , por ser velha ; e em cousa de huma hora foi a pi- 
que, sem dar mais tempo que a deitar fora o escaler, 
em que se mettco João de Freitas com onze homens, 
abandonando fracamente a sua guarnição, que no es- 
panto e consternação de tão súbito desastre se poz em 
desordem, huns tentando desempachar a lancha para a 
deitarem fòra^ outros alijando ao mar os páos, caixas, 
e capoeiras de que podiao lançar mão; e como todos 
querião para si estas bóias de salvação, travarão huns 
com outros, e houverSo muitos mortos» e feridos, Si- 
mão da Cunha atravessou logo, e acudio com a sua lan- 
cha , e efcaler: o mesmo fizerão os outros Commandan- 
tes quando virão subraergir-se a Náo, que só então co- 
nhecerão o caso, e ainda salvarão muita gente, aíFogan- 
dose comtudo cento e cincoenta pessoas , entre as 
qtiaes causou mais lastima hum homem casado , que le- 
vava sua mulher, e três filhas meninas; e não querendo 
abandonallas , nem as podendo salvar, abraçados todos, 
entregues á Misericórdia Divina, passarão á Eternidade ! 

4y 



O Pilòto da Nao Biscainli;^ fque escapou) nao foi 
castigado, posto que se lhe atiríbuía toda a cuJpa, por 
não ceder o passo a Simlo da Cunha, OíHcial de nia^ 
representação do que João de Freitas (i)* 

Nuno da Cunha , seguindo a sua viagem , ancofim 
na Ilha de S. Tiago, onde fez agua, e descarregou as 
Caravelas, que remetreo para Lisboa, escrevendo a ElRei 
os successos occorridos. Cuidava elle acliar nesta Ilha o 
Galeâoj que sem motivo apparente se tinha separado da 
Esquadra; mas não aconteceo assinij porque o seu Com- 
mandante Bernardim da Silveira, seguindo o permci(»o 
exemplo de outros muitos, queria chegar primeiro à In* 
dia ; e continuando a sua derrota , dobrou o Cabo de 
Boa Esperança, e indo buscar Moçambique, o seu Pi- 
loro ignorante varou no pareci de Sofala , era que se 
affcgou muita gente, c os Cafres assassinarão o nrsio. 

Sahiíido Nuno da Cunha da Ilha de S. Tiago, 
achou muitas calmarias na Costa de Guino; c como a 
Náo de António de Saldanha andava pouca, reqiiere» 
rão*Ilie os Pilotos que a deixasse, o que elle fiau Os 
Officiaes de António de Saldanha, vendo-se abandona^ 
dos, tanto andarão com a carga para avante^ e pira ré, 
que acertarão com o compasso da Náo, e começoa.a ao» 
dar bem, ajudada com continuada força de vela; e en- 
contrando-se depois com D* Francisco d^Eíja, forao de 
conserva. 

Nesta derrota acharão o Governador acompanhado 
das Náos de seu irmão Pedro Vaz da Cunha, c D. Fer- 
nando de Lima, e do navio de Aifonso Vaz Zanibtijaw 



(t) Kmboi os PílotOf merecido o mab severo castigo; por ^uMiio^^V 
attida que o Piloto da Biscaiaba , peU sua bo(,ál i^norjuicii dos ptinci» 
jpíçi da subordiíiaçáo mijitar-nival, fo^fe a causa primaria de Imo funo» ^ 
to acontecimento, o feii erro não autliorizava O FílotO de Síniio ^^^| 
Cunha para abordar a outm Náo ; por consequência fea-^é respooBVfi^^ 
pcla« munes I e perigos «que dalU le «e^utráo. 



MJ 

Goreritador folgou muito com o encontro destas duas 
íáos, e indo na volta do Cibo de Boa Esperança , lhe 
leo hum temporal do Sul, que durou huma noite e hum 
^13, e efpalhou a Esquadra. Acalmado o vento , reunio- 
se outra vez ., e a 6 de Julho» estando na altura do Ca* 
bo, sobreveio outro tempo do Sul, que durou vinte e 
quatro horas, ficando as Náos á capa. No quarto d*al- 
va, crescendo cada vez mais o mar, e o vento, arriba- 
rão lodos, menos António de Saldanha , por ser o seu 
Davro novo^ e passíida a fúria da tormenta , continuou 
n sua navegação. Dobrado o Cabo de Foa Esperança , 
achou tempos mui ruins, e foi avistar a Ilha de S.Lou- 
renço na paragem do Rio de S* Tiugo, onde estavão 
CS naufr,igadas das Náos de Manoel de Lacerda , e Alei- 
xo de Abreu, que lhe rizerao os signacs, de que já fal- 
/ei» Deste Rio continuou a derrota com tantos traba- 
lhos ^ fomes, e sedes, que lhe adoccco quasi toda a gen- 
te, e morrerão perto de sessenta pessoas: por ultimo 
chegou a Cochim nos fins de Outubro* 

O mesmo acontccco a Garcia de Sá , que se apar- 
tou do Governador depois da sua sahida de S. Tia- 
go ; e navegando só^ esteve quasi perdido no Cabo dé 
Boa Esperança com o temporal, que as outras Náos sof- 
frerão. E tomando o seu caminho por fora da Ilha de 
S* Lourenço, padeceo cmeis fomes, e sedes, de que lhe 
niorreo muita gente; e a 17 de Outubro chegou á Cos- 
ta de Malabar, tendo a bordo huma única pipa d'agua. 
D. Francisco d' Eça , Francisco de Mtndonça, é 
Aflrbnso Vaz Zamhujo chegarão juntos a Moçambique, 
e á entrada se perdco no Ilheo de S* Jorge o navio dó 
Zambujo, salvando-se toda a gente. Neste Porto esta- 
va Simão da Cunha, e nclle invcrnárao todos* 

O Governador, quando amainou o temporal, achou- 
SC com as Náos de Pedro \^az da Cunha , e D. Fernan- 
do de Lima; e navegando com máos tempos ^ e calma- 

4D ii 



3Ô6 



rias, nos fins de Outubro vio a Ilha de S. Lourenço 
para fazer aguad.i, de que tinha necessidade, surgia 
boca do Rio de S* Tiago , onde recolheo o grumete 
Náo de Aleixo de Abreu , que lhe contou o seu naufra 



na 



gio 



como deixo referido. 



Passados quatro dias, estando as lanchas em terra, 
sobreveio hum vento de travessia , com o qual a Nio 
do Governador , que estava sobre huma ancora , come- 
çou a garrar, c aiíida que largou seis ferros que tinha, 
de fiada lhe aproveitarão ^ por ser o fundo mais para a 
terra cheio de ratos de pedra, que cortavão as amarras; 
e assim foi encalhar em huma restinga , e abrio pela 
fundo» enchendo-se logci de agua até á coberta. As ou- 
tras duas Náos aguenrarão-se melhor, por estarem so- 
bre fundo limpo, e terem boas amarras de cairo, que 
por muito elásticas tem vantagem sobre as de línlio em 
certas occasiocs. 

As lanchas nao poderão sahir do Rio, por haver 
n^uito mar, senão no dia seguinte que o vento abcMiiii* 
çou: e o Governador passou a noite com toda t guar- 
nição sobre a tolda e Castellos da Ndo, onde fez de- 
positar o cofre do dinheiro, e tudo quanto se p6dc ti- 
rar da coberta i e em chegando as lanchas, e escaleres, 
passou para bordo de seu irmão com parte da gente, e 
o resto mandou para a Náo de D- Fernando de Umi* 
Salvarão*se também as antenas, aparelho, e artilheria dl 
tolda, e convéz, e queimou-se a parte do casco a qyeo 
fogo píide chegar. 

Completada a aguada , partio deste funes^to Rio i 
IO de Novembro , resoluto a seguir o Canal de Mo- 
çambique, contra a sua primeira idéa de rodear por !&• 
ra de S. Lourenço; e numa noite, fazendo*fe comi 
Ilha de Zanzibar, sentirâo-se peno de terra, e surgirão 
logo. Ao amanhecer virão-se meiridos entre esta llh;à' 
ç muitos baixos^ de maneira que não podião distioguii 



3ad 



^or 



e rinhão entrado, nem por onde poderião sahir , 
arrebentando em torno das Náos por toda a parte o 
jnar em flor. Os Pilotos emmudeccráo» e nesta extremi- 
dade mandou o Governador á Ilha em hum etcaler o 
Capitão da sua Guarda Manoel Alachado , para dili- 
genciar hum Pratico; mas os Negros o receberão ás pe- 
dradas, e frechadas, com que matíírão hum grumete, 
e ferirão doi?* O Governador enviou eotão na lancha 
a Pevlro Vaz da Cunha com vinte e cinco homens , to- 
dos Fidalgos, e Cavalleiros, os quaes entrarão na Al- 
deã, sem acharem pessoa alguma, porque os Negros em 
os vendo fugirão para os matos. Pedro Vaz determinou 
armar-Jhes íiuma cilada, para a qual se offerccerão os 
dois irmãos Diogo de Mello , e Tristão de Mello^ que 
com hura creado seu chamado João Rodrigues, se dei- 
xarão ficar emboscados próximos da Aldca^ e Pedro Vaz 
retirou-se com a lancha para bordo, tendo ajustado com 
clle« vir de noite buscallos. 

Com cfFeiro os Negros ao anoitecer^ vendo que a 
lancha se retirara, vierão merter-se na Aldca , e quiz 
a Providencia, que hura Mouro velho, o melhor Piloto 
daquella Costa , viesse esbarrar com os três da embos- 
cada, ao qual Diogo de Mello tomou nos braços, e ta- 
pando-lhe a boca, o levarão todos á praia, e se embar- 
carão na lancha, qce já os esperava. O Governador, 
louvando a intrepidez de Diogo de Mello, e seus com- 
panheiros, e o relevante serviço que acabavão de fazer, 
amimou o Mouro, que no aia seguinte conduzio as 
Náos seguramente por hum estreito c íortuo^ío canal, 
c as foi ancorar no Porto de Zanzibar; recebendo por 
isso tantas dadivas do Governndor, que se lhe ofFcrecco 
para levar a Esquadra a Mombaça, onde queria inver- 
nar, por se assentar que era tarde para passar á índia, 
e a invernada em Melinde ser muito arriscada^ por fai* 
ia de Porco. 



S0O 

Em Zanzibar, por set* terra abundante, e maif^ 
ddia, deixou o Governador duzentos doentes entregue 
a Aleixo de Sousa Cliichorro, com todos os aprovÍ5Ío»1 
nanicíitos necessários ; e fazendo-se á vela com duas Nãos, í 
foi dar fundo era Melinde, cujo Monarcha o reçcbcaj 
com o agazalho que costumava fazer a todos os Poit« 
guczes ; e aqui achou a Diogo Borelho Pereira, de qi 
atraz falleL 

Mandou o Governador pedir licença ao Rd dej 
Mombaça para invernar no seu Porto, por nao havcri 
outro tão seguro em toda aquella Costa; de que cllesfj 
escusou, receando que fosse isto artificio para se apod^j 
rar da Cidade, O Governadorj picado da desconf 
determinou por conselho de todos, entrar cm Mof 
ça por força; e participando a sua resolução ao R< 
Meiindc, este lhe deo oitocentos Mouros para serfireml 
naquelta empreza, e huma Na veta para levar parrc <^e^ 
les; embarcando os outros no navio de Diogo Botclhori 
os Soldados deste Oflicial , e os das Náos erâo oiroccn* 
tos homens, tudo gente limpa, e bem disposta. Com 
esta Esquadra sahio de Mclinde Nuno da Cunha, c oo 
dia seguinte pela manha surgio fora da barra de Mom* 
baça, a qual mandou sondar por seu irmíío em haiBi 
Jancha armada. Este entrando pelo canal, achou boii 
fundo, e no mais estreito delle estava hum Baluarte coti 
oito canhões , que lhe fizerâo fogo , sem lhe aam 
damno; e seguindo avante, ancorou diante da CidadC| 
e fez signal á Esquadra de ter bom ancoradonnv 

O Governador em entrando a viração, levou »- 
cora j e foi surgir onde estava a lancha , recebendo de 
passagem o fogo do Baluarte, sem lhe responder, ptrt 
mostrar que vinha de paz. Por esta mesma cau^a c$p^ 
rou o resto do dia, e noite, na esperança dcque Iheríe^ 
se alguma mensagem do Rei, com que ajustasse amtgt* 
velmente a sua invernada naquelle Porto. Mas o Rei^ 



391 

longe desse pensamento, aproveitou- se da demora para 
despejar a Gdade, ficando nella só com a gente de 
guerra, recolhendo-se o resto dos moradores com o que 
puderâo levar, para hum sitio distante huma legoa. 

Desenganado o Governador de que lhe cumpria 
usar das armas para obter quartéis de Inverno seguros, 
tornou a mandar de noite seu irmão a reconhecer os lu- 
gares opportunos para o desembarque, o que elle fez ; e 
ainda que sentido pelos Mouros, que lhe ferirão alguns 
homens de frechadas, correo toda a frontaria da Cida- 
de , e nella achou huma praia , que lhe pareceo azada 
para o interno, posto que seria necessário desembarcar 
com agua pela cintura. Porém o Governador teve logof 
outra melhor informação por hum Mouro, que veio a na- 
do de terra, e indicou hum local abaixo da Cidade, em 
que as lanchas poderiâo pôr a barba em terra : além 
disso noticiou-lne que estavão nella mais de três miF 
homens com huma única bateria de seis peças diante de 
huma das portai, commandada por hum Renegado Por-^ 
tuguez; e que era tal o terror nos Mouros, que enx 
vendo os Portuguezes desembarcados , fugirião todos. 

Sobre estas noticias resolveo o Governador desem-- 
barcar no dia seguinte onde o Mouro dizia , servindo^ 
elle de guia ; e formando em dois corpos toda a tropa ^ 
o primeiro de seiscentos Portuguezes, em que entravao 
duzentos espingardeiros coramandados por Fernão Cou- 
tinho, a que se aggregárão trezentos Mouros de Me-' 
linde; e o segundo do resto da gente, deo o comman- 
do daquelle a Pedro Vaz da Cunha , acompanhado de 
Manoel de Albuquerque, e dos dois irmãos Mellos, e 
tomou para si a direcção do outro, em que hião D. Fer- 
nando de Lima , e Diogo Botelho Pereira. 

Aa amanhecer desembarcarão as tropas sem peri- 
gp , nem resistência no ponto que o Mouro marcou , e- 
ao som de pifanos, e tambores, e as bandeiras desenro^ 



392 

ladas, marcharão para a Cidade, dlrjgindo-se á bateria 
avançada, onde estava o Renegado, que em disparao-jj 
do alguns riros sem pontaria certa , fugio com rodos oíj 
defensores para a Cidade , que ficou deserta , porque o 
Rei seguio o seu exemplo. 

O Governador aposentoií-se nos Paços, e cercoiuj 
deenrrincheirainentos com seu fosso aquella parte da Ci- 
dade, em que podião alojar-se commodamentc as 
pas, estabelecendo os postos avançados necessários: c: 
dando-se depois busca ás casas, se achou muito ouro» 
dinheiro enterrado , de que alguns iicárão ricos. O Bi-sj 
ItLirte do mar foi tomado por assalto i e todos os scii$_' 
defensores nioríos^ ou cativos^ em cuja acção ficou inor^ 
talmente ferido de huma seta hervada D. Rodrigo de. 
Lima , irmão de D. Fernando de Lima. 

Concluído isto, que era já nos fins de Dezembro, ^ 
o Governador escreveo a ElRei por Diogo Botelho Pe- 
reira , que expedio para Portugal, onde chegou emJu-« 
nho do anno seguinte, 

O Rei de Mombaça tinlia tomado posição a meia 
legoa da Cidade, e d*aU fazia correrias para incommo-i 
dar os quartéis dos Portuguezes, que não deixirão de 
lhe sahir ao encontro; e de huma destas cscaramgfiS- 
sahio ferido D- Fernando de Lima, Havia o Govcrnadon 
determinado atacar o campo dos Mouros , e para saber < 
quaes erão as suas forças, encommcndou a Diogo de Mel* J 
Jo a tomada de algum prisioneiro; o qual acompanbl-^ 
do de Christovao de Mello, e de outros dois Soldd^í 
dos, sahio de noite da Cidade, c foi-se emboscar pa^ 
to do alojamento dos inimigos, onde se encontrou co* 
alguns; e querendo trazer vivo hum que tomou ás oiSoSv^ 
não lhe foi possível, pelos grandes brados que davi, 
com que o campo se alvoroçou, e Diogo de Mello, 
matando o Mouro, trouxe hum braço ao Govemadcc 
para testemunho do que fizera. Este rebate atemorizoa 



S93 






^s Mouros de iHãncira , que nlo tornarão mais a in-^ 

quietar os Portuguezes em quanto ali se demorarão , 

rue foi até ao fim de Março de ^$1^^ em cujo espaço 

ic tempo morrerão de febres trezentos e setenta Portu- 

ezes , entrando neste numero Pedro Vaz da Cunha ; 

o que seu irmão sentio por extremo* 

As trcs Náos da Esquadra , que invernárão em Mo- 
çambique, de que erao Cominandantes Simno da Cu- 
jihaj D, Francisco d* Eça, e Francisco de Mendonça, 
era entrando os Ponentes, fizerão-se á vela com Inten- 
ção de correrem a Costa até Mombaça, para saberem 
novas do Governador, deixando enterrados em Moçam- 
bique quatrocentos homens, que fallecêrão de enfermi- 
dades ; c nos fins deste mez de Março surgirão fora da 
barra de Mombaça, trazendo a seu bordo Aleixo de 
Sousa Chichorro, e a genre que cora elle ficara era Zan- 
zibar. O Governador folgou muito com a sua vinda, 
mas sentio a noticia que lhe derão da perda dos navios 
de Bernardim da Silveira , e de Affonso Vaz Zambujo; 
e chamando a concelho todos os Comraandantes , c Pi- 
lotos da Esquadra, se as-entou, que não convinlia arris» 
car-se a atravessar o golfo da índia no Inverno daquela 
k clima com tamanhos navios; e que era mais segura 
passar aquelíes mezes em Ormuz; e cm Setembro, que 
começa o Verão, vírem buscar Goa, 

Estando o Governador para partir ^ recebeo cartas 
de Lopo Vaz de Sampaio, que lhe trouxe Sebastião 
Freire^ Commandante de huma pequena embarcação; 
3ID qual expedio logo com resposta; esahindo de Mom- 
baça com a Esquadra , chegou a Mascate , onde desem- 
barcou os muitos eaferinos que levava, e foi a Orraur 
sò com as Náos de Simão da Cunha ( para a qual se 
havia mudado), e a de D. Fernando de Lima, deixan- 
do as outras naquelle Porto. 

Para ênalizar os acontecimentos desta infeliz via* 



a94 

gem direi aqui em siimma , que de Ormux m^odôii o 
Governador a Simão da Cunha com alguns navios, emj 
que lev.^va trezentos homens, os mais dclles Fidalgos, 
e Cavalleiros, para reduzir á obediência do Rei áeOr-» 
muz a Ilha de Babarem ^ que escava rcbelliida» cm oija 
expedição morrerão quasi todos os Porruguezes de enfer- 
midades; e Simão da Cunha, ainda que escapou, falle- 
ceo em breves dias da paixão que lhe causou este tnácij 
succcsso. De maneira que esta Esquadra de Nudo da 
Cunha, antes de chegar a Goa, perdeo quatro navios, e' 
Hiil e seiscentos homens* 

1528. — Poucos dias depois de partir de Lisboa 
no da Canha, chegou António Tenreiro, tiomeml 
bre, que o Governador de Ormuz Christovão de Meu»] 
donça mandou por cerra com cartas a ElRei , psMki^ 
pando-lhe não só haver desarmado em Suez a E9qiidfs| 
Turca, mas também as desordens civís, que Rací Xa- 
rafo promovia em Ormuz. António Tenreiro fahk» I 
daquella Ilha a 20 de Setembro do anno antecedenrc, ©i 
chegou a Lislx)a em Maio deste anno de 1528 dV 
Apresentado logo a ElRei com o mesmo vestido d^jor* 
nada, se dilatou cora clle largo espaço, por ser horacd 
muito instruido nas cousas do Oriente ; e sahtrKlo do Pa- 
ço já de noite, o atacarão no Rocio alguns homens dcs^ 
conhecidos, que o deixarão por morto com dezascic et»- 
tiladas^ e estocadas. Sentio ElRei , como he de presih 
mir, ião atroz attentado, e ordenou ao Cirurgiã© Mor 
u iratnsse como a sua própria Pessoa, As maiores díB* 
gencias da Justiça nunoi poderão descobrir os aggreisc^ 
res, António Tenreiro escapou das feridas , potro ate 
ficou sempre enfermo os annos que viveo, gozando diS 
mercês^ que El Rei ilic hz* 



(i> VcL^e a Relação, que o iDCsmo Tenreiro f\uhlícou dt 1 



99S 

ãn sua chegada c 
BS Náos de torna-viagem da Índia ^ em que vinha Ma- 
noel de Macedo, que ElRei conhecia por homem va- 
loroso, e determinado (adiante contarei o modo com 
que se comportou era Inmi naufrágio), c mandando ar- 
mar hum Galeão, lhe dco o commando, com ordem de 
se dirigir ao Estreito Pérsico, e logo que o embocasse^ 
abrir huma Instrucçao sellada, para executar o qbe nel- 
hí se continha. Esta Instrucçao era para prender Raes 
Xarafo, e o con luzir a Lisboa. Tristão da Cunha, pai 
de Nuno da Cunha, assustado do objecto da coramis- 
sáo de Manoel de Macedo, empregou iodos os meios 
|)05:sivei3 para penetrar o segredo; porém vcndo-os bal- 
dados, escreveo ao filho a notável carta, que traz Dio- 
go de Couto (i). 

Manoel de Macedo sahio de Lisboa em Outubro, 
e sem lhe acontecer na viagem novidade alguma , en- 
trou no Estreito da Pérsia, fez aguada dentro do Cabo 
Rosalgãte, onde abrio a sua Iiisirucção, c ali soube es- 
tar Nuno da Cunha em Ormuz, para onde partio logo. 
ifi^. — A Esquadra que este anno foi a índia (2), 
constava de quatro Náos ria carreira , com quinhentos 
soldados: era comraandada por Diogo da Silveira , em 
a Náo S. José; e os outros Commandnntes Ruy Gomes 
daGran, na Flor de Ia Mar; Ruy Mendes de Mesquita, 
CIO S. Jorge; e Henrique Moniz Barreio, na Conceição. 

Sahio a Esquadra de Lisboa a z d* Abril. Nave- 

(1) Filho Nuno, la vai hum mancebo çm huma Náo mui apressa- 
do por maud4vÍ3 ci* ElRei: tumca pude sab^r ao que vai , dtfixa-ílie f*- 
WST tudi> o que ElRei munda, sem lhe ire^ á mão a coisa alguma; 
iTian^a píiíicnia , c deica-te a dormir. Couto, Década 4, Liv, ç. Cap, 8» 

(2) f r, Wanoel Homem , na obra jà citada, — O Extracto das Ar- 
]na<U« acima nacncionado. — Castaniicda, Lie, 8, — Faria, Ásia Por- 
tugucza Tomo j. no íim, — Pedm de Barreto no seu Kpi!o2:o já meu* 
ckmaJo. — Cbronica de D* Joio 111. Paitc !• Cap. ja. — Couto ^ l>e- 
cada 4«. Ljv. 6* Cap. 6« 

âO li 



S«8 

gou sempre unida, e sem lhe acontecer desastre algum 
nem llie morrer ninguém, á excepção de Henrique Moí 
niz Barreto; e ancorou em Goa a 24 de Agosto, coni 
a gente tão bem disposta^ como se levasse quinze diii 
de viagem, 

1530* — Neste anno mandou ElRei á Índia ancci 
Náos (i) da carreira ^ sem nome^ir Chefe ^ que ãs gom 
vernasse em corpo de Esc|u.idra. Os Com mandantes crSfl! 
Fernão Camcllo, na Náo Ajudít; Francifico de Soust 
Tavares, no S. Tiago; Luiz Alvares de Paiva, na SaiH 
ta Barbara ; Manoel de Brito, na Vicroria ; e Pedro L(H 
pes de Sampaio j no S- Bnrtholomcu (2). Estas Nios 
partirão de Lisboa desde 15 de Março até 9 de Abril , 
€ chegarão a Goa em Setembro (3). 

Depois destas Náos sahio Duarte da Fonceca poc 
Commandante de dois navios, o seu que era embarci- 
ção redonda, e huma Caravela Latina com mandada por 
seu irmão Diogo da Fonceca, Levava a conimissão de 
correr os Portos da Ilha de S. Lourenço, para basear 
noticias da guarnição das duas Náos, que disse havercd 
ali naufragado. 






CO Couto, Decatír* 4* Liv^ 7, Capitulo* 1. e a. — Ci3rtiib«di 
tiv, 8, Cap. 28. — Earrtfto no Epilogo já. citado. — Oironic* dç IX 
Joio III. P;ute 2. Cap* 64. — EwiActo dns Arm^dus já mçnciociaiia* 
Faria, i^a lugar ciudo. — Barros, Cacada 4, Liv.. }, Cap, a. € Ufm 

(2) Por estas Ni c^ mandou ElRei ardem ao Goireftiador Hbno ^ 
Cunlw para remetter preso a Po tuí^ii) ao Vedor da Farenda AÍTonsõM^ 
xin, principal naotof dai escandalosiis conre«ta^>tfS cmw Pedia Ma^j ^» * 
nhai e l^po Vaa de Sampaia O iuvcntario qu« tr í<9 óoê bem fifr 
SP lhe api ehend^r^o , constava dt tmtíú ptdrarm , ftçst de smr^^ # fff 
1^, ttUotifúf ^ t úuivaí cqHúí rJcaii Vedo Couto, Dc^ftda 4^ Lur* 7* 
Cap. 2, 

(O CaUonheda- du- no- lugar citado, que estai Náot ttvetio má 
ruim viagem; que três chegarão a Goa em Outubro, t rxitni ^Cmst^ 
t^ot cm tiíovcmbfo, com muita geiítc motta , e outra doente; misDi^ 
{0 d« Couto I e Ptdto laireto de Reunde e»cr^«ecQ o cotilcvAOk 



i 



S9Í 

Duarte da ronceca chegando á Ilha de STLatireri- 
"ço, enrrou em huma grande B^hia (de que se náo sa- 
be o nome), e indo para terra na lancha, afFogou-se 
conn outros dez homens. Depois desra desgraça (a quasi 
todos os navios, que forao examinar os Portos desta 
llha^ soccedêrâa desventuras), continuou Diogo da Fon- 
ceca a reguir a Costa, e ancorou cm hum Porto, onde 
TIO muitas fumaças* Aqui recolheo quatro Pormgue- 
2es, e hum Francez: dos primeiros pertencia hum á 
Náo de Aleixo de Abreu, e os três i de Manoel de 
Lacerda; e o Francez (i) a hum navio daquella Na* 
{i(o^ que naufragara na mesma Ilha. 

Estes naufragados disserâo, que no sertão existiao 
outros muitos, que era impossivcí sahirem dali. Diogo 
da Fonceca, passando-se no navio de seu irmSo, foi pa- 
ra Moçambique, deixando no Porto a sua Caravela 
por fazer muita agua, ou abandonando-a talrez por es- 
sa caufa , pois não appareceo mai«* Em Abril do an- 
uo «eguinre de 15-31 , sahindo de Moçambique para a 
índia , foi a pique na altura da Ilha de Socotora , não 
se salvando pessoa aiguma j e só por alguns papeis acha» 

(r) Kí> tnno de IÇ19 pnrt/ríío de Dícpe três, Bacios Francezes piir» 
m liidiA: hum na ifra^ou m í\Ua ác S. [«ourciico, a cuja equipa^env 
pritcocia Cite bom^rm ^ oitra, de que era Capitão, e Piloto hum Por» 
tu^uet de afHx-lífdo Ro/adij, pcrdcõ-sc Da Ilha de Samatra ; c o tercei- 
ra» fbí rsf a Dír> c^í-n qwarenr:í homenj. Era seu Capitne, e Pifoto outro 
Frirttifiicr cf»amâdí^ H»t^v$o Úm Erfgíí, que pot crimes fu^ira^ de Por* 
lurai, O Governador Mouro de Dj*> preii.íçO pOf artificio tcdof a Fran» 
ccf^St ^ Oi raii£tted á Corttt do seu Sobcraiio ^ onde t;juasi (odoí se fi- 
icfáo MaKmefanm, c acb.^rjo mil, 

Neite atmt-í de 1 ^ }o partio d^- In<rfatx'trt bmn navio chimadci Pau* 
1* dê Píi-morítb, de 250 ton<*laJa«, de ciic efa Capitão Cujlbcrme- 
Hawkíit^^ armado n \xia prf?pria custa,, e fci 9 primeifa viagem da sua 
Nt<;^o ão Braiil , f;u^ c^mrKetciar cnm os Itidioc. No inno seguinte fez 
•Ufcn; e dahi por diante continusiráo n foglezet a frcqmoíar a$ Con» 
taf, e Cofonidf de Portugal, (Historia do KTasil de RobciCoSouthe/^ 



399 



dos em caixas, qiíe o mar lançou na lííia , se cotilieccaF^ 

o successo da sua viagem- 

Em Maio do mesmo anno de I5'30 partio de Lis* 
boa Vicente Pegado» crcado d'ElRei , nomeado Go?er- 
nador de Sofala e Moçambique, com hum navio, era 
que elle hia, e huma Caravela commandada por BiU 
tliasar Gonçalves; cujas embarcações erão destinadas a 
anJar no trato de Melindc para Sofala, A Caravela ar* 
ribou a Lisboa. 

iJ50# — ElRel D* J<^ão lU. detc considcrar-sc co- 
mo o Povoador do Brasil , que até á época cm que su* 
bio ao Tlirono, estava só em parteí; reconhecido, e cm 
nenhuma povoado ^ porque as guerras da Índia, e as al- 
tas esperanças que dava o seu Commercio, attraliiao fo* 
da a atíençao dos Portuguczes para o Oriente. A9 espe- 
culações mercantis forma vão então o espírito domínaiv 
te do século, e cada século tem seu espirito p4rticula£r^ 
que o distingue dos outros, EiRci pensou sabiameruc, 
que huai Paiz táo ferti! > lâo extenso^ cheio de boof 
Portos, como o Brasil, cuja navegação era muito me- 
nos longa , e difficil que a da índia , merecia toda d saa 
consideração, e o emprego das providencias mais coo* 
▼enientes para estabelecer nclle Colónias, que pouop e 
pouco domesticassem os seus selvagens habitantes , c 
praticando a agricultura, se utilizassem dos produaoi 
de huma terra virgem , e das preciosas madeiras de to- 
da a espécie, que ofFerecião os seus antiquissimos bos- 
ques, cm muitas partes á beira d*agua. 

Como era impossível, que o Erário podcssc fiirer 
face a hum projecto gigantesco, que exigia enormes dcs- 
pczas, formou-sc pelos annos de 153 1 , pouco niais oa 
menos, hum plano geral de ColonisaçSo, que abraogii 
desde Pernamouco até ao Rio da Prata, demarcando, c 
dividindo toda aquella immcnsa Costa em Capitaniit 
de cinooenta legoas de frente cada huma ( houTC 



^f:^.rfvi ' ^^^^^^ com lium fundo íllimitado^ 
pi xido O Continente. Estas Capi- 

fanlas tieo El Rei era differemes épocas, desde 15:32 em 
diante, debaixo de certas condições, e de juro, e herda- 
de, is pessoas que cinhao meios para estabelecerem ali 
Colónia* á sua própria custa (i)* 

Para dar principio a este systema mandou El Rei 
«este anno de lyjo a Martim Aftbnso de Sousn^ do fcu 
Conselho, de cuja capacidade fazia grande estimação^ 
por Commandante de huma Esquadra , cem a qual pa^ 
TCce que ellc encorporou alguns navios afretados á sua 
cusM , em que se embarcarão- algumas pessoas offereci- 
das para povoarem o primeiro estabelecimento Colonial, 
aue fe hia crear no Brasil j attciidendo a que Marrim 
Aífonso de Sousa levava Insrrucçoes para examinar a 
Costa ^ que corre do Gibo Frio no Rio da Prata^ e eri- 
gir íiuma Colónia onde melhor lhe parecesse , com au- 
thoridade de conceder cerras de Sesmaria aos que as qui- 
zcssçm cultivar (2). 

A Esquadra sahio de Lisboa depois de 20 de No^ 
ipembro» e m sua viagem encontrou alguns navios de 
Corsários Francezes, de que tomou hum- No primei- 
ro de Janeiro de 1531 chegou á boca de huma vasta 
Bahia, a que dco o nome de Rio de Janeiro; e Martim 
Affoiíso de Sousa , nao ousando aventurar a Esquadra 
cm hum Porto desconhecido , surgio fora , e de^çembar- 
caodo em huma praia adjacente a hum notável penhas» 
CO (o Pao de Assucir), explorou o P.iiz, e fez por mar 
outro reconhecimento com lanchriS armadas, cm que 



(O AtsiíT) comra tfa C*rta d' ElRtí a Martíni Aífonso, data<Í3 de^ 
lifboa s V* de íercmbfo de 15 ji, Toino ú, pa^. ji3 dis Provas á 
Historia Genealógica. 

Çâ) Vej.tí>5e as Memorias par» a Historia da Capitania de S* Viccn» 
lè» t^eln (>if respondente da Academia Real das Sc ícii cias j Fr< Gaspar. 



400 



jveio a conhecer, que lhe não convinha arrlfcar hum^ 
[pequena Colónia era íerra tão povoada de índios iVro-j 
[íe5, e guerreiros- 

Deixando pois o ancoradouro, proseguio cosieando^ 
Ipara Oesrc; vio as barras da Tijuca, e Guaratiba, des-í* 
|çobrio a Ilha da Marambaia , e logo outra, a que cha 
[moii Ilha Grande, e avnnte desta entrou cm huma gran-^ 
[de Enseada, a que deo o nome de ybigre dos Reii^ po^ 
Iser a 6 de Janeiro. Salvindo desta Enseada, conrtnuou' 
[a eximinar a Costa até chegar no dia 20 a huma Ilhj,i 
que por essa causa cliainoii de S, Sebasiiãú\ c a lífc 
írdescobrio hum Porto, cm que entrou, eo appclHdoiH 
^Rio de S. Jlcente^ por cuidar que o era; c descinbjr*' 
cando em huma Ilha, construio hum Forte para sua de- 
fensa. Este Porto he o que ^e chama iiojc Parto de Sjtf* 
tõSj e a Capitania, que por muitos a nnos conservou a de-^ 
nominação de S. Vicente, tomou em 1710 o nome ck 
S. Paulo. ' I 

Nao pertencendo a estas Memorias â Historia for- 
mal das Colónias do Br.isil, direi aqui somcme, que 
Martim Aífonso de Sousa teve a fortuna de achar csti» 
belecido neste Paiz hura Portuguez chamado Joio Ra- 
malho, que havia muitos annos habitava entre os Indioi 
Guaianazes, c se achava casado com a filha de Tcby* 
reça, poderoso Cacique dos Campos de Paratininga, coo 
o favor do qual fez paz, e alliança com este Cacique, A 
a qual foi extensiva aos índios de outras Aldeãs. * 

Ficando com este Tratado em segurança a Colo» 
ma (que se mudou depois para melhor local) cxpedio 
Martim Affonso de Sousa para Portugal o navio rrw- 
cez, que aprezira, com todos os prisioneiros , escretei^- 
do a ElRei o que lhe havia succedido; e sahio com i 
Esquadra a reconhecer a Costa do Sul, segundo Iheor- 
denavão as suas InstrucfÕes , em cuja derrota JescobrMi 
todas as Ilhas ^ Cabos ^ e Bahias^ pondo Padr6cs 



40Í 

tiiclhor lhe pareceo, como signal da po^sc que trimàv£ 
daquelles Paizes para a Coroa de PonugaL O primeiro 
Padrão foi collocãdo na pequena Ilha da Cardoso , de- 
fronte da Cananéa; e havendose perdido a lembrança 
dcllc, se descubrio em Janeiro de 1767. Em 30** de Ia* 
tirudc Sul achou hum Rio, que se ficou chamando do 
seu nome; e na Ilha de Maldonado, situada oa boca 
do Rio da Prata, assentou o ulrirao Padrão; e enrran- 
do por este Rio, perdeo hum navio, que varou em hum 
*baixo. 

Concluído este reconhecimento, que se não sabe 
coro certeza até onde se estcndeo, voltou para S, Vi- 
cente 1 e por duas Caravelas chegadas de Lisboa soube 
<jue El Rei lhe havia dado huma Capitania de cem le- 
goas de Costa, e outra de cincoenta a seu irmão Pedro 
Lopes de Sousa, Panioelle logo em pessoa a reconhecer 
o Paiz onde estava, esubio a grande serra de Faranapia- 
caba, em cujos campos se construio mais de vinte an- 
nos depois a Cidade de S. Paulo ; e por ultimo deixan* 
do à (joionia bem guarnecida , regressou a Portugal em 

ifji. — A Esquadra destinada este a nno para a índia 
foi de seis Náos (i), e custou a aprestar pelos grandes 
terremotos que sotFreo Portugal , os quaes causarão im- 
mensâs perdas em Lisboa, e nas Povojçoes situadas pe- 
las margens do Tejo até Sentarem, Nâo nomeou ElRei 
quem a governasse em chefe. Embarcarão nclla mil e 
quinhentos Soldados, e erao Comniandanres dos navios 
Achillcs Godinho, na Náo Castello; Manoel de Ma- 
cedo, na Esperança ; João Guedes, na Santa Cruz; Ma- 
noel Botelho, na Vera Ouz; Diogo Botelho Pereira^ na 

O) Couto s Decacia 4. Liv. 7, Ctp, 9, ^ Fr. Mmoe] Homem ^ na 
èbri ^i ctuda. — Oironicí ái D, JòSo 111. P^irte 2, Cjp. 75. — Fedro 
r^ ' cítatíoí ^ Costmitoda, Lív. S* Cap, 43. — Faria^ 

ã^~ ^ - ■■ Aiiu ' ,. ... 

51 



40» 

'Trindade ; e no^* Miguel o Doutor Pedro Vaz do 
ra! , Corregedor da Corte, nomeado para Goverfiid< 
de Cochim, e Vedor da Fazenda ReaU 

Manoel Botelho, e Dingo Botelho Pereira leyaTâoj 
Gommissao para irem á China, cuja viagem se ikío ve- 
rificou, por estarem entiio os Portos daquelle Imperic 
fechados aos Portuguezes i e voltando ambos no aur 
seguinte para Lisboa com carga de especiaria, desaj 
parecerão no caminho^ 

Sahindo a Esquadra de Lisboa em ao d*Abril^ar 
libou a ella o Doutor Pedro Vaz: as outras cinco Nác 
chefrárão a Goa com prospera viagem , menos Manoe! 
de Macedo, que por igaorancia do seu Piloto, foi va^l 
rar em huma restinga da Ilha dos Jogues^ dencfo doj 
Cabo Comorim, sem saber por onde hia. Porem ' 
noei de Macedo, conliccendo onde estava, deseml 
na restinga, que era de arca, e se fortiticou com 
pressa com pipas, c madeira que tirou da Náo, c\ 
a bom recado os mantimentos , e aguada , por tabcr que ' 
era Cakcare, lugar na terra firme fronteira i Ilhi, ha- 
bitavão os Mouros Naitcas, desaforados ladrões*, c, 
preparando o seu escaler, escreveo ao Governador de] 
Cochim, pedindo-lhe nn vios, em que se retirasse. 

Correrão logo pela Cosra as noticias deste nauf 
gio, e todos os Mouros de Calccare, e mais PovoaçÔdl 
circumvisiiihas » reunindo as suas embarcações^ tierSo 
atacar os Portuguezes : e cercando a restinga, ccmeçirio 
a bater o campo coíb muiia artilheria, tentando dc3Cii>- 
barcar para levareni de assalto as trincheiras* Mano<t 
^e Macedo, hum dos mais intrépidos Olficlaes do icu 
tempo, defendeo-se por dez ou doze dia:?, era qoc 9C 
repetirão os ataques, até que chegou o ^occorro deO^ 
chim, composto de duas Caravelas, e outros vaiof ine* 
Bores, á vista do qual desapparccerao os Mouros; c 
Manoel de Macedo se embaKou com toda a gciitt, u* 



tílliêríá , múíilçoes , dinheiro , e mais e^ícõT da 
deixifldo ali só o casco queimado. 

15-32. — A pezar dos soccorros de dinheiro, que 
ElRei forneceo ao Imperador Carlos V. para resistir na 
Áustria ao formidável Exercito Othomano, saliio este 
anno para a índia a 10 de Abnl (i) huma Esquadra 
de cinco Náos, commandada por D. Estevão da Ga- 
ma, fillio do Conde D. Vasco da Gsma, embarcado na 
Náo Ajuda* Os outros Commandantes eríio D. Paulo 
da Gama j irmão de D. Estevão , no S, Tiago ; o Dou- 
tor Pedro Vaz do Amaral, no S. Miguel ; António de 
Carvalho, no Reis Magos; e Vicente Gil, na Náo Gra- 
ça, de que era Armador; hia nelfa embarcado D* Fr, 
Fernando Vaqueiro , como Bisno de Anel do BÍ?po de 
Angra, cuja jurisdicçSo comprelicndia nesse tempo a ín- 
dia toda, 

Niivegou a Esquadra espalhada , como fuccedia 

3uasi sempre, Qiiatro Náos tomarão Goa nos princípios 
e Setembro, mas D Estevão da Gama, varando Mo- 
çambique, foi a Melindc, que também não tornou^ e co- 
mo tinha urgente necessidade de agua, seguio para Soco- 
^Ofá. A força das correntes o afastou da ilha, e por for- 
tuna cliegou a Xael, Cidade aberta, na Costa de Farta- 
xjue, cujo Regulo, amigo do Estado, lhe mandou quan- 
tidade de refrescos. Como a Náo es!ava a pouca distan- 
cia da terra, c a lancha havia de ir fazer agua, D. Este- 
vão erabarcou-se nella com D. Manoel, e D. Fernando 
de Lima , para ver a Povoação , ficando a N:io a bor- 
dejar. Em quanto porem se enchiao as vasillrjs, saltou 
o vento ao Levante mui rijo, com que a Náo se vio 
forçada a correr com elle em popa; e o único Porto 
que pôde aíFerrar, foi Moçambique, com infinito tra- 

Çt) Fr. Manoel Homem, na Rcbcão já mencionada, — PecJfo Bar- 
fçto, no Epilo^^o citido. — Conto, EÍecaih 4. Lw* 8, Cap, a. - Qiro- 
íikè de D, João UK Farte 2* Cap. 77» — Faria, Asiá Portugueu* 

51 li 



4M 

bâllio, c a maior parte da gente morta. D. Christoví^ 
da Gama, irmão de D. Eítevão, que ficou a bordo 
a pezar dosseos poucos anno?, concorreo multo para sal- 
var o navioj animando, e confortando a guarnição para 
soffrer com valor as necessidades que padeciâo todos. 

D- Estevão da Gama , passados dois dias, determi- 
nou ir buscar a sua Náo, cuidando que a achasse pe/â 
Costa, e mcttendo-se na lancha carregada de agua, e 
refrescos, sahio de Xael ; mas não a vendo, e dizendo- 
se-lhe que estaria em Socotorá , dirigio-se a esta Ilha 
onde não a achou : e como os Levantes devião durar 
ate ao Inverno j por parecer dos Officiaes de Nauríci, 
que híão na lancha^ seguio a Costa para Melinde^c foi 
fazer agua a Magadaxo, cujo Regulo, sabendo que ellè 
era filho do Almirante Descubridor da índia, lhe vela 
fallar, "e fez grandes oíFerecimentos. D. Estevão lhe pe- 
dio huma embarcação maior, aamarinhada ^ com il* 
gum Piloto Pratico, que o levasse a Melinde, o que a 
Kegulo llic dêo logo, e muitos refrescos; e chegado a 
Melinde, soube que a sua Náo tinha sido vista cm der* 
rota para Moçambique. Nesta Cidade estava NuooFcr* 
nandes, Official Portugucz, que lhe deo huma Fustl 
bem preparada, na qual em poucos dias chegou a Hc^ 
.çambique , e ficou na sua Náo esperando a monção pt- 
ja passar á índia, 

ryjj. — Sabendo EIRei pelas noticias da índia, que 
o Governador Nuno da Cunha tinha dado prjncipÍ0 i 
em preza de Dio , fez apromptar seie Náos para lhe 
mandar de reforço, as quaes dividio cm duas Eíqui- 
dras. Sahio a primeira (r) de Lisboa a 4 de Mirjo 
^^ íf33í composta de quatro Náos, commandada pof 
D.João Pereira, na Flor de la Mar, os outros Coia* 

CO Vede Couto, Década 4. Liv^ 8* Capuulot 7 e ic\ — ^ Fsb^ 
i^a Ásia, tomo í. — Pedro l^rrcco no seu Epilogo. - Chioo^ i]*£IIUi 
D- João 111. ?4itç 2, Csip* í;, - CaslaiibcUa^ Uv. S. Cip. ^s* 



405 

m^ndanfes erâo Vasco de Paiva, na Santa Barbara ; Dio- 
go Brandão, na Sanu Clara; e D, Francisco, ou D. 
Diogo de Noronha (que de ambos os modos he nomea- 
do) no S. João. 

A segunda Esquadra partio era Aferil : era seu Cl>e«- 
fe D. Gonçalo Coutinho, na Náo Sirne; e os outros 
Comraandantes Simão da Veiga, no S. Roque; e Nu- 
no Furtado de Mendonça , no Bom Jesus, Estes três 
navios chegarão em Setembro a Goa, 

A Esquadra de D, João Pereira teve prospera vía- 

Íjem até ao Cabo de Boa Esperança, onde com hum 
ur?cão soçobrou a Náo de D. Francisco de Noronha , 
sem escapar ninguém, talvez por ignorância, ou descui- 
do do OíHcial que naquelie. momento critico se achava 
mandando; as outras Niqs espalharão-se. 

D. João Pereira^ vencida o parcel de Sofala, ç 
açhando^se con> as Ilhas, quiz esperar pelos outros na- 
vios: o Piloto^ e o M.çstre disserâo^lhe, que arrias^ 
todor o pannOj e António, Galvão , que Iiia de passagei- 
ro, e entendia melhor a navegação , oppoz-se a este 
conselho, querendo que se aguentassem velejando, por- 
Gue as aguas puxav^o muito para a Costa; e assim se 
fez^nessa noite» Mas rendido o quarto ás quatro ho^ 
ias, que o Cbeife^e, António Galvão se recolherão, lo- 
go. o Piloto, e o Mestre pozerão a Náo em arvore se^ 
ca , e fbrão-se deitar a Sòrmir nos seus camarotes. A's 
seis boras deo a Náo duas fortes pancadas com a qui- 
Jha ,. e deitou o leme fora , em consequência das correa- 
tes a terem levado para terra. A este ruido acudirão 
todos acima, julgando-se perdidos; o Mestre, e o Pi- 
Joto ficarão como pasmados ; huns queriâo matallos , 
outros romavão caixas, capoeiras, e páos para se bota- 
rem ao mar; e o Chefe, com a espada na mão, reser- 
Tava a lancha para si. Nesta* revolta , e confusão geral, 
António Galvão com grande accordo mandou largar o 



406 

iraqitete, e como a Náo foi seguindo psra o mar, dcS 
toLi o prumo , e achou oito braças , e depois dez ^ em 
que surgio (i). Entretanto amanlieceo, e ciiegáráo as 
outras duas Náos. Examinidn a bomba, vio-se que a 
Náo ftízia agua; e como Moçambique distava quaiorzc 
legoas, e o tempo era favorável, fízerao-se á vela, te^ 
vando a lancha na proa com hum reboque, para mdhor 
governo; e todas as três Náos entrarão em Moçaínm 
que, onde o Chefe se reparou, e foi tomar a barra dt 
Goa em Setembro com a sua Esquadra. 

Depois de sahidas de Lisboa estas duas Esquadra, 
chegarão da índia as Náns de torna-viagem do innú 
aiuecedente. e sabendo ElRei o máo successo do ata- 
que de Dio , mandou immediatamenre aprestar outr^ 
Esquadra, para a qual se recrurárão dois mil homens, 
c partio nos princípios de Novembro (2) debaixo djf 
ordens de D* Pedro de Castcllo Branco, composta èt 
dois Galeões , o S, JoiSo cm que elle embarcou , e oiirm 
command^do por André de Castro; e dez óravcbs 
Latinas, Commandantes Nicoláo Juzarte, no Samo Es* 
pirite; Balfhasar Gons^Ives, na Conceição; Anioma 
Lobo, na Santa Martha ; Leonel de Lima, no S« Se- 
bastião; Heitor de Sousa^ na Esperança; Francisco Pe- 
reira, na Águia; Gon:alo Fernandes^ na S João; Fra> J 
cisco Fernandes, na Graça; João de Sousa, na Rosa;" 
e António de Sousa em outra. 

Esta Esquadra j ainda que achou algumas calma- 
rias, e ventos contrários, reunio-sc toda em Mofambi- 



(1) Eh-íiqui outro facto, que demonstra as mat cotisequendis ds 
nSo haver hum Corpo iie Ofíícta:;s da ÍVIírinha RcaI ^ a quem le ttítift- 
iu%tm oi cómmandos das eiiibarcaçócs di Coroa ; inatMía tm Aflv fk 
faiiei tnait de huma vez, pela sqa máxima importância, 

(2) O armamciuo desta Ksquadra importou cem mil cruniat, »- 
gundo aíHrma AHtonIo Vajena na sua Civronica maduscrtu d*ElRci A 
^ebascKlo. 



407 

que em Fevereiro seguinte; e sahjndo dali a 15* de Mar- 
ço, chegou á índia no 1/ de Maio* 

if^l* — Neste mesmo anno cercarão os Mouros a 
Fortaleza do Cabo de Guer (i), e abrindo brecha, lhe 
derâo vários assaltos, com que pozcrao os defensores 
em aperto, cujas noticias Fabendo na Ilha da Madeira 
Siínão Gonsalves da Camará, seu Don.Ttarío, acudio lo- 
go a soccorrclla em pessoa cora seiscentos soldados em 
seis navios, tudo á sua custa, os quaes reunidos 4 guar- 
nição, posto que já cânçada, e enfraquecida do contí- 
nuo trabalho, rechaçarão consta nteraeiite os inimigos, e 
os íorçirão a levantar o sitio. 

Após este importante serviço, fez Simão Gonsalves 
da Camará outro nao menor, cmpregando-se com toda 
a actividade em reparar o estrago das baterias, man- 
dando buscar á Ilha da Madeira hum navio carregado 
de cali e por ultimo deixando a Fortaleza reparada, e 
provida com as munições, e víveres que conduzira, e 
nomeado hum Governador interino, por ser morto o 
proprietário, se recolheo a sua casa. 

Passados tempos, achando-5;e este Fidalgo em Por- 
tugal , e sabendo que a mesma Praça estava outra vez 
necessitada de auxilio, escreveo a sua mulher D. Isabel 
de Mendonça, então residente na Madeira, que a man* 
dasse soccnrrer, o que ella fez com toJa a brevidade, 
enviando lhe gente, navios, e munições* 

^5'34' — Este anno mandou El Rei á índia (2) a Mar- 
fim Áffonso de Sousj para General (Capitão Mor) do 
Mar daqueJIe Estatio , com luima Esquadra de cinco 
Káos, edois niit homens de tropa. Embarcou elle em a 

(1) Chrottka de D, João lII. Parte 1. Cap. 32. 

(a) Exructo lias ArmadiH jà citado. ^ Couto , Dfcada 4. Liv. 9. 
Cdp. 1. — Faria ^ ua Ásia Fortugueza, — Pedro Rirreio, no seu Epi- 
logo, — Cist^ifieda , Llv. %, Ca^, 89, — Ctrouka de D, Joáo IIL Pãf- 



áo Rriinha ; o? outros Conimandantes crão Di^go Lopes 
do Sousa, seu irmío, na Santa Cruz; Trifrãa Gomes 
da Mina , ou da Gran, no Santo António; SimSoGut:- 
des, na Graça ; e António de Brita, no S. Miguel. 

Partio de Lisboa a 12 de Março, c aconrecfndo 
depois d i sahida abai roa rem-^e as Náos de Si mão Gue- 
des , e António de Brito , abrio a deste huma apua, 
com que arribou a Lisboa; mas rcpanida brcvcmenre, 
tornou a s.ihir, e ainda chegou a Moçambique antes do 
seu General; e toda a Esquadra entrou em Goa no mtt 
de Setembro. 

No Verão deste anno (i) poz o Rei de Mampcot 
cerco a Çafim com hura Exercito, que se diz $er de 
novenri mil soldados, c vinte mil gastadores, com mtii 
12 artilheria grossa , c miudai e batco furiosamente t 
Praça* O Governador tinha avisado com antecipação ã 
ElReí, que em breve fez apromprar hum soccorro de 
gente, e navios com todas as munições nccessirias ^ o 
qual encarregou a D. Garcia de Noronha ; n>as pnfce 
que nao chegou a tempo de ser util aôs cercados, pof* 
que o Principe Africano, vendo que perdia muita gcii* 
tCj levantou o sitio* 

' if^S* — A pezar das grandes despezas exigidas pift 
a erpedlção de Tunes, que então ^e preparava, mindoQ 
El Rei á índia (2) este anno huma Enquadra de Kte 
Náos commandada por Fernão Peres de Andrade, bum 
^os veteranos da guerreira, e briosa Escola Ponuguezit 
Embarcou em a Náo Esperança; e crão Commandao» 
te? das outras Marti m de Freitas (nome mcmomvel íh 
Historia ' ) , no S, Roque ; Thoraé de Sousa , na Gall«- 
gâj Jorge Mascarenhas, na Santa Clara j Luiz Alrarci 



(i) Chroníca de D. João JII. Parte t, Cap. 90. 
(5) Couto, tkc3ti3 9. Liv. 9. Cap. S. — Fe. Manoel 
Fedra Barreto, Cjiionica de D. Joáo ilL 



40í> 

de Paiva, no Sirnc; Fernão Camelo, no S. Bartholo- 
mtUy e Fernão de Moraes, na Santa Barbara. 

A 8 de Março panio de Lisboa Fernão Peres , le- 
vando dois mil homens de luzida tropa, e muito dinhei- 
ro para despesas do Estado da Índia j e compra de gé- 
neros do Commercio; e sem achar contratempo algum, 
chegou a Goa a 7 de Setembro, 

15^35'. — Constituído Rei de Tunes o temido Barba 
Roxa (1) por ter expulsado do Thfono a Moley Has- 
san , resolveo o Imperador Carlos V. ir em pessoa re- 
«abelecer este Príncipe nos seus Estados, a fim de des- 
assombrar a Itália da visinhança de hum inimigo terrí- 
vel pela siia natural audácia, e pelos soccorros que a 
Porta lhe fornecia. Em consequência começou a preve- 
nir o necessário para a formidável invasão , que medi- 
tava, fazendo armar quantos navios se acharão pelos 
portos de Hcspanha, e de Iralia, e todos os aprovisio- 
namentos de víveres, munições de guerra, e navaes, de 
que se organizarão immensos depósitos cm Barcelona, 
Porto escolhido pelas vantagens da sua localidade para 
centro de reunião de todas as forças de mar, e terra da 
vasta Monnrchia Hespanhola, e dos seus Alliados. 

Era El Rei D- João IIL o mais poderoso destes 
pelas sua? riquezas, c forças maritimas, e o mais in* 
ceressado no feliz resultado daquella emprcza , pela po* 
siçao topográfica de Portugal , e extensão do seu Com- 
mercio. Desde o antio antecedente lhe pedio o Impera- 
dor o auxilio de huma Esquadra de vinte Caravelas, e 
alguns navios grandes, nomeando-lhe expressamente o 



Çl^ Vede Anno Hktoiico , tomo 1, pag, ^48 y^ pa^. 41 1. — Fr; 
AUnoeí Hrvmcm , Capituloi jç tlê n*— Cbronica d'EiRci D, JoáolIL 
¥*ne ^ Oip. %$* — Acenheiro, pag. j6i. — Memoria tio Galtãt) Bo- 
la-Fogo, por Jofge Coelho. — Historia de Carlos V, por Saodoval , 
íoano t, Uv. iz, — Vida do Iiifinte D, Luís, pelo Conde do Vimioso, 
de pa^, }i por diante, 

62 



4\Ú 



ileSo S, Jo3o (i)j bo Bota-Fogo, o môlor navio qt»^ 
então se conliecia na Europa. 

EIRci, an ninado aos rogos do Imperador, raândou 
m'mrir huma Esquadra composta do Giileão S. Jú5a,r 
duas Nios^ e vinte das mcíhores Caravelas^ 
guris Transportes de mooiçoeF, tudo guarnecido de 
mil e quatrocentos Sqldados (2) , alem de muitos Fida] 
gos principaes, que forâo como Voluntários, movidci 
da nobre ambição de ganhar honra em huma emprexi^ 
ende o maior Potentado do século arriscava a. sua glcK 
ria. 

Nomeou EIRei por General da expediçáa a AãtOr 
aio de Saldr.nlia, o Velho, Official de muita ctpcrlen- 
cici , e serviços, o qual embarcou no Galeão cora seiscen- 
tos mosqueteiros, quatrocentos homens de espada, crot 
dela, e trezentos artilheiros. Erão Commandantes dar 
embarcações de guerra Pedro Lopes de Sousa ^ D* João 

Çi) Fr. ManoeJ Homem no Juçar citado dir, que cst« GateioflH** 
ta^a }66 p^(^ii% àc znúiitíiisi de bronze, inclusas as que goanitciÍ<> ^ 
altos C^steilcH ni popa , e lu proa ; e ainda que ci(a outtoi Atuboiti^ 
que Ifie dío menos , dec lara-íe comíudo pelo maior num^^m <fe çtiàétt 
inencionad^D. O Folheto attriStiido ao Doutor Jorge Coelho « gi« Jia* 
ce !ter escrito no Rcín.iik) de D. Joio o IIL (meiíos o ultimo §) dH, 
qvJti o Gakáo fofa construído nas Poríttií do Mm , eiM Lisboa, ps-fí^ "í^*" 
ire Joio Gallego, pai de Pedro Galkgo ( de qu^in adiants- 
qu2 o coímcpn a aç de Agosto de 1 5 j í ? ^ empregando n^ 
ílrucção a^o operários, <o deitou âo mar a 24 de Junho áo ann» 1^ 
^(utmetque a sua quilha cijilia comprimento e meio da maíof Nt» A 
índia; • que «ra. dd cinco bat^ias , cora o mtsmo mimeto át ^éê 
bocas de fogo. 

A pczar denttf, c de outras aufhoTÍda^cf, q«e pfov«ve!meiite «ff- 
dniem a humi ^6 y pçr- '- — > que o GaleSo nlo *ena maiof <pi i 
NÁo Hei^panbota Santisai Je , de 140 peças, tormái ^prfõi I<^ 

^kiâf iin bataHia de X^/^Uigc^r, ue rt&to o^Gatcão e^iiln «kidll poii>* 
no de iç8q , e esteve *.n cotado com outro» nivbs emBrleo}» pn*«>» 
bataçar que a Armada de D. Fiiíppe^lf* cíwa»e ft^LisbOff* 

(2.) AcenJieuo^, pag. ^61 dii, £|ue eaiv kkIi 4 Esqiudm bjio 4>1 



ff-Castm, Simão de Mello, Jorge Vrfho ^ Henrique efe 
Macedo, SÍTnão da Veiga, FrarKtsco Rodrigues Barba, 
Ignacio de Bulhões, Antonip de Matisellos, Henrique 
de Sousa Chichorro, Francisco Mendes de VasconceU 
los^Gaspir Tibio, Manoel, de Brito, Balthasar Lobo 
Teixeira, Manoel Brandão , Nuno Vnz de Gastello 
Branco, Thomaz de Barros, Francisco Homem , Anto- 
oio de Az^ímbuja, Francisco Chauioiro Garcez, D, Hen* 
fique de Sá^> c Balthâíar Baalia, - 

'Deo^lhe ElRci grandes poderes no Criminal , c 

ril sobre todos os individues, que servissem na Es-* 

ra.; e cirdenoii, que nó cnso do seu fallecinieiito lhe 

esse Simão de Mello , de quem ftzia grande esti* 

-Sahio d Esquadra de Lisboa cm fins de Março, ou 
^Incípios de Abn! , e na noire de 28 deste mez che» 

«a Barcelona. Na manhã seguinte enteou no Porco 
tinha de mísrcha, muito embandeirada, c com íon- 
faltas de arrilheria, e mosquearia, ao som de todos 
08 in5!runiento6 bellicos usndos naquclle tempo, foi dar 
fbfldo; o que satisfez por extremo ao Imperador, que 
pari a ver entrar se achava em casa de Álvaro Mendes 
de VasconceJIos, Embaixador de Portugal ^ cujas janel- 
lus cthiáo sobre o mar, 

António de Saldanha desembarcou logo accompa- 
ido de todos os Coinmaiidantes , e pessoas mais dis- 
ttncfas, com ricas trnjos, e adornos, levando huma 
guarda de rrinta arcabuseiros ferdados de verde e bran- 
co* Esta vão á borda d 'agua os Duques de Alva , e Car- 
dona com outros Cirandes da Hcspanha , que o cumpri- 
fBcnráfJo, c levHrao 00 meio aié ao Palácio do Bispo ^ 
para onde passara o Imperador, Este Monarcha rcce- 
1>eo a António de Saldanha, e a ^ua comitiva com mui- 
tí|$ honras , e obséquios, 

K^ j/ de Maio cotrou^m Barcelona o Principc 

ò2 ú 



<i2 

Andfé Dória com vlote e duas Gàtés bèm preparaínf^è 
ao passar pela Esquadra Portiigueza , a salvou com ío» 
da a artillicria, e mosqueraria, a qual lhe respcmdco 
com outra igual salva. Occorreo aqiíí lumia ciitpcci 
militar : o Príncipe Dória ^ como General cm Chefe de 
rodas as forças navaes empregadas naquella expedição , 
linJia só o privilegio de usar do Estandarte Real; e a 
mesma Insígnia levava António de Saldanha^ nue nao 
era homem de ceder o campo. O Imperador aecidio, 
quç o Estandarte d^ElRci de Portugal^ seu Irmão^ fi* 
casse também arvorado (i). 

.1 No dia i6 embarcou o Imperador na Galé de D> 
ria, e seguido das outras Galés, deo volta por codi a 
Armada , em cuja occasiao a Esquadra Portugueza lha 
deo huma aalva geral , a que Éespojidêrão todos os na- 
vios surtos no Porto. 

O Infame D. Luís , hum dos Príncipes mâis com* 
pletos do seu século, sempre desejoso de achar-sei 
gratídes emprezas, para que nunca obteve Hcença tfl 
Rei seu Irmão, resolvco não perder esta occastão; c de- 
pois que a Esquadra sahio de Lisboa, partio em 
do a ij de Maio da Cidade de Évora, cmde estava^ 
lao a Cone, accomparjhado de André Telles de Mcne* 
zes, Manoel de Sousa Chichorro, D. Fernando, Fnit- 
cisco Pereira , e Pedro Botelho , todos seus criadof. 

Divulgada a partida do Infante, expedio EIRci pc* 
h posta o Conde da Castanheira D. António de Awi* 
de, que o alcançou, e lhe entregou a liccnya para con- 
linuar a jornada, e hum credito de cem tmt crwidot* 
Deo EIRei igualmente ficuldade^ e fez muitas mQf€h 
para o acompanharem a D. Pedfo Mascarenh^, Iã» 



CO O General da Atmada traiia então Bandeira, no íopc «rtnée^« 
o EstanJartc Real ir^ado na popa. Hoje lar^^o^se noi topct fod» m l^ 
%jg(H4s* Couto^ AHemofúu Milicafet, tomo $^ fê^ 1-14. 



413 

renço Pire? de TavòrJ, Ruy Lourenço de Tarorâ, Luís 
Gonsalves de Ataíde, D, Jo3o de Éça, l>ist3o Vaz da 
Veiga, D* Garcia de Castro, Aníonio de Albuquerque, 
Fernanda da Silvreira, D* Diogo de Castro» D. Fran- 
cisco Coutinho, Belchior de Brito, Pedro da Fonccca, 
D. AfFonso de Portugal, filho do Conde do Vimioso, 
D. AfFonso de Castello Branco^ D, António de Almei- 
da, Ruy Mendes de Mesquita, ejoão de Sepúlveda. 
Algun$ Fidalgos forao sem licença, como outro filho do 
Cx>ndc do Vimioso, Luiz Alvares de Távora, D. João 
Pereira, filho do Conde da Feira, Tristão de Mendon- 
ça , c JoSo Freire de Andrade, 

O Duque de Bragança D. Theodosio tinha tam- 
bém seguido ao InBinte^ e o achou em Arronches, po- 
rém ElRjei o chamou logo á Corte por huma Carta do 
seu punho em data de 15^ de Maio, á qual o Duque se 
vio obrigado a ceder, airtda que com grande repugna»- 
da; e começou a retirada com huma acção própria de 
«imilhante Príncipe, distribuindo por pessoas necessita- 
da« toda a sua bagagem, armas, e cavallos (i), e quin- 
ze mil cft>zados cm dinheiro, que restavão ao seu The* 
eoureiro* EIRei cscreveo a António de Saldanha, que 
obedecesse aolnfaate^ em tudo, como se eUc mesmo esti- 
vesse presente, 

A 23 de Maio chegou a Barcelona o In fim te D. 
Lui?, c o Imperador o esperou nas escadas do Paço, no 
qual o hospedou com as demonstrai^ oes , c festas devi* 
das a tío alta Personngem. 

A 30 embarcou o Imperador na Galé Bastarda, de 
Ires masnof?, c rinte c seis bancos de quatro remos, to- 
da dourada \ c soberbamente jw>bÍKída , e adornada, que 
Príncipe Dória mandara fazer em Génova para este 
Bm-y e coro elle embarcou o InfaBte, levando comsigo 

(t^ Hiitotia Gsofaíogica, como é« pag. 9. 



41 1 

D- Pedro Mascarenhas, c André Telles de Mcneao; 
A jl íSííhio de Barcelona toda a Armada , e a pezar dii 
ordens nnis apertadas para se nSo receberem a bonio 
pessoas inutets, nem mulhere?, 3cIiarão*se destas ultinHi 
ao desembarcar em Tunes aia is de quuro niil. Hun 
vento^ que Fobreveia» espallimi ás navios. As Galâi to* 
mârão guarida cm Malhorca ,^e as embarca 
des em rorfo Mahom. Abonanl^ndo o tempi , ._j^_ _ j 
Imperador a sim vingem, e a ri de Junho ancorou w 
Bahi* de Calhíiri, onde chegou da Itália o Manjuci 
dei Va^fOi General da In^anieria, com hum reforçou 
navios j e tropas daquelle Paiz ; e por alguns catiiras <i^ 
«tCtós de Tunes 50ube o Imperador o estado d 
fiCUçfíe^ da Goleta, e os preparativos de defensa 
ha Roxa. 

Depf>i5 desta reunião constava a Arma la ^^l- qji- 
renta Galcrtes , cem navios redondos, sessenta l fcj?» 
vinte c cinco Caravelas, e oitenta c duas Galés ^^ alei» 
■de miliías embarcações li^^eiras, chegando o fiumero to* 
tal a tjuarrocenras velas. Era General das Gales de Hc$* 
panha D. Álvaro Baçan. O Exercito, que recebia sol- 
do » subia a vinte e seis mil Infantes, e dois nal Cinl- 
los, em que entravâo oito wM Alemães, c cinco mil 
1t.tliano5* Na Cavallaria havia í^oo homens cobaim 
de completa armadura ^ o resto armado á ligeira ia 
Tu^at ^ capacetes, lanças, e adagas. Os Voluntaric 
Aventureiros (nome que se dava aos que oao recebiil 
HolJo ) ch(^gavao a dezeseis mil homens , hitns senriiài 
II pê» outros á cavallo. 

A Ij «ahio a Armada de dlhari em doas Dhri- 
irtci, a primeira composta da Esquadra Portuguesa »« 
il ií« Gales de D* Álvaro Baçan ; c n.i segunda, ct>©* 
prelicndendo o resto dop navios de guerra , hia ol«^ 
pera^lor, c o General cm Chefe Príncipe Doiia, 

A 15 entrou na Bahia de XupeSf e no mama d^ 



415 
toda cm Cabo Carthâgo^ a cinco milluis da Ga^ 

Náo tinha escapado á siispicaz vigilância de Barba 
Roxa o armamento do Imperador, nem o seu verdadei- 
ro destino; e pedindo auxilio ao SoIlSo, que eaibaraça- 
do com guerras na Ásia, nao pode conceder-Uio , obcc- 
▼e muim gente dos Governos da Barbcrla: e como a 
fua Armada não pOwiia medir-se com a do Imperador, 
romou a resolução de defender a todo o risco o Cas* 
tello da Golcta , que fez fonificar o melhor que as cir- 
cunstancias permittiao. O seu Exercito compunha-sc de 
oito mil Turcos j oitocentos Janizaros, oiro mil Árabes 
de carallo^ e qmiorzâ uiil Mouros, hans lanceiros^ ou* 

CO o Ca^tello^ iid Goktm roroQU o nome do citteito Cannl (em 
Hes^Nanh^l Goletn) cm aíja entrada c^*ti situado; o qual se ícdma to* 
dor m diai aa ; » no tempo em qije cm aji estive, com hitnift 

Í;rani.<e vl^a ^tT. íj ponlá , «m qive elíc estd fundidw, para ou- 

tra \%Qnt% fronteira, onde se acha o U;»uho, cxi Prisáo dos Escaves, » 
Jim de evU.u- de iK>it« a pas^aj^em de embArc^çae» peauenai, O Coiial 
leni boov íufidô«(ia.âJitrradj , mai e«praia-se Jogo cm mim faganiar de 
doie mithaaE de comprido e nove de largo, cjiie vai acabar na Cidade 
<te Tiinei ^ com tio pouca altura, de ngua , q«c só podem transilar por 
elíé en '^ '7"; de reroo, e ainda para tsio be neoefsarTO >tcF >ifgttin» 
||f«itK ^ idades, pf^rque lie cbeiq de alíaquej* * j 

No reiíito io deste cerco nao faço menção da cad£a que fechava a 
«ntraiia di Golcta, e qiie^ foi rota :Í segunda invertida do Galeão Botít* 
To;^o ^ cujo brque bii armado de bum talbamar de aço, segundb o tc5* 
trmuwlio àt Fr. Manoel Homem, do C^ond'» do Vimioso, do P:idre Frat>- 
Ct^CQ de $M}tM Maíia (Aivno Histórico^, c de outro* l : pofí^iiô 

líir pircct pcí.ir majs o siieiício ói 4Í^un.i sisudos i rtf, que 

ri noría de similbantc fiurío, o quil não an^mcr.taria a glo- 

fin ^7 Castcllo, nerti scrvtrii» de cousa algum;* para a facíli- 

•Hr, poi9 qin* eUc piutc ser bntii^ dd parte do mar ^ do cide está rAtri 
pemio dHrante^ sem obra ai^uma que o cubia.do fogO'd(^<íNjnM'Jos^ ja 
^ue .ipf«uma bunia §;Tandc sup«litiw% pcU, iita eíf vat^ão lobre o uivei 
1J4 à^uiL Cumpre advertir, que humi cadiJa na© se coita com taVhamar; 
wis rompe-fe com o choque de hum n^vio corfendo a hum iar^o , ofti 
i^ pô| a- com rento fresco. Por ttleimo o modo de dclendèr Canaês Itó 
wm baterias cruzadas, e. se atinuem CQin bjda tò^a, tãino ii^iliof* 



416 



tros frecheiros, sera disciplina: e querendo assegurar 
ar/te^ de tudo os seus thcsouros, carregou vinte e seis 
Galés, era que os remetteo para Bona, e Argel, Ao fa- 
moso Sinan, Renegado Judeo, entregou o Governo cfa 
Goleta, com a flor dos Janizaros, e Turcos, c grande 
quantidade de monijões; e elle estabeleceo-sc era To- 
nes, para d'ali inquietar o Exercito Imperial, c cnviír 
soccoíTOS ao Castello, cuja coraniunicação tinha francti 
porque a sua Marinlia occupava o Lago* 

O Imperador, tendo mandado reconhecer o Cascd* 
lo peto Marquez dei Vasto com 22 Galés, fez desem* 
barcar no dia 16 parte da Inf^nteriâ, e cllc descmbir- 
cou no dia seguinte com o resto do Exercito. Gauliois^ 
se facilmente Iiuma Torre distante huma milha da Go- 
leia j e o Exercito alojou-se junto ás ruínas de Canha- 
go, ^ 

Não sendo do objecto destas Memorias a narrtçlo 
circunstanciada do cerco, relatarei era summa os priíH 
cípaes accontecimentos. Barba Roxa inquietava continua- 
mente o Campo do Imperador, aproveitando se das ven- 
lagens que lhe davão as localidades, por «cr todo oPaU 
coberto de ruínas dos antigos edifícios de CarrhagO| e 
de muitas vinhas, olivaet , c valados, que ofFereciSo mil 
posições favoráveis á pequena guerra, que clle ssbit 
bem fazer, e Sínan não estava ocioso noCastelIo, d*oo* 
de fazia frequentes sortidas , o que dava occasiâo a bn- 
ma multidão de combates, que causa vâo grandes pcrctat 
ao Exercito, sobre as que recebia das doenças procedi» 
das do calor do clima, da ruindade, e falta de agtia, 
da má qualidade dos viveres, e do continuo rrab<ilba. 
O Imperador acudia frequentes vezes aos rebates, sem- 
pre acompanhado do Intanre D* Luis, que era ij»e* 
paravel do seu lado, e promovia a obra das trincbcirif , 
qu^ avançavão com difficuldade, por ser necessário acar* 
retar de fóra nas Gales os materiaes para ellaa. 



I 



4Í7 

chegou D* Fr*incÍs:o de AIarc3o , General 
Veterano de grande reputação^ a quem o Imperador cha- 
mava Pai^ e logo começou a Eizer mudanças na distri- 
buição , e disciplina do Exercito, e a adiantar os apro- 
xes, prohibindo ao mesmo tempo as íahidas, que fa7Íao 
com trcquencia alguns destacamentos para atacar os 
Mouros, que vinhão escaramuçar, as quaes custavao 
sangue, sem produzirem fructo algum, 

Prompcas a final ires baterias nos lugares maiS 
Tcntajosos para bater em brecha o OstelJo com dezase- 
le canhões de grosso calibre, romperão o fogo no dia 
14 de Julho (i) ao amanhecer ^ e ao mesmo tempo os 
melhores navios da Armada^ em que entra váo as Cara- 
velas Portuguczas, atacarão da banda do mar, onde at- 
trahio a attenção de todos o Galeão S. João, pela acti- 
vidade do seu fogo mui superior, e a cavallciro dos ou- 
tros navios. Os siclados responderão com valor a esta 
espantosa bateria de fogos cruzados, em que da parte 
àos atacantes se disparárãa mais de quatro mil balas de 
arcilheria. No fim de seis horas virão-sc largas brechas 
em todos os lados batidos j e o Imperador, que esperava 
este momento á testa do Exercito debaixo de armas , 
mandou fazer o signal do assalto, ao qual marcharão 
na vanguarda as tropas Hespanholas, a que sempre da- 
va a preferencia nas occasiões criticas, e erão sem con- 
tradição naquelle século as melhores da Curopa: assim 
a Praça foi logo entrada sem grande perda , e desem- 
barcando ao mesmo tempo D. Álvaro Baçan com os sol- 
dados da guarnição dos navios, penetrarão nella por ou* 
iras brechas, 

, Sinan, depois de fazer os maiores esforços para 

)fÕ Francisco d« Andrade triz este ass;ilto no dia a 5 de Julíio, a 
«)uera se^ue o Conde do Vimioso; Aceniveiro diz, que foi a 21 ; e o 
Aono HiuoTtco a ti; eu tegui a SaiidovaJ _, que parece bem informicb 
4m pâaicuWcs do cerca 

^3 



4ia 

rèdifíçar os Cluistáos, vendo mt)fto« diiwotos Jíimcsfos, 
cada hum no lugar que occupir.i vivo, €e recol^\eo jipri 
mor 3 Tu lies, tendo perdido ao rodo mil e qujerociMo 
Itomeíiff. 

Achar3ò-se no Gi§teno qu.^iTnra canh(>f^; e loona- 
rSô-se no L^go todas as embtrc^i^cs de Bjrba Roxa^ 
c\ija? e^MÍpagens fugirão com tal desficordõ, que íe 
queccrão de lhes pôr fogo. Constava csra Armãéa 
qiiaf^íntfi e duas Galés Reaes^ muif^s de 16 a 2$ hm 
cos; entre ellas a soa soberba dvpitanea, quarenw e 
quâtno Galeoras, Fn<ra8, e Bergp^ntins, e rinre e sctei 
navios redondos, além de outros rasos mais peq 
com setecentas p^ç^s de artillieria, em que se cofti 
tretenras de bronze. 

Toitia<to o Cist^-Ho, pôz o Imperador em Cbnce* 
Hio tiO dia 17, ^e devia marcliar sobre Tunes , pjfa er* 
py!sar Barba Roxa diquelle E^natlo, mi voltar pait He^j 
j?>anlia, dviítaiido guarnição noGaíítelIo daGcIett?( 
ftnte D. Luís, c o Di-que de Alva forao peh con^ 
ra de Tunes, que era a opiniSo do Imperador; c 
se seguiOj a pezar da opposiçnò do maior numero 
votantes. 

Em consequência marchou ò Eterciío no éít 9ê^ 
gulnre para Tunes, e ainda que a distancia era de pou- 
cas milhas, o caminho ofFerecia terríveis obata^ulol» 
tànro pela sua natureza, como pelo ínstipportavd cakpc 
da cstaçio^ c falta de agua. Além disto, Barba RõU 
rinha reunido â seis mil Turcos, Janlíaro?^ e Rencg»* 
dos, qiie lhe resrnvao, hum Exercito de A ^^ MoiK 

ros de sessenta mil homens, em que se v^..,. , ^o vitttc 
Jtti! de cavallo, e rrrze míí arcabnzeífos, com ntgumi 
artilheria ligeira^ e estJva habilmente poetado, Rcafulo^ 
lhe na retaguarda os únicos poços, qiic por ali htmãi 
tr^ por tanto forçoso, que o Exercito Imperial « gt* 
nhasscj ou morresse á sede^ havendo^e-lhc já éc ioot 
acabado a agiu* 



cru 

No dtã 10 'à Imperdclor, depôíi ifç fêcfônlieeíf^é 
pr ^ de Barba Roxt , parece que Peou perplexo, e 
pc ^ a a D. Fernando de Alarcão ú ^^e faria? Ac* 
commetter já ^ responcieo elle. Assim o fez o Impera- 
dor, e á primeira carita das suas tropas çe debandou ro- 
da a multidão dos inimigos, quasi sem combater, ecom 
pouca perda, porque os vencedores estaváo tão abatidos 
de sede, e de calor, que mal podiao mover-se, quanto 
mais seguir o alcance. Barba Rox*;», de^^Cíperado da co- 
bardia dos Africanos , sahio aquclta noite de Tunes 
com os seus Turcos, c Renegados ^ e tratou de salvar-se 
cm Bona. 

No dia seguinte entrou o Imperador em Tunes sem 
rcsbtencla, e pôz em liberdade perto de vinte mil cati- 
Yos de difFerentc? Nicôes, que ali exrstião; mas os seus 
soldados commetrêrao os maiores horrores, saqueando 
a Cidade, e matando a sangue frio mais de dez mil ha- 
bitantes de todos os sexos , e idades^ que pediSo miseri- 
córdia. 

A 4 de Agosto assignou-se hum Tratado entre o 
Imperador e Molcy Ha^san (que o hivia acompanha- 
do), peb qual foi este Príncipe restabelecido no seu 
Throno , cedendo á Hespanha o CfístcUo da GoIera,e 
outras Praças marítimas, com varias clausulas, que não 
fo^etn a meu propósito. 

Convocotí o Imperador o seu Concelho para saber 
se devia passar á conquista de Argel , emprezfl que pn* 
recia então da maior facilidade, e infelizmente foi re- 
provada. Assim se concluio esta brilhante camp.^nha, e 
deiondo na Goleta por Governador a D. Bernardino de 
MiJfidofiça , com mil soldados Hespanhoes, despedio a 
Esquadra de Portugal Mandou o Imperador dar doís 
rtail cruzados a cada hum dos Commandarjtes Portuggç* 
zeS| os quaes só D. João de Castro não quiz acccifíír, • 

Partio António de Saldanha para Lisboa a lo de! 

hs Í! 



4ÍÒ 



fAgc 



Infante D. Luís. AoCfl 



;osro » levando comsígo 
[cm Calharij onde se deteve cinco dias , e sahindo d'dli 
Lfíofreo hum a tempesrade no (íolfo de L<?ao, que o foc-/ 
içou a arribar outra vez a Calhari. Socegado o lempoy 
Hseguio viagenij e no dia 30 teve outro niáo tempo, cota. 
[que entrou em Falamos com seis Caravelas. Aqui des^ 
> embarcou o Infante, e proseguio por terra a sua jorna^, 
da. António de Saldanha, havendo reunido a Esquadr;i^ 
hveio entrar no mez de Outubro em Lisboa. 

ifjy. — Neste anno emprehcndeo Diogo Botelho (i) 
^^ sua viagem di índia a Portugal ; viagem que dcire en-. 
trar em linha com as actues mais atrevidas do espirim» 
|iumano« 

Este Official, nascido na lodia (z) , era. filho na- 
tural de António Real, Governador de Cochim no tcflw 
po do Vice-Rei D. Francisco de Almeida, c de Iria Pe- 
reira, que elle levara comsigo de Portugal^ a qual tian* 
do rica > o educou em grande mimo. A inclinaçío a 
levou no estudo da Geografia, e Artes Náuticas, em que 
fez grandes progressos pelo seu raro talento^ consrítum- 
do*se hura liabil Piloto, e Artífice de Cartas Maritioiftfi 
emendando muitos erros dos antigos Mapas ^ sem que 
estes estudos o arred.issem do uso das armas , a qiie o 
arrastava o seu geoío audaz, e emprehendedon 

Tendo assim adquirido boa reputação, veio a Por- 
tugal , oadc El Rei lhe deo o Foro de Fidalgo > c o tri* 
tõu com di&tincgâoj mas oao lhe deferindo a huiH re* 



(1) Efta Viagem efe Diogo Botellio he cnnftda dfvemnicfi^e fém 
Dos^t mcUiorei Escfitoríii, huns accrcçccncando circumUaciai» «5»e »* 
Iros omici«ni , e vjiiaodo lodos nas daUi.. Eu srgui o que tm piMO^ 
mais provável. 

(2) Vçde a Chranica de D. Joio 1U, por Frincwco de Àxiàiitt 
faiie i. Capítulos 1 j , c 14, — CasraíiKcda , lAw S. Cap, |». — Cw* 
to 1^ Década j. Liv. k Cap* a. — Joio de Earros, Tecâda 4. Ltf..t 




^ 421 

requerimento era que pedia o Governo de Chaul , teve 
Diogo Botelho a imprudência de soltar algumas pala- 
vras equivocíis na presença de D. António de Noronlia^ 
Escrivão da Puriàade, dando a entender queria mudar 
de Reino; o que sabido por ElRei, lembrando-se da 
ca50 de Magalhães, a que Diogo Botelho não cedia em 
valor, e sobrepujava cm conhecimentos^ o mandou pren* 
der no Castello de Lisboa , e o conservou a bom reca- 
do até á época era que foi nomeado Vice-Rei da ín- 
dia o Conde Almirante D. Vasco da Gama^ que im* 
porcunado de alguns Fidalgos, pedio licença para o le- 
var comsigo, e ElRei lha deo debaixo da condição de 
não tornar mais a Portugal sem expressa ordem sua. 

Chegado Diogo Botelho a Goa, continuou a ser- 
vir, c passava os Invernos em Cochim, por ter ali ami- 
gos, que lhe fazião pagar com exactidão os seus sol- 
dos. Andava eík? espreitando alguma occasião opportu- 
na de vir a Postugal, porém do hum moiío tão extraor* 
dinario, que clacameiate demonstrasse a ElRei a sua fi- 
delidade> e desmentisse a quem lhe dissera queria dei« 
xar o Real Serviço, Com este intento obteve faculda- 
de do GoverikadoF Nuno da Cunha para armar huma 
Fusta , em que servisse o Estado ^ e a construio em Co- 
chim (i);'y munindo-a de tudo quanto julgou necessário 
pata huma comprida viagem. Era isto no momento era 
que o Governador negociava com Sultão Badur a con- 
s€rucçao de huma Fortaleza em Dio ; e devendo tao im- 
portante novidade ser logo conimiuiicada a ElRei por 
expresso , intentava Diogo Botelho ser o mensageira 
della^ Com esta£ idéas foi a Baçaim^ onde deixou a sua 
Fusta ) e passou a Dio em outro navio. 

Começada a Fortaleza,, sahio Diogo Botelho occul* 

(i-^ Castanheda diz, que esta embarcarão tinha 22 palmos ét quK 
lia^ 12 de beca , e 6 de pontal i dimciisóes que me parecem extraw^ 
4íoaiÍ4s!. 



4ii 

íaiiieíite de Dio, e chegíindo a Biçáirn, erpaUiou voz de 
que o Governador o mandava a Chau! , c frise i véfi 
noí primeiro? dias de Novembro d. ly^f, Jcvaiuio de 
equipagem cinco Portuguezes , qu. tT3o rrcs cnaiõi 
seus, o Mestre, e hum Mnnoel Morcrro, e oiro c$crj* 
vos marinheiro??; e de Cíírga quí^rci.ta quntãcs de cra- 
vo , e os víveres, e aguada que podia accommodar tio 
pequena embarcação. Partindo em monção favofâvd, 
rumou a Costa de Melinde para se rera2er de agtij, e 
mantimento; e nesta travessa descobrio sio MesTTc,t 
aos outros Porruguczcs o verdadeiro objecto da sua via* 
geni , distribuindo logo a cada Iium certa pôfçao de dS- 
nheiro, com promessa de ampla recompensa na sua ctie- 
gnda a Portugal; c como se não liava dos cscravor, tra* 
2i:i sempre vestida huma saia de malha, c huma cipi* 
da curta na cinta* 

Os seus receios nao erao vãos ^ porque temendo cl- 
les os perigos^ e trabalhos da navegação, se conjurárSo 
para o marar^ e aos mais Porruguexes, de que algiM 
vinhao doentes; e hum dia, que sobreveio hum igffi* 
ceiro súbito, com que arriando as velas de p*tncada^ e^ 
tas caliírão no mar, acudio toda a equipagem para ai 
recolher, e neste momento de confusão, c de embaraça 
*e levantarão os escravos, armando-se de fisgas, efpo 
tos, c machados, c huma espada que linhão furtado» e 
atacarão o Commandante, e os cinco Portuguete^, qoe» 
a pezar de surprehendidos, se defenderão como ÍrSef| 
matando dois, e forçando o resto a dcirar-se ao tnaf , 
em que se affcgárão três. Os outros reco! hera a«sc a bor» 
do com promessa de pcrdSo. Morrco nestí! briga hum 
Portuguez, c ficou ferido o Mestre; e mais do que dlc 
Diogo Botelho, que recebeo hura- golpe na cabeça, cu 
consequência do qual perdeo por muitos dias a folia, c 
§0 podia dar as suas ordens por acenos , ou por curita 

Ânrea de dobrar o Cabo de Boa Esperança^ o ip 



( 




42S 

iScow em J;ineifo de 15^36^ sofFreo Diogt^ Dotclho âU 
gmm:íS bjrrascn^, que duas irc^zc^ o *^izer;1o arribíir; e di- 
rigindo a sua derroca para J Itha de Sinta Htdcna, naa 
j vii) p<.la CfaTridao do tempo; e padecendo por isso 
multas tcHiics, e sedeis dicgou á airura dos Açores. A iic* 
cc^-ídãdc o forcou ^ ancorar na Ilha do Fainl, onde re- 
agua» c m.inrimcntos, c enganando J^iMlmenrc ao 
landantc da IÍli:i (oiitros dizem ao Corregedor), 
ic mostrava imenções simstras a seu respeito, se fez á 
la fnrn IJsbc.1, cm eujo Porto enirou a 31 de Maio; 
pasMdos muims dias chegou da índia Simno FcTrci- 
, qiie «ahíra depois delle cora as Orzas do Governa- 
)r Nuno da Cunhia, 

ElRci, ainda que estimou sobremaneira a noticia 
dfl Fortategea de Dio, perdoou com difficuldade a Dio^ 

" , c falta de obediência ; e de- 



icjnte a Fu«íra, a mandou re- 



ge* Botelho a sua dr 

pois de examinar [ 

colher em Sacavém, onde concorrido tcdos os Niicio- 

nae?, c Kstrangciros a verem, e admirarem hum pe^ 

qiieno b.^rco, que atravessara tantas mil Icgoas de hum 

C ourm Oceano 

If^ô — A iode Mnr^o deste anno paríio para a In- 
4ta hitma Esquadra de cinco N;io? , commandada por 
Jorge C&br-jl (t\ embirc.ido em a Náo Grifo; e os ou- 
irw Gomm:ittdames ViccnK* Gii , Annador, na Santa 
Cru7. V Gaspir de (^evcdo , na S-^nta Maria da Graça; 
Ambro.NX>rio Rego, no San?o André ^ c Duarte Bar rc- 
to> no S. MigucL 

Ambrósio do Rego ^ í>eparando»se da Esquadra , 
«bcgou i Costa de Guiní, onde hum aguaceiro lhe que- 
hpcm o mastro grande, pelo que foi reparar-se a Ca* 

(i^ Yeé* « Extracto Hit Armuclat Jii cfr.iio. — Fr, Mar*oel Homei^» 
— Oifíwíci rfí t>. ín5o 111. r r\p, ^j. » CasttokOa, Liv, •• 

Ctp» 141. — Pcdío tanctOj ikc 



424 

Inariãs : dali seguio viagem com tanta fortuns , que en 
[trcu em Goa a 4 de Scrcmbro; e alguns dias depoisJ 
chegou o resto da Enquadra. 

15-:$ 6» — Neste tncsmo anno (1) sitiarão os Mouros 
o Ostello do Cabo de Guer , de que era Govcroadar 
D* Guterres de Monroy ; c a pezar de sete Caravdai 
Icom tropas, e munições que reccbeo de Portugal^ foil 
tomado por assalto a 12 de Agosto do anno seguinte |] 
I ficando o Governador prisioneiro com os que escaparão ( 
\à2 morte, acabanJo aqui sumido em hum mondo dêi 
[cadáveres de Mouros o valente João de Carvalho, 

Nesta occasião tinha já Simio Gonsalves da 0*1 
[ínara (de quem atriiz fallei) preparado á sua ciisp nx 
filha da Madeira hum soccorro de navios carregadoidc 
jente, e munições de guerra, e de boca, quando llic^ 
fcderao a noticia infausta de estar o Castello ganhadOi 
-por cuja causa não chegou a sahir da Madeira» 

15:37. — Partio este anno para a Índia (2) a 11 dê. 
LMarço huma Esquadra de seis Náos, cominandada por 
*)* Pedro da Silva da Gama , filho do Conde AlmiraiH 
[te D, Vasco da Gama, embarcado em a Náo Rainhaí 
os outros Commandanies D^ Fernando de Limii no 
Roaue; Jorge de Lima, na Santa Bambara; LopoVnj 
kVogaao, na Flor de la Mar^ Martím de Freitas^ ui 
^allega ; e Amónio de Lima, na Santa Cfuz, que ar* 
Líibou a Lisboa (3). 

D. Pedro da Silva , e Martim de Freitas leravao 

f 1) Oíronica de D. João IIL Parte j. Cap. lé. 

fi) Chronica de D» Jojo III. Parte j. C^p. 46. — Epilogo êe hK | 
to. — Castanheda, Liv. %. Cap, 174, — Couto « tXrcidi s.Lir. v 
Capítulos j, c Si* — Faria, Ásia Porluguei*. — Ducacto dá ^rtii^ 
dí^s, 

(O ^« nosso? HistorUdores varião muito no numeto âe iitviQt|t 
nonifi dos Com ma n lactes das duas Esquadras , que ene inim pM^s 
de Poftu^al para a Iisdiii. Os dois, que mati cancOcdáo eoteesif ll^ 
Pedro Earreto de Rezende , e Diogo tk Couta 



425 

tnuhil armas , e petreclios para a nova Fortaleza de 
Dio, com ordem de se dirigirem directamente a esta 
IlJia , e dali passarem a Goa , como fizerao, ajuntando- 
se nesia Cidade a Esquadra pelo mez de Setembro, com 
a gente em boa saúde. 

Despachada esta Esquadra, soube ElRei por intel- 
ligencias secretas^ que o Sultão Selim preparava em Suez 
ituma poderosa Armada para enviar á índia, da qual 
era General o velho Eunuco Solei mão-Ba chá. Governa- 
dor do Cairo (i)- Logo El Rei fez armar outra Esqua- 
dra de cinco Náos^ de que deo o commando a Diogo 
Lopes de Sousa, que emoarcou era a Náo S* Paulo ^ e 
os outrt)S Commandanccs erao Fernão de Moraes, no 
3i Diniz y Fernão de Castro, no S.João; Aleixo de Sou- 
sa Chicliorro, na Santa Catharinai e Henrique de Sousa 
Chichorro, seu irmão, na Sica. 

Desta Esquadra, que sahio de Lisboa era Outu- 
bro, ou Novembro, devia ir a Ormuz Fernão de Cas- 
tro, e a Dio Fernão de Moraes, para cujas Praças trans- 
portarão gente, c munições. Aleixo de Sousa, nomea- 
do Governador de Moçambique, levava ordem para se 
dirigir com seu irmão Henrique de Sousa a esta ultima 
Fortaleza, a fim de tomar posse delia, e proye-la do 
necessário, por se t^^r algum receio de que os Turcos a 
fossem atacar. 

Fernão de Castro chegou a Ormuz nos Gns de 
Maioi e Fernão de Moraes a Dio no mez de Abril. As 
outras Náos tiverao todas boa viagem para os seus re- 
spectivos destinos j ainda que os dois Cliichorros entra* 
rio em Moçambique com muitos doentes, por cuja causa 

(i) Esta Esquadra partio de Suei a 27 de ftlarço d« iSiS , c con- 
mtXA de dois GaJcõcs, quatro Náos, seii Gakaças, dezesete Gales £as* 
táfdas , vinte e 5etc Galés menores, nove Fustas, e outras varias cm- 
b*rci(,i3cs, ao todo setenta c seis \ih% Vede o Divto dá sua viagem 
n^ Colkcção de Râouiziai tomo i. ^^^ jCj. 

Ô4 



4%e 



o tioTO Governador formou hum Hospital , qne tão ha* 



via, no qaat forâo curadas com o 



maior cuidado , e 



muita despesa da íuja própria fíizcnda , por ser Aleiía 
de Sousa homem caritatrvo, e amante do bem publico; 
e assim sahio daquellc Governo em estado^ que esíatã 
pura se rec^H^r no Hospital (r), 

IS'38* — Depois da partida da segunda Enquadra (1) 
soube EIRei com individuação a força da Armada Tur- 
ca preparada cm Suez para a itivíisao da índia , e como 
era necessário enviar logo hum grarxle reforço áquelle 
Estado para o que se offerecêrão muitos Fidalgos, csie» 
ve iiKlinado a mand.ir o Infante EX Luis; e não tei^ta 
ifto effeito , por motivos qoe não pertencetn ao JH 
sumpto desias Memorias, nomeou para Vice-Rei % O. 
Gap£ia de Noronha, Fidalgo de muita idade, ^obriohci 
do grande Albuquerque, O Conde da Ostanheira cflK 
pregou a maior actividade no aprestamento dos navios 
escolhidos {2) para formarem a Esquadra do Vicr-Rei; 
e havendo falta de gente para preenclKr o numero de 
Soldados determinado em Concelho, publicou ElRci 
\mm perdão para varias classes de criminosos, e com* 
mutou em degredo para a índia a$ penas ( incíuriTc a 
ultima) a que outros estavao já sentenciados» 

Constava a Esquadra deonze Náos bera armadat 
Vice-Rei embarcou em a Náo Santo Espiriro, os oHI 
Commandantcs erâo Bernardim da Silveira, na GaUega; 
João de Sepúlveda, no Junco v t). João de Castro (4)1 



y 1) Formae* palavra? de Diogo de Couto, Década j. Lív. t. Gifiw I* 
(1) Vede Couto^ l>ec3da s- Liv. \, Capituloi S , e 9, — Efilop» 

de Pedfo B^ífríto. — Faria, oa Asi* Pottugueíi, — ChrcKiiaL dt Ot 

Jnáo III. Parte j, Oi\\ n* 

CO Gt5tar5o-se nesta Esquadra HeTentot mil cnfta<tot sobre 1 é» 

pesii que cmtaria huma Esquadra ordinária de cinco Náoi. Cbnxiiei é^ 

\K Sehutiio attribuidi a D. Manocí de Meneies. 
(4) IX João de Castro ^ ImiQ dof Héroer che Porttigil , cri ntè- fii* 



\ 



410 Grifo; !>• Frantflscô de Menezes, na Santa Cruti 
]P. ChriítOTão da Gama, no Sanro António; D. Garcji 
je Castro, nos Fieis de Deos ; Luis Falcão, na Graça } 
Luy Lourenço de Távora, na Santa Clara ; D*Jo3o de 
^ IK) S, Barrholoraeu ^ e Francisco Pereira de Berre*» 
lo, no Sirne* Traii^porcava esta Esquadra tnuitos pc* 
trechos, e munições de guerra, c quatro mil cento e cin- 
coenta Soldados, oitocentos dos quaes erâo Fidalgos, ou 
Oralleiros, c Criados d' El Rei ; o resto gente mal rcn^ 
tida , e muitos moço» imberbes. Hiao como Avenru-* 
rciros os dois filhos do Vice-Rei D. Álvaro, e D. Ber- 
nardo de Noronha , D- Martinho de Sousa , D, João 
Manoel, D* Luis de Ataíde, depois Conde da Arou* 
guia ; D. António de Noronha, Fernão da Silva, Com* 
mcndador, c Alcaide Mor de Aipalhâo; D. João Mas- 
carenhas, Francisco Lopes de Sousa, e seu iriuão Pc^ 
dro Lopes de Sousa, D. João Henriques, D* Duarte de 
Éça , os três irmãos Manoel de Mendonça , João de 
Mendonça, c Diogo de Mendonça; D. Jorge de Mc** 
nczes, e oatros mais. 

Embarcou também o primeiro Bispo de Goa D* 
Fr. João de Albuquerque, Hespanhol; eo Douxor Fcr* 
MãO Rodrigues para Vedor Geral da Fazenda. 

Sahto o Vice-Rci de Lisboa era meado de Mança^ 
ioxlo ElRei ao bcra-fóra da Esquadra, e na ^hgtm 
deappareceo a Náo Gallega , em que hiâo todos os cri- 
wídosos, sem se saber como, nem onde, por se haver 
sieparadu; as outras chegarão em Julho a Moçambique^ 
d'onde o Vice^Rei expedio com cartas para Portugal a^ 
Henrique de Sousa Chichorro na Náo Santa Catharina, 

sacJa nas Maihemdticas. De huma carU, que escreveo de ^foçambíqtt^ 
90 liifiante D, Luii^ seu admirador, e ami«^, em data de j de A^oslo> 
dmi^ de fibsmy^Pivet sobte a Ndvegacáo, e da rtsposta do Inítinte , je 
JQkre que elk í«vixa âJ^ii& novos instrumentos Náuticos^ de que que* 
ij« íizcr o ciisAÍa 

54 U 



428 

nn que fora seu írmío Aleixo de Sousa, e Ic\rou comsi* 
go para Goa a Náo Sica (que ambas a!i estavão), em 
que o primeiro viera do Reino, O motivo disto foi pa- 
ra o congra^ar com EIRei , que estava escandalizado 
delle; e ao mesmo tempo para agradecer ao Goveraj» 
dor Aleixo de Sousa os trabalhos que teve, c de 
que fez com os doentes da Esquadra , que erão maii 
e todos forao ali mui bem tratados. Com eflfcito <_ 
lembrança do Vice-Rei aproveitou a Henriaue de SoQ* 
sa, porque sahindo de Moçambique em Novembro^ 
chegou a Lisboa a salvamento, c EIRei satisfeito de 
não haver noticia alguma de Turcos por aquella Coftaii 
o reccbeo outra vez na sua graça ^ tendo-o já nuodido 
riscar do Livro dos Moradores da Casa ReaL 

O Vice-Rei, partindo daquella Ilha em Agosto, 
chegou a Goa a ii de Serembra cora toda a Esquadra, 
excepto a Nio de João de Sepúlveda , que por tná na- 
vegação se encostou tanto á Costa da Africa, que ie 
achou em Socotorá , e foi invernar a Ormuz» 

I5'39. — A Esquadra (i) que EIRei mandou Cftc 
anno á Lídia, constava do scb Náos, comniõ -^or 

Pedro Lopes de Sousa, embarcado em a N«^. L^^Je- 
ga ; os outros Commandanies erao D. Roque Tcllo, m 
S. Pedro (2); Henrique de Sousa Chichorro, no Salva- 
dor; Álvaro Barradas, na Esperança ; António de Abreu, 
130 Santo António ; e Simío Sodrc, na Rainha. 

Sahiaesta Esquadra de Lisboa a 24 de Março, e 
chegou a Goa a 10 de Setembro, menos Simão Sodré^ 
que ficando mais atrazada, foi ancorar em Cochinu 



(i) Veée Couto, Década t. Lir. 6. Cap. 6. -^ Chronki àt CL 
JoSo 111. Parte j. Oip, 70, — Faria, na As ia Portugiieiai. — Eptkl^ 
de Pedro Barreto de R«zen(fe. 

(2) Esta Náo foi comiruida cm Cocliim era l!|7f e er» tio kt^ 
Uy que durou continuamente na carfeira da^lfidii vinie e hum^eoM»! 
c acabou no Rio de Lisboa em 1 s S 9- 



429 



ifl^u — Havendo ElRel concedido a Capitania ia 
[ar^nhao (l) de juro, e herdade ao celebre Hisioria 



!or João de Barros, associou-se este 
"nha , e Ferníío Alvares de And 



com Aires da Cu» 
rade, e armando á sna 



cusra dez embarcações, em que se embarcarão novecen- 
tos homens, e cento e trinta cavallos, sahio Aires da 
Cunha de Lisboa com esta Esquadra em 1539, levando 
em sua companhia dois filhos de João de Barros. 

Esta expedição foi infelicíssima , porque chegando 
ao Maranhão, cuja Cosra era então quasi defconhecí- 
da, naufragarão todos os navios nos seus baixos, sal- 
vandose apenas algumas pessoas na Ilha do Medo, 
próxima á grande Ilha, a que se deo depois o nome de 
S. Luís. Os naufragados tomarão amizade com os ín- 
dios , mas como não linhão meios para formar hum 
estabelecimento solido, regressarão por ultimo a Portu- 
gal a bordo dos navios aventureiros, que ás vezes ap- 
parecião naquellas Costas* 

• Antes desta expedição ja' o Hcspanhol Diogo de 
Ofdaz tinha em 1531 emprehendido outra, na qua! 
perdeo hum dos seus navios » o que o ©brigou a abarr- 
doiíar aquellas paragens. Cumpre advertir, que naqoel- 
Ics tempos se chamava Rio Maranhão ao das Amazo- 
nas, ate que em 1542 o Capitão Francisco de Orelha- 
na , fundado em huma historia fabulosa , lhe deo este 
uttimo nome, que ficou conservando, 

1540» — A Esquadra^ qiie este anno foi á índia (2), 
constava de quatro Nãos, commandada por Francisca 
de Sousa Tavares, embarcado no S. Fitippe; e os ou- 
tros Commandantes, Vicente Gil , na sua Káo Graça j 



fi) Annacs Históricos do Maranhão Liv. 1, 

(2) Co^jio, Década j. Liv. 7* Cap, 4. — Cbroníca de D. João Ilí, 
Farrc j. Cap. 75,, — Epijojjo de Pedro Eaneto. — Faria , tia Ásia For.- 



43a 

Simão da V^iga, na Urctj e Vicente Lourenço Bita- 
vias, np Grifo* 

Partio a Esquadra d^ Lisboa a 24 de Março, e 
çom bpa viagem chegou a Goa a 10 de Setembro, 

1^41, --- Sabendo EIRei o fallecimento do Vicç-Rci 
D, Garcia de Noronha , nomeou para Governador da 
índia a MardiTV Affonso de Sousa , que partia de Lis* 
boa a 7 de Abril (i) com hutna Esquadra de cíikq 
Ni^os , iiido elle no S. Tiago, que era da Coroa, eas 
Qimniandantes dí^s outras (todas de Armadorei)^ crS^ 
D. Alvfiro de Ataide da Gama, no St Pedro, Álvaro 
Barradas, no Santo Espirito i Francisco de Sousa, em 
Santa Cruz; e Luiz Caiado, na Flor de la Mar, Hm- 
b^rcárao nesta Esquadra muitos Fidalgos ^ e pesioas 
Nobres; e com o Governador hia S, Francisco Xai^icr, 
o primeiro Religioso da Companhia , que passou 10 
Oriente para gloria de Portugal , e da Igreja. 

A viagem foi trabalhosa até Moçan>bÍaue, 
ancorou a Esquadra no fim de Agosto, levjnqa a 
do Governador muitos doentes, que se traiário com md* 
IQ cuidado , e elle mesmo esteve quasi fem espcnoçti 
de vida; e como era tarde para passar á índia, ini 
DOU ali. 

A 15 de Março do anno seguinte sahio de 
çambique o Governador embarcado no Galeão Cou- 
láo, que viera de Goa, levando comsigo a S. Francis» 
co Xavier, com a Nao S, Tiago, cujo conimando coík 
Çou a D, Francisco de Noronha, Clérigo; e a Gakoim 
^e Diogo Soares de Mello; ordenando ás outras qoatio 
Náos, que partissem na monção de Agosto» 

(O Couto, Década $. Liv. 7, Cap. 1. e Liv, S. Capitulo» 1. € f^ 
«— Chroiiica de D. João UL piut^ f. Cftpitulút 81 , e ^f, — EfiikfO 
de Pecko Hirrero ác Rciend^. — Vida de S. Franciico X^icr y^la H' 
dre Jofio de Uiceiu , Tomo 1. Liv* t. Cjiptculos de 7 àté i»| « Lnr« 



4âi 

'âfegâírdò ó Governador aõ lofigó da Cosfa , íífl^ 
gio ciH Melinde, cujo Rei o veio visitar a bordo. Nd 
dia seguinte continuou a sua derrota , e pelas muitas 
calmarias aportou na Ilha de Socotorá, e recebendo 
agua, e refrescas, atravessou para a Costa da índia, e 
chegou a Goa a 6 de Maio, havendo-se apartado dei- 
le fresca travessa a Náo S. Tiago, que correndo huma 
noite em popa com vento Sul , e tempo escuro , enca* 
ihou no Rio das Cabras na Ilha de Salcete de Baçaim. 
O terror próprio de similliantes acontecimentos fez com 
que muitos homens inconsideradamente se lançassem ao 
ihir^ onde se afFogirão ; os outros conservarão*se a bor- 
do. D* Francisco de Menezes j Governador de Baçaim', 
afccudio logo eiTf pessoa comi embarcações^ nas quaes' saí-» 
vou o resto da guarnição^ os cofres do dinheiro, artilhe-^ 
ria, roas^me, antenas, e a maior parte do cobre do lastro* 

As quatro' Náos, partindo di: Moçambique depois 
do Governador, chegarão a Goa em Setembro, 

15^42. -- Neste anno (i) mandou ElRei á índia cin- 
co Náos, sem Chefe que as governasse: erao os seus 
Commaridantes^ Henrique de Macedo, na Urca; Bal- 
thasar Jorge, no Grifo; Lopo Ferreira, cm S. Salva- 
dor; Vicente Gil, na Graça; e Fei-náo Alvares da Cu-» 
nba , no Zambuco. 

Partirão de Lisboa a 18 de Abrií; e arribou Fér- 
rico Alvares da Cunha, pela ?iía Náo n^âo querer gover- 
nar. As outras quatro seguíváo viagtfm : Vicente Gil^ 
perdL'o-se na Costa de Melinde , saIvando*se roda a 
geme; e as três restantes chegarão a Goa em Seternbrol 

Neste anno, por Alvará do 1/ de Derembro , no- 
meou ElRei a D. João de Castro por Capitão Mor da 
Armada de Guarda-Costa do Reiuoi mas nao achei* 



(1) CoottJ, Detadâ $. TJv, 9, Cip. i. — Epilogo de Pedro Barre* 
ta ^ Chronica de D* João III, Parte 3. Cap. B4. 



432 . 

memoria do numero de navios, de que se compunha. He 
çcno que sahio a cruzar ness<! Inverno, e que no mci 
de Abril do anno seguinte se achava já em Lisboa (O* 
Também neste mesmo anno o Capitão Hespanbol 
Francisco de Orelhana fez a descoberta do Rio, a que 
chamou das Amazonas , começando a descer por cllc 
nos fins do anno antecedente, até sahir ao mar do Nor* 
te do Brasil era Agosto deste anno, em hum mio bar* 
CO, que construio nas margens do mesmo Rio, p^ra 
substituir outro ainda peior , em que viera de Qjuco^j 
E chegando milagrosamente á Ilha Margarita . 
Hespanha pedir ao Imperador Carlos V. a cc 
dos Paízes, que tinha visitado na sua admirável vã-^j 
gem. Adiante direi o funesto resultado que teve a siiâ 
segunda empresa. 

i5'43. — A Esquadra este anno destinada para ala*. 
dia compunha-se de cinco Náos, e era commaodada 
por Diogo da Silveira, embarcado era a Nio S, Thorocj.j 
e os outros Commandantes D. Roque Tello, na. Sarna 
Cruz; Fernão Alvares da Cunha, na Victoria; Stin^ 
Sodré, na Conceição; e Jacomo Tristão, Armador, ox^A 
S. Filippe (2). 

A 25 de Março sahio Diogo da Silveira de Lk- 
boa, e navegou com a Esquadra reunida até á altura. 
dos Abrolhos, onde com hum tempo se e^palhárlo 0$ 
navios, Jacomo Tristão, abrindo agua a sua Náo, arri- 
bou para Portugal. Diogo da Silveira, D, Roque TcUa,^ 

(i) Neste mesmo Alvará de nome«ç4o de Cíhefc éi &qtiidri m ^\ 

cluia huma Instrucqno da que elle deveria praticar em variíH ctM^^ 
cheia de advertências mui acertadas, e de prifvcipios de Direito Marit^ 
mo, que ainda hoje ser\Tm de base ás formAlidadcf, qite legilído . 
Presas; ajuntando a Uto hum breve Regimento de Signaes para <k 
te , o que parece dar a entender , que não se utavSíi ames dest 
(a) Couto, Dccadií 5. Liv, 9. Cip. 9. — Faria, na Ásia 
piezi* ^ Btrreto de ReieiKk. — Qirouica de D. Joio UL ¥uu f* 
Cip* 91. 



433 

e Simão Sodné tomarão Moçatnbiques e forao juntos a 
Goa em Outubro. Fernão Alvares chegou a etst^ Cida- 
de depois d'el!es, i 
Em Maio de^te anuo fiahio de Lisboa D. João de 
Ca^itra com Ituma Esquadra » pnra çâpcrar , e comboiar 
I t ^''^3 de torna viagem da índia, e nesu dlgresão 

■ 5' uma toniKnc^i, e apresou hum navio Francez; 
r cuj;i Dcçâo Elliei «pprovou por Orta de i6 do Junirtíi 
I e jiQS' priricipiiDs de AgoítQ scj reçolhco a Lisboa. ; 

I A 9 deste mez o mandou ElRei comboiar a Ceuta 

■ *lgun?i na vicíç Carregados de tropas » e; quiniçôcs pnra 
■^l]çeilA Príi^*a , e ao mesmo rempo o incumbio de exami* 
^B^^-^^ ^i^^'^ íbrtjfitaçôeF, e as de Tanger, Ai2Ílla, e 

AI\:ac<r. Para cuja coaimiss^ío s^Uiio de Lisboa a ly de 
^íaio, d*on4e, voltâni^q a Portugal, encontrou em U^ 
zenabro soi>re o Cibo de^S* Vicente sete Corsários, d^ 
que nao achei mendoa'i<ia a Nação, nem as circunstaii^ 
cias do encQmrp: mas. lie cerro, que entrando no Tejo 
a 24., ^ cotnmunicandp a EIRei o accomecimento por 
liíriía Caqa de 16, e cuíra do dia da sua entrada, o 
Monarcha. Jiíe respondeo de Almeirim no dia zy, ap* 
provando a sua.conducta ,^e ordenando-llie , que tornas- 
se a sahir, lo*^a <jue o tempo concertasse, dando-lhe 
gr^ndes^ puderem no Aiilitarye Civi! t:obre todos 0$ in- 
divíduos da sua Esquidra por hum Alvará de 28 daqucl- 
le jnez< 

S*il»io logo D, João de Castro, e nos principlc3s de 
Fevereiro do anuo bcguinie se tornou a recolher, deixan- 
do a Ccrfta limpa de Corsários, o que ElReí lhe agra- 
deçeo por Carta de a deste tnezt ,E era lao grande a 
estimnção que fa-zia dos talentos deste excellentc V:irao, 
<j' !iuma Carta Regia de 8 de JuJho de 15-44 ^ 

cc — a sobre o systema, que cumpria reguir-se para 
detender as Costas' do Reino, comprehendcndo o nu- 
mero nccessáno c^, navios, e o tcoipo que deverião em- 



431 

pregar nos seus cruzeiros, sem fazerem desnezas ínutei5i< 
isto por ter noticia de haverem líahido dos Ponos áé\ 
França muitos Armadores. 

i5'44» — A Esquadra (i), que èsre anno Foi á ín- 
dia, constava de cinco Náos, commandadas por Fereâa 
Peres de Andrade ^ embarcado em a Não Esperançai ^j 
CS outros Commandantes Simão Peres de Andrade, $eu] 
filho^ na Burgaleza; Simão de Mello, na Graça; Jaco* 
mo Tristão j Armador, em S. Filippe; e Liiis de Cala- 
taiide, em ouíri. 

Sahio a Esquadra de Lisboa a 7 de Abnl^ e terej 
má viagem. Simão Peres de Andrade arribou a PortiH 
gal, pelo máo governo do seu navio, Simão de Mello 
perdeo-sc em Moçambique, saWando-se a gente, e par- 
te da cargi, Jacomo IVisráo invernou em Zimzibar* 
Luís de Calataiide, passando por fóni da Ilha de S. LxiQ«i 
renço» foi a Coclilm em Outubro, Unicamente FcmSo^j 
Peres de Andrnde tomou Goa em Setembro. 

15'45, — Movido ElRel (2) das instancias de Mar- 
tim AíFonso de Sousa, que pedii successor, riett?riiiH| 
noUj por conselho do Infante D. Luis, mandar por 
Governador da índia a D. JoSo de Castrai e por Lir- 
ta de 5' de Janeiro deste anilo de 154c o encarregou de] 
aprestar a Esquadra de tihlo quanto carecesse; c a a^' 
de Fevereiro decbroH o seu despacho. - 

Constava esta Esquadra de sci^ Náos, qti!* •''^-^"yjr- 
tavão dois mil soldados. O Governador eni no 

S, Thomè; e os outros Commandanies D. Jl: de 

Menezes, no S, Pedro; Jorge Cabral» na ^.^n^ IX 
Manoel da Silveira, no Zambuco ; Simão Peres de An» 

(1) Cmito, Dccada u Liv, to, Cap. 6. — E^ptlogo de FtvVr» br* 
reto dtí Rc/cndc, — Chronica de D. Joio UI. Parte ^- Cjp, çjj* 

(2) Couto, Dccada 6, IJv. i, dp, 1. — Fajú, Am l^^rtti^oe* 
u. — Fedi o fianetix — Càrooica de O, Joio III. Pine ^ Ci^ 1. 



«315 



ic, m BijrgSTwâ; e Diogo Rcbello, Afrtiãdor, no 

Espirito, 
Sa-hio o Governador do Lisboa a 24 de Março , € 
jm boa viagem chegou a Moçambique com toda a sua 
Eq«»dra , menos a Náo de Diogo Rebello, que por se 
atracar, foi invernar a Meiinde, d'onde passou á In* 
dia cm Mííío do arirvo seguinte. 

Achou o Govcrn.ídor em Moçambique â Simão de 
Mdio com 3 guarnição da sua Náo, que naufragara, 
como já disse ^ cuja gente se repartio pela Esquadra. 
D*3qut escreveo a El Rei, enviando-lhe a Planta das for- 
tificações da Ilha , com o seu parecer sobre a construc- 
çâo de huma nova Fortaleza; e lhe participou tambetn 
a descoberta do Rio de Lourenço Marques (i\ 

Pnrtindo de Moçambique, esteve a sua Náo em 
gfrande perigo sobre as Ilhas de ilomoro, e ancorou cm 
Goa a ío de Setembro com a Esquadr.i. 

I5'46, — Neste aruio (2) mandou EIRci i índia Iiu- 
ma Esquadra de seis Nãos , de que foi por Chefe Lou- 
renço Pire» de Távora , cmbarciído em a Náo Esperan- 
ça; os Commandantes rins outras cinco erão D, Ma- 
noel de Lima j na Flor de la Mar-, D. João Lobo, na 

Cl) A «ta CarU r«sponcko El Rei na data de 8 de PUico ão anno 
seguinte de 1 546, onlcniudo-ihtí, qtie sem pcrJ^i tlc tempo lucise con- 
struir a FoítJje7á, para a qual manJou huiiia Mjiiía feita pelo Engc- 
nhetTO Mf^iicl da Arnida; o que parect; náo teve L-ffeito, porc,ue no 
aíijio ée ifjS mandou D, Coii^aiuino de rraganca Icv.mcar iHimafoiw 
ule/n neita líha^ e ouíra em Damão por hum E iit^eiihcírn ,, que ícvara 
de Portugal, sesuodo duçm as IVlemonas d'EJRei V» StbxíúÃo^ Tomo 
1. 1^,^. IS i e pa^. 24 1. 

Ordciíou mníç EIRei a D. Jcsão de C;i5ifo na n^sina Carta, que' 
i^twccw: hum navio, c tudo qiranto fnsse tiecístnfío a IjOurcn(.o Mar- 
is , para concluir o le conheci me mo conioqa<fo dos Kiosj c t'afiia, que 
'áo ainda o seu nome. 
^ Couto, Decad.i 6. Liv. j. Capitulas 7,69, — Faria, Asía 
ifàem, *• Fddfo J:'ârteto* Glironici de D. JoSo ííh Pnfte 4, Câpi- 
InkA 14 e 15, 

Ò3 ii 



Mjallega; Joio Rodrigues Façanha, na Biscainha; Fer- 
Viiao Alvares da Cunha, na Vicíoria; e Álvaro Barra- 
Tdas, em Santo Espirito» 

Sahio a Esquadra de Lisboa a 8 de Abril, c tcrc 

ruim viagem, D. Minoel de Lima chegou a Goa a IÇ 
'de Setembro; mas os outros Comitiandantes^ depois de 
I perderem muito tempo no Canal de Moçambique, ar^ 
:j-ibáriío por fora da Ilha de S, Lourenço, e tomarão 
jjCoclúm era me ido de Outubro , tendo-lhes monido 
[iDuita gente de enfermidades. 

1^46. — Neste mesmo anno (i), segunda dizem, se 

fez notável Pedro G^llego, morador em Víanna do Mí- 
[nho, mancebo de vinte e três annos, de pequena esta- 
[tura, mas de fortes tnembros, e mui valenie, insigne 

110 jogo das armas, e em todos os exercícios do corpo, 
' de modo que era reputado o chefe da mocidade daqocl^ 
Ma Villa. Animado de hum espirito activo, e empreíien-* 
[dedor, propoz aos seus numerosos amigos, que se com* 

prassc, e armasse huma Ciravela á custa de rodos, e 
[nella sahissem a cruzar contra Piraias, e Mouros, até 
! encontrarem alguma boa fortuna, que lhes desse honrij 
^c proveito. Abraç;ido este projecto, concorreo cada haai 
[com o dinheiro que pôde haver, dando Pedro Gallq^ 



[duzentos mil reis ; c com o maior segredo comprou 
Lina Caravela, em que metteo quatro peças de ferro, tí^ 
^ veres, e munições, e huma madrugada sahio de Viao- 
lua com trinta companheiros, alem da gente do mar* 

A sua derrota era para as Ilhas dos Açores, nV 

fcuelles tempos inf.'stadas de Corsários *, e a poucos dia^ 

[«íc viagem, debaixo de huma densa névoa , achou-se pro* 

xiaio a bum navio de Mouros, e o abordou logo; e 

! depois de li ima furiosa peleja , o rendeo com morte de 



Çli MemofÍA d» Disposição dâs Armas Caitclhanas , por Fn 
Hoiíacm Cap, h — Anuo Hinoríco Tomo i« ptg. jSi, 



437 

treze Mouros, e cativou vinte e quatro, custando-Ihe a 
yicroria dois mortos, e onze feridas: esta embarcação 
lonrava dezoito peças ^ em que enrravão algumas de 
ronze. Arribou Pedro Gallego a Sagres com a sua 
presa, venJeo alli os Mouros, e a Caravela ^ e passou 
pára o navio apresado, cuja equipagem augmentou com 
quinze mancebos voluntários, que o quizerao accompa- 
j}har. 

De Sagres partio para o Mediterrâneo, e nos ma- 
fs de Levante se demorou três annos, em que deo mui- 
_ )s combates a Turcos, e Mouros, e fez muitas, e boas 
presas; e voltando rico para Portugal , entrou cm Cadix 
a fazer agua, em occasiao que estava surto naqutlla 
B ihia o Conde Pedro Navarro com huma Enquadra de 
^alés. Pedro Gallego, ignorando as cortczias navaes usa- 
is naquella época, não abateo a Bandeira, nem salvou 
íCapitanea de Hespanha, de que sentido o Ccnde, man- 
'>u hum OííicíliI a reconhecer o navio. Este, cliegan- 
á falia, perguntou pelo Commandante, e vindo Fe- 
iro Gallego ao portaló^ disse-lhe, que o seu General 
lesejava saber a razão, porque entrando naquelle Por- 
to, não abatera a Bandeira, nem salvara a Esquadra 
de Sua Magestade? Pedro Gallego respondeo, que o 
navio era Poriuguez, e se empregava em destruir Pira- 
tas, e Corsários, c que a Bandeira das Armas de Por- 
»gal só i Cruz de Christo se abatia. O OfBcial reti- 
)u-se, dizendo que os Porruguezes cstavao loucos; e 
mda conta ao Conde, mandou este dar hum tiro de 
eça sem bala , como advertindo que se lhe fizesse a 
)nrlnencia devida ; mas Pedro Gallego em vez de obe- 
ecer, respondeo-lhc com dois tiros de bala.. 

Irritado o Conde desta temeridade, sufpendco an* 

>ra, e apôs elle as outras Gales, pc»r:i o irem atacar, 

)réra Pedro Gallego, conhecendo por este movimento 

o seu projecto^ picou a amarra, e ajudado de h*jm vea-^ 



43B 



to fresco, siiiio da Bahia. As Galés Hespatiholai fb* 
rão-no seguindo; c adiantando-se muito a Capitanca^ 
lhe deo Pedro Galiego huma descarga de ariiliuTit, 
com que lhe cortou hum mastro , e huraa biU de - 
troxivi matou alguma geme, e ferio gravcmentç cm kt* f 
ema perna ao mesmo Co.ade, que se recolheo para Ca* 
<lix. 

Seguio Vedro Galiego a sua viagem para Vijiina| 
onde foi muito festejado, porque todos o tmhao já pôr 
morto* 

Qiieixou-se o Imperador Carlos V. a El Rei IX 
João IlL, c sendo cliamado a Lisboa Pedro GiUego, ^ 
escapou de outro maior castigo com huma rcprehcftiao 
publica } ainda que por muitas pessoas foi estimada a 
sua ousadia* 

1547. — Eni Março deste anno (i) mandou ElReí 
seis Náos á índia , sem nomear Chefe que as govcrnis* 
Sc, Sahírao primeiro a 2^ de Março D, Francisco de 
Lima, no S» Filippe ; liahhasar Lobo de Sousa, na 
Burgaleza j Francisco de Gouvea , no S, Boa Venrura ; 
e Francisco da Cunha , no Zambuco. A 28 sabírao D» 
Pedro da Silva da Gama, no S. Thomc; e Mesier - 
•Bernardo em outra Náo. 

Estas Náos tivcrao differentes successos : D. Pi 
da Silva, por má navegação do seu Piloto, pcrdco-se tM 
Ilhas de Angoxa , mas sulvou-se toda a gente, que pas- 
sou a Moçambique. Chegados a esta Ilha Balthasar Lo- 
bo, e Francisco de Gouvc:! , repartirão entre ambm 
aquelles náufragos; e s.ihindo dali para a lodia, anco* 
RÍráo em Goa a 10 de Setembro, como fizerão a ij do 
mesmo D. Francisco de Lima , c Francisco da Cuoka. 



(O Couto, DecicU 6. \^^\ ç. Cap. 3,, e Liv. 6, Cip, 7, — 
Barreto.— Lu «ia, Forni 2, Liv. 6. Cap. 4, - Ciiroiiict tic Dljc 
Parte 4. Ciptiubs 1$} c 2S. y 



439 

Mcsser Bernardo chegou tarde a Socotorá , onde inver- 
nou, e em Maio do anno seguinte entrou em Goa. 

Depois de expedidos estes navios, teve ElRei no- 
tícias da Victoria de Dio, que cncheo de alvoroço o 
Reino todo, e de admiração a Europa; e logo fez tra- 
balhar no preparativo de quatro Náos, e duas Carave- 
las cora oitocentos Soldados, as quaes para maior com- 
modidade dividio em duas Esquadras. Comraandou ã 
primeira Martim Corrêa da Silva , embarcado na Ur* 
ca ; e os outros Commandantes erao Christovão de Sá , 
da Caravela Rosário; e António Pereira de ouira Ca- 
raveJa. Por estes navios escreveo EIRei a D, João de 
Castro, mandando-lhe a Patente de Vice-Rei , e proro- 
gaçãõ de mais? três annos de Governo, e fazendo-íhe 
mercê de dez mil cruzados para pagar as suas dividam 
(Tão pobre estava hum Governador da índia! Que tem- 
pos'); ç a seu filho D. Álvaro de Castro nomeou Ge- 
neral do Mar Jaquelle Estado , cora dois mil cruzados 
de ajuda de cu-sto, 

Sahio de Lisboa Martim Corrêa da Silva no i,** 
<íe Novembro, e espalhando-se os navios no começo da 
viagem, se tornarão a ajuntar em Moçambique. Par- 
tirão daqui a 15 de Março do anno seguinte de 15^48, 
e achando calmari.is na Linha, se dilatarão muito. An- 
fonio Pereira, levado pelas correntes i Illia de Socoto- 
fí , e vcndo-se já nos hns de Abril , tomou Ormuz no 
mtz de Maio, onde Invernou, Martim Corrêa da Sil- 
va cticgou a Anchediva a 28 do mesmo mc^, e ficou 
invernando, remettendo o? doentes, e os officíos pafíí 
Goa. Christovão de Si seguio melhor naveçiiçSo, e en- 
trou em Goli 3 12 de Maio, 

A segunda Esquadra sahio no principio de Dezem- 
bro, commandada por Francisco Barrete, embarcado em 
a Náo S. Salvador; e os outros Commandantcs erao D. 
Heitor Aranha, no S. Diniz j e Pedro de Mciquita , na 



440 

iant.1 Cârhflriha. Esta Esquadra invernou em MoçambV 
l<|iie, por haver chegado tarde; c cm Agosto do aono S€* 
Muinte ejirrou etii Goa, 

1548. — A pesar dost reforços (i) mandado» á In* 
lia no nnno antccedenie, determinou El R 
>utro armamento, que constava de oiiite I 
)Idados, divididos em trcs E^quadrat; a primeira da 
[#eis, e as outras de rres cnd,i huma. 

Commandava a primeira Esqii.^dra , i^ue saiiío nof 
jrincjpios de Março, Manoel de Mefidoaçu , cmberca- 
do em a Nno Trindade; os outios Co: ' * 
Jorge de Mendonça, na Santa Catli 
Mendonça^ na Ajuda; Manoel Rodngue^ Couii&ia^ 
cm Santa Maria a Nova ; e Sebastião de Ataíde^ no 
S. Sebastião, 

Da segunda Esquadra era Commandante João Ucp-> 
rique, na Esperança; e os outros Commandantcs Aifcs 
Moniz Barreto, na Gallcgaj e Aiuonio da Azambuja» 
na Flor de Ia Mar. 

Governava a terceira Esquadra João de Mxi 

ça , no S. Pedro; c os dois ourros Commandamts 

Fernão Alvares da Cunha , na Vicioria j c RcKlnm>Re* 
bcllo, no Sanio Espirito. Estas duas ultimas Êsqat* 
dras sahíiâo de Lisboa até 20 de Março. 

Todos estes navios tomarão Goa em Seretnbro 
com feliz viagem, á excepção da Náo Gallega , cjoc n* 
travessa de Moçambique para a índia abrio ianr:i agua, 
que nâo a podendo vencer, tratavãu já dt 4 lan- 

cha fora para se salvarem nclla os que ccu. v ..v.i, ^^ 
parando subitamente a agua, seguio sua viagem, c 
gou a Goa no dm de Outubro. • 



I 



(i) Faria, na Ash Porliruera. ~ Clironica de D, Jo5o !!I. 
te 4* Cap, $0. — » Couto, Dtcada <S. Liv. 7. Ci^ j, — BanrlK» ik 
Rezende. ., . % v, .1, 




441 

Ijr49» -^ Constava de cinco Náos (i) a Esquadra, que 
a 20 de Março deste anno partio para a índia , com- 
mandada por D. Álvaro de Noronha, embarcado noSâo 
Boa Ventura; e os outros Commandantes Diogo Bote- 
lho Pereira , no S. Bento (estas duas Náos erão da Co* 
roa , e levavâo oitocentos e cincoehta soldados , as ou- 
tras pertencião a Armadores) ; Jacomo Tristão, no São 
Filippe; João Figueira de Barros, na Burgaleza (ou Sal- 
vado) : e Diogo de Mendonça , no Zambuco. 

Desta Esquadra perdeo-se João Figueira nas Ilhas 
do Cômoro : Diogo Botelho Pereira tomou Cochim no 
mez de Outubro ; e as outras Náos chegarão a Goa em 
Setembro. 

I5'49* — Conhecendo ElRei por experiência (2), que 
o systema estabelecido para colonísar o Brasil carecia 
de reforma , pelas mudanças accontecidas no estado po- 
litico do Paiz, achando se fundadas varias Colónias, 
mais ou menos prosperas, em S. Vicente (Santos), Es- 
pirito Santo, Porto Seçuro, Ilheos , e Pernambuco, 
além de outras, determinou crear naquelle Continente 
hum Governo central , de que dependessem todos os 
Donatários, que por si, ou seus Procuradores região as 
suas particulares Capitanias. 

rara obter este importantíssimo fim, revogou ElRei 
as authoridades Criminal , e Civil de que gozavão, e ás 
vezes abusavão os Donatários , e as reunio todas na 
pessoa do Governador Geral, com amplos Regimentos, 
e Instrucç6es para a direcção, e manejo dos negócios 
públicos. Cumpria também escolher-se o ponto mais 
vantajoso para formar a nova Capital, e juIgou*se com 

(1) Couto, Década 6. Liv, 8. Capw i, — Faria, na Ásia Portu- 
^ueza. — Barreto de Rezende. — Cbroníca de D. Joáo IIL Parte 4. 
Cap. 44. 

(2") Qironica de D. João III. Parte 4. Cap. 42. — Noticias do 

Voail pag. 40. Rocha Pita, Historia da America Liv. 2* 

56 



442 



razão dever-se dar a preferencia i Bahia de Todos 08 
Santos, em que Francisco Pereira Coutinho ^ primem» 
Donatário daqiiella Capitania, tinha muito ames orga- 
nizado huma Colónia dentro da Ponta do Padrão (oo- 
me que se dava á Ponta de Santo António) ^ a qtie le 
chamou depois a Vil la Velha , onde smientou cnjci$ 
guerras com os Tupinambas, e por fira acabou trágica- 
mente, sendo por elles devorado. 

Escol heo ElRei a Thomé de Sousa , Fidalgo de 
grandes talentos ^ para occupar o cargo de Governador 
Geral do Brasil, e lhe deo huma pequena Esquadra 

composta de três Náos, duas Caravelas, c hum V 

tim 5 com trezenros e vinte soldados , e muitos A 
de todas as classes. Embarcou o Governador em a Nao 
Conceição; e os outros Comraandantes António Car* 
doso de Barros, no Salvador; Duarte de Lemos, na 
Ajuda; Francisco da Silva, e Pedro de Góes, nas Ci* 
ravelas; e hum Piloto no Bergantim* Nomeou ElRei 
para Ouvidor Geral Pedro Borges ; para Chefe da Ma- 
rinha Pedro de Góes, e Vedor da Fazenda Aniofiio 
Cardoso de Barros, com outros Officiaes Civis nccessa* 
rios paia o bom regimen da Cid:ide. 

Pariio o Governador Geral de Lisboa no i.° dcF^ 
vereiro de 15' 4.9, e com prospera viagem chegou a 28 
de Março á Bahia, onde já luvião noticias da fua kli 
por outras duaíí Caravelas, que ElRei mandara adiantas- 
Foi recebido com alvoroço dos poucos Poruiguezct, qiic 
qVí existiâo; por quanto, ainda que vivião em paz coifl 
CS índios, rcceavâo muito as consequências da iiicoll*S 
stancia no seu caracter. " 

Ao terceiro dia desembarcou o Governador com 
toda a gente armada, e em ordem, cuja vi$ta impri- 
mio terror nos índios, que sem arcos se ajumárSo eoi 
^ultidâo para verem o desembarque. O Governador, 
depois que enaminou o locai da Yilla Velha ^ tm <|UC 



443 



Rfgrmenfo lhe ordenava edificasse a Cidade, ca* 
nheceo quão difFerence juizo faz das coizas a visra pro' 
pria, que as informações alheias; e que era necessária 
edificalla em outro sitio, por não ser aquellc accurrmo- 
dado para preencher as intenções d'ElRei, como o ti- 
ohâo informado em Portugal. Para não tomar sobre si 
a responsabilidade desta contravenção de ordens, pòz o 
negocio em conseliio, c a todos pareceo, que a Cidade 
se deveria construir meia legoa ao Norte d'aquclla Po- 
▼oaçâo, em hum lugar que todos houverão por conve- 
niente para defensa própria, e otFcn^a dos inimigos^ ou 
esres viessem por mar, ou por terra. Com esta determi» 
nação se pozerão logo as mãos á obra com tanto ar- 
dor^ que no ultimo dia de Abril estava construído hum 
Forre de madeira, e terra , guarnecido de nrtilheria, e 
a Cidade quasi toda cercada em roda de paliçadas, e le- 
vantadas as officinas necessárias. Tal foi o principio da 
Cidade de S, Salvador, norac que por ordem d*ElRei 
se lhe deo, 

15:49. — Neste anno (i), depois de muitos Conse- 
lhos , determinou ElRei diminuir o numero das Praças, 
quQ os Portuguczes occupavâo na Costa da Barbcria , 
tanto a fim de economisar despezas, como porque algu- 
mas delias já não preenchiao os objecto? para que forâo 
adquirida?; e erao hoje mais difficeis de conservar, por 
haver o Xarife Muley Haraer, Príncipe guerreiro, con- 
quistada proximamenre o Reino ric Fez, creando assim 
iKJma Potencia formidável , que ameaçava invadir to- 
dos os Estados circumvisinhos. 

Para obstar aos seus projectos contra a Fortaleza 
de Alcácer, de que era Governador Álvaro de Carva- 
lho, a qual, por pouco fortiíicada , se achava mais ex- 



% 



') Chranícíi cÍ'ElRei D. João IIL Parte 4, Capitules j4, 39, 41, 




444 

posta, se lhe âccrcscentou hum Forte de madeira, e 
terra construído sobre hum monte que a doniinava, 
obra que ElRci cnc.irregou a D. AflFonso de Noronha, 
Governador de Ceuta, cora grandes poderes, a quem 
enviou hum reforço de quatro mil soldados, parte Por* 
Tuguezes, e parte Hespanhoes, alistados na Andaluzia, 
cora mil e trezentos Artífices, e trabalhadores, c mui- 
tos navios de guerra, e de transporte, que sahtiao de 
Lisboa em Abril de 1^49. E apôs elle partio D, Pedro 
Mascarenhas com três navios de guerra, sendo Com* 
mandantes de dois Thoraé de Sousa , e Manoel Jaqucf ; 
e com elle foríío caibarcados seu sobrinho D. Joio 
Mascarenhas (que com tanta gloria defendeo i Pmpi 
de Dio), e os Engenheiros Manoel da Arruda, c Dia* 
go Telles. Levdva D* Pedro Mascarenhas ordem para M 
examinar de novo o estado das Praças de Africa, stm ■ 
exceptuar Alcácer, porque ElRei não queria resolver-^ 
a final , sem pleno conhecimento de causa , sendo md ^ 
natural, que houvesse divergência de opiniões sobre 1 V 
escolha das Fortalezas, que seria conveniente cooier- 
var* 

Por ultimo dccidio-se abanáonar ArzilU, pela roio- 
dade do seu Porto, e em consequência mandou EIRd 
a I.uis do Loureiro, Official de grande merecimento, 
com huma Náo, e vinte e cinco navios de guerra, e de 
transporte j com ordem de reunir ao seu commando a 
Esquadra , que cruziva no Estreito de Gibraltar cora- 
mandada por Luis Coutinho, constando de scí^ Ctn* 
velas bem armadas, cujos Commandantes erSo António 
Pessoa, Rui Gonsalves; Francisco Lopes, Jorge Gomes, 
e Francisco de Madureira ; c que afretando mais em* 
barcações até completar o numero de sessenta^ ^ssase 
a Arzilla, e recolhesse todos os Militares, e morado- 
res (que deviâo ir estabelecer- se em Tanger), muniç6es, 
artUheria^ e mantimentos j e arruinasse com mioif o 



445 

Castello, e muralhas da Villa, e derribasse as Igrejas; 
Esra resolução commiinicou ElRei ao Imperador Car- 
los V. , como costumava praticar era todos os negócios 
ie Africa, 

No mez de Junho partio Luis do Loureiro a execu- 
tar esta delicada commissâoi raas chegando logo noti- 
cia a El Rei de que Dragut intentava passar o Estreito 
com huma numerosa Armada de Galés, mandou apres- 
sadas Ordens a D. Pedro Mascarenhas , para que reunin- 
do em huma só Esquadra todos os navios de guerra do 
seu particular commando aos de Luis do Loureiro (siis- 
pendendo*se entre tanto a evacuação de Artilla), se di- 
rigisse ao Porto de Santa Maria , c ajuntando-se com 
D. Bernardino de Mendonça, General das Galés do Im- 

Í)eradorj buscassem ambos o Almirante Othomano, e 
he dessem batalha. Ao mesmo tempo enviou*! he huma 
Náo grande, e bem gu.irnecida, advertindo-o, que se 
carecesse de maiores forças, o avisasse, porque em bre- 
ve o reforçaria com outras embarcações. Achando-sc 
poróm falsa a noticia da Armada Turca ^ proseguio-se 
o negocio de ArziUa, 

1549, — A II de Maio (i) desce anno (outros di- 
aein que em t5'44) sahio de S. Lucar o Capitão Fran^ 
cisco de Orelhassa com três navios, e quinhentos ho- 
mens, para emprehender a conquista do Rio das Ama- 
zonas. Tocou nas Ilhas Canárias, e nas de Cabo Ver- 
de, onde os seus soldados contrahírao moléstias, que 
diminujfão o seu numero, e chegado ao Amazonas, e 
intentando subir por elle, perdco gente, e navios; e por 
fim acabou de trabalhos, e desgostos, e os que escapá- 
jão se recolherão á Margarita, 

Depois deste acconrecimento , vagando pela Costai 
de Pernambuco Luiz de Mello da Silva , Fidalgo de 



(i) Annaes Hiitofícos do Maranhão Liv, 1. 



44» 

espirito ousado, e aventureiro, em hum oavío armado 
á sua custa, com o projecto de fazer descubrimcntos, 
foi levado dos ventos, e correntes i Margarita , onde as 
noricias, que aJguns sold.idos de Orelhana lhe derlo do 
Rio das Aranzonas, o persuadirão a vir a Portugal pe- 
dir licença a ElRei para fazer aquelle reconhecimento, 
e conquista; e obtendo a Capitania, de que João de 
Barros fizera desistência, sahio de Lisboa com três na- 
vios redondos, e duas Caravelas ^ e foi-se perder nof 
mesmos baixos, em qire naufragara a expedição enviada 
por aquelle grande Historiador, escapando das cinco 
embarcações Tl uma só Caravela, onde elle se recotheo i 
nado , e nella voltou para o Reino, 

IS'5'0. — Tendo EIRei noticia (i) pelas Náos de 
torna-viagem do fallecimenio do Vice-Rei D, João de 
Castro, e de que ficava inteiramente governando Garcia 
de Sá, Fidalgo de muita idade, nomeou logo para Vice- 
Kei a D. Affonso de Noronha, íilho segundo r* - *^3r. 
quez de Villa Real, a quem deo hum longo 1. ^ iro 
com varias providencias, para se evitarem abusos , qtic 
o tempo havia introduzido no manejo dos negociof pth 
blicos. 

Constava a Esquadra de cinco Náos com dois mil I 
soldados, entre os qiiies se embarcarão D, Fernando de ' 
Menezes, sobrinho do Vice-Rei; os dois irmãos D. Gar- 
cia , e D. Luís Tello de Menezes ; Gonsalo Perrira 
Marramaquej D. Filippe de Castro; Gaspar de Mello 
de Sampaio-, D. Martinho Rolim; D. Francisco Ma** 
carcnhas; D. Rodrigo Lobo, que falleceo na viag;tfli; 
D* Manoel Mascarenhas ; Jeronymo Barreto Rolim; 
D. Francisco da Costa; D* António Pereira; FilippC 
Carneiro, D. Braz de Almeida; Pedíí^ da Silva de Jfo* 

(i) Couto, Década 6. Liv. ç. Capitules i. c 4* — F^ria, oa Adi 
PoTtuguci»!. — PcJro Carreta — Chtoaica de D. Joio lU. I*artt " 

Capítulos 69 até 7$. "^"^ '' 



4A7 

iiezes* D. Affonso de Moraes, Francisco Lopes de Sou- 
sa D- Braz da Silv3 i Luis de Sousa , e outros Fidal- 
gos, e Cavalleiros ; assim como para Vedor da Fazen- 
da da Índia, João da Fonceca i e para Secretario Simão 
Ferreira. 

^ Embarcou o Vice-Rei no Galeão S. João; e os ou- 

^>s Commandanfcs D, Álvaro de Ataide da Gama, no 

S. Pedro i D. Jorge de Menezes, na Santa Cruz; D* 

Diogo de Noronha, na Flor de la Marj e Lopo de 

Sousa, no Galeão Biscainho. 

No fim de Março se fez a Esquadra á véla , e iii-' 
ào o Galeão S- João só com o traquete , começou a deí- 
tar-sc tanto á banda , que foi obrigado a dar fundo, 
Convocou-se huma vistoria de Mestres, e Piloros, á qual 

tsistírão o Conde da Castanheira , Vedor da Fazenda, 
Vicc-Rei, e o Provedor dos Armazéns Ferníío Feres 
de Andrade* Concordou-se em que o defeito procedia 
de ter o navio pouco lastro, e muita carga nos altOF, 
Em consequência, tirou-se-lhe parte da carregação da 
coberta ; e ElRei ordenou ao Vice-Rei, que se até á 
Ilha da Madeira se conhecesse que o Galeão corria al- 
gum ri^co , se passasse para a Náo S. Pedro, e o Com- 
mandante desta ficasse com o Galeão naquella Ilha, pa- 
ra o reparar, e seguir depois viagem- 

Arranjado assim este negocio, começou a ventar 
do mar, e só a iç de Abril se pôde mover a Esquadra; 
maíi antes de sahir a barra , tornou o vento ao mar, e 
j Vice-Rci veio surgir na Enseada de Santa Caiharina, 
■lesta breve digressão se conheceo, que o Galeíío estava 
incapaz de seguir viagem, sem se descarregar, e Síastrar 
de novo; por cujo motivo pa?sou o Vice-Rei para o 
S. Pedro, e elle ficou em Lisboa para se lhe fazer a 
obra necessária» O vento mareiro durou ate 3 dcMaio^ 
que a Esquadra pôde sahir ^ e o Galeão sahio a 27 do 
mtsmQ* 



4«« 



Como era miiíto duvidoso, que a Esquadra paseas« 
SC este anno á índia, mandou ElRei dais avisos ao Go- 
•vernador daquelle Estado, hum por mar, qúc Içycu 
íFernão Peres de Andrade, filho do ouiro do mesmo 
noms, cm |]um navio cora setenta soldados de guarni- 
ção., e outro por terra , de que se encarregou Luís Gar- 
icez. 

j As Náos de D, Jorge de Meneses ^ c de Lopo de 
Sousa arribarão a Lisboa. O Vice-Rei, navegando «o, 
passou por fora da Ilha de S. Lourenço, e com bastan- 
te trabalho, e doenças, de que morrerão algumas pes- 
soas, foi buscar a Costa da índia era Outubro; e éãrs'^ 
do-lhe os levantes, nSo pôde dobrar o Cabo Coroorím^ 
e já no fim do mez vio terra a sotavento, que o seu Pi- 
loto affirmou ser a Costa da índia ; porém Joio RcbeU 
lo de Lima, Piloro de grande reputação^ que hia de 
passageiro 5 disse que era Columbo, na Ilha de CeiUo» 
Durou a porfia entre elles por largo espaço , sendo qoe 
Columbo csti hum gráo ao Sul do Cabo Comorini, c 
entretanto chegou huma embarcação de terra , que àt^ 
clarou ser aquelle o Porto de Columbo, de que romou 
tanta paixão o Piloto da Náo, que se recolheo noa* 
juarote, e acabou em três dias, Deteve-sc o Vicc^Rci 
pouco tempo neste Porto, c d'elle passou a Cochim cm 
ríovembro. 

A mesma viagem do Vice-llei seguio D- AItjio 
de Ataíde no Galeão S- Julião, que era mui veleiro, 
com a difFerença , que não podendo tomar Ceilão , foi a 
Pegú refazer-se de agua, e mantimentos ^ e pondo-se em 
derrota para a Costa da índia , tomou a Ponta de Gi- 
le, onde passou ancorado todo o mez de Novembro, 
curando em terra os doentes, e partindo daqui para Co- 
chim, ancorou nelle a 13 de Dezembro. 

D. Diogo de Noronha invernoti em Moçambique^ 
c sahindo em Março do anuo seguinte para Goa, 



449 

muffâS Gámariag, cm que gastou atc'ao iilrimo d' Abril j> 
e vindo em Maio buscar a Costa da índia , o Pilotòt 
foi encalhar a Náo no RJo de Mazagao, quarenta itf-*' 

fOQS de Goa, D, Diogo desembarcou em terra com to^' 
a a gente, e se fortiScou em hum morro sobranceiro 
ao mar, levantando trincheiras de p5pa« , e madeira, 
guarnecidas da artilhcria, que tirou da Náo, e ali re- 
collieo as rauaiçõcs, e cofre do dmlieiro^ com muitos 
géneros aue salvou, e mandou avisos ao Vice-Rei, e ao. 
Governador de Chaul , para que lhe enviassem navios 
em que se retirasse, por se achar cercado de cinco roil 
Motiros das Comarcas visinhas. De Chaul partirão togp 
doze embarcações bem armadas , com a chegada das 
quacs desapparecérão os Mouroíí, e o Vice^Rei mandou 
quatro navios^ commandados por João Peixoto, e por 
jpra Cispar Pires de Matos com 'muita gcjire, e gadí^ 
Hft^a trazer o fato^ escrevendo a D< Diogo de Noronlia^^ 
^e viesse por mar, o que clle fezy embarcando-se com 
algumas pessoas a bordo dos navios de João Peixoto; e 
formando do resto da sua guartiiçâa hum corpo de qua- 
trocentos homens, o ewtregou a Gaspar Pires, que o con- 
Ípio seguramente a Goa* ^ 

lijj-o* — Depois da sabida da Esquadra (i) da Inh 
ia, mandou ElRei a jeronymo Ferreira, c Francisco 
JMachado por CommaridanEes de duas boas Caravelas, 
^ue levavio cem soldados^ para andarem de guarda-Cos- 
tt de Cabo Verde para Guiné, 

^r Para o Algarve partia D. Pedro da Cunha com 
^■aia Esquadra de cinco Caravelas, e quatro Bergan* 
^im, guarnecida de qu:uroccntos soldados; os Coniman- 
tes das outras Caravelas erão Filippe Rodrigues^ 
^lão Lopes, João Lobo, c Balchasar Rebeflo. 
Após esta Esquadra sahirâo a 3 de Junho duas 




tfO 



Oravelas commandadas por Simão Rodrigaes, e Rof 
Fernandes, com instrucçoes para se reunirem na lHu 
Tefceira a outras ires Caravelas , que éseavâ arcainda 
Pedro Annes de Castro , e a luim Gole^lo que ali se re- 
parava ; e o cominando desta Esquadra deo EIRd t 
joio da Silva do Couto, filho dacjuelle Pedro Amicsi 
ttjfido de guarnição nos seis navios raais de qulnhenros^ 
moldados. O seu destino era cruzar sobre os Açores até 
chegarem as Náos de torna-viagera da índia, para ai 
escoltar a Lisboa, como se faxia todos os annos, 

Lisuarte Peres de Andrade foi nomeado para com^ 
mandar a Esquadra , que devia guardar a Cosra de Por- 
tugal, e constava de hum Galeão, três Caravelas^ c diai 
ZabraSj as primeiras que os Portuguezes construirão ^ 
í^s quac^ por terem remos , c serem mais alterosas do 
que as Galés, soíFriâo melhor o mar, e podíao chegar* 
se" a terra com c.ilmaria; porque os Corsários siuiof 
vezes se acolhido á sombra da terra, onde os tiivios f*" 
doridos não ousa vão arriscn r*se. Etta Esquadra leroa 
qiiatrocentos soldados, entre cUes muitos homens Vh 
bres. Qiiasi todo o Verão gastou Lisuarte Peres em 
alimpar a Costa de Corsários,. de que tomou alguns, tm 
que achou géneros conhecidos, por serem de propriôii- 
de Portugueza* 

ff 5* o, — Achando-se em Lisboa o Soberano át B^ 
h?z (i), e querendo rciirar-se, mandou ElRei fi«t 
vios bem armados para o transportar^ cujo conmiâ 
deo a Ignacio Nunes Gato, o qual se devia reforçar ip 
caminho com duas Caravelas , que cruzavSo no Esnt^ 
to de Gibraltar, 

Chegada esta pequena Esquadra ao Porto de fidei) 
e salvando com toda a artilhcria no descmbarme du 
Kei, acconteceo achar-se nas Lagunas, peno de Bda 



CO GKrociica de D. Joio III. Parte 4- Cap. 66. 




<y f«f'ae at^í Ard^-Acrals acabando de espalmar vin- 
te c quatro Galés, e ouvindo o ruido da salva, se em- 
barcou a roda a pressa; e chegando a Belez, vio a Es- 
quadra Porrugueza ancorada- Ign ar io Nunes , que não* 
podia fazer-se á véln por escaf calrhnria podre , metteai 
a espia, e reboque os seus navios em linha o melhor que 
lhe foi possível 5 e como as Gílcs linhão a vantagem da 
remo^ que lhes fiacilitava ^tomarem iodas as posições, 
cercarão os cinco navios, é os atacarão por todas as par- 
tes ao me?mo tempo. Era impossível resistir a forças 
tao st»pcriores, mas os Portuguezes oppozerão huma re» 
sístertcia tao obstinada, que a vicroria custou muito san- 
gue aos inimigos. Por ultimo forão os cinco navios to- 
jMdof, c conduzidos a Argel, onde EIRei mandou de- 
^«8 resgatar todos os cativos. 

^^lyç I. — A Esquadra da índia (i) foi este í!nno de 
oito Náos, commanclada por Diogo Lopes de Sousa, 
embarcado em a Náo Esperança ; e os outros Comman- 
dantes Lopo deSousa, no Galeão S. Jeronymo; Jacomo 
de Mello, no Rosário; Francisco Lopes de Sousa, na 
Algarvia ; Messer Bernarda y nã Santa Cruz ; D- Diogo 
de Almeida > no Espadarte; Aires Moni^ Barreto, na 

Írveira ; e D. Jorge de Menezes, na Barrileira. 
^ Sahio a Esqindra a 10 de Março. D. Jorge de Me- 
zes arribou a Portugal. D* Diogo de Almeida , indo 
* por fora da Ilha de S. Lourenço, chegou a Cochira a 
20 de Outubro. Aires Moniz foi ter a Ormuz ; os ou- 
tros cinco Commandames entrarão juntos em Goa a 10 
de Setembro, I 

iffi. — A24de Março partío de Lisboa (2) para 
a índia huma Esquadra de seis Náos, coramandada por 

(O Faria, Asb Portugueza, — Conto ^ Década 6. Liw 9. Cap. i^. 
^— Ptrdro Barreto. — Chronica de D. Joáo IIJ. Parte 4. Cap. XS, 

(2) Faria, Ásia Poríiignera, — Pedro Karfe to. — Coato , Década d. 
^v^a Çap. 6, — Qironica óq D. João IIJ, Pune 4, Cap. 94, i 

^^ ' 67 ii 




462 i- 



Fernão Soares de Albergaria, embarcado em aNác 
Boa Ventura; e os oufros Commandantes Francisco dt 
Cunha, no S. Pedro; Braz da Silva, no S. Filippe; D, 
Jorge de Menezes (que arribara o anno passado), tu 
Barrileíra ; António de Figueiredo > no S. Tiago; e A11-7 
tonio Moniz B.irreto> no Zambuco. 

Esra Esquadra, como qiiasi todas as outras , ivave», 
gou espalhada, O Chefe Francisco da Cunha ^ e Bnií. 
da Silva entrarão em Goa a 8 de Setembro. D. Jorge, 
de Menezes, e António de Figueiredo invern?rao cm 
Moçambique, por chegarem tarde. António Moniz Bar« 
reto foi encalhar no Rio de Seita por, a trinta (egoas cfc 
Goa, onde se salvou toda a gente, c a maior parte 
earga. _ ♦' 

I5'Ç'2. — A 3 de Fevereiro deste anno de fffi 
sahírão de Cochim para Portugal seis Náos, de que 
chegarão quatro a salvamento, As outras duas er.lo <* 
S. Jeronymo, Commandante Lopo de Sousa, que noiía 
inais appareceo, e o Galeão S. João, que commandira 
Manoel de Sousa de Sepúlveda , Fidalgo que havia fin- 
to jgrandes serviços na índia, e levava conjsigo a Mi 
mulher D* Leonor de Sá, com dois filhos de peito. Esta 
Náo, cuja carga excedia o valor de hum milhão, vinha 
mui mal fabricada, com huma única andatna de panuo 
(coisa incrível !), e essa em tal estado, que de contí* 
BUO se arriavão as víílas para se remendarem , c coie* 
rem, perdendo assim as occasioes de aproveitar os boo* 
ventos, que teve para adiantar caminho, c dobrar o Ci- 
bo de Boi Esperança em monção favoraveK 

Tendo visto a Costa de Africa, seguirão ao loigp 
delia prumando com tçmpo bonançoso até aa Cabo àu 
Agulhas, e a 11 de Abril estavão vinte e cinco leggis 



I 



(O Couto, Década 6. Liv. 9. Capitulof ai , t MM* — HÍStOimTir 



453 

ao mar d*c!Ia N. E. , S. O. ; c no dia seguinte ao anoi- 
tecer passou o vento a O. ^ e O* N* O, com cermçao, e 
fuzis, dando sigaaes de Inverno; por cuja causa arri- 
barão, c correrão cento e trinta legoas, onde o vento 
saltou ao N. E. com tanta fúria, que os forçou a vol- 
tar para o SuL O mar, combatido então de dois ven- 
tos oppostos, cresceo tanto, que o Gakao, a pesar de 
ser o maior navio da carreira da índia, quando se acha- 
va entre duas vagas cruzadas^ mettia agua por ambos os 
bordof. Três dias correrão assim com as bombas na 
inão, e no fim do quarto dia acalmou o vento, fican- 
do o mar mui grosso, e banzeiro, com que o Galeão 
jogou tanto de popa a proa , e de bombordo a estibor- 
do, que se íhc partirão três machos do leme, dois dos 
quaes erâo os da cabeça. 

Neste momento saltou o vento a Leste mui rijo, e 
querendo lírribar em popa , não deo o Galeão peio le- 
me , antes veio todo de lá , e huma rajada levou pelos 
ares a vela grande: correndo os Officiaes a carregar o 
traquctc, pelo não perderem, ficou o Galeão atravessa- 
do (i) sem seguimento, e reccbeo três mares tão for- 
«^ que com os balanços que deo, lhe rebentarão os 
rn?, e costa neiras do mastro grande da banda de bom- 
rdo, ficandg-lhe só rres ovens, Cortcu-se o mastro, 
por evitar as avarias que poderia causar a sua queda; 
c depois com buma antenna, c Iiuma verga armarão hu- 
ma guindola ^ era que largarão Iiuma véla feita de pe- 
daços de lona velha; e por fim conseguirão arribar, 
posto que o Galeão nâo governava pelo máo estado do 

l^^i) Oevc-se ter pretcnte, que os navios Portugueifs ainda nío ti» 
HÉô maif panno, qire mczena, s:a%'ias, p;ipafrgoí, e ccvardcira; c que 
^^gsuteflof de [^pa e proa mo cítceisiv^mcmc altos, txrn como as 
eêtras mortas; o que rornava os navios mui veíito^os , e expostos aos 
2||tts do m*ir, e de mno governo cooi vento forte, e mar cavado, 
i, de que a ConsEfucçáo náo tinha fekc progressos. 



454 

leme. Deste modo corrírâo com o tempo ; mas tórnàii^ 
do o vento a crescer, lhe desrruio a guindola, e levoq' 
o velachoi e atravcssando-sc o Galeão, deitou o leme 
fora, íicando-lhe os machos mettidos nas fêmeas; dcK 
arvorou do gorupés, e começou a fazer a^a. 

Neste estado critico , julgando-se os Navegantes a 
vinte legoas de terra, trabalharão com actividade en 
armar outra guindola , aproveitando hum intervallo de 
bonança, e em fazer outro leme, em que gastirSo dez 
dias, porém o Galeão não pôde governar com elle, por 
sahir curto , e sem porta suificiente ; e ficou por tanto o 
navio anhoto, e á mercê das ondas. 

Finalmente a 8 de Junho houverSo vista dá Cot* 
ta : Manoel de Sousa de Sepúlveda chamou a coasdiío 
os Oíficiaes, c resolveo-se por voto unanime encalhar 
no lugar mais azado para salvar as vidas. Mandou^ 
em consequência hum escaler a examinar a terra, eeo* 
tretanto o Galeão hia rolando para ella com quinze pal- 
mos de agua no purão. Estando a menos de meia ]^ 
goa da Costa, voltou o escaler, e disse, que defronte 
da paragem onde esta vão, havia huma boa praia, e tih 
do o mais era penedia. Assim forão governando com ã 
guindola até acharem sete braças, em que derão fiiA* 
do, e arriando a amarra , largarão outra ancora a tiro 
de mosquete da praia , tendo o vento abonançado. Dei* 
tou-se a lancha fora, e assentou-se cm conselho, que se 
fortificassem ali, e das madeiras, e mais coisas do Ga- 
leão construíssem hum Giravelão, em que podessero ir 
para Moçambique, ou Sofala, ou mandarem pedir ao- 
xilio a qualquer d'aqucllas Praças. 

Feito este accordo, e reunidos na tolda, e tomba- 
dilho os mantimentos, armas, pólvora, e roupas qucK 
poderão tirar das cobertas , embarcou-se primeiro na 
lancha Manoel de Sousa com sua mulher, e filhos, c 
trinta pessoas das principaes, ficando a bordo o Mestre 



4$ò 

Christovao Fernandes^ o Piloto André Vaz, o Contra- 
Mcstre Duarte Fernandes, e o Guardião. Desembarca- 
dos em terra os primeiros, voltou a Lincha^ e o escaler 
a buscar mais gcnte^ c fizerão três, ou quatro caminhos, 
em hura dos quaes se virou o escaler, afogando-se al- 
gumas pessoas. Durou esta faina três dias, que parecia 
tempo siifficientc para salvar toda a guarnição, e muni- 
jôes necessárias ; m^s não acconteceo assim , porque 
passados estes dias, crescendo o vento, faltou a amar- 
ra do mar, c o Mestre, e o Piloto se embarcarão na 
lancha, a qual chegou a terra espcdajada , ficando ain- 
da a bordo do Galeão duzentos Portuguezes, e trezentos 
escravos* O Galeão continuou a cahir sobre a outra an- 
cora até tocar, e logo se partio ao meio, e cm breve 
tempo abrio todo. e se desfez, cobrindo-se o mar de 
fardos, caixotes, e madeira; e nesta occasiao se afogi- 
jâo quarenta Portuguezes, e setenta escravos. 

Manoel de Sousa de Sepúlveda convocou os OíÇ- 
ciaes, e pessoas principaes p^íra deliberarem sobre o que 
convinha fazer, pois que o navio se havia inteiramente 
de;ífeÍ£o (tao podre estava!), e não era possível con- 
struir das suas relia uias embarcação alguma , nem tão 
pouco tinhão lancha. Convierao todos , que se devia 
marchar por terra a buscar a Bahia de Lourenço Mar- 
ques (i), a que vinha todos os annos hum navio de 

(i) Nos terras do liihaia (ou Unliab) faz o mar humíBalm de per* 
IO de vinte legoas de fundo, e em partes com pouca menos de lar^o^ 
na quiií iksí;mix>c5o quatro grandes Rios, pelos quaes sobe a maré niâ»s 
«ie áàz kgoas. O primeiro do Sul cbama-se Mel engana , cu Zenibe , e 
divide o território de hum Regulo deste nome, das terras do Inhaca, 
O secundo Rio cKam2t*sc Aníete^ oii de r^urenco ÍVbrques, tjue pri* 
mciTO o reconheceo, c nelle estabelcceo o Iraficn do marfim; chaman- 
do-se antei Rio do Espirito Santo. O terceiro chamise do Fumo, por 
«travejar as terras desíc Regulo. O quarto, que he o mais do Norte , 
chama-se do Manhi<ja , ao longo do qual foi a derrota de Manoel d^ 
Soma de Sepúlveda, e a morte de D. Leonor de Si 



iVIoçambique a negociar marfim-, e que como os fe 
dos, c doentes erão bastantes, se diíatassem naqticif 
praia até se restabelecerem. O Piloto, observando i 
Solj achou qae esiavão cm 51" de latitude Sul. Passi^ 
dos trcs dias, appareccrao de longe alguns Cafres, qotj 
não quizerão chegar á falia ; e mandando Maoocl dM 
Sousa de Sepúlveda dois homens a reconhecer o Paiz^ 
andarão dois dias sem acharem mais do que algumifl 
cabanas abandonadas. 'j 

Tornarão depois disto sete Cafres com huma tkA 
ca, os quacs estando já em preço para a vender, 0Ofdt^[ 
rão outros de hum monte, que os fizerão retirar; o^ê^í 
se coàisentio , pelos nao escandalizar. Dez dias se étmth ] 
rávio os Portuguezes neste lugar, e convalescidos oseiw 
fermos, pozerno se cm marcha ao longo da pfafi,pafj 
lhes parecer achariao melhor caminho. \ 

Hiáo na vanguarda o Mestre, o Piloto, c rodos 01 j 
marinheiros, levando huma bandeira, e hum Crucͣxo 
arvorado. Seguia se o Commandante Manoel de SoM 
com sua mulher, e filhos^ oitenta Portuguezes, c Cfm 
escravos. Cobria a retaguarda Pantaleao de Sá cora o 
resto dos Poriugue2es, e escravos, em numero de qnií 
duzentas pessoas (i). 

Ni boca desta Eihíi, que em muitas pàne% tem 14, e r( ba<ii 
de fundo, est:í humà Ilha de fres iegoas de cfranTifcrcíicfj proiín » 
^ ponta lio SuJ , a que te deo o nnme de llím do Inlvica, e cHirtei thi 
clumio dos Portuguezes, pelos muJtoi que ifi laDccttio, etcBpddoí à> 
naulra<íÍo ih Náo S, Thomc no anno d<; i jSp, Esta a líha em iç' 
40', c a ella he que vinha aportar o Pan»ai'^ -♦'- "^^-rimbiqu^* O tsot 
separou huma porqio desta Ilha, c formou ca; pofte mhK^ 

xa mar pawa-se de huma a outra com açu4 jvi > , li>o^ 

(i) Este Galeão trazia cuiza de du/eiuoi Prirtu^uerei , indÉBitt 
p lísigtíiros , e n)ais de tre/cntos escravo» de hum ^«i>;fO 

n uQ accontecia em todat as Náos da Itidiâ na tor: ; p)rlff^ 

lu^il. Af pmturas quí fa;.*m oí E^crftOfei cftfsni; Cêtnãcê* 

P^rtiigtfetjs (uomc que djváo ás Nãos da caífCira . . }, wtui^m- 

áa de canhões, e de soldalos, sâo miíeraveii ptttAiilia^ mi mtifci * 




45t 

A 7 de Jtilho começarão os naufragadog a camU 
nliar» iado D, Leonor em humas andas aos liombros de 
Cafres; c em todo este mez nao houve outro maDiImcu- 
to y senão arroz, e algumas frutas do maço, e por sec 
graftdc a fraqueza em todos , ficavão pelos caminhog 
muitas pejísoas, que já não podiáo andar, entre ellas 
hum filho natural de Manoel cie Sousa, de idade de do- 
3EC annos, Quc vinha ás costas de hom Cafre: ambos 
cahírão de íraqueza, e ainda que o triste pai oífcrecla 
quinhentos cruzados a quem lhe fosse buscar o filho, nin- 
guém ousou fazello, com receio dps tigres^ que ronda- 
vjo por aquelles matos. Ali ficou também António de 
Sampaio, sobrinho do Governador, que foi da índia, 
Lopo Vaz de Sampaio; e cada dia ficavao dois, e três 
Homens, que logo erío pasto dos animaes ferozes. Em 
L lodo o lapso de tempo referido caminharão cem legoas , 
P^]&nhando apenas trmra na direcção da Costa para o 
^ ríorte, por serem obrigados a rodear montanhas inac^ 
cessiveis I e rios caudalosos, que nao podiao vadear, 
Kao faltarão lambem assaltos dos Cafres naturaes do 
Paiz, c posto que sempre rechajados , morreo em hum 
delles Diogo Mendes Dourado, hum dos mais valentes 
fios naufragados. 

As praias lhes fornecião ás vezes alguns peixes^ ou 
jnariscos, mas não acliavão agua, o que induzia alguns 
Jioaicns ávidos^ d*aquclles que especulao sobre as maio- 
^a desgraças a aventurarem as vidas, mettendo-se aa 

• 

tm ás nealçarem is custorat victortas, que ilgumas vezet d'elíaf obcir 
^pçrio. O ^u€ ha de ccito ncsu mat«ria| lie vottarem est^ Ndos áà 
Ifklã tio abíUfOtjidit de fanios, c caixotei^ qgc totalmente cnij^^chavão 
mf píHJCAí peras dt artijherln, £)ue montavSo; e o numero de Ponugiic- 
y/tí c«p«cs de combatwem» era tempfc mui dimimito, n^^ím como em 
ffsndb a quantidade de escravos bo<;at5, que tfAiilo pan Commercio. 
t4t Memorias se acbaiáá cAeniptos aiAÍJKifnui pata eouvciKcr es maij' 




458 

mato, d'onde trazlao pequenas porções d'cl Ia , que vco 
diáo a dez cruzados o quartilho, e Manoel de Sousa de 
Sepúlveda assim a comprava, para a repartir igual 
te áos seus companheiros de infortúnio, sem excei 
a sua mulher, e os dois filhinlios; e ainda folgava muW 
to de haver quem se empregasse neste trafico. 

Depois de dois mezcs e meio de rio desastrosa jot* 
nada, resolveo-se deixar o caminho da praia, e sirnive$» 
sar o sertão, onde a fome foi extrema, c houverao in- 
dividues que torrarão ossos, e reduzidos a pó^ fizerld 
fl'elles papas para alimentar-se. 

Finalmente chegarão com ires mezes de marcha ao 
território de hum Potentado chamado Inhaca, Droximo 
á Bahia de Lourenço Marques, o qual era amigo dos 
Portuguezes. Este foi buscar os naufragados para a raa 
Povoação, e deo a Manoel de Sousa de Sepúlveda a 
prudente conselho de ficar ali até chegar o navio de 
Moçambique, que vinha todos os annos a confiprar tatr^ 
fim a troco de roupns, e de outros géneros, adverrindo-o» 
que alem das suas terras se seguia o as do Regulo Ftnno 
(nome commum a muitos Chefes de pequenos disiricrcí) 
homem de máo caracter, e que de certo serião por dk 
os Portuguezes roubados, e maltratados, Sepúlveda, ata- 
Cado já da loucura que pouco depois se neclaftnj, it- 
geitou os conselhos do Inhaca, determinado a rodeira 
Bahia de Lourenço Marques, para atravessar maif ach 
ma os grandes Rios, que ali vem desaguar; projecto in- 
sensato no estado miserável em que se nchavão os srt^ 
Entretanto, por satisfazer ao Inhaca, que lhe pedia aoxb 
lio contra hum visinho revoltado, mandou PanralcSodc 
Si com vinte Portugue'íes » que reunidos a alguns OÍt«i 
do Paiz, queimáráo, e saquearão a Aldca d^aquellcKe- 
gro, recolncndo-se com algum gado. 

Esta expedição durou cinco dias, c prosegiiiado 
Manoel de Sousa a sua marcha, alcançou aiodi com 



' 459 

margem do Rio Zerabe, hum do$ quatm^queen^ 
trio na Bahia de Lourenço Marques, o qual passáraa 
«as Almadias que o Iiihaca lhes forneceo: e continuan- 
do a jornada por espaço de cinco dias, em que andáraa 
vinte legoas j chegarão ao Rio de Anzete já de noitCj e 
SC alojarão em hum areal sem agua, a qual Sepúlveda 
mandou buscar mui longe, pagando a cem cruzados ca- 
da vasilha de quatro canadas. Pela manhã vierâo da 
margem opposta três Almadias, cujos Negros disserâo. 

Sue poucos dias antes tinha d^ali partido o navio de 
doçambique. Nestas Almadias passarão os naufraga- 
dos á outra banda ; e aqui descobrio Manoel de Sousa 
oâ primeiros symptomas da mania , que não o deixou 
mais, e pôz era coniingcncia aquella passagem, porque 
no meio do Rio quiz matar os Negros da sua Almadia: 
felizmente o socegou D. Leonor. 

Chegados á margem do Norte, já reduzidos a cen- 
to € vinte pessoas 3 tomarão alguns Cafres por guias pa- 
ra os conauzirem ao bárbaro Fumo* No transito para 
a Aldeã deste Selvagem , hia D. Leonor a pé , e descal- 
ça^ levando humas vezes ao collo os seus dois filliinhos, 
outras vezes dando-os a algumas escravas, que aipda lhe 
restavãoi mas sempre com tal constância, que sendo cila 
pela sua delicadeza , e hábitos de vida a que mais sof- 
fria , era cora tudo a que consolava , e animava a to* 
dos; tendo de mais que elles o desgosto, e compaixão 
que lhe causava o lastimoso estado de seu marido* 

A pouca distancia da Aldeã ^ que servia de Corte 
âo Fumo, lhes mandou este dizer, que se alojassem de- 
baixo do arvoredo , e ali os proveria do necessariOé 
Assim o executou por cinco dias, curaprando-se-lhe os 
mantimenios a troco de pregos, quando Manoel de Sou- 
sa, alienado de. maneira, que já os seus não o consulta- 
vão em cousa alguma, posto que por hum resto de de* 
ccncia lhe participaváo tudo, pcdio ao Regulo lhe desse 

58 11 



460 

kahanas, em que seaccommodasse com â sua gente, pôr- 
que estava resoluto a esperar ali o- navio de Moçambi- 
que, O Negro astuto, veudo a occasiâo opporruoj pa- 
ra a traição que meditava^ e não ousava commettcr com 
receio das arnias de fogo^ respondeo, que o Pai^ «t 
tão pouco abundante de víveres^ que se Uie tornaYt iowl 
possível sustentar tanta gente reunida em hum sd põi* f 
to: que ficasse elle naquella Aldeã com as pessoas, 
escolhesse, e as outras se repanirião pelas Poi 
visinhas, onde lhes mandaria dar casas, e mantir 
Mas que para evitar a desconfiança dos naturacs, cuohi 

Íjria se recolhessem todas as armas em huma casa, 
hc serem restituídas quando chegasse o navio de , 
çambique* ^^^ 

Nesta insidiosa proposta consenfio Sepúlveda, e^P 
tou persuadir os seus a entregarem as armas, deci^raodo 
AO mesmo tempo j que elle ficava com a sua família; t 
os que quizessem passar adiante, o podiao faxer. Al* 
guns dos circunstantes votarão pela entrega das armis; 
outros não; e D. Leonor disse a seu marido: Qite nâf 
armas estava toda sete remedia^ e que lhe pedia feU 
amor de Deas, que tal naa fizesse. Porem como u 
suas faculdades intellectuaes estavao alteradas, eistrcgOi i 
as armas, e por fatalidade fizerao todos o mesmo^ co- 
nhecendo o seu estado de demência* Concluída esta 
transacção, repartio Fumo os Portuguezes desarmados 
pelos Ancoses, ou Chefes das Povoações, os quaes a»* 
tes de chegarem aellas, os despojarão de tudo no ca- 
minho, e as pancadas os expulsarão para longe, Mafioel 
de Sousa , e os da sua companhia ficarão na Aldeã do 
Rtgulo, que lhes fez logo o mesmo tratamento (eiccpto 
as pancadas), e dÍ2ta-se, que lhes tirou mais de cem mil 
cruzados de jóias; e apôs isto ordenou, que sihí$scfli| 
logo da sua Aldea. 

Este desastre acabou de enlouquecer a Manod df 



4<SI 



>01Bâ, S 



qitem D. Leonor, com hum filíilnho ao coifo ^ 
levou pela mno^ animando-o a ?ubmctter-se aos airog 
juízos da Providencial. Hino tambcra com elles o Pilo- 
to, Contra-Mestrc, e Guardião, e alguns outros homens i 
c a pouco espaço se reunirão Pantaieão de Sá, e outros 
Fidalgos, e Cavalleiros expulsos das Atdeas, que todos 
juntos faziâo noventa pessoas. E como nem Einhão ar- 
mas para se defender, nem géneros com que comprar 
maniimenioí , e pelos matos somente achavao fruras 
bravas, c raizcs, começarão a espalhar-se em difFeren- 
les direcções , como homens aborrecidos de tao pesada 
existência \ e com effeito cada dia morrião alguns de fo- 
me, c de cançaço. 

Os do ranxo de Sepúlveda seguirão o caminho do 
Rio do Manhiça, determinados a ficarem ali, se aquel- 
Ic Regulo o pcrmittisse. Mas antes de lá cheg.^rem, os 
assaUárão os Cafres, e os despirão do pouco que leva- 
vSo. D, Leonor, tendo ao pé de si deitados no chão 
os dois innocenres filhinhos, que choravSo com fome, 
rcsistio aos bárbaros que a qucrÍ:1o despir, e que a ma- 
tarião logo, se Manoel de Sousa, como despertando de 
hum lethnrgo (que huma dor pungente tudo peide fa- 
zer), nâo a tomasse nos braços, c lhe dissesse: Senho* 
Tã , diixái^vos despir , e lembrc-^v&s que todos nasce* 
mús mls\ e pois disto he Dear servido^ sede vós cen* 
gente , que elle haverá por hem , que seja em peniten* 
cia dos nossos peccados^ Com estas palavras se deixou 
D. Leonor despir , e fazendo com as mãos huma cova 
na arèa , se escondeo nella aré á cintura, cobfindo-se 
por diante com os seus longos cabellos, única cobertu- 
ra que lhe restava ; e não quiz mais Icvantar-se. O Pi- 
Joio, c os outros que a accompanhavíío, não tendo com 
que lhe valer, se apartarão chorando. Seu marido en- 
trou pelo mato, e voltando com algumas frutas, achou 
morto bum dos filhos^ e D. Leonor com os olhos fítes 



462 

nclle> e o õutfú ãc collo. Abrindo clle eneao huma 
VI, em que sepultou o filho, foi ao mato buscar maii 
frutas, e quando tornou , vio morta a mulher, e o iilbo, 
e cinco escravas á roda dos cadáveres chorando amar- 
gamente, Esre funesto espectáculo lhe sufFocou a voz^e 
tem dizer palavra , cobrindo de piedosa arêa aqoella 
dois corpos inanimados, que tanto amara vivos, se mct* 
teo ao mato, e nunca mais appareceo. 

Concluída esta tragedia , que a Musa de Canriki 
relatou com melancólica eloquência, partirão as 
cm busca do Piloto, que alcançarão; e aos da comi 
de Pantaleão de Sá; e caminhando com grandes tomes, 
e trabalhos, de qoe só escapámo Pantaleão de Si 
tao de Sousa , Baíthasar de Siqueira, Manoel de ^ 
Feitor do Galeão, o Piloto André Vaz, c outros ireti 
Poriuguezes, com quatorze escravos de ambos os seios, 
os guiou a Providencia ao território de outros Cafres j 
mais humanos, que lhes derão algum milho, de que vi- 
verão muiio tempo, até que chegou ao Rio de Inham* 
bane hum Pangaio de Moçambique, commandado por 
Jium parente de Diogo de Mesquita, Governador dou 
Ilha , que vinha comprar marfim; e sabendo pelos »• 
ruraes, que no sertão aodavao alguns náufragos Poit»* 
guezes, aestacou pessoas intelligentes com missangai^c I 
outros géneros, que os resgatarão. " 

Em Inhambane os recebco o Coramandanrc io 
Pangaio com o maior affecto, e caridade, vcstindcH)!, 
e curando-os a todos, e providos do necessário, » 
transportou a Moçambique , onde chegarão a iç de 
Maio de I55'3; e o Governador, não menos hiinMOO,e 
generoso , os veio receber á praia, e hospedando cm soa 
casa a Pantaleão de Sá (que já havia governado jquelia 
Praça ), e a Tristão de Sousa , entregou os outros loi 
moradores mais abastados, cujo bom trato os restaWc- 
ceo cm breve das fadigas passadas» Pantaleão de Sá» ij 



463 

*rhtio Ac Sousa passarão á Indi3 ; e correrão depois as 
coisas de moda^ que fallecendo Diogo de Mesquita, 
casou Pantaleão de Sá com a sua viuva D. Luiza de 
Vasconcellos 5 e foi segynda vez Governador de Mo- 
çambique. 

lyyj. — A Esquadra (i) este anno destinada para a 
índia constava de cinco Náos^ commandada por Fernão 
Alvares Cabral, embarcado em a Náo S* Benio, huina 
das maiores d'aquelle tempo, e com elle hia Luís de 
Camões: era Piloto Diogo Garcia, Castelhano, Mestre 
António Ledo, e Contra-Mestre Francisco Pires, Oíli- 
ciaes muito estimados. Os outros Commandantes crao 
D- Manoel Tello, no Santo António-, Belchior de Sou- 
sa, na Santa Cruz ; D. Paio de Noronha , em Santa Ma- 
ria do Loreio; e Ruy Pereira da Camará, em Santa 
JMaría da Barca. 

Antes da Esquadra sahir queimou-se por desastre no 
Rio de Lisboa a Náo Santo António, estando á carga; 

fa 24 de Março partio Fernão Alvares Cabral com as 
làtro restantes, das quaes arribou huma a Santa Cruz, 
s três separarao-se a poucos d ias de viagem. O Chefe, do- 
brando tarde o Cabo de Boa Esperança, e parecendo-lhe 
não poderia tomar Moçambique, deitou porfdra da Ilha 
de S. Lourenço, e foi a Goa a salvamento. D. Paio de 
Noronha invernou em Moçambique; c Rujr Pereira da 
Camará chegou em Novembro a Cochim. 

15-5:4, — ^^ Querendo El Rei mandar (2) para Vice-Rei 
da índia algum Fidalgo de grande auihoridade, eTCSpei- 
riQ, e ao mesmo tempo muito rico, nomeou D. Pedro 
■■iscarenhas , que se escusou ^ allegando a sua avançada 

jo (15 Càuco, Década 6. Liv. i. Cap. 14^ •* Chronica de D, João IIL 
■ÉÉe 4^ Cap. icj. ^ Faria, Ásia Portugiieza. — Pedro Barreto de Re- 

^^2) Couto, Década 7* I-iv. 1. Cap. j. — Chronica de R Joíf<^ 111. 
^hÊlc 4. Cap. 111, — Earreto de Reic»idc. — F*na, Asb Poitugucza. 



464 



ídiile de mais de setenta annos, e as poucas forças cora 
aue se achava para resistir aos traballios da viagem, t 
no Governo i e nisto insisrio de maneira, que íc 
sario, que o Infnnte D. Luiz se servisse da gran*.. ^.-:, 
zade, que tinha com elle, para o resolver a cumprir coia 
a vontade d'EIRei; e satisfeito o Monarcha da obe- 
diência de D. Pedro Mascarenhas, Uíe concedeo qaamO' 
este lhe pedio, excepto nomear seu sobrinlio Fernafido 
Martins Freire para Ceueral do Mar da índia » ord^^ 
liando porêra, que se os Officiacs antigos d\iquelic Esia» 
do. reunidos em Conselho, julgassem conveniente o Pei- 
to , nomeasse para e!le quem melhor lhe parecesse* 

Constava a Esquadra de seis Káos^ com doif noil 
soldados, cm que entra vao mais de quatrocentos FidaU 
gos, e Moradores da Casa Rea!; de que erao os ^*~ 
cipaes Fernão Martins Freire, e D, Francisco Ma 
nhãs, sobrinho do Více-Reij D. Pedro Mascarenhas, 
Ruy Barreto Mascarenhas de Liidoi D- Rodrigo 
tinho; João Lopes Leitão i Lourenço de Soasa; 
vâo Pereira Homem; IX João de Bellez, primo do t^a 
de Bellezi e D, António de Noronha, 

Embarcou o Vice-Rei em a Káo S. Boa Ventun; 
e os outros Commandantes , Manoel dç Castanhoso, u 
Conceição ^ Belchior de Sousa , na Santa Cruz ; Fcraío 
Gomes de Sousa, no Espadarte ^ D. Manoel Tello, lu 
Flamenga i e Francisco de Gouvea * no S, Fraaciíca , 

Panio a Esquadra a z de Abril ^ indo EÍRci íõ 
bota-fóra* A viagem não Foi feliz. D- Maoocl Ttiío 
íjrribou destroçado a Lisboa: Fernão Gomes de Soosii 
chegando tarde à Mo<j*ambique, passou a iavcriiar a Or* 
niuz: Manoel de Castanhoso, e Bekhior de Sousa ca* 
veçárão por fóra da lllia de S. Lourenço, e tomiraoCo- 
chim nos fins de Novembro. O Více-Rci entrou eroM<K 
çambique no começo de Agosto » e refazendo^sc de ri* 
vcre€^ c aguada» ancorou na barra de Goa a i] de Sc* 



I 



tembro; e desémoarcando logo^ vélo 3 horèò o Vedof 
da Fazenda Simão Botelho para lírvar o cofre do di- 
nheiro, que hia no porão; e para satisfazer a sua impa- 
ciência y foi necessário revolver a carga , e pôr em cima 
boa parte d'ella* Tirado o cofre, e não tratando os 
Ofiiciaes de arrumar de novo o porão , sobreveio hum 
aguaceiro rijo; estava a Náo atravessada, e cngorjando 
na amarra, soçobrou, pcrdendo-se quanto tinha a bor- 
4Ò, de que o Vedor tomou tal sentimento, que entrou 
n Ordem de S* Domingos. 

•T Neste anno succedcrão alguns naufrágios. A Náo 
& Bento, sahindo de Cochim no principio de Fevereiro 
tao carregada , que as cobertas vinhão macissas , e no 
convez setenta e duas caixas de marca, e tanta quanti- 
dade de fardos, e caixotes a cavalete, que igualavão ò 
convez com os Casrellos, abrio huraa agua tão grossa, 

Siue não a podendo vencer, fci-se perder no Rio do In- 
ante. A fíáo Barribcira, já mui velha, e arruinada, 
dcKipparecco na torna-viagem. A Náo S. Tiago, Cora- 
nsftnoante António Dias Figueira, também dcsappare- 
ceo vindo dos Açores para Lisboa. 

ISS4- — No Verão deste anno partio de Lisboa D» 
Pedro da Cunha com quatro Galés (i), trcs Patachos, 
€ duas Caravelas: erâo Commandantes das Gales (além 
d'elle)j D. Vasco da Cunha, seu irmão, no S* João; D. 
Kuno da Cunha , na Sjnra Catharina ; e Diogo Vaz da 
Veiga, na Victoria. Commandavao os Patachos Grama- 
ião Telles, Izidro de Almeida, e Manoel Gonsalves; e 
as^ Caravelas, Bahhasar RebcUo, e hum sai irmão. Cor- 
rco D. Pedro a Costa do Algarve, e em Agosto se re- 
colheo a Tavira. 

Nesta mesma quadra sahio de Argel o famoso Cor- 
sário Turco Xaramec-Arraes , com oito Galés bem pro- 

rO Ghfonka de D.JolollL Parte 4, Capina 

69 




4e6 

i?idas de cinismo, e de soldados da sui Nação, ãe arti 
Ihcria, e munições, e no mez de Agosto chegou ao Al 
garvc, buscando a Esquadra Portugueza para prlcjar 
com cib , e com este projecto seguio a Costa de Ocsit 
para Leste, dirigindo-se a Tavira* 

D. Pedro àa Cunha eai o vendo fez a grão preisy 
emb.ircar a sua gente, e pariio a cortar-lhe o camioboí 
mas como alguns soldados andavao afastados da GiIm 
de 3 ficarão em terra, posro que a boa vontade era talf 
que dois irmãos naroraes da Beira vierão a nado met« 
rer-se na Cspitnnea, onde tinhão a sua praça, e algiiuf 
mancebos hoarados de Tavira se erobarcárâa por fo* 
luntarios. 

Ajuntarao-se as duas Esquadras já sobre a taréc ni 
Enseada da Carvoeira , hum pouco a Leste do CabOf 
de que cila tomou o nome: as duas Capitaneas pozerio 
as proas huma na outra , disparando os seus cannãesde 
coxia, e os mais que lhes servião, e o mesrao BzctSoU 
outras três Galés Portuguczas, cada qual áquella dnim^ 
migas que lhe ficava mais a geito, com tamanha futoi- 
ça, que se oao enxerga vão humas ás outras. Os Patachos, 
«Caravelas não poderão chegar-se a distancia convenifiíi- 
le, pela calmaria p:)drc que as colheo, e apenas deríd 
alguns tiros de longe, que não produzirão inuito cfti» 
to. 

Era neste tempo furiosa, e desigual a batalha, qoe 
cora esforço, e audácia se disputava de parte a pan€, 
por serem as Galés Turcas em numero dobrado* A (i* 
piranea de D. Pedro da Cunha, matando4he as baíii 
do inimigo muitos dos melhores soldado?, estCTe «o pe- 
rigo eminente, porèm elle se !K>uve de maneira ^ qucre^ 
chaçando os Turcos que saltarão dentro da «tia Gilè 
em huma abordagem, tomou a Capitanca de Xareoiet, 
ficanio este prisioneiro* As outras Gales PortogiiCM» 
SC comportarão com igual animo ^ e faabiUdadc^ c de* 



*67 

poifl de aturdr o combate até pela noite dentro, se achá«< 
rio rendidas quatro Galés Turcas, com immensa perda 
sua, e o resto d'ellâs buscou salvação na fugida. Iluma 
d'aqueilas quatro Galés estava tao furada de balas, que 
no acto de rcnder-se foi subitamente ao fundo com 
quantos tinha a bordOé 

As três Galés tomadas forâo conduzidas a Tavira ,. 
t Xaraoiet remettido para Lisboa. Morrerão dos Portu- 
guezes quarenta soldados, em que entrarão os dois ir- 
mãos naturaes da Beira , e alguns marinheiros , e remei- 
Fos; e ficarão feridos cento e scíJsenta homens. Dos Tur- 
cos pertencentes ás Galés rendidas, morrerão cento e cln- 
coenta, forão cativos mais de noventa, e libertarão-se 
duzentos e vinte Christãos , que elles trazião a remo. 

:. Xaramet-Arraes esteve no Limoeiro, onde D. Pe-. 
dra da Cunha lhe mandava presentes, e dinheiro para 
seu sustento; e no anno de 1561 foi trocado por Pedro 
Paulo, que, sendo Turco, veio a Portugal faaer-se Chri- 
itão, e commandou huma Galeota Porcugueza; e sendo 
tomado no mar, e letado a Argel, conseguio ser troca- 
do por Xará me t. 

I55'5'. — A Esquadra este anno destinada (i) para o. 
Oriente, constava de cinco Náos, commandada por D. 
Leonardo de Sousa , embarcado em a Náo Senhora da. 
Barca; e os outros Commandantes Francisco Figueira 
de Azevedo, em S. Filippe; Vasco Lourenço de Bar- 
buda, era S. Pedro ; Jacomo de Mello, na Algarvia Ve- 
lha (que na torna-viagem se perdeo surta na Tercei- 
ra); e Francisco Nobre, na Algarvia Nova. 

Partío a Esquadra a 10 de Abril : as primeiras. 

Íuatro Náos chegarão a Goa a 10 de Setembro ; porêra 
Vancisco Nobre ensacou-se na Costa de Guiné, e an- 

(2) Couto, Escada 7. LW, 2. Cap. 7. e Liv. ^ Cap. 2. — Barreto 
le Rezende. — Qironíca de D. João III. Parte 4. Cap. 118. — Histo- 
'Mã, Tragico«Maritima Tomo j. pag. 171. 

õ9 ii 



46d 



âou quarenta e fres dias em calma^ sem dimimiír ae im 
grios Norte. Finalmente vio o Cabo de Boa Esperança 
a i8 de Julho, e dirigio a sua derrota por fora da Ilha 
de S. Lourenço. O seu Piloío era hum AfFonso Pct«j 
homem ignorante naquella navegação, que nos fins de 
Agosto SC foi perder nos baixos de Pêro de Banhos, que 
constao de huma pequena liha de trezentos passos de 
comprido, c de muitas restingas que a rodeao, nas 
o mar cmebra muito, 

A Providencia permittio, que a Náo ficasse dfl 
tã, e não abrisse logo, de maneira que toda a genre 
desembarcou na Ilha, com armas, mantimentos, moni* 
ções, tonelame, e muita fazenda, O Coramandante par* 
tio na lancha com alguns marinheiros para Cochimi 
donde passou a Goa; e o Governador Francisco Barre* 
to lhe dco duas embarcações capazes de receberem to* 
dos os naufragados, que erão perto de quatrocentas pei* 
soas. Sahio elle de Goa em busca do baixo j mas láo 
pôde achâllo, e tornou a recother-se áquella Cidade. 

Entretanto os nayfragantes começavao a fazer bn* 
gadas para se salvarem; porém D. Álvaro de Ataíde, 
que ali se achava, apoiando-se na authoridadc de rrci 
Padres Jesuítas, os persuadio a que tentassem antes con- 
struir hum Caravelaa, em que todos coubessem, vista 
terem á sim disposição as madeiras, ferragem, e mam- 
me da Náo; e ainda que esta construcçãa havia dorir 
muito tempo, a Ilha era abundante de agua, cocos, pei- 
xe, e marisco de que viveriâo, guardando os mamimc&* 
tos salvos do naufrágio para a viagem, Pcrsuadidor 
destas, e de outras raiôes, tratou-se logo de desfazer i 
Náo, lavrar madeira, e forjar a pregadura , c cavilht- 
xr\c para a nova embarcação, em que todos trabalharão 
com o maior esforço, e boa vontade, supprindo o lú 
10^ filho da necessidade, a instrucção que faltava 
Artes mechanicas. 



Nos' fins de Míírço do anno seguinte p07erão os 
naufragantcs no mar hum navio bem acabado, e apare- 
lhado, em que embarcarão os mantimentos de reserva, 
fizerâo agua da que nascia na Ulia , e recolherão huma 
grande parte dos artigos de Commercio ; e fazendo-sc á 
réhy chegarão a Cocliim com prospera viagem nos úl- 
timos dias de AbriL Exemplo notável do que pode a 
industria, c boa disciplina ! 

De três Náos (i), que cm Janeiro deste anno sahí- 
rão de Goa para Portugal, duas chegarão a Lisboa a s*il- 
vamenio; mas a Santa Cruz, comniandada por Belchior 
de Sousa, desappareceo no caminho. Esta Nao já tinha 
aberto muita a^ua pela proa á ida para a índia , c a 
pesar disso os Officiaes d*aquelle Arsenal a acharão ca- 
paz de voltar á Europa, e bem sobrecarregada, Nella 
morrerão alguns Fidalgos de grande préstimo, e servi- 

15'5"<^, — Este anno(2) mandou EIRei á índia huma 
Esquadra de cinco Náos, commandada por D.João de 
Menezes de Siqueira, embarcado em a Náo G^rça j e oi 
outros Commandantes Jorge de Brito, na Flor de la 
Mar; Pedro de Góes, no Galeão S. Vicente; Alartim 
Affbnso de Sousa, em S. Julião; e António Fernandes, 
no S. Paulo, de cuja Náo era proprietário. 

Sahio a Esquadra a IJ de Março, levando á índia 
st iníviusta noticia da morte do Infante D, Luiz, incan- 
çavcl protector dos homens que servirão bem a Pátria, 
As qaatro primeiras Náos chegarão a Goa em Setem- 
bro* 

A Náo S. Paulo, havcndo-se atrazado, dobrou tar- 
de o Cabo de Santo Agostinho, e nesta occasiao se es- 
>athou a bordo hum rumor de que não havia agua pa- 



i 



l) Cotfto, Década 7^ Liv. t. Cap. 6, 
(a) Coiito , Dfcada 7* Liv, j. Cap. 6*, e Liv 
Rezende. — Ciironíca dç D. J< 



4. Cap, T. — Pc- 
II, Piíite 4. Cap. 1 zo* 



470 



n tão comprida viagem, e que era preciso arribar; c ín* 
sísrindo o Commandantc em coatinuar a derrota^ a gujr- 
nlção rcciísou-se ao trabalho. D. António de Noroalu, 
que hia de passagem, e era Fidalgo de grande rt 
tOj socegou o motim, e fez com qnc o Comman^ 
mandasse examinar a aguada, como devia ter pmijc 
cm tempo opporruno. Com efFeiro, achou-se tão pcqos^ 
na porção de agua, que arribarão á Bahia ^ de qoe eu 
iCíovcrnador D. Duarte da Costa, o q-.ial dco toiks as 
^providencias net:essarias para o apresto da Náo, 

Cinco mezes se demorou aqui António Fernanitcf, 
c salúndo no principio de Outubro com determinação ác 
'|*assar por fora da Ilha de S. Lourenço, foi buscar a ai* 
tora de 41-, onde soíFreo grandes frios, e d'ali veie do- 
brar o Cabo de Boa Eí^perança , de cujo ponto dirigio 
a sua derrota por fora de S. Lourenço, e de todoí « 
baixos, 3 fim de ir ver a poma da Ilha de Sumatra; « 
como os ventos o favorecerão, logo que chegou iqtidh 
altura, voltou no outro bordo com os Levantes, c fci 
avistar %f9onta de Gale na Ilha de Ceiiâo, c depoii o 
Cabo Comorim, Deste Cabo seguio navegando ao laH 
go da Costa, e ancorou em Cochim a 30 de Janeiro do 
anno seguinte , encontrando ainda neste Porto ao M 
Chefe D* João de Menezes de Siqueira, que no 

guinte se fez á Vwla para Portugal, 

15-^7, — A Esquadra da Índia (i) foi este aitM de 
cinco Náos, de que El Rei nomeou por Chefe a D. Li&i 
Fernandes de Vasconcellos, embarcado era a Náo St**^ 
ta Maria da Barca; e os outros Commandantcs Gdede 
Sousa, em Santo António; Braz da Silva, na Asseai 
pçao; António Mendes de Castro, na Flamenga^ cjoío 
Rodrigues Salema de Carvalho, na Águia. 




Couto, Década 7* Lh\ j. Cap. a,, c Liv, 6. Gif\ u — 1 
— FAtia, Ali* Poftugueza. — Qifonica <te 0. Jodo 111 



CO 

Barteta 

te 4. Cip. 1 24< 



in 

Estando para sahir, abrio a Capitanea Inima agua 
tão grossa , que esteve em perigo de ir a pique , e foi 
necessário descarregalla : a final achou-se o niro de hum 
prego, ou cavilha, que na carena tinha ficado tapado 
com breu, e por elle fazia a agua ; mas antes desta des- 
coberta mandou ElRei partir as outras quatro Náos à 
JT de Abril , e a Capitanea sahio a 2 de Maio. 

As Náos Assumpção , e Santo António chegarão a 
Goa nos fins de Setembro. A Flamenga invernou em 
Melinde, è a 11 de Agosto do anno seguinte partio pa- 
ra Goa, porém fez logo tanta agua, que foi buscar 
^ombaça , em cuja barra encalKou , e se desfez toda , 
$alvando*sea jgente, e a carga, A Águia invernou em 
Ãfoçambique,.e em Maio passou á índia. 
^ .;■ :D, Luiz Fernandes de Vasconcellos, seguindo sua 
'derrota , metteo-se na Costa de Guiné, onde. andou se- 
ttota dias em calmaria, e a final assentarão os Ólficiaes 
em irem invernar ao Brasil, como fizerão, ancorando na 
Bahia a 14 de Agosto. D. Duarte da Costa , Goyerna- 
"dor Geral daquclle Estado, foi receber ao desembarque 
a D* Luiz Fernandes, e a outrps Fidalgos. que' çom elle 
hiâo^ os quaes erão Luiz de Mello da Silva, D. Pedro 
de Almeida , D. Filippe de Menezes , P. Pedro de Li- 
ma, Nuno de Mendonça, e seu irmão Henrique de Men- 
donça, Jeronymo Corrêa Barreto, e Henrique Moniz 
Barreto, e a todos deo casas, c tratou com grande 
magnificência* 

. Em tempo próprio sahio D. Luiz Fernandes da 
Bahia, e a z de Maio do anno seguinte chegou a Mo- 
çambique , e d'ali passou á índia em companhia do 
yice-Rei D. Constantino de Bragança. 



Att 



Reinado d*ElRei D. SebastiJIo. 



H 



AVENDO fallecido EIRei D, João IIL na nuire de 
!"ll de Junho de 15^57 , ficou successor da pod^TCsa Mb»] 
narchia Portiigiieza o Príncipe D. Sebastião, seu Necoij 
na idade de três annos, e quasi cinco mezcs. No àiã 14 
foi a Rainlia D. Catharina , sua Avó, jurada, e reco- 
nhecida como Regenie do Reino, e Tutora, e Curado- 
ra de seu Nero, a qual associou a Regência aoCirdãil| 
Infante D. Henrique, lavrando-se de tudo hum Aqcqsch 
lemne na mesma data; e a 16 foi o Príncipe acclaosi* 
do Rei. 

No anno de IS'64, tendo a Regente noticia qw aoi i 
Portoá de Inglaterra se carregavâo dez navios de mcrci* 
dorias para as Costas da Mina, e Guiné, cujo Com^ 
mercio não só era vedado aos Estrangeiros, mas «« 
mesmos Portuguezes, por andar arrendado a certoi Kc» 
gociantcs de Lisboa, raandou áquella Corte Aires Car* 
doso para representar á Rainha Izabel a injustiça de P^ 
niilhanre especulação; o que elle fez com tanto sticcef* 
so , que Izabel prohibio com graves penas aos setts Vaf 
salíos todo o trafico nas Conquistas oe Portugal (!)• 

A pesar desta prohibiçao, e provavelmente mm ^ 
consentimento tácito de Isabel, continuarão os sem Vis* 
sallos o Commercio clandestino em Guine; e passindo 
a maior excesso , roubarão algumas embarcações Portii* 
guezas por aquelles mares , causando-lhes hum prejtiÍ20 

CO Mt^mortai d'£lRcí D. Sebastião tomo i. Liv. 1, Cifw f. 



473 



de quatrocentos mil cruzados ; de que se geguio mandar 
a Regente em ijó/ algtios navios de guerra a castigar 
dquella insolência , os quaes apresarão alguns navios. 
Prcnderáo-sc igualmente no CastcIIo da Mina os Ingle- 
ses , que por aii se acha vão, medida que se esrendeo aos 
que estavao era Lisboa^ cuja soltura Izabel pedio; e pa- 
rece serem elles cúmplices naqucllas piratarias , pois na 
Carca, que a Regente escreveo á mesma Izabel em da- 
rá de 23 de Outubro deste anno , dizia : Mandei soltar 
úi Inglez^Sy que aqui (em Lisboa) estavão prezas por 
delicies graves^ e atrozes. 

Este negocio azedou-sc de parte a parte; Izabel deo 

Cartas de Marca aos seus súbditos contra os Portugue- 

zes, e a Regente fez reprezar todos os navios Inglezes, 

j que SC acha vão nos Portos de Portugal. Ajustou-se pO' 

rétn amigavelmente a questão. 

A 20 de Janeira de ijóS , em que El Rei D. Se- 
bastião completava quatorzc annos, se celebrou a cere- 
monia da sua Coroação, em cujo acto recebeo o Gover- 
no das mãos do Cardeal Infante, na presença da Re^ 
gente. 

Este Mona relia presou muito a Marinha* No an- 
uo de 1567 apparecco huma Provisão Real, mandando 
estabelecer na Casa da índia hum livro, em que se re- 
gistassem todos os navios da Coroa , e os de Commer- 
cio existentes no Reino ^ prohíbindo vendellos a Estran- 
geiros, e concedendo cercos prémios aos que em Portu- 
gal, e seus Domínios mandassem construir navios de 
130 toneladas para cima. 

Determinou também, á vista do grande numero de 
Piratas, c Corsários que naquelles tempos infcstavão o 
Commercio Portuguez, que os nqvios mercantes de 200, 
ou mais toneladas^ montassem quatorze peças, e onze 
os de lyo até 200 toneladas; compondo-se as suas equi- 
pagens na razão de hum homem por duas toneladas ^ 

60 



k 



■474 

ê 

rè que nío sahissem dbf Portos^ em numero menor át 
'iguatro' navios, cujos Capitães devião eleger hum, qut 
>t>s governasse, íío qual scrião obrigados a obedecer, sob 
certas penas* Este regulamento, posto que pesado aa 
Conlmercio, produzio o beneficio de navegarem âs em» 
barca ções Portuguezas com toda a segurança* A*« p«^ 
ioas, que quizessem armar em corso, concedeo EÍR4 
todo o producto das presas; mas, em consequência d* 
alguns excessos comraettidos por estes Armados, proíii* 
tio-se depois o conío (i). 

Pelo Regimento da Ca?a da índia de 1570 •• 
^rolribio, que as Náos da índia fossem de menos de 
300 toneladas, ou de mais de 45*0 (2); o que parece 
mo chegou a ter execução. 

O cargo de Oprtão Mor â^ Frota foi occupad^ 
por D. Fernando de Almrtda, em consequência de bu» 
ina Carta de ConfirmaçiSo passada em Eiwra a ^ de 
Agosto de I573» 

No Reinado deste Monarcha sahíraa de Ltsho* 
para o Oriente noventa e sete Náo3, c dua« CaraYclfS* 
Perdcrão-se á ida três Náos, huma d^ellas ancorada na 
barra de Goa. Na torna-viagem perdcrao-se nove Nios, 
tendo duas em Moçambique. Total do^c Níc» pefttí- 
âas , de a\i2 só quatro o forao com toda a guaroiçi(>; 
áb seis Salvou se toda a gente ; c de dujt morreo par» 
d^ella. De todos aquelles novenia e nove navios, arri* 
bárao dois a Lisboa. 

^ f5'yí. — Coma o Governador da índia FraiKÚiai 
Barreto (3) tinha acabado o seu trlennio, detcrminoa i 
Regente de Portugal nomear^lhe succcssor, em que «t 

' (i) Notícias de Portugal, Dwcurso i. $* >^ 
(3) O- mesmo Sevcrim dcs Farm, Diicurso 7, 
- (i) Cotito, Década ;. Liv, 6. Capitubi i, e j. -* EpUcçr M fp^ 
àto Eirreto de RcTcnde, — Fariíi , AsJa PortuguCMa -^ >kmc«£ij ࣠
IfiUí tX Scbástiíoi idmo u pág. X$a 



4T5 



-Wíiww embaraçada, porque dois Fidalgos, qiie par^ 
lafiD €S«lheo , ^c escusarão , porém cortou a ditficulcja- 
de D* Constantino de Bragança , irmão do Duque p. 
TheodosiO^ xrfFereçendo-se para aquelle Cargo : e a 3 de 
^anço se lhe passou Carta-Pat^ntií de Vice-Rei, 
^k* Pf^parou-sc huma Esquadra de quatro Náos com 
^Bois mil eoldados, cujos Commandantes erao D. Paip 
uie Norooha, na Garça; Aldxo de Sousa Chichorro, o^ 
Rainha, o qual hia nomeado por Vedor Geral da Fa- 
.^zeoda da Iftdia ; Pedro Peixoto da Silva, no Tigr^; e 
Jacomo de Mello, 110 Castello. Embarcou D, Consta n- 
.rino cm a Náo Garça (i), c com elle muitos Fidalgos,, 
-^ue hiio Stírvir á índia, taes como D. Dinjz , filho da 
Marechal do Reino, Francisco de Mello, Aires de Sal/- 
danha, D. António de Villicna, D. FraiKiscp Lobo^ 
D. Luiz de Almeida, D. Francisco de Almeida , Fernão 
de Castro, Pedro de Mendonj^a» João Gomes de Castr^*^ 
Pedro da Silva de Menezes, JeroDywo Dias de Mene- 
«es^ João Lopes Leitão, Gil de Góes, e outros muito? 
-Fidalgos, e Cavalleiros. 

A 7 de Abril sahio de Lisboa a Esquadra , e coíii 
^ospera viagem ancorou uos priíicipios de Julho era. 
Moçambique, onde achou invernandp as Náos de D^ 
Jblls^-xte Vasconceitos, e de João Rodrigges Salema de 
l£tf(Mllio* Desembarcou o Vice-Rei^ e ordenou logo ^ 
Jíum Engenheiro, que para is,so levava de Portugal^ 
desse principiu a huma nova Fortaleza, que se mandar 
-va construir na ponca da Ilha, que dqmina a entrada 
do Porto, e no seu alicerce deitou a primeira pedra cora 
as ccrenionias costumadas. 

Partio o Viçe-Rci de Moçarobiq^ue a y de Agosto 
com seis Náos, e a 3 de Setembro cticgou a Goaj e 

^^^ Ei*-3qut d pciuieito exemplo a^ ievar CommamJantc pirticuJAr i 
Kio4^ VicevRc)^ e este toesmo íoi quein o iK)inttou. 

iiU ii 





recebeo o Governo das mãos de Francisco Barreto, ca- 
já espantosa viagem de volta a Portugal agora relata- 
rei. 

I5'S'9' — ^ Esquadra destinada este anno (t) para 
a índia consiava de seis Náos, e era cotnmandada j«r 
^^Pedro Vaz de Siqueira, embarcado na Flor de la Mar, 
com quem hta o Bispo de Cocliim D. Fr. Jorge The* 
mudo, e o celebre Escritor Diogo de Couto, de idade ^ 
então de quinze annos , Moço da Gamara d^EJRcíD. 
João IIL Os Commandantes das outras Náos cmi 
Francisco de Sousa, da Algarvia, que levava o Bisp o ikj 
Malaca D. Fr. Jorge de Santa Luzia ; Pedra de " 
do Santo António; Luiz Alvares de Sousa, do SL^ 
liao; Lisuarte Peres de Andrade, da Conceição , cKuy 
de Mello da Camará , do S. Paulo. 

Sahio a Esquadra de Lisboa a ij de Março, mm^i 
portando perto de três mil soldados, em que se incluifel 
muitos Fidalgos, e Cavalteiros, c outra genre limpa, e] 
mui lustrosa. Destas seis Náos invernou cm Moçam- 
bique a Conceição, por cheg^ar tarde; c o S, Paulo, íiw| 
do avistar a Costa do Brasil, e não a podendo dobraf^j 
arribou a Lisboa. As outras quatro entrarão era 
fiiez de Setembro. 

Tj-j^í^, — Havendo Francisco Barreto entregue oi 
yerno da índia ao Vice-Rei (2) D. Constantino dei 
gança, e achando-se unicamente em Goa dvms Nãos 1 
carga , qiie crão a Garça , de mil toneladas , e a Águia» 
navio pequeno, e já vcIík>, commandado por JoSo Ro- 
drigues Salema de Carvalho, pedio Francisco Barreto 
ao Vice-Rei lhe desse esta ultima Náo, e iriiidasK o 
seu Commandame para a Garça, a fim de ir can^gu 1 

'•j j '•' * > 

Cl) Couto, Déctd;^ 7. Lw, S. Cap. i. — Pfedro Baireta, — T^ 
fia, Asit Poftugueza, 

- (*) Couto, DeçTuh 7. Liv. 6. Cap, f. — Dito Lino K Caçiaàm 
9 j ia 9 » 1 j. — Memuríai dVElRei ÍK SebAitiáo , Toma i, O^ ^ 



477 

^Cochim, visto qae em Goa náo havia carga para am- 
ebas, e ellc desejava partir breve desta Cidade > no que 
o Více-Rei conveio pelo obrigar- 
b^ Concertada , e carregada a Náo Águia , sahio de 
^■Coa Francisco Barreto a io de Janeiro de isS9f 1^^^"* 
^■ão a seu bordo muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e Grea- 
^^os d'ElRei, como Ruy Barreto RoHm, seu primo, D. 
f Diogo Lobo, D. Affonsa Henriques, D- Francisco de 
Mour^, D. Filippc de Castro, Manoel de Brito, Pedra 
L T Alvares de ManccUos, e Manoel de Anaia Coutinho, 
I -ambos seus parentes, Sebastião de Rezende, Diogo de 
Vasconccllos, e Francisco de Gouvea , a todos os quaes 
íeo sempre meza, 

D* Luia Fernandes de Vasconcellos partio de Co- 
chim com a sua Náo Santa Maria da Barca, e as ou- 
tras de torna-viagem dez dias depois de Francisco Bar- 
eiojecom bom tempo chegarão í aítura da ponta do 
Jul da Terra do Natal:, onde lhe sobreveio lum tem- 
poral, que alcançou a todas, ainda que espalhadas; sof- 
>endo porém menos damno as Náos Rainlia, Tigre, e 
^^«cllo da Esquadra do Vicc-Rci, as quaes poderão 
'dobrar o Cabolde Boa Esperança, e forao a Lisboa a 
. salvamenro, todas as outras Náos se acharão derroraL- 
■Mas, porque passada a tormenta, ficarão os mares mui 
^^grossos, e cruzados, e os vcoros variáraa, mas sempre 

Nmui rijos, obrigando as Náos a bordejar, e a capear 
Frequentes vezes, a que as abrio, e desconjuntoa , de 
maneira que gastarão até ao fira do mez de Março enr 
chegar á altura do Cabo, que António Mendes de Caf^ 
tro, Comraandante da Flamenga , conseguio dobrar, pa» 
L— ra SC ir perder na Ilha de S. Thomé. 
Bp D, Luiz Fernandes soffrêo toda a fúria desta tor^ 
"^ menra, e com os pairos que fez, começou a Náo, que 
; jogara muito, a abrir agua por tantas partes, que a 

^ gamotes com que se trabalbavii 



de can ti noD de noite, ièxJeTtla, fendo elíe o pnmeifo 

em todas as fainas, chegou a agua a cobrir os baUcos 

do porão, esperando^se de momento a momeDCo que 

fosse ã pi qtte. Nesta extremidade assentarão uniforme- 

-mcnce os Oíficiaeç em buscar a terra mais proxioia p 

ra encalhar; e assim deitarão a popa em demanda àa 

.díha de S. Lourenço, Achava^^se já a Náo com viw 

'jpalinos de agua dentro era si, quasi adernada^ c ^en 

»dar pelo leme, quando os OtHciacs djsserâo era kgceáD 

,ô D- Luiz, que cllcs ae faz-iao de doze a jquinzc Icgpu 

i:>tín ponta Occidental da Ilha, mas ^que a Náo já liopo* 

sdda Já chegar ; x que por tanro seria meUic»- sabareiD^ 

na lancha os que nclla coubessem, 

-r Logo B- Luiz fez deitar a Undia foca, e Jiprcm 

se mettco nella com seis iiomens, levando iiom inmi 

d'ag[ia, Irum sacco de bi «couto, e duas caixas ide mar* 

melada; e afastando^se da Náo, chamou por «ui kh 

jmes varias pessoas, que foi recolhendo, até que us Of- 



4iciaes lhe requererão, que nSo acceitasse mais, por «srar 

s/E vendo qu 
Francisco de Castro /Religioso de nobre nasci mciiro,c 



ia lanclia ji carregada. *E vendo que faltava o »dnr Fr* 




igrande virtude, se aproximou da Náo para o receber, 
-Hias elle rcspondco lhe: que se fosie na fa^ de De9ít 
porque ficãvã confessãmiOye consolando mais de Ju^^ 
ias pessoas^ que ãii estavaOy o que importava maii ^^ 
-que a sua própria i^ida* 

0>ra este desengano deo D. Luiz á vc-ia , di 
gente da Náo em prantos e gritos , que ferilo H 
«res \ e antes de a perder de vista , a eorvco o mar com 
quantos nella estavao. 

No dia seguinte virão terra da Ilha de S. Loara^ 
ço em quisi lO' 30' de latitude avante fia lllm.ide SSo 
Tiago, e forlo navegando ao longo da Costa , cm qiK 
tomarão vários Portos , c Bahias , sem desembarcar pH^ 
ua alguma ^ comprando algumas gallinhas, que 1>, ' 



4 



4W 



ii guardar pjiix os daentçs , gem tpjerer para si mais 
que a cscaí^a porção de roantimetitOj cpje se dará 
oum^s» Este ma4itimento consistia pela maior par^ 

tm aigum peixe ^ ou marisco das praias a que apor* 

Chcgárâo finalmente por esta maneira ao Cabo, 
c faz a Ilha da banda do Levante, e em huma graa^ 
de Enseada naalmra de i^"" acharão huma embarcação, 
me vindo da índia para Moçambique ^ fora obrigada a 
lomar aquelie abrigo, O Commandante dc?te nairio^, 
que eriv hum homem Fidalgo, conhecendo a D. Lwir, o 
Mpcebeo com muiro alvoroço, e aos outros naufragado»,, 
^fccomo era forçoso esperar os Poncjitcs para irem a 
Moçambique , comprou D* Luiz varias fazeTida-i das 
que levava o navio, com que vesrio a sua gente, e hoiK 
-TC dos Negros do Pai^ todo o mantimenco necesFario 
jt^ra a sustentar» 

Logo qiM3 enrrárSo os ventos Ponentcf, ^ihio IX 
tliit na embarcação da índia , e foi a Moçambique, 
onde achou as Náos^ que >ir^háoi de Porti*gaI; embai^ 
cando-«e em hu^mi d^ellas, passou a Goa^ e í*Ii encoii^ 
trou Francisco Barreto, com quem ítgora continuarei* ^ 

Francisco Barreto andou dezoito disis em arvore «e- 
i!i com tanto mar, e vento , que áo muiro jogar àii Náo 
llic rebenrárâo trinta e seis curvas, por cuja causa, e 
|50f ser veíha» e podre, abrio mni tas aguas, que ba^a- 
fífio para a mcrter no fundo, se nao fosse a grande acti-* 
"Vidade com que hi hora vão incessantemente as bombas, 
e gamotes, sendo Fnincisco Barreto qitem dava o esreiíi-i. 
f>)o do traballK) , ajudado das pessoas nobres <fue a 
aoompanhavao, Accresceo * este outro embaniço: foi» 
precisa mtidu a pimenta de huns pâi<4es para outros^ itf 
íRm de se toma-rem pí>r dentro algumas aguas ^ e de evi-^ 
Of que se entupissem as bomb^sí; porque era tanta a 
quantidade de agua que a Náò ^s^ia, que nao só se nSbi 



4M 



^odia conseguir esgotalla ^ mas >m stispendendo âlgum 
espaço de tempo o manejo das bombas, e garaotes, cres- 
cia trei e quatro palmos no porão. Quatro dias durott 
este insano trabalho^ sem se poder cosi n ha r em razão do 
fumo que sahia do fogão, e suffocava os homens que da- 
váo á bomba , de maneira que só comião biscouco^ e ai* 
gumas conservas. 

Cincoenta e quatro forão as aguas que se acharão, 
e era força tom^illas iodas por dentro, não permhtindo 
o estado do mar fazer por fora embalsos nesta obra: 
lomou-se com eíFeito o maior numero delias, i custa de 
algumas curvas, e enchimentos que se cortarão, e enfn' 
quecérão a Náo de modo, que quando jogava, movis-se 
como se todas as peças da sua consrrucção estivessem 
desligadas, por cujo motivo foi necessário arroxalla de 
popa a proa , e de bombordo a estibordo com bons vi- 
rados atezados a cabrestante, único recurso em casos si- 
jnilhantes. Como a Náo, a pesar de tudo isto, não dei- 
xava de fazer agua, que duas bombas eíFectiras aão po- 
diâo esgotar, mandou Francisco Barreto, com parecer 
dos Officiaes, alijar muita fazenda ao mar, c sticcedeo, 
que achando os que ira bailia vão nisso huns fardos de 
anil pertencentes a huma esmola que vinha para o Gm- 
vento de Nossa Senhora da Graça de Lisboa, e pcrgiHK 
tando se os haviao deitar ao mar? disse Francisco Bar- 
reto : Qjíe primeiro se alijasse a sua própria faseih 
da y se não houvesse outro remédio i porque ás cosi$s 
havia de salvar a de Nossa Senhora^ de cuja fêvor 
pendia a segurança , e salvação J^aquella Nao, 

Continuava a agua a ganhnr sobre as bombas, o 
que vendo o primeiro Piloto André Lopes, julgou acer- 
tado ir buscar a terra mais próxima , que era a poocs 
do Natal , em que se perdera Manoel de Sousa de Se- 
púlveda, e distava cincoenta Icgoas, para varar ocUii 
por temer a cada instante qu^ a Náo fosse a pi<jiic» 



I 



I 



1 



481 

Vancisco Barreto i convocando logo todc^ os Officiãfff , 
jropóz o caso , com juramento de cada hum dar livre- 
_ lentc o seu parecer, e André Lopes disse: Que elle 
naiegavã desde cincaenta anms y e tinha feito muitaf 
Tfisfx aqtitUa vitsgem^ achando*se em grandes perigos^ 
porem nunca se vira com nenhum igual a ejte, pelo 
isiadú de podridão^ e ruina em que estava a Ndo'^ e 
que assim a maior misericórdia , que podião esperar 
de Tkos^ era que os levasse a avistar Serra* O mes- 
mo foi o voto do Mestre, do Sou-Piioto, do Contra- 
Mestre, e dos mais Officiaes, 

Entv^o Francisco Barreto, com semblante alegre, e 
mui seguro fez huma faila a toda a guarnição, animan- 
do-a a arrostar todos os perigos , na conííança do auxi- 
lio Divino, com qtie influio nos homens novo espirito 
para continuarem no trabalho das bombas, e gamotes, 
em quanto hiao buscando a terra* Neste momento quiz 
a Providencia, que o vento, e o mar abonançassem, 
com que a Não começou a fazer menos agua, e os Of- 
ficiaes farão de opinião de seguir viagem para Moçam- 
bique, como se fez, posto que sempre roçando ambas 
as bombas, emprego em que se empregavao exclusiva- 
mente os Fidalgos, e passageiros» Os ventos erao lar- 
gos, e bonançosos, c nos principios de Abril enrrárãa 
em Moçambique, onde acharão a Kio Garça, que no 
dia antecedente havia entrado destroçada para ali inver- 
nar. 

Tratou logo Francisco Barreto do concerto destas 
duas Nács, em que gastou muito dinheiro, e em reme- ^ 
diar as nccessid.idcs dos passageiros, e guarnições de 
ambas, no espaço de mais de sete mezes que se demo- 
rou naquella Ilha. O Governador de Sofala Sebastião 
de Sá , que se achava ali, também o auxiliou com todos 
os meios de gente, c de madeiras que o Paiz pôde for- 
necer ^ e assim forão as Náos reparadas íl(j mellior 

úi 




modo pa^sívei ; e a 17 de Norembm tiene atmo St 
15*59, ^Of^ ^o^T^ vento Lcvanie se fizerâo á véU f»rt 
Portugal, ajustando Francisco Bar/ero com João Rodri- 
gues Salema de Carvalfib navegarem senfipre unidos, pa» 
ra se poderem mutuamente soccorrer era qualquer inci* 
dente que occorressc. 

Aos três dias de viagem, em que terião na?cgado 
tincoenra legoas, começou a Náo Águia a fazer muita 
T»goa , a qual foi crescendo de modoj que no dia se- 
guiwe já não a vencião as duas bombas. Mandou Fran* 
cisco Barreto fazer signal com tiros de peça á NáoCar- 
'ça para vir á falia, e chegando perto líie disse: Omí s 
^ua Não fazia muita agua ^ e lhe pedia & nm disãm' 
f arasse , porque • elle hia arribando para as Ilhas ii 
^azartitô , visiú não poder tornar para MoçamHqai^ 
por haver começado a monção dos Levantes* SiKte* 
dendo porem diminuir logo a agua j mudarão a derroca 
para o Cabo de Boa Eí^perança. 

Poucos dias depois^ achando-se na latitude de if*, 
fazia a Aguía tanta agua , que levava quatro palnnoi 
d'ella no porão, sem ser possível csgotalla. Nesta siíjfl* 
ção critica repetio Francisco Barreto o mesmo sigiwl á 
Garfâ, e tomou o rumo para as Ilhas de Baz^ruto. Joío 
Bodrigue^ > ouvindo o signal, ordenou ao Piloto, c 
ao Mestre, que seguissem a popa do seu Chefe, que 
niosrrava ir em grande perigo » pois aos oiio à\á% de 
viagem arribava segunda vez, O Piloto, o Meftre, c 
ós mais Officiaes da guarnição não quizerão obedecer 
ao seu Commandantc, e lhe fizcrão protestos, c rrqof* 
rimentos para que seguisse viagem, e deixasse a oum 
Náo, que hia perdida sem remédio, João Rodnguci, 
vendo esta combinação insolente dos seus OíBciaes, cc- 
deo á força, e continuou a derrota. 

No dia seguinte tomou a Aguía a fazer roam 
jgvia^ de modo que a vencião as bombas, e anijiadci 



>dof càtn QstQ favor da Providencia, concòrdíflo eini 
jroseguir a viagem para o Cabo de Boa Esperança 
iesxc para a Ilha de Santa Helena, onde podião espc*^ 
rar as Náos de lorna-viagem da índia , e virem nellâi 
para Porrugal. 

Com csre intento tomarão o mesmo ramo, que le* 
vava a Garça, e cliegárao a alcançalla; a qual, coniic* 
cendo a Águia ^ diminuio de panno. Chegando a ella 
Francisco Barreto, mandou a seu bordo hum Protesto 
dirigido ao Commandanre, e mais Officiaes, no qual 
Jhes requeria da parte d* E/Rei^ que seguissem a sum 
N4a ^ e jião a desamparassem , sob pena de os haver 
por iraidôres ^ e levantadas contra El Rei ^ e lhes en^^ 
campava toda a fa^-enda , que bia nella ^ para El Rei 
haver a sua pela do Commandante^ e de todos os maiT 
0£fciaes\ e deste Protesto se lavrou hum termo. Os Of- 
ficiaes da Gar^M responderão, que seguiriao a Náo, 

Navegando as duas de conserva , na tarde do dia 
seguinte atirou a Garja hum tiro, pedindo soccorro, a 
que Francisco Barrcro mandou logo em hum bote Je- 
njnymo Barreto Rolim com iodos os seus poderes (nao 
indo elle em pessoa, por se haver sangrado aquella ma- 
nha), para remediar qualquer novidade que tivesse* oc-- 
corrido, julgando que seria alguma nova contestação en- 
tre Joíío Rodrigues* e os seus Officiaes. Jcronynio Bar- 
reto achou todos em grande confusSo, revolvendo os 
paioes da pimenta para dei? cobrir huma agua perigosa ^ 
qtie a N^o fazia, e que muito recearão se não podesse 
tomar; com cuja noticia se retirou- Ao amanhecer veio 
o Escrivão da Garça com hum bilhete de João Rodri- 
gues para Francisco Barreto, assim concebido: Senhor^ 
cumpre muito r.o serviço de Dcos , e d'* E/Rei Nossa 
Senhor , cbev^nr V. S. cá \ e pela brevidade deste ve^ 
jã o qne ca vai* Beijo as mãos de F. S. 

Funcisco Barreiu foi logo a bordo-da Garça com 

bl ii 



484 

alguns Fidalgos, c aíi ficou rodo o dia trabalhando 
to era possível por descobrir a agua, que não podia ircn* 
cer-sej e retirando-se á noite para a sua Náo^ comam* 
nicou a rodos o perigo em que a deixara, o que augmea* 
tou o seu susto , porque cambem a Águia fazia muita 
agua, âpezar de haverem alijado grande quantidade de 
pimenta, e drogas, e dois mil quintaes de érano, que 
imprudentemente embarcarão cm Moçambique. 

Ao amanhecer já Francisco Barreto hia para aGar* 
ça com gente para ajudar os trabalhos, quando elta kz 
signal de pedir soccorro, poj*que a agua crescia , e ti* 
nha-se descoberto que entrava pelos delgados da pflpí, 
onde era impossivel tomalla. Francisco Barreto, com 
unanime parecer de João Rolrigues, e mais Officia», 
determinou que passassem para a Águia, primeiro astoiK 
íheres, meninos, e pessoas inúteis, e depois os manri» 
íiíentos que possível fosse tirar dos paioes, e porão; a 
que se começou logo a fazer com summa actividade nas 
lanchas, e escaleres. Esta faina durou três dias, que a 
Providencia permittio serem de perfeita bonança ãcmn^ 
evento, cortscrvaodu-se Francisco Barreto todo este teoi* 
po no convez com a espada na mão, para manter i 
disciplina, e boa ordem, tanto no embarque da geme, 
€ mantimentos, como na cojuinuação do trabalho das 
bombas, a fim de evitar que a Náo fosse a pique. Fi- 
nalmente achando-se esta }á com agua ate á coberta i 
fez Francisco Barreto sahir a tropa, e pelas trci horas 
da tarde sihio e!le na ultima conducçâo com a mart* 
nhagem , que seriao oitenta homens , fkando só a boido 
Juim macaco; e ainda desejou elle ir buscallo^ mas cc- 
àço ás representações que se lhe fizerao. 

Recolhido i sua Náo com toda a guamiç.1o di 
Garça, ichou na revista que se passou, mil cento etriíi* 
ta e sete pessoas, e mandou fazer hum escrito do tbcor 
eqguifte: A Ndo Qarf4 se pcrdeo íãaio avattíc, Cêmã 



405 

O Calo Âãs Carrentes , na altura àe it** âa lànàa io 
Sul j e foi-se ao fundo par fazer muita agua. Eu ^ 
com as Fidalgos , e mais gente que levava na mhtba 
Nào , lhe salvei a sua toda , e bimos fâís^nda nossa 
viagem para Portugal com o mesmo trabalho. Pedi- 
mos pelo amor de Deos a todos os Fieis Christaos^ que 
disto tiverem noticia^ inda ter este batel ande houver 
Portugueses ^ que nos encommendem a Nosso Senhor 
em suas orações y que nos dê boa vi agem y e nos leve 
a salvamento a Portugal. 

Este escrito, mettido em hom canudo bem Tapado; 
c breado, foi posto em huma cruzeta armada na lan- 
cha da Garça, que se abandonou ás ondas, a qual foi 
ter a Sofala , como depois se veio a saber. Ao anoite- 
cer ainda se avistava a Garça. 

Seguindo Francisco Barreto sua derrota para o Ca- 
bo de Boa Esperança com vento Jargo , e bonançoso , 
próprio d^aquella estação, saltou de repente o vcoio ao' 
Ponente, e rão rijo» que ít% em pedaços a vóla grande, 
e ficando a Náo á capa, cuidando-se que passaria logo 
aqudle tempo, durou mais dois dias, por cnja razão ro- 
dos os Officiaes das duas guarniçSes, dirigidos por Ai* 
res Fernandes, Piloro da Garça, que trinta e quatro vc* 
zes linha passada o Cabo de Boa Esperança, rcpresen* 
tárão a Francisca Barreto , que no estado em que bia a. 
Ndoy era permissão Divina a que lie vento Ponente ^ 
que nunca na monção dos Levantes durava três dias^ 
como agora ; e assim lhe requeriao quizesse arribar 
a Moçambique para salvar as vidas de tantas pes-^ 
soas. Francisco Barreto, mandando lavrar hum termo, 
arribou, sempre com as bombas na mâo, pela muita 
agua que a Náo fazia. 

Cíncoenta legoas antes de Moçambique, inda cos*^ 
teando a terra com todo o panno largo, afastado d'ella 
d<?z ou doste legoas^ hum filho do Piloto, que estava» 



48S 



■^escènád na gtmaída i bradou duas rezes í^ Pai ^ hrãfk 



e meia * braça e mera ! 



Francisco Barreto, cjue se acha* 



\â no jardim, correo á tolda, c achou todos cm cmi* 
fus.iQ, e revolra , qucindo ncsre momento deo a Náo 
Huma pancada com que estEemcceo toda, ficando a gm« 
ic no mtià profundo silencio» -O' Piloto subio i gaiia, 
e iTicindou ir de \6 para o mar até pcrdtx a rerra de vi^. 
ta. Conjecturou-se que cila roçara pela frald* de algum 
alfiíque^ e por isso escapou « alias acabarião ali lodm, 

A 17 de Dezembro entrou Francisco Barreto cm 
Moçambique, havendo pouco mais de hum mez «jue 
partira desta Ilha; e por se náo demorar muitos mtm^ 
resolvco-se a ir invernar a Goa. Como porém achou 
apenas huma Fusta velha, mandou comprar outra a Me« 
linde 5 e concertadas , e providas ambas do nccesiario^ 
íonnou o commando de huma, e deo o da outra ajcro- 
Jiymo Barreto Rolim. 

No principio de Março de 15-60 partirão as dtMf 
Fustas, levando Francisco Barreto comsigo a Manoel 
de Auaía Coutinho, Pedro Alvares de Mancellus, Fran- 
cisco Alvares, Francisco de Gouvea^ e outras pessoas di 
sua dependência , ficando em Moçambique a maíor pãf- 
te dos Fidalgos para irem na Náo Águia na monção ét 
Agosto. Pela Costa da Africa fui elle fazendo escala 
por vários Porros, a fim de rcfazer-se de -igua, c manti* 
mento?, O primeiro que tomou fui Qiiiioa, e depoit 
Mombaça j em que se demorou oito dias , alimptado 
as Fustas, sendo visitado do Rei cora hum grande re* 
fresco, ao qual corre?pondco com peças de muito valor. 
Dcst.1 Cidade passou a outros l^rtos , e em Mdiodc 
desembarcou para visitar o Rei, a qucin Diandou hwai 
magniíico regalo. Por ultimo chegou a Patê, onde fre* 
tou hum navio ^ que estava carrcgahdo pvira Chiut^ e 
pas?nndo*ie a elle com a maior parte da : v coe le- 
vava oa Fuiia, se fez á vela par^ Goa. . . ^^adoa 



•vitgcra oráiríarta de tinte e cinco ãtH , gâstaw cpaffn- 
«, pelas grandes calmarias que achou; e a?sim paaecérSo 
todos lanta necessidade de agua , qu^ nem a havia para 
cozer o arroz, ç chegarão a ter menos de hum almude 
á'ella , e 50 comião tâmaras, e coces. 

Nesta situação crítica estavao , quando a 16 de 
Maio pela manhã descobrirão a Costa da índia ; e de 
tarde chegou a elles Roque Pinheiro, Commandante de 
hum Carur, que vinha do Estreito da Arábia, e por 
curiosidade passou á falia. Este Official , sabendo oue 
Tinha ali Francisco Barreto, correo logo a seu liorao, 
-e se lhe lançou aos pé«, chorando de oiagoa de o ver 
outra vez na índia em similhante estado ; e dandc^Ihe 
quanta agua trazia, voltou a terra a buscar mais, com 
que a gente se restabeleceo , e animou, porque já nriO 
tinha que beber. No dia seguinte entrou Francisco Ear- 
leto em Goa, e foi visitar o Vice-Rei acompanhado de 
toda a Nobreza da Cidade, que acodio a cumprimen- 
tallo ao desembarque. D. Constantino de Bragança o re- 
cebeo com grandes obséquios, e em nome Q'ElRei lhe 
TDandou dar quatro mil pardáos para suas despczas. 

Como Francisco Barreto não rinha Náo, em que 
viesse de Cammandante para Portugal, lhe deo o Vice- 
Kci a Náo S.Julião, que ali inverjiára, de que era Com- 
fnandante António de Sousa, satisfazendo a este o pre- 
juízo. Concertada esta N;ía, e estando à carga, chegou 
a Esquadra do Reino, e em huma das Náos vinha de 
passageiro D. Luiz Fernandes de Vasconcellos, que Fran- 
cisca Barreto recolheo na sua Náo, na qual se fez a vela 
a 10 de DezembrOj levando mais comsigo a D, João Pe* 
Tcira, D, Duarte de Menezes, e outros Fidalgos; e com 
prospera viagem chegou a Lisboa a 13 de Junho deijór* 
1560. — A Es^adra da índia (i) foi este anno de 

(1) Couto, Década 7,.Liv. 9. Cíipituios s e 16, ~ Faria, AliaFow 
luguexa, — Epilogo <k Pcdio Barreto de Rezende, 



488 



seis Náos , com mandada por D. Jorge de Sousa , cm i 

Náo Castello; e os outros Coramandanres Vasco Loií- 

reíiço de Barbuda, no S. Vicente ; Jorge de Macedo, ni 

Raioha; Lourenço deCarvalho, no Galeão Drago; Rur 

de Mello da Camará, no S. Paulo; c Francisco Figuei»^ 

'^ra de Azevedo, no Galeão Cedro, Hiâo nesta Esquadra 

-O Arcebispo de Goa D. Gaspar, e os dois Inquisidores 

Aleixo Dias Falcão, c Francisco Marques Botelho, oi 

*^* primeiros que passarão ao Oriente. 

Sahio a Esquadra a ao de Abril , e arribou logi^ 
para Lisboa o Galeão Cedro, e a Náo S» Paulo foi tfi- 
veraar á Bailia, As outras quatro Náo» dobrarão o Ca- 
bo de Boa Esperança já rão tarde , que fizerao derrota 
por fora da Ilha de S* Lourenço, em que lhes mouco 
muita gente de enfermidades. A Náo Rainha entrou cia 
Cocliim no começo de Novembro, O S* Vicente tjo 
terra de Panane a 15- deste mez; e surgindo proxioto di 
Costa, mandou o seu Commandante a lancha a Qicfitui 
pedir soccorro, que llie veto logo em seis embarca 
de remo , as quaes levarão a Náo ao Porto* 

O Drago, e o Castello virão a Costa do Ci 
Comorim para dentro nos fins de Novembro; e cuL 
do estarem muitQ mais ao Norte, forao navegando ter- 
ra a terra para o Sul, iodo adiante o Drago sondando, 
por ser navio mais pequeno; e como se achava mui fi* 
sinho aos baixos de Manar, vendo-se em cinco bricas^ 
arriou de súbito as velas, e dco fundo quasi na poma 
do baixo, cuja manobra imitou bem a tempo a Não 
Castello , alias se pcrderião ambas. O Vice*Rei ík 
Constantino de Bragança, que por acaso estava naqiicl* 
las visinlianças com huma Armada, mandou soCwOrrtr 
as duas Nios por algumas embarcações, que as tiraiio 
d*ali a reboque, e levarão a Cocliio% 

Ruy de Mello da Camará , depois que se rcfei de 
aguai e 'mantimentos na Bahia, sahio a 15 de Setembro, 



480 

por asscntareitl o^ seus Officlaes, b os Pilotos àx tcrn 
para Í5so convocados» que poderia ir por muita altura 
demandar a Uíia de Sumatra, e d-ali passar á índia em 
Fevereiro na conserva dos navios da Clana , e de Mala- 
ca. Com ventos prósperos avistou no fim de Novembro 
o Cabo de Boa Esperança ; e puchando para o Sul, che- 
gou a 4^", onde achou ventos frescos, com que navegou 
mais de hum mez , e depois foi dirainulfido em latitu- 
de a buscar a Sumatra. Finalmente com tempos bran- 
dos chegou á Linha, e a 20 de Janeiro ao anoitecer se 
achou tíio abordado com a terra » e com vento travessia 
ráo rijn, que havendo feito alguns bordos, lhe faltou 
mar para correr^ e por ultimo encalhou. 

No dia seguinte deitarão a lancha fora, e desem- 
barcarão com armas em numero de quasi setecentas pes- 
soas; acudindo os naturaes, que parecido gentes pacifi- 
cai, a vcnder-lhcs algumas coisa?. Resolverão os nau- 
fragantes formar hum arraial, em que se entrincheira- 
rão ,^e tirando da Níio madeiras, pregadura, e tudo quan- 
to lhes conveio, construirão ddas grandes barcaças, e al- 
tearão a borda da lancha ,correndo-Ihe cobertaj no que 
ga^ íárão pouco mais de me"2 e meio. Postas no mar as 
três embarcações, c guarnecidas com alguns pedreiros, 
víveres, e pàiuniçoes, commandou huma Ruy de Mello 
da Camará, outra António de Rcfoios, e outra Diogo 
Pereira de Vasconcellos, que trazia comsigo a sua es- 
posa D. Francisca Sardinha, huma das formosas mulhe- 
res do seu tempo, e huma filha que linha de outra mu- • 
Jher. Estas três embarcações leva vão quinhentas e dez 
pessoas, e ficnvao ainda cento e setenta para accommo- 
dar. Concordou-se que as embarcações navcgariao terra 
a rcrra , à vifta do destacamento que marcharia ao lon- 
go da Co>ta ; e para este effeito se lhe dcrao as armas 
necessárias, e se nrfmcou hum Oflicial para seu Com* 
ixundante. Assim começáráa a sua jornada , e todos os 



490 

45a t ao pôr do Sol ^rxcoravSo as çmKtrciçííes junto é 
terra, e o destacamento buscava algum sitio abrigado, fl 
em que passar a noite, ■ 

A poucos dias de viagem avistarão quatro embir- 
cações pequenas, a que derão cassa, e atirando>Ihes hum 
tiro, a gente d^ellas as abandonou, saIvando*se a nado 
em terra. Estas embarcações vinlião carregadas de fa- 
rinha de sagum, e servirão para recolher o destácamco- 
to. Constava agora a esquadrilha de setç vasos, ciic 
continuarão a navegar unidos i e chegando a j"* de U^ 
titude Sul , hum dia antes da Lua nova se recoll 
ern hum Rio caudaloso, que acharão, para deixa 
passar a conjuncção , e esta foi tão tempestuosa^ ^ 
por espaço de doze dias não poderão sahir. Este terri» 
tório pertencia ao Rei de Menamcabo, amigo do Esta- 
do, a cujo Porto hião todos os annos navios de Malica 
negociar ouro, de que havia abundância no Paiz» 

Confiados os Portuguczes nesta amizade, acdavão 
affoutamente por toda a parte , e Diogo Pereira se esri* 
beleceo em terra com sua mulher, de cuja belleza. e 
ricos ornatos se maravilhavão os habitantes. Estes, CU- 
biçosos de levarem ao seu Rei tão formosa crearura, 
€ animados com o dcícuido dos Portuguezcs ^ assaliirio 
huma noite as suas casas, e na revolta morrerão peno 
de sessenta Portuguezcs, ficando cativa D. Franctsa, 
em cuja defen€a fez o Mestre da Ndo acções adniira* 
veis, ate perder a vida. Diogo Pereira salvou a filha. ^ 
o resto da sua família , e todos se recolherão à% enltnl^ 
cações. 

Sahindo deste funesto Rio, navegarão ao longa da 
Cpsta , e entrados no Estreito de Sunda , forão lomar a 
Cidade de Bantam, onde acharão Pedro Barreto Rolim, 
Com mandante de quatro navios da índia, que estava car* 
regando pimenta para a China, com o qual ficarão (t)* 
(1} Ouuos Escritores accccscentio circunstancias bocrtit Ji â olt 



4^1 



if óo. — Havia muitnt annos (i) que os Francexei:*, 
os Inglezes frequcntavão as Costas do Brasil, sobre 
tudo do Cabo de Santo Agostinho para o Norte, em 
que íliziâo hum trafico vantajoso, comprando a troco 
de bagatellas aos índios o páo Brasil , que era de gran- 
de preço na Europa. 

De todos 05 avenrureiros, que a cubiçn attrahio 
áquelles Paizes, de que ainda se não coiiheciao as rique- 
zas^ o mais cap;í2 de organizar huma Colónia era o 
Francez Nicolio Durand de Villegagnon, Cavalleiro da 
Ordem de Malta , soldado valoroso, e habii marinhei- 
ro; de que deo brilhantes provas quando os Tscocezeg 
querião ^ e nno ousavâo mandar para França a sua infe* 
liz Rainha Maria Sruart, por tcraerem que a E*;qija- 
dra Ingtcza a interceptasse no caminho, Achava-se elle 
em Lcith com algumas Galés, e saliindo cora todas as 
apparencias de ir buscar a Costa de França , mudou de 
rumo, e anÍmou-se a dobrar a Escócia pela banda de 
Oeste, viagem reputada naquella época impossível a em- 
barciçries similhantes, enganando assim os Inglezes, que 
o e«peraváo em outra paragem , e desembarcou a Rai* 
nha a salvo na Bretanha» 

Em huma viagem ao Rio de Janeiro procurou Vi- 
kgagnon ligar correspondências com os índios Fa moios, 
que habitavão o Paiz, e tambcm escolher local para 
lançar os fundamentos de huma Colónia* Voltando a 
França , obteve de Henrique iL, pela protecção deCo- 

naufragio , principalmente Henriaue Dias , <]ue nelle se adiou , e csae- 
vtro humi lon^a Rela^ío, a qua] se eiicc?nt,a no i*^ tomo ida Historia 
TVa^fico-Maritinia. Eu ?çgui a Dío^o de Couto, que óh coiiliccéra em 
Goji alguinai das pessoas, que «capárSa 

(i) Vede Ffanci^o de Erito Frfire, Guerra Eiasilica Liv, i. o. to 
ate 6i* — Roc^a Pita, Historia da Amefica Liv. i. — Noticia do 
Jjrasil Pane j. Cap. j j. — Historia do Brasil de Rcbcrto Soutliey to- 
mo I. Capítulos 9 c 12, — I^lcmorías d*EIRci D, Sebaslilo tomo i. 
Cap* S, 

62 il 



492 

Jigny, dois navios de duzentas toneladas; e hum tnm^ 
•porte de cem , em que se embarcarão rauitos aventaiçt» 
TOS bem nascidos, e alguns Artifices, e soldados. Elsr» 
Três embarcações partirão do Havre de Grace emiffé^ 
rras abrindo íígua o navio de Villegagnon^ arriboQ x 
Dieppe, e em quanto se reparava, deseTtárao muitof 
dos seus, já descontentes da viagem, Silúo finalmeme 
d^aquelle Porto, e chegou ao Rio de Janeiro, onde pro- 
jectou primeiro estabeJeccr-se em huma Ilhota de pedri 
(a lage), que está na entrada d*aquella magniãca Bi- 
Jria, porem mudou-se depois para outra Ilha sittadt 
mais dentro do canal (a Ilha de VillegagrKio)» com 
quasi huma milha de circumferencía, huma praia dcirét 

fouco extensa, cercada em roda de penedos, e sem agua. 
ortificou Villegagnon dois morros , que dominavSo o 
resto da Ilha , e formou no centro d*clla em huma ro' 
cha mais alta hum armazém cavado na pedra. Esta for* 
lificaçao tornou-se respeitável , e se chamou Forte ác 
Coligny. 

Expedio Villegagnon huma embarcação de avifll 
áquelle Almirante, expondo-Ihc as riquezas do Braril^ tm 
boas disposições que mostra vão os índios* pedindo-Iher^ 
forços, e alguns Theologos de Genebra, para osdoatrâoa* 
rem ; o que lisongcava as vistas deColigny, tão bomG^ 
Jieral, como Politico , e mui zeloso pelo Calvioisiiio, ai*' 
jo projecto parece que era crear huma boa Cotonia no 
Brasil, que fosse vantajosa ao Commcrcio da Ftmçz, 
e servisse de refugio aos Calvinistas perseguidos na soi 
pátria. 

Em consequência destas cotnmunicaçoes , fci Ok 
ligny aprestar luim soccorro á custa da Coroa» oooh 
posto de rres navios com trezentos homens, ouati to- 
dos aventureiros, em que entrava o Historiador JoSi» 
de Lery* Commandava a expedição Bois le Conte, so- 
brinho de Villegagnon, que livava comsigo dois Mi- 



M3 



listrosCalvinistíi»^ e na sua viagem roubou todas as em- 
barcações que encontrou, sem distincçao de bandeira, 
*i Com este reforço se acharia VUlcgagnon em esta- 
-éo de conservar a Colónia, se as suas idéas nao estives- 
sem mudadas \ ou antes se coincidissem na realidade 
com as de Coligny , como até ali tinha figurado ; mas 
agora começou a exercer taes tyrannias sobre os seu» 
companheiros > que hum grande numero destes voltou 
para França. 

Qiiairo annos se conservou Víllegagnon nz posse 
da sua Ilha, d'onde não se aventurava a alargar-se mui- 
ro pelo Continente, com receio dos Tamoios anthropói- 
lagos 5 ainda que vivia com elles em boa harmonia ; e 
por ultimo partio para França com o fim de obter hu- 
ma Esquadra para commetter nov^s emprezas, e na sua 
auzencía mudou inteiramente o estado das coisas. 

A Regente de Portugal y conhecendo o perigo que 
ameaçava o Brasil, se deixasse estabelecer no Rio deja* 
neiro huma Colónia Franceza , mandou ordem a Men- 
do de Sá, Governador Geral d^aquellas vastas Regiões, 
para que destruísse o estabelecimento nascente, -e lhe re- 
metteo para esse efFeito huma pequena Esquadra com- 
mandada por Banholomeu de Vasconcellos , que che- 
gou á Bahia a 50 de Novembro de iÇJp. 

Poz o Governador em Conselho o modo de execu- 
tar as Ordens da Regente, e a 16 de Janeiro de içía 
sahio da Bahia com as embarcações de guerra vindas de 
Portugal, e alguns navios, e CaraveLis da Cidade, em 
<juc «e embarcarão os soldados disponíveis , e muitos 
inoradores nobres, e foi correndo os Portos da Sul, dos 
quaes tirou alguma genre voluntária, e mantímento,s, aié 
chegar á barra do Rio de Janeiro a 21 de Fevereiro^ 
onde foi obrigado a esperar algum tempo osoçTrorrò^ 
que com anrecípação man^ár|^^£çc|ir a S. Vicente , a 
qual recebeo com efFeito* ' ' 



f*W 



Conservavío ot PraiKcies na lllja setenta e qua* 
tro homens da sua Nação , e quarenta guarnecendo bum 
navio, que desampararão logo que foi atacado de hu- 
ma Galé Portugueza , rccolliendo-se ao Forte, como 6- 
xerão alguns outros^ que anda\^ão por terra: além dent 
gente, tinhSo recolhido no mesmo Forte niil índios frc^ 
cheiroi , e alguns espingardeiros. 

1 Reconhecida a Ilha pelo Goveniador, Comroat^ 
dantc da Esquadra, e mais Ofliciaes maiores, achiild 
todos mui difticulíosa a empresa, e parecco mais pmdeo* 
te offerccer aos Fr^ncezes huma honrada capiíalaçSo, a 
^ual regei carão com desdém. 

A jf de Março começou o ataque, batendo os JU- 
vios a^ fortificações de hum lado, c jogando do ourro 
contra ellas huma bateria construída na pequena praia, 
que lhe servia de Porto. A este fogo responderão cocn 
vantagem os defensores, e depois de dois dias de inudl 
dispêndio de vidas, c rauniç6es, por serem asobrss abcf- 
tas na rocha viva, mandou o Governador dar hum af- 
^alto, no qual se comportarão os Portaguezes com tal 
valor, favorecidos do casual incêndio do armazém 
pólvora, que os Francezcs abandonarão o Fone, 
do de noite nas suas canoas todos os que escaparão 
chammas , e do ferro. 

Tomada a Itlia, mandou o Governador ârraizar ti 
fortificações, e voltou para a Bahia , fazendo antes bo* 
oia digressão á Villa de S, Vicente, 

15*61* — Neste anno nomeou a Regente pan Vtot- 
Rei da índia ao Conde do Redondo D, Francisco Cou- 
tinho (i), e se lhe aprestou huma Esquadra de ctMO 
KáoSj indo elle embarcado no S. Tiago; e os ootroi 

Ct) Faria, Asi* PoTtustucza. - Pcdfo Barreto de Retecwle, — Co»- 
ti, Decafia '*. Liv. 10. Cap. 1. — O Livro iiHituIido == UTicuno «► 
bire lo* Cammcrcioj de lai índias, flcc. = por Duaitc Comn^ Sbàil 
tóia. 



om tal 
ío dss 1 



4^6 

Commandantes Gonçalo Corrêa, na Flor de Ia Maf; 
Manoel Jaqiies, no Santo Amónio; Francisco Figueira 
de Azevedo, na Garça*, c Pedro Altares Vogado, na Al- 
garvia* 

A 9 de Março sahio de Lisboa o Vice-Rei, e coin 
prospera viagem ancorou em Moçambique a 15: de Ju- 
lho com toda a Esquadra, Sahio d\ili a 6 d* Agosto, e 
ancorou com ella em Goa a 7 de Setembro. 

ifói. — A Esquadra da índia (i) foi este anno de 
seis Náos^ commandada por D, Jorge Manoel, embar- 
cado em a Náo S, Martinho^ feita em Damão (que des^- 
appareceo á vinda); e os outros Commandantes Fernãa 
Martins Freire, na Esperança ; António Mendes de Cas- 
tro , em S. Vicente; Fernão Coutinho, no Tigre; Liiir 
Mendes de Vasconcellos, na Rainha; e D. Rodrigo de 
Castro , no Cedro* 

Sahio a Esquadra de Lisboa a 15 de Março, le- 
vando três mil soldados, gente escolhida; e com boa 
viagem ancorou toda junta em Goa nos principies de 
Setembro. 

1562, — Neste anno aconteceo o memorável cerccr 
deMazagão (2) , que governava Roy de Sousa de Car-* 
valho, na ausência do Governador Álvaro de Carvalho,. 
seu irmão; e se acliava unicamente com dois mil e qua- 
trocentos homens de pé, mui poucos de cavallo, e gran- 
de penúria de víveres, e munições. 

A 4 de Março se apresentou diante da Praça Mu- 
Icy Hamet, filho de Muley Abdali, Rei de Fez, e Mar- 
rocos, com Imm Exercito formidável, que se diz chegar 
a cento e cincoenta mil homens. 

A Regente de Ponugal tratou com a maior activi- 

(i) Couto, Década '^ Lh\ ia Cap. 7. — Faria, Asía Portugue* 
JB. — Barreto de Rezendí — Discursos sobre lo5 Conimcrcios , 6tc 
(a) Memoriaf £l*ElBjei D, iSebastião lomõ 2, Liv. i. Capítulos 4^ 



41^6 



dade de prevenir 05 soccorros necessários : mandou com- 
prjr muniçâes de guerra a Flandes, e £sz condaziroti^ 
trás tia Ilha da Madeira, c da Andaluzia. Alraro dê 
Carv.)llio embarcou logo para Mazagão cora muiros Fii 
dalgos, e pessoat di^inctas, e sessenta Cavalleiítis di 
sua Praça, que se achavão na Corte. Francisco Vono4 
xarreiro partio com cem homens ; Jorge Mendes de F^-' 
ria com ses&enca ; Francisco da Cunha com alguns mitf 
carentes, e outra muita gente. Os Mareantes de- Lagds 
-c Tavira mnndárão quarenta homens; Luiz de Castro 
rico Negociante, levou cem ; Jorge da Silva enviou oiJ 
tenta ; João Cabral , e João Rodrigues de Torrcf coo 
duzírão cem; e Vasco Fernandes Homem maior nume^ 
to; assim como D. António Lobo, e LuÍ2 de Faria; e* 
João de Feive levou vinte e cinco* Toda es: a gente foi- 
á custa dos que a conduziao, e era tal o ardor, e bot^ 
vontade com que rodos se offerecíao por satdadot, que 
moços de quator^e annos se embarca vão furtivaniefire, 
e o mesmo praticou Simão Sodré, Fidalgo de oiremx 
annos, a quem â Re^nte ordenara que nao fosêt* Of 
Officiaes mecânicos de Lisboa concorrerão com mil ho- 
mens pagos á sua custa ; e os Moedeiros com oirema« 
Este primeiro Comboi, que partio a lo de Março^ e' 
chegou a 28, levava grande quantidade de víveres, ino»* 
nições^ boticas, e quanto parecco seria necessário a bi»' 
ma Praça sitiada. J^H 

No priíícipio de Abril expcdio a Regente a Atm^^ 
nio Moniz Barreto, Pedro de Góes, e Gaspar de Maga- 
lhães, Oflkial de reputação nas guerras de Itália, c Frift* 
ça, com duzentos e cincoenta bons soldados, c alguous 
munições de guerra; e nomeou Vasco da Cunha, c seu 
irmão Christovão da Cunha para servirem de Cofisf^ 
Iheiros a Álvaro de Carvalho; c pau Engenheiros Ith 
doro de Almeida, e Francisco da Silva, 

Entre os que forâo soccorrer Mazagao , softco 



497 

/Sebastião de Brito de Mcnexes a desgraça de ver nau- 

comniando, carregado de pólvora, 
e munições > porque surgindo naquella Bahia, mui des- 
abrigado dos ventos do mar , que então sopravão furio- 
sos, àco ú costa, salvando-se milagrosamente toda a 
gente. Melhor fortuna teve Manoel Rodrigues, Coin- 
mandante de hum Bergantim do Algarve, também car- 
regado de munições, por quanto, ainda que o colheo o 
temporal , ecn que deitou ao mar os mantimentos (não 
querendo por nenhum caso alijar as munições), pôde 
desembarcar a salvo no mesmo lugar, em que Sebastiãa 
de Brito se acabava de perder. 

Após estes soccorros expedio a Regente logo outro 
de dois mil homens, em que se contavao muitos Fidal- 
go?, o qual chegou pouco antes do primeiro assalto, que 
os Mouros dcrao i Praça a 24 de Abril ; e a 30 do mes- 
mo entrou outro reforço de sete navios carregados de 
munições, e com duzentos e cincoenta soldados com- 
mandados por Francisco Henriques, que desembarcou 
na occasião em que clles da vão outro furioso assalto , 
de maneira que estes novos hospedes ainda entrarão em 
acção. Nos dias seguintes chegarão mais navios com ai- 

funs Fidalgos, e em hum d'elles o Capitão Agostinho 
'erraz com duzentos e cincoenta soldados escolhidos. 
Mas a 7 de Maio levantarão os Mouros o cerco com 
perda de vinte mil homens. 

1^62. — Neste anno (i) mandou o Governador Ge- 
ral do Brasil Mendo de Sá hum soccorro de navios, c 
soldados da Cidade da Bahia á Capitania do Espirito 
Santo, que assolavão os índios Goainezes, e Tupini- 
quins, de que deo o commapdo a seu filho Fernando 
de Sá , moço de grandes esperanças. Chegando este 



O^ Memoriai d^EIRci D» Sebastião, no tomo citado, Cap. 17. — 
Notícia (to iVasU Cap. 42. 

63 



49d 



ao Rio Qitiricaré , desemb^ircou , e encorporado com 
os Portuguczes que lhe mandoa Vasco Fernandes Coo- 
tinho, acncou os índios, que facilmente ron\peo na pri- 
meira carga. Porem crescendo em demasia o nuincro 
dos inimigos, se poz Fernando de Sá era retirada para 
os navios j a qual se fez com tal desordem , que o ma- 
tarão a elle com muitos dos seus* 

lyói. — Contarei aqui hum exemplo notável dos 
costumes, e disciplina militar d-*aquelle século» 

D. Constantino de Bragança (i), havendo entregue 
o Governo da índia ao Conde do Redondo, parrio pa* 
ra Portuga i, embarcado em a Náo Chagas, que nMWÍ* 
ra construir á sua custa , e foi o mais celebre airia 
d*aquelles tempos, porque conduzio i índia quatro Vice- 
Reis , e dobrou dezesete veze? o Cabo de Boa Erpctaií* 
ça, Sahírao de Cochim com D, Constantino outrai ciih 
CO Náos, de huma das quaes, chamada o Castctlo, en 
Commandante D. Jorge de Sousa , que fora Cheit éi 
Esquadra do anno de f 5*60, o qual, por nao arriar a bift* 
deira a D. Constantino (2) , separou-se logo dVlle. Ifc 
decurso da viagem apartárão-se igualmente os curroiltt- 
vios, e D. Constantino veio por acaso encontrar-ç« lu 
Ilha de Santa Helena com D, Jorge de Sousa. Veixte 
que este conservava ijada a bandeira , poz a siu Nao 
prouopta para combate, e dco huma espia para te ntírcK 
xiraar à NáoCasíello, com imençno de a mcttcr nofijti- 
do, ou abordalla, e prender a D.Jorge; mas antes <k 
chegar a esta extremidade, mandou a seu bordo notiS- 
car aos Ofticiacs, Fidalgos, e pessoas nobres que ali vi- 
nhao, que desembarcassem, sobptna de caso maigri <► 
que todos logo cumprirão* v 

(1) Vede Couto no lufar acima citado. 

(2) Hum Oicfe da Enquadra da Iiidta uitzh bancfeira no lope pan^ 
de, deide qire nhh de Lisboa até qu9 voltava, minam q\ae QA 
viagem viesse com mandando o seu luiico na via» 



i 



409 



D. Jorge, mudando de parecer, arriou a bandeira 
^o tope, e foi a bordq da Kâo Chagas dar satisfação 
3 D. Constaníino, que se deo por contente; e g*íiIí até 
Portugal sempre D.Jorge seguio 3 sua esteira ^ e o sali- 
vava todo? os dia?. Porem chegando a Cascaes, e tendo 
a KegcnfO noii<ia antecipada deste acontecimento, por 
fuma Nao que entrou primeiro, e communicára com 
_ iras dua^ nas Ulias dos Adores ^ o mandou desembarcar 
preso para o Castello de Lisboa , onde esteve alguns 
u^f^pos, e por ultimo obteve perdão da Regente, 

1563, — A Esquadra d.i índia {i) foi este anno de 
V Nios, coiDmandada por D.Jorge de Sousa, em- 

fc,.....w.^ cm a Ndo Castcllo; e o? outros Comm and an- 
tes Diogo Lopes dê Lima , na Garp ; Vasco Lou- 
v: '- Barbuda, em S, Filjppcj e Vasco Fernandes 

1 . .. .,i , na Algarvia, 

Fartio a Esquadra de Lisboa a 16 de Março» e 
arnbou a Não Algarvia. As outras chegarão a Goa 
nos primeiras dias de Setembro; e estando surtas ainda 
com a maior parte da carga, soçobrou com hum agua- 
ceiro o S, Filippe, perdendo-se quanto tinha a bçrdo. 

15:64, — Hávcn^io â Regente nomeado D. Antão de 
Koronha para Vice- Rei da Índia , saliio de Lisboa a 
19 de Março com Jiuma Esquadra de quatro Náos , 
embarcado no Santo António; e os outros Commandan- 
tes Damião de Sousa ^ na Flor de la Mar, que á vin- 
da se pcrdeo em Moçambique; Francisco Portocarrei- 
ro, em S. Viccjue; c António Mendes de Castro, na 
Rainha (z). 

Esta Esquadra chegou a Goa a 3 de Setembro. 

(i) Couto, Dccaiia 7. Liv. 10. Cip, |6, — Epilogo tW Pecírfi Ear- 
mto de KcienJe,— ^vk, Atia Portugucit*» — DÍKursos lobrc lo* Com- 

,CO Couto, Decsdd íc. Câp, 16. — Epilc^o.de Pedro Earreto* — 
Fatia, Afu Poítu^t^cza, — i)'iiQUt%Q sobt« loi Commcrtifn» âtc 

^ò ii 



600 



Tyé4- — Resoluto ElRei de Hcspanlia Filippell. (i) 
a reconquistar o Penhão de Velez de la Gomara, Praça 
forte, que os Mouros haviao tornado por traição (i), 
reunio huma poderosa Armada» e hum Exercito propor* 
cionado á empreza; e pedindo auxilio á Regente de Por- 
tugal , se preparou huma Esquadra composta do famosa 
Galeão Bota-FogOj oito Galés, c auatro Fustas, tudo 
guarnecido de mil e quinhentos soldados , c trczcotot 
Cavalleiros, cujo commando confiou a Regente aFnn- 
cisco Bíírreto, levando ás suas ordens, como G 
dante das Galé», a seu sobrinho Ruy Barreto, 

Passou esta Esquadra a Cadiz , em cujo Porto 
achava com quinze Galés D. Garcia de Toledo, Diiaue 
de Fernandina, General em Chefe d'aquella expedição; 
e depois de conferirem ambos, sahio D, Garcia dcTo- 
Jedo para Málaga, ponto de reunião de todas as hrpí 
navaes, e terrestres; e Francisco Barreto dirigtosc aTiiK 
ger, e embarcando duzentos dos melhores soldados i ^ 
alguns Cavalleiros, partio para Málaga* 

Compunha-se o total? da Armada de httm Gilrfo, 
quatorze Galés d*Hespanha do Commando particular 
de D. Garcia de Toledo ( por ter o titulo de General 
das Galés) ^ oito de Portugal ; cinco da Ordem de Mil* 
ta, commandadas por D. Fr. João Egio; três de Napo 
les, de que era General D. Sancho Manines de Leivi; 
^ez da Sicília, ás ordens de D* Fradique de Carvajatv 
sete govern:idas por D. Álvaro Razan ; sete por Maro^ 
António Colona ; doze por Andt^ Dor ia j dez do Duque^ 
de Florença^ três do Duque de Sabóia ^ CoromandiBie^ 

(i) Memorias d* ElRei D. Sebastiía, tomo i. Lhno i. Cipinlai 
]. e 3é 

fa) Eite Cast^llo he comtniicío em himi l^Í10^e^ lepmclb db 
da Africa no Mediterrâneo por hum estreito braqo de mair^ titi 
latitude jç® ii'4y", longitude lí** Si'* O seu Porto he 
« com tão pguco fundo^ que ló ^de admitur baroús» 



501 



» 



O ^onae ac Sofrasco; e quatro do Marcpiez de Este- 
pa , ao todo oitenta e ires Galés» As Galeotas, Fustas, 
t ourras embarcações pequenas excediâo o numero de 
sessenta* 

Sahio a Armada de Málaga a 31 de Agono, e 
cm tfes dias de fácil navegação chegou á Tista do Pe- 
jihao; e fazendo D. Garcia de Toledo conselho com os 
|irincipaes Olficiaes, destacou o Marquez de Esrepa a 
fcconheccr o Castello de Alcalá , situado em hum pe- 
nhasco sobre o mar (i), o qual se achou deserto ^ de 
que avisado D. Garcia, foi surgir em huma Enseada ji 
reconhecida, e começando logo a desembarcar as tro- 
pa», fez occupar o Castello por huma Companhia de 
arcabuzeiros, e tratou de guarnecer outros postos impor- 
tantes. Neste tempo chegou Francisco Barreto, e o Ge- 
iia'al Egio, que se havião atrazado, e se mostrarão sen- 
tidos de se ter effeituado o desembarque na sua ausên- 
cia , aos quaes satisfez D. Garcia com boas razoes. 

Governava o Penhão Ferred-Arraes , intrépido Re- 
negado, que atêm da guarnição ordinária, tinha cem 
Turcos escolhidos, c víveres, e munições para seis me- 

ZC3. 

Resolveo-sc no Conselho de D. Garcia de Tole- 
do, que para facilitar as operações contra o Penhão, 
cumpria ganhar a Cidade de Velez, sitiada a tiro de 
canhão d*aqDel!a Praça, e em consequência marchou pa- 
ra eUa o Exercito a 3 de Setembro em duas divisões, 
kvando a primeira na vanguarda toda a Cavallaria , 
commandada por U. JoSo de Villa Reaf, para explo- 
rar o Paiz, que era coberto, e difficiK D* Sancho de 
Leiva tinha o commando desra divisão, c Francisco 
Barreto o da segunda , cuja retaguarda cobria o Conde 
Annibal de Altemps com os seus AlemSe*. 

Cr^ Comtmirio ptlos Portugueíw no tempo dElRci D, Manoel, 9 
ibaadotMMJo kivÍA gHiitcai anncia tw se jttlgar iflutil a sua cOiiienação» 




um corpo 

ninis numeroso, que carregou com t^nco valor a rcca- 
guariii 5 que o Çonáe de Âtremps poz em barma doze 
c;ífih6es para Ihtí re?i?nr; e reforçado com algumjis no* 
pas Poríuguezas, e HespanIioIas,.os expulsou do cam- 
po com graiuJe perda ; de maneira que não valiirSo 
jBflis, Qccupada a Cidade, já abandonada dr -lú- 

xadores,,- mandou D» Garcia jiunj pequeno.ft- co- 

to a guiirncçcr huma Torre edificada sobr^ a moiuarilti 
,de Baba^ o qual desalojou dVila alguns Aíourosk E S* 
jiahucnre, Qcctjpados todos os postos necessários pàn «h 
Jirir o ExcrcitOjC cortar as comrauuicações aos siliadof, 
Jevanrou huma baicria de doze peças para fazer brecb 
}\o CastelJo, que era batido ao me^mo tempo da bawia 
do mar pelo Galeão Poriugucz , e muitas Galés> qiic òt 
2Íao hum fogo rcrrivej, e contimio , com que .^ ■ — tl- 
íão algumas peças do Castello^ c derribarão r- 

res com luim lanço de muralha. 

D» Garcia de Toledo propoz então a Fcrrcd buflii 
Capitulação vantiijosa , que elle nao acceirou *, e comi- 
nuando as baterias o seu íbgo, tentarão os sitiados hu- 
ma sortida, em que foráo repel lidos , deixando friati 
mortos no campo, e levando muitos feridos. Para abbrc- 
viar o cerco j con€truio-se outra bateria em hum penhas- 
co a tiro de mosquete do Castello; e vendo os Turcoí 
o da moo que recebiao , e o pouco efFcito que produziao 
os seus tiros contra os navios, e obras dos siriaaicf, 
abandonarão qunçi todos a Praça na noite de cinco de 
Çetembro, passando a nado para a terra firme, cwjo 
cxempio sjcguio fbrsadamente o ?eu Gov - -^ c o* 

poucos defensores, qut! restarão por nâo 5..,^.,^.,* nadar, 
abrirão as portas aos Hespanhocs, que ac])árúu no Osícl- 
Ib vinte c cinco canhões, e muitos víverc^ e muiu^âcs de, 
'tuerra. 



sol 






o Conde de ^òfrâsco ; c quatro do Marquez de ^stc* 
pa , ao todo oitenta e três Gales. As Galeotas^ Fustas ^ 
e outras embarca çóes pequenas exccdião o numero de 
enta. 
Sahio a Armada de Málaga a 31 de Agofto, e 
em três dias de fácil navegação chegou á vista do Pe» 
jihão; e fazendo D, Garcia de Toledo conselbo com os 
principaes Officiaes, destacou o Marquez de Estepa a 
reconhecer o Castello de Alcalâ , situado em hum pe- 
nhasco sobre o mar (i)» o qual se achou deserto, de 
que avisado D. Garcia, foi surgir em huma Enseada ji 
reconhecida, e começando logo a desembarcar as tro- 
pas, fez occupar o Castello por huma Companhia de 
arcabuzeiros, e tratou de guarnecer outros postos impor- 
tantes. Neste tempo chegou Francifco Barreio, e o Ge- 
Jicral Egio, que se havião atrazado, e se mostrarão sen- 
tidos de se ter eflTeituado o desembarque na sua ausên- 
cia y aos quaes satisfez D. Garcia com boas razões. 

Governava o Penhâo Ferred-Arraes, intrépido Re- 
negado, que alêm da guarnição ordinária, tinha cera 
Turcos escolhidos, e víveres, e munições para seis me* 

Resolveo-sc no Conselho de D. Garcia de Tole- 
do, que para facilitar as operaçóes contra o Penhao, 
cumpria ganhar a Cidade de Velez, sitiada a tiro de 
canhão d*aqaella Praça, c em consequência marchou pa- 
ra ella o Exercito a 3 de Setembro em duas divisões, 
levando a primeira na vanguarda toda a Cavallaria , 
comraandada por D. João de Villa Real, para explo- 
rar o Paiz, que en coberto, e difficil. D. Sancho de 
Leiva tinha o commando desra divisão, e Francisca 
Barreto o da segunda , cuja retaguarda cobria o Conde 
Annibal de Altemps com os seus AlemSesw 

ff) Coriítruifio pelos Portugueze? no tcmpn dElRei D, ATaOoel, 9 
tbmàoQido ha^vi» roniios anooi, pof se iMlgar íftuiii a sua cOiwervaclo.. 




Mtania 
oanto, doadc ine vjerão alguns soccorros de FortqgtiC' 
zes, e índios: e reforçado iguaímente com algumas ca- 
noas guarnecidas de Mamelucos, e lodios ChristSci ác 
S. Vicente, que conduzia o Venerável Padre Anchieta, 
saliio desta Vilia a 20 de Janeiro de i^^f' 

No principio de Março tomou a barra do Rio de 
Janeiro, e desembarcou as suas tropas cm huma prait 
visinha ao Pao de Assucar , onde se fortificou , por Ih^ 
parecer o sitio defensável, e apto para se conservar oellc 
até á vinda do Governador Geral. Aqui a vierão atacar 
PS Tamoios ; e a pesar do seu grande numero ^ forao dcp- 
roíados, A mesma sorte experimentarão era huw cobk 
bate de vinte e sete canoas suas, contra idez cao<»iPor« 
tuguczas. Por ultimo voltarão os Tamoios com cento e 
trinta canoas cJieias dos seus mais intrepiclo» guerreifoi, 
apoiadas por trcs navios Francezesr-bem artilbadoí, t 
accommetfendô com fúria os entrincheira mentos, e em- 
barcações Portuguesas, receberão tal damno da aTtiih^ 
ria, e raosqueteria, que voltarão as costas com grande 
perda de gente ^ e canoas; e os Franceies, abAndoaadoí 
por elles, fizerão o mesmo. 

Esta victoria foi por então decisiva ^ e Estado de 
Sá pôde enviar alguns destacamentos, que reduzirSo i 
sua obediência as Aldeãs visinlias. Era outro combate 
Jiava!, quatorze canoas Portuguezas derrotarão semti e 
quatro dos inimigos. Depois destes felizes acr --^^--^eiH 
tos conservou*se Esracio de Sá no seu campo iJ^ 

até á chegada do Governador, que o Padre A tbi 

solicitar Á Bahia , para que viesse concluir acjuv*.^ i£&* 
portantissima empreza. 

1^6^. — A Esquadra dâ.India (i) foi de quatro Ni0S| 

(O Couto ^ Decida 10. Qp* i6. — Pedro pmrtio. — Fârb, Ata 
Poftu^ezt. — DUcuíjo lobrc los Coniincrcíof » dic 



i 

i 



< 



Í05 



comíhjadada por Francisco de Sd de Menezes, em a 
Káo Clugas; c os outros Commaiidainei Bartholomeu! 
de Vasconcellos, no Tigre (que na torna^viagem se per- 
doo cm Moçambique); Mariim Qiicimado de Villalo- 
bos, em S. ÍVafacl j c Pedro Peixoío da Silva > na Es- 
perança. 

Sahio a Esquadra de Lisboa a ly de Março, e 
chegou junto a Goa nos princípios de Setembro. 

lyáó* — Este anno (i) mandou a Regente á índia? 
humsi Esquadra de quatro Náos , commandada por Ruyi 
Comes dl Cunha , embarcado em a Nao Santa Clara v 
e o^ outros Commandantes D, Diogo Lobo, na Rai- 
nha i André Bugallio, ik> Reis Magos; e Francisco Fer- 
fcira, no S. Francisco. 

Partio de Lisboa a Esquadra a i6 de Março, e an-» 

pDrou toda em Goa a 15: de Setembro. * 

\ içr5. — A ^ de Outubro deste anno (1) foi invadi-: 

Qa,.i ira por huma Esquadra Franceza dei 

S c bem armados, command^ída pof 

li^. '/iduzido pelo traidor Gaspar Caldei-. 

ra. Moço da Camará do Cardeal Infante D. Henrique, 

'" Jo de Poruigal. Desembarcou Moluc 

com ttovccenros soldados , c d^ba« 

rauõdo sem combate alguns habitantes, que tentarão^ 

f ' T r posição, marchou para a Cidade do Fun- ^ 

c o por prático 40 niet>mo Caldeira- Mui fra* < 

ca íoi õr resistência , que se lhe (qz^ e só a clle se ror- 

fir: '^^ -^ norquj huma bala de artilheria disparada da 

!♦. vela surta no Porto ^ o ferio de mowio, qua 

i%ii^-cco poucos dias depois, sem que entretanto deixas^^ 

/ 
_ CC '*P* *<5. — F3rÍA, 4iia PorUigueaa, *-Pfc» 

4h) l!aact^, — Djí^ur^j; sobre los Com mtifcTOi,^ c, 

(2> Hkaioru? de D. Scbaçiilo, tomo 3. \Ã\\ 2, Caj>ítulof 24, e aj, 
Chfonioi da «lítio Rei» iiUiibuidi a D, iVUn^d \k lúiMte^ Cap» 



64 



O qu 

na I 



soe 



« de erercer as ftincçôes de General cora o mesmft ?|- 
lor, e habilidade. 

Na entrada da Cidade, e de hum Forte, qtje lhe 
servia de Cidadella , morrerão muifas pessoas, por nítj 
darem qoartcl os Francezes. O Governador interino dt 
Ilha Francifco Gons<ilves da Gamara f achavão-^c nrsti 
occasiao em Lisboa seu tio Simão Gonsalvtf da Orna- 
ra , Governador proprietário, c o Bispo) ficou prisioríri- 
1^ no Forte com sua mtiHier, e muitas Senhoras nobres^ 
que se havião ali recolhido ; e no saque geral, que deno 
os invasores, commettêmo estes arrocÍdade?5 mais pn)» 
prias de bárbaros, que de homens civilizados* 

Chegou a Lisboa a noticia desta escandalosa M* 
vasão , e em quatro dias se aprestou huraa Esqtiadfi áe 
oiro Galeões, e quaiorze Caravelas, commandada p* 
Sebastião de Sá , em que se embarcarão muitas pesfttti 
Hlustres; mas chegando á Ilha da Madeira no dii i6 
de Outubro , achou terem os Francezes abandooiAj * 
Ilha dez dias antes, levando em dinheiro, e griw» 
commerciaes o valor de mais de milhão e meio, t áob 
navios que se achavão no Porto. 

Soube logo Sebastião de Sá , que os Pnocetcs 9t 
havião dirigido a Canárias para venderem o$ rooboi; 
em vez de sahir no mesmo instante em seu seguimento 
deteve-se tantos dias na Madeira , que quando eh _ 
áquellas Ilhas, tinhâo-se elles retirado dois dias atiffs. 

Não escapou Gaspar Caldeira á justiça Divma ; 
trazido a Lisboa a 16 de Fevereiro de if68, foi excco* 
tado doi« dias depois por sentença da RebçSo, juott» 
mente com Anronio Luiz, e Belchior de Contreiras, Pi* 
lotos Portuguçzes complices do mesmo atteniado. 
1567. — A Esquadra da índia (i) foi este anuo <!c 



( 



7ntô|fl 



<0 Ftfía, Aiki Poftugiieit. ^ PcdfO Barreto ^Reiende^— Cm 



507 



qua^o Náoi, cômmandada por JoSo Gomes da SiTvíi ^ 
embarcado cm a Náo^Reis Magos; e os outros Com- 
njandanics Pedro Leite, na Belém; Lourenço da Vci- 
^y na Annunciada; e Vicente Trigueiros, no $• Ra- 

Sahio a Esquadra de Lisboa a i8 de Março, c 
chegou a Gça nos princípios de Setembro, 

iyd7* — Para concluir a conquista do Rio de Janei- 
ro (f)^ sahio da Bahia Mendo de Sá com cinco navios 
de guerra, e seis Caravelões, em que embarcou a tropa 
disponível, e muitos moradores que voluntariamente o 
quizerao accompanhar em huma empreza tao util ao Es- 
tado, como 3 ellei próprios; c nos Ilhco!?, Porto Segu- 
ro, e Espirito Santo reccbeo alguns reforços. A i8 de 
Janeira de 1567 chegou a Esquadra ao Rk) de Janeiro, 
e reunido o Governador com seu sobrinho Estacio de 
Sá, Tcsoiveo atacar os índios no dia de S* Sebastião. 

Estavão 08 Tamoios bera fortificados em Urassu- 
nutri com entrincheiramentos guarnecidos de artilhcria, 
c munidos de armas de fogo , tendo comslgo alguns 
Franceses. O assalto foi tão impetuoso, que as tropas 
peneirarão por todas as partes no campo, e passámo á 
espada todos os defensores. Mas esta victoria custou a 
vida a Estacio de Sá , ferido de huraa será envenenada , 
de que falleceo: os outros mortos não passárau de do- 
ze, incluso o Capitão Gaspar Barbosa. 

Ganhado este campo, passou o Governador a ata- 
car outrOt que os inimigos tinhao fortificado em Para- 
napucuy, onde o successo foi igual, nao escapando de 
mortos, ou prisioneiros todos os que o defendiao. 

Estas duas victorias fizeráo os Portuguczes senhores 
do terreno, e o Governador pôde começar a fundação 



i 



<;i> 8iito Fwrte , Uv* i. Roclia PSta, Uv. f, — Noticia do 

, P<rtc I. Cup» f4, — IMeiíiorJsB d'£IReí D. Sebutílo, totno a. 
M. Cafw }$. 

64 li 



50B 

d^ Cidade, a que deo o nome Je S. Sebastião, na qual 
deixou de Cominandantc a seu sobrinha Salvador Cor- 
rêa de Sá 5 e SC retirou para a Bâliia» 

15:68. — Apenas EIRei D, Sebastião tomou oGover* 
no do Reino (i), nomeou para Vicc-Rei da índia a D. 
Luiz de Menezes^ herdeiro da Casa da Arouguia, que 
havia feiro grandes serviços no Oriente, onde a relax»* 
ção dos costumes , companheira inseparável da optílcc- 
cia, tinha offuscado a gloria dos Ponugiiezeç, Desejava 
EIRei ardentemente restabelecer a scver.i disciplina, e 
desinteressado zelo dos primeiros Conquistadores d*aquel- 
Je vastíssimo Paiz, e julgou que hum bom Vice* Rei le- 
ria capaz de operar essa reforma, Eis-aqui a lacomca, 
e enérgica Instrucçao escrita do seu punho, quedlee»* 
t regou a IX Luiz de Menezes : Fa^ei muita CòrutiM' 
áade* Fazei justiça. Comfuistai tudo quantia f^dtr^ 
des. Tirai a cubica dos homens. Favorecei MffK 
pelejarem. Tende cuidada da minha fas^ndá. fita 
tt^do isto vos dou o meu poder* Se a fizerdes ãssim 
muito hem^far-vos-^hei mercê. Se afizerdes mai, WJI* 
dar-vos-òei castigar. Se alguns Regitnentos forem em 
C01J traria destas eojsss^ sufponde que me enganar^ 
€ por isso não haja quem vos estorve isto* ' ' 

Constava a Esquadra de cinco Nãos : o Vícc-RiT 
embarcou em a Náo Chagas , e os outros Comniandan» 
tes eráo Pedro César, na Fé; António Sanches dcGauS' 
boa, era Santa Cathárina ; Damião de Sou^i FalcSo, w» 
Remédios; e Manoel Jsques, em Santa Clara. Esta 
quadra levava muita gente nobre, 

Sahio de Lisboa o Vice-Rei a 6 de Abril , 
huma tempestade no Cabo de Boa Esperança, ^o>4._ 
a Nâo Remédios desarvorou, e por isso foi iotenar i" 

<*!) Couto, Década 10, Cap. \$. — Epilogo de Pedio fiMteto à 
RçiciKk^ — Farii, A^ia PoftUijueía. — DiKiirsos fobrc )o$ CtWíPB* 
ciof) Sl^t - McjuoriAS d' ElRcí D, Seb^nião^ tomo j. Capituio» 4ie^ 




ue. A Náo Chíigas rámbem desíifCòroo , e 
ér leme , mas cliegou a Goa com o resto da Es- 
quadra a IO de Setembro* 

— A Esqurtdra da índia foi e?rc anno de qua- 
trtt j seu Commnndante Filíppe Carneiro, embar- 

cado cm a N;ío Keis Mngos; c os outros Belchior Rc- 
bcllo, na Belem ; Francisco Ferreira, no S. Francisco; 
e João de Birros, no Santo Espírito (i). 

Sahio de Lisboa a 25 de Março, e chegou a Goa 
ir 3 de Setembro. 

• lyóç, — Tendo EIRci formado o projecto de man- 
dar descobrir as riquíssimas Minas de Monomotapa , e 
de fazer ali hum estabelecimento permanente (2), no- 
meou para esta espinhosa commissao a Francisco Bar- 
reto, General das Gates, com o titulo de Capitão Ge- 
neral, c Conquistador dos Reinos siíuados entre os Ca- 
bot das Corrmtes, e Guardafui, aífiignando-lhe para es- 
ta empreza três Náos, e mil soldados, cem mil cruza- 
dos cada anno para as despezas do Governo , e hum re- 
forço annua) de quinhentos homens. n 

A fama de huma expcdi^*ão em que se tratava de 
Minis de ouro, c prata, atttahio rama gente a alistar- 
5C^ que ainda sobejou; e na que embarcou se contavão 
trezentos homens nobres, e duzentos criados d'ElRoi. 

Commandou Francisco Barreto a Náo Rainha, que 
levava seiscentos soldados; e os outros dois Comman- 
dantes erâo Vasco Fernandes Homem, na Assumpção, 
c Lourenço Carvalho, na Santa Clara: cada huma^lcf- 
I4S Náos conduzia duzentos homens de tropa; além deS' 
t«^ emb.v niais cem Africanos, porque o General 

projectava . .-..^.wr buscar cavalíos á índia, para os mon- 

XO Cbuto, Deca^ ic. Cap, t6* - Fítí», Asb Pmtugucza* — Bjf- 
leto de Re7enHc. — Discur^cw cobre Jos Omimcrco*! , i^c. 

Cl) Couto, Deeada 9. Cap, 20* — Akra^rias cl*ElRçi D, SebastíÃo^ 
êoffcio j. Ltv. i, Ca^ 21. J 



tar, « sefvfr-s& 4*eUps, na sua marcha por terra a Mo^ 

Fraric! SCO Barreto era infeliz nas viagens msrUH 
uns, Saliío de Lisboa a iB de Abril ^ c estando já fora 
da Barra, saltou o vento a Oeste, que o obrigou J cn-i 
tjar, e veio dar fundo em Belcro. Durou o máo tetnpa 
dezoito dia«; a 8 de Maio tornou a sahir, e com cwtra' 
tempestade desarvorou a Náo de Lourenço de Car?!- 
Jlio, que arribou a Lisboa, 

Proseguírão as duas a sua derrota , e acharão iiaLk 
nha setenta e dois dias de calmarias, por cuja causa tr- 
ríbãríío á Balna , onde entrarão a 4 de Agosto. Plrofi* 
das de agui^ e mantimento, partirão desta Cidade, iot 
frerão trinta e seis dias de capa no Cabo de Boa Eífe* 
rança , e ancorarão em Moçambique a 16 de Maio á$ 
anno seguinte. Do resto desta expedição, em que Fnt- 
cisco Barreto acabou a vida, tratarei nas Memorias (b 
Oriente. M 

1570. — A Esquadra da índia (1) constou cfteaB* " 
no de quatro Náos , coramandada por Jorge de Meof 
dônça, na Santa Catharina-, e os outros C 

D* João de Castello Branco, na Annunci .... , ^ 

Mendonça, no S. Gabriel; c Lourenço de Carvalho, 00 
S« Luiz. 

Sahio a Esquadra de Lisboa a 7 de Mar;o, e che* 
gou a Goa a 7 de Setembro. 

A 10 de Novembro partio para a índia Mapod 
de Mesquita, commandando o Galeão S, Leão, qtK, 
vernou em Moçambique. 

if70. — Nomeado D. Luiz Fernandes de Va 
cellos (2) para Governador do Brasil , sahio de Lisbot 

(i> Couto ^ Decida 10. Cap. 16. — Difcuffioi lobte ínOoaamit 
C\Oi tle U% índias, — Pedro Barreto ^ie Kstenáe, 

(a) IVkrnorItt d' CUl«i a Sebo^tiio, toniQ u Uir. 1. Gtf^ i|} • 
Uv. a. Cap* j. 



«1 

ât Junho deste aflno com sete navios, c huma ca- 
ravela, cm que levava muitas famílias, e Sacerdotes, fe 
outras pessoas que liião estabelecer-se naqiielIePaiz. Che- 
gando á lllm da Madeira^ como alli se devesse dilatar, 
talvez pnra receber algumas famílias, pedÍo*IÍie licença 
"O Capitão do navio S. Tiago (que era mercante) para 
deitar o Comboi, e seguir viagem á Ilha da Palma, em 
razão de levar muitos gcneros para ella , e querer carre- 
gar outros j o que D- Luiz lhe concedeo. 

Sahio o S. Tiago da Madeira no dia 30, e depois 
de vários contrastes do tempo, que o obrigou a perder 
ilguns dias , achou se a 15 de Julho ao amanhecer de- 
fronte do Porto da Palma , e á vista de cinco iiavios de 
Corsários da Rt>che]la, de que era Chefe Jaques Sorb, 
Almirante da Rainha de Navarra. Este, com o seu na* 
"vio grande, bem guarnecido, e artilhado ^ abordou o 
S.Tiago, cujo Capitão, e equipagem se defenderão va- 
lorosamente, animados pelas exhortaçôes do Venerável 
Padre Ignacio de Azevedo, da Companhia de Jesus, e 
dos seus quarenta companheiros, que hião para as Mis^ 
s5es do BrasiU mas como era tão desigual a contenda , 
fbí o navio entrado, c todos os ReHgiosos feitos em pe- 
idaços, ou arrojados vivos ao mar: tanta era a raiva dos 
Hugonotetf Depois desta barbara vlctona , couduzio 
Soria para França a sua presa , coberto de vergonha , e 
Vic infâmia. Parece que a Rainha de Navarra lhe extra- 
"nhou asperamente esta setvageni deshumanidade. 

D. Luiz Fernandes , sabendo na Madeira a desgrsr- 
^Ça acontecida ao navio S, Tiago, e não a podendo vtn* 
^ar, sahio com outro navio do Comboi para o Brasif; 
^cmpenhando-se na Costa de Guiné, soffreo longas caí- 
PPkrias, e lhe adoeceo quasi roda a gente. Por ultimo 
avistou terra do Brasil ao Norte de Pernambuco, e não 
jpodendo dobrar o Cabo de Santo Agostinho, arribou á 
^ha de S» Domingos, e o outro navio á de Cuba., 



512 

-** Reparado do modo possivet, t-entou D, l 
naiKk> monrar bordejando a Costa do Brasil, o 
^|l6de coiísepuir, como era natural, e arribou 
"tez ás AatilliaSi d*onde seguio a sua viagem aré ^^ 
Ilhas dos Ajores, Ancorou na Terceira j e como % 
navio nlo esrava capaz de navegíir, afrcro 
cantCi e fí!z*se á véh para o Brasil a 6 de ^ 

Ch?gnndo á altura dds Canária?, foi ar. 
^tp por quairo navios Francez^rs sahidoç J.i P 
ja Esquadra conimandava João de CaJ:; ra» I 

do no mesmo navio, que fora dejaqu 
era iucnos bárbaro, do que este. D. L ., 
duvidava <do resultado de huin^ acçõo eyiir j 
!deiiguaes, determinou vender-car^ 
d tgcn^ de Cadaville fqrao rres v: 
mo depois de entrado o seu navio > fizer 
'2CS dcscíperadi resistência. IX Luiz, a: 
íiurna- bal.? j e com as pernas quebradas 
sem rendcr-«e, acabou de huma lanhada* Os Fi 
niaidrao na peleja, ou deirárao dois dias depoU ao 
treze Religiosos da Compisnhia, que íiwo de pasfii 
para as Mis&oes, como os oultos^ co^npanheiroi cÍo 
dre Ignacio de Azevedo, 

157 U — Tendo El Rei dividido os Estat 
em ires Governos, nomeou para Vice^Rei si D. A 
de Noronlia , cuja authoridadc devia co/.i - ^ ' 
de o Cabo Guârdifui, em que finalizav.i 
Barreto I até Ceilão (Oj c elegco António . lUt* 

rcto para Governador desde Pcgú ate á Cbir 
cendo a sua Capital em Malaca. Na? Menu 
dia analysarei este systema, que e^cpuoha aqucil» ricw* 
Dominíos ao perigo mais emincJUc* 
(O Couto ^ Decâdt 9. OpituJns 1. c ii,-- htéio EjcrefO - A*», 



5J3 

„ Esquàd/a do Vite-Rei era de tinco Nios findei 
elle embarcado ni Chagas; e es outros Coromandantcs 
António Moaiz Barreto, na Belém j^Uuy Dias Pereira, na 
Sanra Clara; Aaronio de ValladarfSj na Fé; c Francis*. 
CO Figueira de Azevedo, no Sanro Espirito- Embarca- 
rão nesta Esquadra quatro rail soldados, de que a Náo 
Chagas (em que regressava Diogo de Couto) conduzia 
novecentos. yj- 

A 17 de Março par tio de Lisboa o Vice-Rei^ c 
akida que chegou a Goa com a sua Esquadra a 7 deSo* 
tembro» houve tal epidemia em roda ella, que perdeo 
mecade da gente: só na sua própria Náo morrerão qua- 
trocentos e cincoenta homens; consequência forçosa de 
se amontoarem tantos hoa^eiis em cinco navios, por hu- 
ma faba economia, 

1572. — A Esquadra da índia (i) foi este anno de 
quatro Náos , commandada por Duarte de Mello, em- 
barcado em a Náo Reis Magos (que se perdeo na torna- 
viagem); e os outros Co mm andantes Gaspar Henriques, 
na Santa Clara; Álvaro Barreto, na Annunciada ; e Pe- 
gkp Leitão, no S. Francisco, que desappareceo á vinda. 
mí Sábio a Esquadra de Lisboa a 18 de Março, e che- 
gou a Goa em Setembro. ^^^^^ 
No mez de Setembro deste mesmo anoo par tio pa- 
ra Moçambique Bartholomcu de Vasconcellos da Cunha; 
connmandando o Galeão S, Lourenço, carregado de iro- 
(>d para aquella Praça, aonde chegou a salvamento. 
I Tinha EIRei aprestado cm Lisboa (2) com im- 
inensa despeza huma poderosa Esquadra de trinta navios 
grandes, de que nomeou General ao Infante D, Duarte, 
pdando-lhe por Conselheiros Lourenço Pires de Távora^ 
p D. Álvaro de Castro. O Duque de Bragança fcrneceo 



XO Fafia^ Europa ' va. — PeHr 

Atics sobfc loa Ccxwivi c, — Cci 

(a} Memorias d'EiKei Ú Sebtitiáa, tomo 9. 



ide. — Dis- 



piará esfà cipèii^tó telstjenifos ^I^áddb AMadoií, > ir» 
ifiados á sua cusrâ. ' ? 

Içnorava-ae 6 motivo de tao grtitklw pre|Minnii€K, 
quando na noite de ij de Setembfx> huiii temjxind de 
Vento Sul destró^u os naviòá,. e dtb com qosii lodoí' 
ém terra. . • 

' ^S73* — -A. Esquadra deáte anno (i) for de ^OMo 
Náos ^ commandada por Francisco de Sousa, etobaxaàí^ 
ém a Náo Santo Espirito; e bs oUtros ComriUiiidamei 
Antoriio Rebelio, em S.- Gregório; Quimino de Vai- 
tencellos , na Bclem ; e Luiz de Alter; ^eõi Santa Cla- 
tk. 

Partio a E^uadra de Lisboa â lo de Abrit^ tsó 
D. Francisco de Sousa chegou n Cochim nos fim deOo* 
tubro; as outras Náos iuvernárâo em Moçambique. 

15*74. •— . Commandou este anno (3) a' Esquadra da 
índia Ambrósio de Aguiar, embarcado em a Nio Ckâ- 
^s; e os outros Commandantes D. Diogo Roliãi« M 
Fé; Pedro Alvares Corrêa, na Santa Catharioa; Diogtf 
Vaz Rodovalho, na Annunciada; e Manoel Pinto^ 01 
Saiita Barbara. 

Sahio de Lisboa a Esquadra a 21 de Março, ees* 
trou em Goa nos fins de Setembro. 
* 15*74. — Ardia El Rei cai desejos de passar á Afiri- 
ra (3), onde o seu impetuoso valor, que degenerava enl 
"temeridade, lhe figurava gloriosas, e importantes Coo* 
quistas; mas querendo esconder as suas intenç6es, por 
eyitar a opposiçâo , que antevia, da Rainha sua Avó, do 

(O Couto, Década 9. Cap. 14., e Década lO. Cap^ i6b — Mo 
Eftf rero de Rezende. — Faria , Europa INortugueza. 

(9) Couto, Década 10. Cap. 16. — Discurso sobre lot Goaumív 
de lai índias, — Faria, Europa Portugueza. 

(3) Blemorias d'ElRei D. SebastiSo, tomo ). Llv. 2. Capituloi s5> 
27 , e 29. — Chronka manuscrita d/Eli^ei Dl S sbta t tfo, pot Antooto 
Vajena^ Cap. y. 




-Ordcal Iirfoute B. Heímqite» t Aét mais sabloi Come- 
J hei ros , nomeou o Senhor D* António, Prior do GratOr, 

Íiara GoTernador de Tanger, por Garta Regia dè 14 de 
ullio dcsic ;inpo, renda já prompta biima-Esqu vidra <ic 
4iaic6es. e Galés com ccin mil c duremos soldados de 
dnÉimeria, e alguma Cavallaria ; cora a quyl eahiô de 
L:;boa o Prior do Grato no dia 19 daquelle mez, c com 
facii rugem ancorou era TangtT. \ - 

ElKei, que se havia rcrirádo 3 Cintra: ccin prctcfc- 
4D de pafsar ali os maiores calortís., mandou a D. Ferr 
tiaido Alvares^de Noronha, General dasGatós^que fos- 
se Ji Cascaes com a Gale Real, e outras ^uss, de que 
iBliíDiGom mandantes Jorge de Albuquerque, c Bernardim 
Aifeiío, e ali esperasse ordens ulteriores. Assim o cunv- 
jprio XI General ^ enar noite de 17 >de Agosto embarcoíi 
fcHtcí>acompanhadc.de^ucaB pesfoas/e partio para o 
•Algarve, onde xcunio a^Esquadra ide guarda-ijostíi,. coni- 
«andada pop Simad da Veiga , -composta dei hum Ca<- 
Jciove fíncb Caravelas; e de Ltp^ ticipou a reso- 

llfçfcL em que estava de -pjssar a , nomeando o 

Cátdeai infante para governar d Remo, durante a sua 
«usí3icia , de que romou posse a 3 de Setembro, 
i'i r lispcdidds estas, e outras Ordens, foi ElRel viskar 
«.Cidade de Tavjra^d^onde atravessou para Ceuta, de 
que era Govcrnndor o Marquez de Vilh Real, c nesta 
l^íiça se demorouítté^ao fim de Setembro^ occupandose 
nq exercício da caça, ceitiJ^ue os Mouros, assustados de 
ftmHhanre listia •■ ^ísem apparecer na catnpaoha a 
pcittirhiiri a sua :a. ' . ' •,♦ , ?' > ^rv? 

•i O Duque de iiiai^ança , chamado por ElReí, tinha 
«iido.dcXiabOii a iH de Sfitcnrbro em huuoa Náo Ve- 
neziana, com muitos navios de transporte, nos quacs cm- 
éWfibff^eiííccViTOS cavallos e dois mit hotnens de pé, ar- 
íí .n-i r ,,.f . LfVi^ndo comsigo ò Çplelo S, M^f" 
à\9i Q 'Ihciouro, e CapciU i\eal^ * 
65 ii 



«16 

muitos Grandes, e Fidalgos, qne com sDmim bimda^ 
de se apromprárâo para irem servir na AEácã a. EÍReí| 
o qual descontente de não achar tm Ceuta occasife al- 
guma de medir as armas com os Mouros, pasnu a Tan- 
ger com todas as suas tropas, e pouco satisfeito daíih 
acção em que estivera o Prior oo Crato, lhe tiroa a 
Governo, e o cpnferío a D. Duarte de Menezes» 

Sahírao finalmente os Mouros ao campo oomgn»' 
de numero de gente , e ElRei marchou- em pessoa ^le- 
xebeUcts ; porém o combate reduzio-se a huma cscsra- 
-inúça^' que acabou com o dia, sem penk considenfei 
'de parte a 'parte. 

' Conhecendo agora, ainda que tarde, ane nlotiab 
forças paia fazer Conquistas naquelle Paiz,. saiib de 
Tanger noa principiou de Outubro para Tortuglsl, em- 
barcado no Galeão S.- Martinho; eem outros navioiy.e 
Galés se accommodárao as Personaffena^ e pessoas dSs^ 
tinctas. Hum rijo Levante^ que lhe dea; a sabida à^ 
Estreito, espalhou toda a Esquadra: oGalefe S. 'Msm^ 
aho correo cm pôfia - até >o ventOF; abonançar , e depois 
veio bufêar o Cabo de* 6. Vicente. Desembarcou El&d 
em Sagres, e buscando logo outro perigo ;< paniaemli^ 
ina Galé com vento Sudoeste, que a pôz no risco mais 
eminente j e a final entrou em Lisbo»' a a de Nõfem- 
bit) (I) 

i^jé^. -^ Ainda que os Portuguezes introdoaíriio o 
Christianismo no Rèino de Congo (2) desde o tempo 
d' ElRei D. João IL, e cMtinuárão sempre a traficarem 
todos os Rios , e Portos d'aquella Costa , não tinhSo 
nella Colónia alguma ; até que o Rei de Angola, inv^ 
joso das vantagens que o de Congo recolhia da comm» 

(1 ) O Pa(be Amador Rcbelío ^ a» Vick C nunuacrit») destt hiocft 
pe, conta o caio cona algunia dífferençk 

(2) Vede o tomo j. da Ctolhfcçío db Notien» ptra a Hirtotíi <■ 
Ka(^ôet Ulertmtijnat. - Anno Hutoiicv, tono M.pf. ^24. 



517 

DteaÇM áof Tõrfugnêzes , mandou huma Embaixada a 
ElRei D- Sebastião, pcdindo*lhe amizade, e correspon- 
dência raercantiK A Rainha D- Catharina, então Re- 
gente, enviou â Angola Paulo Dias de Novaes, neto do 
celebre Descobridor do Cabo de Boa Esperança, o qual 
partio de Lisboa no mez de Setembro de lyjp, com 
três Caravelas armadas , levando instrucçôes para esta- 
belecer o CommerciOj e procurar aurahir aquelle Prín- 
cipe ao Christianismo. 

Em Maio do anno seguinte chegou Paulo Dias ao 
Rio Quanza > e achou fallecido o Rei, com quem hia 
iraur; e como o seu successor fez grandes protestos de 
querer concluir a negociação, foi Paulo Dias visitiillo á 
sua Corte, acompanhado de vinte Portuguezes. O Prín- 
cipe o recebeo com gasalhado, posto que o reteve mui- 
tos tempos com«igo, a fim de se aproveitar do seu au- 
xilio nas guerras, que sustentava com outros Régulos 
seus confinantes \ e por ultimo o mandou a Portugal a 
pedir maiores soccorros. 

ElRei D-SebaítiãO| querendo aproveitar-se da boa 
occasiâo, que se offerecia para a conversão daquelle Po- 
jtf> bárbaro, onde parecia haver já penetrado a Religião 
Hbtholica, porque Paulo Dias tinha por aqui, e por ali 
achado nas mãos dos Kegros alguns Missaes, pedras de 
Ara, e vestimentas Sacerdotaes mui antigas, o nomeou 
Governador, Conquistador, e Povoador daquelle^ Paí- 
ses. 

Com este titulo sábio de Lisboa Paulo Dias a ij 

de Outubro de 1574, commandando sere navios, cuja 

guarnição chegava a setecentos homens , de que erão 

orincipaes Officiaes Pedro da Fonceca, seu parente, Luiz 

■prrâo, André Ferreira Pereira, Garcia Mendes de Cai- 

^llo Branco, e Mnnoel João. Aos três mezcs e meio de 

viagem descobrio Paulo Dias a terra de Africa , passou 

avante do Q^anza > e correndo a Costa , surgio na lUia 



«IB 



derLmnda, Aqui foi tem recebido de quarerra FdrtiK 
-gwçse^, e muitos Negros de Gortgo, cjne a IiEbiravSo^ 
•míis nao lhe parecendo o local apropriado para cdífícir-i 
passou ao Continente visírtho^ e levantou luima Igreja 
no monte, em <juc está hoje o Fnrre de S. MígucK 

Esta foi a origem da Cidade de S. PjuIo de Lonn- 

•dâ <j nome que o seu fundador lhe deo. No morro cfis* 

nnaclo de Benguetla m^ndotrçile construir outro Fmte, 

c]ue os Negros depois destruirão (i), e se ficou chamio» 

Oto Benguella a VcUia. "^ 

JUff ' Paulo Dias sustentou longns', e profiadas gtiercaf com 
^és IReguIos do Pai2 , e íallcceo tio ^nno de 15SÍS, ou oa 
jscguinte, i -' 

' ^ÇTy. — A Esquadra da índia foi e^te anno de qu3- 
-tro Náos, commnndada por D; João de Caçrello Brjwco, 
-tm a Nâo S. Pedro; e os outros Commandantet Anr^v 
mio Robello, no S. Gregório; Fernão Boto Macba^, 
mo S- Sebastjgoí e Álvaro Paes, no S, João r?). 

Sahio a Esquadra de Lisboa a 14 de Marjo^c «fr 
^orou cm Goa no mez de Sefèmbro, 

1^76* — Nomeando ElRci (3) para Vic©4lei dt In- 
'dia a Lourenço Pires de Távora, constava â sua Esqfv 
dra de quatro Náos, hihdo elle embarcado na Chagn; 
e os outros Commandantcs D. Jorge de Menezes Bato- 
che, na Fé; Simão Vaz Tello, no Santo Espirito; c 
'Marfim Pereira d* Eça, no S, Luiz* 

Sahio a Esquadra de Lisboa a 7 de Março, e die- 
gando á altura di» Moçambique, falleceo o Vice-Rci» 
que foi sepultado naquella Ilha; e etn Setembro luah 
ráfâo as quatro Náos em Goa# 

(O A Cididc de S. Ftlíppe de FenguçP 

(a) Couto, Década lO. Cap. ló,— fV 
Discursos sobfc los Commerciot. — Faria ^ Á^^yã w 

(j) Couto, Década to. Ca;>. 16. — P<fdro i - Fa^lt, 

Portii^ue^a. — Discuftot tobre \m Gonimercios lie Ias ifi^i à át 



No mesmo dit da salrida do Vice-Reí partio dé 
Lisboa para Malaca Matliias de Albuquerque^ nomeado 
Governador d'aquclie Estado, com duasNáos, ellc na 
Santa Catharina; e Balthasar Façanha, nó S.Jorge, que 
se perdeo á entra cl a de Moçambique* 

Neste anno cedeo Cide Albecherira a EIRei D, Se- 
bastião a Práça de Arzilla , de que foi primeiro Gover^ 
nador Pedro di Silva, 

1577* — A Esquadra ordinária da índia (i), coa^ 

fosra de quatro Náos, foi este anno coromandada por 
'antaleão de Sá de Menezes, embarcado em a Náo Boa. 
Viagem; e os outros Commandantes Lourenço Soares 
de^Mello^ na Annimciada; Miguel de Carnide, no São 
}oCo> que se perdeo á vinda no baiio de Pêro de Ba^ 
nbos; e Manoel de Medeiros, no S* Pedro- 

Sábio esia Esquadra de Lisboa a 27 de Março, e 
ancorou em Goa no mez de Setembro. •' 

1: Díp-scontente EIRei de lhe haver o Conde da Arou- 
}ti D. Luiz de Ataíde recusado o commando do Exer- 
sito, que reunia para a jornada de Africa, o nomeou 
^^ice-Rei da índia, cargo que ellc acceirou; c a t6 de 
)otubro sahio de Lisboa embarcado em a Nio Santo 
António, levando mais duas Cnravelas , a Trindade 
>mmar)dada por Nuno Vaz Pereira , e a Andorinha 
>r João Alvares Soares. Pobre Esquadra para hum Vi- 
ce-Rei! Mas a pesar da má estação, tomou Moçambi- 
que , onde invernou , e a 20 de Agosto do anno seguia- 
le entrou era Goa* 

*1J78, — A Esquadra da índia (2) foi este anno de 
trcslMáos, o Chefe Jorge da Silva, embarcado em a Náo 

(t) Firia, A%u Poreu^ueia, — Pedro Barreto» — Discurtoç fobre ío$ 
Ct?mmercios. —^ Wcmoiias d 'EIRei D* Sebastião, tomo 4. Liv. i. 
Cip. 21. 

(2) Couto, Década ia Cap, 16. — Biirreto de Rcwnde. — Ftrb^ 
Assa Portuguezib — Discucaos sobre los Cominetcioi dii ks índias» 



52a 



S Francisco ; e m outros dois Commandames Aleixo dtj 
Mota, cm &. Gregório; c Estevão Cavalíeiro» na CM 
xaoja. 

- . Sahio a Esquadra de Lisboa a 24 de Março^ < c&e-il 
gou a Goa em Setembro, . • i ? -^ 

- JyjS* — Determinado o Rei á jornada éc Afiíca, 
pesar dos cooselhas dos homens mais sábios, e mais n 
íosos do bem publico, vendo reunidas em Lisboa as cro^l 
-pas estrangeiras, que tomira a seu soldo, e comptetisi 
BS levas do Reiao ^ resolireo partir quanto ames, impa^l 
cjenre de ver*se em campo cora Alolcj Ma loco, 
pc Guerreiro, e Politico, a quem esperava conqu.^,^ 
hurna só batalha os vastos Estados, que possuía^ hihi^\ 
^ados de Nações ferozes, inimigas innecandlia veia do 00*^ 
me Christão (i), 

d .0 Constava a Armada de oitocentas vtHas, oirre oa* 
víos de guerra , e embarcações de transporte de todas is 
dimensões y porque devendo ser breve a vta|^ip , e a cs« ' 
taçáo favorável , entrarão na expedição até És laoclun 
dos Pescadores do mar alto, das quaes fmneotrlo ot* 
'tenta os de Lisboa. Foi nomeado seu General ena Cie* 
fe D. Diogo de Sousa, kvaodo ás stias ordens « cxmM 
.OíHdaes Generaes, a Francisco de Sousa, Alaicifii Af- 
ibnso de Mello « Manoel de Mello da Cunha ^ e Ma** 
noel de Mesquita , Commandame do Galeão SL Marii- 
nho, destinado para EIRei passar para eUe no mtf i o 
que não íc2. O General das Galés era Diogo Lopes ik 
Siqueira, tendo por seus Officiaes Generaes a Pedro Pei" 
soto da Silva, Commandaate da GaJé Real, em qite 
vElRei hia embarcado; Amónio de Abreu, Joaone Mcd> 
des de Menezes, e António de Mello. 

A 14 de Junho fui EIRei i Sé , onde o AicebíÉpo 



(1) Meinofitt d^tlRei IX Sebtitilo, tamo 4*, em v«r1oi b^ 
-* Quoom ttamséiiu do ipetcao Rei , por ÁniOtiitf Vsiei» , dp. 



ff- 




821 

de Lisboa D, Jorge de Almeida benzeo o Estandarte 
Realj e d^alí passou a embarcar-se na Galé Real, da 
l^ual não sahio mais* 

Como o Cardeal Infante D, Henrique se escusou 
de aeeeitar a Regência , nomeou EIRei para Governa- 
dores do Reino o Arcebispo D.Jorge de Almeida^ Fran- 
cisco de Sá, D- João Mascarenlias, e Pedro de Alcáçova 
Carneiro, todos quatro do Conselho de Estado; e para. 
Secretario Miguel de Moura. 

No dia 25 sahio a Armada de Lisboa, e a 29 an* 
corou em Cadix, e se lhe reunirão varias embarcações 
arrazadae, e outras que conduzião as tropas do Algar-» 
ve. O Duque de Medina Sidónia obsequiou a ElRci 
com brilhantes festas, e públicos divertimentos- A 7 de 
Julho sahio h Armada de Cadix, e avistando Tangec 
nessa mesma tarde, se adiantou EIRei com as Galés, e 
doi« Galeões , e na manhã seguinte deo fundo naouella 
Bahia. Achava-se em Tanger o Xarife expulso do Thro- 
110 por Muley Maluco, com hum filho, e poucos Vas- 
sallos, que o seguião* Desembarcou EIRei, e detendo-se 
tres dias, partio para Arzilla, levando comsigo ao Xa- 
rife, e ao Governador D. Duarte de Menezes. 

Reunida em Arzilla toda a Armada, mandou EIRei 
desembarcar as tropas, que se abarracárão fora da Pra- 
ça ; e aqui declarou a D. Duarte de Menezes por Mes^ 
tre de Campo General. 

Constava o Exercito de pouco maís de vinte mil 
Infames, e mil e quinhentos Ca vallos, A Infanteria Por- 
tugueza, em numero de quasi doze mil homens, dividia- 
se era quatro Terços , de que erão Coronéis D. Miguel 
de Noronha , Francisco de Távora , Vasco da Silveira , 
€ Diogo Lopes de Siqueira. Além destes Terços havia 
outro chamado dos Aventureiros, composto de mil ho- 
mens escolhidos, e práticos nas guerras do Oriente, com- 
m^ndado por Christovão de Távora. A Cavallaria, to- 



S«32 

da armada i ligeira, não*tinba General faarticula^^ pai 
haver El Rei tomado o seu commindo. A Infknterhi es- 
trangeira formava três Terços: hum de Cjuatro mil Ale- 
mães , de que era Coronel Mr. de Tamoerg ; outio áe 
três mil Hespanhoes ás ordens dò seu Coronel IX A& 
fonso de Âguilar ; e o terceiro de seiscentos Italianos 
commandado pelo Coronel Inglez Thomaz StuiEickf. 
O Xarife capitaneava quatrocentos Mouros de pé, e 
duzentos e cincoenta de cavallo. Govemavâo a Armiie-. 
ria , composta de trinta peças de campanha , o Bs&o de 
Lessa Pedro de Mesquita, e Jeronymo da Cunha. GiÍD 
Qyarteis-Mestres Filippe Estévio, Italiano, e NiooUb 
de Frias, hábeis Engenheiros. Este pequeno EiardlD 
lia acompanhado de tantos gastadores, criados, e o»* 
tra gente inútil, que quasi o igualavSo em numero, c id 
liie serviâo de embaraço. 

Convocou ElRei por formalidade hum grande Gon* 
selho de Guerra, e contra o voto das pessoas mais imd* 
líjgentes, e zelosas do bem do Estado, determinou taau^ 
char por terra a Larache , em cujas visinhanças se acha- 
va Muley Maluco com hum Exercito de mais de cem 
mil homens, a maior parte Cavallaria, e com maics 
artilhcria, pira lhe disputar a passagem» 

Ordenou ElRei aos Coronéis dos Terços Portiçoe» 
zes, que escolhendo dois mil homens de cada bum 
delles, retnertesscm para bordo dos navios os que restai 
sem; diminuindo assim de perto de quatro mil homens 
© numero do seu Exercito. Tão cegamente se persuadia 

2ue lhe sobeja vão as forças para conquistar a Africai 
). Diogo de Sousa teve ordem para se apresentar cwa 
todi a Armada defronte de Larache, mas não eottir 
no Rio até novas ordens, que nunca se lhe expedíiâo; 
pcrdendo-se desta maneira a occasiâo c»porttina de gi* 
nhar aquella Praça , verdadeira base ée operações ib 
Exercito, e ponto único para a sua retirada^ for^ 



6m 

quando D- Diogo de Sousa ali chegou, ainda cila nao 
tinha guarnição, e podia ser facilmente occupada, O 
Exercito começou a marchar de Arzilla para Larache a 
39 de Julho, quasi sem víveres, e com poucos meios de 
transporte^ 

Não entra no plano destas Memorias descrever a 
funesta batalha de Alcácer Qyibir, dada no dia 4 de 
Agosto, na qual desappareceo D* Sebastião, Monarcha 
intrépido, e magnânimo, porém dominado de paixões 
impetuosas; e o seu Exercito foi desfeito de maneira, 
que ouasi não houve em Portugal familia nobre, que 
nio cnorasse hum parente morto, ou cativo. 

D. Diogo de Sousa, sabendo da derrota ^ voltott 
com a Armada para Lisboa^ 



, ^» *>-: .^. 



- i i^ VI -^-i* -"***■***** ■■! ■■■■■i^aa 11 !>*- ■■ ■■..■.»»^^,..^ ^1 i l^>1^'L1rv^^L-^^1-l^x^l. 



Reinado d'ElRei D. Henriqiie !• 



fhegando a Lisboa a infausta noticia da morte <fel 
ElRei D. Sebastião, foi acclamado a 28 de Agosto do^ 
anno de lyyS seu Tio o Cardeal Infaote D. Henrigucj 
cujo Reinado de quasi anno e meio foi só assigMl 
por criminosas intrigas politicas sobre a suocei«»d! 
Monarcliia, as quaes atemorizando o Monarcba 
quecido pelos annos ^ e moléstias, obstarão a que &t 
rasse por sua successora a Senhora D* Cacharma , Do* 
quezâ de Bragança, Princeza de animo varonil « cai 
quem rodos os verdadeiros Portuguezes reconheciío iiK 
disputavel direito á Coroa. 

Falleceo El Rei em Alraeiritn a 31 de Janeiro àt 
1580. 

I5'78, — A 2 de Outubro (1) partirão de LiMm 
duas Caravelas com os avisos da morte d*ElRei D. S^ 
bastião. Commandava huma D. Estevão de Meoescif 
com destino a Goa , aonde chegou em Maia do iCHK^ 
seguinte i e a outra João de Mello, que foi a MiIíOU 

^S79' — A Esquadra da índia (2) foi este amo (!e 
cinco Náos^ commandada por João de Saldanha, enh 
barcado em a Náo Chagas ; e os outros Conimandíoiet 
Diogo Vaz Rodovalho j na Boa Viagem; Pedro de Pai- 
va, em S, Lourenço; Rodrigo Meirelles de Mesquita,., 
na Annunciadaj e Estevão Alvo, em S. João* 

(1) Faria, Alia Portugucisi, — Couto,, Década to. Câfk l4. ^ 

Pedro Barreto. 

(2) Pedro Barreto, ~ Discursos sobre los ComiDCicioi de li 
^- Fvia^ Ásia Poitugucza. 





Sahio a Esquadra de Lisboa a 4 de Abfil| e che^ 
»u á índia dos principios de Outubro. 



kl 



Interregno. 



^r morte d^ElRei D* Henrique I, ficarão nomca* 
s Governadores do Reino o Arcebispo de Lisboa D. 
rge de Almeida, D. João Mascarenhas, Francisco de 
, Diogo Lopes de Sousa , e D. João Tello de Mene- 
5 , os quaes começarão Jogo a entender nas coisas do 
overno, de que a principal era julgar a quem perten- 
I a Coroa; objecto mais fácil de discutir, que de re- 
Irer, tanto peia divergência de opiniões entre os Go^ 
rnadores, e confusão geral em que se achava Portu- 
l, como pelo armamento formidável, que por mar, e 
ta fazia Filippe IL Mas como esta matéria pertence 
dusivamente a Historia do Reino , me cingirei ás 
iisacções marítimas acontecidas neste Interregno. 
iç8o. — A Esquadra (i) , que os Governadores da 
fino mandarão este anno á índia , constava de quatro 
ios, e era commâudada por Manoel de Mello da Cu* 
a , no S, Francisco \ e os outros Com mandantes Gon- 
b Coelho Casíello, em S. Luiz ; Manoel Marques de 
lello, em S. Salvador; e João de Betancor, em S. Gre- 

|ÍO* 

■ Partio a Esquadra a 3 de Abril ^ e arribou a Náo 
Mlvador j as outras três chegarão á índia no mez de 
3bro* 



1 




A N N A E S 

DA 

MAMNHA PORTUGUEZA 

POR 

IGNACIO DA COSTA aUINTELLA, 

Viee^Almirante da Armada Real, Coiselbeiro d^Esta^ 

4ê Honorário y Conselheiro do Real Conselho da 

Marinha , e Sócio Honorário da Academia 

Real das Sciencias. 

TOMO II. 




LISBOA 

Na Tyfografia da mesma Academia; 

18 40. 






< Vi 






» .- • r > 1 - 

.... I. *.'. \ /: ■ ;. 



• «• »\ . 



ARTIGO 

EXTRAHIDO DAS ACTAS 
DA 

ACADEMIA REAL DAS SQENCIAS 
SESSÃO DE 9 DE DEZEMBRO DE 1835. 



determina a Academia Real das Scienctas^ que 
jâo impressos d sua custa ^ e debaixo do seu fri* 
legloy os Annaes da Marinha Portugueza, que Ibe 
rio apresentados pelo seu Sócio Eouorario Ignado 
\ Costa Quintella. 



Joaqmm José da Cjotxz de Maced^^ 
Secretario Perpetuo da Academia^ 



r-^ :) 1 T H A 



C'M'.-;' T/'i 



1'f f - •% 



^^i"'!/:: 






PARTE PRIMEIRA. 



QUARTA MEMORIA, 



COMPRlHKNDEKnO DKSDE O A>NO OK 1681 ATB' a' ACCLà* 

^^ »AyAo u^I^lRei d. João iV. iím 1G40. 

^|Pi Reinado d' ElRei Filiffe IL 

XliLREr D. Henrique I., que^cvou o terror das Ar- 
mas de Casiella além da sepultura, não ousando decla- 
rar por successora da Monarchia a Senhora D. Catha- 
f*'"i, filha do Infante D, Duarte, e Duqueza de Bra- 
iça, a cujo indisputável direito se oppunha ElRci de 
spanha FiJippe II., o mais rico, e poderoso Príncipe 
seu século, deixou nomeados cinco Governadores pa- 
ra decidirem esta importante questão, de que pendia a 
gloria y a prosperidade, e a independência de Portugal. 
Negociações occulcas, e destramente manejadas, fí- 
b preponderante neste Reino o partido Hespanhol, 
mallográrao as combinações necessárias para pôr a 
líaçao em estado de rcpellir a força pela força. 

O severo Duque de Alva , hum dos primeiros Ge- 
aes do seu tempo, entrou por Alemtéjo nos f?ns de 
Junho de lySo com hum Exercito formidável pela qua- 
lidade das tropas, e até pelo seu numero relativamcn- 
U| ao Exercito Porruguez, que não existia (i), c chegou 

f (O O Conde da Eiiçcia (Portugal Rrstaufido, tomo k) díx, 



a Setúbal sem opposiçao, excepto a que lhe fez Mendo 
da Mota , Governador da Torre do Outao , auJLiliado 

Sor três navios de guerra > que coramandava Ignacia 
^odrlgues Veloso , cuja opposiçâo cessou com a vinài 
do Marquez de Santa Cruz D. Álvaro Bazan, Genenl 
da Armada de Hespanha, cora vinte e cinco Galeò^f, 
setenta Galés, c quantidade de transportes, em qoc le 
embarcou o Duque com o seu Exercito, e foi deifiubir- 
cax a Cascaes, d'onde marchou para Lisboa ; e tomin* 
do por ccrj:o, e inTç!ligcncÍas a Fortaleza de S* Juluo, 
expulsou da ponte de Alcântara hum destacamento de 
quatro mil homens, sem armas, nem disciplina, com que 
o Prior do Crato lhe disputou o passo. Ao mesmo tcfli- 
po entrava pelo Tejo a Armada Hcspanhola , sem a- 
conírar resistência; ainda que se havião collocado algu- 
mas Náos em linha Junfb i Torre de Belém, e D. Ma» 
noel de Almada havia construído hum Forte de madei- 
ra na Cabeça Secca (hoje o Forte do Bugio), qae bi- 
tía o canal da Alcáçova, Tudo ficou em apparato, pK^ 
que ninguera queria defender-se. 

Desta maneira as Armas, e a Politica da H< 
subjugarão Portugal ; c, á excepção das Ilhas dos' 
res (i), todas as suas vastas Conquistas receberão cõôi 
dpcilidade o jugo. 



cpje o Exefcito Hespanhof era de mil e quinhentos Oivallof , e i 
jiiil lníaiiees< Watson fHistorij do Remado de Fili{>pc II. , túOM t. 1 
Livto i6. ) dá a este Exercito trinta c dois mil homens; c á AfSW 
Hcspanhola trinta e seis Galeue» , deicsete navioi mais pe<juen*5f , r if- 
tenta GaJcs, com muitos transpottes* — I.uii de Torre» de tism, » 
Obra iotituíuda Avijos do Ceo (tomo l) calcula o Exercito cb DM^ 
cte Alva em qiiarent.i mil Infantet , e qyatro mil CaTalios, He 
que os Hespanlioe» , como adverte Faria (Europa Portugue»^ t 
Sarte i. Cip, j.), aíím daquelle Exercito, linhão vários Corpo» 
pai naj fronteiras das Provincias do Norte de Portugal ; c atitm he ft^ 
vavel ^ que as forcas da Hespanha chegassem a quarenta mil liooimi.. 
(i) Como as Ilhas dos Adores toaiárlo a yoi do Frioi àaOm^ 



Do!* CíiKo Governadores nomeados por ElRei D» 
Tenrique L^ quizerão três, que os seus nomes fosseiu 
manchados nã posteridade, e a 7 de Julho de 1580 as» 
signirão em Aia Monte, e publicarão em Castro Ma* 
rim huma sentença, pela qual declararão o Monarclia. 
Hespanliol por legitimo Rei de Portugal : estes Gover- 
nadores crão D, João Mascarenhas, Francisco de Si, o 
Diogo Lopes de Sousa. 

Por esta união com Hespanha se acharão os Por-» 
tuguezes envolvidos em todas as guerras, tão longas, co- 
rso sanguinosas, que aquella Monarchia sustentou con- 
tra as principaes Potencias da Europa , que desde sécu- 
los vivião em paz com elles^ e isto justamente na época^ 
cm que o seu Commercio era mais extenso (i), e por 

ejipeclk) EIRci a D* Pedro Vildci com quatro navios bem armados, e 
fffiscêtuos soldados, ptra redigir á sua obediência as de S. Miguel, e 
Terceira, com instrucçues, de que náo o i^uerendo adi receber, le di- 
lifasfe tiaquelles mares até chegar D. Lopo de Figueíroa, que se ficava 
aprestando com maiores forças, e devia neste caso coinmandar em che* 
fú a expedição, 

Qiegou D. Pedro Valdfz a S. Miguel , e não sendo admiti ido , di* 
ri^gio-sc i Terceira, onde achou a mesma opposiqáo ; e parecendo* IIjc fa» 
cíJ a cofiqutsra desita Ilha , a intentou , para que Figueíroa fhe nío 
viesse roubar es^a gloria. Á 25 de Julho de t |Si desembarcou Valdet 
^com muita difficuídade entre a CiJaiie de An^ra c a Villa cTá Prata, 
taJvei conliado nw intelligenciai que tinlía com João de Eetancor, par- 
fidífta de Hetpanha; porém o Governador Cj^priano de figueiredo, 
firendendo a ^rancor, desfez o conloio , e marcítou a atacar os Hespa- 
fiisoef , levando diaiue de si Numa grande manada de bois, que corrião 
furiosos , e os Hespanlioes , receando serem atropelados , gastarão com 
eiles a maior parte das tu^i muniç6es. Quiz Valdez retirar*te para o» 
seu» navios, mas ja náo era tempo, e em poucos minutos foi derrota- 
do ct^m perda de quatrocentos e cincoenta homens, salvando-se elle com 
o rrstoi Poucos dias depois deste surcesso chegou D. Lopo de Figueire* 
do, que fea proposícócs vantajosas a Cypriano de Figueiredo, e não as 
iceeitando este , voltou para Lisboa. Veja-se Faria na Europa Portugue* 
a, tomo f. Parte i, Cap, 4. 

(ly O tcsiemuiiho de hum Escritor nío luspeito dará melhor a 
OOCihectr 1 extensão do Commercio Português naqueíle &ecul0| e a bie* 

i a 



consequência necessltavão de mnlores forças imritlmii 
para a protegerem em hum, e outro hemisfério (i), mis 
as riquezas, tropas, navios, arti!herÍ3j e munições, todo 
foi sacrificado para defender os Domínios tão derrama- 
dos da Monarchia Hespanhola, dando com isto a enten- 
der os seus Soberanos, que consideravão os Ponuguezcs 
nio como membros da mesma Nação Peninsular, f»- 
rêm como alliadof , de que cumpria tirar o raiior par- 
tido possível em quanto durava a alliança, 

A primeira viagem dos Inglezes á índia, parece (fflt 
data de i^^i (2); depois apparecêrâo ali os HolUnà^ 

vidade com que cfiminuro: he este o CapicSo Hespanho} Thomc ClOO^ 
qye cscreveo em i6i i , c navegou por espaqo de cincoenta c quifl^ 
^nnos; diz eile : ,, Que em Portugal sempre houveráo niats do qiMti^ 
^, centos navios do mar alto, e mais de mi] e quinhentas Caravelti,e 
^, Canvelóes; e que fx>r isso EJRei D, Sebastião pôde reunir oiiocei^ 
3, tas e trinta embarcações tmias Porruguezaj , sem deixar abandomdb 
35 as navegaqõei da índia , S. l'liomt, BrazH» Cabo Verde, G^iWi 
,, Terra Nova, e de outras diversas partes; c que na época em <]Mr]rihH 
„ escrevia , sò haviáo em Pnrtugal algumas Caravelas. |, Veja-fe ^^^^| 
logo do Resumo Histórico da primeira Viagem ao redor do BÍu&do, ft*- 
ío Doutor Ortega, Bbdrid 17 691. 

(i) Esta necessidade foi reconhecida em hum grande Conieiío, ^ 
ElRci Filrppc convocou em Lisboa em ifSi, composto dai fietton^W 
xna is eminentes , como o Duque de Alva, o Marquez de Sim^ Ginf, 
I>, Lopo de FTgueiroa, $anci>o de Ávila , D. Francisco Zapati, DL Aí* 
fonso de Vargas , o Prior Mór U Fernando de Tokdf», o Gocíilt Jff^' 
ir/mo Landrone , Alemão, e outros Conselheims de Guerra^ e ttfttfli' 
Portugueies; e neile perguntou EIRei, que medidas scdeviSn 
n segurança de Portuga), e dos outros &ttado^ daMonarchra d*lie«pai]6i^ 
Resoíveo*se, que convinha mudar as forcas de terra pano mr^ 
porque desta maneira ficaria sendo senhor da tcrr!, c do mir : t fi^ 
tendo Esquadras situadas no Canal de Ins^laterra, Estreito de GibnkVf 
e Costas marítimas dos seus Estados, se enfreavão todos 01 tní 
e se podia acudir melhor a qualquer ponto atacada Este pfo j c MO 
todo do Duque de Alva , e a sua morte cmbara(;ou qtie 9t 
jíratíca, V^edc AvNos do Ceo, lomo 1, Cap. 16, c 01 DitcutiQi 
los Commercion de las índias. 

(2) Vede Historia da Navegado, seu princípio > C o a uncgd o, 
lomo 1 . pag. ] I g^ 




6 

5, inimigos mais formidáveis naquelle tempo, os quaes 
iprehendcrâo a sua primeira expedição era 1595* , c 
coniinuárâo qiiasi sem incerriipção a fazer guerra aos 
Portuguezes, Os seus navios erao mais bem construídos, 
e aparelhados que os de Portugal ; mais razos, e ligei- 
ros, melhores de bolina, e cora mais panno (i) , e ar- 
tilheria de maior calibre, servida por hábeis artilheiros: 
as stjas equipagens compunhão-se de excellenres mari- 
nheiros, e o mesmo erao era geral os seus Officíaes, e 
Mdados, de que se seguia terem mais gente para quaes- 
^ucr manobras, do que os navios Portuguezes, onde os 
moldados não exercião o ofRcio de marinheiros, nem tão 
pouco os criados* Porém os Hollandezes evitavão sem- 
pre as abordagens , remendo o espírito guerreiro, e a pe- 
rícia no jogo das armas, em que sobrcsahiao os Portu- 
guezeSj e por isso procuravão decidir os combates a ti* 
ros de canhão* 

Devo observar, que o deperecimento do espirito 
publico, e do Commercio, fez recuar em Portugal o» 
conhecimentos das Artes Náuticas a ponto de nao achar 
já discípulos o Cosmógrafo Mor, 

El Rei julgou mais económico arrendar a Negocian- 
tes o contracto da pimenta^ e o fabrico» e consinicçâa 
das Náos da carreira da índia (i)y de que procedeo em* 
pregarem os Contratadores navios demasiado grandes , 
mal construídos, de péssimas madeiras, e mal fabrica- 
dos , com o fira de trazerem maiores cargrvs em menor 
numero de vasos; e introduzirão a carona Italiana» mo 
Jic, o methodo de tombar os navios sobre barcaças, o 
que até ali se nao praticava^ porque se carejiavão cm 
secco. 

(1) Em i6n st\nóii os navios Portii^fíiczes não tinhlo m;searéo5 dtr 
}<]9nete, nem vil» cie estais, como íKliantc mostrarei* 

(±} Couto, Dtcadi 10, Cafv 19. ^^ Noticiíis de Fortugaí^ pot Í/í^ 
iioel Seveiioi de FaKJii> Discurso 7. 



Destes princípios, e do erro commum de sobrecir^ 
regar os navios, resultou crescer o numera dos naufra- 
giofç, com imraensa perda da renda publica, e do com-i 
mercío j de que eis-âqui as provas, 

Nesrc Reinado hiao cada anno mil soldados pan 
servirem ha índia; e durante elle, sahírâo de Lisbon oii« 
tenta e sete Náos, huma Naveta> e huma Caravdif (Je 
que arribarão nove Náos; e seguirão viagem ptra o 
Oriente setenta e oito Náos, a Naveta, e Caravcli. te» 
derão-se á ida quatro Náos, de huma das <\u2cs lei 
You toda a guarnição, e parte da de outra; e os ~ 
aes tomarão a Na veta. 

Na torna-viagem da índia perderão-se rintc c aíto 
Náos, onze das qunes perecerão com toda a gente; coi 
Inglezes loraárao, ou queimarão cinco Náos, escapando 
de huma destas só treze peFsoas: total das Náos percB* 
das triftta e sete, e Jiuma Navcta; o que, sem exaggerH 
çao, devia causar a Portugal huma perda de trinta e 
cinco miiliões de cruzados» 

Falleceo EIRei Filippe 11. a 13 de Setembro de 
1598. 

ij8i* — Logo que EIRei Filippe IK se apoderoii 
da Coroa de Portugal , tratou dos negócios do Qrio^ 
te (i), e nomeou para Vice-Rei da índia a D. FraDdf- 
co Mascarenhas, a quem concedeo muuas mercês, din* 
do-llie o Titulo de Conde de Ota , para usar ddlc eat 
começando a exercer as funcçôes do seu Car^o, com 
trinta mil cruzados de ajuda de custo , pagos antes de 
sahir de Lisboa ; e mais quarenta mil cruzados, que d^ 
via receber em Goa ; e algumas ricas Commendas pftt 
seus filhos, e netos, e o nomeou Capitão dos Ginetes, e 



(i) Couto, Década 10. Liv. i. Cap. 9. — Faria ^ Atía Portnfi»- 
71. — Duirte Gomes, Discursos cobre los Commercm -»- Epitap ik 
Fçdro Barreto de Rezende. 



_ I sua Guírrdâ. Levava D. Francisco Mascarenhas em se- 
gredo vários Alvarás, em hum dos quaes conferia EIRei 
o Tifulo de Marquez de Sanearem ao Vice-Rei Conde 
da Atouguia (que julgava estaria vivo), se lhe entregas- 
se pacificamente a índia; e levava asslgnados em bran- 
co, para prometter ás Cidades, Governadores, e pessoas 
notáveis daquelles Estados, que quizessem oppor-se ao 
«eu reconhecimento, rodas as graças, e mercês que lhe 
parecessem sufficientes para os ganhar. Esta Politica era 
judiciosa, porque os ânimos dos Portuguezes estavão ain- 
da alterados, e a Corte de Madrid receava que houves* 
se alguma revolução no Oriente. 

A Esquadra do Vice-Rei constava de cinco Náos, 
cujos Comraandantes crao Diogo PaçanWa, no S. Lou- 
renço; João de Mello, na Caranja (ou Bom Jesus); Pe* 
dro r.opes de Sousa , no Salvador; Manoel de Miran- 
da , no Reis Magos (que á vinda desappareceo) , e 
Leonel de Lima, no S. Pedro, com destino para Malaca. 

Embarcou o Vice-Rei em a Náo S. Lourenço, e 
sahio de Lisboa a n de Abril; separou*se logo a Es- 
quadra: a» Náos Caranja, e Salijador forao por fora 
da Ilha de S. Lourenço, e chegarão a Goa a 14 de Se- 
tembro. A Náo Reis Magos, indo por fóra da mesma 
Ilha, tomou Cochim no niez de Outubro, havendo-lhe 
raorrido alguma gente, O Vicc-Rei ancorou em Mo- 
çambique a 18 de Agosto, e surgio fóra das Ilhas, a 
tempo que sahia do Porto a Náo S. Pedro, á qual deo 
licença de continuar a sua derrota para Malaca. 
BI Como a monção estava mui adiantada , não quíz o 
^ce-Rei entrar no Porto, nem desembarcar, e mesmo 
a bordo tomou nova homenagem ao Governador, para 
quem levava huma Carta d* EIRei , que foi logo acda- 
mado na Cidade; c feito isto, partio para Goa, onde 
chegou a 26 de Setembro, e achou fallecido o Conde da 
Aiouguia* 



•^ 1582. — A Esquadra da índia constou este anno de 
cinco Náos (i) commandada por António de Mello c^' 
Castro, embarcado era a Náo S. FilippCi e os outros^ 
Comm andantes Gonsnlo Rodrigues Caldeira y na Bo2-| 
Viagem^ Luiz Cildeira, em S, Luiz; Diogo Tdieíri, 
na Chagas; e Jo3o da Fonceca^ cm S. Francisco^ des- 
tinado para Malaca. 

Saliio a Esquadra de Lisboa a it de Abrtl : ai Nioi 
S, Filippc, e S» Francisco, não podendo mòncar lO»* 
ta do Brasil , arribarão a Portugal, O S. Luiz pcnko-se 
em Qiulimane, salvando-se a gente. A Nag Chagas an* 
corou em Moçambique, d*ondc voltou para Lisboa ícwil 
a carga da Náo S* Pedro, que ali chegara de Malaca 
cm tão máo estado, que não podendo seguir viagem» 
resolveo-se o Commandante a ir concertalla a Goa, mas 
perdeo-sc no Parce! de Sofala. A Náo Boa Víagetn foi a 
única , que tomou Goa a salvamento i e na torna-viagcm 
combateo sobre as Ilhas dos Açores com três navios lo* 1 
glezes, de que escapou com alguma avaria, deiMfldo-^J 
a elles assas maltratados. 

ijSi, — Achava*^e EIRei em Lisboa quando 
que em França se preparava liuma Armada (2), em qoc 
vinha o Prior do Crato com iniento de assegurar-sc 
das Ilhas dos Açores, onde preponderava o seu partido. 
Para se oppor ás operações deste Armamento partio o 
Marquez de Santa Cruz nos princípios de Julho deste 
anno com trinta e três grandes navio? de guerra, cai 
que entra vão sete dos maiores Galeões Portugueics, re* 

(1) Couto, Década 10. Li%\ j, Cap. 8, — Faria, Alia Portnp^^ 
21. — Pedro Barreto p — Discursos fobn: lo« Commercíof, 
1^ (2) Faria, Ásia Portugueia, tomo |. Parte j- Cap. 4. — Avm «b 
Ceo, por Luiz de Torres , Cap, íj, — Historia Genealógica ààtmt 
Reaí Portu2;ue7a, tomo 10* paE;. 71Ç. — Vede também o Lrvro Içtitt* 
Jado „L'Armata Kavalc, át\ Capitano Pantcro Paaicrâ^ Uv» a. 
19 los 1% e ai I edi^o de Romaj 1614. ,, 



cinco mil soldados veteranosf, e gran*» 
de numero de Aventureiros. Levava instruc^ôes para es- 
perar a Armada inimiga sobre os Açores, e dnr-lhe ba- 
talha; comboiando depois a Lisboa as Náos da torni- 
viagem da índia, ea Frota Hespanhola da America, 
que se esperavão. 

Chegando o Marqaez com 19 dias de viagem a vin- 
te legoas de distancia de S. Miguel, soube pelos seus 
descobridores, que os Francezes já tinháo ali desembar- 
cado, e estavão senhores da Cidade de Ponta Delgada. 
Constava a sua Armada de sessenta e quatro embarca- 
ções, vinte das quaes erio grandes, e bem preparadas; 
e perto de sete nvil homens de tropas: commandava cm 
Chefe o Marechal Filippe Strozi, e era Almirante Mor 
do Reino. Vinha com eltes o Prior do Crato , accom- 
panhado de D. Francisco de Fonugal, chamado vulgar- 
mente Conde de Vimioso, por ser herdeiro daquella Casa. 
O Marquez, cora o parecer de todos os Officiaes Maio- 
res, resolvco atacar os Francezes, anten que acabassem 
de esrabe!ecer-se na Ilha-, c estes, sabendo da sua chega- 
da por hum Patacho, que trazião de observação, se ha- 
vião já feito á vela com igual intento» 

No dia 26, em distancia de sete, ou oito legoas da 
Ilha, SC encontrarão as duas Esquadras: os Francezes, 
como estavão a barlavento, vicrao arribando em popa 
,, sobre os Hespanhoes; c estes, seguindo o bordo fecha- 
^he á bolina, dcspassárão a sua linha de modo , que vi- 
ando, ajudados de alguma mudança de tempo, ficárãa 
^Pieu barlavento. O Marquez de Santa Cruz, que era 
"niui superior cm artiilieria , formou a sua ordem de ha- 

Eia, collocando-se no centro com o seu Galeão Saa 
rtinho de sessenta peças, e oitocentos arcabuzeiros de 
rniçáo, e nos extremos da linha pòz algumas das 

1 melhores Nãos; e mandou guarnecer todas as gavias de 
lidados, c algumas com pequenas peças de artilheria^ 
T^ma IL â 



n 



para com estes fogos mergulhantes destruir as equípageni 
iniraiga?. Hum pouco a sotavento da linha estacão qua- 
tro navios de reserva , para acodirem onde fosçe neccssa* 
rio; c a sotavento destes as embarcações pequena?, 

A batalha rravou-se furiosa, mas cora desordem dt 
parte dos Francezes , porque alguns dos seus navios caro* 
baterão mal» e outros não entrarão em acção* O AImi' 
rante D. Lopo de Figueiroa , que trazia no seu Gd^ 
S. Mattheus quinhentos soldados, abordou a Capkanei 
de Strozi, e foi abordado pelo outro lado da Alminnu 
de Brisac, que acodb ao seu General. Estava D* Lo- 
po no maior perigo, tendo já duzentos e cincoenta sol- 
dados mortos, e quasi todos o:S outros feridos, quanda 
o Marquez veio abalroar a Capitanea de Stroti, que se 
achou entalada entre os dois GaleoesHespanhoes. A ac- 
ção tornou*se então horrorosa , e acabou com a tomadi 
das duas Nãos Francezas. Brisac saIvou»se a bordo de 
outro navio; Filippe Strozi ficou prisioneiro, e foi mor- 
to a sangue frio; D, Francisco de Portugal, que viobi 
na Almiranta 5 foi achado atravessado de três balas, e 
outras feridas, de que falleceo, Fidalga na força da ida* 
de, de muita erudição, e animo generoso. Dois naríor 
Francezes foráo a pique, e cinco aprisionados, avaliio- 
do-sc a su^ perda de gente em dois mil homens ; a dot 
vencedores era muito menor* O Prior do Crato retiroiK 
se á Ilha Terceira. Entre os primeiros conta vSo-$e orne 
de grande distincção, e nascimento, nlêra de muitos Of* 
íiciaes; o resto soldados, e marinheiros. 

A todos mandou o Marquez ractter em procesi), 
âo qu^il fez ajuntar huma Carta (verdadeira^ ou faki) 
d*E!Rei de França , em que declarava não ter dado 
auxilio , nem consentimento para semelhante expediç&v 
A scncença foi de morte para todos os prisioneiros , ci^ 
ino piratas; os Nobres, e os Officiaes forão degolados» 
C os soldados y e marinheiros enforcados em numero dtf 



I 



< 



11 






quâsl oítôceníos^TOm grande indignação 

HespanhoL 

Alguns navios Francezes» que fugirão da batalha 
condazidos por Mr. de Londres, saquearão a Ilha da 
Faial na sua volta para França , viagem qoe também 
seguio o Almirante Brisac, assim como o Prior do Cra- 
to com trinta navios, O Marquez de Santa Cruz regres-i 
sou â Portugal, 

1583. — A Esquadra da índia (i) foi este anno de 
seis Náos, commandada por António de Mello e Cas- 
tro, que arribara no anno antecedeijte, embarcado na mes- 
ma Náo S^Filippe; os outros Commandantes eno Este- 
vão Alvares^ no Salvador, em que liia o Arcebispo de 
Goa D. Fr* Vicente da Fonceca ; Fernão da Veiga , no 
S. Tiago; João Trigueiros, no S. Francisco; Balrhasar 
Marrecos, no S< Lourenço; e Manoel de Medeiros, no 
Galeão S, Tiago, destinado para Malaca, Esta Esquadra 
levou algum dinheiro para despesas do Estado* 

Saliio de Lisboa António de Mello a 8 de Abril , 
e a ij vio as Ilhas de Porto Santo, e Madeira, onde 
os navios se apartarão Jiuns dos outros- ♦ 

A Náo Salvador descobrio a Costa de Guiné no 
dia 24 de Abril, e por ella foi navegando cora frequen- 
tes calmarias até ly de Maio, que estando 2" ao Norte 
da Linha , encontrou a Não S. Francisco. Passarão am- 
bas o Equador a i6; e a zo de Junho separou-se o São 
Francisco. A 11 de Julho vio o Salvador a Costa quin* 
ze icgoas além do Cabo de Boa Esperança. A 20 en* 
centrou segunda vez a Náo S- Francisco, com a qual na- 
vegou de conserva até 24 ; e no dia 30 achou-se na al- 
tura do Cabo das Correntes* 

(i) Couto, Decarla 10. Liv, 4. Cap. f. — Pecíro Barreto de Rezerw 
de. — Faria, Ásia Portugiie^a — - Dhcursos snbre los Commercios. — 
^iftoria da Navegado do João Hugues Linscliot «is índias OcierK^eft, 

2 ii 



12 



f Ac AgSstõcnêgbu a Moçambique , e á entra* 
da achou a Kio S, Tiago, de que se apanára na Ilhj 
da Madeira; no dia antecedente havllo entrado as Xaos 
S* Lourenço, e S. Francisco. 

Estas quatro Náos sihírao de Moçambique a 20 de 
AgostDj e ancorarão cm Goa a 20 de Setembro, haren- 
do morrido trinta pessoas a bordo do Salvador. A Não 
S. Filippe passou por fora de S, Lourenço, chegou a 
Cocliim a 20 de Novembro, levando muitos doeotesde 
escorbuto, 

15:8 j. — Conservava-se a Ilha Terceira (i) peloPriof 
do Crato, havendo recebido hum reforço de mil e Ak 
zcntos Francezes, commandados por Mr. deClianes, O 
valleiro de Malra; o que obrigou EIRei Filippe a tn- 
tar seriamente da sua redução. 

Para este effiíito partio de Li?boa o Marques de 
Santa Cruz com quarenta e dois grandes navios degucf* 
T3j e doze Galés , as primeiras que se arriscánío a sirlcar 
o Oceano, conduzindo huma divisão de dez mil horoet» 
de boas tropas Heí^panholas, Alcmans, Italianas, e duas 
Companhias de Porrugiiezcs, commandadas esras ulrtffitf 
por D. Félix de Arcigao. Era Mestre de Campo Gtn^ 
ral D* Lopo de Figueiroa ; commandavao os dois Ter* 
ços Hespauhoes os Mestres de Campo D- BVancisco de 
Bobadilia, e D. João de Sanâoval; o Terço dos Al^' 
iTsSes o Conde Jeronymo Landrone ; c o dos ItaJí: 
Lucto Pignateli, 

Chegado o Marquez á Terceira, escreveo a Mi 
da Silva j Governador da Ilha, ofFerecendo-lhe em 
d^ElRci o Titulo de Marquez de Torres Vedras, dttíi 
Commendas, e vinte mil cruzados em dinheiro, com per* 
dão geral para todos os moradores. Não quiz Manoel 
da Silva receber a carta, e em consequência rcsolvco-ie 

(1) Faria, Europa Põrtugueza tomp j. Parte 1. Cap, 4, — A^qm 
4o CCQ lOiíu) I, Cap. ]6. 



( 







o Marquei W eítf^'re1iender'o desembarque, e buscou pa- 
ra ií-so alguni ponti) accoirmiodado. 

As Galés corrião rodos os dias a marinha, amea», 
çando difFcrentcs lugares, até que na madrugada de 16 
de Julho conseguirão deitar alguma gente em terra cm 
I Pono Moio, junto a S» Sebasúao^ onde acharão dcsctú- 
^; do nos defensores. Acodírao os Francezes a defender o 
desembarque, porem batidos da artillicria, e mosquete* 
ria das Galés ^ ^ outros navios que se aproximarão da 
Costa, não podéráo evitar a continuação do desembar- 
que das tropéis, que a final se formarão cm grande nu* 
mero, e forçírao os seus inimigos a abandonar a posi- 
ção, remando para o eemro da liha, onde o Exercita 
Hcípanhol penetrou com muita perda, e difficuldadci, 
pelos obstáculos que lhe oppuniia o terreno, e a obstina- 

(ção da defensa. Mas havendo-se retirado os mor