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Full text of "Annaes das sciencias, das artes, e das letras"

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AkTIS SCIENTIA VEKITAS 



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SCIENCIAS. DA& ARTES, 


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TOMO JX. 


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ANNAES 



DÁS 



SCIENCIAS, DAS ARTES, 



£ DAS LETRAS. 



ANNAES 



DAS 



SCIENCIAS, DAS ARTES, 

E DAS LETRAS; 

^OR HUMA SOCIEDADE DE FORTUGU^ZES RESIDENTES 

EM FARlS. 



Desta arte se esclarece o entendimento | 
Que experiências fazpm repousado. 

Camões. Lus, Cant VI* £st. 919. 



TOMO IX. 



PARIS, 

impuesso pon a. bobée, impressor da sociedade keal 

ACADÉMICA DAS SCIENCIAS DE PARÍS. 



1820. 



AP 

Aé/-: 

V.9 



ANNUNCIO. 



i»>»%<%i^^ % ^»^i%%%i^^ 



Os Bedactoi^es dos Annaes ias Sciencias ^ das Artes 
e das Letras , participão aos seus Assignantes , Gorres" 
pondentes, e mais pessoas residentes nos dominios por- 
tugnezeSy ou em paizes estrangeiros , que elles se 
encarregào de comprar e expedir , a quem o desejar , 
quaesquer livros , estampas , mappas geographicos, ma- 
chinas , modelos , instrumentos de'physicay de cirurgia , 
e de chymica, apparelhos distillatorios , sementes e 
raizes de plantas , productos chymicos, e em gerai, 
todos os objectos relativos ás Sciencias e ás Artes , pe- 
los preços dos catálogos , e das fabricas*, tudo da me- 
lhor qualidade , e sem defeito. 

Igualmente se encarregào de dirigir a impressão de 
qualquer obra escripta em portuguez , francez ou in- 
glez , e de fazer abrir chapas -em cobre, pedra, pao, 
ou de fazer lithogr^phar debuxos. 

iV. B. O importe das compras e gastos ser-lhes-ha 
pago em Paiis. ^ 

As pessoas que desejarem fazer segurar em França o 
importe das suas encommendas , terão a bondade de o 
participar aos Redactores. 

As cartas , maços , e remessas deverão ser dirigidas 
( porte pago ) ao Director dos Annaes, do modo abaixo 
indicado. 

A Monsieur J. D. Mascarenhas , 
Directeur des Annaes das Sciencias , das Artes e das 

Letras^ 
Rue S.*« Hyacinte , N®. xx , à Paris. 



Nomes, das pessoas que tem conlinuaão a subscréi^er 
nos nossos Depósitos de Lisboa y Porto , Coimbra , 
e Bahia para o primeiro anno dos Annaes das Scien'- 
cias , das Aites e das Letras, (a) 



<W%^^k^^^^^^*^^^%^Mt 



A. 

Os Sn.fcs Dez.or Agostinho Fevba Betancourt. 

— Anontmo , NA Bahia. 

— Anonymo , NO Porto. 

— António d* Araújo Travassos , Official da Secretaria 

da Fazenda. 

T— D.»*' Juiz de Fora António AuôuSto. 

— António Joaquim dos Reis. 

— António Marciano d' Azevedo. 

— António Ribeiro Pereira d* Almeida* 

— António Tavares de Moraes da Cvhha Cabral. 

— António Teixeira de S. Payo. ^ 

— CavaIh.i'o d* Araújo Carneiro. 



(a) A demora da Correspondência do Rio de Janeiro continua 
a impedir-nos de dar a Lista complètta dos Assígnantes do 
primeiro anno. Também temos , nas IlbaS dos Açorfes , 36 as- 
signantes, cujos nomes publicaremos igualmente na mesma 
Lista ger^l ,logo que nos forem communicados pelo nosso cor- 
respondente o Sn»'. Dez.or yicente José Ferreira Cardozo da 
Costa , residente da Ilha de S. Miguel , o qual se dignou honrar 
esta nossa emprezã , encarregando-se de promover a subscrípçao 
d'ella naquellas Ilhas. 



D. 



Ot Sn.'^* FBAVCIfCO AVTOHIO Dt RlZlirDS. 

-— Fbakcisco db Vavll Dbloâoo. 

G. 

o Sii^« GASrAE Josá RiBino , Thetoareiro geral da FolÍGÍa. 

H. 

o Snr. Hbvbiqub Mohibb , Negociante. 

I. 

OSni'. loHACio RtaAVD. 

J. 

R.mo jBEovmo db Bblbm Silteiba. 
Of Sn.n* Des.or Joio da Cobta Gabnbibo. 

— Jqlo DA Rocha b Sousa , Negocíantei 

— Conselh.ro Joaquim Aiabbto Jobob. 

rr Joaquim Jobí Piitto Fovtbs , Tenente da Bbrínlia. 

— Joaquim Pbbbiba D*AtMBiDA , Negociante. 
*— Josi Joaquim db Cabyauio. 

•* Josi Joaquim db Gouyba. 

— Josá RODUOUBS DB FlOUBIBBDO. 

Os Sn«Nt Havobl Gabcia Mohteibo b Costa* 

— - MAMOBL Josá M ACUA DO. 



— Mâvon PfVffo Dl lltmAirDà MoifrunoM* 

" IIaTIIVS PbIIIIA D*AUf«IOA. ^ 

p. 

o Sor. FioBo 90 HAScnmrTO, 



D. 
OJW. Dab&ot. 



Ot SnJ^* Feavcisco Aittohio di Rizmi. 

— FbAKCISCO de VÁvLk DSLaADO. 

G. 

O Sii^« GASrAE Josá Rnino , tesoureiro geral da FolÍGÍa. 
o Snr. HiinLiQui Monibi , Negociante. 

t 

I. 
OSni'. lovAcio BiaAVD. 



R.mo JiEovmo db Bblbm SiLTEimà. 

Ot Sn.n* Des.or Joio da Costa CAaNiiao. 

— Jqlo DA Rocha b Sovsa , Negocialitei 

— Conselh.ro Joaquim Aiabbto Joiob. 

rr Joaquim Jobí Pnrro FoirrBS , Tenente da Blarúiba. 

— Joaquim Pbbbiea D'AtMBipA , Negociante. 

— Josá Joaquim db Caetalbo. 

— Josi Joaquim db Gouyba. 

Josá RODIIOUBS DB FlOUBIBBDO. 



M. 



Os Sn.Ni Havobl Gaicia Monteiro b Costa. 

— MAMOBL Josá M ACUA DO. 



-— MAiron FiiTTo di MniAKDà MoimsiriOAtfé 

— Mâ.TBSI78 PlllIlA D*AUfZIDA. v 

P. 

O Snr, FiDBo do HAScimirTO, 



«9- 



TnmçM 




119. 


ymUÊ%4 




lai. 


Grtftlúg^o d» Obras fá AM 


iprcmas emandadu pnbiicar pda 




iicsKitfflnai Bcal das Sd 


iencias de IííIkmi 


135. 


Notícias recentes das Scienciáu^ etc. 




diTAiica 




«49- 


Atíso ao PoMíeo 




i56. 


Aos Correspondentes 




160. 


Sésamo das obsenrações meteorológicas íeHas m> Obscrra- 




torío Megío de Paiis no prímeirc» trimestre de i^to 


.57. 



Errata do Tomo VIII 160. 



PARTE PRIMEIRA. 



«»^^^^»%%»»M^»V»^<»»<» 



RESENHA ANALYTICA. 



Tom. tX. 1 A 



mmmmÈmmmmÊÊÊmÊ^^tkmmmlmmm^i^mÊm^mÊÊmi^Êmm 



BESENHA ANALYTIGA. 

GEORGICAS PORTUÔUÉZAS, 

Pôr Luiz da Silvá Moziíiho dé Albuquerque^ dedi*^ 
codas a suà Mulher D. Anua Mascarenhas dé Ataíde^ 
Paris i8ao; 

Nec fiam úmtáx dul>iús ve)*bis eá yiiioaré mágnum 
Quàm sit , et aDgustis huuc ádder« rebut boAoriftnii 

Vwo; Oeorg. láb. Ili. 

Hum bom pòéitiá didáctico lié hutna prodiícção béitl 
difficil : raros modelos nos deixou neste género a an- 
tiguidade j e dos modernos^ não poucos deverão apenas 
ás circumstancias huma duração ephemera ^ é muitos 
nem chegarão a ser conhecidos^ á pezar de tsreni 
sido publicados. Dois são os fins da |k>esia ^ 

Aút prodeftsé volunt > ftút delecure poet^ : 

por meiq de hum procura-^se interessar o èsi^itítò, por 
meio do outro pertende-se interessar o coração: e posto 
que ambos estes fins devão conseguir*sd «m toda a es* 
pecie de poema de alguma extensão, comtudo, em 
cada huma^ hum delles he sempre o dominante, 
conforme os diversos géneros , ç a dificuldade a este 



4 Resenha AnaJ^úcaé 

* 

respeito consiste em saber alcançar dignamente o outra, 
sem perder de vista o lugar secundário que lh9 
compete. 

Qual dos dois seja o que deve dominar na poesia 
didáctica , não he duvidoso ; porém consegui-lo digna- 
fnente fae nrai difficil , por isso mesmo que o outro , 
acostumado a occupar o primeiro lugar em quasí 
todos os mais géneros, com difficuldade se resolve 
neste a cedé-lo \ e tanto mais enthusiasmo tem o poeta 
para embellecer theorías de sua natureza andas, tanto 
mais dificilmente se decide a subordinar á utilidade 
do assumpta os rasgos da sua imaginação , e a fazer 
mil vezes o sacrifício delia á exacçào e clareza dos 
preceitos* domtudo , este género tem hum mereci- 
mento não vulgar ; quanto mais estéril he o assumpto , 
mais se distingue o poeta , que pode conseguir tratá-lo- 
còm elegância e dignidade , qualidades que prQpria- 
mente constituem o fundo dé toda a poesia. 

No mesmo tempo em que Horácio consagrava no 
seu código de ouro este importante preceito da judi- 
ciosa mistm^a do útil com o agradável , Virgilio dava 
hum bello exemplo delle , no seu mais perfeito e mais 
bem acabado poema. Neste monumento precioso , em 
que o fim dominante he o útil , o agradável sabe se- 
guir a propósito a doutrina , e apagar suavemente no 
sentimento os vestigios que nelle pode ter deixado a 
aspereza dos preceito^ : aquelle génio portentoso, que, 
no mesmo poema, soube encantar-nos com as delicias 
do século de ouro , que , pela imitação da sua har- 



Resenha Anafytica. 5 

monia , nos fex sentir a difficuldade com que os (ilhos 
da Terra amontoarão o Ossa sobre o Pelion » que , nas 
margens do Penéo, teve a arte de enternecer- nos a 
favor do filho de Cjrene , e desde as bordas do Hebro 
fax ainda hoje quebrar noa nossos corações os ecchos 
lamentosos do infeliz amante de Eurydice; aqueUe 
génio, que soube elevar-se com enthusiasmo até ás 
bellezas mais expressivas da poesia » soube descer 
com dignidade ás particularidades mais miúdas do 
seu assumpto; e tratando a fundo os preceitos, pos- 
suio o dom de fecundar a esterilidade delles, e de 
fazer dobradamente importante a sua leitura , pela 
exacçào das ideias , pela variedade das descrípções , 
pela vivacidade do colorido , pela harmonia do estylo 
e por todos os outros meios de huma inimitável 
execução. 

Este merecimento da dificuldade vencida , esta su* 
bordinação decente do agradável ao útil, este accordo 
feliz do interesse real do sujeito coro o da composição, 
he o que constitue em geral a essência do género 
didáctico, e caracterisa particularmente a espécie 
diflicil , que Virgílio consagrou com o nome de Geor- 
gicas. 

Tomar por assumpto a primeira de todas as artes , 
e escrever na linguagem dos Deoses o Código com- 
pletto da mais nobre profissão dos homens, hehuma 
empreza bem árdua, de que a literatura antiga não 
apresenta senão aquelle modelo , e em que a moderna 
não tem sido nem muito mais abundante, nem tâu 



6 ^ ^ Resenha Analítica. 

feliz. Esta casta de producções requer hum taíenta 
particular,, e Pompignan, dizia Deiille , que era juiz 
competente na matéria , que na sua Tragedia de Dido, 
sbube «xprimir dignamente os amores da Rainha de 
CárttlatB^ , nào poude conseguir descrever felizmente 
-huma charrua. 

Hesiodo » que entre os Gregos esboçou dois assum* 
ptos, que deviào com tanta superioridade ser desem- 
penhados por dois poetas romanos , distinguio-se pela 
harmonia 4os versos , pela belleza das descrípções e 
das imagens , e pela amenidade do estylo , na primeira 
parte dos seus Trabalhos , isto he , em quanto o poeta 
pão era senão philosopho , mas logo que passou a 
^er agricultor, os preceitos, alem de superficiaes e 
mal escolhidos , íizerão sentir demasiadamente a sua 
dureza , e o espirito procura em vão, na leitura delles , 
a variedade e as graças que produzem o interesse do 
sentimento , e recoBimendão á memoria , pelo encanto 
do estjlo, a importância da doutrina. Embora Virgílio 
dissesse que as suas GleorgicaB erão hum eccho dos 
versos do Poeta Âscreo; este rasgo de modéstia he 
bem digno do mesmo homem, que mandou queimar 
como imperfeito o único poema, que em todos os 
séculos tem disputado a palma ás bellas composições 
de Homero, 

Entre osmodemos,se exceptuarmos Rosset e Vanière, 
qualquer que seja o merecimento dos seus poemas , 
os talentos mais distinctos, que se derão a esta espécie 
de poesia , não entrarão no quadro circumscripto pelo 



Resenfia Analítica. 7 

poeta romano. E nào fallando em oatros de menos 
monta , os bellissimos poemas de Tliompson » de Sl« 
Lambert , e ainda o do Cardeal de Bemis , ^ os de 
Rapin e de DeiiUe , pelos encantos e graças do efitjlo 
è pelo vigor e força da imaginação, tem merecido 
justamente na literatura moderna os maiores elogios ^ 
e huma reputação bem fundada , que ninguém ousará 
disputar-lhes na posteridade. Mas , estes grandes poetas 
nas suas composições , preferíi^ào interessar o coração , 
e sacrificando a isto o interesse do espirito ^ue 4eve 
ser o dominante no género didáctico » rojai^érào o 
equilíbrio ^ no qual , segundo acima obsèi*vámos , con- 
siste o caracter d'este geâero , e do qual depende 
a feliz execução delle. 

# 
A imaginação fecunda do poeta inglez , como lium 

rio impetuoso, que se indigna contra os obstáculos 
que peHendem conter a sua torrente , rejeitou tratar 
dos preceitos 9 tomando só por objecto pintar com 
rasgos portentosos os quadros variados da natureza : 
as Estações do poeta francez sào trabalhadas sobre o 
inesmo plano ; nos dois poemas dos Jardins , os seus 
autores , como hum deites espirituosamente disse , não 
cantarão senão o luxo da agrieukwa, e Delille na 
composição do seu Homem campestre , em bum só 
verso nos declarou ingenuamente a sua intenção : 

Au liea de sea travaox , je chante ses miracles. 

Assim, estes poetas , na verdade superiores , deixando 
çoirer livremente a sua imaginação atraz de objectos 



6 Jtesenha Anàfytica. 

próprios para alimentá-la , são verdadeiros 
de. poesia » porém as suas composições^ não tendo hun 
fim determinado 9 assemelbào-se a hama galeria do 
bellas pinturas , em que a abundância continua cansa > 
porque o espirito não repousa ; e taes Mestres que 
pudérão encher os seus poemas de quadros tão ríccos » 
tão interessantes e tão vaiiados , não conseguirão fazer 
delles hum todo, porque lhes faltou huma ideia 
principal. Todos imitarão Virgílio, e alguns não 
poucas vezes se elevarão até á majestade daquelle 
grande modelo, porém imitárão*no somente nas bel*' 
lézas dos seus episódios e das suas descripções ; imi-r 
tárão-no ooipo poetas y e desdenhando fazé-Io como 
agricultores , se por hum lado conseguirão iUudir a 
diificuldade dos preceitos » pelo outro os seus poemas 
não ofierecem a hum tempo nem a mesma unidade de 
sujeito y nem o mesmo interesse de matéria, nepi a 
mesma difficuldade vencida de execução. 

O autor das Georgicas françezas, expondo o seq 
assumpto , tinha ditto ; n 

Je ne vous dirai point dans quel lieu , sous quel signe 
II faut planter le cep, et marier la TÍgne ; 
Quel sol veut Tolivier, dans quels heureiuç terrains 
llduiisisscnt les fruits, et prospèrept le^ grains. 

Esta empreza pois, da qual Delille se escusou, por^ 
que a sua hella traducçâo das Georgicas latinas já 
então lhe não permittia emprehendé-la com vantajem , 
he a que tomou corajosa e francamente o Sn^*. Luiz 
da Silv4 Mozinbo nas Georgicas Portuguezas , que pu^ 



Resenha Analjrtica. 9 

blicámos este anno em Paris , e das quaes daremos 
aqui ao leitor somente huma ideia geral para as fazer 
conhecer, deixando, como he devido, aos homens 
instruidos e amantes e conhecedores da poesia o for- 
mar bum juizOy que só a elles toca, sobre o mere- 
cimento realdaquelle poema. 

No Canto \^. trata o poeta da preparação das terras 
e da cultura delias, segundo a sua natureza, da alter- 
nativa desta cultura , dos adubos , dos instrumentos 
aratorios , das sementeiras e da colheita. A identidade 
de objectos que existe entre este Canto e o Livro i<>. 
de Virgílio , poz o Sn^. Mozinho em relação mais 
immediata com o seu modelo ; o poeta soube com- 
tudo sahir desta posição difficil, tirando partido delia ; 
daremos ao leitor bum exemplo. O preceito de He- 
siodo , famoso pela condescendência , talvez dema- 
siada, com que Virgílio o traduzio literalmente, 

' Nudus ara , sere nudus s hiems ignava colono, 

de que os Bavios e os Mevios , que nunca faltão aos 
grandes poetas , mofarão , e que Delille esqueceo , 
quando traduzio 

Donoe aux soins les beaux jours , et rhiver à la joie , 

eis-aqui a clareza e amenidade com que o Sp^. Mo- 
zinho o ensinou : 

N'hum dia claro e secco , e quando a terra 
Bem movida e quebrada , húmida esteja 
Em proporçãQ tio ju#ta , que peqn vòe 



!• Besenha Amãrtica» 

Em p^ subtil; sen c^o trabalho, unida 
£ coBi|>acta se tome , ayaiiçar der* 
Dextro semeador, e com mão certa 
Espalhar pelos larras a senente. ete* 

Mats para qae o agricultor cuide sem cessar das suas 
terras e recolha os fmctos delias y he preciso alo}ar-se 
commodamente ; daqui nasce a necessidade da arcfai* 
tectnra rural , de que Virgílio não tratara , e qve » no 
poema de que (aliamos, faz o objecto do %^. Canto. 
A escolha do sitio mais próprio para os edifidos e 
oflicinas da lavoura » a da exposição mais feln para 
a habitação do lavrador, e as observações sobre os 
pomares e hortas que a rodêão , fazem nascer nas 
Georgicas portuguezas descrípçôes risonhas » que va- 
riâo agradavelmente o estylo , e conduzem a huma 
pintura natural dos encantos da vida campestre : 

He nlium asjlo tal , oh Nize amada , 
Que vê na doce paz correr seus dias 
O que isento do ócio e van cubica , 
Faz do trato roral o sen estodo. 

Do diurno trabalho fatigado , 
Folga de ver ao descahir da tarde 
O pastor, que tocando a doce avena 
As ovelhas conduz ; no cheio tarro 
Aquelie lhe apresenta o branco leite , 
£ a esposa os niveos queijos e a coalhada. 
Mais tarde os lentos boiíT trazendo assomão 
Reclinada a charrua ao jugo presa ; 
Mugindo alem ai vacc^s criadoras p 



Resenha Anal(^tica, \x 

Dos novilhos seguidas apparecem , 

<}ue expr^imentaiido as inda tennes forças , 

Hons c'o8 outros em luta já se ensaião ; 

Os rafeiros c'o gado , que preservio 

Do lobo roobador , no pateo entrando , 

liie Tem as mãos lamber , e em tomo saltão. 

Em tanto a par da esposa, rodeado 
Dos tenros filhos , lavrador ditoso 
Ensinando-lhes vai co' próprio exemplo , 
Linguagem expressiva , a limitarem 
Os desejos a gozos innocentes , 
A desprezar o orgulho , a ambição louca , 
Oppostos sempre á solida ventura, etc. 

Se com tal amenidade o poeta portuguez desen • 
' 'VolveOy no fim desta descripçào^o aista pudicitiam serviu 
domus do poeta roí^ano, não he menos natural e 
elegante a sua Musa , tratando a bella passagem d'a- 
quelle poeta : 

Hanc olim veieres viíam coluere Sabini ; 
Nane Remus díji^uter : 

Hum tempo houve feliz em que as augustas 
Mãos dos Monarchas , empunhando a esteva , 
Em doce paz o próprio campo ararão ; 
6em mais guarda que a estima de seus povos , 
Sem mais bens que a virtude e o seu trabalho , 
Era o publieo bem , o bem da pátria , 
A dita só y a gloria a que aspiravão. 

A distribuição do terreno próximo á habitação do 
agricultor , facilitou , como dissemos ^ ao Sn^. Mozinho 



I) Resenha Amúortica. 

a occasião de fallar das hortas; e a disposição dos 
pomares naturalmente o conduz a tratar das arvores ^ 
do terreno próprio para ellas, e das enxertias. Se o 
poeta se escusou , como Virgilio , de cantar os jardins , 
porque preza mais do que as tulipas a coroa de mir- 
tos que a sua Nize para eJle colhera ^ e se acaso não 
tentou esboçar , como o grande mestre , hum breve 
quadro das delicias que o velho de Gorjeia desfrue- 
tava nas margens do Galeze, terminou utilmente este 
Canto a<>. com os cuidados que exige a creação das 
aves domesticas. 

A. cultura das oliveiras, que mereceo apenas a 
Virgilio poucos versos^ faz o objecto do 3^. Canto das 
Georgicas portuguezas; nada era mais próprio do 
patriotismo que dirigia a penna do poeta nesta com- 
posição original, do que tratar por extenso de hum 
ramo tão útil e tão descuidado no seu paiz. 

Começa o Sn^. Mozinho este Canto pela oliveira 
selvagem 9 e passando ás differentes espécies de oli- 
veira cultivada , estabelece os viveiros é cuida delles ; 
mas , achando-se a planta assaz crescida e vigorosa , 
necessita passar para os campos ; daqui , a necessidade 
da escolha do terreno , a abertura das covas , a íórma 
e o tempo favorável á plantação. Para que a arvore 
se arraigue e «cresça, he necessária a cultura e a 
poda, e logo que ella fructifica, deve cuidar-se do 
apanho e aproveitamento do fructo. Tal he a ordem 
interessante que o poeta seguio , sem que. o restricto 



Resejiha Ahalyticã i3 

systema didáctico, que se propoz, lhe embargue os 
voos de imaginação y ou esfrie o seu estylo , no des- 
envolvimento da marcha da natureza. 

Assim j se elle quer dizer que o outono e a prima- 
vera são as estações mais próprias para a plantação 
dos olivaes , eis-aqui a sua linguagem : 

Quando Baccho dos ramos da videira 

Faz os cachos pender de cores varias , 

£ Pomona os vergéis de fructos c'roa ; 

Ou quando Flora espalha pelos campos 

Bo cândido regaço as frescas flores , 

£ a verde prisão sua abrindo a rosa^ 

Pudibunda convida o sopro grato 

Dos inconstantes zephjros lascivos : 

Quando as Nymphas dos bosques e as das agjjas | 

Deixando as grutas , vem tecer no campo 

Mil choréas c*os Faunos amorosos : 

£utio , oh lavrador, então ao solo 

Do teu novo olival confia a esperança. 

Se acaso o poeta se eleva contra o uso infeliz de 
huma poda, que os bons princípios da agricultura 
rejeitào, os seus versos, ao mesmo tempo, explicão* 
nos a causa, fazem-nos deplorar os eíTeitos, e inspi- 
rào-nos,o horror das suas consequências. 

Pelas excavações da rota casca , 
Pelas fendas dos estalados ramos 
A se\^e se corrompe e se extravasa ; 
/ Penetra a chuva ^ a neve se insinua ; 



i4 JResenlia Analítica. 

Succede a corrupção , as fibras secção , 
Os delgados caDaes> que a Dstureza^ 
Para circulação dos vitaes suecos, 
Por toda a parte havia semeado , 
Aniquilão-se , alojão-se no lenho 
Boedores insectos , sujos vermes. 
Mil parasitas vão roubando as braça»; 
Tom^o-se em fim os troncos cavernosos* 
Nas corruptas profundas cavidades 
Da arvore infeliz , ao dia fogem 
O triste noutibòy o mocho triste | 
A coruja severa e taciturna , 
O alado mamai filho da noute ; 
Alli se alojão mil reptiz impuros. 
Sem base , sem sustento , eis sopra Eòlo i 
£ a arvore quebrada cabe por terra. 

A theoría das vinhas , não menos interessante em 
Portugal qae a das oliveiras , tinha dii^eitos de merecer 
ao Sn^". Mozinho hum igual cuidado. O Canto 4^. he 
consagrado a^ esta importante matéria : escolha e pre- 
paração do terreno y plantação do bacello, amanhos 
difièrentes das vinhas , conforme os di&rentes paizes , 
poda , empa e seus diversos modos , cava e amontoa ^ 
vindima , fermentação do mosto , cuidados diverso^ 
para obter diversas castas de vinho , e ultimamente 
a trasfega , objectos interessantes , dos quaes ' só al-< 
guns dos primeiros merecerão os cuidados de Vir- 
gilio j forào todos tratados pelo poeta portuguez com 
a mesma clareza , com a mesma variedade de est}lo, 
com a mesma exacçào. 



Resenha Anàforticã. iS 

Por não cansarmos o leitor, limitar-nos-hemos ^■ 
copiar doeste Canto sómeate os poucos versos em qiit 
o Sn^*. Mozinho explica o principio da pfaysioloiçia 
vegetal no qual se funda a necessidade da empa; 
por elles se poderá fazer conceito do profundo conhe- 
cimento da matéria, e da clareza de estylo, com 
que o poeta sabe tratar os mais áridos e mais miúdos 
preceitos da agricultura : 

O fluido que nutre as varias partes 

De todo o Tegetal , a láctea seve , 

Quanto mais em seu curso he demorada , , 

Tanto mais se prepara e se elabora ; 

Tendendo sempre a soccorer os cumes , 

Apressada da base ás pontas sobe , 

E alli rebentar íkz espessas folbas , 

Que mais e mais a marcba Ibe promovem : 

Para o fím de deté-la e dirigi-la 

Os cachos a nutrir , o vinhateiro 

Da cepa , que podou , as braças curva. etc. 

Tendo assim ensinado o poeta os preceitos da si^- 
cultura, era indispensável fallar dos animaes que 
augmentào os recursos delia , e fazem a riqueza dos 
lavradores : o ^^» % ultimo Canio trata d'este ramo 
importante da economia rural. A necessidade de nutrir 
os gidos traz comsigo a de tratar dos prados naturaes, 
e de formar os artificiaes \ por estes meios se crião 
e engordào as manadas c os rebanhos ; tanto tiumas , 
como os outros pedem cuidados particulares na es*^ 
colha para cada espécie : o Sn^ Mozinho segue todos 



i6 Retenha Anàfytica. 

estes differemtes ramos com huma experiência supe- 
rior á sua idade , e com hum interesse bem próprio 
^ da sua profissão< 

Neste Canto, a identidade da matéria com a do 
Livro 4°- de Virgilio, dobrou, como no i®. . a difficul- 
dade da execução; mas o poeta poituguez não he 
menos feliz , descrevendo , em face do seu modelo , os 
animaes e os seus costumes , do que o foi , tratando 
da terra e das suas producçôes« 

Se acaso pinta o cavalio f a sua descripcão faz 
lembrar a de Job, imita a de Virgilio, não lhe he 
estranha a de BuSon ; mas no meio de todas ellas, 
conserva traços originaes , e huma physionomia digna 
do brio e ligeireza da bella raça da Lusitânia , onde 
o Tasso fez nascer Aquilino , em que montava o des-" 
temido Raimondo. 

Sul Tágo il destríer tiacque. . « 
E ben questo Aquilm nato diresti 
Di qual' aura dei ciei piii lieve spirl; 
O se veloce si eh' orma <ion resti 
Stendere u corso per Farena il miri; 
O se'l vedi addoppiar leggien e prèsti 
A destra ed a sinistra angusti giri. etc. 

Eis-aqui pois como o poeta descreve o cavalio , 

£m quem da escravidão não pode o jugo 
Destruir o valor , manchar a audácia. 

Se acaso o pinta no meio dos horrores e carnagenx 
da guerra , 



lièseriha AnafytiàZè. 17 

Aijui cheio de pó è branca espuma ^ 
Salpicado de sangue , hórrido estrago 
De balde te rodéft , Arremessando 
O peito aos p'rigos, o clarim da gloriai 
O retinnir das armas mais te animao : 
Intrépido á affrontar ã morte voas , 
Com ieii senhor os louros repartindo. 
Aqui por eniré as lanças te arremessas ^ 
Alli oúyes zunir de Marte o raio ; 
fáas no Centro ào horror submisso e dócil 
Da mio , que te conduz > a lei procuras. 

âe ò descreVé no meio dos còmpàssâldos e brílhaíiiié^ 
iBi^ercicios das justas e torneios ^ 

Erguido o collo , ás ondeadas clinas 
Soltas vaidoso ao ar , o freio mordes 
Com orgulhosa audácia \ é o chão qiie pisáá 
Com a ligeira planta apenas tocas , 
Quando dá paz serena no regaço 
Em nobres jogos teu senhor conduzes; 

Não âcabarianios se peHèndéssémòs confrontar, icdiii 
bs do pdeta romano , os quadros agradáveis 4ue este 
Canto encerra; mas não podemos resistir ao desejo 
de fazer conhecer ao leitor a passagem ^ em que o Sn^ 
Mozinho descreve os eâS^itos do ciiimé entre dois tduí*ò8 
amorosos. Todos sabem que Virgílio , qué tâd bèm 
conheceo e pintou á natureza, debuxoil primeiro 
este quadro que muitos poetas , distinfcf o^ imitarão 
depois delle. Aproveitaremos esta désctípção, que, 
de todas as que temol produzido , he aquella em que; 
Tom, IXi a A 



ij9 JBesenha Aruifytícaé 

o *poeta conservou roais particularmente os traços da 
origina], para compararmos* o seu estylo com' o dos 
dois ti^aductores portuguezes, que até agora conhe- 
cemos : este parallelo nâo deixará de ser interessante , 
visto que, em matérias de gosto, nenhum meio he 
mais próprio para esclarecer o entendimento e formar 
a opinião , do que a comparação dos» diversos modos 
. porque diversos talemos ti^atárào o mesmo assumpto; 
mormente, quando todos elles trabalharão sobre o 
mesmo modelo* 

Eis^aqui como o nosso Leonel da Costa poz em por* 
tuguez a passagem bem conhecida do poeta romano : 

. • . • Na florestal grande e bella 

Novilha anda pascendo» elles cpnfondem 

Alternando com força e com continuas 

Feridas as contendas e batalhas : 

Lava os corpos o sangue obscuro e negro , 

£ com gemido grande os duros comos 

Se opprimem , ímprimindo-se virados 

Para os que es tri bio da contraria parte : 

Os bosques sôio , sâa o grsnde Oljmpo ; etc. 

Pina Leitão, que entendeo melhor os deveres de 
traductor de hum poeta > soltando-se judiciosamente 
das pesadas cadeias, com que Leonel da Costa se tinha 
spontaneatnente ligado, verteo assim a mesma pas* 
sagem : 

Muitas veces, em quanto retirada 

No bosque espesso a bella rez pascenta , 



Resenha Anàlorticà* ig. 

De' dots ríyaes se trava insana guerra ; 

Frente com frente intrépidos guerreiros , 

Qual á espádua contraria se arremessa , 

Qual nos peitos expostos fixa o tiro : 

Já mil plagas se rasgão , já mil rios 

De negro sangue os dois alhletas banhào : 

Seus mugidos horrisonos atrôao 

Brenhas > ares e ceos, nenhumas tregoas; etc. 

Vejamos agora a imitação do Sn^ Mozinho r 

De ciúme incendido , quantas vezes 
O soberbo animal o imigo busca , 
Olha-o de longe, e com a mio potente 
£m torbilhões da terra o pó levanta ; 
Muge, ameaça > e qual o ardente raio^ 
Fero procura a singular peleja ! 
Já as frontes comigeras se encontrão ; 
Já a ponta o contrario dilacera ; 
tJrros de dor , mugidos de vingança y 
Já temerosos ecchos mil repetem ; 
Em borbotões na terra o sangue corre ; 
Raiva e ciúme os animaes respirâo. 

Depois de ter tratado da escolha e caidados das ma- 
nadas , passa o poeta a fallar dos rebanhos , e com 
excellentes preceitos sobre este ramo interessante da 
economia mral , termina o S^'. Canto , e as suas Geor- 
gicas. Bem que nesta composição o autor tivesse pro*- 
curado imitar judiciosamente Virgilio , comtudo, jul- 
gou mais próprio da sua modéstia e dos sentimentos 
do seu coração , afastar-se delle no (im do sèu poema : 
alli , o nome do Sn^ Mozinho não se acha , como o 



30 Resenha jánafytica. 

do cantor romano , consagrado pelo poeta á posterí" 
dade ; os seus votos limitão^e a hnm sentimento 
puro de amor virtuoso e de gratidão ; e se elle de- 
seja que hum dia os seus versos ^ rompendo a Barreira 
dos secidos ^ cheguem aos ouvidos dos vindouros, não 
he com a nobre esperançai de immortalisar o seu 
nome , mas sim com a ambição generosa de consagi^ar 
nelles os nomes adorados da sua esi>osa e do seu 
bemfeitor. 

Por este esboço, assim mesmo ma( acabado , poderá 
o leitor fazer huma ideia, posto que muito imper- 
feita, das Georgicas Portuguezas ; poema que nos pa« 
rece recommendavel , pela facilidade da composição , 
correcção e movimento do estylo , exacção das ideias r 
clareza dos preceitos, viveza e verdade das descri- 
pções , e ligação natural dos episódios com a matéria ^ 
e posto que doestes seja licito desejar que o poeta 
fosse menos avaro , comtudo , os que elle emprega y 
fião trazidos sempre pelas circumstancias , tratados 
com arte , e intimamente ligados com o 'assumpto do 
poema* 

Se no decurso d*este artigo puzemos sempre aa 
Greorgicas portuguezas, para dssim o diz^, em face 
das romanas, foi por que entendemos que para poder 
avaliar o merecimento de hum poema, a cousa mais 
útil ao leitor ^ que possue as regras da arte , he facn 
litar-lhe a comparação immediata com os grandes 
modelos; e assim como a imitação judiciosa d'estes 
he hum poderoso recurso para o poeta , a combinar* 



ResenJm Jl nanica. 21 

^o com elles he hum dos meios mais seguros para 
fuem o pertende julgar. 

Mas não pense o leitor por isso , que o poema do 
Sni*. Mozinho he huma pura imitação de Virgílio : 
não fallando em todo o 3<^. Canto, na maior parte 
do 4^. e em muitas cousas dos outros três, em que 
o poeta portuguez he complettamente original, em tudo 
o mais, em que a identidade do assumpto o poz ne- 
cessariamente em contacto com o seu modelo , o Sn^. 
Mozinho soube respeitá-lo e respeitar-se. A orde- 
nança geral do seu poema he perfeita,porque a dis- 
tribuição das matérias he natural , e os objectos de 
hum Canto não fazem parte de outro : nisto confor* 
mou-se o poeta absolutamente com o original que 
imitava ; o contrario teria sido hum absurdo : porém 
na ordenança particular de cada Canto, a sua imi- 
tação he summamente discreta e reservada. Hum en- 
cadeamento necessário liga todos os preceitos ; entre 
elles reina huma certa successão natural , que os 
dispõem com facilidade na memoria , e hum desen-» 
volvimento conveniente de theoria , que os explica com 
clareza ao entendimento : por toda a parte o agrónomo, 
com huma nUação judiciosa de ideias , conduz o es^ 
pinto do leitor , e de quando em quando o poeta , 
com 08 rasgos da imaginação, vem surprender-lbe 
agradavelmente o sentimento. 

Debaixo doeste ponto de vista , nos parece que a 
comparação das Georgicas portuguesas com as roma- 
nas , e com as traducções que destas possuímos, pode 



33 Resenlia Analítica. 

offerecer muitas reflexões interessantes para ajudar a 
formar o gosto da mocidade , o qual , huma só com* 
paração judiciosa esclarece muitas vezes mais , do que 
huma serie de preceitos. 

Mas 9 deixando aos philologos nacionaes o cuidado 
de buscar os pontos de comparação entre as duas 
obras , e de determinar a este respeito o grão de 
merecimento que delia resulta ao poema de que nos 
temos occupado , limitai^nos-hemos a obsei^ar os que 
existem entre os seus autores , e entre as círcumstan* 
cias em que os dois poemas forão escríptos. 

O autor das Georgicas romanas , fugindo do arruido 
e fausto da corte, buscou a solidão dos campos de 
INapoleSy para escrever os preceitos, aprendidos practi* 
camente na cultura das suas terras , junto de Mantua ; 
o Sn^; Mozinho trocou as delicias da capital pela tran* 
quilidade das margens do Zêzere, aonde, cultivando 
em socego a terra, consagrou no seu poema, ao mesmo 
ten^po , a moderna doutrina dos mesti*es , e os úteis 
resultados da sua experiência : ambos composerão os 
seus poemas na flor da idade ; o primeiro principiou 
as Georgicas romanas aos 34 annos ; o seguiído aca- 
bou as portuguezas antes dos aS : quando o primeiro 
escrevia» a guerra, que tinha assolado as campinas 
de Roma , e perdido dê todo a sua agricultura , ins- 
pirava ao poeta queixas eloquentes contra^ aquelle 
'Aagello ; infelizmente os mesmos motivos arrancavão 
ao segundo , no meio de sua composição , expressões 



f 

Resenha Andlyticãu ' ^ 

maviosas t digiias dos mais puros seDlimeotos do amor 
da agricultara ^ da pátria. 

A arte preciosa de cultivar os campos fez a riqueza 
de Portugal, no tempo em que elle assombrou o mundo ; 
tal Rei prezou tanto entre nós esta arte , que houve 
por grande honra chamar-se Rei layrador; circum- 
stanciâs assaz conhecidas esgotarão este manancial 
das nossas riquezas , e a consequência natural do des- 
crédito em que tem cabido , be a decadência em que 
se acba, « a ignorância, que, em vez dos preceitos 
utets , consagra ainda hoje os erros e os abusos. Ao 
lado d*este abandono vio o Sn*'. Mozinfao ( como ne* 
cessariamente vê todo o homem cordato ) que nesta 
posição difficil , a agricultura fae a melhor anchora da 
salvação da pátria : esta importante conformidade de 
circumstancias nos parece a mais notável entre skà 
duas composições. Virgílio consagrava em verso os 
preceitos ruraes , para os fazer amar de novo por huma 
uação , que pelo concurso de muitas causas diferentes 
tinha esquecido e desprezado huma arte, á qual 
Roma devera o seu primeiro esplendor, e á qual $^ 
podia recorrer para o recobrar ; o Sn^. Mozinho , posr 
suido do mesmo sentimento , emprehendeo o seu tra* 
balho nas mesmas circumstancias, e procurou con- 
seguir Q mesmo nobre fim. 

Comtudo , entre tantas relações notáveis , que con- 
correm nestes àoi^ poemas , não deixaremos de ob- 
servar huma circuastancia, em que , por certo, o autor 
das Georgicas portngaeftas ke .muito superior ao seu 



Q 

2/^ Resenha Anàfytica. 

modelo. Todos sabem que, em hum tempo em que 
^ poesia e a eloquência tiahào huma influencia po- 
derosa sobre o espirito das nações » Virgilio escreveo 
o ^eu poema , a rogos de Mecenas , como hum meio 
poderoso de contribuir para a (^oria de Augusto ; q 
poeta portuguez só teve na sua composição por esti- 

• 

piulo a necessidade, <|ue sentia o seu coração, de 
gozar das doçuras do amor conjugal, e por objecto 
o nobre sentimento do. amor da pátria. 

Esta consideração , só por st e independente de todas 
as outras , nos parece digna de reconíimendar parti» 
cularmente as Georgicas portuguezas e o seu autor, i, 
)>enevQlencia dos seus compatriotas, que não podem 
çleixar de receber e$ta ofièita generosa , pelo menos j^ 
çpm reconhecimento. 

Qualquer que seja poréni a opinião do publico a 
este respeito , o autor terá sempre a gloria de ter dado 
a Portugal o primeiro poema priginal neste género; 
e se he )usto dizer que a Nação portugueza foi das 
primeiras que, depois da restauração das letras, pro*- 
duzio hum poema composto sobre os grandes modelos 
da antiguidade , também , depois do que fica ponde- 
rado , não será excessiivo confessar , que ella precedeo 
quasi todas, em enriquecer a ^teratura moderna com 
^umas Greorgicas , concebidas e executadas dentro do 
yerdadeirp quadro, de |ium poema didáctico. 

Honra seja dada ao )QVçn poeta , que tendo, consid&r 
rado a poesia de hum ponto digno da grandeza da aite, 
ç da elevação do seu espirito , soube sacodir o prejuízo , 



Hesenha Anàfytica. a5 

ifue ha tantos anpos lavra entne huma grande parte dos 
poetas portuguezes, de adoptarem exclusivamente o ge* 
nero da poesia fugitiva , e sem se fixarem ao menos em 
huma espécie, em que procurem e consigão distin- 
guir-se , evaporão em composições avulsas o.seu en* 
thusiasmo , muitas vezes fecundo , e digno de ser con* 
sagrado á utilidade da pátria , ao adiantamento da 
literatura nacional y e á sua própria gloria. 

Penetrado da dignidade da poesia , o Sn^. Mozinho 
remontou aos tempos em que ella consagrava os pre- 
ceitos da religião , da^ moral e das artes ; e preferindo 
hum objecto útil e modesto , como cidadão , fez ao 
interesse da naçào o sacrificio generoso do applauso 
lisonjeiro y que mais facilmente ganhaiia, exercitando 
o seu estro em hum assumpto jnais apparatoso e me- 
. nos difiicil ; e como poeta , não se contentou de ser 
hum admirador estéril do agi^onomo romano, mas 
propondo-se , para assim o dizer , a tomar parte no 
seu mais útil trabalho, ousou entrar com elle em 
fauma luta generosa , na qual até se pode ficar vencido 
com gloria. 

Depois do que temos ditto , não poderemos melhor 
resumir a nossa opinião á cerca do assumpto , do que, 
concluindo este Artigo com as palavras simples, mas 
enérgicas > que Voltaire escrevia á Academia franceza, 
^obre o merecimento da traducçào das Georgicas do 
poeta romano pelo Abbade DeliUe : Jc pense quon 
fie peiítfaire plus d'honneur à Firgile et ala nation. 

(LX. 



96 Resenha Anafyúca. 



c 



CONSIDERAÇÕES 

Sobre as theorias medicas^ e particularmente sobre as 

opiniões do D^. Broussais. 



(PRIMEIRO ARTIGO.) 

jJesde a antiguidade a mais remota até ao presente 
tem a medecina sido cultivada entre todas as nações 
por homens dotados de engenho , e versados em todos 
os conhecimentos que podião adquirir-se nas diíTe- 
rentes epochas em que florescerão ; e se esta scíencia 
ainda não offerece hoje bases certas e universalmente 
admittidas por todas as escholas, este estado de in- 
certeza só se pode attiibuir ás insuperáveis difficul- 
dades que se encontrão a cada passo na indagação 
das leis que regem os phenomenos do corpo humano 
na saúde e na doença. O methodo experimental, e 
a observação analytica , únicas veredas que conduzem 
a razão do homem a descobrir os factos geraes ou 
leis da natureza > applicados á chymica , só em nossos 
dias tem começado a acclarar algum factos impor- 
tantes relativos ás leis geraes da affinidade , as quaes 
ainda hoje se não podem considerar como estabele- 
cidas de maneira incontestável , ainda no que toca 
ás combinações as menos complicadas ^ e a pezar dos 



Resenha Analítica. vj 

immcnsos trabalhos e exabtos experimentos de tantos 
sábios observadores, ainda reina grande incerteza so- 
bre os phenomenos chymicos os mais usuaes. Ora, se 
isto acontece no estudo de combinações cujos ele* 
mentos e condições conhecemos em grande parte , 
que muito he que as operações incomparavelmente 
mais complicadas dos corpos organisados sejào ^inda 
tão imperfeitamente conhecidas ? Não só os ele^ 
mentos que formão os vegetaes e os animaes , são mais 
complicados na sua composição cfaymica, e muito 
menos permanentes nas suas combinações , mas o 
numero considerável delles^e a infinita variedade de 
modificações que continuamente experimentào por 
efleito dos movimentos que constituem a vida , e da 
particular structura de cada oi^ão^são outros tantos 
obstáculos que nos não permittem determinar todas as 
condições de hum experimento , para o podermos re- 
petir, nem appreciar todas as circumstancias de huma 
serie de observações , para podermos deltas tirar infe-^ 
rencias certas i^ra casos análogos. Por isso vemos 
os autores os mais estimados estribarem as suas theo- 
rias em observações e experimentos que outros obser- 
vadores não menos distinctos contradizem ; e desde as 
propriedades da fibra muscular até ás mais recônditas 
operações do cérebro e do systema nervoso , apenas 
existe hum facto experimental plenamente provado 
e geialmente admittido Ás partes que huns affirmão 
serem dotadas de irritabilidade, negão outros esta 
propriedade ; o que estes attribuem á influencia dos 
nervos, aquelles o referem á fibra muscular dos órgãos \ 



%B Hesenha járudytica* 

em huma palavra não ha huma só funcção da eco- 
nomia animal que não seja objecto úe grandes con- 
testações entre os physiologistas , cujas opiniões di- 
versas e até oppostas , são todas fundadas em experi- 
mentos e observações repetidas. A circulação ainda 
offerece não pequenas duvidas ; ainda se não decidio 
a questão da irritabilidade das artérias; muitos não 
admittem a absorpção venosa, e ainda ninguém ex- 
plicou o singular e importante phenomeno da affluencia 
do sangue a huma parte. Tampouco conhecemos a 
natureza da aòção dos agentes os mais habituaes so- 
bre o estômago , e nem se quer podemos fixar a ordem 
successiva dos seus efieitos, segundo a quantidade e 
circumstancias da applicação de cada hum delles. A 
razão disto he manifesta : toda a acção , movimento 
ou mudança operada nos corpos organisados , ou seja 
pelos agentes internos, ou pelos externos, habituaes 
ou extraordinários, he hum phenomeno extremamente 
complexo, cujos elementos e circumstancias não 
sendo exactamente conhecidos , não pode ser reprodu- 
zido á vontade, e por conseguinte não pode ser ma- 
téria de rigorosa analyse experimental ; pois nos nossos 
experimentos outra cousa mais não fazemos do que 
reproduzir simultânea ou successivamente todas as 
circumstancias de hum phenomeno, e isolando cada 
huma delias , conseguimos vir no conhecimento da in- 
fluencia que tem cada elemento na operação com- 
plexa que se pertende explicar. 

Se as operações da economia animal no estado de 



Besenha Analítica. nQ 

caude nos ' são tão pouco conhecidas , não he de es- 
tranhar que a alteração ddilas , (]ue constitue as doen- 
ças 9 esteja involvida em tanta obscuridade ; e não nos 
devemos admirar se tantos médicos de merecimento, 
cansados da incerteza das hypotheses, se entregão á 
mera observação empírica, e só se deixão guiar pela 
analogia dos symptomas. Porém, tal he a tendência 
que o espirito humano tem a indagar a relação natural 
que liga os phenomenos enti*e si , que .ainda os mais 
empiricos entre os médicos não podem abster-se de 
iheorisar, não só quando na cadeira dictào preceitos, 
mas até quando á cabeceira do doente procurào des- 
cobrir qnal seja o methodo curativo que de preferencia 
se deva seguir- Os mais cordatos são aquelles que 
desconfiando das hypotheses , e não confiando dema- 
ziado em analogia apparente de sjmptomas, conside- 
rão cada caso de doença como hum prpblema par- 
ticular, cuja solução depende, muito mais da com- 
paração do estado dos diversos órgãos do individuo , 
da ordem em que as afiecções deUes se manifestão, e do 
caracter de cada huma delias » do que da referencia 
a casos já observados em outros doentes , ainda quando 
a analogia da enfermidade for manifesta , como acon* 
tece naquellas que oíTerecem maior uniformidade em 
todos os sujeitos, como as febres intermittentes , 6 
mal venéreo , etc. 

A necessidade de theorísar , e a impossibilidade de 
ensinar a medecina na cadeira sem generalisar a his- 
toria e tratamento das doenças , fixerào que em toda 



3o Resenha Andfydcd. 

o tempo se adaptassem nas escholas theòrias e cf assi* 
ficaçôes mais ou menos erróneas e inexactas , as quaes 
seduzindo o espirito ardente dos estudantes , e satisfa- 
zendo o insaciável desefo de tudo explicar, que he 
próprio da mocidade, tem sido causa dos males 
que á humanidade faz a maior parte dos médicos, 
quando nos primeiros annos da sua practica não co* 
nhecem outra regra senão os preceitos e distincçòes 
dogmáticas dos mestres debaixo de quem estudarão. 
Ao passo porém que o habito de ver doentes e de 
comparar doenças , desvia o medico das hypotheses e 
das denominações abstractas das escholas , elle se vai 
inclinando á observação, a qual he mais ou menoá 
racional segundo o talento natural do observador, a 
que com razão se tem dado o nome de tino medico. 
Desta maneira , até hum certo ponto se vem com o 
tempo a neutralisar a nociva influencia que as hypo* 
theses ensinadas em tom dogmático , tem sobre a 
practica da mededna ; he porém verdade triste, mas 
incontestável, que as denominações nosologicas tem 
exercido hum a influencia não poucas vezes funesta 
sobre o tratamento de enfermidades mui graves , e qué 
as falsas noções sobre a acção dos medicamentos 
tem dado origem a perigosos erros no tratamento das 
doenças. 

Seria preciso amontoar volumes para dar huma ideia, 
ainda a mais succinta , das diversas hypotheses e das- 
siflcaçòes, que, recebidas a principio com enthusiasmo , 
(orão depois proscríptas como absurdas. Só pára analy* 



.Hescnha jinafytica. 3f 

sar a& que desde Boerhaave até ao dia de hoje tem sido 
admittidas e rejeitadas, seria necessário não pequeno 
espaço e trabalho. Nenhuma destas hypotheses repousa 
»obre provas suiBcientes , e por conseguinte as classi«- 
ficações que nellas se estribão não podem ter solidez \ 
humas e outras só podem iUudir pela sua apparatosa 
nomenclatura e divisão em classes , ordens , espécies 
e variedades , aquelles médicos que nunca estudarão 
os phenomenos das doenças nos doentes mesmos, e 
que só no papel descrevem e curão as enfermidades^ 
Em huma cousa se parecem quasi todos os autores 
de novas doutrinas medicas systematicas : he na jac^ 
tancia com que fallão de seus descobrimentos , e no 
desprezo com que tiatão as opiniões de seus prede* 
cessores ou emulos. Bastaria este facto para convencer 
qualquer philosopho, de que ainda não existe huma 
iheoría medica : nas mais sciencias ha ainda bastantes 
objectos de controvérsia^ mas ha pontos fundamentaes 
em cada huma delias sobre os quaes não existe hoje 
contestação. Outro tanto não acontece na medecina, 
onde apenas existe hum phenomeno que esteja hoje 
explicado de modo a satisfazer todos os médicos ins-^ 
tjruidos e de boa fd, desde a mais simples phlogose 
^ até á mais complicada doença* 

Os animaes são hum composto de sólidos e de U* 

quidos , o qual oíFerece huma infinidade de operações, 

das quaes humas são incontestavelmente mechanicas , 

* e outras .chymicas , mas cujo nexo , relações e mo* 

dific^ões dependem de agentes pouco conhecidos» 






33 Resenha Anafytica. 

e de disposições de structnra intima não averiguadas ^ 
resultando por conseguinte da união e reciproca in- 
fluencia de todos os órgãos , e da acção continua e 
variável dos líquidos, gazes e outros agentes circu- 
lantes ou externos ^ hum todo que constitue a vida. 
Claro está pois que os phenomenos vitaefs devem for- 
çosamente ser complicados , e as suas leis )nui difficeis 
de observar, sendo necessariamente formulas mui 
complexas. No phenomeno que pai*ece o mais simples 
da economia animal, ha huma multidão de acções 
de diSei-ente natureza, humas manifestamente me- 
chanicas , como he a acção do musculo segundo osf 
seus pontos de inserção , o seu comprimento , grossura 
e direcção das fibras, a compressão das glândulas e a 
dos vasos , que se opera pela conti^acção das fibrast 
musculares , ou pela distensão dos órgãos. A prodnc- 
ção.do calórico , a mudança, no estado da electricidade 
dos sólidos e liquidos , e as propriedades physicas e 
chymicas das secreções , não podem racionalmente sef 
attribuidas senão á influencia de agentes physicos e 
chymicos : e seja qual for a natureza do influxo nerveo, 
he igualmente inegável que elle pode suspender-se 
por huma ligatura ou por eiieito da compressão y 
donde se coUige que os elementos doeste influxo são 
substancias sujeitas ás leis communs dos outros agentes 
naturaes. 

Destas considerações resulta a prova manifesta da 
falsidade dos systemas que attribuem todos os phe- 
nomenos da economia animal exclusivamente a huma 



neseiÂà Ãnafyúca^ 33 

âas òrdeiis de causas que concorrem para manter as 
funcções da vida. Querer explicar por causas mera^ 
mente mechanicas a circulação , as secreções ^ a di- 
gestão y he absurdo manifesto ; e pertender reduzir os 
phenomenos das aífinidãdes e decomposições chymicas 
dui*ante a vida» ao que se passa nos nossos laborató- 
rios , he cahir em hum erro não menos grave e peri- 
goso* Não só » como já dissemos , existe grande diSe- 
rença entre bs átomos orgânicos e o$ das substancias 
inorgânicas , e em quanto ás leis das suas combinações \ 
mas entre as experiências dos laboratórios e as ope- 
rações da economia animal existe ainda a notável e 
importantissima^diOerença i que nas primeiras , os vasos 
que enceiTão as substancias cuja natureza se pertendó 
estudar^ são quasi sempre compostos de matérias qué 
não influem sobre as operações chymicas dos corpos 
que se sujeitào á anaijse chymica \ quando pelo con- 
trario y nos seres organisados não só os vasos e todas 
as fibras solidas tem notável acção Sobre os liquidos 
circulantes , mas até ha ras^o dé crer que nos sólidos 
residem em grande parte os principios que determinão 
as mudanças na combinação dos elementos, a evo^ 
lução do calórico ) a producção da electricidade , é 
em huma palavra os maií importantes phéndmenos 
chjrmicos dos corpos vivos. Por isso os autores qué 
na infância da chymicas quando nem se- quer as leis 
dos phenomenos os mais simples , quaes os das solu- 
ções > e da neutralisação dos alcalis i erão conh^i- 
das^ tentarão explicar, por principios de huma chj- 
mica tão limitada e imperfeita , os phenomenos com** 



34 Resenha Anafytíca. 

t^lica^ssimos e variaTets da orgaáifà(flò àninlal , nM 
fiíerão caso das partes tt^dad do corpb humano , e 
considerário o estômago òomo huma retorta. Esta 
íidicula supposição^ combinada totú os elementos da 
(>athologia humoral , a qual tem dominado a medeciíia 
desde a sua infância, produzio innameraveis e gfatoifay 
hypotheses sobre à natureza das d^enÇas, t que 
infelizmente tem nào poucaá vezes influido sobre gr 
Inethodo de tratamento. 

Outra classe de médicos théoricos , reconhecendo a 
insufficiencia das explicações tifadaâ da mechaúica é 
da chymica , procurarão descobrir as leis geraes da 
economia animal pelo estudo das taas fun^^çóes^ 
pondo de parte a natureza intima dos sólidos e li^ 
quidos. Entre estes , huns procederão por abstracção^ 
e sem experimentos nem observações creárâo agente^ 
chymerícos^e derão a cada órgão huma alma, e aa 
òorpotodo diversas , què designái^âo debaixo de humsl 
multiplicidade de nomes; outros , e em grande nn*^ 
tneroy levarão a tal ponto a attençâo exclusiva qué 
derão á acção dos sólidos , que de todo desprezarão 
os líquidos, considerando^os como incapazes de al-^ 
terarem as propriedades dos solides. Esta ultima seita, 
que mui bem se pode designar pelo nome de vitalistas, 
he incontestavelmente a que mais tem contribuído 
para o adiantamento da Physiologia e da Pathologia , 
e deve confessar-se que no estado actual dos nossos 
Conhecimentos chjmicos, e vista a quasi total igno-» 
i^ncia em que ainda estamos sobre a natureta do 



Resenha jánatrtiea. 35 

ínAiiio nenreo, do qual eTÍdentemcntd eauDão oâ 
príncipaes phenomenos da organisaçào^ e visla a UlIli^ 
tada applicaçáo dos prin cipios purameote mecbanicos 
á ecoDomia animal , o único partido que nos resta , e 
que promette derramar alguma lui sobre as operações 
dos orgàos » he o estudo das propriedades vitaes dos 
diversos tecidos e f^ras que entrào na composição 
dos corpos organisados « comparando as suas modiii- 
cações e alterações no estado de saúde e de doença i 
e estudando a acção dos agentes ínteiiios e ejiteitios 
sobre cada bum deU^. Este meibodobe buú árduo» 

• oficrece difficuldades quasi insuperáveis , das quaet 
as principaes são , a impossibilidade de isolar perfei-* 
lamente os divei^sos elementos sólidos buns dos outros 
pai^a estudar as suas propiiedades respectivas, e a in* 
ceiieza de reconbecer a identidade do estada) da parle 
em duas experiências comparativas. As funcções vitaes 
dependem tão essencialmente do nexo e acção re<* 
riproca dos órgãos sólidos e dos fluidos circulantes» 
que pode aSbutamente affirmar-se que toda a pro*» 
priedade dependente da organisação que constitue 
n vida, be bum resultado complicado e por conse* 
guinte variável , e não constantemente residente nos 
órgãos, de buma maneira independente. Destas causai 
tem nascido a incerteza , que desde Haller attf ao dia 
de boje tem reinado sobre a irritabilidade , e sobre 

• sua dependência do influxo nerveo, e as contradic* 
fôes que todos os dias encontramos no resultado t 
conclusões de experimentos repetidos pelos mais babeis 
^bysiologistas \ do que bastará , para exemplo diar os 

3*- 



36 Resenha Anafytica, 

dé Legallois e do D'. Phillip , sobre a causa dos taovi* 
mentos do coração* 

Como a natareza do isfloxo nerveo nos he absoliv* 
lamente desconhecida, e os seus efieitossóse mani- 
festão pelas modificações da sensibilidade e do movi- 
mento, estas duas propriedades tem sido o objecto 
dos experimentos e observações dos mais distinctos 
physiologistas da seita dos vitalistas ou soUdistas; mas 
a pezar dos trabalhos de Haller, Hunter, Bichat^ 
Legallois , e Phillip % e ainda depois do descobrimento 
da electricidade spontanea ou galvanismo , que tanta 
luz tem já derramado na Chymica , luz que hum dia 
talvez também se communiqoe á Pbysiologia , he certo 
que pouco ou nada sabemos sobre as leis da irrita- 
bilidade eda sensibilidade; e todavia he sobre algu- 
mas experiências contestadas , pouco decisivas , ou 
não suficientemente comparadas e generalisadas , que 
engenhos ousados tem pertendido fundar systemas de 
medecina, cuja simplicidade encanta á primeira vista , 
e illttde a quem não julga senão pela apparencia, 
sendo pelo contrario esta nimia simplicidade , para 
todo o observador exacto , a mais evidente prova da 
falsidade dos suppostos principios. Desta seita tem sa- 
hido em diversos tsmpos os systemas dos dois prin- 
cipios, o laxo e o tenso, o spasmo e a relaxação , a 
sthenia e a asthenia ^ e as denominações de forças 
vitaes , principio da vida , tom , etc. assim como todas 
as classificações das nosologias e da matéria medica 
f nndadas nos mesmos principios ( bem como ai jmtigas 



^ Resenha jánafytica' ^^ 

«scbolas reconhecerão por causas geraes das doenças » 
o húmido e o secco , o crasso e o ténue, a hilis, a atra" 
òilis e 08 mais liumores , o alcali e o acido , eft. 

# 

O defeito principal dos vitalistas , e principalmente 
dos das escholas inglezas, he-o terem introduzido 
termos absolutamente vãos, dando-os ao publico como 
causas reaes de pfaenomenos que não sabem explicar. 
Por exemplo , depois de rejeitarem as theorías mecha- 
nicas da secreção, dizem-nos gravemente estes dou- 
tores, que* a secreção procede de huma acção parti' 
eular do órgão , acção sui generis ; se os alimentos no 
estômago não se decompõem segundo as leis a que obe- 
decerião fora do corpo em igual temperatura , he por- 
que o estômago tem huma potencia directriz que si^ 
pêra as aflinidades ehymicas ; e procedendo desta ma- 
neira y toda operação cuja causa se ignora ke logo 
convertida em acção particular , em potencia prii^ati^a, 
expressões qne tanto montão como as causas oecultas 
dos Aristotélicos, e qne nada expKcão. Uamenbach , 
não podendo comprehender a geração, attribuio-a ao 
nism formativus j o qual por certo não figuraria mal 
a par do virUis dormitii^a de Molière. João Hunter 
levou o abuso desta viciosa linguagem ao maior ex-* 
cesso , e grande parte do seu tratado do mal venéreo 
está cheio de explicações dignas dos mais inintelligi- 
veis commentadores de Aristóteles* Muito me custa 
a confessar que até o meu mestre Jorge Fordyce , a 
pezar do seu superior merecimento e espirito philop- 
iophico , cedeo á mania dominante , attribuinda á po* 



Sè Resenha Andfyúcà 

teneia dérrHriz do estômago propriedades que forço«- 
^amfnte dependem de agentes physicos, e não de 
humáinlkieiieki mepid <m inteilectual. Se os alímeotoi 
introduzidos no estômago em estado e circumstancias 
favoráveis para entrarem em patre&qçãe^-e aèé havendo 
]á elláprínóipiado « n&o só nào apodrecem^ mas a putre» 
facção começada se isusta , <:laro -está ^e existem ne 
icstomago substancias ouja «<^o ohymica obsta a este 
processo ; pois be absolutamente incomprehensivel que 
<hum pbenomeno puramente çhymico possa ser mo* 
-dificado por agentes ou causas que não são ^otadan 
4e afinidades ; admittir semelhantes eii;pUcações mys* 
ieriosas be iútrodiizir milagres nas sdeocias , e fazer- 
nos voltar á magia , onde a vontade basta para mudar 
-a essência das cousas. O O^^. $anaroft « na sua these., 
^ujos principaes pontos transoreveo no seu Tratado 
Bobre a Febre amarella , sustenta que o calor animal 
he hum produoto ruitural,, -e que não pode resultar 
4e nenhum iprocesso chymico conhecido* Se este me- 
dico quer dizer que ignoramos a maneira por que se 
.produz e conserva nos corpos vivos o calor, tem razão; 
mas se pela palavra iiotwYU entende que -este calórico 
be de outra natureza , e que a sua origem be devida a 
«gentes que só existem nos corpos dotados de vida., 
então merece a sua opiniãQ ser posta ao numero dos 
oucos nadas. O calórico , a luft^ e todos os agentes 
da natureza são os mesmos^ onde quer que x>s encon'* 
tremos', as combinações do reino ye^etal dii£biiem das 
dos mineraes, e ainda mais diffeoem de humas e ou« 
«iras as do reino animal, poi>âm ^odas 4l}as encerrãa 



Jlesenha Analyticaf 39 

l>nncipicM» cQmmim^ á nad^r^Tia inteira , e $ó da divem^- 
dade da sun combiaaçlo , ^tado de aggregaçào , electrí<- 
cidade e outras circumstanpas aipda oâo determinadaip 
dapeod^ a variedade da$ propriedadei pbysicas e chyr 
micas de cad^ buma.Tod^s as vezes que a arte conseguf 
formar huma substancia ideotiea a outra que se encoa- 
tra na natureza, temos perteza de que o processo artifi- 
cial be análogo ao natural; e se conhecermos exacta- 
mente os elementos que entrão na composição 9 as sua^ 
proporções e estado relativo de pada bum , poderemos 
yit DO conhecimento de todo o prx)cesso empregado pel^ 
liaturez)» p o qual , a pezar dd identidade do resultado , 
pode ser mui difierei^te do nosso , poí^ ninguém ignora 
i|ue resultados idênticos se obtém por meio de pro- 
cessos cbymbsos m^Ú diversos. Ora , p assucar que nó^ 
produzimos por buma operação (:b/míca , convertendp 
nesta substancia ^ setradmra de madeira ou a ^omma^ 
^endo idêntico ao que resulta da vegetação , seguir-se- 
ha que a força ^^egetaJtiya depende de influencias chjr- 
micas. Outro tanto se pode dizer de outras substancias 
animaei qui^ a arte possa vir a imitar com perfeição *, e 
se alguém aos á^s^^v qiie mui poucas substancias ver 
getae$ e animaps tem os cb/micos at^ agora conseguido 
imitar , responderemos que a cbymica e3t4 amda mui 
^oDge da sua perfeição^ e que infinitas substancia^ 
cuja composição be d^mopstrada # oos he impossível 
recompor, por nâo serem iguaes 0% nossos meios de 
recomposição aos de decomposição : o diamante , por 
exemplo, be com muita facilidade redu^ivel ao^ seus 
elementos componentes*, mas huma ve^ insdttzído a 



4o Resenha Anafytioa, 

paz , não possuímos meios de compressão que possãcr 
CODverté-lo em hum solido. Cessem pois os vitalisuuí 
de negar a existência da influencia d^s leis geraes e 
particulares das aí&nidades nos corpos prganisados , 
bem cofno lhes he impossivel deixar de adoiittir a inr 
fluência da cohesào , da plasticidade e outras proprie- 
dades physicas nos solidqs e líquidos dos animaes e 
vegetaes \ e pós de boamente lhes concederemos que 
pouco ou nada sabefnos das leis particulares que go- 
vernão os phenomenos chymicos nos entes organi^ 
sados. A conclusão que tiramos desta ignorância re- 
conhecida he y que devepos proseguir p estudo apenas^ 
começado da chymica anioial, fazendp^o sempre 
acompanhar da investigação dos phenomenos physio- 
lógicos e path^ologicos , pois nos parece indubitável 
que fracos progressos poderemos fazer no oonheci-t 
mento das leis da economia animal em quanto nos 
obstinarmos a attribuir a causas e propriedades sim-, 
pies aquillo qpe evidentemente procede de influencias 
complexas. 

Os humoristas não fizerão caso dos sólidos do corpo 
humano; a maior parte dos vitaUstas desprezão não 
só os fluidos , mas at^ não reconhecem n^ economia^ 
animal princípios^ de acção analog[QS aos da affinidade 
chymica. Huns e* outros errão,e pa;*a o provar sobejão 
argumentos : não fallaremps dos humoristas , cujas 
opiniões estão assa^ desacreditadas, mas para con-? 
vencer de inexactas as ideias exclusivas dos vitalistas , 
hoje muito mais propa|;adas , ofiereceremos aqui algu- 
pias observações. 



Resenha AruÚYÚca» 4' 

i«. He inegável que diversas substancias introdu- 
zidas no estômago , produzem efleitos differentes , ie- 
gundoa natureza chymica dis Iquidos contidos na* 
quelle orgâo ou engulidõs em cima delias : o mesmo 
%& extende a grande parte do canal intestinal. Daqui 
se tirão as indicações em casos de envenamento, e 
3e collige a acçào variável da magnesía , de diverso^ 
^aes e de muitas outras substancias. He bem sabido 
que ha paizes onde o tártaro emético em solução 
aquosa não produz effeíto vomitivo, pela decompo* 
jsiçào que experimenta , em razão da cal que a agua 
da solução encerra : ha também pessoas em que esta 
preparação de antimonio n^o produz eSeilo algum , 
ainda que dissolvida em agua distillada^ e outro 
tanto acontece a muitas preparações medicamentosas , 
que tão diversamente obrão sobre cada individuo^ 
e até no mesmo em diversas circúmstancias. Ora, parte 
doestes efleitos he devida á decomposição chymica a 
inais evidente e incontestável , e a acção dos contrar 
venenos he quasi umcamenfe fuudada em priacipioi 
cbymicoSf 

^o. Og efleitos das diver$as sortes de. bebidas aquo* 
^as salinas, acidas, alcalinas, lácteas 9 oleosas, etc* 
sobre « a natureza das secreções , são inegáveis , postp 
que ainda não estejão determinados com exacção» 
Outro tanto se applica aos alimentos sólidos , animaes 
e vegetaes , dos quaes se sabe com certeza terem di^ 
versa tendência para fazer predominar certas secreções 
dando-lhes qualidades determinadas. Isto se observa 



is Resenha Anàljrtiea. 

pp diabetes , nas doenças calculosas e gottosas , no 
^corbutO) e em inpumçraveis outras aíTecções, nas 
quaes a experieiícia tem ensinado aos médicos f rac- 
^ico3 o que a tbeoria Ibes não podia fazer descobrir. 

3<>. Â abstracção ou addiçâo do calórico quando 
ellehe excessivo ou diminuto, nas doenças, e os bons 
efleitos que d*ahi resultào , são operações directamente 
physicaSyC he im^ossivel attribui-las ahuma influen- 
cia mysteríosa. E posto que a temperatura do ar 
ambiente não influa notavelmente sol^re a temperatura 
interna do corpo humano, está ho)è provado pelas 
«experiências do D*". J. Davy que a temperatura media 
do corpo varia segundo os climas. 

• ífi. Posto que os pbenomeoos da decomposição que 
se opera no canal digestivo dos animaes não sejào 
tdlentiix>6 com os que em temperatura igual se passão 
fóra do corpo y comtudo he incontestável que os ali- 
mentos em estado de podridão incipiente são mui 
nocivos , e ás veses até prod«zem gravíssimas «oles- 
tias ; prova evidente de que ^ se a economia animal 
possue meios de suspender a decomposição , conhecida 
pelo nome de putreíacçào , he á custa dos príncipios 
dos quaes <lepende a vida. Também he kiegavel que 
algiitts dos meios que fóra do corpo sustão a podri- 
dão , produsem o mesmo effeito em muitas doenças , 
nas quaes o sangue e os sólidos tendem á putrefaeção : 
taes são os ácidos. 

5<». A pezar das asserções dos vitdiistas e soUdi&tas » 



fundadas em mexactissimas observações e ex|>eari- 
mentos^ he impossivel deixar de admittir que hum;^ 
alteração notável nas propriedades dos fluidos precede» 
acompanha 9 e se segue a muitas alterações morbir 
das. Isto he incontestevel no escorbuto^ na febre cha- 
mada amerella e em índnitas outras doenças ; e a 
pezar das poucas experiências exactas que ainda pos- 
suímos nesta matéria ^ sabemos comtudo que as pro- 
proções da a|;ua , da mateiía coagulavel ^ da Ebrina ^ 
etc. varláo segundo a natureza da dieta e das doenças. 
Também he inegável que a temperatura «,9 humidade 
jS seccura^ a natureza dos alimentos « e muitas outras 
circumstancias externas, influem notavelmente sobre 
a composição dos fluidos e sólidos do corpo humano ^ 
sobre a rijeza e elasticidade das fibras y sobre as pro- 
priedades dos tecidos , etc. 

60. Por huma singular cpntradicção , os vitalistas., 
que não admittem a vida senão nos sólidos , suppõen^ 
quasi todos a existência de hum fluido nerveo , ao qual 
attribuem os princ4)aes phenomenos da vida. 

Seria fácil multiplicar e desenvolver estas provas^ 
se para isso tivessemx)6 espaço c tempo , mas as fgàt 
acabamos do expor bastão ^ segundo nos pai^ece , paia 
convencer qualquer leitor imparcial e versado na mata- 
ria , do abuso que os vitalistas tem feito das abstrac- 
ções em que fundão a sua doutrina., apparentementa. 
mais philosophica., mas em realidade não menos im- 
perfeita que 9S jgratuitas aaserções dos bumoríatas. 



44 Resenha Anafyúca. 

De todos os escriptores qué lem pertendido explicar 
os phenomenos da vida e das doenças , por meio de 
príncipios tirados unicamente das leis da economia 
animal, o mais celebre ^e cujas doutrinas mais tem 
influido na theoria e practica da medecina em nossos 
dias, he o famoso Brown. Este autor j dotado de 
gi^ande penetração e engenho, e mui pouco versado 
na Anatomia , Physiologia , e muito menos ainda na 
observação practica das doenças , valendo-se de varias 
concepções theorícas que se encontrão em autores 
médicos antigos e modernos anteriores a elle , tentou 
reduzir todos os movimentos do corpo humano , e 
por conseguinte as doenças , a condições mui simples , 
fazendo depender os phenomenos da saúde e da doença 
do estado da excitabilidade , e do grão de excitação , 
e comprehendendo igualmente todosí os meios cura- 
tivos debaixo de duas únicas classes , caracterisada 
huma , pela acção excitante maior ou menor, e a outra, 
pela abstracção dos stimulos habituaes. Este systema , 
que reduzio os phenomenos da vida e da doença a 
huma escala graduada da excitabilidade , e a mede- 
cina aos meios de augmentar ou diminuir a excitação , 
seduzio não só a mocidade , mas arrastrou , pela sua 
simplicidade, muitos médicos illustres, os quaes fazendo 
na doutrina de Brown algdmas modificações , a adòp* 
tárão e propagarão com enthusiasmo. Ainda hoje reina, 
assim modificada , em quasi todas as escholas de Itália , 
em grande parte da Allemanha; e ali na Gran-Bre* 
tanha e em França , onde sempre foi mui combatida , 
tem de tal maneira modificado a linguagem e practica 



Iteserúia AruJyiieai 4^ 

da medecina , que ainda entre os que professão 8Ci*-lhe 
mais contrários I huns accusão os outros de Brownismo. 

Deve confessar-se que Brown expoz com agudeza os 
vícios das hjpotheses anteriores á sua , e também he 
inegável que fez algumas observações acertadas. Mos* 
Irou que a inacção e os movimentos excessivos ou 
desordenados podião ser produzidos por causas oppos- 
tas, e que por conseguinte requeríâo tratamentos 
difièrentes ; provou sem replica que a acção dos agentes 
variava segundo o estado da parte a que se applicavão , 
e fez ver que bum mesmo agente podia produzir 
efleitos diversos , e até oppostos , segundo as circum- 
stancias em que era applicado , não podendo por 
conseguinte dar-se ás propriedades de nenbum deno- 
minações absolutas. Também mostrou que agentes de 
natureza opposta podiào produzir effeitos idênticos, 
segundo o estado da economia i como, por exemplo, 
o vinhp e o ópio, e a sangria ou o frio, os quaes 
provocào o somno em circumstancias diversas , e por 
huma operação absolutamente diSerente. Teve igual- 
mente o merecimento de insistir sobre os diversos 
effeitos que resultavàò de maiores ou menores doses 
da mesma substancia , e de fazer vera grande differença 
que havia entre o efleito primitivo e immediato de 
muitas substancias, como o ópio, e a sua acção se* 
gundaria , mostrando que a primeira era stimulante ; 
verdade que depois de muitos annos de teimosa con« 
testação , foi em fim reconhecida pela Universidade 
de Edimbuif^o , onde por largo tempo passou por he^* 
resia o OpUun meherclè non sedat de BrovYn. 



46 Resenha Amdyticeu 

Estas observações índiciosas, qoe se enconlr&o noi 
escríptos de Brown , não bastão porém para contra-* 
pesar o» enormes defeitos do seu sjstema, o qual talvez 
tenha sido. hum dos mais mortiferos dos muitos que 
tem reinado na medecina. Os termos excitabilidade ^ 
estimulo, excitação , sthenia e asthenia, que são os 
alícerses da dontrina, não são nem bem definidos 
nem exactos^ e as pertendidas leis da excitação y sobre 
que se estriba todo o systema, sòo manifestamente 
falsas e desmentidas pelQS factos os mais constantes^ 
Debaixo do termo excitabUidade confundio a sensibili* 
dade , a irritabilidade , e toda a susceptibilidade de mo« 
bilidade ou de acção qualquer ; disse-nos que ignorava 
a natureza desta propriedade, mas affii*mou que a cada 
instante se gasta pela applicação de todo e qualquer 
agente j e que se pode accumular pela abstracção ou 
dimipuição delles ; porém não só nos não indicou 
como se r^roduz quando consumida por efièito de 
excessivo excitamento , mas deo-nos a entender que a 
somma total delia vai sempre em diminuição desde a 
infância até á velhice ^ e em consequência de tão 
singular opinião nunca ponde explicar como se repa-^ 
rão as forças esgotadas por estímulos excessivos^ 
continuando o corpo a ser excitado por oiitros y os 
quaes ainda que menos activos^deverião acabar de con« 
sumir o restante da excitabilidade. Debaixo da palavra 
estimulo comprehendeo todas as substancias i sem fazer 
o menor caso da sua diiierente natureza , e por ef- 
feito de tão indesculpável erro , chan^ou excitamento 
a todo o efieito resultante da acção dos agpnte^ iu-r 



Uesenha Anàfydca, 47 

ternos ou externos sobre a economia animal, coino 
se as propriedades de todos elles fossem idênticas , e 
só differissem em grão , e como se todas as partes dô 
Corpo humano fossem homogéneas na sua estructurà 
e susceptibilidade de acção ; o que, como todos sabem, 
são supposições não só gratuitas maS fakas. Para 
faier ver o absurdo das leis de BroWn, basta notaf 
que se , Como elle peftende , a excitabilidade dimi- 
nuisse pelas repetidas excitações , não veríamos nâ9 
todos os dias o estômago , inílammado pela acçào de 
substancias summamente irritantes, tornar-se cada 
vez mai<; sensivel pela successiva introducção de be^ 
bidas acres e estimulantes , e em (iqpi exaltar-se a sen- 
sibilidade , e augmentarem as contracções doeste orgãó 
a ponto de causarem a morte. Por outro lado, como 
he possivel còmprehender o restabelecimento de hum 
órgão nimiamente excitado , e depois submettido á 
acção de estimulantes, como acontece ao estômago, que 
depois da embriaguez se restaura pelo uso moderado 
do vinho e dos amargos , se os elementos da excita- 
bilidade se não reproduzem, e se os estímulos não 
difièrem senão em gt^ao? Em huma palavra , patece 
incrível que em hum século caracterisadq pelos pro-^ 
gressos da investigação experimental e pela exactai 
observação , tivesse tanta voga hum systema creado 
por mera abstracção, e apoiado em vagas noções á 
cerca das leis da irritabilidade da fibra muscular. 

De todos 08 escriptores que até ao dia de hoje tem 
modificado a doutrina de Brown , Darwia he, na nossa 



48 Jíesenha Jínaíytica. 

opinião , o mais distincto ; porém a pezar de ter evi^ 
tado algumas das mais eyidentes incoherencias é& 
BrowQ 9 conservou gi ande parte dos enos delle. Dar- 
win admitte a reproducção da excitabilidade^ mal 
nào expõe as leis desta reproducção nem os agentesf 
que a determinão ; não considera o corpo como hum 
todo homogéneo , reconhece nelle diversidade de 
órgãos e de acções, e fazp devido appreço da sym* 
pathia que liga todas as partes da economia animal } 
mas não explica a razão da paridade ou opposição 
dos movimentos associados. Porém , seguindo o exem- 
pio de Brown , dá a mesma accepção aos termos esu-^ 
mulo ou excitante , e á palavra excitamento , e , assim 
como Brown , attribue o autor da Zoonomia ao exci- 
tamento prévio, excessivo ou diminuto, eQeitos subse- 
quentes , que de maneira nenhuma guardào propor-* 
ção com a supposta causa. Por exemplo, ao frio oii 
estado de inacção , que caracterisa o ingi^esso dos cres- 
cimentos febris , attribue Darwin o calor e energia sub- 
sequente, dizendo que a excitabilidade se accumulou 
durante o frio a ponto tal que os estimulantes naturaes 
bastão para produzir hum notável excitamento, o qual 
constitue os phenomenos do segundo período ; assim 
como Brown afiirmava que o ópio só causava efieito» 
sedativos em razão Ldo excitamento prévio que tinha 
produzido. Ora, não ha pessoa que ignore que o firio 
e período de inacção das febres não tem muitas vezes 
proporção alguma, nem em duração nem em intensi- 
dade , com o calor e acção augmentada do segundo 
período do paroxysmo , sendo muitas vezes o prímoiro 



ResenJta AnalyUea* 49 

pouco sensível , e o segundo mui intenso ô prolon'=> 
gádò , <s vice versa. Também he bem sabido que os 
eíleitos narcóticos e segundados do ópio são incom- 
paravelmente mais eiiergicos que a sua acçào imme"- 
diata é estimulante j e que he impossível attribut-*los 
a és\Á acçào. Nào insistiremos aqui em ouiros muitos 
defeitos da Zóonomia , e sé ajuntarepios que a classi- 
ficação dos artigos da matéria medica he viciosíssima > 
pois atttibue identidade de acçào a substancias cujas 
propriedades sào mui differentes* Em quanto á sua 
classificação das doenças ^ todos reconhecem quanto 
ella he vaga e àrbiti*ariá ^ e fundada em hjpotheses as 
inais gratuitas : o supposto estado pathologíco que 
forma o principal caracter da doença , he muitas vezes 
estabelecido sobre hum só symptoma isolado , o qual 
frequentemente sé acha desmentido por outrbs op- 
postos. O systema dé DarMrin iem tido muito menos 
^oga^ por isso mesmo que he mais complicado, e 
requer não pouca meditação é estudo para ser com'^ 
prehendido , faltando-lhe a simplicidade , e hum certo 
ar de inspiração ^ que caracterisão os Elementos dé 
Brownr 

Entre todos os pais^es da Etitopa , a França tém-sé 
distinguido por huma constante preferencia dada á 
tnedecina de observação , e a celebre eschola de Mont- 
pellier teni oíTerecido os majis philosophicos de todçs os 
vitalistas desde Bordeu até Barthez , Dumas e seus dis- 
cípulos. Procurando descobrir as leis da econdiiiia ani- 
inal,para hum dia poderem estabelecer as bases de huma 
Tom. IXi 4 A- 



5d Hesenlia Ancdyúca* 

theorià medica, não perderão de vista bum só instante, 
que oè phenomenos , que á primeira vista parecem os 
mais simples , são snmmamente complexos , e que 
antes de generalisar he preciso , por meio de huma 
inducção laboriosa e árdua, mas indispensável, de- 
compor os elementos do problema que se pertende 
resolver. Por esta razão he que , em vez de conside- 
rarem a inflammação como hum facto simples e uni- 
forme, o decomposerào , e mostrarão que debaixo 
desta palavra coníundiào todos os autores huma mul- 
tidão de phenomenos diversos e até oppostos. A es- 
chola medica de Paris não tinha adquirido tanta gloria 
como a de Montpellier \ mas os trabalhos de Bichat 
e as obras de Pinei de Alibert, etc. bastão para a 
immortalisar; O' primeiro morreo na ílor da idade, 
victima do ardor com que cultivava a Anatomia e a 
Physiologia,deixando nos seus escriptos hum modelo da 
maneií^a de investigar a diíBcillima sciencia do ho- 
mem ; o segundo, declarando guerra aos vãos systemas , 
e coUigindo o que os mais exactos observadores de 
todos os tempos tem escripto sobre as doenças , formou 
na sua ^^osographia o corpo de doutrina medica o 
menos hypothetico e o mais conforme aos conhe- 
cimentos physiologicos e pathologicos dos nossos 
dias. Esta obray pela natureza delia, não pode ser 
izenta de erros e imperfeições, pois que em sciencia 
tão conjectural como a medecina he impossível ser 
rigorosamente exacto. Alem de outros defeitos, tem 
hum , inherente á obra , que he a impossibihdade de 
fazer huma classificação natural das doenças \ nãu 



ItesenJia Ãnalytica. 5i 

sendo todas as que até ao presente se tem proposto 
outra cousa mais que methodos artiSciaes, mais ou 
menos imperfeitos e inexactos. Como as doenças nào 
são individues dotados de huma existência material 
c independente , mas sim huma serie mais ou menos 
complexa de alterações da economia animal ^ he mani* 
festa a impossibilidade de comprehender debaixo de 
huma denominação qualquer os caracteres de huma 
enfermidade , pois se alguns delles convierem ao 
seu princípio , não serão applicaveis aos seus outros 
períodos , e vice versa ; alem da grande difficuldade 
de abstrahir das apparencias particulares a cada doente 
as que mais frequentemente se achão em todos. Ac^ 
cresce mais^ nas doenças complexas , em que muitos 
systemas e órgãos são successiva e periodicamente 
atacados, a difficuldade de determinar com certeza 
quaes são os órgãos primitivamente oíTendidos , quaes 
as suas aSecçòes , e até que ponto estas influem nos 
phenomenos subsequentes; assim como he mui árduo 
separar as aflecções accidentaes que podem complicar 
a doença , e que não são essenciaes á sua existência, da-- 
quellas que se manifestão no decurso delia como 
consequência necessária do desarranjo mórbido cau*- 
sado pela aflfecção principal. De todas estas conside- 
rações se deve concluir que só a historia completta de 
huma doença desde o seu ingresso até á sua termi- 
nação , pode satisfazer o medico , e que esta historia 
não he susceptível de ser reduzida a huma curta de- 
finição 9 sempre incompletta , e muitas vezes inexacta 
e até errónea* 

4* 



52 Resenha uinalytica. 

Comtudoy à classificação do D^. Pinei ^ a qual be 
sempre acompanhada da descripçào , em geral exacta , 
dos phenomenos das doenças em todos os seus pe- 
ríodos 9 he das menos defeituosas e das mais úteis , a 
pezar das suas imperfeições e incoherencias. Em geral , 
as denominações doeste autor designào a circumstancia 
a mais importante de cada ordem de doenças , aquella 
donde nasce o maior perígo ^ e que por isso merece a 
principal attençào do medico. Por esta razão he que 
eile tira os caracteres das enfermidades, ora do seu 
assento e natureza ,ora da ordem ou irregularidade dos 
symptomas , e ás vezes de alguma circumstancia predo- 
minante f ou estes caracteres pertençào ao príncipio , ao 
meio ou á terminação da doença. Por eQeito d*este * 
systema chamou meningo-gaslricas as febres que julgou 
dependerem de huma aifecçào primitiva das membra- 
nas do estômago ; angio-temcas as que suppoz provireoA 
da acção augmentada dos vasos sanguineos ; ataxicàs 
as que tendem a seguir huma marcha irregular; e 
adynamicas as que parecem caracterísadas desde o seu 
principio por huma grande prostração de forças. 

Nenhuma destas divisões he exacta, tornamo-lo a 
repetir, porque as duas primeiras são fundadas em 
hypotheses não provadas, e as duas ultimas são mo-» 
dificações , que toda e qualquer febre pode soQrer no 
seu progresso e terminação -, porém he justo ao mesmo 
tempo confessar , que todo o medico que não der ás 
denominações da eschola maior importância do que 
ellas merecem, e do que lhes dão seus próprios au- 



Resenha Anafytica, 53 

tores y achará não poucas vezes as divisões de M. Pitiel 
conformes á realidade, sendo incontestável que ha 
febres em qne predomina a acçào do coração; outras 
em que certas membranas estão mais ou menos ata- 
cadas^ muitas que desde o seu principio mostrão 
tendência a irregularidade ^na duração e phenomenos 
dos paroxysmps ; e outras emíim em que a prostração 
de forças he manifesta desde o seu ingresso. Ora» 
como M. Pinei não teve a pertenção de dar huma 
theoria medica , mas unicamente teve em vista gene- 
ralisar a descrípção das doenças , como bem indica o 
titulo de Nosographia , que deo á sua obra de prefe- 
rencia ao de Nosologia , parece-nos injusto insistir de* 
masiado na imperfeição das doutrinas theoricas que 
nesta útil obra se encontrão , apezar dos constantes* 
e louváveis esforços com que o seu judicioso autor 
procurou evitar tudo o que lhe pareceo hypothetico. 
S§ elle considera algumas vezes como causa certos phe- 
nomenos y que y ou são eQeitos absolutos ou concomi- 
tantes y pelo menos estes factos são reaes e não ima* 
ginados , e são sempre mui importantes a conhecer, 
pois tem grande influencia na natureza , progresso e 
terminação da doença a cuja historia pertencem. 
Devemos também dizer , em abono do autor da No^ 
sographia metbodica , que a elle se devem em gi^nde 
parte as considerações sobre a analogia da alteração 
mórbida dos tecidos ou membranas de structura se- 
melhante, considerações ás quaes o celebre Bichat 
confessa ter devido a primeira ideia do seu bellq € 
útil trabalho sobre as membranas* 



54 Resenha lAmdyticcu 

A Nosographia methodica foi acolhida em França 
e em toda a Europa com muito louvor ^ e considerada 
por todos os médicos practicos como huma obra mui 
superior ás classificações que a tinhão precedido , na 
qual as doenças erào. descriptas com a maior exacçào 
possivel , e o estado pathologico de cada huma indi- 
cado quanto o permittçm os nossos escassos conhe- 
cimentos na matéria. Na eschola de Paris adoptou-se 
esta obra como base do ensino da Pathologia , e ate 
ha poucos annos gozou de huma não contestada re^ 
putaçãoy até que M. Brouss^is tentou substituir-lhe 
a sua nova doutrina, a qual ha quatro annos conta 
nào poucos sectários em França. Esta doutrina acha* 
se por ora, parte no ti^atado das Phlegmasias chronicas, 
obra de distincto merecimento , e á qual M. Broussais 
deveo o principio da sua reputação , parte no livro 
intitulado Examen de la Doctrine médicale, e o resto 
se acha disseminado em artigos do mesmo autor in- 
sertos nos Jomáes de Medecina de Paris , e em alguns 
escríptos de seus discipulos , sem que até ao presente 
tenha ainda o autor coordenado as suas opiniões em 
hum corpo systematico de doutrina. Por esta razão exa- 
minaremos os principios fundamentaes de M. Broussais 
sem nos occuparmos do seu inteiro desenvolvimento, 
o qual só o publico poderá appreciar quando o autor, 
cumprindo o que ha tempo promette , publicar o sys- 
tema que hoje ensina na cadeira, depois de o ter 
devidamente meditado e apurado. He impossível es- 
tabelecer i^ciocinios concludentes sobre o extracto 
que das suas lições acabão de publicar dois dos seus 



Resenha Analítica* 95 

discípulos , MM. de Caignou e Quémont , pois que , 
alein de mui imperfeito e mal executado, encerra 
■doutrinas manifestamente oppostas ás que M. Brous- 
sais tem publicado em seu próprio nome. 

A extensão d'este artigo , que nos pareceo hum in- 
dispensável preliminar para o exame de huma theoria 
que s\s refere a tantas outras já conhecidas , nos 
obriga a deixar para o tomo X dos Ânnaes a expo- 
sição critica que nos propomos fazer da Doutrina de 
M. BroussaiSy o qual talvez neste intervallo nos de 
occasião de a podermos julgar com mais conheci* 
mento de causa* 



Sê Resenha Anafytica^ 

EXPOSIÇÃO 

pos producios da Industria nacional, em Paris J^ 

em i8ig. 

( TERCEIRO ARTIGO. ) 

i^vAVDOf a pag. 99 da i*. Parte do volume precedente , 
acabámos o Artigo sobre os tecidos de lan , de seda e 
de linho, que na Exposição de 1819 merecerão pre^ 
mios e distincções , promettemos ao leitor continuar 
com os de algodão , parte não menos interessante da 
industiía franceza, e não menos útil aos consumi- 
dores. Isto far4 pois o objecto do presente Artigo ^ 
no qual concluiremos tudo qi:«anto na ditta Exposição 
^ppareceo digno de premio , no importante ramo de 
tecidos em todos os géneros. 

fil.OOPÕE'9^ 

Fiação. ^ 

Na Exposição de 1806,0 algodão n\ais bem fiado 
não passava em finura, do n<>. 60,0 de huma finura 
superior não era tão perfeito ; comtudo ^ a perfeição 
dos primeiros dava lugar de esperar que os segundos 
não tardarião em aperfeiçoar- se ; a Exposição de 1819 
confirmou esta esperança* Os n^. 80 , e ainda loo, che- 



Resenha jánafytica. S^ 

gárào a hum ponto de execução e de abundância, que 
fazem já desnecessário o uso do fio estrangeiro , até 
áquelles números. 

Muitos Estabelecimentos se tem formado desde 1806 
em França , que produzem fio assaz fino , para ser em* 
pregado nas fabricas mais conhecidas de cassa d'este 
paiz ; o que faz esperar que, em pouco tempo, as fia* 
'ções francezas dêem a quantidade de fio, dos mais 
subidos n^K , sufiiciente para o consumo das suas ma*' 
nufacturas : a arte tem já hoje determinado exacta- 
mente as condições necessárias, fixado os melhores 
processos, feito conhecer os melhores* mechanismos, 
com o que , nada falta ao fabricante para conseguir 
aquelle fim. 

Com effèito, na Exposição de 1819 apparecérão ji 
muitas amostras do no. lao, e algumas chegavàoaté 
ao n^'. aoo ; e ainda que , por ora , estas amostras fo« 
rào feitas de propósito *, com hum cuidado particular, 
para aquelle fim, e não podem considerar-se como 
productos de huma fabricação habitual , comtudo ^ 
mostrão a tendência para grande perfeição neste 
ramo , e antes de muito tempo. 

 Commissão reconheceo que a massa actual dos 
productos das fiações he ainda muito inferior á das 
necessidades dos tecidos , e recommendou, com grande 
intenssse , como meios essenciaes para obter hum bom 
resultado a este respeito , o cuidado mais escrupuloso 
na preparação dos algodões, e na escolha delles ^ 



I 

58 Itesenjia Analytica. 

sobre tudo , não deve pertender-se elevar a números 
mui subidos , algodões , que não podem soãrer este 
grão de fmura. Apparecérào na Exposição , algodões 
de Geórgia , Bengala , Surrate mui bem fiados até 
aos n®* 6o, 70 e ainda 100; porém a Commissão, 
reconhecendo nisto a grande habilidade do fabricante , 
comtudo , não quiz animar este género de industria , 
que requer cuidados e despezas extraordinárias , que 
não convém ao movimento de huma grande fabrica- 
ção , e que se pode conseguir com menos custo , 
por meio de huma escolha bem entendida da matéria 
primeira. 

Pelas razões acima expostas , entendeo a Commissão 
de 1819, como já o tinha entendido a de 1806 , que 
devia especialmente animar as fiações em fino , sem 
comtudo negar a recompensa devida á perfeita fiação 
ordinária. 

M. Mille f do Depaitamento do Norte , expoz bel- 
lissimo fio de algodão desde o n^. 180 até ao n^. 200; 
a Commissão , sabendo que no Estabelecimento d'este 
fabricante ha Hi apparelhos que íião em fino, movidos 
por meio do vapor , e tendo-se assegurado de que elle 
fornece as fabricas mais notáveis de cassas e tecidos 
finos de França , recoiíheceo que tinha preenchido , 
ao mesmo tempo , todas as condições essenciaes da 
fiação perfeita e útil , e destinou-lhe huma med^ha 
de ouro. 

* . Outra igual foi destinada para M. Florín , do mesmo 



Resenha AncãyÚca. 5g 

Departamento , cujo fio , desde n®. 177 'até n®. iqíi, era 
de grande belleza e muito igual , e que tem huni 
considerável consumo. 

O irmão de M. Mille apresentou igualmente fio, 
desde dP. 190 até n^. aoo , em tudo igual ao dos dois 
fabricantes acima ; mas como o seu Estabelecimento 
não lie tão importante , a Commissâo , declarando a 
igualdade de merecimento dos productos , concedeo 
com tudo a este ultimo somente a medalha de prata. 

M. Lambert e MM. Arpin expozerão também amofr» 
trás de fio de excellente qualidade ,01^. desde n^. 17a 
até n^'. 184, e os 1^. desde i3o até 160: ambas as 
fabricas obtiverão medalhas de prata* 

O mesmo preúiio alcançarão mais 5 fabricantes, por 
terem exposto productos de n<>». inferiores, mas do 
huma perfeição reconhecida. 

MM. Gombert e Michelez de Parts , apresentarão 
fio de algodão torcido , de diversas cores , que hoje 
entra em concurso com o fio de linho para coser. 
Este fio vinha antigamente de fora ; MM. Gombert 
forão os primeiros que o fabricarão em França, e 
com o seu exemplo excitarão outros ao mesmo ramo 
de industria. Estas circumstancias , juntas á perfeição 
dos seus productos , e ao baixo preço porque elles os 
vendem, forão julgadas dignas de huma medalha de 
* prata. 

Mais 5 fabricas obtiverão nestes diversos artigos ^ 



6o Resenha Analytica. 

medalhas de bronze, e onze receberão menções ho- 
norificas. 

Tecidos, 

CaUcós ,panninho j cclsscls. k. pezar do estado de pei^ 
feição y a que os tecidos de seda e as cambraias tinhão 
chegado em França, o que provava a habilidade dos 
seus obreiros para trabalharem com os íios mais deli- 
cados, comtudo, só no principio d'este século , isto he , 
ha vinte annos , he quê a fabricação das cassas , dos 
panninhos y e até a dos calicós, começou a ser mais 
geral neste paiz. Na Exposição de i8oa não appareceo 
mais do que huma peça de cassa , que veio de Anvers , 
e a Commissão , nessa epocha y tendo tido razão de 
duvidar que a ditta peça tivesse sido tecida em França » 
não fez menção alguma delia. 

Os Estabelecimentos da cidade de St.-Quentin (que 
em outro tempo tinhão sido famosos por tecidos de 
cambraias ) tendo decahido , por falta de consumo dos 
seus productos, houve fabricantes que tentarão em- 
pregar, nos tecidos de> algodão , obreiros tão habituados 
e tão hábeis no trabalho das cambraias. Esta ideia 
feliz prosperou de modo, que desde i8o3 até 1818 a 
povoação de* St.-Quentin tem augmentado | : come- 
çarão aquelles fabricantes a tecer fustòes, depois ca- 
licós,ehoje fabricão panninhos, cassas e tecidos de 
algodão de grande finura e de lavores mui variados.- 

Por aquella mesma epocha , as fabricas Vle Tarare 
tomarão esta mesma direcção , e hoje até os habi* 



Resenha Analj^ica, 6i 

tantes das montanhas adjacentes se occupào nestes 
tecidos , em todo o tempo que os trabalhos da agrU 
cultura Ih' o permittem. 

Já na Exposição de 1806, as fabricas de St.-QuentÍQ 
e de Tarare obtive^ào as maiores distincçòes, e na 
de iSiQOSseus productos desempenharão tudo quanto 
podia esperar-se ( são expressões da Commissão ) no 
íim de treze aunos de trabalho , em dois paizes povoa* 
dos de homens industriosos, animados pelo concurso 
de hum estado continuo de emulação, e constante- 
mente occupados na indagação dos meios de se 
aperfeiçoarem. 

Entre estes fabricantes , distinguirão-se pela perfei- 
ção y finura e variedade dos seus productos , M. Ma- 
tagrín e M. Chatonay de Tarare , e M. Arpin de St. 
Quentin, os quaes obtivei^ão medalhas de ouro. 

Mais quatro fabricantes receberão , nestes diversos 
artigos, medalhas de prata *, dois , medalhas de bronze ; 
oito, menções honorificas, e doze, menções simples. 

Aoolchoadinhos ,fuslóes , etc. A exposição dos bello$ 
tecidos doeste género mereceo que a Commissão con- 
firmasse a )usta causa , com que já em 1806 M. Se^ 
i^ennesy de Ruão , tinha obtido huma medalha de ouro, 
e concedesse medalhas de prata a mais três fabricantes, 
e a quatro, menções honorificas. 

Belbutes. M. de St. lUqider, de Âmiens , obteve 
huma menção .honorifica , pelos belbutes que expoz, 
de hum tecido mui perfeito. 



fo Resenha Analítica. 

Casimiras de algodão , etc. Qaatro fabricantes ob-^ 
tiverào neste artigo menções honorificas 9 e sete , men- 
ções simples. 

Casimiras de lan e algodão. M. Grout, de Ruão, 
expoz casimira tecida com lan e algodão misturados 
á carda , de excellente qualidade : ao merecimento do 
seu producto , M. Grout, ajuntava o de ter introdu- 
zido este ramo de industria em hum Departamento , 
em que ainda o não havia , e a Commissão concedeo- 
lhe , em attenção a isto , huma medalha de bronze. 

O mesmo premio obtiverão também as casimiras 
expostas por M. Decaen , igualmente de Ruão. 

Tecidos para coletes. Dous fabricantes , do Departa- 
mento do Norte , expozerão estofos próprios para co- 
letes y notáveis pela regularidade do tecido e pelo bom 
gosto da disposição; merecerão , por isso > menção ho- 
noiiíica; outro fabricante obteve , pelo mesmo motivo , 
huma menção simples. 

Chalés e lenços» M. de la llue ^ de Ruão, expoz 
chalés de avesso de sarja , notáveis pela regularidade 
da sua fabricação » e pela variedade e solidez das suas 
cores ; a Commissão destinou-lhe huma medalha de 
prata- 

Mais três fabricantes obtiverão medalhas de bronze í 
pela exposição de chalés , que imitavão os da índia , 
e os de lan , de hum bello eSeito , e cores fixas e 
bem ajustadas. Quatro fabricantes conseguirão, em 



Jlesenlia Analytica. €3 

recompensa de productos do mesmo género , menções 
honorificas, e quatro, menções simples* 

Fitas. M. Go/wier^^ de Paris, obteve menção hono- 
rifica , por ter exposto muito boas fitas de algodão. 

Roupa de mesa adamascada* M. Pelietiery de St. 
Quentin, foi premiado com huma medalha de prata , 
pela excellente roupa de mesa de algodão adamas- 
cada , que apresentou , de excellente qualidade , e de 
hum lindo gosto de desenho. Outro fabricante , que 
neste artigo expoz perfeitos tecidos, alcançou menção 
honorifica. 

Baetinhas e cobertores. A Commissão achou que ^ 
neste ramo, M. Pujol continuava a merecer a me- 
dalha de prata, que tinha obtido em 1806, e conce- 
deo hum igual premio a M- Tkibautj que, nesta Ex- 
posição de ^819, se distinguio igualmente no mesmo 
género de industria. Pelo mesmo motivo , mais cinco 
fabricantes obtiverào menções honorificas , e hum , 
mereceo menção simples. 

Rendas , filós e cassas bordadas , etc. MM. Moreaii , 
de Chantilly , já na Exposição antecedente tinhão ob- 
tido huma medalha de prata , pela perfeição dos pro- 
ductos , que neste ramo apresentarão , tecidos de algo- 
dão. Em 1819, estes mesmos fabricantes expozerão 
quatro vestidos de senhora , brancos, e hum véo preto, 
summamente notáveis pela belleza dos desenhos , pelo 
bem acabado da execução , e pela elegância das for- 
mas^ alem disto, apresentarão huma almofada de 



64 Resenha AnaJ^cãi 

bordar^ em que se TÍão amostras de todos os pontos de 
renda, que o seu Estabelecimento , conservado de pais 
a filhos, tem feito executar ha i5o annos. ACommis- 
são , reconhecendo em tudo isto o progresso daquella 
fabrica, que actualmente occupa de Soo a 600 pessoas 
do sexo feminino, e alem disso, o zelo de MM. Mo- 
reau , concedeo a estes fabricantes huma medalha de 
ouro* 

M. Mercier , d*Âlençon^ e M. Vandessel^ de Chan-^ 
tilly , forào julgados dignos, nesta Exposição, da mesma 
honra , que em 1806 tinhão já alcançado , de huma 
medalha de prata, pelos seus bellos productos , naquelle 
artigo^ 

M. Bonnaire , de Caen, M. Docagne , d'AIençon ^ 
e M. Tarãif , de Bajeux , merecêi^ão igualmente me- 
dalhas de prata , por terem exposto lindos vestidos , 
véos , mantelettes , guarnições recortadas , rendas todas 
brancas , outras bordadas de diversas cores , e de ouro 
e prata , sobre fundo branco , e huma infinidade de 
objectos neste género , de hum gosto e «de huma per- 
feição notável. 

Mais quatro fabricantes obtiverão , por artigos da 
mesma natureza, medalhas de bronzeie sete, men» 

côes honorificas. 

■ 

M. Cliénut, e M. Balbdtre de Nancy , merecerão 
menções honoríficas pelos perfeitos bordados, que expo^ 
zêrào, sobre rendas e cassas; os quaes são actualmente 
objecto de hum commercio muito interessante. 



Resenha Anàfytica, 65 

t)BUA8 BC TEA& DE POHTO DE MEIA* 

Em lan. 

Os preços moderados , a perfeição da execução e a 
variedade de objectos tecidos de ponto de meia em 
lan, taes como : vestidos e saias , sem avesso-, meias , 
barretes ordinaiios, e turcos, fabricados á moda de 
Tunis , e destinados privativamente para o commercio 
do Levante^ etc. obti verão , para dois fabricantes , me- 
dalhas de prata; de bronze a mais quatro; e a outros 
tantos menções honorificas , ou menções simples. 

Em seda. 

Pela perfeição dos productos de ponto de meia em 
«eda, conseguirão três fabricantes menções honorificas. 

Em Unho. 

M Detr^ , de Besançon , foi julgado digno de gozar 
^a medalha de prata , com que tinha sido recompen- 
sado em 1801 , pelas excellentes meias de linha , de 
homem e de senhora , que já então fabricava , por pre- 
ços moderados. M. Duboslt, de Paris, obteve em 1819 
a mesma distincção , por ter exposto meias de linha , 
tecidas como renda y e meias de seda abertas , todas 
de huma finura e de hum trabalho perfeito. 

Em algodàO' 

M. Guérinot, de Valençay, apresentou meias summa- 
mente finas , barrettes e pantalonas de algodão , de 
Tom. ÍX. S ^ 



6i Resenha Anafytica. 



NOTICIA 

Sobre o Bima ou Ancore de pão, 

A. ÁRVORE de pão ( Artocarpus incisa ) tem o nome 
de rima na lingua malaia ; os habitantes de Âmbojna 
a chamão huUusutan\ os de Java, de Madure e de 
Balega succwnbidgi-kuler /e os insulares de Otahiti lhe 
dão o nome de wú. 

O tronco desta arvore he arborescente e lactescente , 
e se eleva a mais de quarenta pés ; a sua madeira he 
moUe j amarellada e leve. O tronco he direito , a casca 
he parda e gretada. Tem copa grande e arredondada. 
Os pernadas são ramosas ; as inferiores se extendem 
horizontalmente , e todas ellas se terminão por hum 
gomo / formado de duas escamas caducas. As folhas 
tão ponti-agnadasy pecioladas, alternas , muito grandes, 
e profundamente incisas de ambos os lados, e divididas 
•m sete ou oito lóbulos inteiros de huma ))eUa cor 
verde. Cada huma delias tem cousa de dezoito polle- 
gadas de comprido , e oito a onze de largo. As flores 
são pouco apparenteSy monoicas ou encasuladas, más- 
culas e fêmeas na mesma arvore , e , na sua infância , 
mettidas entre duas escamas caducas. As flores mas* 

< 

cuias são numerosas , rentes , e cobrem inteiramente 



Ilesenha Anafytica. 69 

liiim casulo cylindrico e espesso ; tem hum calyx bi* 
valve com hum só estame mui curto. Os casulos pvaes 
clavi-fórmes são cobertos em ioda a sua superfície de 
flores fêmeas reates e mui bastas que tem hum calyx 
alongado , hexágono , prismático , quasi carnudo ; hum 
ovário situado no fundo do calyx com stylete filiforme , 
persistente , terminado por hum ou dois stigmas : o. 
numero das sementes he igual ao dos ovários; cada 
huniia delias tem o cume espigado, he cercada de 
huma polpa farinhosa , e estão mettidas em 'huma 
massa carnuda, formando todas juntas huma baga 
arredondada, escabrosa, ovalar , e guarnecida por fora 
de areolas pentahedras ou hexahedras formadas pela 
parte superior dos calyces, que se cerra inteiramente. 

O fnicto desta ai*vore he saboroso, da grossura 
de hum melão ordinário , e tem a sqperficíe desigual \ 
a casca he grossa, o interior he branco antes de 
maduro , e depois torna-se amarellado. Este fructc^ de 
ordinário vem sobre o tronco, ou sobre os ramoa 
grossos, e raras vezes sobre os pequenos. 

Por efièito da cultura susta-se o desenvolvimento 
das sementes, e em vez do fructo acha-sesó , á roda 
de hum receptáculo coberto de huma pellicnla esca- 
brosa,. huma polpa espessa, mui branca, farínhosa 
antes de chegar a perfeita maturidade , e que se toma 
gelatinosa e amarellada com o tempo. Tem hum sa« 
bor mui semelhante ao de pão de trigo, e que par-> 
Ucipa do da alcachofra e da batata carvalha^ 



70 Resenha Analytica. 

Esta arvore, conhecida ha muito lempó nas Qhas 
MoiacaSy e nas de Maríanna, em Balavia, etc. he 
mui abundante nas ilhas do mar do Sul. 

Os naturaes de Otabitie de Auuare plantão, cada 
hum por huma vez , pouco mais ou menos dez pés 
d'estas arvores , e depois ^cão mui tranquillos , 
assentando terem peifeitamente provido ao sustento 
das sus^s famílias. O numero das arvores plantadas, 
se bem que medíocre em apparencia , basta para ali- 
mentar a povoação. Estes insulares preparão o fructo 
pondo-o em huma cova feita na teira, na qual mettem 
primeirp seixos aquecidos ; em cima doestes põem os 
fructos , e tapào a cova com huma pedra , para con* 
servar nella o calor. Dentro de pouco tempo estão 
çozid.QS. A estes ajuatão outro fructo acido ; e o seu 
manjar mais delicado consiste em huma mistura do 
fructo da arvpre de pão codol naarisco , ou com carne 
dç pojTco asaada. 

Este frudo não se obtém fresco senão durante oito 
mezes do anno ; para o conservar nos roeses de Sep* 
tembro , Outubro , Novembro e Dezembro empregão 
estes insulai^s methodoseconomicos^quaeslhes fornece 
a sua escassa industria. Se o anno he de safra, cada 
habitante dispõe hum instrumento particular feito de 
pao,e trabalhado por meio de alguma concha cortante, 
e recolhe a toda a pressa, todos os fructos das suas 
arvores , p ra os convert; r por meio d*este instrumento 
em huma massa acidula, que ellcs ckamao mahi. L fer^ 
mentação que esta massa experimeoia a tonm mui 



Resenha jánalyticiL 71 

apta para se poder conservar por bastante tempo ; o 
que os põem em estado de esperar pela colheita pró- 
xima. Outra precaução consiste em cultivar estas ar- 
vores nas encostas 9 pai^ tirar delias o provimento 
^ando o das planícies está consumido \ mas este re- 
cuiio pouco aproveita em annos de escassez. Nesse 
caso recorre-se ao mahi j e os habitantes que não 
iizerão iH*ovisão delle , achão-se reduzidos a buscar 
alguns cocos , raros naquella estação , ou são obrigados 
a contentar-se de fructos azedos de outras arvores* 

Não he só o íructo da arvore de pão de que 0$ 
Otabitas tirão partido ; com o liber ou segunda casca 
d'esta ai*vore fazem as tangas com que se cingem ; com 
o tronco ediíicáo as ^ suas cabanas , e delle fazem os 
seus esquifes y a que chamão morai; também delle 
se servem para construir as suas pahi ou cauoas de 
guerra mui Leves e veleiras. As folhas lhes servem de 
roupa e de louça;' sobre ellas estendem as iguarias, 
e principalmente a carne de porco , que elles assào ao 
lume dos ramos accesos juntamente com as flores da 
mesma arvore. Com o sueco que corre da incisão 
feita na casca , compõem huma espécie de visco , a que 
os habitantes da ilha de Arou chamão éucué^ com o 
qual apanhão diversos pássaros. Este sueco he com- 
posto quasi dos mesmos elementos que o caút^chue 
ou gomma elástica extrahida do heuea^ e do jatropha^ 

Anson, Wallis , Dampter , Carteret , Cook^ Sciander 
e Bougainville, tendo todos reconhecido por experiên- 
cia a grande utilidade do fructo da arvore de pãa» a 



7ft Resenha Aiudyticã. 

tem preconisado com razão como hum dos maiores 
recursos para quem navega aquelles mares; e posto 
que a reputação bem merecida desta arvore não conte 
mais de cincoenta annos, de dia em dia se vai mais 
e mais extendendo e confirmando. As nações da Eu-» 
ropa y e entre ellas a franceza,«tem mandado expedi-» 
çôes destinadas a fazer provisão doesta preciosa arvore » 
com o fim de a propagar nos seus dominios, 

Sonnerat trouxe da ilha de l^uçon 4 ilha de França^ 
estacas da arvore de pão , que dentro de pouco tempa 
prosperarão. O intendente Poivre teve particular cui-^ 
dapo da cultura delias , he bem Sabido que este sa-^ 
bio e virtuoso magistrado não cessou em cada anno 
da sua admirável administração de fazer conquistas 
vegetaes, conquistas preciosas , que sem custarem san^ 
gue , deviào desonerar a pátria do tributo pesado que 
pagava ás nações estrangeiras, k variedade d'este ve- 
getal, cu)o fructo não tem caroço, recolhida por M« 
Labillardière, foi igualmente transportada para a ilha 

N 

de França , e alli , confiada ao cuidado do jardineiro 
Lahaie , deo fructo pela primeira vez em 1800 , como 
o anunciou então M. de Céré , director do jardim bo-« 
tanico d^aquella ilha. 

Transplantada pai*a as Antilhas naturalisou-se , mas 
o terreno de Cajenna lhe foi particularmente favora* 
vel , e alli , pelo cuidado de M, Martin , multiplicou 
rapidamente. De Cayenna foi transportada a Paris 1^ 
e hoje be huma das arvores exóticas que aformoselo^ 
o grande jardim botânico d'esta capital^ 



Resenha Analjtica. «73 

Semelhante á canna de assacar e á bananeira , as 
quaes pela cultura tem perdido a faculdade de se re- 
produzirem de semente , a arvore de pão pode fácil-* 
mente multíplicar-se de estaca , assim como porgarfos, 
que a molleza natural do pao parece dispor a deitar 
raízes; mas este segundo meio he o mais difiBcil. 

Na Europa , até agora , só se tem cultivado esta ar- 
vore em estufas ; mas parece mui provável que hum 
dia venha a ser naturalisada nos paizes meridionaes 
•da Itália , em Nápoles, na Sicilia , no sul da Uespa- 
nba e do Portugal , e até em França na Provença* 
Huma presumpçào favorável de que he susceptível de 
prosperar nestes paizes, resulta da existência das es- 
camas, que protegem os rebentos dos ramos tenros ,. 
servindo-lbes de tegumento. 

O modo ordinário de preparar o fructo desta ar- 
vore consiste em o assar, depois de cortado em 
fatias , sobre as brazas ou no forno ; também se coze > 
mas para isso requei^-se que não esteja de todo ma- 
duro. Neste ultimo estado fazem-se delle massas menos 
agradáveis ao gosto, mas que fermentadas se podem 
conservar. Pode também delle eztrahir-se huma fécula, 
que he susceptivel de formar massas mui saborosas. 

As sementes desta arvore não cultivada- podem 
torrar-se , ou cozer-se em agua ; porém tem hum sabor 
aci*e , e repugnante ao paladar da maior parte dos 
Europeos, se bem que agrade aos naturaes das Mo- 
lucas , e a outros povos. 

Bem como a útil batata ^ o fructo da arvore de pão 



74 Jiesenha Anafytica» 

a principio, nas colónias francezas^só sérvia de sustehto 
aos escravos ; hoje já os riccos começâo a iazé-lo servir 
nas suas mesas , e reconhecem quehe superior á man- 
dioca e ao milho. 

Poder-se-hia seccar este firucto , depois de o cortar 
em fatias delgadas, para o privar do principio mu- 
coso e saccharino que encerra. Por este preparo se 
tomaria hum excellente artigo para embarque , e seria 
mui útil mantimento para a gente do mar» bastando ^ 
para se servir delle , humedecê-lo com agua quente. 
A massa acidula feita com o fructo maduro poderia 
ser hum utilissimo artigo da dieta dos marinheiros, 
mui próprio para impedir o esccurbuto» e suppriria 
perfeitamente o Saw kraut ou conserva de couves. 

A pezar das propriedades alimentares bem reconhe- 
cidas do fructo da arvore de pão , e do uso que delle 
podem fa^er os navegantes, cumprç observar que, assim 
como tantas outras Cructas , pode o uso excessivo d'esta 
ser nocivo , pelas propriedades laxantes de que he dota- 
da ; e no estado de nimia madureza , pela tendência 
que pode ter a occasionar a dysenteria , doença tão 
funesta nos climas quentes. 

Gonsta->nos que já no Rio de Janeiro se c«dtiva esta 
utU arvore , e he de esperar que cedo se propague por 
todo o Brazil. Também hc muito de desejar que se 
introduza no Algarve, cujo clima lhe deve necessa-* 
ríamente ser mui próprio ; e que assim se angmente a 
quantidade das substancias alimentares de que tanto 
precisamos em PortugaL 

F. S. C. 



Resenha Anafytica, ^S 



ALAVANCA 

BjdrcuâUca de M. Godin. 



A agua não he menos necessária á vida dos ammaes , 
do que á das plaptas ; por isso , o modo de aproveitar 
as aguas tem merecido em todos os tempos o maior 
cuidado , e coosiituido buma parte muito interessante 
da economia rural. Os paizes, que possuem a vantajem 
de serem cortados , em difierentes direcções , por cor- 
rentes mais ou menos consideráveis , principalmente se 
esses paizes estão situMlos em hum clima , em que os 
calores do verão são prolongados e intensos, tem 
grande necessidade de empregarem todos os meios^ 
para se servirem das aguas d' essas correntes , elevando* 
as ao nivel conveniente* 

* 

Os grandes defeitos das machinas , alé agora Inven^ 
tadas, para este fim, são: não serem assas simples, 
para se construirem com facilidade ; assaz solidas, para 
resistirem a hum trabalho violento e continuo; assax 
gi^osseiras , para estarem ao alcance da habilidade de 
qualquer obreiro , que as possa construir e concertar > 
e assaz baratas, para que o agricultor possa ser am- 
plamente recompensado da sua despeza , pelos bons 
resultados que d*ellas colher. 

£ste foi o problema , que ultimamente se propôs ro* 



76 ReseiAa Arutfytica. 

solver M. Godin , inventando huma machina , a que 
chamou Alavanca I^dreudica, para elevar as aguas 
correntes , servindo-llie estas mesmas aguas de motor» 
e aproveitando para isto a queda d^ellas, ainda que 
esta seja mui pouco considerável. A importância do 
invento de M. Godin , e o interesse que delle podem 
tirar os paises > para os quaes ésa« vemos y nos persua- 
dio a darmos, não só huma descripção simples e fácil 
da sua faiachina , ajuntando-lhe as Tx)nsideraçôes ne- 
cessárias para a construir, mas também huma estampa , 
a fim de facilitar o conhecimento d'ella ao lavrador ,, 
e ao artifice. 

Explicação da Estampa* 

Na fig. I*. representa-se a machina em perfil , e na 
a*, vé-se em planta a sua parte principal. A mesmas 
letras indicão as mesmas cousas , em ambas as figuras. 

a—AssudeiSí suç altura pode ter desde 18 poUega- 
das , até ao pes ; quanto maior for a queda da agua » 
mais vantajosa será. 

6 •— Qttelha de madeira , que conduz a agua para, a 
alavanca, a qual % de hum lado , está apoiada sobre o 
assude , e do outro , sobre huma travessa , sustentada 
por dois barrotes, pregados nos pilares, que servem 
de apoio á alavanca. 

c d — Ala\fanca , construida de huma só viga , sobre 
cujas bordas se achão pregadas taboas, que formão 
huma quelha, por onde a agua vai encher dois caixões ,, 
que se achào pregados nos extremos dá ditta alavanca^ 



Resenha AnàfytícO' 77 

« e — Eixo sobre que a alavanca faz o seu movi-^ 
mento. 

f — Caixão f formado de seis taboes, havendo, na 
que serve de tampa , hum espaço aberto , como se vé 
na fig. 3^. ; este caixão serve para conter a agua, cujo 
peso faz mover a alavanca, e se chama potencia' j ou 
motor. 

g — Caixão f da mesma forma do caixão^i o qual 
serve para receber a agua, que deve levantar-se pelo 
movimento da alavanca. 

k — Quelha , formada por quatro taboas , e pregada 
na parte inferior do caixão /de mião, que forme com 
elle hum angulo de 4^^, ou metade do esquadro. Este 
Canal serve para dar sabida á agua, contida no caixão^ 
logo que esta , com o seu*peso, tem produzido huma 
oscillaçào da alavanca. 

i — Quelha f da mesma forma da quelha A, e collo* 
cada semelhantemente , a qual serve para despejar a 
agua contida no caixão g para o reservatório k , até 

ao qual se eleva. 

jj — Caixa transversal , para conter a agua, que cahe 
sobre a alavanca, em quanto os caixões/^ sedespe- 
jão , e que depois, deve encher o caixão gy quando a 
alavanca toma a sua posição horizontal. 

k — Pia de madeira, que recebe a agua, levantada 
pela machina y donde , salie por canos , para os seus 
destinos. 



^6 Resenha AtudYtiea. 

11^ Pilotes y que servem de fMmtès , sobi^e que rodào 
os extremos do eixo da alavanca. 

mm! — Madeiro , grosso no extremo m , e que vai 
adelgaçando para o extremo rH''^ destinado (>ara dar 
maior solidea^ á alavanca , na qual está pregado , com 
cavilhas , ou pf^os , e se se jillgtir necessário , cingido 
com arcos de ferro. 

n— Pedaço de inga^ embutido, por hum extremo, em 
hum engaste quadrado, praticado no madeiro m, 
destinado para fazer que o centtx) de gravidade da 
machina esteja inferior aos pontos de apoio / /, a fim de 
favorecer as oscifll^s da alavanca. 

o — , Pilar de apoio y que serve para sustentar o 
braço mais comprido da alavanca, quando esta toma 
a posição horizontal. 

PP — Cauil/iifs de madeira f para assegurar, com so- 
lidez e economia, <f caixão/, sobre o prolongamento da 
viga , que forma a alavanca , o qual atravessa a ditta 
caixa. 

Effeitos da machina, 

A agua , chegando pelo canal b , que se termina a 
algumas poUegadas antes da vertical ao eixo e e , cahe 
alternativamente,ou para traz da espécie de diaphragma, 
que forma a parede maior da caixa transvei^al yy» ^^^ 
para diante, delle : cahe para traz , quando a alavanca 
está em posição horizontal , e para diante , quando a 
alavanca está inclinada. A agua, que cahe para traz do 



Resenha Analytiea* 79 

«liaphragma , corre pela parte c da qadha , para o 
caUào/, e a que cabe para diante do diaphragmat 
corre dentro" da caixa transversal , a qoe elle serve de 
parede , e nella se conserva, até que a alavanca^ 
tomando a posição horixontal, permitta i agnacorref 
pela parte c da ditta quelha le ir encher o caixão f.^ 

Supponha-se que a alavanca, tendo feito huma 
primeira oscillação , esteja em posição horizontal ; o 
raixào g estará cheio ; ao mesmo tempo , a agua que, 
pela quelha b , cahir sobre a alavanca , dihgir-se-ba a 
encher o caixão/, e no mesmo instante , em, que o 
seu peso for sufficiente para levantar t> do caixão g ^ 
a alavanca, principiando a tomar a posição obliqua » 
chegará ao ponto , em que a quelha h despeje no res- 
gato a caixa /, ao mesmo tempo que , a caixa g , pela 
quelha # , se despeja igualmente na pia A*. 

Em quanto isto acontece, a agua, que não cessv 

de correr pela quelha b , tem cabido dentro da caixa 

transversal j i\ e logo que os dois caixões f g estão 

vaiios, o centro de gi*avidade do systema , tende a 

restitui-lo á sua posição horizontal : nesta posição , « 

agua, retida na caixa transversal j j^ vai encher ocat^ 

xâo g, e a da quelha b^ que eutão , como se vio 

acima , cabe para traz do diapbraguia , vai encher o 

outro caixão/, de que; se segue huma nova oscillação, 

e por este meio , bum moviuiento successivo e não 

intci rompido, 

Cunstrucção. 
Comprimento da alavanca^ Trace-se bum quadrado , 



8o Resenha Analjrtica. 

ctijos lados sejâo iguaes á altura vertical, a que se 
pertender elevar a agua : a diagonal doeste quadrado» 
úiais duas vezes a largura do caixão ^9 dará o com- 
prímentoV total da alavanca» a qual» no seu movi^ 
mento , deve descrever hum angulo de 45^» 

Comprimento dê cada braço. A diíFerença de com- 
primento entre os dois braços da alavanca , tomado o 
-dittQ comprimento desde o eixo da mesma alavanca 
até ao centro de figura de cada caixão , deve ser pro^ 
porcional á differença que existe entre a qué(}a da 
agua^ea altura a que ella se quer elevar, ajuntando 
ao braço maior duas vezes a largura do Caixão , que se 
acha na sua extremidade. Assim , se a agua deve ser 
elevada a 3 vezes a altura da sua queda, o braço 
maior d será 3 vezes mais comprido que o braço c , 
mais duas vezes a largura do caixão gr, ou , o que he 
o mesmo , o braço menor e será igual a j do braço 
maior J, menos duas vezes a largura do ditto caixão gr. 
Se acaso na construcçào não se tiver conseguido exac* 
lamente p ponto de equilibrio , necessário ás funcções 
da machina , junta-se , ao braço mais leve , o peso con^ 
veniente , para restabelecer este equilibrio. 

Capacidade absoluta dos caixões. Gomo a velocidade 
mais conveniente da ^avança he a de 4 ou 5 oscilla-' 
çôes por mmutò , para empregar toda a agua do re- 
gato no movimento da machina , deve a capacidade 
total dos dois caixões ser iguar a | ou | do volume 
de agua , que pode dar o regato , no espaço de hum 
minuto. 



I 

jlesenna Analyíicài 8í 

Capacidade relativa dos caixões* Estas capáciâadeâ 
devenf guardar a mesma proporção , porém em sen-" 
tido inyerso; isto he^ o maior caixão deve pertencer 
ào menor bi*açó , é recipí*ocàmente -, knas como este 
caixão maior hé dôstlnádd para servir de potencia no 
nioviménto , he hetíessario dar-lhe , alfem da grandeza 
(Jue lhe toca , pela sobredilta proporção, mais y da sUa 
capacidade , que ao outro. D'este modo , nO eiemplo 
de qiié dos servimos, pára calcular o comprimento dos 
braços^ o cáixàò/ será maior que ó caixão g à veze» 
e mais i véz,istobé, estai'á paira elle, cómô4: i- 

Capacidade da caixa transversal^ Esta caila deve 
ser dupla do caixão menor , em razão da obliquidade 
em que se acha ^ quando se enchei Cumpre notar que 
a parede maior doesta caixa, ( a qual parede chamámos 
díaphragma , pela funcção que exercita a parte supe- 
rior delia, de dividir as aguas , que devem encaminhar- 
àe aos dois caixões) para poder conseguir perfeita- 
mente este fim , e embaraçar , quando a caixa trans-» 
versai está mui cheia , que d^ella corra alguma agua 
pára o caixão /, o que retardaria o movimento , deve 
aquella parede levantar-se huma pollegada sobre a 
quelha* 

N. Bi As proporções entre as três dimensões dos 
caixões , assim como da caixa transversal, não sãoin-i 
differentes, quando se pertende economisar a queda 
da agua : e como ha pouoo inconveniente em augmen- 
Var o comprimento daquelles três depósitos , construir* 
se-hão estes, augmentando o seu comprimento, e ái-* 
Tom. IX. 6 A 



8a Resenha Analítica, 

minuindo proporcionaliDeote a sua laiigiira e profun* 
didade, que^ deverão ser if^aes. 

Capacidade das quelhas fixadas no fundo das caixões* 
Duas reflexões concorrem para determinar esta capa- 
cidade : I*. que o càixào pequeno se despeje , pelo me- 
nos j no mesmo tempo que o grande , para que o 
movimento seja perfeito ; a*, que a agua não corra 
dos caixões,^ senão no ponto em que a alavanca ter- 
minar o seu movimento. Da i*. consideração se vé 
que a quelha i, do caixão pequeno » deve ter huma 
largura , a respeito da quelha h do caixão grande , 
maior òo que a que resuhar da proporção que 'existir 
entre os dob caixões. Da 3*. consideração se colhe que 
á quelha menor i deve dar-se hum comprimento igual 
a duas vezes a profundidade do sen caixão g^eá que- 
lha maior h três vezes a profundidade do seu caixão/. 

Inciinaçãú das qmihaa eHabeteoidas no corpo da 
alMHi^CíÊh 4^ 4ufis quelha» ^ que desde o dkiphragma 
covidua^em a agua aos àcis caixões, findos nos extremos 
da alavanca , devem ter, cada huma, huma certa in- 
clinação pava o lado do caixão €OKrespoiide»te , para 
£icilitar a consente da agua. 

Eixo e sua posição^ O eixo , sobre o qual a alavanca 
faz as SMS osciBações , deve ser construido de huma 
forte barra de ferro , e os seus extremos devem ser ar- 
redondados. Para que o movimento seja mais livre » 
será melhor que estes extremos rodem dentro de hum 
espaço, não redbndo , mas quadrado , a iim de esta- 



Resenha AnatyUcà. $3 

belecer hnma fricção de segunda ordem, e que esto 

ff 

' espaço seja suficiente^ para que o eixo possa fazer hnni 
oitavo de revolução; neste caso, será conveniente 
forrar o fundo do espaço com hama chapa de ferro. 
A posição do eixo deve ser exactamente por baixo da 
prancha ( a que temos chamado diaphraf^ma ) , a qual 
divide as aguas da quelha c , das que correm dentro 
da caixa tran»versal/y« 

Pilar de apoio* He dafo que a altura doeste pilar 
deve ser igual á altura dos pontod sobre que rodão 
os extremos do eixo da alavanca , nos áo\i pilares que 
o sustentão. Para conservação da machina , será bom 
ter a precaução de guarnecer a extremidade do pilar 
de apoio , com algum corpo brando , como couro , 
por exemplo , para receber o choque , poAo que fflui 
suave, que produzir aoscillação da alavanca, quando 
tomar a posição horizontal. 

Quelha ^ que traz a agua ão assuáe» Da qcre está 
ditto se vé que cumpre haver grande cuidado em 
que esta quelha tenha o comprimento necessário para 
que a agua, que por ella vem, caía precisamente 
sobre a quelha estabelecida no braço mais pequeno 
da alavanca, ou para traz do diaphfagma^ qnando 
esta e^iver na posição horizontal ; e pelo contrario , 
caia dentro da caixa transversal, ou para diante do 
rliaphragma, logo que a mesma alavanca tiver des* 
cripto metade do seu movimento total. Para isto con* 
vém que a dftia qMttia , que traz a agua do assude , 
«eia larga j pouco frofimda e approximada até á ala^ 



84 Resenha Analftica. 

yanca, mas de modo, que não embarasse*as sua^ 
oscillações. ^ 

Tal he a nova machina de M. Godia , por meio da 
gual se pode elevar a agua de huma corrente a huma 
altura tripla , ou quadrupla , da sua queda , o que 
çomprehende os casos mais geraes na agricultura- 

O autor, para tirar da sua invenção a máxima uti- 
lidade y achou meios simples de a modificar de sorte , 
que possa servir para elevar as aguas a huma altura 
maior de loo pés, estabelecendo, na parte superior 
da alavanca, hum madeiro, que forme também ala- 
vanca , mas em sentido contrario , cujo braço mais 
curto coincida, ou se approxime ao braço mais com- 
prido da alavanca inferior, sustentando^ d'este modo, a 
parte do seu peso , por meio de hum contrapeso , 
colocado no braço opposto da alavanca superior. 

i 

m 

Alem disto, M. Godin lembra que , coUocando outra 
alavanca, de modo que fique superior á primeira, da 
qual possa receber ao mesmo tempo a agua, e por 
ella o movimento , por este systema composto , se con- 
seguirá elevar a agua ao dobro da altura, a que , por 
meio de systema simples , poderia subir. 

Ultimamente , o mesmo autor faz a applicaçâo da 
acção da siia alavanca , para fazer mover o embolo 
de huma bomba de compressão. 

Como a machina simples tem as duas grandes van- 
iajens de comprehender os usos mais geraes da agri- 



Resenha jánafytica. 85 

cultura y e de se poder construii* e reparar com grande 
facilidade , julgámos convemente limitarmo-nos a ex- 
plicar y com a maior clareza que nos foi possivel , este 
excellente invento , na sua applicaçào simples , assaz 
sufficiente para os casos practicos , deixando as modi- 
ficações y que o autor lhe deo , só applicaveis a casos 
menos vulgares , e mais complicadas. 

Antes de concluir este artigo^accrescentaremos huma 
observação importante , sobre a vantajem da machina 
de M. Godin. Se acaso se considerâo as diflerentes 
machinas para elevar a agua , e que tem por motor 
somente a queda , ou a velocidade doeste liquido , vé- 
se não só^ que ellas elevão tanto menor quantidade 
de agua , quanto a altura a que a elevão lie mais con- 
siderável , do que a queda motriz ; mas também que, 
ainda das mais perfeitas, apenas se obtém os f d'este 
resultado; que a maior parte não dá mais de ^y e ou- 
tras > como a antiga machina de Marly^ não dão senão 
flõ > c aquella machina famosa , mandada construir, em 
outro tempo , para elevar as aguas do Sena até aos 
famosos jardins de Versailles, istobe, a huma altura 
igual a .cem vezes a sua queda , não elevava mais do 
que a decima millesima parte da agua que produzia a 
força motriz : a alavanca hydraulica , de que temos 
tratado , quando he bem construída , e a queda de 
agua alguma cousa considerável , pode empregar até \ 
da força motriz, e produz em agua a metade d'este 
mesmo peso. 

Qs proprietários da Província do Minho» onde a 



8S Béimíha AnaUytiem. 

•griedtinni em Portugal se acka em naior adianu^ 
mento « caberão , com pracer^qoe na Academia ResA 
fia Marinha e Commercio da cidade do Porto, existe 
iinm modelo da Abumtica liyAmutka de M. Godin , 
i^ue o Sn^ Joaquim Mavarro de Andrade , Director 
literário d^aqvdle Sstabeleeianento ^ mandou ir de 
Parts. Estamos eettoe que este 8jJ)io > xeloto do bem da 
pátria , e por isso , do adiantamento da agricultura , 
terá hum particular praKer em dar conhecimento do 
ditto moddo, a todos os que o desejarem. A vista 
d^eUe , melhor do que sobre a Estampa , se conven« 
cerão os lavradores da simplicidade e utilidade d'esta 

mt$re9santç m^china. 

Cl* X* 



Resenha jánafytica. 87 



NOTA 

Sobre hum Pecegiieiro nascido de humã amêndoa; 50- 
guida de algumas observações sobre a origem do Po* 
cegueiro. 



^^^^^«^»»%»i^v%>%^<^i 



litADTTznios a seguinte Memoria do inglez, pela sin- 
golarídade do sen conteúdo, que excitaria algumas 
duvidas em quanto á existência dos factos neUa ex- 
postos, se não fòra a insta reputação do seu autor 
M. Thomas Andrew Knight , membro da Sociedade 
Beál de Londres , da Linneana e da HorúcúUural da 
mesma cidade, e bem conhecido entre os botânicos 
pelos seus interessantes trabalhos sobre a physica ve- 
getal. Ainda quando possão subsistir algumas duvidas 
sobre o pfaenomeno de que trata a Memoria , he ine- 
gável que, vista a autoridade de quem o attesta, 
cumpre, antes de o negar, submettê-lo ao mais attento 
exame. A Memoria foi dirigida á Sociedade Horticvl" 
twral de Londres , da qual o autor he presidente. 

« Tomo a liberdade de mandar á Sociedade dois 
pecegos de huma nova variedade ; não porque os f ulgue 
dotados de alguma qualidade particular ^ mães sim em 
rarào da sua singular origem, pois que provém de 
huma arvora que eu obtive semeando huma amêndoa 
doce , e só pelo concurso do poUen de hum peoego« 



88 Betenha Ançfytíem, 

k «nrore Ato sek praegos , alem dos qae remetto i 
Sociedade ; três delles , ao amadurecer , se abrirão 
como amêndoas ; os outros coBserrárão sempre a for- 
ma e os caracteres propiíos de pecego : todos os seis 
erào doces e de hama pcdfa macia. Ham d'elles tinba 
bnm Tolame superior zo do maior dos que remetto 
a Vm.«» y e tinba de drcomferencia oito poUegadas. 
A anrore cresceo em bum vaso qae continba apenas 
bom pé quadrado de terra ; e como em todas as minbas 
experiências tenbp observado» qae os primeiros. fruc- 
tos de arvores novas são muito mais pequenos que 
os das novidades segnintes , penso que os (hictos doesta 
variedade , que eu colher para o futuro , excederãp 
muito em grandeza os que tendes presentes. 

Os caractefes geraes dos fructos que vos envio , e a 
pequenez do caroço » comparado com o da amêndoa , 
darão talvez lugar a que a Sociedade descopíie que 
nesta experiência pos^ ter bavido algum engano ; maf 
eu posso asseverar qiie não be ppssivel que se com- 
mettesse erro algum , e que o resultado me çurprendeo 
muito 4 mim mesmo. Com efièilo % eu não tiqba es- 
perança aljjuma de que bpma i^rvore capaz de dav 
pecegos sumarentos podesse provir immediatamente 
de bum» amêndoa; se bem que bavia já muito tempo 
que eu me inclinava a crer que a amendoeira e o 
pecegueiro constituem buma só espécie , e que buma 
fimendoeira , cultivada de maneira conveniente , pode, 
passado bum numero cjonsideravel de gerações ^ torr 
»ar-se em pecegueiro. 



Resenha Analytica. 89 

Varias circurnstancias da bistTÍa do pecegueiro me 
pareciào favorecer esta ideia. Esta arvore parece ter 
só. começado a ser conhecida na Europa debaixo do 
Impenidor Cláudio, e o autor o mais antigo que falia 
d^ella he, segundo creio > CoIumeUa. Plinio foi o pri- 
meiro que deo hum a descripçào exacta do pecegueiro ; 
julga que veio da Pérsia a Itália, por via do Egypto 
e de Rhodes : e he no primeiro doestes paizes que, 
segundo a opinião a mais geralmente admittida, esta 

arvore foi primeiro cultivada. He comtqdo difficil con- 

• 

ceber que o pecegueiro houvesse existido na Pérsia al- 
guns centos de annos antes da sua primeira appariçào 
na Europa ; pois que os Gregos , que então tinhào com 
aquelle paiz frequentes relações , indubitavelmente te- 
riào conhecido esta arvore. Ajuntemos a isto , que os 
reis da Pérsia , tinlião quasi sempre médicos gregos 
junto á sua pessoa , e que estes erào versados na bo*^ 
tanica , da qual faziào hum estudo especial. Os tuberes 
de Plínio parecem ter sido hum fructo que participava 
da amêndoa e do pecego -, pois que , segundo este es^ 
criplor , a arvore que dava esta fructa tinha stdo pro« 
pagada por enxertia em pé de ameixieira ; que flores^ 
cia mais cedo que o damasqueiro ; que o fructo era 
coberto de hum espesso cotào, no que se parecia 
com o marmelo. 1 

Por isso , penso que ot tuberes erão grandes amen-^ 
doas ou pecegos imperfeitos ( porque esta fructa parece 
ter sido mui pouco estimada dos antigos ). Duhamel 
falia nas suas obras de hnm (ructo que provém algU'^' 



,90 Resenha Anafyiicã. 

mas vezes de certas vadedades de amendoeiras , & ao 
qual a precedente descripção convém perfeitamente : 
este fructo he mui a^o , e não se pode comer ci*u. 

A acerbidade do fructo , nesta circurnstancia, pjro- 
vém, segundo creio, da presença de huma pequena 
quantidade de acido prussico ; e como este acido causa 
muitas vezes péssimos efieitos , por este principio se 
explica a opinião , que se espalhou mui geralmente no 
Império romano quando os pecegos forão pela primeira 
vez trazidos da Pérsia , de que esta fructa tinha qua* 
lidades venenosas. 

A identidade da amendoeira e do pecegueiro , quando 
^enfaa a ser estabelecida de huma maneira incontestá- 
vel, não terá y a meu ver, outra utilidade senão de 
mostrar até que ponto a cultura pode mudar a forma e 
qualidade dos fructos. Pelo que me toca y eu tinha feito 
a experiência quedeo lugar a esta Memoria unicamente 
no intuito de me certificar em quanto á identidade 
especifica ou a diversidade do pecegueiro e da amen- 
doeira; e espereipelo resultado , qualquer que elle 
fosse , com a maior indiferença. Todavia , como o 
pao da amendoeira se forma nos nossos climas mais 
depressa e mais con^plettamcnte que o do pecegueiro , 
e como as flores d'aquella arvore resistem mais, não 
perco a esperança , á vista das observações que tenho 
feito sobre os hábitos 4as minhas plantas novas» de 
vir a obter dififerentes boas variedades de pecegos* de 
huma amêndoa , depois da segunda ou terceira geração. 
Ate' ao presente só tenho visto o fi ucto de huma única 



JSesenha Anal(^a. 91 

das mmlias arvoreziabas y o qual não promette muito ; 
porém tenho outras que florescerão para o anno , buma 
dos quaes tem por p^i o pecego temporão roxo ( early 
violet nectarine ) ; tem bellas folhas largas , buma casca 
roxa, e offèrece todos os caracteres de hum pecegueiro 
4sL melhor espécie ; razão por qat me lisoujeo de poder, 
para o aiiuo que vem » remetter-vos fructos doestes de 
melhor qualidade. » 

Nota do Secretario da Sociedade fforucukural. 

<^ A forma dos dois pecegos a que se refere a prece- 
dente Nota era a ordinária d'este fructo ; o maior dos 
dois tinha sete poUegadas de circumferencia;a pelle, 
coberta de hum cotão bastantemente espesso , era de 
bum amai^ello delicado; porém no lado que tinha es- 
tado exposto ao sol, vião-se veios encarnados. Por 
dentro erà de côr de Umão desmaiada; á roda do ca- 
roço era de hum vermelho de carmim mui vivo : o 
fructo era doce , macio e mui sumarento , mas tinha 
pouco sabor : be verdade que tinha sido magoado no 
transporte. O caroço pareceo-nos mui grosso , relativa- 
mente ás dimensões do pecego;era quasi redondo , e 
bastantemente escabroso , e em buma das extremi- 
dades rematava em huma pequena ponta. A superfície 
«xteríor estava toda coberta de huma quantidade não 

Íeqatna da mesma farinha que st observa sobre as 
mendoai frescas* O caroço separava-se facilmente da 
carne, e mui pouco* filamentos ficavio pegados a eUe. » 

F. S. C, 



gn Resenha Analytica. 



LIURO 

Da Enssjnança de bem caualgar toda sela que fez Elrrei 
' Dom Eduarte de Portugal e do jálgarue e Senhor 
de Cepta o qiuã começouem seendo Ijffante. 

Códice 7007 da Bibliotheca Real dos M. S. de Parts. 



^f^^0^^m^^%^^^^0 



( SEGUNDO E ULTIMO ARTIGO. ) 

JM o Tomo VIII príncipiámos a examinar o Códice 7007 
da ^ibliotheca Real dos Manuscriptos de Paris , dando 
conta do Leal Conselheiro , que faz a primeira parte 
d'aquelle interessante Códice ; para concluirmos o ditto 
exame , segue-se darmos conta do Liuro da Enssy- 
nança de bem caualgar toda sela j ajuntando a este 
trabalho , como promettémos , as observações , que 
nos parecem necessárias, para rectificar o artigo da 
Bibliotheca Lusitana, relativo aos escriptos do Sn^. 
D* Duarte, 

A ideia geral, que já dêmos , da parte material d'd- 
quelle Códice , nos dispensa de fallarmos aqui d*ella ; 
limitar-nos-hemos ^ em consequência, a produzir agora 
somente os signaes característicos e particulares do 
manuscripto, 4^ que nos occupamos. 

Começa pois o Livro da Enssynança : « Em nome 



Resenha Analjrtica. cjò 

de nosso Senhor Jeshu Ghristo com sua graça e da 
(Jirgem Maria sua muy saneia madre nossa Senhora. 
Começasse o liuro da enssynança de bem caualgar 
toda sela que fez Elrrey dom Eduarte de Portugal e 
do Algarue e Senhor de Cepta o qual começou em 
seendo lí&nte. » 

O Prologo principia d'este modo : « Em nome de 
nosso Senhor ihesu xpo, segundo he mandado que 
todallas cousas façamos ajudando aquel dito que de 
fazer liuros nõ be fim , por alguu meu spaço e folgança, 
conhecendo que a manha de seer boo caualgador he 
húa das principaes que os senhores cauallejros e seu* 
deyros dcuem auer. Screuo algúas cousas etc. » 

O Livro acaba do modo seguinte : « Das que correm 
ho mato saltando sobre a$ maães carregadas diante e 
que carreguem sobre os freos , e das fracas dos braços , 
de logares de couas de coelhos e muito molhadas 
charnecas mais se guardem. » D. Eduardus. » 

Para dar huma ideia geral da obra de que,tratamos , 
pareceo-nos , seguindo o methodo , que adoptámos no 
primeiro Artigo /que o leitor folgaria de encontrar 
aqui hum Index ou Taboada dos capítulos d^ella^ e 
por isso j bem que este Index não existe no Livro da 
Ensinança , como existia no Leal Conselheiro , orde- 
námos fielmente hum , que ajuntaremos no fim doeste 
Artigo, pelas mesmas razões porque assim o fizemos 
já I quando examinámos esta primeira obra. 

Dos diíTcrentes Capitolos d* aquella Taboada, e dos 



g4 jRegmiha Anmfytiea. 

títulos dififeroDles , debaixo dos quaes o Sn'. D* Duarte 
os classificou , não só verá o leitor o espirito de me- 
thodo e de ordem , que presídio a este escripto , ma9 
observará especialmeE^te como o facho da philosopbia 
guiava )á então o autor em todas as suas composi- 
ções ; e no simples cavalleii*o , que se propõe apenas 
a escrever preceitos sobre a manha de seer boo caualga" 
dor, reconhecerá desde logo o mesmo Princepe philo- 
sopho , que , mais tarde ^ havia desenvolver e explicar 
profundas verdades de moral e de patriotismo aos 
coitesãos , e advertir ai amente os Soberanos de que 
per excmpro do rei os de sua terra muitos se gouemam^ 

Assim y antes de (aliar dos preceitos , começa o Sn**« 
]>. Doarte a tratar da vontade ; procdrttido determinar 
0síak pelo bem, honra ^folgança e a^uda qat da arte de 
bem cavalgar reaultiOyna paz e na guerra, respon-» 
dendo para isso aos argiunentoa, que centra ella so 
podem fazer. Delerminada a iKxiUde , trata o autor ck> 
poder, e examina as forças physicas e pecuniárias in- 
dispensáveis para cultivar a arte. Depois d^isto vem os 
preceitos : para os executar , he necessário destreza e 
força no corpo , tranq/uillidade e socego no espirito; 
esta segunda parte offerece ao Sn^^.D. Duarte largo 
campo para examinar as diversas fontes donde a tran* 
quilUdade do espirito dimana , e permitte-lhe ajuntaria 
propósito, doutrinas úteis , que pareceriào inteiramente 
estranhas em semelhante assumpto. Se no conheci^ 
mento das regras se vé o mestre da arte , na discussão 
d'ellas descobre-se o philosopho , na llgaçào iirtima da» 



ReserJia AnaU^tica* g5 

reflexões com os preceitos mostra-se o escriptor hábil , 
e em tudo transparece o homem moral e Ttrtooso. 

E posto que o exame da Taboada , como dizíamos , 
convencerá facilmente o leitor da verdade d*esta nossa 
proposição , produziremos , comtudo , alguns exem- 
plos , que a possão confirmar. 

Tendo o autor tratado, em três Capítulos successivos, 
das vantajens que resultao de andar bem direito na 
sella, e de prevenir o cavalleii*o con^a as manhas, 
com que os cavallos pertendem ás vezes derribá-lo , 
accrescenta hum quarto capitulo, em que applica á 
practica da vida humana os preceitos , que acabou de 
dar. Pelo prmcipio doeste Capitulo avaliará o leitor o 
espirito d'elle : « Tal geíto como este , dis o autor , 
dandar direito na besta itte parece que deliramos teer 
em os mais de nossos feitos para seermos na rnnodo 
boos caualgadores, e nos teermos ibrte de «om cair 
peras malicias com que muylos denrUbam cfcc. n 

Assim mesmo, «e acaso intenta mostrar no Capi* 
tdo X da 5'; Parte, como os que Justai erráoper des- 
hordenàçu de uoóUuie ^ coBieça por explicar os diver- 
sos modos por qiue a vontade obra em nós ; mas come 
esta digresfião pareceria demasiadamente alheia do 
seu assumpto , o So''- D* Duarte não se esquec^o de 
prevenir este inoonvenienle , e por meio do período 
seguinte > habilmente dispoz o seu leitor para entrai^ 
com eile na dáscussão. « Por faUar na segorwça da 
uontade , diz o autor , quQ perteéce para bi eacõtrai .. 



çfi Resenha Aruúortica. 

a my pra^ fazer alguu tresayamento de* preposito por 
dar algua ensynaDça aos que de taaes feitos nô tèe 
gi^ande conhecimento. » E tendo, neste Capítulo ^ di- 
vidido a vontade em carnal , spiritaal , prazéteyrd e 
obediéte ao entender , mostra que o comprimento das 
primeiras três fas segu;jrr e cayr etn grandes erros e 
maldades j e que só a quarta todaUas cosas que se apre- 
sétam ao coraçó de cada huma destas trees as oferece 
ao entcder e razom que julguem se som de fazer ou 
Içyxar. 

Para acabar de tratar a matéria , faltava-lhé mos- 
trar por meio de que virtudes resistíamos a humas , 
e seguiamos a outra ; o Sn>'< D. Duarte , com huma só 
phrase , continuou a ligar habilmente este novo Capi- 
tulo com a matéria , e a sustentar a attetiçào do seu 
leitor. Eis-aqui como elle principia : « Por screuer se- 
gundo perteence a trautado de caualgar. três ÍFreos som 
per que nos reteemos de segnyr as três uontades e no» 
aderençamos per a quarta. » 

Em fim , se o seu objecto he tíiòstrar qutfrito convém 
ao cavalleiro a segurança , desenvolve o autor as cau- 
sas moraes, que muitas vezes se lhe oppõem^e os 
eSeitos que da falta d*ella resultão. Hum d'este8 ef- 
f eitos he a tiigança : aqui o Sn^. D. Duarte , conhe^ 
cendo quanto convetn , pafra ser darò y definir ais pa-< 
lavi*as y e particularmeáte distinguir bem as gradações 
de significação, muitas vezes qtiasí imperceptíveis y- 
que existem efitré os synonymos , exf^ca judiciosa^ 
mente a difierença f que ha , entre Ihgança e i^uça. 



IÍÊsenha Afm^ytica. ty] 

«E vkòo be de filhar, escrevia sobre ista o Sn^ D. 
Duarte, uo €ap. II. da 3*. Parte , que se fas hiia cousa 
com trigança. por se fazer com boa aguça, ca muyto 
disuairõ antressy per esta deferença. aguça fas sem 
tardança cõprír o que manda o boo e dereito entender. • 
E a tingança uem do coraçom. por seer geerabnente 
em todos seus feitos trigoso. por sé temer em algnas 
coQio suso he scripto* ou auer com ella sobôa uooi^- 
tade e as mães uezes ias mal obriar. sépr^ mostrando 
my gua de segurãça. » Donde se vé , segundo nos pa- 
rece, que trígança significava precipitação, ouaccele- 
ração precipitada , como escreveo o nosso Bernardes ; 
e aguça queria dizer pressa com reflexão, istolie^aquella 
que se explica ^ov festina lenle. Esta explicação he 
tanto mais interessante para nós^ que os nossos Dic- 
cionaríos explicâo ambos estes vocábulos por pressa , 

* 

e o laborioso Moraes, que tinha entendido , trigança 
por acceleração, com a autoridade de Pinheiro, con- 
fundio inteiramente a diflerença de aguça, dando-a, 

sem autoi Idade alguma , por sofreguidão ( aviditas ). 

* 

Por este modo , o Sn''. D. Duarte , elevando até á 
dignidade da penna de hum philosopho,hum assumpto, 
que tào pouco parecia prestar-se a isso , rocorreo sem- 
pre ás causas moraes para explicar os efièitos physicos , 
^oube ligar com a matéria lições sublimas da moral 
mais pura , e fez transparecer já neste escripto , ^aquelle 
espirito philolpgico, e aqueUa tendência para p bom 
gosto, que mais tarde , devia melhor desenvolver no 
Leal Conselheiro. ' , 

Tom. IX. 7 A 



g8 Resenha Anafyica, 

.' .Tal he a ideia geral que podemos dar ao leitor do 
Liuro de Enssynança de bem caualgar toda sela : 
delia: se vé , ao mesmo tempo , que, em quanto ao 
estylo , o sen autor tinha começado iqui cedo a forma* 
lo; porque o d'esta obra não nos parece inferior ao 
do Leal Conselheiro ; pelo que toca á linguagem , 
f^do achado nella as pobrezas e defeitos próprios 
d^aquetta idade , observámos , comtudo , buma circum- 
stancia , que nos parece digna de ser mencionada. 

Todos sabem que, nos princípios doSeçuloXV, a 
serie dos adjectivos numeraes ordinaes até vigésimo^ 
era muito interrompida, e de alguns nem se achão 
exemplos ; Gomes .Eannes de Zurara i ainda no tempo 
do Sn*^. D. Afibnso V, escrevia : no doze capitulo de 
Tobias; em o dezoitp capitulo de «S* Lucas ^ etc , o 
Sn^ D. Duarte, ensinando n^' Parte 3*. dezaseis auysa- 
mentos ptyncipaes ao boQ caualgador , por esta occa- 
siào , nos dá escriptos por extenso : huudecjmOj duo- 
decymo , terdeq^mo , quatrodecymo j qu^todecymo , sex- 
todecimoj e com isto no§ indica facilmente o modo 
.porque teria continuado a serie , até vigésimo. Nesta 
mesma serie escreveo elle seitemo , que , no Leal Con- 
selheiro , escreveo depois septimo ; e nono , que , tam- 
bém depois , naquella obra , escreveo noueno. 

Acabado assim o exame do importantissirao Códice 

7oo';| da Bibliotbeca Real dos Manusmptòs de Parts, 

•que/noTotno antecedente tínhamos começado; para 

cumprirmos cabalmente o que proihetteinos, resta 

ainda oíTerecermos ao leitor as observações que nos 



liesenha ^nafyticà* 09 

parecerão necessárias para rectificar o catalogo dos 
escriptos do Sn<^. D. Duarte na Bibliotheca Lusitana* 

No prímçiro Artigo doeste nosso trabalho , tendo 
somente por objecto mostrar o interesse , que resul- 
tava á literatura antiga nacional , àe lhe darmos co-^ 
nheòiménto dos dois manuscriptòs do Sn^. D. Duarte , 
que temos examinado , por não complicar a matéria ^ 
contentam o-nos Com produzir então as autoridades de 
Fr. Bernardo de Brito e do Abbade Barbosa , e com 
deduzir d*ellas esta conclusão : que das obras de maior 
extensão , escriptas por aqueile Monarcba , nada se 
sabia que existisse já naquelles tempos em Portugal ; 
e ajuntaremos aqui, que^ quando assim o escrevemos, 
entendiamos somente obras de maior extensão escri^ 
ptas em linguagem portugueza. Agora porém ^ que he 
preciso tratar expressamente huma proposição, que 
então não era senão incidente , permittir-nos-ha o leitor 
que entremos com elle em hum exame mais miúdo 
dos elementos , de que depende o desenvolvimento 
d'ella* 

De todos os autores portuguezes , de que temos no^ 
ticia, e que podemos Consultar, os primeiros, que 
sobre a matéria escreverão, com mais individuação, 
forão os dois chronistas contemporâneos Fr. Bernnrdo 
de Brito e Duarte Nunes de Leão; e não repetindo 
agora aqui o que diz o primeiro , que já dêmos por 
extenso no primeiro artigo, produziremos a autori- 
dade do segundo , tirada do Capitulo XIX da Chronica 
d^aquelle Monarcha. «... na Ungua latina , diz Duarte 

7* 



too Resenlia jánafytica* 

Nunes , eícreveo alguns liuros de cousas moraes , e 
entre elles hum tratado do regimento da justiça , e dos 
Officiaes d'ella , de que huma parte se vá ainda agora 
na Gaza da Supplicaçào. Escreveo outro tratado diri- 
gido á Raynha sua molher., cu)o titulo era do Leal 
Conselheiro. Fez outro liuro , para os homês que an- 
dão a cavalo , em que parece daria algus preceitos de 
bem caualgar , e gouernar os cavalos. » 

Devemos pois a Duarte Nunes saber, ao menos» 
que o tratado do Regimento da justiça et^L escrípto em 
latim 9 o que Fr. Bernardo de Brito nos tinha deixado 
pei*feitamente ignorar, e das suas palavras melhor 
diremos , que até no-lo tinha dado como escrípto em 
portuguez , a pezar de ser d*este mesmo tratado , que 
elle tinha visto os grandes fragmentos em hum Usro 
pequeno. Comtudo , he bem notável que Duarte Nunes, 
que nàô. era menos hábil chronista que philologo , 
fallasse , assim mesmo, t&o ligeiramente de hum livro, 
que já no seu tempo devia ser precioso , ao menos , 
pela antiguidade e pelo autor, sem nos conservar, se 
quer, o titulo original d^elle , mormente , existindo , na 
Gaza da Supplicaçào , huma parte do mesmo livro , a 
qual Duarte Nunes , na qualidade de Magistrado d'a- 
quelle Tribunal, e de homem tão amigo das nossas 
cousas , e em particular da nossa literatura , não teria 
deixado de examinar. 

■ 

Esta fsáta aèé faz duvidosa , no texto, a linguagem em 
que forào ^criptas as outras obras, de que o histo- 
riador fez menção : e isto he de tal modo verdade , 



Resenha Andfytica, loi 

w(ue D* Nicolao António, na passagem , que mdXé^ 
abaixo transcreveremos , interpretando a autoridade de 
Duarte Nunes , disse y que o Leal Conselheiro do Sn^ 
D. Duarte tinha sida ptoi^as^elmente esaúpto em por- 
tuguezy seguiylo $e podia conjecturar, por ter sido 
dedicado á Rainha sua mulher. Donde se \é que da 
pouca 'ciai^za» comqueeítes dois beaemeritos escri- 
ptores se explicarão , podemos dizer com justiça , que 
se Fr. Bernardo de Brito nos deixou entender que os 
tratados do Sn'. D. Duarte erào todos escriptos em 
portuguez y erro que Barbosa não corrigio , DuáRe 
Nunes de Leão explicou-se de modo, que parece que 
todos forào escriptos em latim. 

Mas y seja qual for a obscuiidade com que estes doia 
autores se explicarão, e a causa d'ella, o certo he 
que os outros , que se lhes seguirão , souberâo , a este 
respeito , somente o que estes lhes ensinarão. Manoel 
de Faria e Sousa , o mais antigo, depois d*aqueiles 
dois , e que ainda viveo no tempo, de Fr. Bernardo de 
Brito, na sua Europa Portuguesa (i) copiou exacta- 
mente Duaite Nunes y posto que o não citasse, e sobre 

(i) Gomo o nosso fim he facilitar ao lekor a prova d'e8taf 
asserções , copiaremos aqui as passagens que citarmos. 

£n la lengoa latina es críbid libros de moralidad. Uno dellos 
d' cl Regimiento do la Justicia , y de sus officíaies : permanece 
un pedaço en los Escritórios dei Consejo Real. Qtro dei buen 
G}U5ejero , y dedicole a la Reyna su muger. Otro de la gineta y 
brida. Tom. II. Part. III. Cap. %, 



103 Resenha Analytica, 

o testemutilu) do mesmo Duarte Nunes, se fundou 
igualmente o laborioso D. António Caetano de Sousa , 
na sua preciosa Historia genealógica (i). D. Nicolao 
António, de que acima falíamos, escrevendo a Bi- 
bliútheca Hispana i)etus (a) , traduzio por extenso a 
passagem de Brito , e produzio o testemunho de Duarte 
Nunes , cuja chronica , por equivocaçào , disse ser 



, (i) Escreveo na língua latina alguns livros de cousas moraes, 
bum do regimento da justiça , e seus oíliciaes , qiie, diz o Dés.or 
Duarte Nunes de Leão , permanecia no seu tempo uo supremo 
Senado das justiças, Escreveo hum tratado, que intitulou o 
Jjdàl Conselheiro , que dedicou á Raynha sua mulher , outro 
livro sobre o uso de andar a cavallo. Liv* III. Cap. ^o. 

(3) Scripsit in philosophia morum non contemnenda vulga- 
ris LusitancB suíb Unguas opuscula , se. De consiliario fideli. De 
bono regimine justitiae , cujus libri fragmenta aliquot haiud parvi 
roomenti se vídisse in códice admodum antiquo , Lusitaniae mag • 
nus historicus Bernardus Brittus ait , nec non et de misericórdia. 
Quae tria idem Brittus laudat. Auctor autem historiíe hujus 
Eduardi Regis , quae oaeteras superiorum Regum sequitur , ac 
Moderici Pints , vulgo exisiUnatur opus , secundum illum de Re- 
gimine ju>titi2e latine ab eo fuisse forroatum coromentarium 
Tefert , cujus aliquam pgrtionem in domo Uljssipponensí , uti 
vocant , Supplieationis , suo adhuc tempore superfuissc ait. 
Aliud vero de fideli Consiliario Reginse conjugi nuncupatum , 
vernáculas ceriius língua* adscrihendum , vel hoc uno nuncupa^ 
tionis indicio existimamus, Terlium praeter hos duos , laudat 
librum laudatae hístoriae auctor, De re equestri , sive equítaudi 
arte. Tom. II. pag. iSq , n*>. a88. 



ítesenha Amdytica. xo3 

attribuida a Rodrigo de Pina, devendo dizer Rodrigo 
da Cunha , a cujas diligencias, como todos sabem , foi 
devida a publicação d'aquelles escriptos*, depois da 
morte do autor, em lô/fS, e não em i645 , como es- 
creveo Barbosa. 

Assim, o autor da Bibliotheca Lusitana podia muito 
bem resumir o catalogo dos escríptores em que se fun- 
dou , para estabelecer a enumeração dos escriptos do 
Sn^. D. Duarte , citando somente Fr. Bernardo de Brito 
e Duarte Nunes de Leão , conforme o testemunho dos 
quaes, as obras de maior extensão d^aquelle Monarcha, 
escriptas em Unguagem portugueza , são o Leal Conse- 
lheiro , o Livro da Ensinança e o da Misericórdia ; 
sendo certo que doestas três obras derão os chronistas 
noticias somente por informações , e que de nenhuma 
d ellas virão cousa alguma. Nem obsta contra isto , 
que o Abbade Barbosa en endesse que Brito tinha visto 
fragmentos do Leal Conselheiro ', por quanto , das pa- 
lavras d*aqueUe chrpnista , que citámos no primeiro 
Artigo , colherá o leitor que os fragmentos , que elle 
vira , erão somente do bom got^emo dajusti^ : e a este 
respeito, não he pouco para se notar, que D. Nicolao 
António entendesse melhor o texto de Fr. Bernardo 
de Brito ^ do que Diogo Barbosa. 

Tal era a noticia que havia dos escriptos do Sn^ 
D. D uarte, quando o benemérita philologo João Franco 
Barreto, deparou, na Livraria da Cartucha d'Evora, 
com huma grande quantidade de obras de pequena 
extensão > compostas pelo ditta Monarcha i csjos titu^ 



to4 Resenha yínafytíea. 

los consignou ta sua Bibliotheca , a qual existia ma- 
Duscripta na livraria á% Duque Estríbeiro Mór , e da 
qual D. António Caetano de Souza os copiou e impri'* 
mo y no seu inestimável tbesouro das Provas da citada 
Historia Genealógica ( Liv. III,Prov. 4» )• 

Não satisfeito com salvar do esquecimento aquelle 
interessante Artigo de Barreto , o mesmo Sousa fez á 
literatura nacional o grande serviço de imprimir, na' 
citada Prova y algumas das obras d' aquelle Monarcha , 
copiadas do Livro de Memorias suas existente na car- 
tucha d'EYora , para que de to^ se nâo perca , diz elle, 
a memoria de seus preciosos trabalhos tão dignos de 
estimaçàO' 

Finalmente^ do trabalho de Sousa e de Barreto tirou 
Barbosa a relação ^ que nós dá , dos escríptos de Sn'. 
D. Duarte, existentes na Livraria d*aqnelle convento, 
em hum Livro , diz elle , com o titulo de Memorias 
'úúrias* 

Párêce que o mesmo destino /que tinha privado a 
Nação dos Tratados mais importantes d'aquelle Prin- 
cepe, e que tinha feito com qae dois autores, alias 
estimáveis, se explicassem tão confusamente sobre 
elles , se empenhou também em lançar, ainda sobre os 
mesmos manuscríptds , conhecidos e existentes no paiz, 
huma espécie de confusão , bem indigna de homens 
tão beneméritos e tão laboriosos. Com eíTeito , João 
Franco BairetO! , tratando positivamente de dar o cata- 
logo d*aquelles mandscriptos , não teve paciência paia 
a acabar, vistp que pôz no (im d*elle : e outras muiias 



Resenha Anafortiem. leS 

cbras{àínàa que breves) de mmito engenho e erudiçào ; 
Diogo Barbosa, que tinha tomado, mais tarde, a 
mesma empresa , deo-nos muito menoB do qae João 
Fraoco Barreto , e D. António Caetano de Sonsa , qne 
imprimio alguns , de que os dois primeiros nào Jerão 
noticia , nos titulos de outros , nào se conforma nem 
com Barreto, nem com Barbosa, ao mesmo passo 
que , em outros titulos , estes dois últimos , algnmas 
vezes , também se não conformão entre tL 

Se ao leitor parece que temos tratado com dema- 
siada miudeza esta matéria, rogamos-lhe que selem* 
bre , que , para mostrar a necessidade de corrigir o 
artigo daBibliotheca Lusitana, relativo aos escriptos 
do Sn''. D Duarte, e para estabelecer com a exacçào 
possivel o catalofo d elles , be indispensável fazer sentir 
a confusão , que tem havido até agora nisto, e indicar, 
com ,as necessárias observações , os elementos de que 
nos servimos, e o modo porque convém rectificar huns 
por meio dos outros* Alem de que , doeste exame , e 
roais ainda da ultima parte d*elle , resulta indirecta- 
mente huma verdade muito interessante , que nanca 
cessaremos de proclamar ; isto he , a necessidade , 
que temos , de hum continuador da nossa Bibílotheca 
Lusitana , de hum historiador da literatura portugueza, 
e de compiladores, qne, entre tanto, reccdhào, e 
publiquem com clareza e exacção , como bases para 
isto , documentos e arestos de que deixem a ntil 
herança, a quem tiver as íbrças e o patriotismo «de 
empreheader tão ^ormo e importante trabalho. E â 



io6 Resenha Anafytica. 

este respeito , lembiremo-nos somente , do que devemos 
á Academia da .Historia portugueza^ e á distincta Con- 
gregação dos Padres Theatinos ; e pelas pequenas con- 
tradicçõesy que hoje nos be penoso achar, entre os 
trabalhos, dos sábios laboriosos d'aquella epocha ínte- 
ressante, avaliemos » cpm reconhecimento, o estado 
de perfeita confusão e ignorância, de que elles nos 
salvarão , e no qual jazeriamos hoje , á cerca da lite> 
ratura do posso melhor século , se ^elles não nos ti- 
vessem generosamente legado os fructos preciosos de 
suas extraordinárias fadigas. 

Mas, voltando ao nosso assumpto, devemos saber 
Vjue, no Leal Conselheiro, hum certo numero de Ca- 
pitulos novamente escriptos fez o fundo, da obra , e 
com elles misturou o autor, i^. outros Capitulos > que , 
para outras obras , tinha feito ; 2^. Memorias e artigos 
avulsos, que, a outros respeitos, e em outros tempos 
tinha composto , e de tudo ordenou aquelle Tratado , 
com o qual , não só satisfez as instancias da Rainha 
D. Leonor, nlas ainda , offereceo nelle , á sua leitura, 
matérias, que entendeo poderem ser-lhe agradáveis, 
ou proveitosas. 

Esta mesma hea ideia, que o Sn^. D. Duarte nos 
dá d^aquella obra , em cujo Prologo diz assim : « E 
por que o entendimento he nossa uirtude muy pricipal 
screui dei hua breue repartiçom e o mais fcij ajuntande 
segundo melhor pude fazer. E por serem algãas cousas 
sobre si tèpo ha scritas nom leuam tal forma como se 
todas jutamente sobreste*proposito forom ordenadas. » 



Hesenha Anafytica: 107 

Assim , vemos qae-os Capitnlos m, V c LXXXIII do 
Leal Conselheiro , são os mesmos , que o YIII e o IX 
da 5«>. Parte , e o XI da 3*. d*aqaeUe Livro da ensi- 
nança ; nos quaes o autor , com o discernimento qoe 
lhe era próprio , fez somente as alterações , que jalgoa 
necessárias , para os ligar com o seu assumpto. 

Quanto ás Memorias e artigos avulsos , inseridos no 
Leal Conselheiro , bem notaria o leitor , na Taboa 
d*aquelle Tratado , que o Cap. XCI não promette senão 
hum Index , ou Taboada das matérias , que se lhe se- 
guem ; com efièito , eis-aqui como o Sn^*. D. Duarte 
principiou aquelle Capitulo : « Desejando de poer fim 
a esta breue e sy prés leitura , as cousas per my* feitas 
a esto perteecétes que fica por screuer é ella sé outro 
adimento , as faço trelladâr , das quaes este Capitulcr 
como tauoa étendi séer cõpridoiro desse fazer. » E aca- 
ba , dizendo : ^ E algúas cousas tenho scriptas no liuro 
que faço dessaber bem andar a cavallo e fazer as boas 
manhas que se costumam fazer em elles , e outras que 
por nom seerem taaes que a nos perteeçam „ as nom fiz 
aquy tralladar. » E na verdade , o resto dos Capitulos 
contém , como o leitor observaria pelos títulos d*elles , 
matérias interessantes , ou curiosas , porém alheias , 
quasi todas , do assumpto ; e o ultimo bem mostra ter 
sido escripto expressamente y para fazer entrar aquelles 
artigos destacados , no quadro do Leal Conselheiro. 

* Daqui se vê , que este precioso Tiratado tem a van- 
tajem de comprehender em si hum grande numero 
das composições avulsas do seu autor ; e doeste modo 



rò8 Resenha Andfytieã. 

se explica facilmente coma não poucas d^aqudlas Me- 
morias 9 que João Franco Barreto e D. António Cae- 
tano de Sousa acharão na Cartucfaa d'fIvora , fazem 
efiectivamente parte do Leal Conselheiro. Por isso , 
ainda que a confrontação de todos os autores, que 
acima allegámos, fosse já sufficiente para ampliar e 
corrigir » por meio d*ella , o artigo da Bibliotheca 
Lusitana , trabalho que não só seria mui fácil aos 
philologos portuguezes , mas que por certo , a todos 
os- respeitos , seria por elles mais bem desempenhado , 
pareceo-nos, comtudo, que deviamos aproveitar a 
. occasião de termos examinado aquella obra , que lança, 
sobre hum tal trabalho , huma luz muito mais clara , 
l^ra fazer á literatura nacional hum serviço , que , 
sem o exame do Leal Conselheiro , era impossivel , e 
que nos parece verdadeiramente digno d^ella* 

Examinámos pois as opiniões de Fr. Bernardo de 
Brito e de Duarte Nunes, confrontámos entre si João 
Franco Barreto, D. António Caetano de Sousa e 
Diogo Barbosa , e comparámos escrupulosamente o 
resultado d*esta confrontação com o Leal Conselheiro. 
Taes forão os elementos , e o processo, por meio do 
qual redigimos o ditto trabalho , que não propomos , 
senão como hum Projecto ^ porém se , com justa causa, 
. pão ousamos dá-lo oomo pa:*feito , ao menos lison- 
geamo-nos de que tei*á o merecimento de ser exacto» 

Porém antes de o produzir, escreveremos aqui al- 
gumas observações , que , por occasião d^aquella con-< 
frontaçãoi fizemos ^e que justificao a opinião que iá 



Hesenha Awãytíea. 109 

so nosso ptioieiro Aitigo tiobamos fluuntfeâtado sobre 
a aathenticidade e correoçào do texto do Godice 7007. 
Com efieito , comjMirando este , com o dos pedaços do 
manoscrípto da Cartncba d'ETor& , que Sonsa nos deo 
impressos > achámos entre elles não poucas irarianies , 
que provão mcontestavdmente a soperioridade do prr- 
meiro. Nem sirva para isto de ob^culo ter <titto o 
memo Sousa , no corpo da sua Historia , fallando d*a- 
quelle mannscrípto d*Evora , qae se aflirmava ser da 
letra do Sn^*. D. Duarte ; por quanto , aquelle mesmo 
sábio indagador das nossas cousas, quando , mais tarde, 
imprímio nas Provas d*aquella Historia, o sobreditto 
texto , principiou dizendo : ^ Está no seu Livro , que 
ae conserva na Livraria da Cartucha d*Evora, donde 
o fez copiar o Conde de Erjceíra; depois no anoo 
de 1736 , que estile no dito conuento^ vi o Wfêcsmo lunro^ 
não he da letra do dito Rtiy. » 

. E para não sermos extensos , quanto o pediria bama 
*longa con&rontação de Peças diflEsrentes , que seria in- 
dispensável produrir, aprovritaremos a occasââo de 
termos dado , no primeiro Artigo , os preoeitoa para 
bem traduzir, copiados fielmente do Leal Gonselheífo, 
e transcreveremos aqui os mesmos preceitos , conforme 
Sousa os extrahio do manuscripto d^Evora ; por este 
meio, facilitaremos ao leitor huma parte da compa- 
ração dos dois tettos , para que elle possa , por si 
mesmo , convencer-se do que , a respeito d'elles , ac»» 
bamos de dizer. 

Antes porém 9 convém rectificarmos bom erro 



1 10 ' Itèsekhd Anà^rúóà. 

typógrâphioo y que, no terceiro d^aqiiellès preceitos^ 
nos escapou» deixando imprimir ^ nà ai*, linha da 
pag. !ii do 'YIII Volume — ektendo que tanto monta 
etc. *- que se deve ler \ — * entendendo que tanto monta 
etc. — ^ Eis-aqui , pois, o texto d*aquelles preceitos, 
como Sousa o publicou : poremos nelle, em itálico, 
tudo o que não se conforma com o da lição de Parts. 

^ Primeiramente conhecer bem a sentençfi do que ha 
de tomar ^e poela inteiramente non mudando , acres^ 
centando , nem mingoando algúa cousa do que esta 
escrito. » 

« O segundo q nõ ponha palavras latynadas , nem 
doutra lingoajem, mas todo seja portuguez escripto mais 
achegadamente ao chão , e geral costume de nosa falar, 
q* se poda fazer. » 

« O' terceiro que sempre se ponAa palavras , q^ sejam 
de direita lingoajem respondentes ao latym non mu- 
dando buas por outras asy q onde el diser em latym 
escon^egaf non ponha afastar em nosa lingoajem , e asj 
em outras comas semelhantes entendendo (\ tanto 
monta huá cousa como outra , ponf grande diferença 
fas para se bem entender serem estas palavras pro^ 
priamente escriptas. » 

« O quarto , q** non ponha palavras , q segundo o 
nosso costume de falar sejam ávidas por desonestas. » 

« O quinto , cf guarde em o escra^er aquela ordem , 
q igualmente deve gardar em qualquer outra cousa q 



Resenha jinalYÚca. iii 

se escrei^er dei^à-S. cf escreva claramente para se bem 
poder entender, e fermoso o mais que ele poder e 
curtamente quaato for necesario , e para esto aproveita 
muito parrafary e apostar bem aquelo , q a^ ouper 
descret^er^ se hum razoa tomando de latym em lin-- 
goajem , e o outro escrever achará melhoria de todo 
juntamente por hum serfeita. » 

Estas ultimas palavras formão no Códice de Paris 
hum paragrapho á parte , e por isso não as copiámos 
no primeiro Artigo, por conterem huma observação, 
e não hum preceito; eis-aqui como as produz o re- 
fendo Códice. 

« 3e hum razoar, tomando de laty em lyguagé é 
outro screuer achara melhoria de todo jútamente pér 
húu seer feito. » 

Ora , não foliando na orthographta , na qual , sem du- 
vida a do manuscrípto parisiano he muito mais con- 
forme á dos tempos do autor , não fallando na prefe- 
rencia que, para a boa intelligencia do texto, por 
certo se deve dar a (ornar por tornar^ a boo por clião 
etc. limitar-nos-hemos a observar os erros manifestos 
de nosa falar e que se poda fazer , que existem no 
segundo preceito. 

He verdade que nos autores do tempo do Senhor 
D. Duarte se encontrão , algumas vezes , géneros tro- 
cados , e conjugações repugnantes á analogia da lingua, 
e que estes , e outros defeitos semelhantes , são carac^ 
teristicos d^aquella idade, porém parece-nos que, a 



lia Resenha Anàhtica. 

pezar d^isto, os exemplos não poderão justificar aquel-* 
las duas variantes , que resultào da comhinação dos 
dois textos , .acima proposta. He verdade. que Fernão 
Inopes escreveo seo linhagem y que neste mesmo pre- 
ceito de que falíamos , o Sn''. D. Duarte pôz seo Unr 
goagem escripto » segando a lição de Paris, e que Gomes 
Eannes disse sento ejdrào^por sinto e jazerão etc; porém 
os infinitos substantivados dos verbos gozavão já então 
do privilegio de neutros , como lhe chamão os nossos 
grammaticos 9 ou masculinos , como realmente são nas 
linguas modernas derivadas do latim , e o verbo poder 
era conjugado, como hoje , possa ^ no preisente do con- 
junctivo. Assim, entendemos que nosa falar e se poda 
fazer , não só pda practica do Sn^ D. Duarte , que 
nunca assim escreveo em outro algum lugar, mas até 
pela razão , não devem ser considerados , senão como 
erros do maauscripto d^Evora , que no Códice pari- 
siano se achão con^ectos » conforme o uso d*aquelle 
século. 

Porém , sobre tudo , achamos notáveis as ultimas 
palavras do quinto preceito : E para esto aproí^eita 
muito parra/ar e apostar bem; o manuscripto de Parts 
diz : parragrafar e apontar bem. O erro parece-nos evi- 
dente; porém, como o nosso Moraes, fundado pre- 
cisamente nesta só passagem , deo no seu Diccionario , 
ao verbo apostar imma significação , em que neckhum 
autor da lingua tiaba usado d'dle, não devemos, 
assim de leve, rejeitar aqueUa ultima lição, sem exa* 
minarmos as duas ^ e ver qual delias he preferível , 
como mais natural. 



ReseiAa Anafytica* n3 

, 'O Sn**. D. Duarte, tendo- nos -quatro primeiros pre^ 
ceitos y dado , especialmente , as regras para bem tra- 
duzir y no quinto trata , em parUcular, do estjlo , e 
rccommenda ao traductor que escreva ctarameFOe e 
cwtamenie quanto for necessário ; e para isto he que 
elle entende « com razão » que aproveita muito parra- 
grafar e apontar hern^ Ora , Moraes, querendo dar aqui 
huma interpretação ao verbo apostar , disse , que elle 
significava concertar \ o que , se ainda por outras razões 
podesse conceder-se , não seiitf applicavel no presente 
caso, senão no sentido moral, quanto á disposição 
interna, ede nenhuma sorte quanto ao arranjo ezte<* 
rior , e no sentido material , em que evidentemente 
o autor fallava , e no qual , somente hem apontar he 
tão essencial , como bem parragrafar para escrever 
claramente e curtamente. Parece-nos que Moraes não ' 
poderia facilmente explicar o que vinha a dizer, neste 
caso > parragrafar e concertar bem. 

Porém , independentemente d^isto , o verbo apostar . 
nunca significou , senão , como diz o mesmo Moraes ^ , 
ajustar certo preço que ha de pertencer a quem acerta^ 
sobre successo futuro e ignorado; nem elle achou, 
nem poderia achar , para aquella sua nova significa- 
ção, outra autoridade, senão esta, attribuida, por 
erro, ao Sni"* D. Duarte. Já aquelle autor tinha mos- 
tilado o seu embaraço , a este respeito , mettendo , in* 
d i vida mente , aquella nova significação de apostar en- 
tre a moderna e a antiga significação do verbo apostar^ 
se , esperando, talvez, que esta ultima servisse de apoio 
Tom. IX* ^ A 



it4 Resenha Analítica, 

á sua opinião : he verdade que Fernão Lopes , citado 
por Moraes, disse: apostando^se a frota do que lhe 
cumpria; tnas aqui, evidentemente, apostar-se não 
quer somente dizer concertar^se , como este ultimo per- 
tendéo , porem sim apromplar-se ; o que , alem de per- 
tencer exclusivamente ao verbo reflexivo , e não ser 
applicavel ao activo , nada prova a favor d'aquella 
pertendida significação, a qual , de mais a mais , como 
vimos, não he conforme ao espirito do que o Sn^. 
D. Duarte tinha querido dizer. Nem temos por solido 
o outro esteio, que Moraes procurou na palavra aposto , 
que , segundo nos parece , não vem de modo nenhum , 
como eUe entende , do verbo apostar. 

Notaremos também aqui , de passagem , que , se 
aquella falta do copista do manuscripto d*Evora in- 
duzio em erro o erudito Moraes, a falta do conheci- 
mento de todo o capitulo XCIX do Leal Conselheiro , 
de que o mesmo manuscripto não contêm , senão 
isoladamente , os cinco preceitos de que falíamos , tem 
feito attribuir ao Sn^. D. Duarte, a respeito de tra- 
ducçôes, huma opinião, que não era a sua,e dimi- 
nuido nesta parte o conceito, que, no nosso primeiro 
Artigo,notámos mei^ecer o seu bom gosto em semelhante 
matéria. Assim, "se o sábio Académico e Censor Phi- 
lippe José da Gama tivesse podido ler todo o sobre^ 
ditto Capitulo , ou , ao menos , a passagem delle, que 
produzimos a pag. 23 do VIII Volume , não teria gasto 
o seu tempo em cotnmentar largamente aquelles cinco 
preceitos , para provar, com tão ponderosa autoridade , 



• • -x 



Resenha Analytica* ii5 

que só aft tradãcções literaes são verdadeiras e boas 
traducçôes , como fez , censurando a de buma Ode de 
Horácio, que ha muitos annos vimos impressa, onde, 
se bem nos lembr^, a censura £aúa talvear nove dé- 
cimos da obra. 

Passemos pois ao promettido projecto para rectifícar 
o Artigo da Bibliotheca Lusitana. 

Compoz o Stí^. D. Duarte , e achão-se 

Ixrasssos: 

Papel que esçreveo, quando seus Irmãos farão a 
Tangere. -j paç. em V*. 

CoRSELHo que deo aò Infante D.Henrique, seu Irmão, 
quando foi com hama armada sobre Tangere. ilpag. 

Motivos que teve para fa2er a guerra. 3 /Mig. 

Lembejlkçíl que escreveo dos nascimentos de seus 
filhos. % artigos , todos em i»] Unhas. 

ObservílçÃo da Lua. 5 Unhas. 

Cousas de que foi requerido nas primeiras Cortes que 
fez em Santarém, i pag^ 

Cousas que pertencem a hum bom capitão. 2 linhas 
escriptas em latim. 

Observação. Sobre as cores das pedras de mina de 
metal. 27 linhas. 

Lembrarça. Á cerca de prémios devidos a certas 

8* 



ti6 Resenha AnàÍQrtica 

classes de creados; como moços d*estribeira. Repôs? 
teiros, etc. i3 linhas. 

Todos estes escríptos estavão no seu Liiro que se conr 
serva na Cartucha d Évora j donde as fez copiar o Conde 
da Eryceira , e os imprímio D. António Caetano de 
Sousa ) no Tom. I das Probas da Hisioria Genealógica ; 
Pi^ova 4i f do Liy. IH , pag. 5agL e seguintes : e a sua 
publicação foi snmmamente interessante , porque nem 
Barbosa» nem João Franco Barreto , fizerão d*elles 
menção alguma nas suas Bibliolhecas* 

Alem doestes» achão-se também impressos, na mesma 
Obra, quatro Capitulos do Leal Conselheiro, como em 
seu lugar se verá. 

Manuscaiptos, 

Em Latim* 

Tritáik) do bom governo da justiça. e dos officiaes 
d*eUa; de que Fr. Bernardo de Biito vio hum grande 
fragmento em hum livro pequeno mui antigo ^posio que não 
diz em que língua era escrípto ; mas que Duarte Nunes 
de Lião affirma existir, ainda no seu tempo, na C^isa 
da Supplicação. Barbosa e Manoel de Faria e Sousa 
dão noticia doesta obra , fundados no testemunho de 
Duarte Nunes , e Barreto não faz d^ella menção alguma. 

Em Portuguez. 

Leal Cov SELHEiRO ; de que dão noticia todos os que 
fallárão dos escriptos d'este Princepe. Doesta obra não 
se sabe que exista exemplar algum em Poetugali n^as 



JÍmtÊfytiea, 117 

na BibUodieca Real dos Maniiscríiilos de Futs, Oh 
dice 7007 , ha hmiia copia mui perfeita e oooipietta , 
escripta em pergaminho e com leira cunhada , a 
qual consta de hama Toiíoa ^ IVxiflegoe io3 Capitolos, 
o que tndo occapa 191 paginas de fblioy cm doas 
columnas. Comtudo , achão-se impressos , oohm> Me- 
morias e escriplos aTulsos, a saber : 

O Cap. I Repartição ão ememãunaáo \ de que fes 
menção Barreto , como Memoria M. S. ^^i^^^fy na 
Cartncha d*E?ora9 e de que Barbosa não Cdloo. 

O Cap. XCIV. Observação io moJo gmt deve ser 
a lição dos livros; que derão como Memoria M« & 
existente na Cartodia d^Erora, Barreto, com o título 
Do bom modo de interpretar ot Ut^ros ; e Barbosa^ 
Da maneira de ler os livros^ 

O Cap. XGVnL Do modo com qm die e mus ir- 
mãos se havião com ElRâ seu Pai; que Barreto e 
Barbosa derão , como Memoria M. S. exigente na 
Cartncha d*Evora , com o titulo : Ordem de eomo ot 
Infantes havião de proceder com seu Pai. 

O Cap. XdX. Observação sobre o modo qm se deve 
Ur na versão de Imana lingua para outra ; de que nem 
Barbosa , nem Barreto derão noticia* Doeste Cap. estão 
somente impressos os dnco preceitos ; mas ialta tudo 
o mais. 

Estes quatro Capitulos^foião ikdos á los pdlo mesma 
AutcNT da Historia Genealógica » e achão-se impressos 



ti8 Resenha Anafyúca. 

juntamente com os Escríptos acima mencionados » na 
mesma Prova 4i <lo Liv. III , tendo sido também co* 
piados das Memorias existentes na Cartucha d'Evora. 

Alem d*isto » segundo o testemunho de Barbosa e de 
Barreto , nas suas Bibliothecas, conservão-se, no mes- 
mo livro de Memorias , igualmente como escríptos 
avulsos : 

O Cap. XI. Conselho ou assiso espiritual contra a 
intemperança dos desejof j que Barreto escreveo intem- 
perança dos direitos* 

O Gap. XXIV. Conselho , sendo Imfanle , pixra seu 
Irmão D. Pedro , quando se partio para Hungria. 

O Cap. XCII4 í)eçlaraçâo da intenção que havemos 
ter para nos saldar. 

O Cap. XCV. Conselho , ou auiso espiritual» 

N. B. Dos 8 Capítulos acima, transcrevemos fiel- 
mente ostilulos com que huns se achào impressos, 
e com que Barbosa e Barreto nos fizerão conhecer os 
outros, que se conservão manuscríptos ; o leitor poderá 
cotejá-los com os titulos verdadeiros, que nós im- 
primimos a p^g. 09 e seguintes , da 1*. Parte do nosso 
VIII Volume. 

LiuKO DÁ Eusstnauça de bem caualgar toda sela. 
D^elle dão também noticia , ainda que debaixo de di- 
versos titulos , todos os que tratarão dos escríptos do 
Sn^ D. Duarte. Doesta Obra , não só não consta que 



Resenha jimafytica. ii§ 

haja exemplar algum , em Portasal ; mas , entre todas 
as obras avulsas impressas do Sn'. D. Duarte, ou 
entre todas as manuscríptas, de que ha memoria, 
não se acha Capitolo algum que pertencesse a este 
Uuro da Ens^iynança. P*elle existe na Bibliotheca Real 
dos Manuscríptos de Paris , Códice 7007 , buma copia 
tão perfeita e tão completta , como a do Leal Conse- 
lheiro ^ e consta de hum ProUego e 9 Partes, divididas 
em diversos Capitulos,ao todo, 66, o que tudooc- 
cupa Sg paginas de folio, em duas columnas. 

Dá MuBaicommA* D'este ningaem faz menção, senão 
Fr. Bernardo de Brito. Qualquer que seja o grão de 
confiança , que possamos ter no seu testemunho » he 
dtfficil de crer que este escripto escapasse a todos 
os que se derão , muito mais do que elle , a investiga- 
ções nesta matéria. Se , ao menos , o chronista tivesse 
produzido as palavras por que principiava aqpella obra, 
facilitar-nos-hia agora saber se ^Ua era , por veqtura , 
algum outro Capitulo do I^eal Conselheiro , cujo titulo 
estivesse alterado , como alguns dos que acima se 
produzirão ; comtudo , no Leal Conselheiro não achá- 
mos capitulo algum, a que ramadamente podesse 
convir aquelle titulo. 

SmcMAaio que , sendo Infante > deo a M^ Francisco , 
para pregar do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira* 
Começa : Gloria et honore coronasii eum , Domine , e 
acaba : onde perpetuamente ha ^ria e honra , para 
sempre se coroe. 

Memorial para Fr. Fernando ordenar a Pregação das 



r 

i20 Resenha ^nàlrtica* 

exéquias d*EIRei D. João seu Pai. Começa : /r. l^er- 
nando^ pensei na aUençâo do Sermão , que no saimento 
Deos querendo y, me dissestes^ que havíeis de fazer, e 
occuteo-me o que se segue, 

REGnfcirTo para apprender a jogar as armas. Começa : 
A hora de terça lei^a alguns dias. 

Resposta , sendo Princepe , ao Infante D. Fernando , 
sobre certas queixas que elle tinha de seu Pai. Não se 
sabe nçm como começava, nem como acabava. 

Doestas quatro obras fazem igualmente menção Bar* 
bosa e Barreto; mas o que he de notar , he que o 
segundo produz o titulo d^aquella ultima, da ma^ 
neira seguinte : Resposta , sendo Príncipe ao Imphante 
D, Pedro, pelo Imphante D. Fernando sobre serias 
queixas que D. Fernando tinha d^ElRei seu Pai* 

Padre irossò glozado. Começa : Padre nosso , jííto 
em a creaçom, JUanso em Amor , Rico em herdades. 

De como sp Tini o DeKoitio* Começa : Primeiramente 
seu Padre e Madre , ou parente , ou amigo andejejoan 

O QUE SB TOMA dos pareotes, Pátria , leite. Começa : 
Da Terra , compreiçom f etc. 

• Qtte cousa seva deteacçao. Começa : O detrahidor. 
Maldizente^ etc. 

pREENAssoEirs sobrc as cousas domesticas e a ordem 
que tinha no governo e despacho. Começa : Por que 
vos parece^ que dar ordem ds Audiências^ repartir os 
tempos f etc* 



Resenhai Anafytica. tix 

: Hum TftATÁBo lobre ag ▼áUias do Pftnt conforme n 

vallias do trigo. v. g. se o alqueire de trigo vallesse a 

tanto y valleria o pâm a tanto ètc, Nào consta como 

começava, nem como acabava. 

Doestas seis obras nào fallou senão loào Franco 
Barreto , na sua Bibliotheca , o qual prosegue o seu 
artigo dizendo : e outras muitas obras ( ainda que bre* 
ves ) de muito engenho e erudição. 

'• ff Mandou também ( continua Barreto ) ordenar e 
abreviar as Ordenações do Reino , que em seus diaá 
nào acabou, e veio a acaballas seu filho D. Afiboso S^'. » 
o qual as mandou recopillar em 5 volumes , e des- 
pois ElRei D. João oP. seu filho tomou a mandar 
abreviar as ordenações dos 5 livros, em hum Com-* 
promissoy quem por seu mandado as abreviou foi o 
Licenceado Lourenço da Fonseca, que foi algum 
tempo seu Corregedor da Corte ; ultimamente ElRei 
D. Manoel , pelas achar confusas , mandou aperfet^ 
coar de todo na forma em que estiverão até quê ElRei 
D. Philippe 1^. Rei de Portugal as mandou pôr na 
forma em que estio. » 

« As Obras d^lRei D. Duarte, tirado o Conselheiro 
e o Livro da Gineta , estão todas na Livraria da Car- 
tocha d^J^vora. » 

C. X. 



13) Resenha 



TABOADA 

J)o Lítto da Enstoança de bem cavalgar toda sela , 
qu€ te prometteo no Artigo antecedente. 



^^^i»^^i»»»^i^% 



A Obra começa por hum ProUego. Acabado elle , 
segue-se : 

Aqui se começa a primeira parte d*este liuro que 
traãta da uoontade. 

Cap*. Jo* que falia dos rasooes per que os caual- 
leiros e scudeiros deuem de seer boôs ca- 
uaigadores por o bem e homra que de tal 
manha segue. 

Capo. U^. da ajuda que recebem oas manhas da paz. 

Cap<^. nJo. do que se pode dizer contra o proueito que 

dis^ desta manha sesseguia cõ sua reposta. 

Capo. niJo. da folgâça que se daquesta mmh^ segue. 

Acabasse a primeira parte da uoõtade. E começasse 
assegundado poder. 

Capo. Jo. do poder do corpo e da fazenda. 
Capo. ijo^ ^0 poder da fazenda. 

Aqui falia da IlT. parte em que se dam XVJ. auysa* 
mentos pryncypaaes ao boo caualgador. 



Besenha Anafytíca^ isS 

Istúí fca huma isspecie .de CdpUulo ^m que vem os 
diUos conselhos. . 

Cap^*. J<>. que falia de seer forte na besta em todallas 

cousas que fizer e lhe acontecer. 

Cap<>. IJ^. da maneira das sellas debrauante. 

Capo. UJo. dos que nõ fazem grade cota das estre-^ 

beiras. 

Capo. niJo. dos que andam firmes e. alto nas stre- 

beiras. 

Cap<>. V®. do caualgar com as pernas encolh jdas. 

Cap^'. VJ^. do canalf^ar em ousso e bardom. 

Cap^'* VU^'. do proueito que he em saberem husar de 

todas estas maneiras de caualgar. 

Capo. yiU^* como para todo presta andar dereito em 

tod^Uãs cousas que a besta faz e declarar 
como podemos cayr pêra oada húa parte. 

Cap<^. IX^. de como se ham de teer nas cousas que as 

bestas fazem per que derribam pêra deãte. 

Cap<>.X^» do quesse deue fazer quando a besta faz 

pêra derribar atras. 

Cap<^. XJ^. da semelliáça que de tal idar dereito po- 
demos filhar. 

Cap*'. XU^. de como deoemos fazer por nom cayt 

a cada hiia das partes. 

Capo. xnjo. da pregunta que se faz donde he melhor 

apertar as pernas , e como se deuem tra- 
zer os pees. 

Capo. Xmjo. do proueito que he saber geito que requere 

cada huma sella. 



ta4 Resenha Amdytica. 

Cap<>. XV^'. como deuemos reguardar assella e freo 

e todo outro adereço que será forte e 
bemcorregido que nõ se quebre ou 
desconcerte- 

Capo. XVI^. do corregymeuto das strebeiras e das 

correas. 

Capo. XVU*. do corregjmento da sella. 

Capo. XVnJo. do nosso corregjmento queiando deue 

seer. 

Capo. XIXo. de como caaê algufis em querendo fazer 

algua cousa , posto que a besta nõ faça 
porquedeua cayr. 

Capo. XXo. da maneira do trauar aas maãos dé ca- 

uallor 

Capo. XXJo. da maneyra que se deue teer^ quando 

ouuermos de fazer cada hua destas cou- 
sas suso scríptas e outras semelhantes. 

Acabasse a prímeyra (a) parte do seer forte. E co- 
meçasse assegunda. desseer sem receo. 

Capo. Jo. em que declara per quantas partes to- 

doUos homeés sõ sé receo e como per 
nacéça sõ alguus sem receo. 

Capo.IJo. como alguãs com presunçõ som sem 

receo.^ 

(a) Como a 3*« Parte he realmente a primeira em que o A* 
trata dos preceitos , nataralmente por esta cansa , lhe chama 
agora assim , e cOBtimia para diante , neste ftentido , a diyÍMo 
da obra. 



Capo. IU<*. como per deseio alguãs $om sem receo. 
Capo. mjo. como por nõ «aber alguúi som mais 

sem reoeo. 
Capo. yo. como per boas squeêças alguus se fazem 

sem iceçeo^ E de qué guisa os moços e 

outros que começa, a caualgar deve seer 

ensynados. 
Cap^'. VJ^. como per husança os homeês som sem 

receo. ' 
Capo. VIJo. como per razõ os homeês som sem receo. 
Capo. vuja, como por auerem algfia auantagem som 

alguús homeês seiQ receo* E coma o% 

homeês som sem receo per outro mayoi 

receo. 
Capo. ix«. como per sanha alguus homeês som sem 

receo. 
Capo. xo. como per a graça special alguus som sem 

receo. 
Acabasse assegunda parte de seer sem receo. E co* 
meçasse a terceira da segurança. 
Capo. jo. per quesse dedarom as partes, como se 

ganha a segurança. 
Capo. Uo. como por veceo se mostra amy^gua da se- 
gurança. E como per trígança se montra 

amyngua della^ 
Capo. IIJo. comq per (ornamento, ou empacho se 

mostra amygua da segurança. E como per 
tardar sobeio de fazerê o que deoem se 
mostra myqgua delia. 
Capo. IIIJo. como se mostra amyngua da segurança. 



ii6 Resenha Anafytiem. 

por aágDÚ poer mayor femença em al^a 
cousa que ftti do' que deoe. 

Capo. yo. comosse pode ganhar e mostrar esta se- 
gurança* 

Ci^o. VJo. comosse per algõas mostrãças pode mos- 
trar esta segurança. 

Cap<>. VU<>. da duuyda sobre esta mostrança. 

Acabasse a terceira parte da segurança. E começasse 
a quarta desser assessegado. 

Segue-se logo o dípiiuloj sem ser numerado. 

Capo. ijo. como deue seer o assessego filhado. 
Capo. jijo. (]a mayor dedaraçom de como se deue 

guardar o boõ assessego. E do proueito 

que fac 

Acabasse a quarta parte de seer assessegado* E co- 
meçasse a quinta de seer solto. 

Capo. Jo. desseer soolto. e da soltura da uoontade. 

Capo. ijo. da desposiçom do corpo, do saber, da ma- 
nha e da hnsança delia. 

Capo UJo. da decraraçom dalguas manhas quesse a 

cauallo costumam faver. dequesse adiante 
da eDsyNmento. 

Capo. mjo, (]q ensynamento de trazer alança desso-^ 

maão na perna e ao coUo. 

Capo. yo. do ensynameto do reger* 

Capo. vjQ. da êssynaKça de bem encontrar. 

Capo. VUo. da ensjnança de endei^nçar bem o cauallo 

na )OSta<^ ' 



Resenha Anàfytica* 127 

Ca(><». VIU<>. per que se demostram quatro uéõladeè 

que som énos e como per ellas nos de- 

uemos reger. 
Capo. ixo* em que se demostra per que uirtudes nos 

aderençamos a deséparar as três uoõW 

des suso scriptas e seguyr a quarta. 
Capo. Xo. como os que justam erra per desborde^ 

nãça de uoõtade apropriando todo aas 

quatro uoontades suso scriptas. 
Cap<^. XJo. per que se da éssynança damaneira què 

em mote averã décõtran 
Capo. xiJo. do ensynamento deferyr com lança de 

sobremaão. 
Capo. XnJo. do èssynamêto do remessar. 
Capo. XIIIJo. da maneira do ferir despada. 
Capo. xyo. do louuor das manhas. 
Capo. XVJo. dos erros da luyta breuemête scriptos- 

Acabasse a quynta parte, E começasse assexta da 
enssynança do bem feryr das sporas e queiandas de- 
liem seer. E como com paao ou uara alguas uezes 
as bestas se deuégouernar. 

Capo. da feiçõ das sporas e como com uara, ou 
paao as bestas alguas uezes se goucmam* 

Acabasse a sexta parte , e começasse asseitema , dal- 
gúa éssynàca pêra dos perigoos que a cauallo acontece 
nus podermos com a graça de ds~ guardar. 

Esta Parte he mui curta e nella não ha dwisào de 
Capitulas. f * . . 

Fim da Taboada. 



laS Resenha AmdYtica. 



t^t^mrmmmmm^ã^^mm^mm-m^^^mmi^^mmm^kÊtm^m^mm.i^^^^Si^^i^ 



NOTA 

Em resposta a htm Artigo da Gazeta 'de Lisboa , 

de ^i de Abril £2e'i82o« 



*^w«^%i%^ ^^^^^%i 



Cioico o nosso único fito quando emprebendèmos 
este obra , foi a utilidade dos compatriotas , não 
temos cessado de procurar todos os meios para que 
ella se torne de dia em dia mais digira do Publico 
a quem a destinamos; e o favor com que até ao prer 
sente tem sido acolhida em Portugal, nos impõe a 
obrigação de redobrar de esforços para continuar a 
merecer a approvaçào dos doutos e dos amantes da 
patria^que de huma maneira não equivoca tem patroci* 
nado a nossa empreza. Entre as pessoas a quem nos 
reconhecemos devedores pelos elogios que tem dado 
aos Ãnnaes das Sciencías , etc. tem hum distincto lugar 
o Editor da Gazeta de Lisboa y que dos nossos primeiro^ 
5 totnos tem fallado com louvor ^ que devemos cter 
sincero. Por esta razão o artigo da ditta Gazeta ^ de ao 
de Abril do presente anno , que diz respeito aos tomos 
6.0 e 7.^ dos Annaes , nos causou não pequena admira-^ 
ção.Para que o leitor possa ajuizar da solidez da censura 
que pela primeira vez^ nos faz o redactor da Gazeta de 
Lisboa y vamos transcrever toda a pessagejpi emque 
somos increpados* 



Resenfia Analytica. 129 

«r O artigo ( dix o redactor da Gazeta ) Artes Qitbmea$ 
e Mecânicas deste ( tomo YH ) he curioso pela notida 
da fabricação do Mioio , do azul celeste Inglez, e em 
particular da composição das tintas empregadas na pin- 
tura sobre esmalte extrahido da Memoria escrita por 
M. Winn , que obteve da Sociedade Promotora da In- 
dustria de Londres , hum premio pela publicação desta 
espécie de segredo da preparação das tintas em esmalte. 
— Cumpre aqui notar que entre os nossos Artistas , e 
Mecânicos , ainda os mais babeis, devem estes e outros 
descobrimentos , ou applicações , achar grande dífficnl- 
dade em serem entendidos; porque tendo a Qnimica 
produzido grandes vantajens na sua applicaçào ás Artes , 
commummente se expõem os seus processos na lingua- 
gem que he própria da mesma Química , mas qoe be 
absolutamente ignorada pelos Artistas sobretudo na* 
quelles paizes onde estes não tem noções dessa sciencia: 
sulfato , oxydo , silex , acido muriatico , etc. são termos 
absolutamente desconhecidos aos Artistas em geral; 
seria hum serviço que se lhes faria ( mas na verdade 
custoso ao escritor scientiíico) juntar a estes nomes 
tecbnicos os nomes vulgares que essas couzas tem na 
Arte a que se destinão as suas applicações : on alias 
conviria , e talvez seria mais útil , fazer hnm Vocabu- 
lário dos termos quimicos em geral da nova nomencla- 
tura com a sua explicação na linguagem commum das 
Artes e do Commercio , seguido de outro Vocabulário 
que desse aos nomes das couzas usadas nas Artes e no 
Commercio os seus correspondentes nomes na lingua- 
gem quimica, e fjsica. Sem isto, de muito pouco pro- 
Tom. IX. 8 A 



i3o Hesenha Anafydca. 

veito podem ser entre nós os escritos dedicados a es- 
palhar luzes nas Artes e Ofiicios em que as couzas se 
exprimào pelas technologias scientiíicas. » 

A censura que se nos faz neste artigo he tão manifes^ 
lamente injusta , que não tomaríamos o tempo dos 
qossos leitores em responder ao Redactor da Gazeta ; a 
príncipal razão que nos determina a fazê-l0| be o desejo 
de vindicar s^ nação Portugueza da accusação de crassa 
ignorância em que o escriptor d*este artigo nos affirma 
que se acbão os nossos Artistas e Mechanicos, ainda 
os mais hábeis. He bem certo , com magoa o dizemos» 
que em Portugal , excepto na Universidade de Coimbra , 
não ha Cadeiras de Chymica , de Botânica , de Phar- 
macia , nem de Physica ; porên^ tanibem a he , que a 
applicação de muitos individues , ajudada da leitura de 
bons livros estrangeiros ^ tem supprido até hum certa 
ponto a falta de educação regular; e a pezar de faltar 
esta y não he tão crassa a ignorância , por ex. dos 
boticários , quanto seria de recear , visto que nenhum 
d'elles teveoccasião de frequentar aulas, que em toda a 
l^uropa > excepto em Portugal , estão abertas para quem 
se destina a exercer q importante ramo da Pharmacia* 
Comtudo , mais de hum boticário conhecem os. pessoal- 
mente em I^isboa que possue não vulgar conhecimento 
dá Chymica e Pharmacia ; e sem fallar de oujtros , con* 
tentar-nos hemos com citar o laborioso Sn^. Antónia 
Jozé de Souza Pinto , o qual desde i8o5 tem successi-' 
vãmente publicado diversas pbras mais ou menos inte- 
ressantes sobve a Matéria Medica, Pl^v^^íicií^ ^ Clxy^ 



Resenha Anafytica. i3i 

mica. Se o autor do artigo já citado tivesse conhecimento 
da Pharmacopea Cbymica, etc. do Sn/ Pinto , publicada 
em iSoS^lá acharia o que pede, e suiiiciente synonymia 
de termos vulgares e scientificos '>e ainda mais complet- 
tas nomenclaturas comparativas encontraria na No- 
menclatura CIdmica Portugueza^ Fremceza^ e Latina 
do Sn.r Vicente Coelho de Seabra Silva Telles , Lente 
substituto de Zoologia, Mineralogia, Botânica e Âgri* 
cultura na Universidade de Coimbra , etc. impressa em 
liisboa em 1801. Com o socconx) doestas e de outras 
obras escríptas na hngua Portugueza ninguém poderá 
ignorar o que quer dizev oxydof sulphate qkl sulfato ^ 
acido muriatíco , e silex^ 

Porém a censura do Redactor da Gazeta he tanto mais 
injusta a nosso respeito, que, a pezar de conhecermos 
as obras já citadas , e de não suppormos tão grande a 
ignorância d*aquelles dos nossos compatriotas que se 
dão á leitura de obras uteis^ temos tido huQi cuidado , 
ás vezes até minucioso e escusado , em pôr os nomes 
vulgares ao lado dos scientificos , até em artigos desti- 
nados para pessoas instruidas.Para não amontoar exem 
])los , rcferimo-nos ás Memorias que temos publicada 
sobre os meios de Desinfecção, e sobre os Venenos , nas 
quaes a cada passo se lembra ao leitor, que o acido 
sulpluirico j he o que d^antes se chamava vitriolico ; que 
o acido nitroso era denominado agua/orte-y que ao aci- 
do nilro-muriatico se chamava agua regia j que nitrate d& 
prata tem por nome vulgar pedra infernal^ ele. etc. etc. 
Ate no artigo citado pelo Gazeteiro a pag. 106 achará o 

9* 



i3!i Resenha Anafytica. 

leitor « silex ou pederneira , siãphate de ferro ou capar 
ro^ verde do commercio. » Nào sabemos que mais 
expficaçãò se possa exigir ; e custa-nos a crer que o 
autor do artigo tivesse lido com atteníção a Memoria 
sobre á <}ua} assentou a sua censura. Em huma palavra, 
se a reflexão do Redactor da Gazeta de Lisboa nos 
parecesse dictada pelo amor do bem publico, e se a 
achássemos applicavel aos nossos Annaes , com muita 
gratidão nos valeríamos delia para aperfeiçoarmos a 
parte lechnica da nossa obra ; porém á vista do que 
acabamds de ponderar, nada encontramos no aitigada 
citaciía Gazeta de que nos possamos aproveitar. 

F. S. C. 



FIM DA PARTffe PRIMEIRA. 



PARTE SEGUNDA. 






CORRESPONDÊNCIA, 



E 



NOTiaiS DAS SCIENCI^ , DAS ARTES etc 



Tom. IX. i B 



a^s! 



CORRESPONDÊNCIA. 



A<^»^%o^^^^ 



TRADUCÇÃO 

DA ODE I». DO LIVRO I». DE HORÁCIO. 

JVlECEifÁS f prole de tleaes maiores ^ 

AmparOy e gloria minha s 
No vasto circo a tonta mocidade . 

A. oljmpica poeira 
Se apraz de recolher nos leves .carros | 

£ quem sagaz triumpha, 
Co' as quentes rodas esquivando a meta , 

Igual se julga aos !Numes. 
Este y feliz a sedução maneja , 

Porque grata o carregue 
De triples honras a inconstante Guria : 

Contente aquelle sulca 
Os prédios patemaes, com torto arado , 

£ as largas tulhas enche 
De pr estadias Libjcas colheitas : 

As Attalas riquezas 
Debalde aos olhos seus amontoaras ; 

Nunca pávido nauta , 
Em Chyprea quilha ao pélago bravio , 

Abalançar-se ousara. 



1 



n 



Correspondência. 
D^ Africo horrendo aos furacões medonhos • 

Qae o pego Icarío batem , 
O mercador poltrão o odo canta, 

Canta os jardins viçosos ; 
Mas logo , indócil da pobreza ao fardo , 

Costéa o roto lepho. 
Nas horas outro, que o dever demanda , 

A sombra reclinado 
Das frescas fontes, e encalmados bosqnes , 

* Empina mollemente 
Crebras Ucas do Biásttoo eqmmoso. 

Com tabas outros folgSo, 
Munidos arraiaes, e aooesa guerra. 

Que as trktes mais pragnejio. 
O duro caçador , calcando a neve , 

A tenra esposa olvida , 
Quando , alta noíle , dos Sten sabujos 

A corça foi sentida , 
Ou Marsio javali varou nas redes. 

Aos Deoses me arrdMtio 
Das doutas testas premio , as verdes horas ; 

E do vulgo me arrancão 
Os Satytos brínooes , os Nympheos choros , 

O gélido arvoredo. 
A doce Euterpe , a heróica Polymnia , 

A frauta sonorosa , 
E Lésbico aladde me confiao : 

Assim /grande Mecenas , 
Se entre os Tates me pSes , co'a frente alçada 

Ferirei as estrellas. 



Correspondência. 



COLUMELLA, 

TRADUZIDO POR FERNAM D'OUVEIRA. 

{Continuação.) 



^»»»»^»^ m m »^» 



CAPrrOLO QUINTO. 
De como hão de ser estercadas as terras delgadas* 



Antes que talhemos as terras delgadas, depois de 
abertas , convém que as esterquemos y por que he isto 
para ellas como mantimento que munto dezejão. Nos 
campos abasta menos esterco, mas as iadeyras hào 
mester mais. Nos campos de oito em oito pees cada 
monte de esterco , e nas Iadeyras de sinco em sinco , 
e cada monte do tamanho de sinco alqueires. O tempo 
para estercar as terras hè melhor no minguante da 
lua , por que então gasta o esterco as ervas do chão, e 
as faz apodrecer. Cada geyra de terra fraca que Içva 
mais esterco , ha mester vinte e quatro carregas de es- 
terco , e a geyra de terra grossa dezoito carregas. Logo 
como espalharem o esterco, hè necessário que o cubrão, 
e lavrem a terra por que se não seque , e perca sua 
força , mas que engrosse a terra mesturada com eUe. 



Correspondência. 
D^ Africo horrendo aos furacões medonhos • 

Qae o pego Icarío batem , 
O mercador poltrão o ócio canta , 

Canta ot jardins viçosos ; 
Mas logo y indócil da pobreza ao fardo , 

Costéa o roto lepho. 
Kas horas outro, que o dever demanda , 

Íl sombra reclinado 
Das frescas fontes , e encalmados bosques , 

* Empina mollemente 
Crebras taças do Blástico espuiáoso. 

Com lubtts outros folgao, 
Manidos arraiaes, e aooesa guerra. 

Que as tristes mais pregnejioi 
O duro caçador , calcando a neve , 

A tenra esposa olvida , 
Quando , alta noite , dot fie» tabujot 

A corçâfoi sentida , 
Ou Marsio javali varou nas redes. 

Aos Deoses me «rrdMtio 
Das doutas testas premio , as verdes horas ; 

E do vulgo me arrancão 
Os Sat jros brinoSes , os Nympheos choros , 

O gélido arvoredo. 
A doce Euterpe , a heróica Polymnia , 

A frauta sonorosa , 
E Lésbico aladde me confiao : 

Assim /grande Mecenas ^ 
Se entre os Tates me pões , co*a frente alçada 

Ferirei as estrellas. 



- f * 



\ 



\ 



\ 



Correspondência. 



COLUMELLA, 

TRADUZIDO POR FERNAM D'OUVEIRA, 

( Continuação. ) 



^mf^tt^^ *i% »^» 



CAPITOLO QUINTO. 
De como hâo de ser estercadas as terras delgadas^ 



Antes que talhemos as terras delgadas» depois de 
abertas , convém que as esterquemos , por que he isto 
para ellas como mantimento que munto dezeiào. Nos 
campos abasta menos esterco, mas as ladeyras hão 
mester mais. Nos campos de oito em oito pees cada 
monte de esterco , e nas ladeyras de sinco em sinco p 
e cada monte do tamanho de sinco alqueires. O tempo 
para estercar as terras hè melhor no minguante dar 
lua , por que então gasta o esterco as ervas do chão, e 
as faz apodrecer. Cada geyra de terra fraca que leva 
mais esterco , ha mester vinte e quatro carregas de ea- 
terço , e a geyra de terra fprosta detoito carregas. Logo 
como espalharem o esterco, hè necessário que o cubrão^ 
e lavrem a ten*a por que se nio seque , e perca sua 
força , mas que engrosse a terra mesturada com elie. 



<^ Correspondendo. 

VoT tanto não se deve espalhar cada dia mais qa^ 
aquillo que o arado possa cobrir. 

CAPrrOLO SEXTO. 
J)os géneros da^ sementes de trigQ,e esoandiãt 



TT 



Pois que ensinamos como se havião de aparelhai' 
as terras para semear, agora diremos, quantos são os 
géneros das sementes que podem lançar nellas, O pri- 
pieiro , e mais proveitoso he trigo e escandia. De trigo 
ha muntos géneros , porem o melhor de todos he o que 
chamão ruyvo, o qual em pezo, e alvura de pão prcr 
cede a todos ; o segundo he o oandeal que em pezo 
falta daqueloutro principal ; o terceiro he o tremez , 
que dos lavradores he muy agradável , por que quando 
por muntas agoas , ou causa outra alguma se perde » 
ou impede a sementeyra principal, soccorremse ao 
tremez , a qual he espécie de candeal. Todas as outras 
espécies de trigo são menps utiles para semear , senão 
se por curiosidade, ou para seu contentamento al- 
guém quiser espremcntar muntas maneiras de semente, 
principalmente em diversas , e novas terras. De escan-? 
dia , que também se- chama ador , ou far, ha quatro 
espécies , qíie são far, clusino , branco e resplande-* 
cente ; outro se chama venunclo também muito alvo , 
c o terceiro se chama propriamente br branco. Estes 
deus são de maior pczo que o primeiro chamado chi- 



Correspondência. 9 

sino. O quarto se chama halicastro , e he tremez. Este 
he principal em pezo , e bondade. Estas sementes de 
escandia deveín os lavradores acostumar assy como 
as do trigo , porque não são as terras todas de huma 
fejção e qualidade, mas são humas secas, e outras 
húmidas, e o trigo folga mais nas secas, e a escandia 
nas húmidas ; [ior tanto hè bom usar hum e outro , 
comformando a semente com a terra; 

CAPirOLO SEPTIMO. 
Dos géneros dos legumes e pastos. 



Os géneros dos legumes são muntos, porem os mais 
agradáveis e proveitosos aos homens, e de que elles 
mais usão, são favas, lentilhas, ervilhas, feyjoens , 
grãos, milho , painço , gergelim , tramoço , Unho alça* 
nave ,. linho próprio, e também cevada , por que delia 
se faz tisana. Os pastos melhores zão alfafa , feno grego, 
ervilhaca, cicera, eros, e ferrão de cevada. Mas pri- 
meiro trataremos das sementes quese semeão para nos, 
e depois do pasto das bestas. Em geral nos havemos 
de lembrar do precepto antiquíssimo que nos amoesta 
que semeemos os lagares frios depois de todos , e os 
temperados mais cedo hum pouco, e os quentes pri- 
meiro que todos. O qual precepto se hade entender 
em respeito de huma mesma região, e inclinação do 
çéo^ por que sendo diversas as regioens, primeiro se 



8 Corresponãeneia. 

devem* íemear as frias , que as quentes. No^ nestes 
pi eceptos presentes falaremos comfiorme, a saber, como 
se semeássemos 0mr regioens e Itigares temperados. 



CAPrrOLO OITAVO. 
i>o tempo de semear. 



O parecer do nosso Poeta he que n&o semee escan* 
dia nem trigo atee que se esconda o sete estrello » o 
qual se esconde aos trinta e dous dias depois do 
equinócio outonal. O qual equinócio he aos trese ou 
quatorse de Septembro , e o sete estrello se esconde 
quasi meado Outubro , e a própria sementeira do trigo 
hè desde então atbe o tempo do solsticio, que os 
Latinos chamarão bruma o qual agoi^ be em dez oa 
doze dias de Dezembro. Porem dki^ os antigos que 
doze ou quinze dias antes da broma , e outitys tantos 
depois j não lavrassem terra , nem podassem vinfaa , 
nem arvore. E nos não duvidamos que assy se deve 
fazer a sementeira nas terras temperadas. Porem nas 
húmidas ou fracas, ou frias ou sombrias, muntas 
vezes convém fazerse em Septembro , ainda que seja 
em tçrra seca em quanto a humidade anda pendurada 
e não acaba de cair ; por que quando yierem as chu-* 
vas ou neves e frios de invei-no, tenha jaa o pão râizes, 
e força para os sofrer sem detrimento. Em qualquer 
tempo que se fizer a sementeira, hora seja ce4o > 



Correspondeneia. q 

hora tarde, façase sempre com seus resguardos se^ 
gando as terras : onde forem necessárias margens, 
façào margens , e onde regos, facão re([os. As margens 
sejào anchas , e onde não houver margens , facão re- 
gos grandes , por onde sangrem ou desagaem as agoaf 
da chuva sobeja que em todo o tempo pode chover. 
Estes regos a que chamão sângradeiros , sejào altos 
e largos , e não munto ralos , e Sejâo lançados de fej- 
çào que tomem as agoas da terra , e corrào ao gejto 
do chão , e tephâo no mais baixo seus boqueyroens , 
de maneira que lancem as agoas fora das semeadas. 
Não me esquece que alguns lavradores antigos deixa- 
rão dito que não semeássemos, senão depois que 
chovesse bem , e molhasse bem a terra; o que também 
a mim não parece mal, nem duvido ser mais seguro 
para o lavrador, mas porem se as chuvas tardarem, 
como fazem muntas vezes, não hé inconveniente se- 
mear na terra seca antes que chova , como se faz em 
algumas Províncias , quando estado , e qualidade do 
ar he tal que o quer assy, por que a semente hora 
seja trigo ou escandia, ou qualquer outra debaixo 
da terra enxuta não apodrece, se hè bem desforroada 
e cubeiia, mas estaa guardada, e conservada como 
na tulha, e mais com algum humor da ^erra estaa 
desposta para com a primeira chuva que vem nacer 
logo no premeiro dia que chove, e hé melhor que 
esperar para semear com munta chuva e lama; por 
que ainda que tarde , oi*dinariamente ha de chover no 
inverno, ou cedo, ou tarde, se não he por alguma 
desordem da natureza ; e he melhor esperar a sementcr 



10 Correspondenciíu 

na leira pela chuva, que perdera sementeira. Porem 
Tremellio diz , que as taes semeadas premeiro as co- 
mem as formigas e os pássaros , que cjiova ; e eu as- 
sim o acbey ser verdade algumas vezes ; mas se forem 
bjem cubertas , não padecerão munto detrimento. Nas 
terras desta maneira , melhor hé semear escandia, que 
trigo I por que a escandia tem a casca mais rija j e sus« 
tentase mais tempo sem corrupção no humor da teiTa- 



^%%^<%%^^^^>^^<%»»^^%»^^i%i^«%'%i^/»^%/%»^^^%^^<%í^«»^<%<^»%^^'%'»«»^»^^i^ 



CAPrrOLO NOVE. 



Onde diz quantos almudes de semente ha mester huma 
g€tyra de terra , e ensina fazer boa semente. 



Huma geyra de terra boa , e gi*ossa ha mester quatro 
almudes de trigo , e a geyra de terra meãa , cinco : 
mas de escandia , a boa terra ha mester nove almu- 
des f e a meãa dez. E posto que antre os autores não 
bà certeza da medida que se deve semear em cada 
geyra de terra, todavia o nosso costume ensina ser 
esta que disse mais conveniente para as nossas terras 
de Itália. £ se alguém não quiser aceytar o nosso cos- 
tume , tome a doutrina daquelles que dizem cada 
geyra de campo fértil leve cinco almudes de tiigq^ e 
outo de escandia ;e esta mesma medida mandão lan- 
çar nas teiTas de meãa força e vigor. Porem a mim, 
nem esta , nem a que disse acima , conformando me 
€oui o costume , me satisfaz para que sempre e em 



11 

toda a parte se haja de guardar , por que a pode va* 
riar a diversidade dos lugares, e dos tempos ^ e dos 
temporaes. Dos lugares, se são campos ou ladearas; 
e estes se sào grossos, ou meãos, on-firacos. Dos 
tempos , se • be outono , ou inverno , por que a pri- 
meira sementeira quer a semente mais rara , e a der- 
radeira mais basta. Dos temporaes, quando chove, 
ou não chove ; por que se chove , quer a semente 
rara, como a sementeira temporãa, e se não chove, 
quella basta , como a serodea. Todo campo descuberto, 
e virado para o Sol , e abrigado cria mais , e ha mes- 
ter menos semente , e assy (az a terra soka e podre. 
A ladeyra , e outeyro , posto que faça o grão mais 
esforçado , todavia não daa tanto trigo. A terra forte, 
bár^nta, e húmida cria melhor o. trigo candeal , e a 
escandia* A cevada daase melhor em, terra solta e 
seca. A escandia e trigo candeal querem terras fortes- 
e revezadas hum ano, e outro não. A cevada nãor 
quer terra munto forte , nem munto fraca.'- O trigo , 
e escandia , quando a necessidade o requer , soflfrem 
semearemnos em lama. A cevada , se a semearem 
molhada , morre. Se a terra for barrenta , ou húmida 
mais hum pouco do que acima disse , hnma gejra ha 
mester cinco almudes de trigo, hora seja candeal, 
hora seja qualquer outro. E se for terra seca, ou solta , 
com tanto que seja grossa , ou meàa , abastarão qua- 
tro, e ainda que seja firaca, isso lhe abastaraa, por 
que se nacer basta a sementeira, aiaraa a espiga 
pequena e vãa , e nacendo- rala , se lhe fizer bom 
t^mpo, lançaraa filhos ^ e de pouca semente daraá 



II Correspondência, 

munto fimjto. Ântre estas medidas hé necessário que 
aaibamps , qae as feiras cuberta» daryores , como são 
Qlyvaes « e pomares , e azinhaes » se a$ semearem , hão 
mester mais a quinta parte da i^emente por geyra , ou 
por tamanho de chão, por q\iea sombra das. arvores 
estorva o nacer e fiructificar., Ateequi ainda falamos 
da sementejra do ootofio, qu« hè a principal. Mas 
ba bi outra ^ a, que ditamão tremesiiiba , que usào 
quando a neoessidade obvígau Desta se usa em lugares 
frios e nevados. y onde o eslio bè bumido,e sem va- 
pores quentes , que iazem manfi^a e ferrugem : nos ou* 
tros lugares poucas vezes responde bem. Esta semen- 
teira tremesinba se d^ve fater antes do equinócio do 
verão , que agora be a dez de Março , e se o lugar e 
tempo o consentir » quanto mais oedo y tanto m^elhor. 
Porque não bà bi semevte alguma , que de seu natural 
venba em três meses , mas antes essa.qjue ebamamos 
tremes, se a semearmos no outono, viraa. quando as 
outras , e nào viraa em três nçiezes , por qve a tempo 
a nào deixaraa vir, e mais estando na terra todo o 
tempo que as outras , respgnderaa mais que em ti^s 
mezes. Porem todavia alguma gementes sofrem me*- 
Ibor a quentura do verão, como são o tri^^ocandeal» 
e a cevada galatbica ,e balicastra, e a fava marsica^ 
as quaesy se as semeão tarde, crecem mais asinba 
com a quentura do verão , e vem em mepos tempo , 
e por isso Ibo; cbamão tremeses , nào por que a sua 
natureza Ibe bmite três mezea de tempo; antes em 
algumas partes a (jueptuni aa íaz vir em menos.de 
dous. As sementes robustas e rijas melhor bè que aa 



Correspondendo^ i3 

^emeem anles do inverno nas regioens temperadas» 
por que estando mais tempo na terra tomão mais 
forca , e dào mais fracto e melhor. Por fae as vezes 
a terra lança reçombro salgado , o qual corrompe a 
sementeira , e faz qne ou não nace , on se faé nacida» 
não crece , mas recozese « seca, e faz tndas «as se- 
meadas , tão peladas ,' como se nanca nelas caíra se- 
mente *, para remédio disto , convém que asnnalem os 
lugares das melas, ou eiras, quando estaa o pão na 
terra para depois a seu tempo se cmrar desta maneira. 
No lugar onde mana o tal humor que mata a semen- 
teira , esterquem com esterco de pombas , e se o não 
houver , lancem folhas d*acipreste, e lavrem oo cavem 
por cima , de maneira que apodrieçào , e tome a terra 
a virtude delias. Mas o mais antigo , e certo hé, san- 
grar os taes lugares com regos fundos , por onde aquelie 
ruim humor raze fòra da herdade , por que sém isto 
essoutros remédios não valem nada. Alguns forrào o 
saco da semente com pelle da fayena, e dizem que 
aproveita , e que se logra a semente , «que estaa algum 
pouco de tempo naquele saco por virtude da dita 
pelle. Também hà debaixo da terra alguns bichos que 
cortão as raizes e matào a sementeira. He remédio 
contra elles o çumo da terra que chamào sayào mes- 
turado com agoa, e lançada nelle de molho hnma 
noute a semente antes que a semeem. Outros fazem 
isto com o çumo de pepino de cobra, e da raiz delle 
pizada mesiurado também com agoà- Outros com esta 
mesma agoa assim mesturada , ou com agoa ruça sem 
sal y havendo quantidade com que se possa fazer, mo* 



/ 



'\ 



li 4 Corrèspohdenclà. 

Jbaõ os reg^s onde começa o mal , é cem isso itfogeo» 
taõ os bichos que este mal fazem. Também tenha 
. para dizer , como logo na eyra podem eomeçar a fazer 
.boa semente , os qt.e queiem ter boa sementejra. Isto 
ensina Coinelio Celso ^ e diz qae quando a colheita 
hè pouca, logo nos íejx,e& se escolhão as melhores 
espigas , e de melhor grão, e estas^ sejào machocadas 
fora do calcadouro , e o grão delias se guarde apar- 
tado para semear : mas se a colheita hé grande , e não 
.se podem apartar as espigas antes da trilha ou debu- 
lha, debulhese todo junto, e depois de tirado da 
.palha corrão aa joeji*a , o que quizerem guardar para 
^semente desta maneira. Corrão, ou joeyrem huma 
vez , e o que se for ao fundo , apartemno por si , atee 
a quantidade que hão mester, e depois tornem-no a 
correr outra vez da mesma maneix*a apartando sempre 
o . que se vay ao fundo da joeyra , por que esse hè o 
roais pesado e. cheio , e esse guardem : por que parece 
que este deve ser melhor do que o outro, por quanto 
não hà duvida , senão que a semente ainda que seja 
boa, não daa todo o fruito bom ;' delle say bom, e 
delle não tal. Isto, ou pela diílerença das terras ou 
dos tempos , ou por negligencia dos lavradores , que 
o não alimpão, ou não estercão, nem curão as terras. 
Em tanto que muitas vezes levando a semente de huma 
terra para outra , em dous ou três anos semeaudoo 
muda a espécie, em especial nas terras húmidas, e 
também nas secas, se, não tem bom cuidado de o 
curar, e fazer o que (ica dito. A mudança que faz 
sempre hé de bom para mao, e quando a semente 



Correspondência. i5 

hé ruim , nunca se melhora , mas antes as vezes se 
perde de todo. Donde Virgílio diz — > Eu ti sementes 
mui escolhidas que por espaço de muito tempo du- 
raràò , porém com trabalho , e por derradeiro se não 
tem muito cuidado de as escolher rada ano, sempre 
se danão , e assim o fazem todas as sementes. O grão 
de trigo ruivo de fora, se dentro hè também ruivo, 
quando o quebrão , hé sinal certo que estaa em sua 
perfeyçào , e hé bom para os lavradores. Ao contrario 
o branco assj de fora como de dentro, hè leve, e 
vão. Enào se enganem com o trigo candeal, por que 
esta espécie de trigo hè defeito de trigo , e não per- 
feyçào , e posto que na cor seja fermoso , no pezo falta 
muito Porém folga com a humidade, por isso res- 
))onde bem em tempo húmido, e em lugares húmidos. 
Hè tão' natural de lugares húmidos o candeal , que 
não tem os lavradores necessidade de o ir buscar longe, 
nem tomar trabalho por isso , por que qualquer espé- 
cie de trigo semeandoo em lugar húmido, em três anos 
se faz candeal. Após o trigo , e escandia hè logo a 
cevada , que os rústicos chamào de seis ordens ,.e 
outros lhe chamào cavalar. Tem esta a veotagem que 
a comem as bestas de melhormente que o trigo , .e 
para os homens he mais saadia , que o ruim trigo , e 
mais hè grande remédio para os pobres* Semease em 
terra solta, e seca, ora seja forte, ora seja fraca, por 
que consta que as terras fortes que não podem abrandar 
' de sua fortaleza,abrandào com a sementeyra da cevada, 
' e as muito fracas que não prestào para dar outra 
' cousa , dão cevada. Devese semear no segundo arado 



i6 Correspcmãatcia, 

«Ifipois do equinócio , se a terra for boa , qnasi no meio 
da sementeira , e senão , mais cedo. Cada geyra leva 
jinco almudes. Tanto que começar a amadiuecer, 
ooUiâona logo, antes que se seque muito, por qoe 
tem a palha fraca , e quebra muito , e cae o grão da 
espiga p<M* que não tem fiolejo , ou cana que o sustente , 
pelo que também se debulha Cidlmente. A terra donde 
se colhe esta cevada, cumpre que folgue ao menos 
hum ano , ou senão fartemna de esterco « para que 
gaste bem toda a peçonha que nella ficou. Outro 
género de cerada ha hi a que chamão galaticum, 
que quer dizer branco ^ ou lhe chamão distico, que 
^uer dizer de duas ordens; por que cada espiga não 
tem mais de duas ordens de grãos. Este hé mais pe- 
sado , e mais alvo assy no grão , como no pão , e 
jmiestnrado com trigo faz bom. pão para a gente. Se- 
mease no mez de Março pouco antes , e se o inverno 
íbr brando, podese semear de meado Janeiro por 
diante , e responde melhor. Querse em terras grossas 
e frias. Cada gejra quer seis almudes de semente. O 
painço , e o milho (icão acima postos antre os legumes , 
mas também delles se faz pão em muitas partes , e 
jnuita gente se mantém delles. Querem terra solta e 
fraca , tanto que na aréa se dão , se lhe chove , ou 
sendo regados : não querem terra seca , nem de barro , 
jc sua sementeira hè de meado Março por diante ,e não 
antes , por que folgão com tempo quente ; e he de 
pouca despeza, por que dous terços de hum almude 
abastão para huma geyra de lerra. Porem depois de 
nac^dos querem que os sachem » e mondem muitas 



^tes > por tfue não creça herva antre elles que òt 
afoga. Colhemse arrancadas à mão, antes que ama** 
dureção mnito ^ por que abremse as cascas , e cae o 
grão, e perdese, e penduradas as espigas ao sol s^ 
acabão dé secar para' se recolherem. Pòrèm em outras 
partes se colhem depois de maduros segados aa fouce ,- 
e debulhados como trigo na eyra com os pès dos bois ^ 
e recolhemse em grão. E assjr recolhidos em boa caza 
enxuta onde não apodi^çáo , durão mais que todolos 
outros legumes , por que elles em si não tem humor 
que os corrompa, e de fora o gorgulho não lhes fac 
nojo como aos outros. O pão de milho cozido fresco 
hè muito gostozo, e comese sem fastio. Do painço ^ 
e lambem do milho esbniyado,e cozido com leite 
fazem os rústicas papas antre elles muito estimadas. 
Esbrugâo estes , e outros legumes em mortejros grau* 
des de pão, pisando com pisoens de pão, que tenhâo 
as cabeças redondas e não chãas, por que esbruguem» 
e não esmaguem. 

CAPITOLO DEZ. 

Onde diz , gue terra e sementeira condem para cada 

legume* 

Por quanto do pão jà fica dito quanto abaste , di« 
remos agora dos legumes. Dos quaes-^ o primeiro he 
o tramoço, por que daa menos trabalho, e casta 
menos, e ajuda mais as teiras em que o semeiao, 
por que assy nas vinhas » como nas terras de pao ^ 
Tom. IX. P. a«. ^ B 



i9 Gorrespúnáeneiaé 

que jà emagrecem, vai por esterco, e daase em 
qiialquer terra por fritca» ou gastada que seja, e mais 
9a tulha dura muito : no. inverno, quando nào hà 
herva, cozido e Uuçado de moUio hi mantimento 
para os Ik>ís, e também para os homens em tempo 
^e esterUidade; ao menos mata a fome. Seneaselogo 
çm aahindo da eyra , e não tem necessid44e de o 
kyarem ao celeiro , se o não quiserem levar. Tanto 
xne daa que o semeem eja SepteqibFo antes do equi-» 
nocio 9 como em Outubro , e tanto monta qne o lan- 
cem em terra crua por lavrar , como em lavrada , 
com tanto que o cubrào como quer; por que ainda 
que se)i( mal cuherto , sofre a negligencia do lavrador^ 
Todavia se o Outono hè quente , faa lhe proveito , por 
qué toma força antes que venha o frio ; o qusd lhe 
(az mal se o acha tenro. O que fica para comer. guar<» 
4êse em lugar enxuto , em sobrado, ou taboado outro 
tlgum, e se for no. RineTro, melhor será, por que 
se entra com elle humidade, cria bicho, o qual se 
lhe come o olho , nào presta mais para semente. Quer, 
como disse , terra fraca , em especial vermelha ; abor* 
recelhe barro , e na terra húmida não sabe. Dez al-> 
fnudes cabem em.huma geyra de terra. Depois do 
tramoço semeese logo o feyjâo em barbeyto , ou em 
i*esteva de terra grossa , e em cada geyra não lancem 
Bouais de quatro almudes delles. Pella ínesma maneira 
d0V4Hu semear a harvilha em terra porém soUa e fácil , 
lugar temperado , e ar húmido e chuvoso. Ptora semear 
cada geyra hà mflster outro tanto como de feyfoens , 
pa menos hum almude. O tempo de semear hervi-* 



•Cotrêsponáenciã. %g 

thaá Iiè ikú piincipio da semenleira lo^' depois do 
e<iuÍQOCio oatoDaL As (ava$ querem tora grossa e 
estercada , e se íòr bari)eyto em vate para onde cor» 
rào as agoas doa ãdtos, seraa» melbor. O modo de as 
semear hè este. Lançar a semente anies de lavrar, • 
sobre a semente abrir a terra , e depois díiberfa lisela 
em margens» e destorroar para que fiquem bem cu* 
bertas> e altas debaixo da lerra, por que isto lhe' 
vdeva <tue tenhão aa raizes bem dentro. E se as qui- 
serem semear na i^esteva donde caberão aquelle anuo 
novidade , tirado o restinho » lancemlhe esterco » e a 
cada geym vibte e qnatiH) carregas. E assi também 
{aremos, quahdó as semearmos em terra crua seoi 
lavrar , e em cima lavraremos » e destorroaremos: ainda 
qtie alguns hà hi que defendem o destorroar em lu** 
gar^ frios, por que diceoft que os torroena altos em-* 
parào do frio e do vento as favas em qnsoito são 
novas e tenras , e as aquentio^ Também cuidáo ai* 
giins que as favas estercào a terra*, o que eu entendo 
assy , que as favas n&o gastào tanto a força da terra 
como as outras sementes , e não que lha acrescentáo , 
nem que a engrossão como o esterco , por que tenho 
por certo, que melhor bè, e mais fructifica a teiTa 
que não foi semeada, e folgou o »no passado, que 
a que teve favas , posto que esta não fica tão fraca > 
^omo as que ti verão outras sementes. Segundo Tre- 
mellio cada geyra de tenu leva quatro ahnndes de 
favas , mas o meu parecer hò que lhe laneem seis , 
ise a terra bè grossa, e se he meàa mais honi' pouco, 
Terra fraca nào daafovas , nem temra de névoas ^ terra 



a* 



ão JCcrrssponienda* 

forte responde ! meãamente. A sua sementeira hé no 
meio da semetoteira do pão, ou no cabo, a qualie 
chama septimuncial por que então se faziao o» saoi* 
ficios dos sete montes de Roma. A primeira munta» 
vezfes,ea deiradeira aas vezes hè melhor. Depois do 
solesticio também semeão favas; mas poucas vezes 
respondem é no verão peor; posto que -ha hi 'favas 
a que-chamào ti^mezes, as quaes semeão* em Feve- 
reiro y e levão a quinta parte de semente mais que as 
outras; fazem a palha pequena , e o írúito pouco.* 
Donde vem que ouvireis dizar aos lavradores velhos »- 
que querem mais a$ palhas, tempòrãas que o fruito 
tremês. E porem em qualquer tempo que as semearem, 
seja sempre com lua chea, desta maneira , que toda 
a semeníe que houverem de semear» espalhem n& 
terra no ^ próprio dia do prelunio, antes que passe, 
ou hum dia antes , ainda que a não cubrào logo toda : 
por que não lhe íaz mal o sol , nem orv^ho , com 
tanto que a não com^o as aves , ou ratos 9 ou quaes- 
quer outros bichos, ou gado. Os antigos e também 
Vergilio dizem 9 que hè bom lançar de molho em agQa 
ruça ou de salitre as favas bum dia ou dous antes 
que as semeem , por que nacem mais cedo , e 'não 
as comem os bichos debaixo da terra. E miais diz Ver- 
gilio que crião melhor grão , se as nK>Ihão com agoa 
morna. Eu por .experiência achei que as favas assiift 
curadas nàp são tocadas do gorgulho tão asinha como 
as outras. E o que agora quero dizer, também o ex- 
perimentei , que se colherem as favas no antrelunho , 
de madrugada » e logo na eyra secas 9 • debulhadas. 



Correspondência» 9t 

antes que a liia 0*6^ /as recòlherenk pela fria, e^não 
pela. calma y e as puzerem em lagar efixutav-e fvio, 
conservarsehão sem gorgulho. Tem as fiivas esta fact<' 
lidade antre os legumes, ^e ella. mais que os outros ' 
se pode debulhar sem héstas^i^ alimpar sem yen^o , 
desta maneira. Tomem huns poucos ide molhos , e 
tragaõnos arrastando pela eyra alguns homens, e ou- 
tros irenhão de traz machucandoos com mangoaes, ou 
quaesquer pàos; e se os não quizerem trazer arvas* 
tando, abasta machocalos quedos sem andar, e aa 
mão sem bois , nem bestas , somente com pàos. E para 
as alimpar sem vento £irão assim, liancem primeiro 
fora da eyra as palhas gi*andes , ou colmos das fiiveiras, 
e as folhas, e cascas das bainhas apartemnas assim* 
Tomem grão, e cascas tudo junto com as.pàas, e 
lanoemno com força quam longe puderem pela eyra f 
e as favas por que são mais pezadas irão mais longe 
apartandose das cascas que por serem leves nãaromr 
perão tanto pelo *ar , e fioão^ mais perto , e assy se 
apartaràè humas das outras , as cascas das favas » as 
quâes deste modo se alimpão^ sem vento. Ae lentilhas 
têm duas sementeyras ,. huma temporãa , quando se* 
meãa o pão no outona, e outra em Fevereiro. Que* 
rem ser semeadas no crescente da lua atee os doae 
dias delia em terra delgada e solta, ou grossa e seea, 
porque com a humidade vecejão do tempo da fvol, e 
corrompemse. Mas paia' sahúr, e crecer oedi>, antes 
que as semeem estem quatro dias ou cinco mistu- 
radas com esterca seco, e assy com elle as-. semeem* 
Abasta para huma geyca de terra pouco mav de huiii 



%t Correspimdemeia^ 

aknude dellát. .Também $e comem, de gorsnllio , « 
tanto que no folhelho as oome ; mas para se poderem 
conservar em caza escolhemse as mais dieas nesta 
maneira. Lancemnas em fanm grande alguidar dagoa, 
e as que nadarem aade ribadagoa, «parteranas para 
oomer logo, e a& oitfras que se foicm ao fundo ^ 
guardem e sequem-nas primeiro bem «ao sol; e se 
houver raia de sHphio , pizemna , a mestnremna com 
vinagre » e borrifem*nas com elle « e esfireguemBas 1i>emt 
e tomemnas a secar » e depois de frias em lugar ent 
xnio e frio , se são mnntas em tnlka» a se nào sio 
tantas em tdhas bem tapadas* Também se podem 
guardar oom cint9 sem mais outra couca, O Unho, se 
pio for em ierras aonde ae acoatmna &9ier iieQe miuto 
pro'veito , e isao vot provacar^ nào o semeeis nas vo88a$ 
terras, por que as damna como peçonha» e se o se* 
meardes, seja em tarra grossa, e bumida ou regadia. 
O tempo da sua aeromitein^ hè nos BMses dOytnbi^ 
e Novembro , e tambam na toei lie Fevereiro , se a 
terra hè grossa , e creadom. Para hama gejra de term 
ka mester oyte almndes de semente , e se a terra hè 
fraca, on a seipenteira serodea, lanoem4he dev al^ 
mudes', por qne o Ikxho basto cresce mais efas mais 
longa fevera. O gei^Um nas terras regadias mais cedo , 
e nas outras depois do -equinócio outénat atee meado 
Oytubro^ se quer semeado mn terra podre, ou arèa 
grtesa , on terra kmçadisaa. Em cada geym tanto come 
do milho , on painço , a «abar dons terços dahnode , 
e aas vezes mais Imm torço , a saber bum almnde 
abasta. Nas leicas da Cflicia e Svria vi #« semear 



Conré^HmàendiL $i9 

«sta semente nos mezes de Junho e Julho, e vir nia- 
dura 9 e oolberse aq oMMiiq. Ob ohioharos^.que sâò 
quasi coBAO en^lhas, .devaiAse seoftéareiÉfaneirò e 
Fevereiro «m tetra boa , e teo^M:» bnntdo» f orè^oi éoot 
algumas parles à» Ita^a «^ semefte «iltes de ^^embra* 
Três almudes e^ichem hum.a.^jra de lerca. fifâo hà 
legume outro idgum fue menos damnofaça nasiterras 
do que fas este : porém elle responde imtà , |xir que na 
fnd não sofire èetn tampo seco nem húmido i se ukà 
liè muito temperado y ,e no lem|K> que €Íle- flovece^ 
de grande ventura ha jtemperaofa no ar. Os que pro* 
priamente se cbamão grãos , « por outro nome cabeçA 
de carneiro, e outros que se j^hamãjo piinicos, lou 
monrinos, bem se -podem aemciar per. todo. o mez dp 
Março 9 sendo o tempo húmido » e a terra boa«^ EaUê 
também damnão a terra, ^ }>or tanto os layradM^ 
entendidos não curão muntO dtíles» £ . porSm vse oé 
houverem de semear , lançeniUos priiseiro hum dia àà 
xuolho para que nação tsjinha. Ttm almudes^ deateu 
abastão {^ara huma geyra de len». O linfao alcanevo 
quer terra grossa e esteroada e iregadaft ou ao menos 
chão e húmido « e a terra seja betn Livrada , e rego 
alto. Para hum pee die terra mn quadrado abastao seis 
grãos desta semente , o s^mease no fim de FtveveiíxiHi 
quando naçe a constelação Arcturo a saberá sinQoo« 
seis dta& por andar do diu> mes» e atee p equinocáo 
que hã dez de Março » se o tempo fç^r huasido. Skpóil 
dos legumes que díx0ou>s» quer a resã# qise Iralemés 
dos nabos e rabãot, que .fcambem aiudàa maoter ji 
gente, do campo. Qs nabos sã» mais proveitozos ^por 



fl4 Ccrfèspondunêíá^ 

qjae não somente mantém a gente, mas lambem w 
bob , e. mais a sementeira delles responde melhor que 
a dos rabàos. Querem huns e outros terra podre e 
scdta , e nào apertada , e os nabos dãose melhor em 
oampos e terras húmidas ; mas os rabâos em ladeyras 
de terra seca , e delgada , cascalho , e aréa. Em tanto 
requerem estas duas sementes lugare9y e terras difiè-' 
rentes que muitas yeses' a natureza da t^ra muda 
huma gemente em outra : quero dizer que semeando 
nabos em terra que convéns aos rabâos, em doua 
anos se muda em semente de rabãos , e ao contrario 
lambem se muda a dos rabaos em nabos , se a semeão 
em terra de nabos. Assy huns como os outros , se os 
semearem em terras regadias , devemnos semear logâ^ 
depois do sokticio , e de meado Junho por diante , e 
nos sequeiros anire Agosto e Septemiuro* Querem terra 
bem desfeita , ora seja do arado , ora da eyrada , e 
farta desterco« E isto fiiz proveito, assy para eslea 
darem boa novidade ,• como lambem para qualquer 
outra sementeira , que depoia delles quizerem lançar 
naquellas terras* Huma geyra de terra não quer inais 
que dou3 terços dalmude da .semente dos nabos » e doa 
rabãos mais huma quarta parte^ Digo menos nos nabos 
por que hão de ser semeados mais ralos , por que en-* 
grossâo e fazem barriga ^ e hâo mester mais espaça 
que 08 rabàos , os quaes, lanção para baixo a raiz maia 
delgada, Estas couzas que ateequi .ensinamos semear^ 
são para os homens ; daqui por* diante ensinaremoa 
outras para o gado, e alimárias de caza*: 



C<ár»ip<mtlentia. «f 

mÊBÀSÊBSBÊÊBsaÊsssssÊBassBSagsm 

m 

íaemoriâ 

t 

Sobre os Fazis physicos oa artificiaes ( Brigueis). 
Traduzida do numuscripto HespanhoL 



0^^^i^^^m0^^^^ê 



JNbstá breve Memoria proponho-me rednzir a bnin 
corpo de doatrína , não &ó quanto diz respeito á deir* 
aipçào de toda a sorte de fuzis artificiaes qué se yeiif 
dem em Parts, mas também a manrâa de òs fabricar^ 
de os conservar , e de se servir delles. Ajuntarei igual* 
mente a theoria da sua inflammação^ e direi quaet 
me parecem preferíveis , considerados como ramo de 
industria e relativamente á sua utilidade nos usoft 
domésticos. Conheço, até dnco espécies d*èstes fuzis ^ 
que distinguirei pelos seguintes nomes : — Fuzis pneur 
maticas } Fuzis ox^gent^s ou do mechas oxy§9nadas$^ 
Fuzis de betume in/Uunmay el ; Fuzisphosphorieas i % 
Fuzis de gaz hjídrogeneon 

Fuzis Pneumáticos. 

São compostos de bum tubo ouço de latio ou im 
estanho, de 9 a lo centímetros de comprido , e de to 
miUimetros de diâmetro, com sua manga e embolo 
de couro : na parte inferior da cabeça do embolo ha 
huma pequena cavidade na qual se mette. humpedft- 
cinho de isca« A compressão repentina do ar «Unos*^ 



f6 Correspondência. 

pberim por meio do embole , be sn Biei e u li » pm^c^ 
cumular buma tão graude porÇào de calórico no corpa 
combustível, que este setido et|fAto fto ar, apenas 
feita a compressão se accende immediatamente , de 
modo que se pode dixer que péf effdifeô desta com- 
pressão se expelle o calórico do gàs úxygeneo que 
forma parte do ar atmospherico , e por isso se tem 
também dado a e^es futià ò kf(5me de Fuzis de com-- 
pressão. Para poder limpar o tubo, no caso de estar 
entupido pela iaca ou per oulra t{Mlqiièr mtitèría , 
desatarracha-se pelo fundo; e l-ecéiitMièètè téiti-sè 
construído estes fdzis 8oMisaldlHie4hes nfc pãrté supe- 
rior do tubo hum pequett# glòlio M boli jbutà , a 
fim de preservar a isòa dft humidade, é còhMSttát ãlU 
buma espécie de depoatlo ée M* estagntolé sém coh- 
sidenurel corrente , como succede guando faz vento. 



Se o tubo for de crystil mtií forte , podér-sé-bâò 
observar os efieitos da compressão, e Ver que não 
^ ba desenvcAvimento do calórico mas também de 
bix t qne ambos procedem da oomt)l^são do ^az oxj- 
geneo do ar, porque o azote pOir mdis ^e se com- 
piíma apenas produz buma mui pequena porção de 
calórico thermometrico* Até ao presente não se co* 
Bbjseem outk-os gazes , aenao o dílcirieo e o ozygèneo ^ 
<pie tenbàoa propriedade de laatttfestarem quantidade 
conáíderavd de calórico e de laz ^lá compressão» 
o que tem iocMoado muitos physícòs a crerem que o 
fiiádo calórico e O fimão kunmoso são eort^es deieápeci» 
dificrente. . 



r A coMlraeçte !e o tuo bestes fSàtk se ccffigè èi 
descripção. * VendMi'^ pM lAifidovM de latào,belA 
fabríoadott o ac«btdo« y de^ firáiiòM, Soca 3fr.;eoê 
de esUDho, de t fr. a t fir. i5 c. . 

Fmif dê mechaè imysenaáas. 

Estes constâo de huma garrafiaha na qual se íq<^ 
ti*oduz hum pouco de amianúio {taleus arestas ) em- 
bebido de addo sulphjarico concentrado : algninas 
pessoas põem vidro moido em vez. do amiantho. Nâo 
ie pode usar nestas gmxafinhas de estopa^ ou de Qutrt 
cpialquer substancia vegetal « em racao da propriedade 
que tem o acido sulphurico de oarbonisar as sub- 
stancias vegetaes ^ animaes , isto he de as decompõe^ 
apoderande-se do seu fajrdrogeneo e ozygeneo em pnh 
porções que formão a agua » com a qual se combina 
depois o acido dissolvendo-se nella. 

As tnecbas de que se faz uso pára estes fuzis s&o 
litms pedacinhos prismáticos de pao bem secco cujas 
extremidades estão cobertas de hum betume particular 
e inflaoimavel , composto de huma pouca de agua 
de gomma e de muríate super-oxygenado de potassa 
( dento chlorate de polassium )• 

Tasto a giui^afinlia 9 eonio as mechaá se cQusei'vÍò 
em estojos ou caixas quadradas de papetio , de ordina^ 
rio piíitadM de ettcaniado , cotti Os feparfimrentos con>- 
Venientes^ de a^do que a gartrafinha occApa a parte 
inferior, e as mêdiaa ^stto^ Ha superior. Ha em Paitii 



4S Correspondência. 

diversos fabrícântès- doestes fuzis ; porém as febrkas 
as mais conhecidas são as de MM. Fumiide e Gambier^ 
os quaes mandão muitos milhares delies , tanto para 
o interior como para fora do Beii^.- Esi^tes fuzis se 
vendem no commercio desde 8 soldos at^ i franco , 
segundo o menor ou maior numero de mechas que 
levão as caixas de papelão. As mechas preparào-se 
da maneira seguinte. 

Tomão-se, pelo menos, partes ignaes de enxofre 
ê de chlorate de potassa crystallisado , moem-se em 
hum gral da ágata ou de crystal separadamente , e em 
pequena quantidade, por exemplo, meia oitava de 
cada vez, a fim de evitar huma grande detonnação 
no, caso que chegue o chlorate a decompôr-se; o 
que se evita em parte humedecendo-o hum pouco 
com agua de gomma : nristurâo-se então as duas sub- 
stancias , tritrurão-se , e faz*se delias huma massa 
níolle ajuntando a sobreditta agua de gomma , cola , 
amido ou gomma de trigo : então tomão*se os palitos 
que devem servir de mechas oxygenadas e vão-serlhe 
mettendo successivamente as pontas na sobreditta 
massa, de modo que apegando-se forme na extremi* 
dade delias como huma cabeça de alfinete : seccão-se 
depois cravando*as pela extremidade que se não metlea 
na massa, em hum prato ou vaso chato ch^ de 
areia ; tingem-se finalm^te estas cabecinhas com ver* 
melhão ou minio, igualmente dissdivido em. agua de 
gomma, com o fim de lhes dar huma apparencia 
mais bonita, de as privarão contacto imniediato^ do 



%9 

ar ) é sobre - tuda para aasim as 'disfer^ dandchUie^ 
hum ar de mTSterio, fKitqiie nareiáidade esta c6t 
tem pouca ou nenhuma utilidade* 

Para fazer, uso destas mechas, introduzem-se at^ 
cousa de huma ou duas linhas acima da cabecinha 
dentro da garrafinha ou frasquinho (fae contém o acido 
sulphurico, e em hum instante se accendem com 
chamma como se fossem ãpplicadás a hum carvão 
em braza- A theoria d*este pheliomeno he a seguinte. 

Quando se põe em contacto com os chlorates qoal^. 
quer corpo combustível, este se apodera de huma parte 
do oxygeneo do acido chloríco , que por conseguinte 
se transforma em acido chloroso', o qual tomando re** 
pentinamente a forma gazosa , produz pela sua ezpan* 

* 

são huma forte detonação, para o que basta que a 
temperatura seja de ^ 3oo do thermometro centigrado; 
ou de + 24^ do de Réaumur ; e todos sabem que o 
mais pequeno roçado ou percussão pode produzir esta 
temperatura. Por isso vemos que a detonação se 
opera frequentemente pela simples fricção da mão 
do gral f por hum ligeiro golpe de martelo , e por 
qualquer outro roçamento ou percussão. O acido sul-* 
phurico concentrado, faz aqui as vezes de martela 
ou de mão de gral , elevando a temperatura até ao 
grão em que se decompõe o acido chloríco do chlorate 
de potassa ; e assim decomposto em acido chloroso e 
em oxygeneo , produz chamma , e accende o corpo 
combustivel, de modo que neste caso a combustão.^ 
le veriàca unicamente pelo oxygeneo no estado de 



^ CàirespondeneÍEík 

gaz n^seefttd. eom inteira, separação dú gus^ addo ebjo* 
roso.. Porém ^ como eleva o Mcià» M^phuvico ilo frasr 
quioho a temperatura até an. ponto neoesjSArio parae 
produzir este effeito?-^ Combinando-se o acido suU 
phuríco liquido coín a potassa, base do cbforate, 
forma-se bum sulpbale de potassa sólido , e por con- 
seguinte deve desenvolvera precisamente todo o ca^ 
lórico que servia a consen^ar bum d*estes corpos em 
estado liquido. Quando pois » na extremidade da me- 
cha o enxofre e o acido chlorico se acbào em con-^ 
tacto , decompôe-se este ultimo acido em oxygeneo e 
em gaz cfaloroso, por efieito da maior temperatura 
produzida pela formação do sutpbate , e entra em eom-« 
bustào o enxofine e a fibra lenhosa das sobredittas 
mechas* 

Para a perfeita e completa febrícação doestes fuzis, 
ikâo só convém expor aqui o methodo de obter o 
chlorate de potassa , mas tamberii hzev as seguintes 
adveitencias : i*. O risco da detonação he quando se 
mistura o enxofre com o chlorate de potassa ; o que 
se evita tendo a precaução de humedecer e chlorate 
com agua de gomma y como acima fica ditto ; 2*. Não 
ha grande risco em moer os dois ingredientes sepa- 
radamente^ ainda em quantidades maiores que aâ;' 
acima prescriptas, e só se necessita de mais alguma* 
cautela quando se fizer a mistura dos ingredientes;: 
3*. A. receita de partes iguaes dè enxofre e de chlo^ 
rate de potassa he diminuta , pois se angmenta a in- 
flammabilidade das mechas elevando a prot>or^odl> 



cMoiate na tasião A% t para 2 ou de t para ) , como 
o praticão o» Eaibcíeanies quefanen a» meiltores me** 
chás desta espécie^ 4*- He mtií eonveniente , e alé 
necessário que as mecliat esleyào cobertas de eiixofi^ 
na pofltta que se molha »o betome ou ina6ia;S«v CoiA 
a iBesma agua de gomma que ser^e para dar eousb* 
tei)cia á massa f $c pode tingir ao mesmo tempo a 
extfremidade daa mechas , dissotvendio netta primeiw 
a subsltancia coloranèe e Êia^do depois a mistura^ 
sem haver necessidade de huma segunda operaçio; 
6*. Ainda que a côr se dá de ordinário com. a verme* 
Ihào , pode para o mesmo obje^cto usar-se de zarcão 
ou minio , de azul de prussia , de açafroa ou safrão 
bastardo , etc. ; 7*. Finalmente , convém que a agiui 
de gomma seja mais clara que grossi^ , porque neste 
ultimo caso forma huma espécie de verniz que s^ 
oppõe á prompta decomposição do chlorate de po^ 
tassa. 

Nas lojas de productos chjmicos em Paiis yende« 
se a onça de chlorate de potassa de 4^ ^ 5o soldosi^ 
. e sahe por metade doeste Pfeço a quem toma o tra- 
balho de fazer este sal ; para isto basta fazer passar 
por huma dissolução concentrada de potassa ou de 
sab-carbonate de potassa homa coiTente constante de 
g<iz chlorico , dispondo para este fim bum apparelho ,' 
que pode ser com poucía diSerença o de Wonlf ^ s& 
com hum ou dois frascos tnbulados. Neste caso « 
agua da dissolução se decompõe ; o seu h/drogeneot 
aombifta-«e oom parte do^^ilore, e resulta acido hydrò-' 



Ss Correspondência» 

chloríco , que se combina coin huma parte de potassa 
( deuCozydo de potassium ) , i^esultando hum deuto- 
hydro-chlorate mui solúvel : jo ozygeneo da agua com- 
bina-se com o resto do chloi*e , e nasce daqui acido 
cUorico , que se combina com o resto da potassa, e 
dá lugar á formação do chlorate de potassa ou ínu- 
riate super^ozygenado , que se precipita por ser pouco 
«oluveL Acabada a operação decanta-se ou filtra-^e , 
lava-se o chlorate de potassa , e neste estado se em- 
prega para fazer os referidos fuzis. 

Ha dois methodos igualmente simples para obter 
em abundância o gaz chloríco : o primeiro consiste 
em metter em hum pequeno matrás cousa de huma 
onça de perozydo de manganese com 3 ou 4 onças de 
acido hjdro-chlorico ( muriatico ) dissolvido em agua , 
fazendo-se , por meio de hum tubo curvo , passar o 
gaz pela dissolução de potassa ; parte do acido hjdro* 
chloríco se decompõe;o. seu hydrogeneo se combina 
com huma parte do oxygeneo do oxydo de manganese 
e forma agua : o manganese fica reduzido ao estado 
de proto ou de deut'ozydo , e então se combina com 
o resto do acido hydro*chlorico não decomposto, 
resultando hydro-chlorate de manganese. 

O segundo methodo he mais complicado , e era o 
único conhecido antigamente ; reduz-se a metter em 
hum matrás huma onça de perozydode manganese, 
4 de sal marinho ( chlorureto de sodium ), a de acido 
sulphuríco diluidoy.com duas parles de agua : obtém- 
se immedtatamente o gaz chloríco Uvre. O sal ma- 



\ 



Correspondência. 32 

tinlio transformado desde logo em deuto-liydro*chlo- 
rate pela decomposição da agua do acido siilphurico , 
se decompõe, e a sua base se combina com huma 
paite doeste acido , do -que resulta sulphate de soda» 
O acido hydro-chlorico também se decompõe, e 
produ:K-se agua e sulphate de pfoto ou de deut^oxydo 
de manganese. Estas operações devem ser ajudadas 
Com hum calor moderado ; pois ainda quando a prín-> 
cipio elle não seja necessário para ezpellir o chlore» 
toma*^se depois indispensável» 

Com as instrucções e theoríaá que tenho exposto» 
julgo que será fácil preparar e fabricar perfeitamente, 
os referidos fuftis de mechas oxigenadas, 6m todas 
as suas partes. 

Futis áe b^tUnte (n/lammai^et^ 

Os tvLzis que os charlatães de Paris veiidèm de* 
baixo do nome de ífiçúets de mastic infkuhmiáblé ^ 
constào de huma garrafinha achatada, die á \ centl-* 
metros de diâmetro, e de vidro ordinário, tapadia 
com huma grande rolha de Oortiça. Quando se fax 
uso doestes fuzis tomasse hum palito enxofrado , 
mette-se dentto da garrafinha , e úiolha-se a exti^emi* 
dade no famoso betume que elle encerra , e esfregando 
depois sobre a mesma rolha inflamma^^se o pãozinho. 

Estes fufcis são excellentes para illudir às pessoas 

ignorantes , pois tendo-se accendido seis ou oito palitos 

enxofrados , não servepi para maia ; e sem embargo 

disso não faltão compradores entre o vulgo. Pois , 

Tom. IX^ P. a** 3 B 



34 Correspondência: 

por dois ou trçs soldos , que custa cada hum doestes 
fuzis, quem ha qtie não queira conhecer o arcano 
do betume , e ter o gostinho de accender 6 ou 8 pa- 
litos com facilidade ? 

Depois de ter comprado e quebrado algumas destas 
garrafinhas , reconheci que estavão cheias de' barro 
moido y de cor amarella escura imitando a do phos- 
phoro , e que tinhào só cousa de duas linhas desta sub- 
stancia por cima dos referidos pós» na parte a mais 
estreita das dittas garrafinhas ; mas quem só as vê 
porfóra,ou não está inteirado desta fraude , pensará 
que estão cheias de alguma massa particular inílam- 
mavel. O baixo preço d'estes fuzis me fez suspeitar 
que não podião prestar , e mais sendo as mechas sim- 
ples de enxofre mais caras que a referida massa , com 
a qual haveria com que fazer muitos centos de me- 
chas. Entre a rolha e a massa percebe-se sempre a 
humidade que attrahe o acido phosphorico que alli 
se forma constantemente pelo contacto do ar atmos- 
pherico ; e estas causas reunidas contribuem podero- 
samente para accelerar a extincção,e destruir a com- 
bustibilidade da pequena porção de phos phoro que 
se deita em cima da argilla em pó. 

Também se encontrão outros fuzis pequenos , da 
mesma qualidade , tão mãos como os precedentes , 
que constão de hum mui pequeno tubo de chumbo , 
^e 5 centimetros de comprido e de i centímetro de 
diâmetro y e que no fundo encerrão hum pouco de 
betume inflammavel, o qual, depois o ter exami- 



Correspondência. 35 

mado y acliei não ser seDào hum pouco de pLosphoro 
misturado com magnesia alba ( oxydo de magnesium ). 
A sua duração e edeitos são iguaes aos das garraíi- 
nbas. 

No largo chamado Cour des fontaines , juuto ao 
Poiais Royal em Paiis> punha-se nestes últimos tem- 
pos hum charlatão com huma grande mesa diante de 
siy sobre a qual tinha duas ou três velas accesas , 
que apagava frequentemente e que tornava a accender 
com a ponta do espivitador. Acompanhava isto com 
muita parola , e convidava os circumstantes a com- 
prarem do seu betume inílammavcl por excellencia ^ 
o qual vendia em mui pequenos frasquinhos , pelo 
preço de 5 ou 6 soldos cada hum. Pela apparencia 
exterior não era outra cousa senão phosphoro derre- 
tido com magnesia , do qual tomava huma mui pe- 
quena porção com a ponta do espivitador, que appli- 
cava ao pavio da vela em quanto este conservava 
huma temperatura de + ôo® de Kéaumur , ou + 8oo do 
thermometro centígrado, calor mais que sufficiente 
para a inflammaçào do phosphoro. Quando fallar 
mais adiante dos fuzis phosphoricos e das combina- 
ções particulares d'esta substancia , darei o meu pa- 
recer sobre esta composição inflam.mavel , cujas ma- 
ravilhas apregoào os vendedores ambulantes de Paris. 

Ftizis phosphoricos. 

Os fuzis a que propriamente sê chama em francez 
brigueis phosplwriques ^ constão de hum frasquinho 
o\\ tubo cylindrico de vidro , mais alto que largo, e de 

3* 



I 



36 Correspondência. 

pequeno diâmetro , isto he , de pouco mais de i cen«^ 
timetro- De ordinário estes tnbos estão mettidos em 
hnma caixa de lata repartida verticalmente pelo meio 
por huma folha da mesma matéria , para deixar hum 
Tão suficiente para conter as mechas , que são os pa- 
Utos ordinários com enxofre em ambas as pontas. 
Este frasquinho enche-se de pbosphoro pelo processo 
que logo se descreverá, e convém que seja alto e 
de pequeno diâmetro, para que o phosphoro apre* 
sente pouca superfide ao contacto do ar atmospherico. 

A maneira de servir-se doeste fuzil he tomar huma 
mecha de pao , introduzi-la dentro do frasquinho , 
revolvendo hum pouco a massa de phosphoro pela 
sua superfície superior, até que por este movimento 
se faça subir a temperatura a -f 43^ (R. )> ou -f 35 
( Cent. ) , grão em que se derrete e accende o phos- 
phoro, combinando-se rapidamente com o oxjgeneo 
do ar. Por este modo o phosphoro se oxyda , se acidi* 
fica e se perde muita porção deUe *, o melhor he to- 
mar com a ponta do pãozinho hum pedacinho de 
phosphoro , e elevar a teniperatura delle esfregando-o 
fora do frasquinho sobre a sua rolha de cortiça, ou 
sobre qualquer outro corpo pouco duro e áspero ^ 
porque se se esfregasse sobre crystal, mármore ou 
outro corpo lizo e polido , não haveria inflammaçào. 

Ha vários methodos. igualmente simples para pre- 
parar os frasquiuhos , e para os encher de phosphoro , 
que he a condição principal de que depende o bom 
efleito doestes fuzis. Os professores de Ghjrmica en^ 



Correspondência. 3i 

sinão duas maneiras de obter fuzis unicamente com- 
postos de phosplioro , porém ambos estes methodos 
são mui differentes dos que são empregados pelos 
frbricantes para especulação de commercio, como 
logo se verá. 

O primeiro consiste em tomar com humas pinças 
ou tenazes a garrafinha ou frasquinho pelo gargalo , 
aquecendo-a mui lentamente sobre carvões accesos, 
até que depois de bem secco , e estando em tempe- 
ratura de pouco mais ou menos + 4o*^ ( Cent. ) derrele- 
se o phosphoro sem se accender/ e vão-se deitando 
pequenos pedacinhos delle no frasquinho, até que esteja 
cheio y então tira-se de cima das brazas , deixa-se 
esfriar, e tapa-se para servir depois. Este methodo 
he perigoso; porque o menor descuido basta para 
que se eleve a temperatura j e arda o phosphoro : o ser 
guinte não tem este inconveniente. Consiste em en- 
cher a garrafinha de agua quente da temperatura 
de + 5oo ( Cent. ) ou + 4o^ ( R« ) > e para maior pre-n 
caução conviria metter a garrafinha até aos dois terços 
em hum vaso cheio de agua quente de igual tempe- 
ratura; depois vão-se introduzindo successivament^ 
pedacinhos de phosphoro na garrafinha , e á medida 
que vão chegando ao fundo delia começão a derreter^ 
se y desalojando e expellindo a agua : continjua-se esta 
operação até que toda a ag.ua contida, no fcasquiuho 
tenha sabido, ficanda em seu lugar o phosphoro 
derretido , o qual logo endurece ; e se o resfriameuto 
s^ oper^ lentamente, faz-$e solido conservando a sua 



38 Correspondcncia, 

primitiva transparência : finalmente tapa-se o frasqni- 
nho com huma rolha de cortiça, e guarda-se para 
quando se precisa. Se o resfriamento do phosphoro 
he repentino, em vez de conservar a sua natural 
transparência, tomar-se-hia negro, ou se faria de outras 
cores , segundo a maneira por que se operasse o res- 
friamento. Estas diversidades de côr não podem ser 
attribuidas senão á diflerente maneira por que se col-' 
loção as moléculas do phosphoro de cada vez , donde 
resulta o diverso modo com que esta substancia obra 
sobre a luz; e não deve attribuír-se á formação de 
novos oxydos de phosphoro , e particularmente do 
vermelho, como alguns chymicos tem pensado. 

Para a exti^acção do phosphoro em grande, emprega* 
se nas artes o phosphate de cal obtido dosT)ssos cal- 
cinados dos animaes , os quaes contém de 7G a 77 por 
cento do referido sal , que se transforma em phosphate 
acido de cal , por meio do acido sulphunco ; depois 
decompõe-se o acido phosphorico por meio do carvão,- 
que se apodera do oxjgeneo do acido, e então se 
y obtém o phosphoro pela distillaçào. Para se purificar, 
são ainda necessárias duas operações, das quaes a 
primeira he (iltrá4o por huma pelle de camurça dentro 
de agua quente , e a segunda distillá-lo outra vez. Não 
entrarei em maior individuação sobre este processo , 
que he longo , e que para o seu bom êxito exige muitas 
precauções. Por estes motivos os fuzis phosphoricos 
são sempre caros; pois ainda que se tem aperfei* 
coado os prpcessos para obter o phosphoro, este con- 



Correspondência. 3tj. 

serva sempre preço mui subido , e na fabrica de pro* 
duelos chy micos de M. Robiquet custa 4^ 4^ a 4^ fr. 
o arrátel. A pezar de que os fabricantes costumãp^ 
alterá-lo depois ^ misturando-o com a maguesia, os 
preços por que vendem estes fuzis no commercio são 
de 3, 6 e iti francos, conforme o tamanho dosfiras- 
quinhos, e os adornos dos estojos : estes , nos fuzis 
de mais baixo preço são de ordinário cylindricos;os 
dos outros são maiores e de figura elliptica* Os fuzis 
que tem mais reputação são os fabricados por MM. 
Kegnier, Pixii, Lainé, e Derepas; este ultimo tem 
hum privilegio de invenção , e continua a distingui- 
los pela denominação de Fuzis de betume inflammayel , 
nome mysterioso que nada indica , e que só serve de 
impor aos compradores y quando a base do seu be- 
tume não he outra cousa senão o phosphoro. Com* 
tudo y he certo que os seus fuzis são bons e bem fa- 
bricados. A. magnesia alba , e o sub-carbonate de ma- 
gnesia misturado com o phosphoro não tem outro effeito 
mais que augmentar o volume doeste , sem alterar ^ 
sua eminente combustibilidade , e posto que se com- 
binem com muita facilidade , e em temperatura pouco 
elevada com o enxofre y não exercem a menor acção 
sobre nenhum dos outros corpos combustiveis simples 
ou compostos. Vou dar aqui huma breve explicação 
do modo por que vi prepai^ar os frasquinhos de phos- 
phorOy a hum fabricante doestes fuzis ^ para commercio. 
Tomava por cada vez seis ou oito garradnhas vazias, 
e com huma carta de jogar deitava dentro de cada 
huma delias magnesia, até estarem pouco mais de 



<• Correspondência^ 

ineias cheias, deixando cahir a maresia pelo seu 
próprio peso , e sem a calcar ; depois mettia estas 'gar< 
rafinbas em hum banho de areia moderadamente 
aquecido , no qual tinha collocado hum thermometro 
para graduar a temperatura , e evitar que não passasse 
de + 43^ ou + 44^ ( Cent. ) ; então ia deitando nas gar^ 
raíinhas pedacinhos de phospboro , que tirava de hum 
frasco que continha agua fria , enzugando*os com papel 
sem gomma : á medida que o phosphoro se fundia 
penetrava a magnesia, a qual pela sua leveza e poro- 
sidade diminuia de volume e formava huma massa , 
que parecia composta de phosphoro derretido. Con-« 
tinuava a operação desta maneira , até estarem as gar* 
rafinhas bem cheias de phosphoro; então as tirava do 
banho de areia, tapando-as com rolha de cortiça , e 
proseguia sem perda de tempo a preparar outras 
novas. 

Estes fuzis são em tudo iguaes aos preparados pelos 
dois methodos anteriores, e produzem os mesmos 
eSeitos , só eom a difierença de se achar neUes o phos^ 
phoro mais dividido e felsifícado pela magnesia , sem 
que por isso soffra a menor diminuição a sua pro-* ^ 
priedade combustivel \ só em quantidade he diminuto, 
e por isso estes fuzis são -de menos dura , e são igual- 
mente sujeitos ao inconveniente de se ozydar e aci- 
dificar o phosphoro , attrahindo o oxjgeneo do ar at-» 
mospherico , auxiliado isto pela dupla affinidade que o 
mesmo phosphoro tem para o aztíte, no qual se divide 
• se dissolve , passando pelo estado de oxydo e de 



Correspcndencía; 4^ 

Cido phosplioroso , o qual absorve fortemente a hu- 
midade do ar , em razào da affiuidade que tem para 
a agua. 

Os frasquiohos ou garrafínhas de phosphoro prepa^ 
rados pelo primeiro methodo , isto he pela fusào , ao 
mesmo tempo que possuem a propriedade de accender 
com mais facilidade as mechas , tem em grão supe- 
rior os defeitos acima indicados, em razão de- que 
pela menor força de aggregação do phosphoro este 
tende a derreter-se e a dissolver-se no azote , e por 
conseguinte a oxydar-se e acidiíicar-se promptamente* 
Daqui vem observar-se nestes fuzis que a folha de 
latão j que em alguns delles está por cima da rolha da 
gaiTaíinha, em breve se cobre de huma pellicula 
branca, misturada de vermelho, e que alem disso 
ha na sua superfície huma pequena porção de agua 
impregnada de acido phosphoroso. 

Os fuzis construídos pelo segundo methodo são em 
parte izentos doestes inconvenientes, porque tendo-se 
fundido o phosphoro por meio da pressão da agua 
quente, conserva mais a sua cohesão, e o ar exerce 
neste caso com difficuldade a sua acção sobre elle , 
até que pouco a pouco a acção do azote , e a tem- 
peratura vencem esta cohesão natural , e então o gaz 
oxygeneo se precipita rapidamente a combinar-se , 
destruindo a combustibilidade do phosphoro. He pois 
necessário nestas garrafínhas valer-se,mais frequente- 
mente do j|ue nas que são preparadas pelo primeiro 
methodo 9 da fricção das mechas de pao, para pro* 



^n Correspondência. 

duzir o calor e luz ; porém em compensação doeste 
trabalho tem a vantajem de durarem mais, porque 
o pbosphoro não se oxyda , nem se acidifica nellas 
com tanta facilidade. 

* 

Pela simples consideração dos phenomenos que 
acompanbão esta combustibilidade ^ vem-se no conhe- 
cimento que^ para o phophoro ser eminentemente com- 
bustivel , não be possível privá-lo da sua propriedade 
mui enérgica de se oxydar e acidificar, porque não 
está no poder da cbjmica mudar á vontade as pro* 
priedades características que a natureza deo a cada 
corpo. He sim possivel fazê-lo mais combustivel , ou 
accelerar mais a sua combustão , combinandoto com 
outros corpos tanto ou mais combustíveis , como por 
exemplo , com os gazes bydrogeneo e chlorico , mas 
sempre á custa da repentina oxydaçâo e acidificação 
de bum excesso de pbospboro : os gazes inflammaveis 
que resultassem destas combinações , seria preciso re- 
colbê-los e conservá-los encerrados em frascos ou 
mangas de vidro fora do contacto do ar atmospbe- 
rico ; processo este que não he applicavel ao mecba- 
nismo dos fuzis de que tratamos* 

Se o pbospboro se combinasse com corpos simples , 
menos combustíveis que elle , augmentaria a sua co- 
hesào,e isto sería bum obstáculo ao desenvolvimento 
das propriedades que possue de oxydar-se e de acidi- 
ficar-se pro mp ta mente , como succede quando está 
derretido , mais dividido ou dissolvido nos gazes. O 
pbospboro combina-se bem com a cal secca, porem 



CorresponJencioi 4^ 

requer a dpplicação de hum fogo rubro y dando ori- 
gem a bum phosphureto de cal, solido , compacto e 
de côr encarnada escura , o qual não se inflamma 
pelo contacto do ar atmospberico , mas que decompõe 
a agua em buma temperatura pouco elevada, for- 
mando hum phosphate de cal insolúvel , e pix>duzindo 
hum desenvolvimento de gaz bydrogeneo per-phosphu- 
retado, que se inflamma spontaneamente pelo con* 
tacto do ar atmospberico. Se examinássemos successi* 
vãmente a acção do pbosphoro posto em contacto 
com outros corpos , tanto simples como compostos, 
com os quaes be susceptível de se combinar, veríamos 
que a existência e a composição do que cbamão 
betume in/lammai^el feito com o pbosphoro , não be 
outra cousa mais que o mesmo phosphoiode persi, 
ou misturado com magnesia. Não duvido que se possão 
fazer betumes ou mixtos inflammaveis com outras 
substancias, considerando como taes os ammoniuretos 
metallicos , os azoiuretos de cblore , de iode, etc que 
são mais geralmente conhecidos entre os cby micos 
pelo nome de pós fulminantes ; mas que não são ap- 
plicaveis ao ramo de industria de que tratamos. 

De todas as combinações do pbosphoro com os 
corpos simples, nenhuma be mais inflammavel que a 
sua combinação com o iode , pois apenas estas duas 
substancias se põem em contacto na temperatura or* 
dinaiia, comhinão-se rapidamente» com grande des-» 
envolvimento de calor e luz, formando hum pbo^*- 
phureto de iode , que em breve acaba por se fixar » 



44 Correspondência. 

cessando de ser combusiivel ; razão porque não pode 
servir para a composição de fuzis neste estado de 
combinação. Talvez se pudesse tirar bom partido da 
iode, fazendo delle huma massa por meio da agua 
de gomma , para com ella preparar a ponta das me- 
chas de pao destinadas a serem introduzidas dentix> 
das garraíinhas de phosphoro ; porém esta substancia 
he ainda menos commum que o enxofre e o pbos* 
phorp, e pelo seu alto preço, de mais de 8o fr. a 
libi*a , não he applicavel ás artes , pois ao presente s6 
se tem achado e em pequena quantidade na soda 
extrahida do sargaço ( Fucus ou Varec ) , planta molle 
e ligeira que se cria e vegeta no mar. (^) 

Fuzis de Gaz Hjdrogeneo. 

Nestes fuzis o gaz hydrogeneo se accende por meio 
da faisca eléctrica , a qual instantaneamente com mu- 
nica a sua chamma a huma velinha de cera que está 
diante do conductor eléctrico , e que se accende com 
a mesma promptidào. IVão he novo o invento doestes 
fuzis , pois que a alampada de gaz hydrogeneo de 
Volta não he outra cousa mais que hum fuzil desta 
espécie Consta de duas grandes mangas de ciystal, 
que servem de reservatório ao gaz hydrogeneo ; o qual 
se prepara em outro apparelho separado : alem disso 

{*) Esta substancia tem sido recentemente extrahida de 
muitas outras plantas cryptogaraicas marinhas , e das esponjas. 
Yeja-se » nosso Tomo VIII, Parte a», pag. iSp. 

F. S. C, 



Correspondência. ^S 

tem três registos de segurança e hum pequeno elec- 
trophoro. Os aperfeiçoamentos que se tem feito neste 
fuzil , devidos á sagacidade de M. 6ay-Lnssac , o tor- 
não inteiramente difièrente do de Volta e mui supe- 
rior a elle, e admiro-me que ainda se não ache 
descrípto em obra alguma moderna de physica. He 
digno de consideração o mechanismo simples ideado 
por este sábio para fazer com que o gaz hydrogeneo 
se introduza quasi no mesmo instante em que se 
queima huma porção delle : basta huma só volta de 
hum registo para conseguir o eflíeito de accender 
instantaneamente a velinha, e quantas vezes se queira. 

M. Pixii( sobrinho e successor de M. Dumotiez, 
engenheiro , e fabricante de instrumentos da Acade- 
mia Real das Sciencias) chama a este instrumento 
Fiizil eléctrico àe gcLZ f^ydrogeneo j aperfeiçoado ; e com 
eQeito he impossivel imaginar appai^lho mais simples. 
Consta de huma peanha , de 3 decimetros quadrados 
de superfície e de 5 centimelros de altura , que forma 
huma espécie de caixa , em cujo vão se acha encer* 
rado o pequeno eiectrophoro que produz pela parte 
exterior a faisca eléctrica : em cima do plano da 
peanha, está fixada huma garrafa achatada, de i8 cen- 
tímetros de alto , e de IO centimeti*os de diâmetro ^ a 
qual serve de deposito para o gaz que se vai for- 
mando por meio de hum cylindro , como adiante se 
explicará : pelo gargalo desta garrafa se introduz e 
ajusta huma espécie de funil ou vaso cónico de i4 
centimetios de alto, cuja parte mais estreita chega 



♦5 Correspondência. 

quasi até ao fundo da garrafa inferior , c serve de de- 
posito para a agaa acidulada com o acido sulphurico : 
a presdão do gaz que se íorma a mantém em equilí- 
brio na parte superior ; porem á medida que este se 
consome , a agua acidulada vai baixando e dá lugar 
áreproducçào de novo gaz : o cjlindro de zincp furado 
pelo seu axe move-se por hum arame grosso de cobre, 
e está disposto de tal modo que sempre toca na agua 
acidulada, de modo que nunca ha perigo de que falte 
o corpo combustível, isto he o hjdrogeneo. O único 
TCgisto ou chaveta doeste fuzil está coUocado quasi 
na secção da garrafa achatada inferior com o funil 
superior , e por meio de hum tubo horizontal estreito 
dá sabida ao gaz, cuja corrente vem a passar em 
frente do pavio da velinha que se deve accender : 
neste espaço intermediário se produz a faisca eléctrica 
por meio de duas pontas metallicas ; á chave está fi- 
xada huma pequena alavanca que serve para mover 
o electrophoro por meio de hum iio de seda y com o 
que se consegue que toque no conductor, sendo a 
i&flammaçào do gaz hydrogeneo e a da velinha quasi 
instantânea ; isto nasce de que todo este mechanisma 
depende da acção de hum só e único motor. 

Estes engenhosos fuzis se fabricão e vendem no 
gabinete de Physica do referido M. Pixii » pelo subido 
preço de 8o fr. os mais simples ; e outros , de formas 
mui elegantes, com ornatos de cobre dourado, com 
o pé de pao magno, custão desde i5o até soo francos; 
poiim estes fuzis não são poitateis como os outros 
* de que temos fallado acima , e só podem servir para 



Correspondência» 4? 

adorno de huma sala ou camará , como áe pratica 
com as pêndulas de mesa. He evidente que nenhum 
dos apparelhos que se tem recentemente imaginado 
para produzir o gaz hydrogeneo , nem os que sâò con^ 
struidos para a illuminaçào com este gaz, podem 
comparar-se ao referido instrumento ; pois todos eUes 
necessitão do auxilio de huma luz externa para pôr 
em combustão o ditto gaz , veriíicando-se o contrario 
no íuzil que acabamos de descrever. 

GOífCLUSAO. 

Estas cinco espécies de fuzis são as que se confae^ 
cem no commercio debaixo do nome genérico de 
Fuzis physicos ou artijíciaes , sem fallar dos ordiná- 
rios , compostos de fuzil de aço , de pederneira e isca, 
conhecidos desde a mais remota antiguidade. Os fuzis 
artifíciaes são engenhosos e úteis para huma .casa de 
familia , porque a qualquer hora que se precise se 
accende luz com pouca despeza. Se alguém perguntar 
quaes delles são preferiveis , responderei que isso de- 
pende das circumstancias e do gosto particular de 
cada comprador; mas geralmente fallando « parece-me 
que os mais económicos são os das mechas oxjgena* 
das y porque , alem de serem bastante certos nos seus 
efleitos , são também os que se vendem por preço 
mais com modo. Com huma onça de chlorate de 
potassa ha com que preparar muitos milheiros de 
mechas ; e ainda comprando-as separadamente , não 
custào mais de 3 ou 4 soldos o cento. Por esta razão 
he que esta espécie de fuzis he a mais vulgar no 



48 Correspondência* 

commercio , fazendo-*5e grandes remessas deites » tànt# 
para a America como para toda a Europa* Em Itália 
8âo quasi os únicos conhecidos* Nos laboratórios de 
pbysica e de cbymica de Parts , e em algumas casas 
particulares preferem-^se a todos os mais fuzis, os 
pbospboricos , por serem mais vistosos , de maior du** 
ração, e por carecerem menos cuidado para a sua 
conservação : nelles não ba o inconveniente de perder 
o acido sulpburico a sua força , como acontece ai*" 
gumas vezes aos frasquinbos dos fuzis de mechas 
oxygenadas;mas como os pbospboricos são mais caros^ 
tem poucos compradoi^s. 

Finalmente , os fuzis de gaz hydrogeneo devem 
antes considerar-se como moveis preciosos , porque não 
são portáteis como os outros, e posto que mui vis- 
tosos tem demasiado volume : o primeiro , inventado 
por Volta, tem perto de i metro de altura, e o me- 
lhorado por M. Gay-Lussac não tem menos de 5 de- 
cimetros : também tem o defeito de que algumas vezes, 
quando o tempo está mui húmido, o electrophoro 
não se carrega , ou não se accumula nelle suíSciente 
quantidade de fluido eléctrico para inflammar o gaz 
hydrogeneo que sabe pelo tubo borisontal; e neste 
caso he indispensável esfregara bandeja resinosa^ com 
a pelle de gato , operação que nem todos entendem 
bem, a pezar da sua facilidade. 

Paris 20 de Fevereiro de 1820. 

C. GoirzAuz. 



Correspondência. 49 



RESUMO 



DAS OBSERVAÇÕES METEOROLÓGICAS FEITAS EX LuBOA. 



^^^^^«»^^^^%^^^%< 



Já no Tomo VI , pag. 87 e seguintes da 2». Parte , 
fitemos menção das excellentes Observações meteo* 
rologicas, feitas pelo Sn^ Marino Miguel Franzini^ e 
impressas nas Memorias da Academia Real das Scien* 
cias de Lisboa *, agora , com gratide satisfação , con- 
sagramos nos nossos Â.nnaes a continuação daquelle 
trabalho y a qual o seu benemérito autor nos remetteo, 
e para utilidade da Nação ^ interesse da sciencia, e 
honra da nossa Obra ^ permittio que publicássemos; 

No presente volume oQerecemos pois as Observa- 
ções relativas aos 3 mezesdo inverno de iSao, e 
successlvamente iremos dando, por trimestres^ as 
seguintes , á proporção que as formos recebendo d'a- 
quelle nosso distincto Correspondente» 

A miudeza com que este trabalho he feito prova 
bem o louvável esmero do observador , e a sua apti- 
dão e reconhecido talento affiança a exacçào dos re- 
sultados que obteve. 

Os Redactoresv 
Tom. IX. P. a** J^ B 



5o Correspondência. 

N. B. 

As observações são feitas em Cisboa , no alto de S. 
Pedro de Alcântara » elevado 78 metros sobre o nivel 
do Tejo, na Latit. de 38<'. 43* 

As alturas do barómetro denotão poUegadas inglezas, 
e vão reduzidas á temperatura de 63^ do thermom. 
de Fahrenheit. 

O hygrometro he de barba de baleia , marcando 
100^ a humidade máxima. 

O thermometro he observado ás 7 ^ da manhan ,2^ 
da tarde a 11 ^ da noite. 

O barómetro ás' 9 ^ da manhan , 3 ^ da tarde e 1 1^ 
da noite. 

O hygrometro ás 8^ da manhan, 3 ''da tarde e ii^ 
da noite. 

O Médio he deduzido da somma de todas as observa- 
ções. 

Os algarismos , postos sobre as iniciaes dos ventos , 
denotão : 

1 Vento fresco. 

2 Vento forte. 

3 Vento muito forte. 

4 Tempestade. 

Atm. signi&cá Atmosphera. 
Temp, Temperatura. 

B. Bonança. 

V. Variável. 



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Ss Correspondência. 



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Numero de \ ^ a 

dias em que j S.-E i i 

Tentou do 1 ^ ' 



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S.-O. 3 

O. % 

\ N.-0> 5 

Bonanças. ° q 

^. I N.» a 3 

Tentou njo do) q, ^3* 

claros 3 

id, altern. com .nuvens. • . 6 

nublados i 

Numero de /de chuva . ....... 6 

díí^s \ id. de aguaceiros .... 4 

de chuva e névoas 3 

de névoa 8 

Dias de frio notável de4a8yea*itf 

Temp. med. das manhans dos sobredittos dias. . 44^ 



Oscillaçao diur-jDescidal da manhan • 
na dò barom. \ Ascensão da noite . • 

(Temp. med. ás 7 ^ m. 
lá. dò therm. \ id. a t. 

\ id. II n. 

ÍHumid. med. ás 8 ^ m. 
id. 3 t. 

id^ 1 1 n. 



0,037 pol. 
0^016 

•49,"^ 

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79 



Cada palmo quadrado de superficie recebeo 4»oi canadas 
de agua da chuva. 



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54 Correspondência» 

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Bonanças e. 1^ 

Variáveis j 

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N.-E,3 de 9a II 

Dias em que 1 E.^ a i3 

ventou rl)o do] S.-O.^ de 17 a 19 

S.-O,^ a 25 

N.» a 29 

claros 5 

id, altern. com nuvens . . , 8 

nublados » 

Nuineiro de j id, com alguma chuva. . . 9 

dias ) de chuva 3 

id, de aguaceiros .... 2 

de chuva e névoas 4 

de névoa . ^ • i 

Diaa de frio intenso de 10 a 14 

T^mp. med. das manhans dos sobredittos dias . 30*^,6 

Dias de frio notável , ^ ^ a 9^15 e 16 

Temp. med. das manhans •,•••.. 4^^^ 

Oscillaçao do j Descida da manhan . . . 0,011 pol. 
baronii. ^Ascensão da noite ., . ., . 0,021 

!Temp. wed. ás 7 ** m. . . 47% 9 

id, 2 t* . . 55^0 

idn^ II n* . . 49 9 4 

ÍHumid.^ied. ás 8 ^ m. • . • 76 

id. 3 t. . . • 71 

id, II n. • • • 75 

Cada palmo quadrada de superficie recebeo 2,85 canadas 
de agua da chuva. 

N. B, Nas noutes de 10 , 11 e 12 hoave gelo mui consis- 
tente , com grande perjui^o da frc^cta dos pomares. 



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dias em qoe 
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S.-E. 

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S.-0, 

O. 
N.-O. 



Bonanças e 
Variáveis 



Dias em que 
vento^ rijo do^ 



S.-0.« • , 

S.-E.a S.-O.» 

N.-E.=» N.* 



Numera de 
dias 



claros • . . 

id. altem. com nuvens<^ 
nublados . 

i'd, com algun^a chuva, 
de chuva. 

id. de 9gu^ceiros e clarões. 



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Dias de frio notável de i4 a i^^de aot a 29 

Temp. med. das manhans dos sobredittos dias 4^^ 

Oscillaçao do (Descid^ da manhan • ^ , o^o5<ft po.l^ 
barom. ^^ Ascensão da noite • • . . o,oa3 

ITemp. med, ás 7 ^ n^. , . 47* »í 

id. 2 t, , . 58 ,4 

id. M o- « ^ 49 >o 

ÍBunpid^ mod. ás 8 ^ m. « , , 69 

id. 3 ^. ... 64 

id. II n. • « , 69 

Cada palmo quadrado de superficie recebeo 8,37 canadas 
de agua da chuva. 



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NOTICIAS 

DAS SaENCIAS, DAS ARTES, etc. 



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AGRICULTURA. 

Prémios 

Propostos pela Sociedade Real e Central de AgricuUura 
de Paris , na Sessão publica de gde Abril de i82o« 

Para serem distribmdús em i8ai. 

i^. Para hum Tratado completto da cultura das 
hòitas de regadio — 3ooo fr. 

Para descripções parciaes de diversos ramos desta 
cultura — Medalha de ouro. 

1^. Para ensaios comparativos da cultura das plantas 
mais próprias para dar forragens temporans. — i^. Pre- 
mio looo fr. — a®. Premio Soo fr. 

3<>. Para a introducção , em hum paiz de França , de 
esti^umese sjstema de lotação de terras, que nelle ainda 
não estiverem introduzidos. — Medalhas de ouro e de 
prata. 

4^. Para experiências comparativas , feitas em grande, 
sobre difierentes géneros de cultura , do estrume térreo 
( urate calcário ) extrahido das matérias liquidas ezcre- 
mentaes. — Medalhas de ouro e de prata. 



5ft * ffólittàs ias SciencTãs, ^" 

50. Para traducções complettas,ou extractos de Obras 
011 Memorias, relativas á eçonomifi rm^al ou domestica, 
escriptas em linguas estrangeiras , e que olTerecerem 
observações, ou praêticas novas e nteis. — Medalhas 
de ouro e de prata. 

6®. Para observações practicas de medecina veteri- 
nária. — Medalhas de ouro e de pt^la. . 

•7<>. Para a cultura da papoila, a fim de extrahir o 
óleo da semente delia, em hum districto, onde esta 
cultura nào for ainda praticada. — Medalhas de ouro. 

Estas medalhas , pela importância do objecto , con- 
tinuarão a distribnir-se por espaço de quatro annos ; e 
no ultimo , a Sociedade dará hum premio de aeoo fr- 
ao concurrente, que tiver obtido neste género maior 
quantidade de productos, e de Iooofi^»ao que mais 
tiver recolhido depois daquelle. 

8^. Para a fabricação da agua ardente de batatas. 
Medalhas de ouro e de prata. 

9^*. Para as melhores Memorias sobre a cegueira dos 
cavallos ; sobre as causas de que esta pode resultar, nas 
diversas locaUdades; sobre os meios de as prevenir^ e 
de as remediar. — icioofr. , e Medalhas de ouro e de 
prata, conforme a importância das Memorias. 

lo^. Para a cultura , nos pousios, dasr raiaes e plantas 
próprias para ipelhorar as terras, naqueUes distrietos, 
em que esta practica não está em uso. — Medalhas de 
ouro e de prata. Pequenos prémios de 100 fr. e 5o fr. 



das Artes j et». Sg 

Para serem distribuídos em 182a. 

I lO. Para a practica das regas. — i«. Premio 3ooo fr. 
2". Premio i5oo fr. 

1^. Accessit. A grande medalha de ouro da Sociedade* 
2,^. Id. Â medalha com a effigie à^OUvier de Serres. 

12°. Para machinas hydraulicaSy próprias para os usos 
da agricultura e artes económicas. -* Soco ir. 

i3o. Para a indicação de hum meio efficaz de des- 
truir a cuscuta. — 600 fr. 

14^. Para a fabricação da farinha de batatas , por 
meios económicos. — Medalhas de ouro e de prata. 

iS^, Para sustentar e engordar os animaes com ba-» 
tatás y ou no estado natural, ou preparadas diversa-^ 
mente ; nos distiúctos em que esta practica não está 
ainda em uso. — Medalhas de ouro e de prata. 

Para serem dislrihiddos em, i8a3. 

i6<>. Para a construcção e estabelecimento de ma- 
chinas, para tirar a semente do ti*evo, e limpá-la« 
i<>. Premio laoo fr. — a®. Premio 600 fr. 

170. Para a cultura e determinação relativa dos pro- 
dttctos de seis variedades de batatas , ao menos y com- 
parativamente d grossa branca commum» — Medalhas 
de ouro e de prata. 

i8<>. Para a melhor Memoria , fundada sobre olwer- 
vâções • experiências » a fim de determinar se a en- 



66 Noticias das Sciencias j 

fermidade dos animaes cornigeros e lanígeros , conhe- 
cida pelo nome de crapaudj he ou nào contagiosa. 
— 1 000 fr. 

Alem disto y Medalhas de ouro e de prata para as 
melhores Memorias y que tratarem em geral, de qúaes* 
quer outras enfermidades, que afiectào os pés daquelles 
animaes. 

Para ser distribuido cm i8'jt5. 

igo. Para o estabelecimento de viveiros de olivei-^ 
ras. — X®. Premio 3ooo fr. — a<*. ft^mio aooo fr. 

Vara ser distribuído em i8a6. 

noo. Para a cultura da maceira e da pereira pró- 
pria para fazer cidra , nos districtos em que ainda não 
estiver estabelecida. ^- Medalhas de ouro e de prata. 

INDUSTRIA. 

Que estabelece , no Conservatório das Artes e Officios , 
o ensino publico e gratuito da appUcação das Scieri^ 
cias cb Artes de industria. 

Luís , pela graça de Deos , Rei de França e de Na- 
varra , 
A todos que as presentes virem^ saúde. 

O Conservatório das Aites e Officios tem feito, desde 
a sua instituição , importantes serviços \ mas para con- 



ã4i5 Artes etc* 6t 

seguir complettamente o fim da sua fundação , tem-» 
lhe faltado até aqui huma eschola « em que se ensinasse 
a fundo a applicaçào dos conhecimentos scientificog 
ao commercio e á industria; , 

Querendo prover a esta falta , satisfazer o desejo de 
todos os homens doutos ^e contribuir quanto posso, 
para os meios de augmentar a industria nacional; 

Precedendo informação do nosso Ministro do Interior, 

Ordenámos , e ordenamos o que se segue : 

Ârt. i^. Será estabelecido no Conservatório das Artes 
e Officios hum ensino publico e gratuito para a ap- 
plicaçào das Sciencias ás Artes industriosas. 

a. Este ensino será composto de três Cursos, a saber: 
Hum Curso de mechanica applicada ás Ârteá. 
Hum Curso de chymicay idem. 
Hum Curso de economia industriosa. 

3. A pequena Eschola de geometiia descriptiva e de 
desenho , estabelecida no Conservatório , continuará 
a ser annexa a elle. 

4. Os Conselhos de melhoramento e de administra* 
çào do Estabelecimento serão conservados com a or- 
ganisaçào indicada nos artigos seguintes. 

5. O Conselho de melhoramento será composto de 
dezasete membros , a saber: 

O Par de França , Inspector geral do Conservatório « 
e das Escholas de Artes e OíBcios ; 
O AdminisU*ador do Conservatório ; 



6a Noticias das Sciencias , 

Os ties Professores dos Cursos , fundados pelo art. a ; 
Seis Membros da Academia das Sciencias ; 
Seis Fabricantes, Negociantes oa Agricultores. , 

6. O Inspector geral , o Administrador e os Profes* 
sores f nomeados por Nós, sobre proposição do nosso 
Ministro do Interior , serão Membros permanentes 
do Conselho de melhoramento. 

Os outros Membros , nomeados pelo Ministro , com 
approvaçào nossa , serão renovados todos os três annos^ 
por terças partes ; os membros sahirão por sorte ; mas 
poderão ser reeleitos. 

7. As renovações, quanto aos Académicos, far-se- 
hão em virtude da apresentação da Academia das 
Sciencias, e quanto aos fabricantes, negociantes 6 
agricultores , em virtude da apresentação do Conse- 
lho de melhoramento. 

Pela primeira vez , as escolhas serão feitas imme- 
diatamente pelo Ministro , que as submetterá á nossa 
confirmação. 

8. O Conselho de melhoramento se ajuntará, ao 
menos , huma vez cada ti*es mezes. Determinará todos 
os programnias de ensino ; fixará a epocha e a duração 
dos Cursos •, tomará conta dos progressos dos discipu- 
los ; da administração interior e das despezas ; discu- 
tirá a utilidade das viajens , que entender que os pro- 
fessores podem fazer; os projectos de melhoramento , 
e accrescimos successivos do deposito das machinas e 
modelos -, pedirá as sommas necessárias para as des- 



das jirtes etc. 63 

pezas annuaes,e sobre tudo dirigirá a sua Conta ao 
Ministro, que tomará as decisões convenientes. 

9. O Conselho de administração seva composto de 
cinco Membros , a saber : 

O Par de França , Inspector geral , Presidente. 

O Administrador. 

Os três Professores de mecbanica^chymlca e economia. 

10. Este Conselho ajuntar-se-ba , ao menos , todos os 
quinze dias ; regulará a execução da applicaçào dos 
fundos do Estabelecimento ; decidirá de tudo quanto 
for relativo á policia interior, e convidará a attençào 
do Conselho de melhoramento , sobre tudo quanto 
julgar útil ao Conservatório. 

11. Nenhuma mudança, nem accrescentamento , se 
fará no Edifício do Conservatório , senão em virtude 
de proposta , feita pelo Conselho de administração , 
transmittida pelo Conselho de melhoramento ao nosso 
Ministro do Interior, e approvada por elle. 

O architecto , que for encarregado da execução dos 
trabalhos , autorisados pelo Ministro , receberá directa- 
mente as ordens do Conselho de administração. 

13. O Administrador ( que até hoje tinha tido o titulo 
de Director ) será encarregado de tomar todas as me- 
didas próprias para assegurar o eíFeito das ordens do 
Ministro , ou das determinações do Conselho de ad- 
iiiinisti*açào. 

Fará as funcções de Thesoureiro do Estabelecimento, 
e servirá de Secretario em ambos os Conselhos. 



64 Noticias das Sciertcias 

i3. As funcções de Membro dos Conselhos de me^ 
Ihorameoto e de administração são gratuitas. 

14. Os ordenados do Administrador , dos Professores» 
dos Empregados » e da gente do serviço do Conserva*^ 
tório y serão regulados pelo nosso Ministro do Interior. 

i5. Os Professores da Eschola de applica^o serão* 
quanto possivel for, alojados no Estabelecimento. 

Quando forem mandados viajar pelo Ministro» a 
pedimento do Conselho de melhoramento , conforme 
se disse no art. 8^. , terão du*eito a huma indemnidade , 
que o Ministro estabelecerá , para despeza da sua víar 
jem. 

16. A nomeação dos Professores ^ da Eschola segun- 
daria e dos empregados , será feita pelo Ministro , em 
virtude de prQposição feita pelo Conselho de melho* 
ramento. 

A nomeação do Porteiro , dos Guardas, trabalha^ 
dores e outros homens de serviço , será feita pelo Con^ 
sclho de administração; de que se dará conta ao 
Ministro. 

17. Quando os Professores das Escholas do Conser- 
vatório chegarem a 65 annos de idade , serão aposen<- 
tados , e receberão metade do seu ordenado. Prover-se- 
ha logo o seu lugar , porém conservarão o direito de 
assistir aos Conselhos, e de tomar parte nas delibe- 
rações. 

18. Serão creados no Conservatório das Artes e 



fZa5 Anès etú. 65 

Officios doze lugares de pensionarios , de mil francos 
cada hum. Serão destinados para rapazes pobres, mas 
que tiverem dado provas de grandes disposições para 
as artes de industria. Estes discipulos serão nomeados 
pelo nosso Ministro do Interior , em consequência de 
proposta do Conselho de melhoramento , e depois de 
hum exame dos três Professores da Eschola de appU- 
cação. Cada discipulo poderá conservar, por espaço 
de três annos, o lugar que lhe tiver sido concedido; mas 
todos os annos deverá passar por hum novo exame > 
que provará se elle he > oa não > digno da continuação 
desta graça. 

O nosso Ministro fará conheòer ào Conselho a e^po^ 
cha em que pode principiar a escolha para estes 
lugares^ 

19. Todos 0$ atinos se destinará huMa soiàma) dos 
fundos do Ministério do Interior , para as dèspezas dia<>> 
liaâ e extraordinárias do Conservatório daà Artes è 
Officios^ 

10. Todas as disposições contrarias ás presentes ficão 
sendo de nenhum effetto. 

21.0 nosso Ministro Secretario d^Estadó do Interíót 
he encarregado da execução da presente Ordenança , 
que será publicada no BuUetim das Leis. 

Dada em Paris ^ no Palácio das Tuileríás f aos aS 
de Novembro de i8ig. 

tom. IX. P. aa. 5 B 



I 



66 Noticias das Sciencias ^ 

Allemaichá. 

M. Precht j executou em grande hum apparelho para 
alumiar y por meio do gaz hydrogeneo o edifício do 
instituto pofyteúhnico , em Vienna. 

M. SchqfeaU , de Gratz , consegnio fabricar pregos 
de ferro , sem empregar fogo , em período algum da 
manipulação» desde o ferro em barra » até ao mais 
pequeno prego. Todas as operações se fazem por meio 
4e machinas. Vinte d*estas macbinas fabrícao annual* 
mente 20 milhões de pregos da melhor qualidade. 

Dois artistas, MM. Dreysse e KrondiegeljSoimátRo 
em Sontmerda, pequena cidade da Thuringe, hum 
Estabelecimento , no qual fabricão a frio , com brevi* 
dade e exacçâo , lemes e fechos de janella , aloiofaças , 
e parafusos tão perfeitos , como os melhores que for- 
ijiece a Inglaterra , pregos de todas as dimensões , etc. 

Os sapatos corioclaves , ( em quê o couro está unido 
com a sola por meio de pontas de ferro ) se fabricão 
já hoje em alguns paizes de AUemanha, especial- 
mente na Baviera e na Thuringe. 

A imprensa de Rial ^ para preparar os extractos de 
fructosyou plantas y a imprensa hjdro-mecbanica de 
Bramalt^e a de WiUiam para comprimir os pannog e 
toda a casta de fazendas, para extrahir o azeite e reduzir 
a polme a cevada, etc. achão-se introduzidas , com 
muitos melhoramentos essenciaes , na fabrica de M. 



das Artes etc. 67 

Nathmius , em NewHaldensleben ^ onde, já se tem 
feito uso de algumas , até para arrancar arvores. 

O machinista Hoffmartyàe Lei;^sic, inventou huma 
imprensa, na qual , a pressão e filtração não são pro- 
duzidas , como na de Real , pela acção de huma co- 
lumna de agua, mas pelo ar, que se condensa , por 
meio de huma bomba de compressão* ^ 

^ Deve-se ao X^oxsXov Romershausen , eva Aken, sobre 
o Elba, a invenção de huma imprensa, ainda mais 
engenhosa. O eSeito d*esta machina he huma conse- 
quência da pressão considerável , que a atmosphera 
exercita sobre as paredes de hum vaso vazio de ar. 
Hum recipiente, que pode auhmetter^se á acção da 
bomba pneumática , he provido de hum diaphragma » 
sobre o qual ha hum filtro , e debaixo doeste , hum 
vaso próprio para receber o liquido, que se lança sobre 
o filtro. Logo que se expelle o ar , a pressão da atmos- 
phera força o liquido a ati^avessar o filtro , e contribue 
para a extracção completta das partes solúveis. 

Os novos apparelhos para fabricar a Cfrve|a, do 
inglez Nordham, estão em grande aso em Aliemanha^ 
. por causa da sua simf^icidade, da economia que pro- 
duzem , assim de tempo, como de obreiros e de com** 
bustivel , e da boa cerveja que fazem. 

Os apparelhos de vaporisaçào e destiUação dos es** 
piritos ardentes , ha pouco tempo para cá ^ tem sida 
aperfeiçoados em AUemanha. Obtem-^se já hoje alli ^ 
em pouco tempo , e com pouco combustível , por meio 



5% 



jo Noticias das Sciencias , 

lacca semelhante , com o nome de veimelho de Ofenr 

heimer. 

Tem-se feito , nestes ultimos tempos , muitos ensaios 
para conservar huma temperatura uniforme nos gran- 
des Estabelecimentos de forjas , nas fabricas de cer- 
veja, e nas de destillaçào,. etc. , retendo o calor, 
por meio de substancias , que o deixão passar com 
difficiddade. A. argamassa inventada para este fim, pelo 
architecto Kerslen , de Wisbaden , tem a propriedade 
de concentrar nots fogões , e particularmente nos fo<* 
gões económicos , quahi todo o calor, de modo, que 
este nào he distrahido, senão para ser empregado 
nos objectos que se querem aquecer. A Sociedade 
polytechnica de Munich , tendo analysado aquella ar* 
gamassa , achou*a realmente útil ; he composta de 
luarne argiloso , de areia e de occa ferruginosa.- 

Também deve considerar-se no numero dos desco- 
brimentos interessantes o de M. Osiander ^ de Got- 
tingue ,o qual consiste em empregar o carvão de lenha, 
para preservar da oxydação o ferro , o aço e alguns 
outros metaes , assim como aquelle . mesmo carvão 
preserva da putrefacçào as matérias animaes* 

O Director geral dos viveres em Berlim , M. de Voss, 
acaba de propor, para a subsistência do exercito cm 
campanha, hum pó resultante da pulverisação dos 
legumes farínhosos e das carnes seccas. Cada soldado 
poderia levar comsigo huma certa porção doeste pó, 
o qual , lançado em agua a ferver , dará huma nu- 
trição substancial. 



das Artes j étc. ^ 7< 

MM. Koenig e Bauer, os dois inventores do appa-* 
relho typographico que , em muitas imprensas de Lonr 
dres j substitue, já t^a tempos , as anti|;as prensas , vol- 
tarão á sua pátria, e acabão de formar hum Estabele^ 
cimento considerável nos arrredores de Wurtzburgo^ 

No Deposito real das machinas^no arrabalde de Santa 
Ânna em Munich , se acha actualmente depositada 
hum grande modelo de huma estrada de ferro, in- 
ventada e construída por M. de Baader. Sobre hum 
espaço perfeitamente horizontal doesta estrada , hiima 
mulher, ou hum rapaz, pode puxar com facilidade* 
hum carro , carregado com mais de i6 quintaes ; sobre' 
outra porção da mesma, á qual se dá huma inclinação 
quasi insensível de 6| poU. sobre loo pés de compri- 
mento, aquelles carros carregados correm por si mes- 
mos , sem impulso algum çxteiior. Está provado que 
o eQeito do mechanismo destas estradas de ferro ex- 
cede f o eíTeito das melhores estradas inglezas , e que 
aquellas custào metade. Nellas, hum só cavallo pode 
fazer mais serviço, que aa cavallos da mesma força, 
sobre o melhor caminho calçado ordinário. 

O Doutor. Foerster , professor na Eschola d'artilheria 
e d'Engenharia em Berlim, he o primeiro que fez ap- 
plicaçào da arte lithographica para imprimir livros. 
Este professor escreveo em pedra , pela sua proprta 
mão , a sua nova obra intitulada : Introducçâo d Gep^ 
desia. Esta experiência teve luim perfeito resultado , 
e acha-se que a lithographia tem grandes vantagens 
sobre a typographia, para as obras de mathematica , 



1% Notieim das Sciencias, 

nas quaes he mais agradável achar a figura desenhada 
ao lado do texto , do que procurá-la , em huma es^' 
tampa particular» no fim do livro. 

M, Frederic BemAard f de Charlottemburg , inventou 
huma machina mui simples » para espalhar uniforme- 
mente pela terra o estrume , sem ser preciso lançá-lo 
em montes mais ou menos volumosos , para depois o 
dividir com regularidade sobre o terreno. 

M* Lazarus , de Vienna , compoz hum estrume ar- 
tificial » que tem muitas vantajeiís; tem-se provado 
por experiências y que Calibras d' este estrume produ- 
zem tanto efieito nas terras de pão e nas hortas , como 
4^^ libras do estrume ordinário. 

MM. F'alentin Kis, parocho em Hungria , e de 
Pethe^ de Bade, inventarão charruas simples e ligei- 
ras; M. Knetterjde Ingelfingen , inventou outra chaiTua, 
destinada para lavrar terrenos «montuosos , e que pode 
ser conduzida por braços de homens ; M • Sclimidt , 
proprietário no Mecklemburgo , inventou huma ma- 
china própria para lavrar e gradar a terra , sem ne- 
cessidade de homens , e que tem » por motores» moi- 
nhos de vento* 

MM. Tuscard^ de Praga, e Ugazor^ Inspector de 
pontes e estradas em Áustria , propozerâo semeadores 9 
a que attribuem grandes vantajens; as' experiências 
que delles se fizerão furão bem succedidas. 

Deve-se a M. Schreiner^ machinista de Liylwigs- 



das Artes , etc. 73 

burgo , hum moinho de mào , de construcção simples 
e engenhosa ; e a M. Binzer , moleiro em Urlao , hum 
rolo 9 para estorroar a terra nos campos^, a M. Lob ^ 
huma machina para tirar a neve, que 08 cavaljlos levâo 
diante de signas estradas; a M. Eberbach,de Stutt- 
gard f hum novo corta-palha ; a M. Birk y pontes sus* 
pendidas por cadeias; a M. Steinkopfy rendeiro em 
Galbe , junto a Magdeburgo , hum processo para evitar 
a ferrugem do trigo; a M. 5^/ymarceneiro em Lorrach, 
hum mechaoismo y destinado para fazer mover , sem 
soccoiTO de cavallos , de vapor ^ ou de vento y carretas 
carregadas com grandes pesos , charruas y mós de 
moinhos y e baixos. 

M. Lobersorgery relojoeiro na Mora via , obteve hum 
privilegio exclusivo do Imperador de Áustria y para o 
seu invento de hum mechanistno y destinado a fazer 
subir os barcos y contra a corrente dos rios y o qual , 
experimentado no Danúbio , deo perfeitos resultados. 
Este meohanismo » que he puramente movido pela 
acção da agua , he menos dispendioso , do que a ma- 
china de vapor , e pode applicar-se a toda a casta de 
embarcação. Tem bastante analogia com ^s jangadas 
mergulhadoras de Thilorier y mas parece mais corapU- 
cado. 

M. Szabo y de Vienna y inventou huma bomba para 
incêndios y com huma ^ó válvula y preferível ás bom- 
bas ordinaríaSy é que produz hum lanço de agua 
continuado ; esta bomba he toda de cobre , e pouco 
sujeita a necessidade de concer os.- 



74 Noticias das Scienciais , 

M. Neuffere Wrede^ fabricantes de fitas deVienna', 
inventarão hum regulador , por meio do qual , os 
teares mechanicos, movidos pela agua, fazem passar 
a lançadeira, com huma força constantemente igual. 

M. SchejrteVy relojoeiro daquella capital, inveptou 
hum novo instrumento de musica , o qual conserva 
constantemente a sua harmonia , qualquer que seja a 
temperatura a que se ache exposto. 

M. GUetsman , boticário em Altenburg^, achou meio 
de purificar o acido' muriatico, e de o privar inteira- 
ramente do ferro que contém; o seu processo con- 
siste em ajuntar, a 8 onças do acido, i6 gottas de mu- 

riat^ de zinco , e destillar depois o mixto em huma 
retorta, 

Sabe-se que o alcatrão he hum dos productos ac- 
cessorios do gaz hydrogeneo , extrahido do carvão de 
pedra. Destillando-se este alcatrão a fogo lento, obtem- 
se hum liquido , sobre o qual vem ao de cima hum 
óleo cor de âmbar, o qual, sendo novamente destil- 
lado, dá hum óleo de côr amarella desbotada, cujo 
peso especifico he de 0,770. Este óleo , que tem hun^ 
cheiro mui penetrante e styptico, e que se volatilisa 
promptamente , tem a propriedade de dissolver a 
gommá elástica. Talvez que se possa empregar com 
vantajem na preparação dos vernizes. 

• ^ * 

Âchou'se que os sinos rachados-, soldando-se com 
prata , tornào a ter o seu -som natur-al* 



das Artes etc* 7$ 

A Sociedade Promotora da iodasiiia na cidade de 
ITuremberg » publicou, ha pouco, bum relatório á cerca 
da Exposição dos objectos fabricados naquella cicfade. 
Sobre tudo^ fes^se recommeodavel, n^ ditta E^posição^ 
a execução perfeita dos instrumentos de matbematica , 
de physica , de óptica » dé cirurgia e de musica , e 
a belleza das pinturas em porcelana, em bandejiasde 
cobre , em caixas de massa de papel , e em obras de 
veludo , assim como emí toda a casta de bordados ; 
porém , fixou-se especialmente a attenção aas bellas 
cartas geographicas,publicadas pelos herdeiros dé Ho^ 
mann. P'ez-se, alem disso, notável , na mesma Exposi* 
ção , huma spbera armilar de cobre , de grande dimen- 
são , huma balança hydrostatica muito engenhosa , e 
huma macbina de nova invenção , para explicar o 
movimento da Terra e dos outros Planetas á roda do 
Sol. 

• « 

O Professor Goerg, de Leipsic, fez experiências 
mui bem succedidas , sobre o vinagre de lenha ( acido 
pyro-lignoso ) , cuja propriedade de se oppor á pu- 
ti*efacçào animal se acha provada pelo modo mais 
decisivo. Muitos restos de operações anatómicas , que 
o ditto professor poz ém contacto conl aquelle acido 
na eschola de partos de Leipsic , escaparão da putre- 
facção , que começava a manifestar*se nelles. Pedaços 
de carne quasi podres , depois ^e te^em sido untados 
çom o óleo empy reumático , produzido pela destiUaçào 
da lenha em secco, a pezar de hum calor excessivo , 
tomarão- se tão seccos, como se tivessem estado, poc 



y* 



Notícias das Sàemáai, 

muito tempo, expostos ao fíimo. Yio-se com sdmirai- 
cão desapparecerem de repente os restipos da patre- 
facção , apenas o pincel, molhado no óleo e no vinagre 
de lenha , tocava a carne. O professor Goeiíg empregou 
igualmente este meio sobre alguns animaes» para os 
reduzir ao estado de múmias , e tem toda a bem fun- 
dada esperança de que o resultado será fdiz. AqueUe 
professor pensa que este descobrimento fará impor- 
tantes serviços á anatomia , á economia domestica e 
á medecina. Párece-lhe este meio próprio para ser 
empregado, interior e exteriormente, em difierentes en- 
fermidades, e promette publicar, mais tardemos resul- 
tudos ulteriores das suas experiências ( Veja-se o 
Tom. VI dos Annaes, Parte i*. pag 43. ) 

M. Birrembach^ pintor em Colónia, tendo buscado 
por muito tempo inutilmente o segredo da antiga 
pintura sobre vidro , conseguio finalmente o seu desejo. 
A Academia Real das Bellas Artes de Berlim exami- 
nou com o maior escrúpulo algumas producções de 
M. Birrenbach, e declarou , que o processo doeste ar- 
tista tinha huma reconhecida superioridade sobre todas 
as experiências anteriores neste género. 

Rússia. 

A espécie de camada oleosa, que se forma pela 
repetida cocção, na superficie interior dos vasos de 
terra, e que he substituida ao vidrado ordinário da 
louça de fogo , já não dá lugar ás inquietações , que 
resulta vão dos vernizes compostos de chumbo. Este 



das Artes, etc. 77 

novo descobrimento deve.-se a M. Kirchhoff^ de Peters- 
burgo. Os vasos assim vidrados , servem , não só para 
cozer os alimentos 9 mas também para conservar toda 
a espécie de guisados , acid<)s , salgados ou gordos. 



C. X, 



^8 ' Noticias ãa4 Sciendas , 



RESUMO 

Dos mais notáveis descobrimentos e principaes trabalhos 
nas Sciendas , no anno de 1819- 



MATHEMATICA. 



Álgebra e Calculo. 

M. Poisson leo na Academia das Sciencias de Pails» 
oa sessão de 19 de Julho de iSig^huma Memoria interes- 
sante sobre a integração de algumas equações lineares a 
differenças parciacs , e particularmente da equação 
geral do movimejito dos fluidos elásticos* O objecto de 
M. Poisson naquella Memoria he procurar integrar 
isoladamente as equações ás mais importantes diffe- 
renças parciaesy pela nature/a das questões de me~ 
chanica e de physica , que a ellas conduzem. 

A equação de que especialmente se occupou , foi a 
de que dependem os pequenos movimentos dos fluidos 
elásticos , quando se suppõe constante a densidade 
natural do fluido , e a sua temperatura. Bem se sabe 
que , conservando a esta equação toda a generalidade 
que lhe he própria , ainda não se tinha obtido a sua 
integral completta ^ e os ensaios que se havião tentado 



das Artes , etc. 70 

para a descobrir , conduzirão a resultados tão com- 
plicados, que .seria impossivel fazer uso delia. 

Comtudo » a iutegral , que M. Poisson obtém naquella 
M emroria , he de huma forma mui simples : depende 
sómeute das integraes definitas dobres ; e as duas func- 
çôes arbitrarias determinào-se im mediatamente con- 
forme o estado inicial do fluido ; o que será de grande 
vantajem nas applicaçóes. Por meio delia se poderão 
resolver , relativamente aos fluidos elásticos , proble- 
mas » que ainda até agora não podiào ter sido resol* 
vidos 9 ou cujas soluções se tinhão obtido somente 
para casos particulares. 

Na mesma Memoria se occupa também M. Poisson* 
successivamente das equações da distribidçào do calor 
nos corpos sólidos , das superfícies elásticas vibrantes , 
e da equaçào de segunda ordem a duas variai^eis inr 
dependentes , e a coefficientes constantes. 

Os mesmos processos de integração sé podem ap- 
plicar a hum grande numero de outras equações 
lineares , igualmente a coefficientes constantes. Acaba a 
Memoria por algumas observações sobre a forma das 
integraes d* este género de equações a diílerenças par- 
ciaes. 

• 

Muitas tentativas se tem feito para obter a solução 
das equações literaes de hum grão superior ao quarto. 
Todas estas tentativas forão inúteis , e M. Ruffini 
demonstrou ultimamente i que era impossível achar ^ 
para a solução da equação geral de hum grão supe* 



8o Noticias das Sciencíai, 

rior ao quarto, formulas análogas ás que se desço*" 
brirào para os quatro primeiros grãos. Por tanto , não 
resta esperança alguma de exprimir as raizes de huma 
equação de hum grão qualquer , por meio de func^ 
ções irracionaes dos coefficientes do seu primeiro 
membro. 

Gomtudo , antes de renunciar para sempre á possi-^ 
bilidade de representar estas raizes debaixo d 3 huma 
forma finita, convinha examinar, se por ventura não 
se poderião reduzir a integraes definitas, que por tantos 
meios se podem reduzir a números. Este exame iet 
o objecto de huma importante Memoria que M. Cauchy 
leo no Instituto de Franca, na sessão de a^ de No- 
vembro passado , sobre a resolução anafytica das égua* 
çôes de todos os graos^ por meio de integraes definitas* 

M Parseyal já em 1804 tinha tentado resolver esta 
questão , seguindo, por meio de hum artificio muito 
engenhoso, a serie dada por Lagrange , para a solução 
de huma equação algébrica , ou transcendente. 

Os cálculos de M: Parseval , sendo fundados sobre 
a consideração de series , cuja convergência nem sem- 
pre he certa , os resultados , que este geometra obteve, 
não podem considerar-se como estabelecidos geral- 
mente de hum modo rigoroso. Por isso, o autor, tendo 
procurado verificá-los à posteriori , no caso em que 
a equação proposta tem todas as suas raizes reaes, 
reconheceo que, nesta mesma hjpothese, a integral 
que elle substitue á serie de Lagrange , não repre<> 



das Aries etc. St 

i^nta huma das raiz^s, senào debaixo de certas con- 
dições, f / 

O methodo de M. Cauchy, fundado imme^atamente 
sobre a propriedade de buma dasse de integraes defr* 
nitas , conduz facilmente á solução do problema , em 
todos os casos possíveis. Eis-aqui os principaes resul- 
tados : 

lo. Quando buma equação tem todas as suas raízes 
reaes , cada buma delias piodeser exprimida por buma 
integral definita. Esta integral contém duas constantes 
arbitrarias^ entre as quaes se suppõe comprebendida a 
única raiz de que se trata. Estas duas constantes podem, 
variar, como se quizer, sem que a integral mude por isso 
dé valor. Se as duas constantes se afastào buma da 
outra, de modo que entre ellas se comprebendáo duas^ 
três ou quatro raizes, a integral definita exprimirá a 
somma doestas duas, três ou quatro raizes. 

n^. Quando buma equação contém ao mesmo tempo 
raizes reaes e raizes imaginarias » ainda se pode repre- 
sentar cada rait tedl por buma integral definita, a 
qual comprebenda duas constantes arbitrarias; com 
tanto que , entre estas duas constantes , sé supponha 
comprebendida a parte real da raiz , que se considera» 
Esta observação hasta para mostrar, em theoria , que 
toda a raiz de buma equação pode ser exprioiida por 
buma integral. Todavia, como, no caso em que se que* 
rem obter os valores numéricos das raizes , a determi* 
nação das duas constantes pode precisar de cálculos 
Tom. IX. P. a** 6 B 



das Artes etc. 83 

se possa immediatamente prolongar esta seríe,qiianto se 
quieer. Tal será o resultado , por exemplo , se se conside- 
rar huma das equações de três termos» que nào se sabe 
resolver no caso em que todas as raízes s&o imagina* 
rias. 

Os trabalhos de M. Legendre^ sobre o calculo integral, 
de que temos dado conta , em outros volumes, e ulti-> 
mamente no Tomo VI, part. 3*., pag. 4^, Continuio 
sem interupção. A 3*. parte dos seus Exercidas aclia^M 
Completta. Nella vem a Toboa IX debaixo de buma 
forma mais simples, e calculada pata todos os graoa 
do angulo do modulo, desde O ^o ate O^go^. Por eate 
meio , sendo dada a amplitude f , e o angulo do mo-* 
dulo 9 de toda a funcçào R ou P, pode^se ter imroedia* 
ta mente hum valor approximativo doesta funcçào, com- 
parando-a com as íuncçdes dadas pela Taboa , e que 
mais se approximào nos elementos f e d. Huma interpo* 
laçào fácil conduzirá promptamente a hum valor mais 
exacto. 

Esta Taboa servirá para facilitara appiicaçáo da theo* 
ria das funcções ellipticas, objecto principal, que o 
autor se propoz nesta obra. O paragrapho segundo ter* 
mina com a seguinte reflexão , que interessa os astro* 
nomos. 

« Seria tanto mais útil aperfeiçoar estes dietkodos , 
fazendo as series mais convergentes , quanto he certo 
que a reducção em Taboas he o único recurso que resta 
para avaliar as funcções , determinadas por equafdes 

6* 



fti Noticias das Sciencias^ 

longos, nesse 'caso> he preferível empregar o meio se- 
guinte : 

Procm*dr-se*ha ptimeiro liuina constante única , infe- 
rior ao mais pequeno coeíEciente positivo de y~i , nas 
raizes imaginarias. Feito isto, fica íacil substituir, á 
equação prapo$ta,outras duas equações, que tenbào por 
raizes respectivas , a primeira , as raizes reaes da equa- 
ção proposta , e a segunda , as raizes imaginarias , nas 
quaes o coeficiente de ?~for positivo. Os coeficientes 
doestas duas equações serão integraes definitas que com- 
prehenderào a constante , que acima dissemos. Até se 
deve observar rpie , se todas as raizes são imaginarias , a 
constante de que se trata poderá suppôr-se nulia* 

Para fixar as ideias , considere-se huma equação do 
CP' ou ò^. grão , cujas raizes sejào todas imaginai^ias : 
pelo que acaba de dizer-se, poder -se-hão reduzir im* 
mediatamente estas equações a outras duas do 3<>. ou 
40. grão , ainda sem procurar preliminarmente a con- 
stante. 

Em todas as integraes empregadas neste metfaodo, a 
funcção afiectada do signal ^ he huma funcção racional 
da variável, que nunca se torna infinita» e na qual o 
grão do denominador he superior ao do numerador , ao 
menos duas unidades. Daqui resulta que ; cada huma 
doestas integraes tem hum valor finito e determinado, 
que se pode reduzir a números. Muitas vezes até será 
fácil transformá-lo em huma serie mui convaiigente , 
cujos termos sigão huma lei conhecida : de modo qae 



das Artes etc. 83 

86 possa immediatamente prolongar esta serie,qiianto se 
quíeer. Tal será o resultado , por exemplo , se se conside- 
rar huma das equações de três termos, que não se sabe 
i^esolver no caso em que todas as raízes sáo imagina-* 
rias. 

Os trabalhos de M^Legerulre, sobre o calculo integral, 
de que temos dado conta , em outros Volumes, e ulti-> 
mamente no Tomo VI, part. i**, pag. 4^» Continuâo 
sem interupçâo. A 3*. pafte dos seus Exercidos achasse 
Completta. Nella vem a Tòboa IX debaixo de buída 
forma mais simples, e calculada pata todos os grãos 
do angulo dd modulo, desde • =s»o ate ©^90®. Por este 
meio , sendo dada a amplitude f , e o angulo do mo- 
dulo 6 de toda a funcção E ou F, pode-^se ter immedia-* 
tamente hum valor approximativo doesta funcjiâo, com-* 
parando-a com as funcções dadas pela Taboa , e que 
mais se approximào nos elementos 7 e ^. Huma interpo' 
laçào fácil conduzirá promptamente a hum valor mais 
exacto. 

Esta Taboa servirá para facilitara applicaçào da theo* 
ria das funcções ellipticas, objecto principal, que o 
autor se propoz nesta obra. O paragrapho segundo ter-* 
mina com a seguinte reflexão ,. que interessa os astro*- 
nomos. 

« Seria tanto mais útil aperfeiçoai*' estes iftelhodos , 
fazenda as series mais convergentes, quanto he certo 
que a reducção em Taboas he o único recurso que resta 
para avaliar as funcções , determinadas por equações 

6* 



64 Noticias das Sciencias ^ 

differenciaeSy que não se podem integrar exactamente V 
e talvez não ha outro meio de resolver as grandes diífi-^ 
culdades, que apresenta a theoria das perturbações 
dos nanetas, quando o desenvolvimento em serie nào 
pode ter lugar, ou quando oíierece hum mui grande 
numero de terúios, que não se podem desprezar. 

Mechanica. 

M. Navier , engenheiro de pontes e estradas , e antiga 
discipulo da Eschola polytechnica, publicou o primeiro 
volume da Ârchitectura de Belidor, de que se pro- 
põe fazer huma nova edição. Nesta , a obra do antiga 
mestre se acha impressa sem alteração alguma \ porém, 
M. Navier enríqueceo-a com mui numerosas e extensas 
notas y nas quaes faz observações criticas^extremamente 
importantes , sobre os defeitos e erros do texto , e addi-* 
ções feitas a este. Entre eUas acha-se huma demons- 
tração elementar do principio das velocidades virtuaes^ 
diversos methodos practicos para determinar , por ap- 
pfoximação, as áreas , os volumes e os centros de gravi- 
dade ; huma theoria do choque , tendo respeito á com- 
pressão, que existe no momento do encontro dos dois 
corpos* 

No capitulo das /nc(rõe5, M. Navier rectifica hum<i 

falsa theoria , que se acha no texto , e expóe^ outra 

heoria nova da fricção dos engranzamentos , fundada 

sobra a' forma que convém dar aos dentes , e que se lhes 

dá eSectivamente nas machinas bem coBstruidas. 

No capitulo 3^., que contém os principies de hydraa- 



das Artes etc. 8!» 

Uca, trata o editor do choque dos fluidos , e doeqnili- 
brio dos corpos fluctuantes : mostra que as regras de 
Parent e de Borda não são contradictorías , como se 
tinha pensado ; que as de Parent cònvem a huma roda» 
que se move em huma corrente de largura indefinita, e 
as de Borda á que está encerrada em hum espaço es- 
treito. Quanto ao corpo contido em huma massa fluida, 
de extensão indefinita , julga M. Na vier que se podem 
estabelecer dois princípios geraes; que, para hum 
mesmo corpo , a resistência he proporcional ao qua- 
drado da velocidade , e para corpos semelhantes » ao 
cubo da sua dimensão homologa ; e indica as modifica* 
çôes que devem ter estes principio^ , conforme as cir* 
cumstancias. 

Âlem disto, M. Navier ajuntou illnstrapões e preceitos 
importantes aos capitulos sobre os moinhos para trigo » 
para serrar madeira, para a pólvora , e á cerca dos que, 
em Inglaterra , se empregào para bater o grão. 

Este illustre editor ofiereceo hum exemplar da sua 
edição ao Instituto de França , que segundo o estylo, em 
obras clássicas , nomeou huma Commissão para in ^ 
formar a Sociedade do grão de merecimento do traba- 
lho de M. Navier , e esta Commissão concluio a Conta 
que deo da obra do modo seguinte : 

. « M. Navier , publicando o primeiro volume da Âr- 
chitectnra de Belídor , he muito superior ao commum 
dos editores, e ainda de quasi todos os commentadores. 
A composição das suas Notas equivale á de huma obra 



86 Noticias das Sciencias , 

considerável ; e o merecimento d^ellas dá-lhe direitos aq 
reconhecimento publico , e particularmente ao dos eu* 
genheiros. » 

Bx^raulica^ 

A Suécia qão pode exportar as producções do seu 
território , senão pelo estreito de Sonda i e no tempo 
das guerras, tão. frequentes entre dois povos viunhos, 
os corsários dinamarquezes, protegidos pelas batteriaa 
de Cconenburgo , inquietarão sempre , e ás vexes até 
interromperão momentaneamente » o commercio mari^^ 
timo da Suécia, 

Gustavo Vasa, pelo meio do XVI século, fundou sobre 
o Mar do norte a cidade de Gothemburgo, da qual, su~ 
bindo a ribeira de Gotba, que desemboca junto á ditta 
cidade , se pode penetrar no interior do paiz , e ir car» 
l^ar as madeiras e os metaes aos mesmos sitios que os 
produzem , e donde se expprtão para toda a Europa. 

Estas considerações persusfdtrão o Governo a fazer 
abrir hum cana} navegável^ <iue fizesse a juncção do 
Baltico,com o Mar do norte.A obra doeste cana} acha-se» 
desde i8io,em execução, debaixo da direcção do 
Conde de Platen ; nós temos oçcasião de dar ao leitor 
huma ideia dVsta empreza, porque o seu director fez 
apresentar, por M. Berzelius, ao Instituto de França, na 
sua sessão de a5 de Janeiro, a carta daquelle canal ^ 
çom huma Memoria explicativa. 

Para estabelecer a communicação do Báltico com o 



das Artes etc 87 

Mar do norte , redazei|i-se as dilficuldades : a passar a 
cadeia de montanhas de (pranito, que separa o lago de 
Wener e o lago Weter, a cortar o plaieau situado entre 
o lago de Rozen e a lagoa d* Asplangen , e â àegim*, no 
resto do espaço » ou a ribeira de Gotha , para descer ao 
Oceano^ ou a de Motala para descer ao Baltido. A pri* 
meíra , mui perto da sua origem , he atravessada por 
massas de granito, que produzem huma espécie de ca* 
taracta , que era necessário rasgar. Depois de difièrentes 
traballios,emprehendidos e inteirompidos, em diversas 
epochaSytomou-se o partido de abrir hum canal lateral, 
sobre a esquerda da ribeira de Gotha , e dirigir a queda 
da agua,por meio de 7 comportas,de g*" , 67 de largura > 
e de 60"^ de comprimento. 

A carta communicada ao Instituto de França , só se 
extende do lago Wener até ao Báltico , ecomprehende , 
d*este modo , somente o segundo ramo do canal > que se 
deve abrir entre estes dois mares. 

O ponto de divisão das aguas , que foi excavado na 
cadeia de granito ^ de que acima falíamos , he superior 
ao nivel do Báltico go" , 65 , o que vem a ser pouco mé* 
mos de metade da elevação da Bacia cie Naurouse , 
ponto de divisão das aguas^do celebre canal de Langue- 
doc ; por quanto, este ponto tem sobre o nivel do Me- 
diterrâneo 189" de superioridade. 

Aquelle ponto de divisão do canri de Goâia fém 4 
milhas suecas de comprido;d*elle desce-se ao O. ao lago 
Wener ^ por meio de 20 comportas,, as quaes- compensàa 



88 Noticias das Sdendas, 

bum declivio de 4B* proximamente. Ao L. do dkto 
ponto da divisão^passa-se ao lago Weter^por huma com-' 
porta de 3"* , aS de queda. Do lago Weter passa-se ao 
lago de Boven, doeste ao de Roxen,por hum canal •prati-' 
cado paraUelamentè á ribeira de Motala. Em fim , de- 
pois de ter atravessado o espaço , que separa o lago de 
Roxen da lagoa de Âsplangen , desemboca-se, por hum 
canal,na extremidade occidental de huma bahia do mar 
Báltico y que entra pela ten*a dentro , por espaço de 
mais de duas milhas. 

Os 90" de declivio,desde o ponto de divisão das aguas, 
são compensados .por 36 comportas. A extensão total do 
canal , comprehendendo a dos lagos , he pouco mais ou 
menos, de 45 léguas , de 35 ao grão; a largura, no fundo^ 
he de 14"* » e na supeiTÍicie da agua , de quasi 28"*; a pro* 
fundidad^ he, pelo menos , de 3 ", 

O numero de trabalhadores empregados desde quci 
a obra piíncipiou , e somente nas estações em que se 
pode trabalhar , tem sido de 3 até 7 mil. A avaliação das 
despezas eleva-se a i5 milhões de francos, dos quaes 
huma parte he paga pelo Governo, e a outra he producta 
de subscripçôes voluntárias* No fim de 1817, tinha-sejá 
gasto mais de metade d*esta somma , e tinha-se execu*^ 
tado huma porção de obra, que se reputava l do orça- 
mento. 

Provavelmente em poucos annos » a Sueda gozai^á das 
vantajens de huma navegação interior, que dará npyo 
valor aos seu$ productos *, nós aproveitaremos e^lfi occa;^ 



das Artes He. 89 

lSÍão pdra convidarmos o leitor a fazer sobre isto as três 
reflexões seguintes : 1*. 9 com que anciã a industiia pro* 
cura fazer ncco hum paiz, a quem o dima parece ter 
negado os meios de o ser; 2*. com que coragem a arte 
ousa emprehender huma obra tào diliicil e tào. ardida , 
em hum terreno.que a natureza erriçou de montanhas; 
e em S^. lugar, com que franqueza e com que interesse 
M. de Platen , ainda no meio da execução dos seus pia* 
npsy como membro da grande familia dos sábios , com- 
munica ao Instituto de França, e por este meio a toda a 
Europa , o fructo dos seus trabalhos , neste importante 
objecto. Parece-nos que todas estas observações devem 
merecer reflei^ào, nos paizes para que escrevemos, 

Mechajúca celeste. 

No VI volume , parte 2*. , pag. Sa, faltando da Memo« 
ria y que M. de Laplace tinha lido no Instituto em 1818, 
sobre a lei da gravidade etc. , dissemos que as experiên- 
cias do pêndulo, feitas nos dois hemispherios, provarão 
que a terra não be homogénea no seu interior , e que 
as densidades das suas camadas crescem , da super- 
fície para o centro. Mas a terra , heterogénea no sen^ 
tido mathematico , seria homogénea no sentido chy- 
mico, se o accrescimo da densidade das suas camadas, 
não fosse devido senão ao da pressão , que estas expe* 
rimentào, á proporção que estão mais vizinhas ao 
centro. Sabe-se que os corpos sólidos se comprimem 
pelo seu próprio peso. A. lei das densidades , resul- 
tantes doesta compressão , he desconhecida. Pode na- 
turalmente pensar-se , <)ae estes corpos resistem tanto 



\ 



90 Noticias das Sciencias , 

mais á compressão , quanto mais são comprimidos^ 
A relação da diflerencial da pressão , á da densidade, 
cresce com a mesma densidade ; a funcçâo mais sim* 
pies , que pode representar esta relação , he a primeira 
potencia da densidade , multiplicada por huma con- 
stante. Esta he a que o autor adopta , porque tem a 
vantajem de se prestar facilmente ao calculo , na inda- 
gação da figura da terra. 

Os geómetras até agora Unhão desprezado , nesta 
indagaçãO' , o effeito resultante da compressão das ca- 
madas. M. Toung convidou ultimamente a attenção 
d'elles sobi-e este objecto. A analyse de M. de Laplace 
prova, que d* este modo he possivel satisfazer a todos 
os phenomenos conhecidos , que dependem da lei de 
densidade d*estas camadas. Estes phenomenos são : as 
variações dos grãos dos meridianos e da gravidade ; a 
precessão dos equinoxios ; a nutação do eixo terrestre ; 
as desigualdades , que produz o achatamento da terra 
nos movimentos da lua ; em fim a relação da densi- 
dade media da terra , com a da agua , relação , que 
por huma bella experiência , Gavendish fixou em 5 1. 
Da lei precedente , sobre a compressão dos sólidos , re- 
sulta que y se a terra fosse formada inteiramente de 
agua , o seu achatamento seria jfo t o coefficiente do 
quadrado do seno da latitude, na expressão da ex- 
tensão do pêndulo de segundos , seria Sg decimos-mil- 
lesimos , e a densidade media da terra seria nove vezes 
a da agua. 

Se acaso se suppõe a terra formada de huma 



Jas Artes , ele. gt 

•úbstancia homogénea, no sentido chymico , cuja den-^ 
sidade seja a | da da agua commum, eque, compri* 
mida por huma columna da sua própria substancia 9 
igual á millioneiiauí parte dò semi-eixo terrestre, 
augmente em densidade 5,5345 millionesimos da sua 
densidade primitiva , satisfaz-se^por meio d*esta suppo- 
siçào , a todos os phenomenos, que acabamos de citar* 
A existência de huma tal substancia he muito admis* 
sivel. De resto , o autor está mui longe de affirmar 
que este caso seja o da natureza; mas a hypotbese 
de huma substancia única , cujas camadas nào varíâo 
em densidade, senào pela compressão que axperí-^ 
mentào , nào ofierecendo impossibilidade alguma , pa^* 
receo-lhe digna da atteoçào dos geometi*as. 

Eis-aqui as consequências que d'esta hypotbese tira 
o autor : 

EUipticidade da terra, jhiy 

Relação da densidade do centro , com a da super» 
ficie, 5,a36; 

Natação, em segundos sexagesimaes , g^^.Sa. Esta na<- 
tacão he , com pouquissima diílerença , a que resulta 
das observações da polar« 

Suppondo , conforme Cavendish , a relação da den- 
sidade media da terra, com a da agua, = 51, a den- 
sidade da camada da superfície , será » 3,37 , toman- 
do-se a da agua por unidade. 

Feio que toca ao achatamento , este satis&z ao re* 



9^ Noticieis das Scieáeias , 

sultado geral das observações dos grãos , da gravidada 
e das desigualdades lanares. 

No mesmo Tom. VI , Parte a«<»y pag. 55, dissemos 
que .M. Poisson esperava pelos resultados das expe- 
riências de M. NicoUet , para fixar os valores das con- 
stantes da sua theoria. Estes resultados apparecérão , 
com effeito ultimamente no Conhecimento dos iempos 
para iSaa, com todas as circumstancias , que se podião 
desejar. Em consequência delles v condue M. Poisson 
que f na superfície da terra , os poios de rotação não 
experímentão deslocação alguma sensível, de modo 
que y a este respeito , existe huma diSerença essencial 
entre o movimento de rotação da lua , e o do sphe- 
roide terrestre. M. Poisson observa > que as formulas 
tiradas da theoria , e que se comparão com as obser-^ 
vações , suppôem que as desigualdades arbitrarias ^ 
que dependem das cirçumstancias iníciaes' do movi-, 
mento, desapparecêrão totalmente, e que hoje não 
subsistem 9 senão as que são produzidas pela acção 
da terra sobre a lua ; comtudo , o autor confessa que 
podem ainda existir algumas duvidas sobre este facto 
importante , as quaes influem depois sobre a. verda- 
deira extensão da libraçào, seja em longitude, seja 
em latitude. ^ Seria tanto mais necessário , diz elle, 
que estas duvidas sé acclarassem , que dois dos valores 
achados estão mui longe de se ajustarem com os que 
se calculão , na hypothese da fluidez primitiva da lua ^ 
hypothese que parece convir a todos os corpos cele&^ 
tes , e a que todas as analo^s conduzem. « 



das Artes jCtcí 93 

Astronomia. 

toas estreUds. No Tom. I dos Ânnaés , Parte a*, pag. ^i 
dêmos o titulo de huma Memoria que M.Yf. Hers^ 
chel tinha lido na Sociedade Real y sobre a distribuição 
das estrellas fixas no espaço, Memoria, de que tomámos 
a fazer menção, no Tom. VI , Parte a"., pag. 55 : esta 
Memoria , de que não conheciamos então mais do que 
o titulo , acha-se agora nas Transacções philosophicas ^ 
( a^ Parte de 1818). M. Herschel, por meio de cál- 
culos , fundados na efficacia dos seus instrumentos e 
na presumpção de algumas* verificações certas da gra- 
vidade das estrellas fixas , procura chegar a huma con* 
cliisão definitiva, sobre a disposição e arranjo dos corpos 
celestes no espaço. Admittindo que , em geral , as es- 
trellas mais fracas são as mais distantes, nesse caso, 
a sua luz vem a ser huma medida das suas distancias , 
a qual te pode obter por huma serie de. compara- 
ções, feitas com os mesmos telescópios, mas com 
aberturas diflerentes. • M. Herschel concluio doeste' 
modo : que huma estrella única de primeira grandeza- 
desappareceria inteiramente ao olho sem o soccorro de 
instrumento , se a sua distancia viesse a ser doze veze» 
maior , e ao olho armado do mais perfeito telescópio 
conhecido, se a distancia chegasse a ser a3oo vejses 
mais considerável. Ora , hum instrumento d'esta força 
mostra também estrellas -na via'lactea\ nos limites 
mais distantes ia visibilidade. 

Porém , bem que a luz das estrellas simples mais 



^ Noticias das Sciencias , 

distai^teft já não possa affectar os nossos órgãos , com- 
tudo f o clarão , que resultar da união de hum systema 
de estreilas pode ainda vir até* nós , desde huma dis- 
tancia mais considerável no espaço. Huma vez qae 
as estreilas doesta aggreg^çap podem ainda ser vistas 
pelos nossoa telescópios y a sua distancia pode também 
ser avaliada pe}a abertura que os distingue. Desta ma- 
neira he que M. Herschel estabele€;!e 4^ doestas aggre- 
gaçôeSy as quaes lhe servem depois para estabelecer 
buma escolha a respeito d estes objectos duvidosos , 
que os nossos telescópios não podem chegar a distinguir. 
Prin^iramente prova , por observações, que as aggrega** 
çòes, susceptiveis de serem distinguidas , vistas com te- 
lescópios de força inferior , apresentão absolutamente 
a mesma apparencía. Tendo-se estabelecido esta se* 
melbança de natureza > pode-se comparar a sua dis- 
tancia com a da primeira sorte y pelos mesmos princi^ 
pios por que a distancia d*esta última se compara còm 
as estreilas fixas mais próximas. Tem-se , com efieito . 
chegado aos limites mais distantes da visão humana ^ 
logo que semelhantes objectos se perdem da vista , 
e parece permittido suppôr, que o seu lugar deve estar 
a huma distancia de 35ooo^. ordem» 

Porém y se he útil poder determinar quaL he a dispo- 
sição das estreilas fixas no espaço ^e por humaínduc- 
çâo bem seguida, formar alguma ideia doestes mon- 
tões lácteos , de differentes claridades y que se avistão 
no ditto espaço, e da immensidade d*este ; não importa 
menos fixar, de hum modo positivo ^o lugai* de cada 



das Artes , etc. ' g5 

huma das estrellas visíveis* Sobre isto M. Bessetptx^ 
blicQUy DO Periódico de Astronomia de M. de Liadenau^ 
formulas pak'a calcular a niitaçào e aberração Jas es^ 
ti*ellas fixas, e M. S. B. S. , em hum artigo do N<>. iS 
do Periódico das Sciencias e Artes ^ fes conhecer m 
parte útil d'aquellas formulas* 

' O mesmo M. Bessel inserio, nas Correspondências 
astronómicas do Barão de Zaeh, hum catalogo inte--' 
ressante da ascensão recta de 36 principaes estrettas 
fixas f conforme as observações feitas no observatotio 
de Koenigsbergy desde i8i4 até 1818. M. Bessel notou 
naquelle ti*abalho , como circumstancia notável , que 
a diOerença, enti^e os catálogos de Piazzi e de Bradley, 
que se tinha achado ser = + 2" ,^8q , desapparece quasi 
inteiramente y tomando por base o seu catalogo. 

O D''. J« H. Westphal publicou , em a sobreditta 
obra de Lindenau, hum grande numeix) de observa* 
ções feitas em 1817 e 18 18, sobre as estrellas errantes, 
ou cuja intensidade de luz diminue pouco a pouco, 
para augmentar depois ; porém, sem procurar de modo 
algum explicar este singular phenomeno, M. Burck^ 
liardt deo á luz , no mesmo Periódico , explicações e 
correcções das posições de algumas estrellas , que 
pai*ece não terem sido observadas porBradley^e que 
M. Bessel tinha introduzido no seu catalogo , em con- 
sequência das suas próprias observações. 

Do Sol, O D^ RaschigàeOy nos Annaes depkysica 
4^ Gilbert, observações > spbre os diíTerentes grupoa 



96 Noticias das SciçneiaSy 

de manchas que percebeo no disco do SoL a 2O e \j 
de Outubro de 1818 , e que passavão humas sobre as 
outras, como. já tinha observado em i5 de Março da 
anuo antecedente* M. Raschig procura dár huma ex- 
plicação d* este phenomeno, que no principio julgou 
ser devido a huma iliusào de óptica. 

De outros Planetas. M. K. J. C* MoUer publicou , 
em Altona, huma descripção do annel de Saturno^, 
juntando-lhexonsiderações sobre a òausa da mudança 
da sua forma luminosa, e. sobre. o seu desappareci* 
mento 4obre em i8o3, e simples em 1819. 

M. Dirksen publicou , em o Periódico de M. de Lin* 

denáu, huma Memoria sobre a marcha de Palias desde 
7 de Agosto de 18 f(} até 6 de Junho de 1820, calcu* 
lada para a meia noute em Gottingue. 

Da Lua. M. Poisson , no Conhecimento dos tempos 
para i8ai , publicou formulas, a que o conduztràoos 
seus trabalhos em determinar as desigualdades da in- 
clinação 'do equador da lua e dos seus* nódos, que a 
theoria tinha mostrado deverem existir; como^agrange 
já tinha feito,, pelo que respeita ás desigualdades 
de rotação d'aquelle astro. 

Todos os astrónomos se ajustão em nãp admittir 
atmosphera na lua, ou ao menos, em a suppôr extre* 
mamente pouco considerável. M. Emmett \u\gou , com* 
tudo, dever deduzir da observação do eclipse de huma 
estrella mui pequena pela lua, em 5 de Dezembro 
de 1819 y em que. a estrella lhe pareceo realmente 



das Artes etc^ 9^ 

visível por detraz do disco d^aquelle planeta^que isto não 
podia ser produzido , senão pela refracçào da atmos- 
phera d*este; porém M. Firminger no Magazine de 
Tilloch^ào mez de Agosto, mostrou que, no caso em 
que existisse huma atmosphera lunar , esta não pode^ 
ria ser assaz densa , para produzir o phenomeno ob- 
ceiTado por M. Emmett , e que, por consequência, este 
provinha de alguma illusão. 

Dos Cometas. O N^'. 260 do JPhHosophical Magazine 
annuncia, que hum astrónomo de algum merecimento, 
tendo-se occupado de pôr em ordem a orbita dos co- 
metas descobertos modernamente , achou que alguns 
correspondião a huma só e mesma orbita planetarii. 

No Tom.VIdos Annaes, Parte a*, pag^ 177, demos 
noticia de hum cometa descoberto em Dezembro de 
18 1 8 por M» PonsyC começado a observar em Parts, 
por M. Blanpain , em 4 de Janeiro de 1819; e nas No^ 
ticias recentes , inseridas no Tom. IV, Parte a*, pag. 98, 
annunciámos outros dois cometas, descobeitos pelo 
mesmo astrónomo, cm Novembro de 1818; então d^- 
snos as observações , que M. Blanpain tinha publicado 
a respeito d*elles. Pelos elementos d'estas , calculados 
por M. NicoUet , se via ^ue aquelles dois últimos co- 
metas ainda não tinhão apparecido; porém, parece 
que não se pode dizer ô m^mo do primeiro , isto 
he, d^aquelle que M. Blanpain começou a observar 
em 4 àe Janeifo de 1818 : hum membro da Junta das 
longitudes de Pails tinha achado grande semelhança 
entre aquelle cometa e o príkneiro de f 8o5 i o que 
Tom. IX. P. a*. . 7 B 



m Ifctícias das Saencias, 

jg^ £^Jte^ Diivclor adjanlo do observatório de Seeberg, 
fi^g^ot ter plenaBieDte confirmado. Em consequência 
fi^f M. Olbers, de Brrmen, pensou que o ditto 
^,^cti poderia tmmbem ser o mesmo de 1795. Para 
s^AT da prcd>abilidade das opiniões doestes astrónomos, 
€ts-a<|m os elementos daquellas três obsei^vaçòes : 

Cometa de i8i)5 iJ. de i8o5 id. de 1818-1^ 

ai ficí. Coâia. m Nov. Parts. 27lan. GotbaT.M. 

^tMif- 1^ períh. • 4^881. . . • 5o64 ^8777. 

H^. do períh. i56-49'3a' i56*47'i9'' i56^5g' iS" 
j^iDg. do nòdo . • 335.1 3. 5 • 3a4*^o* 5 • • 354.35« 
j^kIío. da orb. , • 1 3.45 .43 • i3.33.3o . . 13.37. 
àng. de excentr. . 58.o8.43. ...»...• Sa. a. 58 
Xog. da metade 

^ eixo menor 0|34499O7 ••••* .••• o>345oo 
HlKj^ 4o eixo maior 2>2i45. • • 3,2 13 . . . 2,2 i3i 

tmiéáò »•••• iao2,5 dias. 1202,54 dijas 

Da comparação doestes elementos se pode ver, que 
este cometa teria lium periodo mui curto, que não 
seria senão de 3 f-annos, ou quasi de 1202 dias. Con- 
forme esla ideia , seria possivel , na opinião do Barão 
de Zach, que o cometa de i'785 ainda fosse o mesmo 
cometa , e M. Enke calculou a marcha , que elle de- 
veria seguir, para os mezes de Julho, Agosto, Sep- 
lembro e Outubro de 1819. Doeste calculo conclue, 
que nesta epocha, o cometa estava em opposiçãocom 
o Sol , ou a huma distancia da Terra , dupla da dis* 
tancia daquelle astro, e que só se poderia ver com 
telescópios de grande alcduce. Comtudo não consta 



das Artes j ete» «99 

qae tenha sido descoberto pelos aUtronomos ^[ne s^ 
occupárão disso» 

Nas Noticias recentes , inseridas na Parte a", pag. 177 
do nosso Tom, VI , annunciámos o primeiro cometa , 
que appareceo em 1819, descoberto a ia de lunho, 
pelo mesmo M. Pons, então astrónomo adjunto ao 
Observatório de Marselha, e hoje Director do de 
Lucca \ eis-aqui os elementos calculados por M • Gam- 
bart , sobre as observações de M. Blanpain. 

Passagem no perihelio , a 26 de Junho ^ ás 10 ^' 0^ 

da tarde T. M* 

Distancia perih. .«..«.. 0^88117 

Long. do perih. « • « 4 . « « 4 a55o5i^ 

I«ong. do nódo . •*•«•«« 107.46 

Inclin. da orb. # « 8« 20 

Sentido do movim« heliocêntrico • . directo* 

O segundo cometa , observado em 1819 , foi o qt^e 
nós annunciámos , na mesmii^ parte a*, do Tom* VI , 
ps^g- 177 9 ^ ^^ V^^ referimos algumas particularidades 
no Tom. Vm, Parte a*^. . pag. i44 1 o qual de repente 
surprehendeo os observadores em Paiis , no dia 3 de 
Julho, e que foi observado em todas as partes da 
Europa. Na occasi&o em què fizemos aquelle impor- 
tante annuttcio , dêmos com elle os elementos , que os 
periódicos literários tinhão -publicado , fundados nas 
observações de M. Bouvard , e ji então dissemos que 
aquelles cálculos tinhão sido feitos proximameniei cota 

m 

tSeito os resultados , ^oe entio se pubUcárâo , tinltao 

1* 



t## Noticias das Sciendas , 

sido fiindados sobre mui pecjueno namero de observa-- 
ções approxímadaSye erào, em consequência, mui defei- 
tuosos. Daremos aqui os elementos , calculados sobre 
as observações do mesmo M. Bouvard , porém feitas 
com exacçào , no observatório Real de Paris , desde o 
dia 3 de Julho , ate ao i<^. de Agosto, ajuntando-lhe ^ 
para facilitar a comparação, os que publicou M. Rum-^ 
ker, sobre nutaeroSas observações de M. Pond, em 
Greenwich , òs f\ue resultarão das observações de M. 
Sandra i Director do Observatório de Pádua , as quaé$ 
parece terem sido feitas em circumstancias pouco fa-* 
voraveis, e as de M. NicoUú\ Director do Observa-" 
tório de Manheim» 

• • 

M. Bouyard. M. Rumker* M. Santini. M. Nicolai« 

' a6 Jnnb* 96 Janh. a6 Jniih^ 08 Jnnh. 

]^«8ag. no perih« • ^ h.^iSf, 485i3a^ ^9835. 13689. T.M/ 

Dift. períh» . • . . 0,34007 • • . €^363476. . o,3o863 . . 0,^5178» 
Long. iloperih. . . 287» 4'55* a90«>47'59'' a8i» i' 4" a890i6'o'' 
Long ào nòdo. • • 273.43*3 i* • 373.47*59. . 273,23. 2. . 273.45.0* 
IncUn. da orb. • • • 60.45. o.. 8o. 7*41 • • Bi.37.15. . 80.27.O4 
SSOTÍm. betiocentr. Diiíectoi 

Conforme estes elementos, diz M. Bouvard « que 
este cometa não se parece com os mais cometas, 
até aqui observados , ^ ,^^^% por consequência , era 
impossivel piedizer a sijja appariçào. Havia nelle huma 
circumstancia notável i^a-sua cauda , cuja extensão^ 
no 3 de julho , se peude avaliar de 7000 léguas , pela 
meia noite era quasi vertical; mas isto dependia de 
que I o cometa e o, Sol tinhão então ascensões rectad 
pouco diíierentes , e chegavão ao meridiíuio 1 pouco 



ias Artes , ete. x^t 

naU ou menos , na mesma epocba ; por consequência» 
subsiste a hypotliese mui geralmente recebida , de que 
a cauda dos cometas he composta de vapores mui 
ligeiros y transpoitados a grandes distancias pela im- 
pulsão dos raios solares ; q que faz que esta cauda 
deve ser quasi diametralmente opposta ao Sot« 

M. Olhers de Bremen , que também calculou a or- 
bita doeste cometa , achou que ella devia passar pela 
disco do sol, entrando pelo limbo meridional , a 26 
de Julho ás 5^- 2gi' da manhan, tempo verdadeiro en^ 
Bremen , e sahindo pelo limbo septentrional ás 9 '^ a\ 

O terceiro cometa , que appareceo em 1819, he Q. 
que annunciámosy na Parte a*. , pag, io5 do Vlll vo'* 
lume , descoberto por M. Blappain a 28 de Novembro ; 
d*este não daremos aqui novas particularidades , por- 
que até agora nada se tem ainda publicado a res- 
peito d*elle, 

O Diário da Instituição Real d/s Londres N<^. ^5 ^ dia 
que no observatório de l^Genigsberg se observara , na 
constellaçào do Cisne , mais hum cometa^ ^ue nâq 
era visível sem o soccorro de instrumento ; porém , 
K^ão ajunta particularidade alguma a este respeito» 

M. de IJ^idenau acabou de pubUcar o seu trabalho 
completto e considerável , sobre o cometa de i68<f. 

Dos Eclipses , ou Occubaçôes, Muitos astronomoi 
tinhâOy desde o anno passado y começado a prevenir já 
os observadores da marcha ({ue ha cU seguir Q ecUpst 



loa^ Noticias Jas Sciencias , 

ánnnlar do sol , que deve haver, em 7 de Septembró 
d'este anno. M. Yates , a este respeito , traz á memoria 
o eclipse , também amiular , que houve no i3^. século , 
é de que se faz menção na Historia norwegiana da 
eipediçào de Haco contra a Escoasia , traduzida do 
islandez em inglez, por Johnston, em 1780. M. Yates 
mostra por cálculos, que o ditto eclipse appareceo 
ém a5 de Agosto de i263 , que be o de que se fas 
menção nos catálogos d*aquella data , e que , por con- 
sequência > sem razão se diz no dè Riccioli , que não 
bouve eclipse annular do sol desde 334 até 1 567. 

M* Rumker publicou, em o 1^* Volume do Diário 
philosophico de Edimburgo, as particularidades da 
observação que fez em La Valette ( Malta ) do eclipse 
do sol, acontecido em 5 de Maio de 1818, 

O mesmo astrónomo , no mesmo artigo , publicou 
buma taboa , com grande numero de observações de 
occuUações de estrellas fixas pela lua , no mez de De- 
zembro de 1818, e Janeiro e Março de 1819, feitas 
no Palácio Real de la Yalette. Latit. 35<> 54' i^" \ 
long. i5o 27' 38" 6. 

InstrwnentoSé No anno « passado não conhecemos» 
nesta parte tão essencial para o bom êxito das obser-* 
Vações astronómicas , mais dó que dois melhoramentos, 
a saber : a invenção de hum novo chronometro , e a 
substituição do asbesto no miorometro » em vez dos &os , 
gue se cimpregavão commummente neste instrumento* 

O chtonometrô foi inventado por M. Brégueif celebre 



das Artes ele. io3 

relojoeiro de Parts , para chegar alem de f de segundo 
nas observações do desapparçcimento dç hiip^a estrella, 
por detraz do fio de hum instrumento de passagem; 
quantidade, que, correspondendo a 3' de ascensão recta» 
pode ser muito importante. Por meio d*este cbronometrò» 
o qual se pode appUcar a toda a casta de telescópio , 
parece que se poderá facilmente observar n> de segqndo» 
e havendo practica , ainda «% e rb , por appruximaçlo. 

Quanto ao uso do asbesto nos micrometros , deves- 
se a invenção ao Professor WaUace, O celebre Trough*: 
ton applicou hum fio d*esta substancia, de quasi jí^õ de 
pollegada de diâmetro , á ocular de hum telescópio , 
e a linha , que elle formava , era perfeitamente igual 
e muito opaca. 

GEOGRAPHIA. 

Longitudes e Latitudes. Os navegantes devem a Dou-* 
wes hum methodo particular para determinar a lati- 
tude, por meio de duas alturas, observadas fora da 
meridiano; mas este methodo, que parece offerecer. 
alguma vantajem , porque he curto , e pode expôr-se 
em taboas pouco volumosas , comtudo, expõe a erros » 
ou conduz a muitas diflSculdades para os evitar, e alem 
disso , necessita de Taboas , que não são las dos loga- 
rithmos ordinários. M. Guéret imaginou hum methodo 
mais simples e curioso, cujas bases e formulas M^ 
Delambre publicou, em Q Conhecimento dof f^mpof para, 
182a; este sábio astrçnomo compara» jf|^0l difso^ 
aquelles dois methodos entre si, corrige, o.u modi-- 
fica ambos , e acabai por propor hum sea » qi^e he- 



10$ Noticias das Sciencias , 

evidentemente mais cuilo que o segundo , e qae não 
empi^eça senão formulas mui conhecidas. 

M. Meíkle , no Magaz. de Tilloch , do mez de Julho^ 
propoz hum methodo para aperfeiçoar o de obter a 
longitude pelas observações da lua ; este methodo conr* 
siste, depois de ter medido a distancia e a altura das 
partes do limbo , ambas superiores , ou ambas infe- 
riores ao centro, em achar primeiramente a verdadeira 
altura do limbo , a qual , applicando-lhe depois o 
semi-diametro verdadeiro ou horizontal , dá a .verda- 
deira altura do centro; depois , em applicar 4 altura 
dos limites observadas p semi-diametro augmentado : 
o que lhe dá o ponto excêntrico e va]:iavel , do qual 
M. Meikle pensa que a distancia apparente deve ser 
avaliada » e não do verdadeiro centro, 

M. Ed. mddle, no mesmo periódico , do mez de Ou- 
tubro , procura estabelecer que este methodo conduz 
absolutamente aos mesmos resultados « que o outro» 
geralmente adoptado , e que M* Meikle tinha procurado 
desacreditar; por^m este ultimo, em hum artigo do 
mez de Novembi;'o , responde que, pelo seu methodo, 
çe obtém as corrçcções da altura verdadeira, com muito 
menos difficuldade, visto que, pqr elle, se evitão 
duas correcções, 

provavelmente estas difficuldades inseparáveis do 
methodo de obter a longitude pelas observações da 
lua , fez imaginar a hum correspondente do Philoso^ 
phical Magazine Tomo LIV , hum meio , quasi mecha- 



ias Artes etc. io5 

nico, para chegar a este (itn, o qual parece obter 
muitas vantajens practicas. 

M. liwnker deo f no ^^. N®. do Diário phUosophico "^ 
de Edimburgo , a latitude e a longitude de 34 difie-^ 
rentes lugares do Mediteiraneo ; M. Gauttier, capitão 
de fragata francez , publicou , em o Conhecimento dos 
tempos para 182a, huma Taboa, com muito maior 
numero de posições geographicas , determinadas em 
1818 no Mediterrâneo y Adriático e Ârchipelago. Esta 
Taboa he a continuação de duas , que o mesmo offi- 
ciai já tinha publicado na mesma obra, para i8ao 
è i8aT. No ultimo caderno do Diário de Astronomia 
de M. de Lindenau , de 1818, acha-se também hum 
grande numero de posições determinadas nas índias 
• OrientaeSy por MM. Biarow e WilL Hunter ^ com 
hum sextante de Troúghton , e bum relojo de Brooh- 
banks^ 

Observações sobre a figiira da terra. Âs medidas dos 
arcos maiores ou menores do meridiano, a que se tem 
continuado a recorrer, em diversos grãos de latitude , 
para determinar a figura da terra , não tem infeliz- 
lliente conespondido á conformidade, que se devia 
esperar entre si ^ nem com a theoria ; achando-se 
humas perfeitamente conformes com a de Newton 1 
ao mesmo tempo que outras, pelo contrario, dão ò 
arco polar mais comprido. Sobre a causa doestas dif- 
ferenças ha gi^ande variedade de opiniões. Huns , como 
o coronel Mudge e o capitão Kater, pensarão que 
isto era hum resultado do effeito de attracçõe&locaes; 



io6 Noticias das Sciencias , 

outros julgarão que provinha de não se ter observada 
correctamente a amplitude do arco celeste. Em fim ^ 
M. Fisberem huma Memoria, impressa noN^. i4do 
Diário das Sciencias e Artes , suppoz que estas diffe- 
renças resultâo de que , os arcos niedidos do meri- 
diano não são medidas exactas dos raios de curvatura 
no ponto médio d*estes arcos , e que em quanto os 
arcos dos meridianos forem considerados como arcos 
de circulo , será necessário recorrer a correcções. 

Mas M. Firminger mostrou , em hum Artigo , im- 
presso no Diário de Tilloch , do mez de Julho , qual 
era a causa do erro de M. Fisher , e que , posto que 
com edeito, os arcos de ellipse ou de circulo, do 
mesmo numero de grãos , e do mesmo raio de cur- 
vatura , fossem de comprimentos difierentes , com tudo» 
a difièrença he demasiadamente pequena , para influir 
sensivelmente nos resultados. Porém , M. Firminger 
aponta huma circumstancia, que , na sua opinião , deve 
determinar algumas correcções; para provar isto, 
toma para exemplo a medida de hum arco , calculada, 
ha alguns annos , em Inglaterra entre Dumose e Clif- 
ton , pelo Coronel Mudge , e procura demonstrar que 
entre Dumose e Axbury Hill, huma das stações, he 
necessário fazer huma correcção de quasi 3%S. 

Estas objecções feitas á medida do prco, tomada 
pelo coronel Mudge , em Inglaterra ^ e ^ discordância 
dos seus resultados com os das medidas tomadas no 
continente , determinarão provavelmente M* Kater a 
indagar se acaso haveria erro na avijiafio da lati* 



4as Artes eie» 107 

tilde da stação de Ârbury Hill; mas aquelladiscor^- 
dancia não parece vir doesta causa , por ipianto M. 
Kater , servindo-se de bum excelLente circulo repe* 
Udor. , achou que a ditta latitude de Ârbury Hill tinha 
sido exactamente determinada. 

No Tom. VI y Parles*, pag. 70 dos Annaes , dêmos 
o resultado , a que tinha chegado o capitão Kater , 
na determinação da extensão do pêndulo, marcando 
os segundos em Londres: M. Wats^ em huma Me* 
mona, publicada no Diário philosophico d^Edimburgo, 
pertende que, a pezar de todas as cautelas tomadas 
por aqueUe sábio , os seus resultados não são izentos 
de erro. M. Wats pensa /por exemplo , que M* Kater 
achou huma fracção mui pequena de pollegada 9 pop* 
que avaliou , em menos do que convinha , a correc- 
ção do valor do arco de vibração. Outro- pequeno 
éito se encontra também na correcção do peso da 
atmosphera, que elle avalia 0,00544» em vez de o,oo54a. 
Em EmM. Wats observa que M. Kater não marcou-, 
com suficiente precisão , o numero de vibrações , exe<* 
cutadas pelo pêndulo , dentro de hum certo numero^ 
de minutos ; a este respeito , M. Wats propõe a de- 
monstração, que , ao seu entender, convém empregar* 
se, para determinar a correcção devida á amplitude 
de vibração ; porém ,1 não dá a correcção , que suppõe 
necessária á avaliação da extensão do pêndulo , feita 
por M. Kater, a qual facilmente se vé que, se he 
necessária, não pode ser considerável. 

M* Ed. Troughion procurou conhecer a diflerença,qat 



xo8 Noíicias das ScieneiaSf 

poderia existir entre aquella ayaliaçâo e a que àerã 
M. Wfaitehurt Depois de ter dado as coiTecções 
necessárias á observação d*este ultimo, estabelece a 
extensão do pêndulo em 39,13916; o que daria humt 
diflerença, entre esta avaliação e a de M. Kater» 
4e o,ooo56. Porém, M. TrQughton iulga que ainda a 
esta avaliação se deve fazer huma correcção de 0,0001% 
por causa de duas origens de erro : 1*. a gravidade 
especifica , que elle avalia somente em 8,!i6oi , em yez. 
de 8,4^0 ; a*, a densidade , pelo esquecimento que teve 
]yi. Kater de quadrar a totalidade do seu appareiho ^ 
relativamente a esta; o que dá somente 39,13877, e 
neste caso a diilerença real , entre as duas medidas 1^ 
não vem a ser , senão de o,ooo39* Com eOeito parece 
que as novas experiências feitas por M^ Pondi^ astró- 
nomo dç Greenwich , derâp resultados mui próximos 
aos de M. Kater„ corrigidos com aa observações acima^ 

No mesmo lugar citado do nosso Tomo VI i^ 
dêmos noticia das observações ao mesmo respeito 
feitas ultimamente por astrónomos inglezes e francezesi, 
M. Biot , hum dVstes últimos , publicou ha pouco , 
naquelle ipesmo Diário phiioscHphlco d*Edfmburgo„ 
alguns resultados das suas observações ; deUas se vé , 
que na latitude de 60® 4^' 35'' N. , a extensão do pen-» 
dulo he de 0,994948151 ; o que, reduzido a poUegadas 
inglezas^, dá 39,1719, resultado que se a)iisti^ perfei^ 
tamente com a theòria^ 

M. Olynthus Gregory, que fazia experiências na 
ilha de Balta , ao mesmo tempo que M. Biol as fazia na^ 



ãas Artes ete. 109 

^e Upst, em huma Memoria, publicada no Magazine 
de Tilloçh , parece ter alguma duvida sobre a exacçàp 
das observações de M. Biot^ íundaado-se para isto 
em que não concebe como a lamina de suspensão , 
a vara e a noz do instrumento » empregado por eíle,, 
podem oscilla^. precisamente no mesmo momento, es- 
tando dispostas e arranjadas para huma certa latitude, 
e para huma certa temperatura; alem disso, na pouca 
solidez da pedra prismática enterrada no chão, sobre 
a qual estava appUcado o parafuso , cujo movimento 
elevava, ou abaixava o plano metaílico^ que tocava a 
massa do pêndulo : em fim , parece que M. Gregorjr 
e o seu companheiro, o capitão Colby> pensão que 
a situação , escolhida por M. Bíot em Buness , não era 
conveaiente » como stação astronómica» ^ 

Na mesma Memoria, M. Gregory faz conhecer os 
)mncipaes resultados das suas experiências : para isto , 
começa por estabelecer a medida da variação da suu 
pêndula asti^onomica , e mostra que , a pez)ar das va- 
riações consideráveis da temperatura , e da pressão da 
atmosphera 1 a da ditta pêndula não pode ser avaliada 
«m mais de \ de segundo, por dia \ de sorte que, pelas 
euas experiências, feitas com aquelle instrumento, 
pensa M. Gregory poder concluir que , em Balta , la- 
titude N. 60^ 4^' 3*^, a 120 pés de elevação sobre o 
nivd do mar, a extensão do pêndulo, calculada a huma 
temperatura de 5o®, be de 39,1714 pollegadas inglezas; 
e em Woolwich, aos S\^ a8'4i' lat. N. a aoi pés de 
elevação, a ditta extensão não he senão de 39ii36. 



ifo Notícias das SdenciaSf 

Porém , se acaso se trata de applicar estes elementoi 
á questão da figura da Terra , M. Gregory acha que 
he essencialmente necessário reduzir todas as obser- 
yações ao mesmo nivel : d*esta operação condue âle, 
que a relação entre a extensão do pêndulo em Wd- 
l/vich e Balta be : : i : 1,0009379. Comtudo , por muito 
exactas que, por este meio, se achem aqnellas relações, 
o astrónomo inglez não pensa que,de observações assim 
isoladas, se possa concluir, com segurança, a respeito 
da figura da Terra; mas que ellas podem somente 
servir para augmentar a serie, obtida em differentés 
lugares , por differentés observadores , a úm de chegar 
hum dia a hum resultado geral a respeito da diflè* 
rença dos dois diâmetros da terra , a qual M. Gregoi7 
entende não diJSèrir muito de ^5,0 que também re- 
sulta por meio da theoria da Lua- 

Para provar a primeira parte da sua proposição , o 
autor publicou huma Taboa coríosa $ onde ajuntou os 
principaes resultados , obtidos a este respeito em diffe- 
rentés pontos do globo , nestes dois últimos séculos , 
calculando todos os resultados em pollegadas inglezas. 
Naquella Taboa se encontrão anomalias mui singulares. 

A pezar dos numerosos trabalhos emprefaendidos , 
ha quasi i5o annos , para determinar a figura da Terra , 
a pezar da exacção das operações e da perfeição dos 
instrumentos , os resultados não parece corresponderem 
ao tempo e meios empregados. M. Fisher» em huma 
Memoria , publicada no Diário de Edimburgo , depois 
de ter mostrado as anomalias que ha entre as obser- 



ãas Artes etc. iii 

vações de medidas de arcos do merídiatio, e as dá 
extensão do pêndulo, em difTerentres latitudes , tira 
por conclusão, 4ue a totalidade das observações do 
pêndulo parece provar o contrario do que até aqui 
se tem concluído , da medida dos arcos do meridiano ; 
isto he , que os meridianos são rigorosamente ellipti^ 
cos y ou que , pelo menos , as differenças da hypo^ 
these elliptica se achâo comprehendidas nos limitei 
dos erros das observações; de sorte que , a extensão do 
pêndulo , em todas as latitudes , seria de 39,0081 pob- 
legadas inglesas; ( Sen. lat. y x o,<it<i8 poUegadas, a 6^ 
de Fahr. escala de Sir George Shuckburgh. 

Em todos os casos, seria mui conveniente achar 

hum terceiro methodo , que podesse dar x>u resultados 

mais certos, ou a confirmação de alguns dos dois 

metfaodos conhecidos* M. Cagnoli tinha já em 1793 

publicado , nas JUeUnorias da Sociedade italiana , huma 

Memoria, em que, por meio das occultações das 

estrellas fixas, propunha o methodo de determinar 

com facilidade , e com a maior precisão , as differenças 

que existem entre os raios terrestres e hum numero 

infinito de pontos da superfide da terra, M. BaUty 

publicou agora em Inglaterra , no citado Magazine òe 

Tilloch , aqiiella Memoria , traduzida e accrescentada 

com muitas notes. 

Este methodo de M. Cagnoli, parece-se alguma 
cousa com o que Maupertuis e Manfredi propozerào 
antigamente ; porém, em vez de empregar, como estes , 
a parallaxe da Lua , M. Cagnoli serve-se da duração 



ii<i Noticias das Sciencias ^ 

das occultações das estrellas fixas por detraz d*aqaelle 
astro j de que Maupcrtuis tinha apenas fallado muito 
geralmente. O astrónomo italiano parece demonstrar 
que se pode perceber humadiiierença de Soo pés na 
eii^nsão de hum raio da terra, visto que esta dif- 
ferença pode produzir outiva de hum segundo de 
tempo y na duração da occultaçào; porém , he provável 
que j a altura da Lua , e a corda do seu disco ^ que 
atravessa a estrella , circumstancias necessárias para 
fazer observações úteis , sendo muito pequenas , esta 
circumstancia obstará á applicação do methodo> que 
alias exige bem poucas condições dií&ceis ^ visto que » 
para proceder por elle y basta hum telescópio , por 
onde possãover-se distinctamente as estrellas, quatído 
tocão o lado illuminado do disco lunar , e hutn botíi 
pêndulo , que marque segundos. 

Cartas geographicas. No Tom. Vi, pag* 8i da a». 
Parte , dissemos que se ti*atava de executar hum a nova 
carta de França. Os trabalhos geodésicos, necessários 
para a execução d'esta carta , tem-se continuado coiH 
actividade *, já se está medindo a perpendicular de 
Strasbourga Brest , como então annunciámos , e alem 
disso , meredianas e perpendiculares , distantes enU^e 
8Í duzentos metros , as quaes servirão para rectificar a 
triangulação primaria , que deve serVir de base á triati" 
gulação de segunda ordem. Estes triângulos de segunda 
ordem serão depois subdivididos por outra triangu** 
lução de terceira ordem , que servirá de base e de 
rectificação aos trabalhos mais miúdos e circumstan* 



das Artes y etc. ii3 

ciados do Censo territorial. Mas , para isto , ainda será 
forçoso recorrer a huma quarta triangulação, que 
será a base definitiva , na qual se fundarão os levan- 
tamentos topograpliicos fornecidos pelo ditto censo , 
e reduzidos á escala de hum decimo-millesimo ; aos 
quaes porém os engenheiros geographos ajuntarão a 
configuração do terreno e o systema das curvas de 
nivel y de dez em dez metros de altura. 

Esta carta , não obstante ser levantada sobre huma 
escala de hum decimo-millesimo , será gravada , com- 
tudo, sobre huma escala menor, mas que dará, assim 
mesmo , ainda 6io folhas de o^fi sobre o'",^. 

Trabalhos geodésicos. M. DelcrosSj Engenheiro geo- 
grapho francez , publicou em a BibUotheca Universal 
huma Memoria sobre a medida da base de Darmstadt , 
executada em 1808, porMM. fcArAaráif e Schleyemwr 
cher^ hessezes, para a qual estes sábios lhe commu- 
nicárâo generosamente as suas notas manuscriptas. 
Alli se podem ver provas evidentes da exactidão rigo- 
rosa, a que se pode chegar hoje, nesta casta de medidas, 
por quanto, M. Delcross, por meio de huma serie 
de triângulos, que partia da base de Ensisheim, medida 
pelo coronel Henrí, chegou, relativamente á base de 
Darmstadt , a hum resultado , que não differe senão 
o,''' 116, do que tinhão obtido directamente os En- 
genheiros hessezes. 

' O professor Tre^cAe/ estabeleceo huma triangulação 
no Cantão de Berne ; se este trabalho se conclue , 
Tom. IX. P. aa . BB 



ii4 Noticias das ScienciaSy 

como lie de presumir, e os outros Cantões imitlio o 
de Berne , a triangulação Europea do S. ao N. ^ desde 
Formentera até ás Illias Sbelland , e ao S* , de Gene*- 
bra a Munich e a Gotiia, quasi não experimentará 
interrupção alguma^ 

Deve ter^se também como concorrendo para o mesmo 
fim y isto lie , para huma boa carta geral da Suissa , a 
determinação exacta da posição geographica de S. Gull, 
que M. Scberer, em outra Memoria igualmente publi- 
cada na Bibliotheca Universal , fixou em 47^ ^^^ ^0"^^^ 
de latitude , como termo médio de quinhentas obser- 
vações de distancias circummerídianas do Sol ao 
zenith, e em i']^i!o' de longitude da liba do Ferro, 
igualmente termo médio de dezasete occultaçòes de 
estrellas fixas pela Lua. 

M. de Laplaoe^ por meio da sua AppUcação do cal^ 
eido das probabilidades ás operações geodésicas ^ con* 
correo para dar ainda maior segurança sobre a avalia- 
ção dos erros , que podem , a pezar de tudo, por efieito 
de circumstancias , introduzir- se nesta casta de ope-' 
rações. 

A parte do meridiano que se estende desde Perpí»* 
gnan até Formentera , he estabelecida sobre a base 
medida em Perpignan ; a sua extensão he quasi de 460 
mil metros. He para recear, que liuma extensão tão 
grande , e que não foi verificada , por meio de huma 
segunda base, medida na outra extremidade , seja 
susceptível de hum erro considerável, insultado do« 



das Artes , etc. 1 1 5 

erros parciaes , que poderiào ter-se commettído nos 26 
triângulos que servirão para determinar a ditta esc- 
tensào. Por tanto , era importante determinar a pro- 
babilidade de que o errç não exc^ia 40, ou 5o me- 
tros. M. Damoiseau , servindo-se das formulas de M . 
de Laplace y achou que os limites , entre os quaes ha 
hum contra hum a apostar que o erro deve cahir, 
são +_8™, 0937. 

M. Delambre, examinando , ha mais tempo, esta 
questão , e comparando as bases de Perpignan e de 
Melun , que se ajustão ^ com differença de algumas pol- 
legadas , e esta de Melun com as de Honslow-Heath 
e de Romney-M arsh , que se ajustão em dar a mesma 
distancia de 1 4*000 toesas entre Dunkerque e Cassei, 
tinha concluído, com grande verosimelhança , que o 
erro , no arco inteiro , não era de hum centésimo 
millesimo. O calculo de M. Damoiseau dá quasi -íVoõõ 
para o arco de Hespanha , separado do resto , donde 
resulta a confirmação d^aquella copclusão de M. De- 
lavàbre , isto he , que o erro incógnito , qualquer que 
elle seja, nãa pode ser de grande importância nog 
usos reaes. 

Estes mesmos cálculos servem a M . de Laplace para 
provar quanto a introducção do circulo repetidor nas 
operações geodésicas tem sido vantajosa. Com eflèito, 
elle acha que o erro de 8 metros, que seria possível 
suppôr, teria sido de iS metros, com os instrumentos 
de La Condamine , e de 4o com os de La Caille. Daqui 
resultaria, que os primeiros seriâo melhores , que 0% 

8 * 



ii6 y odeias das Sciendas , 

segundos; porém M. Delambre acha esta proposição, 
pelo menos , duvidosa , e eis-aqui os motivos. 

Boagner dá os seus ângulos, não somente reduzidos 
ao centro, mas corrigidos do erro do seu quarto de 
circulo , e até da difierença entre i8o e a som ma dos 
três ângulos. Elle tinha tomado , para estas reducçôes , 
hum methodo expedito, que hoje ninguém ousaria 
propor. La Condamine imitou Bouguer em tudo, salvo 
nisto. Por tanto, seria de crer que os erros dos seus 
triângulos poderiào ser conhecidos ; mas, para dizer 
a verdade , não temos mais do que os seus augulos , 
taes quaes elle os avaliou , ou taes qnaes elle no-los 
quiz dar. Bouguer, ao menos , diz-nos que raras vezes 
o erro , na somma dos seus três ângulos , era de So'' ; 
La Condamine nada diz a este respeito. Nós temos as 
observações originaes de La Caillç em grãos e partes 
do micrometro ; estas mesmas fracções deo-no-las elle 
transformadas em segundos ; deo-nos também os ele- 
mentos das suas reducçôes de numerosos contornos 
do hoiízonte. Por tanto , podemos lisongear-nos de 
conhecer assaz precisamente o grão d*exacçào das suas 
operações ; pode por ventura , diz M. Delambre, dizer- 
se outro tanto de La Condamine ? Finalmente , para 
achar o erro médio de La Caille , temos 129 triângulos ^ 
e não temos senão 4o de La Condamine. Por tanto , 
conclue M. Delambre , propenderemos para crer que 
a vantajem do circulo repetidor, sobre os antigos in- 
strumentos , he provavelmente de 40:8, ou de 5:t , e 
não somente dea5:8, ou proximamente de 3:i. 



das Artes j etc. 117 

As medidas das altuAis , acima do nivel do mar > 
sendo de grande importância , ainda nas cartas geo* 
grapliicas particulares , e a facilidade com que as dittas 
medidas se podem obter, por meio do barómetro , 
tem feito com que muitas pessoas se tenhão occupado 
em aperfeiçoar este processo ; porém como não falta 
quem pertenda desacreditá-lo, M. Delcross, que se 
propõe provar, pela experiência , que os resultados obti- 
dos pelos dois methodos sào idênticos, quando estes 
se sabem applicar convenientemente , deo d^isto huma 
prova indubitável, mostrando que a altura do monte 
Ventoso y medida por elle , por meio do barómetro, 
não diHere da que obteve La Caille , senão o" ,5o , e que 
he, trígonometricamente , de i957",74>e barométrica- 
mente, de 1957". 

Parece que a exacçâo não he a mesma , quando , 
em vez de barómetro, se emprega o thermo-baro- 
metro de M. WoUaston. M. Murraj, servindo^se d'este 
ultimo instrumento na medida do Mont-Cenis, achoo 
huma differença de 577,75 pés inglezes , sobre a que 
dá o barómetro de mercúrio. Podem consultar-se os 
Anníds qf philosophy. Tom. i3. 

Viajens. He bem conhecida a grande questão , sus- 
citada desde o tempo de Heródoto , entre os historia- 
dores e geographos, sobre a longa viajem dos Phe- 
nicios á roda da Africa* Todos concordào em que, 
este povo industrioso , sáhindo dos portos de Elath e 
de Esiongabar, sobre o Mar vermelho, fazia o com- 
mercio do ouro de Ophir , na costa oriental da Africa» 



íj8 Noticias das Sciencias , 

e que por outro lado , embarAindo nos portos àt Tyro 
e de Sydonia , trazia a sua industria j pelo medíterra* 
neo y até Tarsis , na costa meridional da Hespanha ; 
porém y o 4ue huns não accreditão , e outros dão por 
certo y he que , estes povos , proseguindo aquella pri** 
meira viajem de Ophir, dobrassem o Cabo de Boa 
Esperança, e depois de costearem a Africa pelo poente , 
aportassem a Tarso, donde retrogradando , pela mesma 
derrota , tomassem a entrar nos portos do Mar ver- 
melho , de que tinhão sabido \ gastando três annos 
nesta importante viajem , da qual recebião dobrado 
interesse , por trocarem com os bárbaros, á vinda, o 
ouro e mais géneros do Oriente , e á ida » a prata , o 
estanho e outras mercadorias da Betica. 

Huma obra periódica de Calcutta annuncja agora, 
que em huma excavação , perto do Cabo de Boa Espe- 
rança , se descobrira ultimamente hum casco de navia 
de Cedro. Pertencia este navio aos Phenicios t He ello 
huma prova lasás d*aqueUaa viajens ? 

c. X 



^vw^^^**^^*^^ , 



das Artes , etc, 1 1 9 



BIBLIOGRA.PHIA. 



«»»»%vi^^'%^^»^%<%»»»^ 



França. 



^ o IV Volume dos "Annaes , dêmos hum extracto da 
Taboa bíbliographica das obras que se publicarão em 
França y em 1818, agora daremos o extracto da ditta 
Taboa relativa a 1819, o qual não foi já incluido no 
VIU Volume , por ella nào se ter ainda publicado , 
na epoclia em que o ditto volume se acabou de 
imprimir. 

Theohgia, 

Bíblias , Extractos e obras relativas a este objecto 3i. 

Liturgia 33. 

Catechismos , Cânticos c Sermonarios S%. 

Apologistas , Mysticos , etc. i36. 

Jurisprudência, 

Direito natural , Romano e Francez aoS. 

Sciencias e Artes, 

Pliilosophia y Lógica , Meiapbysica , Moral 4^. 

Educação e Livros de educação 127. 

Fconomia politica » Politica, Administração ^ç[ò. 

Finanças 139. 



120 Noticias das Sciencias , 
Commercio , Pesos e Medidas 3). 
Pbysica , Chymica , Phannacia 44. 
Historia natural 43. 
Âgiicultura I Economia rural , Veterinária e do- 
mestica 4o. 
Medecina e Cirurgia 12^ 
Mathematicas 3o« 
Astronomia io« 
Marinha 21. 
Arte , Administração e Historia militar 92. 
3ciencias occultas , Pbysiognomonia 10, 
Jogos , Gymnastica ^ etc. a3« 
Escríptura e Typographia q« 
Artes e Officios 35« 
Bellas Arteç •j4^ 

Bellas Letras. 

Cursos de literatura , GrammaticaSf Diocionaríos go» 

Bhetorica e Eloquência 37. 

Poética e Poesia 294. 

Theatro , 198. 

Romances e Novellas 189, 

Mythologia e Fabulas 17, 

Philologia y Crítica, Miscellanea i55, 

Polygraphos 61 ♦ 
Epistolares ^ . 21% 

ffistoria^ 

Geographia a5. 

Yiajens e Naufrágios 37 ^ 



das Artes , etc, iii 

Chronologia , Genealogia e Historia universal 1 3. 
Historia sagrada, ecclesiostica , Goncordatos j 

Missões , etc. " 4^. 

Historia antiga , Grega e Romana i3. 

Historia moderna de differentes povos 36. 

Historia de França i34. 

Antiguidades , .Numismática i5.v 

Sociedades secretas e particulares 65. 

Sociedades de sábios 23. 
Bibliograpbia y Historia literária , Obras periódicas , 

Gazettas 171* 

Biographia , Extractos 1 1 1^ 

Ao todo 3:595 obras : isto he, menos 34 > que em i8i8. 

Portugal. 

O desleixo, que tem havido entre nós , de ajuntar 
documentos- e Memorias » em todos os géneros , para 
formar a Statistica dopaiz^tem-se estendido igualmente 
á parte bibliographica : nào sabemos que se haja publi- 
cado , em Portugal, trabalho algum regular a este res- 
peito , o qual comprehenda annualmente os productos 
das diversas typographias do Reino .-parece -nos que este 
seria hum serviço bem digno de hum amante das nos- 
sas cousas , com o qual disporia hum dos elementos 
indispensáveis para as historias literária e typogra- 
phica da Nação , e ajuntaria materiaes de summo in- 
teresse,para hum continuador da Bibliotbeca Lusitana» 
que tanto nos vai tardando. 

Privados pois de consagrar 1 por ora> nesta nossa Obra' 



laa Notícias das Sciencias , 

hnm ti^abalho geral a este respeito , que desejaríamos 
hum dia ver publicado , para interesse da literatura 
nacional , ofiereceremos, rio fim d'este artigo , ao leitor 
o excellente Catálogo das obras ]â impressas , e man- 
dadas publicar pela Academia Real das Sciencias de 
Lisboa , tal qual aquélla distincta Sociedade o man- 
dou ordenar e publicou em 1819. '* 

O desejo que temos de que prospere a gloria lite- 
rária do nosso paiz« pede que demos a maior publi- 
cidade , que nos he possivel , a esta preciosa collecçâo 
de trabalhos de sábios portuguezes , que talvez não 
he assaz conhecida nos diíTerentes dominios nacio- 
naes , e que de certo o nào he nos paizes estrangeiros , 
bem que , em huns e em outros , muito o mereça ser. 

Por esta occasiào ajuntaremos aqui o que, a res- 
peito doestes trabalhos , e da Sociedade a quem elles 
se devem, diz M. diHauUfort^ em huma Obra que 
sahio a publico em Paris no mez de Maio d* este anno ^ 
intitulada : Coup (fceil sur Lisbonneet Madrid en 181 4» 

« Ha em Lisboa , diz o autor , huma Academia das 
Sciencias. . . São conhecidas as Memorias d'esta dis- 
r . tincta Corporação , que teve por fundador o celçbre 
Duque de Lafões* Estas Memorias contém Tratados 
de Botânica e de Mathematica, tidos em estimação , 
e outros muitos , escriptos sobre matérias de Economia 
politica , industriosa e agrícola , que attestão ao mesmo 
tempo os talentos e o patriotismo de seus autores. 
Esta Academia tem-se occupado cqm utilidade, da 



das Artes, etc. viò 

historia e da literatura nacional , fazendo publicar dif* 
ferentes obras , sobre estes dois objectos. » 

No Volume seguinte daremos hum Artigo sobre a 
obra de M. d*Hautefort, a qual tem direito a huma 
honrosa menção nos nossos Annaes , pela imparciali* 
dade com que falia de Portugal , e das cousas que 
lhe respeitào; imparcialidade tão rara em viajantes 
estrangeiros, os quaes, algnmas vezes por má fé> e 
muitas por ignorância indesculpável , tem escripto a 
nosso respeito cousas muito mais injuriosas a elles, 
de que á Nação e aos homens , que elles tem perten* 
dido menoscabar. 

C. X. 



COLLECÇÓES. 

I. Memorias de Agricultura premiadas pela Acade* 
mia desde 1787 — 1790 : a vol 8<>. 

O Tomo I. contam Memorias sobre a cultura das vinhas ; 
por José Veríssimo Alvares da Silva. — Memoria sobre os 
meios de suprir a falta dos estrumes anímaes , por ManoelJoa- 
çuim Henriques de Paiva. — Duas outras Memorias sobre o mes- 
mo assumpto ; por José Feríssimo Alvares da Silva , c Cons" 
tantino Botelho de Lacerda. 

O Tom. II. contém duas Meiborías sobre a Cultura da Vinha 
e manufactura de Vinho ; por Fiancisco Pereira Rebello da Fo9ir 
seca , e Vicente Coelho de Seabra. 

a. Memorias Económicas para o adiantamento da 



124 Noticias das Sciencias , 

Agricultara y das Artes , e da Industria Pórtugaezar 
5 vol.* 4®- de 1789 — 181 5. 

O Tom. I. contém Memoría sobre a Gaaxima ; por José Hat 
rigues Ferreira: — Memoria sobre a Ferrugem das OlÍTeiras ; 
por Domingos Vandelli, — Memoria sobre os grandes bene6cios 
do Sal commum em geral ; e em particular do Sal de Setúbal , 
comparado experimentalmente com o de Cadiz ; e por analogia 
com o de Sardenlia , e o de França ; por José Joaquim Soares 
de Barros, Memoria sobre o Algodão , sua cultura , e fabrica; 
pelo P. João de Loureiro • — Memoria sobre a Agricoltura , e 
população da Provincia do Aldm-Te')0 ; por António Henriques 
da Silveira» — Memoria sobre as causas da differente população 
de Portugal em diversos tempos da Monarquia ; por José Joa^ 
quim Soares de Barros.'— '"iAemorisi sobre a transplantação das 
Arvores mais utcis de paizes remotos; pilo P. João de Loureiro», 
-—Memoria sobre a Agricultura d* este Reino ^ e das suas Con- 
quistas ; por Domingos f^andelli, — Memoría sobre algumas 
Producções doeste Reiuo , das quaes se poderia tirar utilidade ; 
pelo mesmo, — Memoria sobre algumas Prodncções naturaes das 
Conquistas , as quaes são pouco conbecidas, ou não se aproTei- 
íSLO;pelo mesmo. — Memoria sobre as príncipaes cansas, por 
que o luxo tem sido nocivo aos Portuguezes ; por José Feríssima 
Alvares da Silva. — Memoría sobre as Producções naturaes do 
PeÍDO, e das Conquistas , primeiras matarias de differentes Fa- 
bricas , ou Manufacturas; por Domingos FandeUL-^^Memonit 
sobre a verdadeira Influencia das Minas dos MetaeS preciosos 
na Industria das Nações que as possuem , e especialmente da 
Portugueza ; por D. Rodrigo de Sousa Coutinho. — Memoria 
sobre a preferencia que em Portugal se deve dar ã Agricultura 
sdbre as Fabrícas; por Domingos FandellL — EaasÁQ áe lye»- 
cripção Pbysica , e Económica de Coimbra y e seus arredores ; 
por Manoel Dias Baptista, — Memoria sobre a antiga Fabríca 
de Pedj-a-hume da liba de S. Miguel ; por João António Júdice.. 
-• Eusaio de Descrípção Fysica, e Económica da Comarca doa 



cias Artes jCtc. 12 5 

Ilhcos na America ; qor Manoel Ferreira da danara. — Me- 
moria Agronómica relativa ao Concelho de Chaves ; por José 
Ignacia da Costa, — Memoria sobre a Mina de Chumbo do Rio 
Pisco ; por João Botelho de Lucena Almeida Beltrão^ — Memo* 
ria sobre a Fabrica Real do Anil da Ilha de Santo Antão; por 
J, da Silva Feijó. 

O Tom. II . contém Memoria sobre a preferencia que entre 
nós merece o estabelecimento dos Mercados ao uso das Feiras 
de anno para o Commercio inlrinseco ; por Thomaz António de 
yilla-Nova Portugal» — Memoria sobre a cultura das Vinhas de 
Portugal ; por Constantino Botelho de Lacerda Lobo, — Memori^. 
sobre a Cochonilha do Brasil ; por Joaquim de Amorim Castro* 
— Memoria sobre o Paul de Otta , suas causas, e seu remédio; 
por Estevão Cabral, — Memoria sobre os damnos causados pelo 
Tejo nas suas ribanceiras; pelo mesmo, — Continuação da Me- 
moria sobre a cultura das Vinhas. — Observações feitas por or- 
dem da Real Academia de Lisboa á cerca do Carvão de pedra , 
que se encontra na Freguezia da Carvoeira ; por Manoel Fer^ 
reira da Camará. — Memoria á cerca da cultura, e utilidade 
dos Castanheiros na Comarca ie Portalegre ; por Joaquim Pedro 
Fragoso de Siqueira, — Memoria sobre as Azinheiras , Soverei- 
ras , e Carvalhos da Provinda do Além-Téjo , onde se trata de 
sua cultura , e dos melhoramentos , que no estado actual podem 
ter ; pelo mesmo, — Memoria sobre as Fabricas de Ferro de Fi- 
gueiró; por José Martins da Cunha Pessoa, — Memoria sobre a 
Pesca das Baleas, e extracção do seu Azeite, com algumas re- 
flexões a respeito das nossas Pescarias ; por José Bonifácio de 
And rada e Silva, — MemoriS sobre a cultura dos terrenos Bal- 
dios que ha no Termo da Villa de Ourem ; por Thomaz António 
de Villa-Nova Portugal, — Memoria sobre varias misturas de 
matérias vegetaes na factura dos Chapéos ; por Domingos yan- 
delli, — Memoria sobre o modo de aproveitar o Carvão de pe- 
dra, c os p aos bi luminosos d' este Reino ; pelo mesmo, 

O Tom. III. contém Memoria sobre a utilidade dos conheci- 



ia6 Noticias das Sciencias , 

mentos da Cbjniica em quanto applicados á Arte de constmir 
Edifícios ; por Alexandre Ardonio das Neves Portugal. — Me- 
moria sobre o Encanamento do Rio Mondego; por Domingqs 
yandeUi. — Memoria aobre ai Aguas-ardentes da Companhia 
Geral do Alto-Douro ; por José Jacinto de Sousa. — Descripçia 
Económica do Território que vulgarmente se chama Alto-Donro; 
por Francisco Pereira Rebello da Fonseca, — Memoria sobre o 
estado da Agricultura, e Coraraercio do Alto-Bouro. — Memo- 
ria sobre a causa da doença , chamada Ferrugem , que vai gras- 
sando nos Olivaes de Portugal ; por António Soares Barbosum — 
Memoria sobre os damnos do Mondego no Campo de Coimbra, 
e seu remédio; por Estevão Cabral, — Memoria sobre os Juros 
relativamente á cidtura das Terras ; por Thonutz António de 
Villa-Nova Poi^tugal. — Descripção Económica da Torre de 
Moncorvo ; por José António de Sd, — Memoria sobre o Tanque 
e Torre no sitio chamado em Lisboa , Amoreiras , pertencente 
ás Aguas-Livres ; por Estevão Cabral, — Observações que seria 
iitil fazerem-se para a Descripçio Económica da Comarca de 
Setúbal ; por T!u)maz António de Fiiia-JVova Portugal, — Ex- 
tracto das Posturas da Villa de Azeitão , Comarca de Setúbal ; 
por Joaquim Pedro Gomes de Oliveira, — Observações sobre 
o Mappa da povoação do Termo da \illa de Azeitão ; por 27iO' 
maz António da ViUa-Nova Portugal. — Memoria sobre a 
cultura do Ricino era Portugal , e manufactura do seu óleo; por 
Vicente Coelho de Seabra, — Apontamentos sobre as Queima- 
das era quanto prejudiciaes á Agricultura ; por Alexandre An' 
tonio das Neves Portugal, — Memoria sobre a decadência da 
Pescaria de Monte Gordo ; por Constantino Botelho de Lacerda 
JLobo, — Memoria sobre as Aguas Livres ; por Domingos Van* 
delli, — Blemoría sobre o preço do Assucar ; qor José Joaquim 
da Cunha Azeredo Coutinho — Memoria sobre o Mahraisco do 
dcstricto da Villa da Cachoeira no Brasil; por Joaquim de Amo* 
rim Castro, 

O Tom. IV. contém Discurso Académico ao Prograinma « De- 



das Artes , etc. 127 

» terroiaar com todos os seus symptomas as Doenças âgadas ,« 
» chronicas , que mais frequentemente accommettem os Pretos 
» recém- tirados da A&ica : examinando as causas da sua mo^ 
to tandade depois da sua chegada ao Brasii : te talvez a mu- 
« dança do clima , se a vida mais laboriosa , oh se algans outrds 
u motivos concorrem para tanto estrago : e finalmente mdicar 
» os methodos mais apropriados para evitálo ; tudo isto dedu- 
» zido da experiência mais sizuda , e fiel » por Luiz António 
de Oliveira Mendes, — Memoria sobre o Sal gemma das Itfaat 
de Cabo Verde ; por Domingos Fandelli. --^MemoriaL sohre e 
modo de obter e de conservar agoa da chuva de óptima qua^i 
lidade ; por Estevão Cabral, — Memoria sobre a gravidade es* 
pecifíca das Agoas de Lisboa e seus arredores ; por jilexandrt 
António f^andelli, — Memoria sobre as plantas , de que se pôde 
fazer a Barrilha entre nós; por Manoel Arruda da Camará, 

— Memoria sobre o estabelecimento da cultura do Chenopodio 
maritimo , donde se tira a Barrilha ou Soda ; por Consiantínô 
Botelho de Lacerda^ — Analjrse Chimica de varias raízes para 
ejctrabir farinha ^ ou polvilhos ; por /oí^ /'//ito i?/^tf/m. — Me- 
moria sobre as difficuldades das Fundições , e Refinações nas 
Fabricas de Ferro , para ganhar este metal na maior qualidade 
para os differentcs íins ; por Guilherme B. de Schwege, — Me- 
moria sobre os Ilospitaes do Reino ; por José Joaquim Soares 
de Barros, — Memoria sobre a criação , e vantagens do Gado 
Cabrum em Portugal ; por Joaquim Pedro Fragoso de Siqueira, 

— Memoria sobre qual convém ser a Geira Portugueza ; por 
Joaquim de Poyos, — Memoria sobre as Marinhas de Portugal ; 
por Constantino Botelho de Lacerda Lobo. — Memoria sobre 
o Papel ; por Estevão Cabral. — Memoria sobre o Nitro , c 
utilidades, que delle se podem tirar; por José Martins da 
Cunha Pessoa, — Memoria sobre o modo de augmentar a 
abundância das Fontes , e de multiplicar o numero delias.— 
Memoria em que se expõe a analysc do Sal commum das Ma- 
rinhas de Portugal ; por Constantino Botelho de Lacerda Lobo, 
^'- Memoria sobre a preparação do Peixe salgado , e secco dàa 



tiS Noticias das Scierícias j 

nossats Pescarbs ; pelo mesmo. — Memoria sobre a decadência 
das Pescarias em Portugal; pelo mesmo. -^táemorisk sobre al- 
l^amas Observações feitas no anno de 1789 relativas ao estado 
õa Pescaria de Entre Dooro e Minbo ; pelo mesmo. — Extracto 
da Memoria sobre o destroço em que se acbão as criações do 
•Gado Vaccum -, por João Manoel de Campos e Mesquita, 

O Tom. T. contam Memoria sobre a introdncçio das Gada- 
nhas Alemãs, e Flamenga em Portugal; por Joaquim Pedro 
Fragoso de Siqueira, — Memoria sobre a Coltura , e utilidade 
^os Nabos nr Comarca de Trancoso i por João Manoel de Cam^ 
pos de Mesquita, — Memoria sobre os Terrenos abertos , o seu 
prejuizo na Agricultura , e sobre os differentes methodos de 
Tapumes ; por Sebastião Francisco de Mendo Trigozo. — Me- 
moria sobre o estado das Pescarias da Costa do Algarve no anno 
de 1790 ; por Constantino Botelho de Lacerda Lobo, — Obser- 
Tações Botanico-Meteorologicas do anno de 1800 , feitas em 
Thomar ; por José f^erissimo yílvares da Silva. — Memoria so- 
bre o modo de formar hum Plano de Statistica de Portugal ; 
pelo Viscofuie da Jjipa , Manoel de Almeida, — Ensaio Econó- 
mico sobre as Ilhas de Cabo Verdejem 1797 ; por João da 
Silva Feijó. — ^lemoria Histórica sobre a Agricultura Portu- 
gueza considerada desde o tempo dos Romanos até ao presente ; 
por José Veríssimo Alvares da Silva, — Mem oria sobre a Bes- 
cripção Física e Económica do Lugar da Marinha Grande ; pelo 
Visconde de Balsemão, — Memoria sobre a preferencia do leite 
de Yaccas ao leite de Cabras para o sustento das Crianças , prín- 
cipalmeote nas grandes Casas dos Expostos , e sobre algumas 
outras matérias , que dizem respeito á criação delles ; por José 
Pinheiro de Freitas Soares. — Memoria sobre 08 Pesos c Medi- 
das Portuguezas , e sobre a Introducção do Sjstema Metro- 
Decimal -, por Sebastião Francisco de Mendo IVigozo. 

3. Memorias de Litteratura Portugueza : 8 vol. 4* 
de í']Ç)i — i8i4% 



das Aries j etc, lag 

O Tom. I. contém Memoria sobre a Poesia Bacolica dos 
Poetas Portuguezes ; por Joaquim de Fqyos, — Memoria I. so- 
bre a forma do Governo , e costumes dos Povos , que babitário 
o terreno Lusitano , desde os primeiros tempos conbecidos , 
até ao estabelecimento da Monarquia Portugneza; por ArUonío 
Caetano do Amaral» -» Memoria sobre a origem dos nossos 
Juizes de Fora -, por José Anastasio JLe Figueiredo» — Memoria 
sobre qual seja o verdadeiro sentido da palavra Façanhas , que 
expressamente se acbao revogadas em algumas Leis> e Cartas de 
Doações , e Con6rmaç6es antigas , como ainda se acba na Ord. 
liv. II. tit. 35 § 26 ; pelo mesmo, — Memoria sobre buma Ghro- 
nica inédita da Conquista do Algarve ; por Fr. Joaquim de Santo 
Agostinho. — Memoria para dar buma ideia justa do que erão 
as Behetrias, e em que differião dos Coutos, e Honras ; por José 
Anastasio de Figueiredo, — Memoria sobre qual foi a época 
certa da introdâcçao do Direito de Justiniano em Portugal , o 
modo da sua introducção ^ e os gráos de auctoridade, que entre 
nós adquirio. Por cuja occasiâo se trata toda a importante ma* 
tería da Ord. liv. III. tit. 64 ; pelo mesmo, ^ Memoria sobre 
algumas Décadas inéditas de Couto ; par Fr, Joaquim Forjas, — 
Memoria sobre as Moedas do Reino , e Conquistas ; por jPh /<tMí- 
quim de Santo Agostinho, 

O Tom. II. contém Memoria para a Historia da Agricultura 
em Portugal. -^ Memoria sobre as Fontes do Código Filippino , 
por João Pedro Ribeiro* — Memoria sobre as Bebetrias , Hon« 
ras , e Coutos , e sua differençaé-— Mempria sobre o Direito ã% 
Correição usado nos antigos tempos, e modernos , e qual seja a 
sua natureza. — Memoria sobre a matéria ordinária para a es- 
crita dos nossos Diplomas > e papeia públicos j por José Anaò^ 
táuio de Figueiredo, '^'VLemoúk I. da Litteratura Sagrada dos 
Judeos Portuguezes • desde os primeiros tempos da Monarquia 
até os fins do Século XV ; por António Ribeiro dos Santos • — 
Memoria II. para a Historia da Legislação, e Costumes de Por^ 
tagal ; por António Caetano do Amaral* — Memoria II. da Li** 

Tom. IX. P. »•• O B 



i3o Noticias {las Sciericias ^ 

teratura Sagrada dos Judeos Fortuguezes no Século XVI ; por 
António Ribeiro dos Santos. 

O Tom. III. contém Apontamentos para a Historia Civil , e 
Litteraria de Portugal e seus Dominios , colligidos dos Manus- 
critos assim nacionaes^ como estrangeiros, que existem na 
Bibliotheca Real de Madrid , na do Escurial , e nas de alguns 
Senhores , e Letrados da Corte de Madrid ; por Joaquim José 
Ferreira Gordo, — Memoria sobre antiguidades das Caldas de 
^'izela ; por José Diogo Mascarenhas Neto, — Espirito da Lín- 
gua Portuguesa, extrahido das Décadas do insigne Escritor 
João de Barros ; por António Pereira de Figueiredo^ — - Memo- 
ria III. da Litteratura sagrada dos Judeos Portuguezes no Século 
XYII ', por António Ribeiro dos Santos. — Memoria ao Pro* 
gramma « Qual. foi a origem , e quaes os progressos , e as 
» variações da Jurisprudência dos Morgados em Portugal » ; por 
Thomaz António de Villa-Nova Portugal, 

O Tom. IV. contém Dissertação Académica de António Pe- 
reira de Figueiredo, — Analyse , e combinações phílosophicas 
sobre a elocução , e estylo de Sá de Miranda , Ferreira , Ber-> 
nardcs. Caminha , e Camões, segundo o espirito do Programma 
da Academia Real das Sciencías, pubHcado em 17 de Janeiro 
de 1790 ^ por Francisco Dias, — Memoria da Litteratura sagrada 
dos Judeos Portuguezes no presente Seeolo ; por Amtonio Ri- 
beiro dos Santos, — Ensaio Critico sobre qual seja o uso pru- 
dente das palavras de que se servirão o& nossos bons Escri- 
tores do Século XV, e XVI ; e deixarão esquecer 06 que depois 
se seguirão até ao presente ; por AmUmh das I^ves Pereira, 

O Tom. V. contém Ensaio sobre a Filologia Porlagueza por 
meio do exame e comparação da Locução e Eaftflo dos nossos 
mais insignes Poetas , que florecérík> no Seo^ XVI ; por An- 
tónio das JVeifes Pereira, — Continuação do Ensaio Critico s(h 
Lre qual seja o uso prudente das palavras, de qae se aertirão 
os nossus bons Escritores do Século XV, e XVI ; e deixa«rão 



das Artes ^ ele. i3i 

rsquecer os qae depois se seguirão até ao presente ; pelo mesmo, 
— - Obséquios devidos á memoria de hum respeitável Monarca , 
c aos créditos de hum Vassallo o mais benemérito ; por José 
Joaquim Soares de Barros. — Memoria sobre as rumas do 
Mosteiro de Castro de Avelaãs , e do Monumento , e Inscripção 
Lapidar, qae se acha na Gapella mòr da antiga Igreja do mes- 
mo Mosteiro ; por F^rancisco Xavier JUbeiro de S. Pajo. — • 
Memoria sobre a Historia das Marinhas de Portugal ; por Cons- 
tantino Botelho de Lacerda Lobo. — Momoria sobre 05 Códices 
manuscritos, e Cartório do Real Mosteiro de Alcobaça; por 
Fr. Joaquim de Santo Agostinho. — Memoria de quatro In- 
scripções Arábicas com suas traducçôes \ pelo Padre Fr João 
de Sousa, -— Memoria ao Programma « Qual seja a época fixa 
V da introducção do Direito Romano em Portugal ; e o gráo de 
» authoridade que elle teve nos diversos tempos » por Tiiomaz 
António de yUla-Nova Portugal. --- Memoria á cerca da Inscri- 
pção Lapidar, que se acha no Mosteiro do Salvador de Yajrão 
de Religiosas Benedictinas no Bispado do Porto j e da perten-' 
diçla antiguidade do mesmo Mosteiro , que dâquella Inscripção 
se tem procurado deduzir ; por Joào Pedro Bibeira, 

O Tom. yté contam Memoria sobre o assompto proposto no 
anuo de 1793 pela Academia Keal das Sciencias de lÂsboa 
« Qual seja a época da introdacçao do Direito das Decretaea 
n em Portugal , e o influto que o Inesmo teve na Legislaçia 
j» Portuguesa » ; ^or João Pedro Ribeiro. — Memoria sobre a 
fómna dos luizos nos primeiros Seeulos da Monarpuia Portu* 
gueza ', ^par José P^eriêsimo Alvares da SUva, — Influencia é<p 
conhecimento das nossas Leis antigas em os estudos do larísta 
Portuguez; por Vicente José ferreira Cardoso da Còsíai^^ 
Memoria III. para a fiistoria da Legislação , a costumes de Por-< 
tugal. Sobre o Estado Civil da Lusitânia desda a entrada do» 
Povos òo Norte até á dos Árabes ; por António Caetano do 
Amaralé 

O Tom. Vil. contém Memoria em defeza do Camões contra 

9* 



i32 Noticias das Sciencias , 

H. de la Harpe ; por António de Araújo de Azevedú,^^ MemO* 
ria sobre algumas traducções , e edições Biblicas menos vul- 
gares , em lingua Fortugucza, especialmente sobre as Obras de 
João Ferreira de Almeida ; por António Jtíheiro dos Santos. 
"— Memoria IV. para a Historia da Legislação , e costumes de 
Portugal ; por António Caetano do Amaral, — Memoria da 
Vida , e Escritos de D. Francisco de Mello ; por Anionio Mi- 
beiro dos Santos, — Memoria da Vida e Escritos de Pedro 
reúnes ; pelo mesmo, — Memoria sobre os inconvenientes , e 
vantagens dos Prazos , com relação á Agricultura de Portugal ; 
por João Pedro Eibeiro, -» Memoria sobre a origem , e jurit- 
dicção dos Girregedores das Comarcas ; por José António de 
Sd, — Ensaio de buma Bibliotheca Lusitana Anti-Rabbinica , ou 
Memorial dos Escritores Portuguezes que escrevMo de contro- 
vérsia Anti-)udaica; por António Jtíbeiro dos SanÍ9S. 

O Tom. YIII. contém Memoria sobre as origens da Typogra« 
pbia em Portugal no Século XV ; por Anionio Ribeiro dos San- 
tos, — Memoria sobre a Historia da Typographía Portuguesa do 
Século XYI ; pelo mesmo. — Memorias Historicak sobre alguns 
Matbematicos Portuguezes y e Estrangeiros domiciliários em 
Portugal 9 ou nas Conquistas ; pelo mesmo, — Bas origens , e 
progressos da Poesia Portuguesa ; pelo mesmo* — Dissertação 
Historíco-Juridica sobre a legitunidade da Senbora Dona Tbe- 
reza,Mulber do Sn'. D. Henrique, e Mãi do Sni*. Rei D. Affonso 
Henriques. — Memoria sobre dois antigos Mappas Geograpbicos 
do Infante D. Pedro , e do Cartório de Alcobaça ; por António 
Ribeiro dos Santos, — Ensaio sobre os Descobrimentos » e Com- 
mercio dos Portuguezes em as Terras Septentrionaes da Ame- 
rica ; por Sebastião Francisco de Mendo Trigoso, — Memoria 
sobre a novidade da Navegação Portugueza no Século XY ; por 
António Ribeiro dos Santos, — Memoria sobre Martim de Bo- 
hemia ; por Sebastião Financisco de Mendo Tri^zo* 



ãas Artes ^ etc. i33 

K> B. Estas CoUecçôes não continuâo : desde 1813 
publicão-se anniialmente as Memorias de todas as Classes 
reunidas em hum meio volume infol. continuando com 
a CoUecção seguinte. 

4. Hbtoria e Memorias da Academia Real das Sdea- 
cias de Lisboa : 5 vol. foi. desde 1797 — 1818 ePart. L 
do voL 6. — 1819. 

o Tom. I. contém Solução ^eral do Problema de Kepler 
tobr^ a medição das Pipas , e Toneis ; por José Monteiro da 
Rocha, — Dominici FandelU Florae , et Faunae Lasitanicae Spe* 
címen. -— Ejusdem : De Vulcano Olisiponensi , et Montis £r- 
minii. — - Memoria I. sobre a força Magnética ; por João An^ 
tonio Dalla Bella. — Memoria II. sobre a força Magnética ; 
pelo mesmo. — Memoria sobre os verdadeiros princípios do 
JMethodo das Fluxões ; por Francisco de Borja Garção Stoc- 
kler. •=— Additamentos á Regra de M. Fontaine , para resolvei: 
por approximação os problemas que se reduzem ás Quadratu- 
ras; por José Monteiro da Rocha. — Observações de differentes 
Eclipses dos Satellites de Júpiter , feitas no Real GiUegio de 
Mafra no anno de 1 7 8 5 ; por D. Joaquim da Assumpção Velho* 
— Memoria para a Historia da Legislação , e costumes de Por- 
tugal. Estado da Lusitânia até ao tempo em cpie foi reduzida a 
Província Romana ; por António Caetano do Amaral, — Va- 
rias Observações de Chimica , e Historia Natural ; por Domingos 
Vandelli. — Observações sobre hum Hygrometro Vegetal ; por 
António Soares Barbosa, — Observações Fjsicas por occasião 
de seis raios ^ que em differentes annos cabírão sobre o Real 
Edifício junto á Villa de Maira ; por H. Joaquim da Assumpção 
Velho, — Memoria á cerca da Latitude y e Longitude de Lisboa , 
e exposição das Observações Astronómicas por onde ellas se 
determinarão ; por Custodio Gomes de Fillas-Boas, — Obser* 
ições Astronómicas feitas junto ao Castello do Rio de Janeira 

ra determinar a Latitude , e Longitude da dita Cidade ; por 



i34 Noticias das Sciehcias. 

Èento Sanches Dorta, — Observações Meteorológicas feitas na 
Cidade do Rio de Janeiro ; pelo megmo, — Da incerteza que hm 
á cerca da Gomma Mjrrba. Dá-se noticia de hum arbusto , que 
tc;n as mesmas qualidades , e virtudes ; por João de LaweirOm 
r^ Memoria sobre a Poesia Bucólica dos Poetas Portugueses ; 
por Joaquim de Pàyos. — Memoria sobre a natureza , e verda- 
deira origem do Páo da Aguila ; por João de Loureiro. — Ob- 
^rvações Astronómicas feitas nas Casas da Regia Officina Typo* 
grapbica , junto ao Real Collegio dos No1>res ; por Francisco 
Antonh Cíieni. <— Observações Meteorológicas feitas no Real 
GoUegio de Mafra no anno de 1 784 ; por D. Joaquim da Assum-- 
pqao Fèiko. — Observações Meteorológicas feitas no Real Col* 
)egío de MadBra no anno de 1*]^^ ; pelo mesmo. — Solução do 
Problema proposto pela Academia Real das Sciencias sobre^ o 
methodo de approximação deM. Fontainc^por Manoel Joaquim 
Coelho da Maia. — Observacion de la total Emersion ò fin dei 
Eclipse de Sol dei dia 17 de Octobrede 1781 , ai observatório 
àt la Academia Real de los Cavalleros Guardiãs Marinas de Car- 
lagena \ por D. Jacinto Cemtí. — Observações feitas no Rio da 
IFaneiro no anno de 178a; por Francisco de Oliveira Barboza. — 
Slogio Histórico de Joio Le Bond d'Alembert ; por Francisco da 
Morja Garção StockUr. 

O Tom. II. contém Demonstração do Theor«ma de Newton 
sobre a relação que tem os coeficientes de qualquer equação 
Algébrica com as sommas das potencias das suas raizes , e ap- 
plicação do mesmo Tbeorema ao desenvolvimento em Serie dos 
productos compostos de infinitos factores ; por Francisco de 
Borja Garção Stockler. — Memoria sobre huma espécie de pe* 
trifícação animal ; pelo P» João de roi/r»tro.— -Exame Pbysico , • 
Histórico « Se faa , ou tem^ ÍMVÍdo no Mundo diversas espécies 
» de homens ? » pelo mesmo. — Descripção Botânica das Cúbe- 
bas Medicinaes ; pelo mesmo. -^ Consideração Phjsica, e Bota* 
líica da planta Aerides , que nasce , e se alimeDla no ar ; pelo 
fhesmo, — Memoria , em que se dá noticia de divt»'sas espécie 
de abèllias , que dão mel, próprias do Brasil ^e.desconbecir' 



das Artes ^ etc i35 

na Europa ; por Vicente Coelho de Seabra, — Observações Me- 
teorológicas feitas no Real Collegio de Mafra no anno de 1785 ; 
por Z>. Joaquim da Assumpção Velho* — Observações Meteo- 
rológicas feitas no Real Collegio de Mafra no anno de 1786,* 
pelo mesmo, — Memoria sobre os instrumentos de Reflexão; por 
José Maria Dantas Pereira* — Reflexões sobre certas sOhima- 
ções successivas dos termos das Series aríthmeticas , applicadas 
ás soluções de diversas questões algébricas ; pelo mesmo, -— 
Bescripçio de bum Monstro de espécie bumana , existente na 
Cidade de São Paulo na America Meridional ; por Bento Sanches 
Dória, -^ Observações Astronómicas feitas na Cidade de S* 
Paulo na America Meridional ) pelo mesmo, — Memoria sobi^e 
as Equações de condição das Funcções Fluxionaes; por Francisco 
de Borja Garção Stockler, — Descripção de bmn Feto bumano 
monstruoso , nascido em Coimbra no dia 38 de Novembro de 
j 791 ; por Francisco Tavares, — Loxodromia da vida bumana , 
ou Memoria em que se mosti*a , qual seja a carreira da nossa 
espécie pelos espaços da nossa presente existência ; por José 
Joaquim Soares de Barros, — Memoria sobre o restabele^ 
cimento da quinta Ordem de Marcba , alterada por baver 
alargado o vento ; por Manoel do Espirito Santo Limpo, -^ 
Observações Astronómicas , e Meteorológicas feitas na Cidade 
do Rio de Janeiro no anno de 1784; por Bento Sanches 
Dorta, — Observações Astronómicas , e Meteorológicas feitas 
na Cidade de Rio de Janeiro no anno de 1785 ; pelo mesmo, — 
Determinação das Orbitas dos Cometas ; por José Monteiro da 
Rocha» — Memoria sobre algumas propriedades dos coeficientes 
dos termos do Binómio Newtoniano ; por Francisco de Borja 
Garção Stockler, -* Observações Astronómicas feitas no Real 
Collegio de Mafra ; por D, Joaquim da Assumpção Velho, — 
Noticia das observações Astronómicas feitas em o anno de 1790; 
por Custodio Gomes de VUlas-Boas, — Ensaio sobre as Bracb^s- 

tocbionas, e reflexões sobre as Frop. 4^» e 76 do II. Tomo 
da Mecbanica de Euler ; por Francisco de Faula Travassos». 

•-r Observação Anatómica de bom feto bumano , qne em coa- 



i36 Noticias das Sciencias , 

tequeneÍA de hum parto laborioso passoa á bexiga nríiunía; por 
Manoel Joaquim de Souza Femílf.<— Singular observação qne 
confirma a sympathia do estômago com a cabeça ; pelo mesmo. 
— - Observação de boma Tbisica tuberculosa , e de buma con- 
ereçio calcárea , acbada no útero ; pdo mesmo, — Observatio* 
nes Astronomics babits , ab Andtea ilodlr^es.— -Observatio 
Eclipsis Lunaris babita , die 3 Januarii anno 1787 , in Collegio 
Bomano , a Josepho CalandrellL — Observações Astronómicas 
feitas no Cidade de S. Paulo ; por Fhancisco de Oliveira Barbosa. 
.-— Comparado das Pbases observadas em S. Paulo , com as que 
forio observadas em Lisboa no Observatório da Academia ; por 
Custodio Gomes de FlUa^-Boas. 

O Tom. III. Pari. i*. contém Memoria sobre os Kermes ; por 
*José Joaquim Soares de Barros, — - Mémoire sur les variations 
séculaires des Elémens elliptiques de Pallâs et de Cérès ; par 
M, Damoiseau de Montfori, — Observações Astronómicas e Me- 
teorológicas , feitas na Cidade do Rio de Janeiro no anno de 
1786; por Bento Sanches Dória. — O mesmo no anno de 1787. 
— • Taboas e Diário Meteorológico , pertencentes ao anno de 
1787 ; pelo mesmo, -* Observação do Eclipse da Estrella >j do 
I«eão , da terceira grandeza , acontecido a 28 de Março de 
1789 i por Custodio Gomes de FíUas-Boas, — Exposição das 
observações Asti*onomicas , feitas no anno de 1 799 : e compa- 
ração da passagem de Mercúrio com as Taboas mais accre- 
ditadas do mesmo Planeta; pelo mesmo, — Observações dos 
Eclipses dos Satellites de Júpiter , feitas em S. Paulo com bum 
Óculo acbromatico de 17 pollegadas de foco ; por Bento San- 
ches Dória, — Diário Pbjsico-Meteorologico de Outubro do 
anno de 1788 , da Cidade de S. Paulo na America Meridional e 
Oriental ; pelo mesmo, — O mesmo do met de Novembro. — O 
mesmo do mét de Dezembro. — Mémoire sur la Comete de 1 807 ; 
par M, Damoiseau de Montfori, —-Ensaio sobre o Cinchonino , 
e sobre sua influencia na virtude da Quina , e de outras Cascas ; 
por Bernardino António Gomes, — Observações Botanico-Me- 
dicas sobre algumas Plantas do Brasil ; pelo mesmo, — Obser* 



ias Artes , ete: 'i37 

vações Astronómicas feitas no Observatório Real da Marinha : 
coromunicadas á Academia por Manoel do Espirito Santo Umpo, 

A Part. !i". contém Discurso Histórico pronunciado na Sessão 
publica da Academia Real das Sciencias de Lbboa , de a4 do 
Junho de 1810; por João Guilherme Chrístiano MuUer,'^ 
Discurso Histórico pronunciado na Sessão publica do anno de 
iSi2;pelo mesmo. — Discurso contendo a Historia da Academia 
Real das Sciencias desde 26 de Junho de 1 8 ia até 24 de Junho 
de i8i3; por José Bonifácio de Amlrada e Sãva, — Recopi- 
lação Histórica dos trabalhos da Instituição Vaccinica,durante o 
seu primeiro anno ; por Bernardino António Gomes, -^Ohser* 
vationes Astronomicae in Regno Cochinchinae habitaej a P. Joanne 
de Loureiro» — Eclipse da Lua de 2 de Novembro de 1789, 
observado em Lisboa na Academia Real da Marinha ; por Pranr 
cisco António Ciera» — Instrucções e regras praticas, deriva- 
das da theoríca da Construcção naval , relativas á construcção , 
carregação, e manobra do Navio; i^or Mattheus Valente do 
Couto» — Calculo das Notações : a I. Parte por Francisco Si^ 
mões Margiochi , e a II. por Mattheus Valente do Couto, — 
Reflexões tendentes a esclarecer o Calculo das Notações , sobre 
que versa a Memoria antecedente ; por Francisco de Paula 
TYavassos. — Pensamentos , e observações sobre mui curiosos , 
e importantes objectos , que se apresentão nas costas de Por- 
tugal , e no fundo' dos nossos mares ; por José Joaquim Soares 
de Barros, — Memoria sobre a pertendida chuva de algodão , 
que cahio em alguns lugares das vizinhanças desta Capital em 
o dia 6 de Novembro de 181 1 ; por Sebastião Francisco de 
Mendo Trigozo, — Experiências Chymicas sobre a Quinado 
Rio de Janeiro comparada com outras. — Memoria em que se 
pertende dar a solução de hum Programma ( de Analjse para 
1 8 1 1 ) da Academia Real das Sciencias de Lisboa; por Mattheus 
Valente do Couto, — Breve Ensaio sobre a deducção Philoso- 
phica das Operações Algébricas; pelo m^^mo. — Memoria sobre 
huma Balança de ensaio ; por Constantino Botelho de Leeerdn 



i38 Notícias das Sciencías , 

Lobo, — Deducçio de fauma Formula geral , qae compréfacndt 
á>5 Theoremas de Newton sobre as potencias das raizes das 
Equações ; por João Evangelista TorrianL — Taboa mostrando 
o iralor da Moeda de ouro , e prata do Heino de Poftugal , 
«iesde o Beinado do Senhor D. Duarte até 1 806 ; por João BeU. 
—Memoria sobre a verdadeira origem do Catto , ou terra J»- 
ponica I por Franciêco HanoH Barroso da Silva. — Tbeorica 
da composição das Forças ; por Francisco Simões Margiochi. — 
Fundamentos da Algorithmia elementar ; pelo mesmo, — Ob* 
«ervaçôes Astronómicas feitas em lisboa no Obsei'vatorio Real 
da Ifarínba nos amios de 1807 até i8ia ; por Fattlo José 
-Maria Ciera, 

O Tom. IV. Farte i*. contém Discurso recitado na Sessio 
jmblica de 3 4 de Junho de 181 4; por Sebastião Francisco de 
Mendo JVigozo, — Frogramma da Ajcademia Real das Sciencias 
de I^sboa annunciado na mesma Sessão. — Conta dos trabalhos 
Yaccinicos , lida na Sessão publica ; por Francisco Elias JtodHr 
guez da SUs^ra, — Elogio Histórico de Fr. João de Sousa ; por 
Sebastião Francisco de Mendo Trigo%o. — Elogio Histórico do 
Ex."** e R.™** D. Fr. Manoel do Cenáculo , Arcebispo de Évora ; 
por Francisco Manoel Trigozo d^ Aragão Mqrato, — Memoria 
sobre as Boubas ; por Bernardino Anionio Gomes, — Memoria 
^obre a desinfecção das Cartas ^ pelo mesmo, — Projecto de 
hum estabelecimento de Escolas de Agricultura ; por Sebastião 
Francisco de Mendo Trigoso, — * Refleiões sobre a Agricultura 
de Portugal ; sobre o seu antigo e presente estado ; e se por 
meio de Escolas Ruraes praticas , ou por outros elle pode 
melhorar*sc , e tomar-se florente ; por Felis de Avelar Brotero 
*— Da Dedadeira , e suas propriedades Medicas ; por Rrancisco 
Elias Rodrigues da SUveira, — Memoria sobre as Binomiaes; por 
Manoel Pedro de Mello. 

A Part. a», contém Discurso contendo a Historia da Academia 
Real das Sciencias, desde iS de Junho de 18 14 até ^4 de Junba 
de i8i5 ; por José Boni/aciç de Andrada e Silva» -^ Conta 



das Artes y etc. làg 

lal da Instituição Vaccinica da Academia Real das Scien-* 
, pronunciado na Sessão pnblica de 1 8 1 5 ; por Bernardino 
onio Gom^. — -Prograipma para o anno de i8 17.— Elogio 
orico de João Guilherme Christiano M uDer , recitado na 
!rabléa publica da mesma Academia de ^4 de Julho de 1 8 1 5 ; 
Francisco Manoel Trigozo d'jíragão Morato, -» Glossário 
palavras e phrases da Língua Francesa , que por descuido ^ 
rancia, ou necessidade se tem introduzido na Locução 
Ligueza moderna ; com o juizo crítico das que sao adopta- 
nella ; por Fr. Francisco de S» Luiz, — - Memoría sobre hunâ 
iiuento inédito do príncipio do Secnlo XII > em que s% 
:ra , que « O Sn^. Conde D. Henríque , achando-se ausente 
i Palestina, ainda não tinha voltado a Portugal em Maio 
. era i i4i ( Auno iio3 ) » por Francisco Ribeiro Dosgui» 
ies. — Taboas do Nonagésimo para a Latitude de Lisboa » 
zida ao centro da Terrj^ 38^ 27' aa'', suppondo a oblíqui* 
! da Ecliptica a3o 28' o" ; por Fhtncisco António Ciera,'-^ 
9 de Extracção de Loterias ; pelo mesmo. — Extracto de 
I Memoria sobre o estado da Agrícoltura da Comarca de 
íllo-branco ; por João de Macedo Pereira da Guerra For- 
— Memoria sobre a descripção , e vantagens de huma 
ira obstetrícia da invenção do professor Stein, depois refbr- 
\ , e emendada príncipalnente pelo professor Osiander , 
Justiniano de Mello Franco. — Annaes Vaccinieos de Por* 
l , ou Memoría Chronologica da Vaccinação em Portugal , 
e a sua introducção até o estabelecimento da Instituição 
linica da Academia Real das Sciencias de Lisboa ; por An- 
' de Almeida. — Extracto de huma Memoría sobre a deca« 
;ia das minas de Ouro da Capitania de Minas Geraes , e 
e varíos outros objectos Montanistícos ; por GuilÂerme B, 
^schwege* 

Tom. V. Part. i*. cont^ Discurso recitado na Sessão 
íca de 9 4 de ^ Junho de 1816; por Francisco de Mello 
CO. — Conta dos trabalhos Vaccinieos lida na Sessão pu- 



i4o Noticiíis das Sciencias J 

blica da Academia Real das Scíencias da lisboa aos a4 ^' 
Junho de 1 8 16; por Justiniano de Mello Franco. — Programnit 
da Academia Real das Scíencias de Lisboa ^ annunciado na 
Sessão publica de a4 ^^ Junbo de 1816. — Memoria sobre a 
identidade do Sjstema muscolar na Economia animal ; por 
Francisco Soares Franco, — Memoria sobre bum Verme ví?d 
dentro do olho de bum cavallo ; por Sebastião Francisco de 
Mendo Drigozo. — Da antiguidade da observação dos Astros j 
e da Bússola , e de outros Instrumentos no uso da Navega- 
ção ; por António Ribeiro dos Santos. — Do conhecimento que 
era possivel ter da existência da America , pela tradição dos 
Antigos , e por motivos Filosóficos ; pelo mesmo, — Da pos- 
sibilidade e verosimilhança da demarcação do Estreito de Ma- 
galhães no Mappa do Infante D. Pedro ; pelo mesmo, — Extrac- 
ção de Loterias , que se executa em tempo brevíssimo , e sem 
que se possa commetter erro ou engano ; por Aníonio de Araújo 
Travassos, -» Memoria sobre a nova Mina de ouro da outra 
banda do Tejo ; por José Bordfiicio de Andtada e Silva. — 
Memoria Estatística á cerca da notável YiUa de Monte Mor o 
Novo ; por Joaquim José f^ardla. 

A Parte a^. contém Discurso recitado na Sessão publica de 
24 de Junho de 171 7 , por Sebastião Francisco de Mendo 7W- 
goio, -» Discurso Histórico sobre os trabalhos da Instituição 
Vaccinica , lido na mesma Sessão ; por ff^encesldo Anselmo 
Soares, — Elogio do Doutor Alexandre Ferreira; por ilfaiioe//o5^ 
Maria da Cosia e Sd. — Relatório da Commissão nomeada pela 
Academia Real das Sciencias de Lisboa, para lhe dar conta da 
nova Edição dos Lusíadas impressa em Paris no anno de 1817. 
«— Memoria sobre a Distillação ; por António de Anuijo 7Va* 
vassos — Memoria sobre a diversa temperatura que tem os 
líquidos , e sólidos mergulhados na atmosphera ; por Constan* 
tino Botelho de Lacerda, — Memoria sobre o Tbeatro Portn» 
guez; por Francisco Manoel Trígozo íT Aragão Morató.-^Me- 
moria sobre as pesquizas e lavra dos veios de cbttnbo de Cba< 



das Attes^ etc. i4i 

cím , Souto , VentozcUo , e Villar de Rey na Província de Trás 
os Montes ; por José Bonifácio d^Andrada e Sdva. — Obserra- 
ções Meteorológicas feitas na Cidade de Lisboa no anno de i8 16^ 
acompanbadas de varias reflexões sobre o estudo e applicaçao 
da Meteorologia; por Marino Miguel Fntnzini, — Observações 
feitas no Observatório Real da Marinha por Paulo José Maria 
Ciera , e communicadas á Academia por Mattheus Vatenie do 
Couto, — Experiências sobre duas differentes cascas do Pará ; 
por Alexandre António Vandelli. — - Observações sobre alguns 
peixes do mar e rios do Algarve. — Indagações sobre a lingua 
dos Barbados ; por Jacob Graberg de Hemso, 

O Tom, VI. Farte i*. contém Discurso Histórico recitado na 
Sessão publica de a4 de Junho de 1 8 1 8 ; por José Bonifácio 
d^Andrada e Sãva, — Discurso Histórico sobre os trabalhos da 
Instituição Yaccinica ; por Ignacio António da Fonseca BenC' 
vides. — Discurso dirigido á Magestade do muito Alto e muito 
Poderoso Senhor D. João VI. Rei do Reino Unido de Portugal ^ 
Brazil , e Algarves, por occasião da sua exaltação ao Throno ; e 
pronunciado na presença do mesmo Senhor em nome da Aca- 
demia Real das Sciencias de Lisboa ,no dia 1 2 de Maio de 1 8 1 8 ; 
por Francisco de Borja Garção Stockler, —Elogio Histórico do 
Ex."*** e R.*^** Bispo Inquisidor Gend , D. José Maria de Mello ; 
por Francisco Alexandre Lobo, — Carta do Sn«", />. José Maria 
de Sousa y á Academia Real das Sciencias. — Programma da 
Academia Real das Sciencias de Lisboa , annunciado na Ses* 
são publica de a4 àe Junho de 18 18. -— Memorias para a 
Historia das Navegações e Descobrimentos dos Portnguezes ; 
por Joaquim José da Costa de Macedo, -^Á. Primavera. Can- 
tata ; por Francisco FUlela Barbosa. — Memoria premiada na 
Sessão publica de ^4 de Junho de 18 18 sobre o Programma 
proposto para o mesmo anno. « Dar a demonstração das For- 
» mulas propostas por Wronski para a Resolução geral datf 
Equações » ; por João Evangelista Tbmom.— Memoria sobra o 
estabelecimento da Arcádia de Lisboa | e sobre a soa influencifi 



i4a Noticias das Sciencias^ 

ua restauração da nossa Litteratura ; por Prancisc0 Manoel Tri- 
gozo d' Aragão Morato. — Tratado pratico da Alagaçao dos 
Navios ; por Manoel de Sousa Ferreira. — Descripçio Histórica 
e Económica da Villa de Torres Vedras ; por Manoel Agostinho 
Madeira Torres, 

SCBENCIAS NATURAES. 

5. Breves Instrucções aos Correspondentes da Acade- 
mia 9 sobre as remessas dos productos naturaes » pata 
formar hum Museu Nacional, i foi. 8.^ 1781. 

6. Memorias sobre o modo de aperfeiçoar a manufac- 
tura do Azeite em Poitugal , remettidas á Academia ; 
por João António Dalla Bella^ 1 vol. 4-® i'384- 

'7. Memoria sobre a cultura das Oliveiras em Portu- 
gal, pelo mesmo. Segunda Edição accrescentada com 
hum Appendice ; por Sebastião Francisco de Mendo 
Trigozo, I vol. 4.^ i8i8, 

8. Dominici KandelU Viridarium Grysley Lusitani- 
cum Litmaeanis nominibus illustratum , i vol. 8.<^ 1789. 

9. Avisos interessantes sobre as mortes apparentes , 
mandados recopilar por ordem da Academia , folh. 8.^ 
1790. 

10. Tratado de Educação Fysica dos Meninos » etc; 
por Francisco de Mello Franco^ 1 vol. 4.» 1790. 

1 1 . Flora Cocliinchinensis , sistens Hantas in Regno 
Cochinchina? nascentes* Quibus accedunt alias obser- 
vatae in Sinensi Império, Aíricae Orientali, Indiaeque 



das Artes y etCé i43 

locis vaniSy labore ac studio Joarmis de Loureiro y Re- 
giae Scientiarum Âcademiae Ulyssiponensis Socii : Jussu 
Acad. R. Scient. in lucem edita , 2 vol. 4.^ mai. 1 790. 

12. Tratado de Educação Fjrsica para uso 4a Nação . 
Portugueza ; por Francisco José de Almeida y i vol. 4.^ 

i3. Advertências sobre os abusos , e legitimo uso das 
Agoas mineraes das Caldas da Raiaha ; por Francisco 
Tavares , folh. 4.° 1 79* • 

14. Analyse Chymica da Agoa das Caldas; por Gui- 
lherme Wiiheringy em Portuguez e Inglez, folh. 4»** 
1795. 

i5. Compilação das Reflexões de Sanches, Pringle 
etc. sobre as causas e prevenções das doenças dos Exér- 
citos y por Alexandre António das Neuesy folh. 12. 1797. * 

16. Advertências dos meios para preservar da Peste.' 
Segunda Edição accrescentada com o Opúsculo de 
Thomaz Alvares sobre a Peste de iSôg , foi. 12. 1801. , 

17. Opúsculos sobre a Vaccina, i3 Num. 4.0 de 
1812—1814. 

18. Elementos de Hygiene. Segunda Edição mais 
accrescentada y i vol. 4-^ 1819. 

19. Memoria sobre a necessidade e utilidades do^ 
plantio de novos bosques em Portugal ; por José Boni- 
fado de Andrada e Silva , i vol. 4«® 18 15. 

20. Tratado de Policia medica » no qual se compre- 



]44 Noticias das ScienàaSj 

hendem todas as matérias , que podem servil* para erga* 
nizar hum Regimento de Policia de Saúde, para o 
interior do Reino de Portugal; por José Pinheiro de 
Freitas Soares y i vol. 4»*^ itíi8. 

SCIENCIAS EXACTAS. 

31. Ephemerides Náuticas ou Diário Astronómico, 
calculado para o Meridiano de Lisboa desde 1789—1809, 
cada vol. ^P 

211. Compendio da Theoria dos Limites, ou Introduc- 
ção ao Methodo das Fluxões ; por Francisco de Borja 
Garção Stochler^ i vol. 8.° 1794. 

23. Tratado de Agrimensura; por Estevão Cabral; 
I vol. 8.*^ 1795. 

24- Principios de Táctica Naval; por Manoel do Es- 
pirito Santo Limpo , 1 vol. 8.® i795- 

35. J. H. Lambert SupplementaTabularumLogarith- 
micarum, et Trigonometricarum > i vol. 4«® i7d8- 

36. Taboas Logari th micas , calculadas até á sétima 
casa decimal , publicadas de ordem da Real Academia 
das Sciencias ; por J. M. F.D,y i vol. 8.^ 1804. 

37. Taboas Perpetuas Astronómicas para uso da Nave- 
gação Portugueza , i vol. 4.0 18 1 5. 

38. Elementos de Geometria , por Francisco Fittela 
Barbosa , com hum breve Tratado de Geometria Es-* 
pherica. Segunda Edição ^i voL 8.® 1819, 



dás Aries eie. i4$ 

< 

tTrTERàTCftA. E HISTOWà. 

19. Paschalis Joêepfii MéUii Freire Hittori^ Jurto 
Civil is Lusitani Liber singularís, i vol. 4*^ 1788. 

3o. Ejiisdem Institutiones Jurís Ctvilis et Criminal^ 
Lusitani , 5 vol. 4-® i^^O* 

3i. Osmia, Tragedia coroada pela Academia, folB. 
4.0 1785. 

3:^. Vestígios da Lingoa Arábica em Portugal, ou 
Lexicon Etymologico das palavras, e nomes Portu- 
guezes, que tem origem Arábica j por Fr* Joâode^omsàj 
I vol. 4.0 1789. 

33. Documentos Arábicos da Historia Portugueta, 
copiados dos Originaes da Torre do Tombo com per^ 
misrào de S. Magestade , e vertidos em Portuguez ; pelo 
niesmOf i vol. 4*^ 1790* 

34- Synopsis Cbronologica de Subsídios, aioda os 
mais raros , para a Historia , e Estudo criúco da Legis- 
lação Portuguesa ; mandada publicar pela Academia 
Real das Scieocias , e ordenada por /osé Anmíasio de 
Figueiredo , a vol. 4.0 1790, 

35. Fontes próximas do Código PiUppinoj por /aã- 
qtdm José Ferreira Gordo , 1 vol. 4*® 179a. 

36. Dicdonario da Lhigòa FMtufneMi , 1 v^l. Ibl. 
mal. 1793. 

37. Ensaio Económico sobre o Commercio de Portu- 
Tom. IX. P. a«. 10 B 



1 46 iV olicias das Sciehcias , 

gal 9 e suas Colónias ; por D. José Joaquim da Cimfia 
de Azeredo Coutinho- Segunda Edição corrigida , e ac* 
crescentada pelo mesmo AuctOTj i voL 4*^ '*797* - 

38. Memorias para a Historia da Capitania de S. Vi- 
cente , I vol. 4«*^ *797« 

39. Observações Históricas e Criticas para servirem 
de Memorias ao systema da Diplomática Portugueza ; 
por Joào Pedro Ribeiro : Pari. I. 4*^* 1798. 

40. índice Chronologico remissivo da Legislação Por- 
tugueza posterior á publicação . do .Código Filippino ; 
por João Pedro Ribeiro^ 5 vol. 4.® i8o5 — i8j8. 

4i. Obras de Francisco de Borja Gai^ção Stockler, 
I vol. 8.0 i8o5. 

4^. Dissertações Chronologicàs , e Criticas ; por João 
Pedro Ribeiro , 3 vol. 4-® »8io — i8i3. 

43. Hyppolyto, Tragedia de'Eúi:ipides, vertida do 
Grego em Portuguez , t vol. 4-^' i8o3. 

44. Hippolyto ,' Tragedia de Séneca ; e Phédra , Tra- 
gedia de Racine , traduzidas em verso, com os textos; 
por Sebastião Francisco de Mendo Trigozo , i vol. 4.<> 
i8i3. 

45. Memoria para ^servir de Indicç dos Forae^ das 
Terras do Reino de Poitugal, e seus domínio»^ por 
Francisco Nunes Franklin , i vol. 4*® <8i6. 



das Artes j etc. 1^7 

I^UBUCAlÇÕBS de obras lN£DrrÂS,REIMPRESSÓ£aU 

46. Vida do infante D. Duarte -> por Anâré de Reztndej 
folh. 4.0 1789. 

47* Observações sobre as principaes causas da .deca*» 
dencia dos Poituguezes na Ásia , escritas por Diogo de 
Couto em forma de Dialogo^ como titulo de Soldado 
l^rotíco y publicadas por ordem da Academia Real das 
Sciencias ; por António Caetano do Amaral , i vol. 8.^ 
1790. 

48. Obras Poéticas de Pedro de Andrade Cajfdnha » 
publicadas de ordem da Academia , i vol. 8.® i79i< 

49. Obras Poéticas de /ronci^co Dias Gomes ^ i vol. 

5o» CoUecção dos principaes Auctores da Historia 
Portugueza , com algumas notas , 8 vol. em 8.<^ 1806. 

Contém os primeiros Xt. litros dn Hofiárclkià LusitÉtn. 

5i. CoUecção de Noticias para a Historia e Ge^gíafia 
das Nações Ultramarinas , 2 vol. 4*^ iSi^ e i8i3. 

o Tom. t. contém Breve Relaçio das Escritoras dos Gentios 
da índia Oriental , e dos sens costmnes. — Noticia sammaría 
do Gentilismo da Ásia — Joseph de Anchieta : Epistola quara^ 
plurimarum Rerum Natoralimn , quse S. Vinceutii (nane S. Pauli ) 
Provinciam incolimt , sistens descriptíonem» 

O Tom. II. contém Kavegaçao primeira e segoiéb de Luix 
de Gadamosto. — Navegação do Capitão Pedro de Cintra , Por- 
Ingaes. — Navegação de lisboa 6 Ilha de S. Thomé. -*- Navt •* 

10 * 



i4â Noticias das Sciendas ^ 

gação do Capitão Pedro Alvares Cabral. — Cartas de Araeríc» 
Vetpucio a Pedro Soderini. — Navegàçio áslndiafl Chiebtaes, 
escrípta por Thomé Lopes. — Viagem ás índias Orientaes ; por 
João de EmpolL — LÍTro de Duarte Barbasm* 

5a. Collecção de Livros inéditos de Historia Porto- 
gueza , desde o Reinado do Snr. Rei D. Joào II. , 4 vol. 
foi. 1790 — i8i6. 

O Tom. I. contém Iítto da Gnerra de Ceata ; por Mestre 
MaUheus de Pisano. — Chromca d'£lRei D. Duarte ; por lUff 
de Pina, — Cbromea de D. Affimso V ; pdo mesmo. 

O Tom. II. contém Chronica d'£lRei D. Joio II; por Euy de 
pina; e a Chronica do Conde D.^ Pedro de Keneses; por Gomes 
Eannes de Zumnu 

O Tom. III. contém Chronica do Conde D* Dnarte, de He- 
nezes, de JUijr de Pina. — liyro Termelho do Snc. D. Affonso V. 
— l^ragmentos de Legislação Portuj^iesa , extrehidoii dò Lirro 
das Posses da Casa da Supplicaçio* 

O Tom. lY. contém Chronica StíHkfí D. Pedro I. ; por Fer^ 
não Lopes. — Chronica d^Rei D. Feraando \ pelo mesmo Auior. 
Foros antigos dos Concelhos de Sentareas, S», Martinho de 
Mouros y f Torres Moyas. 



iláb 



'fcSL.-.' 



• 

ias Artes f ttc. 1(9 



iSS 



NOTICIAS 

RECENTES DAS SCIENCIAS, etc. 



<»^»»»i>^^^^i%%»% ^ 



CHTMICA. 



Ofí* Lassaigne examinou a acção mutua do alcohol e 
do acido phosphorico durante a formação do ether , 
proseguindo as experiências de M. Vogel e de M. Gay- 
Lussac á cerca da decomposição do acido sulphurico, 
no processo da etheríficaçãOi primeiramente observada 
por M. Dabit , como dissemos no Tomo VlU dos Ân- 
naes. Parte 2*. pag. i4o. O resultado dos experimentos 
de M. Lassaigne , he o seguinte : 

1®. Â acção do acido phosphorico sobre o alcohol 
he a mesma que a do acido sulpburíco ; 

20. Durante a operação forma-se hum acido , o qual, 
pela anologia que tem com o acido sulphovinoso , 
pode chamar-se phosphmnoso ; 

3^- Este acido forma saes mui soluteis com a cal 
e a barytes j e pode consíderar-se como acido hjpo- 
phosphoroso combinado com huma matéria yegetal , da 
mesma maneira que M. Gay-Lussac o cré em quanto 
ao acido sulphovinoso , 



i5o Notícias Joi Sciemcias , 

4«, Be mui provável que o acido aneniaco , o qual 
forma etber, assim como os dois ácidos sulphurico e 
pbospboricoy p^ hupia reaççiò $qbre o alcobol, d4 
nascimento a hum acido particular formado do deut* 
ox^do de ar^nico e dps ele^ieotoft do alcohol. 

M. Ganthier de Claubry j em buma carta a M. Gay- 

Lussac inserta nos Annaes de Cbymic^ e de Physica 

do mez de |kIarço d'este anno, verificou de novo q 

que já tinha annunciado no tomo XCIII , pag. 75 da 

,.,sobreditta obra ,4 cerca dp^nie contido íxo fucus "ve-. 

4Ículosus y e mostrou , contida ilL Fyfe de Edimburga , 

gpe este vegetal pontém , com e0eito , iode , se bem qMfi 

em pequena quantidade^ Também r^conheceo por 

novos experimento^ quç ^. Fyfe ^e tinbs^ igualmente 

^çnganado á ce^ca dp iqde contido nas.^ponjas, das 

<^ua^8 M. de Glaubry o ei^trahio ^ntes e depois da 

incineração. Cré que nellas 9 íod^ se açba QO estado 

de bydriodate de potassa» como nos fucus. 

M. Mathieu de Dombasle fes ver que M. Proust s^ 
^inha enganado eo^ duvidar da conversão da fécula em 
alcohol pela fermentação , e mostrou por buma serie 
de experiências que a razão da nequena quantidade 
que d*elle se obtém na fabricação da gomma ou amido , 
procede das drcumstaocias po\iço favoráveis á con- 
versão de que se trata. Nesta ope^çãq o fermento 
de que se usa he acido , e não $ó, não provoca a fer^ 
piei^tação st^col^oliça , roas u^ié |e qppõe a ella energi- 
camente. 



^ das Artes y etc. iSi 

. M- Gay-Lussac analysou de novo o sulpbate de ma* 
gnesia , e achou que as proporções do D^.. Henry, adop- 
tadas pelo D*^. WoUasion na sua Memoria sobre os 
equivalentes chjímicos , concordào com o resultado 
das experiências que de novo fez, o qual se afasta 
bastante do de M. Berzelius e muito mais do de M. 
Longchamp. 

M. Brande submetteo soco partes de belladona aos 
reagentes chy micos , e achou nella hum alcali a que 
deo o nome de atropiwn. Esta substancia neutralisa 
huma proporção de acido maior que todos os mais 
alcalis; aquecida até ao rubro com a potassa não se 
forma acido hydrocyanico , mas pela addiçào de agua 
obtem-se hum liquido , o qual depõe hum acido que 

• 

tinge de vermelho os saes de ferro. O atropium está 
na belladona no estado de super*malate, e forma parte 
da substancia , á qual M. Vauquelin tinha attribuido 
a virtude lethargica que distingue a planta, e que M, 
Brande chama pseudoioxia» Segundo este chy mico , no 
atropio he que reside a propriedade narcótica ; porque 
a mais tenne porção doesta substancia determina a 
dilatação da pupilla, e nas pessoas de constituição 
inítavel , o vapor dos saes de atropio , que se desen* 
volve pelo calor, he capaz de produzir os mesmos 
eiTeitos. 

Esta substancia assim como a brucina de que já fal- 
íamos no Tomo VIII, Parte a'*, prg. i3o, merecem 
fixar a attençào dos médicos , pois he de esperar que 
pussâo vir a ser poderosos agentes therapeuticos » tanto 



\ 



i5t NoãeMSt das Sciencias , 

mais preciosos- que o seu efifeito pode «ilctilar*sd:it- 
gorosaiíiente^ o que nunca. he. possível em quanto ao9 
vegetaés .administrados no estado em que a natui^exa 
lio^los oSerece. 

. M. Oersted achob na pimenta hum novo alcali a que 
^b o nome* de piperina, He quási insolúvel em agua 
fria y e mui pouco na agua a ferver, O alcohol o dis- 
solve , e a solução he de côr amareUa dará tirando para 
irerde. O acido nitrico aviva esta esta c6r e a torna 
perfeitamente verde. Â piperina possne o sabor acra 
/da pimenta em hum grão notável. A soa reacção sobre 
M matérias colorantes do reino vegetal he bastante* 
Hieiite sensivel. Com os addos sulphurico e acético, 
este alcali forma saes quasi insolúveis : o seu muríate 
|ie assax solúvel* M. Oersted não determinou ainda ai 
quantidades d'ef|tefi saes que a agua eo alcohol podem 
dissolver. Está fazendo experiências sobre este ob^ 
jecto assim como sobre n capacidade de saturação da 
piperina. Âs observações que já tem feito , provão que 
esta capacidade he mui pequena , como a dos outros 
aloalis da mesma natureza. Para obter este alcali , 
exti*ahe-se a resina da pimenta por meio do alcohoL) 
a solução que d*ahi resulta contém a piperina ; ajunta** 
se acido muriatico e depois agua ; a resina he preci- 
pitada pela agua , o muriate de piperina 6ca em solu-» 
ção : faz-se evaporar o alcohol ; o liquido filtrado en- 
cerra o muriate de piperina , o qual se pode decompò 
pela potassa pura , que precipita a piperina. 

Hum amigo de M. Oei*sted , M. Forchhammer achou 



igualmente outro novo «Icali de huma grande luai*^ 
mooia y no fmcto do Captkmn anwãum. Este alcali hef 
mais > solúvel na agna ^ e possue hlima maior eapaci^ 
dade de saturação que os outros alcalis da mesma' 
classe. Forma com o protoxydo de chumbo e oom 
o acido muriatico hum sal triplo que conserva wxAm 
toda a acrimonia do seu alcali vegetal* 

MM. Lassaigne e Chevalier* examinarão o acido qUé" 
se produz durante a distillação do acido úrico e doiT 
cálculos de urate de ammonia , acido áo qual dão' ò 
nome de Pyro-Urico , para indicar a sua oríjgem z 
obtem-no distiilando acido uríco puro, ouhuWcal'^ 
culo de acido úrico e de urate de ammonia/ Os pró- ' 
duetos são constantemente ; i». acido sublimado eoat'- 
laminas que retém huma pouca de ammonia; a®, hckào^ 
combinado com -huma grande quantidade deammò-' 
nia, e o qual dissolvido na agua que se forma, he' 
susceptível de crfstallisar ; S^. carbonate de ammonia; 
4«. hydroçyanate da mesma base; 5^' acido hydrd-' 
cyanico livre ; 6o. finalmente , acido empyreumatico, de 
côr mui forte. Extrahtrão o acido puro do sal acido 
com base de ammonia , dissolvendo os ciystaes ein 
agua a ferver, e precipitando a dissolução pelo sub* 
acetate de chumbo. O precipitado branco que se for^" 
mou, depois de ter sido lavado em agua a ferver, 
foi decomposto pelo hydrogeneo sulphuretado. Con^^ 
centrando o licor, obteve-se o acido em estado de 
pureza , e ci7Stallisado em pequenas agulhas brancas, 

£ste acido derrete-se com o calor ordinário e loi* 



i34 Noticias das Scieneias^ 

UimaVsennlrâatiientel em agulhas brancas ^^ni htini 
g^oi de .cadior mais. considerável decompõe-seem^car* 
vão, em'oleo; em hjrdrogeneo carbonetado eem<car* 
bonate derammonia. A<agua fria dissolve huma 4o** 
parte, e esta dissolução : tinge de "vermelho a tintura 
de gycasol ; he ' solúvel po alcohol a*3G<>, e esfriando 
precipita-se eni forma de pequenos grãos, azues, He dÍ8-« 
^olvido pelp acido nitríco, e não sofice alteração alguma 
cjuaiido sç ev^ora até ^^cação ; operação que converta 
o acido úrico em acido purpurico. Forma com a cal 
^um sal coipposto de 91,4 de acido e df 8fi de cal; 
este sal be acida , soluyel, ligeiramente acre. Com 9, 
barytes forma hum sal bi^nco pulverulento,, poucQ 
solúvel em agua fria. Com a potassa , a ammonia e 9, 
soda , forma saes sqluveis > da dissolução concentrada 
dos quaes os aeidos precipitáo o acido pyro-urico en^ 
ff^rmdL de h^m pó branco. Qs pyro^nrates de ferro ao 
çiaximo , de deutoxydo de cobre , de prata , de me]> 
çnrio e de chumbo , são insolúveis ; o {primeiro he át 
bum amarello de camurça , o segundo de bum branco 
amarellado , e 0$ outros perfeitamente brancos. O sub^ 
pyro-urate de chumbo be composto de a8,5 de aci- 
do, e de 71,5 de chumbo. Calcinando este sal bem 
çeçcp, com ^o vezes o seu peso de oxydo de cobre 
ao máximo, pbtiverão hum gaz, composto de acido 
carbónico e de azote , nas proporçòeç de 4 ^0 pnmeira 
para I do segundo, 

O acido pyro-urico oflerece em quanto á relação 
em peso dos seus elementos,, oxygeneo 44f 3!i,i car- 



• das Artes, tic. i55 

boné ii8;.399 azote 16, S4 » hydrogeneo .io,eoo } donde 
66 colhe que a relação em yolumè do carbone ao azote 
he justamente duas vezea a dó acido* úrico, - 

A prata pura fundida e conservada no estado fluido , 
tem a propriedade de absorver huma pequena porção 
de oxjgeneo j não só da atmosphera mas dos outi*os 
corpos* que o podem dar cotn- ajuda de calor ade- 
quado , como os nitrates. O oxygeneo , assim absorvido, 
fica unido á prata , mas só em quanto esta se conserva 
fluida y ou até que se ponba env contacto com hum 
corpo que tenha mais afinidade com o oxygeneo , do 
que ella. Por isso, quando prata fundida em grande 
quantidade , depois de ter estado exposta por algum 
tempo a huma corrente de gaz oxjgeneo ou dè ar at* 
mospfaeríco, sé esfria gradualmente, a sua superficíe 
começa a tomar-se solida, e arrebenta logo depois; 
a ebuUição continua por espaço de hum quarto de 
hora ou meia hora , couforine a quantidade da prata , e 
escapa huma grande quantidade de vajpor elástico que 
leva diante de si huma gi^ande porção do metal fun- 
dido , de soite que , quando este endurece , a superficie 
fica desigual. Se se esfria de repente o metal fundido, 
.deitando-o em agM ília , observào^se' os mesmos phe- 
nomenos, mas a superficíe oQerece menos desigual- 
dades. O vapor elástico contém huma grande quanti* 
dade de oxygeneo. Porém se se deita huma certa quan- 
tidade de carvão de madeira , ainda por pouco tempo , 
sol)re a superficie da prata que absorveo o oxygeneo , 
^dle c|esapparece immediatamente, Neste caso não ha 



i96 Noticias dás Sòiencias, 

ebulliç&o nem separação de gaz , ou o resfriamento 
seja gradual ou repentino. O cobre parece oflêrecer 
phenomenos assas análogos. 

O D'* Gmelin , de Tubinge , achou que o Clinks- 
tone de Hohentwiel dá ammonia ; outro tanto acon- 
tece aos basaltes. 

Ainda não pudemos haver a Memoria de MM. Pelle- 
*tier e Gaventou , sobre as Colchieeas , de que faHámot 
nas Noticias do Tomo VIII , pag. i4a. 

F. S. C. 



AVISO AO PUBUCO. 

A continuação do Catechismo de Agricultura tem 
sido demorada pela grave doença de olhos que sobre- 
veio ao nosso Collega o Sn'. J. D; Mascarenhas : a bem 
(andada esperan(|a do seu restabelecimento , e a próxi- 
ma chegada a Paiis do seu parente , o digno autor das 
Georgicas Portuguezas , que vem estudar a esta Capital 
« que poderá ajudá-lo a pôr a limpo os apontamentos 
para a conclusão d'aquelle trabalho, nos fazem esperar 
que d*eUe possa gozar o Publico dentro de alguns mezea. 

Os RSDACTOILIS* 



Obs» Meieor. i57 

RESUMO 

DAS OBSERVAÇÕES METEOROLÓGICAS 
wmié iro oisBav ÁTOMO eigio di vabU. 

lí. S. o Thermom^tro he o centígrado; o BaroHietro metrícQ, 
e a elevação d'efte he reduzida ao zero do Tliermometro. 

• • • • 

JJNEIRO iftlO. 

Maior elevação do merctmo. • 77^™"*» 60 % í 9 

^ Menor ditU 709, 89 í j. \ 19 

Maior grão de calor. . . . + i3o, 4° í *^ j 27 

Menor ditto *"- 14» ti5 ' f 11 

claros • 16 

nublkdos . '.'..'•' 12 

de chuva . ' ir 

de vento 3i 

Numero de / de uevoa • • •' . .' • Í't 

dias I de gelo ai • 

de neve r 

de saraiva 9 

de trovoada • • • • • o 

N g 

N.-E. 5 

E. I 

Dias em que f S.-E. i • l 

ventou do ^ S * • . • 6 

S.-0 7 

O o 

N.-0 5 

Thermometrot no i®, iao,o74* 
subterrâneo (a 16 ia ,074- 

INopateodo. .^^ 

Observatório, f *♦ » 2^ 

Sobre o Ob- í ^ - 

servatorío. ) ' ^ 



i5& Ob^.^fetiíof. 

FàrÇ9LKtKO. 

Ifator elevaçio do merctirío • 766"*, ^9 1. 

If eíiòr ditta • nAi\ o3 \ ,. 

Maior grao de calor. . . . + 140, ii5 / »<>Mws 

Menor ditto + é> a5 > 

claros 16 

noblados .«^.«.13 

de chuva • • • • . ^ ^ . 

j I de vento ...... ao 

Numero de I j^ ^ 

*^ "J. / de névoa « . « é • . 29 

*^ ^ de gelo • '4 

de neve. ...... i 

de saraiva .«•••• f 

de trovoada < • . • « o 

N. ^ § 

N.-E 5 

E \ 

Dias em que ) S.-E. .•*•.•< 5 

ventou do ] S. , g 

S.-0 5 

N.-O I 

Tbermometrof no i»^ iao,074» 
fubterraneo \ a 16 , ia 1074* 

!No pateo do \ ^ ^^ 

Observatório. 4 ^ ' 

Sobre o Ob- \ ^g 5 j 

, servatorio.' | ' 



ao 



Obs, Meteor, 



1% 



Mjbço. 



Maior elevação do mercmio . • 

Menor ditta 

Maior grão de calor. ... 
Menor ditto 

claros • 
nublados 
de chuva 
de ven|o 
de névoa 
de gelo 
de neve 
de saraiva . 
de trovoada 



7^6, 33 
+ ao®, jS 
— 5, 5o 



Kumero de 
dias 



Dias em que 
ventou do 



N. 

N.-E. . 

S.-E, , 

1 S. . . 

\S.'0. . 

o. . . 



4 



N.-O. . 

Thermometrot no lO, iaO)074* 
•ubterraneo \ a i6 , i!» ,069* 

!Vo pateo dol ^ -« gj 
observatório.! ^ * 
Sobre o Ob- t ^ 
fenratorio. j ' 



,73 



nof dias 



a3 
8 

i3 
I 

o 

7 
6 

o 

a 
3 

i 




FIM DA TA£T£ ÂfiGUNDA. 



• « 



>6o 



ERRATA. DO TOMO VUI. 







Pkntn paxxBiAA. 


i^v- 


•filfi* 


tUROS. 


EMENDAS. 


ia — 


18 


aindtm aii 




ai — 


aa 


entendo ... 


entendésdo 


a4- 


I 


literatura 


kitnrÉ 


35 — 


8 


Cap. ULIIJo. 


LKIIIfo. 


3« — 


ag 


cooupação 


deenpaçlo 


46- 


a8 


•eccao 


fetçto 


'ãz 


a7 


* £m* these em gehd 


£m these geral 


18 


ebdmá 




71 — 


3 


perder 


aperd«r 


96- 


ia 


da 


de 


lOI — 


i5 


de 


do 


ibid. — 


16 


. cacja 4os fneteê . . 


pada bam dos mexes 


108 — 


16 


os gríko 


grio 


ibid.— 


a3 


grl 


grão 






\ PAa.TK S^GFNDA^ ^ 


5o — 


8 


compa a^o 


comparação 


i56 — 


a8 


com a congéUtlò 


coiá qiiè á congelaçto 


143 — 


a3 


prestas • 


p^ias 



ÂOS CÒRREâPONDKNTES. 

Recebemos a Memoria e o Poema do SQ^ Jozé Rinta 
Rebello de Carvalho. 

A Memoria do Amante do Bem publico nào entra do 
plano da nossa obra. 

A interessante Memoria do Sn^*. Visconde de Santa* 
ren^ irá no Tomo immediato. 



CATALOGO 

Das obras mais notáveis que se tem puíUcado 
até aoji^ de Março de i8ao y em (Uversas 
línguas f sobre as Sciencias y Artes e Letras y 
com o preço das que sào impressas em França^ 
encadernadas empapeL 

iV. B, £m cpianto ^ encadernações ^ veja-se a adtertencia 
DO Catalogo do Tomo III. 



#»»<%«%^<i<i»»<fc^i»»%»»» 



OBRAS IMt>R£SSAS EM FRANÇA^ 

Obtitíjd áHmtnciadas nos catálogos antecedentes > que 
éc publieào por súbscripçào ^ e de que sahíráo novos vo^ 
lumes j ou secções r 

V, Bk Os números encerrados adre parehàhesés indtcão o 
Tomo dos AnnaeSy e a pagina^ ou nfié no e atal ogo em ^ue a oèrtt 
Jbi annunciada* 

ilistoire Haturetle Jes ÓrangerSj etc.; par ÉíMo; ( Ilí. 'd. ) 
Sahitao as i4** à i5*. see^oet , com 6 estampas cada hurnii^ 

jttistoire natureile des táammijhres^ tXit,^ pat itlÉ. Saiiit-Hilaíre 
et Caviei'. ( V* 4 ) SaUrao ai 1 1*^ , ii^. 6 i^>. éecções^ 

Gollection Complete de Mémóires retaiifo à Vhistoire de FMic&f 
etc. ; par M. Petitot ( YI. 17. ). Sáhlrio I» Tomos Vil e VIÍL 

TamilX.Pé^^^ ti B 



Plans raisonnés de toutes espèces de jardins ; par G. Tbouin 
( Vr. I . ) SaVo % ^t. 0çcfã«í. 

Dictionn^ire fustorique, elo.; par Fabbé St. X. de Feller. 
( I. p: $. >SAMr&o o 3o. e 4^ Tomos do Supplemento , com 
« <}cie' Mtá eoBcluidii a obra ; pr. de oada vot^aie , 7 fr» 

Hístoire JtÃn^tett*e depuis Vinposion de Jules-César^ etc. ; par 
^áméi ( Tf. 1$. } Sahirio o YII e Vm voL 

Le Jardin Fruiiiery etc. ; par ]U NoiaetU. ( lY. 40 Múo «12». 

secção. 

* I 

Anatomie et phjtstologie du sysihme ner^eux^ etc. ; par MM. Gall 
et Spurzbeim. ( II 63. ) Sábio a 1^, Parte do Tom. lY em foi. 

com 17 estampas , pr. \io fr. ; em 4^- 60 (r. Com esta sec- 

« 

çao fica completta a obra ; a qual em 4 vol. com 1 00 es- 
tampa* custa , em (4A, 960 fr., e em 4^. 4^ fr. 

Yíetoirea, ConqueUs^ elc^ ( VI. 3 1 .}. S^bío o Tom. XVJI. 

blctioniiaíre ãés Sciences médicales , Mc. ; ( I. p. 8. ) Sabirio os 
Tom. XL e XLI. ( PEC— PHR. ) 

More dtt Dietíonhàire des Seienees médicales , etc. ; ( IV. 5. } 
Tem sabido «té é 97^. secção; 

QEavres completes du Chancellier d^Aguesseau , etc. ; par M. 
Pardeêsus. (IV* 58. ) Sabirão os Tom- XI e XII. 

Piantias de la Bnmeey etc., p«r X«ama 5ftii|t-Hilaire. ( !¥• i. ) 
Sabirão as 16*. e 17*. secções. 

Hístoire natunelle générale et particulière des moUusques , etc. ; 
par M. le Baroa de Férussac. ( I. p* i. ) Sábio a 6*. secção. 

IVoíMimeM mviiem ^ modemes de Vlndoustan , etc. (IV. 1 1 • ) 
6abio a se*, «eeçio. 



Traít^ òofliplet i^- mécamiquc oppliquéa ai^X jÍ/U , eic* j par 
BorgQÍs(IIL 3w). Sábio Q 3^. Trfi^do (Machines para 
tecer )• - 

OíSiirrei completei de MJ^ ía BarvkMé de Stael, eCc. ( Vltl. 1 6. ) 
Sabirio 06 yJU e IX rolames. 

AGRICULTURA , EconOMIÂ RURAL E DoMESTlCA , HlSTORlA 
ÍTATURALy ChTMICA, BoTAVICA, InDUSTRIA B ArTE^. 

I « Traité sur Vart de la ckarpenU théprUgue et fNvttique ; par J* 
Gh. Kraffi, archítecte* 

Esta obra será composta de 6 secções em íol. coro to eS" 
tampas cada buma , fóra o texto ; este be escripto em três 
columnas , a primeira em francez , a segunda era allemão , e 
a terceira em inglez. Sábio a i^. secção j pr. de cada boma 

a. Da tb^, o a NouveaU T^Ué sursa culture , sa récoíte, sapré" 
paralion et ses usages ; par F. Marquis jeiíne* i vol. 8o. com 
estampas; pr. 4 fr. 

3. Goars de phjrtólogie ou de hoianique pratique générale ; pár 
le Cb.<^r Âubert-Aubert Dupetit-Tbouars. Seconde séance — 
Pbjtognoiiiie« i vol. ^o. ; pr. a fr* 

4. Art defaire le vin et de disiiller les eaux-de-vie j par A. C***4 
I vol. 6®. ; pr. 3 fr. 5o c« 

5. Économie de PagriculUíiT ; par le Btroo £« Y* B. Crud. i Tol. 
4**.; pr. i5 fr. 

LITERATURA £ HISTORIA. 

6. Parallèle et critique impartiale des W^d^/uMons des Buçolifueê 

II * 



(4) 

^ íHgrsf rançais de MM. Tissot et Hetiri de yuiodon ; par 
M. Lchodey de Sault^Chevreuil. i vol. *; pr. 3 fr. 5o c. 

7 Histoire de la guerre entre les États-Unis d^Améiique ei 
iAngleterre pendani les années 1 8 ip , i3 , i^eí i5 ; par 
H. Brackenrídge , citoyen amérícain ; traduíte par A. de 
Dalmas , ayec nne carte du thé&tre de la guerre. a vol. 8o. ; 
pr. IO ir. 

8. Discoars et opinions de Miraheau ; precedes d*ane Notíce 
historique sur sa vie , par M. Barthe , a\ oeat ; et de VOraisom. 
Junèbre prononcée par Cératti , lors de ses fuDérailles ; d*aQ 
ParaUèle de Mirabeau et du Cardinal de Reiz ; par M. le 
Comte Boissy d* Anglas , et des Jugemens portes sur Mira^ 
beau , par Chénier et M. le Comte Garat. Sahirio os Tom. 
lell. 

Esta Collecçio ,qne terá por titulo :Ze5 Oraiewrs /rançais i 
sahirá por series ; a primeira ha de conter os discursos de 
Mirabeau , Bamaye e Vergniaud , em 4 volumes. Preço de 
cada vol. 6 fr. 5o c. 

9. OEuvres de Ihomas. 2 vol, 80. ; pr. 16 fr. 

Ha nesta edição obras do Autor , que .nunca forio impressas* 

10. Mémoires pour servir à V histoire de France en 1 8i5 > avec 
le plan de la batailledu Mont-Saint-Jean. i voI.So.^pr. 5 ir. 

1 1 • Le tbéÀtre des Grecs; par le P. Brumoj. Seconde édition 
complete , omée de gravares d'après les desserns de Moreau 
le jeune, MariHier et autres; revue, corrigée et augmentée 
de la traduction d'un cboix de fragmens des poetes grecs 
tragiques et comiques } par M. Raoul Rocbette. 

Esta obra deve apparecer em 18 secções, a saber i5 de 
texto , e 3 de estampas. 



(5) 

12. Príncipes de liilérature , de phUosoptne , de polilifue ei de 
mor ale. Sábio o *Tom. lO. ; pr. 4 fr. 

i3. Descríption siatistique , hisíorique et politique des Eiats^ 
Unis de VAmérique septentrionale , depuis Vépoque des pre^ 
miers établissemens jusqiCà nos jours ; par D. B. Warden , 
ancien cônsul amérícain à París. Traduite de Tanglais. 5 
Yol. 8o. avec une carte , un plan et une vue ; pr. i^o, 

i4> Histoire de France depuis la mort de Louis XVI , jusqu'au 
Traiié de paix du io novembre 1 8 15 ; par M^ Gallais. Pour 
servir de suite à V Histoire de France de M. AnquetU. 3 
vol. lao. ; pr. ia fr. 

x5 OEuvres de Bossuet^ Evoque de Meaux , rerues sur les ma- 
nuscríts oríginaux et les éditions les plus correctes , avec 
une Table analjtique et alpbabétiqne des matières. 4^ "^oL 
8o. ; pr. de cada vol. 7 fr. 

t6. Lettres inédites deBossuet, Evéque de Meaux. i voL 80. ; 
pr. 1 fr. 5o c. 

Estas setenta cartas , nSo tendo sido descobertas , senão 
depois de estar quasi acabada a edição do ultimo volume 
da obra acima , não poderão ser comprebendidas naquella 
edição. 

17. Xénopbon : la Cjrropcedie , ou Y Histoire de Çyrus et Veloge 
d*AgésUa'ús ; traduit du grec , par M. Cbarpentier de TA. 
F. 2 vol. 120. ; pr. 5 fr. 

18. OE»Yres de Lord Bjrron» Tradoitf de Fanglaís. 8 voh lao. ; 
pr. 4^ fi** 

19. Tableau sjrnopiique de r Histoire de France ^ etc. pour servir- 
de suite à l'Abrégé chranologique da Préiidfint Hainault ;. 



(é) 

(111' Bf . Èâfàéê y <Mf (fé ímrêmt éait Atétívêi áé fiftír^erthê 
de France. 3 vol. 8o. ; f r. !i4 fr* 

ao. La France ancienns et modeme ; par A^ €arel , inajor de tf 
Léf^on de FYonne. % toI 8o. | pr, lo ir. 

Si. Suite d^ quatre CóAeâtdaU; pát M. ò€ Prffdt , áncien 
ArélMftéqite dcf ttáfines. r tol. ^> ; ^. 4 ^* ^o c. 

33. Essaí 5i«r Vhbtoire ancienne et modeme de la nouvellm 
Mussiep SiUtútútpe de» Provitteea qui U conposeiit , Fcmdar 
tioB d^Odeátf», etc.f Yojage es Grniiéé j dant Víntér^ de 
PagríeiBltufé eC dm eoAmérce, «réc cartes , T*es , plans , 
etc. Dédié à TEmpereur Alexandre. 3 vol. 8o. i pr. ^4 ir. 

a3. Système analytique des connoissanees de thomme rtstreinte^ 
à celles qui provienneni direciemeni et indirectement de 
Pobsenwtion } par M. le Gb.er de l^ataarck. i Yol. 8o. ; 
pr. IO fr. 

^4* tA France teUe tpielle est , et non la France de Lad^ 
Morgan { par Willíam ^lajíaír. Oavrage traduit de Tanglais 
par Fauteur des Observations surla France de Ladjr Morgan^ 
T voi. 80. ; pr. 7 fr. 

aS. Les ruines , ou Méditaiion sur les révohUions des empires ; 
par C. F. Yolnej , pair de France , Membre de Flnstitut , 
ele. I vol. i8o. ; pr. 3 fr. 

a6. Histoire du Parlement anf^is depuis son origine en Van 
1234 jusquen Van VI J de la Republique française ^ ele. ; 
par Louis Buooa parte , avec des Notes autographes de Na- 
poléon. I vol. 8<^. ; pr. 6 ÍV. Lqíz Bomrparle déckrott piá)lt- 
caniente que esta obra nio era sua. 

37. Hechercbes swr les Ikngues fartares ^ on Mémoires smf diffé- 
rens points de la grammairCei de la liiiéraUtre des Mand- 



Í7J 
chous , de$ Mo^ gm i s , des Chugours et des T^éUtms; par 

M. Abcl-Remusat. Sahio o Tom. I €m 4^.^ pr. sSfr- 

38. Georgicas Portuguesas ; por Luiz ^a Sílra Motkilio de AI* 
baquerqae , dedicadas a sua mullwr D. Amia Mácai«nli«s de 
Ataíde. I vol. 1 9^. ; pr. 5 fr. 

MATHEMATICA, PIIYSICA, ARTE MILITAR, NÁUTICA, 
GEOGRAPHIA , TOPOGRAPHIA , DESENHO. 

29. ObsenratíoBS surla cavalerie lé^re^ et Projet tTerganisa' 
tion d'un nouveáui cerps (Téclaiivurs* i vol 8^. ^ pr. a fr. 5o c. 

30. Atlas de Géographie ancienne , pour servir à ViF^Hígence 
des C^uvres de Rollin ; grave d'après les caries origiilalcs 
de d'AnvHle. 2^ planches in foi. ; pr. 8 fr. 

« 

5i. Nouveau Dicíionnaire de Marine ; par ^le Více-aimral Vil- 
laumez, i vol. 80. \ pr. 12 fr. 

02. Vues des principaux poris et rades du Royawne de Franca 
et de ses Coiames ; deasinées par OflEftime et gráFéee par 
Gouaz , avec uu texte desotty tif , géDgra|ibif[ue et atatis- 
tique ; par N. Poncc. 

Tem apparecido 10 secções em foi. ; pr. de' cada hiinia 
10 fr. 

33. Dictionnaire universel - aífrégé de géographie ancienne com^ 
parée , etc. ; par M. Brué. a vol. S^. j pr. 1 6 fr. 5o c. 

IffEDEClNA , aRURGIA , PnARIf ACU , ARTE 

VETESiniAIIIA. 

34. lustructioBS sur la sanlé des femmes enceintes et sur leã 
mqyens de la comeivcr , suivics de Femploi d'un nouveau 



Cfl) 

médicament propre à boiUter et aectflérer Vaccoiidiement. 
in lao. ; pr. a fr. 5o c» 

?5. G>ar8 comphi des maiáuUes des jreux , suivi d'un lYaiié 
abrégá d^h^iphne occulaire ; commefaisan$ pariie iniégmnte 
de ce coun ; par F. de la |lue. i yoL 8o. ; pr. 6 ÍTt 

36. Nouyeau^rmfi/oiní medicai et pharmaceutúiue ; par Etieime 
Sainte-Hane^ i vol. 8o. • pr. 5 ir, 

^7. Conspectos des Pharmacopées de Dublin ^ étÉãanhour^ , de 
Londres et de Paris, Suivi d'(in jfppendice extmit des Phar* 
putcopées de Beriin > de firéme , de Copenhague , de Péters- 
bourg f de Philadelphfe , dç Stockholm et de Flenne / conte- 
nant un préçis des propriét^ et des doses des médicamens 
simples et compaséf , et des remarques pratiques sur lenr 
emploi í par HM. £. H. Desportes et F. S. Constâncio, 
Docteur^ en inédeçi|ie ; pr. 4 ^> 5p c, 

POLITICA, VIAJENS , COBfMERaO. 

58. Abrégé de Vhistoire générale des voyages , par íahmrpe , 

réduit aux traits les plus intéressans et les plus curieux \ par 

Ant. C^***. pmé de 8 figures en taille douce. Tem apparecído 

ia ypl 8Q. a pl>r^ d^vç conotai* de 1^ ; pr. de cada yoK 6 fr. 

59. Troisième vojage de Cook ^ou vojrage de VOcéan pacifique , 
ordonné par ie Roi iJT Anf^eterre , pourfaire des découvertes 
dans Vhémisph^re ^ord, pour déterminer la position et 
Vitendue de la cote ouest de VAmérique septentrionale , la 
distance de VAsie , et résoudre la question du passqge au 
nord ; execute sous la direction des capitaines Cook , Clark 
et Gore, sur les vaisseaux la Résolution et la Découyerfe 
çn 1676 , 77 , 78 , 79 W 8o« Traduit de Fanglais par M. 
p.*** 4 vol. 80. 



(9) 

Esta obra nao se vende senio com as doas primeiras via* 
jens , e forma com ellas i8 vol. 

4o. Second vojage de Mungo-Park dans Viniérieur de VAfriquidi 
pendant Vannée de i8o5, précédé d* une JfoUce hUtorique 
et biographique sur la mort de ce célebre vojrageur, etc. 
Traduit de Tanglais. Ouvrage omé de planches , da portrait 
de Mungo-Park et d' une carte, i vol. 8®. ; pr. j fr. 5o c. 

^ I . Voyage dans Vintérieur de V Afrique , aux sources du Sé^ 
négal et de la Gambie ^ fait en 1 8 1 8 , par ordre du Gott- 
vemementf rançais ; par G. Mollien. i vol 8®. ; pr. ia fr. 

4*2. Voyage de la cote de Malabar à Constantinople par le Golfe 
Persique ^ VA rabie ^ la Mésopotamie , le Kurdistan , et la 
Turquie d*Asie , fait en 1 8 1 7 ; par William Hende , avec 
une grande carte et des gravures. Traduit de FAn^is, 
I vol. 80.; pr. 12 fr. 

OBRAS IBfPRJESSAS EM FAIZES ESTRANGEIROS. 

Inglaterra. 

P radical hinis on Domestic Bural Economy , relating partícur 
lary to the management ofKitchen and Fruit Gardens , and 
Orchards. 80. 

A Catádogue ofthe best fTorks on If aturai History , in ali Lan- 
guages , arranged in classes , accordingto the Linnean Sjsiem. 
By ir. ITood. 

An Elementary Treatise on Mechanics. By W. WheewelL M. 
A, 80. 

General Indications which relate to the ídgws of Organk Ufe 
By Dan, Pring. 8©. 

An Essay on Phrenology ♦ or an Inqiiiry into tke Principies 



( to) 

ááãVtiÍBy èfêhè âySièm àfD.'* Gatt aná Spurthãnu By 
O. Cambe. 8o. 

Ah Aúcoumt nfth^ Fkrioloid Epidemib , whkh has UUeiy pre\ 
pttUtd in Êéihburgh and other paris qfScoíUtnd, Vi^Uh Oèser- 
vatioHS xm ihe identíty ofChècken Fox wàh modi/ied Small 
P0St , 6é a Lfíêer to Sir James Mac Gregor ^ wiih a copious 
jíppendix qfinteresimg Documenis, By Jéhn Thomson , M. 
p. F. R. S. E. 8o. 

Papeis Essay en Man und MesSiah transluted inio Poríuguese 
Verse. By His Etccelleney ihe ViscoiuU de São Lourenço , 
wUh Annotations in Eighí Languages , and Splendid Embel- 
Ushments. 5 vol. 4^. 

Traveis in Núbia , tind in the Interior ofNoríh Eastem Africa. 
Perfbrmed in the monihs of Fehruary and March, i8i3. 
By J, L. Burckhardt. To which is prefixed a lije of the 
Author, H^ilh a Portrait , Maps , etc. 4o. 

The Diavy ofan Jnvalid in pursuit of Health ,• beíng the Journal 
of a Tour in Portugal , Italy , Switteriand , and France , in 
the Years 1817,1818, 1819. By Henry Matthews^ A, M. 
Fellow of Kings CoUege , Cambridge, 80. 

Traveis in Jlaly, Greece , and the lonian Islands , in a Series 
of Leíters , descnptive of Manners , Scenery^ and' the Fine 
Arts. By H. PT. Jf^illiams , Esq, 2 voL 80. JTith Tweniy En- 
gravings. 

Manual of Chemislry. By IV. T, Brande, 

'lhe Ah of instruciing the Infani Deaf and Dumb, By J. P. 
Arrowsmith, Illustrated with Plates , drawn and engraOed 
by the Author's Brother , an Ar/ist bom deaf and eUwUf, 80, 

An Elementary Trentise on Mecfianics , Vol, I coniaining Statics 
and pari of DynanÚQS^ By }V, iVhe^eell. 80. 



( It) 

An Afudyíicàl EiSày on ihe Consiructíon of Jfíaehines , ãlus^ 
trated bj thirteen Lithographic Plates, 

Manual qf P radical Anatomy. By Edward SUtfãèy, lao. 

Medicai Tofmgraphy <^ Upper Csjuida, Bf Joho^ DúUf^as. 8^» 

Observations on lhe Yellow Fever ofíhê ffest Indies* Mjf ^ 
Dickenson. 

An Essay «n the Diagnoàis betvt^eêH Eryíípêtas y Phlegmori , 
and Erythema. By G. H, ff^éaiherhead.So, 

Opinions on the Causes and Effbcts qf Diseases in the Teet/i 
and Gums, By C. Bew. 

A Treatise on Aneurism, with numerous Addiíions, and a Me- 
moironthe Ugature ofthe principal Arteries of the Edctrex 
mities. By A, Scarpa, Translated from lhe Italian^ wilh 
Addiíional Cases , and an Appendix. By J. H. ffishart, 
F. B. C. S. S«. 

Observations on the Use and Abuse of Mercurial Mcdecines 
in various Diseases, By Sames Hamilton jun. M. D, 8o. 

Practical Observations on the Means of Preserving the Health 
of solditrs in Camp and Quarters, with Notes on the Me- 
dicai Treaiment of several qf the mosl important Diseases 
which werefound to prevail in the British Aimy duri/ig 
the lale }far. By Ed, Thomhill Luxscombe, M. D, ele, 

Facts and Observations on lÂver Complaints etc. By John 
Faithhom M. D, The 4**^ edition , materially enlarged, 

An Inquiry inio the nature of Tuberculated Acctetións qf seroas- 
MembraneSf etc, J^y fohn fíaron, 8©, 



í ia ) 

Surgical Essays. Pari IL Bjr AsUey Cooperanã B, Tmvers 8o. 

The Dublin Hospital JReports, and Communications in Medecine 
and Surgery, VoL II, 8o. 

Medico Chirurgical TransacUons, VoU X, Pari. II, 

Observations on the Nature and Cure of Câncer , and on the 
ioo frequent use of Mercurj, By Charles Aldis» 

A shori account ofsome ofihe Principal Hospitais ofFrance, 
lialy , etc, By H. fT. Cárter. 

On Apoplexy. By J. Cooke. 

lhe Morbid Anaton^ of the Us^er. By J. il. Parre, Parts I 
and II wiih Coloured engravings, 

Paihological Besearches in Medicine and Surgery. By /. B. 
Farre. Pari I royal 8^. iUustrated with coloured engmvings, 

HorcB Entomologicm , or Essay on the Annulose Animais ; with 
plates. FoL /. PaH. I. By VT. S, Macleay. 8o. 

Sound Mind, or Coniributions to the Natural Hislory and Phy- 
siology ofthe Human Intellect. By J, Haslam, 8». 

An Analysis ofthe Egyptian Mythology , designed to Ulustrate 
the Origin ofPaganism , etc. By James Cowles Pritchard, 8«>. 

An Introduction to the study of Conchology , including the 
Unnean Genera , etc. By Samuel Brookes. 

Supplement the Encyclopeedia Britannica ; Edited by Maevey 
Napier, F. B. S. Foi. IF. PaH I. 

Traveis in the North of Germany , etc. By Thomas Hodgskin 
Esq. 2 vol. 8». 



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HKTCUS, DÀS ARTES, M\\ | 


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^^^^k>s «. torít, *» iit (.• riM«mint, ^- Çk 


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•( i4) 

De exfremiiaie anteriore^ialpas com braçhio humano compataia, J 
j4ucL Mag. Ljunggren, Lundce ^ 1819, </i 4^- ; 

Observationes in Anaiomtam clwndropterygiorum praecipuê 
squali et raja generum, Auct, Reiiius\ c/tir. mag, Lundie* > 
1819^1/1 4^- ^'^^ tabula cenea. 

Commeniatío de gymnoto eléctrico* Auet. Fr, S. Guisan , Ai^n* 

ticensis, Tubingce , 1 8 1 9 , in l\^, cmm iab. anea, 
Ideen %ur AneinanderreUiung der rucktalhigen thiere , etc. voh 

5. Fr. GschscttoU. Dorpat , 1819 , 80. 

De Selachis Aristotelis Zoologim geographicm tpecimen Jitatigur» .^1 
Auct. E. Eickwald, ffilnw ^ 1819. 8o* ^ 

Disputatio physica de elasticHate torsionis út filis mtáàUiciã^ AudU 

C, J. D. Hill et G, Lavergren, Lundce^ 1819. 8^. ^ 

JN^oviíue Floris Suecicie, Auct, E, M, FHes, pro laurea, Lundae /• 
í^part. I , II, lil, iSi^i ir, 1817/ ry 1819. 

'Flora Hollandica, Auct, E, Fries» Lundas , 1817 e< i8t8. So« ' 

Aphorismi Botanici, Auct. C. A. Agardh , prof. Bolan* Lun* 
dini gothici. 1817 — 1 8 1 9. 80. 

Compendiam Florte PhUadelphicas. Auct, Jf\ />. £• BatioH Mé 

D. prof, boi. in Unix^, Pensyhan. 1818. 8^, 

Versuch einer Monographie der Kartoffeln ; van C» W» E0 
Putche M. D, et F. J. Beríhuc. 1819. 40. 

Obsenuítiones Stuechiometricte ad Mi/ieralogiam perti/ieiUci* 
Auct. C. Cr. Bctzius, Fase. I , Lundte. 4^. 





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BCIEWCIAS, DAS ARTES, 


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E DAS LETRAS; 


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' Cu»te. £u<^ £'<u|t. rt.f!.> 7». 


1 


^H TOMO X. 


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TKMCKtao Aifao. ^^H 


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à. watíx, «f» ot i* TkBummT ""- n- 


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ANNAES 



DÁS 



SCIENCIAS, DAS ARTES, 



£ DAS LETRAS. 



J 



ANNAES 



DAS 



SCIENCIAS, DAS ARTES, 

E DAS LETRAS; 

FOR HUMA SOCIEDADE DE PORTUGUEZES RESIDENTES. 

EM PARlS. 



Desta arte se esclarece o entendimento, 
Que experiências fazem repousado. 

Camõbs y Lus. CanU yj. Est. 99* 



TOMO X. 



PARIS, 

IMPRESSO PDA k- BOBÉE, IMPRESSOR lík SOCIEDADE REAL 
AGAPEMIGA DAS SGIEirGIAS DE PArIs. 

1820. 



AP 



ANNUNCIO. 



«»^i%^»^^^>* »i^%%i%i^ 



Os Redactores dos Annaes das Sciencias , das Artes 
r das Letras , pnrticipão aos seus Assignantes , Corres** 
pendentes, c mais pessoas residentes nos dominios por«> 
tiigiiezesy ou em paízes estrangeiros , que elles se 
encarregão de comprar e expedir , a quem o desejar , 
quaesquer livros , estampas , mappas geographicos, ma- 
cliinas , modelos , instrumentos de physica, de cirurgia , 
e de chymica, apparelhos distillatorios , sementes e 
raizes de plantas, productos (hymiros, e em geral, 
todos os objectos relativos ás Sciencias eás Artes, pe- 
los pregos dos catálogos, e das fabricas *, tudo da mè*- 
Ihor qualidade , e sem defeito. 

Igualmente se encarregão de dirigir a impressão de 
qualquer obra escripta em portuguez , francez ou in* 
glcz , e de fazer abrir chapas em cobre, pedra, pao, 
ou de fazer Utliographar debuxos. 

N, B, O importe das compras e gastos ser-llies-ha 
pago em Paris. 

As pessoas que desejarem fazer segurar em França o 
impoite das suas encommendas , terào a bondade de o 
participar aos Redactores. 

As cartis , maços , e remessas deverão ser dirigidas 
( porte pago ) ao Director dos Annaes, do modo abaixo 
indicado. 

A Monsicur J. D. MAscAnEiiHAs, 
Direcleur dcs Annaes das Sciencias , das Artes r Jas 

Letras^ 
Rue S^ Ilyacinlhe, >'<'. 12, à Paris. 



a* 



Nomes das pessoas que^ tem subscripto no nosso Depo- 
sito do Maranhão j e das que tem continuado a sub- 
screver nos de Lisboa , Porto , Bahia , Havre e Parts , 
para o i^. anno dos Ân&aes das Sciencias , das Artes 
e das Leti^as. 



mf9^m0i0m^^ 



A. 

Os Sn.ret D.or António de Almeida. Caldas. 

— Coronel António Bernardo Pereira do Laooi 

— António Ôomes Pires , Presbytero secular, 

-* Chefe de Divisão António Joaquim tt OliveírAi 

— António José Barbozo^ 

— - António José de Carva-lao b sa , Corregedor*da Co« 

marca de Miranda. 
-^ António Pedro da Silta PedrosOí 
»^ António Rodrigues ToscamOí 

B. 

Os Sn.f«s Bebnárdo José de Oliveira Teixeieà Caibal > Dire<:« 
tor do CòUegio de S. Gregório^ 
•^ Bebnabdo MA.BIA de MOAÁBi. 

c- 

o Siir« GuftoDio MAfroBL Vibieà ob Abau/o« - 

D* 
O Sn.i^ Diogo Bivai. 



df Sn.rei Domiioos BoftOis db Babros. 

— Dez.oi^ Domingos Mokteiro Albuquekque do Amaral, 

F. 

Os SnJ^ Faancisco Corrêa da Conceição , Cirurgião mór nê 
Maranhão. 

— Tenente Francisco José da Costa. 

— Tenente Coronel Francisco vo Vale Porto. 

— Francisco Xatier de Carvalho. 

— Francisco Xatier RiBctRo da Fonseca. 

G. 

Os Sn.r«* Gabribl Dayid Hintré , Negociante. 

— Gourdon. 

H. 

O SnV* Coronel Honório José TsiXEitA» 

I. 

O Sd^ Ionacio António da SaYA Lisboa , Negociante. 

J. 

Os Sn.res Ajudante de ordtDS JoÃo DK SooiA Q«btedo Pizarro. 

— JoÃo DOS Santos Febjiira. 

— Joaquim José Tristão. 

— Joaquim Manoel Matra , Negociante. 

— José Amado GRBnoii ^ Secretario da Ijegaçio poitn* 

gueza nos Estados Unidos. 

— José António Gonçalves , Negociante. 

— José d'£spie , Negociante, 



Os Sn.*** Capitão Josi Piaucisco Gonçaltes da. Silva. 

— José Trancisco Souto dâ Silveira. 

— Alcaide Mòr José Gonçalves da Silva.- 

— Capitão José Joaquim de Moura. 

— José Pimentel Freire. 

— José Rodrigues de Figueiredo. 

— Tenente José dos Santos Monteiro. 

— Cavalheiro José Tavares da Silva. 

— José Taveira Pibíentel. 

L. 

O Stír, L. F. Serpa , Negociante. 

M. 

Os Sn.r«> Manoel Corrêa , Presbjtero secular. 

— Capitão Manoel da Cunha. 

— Tenente Coronel Manoel Ignacio da Cunha e Menezes, 

— Manoel José de Oliveira Pinto. 

— Manoel Policarpo da Silva. 

— Manoel Rodrigues de Oliveira. 
— > Manoel Thomaz Peixoto. 

— Miguel José de Oliveira Pinto. 

B. 

O Snr. Major Rodkigo Pihto Pizakw. 

T. 

o Sn^. Tbomas Josi Monis, 

V. 

o Snf. Db Viaico, Secretario da Legaçio Cranceza em Turiiu« 



/ 

— DeZ.O<^ DOMIKOOS MoKTEIBO AlBUQUEBQUE do ÀMlRAt, 

F. 

Os Sn«f^ Faancisco Corrêa dá Conceição , Cirurgião mór n« 
Mftranhio. 

— Tenente Francisco José da Costa. 

— Tenente Coronel FiiARciaeo im> Vale Porto. 

— Francisco Xatier de Carvalho. 

— Francisco Xatier RitcfRo da Fonseca. 

G. 

Os Sn.r«* Gabriel Dayid Hintré , Negociante. 

— Gourdon. 

H. 

O Snr. Coronel Honório José Tmxeiaa* 

I. 

o Sni". lOHàcio ÂHTONio DA SiiVA LifBOA , Regocíaote. 

J. 

Os $n.r«s Ajudante de ordtDS JoÃo de Sov%a. Qvbteoo Piearbo. 

— JoAO dos Santos Ferjuba. 

— Joaquim José Tristão. 

— Joaquim Manoel Matra , Negociante. 

— José Amado Grbhov » Secretario da Legação poirti»-' 

gueza nos Estados Unidos, 

— José Antomo Gonçalves , Negociante* 

— José d'£spie , Negociante. 



PARTE SEGUNDA. 



CORRESPONDÊNCIA. 

Traducçio da Ode 11*. do Livro I.o de Horácio Pag. S. 

Columella^ traduzido por Fernam d' Oliyéin( Continuação) 6. 

Carta do D^". João da Silveira Caldeira , aos Redactores , 
sobre hum novo processo para obter a zirconia pura aS. 

Carta do Visconde de Santarém , aos Redactores , sobre a 
Collecçio de todos os Documentos Políticos pertencentes 
ao Direito Publico , Externo , e Diplomático Portuguez , 
desde o principio da Mooarchia até aos nossos dias a6. 

Soneto hespanhol do Snr. Iforatin j ao autor das Georgicas 
Fortuguezas 5o. 

NOTICIAS DÁS SCIENCIÁS, DÁS ARTES» etC. 

Reswno dos mais celebres descobrimentos e principaes tra* 
balhos nas Sciencias, no anno de 1819 ( Continuado )• 

Fhysica 5i. 

Meteorologia 75. 

Chjmica e theoria geral 98* 

Chymica mineral 1 1 1* 

Chy mica vegetal 11 8» 

Chjmica animal ia4* 

Resumo das Observações meteorológicas feitas em Lisboa , 
nos mezes de Março, Abril eMaio de i8ao /pelo Sa'« 
Marino Miguel Franzini t^ii 



Noticias recentes das Seiendas, ete. 

Pbysica Pag. 1 49. 

Chymica 1 5o. 

Hedecina i58« 

Besimio das observações meteorológicas feitas no Observa- 
tório Régio de Fftrts no segando trimestre de i8ao iSp. 

Errata do Tomo IX i6l< 

Erro importante do Tomo X ibid. 

Aos Correspondentes ibid. 



PARTE PRIMEIRA. 



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RESENHA ANALYTICA. 



Tom. X. P. 1». I A 



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RESENHA ANALYTIGA^ 



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REFLEXÕES 



A cerda da obta que tem por titulo : Coup-d'ceil sut 
Lisbonne et Madrid , escripta por M. d'Hautefort, 
e publicada em Paris , no mez de Maio do presente 
annOé 



K^vkisho sé considera ^ por tium làdo , (jiie toda à ioí* 
portancia da Geographia , e grande parte da da Histo- 
ria, repousa sobre a boa fé e sobre os escriptos doâ 
viajantes, e por outro se observa o sangue* frio e o 
espirito imperturbável , com que muitos doestes se atre- 
vem em nossos dias a publicar factos mentirosos , e 
opiniões absurdas sobre os diíTerentes paizes da Europa^ 
á face dos habitantes d'esses mesmos paizes ^ e de to- 
dos os estrangeiros ^ que , no estado actual da civilisa- 
cão j tão facilmente podem ter á mão as provas do 
contrario ^ o espirito prudente he autorísado a recusar 
inteiramente fé , não só a tudo quanto se tem escripto * * 
dos áridos desertos do sertão da Africa , mas , o que 
he muito mais essencial > dos vastos e riccos paizes da 
America e da Asia^ 



( Besehka Analytíòa. 

São tantas as qualidades que se requerem em hum 
viajante para merecer a honra de ser lida a sua viajem 
com interesse e confiança , e he ordinariamente tão 
despejada a vontade de escreverem todo o homem» 
que, ás vezes ,circumstancias bem indiíFerentes levái^ào, 
por acaso ) a hum paiz estranho, que esta s6 consi* 
deraçào sobeja para estabelecer, contra a miúor parte 
das viajens , huma prevenção razoada, e huma espécie 
de sceplicismo , que , infelismente , todos os dias se 
justifica; e se ao exame de tantas qualidades « indis- 
pensáveis ao vi^ijante instruído, se ajunta a da impar- 
cialidade, então acaba de todo a confiança ; por quanto, 
ainda aquelles que souberão prudentemente salvar-se 
dos escolhos mais difficeis, vierào varar, (fuasi sempre , 
nos btúxos arriscados das opiniões antecipadas , ou do 
amor próprio nacional. 

A queira , que em nossos dias se comprazeo enx 
desolar a Europa , produzio também huma nova classe 
de viajantes, ainda mais perigosa *, por que , tendo con* 
duzído a outros paizes homens , que , sem esta cir* 
curastancia, não tei ião sabido do seu, a maior paite 
doestes sem a vocação, e muitos sem os princípios 
necessários , não só esci'evérão o que ouvirão sem 
exame , ou o que apenas poderão ver com precipita- 
ção , mas avaliarão a moral , os costumes e o estado 
da civilisação de huma nação inteira, em huma epocha 
'de eflíervescencia e de consternação publica , com a 
xnesma verdade com que terião avaliado o caracter 
e as qualidades de bum bomcm , nos momentos mais 
exaltados do accesso de huma violenta febre. 



líèsenha Anatytíca. S 

t)*aquí vem as Historias de campanhas , os Resumos 
de operações de exeixitos , as Relações de expediçèes 
militares ) e hama infinidade de escriptos ephemeros» 
que ha seis annos a esta parte tem apparecido, qi.al- 
quer que seja o titulo , com que pertendào recommen- 
dar-se ; nos quaes , seus autores, considerados como 
viajantes , copiáràa muitas vezes os absurdos dos que 
os tinhão precedido , e não poucas ajuntarão os seus ; 
de modo que , este recurso tão essencial , como dizia-* 
mos j para a Geographia e para a Historia , cada dia 
se torna* menos útil , e annuncia huma epocha , se por 
ventura nho he já esta em que vivemos^ em que a 
abundância de escriptos neste género acabará de em- 
brulhar huma matéria, que de seu exi^e , dos que a 
tratão, a maior circumspecçào e clareza , o mais escru** 
puloso exam« e a maÍ5 austera verdade^ 

De todos os paizes da Huropa hnm dos que tem 
mais bem fundadas reclamações que fazer contra os 
escriptores de viajens , ke por certo Portugal : a sua 
posição geographica tão feliz, relativamente ao com-> 
mercio , não o favorece a respeito dos viajantes. Con- 
finado em huma extremidade da parte do eontinente- 
que habitamos , escasso em mai^avilbas da arte , e 
graças ao seu clima , privado inteiramente dos capri- 
chos e phenomenos espantosos dti natureza, Portugal, 
se por hum lado requer ser visitado expressamente , 
pelo outro não offerece ao observador philosopho os 
mais poderosos attractivos. Se a estas causas phjsicas 
le ajuntào outras eausas e cousiderações moi^iiefi , de- 



6 ResenJia Analytica 

todas ellas resulta , que a maior parte dos que escr»« 
verão as suas viajeus naquelie paiz, nào forào viajantes 
de pro'fissão , mas sim pessoas , que tendo sido levadas 
a elle por diversos motivos , quizerào aproveitar a 
occasião y e estes por especulação ^ aquelles por amor 
próprio y huns por mania de escrever , outros , talvez 
por servirem a motivos e caprichos particulares, em 
vez de viajens e documentos úteis para os Historiadores 
futuros y publicarão contradicçôes , falsidades e absur* 
dos ; e não podendo conhecer a verdade , ou desde* 
nhando dizé-la , em vez de pintarem ao natural , oa 
hábitos e caracter dos seus habitantes , cont^^ntárão-se 
humas Vezes com esboçar hum quadro infiel, e outras 
comprazérão-se em traçar hum desenho exagerado, 
ou como dizem os italianos , huma caricatura do paiz^ 
que não souberão ver , e da nação , que não souberão 
fivaliar. Huns , lançados pelas circumstancias no meio 
da alta sociedade , falton-lhes a paciência , ou as dis-* 
posições necessárias para frequentar e observar a im- 
portante eschola do povo; outros forão forçados a 
limitarem-se a esta , pela falta de meios e de recom- 
mendaçôes indispensáveis para serem admittidos nas 
companhias da classe media da Nação ; por isso huns e 
outros não souberão avaliar nem o caracter , nem os 
costumes d^ella; e muitos, vendo os objectos pelos vi- 
dros corados dos seus interesses , ou das suas preoc- 
cupações , derão a cada hum ascôres com que estas 
lhos representarão. 

Tal viajante , a quem o nascimento deo em Portugal 
hum natural accesso á sociedade de nobreza , e que 



Resenha Analyiica, 7 

não se occupou em examinar as outras , não duvidou 
escrever na sua viajem , que o ciúme dos Portu^ezes 
fazia com que elles nào permittiào a suas mulheres 
irem ás Igrejas , e que, por isso , todos tinhào oratórios e 
missa em suas casas. Outro anonjmo, a quem, por 
certo , não foi familiar a boa sociedade , nào se enver- 
gonhou de publicar que os Portuguezes erào mal cria- 
dos e nào tinhào ideia da cii^iUdade necessária na com- 
panhia^ pontue, tomando cUá com afamilia do Guarda 
do Pateo dos Bichos , em Belém , o dono da casa se 
permittio na sua presença huma liberdade , que passa 
por ser commum entre os HoUandezes , a qual , ainda 
naquella sociedade , que ao viajante aprouve dar-nos 
como amostra de todas as outras , em vez de provar 
o que elle pertende, só prova o respeito e conside- 
ração de que o hospede gozava entre aquella familia. 
O mesmo viajante , de quem primeiro falíamos, tendo 
sido empregado no exercito portuguez , achou eescre- 
veo que os Portuguezes detestâo os estrangeiros, como 
se fosse necessário ir a Portugal , respondeo a isto 
mais tarde outro seu compatriota , menos prevenido do 
que elle , para se saber que os intrusos nunca forão 
recebidos de ' boa vontade em hum corpo : epara não 
sermos mais extensos em citações doeste género, que 
não acabariamos, ainda em 1817 se imprimio áface 
da Europa , que em Portugal , no tempo em que alli se 
achava o autor da obra , se havia descoberto junto de 
Moura huma mina de rui^^a^e que o Corpo doCommercio 
d'aqueUa villa tinha sido encarregado da sua excava- 
ção ! ! ! Quantos absurdos , em tão poucas palavras ! 



8. Resenha Anairtica. 

Mas y se alguns francezes ^ viajando mais para serem 
vistos y do que para verem , como disse Rivarol , pela 
ligeireza com que observarão , tem sido injustos com 
Portugal, não poucos inglei^es, que, do cume da sua 
presumpçào e orgulho nacional, se tem dignado lançar 
ps olhos sobre este paiz , de que o Marquez de Pombal, 
çomtudo , lhes souberem outro tempo , fazer sentir a 
importância , não sà o tem tratado com a mesma ia- 
justiça , porém muitas vezes , ainda com maior desdém. 
Qualquer que fosse , por exemplo , a pouca prompti- 
dão com que o correio publico promovia , antiga* 
mente , as correspondências em Portugal , nunca des- 
culpará o modo porque o autor de Tras^eh in Por^ 
tugalo representou , em huma estampa da sua obra, 
por hum almocreve dormindcx sobre hum fumçnto. 
que, tendo posto o pé na arriata, não podia conti-. 
puar o seu caminho : semelhantes parodias são tão 
injustas, camo indignas da sisudeza de hum obsei,*^ 
vador , e da importância da missão , de que eUe vo- 
luntariamente se ençarreg^a. 

£ para não fallar de outros muitos, ultimamente 
em 1B19 , Lord Byron , no seu Poema : Childe ffaroWs 
Pãgrimagej depois de ter attribuido gratuitamente aos 
Portuguezes as qualidades mais baixas e indignas de 
huma nação civilisada, (i) quando falia dos costumes, 

(x) Eis-aqui algumas , que , para lhes conservarmos não sá 
a, verdade e dignidade dos pensamentos , mas até o merecimento 
^as expressões , copiaremos pelas suas próprias palavras. 



Besenha Analytica, 9 

.não só dos turcos , mas dos povos mais grosseiros e 
selvagens que pvofessào a seita mahometana , tendo 
ditto que elles , com todos os seus defeitos, não 
constituem Iiuma nação despi^ezivel ; De resto j con- 
clue o nobre Lord, estes postos j iguaes aos Hespanhoes , 
são superiores aos Portuguezes, 

A indecencia pois /com que se explicão huns, a 
superGcialidade com que escrevem outros , e a inexac* 
tidão de quasi todos , fazem ainda mais recommen- 
davel a obra que publicou ultimamente em Paris M. 
d'Hautefort , com o titulo de f^ista d* olhos sobre Lisboa 
€ Madrid em 1814. O estylo da sua narração annun- 
cia a franqueza d^eUa, e a verdade das observações 
descobre hum espirito sem prevenção , e exercitado 
em ver o que he bom , onde quer que elle existe ^ 
sem que o mao lhe embargue o destingui-lo. O titulo 
modesto que M. d'Hautefort deo á sua viajem , faz** 
lhe ainda maior honra , porque , quadrando perfeitar 
mente ao tempo escasso , em que foi feita , he muito 
inferior ao numero e exacção dos resultados que dcUa 
recolheo. 



A nation swolo with ignorance and pride , 
Who lick yet loathe the hand that waves the sword 
To save them £rom tbe wrath of Gaul's unsparíng lord^ 

Cant« I. Stanç. XYI. 

Well doth the Spanish hínd the differencé know 
'Twixt hlm and Lusian slaye , the lowest of the low* 

Ib. SUnç. XXXIII. 



IO Resenha Analrtica. 

O objecto de M. d'Hautefort, passando de Èrança a 
Inglateira, foi embarcar- se alli para Lisboa, e d*aquelU 
capital dirigir-se por Madrid a Saragoça , onde em 
outro tempo tinha sido empregado pela administração 
franceza , e aonde o levavào agora interesses particu- 
lares. A sua obra he composta de três partes disíinctas» 
a saber : da relação da sua viajem por terra , desde^ 
que desembarcou em Lisboa , até que , passando oi 
Pyreneos , enti'ou em França ; de huma Memoria po- 
litica relativa á constituição promulgada pelas Cortes 
em Cadix ; e de huma excellente e mui circumstan- 
ciada Noticia sobre o estado moderno das Sciencias 
mathematicas e physicas em Hespanha. Não fallando 
na Memoria politica y que , pela sua maferia , he alheia 
de nosso plano, quanto ás duas partes histórica e scien- 
tifica , a Obra de M. d*Hautefoi t não admitte extracto » 
he necessário lé-la ; assim também , não he nosso in- 
tento dar aqui huma analyse d*ella , mas somente fazer 
algumas observações , na paile que respeita á curta 
residência do autor em Lisboa , sobre os assumptos 
que entrào naturalmente no quadro dos nossos Annaes. 

Quanto aos objectos de arte , distingue justamente 
M. d'Hautefort a Estatua equestre do Sn»". D. José I : 
nella achou hum ar de grandeza , que nào tinha obser- 
v^ado nas Estatuas dos Grão-Duques Cosme e Fernando, 
erigidas nas Praças de Florença ; e nós accrescenta- 
vemos , que, se elle tivesse estado em Vienna d' Áustria , 
ajuntaria aflbutamente ,a estas ultimas, a de Joseph 11. 
M. d'Ilautefort , fallando d'aquelle digno Monumento , 



^ Jtesenlui Analytica. ii 

não se esquece de consagrar os devidos elogios aos 
nomes de Bartholomeo da Costa e de Joaquim Ma* 
chado , que serão inseparáveis de tão bella obra , na 
posteridade. 

As Capellas de S.*"" António e de S. João Baptista , 
de que o autor faz a descripção, pela suaconstrucção 
e pelos seus ornatos ^ são, na opinião d^elle^ com- 
paráveis ao que j neste género y se vê mais bello na 
Jtalia : o Convento da Estrella lie liwn edifício sump- 
tuoso , que hum estrangeiro não dev^e deixar de ver , todo 
revestido de diversas espécies de mármores preciosos j que 
encantão a vista pela sua mídta variedade ; M. d'Hau« 
tefort observa que elles são todos tirados das pedreiras 
do paiz ; e as estatuas colossaes que se elevão debaixo 
do vasto peristylo do Templo , dào-llie nova occasião 
de repetir os seus elogios á eschola do celebre Ma- 
chado. M. d'Hautefort exprime o sentimento que lhe 
resta de não poder ter visitado o Convento de Belém , 
e os Arcos das aguas livres , este aqueducto j diz elle , 
que rivalisa com tudo quanto os Romanos construirão 
mais bello neste género. 

Pelo que toca ás Scicncias e ás Letras , M. d'Haute' 
fort encontrou em Lisboa muitas e mui abundantes 
bibliothecas , que lhe merecerão grande attenção ; 
distinguio entre ellas , com justa causa , a bibliotheca 
Real| provida de muitos e excellentes livros ^ e manns* 
criptos mui importantes , e na qual vio , em muitos 
vezes que a visitou , huma grande afflueucia de pessoas 
que concorriào a ella, para ler e para trabalhar. 



V 



và Resenha AnaJorticai 

Depois de fallar das bibliothecas , falia M. d^Haute* 
fort y com grande consideração , como já fizemos ver 
no nosso IX Volume , dá Academia Real das Sciencias] 
e aqui , não pode deixar de mostrar a sua indignação 
contida as injurias e sarcasmos , que publicou , a res- 
peito delia y o autor do Tableau de lAsbonne. 

Nós sentimos que M. d'Hautefort, que já em outro 
lugar da sua viajem se tinha queixado da pouco exac- 
ção doeste ultimo , descesse a desapprovar a opinião 
d'elle j a este respeito : a parcialidade e a raiva com que 
aquelle viajante fallou dos Foituguezes, a indignidade 
e despejo com que , enti^e poucas verdades , publicou 
a respeito d^elles, huma somma tal de aleives , de 
imposturas e de absurdos, não merece que o es- 
críptor sizudo , nem ao menos tome o trabalho de o 
contradizer, (i) 



(i) Eís-aqoi algamas amostras de tudo, pelas próprias pa- 
lavras do autofj fielmente Urâduzidas : 

A Estatua ( do Sn^. D. José ) e o cayallo são de huin% 
execução medíocre , sem graça e sem majestade. Pag. 39. 

3oo pessoas encherião quasi inteiramente o passeio publico 
de Lisboa. Pag. 4o* 

O pobre leva para a porta da Igreja o cadáver de sen pai , 
de seu fílbo , da sua esposa , o parocbo alli o deixa exposto 
para receber as esmolas dos que passão , todos os dias se conta 
o producto , e só quando a somma chega ao valor taxado pelo 
mesmo parocho , he que dle faz enterrar o cadáver pelos scos 



ResenJia Analyticã* i3 

Hum homem que em Portugal não tinha achado^ 
nem engenheiros, nem mathematicos em i796ye que 
não vio na Universidade de Coimbra, depois da sua 
reforma, senão hum corpo incitado j posto que magro ^ 
secco, descarnado, sem alma, sem vida ; animado só pela 
pedantaria , dirigido só pelo prejuízo , sustentado só pela 
pre\^ençào nacional , e que não impõe senão pela prc 
sumpçào e orgulho, ousou erigir-se em autoridade com- 
petente para avaliar o Corpo scientiíico da Nação : 
hum estrangeiro^ que na sua viajem,^ entre muitas 
palavras portnguezas, que teve a mania de escrever, 
nem huma só poz de modo que se entendesse , o que 
prova invencivelmente a sua total ignorância da língua 
do paiz , alreveo-se a dizer queella era secca, estéril ^ 

subalternos ; este espectáculo terrível renova-se todos os dias 
em Lisboa. Pag. 2 25. 

Os soldados não tem quartéis > alojSo-se, especíalmeute em 
Lisboa , onde querem e conforme podem. Pag. sSq. 

Os gallegos, que servem em Portugal, são mais limpos , mais 
arranjados , mais bem vestidos , mais ligeiros , mais ágeis que 
os Portuguczes. Pag. 5i3. 

Ás boas ameixas , as boas peras , os bons pecegos ^ os bons 
damascos > as boas maçans não são communs em Portugal. Álli 
a caça não bc abundante, os bons fructos são muito raros* 
Pag. ao3 , í2o5. 

£m Portugal não se faz queijo. Pag. ao4* 

O arroz come-se alli ordinariamente sem tempero , e tal qual 
«abe a marmita, em que o ílzerão cozer. Pag. 307 etc. ctc. etc. 



i4 ' Resenlia AnalQrtica. 

polrcj mesquinha; e teve a boa fé de achar o estjlo dos 
seus escriptores baixo, rasteiro , frouxo , desigual, e 
muitas vezes inchado. 

Quando hum escriptor chega a prostituir de tal 
sorte a sua consciência , ou a assoalhar de tal modo 
a sua incapacidade ^ deve ser estranho a toda a critica , 
por isso mesmo que a he a toda a ideia de decência , 
de bom senso e de verdade. 

Quem não conhece a Arte nao a estima ; 

porém M. d'Hautefort, justo avaliador do mereci- 
mento, não recusa aos sábios da nação portugueza 
o elogio que elles merecem , e não podendo consagrar 
na sua obra os nomes de todos, deo, comtudo , nella 
hum lugar dislincto aos poucos, que, ou por conheci- 
mento pessoal , ou pelo dos seus escriptos e geral 
reputação, reclamavão d^elle esta justiça. He por certo 
muito agradável para nós , trasladarmos das paginas 
de huma Obra estrangeira para as dos nossos Annaes , 
os nomes , produzidos nella com veneração e respeito, 
do sábio António Pereira de Figueiredo , dos Doutores 
José Monteiro da Rocha , José Anaslasio da Cunha , 
Francisco António Ciera, Maya e Faria, dos Sn.'** 
Corrêa da Serra e Garção Stockler , dos beneméritos 
ofliciaes Caula , Franzini e Pedro Fole, e do Sn^ Joa- 
quim José da Costa de Macedo, que M. d'Hautefort 
teve occasião de conhecer mais particularmente. 

Pelo que toca ao physico dos habitantes, e aos seus 
costumes, deo M. d4lautefort mais huma prova de 



Resenha Analytica. i5 

discernimento e de prudência , dizendo que seria ridi- 
cnlo tratar dos hábitos e affecçòes moraes de hum 
povo , que elle não teve tempo para estudar. Quanto 
melhor convém esta expressão á dignidade de hum 
phiiosophoy do que os juizos precipitados e falsos ^ 
que muitos achão do seu dever publicar, ou tenhão 
ou não j todas as bases suíBcientes para os estabelecer? 

Taes são as observações geraes, que nos ofiereceo 
a leitura do escripto de M. d'Hautefort , relativamente 
ao que elle diz de Lisboa. O autor tendo desembar- 
cado naquella cidade, só depois de passar o Tejo, e 
sahir de Aldeia Gallega para os Pegões , he que podia 
aperceber-se das más estradas , ou antes, da falta d'ellas 
em Portugal. Nesta parte, com eSeito, era impossível, 
sem faltar á verdade, desmentir o que tem escripto 
todos os viajantes. 

Dissemos que a posição geographica de Portugal , e 
as poucas raridades da arte , ou da natureza, que nelle 
se encontrão , nem facilitão, nem desaíiào o concurso 
dos sábios , que tomão por empreza viajar para ins- 
truir-se; porém devemos accrescentar que, ainda 
d*aquelles, a quem estas circumstancias não servirão 
de obstáculo , e que a pezar d'ellas , quizerào conhece- 
lo , não poucos , desanimados pela falta de communi- 
cações interiores , contentárào-se erradamente com 
examinar as vizinhanças da costa , e pelos costumes 
de Lisboa e do Porto julgarão poder avaliar os do 
resto do Reino, dos quaes aliás a pouca largara do 
território parecia aí&ançar-lbes a smalogia : assim , 



iG ' Ite^enha jérudjrticá. 

aquella difficuldade não só tem concomdo para induzir 
em erro ainda os poucos viajantes de boa fé, mas 
autorisa sobre maneira o conceito pouco vantajoso, 
que de Portugal formão ainda hoje os outros paizes. 

Não pode na verdade negar-se que a falta de com- 
municações mata todos os géneros de industria , não 
promove a população e propaga a pobreza; e para 
sermos justos com os viajantes, de quem não nos 
temos poupado a censurar os defeitos , devemos convir 
que a falta de pontes e de estradas em hum paiz em 
que ellas são tão essencialmente necessárias, não só 
he hum justo obstáculo ás viajens no interior d'elle ; 
mas, o que he muito peior, serve aos viajantes de prova 
irrecusável do seu atrazamento» 

Nem já hoje pode contentá-los dizer-se-íhes. que 
este apparente desleixo he hum systema politico para 
augmentar a força do paiz, contra as invasões inimigas : 
se a passagem do S. Bernardo podesse ter deixado 
ainda voga a esta opinião , infelizmente iSo-j^e muito 
mais 1810 acabarião de a destruir. Não he a falta de 
estradas quem ha de defender Portugal contida hum 
exercito inimigo; nesse caso, seria necessário fazer 
retrogi^adar a corrente de todos os rios que o banhão > 
e que são , conforme a phrase de Pascal , caminhos que 
andào : quem conhece o paiz sabe muito bem que a 
sua defeza immediata depende das suas bellas posi- 
ções bem guarnecidas , de poucos pontos essenciaes 
bem occupados, e de hum systema de Ordenanças 
vigoroso e solido ; islo he , supeiior a todo o género 



Resenha Anaíyíica» í*) 

de pertençâo e de intrig;) , atado pelo vihctilò sagrado 
e indissolúvel do interesse da propriedade , e escorado' 
pelo dobre esteio do espiriti nacional e do amor da 
pátria; porém este ultimo e mais poderoso meio de 
dcfeza iminediata na guerra j dependendo essencial-^ 
mente da prosperidade do p âz na p^z , a abertura de 
canaeis , b èstabeb^ciíhentò dé esli*adá^ , à couâtriic^ào 
de pontes está tâo longe de ser nociva á sua defeza» 
que pelo contrario , seurl estes dteios , o progresso da 
sua agricidtura ^ o desenvolvimento da sUa Industria ^ 
ás váfitajens do seu co umercio interno , o atigmentò 
da sua população , a salubridade da sua ihais exterisá 
e knnis Fértil provinda ^ em huma palavra , todos bs 
princípios da sua defeza mediata se acharão , por esta 
só causa y paralysados. 

Já desde 1791 a Sn.»^". D. Maria I,de saudosa me* 
Iboria para a Nação portugueza , lhe tinha dado hutha 
prova decisiva do seu patriotismo , e sobre tudo ^ da 
sua esclarecida opinião a ente respeito , ordenando , 
pela saudável lei de iS de Mal*ço ^ a construcção daá 
estradas do Reino, e fazendo começar desde logo^ 
com a maior actividade, huma communicação magni-^ 
fica entre as duas cidades principaes d*elle ; porém, 
O que he muito mais terminante para o nosso assunlpto» 
seii Augusto Fillio , logo qíie tomou as rédeas do 
governo, penetrado de toda a importância de tão útil 
Disposição , òrdètlou o levantamento do terreno e o 
projecto de huma estrada , (fue pHncipiando em Aldei» 
Gallega , e passando pot Elvas > terminasse com huma* 
Tom. X. P. !■• a A 



i8 Resenha AnaJortica. 

ponte sobre o Caya ; projecto bem digno do amor 
com que este Soberano deseja a felicidade dos seus 
povos 'y mas que , provavelmente , as circumst^ncias ex- 
traordinárias e bem conhecidas ^ que depois sobrevie*- 
râo , não lhe permittirão realisar. 

Nós temos á vista a planta e o projecto d*esta utíl 
empreza , que nos parece perfeitamente ordenado ; e 
se os embaraços em que huma guerra perfiada e 
gloriosa poz até hoje o Governo , lhe permittirem hum 
dia desenvolver , a este respeito , os seus bons desejos 
e o seu patriotismo , estamos certos que o autor d'a- 
quelle trabalho precioso ofierecerá ao publico ^ por 
meio dos Â.nnaes , e só para servir de termo de comr 
paração ao projecto que então houver de adoptar-se, 
os elementos e a topographia doeste , com a mesma 
boa vontade, com que sempre consagrou honrada- 
mente os seus desvelos e a sua fazenda ao interesse 
da Nação e da Pátria. ; 

O resto da viajem de M. d^Hautefort, desde que 
sahio de Lisboa, até entrar em Hespanha , não he mais 
do que huma descripção concisa e fiel do paiz, por 
onde passou , e não oQerece hum interesse particular* 
Ha porém nesta parte do seu escripto , a que limitámos 
as nossas observações , huma reflexão geral , que não 
deixaremos escapar. 

A longa residência de M. d*Hautefort em Hespanha » 
antes de emprehender a viajem de que nos dá agora 
a narração , tinha-lhe proporcionado os meios de co- 



Resenha Analytica. 19 

nliecer perfeitamente a língua hespanhola ^ e o conhe*^ 
cimento doesta não podia deixar de facilitar-lhe o dà 
portuguesa ; assim , este escripto distingue - se pela 
exacção orthograpbica das palavras , e até das phrases 
inteiras y que nelle se encontrão escriptas em portuguez ; 
o que prova l)em que M. d^Hautefort , chegando a 
Lisboa, poude mais facilmente examinar com miude-^ 
za , e referir , por consequência ^ com verdade y as 
cousas que observou ; e que não se vio no embaraço 
em que se tem achado em Portugal a maior parte 
dos outros viajantes , pela diíEculdade de comprehen« 
derem a lingua do paiz » resultado necessário do pouco 
que ella está hoje generalisada na Europa» Este as** 
sumpto toca tanto de perto a gloria nacional , que o 
leitor não recusará entrar comnosco em algumas ob» 
servaçòes a respeito d*elle^ que, talvez^ não serão sem 
interesse» 

Entre as muitas causas > que concorrem para gene-* 
ralisar huma lingua » as mais importantes são « sem 
duvida 9 a reputação e a importância da NaÇão que a 
falia 9 e o interesse que inspira a literatura d*el)a. 
Quando as armadas portuguezas aVassalavão os mares 
da índia ^ e ao som estrondoso da sua artilharia cahiáo 
por terra os muros das fortalezas da Ásia ^ os Sobe^ 
ranos d*ella enviavào respeitosamente ao Tejo o ouro 
e as pérolas de Ganges , e os povos açceitavâo submis^* 
SOS a linguagem e a religião de hum punhado de 
homens , que » dispondo a seu sabor do trovão e do 
raio, se lhes fígm^avão entes de huma ordem superior 



20 Kesenha Analítica. 

á natureza humana. Bem depressa a importância do 
seu commercio acabou de confirmar o ascendente , 
que lhes tinha dado a reputação das suas armas , e 
huma e outra forào tão poderosas» que, a pezar da 
decadência , quasi total , de ambas , naquella parte do 
mundo , ainda hoje a lingua portuguesa he alli mui 
universalmente conhecida. 

Ás Letras não forão de todo estranhas a^ este feliz 
resultado ; os primeiros Missionários , que então pas- 
sarão á Ásia y deixando na Metrópole correr ati*az das 
honras e das privanças os seus companheiros ambi- 
ciosos e intrigantes , erão homens de bem , d^ saber e 
de virtudes , e sinceramente votados ao progresso da 
religião : he verdade que o amor do commercio não 
foi depois estranho aos que lhes succedérão mais tarde ; 
porem huns e outros , interessados para os seus fins 
em propagar a linguaguem que fallavão, fundarão 
cadeiras delia , estabelecerão typographias, composerão 
Diccionarios e Àrtes , em que a língua do paiz > a la- 
tina e a portugueza reciprocamente se explicavão. São 
ainda hoje testemunhos vivos e honrosos , para esta 
ultima , as edições nitidas e correctas de obras d*este 
género , compostas e dadas ao prelo , nos últimos con- 
fins da Ásia, pelos cuidados do P. João Rodrigues ^e 
de alguns Padres e Irmãos da Missão de Nangasaqui » 
e de outros collegios do Japão. 

A Euix>pa não podia então recusar á nação portu-* 
gueza aquella veneração e aquelle respeito , que ai 
suas conquistas e o seus descobrimentos lhe tinhão 



Resenha Analytica» sii 

granges^do : o& feitos dos Gamas e dos Âlbuquerques 
faziào aprender com gosto a língua em que tinhào es- 
crípto os Camões e os Barros ; e os espíritos , picados 
da curiosidade de conhecer paizes inteiramente novos , 
meditavào, com pasmo as Peregrinações de* Femào 
Mendes Pinto. He verdade que a Europa , excegtuaodo 
a Itália , estava ainda então muito atrasada , para ceder 
ao interesse , que podia inspirar a' nossa literatura ; 
mas a reputação do nome portuguez sobejava para 
fazer generalisar a sua linguagem ^ e a importância do 
seu commercio de tal modo a propagava , que, ainda 
nos tempos de Duarte Nunes , os mercadores e tratantes 
da Flandres mandavãq a Portugal seus filhos para a 
aprenderem, os quaes ahi serviào só por o premia 
de arcarem sabendo- 

As areias de África septittárão mui cedo a gloria dã 
nação portugueza , e quando eUa conquistou género* 
sãmente a sua independência, os bellos dias do seu 
esplendor tinhão passado : Portugal tomou de novo o 
seu lugar entre as nações da Europa , mas a Europa 
tinha mudado inteiramente de face; sessenta annos 
tinhão produzido acontecimentos, para que apenas 
parecia terem bastado muitos séculos ; a sua prepctn? 
derance na Ásia tinha acabado., o bceptro dos mares 
e o do commercio tinhão passado a mãos mais felizes, 
e os vestígios da sua língua, seguindo necessariamente 
a decadência da sua grandeza commerciaV, e a aniqui- 
lação momentânea da sua existência politica , tínbãQ»^ 
$e apagado na Europa.* 



^% Resenha Analyticaé 

O impulso, que huma grande Rainha havia dadoi 
civilisação dos povos de huma ilha notável, fortificando- 
$e , pela uniào de dois tronos antigos e rivaes , tinha 
preparado a sua grandeza futura , que hum novo sjs** 
tema politico devia bem dep^pessa consolidar* 

No centro da Europa tinha despertado huma nação , 
que o feudalismo por muito tempo adormecera , e que 
a foituna da sua posição , a influencia do seu clima ^ 
o caracter dos seus habitantes fazião própria para todo 
o género de gloria; hum homem novo e ambicioso, 
munido da autoridade de hum Princepe que elle^dó- 
minava , senhor das riquezas de hum Estado , de que 
elle dispunha , e superior ás intrigas e ás pertençôes 
de huma Nobreza , que elle opprimia e castigava , 
pelo seu despotismo, horror de innumeraveis íamilias, 
e «idmiraçào da Europa, com huma mão, abatia no 
porte a arrogância de huma grande Potencia, e qoxsx 
a outra , arrancava no seu paiz o germe da ignorância , 
e plantava o da civilisação e o da industria. 

O governo desastroso de Philippe II tinha preparado , 
á custa da desgraça da sua nação, a felicidade e a 
independência de outras, e o poder colossal da Hes* 
panha , minado pelos crimes e pela atroz politica do 
successor de Carlos V, tinha-se prostrado diante das 
vastas concepções e do génio da soberba Izabel. 

Pelos eíTeitos da reforma , tinha escapado das mãos 
dos succes&ores de Leão X aquella preponderância 
do Sacerdócio sobre o Império, á sombra da qual havia 



Resenha Anàfytiea. aJ 

nascido e prosperado a independência e a majestade 
da Itália; e a sua beUa reputação liteAiria, que as 
almas generosas de Gosme e de Lourenço de Medicis 
tinhàb creado » devião vir desvanecer-se diante d*este 
século brilhante de Luiz XIV, que, pela fecundidade 
dos talentos que o honrárâo , pela abundância e pelo 
merecimento das composições que o distinguirão , 
pela rapidez das conquistas que o enriquecerão, e pelo 
desenvolvimento de todos os géneros de industria , deo 
á Europa assomibrada a sua táctica ,a sua literatura , o 
seu theatro , o seu gosto e as sua3 modas , e exercendo 
sobre ella , por todos estes meios, hum império irrer 
sistivel de opinião , impoz-lhe por fim a necessidade 
de aprender a sua lingua. Desde então, começou esta 
a ser a dominante por toda a parte , e reproduzindo 
os mais bellos monumentos do saber e da literatura 
de todas as nações ^ acabou de ganhar huma univer- 
salidade , de que não he possivel determinar os limites. 

Debaixo da influencia d*este império absoluto , não 
toca hoje a todas as outras linguas da Europa , senão 
buma representação e generalidade de huma ordem 
inferior ; e quando a importância commercial e politica 
da Gran -Bretanha nãp tem dado á lingua ingleza 
eclipsar a sua rival , hé evidente que ás outras não 
resta, para não succumbirem de todo , senão o recurso 
da sua literatura , e particularmente o da sua poesia ; 
linguagem sagrada, na qual o caracter da lingua» 
como o do poeta , conservão huma physionomia pro^ 
piia , e huma expressão nacional , que asi outras 1íq« 



B^ Resenha Anàlorieá. 

guas debalde pertendem fa/er suas. Pode naturaKsar» 
se a helleza das narrações históricas , a profundidade 
das máximas da philosophia , e ainda , com difficol^ 
dade , os rasgos atrevidos da eloquência ; porém of 
voos arrebatados da imaginação monstruo.sa de S\izr 
Içespear , a majestade das concepções de Milton , a 
fecundidade sgblime do epthusiasmo do Tasso , e a 
l-iq* eza e a variedade prodigiosa de Camões, bàod^ 
fazer sempre as nações estranhas tributarias das lin^p 
^as^qqe estes grandes génios honrarão e enri luecérãou 

. Nestas circumstancias pois, toca hoje exclusivamente 
aos nossos sábios, e em particular aos nossos poetas i 
propag:\r a lingua portugueza,e protege- la nesta luta 
tão desigual. Mas, para que estes últimos o consigão ,^ 
he indispensável que elles mesmos se proponhàq alcan- 
çar huma reputação ', e sobre os meios de a consegui^;*, 
nos parece que huma boa paite d*elles se epgana. 

Com a infeliz extincçào da nossa Arcádia acabou-se a 
influencia benéfica, que esta Sociedade recommendavel 
tinha exercitado sobre a nossa poesia , e malogrou-^e , 
em grande parte, a direcção, que ella tão dignamente 
tinha procurado imprimir aos espiritos , para os di-« 
versos géneros : desde então tomou posse da imagi- 
nação de muitos dos nossos poetas , huma certa inde- 
cisão , por extremo nociva ao verdadeiro merecimento , 
pu hum espirito de frivolidade , incompativel com a 
verdadeira glpria ; a primeira faz çom que muitos não 

se deciUão a escolher hum género, cultivá-lo e des-» 

• 

tinguirem-&e nelle , com o que , correndo atraz da re- 



Resenha AruãYÚca. aS 

putaçào em todos , dif&cilmente conseguirão fixá-la em , 
alguui \ o sei^undo dá4hes huma indiferença pei-judi^ 
ciai sobre a escolha de assumptos dignos , fazendo-os 
esquecer de que o interesse doestes hasta para conseguir 
muito maior reputação a quem os trata , 

Quam versas inopes renim , nagaeque canorae. 

Não confundimos 9 comtudo, comos poetas de que 
falíamos, aquelles , que tem prostituído a sua imagi- 
nação e os seus talentos a hum género burlesco e sem 
gloria ; e que , ainda neste mesmo género , esquecendo-se 
de que 

Le stjle le moins noble a pourtant sa noblesse , 

nas suas composições infelizes , como Boileau dizia do 
tempo em que reinava hum gosto estragado na poesia 
iranceza y 

Le Parnasse parla le langage des halles. 

I 
A diSerença entre huns e outros não tem limite : os 

primeiros , caminhando na direcção verdadeira 9 o 
amor bem entendiJo da sua fama facilmente os trará 
á estrada direita d*ella ; os segundos , pelo contrario , 
voltando-lhe as costas, parece comprazerem-se por 
capricho , em renunci. r a e^te género de gloria. 

Nem tenhào os nossos compatriotas esta digressão 
como filha de hum certo espiíito m^igistral e desde- 
nhoso y que muitos pertendem que se introduz nos 
homens , que escrevem fjra do seu paiz; opinião afiec- 
tada 9 á sombra da qual alguns espíritos pouco dóceis 
procurào pôi^-se a coberto da censura, a que a sua 



a6 Resenha Antãyúca. 

mesma cooscienda não lhes permiite de outro moda 
escapar. Se todas as paginas dos nossos AnniE^es nàd 
tivessem dado hum testemunho publico do interesse , 
que tomamos pela reputação nacional ^ e do muito 
que desejamos fazer conhecer o merecimento dos sá- 
bios portugueses , o ol)iecto do presente Artigo , e o 
que nelle temos escripto , bastaria para o confirmar* 
Amamos a gloria da nação , respeitamos a dos homens : 
a fim de que a nossa Obra coopere ( se tanto lhe he 
dado ) para a primeira., cumpre que , sem atacar os 
individuos » systema tão indigno do homeip que se 
respeita , como pei^udicial ao progresso das Letras , 
mas despida de prejuízos , e sobre tudo , de lisonja, faça 
conhecer, no tribunal da opinião publica , tudo quanto 
pode retardar o interesse nacional; e para que seja 
digna de conservar os nomes dos homens beneméritos 
da pátria , he necessário fazer respeitar o lugar , que 
só a elles he devido , por meio da independência e 
da verdade. 

Abundào entre nós os talentos , abunda o amor da 
pátria e não faltão os exemplos ; estes germes fecundos» 
desenvolvidos pelas luzes do século , devem produzir 
hum impulso generoso, que, apoderando-se do en-» 
thusiasmo dos nossos, poetas , lhes faça sentir o mtiito 
que podem , por mais de hum motivo, influir na con- 
sideração nacional ; a fim de que , penetrados d*este 
sentimento , troquem objectos frívolos e composições 
ephemeras , por assumptos dignos d*eUes e da patría. 
Com isto^não só a reputação individual ganharia muito ( 



Resenha Anafytica» 37 

mas a do paiz até conseguiría mais facilínente de»- 
mentii* as iaexactidões e calumnias , que a seu respeito» 
de continuo ^ impunemente se publicào. 

« Seria para desejar, diz, com muita razão, a este 
respeito M. d'Hautcfort, que os poetas portuguezes 
nos fossem mais familiares; ver-se-hia então que o 
seu Parnasso não he sem fecundidade , nem sem glo- 
. ria. Para ter a certeza, continua o mesmo viajante, 
de que não faltão a Portugal poetas e escriptores em 
muitos géneros, leia-se a introduqçâo á literatura 
d*este paiz por M. Sane y que vem no principio da 
sua traducção das Odes do celebre lyríco MAjrora* , de 
quem hoje se deplora a perda recente , e ter-se-ha a 
prova de que os juizos de alguns arístarchos, contra a 
literatura portugueza são , exagerados» » 

Citamos com tanto maior satisfação esta passagem 
de M. fHautefort, não só por que he exactamente 
justa, mas porque dá ao mesmo tempo testemunho 
das vantajens , que , entre as nações estrangeiras , re- 
sultaríão a Portugal de huma historia da sua litera- 
tura, ainda sem contar a necessidade absoluta, que 
d'ella tem o paiz *, e de quanto os bons poetas con- 
correm eficazmente para generalisar o conhecimento 
da lingua em que escreverão. 

Hum raio luminoso , destacando-se de outros muitos, 
que esdarecião então o nosso faoriftonte, penetrou em 
França ,e elie só foi bastante para dar novo alento » na 
capital d*este paiz clássico 4as Letras 9 fto interesse péla 



o6 Resenha Anafytica. 

poesia portugueza ; interesse que o génio de Camõet. 
tinha creado , e que o espirito de novidade e o poder ir- 
resistível dos séculos tinhào quasi de todo amortecido* 
O merecimento e a justa reputação de Filinto Elysio 
fizerâo sentir a alguns literatos francezes a vantajem de 
estudar a lingua , que as producções d*este poeta dis^ 
tincto enríqueciào , e esta circumstanòia feliz , que lhe 
mereceo a distincçào de ver, em seus dias, muitas das 
suas composições traduzidas e impressas em huma 
lingua estranha , contínua , ainda depois da sua morte , 
a produzir, para a literatura nacional, felizes resultados* 

Todos sabem que , no meio do século passado , 
quando o nosso Verney , ambicioso de fazer conhecer 
na Europa o seu F^erdadeiro methodo de estudar , per- 
tendeo que elle fosse annunciado no Diário dos sábios 
de França , para conseguir esta distincção , foi forçado 
a compor elle mesmo, em latím, o extracto da sua obra^ 
que remetteo aos redactores ; hoje he tão sensivel a 
diderença a este respeito , que , no momento em que 
escreviamos o presente Artígo , duas obras periódicas , 
cada huma de merecimento distincto no seu género , 
acabarão de dar conta , por extenso , das Georgicas 
Portuguezas , de que falíamos no principio do nosso 
IX Volume. 

M. Baynouard , Secretario da Academia franceza , a 
quem ha pouco a memoria do nosso primeiro épico 
mereceo hum digno tributo de veneração , com o gosto 
seguro» que se lhe conhece em Bellas' Letras , no 



Besenha Analydca* 39 

primeiro Diário scientifico de França (i) publicou o 
seu juizo sobre aquelle poema. Assim , entre as ana<- 
lyses das obras mais distinctas em todos os generog , 
tomarão lugar, pela primeira vez , que nós saibamos , 
nas paginas d^aquella coUecção preciosa » largas tiradas 
de versos portuguezes , de que M. Raynouard inserio 
no seu Artigo a traducção em prosa. 

Outro Artigo anonymo , porém não menos bem es** 
cripto, oSereceo , em hum periódico estimável de lite* 
ratura (2) hum segundo exame do mesmo poema* 
Distingue-se este especialmente do primeiro , em que 
o seu redactor tomou a empreza de pôr livremente 
em verso as passagens das Georgicas , que nelle pro- 
duzio ; e como esta circumstancia dá mais huma nova 
força ao que vimos provando , pai^a que o leitor faça 
huma ideia d'estç ultimo trabalho , copiaremos aqui 
a traducção da passagem em que o poeta descreve a 
gruta de Sileno. 

Et moi j moi-méme , hélas! )*al ya sur ce rivage , 
De ces temps malheureux j'ai vu Taífreuse image ; 
J'ai vu le laboureur par la faím toarmenté , 
Du champ qu*il moissonn^t s'eiifaír époa vante , 
Tournaoi vers son asyle an oeil baigné de larmes. 
* J'ai vu • • . . mais , 6 Niza ! pourquoi du bruit des armes 
Eífrayer de nouveau too oreille et ton co^ar ? 
Ah ! platòt de Bacchus exprimons la liqaear , 

k 

(1 ) Journal des Savans \ cahier de Juillet* 
(a) Licée françaís, Tom. Y« i^^« Livrai^on. 



3o Resenha Atuãyiicà. 

Songeoii8 \ {>rrfparer Ia retraite choisie 

Ou le lemps doii márir ceiie douce ambroisie. 

Yois-TU cette ile ? au pied de ^s riants côteaux 
Que la vigue embellit de ses riches rameaux , 
Vois-tu dans le rocher cette grotte champétre ? 
Asyle sombre et frais , là jamais ne penetre 
Du midi dévorant la dangereuse ardeur. 
L'ombre en cache Tentrée; et de sa profoudeur, 
A travers les caiUoux une onde toujours puré 
Jaillit, fuit et 8'échappe avec un doux murmure. 
Un air suave y règne , et sur ses bords fleuris 
De mousse et de gazon s'étend un verd tapis , 
Ou Zéphire se joue amoureux de Tombrage. 
Là , le lierre k Tarbuste enlaçant sou feuillage. 
Grimpe de brancbe eu branche , habile à se líer. 
Plus loin , s'élance auz cieux Télégant peuplier ; 
Et le pampre à Bacchus présentant ses offrandes , 
Jusqu'à son fatte monte , et retombe en guirlandes» 
De son néctar chéri Silène dans ces lieux 
Conserve prudemment le dépòt précieux ; 
Du brúlant Sirius pour prevenir l*injure , 
11 oppose à ses feux un rampart de verdure. (a) 



(a) Eu mesmo , eu mesmo a vi , hórrida imagem 
Be tempos infelizes ! vi a espada 
Nas mios de guerra desolar os campos , 
Fugir o camponez do pobre asjlo 
Por inimigos braços despojado. 
Tl a fome cruel. Vi . . . mas que horrores 
Te pinto , oh Nize í he tempo em que 



Uesenha Analortica. 3i 

Possão taes exemplos estimular os talentos de qne a 
Lusitânia nào he escassa , fazendo-lhes conhecer a in- 
fluencia, que lhes está reservada na propagação da 
lingua 9 e nos resultados felizes, que d*ella deve esperar 
a nação e a pátria : e se no momento em que , fa« 
pouco, os povos bellicosos iulgavfto nuUos nas armas 
os modernos Portuguezes » os seus guerreiros sonberão 



Of celleirot de BaccKo te descreva. 



Dl Naxo nas mootanhas , qae povòão 
Vor toda a parte verdejantet cepas , 
Huma gruta se vé de toscas penhas ; 
De hum lado e outro crjstallíuas foutes , 
Brandamente sahindo de entre as lapas, 
Sosurrio com doçura ; as lentas vides 
De Apollo aos raios , com viçosas folhas , 
A entrada impedem , e subiudo ao cume 
Dos álamos frondosos que a guarnecem , 
Pendem em mil festões por toda a parte* 
Hunu relva mimosa* e sempre verde , 
De varias , lindas flores esmaltada , 
Uie forma o pavimento : allí da calma 
Jamais penetra a força , hum ar suave 
De continuo temp*rado se respira 
Kntre as heras , que a par das negras hagas 
Mostrao lustrosas folhas sempre verdes. 
Vo mais profundo d* este íresco asjlo 
Guarda o ébrio Sileno o doce mosto, 
Seu amor , seu desvelo t sen cuidado. 



Sn Resenha Analítica. 

fazer respeitar a independenciA do paiz em que nas* 
cêrào os Mun Alvares e os Castros , nào consintào, 
na me!>nia epoclia , os seus philologos e os seus poetas 
que a Europi Ulustrada supponba Portug d adorme- 
cido para as letras > e que se percào de todo nella os 
vestígios da bella lingua em que escreverão os Ber* 
nardes e os Lucenas. 

C.X. 



0l»^l>^^^^^%%»»»%%^ l 



Resenha Analydca^ 33 

A III ■ I I I I ■ I 1. 1 - 1 . ■ ■ ■ ; 

NOUVEAU SYSTÈME 

DE MINÉRALOGIE; 

Par /» /. Berzelius , etc. tradmt du suédois sous les 
yexAX de Vautewr ,eí publié par lui méme* Paris 1819* 
I Tom. 80. 



l»^^^^<^^i^^<^V»i 



JlisTA excellente obra, necessária a todo o homem que 
SC dedica ao estudo da Mineralogia , he ainda menos 
susceptivel de analyse que o Ensaio sobre as Propor-* 
ções Chymicas de que dêmos hama succincta conta 
no Tomo VII dos Annaes. Este systema de Minera-^ 
logia precisa com eíleito ser lido e meditado, e o nosso 
intento he mais de o recommendar aos nossos leitores 
que de lhes dar d^elle huma ideia ainda mui imperfeita* 

Esta nova classificação das substancias mineraes he 
fundada nas bases strictamente chymicas , e nas rela-* 
ções electro-chymicas entre as substancias que entrào 
na composição de cada mineral* Para melhor fazer ver 
a diílerença que existe entre o systema de M. Berzelius 
e os que o precederão , vamos eictrahir do seu Tratado 
hum exame dos principaes systemas anteriores de mi^ 
neralogia. Estes se podem reduzir a três clases, t^. os 
que tem por base única os caracteres exteriores; 
Tom. X. P. !•. 3 A 



34 Resenha Analytica. 

3^. os que são fundados sobre estes caracteres , e ao 
mesmo tempo sobre a composição chymica; e 3^. os * 
que só se fundão na composição chymica. 

Entre os primeiros pode citar-se o de Brunner. Este, 
assim como os mais dos mineralogistas , adoptou a 
divisão geral de Cronstedt em quatro classes | as terras , 
ossaes» os bitumes e os metaes; dividio cada huma 
em ordens, caracterisadas pela sua contextui^*, carac- 
terisou os saes pelo sabor, etc. e assim em quanto ás 
mais ordens. Hum tal systema he sem duvida commo- 
do , mas scientificamente não tem outra utilidade 
senão de ofierecer huma taboada ou registo onde se 
vêem ) untos os mineraes cuja composição he a mais 
diversa, só porque tem em commum huma certa ap- 
parencia exterior; da mesma maneira que se em hum 
registo qualquer se achassem dispostos objectos só por 
terem as primeiras letras semelhantes , ou segundo a 
sua analogia alphabetica. Esta vantajem até se toma 
de mui pouca importância pela difficuldade de expres- 
sar por palavras o habito exterior dos corpos , de huma 
maneira bastantemente determinada para que o inves- 
tigador não se engane. Outro inconveniente não menos 
grave doesta classificação he que não só ajunta corpos 
os mais heterogéneos , mas separa os que tem a mesma 
composição, só por terem diflerença de forma. Por 
exemplo , o spatho íluor e o spatho pesado formão não 
menos de três espécies neste systema. Em geral esta 
classiGcação e todas as que tem a mesma base não 
merecem a menor consideração. 



Resenha Analytica^ 35 

Entre os systemas da segunda classe tem lium dis- 
lincto lugar os de Werner e de Hausmann. Werner 
não coordenou o seu systema » o qual só se pode col"» 
ligír dos trabalhos dos seus discípulos , que não con-^ 
cordão todos y visto que o mestre não cessou de mo- 
dificar a sua classificação em quanto viveo. M. Berzelius 
nota, antes de tudo, e com razão , a impossibilidade 
de conciliar os caracteres chy micos com os exteriores, 
e portanto de«approva a base da classificação de 
Werner e todas as mais que se fundão no mesmo 
principio. Mas , independentemente d'esta observação 
fundamental y mostra M. Berzelius as muitas incon" 
sequencias que se encontrão na classificação do pro^ 
fessor de Freyberg. 

Eis-aqui hum esboço do systema de Werner. Consta 
de 4 Classes : i*. Fosseis térreos ; a*. Fosseis salinos , 
3^». Fosseis inflammaveis ; e 4*. Fosseis metalUcos. A pri- 
meira classe comprehende 9 géneros , a saber í — 1^. o 
diamante ; 'i^. o zirconio ;3o. o silicioso \^^.o argiloso ; 
5«>. o magnesiano , ô**. o calcário > 70. o barytico , 8<>. o 
strontianio ,690. o hallite* A segunda classe compõe^ 
se de 4 géneros , os carbonates > os nitrates , os mu* 
riates e os sulphates. A terceira consta de 4 géneros ^ 
o enxofre , o bituminoso , o grapbite , o resinoso. A 
((uarta comprehende em 11 géneros todos os metaes 
conhecidos até ao tempo do autor* 

M* Berzelius nota com razão a impropriedade de 
pôr o diamante , que he hum corpo inQammavel , ao 
pé do zircone , e a inconsequência de fazer hum ger 

3 * 



36 Resenha Aruãrtica. 

nero do liallite derivado do grego a>c , ^al , e qu« s6 
comprehende dois saes insolúveis na agua, o borate de 
magnesia ( boracite )> e o fluate duplo de aluminia é^e 
soda ( chryoltte ) , quando nos géneros precedentes se 
encontra o spatho fluor^a apatite e outros fosseis salinos 
Bão menos insolúveis nem menos duros (fue os que for- 
mão o género kalUte, Tudo isto nasce de não ter Werner 
encontrado no género magnesiano outro fóssil que ti- 
vesse analogia exterior com o borate de magnesia > 
como no género aluminoso não achou hum que se 
parecesse exteriormente com a chryolite ou fluate duplo 
de aluminia e soda. Werner sacrificou pois os carac* 
teres chymioos ao desejo de dispor os mineraes em 
classes fundadas nos caracteres tirados da semelhança 
exterior. 

Outra inconsequência do systêma de Werner ^ 
considerado chymicamente , he disseminar os saes , 
quasi sem ordem pelas outras classes , em vez de os 
comprehender todos na segunda que lhes he consa- 
grada. Assim, por exemplo, acha-sa o gesso e o spatho 
flúor debaixo do género calcário ; o boracite está de- 
baixo do hallite da primeira classe ; o sulphate de 
magnesia e os vitriolos estão entre os sulphates da se- 
gunda ; e os arseniates e phosphates de ferro e de cobi'€ 
se achão com prehend idos debaixo dos géneros ferro e 
cobre da quarta classe. 

Parece que a intenção de Werner fora de pôr os 
saes solúveis junto ás suas bases , e os saes insolúveis 
junto aos seus ácidos ; mas até nisto se aflasta Werner 



Resenha Analordca. i^ 

do principio , pondo os tungstates de cal e de ferro , 
que ambos são insolúveis , no género do radical do 
acido* 

No arranjo interior do systema não são menores as 
inconsequencias , e sempre causadas pelo desejo de 
formar grupos naturaes,que Wemer chama sippschaft\ 
d' onde resulta que muitas substancias análogas estão 
separadas y e outras que diderem estão reunidas. 

O systema de Hausmann he^ assim como o de 
Werner, fundado sobre buma base cfaymica , mas 
nelle os mincraes são distribuídos em grupos segundo 
os seus caracteres exteriores , os quaes determinão o 
lugar que deve occupar cada espécie. Este systema tem 
oi5 mesmos defeitos radicaes que o de Wemer, se bem 
que seja mais consequente em quanto á parte chymica. 

He dividido em duas classes , a i*. dos corpos com- 
bustíveis, isto he dos corpos oxydaveis e das suas^ com- 
binações mutuas ; a a**, dos corpos incombustíveis. A 
primeira classe divide-se em três ordens, i<«. dos cor- 
pos inflaminaveis , e he subdividida em* duas, a dos 
corpos simples, e dos corpos combinados entre si; a 
2*. ordem comprehende os metaes e suas ligas ; a 3l*.. 
os mineraes ou sulphm*etos metaUicojs. 

A segunda classe comprehende quatro ordens ; a i*.. 
a dos oxydos que são bases salinaveis, subdividida 
lo. em oxydos metallicos, parte puros e parte combi- 
nados entre si ou com as ten*as, ou com os oocydoides^ 
e !à^^ em terras , formando dois grupos j^ i^^ o das.teiraa 



38 Resenha Analyiica. 

simples ou não essencialmente combinadas com outra 
substancia , e s^'. das compostas , isto he combinadas 
chymicamente entre si , ou com oxydos metallicos ou 
cora oxydoides. A 2*. ordem he a dos oxydoides , ou 
corpos que não são nem ácidos nem bases snlinaveis : 
taes são , na opinião de M. Hausmann , o ar atmosphe- 
rico e a agua, A 3*». ordem comprehende os ácidos , 
e a 4^. os saes, de que forma três subdivisões y a saber 
i«. saes térreos, em dois grupos , i<>. com base de 
aluminia , 'iP. com base de magnesia ; a^. subdivisão , 
saes alcalinos y nos grupos seguintes : — !<>• com base 
de soda ; a^. — de potassa *, 3<^. — de ammonia ; 4°- — 
de cal*, 5<^. — de sti*ontiana ; 6°. — de barytes. A terceira 
subdivisão comprehende os saes metallicos em nove 
grupos, a saber , i*'. com base de oxydo de prata ; a*>. 
— - de mercúrio ; 3^. — de cobre ; f^^. — de ferro j 5«. — 
de manganese ; 60. •*- de chumbo j 'j®, — de zinco j 8<*^ 
•*- de cobalto ; 9^. -^ de nickel. 

Depois de ter feito esta classificação geral distinbue 
os mineiaes em familias , em substancias , formações e 
variedades. Chama substancia hum gi'upo de corpos 
inorgânicos cujos caracteres exteriores se parecem, 
mas que se distinguem por alguma propriedade , tanto 
exterior como chymica, dos mais corpos inorgânicos. 
As diílerenças entre os corpos do mesmo grupo ou 
substancia produzem o que M. Hausmann chama/or- 
maçoes , e as diíTerenças accidentaes nos membros de 
buma mesma formação, dão origem ás variedades. 

A base chymica doeste systema não he susceptível 



Resenha Analytica. Zc^ 

de objecção , excepto em quanto á Ordem Oxydoides , 
a qual o seu autor diz que só adoptara provisoria- 
mente. Mas , assim como Werner, para juntar em hum 
grupo corpos que se parecem pela sua dureza e trans- 
parência, sacrificou o principio chymico, assim M. 
Hausmann , para não alterar o arranjamento chymico y 
sacrificou o principio da analogia dos caracteres exte- 
riores, pondo na primeira Ordem da sua primeira 
Classe o diamante , o enxofre e o gaz hydrogeneo y 
corpos os mais dessemelhantes em quanto ao seu ha- 
bito exterior; isto bastaria para lhe ter feito ver a 
impossibihdade de se servir simultaneamente dos dois 
principios de classificação , visto que não basta que a 
classificação geral concorde com o principio funda- 
mental , mas he alem disso necessário que todas as^ 
subdivisões se liguem com elle. Por isso M. Hausmann^ 
levado da analogia dos caracteres exteriores , sacrifica 
muitas vezes a esta a analogia de composição chy- 
mica. 

He de notar que , tanto Werner como Hausmana 
seguirão o principio chymico com bastante exacçào , 
na distribuição dos mincraes metallicos e salinos, e 
que só na classe das pedras , propriamente dittas, he 
que confundu*ão os dois principios* Isto me parece 
provar, diz M. Berzelius, que estes autores reconhe- 
cerão a necessidade de seguirem strictamente o prin- 
cipio chymico todas as vezes que era possível conhecé- 
lo. Mas se a preferencia dos principios chymicos de 
classificação he reconhecida em huma par.te do sys-^ 



4i ReseiAa Analytica. 

tema mineralógico y he impossível que o não seja para 
todas as mais. 

Entre os systemas fundados exclusivamente sobre 
principios cbymicos cita M. Berzelius o de Karsten e 
o de M. Haiij. 

Karsten admilte as quatro classes de Werner, a 
saber , terras , saes , corpos combustíveis e metaes. A 
classe das teiTas comprebende as famílias seguintes : 
zirconia, yttria , silicia, aluminia, magnesia, cal, 
strontiana e barytes. A clâfsse dos saes contém todos 
os saes solúveis em agua > dispostos segundo os seus 
ácidos. Os saes térreos insolúveis estão postos junto 
ás suas bases, e os saes metallicos junto aos metaes. 
A terceira classe comprebende os mineraes combustí- 
veis, simples e compostos. A quarta classe compre* 
hende todos os mineraes que contém substancias me- 
talUcas I excepto os siliciates de ferro e de manganese» 

Este systema be mui superior aos antecedentes , e 
oQerece ideias mais claras e correctas sobre a natureza 
das producções do reino mineral , se bem que involve 
ainda não poucas contradicçôes em quanto á applica- 
ção dos princípios , achando-se nelle muitas substan^ 
cias mal collocadas. A parte a mais defeituosa doeste , 
assim como de todos os mais systemas , be a que diz 
respeito ás combinações da silicia ( oxydo de silicium ) 
com outros oxydos , nas quaes a silicia faz as vezes de 
acido, e que M. Berzelius chama siUcates e que nos 
parece mais próprio denominar siliciates ^ cuja natu- 
reza era mui pouco conhecida antes de M* Berzelius. 



Resenha Anafyúca, 4» 

O sjsteroa de M. Haúy he muito mais conhecido , e 
para o tempo em que foi feito he o mais consequente 
de todos. M. Berzehus dedicou ao seu illustre autor 
este novo sjstema de mineralogia , e com a generosa 
franqueza própria dos grandes homens fez em breves 
palavras hum pomposo elogio de hum sábio em quem 
outros terião ^visto hum rival. Eis-aqui a dedicatória 
de M. Berzelius a qual honra tanto quem a faz como 
quem o recebe. 

Ao Senhor 
RENATO-JUSTO HAIJY, 
cujo engenho elevou a Mineralogia ao grão de Sciencia. 
Tributo do respeito e da admiração do Autor. 

Pouco diremos de systema de M. Haiiy, não só por 
9er mui conhecido, mas porque o seu autor está 
preparando huma nova edição d'elle na qual sem du- 
vida fará desapparecer algumas imperfeições e porá 
a sua classificação ao par dos conhecimentos recente- 
mente' adquiridos sobre a natureza dos alcalis , sobre 
as combinações das terras y etc. 

Eis-aqui a exposição geral do systema de M. Haiiy. 

PRIMEIRA CLASSE. Substancias acidiferas. 

Primeira Ordem, Substancias acidiferas livres. 
Segunda Or^ífm. Substancias acidiferas térreas^ 
Terceira Ordem. Siibst.ncias acidiferas alcalinas. 
Quurta Ordem. Substancias acidiièras alcahno-terrcas. 



4^ Resenha Anàl^ca^ 

SEGUNDA CLASSE. Substancias térreas. 

TERCEIRA CLASSE. Substancias combusUveis 

nào metallicas. 

Primeira Ordem. Sul)stancias simples ; 2». substancias 
compostas. 

QUARTA CLASSE. SuBstancias metaUicas. 

Primeira Ordem. Nâo òxydaveis immediatamente. 

Segunda Ordem. Òxydaveis e reduziveis immediata* 
mente. 

Terceira Ordem. Òxydaveis , mas não reduziveis imme- 
diatamente. 
a. Sensivelmente dúcteis, b. Não dúcteis. 

Neste sjstema todos os saes estão debaixo das snas 
))ases9 ou elles sejão solúveis na agua ou não, excepto 
os tungstatesy que estão collocados junto ao seu acido* 
A segunda classe comprehende os siliciates com bases 
alcalinas, térreas e de oxydo de ferro. M. Haiiy os 
ajuntou sem pertender dar-lhes huma ordem scienti- 
ilca ; começa pelos mais simples e duros, e acaba pelos 
menos duros e térreos. A classe dos metaes he distri- 
buída de maneira tão bem entendida que, a pezar 
de quantos descobrimentos se tem feito , nào he pos- 
sivel fazer nella a menor alteração , o que, attendendo 
aos escassos conhecimentos sobre a composição dos 
mineraes na epocha em que M. Haiiy formou o seu 
systema , he prova da rara sagacidade d'este sábio em 
descobrir a verdade, ainda quando lhe faltavâo os meio6 



^ llesenlia Ana\ytica» 43 

cuílicientes de investigação. O estudo assiduo das fór* 
mas crystailínas e das relações das suas variedades 
com certas formas primitivas fizerào , por assim dizer, 
adivinhar a M. Haiiy os resultados da analyse chy- 
mica y e o puzerào em estado de determinar de huma 
maneira mui positiva o que deve ser considerado como 
espécie particular , isto be como combinação cbymica 
I definita. 

Por bum eíTeito necessário do metbodo adoptado 
por M. Haiiy foi-lbe forçoso não dar bum lugar na 
sua classificação a mineraes dos quaes não tinba ainda 
cabal conbecimento , o que sendo digno de louvor 
não deixou de ser censurado por críticos superficiaes 
que preferem conjecturas a conhecimentos positivos. 
As imperfeições do systema de M. Haiiy provém uni- 
camente do estado dos conhecimentos na epocha em 
que elle foi disposto ; e M. Berzelius , com modéstia 
mas não sem verdade , diz que o novo systema que 
elle propõe deve considerar-se unicamente como huma 
applicação dos descobrimentos cbymicos recentes ao 
systema de M. Haiiy. 

Vamos agora dar buma ideia do systema de M. Ber- 
zelius, o qual cada dia vai merecendo mais a appro- 
vação dos sábios, não se lhe tendo até agora feito 
crítica alguma solida. M. Berzelius respondeo ás ob- 
jecções pouco fundadas que lhe fez M. Hausmann^e 
a Memoria em que refuta este mineralogista vai in* 
duida DO presente Tratado. 



44 Resenha Analytica. 

He evidente » diz M. Berzelius , que o principio que 
serve de base á classirieação das substancias metallicas 
deve igualmente applicar-se aos outros mineraes, 
visto estar hoje provado que as teiras e os alcalis 
não são outra cousa mais que oxydos metallicos, e 
que todas as combinações de corpos ozydados devem 
ser consideradas como saes , que tem as suas bases 
simples ou compostas e os seus ácidos , e entre estes 
deve contar-se a silicia , o oxydo de tantalio , o oxydo 
de titânio, etc. He pois necessário classificar todas 
as combinações de corpos oxydados da mesma ma- 
neira que os saes > isto he , ou debaixo da sua base ou 
do seu acido. 

O systema de M. Berzelius compõe-se de duai 
classes ; a primeira he formada dos corpos simples , e 
dos compostos que são combinados segundo o princi- 
pio da natureza inorgânica \ a segunda comprehende 
os que seguem os princípios da composição orgânica. 

A primeira classe he subdividida em familias , e cada 
corpo simples pode formar huma familia. As íamilias 
são distribuídas em ordem tal que principião pelo 
corpo simples o mais electro-negativo , o oxygeneo,e 
depois delle vão-se seguindo os corpos á medida que 
tendem mais e mais a ser electro-positivos , e a serie 
se termina pelo mais electro-positivo de todos, o po* 
tassium. M. Berzelius determinou as propriedades 
electro-chy micas dos corpos simples pelo seu grão de 
oxydaçào que he dotado das affinidades as mais ener- 



Resenha Analytica, 4^ 

gicàs. Para ajudar a memoria divide as famílias em 
ordens y da maneira seguinte, 

i». Ordem. M etalloides , ou corpos combustíveis sim- 
ples que nào possuem os principaes caracteres dos 
metaes ; taes são, por exemplo, o enxofre, o bore, 
o carvão. 

2*. Ordem. Metaes electro-negativos ; isto he , cujos 
oxydos tem mais tendência a fazer as vezes de acido 
que de base, nas suas combinações com outros corpos 
oxydados< Taes são o arsénico , o chrome , o molyb- 
dene, o antimonio, o titânio e o silicium. 

3*. Ordem. Metaes electi'o-negativos , cujos oxydos 
formão de preferencia bases salinaveis; esta ordem 
comprehende todos os outros metaes , e contém duas 
subdivisões, a i". dos melaes cujos oxydos se deixào 
reduzir pelo carvão da maneira ordinária , e compre- 
hende os metaes antigamente conhecidos ; a segunda 
encerra os metaes que se nào deixào reduzir pelos 
meios ordinários. Estes últimos são os radicaes dos 
alcalis e das terras. 

M* Berzelius diz que esta distribuição pode servir 
até que novos descobrimentos nos dêem noções claras 
e seguras para fazer huma disposição mais correcta 
e mais perfeita em quanto ás propriedades eléctricas 
dos corpos. Incluio o silicium entre os metaes electro* 
negativos , a pezar de parecer por algumas experiên- 
cias de M. Davy que elle tem muita analogia com os 
metalloides , nào só porque este ponto não está ainda 



46 Resenha Analytic€u 

determinado, mas porque de collocar o silicium entre 
os metaes electro-negativos resulta maior vantajem 
para toda a classificação mineralógica. 

As bases da disposição das espécies mineraes em 
cada familia são expostas por extenso no Tratado que 
analysamos , e nelle se devem ler. 

O arranjo systematico não abranje senão os mine- 
raes puros , ou de tal modo confundidos que a vista 
não perceba nelles mistura apparente. 

Cada espécie he composta dos mesmos ingredientes 
nas mesmas proporções. A mais pequena addicão de 
huma substancia que possa fazer parte essencial da com** 
binação produz huma nova espécie. Até ao presente 
não temos meio algum de saber se huma substancia he 
ou não essencial em hum mineral, senão observando 
as modificações produzidas na sua forma crystallina , e 
algumas vezes pelo conhecimento de huma com bina- 
ção análoga que podemos formar nos nossos labora*^ 
tórios. Por esta razão considera M. Berzelius o gesso 
anhydro como huma espécie , e o gesso com agua de 
crystallisação como outra, o stilbitc como huma es- 
pécie e a chabasia como outra , a pezar da pequena 
diíTerença na proporção dos ingredientes. As experiên- 
cias recentes de M. Mitscherlich , de que damos noticia 
na segunda parte d'este tomo coníirmào maravilhosa- 
mente o acerto do paitido que tomou M. Berzelius , 
pois mostrão a grande importância da agua de crys* 
tallisação sobre a forma dos crystaes. 

A mesma espécie pode mostrar -se debaixo de 






Resenha Analxtica. 47 

áiííerentes variedades de cor e de transparência , 
de formas crystallinas e segundarias , e com misturas 
adventícias. As duas primeiras variedades nào pertenr* 
cem a huma classificação systematica , e só intcressào 
a Mineralogia descriptiva. Porém as variedades que 
provém de misturas adventicias merecem considera- 
ção. O principio de M. Berzelius he coUocar hum 
mineral com mistura de partes estranhas invisiveis 
debaixo da espécie da qual elle possue os caracteres 
os mais notáveis y como, por exemplo, a forma crys- 
tallina ; e só se aOasta doeste principio quando huma 
substancia toma a forma de outra da qual só contém 
mui poucas partes por cento. Assim y por exemplo ^ 
coUoca debaixo do carbonate de cal todas as misturas 
ci7Stallisadas doesta espécie com carbonate de ferro 
e de manganese ; mas o carbonate de ferro que não 
contém senão 5 ou G por loo de carbonate de cal 
he posto na familia do ferro , se bem qup pareça fun- 
dido no molde dos crystaes de carbonate de cal. Se 
em casos taes quizessemos , diz M. Berzelius , attender 
só ás formas crystallinas , isto nos desviaria do prin- 
cipio do nosso systema , que he fundado na compo- 
sição chymica e não em circumstancias accidentaes , 
como o são formas estranhas communicadas por cau- 
sas pouco conhecidas á substancia que se trata de 
classificar. Na enumeração systematica que M. Berze- 
lius dá no fim da sua obra , põe mui poucas misturas 
de mineraes , e essas escreve-as em letras itálicas para 
as distinguir das espécies , e dá-as quasi como meros 
exemplos. 



48 Resenha Anályticã, 

Os mineraes de cada família sào distribuídos «m 
géneros cby micos ^ como sulpliuretos , oxydos, sul- 
phates , muriates , etc. Por exemplo » o género sulphate 
da família do fen^o contém quatro espécies , a saber , 
o vitríolo verde , o vitríolo rubro , a occa vitriolica ou 
ferro sub-sulpbatado teireo^eo feiTO sub-sulphatado 
resinite. O género siliciate da família das terras con- 
tém muitas vezes bum grande numero de espécies 
das quaes a maior parte tem duas bases, e a mais 
forte d'ellas determiua a que família o siliciate deve 
pertencer. He necessário formar subdivisões dos síli- 
ciates, em razão das differentes bases addicionaes. Em. 
cada buma doestas subdivisões o numero das espécies 
pode augmentar muito por duas causas , i^. porque 
a base dupla pode ser composta de bum numero 
diíTciente de moléculas de cada base simples ; e i®. 
porque as bases podem achar>se em grãos diilerentes 
de saturação com a silicia. Algumas vezes as duas 
bases estão saturadas igualmente , e outras a base a 
mais forte está mais saturada de silicia que a mais 
frouxa. 

A segunda classe de M. Berzelius , que se compõe 
das substancias fosseis em que ba restos de corpos or- 
ganisados , deve ser disposta por bum principio análogo 
ao da bistoria natural dos corpos orgânicos , isto be , 
em grupos, cujos diversos membros tem aflinidade 
de formas exteriores , visto que os elementos são sem- 
pre os mesmos e só varião nas proporções. Esta classe 
be dividida em seis géneros , principiando por aquelles 



Mesenlia Analjrtica^ 4^ 

em que òs vestígios do estado primitivo estão mais 
bem conservados , e acabando por aquelles em que 
a alteração he tal que não restão signaes da origem 
donde procedem. A classe he terminada pelos saes 
fosseis dos quaes hum dos princípios conslituentes he 
orgânico ; estes são : o sulphate e o muriate de am* 
monia , e o mellate de aluminia ( mellilithe ). 

M» Berzelins nota que seria igualmente possível ar* 
ranjar os mineraes segundo os seus elementos electro* 
negativos» 

As taboas que terminâo a obra estão dispostas em 
columnas ; a primeira conlêm o género chymico, a 
segunda o nome do mineral, e a este despeito M* 
Berzelins ado^Ha geralmente a. nomenclatura de M« 
líaiiy; a lerccíra columna contém as formulas que 
exprimem a composição dos mineraes, e a quarta as 
citações das analyses sobre as quaes estas formulas 
forào calculadas. Muitas d eUas precisão sem duvida 
coiTCCções , mas só o tempo pode rectificar o que 
nellas pode haver de inexacto. M. Berzelins admittio 
algumas analyses de chymicos celebres , fundado nas 
quaes formou espécies particulares de mineraes , que , 
debaixo de hum ponto de vista crystallographícO; não 
podem ser consideradas como taes; porque não se 
julgou , diz elle , autorisado a rejeitar hum resultado 
sem primeiro ter verificado estar errado. A pedra dp 
Labrador pode servir de exemplo, tíe considerada 
como liuma variedade de fcldspatho^ mas Klaproth 
Tom* X P. i*. 4 A. 



5o Resenha Analyiica. 

nâo achou nella potassa , e por conseguinte não, pode 
ser hum feldspatho , se com eifeito a analyse de Kla* 
proth he exacta. 

Empregou duas sortes de formulas , as chjmicas e 
as mineralógicas , e para as distinguir imprimio as se* 
gundas em letras itálicas. As formulas mineralógicas 
não dependem de hypothese alguma ^ e não são mais 
que liiima expr ssão extremamente simples da com- 
posição qualitativa e quantitativa de hum mineral. Já 
no artigo do Tomo VII dêmos ideia das formulas 
chymicas de M. Berzelius. As mineralógicas constão 
de huma ou duas letras inicíaes que indicão a sub* 
stancia principal, por exemplo «S. silicia. St. stron* 
tiana, etc. Quando o primeiro caracter não he prece- 
dido nem seguido de numero algum, he signal que a 
quantidade de oxygeneo d'este primeiro corpo he a 
unidade na formula; hum numero á esquerda denota 
hum numero igual de unidades semelhantes; e hum 
pequeno numero á direita e em cima denota huma 
quantidade de oxygeneo que he hum múltiplo do oxy* 
geneo da substancia antecedente. Por exemplo o spatho 
em laminas, em que a siiicia contém duas vezes o 
oxygeneo da Glncina ,exprime-se pela formula G 5*. 
As formulas complicadas são formadas das simples { 
humas e outras devera estudar-se na obra de M. Ber- 
zelius , para se familiarisar o leitor com ellas , visto 
que hoje começào a ser adoptadas por muitos dos 
mais distinctos mineralogistas. 

F* b* C« 



Resenha Anal(^ca^ 5i 



EXPOSIÇÃO 

Dos productos da Industria nacional ^ em Paris ^ 

em 18194 



^^^^^ê%^^i ^l ^^ 



(QUARTO ARTIGO.) 

Chàpelaeia. 

A chapelaria franceza he superior a muitas outras ', 
na qualidade do feltro , e excede todas na tinta e no 
preparo. Nestas duas ultimas cousas tem havido grande 
melhoramento, depois de 1816. A Commissão fez 
menção honorifica de três fabricantes, que mais se 
distinguirão neste objecto, e deo huma medalha de 
bronze a M,^^ Manceau e companhia , de Patis , por 
ter exposto chapeos tecidos coia sed^ jipc^itando a 
palha , ligeiros , de hum agradável effeiti^, e de preços 
módicos ; ramo novo de industria , que he de esperai; 
possa substituir, para o uso ordinário, os chapeos de 
palha de Toscana. 

TurTuftÁiiiA. 

Observações geraes^ 

A arte da tinturaria não se tem adiantado menos 
em França » do que a da fiação e a da*&]>ricaçã9 dot . 

4* 



S% Mesenha Analytica. 

tecidos; a Exposição de 1819 apresentou provas convin- 
centes d'esta verdade. 

Gonseguio-se substituir a cochenilha , para tingir a 
Jan , por duas substancias diiTerentes. Applícou-se á 
teda o azul de Prússia, e conseguio-se hum azul mais 
perfeito , do que o que se obtinha pelos meios antigos- 
Descobtio-se hum verde solido para a impressão sobre 
os tecidos de algodão \ e o vermelho adquirio , sobre 
os mesmos tecidos , maior vivacidade. Conseguio-se 
fixar no fio de linho cores que , até agora , só se tinha 
conseguido fixar sobre o algodão \ achou-se o meio de 
extrahir e de combinar os principies colorantes do 
cartbamo , da cochenilha , do kermes , e dos paos pro* 
prios pai*a a tinturaria , de sorte que se obteve empregá-- 
los em estado de extrac to , o que facilita as operações, 
diminue a mão d'obra e produz cores mais vivas. 

Tinias em Icau 

Ha annos que M. Gonin^ tintureiro de LySo, fomeceo 
do commcr^t^ peças de panno escarlate > tintas só« 
ffiente com a ruwa : esta bella côr pareceo tão boá ^ 
como a rue se obtém por meio da cochenilha ; porém 
expostas ambas, por tempo de seis semanas , á impres^ 
são da atmosphera , a côr da ruiva esmoreceo , sen^ 
perder o tom de escarlate, ao mesmo passo que a 
da cochenilha tornou-se avinhada, conservando, com- 
tudo, grande fundo de côr. M. Gonin , em 1819 expoz 
amostras da maior belleza, nas quaes procurou dar 
á cor escarlate a maior solidez que pod^ de^eiar-se. 



HeseriJta Anàfyúca. 53 

A Commissão julgou este tintureiro digno da distinc* 
ção y que já tinha merecido , sendo contado no nu- 
mero dos homens que tem concorrido para os proges« 
SOS da industria. 

M. Beawisagej tintureiro em Parts, obteve humà 
medalha de prata , por ter sido o primeiro qne em- 
pregou em França a laca -laca na tinturaria , e aper- 
feiçoou o seu uso f para tingir de escarlate a lan , de 
que ezpoz excellentes amostras. 

Tintas em seda» 

O mais importante descobrimento y qne se tem (eito 
para tingir a seda , he o emprego do azul de Priissta ^ 
em vez do anil. A côr he mais viva, mais agradável, 
e tem-se conseguido dar-lhe todas as variações que se 
podem desejar. Este invento deve- se a M. Raymond^ 
de quem esta côr toma hoje o nomCs chamaudo-se 
azul-raymond. 

A respeito de tintas em seda , hum tintureiro de 
Tours e dois de Avinhào , todos três discipulos da es- 
chola dos Gohelins ^ merecerão menções iionuriticas , 
por terem exposto amostras de dillerentes còrcs de 
grande vivacidade e belleza, e sobre tudo, mui lixas* 

Tintas em linho. 

He sabido qne o cânamo e o linho se tingem mais 
diíficilmeiíte do que o algodão, e que nellcs, as cores 
nunca se conseguem nem tão fixas , nem tão bri- 
lhantes : este inconveniente he o que alé agora loi çav^ 



^4 Resenha jánalytica. 

os fabricantes de lenços de linho a empregar o algodão , 
para formar as cercaduras e quadrados vermelhos, 
roxos e côr de castanha , com que se guarnecem estes 
tecidos : na Exposição apparecêrão amostras de tintas 
qm linho , que fazem esperar grandes melhoramentos 
a este respeito, em consequência do que, dois tintu- 
reiros merecerão medalhas de bronze, 

Tintas em algodão. 

Ha apenas quarenta annos que os tintureiros gregos , 
estabelecidos no Languedoc, introduzirão em França 
a bella còr da ruiva , de cujo processo fazião hum 
segredo ; hoje porem , os melhoramentos , que tem 
obtido , fazem d'este objecto huma paite importante 
da industria franceza. A arte já não se contenta de 
produzir cores muito superiores ás que se conhecião 
então do Levante ; mas consegue todas as variedades 
de tons , desde o encarnado côr de sangue de boi , de 
Madrás , até ás variedades as mais delicadas da côr de 
rosa •, obtém desde a côr de castanha mais escura , 
até ao mais claro lilás ; e dá a todas as cores tal so- 
lidez, que as mais fortes barreias não conseguem 
alterá-las. 

Esta industria em França nasceo em Montpellier , 
aperfeiçoou-se em Ruão; nesta ultima conseguio humia 
superioridade, com a qual nenhum paiz da Europa 
pode rivalisar. 

 Commissão notou nos objectos d'este género , que 
concorrerão á Exposição , hum melhoramento consi* 



Resenha Analytica. 55 

deravel sobre a Exposição antecedente ; porém , mais 
que tudo , fixou a sua attençào em duas cousas, i*. na 
constância , por meio da qual os tintureiros consegui- 
rão finalmente fazerem-se senhores do processo , ao 
ponto de vencerem todos os inconvenientes próprios 
de operações longas e difficeis , pelas quaes he neces- 
sário empregar dez ou doze substancias diSerentes, a 
fim de obter a solidez das cores ; i>. a igt aldade^ que 
se observava em todas as cores , de todos os géneros, 
ainda nas variedades mais delicadas. 

A Commissão, depois de ter declarado que M.fíoardy 
antigo Director da Eschola de tinturaria dos GoLelinSy 
e M. Fitalisy professor de chymica especial em Lyão > 
deviào ser contados no numero dos homens, que mais 
poderosamente tem contribuído para o progresso da 
industria franceza » destinou neste ramo huma meda- 
lha de prata e seis menções honorificas^ 

Ciura e Preparo. 

MM. Gombert e Michelez , de S. Deniz , expozerão 
pannos de linho, curados pelo processo BertholUano 
( de M. BerthoUet), de huma alvura excellente; a 
Commissão observou , particularmente , lenços , cujo 
fundo estava perfeitamente branqueado , sem perjuizo 
das cores das guarnições , o que mereceu aos sobre- 
dittos branqueadores huma medalha de prata ; outro 
tanto obteve M. Caron-Langlois de Beauvais. 

M. Julien Delarue mereceu ser contado no numero 
dos altistas úteis á industiia franceza » e M. AnquetUr 



S6 Resenha Analjrtica. 

Desmarets alcançou hunia medalha de bronze, por 
terem exposto ambos, alem de ouU*os objectos, gangas 
tão bem preparadas, que imitavào perfeitamente as 
da índia. 

ImpressIo sobre estoffos* 

Sobre panno \de lan. 

Na Exposição , de que tratamos , distingutrão*se os 
pannos e outros estolTos de lan , sobre os quaes se 
achavão impressos em relevo desenhos mui variados 
€ agradáveis, que representavào bordado , e que, pela 
perfeição , lhe erão superiores. Estes estoQos são pró- 
prios para moveis. 

 Commissão destinou medalhas de bronze a M. 
Lojffctf de Paris , que expoz hum chalé de merinos , 
com huma cercadura de flores com as cores mais 
bellas, e que tinhào sido imprimidas; e a MM. Z>e- 
menou e Delamberia também de Paris, por terem 
apresentado hum tapete de ponto de agulha , com 
desenhos de cores , applicadas por meio de impressão. 
Objecto que muito se dislinguio. 

peludos d UtrecH. Neste artigo, obti verão medalhas 
de bronze três fabricantes , e mereceo menção hono- 
rifica outro , que expoz os ornatos e desenhos no ve- 
ludo , de cor diílercnte do fundo. 

Sohre panno de algodão. 

A fabricação das chitas tem tido grande melhora* 
mento *, não só o gosto dos desenhos se tem aperfei- 



Resenha Analytica. S7 

coado , porém achou* se o meio de produzir cores y que 
todos os esforços da arte aioda não tinhào podido 
obter. 

M. Widmer , de Jouy , descobrio huma c6r verde # 
que se (ixa no panno de algodão , e que se faz de liuma 
só vez y sem ter necessidade de combinar successiva- 
mente o amarello e o azul. Todas as fabricas reco- 
nhecem hoje a vantajem d'este verde. Conseguio-se 
tingir, com encarnado de Andrinopla , os pannos de 
algodão em peça , e deo-se a esta côr huma igualdade 
e huma belleza , que , até agora , só se tinha podido 
conseguir no algodão em íio. Alem d*isso » tem-se sim- 
plificado os processos mechanicos de execução; a acção 
rápida , continua e regular do cylindro substitue hoje 
a npplicaçào lenta , successiva, e muitas vezes inexacta 
das chapas de madeira ; e descobrirão-se agentes chy- 
micos j que tem o poder de esmorecer a côr, e dar-lhe 
os diversos tons , que se requerem , ou de a comer in- 
teiramente , de modo , que torne a apparecer o branco, 
sem detrimento do estoflb. M .Daniel KcechUn , de 
Mulhausen, achou os meios de tirar tão vantajoso 
partido do vermelho d'Ândhnopla , que até então não 
sofiria esta operação. 

Neste ramo de industria , M. Oberkampfy estabele- 
cido em Jouj, MM. Gros-Da\^illier , Roman e compa- 
nhia em Wesserling e em Paris , MM. Kceciúin e ir- 
mãos, Heilman e irmãos, Dolfns-Aíieg e companhia , 
Hofer e companhia, todos estabelecidos em Mulhausen, 
Haussmann e irmãos, em Colmar, obti verão medalhas 



58 jResenha AnàfyUea. 

de ouro, pelos preciosos productos d»s suas fabricas 9 
distinctos , nào só pela perfeição dos tecidos y mas pela 
belleza da impressão e variedade e perfeição das cores* 
Mais seis fabricantes receberão medalhas de prata , e 
doisy medalhas de bronze, pelo merecimento dos ob- 
jectos d*este género , productos das suas fabricas. 

Couros e Pidlles. 

Processo de cuTiidor» 

A Commissão , reconhecendo que o processo está 
muito adiantado nas fabricas de sola em França , 
comtudoy achou que os progressos neste género, nào 
tem sido muito sensiveis, depois da ultima Exposição; 
porém y ainda assim mesmo , entendeo que dois fabri- 
cantes devião obter ue^te lamo medalhas de prata; 
hum, medalha de bronze; dois, menção honoriíica,e 
outros dois , menção simples. 

Processo de surrador- 

Quanto ás pelles , a Commissão achou que a classe 
dos surradores não tinha concorrido em grande nu- 
mero á Exposição ; porém entendeo que M. Brélder^ 
de Rennes, merecia huma medalha Je [rata, pela per- 
feição com que tinha tral)alhado huma pelle de vacca, 
a qual, á belleza do couro amarello , próprio para as 
sellas, juntava a solidez do couro alisado para sola; 
a Commissão entendeo que o producto, de que falía- 
mos , era liutn dos niais bellos qiie se podem obter neste 
género. 



Resenha jánalytica. Kg 

Alem d'esle , mais cinco fabricantes obtiverão meu* 
çôes honoriíicas, e dois , menções simples. 

Camurcas e Lu^as, 

Os artigos de camurcas e luvas não concorrerão em 
grande abundância , porém nelles obteve hum fabri* 
cante medalha de bronze ; cinco , menções honorificas; 
^ quatro, menções simples. 

Pergaminhos* 

Hum fabricante obteve menção honorifica , por ter 
apresentado pergaminhos perfeitamente preparados , 
que já lhe tinhào, merecido a mesma honra , pa ultima 
Exposição. 

Marroquins. 

A fabricação de man^oquins estabeleceo-se em França 
no principio d'este século; na Exposição de i8oi MM- 
Fauler e Kempff apresentarão productos , os quaes , 
sendo então reconhecidos superiores aos maiToquins 
do Levante e aos das melhores fabricas da Europa, 
obtiverão áquelles fabricantes huma medalha de ouro. 

Desde então , esta arte tcm-se propagado, e tem 
feito progressos verdadeiros, não só quanto á belleza , 
mas ainda pelo que respeita á diminuição de pi*eço, 
o que lhe dá hoje huma superioridade decidida na 
industria franceza. 

M. Matler, de Paris, que já, na ultima Exposição, 
tinha merecido , por este objecto , huma medalha de 



6o Resenha Analyticã. 

prata ,recebeo em 181 9 huma de ouro. Os productos, 
que elle expoz, sào , disse a Couimissào , o que se tem 
visto mais perfeito neste género , tanto pela belleza do 
preparo , como pela das cores- Todos os artistas fran- 
^cezes preferem boje as pelles da fabrica de M. Matler 
ás mais belias que vem de fora , e comtudo , aquellas 
\endem-se por preços inferiores. Outro fabricante me- 
reccoy neste ramo , a medalba de prata» e três obtiverão 
menções honoríficas. 

Couros ens^ernizados. 

A arte de applicar os vernizes nos couros nasceo em 
França ) também no principio doeste século , e os seus 
productps apparecérào , pela primeira vez , na Exposi- 
ção de 1802 y e merecerão, já então , aos seus autores 
huma medalha de f)rata. Flsta arte tem continuado 
a fazer progressos , e boje não só se applica aos cou- 
ros y mas ao papel e ao feltro. 

A Commissào )ulgou dever cenfirroar a M. Didier^ 
de Parts y a honra que tinha obtido , de huma medalba 
de prata , na Exposição antecedente , não só por ter 
melborado aquelle processo, mas pela perfeita fabri- 
cação de uslensilios de mesa e de serviço domestico, 
que expoz , feitns de couro , ou de feltro envernizado} 
oulro fabricante alcançou menção honorifica. 

Sapataria. 

M. Boucher^ de Paris , obteve huma menção sim- 
ples, pelos excelleutc;» sapatos corio-claves ^ ( sem 
costura )• 



Resenha Anàfyiióa* 6í 

FáBIUCAB de PAPEb« 

PapeL 

Antigamente acfaava*se que os papeis de França erâo 
mal collados ; o que , talvez , resultava de ser o trapo 
macerado de mais : porém hoje este defeito emendou- 
66 , e não só a fabricação do papel ordinário se tem 
adiantado muito neste paiz ; porém os preços ponjae 
se pagava o papel Kno estrangeiro , convidarão os fa- 
bricantes a não se pouparem ao grande cuidado ne- 
cessário para o fabricarem em França. De tudo resulta 
que a arte de fazer o papel se acha hoje neste pais 
em estado de progressão. Accresce a isto que desde i8i i 
elle possue hum estal)olecimento , onde a fabricação 
ordinária do papel se faz por meio de machinas, ideia 
que já em 1798 M. jRo&erf tinha suscitado. 

Esta fabricação y por machinas , ainda não iguala a 
perfeição dos productos obtidos á mão ; porém tem 
conseguido já hum grão d^ella muito bom , para o uso 
ordinário , e visto que muitos artistas se occupão boje 
em aperfeiçoaras machinas , ou em inventar outras ^ 
he de esperar que , em breve , a grande perfeição se 
obtenha. 

Neste ramo importante , aCommissão distribuio três 
medalhas de ouro, duas de prata, três de bronze, e 
seis menções honorificas. 

Papelões para dar lastro. 

Os papelões , chamados para dar lustro , servem part 



63 Resenha AnaJytica. 

os pannos : dobra-se o panno, de modo que cada buma 
das partes da sua superfície esteja em contacto com 
a do papelão ; e por melo de buma forte pressão , em 
hum certo grão de temperatura , o panno recebe o 
lustro, que be o ultimo preparo, e buma operação 
essencial y por ser das que mais influem nos com- 
pradores. Não ba mais de cíncoenta annos que os 
francezes tiravão do estrangeiro todo o papelão 
necessário , para este uso » ás suas manufacturas de 
pannos. Na Exposição de que nos occupamos , os pro- 
ductos dVste ramo de industiia obtiverào ji buma 
medalba de prata , e duas de bronze. 

Papeis pintados. 

A applicação ao desenbo , que se acba boje tão 
propagada em França, e que entra geralmente na 
educação das classes industriosas , tem produzido nos 
consumidores o tacto para avaliar, e nos artistas o 
gosto para executar, c ambas estas circumstancias 
concorrem para o alto grão de perfeição em que se 
acba boje neste paiz a fabricação do papel pintado. 

M. Jacçuemart f de Paris, foi julgado digno da me- 
dalba de prata, que já na ultima Exposição tinba 
obtido ; e distinguiorse nesta , especialmente , por bum 
novo meio que emprega para imitar no papel os orna- 
tos em ouro. Mais dois fabricantes obtiverão a mesma 
distincção ; outro mereceo buma medalba de bronze^ 
e dois, menções bonòriíieas. 



Resenha Anafytica, ^ 

4 Preparação dos metaes* 

Ferro^ 

Em 1807 não existia em França senão hum esta* 
belecimento de forjassem que a mina de ferro fosse 
fundida per meio do carvão de pedra carbonisado , e 
em nenhuma se sabia fazer uso do ferro carbonetado 
térreo j espécie de mina que se acha nas de carvão de 
pedra , e a que certas foijas estrangeiras devem a sua 
celebridade, e a abundância e o baixo preço (}os seas 
productos. Em nenhuma parte , em França, se procu- 
rava esta mina preciosa ; porém a Expoaiçào de que 
tratamos , já provou que a industria íranceza se tinha 
apercebido de hum tal descuido » c actualmente estão- 
se formando grandes estabelecimentos para seguir este 

ramo. 

» - 

Alem disso , os processos para preparar o ferro , 
vào-se melhorando consideravelmente , não só pelo 
que toca á perfeição /mas também á economia, ks 
fabricas, para a preparação doeste importantíssimo me- 
tal , vão-se multiplicando em França de modo , que 
boje conta 358 fornos altos , e 98 forjas catalãos. Cada 
anno 9 os primeiros produzem , pouco mais ou menoSi 
i4o:ooo quintaes métricos de objectos de ferro fundido^ 
e 64<J*ooo de ferro forjado ; as segundas dão , pouco 
mais ou menos, i3o:ooo quintaes métricos de ferix» 
forjado. 

Já na ultima Exposição , a Commissãio se tinha con- 
vencido de que a França era mais ricca em bons fer* 



64 Jlesenha Anaífticãé 

ros 9 do que , até então, se tinha julgado ; a Exposição 
actual confirmou o mesmo \ e he de esperar que os 
progressos da industria , neste género , obtenbào para os 
ferros fr^ncezes huma diminuição no preço , qualidade 
em que , por ora , são inferioi^s aos estrangeiros. 

MM. PaiUot e VAhhé , expozerào barras de ferro e 
laminas para canos de espingarda. Estes ferros forào 
fabricados por meio de hum processo novo , inventado, 
ha dois annos,por M. Dufaad\o qual consiste em 
passar o ferro entre cylindros , em vez de o bater. As 
laminas forào obtidas por meio de huma macbina , 
que fabrica mil laminas por dia , e que lhes dá muito 
maior regularidade , do que temas que se fazem pelo 
methodo ordinário. A Commissão concedeo a estes 
fabricantes huma medalha de ouro. 

MM. Blumenstein e Frerejean^ pela boa qualidade 
dos ferros da sua fabrica, e por terem introduzido 
nella o processo inglez,até agora não usado em França^ 
obtiverào huma medalha de prata. Mais onze fabri- 
cantes conseguirão menção honorifica.- 

Aço, 

Muito tempo havia que já se fabricava aço em In* 
glaterra e em AUemanha, quando MM. BerthoUet, 
Monge e Vandermonde em 1786 fizerão conhecer a 
composição d'elle , em que elle didere do ferro , e o que 
constitue a operação da sua formação. A França fa- 
bricava o aço natural ; mas até então quasi que des- 
conhecia a fabricação do aço cementado e do aço 
fundido. 



Resenha Ahafyticà^ 65 

Nâ Exposição de 1801 não apparecérão atno^tra^ 
de aço.; nade iSoti^ muito poucas; na ultima^ mais 
algumas > as quaes a Commissào achou então, por 
meio de experiências , todas boas , e algumas excel^ 
lentes. Desde essa epocha começarão a generalisar-si» 
as fabricas de aço por toda a França; porém ainda 
assim mesmo, só em 1 809 se principiou a fabricar mais 
amplamente o aço fundido» 

À Exposição de 18 19 provotl^ que este grande e im*- 
portantissimo ramo se acha perfeitamente estabelecido > 
e fornece 9 com abundância, as necessidades do seu 
commercio. Fabricas de aço, estabelecidas emm De- 
pai^tamentos , éitpozerão amostras de todas ad quali- 
dades ; e o merecimento doestes productos , tão vai iíi^ 
dos , Como abundantes , não só tinha já O voto dod 
compradores franceses , e a approvação da Adtmhjbf" 
traçâo das Minas , mas foi verificado por experiências 
da CommissãO) que^ em todo o sentido, o âchóíi 
perfeitOi 

Entre os fabricantes beneméritos ^neste ramo, não 
poude a Commissào deixar de distinguir M. MiUeret^ 
cuja fabrica não existe senão ha tires aiinos. M. IVIil-^ 
leret expoz hum Sortimento completto de açlos de fodoà 
os géneros , necessários ás artes r desde 9 aço natural ^ 
até ao aço fniididd e refinado , próprio para limas ^ 
buris, e os objectos mais delicados da cutelaria< A 
Commissão examinou estes aços ^ com o maior des-> 
velo, e achou-os eminentemente próprios ( são pala* 
vras suas ) para os usos aos quaes cada hum be 
Tomé X P* !■- «A 



C6 Resenha Aruãydca. 

destinado. Esta fabrica trabalha em grande; os seus 
aços são muito procurados , e os baixos preços ^ por 
que se vendem , tem forçado a diminuir os de alguns 
aços estrangeiros mais preciosos. A Commissào des- 
tinou a M. Milleret huma medalba de ouro. 

Três medalhas de ouro forão igualmente destinadas 
a MM. Irroy , Dequenne , e Monímouceau : mais três 
fabricantes obtiverão medalhas de prata ; hum obteve 
medalha de bronze ^ e oito conseguirão menções ho- 
norificas. 

Latão e Zinco» 

Ainda em 1806 não se fabricava, no antigo território 
de França, o latão bruto , o qual se consegue , ligando 
o cobre como zinco ;he verdade que em alguns dos 
Dcpaitaoientos conquistados , como nos do Roer e do 
Ourthe, se fazia grande commercio d*aquelle ultimo 
metal , que no seu estado de oxydo $e chama Cala^ 
mina ; porém , na antiga França , bem que se conhe** 
cessem algumas minas de zinco , em parte nenhuma 
Se cuidava na sua excavação. 

Só em 1810 se naturalisou , no território da antiga 
França , a fabricação do latão; e boje acha*se em plena 
actividade , ^ muitos e grandes estabelecimentos de 
forjas, posto que, por ora, estes não possão ainda 
bastar para o consumo do paiz. 

Como actualmente a França já não tem calamína ^ 
desde 1818 tem cuidado os fabricantes em verse po- 
dem substituir esta substancia, por meio dablcndc , ou 



liesi^nha Analytica. G7 

zinco sulphuretado , de que o paiz abunda : a Admt^ 
nistração das Minas pvotegeo estas experieneias , e na 
Exposição y de que falíamos, apparecérâo amostras de 
latão bruto fabricado com a blende^ em vez da oa^^ 
lamina. 

Neste ramo , a Commissão destinou a M . Boúclier 
huma medalha de ouro , e a M. Saillard buma men^^ 
ção bonorificav 

Platina. 

As excellentes qualidades da platina , fezém precioso 
este metaL De todos os que se conhecem he este o 
que se oxyda mais difficilmente ^ e não he ntacavcl 
pelos ácidos , que mais commummcnte se empregão 
nas artes ; por estes motivos y a platina he de hum 
uso importantissimo , na consti^ucçãõ de instrumentou 
em que se exige p]recisão,e para fazer d'ella utensilids 
para as fabricas de ácidos y para os laboratoHos ch^* 
micos y e para a cozinha. 

Porém este metal , no comniércio , achasse misturado 
com outras substancias metallicas , que alterão a sua 
pureza , e o fazem quebradiço ^ t difficil de ser traba^» 
Ihado; 

M. i?rea/zf, ensaiador da Moeda, achou hum ^ró^* 
cesso para purificar a platina , que faz este metal fa- 
cilmente malleável. Este invento diminuio de modo o 
preço dos utensílios de platina , que hoje o uso d'clles, 
nas fabricas está generalisadoi A Commissão contou 

5 * 



68 liesenlta Analytica. 

M. Bréant no numero dos artístas , que tem conti ibuido 

para os progressos da industria» 

MM* Cuoq e Couturierj de Parts » expozerão hum 
grande vaso de platina inteiriço , e que continha aoo 
litres de liquido ; alem disso , muitos vasos de menor 
dimensão^ cafeteiras» medalhas» e folhas de platina 
tão delgadas, como as folhas de ouro; expozerão 
também hum vaso de cobre , coberto de casquinha de 
platina 9 de huma execução perfeita. Â Commissão 
destinou a estes dois fabricantes huma medalha de 
prata , e outra igualmente a MM. Jeannety e Chatenay, 
lambem de Pàrts , que entre muitos productos de pia** 
tina , expozerão grandes regoas do mesmo metal , des- 
tinadas para transmittir á Sociedade Real de Londres , 
e á Academia das Sciencias de Petersburgo , os padrões 
das medidas francezas. M. Michaud-Labonté obteve , 
neste ramo, huma medalha de bronze. 

Estanho^ 

» 

A extracção do estanho nasceo em França ,.depois 
de 1806; naquella epocha, o paiz não possuia mina 
alguma doeste metal. Alguns indicios fizerão presentir 
duas^ e a Administração Real das Minas conseguio 
descobri-las : o estanho delias , quando he tratado 
com cuidado , não cede ao de Malaca. 

Na Exposição , de que damos conta , apparecérâo 
productos d'aquellas duas minas , e ao lado do esta- 
nho provindo d^ellas, estava hum espelho perfeito ^ 



Resenha AnaJytica, ^ 

cujo aço era obtido por meio de hama folba do 
mesmo estanho. 

 Commissão deo elogios á Administração Real das 
Minas y por ter descoberto hum metal tão necessário 
e tão importante para as artes , e qae , até ao principio 
d'este século , se julgava não existir em França. 

Metal em lahiuas^ 
Ferro. 

Também a fabricação do ferro,em laminas, era pouco 
vulgar em França em 1806, e hoje está em grande 
actividade neste paiz. Ha cinco annos que se entendia 
que a França não fabricava o terço de folha de ferro 
precisa para seu consumo; boje está em estado. de 
fornecer ao commercio interior, todo o necessário- 
neste artigo ; e os seus productos são da maior bon- 
dade , c da melhor execução- 

Quasi o mesmo acontecia á folha de Flandres ; na- 
quella epocha , este producto só se fabricava em hun^ 
Departamento , que |á hoje não pertence á França ; 
porém, na Exposição de 1819, apparecérão muitas 
amostras de folha de Flandres íranceza , de grande per- 
feição y e a abundância de productos , que hoje existe 
neste ramo , parece ser já suficiente , para as necessi- 
dades do paiz. 

Pela bella fabricação da folha de ferro obtivérão 
MM. Boigues , Débladis e Guérin , d*lmphy ( Nièvre } 



7» Resenha Anàljtica. 

huma medalha de ouro ; M. Foii^ik? , huma de prata ; 
e piais quatro fabricantes y menções hoDoríficas, 

Oá três primeiros obtiverão outra medalha de ouro , 
pela excellente folha de Flandres que expozérào ; e 
neste ramO) MM. Mertian e Irmãos receberão a mesma 
distincçào : dois fabricantes mais merecerão medalha 
de bronze , e três , menções honorificas. 

Cobre. 

A fabrica de Romilfy obteve huma medalha de ouro^ 
pelas excellentes folhas de cobre , da mais perfeita 
execução; entre ellas havia duas, de mais de qoatrd 
metros de comprido, sobre mais de dois metros de 
largo. * 

Mais ti*es fabricas obtiverão , neste género de pro-* 
duelos, menções honorificas. 

Zinco. 

M. Saillardyde Paris, expoz folhas de zinco, de 
bella execução , mui delgadas, flexiveis, tiradas com 
grande igualdade , e perfeitamente lizas ; a Commis3ãa 
destinou-lhe huma medalha de prata, 

Cluimbo. 

M. Boucher^ de Paris, obteve huma medalha de 
bronze , por ter exposto follias de chumbo , de nove 
oes de largo, e perfeitamente fabricadas. Mais dois 
fabricantes receberão , por este género de productos , 
menções honorificas. 



Resenha jinafytíca. 7 1 

Metal em fio. 

A fabricação do arame de ferro lie antiga em França; 
a do de aço conheceo-se , pela primeira vez , em 1806. 
Os productos doeste género em ferro e em latãa , que 
os fabricantes expozerâo em iSig, são de huma per- 
feição y alem da qual nada se pode desejar. O arame 
de aço era de boa qualidade. A fabricação franceza , 
nestes artigos , be maior que o seu consumo , e o com* 
mercio faz d*ella exportação. 

M. Mouchel foi julgado digno de huma medalha de 
ouro , não só por ter exposto excellentes arames de 
ferro , de cobre , de aço y agulhas , e cordas de piano ; 
mas porque a sua fabrica occupa mais de Soo obreiros ,. 
e os preços dos seus productos são muito moderados* 
Mais dois fabricantes merecerão medalhas de prata ^ 
e cinco, menções honorificas. 

No Artigo seguinte^ trataremos da fabrícaçãa de 
utensílios de feiTO , dos objectos de prata, ouro e cas<- 
quinha ; das jóias ; de diversas machinas , e do impoc<» 
(ante ramo de relojaria, etc. 

C. X. 



99 Besenha Anafytica. 



REFLEXÕES 

^ cerca ãe algumas questões relativas d Economia 
Politica , e sobre a Obra reçenfe de AT. Makhus. 

ISe as questões relativas á riqueza » ao commeroio, 
aos preços ,á renda das terras, fossem propostas ao mais 
rude aldeão , em phrase accommodada á sua intélU* 
gencia , as respostas que elie daria seriào indubitável* 
mente conformes aos principios que ha hum século 
Os mais hábeis escriptores tem forcejado estabelecer, 
e persuadir ás classes distinctas e cultas da sociedade» 
Tanto he certo que mais verdades obscurece o falso 
saber do que a ignorância encobre. Pergunte-*se a hum 
camponez o que elle entende pela riqueza ou pelos 
bçns d*e$tç miando de que o homem pode dispor. 
Diráy por exemplo, o nosso aldeão portuguez, que 
a sua fortuna ou o seu remédio são os frúctos da sua 
lavra , e os do seu trabalho , tanto em géneros como 
em dinheiro; por certo não' sustentará o insigne ab« 
surdo que o dinheiro he a única riqueza , proposição 
admittida por muitos homens acima do vulgar, 
que foi a base do systema chamado mercantil» e 
que ainda hoje he opinião dominante entre muitoa 
dos individuos que regem estados civilisados. 



Resenha Ana\ytica. 78 

Pergunte' se mais a qualquer rústico, se em hum con» 
ti^acto ou troca feita por dois homens em seu juizo 
perfeito e conhecendo cada hum o que vale a sua 
mercadoria^hum dos dois he necessariamente enganado 
pelo outro , ou se para hum d'elles ganhar he preciso 
que o outro perca. O mais ignorante responderá ne- 
gativamente a estas questões, e rirá de quem lhe 
quizer provar que o pastor que vende hum carneiro 
por huma certa quantidade de trigo , cujo valor he 
conhecido, faz hum mao mercado, ou engana quem lhe 
vende o grão. Ainda mais rirá qualquer mercador se 
ihe disserem que quando vende o seu género por 
mais do que lhe custa , cuidando ganhar, não faz mais 
que trocar yalor por valor, e que tal ganho não existe. 
E proseguindo assim por todos os mais objectos rela- 
tivos á riqueza e prosperidade das nações , parece-nos 
igualmente evidente que a mais curta intelligencia 
basta para decidir muitas das questões sobre as quaes 
ha tanto tempo disputão os autores , unicamente pelo 
abusivo e variável uso que fazem dos termos, ou pela 
falsa applicaçâo de princípios evidentes. 

Huma das causas principaes da diílerença de opinião 
que subsiste ainda á cerca das mais importantes questões 
practicas da Economia Politica , nasce de confundir o 
interesse dos governos com o dos povos. Todos os 
governos devem ter por objecto o bem dos povos; 
porém a necessidade de manter exércitos , marinha e 
liuma immensa quantidade de empregados, para o 



/ 



<j4 Resenha Anàlyticã. 

pagamento dos quaes e de ou tias despezas relatívas 
á segurança e conservação do estado, sào precisos 
impostos mais ou menos onerosos. Daqui resulta ine- 
vitavelmente que , até bum certo ponto , he necessário 
que o bem geral seja sacrificado a certos objectos 
que interessào mais particularmente quem governa, 
e certas classes da sociedade > que o maior numem 
dos individuos de que ella se compõe. Quanto mais os 
interesses dos que governão se identificarem com. os 
d*aquellès que sào governados , mais perfeito será • 
iysiema de administração y e vice versa ; porém ainda 
DOS melhores governos be forçoso q«e baja alguma 
desigualdade na porçáo do bem e ^o mal que toca a 
cada ordem de individuos. A menor desigualdade posr 
sivel na partecipação dos bens e na parte dos sacrificio^ 
he ou deve ser o objecto de todas as instituições poliiicss 
na sua primeira creaçio ; mas infeiizmeiite , aaqueUas 
que subsistem ha mutio tempo » nem sempre he fadi 
fazer cessai* o mal « estabelecer o bein ^ sem causar kir 
convenientes mais ou menos attendiveis ; e ha casos em 
que o bem só se pode obter por sacrifícios momenla* 
neamente mui custosos e árduos. 

• 
Esta he a razão porque alguns autores, tratandb 
dos interesses das nações abstractamente, e prescin*- 
dindo da constante opposiçao entre os seus governos 
respectivos, das permanentes rivalidades e guerras 
frequentes , tem aconselhado hum systema de adpiinis- 
tração fundado em mera theoria, o qu^ em muitas da$ 
suas partes , he inexecutavel no estado actual das coa« 



Resenha, Ãnalytica. 5 5 

sas. Outros , pelo contrario , querendo que o futuro seja 
em tudo a imagem do passado , e inimigos de todo a 
melhoramento , constituem-se defensores do^ abusos , 
e pertendem , em linguagem mais ou menos sopbis*» 
tica , que tudo o que existe he regulado ^ senào da 
melhor modo, ao menos do melhor possível , e que 
toda a innovação deve produzir maiores inconvenientes 
do que os que actualmente existem. Alguns doestes • 
que não querem expôr-se a que as suas opiniões 
sejão attribuidas meramente a interesses pessoaes^ 
convém dos males enormes que existem no estado 
actual da sociedade, mas procurão encobri-los ou 
palliá-los, e em todo o caso nos ameaçâo de males 
muito maiores , para nos dissuadir de tentar melhora<^ 
mento algum radical ; e não poucas vezes procurão 
involver as questões as mais simples e de obvia so- 
lução em tal obscuridade, que as pessoas não ver* 
sadas na matéria se acbào mui embaraçadas para as 
resolver. 

Entre estes dois sjstemas requer-^e não vulgar dis- 
cernimento para escolher o caminho, o qual ^ com o 
menor numero de inconvenientes conduz á prosperí* 
dade e força das nações. O primeiro 1 que he o de 
Smith e de toda a sua eschola , seria , com algumas 
modificações , o que dcveríão seguir todos os povos • 
se hum dia cessassem de se considerar como inimigos 
liuns dos outros : mas em quanto houver homens pro- 
curarão sobrepujar os seus rivaes ; e em quanto durar 
esta lutta entre as nações , será preciso a cada huma t 



76 Resenha AruJyticà. v 

para não se expor a buma ruína certa e immediata ^ 
consultar as circumstancias, e regular pelas medidas 
dos seuà vizinhos os mais poderosois as suas próprias. 
Por esta razão muitas das máximas de Smith e de seus 
discipulos y são inapplicaveis na practica ás relações 
actuaes entre as nações , excepto no que diz respeito 
ao regime interior de cada húma, relativamente ao 
qual he incomparavelmente mais fácil a applicaçào 
dos principios geraes da Economia Politica. O estado 
de rivalidade em que hoje se achào as nações em 
quanto a industria, commercio e influencia politica, 
conduzirá necessariamente a huma grande diminuição 
das suas relações mutuas , tendendo assim a destruir a 
influencia das que preponderão de mais , e obrigando 
todas a considerarem o commercio interior como a 
base da riqueza nacional , base solida , e menos sujeita 
ás vicissitudes funestas do commercio exterior , cujos 
brilhantes resultados por nenhum modo compensâo 
os terríveis males que ameaçãò as nações que sobre 
elle fundão o seu poder e riqueza. Esta revoliição, 
vai-se executando com hum progresso rápido , e será 
em grande parte devida ao sjstema de alfandegas uni- 
versalmente estabelecido , e de prohibiçôes e direitos 
sobre os productos estrangeiros , justamente reprova- 
dos em these geral pela eschola de Smith. A nosso 
ver será hum grande bem que resultará de hum grande 
mal. 

Hum escriptor já conhecido por outras Obras pu- 
blicou recentemente hum novo Tratado de Economia 



Resenha Analítica» 77 

Politica, DO qual reconhece o estado imperfeito da 
sciencia y e a diversidade de opiniões que sobre im* 
portantissimos pontos subsiste ainda hoje entre os mais 
distinctos escriptores. A obra a que alludo he a de M. 
Malthus 9 da qual acabo de publicar huma traducçào 
em francez , a que ajuntei algumas notas. 

M. Malthus conhece a fundo o objecto e os limites 
da sciencia cíijos princípios expõe , confessa que ella 
tem mais analogia com as sciencias moraes que com 
as maithematicas , e que mais se compõe de verdades 
relativas que de proposições absolutas. O seu objecto 
he fazer ver que , para pôr em practica os preceitos 
doesta sciencia , he preciso nào adoptar regras geraes 
sem consultar a experiência , e ainda menos fazer 
d^ellas applicaçào á practica sem attender ás circum- 
stancias particulares do caso que se tiver em vista. 
Toda a sua obra tende a provar que a Economia Po- 
litica he huma sciencia de p^*oporções , e que nella 
não ha verdades practicas absolutas. 

O autor y como era de esperar , applica os seus 
principies á Gran-Bretanha , e o resultado da sua 
obra ,em quanto a estepaiz, he que os males existen- 
tes não admittem remédio algum efficaz , pois aquelles 
que pareceriào melhores e que theorícamente deve- 
riào ser radicaes, causaríào ainda desastres maiores. 
Isto que acabamos de dizer em poucas palavras pare- 
cerá provavelmente exagerado a quem nào ler a obra, 
mas os que a examinarem com attençào devem re- 
conhecer que a nos&a asserção he exactissima. Coma 



^8 ItesenJiã Ãnályicãi 

esta conclusão de M. Malthus diz respeito k hum 
paiz que tantos autores nos ofierecem cdmo modelo 
para imitar > e como hum prodígio de riqueza e pros- 
peridade, he de sumula importância examinar o estado 
actual d'esta nação , cuja elevação e decadência quasi 
temos presenciado , e que huma e outra podem servir 
de útil lição aos mais povos. Tracemos rapidamente 
o quadro da elevação da Inglaterra , vejamos qual he 
o seu estado actual, e de factos inegáveis procuremos 
tirar algumas inferências úteis para as mais nações , 
ainda que o não sejão para a Inglaterra » 

Hum território extenso e fértil, com particulares 
vantajens para a agricultura e para o commercio ; 
huma nação culta e industriosa, regida por huma 
constituição mui superior ás dos mais estados da 
l5uropa,deviào forçosamente desenvolver em Inglaterra 
todo o género de industria, e elevá-la a hum grão 
de força, e de influencia politica muito alem do 
que parecia permittir a sua população , e seus re- 
cursos naturaes. Assim aconteceo com effeito, e o 
rápido progresso da industria fabril e commercial veio 
ao mesmo tempo promover a riqueza nacional , e pal- 
liar os funestos eíTeitos da demasiada concentraciâo 
da propriedade territorial . nas mãos de poucas fami^ 
lias , a qual , como M . Malthus reconhece , hc o maior 
obstáculo ao desenvolvimento da riqueza de huma 
nação. A ambição do governo inglez,eoseu espirito 
de dominação, que se fortificarão pela inépcia e versátil 
poUlica dos mais governos, necessitarão grandes des-* 



Resenha Ana^jrtica' 79 

pazas , e obrigarão a Inglaterra a recorrer a empres* 
timos successivos , de que resultou huma divida na- 
cional 9 a qual desde a sua primeira creação nào tem 
cessado de augmentar. Como os recursos nacionaes 
augmentárão ao mesmo passo que a divida , e até por 
effeito delia, nào se sentio por muito tempo o seu peso, 
e fez-se pouco caso das prophecias dos amigos da 
pátria que anteviào para o futuro as teníveis conse- 
quências de hum systema tanto mais perigoso quanto 
mais seduzia por vantajens immediatas e quasi mila- 
grosas. Com eOeito, a facilidade de obter emprésti- 
mos j a perspectiva de tirar gi*ande proveito e riqueza 
de novas guerras, que arruinando a industria, nave- 
gação, colónias e commercio das mais nações enri- 
quecessem a Inglaterra, foi causa que o gabinete de 
S. James , depondo todo o receio , e desprezando 
as regras da prudência , proseguio affouto a dispender 
sem conta nem medida , e ufano do constante aug- 
mento dos productos da industria nacional , e da na- 
vegação , commercio e conquistas da Gran-Bretanha , 
)ulgou-se superior a todos os acontecimentos. 

He verdade que no meio d*este rápido progresso de 
riqueza e industria nacional, era fácil ao observador 
attento descobrir terriveis indicies de males gravissi- 
mos no estado, os qnaes ião crescendo de dia em 
dia , nào obstante a apparente e seductora prosperi- 
dade da nação. He bem sabido que Pitt, principal 
promotor do systema moderno da Inglaterra, morreo 
com a intima convicção de se ter deixado illudir , e 



8o Resenha Anafytica. 

como amante da pátria deplorando os males que lhe 
tinha causado ^e a que a deixava exposta. Porém novos 
e espantosos successos (izerào crer aos successores 
d' este ministro que os seus terrores erào vãos , e jul* 
gárão ter chegado, pelo abatimento da potencia da 
França , a hum auge de poder e de prosperidade que 
nada tinha a recear de acontecimentos futuros. 

Quão pouco durou esta sonhada ventura! Apenas 
se fez a paz vtrào com pasmo os Inglezes que a mi* 
seria geral das classes industriosas , e a diminuição no* 
tavel da abastança das classes medias era o resultado 
dè tantos tríumphos e de tanta riqueza ! Com pasmo 
e dôr comtemplárão os Inglezes viajando peia Europa ^ 
quanto a condição do jornaleiro, nos paizes que elles 
estavão costumados a considerar como pobres e infeli- 
zes f era superior á dos da Inglaterra. Desde a epocha 
de que falíamos não tem o povo inglez cessado de soflrer 
doestes males ; e tudo o que, sobre as causas d^ellese 
remédios que se lhes podem applicar, se tem escripto p 
prova que são incuráveis no estado presente da organisa*- 
ção social da Gran-Bretanha , e que provém de causas 
que ha muito operào^e das quaes muitas são as mesmas 
que produzirão o immenso augmento da riqueza total 
do paiz. M. Malthus occupa-se na sua ultima obra 
com grande desvelo em examinar as causas da situa- 
ção </i£o/erâ^e2 da Inglaterra ye procura descobrir-lhe 
remédio. Em quanto ás primeiras , em vez de remontar 
ás causas primaiías, contenta^e com as segundarias, e 
attribue todo o mal que actualmente soifine a Inglaterra, 



Rcsenlia Analytica' 8i 

á stágnação do comtnercio causada pela paz, e ao 
diniinuido consumo dos productos da sua industria ; 
cujo resultado he o ter deixado sem occupaçào mais 
de Gooyooo jornaleiros. Pelo que toca aos remédios ^ 
os que M- Malthus propõe são insignificantes > e bem 
se vé que elle não conhece nenhum efficaz, entre 
aquelles que julga compatíveis com a existência da 
constituição politica da Inglaterra, qual ella hoje existe. 
M. Malthus quer que se conserve a actual divisão da 
propriedade , a divida nacional e os gastos enormes 
do governo , lião porque que tudo isto seja essencial- 
mente bom e proveitoso, mas por lhe parecer que 
alguns doestes males diminuem outros , e que de huma 
reforma resultariào males ainda maiores. Por isso , não 
he de admirar que , buscando rediedio a huma doença 
cujas causas quer deixar subsistir , não encontre senão 
fracos paliiativos. Eis-aqui os principaes remédios que 
M. Malthus propõe para diminuir a triste condição das 
classes industriosas da Inglaterra, i^. Que os grandes e 
riccos tomem muito maior numero de criados ^ ao. que 
empreguem muito mais trabalhadores nas suas quintas 
e casas de campo; e 3^. que o governo faça executar 
trabalhos públicos que occupem muitos braços^ dando 
a estes trabalnadores o salário o mais módico possível ^ 
para que elles não supponhào que o paiz está prospero, 
e que , levados d'esta ideia , não pensem em casar , aug- 
mentando assim ainda mais o numero dos desgraçados ! 
P^ào se requer grande conhecimento da Inglaterra » 
nem singular sagacidade , para mostrar que M. Malthus 
não conheceo , ou antes não quiz expor as verdadeiras 
Tom. X JP* I*. CA 



iga Resenha Analyúca. 

causas a que a sua pátria deve ver-se ao mesmo tempo 
DO auge da gloria e no excesso da miséria. 

He manifesto á mais vulgar intelligencia , que huma 
simples stagnaçào do commercio e das exportações não 
he capaz de produzir hum estado de soíTnmento pro* 
longado por cinco annos^em huma nação summamente 
ricca, se nella não ha germes de ruina» que muito 
antes se tem ido nutrindo e desenvolvendo no seu seio. 

As causas principaes a que a Inglaterra deve a sua 
condição actual, e em razão das quaes, acontecimentos, 
por si incapazes de produzir os males que hoje soffi^ a 
nação , tem occasionado a miséria geral das três quintas 
partes do povo inglez , são , a nosso ver, as seguintes. 

i<>. A repartição extremamente desigual da propiie» 
dade territorial , a qual em Inglaterra está nas mãos 
de apenas 3o:ooo individues. 

2<>. Por huma consequência immediata doesta grande 
concentração da propriedade , do peso enorme dos 
impostos , e da economia da cultura em grande das 
terras de pão , e de outi*os trabalhos ruraes , be mui 
pequeno numero dos rendeiros , tendo successivamente 
os rendeiros de gi^andes propriedades absoi*vido todos os 
pequenos arrendamentos. O numero total dos proprie* 
iarios e rendeiros calcula-se ser hoje, em Inglaterra e 
Escócia j de iSo^ooo , sobre onze milhões de habitantes. 

Z^, Destas duas causas tem resultado que o numero 
dos indivíduos que cultivão a terra e vivem imme- 
diatamcnte dos seus productos, he incomparavelmente 



Resenha Analytica. 83 

menor em Inglaterra que em paiz algum do mundo , e 
que este numero tem ido diminuindo ha muitos annos^ 
por eOeito de cada notável melhoramento nos instru*^ 
mentos da agricultura e nos processos da economia 
rural. O numero total das pessoas empregadas na 
agricultura, he de dois milhões^ 

4^. A insufEciencia dos jornaes , que apenas bastão 
para o sustento do trabalhador e de sua mulher. 

50. O numero excessivo de pessoas empregadas nas 
fabricas , o qual quasi iguala o dos agricultores , pois 
he de 1:600:0004 A pezar da introducçào das infinitas 
machinas que economisão a mão-d'obra , e das quaes 
muitas supprem quasi inteiramente os braços , a ex- 
tensão da industria tem sido tal em Inglaterra, ha meio 
século j que o numero dos operários tem augmentado 
em vez de diminuir, não obstante equivaler o trabalho 
feito pelas machinas ao dobro do que he feito por 
homens \ de maneira que ^ se todo elle fosse feito por 
estes y occuparia a Inglaterra perto de cinco milhões 
de indivíduos nas fabricas. O mal que resulta de hum 
tão grande numero de jornaleiros fabrts he mui gt*ande^ 
pois sendo o consumo do producto das fabricas pre- 
cário y e exposto a mil vicissitudes imprevistas e irre« 
mediáveis, particularmente quando a extracção dos 
seus productos depende em grande parte dos mercados 
estrangeiros , qualquer stagnaçâo considerável basta 
para obrigar os fabricantes a despedirem muitos dos 
seus operários, e a restringirem a sua fabricação; estei 
desgraçados não podem mudar de occupaçào, nem 



I. 



84 Resenha Anàlcrtica. 

ainda que pudessem, achariào em que ganhar a sua 
vida y e de hum dia para o outro se vêem reduzidos 
á mais horivel miséria , tanto mais que os seus sala* 
rios y ainda quando os ganhão j são ainda mais escassos 
que os do agricultor : isto procede do gi^ande nu* 
mero de homens que ,pela actual distribuição da pro* 
priedade em Inglaterra , não tem outro recurso senão 
trabalhar nas fabricas. D*esta concuirencia nasce o 
baixo preço da mão-d'obra , sem o qual seria impos- 
sivel aos fabricantes inglezes sustentarem nos mercados 
estrangeiros a concurrencia das mais nações , a pezár 
da economia que as machinas empregadas em grande 
dão á industria ingleza. Alem disto , como a conserva- 
ção das machinas não requer senão huma despeza 
insignificante, comparada com os salários dos operários 
e com o sustento dos animaes, e como o producto 
delias he o dobro do dos braços, segue-sc que todas 
ars vezes que o dono de huma fabrica se vir obrigado a 
fazer economias por falta de extracção dos seus produc* 
tos , elle diminuirá o numero dos operários, e procu- 
rará com os que conserva, e com a ajuda das machinas, 
fabricar quanto lhe pareça sufficiente ; e até pode des- 
pedir todos por algum tempo , se a suspensão da 
fabricação lhe parecer menos damnosa aos seus in- 
teresses futuros do que a continuação, ainda diminuta, 
da fabricação. As fabricas que tem por base hum sys- 
tema de machinismo, gozão da propriedade particular, 
que podem deixar de ti*abalhar e de novo ser postas 
em acção quando convenha ao dono, sem que isto 
comprometta as faculdades productivas das machinas. 



Resenha Analítica. 85 

Outro tant(mão acontece á terra , ou ás arvores, que 
deixadas sem cultura em certas estações , ou por certo 
tempo y perdem por muitos annos consecutivos a sua 
faculdade de produzir. 

Por esta e outras muitas razões obvias, quanto maiov 
for o numero dos homens empregados na agricultura, 
especialmente sendo elles proprietários do terreno , me- 
nos risco haverá de miséria entre as classes laborio- 
sas. E quanto maior for o numero dos individues 
empregados nas manufacturas de objectos de expor- 
tação, cnjo consumo depende de mil circumstancias 
exteriores ao paiz , mais estará a nação exposta á$ 
calamidades que hoje soíTre a Gran-Bretanha. 

6^, Por huma consequência do systema das machir 
nas, e da superior vantajem do emprego de grandes 
capitães , tanto nas fabricas como na agricultura , he 
tão diminuto em Inglaterra o numero de pequenos 
rendeiros de terras , como o de fabricas pequenas ; 
isto ainda tende mais a concentrar as fortunas, e a 
augmentar o numero dos proletários , que não pos* 
suem mais que o seu trabalho^ 

7°. O enorme peso dos impostos, com todos os seus 
eOeitos bem conhecidos , e optimamente descriptos por 
M. Say no seu Tratado de Economia Politica, e por 
outros escriptores. 

8<>. X immensa quantidade de excellentes terrenos 
destinados, a dar pasto para hum numero de cavallos 
de luxo , que se calcula em Inglaterra ser de mais de 
900^000 cabeças i e exigir para seu sustento hum milhão 



8S Resenha Anafytica 

de acres ou geiras inglezas ^ que he quasi a terça parta 

das teiTassemeadasdepào, avaliadas em 3yo8o,ooo ocre^. 

Vejamos agora o quadro actual da Inglaterra, segundo 
os escriptores que menos podem ser suspeitados de o 
quererem afear. 

A Inglaterra tem hum capital immenso ; huma agri- 
cultura mui aperfeiçoada , hum commercio superior ao 
de todas as nações ^ manufacturas cujo productohe pro- 
digioso , 6 que tem ido, até ha pouco, sempre crescendo, 
bum governo que dispõe de riquezas incalculáveis , e 
goza de huma preponderância extraordinária nas qu^o 
partes do mundo. A nação consta , sem fallar na 
Irlanda , de onze milhões de habitantes ; d*esteSy mais 
de hum decimo está obrigado a recorrer á caridade 
do publico para existir, e três quintos da nação 
sofireni privações , a que não se acha exposta huma 
Igual proporção dos habitantes do paiz considerado 
como o mais pobre da Europa. 

Em geral , o jornaleiro inglez he tão mal pago que , 
para elle e huma pequena familia poderem subsistir» he 
pi^ciso que a nação pague hum imposto , cujo pro* 
dueto annqal he hoje de perto de oitenta milhões de 
cruzados , do qual se dá a cada familia necessitada 
de trabalhadores o que lhe falta para poder sus- 
tentasse. A prova que o mal radical de que falíamos 
não he recente, he a existência d*este imposto» cha- 
mado dos Pobres, que foi estabelecido ha mais de 
dois séculos , e que está em pleno vigor ha mais de 
cem annos. Para rematar este quadro, diremos que, 



Resenha Analytica. 87 

tendo a riqueza e productos da Inglaterra multipli- 
cado extraordinariamente ha século e meio , a sua po- 
pulação apenas tem dobrado no mesmo espaço de 
tempo y e he hoje evidentemente mui inferior á fertili- 
dade do seu território , e á immensidade dos seus pro- 
ductos e recursos. 

Tiraremos pois d'esta resumida exposição de ver- 
dades incontestadas , as seguintes conclusões. 

1*. A felicidade de huma nação não pode medir-sè 
só pela quantidade e valor total dos seus productos. 

a*. A riqueza e recursos do>^overno e das classes 
opulentas , não indicão o estado feliz do maior nu^ 
mero dos cidadãos. 

Z^. A demasiada proporção de individues que não 
possuem outra propiedade mais que o seu trabalho cor* 
poreo y he signal de huma péssima distribuição da ri- 
queza , e caracterisa huma nação cujas clases mais 
úteis e numerosas vivem de huma subsistência pre- 
cária e muitas vezes pouco abundante , e e^tào con* 
tinuamente expostas a cahir na indigência. 

4"». Estes males são tanto mais graves , que huma 
vez que existem, he quasi impossivel dar-lhes remédio » 
sem expor hum paiz ao risco de huma revolução. 

5*. O remédio mais practicavel parece ser a melhor 
e mais igual divisão da propriedade , efiectuada por 
huma lei que estabeleça a repartição igual entre os 
filhos. M. Malthus admit^e em principio que esta he a 



âS Resenha jinaj^tica. 

fonte principal da prosperidade das nações , mas receia 
os eQeitos de huma nimia divisão da propriedade , que 
venhn a ser nociva ao progresso da riqueza nacional , 
e vaticina este triste resultado á França. Porém isto 
he huma mera asserção inteiramente destituida de 
provas, e desmentida pela experiência de todos os tem- 
pos e de todas as ns^çôes. A natureza do homem e a 
das cousas obsta a que ^ divisão das successõçs terri- 
toriaes se tome excessiva ; o interesse de cada hum 
pão deixará nunca que esta divisão venha a ser tal 
que caiba a cada individuo huma porção de terra que 
lhe seja impossivel cultivar ou arrendar com proveito. 

6o. E finalmente , as nações que quizerem gozar do 
maior grão possível de felicidade solida e durável > não 
devem deixar oiTuscar-se pelo exemplo fallaz da In- 
glaten^; ao desejo de ostentarem grande riqueza e 
poder» farão acertadamente se preferirem a mediocri- 
dade mais igualmente distribuída entre os cidadãos , e 
as solidas vantajensda agricultura, industria e commer* 
cio interno , á brilhante mas perigosa preponderância 
de hum mui extenso commercio exterior. Os governos, 
seguindo o mesmo principio, farão bem, se antepuzerem 
a economia ao desperdício , e o desejo de fazerem feliz 
a sua nação ^ á van gloria de dominar as outras. 

No Tomo XI examinaremos algumas outras doutrinas 
de M. Malthus, quando dermos conta da obra recente 
de M. J. B. Say. 

F. S. C. 



Resenha Aruãytiea. 89 



ENSINO MUTUO 

em 1819. 

A Sociedade de Educação de Parts publicou os Re- 
latórios , que hum dos seus Secretários lhe apresentou , 
conforme o costume ^ na Sessão publica do presente 
annoy á cerca do estado do Ensino mutuo em 1819» 
Os Artigos, que, em diíTerentes volumes (1) temos 
dado sobre esta matéria , nos dispensào de tornarmos 
aqui a fallar, com individuação, de hum systema, 
cuja utilidade, já hoje, he tão geralmente reconhe- 
cida ; porém , por isso mesmo que julgámos então do 
nosso dever consagrar nos Ânnaes as vantajens e os 
principies d'este methodo , por isso mesmo nos in- 
cumbe sempre termos os leitores ao corrente dos pro- 
gressos d*elle. O conhecimento regular da marcha de 
bum systema interessa muito particularmente todos os 
que conhecem o ponto de que elle partio; por que, 
sendo-lhes , por isso , fácil comparar com exacçào as 
diiíerentes phases , que ella apresenta , podem appre- 
ciar, por si mesmos, o. valor que lhe compete, ou seja 



(i) V. Tom. 11 dos Annaes , P. i«. pag. i. Tom, VI P. i». 
pag. 35, 



Qo ItesenJia Analítica. 

calculando as vaniajens , que elle procura , ou òbser* 
vando o grão de interesse , com que ke promovido e 
cultivado. 

Para conseguirmos pois este im^portante fim , limitar- 
nos-hemos agora a recolher , dos sobredittos Relató- 
rios , puramente os factos , que , fundados sobre peças 
officiaesy ou sobre a correspondência da Sociedade, 
estabelecem com certeza o estado do Ensino mutuo , 
assim em França, como nos paizes estrangeiros no 
i^. de Outubro de 1819; isto he, hum anno depois 
dos Relatórios antecedentes 9 de que demos conta no 
VI Volume da nossa obra. A. fim de que este traba- 
lho ofiereça a maior simplicidade e clareza, em que 
só pode consistir todo o seu merecimento, classifica- 
remos geographicamente, em hum só quadro, os resul- 
tados dos dois Relatórios , o que tornará , ao mesmo 
tempo , mais interessante o quadro em que os dispu- 
zermos. 

Europa. 

França. O numero das escholas, comprehendidas nos 
Mappas remettidos pelos Prefeitos ao Ministro do In- 
terior y e por este á Sociedade , montava a 807 , que 
podião comprehender 92:000 discipulos 

Doestas 807 escholas, contavão-se para meninos 734. 

Para meninas 67 

Para homens 5 

Nas prisões . 4 



Resenha Analytiea. 91 

?Ios hospícios de rapazes desamparados • ^ • a 

De desenho linear 16 

Escholas protestantes • 36 

Escholas israehtas 3 

Na classe militar , tinha-se formado huma Socie- 
dade , composta de oíBciaes reformados , para ajudar e 
dirigir o trabalho , a fun de propagar o methodo em 
todo o exercito \ no qual estavão já emplena actividade 

Escholas reglmentaes io5 

( Faziào-se disposições para mais 57 ) 

Para os corpos dè Policia ( Gendarmerie) •• • 4 

Nos portos de mar a 

Como porém , no progresso rápido d'estes estabele- 
cimentos y em França , havia alguns , que ainda não 
tinhào remettido estados legaes , posto que , pela cor* 
respondencia constasse que existiào , avaliavão-se , ao 
todo, as escholas em i34o , que podiào ser frequentadas 
por 154:000 discipulos ; por quanto o termo médio de 
cada huma he de ii4 a ii5. 

Em Paris e seus arredores ha 88, i4 ruraes, e 74 
urbanas, das qiiaes ig gratuitas. 

Os progressos correspondem á rapidez com que as 
escholas se multiplicào. Proximamente i dos discipulos 
passào de huma classe a outra , em hum mez , em ler 
e escrever , e f d*este numero em contar. 

Os modelos calligraphicog,espalhados pela Sociedade» 
tinhào produzido excellentes effisitos, assim pelo que 



9^ Resenha Anafytica,, 

toca á sua execução , como á uniformidade do caracter. 
Trabalhava -se em preparar quadros uniformes para 
os elejnenlQs de musica e de grammatica ; e o mesmo 
se contava fazer a respeito do systema métrico , e da 
escrípturaçào mercantil. 

Os productos mais distinctoSique o Relator apre* 
sentou á Sociedade , forao : as amostras de escrípta de 
dois meninos , filhos de [dois Príncipes Soberanos da 
costa oríentalde Madagáscar , que seus Pais mandarão 
educar a França» dos quaes hum tem ia annos e meio, 
e o outro 6 : estes meninos passarão, em hum mez » 
por cinco classes > e em menos de quatro mezes lião e 
cscreviào \ fcMo inaudào cUé hoje , dizia o Relator á 
Sociedade. 

Fazião-se igualmente recommendaveis as amostrai 
de desenho linear dos discípulos das escholas Gaultim 
e de S. Jean de Beauvcds em Parts , e as de costura, 
das meninas da eschola fundada por M. Delessert » na 
mesma cidade » as quaes amostras o Relator propôs 
como modelos, que seria útil espalharem-se nas es- 
cholas de meninas de todo o Reino. 

O numero de sociedades, ou fundadores particulares» 
que sustentavâo escholas constantemente á sua custa » 
era de loi. 

Em consequência do que (ica ditto, de todos os Map« 
pas apresentados officialmente á Sociedade , resultava 
que , nos 86 Departamentos de França existiào 807 es- 
cholas , em que havia lugar para 92:000 discípulos» e 



Resenha Analytica* g3 

que erào então frequentadas por 53:ooo; que doestes, 
i3:4oo ( termo médio ) erâo promovidos , em hum mez, 
de huma a outra classe de leitura , ii:8oo,de huma 
a outra de escripta^ 8:100 de huma a outra de arith» 
metica. 

Suissa. O grão Conselho de Friburgo ordenou o es- 
tabelecimento de huma eschola em cada freguezia do 
seu Districto ; formárão-se outras novas no Cantão de 
Vaud ; em Nyon existia huma eschola normal ; e o 
methodo principiava a estabelecer-se nos Cantões de 
Ârgovia e em Zurích. Os livros de instrucção , publi- 
cados pela Sociedade de Paris , erão traduzidos em 
AUemão j na Suissa , e o celebre P. Gerard compunha 
outros, e tinha feito publicar 56 quadros na mesma 
lingua para o uso das escholas. 

Piemonte e Sardenha. A eschola fundada em Nice , 
pelo Abbade Covin , protegida hoje eficazmente por 
M. TAbbé Cessollcy servia de eschola normal, e tinha 
já por affiliadas outra eschola em Nice , e mais três 
em Pisa e em Villafranca; abrío-se huma nova es- 
chola em Voghera ; o Pnncepe de Carígnan continuava 
a proteger o Ensino mutuo no Piemonte j e o clero 
ajudava notavelmente o impulso feliz com que o me* 
thodo se propagava. 

Toscana. A Princeza Corsini, a Condessa d'Albani , 
u sábio Fabroni , e outros membros da Sociedade dos 
Georgophilos y continuavão os seus úteis esforços para 
propagar o methodo na Toscana : no mez de Agosto 



ç4 Resenha Arusdytica. 

de 1819 duas novas e scbolas se tinhãq estabelecido 

naquelle paiz. 

Milanez. Em Brescia , debaixo dos auspícios do sá- 
bio Fiiddani , tinha-se fundado Iiuma eschola para i3o 
discípulos. Em Milão acliava-se estabelecida huma 
para 3oo meninos pobres y e outra era destinada para 
formar mestres, e propagar o methodo nas cidades 
e nos campos d^aquelles Estados. 

Nápoles. O Governo continuava a proteger a bella 
eschola estabelecida na capital ; todas as classes prin- 
cipiavào a decidir-se por este methodo , e tinha-se 
dado ordem para se abrirem novos estabelecimentos 
doeste género , tanto na capital j como nas Províncias. 

Maka. O Governo e os amigos da humanidade pro- 
moviào neste paiz o Ensino mutuo , e M. Naudi , mal- 
tez , que veio estudar o methodo , 6 mezes em Londres, 
e passou depois a examinar as escholas de França, devia 
ter estabelecido huma grande eschola naquella Uba, 
onde o P. Luigi , tinha fundado outra em Zeitoun , a 
duas léguas de Valette. 

Hespanlia* ElRei ordenou que se estabelecesse huma 
eschola de Ensino mutuo em todas as cidades do Reino- 
A de Madrid proseguia com grande desvelo*, ElRei e 
a Familia Real tinbào-na visitado duas vezes, e o 
Duque de Frias tinha feito doação , para este estabe* 
lecimento , de huma salla de baile , que lhe pertencia. 
Em Madrid , em Cadiz , em Saragoça , em Grenada , 
em Àlcalá exisllào já escholas florescentes; e huma 



Resenha jíruHytíca. 95 

pessoa, empregada na Embaixada hespanhola em Parts, 
tinha aqui seguido a Eschola normal do Ensino ma<» 
tuo, por ordem do seu Governo. 

Portugal. As esperanças que tinhamos concebido e 
justificado em outros volumes dos AnnaesCi), feliz- 
mente se confirmáiào : Portugal occupou em fim y a 
este respeito , o lugar que lhe era devido no quadro da 
educação geral da Europa ; com muita satisfação 
transcreveremos aqui fielmente as palavras porque M. 
Jomard , no seu Relatório , se exprimio a respeito da 
nossa Pátria. 

« Desde o mez de Outubro de iSiS, huma Deter- 
minação da Regência creou em Portugal escholas de 
Ensino mutuo. Em 181 7 , achavào-se em plena activi- 
dade : hoje estão florescentes. A ignorância em que se 
estava da existência das escholas portuguezas , na epo* 
cha da ultima Assemblea geral , nos obrigou a deixa* 
las em sdencio ; hoje corrigimos esta omissão , com 
o mais vivo prazer. Em Outubro de 1818, erào fi-e- 
qucntadas 55 escholas portuguezas , por 3:843 discí- 
pulos 9 tanto paisanos , como militares ; a prosperidade 
doestas escholas he de feliz presagio para a propagação 
do methodoycm todo o continente portuguez. » 

Accrcscentaremos a isto , que a Sociedade de Edu* 
cação de Parts recebeo com reconhecimento , a collec- 



( I ) V. Tom. VI P. x«. pag, 7 1 e Tom. VII P. a«. pag. 59. 



96 Resenha Analytità* 

çào dos trabalhos , publicados pelo Sn^. João Cbiisos- 
thomo do Couto e Mello, a qual este zeloso Director 
das Escholas de Ensino mutuo » em Portugal , nos 
remetteo; para lhe olTerecermos , em seu nome , e que 
não só ordenou que se desse conta d^elles no seu 
Journal d'Educationj mas, querendo prov^ar ao Sn*". 
João Chrisosthomo , a sua alia satisfação pelos ser^ 
viços que eUe tinha feito d educação publica ^ na creação 
de hum grande numero de escholas em Portugal , houve 
por bem, na sua sessão de 16 de Agosto, do corrente 
anno, nomeá-lo Membro correspondente da Sociedade, 
cujo Diploma , a mesma Sociedade nos encarregou de 
remettermos áquelle nosso compatiiota (1). 

^* ■■ '— ■ ' I ■ ■ ■ .1 ■ — 

(i) Eis-aqui a copia da carta com que a Sociedade nos 
remetteo o ditto Diploma. 

Paris , le 18 Aoàt i 820 

Le Secrétalre de la Socíété pour rinstruction Elémeutaire , 

A Messieurs les Rédacteurs des Annales des Sciences > des Arts 
et de la Littérature , ea langue portugaise. 

Messieurs , 

Becevez mes remerciemcns pour les soins que vous avez pris 
de faireconnaitrc à M. le capitáine BirecteUr des Ecoles militaires 
en Portugal , les travaux de la Société de Paris , et les progrès 
des Ecoles françaises. J'ai presente à la Société les ou?rages 
dont on lui est redevable ; cet homraage a éié accueilli avec 
reconnaissance. L'Assemblée a ordonné qu'il en serait reudu 



Resenha Analydcà. g^ 

Poi* tànto^y hoje , que penetrados de huma viVa sa- 
tisfação 9 podemos lisonjear-nos de ter conse^çuido 
estabelecer assim felizmente huma correspondência 
philanthropica enti*e a Sociedade de Paiis^e as escholas 
portuguezas, seja-nos licito esperar que não será in« 
terrompiaa , e que o novo sócio , correspondendo á 
distincçào, que acaba de receber, e aos séntimentoâ 
de patriotismo , que o animão , não permittirá qiie ó 
progresso d'eslas deixe para o futuro de figurar, todoâ 
os annos , no Mappa da Educação gei^aL 

Bélgica» A Sociedade de Educação de Bruxellas y 
fundada a instancias do D»*. Hamel, e animada e pre- 
sidida pêlo Princepe d'Orange , contava já 3o5 sub- 
striptores ; a eschola d*aquella cidade fazia progressos ; 
tinhào-se estabelecido duas em Liége , das quaes huma 
continha 3íjo discípulos ; pí^eparava-se huma terceira; 
A Sociedade de Huy tinha creado outra eschola nesta 
cidade ; e na eschola normal de Luxembourg tinhào-se 

Compte (lans íoti Journal d*£duca(iba , et elle s'cst émpressée 
de douner le titre de Correspondant à M. le Directeur dcs 
Ecoles portugaises. Veiiillez, Messíeurs, quand vous aures 
une occasion , adresser de ma part , k ce zélé philantrope i le» 
deux imprimes ci-joints , et agréer , avec mes remerciemens , 
Tassurance de ma considération distinguée. 

( Signé ) Le Duo de la YAuovToif . 

( Signé ) JoM\BD. 

( Signo ) Bé Degijiando. 
Tom. X. P. !■. 7 A 



qS Resenha AnalYtica. 

formado i5o mestres , destinados para propagar o me- 
thodo em todo o grão Ducado. Achavào-se em acti- 
vidade escholas em Horíoa , Hozemont , Cornessevizé ^ 
Mortier ^ Hodimont » Warenne , Hasselt e Tongres* 

Hollanda» A Sociedade do Bem publico continuava 
a promover o ensino naquelle,paiz,com a mesina efB- 
cacia ; tinha publicado até áquella epocha 149 livros 
difierentes , de que se serve nas suas escholas , e tinha 
feito traduzir em hollandez Simon de Nantua , que a 
Sociedade de Educação de Paris approvou , para uso 
das escholas do Ensino mutuo em França. 

AUemanha. O Duque de Saxe Weimar tinha man* 
dado hum mancebo a Londres aprender o methodo , 
para o introduzir nos sçus Estados; achava-se ulti- 
mamente estabelecida já nelles huma eschola. 

Riíssia. Na Rússia continuava a propagar -se o 
Ensino , mutuo debaixo da protecção do Imperador 
Alexandre y que ordenou que se fizessem e impri- 
missem quadros de leitura para as escholas militares. 
Em S. Petersburgo tinha-se formado huma Sociedade 
livre, para a propagação do methodo, cujo Regula- 
mento he fundado sobre as mesmas bases do da 
Sociedade de Paris. Na Lithuania tinhào-se estabe- 
lecido três novas escholas , debaixo dos auspicios do 
Princepe Czartorinzky ; e mais huma acabava de ser 
organisada em Irkutzk , na Ásia, a 1800 léguas de 
Petersburgo, pelos cuidados do general Speransky, 
governador do paiz. 



Resenha Analjrtica. 99 

Suécia e Dinamarca. A Suécia e a Norwega imita* 
vào o exemplo da Rússia \ e em Dinamarca , creou 
ElRei hunia eschola normal , para d'alli sahirem mes* 
treSy que propaguem ^ nas 3:ooo escholas d^aquelle 
Reino , o methodo, que M. Rlotz , Oinamarquez , veio 
aprender em Parts » e que , na sua passagem , devia 
estabelecer primeiramente em Francfort. 

Moldávia e Grécia. A instrtuiçào das escholas de 
M. Roznovano , primeiro Aga dTassy, continua a pro- 
pagar-se na Moldávia. A Grécia e a Turquia tinhâo sido 
ultimamente visitadas por M. William Allen , acom*- 
panhado de M. Grellet de New- York, thesoureií^o da 
Sociedade das escholas biitannicas^ com d (im de 
estabelecerem ahi o Ensino mutuo. Estes dois philan- 
thropos tinhâo percorrido Constantinopla , Smjrna ^ 
Athenas , Corintho , Zante , Corfú e Seio , onde o 
Primaz grego aceitou a presidência das escholas ele- 
mentares 4 que alli se formarão. 

Inglaterra. A Sociedade das escholas britannicas e 
estrangeiras , assim como a das escholas do D^. Bell , 
ou do systema de Madrás , proseguião constantemente 
os seus bem conhecidos esforços , para a generalisaçào 
da instrucção publica; eis-aqui o resumo do estado 
d*ella , conforme os Relatórios apresentados á Socie- 
dade Britannica , e os documentos remettidos ao Par- 
lamento. 

A Inglaterra e Paiz de Galles tem pouco , mais ou 
menos » i o milhões de habitantes ; frequentâo escho- 

7* • 



loo Resenha Ajuúyúca. 

las 45o:ooo indivíduos , isto he proximamente j^ da 
povoação; e 56o:ooo meninos ^ de 5 até i4 annos , 
não seguem escbola nenhuma. Na Manda não ha mais 
de 80:000 individuos ^ que aprendào a ler e escrever^ 
isto he y pouco mais ou menos , ro da povoação. Na 
Escócia , quasi todos os meninos seguem as escholas , 6 
que dá , proximamente, 180:000. Conforme estas bases , 
o total dos que aprendem a ler e escrever em todos 
aquelles três Reinos ( por toda a casta de methodo ) , 
seria , por approi^imação , de 710:000', e o dos que não 
aprendem por methodo algum, de 785:000; isto he, 
mais de metade do numero total das crianças de 5 
até i4 annos. 

Não deixaremos de pôr aqui hum resultado muito 
interessante a favor da instrucção publica , e vem a 
ser y que no Condado de Bedford onde somente j^ da 
povoação frequentava as escholas, havia rs de pobres , 
e no Cumberland , onde rr dos individuos se instruía» 
não se contava senão :^de pobres. 

AsiA. 

A Sociedade de Educação de Calcutta continuava 
nos seus esforços para propagar as escholas; os mis- 
sionarips anabaptistas instruião, na linguagem de Ben- 
gala, i5:5oo Índios nos arredores de Serampore ; e 
tinhão-se creado muitas eschoTas em Ceilão. Bombaim 
possuia huma Sociedade, para promover os progressos 
da educação ; os seus regulamentos achavão-se publi- 
cados nas línguas persa, indostan e guzarate. Em 



Resenha Anal^ca* loi 

Dacca , tinha-se também estabelecido buma no\a es- 
chola. 

África. 

Os progressos da eschola de S. Luiz ,00 Senegal^ 
erão consideráveis ; nós tínhamos fallado no liosso VI 
Volume d*este estabelecimento , e da Grammatica' e 
Diccionario da lingua Wolof ^ em que entào se tra* 
balhava alli ; M. Jomard, para apoiar agora esta parte 
do seu Relatório , apresentou á Sociedade a Conta 
que M. Dard , mestre d'aquella eschola , deo dos pro- 
gressos d'ella a M. le Baron Mackau^ Commissario 
d'ElRei y e Inspector dos Estabelecimentos públicos 
no Senegal , acompanhada da carta com que M. Dard 
remetteo á Sociedade de Paris copia da ditta conta. 
Hum e outro Documento comprehendem circumstani- 
cias tào curiosas . que nós , deixando por hum instante 
o Relatório de M. Jomard, daremos ao leitor hum 
extracto d* aquellas duas peças , que ,ao mesmo tempo, 
lhe farào conhecer o estado em que se acha a propa« 
gaçào do methodo , naquelle paiz. 

Cento e vinte rapazes frequentavão em ao de Jar 
neirode 18:2o a eschola de S. Luiz ^ que [á se achava 
inteiramente renovada em discipulos. Quasi i5o ne- 
gros , ou mulatos y tinhão alli sido instruidos y e pos ' 
suiào muito bem a instrucção primaria , e ainda ai ' 
gumas noções das Sciencias exactas. Muitos se achavâo 
já empregados pelo Governo , outros no commercio , 
e alguns na navegação. 



103 Reienha Anàfytiau 

M. Dard entende qae a mocidade do Senegal he 
dotada de grande intelligencia ; escreve e calcula bem , 
e lê , o melhor possível , mas tem grande dificuldade 
em comprehender a lingua franceza. As observações 
aturadas de M. Dard a este respeito , oonvencérão-no 
de que , para lhes ensinar aquella , era necessário , ao 
mesmo tempo , fazer-lhes ler e escrever a sua. Por esta 
causa, entendeo que devia occupar-se seriamente da 
lingua Wolof. M. Dard compoz quadros para a lei- 
tura em Francez e em Wolof, que lhe produzírâo 
excellentes resultados. Os seus trabalhos sobre esta 
lingua , fizerão-lhe conhecer que ella tem principios 
claros y simples , precisos , e que he , sobre tujo , àd- 
mirauel na composição dos seus verbos. Reduzindo a 
^rte as suas observações » formou huma grammatica , 
a que ajuntou grande numero de themas e provérbios , 
nas duas linguas ; trabalhou depois em hum Diccio- 
nario francez-woloí e wolof- francez ; e classificou 
grande quantidade de palavras wolofes para a forma- 
ção dos quadros de huma eschola mutua wolofe-fran* 
ceza. Actualmente trabalha em huma coUecçào de 
fabulas wolofes, e na traducção de Simon de Nantua^ 
na mesma lingua , na qual também já tem concluido 
a traducção do antigo e novo Testamento. 

M. Dard remetteo manuscriptos á Sociedade de Parts, 
com as duas peças que eztractamos , a sua gramma- 
tica, os seus Diccionarios , e as suas Taboadas wo- 
lofes,a fim de ser tudo impresso, para se propagar 
no Senegal. 



Resenha Analytica' to3 

Quanto ao estado presente da sua eschola , havia 
já nella muitos Instructores promptos para os novos 
estabelecimentos d'este género, que o Governador se 
propunha crear, no interior do paiz. Os Príncipes 
d^aquelles contornos vinhào visitar a eschola de M. 
Dard , e três doestes tinhão tomado noções do systema 
mutuo , com a intenção de o pôr em practica para o 
ensino do Alcorão. Na epocha em que M. Dard es- 
crevia , frequentavão o seu Estabelecimento quatro 
filhos dos reis de Galam e de Bambuk , para apren- 
derem as linguas wolof e franceza, a fim de as ensi- 
narem depois nos seu$ paizes. 

A eschola mutua das meninas y dirigida pelas Saurs 
de S. Joseph , achava-se em plena actividade , e con- 
tava já 5o discípulas. 

America. 

Na Uha de S. Domingos promovia-sé com grande 
proveito o Ensino mutuo. Na cidade do Cabo , os pro- 
gressos dos discípulos erào pasmosos ; muitos tinhâo 
sido já admittidos no coUegio , para se habilitarem allt 
para os empregos públicos. A Sociedade de Parts linha 
feito presente de Soo exemplares de livros para uso de 
nova eschola do Port-au-Prince, para o estabelecimento 
da qual , hum anonymo tinha dado aooo francos. A 
antiga eschola , fundada naquella cidade por M. Bos- 
worth, e hoje dirigida por hum* filho do paiz, está 
debaixo da protecção do Presidente, que fez vestir 
os díscipulos , á custa do Estado. 



'io4 Resenha Analytica. 

Em Buenos Ayres , para onde a Sociedade de Paris 
já tinha mandado quadros e modelos ^ como dissemos 
em outra occasião , fizerào-se instruir homens , a fim 
de se habilitarem ^ para propagar o methodo no paiz. 

Para o Chili mandou a Sociedade collecçâo de 
quadros e modelos , que d*aquella provincia lhe forâo 
pedidos y ç huma igual remessa fez para o Brasil , 
pnde luim francez fundou huma eschola > para a 
ipstrucçào dos rapazes negros de ambos os sexo$. 

Nos Estados-UnidoSy o methodo continuava a fazer 
progressos. A Sociedade de Philadelphia propunha*se 
a estal)elecer correspondência com a de Pails. Na 
Pensjlvania , onde já existia huma eschola para mil 
discípulos, deviáOy em virtude de huma nova lei, 
estabelecer-se outras para 3ooo; estas escholas serão 
dirigidas pelo celebre Joseph Lancaster , hoje residente 
em Philadelphia. 

No Condado de New-York havia escholas para 3:6oo 
meninos. Havia igualmente estabelecimentos, da mesma 
natureza , na Nova-Escocia , em Halifax , em George- 
Town, em Cincinnati y ein Boston , em Washington, 
em Alexandria , em Baltimore y em Louisville , em 
Lexington, e em Norfolk. 

Tal he o resultado dos Relatorios^em que M. Jomard 
apresentou á Sociedade , de que he hum dos Secre- 
tários , o estado de propagação e os progressos das 
escholas elementares , em 1819 , em todas as paites da 
Mundo. 



Hesenha Analytica: io5 

Concluiremos o presente Arligo com as expressôe&y 
com que M. Joniard conclue o seu Relatório , á cerca 
dos paizes estrangeiros. « O Governo , diz elle , felicita- 
nos y pelos vínculos que nós multíplicamos , fora de 
França ^ com todos os antigos do Ensino mutuo ( são 
palavras oíBciaes do Governo) , e anima as nossas com- 
municaçôes , em vez de lhes pôr obstáculos. Com o 
tempo, continua M. Jomard , poderemos pois conse- 
guir ajuntar noções assaz importantes , para o conhe- 
cimento dos progressos da educação universal ; objecto 
final dos esforços dos verdadeiros philanthropos e de 
todas as Sociedades instituidas para o mesmo fim ^ 
que se propõe a nossa* » 

C. X. 



i^^t^^i^^f^n^^^mi 



io6 Resenha Anàfyueiu 



CONSIDERAÇÕES 

Sobre as thearias medicas, e particularmente sobre os 

opiniões do D^, Broossais. 



1»»»^^* 



(SEGUNDO ARTIGO.) 

lliRÁ nossa intenção consagrar este sqpindo Arti{;« 
directamente ao exame da doutrina de M. Broussais 
sobre a origem das Febres \ mas a certeza que temos 
de que este autor já começou a imprimir huma nova 
edição da sua obra , na qual promette ezplicar*se sem 
ambiguidade sobre as bases do seu systema, e ajuntar- 
Ihe elucidações importantes , julgámos conveniente 
esperar pela publicação d'este trabalho para então 
examinarmos as opiniões do seu autor , as quaes por 
ora involvem contradicções , e oSerecem tanta ob* 
scurídade que não he fácil saber qual seja o verda* 
deiro modo de pensar de M. Broussais. Alem do que , 
o seu caracter imtavel e inimigo de contradicçào , o 
torna mui susceptivel de accusar os que não são da 
sua opinião , de intencionalmente alterarem as expres- 
sões de que elle se serve nas diversas obras e artigos 
avulsos que tem successivamente publicado ha alguns 
annos. Para evitarmos , quanto for possivel ^ ser accu- 



Resenha Anàfyuca. 107 

sados de hum delicio já a tantos médicos imputado 
por M. Broussais e seus sectários , suspenderemos por 
ora o exame directo da sua doutiina \ mas para preparar 
o leitor para elle, e para tornar mais fácil o trabalho 
que intentamos fazer y vamos neste artigo proseguirna 
investigação de certos pontos fundamentaes de phj* 
siologia e de pathologia , que tem connexào directa, 
não só com a doutrina de M. Broussais , mas igual- 
mente com a de quantos autores tem escripto sobre 
Inflammação e Febres , e especialmente os D.""®* Bcd- 
does e Philips Wilson em Inglaterra, e muitos mé- 
dicos em Mlemanha , ItaUa , etc. 

Não sendo possivel abranger em poucas paginas 
-quanto diz respeito aos diílerentes systemas que sobre 
as leis da Economia animal tem procurado estabelecer 
os physiologístas os mais distinctos, limitar-nos- hemos 
aqui ao exame de algumas opiniões relativas á In- 
flammação. O motivo porque preferimos esta inves- 
tigação he y não só porque M. Broussais , assim como 
muitos outros autores antes d'elle, tem procurado 
reduzir todas as Febres, e muitas outras doenças a 
meras inflammâçòes , mas também porque estas alte- 
rações mórbidas , pela sua simplicidade , frequên- 
cia , situação , e facilidade com que podem a nosso 
arbitrio ser excitadas em partes apparentes, parecem 
muito mais fáceis de averiguar ; e com eOeito , o que 
mais lisonjea os médicos que pertendem ter reduzido 
quasi todas as doenças á inflammação, he sem duvida 
iulgarem que esta he huma dpença simples^ de cuja 



io8 Resenha Anafytíca. 

natureza e tratamento elles tem hum cabal conheci- 
mento. Não he agora o nosso objecto examinar até 
que ponto esta opinião he fundada em quanto ao 
tratamento , e se com eíTeito existe tal concordância 
na therapeutica de todas as doenças inflammatorías. 
O quQ por ora nos importa investigar he , se a theoria 
a mais geralmente admittida a respeito da inflamma* 
çào he ou não bem fundada . 

Não fafUaremos dos antígos , que ignorando a circu- 
lação do sangue e a existência e funcções dos vasos 
lymphaticosy attribuirão todos os phenomenos da 
inflammaçào á congestão ou qffluxo dos diversos hu- 
mores do corpo. Também pouco diremos da theoria de 
Boerhaave que he demasiadamente mechanica , e evi- 
dentemente incapaz de explicar os phenomenos : alem 
de que^a obstrucçào mechanica não pode ser admit- 
tida como causa da inflammação; e a obstrucção 
pathologica , suppondo a sua existência , não pode 
ser a causa próxima da inflammaçào , pois que ella 
não pode conceberse sem ser hum resultado immer 
diato de huma alteração anterior dos sólidos ou dos 
liquídos, a qual > nesse caso , seria a verdadeira causa 
próxima da inflammação. Em quanto á supposta acrí- 
monia dos líquidos ou á cooperação doeste elemento 
com os mais que são susceptíveis de produzir inflam- 
mação , basta dizer que nada ainda se sabe positi- 
vamente a este respeito , se bem que nos pai^ce mais 
que temerário negar que pode haver, e que ha com 
eíleito alterações nos fluidos circulantes^ capazes de 



Resenha Anafytica. 109 

causarem em certos orgàos alteração produCtiva de 
ÉK doença , e isto só por não conhecermos ainda bas- 
srtantemente a natureza d*estes fluidos , tanto no estado 
\ ^ de saúde como no de doença. Ha doenças tão eviden- 
e- temente produzidas por matéria inoculada , e susce- 
r ptivel de se reproduzir e de communicar a outros in- 
dividuos a mesma doença , que estes casos bastarião 
para admittir como elemento necessário de algumas 
inflammaçôes a natureza das matérias que circulào 
com os nossos liquidos. Outivas considerações nos fa- 
zem igualmente ver que as alterações manifestas dos 
liquidos circulantes, ou a applicaçào a hum órgão 
dos fluidos que lhe não são propríos, são capazes de 
excitar hum estado mórbido e frequentemente a in« 
flammação* Isto he tão frequente que apenas carece 
de provas. Basta considerar o estado do sangue no es- 
corbuto j no carbúnculo , os efleitos da ourína extra- 
vasada , os phenomenos das concreções biliares , got- 
tosas , etc. a existência provada da bilis no sangue e 
06 seus edeitosy para nos convencermos que toda a 
theoria que não considerar os liquidos como coope- 
rando com os sólidos, tanto na producção dos phe- 
nomenos da saudç como nos da doença, não dará 
nupca senão huma explicação incompletta, e por tanto 
inexacta dos factos. Faremos só huma observação 
mais em quanto á acção dos liquidos , a respeito dos 
quaes só pertendemos estabelecer em these geral que 
a sua acção deve ser estudada , e que he indispen- 
sável conhecé-la , para podermos explicar os pheno- 
menos da economia animal \ convindo todavia , que r 



iiô Resenha Anafytica* 

DO estado actual dos nossos conhecimentos, ke impes* 
sivel fundar sobre os fluidos animaes raciocínio algum 
admissível relativo á physiologia ou á pathologia : por 
ora he forçoso contentar-nos com o pouco que sabe* 
mos a respeito dos sólidos , os quaes nos be menos 
dii&cil estudar no estado de vitalidade, que ellet 
possuem mais privativamente e de huma maneira 
menos transiente que os liquidos. A observação a que 
alludimos be, que todos os fluidos circulantes não 
s6 exercem sobre os sólidos huma acção mechanica , 
mas que , ha , entre huns e outros, acções e reacções , 
e que, se as alterações das propriedades , phjsicas e 
chymicas dos fluidos, são muitas vezes effekos da 
acção dos sólidos, também não poucas s&o causas 
immediatas das alterações d*estes. 

« 

A theoría de CuUen quasi que não diíTere da de 
Boerhaave -senão em substituir a palavra spasmo á de 
obstrucção , e em admittir que , ao mesmo passo que 
na inflammação as extremidades das artérias estão 
spasmodicamente contrahidas , os troncos im mediatos 
são dotados de maior acçào. Esta theoria he tão mal 
expressada e ainda mais mal desenvolvida nos escri- 
ptos de.CuUen, que he difficil ajuizar do que nella 
ha de exacto , e de bjpothetico e inadmissiveL Cul'* 
len não prova a existência do spasmo , nem diz bem 
o que entende por esta palavra ; alem do que , attri* 
bue o spasmo á congestão , em vez de attribuir a 
congestão ao spasmo \ e em huma palavra não merece 
a sua bypothese hum serio exame. JNella não se ex- 



p 



Resenha Arudytijca. iit 

iplicão os princLpaes phenomenos inflaiamatoriós; e 
para provar a fal&idade delia , basta a simples ohser* 

I vaçào y que a ligadura de huma artéria considerável 
nào produz necessariamente inflamniaçào , posto que 
nesta experiência a obstrucção á paisagem do sangu& 
seja evidentemente mui superior a qualquer obstáculo 
procedido do spasmo das extremidades arteriaes. 

Nada diremos das opiniões de João Hunter nesta 
matéria , pois sào tão vagas , confusas e mal digeridas » 
que he impossivel fazer delias huma exposição que 
se entenda, e menos ainda que satisfaça. Falia de 
acção augmentada dos vasos y e diz que a principio 
he accompanhada da distensão dos mesmos vasos; 
quer que este augmento de acção proceda de huma 
diminuição da força muscular das artérias» ao mesmo 
passo que a sua elasticidade admitte maior dilatação ; 
e huma serie de outras proposições y a nosso ver, inin- 
telligiveisy ou contradictorias , e nenhuma fundada 
em experiências ou em factos bem analysados. 

No meio da confusão que neste assumpto, assim 
como em todas as mais questões de medecina , tem 
reinado desde a infância d*esta sciencia » a opinião 
que. hoje está mais espalhada he , que a acçào oagmen* 
toda dos vasos constituea essência om he a causa pro-. 
xirna da inflammação : buns querem que este aug- 
mento de acção comprehenda todas as artérias da 
parte inflammada; outros , e este he o maior numero, 
limitào este excesso de acção aos capillares. Esta opi- 



II!» Hesenha Aruãytiira* 

niào deve a sua origem ás ideias de Stahl sobre o 
tom ou a acção vital dos capillares, e enti*e os seus 
discípulos que a propagarão, deve contar^se oD>'.Gorter, 
o qual, no seu Compendium Medicince eno, Chirurgia 
Mepurgata , diz que « a causa próxima da inílamma- 
ção consiste no augmento da acção vital de huma 
artéria ou artérias, por eíTeito do qual o sangue he 
propellido com maior força que de ordinário , nos 
vasos lympliaticos e brancos que commumcào com 
estas artérias. » 

Todos concordão em dois pontos , i^. que a inffam- 
mação tem o seu assento nos capillares*, eti^. que a 
parte iáflammada contém mais sangue que no estado 
natural. Na explicação dos symptomas , a dôr oíTerece a 
difficuldade notável de saber como os 'nervos augmen- 
tão de sensibilidade, a ponto que as partes as mais 
insensíveis no estado de saúde se tornão as mais dolo- 
rosas quando estão inflammadas. Parece impossível 
attribuir isto á simples distensão produzida pela maior 
quantidade de sangue , por muitas razoes , e particu- 
larmente porque a dôr precede a congestão, e não 
tem com ella a menor proporção. He de crer que 
alguma causa occulta modifica directamente a sen- 
sibilidade; mas julgamos mais acertado confessar a 
nossa ignorância a este respeito , do que contentar-nos 
com a explicação de Bichat,o qual diz que, neste caso, 
a sensLt)ilidade orgânica se converte em sensibilidade 
animal \ pois semelhante asserção nada elucida e he 
apenas intelligivel. 



Resenha j4nalyticã. 1 13 

A vermelhidão he por todos attribuida á maior quan^^ 
lidade de sangue arterial na parte inflammada , e por 
alguns , a este fluido conservar nas veias immediatasafl 
propriedades de sangue arterial. Isto não está bem pro- 
vado i mas a constância da crosta inflam matoría , eOfeito 
da menor promptidào com que o sangue coagula nas 
inflammações , a maior consistência do coalho , quando 
huma vez se forma , e a maior quantidade de soro 
que d'elle he expellido , são provas superabundantes 
de alterações notáveis nas propriedades do sangue 
das partes inflammadas^ que influem sobre a côr » con*- 
sistencia , etc. doeste fluido. O que prova que estas 
alterações^do sangue não dependem meramente da ac-* 
çào local dos vasos inflammados , he observarem-se 
no sangue tii*ado de qualquer veia, nas phiegmasias 
do bofe e das mais visceras : he notável que o sangue 
das mulheres gravidas offerece constantemente os 
mesmos phenomenos. 

O calor inflammatorio tem sido explicado de mil 
maneiras , segundo as theorias que na physica tem 
predominado , porém a verdade he que , sobre esta 
matéria nada absolutamente se sabe, e só conhecemos 
perfeitamente a futilidade das conjecturas que a este 
respeito se tem feito. He indubitável que o calor não 
procede da fricção e rapidez do movimento do sangue , 
pois , ainda suppondo-a infinitamente maior que em to* 
das as hjpotheses, nenhum calor notável pode resultar 
d'essa supposta velocidade. Referi-lo á maior acção 
dos vasos he mera supposição, e logo veremos quão 
pouco fundada , e em todo o caso he inadequada 
Tom. X P. ia. 8 \ 



ii4 Resenha Analytica. 

para a explicação dos pbenomenos. Attríbut-lo a ma- 
danças chymicas determinadas , he mui precipitado ' 
porque nenhuma he ainda conhecida que dé razão 
doeste augmento do calor , no sangue. Em huma pa-^ 
lavra , em quanto a origem do calor animal não for 
conhecida, he escusado procurar a causa do calor 
inflammatorio. O influxo nerveo, seja elle qual for, 
he evidentemente indispensável para a producçào do 
calor animal , como o provào decisivamente os expe- 
rimentos de M. Brodie ( V. PhilosophicalTransactions 
for i8i i')j pelos quaes se vé que a separação da massa 
cerebral j ainda continuando a respiração e a circu- 
lação por meios artiíiciaes, faz diminuir rapidamente 
o calor do animal. He também de notar que as mu- 
danças do calor animal difierem muito , segundo são 
medidas pela thermometro, ou pelas sensações de cada 
individuo y pois muitas vezes quando o doente expe- 
rimenta o mais violento calor, apenas o thermometro 
indica poucos grãos de aiigmento de temperatura , e 
até ha casos em que este instrumento não marca 
diOerença notável , ou até indica diminuição de calor. 

Não se conhecendo pois a explicação da doença 
reputada a mais simples e a mais fácil de se produzir 
artificial e externamente , alguns médicos tem procu- 
rado y ao menos , acclarar alguns dos pbenomenos que 
a constituem. Persuadidos da insufficiencia de todas 
as tbeorias existentes , tentarão M. Allen eoD^ Lub- 
bock , em Edimburgo, provar a falsidade de huma das 
proposições fundameataes das tbeorias mais geral- 



Resenha Arudytica^ ii5 

mente recebidas, a saber , que a acção angt^entada 
das artérias capillares constitue a causa próxima da 
inflammaçào» Ambos estes autores j que forão seguidos 
por M. Thomson e pelo D**. Wilson , ignoravão que 
as mesmas opiniões tinbào já sido professadas pelo 
professor de Pisa y Vacca Berlingbieri , o qual publi- 
cou em Florença em 1765 hum pequeno Tratado inti- 
tulado : Liber de Inflammationis morboòos , quce in hu- 
mano corporejit, naturd, causis, effeçtibus , et curalione, 
no qual , em forma mathematica se propoz demonstrar 
a falsidade da hypothese geralmente admittida, da ac- 
ção augmentada dos vasos inílammados. Os argumentos 
de MM. AUen e Lubbock são os mesmos que os do 
professor Vacca ) e nos parecem demonstrar perfeita- 
mente a impossibilidade da opinião recebida. Como a 
obra do professor Vacca he pouco conhecida fora dât 
Itália , vamos dar alguns extractos das principaes pro- 

« 

posições que ella encerra , e da maneira por que elle 
as demostra* 

c Prop. /. — * Inflam matio cujusvi partis humani coi*porís 
nunquam íit, msi in ipsa parte sangois Coacervetur et fere 
quicscat» 

» Demonsiratio. — Id experientia , qttae nunquam fallit ,cla- 
rissime consta t. Videmus enim > antequam inflammatio incipiat , 
partis inflammatse molem semper modo magÍ8> modo minus 
augescere : et ex colore rubro , quo pars eadem perfunditur , 
evidenlissime infertur > sanguinem tum in canalibos propriít 
ipsius partis majori copia colligi > tum alios canales non rubros/ 
veiutt serosos ingredi. Utrumque vero iicri non potest, nis» 

8^ 



1 16 Resenha Analítica. 

major sangulnis quantitas ad partem ipsam confluat,et in eadem. 
coacervetur. Tandem si cultello vel phlebotomo , pars iuílam^ 
mata incida tur , magna in ea sanguinis coacer\ari copia repe- 
ritur. Ergo patet propositum. 

» Prop. 11. -— Goaceryatío et semistagnatio sanguinis , vel 
alius humoris corporis huraani in quacumque ipsius corporis 
parte minime contingere potest sine ipsius partis absoluta vel 
relativa debilitale. 

» Debilltatem absolutam vocamus eam realem vigoris cana- 
lium ^ et solidorum imminutionem ; relative autem debilia fieri 
solida alicujus partis intelligimus^ cum crescente sanguinis xtor 
petu , et in eadem ratione crescente solidorum aliaram partium 
vigore, in canalibus , et solidis e}us partis vigor soUtus remanet, 
qui idcirco aucto sanguinis momento resistere nequit. 

» Prop. III. — Data eadem partis cujusdam debilitate , non 
solum coacervatio, et semistagnatio sanguinis fict in ipsius partis 
sanguineis vasculis , ut demonstratum est , verum etium eanales 
laterales Ijmpba ticos et adiposos ipsius partis sanguis ingredi 
debit. 

« Prop. IV% — Ex majori collectione sanguinis in vasculis 
sanguineis alicujus partis , et ex ingressu ipsius in canales tam 
Ijmpbaticos quam adiposos , Pt ex ejusdem sanguinis per ipsos 
atque sariguineos canales lentíssimo motu inílammatio morbosa 
in eadem parte oriri potest. 

» Prop, V. — Ex majori sanguinis in parte quacumque in- 
ílaminatione, inflammatio pinguedinís circumpositae, et iu ea 
parte cxistentis , exorietur. 

» Prop. VI. — Kx enata inflammatione in aliqna hominí 
corpoiis parte major sanguinis > et bumorum quantitas in eam- 



llesenha jánalytica . 1 1 7 

6em partem inílait , atque ideo tumor necessari» major fieri 
debet. » 

Aqui não ha de inexacto senão a supposiçâo gra- 
tuita que mais sangue corre para a parte inflammada, 
quando he evidente que elle se accumula nella uni- 
camente por:]ue o sangue transmittido pelo coração 
circula com menos facilidade. A. passagem seguinte 
mostra que, a pczar da incorrecção das ideias chy-' 
micas do autor, são mui acertadas as suas indicações 
de tratamento. 

« Si humores ínflammata parte collecti , et efiusi qutescente 
diu mancant , corram puntur, et suppurationera vel gangraraam 
producunt , aut durescuut , et scirrhus supervenit. Ut igitor 
ea mala evitentur , necesse est ut fluida stagnantia resorbean- 
tur , et circulatório motu rursus in gyrum circumagantur. Quod 
ut íiat , vigor partis iuílammatse solidis reddí debet ; cum jam 
demonstrayerimus, stagnatioDes inílammatorías ex partis ipsius 
debilitate nasci. Vigor partis inílammatae augeri potest, vel 
immediale et directe , vel indirecte «t raediate. Immediate au- 
getur applicando eidem parti iriedicamenta roborantia. Indi- 
recte autem roborantur partes , vim , qna fluida contra ipsas 
agunt , iufringendo. » 

Estes extractos bastão para provar que o professor 
Vacca reconheceo plenamente o erro da tbeoria ge- 
ralmente recebida sobre a inflammaçâOy pelo que toca 
ao estado de acção dos vasos arteriaes, que he a 
parte a mais importante , tanto para o conhecimento 
pathologico, como para o tratamento d'esta enfermi- 
dade. Vamos resumir os principaes argumentos contra 
a supposta causa da inflammação. 



ii8 Resenha Analítica. 

lO. Nenhnm experimento ou prova directa demostra 
que os capillares de huma parte inflamroada tenhào 
maior vigor , ou que o sangue se mova nelles, durante 
o período inflammatorío , com mais velocidade. 

a®. Muitos experimentos feitos pelo D*". Wilson , M. 
Boraston , e outros médicos j provào directamente o 
contrario ; d*elles resulta , que o augmento de acção 
dos vasos de qualquer parte de hum animal não produz 
inflammação^ quando ella sobrevem , por qualquer 
causa y os vasos se enchem de sangue , diminuem de 
acção y e o sangue circula com menos velocidade; 
e emfim he possivel muitas vezes directamente re* 
mover a inflammação já começada , stimulando os 
vasos da parte. 

I 

Z^* A congestão e inchação são absolutamente inex* 
plicaveis e incomprehensiveis na hypothese de huma 
âcçâo augmentada da circulação local, cujo efieito 
incontestável deve ser a passagem rápida de maior 
quantidade de sangue pelos vasos , e por modo ne- 
nhum de o fazer demorar nelles. 

4^. O principio e progresso de toda e qualquer in- 
flammação não denotào augmento de secreções , antes 
pelo contrario todas são caracterisadas pela diminui- 
ção dos fluidos que no estado de saúde manão dos 
vasos da parte. Se nisto ha algumas excepções, são 
antes apparentes que reaes , e procedem , ou da inac- 
ção ainda maior dos absorventes, ou da absorpçào 
<las particulas mais fluidas das secreções. 



Resenha Analjtica. 119 

50. As causas que produzem inílammação, diminuem 
directamente a acção dos vasos , ou alterão parte 
da organisaçào local , e por tanto não he possivel 
suppôr que augmentem o vigor do órgão ofiendido. 
Como he crivei que o frio e o calor excessivo , que 
huma contusão , buma fenda que lacera , corta e 
destroe os vasos , dêem origem a huma acção mais 
enérgica que no estado de saúde ? 

€^. Todos os phenomenos se explicão pela suppo* 
sição y que os vasos inflammados tem menos energia 
que os seus troncos ; o que não acontece na suppo*» 
sição contraria. 

Em quanto ao tratamento da inflammação , seria 
absurdo tirar d*elle argumentos pro ou contra qual- 
quer theoria , pois que , seja qual for a que se adopte» 
sempre será forçoso confessar, não só que inílamma- 
ções diversas e de tecidos diíTerentes se curão por 
tratamentos oppostos , mas até que inflammações 
idênticas podem curar-se de maneira mui diiTerente, 
e he incontestável que muitas se curão pela applica- 
ção de agentes chamados stimulantes. O profes3or 
Vacca estabeleceo com muito acerto que ha dois me- 
thodos curativos , hum directo , e o outro indirecto ; 
os dois partidos só podem diOerir sobre qual d*estas 
denominações convenha a hum methodo curativo , 
mas todos devem convir que por ambos os methodos se 
cura, pois esse he hum facto incontestável; e he de 
notar que dos dois o que cura mais promptamente » 
quando be indicado , he o methodo stimulante. 



lao Resenlia Analytica, 

A estas razoes ajuntaremos outras , tiradas de con- 
siderações mais elevadas á cerca das leis da economia 
animal , ás quaes nos parece que os escriptores em 
medecina não tem feito a devida attencào. 

Os movimentos conservadores de cada animal con- 
stituem a vida; o equilibrio ou a justa proporção 
entre elles constitue a saúde ; e a alteração d*estas 
proporções produz a doença. A preponderância con- 
stitucional de qualquer funcção , sjstemâ , ou órgão 
constitue os temperamentos e idiosyncrasias ; e cada 
sexo e idade he caracterisa^do pela preponderante in- 
fluencia de hum systema ou órgão. 

Todas as partes que compõem o corpo humano 
requerem para a continuação das suas funcções, nas 
pro. orções que constituem a saúde , alternativas de 
actividade e de descanso; e entre os principaes sys- 
temas e funcções existe hum constante antagonismo 

« 

de acção. D'aqui se segue , que he absolutamente im* 
possível que todos os movimentos e funcções da eco- 
nomia animal sejão augmcntados ao mesmo tempo , 
ou diminuídos no mesmo grão. 

Por esta razão , até no estado da mais perfeita saúde, 
nas mais vigorosas couNtituições , e em qualquer idade 
e sexo , ha sempre hum systema , ou funcção que 
predomina sohre os mais , e quando esta preeminente 
energia he mui for!e, .ipproxima-se muito ao estado de 
doença. Por exemplo, as muilieres dotadas de huma 
exquisita sensibilidade physica e moral^ tem geralmente 



liesenha Analrtica* lai 

•ò systema muscular frouxo ; os homens athleticos tem 
pouca sensibilidade, e de ordinário huma circulação 
muito menos activa que os individuos delicados ; as 
pessoas de talentos ti*anscendentes , ou de huma viva 
imaginação y são em geral pouco vigorosas y em quanto 
á maior parte das funcçôes da vida orgânica. Doesta 
observação nascem as prediSi>osições ás diãerentes 
doenças : todos os médicos philosophos .concordão 
sobre este ponto* 

He possivel augmentar a acção de qualquer órgão 
ou systema por hum certo espaço de tempo sem que 
dahi resulte doença , com tanto que esta acção não 
seja nem immoderada,nem mui prolongada. Também 
hum individuo pode adquirir maior vigor geral do 
corpo y por eíleito de huma melhor dieta e regime ; mas 
isto he resultado lento y e nunca pode ter lugar rapida- 
mente , conservando-se a pessoa em estado de saúde. 

O vigor consiste na intensidade e regularidade dos 
movimentos naluraes , e na possibilidade de os execu- 
tar pelo maior espaço de tempo , sem doesse exercicio 
resultar inaptidão para os continuar, maior da que deve 
nascei^ das alternativas de acção e repouso, de que 
as partes carecem para recuperar as suas forças. 

Por conseguinte , todo o movimento iiregular, ainda 
que momentaneamente seja enérgico , como nas con- 
vulsões ; e toda a cessação de movimento , ainda que 
a parte esteja extremamente contrahida e rija , como ' 
nos spasmos e no tetanos , indica doença , e por tanto, 
falta de vigor vitaL 



ia!i Resenha jínafytica. 

As expressões de — exaltação de movimento » energia 
augmentada , excesso de acção ou de tom , appUcadas 
a estes e a outros casos semelhantes , são evidentemente 
impróprias , inexactissimas , e dão lugar a erros graves 
na explicação e tratamento das doenças. Dizer que a 
energia muscular de huma mulher delicada está aug- 
mentada ^ porque os seus músculos se contrahem con- 
vulsivamente com huma força que custa a superar , 
he confundir hum defeito ou aberração das proprie- 
dades vitaes y com o augmento das condições da saúde ; 
he confundir a inhabilidade com a aptidão, e em 
huma palavra he confundir a debilidade com o vigor, 
fazendo huma errada applicação de noções Uradas da 
natureza morta ao corpo vivo. Se a tensão , a rijeza , 
e a diíBculdade de Jazer que hum corpo , mais ou me- 
nos elástico ou flexivel , mude de posição , são signaes 
de íorça em huma barra de ferro , não o são por certo 
nos corpos animados , pois em tal caso seria hum 
cadáver mais vigoroso que o corpo vivo; e he bem 
sabido que a rijeza cadavérica , e a tensão dos múscu- 
los, em certos casos , he tal, que não ha força de homem 
que as possa superar. O doente delicado , nas mais vio- 
lentas convulsões hystericas , e na maior tensão do te- 
tanos , está tão longe do vigor animal dos corpos vivos , 
quanto mais estes dois estados se avizinhão da morte. 
E tanta he a debilidade vital do epiléptico , quanto a do 
marasmado , e do hydropico ; a maior relaxação e a 
maior contracção são igualmente aberrações da saúde 
e do vigor ; e posto que o estado das partes seja diílè- 
reute, ambos conduzem á destruição das funcções 



Resenha Analítica* ia3 

conservadoras da vida , e por consequência rigorosa , 
<le nenhum pode dizer-se que indica vigor vital. 

Por esta razão he que Brown fez hum serviço nota^ 
vel á Medecina quando chamou debilidade todo o es- 
tado de doença ; só se enganou quando , referindo 
tudo á ideia vaga de stimulo, pertendeo determinarem 
que casos havia excesso ou falta d*elle. Isto he patente 
na questão da inílammaçào que nos occupa. 

Admittido pois , que nenhuma doença local ou geral 
pode consistir no augmento durável das funcçôes ha* 
bituaes da parle ou do systema atacado ^ e que toda a 
doença consiste em huma desigualdade dos movimen- 
tos habítuaes da economia animal , segue-se, que em 
toda a lesão mórbida deve haver acção relativamente 
augmentada de alguma parte, systema ou funcção; 
mas isto he eíTeito e não causa da doença primitiva, 
a qual invariavelmente depende de diminuição da justa 
proporção entre as forças locaes da parte. Esta dimi- 
nuição pode ser acompanhada com augmento de sen- 
sibilidade ou dor, a qual, em vez de ser hum signal 
de vigor yhe a sensação a mais nociva á vida^epor- 
tanto a mais debilitante ( no sentido rigoroso doesta 
palavra applicada aos animaes ). Â dor indica huma 
alteração mórbida dos nervos, huma diminuição das 
condições necessárias ás suas funcçôes , pois que toda 
a parte dolorosa cessa de fazer, ou faz menos bem 
todas as suas funcçôes habituaes , todos os seus mo- 
vimentos I as suas secreções, etc. 



124 Resenha Analytica. 

Os movinrentos angmentados nas doenças, são, como 
)á dissemos y efieitos da afiecção morlnda primitiva, 6 
só tem alguma duração e permanência quando o sjs- 
tema ou órgão em que se maniieslào está são ; por 
exemplo , o coração pode contrahir-se com mais fre- 
quência e vigor^por algum tempo, quando não lie o 
assento da doença , e quando por efieito de sympathfas 
ou de hum obstáculo positivo á circulação , que obra 
como hum excitante mechanico , he forçado este órgão 
a contrahir-se com mais energia ; mas esta energia 
não pode conservar-se muito tempo sem debilitar o 
oi^ão. Nas mais violentas phlegmasias, v.g. do cérebro, 
do bofe, o coração está são; outro tanto acontece 
nas febres. E he bem digno de notar-se que o coração 
e as fibras musculares, órgãos em que se observa 
nas doenças maior augmento de acção momentânea , 
são precisamente as partes do corpo humano menos 
frequentemente atacadas de doenças primitivas e 
graves. O assento de quasi todas as doenças , he nos 
vasos ténues , e nos tecidos onde he menos sensivel a 
acção da circulação, menos apparente a sensibilidade, 
e em huma palavra onde ha menos forças vitaes , e 
por conseguinte menos meios de vencer qualquer ob- 
stáculo á continuação dos movimentos de que depen. 
dem as funcções do órgão ; ou nas partes onde ha 
maior complicação de operações vitaes , e nas super- 
fícies expostas á influencia directa de agentes externos, 
cuja acção não pode ser directamente superada pela 
vitalidade local. 

Brovsn teve razão de exprimir pela palavra excita- 



Resenha Ãnàlytica» ia5 

Lilidade a simples aptidão a executar movimentos 
vitaes , sem considerar nem o influxo nerveo nem a 
fibra muscular; teve igualmente razão em chamar 
debilidade todo o estado mórbido , de dar o nome 
de indirecta á que procede do augmento dos stimulos 
habituaes e saudáveis , e de chamar directa aquella 
que he causada , ou pela diminuição doestes , oa 
pela applicaçào dos que são mais ou menos noci- 
vos á vida. Até aqui não fez mais que exprimir 
verdades , que he impossivel contestar ; mas logo que 
pertendeo desenvolver o seu systema» cahio em grar 
vissimos erros , que tem depois grassado , não só entre 
os seus numerosos sectários , mas não menos entre os 
que professão ser seus antagonistas. 

Doestes erros os principaes são os dois seguintes : 

i®. Considerar o corpo como homogéneo em pro* 
priedades , e a acção dos agentes como idêntica , e só 
diíFerindo em grão ; e olhar todos os phenomenos da 
vida. como huma simples stimulação. 

*i9. Suppôr que nas doenças j tanto locaes como ge- 
raes » a natureza da alteração das funcçôes he , em toda 
a economia animal , a mesma j diíTcrendo só em grão. 

De hum e outro doestes priucipios falsos tirou por 
consequência , que na inflammação , que elle attribuia 
a excesso de. irritação , todo o corpo estava mais oa 
menos em hum estado análogo ao da parte; e pela 
mesma razão concluio , que nas doenças que elle at^ 



i;)6 Resenha Analfdca. 

tribue a asthenia , toda a economia estava atacada de 
debilidade directa. 

A nosso ver, he manifesta a falsidade doestas proposi- 
ções ^ e parece-nos que pelo contrario pode aífirmar-se : 

i<>. Que as partes de que he formado o corpo hu<* 
mano diflerem notavelmente pela sua organisação , 
propriedades « futicções e modo de acçào, na saúde 
e na doença , e pelos effeitos que em cada huma pro- 
duz a applicaçào de diversos agentes. 

a^. Ainda entre as que mais se assemelhão pela 
structura , ha grandes diiTerenças , e ás vezes até oppo- 
siçào. A verdade he que apenas se encontra structura 
e circumstancias locaes idênticas , ainda nas membra- 
nas que são prolongaçôes de outras do mesmo género. 

30. Nào ha doença sem opposição de acção e de 
funcçôes enti*e a parte doente e as sans; e nào ha 
doença que abranja ao mesmo tempo toda a econo- 
mia animal. Ou, em outras^palavras, não ha doença 
alguma rigorosamente geral, posto que pela intensidade 
e duração de huma aflecção , pela impoitancia e ex- 
tensão das partes offendídas , possa o resto do systema 
achar-se mui debilitado , isto he , mui pouco disposto 
a continuar a exercer as suas funcçôes habituaes com 
o mesmo vigor. Por isso , todas as doenças prolongadas 
tem por symptoma, constante esta diminuição geral 
de vigor, que, strictamente fallando , não he doença 
mas efieito delia , e por isso , melhor se cura esta de- 
bilidade quando se pode remover a doença de que 



Resenha Analytica. la^ 

ella procede, do que se vence a doença procurando 
directamente restabelecer as foiças do individuo. Dê 
ordinário, ambas as cousas sào mui difficeis, e he pre* 
ciso combinar as duas indicações para se vencer o mal, 
ou para o mitigar , pois as mais das vezes he incurá- 
vel , quando chega a ser chronico. 

4®. Toda a vez que huma lesão de parte impor- 
tante perturba a circulação ou outra qualquer func- 
çào y e augmenta assim a acção de hum systema j este 
excesso de actividade he pouco durável, e quanto mais 
forte he , mais depressa conduz á prostração consecu- 
tiva das forças ; por isso he tão prompta a terminação 
do primeiro periodo de todas as doenças agudas. 

b9. Toda a vez que huma doença conserva por muito 
tempo o seu caracter, de huma maneira permanente , 
c sem alteração notável , não só he signal que a vita- 
lidade da parte vai em diminuição , mas que á propor- 
ção vai diminuindo a reacção das outras, e vai sendo 
cada vez menois apparente e enérgico o estado de op- 
posição das partes não oífendidas da economia animal. 

6^. A reacção das partes sans sobre as doentes , he 
hum eifeito necessário das suas connexões e depen- 
dência , e do estado de opposição e de desigualdade de 
acção que constitue a doença. Neste ponto de vista he 
que a vis mcdicatrix naturce oflíerece hum sentido ra- 
zoável , e pode definir-se a acção augmentada , abso- 
luta ou relativamente , das partes sans , por efieito da 
alteração e diminuido vigor das funcções das partes 



ia8 Rèsenlia udnàlyticn, 

doentes. Como esta reacção das partes sans nem sem* 
pre pode vencer o estado mórbido ^e muitas vezes a 
aggrava » por isso o epitheto medicalrix he imprópria 
em muitos casos, se bem que o não seja em todos. 

70. Avinda nas doenças que se prolongão com inter^ 
miltencias ou intervallos maiores ou menores , cada 
vez vai diminuindo a reacção das partes sans,e aug- 
mentando a debilidade ou a inaptidão a executar os 
movimentos naturaes. 

8<>. Toda a doença admitte dois methodos curativos ^ 
hum mais ou menos directo , outro mais ou menos 
indirecto , e muitas vezes a combinação de kuns e 
outros meios he indispensável. D*aqui procede , de 
hum lado» a difficuldade da medecina practica, que 
se não deixa reduzir a principios restrictos e simples, 
como o tentou Brown ^ e muitos antes e depois d* elle) 
mas também d'aqui resulta poder o medico curar 
doenças que só imperfeitamente conhece. D'aqui 
provêm também a incerteza das provas tiradas do 
tratamento feliz ou funesto de qualquer doença , para 
estabelecer a natureza delia. 

€f, O methodo directo de curativo he aquelle que 
tende a remover o estado que constitue essencialmente 
a doença ; o indirecto he aquelle que , removendo as 
principacs circumslancias e efleitos que a aggravào , 
peruHtte ás partes doentes recuperarem pouco a pouco 
o seu estado natural. A bondade de cada hum d estes 
tratamentos, e a sua combinação ^ dependem da natu"* 



Resenha Analítica- 129 

reza da parte , das terminações ordinárias da doença , 
da difficuldade comparativa de conseguir a cura por 
hum dos dois metbodos, eda importância , maior ou 
menor, da brevidade do curativo. 

10°. Como todas as applicações não immediatamente 
mortiferas se approximão dos meios curativos directos 
e indirectos j por isso a practica das divei*sas escholas , 
posto ique diversa e até opposta em appareocia ^ tem 
muitas vezes dado resultados geraes mui semelhantes ; 
e por isso as theorias falsas não tem sido tão funes- 
tas á humanidade , como á primeira vista pareceria 
dever ser. 

ii*'. De ordinário os meios indirectos applicão-se ás 
partes sans, e até as mais das vezes os directos , cuja 
acção doeste modo se torna muito menos directa , e atá 
se faz indirecta , pois antes de chegar á parte doente , 
ou vão já alterados 9 ou tem no seu progresso produ* 
zido nas partes sans alterações mais ou menos con- 
trarias á indicação directa. Não damos exemplos do 
que temos affirmado , para não alongar demais este 
artigo y que he só destinado para médicos , os quaes 
farão com muita facilidade a applicação dos princí- 
pios expendidos. 

Fazendo applicação doestes princípios á inflammação , 
julgamos poder estabelecer algumas verdades impor- 
tantes sobre esta matéria. 

lO. A inflammaçâo ke hum pbenomeno complexo t 
composto de diversos elementos , cuja natureza, ia- 
Tom. X. P* i«. 9 A. 



i3o Resenha Analyica. 

fluência e caracter particular» em cada género de partes 
atacadas , sãú ainda mui imperfeitamente conhecidos. 
Esta doutrina he a que professão ba muitos annos 
os mais distinctos professores da celebre eschola de 
Montpellier. 

20. Por conseguinte, todas as explicações que até 
agora se tem dado da causa próxima das inflamma- 
çôes j e todas as tentativas para confundir debaixo 
de huma só denominação todos os casos em que ha 
mais ou menos dôr, calor e intumescência recente 
ou antiga , são por extremo temerárias , de mui per- 
nicioso eOeito y e em vez de acclarar , obscurecem a 
matéria. 

V^. Ignoramos ainda se as artérias capillares são do- 
tadas de muscularídade , e todas as probabilidades 
resultantes de experimentos são que não gozâo delia í 
em todo a caso , a natureza da acção dos capillares 
nos he absolutamente desconhecida , e por tanto seria , 
absurdo fundar sobre as suas funcções huma expli- 
cação dos phenomenos. 

4^. O estado das veias na inflammação, he inteira- 
mente desconhecido , e comtudo , depois que os expe- 
rimentos do professor Meyer -de Berne tornarão ex- 
ticmamente provável , para não dizer certo, que ellas 
absorvem , posto que ninguém lhes tenha attribuido 
muscularidatle, faz indispensável para huma theoría 
da inflammaçào , o conhecimento do estado relativo 
das veias , das artérias , assim como dos absorventes* 



Resenha Analjticãé í3i 

50. Em todo o caso, he indubitável que o assento da 
inflammação he nas extremidades vasculares remotas 
da acção do coração j onde a circulação he mais lan* 
guida j onde encontra maiores embaraços , e onde , por 
conseguinte j qualquer obstáculo >ou lesão parcial pode 
causar accumulaçào de liquidos. 

&>. A accumulação maior ou menor de liquidos 
parece indispensável para haver inflammação , e parece 
ser o primeiro phenomeno delia. 

7^. O axioma de Hippocrates itbi dolor ibijluxus he 
inexacto. Se fora verdadeiro , toda a parte dolorida 
oilereceria symptomas de inflammaçâOi A dôr he phe-* 
nomeno concomitante da inflammação , e de ordinário 
sul)sequente a ella ; quando a precede , he causada por 
agentes que alterão a organisação da parte , e que pro« 
duzem extravasação de liquidos^ou accumulação d*dles 
pela destruição de vasos venosos e absorventes > ou por 
diminuição da sua energia. He o que vemos nas feri-* 
das com laceração , nas queimaduras f nos elieilos dos 
vesicatórios etc. Alem do que, a dôr não tem pro- 
porção alguma com os mais elementos constitutivos 
da inflammação , e só he relativa á sensibilidade da 
parte , e á distensão ou laceração dos seus nervos , e á 
natureza dos agentes a cuja acção elles estão expostos^ 
Ha violentissimas inflammações sem dôr pefceptivel ^ 
como as do figado ; e em partes excessivamente do-* 
lorosas não se nota muitas vezes a menor inchaçâd 
ou vermelhidão , nem muitas vezes calor augmentada. 
Ma gotta, e em mil outros casos, tão longe está a 

9* 



iSa ResenJia Analytica. 

inflaminação de ser causada pela dor, que esta cessa , 
ou diminue notavelmente , logo que aquella chega ao 
seu auge. 

8o. Tudo indica a verdade da opinião do D^ Vacca , 
e de MM. AUen , Lubbock e Philip Wilson , que os 
vasos capillares das partes inflammadas > e nós ajun- 
taremos, as venulas e vasos absorventes , tem menos 
acção que os troncos arteriaes; e que , as mais das 
vezes y esta acção he inferior á que existia na saúde, 

9^. Quando a congestão he grande , e as anastomoses 
e communicações. dos troncos arteriaes são poucas e 
difliceis , estes troncos contém mais sangue, e se con- 
trahem sobre elle com mais força por algum tempo , 
passado o qual , diminuem de vigor as túnicas arte- 
riaes. Este eflíeito se communica ao coração , e produ2 
neste órgão os mesmos resultados quando a inflam ma- 
ção he de parte mui importante , pela quantidade de 
sangue que contêm , e sua proximidade ao coração , 
ou pela communicaçào mais directa com elle. Mas este 
periodo de acção augmentada dos vasos não doentes 
he limitado ao primeiro periodo indammatorio , que 
nunca dura alem de poucos dias. 

io<^. Doesta ultima observação se segue que , ainda 
quando se admittisse , contra toda a razão , que as 
inílammaçòes começão pela energia da acção vascular, 
seria forçoso convir que dentro de pouco tempo pas- 
são ao estado opposto. 

II o. Segue-se também, que todas as inílammações 



Resenha A nalytica. i3S 

clironicas tem sido com muita razào consideradas por 
quasi todos os autores como effcitos incontestáveis 
da debilidade dos vasos ; posto que doesta verdade não 
se siga que o meio de as curar seja sempre o excitar 
directamente maior energia de acção neiles. 

1^0. Os períodos em que o augmento da acção das 
extremidades arteriaes, venosas e absorventes he ma- 
nifesto , he na resolução spontanea da inflammação , 
e na suppuraçào benigna e saudável. Este facto bas- 
taria , em quanto a nós, para derribar por huma 
vez a theoria geralmente recebida do augmento de 
acção vascular considerado como causa próxima da 
iuflammacào. 

A applicação d*estes princípios ás hemorrhagias he 
obvia. 

F, S. C. 



s34 Resenha Analítica. 



CONSroERAÇOES 



Sohre a Statistica. 



^(WIVW% ^t ^% l^ j ^ j^ 



lliH quanto o homem , vivendo como as feras , fazia 
consistir todo o bem da sua existência na simples 
satisfação das necessidades orgânicas , todos os germes 
fecundos da sua riqueza jaziàò ociosos : nascido para 
ter o senhorio e mando de todas as cousas creadas » 
não lhe bastava , comtudo , o direito do nascimento , 
era-]he necessário , para exercer este majestoso im- 
pério , invadir os domínios da natureza , conquistar 
gloriosamente os seus thesouros, e forçá-la a reco- 
nhecer nelle o ente dotado de huma força prodigiosa 
de intelligencia , a quem só era dado penetrar os seus 
segredos e dispor das suas riquezas. 

Mas o homem só e isolado achava-se mui fraco para 
cmprehender tão árdua conquista ; era preciso que o 
sentimento intimo da sua fraqueza lhe inspirasse o 
desejo de viver em sociedade , que as .necessidades 
reciprocas d'esta fizessem nascer o amor do trabalho , 
que o desenvolvimento d*elle despeitasse os diílerentes 
géneros de industria , e que a ambição de interesses 
e de gloria desse o ultimo e o mais poderoso impulso 



Resenha Analytka, 'iSS 

a este concurso feliz de circumstancias , de %ue de- 
pendia a obra maravilhosa da civilisaçào. 

O complemento d'esta devia ser longo , e entre à 
imbecillidade e os príncipios do desenvolvimento da 
razão j devião passar-se séculos , na duração dos quaes 
o estado social havia facilitar ao homem os meios , e 
sobre tudo , impor a nece^ssidade de promover a mar- 
cha vagarosa á custa da qual elle devia civilisar-se ; 
mas também , logo que chegou esta epocha feliz, nada 
poude resistir á sua sagacidade e ás suas combina- 
ções : simples medidas grosseiras e arbitrarias de polí- 
cia inculta , convertêrào-se em código de justiça e de 
razão , e ao seu aspecto soberano , e ao abrigo da sua 
influencia celeste , as paixões brutaes e os costumes 
bárbaros trocárão-se em sentimentos de humanidade 
e de bdo ; o amor da propriedade fixou os homens , 
a segurança dos bens e das pessoas gerou o amor da 
pátria , e cada nação, ligada por este vinculo sagrado , 
em huma grande família, teve necessidade de reduzir 
a systema a sua administração : desde então nascerão 
as duas grandes sciencias do governo , a saber a Poli* 
tica e a Economia politica. 

A primeira occupou-se em contemplar, ou as acções 
moraes, a distribuição dos poderes e a regulação das 
diversas ordens , que entravão na composição de cada 
governo , ou as relações exteriores , isto he , a posição 
particular dos interesses de huma nação, a respeito 
das outras : a segunda tomou por objecto indagar a 
verdadeira natureza das riquezas , as -difficuldades que 



i36 Resenha Anàljtica. 

era preciso vencer para adquirt-las , a marcha qne 
seguião j distríbuindo-se na sociedade , o seu uso , os 
phenomenos que acompanbavão a sua decadência , c 
o modo por que tudo isto influía na felicidade dos 
povos. A Politica tomou em consideração, por hum 
lado y as pessoas e as instituições , relativamente ás Jeis 
do poder e da obediência , e pelo outro , considerou , 
bem como a Economia politica, as instituições e as 
cousas ; com a difierenca porém , que a primeira con- 
sidero u-as y nesta parte , particularmente com relação 
ás forças e ao poder de hum Estado, e a segunda ^ 
em respeito á riqueza e prosperidade d^elle. 

Qualquer que fosse porém o fim que estas duas 
sciencias , realmente distinctas , se propozessem con-^ 
seguir, do que fica ditto se vé que lhes era indispen* 
sável , para isso , profundar o conhecimento das Insti*^ 
tuições e o das cousas ; e para o fazerem com acerto,'* 
não podia deixar de servir-lhes de base a analyse dos 
resultados de humas, e dos dtfierentes géneros de 
recursos que offereciào as outi'as. Este hc o objecto 
de huma sciencia particular, ciijos principios erão já 
mais ou menos conhecidos e practicados pelos Gregos 
e Romanos, mas qne, nestes últimos tempos , se tem 
mais amplamente desenvolvido , debaixo do nome de 
Statistica, 

Porém a regularidade de certos resultados geraes da 
natureza , e a uniformidade de relações existentes em 
certa ordem de factos , derão occasiào de applicar a 
estes a analyse mathematica ; d^aqui nasceo a Anthme^ 



Resenha Analytica. iS*} 

liça politica , a qual , vindo em soccorro da Statistica ^ 
formou-lhe dados 9 que podem ter-se como evidentes, 
e de que ella sabe tirar proveito^ 

Assim /a Statistica occupa-se em ajuntar factos com 
escrúpulo j e apresentá-los com ordem , como elemen* 
tos propiios para guiar o espirito ; e por meio da enu* 
meraçàodos objectos, recolhe huma collecção de i'e- 
sultados positivos , fundados sobre hu^na analyse assai 
completta , para produzir a certeza moral , única que 
neste género de conhecimentos se pode pertender. A. 
Ârithmetica politica 9 pelo contrario , não obtém 0% 
seus resultados pela enumeração dos objectos ; mas 
substitue a esta o calculo , e de dados certos , ou pi*o- 
vaveiSy tira consequências que estabelece como factos « 
e resolve muitos problemas interessantes, que, humas 
vezes , facilitáo , e não poucas substituem as ihdaga- 
ções statisticas. A Economia politica porém , apoiada 
na experiência e no conhecimento dos factos certos , 
que a Statistica lhe ministra , ou nos prováveis , que a 
ârithmetica politica lhe procura, comparando-os entre 
si , explica e prova a applicaçào e a utilidade dos prin- 
cípios de administração , de que o raciocinio lhe tinha 
feito conceber a theoria. 

Tal he a filiação successiva e a ordem dos limites 
naturaes entre estas diiferentes sciencias, a qual nos 
pareceo tanto mais essencial distinguir aqui , quanto , 
quasi todos os que até hoje tem escripto d^ellas , ou 
não a tem cabalmente definido, ou enganados pelos 
continuos pontos de contacto em que todas se achào , 



i38 Resenha AruHytica. 

• 

e ainda pela mutua relação, que entre si tem a udÍ'- 
versalidade dos conhecimentos humanos , persistirão 
em confundi-las , não só entre si , mas até com ou- 
tras , que ás vezes lhes servem de illustração, ou de 
apoio y e converterão cém isto em encyclopedias os 
seus tratados de Statistica. 

Qualquer que seja pois o plano que se escolha , em 
huma obra d*esta natureza , para que eUa comprehenda 
todos os objectos, e só os objectos, que são real- 
mente da sua competência , he necessário estabelecer 
bem claramente em principio , que huma statistica 
tem por fim : colUgir todos os elementos da força reS" 
pectii^a e da riqueza de huma nação , e os Jactos que 
proyão os effeitos das suas instituições cisais ; por quanto 
ainda que estas não sejào nem fontes de riqueza da 
nação l nem meios ímmediatos da sua força , são com- 
tudo 9 nas mãos do Governo , instrumentos indispensá- 
veis de ordem , de justiça e de instrucção , sem os quaes 
a força não poderia nem crescer, nem conservar-se. 

Em consequência, he necessário que a Statistica ob- 
serve e descreva : 

1®. A extensão do território , e as suas divisões na- 
turaes, as diOerenças do seu clima, a configuração e 
natureza do seu terreno , e a direcção e uso das suas 
aguas. 

Mas nesta parte , não he huma geologia , huma 
physica , nem huma topographia completta , que se 
pertende : as grandes massas de montanhas , que sepa* 



iiesenha AnalYtica» i3g 

, rando os terrenos inclinados para os grandes mares , 
formão as bacias terrestres (i) d*elles ; as serras, d'onde 
fiascem os rios ; os contrafortes , que dividindo os 
terrenos inclinados para aquelles , fixão as suas bacias 
particulares ; as costas , quoêcircumscrevendo a vasta 
bacia das aguas , formão , de quando em quando , no 
seu seio , enseadas e babias , mais ou menos commo- 
das y mais ou menos vantajosas , são os accidentes 
do terreno importantes á Statistica : com elles estão 
ligadas as diflerentes propriedades e variações do cli- 
ma y elles fazem o paiz mais ou menos disposto para 
os diíTerentes géneros de cultura , mais ou menos de- 
fensável , mais ou menos próprio para facilitar as com- 
municações por agua, por terra , dentro do paiz, ou 
para fora delle. D' aqui se segue a necessidade de 
examinar : 

2^. O estado dos caminhos , o da navegação dos rios, 
o dos canacs e o dos portos. 

PL divisão natural do territoiio segue-se : ^ 

?»^. A sua divisão civil , e a organisação politica ^ 
administrativa, judicial e religiosa d*elle. 

40. As suas producções , ou sejào vegetaes , mine- 
raesyou animaes, e o consumo delias. 

4^. O estado da agricultura , da industria e do com- 
mercio ; os processos que estes três grandes ramos 



(1} As que lhes íorDeccm a^as. 



i4o Resenha Amãytieá. 

empregão ; os estabelecimentos , qae d*eslés processos 
' resultao e os productos d'elles. 

6^. Â povoação , classificada por sexos , idades , es- 
tados e profissões y nasi^entos e mortalidade. 

70. As rendas do Estado , as fontes d'ellas e as des- 
pesas necessárias para a arrecadação da fazenda. 

9^. Os Estabelecimentos destinados aos soccorros e 
Instrucção publica e os resultados da administração 
de cada hum doestes ramos. 

I 

€)<>. Ultimamente, as difierentes partes , que compõem 
a força de mar e terra e a forma e custo da sua 
administração particular. 

Taes são os elementos essenciaes e próprios de 
huma statistica, qualquer que seja a origem do seu 
nome, porém considerada como base essencial da 
marcha segura de hum Governo, da riqueza solida 
d^ huma nação , e por consequência , da força e da 
prosperidade de hum Estado. Tudo quanto excede 
estes limites , já assaz dilatados, he estranho á scien- 
cia , complica a simplicidade dos seus princípios , e 
distrahe a attenção da importância primitiva do seu 
verdadeiro objecto. A statistica pura apresenta o que 
existe , sem subir á sua origem , nem descer as suas 
consequências ; sem distinguir os defeitos , nem |icon- 
selhar os melhoramentos. A outros ramos dos conhe- 
cimentos humanos toca fazerem á sociedade estes re- 
levantíssimos serviços; a Statistica tem huma tarefa 



Resenha Ãnàl}tica* i4i 

assaz importante em pôr na sua verdadeira luz as 
bases solidas e exactas , sobre que deve assentar, com 
segurança » o trabaltuo de todos os outros. 

Se julgámos necessário , para fixar a ideia pura e 
simples da Statistica , descrever , com precisão , o cir- 
culo , dentro do qual se encerrào as indagações d*eUa , 
este mesmo trabalho dará mais facilmente ao leitor 
occasião de sentir a sua utilidade^ Huma sciencia 
que se occupa em fazer conhecer as forças reaes e 
os meios de conservação , de augmento e de prospe* 
ridade de huma nação» por si mesmo se recommenda, 
e deixa de merecer o nome desdenhoso , còm que 
alguns modernos pertendêrão tratá-la, de nomencla* 
tura secca e estéril ; mas he , pelo contrario , de hum 
alto interesse , por isso mesmo que tende constante* 
mente a hum fim grande , útil e positivo : sem ella a 
Economia politica não seria mais do que huma me- 
taphysica embrulhada e confusa , susceptível de todas 
as hypotheses , de todas as applicaçõcs , c por conse* 
quencia , de todos os erros ; a Diplomacia , sem bases 
positivas, em que assentasse as suas combinações » 
converter-se-hia em huma sciencia de capricho; a 
Legislação, privada, em muitos casos, do conhecimento 
dos factos, para regular a sua experiência, erraria 
>muitas vezes nas suas disposições; a Administração , 
reduzida a theorias abstractas, ver-se-hia destituida 
dos meios de imprimir nos seus actos o caracter de 
Solidez e de exacçào , tão indispensável á marcha dos 
Governos e a todos os projectos de Economia publica ; 



i42 Resenha Analytica. 

e a philosophia dos. costumes e a da razão, carecendo 
de factos , em que assentasse as suas comparações , 
ficaria privada da massa poderosa de argumentos irre- 
cusáveis, para provar, com segurança, o effeitd das 
instituições , o império da moral e a influencia das leis. 

Comtudo , esta sciencia , tão útil ao Legislador , tão 
indispensável ao administrador e ao homem doestado , 
e tão própria de todo o cidadão amante da prospe- 
ridade da pátria , lie incrível a indiíTerença , com que 
tem sido abandonada , e o atrazamento em que , ainda 
hoje , se acha , em muitos paizes civiUsados. Que o 
homem, semelhante ao philosopho , que sem conhecer 
o terreno que pisava , punha todo o seu desvelo em 
observar as estrellas , procure anciosamente verificar , 
com Mungo Park, a direcção duvidosa da corren^ 
do Niger, e seguindo, com o seu espirito , Cook^ La- 
peyrouse , á roda do mundo , estude paizes , aonde 
provavelmente nunca as suas circumstancias poderão 
levá-lo, ignorando muitas vezes qs cousas mais im* 
portantes da terra em que nasceo, he hum pheno- 
meno , que só pode explicar-se pelo capricho e incon- 
sequência do espirito humano. 

He verdade que a organisação da statistica com- 
pletta de hum Estado he hum trabalho difficíl, de- 
pendente do concurso de muitos trabalhos auxiliares, 
que necessariamente devem ser feitos por muitos ho- 
mens; que d'estes, nem todos tem os mesmos meios 
moraes, e o talento de examinar as cousas com a 
paciência e miudeza , particular a este ramo de inda- 



/ 



Hesenha yénafytica* i43 

gações , e mui poucos se achào em posição favorável , 
para ver os objectos , com aquella extensão , que a 
matéria requer ; que , sendo os Governos os únicos 
que tem á sua disposição grande parte dos dados es- 
senciaes para este género de trabalhos , a cooperação 
d*elles he indispensável , e finalmente , que a somma 
total dos exames e das observações, devendo ser con- 
fiada á redacção de hum só , não somente he essen- 
cíal que o redactor saiba apresentar aquella massa 
de indagações de hum modo conveniente ao interesse 
geral da obra, mas nas mãos d'elle vem, para assim 
o dizer, expirar a gloria individual dos coUaboradores , 
o que amortece consideravelmente os estimulos do 
amor próprio , movei o mais poderoso e o mais digno 
de hum espirito cultivado. 

Esta enymeração rápida dos obstáculos , que tomão 
longa e difficil a composição da statistica de hum 
paiz , he huma prova mais da dignidade e da impor- 
tância doesta sciencia : delles se vé que ella só pode 
ser obra do concurso unanime do patriotismo do Go- 
verno , com o dos cidadãos , c&racter distinctivo dos 
grandes projectos de utilidade publica. 

Mas , qualquer que seja a influencia que estas diffi- 
culdades possão ter em hum objecto tão importante , 
ella he sempre muito inferior á que podem e devem 
empregar nelle o Governo, sem grandes despezas , e 
os cidadãos, sem grande trabalho. Se esta obra de- 
pende de muitos elementos, também abre ao patrio- 
tismo hum concurso, em que he dado a todos ter 



\ 



i44 Resenlia jénalytica. 

parte 9 para commuQi interesse. Se por hum lado, o 
Governo necessita de fornecer huma somma conside- 
rável de bases para este trabalho , o seu result«'ido 
dá'lhe a medida segura da sua justiça e da sua força ^ 
ese pelo outro , lie necessário que o cidadão concorra 
com as suas observações , tem a vantajem de que estas 
se combinão com os seus interesses particulares , e 
sàOy alem d*isso » susceptiveis de huma inQnita divisi- 
bilidade. 

Quando o naturalista , tendo passeado para sua ia- 
strucçào e para seu recreio , pelo paiz em que habita , 
toma lembrança dos factos que lhe apresentou o seu 
exame*, quando o medico, observando diariamente 
a natureza , para não esquecer o fructo das suas 
observações, põe successivamente em memoria que 
moléstias , nas diflerentes estações » dominarão mais na 
povoação em que reside , que symptomas mais geral- 
mente as accompanhárào e a que tratamento mais 
facilmente cederão ; quando o proprietário registra as 
producções annuaes do seu gado e da sua cultura , 
compara estas com as dos seus vizinhos , nota os 
preços dos diflerentes jornaes que no anno se pagarão 
no seu districto , e o valor por que nelle se reputarão 
os productos; quando o traficante, prompto a abraçar 
todo o género de comraercio , toma nota dos difTerentes 
ramos de industria , que , nas vizinhanças da sua terra , 
podem ser objecto das suas especulações , e se infor- 
ma , para seu governo , da extensão e resultados de 
cada hum doestes, todos elles, sem se aperceberem , 



hèschíia jínalyíiíia 14a 

ftj união elementos preciosos para a statistíca do seu 
t>aiz ', donde residta , que asr observações necessarfàfi 
para ella j estando assim ligadas com os interesses t 
profissões individuaes , por pouco qiie a attençào e o 
es;nrito público sejâo convidados para este género d^ 
trabalho, concorrerá facilmente ^ de todas as partes ^ 
grande quantidade de elementos para a sua compo- 
sição. 

Definidos pois os limites da Statistica , assentadas as 
suas bases geraes , e reconhecida a sua utilidade , he 
justo que façamos o applicação doestes princípios aos 
Dominios portuguezes^a cuja prosperidade cònsagramòa 
sempre todos os nossos trabalhos > e aonde esta scien^^ 
cia tem sido , até hoje > tão pouco Cultivada ; e para 
referirmos a hum só ponto todo o interesse das nossas 
considerações a este respeito, contentar-nos-hemos com 
examinar quaes nos parecem ser em geral os obsta*- 
Gulos que nelles fazem mais difficil a execução de huma 
statistica » e que meios nos occorrem mais applicaveis 
para os vencen 

Posto que tudo quanto aqui dissermos deverá geral" 
mente entender-se de toda a extensão do Reino-Unido ^ 
comtudo, não poderá deixar de ter huma relação 
mais particular com o Portugal e o Algarve ; por se^ 
rem estes os paizes portuguezes de que poderemd 
fallar com mais algum conhecimento. 

Já em outro Artigo ( Tom. V, P. i*«,pag4 3i ) C a 
outro respeito , tivemos occasião de ponderar que o 
systema administrativo confundido com o judiciário ^ 
Tom. X. P. 1*. 10 A 



i46 Resenha Anafytíea. 

e ambos combinados com a amovibilidade perpetua 
da Magistratura , tendiào por sua natureza a paralysar 
a marciía e os bons desejos do Governo , em todos 
os objectos de utilidade publica. Esta confusão de 
jurisdicçòes 9 de responsabilidades e de vigilância he, 
a todos os respeitos , por extremo nociva aos inte- 
resses ^ tão essencialmente diíTerentes , da justiça e da 
fazenda; cada hum dos quaes pede diversa instruc- 
ção , diversa ordem de cuidado , e até talentos diver- 
sos nas pessoas que os promovem : d'ella resulta , para 
cada individuo, huma complicação e augmento de 
trabalho , que difficulta muito a prompta e bem en- 
tendida execução d'elle. 

Alem de que, acfaando-se , hão só os diflferentes 
ramos de administração confiados , em cada distrícto , 
a diílerentes autoridades ^ mas até o mesmo ramo- 
raríando de administração e de administrador , nos 
diãerentes districtos; como se não bastasse aquellá 
primeira confusão para embaraçar a marcha franca 
e proveitosa da Autoridade , esta irregularidade e 
fluctuação produz de mais a mais a falta de hum 
centro commumy'onde venhào, para assim o dizer, 
atar-se todos os fios e ramificações da administração , 
e donde possào , com perfeito conhecimento de causa , 
sahir noções claras c precisas do seu estado , dos 
motivos da sua decadência , e dos melhoramentos de 
que ella he susceptivel. 

E pma não considerarmos os inconvenientes , que 
de tudo isto rcsulUo , senão relativamente á Statistica, 



Resetiliã Analjtica. j47 

que faz o objecto do presente Artigo , o cidadão , qae 
desde os seus primeiros estudos , teve unicamente 
por fito pesar ) hum dia, com igualdade os direitos 
dos seus concidadãos , quando huma vez he investido 
doeste augusto poder , absorvido pelos cuidados que 
elle pede, não pode deixar de reputar a parte ad- 
ministrativa , que se lhe encarrega , como hum acces- 
sorio , alheio da profissão a que sempre se destinou; 
e assaz occupado pelos importantíssimos e solemnes 
trabalhos doesta, ainda quando tenha os talentos e o 
gosto da administração , falta-lhe o tempo para redu- 
zir a systema as diOerentes partes d^ella, para prer 
parar e estabelecer base^ solidas doeste systema , e 
para conformar com elle, não dizemos nós trabalhos 
spontaneos , mas nem ainda as muhiplicadas e con- 
tinuas informações, que outras muitas Autoridades 
superiores tem sempre direito , e não poucas vezes 
necessidade , de exigir d'elle. 

D^aqui vem que, nas indagações statlsticas , em qu6 
o interesse particular dos administrados parece menos 
sensível, por se achar confundido no interesse pu^ 
blico , o Magistrado , pór algumas , ou por todas as 
causas acima indicadas, he úiuitas vezes forçado a 
commetter a outrem huma grande parte dos exames ^ 
que a matéria requer. Desde esse momento^ he-lhe 
forçoso confiar-se na boa fé e na intelligencia do 
delegado , sem ter bases fixas pelas quaes possa depois 
verificar e corrigir os trabalhos d'elle j e se este dele- 
gado também delegou , o que he muito natural , 

IO * 



]48 Resenha Anafytica* 

quando não resulta , do objecto que se examina ^ nefii 
responsabilidade y nem interesse immediatOy fácil h« 
de avaliar o merecimento idas noções recolhidas » • 
a conformidade e exacçào do resultado final. 

Quando y nos .fins de iSiti^a Real Junta do Com-» 
mercio quiz conhecer , em Portugal, a situação das 
fabricas do Reino, e para esse fim recorreo ás Au* 
toridades locaes , eis-aqui o que aconteceo, conforme 
as próprias palavras de huma testemunha irrecusável 
na matéria (i) , e que confirma tudo quanto a theo- 
ria exposta nos parece ter provado. « Nem todos os 
Magistrados forão igualmente promptos , e houve bas-' 
tante falta de uniformidade, não satisfazendo muitos 
d^elles a todas as declarações que se exigirão. Hun^ 
entenderão a palavra Fabrica com mais , e outros com 
menos extensão. O Ministro do bairro da Ribeira en- 
tendeo que devia contemplar como taes as fabricas 
de chocolate , e o contrario entenderão os dos outros 
bairros, que não fizerão menção dos outros muitos 
estabelecimentos , ou officinas do mesmo género, que* 
existem em toda a cidade. O mesmo aconteceo com 
as fabricas de aguardente, obras de cobre e ferrarias > 
de que apparecérão descriptas huma sómenle de cada 
género em Lisboa; e aconteceria provavelmente a 
respeito de outros artigos interessantes, que se omit* 
tírão. Não forão contemplados os estabelecimentos 



(i) O Snr. José Accorslo das Neves | nas soas yàriedadeé , 
Tom. xo. pag. 178* 



Resenha Anafytica. x4g 

que se achavào debaixo de Administração Regia, dq 
que alguns sào mpito importantes , ebc. » 

No Ministério de D. Rodrigo dê Souza , o Governo 
reconheceo os embaraços que resultavào da falta de 
hum centro para as averiguações statisticas, e per* 
tendeo occorrer, com a creaçào dos cosmographos , a 
este grande inconveniente ; porém aquelle projecto não 
vingou , ou fosse pelas despczas que occasionava , ou 
porque não estando sufficientemente posto em har- 
monia com as instituições antigas, podia produzir 
conflictos de jurisdicçào, em que sempre quem perde 
he a causa publica ; comtudo , tal he a força das 
instituições úteis , ainda apenas indicadas , que aquella 
lei , assim mesmo sem execução , não deixou de pro^ 
duzir resultados importantes para a Statistica. Lembra- 
nos ainda com gosto hum trabalho sobi*e a comarca 
de Setúbal, feito por aquella occasião, e que deve 
existir na Secretaria d^Estado competente, o qual 
provava bem o merecimento e o patriotismo do digno 
Magistrado, que o tinha emprehendido; e he natural 
que muitos outros concorressem com este, de hum 
interesse não vulgar ; porém o silencio, em que todos 
ficarão sepultados , tornou inúteis para o publico , e 
para a Administração mesma, aquelles importantes 
resultados. 

Se a mistura de jurisdicções, e a falta de hum centra 
conimum de administração oppõem embaraços de 
mais de hum género á organisaçào de huma Stati^-* 
tica enti*e nós, o que acaba de os confirmar he a 



i5o Resenha Analytica. 

nenhuma analogia que existe nas divisões territoriâes 
e jurisdiccionaes do paiz. Âs divisões das Províncias , 
que jade seu são arbitrarias , e raras vezes reguladas 
por limites naturaes, .assim mesmo. , não quadrão 
perfeitamente com as dos Governos militares , nem 
com os districtos exactos de hum certo numero de 
Comarcas , ou de Provedorias , ao mesmo tempo 
que os districtos doestas duas ultimas também não se 
ajuslão entre si; se a isto se ajuntao novas irregula- 
ridades que resultào das encravações , e as anomalias , 
que as antigas jurisdicções de Donatários tiohào creado, 
e que a ultima legislação a este respeito continuou 
a consagrar , poderá facilmente inferir-se quanto tudo 
isto difliculta a regularidade ' dos exames , e a centra- 
lisaçào dos seus resultados ; e ainda que para segu- 
rança se empreguem diversas Autoridades nestes exa- 
mes , alem do inconveniente de complicar o trabalho » 
a demarcação territorial das )urisdicçòes sendo para 
todas differente , he impossivel verificá-los , pelo meio 
fácil e seguro da coincidência de liuns com os outros. 

Estes poderosos inconvenientes , tendo pela duração 
dos séculos, as suas raizes profundamente lançadas 
na organisação civil do território, requerem meios 
particulares e próprios, para chegar, a travez d'elles, a 
bons resultados stalisticos *, porém, seja-nos licito 
apontar outi^os , cujo remédio dependendo simples- 
mente da vontade do Governo , desappareceriio logo 
que elle se proposesse conseguir trabalhos úteis áquelle 
respeito. 



Resenha Analytica. iSi 

Al entrada ou a sabida de mais hum individuo na 
Sociedade deve , por muitos motivos , interessar parti- 
cularmente quem a governa , por isso mesmo que 
interessa a Sociedade toda. Ha quasi três séculos que 
os registos ecclesiasticos começarão a servir para isto ^ 
nos Estados Christàos da Europa ; a França , que 
usou d'elles até ao tempo da Revolução , estabeleceo 
então os registos civis , modelo de exacção nesta ma- 
téria ; porém todos os outros Estados ^ que ainda con- 
servào os primeiros , tem posto nisto a maior vigilân- 
cia y e dado as pravidencias , especialmente a Suécia 
e a Prússia , para que nelles haja a maior exacção á 
cerca dos nascimentos e óbitos. 

Nos Domínios portuguezes, esta matéria necessi- 
taria serias atlençôes, para evitar as irregularidades^ 
que nella forçosamente se commettem. Não tomando 
até agora a Autoridade ecclesiastica , entre nós, co- 
nhecimento do recem-nascido , senão desde o momento 
em que elle he recebido no grémio da Igreja , segue- 
se y que de todos os que morrem , antes de serem 
baptisados , não fica na sociedade titulo algum da sua 
existência; mas o que be ainda peior, não sendo a 
mesma Autoridade ecclesiastica ajudada, para os seus 
registos , pela Autoridade civil , nenhum vestígio pode 
conservar nelles da morte d'aquellas crianças , cujos 
cadáveres y por hum abuso tão incompatível com a 
civilisaçãoy como com a humanidade, se depositào 
nos adros e no interior de todas as Igrejas, para 
serem enterrados por caridade , ou estas sejão filhos 
reconhecidos 9 ou expostos. 



,5*^ Resenha Analytic0. - 

Quantas considerações importantes oflferece tste 
abuso ? Quantas desordens , quantps crimes horror 
rosos podem resultar d*esta liberdade illimitada , pela 
qual» aos pais, ás amas, ás famílias, ás pessoas res-» 
pousáveis he permiltido fazer enterrar estes entes 
desgraçados , sem preceder declaração -alguma legal ^ 
sem se preencher formalidade alguma? Mas aqui 
/ iiào pertence considerar esta matéria , senão pelo quo 
toca á Statistica, a qual também, por mais este mor 
tivo ^ se vá privada , entre nós , de elementos essen« 
ciaes para avaliar facilmente , nas circumstancias or» 
dinarías, com a exacção precisa, o.estadoda povoa*» 
ção ; recurso de hum grande interesse , ou quandq 
ella não pode obter-se por via do censo, ou como 
meio de verificar os resultados d'este^ 



/■ 



QutTQ obstáculo, muito essencial ao progresso das 
observações statisticas entre nós , he a diíficuldade quo 
se experimenta no paiz para generalisar por meio da 
imprensa os trabalhos individuaes* Nem pertence aqui , 
nem nós pertendemos intrometter-nos na solução da 
questão geral , de que depende a prova d' esta verdade } 
porôm parece-nos que o interesse da Autoridade, que 
não podemos separar do interesse publico , merecia 
nesta matéria huma medida particular, a favor d'a- 
quoUes escriptos e discussões innocentes e interessantes, 
que , taes como as de Statistica , não podem servir 
senão para utilidade do Governo e da Nação. Esla 
silencio cm que jazem os ti^abalhos úteis, que já exis- 
tem , privão a sociedade de huma massc^ de nquç^£^ ^ 



Resenha Ancdytica. i53 

que , se tivesse sido successivamente lançada ^m cir-* 
D culacào, poderia com ella ter-se já conseguido hum 
t fundo considerável para aquelle importaute objecto. 



B 



i 

S 



Huma obra emprehendida para utilidade de todos, 
e para que todos podem concorrer j pede huma plena 
e inteira publicidade nos seus resultados ; os efTeitos 
dVsta são muilDs e mui felices : em huns picão o amor 
pi*oprío , em outros ajudão e estimulão o patriotismo ; * 
e as observações já feitas j huma vez postas ao alcance 
de todos y facilitão as que devem fazer-se^e dàooc- 
casião a correcções e a emendas , que , sem isso» 
serião impracticaveis. Não he impossivel , mas não he 
razoado pertender da natureza do homem, que elle 
ponha o mesmo cuidado no seu trabalho , quando 
suppõe que este ha de ficar para sempre coberto do 
pó do esquecimento , ou servir, em particular, para 
utilidade e proveito de alguém , ou quando sabe de 
certo que deve chegar im mediatamente ao conheci- 
mento de todos y e ser consagrado ao interesse publico. 

Se os^ obstáculos até aqui ponderados são particu- 
lares ás circumstancias dos Dominios portuguezes , 
outro obstáculo poderoso existe j que lhes he commum 
com a maior parte dos Estados civilisados- Logo que 
a Autoridade administrativa faz indagações , todos os 
administrados se assustão , e julgão infelizmente do seu 
interesse enganá-la* Se ella inquire de hum lavrador 
qual foi o producto das suas searas , quantas cabeças 
de gado lhe nascerão, que quantidade e qualidade 
de bosques possue } se perguata ao fabricante qu^ 



. » 



i5G Resenha Anatytica. 

a que a administração de cada hum d^esses elementot 
pertence legalmente , em vez de os commetler todos a 
huma só Autoridade em cada districto. 

Assim, os Prelados seculares e regulares fornecerão » 
com exacçâo e sem diíliculdade , o numero de Cathe* 
draes , de Parochias , de Conventos , de Seminários 
e CoUegios; os seus rendimentos , a quantidade e 
condições das pessoas empregadas ou residentes nestes 
estabelecimentos, e o numero de nascimentos, casa*- 
mentose óbitos em cada povoação, e em cadaanno* 
Os Capitães mores darão , sem custo , e ao nosso ver » 
muito mais exactamente do que os parochos , o nu- 
mero dos fogos , e por elles, listas numéricas de povoa- 
ção , tanto mais verdadeiras, quanto mais facilmente , 
por occasião das revistas mensaes , pedindo ao indi^ 
viduo presente de cada fogo as clarezas que lhe fal* 
tarem , podem estabelecé-las , veríficá-las e corrigt-las. 

Só estes dois recursos , alem dos mais que f a 
exemplo d'elles , occorrerào ao leitor , bastarão para 
simplificar consideravelmente, a este respeito » o tra- 
balho dos Magistrados das Comarcas , que assai 
tem em que mostrar o seu patriotismo e a seu zelo, 
em ajuntar os materiaes , que dizem respeito aoa 
fundos e impostos de todos os géneros, aos movi- 
mentos acontecidos no anno, nos individuos e na 
administração da fazenda do Estado , dos Conselhos , 
dos Hospitaes , das Prisões , das Irmandades e Coar 
(valias*, em huma palavra, de tudo aquillo» de qua 



IlesenJia Annlytica. i5«j 

lhes toca privativamente a intendência e a respon- 
sabilidade* 

Para que cada Iiuma doestas Jur isdicções , comtudo , 
corresponda perfeitamente aO plano, que o Governo 
tiver adoptado, será necessário que o resultado dos 
seus exames quadre perfeitamente com os dizeres de 
Mappas individuados de cada ramo difierente, que 
a pessoa j ou a Commissão nomeada para redigir o 
trabalho , deve ter preparado de antemão , e que de- 
vem ser distribuidos com instrucções claras , que não 
deixem duvida sobre a maneira de os encher. 

Distribuidas assim as indagações » a que só a ku* 
loridade pode proceder , incumbe ao Governo , como 
já dissemos , dirigir o patriotismo dos cidadãos para 
fazer o resto. He para sentir que entre nós não haja 
ainda Sociedades de agricultura ; que serviço poderiio 
estes úteis Estabelecimentos fazer , em muitos ramos , 
áquelle respeito ? Porém , na falta d^ellas y o meio mais 
próprio nos parece o de abrir correspondências com 
os homens dignos , que se conhecerem nas Províncias, 
e convidarem-se a concorrer com o interesse iH*oprio 
para o interesse geral do Governo e da Pátria. Ani- 
mem-se a escrever os proprietários intelligentes de 
terras e de manufacturas, os Médicos, os homens 
industriosos; mande m-se-lbes instrucções e Mappas 
x:ircumstanciados que os guiem; determinem-se-lhes 
quaesquer medidas de capacidade e de extensão , pp- 
rém humas só e constantes » para que se conformem 



i58 Resenlia Analyticá, 

cora ellas nas suas avaliações *> e estamos persuadidos 
que se hão de obter grandes resultados. 

Porém esta correspondência não deve tomar hum 
caracter severo e oíBcial y que muitas vezes, a húns 
inspira huma resposta dictada somente pelo desejo 
de satisfazer , sem interesse de acertar , e a outros 
parece investi-los de huma espécie de autoridade , 
que pesa depois aos que podem ajudá-los. Nesta 
con^espondencia deve fallar só o amor da patiia (i). 



(i) Talvez não seja 5em interesse darmos aqui ao Leitor 
huma ideia do modo por que o Ministro do Interior convidava 
em França os Prefeitos em iSoi a concorrerem para as in- 
vestigações sobre a Statísúca d' este Faiz. Eis-aqui algumas 
das expressões da sua circular. 

Je saisirai. toutes les occasions d^exciter la bienveillance 
du Gouvernemeut en faveur de ceux qui mettront au premie^ 
rang de leurs devoirs» le soin de bien étudier le territoire 
quils doivcut admiuistrer.... 

Cette Fi-anre si belle , cette terre si féconde et si heureuse , 
cetle patrie ú favorisée de la Providence , ne peut étre trop 
couuue ; plus on rdtudie , plus on sy attache ; vous me secon- 
derez de tous vos eíTorts , fen suis cerlain . . . ce u est pas par 
devuir,c*cst par senlimcnt , cVst par uu noble orgueil national, 
que \ ous vous iivrerez aux rechercbcs que j*attcuds de vous. Je 
n'hcsitc pas à vous dire qu'cn voas cousultant , c'cst en quel- 
que sorte moiíis au magistrat que je m*adresse qu'à Thorame 
qui , par sa situation , ses lumièrcs et son attachement au hicn 
de re'lat , osl le plus à porlée de me donner dcs notions posi- 
tives. J'ai fait csporcr au Gouvernemeut que nous parvíendrions 



Jiesentia Analytica^ iSf) 

: Convidados, em nome da sua reputação e do inte- 
resse geral , os homens dotados de probidade y de 
saber e de experiência , acertarão facilmente com as 

' fontes onde hão de achar os resultados numéricos e 
positivos que a Autoridade procuraria , por muito 
tempo j em vão. 

A practica da cultura das terras , os exercicios da' 
caça e da pesca facilitarão ao proprietário , que vive 
nas suas fazendas , e que y sem duvida y conhece huma' 
certa extensão do paiz em que reside y os meios para 
desempenhar aquelle trabalho. Da experiência conti-> 
nua e reflectida da sua nobre profissão tirará elle o 
conhecimento da natureza , variedade e valor das. 
terras ; da lavoura que a estas mais convém \ do modo 
mais ou menos vantajoso que se emprega emas estrumar, 
e agricultar; das plantas e sementes que nellas mais 
prosperão ; do valor médio de todos os productos , 
assim como da importação e exportação d*elles , em ^ 
cada anno ; da quantidade e qualidade de alimentos y 
que ordinariamente se consomem , e dos vários preços 
que pelos diOerentes trabalhos se pagão ao jornaleiro. 
■ - -■ ■ ■- . 

euíin a connaitre la Frauce ; vous ni'aiderez à m^acquíttcr de 
ma parole. . . . Dcs ^crivalns distingues > conduits seulemcDt 
par un généreux patriotisme y ont donnd des Statistiqucs de 
leur pajrs. ... La Franca aura-t-elle molns , doít-elle raoíns 
attcndre de rdlite de ses citoyens ? Non , Fespoir du Gouver- 
riement ne será pas trompé ; et cette gloire Iní est encore 
réservéc , de présenter enân à FEuropo le véritable état de 
ce beau pajs. 



í€o Jlesenha Âtutlytica. 

A pratica com os seus vizinhos y e o olho aòostu* 
mado a esta casta de ol)servações lhe fará conhecer 
a quantidade de rebanhos e manadas de todas as es- 
pécies, a qualidade e a somma dos animaes empre- 
gados na agricultura e em transportes. O Recebedor 
dos dizimos do seu districto lhe facilitará os meio9 
de obter o conhecimento da quantidade de grão que 
se recolheo , e de cabeças de gado , que nascerão em 
cada anno. 

Os exercícios da caça e da pesca serão para elle de 
grande recurso : este lhe fará conhecer a direcção dos 
rios e ribeiras , os seus nomes \ as suas fontes i as suas 
confluencias ; os vãos e os pegos profundos d^elles ; até 
que ponto se faz uso das suas aguas para a agricultura 
e para transportes ; o diíTerente volume d^essas aguas ; 
as causas que o diminuem ou augmentão nas diversas 
estações; e a quantidade e qualidade de peixes que 
as habitão : aquelle o porá em estado de conhecer 
perfeitamente os nomes e a direcção das Serras e dos 
YaUes ; das estradas e das pontes ; a existência de 
fontes e arroios ; de lagos e pântanos ; de minas e 
pedreiras; dos terrenos incultos e das matas ; da qua-* 
lidade de arvores que compõem estas, e da abun** 
dancia e espécies diflerentes de caça y que as povoào* 
Cada hum, no seu ramo, achará a facilidade que 
apresenta o habito e a profissão , e os resultados não 
podem deixar de ser naturaes e verdadeiramente úteis. 

Para ajudar o Governo , neste impulso geral , a nossa 
Academia , com o zelo , que a anima , pelo adianta* 



liesenlia Artályticã. i6t 

lliento da$ Sciencias , e pelo bem da Nàçâo, podería 
propòi: hum premio fixo ^ para a obra que lhe íosse 
remettida , ou que se impiirmsse y em cada anno, e 
que contivesse as indagações mais úteis sobre huma, 
ou muitas questões relativas á Statistica do Reino x 
assim o faz y desde iBid, a Academia das Sciencias de 
Paris j a pezar do muito , que já oeste Artigo possue 
a França. 

Mas j sobretudo , cotívem dar*se a maior e a maid 
prompta publicidade , pelo meio da imprensa, a todos 
estes resultados e aos nomes dos seus autores , e dis-^ 
tribuirem^-se gratuitamente , e com abundância , exem- 
plares d*elles na Capital , e pelas Provincias \ serão os 
quadros de Apelles expostos á censura dos qtie pas-^ 
são ; cada hum lhes fará as suas observações , e de 
tudo o Governo tirará proveito. Abertas liuma vez ^ 
e bem seguidas e centralisadas as correspondências, 
seria fácil até estabelecer hum Buletim , por meio do 
qual , em períodos determinados , se espalhassem por 
todo o Reino os resultados mais importantes que se 
tivessem obtido : estes buletins interessariào , desde 
logo , todas as classes , se ao mesmo tempo dessem 
a conhecer, por exemplo » o preço dos differentes 
grãos , o dos vinhos , o do azeite , o dos jomaes ^ a 
abundância ou escassez promettida, ou realisada das 
producções , nos differentes distríctos ; as novas expe- 
riências , que em algum- d'elles tivessem produzido 
resultados úteis; e infinitas outras particularidades ,« 
de hum igual interesse » que advertem utilmente qs 
Tom. X. P. iK II A 



j(j2 Rpsenlui Analytica. 

proprietários, e põem em movimento todos os géneros 

de industria. 

Talvez , e he natural , que grande som ma de ma- 
teriaes para huma Statistica existào já hoje entre nós ^ 
e que não falte , senão o impulso Conveniente para 
que elles appareçào. Os homens sós e isolados esmo- 
recem ; he necessário facilitar e animar as suas relá*- 
ções reciprocas, para conseguir resultados de utili- 
dade geral. 

Nós possuimos nesta matéria três documentos cri-» 

ginaes , que a pezar de todas as circumstancias , ainda 

podemos conservar , e que publicaremos , no fim do 

presente Artigo , para darmos nelle o exemplo conx 

a doutrina; methodo o mais efficaz de a fazer propagar. 

Hum d*estes documentos he hum Mappa Statistico 
da Comarca de Guimarães em 1787, devido ao des- 
velo e ao pati'iotismo do Corregedor, que então era , 
d*aquella Comarca, e cujas virtudes nos vedào pôr 
aqui o seu nome. Nada diremos d'este Mappa ; o leitor 
saberá facilmente apreciar o merecimento dos dados 
que elle encerra. 

O outro he hum Resumo Statistico da Posfoação da 
Pro\^incia do Minho , sem comprehcnder terra alguma , 
que esteia fora dos limites da Provincia , posto que , 
pelas irregularidades , que já ponderámos , pertença 
a alguma das Comarcas d*ella , como acontece nas 
do Porto , Guimarães e Barcellos. Esta observação he 
indispensável para explicar a diíTerença, que esteRe* 



Resenha Analytica. i63 

sumo apresenta y em fogos e em povoação, nào só 
á cerca do Mappa Statistico de que acima falíamos, 
mas do resultado obtido pelo Sn**. Franzini , e pu- 
blicado nas suas Instrucçóes Statisticas^ a respeito 
d*aquella Província. 

Este Resumo lie extrahido de hum trabalho longo 
e feito com o maior escrúpulo , do qual , para nào 
sermos demasiadamente extensos, guardamos, por 
ora , todos os elementos parciaes e autôgraphos , 
recolhidos pelo benemérito Engenheiro Custodio José 
Gomes de Villasboas , que por serviço da pátria perdeo 
tão cedo huma vida , que sempre consagníra tão eflicaz* 
mente á utilidade d'ella. 

Posto que os elementos , comprehendidos nestes dois 
Mappas , fossem coUigidos em huma epocha mais ar- 
redada , comtudo , comparados com o estado presente, 
podem servir hoje de base para muitos exames e con- 
siderações úteis. Huma Statistica completta he obra 
de muitos annos , e as observações , sobre que cila 
deve fundar-se , por antigas que sejào , não perdem , 
antes muitas vezes ganhão , em estimação e interesse. 

O outro documento he de huma importância mais 
geral , e traz com sigo mesmo a marca e signal ca* 
racteristico , de ser devido ao cuidado do Cro- 
verno ; o qual , reconhecendo , em i8o5 , a necessi- 
dade de verificar a justiça com que se distribuia a 
imposição do tributo oneroso , mas indispensável , do 
recrutamento do exercito , mandou os Ofíiciaes do R. 

11 * 



\ 



]64 Resenha Analytica. 

Corpo de Engenheiros João Manoel da Silva , e José 
Carlos de Figueiredo , munidos das autorisações ne- 
cessárias y reôolher por todo o Reino , com o maior 
escrúpulo , os elementos indispensáveis para isto. Do ' 
trabalho d'estes Officiaes resultou huma divisão de 
todo o território em vinte e quatro diçtrictos, que, 
por meio de demarcações naturaes , ou de limites de 
termos de Conselhos , se fizerão o mais proporcionaes 
possivel , em numero de fogos , e que se represen^ 
tárào em hum Mappa , de grande escala. D*este , por 
circumstanciaSy conservamos o original , de que temos 
por mui conveniente dar conhecimento ao nosso lei* 
tor y com o presente Artigo, havendo-o para esse fim , 
reduzido com a maior exacção,^e feito illuininari 
p^ra mais fácil inte|IigeDçia< 

Nelle não se encontrão designadas senão aquellas 
terras , que ou são capitães de distríeto , ou de Ter- 
mos que o limitão}huma Taboada, coUocada , por 
maior commodidade , em frente do Mappa , indicará 
o numero de fogos, correspondente a cada districto. 

Este documento statistico, revestido de hun^ ca- 
racter tal de confiança , nos parece do mais alto in- 
teresse y não só pelos dados que apresenta , mas ))elas 
reflexões importantes y que facilita , e a que natural- 
mente conduz. D'eUe se vé, que em Portugal e no 
Algarve ha 756:267 fogos ^e se attendermos ao estado 
da agricultura y ao pouco comipercio , á pequena in- 
dustria e a muitas putras causas que influem em geral 
sobre a povoação do paiz , e em paiticular sobre a 



Resenha Analítica. lõS 

de certas Provindas j v,eremos que , segundo as bases 
recebidas em arithmetica politica , será demasiada- 
mente forte a proporção de 4 itidividuos^ por fogo: 
assim , multiplicando aquelle numero por 3 § , será 
o total da povoação de 2.980:534 habitantes; o que he 
assaz conforme com o total de 11,9119:000 , produzido 
pelo Sn*". Franzini , nas Instmcçôes de que acima fal- 
íamos , e calculado y segundo elle aíTirma, sobre as 
melhores noticias , que em i8i5y se possuião, a este 
respeito , em Portugal. Vê-se igualmente , que , sendo 
o termo médio do numero de fogos nos i/í districtos^ 
3i:5ii, poderemos avaliar a povoação de cada hum 
d'elles em 122:10!) habitantes , e fundarmos, sobre 
estas bases y muitas e mui úteis reflexões. 

Huma porém das mais importantes , que resulta , 
com summa clareza , da simples inspecção do Mappa, 
sem dependência alguma de calculo , he a desigual- 
dade de povoação , nas difierentes Provincias : todo o 
vasto paiz , por exemplo , situado desde o Tejo até 
alem do Guadiana , he muito inferior , a este respeito , 
á fértil , mas estreita Provincia do Minho ; toda a 
extensão de Traz-os-Montes equivale a pouco mais 
do pequeno paiz, comprehendido entre o Minho eo 
Cávado ! 

Outra reflexão não menos ponderável offerece a 
combinação d'este Mappa com aquelle Resumo sta* 
tistico da Provincia do Minho. D*este Resumo consta 
quedem 17989 havia naquella Provincia , 7:781 habi« 
Vantes d^ ambos os sexos, votados ao estado eccle- 



i6G ResenJia Ancãytica. 

siastico ; d'aquelle Mappa se vê que a Povoação da 
ditta Provincia he, com pouca dilTerença , 1P4 da de Por- 
tugal e Algarve : ora , suppondo o estado ecclesiastico 
na mesma proporção com a povoação , em todo o ter- 
ritório , o que nos não parece excessivo, resultaria 
que 37:343 indivíduos , ou proximamente /g da povoa- 
ção y erào , pelo seu instituto , privados de concorrer 
para o augmento d*ella ! 

Quantas outras considerações de interesse publico , 
que, por brevidade, omittimos agora, mas que o 
leitor supprirá facilmente , podem deduzir-se , só 
doestes poucos documentos! Quanto provão , elles sós , 
a necessidade de se cuidar da statistica do paiz ! 

Taes são as reflexões , que nos inspirou , em geral , 
este importante assumpto, e os elementos que, por 
ora, publicamos com ellas; possa a exposição das 
primeiras merecer a attençào dos nossos compatriotas , 
e a publicação dos segundos decidir muitos d'entre 
elles a fazerem conhecer o fructo das suas observações 
statisticas : huma e outra cousa preparará, de ante- 
mão , trabalhos úteis , que facilitarão os do Governo , 
logo que este achar conveniente começá-los. 

Não deixamos de conhecer que , no Brasil , os ob- 
stáculos, nesta matéria , devem ser ainda maiores 
do que era Portugal , em razão da extensão do paiz , 
e do muito que resta para conhecer d'elle : porem a 
fertilidade e a abundância d'aquella vasta região deve 
também convidar mais, para hum tal género de tra- 
balho , o zelo dos particulares e a attençào do Governok 



Resenha Anàlytica» tC*» 

Mas j ou seja na America ou na Europa , o estado 
em que se acha a agricult\u*a , a industiia e o com- 
mercio nos Domínios portuguezes , recommenda cada 
vez mais 9 que se trate seriamente de conhecer os seus* 
recursos e as suas necessidades. Para nos penetrarmos 
bem da importância d'isto , basta termos presente que 
a verdadeira riqueza não consiste no ouro nem na- 
prata ; quem possuio mais do que Carlos V e Filippe II? 
Deixemos aos néscios declamadores a opinião ridicula 
e insensata de que he escusada a industria a. quem 
possue dinheiro : solidamente ricca he só áqueila Na- 
ção, que funda a sua riqueza na fecundidade das suas 
terras , no numero dos seus habitantes , e na extensão 
de todos os géneros da sua industria. 

C. X. 



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Resenha AnaJytica. 



TABOADA 

Do numero de fogos em cada Districto. 



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3o:443 

31:469 

3a:o47 

3o:5ao 

3a:65i 

3o:33o 

3o:665 

3o:327 

3i:€)3i 

32:933 

3i:3o2 

30:687 

32:724 
3o: 395 
32:995 
32:852 
3o:37o 
3o:i53 
3i:3ii 
32:169 

32:608 
82:903 



MAPA 



rliviíliclos em <l4 uivificeâproxiinamcnile 
iguAes em numero de Fooob . 



A . /írkA j^Â/v A . 




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TABOADA 

Do mmero de fogos em cada Distrícto. 



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5'° 3a:o47 

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8-» 3o:33o 

9-° 3o:665 

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aS.» 3a:6o8 

a4.« 32:903 



MAPA 



diviclido 8 em ^ 4 divi â o es proxiinamenle 
igxiaes em numero de Fogo b . 



/*'r. p4r^-ls.^ -M. f/t^Àiòejéj^ner^uc. 



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PARTE SEGUNDA. 



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CORRESPONDÊNCIA, 



NOTICIAS DAS SCIENCIAS, DAS ARTES, etc 



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CORRESPONDÊNCIA. 



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TRADUCÇAO 



DA ODE n^ DO LIVKO I«. DE HORA.CIO, 



OobeJ.v neve, ríspida saraiva 
Do Empyrco Jove arremessou furioso, 
£ o raio ardente , baqueando as aras ^ 
Eucheo de susto o Lacio. 

Tremendo o Povo renascer julgava 
Horrendos monstros , séculos de Pyrrha , 
liá quando as serras de Protheo nutriao 
As equorcas manadas. 

Dos olmos assombradas revoarão 
A par do mudo peixe ás castas pombas; 
Pávidos gamos nos desertos mares 
Aqui^alli boiarão* 

O flavo Tibre attonito fugindo 
Vimos do Etrusco mar; vimos sumir-se 
De Yesta o Templo , e o Real Palácio 
Do benéfico Numa ; 



Correspondência^ • 

Em quanto a Silria ', mísera consorte , ' 
Punir o rio jura o Crime infando ; 
£ , a despeito de Joto , arromba os diqaet 
Pela sinistra margem. 

As gerações vindouras , apoucadas 
C*os pátrios yicios , ouTÍrao que o ferro 
Amolao Gdadaos , que os graves Persas 
Atassalhar devera. 

Nas ruioas do Império o Povo errante 
Que Deos invocará 7 De santas Virgens 
Que frios votos fatigar presumem 

A ensurdecida Yesta ? 

• 

A quem reservas Júpiter potente 
Da culpa a expiação ? Tu , Vate ApoHo ^ 
Annue ás preces nossas , desce ao mando 
Envolto em áurea nuvem. 

• 
Ou tu fagueira Deosa , que acompanhao 
Os magos visos, fervidos desejos, 
Ou tu Mavorte , se respeitas ainda 
Teus desgraçados netos ^ 

Farto de lidas , com clamores folgas , 
Com férreos morrioes ^ e o vulto horrendo 
Das hostes Mouras , rápidas marchando 
Contra o feroz imigo. 



Correspondência. 
Troca , filho de Maya , a forma egrégia 
£m mancebo gentil , que imitar sabes \ 
E , justo TÍDgador do morto Jolio 
Te chamemos , consente. 

Tardio gostes de sobir ao Olympo 
Regendo em tanto a Quirinal progénie ; 
Nao te affugentem , nao qual vento leye ^ 
Impunidos peccados. 

No Carro triumphal chamado sejas 
De Roma o pai , o Rei... Mas tu , oh Gesar y 
Que Medos esquadrões , os campos talem 
Inultos^ nao te apraza. 



M««<«««%^M^I^M»«M^ 



5 Correspondência. 



COLUMELLA, 

TBAPUZIDO POR FERNAM COUVEIBA, 



( Continuação. ) 



CAPrrOLO ONZE, 



Dos pastos dos gados ^ e aUmarias de eaza^ 



Hà muntos géneros de pastos, como são alfalfa, 
ervilliaca, fervày^ avea, feno, ervas , e cícera; e ou* 
tros que nào he necessário nomear, nem semear, 
tirando o cythiso , do qual diremos nos livros que es* 
crevemos dos géneros das prantas. Mas deites que aqui 
tratamos o principal he alfalfa, a qual semeada buma 
vez dura dez anos na terra em erva , e segão-na cada- 
no quatro, e sinco , e seis vezes segundo a qualidade 
das terras em que a semeiào. Tem mais , que esterca 
a terra , engorda o gado magro , cura o doente , e 
huma gejra delia mantém trez cavallos. Semease desta 
maneira ; abrese a terra em principio de Outubro , e 
estaa assy aberta apodrecendo todo o inverno, e no 
começo de Fevereiro tornão a lavrar e a limpar das 
pedras , e quebrar os torroens } depois no cabo deste 



Correspondência. fj 

mez terçâo e destorroào outra vez, c fejta assy a 
terra fazemna em leyras de dez pees em largo, e sinco- 
enta em longo , de feyção que se possa regar como orta, 
e fiquem entre as leyras caminhos para os sachadores 
poderem entrar a sachar de qualquer parte que qui- 
zerem, e nas leyras depois de feitas lançãp esterco 
velho bem podre. Feito tudo isto no fim d Abril 
lançào a semente em espaço de dez pees de longo , 
e sinco de largo medida de meio quartilho , e logo a 
cobrem sem tardar, antes que a queime o Sol, por 
que lhe faz muito mal, e cobremna com encinho^ de 
pào , e não de ferro como dixe , e digo muitas ve^es , 
por que a outra erva nào tenha Iqgar de nacer, por 
que em quanto hè fraca fazlhe a monda muito nqjp 
e a afoga. A primeira colheita não seja antecipada > 
por que tenha espaço para nacer toda , e crecer , e 
tomar força, mas depois as outras > quando ja estaa 
firme e arreigada, podemse fazer, e segar quando 
quiserem, ainda que a erva seja tenra. Porém tenhão 
este avizo , que quando a derem de novo a qu^quer 
besta, demlhe pouca e pouca atee que se acostume 
a ella , por que lhe nào faça mal , por quanto enche 
munto , e cria munto sangue. Quando a segarem , re- 
guemna muntas vezes, e quando crecer, tornemna a 
mondar , e aixanquèlhe as outras ervas que nascerem 
antre ella. E assy curada podese cplher seis vezes 
cada anno, e duraraa todos dez anpos. A ervilhaca 
tem duas sementeiras, huma no Outono para pasto , 
na qual por que cumpre ser mais basta, cada geyra 
leva sete almudes de semente ^ e outra em Janeiro , 



8 Correspondência. 

ou mais tarde se qulzerem , para semente ; e nestsi 

al>astão seis almudes em cada geyra. Asay hama como 

a outra se pode fazer em terra crua sem lavrar y mas 

meUior se faz em teira lavrada, e abasta hum sò 

arado, porem cumpre que a cubrào logo, por que 

não quer que lhe chova , ou orvalhe antes de cuberfa , 

nem quer que a lancem sobre o orvalho de pela ma- 

nhàa , por que se corrompe , apodrece ; portanto he 

necessário semeala depois que o sol aquece , e seca o 

orvalho, e nào seméem mais do que quanto se cubra 

naquelle dia. Tenhào aviso que a nào semeiem antes 

di)s \inte sinco de lua, por que tenho alcançado, 

qae semeada antes come a o caracol , elezme. Àferrày 

se a semei rem de sevada cantberinba , ou cavalar 

em restolho que fosse bem estercado, lavrado duas 

vezes , darseaa boa. Querse semeada em tempo que 

lhe chova logOj e naça asinha, e creça antes que 

venha a, A)rça do inverno, quando faltão os outros 

pastos , para entàp suprir , e acodir ao gado , em es* 

pecial do que trabalha , por que nào pereça. Lancem 

em cada geyra de^ almudes, por qve naça basta. 

Podemna segar, ou pacer q antas vezes quizerem atee 

Q tnez de Maio, e dahi por diante se a quizerem 

guardar para grão, n»o bulâo mais com ella. A mesma 

sementeyia tem a aveya , e da mesma maneira se 

colhe, e guarda para semente como dixemos da se-- 

vada. O feno g ego , a que os rústicos chamào siliqua , 

também tem duas sementeiras, huma no mez de 

Septembro junto do equinócio, nos mesmos dias em 

que acima fica dito que se deve semear a ervilhaca , 



Correspondência. 9 

isto hè para colher em verde , ou pacer; a outra 
antre Janeiro e Fevereiro para colher maduro para 
semente. Para esta segunda sementeira abastào seis 
q1 mudes de semente para cada geyra de terra ^e para 
a primeira ha mester septe , por que hade ser mais 
basto. Ambas estas sementeiras do feno se fazem em 
teiTa crua , se querem , e ao cobrir hão de lavrar 
meudo, e não alto, por que se a semente fica mais 
alta que quatro dedos y não nace ; pelo que alguns 
lavrào primeiro a terra com arados pequenos, e de- 
pois cobrem a semente com sachos , ou encinhos , 
ou grades pequenas. O ervo semeese em terra fraca , e 
não húmida, por que nas terras gi ossas c viçosas, 
veceja , e perdese. Podese semear no Outono , e tam^ 
bem depois da bruma no fim de Janeiro, e per todo 
o Fevereiro , mas não em Março , no qual mez dizem 
os lavradores, que não convém semear este legume, 
porque semeado neste mez faz mal ao gado , em es- 
pecial aos bois , os quaes embebeda , e faz doudos. 
Sinco almudes desta semente abastào para huma geyra 
de teiTa. Em lugar de eros acostumão na Andaluzia , 
terra de Espanha, dar aos bois cicera machucada, a 
qual machocão em qualquer moenda com a moo 
alevantada , de feyção que quebre somente o grão , 
e assy quebrado lentengemno com agoa , e misturado 
com palha meuda se dee ao gado. Mas dos eros doze 
libras abastào para huma jugada de bois , e da cicera 
dezaseis. A qual também hè boa para os homens , 
se tem bom gosto. No sabor não he differeute da 
cicerula i mas na cor sim , por que hè hum pouco 



IO Correspondência, 

mais preta. Semease no primeiro , ou' segundo arado , 
no mez de Março , e segundo a força , e virtude da 
terra assy lhe lançào a qualidade da semente por 
geyra ; em humas quatro almudes , em outras dous , 
e nas melhores meio. 

CAPITOLO DOZE. 

* De como as semeadas do pão, e legumes de^em ser 

curadas y e quantas vezes. 



Por quanto jaa dixemos quando se devia semear 
cada semente , agora mostraremos como , e quantas 
vezes se deve cada huma delias curar depois de se- 
meada. Depois da sementeira , a primeira obra de que 
o lavrador ba de ter cuidado , bè o sacbo \ ainda que 
os autores da agricultura não são todos deste pare- 
cer ; mas dizem alguns^que não aproveita sachar , an- 
tes hè prejudicial , por que descobre as raizes do pão , 
e corta algumas delias ; e se sobre o sacho acerta 
de vir frio, ou calma rija, mata a semeada, e por 
tanto dizem que bè melhor mondar a seu tempo» 
Porém os mais são de parecer que se sachem as se- 
meadas, mas não concertão todos no modo e tempo 
de sachar ; por que huns dizem que nas terras secas 
• quentes, tanto que as semeadas poderem sofrer 



Correspondência. ii 

sacha , qae as devem sachar , e achegarlhe a terra , 
para que possào fazer cana , que hè necessário que 
facão antes do inverno ^e passado o inverno tornallas 
outra vez a sachar : mas nos lugares frios e apaula* 
dos, sachallas depois do inverno deiíando a terra 
chàa y e igual , sem achegar montes aos pees do pão. 
Porem nos temos alcançado , que em muntas regioens 
hè bom sachar no inverno , convém a saber, nas terras 
que tem o ar seco , e quente; mas nem por isso di- 
zemos , que se faça em toda a parte , senão que nos 
conformemos com o costume dos lavradores antigos 
na terra , por que ha terras que tem virtudes particu* 
laresy como tem o Egypto e Africa» nas quaes Re- 
gioens os lavradores depoifi que lançam a semente aa 
terra , não vem mais a semeada , senão quando a vão 
colher; porque hè tal a natureza do ai^ e bondade 
da terra , que poucas vezes nace erva alguma outra , 
senão a da semente que lhe lançào ; isto ou por que 
chove laa poucas ve^es , ou por que a qualidade da 
terra serve assy aos lavradores « e he seu natural criar 
as boas sementes , e não as ruins ; coroo em muitas 
partes caa vemos , que se daa bem o trigo » e em ou<r 
trás se não daa ; e assy todas as sementes e prantas 
•e dão melhor em humas partes que noutras. Final-^ 
mente onde hè necessário sachar as semeadas , não 
Das devem semear atee que a erva cubra a terra » 
posto que o tempo o permitta. O trigo^e ador que* 
remse sachados depois que começão ter quatro raizes, 
e a sevada sinco, as favas, e outi^os legumes, depois 
que tiverem quatro dedos dalto sobre a teiTa. Desta 



»i Correspondência. 

obrigação de sachar nos excusa o tramoço , por que 
não tem mais que huma raiz , a qual se for ferida 
com ferro , logo se seca o tramoceyro : e mais ainda 
que senão secara , não era necessário saehalo, por qae 
as outras ei^as lhe não fazem nojo algum , antes ao 
contrario elle as mata se nacem antre elle. Posto que 
algumas semeadas se poderião sachar com tempo hú- 
mido , todavia melhor hèsachallas com tempo enxuto ^ 
por que sachadas com tempo húmido crião fenisigem y 
e a sevada sobre todas se quer sachada munto seca^ 
As favas , muitos dizem , que as não sachem , por 
que sem mais , soo com as maõs facilmente se pode 
apailar da monda ao tempo do colher : e mais dizem 
qúe as eiTas que nacem antrellas aproveitão para feno, 
e pasto do gado depois de colhidas , da qual opimio 
hé também Comelio Celso , e diz que entre os bom 
dotes que tem as favas , hé este hum delles , que da 
terra que deu favas , depois delias colhidas , podeia 
também colher feno. Mas a mim pareceme eouza de 
muito mão lavrador deixar criar erva nas semeadas» 
por que diminuese no fructo, onde cresce a monda« 
Nem hé de lavrador prudente curar mais do pasta 
das bestas 9 que do mantimento dos homens ; princi«» 
pai mente podendo criar feno nos prados que para 
isso são ordenados. E em tanto sou eu de parecer, 
que se devem sachar as favas , que não somente buma 
vez y mas trez digo que devem ser sachadas , por que 
tenho alcançado que sendo assy sachadas fazem mais 
fniyto, e menos casca ; emt anto que quebradas , e 
limpas das cascas, falta muy pouco da medida que 



Correspondência* xS 

tinlião dantes* Assy que geraluieate o sacho fazpro^ 
veito a toda semeada , como dixemos , em especial , 
no inverno em dias serenos e secos , depois da bruma 
no mez de Janeiro sem geada. E os sachadores bào 
de sachar de maneira que não escalavrem as raízes 
da semeada, mas antes as cubrâo e ajuntem para 
ellas a terra em montes : isto farào no primeiro sa- 
cho y que he o do inverno , por que a terra assim 
amontoada agazalhe e ampare as raizes, e a erva tome 
seu nutrimento , e creça , e o fr\o lhe não faça damno. 
Mas no segundo sacho,, que seraa logo passado o 
equinócio do verão, e não passaraa vinte dias depois, 
não ajuntarão a terra ao pee da erva , por que não 
apodreça com o viço , e quentura do tempo , que jaa 
então hè quente e viçoso ; mas soomente então boli- 
ràõ a terra quebrandolhe a côdea, e an*ancando a 
erva ruim que houver, e deixarão a terra igual; isto, 
como digo, farão logo passado o equinócio denti*o 
em vinte dias antes que a semeada crie cana , por 
que então quebra a cana tenra , e secase facilmente 
com a quentura do tempo , que jaa então hé mais 
quente e seco. Logo depois deste sacho do verão , 
mondem as semeadas > antes que comecem enflorecer^ 
por que estando em flor , não convém boUr com ellas , 
senão antes, ou depois que alimpão. E para se saber 
quando hão de floreceras semeadas, haveis de notar 
que todo pão que tem hum sò grão em cada fole- 
Iho, como trigo e cevada, começa espigar do terceiro 
noo atee o quarto ; e depois que lança toda a espiga 
dahi a outo dias enflorece , e depois da flor a*ece 



1 4 Correspondência^ 

ainda quarenta dias , nos ({uaes engraece , e amadu- 
rece. E os legumes que tem em cada folelho , ou 
bainha muntos grãos, como sào favas , emlhaSy c 
lentilhas nos quai^enta dias soos enflorecem , e crecem 
juntamente* 



CAPITOLO TREZE. 

De quantos serviços ha mester cada %eyra de terra , 
segundo a semente que Hw lançáo. 



Por que se saiba a gente que lião mester as her« 
dades que queremos grangcar , be necessário que teu* 
teemos os serviços pessoaes que ha mester eada gejra 
de terra desde o primeiro arado , atee por na eyra • 
que semeamos. E para isto hé necessário que nos 
lembre quehuma geyra de tena leva de trigo quatro 
ou sinco almudes , os quaes hão mester quatro ser- 
viços do lavrador para lavrar e semear ; e hão mester 
para desterroar hum serviço , e para o primeiro sacbo 
dous;e pnra o segundo hum*, para mondar hum , e 
para segar hutn e meio : os quaes serviços assoma o 
todos dez e meio. De candeal leva cada geyra tam* 
bem sinco aln)udeSy e também hão de mestei* outros 
tantos serviços y como do trigo. Deescandia leva nove 
ou dez, e ha mester o mesmo numero de serviços. 
De sevada cinco ou seis almudes, bão mester trez 



Correspondência* 5 S 

•erviços para lavrar e semear, bom para defttfrrMr^ 
e hum e meio para sachar , e bum para se;;ar; mk 
mão todos seis e meio. De favas cada í$ef ra leva ée 
quatro a seis almudes , e se ^o semeadas em al^oeve 
hão mester dous serviços do lavrador, mis em res* 
leva hum abasta ; para destorroar bâo me^ler kam e 
meio, para sachar outro e meio no primeiro sadio, 
e no segundo hum soo, e no terceiro outro §00 f e 
para colher outro soo; somâo todos oito, oa sete 
em resteva. De vicia, ou ervilhaca leva cada t^rfí 
seis ou sete almudes , os qoaes semeados em alqueve 
hão mester serviços do lavrador dous, e semeados 
em resteva abastalhe hum para lavrar e semear; para 
destorroar hão mester hum , e para colher outro : so- 
mão quatro em alqueve, e trez em resteva. De ervos, 
ou eros leva cada gejra cinco almudes , ha mester para 
lavrar e semear tantos serviços como a vicia , e para 
destorroar, sachar, mondar e colher cada bum seu, 
e todos em soma fazem seis. A gejra de siliqaa leva 
seis ou sete almudes , e para semear ha mester tantos 
serviços como a vicia* A. geyra dos feyjoens ba mester 
para semear tantos serviços como a vicia , mas para 
destorroar hum soo , e para colher outro. De chicharos 
a geyra leva quatro almudes ; hão mester trez serviços 
do lavrador , para destorroar hum ^ para mondar ou- 
tro, e para arrancar outro; são por todos seis ser- 
viços. Das lentilhas em cada geyra almude e meio; 
para semear trez serviços ^ para destorroar hum , para 
sachar dous , para mondar hum , para arrancar hum , 
iàzem em soma outo. A geira dos tramocos leva dez 



tC Correspondência 

almudles ^ ha mester para cobrir hum serviço i e para 
deston*oar outro , e para colher outro. De milho quatro 
seystaríoS) que sâo dous terços daloiude, e de painço 
outro tanto , em cada geyra hão mester quatro ser- 
viços de lavrador, e para destoiToar trez, e para sa<* 
char trez; para colher não tem certo numero de 
serviços, porque as vezes hè forte e basto, às vezes 
ralo,e também às vezes o segào, e outras o arran* 
çào , e segundo isto ha mesler humas vezes mais 
serviços , e outras, menos. De grãos huuia gejra leva 
trez almudes , e ha mester ouiros tantos serviços para 
semear, e para destorroar dous, hum para sachar, e 
outro para mondar, e trez para arrancar-, assomào 
todos dez serviços. Huma geyi^a de linho leva outo 
atee dez almudes de semente , semease com quatro 
jugadas, ou serviços de bois, destorroase com trez 
serviços dhomens, mondase com hum serviço, arran- 
case com ti*ez : fazem em soma todos trez. Hutna 
geyra de gergelim leva atee seis seystarios que fazem 
hum almude de semente ; semease com trez jugadas 
de bois desdo primeii*o arado, destorroase com qua- 
tro serviços ; sachase com outros quatro no primeiro 
sacho, e no segundo com dous, escolhese com. outros 
dous : assomào todos quinze. O linho alcaneve semea-^ 
se como acima ensinamos , mas nào hé certo que 
despeza, ou diligencia ha mester, k alfalfa cobrese 
como dixemos, não com arado de ferro, senão com 
encinhos de pào; huma geyra delia destorroase com 
com dous serviços , sachase com hum, e colhese com. 
outro. Teuteada e acabada bem esta conta, podese 



Correspondência . 1 7 

coUlgir, que huma herdade de duzentas geyras dç 
terra ha mester para se lavrar duas juntas de bois, e 
outros tantos lávf adores para ellas , e ha mester seis 
trabalhadores y se a terra for limpa sem mato, e se 
tem mato> diz Saserna, qtie ha mester mais outro| 
trez homens. A qual conta nos ensina que huma junta 
abasta pata semear cento e vinte e sinco almudes de 
trigo, e sincoenta na principal sementeyra, que hé 
a do Outono^ quando os bois ainda estão fartos y e 
tem força. E depois na segunda dos tremezes pode 
semear septenta e sinco almudesi. O que aqui preten** 
demos ensinar, que hè saber quantos serviços hão 
mester as fazendas que grangeamos > consta também 
per outra maneyra assy* Âs sementes que se semeão 
per quatro arados, quero dizer > lavrando a teiTa 
quatro vezes , para vinte sinco geyras de terra hão 
mester cento e quinze serviços darado , por que abrem 
a terra, por dura que seja^ com sincoenta serviços ^ 
e talhàona com vinte e sinco , e terçào e mais semeião 
com quarenta. Os outros legumes hão mester sessenta 
serviços, que são dous mezes de tempo. Contàose 
também os dias de chuyva , e ferias em que não la* 
vrão , a que dão quarenta e sinco. Item mais outros 
trinta de folga acabada a sementeyra» E assy por todos 
são outo mezes e dez dias, eficàotres mezes e vinte*» 
sinco dias para encher o ano , os quaes se gastão na 
sementeira dos tremezes, ou no carreto do feno, e 
pastos , e esterco e outras couzas."* 



Tom. X P. aa. a B 



i8 CarrespenJãneia. 

CAPrrOLO QUATORZE. 

Dos legumes guê damnâe as terras, e d^ çme of 

ajudào , e esteroâo* 



Das sementes que acima referi > bumas , diz Sa'** 
sema, estercào e ajtidào as terras, e outras ao con- 
trario as qneimào , e lhe castão a força. Estercio os 
tramoços,favas, ervilhaca , eíVo^, lentilhas » chicharos , 
t ervilhas. Dos tramoços nâo duvido nada , e também 
da ervilhaca de pasto, se a lavrarehi logo acabando 
de a segar em verde , e aquillo que deixar a foudnha 
cobrirão arado antes que se seque, por que aquillo 
assim Verde fica em lugar de esterco., e se aquelas 
raizes que íicào , se secarem , tirão e consumem o 
çumo e força da terra. O que também por seme- 
lhante rezào acontece nas favas, e nos outros legu-* 
mes , com os quaes a terra parece que se alegra e 
engrossa; por que se nào lavrarem logo a terra aca- 
bando de os tirar dela, não aproveitaraa nada para 
as outras sementes que ali lançarem. Os legumes que 
se colhem arrancados fazem damno à terra , em es- 
pecial os grãos , e linho , segundo diz Tremelio , por 
que a peçonha destes queima a terra mais que dos 
outros , huma por salgada , e outra por quente. O que 
Vergilio significa destes, e doutros dizendo: a semeada 
do hnho queima a terra , como também a da aveya 



Correspondência. ty 

9 a das durmideiras. E nào hà danda sénio q«e 
prejudicào estas sementes a terra , como também Ah 
zem o milho, e painço. Mas para as terras qae pade* 
cem este detrimento, temos hum certo, e prestei 
remédio que hé estercallas , por que com isso reeu* 
perão suas forças , como com seu próprio mantimento. 
Nàp somente para as sementes que semeamos comi 
arado, mas também para as arvores ^ e todaapranta 
hé proveitozo , e necessário o esterco , por que tudo 
se daa melhor com elle que sem clle« Portanto aoa 
agricultores convém ter ter muito cuidado de o fazer^ 
e curar com diligencia. E por que os autores antigos 
posto que (izerào delle alguma menção, passarão to*** 
davia levemente por isso; eu agora quero tratar per 
extenso o que elles deixarão. 

cAPrroLo QumzE. 

Dos géneros do esterco f e de como se fmrà, e qmsnd^^ 

Kè hom. 



Trez géneros ha de esterco principaes entre os 
outros ; e são , o primeiro das aves , o segundo doá 
homens , o terceiro do gado. Do das aves o melhor 
hé o das pombas e logo o das galinhas, e depois o 
das outras aves , com tanto que nào sejão aves d'agoa 
como patas , adens , cujo esterco he prejudicial para 
as terras e fazlhe damno. Aprovamos sobre todos • 

a* 



S^ Cortespcndencia, 

das pombas, por que achamos por experiência que 
pouco delle espalhado- apodrenta a terra mais que 
munto do outro. O segundo dos princípaes que hè o 
dos homens , hade ser misturado com cisco ou qual- 
quer outro monturo , por que elle sò he mui quente 
e queima a terra. A ourina da* gente, se a deijíarem 
apodrecer por espaço de seis mezes, hé muito boa 
para enxertos. Se a lançarem ao pè das videiras , ou 
arvores de fruito, darão mais firuito, mas também 
terá gostozo , e o vinho cheirozo e de mais dura. £ se 
com esta ourina velha mesturarem também agua ruça 
velha sem sal , e regarem assi com isso as arvores , 
em especial as oliveiras darão mais fruito, por que 
não somente assim mesturada a agua ruça, mas tam- 
bém estreme por si, ajuda muito. Assi huma com 
outra no inverno aproveitâo mais, e no verão antes 
das calmas do estio, em quanfo as arvores e vinhas 
estão ainda escavadas , e com as raizes quasi desco- 
bertas para que possão gozar desta regaduia , e nu- 
trimento deVla. O terceiro lugar dos géneros de esterco 
tem o do gado , no qual também hà diflferenças , por 
que dizem que o dos asnos he melhor que todos , e a 
rezào he por que este animal quando come masca 
muito de vagar , e coze no estômago a comida mais 
facilmente e melhor , e por isso lança o esterco mais 
podre e mais idóneo para a terra. Depois deste o 
das ovelhas hè bom , e depois das ovelhas o das ca- 
bras , e depois das cabras o do gado grosso. O peor 
de todos hé o dos porcos ; quando falta esterco, tam- 
bèm.iai proveito às teiTas a cinza e faullia de fogo. 



Correspondência* ^t 

A palha de tremoço meuda tem \irtude dê b<hn es-^ 
tcrco. Também lançào nas terras frias para a aquentar 
fauma espécie de terra branca, que chamáo giz. Bem 
sei que hà algumas terras em que nao hà creação de 
gado nem aves para fazer esterco \ mas bem dezaazado 
será o rústico que não souber fazer esterco^ posto 
que não tenha criação ; por que pode ajuntar folhas 
e ramos y e tojo e feito sem fazer nojo a seus vezinhos t 
mas antes proveito , por que lhe alimpará as terras » 
e lançar tudo no pateo das quintas e nos caminhos 
por onde anda a gente que o pize , e com a chuva 
do inverno apodreça. Também pode fazer huma cova^ 
como dixemos, no primeiro livro, e lançar nelia 
cinza e cisco , palha e todas as immundicias de caza , 
e de quando em quando alguma agua por que se 
não seque , mas que apodreça e faça esterco. E pof 
que se não criem ou acolhào sapos ou bichos outros 
peçonhentos , que corrompão o ar nesta cova , lancem 
nella alguma madeira de carvalho , por que os bichos 
peçonhentos fogem delia. Isto digo para as terras onde 
não hà gado; que para onde hà gada que piza e faz 
esterco, cada dia lanção a immundicia da cozinha 
e da camará; e nos dias de chuva dos curraes dos 
bois e ovelhas ; e mais vezes das esti^ebarias que se 
devem alimpar quando for necessário. De todas estas 
partes se faz esterqueira , ao menos para terras de pão 
commumente , ainda que não hé tão bom o esterco 
destas esterqueiras , como alguns dos que acima dixe-^ 
mos. Mas nas terras em que se não seméa outra 
couza senão pão , abasta qualquer esterco , . e ofto h4 
necessário apartac os género^, dos estercos que dixe- 



%t Cerresponãtmcia' 

mos. Porbfli aonde ba sementeira e arv^^s e praâos , 
devese apartar eada género de per si , ao menos o 
das aves, oTelhas, e cabras $ t os outros laneemse 
todos juntos na cova sobredita , onde lhe hão de lan« 
çar muitas vezes humor algum , para que apodreçào 
as erras e suas raíses , e palha e qualquer couza crua 
t dura que estiver misturada. E nos mexes do Estio 
irevidv&o o de cima para baixo , por que se não seque , 
mas que apodreça tudo e seja idóneo para estercar as 
terras. Muito carrego devem ter os lavradores de fazer 
esterco tanto, que lhes não falte, e podem fazer cada 
cabeça de gado meudo em hum mez hnma carrega 
desterco , e cada cabeça de gado maior em hum mez 
dez, e outras tantas faz cada homem; os quaes com 
o seu esterco podem ajuntar o cisco', e toda a im« 
mundicia da casa e pateo ou curral da quinta. Também 
quero am&estar que o esterco ^ que dixemos que se 
curtisse dhum anno para outro , não passe d'hum ano , 
porque perde as forças, e para os prados quanto mais 
novo tanli> melhor, por que cria erva*, mas para as 
semeadas ao ^.contrario , por que não cumpre para 
dias senão o bem pobre que as não crie. E nos prados 
hade se lançar o esterco novo no mez de Fevreiro no 
crescente da Lua , por que isto ajuda muito a criação 
da erva que então lança de si nestas partes , onde pela 
vinda do Sol naturalmente naquele tempo produz seus 
frttitos. Quanto ao que toea ao uso do esterco que se 
deve lançar a cada semente , e eouzas outras , então o 
diremos quando tratarmos de cada huma deUas em 
parlíeulBr. 






CarrespcnJmicia. 



SENHORES REDACTORES, 

A honra, que tenho de ser contado no ni 
dos seus Correspondentes, me anima a communicar- 
lhes a Nota inclusa , sobre hum novo prooeaso paim 
ober a Zirconia pura, resultado doi irabalbot de 
M* Dubois , e dos meus , e o qual acaba de aer p»- 
blicado nos Annaes de Chjmica, e de Pbysíca d^ 
mez de Maio do presente anno« 

Se este pequeno tributo do meu reconhecimento 
poder ser-lhes agradável, lisonjear-me^hei muito, 
que a elle e a mim facão a honra de o publicar no 
seu excellente periódico dos Annaes das Sciencías das 
Artes, e das Letras. 

Este processo consiste em rtdaúr a p6 fino oe Zir- 
cons , de os misturar com duas partes de poCassa 
purificada pelo alcobol , e de expor esta mistura em 
hum cadinho de prata a hum fogo rubro diffaate 
huma hora. Desfaz-se esta massa em agua distiUada, 
a qual então he lançada sobre li«m filtro, para a agua 
dissolver, e separar da matéria insolúvel a maior 
parte da potassa , em quanto o que fica do filtro he 
hum composto de zirconia, de silicia, de potassa (^), 

(*) Efte campotlo ke oeasicknMlo por M* Chevreid «eme hama 
•speoif ât sal 4a)N» a ^it aUt ahama ttrcoaate de peta»ft««^ 



2( Correspondência» 

de oxjdo de feiTO , e ás vezes de alguns átomos À 
titânio. A suDStancia , que fica no filtro , depois de 
))em lavuda^ he dissolvida no acido bjrdroch}orico puro, 
(^muriatico ) e evaporada até ao secco, para separar 
a silicia. Dissolvem- se na agua os hydrochlorates de 
^Irconia , e de fbrro ; e para sepai^r as ultimas por- 
ções de zirconia , que possão ter ido mbturadas coni 
a silicia precipitada , pega-se desta , e tratasse por hum. 
pouco de acido bydrochlorico diluido, que se fas 
ferver sobre eUa , e que se ajunta á primeira dissolu- 
ção. Depois de filtrados os bydrocblorates , a zirconia 
e o ferro sào precipitados pela ammonia pura , que 
çe ajunta até haver na dissolução bum pequeno ex- 
cesso delia. Estes bjdrates , depois de bem lavados, 
%ko tratados pelo acido oxalicp, tomando o cuidado 
de fazer ferver o liquido , para que o acido ataque 
perfeitamente o ferro , o qual fica em dissolução , em 
quanto a zirconia se precipita no estado de oxalate 
perfeitamente insolúvel. Para separar do feiro a ma-r 
teria insolúvel filtra-se 9 e o oxalate que fica no filtrQ 
he lavado até que aç aguas de lavagem não dêem si-- 
gnaes alguns de ferro pelos reagentes próprios para o 
descobrir. Este oxalate , depois de bem lavado e secco, 
he de huma cor opalina, e deve ser decomposto ex- 
pondo'0 a acção de hum fogo rubro em hum cadi-*- 
nho de platina^ 

A zirconia obtida por este methodo, he perfeita- 
mente pura, porém he quasi insolúvel nos ácidos. 
Para a tornar solúvel, he de novo tratada pela po«- 



Correspondência. dS 

tassa, como dissemos acima , e bem lavada até que 
as aguas de lavagem não dêem indicios alguns de 
alcali. Então he dissolvida no acido hydrochiorico , 
e precipitada pela ammonia. O hydrate assim obtido e 
bem lavado he inteiramente solúvel nos ácidos. 

Vé-se pelo que acabamos de expor, que este processo 
dlSere do que publicou M. Chevreul nos Annaes de 
Cbymica y e de Physica do mez de Março de 1820. 
Nós não trataremos das combinações salinas da zir-< 
conía y tendo M. Chevreul annunciado , que isto seria 
o objecto da sua segunda Memoria. Julgaríamos 
faltar , primeiramente a toda a espécie de delicadeza , 
e attenção , e em segundo lugar , fazemos demasiado 
apreço da amizade de M. Chevreul para que possa^ 
mos fazer cousa alguma, que possa denotara intenção 
de nos querermos appropriar a sua descoberta. 

Parts 117 de Julho de iSao. 

Sou de V. M.««* 

Attento vener^dor, e obrigado criado 

Joio BA SiLVBnÀ Caldeika* 



96 Correiponâõwda. 



SbVSQR» RE9ACT0]IE9 MM AhIT AE8 »AS SciE]íClA$ , 

»À« Artbs y s 9AS Lirnàt. 

Vindo-me agora á mão o Tomo 6o. do seu Periódico, 
•alli VI, pela X primeira vez, huma Memoria sobre o 
Plano da CoUecção dos Tratados Políticos de Por- 
tugal , organizada pelo Sn^. Diogo Vieira de Tovar e 
Âlbuquetxiue , em consequência de cuja publicação , 
vou rogar-lhes , queirão ter a bondade de annunciar 
no seu Jornal o estado , em que tenho hum trabalho 
desta natureza, cujo annuncio tenho retardado, ha 
muito tempo, contra o voto de mpi hábeis literatos, 
só com o fim de não publicar projecto sem obra. 

Quando a Academia Real das Scien^ias de Lisboa 
propozno seu Programma de i8i5 o desempenho de 
hum índice Chronologico Remisswo dos Diplomas , e 
mais Documentos públicos pertencentes d Historia de 
Portugal j desde a epocha da restauração das Hespa- 
nhãs do jugo dos Mouros j até o anno de i6o3 exclur 
si^amente j os quaes Documentos se achassem já im- 
pressos èm obras nacionaes , ou estrangeiras , podia eu 
então nessa epocha ofierecer á mesma Academia, pelo 
que pertencia a Documentos da Historia Politica de 
Portugal y huma gi^ande copia de Monumentos , que 
para meu particular estudo havia coUigiJo. Conheci , 
que o meu trabalho era mais importante, do que o 



CtnresponJemcia. 37 

propQtto no mesmo Programma ; por isso que eite só 
tratava dos Documeotos públicos pertenceiítes á Hit^ 
toria de Portugal, que se achassem iijapressos em 
obras nacionaes , ou estrangeiras ; e aquelle não s6 
comprehendia já então grande parte do que se achava 
impresso em obras nacionaes , ou esti*anhas , mas tam* 
bem grandes series de Tratadps , e Confrontações ter- 
ritoriaes^ em virtude de reciprocas Convenções dos 
respectivos Soberano^ entre as difierentes Provinciag 
da Hespanha e Portugal; alem de muitas Negociações» 
que ainda não tinhào visto a lus , e de tal importaii<- 
cia, como são : i^. todas as Negociações do Tratado de 
faz entre o Senhor Rei D. ÂÍTonso 5^. e o Duque de 
Bretanha » celebrado a 2§ de Agosto de 1 476 ; a<^. as 
Negociações do Barão de Alvito com o Plenipoten«- 
ciario de Castella no anno de i479» ^^ prepararão 
o Tratado de 6 de Março de 1480; 3^ todas as Ne- 
gociações sobre as Terceirias de Moira nos Reinados 
dos Senhores l^eis ]3. A>fionso 5^. , e D. João a<». , que 
nenhum dos nossos chronistas conheceo , e apenas 
indicarão ; as Cartas de Creusa , Instrucções , Capitu - 
Ips, Ajustes ,e Tratados sobre esta importante Nego- 
ciação t ião singular na Historia da Diplomacia Por* 
tugueza -, 4*** toda a Missão de Pedro Corrêa de Atou- 
guia, no Reinado do Senhor Rei D. Manoel , de 1496 
em diante ; 5®. Ioda a Correspondência official de 
Francisco Zuzarte , Ministro do dito Rei em Inglaterra, 
Negociação , a que sérvio de base e sua Instrucção de 5 
de Abril de i5o6; 6; toda a Correspondência official 
do Bispe de Ceola D. Fr. Henrique , Negociação , a 



a8 Correspondência. 

qae servirão de base as Instmcções dadas pelo Senhor 
Rei D. Manoel 2i ^ Ae Dezembro de i5o6 ; 7<*. toda a 
Con-espondencia de Álvaro Annes , Ministro do dito 
Rei em Saboya» de 5 de Novembro em diante, de i5ai; 
8®. toda a Correspondência Ministerial do Senhor Rei 
D. João 30. com Balthazar de Faria 9 seu Ministro na 
Ciuia, desde ao de Janeiro de i5a3 , em que lhe deo 
as suas Instrucções ; 9^. toda a Correspondência do 
mesmo Rei com Braz de AJvide , seu Embaixador em 
França, de i546 em diante; iqo. todas as Negocia- 
ções, e Cartas de Lourenço Pires de Távora, Em- 
baixador em Castella, de i55a em diante-, ii<>. toda 
a Missão de Duarte de Almeida , desde a4 de Maio 
de i555 em diante; além de muitos volumes manus- 
criptos de Negociações posteriores aos Filippes , e de 
huma longa serie de Tratados , e outros Documentos, 
que /á na dita epocha possuia, de cuja riqueza julguei 
dever retardar a publicação , para quando tivesse ca- 
balmente preenchido o fim , a que desde então me 
propuzera, dando em corpo systematico a vastíssima 
CoUecção de todos os nossos Documentos Politicos , 
pertencentes ao Direito Publico, Externo , e Diplo- 
mático Portuguez, desde o principio da Monarchia 
ate os nossos dias. 

O methodo , que segui no arranjo d*estes Diplomas ; 
o systema da sua classificação, e em geral os tra* 
balhos, a que me tenho dado no exame analrtico 
das difierentes obras estrangeiras doeste gencn»»^ 4mm 
de expurgar esta dos erros , em que caUrio os outros. 



Con^espondencia. sg 

que me precederão » formão o teor da Dissertação 
Preliminar delia , que , occupaado mais de meio vo« 
lume de folio grande , seria impos^ivel o poder insert* 
la no seu Jornal ; e por isso direi summariamente , 
que na i'. Parte exponho os motivos , que me fize*% 
rào emprehender esta obra; na a", o modo, porque 
pude alcançar os Mss. inéditos ; na a', o methodo e 
systema , que segui , e as razões , porque o adoptei ; 
na 4*- os Documentos, que nella tem lugar , e as ra- 
zões porque ; na 5>. a utilidade , que resulta a Portugal 
desta CoIIecçãOy por isso que em geral quasi todos 
os seus Historiadores escreverão essencialmente da 
Historia de suas Conquistas , deixando apenas algumas 
indicações das relações externas. 

Depois d'aquella epocha tenho augmentado consider 
ravelmente esta CoUecçào , chegando já a mais de 3,000 
Documentos, contendo todos os Tratados de Paz, 
de Limites , de Garantia , de AUiança , de Confedera- 
ção e Amizade , de Liga OQenslva e Defensiva , de 
Commercio, Contractos Matrimoniaes , Escambos c 
Doações, Manifestos, Capitulações, Armistícios, e 
todas as Negociações entre a Coroa de Portugal, e as 
diSerentes Potencias da Europa , bem como doS mais 
Dominios Portuguezes nas outras partes do Globo : 
todos os Privilégios concedidos a favor dos Estran- 
geiros, e seu Commercio, em consequência de Trata- 
dos , Convenções . etc. 

As Negociações , que prepararão estes Actos , ou que 
os invalidarão , as coUoquei na Historia das Missões 



S# Correêponiefuda. 

ou Embaixadas mandadas 9 ourecebidaè» c>iide na 
sua classificação sjstèmatica se Té o motivo de cada 
huma y a extensão dos Poderes dos Ministros , ò sen 
resultado y e sua final consequência , com a remissão 
ao Corpo geral dos Tratados. 

Para escrever a Historia doestas Missões, não só 
tenho consultado , e extrahido as indicações das His- 
torias da nossa Monarchia, e das estranhas, e das 
Memorias manuscriptas dos nossos Ministros'; mas 
também tudo p que ba concernente a Portugal nas 
diversas outras, que na Europa se tem publicado 
desde o principio do século 16^. das quaes deixo de 
fazer aqui a enumeração, que só tem lugar no isiltimo 
volume da minha obra , dos Autores consultados. 

Para dar huma ideia do estado de adiantamento, 
em que se acha esta obra , e da utilidade , que d# 
conhecimento delia deve resultar, referirei rapida- 
mente, sobre cada hum dos Reinados, o que cabtf 
nos limites doesta Carta. 

O Reinado do Senhor D. AÍIonso i<^. , pertencendo 
mais á Historia Militar , do que á Historia Politica » 
tem poucos Actos Diplomáticos, mas todavia foi neste 
mesmo Reinado , que se derão os primeiros Privilé- 
gios aos estrangeiros , que ajudarão este Soberano a 
conquistar sobre os Mouros a maior paite das Praças 
doeste Reino: contém algumas transacções com a Cúria, 
mas não he abundante em Documentos , nem se po- 
derão facilmente descobrir nos Cartórios do Reino , 



Correspondência. It 

por isso 4fue naquella epocha ainda nio hãyna Arcld?<i 
algum fixo. 

O Reinado do Senhor D. Sancbo i^ he lá maii 
abundante , do que o precedente , contendo Negociar 
ções com a Cúria desde ii85 até 1198 ; algumas Doa- 
ções , Confrontações, e as Relações Commerciaes, e 
Politicas com Inglaterra, aonde então forào mandados 
Embaixadores d'este Rei a 3o de Junho de 1199. 

O Reinado do Senhor D. AíTonso a^. nào he ti6 
abundante em Diplomas , como o precedente j mas he 
também importante na Historia Politica. 

O Reinado , que se lhe segue , do Senhor D. San<» 
cho ^^.y he também mui importante pelas questôei 
com a Cúria até á notável Bulia de Innocencio 4'- # 
de 34 d^ Julho de ia4^- 

• 

Com a Regência, e Reinado do Senhor D. Affonsp 3». 
começão a ser mais frequentes os Contractos, as 
Doações, as Embaixadas , as Negociações, os Tratados, 
as Confrontações ten itoriaes , e mui importantes a» 
Negociações sobre o Algarve. 

O Reinado, que selheseguio, do Senhor D. Diniz , 
he já mais interessante na Historia da Diplomacia 
Portugueza , do que todos os precedentes : nelle co- 
meção os primeiros , e mais importantes arestos do 
modo de tratar Diplomático d*aquelles tempos. Neste 
periodo são frequentes as Negociações com a Cúria , 
com os Reis de Leão , de Castella , e de Aragão. Ha 



33 Correspondência. 

as priiúeifa3 Concessões de Duarte i^. de Inglaterra a 
favor do Commercio dos Vassallos Portuguezes na- 
quelle Reino; Negociações sobre IJfavios capturados 
pelos Portuguezes aos Inglezes; toda a Conespon- 
dencia do Senhor Rei D. Diniz como o ditto Rei de 
Inglaterra ; muilas acquisições terrítoriaes , com a^ 
suas confrontações estabelecidas pot Convenções ^ Tra^^ 
tados, e Juizes árbitros : vé-se o formulário das Cartai 
de Crensa d'aquella epocha;estabele(iem-se os primeiro^ 
Tratados de Commercio com Inglaterra ; véem-se as 
Convenções de hypotheca, e penhor, que* celebravão 
os respectivos Soberanos para segui^nça das estipu- 
lações de seus Tratados, por exemplo, o de D- Fer- 
nando /Rei de Castella , dando em penlior ao Senbor 
Rei D. Diniz a Cidade de Badajoz , e- outros Castellòs ^ 
e Villas; vê-se o celebre formulário dos Tratados 
entre Soberanos, outorgados , e ratificados pelos Se^ 
nbores Fcudaes , como por exemplo a Ratificação de 
Alcanizes a i4 de Septembro da Era de i335^ que 
se lhes punhão os sellos pendentes dos Senhores , é 
não os rodados ; em cuja ratificação os mesmos grandes 
Senhores de Castella dizem, que no caso d'ElRei de 
Castella não cumprir o estipulado , serão contra elle; 
e seus successores. Vê-se o formulário da Troca das 
Ratificações, e Tratados, como foráo as tues, que sú 
tiocárào em Agreda; nas Cartas Credenciaes, em que 
se declaravão os Plenos Poderes, compromettiâo-se 
os Soberanos a api rovar tudo , que fizessem seus Mi- 
nistios, jurando em que promettião, hjpothecando 
iodos os seus bens, por mais privilegiados que fosseux. 



correspondência. 33 

\c'se a reserva da acceitaçào das L6tl*as Apostólica» ^ 
os Tratados a que o mesmo Rei foi chamado como 
Juiz Arbitro para decidir as causas entre Soberanos |. 
por exemplo, o Tratíido authentico, pelo qual o Senhor 
Kei D. Diniz , e D. Jaime de Aragão i como Juizes 
Ai'bitros do Rei D. Affonsô > e do Infante D. Fernando, 
dcrào áquelle Bejar, e outros muitos lugares > dei-» 
xando elle a voz, e nome de Rei; e a D. Fernando i 
filho do Rei Dv Sancho , o Reino de Castella^ Neste 
Reinado se regulái*ào as entrevistas dos Reis , e se 
começarão outras Negociações, que se desenvolverão 
no Reinado seguinte do Senhor D. AQbnso 4"^ ^ <iual, 
a pezar de pertencer muito á Historia Militar , não he 
todavia menos abundante em Documentos da Historia 
Politica. São frequentes neste Reinado as Negociações 
entre o Senhor Rei D. AflTonso 4®. , e Duarte a®, de 
Inglaterra; as com os Reis de Castella, e outros; as 
Demarcações temtoriaes , Doações, e Escambos ; nesta 
epocha se estabeleceo o notável formulário Diploma* 
tico da Ratificação , e Confirmação de Rei a Rei , de 
todos os Aclos Diplomáticos do Reinado precedente , 
como por exemplo , o Tratado de Escalona , entre o 
Senhor Rei D. AÍIonso 40. , e o Rei de Castella , em 
que ratillcárão , e confirmarão os Tratados celebrados 
por seus Pais o Senhor D. Diniz, e D* Fernando. Véem- 
se as Negociações, e Resposta dada pelo Senhor D. 
Aílbnso 40. ao Núncio , e aos Embaixadores de França 
em matéria mui importante. Continuào a celebra r-se 
Tratados de Caução com entrega de Villas , Castellos , 
e outros lugares ; celebrão-se muitas , e notáveis Cou- 
Tom. A. P. jf . 3 B 



34 Correspandcncia. 

federações , sendo mui digna de altenção a de Coim- 
bra entre o Senhor Rei D. Aifonso 4». , e D. Pedro 
de Aragão , promettendo ajudar-se mutuamente no 
caso de terem guerra com o Rei de Castella : vêem- 
se as Negociações com Duarte 3<^. de Inglaterra , e 
novas Concessões doeste Rei a favor do Commercio 
dos Vassallos Portuguezes, que depois se reduzirão 
ás estipulações do Tratado de Commercio feito em 
Londres , e assignado por Affonso Martins Alho , En- 
viado das Cidades marítimas de Portugal; e outras 
muitas, etc 

O Reinado do Senhor D. Pedro i®. não ofierece 
Documentos importantes: forâo lo annos de dissen- 
ções domesticas , de que dão notícia as Historias pu- 
blicas doeste Reino. 

O Reinado , que se lhe seguíò , do Senhor D. FeN 
pando y não be menos notável , que os precedentes , 
na abundância de Diplomas -, e mais digno de altenção 
pela variedade dos Planos PòUticos doeste Soberano. 
Neste Remado se vêem as pertençòes do mesmo Bei 
i Coroa de Castella; as suas communicações officiaes 
com os principaes Senhores d*aquelle Reino ; as suas 
Negociações com os Reis de Granada , e Aragão ; a 
Embaixada do Conde de Barcellos, dos Bispos de 
Évora, e Sylves; as Negociações dos Núncios de 
Gregório n®. ; as Conferencias de Alcoutim, onde se 
csUpulou o celebre Tratado de Cazamento da Infan^i 
D.Leonor, filha d'ElBei D. Henrique , cora o Senhor 
Rei D. Fernando , o qual se publiôou em iS^t. Vêem- 



Correspondência* 35 

se os primeiros Tratados entre este Rei , e o Dnqoe^ 
e Communidades de Génova; novas Concessões de 
Duarte 3^. de Inglaterra ao Commercio de Portugal; 
a Correspondencifi doestes Reis sobre matérias politt- 
cas j e commerciáes , a qual forma huma Negociação. 
Vé-se o teor das primeiras Plenipotencias , comp 
forão y as que levou João Fernandes Andeiro , quando 
este Soberano o mandou por Embaixadora Inglaterra; 
observa-se^ que ElRei de Inglaterra nas Cartas Cre- 
denciaes de seus Plenipotenciários , não só os acredi- 
tava junto do Senhor Rei D. Fernando ; mas, o que 
he mais singular, junto da Rainha D. Leonor, que 
chegou a ratiíicar alguns Tratados. Celebrão-se varia,s 
Âllianças dignas de ponderação , com o Princepe de 
Aquitania, e outros ; forma-se o Tratado com o Duque 
de Anjou contra o Rei de Aragão. Vêem-se as pri- 
meiras Convenções sobre a isenção de Direitos dos 
objectos pertencentes a Embaixadores, e Ministros; 
o estylo da prorogaçào dos Tratados ; e outros arestos 
de muita importância; varias Doações , Escambos , etc. 

O Interregno, que se seguio á morte do Senhor 
Rei D. Fernando , oiTerece também hum pequeno 
quadro de Negociações com Ricardo a®, de Inglaterra, 
sobre armamentos , subsidios , etc. 

Com o accesso do Senhor D. João i<>. aoThrono, 
começou huma nova ordem de formulários Diploma^- 
ticos : he já este Reinado mais clássico na Historia da 
Diplomacia Portugueza , que os precedentes : passão 
successivamente a Inglaterra us Emjbaixadoref Lou.- 

3 ^ 



36 Correspondência* 

renço Gomes Fogaça , e o Mestre de Sant-Iago , onde 
tialào em i385 as Negociações, que prepararão o 
Tratado de Windsor , firmado no anno seguinte , a 
que se segutrào os de Westminster, e outras Tran- 
sacções igualmente importantes : passa logo depois ao 
mesmo Reino ò Senhor Infante D. Diniz , a negociar 
tcom aquèUa Corte : no anno de i4o4 passão á mesma 
Corte os Embaixadores João Gomes da Silva , e Mar- 
linho de Souza, a proporem a Henrique 4^. varias 
Negociações , entre estas, o enti^ar nas Tregoas entre 
Portugal , e Castella. São mais frequentes , e mais 
importantes , do que nos outros Reinados , as Nego** 
ciações destas duas Cortes. Trata este Rei com o 
Duque, e Conde de HoUanda sobre os Privilégios por 
este concedidos aos Portuguezes , e seu Commercio : 
ha o mesmo systema da Coníirmaçào dos Tratados 
dos Reinados precedentes : negoceia Álvaro Gonçalves 
Coutinho Com o Duque de Borgonha sobre os Pri- 
vilégios , e izenções , que por sua intervenção conce- 
deo aos Homens de negocio Pottuguezes nos seus 
Estados , ctc. Vêem-se todas as Negociações dos Em- 
baixadores doeste Soberano no Concilio de Constança; 
muitas Negociações com a Cúria , e outros Estados , 
etc. 

O Reinado do Senhor D. Duarte não he tão amplo, 
nem tão interessante na Historia Politica, e Diplo- 
mática de Portugal, como o precedente. O período 
de 5 annos , e hum mez, que tanto foi o tempo, que 
este Soberano governou este Reino , occupando-o mais 




Correspondências Sj 

çm Regulamentos X>egislativos , e nos Negócios de 
Africa , não permittio a mesma frequência de Rela^ 
çôes externas. Não deixarão todavia de haver algumas 
de grande importância, como forào as Negociações, 
no Concilio de Basilea -, as Reclamações de soccorros ». 
que os Reis de Aragão , e de Inglaterra (izerão a este 
Moqarcha *, as Ratificações feitas em Santarém aos Tra- 
tados y que se liavião celebrado entre o Senhor Rei 
D. João i®. , e os Reis de Inglaterra Ricardo a®.., Hen- 
rique 4^. , e Henrique 5^. : as Negociações de Bolonha 
entre o Papa Eugénio 4®.., e o Conde de Ourem , Em-^ 
baixador de Portugal ; a Negociação sobre a Bulia.,, 
em que este Pontifice concedeo ao Senhor Rei D. 
Duarte , e seus successores , o poderem ser Ungidoa , 
e Sagrados pelo Arcebispo de Braga , do mesmo modo ^ 
que o erão os Imperadores : outras Negociações entre 
o mesmo Pontífice , e Vasco Fernandes de Lucena y 

os Negócios de Ceuta , as Negaciações com Cs^tella,. 
algumas Doações , etc. 

As desordens domesticas., que sobrevierão durante, 
a minoridade do Senhor D. Âílonso 5^- » não priváràa. 
o Infante D. Pedro , Regente d'estes Reinos , de occupar. 
hum lugar mui distincto entre os Políticos do seu 
século. No periodo da sua Regência se vêem 17 Em- 
baixadas I e Missões mandadas ^ e recebidas por este 
Princepe : tratárào-se as Negociações sobre a desmem- 
braçào final dos Mestrados de Aviz, e Sant-J^go da. 
obediência aps Metropolitanos de Castella ; decidirão^ 
se as questões sobre o Arcebispo de Sevilha 1 Metf:^^ 



38 Correspondência. 

polftano f que pertendia ser de alguns Bispados doestes 
ReÍDOs, o que foi proposto por huma Embaixada. 
Vé-se a Missão á Guria , de João Lourenço Farinha ; 
as de Martim de Távora , e de Gomes Eannes ; as 
Negociações do Regente com D. Álvaro de Luna contra 
os Infantas de Aragão , e suas consequências : véem-se 
as Negociações de Ruy da Cunha/ e do Bispo de 
Ceuta y Embaixadores em Roma; e as de Fernão 
Lopes de Azevedo » Ministro na mesma Cúria ; véem-se 
as Negociações de Leonel de Lima, e Ruy Gomes de 
Alvarenga , em Gastella , e frequentes outras com In- 
glaterra y e outros Estados , etc. 

* 

Quasi todo o Reinado do Senhor D. Ailbnso 5^. , 
que se seguio á Regência do Infante seu sogro, con^ 
sistio em snccessivas Negociações , Embaixadas , En* 
tre vistas 9 Congressos, Tratados, e outras Transac* 
çôeSy que ornão superabundantemente este período 
da Historia Politica. Depois que este Soberano tomou 
o governo^ de seus Reinos, vêem-se 19 Embaixadas, 
entre as que recebeo , e enviou ; as Negociações de 
Fernandes da Silveira, Embaixador de Portugal, com 
Federico Rei dos Romanos , as dos Plenipotenciários 
d'este Rei , que prepararão o Tratado de 10 de Dez- 
embro de i45o, que se celebrou diante d'ElRei D. 
Afibnso de Ai^agão; as Negociações com Henrique 6<*. 
de Inglaterra ; a Correspondência official de Lopo de 
Almada ; os Privilégios concedidos por este Soberano 
aos Flamengos , Allemàes , Francezes , etc. Observa-se 
o mesmo systema da Ratificação dos Tratados prece- 



Correspondência* 3(> 

dentes; estabelecem-se novos estylos para a recepção 
dos Embaixadores, que, sendo actualmente recebidos 
por hum giande do Reino, o erào então por hum 
Infante, dando-lhes este Soberano Audiência sentado, 
em presença de todos os Grandes , Titulos , e Dona- 
tários. Véem-se neste Reinado accompanharem muitos 
Cavalheiros aos Embaixadores Portuguezes, os quaes 
depois forão Ministros nas diversas Cortes ; por exem- 
plo : ao Marquez de Valença , Embaixador a AUe- 
manha , accompanhárão Álvaro de Souza , AQonso de 
Miranda , Gomes de Miranda , Gomes Freire , D. Diogo 
de Castello Rranco, Fernão da Silveira, e Martim 
de Ren-edo^ Vêem-se as Negociações em Roma de Luiz 
Gonçalves Malafaia , a sua controvérsia com o Em-^ 
baixador de Aragão , e outras cousas de mui particu- 
lar consideração ; as Negociações do Papa Calixto 3^. , 
que se mallográrão com a Expedição de Africados 
Tratados com o Duque de Rorgonha; muitas Nego- 
ciações com Inglaterra *, algumas em Africa , todas as 
com Castella, que prepararão os diversos Tratados, 
que s« celebrarão neste Reinado ; e de grande consi- 
deração as do Tratado concluido na villa das Alcá- 
çovas Sí ^ de Septembro de i479> a que se seguioa 
Coiivenção Addicional, em cujo Artigo 3o. se con- 
cordou a verdadeira possessão do senhorio de Guiné , ' 
e de vários outros lugares de Africa ; cujo Tratado , 
e Convenção forão garantidos pelos Reis de França , 
e de Nápoles por parte de Castella \ e pelo Rei de 
Inglaterra pela de Portugal. Véem-se vários estylos do 
modo, com que se praticavão as entregas das frin- 



4o Correspondência. 

cezas , como foi a da Senhora Infanta D. Joaima. 
Vêem-se novas etiquetas nas entrevistas dos Reis , como 
forào as de Elvas, as de Gibrahar^ as Negociações, 
que alh se tratarão , e suas consequências ; as do 
Lugar da Ponte do Arcebispo , e finalmente as cele- 
bradas entre Elvas , e Badajoz. As Embaixadas a Ná- 
poles y de Martim Mendes de Berredo , seus motivos ^ 
e suas consequências; as Nef;ociaçôe8 de Lopo de 
Almeida , e de João Fernandes da Silveira , Embai- 
'xadores de Portugal no Congresso de Fontarabia ; ds 
do Senhor D. Álvaro , e de Ruj de Souza, senhor de 
de Sagres , Plenipotenciários Portuguczes no Congresso 
Junto a ToiH), com o Duque de Alvi, e o Almirante 
de Castella , Plenipotenciários da mesma Corte , as 
quaes , não pondo termo ás desordens dos Soberanos 
conlractantes , forào a origem primordial das Negocia- 
ções posteriores com Luiz ii®. de França , sobre tft 
pertençôes do Senhor D. Affonso 5o. á successão dos 
Reinos de Castella, pelos direitos da Excellente Se- 
nhora : toda esta Negociação , bem como as Cartas 
Credenciaes dadas a Pedro de Souza , e a D. Fernando 
de Almeida, a que se seguirão as Conferencias de 
Pciris entre o Senhor Rei D. Affonso S»., e ElRei de 
Franca; e doestas a notável Embaixada mandada á 
Cúria, a que forào o Conde de Pennamacor, o Chan- 
celler Mór João Teixeira , e Diogo de Saldanha , como 
Embaixadores creste Rei ; e a outiva de Luiz n®. á 
mesma Cúria , a que se seguirão as celebres Confe- 
rencias de Arrá , formão hum periodo mui curioso 
da Historia Politica doeste Reinado, 



Correspondência. ^f 

Se o Reinado do Senhor D. ÂQonso S^. excede em 
Monumentos , e arestos para a Historia Diplomática 
<le Portugal a todos os precedentes , não são menof 
interessantes as nossas relações externas no que se lhe 
seguio de seu filho o Senhor D. João a^*. Véem-se 
varias Negociações com Inglaterra desde 8 de Feve* 
i^iro de 148*2 até 8 de Dezembro de 1489» as qaaes 
prepararão 5 Actos principaes , que se celebrarão com 
a referida Corte : observa-se huma notável Plenipo* 
tencia de Henrique 7^'. de Inglaterra , na qual não s6 
confere plenissimos poderes aos seus Embaixadores 
para tratarem com o Senhor Rei D. João a^. ; mas 
até y sem reservar para si a Ratificação do que elles 
estipulassem , promette , e jura de approvar os mesmos 
Tratados. Vé-se a Embaixada a França , de João de 
Figueiredo , mui curiosa pelo aresto , que forma : to- 
das as Negociações com CastelJa neste Reinado são 
mais importantes, que as dos precedentes; a Embai- 
xada do Barão de Alvito em 148a, as Instrucçóes y 
que levou , o comportamento d*este Embaixador para 
sustentar a letra das mesmas Instmcções; a Missão 
de Ruy de Pina aos mesmos Soberanos , as Confe- 
rencias de Guadalupe ; as consequências de toda esta 
Negociação ; as que se lhe seguirão em Janeiro de i483y 
as Negociações de Moira sobre as Terceirias ; a Missão 
de Fernão da Silva , e de Estevão Vaz , a de Ruy de 
Sande , as de Fernão da Silveira , e do Doutor João 
Teixera , seus motivos , e suas consequências , e outras 
muitas 9 oiFerecem hum tecido de Negociações , que 
accreditào sobre modo , não só aquelles , que delias 



4!i Correspondência» 

forão encarregados , mas ainda mais o Soberano ^ cuja 
Politica foi sem duvida mui superior á de oiitros 
Monarchas 9 seus contemporâneos. Véem-se as Embai> 
xadas á Guria , de D. Pedro de Noronha , e de Vasco 
Fernandes de Lucena ; todas as Negociações com os 
Papas Xisto 4<>. , Innocencio 8^. , e Alexandre 60. , até 
á Bulia sobre a divisão das Conquistas , de que se 
seguirão as Conferencias de Barcelona y onde foi man- 
dado Ruy de Pina , e logo depois a Concórdia de 
Tordesillas de 7 de Junho de i494> ^ o Tratado 
celebrado no mesmo lugar ^ dia, e anno sobre as 
referidas Conquistas, em que forão Plenipotenciários 
de Portugal Ruy de Souza , seu filho D. João de Souza, 
e A.yres d* Almada. Véem-se as Negocií^çôes entre El- 
Reiy e Carlos S^,. de França, que prepararão o Tra- 
tado de AUiança feito em Montemor, no qual se con- 
firmarão os Tratados antecedentes , e o mais , que 
nos mesmos se tinha estabelecido a favor do Com* 
mercio de ambas as Nações. Vé-se o formulário Di- 
plomático , com que se recebião os Príncipes Estran- 
geiros, como por exemplo, na recepção publica feita 
no Paço das Alcáçovas ao irmão da Rainha de Ingla- 
terra. Vêem-se vários Ttatados , e Capitulações feitas 
pelos Mouros, e no anno de 1488 as Negociações do 
Imperador Maximiliano com o Senhor Rei D. João 2% 
de que resultou a Embaixada de Duarte Galvão , que 
entre os plenissimos Poderes , que levava , foi hum , 
o de poder declarar a guerra entre elle Rei, e os 
inimigos do Imperador; sendo esta Negociação huma 
prova do respeito , e consideração, que os outros So- 



Correspondência. 43 

keranos prestavão ao Senhor Rei D. João a<>. Yéem-se 
finalmente outras muitas Negociações, que ordenei 
systematicamente em 6 volumes de 4^. grande. 

Se a dilatação dos Dominios Portuguezes , a exten- 
ção das suas relações commerciaes , e os tríumphos 
do Oriente (izerão do Reinado do Senhor Rei D. Ma- 
noel y que se seguio , a mais brilhante epocha da nossa 
Historia , não he este mesmo Reinado menos interes* 
sante na sua influencia politica, e na Historia da nossa 
Diplomacia. Achão - se Correspondências originaes 
d'este Rei com o de Castella , mui interessantes ; véem- 
se as Negociações com Francisco i®. , que começâó 
em i5o6 ; muitos Tratados feitos na Ásia; muitas con* 
frontações territoriaes , como forão as de tta de Março 
de i5o9, as de Setembro do mesmo anno, e vaiias 
outras a respeito dos lugares de Africa ; as Negocia- 
ções em Castella , de João de Faria , a que servirão 
de base as Instrucções dadas a 9 de Outubro de iSog, 
que produzirão a Ratificação de 14 de Novembro do 
referido anno. Vê-se o Tratado de Paz feito no mesmo 
anno com os Mouros , sobre o Commercio ; as Negocia- 
ções de Diogo Pacheco , cm Roma , no Pontificado 
de Leão io<>.; a Embaixada de Tristão da Cunha ao 
mesmo Pontífice , e seus motivos ; todas as Concessões, 
que se obtiverãoda Cúria por meio de Negociações; 
vé'se o plano , e Negociação para coroar hum Infante 
de Portugal Rei de Marrocos ; vé-se toda a Correspon- 
dência official com o Almirante de Castella em i5'io, 
e frequentes outras Transacções dignas de verem a luz. 



44 Corresponãencia. 

O longo período das nossas relações Diplomáticas 
no Reinado , que se seguio , do Senhor D. João 3^. , 
comprehendendo huma seríe deDocamentos desde iSsa 
até i577y oQerece monumentos não só mui curiosos, 
mas até mui importantes em a nossa Historia Politica* 
Vêem- se as Negociações com o Imperador , tratadas 
na Embaixada de Luiz da Silveira , seus motivos , e 
suas consequências \ as que se lhes seguirão do 
Embaixador D. Gil Eannes da Costa, cnj|os Officios 
Ministerraes, desde i5!24 até 1 55a , formão huma Ne-^ 
fociação cômpletta ; o Tratado assignado em Victoría 
a 19 de Fevereiro de i5!i4; toda a Negociação sobre 
as Molucas ; as Conferencias d'Elvas , as Negociações 
de i5 de Abril de iSsg; as de António de Azevedo 
Coutinho ; as Conferencias de Bayonna entre os Com-» 
missarios Portuguezes, e os de Francisco lo. Rei de 
França, e o Tratado, que se lhes seguio de i4 cie 
Julho de i536; muitas Negociações sobre as Conquis-* 
tas ; todas as Negociações com a Cúria , sendo de muita 
importância as de Balthazar de Faria, e Francisco 
Botelho , começadas em consequência das Instmcções 
originaes , assigiiadas por ElRei a 10 de Janeiro de 
1543, onde, entre outras cousas, que o mesmo So^ 
berano lhes ordena , diz , que lhe escrevão regular- 
mente as Negociações, deixando registo dos OQicios» 
que mandarem ; vendo-se assim o estabelecimento do$ 
Archivos das Missões; as Negociações com Henrique 8<*. 
de InglateiTa \ as de João Rebello , de i537 em diaote ; 
a Correspondência Ministerial de Diogo Lopes de 
Souza, Embaixador em Inglaterra , OíBcios não só mui 



Correspondência. 45 

bem escriptos para aquelle tempo , em qUe a verda- 
deira arte da Composição Diplomática era inteiramente 
ignorada ; mas também extremamente curiosos , entre 
outroSyO, em que avisa a necessidade de impedir aos 
Inglezes o irem á Costa de Guiné; expondo os mo- 
tivt)Sye os protestos y que tinha feito naquella Corte; 
e o Duti*o , em que participa a ElRei , que o de In^ 
glaterra se descobria nas A.udiencias , que lhe dava , 
o que até então lhe não havia feito y dando por mo^ 
tivo y que o de Portugal o não fizera aos Embaixa- 
dores d*ElRei seu Pai. He de summa importância toda 
a Negociação , que tratou , a fim de que o Cardial 
Infante D. Henrique fosse eleito Pontifice na vaca n te 
de Marcello 2^.; a sua Con*espondencia com o Cardial 
Protector , e com D. Diniz de Lencastre, Embaixador 
Portuguez na Curla , he clássica nas Negociações d'este 
Reinado : esta Negociação deo motivo a este Embai"* 
xador exigir de ElRei de Inglaterra a mediação do 
Imperador. Vê- se , que o mesmo Diogo liOpes sérvio 
de medianeiro nas Pazes do ditto Rei com sua mulher , 
e com a Princeza Izabel, sua irman, que depois lhe 
succedeo no Reino, ele. 

A Regência da Senhora D. Catharina , durante a 
minoridade do Senhor D. Sebastião, seu Neto, e todo 
o Reinado doeste Soberano , não só he interessante na 
Historia particular da Nação , mas também mui fértil 
em Documentos para a Historia Politica. Sem tratar 
de outras Negociações dignas de serem citadas, direi 
apenas, que no anno de i557 se vê Imma nova Em* 



46 Correspondência* 

baixada ao Imperador , a que foi D. Gil Eannes da 
Costa ; algumas Negociações de bastante importância 
com Henrique a^. de França ; algumas com Saboja , 
muitas com a Guria ; a Embaixada de Lourenço Pires 
de Távora a Pio 4**« ? as Goncessôes d*este Pontífice a 
favor de Portugal ; vários Tratados na índia ; as Ne- 
gociações com o Príncipe de Parma Alexandre Far- 
nezi; algumas Correspondências do Senhor Rei D» 
Sebastião com diversos Príncipes sobre Negociações , 
e interesses do Reino; algumas Concessões do Papa 
Pio 5^, ; as Negociações com Castella começadas em 
virtude das Instrucções dadas em o i^'. de Setembro 
de i569 ', as Correspondências d'ElBei de Castella com 
o de Portugal neste mesmo anno » desde !i8 de Feve- 
reiro até 9 de Dezembro : a Correspondência com o 
Papa Pio 50. p as Negociações com Carlos 9^. Rei de 
França ; a dç Portugal com Inglaterra em 157^ , sobre 
o Comraercio livre com Guiné; as de D* João da 
Silva, 4*'. Conde de Portalegre, Embaixador do Se- 
nhor Rei D. Sebastião , em Castella ; as entrevistas de 
Guadalupe , algumas Negociações com a Rainha Izabel 
de Inglhterra , as com o Papa. Gregório iS**. , e outros 
Documentos, que comprovão sobejamente a Historia 
Politica doeste Reinado. 

O cui to período do Reinado , que se lhe seguio , 
do Senhoj^ D. Henrique , oflíerece Negociações inteiras 
á cerca dos pertendentes á Coroa de Portugal, sendo 
esta huma epocha muito interessante em a nossa His- 
toria PoUtica , pela revolução, que nella começou a 



Correspondência. ^V 

experimentar o nosso Direito Publico , Externo , e 
Diplomático até á sua restauração no Reinado do 
Senhor D. João 4°« 

Os acontecimentos do Interregno , que se seguio á 
morte do Senhor Bei D. Henrique, tem o seu lugar 
na divisão systematica d' esta obra. Todas as Negocia- 
ções do Senhor D. António com os Estados Geraes , 
com a Rainha de Inglaterra , com o Imperador de 
Marrocos y etc. , são de igual interesse nesta epocha* 

No intruso Governo dos Filippes houverâo Negocia^ 
ções mui importantes para a Historia Politica : entre 
estas as da Missão de Francisco de Andrade Leitão , 
em Inglaterra , què prepararão o Tratado de Agosto 
da i6o4 : algumas Negociações de Carlos i<>. sobre o 
Commercio na índia Oriental , etc. 

Nesta parte do meu trabalho , guiado pelos Monu- 
mentos , que tenho podido descobrir , mostro qual (oi 
a influencia , que teve sobre as cousas politicas d* este 
Reino, a fatal batalha de Alcácer; a perda do Senhor 
Rei D. Sebastião , as usurpações das nossas Conquis- 
tas ; e finalmente todas as circumstancias , que prepa- 
rarão a epocha mais clássica do nosso Direito Publico , 
como foi j a que se seguio á Acclamação do Senhor 
Rei D. João 4^. , que sendo numerosissimos os Docu- 
mentos, as Negociações, as Embaixadas, c os diífe- 
rentes arestos Diplomáticos, que desde então se esta- 
belecerão nos seis periodos posteriores , formando estes 
de per si hum grande corpo , seria impossivel dar nesta 



^% Correspondência, 

Carta hnina ideia de quão interessante he o conheci- 
mento de taes Kegociaçôes. 

Devo accrescentar , que pelo exame , que tenho feito 
nos Documentos Políticos doeste Beino , que até agora 
se tem consertado manuscriptos , entrei no conheci- 
mento , com p^ande sutisfaçào minha, de que poucas 
^'acôes y antes da Paz de Westphalia , tratarão melhor 
Diplomaticamente, do que Portugal. 

Esta CoUeccão deve aperfeiçoar-se muito mais agora 
com asReaes Ordens, que ^. Mag«. foi servido man- 
dar expedir ao Governo íestcs Reinos , em data de 3*1 
de Março de 1819, para se me darem do Real Ar* 
chivo da Torre do Tombo todas as copias dos Docu- 
mentos , que cu necessitar , e pedir ; tendo eu já de- 
pois dVsta faculdade additado ao meu trabalho 5'2o 
Diplomas , que nenhum dos nossos Historiadores , 
que comprovarão as suas Historias com os Monumen- 
tos, ((ue puderão descobrir nos Ajrchivos do Reino, 
produiio. 

E como \iuma obra de semelliante vastidão , ha de 
precisamente ser imperfeita , a pezar de todos os soe* 
COITOS da Critica , e dos esforços do zelo , que na 
mesma tenho posto ; e conhecendo perfeitamente a 
miiiija pouca ca['acidade, assento em oflíerecer á cen- 
sura da Academia Real das Sciencias , dentro em pou* 
cos mezes, a i*. Dynastia, que comprehende 14 volume* 
de quarto grande de Diplomas, e 7 de Kmbaixai/.is 
mandadas, e recebidas; para que, achanJo-a digna 
de apparccer, a poder eu eutão publicar* 



Correspondência' 49 

Teria sido sém duvida este trabalho mais suave , e 
por certo mais bem orgauisado , se a Memoria sobre 
o Plano dá CoUecçâo dos Tratadas PoUtiCoi de Por^ 
tugal, do Sú^. Diogo Vieira , tivesse sido produzida» 
ha mais tempo , ttindo eu agora ó dissabor de me nào 
podèr^sek*vir de nok*ma , e de estimulo o mesmo Plano , 
pelo adiantamento y em que tenho a tninhiaobra; 
tendo-me proposto também , desde a primeira ideia , 
que tive a este respeito , a nào seguir nem os Com- 
|>ilaâore8 espúrios , nem os summaristas , nem ^ em 
matérias de Direito Publico , conjecturas indiscretas, 
a que dão lugar algumas indicações históricas produ- 
zidas em epochas^em que as regras da boa Critica 
erào inteiramente ignoradas. 

Sou 

Sn.''«> Redactores dos Àânaésdas Scienciaâ > das 
Artes, e das Letras; 

Seu muito attento Servidor , 

O VlSCOITDB OB Sa^TTAEDí. 

Lisboa, 4 de Junho de i8gío. 



Tom. X. P. 3^- 



5o Correspondência. 



Acabamos de receber, para ser publicada nos A.Dnae;^ 
a composição seguinte do Sn^*. Moratin , que viaja 
actualmente na Itália, e que, pelas suas excellenles 
composições drammaticas , tem merecido ser chamado 
o Molière da Hespanha. 



A. D. Luís de Sils^a Mozinho de Albuquerque ^ autor 
de las Georgicas Portuguezas. 



SONETO. 

Canto el de Mantna con sonoro acento 
La cuJlura dei campo j los pastores : 
Despues , empresas celebro mayores , 
Y à Roma aliò durablc monumento. 

Tu asi , que en el bucólico iustrumento 
Ensayastc dei arte los primores; 
Desdonando las selvas y las flores. 
Épica trompa haràs sonar ai viento. 

Si , que en los fuerles Lusitanos dura 
TA uiisuio aliento , que les dio victoria 
En Jos opuestos limites dei mundo. 

y si ai valor y à la virlud procura , 
Silva , tu verso , iuextinguible gloria , 
De tu pátria serás Maròn segundo. 

J^EA?fDRO FeRXAIVDEZ DE MoRATtS, 



\ 



NOTICIAS 

DAS SCIENCIAS , DAS ARTES , etc 



»v^^^/^^>%'»^<»%^%i^» 



RESUMO 



Dos mais nota\>eis descobrimentos e principaes trahgúhoê 
nas Sciencias , no anno de 1819* 

( Continuado- ) 



PIIYSICA, 

játtracçào, 

M. de Laplace publicou sobre a attfâcçào capillar 
liuma interessante Memoria , a qual foi inserida em 
todas os periódicos scientificos da França ^ e que tem 
sido traduzida em quasi todos os estrangeiros^ mas 
que não ho susceptivel de ser extractada aqui« 

r 

Da Luz. 

O singular plienomeno da diflíracção da lu2, isto 
he do desvio que ella experimenta passando rente 
das bordas de hum corpo , primeiro observada pelo 
Padre Grimaldi 9 tem sido pouco estudada até aos 

4* 



5a Noticias das Sciencias, 

nossos dias. Recentemente M. Flaugergues provou 
que este phenomeno não he devido nem á natureza 
dos corpos y nem á sua 6gura , densidade , tempera- 
tura > electricidade ou magnetismo» e que também 
não depende da natui^za da luz , pois tem igualmente 
lugar y ouella seja directa ou reflectida, natural ou 
artificial > solar , lunar , estellar, polarisada ou nâo. 
M- Fresnel , que ganhou o premio proposto pela Aca- 
demia das Sciencias de Paris , confirma a maior parte 
doestas observações y e estabelece que a dififracçào de 
cada raio he tanto maior quanto maior he a distancia 
donde vem. Também se occupou muito d(% eífeitos 
que a luz produz sobre a sombra geométrica , e prin- 
cipalmente do que M. Toung chama phenomenos in- 
terferentes; e prova por huma engenhosa experiência , 
que a serie das listras obscuras e brilhantes que se 
formão nestes casos he evidentemente causada pelo 
encontro de fachos luminosos , inflectidos sobre a 
borda mesma do corpo , como o tinha já estabelecido 
M. Young. 

A polarisaçào da luz tem continuado a ser objecto 
das investigações de MM. Biot, Aiago, Fresnel, e 
principalmente do D»*. Brewster , o qual começou a 
dar huma historia mui interessante d'este objecto no 
segundo caderno do novo Jornal de Edimburgo. 

Seguindo o exemplo de M. Young , que tinha de- 
terminado qual era a influencia que os raios da luz 
ordinária exercem huns sobre os outros , MM. Arago 
e Fresnel procurarão descobrir qual he a dos raios 



ãàs Artes j etc. 53 

polarísados enti^e si. Os seus experimentos os^ conâu<- 
zirào aos seguintes resultados : i^. nas mesmas cii> 
cumstancias em que dois raios de luz ordinária pai- 
recém destruir-se mutuamente , dois raios polansados 

m 

em sentidos contrários não exercem hum sobre o outro 
influencia ^lguma ; i,^. os raios de luz polarisados era 
hum só sentido obrão hum sobre o outro como os raios 
naturaes ; 3o. dois raios primitivamente polarisados 
em sentidos contrários podem ainda ser trazidos ao 
mesmo plano de polarisaçào y sem que comtudo por 
isso adquirào a faculdade de influir hum sobre o ou* 
tro ; 4^- dois raios polarisados em sentidos contrários^ 
e trazidos depois a polarisaçôes análogas , tem huns 
sobre os outros a mesma acção que os raios natu* 
raes , se procedem de hum fasciculo primitivamente 
polarisado em hum só sentido; 5<>» nos pheoomenos 
interferentes produzidos pelos i;aios que tem experi- 
mentado a refracção dupla , a lugar das franjas não 
he determinado unicamente pela diffepença da direc- 
ção e pela dos velocidades \ e em algumas ciroumstan- 
cias 9 he preciso levar em conta , alem diaso.^ huma 
diOerença igual a huma meia ondulação.. 

M. Arago parece ter sido o primeiro que teve co- 
nhecimento dos phenomenos da absorpçào da luz poi 
larísada pelos crystaes dotados da dupla refracção , na 
barytes sulphatada. Depois d'elle M. Biot fez ver que 
hum dos dois raios refractados por esta substancia, 
experimentava , ao atravessá-la j huma absorpção in-^ 
comparavelmente maior , e de huma natureza difie- 



5 i Noticias das Sciencias , 

rcDle do qne sofiria o outro raio. Como esta didorençn 
se observava a pezar de os dois raios atravessarem 
a substancia em buma mesma direcção , tinha con- 
cluído que hum d'elles era preservado pela espécie 
parlicubir de refracção que experimentava ; porém 
M. Brew&ter parece ter considerado a male/ia de huina 
maneira muito mais geral e completta y como he pa- 
tente pela Memoria que leo a i!;i de Kovembro de 18 iB 
á Sociedade de Londres sobre as leis que regulâo a 
absorpçào da lui polarisada pelos crjstaes de dupla 
refracção. Nesta Memoria , que só será publicada na 
segunda parte das Transacções philosophicas para iBic), 
M. Brevrster examina succe^sivamente esta absorpçào 
nos ciystaes que tem só hum axe de dupla refrac- 
ção, depois nos que tem dois, e em íim a influencia 
que o calor tem sobre a faculdade absorvente d'est;is 
duas sortes de crystaes ; o que ainda ninguém tinlia 
feito. Conclue dos seus experimentos, que as partí- 
culas color antes , em vei de estarem disseminadas ao 
acaso por toda a massa , tem buma disposição rela- 
tiva ás forças ordinárias e extraordinárias que os crjs- 
taes exercem sobre a luz. M. Biot achou também 
que a esta absorpçào era devida a singular J)roprie- 
dado de muitos crjstaes que parecem coloridos quando 
são vistos por luz transmittida , e que oSerecem cores 
diversas quando são vistos em sentidos differentes. 
Achou esta singular propriedade no epidote , em hum 
certo mica de Wilna, na dichroíte de Haiij, sub- 
sUinda á qual esta diíTcrença de coloração, quando 
be vista em dois sentidos diíTcrentes» fez dar o nome 



das Artes y etc. 55 

de corindon. Outro tanto tinha igualmente observado 
M. Brewster na Memoria já citada* 

M. Bioty tendo suspeitado que as vibrações longí* 
tudinaes que se fdzem executar a folhas compridas 
de vidro y podiào determinar entre as particulas , re* 
laçòes de posição , que as tornassem capazes de obrar 
sobre a luz polarisada, achou com efTeito por expe- 
riência alguns traços de cores correspondentes ás dos 
primeiros anneis da taboa de Newton , mui parecidas 
com as que se obtém com laminas de vidro aque* 
cidas e esfriadas de repente. Às suas experiências foràa 
feitas com o auxilio do D*". Savart de quem logo fal- 
laremos. 

V 

o mesmo sábio, em huma Memoria lida a 19 de 
Março de 1810 no Instituto de Franca, estabeleceo as 
leis da. dupla refracção e da polarisação, nos corpos 
regularmente crystaUisados, por meio das quaes podem 
determinar-se , pelo simples calculo , todas as parti- 
cularidades, de intensidade e dos tons de cor que 
oíTerecem as laminas dos cr}staes de hum ou dois 
axes, quando são expostas a raios polarisados. Podem 
de antemão annunciar-sc em que direcções as cores 
tem de aihouxar ou desapparecer inteiramente , tanto 
nos casos em que se forma huma perfeita cruz negra, 
como no spatho de Islândia e em outros crjstaes de 
hum só axe, como quando os anneis coloridos assim 
formados , são atra^ssados por huma só linha preta 
de forma e posição vaiiavel , como acontece na mica 



56 P/otíci^ das Sciendas ^ 

de Sibéria , no topázio e em outros crystaes de dupU 
refracçào. 

A maneira porque as membranas e os humores do 
olho obrào sobre a luz , tem dado recentemente lugar 
a novas investigações experimentaes* M. Brewster 
achou , contra a opinião geralmente recebida , que a 
potencia refringente do humor aquoso he sensivel*^ 
mente maior que a da agua , e que a das camadas 
do crystallino cresce progressivamente da superficie 
exterior para o centro *, o que se approxima dos re-^ 
sultados obtidos o anno passado por M. Ghossat. 

jécustica, 

M. Haiij • em huma Memoria inserta no Journal 
(k Pl^siquc , tom. LXXXIX, pag. 4^5 , fez conhecer 
resultados curiosos , que obteve fazendo vibrar laminas 
d^ vidro cobertas dè poeira , por meio de hum arco 
de rabeca applicado ás bordas das dittas laminas , da 
mesma maneira que o pratica M. Chladni , a quem a 
Sciencia deve os novos conhecimentos que temos 
adquirido sobre a propagação do som. 

M. Savart , Doutor em M edecina , communicou á 
Academia das Sciencias do Instituto de Franca e á 
Sociedade Philomatica , huma serie de investigações 
experimentaes da mesma natureza das de que acaba- 
mos de fallar, porém muito maia importantes, e em- 
prehendidas com o (ito no aperfeiçoamento dos in&- 



das jártes etc* 5^ 

IrumeDtQS de cordas e arco. Começou pela analyse 
dos difiereDtes pontos essenciaes da theoria doestes 
instrumentos, da qual vamos dar buma succinctn 
ideia y para depois melhor se oomprehenderem o« re« 
sultados practicos« 

Os instrumentos de cordas são compostos de doii 
elementos que'' contribuem a formar os sons ; hum 
coQsiste nas cordas que se fazem vibrar por meio da 
arco ; o outro consta de huma combinação de laminasi 
de madeira delgadas , seccas y elásticas , ora ligadas 
em forma de caixa vazia , ora servindo simplesmente 
de esteio ás cordas que em todos os casos estàa 
presas ao instrumento. Quando se fazem vibrar a& 
cordas também vibrão as laminas , donde resulta que 
as vibraçõe3 das taboas excitão movimentos no ar, que 
se místurão aos que são produzidos pela vibração das 
cordas, compondo-se o som do instrumento doestes 
dois eifeitos. A maneira por que são produzidos estes 
movimentos não tinha ainda sido analysada a fundo 
por experiências antes de M. Savart. Este sábio mos- 
trou que ^ vibração das cordas faz vibrar a taboa 
superior do instrumento, mas que estas vibrações 
não são uniformes em todos os pontos » sendo a elas- 
ticidade menor no sentido transverso do que no lon- 
^tudinal. 

As taboas sonoras podem também communicar as 
soas vibrações humas ás outras , ou sej^ por contacto 
immediato, ou transmittindo-se por meio de huma 
haste de madeira. Esta haste he o que se chama 



58 Noticias das Sciencias , 

alma (Ja rabeca. O movimenlo he também transmit*- 
tido em parte , por todas as peças de madeira inter- 
postas entre as duas taboas ^ e até pelo ar contido 
dentro do instrumento ; poisem de todas estas trans- 
missões reconlieceo M. Savart que a mais eíBcaz he 
a que se faz pela alma da rabeca , e pensa que esta 
transmissão se propaga por ondulações longitudinaes , 
excitadas em huma das- extremidades da baste por 
aquella das duas laminas que se faz vibrar immedia* 
tamente. 

A transmissão dos movimentos vibratórios por meio 
de ondulações longitudinaes, e a conversão doestas 
em vibrações transversaes , he hum facto mui digno 
de attenção , tanto em si mesmo , como pela frequen* 
cia ate agora apenas suspeitada das suas applicações. 

Depois de ter determinado, por experiências de- 
cisivas , este modo de transmissão , fez M. Savart 
applicação dos seus princípios á conslrucção dos ins- 
trumentos de cordas, c para exemplo escolheo de 
preferencia a rabeca; para isso procurou descobrir 
as condições necessárias na construcçào d'este instru- 
mento para conseguir dar-lhe ao mesmo tempo pureza 
e igualdade de sons , e facilidade de vibração , e isto 
não á força de mil tentativas empiricas , como até ao 
presente o tem sempre praticado os mais celebres 
fabricantes de rabecas , taes como Amati , Slradiva- 
rius, Steiner , Guarnerius, etc. , mas por efieilo de 
regras constantes e invariáveis. Para obter todas as 
vantajens referidas , consti^uio M. Savart a sua rabeca 



■ Sas Artes j etx:. 5<j 

de laboas planas, ás quaes dá huma leve degra- 
dação de grossura , a partir do eixo onde a vibração 
lie excitada pelo contacto do cavalete. Em vez de 
dar ás taboas apenas liuma linha de espessura , como 
de ordinário se dá ás partes as mais solidas das 
taboas das rabecas ordinárias , elle dá ás suas a 
grossura de três linhas menos hum quarto no eixo, 
e ainda na extremidade conservão mais de huma 
linha de grossura ; por este modo tem huma solidez 
que afiança a longa duração do instrumento , o qual , 
não obstante , vil)ra com mais facilidade que as rabecas 
ordLnarías. 

A rabeca de M. Savart tem o comprimento das 
ordinárias, e na forma he hum trapézio cujo mais 
pequeno lado está da parte do cabo. Não tem xan- 
fraduras lateraes como as rabecas ordinárias. Â ele- 
vação do cavalete he calculada de maneira que o 

arco acha espaço sufiiciente para correr por cima de 
cada corda sem tocar nas roais , e particularmente 
em quanto á ultima, ks duas taboas estão unidas por 
meio de tiras de madeira planas , as quaes conservão 
toda a rectidão, elasticidade e regularidade das suas 
fibras; qualidades que he forçoso sacrificar para as 
dobrar de feição a seguirem o contorao curvilineo das 
rabecas ordinárias. Dá a estas tiras huma grossura 
maior que he usual. 

Para pôr a taboa superior em estada de resistir á 
pressão exercida pelas cordas , fortifica-a mettendo- 
Ihe por baixo huma barra de pao dirigida no sentido 



iu Noticiais das Sciencias , 

ím c^mpriinento do instrumento : he o qne se chama 
a 7arrtt de harmonia; M. Savart a põe no axe da 
taboa y aBm de conservar ás duas metades dVsta a 
mais perfeita symmebria de elasticidade. Convencec- 
se por experiência que a alma não faz o ofScio de 
sustentar a taboa superior , e que serve unicamente 
de transmittir á inferior o movimento das vibrações 
da superior. 

Também mudou a forma das aberturas da taboa 
superior. Em vez de lhe dará figura de hum/, sub- 
stituio-lhe a de hum rectângulo cujo comprimento 
segue a direcção das fibras da madeira do instrumento* 
Poi^ este systema corta hum numero muito menor 
doestas fibras , cuja elasticidade fica portanto mais 
enérgica. Mostra que hum dos usos d*estas aberturas 
consiste em reforçsír o som do instrumento pela com" 
municâcáo que estabelecem entre o ar interior da 
caixa e o exterior. Em fim , antes de unir as laminas 
para (ormar ÀeWas o corpo Ao instrumento íá-\as 
anles vVbrar e soar separadamente , e modifica a sua 

espessura até que ambas dêem exactamente hum som 

idêntico. 

Dopois de ter theoricamente analysado todas as 
innovaçóes inventadas por M. Savart, os commissa- 
rios nomeados pelo Instituto de Franca pedirão a 
M. Lcfcvre , primeiro rabeca do theatro Faydeau ou 
Opera Cómica de Paris , e mui hábil tocador , qne 
fizesse diante delles o ensaio da nova rabeca. Elle 
aunuio, e notou-se que o som doeste insti-umento 



díis Artes, etCé 6t 

era o mais puro e ao mesmo tempo da mais perfeita 
igualdade. Ouvido de perto parecia algum tanto menos 
sonoro que huma rabeca de autor de que M. Lefevre 
se serve habitualmente , porém em maior distancia 
de tal modo se igualarão , que era impossivel distin* 
guir buma rabeca da outra ; e se havia diíTerença 
entre as duas era alguma suavidade mais na de M. 
Savart. ' ' 

A opinião unanime dos Commissarios foi que a 
nova rabeca podia competir com as melhores; e, 
como a sua construcção nada tem de arbitrário , nada 
que dependa do acaso , hum hábil fabricante poderá 
ainda ajuntar ás suas qualidades , por huma escolha 
cuidadosa da madeira e pelo acabado da execução , 
visto que o instrumento que sérvio neste ensaio tinha 
sido inteiramente executado por M. Savart , sem o 
soccorro de artista algum costumado a trabalhar em 
obra doesta natureza. Porém , ainda sem attender a 
esta maior perfeição futura , o certo he , que o official 
o mais ordinário pode desde já, seguindo as regras 
descobertas pelo autor, fazer excellentes rabecas por 
preços muito módicos , porque a igualdade e belleza 
dos sons dependem unicamente dos princípios theo- 
ricos que devem regular a construcção do instrumento. 

M. Savart explica de huma maneira mui sati^fac* 
toria a razão por que a sua rabeca , ouvida de perto , 
deve ser hum pouco menos sonora; o que não he 
hum defeito, pois na âist£y:icia em quede ordinário 
se ouve este instrumento nos theatros e nas salas de 



62 Noticias das Sciencias , 

concertos , nada perde o de M. Savart. Kis-aqui tex- 
tualmente a conclusão dos Comoiissarios , cujos nomes 
bastão para que não possa ficar a mais leve duvida 
na matéria. Â. Commíssão se compunha de MM. Haúj, 
Charles , de Prony , e Biot relator , membros da Aca- 
demia das Sciencias; e de MM. Cherubini, Cate] « 
Berton e le Sueur^ membros da Academia das Delias 
Artes e primeiros compositores da França. 

« O autor, dizem os Commissarios , conseguio por 
este modo descobrir os principios de que dependem 
as bellas qualidades dos instrumentos de cordas , e 
realisou-os fazendo-os servir á construcção de huma 
nova rabeca cujas qualidades podem considcrar-se 
como huma excellente confirmação de todos os prin* 
cipios theoricos. Julgamos que este trabalho^ cheio de 
invenção e de sagacidade, merece a approvaçào das 
duas Academias , e que he mui digno de ser impresso 
na Collecçào das Memorias dos sábios estrangeiros. » 

M. Poisson leo no Instituto de Franca a 8 de Feve- 
rciío de i8i() huma segunda Memoria sobre o movi- 
mento dos fluidos elásticos em tubos cylindricos , e 
sobre a tlieoria dos instrumentos de sopro , a qual he 
huma continuação da que no anno antecedente tinha 
lido diante da mesma Academia a 3o de Marco de iBiB. 
Esta Memoria he mui interessante, porém pouco sus- 
ceptível de se extractar com proveito : encerra huma 
digressão relativa a luz,, em que o autor deduz de 
varias experiências e raciocínios a maior probabili- 



das Artes , ele, 63 

dade da hypoUiese que suppõe a luz transmittida por 
ondulações e não por emissão. 

M. Cagniard de la Totir inventou huma nova ma- 
chína de acústica, destinada a medir a vibração do 
ar que constitue o som. O intuito principal do autor 
era obter esta medida por hum movimento de rotação. 
O seu processo consiste em fazer sabir o vento de x 
hum folie por bum ou mais orifícios , em face dos 
quaes está posta huma lamina circular , furada obli- 
quamente por hum certo numero de aberturas dis- 
postas circularmente e em espaços regulares; impri- 
mindo-se á lamina hum movimento de rotação mais 
ou menos rápido, ou pela acção da corrente do arou 
por qualquer meio mechanico, produz-se hum som 
mais ou menos agudo, e análogo á voz humana; e 
como em vez de ar , se pode usar de agua , no meio 
da qual a machina produz os mesmos sons , por isso 
M. Cagniard lhe deo o nome de Sereia. Por alguns 
resultados preliminares que publicou no tomo XII 
da continuação dos Annales de ChinUe , vé-se que se 
approximào muito aos da theoria de Sau^enr. 

Electricidade' 

M. Dana , tendo observado que as batterias elec- 
tiicas construidas pela maneira ordinária , são incom* 
modas pela sua grandeza e carestia , propoz de lhes 
substituir outras , as. quaes debaixo de bum volume 
muito mais pequeno , oQerecem comtudo huma muito 
maior superfície. Compõeni-se de nove placas de vidrcr 



64 Noticias das ScientiiU' 

e lamitias de estanho stratificadas e Convenientemente 
dispostas. 

M. Haiij confirmou a elcellencia dos meios pro- 
postos por elle uq seu Traiiá des Pierres précieiises^ 
para reconhecer as pedras preciosas pelo meio da 
elecli-icidade ^ mosti^ando que o spatho, electrisado 
pela pressão , conserva a sua propriedade , ainda de* 
pois de se ter mergulhado em agua , e por conseguinte 
quando se expõe ao maior grão de humidade possí- 
vel ; e fez ver que na sua machina resinosa a baste 
de lacre exerce sobre o mostrador huma influencia 
que o conserva no seu estado eléctrico, e isto em 
razão de gozar este corpo de hum modo sensi- 
vel , em parte da propriedade conductriz f e em parte 
da isolante. 

GalyaHismó» 

Até ao dia de hoje os physicos estavâo divididos 
entre as três únicas theorias do galvanismo que se 
tem proposto , posto que nenhuma d*ellas satisfaça 
plenamétite , a saber: 1°. a de Volta, que considera 
todos os phenomenos galvânicos como eíleitos da 
electricidade ; 2<^. a de M. Donavan que julga serem 
chymicos ; e eul fira a de M. WoUaston , explicada , 
elucidada e sustentada por M. Bostock no seu Tratado 
sobre o estado actual do galvanismo , publicado em 
1818, a qual admilte que os phenomenos são elec* 
tricôs , mas que a electricidade he desenvolvida pela 
acção cliymica. M' Robert Haie , em huma Memoria 



das Anes^ ètCk M 

publicada no quarto caderno do Joimal Americano 
de M. Siliinan , propõe huma quarta opinião , e cOtt* 
sidera o principio produzido pela pilha voltaica como 
hum composto de calórico e de electricidade. As 
observações e as experiências que foi obrigado a fazer 
a fím de sustentar esta hypothese ^ o conduzirão a 
inventar hum novo apparelho , a que dá o nome de 
calqrimotor y por meio do qual consegue produzir hum 
grão de calor sufficientemente enérgico para queimai' 
mui rapidamente hum (lo de ferro de hum oitavo 
de poUegadà de diâmetro, e hum (lo de platitía do 
Tí^, 18. Compõe-se de ao discos de cobre e outfos taútoâ 
de zinco, de perto de 18 pollegadas quadradas, si- 
tuados veutical e alternadamente em distancia de 
huma pollegada hum do outro, estando cada espécie 
de discos mettidos em hum encaixe da mesma sub-" 
stancia , de maneira a formarem duas únicas e extensas 
superficies metallicas. Se , depois de ter ligado a su^ 
períicie zinco com a superfície cobre, por meto do 
fío de ferro , se mergulha todo o apparelho em huma 
dissolução aceto-sallna , o fen^o entra em combustão , 
e o hydrogeneo que se separa ^ inflam ma-se de ordi« 
nario , e dá huma chamma mui viva. 

M. Zamboni^ debaiico de cujo nome he geralmente 
conhecida a pilha galvânica secca, fez conhecer al-^ 
guns aperfeiçoamentos na construcçào d'este appare* 
lho ; o qual , como todos sabem , he composto de 
hum certo numero de rodinhas de papel estanhado 
e de oxjdo preto de maDgaae8e« Recommenda M. 
Tom. X. P. a*, 5 B 



96 Noticias das Scimtoias , 

Zamboni que o papel seja fino, sem f^mina , impne- 
gai^p qa ^uperficie nào Dietallica 4e huma dissolução 
de iweo» e que esteja bem secco. antes de se cobrir 
dç manganese : deve terminar-se a operação sem de- 
ipora» em tempo secco, e sem coo tacto do ar. O 
melhor modo de pOBservar esta pilha be de a enceirar 
em huma manga de vidro bastantemente grande,, 
enchendo o espaço intermediário com huma compo* 
siçãp de cera e de terebenthina. 

O me^o ph]^ico cónseguio formar huma pilha áe 
dois elemeptos; hum não conductor, v. g. a agua, e 
o|itrp metallico, porém dispostos de maneira que o 
seu contacto sp faça por superficies desiguaes. Cou 
este fim forma hum circulo, interrompido em hum 
ponto , com 3o vidros de relógio cheios de agua dís- 
tillada, e estabelece a communicação por meio da 
pequenos quadrados de folha de estanho de meia poln 
legada de lada, terminados por hum prolongamento 
mui delgado de a a 4 poUegadas, os quaes ifiergn* 
Ihào profundamente pela extvemidade larga , e só 
tocão na superfície pela outra extremidade. Estando 
o apparelho bem isolado , faz-se communicai* huma 
extremidade do circulo com o chão , e a outra com 
hum condensador, e immediatamentç se reconhece- 
rão os doi$ poios , hum viti^eo , do lado dos quadrados , 
e o outro resinoso , do lado da$ pontas. 

Reconheceo também que huma pilha composta de 
de 10 discos de papel estanhado, dava sigoaes de 



t das Artes ^ efe. 6'} 

electi icidade , vitrea do lado metalUco , e resinosa da 
banda do papel y e que os eOeitos aagmentaTào com 
o numero dos discos« 

MagnetismOé 

M. BarloW principiou huma serie de cfxperimentos 
curiosos com o fim de determinar as leis da distri'* 
buição das fordas magnéticas. O coronel Gibbs que 
cré que a luz he a grande fonte do magnetismo , (et 
varias experiências para confirmar esta opinião ; e pro* 
vou por huma d*ellas que hum iman guardado por 
muito tempo em hum lugar escuro ganhara ii onças 
de potencia magnética , depois de ter estado exposto 
por espaço de ifo minutos aos raios do sol , e que só 
adquirira i4 onças da mesma potencia depois de huma 
exposição de 5 horas. Esta hjpothese de M. Gibbs he 
bastantemente concorde com os experimentos de Mo- 
ricliini ) os quaes ptovão que oe raiot roxos do spectro 
solar tem a propriedade de coHuntinicar a virtude ma- 
gnética a huma agulha de feiro. He certo que ainda 
ha quem davide da verdade ò^estt facto , sendo doeste 
numero M. d'Hombres Firmas , observador exacto ,qiie 
não poude conseguir este effeite. He mui singular que 
até ao dia de ho)e ninguém em França tenha obtido 
o resultado annunciado por M. Moriòlúnf , e de qne 
forão testemunhas em Itália vaiios sábios estrangeiros , 
como MM. Playfair, H. Davr, etc. Também MM' 
Girpi e Ridolphi conseguirão communicar pelo mesmo 
methodo o magnetismo a agulhas de ferro. 

5 * 



68 Noticias das Seiencias j 

Do Calórico» 

Já annunciámos no Tomo III dos Annaes , Parte a'*, 
pag. Qc) o interessante trabalho de MM. Petit e Dulong 
sobre as leis da communicação do calor. Depois d'elles 
MM. Clément e Desormes publicarão no tomo LXXXIX 
do Journal de Physique a pag. 1 1 1 huma Memoria na 
qual oíTerecem huma serie de experiências que os 
conduzem a resultados mui curiosos sobre o zero 
natural , e outras questões intimamente ligadas com os 
phenomenos do calórico. Em outra occasião tornare- 
mos a fallai* d'este trabalho, do qual agora não damos 
mais extensa noticia , porque diversos sábios tem contes- 
tado^ algumas das proposições fundamentaes de MM. 
Clément e Desormes. Esperaremos portanto , que a 
controvérsia esteja decidida , ou ao menos mais elu^ 
cidadã a questão , para communicarmos aos nossos 
leitores o que parecer mais bem averiguado. 

. O D*". Ure , de Glasgow» publicou numerosas expe- 
periencias sobre o calor, feitas principalmente com o 
intuito de aperfeiçoar as bombas de vapor. No seu 
primeiro artigo trata da força elástica do vapor ; e 
por hum grande numero de experiências , que fez com 
hum apparelbo de sua própria Jnvençàa , desde 240 
até 3i20 de Fahr. vê-se que concorda bastante com 
os resultados de M. Dalton , desde 340 ate' iioo; mas 
dalli para cima a diíTerença he considerável ; isto faz 
crer ao D^ Ure que a escala de M. Dalton he inexacta 
de 210° para cima. Concorda muito mais com os re- 
sultados de M. Bettencourt. Por meio dos dados que 



das Artesj etc. 69 

deduzio das suas experiências , dá M. Ure huma for- 
mula empírica , para determinar a tensão do vapor da 
agua em huma temperatura qualquer. Posto que seja 
simples, e que segundo o autor se cinja mais aos pbe- 
nomenos que a formula que M. Biot deo no seu Tra* 
tado de Phjsica , comtudo M. W. Crighton publicou 
outra que não he menos simples que a do D^. Ure. 
Na segunda parte do seu trabalho dá M. Ure os re- 
sultados que obteve na determinação da força elástica 
do vapor do alcohol , do ether , do óleo de tereben- 
thina e do petrole;o. A terceira parte trata da medida 
thermometrica , e da doutrina da capacidade ; em (im 
o ultimo artigo he consagrado a investigações sobre q 
calor latente de diversos vapores. Nas experiências so- 
bre este ultimo objecto serve-se de hum apparelho mui 
simples composto de huma pequena retorta de vidro , 
que communica por hum coUo mui curto com hum 
recipiente spherico de vidro mui grosso , e de perta 
de três poUegadas de diâmetro. Este recipiente está 
rodeado de huma certa quantidade de agua em huma 
temperatura determinada , e está mettido em hum vasa 
de vidro. Introduzem-se na retorta !2oo grãos do liqui- 
do cujo vapor se pertende examinar y e distilla-se 
rapidamente por meio de huma lâmpada de prata ; a 
temperatura do ar estando a 4^0 Fahr* , e a da agua 
do vaso de 4^^ a 4^^» o augmento de temperatura oc^ 
casionado pela condensação do vapor, nunca excedea 
a da atmosphera de mais de 4^* Depois de ter cal- 
culado os resultados d*estas experiências, M. Ure dá 
<i taboa seguinte do calor latente de oito substancias^ 



I 



7^ * Noticias das Sciendas^ 

V^^r da agua na temperatura da agua fer- 

-> vendo 967^ 

— do alcohol 442 

do ether 3^t>!i,37g 

r~ do petróleo ' . 177,87 

*— do óleo de t^rebentliina . • • . ^Ilfi7 

'— do acido nítrico ^3 1,^9 

•— da ammoma liquida ...... 83-7 ,a8 

^ do vinagre 875,00 

E como dos phenomenos observados na condensa* 
ção meqhanica , e na i^efacçào dos gazes e dos vapores, 
bem como da sua constituição geral , pode inferir-se 
que existe huma connexào intima e necessária entre 
o seu calor latente , a sua força elástica e a sua den-» 
sidade ou gravidade especifica , condue M. CIre que 
todas as vezes que o estado de tensão for o mesmo , 
parece natural suppôr que o produclo da sua densi-*. 
dade na quantidade de calor latente deverá ser igual, 
A força repulsiva sierá proporcional á quantidade do 
calor y isto he , á potencia repulsiva condensada ou 
contida em hum espaço determinado. Então se o es- 
paço que (ica pela sua interposição he, em hum vapor, 
a metade ou o terço do de outi^o, deve achar-se huma 
tensão igual produzida no primeiro caso pela metade 
ou o terço do calor latente ^ necessário no segundo. 
He o que M. Ure prova, tomando poi* exemplo os 
únicos três vapores cuja gravidade especifica he exac- 
tamente conhecida, isto he o ether, o alcohol , e a 
agua \ e acha que sendo 1,00 a da agua , a do alcohol 



dtts Artes ^ ete, tjf 

he iy3o ) e a «do ether 3,55. Em algamas itídàcçõès 
que tira , concorda com as experiências de M. WatI, 6 
qual tinha achado o calórico latente da vapor da agua 
menor y quando o vapor he prodiízido por huma 
grande pressão ou em hum estado mais denso , e 
maior no caso contrario. Em fim , M.- Ure termina a 
sua Memoria por algumas conclusões practicas. Poid 
que, diz elle, o vapor do alcohol tendo a mesma 
força elástica que a atmosphera f contém i^ do calor 
latente do vapor ordinário, e que a sua força dastica 
dobra no 3060 grão ( 6^ abaixo da agua a ferver ) 
não seria possível ,com a addiçào talvez de bum terço 
de calórico , em certas circumstancias , empregar este 
vapor para pôr ém movimento a bomba de vapor? 

M. J. MoUet , secretario da Academia de Lyão , 
também se occupa , ha alguns annos , de investiga* 
çòes que tem muita analogia com as precedentes^ 
 siia Memoria, lida a 17 de Junho de 181 7 , mas que 
só recentemente vimos , he intitulada : Da constituição 
intima dos Gazçs , e da sua capacidade para o Calórico. 
Entre outros resultados e observações notáveis , con- 
firma as conclusões de MM. Bérard e Delaroctie sobre 
a capacidade do gaz acido carbónico, do hydroge^ 
neo , e do ar atmospherico , para o calórico , a pez^r 
de ter M. MoUet empi*egado hum processo mui diP- 
fereute e muito menos dilecto. 

Mdehaniea. 
O uso cada dia maU frequente que os Ingleze» £ar 



7* Noticias das Sciencias , 

vem das bombas de vapor explica sufficientemcnte o 
muito que oç escriptores d'aquella nação se occupào 
de tudo o que diz respeito a esta invenção ^ que data 
do DOieiado do XVII século. A primeira ideia d*ella 
he devida ao Marquez de Worcester em 1 663 , porém 
era mui vaga e obscura ; e quem se deve considerar 
como o verdadeiro inventor doestas mackinas he Sa- 
vary que construio a primeira em 1669. Foi depois 
aperfeiçoada por Newcomen e Crawley ; e estes ^jun^ 
tamente com Savary, obtiverão huma patente de in- 
venção e de aperfeiçoamento em 1705. Não obstante y 
foi só em 17 12 que se começou a fazer uso de bombas 
de vapor nas minas de carvão de pedra , e antes de 
1720 já estavão bastantemente generalisadas ; e em 1^35 
foi introduzida em Escócia a primeira bomba de va- 
por. Parece também indubitável que já em 1 786 J. 
HuUe tinha tomado huma patente pela invenção de 
hum barco movido pelo vapor, do qual publicou em 
Londres em 1737 huma descripçào debaixo do titulo 
de : A description and draught of a new inuented ma- 
chine j for carrying vessels or ships outof , or into any 
harbouTj port or ris^er , against wind and tide , or in a 
calm. Porem não consta que J. HuUe fizesse construir 
hum semelhante batel. O primeiro que íez tentativas 
pr^cticas a este respeito foi Pat. Miller, o qual não 
só publicou em 1787 hum Tratado sobre este objecto ^ 
mas fez ensaios no canal de Fortii e de Clyde , 
com hum barco movido por meio de huma roda , 
como aquelles de que hoje se faz uso. He bem sin- 
jgular á vista d*isto , que hum invento que parece ter 



das Artes ^ etc. 73 

nascido em Inglaterro , só fosse introduzido, naquelle 
paiz trazido dos Estados-Unidos da America em i8i3. 
M. Sullivan publicou no tom. I do Jornal Amenctxno 
das ScienciaSj a individuação de humá importante 
simplificação feita por M, Sam. Marey aos barcos 

movidos pelo vapor. 

• 

Por huma- lista doestes barcos que navegão no 
Mississipi e nos rios que desemboccâo nelle,p numero 
d^elles he de 35, do porte tolal.de 7,359 toneladas, 
e estão-se construindo outros 3o do porte total de 5,995 
toneladas, 

MM. Clément e Desormes publicarão hum extracto 
de huma Memoria sobre a theoria das bombas de 
vapor, lida na Academia das* Sciencias do Instituto 
dé França a 16 e a a3 de Agosto de 1 819. Os resul- 
tados que obtiverão de experiências multiplicadas são 
extremamente curiosos ; determinarão a quantidade de 
calor que exige a constituição do vapor da agua , de- 
baixo de todas as pressões^ e em todas as tempera- 
turas , e (izerào conhecer a lei segundo a qual dimi* 
nue a força elástica dos gazes , em consequência da 
sua dilatação mechanica. 

MM. Wingrode e J. Farey publicarão no Ptuloso- 
phical Magazine hiim trabalho sobre o aperfeiçoa- 
mento das estradas,. e das rodas dos carros. 

M. Th. Tregold publicou no mesmo Periódico huma 
Memoria sobre a natureza e as leis da fricção nas 
machinas, porém não cita experiências, e por isso 



<j4 Noticias Jãs Scténcuis, 

' nào he Sacil ajoisar de huma maneira decisiva òm 
mereoimento de moitas das ideias essenciaes que estr 
autor offerece sobre os meios de conseguir a menor 
fricção possível. 

As experiências curiosas e úteis que M. Rennie pu- 
blicou o anno passado sobre a resistência dos materiaes 
empregados na construcçào recebérãa novos addita- 
mentos. M. Dunlop pubKcou no tonKl XIII dos Aimaís 
tfPhilosophjr a pag. aoo , hum trabalho so^bfe ò làesmo 
assumpto , e cujo objecto ke cotihecér o graõ de re* 
sistencia que oflerecem certas peças de ferro fundido , 
de que de ordinário se usa nos moinhos , e qual he 
a proporção entre esta resistência e o diâmetro das 
peças. Dispoz ós resultados das suas experiências ena 
forma de. mappa , por meio do qual e de huma for- 
mula mui simples > he fácil deduzir esta proporção. 

M. J. Hnnter inventou e descreveo no Jornal Philo' 
soplúcp de Edimburgo , tomo I , pag. Sg huma bomba 
mui singular, que trabalha espontaneamente. Por meio 
d*ella a agua pode ser elevada acima do seu reser* 
vatorio primitivo pela queda de huma porção da mes^ 
ma agua. 

M. Roussell-Galle propoz-se , nas investigações sobre 
os efieitos dynamicos das rodas movidas pelo impulso 
da agua , que inserio no tomo IV dos Afindtes des 
Mines y pag. 44^ > examinar as diversas tbeorias ima- 
ginadas qar£^ explicar os eíleitos observados. Resulta 



das Arie9, etc. rS 

do sen trabalho que a hypothese de Bossut he a qae se. 
approxima mais da verdade , a ponto que muitas da^ 
formulas d'ella deduzidas concordào bastante com o 
que na piactica se observa , quando as outras theo* 
rias conduzem a eiTos graves. O principio de Bossut» 
apoiado em experiências , be que o impulso do fluido 
dirigido perpendicularmente sobre as pennashe pro- 
porcional ao quadrado da velocidade ao qual eUe hef 
devido , e á superfície que recebe o choque. 

METEOROLOGIA. 

M. Castellani publicou na BibUcahè<iue UimerseUe 
huma interessante Memoria sobre observações meteo- 
rológicas feitas em Turim durante o anno de 1818 , 
no qual propõe modificações que parecem importantes 
sobre a maneira de fazer as observações , e insiste 
fortemente na necessidade de se entenderem todos òs 
observadores sobre a identidade dos instrumentos , e 
de tudo o que diz respeito ao methodo de observar, 
devendo notar com todo o cuidado as circumstancias 
particulares e locaes, que muitas vezes tem humtf 
notável influencia sobre muitos dos phenomenos. 

Das diSerentes series de observações dos phenome- 
nos atmosphericos , a mais completta parece ser a 
que continua o coronel Beaufoj em Bushey-Heath / 
perto de Stanmore, e na qual faz entrar igualmente 
observações astronómicas mui interessantes , qual he 
a dos eclipses dos satellitet de. Júpiter. M. Howard 
faz junto a Londres buma serie semelhante de obsar-r. 



-^ X<aicias das ScUTicias^ 

vações , e tanto elle com o coronel Beaufoy publicão 

os seus resaltados nos Annals of PMlasophy, 

M. Bouvard continua a publicar no Journal de Phj- 
sigue e nos Annales de Chinúe d de Pl^sique de Paiis 
a individuação das numerosas observações meteoix)- 
logicas que elle continua a fazer com todas as pre- 
cauções necessárias no Observatório de Paiis. 

A Biblioihèçue UnU^erseUe , publicada em Genebra , 
recolhe com muito cuidado todas as observações me- 
teorológicas feitas em Genebra, no monte São Ber- 
nardo e nas diversas pailes da Europa. 

Também se encontrarão excellentes materiaes em 
hum artigo da Viajem de Clarke, no appendix do 
tomo V, que encerra os resultados de observações do 
barómetro , do tbermometro e da agulha magnética ^ 
feitas no decurso de 92 annos em Drontheim na Nor- 
uega , desde i';6a até x^fi'^* 

Em fim, as differentes coUecções scientificas pu- 
blicadas em AUemanha por M. Gilbert, por TA, 
Schweiger , pelos Amigos da Natureza de Berlim , epi 
Hollanda , em Moscow , em Munich , em Inglaterra , 
na America Septentrional , dão mensalmente o re- 
sumo das observações meteorológicas. 

li falíamos com o devido louvor das observações 
meteorológicas que em Lisboa começou a fazer e 
proscgue com o maior desvelo e com a mais cuida- 
doit atlençào , o nosso amigo e cori-espondente o Sn^ 



-das 'Aries , ctc. ^^ 

Marino Miguel Franzini, que proínetteo communi- 
car-nos regularmente o resumo delias todos os tri>- 
mestres. Lamentamos não podermos publicar neste 
tomo o trimestre que sabemqs ter-nos )á sido remet- 
tijdo pelo Snc. Franzini , mas que ainda nos não veio 
á mão. 

jáeroUthes. 

Pouco temos que ajuntar ao que nos tomos prece- 
dentes temos ditto a respeito dos aerolithes. «^ 

* 

Neste anno se propuzerão duas novas hypotheses 
5obre a formação doestas singulares pedras conhecidas 
desde a mais remota antiguidade. Huma d*ellas suppôe 
que o gaz hydrogeneo pela sua propriedade dissol- 
vente se apodera dos principios que as constituem , na 
superfície da terra , e os leva ás regiões elevadas da 
atmosphera, onde duas nuvens caiTegadag doestas sub- 
stancias em dissolução e dotadas de electricidades 
oppostas } produzem liuma detonação e huma pie- 
cipitaçào subsequente das moléculas minéraes : esta 
theoria he a que M. Murray propoz no Philosoplúcal 
Magazine , tomo LIV , pag. 39. A outra bypothese , 
tem analogia com esta, esódiíTere d'ella emattribiiir 
ao calórico e ao ar o que M. Murray suppôe do hy- 
drogeneo. Nenhum doestes systemas se estriba em pro- 
vais sufficientes para dever ser admittido» e outro 
tanto se pode dizer de quantos até ao dia da hoje se 
tem proposto. O primeiro foi fortemente combatido 
por M. Atkinson po tomo LIV pag. 336 do mesmo 



^8 N^oíiciás ãas Scitncias , 

Philosophical Magazine] e em quanto ao que foi pro- 
posto por M. Rejnolds no American Journal of Scien- 
ces f tomo I pag. "!i6ô y parte das objecções feitas ao de^ 
M. Murray igualmente lhe são applicaveis. 

Poeira Atmospherica. 

He talvez M. Raffinesque o primeiro que se occupou 
em examinar a natureza d*aquella poeira de que toda 
a atmosphera parece cheia , e que se vé gyrar em todos 
os ^entidoa quando hum raio do sol entra em huma 
camará que tem pouca luz. Este sabio cré que ella 
não pode ser devida , como se julfa de ordinário , á 
destruição dos moveis , do fato oa de quaesquér ou* 
tros corpos existentes na superficie da terra , vtsto 
té-Ia achado no cimo dos mais altas montanhas dâ 
Sicilia j nos Alpes , e até no meiu do Oceano. Pensa 
que esta poeira se forma chymicamente na atmosphera 
pela combinação das partes gazosas que nella se achão 
dissolvidas, e que he hum composto térreo no qual 
a aluminia predomina. Avalia a accumulação doesta 
poeira « em hum quarto fechado , estando o ar sereno , 
a hum quarto de pollegada até huma pollegada , no 
decurso do anno ; o que pela pressão se> reduz a hum 
sexto de pollegada. Nos lugares descobertos a varia^ 
ção he maior , mas calcula-a de 6 a i^ poUegadas 
no decurso de loo annos. De sorte que M. Raffinesque 
vé nesta espécie de meteoro chronico ( he a expressão 
de que elle se^serve) huma causa das mudanças que 
se operào na superficie da terra ,e que por conseguinte 
he digaa da attençào dos geólogos. 



das Artes , eíe. 



79 



Das Chtvas ou da Ombrometria, 

Como esta espécie de observações parece mais faeil 
de fazer, acha-se comprehendida em quasi todas as 
series de observações meteorológicas. Aqui só daremos 
alguns dos principaes resultados. 



Lugqres. | Latàude* 



Bombaim 

* 

Palermo 



Gosport 

Bushejr-Heath 

Tottenham 

Genebiti 

Cork 

Turim 

Parts 



1 8056' 4o' 

38. 6.44 



5o. ij. 88 
5i. 3^.43 

46. 13. o 
5i. 53.54 
43. 4* o 

48.5o. i4 



Afmas. 


Quantidi^* 


i8o3 


90 polleg. inglezas. 


1804 . 


ii5 do. 


Resultado de 


29 do« , 94 máximo | 


ia annos de 


e io,ai8 mínimo. 


obsenração. 




1818 


279940 d^. 


id. 


2i,4o5 d*. 


id. 


a5,9o5 d^. 


id. 


ai/*- 3'- ^frmwe*éUL 


id. 
id. 


38,03^ poli. ingfezas. 
i3,i8 dec.^ CDUva, 




neve e saraiva. 


id. 


6Sig 1 9 cent no puteo 




e 61,5^4 sobre a 




plataforma. 



Devemos, ajuntar que a forma do ombrometro on 
instrumento próprio para medir a quantidade de chuva 
que cabe em hum espaço determiqado , dá ainda lugap 
a alguma discussão entre os observadores. M. Meikle , 
nos jánpals of Philosophy ^ tomo XIV, pag. Sis, nào 
admitte com M. Flaugergues que a differença entre 
a quantidade de chuva que se recolhe no cimo ou na 
base de hum observatório , be devida ao vento que 
lhe muda a direcção. M. Tardy de la Brosse repete 
no tomo X » paf. 9a da BijbUotJwque Umverselle a des * 



8t> Noticias .das .Sciencias , 

cripção de hum instrumento doesta natureza que elle 
propoz ha já anhos', e cuja execução e uso parecem 
ser igualmente fáceis. 

ffjrgrometria^ 

As mais interessantes observações hygrometricas 
são as que M.^Pictet publicou no tomoXpag. a6o da 
Bibliothpgue UnwerseUe j debaixo do titulo de Resumo 
das observações hygrometric^is feitas todos os dias ao 
na!iòer''do soly e ás 3 horas depois do meio dia y em 
Grenebra e no hospicio do Grande São Bernardo , no 
decurso dos' três últimos mezes de 1817 e no anno 
de 1818. Os resultados principaes são os seguintes: 
• aornascer do sol o ar está notavelmente mais secco 
no'«éu strato àuperior que no inferior, e isto com 
huma diQerença media de 11^ \ mas no meio do dia 
esta diíTerença he muito menor, pois que entre Genebra 
e a montanha do São Bernardo a difierença media 
he só de 4 grãos ; a extensão da oscillação hygrome- 
trica desde a manhan até depois do meio dia he 
muitp maior nos mezes de verão que nos do inverno 
em ambos os sítios, mais a sua quantidade absoluta 
he muito maior em^Genebra ; finalmente hum máximo 
de seccura , qual ainda não fora observado , e que 
aconteceo a a3 de Março desde o nascer do sol até 
ás duas hoi^as depois do meio dia , e durante o qual 
o hygrometro cursou de 58^ a 38^, e que coincidio 
com huma elevação quasi súbita de 16° de tempera- 
tura , faz concluir a M. Pictet, que , entre .as modiíica-^ 



áas Artes j etc^ $i 

çôeà ihals ou ménoâ variáveis daatmospheray exísteiii 
algumas cujas causas ainda desconhecidas percorn^m 
ao mesmo tempo huma região ^ ou se manifestiQ .si- 
multânea e spontaneamente na massa de ar solM*e- 
posta» 

À maior parte dos observadores servem-ise do íiy- 
grometro de cabello inventado por Saussure , e aper- 
feiçoado por alguns artistas de Genebra. Posto que 
este instrumento , executado por mãois babeis ^ pãl*ece 
jpreehcher perfeitamente o objecto desejado , coihtitdo 
M. AI. Adie y que ha atihd^ anda ém busca de humà 
.Substancia qiie seja áo mèsmò tempo tlais sensiVél 
que o cabello y t cuja extensão de grao^ de contracção 
entre a éxtrertia seccura é a extrema humidade seja 
i^al, julga tê-lá achado Ha membrana intetna da 
plana conhecida pelo nome dé Arando pfiragnutélt. 
Porma délla huma pequena bolsa , qúe enche de mei^ 
burio j a qUàl pode subir por hum du dois orificios 
jpraticados ao longo de hiim tubo dé thermomeitò 
graduado , qué atravessa a bolsa ou bexiga éni tbdo 
o seu comprimento , para augmeritar a solidei do ins- 
trumento; a contracção ou a dilatação bygrometríca 
faz subir ou descer o mercúrio no tubo, e mostra 
assim o grão de seccura ou de humidade sobre huma 
escala coílocadà ao lado do tubo. 

Este hygromctro de M. Adie tem muita semelhança 
com o que M; Wilson tinha ideado , e de que falía- 
mos na nossa analjse dos descobrimentos de 18179 
e em cuja construcçãd elle emprega linma bexiga de 
Tom. X P. %r 6 B 



83 Notícias iias Sciencias j 

hlto ; TK>réai outro instramento doesta natureza inven- 
tado por M. Liviogstón, medico iqglez em Cantão^ 
fae fundado em oatro principio , e tem a ser , sobre 
a propriedade <pie tem o acido sulpburico de seguir 
huma marcha uniforme em todos os seus gnios de 
saturação. Para construir este hygrometro basta pôr 
sobre hum dos pratos de huma balança exacta bum 
ilisco de porcelana, no qual se deitào ai grãos de 
^do sulpburico a I9845, e 89 grammas de agua dis^ 
filiada : exposto ao maior grão de humidade artificial 
achou-se que tinha ganhado 5o grammas em a4 horas ; 
pondo-se então este vaso ao lado de outro de platina 
cheio de acido sulphuiico concentrado debaixo do 
recipiente do apparelho pneumático de M. Leslie para 
fazer gelo, achou-se que, passada huma noite , o peso 
total estava reduzido a 5o grãos. Meio grão bast»^ 
para que a borda da bacia descreva hum arco de huma 
pollegada acima e abaixo do nivel. Cada hum d'estcs 
espaços he dividido em dez partes iguaes, ou cada 
grão em 10 partes ; o que , multiplicado por 5o grãos 
dá huma escala de 1000. 

Erupções f^olcanicas* 

O celebre volcão do Etna que desde 181 1 tinha 
estado perfeitamente tranquillo, teve huma erupção 
em 1819 na noite de a^ a aS de Maio pela 1 hora da 
manhati. O estado meteorológico d' este mez nào tinha 
offerecido cousa alguma extraordinária ; no dia 27 
ventou rijo de oeste j antes da meia noite sentirão- 



das Aftes , etc. 83 

SC alguns abolós em Niccòlsi, ^ daas hardi depoiâ 
rompeo a erupção por tx-ès boírcàs , qae àe àbrtrâo àò 
mesmo tempo a perto de i5o toesas abaixo do cimo , 
e depois por huma quarta bocca que se abrio na 
mesma noite na parte superior do vai do Tri/bglietto 
ou dcl Bue. Nada ofTereceo esta erupção de notável* 
A lava do Etna parece ser menos liquida e tenac que 
a do Vesúvio. M. Moricand , que observou esta erup-* 
çào f diz que o nome de chammas que se dá aos globos 
de fogo ou fumo que se levanlào do crater dos vol- 
caos li6 impróprio , pois qae este phenomeno não tem 
relação alguma com a chauima produtida pdla <}9m« 
bustào de qualquer gaz flammiferot 

Hum volcáo notável pela sua pequenhez^ que he 
de 7 pés de alto, 49 ^^ circumferencia total , e 9 pés 
e a poUegadas a do crater, foi descoberto em iBi8 
nos estados do príncipe Jorge, na vizinhança do indian 
lUi^er^ íreguezia de São João. 

Huma nova ilha volcanica se lévantom ne Archipelago 
aleutio, a pouca distancia de Unalaschka , no alino Ò4 
i8i4, no meio de huma tormenta acompanhada dè 
chammas e de tremores de terra. Alguns Russos qué 
forão ao sitio no primeiro de Junho , depois de o mar 
se ter acalmado, acharão a ilha cheia de fendail ê 
pi^cipiciôs ; só a superfície, ém altura de alguns me<- 
troa, tinha esfriado; não se achou tiella o menor Ves* 
tígio de agua ; os vapores que delia se levantavão nad(( 
tinhão que oíTendessc , e já os phocas se tinhào apos* 
sado delia em i8i5. Neste anno já tinha diminuide 

6 * 



84 Noticias das Sciencias ^ 

de altura ; o seu comprimento era de peito de duas 

milhas» Deo-sé-lLe o nome de Boguslaw^ 

Terremotos. 

À ga%éta de Pekin de a de Maio de tSi";, dá a rela^ 
çâo de hum terremoto acontecido no mez antecedente, 
em Chang-Ruh nos confins da província de Szeehuen, 
da frotileira occidental da China. Mais de ti*e2e mil 
casas forão denibadas , e mais de 2,800 mortas. 

• 

No anno de 1818 , M. Agatioo Longo publicou huma 
"^ ipteressante Memoria sobre o ten*emoto que devastou 
a Sicilia a 20 de Fevereiro do mesmo anno. No ultimo 
dia de Maio de 1818, hum violento terremoto destruio 
grande parte dos principaes monumentos da cidade 
de México. A a de Outubro do mesmo anno, pela 
hora e meia depois do meio dia sentio*se outro mui 
violento em Brutenzorg, perto de Batavia, mas irào 
causou outro accidente senão a destruição de algumas 
casas. No mesmo mez a Islândia experiípenlou outro 
tremor y que parece ter sido ainda m.ais violento, aco«7i- 
panhado de terrivel ruido subteiraneo , ao qual se se- 
guio huma erupção do monte Hecla. A 11 do mesmo 
mez ^entio-se outro violento em Quebec no Canadá; 
e a 3i a cidade de Dalton no Condado de Lancaster 
lambem experimentou hum abalo de terremoto. Houve 
outro violento em Inverness na Escócia, e a alguma 
distancia da cidade, ao minutos depois da meia noite 
a ao de Novembro. Neste mesmo dia houve hum 
terremoto no Cabo Henrique na ilha de S» Domingos , 



das Artes , ete, 85 

em qae morrêrâo algumas pessoas. 'A «7 de Dezembra 
houve hum abalo de tremor em Bangor , que fòi mais 
sensível na vizinhança de Penter. Finalmente ^ a ro de 
Dezembro de 181 8 a cidade de Reggio, no Ducado de 
Modena , experimentou hum terremoto pelas i o horas 
da noite « 

No anno de 1819 parecem ter sido mais frequentes 
os terremotos. Hum dos mais violentos fòi o que se 
sentio por toda a costa de Génova na direcção do porto 
de S. Maurício a S. Romi a 8 de Janeiro. A ^4 e a5 de 
Janeiro sentlião-se em Setúbal alguns abalos. Na noite 
de 29 do mesmo mez , diversos edifícios velhos forão 
den^ibados em Tefflis na Geórgia , por eflíeito de hum 
terremoto que foi precedido de buma tempestade» e de 
ruido subtenaneo que se tornou mui violento pelas 10 
hof as. Outro aconteceo em Ballenloan ou Gtenbyon , 
a 1 1 de Abril pelas 5 horas da tarde , e foi seguido 
im mediatamente de hum furacão terrivel, e de muita 
neve. Roma, Frascati, Alba e as vizinhanças expen* 
mentárào hum tremor na direcção do S.-E. ao N.-O. 
a a6 do mesmo mez ; houve três abalos a 8 de Abril 
em Temiswar na Hungria, e outro mui ligeiro em 
Landsbut , e em Augsburg a 10 do mesmo mez. A 3, 
4 9 e 1 1 de Abríl a cidade de Copálípo , no Chili , sentio 
hum violento tremor de terra. Houve em Cometo a a6 
de Maio , hum abalo violento que causou bastante 
damno. Sentio*se outro na ilha da Trindade a ia de 
Agosto y pelas duas horas depois do meio dia, e foi 
acompanhado de hum grande vento , e ruido* A i5 da 



\ 



8G Noticias das Scíencias , 

ijieimo vàtz houve bum terremoto em 5. André » ad* 
4eiacla bai^o Çana^c}^ , no quad se sentio huma expio* 
S9A> Qomo.a de buma peça d^ avlilberia* A 4 de Se- 
ptç^Upro^ » p^Us 9 boras da tarde seqtio-^e em Corfá 
\^iç^ Ui^mo^r violf^pipi que causou danmo considerável 
a alguns edificios ; o ar estava sereno e os habitaotcis 
julgarão que poderia ter relação com alguma erupção 
4o£toao9 do Vesúvio. A aldeia de, Comríe^ Condado 
4ei P^rtb > na Escócia » não tinba sentido bavia 1 o 
ly^QQ^ hum tremor igu4 ^o que experimentou a a8 de 
I^ovembro; os cboques duráirãQ 10 ^e^undos^com ex* 
jp|osôes subterran^a&, e se communicárão na distancia 
4e algumas roilbás da aldeia, na direcção do N^-O^ 
2^0 $.-E. Mas o mais desastroso de todos os terremotos 
4^ 181 Q que teDbão vindo ao nosso conhecimento ^ 
be. o de que dá conta a g;azeta de Qombaim de 7 de 
Julho. Fez-se sentir a 16 de Junho, pelas 8 horas, da 
tardei 9 e destruio as cidades e aldeias de toda o dis- 
tricto de Kutcb ; mais de t^^Qo pessoas morrerão; as 
commoçòes não cessarão por espaço de três dias. Parece 
ter sido causado pela erupção de hum volcão de buoia 
montanha a 20 milhas de Bhooj. 

Kentos , Furacões , etc» 

M. Mathieu Dombasle propoz huma nova theoria 
sobre a causa do vento que se seqte alguns instantes 
aptes de huma trovoada , por lhe ter parecido pouco 
conforme aos factos a theoria que attribue e^te vento , 
muitas vezes impetuoso , ao vácuo produzido pela 
condensação do vapor aquoso. Fundando-se na obser- 



* das Artes, etCé 97 

vaçãOy que a agua na soa queda leva comsigokama 
quantidade considerável do ar que encontra, coma 
acontece nas trompas dos fornos de foiia, julga qnf 
as tormentas com grandes aguaceiros são devidas a 
formarem-se debaixo das nuvens d'onde cabe a chuva 
|[rossa , duas correntes mui distinctas, biima égffbêentff^ 
ç a outra qffbAente^ em raios convergentes , que se fas 
sentir por detraz d*ella. 

Em quanto á direcção e frequência das correntes de 
ar ou dos ventos locaes , podem consultai^se as obser* 
vaçôes de M. Caleb Atwater sobre as coixentes que 
occorrem no Estado do Ohio e nas regiões occiden- 
taes da America septentríonal. Estas coiTcntes sãoi 
três em numero ; a primeira leva o que sabe de mais 
quente e bumido do golfo do México, e sobe o Mis* 
sissipi y e os seus grandes braços até ao nascente ; a s&* 
gunda vem do revez das montanbas do oeste ^ desce 
o Missuri até á sua emboccadura , e espalba-se por 
liuma grande parte do paiz ; cm (im a terceira , que se 
extende desde os grandes lagos norte e nor-oeste ao 
sul do lago Mihigan e do Lago Erié, d'onde vai es« 
praiar-se sobre toda a região que fica ao sul. 

Peso do ar, ou Baremetria. 

Já falíamos do mappa comparativo de M. Pictet sobre 
as variações barometiícas observadas no &m de 1817 y 
e no decurso de 1818 em Genebra e no monte São 
Gotbardy das quaes resulta que o peso da columna 
do ar bc maior no inverno que no verão , entre «jS^ 



88 Noticias das Sciencias , 

c 38®, de dia que de noite. Em geral , o barómetro , 
ém Genebra , desce desde pela manhan até ao meio 
dia, e sobe pelo contrario no São Bernardo; adifie-^ 
i^nça entre os máximos segue a mesma marcha que a 
das alturas medias , ou he maior nas estações frias que 
na$ quentes. A media annual, em Genebra, he de 7,74 » 
e 7,1 4 no monte S. Gothard, a pe^ar da grande 
difierença de elevação. 

Posto que o barómetro de mercúrio tenha chegado a 
hum grão notável de aperfeiçoamento , pçlo emprego 
que delle se faz frequentemente para medir alturas, 
Mt . Adie , com o fim de medir as mais pequenas va- 
riações no peso do ar, as quaes se podem suppôr cau- 
sadas pçla acção do sol e da lua , procurou medir a 
pressão da atmosphera pelos efièitos que ella produz 
cobre huma cplumna de gaz difierente do ar atmosphe- 
rico ; de sorte que o instrumento qpe elle ideou e que 
chama sjmpicsometro , he composto de gaz hydrogeneo 
ç de hum óleo, con^o óleo de amêndoas colorido com 
a raiz de (inchusa^ tudo mettido em huro tubo de 
vidro de \8 pollegadas ^nglezas de comprido sobre 0,7 
de diâmetro , terminado superiormente por huma dila- 
tação do tubo de duas pollegadas de comprido e meia 
de diâmetro, e inferiormente por hum globo^inho 
curvo e aberto no cimo. Parece que este instrumento 
he mui vantajoso e pode supprir o barometi^o náutico , 
porém he talvez demasiadamente sensivel em certas 
circumstancia^. Por isso , nos cassos ordinários pode 
ser que baste , para conhecer variações ligeiras no peso 



das Artes ete. 9^ 

da colamna atmospherica , empregar o processo indi^ 
cado por M. Dombasle , que consiste eúi inclinar a 
Ibarometro de mercúrio. 

Do Calor* 

Do resumo que M. Pictet publicou das observações 
tiíermometricas que forào feitas no decurso de 1818 
em Genebra e no monte S. Bernardo', se coUige que 
no strato atmospherico de 1000 toesas que separa estes 
dois pontos, hum grão de depressão de temperatura 
corresponde com bastante precisão a 100 toesas de 
elevação. Este resultado se approxima muito do que 
M. SchoWy botânico dínamarquez, obteve no monte 
Etna; com eSeito , pelas observações simultâneas do 
thermometro feitas em Niccolsi, em Gatania , e na sta- 
çào chamada a Casa ingleza , sobre o monte Etna , 
calcula em 565,8 a 590 e até 648 pés inglezes de 
elevação cada grão que o thermometro desce. 

Os trabalhos de M. J. Davy sobre a temperatura 
das aguas do mar , publicados o anno passado , tem 
sido continuados em diílerentes expedições marítimas, 
e entre outras na que os Inglezes mandarão ao polo 
do norte. M. Abel Clarke publicou hum certo numero 
4'cllas y na sua viajem á China , as quaes forão feitas 
no Mar Amarello , e que provão diminuir a tempe- 
ratura á medida que se penetra mais na agua; isto 
se acha confirmado pelo experí mento do capitão 
Wanhope, o qual, a alguns grãos do equador, achou 
3i<^ Fahr. de difièrença entre a temperatura da agua 



4|o NotícÍ€K das Sciencias , 

FecolliÂda a looo metros d€ profundidade e a da super- 
ficie , sendo a d'9Std '73<> e a da primeira kx^. Mm 
este resultado não concorda com as experiências feítia 
pela expedição ingleza ao polo do norte. Da compa- 
ração que fez o D' . Marcet , nas Transacções Philoso- 
pliicas para 181$), sobre a densidade e a temperatura 
da agua do mar » resulta que , no Estreito de Davis 
e na Bahia de BaíBn » as aguas do mar são tanto mais 
fiias quanto são profundas ; e com efieito o capitão 
Boss reconheceo que cm Soo, 600 , 700 , 8qo e 100^ 
melros I a temperatura desce successivamente de 35^ 
Fabr. até 28» 4 , quando a Leste do Groenland, e em 

liatitudes mais elevadas se observa o contrario , isto he, 
que a agua tirada em grande profundidade pelo te- 
nente Franklin , acbou-se quasi sempre ser 4^ a S<^ 
Fabr. mais quente que a da superfície. Tudo isto pa- 
rece provar que ha causas locaes doestas modificações. 
M. Murray , na sua viajem de Inglaterra a Itália con- 
venceo-se que a temperatura da agua do mar augmenta 
na proximidade da emboccadura de hum rio bum 
pouco considerável; por exemplo, a 10 milhas perto 
da do Ombrone , no Mediterrâneo , achou que a tcm-^ 
peratura da agua que no mar tinha estado constan-^ 
temente a 7o«> Fabr. subio a 71,52®. 

O mesmo sábio fez, no Mont-Cenis, algumas ob- 
servações sobre a temperatura da neve em diflerentes 
alturas, mas não são bastantemente numerosas para 
d*ellas se poderem tirar conclusões. 

Se , a pezar da anomalia que acabamos de citar , 



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,Q^ Noticias das Sciehcias , 

« He certo que o calor augmeDla nas minas do 
Ertgebirge na razão da profundidade. Experiências 
feitas com cuidado me derão +'ii<>, 8 centígrados a 
huma profundidade de ^oò pés , e + «j-^^, 5 na profun* 
didade de 900 pés. Estes plienomenos são constantes 1, 
e não dependem da influencia accidental da ozydaçâo 
dos metaes ; porque o ar he tão abundante em oxyge^ 
neo no ponto em que a temperatura he elevada como 
Dasuperficie. » 

Meteoros luminosos» 

Sem procurarmos dar aqui a explicação dos diffe- 
rentes meteoros que se observão em alturas mais od 
menos consideráveis da nossa atmosphera , he certo 
que nem todos são da mesma natureza. Ha alguns que 
de ordinário acompanhão a cahida das pedras me- 
teóricas ; tal nos parece ter sido o brilhante meteoro , 
debaixo da forma de hum globo de fogo com huma 
cauda curta , que appareceo a 5 de Maio de 1819 ^ 
cousa de meia hora depois do meio dia , em Aber- 
deen , a 36^ de elevação; dirigia-se para a teira, e 
dentro de 5 minutos, rompeo-se com huma explosão 
tal, que espantou os animaes, e sahio d*elle huma 
massa de fumo em forma de nuvem , que se sus- 
teve por algum tempo. No ultimo dia de Outubro 
de 1818, vio-se , pelas 10 horas da noite, em Bucha- 
rest, outro meteoro da mesma forma, que se alongou 
' e terminou por huma luz frouxa que desappareceo 
totalmente no cabo de a minutos. He talvez o mesmo 
meteoro que foi visto no mesmo dia ; pelas 8 horas e 



díis Artes , etê^ ({3 

meia da tarde , nas vizinhanças do Banho de Hercules » 
perto de Mehadia , no Bannato. Vio-se igaalmeute hum 
globo de fogo do qual pouco tempo depois sahtrào 
faiscas, em Juhnen na Dinamarca , na noite de ai de 
Dezembro do mesmo anno. A a oii 3 de Fevereiro 
de i8iQydas4 para as 5 horas da tarde, observou-sç 
na vizinhança de Cantorbej hum meteoro ígneo que 
se comparou a hum foguete , dirigindo-se para o S.*0. 
e parallelamente á superfície da terra. Parece que foi 
igualmente visto na freguezia de Beckley , Condado de 
Sdssex em Inglaterra. A 5 de Junho , perto de Lowick 9 
na vizinhança de Berwick , meia hora depois do meio 
dia I estando o tempo perfeitamente claro, vio*se hum 
globo de fogo, que tinha a apparencia de huma espada 
Ígnea , que parecia dirigir-se ao norte sobre Berwick , 
a pouca distancia da terra. Todos estes phenomeno^ 
parecem ter analogia entre si* 

y 

I 

Varias auroras boreaes , as quaes parecem peitencer 
aos phenomenos do magnetismo terrestre , forào vtstAs 
nos fíns do anno de 1818 ou no decurso de 1B19. 
A3i de Outubro de 1818 os habitantes de Sunderland 
observarão huma mui bella, entre as 7 e 8 horas da 
tarde; vírão huma nuvem escura, espessa, da qual 
sahiào raios de huma luz brilhante de 10^ de com* 
prido \ parece ser a mesma que M; Burney observou 
em Gosport no mesmo dia , entre as 1 1 horas e meia 
da noite. A 19 de Fevereiro de 1819, pelas 8 horas da 
tarde , appareceo huma magnifíca no Aberdeenshire , 
pelo 57^^ 11' lat. norte e 2<»3o' long. Occidental; for- 



, j y odeias ãas Sciencias , 

nia\a quasi bum angulo recto coro o meridiano ma- 
snr*tico . e a 3o^ acima do horisonte . buma zona 
biilbanle de còr esverdinbada , com cbammas tintas 
de còr encarnada alaranjada e roxa , e que tinha 
quasi i!io'' de extensão. Outro pbenomeno semelbante 
foi também observado em todo o norte da Inglaterra 
e sul da Flscocia, na noite de 17 de Outubro de j8iq ; 
depois de se ter conservado hum quarto de hora ná 
disposição ordinária , a zona luminosa se diriglo para 
o norteiem buma po5Íção inversa da primeira. 

Acha-sc nos Annals of Plulosophy lomo Xlll , pag. 
3o4 , a observação de bum duplo aixío iris , notável 
principalmente por estarem as cores de cada arco na 
mesma ordem. A. este respeito cumpre notar que o 
D»". Walt , pouco satisfeito da tbeoria geralmente re- 
cel)i(la a respeito da formação dos arcos iris propor 
outra nova. Julga que , para haver Lum arco iris he 
necessário que haja entre o obsenador e o sol as 
bordas de buma nuvem , que , occuhando buma parle 
d'aquelle astro y faça sobre os seus raios o eíTeito de 
bum prisma. 

Magnetismo tetràsCfe. 

Começào a multiplicar-se as- observações sobre o 
magnetismo. O coronel Beaufoy em InglateiTa , a Junta 
das Longitudes em Parts, que dispoz no Observatorío 
doesta capital hum apparelljo de Fortin para eôte gé- 
nero de oI)sei vaçôes , e o Marechal Marmont, na sua 



Jas Artes , etc, g5 

t|uinta de Châtillon , fasem espet*ar que daqui a algum 
tempo possa haver liuma serie de observações com^ 
paráveis, das quaes se possão deduzir alguns resultados 
iDais coucludenCes que os que até agora possuimos. 
Talves hum dia seja possível descobrir a causa das 
oscillaçôes diurilas da agulha magnética, que parecem 
ser extremamente variáveis ^e descenderem de influxos 
meteorológicos , pelo menos segundo o que o capitão 
Ross julga ter observado. He incontestável que a au- 
rora boreal tem grande influencia sobre a agulha 
magnética. Por huma comparação ((ue M. Beauíoy fe« 
entre as suas observações nos annos de 1817 e 1818, 
vê se que a variação diurna crescera desde o mez do 
Abril de 1817 ate ao mez de Janeiro de 1819, e que 
diminuíra no mez de Fevereiro seguinte , para de novo 
augmentar em Março » de sorte que elle não está ainda 
certo se a agulha chegou á sua maior inclinação 
Occidental. Tomando a media das observações da ma- 
nhan, uo decurso de 1817 e 1818, o augmento da 
decUnaçào he de t^' 18'' *, para as observações da tarde, 
acha*se :»' 4^' > ^^ s^i^ 4^^ ^ media de todas he 
de a' aS". 

Segundo algumas observações de M. Wlinglel , vé se 
que em Copenhague a declinação ^ a 8 de Septembro 
de 1817, era de 170,56, e a inclinação de 17^26. Nq 
intervallo de i8<>6 a 1817 a variação total diminuio , 
porém teve muitas oscillaçôes. Observou que a varia* 
ção Occidental he maior no mez de Septembro ; a' 
roais forte variação diurna , que excede apenas ao mi- 



<)6 Noticias das Sciencms^ 

I 

nulos nas circumstaocias ordinàiias » chega ao seu 
máximo pela n horas depois do meio dia< 

Porém o que deo principalmente hum gi*andé im- 
pulso ás ohservações magnéticas , foi a publicação 
em Inglaterra das que os capitães da expedição in- 
gleza mandada ao polo do norte fizerào cum instl-u- 
mentos de huma grande perfeição, em latitudes ftiui 
elevadas « e cujo objecto principal foi ver se era pos- 
sível descobrir hum processo seguro | por meio do 
qual os navegantes, reduzidos em certas Gircumstanciasr 
á bússola , podessem determinar a sua verdadeira de- 
clinação. M. Wales^que fez parte da primeira expe* 
dição de Cook , foi quem primeiro notou que a bofdo 
dos navios a agulha experimentava variações que não 
tinhão relação algumit com as qqe procedem da de- 
clinação ; porém foi o capitão Flinders que descobrio 
a causa d*estas variações, e fez ver que procíedião das 
massas mais ou menos consideráveis de feiTo que 
existem nas embarcações. Tentou estabelecer algumas 
regras para avaliar estas variações, mas parece que 
não se tem achado applicaveis a todos os casos. O 
capitão Sabine publicou , nas Transacções Philoso- 
phicas para i8 19, observações sobre este assumpto 
feitas na sua expedição ao polo do norte ; e o capitão 
Ross publicou as suas no appendix da viajem publi- 
cada por ordem do almirantado inglez, e ajuntou 
hum meio empírico para achar a verdadeira inchna- 
ção a bordo de hum navio. Com effeito facilmente 
se vê que deve haver grande dií&culdade em desço- 



ãas Attes ttd gy 

brir hum que seja racional , e cuja applicaçâo seja 
geral. Não obstante, parece que M. Barlow conseguio 
este objecto^ ao tnenoá segundo se colhe do extracto 
de huma Memoria que elle leo á Sociedade Real , e 
que se acha inserido no segundo numero do Eilinburgh 
Journal. O certo he que, no proseguimento das ex*- 
peiiencias mui curiosas que emprehendeo sobre esta 
matéria , descobrio factos mui singulares ; achou, por 
exemplo, que á roda de qualquer globo ou massa de 
ferro ha hu,m grande circulo inclinado do norte ao 
sul, que forma com o horisonte hum angulo de 19P 
a 200 , no plano do qual o ferro não altera a direcção 
da agulha magnética. Observou igualmente que huma 
bola de ferro ouça , do peso de aS onças , não tem 
menos eíleito sobre a agulha que huma baila massiça 
do mesmo metal , de igual diâmetro, e do peso de iaS 
libras ; o que estabelece humà nova analogia entre 
as forças magnéticas e as eléctricas, O coronel Gibbs 
fez huma observação que tem alguma semelhança com 
esta , e que se lé no tomo I pag. BS do American 
Journal qf Sciences * Em huma mina de ferro magne^ 
tico em Succassuny , achou que a parte superior do 
veio era magnética com polaridade , e a parte inferior, 
para adquirir esta propriedade carecia de estar ex- 
posta algum tempo aos influxos atmosphericos j o que 
faz suppor a M. Gibbs que he possivel que o magne* 
tismo não exista no interior da terra, mas resida un»- 
ca mente na sua superfície* 



Tom. X P. a*. 7 B 



g8 NoUcias das Sciettcias , 

CHYMICA. 

A rapidez com que a Chymica de dia em dia faz 
novos e importantes progressos nos tem determinado 
a communicar ao publico os novos descobrimentos 
á medida que chegão á nossa noticia , sem esperar- 
mos pelo fim do anno , para os oflerecer no quadro 
resumido dos progressos de cada sciencia natural. Por 
esta razão, desde o Tomo V dos Annaes, em que oile- 
recemos o resumo dos trabalhos chjmicos do anno 
^e i8i8y temos continuado em cada hum dos tomos 
«ubsequentes a dar as noticias recentes dos descobri- 
mentos chymicos com bastante individuação ; e por 
esse motivo agora só tocaremos mui levemente os 
objectos de que já temos dado sufficiente noticia. 

ITieoria geral. 

A pezar de alguma opposição , cada dia vão as ideias 
de M . Berzelius adquirindo novas provas e novos se- 
quazes , entre os quaes deve contar-se M. Gay-Lussac. 
M. Lucock , no tomo LIII pag. i33 do Philosophical 
Magazine tentou refutar a theoria atomistica, proposta 
por Dalton , e adoptada por muitos chymicos inglezes ; 
prefere a ella a theoria que M. Higgins concebera 
antes de Dalton , e de quantos tem pertendido usurpar 
a gloria de serem os descobridores do systema das 
proporções defínitas. 

M. Murray tem procurado aperfeiçoar a theoria de 
que tratamos y e com este intuito publicou nos Annals 



das Artes, etc. gg 

qf Philosopf\y observações mui extensas sobre as rela- 
ções que existem entre a lei das proporções definitas 
e a composição dos ácidos i dos alcalis e das terras , 
he a continuação de outras Memorias análogas que 
tínha publicado no anno antecedente , e em huma das 
quaes tinha observado que as relações entre as pro- 
porções do oxjgeneo que formão a parte supposta 
de agua combinada nos ácidos são provavelmente 
de hum ou dois doestes elementos directamente com 
o radical. Disto dá por exemplo os compostos do 
acido sulphurico , cuja constituição , á primeira vis^ 
la, parece estar em contradicçào com a lei das 
proporções defmitas. Com eOeito M. Murrajr explica 
a difliculdade, e sem outra hypothese mais que esta 
de que acabamos de faltar, mostra que, ainda sup- 
pondo que exista hum oxydo de enxofre , e o que se 
chama acido sulphurico real, as suas combinações 
serão rigorosamente confornies á lei^ pois que serão 
de huma parte de enxofre com i » a , 3 e 4 de oxyge^ 
neo. Applica a mesma explicação aos ácidos cujo ra- 
dical he o carbone ; e considerando que os ácidos 
vegetaes são compostos de huma base simples , o car- 
bone acidificado pelo oxygeneo e o hjdrogeneo , e não 
como pertendia Lavoisier , que julgava serem formados 
de hum radical composto acidificado pelo oxygeneo, 
e estribando-se sobre a mesma lei que applicou ao 
enxofre , parece-lhe provável que o oxygeneo e o hy- 
drogeneo estejão nestes ácidos era proporções defínitas, 
as quaes observa cada hum de per si relativamente 
ao carbone , e cré que as diQ^OTcntes proporções em 

7* 



loo Noticias das Scíencias j 

que se combinão com este elemento dão origem a hum 
certo numero de compostos. O carbone com huma 
primeira proporção de oxygeneo forma hum oxydo. O 
hydrogeneo he hum principio acidifícante ; por conse- 
guinte não he improvável que a addiçào delle produza 
a qualidade acida , cuja energia será determinada pela 
;primeira ou segunda proporção com o carbone , ou por 
aníbaft* O carbone , com a sua segunda proporção de 
oxygeneo dá origem a hum acido frouxo. A addição 
do hydrogeneo augmentará igualmente a sua acidez , 
como no caso precedente *, de sorte que se podem 
admittir quatro compostos distinctos , que serão repre-* 
sentados pelo oxydo carbónico com huma certa pro- 
porção de hydrogeneo; e como he possivel conceber 
que haja outros com diversas proporções de oxygeneo 
e de carbone, pode applicar-se-ihes o mesmo rácio- 
cmio* M. Murray mostra por este modo que os acides 
vegetaes estão sujeitos a esta lei; o que prova de huma 
maneira mui curiosa , desde o acido oxalico que con- 
têm a menor porção de hydrogeneo até ao acido ga- 
Ihico , no qual a proporção de hydrogeneo comparada 
aos dois outros principios he a maior. Finalmente , 
termina M. Murray esta parte do seu trabalho dizendo 
que este modo de considerar os ácidos vegetaes como 
compostos de hum simples radical , o carbone , aci- 
dificado pelo oxygeneo , applicando-lhes a lei de todas 
as combinações ternárias , isto he , que dois dos ele- 
mentos guarduo as relações determinadas de proporção 
com o terceiro como fom huma base , poderá prova- 
velmente abranger todas as substancias vegetaes , e 



das Aries ^ ctc» lot 

ainda talvez os productos animaes os mais complica- 
dos ; e admittindo^ huma serie mais extensa de pro- 
porções definitas nos elementos primários, poder-se- 
ha rejeitar a lei de M. Berzelius actualmente recebida 
pelos sectários do systema atomistico , segundo a qual 
nos corpos inorgânicos hum dos príncipios constituen- 
tes está sempre no estado de hum átomo simples, 
quando o contrario acontece nos corpos orgânicos. Se 
esta lei vier a ser rejeitada , e se o contrario se estabe* 
' lecer , nesse caso a composição dos corpos organisados 
e a dos inorgânicos serão semelhantes, o que contribui- 
ria muito , alem da vantajem da uniformidade e da 
simplicidade , a acclarar a constituição das substan- 
cias organisadas , que até ao presente oílerece grande 
obscuridade. 

Huma interessantissima Memoria lida a q de Dezem- 
bro de i8j9, á Academia das Sciencias de Berlim por 
M. £. Mitscherlich , sobre a relação que existe entre a 
forma crystallina e as proporções eh y micas , derrama 
grande luz sobre a theoria das proporções e á cerca das 
leis da crystallisação , e por tanto interessa igualmente 
os Chymicos e os Mineralogistas , especialmente depois 
da tentativa de M. Berzelius para estribar a classifica- 
ção mineralógica sobre bases chymieas. 

Esta primeira Memoria de M. Mitscherlich he in- 
titulada : Primeira Memoria sobre a Identidade da 
forma crystaUina de que sào dotadas muitas substancias 
dijferentes , e sobre a relação que existe entre esta 
forma e o numero dos átomos elementares nos crxstacs^ 



toi yoticias das Scimcias , 

Como esta Memoria deve ser seguida por outras , trans- 
QTt\ eremos só aqui algumas passagens d'ella que possão 
djT a conhecer ao leitor a sua importância. O autor 
d<?poi$ de a ter escrípto , repetio no laboratório de M. 
Berzelius todos os experimentos principaes em que es- 
triba as suas conclusões , e por meio de processos 
nuito mais exactos e delicados que lhe forão sugge- 
liJos piX" aquelle insigne chjmico, teve a satisfação 
lie achar huma tal conicurmidade nos resultados , que , 
^al4icando mui recentemente a sua Memoria nos 
Annaes de Chjmica de Junho próximo pussado , nada 
uella mudou. 

' OoxTeeneOy nos ácidos pbosphoroso e arsenioso, 
^'>ti para o dos ácidos phospboríco e arseniaco , na 
miio de 3:5: e do super-phosphate e snper-arseniale 
(1^ potassj^ o oxygeneo de p<^assa he para o do acido 
como 1 : 5 y e para o da agua de cryslalUsação como 
I ■ a. Esles saes são compostos do mesmo numero de 
alomos ou volumes elementai^es , e s6 difierem entre 
si por ser o radical de hum o phosphoro, e do outro 
o arsénico. A forma crystallina doestes dois saes he a 
mesma. O phosphale e o arseniate de soda , o pbos- 
pbate e o arseniate de ammonia , o super-phosphate 
e o super-arseniale de ammonia, como também o 
sapcr-phosphate e o super-ai*seniate de barytes, con- 
têm cada par os mesmos volumes de acido , de base 
e de agua de crystaUisaçào , e cada par tem exacta- 
menle i mesma forma ci^stallina. Quando proseguir 
o meu trabalho tratarei mais especialmente das copi- 



das Artes , etc. lo3 

Lioações dos ácidos phosphorico e arseniaco , as quaes » 
quando estes ácidos estào combinados com as n^esmai 
bases, no mesmo grão de saturação , nào só participào 
da mesma forma crystailinay mas possuem inteira- 
mente as mesmas propriedades chymicas. Pareceo-me 
seguir-se da sua composição chymica análoga ^e das 
suas formas crystallinas idênticas , que , se dois corpos 
diOerentes se combinão com o mesmo numero de vo* 
lumes de outi^o , por exemplo, o arsénico e o phos« 
phoro, cada hum com cinco átomos de oxygeneo, e 
se as duas combinações se unem com outro coi*po na 
mesma proporção , que o arseniate e o phosphate que 
resuitào doesta união devem ter exactamente a mesma 
forma: e isto hc justamente o que acontece; pois, 
não só . forma primitiva , mas ainda todas as varie- 
dades se parecem <^e tal modo em quanto á grandeza, 
ao numero de planos , e ao valor dos seus ângulos , 
que he impossivel achar nellas a menor diSerença , 
nem se quer nos caracteres que parecem totalmente 
accidentaes. Hum copia a forma do outro coma o 
cobalto pardo copta a forma do ferro suiphuretado ,. 
e como o ferro carbonatado a da cal carbonatada. 
Esla concordância do meu raciocínio com o resultado 
da experiência me decidio a submetter a huma se- 
melhante investigação todos os ácidos e todas as bailes. 
Achei desde logo , que a potassa e a ammonia , com- 
binadas com o mesmo acido, dão hum sal que tem 
a mesma forma crystalHna , com tanto que o sal de 
ammonia encerre duas proporções de agua de cry^ 
tallisaçào : isto he hum mero facto independente de 



I o4 Notícias das Sciencias , 

toda e qualquer theoria. Achei depois , que as fornias 
crysiallinas dos saes de barytes , de chumbo e de 
' strontiana se assemeihavào entre si : o oxygeneo dos 
oxydos de barium e de chumbo está. para a dos seus 
hyper-oxydos iia razão dé i : a ; os sulphates de barytes 
e de chumbo tem exactamente a mesma forma; o 
sulpbate de strontiana de Sicilia encontra-se de ordi- 
nário debaixo de huma forma que não achei senão 
mui laras vezes entre a$ variedades do sulphate de 
barytes, mas nunca entre as do sulphate de chumbo. 
Posso ainda ajuntar a isto , que as formas dos saes 
artiíiciaes de barytes , de strontiana e de chumbo tem 
a mais exacta semelhança. » 

Proseguindo na investigação relativamente a diversos 
oxydos, achou que os mais d'elles combinados com 
)ium mesmo acido tem huma forma crystallina íden* 
tica , cpmo já se tinha observado em quanto aos car- 
bonates de magnesia , de cal , de zinco , etc. Por ora 
limitou as suas experiências ás combinações do acido 
sulphurico com vários oxydos , porque a sua natureza 
permitte serem examinadas com exacçâo ; a sua forma 
foi descripta com escrupuloso rigor por M. Haiiy, e a 
sua composição foi examinada e demonstrada com exac- 
çâo por M. Berzelius ', a relação do oxygeneo do oxydo 
ao do acido he como i : 3 ; porem combinão-se com 
diversas porções de agua de crystalhsaçào , e por isso 
os distribue M. Mitscherlich em três classes, A primeíiu 
compreliende os sulphates de manganese , e de cobre ; 
nelles o oxygeneo do oxydo he para o da agua como i : 5, 



das Artes , ele. io5 

A segunda classe comprehcnde o sulpbate de ferro 
e o de cobalto ; a relação do oxjgetieo do oxydo para 
o da agua de crystaLisação lie como i : 6. A terceira 
comprehende os suiphates de zinco, de nickel e de 
magnesia : a relação do oxygeneo dos oxydos he ][)ara 
o da agua de crystallisaçào como i : 7. 

Examinando os saes de hum mesmo acido , tíos 
qnaes as bases^ moslrão a mesma forma crystallina, 
nota-se que huma proporção ou átomo de agua de 
crystaliisaçào pode mudar a forma dos crystaes; o 
tuuriate de barytes e o de sti^ontiana, o super-phos- 
phate de ammonia e de potassa , o sulphate de cal , 
ordinário e anhydro , diíTerem em quanto ás proporções 
de agua de crystallisaçào; e a forma crystallina dos 
carbonates de manganese , de ferro e de zinco que 
ligâo estas três ciasses torna mui provável que a difie- 
rença que se nota entre as formas crystallinas doestes 
sete saes nào he devida senão á quantidade differente 
da agua de crystallisaçào, e que os suiphates anhydros 
( sem agua ) doestas bases tem todos a mesma forma 
crystallina. 

A observação que as combinações chymicas com* 
postas nas mesmas proporções tem a mesma forma, 
confirma ainda a identidade das formas doestes saes ; 
porque o metal da base combina-se com as mesmas 
proporções ou átomos de oxygeneo. O oxygeneo no 
protoxydo de ferro , de manganese , de cobalto e 
de nickel está para o do deutoxydo na razão de a 
para 3. M* Berzclius cré que huma tal proporção dá 



loG Noticias das Sciendas , 

lugar a suspeitar que o metal no protoxydo está com- 
binado com dois .'ttomos de oxygeneo. Com eSeito, 
a relação do oxygeneo no protoxydo de cobre , e tal- 
vez também no de nickel, he com i : a, e os deutoxydos 
destes metaes combinados com o mesmo acido , dão 
saes que tem a mesma forma que os saes dos prot- 
oxydos dos quatro metaes acima mencionados. 

Se estas razões bastão para tornar mui provável 
que a forma crystallina dos sulpbates anhydros de 
cobre , de manganese , de ferro , de cobalto , de nickel, 
de zinco e de magnesia , deve ser idêntica , podemos 
decidir aflíoutamente do merecimento das experiências 
de MM. Bernhardi e Beudant , das quaes elles conclui- 
rão que bastaVa buma minutíssima porção de huma 
substancia em buma composição para imprimirá massa 
bnma forma crystallina determinada , todas as vezes 
que o corpo que se acha em ténue quantidade he 
dotado de buma energia particular de crystallisação. 
As experiências de M. Mitscherlich llie fizerão ver a 
falsidade doesta opinião , que tinha sido adoptada por 
MM. Haúy , Vauquelin e Brochant , no Relatório que 
das experiências de M. Beudant fizerão ao Instituto de 
França. M. Mitscherlich achou que a mistura dos 
sulphates que tem a mesma forma cr}'stallina que o 
sulphate de ferro e de cobalto , não contém nem sul- 
phate de zinco nem sulphate de cobre, aquelle com 
sete partes de agua de crystallisaçào e este com cinco , 
mas ambos elles combinados y:om seis partes de agua , 
que são as mesmas que se encontrão no sulphate de 



das Artes , etc, 107 

« 

L "Cobalto e de ferro. Se os sulphates de ferro , de cobre, 
^~^e zinco, combinados com as mesmas proporções 
L.^^e agua de crystallisação , tem a mesma forma crjs- 
%allina , nesse caso he forçoso que as misturas doestes 
Sulphates, se contiverem a mesma quantidade de agua 
de crjstallisaçào , como o sulpbate deferro e de co- 
balto, tenhào a mesma forma ci7stallina doestes ulr 
timos. 

Em segundo lugar, para não deixar duvida na ma- 
téria, combinou M. Mitscherlich saes que encerrào 
cinco proporções de agua de crjstallisaçào com outros 
que contém sete , e obteve combinações que continhão 
seis proporções doesta agua , que tinhào a forma do 
sulpbate de ferro e do de co])alto,sem encerrai^m buma 
só partícula de nenhum doestes sae&. Tal he a com- 
binação ou antes a mistura crystallisada dos sulphates 
de cobre e de zinco descoberta porM. WoUaston^ a 
dos sulphates de cobre e de magnesia , a dos sulphates 
de cobre e nickel, a dos sulphates de manganese e 
de zinco , e finalmente a dos sulphates de manganese 
e de magnesia. 

« Âs conclusões , diz M. Mitscherlich , tiradas da 
relação que existe entre a forma e o numero dos áto- 
mos nos arseniates e nos phosphates , as quaes se 
confirmão ulteriormente nestes sete sulphates ; a iden- 
tidade entre a forma crystallina do sulpbate de cobre 
a do sulpbate de manganese, a do sulpbate de ferro e 
a do sulpbate de cobalto , a do sulpbate de zinco e a 
dos sulphates de magnesia e de nickel ; a identidade 



lio Noticias das Sciencias ^ 

mesma forma crystallina , o oxydo ou a base isolada 
do acido deve também ter huma mesma forma de 
crystaes; verdade que M. Mitscherlich demostra por 
hum exemplo tirado da classe dos oxydos que contém 
por cada átomo de metal y três de oxygeneo , isto be 
a aluminia , o oxydo rubro de ferro e o oxydo de man- 
ganese; pois não lhe foi possivel obter nenhum dos 
mais sete oxydos acima designados debaixo de fóroiai 
crystalUnas distinctas. Os crystaes de ferro oxydulado 
(Jerroso^ferricum ) , do spinella e do spinella zincifero 
( gahnite), fazem mui provável qne a aluminia e o 
oxydo rnbro de feiro dêem , combinados com a mesma 
substancia na mesma proporção y hum sal da mesma 
forma crystallina ; visto que o oxydo de zinco , o oxy- 
dulo de feiYo e a magnesia y combinados com o mesma 
acido , dão saes que tem a mesma forma crystaUina : 
d*aqui se segue que se obtivermos combinações d^esf^s 
duas bases com ácidos differentes , mas nas mesmas 
proporções e tendo a mesma forma , estes dois ácidos 
deverão também ter a mesma forma. Misturando-se sul' 
phate de ferro oxydado rubro e sulphate de ammonia 
ou de potassa , obtem-se bellos e grandes octafaedros, 
com todas as variedades deformas que o sulphate de 
aluminia e de potassa ou de ammonia nos dão : o oxydo 
de ferro rubro e a aluminia dào y combinados com o 
mesmo acido , saes da mesma forma; ambos se en- 
contrão puros e crystallisados na natureza , e a forma 
d*elles se assemelha a ponto que he impossível duvidar 
da sua identidade. 
M. Mitscherlich y depois de ler esta Memoria apre- 






das Artes , etc. i o§ 

^e contém potassa » como i : 6. Esta identidade de 

tSftmsL resulta de huma observação que eu (iz anterior- 

S&ente , e vem a ser , que o sulphate de potassa an- 

liydro tem a mesma forma crystallina que o sulpbate 

de ammonia , que contém duas proporções de agua*. 

A .forma crystallina d'estes treze saes triplos foi des- 

cripta por M. Haiiy debaixo da forma do sulphate de 

nickel , que sem duvida era hum sal triplo com base 

de nickel e de potassa. » 

Reflectindo sobre a composição doestes saes triplos, 
assim como sobre as misturas crystallisadas dos sete 
sulphates huns com os outros, advertiremos no sin-' 
guiar resultado y que os saes que tem a mesma forma 
se combinão, ou para melhor dizer, crystallisãojuii* 
lamente, em quaesquer proporções, como estes sete 
sulphates , e como os carbonates dos mesmos oxydos ; 
mas que , se a forma dos saes que se combinão he dif- 
ferente , como a do sulphate de potassa e de ammo* 
nia, a sua crystallisaçào differe da d* estes sete sul- 
phates ', nesse caso , ha proporções fixas. Este resultado 
acclarará a composição de vários mineraes, em que a 
crystallographia parecia estar em coatradicção com a 
analyse chymica , por exemplo, nos granates , nos am« 
phiboles y pyro^enes , e tantos outros nos quaes algu- 
mas das mencionadas bases enti*ào em proporções tão 
variáveis , e muitas vezes apparentemente contrarias 
jís leis chymicas. 

Em (im , do raciocinio seguido pelo autor resulta 
que y quando saes formados pelo mesmo ácido tem a 



113 Noticias das Sciencias ^ 

MM. Gay-Lussac e Welter. M. A. B. W. Herschell 
annimcia ter descoberto bum novo acido de enxofre , 
ao qual dá o nome de acido hypo-sidp/mroso , mas 
parece que ainda não conseguio obtê-lo livre. Poi* isso 
só o caracterisa pelas combinações que forma com as 
bases salinaveis ; todas sào solúveis ; o calor e todos 
os ácidos as decompõem , excepto o carbónico. As 
suas dissoluções precipitão o chumbo da sua disso- 
lução em hum pó branco, que he hum hypo-sul- 
phate de chumbo ; o oxy-nitrate de prata e o nitrate de 
mercúrio, deitados em excesso na solução diluida de 
hum hypo-sulpliite precipitão o metal em estado de 
sulphureto. Â propriedade a mais singular que oflerece 
este acido , he de dividir o muriate de prata em dis- 
solução, precipitando parte d'elle e conser\'ando 
huma quantidade considerável em solução constante. 
Finalmente , tem huma tendência particular a formar 
saes duplos com o oxydo de prata e huma base 
variável , como com a soda , a ammonia , a cal , a 
strontiana e o chumbo. 

M. Murray publicou hum extenso trabalho sobre a 
acido muriatico, no tomo XIII pag. 2G dos Annals of 
PJiilosophj, Persi -te na sua opinião , que existe agua 
neste giz , o que inclina M. Murray a crer que o cliloitt 
he realmente hum composto de acido muriatico e de 
oxygeneo , segundo a antiga opinião. Comtudo , diz 
este chymico,de haver agua no acido muriatico não 
se segue necessariamente que ella exista nelle já for- 
mada , sendo possivcl conceber à priori que os seus 



das AfteSj etc. ii3 

elementos se achem em composição simultânea com o 
acido ou com o seu radical , e nesse caso seria o acido 
hum composto ternário de hum radical com oxygeneo 
e hydrogeneo y cuja decomposição produziria a agua; 
opinião que condiz com a theoria geral do mesmo 
chymico á cerca dos ácidos. Segundo esta theoria ad- 
mitte que o gaz acido muriatico he o acido real, 
composto ternário de hum radical ^ até agora desco- 
nhecido , com oxygeneo e hydrogeneo. Posto em con- 
tacto com huma basealcaUna, decompôe-se ; o oxy- 
geneo e huma parte do hydrogeneo combinào-se par^ 
formar agua, e o radical com o resto de oxygeneo 
forma hum acido composto neutro. O acido muriatico 
oxygenado he igualmente considerado por M* Murray 
como hum composto de hum radical desconhecido^ 
que se pode chamar muriouy com oxygeneo; e este 
acido muriatico oxygenado , com a addição de huma 
porção de hydrogeneo forma o acido muriatico ; o que 
segundo este chymico explica a anomalia na theoria 
de Lavoisier, na qual o acido muriatico oxygenado, 
a pezar de conter mais oxygeneo , he comtudo menos 
acido que o muriatico simples. 

M. Berzelius confirmou as experiências de M . Dulong 
e as suas próprias , sobre a composição do acido phos*- 
phorico e do acido phosphoroso» em opposiçáo ao resul- 
tado obtido por M« H. Davy j o qual tinha procurado 
estabelecer^como dissemos no Resumo do adno passado, 
que o acido phosphorico estava para o acido phos- 
phoroso na razão de 4 para a. M. Berzelius mostra quo 
Tom, X. P. aa. 8 B 



114 ^ ctícias ãáts Sciencias , 

as expcnencias de M. Davj não são concludentes ,e 
raião do melhodo de que este se sérvio para deU 
minar o peso do átomo do phosphoro , e das diil 
renças entre dirersas experiências , sendo alias coi 
quasi incrivel que M. Dulon^ cahisse exacta menle 
mesmo erro que M. Berzelius ; e Gnalmente rejeita 
condnsòes de M. Davr, por ter descoberto huma 1 
que liga as combinações de huma certa dasse de a< 
dos, que tem em commom , que o ozjgeneo do aci 
terminado em oso esti para o do terminado em ico 
iaeo na raiÍM> de 3 para 5 ; he precisamente o q 
acontece ao pWisphoro , como ao arsénico e ao azot 
considerado este como substancia elementar. 

O azotet que M. Gimbemat aebou primeiro nas age 

mineraes de Aix-la-Cbapelle, está em combinação i 

unm , e não em estado de combiDãçào chjmica. Ks\ 

foi sempre « opinião de M. Gimbemat, confirmad 

depois por MM. PbA e Vogel. 

Ko tomo Xiii dos anuais of Philosopl^ fez ver ! 
Fox que a platina forma liga com o estanho e o a 
timonio , fazendo-se a combinação com vehemencia 
com grande emissão de calor c de luz. Com o zin( 
ha inflammação , combustão viva , e o zinco he co 
vertido em oxydo branco. 

M. Marshall fez hum grande numero de experíei 
cias sobre a oxjrdação do ferro por meio da agua, da 
qates cooclue que a presença do aratmosp/ierico o 



das Artes , etc. ^i 5 

do gaz oxygeneo he necessário para esta ozydaçào se 
realisar. 

M. Thomson determiaou por eiçperíeixcias direclas 
que os pós de M. TeQoant para, bran^jcear ^ qa/e se. 
fazem passando o chlore ( ou aci4o, muriatico oxyge* 
nado ) pelo hydrate de cal ^ cc^n^tsio dç liuma certa 
quantidade de cal hydr atada livre , e » como se julgava f 
de hum verdadeiro chloratede cal, e não d^ calcium* 
Igualmente achou que a barytes i a atrantiaua^ a potassa 
e a soda podiào combinar^se com o chlore , e oJ>ter-se 
pela dupla decomposição do ohlorate de cai* 

M. Bichard Phillipps examinou de novo a composi^ 
cão do carbonate de ammonia e do de soda. O prí-^ 
Dieiro obtido pela decomposição do carbonate de cal 
e do muriate de ammonia , he hum sub-carbonate , 
que julga ser composto de 54,5 de acido carbónico , 
de 99,3 de ammonia e de i6,5 de agua. Quando se 
expõe este sal á acção do are se torna inodoro ^ e% 
não tem acção sobre o papel tinto de curcuma % istq 
provam de conter huma maior proporção de agua > 9 
com efieito encerra u3 partes d'eUa ^obre 55, 80 df 
acido carbónico, e at, iG de ammonia. 

O mesmo autor examinou o bi-carbonate de toda 
obtido pelo processo de BerthoUet^ e achou que he 
hum sesqui-carbonate , análogo ao de Africa que Mk 
Thomson analysou ; isto he hum composto de hum 
Carbonate e de hum bi-carbonate. Por analyse achou 
ser hum composto de 4o p<«rtes de acido carbónico , 
ag,3'i de soda e ao,i^ de agua* 

8 ♦ 



ii6 Noticias das Sciencias , 

Na mesma MeAioría de que já fatiámos em hnin 
>dos tomos antecedentes y em que M. Donavan não 
admitte mais que dois oxydos de mercúrio , o preto 
e o rubro y o primeiro composto, sobre loo partes , de 
96,04 de metal e de 3,96 de oxjgeneo , e o segundo 
de 7,!25 de oxygeneo e 9^2,75 de metal, nào admitte, 
em quanto aos ácidos nítrico e sulphurico , senão com- 
binações reaes e sub-saes , e reputa meras misturas 
todas as outras variedades. Examinando o estado em 
que se acha o mercúrio no unguento mercurial , reco- 
nheceo que em parte estava em estado de oxydo pardo ; 
e tendo suspeitado que be só este que faz eífeito no 
uso medecinal do unguento, propoz substituiMbe huma 
combinação de gordura e d*este oxydo , o que pai*ece 
tem produzido pleno eífeito, e com muita vantajem , 
em vários casos em que se fez uso d*este novo un- 
guento* 

M. Thomson notou que o protoxydo de chumbo hc 
mais volátil do que suppunha -, e descobrio igualmente 
liuma nova combinação d'este metal com o acido acé- 
tico. Este sal be bi^apco , translúcido e inalterável ao 
arjcrystallisa em prismas comprimidos , rhomboidaes , 
terminados por summidades diedras. A sua gravidade 
especifica he de 2,275. Considera-o composto de a^^^oo 
de acido acético , de 59,00 de protoxydo de chumbo , 
e de 19,1 5 de agua. 

M. Cooper, no tomo XIII pag. 298 dos Ann, ofPlUL 
descreve buma nova espécie de per-sulphate de ferro, 
composta , sobre 38o grãos de per-oxydo, de lao de 



das Artes, etc. '%vj 

eido sulpliurico e de 100 de agua ; crystallisà em 
"íHÉKStahedros , e obtem-se tratando o per-oxydo de fen*o 
centemente precipitado do acido nítrico pela ammo- 
ia, por hum excesso considerável de acido sulphu«* 
^jtico , e fazendo evaporar até ao secco. M. Sylvestre 
j^clama a prioridade d^^este descobrimento cufa exis- 
l^ftencia M. Thomson parece ter antevisto quando tratou 
bT^o seu per-quadri-sulphate de ferro. M. Cooper falia 
m de outra combinação de acido sulphurico e de ferro, 
dr que contém ainda mais acido , e que se obtém deitando 
V no' liquido do qual foi precipitado o per-snlpbate , 
■* acido sulphurico; pela evaporação obtem-se bum sal 
" que crystallisà em palhetas como de madre pérola. 

Mi\f . Colin e Talllefer, no tomo XII pag. 62, dos novos 
Annales de Chimie » (izerào ver que o deuto-carbonate 
de cobre , que se torna escuro depois de ter fervido 
por algum tempo na agua a mais pura, se eonverte 
«ssim em hum deuto-carbonate anhydro» isto he que 
só perde a sua agua de ci7StaUisação y e que não dif- 
fere do verde senão por conter menos agua que o 
verdeje este menos que o azul. Continuando a& suas 
investigações sobre os saes de cobre , acharão que existe, 
hum proto-carbonate y cuja côr se assemelha á do 
protoxydo,e que o proto-chlorureto de cobre he branco 
e transparente , quando da sua dissolução se separou 
bem o deutoxydo. A côr escura do chlorureto denota 
huma falta de agua j e basta hum pouco doeste liquldiv 
para fazer passar as suas dissoluções do pardo ao verd^^ 
e&meralda. 



•* 
^ 



ii5 Noticias dás Sciencias j, 

CiiYMicJk Vegetal» • 

Temos , nos tomos antecedentes dos Annaes dado 
ampla noticia dos novos alcalis vegetaes descobertos 
por MM. Pelletier e Caventou^que proseguem a sua 
.interessante investigação sobre as substancias vegetaes 
que tem huma acção enérgica na economia animal. 
Mais adiante fallaremos de outi^o alcali descoberto por 
elles. Também já faltámos do alcali achado por MM. 
Lassaigne e FeneuUe no Delphiniwnstaph'sagria,a. que 
derào o nome de Delphina, Também já falíamos do 
Acido Igasurico descoberto por MM. Pelletier e Caven- 
tou ; da analyse que M. Weber deo do fructo da ar^ 
vore da cera; da transformação em gomma e em assucar 
de varias substancias vegetaes ; e do acido descoberto 
por M. Faraday formado na combustão do ether, na 
lâmpada aphiogistíca , a que deo o mal escolhido nome 
de Acido íampico. Vejào-se as noticias recentes dos 
tomos Vil , VIU e IX dos Annaes. 

SegiiVido ô pròlfessor Doberçfher, o anil, que elle 
considera como composto dos mesmos principios quo 
o carvão animal , forma com o hydrogeneo hum acido 
sem côr, sohivcl em agua , a que chfimou Acido Isa-' 
tinico ye\)or conseguinte á sua comlânaçào com a cal 
isalanate, Nestn hypothese dá huma explicação diffe- 
rente da que he grralmenle adftiiltiJa da descoloração 
spontnnea de hnitia cuva tie anil;e explicai obser- 
vação de M. Holt, que misturando-se limalha de ferro 
ou de zinco em li um a dissolução de anil no acido 



- das jírteSy etc* tig 

•ulphurico, perde esta a cor; e attribue eàte eQeito 
ft ao hydrogeneo que estes metaes separào da agua» 



M. Bainbridge acbou que as batatas contém huma 
grande quantidade de acido tartarico , com hum pouco 
de acido malico. 

M. Dumont mostrou por experiências que fhictos 
xnettidos em huma atmosphera de acido carbónico 
dão huma grande quantidade de alcohol. Quatro libras 
e doze onças de peras derào em dez semanas huma 
matéria fluida , a qual distillada produzio quatro otíças 
de alcohol a i3<>. 

MM. Pelletier e Caventou (izerão em 1819 hum im<» 
portante trabalho sobre a familia das colchiceas, para 
descobrir os seus principios activos , mas que só mui 
recentemente appareceo nos Annaes de Cbymica. Exa- 
minarão particularmente a cevadilha (veratrum soba- 
dilla ) , o helleboro branco ( veratrani album ) , é o 
Colchico commum ( colchicum autwnnale ), plantas 
cujo uso he bem conhecido entre os médicos , e das 
quaes a ultima tem sido mui preconisada por E. Home 
contra a gotta. Nesta analyse seguirão com pouca dif- 
ferença e mesma marcha que tinhào adoptado bo es-- 
tudo das outras substancias vegetaes que d*antes tinhào 
examinado. 

Acharão na cevadilha hum novo acido que deno- 
minarão ce»^ad!tco, que tem muita analogia com o bw 
tjrico e ^ipAimco y descobertos por M. Chevreul na 
manteiga» e na gordura do delplúnus globiceps ^ poréuà 



110 Noticias das Sciendas , 

o resultado o mais curioso doesta iavèstigaçâo foi o 
terem descoberto nestas três plantas huma nova sub- 
stancia alcalina a que chamái^ão veratrina, cujos ca- 
racteres são os seguintes. 

A veratrina he branca e pulverulenta; não tem 
cheiro , mas posta em contacto com as membranas 
do nariz provoca espirros violentos a ponto de pode- 
rem ser perigosos : huma quantidade quasi imponde- 
ravel pode produzir este efieito. O sabor da veratrina 
he extremamente acre , mas sem a menor mistura de 
amargo ; em doses mui ténues excita horriveis vómitos , 
pela irritação que causa nas membranas muscosas : 
quando a dose he hum tanto mais forte este eífeito 
se propaga aos intestinos ; e as experiências feitas so- 
bre animaes mostrào que poucos grãos bastão para 
causar a morte. 

A veratrina he mui pouco solúvel em agua fria , e 
neste respeito pode comparar-se á morpliina e á strych- 
nina. A agua a ferver dissolve ãoõõ do seu peso e ad- 
quire huma acrimonia sensivel. He extremamente 
solúvel no alcohol ; o ether também a dissolve , porém 
em menor quantidade. 

Exposta á acção do calor , derrete-se coin muita 
facilidade; basta para isso huma temperatura de + 5oo ; 
neste estado parece cera , e esfriando toma huma côr 
de âmbar e translúcida. Distillada a fogo descoberto , 
incha y decompõe-se, produz agua, muito óleo, etc. e 
deixa hum carvão volumoso , o qual , incinerado deixa 



dns Artes etc. lai 

hum resíduo apenas sensivel e ligeiramente alcalino , 
mas que não he a causa da propriedade alcalina 
da veratrina. Tratada ao fogo com o deutoxydo de 
cobre , não dá a veratrina signal algum de aa^ote ; he 

pois hum composto de hydrogeneo » de carbone e de 

« • 

oxygeneo, como a strychnina. 

A veratrina restitue a cor azul ás cores vegetaes 
avermelhadas por hum acido, e satura os mesmos 
ácidos, formando com elles saes incrystallisaveis. Pela 
evaporação estes saes tomão a apparencia de gomma 
ou de malate acido de cal. Só o sulphate apresenta 
rudimentos de crystaes , quando tem excesso de acido. 
Porém se be fácil verificar a propriedade que a veratrina 
tem de neutralisar perfeitamente os ácidos , he diíEcil 
obter as suas combinações, porque logo que se lhes 
mistura huma pequena quantidade de agua, para se- 
parar o sal da veratrina insolúvel que pode achar-se 
em excesso, logo o liquido dá indicies de acidez. Esta 
propriedade, junta á impossibilidade de fazer crystal- 
lisar estes saes , toma o seu estudo ingrato e quasi 
impossivel ; e por isso se limitarão os autores á analyse 
do sulphate e do muriate. O iode e o clilore compor- 
tào-se com a veratrina como com os alcalis vegetaes já 
conhecidos ; resultào destas combinações saes incrystal- 
lisaveis. O acido nitrico combina-se com a veratrina, 
mas he preciso empregá-lo com cuidado , pois de outra 
maneira altera promptamente a substancia vegetal. Não 
se nota neste caso a còr vermelha que se manifesta 
•operando sobre a morphina , a strychnina e a brucina. 



laa Noticias das Scieneias 

A veratrína mão parece sasceptivel de se oxydar come 
estas Ires substancias , porém altera-se nos seus ele- 
mentos, dá kuma matéria amarella , detonante , aná- 
loga ao amargo de JVekcr. 

A veratrína he insolúvel nos alcalis e dissolve- se 
em todos os acides vegetaes. 

Se compararmos, dizem os autores da Memoriada 
veratrína aos outros alcalis vegetaes já conhecidos , 
veremos que , independentemente da sua acção sobre 
a economia animal , diOere especialmente da mor- 
phina j da strychniua e da brucina , pela impossibili- 
dade de dar saes crystallisaveis , nem ainda saes 
neutros y excepto pela addiçào de hum grande excesso 
de base , da qual , nesse caso , huma parte está só 
misturada ^ nisto parece ter analogia com a pícro- 
toxina , a gnai lambem, não se tinge de vermelho pelo 
acido nítrico y e cujos saes são sempre ácidos. 

A classe das substancias vegetaes alcalinas > que 
em 181G não comprebendia senão duas espécies , a 
morphtna e o alcali do daphne , enríqueceo-se succes- 
sivamente da slrychnina, da picrotoxina, da brucina 
c da veratrína. Hemaiçque provável que outras sub* 
slancias da mesma natureza se descubrão ainda com 
o tempo, e talvez seja ainda maior o nudaeix) dos 
alcalis que o dos ácidos vegetaes. Muitas doestas sub- 
stancias tem até agora escapado ás investigações dos 
cbymicos> em razão da solubilidade d'elias , que se 
oppõç á sua purificação, e á separação da matería colo- 



das Artes , etc. il3 

rante. Por isso , quando se tratào os extractos de hjos- 
ciamo y de aconito , de rhus radicans , etc- pela ma- 
gnesia , obtém- se liquidou mui alcalinos , e que exigem 
pai^a serem saturados muito mais acido do que as 
cinzas dos mesmos extractos. 

He também mui provável que as forças que > du- 
i*ante o processo da vegetação , dão origem a substan- 
cias acid;)S y produzem ainda maior numero de alcalis, 
de sorte que a producçào de huma molécula alcalina 
he huma consequência da producçào de varias molé- 
culas acidas , visto que as substancias alcalinas vege- 
taes se achão sempi^e na natureza no estado de super- 
sal, ou sal com excesso de acido. Esta ideia iiypotlietica 
concorda mui bem com o systema das forças eléctricas, 
que parecem ter tantia influencia na composição 
chymica. 

Na raiz , do colchico acharão grande quantidade de 
inulina misturada com amido. À este respeito obsér- 
vào que he mui difiicil separar a inulina , e propõem 
para o conseguir o meio seguinte. Deite-se infusão de 
galhas no cozimento amiláceo , e logo se manifestará 
hum precipitado sénsivel ; ^as exposto o licor a hum 
calor graduado, o precipitado desapparecerá peito de 
5oo cent. , como o notou M. Thomson , se o amido for 
puro ; mas , se houver inulina , o precipitado não des- 
ai)parecerá senão perto do ponto de ebuUição. 

MM. Pelfótier e Gavèrítou também descobrirão ita 
raiz da beUadoná huma substancia pulverulenta » so- 



I x4 Solidais àas Scieneias , 

lavei DOS aâdos , e que tem moita analogia com 9 
veratrina , pelas suas propriedades chjmicas ; comtudo 
nem he acre nem amai^osa. 

M. Brande parece ter igualmente descoberto esta 
CO*, a substancia na belladona , na qual diz ter achado 
bom alcali^que denominou Atropiwn^e que diz achai^e 
em estado de super-malate. Segundo M-Brande,oatropio 
iònsa parte da substancia á qual M. Vauquelin tinha 
attnbiiido a propriedade lethargica da planta , e M. 
Brande chama esta matéria pseudotodaxia. Cré que ao 
a!rof*ij he derida a qualidade narcótica da planta , 
«2>io qoe a mais tcnne porção d'elle basta para causar 
a diaiaçfto da popilla, e nas i^essoas de constituição 
irr^tatd . o vapor dos saes de atropio , durante a ebul- 
Lç^ú da sua liúna » pode produzir o mesmo elleito. 
O Atropco neatralisa maior quantidade dos ácidos que 
A> mã^ ãlcALs vegetaes: eipondo-o ao hum fogo i*ubro 
cMn a potassa não se forma acido hydrocjanico ( prus- 
ssco , mas oblem-se pda ebuUiçào da af^a hum li- 
quido qne depõe bum addo ,0 qual avermelha os saes 
de ferro. 

CoTincA AsiMAI.. 

M. Vauquelin tinha recusado admittir os dois des- 
cobrimentos do acido erythico de M. Brugnatelli e 
do ad«1o purpurico do D**. Pk*out , de que falíamos no 
Tc«i. ^ I dos Annaes, Parte a*, pag. 184. O D^ Prout 
xcpbcon a M. Vauqudin no tomo XIY pag. 363 dos 
jttOL iffPhil. , e de novo ai&rma ter verificado a exis- 



d€is Artes , etc* laS 

tencia do acido purpurico que elle descobrío tratando 
o acido lírico pelo nitrico ; attribue a falta de successo 
das experiências de M. Vauquelin a ter este empregado 
hum acido úrico impuro, quando o D^". Prout usou de 
que he extraliido do excremento das serpentes , que. 
elle diz ser perfeitamente puro. E com eíTeito vé-se ^ ♦ 
pela analyse que o D^. Davy deo da ourina dos reptis 
de escamas , que este fluido he quasi inteiramente com- 
posto de acido úrico, pelo menos nos Saunos e nos 
Opbydios. 

M. Braconnot publicou a analyse que fez do fígado 
de boi; d'ella se vé que sobre loo partes do que elle 
chama parenchyma,, que he para o tecido vascular e 
membranoso como 8i,o6 : io,o4 ' achou 68,64 de agua , 
20,19 de albumina secca, 3,89 de óleo phosphored 
solúvel no alcohol e semelhante ao do cérebro , o,o4 
de muriate de potassa e phosphate ferruginoso de 
cal, de 0,1 de hum sal acido, insolúvel no alcohol , 
formado de hum acido combustivel com a potassa , 
e finalmente de hum pouco de sangue. 

M. Lassaigne, applicando ao kermes vegetal os pro- 
cessos empregados por MM. Pelletier e Caventou na 
analyse da cochonilha , convenceo-se que aquella subr 
stancia tem , pela sua composição chymica , a maior 
analogia com esta ; o que era facil de prever , vista a 
mui leve differença que existe entre os animaes dos 
dois géneros. 

O mesmo chymico examinou as concreções que se 



]i6 Noticias das SciendaSj 

encontrão no fluido contido na allantoide do feto da,' 
-vacca, e acbou que con&táo de muco, de huma |>e-. 
quena quantidade de albumina e de muriate de soda, 
e que contém 27 por cento de oxylate de cal , sal que 
até agora se não tinha «encontrado nos animaes, excepto. 
Qos cálculos urinários do homem e de alguns animaes^ 
de sorte que estas concreções parecerílo ser espécies 
de cálculos; o que confirma a ideia de M^Blainville 
que ha muitos annos considera o allantoide como hum. 
simples appendix da bexiga urinaria* 

Hum facto não menos curioso , e que [á annunciá- 
mos 9 he ter M. Chevreul descoberto no fructo do 
Vtburnwn opulus hum acido livre , inteiramente seme- 
lhante ao acido delplúnico^ que o mesmo chjmicoj 
tinha d^antes descoberto na gordura dos delphins. 

M. Lnssaigne achou que a ourina dos porcos contém; 
ur^a^ muriates de ammonia , de potassa , de soda, sul- 
phate de potassa , hum pouco de sulphate de soda, e 
finalmente vestígios de sulphate e de carbonate de cal. 

M. Thoinson,no tomo XIV png. 10 dos Ann, ofPhiL^ 
analysou o picromel, obtido da bilis de boi pelo pro- 
cesso de M. Berzelius , e achou que era composto 
de 0,53 1 de carbone , 0,022 de hydrogeneo , e 0,447 ^^ 
oxygeneo , de sorte que só difiere da gomma em ter 
menos hydrogeneo. 

]V1. Porrett tem continuado a occupar-se dos prus- 
siates , e depois de ter rectificado as suas primeiras 
opiniões , cré agora que o acido dos prussiates triplos , 



das jirLcs , ele. itin 

que elle chama Acido chyazico ferruretado , e que se 
obtém do prussiate triplo de potassa tratado pelo acido 
tartarico , empregando por vehicDio o alcohol em vez 
de agua^he positivamente formado , segundo a ana** 
lyse que elle fez do ferro - çhyazate de potassa , dç 
quatro átomos de carbone, de hum átomo de ferro 
no estado mets^Uico , e de hum átomo de hydrogeneo ; 
estes saes são também formados de hum átomo de 
base e de dois de agua. 

A pezar doesta mudança nos primeiros resultados 
obtidos por M. Porrett, he impossivel considerá-los 
ainda como Certos , pelo menos se attendermos a hum 
artigo he M. Robiquet inserido no tomo XII pag. 877 
dos Annales de C/Umie^ de que já falíamos no Tomo 
VIII Parte 2^. pag. i35 dos nossos Annaes. 

Também já no Tomo VII' Parte a», dêmos noticia do 
trabalho de M . Prout sobre o acido caseico e o oxydo 
caseoso , que elle descobrio no queijo, e que lhe com- 
municào o seu gosto particular* 

Artes e Processas Cl^micos. 

Já falíamos no aperfeiçoamento importante e facil 
que M. Berzelius introduzio na construcçào do maça- 
rico formado de mistura detonante, mettendo no 
tubo de communicaçào com o reservatorío hum sys- 
tema de volantes ou tecidos finos metallicos. Doesta 
maneira pode produzir-se huma grande intensidade de 
calor y sem receio de accidentes. 



ia8 Noticias dãs Sciencias j 

M. Gay-Lussac imaginou hum meio de produiir 
li um frio artificial qúasi ao infinito ; be fundado sobre 
a observação que a temperatura de hum corpo diminue. 
ou augmenta com o seu volume. Comprimindo-se pois 
o ar, ou ainda melhor hum gazque tenha maior ca- 
pacidade para o calórico 9 e deixando-se escapar subi- 
tamente em forma de huma corrente , por meio de 
hum tubo y e projectado sobre huma pequena porção 
de matéria , he certo que a expansão do gax produ- 
zirá hum grão de frio illimitado; e d'aqui deduz M. 
Gay-Lussac que o zero absoluto he chimerico. Parece 
que M. Marshall Hall tinha já proposto hum processo 
semelhante ha mais tempo. 

M. Berzelius deo como meio certo de reconhecer 
a presença do lithium em huma pedra , aquecer huma 
pequena porção d'eliâ ao maçarico , com bum pequeno 
excesso de sodA em cima de hum pedaço de platina \ 
a extensão e a intensidade da côr escura que se ma- 
nifestará sobre a placa metaUlca fará julgar da quan- 
tidade do litlúum. 

Não repetiremos o que já dissepios , tomo VIU parte 
a*, pag. i33 dos nossos Annaes sobre o processo de M. 
Longcbarap para obter a magnesia pura. M. Phillipps, 
com o mesmo fim de separar a magnesia da cal , 
propõe ajuntar á solução nilrica ou muriatica d' estas 
terras , sulphate de ammonia , tratando pelo calor ate' 
que o muriate ou nitrate de ammonia que se forma 
seja volalilisado ; depois pesa , reduz a pó , satura 
como sulpbate de cal, até que o de magnesia esteja 



das Artes , etc* lag 

inteiramente dissolvido, seccar o sulpliate de cal 
precipitado , e deduzindo o seu peso do da mistura ^ 
conhecer-se^ba a quantidade do sulphate de.magnesiai 

M. Guibourt , no Joutnàl dé Pharmacie , tomo V, 
pag. 58y mostrou que (|uaiido se prepara o sub-car- 
bonate de polassa, deitando pouco a pouco huma 
mistura de duas partes de Cremor de taklaro e dei 
de nitro em hum cadinho em braza', e depois exposto 
a hum calor mais violento, se obtém com este sal 
muito cyanureto de potassia; e que, pelo contrario 
se obtém o sal puro, deitando esta mesma mistura em 
huma caldeira cujo fundo esteja apenas rubro, como 
o ensina M. Thenard , è lixiviando o producto da de-** 
flagraçào im mediata mente depois de ter esfriado. 

M. Berthier , no Journal des Mines tomo III > pag» 
555 , fez ver que, para separar o sulphureto de anti-^ 
tnonio, particularmente quando a mina hé pobre ^ he 
preferivel a lavagem á fusão , porque por este se^ 
gundo methodo ha sempre huma perda de hutn 
quinto* 

Deve-se a M. BouiUon Lagrange hum novo processo 
para preparar o ether nitrico ; consiste em metter 
aparas de cobre em hum frasco munido de hum tubo 
em Cárma de S , para ir deitando dentro d^elle pouco 
a pouco acido nitrico , e de outro tubo pai*a conduíii' 
o gaz nitroso a huma mistura de partes iguaes de 
acido nitrico a 36o ^ e de alcohol a 4o^» contida cm 
hum matrás. A este frasco está junto hum apparelb# 



}3o Soticiiàs da$ Sciencias , 

de Woulf « oqo» Inscos eitão nieio& cheios de a^oa 
satnradA de maríate de soda, e mettido em huma 
mistur» refirigeranie. Por este processo obtem-se , de 8 
oDças de alcohol e de acido , perto de 3 onças de ether 
perftítanenie poio. 

Contra a asserção de M. Braconnot, que tinha an- 
nuDciado em buma Memoria sobre o acido galhico , 
Dão ter podido obter hum só átomo d*este acido pelo 
processo de M. Barmel, isto he, precipitando huma 
dissoliição de nozes de galha por hum excesso de 
dará de ovo , e\aporando ao secco e tratando a massa 
pelo alcohol , M. Gaulhier de Qaobry verificou que 
este processo pode , não só ser empregado com pro* 
veitOf mas qne dá hum acido mais puro. Comtudo 
confessa que o methodo de M. Braconnot he mais 
simples^ 

M. Cb. JobosoBf teado feito a observação que o 
acido sdh&co decompõe o nitrale ammoniacal de prata, 
oa huma soluto de oxydo ou de muriate de prata 
na ammonia , formando hum precipitado mui abun- 
dante mas pouco persistente , pensa que por este meio 
he possivd descobrir huma mui ténue porção de 
prata e de adJo galhico. 

M. Thomson publicou no tomo XIV pag. i^a dos 
jimn, of PhiL hum processo para obter em crystaes o 
acolate de ammonia , e provavelmente outros saes 
iguahnente difHceis de se conseguirem pela maneíi^ 
ordiuaiia. Consiste em deitar sobre huma certa quan- 



das Artes ^ etc. i3i 

tidade de acido acetioo mui foi te , mettido em hum 
graiule vaso cjrlindrico de vidro, carbonate de ammo- 
Dia em pó , até perfeita saturação ; toma-se depois esta 
solução concentrada de ammonia em agua, pôe-se sobre 
hum disco evaporatorío de Wedgewood , cobrindo-a 
com huma capsula em que se faa o vácuo , e na qual 
se mette bum vaso com acido sulpburico concentrado; 
dentro de dois ou três dias, obter-se-ha acetate de 
ammonia crystallisado em agulhas compridas. 

 fabricação das pedras artificiaes imitando as pe-* 
dras preciosas naturaes > be hum artigo não pouco im- 
portante do commercio da França , e por essa razão 
propoz a Sociedade Promotora da Industria hum 
premio pára a composição das pedras artificiaes , de 
maneira que não fosse preciso tirá-las de ÂUemanha 
onde até ha pouco erão quasi exclusivamente fabri- 
cadas. M. Douault-Wieland ganhou o premio , e M • 
Lançou lho disputou. Eis-aqui hum extracto dos pro- 
cessos de ambos estes fabricantes que forão reconhe- 
cidos superiores pelos Commissarios nomeados peU 
ditta Sociedade. 

A base de todas as pedras artificiaes he o 5íra^5, que 
se pode chamar fundente quando se une aos oxydos 
metallicos ( cães metallicas ) para formar as pedras 
coloridas. Trabalhado de per si , serve a imitar os bri- 
lhantes e os diamantes rosas. 

O slrass he hum composto de silicia ,potassa , bórax , 
oxydo de chumbo , e algumas vezes de arsénico* 

9* 



t3ii Noticias das Sciencias ^ 

A silicia pode tirar-se i^. do crystal de rocha, a«. da 
areia , 3o. do silex ( pederneira ). O crystal de rocha dá 
hum vidro mais branco; o silex contém sempre hum 
pouco de ferro que tinge o vidro de amarello ; a areia 
que se escolhe a mais pura e translúcida precisa ser 
lavada em acido muriatico , e depois em agua antes 
de se fazer uso d*ella. Para pulverisar e joeirar o crystal 
de rocha, assim como a pederneira, he preciso pi imeiro 
aquecer os fragmentos de ambos até estarem em braza , 
depois deitá-los em agua fria para os fazer estalar , e 
então se pulverísào e joeirão. 

A. potassa não deve ter mistura de outros saes , 
deve escolher-se a mais bella , ou a potassa cáustica 
purificada pelo alcohol. Os chymicos que tem feito 
investigações sobre a composição áo flint-glass tem 
reconhecido, que só com a potassa a mais pura se 
obtém vidro branquíssimo. Os crystaes os mais bellos 
de soda dão sempre slo vidro huma côr amarellada. 

O bórax do commercio , o de Hollanda por exem- 
plo , daria hum vidro escuro. Deve preferir-se o acido 
bórico crystallisado , extrahido do bórax de Toscana; 
lie branco , folhado, mui fusível, e he o melhor fun- 
dente. 

O oxydo de chumbo deve ser perfeitamente puro. 
Basta conter hum átomo de estanho para tornar o 
vidro baço e leitoso. O minio deve preferir se ao mais 
bello lithargyrio ( fezes de ouro ), e ate' á cerusa ( al- 
vaiade ) de Clichy , que dá hum bello vidro , mas não 
iz«nto de bolhas. He preciso analysar o minio antes 



das jártesy etc. iSS 

de o empregar , para ter certeza que não encerra ou- 
tro algum oxydo. 

O arsénico deve ser igualmente mui puro. M. Lançon 
não se serve de arsénico, e julga que não he neces- 
sário y pois elle fabrica bello strass sem. esta addição. 
Tem alem disso o arsénico o gi*ande mconveniente 
de incommodar os operários que trabalhão sobre mas- 
sas d*elle. 

A escolha dos cadinhos he mui importante. Os de 
Uesse são preferíveis aos de porcelana. Os que contém 
algum ferro tingem a matéria em amarello ou pardo.. 
Para fundir a matéria usa-se de hum forno de oleiro 
ou de porcellana, e os cadinhos (icão ao íbgo por espaça 
de ^4 horas. Quanto mais tranquilla e- prolongada for 
a fusão mais o strass será duro e bello* Se os cadinhos 
são da melhor qualidade pode preferír-se o- focno de 
porcelana , mas não sendo assim , basta o dos oleiros 
onde não se quebrão tantos cadinhos. O verdadeira 
seria ter hum forno feito de propósito , o qual he de 
forma cylindiica terminado em cúpula ; parece-se com- 
hum cortiço de abelhas , e tem de altura 7 pés, e 4 
de diâmetro. 

Eis-aqui 4 misturas que dão strass igualmente bello. 

o. I. 



Crystal de rocha ,. 


7 onças. 


» oitavas» 


a4 grãos 


Minio , 


>o 


7i 


» 


Potassa pura. 


3 


5i 


3o 


Bórax , 


» 


35 


114 


Arsénico, 


» 


9 


ia 



22 onças. I i oitavas. i8grãos« 



i34 



Noticias das Sciencias^ 



hxoiai , 


6onç. 


2 oiL 


» gr. 


Alvalade de CUchj, 


II 


Si 


18 


Potassa , 


a 


>i 


j» 


Borai j 


» 


5 


« 


Arsénico , 


» 


» 


12 




20 onças. 


6 oitavas. 


3o grãos. 




Ko. 3. 






Cryslal de rocha t 


6onç. 


»oit. 


» gr. 


Minio , 


9 


2 


» 


Potassa • 


3 


3 


V 


Bórax, 


» 


3 


3» 


Arsénico, 


9 


A» 


õ 




ip ottçss- 


» oitaFas. 


Cgi-ãos, 




Tí^ 4. 






Crystal de rocha , 


6onç. 


aoil. 


»gr. 


Alf aíade de Clichy , 


it 


5i 


18 


Potassa, 


2 


li 


n 


Bom, 


» 


5 


» 



ao onças. 6 oitavas. 18 gi*àos« 

O strass obtido pelo crystal de rocha he em geral 
mais duro que o em que entra a areia ou a pederneira , 
mas he demasiadamente branco, o que diminue a 
hcUeia da agua. O bello strass deve sempre ter buma 
Ii$eini c6r amarellada , a qual desappanece ao Japidar. 



das Aries j ete, i35 

M. Lançon faz bello strass nas proporções seguintes. 

Litharg3Tk> ( fezes de ouro ), i oo libras* 
Areia branca , 75 

Tártaro branco , ou potassa , i o. 

Topázio. 

Esta pedra artifícial he mui difficil de obter no com- 
mercio ^ porque he mui sujeita a aiterar-se na fusão , a 
ponto que M. Douault lhe chama camelão vítreo. Eis* 
aqui como elie a prepara. 

Strass mui branco , i onç. 6 oit. » gr. 
Vidro de antímonio , » » | «7 

Purpura de Cassius , » » i 



I onça« 6 1 oitavas. 8 grãos. 

Deve escol her-se o vidro de antimonio o mais trans- 
parente e de hum amarello alaranjado claro. As mu- 
danças que esta composição experimenta ao fogo , se- 
gundo os diversos grãos de temperatura , são mui dignas 
da attençào dos chymicos , e a theoria d*ellas he até aó 
presente ignorada. A matéria passa do amarello ao yer- 
melhoy e doesta cor ao branco \ toma a passar do branco 
ao vermelho ^e ao amarello , segundo se opera com 
òu sem o contacto do ar. 

Pode também com o ferro só obter-se hum bello 
topázio , empregando a mistura seguinte. 
Stress mui branco , 6 onç. » eit * 

Oxydo de ferro , vulgarmente açafrão 

de marte , » » i 



l35 Noticias das Sciencias , 

Rubi. 

He a mais rara e a mais cara das pedras artiíiciaes* 
M. Douault coDsegaio fabricá-la de huma ^ande bel^ 
leza , tomando a massa do topázio quando sabe opaca » 
e misturando-a com oito partes de strass mui branco, 
fundio-a em hum cadinho de Hesse^que ficou por trinta 
horas exposto ao íogo de hum forno de oleiro ; o 
resultado foi hum bello crystal amarellado semelhante 
ao strass , o qual fundido de novo ao maçarico deo 
o mais bello rubi oriental. Pode fazer-se hum rubi 
menos bello e de huma cor differeqte » empit^gsii^do 
os proporções seguntes : 

Strass mui branco , 5 onças. » oitavas. 

Oxydo de manganese , » i 

5 onçs^s. i oitava.. 
JSsmeralda. 

A compo^ção que imita melhor a esmeralda he ^ 
$eguinte : 

Strass mui branco , 8 onç. » oit » «r. 

Oxydo verde de cobre puro , » » i 6 

Oxydo de chrome , » » , a . 

8 onças. » 3 oitava. 8 gràos. 

Augmentando a proporção do chrome ou do oxydo 
dç cobre , e misturando-Ihe o^ydo de feiro , pode 
fazer-se variar a côr, e imitar a esmeralda escura ou 
peridotO' 



áas Artes j etê. i37 

Saphira. 

Para produzir huma cor de hum bello azul oriental , 
he preciso empregar strass mui branco e oxydo de 
cobalto mui puro. Deve metter-se a composição em 
hum cadinho de Hesse bem lutado e ficar trinta horas 
ao fogo. Se a fusão for bem conduzida, obter^se-ha hum 
vidro mui duro e sem bolhas y que admitte facilmente 
ser polido. Eis-aqui as proporções : 

Strass mui branco , 8 onças. » oit. » gr. 

Oxydo de cobalto , » » i Z^ 



8 onças. » \ oitava. 3^ grâos« 
Amethysta» 



Strass mui branco , 8 onç. » oit. » gr. 

Oxydo de manganese , » » | » 

Oxydo de cobalto , » » ^4 

Purpura de Gassius, » » i 



8 onças. » \ oitavas. 25 grãos. 

As proporções de M. Luçon são melhores. M. Douault 
emprega manganese em demasia. Eisaqui as de M. 
Luçon : 

Strass mui branco i libra. 

Oxydo de manganese , i5 a a4 grãos. 

Oxydo de cobalto , i grão. 

Aguas-Marinhas. 
São pedras pouco estimadas y ainda sendo naturaes. 



i3S Soiicias das ScieFmas^ 

Sko esmeraldas pallidas , mais azuladas que verdes, 

e que imiiâo a cor da agua do mar. Obtem-se mis- 

furando 

Strass mui branco , 6 onç. » grãos. 

Vidro de antimonio » » a4 

Oirdo de cobalto , » 



i4 



6 onças. a5 1 grãos. 

Granada de Sr ria. 

Esta pedra, qae os antigos chamaTãoeoriímcuío, tem 
kama côr viva qae agrada muito , e que he mui pro- 
curada para jóias pequenas. A granada artificial be 
buma espccie de mbi carregado de côr e que se fa- 
brica pela formula seguinte : 



Strass mui branco , » ooç. 


7 oit. 


8 gr. 


Vidro de antimonio , » 


3i 


4 


Purpura de Cassius , « 


1» 


a 


Oxvdo de manganese , > 


» 


^ 



I onça. ai oitavas. i6 grãos. 

Na fabricação das pedras artíficiaes , ba muitas pre- 
cauções a tomar y que só o habito doesta manipulação 
pode ensinar. Em geral be preciso pulverísar e até 
porphyrisar os ingredientes com muita attenção e joei- 
rar repetidas vezes, nunca servindo-se da mesma joeira 
para matérias diíTerentes. Devem só empregar-se sub- 
stancias mui puras e misturarem-se só no maior estado 
de tenuidade ; devem escolber^e os melhcNres cadinhos, 



das Artes , etc. iSg 

e fundir-se-hâo as matérias em fogo graduado e bem 
igual no máximo da temperatura ; as matérias ficarão 
ao fogo por espaço de a4 ou 3o horas , e os cadinhos 
não devem deixai^se arrefecer senão mui de vagar- 

M. Cadetde Gassicourt, que foi hum dos commis- 
sarios encarregados de examinar as Memorias que 
concorrerão para o premio j ajuntou as seguintes re* 
flexões. 

^ Se bem que M. Douault-Wieland achasse huma 
composição de strass superior á das Âllemães , e que 
imita perfeitamente as pedras naturaes de cores , não 
se deve crer que a arte de colorir o vidro por meio 
dos oxydos metallicos tenha ainda chegado á sua per- 
feição. Seria para desejar que hum chymico experi- 
' mentado se occupasse da theoria d*esta coloração. 
Desde que as terras vitrificáveis e os alcalis são reco- 
nhecidos serem oxydos metallicos; depois que se des- 
cobrio o potassium ^ o sodium , o silicium , o calcium ^ 
etc. devem considerar-se os vidros como ligas. Seria 
pois útil combiná-los no seu estado de pureza , com 
os outros oxydos , e submetté-los á vilrificaçào. Alem 
d'istOy ha ainda muitas substancias de que poderia 
fazer-se ensaio na fabricação do vidro ; taes são o bis- 
muth , o nickel , o tungstene, o tellurio, o molybdene , 
a platina, o urane, o titânio, a colombium, o palia- 
diiim y o rhodium , o iridium , o cerium , o barium c 
o strontium ; vários saes , como os fluates, os phos- 
phates solúveis e o vidro phosphorico. Já se empregou 



i4o Noêícíms das Scientias , 

com bom êxito o tangstate de cal para imitar a opala , 
e o cliromate de potassa para o chrysopraso artificial. 
He pois de esperar qae esta arte agradável faça ainda 
novos progressos. » 

O maçarico de Hare, de (pieiá temos fallado mais 
de huma vez , he, como se sabe, composto de duas cor- 
rentes , huma de gaz hjdrogeneo e outra de gaz oxyge- 
neo , as quaes só se misturão no momento da combus- 
rão. Elste maçarico continua a dar os resultados os mais 
satisfactorios , e he (M^eferivel ao de Brook ( que he o 
verdadeiro inventor , e não Newman ) , por não ter 
risco algum o uso d^elle, e apenas lhe he inferior em 
intensidade de temperatura. Com este instrumento 
tem M. Hare e M. Silliman fundido as substancias as 
mais refractárias ^ como a aluminia , a bar jtes , a stron- 
tiana, a glucina, a zirconia, a cal» a magnesia , o 
crrstal de rocha, etc. 3f. SíUinian reduzio com elle 
a vapor , a platina , o ouro , a prata e outros metaes , 
que oiferecêrào ao mesmo tempo o aspecto de huma 
brilhante e viva combustão. Parece-nos digno da at- 
tenção dos sábios tentar que eSeito teria sobre estes 
vapores metallicos a electricidade e o galvanismo. 

F. S. C 



das Artes , etc. 



i4i 



RESUMO 

Das Observações Meteorológicas feitas em Lisboa pelo 
Sul*. Marino Miguel Franzini. (i) 

N. B, As observações são feitas em Lisboa , no alto de 3. 
Fedro de Alcântara , elevado ZZl palmos ( ^3 metros ) sobre o 
uivei do Tejo , na Latit. de 38<). 4^'* 

As alturas do barómetro denotão pollegadas inglezas , e seus 
decimaes , e vio reduzidas á temperatura media de Lisboa , oa 
de 63^ do tbermometro de Fahrenheit. 

O tbermometro he observado ao ar livre, pelas 7^ da manhao, 
a^ da tarde , e 1 1^ da noite. 

O barómetro ás 9^ da manhan , 5^ da tarde , e 1 1^ da noite.) 

O hygrometro he de barba de baleia, marcando looo a hu- 
midade máxima ; observa-se ás 8^ da manhan , 5^ da tarde , e 
11^ da noite. 

O médio he deduzido da somma de todas as observações diárias. 

Os algarismos postos sobre as iniciaes dos ventos denotão y 

I Vento fresco. 3 Vento muito forte. V. Variável, 
a Vento forte. 4 Tempestade. B. Bonança^ 

Abreviaturas. 



Age. 
At. 

d. 


Aguaceiros 

Atmosphera 

Clara 


Nub. 
Sc. 


Nublado 

Quente 

Secca 


Chu. 


Chuva 


T. 


Tarde 


Chuvs. 
Fr 
Frsc. 
Gr. 

Humiti. 


Chuvisco 

Frio 

Fresca 

Granizo 

Humidade 


Tep. 

Tmpd. 

Tmpt. 

Tps. 

Trov. 


Tépido 

Temperado 

Temperatura 

Tempestade 

Trovoada 


Hm. 


Húmido 


Var. 


Variável 


M. 

li. 


Manhan . 
-Noite 


Vap. 
Vnt. 


Vaporoso 
Ventosa. 


líev. 

* 


Névoa 







(1)0 seguinte Re*umo , tendo-nos vindo á mão quando já a 
Correspondência d' este tomo se achava impressa , >ai fora do 
lugar que lhe tínhamos destinado na Segunda Parte dos Anoaes , 
pois não quizemos privar os nossos leitores da continuação àc 
tão útil serie de observações. Os Redactores. 



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Março de i8ao. 



143 



Numero de 
dias cm que 
ventou do 



N.-E. 

E. 
S.-E. 

S. 

s.-o. 
o. 



6 

4 
I 

1 



3 



l N.-0 5 i 



Bonança. 3 

Variáveis 5 

7 



Dias em (|ue 
ventou ri) o do 



N.3aN.E.3 de 3 a 
S.-O.2. . . a II 
S.-E.i . • a 2oe2i 



Numero dos dias ventosos .•.«..•• 8 



T9umero de 
dias 



claros i3 

id. altern. com nuvens. . . 6! 
nublados 2 



de chuva 

id. de aguaceiros e darSes . • 
de trovoada e chuva .... 
de nev. matutina , com o dia claro 



3 



21 



8 



Dias de frio notável i e 5, até 9 
Tmpt. med. das manbaná doestes dias 4^^ 
Dias de frio menos notável 2 a 4 9 e 9 a 12 
Temperatura media das tardes d'estes dias 

^ 11 • j- iTmpt. med. ás 7^ m. 
OsciUaçao diur- 1 ^ 2 t 

nadotherm. j ^; ^^ ^ 

ÍHumid. med. ás 8 ^ m. 
id. 3 t. 

id. 



46< 



II n. 



. • 49,'a 
. . 62. 
. . 5i, 8 


. . 68, 4 
. . 63, 3 

. . 67, 4 


. . 0,043 poL 
• • o^o36 



,. . . (Descida da manhan 

rd. do barom. ^ ^^^ensao da noite . . 

Pluvimetro. — Gida palmo quadrado de superfície recebeo 
2,89 canadas de agua da chuva na totalidade do mez. 







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Abril de i8ao. 



145 



numero da 
dia» em que 
veulou do 



N. 
N.E. 

E. 
S.E. 

S. 
S.-O. 

O. 



Bonança 
Variáveis 



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2» 

6-i 



•^ à 
'1 

41 



Dias cm que 
ventou rijo do' 

Numero dos dias ventosos 6 



N.>aN.-0.> de 5a 7 
N.-E.» . a iG, 17,19 



Numero de 
dias 



claros 4 

úL altern. com nuvens. . . 9 

uublados a 

id, com alguma chuva. • . 6 

de chuva • . I 

id, de aguaceiros e ciardes. . 3 

de trov. e chu., com algum gr. 4 

Dia de nevot , e sol 1 

Dias de frio nouvcl a 5, 7,14,15, 17 . . 5 

TmpC. med. das manhans dos sobredittos dias 5l^ 



t5 



i4 



Oscilla^o do jTmj>l. med. is 7 ^ m. 



therm. 



íd. 



II 



o. 



ÍHumid. med. ás 8 ^ m. 
id. 3 i. 

id. 1 1 n. 

Id. do barom.fOescida di roanhan • 

|Ascensfto da noite • • 

Pluvimetro. — Cadt palmo quadrado de superficie rrce« 
beo 2,7 1 canadas de agua da chuva , ua totalidade do mex. 



55* 



. 68 

o,o3o poK 
o,o3j 



Tom. X. P. 2* 



B 10 



Maio de 1820. t^^^ 



N 5 1 

Mumero dd 
dias em c 
ventou do 



NE !i - 

E. *...•.... 

ias em que \ c x 

m7/«nfrki« Áe% I • • • ^ 

ó.' ! !;!!!: ! 4 

N.-O II 

Bonança « . • • . i ^ 

Variáveis* •.. é 4 *..'•• • « 

Dias em que ( S.-O*^ a 8 ; 

ventou rijo áo\ N.> a 28 e 3i 

Numero dos dias ventosos .•«..•.. 3 

claros ••«,«••«. 7 ] 

lí/. altern. com nuvens^ . ; 17)26 

Numero d6 1 nublados 23 

dias j id, com alguma chuva. « . i j 

de chuva « ' 1 ^ 

id. de aguaceiros^ e clarões • 3 ) 

Dias de calor notável a2o^2i,e22 • * . 3 
Temp« medi das tardes d'estes dias .... 790 

OsciUacaodo ITcmp. med. ás 7 »« m. . . 5()%2 

rheTm? '^- • ^ *• — 7-' J 

\ idí II n. . . 5o y 2 

ÍHumid.med.ás8 m. • é 62,^ 
iirf. 3 t. • . 59 ,6 

iVí. II n. . • 62 ,7 

r j j V I Descida da manhan . • . o,025 poL 

"• ^^ *>*'^®™-\ Ascensão da noite . * . . 0,016 

' Pluvimetro. — Cada palmo quadrado de superfície rece- 
beo 0,56 canadas de agua da chuva , na totalidade do mes. 



10 * 



i48 Noticias das Sciencias* 

mmiÊÊÊÊÊÊÊÊÊmmÊÊÊÊÊa^ÊÊÊÊÊmmmmÊÊÊ^ÊmÊÊmmÊmmÊÊÊm 



NOTICIAS 

RECENTES DAS SCIENCIAS, etc. 



>V^V%^»^^^^«^^^^^i 



PHYSICA.. 



jyi. David Brewster publicou huma serie de experiên- 
cias sobre a phosphorescencia dos mineraes , das quaes 
tirou as seguintes conclusões. 

lO. A propriedade de emittir luz phospborica em 
ceirta temperatura , he commum a muitos mineraes. 

2^. Os mineraes que gozão doesta propriedade, são em 
geral coloridos ou imperfeitamente ti^ansparentes. 

'3°. A cor da luz emittida nào tem relação constante 
com a cor do mineral. 

4*^. A applicação do calor intenso deti'oe esta pro- 
priedade. 

5^. Geralmente fallando , a luz não he reabsorbida 
pelos corpos phosphorescentes expostos á sua acção. 

€o. A existência da luz phospborica que he desen-- 
volvida por eíleito do calor , he inteiramente distincta 
da luz obtida por fricção , visto que hum corpo , de- 
pois de ter perdido a faculdade de emittir a primeira, 
pode continuar a produzir a segunda. 



das Artes , etc* 1.49 

«70. Esta luz phosphorica tem as mesmas proprie- 
dades que a luz directa do sol , ou a de qualquer corpo 

< 

luminoso. 

8^. Entre diíTerentes espécies de substancias phosti 
phorescentes y ha pedaços de muitas delias , que não se 
tornào phosphorescentes pelo calor; d'ohde se pode 
concluir que a pliosphorcscencia não pode ser consi- 
derada como hum caracter essencial dos mineraes 
que possuem esta propriedade. 

Em outra Memoria julgou M. D. Brewster ter des^ 
coberto o singular facto , que em muitos mineraes a 
matéria phosphorescente estai^a disposta pot veios ou 
camadas parallelas ás do mineral ; o que elle observou 
em hum pedaço de spatho-fluor ', porém, já em 1783 
o celebre Palias tinha publicado a mesma observação 
no I^. tomo das Memorias de Petersburgo y a respeito 
do spatho-fluor de Catherínenburgo. Os Redactores dos 
Annales de Chimie promettem communicar ao pu- 
blico resultados curiosos á cerca da polarisação da 
luz phosphorica. 

M. CNEerstedty secretario da Academia Real de Copen- 
hague, descobrio a singular influencia do galvaoismo 
sobre a agulha magnética ,- e M. Pictet , M. Ârago e 
M. Ampere confu^máiâo por experimentos a opinião do 
sábio dinamarquez; entretanto proseguem nesta in- 
vestigação y e no tomo XI esperamos poder oQerecer 
ao publico noções exactas sobre tão importante as- 
sumpto. 





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Março de i8ao. i43 

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r^umero de I ^ ' 

dias em que / S.-E a | 

ventou do i S | 

S.-0 3 

O X 

l N.-0 5 i 

Bonança. 3 

Variáveis 5 

~ l N.3aN.E.3 de 3 a n 

Diasemcjue 1 ^ ç^ , . . a ii 
ventou rijo do] g .^ . . . a 2oe2i 

Numero dos dias ventosos ........ 8 

claros i3) 

iV/. altern. com nuvens. . . 6> ai 

nublados 2) 

ISÍumerode /de chuva 3 

dias ^ id, de aguaceiros e daroes . • a ^ 8 

de trovoada e chuva .... 3 

de nev. matutina , com o dia claro a 

Dias de frio notável i e 5, até 9 
Tmpt. med. das manbanft d'estes dias 4^^ 
Dias de frio menos notável a a 4 , e 9 a i a . 
Temperatura media das tardes d'e8tes dias 4^ 

^ 11 - j- iTmpt. med. ás n •• m. 
Oscillaçao dmr- 1 ^ a t 

nadotherm. j ^; „ ^^ 

ÍHumid. med. ás 8 ^ m. 
id. 3 t. 

id, 1 1 D. 

,. j , (Descida da manhan 

rd. do barom. ^J^^ensao da noite . . 

Pluvimetro. — dda palmo quadrado de superfície receboo 
2,89 canadas de agua da chuva na totalidade do mez. 



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. . 5i, 8 


. . 68, 4 
. . 63, 3 
. . 67, 4 


. . 0,043 pol. 
. • o^o36 



i5» Ifoiicias das Sciendas , 

M. Lassaigne obteve ham sulphureto de chrome, 
misturando o muriate de chrome secco com cinco 
partes > por peso , de enxofre , e aquecendo graduai-^ 
mente até ao branco. M. Lassaigne obtém o muriate 
de chrome puro , que elle julga ser hum chlorureto , 
fazendo ferver acido chromico com acido hydro-chJo* 
rico ( muríatico ) em excesso , e evaporando ao secco 
em huma capsula de porcelana. Este sulphureto he 
de côr cinzenta escura, nnctuoso ao tacto, e deixa 
nos corpos sobre que se esfrega , traços como a plom- 
bagina. Aquecido ao Termelho côr de cereja, em hum 
pequeno cadinho de platina , arde como phosphoro , 
exb alando hum cheiro mui activo de acido sulpbu- 
rosoy e dá origem a jium oxydo de chrome verde 
escuro. O acido nitrico não o ataca, ainda ajudado 
do calor , mais a agua regia o converte em acido sul- 
phurico e em chlorureto de chrome verde. Consta 
de chrome, loo^oo, e enxofre 10,54. 

O mesmo cbymico descobrio bum processo mais 
prompto e económico para preparar o oxydo de chrome 
de huma bella còr verde , e que se obtém sempre de 
hum mesmo grão de intensidade. Consiste em calcinar 
em hum cadinho de teira tapado , huma mistura de 
partes iguaes de chromate de potassa e de enxofre ; 
li\ivia-se a massa esverdinhada que se obtém , a fim 
de dissolver o sulphate e o sulphureto de potassa que 
se formão por esta operação; o oxydo de chrome 
precipita-se , e depois de algumas lavagens obtem-se 
i)uro *, he insolúvel nos ácidos. 



das Artes j etc, i53 

Não he necessário que o chromate de potassa esteja 
crystallisado para extrahir d^elle o axydo poreste pro- 
cesso. M. Lass.iigne o obteve de huma côr igualmente 
bella , cplcinando com o enxofre o producto da ev?i- 
poração da dissolução do chromate de ferro tratado 
pelo nitro, que tinha primeiro satiH^Rdo pelo acido 
sulphurico frouxo para precipitar a aluminia e a si- 
licia que se achão muitas vezes misturadas com este 
mineral. 

M. Beudant publicou no caderno de Julho dos Aif 
nales de Chimie huma carta a M. Gay-Lussac , que en- 
cerra observações mui judiciosas sobre os experimentos 
e conclusões de M . Mitscherlich , de que damos suF- 
ficiente noticia no Resumo dos descobrimentos chy- 
micos do anno de 1B19, que vai neste tomo. M. Haiíj 
também fez algumas observações sobre a Memoria 
do chymico de Berlim ; mas o que nellas ha que nos 

« 

parece merecer attenção , acha-se mui bem exposto 
por M. Beudant, o qual faz mais justiça a M. Mits- 
cherlich. 

M. Beudant nega , assim como M. Haiiy , que haja 
identidade de systcma crystallino das substancias 
uaturaes citadas por M. Mitscherlich, mas convém 
que entre muitas d'ellas ha analogia de systema de 
crystaes ; o que he já hum pheuomeno mui impor- 
tante, pois coincide, nestes casos, com a identidade que 
existe entre ds proporções chymicas d*estas substan- 
cias. D'aqui tira as duas seguintes conclusões. 

i<>. Que o estudo dos systemas crystallinos pode 



i54 Kctàdas das SòÍÊneias, 

condutir a formar grupos de corpos nos qaaes os ele^ 
mentos , quaesqaer qae elles sejio , se achão combi* 
ttadosem proporções idênticas. 

<i^. Que a medida dos angules pode depois conduzir 
a separar cada, hum d*estes grupos de systemas ciys- 
tallinos de espécie análoga , e serrir de caracter para 
reconhecer a natureza das partes componentes. Porém 
deve confessar-se que, a este respeito, se oQerecem mui- 
tas excepções^e só o tempo pode acdarar^neste ponto, 
ás nossas duvidas. 

a Em quanto aos saes formados artifidalmente , dis 
M.Beudant, he' certo pelas observações de M. Mits- 
cheilich e pelas minhas, que existe hum numero con- 
siderável d^elles , que sendo totalmente difierentes 
pda sua natureza , tomâo todavia formas idmaicas^ 
posto que estas formas não tenhão a menor relação 
com as do systema crystallino cubico , que M. Haiiy 
designou pdo nome de^rmos Umites. » Este facto 
he mui importante. 

« Porém 9 continua M. Bendant , podem os factos 
crystallogrsphicos que ofierecem as substancias artifi- 
ciaes , applicar-se ás substancias mineraes ? Esta he a 
única duvida que pode subsistir. Eu não posso , para 
ser consequente comigo mesmo , deixar de responder 
afirmativamente , visto ter já por varias vezes sesten- 
tado que nos saes artificiaes, susceptíveis de serem 
compostos e decompostos a nosso arbitrío , he que se 
deve procurar a solução de todas as questões crystaUo- 



A 



das Artes , ctc, i55 

grapliicas que as substancias mineraes apresentão. Ora, 
pois que os snes artificiaes nos fazem ver directamente 
que corpos inteiramente diSerentes pela sua natureza 
chymica, tomào realmente formas idênticas j parece-me 
por analogia que outro tanto deve acontecer ás subs- 
tancias naturaes , as quaes, só dífferem das outras em 
cis não sa))ermos ainda recompor a nosso arbitrío. Mas 
d'aqui resulta que já não basta a simples observação 
da forma crystallina para estabelecer a semelhança 
ou a difiêrença especifica entre duas substancias mi* 
neraes. Porém , nem por isso nos devemos julgar au* 
torisados a rejeitar o exame crystallographico , porque 
no estado actual da sciencia , elle nos conduz , pelo 
menos , a suspeitar semelhança ou diíTerença entre as 
proporções dos principios componentes, sejào elles 
quaes forem. 

Doeste modo a forma bastará para nos conduzir a 
estabelecer grupos,que tenhão entre si huma certa ana- 
logia chymica ; mas a analyse exacta he que nos deve 
indicar depois as divisões que he preciso fazer doestes 
grupos. Estes resultados são huma extensão dos que 
já possuiamos relativamente á& formas limites. » 

A identidade das formas parece pois indicar^segundo 
M. Mitscherlich e M. Beudant, não identidade de 
principios, mas sim identidade ou analogia de propor- 
ções chymicas. D'aqui se segue que a forma crystal- 
lina he a melhor base de huma classificação minera* 
lógica , posto que não possa entender-se no sentido 
de M. Haiiy. 



356 Ifotidáu das Scimcias , 

O meUl que M. Lampadius iulgoa ter descoY)erU> , 
qne denominoa ffodanium , e de que falíamos no 
Resamo das processos das sciencias em 1819 « parece 
DÃ3 ter existência real. M. Stromejer , anal ysando pe- 
daços do mesmo mineral , no qual M. Lampadius disse 
ter achado o novo metal , não achou mais que huma 
mistura de nickel, cobalto, ferro , cobre, chumbo, 
antimonio, arsénico e enxofre. 

M. Yoçel acaba de achar no sal ^mma o chlom- 
reto de potassinm, que M. WoUaston tinha reconhe- 
cido existir cm pequena quantidade na agua do mar. 
M. Vogel observa também que M. John Murray e o 
ly. Marcet se enganarão em suppôr a agua do mar 
demasiadamente simples , pois não advertirão no acido 
carbónico , e nos carix>nates de cal e de magnesia 
que ella contêm. 

GEOLOGIA. 

M. Abel Kemusal, bem conhecido pelo seu profundo 
conhecimento das línguas orientaes , e da chineza em 
particular , achou na edição japoneia da Encyclopedia 
Chim, livro summamente curioso que existe na Bil)lio- 
theca regia de Paris, qualhe a origem do sal ammo- 
niaco que os Kalmucos levão a diflferentes partes da 
Ásia. Eis-aqui a traducção da passagem relativa a este 
objecto. 

« O sal , chamado ( em chim ) nao-cha , e também 
ud da Tartaria , sal volátil , extrahe-se de duas mon- 
tanhas da Tartaria-Central. Huma he o volcão de Tur- 



áas Artes ^ etc. 157 

n (i) que deo a esta cidade ( ou , para melhor dizer, 
huma cidade que está situada a três léguas de 
urfan do lado do Este ) , o nome de Ho-Tcheú , 
idade de Fogo. A outra fae a Montanha-Branca, no 
liz de Bisch-Balikh (2). Estas duas montanhas lançào 
3ntinuamente chammas e fumo. tia nellas cavidades 
lie se enchem de hum liquido esverdinhado , o qual 
cposto ao ar se converte em sal y que he o nao-cha. 
s naturaes da terra o recolhem^para d'elle se servirem 
3 curtimento dos coiros. » 

« Em quanto á montanha de Turfan, d'ella se vé 
ihir continuamente huma columna de fumo , a qual 
s noite apparece conio huma chamma semelhante á 
3 hum archote. Os pássaros e outros animaes que são 
stos ao clarão d'ella , parecem vermelhos. Chama-se 
ita montanha Monte de Fogo» Para ir recolher o nao" 
ia y calçâo-se sapatos de pao y porque solas de coiro 
tríão logo queimadas. » 

« Os naturaes do paiz recolhem também as aguas - 
iãiSy que fazem ferver em caldeiras , e extrahem assim 

sal ammoniaco debaixo da forma de pães seme- 
lantes aos do sal commum. O naò-cha o mais branco 
;puta-se o melhor. Suspende-se em cima do lume 
n huma frigideira, para o seccar, e ajunta-se-lhe 
mgibre para o conservar. Exposto ao frio ou á humi* 
ade , deliquesce e perde-se. » 



(i) Lat. 430 3o' ; long. 870 11', segundo o Padre Gaubil. 

(2) Cidade situada sobre o rio Ili , ao S.-O. do Lago de Bal- 
isch , que os Chinas chamão tanibem Mar Quente, A lat. d'este 
ago y segundo o ^ Padre Gaubil ,he de ifi^ o ; loog. 'j^ 11'. 



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Oòs. Sleteor* 



Maio. 



Maior elevação do mercurio • '^66^^^ 66 

Menor 4itta 744, a6 , ,. 

Maior grao de calor. . . . + 240, o ^ "^^ °*^* 

Menor ditto + 8, 2 

claros 3 

nublados aS 

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j 1 d* vento 5 r 

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Observatório, i ^ * 
Sobre o Ob- í ^ ^^^ 
, ser\'a tório, j ' 




Obs. Meteor» 

JVNHO. 

Maior elevação do mercúrio . 766""*,6i \ 

Menor ditta* ..... 75o, 3; V ^^s dias 
Maior grão de calor. . • . + ^lO, o i 
Meuurditto .....'.— ii, ay 

claros • • 6 

nublados ^4 

de chuva ....*• ^ 

^, 1 I de vento 3o 

Numero de / , 

1. / de névoa .••••« o 

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de saraiva .-•••• o 

de trovoada . • . . * o 

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Dias era que I S.-E i 

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O. II 

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ÍTío pateo do) j^^t ,5^ 
Observatório.! ' 
Sobre o Ob- 1 ^ - 

senratorío. í * ^^ 



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FIM DA PARTE SECUNDA 



Tom. X. P. a«' 



n B 



ERRATA. DO TOMO IX. 



mm0t M mm0tm0*f*mm/t^^ 



Na Hota á lista dos Aiâgnanlrt 
iin. ^ Ida-se — na Ilha «— em lugar de — da Uha. 

»AKTB rmivEi&A. 

Pag. Um. ERROS. EUHXDAS. 

36 — 1 Pbillip Philip Wilson 

4 ■ — 3 dis Iqnidos do9 líquidos 

43 — 5 inconlesterel inconteataTe| 

ih. — 6 amerella amarella 

5o — 1 4 Vinel Pinei , 

68 — 12 Os pernadas As pernada» 

^•2 — i3 cuidapo cuidado 

94 — II a lamente altameiíte 

PA&TE SSGUirDA* 

4 — 21 horas her^ 

28 — jg torDÍp'Sfi tomão-^e 

4i — I ci do - acido 

52 — 22 descld^l desddf 

^9 — 25 literaes lateraes 

84 — ^^ heoria thpori^ 

i5i — 9 Momoria Memoria 

ib. — 25 Seefdos da Monarpoia Séculos da Monarquia 

Neste tomo X , Farte 2^. pag. i35 , Iin. 8 , leia^-se cameleão em 
vez de camelão» 

AOS CORRESPONDENTES. 

A poema lyrico de J. B. S. L. d' A. G. em louvor de 
Filtnto , não |>ode ser inserido por ser mui extenso ^ 
mas d^elle daremos alguns extractos. 



CATALOGO 

Uas obras rnáis, notáveis que sé tem publicado 
até aojim de Junho de 1820 , em diversas 
linguas y Sobre aá Scientiai j Artes è Ijetràs y 
com o preço das que sào impressas em Franga^ 
encadernadas em papeL 

N. B, Èin quanto ás encadernações , veja-se a adTertencia 
110 Catalogo do Tomo ÍII. 



^^h^^ ^^^ ^^*'^*'%'%'^«V%i^%«t 



OBRAS IMPRESSAS EM FRAldÇA. 

Obras j d annunciadas nos catálogos antecedentes , que 
46 pU/^licão por subscripção ^ e de que sahtrâó novos vó- 
himes^ ou secções : 

N. B. Os números encerrados entre parentheses indicão o 
Jbmo dos AnnaeSj e a pagina , ou no, no catalogo em que a obra 
Jói annunciada, 

Histoire naturelle des Orangers , etc. ; par Bisso* ( III. 2, ) 
Sahirão a 16»., 17». e 18». secções. 

Histoire dAn^efèrre depuis Viàvasíon de Julu-Cètúr, etc; par 
Home. ( \I. 19. ) Sabirão o IX e X volumes. 

Dictionnaire^5 Sciences naturelles , etc. } ( It* 1 1- ) Sahtrao oi 
Tom. XVI e X\ II. ( FIL— FY3. ) 

II * 



(O 

Fl&ntes de Ut Fraj^e^ etc. par Janme Salnt-HiUire. ( IV. i. ) 
Salir >. a lí*. , i9»- »,ío*-, 3í*- « 2^*« secções. 

HÍ5:oire natnrelie áies muummiferes, etc.; par MM. Saint-Hilaire 
et Caner. ' V. 4 / Safairão a i4'* » i5'.^ 16'. e 17*. secções. 

ColíectioD ComÊplieU dê Mêmoires reUiUfi à rhigtoire de France , 
etc. ; (MU- M. Petitot ( M. 17. ). Sahirio os Tomos IX e X. 

bicbcnitaire des Sciences métUcales , etc. ; ( I* p* 8. ) Sabirão os 
Tom. XLII , XLIU , XLIV, XLV c XL\I. ( POUR— RACH. ) 

Flore du Dictionnaire des Sciences médicales , etc ; ( IV. 5. } 
Tem sabido a 98'. , gg*. j ioo> , 10 1>. e loa*. secções^ 

Victoires , Conquétes , etc. ( VI. 3 1 . }• Sahirio os XVIII e XIX 
Volumes. 

Plans raisonnés de tcuies espèces de jardins; par G. Thouln. 
( VI. I. ) 3dhirão as 10*. e 11*. secções. ^ 

De la Chine; par M. VAbhé Grosicr. ( III. 23. ) Sahírão o III ^ 
IV , V, VI , Vil c ultimo Volume. 

Flore des AntUles , ele ; par F. E. de Tassac ( II. 8. ) Sahio a 
a*, secção do Tom. II. 

Traité sur Vari de la charpente , etc. ; par J. Ch. Krafft ( IX. i ^) 
Sahio a 2>. secção. 

Histoire de PEmpire de Russie , etc. ; par Karam$in ( VII. 4* } 
Sabirão o V e VI Volumes. 

Vojage de MM. de Humboldt et A. Bonpland , etc. ( VI. 57.). 
Tem sabido até á i5<*. secção. 

Herbier généml de Vamateur , etc. ; par Mordant-Delaunaj^ 
( II. 10.) Sabirão a 4^^«» 44"*'! 4^"*} 4^"* ^ 47"* secções^ 



<5) 
M^ntttnens aneieHã et moáèmes de Vlnãoutían > etc. ( lY. 1 1 . ) 
flahio a 211*. secçio. 

Hístoire naturelle générale et partículière des moUusques^ etc. ; 
par M. le BaroQ -á^ Fémssftc. ( I. p* i. ).9aHio a 7*. secção. 

Jraíté complet de mécanique appliquée aux Aris » ^tc. ; par 
Borgnis ( III. 3i»). Sahio o 90. Tratado ( Machinas imita* 
tivas , e machinas theatraes ;. 

AomicuLTURÀ y EcoNomÀ rural e Domestica , Hutoria. 
HATURÀLy Chtmka^ Botànica, Ihdustria e Aetes. 

I. Observations anatomiques sur la slructure intérieure et le 
squelette de plusieurs espèces de cétacées ; par Pierre Camper, 
etc. avec des notes par M. Cuvíer. i vol. 4^. com hum atlas 
com S5 estampas ; pr. 3o fr. 

I. Mamiel d^èconomie rurale et domestique ou Recueil de plus 
de sept cents receites ou instructions pour Vèconomie rurale et 
domestique pour la santé et les agrémens de ia vie , tirées 
des ouvrages les plus estimes sur cette matikre, et garanties 
par des savans d^un mèrUe reconnu, Traduit de Vanglais par 
M***. I rol ia®. ; pr. 3 fr. 5o c. 

3. Élèmens de Chimie appliquée à Pagrieulture , suivis d*un 
Trailé sur la chimie des terres ; par Sir Humphrjr Davy , tra- 
duits littéralement de Tanglais et augmentés de notes et 
d* observations pratiques; par M. Marchais de Migiieaux^ 
avec six planches. i vol. 8^. \ pr. 6 fr. 5o c. ( V. o catalogo 
do Tom. VIII dos Annaes nO. i. ). 

4. Traité d^anatomie vétérinaire , ou Hisíoire aÒrégée de íana' 
lomie , et de la physiologie des principaux animaux ilomes- 
tiques ; par J. Girard , directeur de TEcole rurale et vété- 
rinaire d'Alfort. a toI. 8<>. ; pr. ia fr. 

II * 



(4) 

5. Arcbítecture rurale iftéoriguç et pratique, à Vusage des 
propriélaires et des ouvriersde la campagne. i yol* S^'. com 
1 1 estampas ^ pr. 7 ir. 

LITERATURA E HISTORIA, 

6. Histoire de Mane Síuart , reine de France , d*Angleterrè 
et ífEcosse ; rédigée sur les pièces onginales , et les Mé- 
moires authentiques du temps ; par C. M, D. C, a yol, in 
lao. • pr. 5 fr. 

^. EssaL bistoríqae sttr Vécole d^ Alexandrie , et Coup-^asil 
comparatif sur la littérature ^cque , depuis le temps 
d* Alexandre le Grand , jusqu'à celui d* Alexandre Sévere. 
Ouvrage coiironné par TAcadéniie des Inscriptions et 
Belles-Lettres ; par Jacques Matter. 3 yol. %o, • pr. 10 fr. 

^. Aqnales statistiques des États-lJnis; par Adam Seybcrt*, 

membre de la chambre des re|)résentants des États-Unis 

pour ]a viile de PhjJadeJphie ) traduit dç Tan^Iaís parC, A. 
Schcffèr. 1 vol. 80, ; pr. 8 fr. 

Q. Anpaleçi du regne de George III , roí ãAnf^eterre , tra- 
dultes de Vanglals de Jobn Aítkín , par M. Ejríès , et con- 
tinudes par M- Tbéremiu , ayeç le portrait de George III. 
3 vol. 80. pr. 18 fr. 

10. Foròê militaire de la Grande-Bretagne ; par Charles Dupin. 
3 \o\. 4^- ^^^^ hum atlas de 10 estampas; pr. aS fr. 

1 1. nisto ire de Vesprit des peuples de VEurope j depuis la con- 
i^cr^ion de Clóvis , roi des Francs,jusqu*à lajin du regne 
de Charlemagne , Empereur d'Occident , eic ; par le com lo 
de Ríoux de Messimj. a yol. 80. ; pr. 1 1 fr. 

1 1 , Histoire des révolulions et des guerres de la Grèce et de 



(5) 

ruásie^depids Cyna jusqu*aux successeurs d^ Alexandre ; par 
M. Delagrave. Tom, I.er; pr. 5 fr. . 

x3. Coup-d'OEil sur Usbonne et Madrid en i8i4> ^^c. ; par 
Ch. V. d'Haulefort. i vol. 8©. ; pr. 6 fr. 

i4< Les femmes , leur condiUon et leur influence dans Vordre 
social , chez différens peuples anciens et mpdemes ; par le 
Viçomte de Ségur. 4 vol. i8o, • pr. 6 fr. 

|5. Memo ires de VAcadémie Royale des Sciences de Vlnstitut 
de France, Amiée de i8i8. Tom. III. in 4^-j pr- ^5 fr, 

i6. Mdanges de liltérature et de critique; par M. C, Nodier ; 
publiées par Alexandre Barginet. i vol. 8o. ; pr. lo fr, 

ly. OEuvres completes de Montesquieu; précédées de la Vie de 
Fauteur. 5 vol. 8». ; pr. 3o fr. 

MATHEMATICA , PHYSICA, ARTE MILITAR, NÁUTICA, 
GEOGRAPHIA , TOPOGRAPHIA , DESENHO. 

1 8. Trai té du nivellement ; par J. J. Verkaven ; revu et aug- 
menté par un ancien Ingénieur, officier au corps Rojai 
d*Elat-major. i vol 8^ ; pr. 7 fr. 

19. Gnomonique graphique y om Méthode simple et facile pour 
tracer les cadrans sur toutes sortes de plans , et sur les 
surfaces de la sphere et du cylindre droit, sons aucun 
calcul et en ncfaisnni usàge que de la règle et du compas, 
Salvie de la Gnomonique analytique , ou solution , pir la 
seule analyse ^ de ce prvbleme general : Trouver des cercles 
horaires avec une surface donnée; par J. MoUeU £m 8o. 
com 8 estampas; pr. 2 fr. 5o c« 



MEDEONA , CIRURGIA , PHARMAaA , ARTE 

VETERINÁRIA. 

«o. Histoira naturelle de$ méditamens , des alimens ei des poi-^ 
sons , tires des trais rhgnes de la hature , elatsès suivant les 
méthodes naturelies modemes les plus exactes ; avec Vindi' 
cation de leurs propriétés , de leurs usages et de leurs qua* 
lités nuisibles ei des mojens d^y remédier; leur anafyse chi' 
mique ^ leur emploi medicai yeic.; par J. J. Yírej. i yol. 8o.; 
pr. 7 fr. 

Hl •há Médeeine et la ckirurgie des pauvres ^ qui coníiennent 
des remedes choisis ,JacUes à préparer^ et sans dépense , 
pour la pluparl des maladies internes et externes qui aiia^ 
quent le corps humain, i vol. i^o.* pr. 3 fr. 5o c« 

3'i. Traité de la fièvre jaune ; par J. Devêze «D. M. de la Faculte 
de Paris. I vol. 8°. ; pr. 5 fr, 

^3. Cours eie matière médica/e, - par Af. !*• Huuiu , O. BC. de Ia 

Faculró de Paris, a vol. 80. ; pr. 11 fr. 

34. Hifttoire de la Médecine depms son origine jusqu'au ig^. 
Siècle ; par Kurt Sprengel ; tradaíte de rAlleroand , par A. 
J. L. Jourdan> D, M. 9 vol. 8<>. ; preço de cada voK 
7 fr. 5o c. 

a5. De la folie. Considéralions sur eette maladie , son siége et 
ses symptómes , etc, ; par M. Georget , D. M. i vol. 80. * 
pr. 6 fr. 

* 

POLITICA , VIAJENS , COMMERCIO. 

a6. Consid^ratíons surfélatdes Sociétés en Europe, i voj. 8^. ^ 
pr. 6 fr. 



( 7 ) ^ 

OBRAS IMPRESSAS EM PAIZES ESTRANGEIROS. 

Inglaterba, 

The Architectural Aniíquiiies of Normandy , in a Series of 
1 oo Etchings ; with historical and descríptive JVoiices, By T. 
S, Cotman, Pari, I ( containinç 25 plaies ), Rojai Folio, 

The Cyclopasdia of Commerce ; comprismg a Code of Com" 
mercial Law , Praclice , Curíoms , and Information , and 
exhibiting the Present State of Commerce , home , foreign 
and colonial , etc. By Samuel Clarke , and John Jf^illiants , 
Esgrs, 4*^. 

Jntroduction to Solid Geometry , and to the Study of cristal^ 
lography , containing an Inve^ligation of some of the PrO" 
perties belonging lo the Platonic Bodies independent of the 
Sphere, By N, Larkin. 8«, 

Taxidermy . or a complete Treaiise ón the Ari ofpreparing^ 
mounting and preserving every Objcct of Natural History 
for Museums, i ti®, piates, 

A Commentary on the Systems which have beem advancedfor 
explaining the Planetary moiions, By J, Bumey , R, N, F, 
R. S. 80. 

An Account of the Arciic Regions , with a History and Des^ 
cription of the Northern IVhale Flshery. By ÍF^ Scoreshy , 
jun, F. R. S. E. 2 vol. 8o. 

History ofthe Indian Archipelago. By John Crawfurd , F, A 
S. late Bristih Resident at the court of the Sultan of Java, 
5 volo 89. v^ith 35 maps and olher piates^