FREI TOMAS BORGMEIER, O. F. M.
A Teoria da Evolugao.
W.L. Brown, Jr.
COLLECTION
Separata das Vozes, Ano 51, Novembro de 1957
A Teoria da Evolugao.
ui convidado pelos organizadores deste Congresso ' para fa-
lar sobre a teoria da evolu?ao. Aceitei com certa relutancia,
pois o assunto e dos mais debatidos nas proprias rodas cien-
tificas. Apesar de cem anos de pesquisas continuas, o proble-
ma esta ainda sem solu9ao definitiva, e nao se pode dizer que
a evolucao, pelo menos em sua forma mais generalizada, faca
parte da ciencia como urna verdade definitivamente demons-
trada. A propria palavra "teoria" ja indica que estamos no ter-
reno das hipoteses, das suposic,oes, das conjeturas. O fato e
que nao temos, ate agora, nenhuma prova direta; o que te-
mos sao provas indiretas ou indicios, que, quando muito, po-
dem tornar a teoria mais ou menos provavel, mas nao certa.
Nao admira, pois, que nesta questao haja tantas senten-
cas, quantas cabefas. Basta consultarmos a bibliografia res-
pectiva. Ha milhares de livros que foram publicados sobre evo-
lucao, desde a Philosophic Zoologique de Lamarck e a Origem
das Especies de Darwin, ate a obra Evolution de Julian Huxley
e os tratados modernos de Dobszhansky, Mayr, Schindewolf,
Beurlen, e outros. Nenhum destes livros satisfaz plenamente.
Diz Marston Bates, o celebre entom61ogo da Funda?ao
Rockefeller: "Quando leio uma sintese dos atuais conhecimen-
tos sobre evolucao, por ex., a obra de Huxley, nao posso dei-
xar de sentir uma profunda melancolia. E' que as varias pe?as,
as teorias, a acumulacao de fatos e experiencias sao a primeira
vista muito impressionantes, mas me parece que nao se coa-
dunam e que tudo isso representa uma solugao supersaturada,
aguardando o aparecimento de uma ideia lumino'sa capaz de
precipitar a cristaliza?ao" (The Nature of Natural History,
1950, p. 237).
Nao faltam autores conceituados que rejeitam toda e qual-
quer evolu?ao. Entre os antigos temos Cuvier e Agassiz; e en-
tre os contemporaneos o geneticista sueco Heribert Nilsson,
os biologistas alemaes Steiner e Einhorn, e o cientista ingles
') Trata-se do IX Congresso da Sociedade Brasileira para o Pro-
gresso da Ciencia, que se realizou no Rio de Janeiro de 8 a 13 de
julho do corrente ano.
VOZES, AND 51, NOVEMBRO DE 1957 813
Douglas Dewar. Mas a grande maioria dos biologistas defen-
dem a teoria de uma ou outra forma. Alguns consideram to-
dos os animais como provenientes de uma forma primitiva, en-
sinam portanto a evolucao monofiletica. Outros restringem a
evolucao e defendem a evolucao polifiletica.
Para nos orientarmos neste labirinto de opinioes, convem
fazermos algumas distincoes importantes. Antes de tudo, de-
vemos distinguir entre o fato da evolu?ao de urn lado, e o me-
canismo ou as causas da evolu?ao do outro. O pouco tempo
de que disponho para falar nao me permite entrar em porme-
nores sobre as causas da evolucao; portanto nao vou discutir
as diversas teorias que foram excogitadas a este respeito, co-
mo sejam: o lamarckismo, o darwinismo, o hologenismo, o mu-
tacionismo, etc. Limito-me a falar sobre o fato, procurando res-
ponder a seguinte pergunta: houve ou nao uma transformacao
no reino animal, e a que ponto ela se estendeu?
Que significa a palavra "evolucao"? Evolu?ao quer dizer
desdobramento, transformacao. Ha uma evolucao que todos co-
nhecem, e aquela que observamos no ciclo ontogenetico dos ani-
mais, por exemplo, de uma borboleta: temos primeiro o ovo,
depois a lagarta, em seguida a crisalida, e finalmente o adul-
to. Mas nao se trata desta evolucao quando falamos em "teoria
de evolucao". Esta teoria afirma que uma especie pode dar
origem a outra e que as especies sistematicas podem trans-
formar-se no decorrer dos tempos. A primeira questao funda-
mental e, portanto, a da origem das especies. Mas ha uma se-
gunda questao igualmente importante: ate que ponto as espe-
cies podem evoluir e produzir novas formas? Ou por outras
palavras: quais sao as categorias sistematicas do reino animal
que os fatos observados nos autorizam a ligar por lacos
geneticos?
Note-se bem: estou falando do reino animal, excluindo
portanto da minha tese o reino vegetal e o reino humano. A
meu ver ha uma diferenca essencial entre esses tres reinos, e
nenhum fato cientificamente demonstrado nos autoriza a esta-
belecer uma ligagao genetica entre eles. homem, por sua in-
teligencia, e infinitamente superior a qualquer animal, e Lineu
cometeu um grave erro classificando-o entre os primatas. Ate
Simpson, que e materialista, concede que a inteligencia humana
e um carater zooldgico de grande importa"ncia. E eu ouso di-
814 BORGMEIER, A TEORIA DA EvoujgAo
zer que aquele que classificasse o homem sirnplesmente como
um animal ao lado dos macacos, cometeria o mesmo erro que
aquele que classificasse o cao entre os vegetais. Pois em am-
bos os casos ha uma transicao ilicita de um reino para outro.
Feita esta observa?ao preliminar, podemos entrar no as-
sunto. Para discutir o problema da evolucao, convem distinguir-
mos entre microevolucao, macroevolu?ao e megaevolucao. Esta
distincao e hoje geralmente aceita e facilita enormemente a com-
preensao do assunto. A microevolufao se refere a origem das
racas e das variedades, trata portanto das categorias infra-
especfficas. A macroevohifSo abrange a origem das especies e
dos generos. E a megaevolufao trata da origem das categorias
superiores, isto e, das familias, das ordens, das classes e dos
grandes filos do reino animal. A meu ver, ha uma diferenca
essencial, e nao apenas gradual, entre essas tres especies de
evolu?ao.
Micro-EvohifSo.
Consideremos primeiro a microevolucao. Sei que Darwin
considera a raca como uma especie incipiente. Mas os estudos
de Goldschmidt em Lymantria mostraram que o processo da for-
ma?ao de uma subespecie e radicalmente diferente do processo
da especiacao. O paleontologista Schindewolf e da mesma opi-
niao, e os meus estudos taxonomicos dos Elcitonineos confir-
mam este ponto de vista.
A microevolucao tem, portanto, apenas uma importancia re-
lativamente pequena para a solucao do problema da especie. A
razao e que todas as muta5oes observadas pelos geneticistas
nao passam de variacoes, hereditarias ou nao, dentro da es-
pecie, e t6das as tentativas de criar uma especie nova em la-
boratorio ate hoje falharam. Com isto nao quero diminuir o
valor das descobertas importantes de Mendel e os resultados
brilhantes da genetica moderna. A microevolugao e um fato, mas
a microevolucao vai de cima para baixo e nao de baixo para
cima: as ra?as nascem de especies, mas as especies nao nas-
cem de racas.
Mega-Evolu?ao.
Com a megaevolucao entramos no terreno da paleontologia.
O termo foi criado por Simpson; embora etimoI6gicamente si-
VOZES, ANO 51, NOVEMBRO DE 1957 815
nonimo de macroevolufao, significa coisa bem diferente. En-
quanto a macroevoluc.ao se refere apenas as especies e aos ge"-
neros, a megaevolugao afirma uma Iiga9o genetica entre os
tipos fundamentals do reino animal. Mas e justamente esta hi-
potese que luta com as maiores dificuldades, quando e avaliada
a luz dos fatos que a paleontologia nos oferece.
Vejamos rapidamente algumas destas dificuldades. Primei-
ro, e um fato incontestavel que todos os grandes filos do reino
animal, com a unica excec,ao dos vertebrados, ja aparecem nas
camadas geologicas mais antigas, no periodo algonquiano e no
cambriano: os protozoarios, os espongiarios, os equinodermes,
as medusas, os vermes, os artropodes, os moluscos. Segundo:
o aparecimento dos peixes, isto e, dos primeiros vertebrados,
no siluriano e um dos fenomenos mais misteriosos na historia
do mundo animal; eles vem de repente de uma origem desco-
nhecida, e todas as tentativas de liga-los a qualquer invertebra-
do do cambriano falharam. Terceiro: como explicar a origem
dos anfibios, dos primeiros quadrupedes terrestres? Von Baer,
o pai da embriologia, ironicamente, conta a historia do peixe
que resolveu dar um passeio pelo campo e para isto, durante
alguns milhares de anos, se esfor^ou para criar quatro patas e
dois pulmoes, e acrescenta: se nao morreu neste interim, cer-
tamente foi bem sucedido. mesmo misterio envolve a origem
das aves e dos mamiferos. Ambos, segundo a teoria, se ori-
ginaram dos repteis. Mas o Archaeopteryx, embora apresente
alguns caracteres que lembram repteis, como por exemplo os
dentes, ja e um verdadeiro passaro especializado, pois possui
penas que supoem sangue quente. E como explicar a origem
dos mamiferos? Onde teria o primeiro mamifero tirado o pre-
cioso leite, indispensavel para a sua subsistencia, se a sua mae
reptil nao dispunha de glandulas mamarias? E como explicar
que ainda hoje ha amebas? Certamente, as nossas amebas des-
cendem dos protozoarios do algonquiano. Mas por que nao evo-
luiram todas, quando tiveram a disposifao a brincadeira de
500 milhoes de anos?
aparecimento siibito, repentino, inesperado dos grandes
tipos de animais e uma das maiores dificuldades da mega-
evolu?ao, como e reconhecido pelos pr6prios paleontologistas.
Nao ignoro as tentativas feitas para remover esta dificuldade.
Fala-se na origem explosiva de novos tipos, atribuindo-a a dis-
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turbios durante a ontogenia. Inventaram-se trmos tecnicos para
designar estes saltos misteriosos: Schindewolf fala em tipo-
genese; Jaeckel em metacinese; Garstang em neotenia; Beurlen
em neomorfose. A meu ver, sao soluc5es verbais, e nao solu-
c5es verdadeiras. A ciencia ainda nao encontrou uma solucao
satisfatoria das dificuldades que acabo de apontar. A luz 'dos
fatos, a megaevolu9o e pouco provavel. Admiro a crendice de
muitos paleontologistas, mas confesso que a minha fe na evo-
lucao nao chega a tal ponto. Digo com Soddy, o celebre qui-
mico ingles e portador do premio Nobel que morreu no ano
passado: "Prefiro os fatos inexplicaveis as explicates mi-
rabolantes".
Macro-Evolu?ao.
Chegamos agora a macroevolugao, que restringe a evolucao
aos generos e as especies. E ai pisamos em terreno mais firme.
Enquanto a megaevolufao procura estabelecer uma ligagao entre
tipos fundamentalmente diversos, a macroevolu?ao trata das
transformacoes dentro de urn tipo determinaclo, isto e, dentro
de urna familia ou superfamilia.
Sao numerosas as provas indiciarias que tornam esta es-
pecie de evolu^ao bastante provavel. Todos os exemplos, fre-
qijentemente citados nos manuais, por exemplo, a serie dos equf-
deos, dos proboscidios, dos cefalopodos, dos amoniias, perten-
cem a esta categoria de provas e nos mostram a transforma-
gao dentro de urn tipo. Nao me refiro as arvores genealogicas
baseadas nestas series; pois todas as arvores filogeneticas sao
hipoteticas. Sao diagramas que traduzem os resultados da sis-
tematica, mas nao da filogenia. Nao conhece.mos com segu-
ranca a verdadeira forma ancestral de nenhuma especie animal.
jVlas podemos afirmar com bastante seguranca que houve real-
mente uma transformac.ao dentro das familias.
Para provar esta assercao, seja-me permitido citar alguns
exemplos da minha especialidade. Ha quase 40 anos venho me
ocupando com o estudo das nossas formigas e dos insetos mir-
mecofilos . e termitof ilos.
Meu primeiro argumento e tirado da distribuifao geogrd-
fica das formigas: Publiquei ha pouco uma monografia das for-
migas de correicao neotropicas. O-grupo abrange 140 espe-
VOZES, ANO 51, NOVEMBRO DE 1957 817
cies, distribuidas em 5 generos. Urn destes generos e Neiva-
myrmex, dedicado ao cientista brasileiro Artur Neiva; conta mais
de cem especies e sua distribute vai da Patagonia ate Ohio
nos Estados Unidos. Agora e sabido que o Continente sul-
americano esteve completamente isolado da America do Norte
desde o eoceno inferior ate o pliocene, isto e, durante uns 30
milhoes de anos. Foi justamente neste periodo que apareceram
as formigas, que se tornaram um grupo dominante no oligo-
ceno e no mioceno. No periodo seguinte, o plioceno, restabele-
ceu-se o istmo de Panama e com isso a liga?ao entre os dois
continentes, de maneira que havia a possibilidade de uma per-
muta entre as duas faunas. Foi nesta altura que algumas es-
pecies de Neivamyrmex invadiram a America do Norte, por exem-
plo, a especie swainsoni que hoje vai do Paraguai ate o Ari-
zona. Mas o fato mais curioso e o seguinte: nem todas as es-
pecies que hoje habitam a America do Norte podem ter sido
invasoras, mas com toda a probabilidade nasceram naquela zona
depois do restabelecimento do istmo de Panama. Pois encontra-
mos nos Estados Unidos e no Mexico dois grupos de especies
muito vizinhas que nao se encontram na America do Sul: sao
as especies que pertencem aos grupos de nigrescens e de spo-
liator, cuja afinidade morfologica e evidente. Seria absurdo su-
por que estas especies tivessem sido criadas especialmente para
aquela zona. A unica explicate razoavel e que elas se des-
membraram das especies que invadiram aquela regiao no plio-
ceno inferior. Por outras palavras, a distribuicao geografica atual
de Neivamyrmex e um argumento solido em favor da forma?ao
de novas especies na America do Norte a partir do ultimo pe-
riodo da epoca terciaria.
Um caso identico temos no genero Atta, a nossa sauva.
As formigas cortadeiras sao originarias da America do Sul. As
tres especies existentes em Cuba, no Mexico e no Texas, a sa-
ber insularis, mexicana e texana, provavelmente sao descenden-
tes diretos de Atta cephalotes, uma especie que habita o Norte
do nosso continente.
Meu segundo argumento e tirado dos insetos mirmecofilos
e termitofilos. Sao insetos que vivem obrigatoriamente com for-
migas ou cupins; vivem, portanto, num certo isolamento eco-
logico que, ao que parece, favorece a transforma?ao e possibi-
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litou a aquisi?ao de caracteres adaptativos, alguns dos quais de-
veras singulares.
Tomemos por exemplo os coleopteros das familias Staphy-
linidae e Histeridae que vivem com formigas de correi9o. En-
tre eles encontramos as formas mais extravagantes. Algumas
especies tomaram uma forma abaulada ou chata; outras se tor-
naram esbeltas, pedunculadas, com patas compridas; outras mi-
metizam formigas, sao as especies mirmecoides; outras adqui-
riram orgaos especiais de secrec.ao de um liquido aromatico
agradavel para as formigas, tufos de pelos dourados ou tubos
secretores.
Entre os estafilinideos termitofilos encontramos o curioso
fenomeno da fisogastria, devido a um crescimento postimaginal,
que no genero Spirachtha produz longos apendices laterais cuja
significa?ao e desconhecida, e que no genero Thyreoxenus atin-
ge ate o torax e as patas, nao so na fernea mas tambem no
macho.
A ultima familia que venho estudando ha muitos anos e a
dos forideos, pequenos dipteros que em parte vivem com for-
migas ou cupins, e cujas femeas apresentam sinais evidentes
de uma profunda transformacao : as asas ou os olhos ficam ru-
dimentares ou desaparecem por complete, como, por ex., no ge-
nero termitofilo Cryptophora, de Goias, que descrevi em 1935,
e que representa o primeiro dfptero cego do mundo. Os ma-
chos vivem fora do ninho e sao inteiramente normais. Ha um
so genero em que tambem os machos sao apteros, e o genero
Aptinandria da Africa. E o celebre genero Termitoxenia reune
os dois sexos no mesmo individuo, pois todas as especies sao
verdadeiros hermafroditas, como o Pe. Wasmann sempre afir-
mara e como foi definitivamente demonstrado por Mergelsberg
em 19357
Agora, o meu argumento e o seguinte: Os coleopteros e os
dipteros sao muito mais antigos do que as formigas, pois ja se
encontram na epoca mesozoica. Se estas especies mirmecofilas
e termitofilas tivessem sido criadas, deviam ter sido criadas na
epoca terciaria, e Deus devia ter criado hospedes especiais para
cada uma das especies de formigas ou cupins, pois a grande
maioria dos insetos mirmecofilos e termitofilos vivem com de-
terminado hospedeiro. Esta hipotese parece pouco provavel. A
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meu ver, a unica explicasao natural e, neste caso, a evolugao
das especies. Os insetos mirmecofilos e termitofilos invadiram
as colonias das formigas e dos cupins e ai se adaptaram ao
novo ambiente, produzindo as formas extravagantes que hoje
verificamos. For outras palavras: os caracteres adaptativos dos
insetos mirmecofilos e termitofilos constituem uma prova con-
vincente que houve evolu?ao, dando origem a novas especies e
novos generos dentro das familias dos estafilinideos, histerideos
e fondeos.
A conclusao que se impoe e a seguinte: a evolu^ao e pro-
vavel, quando restringida ao ambito de um tipo determinado.
Mas nao nos esquecamos que, enquanto nao conhecermos as
causas da evoluc,ao, o valor explicativo desta teoria e peque-
no. Embora a teoria da evolugao tenha sido celebrada como
uma das maiores conquistas da cigncia, os problemas por ela
suscitados ainda nao acharam uma explicacao satisfat6ria. Isto
nao nos deve admirar. Pois a vida e, no fundo, um grande mis-
terio, e so aqui e acola o pesquisador consegue levantar um
pouquinho o veu que o cobre e lancar um olhar furtivo atras
dos bastidores do grande teatro da natureza.