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Full text of "Apostilas aos dicionários portugueses"

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I 



A. K. GOHçALTEZ VIANA 



APOSTILAS 

AOS 

DICIONÁRIOS PORTUGUESES 



TOMO I 

A. — H 




LISBOA 

LIVRARIA CLÁSSICA EDITOIiA-A. M. TEIXEIRA & C." 

20, PRAÇA D03 KESTAUEADOBES, 20 

1906 



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APOSTILAS AOS DIGI3NÁRI0S PORTUGUESES 



POR 



A. R. GONÇÁLVEZ VIANA 



A. R. GONÇÁLVEZ VIANA 



APOSTILAS 



DICIONÁRIOS PORTDGDESES 




LISBOA 
LIVBAEIA CLÁSSICA EDITORA -A. M. TEIXEIRA & C." 

20, PBAÇA DOS RESTA UB ADOBES, 20 



- » 



PòRTO — Imprensa Portuguesa — Rua Formosa, 112 






1 nCBIMISSIHt SENHORA 



DONA CAROLINA MlCHAlLIS DE VASCONHELOS, 



A QUBM AS LETRA8 PORXrGURHAS TANTO DEVEM, 



como tHbuto e homefiajem da sun admiração 
e do seu respeito 



DEDICA ESTA OBRA 



O A UTOK. 



A 



I- 









V 



V 



I * 




• r 



\ 



»»»».>»■ 






PREFÁCIO 



Não há para nenhum idioma vivo dicionário que se possa 
^r completo, mesmo até a data da sua ultimaçâo. Uma parte 
oio pequena do lécsíco, já no que respeita a vocábulos, já no 
que se refere a acepções, tica sempre omissa, e esses tesouros 
da língua teem de ser completados por trabalhos avulsos, que 
. aa depois se encorporam em novas edições dos dicionários já 
existentes ou em obras novas da mesma espécie. 

Com a publicação destas apostilas venho também contribuir 
^ para a futura compilação de outro dicionário, em que se tenha 
{^ «m vista aumentar o copioso cabedal de termos portugueses, 
oo Mais ainda do que se fêz no Novo Diccionáeio da língua 
POBTuouESA, de Cândido de Figueiredo, o mais abundante de 
N quantos se teem publicado em Portugal, mesmo descontando 
^ moitas dições que figuram nele sem que sejam ou tenham sido 
^ portuguesas. 

o Todavia, assim como tive em mira acrescentar mais dições e 
acepções, fruto de longos anos de estudo e de leitura, procurei 
igualmente criticar, mormente com relação a etimolojia, muito 
do que na nossa língua se tem escrito. Não me ocuparei todavia 
dos devaneios insensatos que tanto avultam em certas obras 
lecsicolójicas, mas apenas do que mereça discussão séria e pro- 
fícua, porque os autores criticados foram escrupulosos na redac- 



vin Apo^tUa* ao$ Dicionários /Vrrfii^ii^M» 

çá*> das suas monografias, ou dos seus dicionários ou glossá- 
ní"S. 

A ordenação das palavras e locuções aqui tratadas é rigorosa- 
mente alfabética: mas. como na discussão ou exposição de dou- 
trina acerca de cada vocábulo figuram, para termos de compara- 
çâo principalmente, outros vocábulos em número considerável, 
que sáo explicados simultaneamente com os de cada epígrafe, o 
leitor encontrará no fim da obra um índice, também alfabético, 
de todos eles. com a dei^ignação daqueles a que ficaram subordi- 
nados, ou em cuja discussão se introduziram. 

No decurso da obra tive muitas vezes de citar palavras e 
formas pertencentes a idiomas cujos sistemas gráficos diferem 
muito do romano, de que usamos: e fui conseguintemente obri- 
gado a transliterar os caracteres desses sistemas em letras 
romanas. Para este fim escolhi os versaletes. emtanto que as 
palavras latinas as cito em romano espacejado, e as do latim 
popular, hipotéticas ou reais, o do latim bárbaro as figuro em 
caracteres itálicos, igualmente espacejados para sobressaírem no 
texto. 

Xa transliteraçào do alfabeto grego substituí pelo sinal de 
aspiração f) o h que, em harmonia com a transcrição romana, 
se costuma empregar na figuração das letras gregas 6. :5. x. 
transliterando-as eu portanto com os simMos monogramáticos 
T\ p*. K\ em vez de th, ph, ch: do mesmo sinal me sirvo para 
a representação do espírito áspero, que. à maneira dos romanos, 
é uso designar pelo h latino. l>iss«>lvi também o í grego nos 
seus elementos, ks, à semelhança do que sempre se fez com 

o '^. PS. 

Xo ultabeto devauágrioo, ou ludioo. represento semelhante- 
mente as aspiradas por r\ c.\ p.>r exemplo, e em tudo mais sigo 
muito de perto a trausliienivão do indiauista português Gui- 




Apostilas aos Diciotiários Portugueses ix 

Iherme de Vasconcelos Abreu; com a diferença de figurar por 
miníisculas, promiscuamente com os versaletes designativos das 
letras, os sinais das vogais, quando estas não são iniciais de 
sílaba, mas acompanham a letra consoante, formando parte inte- 
grante dela: assim transcrevo, por exemplo, KaNÔI, e não, 

KANÒf. 

No alfabeto arábico represento por versaletes as letras, e por 
minúsculas intercaladas as três vogais, ou moções escritas, 
quando o são, a i u. Como este alfabeto é mais numeroso que o 
romano e contém letras representativas de sons que são estranhos 
ao português, e alguns mesmo a qualquer idioma não semítico, 
tomei por base para a sua transliteração o alfabeto hebreu, menos 
numeroso e já perpetuado tradicionalmente no grego e no romano, 
transliterando os caracteres hebraicos, quanto possível, pelas 
letras que lhes correspondem historicamente no abecedário la- 
tino; e ampliei com artifícios, sempre os mesmos, o número de 
caracteres necessários para a transliteração do alfabeto arábico, 
quer na sua aplicação ao árabe, quer na sua acomodação a idio- 
mas de outras famílias que o usam, todas as vezes que me foi in- 
dispensável citar vocábulos de qualquer desses idiomas. Para o 
malaio, contudo, seguindo autorizados exemplos, preferi dar trans- 
crição europeia, caracterizadamente portuguesa, dos sons, e não 
das letras. 

Devo advertir que a transliteração dos alfabetos semíticos 
muitas vezes não representa a pronúncia; é mera convenção com 
base histórica, já o disse. E por isso que, desatendendo na trans- 
literação do hebreu muitas das minuciosas convenções e parti" 
cularidades da notação massorética, figuro sempre por k, p, t 
tanto as consoantes momentâneas iniciais de sílaba, como as con- 
tínuas correspondentes, finais de sílaba, à semelhança do que já 
se pratica a respeito de b, a, d. 



ApofHlas aos Dicúmários Poriuguetet 



Deste modo, o alfabeto hebraico é transliterado da seguinte 
maneira, conforme a ordem dos seas caracteres: 



ABODEUZHTIKLMXSOPSQBXT 



O acento circunflecso subscrito diferença da última letra a 
nona, e da décima quinta a décima oitava. Em fim de sílaba 
K, p, T, o, D valem respectivamente pelas letras arábicas que 
transcrevo por h, f, §, y, 8, e que vou descrever já em segui- 
mento. O B em tal situação vale por 6 intervocálico português. 

O alfabeto arábico é assim transliterado: 

abtSghhd&bzsxsdtzoyfqklmxeui*! 

^^ • • « * 

O ** elevado denota o chamado eyma, ou consoante explosiva 
faucal. O circunflecso já ficou explicado no alfabeto hebraico, como 
designando as letras, denominadas enfáticas, s t, e aqui mais 
I), z. O símbolo H (y) representa o valor do j castelhano actual; 
o § o th inglês surdo de think, z castelhano com pequena di- 
ferença, 8 o th sonoro inglês de they, aprossiraadameute o nosso 
d intervocálico. O h é uma aspiração surda, mais funda e mais 
perceptível do que a aspiração expressa por h em inglês ou em 
alemão; e, essa mesma aspiração, porém acompanhada de voz; 
em fim de palavra é, conforme os dialectos, proferida, como à, ou 
como ^. O H, o H e o E inicial de sílaba aparecem representados 
por /na Península. O a vale por ãj, e no árabe do Ejipto por^r, 
qualquer que seja a vogal que se lhe siga. O y é um ^ fricativo, 
proferido no véu do paladar, e nos vocábulos arábicos que pas- 
saram à Península Hispânica foi substituído quási constantemente 
por g, gii. O q é um k pronunciado também no véu do paladar, 
com grande ênfase; às vezes equivale a g, ou ao emza (^), O x 



Apostilas aos Dieionârios Portugueses xi 

tem o mesmo valor que o x português de xadrez. O o expressa 
aqui uma articulação formada mais abaixo da farinje, sem re- 
presentante nas Unguas europeias, e que se eliminou na passajem 
dos Tocábnlo*^ arábicos para os idiomas da Península Hispânica. 

Quem mais amplas informações desejar obter acerca da re- 
presentação peninsular dos sons arábicos lerá com muito proveito 
as seguintes obras, exemplares a todos os respeitos: Dozy & En- 
gelmann, Glossaibe des mots espaonols et pobtuoais deri- 
ves DE l'ababe, Leida, 1869, Introduction, ii; Eguílaz y Yan- 
gnas, Estúdio sobbe el valob de las letbas abábiqas en el 
ALFABETO CA8TELLANO, Madrid, 1874; David López, Textos em 
auamía portuguesa, Lisboa, 1897, principalmente esta última, 
por ser portuguesa e digna de todo o encarecimento. 

O alfabeto arábico aplicado ao persa tem mais quatro letras, 
que são aqui transliteradas por p, c, j, ó, e em que c figura o 
Yalor do eh português do norte, castelhano e inglês, quási tx, 
e o d o gui do português guiar. O j tem o seu valor normal na 
nossa língua. Em turco bá mais o u com valor de v. 

Para os idiomas da índia que se escrevem com caracteres 
arábicos, como o indostano, temos ainda a acrescentar as cha- 
madas letras cacuminais, que, do mesmo modo que no silabá- 
río devanágrico, são representadas pelas bases t d n l (b), com 
um ponto subscrito, tdnlb, e se proferem no ponto em que pro- 
nunciamos o r de caro. 

Outros sinais convencionais são íl para h aspirado (h') sonoro, 
e AA (cn) para denotar o ng final de sílaba nas línguas germâni- 
cas, como o inglês ou o alemão, isto é a consoante nasal póstero- 
palatal, um n proferido com a raiz da língua no ponto em que 
articulamos o h,^ que em português se ouve, associado a Tc ou g, 
em franco, frango. 

Na maioria dos casos, quando qualquer destas letras de valor 



xn Apostilas aos Dicionários Portugueses 

desusado on convencional aparece na citação de vocábulos pe- 
regrinos, o valor dela é apontado em nota, para comodidade dos 
leitores. 

É sabido q&e o z e o j no castelhano actual valem por con- 
soantes fricativas surdas: a primeira genjival, como o th inglês de 
íhúik: a segunda velar, como o eh alemão de bach, ou ainda 
mais fimda, pelo menos no castelhano como é rigorosamente pro- 
nunciado na Castela- Velha. Na Andaluzia o z equivale ao nosso ç, 
que como som e como letra desapareceu do castelhano normal 
moderno. 

Na antiga ortografia e pronúncia castelhana o i', o /, ore 
o X tinham os valores que lhes damos em português. 

Advertirei ainda que a curva fechada subscrita às letras q 
e f representa o valor que elas teem nas palavras portuguesas 
da dp; e que este mesmo sinal sobrescrito a i, u denota que 
estas duas vogais não formam sílaba por si, mas com a vogal 
que as precede ou segue, constituindo a parte fraca dos ditougos 
decrescentes, como em pah pau (pái, páu)j ou dos ditougos 
crescentes, como em fmr, suar (fiar, suar). Os ápices sobre 
o u significam u, íl alemães, eu (aberto), u franceses; o o õ fe- 
chado alemão de schõn, eu francês de feu. Os ápices sobre o í 
designam o i guturalizado de navio, como esta palavra se pro- 
nuncia era vários dialectos açorianos, o y polaco. 

Para os vocábulos pertencentes a idiomas cujas letras não 
representam nem fonemas nem sílabas uso de transcrições, 
quanto possível, portuguesas, e o mesmo faço com outros idio- 
mas que são analfabéticos, como por exemplo o tupi, os ca- 
friais, etc. 

O sinal ({) quere dizer «derivado de>, e este mesmo in- 
vertido (}), «que é orijem de». 

A ortografia seguida no texto desta obra é a que expus, 




Apostilas aos Dicionários Portugueses xiii 

discuti e defendi na Obtogbafia Nacional, dada à estampa 
em Lisboa no ano de 1904, e já adoptada pelo Dr. Júlio Cornu 
na 2.^ edição da sua preciosa Gramática histórica portuguesa 
publicada no Geundbiss deb bomanischen Philologie, bem 
como ultimamente pela snr.* D. Carolina Michaélis de Vascon- 
celos ^ o que a consagrou, e ainda pelo snr. Alberto da Cunha 
Sampaio, na revista Portugália. 

Ficou pois sancionada por aquelas duas maiores autoridades 
actuais em filolojia portuguesa, e com isto me contento. 

Xa reprodução de documentos antigos, principalmente anó- 
nimos, busquei uniformizar a escrita por padrão artificial, sim, 
mas a meu ver correcto, evitando quanto pude escritas diversas do 
mesmo vocábulo, ou de formas análogas, no mesmo documento. 
Xas inúmeras citações, com que me abono, segui rigorosa- 
mente o modo de escrever que encontrei impresso, e raríssimas 
vezes o assinalo ou critico, por mais incongruente que ele seja, 
ou me pareça. 

É do meu dever tributar aqui a minha gratidão ao senhor 
G. de Vasconcelos Abreu, meu antigo mestre na especialidade 
de estudos orientais que abalisadamente cultiva, por muitas pon- 
deraçõea e observações judiciosas que me subministrou, e bem 
assim pelo escrúpulo intelijentíssimo com que me aussiliou na 
revisão de uma grande parte das provas. Agradecimento e louvor 
devo igualmente ao benemérito editor desta obra e ao estabeleci- 
mento onde é impressa, pelo esmero e solicitude com que para a 
sua laboriosa composição tipográfica teem dilijentemeute contri- 
buído. 

Das erratas somente faço menção especial, quando são essen- 
ciais à intelijéncia do texto. 

A, lí, (hnçálvez Viana. 



APOSTILAS AOS DICIONÁRIOS PORTUGUESES 



APOSTILAS AOS DICIONÁRIOS PORTUGUESES 



aba 



Este vocábulo, tam português, que nas suas várias acepções 
nào tem correspoudente exacto nas outras línguas românicas, é 
de orijem muito problemática. Os nossos dicionaristas teem-lhe 
atribuído étimos diferentes. Pondo-se de parte fantasias diversas 
que fôra inútil citar, aquele que maiores probabilidades oferece 
em seu abono é o apontado por F. Adolfo Coelho ^ do seguinte 
modo: — *^(Hespanhol] álubea, rumo [aliás, ramo], curvo na ma- 
deira [aliás, encurvamento], goteira ; do basco alabea, o que pende 
ou goteja)» — . 

Haveria muito que ponderar sAbre o enunciado desta etimo- 
lojia, mesmo sem insistir em rumo, em vez de ramo, por ser 
evidente erro tipográfico. 

Limito-me ao seguinte: nem alàbear(se) significou jamais 
< gotejar > ou «goteira» em espanhol ou em vasconço, nem álabea 
é palavra espanhola, mas sim alabeo (=alabéo), que o Dicioná- 
rio da Academia define assim : — < vicio que toma una tabla ú 
otra pieza de madera, torciéndose de modo que su superficie no 
este toda en un plan » — . 

O mesmo Dicionário dá como orijem do verbo alabearsr 
(<empenar-se a madeira»), de que alabeo é substantivo verbal 
expressando acto, a palavra ãlabe, com vários significados, e cujo 



^ DiCCIOXARIO MANTAL ETYMOLOOICO DA MNGUA POHTUGrBZA. 
1 



■ I 

I 
i 



i 



^1 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



étimo seria o árabe aiaua, «curvo», que Eguílaz y Tauguas * 

refere ao verbo Lauí, flexit, preferindo-lhe outro étimo igual- 

;J mente arábico, que nâo cito por ser foneticamente inadmissível. 

Diez *, citando Larramendi, aponta o vasconço alabe(a), < (o) 
f| que pende», preferindo-lhe o étimo proposto por Mahn, e do 

mesmo modo vasconço, adar(ra) «ramo», e be, «para baixo», e 
com este explica a palavra portuguesa aba, contraída de alaba, 
como paço, de palaço. 

Efectivamente, nos derivados em que o primeiro a perde o 
acento tónico, conser\'a ele o seu valor alfabético, o que é prova 
de resultar de dois aa; ex.: desabar, abada, etc. 

A não ser esta circunstância importantíssima, talvez fosse 
também admissível como étimo o latim ala [ aua j ava \ aba, 
^i visto ser este o proposto por Zanardelli para o sardo aba, ^asa», 

comparável a candeba, que na mesma língua corresponde ao 
latim candeia. 

Temos, porém, de o rejeitar para o português, nào só por ser 
neste a permutação de / em 6 talvez facto isolado, mas também 
em razão de o a átono permanecer aberto, ã, como resultante da 
contracção de a-\-a. 
j Como curiosidade direi ainda que na província de Leão se 

usa um verbo de identificação difícil, ahar(.<e). significando o 

que dizemos alar(-se), «fujir», como no provérbio — Aba! que 

i va grande el rio, aunque me dé ai tobiUo — «Ala! que vai 

grande o rio, apesar de (só) me chegar ao tornozelo > — , ritilo que 
se emprega quando se quere dizer — «que el hombre prevenido 
debe buir de la apariencia dei peligro» ^. — Abao-^ (=abad-0H) 
significa «arreda!». 

Informa-me também um amigo meu, da Estremadura Espa- 



1 Glosario etimológico de las palakras espaxol.\s de ori- 
GEN oriental. Granada, 1^80, mh i\ alabes. 

2 ETYMOLOGIrtCHBS WÒRTERIUCH DER ROMANISC-HEN SPRACHEX, 

Bonn, loTO, 2.^ parte, sub c. Alabe. 

3 DiCCIOXARIO ENCICLOPÉDICO HISPANO-AMIORICANO. 




Apostilas aos Dicionários Portugueses 3 

nhola S que ali se emprega abate inteijectivaraente, em frases 
como as seguintes. * Abate que me caigo, abate que lo cqjo, 
«cautela que eu caio>, «cautela, que o apanho», tudo formas do 
mesmo verbo abarse. 

Curioso rifão é um em que abas está por < abrigo, sombra » : 
às abas dos ciganos roubam os aldeanos *; como interessante 
é também a forma aldeanos, por aldeãos, aldeões, mantida pela 
rima. 

Devemos todavia conjecturar que náo é aldeanos castelha- 
nismo, pois ainda é usada na índia portuguesa a forma aldeano, 
abonada por Monsenhor Rodolfo Dalgado no seu interessante 
estudo sobre O dialecto iNDo-POBTrouÉs de Goa ^. — «Com 
ajuntamento dos Aldeanos da Camará», ^ Communidades Aldea- 
nas» — . 

(a)bada 

Qualquer que seja o sentido em que os nossos escritores an- 
tigos empregaram este vocábulo, ou designando a fêmea do rino- 
ceronte, como é a opinião geral, ou referindo-se a outro paqui- 
derma análogo, como declara Rafael Bluteau no Vocabulabio 
PORTuauEz-LATiNO, tcm-se-lhc atribuído duas orijeus diversas, 
uma arábica e a outra malaia, e no «^Glossário de palavras e 
frases anglo-índias * de Yule e Burnell *, dá-se em certo modo 
preferencia à primeira. A aceitar-se a orijem arábica, teríamos 
de acentuar abada, e assim o indica o Diccionahio Contempo- 
râneo, conquanto declare ser termo indiano Cste, o que é quanto 
ser pode vago, pois as línguas da índia sQo muitas, pertencentes, 
pelo menos, a três ou quatro famílias absolutamente distintas. 



^ O snr. A. Baselga, natural «la província <le Badajoz. 
2 Kevista Lusitana, vol. vli, p. 148. 
5 Ib. vul. VI, p. 70. 

* «The usual funn aba-la is ccrtainlv somowhat iii favour uf such an 
origin> : Hobson-Jobson, bt^ing a Glossary of Axíílo-Indiax colloquial 

TERMS AXD PHRASE8; Londrcs, 1880. 



Ápotttitas íioò IHcionàHúê Poriuyneseê 



c^ 



Se cousiderarmos que outra fofíiia portuguesa deste vo(5áí)uícr 
é bada, somos levados a concluir que o acento é na sílaba búf e 
neste caso teremos de optar pelo malaio bádaq « rinoceronte >< 
como étimo. Um parónirao deste vocábulo, abada derivado de 
aba, deve ser marcado com a inicial á para se diferençar do que 
faz o objecto deste artigo e se pronuncia abada, com a surdo 
inicial. 

Além do passo com que Bluteau abona o vocábulo, e da indi- 
cação que faz da Etiópia OBtníNrAi/ de Frei Joào dos Santos, 
para justificar a outra forma bada^ pode ainda autorizar-^e o seu 
emprego com as Batalhas da (Josípaxhia de J&sus na sua 
GLORIOSA província DO Japão, ào Padre Ant<inio Francisco 
Cardim ': — 

« O benjoim amendoado desce pelo- rio al)aixo do reino dc^ 
Laos, com as pontas de abada> — . 

F. Méudez Pinto usa da forma bada no- seguinte pasíío da 
Pebegrin AçÃo, referindo-se à Ásia insular r— « outros muitos 
animaes muito piores inda que as aves, como são alifantesy 
badas, liôes, porcos, búferos e gado vacum em tanta quantidade^ 
que cousa nenhua que os homens cultivem para nimedio de sua 
vida lhe deixaõ em pé> — ^. 

A letra final, q, da palavra malaia bádaq é quási imi>ercep- 
tível e é proferida na farinje. 



abafador, afogador; abafar, afogar 

Guilherme de Vasconcelos Abreu, num erudito i^rtigo, pu- 
blicado no CoEBEio DA Noite, de 25 de outubro de 1886, re- 
feriu-se à seita dos abafadores, e descreveu em que consistia 
abafar o moribundo, o que reputava prática relijiosa da antiga 
seita dos herejes Cátaros (« puros >), afim de impedirem o i[ue 



1 Lisboa, Imprensa Nacional, 1891, p. 251. 

2 CiiDltulo XLI. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



está a morrer de cometer pecado, depois de receber pela impo- 
sição das mãos do sacerdote o conííoJamento, correspondente à 
extrema unção da Igreja Católica. No mesmo artigo se vê que 
esse homicídio relijioso foi, e ainda é atribuído a seitas judaicas, 
tajito em Portugal, como fora dele, mas especialmente em Bra- 
gança e na Covilhã, onde abundam os cristãos novos. Aí vemos 
também a razão pela qual tam nefanda prática foi assacada aos 
judeus, com fundamento em outra prática judaica, inofensiva, de 
meter debaixo da cabeça do moribundo uma almofadinha de pe- 
nas de galinha, para o ajudar a bem morrer, 

O indivíduo que no norte é chamado abafador, denomina-se 
nâ Beira-Baixa afogador, com o mesmo siguiticado infamante, 
que, se é real, entende o douto professor não poder com justiça 
atribuir-se a seita nenhuma propriamente judaica. E sabido que 
os verbos abafar e afogar se encontram em uma acepção co- 
mum, a de «sufocar», conquanto tenham outras em que não são 
sinónimos. 

O termo afogador, como correspondente a abafador, vem 
assim definido na Revista Lusitana *: — <Christão novo en- 
carregado de estrangular ou abafar com as roupas da cama os 
moribundos da mesma communhão religiosa; pois, segundo é cor- 
rente, passa como preceito de certa seita judaica que os prose- 
lytos não devem morrer, mas serem mortos. O afogador cumpre 
a triste e repugnante missão com a serenidade com que o sacer- 
dote pratica os actos mais santos do seu ministério. Nos conce- 
lhos de Penamacor e Covilhã, onde abundam os chamados chris- 
tãos novos, são apontados pelo povo os afogadores. Conta-se que 
muitas pessoas teem sido instadas pelos moribundos para que os 
não abandonem emquanto não expirarem, horrorizados com a 
idéa do estrangulamento » — . 



* Vol. II, 1890-1892, p. 244: Xotas sobre a linguagem vulgar 
DA Aldeia db Santa Margarida (Beira-Baixa), por A. Alfredo Alvos. 



8 Apostilas aos Diciofiârios Portugueses 



ção recente, formado de (ibsentéisme, que é derivado do inglês 
absenteism, conforme E. Littré K 

Melhor forma fora sem dúvida absentista, com absorção do e 
de absente, « ausente >, à semelhança, por exemplo de deyitista, 
que se náo profere, nem escreve dent^ista. 

A Gazeta das Aldeias usou absenteísmo — < cesse o absen- 
teísmo, que o proprietário. . . explore directamente» — -. 

O Novo DiccioNÁRio DA LÍNGUA PORTUGUESA admitiu no 
Suplemento o termo absenteísmo, dando-o como brasileiro. 

Melhor seria com certeza absentismo, sem aquele e a dificul- 
tar a pronunciaçào, visto que de protestante dizemos protestan- 
tismo, e nâo protestanteismo. 



abside, ábside 

Na Revista Lusitana [vi, p. 95] mostrou J. Leite de Vas- 
concelos que a acentuação usual desta palavra, ábside, é errada. 
Teoricamente tem razào: em latim o i de absis, absidis deve 
ser longo, como o era em grego o de apsís, apsídos, «ligaçáo>, 
do qual os romanos o tomaram. O facto, porém, é que quási 
todos, se não todos, os lecsicógrafos portugueses acentuam ábside, 
naturalmente para se conformarem com o uso dos arquitectos, e 
esta acentuação é commum ao castelhano e ao toscano. No úl- 
timo livro, que trate de arquitectura, escrito em português acen- 
tua-se graficamente ábside, contra o sistema ortográfico do autor, 
que raras vezes marca acentuação ^, do que se depreende insistir 
êle em que deva ser assim acentuado. Conquanto em questões de 
linguajem não tenhamos por dever seguir caprichos ou particu- 
larismos de quem não tenha a competência especial nessas ques- 
tões, não devemos, contudo, dispensar absolutamente o seu voto. 



^ Dictioknairb de la langue françaisb. 
2 de 9 de julho de 19a5. 

5 Augusto Fuschini, A Architbctura religiosa da bdadb media, 
Lisboa, \90\j passim. 



AjwHtilai aos Diciotiários Portugueses 1> 



acabador 

O Novo DiccioxÁBio DA LÍNGUA PORTUGUESA inclui êste 
v»>cábulo, dando-lhe como definição — «o que acaba». 

£ insuficiente esta definição (que aliás era bem escusada por 
ser intuitiva) para o sentido era que êste substantivo é tomado, 
e que parece trivial, comquauto técnico, no anúncio n.° 321 B, 
publicado no jornal O Século, de 19 de abril de 1901 — «Aca- 
bador. Com as melhores referencias [aliás, abonações, informa- 
ções] de trabalho . . . admitte-se na fabrica de lanificios » — . 

Pelo teor do anúncio vê-se que é um « operário a quem se in- 
ciunbe o acabamento, ou última mão em uma peça de tecido 
de lã». 

acarrejar 

Em Caminha tem o sentido especial de « fazer fretes » . Vem 
já consignado em dicionários como equivalendo a carrejar, 

acarretador (Algarve) 

O emprego particular que na província mais meridional do 
continente português adquiriu esta palavra deduz-se claramente 
da seguinte definição, dada por J. Núnez no seu estudo Costu- 
mes Ai^ABvios *: — *Tem o nome de acarretador o indivíduo 
que anda recolhendo o trigo para o moinho, para cuja conducção 
se serve d'uma muar ou d'um carro onde transporta os saccos > — . 

Acém 

Êste termo de carniçaria, ou açougue, é usualmente escrito 
assem, escrita com certeza incorrecta, conquanto seja a adoptada 
por Bluteau no Vocabulário portuguez-latino, e repetida 



* in Portugália, I, p. 388. 




10 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ainda no Suplemento, acompanhada porém da qúe tenho por 
preferível. 

O termo, como quási todos os que pertencem aos ofícios de 
magarefe, esfolador, etc, deve ser de orijem arábica, e aos ss 
arábicos correspondeu sempre ç em português. 

O arabista José Benoliel sujere-me como étimo, entre outros 
menos prováveis, osn, « gordura >, que na realidade vem inchudo 
por Belot no Vocabulário árabe-francês S com a significação de 
«graisse>, e no Dicionário árabe-francês de Cherbonneau ^, cora 
as de «graisse, embonpoint». 

A definição do termo português é, conforme o Diccionario 
CoNTEMPOBANEO : — « parte do lombo da vacca, ou do boi, entre 
a pá e a extremidade do cachaço» — . 

Veja-se febra. 

acenha, azenha 

Os dicionários consignam em geral ambas as formas, dando 
quási sempre a preferência à segunda, que é, a bem dizer, a 
única literária modernamente. O povo emprega comummente 
a primeira, e em escrito recente, J. Núnez ^, referindo-se ao 
Algarve cita as duas: — «mas ha também os (moinhos) chama- 
dos de rodizio e as azenhas ou acenhas> — . Vê-se que a forma 
com c é a local, e está mais oonfoime com o seu étimo arábico. 

Os lecsicógrafos que teem tratado dos termos árabes que 
passaram às línguas hispânicas, a começar em João de Sousa ^ 
deram há muito a etimolojia deste vocábulo, AL-saNiE, e este 
arabista aponta como mais correcta a forma assania, no foral 
dado por D. Afonso Henríquez à cidade de Coimbra, mas escreve 



1 VOCABULAIRB ARABE-FRANÇAIS, BeirutC, 1S93, p. 692, Col. I. 

2 DiCTIONNAIRB ARABE-FRANÇAIS, Paris, 1876, II, p. 716, COl. II. 

3 Costumes algarvios, in «Portugália», i, p. 388. 

^ Vestígios da lingoa arábica em Portugal, Lisboa, 1830. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 11 

asenha. No Glossário de Bugelmann e Dozy S citam-se, a par da 
castelhana acena, as formas portuguesas azena, azeniu, atenha, 
todas duvidosas, e o assania citado, dando-se como étimo al-sa- 
KiE, com A longo, e acusando-se a pronúncia deste como e, 
que é peculiar da Península Hispânica. Eguílaz y Yanguas, no 
seu Glossário, * precioso nomeadamente pelas muitas abonações 
fidedignas que o ilustram, aponta mais a forma castelhana açen- 
na, que confirma a preferencia que se deve dar ao c, com pre- 
juízo do ^, e as catalãs cénia, sínia, malhorquina cinia, valen- 
cianas sénia, sinta, galega acéa, confirmando, porque a adopta, 
a forma arábica com a longo, valendo na Península por e. 

No Riba-Tejo é também ax^enha, pronunciado acênha, com e 
fechado, e não com a surdo como em Lisboa, a forma popular, 
que devera ser preferida por mais correcta; sendo presumível 
que a errónea ortografia com s, asenha, concorresse para a falsa 
pronúncia e escrita azenha, que literariamente se difundiu, con- 
siderando-se hoje, em geral, como defeituosa a pronunciaçào e 
escrita cora c, única popular e fiel ao étimo. 



Achada, chada 

Esta palavra, que nada tem que ver com o verbo achar, de 
probleniática orijem, pois é simplesmente derivada do radical 
planum, \ apjylanata, já recentemente entrou nos nossos di- 
cionários, com o significado de «chã, chapada, planície elevada, 
pequena». O dr. Gonçálvez Guimarães ^ adoptou-a, para subs- 
tituir o termo moderno e de duvidosa propriedade planalto, 
com que se procurou arremedar o francês jjlnteau, que João 



1 GlOSSAIRB DBS MOTS BSPAQNOLS ET PORTUGAIS DERIVES DB 

i.*ARABB, Leída, 1869. 

3 GlOSARIO DB LAS PALABRAS ESPAN0LAS DE ORIGBN ORIENTAL, 

Granada, 18S6, sub v, ageâa. 

3 Elbmentos DB Gbologia, Coimbra, 1897. 



â 



12 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Félix Pereira dilijenciou acomodar a português com a forma 
plató, a qual vingou por algum tempo, mas hoje, e ainda bem» 
está quási desterrada. Almeida d'Eça usa também o termo achada 
na sua Choroobaphia. 

O passo em que o erudito professor, a quem acima me referi, 
emprega os dois termos reza assim: — «e finalmente as achadas 
ou planaltos de Moncorvo » — . 

E precioso aquele livro pela propriedade de linguajem, toda 
portuguesa de lei, e muito bem explicada, no que se refere a ter- 
minolojia. 

O vocábulo achada figura na toponímia, como se pode ver 
no DicciONABio CHOBoaBAPHico de João Maria Baptista *, e é 
a denominação de um largo, e de uma rua de Lisboa, que, res- 
pectivamente, vêem apontadas, com os números 1 e 2, no qua- 
drado 63 da Planta dk Lisboa, publicada em 1880 em portu- 
guês, francês e inglês. Sào essas denominações largo da Achada, 
rua da Achada, e ficam para os lados do Castelo de S. Jorje. 

Conquanto, que eu saiba, o verbo achar não seja empregado 
actualmente em parte algiuua do território português no sentido 
correspondente ao castelhano allanar \ ap planar e, no copioso 
Glossário do dr. A. A. Cortesão * encontramos o particípio passivo 
achãado, de um verbo achãar, da mesma orijera, abonado com 
o seguinte exemplo: — «De guisa que em breve foi todo achãado 
[Azurara, Crónica do Conde Dom Pedro]» — . 

Em Mértola diz-se chadu | planata, e é possível que seja 
esta a forma primitiva, a que se soldasse o artigo femenino, como 
em arrã, arraia. 

Sobre achada com outra significação, veja-se achar. 



* VI volume da Chorographia moderna do rbixo de Portugal, 
p. 3, col. I. Lisboa, 1S78. 

* Subsídios para um Diccionário completo (históricÒ-etymo- 
LÓGico) da língua PORTUGUESA, Coimbra, 190'J. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 13 



achaque 

Ao exemplo de achaque na acepção de «pretexto», aduzido 
no DiccioNARio Contemporâneo, pode acrescentar-se o seguinte 
passo das Batalhas da Companhia de Jesus na pbovin(!Ia 
DO Japão S do Padre António Francisco Cardim: — *foi inti- 
mada nova sentença de desterro, tomando por achaque um incên- 
dio que na sua corte . . . sucedera » — . 

Sobre a etimolojia deste vocábulo, que desde Marina e Joào 
de Sousa - se afirma ser árabe, com o que concordaram Dozy e 
Engelmann 3, e Eguilaz y Yanguas *, veja-se o que diz Kõrting ^ 
citando Canello, que lhe atribui orijem germânica. 

Com efeito, o eh com que sempre se escreveu esta palavra, 
tanto em português como em castelhano, é incompatível com o 
étimo arábico a que o subordinam e que tem por primeira con- 
,soante x {^). 

achar; achar (substantivo) 

A. etimolojia deste verbo, que maiores probabilidades oferece, 
é, sem dúvida, o latim affiare, que entre outras acepções incom- 
patíveis, tem a de «bafejar», que também pouco se coaduna com 
as muitas que êle apresenta na nossa língua. Pelo sentido, pois, 
deveríamos repelir este étimo, e é isso o que F. Adolfo Coelho e 
Cândido de Figueiredo fizeram nos seus dicionários, não obstante 
u coincidência de se encontrarem em outros dialectos românicos 



1 Lisboa, 1894,1). 181. 

2 Vestígios da linooa arábica em Portugal, Lisbua, 1830. 

3 GlOSSAIRB DBS MOTS ESPAGN0L8 BT P0RTUGAI8 DERIVES DB 

l'arabe, Leida, 1869. 

* GlOSARIO de LAS P AL ABRAS B8P ANGLAS DB ORIGBN ORIENTAL, 

Granada, 1886. 

•^ Lateinisch-romanischbs WÒRTERBUCii, Padcrbom, 1891, ]>. 71, 

Col. II. 



14 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



várias formas a esta correspondentes, por exemplo o romeno a/lá *, 
e com o mesmo significado. 

Todos, porém, teem confessado que o étimo é tentador, e 
que pela sua constituição formal lhe corresponde perfeitamente: 
cf. chayna j flamma, cheirar \ flagrare. 

Vejamos, porém, se, mesmo foneticamente, o vocábulo pode 
subordinar-se a esse étimo. O correspondente verbo em castelhano 
moderno é hallar, pronunciado alhar (cf. llama j flamma), e 
portanto poderíamos supor que aquele h seja etimolójicamente 
eiTÓneo, como o é o de henchir j implere, «encher». Todavia, 
em muitos vocábulos o A é ainda proferido em vários dialectos, 
tais os andaluzes e os estremenhos, e era-o dantes quando tinha 
sido precedido de formas em que anteriormente figurava o /. 

Ora este verbo hallar tinha antigamente a forma fallur, o 
que torna inadmissível que procedesse de afflare; pois, ainda 
que admitíssemos a pouco provável inserção de uma vogal anap- 
tíctica a desunir o grupo de consoantes ffi, do que resultaria 
uma forma hipotética affalare, necessária para explicar o a da 
primeira sílaba, deixaria de existir o dito grupo, a que em cas- 
telhano corresponde 11 (l palatino) e em português eh (fl ani- 
ma ! llama, chama). 

Vê-se, portanto, que o étimo proposto carece de explicação 
satisfatória, mesmo foneticamente, e que o verdadeiro está ainda 
tam lonje de ser averiguado, como o do verbo correspondente em 
outras línguas românicas, trovare italiano, trouver francês, acerca 
do qual tanto se tem escrito. 

De achar provém o particípio adiado e achada. Estes par- 
ticípios substantivados diverjem de significado: o masculino 
achado quere dizer < aquillo que se acha » ; o femenino achada 
significava dantes — <^ Coimas ou penas, que se levão aos que fa- 
zem algum furto, roubo, ou detrimento nos lugares, frutos e 



1 Hunfalvy derivou aflá do ^rcgo alp'an<}: Du peuplií roumain ou 
VALAQUB, 40'' Congrès de la Société d archéologie fraiivaise (l^^TO), «Ciun- 
])te-rendu>. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 15 



teiTas que estão coutadas, ou são alheias; quando os Authores 
sáo achados, ou descubertos na execução deste crime > — *. 

Isto diz Santa Eosa de Viterbo, abonando-se com as Orde- 
nações. O vocábulo porém ainda é usado em Trás-os-Montes no 
sentido de «multas», como sou informado por indivíduo de Miran- 
dela, e este facto não está acusado em nenhum dicionário, que 
eu saiba. 

Pôr uma achada corresponde lá actualmente ao que em 
Lisboa se diz vulgarmente pregar uma coiidenaçcU), isto é, « im- 
por uma multa > . 

Achur, substantivo, como nome de uma conserva de frutos, 
hortaliças em azeite e vinagre com outros adubos, é o persiano 
ACAR (= achar), que pelo malaio passou às línguas europeias -. 
Grarcia da Orta descreve-o ^. 



acinzeirado (encinzeirado) 

Este vocábulo é um neolojisrao que não está incluído em 
nenhum dicionário da língua, mesmo no mais copioso deles, o 
Novo DicoioNÁRio de Cândido de Figueiredo. Digo ser neolo- 
jismo, individual talvez, porque outro da mesma significação e 
constituição aprossimada encinzeirado, suposto não figure tam- 
bém nos dicionários, é todavia muito usado pelo povo, pelo menos 
de Lisboa. p]is aqui a abonação : — «Havia desaparecido o nevoeiro 
e o dia apresentava-se esplendido, cheio de sol, vendo-se apenas 
no horisonte [sic], sobre as aguas, o acinzeirado que produz o 
norte forte > — *. 



1 Elucidário de termos, frases, btc, que antiguambxte sb 
USARÃO, Lisboa. 

2 Mareei Devic, Dictioxnaire btymologique des mots d'orioinb 
oribntalb. Paris, 1876. 

3 Colóquios dos Simples e drogas da Índia, i. Lisboa, 1891, p. 185. 
* O Século, de 6 de dezembro de 1900. 



IG Aj)08tila8 aos Dicionários Portugueses 



Açougue 

Quando a anarquia e a guerra civil começaram a desenca- 
dear-se no império de Marrocos, nos periódicos e revistas estran- 
jeiras apareceram frequentes descrições dos domínios do xarife, 
que eram avidamente traduzidas nos jornais portugueses, com 
maior ou menor vernaculidade. 

Liam-se então, reproduzidas com todas as letras com que os 
estranjeiros as figuravam, muitas palavras e denominações arábi- 
cas, e entre elas me lembro de ter visto soH% como designação 
de «mercado >. 

A nenhum dos indivíduos que para português vertiam essas 
interessantes notícias ocorreu que este vocábulo já existia cá há 
um milénio, com forma portuguesa, açougii^, a qual, se no uso 
corrente de hoje apenas significa a loja onde se vende a carne, 
principalmente a de reses bovinas e ovinas, em tempos anterio- 
res servia para denominar um mercado qualquer. Ao sentido 
especial e restrito que a palavra adquiriu se refere sem dúvida 
um articulista, que, pela maneira por que se expressa, parecia 
nào ignorar que tivera outros sentidos: — «A accepçào que vul- 
garmente se dá á palavra açougue logo nos evoca, com arrepios 
e náuseas, os logares de venda de carnes» — ^ 

O Glossário de Eugelmann e Dozy -, a pájinas 228, subordi- 
nado à inscrição azoíjue, castelhano, azoiujue, português, e por- 
tanto fora do seu lugar, porque o étimo desta é diferente 
[al-zauqe], diz-nos: — « Dans la signification de marche (dimi- 
uutif azocjuejo), c'est un autre mot árabe, à savoir as-sone, ou 
as-sõc [al-sh^] qui a le mêrae sens » — . 

E em seguida mais este trecho, que é de Dozy: — « Dans le 
Fuero de Madrid . . . azoche, En portugais açouffiie (ancienne- 



> o íSkctlo, lio 20 do iiiarvo d* l!»02. 

'^ GloSSAIHP: DKS MOTS BSPAGXOLS et PORTniAIS PÉ'.IIVÉS DK 



Apostila» aos Dicionários Portugueses 17 



nient açmigui), qui signifiait autrefois marche en géuéral, mais 
qui plus tard désignait spécialement: le marche oii Tou vendait 
de la Tiande, la boucherie. De ce mot vient le terme açoiu/ar/eni 
sur lequel ou peut consulter S.* Kosa > — . 

Como nào é o vocábulo açougajeriiy o qual, conforme o aba- 
lisado autor do Elucidário *, significava um tributo imposto aos 
vendedores, mas sim a palavra açougue o que por agora nos in- 
teressa, se recorrermos ao precioso repositório, que Dozy tanto 
encarece, (éminent savant portugaisy lhe chama), o que, seja 
dito, nào era seu costume, achamos lá esta informação : — 
«Acouon. Assim se chamarão os lugares, onde antigamente 
se vendiao, e compravào todas, e quaesquer mercadorias » — . 

O Suplemento ao Novo Diccionário de Cândido de Figuei- 
redo consigna esta acepção lata do vocábulo por um modo mais 
genérico, pois o define, com a cota de antigo: — ^arruamento 
de mercadores», o que me jarece temerário, pois lhe falta abo- 
naçào. 

Em todo o caso, é de aplaudir a inserção do sentido mais 
lato do vocábulo, visto como nem ainda no primeiro, e até agora 
único, volume d) Dicionário da Academia -, para o seu tem]>o 
monumental, se faz menção deste significado. 

Dispenso-me de citar, ainda que interessantes, as considera- 
VÕes apresentadas por Eguílaz y Yanguas sobre esta palavra, por 
se basearem em que desconheceu as acepções que ela tinha anti- 
gamente em Portugal, muito mais latas, que as que lhe atribui 
de — <caniicería, que es la que tiene la voz portuguesa* — -^ 

A conclusão, pois, é que açougue designou mercado, princi- 
palmente de comestíveis, e que, portanto, é escusado empregar- 



^> Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Elucidário das palavras, 

TERMOS E FRASES, QUB EM PORTUGAL ANTIGUAMBNTB SB USÁKÃO, ctc, 

Lisboa, 179S. 

* DiCCiOXARIO DA LINOOA PORTtTGUBZA, Lisboa, 17!í3. 

> GlOSARIO DB LAS PAT.ABR.AS E3P ANGLAS DE ORIGBN ORIENTAL, 

Oranada, 188G. 
2 



18 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



mos, com letras grifas, o termo sokk, malíssimamente ortografado» 
quando quisermos designar tais mercados nos países barbarescos : 
e isto com tanto mais razão, quanto é sabido que, no sentido 
restrito de mercado, loja, onde se vendem carnes, a denominação 
mais usual hoje é talho. Já o mesmo jornal, O Skculo *, disse: 
— « Mas a realidade é que náo temos senão açougues, e precisa- 
mos de ter talhos». 
Assim seja! 

acudia, acudia 

No Novo DiccioNÁRio admitiu-se este vocábulo, precedido 
do asterisco a indicar que a sua inserção em dicionários portu- 
gueses é feita pela primeira vez. Não é exacta a afirmação, por- 
que já J. Inácio Boquete no Dictionnaire portugais-fbançais * 
infelizmente o incluíra com a seguinte definição: — «•[• acudia, 
acudie, insecte lumineux de TAmérique méridionale» — . O sinal 
que precede o vocábulo indica também a sua primeira inserção. 
Que ânsia de novidade! 

A definição dada pelo lecsicógrafo português suprimiu o 
meridional, pois nos diz tam somente. —« acídia, insecto lu- 
minoso, da America» — . Deu-lhe pois muito mais dilatada vi- 
venda. Feliz bicho! 

Rufino José Cuervo na Komania ^ deu-nos a história deste 
curioso termo, que até época muito recente figurava em todos os 
dicionários franceses, onde os dois lecsicógrafos portugueses o 
foram buscar, em má hora, sem indagarem se algum escritor 
nacional o havia empregado, sem o quê, fosse êle francês, que 
não é, nenhimi direito havia de o rejistar. 

Eis o resumo do interessante artigo de Cuervo. 

No primeiro e único volume do Dicionário da Academia Es- 



1 de 20 de março de 1902, citado antes 

2 Paris, 1855. 

3 Vol. XXIX (1900), p. 574 e ss. 



í 



Apostilas aos Diciofiários Portugueses li) 



panhola, reimpresso em 1770, vera uma advertência, em que se 
p*'>ndero« o erro cometido por Trévoux, no seu dicionário e na En- 
ciclopédia, ao incluir o vocábulo acudUu que foi tomado como 
uome por De la Goste, na sua infeliz verstlo * da História das 
índias de António de Herrera. O texto reziíva assim, referindo-se 
a certo pirilampo de Cuba: — *tomábanle de noche con tizoncis, 
porque acudia á la lumbre, y llamándole por su nombre, acudia, 
y es tan torpe que en cayendo no se podia levantar » — . 

O texto é claríssimo, pelo menos para qualquer espanhol ou 
português. De la Coste traduziu-o para francês, do estupendo 
modo que se vai ver: — <I/on prenait ces animaux de nuit avec 
des tisons ardans, parce qu'ils venoient voltiger autour de la lu- 
mière; leur propre nom est açmlia* — . 

Este acudia, com esta forma, ou com a de acudia, e também 
acudie, ora masculino, ora femenino, foi passando de uns para 
outros dicionários, e no Universal de Boiste ^, com a forma 
aciulia, era assim definido: — «insecte volant et lumineux des 
Indes Occidentales » — . 

Littré teve o bom juízo de o nào admitir, cautela que, por 
fortuna, já tivera o dicionário da nossa Academia, cujo primeiro 
volume, único publicado em 1793, é um bom livro, para o seu 
tempo. 

E pois necessário proscrever semelhante vocábulo, falsíssimo, 
de todos os dicionários portugueses que venham a publicar-se. 

Citarei, a título de curiosidade, outro disparate de versão, 
de proveniência igualmente francesa. M. A. Marrast traduziu 
em 1866 o notabilíssimo estudo de Guilherme de Humboldt 
Prufunq deb Untersuchung úber die Urbewohxer Spa- 
NiENs, « Investigações acerca dos primitivos habitadores da Espa- 
nha >, com o título Recherches sur les habitants primitifs 

DE L'EsPAGNE, a L'aIDE DE LA LANGUE BASQUE ^, traduçQO 



* 1659-1671. 

í 1803. 

5 Paris, 1866. 



'\ 



20 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



bastante correcta, e acompanhada de algumas valiosas notas. 
A pájinas 45 lemos o seguinte extraordinário trecho: — *Lissa 
des Jaccétaus (Ptol ii, 6, p. 48), de lizarraf en dialecte de La- 
bourd Jcizarra cendre. Cette étymologie pourrait être taxée 
d'arbitraire si Tlbérie u'eút renfermé deux localités du nom de 
Fnwinii^f Tune en Lusitanie et Tautre chez les Bastetans> — . 

Eran las dos y sin embargo llovia! 

O leitor preguntará espantado e perplecso em quê o haver 
nas líspanhas duas povoações com o nome de Freixo (Fraxi- 
uus) concorre para se admitir como provável que Lissa, nome 
de outra povoarão, se possa identificar com um vocábulo, lizarra, 
cujo significado se declara ser «cinza»! 

A explicavilo é esta. Km alemão E><che quere dizer « freixo >, 
e Áschv, «cin/a ». O tradutor tomou E^che ^ox Asche, e cometeu 
esta iinidverténcia, pouco desculpável, visto que o disparate lhe 
devia ter dado nos olhos, e porque tinha todos os meios de ave- 
riguar o significado próprio do vasconço lizar, (=Iiçar), decla- 
rando-se, como se declara, «Procureur imperial à Oboron-Sainte- 
Marie (Hasses Pyrénées)>, isto é, em terras vascongadas. Ora, 
liznr, em vasconço corresponde ao Jraxiniis' latino, frêne, e 
nào, cendre, em francês, freixo em português. 



adega, bodega, botica; botiquoiro, botiquim 

Em última análise, existe como étimo extremo destes três 
vocábulos diferentes o grego t^ekê, substantivo derivado da base 
do verbo tít^êmi ^ cujo aoristo, ou pretérito indeterminado, é 
ÉT'ÊKA, e a significação «pôr no seu lugar >. O substantivo 
t'éké quere pois dizer «arrecadação». Palavras portuguesas, de 
orijem artificial, em que o étimo grego figura menos alterado 
são hipoteca, e o muito moderno pinacoteca, que para nós veio 



1 W. Pape, Griechisch-dbutschbs Handavòrterbuch, Brunsvi- 
<iue, 1880. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 21 



do francês jrínacoth^que, o qual, pela sua parte, é provavelmente 
mera acomodação do alemão pinal-otheJc. 

Oi romanos receberam dos gregos o vocábulo apotheca 
(apot^ekE), com o significado de «armazém de arrecadação, 
principalmente de mantimentos» *; e deste se derivaram na Pe- 
nínsula Hispânica, culerfa e bodega, ambos os quais querem dizer 
«casa de arrecadação de vinhos em cubas», desaparecendo no 
primeiro a sílaba átona po, e no segundo o a inicial. O último 
passou depois do castelhano ao português num sentido pejorativo, 
muito bem explicado por Bluteau, pelas seguintes palavras: — 
^ He palavra castelhana, que vai o mesmo, que Adega; e de 
Bodega fizerao os Castelhanos Bodegon, que vai o mesmo, que 
lugar subterrâneo na Adega, aonde quem nào tem quem lhe faça 
o comer, o acha as mais das vezes mal guisado. Por isso cha- 
mamos vulgarmente à Bodega: O mal cozinhado. Por Bodega 
entendemrs huma taverna a modo de barraca, ou cabana, que se 
arma commununente no campo com paos, e pannos, em ocasião 
de feira, ou festa popular, ou outro concurso, aonde se cozinha, 
e vende o comer ao povo» — *. 

Botica deriva Bluteau, com razáo, do francês boicfique — 
* que é o nome geral de todas as lojas, em que estão mercancias 
em venda » — ^, e na realidade assim é, e era, tanto em francês, 
como em português, pois ainda hoje chamamos botica do chèch^', 
a uma loja de miudezas diversas, expressão que provavelmente 
uos proveio de Macau, e aí quererá dizer o mesmo, e na qual o 
epíteto deve corresponder ao chinês chau-cliau *, «conservas», ou 
a outro vocábulo análogo. 

Em italiano, também a palavra bottega quere dizer «loja de 
venda, em geral», e o próprio deminutivo botequim, provavel- 
mente antes, botiquim, indica que o termo botica se não limitava 
a designar «farmácia». 



* M. Theil, DiCTiONNAiRB LATiN-FRANÇAis, París, 1889. 
2 e 5 Vocabulário portugubz-l atino, Coimbra, 1712. 

♦ Revista Lusitana, iv, p. 97. 



22 Aj)08tila^ nos Dicionários Portugueses 



A forma boutique francesa nâo tem aspecto de ser imediata- 
mente derivada do latim apotheca, visto que tem i por ê, e 
que excepcionalmente por ca, em vez de che: cf. cheval | cabal- 
lum, vache j vacca. 

E. Littré * é de parecer que o vocábulo tivesse vindo de Itália, 
atenta a queda do a inicial, o que nos leva a crer que o caste- 
lhano bodega provenha igualmente de bottega toscano, onde tal 
supressão é frequente (Cf. badessa, por abbatessa). Esta solução, 
porém, ainda uào explica o i, a que não encontro outra explica- 
ção senào esta: 

O vocábulo passou de Itália a França por intermédio de uma 
forma dialectal que fosse botica, ou bottica, em vez da toscana 
bottef/a, e assim se explicaria igualmente o português botequim, 
visto como em veneziano se diz boteghin, por «lojinha»; e pre- 
siuuívelmente os primeiros botequins pertenceram a italianos, 
assim como as primeiras perfumarias e as primeiras pastelarias. 
Essa forma bottica, ou botica, cuja existência resta averiguar em 
qualquer dialecto italiano em contacto com a população grega, 
receber-se-ia desta, quando já certíssimamente o è havia adquirido 
o valor de /, que tem no grego moderno, e já tinha no medieval, 
de modo que a palavra apot^Ekê, fosse pronunciada, como hoje 
em dia o é pelos romaicos, ai)o§íhi -. 

Bluteau, no Suplemento, rejistando o substantivo Butiqueiro 
diz: — «Em Goa e outras cidades da Índia Oriental, Butiqueiro 
é tendeiro, porque os poi-tuguezes da Lídia chamam Butica á 
loge, ou tenda. Em Goa, Butiqueiros vendem toda a casta de 
comestiveis, e também mezinhas [remédios], tabaco, etc. (Que- 
rendo comprar de hum China Butiqueiro). Fr. Jacintho, Vergel 
de plantas 143 > — . 

O próprio vocábulo tenda, que a princípio significava «bar- 
raca», ao depois «loja», veio por fim a especializar-se no sen- 



1 DiCTIOXXAlRB DE LA LANGUE FRAXÇAISB, Paris, 18S1. 

2 O sinal § inlioa a pronúncia do th inglês de tliiytg, pouco mais uu 
menos o c castelhano antes de e, i. 



Apostilas aos Dicioiiários Portugueses 23 

tido, já hoje quási obsoleto, de «loja onde se vendem comestí- 
veis >, o que no Poi^to se dizia loja de peso, e em Lisboa mais 
modernamente se denominou mercearia, palavra que do mesmo 
modo variou muito de sentido com o tempo, pois antes queria di- 
zer 'loja de capela» ^ como o mercería espanhol. 

Âdema, adémia 

No Elucidário de Santa Rosa de Viterbo ligura este vocábu- 
lo, com remissão a atlmenas, com o qual o douto frade o identi- 
fica, um tanto hesitante. 

Pela definição que dá do último, isto é, — «alemedas, passeio, 
rua de quaesquer arvores frondosas e copadas» — , confrontada com 
a que atribui a adenuis, é impossível a identificação, pois estas 
sào definidas por ele próprio nos seguintes termos — < Em mui- 
tos documentos que fallão no Campo da GoUegà, e nas ribeiras 
de Torres, Brescos, e outras no termo de Santiago do Cacem no 
Século XV, e xvi se chamão Adernas: as terras planas, e de 
veiga, ou seara, e mesmo quaesquer outras reduzidas a cultura» — . 

Ora aderna, ou adémia já eu o defini, como sendo usado 
em Coimbra, por informação de Guilherme de Vasconcelos Abreu, 
que o empregou na Chand-Bibi * : — «O campo . . . é adémea 
situada entre montanhas» — . 

Veja-se em adil. 

adiça, adiceiro 

O Novo DicciONÁHio ^ de Cândido de Figueiredo traz o 
termo adiça «com o significado» «mina de ouro», capitulado 
de antigo; não incluiu porém adiceiro, que o próprio autor em- 
pregou depois no Diário de Noticias de 11 de junho de 1904. 



* V. Bluteau, i6. 

* Lisboa, 1898, p. 15. 

' XÔVO DiCGlONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA, Llííboa, 1898-1900. 



24 Apoatilas aos Dicionários Portwfueses 



adil 



Esta palavra, já apontada do Suplemento ao Novo Diccioná- 
Rio, é assim definida ali, como transmontana: — «o mesmo que 
poisio, Diz-se *um adil»; mas, especialmente: * estar ou ficar 
a ferra de adil (Termo de Miranda)» — . 

Logo após este, consignam-se também o verbo adiJnr e o seu 
particípio passivo adilado. Nenhum dos três está, pofém, abo- 
nado, por nào entrarem tais abonações no plano do dicionário, o 
que é de sentir, mormente em vocábulos de novo colijidos. 

Para o primeiro tenho eu notada abouaçào, de escritor trans- 
montano ^ e é a seguinte: — «vê a luz, vagando inquieta e solu- 
çante, da alma penada de Santa Cruz, que percorre. . . milhões 
de vezes aquelle urzedo, esteval e adil, da fralda á cumiada» — . 

Se bem que o termo é referido ás terras de Miranda no 
Novo DiccioNÁRio, nào se encontra êle no Vocabulário etimoló- 
jico, que forma de páj. 145 a 225 a Parte v do volume ir dos 
Estudos de Philologia Mirandesa de J. Leite de Vascon- 
celos; e, atento ó escrúpulo e minuciosidade com que o seu autor 
compôs esta notabílíssima obra, é de supor que o termo nâo seja 
propriamente mirandês, mas geral transmontano, e como tal o 
incluí eu no vocabulário de Kio-Frio que publiquei no primeiro 
volume da Revista Lusitana ^, (p. 203), onde o defini, «terra 
de pousio», acrescentando: — Cf. adémia, aderna, «terra no sopé 
de monte», ou, «entre monte e rio, susceptível de qualquer 
lavoura » — . 

Este último, com a forma única aderna, vem apontado no 
Nóvo DicciONÁRio, líias capitulado de antigo. 

Veja-se este vocábulo. 



^ M. Ferreira Deusdado, O Recolhimento da Mófrbita, in «Revista 
de educação e ensino, 1891, e também tirado em separado, simultaneamente. 

2 Materiais para o estudo dos dialectos portugueses, Falar 
de Rio- Frio. 




Apostilfis aos DicionàrioH PorlmjnesteH 2*> 



adiia 



Este vocábulo, que se pronuncia adúa, é dado como anti.ir«^ 
pelo DiccioNABio CoNTEMPOBANEO coDi a signiKca^ào de reba- 
nho», e pelo Novo Diccionáhio, como alentejano, querendo dizer 
«matilha de cães». Ambos lhe atribuem como étimo um (id-dulUi. 
arábico; o segundo, porém, com um ponto de interrogarão, e com 
razão, \isto que, a estar bem escrito o vocábulo arábico, o / nào 
haveria desaparecido, por estar duplicado. 

Nos meus apontamentos tenho esta palavra como u<ada em 
Cast^lo-Branco com a seguinte significação: «chào públiro onde 
pastam porcos, cujo porqueiro é pago em comum*. Infelizmente 
nào está abonada esta definição, que provavelmente foi dada de 
viva voz nào sei já por quem. 

Ainda no Novo Dicc, e em seguida a ailaa, lemos inluaila, 
como termo beirão, definido desta maneira — < manada (de por- 
cos) > — . É evidente derivado da adua, que é diferente <le outro 
admi, anúfhwa, anúdiva, incluído em ambos os diciouáriv)S in- 
dicados, cora a significação de uma espécie de imposto, e sobre 
o qual se podem consultar com muito proveito, além de lUnteau, 
no Suplemento, o Klucidário de Santa Rosa de Viterbo, e princi- 
palmente o Glossário de Dozy e Eugelmann, bem como o de E^nií- 
laz y Yanguas, anteriormente citados, e cujo étimo, também ará- 
bico, é diferente (ni^dbe), e difícil de se acomodar com a forma 
adua. 

No Suplemento ao Novo Dicc. dào-se mais os seguintes 
subsídios para o entendimento do significado de adua, < reba- 
nho ^i — «local onde os porcos, pertencentes a diversos habitan- 
tes da mesma povoação, permanecem durante o dia. Colhido no 
Fundão > — . Este esclarecimento aprossima-se bastante da minha 
informação acima referida. 

Disse que addúlla não pode ser a escrita certa do vocábulo 
arábico que se dá como étimo; na realidade, João de Sousa ^ 



» Vestígios da lingoa arábica em Poutitgal, Lisboa, 1S:J0. 



2*5 A}><^^^i'fi^ a:n< DÍLÍonnrit>n Pnffnguc^-^ 



OU antes Frei José de Santo António Moura, que reviu e aumen- 
tou a 2.* edição, que eito sempre por já nâo ter a primeira, 
transcreve o vocábulo com um só /. Aãdida (al-dule), e dá 
uma excelente definição, que tudo congniça. e é pena nào haver 
sido aproveitada: — . Rebanho de bois e bestas de qualquer Villa 
ou (Jidaíle, tjue sabe a pastar, pastoreado por hum ou mais indi- 
víduos aos quaes hum dos donos paga mensalmente um t^nto por 
cabeça - — . 

Bluteau * diz ser palavra alentejana, significando «matilha •, 
como termo de caçador. 

<> termo aduo está empregado no seguinte documento oficial: 
— '<Ait. I. Associações de proprietários ou hereos das levadas da 
Ilha da Madeira, ou de qualquer outra região onde haja o mesmo 
regimen de aguas, ou das a duas são reconhecidas como asso- 
ciações legaes para todos os acios juridicos. especialmente para 
por meio dos seus juizes, direcções ou commissòes directoras, 
quando devidamente auctoriziídas pela assembléa dos consortes, 
ou como proprietários adquirir, por qualquer titulo legitimo, os 
bens immobiliarios precisos, com destino á conservação, accres- 
centanieuto ou melbor aju'Oveitamento dos mananciaes de agua 
dessas levadas > — -. 

Tanto as áiruas, como as aduas. são bens comuns. 



adufe 



Vem incluído no Dicr. Cí)Xtemporan?:o e muito bem defi- 
nido, sem abonaçào porém antiga, ou moderna, visto que o ins- 
irumento ainda é usa Io, em Kvora. por exemplo, onde o ouvi 
tocar na noute de Santo António, há uns cinco anos. 

Como abonação pode servir a seguinte: — 'Ouviam-se já des- 



1 VoCAltULAUIO PORTrOURZ-LATIXO, Lisboíl, 1712. 

2 Cauta de lei de 20 de julho de ISSS. 



f 



Apostilas aos Dicionários Portugues^^s 27 



cantes pelas ruas [de Lisboa], pandeiretas e adufes para as bandas 
do Rocio» — ^ 

Abonaçòcs clássicas podem ver-se no volume único do Dicio- 
nário da Academia, no qual é dado erradamente o étimo arábico, 
que 03 mais lecsicógrafos teem copiado, quando podiam vê-lo 
certo em João de Sousa ^,ad<lofe (ou addufe), isto é, al-dif, e 
uào addafo, que no Dic. da Academia é erro tipográfico, ou lapso. 



afagar, fagueiro 

Vários étimos teem sido propostos para este vocábulo, par- 
tindo todos os nossos lecsicógrafos da acepyão «acariciar», que 
desde Bluteau lhe é dada, ou exclusivamente, ou como a primá- 
ria, e nenhum deles se deu ao incómodo de averiguar se tais 
etijflos se compadeciam com as correspondentes formas em outras 
lÍDífuas românicas, fuilagar, castelhana, antiga fahvjar, català 
(l/alegar, 

O Contemporâneo absteve-se de aventar um despropósito 
qualquer, como houvera sido prudente que o fizesse com tantos 
outros voi*ábulos. F. Adolfo Coelho ^ fez avisadamente apenas a 
compara^*ào com as formas castelhanas, antiga e moderna. Cân- 
dido de Figueiredo * deu mais um passo identificando o vocál)ulo 
afagar com mna forma sem a inicial, abonada com Filinto Klisio, 
faixar, que é mais compatível com a castelhana falagar (cf. ca- 
lahaza e cabaça): e no Suplemento aduziu outra acepção que 
por mim lhe foi indicada — «desfazer as asperezas, aplanar > — , 
com a etimolojia proposta em tempo, e depois rejeitada, pelo 
Dr. Júlio Cornu ^ (ad)faciem lagare, para lhe substituir outra 



* António de Campos, Luiz db Camões, 2.* Parte, xiv. 

2 Vestígios da lingoa arábica em Portugal, Lisboa, 1830. 

3 DlCCIOXARIO BTYMOLOGICO DA LÍNGUA PORTUOUEZA. 

* NOVO DICCIONÁRIO DA língua PORTUGUESA. 

^ Romania ix, p. 131, (1880). 




'*< 



AjujsfUds aos Dicionários Portngueaeft 



inadmissível fonética, e mesmo ideolójicamente, fallax *, porque 
o / jj:eminado nào haveria desaparecido em português, e em cas- 
ti»lhauo teria produzido / palatal (7/>, visto que o vocábulo é em 
ambas as línguas de orijem evolutiva, popular; e ainda porque é 
sempre de bom aviso em palavras desta espécie averiguar se há 
um sentido material por elas expresso, e que em regra é a sua 
primeira acei>çrio. da qual as outras sào desenvolvimento. 

Outras etimolojías teem sido propostas por diferentes roraa- 
nistas abalisados, como Frederico Diez, João Stoim, Gastão Pa- 
ris, e outros citados por Kõrting *, nenhuma das quais porém 
satisfaz completamente, nem resolve as dificuldades fonolójicas, 
que o vocábulo apresenta, comparadas que sejam as formas por- 
tuguesas ofatfo, ((i)fa;ja}\ fagueiro (fàjiieiro, ou fagueiro), as 
castelhanas falagar, haJagar, huJago, halagu^m, a catalã afa- 
legar, e a asturiana a/alagar. Até agora, portanto, a mais plau- 
sível é ainda a primeira proposta por Cornu, apesar das suas 
pequenas dificuldades fonéticas, principalmente se tivermos em 
atenyrio que o sentido em que o vocábulo é usualmente tomado 
de «acariciar», nào pode ser o primitivo, o qual sem dúvida foi 
o que ainda perdura como termo de marcenaria, isto é, < pôr à 
face, alisar >: ou mais rigorosamente, como terminolojia técnica, 
já restrita esta acepção lata, « chegar ao (mesmo) livel a madeira 
ensamblada, alisando-a. ou, como dizem «afagando-a». 

Já em tempo, na revista belga Muséon, porém menos cir- 
cunstanciadamente, me referi a esta etimolojia, ao dar ali conta 
dos estudos de gramática portuguesa, publicados, como já disse, 
em 1880, na Romani a, pelo actual professor de línguas e lite- 
raturas românicas na universidade de Graz, para a qual foi trans- 
ferido da de Praga, onde rejia cadeira análoga. Mencionei então 
apenas a mais os vocábulos castelhanos lagotear, lagotero, «ba- 
jular, bajulador», cuja relação com o de que trato aqui me pa- 
rece agora incerta. 



1 Grukdriss der Romaxischbx Phiix)U)Gie, I, p. 756, n.° 1.31. 

2 Lateinisch^romaxisches WoRTERRUCH, Padcrborn 1890: 300. 



% 



AptUftilaH aos Dicionários Portitgneftes 29 



Assim, todas as investigações que no futuro se fizerem sobre 
a etimolojia destes vocábulos devem, a meu ver, basear-se numa 
forma peninsular falafjar, significando » alisar >. 



afreimar 

í O Xòvo DicciONÁHio traz esta forma, remetendo o leitor 

para afleiynar, e desta para affeumar, aparentemente mais 
próssima de fí^uma \ phlegma, e à qual dá como definivão 
' tomar íieumático, pachorrento * . 

Xão me parece que as remissões estejam bem feitas, pois 
nos A\'6re3 este verbo quere dizer «' infiamar-se, júorar», e pa- 
rece extraordinário que o étimo dele seja o que se lhe atribui; 
8?ria mais corrente dar-lhe como étimo imediato o substantivo 
freinia. que o mesmo dicionário inclui no respectivo lugar, e 
6ra dúvida deriva de fíeç/ma. 

Em todo o caso ficará consignada aqui a acepyào em que é to- 
mado, pelo menos em S. Miguel, o verbo afreimar, derivado de 
freinia, que vem já em Bluteau, no sentido em que hoje empre- 
íramos ftehnão, de phlegmone, vocábulo grego, adoptado em 
latim *. 

agostadouro 

Este vocábulo nào está incluído nos nossos dicionários, nem 
mesmo como provincialismo, apesar de muito bem formado e 
muito expressivo. Merece bem que aí se lhe dê cabida. 

Abonação excelente é a seguinte, que encontramos na pri- 
morosa publicação intitulada Portugália, vastíssimo repositório 
de dições, usos e indústrias do nosso povo, e cujo segundo volu- 
me está já sendo publicado: — «Entretanto o rendeiro antigo tem 
ainda o direito de aproveitar o agostadouro da seara última . . . 



Vide O Século, do 5 de Julho de líK)!. 




30 Apostilas aoi Dicionários Portugueses 



coiiiendo-lhe a espiga e sementes com o gado suino que enten- 
der, e bem assim com o numero de bois ou bestas estrictamente 
necessárias ao acarreto respectivo» — *. 

Este substantivo pressupõe a existência de imi adjectivo agos- 
tado, paiiicípio passivo de agostar, derivado de agosto, e que não 
sei se existe em português, mas vem apontado no Dicionário 
da Academia espanhola, com a seguinte definição, que aclara o 
sentido da palavra portuguesa — «pastar el ganado durante el ve- 
rano eu rastrojeras ó en dehesas» — . 

A forma agostadouro portuguesa corresponde à castelhana 
agostadero, que o Dicionário da Academia não inclum, mas que 
é usada, pelo menos, na província de Badajoz, onde, como estou 
informado por pessoa daquella província, a meúdo é confundida 
com abrebadero. « bebedouro >. 



agra, agro: campo; agrela, agrelo 

Palavras muito corriqueiras no norte de Portugal, não só 
como nomes comuns, mas também na toponímia, com alguns de- 
rivados, dos quais provêem apelidos, por demais conhecidos. Lemos 
no primeiro volume de publicarão a que já nos referimos, Por- 
tugália, o seguinte, em uma monografia a todos os respeitos 
digna do maior encarecimento: — «^ager... na última [acepção] 
e também da sub-unidade, apparece repetidas . . . vezes em agro, 
agra . . . agreh ou a-grela * 



a 



Agua: 



Certos derivados deste vocábulo e várias acepções deles ainda 
não entraram nos dicionários, e por isso apontarei aqui alguns. 



1 J. Silva Picáo, ETHNoaRApiiiA do Alto Alemtejo, p. 280. 

2 Alberto Sampaio, As *villa8» do norte de Portugal, p. 123 
e 5Sl. 



Apoitilas aos Dicimiàrios Portuguesen 31 



aguado 

Este particípio passivo do verbo aguar (àjuâr) tem em Ca- 
míDha a siguificayào de «guloso». 

aguardente 

Esta palavra, que em Lisboa é pronunciada aguardente, em 
vários pontos do país revela ainda a consciência da sua formação 
por parte de quem a emprega, pois é pronunciada àf/imnlenfe, 
devendo os que assim a proferem conservar os dois elementos 
sejiarados na escrita por hífen: áíjua-ardenfe. Na Collec-vão de 
i.EaisLAvÃo poBTLrauEZA, rcfcreute aos anos de 1753-17H2. Su- 
plemento, ainda se imprimiu tigoa ardente, 

A lei de 14 de junho de 1901, publicada no Diário do Go- 
verno de 15 do dit^ mês e ano, traz uma interessante nomen- 
clatura das várias espécies de aguardentes (ou áf/nas-ardente.s'), 
que tem por bases a graduação centesimal, a matéria prima de 
que sâo distiladas, a procedência, e as denominações por que sfio 
couhecidíis geralmente, quer no comércio, quer no público. Inú- 
til fora reproduzir aqui essa nomenclatura, mas não o é recomen- 
dar que na feitura de novo dicionário da língua, ou na reedição 
de algum dos já publicados, ela seja tida em atenção com as 
rigorosas definições que ali são dadas. 

agilista 

Este vocábulo para ser bem figurado, no que respeita* ã sua 
pronúncia, deveria ser escrito com três acentos àguísta: o pri- 
meiro, grave, para indicar que o a se profere abei*to; o segundo, 
também grave, para avisar que se profere o w; e o terceiro, agu- 
do, como sinal de que o / não forma ditongo com aquele «, isto 
é que ele se não lê aguista, nem agàista. Basta porém o que 
marquei na epígrafe. 



82 ApoHtilas noft Dicionários Portugueses 



E de iutrodução recente e significa « o indivíduo que está em 
sítio de águas medicinais, para fazer uso delas: — «Vi um tele- 
gramma do gerente da empreza de Mondariz, dizendo que os 
hospedes se oppòem á ida de agulstas do Porto» — ^ 

É provável que seja castelbanismo. Também se diz aqàisfa. 

agude, agiídia, agiiida 

O CoNTEMPOEANEO defiue a(/âdea, como «formiga de asas» 
e dá como variante arjude. O Novo Diccionábio dá a mesma 
definição dii forma a:jàdia, e atribui-lhe, em dúvida, o étimo 
agudo. 

José Joaquim Núnez no seu escrito Dialectos algarvios, 
publicado na «Revista Lusitana» - apresenta-nos as seguintes 
formas do mesmo vocábulo, e de um seu derivado: — ^aguidào,* 
espécie de formiga. Embora o suficso ão seja próprio de aumen- 
tativos wjudião designa uma formiga de grandeza inferior á de 
agudia, que o povo diz agicida, como também aquídâo* — . 

Faltam aqui acentos indispensáveis para se lerem bem os dois 
vocábulos, agàlda, agàidào, pois de outro modo o zc deixará de 
ser proferido, errando-se a pronúncia dos dois vocábulos. A forma 
af/ãida, por agúdia, é análoga à verba seguinte aíhfo, por hábito. 
E fenómeno conhecido este, em português, de o / átono penúltimo 
de um esdrúxulo passar á sílaba acentuada, foimaudo ditongo, 
resultando muitas vezes dessa passajem vocábulos parocsítonos; 
ex.: Anfoino, forma popular de António, desuai^nr por desva- 
riar, chiiiva, no norte, por chuvia, de pluuia, eira, de área, etc. 

alagar, alago 

Este verbo, além das várias acepções apontadas nos dicioná- 
rios modernos, tem mais a de «deitar ao chào>, como palavra 



1 O vSectlo, (lo 17 de agosU) de 1890. 

2 VII, p. 101. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses Ij3 



alentejana, mas que eu ouvi também em Vizela e foi consignada 

no COXTEMPOBANEO. 

No volume único do Dicionário da Academia * vem indicada 
já esta significação, pelas seguintes palavras: — ^alluir, subver- 
ter» — . Dá três abonações, uma das quais, colhida nas Décadas 
de Joào de Barros, é apropriadíssima: — «Dizia que com punha- 
das de terra sem mais armas, os íeus alagarião a Fortaleza» — . 

E difícil saber o sentido exacto em que o Padre Cardim em- 
prega o que parece um substantivo rizotónico derivado deste 
verbo, no seguinte passo — «mandou publicar [o rei de Cochm- 
china] uma chapa ou provisão contra a lei de Deus e contra os 
padres [da Companhia de Jesus], a qual • foi a primeira que 
naquelle reino se pôs em público e se fixou á porta da igreja 
que os padres tinham em Taifó. Cahiu a porta com os alagos, 
accusou a aldeia ao padre, que na casa estava, deante de um 
mandarim, culpando-ò de tirar a chapa» — -. Confrontado o vocá- 
bulo alago com alagar no passo de Joào de Barros, citado, de- 
duz-se que é um substantivo verbal, significando talvez «ruína». 

Em Leiria alagar é usado no sentido de «deitar a baixo», 
por exemplo, parede alaga-la, «derribada». 



alavão, alabão 

D. Kafael de Bluteau, no Vocabulabio pobtuguez latino, 
dá à primeira destas formas, que escreve alavam, o significado 
— «manada das ovelhas que dão leite» — , considerando o termo 
alentejano. 

J. Inácio Roquete rejistou este vocábulo no seu dicionário 
português-francês ^ como adjectivo: — «(gado) brebis qui donne 



* Lisboa, 1793. 

2 Batalhas da Companhia db Jesus na província do Japão, 
p. 182, Lisboa 1894. 

5 DiCTIONNAIRB PORTUGAIS-í^RANÇAIS, Paris, 1855. 



3 



34 A2)08tHas ao3 DkiowXrios Portugticses 



du lait (pour faire le fromage)» — . Cândido de Figueiredo no 
Novo DicioNÁBio DA LÍNGUA PORTUGUESA inclui-o como piovin- 
cialismo, definindo-o assim: — «gado que ainda mama> — . Nào 
sei com que fundamento lhe é dada aí esta acepção, que toda- 
via nào contesto. 

O Conde de Ficalho, numa série de artigos publicados na 
interessantíssima revista de Serpa «A Tradição», intitulados O 

ELEMENTO ÁRABE NA LINGUAGEM DDS PASTORES ALENTEJANOS *, 

consagrou duas colunas ao termo, examinando a sua significa- 
ção em todos os aspectos, e diz-nos que a pronúncia constante 
dos pastores é alaoào. E natural que no norte do reino, se a pa- 
lavra lá é usada, ela se pronuncie com 6. Critica o doutíssimo 
escritor as definições dadas por vários lecsicógrafos, portugueses 
ou estranjeiros, estes últimos principalmente arabistas, e define 
o termo do seguinte modo: — <alavào no Alentejo significa uni- 
camente o rebanho que dá leite pela ordenha, nunca aquelle em 
que os borregos ainda mammara. O nome do rebanho anda ligado 
sempre ao facto de dar leite para os queijos: começa a cha- 
mar-se álamo no dia em que os borregos se apartam; deixa de 
se chamar akiuão no dia em que a ordenha cessa. Esta é a si- 
gnificação da palavra no Alentejo; seria interessante saber o 
sentido que lhe dào na Serra da Estrella, onde as coisas se pas- 
sam de modo um pouco dilferente» — . 

Creio inútil acrescentar uma palavra que seja a tam lúcida e 
decisiva descrição, feita por quem tinha toda a autoridade e to- 
das as competências para a fazer certíssima. 

Diz-se ali, citando João Sousa *, que o vocábulo é arábico, 
al-laban, «o leite» — . Pois, apesar deste étimo tam claro, Eguílaz 
y Yanguas ^ atribui-lhe como orijem ar-raf, conforme diz — «me- 
diante el conubio de r por la l, y de la /por la v» — . Já é! 



1 1,1). 9^-100(1^09). 

2 Vestígios da lingoa arábica bm Portugal. 

3 Gm)sario de vo(;b.s espanolas de origen oriental, Granada^ 

lS8t). 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 35 



Cora O mesmo acerto poderia derivá-lo do latim o vis, com mu- 
dança de o em aí e de vis em auão: Alfana vient d'equus, sans 
doíiie! 

Para que se nâo suponha que os nossos dicionaristas foram 
insensatos em atribuírem ao termo àluvão, ou alàbão, o signifi- 
cado de «rês que ainda mama», devo acrescentar que no Dicio- 
nário árabe francês de Belot * se dá xiLTanax com a significação 
de « mamar > (sucer le lait), como derivado de Lanax, < dar a 
beber leite >; o que talvez os levasse à conjectura criticada pelo 
Conde de Ficalbo; é possível também que em alguma parte do 
reino a palavra tenha aquela acepção. 

alberto 

Este nome próprio, conforme inforraaçáo pessoal que me de- 
ram, significa no Alentejo «cântaro pequeno». Nào me sou- 
beram dizer, porém, o motivo por que lhe foi imposto. Te- 
mos mais substantivos comuns, derivados de nomes de pessoas, 
como guilherme «espécie de plaina», já apontado em vários dicio- 
nários portugueses; e muito modernamente, iancredo, como de- 
signando um candeeiro pintado de branco, que serve para indicar 
os pontos da via pública, onde há parajens dos carros eléctricos, 
em Lisboa, e que lhe foi dado por comparação popular com um 
saltimbanco estranjeiro, que apareceu nas praças de touros, muito 
recentemente, todo vestido de branco, tal qual uma estátua de 
gesso ou pedra. Confronte-se ainda joséziyiho, que no princípio 
do século passado designava uma espécie de capote : 

Inda qne por moda querem 
Que lhes repitam rersinhos, 
Tem por modas de mais gosto 
ConvulsOes t josézinhos *. 



1 VocABULAiRB Arabe-françus, Bcirute, 1893, p. 717, col. ii, 718, 

col. I. 

» Nicolau Tolentino, Carta a um cabbllbirbiro : Obras, ii, Lisboa, 

1801, p. 103. 



36 Apostilas aos Dicio^iàrios Portugueses 



alcouce 

Este termo, aiuda hoje nào de todo desusado, vem definido no 
Elucidário de Viterbo * como — « casa em que se dào cómmo- 
dos para lascivos commercios > — . Dá-lhe o douto lecsicógraíb 
como étimo um arábico Alcoued, «alcoviteiro» — , o que nào 
explica o ce. 

A etimolojia proposta por Dozy * akoceifa, dá razào do c. 
mas é inadmissível por ter a mais a sílaba . . . fa, que levaria ca- 
minho, sem se saber porquê. Eguílaz y Yanguas ^ propõe para 
substituir a de Dozy, que nào admite, a que escreve aljoçç, « do- 
mus ex arimdine» — , casa de canas — , que tampouco se pode 
aceitar, porque sendo a palavra antiga na língua, como o prova 
a inclusão dela no Elucidário, a 7.* letra do abecedário ára- 
be, equivalente ao j castelhano actual, estaria representada por 
/ em português, e nào por e *, e ao ou corresponderia au era 
árabe. 

O único vocábulo que pode satisfazer às leis fonéticas que 
regularam a admissão de vocábulos arábicos em português, rece- 
bidos por audição, é, que eu saiba, Qaus «arco», e é possível que 
a situação de algum prostíbulo perto, ou dentro de um arco, ou 
de uma arcada, tivesse dado orijem a ser denominado assim qual- 
quer bordel. 

Em Coimbra houve uma porta de Helcouce ^, no tempo de 



1 Elucidário das palavras, termos b frases qub em Portx^- 

OAL AXTIGUAMBXTB SB USARÃO, Lísboa, 1798. 

2 GlOSSAIRE DBS MOTS BSPAGNOLS BT PORTUGAIS DãRIVÃS DE 

L*ARABB, Leida, 186Í). 

3 Glosario db vocbs BSPAN0LA8 DB ORiGBx ORIENTAL, Granada, 
1S8($. 

* A. R. Gonçiílvez Viana, Dbux faits db phonologib historiqub 
PORTUGAiSB, Lisboa, 1892, p. 10. 

^ A. de Campos, Luís db Camões, in «O Século >, de 10 de junho 
de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 37 



Camões, e esse nome deveria significar em árabe «no arco» (naL- 
qaus). 

alcunha 

Este vocábulo é hoje por nós empregado no sentido em que 
os castelhanos usam apodo, os franceses sobriquet, os ingleses 
nick-name; porém antes estava mais em harmonia com a sua 
aplicação na língua de onde o tirámos, o árabe, e a que moder- 
namente se dá ao tenno cognome, O Dicionário da Academia, vo- 
lume vínico, assim o declara, e autoriza-se com ura trecho de João 
de Barros; errou-lhe, porém a etimolojia arábica, a qual diz ser 
alquentui (sic). Não é isso. 

Garcin de Tassy, na sua interessante memória sobre os no- 
mes e títulos mocelemanos *, diz a páj. 6-7, que cada árabe 
tem em geral, pelo menos, três nomes: 1." o ólame, o nome pró- 
prio, de baptismo, como dizemos, (prénom); 2.° Jcúnia, o sobre- 
nome (surnom), mas que designa paternidade, ou filiação, e é 
composto quási sempre com a palavra abu, « pai », ou ahn « filho », 
seguida do nome daquele, ou deste; 3.** o lúqah, ou verdadeira 
alcunha, no sentido desta palavra, hoje em dia. 

Este étimo já tinha sido indicado nos Vestígios da linooa 
ABABicA EM PoKTUGAL *, trauscrito cílconia, E a mesma cousa. 

Com o significado de cognome encontra-se a palavra alcunha 
em português em Damiáo de Góis ^: — < e ha Infanta dona Isabel, 
que casou com o Duque Philippe de Borgonha, dalcunha ho 
bom» — . 

Covamíbias, contemporâneo de Mariana [séculos xvi e xvii], 
dá como antiquada al<*uha — «vale linage, casta, descendência; 
latine, genus, stemma. Es muy usado término en la leugua 



* MéMOlRE 8ÚR LBS NOMH PROPRBS ET LE8 TITRBS MUSULMANS, 

Paris, 1878. 
• » 2.» Edição, 1830. 

' Chronica de £l-rei Dom Emmanuel, cap. iii. 



38 Apostilas aos Diciottários Portugueses 



castellana antigiia, asi en las crónicas como en las leys y con- 
tractas > — *. 

aldeagante] 

Palavra trasmontaua ainda uâo colijida nos dicionários portu- 
gueses, no significado de «viandante», «caminhante». — < Se 
seguir o caminho em direcção á Cova da Lua vê o aldeagante 
(individuo errante) outro milagroso castigo — é um lameiro (pra- 
do) convertido n'um profundo lago» — -. 

No Suplemento do Novo Diccioxário de Cândido de Figuei- 
redo vem esta palavra, bem como o verbo de que deriva, aldeã" 
gar, mas noutra acepção: — «pessoa alegre, desinvolta». Colhido 
em Lagoaça — «falar á toa; alanzoar; tagarelar; falar com ani- 
mação; gracejar ruidosamente» — . 

Antecede-os nesse copioso dicionário o substantivo aldeaga, 
como termo beirão, assim definido: — «tareio, tagarela, pai' 
radôr » — . 

Difícil será decidir qual é a acepção primária, se a que é èbda 
nesse dicionário, se a que acima apontámos, autorizada. Deaeo- 
nhecido é igualmente o seu étimo. 



aleixar 

Este verbo, afim do castelhano antigo àlexar, nMdemo alejar 
/{pron. alei(ar), derivado de lexos, lejos, cuja orijera parece ser,, 
^.conforme F. Diez ^ o latim laius, e a siguificiçào «a&star»„ 



1 apud Ramón Menéndez Pidal, Antología i»b fromsta» g^íbbtbi- 
LLASOS, Madrid, 1899, p. 105. 

2 Ferreira Deusdado, O recolhimento de HIÒFRBirA. w RayiSTA. 

DE BDUCAÇiO E EK81N0, 1891. 

5 ETYMOLOaiSCHHS WÒRTBRBUCH DER ROMAXISCHBN SlKACttBX» 

Bonn, 1870, p. 148. 



Ajioríila^ ao» Dicionárioi Portugueses 



«deitar a lonje>, segundo a expressão camoniana ', vem abo- 
nado por F. Adolfo Coelho no seu estudo intitulado A Peda- 
oooiA. DO POVO POKTuoiJts, publicado na revista Portugália 
(i, p. 485): — -Quem dos seus 3e aleiía a Deus leixa» — . K in- 
teressante o conceito do adájio, como o é a esisténcia deste 
verbo em português, que assim ficou documentada. 



alfa 

Vaie vocábulo, não eolijido era nenhum dicionário da língua, 
vOmo-lo abonado e definido num estudo de Albino dos Santos 
Pereira Lopo, intitulado Bbaoança k IfEUHuEEENCA. publicado 
no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa ^. e reza assim 
o texto: — «era costume nas vésperas de Hntrudo. quando se iam 
revistar aa «alfas», ou os marcos divisórios dus propriedades 
particulares, ir o homem mais velho de Uonae abrir no < Sagrado • 
ama pequena cova como signal de que o povo estava de posse 
d'elle.— . 

Com respeito ao que o autor cbama O Sagrado lê-se 
algumas linbas antes: — E como tradiçiio dos <Loca Sacra» dos 
povos desta epocha [pre-romana] tem sido considerado o local a 
que 03 habitantes de Donae chamam «o Sagrado», que é um 
pequeno castro de forma elliptica, coberto de frondosos carva- 
lhos. . . a norte da povoação... Denominam-no também... 
< [greja Velha > . . . a igreja desappareceu, mas o sitio onde ficou 
la se conhece ainda hoje, formando uma pequena depressão e é a 
ella que mais particularmente chamam o «Sagrado* — . 



1 Deiíaa crinr às portas o inimigo 
For ires bnscar oatio de tSo longi?, 
Por qaem se despovoe o reino mitigo, 
Se enfnqneça e se vá deitando a longe.- 

LUStADAB, 17, 101. 

17.» S^rie. 1898-1899, p. 198. 



4() Apostilas aos Dicionários PorUigiícses 

No vocabulário que faz parte do estudo que publiquei ío 
vol. I da «Kevista Lusitana» S já eu incluíra, como sendo usado 
em Moimenta, o vocábulo alfa, o qual, segundo a informação que 
dali me fora prestada, como declarei, significa, marco entre 
bens comuns e particulares. 

No Suplemento ao Novo Diccionâkio foi incluído, como 
termo antigo, o plural alfas\ no sentido de «fronteiras». 



alfacinha; tripeiro 

Sáo conhecidas as significações destes dois vocábulos, que 
por derisào se aplicam, respectivamente, aos naturais de Lisboa 
e Poi*to, naturalmente porque em cada uma destas cidades se dá 
preferencia a certos manjares, na primeira à salada de alface, na 
segunda a um guisado feito de dobrada de vaca. E também pro- 
vável que tais alcunhas lhes fossem por escárnio postas por indi- 
víduos nascidos em povoações convizinhas. 

Abonaçào de ambos os termos é a seguinte: — Vemos qiie a 
Exposição de Paris é também o que mais preoccupa a attençáo 
tanto do «alfacinha» como do «tripeiro» ---. 

E de notar que kchu/utno, em castelhano, derivado de le- 
chuga \ lactuca, «alface», se aplica a um «peralvilho» em 
Espanha. 

A palavra alface, é de orijem arábica, como se sabe desde 
Joáo de Sousa ^ (Aii-nas), e também é usada em várias partes de 
Espanha, conforme Eguílaz y Yanguas *. Por outra parte, leituga 
em português equivale a alface brava. 



1 1887-1889— Falar de Rio-Frio (Trá8-o3-Montes), p. 203. 

2 O Século, de í)0 de abril de 1900. 

5 Vbstigios ua LlN(l^OA ARÁBICA EM PoRTUGAL, Lisboa, 1830. 

♦ (iLOSARíO DB VOCÊS ESPAN0LA9 DR ORIGBN ORIENTAL, Granada, 



18St>. 



Apostilas aos Dicionários Portugnenes 41 



alfândega 

Esta palavra ó há muito tempo empregada em Portugal e 
seus domínios com a significação dada geralmente na Fluropa la- 
tiua ao vocábulo aihiann, assim mesmo em castelhano, dofjana 
em italiano, (lotiane em francês, isto é, <repaiiivtio em (jue se 
an*ecadam direitos das mercadorias, para que se considerem 
francas ]>ara o seu consumo». Antes, porém, alfáyuleija (|ueria 
dizer «albergaria» ', sendo a mesma dição que a castelhana mo- 
denia fomJay 'hospedaria», isto é a palavra arábica (AL)-FaN- 
naíi, FiTNDaQ, derivada do grego medieval pandokeiox -. 



alfavaca, alfabega, alfadega 

Êst^ teimo usual de botânica, o qual procede, conforme o 
volume único do Dicionário da Academia, citando Pedro de Al- 
ealá, do árabe hahaca, «manjericão», é aplicado a duas phmtas 
enteiramente distintas; só, serve para designar uma planta aro- 
mática, e com um epíteto, alfavaca de cobra, é o nome popular 
de uma parietária. 

Conforme informação fidedigna, designa no Riba-Tejo, quer 
com esta forma, quer sem o preficso aJ, «a flor da oliveira», 
faraca, e neste sentido não figura em nenhum dicionário, que 
eu saiba. 

Em árabe, segundo o Vocabulário árabe-francês de Belot ^, a 
forma é, transcrita, HaeaQ, e portanto, o vocábulo dalo por Pe- 
dro de Alcalá tem a mais o suficso de unidade. 



!• Santa Rosa de Viterbo, Elucidário das palavras que antioua- 
MBNTE SE usARlo, Lísboa, 1798. 

* Henrique Yule, Thb Book of Ser Marco Polo, thb Venbtian, 
Londres, 1875, i, p. 401. 

* VOCABULAIRB ARABB-FRASÇAIS, Bcirute, 1S03, p. 101, Col. IL 



42 Apostilfis aos Dicionários Portugueses 



O étimo arábico dado no Novo Diccionábio, alcahaque, é 
errado evidentemente no c por h, e nào sei de onde foi copiado. 

Em castelhano, conforme o Dicionário da Academia, existem 
duas formas alfahe(/a e albahacãy numa das acepções da palavra 
portuguesa alfavaca. Na primeira dessas formas o q foi repro- 
duzido por g, que parece ter sido em vários vocábulos a sua pro- 
núncia no dialecto arábico das Píspanlias (Cf. açougue, q. v.): na 
segunda, que pressupõe uma forma mais antiga albafaca, houve 
metátese entre as duas sílabas internas. 

Relacionemos estes vocábulos todos. 

No Novo DiccioNÁRio vem inscrita esta palavra, com a si- 
gnificaçilo de « manjerona > e sem acento marcado, o que indic-a 
ser preceituada a pronúncia alfadéga, e cita-se um dicionário 
manuscrito arquivado na Torre do Tombo; Cândido de Figuei- 
redo acrescenta: — «supponho que é alter[açào] de alfabega, uma 
das formas castelhanas, correspondentes á nossa alfavaca* — . 

No Suplemento, porém, o vocábulo é outra vez inserido, e 
marcada a pronúncia alf adega, com a seguinte explicação: — 
«ainda hoje se usa, designando o mangericílo de folhas largas, 
ou a mangerona » — . 

Segundo as informações que tenho, designa somente, pelo 
menos em Coimbra, «manjericão de folha larga», e nào, «man- 
jerona». 

No mesmo Suplemento declara-se que alfahega por alfavaca 
é também português, usado em Vizela. 

O Dic. da Ac. Esp. acentua alfahega, 

O povo diz majaricãOy e nào nianje7'ieão, e dele deriva uma 
forma deduzida, vinjarlvo. 



alfeça, alfece; alferça, alferce 

Bluteau, no Suplemento ao seu Vocabulário pobtuguez 
LATINO, dá ao vocábulo alfeça a significação de « safradeira, fer- 
ramenta de ferreiro >, e descreve-a pelas seguintes palavras: — 
«Tem figura redonda, com altura de uma mão travessa. Serve 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 4.J 



para abrir os olhos das enxadas, alvioens, machados, e martellos, 
pondo-se em oima quando estàò em braza> — . 

Francisco Adolfo Coelho, no seu artigo, a todos os respeitos 
excelente, intitulado Alfaia agrícola portuguesa *, dá-nos 
alfece como sinónimo de picaieta, estribaudo-se nos — «nossos le- 
xicx)logos> — , mas infelizmente não nos oferece gravura dessa 
alfaia. 

J. I. Koquete, no Diccionario da língua tortugueza, que 
é um simples vocabulário, define alfeça como ferramenta de fer- 
reiro, tal qual Bluteau, e alferce como «enxadão, alvião, picareta». 

O Contemporâneo e o Novo Diccionario repetem isto 
mesmo, mas este último dá a forma subsidiária alfece, a par de 
xíJfeça, e chama a atenção para alferce. 

Efectivamente, a palavra alicerce, actualmente usada, tinha 
como forma antiga, considerada mais correcta, alicece, hoje de- 
susada; e na realidade o r nào existe no seu étimo arábico, alasas, 
plural de (al)ass como declara o Glossário de ílagelraann e Dozy *, 
^ no plural é o vocábulo mais frequentemente usado em portu- 
guês, onde a forma com r nào é facilmente explicável. 

A ser exacta a etimolojia apresentada por Coelho e colhida 
em E. e Dozy, alpa's (onde o sinal ' está pelo emze , ou indica- 
ção de que o a vale por consoante, formando a segunda letra 
radical do trilítero, e que bem se ouve na pronunciaçáo) seria 
esse r a imitação de tal consoante, e conseguintemente lejítima a 
sua inserção, tendo pois as palavras alfece e alferce a mesma 
orijem. 

Como, porém, tal motivo se não pode alegar para que se 
explique o r de alicerce, e como, por outra parte o Glossário ci- 
tado dá para alfece, como possível étimo, o berbere afasscn, 
plural de afus, «cabo de ferramenta» ^, é temerário, sem inves- 
tigação ulterior, identificar os dois vocábulos, alfece e alferce. 



1 in Portagalia, i, p. 400. 

2 GlOSSAIRB DBS MOTS BSPAONOLS ET PORTUGAIB DÉRIVáS DB 

i«*arabe:, Leída, 1869, sub v. alizagb, castelhana. 

S ib, sub V. ALFBIZAR. 



44 Apostilas aos Di^úotiários Portugueses 



alfóstico, alfóstigo, fóstico 

Ksta palavra, bera acentuada em Roqiiete S aparece defor- 
mada no Contemporâneo com a pronúncia alfostiijo, que tem- 
béin inconsideradamente foi copiada para o Novo Dicc. Era caste- 
lhano as formas sào alfóstico, alfóffiigo, alfóciyo, todas esdrúxu- 
las. (Jutra forma portuguesa èfístico (Roquete), omissa nos outros 
dois dicionários, mas que no Vocabulário de Bluteau está incluí- 
da, marcada a pronunciação como esdrúxula igualmente (fisfico). 

Para português, como para castelhano, procede imediatamente 
do árabe (AL)pusTaQ, correspondente ao grego pistákion, latim 
pistacium, do qual proveio o francês pisfnche, e que em última 
análise é vocábulo semítico. Os árabes trousseram-no talvez da 
Pérsia. Os franceses receberam-no da forma italiana piMaccio, 
que concorre com pisfacchio para designaçíio do mesmo fruto, 
ou da árvore que o produz. 



alfresses, alfrezes 

>ío Elucidário de Viterbo vem este vocábulo (aljrezeft) assim 
definido: — «Alfaias e moveis de uma casa» — , abonado com o 
seguinte trecho: — Calçai, Alfre^ei^, especial, bacias, aijumyfi, 
e outras cousas que tragem pêra si—, documento de 1352» — . 

O Novo DiccioxÁRio incluíu-o no Suplemento como antigo, 
e*ampliou-lhe o significado com — «variedade de panos rico?, pró- 
pria para armações; certos enfeites do vestuário» — . 

Num curioso artigo de Sousa Viterbo, intitulado As candeias 

NA INDUSTRIA E NAS TRADIVÔES POPULARES PORTUGUEZAS -, 6 

onde, seja dito de passajem, as gravuras representando candeias 
nào vem a propósito, pois este vocábulo nos textos aduzidos tem 



* DiCTiONNAlRR POUTUGAIS-FRANÇAIS, Paris, 1855. 

2 in Portugália, i, p. 3G5-3G8. 



Apo8til(i8 aos Diciofiàrios Portugtieses 45 



O seu significado antigo de « vela > ; nesse artigo, dizemos, ao citar 
um documento, extrata dele vários vocábulo.^, entre os quais, 
porém, não figura o que nos interessa aqui e no mesmo docH- 
mento vem citado por estas palavras: — «folha douro e de prata 
e dalf rezes trenas, retrós. . . > — o que seria iuintelijível se ai- 
f reses ali estivesse por alfaias, móveis. 

Parece pois ter razào o Novo Dicc. em lhe atribuir a acep- 
ção citada, ou a de < guarnições » para vestiduras, ou tapeçarias. 

Eguílaz y Yanguas * traz este vocábulo, e dá-lhe o étimo 
arábico ali^^bxe, « tapetum » ; e deve ser no sentido de < tapete » 
que ali está empregada a palavra, ou noutro muito perto deste. 

Vê-se por aqui também que a escrita com ^ é errónea, pois 
no documento o s está por nn, visto proceder do x arábico: 
cf. alvíssaras (e nào, alvíçaras), de albíxare, sobre o (piai veja 
o leitor Obtogbafia Nacional, páj. 113, em que se provou que 
a ortografia dos antigos escritores é com ^w e nào com r, e na sua 
correspondência a x arábico se fundamentou a excepção aparento 
de ts' português em palavras dessa orijem. 

No Dicionário árabe-francês de Belot ^ dào-se como corres- 
pondentes franceses de FaRXE «lit, natte; matelas». 

Assim alfrezes, no artigo a que me referi, é erro de transcri- 
ção e nào será o único do texto aduzido. 



algar(a)via 

Esta palavra, que no uso actual quere dizer « modo confuso 
de falar, linguajem estranjeirada, ou estranjeira», é defeituosa- 
mente definida no Contemporâneo: — modo de falar ]»róprio dos 
habitantes do Algarve — , acepção que ninguém lhe dá, e que seria 
disparatada, pois não é tam indistinta e especial a pronúncia 



^ Glosario de vogbs bspanolas db oriobn oriental, Granada, 
18éO. 

* Beirute, p. 5S1, col. i. 



4 «5 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

dos naturais daquela formosa província, que justificasse tal deno- 
minação. 

O Xôvo DicciONÁBio define bem: — «linguajem árabe; con- 
fusão de vozes; cousa [melhor fôra linguajem] difícil de in- 
tender» — . 

O a depois do r é uma vogal, como tecnicamente se diz, 
anaptíctica, ou intercalar, desunindo o r do r (cf. o popular 
carapinteiro, por cwpinteiro). 

Al{farvUu ou algaravia, é o árabe aloebie, e quere dizer 
«o árabe >. A primeira forma sem a vogal intercalar figura em 
um adájio citado por F. Adolfo Coelho, no seu estudo sobre 
A Pedagogia do povo portcguês *: — «Em casa de mouro 
nào falles algarvia» — . 

No KoTEiRO DA VIAGEM DE Vasco DA Gama - a palavra 
aravia tem o mesmo significado : — < e alguns delles [índios] 
sabem alguma pouca d'aravia» — . 

O g está ali como figurando a pronúncia da 18.* letra do 
abecé arábico, o ^, que acuua transcrevi por o; ao passo que em 
Alfarce a mesma letra está pela 19.*, que transcrevo por y, 
e que é ura <j fricativo proferido no palato mole: AL-yaRB «o 
poeute», vocábulo diferente e que só remotamente é afim de 
oanan, * árabe». 

Uutra forma do vocábulo algar(a)via é algravia, com o rt de 
-gar- elidido, citada por Bluteau ^, e abonada com Bemárdez 
— «Xão imaginemos que ha aqui mais Algravias, nem cousas 
escondidas, e secretas». (Luz e Calor, p. 249) — . 

A definição dada pelo doutíssimo lecsicólogo é perfeita: — 
Terme Arábico, que significa a lingoa que os Arábios faliam. — 
Onde o Contemporâneo foi desencantar a significação que lhe 
dá, é que ninguém poderá descobrir. 

O derivado alg(a)raviada é mais usado popularmente do que 
o primitivo. Cf. alarve, que significou «o árabe». 



1 t« Portugália, I, p. 488. 

2 Lisboa, 1861, p. 46. 

3 VouABULARio PORTUGUBZ-LATiNO, suh V. Algaravia. 




Apostilas aos Dicionários Portugueses 47 



alhora! 

Esta interjeição, contraída provavelmente de olhe ora /, é dada 
\\or Henrique Lang * como usada nos Açores. 



aliás 



Fêmea do elefante: Frei Gaspar de Santo Agostinho, Itine- 
HÁRio DA Índia, cap. xv. Esta nota foi-me submiiiistrada pelo 
snr. Guilherme de Vasconcelos Abreu. 



aljamia, aljemia; aljám(i)a? 

A primeira forma é a preferida pelo arabista David López *, 
e na escrita a que se emprega em castelhano; mas nos uossos 
antigos escritores parece que era mais usada a segunda. Duarte 
Niinez de Leão, por exemplo, diz: — «e ainda entre Mouros, que 
a tem por sua algemia [a língua castelhana] » — . 

Denominava-se assim o castelhauo, o português, qualquer das 
línguas românicas da Pem'nsula Hispânica, por oposição a alijar- 
viu, (q. V.) que era o árabe. A aljamia^ ou aljemia^ conforme 
vemos em Eguílaz y Yanguas ^, designava também o árabe cor- 
ruto falado pelos mouros de Espanha. AOGaiiiE é o femenino 
de AOoaMi, que significa «o que fala língua [românica], de 
Espanha», e neste sentido o vemos empregado no trecho citado 
pelo douto arabista espanhol — «Ordenamos i mandamos que 
pa.sados três aiios, el qual dicho tiempo damos para que puedan 



* Rbyihta lusitana, II, p. 52. 

2 Tbxtos bií aljamia portuoubza, Lisboa, p. 189. 

' GlOSARIO DB T0CB3 BSPANOLAS DB ORIQEN ORIENTAL, Grana- 
da, 1886. 



48 Apostilas aos Dicionários Portíigucses 



los Moriscos aprender á hablar i escribir nuestra lengua castella- 
na, que dicen ellos aljamia etc.» Ley 13, tít. 2.**, lib. vin, Nuera 
Recopilación » — . 

 palavra significa também «assemblea», mas esta talvez 
tenha de acentuar-se aljámia, visto que a forma dada por Viterbo 
no Elucidário é aljamas, «congregações». 

aljibe, aljibé (?); aljube 

O Novo DiccioxÁRio iuclui as duas formas, abonando so- 
mente a primeira, que parece ser a verdadeira. Outra abonaçào 
dela é a seguinte, em que se contém a sua definição, como termo 
de mariuhas de sal: — «D'ahi [a água salgada] passa para outros 
[tanques] menores, chamados algibes> — *. 

A palavra já existia colijida em outros dicionários, com a sig- 
nificação de «cisterna onde se recolhe a água da chuva», como 
se lê no Contemporâneo. 

Existe também em castelhano ah/ibe, hoje pronunciado ai- 
Ilibe -, e parece ser uma forma paralela de àljiihe, o qual em 
árabe quere dizer < calabouço», e propriamente «furna» (algubb). 
No sentido de prisão é bem conhecido em Lisboa este nome, por 
ser o de uma cadeia quási fronteira à do Lmaoeiro; mas o vocá- 
bulo continua a ter o significado geral de «prisão pública». 

aljofaina 

Esta palavra, ou sem o preficso àl, simplesmente jofaina, que 
significa no castelhano hodierno « bacia de lavar as mãos, a cara » 
(pronunciada iiofáina)^ é, conforme todos os etimólogos, a f^rma 
deminutiva arábica oupaiNE, deminutivo de gífne, «alguidar», 
com, ou sem o artigo al. 



1 O Século, de 10 do junho do IPOl. 

2 // reproseiitA o valor àoj castelhano actual. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 49 



Não incluiria aqui este vocábulo, se o não visse escrito no 
artigo As Olabiâs do Phado, de Rocha Peixoto *, no seguinte 
passo, em que parece indicar ser português: — «Atribuiu-se o 
moringue a uma importação da índia e americana, aos árabes 
o alguidar, a aljofaina e a almotolia» — . 



alma 

Este pala\Ta, além do sentido geral que expressa, tem muitos 
outros, quer só por si, quer acompanhada de epítetos, e quási 
todos, se não todos, teem sido apontados nos dicionários. 

Um de que ainda não vi menção e que é difícil perceber qual 
seja, encontrei-o no seguinte passo de uma folha diária, que há 
muito tempo se converteu em mensal, mudando a sua antiga 
índole para outra mais conforme com o título *: — «O Jornal de 
Estarreja conta o seguinte caso: «Um d'estes dias foi encontrado 
junto ás almas de Cristello. . . um pobre homem quasi nu, preso 
a um pinheiro > — . ^Sexá painel das almas? 

No PoBTUGAL Antigk) b modekno 3, dc Pinho Leal, obra que, 
a par de muitos desacertos, contém muita matéria utilíssima, 
procurei debalde no artigo Estarreja e naqueles para que faz 
chamadas, Antiià, Beduído, Laranjo, qualquer referencia às 
almas, de que fez menção o dito jornal. Cf. alminhas, g. v. 



almandra, almandrilha 

Num anúncio, publicado no periódico O Economista, de 4 de 
novembro de 1882, encontra-se o segundo vocábulo, não colijido, 
significando uma espécie de «contaria», ou «avelório». 



* tn Portagalia, I, p. 241. 

2 O Economista, de 12 de agosto de 1885. 

» Lisboa, 1873-1886. 

4 



60 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Alniandra é definido no Novo Dicc. como vocábulo antigo, 
com as significações de «colcha, alcatifa», que não estão abo- 
nadas, mas sem dúvida foram adoptadas do Elugidabio de 
Viterbo, onde se conclui com estas palavras a inscrição: — 
«Parece que Alniaadra é colcha ou alcatifa de linho e láa. 
V[ide] Ducangs v, Tiretanus» — . 

Eguílaz y Yanguas * admite o vocábulo, citando o Elugida- 
bio, e deriva-o de um arábico AL-waNia, que seria o mantum a 
que se refere Isidoro Hispalense *, o que nào tem visos de pro- 
babilidade, pois não explica nem o d, nem o r. Parece ter rela- 
ção com alma(n)frixa, cujo étimo está ainda por averiguar, ape- 
sar do seu aspecto arábico. 

Almandrtlha vem já no Suplemento ao Kôvo Dioc. definida 
como «conta alongada», e abonada com Capelo e Ivens ^, mas a 
citação foi omitida e é assim: — «O explorador pôde levar com- 
sigo missanga grossa, missanga miúda, Maria segunda (*), que é 
indispensável, cassungo (*) de variadas cores, almandrilha (-) 
apipada e riscada» — . 

As notas dizem: — «(*) conta encarnada pequena, interior- 
mente branca, de 0,003 de diâmetro» — . «(*) conta de borda- 
do» — . <(-) conta alongada de 0,01 de comprido» — . 

O adjectivo apipado < em forma de pipo » vemo-lo também 
aplicado a contaria, junto ao substantivo co7'al, em um anúncio 
publicado no jornal O Economista, de 4 de novembro de 1882. 

Almandrilha parece não ter relação com almaiidra. 



alma-negra, ou anjinho 



E nas ilhas da Madeira e do Porto-Santo o nome de uma 
ave, como vemos na valiosa monografia do P. Ernesto Schmitz, 



1 Glosario db vocês espanolas de ORiGEN ORIENTAL, Granada, 

1880. 

2 EtYMOLOGIARUM SEU ORIGINUM LlBRI XX. 

3 De Bbxgublla ás terras dr Iácca, Lisboa, 18S1, i, cap. i, p. 6-7. 



Apostilas aos Dicionários Fortttgueses 51 

intitulada Die Yògel Madeibas. O nome desta ave na nomen- 
clatura zoolójica é, confoiTOe o dito autor, Bulweria Bulweri *. 



almanxar; almeixar, almeixiar, almixar, almexar, almexiar 

O Novo DioioNÁBio inclui a segunda destas formas, com 
chamada à primeira, que ortografa almanchar, mas que se deve 
escrever almanxar, se na realidade a forma é lejítima, e define-a 
do modo seguinte: — « (prov[iiicialismo]) logar onde se seccam os 
figos» — . A escrita errónea com eh foi copiada da citação que já 
vou fazer. 

Nos meus apontamentos tenho a forma almeixiar, que encon- 
trei no Economista de 5 de novembro de 1885, em citação do 
JoBNAL DA Manhã, a qual é assim: — «Boda depois para o al- 
meixiar onde é lançado em esteiras [o figo]» — . 

O vocábulo vem já entre os aditados por Moura aos Vesti- 

aiOS DA LINGOA ARÁBICA EM PoBTUOAL, dc JoãO dc SoUSa *, C 

dá-se-Ihe como étimo o árabe ALMaNxan, e como definição a 
seguinte: — «O estendedouro. Assim se chama no Algarve á eira, 
aonde se põem os figos, e outras fructas a seccar» — . 

O Glossário de Engelmann e Dozy ^ traz a forma almanchar, 
de Moura, remetendo porém para almixar castelhana (hoje es- 
crita almijar e pronunciada álmiiiar), usada na Andaluzia, de- 
rivando-a do árabe AL-MÍxaBB, deduzido do radical xaBBa — «ex- 
poser quelque chose au soleil afin de le sécher» — , «expor ao 
sol para secar». 

Dozy anota Engelmann, declarando lejítima a forma portu- 
guesa almanxar, procedente de outro verbo Naxana «estender», 
e acrescenta: — «mais comme on étend les choses qu'on veut sé- 



^ in « Omitliologisches Jahrbnch », 1899, i fascículo. 
* Lisboa, 1830. 

' GlX>SSAIRB DBS MOT8 B8PAGN0L8 BT PORTUGAIS DÉRIVãS DB 

i.*ARABB, Leida, 1869. 



52 Apostilas aos Dicionários Portugiieses 



cher (Ibn-al-'Anwan, i, 669 emploie le participe manchour en 
décrivant la manière dont il faut sécher les figues), almandiour 
a reçu le sens de séchoir, lieu oíi Ton fait sécher les toiles, etc. 
(Bocthor)> — . 

O douto arabista diz mais que almixar deve ser corrutela 
de almanxar, porque o verbo xarra no sentido de « secar > não 
era popular, e porque a forma devera ser almaxar «sequeiro», 
e não almixar, que significaria «aquilo com que se seca». 

Seja como f&r, vê-se que as duas formas existem, e que a 
segunda se deverá escrever àlmiooar, almexar, almaxar, ou 
mesmo almexiar, mas não, almeix(i)ar^ 

almeidina 

Esta palavra, que parece derivada artificialmente do nome 
próprio Almeida, veio no Economista de 7 de agosto de 1885 
explicada como querendo dizer — «borracha branca de Mossá- 
medes > - . 



almeixar, almixar 



y. em almanchar. 



alminha, alminhas 



No singular, significa no Minho o «mealheiro das almas» *; 
no^plural «painel das almas». V. almas. 

almuadem, almuédano, miiezzin 

No Suplemento ao Novo Diccionário declara-se, com razão, 
ser afrancesada a forma muezzin, que para aí usam escritores 
pouco lidos em livros portugueses de boa nota. A forma, porém, 



Arnaldo da Gama, O Segredo do Abbade, p. 56. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 53 



que no mesmo dicionário se propõe para a substituir nenhuma 
vantajem traria, pois equivalia a trocar um galicismo por um 
castelhanismo, sendo ambos inúteis porque existe a forma portu- 
guesa álmuadem, pronunciada almuédem, ou muádem, sem o 
artigo, a qual perfeitamente corresponde à arábica AL-Mua&ÍN, 
«pregoeiro». É o indivíduo incumbido de chamar, do alto do 
alcorão da mezquita, os fiéis às rezas diárias. O próprio autor 
havia rejistado no corpo do dicionário este vocábulo, escrevendo-o 
almuhádem, com um /i a mais. 

Alberto de Oliveira emprega a forma muedãin, que é leji- 
tima, porém, inútil, visto que a palavra já de há muito existe 
aportuguesada, como disse: — «E de repente surgiram em todos 
os minaretes. . . os vultos direitos e phantasmaticos dos mued- 
diris» — *. 

Cumpre notar que também emprega no mesmo escrito, aliás 
de grande interesse, as formas minarete e soco, errónea esta em 
vez de açougue (q. v.) 

A forma francesa muezzin, que tem de ser pronunciada 
muezine, e não micezê, explica-se porque a nona letra do alfabeto 
arábico é proferida por muitos barbarescos defeituosamente como 
z, em vez de lhe darem o seu verdadeiro valor, o do nosso d 
entre vogais, diferente do d inicial, a que corresponde a oitava. 
Por todas estas razões, e ainda porque o acento tónico é em fran- 
cês deslocado para a última sílaba, se vê que a mais perfeita 
representação do árabe ALMua&iN é o português almuádem. 
A figura & representa aquela nona -letra. V. muezzin. 



almoçadeira 

Em Caminha este vocábulo significa o que em Lisboa se 
chama chícara de almoço, 

A propósito de chícara veja-se chávena. 



^ O Sboulo, de 23 de outubro de 1905. 



54 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



almofada, almofadinha 

No sul do reino chama-se almofadn da cama, ou almofadi- 
nha, ao que no centro e norte se denomina travesseira, isto é, 
«a almofada que na cama se põe sdbre o travesseiro», que em 
francês se chama oreiller. 

Esta acepção é já antiga, pois o Padre António Francisco 
Cardim no xvii século emprega o vocábulo neste mesmo sentido 
— «o dormir era sobre uma esteira velha, um pau ou pedra por 
travesseiro e almofada» — ^ 



aloés 



Hoje é moda acentuar-se este vocábulo, como se fosse latino, 
áloès, proniincia inadmissível em português. A acentuação antiga 
era aloés, e nenhuma razão plausível existe, que justifique o pe- 
dantismo da pronúncia moderna. Frei Gaspar de Santa Cruz es- 
creveu: — «babosa, ou erva aloés» — *. Sobre este vocábulo ve- 
ja-se a erudita nota do Conde de Ficalho aos Colóquios dos sim- 
ples E DROGAS DA India, dc Garcia da Orta ^. 



alojo 

Esta dição, talvez usada no sul com o significado de «alo- 
jamento», e muito bem formada, é um substantivo verbal rizo- 
tónico, isto é, com o acento tónico sobre a última sílaba do ra- 
dical, e vem exemplificado no seguinte passo da Ethnogbaphia 



1 Batalhas da Companhia de Jesus na província do Japão, 

Lisboa, 1894, p. 206. 

2 Itinerário da India, cap. ix. 

3 Lisboa, 1892, vol. ii, p. 60 e seguintes. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 55 



DO Alto Alemtejo, de J. da Silva Picão *: — «com pateo, ou 
sem elle, ao rez do chão, outros com sobrados, reúnem em ge- 
ral alojo sufficiente para uma lavoira mediana > — . Refere-se o 
autor aos montes, ou «casais», e a citação contém abonação 
também para a palavra sobrado. 

Todo o estudo, que é de muito interesse, abunda em termos 
e locuções locais, o que lhe dá grande valor como documento 
lecsicográfico dialectal. 



aloquete 

E uma forma derivada com a prostético, variante da palavra 
hqiiete, já rejistada em vários dicionários, com o significado de 
«cadeado de argola». A. A. Cortesão abona a forma ahqicete, 
com um passo de Camilo Castelo-Branco *. 



alquilar, alquile 

Tanto o primeiro destes vocábulos como o segundo são cas- 
telhanismos, significando o primeiro «alugar», e o segundo (air 
quiler), «aluguer», ou.com assimilação do r ao l, «aluguel»; 
mas em português tomaram o sentido restrito de «alugar» e 
«aluguer», com relação a cavalgaduras. Modernamente, alquile 
significa especialmente a pessoa que se ocupa em compras, ven- 
das e trocas de jumentos, cavalos, ou gado muar; os espanhóis 
chamam-lhe chalán, os franceses maquignon, 

O vocábulo alquilé(r) é indubitavelmente arábico, entanto 
que o português alitgu^l, alugar provém do latim ad-locare, 
eom uma mudança, de o em u, anormal e inexplicada. 



1 in Portagalia, i, p. 356. 

* Subsídios para um diccionário completo. . . da língua por- 
tuguesa, Coimbra, 1900. 




56 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



alquitete 

Este aportuguesamento popular da palavra culta arquitecto 
tomou já uma acepção especial, que lhe dá direitos a figurar 
nos dicionários, como palavra independente e expressiva. Eis 
aqui um exemplo: — «O império dos mestres d'obras, vulgar- 
mente conhecidos por alquitetes, foi sem duvida a causa prima- 
ria d'essa variedade de gaiolas que por ahi se vêem, e a que se 
dá o pomposo nome de prédios e palacetes* — K 



altamado 

Tenho, sem abonação, este vocábulo nos meus apontamentos^ 
como termo çaloio, com a significação «de tudo, de todos, uns 
por outros >; exemplo, panos altamados, «de todas as qualida- 
des». Parece ser uma contracção de altu e mala,, de que se for- 
masse um verbo altaniar, do qual se deduzisse este particípio 
passivo, empregado como adjectivo. 

Numa das Sátiras do portuguesíssimo Nicolau Tolentino 
lê-se 2: 

Feita a geral cortesia, 
Pé atrás, segundo a moda, 
Daremos á mãe e á tia, 
E depois a toda a roda 
Alto e maio a senhoria. 

O NOVO DiccioNAEio rejista a expressão altamala, no sentida 
de «à pressa >, «sem escolha» e aventura-lhe como étimo, mas 
em dúvida, ata + mala, o que é inadmissível. Declarando o seu 
autor que a locução é antiga, sem aboná-la, é manifesto que não 



1 O Dia, de 18 de julho de 1905. 

2 Obras, i, p. 178. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 57 



podia ter por étimo uma palavra que é de introdução moderna, 
mala, e pouco empregada pelo povo. 



alude 

Este vocábulo, usado por Gonçálvez Guimarães para traduzir 
o francês avalanche, é assim definido pelo douto professor: — 
« Os crvstaes ou frocos de neve, accumulando-se uns sobre os ou- 
tros no mesmo local, comprimem-se reciprocamente em virtude 
do seu peso, e agglutinam-se . . . para se formarem esses peri- 
gosos aludes (=fr. avalanches), que se precipitam pela encosta 
da montanha, arrastando com a sua massa grandes pedregulhos, 
lascas de rochedo e tudo quanto se lhes depara na passagem; 
até que a final, quando a temperatura excede o limite de 0^, a 
fiisâo da neve torna-se inevitável, e a agua passa a incorporar-se 
em qualquer torrente ou ribeira vizinha, ao mesmo tempo que os 
materiaes sólidos se depositam pela maior parte > — . 

À palavra aludes lê-se no pé da pájina a nota seguinte: — 
« Nas regiões montanhosas da Hespanha este phenómeno é desi- 
gnado pela palavra àlud, de emprego hoje corrente na litteratura 
scientífica, donde a transcrevemos, por nos parecer mais conforme 
com a índole da nossa língua do que o fr. avalanche, A palavra 
é de origem árabe, e decompõe-se no artigo ai e na raiz ad que 
significa precipitar-se ou cair pesadamente. Em italiano diz-se 
valanga e em ali. Lawine* — *. 

Na Selecta de Autobes fbanceses que, editada pela casa 
Aillaud & C* em 1897, foi presente ao concurso de livros esco- 
lares e aprovada, pusera eu uma nota ao trecho n.° 20 ', extraído 
de Eliseu Keclus, com o nome de «Une tourmente dans les 
Alpes». 

Não sabia eu então que o autor dos Elementos de Geolo- 



1 Elementos db Geologia, 2.* ed., Coimbra, 1897, p. 167. 
« p. 146. 



58 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

GiA tivesse tido a mesma lembrança, sem um saber do outro. 
A minha nota é assim concebida — ^déblayé par les avalan- 
ches^ varrida pelas avalanches, «Não há, ao que parece, vocá- 
«bulo português que traduza este; em castelhano chama-se-lhes 
^aludes, palavra que poderia passar para português. Aval-anche 
«significa mole de neve e gelo, que vae, lentamente ao princí- 
«pio, precipitadamente depois, deslizando pela serra abaixo e 
« despedaçando tudo que encontra no caminho » — . 

No singular," a adoptarmos o vocábulo espanhol, teremos de 
escrever um e final, alude; cf. saúde com o castelhano saludf 
cidade com ciudad. 

Quanto à etimolojia árabe, parece-me duvidosa. A Academia 
espanhola, no seu Dicionário dá como étimo o latim aluta, 
«pele curtida», o que é absurdo como sentido, sendo já por si a 
forma incompatível com a espanhola. 

Como abonação de alude em português, já em sentido figu- 
rado, temos a seguinte: — «era um dilúvio, um alude de pergun- 
tas» — *. 

Outro étimo, alluuium, que já foi aduzido, conquanto sa- 
tisfatório no significado, é formalmente inaceitável, visto como o 
u latino não poderia dar o d final castelhano, o qual, a ser latino 
o étimo, pressupõe uma terminação -utem; cf. salud \ salutem. 

alustre 

Em Bragança usa-se este vocábulo no sentido de «relâm- 
pago» *. 

alvela, alvéloa, arvéloa, alverôa 

Esta galantíssima ave, que tantos nomes tem, conforme as 
rejiões da nossa terra, é em Lisboa conhecida pelo de arvéloa. 



^ Miss Tbmpetb, tradução portuguesa, ii parte, xi, in < O Século >, 
de 13 de abril de 1901. 

2 Revista Lusitana, iii, p. 67. 



^ 



ApostUas aos Dicionários ForUigueses 59 



Em Gil Vicente, a forma é, porém, alvela, como vemos no Auto 
DAS Fadas: 

Alvela — Esta avezinha fonnosa 
Faz que a^arda, 
Mas, pardeos, may bem se guarda ; 

O que perfeitamente condiz com o adájio citado por Bluteau no 
VocABULABio POHTUOUEZ-LATINO : — « Diz O adagio portuguez, 
Quem mata Alveloa, sabe mais que ella. • . » — No Voo. vem o 
Tocábolo acentuado como Alvéola, isto é alvéola, que ó a acentua- 
ção comum; mas o Novo Diccionábio consigna uma forma alve- 
rõa como provincial, abonando-a ^ 

O radical desta palavra é, sem dúvida, alvo | lat. albus; 
o modo de derivação, todavia, é difícil de explicar. F. Adolfo 
Coelho 2, parte da forma alvela como mais correcta, de 
alva + suficso élu. Todavia, se confrontarmos as formas haga 
bago (ant. hágoo) com mágoa \ macula, teremos de concluir 
que alvéloa é a forma inicial portuguesa, e que deste modo o 
seu étimo é obscuro. 



ama 



Esta palavra, cuja identificação e orijem são problemáticas, 
pois se encontra, com significações muito aprossimadas, em idio- 
mas de famílias diferentes e irredutíveis a um só tipo, como são 
o vasconço ama, «mãe>, o hebraico (A)êM, «mãe», a par de 
(A)ãM3, «serva, môça>, e o alemão amme, «ama de leite »> sem 
que se possa supor proveniência directa de uma delas a respeito 
de qualquer das outras; esta palavra, digo, além de outras acep- 
ções que tem recebido em português, e das quais as mais co- 
muns são «ama de leite», e «patroa», adquiriu no Brasil signi- 
ficado enteiramente oposto ao segundo, e naturalmente deduzido 



* Suplemento. 

2 DlGOlONARIO BTTMOLOGICO DA. LÍNGUA PORTUGUBZA, Lísboa. 



60 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



do primeiro, como se vê do passo que vou transcrever: — «Che- 
guei de regresso a casa, quando a nossa ama (criada), veio cha- 
maijme para o jantar > — *. 

Análoga a esta especialização, e talvez orijem imediata dela, 
é a palavra ama, quando se emprega na locução ama de clérigo, 
ou na castelhana ama de llaves, « governante » ; funda-se em que, 
se tal ama é serviçal do patrão ou patroa, é por outra parte 
quem governa a mais críadajem. 

Aparentada com esta locução é ainda amu da roupa, que na 
ilha de Sam Miguel se usa para designar « lavadeira » ^. 



âmago, âmago 

Júlio Cornu dá como étimo a este obscuro vocábulo, cujas 
formas antigas cita, nieingoo, maiagoo, maagoo, meoogo, meogoo, 
meogo, o latim medius locus, «lugar do meio» ^ A ser certo 
o étimo, que na forma actual está bastante desfigurado, temos 
de supor que a acentuação actual é errónea, e que a verdadeira 
seria amágo. Não era de estranhar que, tendo saído do uso vulgar 
a palavra, os doutos a revivessem com erro de acentuação, como 
aconteceu a pantúno (q. v,), hoje acentuado pântano, não obs- 
tante a forma femenina pantána, e o castelhano pântano, que 
mostram qual era a verdadeira acentuação. 



amassaria 



Esta dição já foi no Novo Diccionáhio apontada, com o seu 
significado de — «casa, logar onde se amassa farinha» — mas sem 



* < Bosquejo de uma viagem no interior da Parahyba e de Pernambuco », 
in O Secui^o, de 8 de julho de líX». 

2 O Século, de 5 de julho de lí:H31. 

3 V. também Revista Lusitana, iii, p. 150. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 61 



abonação. Está autorizada com o seguinte passo de J. Inácio 
Ferreira Lapa *, escritor douto e escrupulosíssimo na pureza e 
propriedade da linguajem: — «A amassadura a braço é geral- 
mente praticada na mesma casa em que se acha estabelecido o 
forfw de cozer; algumas vezes este trabalho verifica-se em casa 
contigua que tem o nome de casa da aniassarm* — . 

Náo é pois neolojismo o emprego deste vocábulo no seguinte 
trecho, que transcrevo do curioso estudo de J. da Silva Picão, 
Ethnogbaphia do Alto Alemtejo *: — « Amassahia. — É a casa 
do fabrico do pão de todas as qualidades, que se consome no 
monte [casal], Tomando-se por base a importância do consumo, 
temos em primeiro logar o pão de centeio, denominado marrocate, 
que se dá aos creados e « maltezes > ; era segundo o pão de trigo, 
— branco e ralo, que é respectivamente para amos e creados de 
portas a dentro; em terceiro e ultimo, as perrumas, pão de fa- 
relos de centeio com que alimentam os cães de gado> — . 

Se perrumas não é aqui erro tipográfico por perrunas e por- 
tanto castelhanismo, como outros da linguajem dessa província, 
pois em castelhano perruna é também — «espécie de pau muy 
moreno y grosero, que ordinariamente se dá á los perros ^ [cães]„_; 
se não é erro tipográfico, repito, e parece que não, pois o vo- 
cábulo já está rejistado no Contemporâneo, é êle uma forma 
curiosa do adjectivo femenino perrua, de 2)errum, substantivado, 
no qual se deu a consonantização do nasalamento da vogal u, 
como em uma de ua \ lat. una, em vez de se dar a apócope 
do a final, como em commum, fem. pelo antigo comua, ou a 
desnasalização do u, como em comua substantivo, lua, antigo 
lua I luna, e ainda camoniano. 

Apesar da definição genérica, dada no Novo Dico. parece 
que o vocábulo amassaria se não aplica ao local em que se tra- 



1 Tbchnolooia Rural, Lisboa, 1868, p. 233. 
^ in Portagalia, I, p. 538. 

* DicciONARio DB LA LBNGUA Castbllana, de la Real Acad., Ma- 
drid, 1899. 



62 Apostilas aos Dicionários Forii^gueses 



balha nas massas alimentícias, visto que a Tschnoloqia Kubal 
não faz menção dele na Secção Aletriaria, com que dá quási fim 
ao livro. 

J. Leite de Vasconcelos define 2^ perruma do seguinte modo: 
— « pão feito de farelo, sem fintar, de bagaço, etc., para os cães 
de gado> — ^ 

ámbria 

Este termo de gíria, relativamente moderno, não é mais que 
o castelhano hambre^ «fome>, mal pronunciado, e tem a mesma 
significação. 

amigo-fechado 
Termo da Africa Oriental Portuguesa, chamiuir (q. v.). 



amoroso 
No Minho e nos Açores, quere dizer «liso», «macio». 

amuado 

É palavra muito conhecida, e muito usada, como significando 
— «o que desgostado se afasta, e persiste no enfado, sem mani- 
festar a causa. He próprio dos rapazes» — -. 

Acrescentarei que tal hábito ainda é mais próprio das meni- 
nas, pequenas, ou já crescidinhas. 

É esta palavra o particípio passivo do verbo amuar('8e), e 
também se emprega como adjectivo, com o mesmo significado 
virtual do verbo de que deriva. 



1 Revista Lusitana, u, p. 36. 

2 K. Bluteau, Vocabul. port.-latino. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 63 



Bluteau dá-lhe como étimo o substantivo mu — < animal duro 
de domar» — , isto é, mulo, macho; e parece que é certo, por 
pouco lisonjeira e delicada que seja a expressão, com tal orijem, 
aplicíida a alguma das gentilíssimas damas que teem a graciosa 
astúcia de se enfadarem com aqueles a quem bem querem, e da 
qual diz o épico amador: 

Que se aqueixa e se ri nom mesmo instante, 
E so torna entre alegre magoada. ^ 

Outro menos épico, mas nào menos amavioso e conhecedor de 
tam suaves, astúcias, o temo e apaixonado Torquato Tasso, falando 
da maga Arniida e do seu Reinaldo, na Jerusalém Libertada, diz: 

Teneri sdegni, plácido e tranquillc 
Repulse, e cari yezzi e liete paci, 
Sospiri, parolette, e dolci stille 
Di pianto, e sospir tronchi, e molli baci. 

Para se consolarem, as damas podem subordinar o verbo 
amuar ao francês moue (faire la moice), que, para ser mais 
bonito, basta que seja francês, conquanto o étimo que para esta 
língua se lhe atribui pareça ser também comparação com irra- 
cional, o holandês mouwe, parente de meeuwe «gaivota». 

Tomando aos nossos amuado e amuar, já o mesmo Bluteau 
nos dá outro significado, ainda na língua comum usadíssimo, o 
que bem se vê na citação que faz: — «Se o tumor Amurar , 
e não madurar» — ; hoje dizemos «amadurecer», isto é «atra- 
sar-se em resolver», e neste sentido, ou análogo, o vemos em- 
pregado no CoMMEHCio DO PoBTo do 18 de julho de 1885, 
referindo-se ao atraso produzido pelas trovoadas no amanho do 
sal: — «É provável que as marinhas fiquem amuadas por mais 
quinze dias» — . 



1 Lusíadas, u, est. 33. 



64 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



amuso 



Neolojismo que vemos indicado Da Eevista Lusitaiía [n, 
p. 161], com a significação «contrário ás musas». 



anámica (adj. fem.) 

Este adjectivo vêmo-lo empregado na Obra do Padre António 
Francisco Cardim, Batalhas da Companhia db Jesus na pbo- 
viNciA DO Japão *: — «o padre Gaspar do Amaral. . . que neste 
anno se applicou á lingua anamica» — , isto é, à língua do 
Annam, ou ÁTiame. 

E duvidoso se a terminação am se há de ler ali como a, 
ame, ou ão. Conveniente seria que assentásseaK)s em pronunciar 
6 escrever A7iam€, para se não confundir este nome próprio 
com o comum anào, anã, e com tanto mais razão, quanto é 
certo que de Smm {=sião, siã, ou smnie) fizeram os nossos 
escritores Siamês 2, os povos de Siame, diferençando nós deste 
modo o reino de Siarn^, do monte e castro de Sião em Jeru- 
salém. 

Teríamos pois: aiiámico \ aname \ Aname; siamês, siár 
mico \ siame j Si^me; formas bem portuguesas e perfeitamente 
deduzidas. 

Disse que deveríamos diferençar Siame da Sião bíblica, e 
assim o creio necessário; não porém, como já incautamente se 
fez, adoptando para a última a forma Sion, conquanto a latina 
seja Sion, copiada do grego siÓn, transcrição da forma hebraica 
fiiUM, porque a forma Sião já há muito é portuguesa, e foi em- 



1 Lisboa, 1894, p. 78. 

2 ibid, p. 288, mãe siame; Peregrinações, de Femám Méndez Pinto, 
cap. LVii, e passim. 



Apostilas aos Dicionários Portugtíeses 65 



pregada em rima por Luís de Camões, na formosíssima redondi- 
lha que principia assim: 

Sobolos rios, que vão 
Por Babilónia, me achei, 
Onde sentado chorei 
As lembranças de Si&o. 



ancestral: avito 

Este barbarismo tem a pouco e pouco penetrado na lingua- 
jem pretensiosa ou afrancesada dos jornais, e por, incúria de 
certos escritores, ainda mal até em obras didácticas. Foi tomado 
directamente do francês ancestral, onde é neolojismo, que Littré 
ainda nào rejista. A palavra é inglesa ances^fral, derivada de 
anUceh tor, o qual provém do francês antigo ancestres, hoje ancê- 
três (latim antecessor). O adjectivo inglês ancestral é assim defi- 
nido por Webster: — «relating or belonging to ancestors or des- 
cending from ancestors > — que se refere a antepassados ou lhes 
pertence, ou deles descende — : faz parte de uma família de vocá- 
bulos composta de ankestor, ancesto^rial, ances^tral, ancesftress 
e an'cestry. Em inglês, pois, está muito bem, e em francês ainda 
se tolera. Em português, porém, é tam absurda a sua adopção, 
como a do ridículo feérico, também muito do gosto dos literatos 
estranjeirados, pois nenhum radical português lhe serve de encosto 
ou explicação. O termo português que lhe corresponde, con- 
quanto latinismo, é avito j auitus, -a, -um j auus, «avô», tanto 
no sentido de «pai do pai», como no de «avoengo», «ascenden- 
te», «antepassado », já rejistado como termo poético por J. I. Bo- 
queie *, e no CoNTEMPOHANEO, quc o abona com Alexandre Her- 
culano. — «Por medo ou conveniência haviam renegado da religião 
avita» — . 



* DlCTIONNAIRB POBTUOAIS-FRANÇAIS, Paris, 1855. 
5 



06 Apostilas aos Dicionários Portttgtieses 

Martinho Brederode usa duas vezes o vocábulo avito nos seoft 

formosos poemetos, intitulados Sul ^ : 

O Fado, o myst^rioso, avito encanto. 
Das guitarras, á noit«, por ahi; 
Vozes de treva, tremulas de pranto, 
Fontes gerajnt<ís, onde o Sol nâo ri! 

Que choras tu, ó Mar, que heróica historia 
Evoca a iíiijírecAvâo da tua voz? 
És tu chonndo a nossa a vi ta gloria, 
És tu, ó Mar, és tu ou somos nós? 

O Nuvo DicciONÁHio deu-lhe também cabida, assim como ao 
extravagante ancestral, o que é de sentir, pois o devera ter re- 
pudiado, ou pelo menos criticado no Suplemento, como fez a 
outros vocábulos estranj eirados. 

auchào 
Era Goa esta palavra significa « boião » ^. 

ancinho, ancinhar 

Além da sua acepção usual de um instrumento rústico, de 
que no Riba-Tejo derivaram o verbo encinhar, equivalente a es- 
graoinhar, e .que aí significa «limpar com ancinho >, designa 
este vocábulo na rejifio do Mondego uma rede, como vemos na 
revista Portugália ^: — «Rede de suspensão que se emprega 
principalmente para a captura do berbigão» — . 



1 p. 86 e 137, Lisboa, 1905. 

2 < Revista Lusitana», vi, p. 70. Dialecto português de Goa, por 
Monsenhor Rodolfo Dalgado, que lhe não aponta étimo plausível. 

3 I, p. 381. 



^ 



Apostilas (MS Dicionários Portugueses 67 

Sobre esta palavra diz F. Adolfo Coelho, na mesma Revista, 
o seguinte: — «A palavra... é, creio, a mesma que a italiana 
aiichio, croque, remontando ambas a um latim vulgar hamicinus, 
do latim hamus anzol» — , que o mesmo escritor * deriva de 
outro deminutivo de hamus, hamiciolus. 

Todavia, para anchiho a etimolojia mais aceitável, e já 
proposta, é o latim uncinum. Efectivamente, se o étimo primor- 
dial fosse hamicinus para ancinho, hamiciolum para anzol, 
r;como se explicaria que do c latino, resultasse no primeiro vocá- 
bulo z, e no segundo, c, sendo em ambos os casos o c pretónico 
em latim? 

A favor de uncinum milita ainda a circunstância de a forma 
popular ser encinho no sul, incinho no centro do reino: cf. m- 
gà^nto e imbigo, por unguento e umbigo. 

Há outra consideração de maior peso ainda, e é a seguinte. 
De c ou ti latino resultou z em português, logo que --antes 
daquele havia uma vogal, o que muito bem exemplifica a pa- 
lavra anzol j hamiciolum. 

Se hamicinum fosse o étimo de ancinho teríamos, em vez 
desta forma com c, outra com z, anzinlw, como aconteceu com 
a citada, e também com onze, quinze, benzer, cinza, em todas 
as quais o c latino era precedido de vogal, undecim, quinde- 
cim, benedicere, cinicia; visto que, por exemplo, uncia 
deu onça, sapientia, sabença, credentia, crença, etc, porque 
nestes, como em ancinho j uncinum, o c não estava precedido 
de vogal. A conclusão é que hamicinum não pode ser o étimo 
de ancinho, como hamiciolum o será de anzol. 



andejar, andejo 

O Novo DicciONÁBio rejista o verbo andejar no Suplemento, 
com o significado « vaguear » , e abona-se com Francisco Manuel 



iíÁ(l, p. 635. 



68 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



do Nascimento. O adjectivo andejo já estava incluído em outros 
dicionários, na acepção de « quem anda muito » (Contemporâneo), 
e em sentido figurado «versátil, desvairado». Conforme informa- 
ção, no Alentejo e em Coimbra mulheb anbeja quere dizer 
«rameira» e esta expressão tanto pode filiar-se no sentido natu- 
ral da palavra, e corresponde neste caso ao francês coureuse, 
como no figurado «volúvel, mudável». Todavia, Bluteau no Vo- 
CABULABio POBTUGUEz LATINO, admitiudo a locução mulher an- 
ãeja, interpreta-a do modo seguinte: — «Andeja, ou Andeira, ou 
Andadoura, Molher andeja, chamamos vulgaimente à que não 
pára em casa, e sempre anda pella Cidade, de huma parte para 
outra» — , o que perfeitamente se harmoniza com o adájio, Co- 
madre andeja, não vou a parte alguma onde a não veja, apon- 
tado por Delicado * e rejistado no Dicionário publicado pela 
Academia de Lisboa, vol. único. 

andorinha 

Esta foima é explicada por F. Adolfo Coelho como deri- 
vada do latmi hirundinem, isto é 1iirundi(ni)na ^ e melhor, 
a meu ver, por J. Leite de Vasconcelos, como um adjectivo 
hirundinea, com metátese nas primeiras sílabas, htnduri- 
nea, \ hirundo ^ igualmente. 

Qualquer que seja dos dois étimos o preferido, actuou em 
ambos a influencia do verbo andar» 



aneiro 



Este adjectivo, deduzido em português de ano, ou deri- 
vado do latino annuarium, por annuale } annus (cf. jor 



^ Adágios Portuqubzbs, Lisboa, 1651. 
* Revista Lusitana, i, p. 135. 
3 ib, m, p. 268. 



N 



Apostilas aos Dicionários Porttigueses 69 



7ieiro \ ianuarium), é definido, no Novo Diccionábio, do modo 
seguinte: — «dependente da maneira como correr o anno; con- 
tingente, incerto» — . 

Todavia, no trecho que se vai ler o significado é bastante 
diferente, e não foi ainda apontado,- que eu saiba: — «Possuo 
uus malapeiros antigos que são anneiros, isto é, dão muito 
num anno, e no seguinte não dão nada» — *. 

Pelo contrário, caduneiro quere dizer « que produz cada ano, 
todos os anos». 

Tanto um como o outro adjectivo são muito expressivos, 
mesmo pela oposição que entre si apresentam. V. cadaneiro, 
em cada. 

anglicano, ánglico 

Este adjectivo, que usualmente só se aplica às palavras reli- 
jião, igreja, para significar igreja anglicana, a oficial de Ingla- 
terra, foi por Manuel Severim de Faria empregado com o substan- 
tivo língua, para expressar a forma mais antiga do inglês, que 
sucedeu ao anglo-saxão, e que eu na Selecta de leituras in- 
glesas ^ denominei língua ánglica: — «as causas publicas se não 
tratassem senão na lingoa anglicana» — ^. 

Os ingleses chamam Anglian ou Anglo-Saxon, ao que eu 
denominei ánglico ou língua ánglica, idioma germânico usado 
entre meados do século vi e meados do xii, abranjendo portanto 
seiscentos anos. 

ani(e)lado 

No « Archeologo Português » * em um artigo de José Pessanha 
intitulado O Cálix de oubo do Mosteibo de Alcobaça, faz-se 



í Gazeta das Aldeias, 1905, p. 247. 

* Discursos políticos, in « Dicc. da Academia», i, xxx, col. 2. 
3 Lisboa, 1897, p. 287. 

♦ V, p. 3. 



70 Apostilas ao$ Dicionários Fórtugueses 



menção de «um tecido de ouro anilado» — . É evidente que 
anilado está por anielado, isto é. esmaltado, e que em anilado 
se deu a absorção do e átono no i igualmente átono. Anielado 
é o particípio passivo do verbo anielar, mal formado do subs- 
tantivo nielo, «esmalta preto», que rejistou o Novo Dia;iONÁ- 
Bio, como procedente do latim nigella, o que deve ser exacto, 
mas por intermédio do italiano niello. 

Anilado, como significando < esmaltado >, vem já em Bluteau % 
devidamente abonado com um passo da Crónica de El-Rei Dom 
Manuel. 

E de estranhar que nem o Coxtempobaneo, nem o Novo 
Dicc. rejistassem o vocábulo neste sentido, que também escapou 
ao Dicc. da Academia. 



anta; antela, antinha; mamoa, mámua, 
mamuinha, mamunha, mamuela, mamai tar; montilhão; madorra: 

orca; arcainha, q, v. 

Sobre todos estes vocábulos, quer primitivos, quer derivados, 
ver-se há com muito proveito o opúsculo de J. Leite de Vascon- 
celos, intitulado Portugal pre-históbico *, páj. 46-48, para 
o qual remeto o leitor que deseje obter noções exactas e minu- 
ciosas acerca destes termos portugueses de nomenclatura arqui- 
tectónica pre-histórica, e das suas rigorosas definições. 

Com respeito à orijem do vocábulo anta, eis o que nos diz 
Guilherme Smith: — ^antae: pilares quadrados que se acrescen- 
tavam em geral às paredes laterais de um edifício, de cada lado 
do portal, para ajudarem a formar o pórtico. Raras vezes se en- 
contram estes termos [o latino e o correspondente grego pabastá- 
DEs] no singular, porque o fim a que se destinavam as antas 



^ Vocab. port. lat. 

* o número lOG (18S5) da «Bibliotheca do povo e das e3Colas>, meri- 
tória colecção do editor David Corazzi, de barateza inexcedível. 




Apostilas aos Dicionários Portugueses 71 



^ra que ficassem fronteiras e sustentassem as extremidades de 
um mesmo teto» — *. 



antenal; mangas de velado 

Este vocábulo empregado como substantivo, e que propria- 
mente parece ser um adjectivo substantivado, derivado de antena, 
náo ocorre, que eu saiba, em dicionário algum da língua portu- 
guesa, mas só num bilingue. 

Xa interessante e fidedigna obra de Jurien de la Gravière, 
l/ES Anglais et les Hollandais dans les mebs polaires 
ET DANS LA MEB DES Indes *, a páj. 148 do tômo I lemos o 
seguinte: — «Vers le 20 mars, on avait vu beaucoup de ces 
oiseaux de la grosseur d'un oison [«patinho»], que les Portugais 
nomment antenales, Maintenant on était entouré de mangas de 
veludo, — manches de velours, — qu'on appelle ainsi parce qu'au 
bout de leurs ailes il y a quelques marques noires imitant le 
velours, le reste étant blanc et gris. La rencontre de ces oiseaux 
est un Índice certain qu'on n^est pas loin de la partie orientale 
du Cap [Cabo da Boa-Esperança] » — . 

Refere-se o autor à narrativa de Linschoten. 

Se as duas expressões antenal (pi. antenais, e não antena- 
les) e mangas-de^eludo, como denominações vulgares, impostas 
provavelmente por marítimos, figuram, ou não, em escritores por- 
tugueses do século XYi, ou posteriores, e se ainda são usuais em 
qualquer parte do reino, é o que não ousarei afirmar, nem negar. 
Entendi, contudo, não desaproveitar a ocasião de tomar delas 
apontam^to, para base de futuras indagações. Apresentarei mais 
o seguinte: 



1 G. Smith, Smallbr Dictionary of Grebk axd Boman antiqui- 
Tixs, Londres, 1871. 
í Paris, 1890. 



72 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

No DiGciONÁKio POBTUGUEz-FBANCEz de J. I. Roquetc * 
vemos inserida a palavra antennal, como portuguesa, traduzida 
para francês por — «anténale, albatros: oiseau de mer» — . 

apale 

Esta palavra, pertencente à língua dos cafres da Beira, na 
África oriental, é assim definida nuns interessantes estudos pu- 
blicados no JoKNAL DAS CoLONiAS *, acêrca de usos e costumes 
de Marromeu, por Jorje Epifânio Berkeley Cotter, funcionário ao 
serviço da Companhia portuguesa: — «Quando um apale (rapaz) 
chega á edade de oito a dez annos» — . 

apanha(s) 

Na publicação periódica Pobtugalia ^ vem a seguinte des- 
crição do tear ordinário, usado no distrito de Viana-do-Castelo, 
na qual apenas suprimo os algarismos que se referem ao desenho, 
que aqui não reproduzo. 

— «As duas pernas de prumo da frente; as duas pernas de 
prumo das costas; as duas mezas; os dois capiteis; as duas 
tramações dos capiteis; os dois pombos do órgão do panno; o 
órgão do fiado ou das costas; o órgão do peito; o orgào do 
panno; os dois malhetes do órgão do peito; os dois pombos do 
órgão das costas; a roda dentada do órgão do panno, e sua 
espera; as duas varetas das queixas; a maçã ou pega das quei-- 
ocas; as duas peças das queixas; o eixo das queixas; os dois 
nioitòes para as lisseiras; o travessão dos moitões; as quatro 
chaveVms para o órgão das costas; as duas apanhas , premedeir 
ras ou pedaes; o tempereiro; os dois compostouros ; as lisseiras. 



^ Paris, 1855. 

2 30 de maio de 1903. 

' I, p. 374. 



Apostilas aos Diciotiários Portugitesett 73 

Aponto aqui em itálico os termos constantes desta nomen- 
clatura vulgar, que ainda não foram ou colijidos em lécsicos por- 
tugueses ou neles definidos nestas acepções; considerando não 
rejistados os termos ou acepções que nào figuram no mais com- 
pleto desses lécsicos, o Novo Diocionáeio, ou no Vocabulário 
poBTuauEz LATINO de Bluteau, tam rico em meudíssimas defini- 
ções de termos vulgares. 



apani(a)guado 

Passando por alto como inaceitável a palavra perno que o 
Novo DiooioNÁBio propõe por étimo do verbo apanicar, para o 
qual remete apanigiuir, identificando-os, vejo que duas etimolo- 
jias teem sido propostas para o nome que encabeça este artigo: 
a primeira, por Duarte Núnez de Leão *, a-pan-e-água; a se- 
gunda por F. Adolfo Coelho *, exposta nos seguintes termos: — 
^(A pref. e thema pani pão; para a foimaçào que nada tem que 
ver com agtia, como suppoz N. Leão, víd. Apaziguar e Sancti- 
guad» — . Seguindo este raciocínio, vemos em Apaziguar, no 
mesmo dicionário: — «^ pref. e pacificar, cf. para a forma apa- 
nigtuido por apanificado, averigicar de verificar, ant. amorti- 
ffuar de mortificar, etc) « — • 

Nào seria muito fácil suprir o etc, e apesar de tara perentó- 
ria afirmativa, tanto amortigiuir de mortificar, como averigicar 
de verificar nâo sâo tam seguros, que nào precisem larga expli- 
cação, a qual ali se não encontra em nenhuma das palavras apon- 
tadas para confronto, nem nas remissões feitas em san(c)ttguar. 

Ora, as formas averiguar, santiguar, apazigiuir, aniortiguar 
sâo naturalmente erros de interpretação de gu, que do antigo 
expediente ortográfico por g passaram às ortografias posteriores, 
alterando a pronunciação, por má leitura, pois se o t^ houvesse 



1 Convém saber: Origbm da likqoa portuguesa, cap. viii. 

> DiCCIONARIO MANUAL BTYMOLOOIOO. 



74 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



de ler-se, a sua escrita antiga teria sido guo, como em logtu>, 
por logo, agtwa, por água. Esta indução é confirmada pela cir- 
cunstância de nenhum desses vocábulos ser popular, sendo dois 
deles obsoletos, amortigicar, santigtiar. 

Se porém a todas essas dições se podem atribuir as formas 
reais anwrtigar, apazigar, averigar, santigar, o mesmo não 
acontece com apaniguado, particípio passivo aparente de um 
verbo apaniguar, que parece não existir, e cuja forma antiga é 
apaniaguado, confirmada pela castelhana (a)paniaguado, de que 
proveio. Em Fernám Méndez Pinto lemos: — «E sem embargo 
de tudo isto o padre [Francisco Xavier] se embarcou nesta mesma 
nao para a China, mas bem differente do que ouvera de yr se 
fôra com Diogo PerevTa, mas elle ficou em Malaca, e a nao foy 
toda por conta do capitão e dos seus apaniaguados, e com capi- 
tão posto de sua mão, e o padre foy Íngreme, sem autoridade 
nenhua, ás esmolas do contramestre e sem levar outra cousa mais 
que só hua loba que levava vestida» — ^ 

Este passo é, em todos os pontos de vista, de muito interesse, 
não só por se referir ao apóstolo das índias, mas ainda como 
texto de linguajem, pois contém, além de outras locuções verná- 
culas, o vocábulo apayiiaguadoj e íngreme num sentido muito 
especial, desusado hoje, e que talvez possa contribuir para se 
aclarar a sua orijem e verdadeira acentuação, pois a literária 
íngreme está em oposição com a popular ingríme. 

A forma completa, pois, da palavra de que estou tratando 
vemo-la aqui, a-pan-i-agua-do, aportuguesamento da castelhana 
(ahpan-i-agu^-do, visto que é nesta língua, e não na portuguesa, 
que pan quere dizer «pão>. Assim, ser de alguém apaniagtuulo 
equivalia ao que hoje dizemos «estar às sopas de alguém». 

Vê-se bem que tinha razão o grande himianista do sé- 
culo xv-xvi, D. Núnez de Leão, e que bem fez Bluteau * em 



^ Peregrinação, Lisboa, 1829, cap. ccxv. 

2 Vocabulário portugubz latino, sub. v, paniouado. 



ApostUas aos Dicionários Portugueses Ih 



O seguir, explicando-o nestes termos: — «Aquelle que como do- 
mestico da casa, recebe todos os annos do senhor delia alguma 
cx)usa para seu sustento. Chama-se «assim» porque antigamente 
a raçào do paniaguado era pão e agua. Nos livros das Ordena- 
ções está Panigado, e Âpanigado, mas o author do Repertor. das 
Ordenaç. diz Paniaguado» — . D. Núnez escrevera, loc. cit,: — 
«Apaniguado, de pane et aqua, quasi paniaguado» — . 

(íFoi isto uma conjectura, um desejo de interpretar etimoló- 
jicamente um vocábulo, cujo verdadeiro sentido se perdera e cuja 
formação se ignorava? E esta a opinião de F. Adolfo Coelho, e 
neste caso apanigar seria uma forma parassintéctica, um derivado 
com preficso e suficso. 

Nos termos em que D. Núnez e Bluteau a analisaram é ela, 
pelo contrário, um caso, mais raro nas línguas românicas, de po- 
lissíntese, isto é, uma palavra composta, flecsionada como se fora 
simples, tal como, por exemplo, afidalgado \ fidalgo j filho-de- 
algo, e em cuja composição os elementos estão em relação cir- 
cunstancial. 

Se analisarmos os verbos citados por F. Adolfo Coelho, e que 
transcrevi mais acima, vemos claramente que em nenhum deles 
a terminação -guar está com o radical, na mesma relação, que 
em apani(a)guudo. Três teem por primeiro elemento adjectivos 
vero, morto, santo, e significam «fazer que fique verdadeiro 
morto, santo». O outro tem por base o substantivo paZj e quere 
dizer «fazer que fique em paz». Ora, apaniguar, ou apaniaguar, 
se existisse, não equivaleria a «fazer que fique (em) pão», e 
portanto essa derivação que se pretende dar a apaniguado é 
absurda, comparada com a dos vocábulos com os quais se con- 
frontou. 

Se as formas averiguar, amortiguar, apaziguar, santiguar 
se podem substituir pelos seus equivalentes formais e significati- 
vos verificar, mortifi^uir, pacifi^^r, santifi^car, outro tanto não 
aconteceria a apanigiMrj que não corresponderia a panificar no 
sentido, como lhe não corresponde na formação. 

Por todos estes motivos parece preferível adoptar a explica- 
ção dada por Duarte Núnez e perfilhada por Bluteau, a qual é 



7(> Apostilas aos Dicionários Portugueses 



exactamente a que os dicionários castelhanos dâo ao panigiuido ^ 
de que procede o português apani(a)gtiado, sem verbo de que 
seja pai*ticipio, mas como adjectivo substantivado. 

Para confirmação do que fica exposto aduzirei uma informa- 
ção decisiva. No excelente estudo de Paulo Groussac, intitulado 
Le Commentateub du Labebinto [de Joào de Mena], lemos o 
seguinte: — «II s'agit de la petite rente appelée pan y agua, 
remplaçant Tancienne ration en nature des chevalíers pauvres 
(paniagimdos) agrégés à une commanderie» — . E em nota acres- 
centa, citando Dormer, Pbogbesos de la historia en Aragòn 
(Çaragoça, 1680, páj. 540), um trecho da carta de Fernám Núnez, 
o Pinciano, a Zurita, em que lhe diz: — «De la tardanza de mi 
libramiento estoy en sospecha si ha venido alguna suspensión de 
\\^ Sà Majestad [Carlos v] en que nos quite ese pan y agua que 
nos daba> — . 

Creio ser decisiva a citação. 



aparadeira 

Era Caminha, e provavelmente em outras partes da província 
do Minho, dá-se este nome a uma bandejinha que apara os pin- 
gos da vela, no castiçal. É pois este um termo excelente para 
traduzir o vocábulo francês bobèche, substituindo-o em português. 

Nem é de estranhar a formação e aplicação deste derivado 
femenino do verbo aparar, visto que já temos o correspondente 
masculino aparador, que pelo sentido menos que aquele se liga 
ao expresso pelo verbo. 

aparamentes 

Esta forma, equivalente a paramentos, não vem rejistada nos 
nossos dicionários, e está para o substantivo paramentos, como 



^ DiCCIONARIO DB la RbaL ACADEMIA, 1899. 



Apostila^i aos Dicionários Portugueses 77 



O verbo aparamentar, já colijido, para o verbo paramentar. 
Âbona-se com o seguinte trecho do Padre António Francisco 
Xardim: — «preparou-se a varanda de alcatifas, e cadeiras de 
veludo bordado para os dois fidalgos, outra diferente para o 
embaixador, posta na cabeceira, com outros aparamentes visto- 
sos» — ^ 

ápeto, atom 

O conhecido etnógrafo A. Tomás Pírez, na revista Portugá- 
lia *, publicou um seu estudo descritivo dos amuletos usados 
pelos povos do concelho de Elvas. Entre outros vocábulos inte- 
ressantíssimos vem apontado este numa rima popular: — Onde 
está o ap[e]to e o atom / nâo faz o demo seu tom. Antes diz: — 
«Usam o aipo e o eUom (Talaspia), mettidos em bolsinhas, ao 
pescoço, para preservarem do feitiço e do demónio» — . 

É singular esta forma ápeto, e não, apto, a medida do verso 
o está indicando, para designar o aipo, e não atino com a sua 
orijem. Outro tanto direi de atom, que apresenta uma terminação 
rara no português do sul. 

E evidente que o grupo pt é inadmissível em vocábulos 
de orijem popular, e por isso ou se haveria reduzido a ato 
(cf. atar j aptare), ou uma vogal anaptíctica desuniria, como 
desuniu, as duas consoantes incompatíveis. 

apojar 

Este verbo é usado no Algarve, com a pronúncia apojar 
{ô átono na 2.* sílaba), e a significação «demorar-se». O étimo 
é naturalmente podium, como supõe J. Leite de Vasconcelos ^. 



^ Batalhas da Companhia db Jesus na província do Japão, 
Lisboa, 1894, p. 50. 
* I, p. 618-622. 
» Bbvibta Lusitana, vu, pag. 107. 



78 Apoatilas aos Dicionários Portugueses 



apolentar 

Este verbo está registado no Novo Dicc., assim definido 

— «engordar com polenta» — . 

A polenta, no mesmo dicionário é descrita do seguinte modO: 

— «papas de farinha com manteiga e queijo ralado» — ; e no 
Suplemento acrescenta-se — «polenda o mesmo ({mq polenta. Em 
Veneza, é uma pasta grossa, leila de farinha de milho com água 
e sal, e serve de pão em certas refeições. Parece que também 
há polenda de farinha de castanhas» — . 

Efectivamente a polenta que lá comi era a que aqui se des- 
creve. Quanto à forma polenda, é sabido que em certas partes 
de Itália nd alterna com nt, ou o substitui, onde houve influen- 
cia do grego moderno, no qual nt se profere nd, em meio de 
palavra, ou de um para outrd vocábulo, e como d no princípio 
de vocábulo. 

O termo poleniu já era usado pelos romanos, aplicado a um 
«mantimento que se fazia de farinha de cevada torrada e prepa- 
rada de diversos modos» *. 

Conforme Petròcchi, a forma mais usada é polenda; mas 
eu, em Veneza, ouvi chamar-se-lhe polenta, 

Nào é porém da poleyita romana ou italiana que eu tratarei 
aqui, visto nào ser tal nome conhecido cá pelo povo, e se fiz a 
citação referida, extratada do Novo Diccionário, foi apenas 
para pôr em dúvida, visto nào estar ali abonado o vocábulo, a 
existência do verbo apolentar, com a significação que lá se lhe 
atribui. 

Nos meus apontamentos tenho o verbo apolentar, colhido na 
tradição oral, como termo da Beira-Baixa, querendo dizer « palpar 



1 Magnum Lbxicon, Lisboa, 1819, onde se abona com Ovídio; Theil 
(DiCT. LAT. FR.) cita Macróbio. V. também Septbm linguarum Calbpi- 
Nus, 1758. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 79 



com as pontas dos dedos a fruta, para experimentar se está 
madura». 

É duvidoso que este verbo com tal significado se possa rela- 
cionar com o substantivo pólen ta latino. 



apo(u)sentamento 

É este um dos poucos vocábulos portugueses em que o cor- 
responde a au latino, sem derivação imediata do castelhano, 
como 6060 (q, t\), ou do latim popular, como pobre j jjoj^ere, 
por pauperem. Outro é apoquentar, e seus derivados, cujo 
étimo é pouco. Todavia, é esta uma condensação moderna do 
ditongo ou, pois as formas antigas eram apouqu^ntar, apoiísen- 
tar: — «hua escada de pedra per bonde sobem as casas de apou- 
sentamento do dito castello» — ^ 

Outros vocábulos são foz j faucem, afogar j effaucare, 
e poucos mais *. 

aquela, aquelar 

Assim como empregamos o substantivo cousa para suprir um 
nome, que na ocasião nos não ocorre ou não sabemos, e coiso 
por pessoa, do mesmo modo que os franceses usam machin | 77ia- 
chim. e ainda como usamos aquela por « afeição » ; usam em 
Cammba aquela, querendo significar «pessoa rica» e aquelar 
por «fazer qualquer cousa», e em sentido restricto por «limpar». 

São exemplos da vitalidade criadora que ainda possui a lín- 
gua na boca do povo inculto. 



^ Auto de posse do castelo de Sines, de 24 de novembro de 1533, in 
Archbolooo português, X, p. 101. 

2 V. J. Cornu, Grammatik der portugiesischen Sprache, 2.* ediçáo, in 
Gruxdriss dbr Bomanisch. Philolooib, Estrasburgo, 1906, 1, p. 937. 



80 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



araça, araça, araçai 

Esta palavra, que o Dico. Contrmpobanko e o Novo Dicx5. 
acentuam araç4, e o Diotionaikb PORTuaAia-FBANÇAis de 
J. I. Roquete * escreve araçaz, vêmo-la escrita sem acento grá- 
fico, araça, entendendo-se que será lida aráça, no « Bosquejo de 
uma viagem no interior da Parahyba e de Pernambuco» *. 
Designa diversos vejetais e seus frutos, e deve ser palavra indí- 
jena do Brasil. 

Como, porém, no Vocabulabio y Tesobo de la lengua 
GUARANI, ó MAS BiEN TUPI 3, do Padre António Ruiz de Mon- 
toya, ela figura na ii Parte com as formas A raça, definida como 
Espécie de guayabas, e Araçaí, Arbol destas guayabas, vê-se 
que a verdadeira acentuação é a que os dicionários citados indi- 
caram. Por aí vemos também que o nome da árvore ó ampliação 
do nome do fruto, e portanto denominação distinta, o que os 
ditos dicionários não apontam. A palavra não foi incluída no 
DiccioNARio DE VOCÁBULOS BBAziLEiBos, do Vizcoudo de Beau- 
repaire-Rohan *. 

aragào, pai-dos-caixeiros 

Em uma correspondência do Brasil lia-se este vocábulo, em- 
pregado como substantivo comum e explicado pelo seguinte modo: 
— «sino grande da igreja de Sam Francisco de Paula, que dá 
o toque para se fecharem os estabelecimentos no Rio de Ja- 
neiro» — . Outro nome que tem o festivo sino é pai-dos-caioceiros. 

Eis aqui o trecho do qual extraí a definição: — «O meu amigo 
talvez não saiba que ás 10 horas da noite corre aqui um grande 



1 Paris, 1855. 

2 inO Século, de 8 de junho de 1900. 
5 Nueva cdición, Paris- Viena, 187G. 

* Ri o-de- Janeiro, 1889. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 81 



sino da igreja de S. Francisco de Paula, o que indica a hora a 
que são obrigados a fechar todos os estabelecimentos que não 
teem licença especial. Chamam geralmente a este toque — o Ara- 
gão — , ou o pae dos caixeiros. . . a segunda [denominação] 
claro é que provém de ser aquella a hora que os caixeiros aca- 
bam a tarefa da noite» — . 

A orijem da primeira denommaçào dá-se na mesma corres- 
pondência por estas palavras: — «Deriva-se de ter sido um chefe 
de policia d'aquella cidade que estabeleceu que o sino corresse 
ás dez horas > — *. 

aragoês, aragonês 

Hoje dizemos arafjonês, limitando-nos a transcrever o caste- 
lhano aragonês, muito bem derivado de Aragón, naquela língua. 
Na portuguesa, porém, visto que o nome próprio de que se forma 
o adjectivo está aportuguesado, e bem, no uso comum, Aragào, 
o dito adjectivo deve ser aragoês, como se dizia e escrevia dan- 
tes: — «Porque como os Aragoeses que tem a mesma lingoa que 
os castelhanos» — *. 

A forma aragonês é um castelhanismo, como o são leo- 
nês \ leonês \ Leôn, castelhano j castellano j Castiella, forma 
antiga, correspondente à moderna Castillu, «Castela», pois anti- 
gamente dizíamos castelão. Luís de Camões, porém, usou da forma 
espanholada castelhano: 

Deu sinal a trom]>eta castelhana 
Horrendo, fero, ingente e temeroso 
Ouvi-o o monte Artabro, e Guadiana ^. 

O nome próprio do rio é castelhanismo também, pois a forma 



1 O Economista, de 12 de agosto de 1885. 

* Duarte Núnez do Leão, Origem da lingoa portuguesa, cap. xxv. 

3 Os Lusíadas, rv, 28. 

d 



82 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



portuguesa é Odiana, Cf. Odemira, Odeceixe, Odehtica, nas 
quais a palavra arábica uad, «rio>, está condensada em odi, ode. 

Com efeito, Rui de Pina ^ e Damião de Góis, por exemplo^ 
escreveram Odiana *, e não Guadiana, que a pouco e pouco se 
foi difundindo, a ponto de ser hoje a única forma, pelo menos 
escrita, em português. 

O mesmo aconteceu com Badajoz, que dizíamos Badalhouce,. 
escrita e pronúncia mais conforme com a arábica saxaLius. Vê-se 
porém que esta última designação geográfica entrou em português 
pelos olhos, e não pelos ouvidos, por isso que pronimciamos aí o 
j e o e 3.0 nosso modo, e não ao do castelhano actual. 

arcainha; arquinha 

É este mais um termo vulgar para designar a anta ou arcn, 
e Yêmo-lo assim definido em uma monografia intitulada Mate- 
BiAEs PAEA o ESTUDO DO POVO poBTUGUEz ^i — « Os proprietarios 
e visinhos . . . deram o nome de arcainhas aos monumentos, e 
também o applicaram aos sitios em que se achavam» — . 

Arcainlia parece ser um deminutivo de arca, mas diferente 
de arquiyiha, que tem a significação de « maquineta » — « deu 
uma arquinha de prata, para estar uella um Santíssimo Sacra- 
mento» — *. V. anta. 

arco celeste, arco-da-velha, arco-da-chuva, 
arco-de-Deus, arco-íris 

 primeira destas denominações é erudita, como a última, e 
coincidem ambas com as castelhanas, igualmente cultas. O nome 



^ Crónica de Dom Afonso v, cap. 138. 

2 Crón. db I^l-rbi Dom Emmanuel, cap. vi. V. também G. Viana» 
Ortografia Nacional, p. 199. Lisboa, 1904. 
' in Portugália, i, p. 13. 
* O Archbologo português, V, p. 3. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 83 



vulgar em português é no continente arco-da-velha, que Fr. Heitor 
Pinto * explica haver sido dado — «porque na Lei velha disse 
Deus que nas nuvens poria este arco por sinal de paz entre si 
e os homens» — . Assim será; mas nesse caso teria esta deno- 
minação também orijem não popular. 

Os outros dois nomes, arco-de-Detis e arco-da-chuva, vêem 
apontados pelo Dr. Hugo Schuchardt nos Estudos Crioulos *, 
sendo o primeiro análogo ao explicado por Heitor Pinto, porém 
menos artificial, e o segundo de carácter enteiramente popular, 
que por si mesmo se explica. Não sei se algum deles é também 
usado no reino. 

areisco, arisco 

Este adjectivo, cuja orijem é o substantivo areia (cf. pedrisco, 
de pedra), é hoje quási somente empregado em sentido translato, 
equivalendo a «rebelde», «arredio», «bravio». 

Como já temos a locução terra areisca, terra arisca, rejistada 
no CoNTEupoBANEo, O cm que o adjectivo citado tem o seu signi- 
ficado natural, poderíamos muito vernaculamente substantivar 
este femenino, subentendendo a palavra (pedra), areisca, ou 
ariscxí, usando deste adjectivo substantivado para designarmos 
o que por galicismo se diz grés, e que A. Gonçálvez Guimarães ^ 
propõe se diga, com menos propriedade, arenito. Os espanhóis 
chamam-lhe c^m muito acerto (piedra) arenisca, como chamam 
ao calcáreo (piedra) caliza, e eu tenho nos meus apontamentos 
ainda outro nome, pedrorgrão. 

Assim, se continuam os geólogos e os mineralojistas a dar- 
Ihe nome francês, não é por falta de nomes portugueses: pedra- 
grão, arenito, arenisca, (pedra) areisca, pedra arisca, os últi- 
mos dos quais, com serem portugueses lejitimos, coincidem per- 



* apud Blutean, Voe. port. latin. 

' Krbolischb Studibn, IX, p. 129. 

' Elementos de Geologia, 2.* ed., Coimbra 1897, p. 130, n. q. v. 



84 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



íeitamente com a denominação espanhola arenisca, e com a 
inglesa sandstone, ou alemã sandstein, que ambas significam 
«pedra-areia». 

Poderia portanto usar-se simplesmente areisca, como substan- 
tivo, suprimindo-se a palavra pedra, como aconteceu a cuntaria, 
que dantes era adjectivo, pois se dizia pedra canturia, como 
vemos em Rui de Pina. — «E tanta ordem e diligencia se pôs 
nisso acerca da pedra cantaria, e cal, e madeira > — *. 



argamassa 

Qualquer que seja o étimo deste vocábulo, que também existe 
em castelhano, argamasa, o certo é que se deve escrever com 
8s, e não com ç, atenta a forma espanhola, e haja, ou não, ali a 
palavra massa; ao contrário do nome que dão a um bolo, inara- 
pão, em que tal vocábulo não existe, pois em castelhano se diz 
nxazapán, o que prova dever escrever-se em português com ç e 
não com ss, 

A palavra argamassa, como termo de calão, quere dizer « co- 
mida», o que se encontra documentado pelo trecho seguinte: — 
« Lavaram-me, cortaram-rae o cabello, mas a respeito de arga- 
massa. . . pão e agua, porque era dia de jejum > — -. 



arlequim 

No Suplemento ao Novo Diccionábio insere veu-se este vo- 
cábulo, como de gíria, com a significação de — «restos de carne, 
peixe ou de qualquer iguaria, que ficam das refeições, dos cria- 
dos das casas ricas» — . Duvido da existência em português de 
semelhante palavra, que creio foi empregada numa afamada tra- 



1 Crónica db El-rbi Dom Afonso v, cap. cxlii. 
* O Dia, de 25 de setembro de 1902. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 85 



doçâo do romance de Eugénio Sué Os mistéhios de Paris, na 
qual se procurou, bem ou mal, verter todas as muitas expressões 
, de ^ria que ali se encontram, inventando-se umas, aportugue- 
sando-se outras temeráriamente, com o fim de reproduzir, com 
uma afectada e imajinária exactidão, as locuções do argot francês. 
Ora, arlequin, nesse calão parisiense, quere dizer, pouco mais ou 
menos, o que os espanhóis denominam ropa vieja, isto é, con- 
forme a definição de Emílio Littré: — «débris de repas, et sur- 
tout débris de viandes, ainsi dit parce que ce plat, que Ton vend 
pour la nourriture des animaux domestiques et que les pauvres 
ne dédaignent pas, est composé de morceaux assemblés au ha- 
sard» — ^ O nome pois foi-lhe imposto por comparação com a 
vestimenta dos arlequins, feita de remendos de várias cores. 



armada 

— -tÉ com elle [o visgo] que se apanham nas armadas os 
pintasilgos e pintarroxos . . . Âs aimadas são unicamente feitas 
ás aves que costumam de preferencia pousar nas pontas dos ra- 
mos > — *. 

Cf. armadilha, e armar aos pássaros. 



armamento; armar, armado 

Este substantivo conhecido, derivado do verbo armar, tem, 
além dos seus diversos significados, mais ou menos relacionados 
com o étimo primordial arma, outro muito especial, exemplificado 
pela seguinte definição: — < Curioso amuleto composto de sino- 
saimào, meia lua e coração; deve ser de ferro ou aço e traz-se 



1 DiCTIONNAIRB DB LA LANGUE FRANÇAISE, Paris, 1881. 

í G. Pinho, Ethnooraphia Amaraxtixa, A Caça, tn Portugália, 
II, p. 96. 



86 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ao pescoço para preservar de ataques epilépticos» — *. Quere 
dizer «guarnição completa». 

Armado, indicando «vestido de armadura», usava-se dantes 
não só com relação às pessoas, mas também aos cavalos, cor- 
respondendo neste caso ao que em francês se dizia barde: — 
«E sairam logo delles quatrocentos de cavalo em cavalos ar- 
mados» — ^ 

Armar no sentido do francês monter, que modernamente 
por galicismo se traduz por montar, significa « dispor e ligar as 
peças de um qualquer maquinismo (por exemplo), de maneira 
que fiquem todas conjugadas e no seu lugar». 



armazém 

O povo diz almasém, e diz bem, mas já não é tempo de re- 
mediar a emenda falsa. Os nossos autores antigos escreveram 
sempre alm^azem, como, por exemplo. Rui de Pina; — «foi en- 
viar-lhe [ao infante Dom Pedro] El-rei [Dom Afonso v] com muita 
estreiteza requerer entrega das armas do seu almazem» — ^. 

Este passo do cronista patenteia claramente a influência exer- 
cida pelo vocábulo arma na deturpação da palavra almazém. 

Bluteau, conquanto já rejiste armazém, forma preferida pelos 
lecsicógrafos modernos, dá a primazia à antiga forma, que é ainda 
hoje a castelhana, almacén, do árabe AL-ManzaN, ou AL-ManzaiN *, 
do qual os franceses tiraram também o seu m^gazin, com su- 
pressão do artigo al. A palavra árabe significa « (casa de) arre- 
cadação», e é um substantivo verbal, correspondente à nossa 
terminação -ouro, isto é, designa o lugar onde se exerce a 



1 Portugália, i, p. 600. 

* Kui de Pina, Crónica de El-rbi Dom Afonso v, cap. cxli. 
' Crónica de El-rei Dom Afonso v, cap. xciv. 

* O ?/ é transUteraçÃo da 5.* letra do abecedário arábico, equiralente ao 
j castelhano actual. 



ApostiUts aos Dicionários Portugueses 87 



acção expressa pelo verbo de que deriva, convém saber, nazaxa, 
«arrecadar». 

Nem pode duvidar-se de que a forma armaz&ni sofreu a 
influencia do vocábulo arma, visto que, se na palavra argola 
o artigo arábico al está representado por ar, é porque houve 
dissimilaçâo do l da última sílaba: cf. o suficso al, como em 
social, que passa a ar, quando no radical há l; ex.: regular, 
dissimilaçâo que já se dava em latim. 

O n da palavra árabe, que por ser tinal passara em português 
a nasalizar a vogal que o precedia, reaparece no verbo armazeiíar, 
como acontece em vintena comparado com vintém, em ajardinar 
comparado com jardim, 

A etimolojia de almazém foi já apontada por João de Sousa ^ 



aro 



Na Beira-Alta, e Alto-Minho é o nome que se dá ao cinto 
que circunda e aperta os queijos discoides, e que no sul se chama 
«cincho» *. 

arrasta, arrastador 

O Novo DiocioNÁBio rejista o primeiro destes vocábulos duas 
vezes, a primeira no corpo da obra, com a signiticação de « zorra >, 
como termo transmontano, a segunda no Suplemento, como pala- 
vra do Riba-Tejo, significando a — «corda com que se laçam os 
bois pelas hastes». V. corda. 

O segundo destes vocábulos não vem, que eu saiba, especial- 
mente consignado em nenhum dicionário, e não obstante isso, 
designa êle na ilha da Madeira o «ascensor». 

É evidente que, tanto uma como a outra palavra, se derivam 



^ VBSTiaiOS DA UNGOA ARÁBICA EM PORTUGAL, Lísboa, 1830. 

> Bbvista lusitana, u, p. 33. 



88 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



do verbo arrastar, sendo a primeira um substantivo rizotónico, 
do tipo luvra j lavrar, espera j esperar, a segunda um adjectivo 
verbal substantivado como coador j coar, atacador j atacar, 
assentador \ assentar^ etc. 

Em castelhano o verbo correspondente tem a forma arras- 
trar \ rastro, e nesta não se deu a dissimilação que observamos 
nas formas portuguesas, com relação ao seu étimo latino ras- 
trum; rastro em português é desusado. 

Numa acepção especial, filiada na mesma terminolojia, há 
em espanhol a palavra arrastradero, que se aplica ao sítio 
por onde se arrastam para fora da praça-dos-touros os ani- 
mais mortos na corrida. Como é sabido, o suficso -ero corres- 
ponde a -ouro em português, e designa o lugar onde se exerce 
a acção expressa pelo verbo, como em lavadero j laifar, port. 
lavadouro; quemadero j qiiemar, port. queiynadouro j queir 
ftiar; abrevadero \ abrevar «dar de beber >, « abeberar >, port. 
bebedouro I bebei\ 



(de) arredio; arredar 

Esta locução adverbial, formada com a preposição de e o 
adjectivo arredio, pronunciado, em geral, arredio, no Continen- 
te, o que dificulta a sua identificação com o latim erratiuum 
(Cf. sadio, antigo saadio \ sanatiuum), tem na ilha de S. Mi- 
} guel a significação «de lonsfe» *, que parece deduzida da que 
apresenta o verbo arredar, o qual todavia se não pronuncia arre- 
dâr, mas sim arredar, 

o 

Como em castelhano arredar se diz arredrar } a d- re- 
trare j retro (?), e arredio, ao contrário, tem nesta língua a 
forma radio, incompatível com o mesmo étimo, é claro que 
arredio tem de separar-se de arredar, com o qual o parentesco 
é apenas aparente, sendo a coincidência quási absoluta de forma 



V. O SacuLO, de 5 de julho de 1901. 



Apostilas aos Dicionários Portwjueses 80 



nas duas palavras arredar e aiireãio puramente casual, conver- 
jéncia do efeito das leis fonéticas que operaram nos seus étimos 
latinos. 

No verbo reãrar \ riitrare \ rutrum (?), ou de retro (?) 
núo se deu a dissimilaçâo de que oferece exemplo arredar, com 
a perda do r do grupo dr j tr, se o étimo oferecido por Coelho * 
é certo, do que duvido. 

Em resumo, arredio pode considerar-se como provavelmente 
derivado de erratiuum, o que é corroborado pelo castelhano 
radio (cf. entrevado por entravado), e de todo independente 
de arredar, arredrar, que pode ser desenvolvimento de re- 
drar [ reiterare, sendo neste caso redra um substantivo verbal, 
rizotónico. 

arredores 

Esta palavra tem no Algarve (Lagos pelo menos) uma acep- 
ção especial, que julgo não estar consignada nos nossos dicioná- 
rios, mas que vemos perfeitamente definida no seguinte trecho: 
— «A meia altura d'ellas [mós] ha uma travessa d'uns quatro 
dedos de largo, a rodeai as, excepto no sitio em que cahe a fari- 
nha; cbamam-lhe os arredores^ — ^. 



arrelicas, arrelíquias 

A segunda destas duas formas populares, a par da culta re- 
líquiafs), e que parece devida a se haver soldado a esta o artigo 
a (cf. arraia), é assim aduzida por J. Leite de Vasconcelos: — 
«Na moderna tradição portuguesa não conheço amuleto algum 



1 Dicc. Man. Etym. da likqua portugubza. 
* J. Núnez, Costumes algarvios: Os moinhos, in Portugália, i, 
p. 3S6. 



90 Apostilas aos Dicionários Fúrtugueses 



craniano; apenas tem voga as arrequias dos ossos de santos, 
trazidas em saquinhos ao pescoço» — *. 

 primeira, redução do esdrúxulo a vocábulo parocsitono 
(cf. povo, aut. põtpoo j populum, hravo \ barbarum) está defi- 
nida, em sentido mais especial, no seguinte passo: — «As abbeli- 
CAS. Um pequeno objecto de prata, em que estão promiscua- 
mente representadas a meia-lua, a figa, o signo-sámão, o coração, 
a chave, a argola, tudo encimado pela eflSgie de Nossa Senho- 
ra» — *. 

 escrita ultra-etimolójica signo-sámão não deve iludir qual- 
quer pessoa que conheça a denominação dos dois triângulos com- 
binados, o pentágono, a qual se pronuncia sinO'Sà(i)mào, e que 
procede do latim signum Salomonis, o que é sabido. Como 
ninguém escreve sino, sineta, sineiro, com g nulo, por isso 
chamo àquela escrita ultra-etimolójica. 

A palavra arreliquias, arrelicas é semi-erudita, visto que se 
manteve nela o q latino: cf. águia [ aquila. 

arrenega, greve, grevista 

O vocábulo francês greve tomou já foros de cidade em Por- 
tugal, o que não é de estranhar, pois o costume, bom ou mau, 
conforme o conceito ou o interesse de cada um, e cuja crítica 
não seria apropriada nesta simples resenha de palavras e locu- 
ções, o costume, digo, veio de fora, e por emquanto ainda se não 
enraizou cá. Esta forma de protesto colectivo e solidário, a que 
os franceses chamaram greve, do nome de uma praça, a de Greve, 
onde se reuniam os ganhões que vinham ajustar-se para trabalhar, 
denomina-se huelga, «folga» ^ pare, «parajem», em Espanha, e 
cá poderia chamar-se {as)sueto ^. A palavra greve, porém, está 



1 Portugal prb-histgrico, p. 36. 

* Portugália, i, p. 019. 

' — «Na quarta-feira [depois da Páscoa] que alguns lentes considera- 
vam dia de sueto ou assuetOf coroo então se dizia » — . António de Campos, 
Luís DE Camões, in * O Século > de 10 de julho de 1900. 



AposiUaa aos Dicionários Portuguesa 91 



em perfeita concordância formal com outras, como neve, breve, 
leve, e não há pois motivo, para a rejeitar. Sucedeu-lhe como a 
outro vocábulo também francês, morgue, que, pela sua forma sim- 
ples e fácil de proferir e de conservar na memória, nunca popular- 
mente será substituída pelo longuíssimo necrotério, apesar de 
que a existência de cemitério poderia favorecer a adopção. 

Outro vocábulo castelhano para designar sueto, ou folga, mas 
que não vem rejistado no Dicionário da Academia Espanhola, é 
buena, abonado pelo trecho seguinte, ainda que português: — 
<Era o que faltava, perderem-se as horas de buena a compor a 
tarimba» — ^ 

Tudo isto vem, ou não, a propósito de um sentido particu- 
laríssimo, um tanto calão, em que vimos empregado o substantivo 
verbal arrenega \ arrenegar, correspondente popular, mas tam- 
bém clássico do verbo renegar, usado, por exemplo, na obra do 
Pa^dre António Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus na 

PBOVINC5IA DO JaPÃO *. 

Esse sentido particular induz-se do seguinte trecho: — «E ou- 
tros dias anda a gente na arrenega, e não trabalha» — ^. 

Está aqui o vocábulo, na acepção de «folga» ou «folgauça». 

E sabido que arrenegar-se tem na linguajem familiar o si- 
gnificado de <zangar-se», e que uma pessoa arrenegada é 
aquela que facilmente se irrita, que mostra mau modo,(a quem e 
os franceses chamam bourru, e os ingleses cantankerot4^. 



arribas 

Conquanto muito usado este vocábulo, no plural [cf. riba e 
(ar)raia], no sentido de «fragas ã beira-mar», correspondente per- 



1 Ethnooraphia do Alto-Alentbjo, in Portugália, i, p. 542. 

s Lisboa, 1894, p. 64. 

3 O Dia, de 30 de março de 1903. 



/ 
S 



92 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



feito do francês fàlaises, não o vi ainda rejistado, em tal acep- 
ção restrita, em nenhum dicionário português. 

Usei deste termo, para traduzir fàlaises, nas notas á Selecta 

DE AUTOBES FEANCESES S a p. 148. 



arrilhada 

Nos meus apontamentos, mas sem abonação, tenho este vocá- 
bulo, como usado em Montemor-o-Novo, com a significação de 
«bico de ferro da aguilhada». 

Não está consignado nos dicionários portugueses, que eu saiba, 
nem tampouco em outra acepção, usada, como me informa o 
editor deste trabalho, desde Cezimbra até a Nazaré. É uma 
espécie de raspador composto de ferro triangular, de um palmo 
de comprimento, cuja base é o gume, e em cujo vértice se insere 
um cabo de madeira: serve para arrancar da rocha a serrada, 
ou minhoca de água salgada. Serve para isco a serrada. 



arrió, arriós, arrioz, arriol 

A terceira destas formas é definida no Novo Dicx)ionário 
como significando — «pedrinha redonda com que se jogão alguer- 
gue; pelouro de arcabuz». — No Suplemento ao mesmo copioso di- 
cionário diz-se ser — «jogo de rapazes com a pedra do mesmo 
nome* — , equivalendo portanto ao citado alguergue. 

Como o mesmo dicionário dá também a forma arriol tras- 
montana, segue-se que temos aqui um caso como o de eirôs j «- 
rô ! areolay e conseguintemente a escrita arrioz deve ser orto- 
grafia errónea. Cândido de Figueiredo atribui ali ao vocábulo um 



Lisboa, 1897. 



Apostiliu aos Dicionários Portugueses 93 



étimo arábico muito problemático ; mas o outro, al^uet-gue, é sem 
dúvida de tal proveniência. 

nQual é porém a orijein de arrió, arriós, ou arrioL e qual 
o seu primitivo significado, pois vemos que tem três: < pedra 
redonda», «pelouro (de pedra) para arcabuz», e um «jogo em 
que figura uma pedra como elemento » ? 

Vê-se perfeitamente que o desenvolvimento de significação da 
primitiva «pedra esférica» poderia ter-se dado, por uma parte 
aplicando o vocábulo a qualquer pedra redonda, ou arredondada, 
por outra denominando o jogo pelo instrumento dele, como dize- 
mos a malha, pelo jogo da malha. 

Para a investigaçUo do seu étimo não é porém indiferente a 
ordem por que se desenvolveu a significa\*ão primordial desta pa- 
lavra. 

Como, para justificar a acepção de «pedra», não há nem em 
latim, nem era árabe, nem em qualquer língua germânica vocá- 
bulo que possa apresentar-se como orijem deste, (jue parece ser 
antigo na língua, é-nos lícito procurá-lo em outro idioma, do 
qual o português haja recebido palavi'as, ainda que raras, e com 
que estivesse em possível contacto. 

Não resisto à tentação de, como simples hipótese, o conside- 
rar um dos poucos vocábulos vasconços que passaram a Portu- 
gal, assim como na realidade passou esquerdo, formas antigas, 
ezqiierdo, escequerdo, castelhana úquierdo, em vasconço ez- 
quer \ escu, «mão» e oquer, «torto, canho»; palavra que tanto 
em português como em castelhano substitm'u as antigas diçòes 
8e(e)$tro, stniestro j sinistrum, a primeira das quais ainda 
perdura em port. como substantivo, com a significação de « bal- 
da »f «hábitos ruins» e a segunda em espanhol, com a de «desas- 
tre». Outra palavra de orijem vasconça parece ser gualdir \ gal- 
du, « perder(se) > . 

Neste idioma pirenaico pedra diz-se arri, que vemos no ape- 
lido Arriaga^ procedente de Espanha, e que lá é também o 
nome de um lugar na província de Alava (ou Alava, como acen- 
tuam os castelhanos, ao contrário da acentuação orijinal), e de 
lugarejos nos subúrbios de Vergara, Vitória, Guernica, tudo nas 



94 Apostilas aos Dicionários Portugtieses 



Vascongadas, onde também se encontra o radical arri em Arrío- 
la, nome de povoação naquela e na de Guipúzcoa ^ 

O suficso -aga de Arriaga tem valor colectivo, equivalendo 
o derivado a «pedreira, ou pedraria, pedregal» (V. em azi- 
nhaga). 

Se, porém, partirmos da hipótese que a acepção primitiva 
haja sido «espécie de jôgo>, neste caso ser-noshá inútil ir pro- 
curar o étimo a idioma tam exótico, pois o temos muito à mão 
na fonte principal do nosso vocabulário. Em castelhano o jogo a 
que nos referimos denomina-se rayuela, forma deminutiva de 
raya «risca», do latim radia, plural de radium {cLpimien- 
ta I pigmenta, pi. de pigmentum), e este nome procede do 
traço ou risco feito no chão pelos jogadores, e que serve de meta 
para a projecção da pedra, arremessada com ujna pancada de um 
pé, emquanto o outro está no ar. Ora, à forma rayuela, corres- 
ponde em português raioJu, ou rayoulu (cf. lentejoula com len- 
teju^la, tejolo com tejiceh), e do primeiro, raiola, com a adjun- 
ção do artigo a (cf. arraia | raia), resultaria a forma arraióla, 
da qual proviria arraio (cf. ahiiela com avó), e pela condensa- 
ção do ditongo (cf. rial, arraial) arrió, cujo plural arriós, seria 
ao depois tomado como singular: [cf. eirô(s), e a forma popular 
poses, por ^;ó.9], ilhó(s), ilhós(es), (q. v,). 

Como, porém, a palavra é masculina, o processo de deriva- 
ção pode ainda, com menor probabilidade, ter sido o seguinte: 
radiolum j raiolo, j raiol, j riol j rió, menos plausível visto 
que por ele se não poderia explicar nem o a inicial, nem o 
ó aberto (cf. avô \ auolum. Paço j palatiolum, Mosíei- 
rô j monasteriolum, com Orijó \ ecclesiola). 

Em qualquer caso a fonna arrioz, com z, é injustificável. 



1 «Geografia General de Espafta>, Diccionario db todos iX)s pub* 
Brx>8 DE Espana, Madrid, 1862, p. 20, col. i. 



■> 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 95 



aminhar, arruinhar, arranhar 

E forma converjente de dois vocábulos enteiramente dis- 
tiutos. 

1.*^ arrunhar \ arruinar. 

2.^ arrurúiar, correspondente ao proençal redonhar, francês 
rogiier, de ad-roiundeare, verbo derivado de rotundum, 
«redondo». 

Veja-se Revista Lusitana, ii, p. 82, onde José Leite de 
Vasconcelos, em nota, deixou o caso perfeitamente averiguado, 
acrescentando mais a forma minhota arruinhar, tetrassílabo, 
para explicar arnin1iar=* arruinhar*^ e para a qual deve ter 
havido outra forma ainda, intermédia, arrular. 



artemajes 

Esta palavra, popular no Alto-Alentejo, vem assim definida 
no belo estudo de J. da Silva Picão, intitulado Ethnogbaphia 
DO Alto-Alentejo *: — «São para a rapaziada fazer artemagís. 
nome que em calão local significa exercícios gymnasticos e acro- 
báticos» — . 

(altesa) artesa, artesão 

No estudo de J. da Silva Picão, já por vezes citado aqui, e 
que se intitula Ethnoobaphia do Alto-Alentejo *, vem este 
vocábulo: — maltesas de madeira e alguidares de barro para os 
amassilhos» — . 

É corrutela de artesa, que vemos rejistado no Contempoha- 
XEO, e no Novo Diccionábio, mal escrito com z em vez de s.. 



^ in Portugália, i, p. 542. 
* tn Portugália, I, p. 539. 



9(> Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Em castelhano, como em português, artesa, ainda que actual- 
mente com pronunciaçào diversa dada ao s, quere dizer: caixote 
de quatro faces iguais, que vai estreitando para o fundo, e serve 
para amassadouro do pão. 

O étim^ é desconhecido, pois o grego ártos que se lhe atribui 
nilo oferece confiança alguma. De artesa vem artesão, como t^rmo 
de arquitectura, o qual também se deve escrever com s, como 
em castelhano artesón. 

arujo 

Km Trás-os-Montes é o mesmo que «argueiro». 
Km castelhano orujo é o «bagaço da uva». 



arvoar 



Este verbo quere dizer, conforme os dicionários « entonte- 
cer >. D. Carolina Micharlis já lhe deu a orijem; é o latim her- 
hulare, « envenenar > * com hervas>. Cf. hervar, no mesmo sen- 
tido, por exemplo em frechas hercaãas. 



asada, asado 

A forma masculina deste adjectivo substantivado, como nome 
de um vaso com asas, já está consignada no Novo Diccionábio, 
e é muito freqiiente no norte do reino. A forma femenina parece 
ser usual no Alentejo, visto que a encontramos empregada por 
J. da Silva Picão, na Ethxogbaphia do Alto-Alentejo *: — 
« azadas para a coagulação do leite, para a coalhada, como vul- 
garmente se diz ' — -. 




Revista Lusitana, i. ]». 208. 
in Portugália, i, p. 540. 



ApostiUu aos Dicionários Portugueses 97 



Há aqui mais a rejistar a abonação do termo coalhada. 

Parece que nem asada, nem asado são usados no centro do 
reino, ou pelo menos em Lisboa. 

O Dicionário da Academia define asado como «panela com 
asas>. 

£ sabido que asa é o ansa latino e que, além do significado 
deste, compendia também o de ala, que depois de ter passado a 
aa desapareceu enteiramente do uso, visto que o latinismo ala tem 
sentido muito restrito. Exemplo de aa ainda o encontramos no 
RoTEiBO DA Viagem de Vasco da Gama *: — «non tem penas 
nas aas> — . 



ascoitar 

Esta forma popular minhota, correspondente à do sul escutar, 
forma antiga escuitar, e como esta derivada do latim auscul- 
tare, é quasi igual à galega escoitar, que vemos empregada 
nestes hiperbólicos, mas formosos versos, consagrados por Alberto 
Garcia Ferreiro * à Corunha, ao avistar esta cidade: 



Chorei, quVu non saberia, 

— ; e San Pedro non m^escoite ! , — 

d'escoller, qn^escollería, 

í s'entrar n-a Omiia de noite 

OQ entrar n-o ceo de dia! 



Este elojio à formosa cidade galega em nada é inferior ao 
consagrado à risonha Granada: 



Hizo Dios á Ia Alhambra y á Granada, 
Por 8Í le cansa nn dia su morada. 



i Lisboa, 1861, p. 14. 

2 Follas db papel, Madrid, 1892. 

7 



Af<*fti!i* noê Diclonàrioê Fwiuguege» 



aselha 

Conquanto este vc^oábulo não seja tain evidentemente um 
deminutivo de a-^a como jiarece e os lecsic^í^grafos modernos o 
aíirmam. tem o signiticado de « asa pequena de vasilha » no trecho 
sêiTuinte *: — < Manulaoturad«>s os primeiros vasos sob a inspira- 
ção floral ou dos fructos. ap*:*des, sem aselhas e cabos» — . 

A aoeji^-ão usual ê < lavada», o que em inglês se diz loop, e 
substitui a ca^a. para se ab«>toar um vestido, entrando nela o 
botão. J. Comu deriva-o de a n si cuia. 

asneiro, asneira 

Como adjectivo quere dizer o que procede de asno, «burro». 
O NÚTo DiccioxÂRio define assim: — «diz-se da besta que pro- 
cede de burro e ésrua. ou de cavallo e burra» — . Xào é exacta 
a definirão: a verdadeira coutém-se na seguinte citação: — «Bas- 
taria a crearão de al&rumas caudelarias. onde se ensaiasse a crea- 
cão de muares asneiras (filhas de cavallo e burra), muito mais 
resistentes a ho)\<€'SÍckHcss do que as [muares] eguariças (filhas 
de burro e eiroal> — -. 

Vê-se: 1.*^ que as bestas são muares: 2.° que há diferença, 
determinada pela màe. que é quem dá o nome: se é jumenta, a 
muar é a.^neira, se é égua, eijuarira. 

Já Bluteau mostrava bem que havia distinção, ao citar Galvão, 
Tii ATADO DA Gineta: — «As bestas muares egoariças e asnei- 
ras* — ^ 

assedajem 

Kste vocábulo, ainda não incluído nos dicionários, é assim 
definido por Belchior da Cruz no seu interessante estudo intitu- 



1 Kj.^ha Peixoto. As olarias do Prado, in Portugália, i, p. 229. 

* JoiíNAL DAS ('olonias, do 15 «lo julho <le 1005. 

• Vocabulário portugubz latino, sub v. asneiro. 




Apostilas aos Dicionários Portugueses 99 



lado < Industria caseira de fiação, tecelagem e tingidura de subs- 
tancias teitis no districto de Vianna do Castello» *, e onde tantos 
curiosos termos se encontram: — «A assedagem é uma operação 
que tem por fim endireitar e apurar os filamentos (do linho), 
continuando a separar d'elles quaesquer substancias estranhas, 
como as arestas. Faz-se com cardas ou jyentes. As cardas do 
linho teem o nome especial de sed^iros* — . 

É provavelmente formado pelo autor, derivando-o natural- 
mente de assedar, já definido em vários dicionários. Asseda- 
mento seria talvez preferível, se assedajem se não divulgou 
ainda. 

assobio; assobiar, sobiote 

É sabido que este verbo procede do latim ad-sibilare, e 
que a pronúncia predominante antes era assoviar, com v e não b, 
O o pelo i latino foi produzido pela influencia da labial. 

O substantivo assobio, ou assovio, ora designa o acto de 
«assobiar», ora o instrumento com o qual se produz o « assobio > 
soprando, e a que também se chama apito, em castelhano 2>ito, 
de orijem desconhecida. 

Sobiote, é um deminutivo do tipo caixote, frangayiote, ve- 
lhote, e em Trás-os-Montes é nome de um apito de metal, ou 
de madeira '. 

Assobio d^água, é uma espécie de ocarina, de barro, com a 
qual se imita o canto do cuco ^. 

assorear, assoreamento 

Este verbo e o substantivo dele derivado são muito usados 
modernamente, ora escritos, com ss, como considero ser a verda- 



^ tn Portagalia, I, p. 371. 

* Trindade Coelho, abc do povo, p. 5. 

' Rochi Peixoto, As olarias do prado, tn Portugália, i, p. 2õ8. 



r 



lOJ ApOHtilas aos Dicionários Porttigueses 



\ 



deira ortografia, e mesmo a mais comum, ora com f. açorear, 
que tenho por errónea, pois é impossível que tais vocábulos pro- 
venham de açor, ou de Açores. O étimo, nào provado, mas pro- 
vável, será a-sorear, sendo sarear uma contracção de so-arear, 
pois à preposição e ao preficso latino sub correspondia no portu- 
guês antigo sô, e nâo sob, que é de introdução moderna, talvez 
feita por Alexandre Herculano. 

ílis aqui dois exemplos, que abonam o verbo e o nome: — 
« O mar nào cessa de lamber a areia que forma a praia de Espi- 
nho. Nas chamadas Pedras do Brito deixou a descoberto cacho- 
pos, que desde tempos immemoraveis se achavam assoreados > — '. 

— «Xo anno de 1895, em poucos mezes os assoriamentos 
tomaram tal incremento. . . > — *. 

No primeiro destes trechos, vê-se bem a significação e a pro- 
veniência presumível da palavra. 

A hipótese de que em assorear haja como principal elemento 
a palavra areia é corroborada pelo facto de também se empre- 
gar a expressão « o rio está areado > ; cf. o francês eiisabler. 



(a)tabefe 

E um vocábulo de orijem arábica, que em português ora 
se diz com o artigo arábico, ora sem ele (cf. zarcào e azarcão); 
designa, como é sabido, um preparado de leite, que o Dicciona- 
Bio CoNTEMPOKAXEo descrcvc deste modo: — «massa formada 
por manteiga e caseína, levantada, pela addiçâo de uma certa 
dose de coalheira, do soro do leite que ficou depois de separado 
o coalho > — . 

Na Revista Portugália ^ está abonado o termo como usado 



1 O Economista de 5 do janeiro de ISDO. 

2 Portugália, i, p. 009. 

5 J. da Silva Picão, Ethxographia do Alto-Albmtbjo, a p. 540, 



vol. I. 



Apostilns aos Dicionários Portutjueses 101 



no Alentejo: — «tacho grande de cobre para o almeice (soro) ir 
ao lume e produzir o atabefe» — . 

A palavra almeice, ou, segundo a forma mais usual, almece, 
é também arábica, AL-Mais, «soro de leite >, à qual a forma alen- 
tejana é mais fiel. 

atazanar, ateiiazar 

Este verbo costuma ser corrijido nos dicionários em atenazar, 
como derivado de tenaz, 

O Xòvo DiccioNÁKio, no Suplemento, consigna a forma ata- 
zanar como a verdadeira, e na realidade é ela a única empregada 
pelo povo. Parece ser o árabe l\ Tazaxa(i), correspondente ao 
ne mechaboeris do sexto mandamento do decálogo na Vulgata. 

Não é pois metátese de atenazar, a qual seria pouco presu- 
mível, visto a palavra tenaz ser do domínio popular, com esta 
forma, ou cora as de tanaz, atanaz, no singular, ou no plural 
tenazeff, como substantivo, nome de um conhecido instrumento, 
que no uso actual melhor corresponde ao francês pinceíi, visto 
que tenailles nesta língua quere dizer tarquês. Todavia, como 
ferramenta em diversos ofícios, continua tenaz a ter os significa- 
dos antigos, que vemos em Bluteau *. 

No periódico do Porto, intitulado A Revista, de 15 de abril 
de 1905 (ano ii, n.** 10), publicou a insigne romanista D. Caro- 
lina Michaêlis de Vasconcelos um interessantíssimo artigo acerca 
da famosa lejenda, em caracteres góticos minúsculos, das Capelas 
Imperfeitas do mosteiro da Batalha, infinitamente repetida com 
diversas variantes gráficas, e que tem espertado a curiosidade e 
aguçado a sagacidade de tantas pessoas. Nesse erudito estudo 
conclui a notável escritora pela interpretação tàHas ser ey= tenaz 
serei, interpretação que satisfaz completamente ao sentido, mas 
deixa no espírito ainda uns vizlumbres de dúvida, pois a ser 



1 Vocabulário port. latino. 



J_7. «•.'.£.• t * r*j>r^*mi^,*m P^rí*j¥«?hí« 



^^"*-*- Tcz::-? i-e .-.iifi-i-írxr ■:- * »!i SsaI de íen/i? ínoliiiâo no s 
íl::-í- It •<:>•*- Tsry, .'^-^ li.:- i^ r*/6ídTel encontrar na lejenda 
ZLiii .It zzl j. ilrii iir..:- Tczi''^ íe a-imitir qne um mesmo 
«ÍZ.V.: ír^ ii Ít ■Ji:^:! rrLir --> prtzieir? T«>rábiilo como a figura- 
^I> rzi.'''.r^i'.i^j, ir ^"Zi v»i ir. r I» ãe^ido por y. sendo eles 
5r2i::T :^Li frz:rlijú::r> rr-ire si. Na rval^daiie, a hipótese é 
z::J:.:- -irijriJi si c z:::::.:- :-ríi e?Lir-eIc^^»ia; está ainda lonje, 
KT-^zi. ir •:ri::if':7alà i rXi.:::!!-:» dessa leitura. O conceito 
lotúl •: :• ri. ■ Irzii r li Irirà s-rr-à^i j*:'r:anio correspondentes à 

t/riTiVri, i> ..:ri:>- r anit-::-:' L^v^ que, com o titulo 
Tratels :x P btt.tal e :• i-sru«i'>nÍ2:o Latoache. publicou em 
te'j::>>. c-.Hílirrj^i i :iX':sa le;ea«ia e->aio auagramática, e en- 
CvniniTa Lrii .ip*:í frà>e elij-tisra latina, arte lineis, devendo 
ler-se. p»?r:iL:o. i\ir^ r>5e eiViíí» a >e^unda letra como sendo /, 
e não ti como a .i.;LL:d. 

No niinjero «ia oiiaJa Revista, correspondente a 15 de julho 
de li»5 vohou a q^iestão tia lejenda a ser tratada. Brito Kebêlo, 
em diita de lõ dt? uiaio do mesmo ano expôs os resultados 
da sua iiivesiiçaf fi :•. a ^iiiL ^ tor^a confessar, deixou bem clara a 
sigiiitioavilo d»}ste eaiirma. 

Para o erudito iavesiiçaior a lejenda não é grega, nem latina 
nem jHjrtuiruesa: é iVaaoesa, como as de todos os ínclitos in- 
fantes, e nesta liairua conesã representa a divisa de El-Rei 
Dom Duarte, fundador das Caí»elas Imperfeitas, pois mandou 
dar começo às obras delas em sua vida. começo que teve exe- 
cução. A lejenda. que principalmente adorna o arco da entrada, 
enlaçada nos ramos de hera que são o motivo predominante da 
sua ornamentação, mas que também se vê em outras partes do 
mosteiro, é na sua opinião, difícil de refutar, o mote tan que seray, 
«emquanto viver», segundo membro de outro em cuja interpre- 
tação Brito Kebêlo não foi a meu ver tam feliz, e que nâo men- 
cionarei aqui. A este resultado não chegou Rebelo 'por exame 
especial e detido das muitíssimas repetições da célebre lejenda, 
mas sim era virtude da leitura de um documento, arquivado na 
Torre do Tombo, e publicado após o dito estudo, o qual consiste 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 103 



em uma quitação passada por Estêvão Vás, com autorização do 
infante Dom Pedro, a João Vasques Bombarral, que exerceu o 
oficio de copeiro da Casa Keal, e tinha confiada à sua guarda 
valiosa baixela, cuja descrição consta do mesmo documento. 
Como nas várias peças da dita baixela, além dos ornatos e lavores 
minuciosamente descritos, estava gravada a divisa francesa de 
Dom Duarte tam que seray, tan què serey, com diversas orto- 
grafias, compara Rebelo essa divisa com a lejenda, e conclui 
serem idênticos os dois letreiros. 

Conquanto pareça completamente explicada com esta aprossi- 
mação a lejenda da Batalha, em um aviso citado no indicado 
número da Revista prometeu-se que o conhecido crítico de 
arte Joaquim de Vasconcelos responderia ao artigo de que fiz 
aqui extensa e bem merecida menção. 



atuado 

J. Leite de Vasconcelos, no vol. ii da Revista Lusitana 
páj. 43, dá este vocábulo alentejano como derivado de attenua- 
tum { attenuare | tenuis. É provável que a forma antiga 
fosse atúado, 

augueiro, agueiro 

A forma correcta é sem dúvida a segunda, mas a primeira, 
com retrocessão do u de gu para a primeira sílaba, formando 
ditongo com a, é a local popular: — « Accessoriamente os oleiros 
das duas regiões [Trás-os-Montes, e Minho] dispõem ainda d'um 
augueiro, pote já inutilisado, com a agua de que carecem fre- 
quentemente no trabalho» — *. 



* Bocha Peixoto, Sobrbvivbncia da primitiva roda db olbiro 
EM Portugal, in Portagalia, ii, p. 76. 



104 ApostUoê aoê Dicionário9 Fòrtuçufses 



\ 



avelar: avela 

Palavra que muitos dicioDáríos dão como verbo, sisrnitic 
engelhar, e nenhum como substantivo comum, pois como 
prio é bem conhecido o apelido, que deriva de Arelar, i 
de uma vila, de três lugares, de um casal e de uma quii 
Ora avelar, como substantivo comum, significa, à imitaçã 
avellanar castelhano, que também é denominação de um i 
imi sítio plantado de aveleira.^, e daí provieram os nome 
povoações ou sítios referidos. 

O verbo arelar deriva igualmente de avela (avelanar 
acerejar \ cereja, e é parelho do verbo avellanar castell 
que também quere dizer « engelhar, secar, como a avela > . 
outra parte, arelà português, avellana castelhano suo o 1 
auellana, ou abellana, adjectivo derivado do nome da ci 
de Abella, ou Avella. e já os romanos chamavam ao frut 
aveleira nui avellana. por o receberem daquela cidade da ( 
pánia. 

O verbo avelar, querendo dizer « melar >, vêmo-lo empre 
neste trecho: — «As uvas. como a chuva chegou ás raízes 
cepas, avellaram e. . . apodrecem > — -. 

Está, pois, aqui num seutido absolutamente oposto ia 
em que geralmente se emprega, isto é, «encolher por íalt 
umidade>. 

Neste íiltimo significado usam na ilha de Sam Miguel o \ 
azoíigar, aplicando-o à fruta que começa a apodrecer ^. 

O Novo DicciONÁBio inclui o vocábulo avela como usa( 
índia, com o significado de «arroz torrado». Nada tem, cont 



1 Jofio aviaria Baptista, Cíiorookapuia Moderna do uein 
PoKTi^fiAL. vol. vr, Lisboa, 187S. 

2 O Skcklo, ac 25 fie setembro de 1.001. 

3 V. O Skculo, de 5 de julho de 1901. 



Apostilas aos Dk-umàrios Portui/ueses 10> 



este termo com o verbo avelar, pois é palavra malabar, como se 
declara na Revista Lusitana, vi, páj. 77 *. 

aventar 

Além das várias acepções, quer naturais, quer figuradas, já 
rejistadas nos dicionários, cumpre acrescentar a de «botar fora», 
usada no Alentejo (Vila- Viçosa). 

avergoar 

No Novo DiccioNABio vem incluído este verbo, muito ex- 
pressivo, derivado de vergão, que o Contemporâneo define nos 
termos seguintes: — «verga grossa // Marca ou vinco resultante 
de uma pancada forte e sobretudo da que é dada com vara ou 
azorríçue> — . A orijem do vocábulo é evidentemente vêrgay do 
^t. virga. Modernamente, encontramos o verbo avergoar, na 
tradução de um conto nào sei de que autor, nem em que 
%ua escrito, e que em folhetim foi publicado no excelente 
Periódico semanal portuense Gazeta das Aldeias; intitula-se 
*0s horrores da Sibéria». O trecho é assim: — «[os cavalos] 
^fremeçaram-se numa corrida furibunda, soltando de quando 
^^ quando roucos relinchos, arrancados pêlo chicote que lhes 
^^ergoava as poderosas ancas» — . 

Neste sentido ouvi eu empregar outro verbo muito pitoresco, 
J* colijido no Novo Dicc., cardear. Ouvi esta expressão, há 
^te e tantos anos, a imi cocheiro de dilijéncia, indo de jornada 
^^ Alcobaça para a Nazaré. Reparando eu nuns vincos que os 
^^^alos (burros lhe chamava ele) tinham no pêlo, preguutei-lhe 

^ ?ue aquilo era; ao que me respondeu: «estão cardeados do 
açoute». 



^ Dialecto ixdo-portuguíss de Goa, por Monsenhor Sebastião Ro- 
^^^ Balgudo. 




1()() Apostilas aos Diciofiários Portugueses 

Aqui o verbo cardear tem exactamente o mesmo sentido que 
avergoar, isto é, « vincar >, e a primeira acepção deve ter sido 
«fazer nódoa negra», visto que o adjectivo cárdeo significa 
«arroixado, denegrido >, correspondendo ao castelhano cárdeno, 
como o vemos empregado por Espronceda no Diablo mundo *. 

È de notar também que a palavra roixo, que antes signifi- 
cava « encarnado >, hoje é pelo povo muito bem aplicada à côr 
que os franceses chamam violet, e que por cá se teuna em arre- 
medar com violeta, sem se atender a que a forma popular para 
o nome da flor é viola, e não violeta. 

Sentido análogo e opposição semelhante à expressada por Es- 
pronceda nos versos do Canto a Teresa, no Diablo Mundo, e 
que acima citei, vêmo-lo entre a palavra roiúco e a locução cõr 
de rosa, nos seguintes do canto iv do Dom Jaime, de Tomás 
Ribeiro: 

Que ás tuas faces mimosas 
Combanidas do martírio 
Cobriram frescura e rosas 
As roixis tintas do lírio! 

Com significado de verija^, existe o substantivo cardeal, 
O adjectivo roixo, como designando côr mais escura que a 
encarnada, é muito usado em português, por ex.: roixo-Urio, 
roixo'7'ei, roixo-terra, roixo-túnica, etc. 

Referi-me à tradução de um conto, e aproveitarei o ensejo 
para algumas observações a este respeito. Disse que essa tradução 
é esmerada, direi igualmente que nem sempre é feliz; assim no 
trecho que citei, furibunda seria com vantajem substituída por 
furiosa, louca, desordenada, como anc<is possayites é preferível 
a j^oderosas ancas. Acrescentarei ainda: O sistema de acentua- 



^ Cuando ya su color tus lábios rojos 
En cárdenos matices cambiaban; 

Quando já dos teus lábios o rubor 
En roixa e negra côr se transmudava; 



ApostiUíS aos Dicionários Portugueses 107 



ção adoptado na Gazeta das Aldeias é o de Cândido de Figuei- 
redo, convém saber: todos os esdrúxulos, todos os agudos termi- 
nados em vogal e os vocábulos enteiros terminados em consoante 
acentuam-se graficamente; além disto e ^ o fechados são sempre 
marcados com o circunflecso, para se diferençarem de ^ e o 
abertos. Posto isto, parece que alguns dos vocábulos russos en- 
tremeados na descrição deveriam ser marcados nesta conformi- 
dade, mas não o são: izbá, e não isba, é a cabana dos campo- 
neses russos, dugá, e não dája, é em russo «arco», e aplica-se 
aquelle em que, por cima da cabeça do cavalo, se dependura 
uma campainha. Semelhantemente, Fedor como está escrito pa- 
rece cousa muito feia; isto nem é russo, nem português: em 
russo di2-se Fiódor^ e em português Teodoro, Na mesma narra- 
ção chama-se ao cocheiro jemshik, vocábulo que não existe em 
russo; cocheiro diz-se iamaxchik, que se pronuncia ièmestchi' 
que: e assim várias outras palavras. 

Não se cuide, porém, que isto envolva grande censura; ao 
contrário: são pequenos desprimores numa versão que é por 
vezes primorosa, e sempre feita com o maior escrúpulo, e vasto 
conhecimento das riquezas do nosso idioma, bem como aproveita- 
mento discreto e abundante das suas rigorosas propriedades de 
expressão; se assim não fosse, nem mereceria a pena fazer men- 
ção aqui da versão a que me refiro. 



azeite, azeitona, azeitoneira 

Estas palavras, evidentemente relacionadas, figuram entre as 
línguas românicas unicamente nas duas da Península His]>ánica, 
a castelhana, e a galega-portuguesa. São arábicas, significando a 
primeira, AL-zair, o mesmo que em português, e a segunda, 
Ai>zaiTUNE, tanto o fruto, azeitona, em castelhano aceituna, 
como a árvore, que por singularidade tem, no português oli- 
veira, no castelhano olivo, orijem latina, oliva, que quere dizer 
o fruto. Não sei se jamais àquela se chamou azeitoneira, em 
castelhano aceituna, como seria de esperar. 



108 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Outro emprego da palavra azeitona é ser nome de uma ár- 
vore da Africa portuguesa, boa para construções, de porte ele- 
vado, que chega ás vezes a 25 e a 30 metros de altura *. 

Com relação aos vocábulos azeite e azeitona diz Alberto Sam- 
paio, na sua erudita e curiosa monografia, intitulada As villas 
DO NoBTE DE PoRTUGAL * O scguiute: — « admittindo-se que 
azeite, sendo um termo especial, não só tornou óleo (oleiím) 
uma palavra genérica, mas ajudou também a sustentar azeito- 
na* — . 

Ao nome da vila de Azeitão, dá João de Sousa a mesma ori- 
jem. 

Azeita em português tem emprego mais restrito do que em 
castelhano, pois apenas se aplica ao de oliveira, ao de pur- 
gíceira e ao de peixe, entanto que em castelhano, não só se diz 
aceite de hígados de bacalao, «óleo de fígado de bacalhau», 
mas também se aplica a muitos outros óleos. 

Um adjectivo derivado de azeitona, azeitonado, serve para 
qualificar certos peros-camoeses muito lustrosos, que teem na 
casca uma mancha, maior ou menor, mais escura, que na reali- 
dade parece de óleo, e com esta acepção particularíssima não 
está este adjectivo rejistado nos dicionários portugueses. 

O derivado azeitoneira, azeitotieiro, prato para azeitonas, 
já foi inscrito em vários dicionários. 

De orijem arábica do mesmo modo parece ser a palavra que 
designa a oliveira brava zambujo ou zambujeiro, em português, 
zaxBua, acebiiche em castelhano, onde tem a mais o artigo al, 
que também vemos no nome de vila de Azambuja, ao passo que 
em zambujal, azambujal se lhe acrescentou o suficso colectivo 
-al, como em luranjal, pinhal, etc. Dozy ^ põe em dúvida que 
zaNBUG, ou AL-zaNBUGE, azzembuja, que vem em Pedro de Al- 



1 V. O EcoKOMiSTA, ài 5 de agosto de 1885. 

2 tn Portugália, I, p. 319. 

5 Glossaire des mots bspagnols et portugais derives de 
l'arabe, Leida, 1800. 



Apostilas aos Dicionános Portugueses 10:) 



calá, seja vocábulo arábico, opinando ser antes berbere arabizado, 
o que Eguílaz y Yanguas * refuta, atribuindo-lhe, a) contrariei 
como étimo o latim acerbus, o que é enteiramente infundado. 
E sabido que este arabista, de grande competência no seu campo 
de investigação, a nenhuma autoridade tem jus como romanista, 
e assim o demonstrou todas as vezes que a etimolojias latinas se 
referiu. 

Joào de Sousa * deu a zamhujo como étimo o arábico já 
citado, e o Dicionário da Academia fez o mesmo. 

azevinho 

No Tramagal esta palavra designa uma casta de uva muito 
meúda, que nunca chega a amadurecer. 

Na língua comum é o nome de um arbusto, e como tal está 
incluído em todos os dicionários. É uma forma deminutiva, ou 
talvez antes adjectival, correspondente a azevoy de que derivou o 
nome de lugar Azevedo, e deste o apelido conhecido. 

F. Adolfo Coelho, Júlio Cornu e outros dào como étimo de 
azevo, em castelhano acebo, o latim aquifolium, como trevo 
de trifolium. É força porém confessar que, se pelo que respeita 
á terminação -evo já é difícil de explicar satisfatoriamente a trans- 
formação de folium, é a bem dizer insuperável a dificuldade 
que apresenta o primeiro componente aqui-, para dele provir 
ace-, aze-, e acébo, azevo: 

Para vir do lá até cá 
Mudou muito no caminho \ 



^ Glosario db vocbs bspanolas de ORiGBN ORiBKTAL, Granada, 
1886. 

* Vbstioios da lingoa arábiga em Portugal, Lisboa, 1830. 
3 Alfana vient d*equus sana doute, 
Mais il faut avouer aossi, 
Qn'en venant de là jusqu'ici, 
II a bien changé sur la route. 



110 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



azinhaga 

Os nossos etimólogos dào como orijem deste vocábulo um 
nome árabe, que foi primeiro proposto por João de Sousa * es- 
crevendo porém Azenhaga, sem por isso todavia pretender que 
tenha alguma cousa que ver com azenha (q. v.). Diz ser a pala- 
vra portuguesa corrutela de uma forma arábica AL-zaNQE, que 
transcreve Azzancha, e relaciona com uma raiz verbal zaNaQa, 
«apertar, estreitar». Os mais dicionários, a começar no da Aca- 
demia, limitaram-se a copiar o étimo, com eh e tudo, sem darem 
mais razões do seu dito, nem da mudança de símbolo na traus- 
criçáo. 

Ora, em português existe um nome de árvore muito conhe- 
cido, azinho, em castelhano encina, que tem por orijem um 
adjectivo ilicinum, derivado de ilex, em latim com a mesma 
significação. Júlio Cornu dá esse adjectivo como étimo do por- 
tuguês azinha, e D. Carolina Michaélis de Vasconcelos * perfilha 
esta opinião, que me parece irrefutável. Na forma castelhana o 7i 
está pelo l da diçào latina. 

Temos pois em português as formas azinha, para o fruto, e 
para a árvore, azinho, azinheira, esta última derivada com o 
suficso -eira, muito usual para designar árvores, arbustos, etc, 
como em castanheiro, a par de castanlw, castanha, j^inlieiro, 
de pinho, pinha, etc. E sabido que em castelhano se designa em 
geral pela terminação -o a árvore, e pela terminação -a o fruto, 
por ex.: naranjo e naranja, manzano e manzana, , 

Resta averiguar se azinhaga poderá ser um derivado de 
azinha, ou azinho, que primeiro designasse um caminho por 
entre azinhos, e ao depois tomasse o sentido menos especial de 
«caminho estreito entre árvores», e mais genérico ainda, de 
«caminho estreito», como aconteceu com alameda, que primeiro 



1 Vestígios da lingoa arábica bm Portugal, Lisboa, 1830. 
* Revista Lusitana, ru, p. 135. 



Apostilas aos Dicionários PorUigtieses 111 



significoa «rua de álamos», depois «rua de árvores», e por fim 
«uma rua», «um caminho», o fr. all^e. 

6 Mas como se há de explicar o suficso -aga? Não existe êle 
em mais nenhum vocábulo português derivado, pois mesmo em 
veniaga (q. v.) é primitivo. Creio ser o suficso vasconço -aga, 
que é colectivo, e também se aplica a arvoredo, como em liçar- 
raga, «freixeal», j liçar, «freixo», Art^aga, j arte «azinho», 
nome de lugarejo na província de Navarra. 

Cf. Arriaga e v, arríol. 

Azinhaga, como Azinlial e Azinhais, figura abundante- 
mente na toponímia portuguesa, onde sem dúvida não quis o 
primeiro dizer «caminho», mas sim azinhal. 



babaré 

O Novo DicciONABio consigna esta palavra como desusada, 
com a significação de «rebate, aviso de que há ladrões na vizi- 
nhança», e declara — que é termo asiático, o que é muito vago, 
para se lhe descobrir o étuno. 

Monsenhor Sebastião Rodolfo Dalgado, no seu estudo sobre o 
DiALECJTO iKDo-poBTaauÊs DE GoA iuscre o termo como goense 
com a seguinte definição: — «grito emittido batendo na bocca 
com a palma da mão; rebate (hoh em k[oncani]. — Do k[oncani] 
hõbá rê, voc[ativo] de babá*, [menino] — . 

Yeja-se cucuiada. 



babiruça, babirussa 

Esta palavra, que o Contempobaneo escreve erroneamente 
com um 80 8 e manda pronunciar babiruza, com maior erro 
ainda, é directamente tirada do francês. A palavra é malaia, 
composta de 646í «porco», e rusa (pron. ruça), «veado». Pode- 
ria também escrever-se em português com ss, babirtcssa. 



112 Aj)ontilas aos Dicionários Portugueses 



bacalhau: bacalhaus, bacalhoeiro, bacalhoa; badejo 

Há perto de trinta anos D. Carolina Michaêlis de Vasconce- 
los * identificou esta palavra, em castelhano baeallao e ba^alao, 
com o latim artificial baccalaureus e o francês bachelier, 
derivado de baccalarius, e do qual procedem tanto o caste- 
lhano bachiller, como o português bacharel: cf. a forma antiga 
ehançarel j chancelier, o que hoje se diz ehancekr, 

A aplicação de um termo com a significação de « bacharel > 
a denominar um peixe não é caso único, pois o mesmo peixe se 
chama também (ajbadejo, palavra que é um deminutivo caste- 
lhano de abad, «abade», e foram sem dúvida os trajes daquele 
e deste que determinaram as denominações: cf. batina por aba- 
tina, «a veste do abade». Temos ainda outra denominação aná- 
loga em peixe-frade; e com relação a aves, o francês nwiíieau 
«pardal», deminutivo de moine, «monje», obedece à mesma 
suposta semelhança com o traje, como acontece igualmente, com 
as denominações portuguesas de aves, cardeal, viuva, etc. 

Outro nome do bacalhau em espanhol é curadillo, e a esta 
expressão dá a ilustre romanista (ib,) como étimo o substantivo 
cura, «padre». Todavia, curadilh não é mais que o deminutivo 
de curado, particípio passivo de curar, «conservar por meio de 
fumo, sal, exposição ao sol » etc, particípio que se adjectivou e 
ao depois se substantivou, como aconteceu a pescado, pescada, 
pescadiyiha, que provêem do verbo pescar. 

Como em holandês a palavra que d-enomina aquele peixe é 
Jcabeljaauw (pron. cabeliáu), supuseram alguns que o vocábulo 
português ou castelhano fosse o holandês, com metátese das duas 
primeiras sílabas; é porém provável que, ao conti^ário, seja o 
holandês que sofreu a metátese, derivando-se portanto das formas 
peninsulares, e com tanto mais razão, quanto é certo haverem 
os espanhóis e os portugueses conhecido o dito peixe e a sua 



Studibx zur romaxischbn Wortschòpfung, Lípsia, 1876, p. 169. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 113 



vivenda antes dos holandeses, devendo-se ter ainda em atenção 
que o vocábulo holandês, desusadamente extenso para ser primi- 
tivo nesta língua, também se não pode decompor em elementos 
significativos. 

Littré * refere-se a esta palavra nos seguintes teimos: — 
«CABiLLAU (kabillô, 11 mouillé) ou cabliau (kabliô) s. m. Nom 
donné dans les marches à la morue fraiche . . . Etym. Wallon 
cubiawe, namurois cabotuiu, hoU. kabeljaauw, derive par renver- 
sement de hacailàba, nom basque de la morue, d'ou Tespagnol 
baculao et le flamand bakkeljau» — . 

Foi isto, pouco mais ou menos, traduzido do que a respeito 
de Mbliau dissera Frederico Diez no Dicionário etimolójico das 
línguas românicas. Dom Bafael de Bluteau ^, porém, já muito 
antes escrevera o seguinte: — «Peixe do mar septentrional da 
America a que os biscainhos derão o nome, quando o trouxerão 
á Europa. . . Bacalhao, e Badejo são o mesmo: o Bacalhao hé o 
que põem ao ar a secar nas partes da America, donde se pesca. 
O Badejo nos vem naais fresco» — . É este último o que também 
se denomina bacalhau frescal. 

Custa-me ter de contradizer Bluteau, Diez e Littré, com re- 
lação à orijem vasconça do vocábulo. 

Verdade é que Bluteau apenas asseverou que os biscainhos 
lhe puseram este nome, sem afirmar que pertencesse à língua 
das Yascongadas; e na realidade, ele é tam vasconço como é 
holandês. E senão, vejamos: a forma vasconça citada por Littré, 
bacailciba, é simplesmente o castelhano bacallao, com a forma 
bacailau, seguida do artigo a, e a mudança do u final em b; 
como de gau, «noute», on, «bom», e a, artigo, se faz, em vários 
dialectos do mesmo idioma, a saudação gaboná, por gau on a, 
«boa noute!». Bacailau não é explicável em vasconço, e mesmo 
não figura no dicionário de Yan Eys ^, nem como termo vemá- 



^ DiCTIONNAlRB DB LA LANGUB FRANÇAI8B, Sub V, GABILLAU. 

* Vocabulário PORTuauBz latino. 

' DiOTIONNAIRB BASQUB-FRANÇAIS, 1873. 
8 



114 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

ciilo, nem sequer como castelhanismo. Nem é de admirar: uma 
grande parte do vocabulário vasconço castelhano é, ou outro mais 
antigo, latino. 

O peixe e o seu nome foram mencionados por Pedro Mártire 
de Anguiera (Anghiera), geógrafo italiano que viveu em Espanha 
no século XVI e compôs em latim várias obras de merecimento 
acerca de viajens, descubrimentos e etnografia. É citado por 
H. P. Biggar, na excelente monografia em que reivindica para 
08 portugueses a exploração marítima da Groenlândia, primeiro 
chamada Terra do Lavrador, e a do Canadá. Intitula-se a mono- 
grafia VOYAGES OP THE CaBOTS (CobotoS, OU Quhotos) AND 

Cobte-Reals e foi publicada na «Revue Hispanique» ^ Pedro 
Mártire, pois, atribui ao vocábulo bacalhau orijem americana por 
estas palavras: — «Bacallaos Cabottus ipse illas terras appellavit: 
«eo quod eorum pélago tantam repererit magnorum quorun- 
«dam piscium, tynnos emulantium sic vocatorum ab indigenis 
« multitudinem, ut etiam illi navigia interdum detarderent — 
« Caboto denominou aquelas terras dos Bacalhaus, porque no mar 
que as banha encontrou grandes cardumes de enormes peixes, 
parecidos com os atuns, e assim chamados pelos indíjenas, e 
tantos eram que estorvavam o navegar das embarcações». — Biggar 
acrescenta com muita razão: — «This origin of the word can 
hardly be correct. It is more likely that the Spanish and Por- 
tuguese sailors gave the name» — . 

Efectivamente, o vocábulo, com esta ou outra forma parecida, 
nem em groenlandês ou esquimó, nem em qualquer dos idiomas 
dos índios bravos daquelas rejiões americanas se encontra. 

Nestes termos, não há remédio senão contentarmo-nos por 
emquanto com o étimo baccalaureus, hà trinta anos proposto, 
como disse. 

A palavra bacalhau indica ainda um açoute usado no Brasil, 
e com esta definição já se encontra no Dicc. Contempokaneo, 
mas sem estar aí abonada. O trecho seguinte apresenta a palavra 



T. X (1903), p. 556. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 115 



com esta significação: — «empunhou o bacalhau, e como ins- 
trumento da lei, fez correr o sangue d'aquelle que já foi seu 
irmão na desgraça!» — *. 

No plural indica esta palavra um enfeite de cambraia branca, 
usado nos íins do século xyiii pelos homens. Foi a forma que 
lhe deu o nome, como também o deu às casacas muito compri- 
das usadas pela mesma época e que se chamaram em Portugal 
casacas-ãe-rabo-de-bacalhau. 

Outra significação análoga de baculhau é a seguinte: — «ca- 
deiras de pinho (chamadas de bacalhau)» — ^. Este nome foi-lhes 
dado em razão da forma que tem o espaldar. 

O femenino de bacalhau é bacalhoa, formado, assim como o 
substantivo bacalhoeiro, de um tema bacalhõ, bacalhão, como 
leoa de leào, pavoa de pavão, cordoeiro de cordão, latoeiro de 
latão, relojoeiro de relojão, pois de rehjo, ou relójio seria reh- 
jeiro, ou relqjieiro, como de livro, livreiro. 



bacia; bacio; bátega 

Estas palavras, que provêem do latim da decadência bassi- 
num, mas cuja orijem é problemática ainda, tem em português 
significações várias, subordinadas todas à noção de «vaso». A pri- 
meira indica forma de vaso mais larga e menos funda, a segunda 
o contrário, menos largura e maior profundidade, diferença de 
sentido que em geral expressa a forma masculina, com distinção 
da femenina, quando em português existem ambas para um só 
vocábulo orijinário: cf. canela e canelo^ cesta e cesto, etc. 

Acepções destas duas formas, hoje desusadas, são as seguin- 
tes: haeia, «prato grande e largo de metal, que se tanje com 
uma vaqueta, e supre o sino, entre vários povos da Ásia » . Neste 



^ O Economista, de 4 de dezembro de 1885. 
* Marcelino de Mesquita, O Tio Pbdbo. 



IIG Apostilas ao8 Dicionários Portugueses 

sentido foi o vocábulo empregado por Femám Méndez Pinto ^ 
e por António Francisco Cardim ', no seguinte passo: obedecem 
[os habitantes da ilha de Áinão] ao sinal, parando ou marchando 
ao som da bacia» — . 

£ o que hoje indevidamente chamamos tanta, que na índia 
significa «tambor». O verdadeiro nome da bacia de arame que 
se tanje com vaqueta é gom. 

Outro nome português do mesmo instrumento é bátega: — 
«Vigia toda a noute com bátega e soldados» — ^. É este que 
deveria substituir o erróneo tnntã. 

Bacio: O que também chamamos pratos fundos, tejelas. 
José Pestana, na monografia O cálix be oubo do Mosteiko 
DE Alcobaça, publicada no «Archeologo Português» (v) diz: — 
« D. Manuel ordenara ao seu thesoureiro . . . que entregasse a 
Fructos de Góes os dois bacios dourados, e o gomil» — . 

O Elucidário de Santa-Rosa de Viterbo * diferença assim 
bacio de bacia: — «bacio na provinda de Traz-dos-Montes ainda 
conserva o seu antigo significado; pois chamam Bacios aos pra- 
tos. Mas note-se, que antigamente Bacio se tomava por todo o 
vaso de boca larga, como gomis, canecas, etc, e nisto se diferen- 
çavào das Bacias, que erào de mais bojo, e fundas, e aquelles 
erão mais chatos, espalmados, a modo das nossas bande- 
jas» — . 

Esta defimição parece estar em contradição com o uso actual 
dos dois vocábulos, visto que na bacia, como forma femenina, 
a superfície predomina sobre a altura, o que é o oposto do 
bacio. 



1 Pbrbgrixaçío, cap. clxi. 

2 Batalhas da Companhia db Jesus, Lisboa, 1894, p. 229. 

' P. António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jbsus, 
Lisboa, 1894, p. 103. 

* Elucidário das palavras tbrmos b frases que bm Portu- 
gal antiquambntb SB usarIo, Lisboa, 1798. 




Apostilas* ans Dicionários Portugueses 117 



bádur, badur 

O Novo DiociONÁBio dá este vocábulo cora a significação 
de — «chefe indígena de algum districto, dependente do Estado 
da tndia portuguesa» — , escreve-o porém Badhur, e como o não 
acentua graficamente, subentende-se, em harmonia com o sistema 
de acentuação gráfica empregado pelo lecsicógrafo, que se há de 
ler badár. O termo é persiano saEADUB, «valente» S e o ã, 
antepenúltima letra do respectivo abecedário e que aqui repre- 
sento por E maiúsculo, foi deslocado para depois do d, quando a 
escrita orijinal o marca antes, formando a segunda sílaba com 
o A. A acentuação e a escrita portuguesas devem ser bádur, e 
assim, sem h, ortografaram os nossos antigos escritores. 

bafo, bafejar, abafar, bafio 

Estes vocábulos são entre si indubitavelmente aparentados, e 
pai-a o primeiro deles existe em castelhano a forma vaho, na 
qual o V é provavelmente capricho ortográfico em vez do b, que 
a forma portuguesa demonstra ser a verdadeira inicial, visto que, 
ao contrário do castelhano, o português diferença perfeitamente 
V de b, do Mondego para baixo. 

F. Diez * pretende que seja voz imitativa e como aiuda se 
lhe não descobriu étimo plausível, apesar de que as vozes ono- 
matopoéticas são por via de regra suspeitas, quando não são 
meramente interjectivas, à falta de melhor, aceitaremos proviso- 
riamente o parecer do fundador inexcedido da filolojia românica. 

Bafo tem uma significação muito diferente, porém, no se- 
guinte passo: — «Por monturos classificam-se os ferragiaes con- 
tíguos ao monte [casal], ou os bafos do monte, como também 



1 V. Garcin de Tassy, MáMOiRB SUR lbs noms proprbs bt lbs 
TiTRKS MUSULMAN8, París, 1878, p. 42. 

* Etymoloqischbs Wõrtbrbuch der romanischbn Sprachbn, 
Bonn, 1869, n. 




118 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

alguns lhes chamam, se não lhe encontram a feição própria dos 
ferragiaes» — *. 

baforeira, bêvera; abeberar 

Tem-se fantasiado étimos extravagantes para este termo vul- 
gar de botânica, e todavia D. Carolina Michaélis de Vasconcelos 
já deu o verdadeiro, bifera(ria), na Revista Lusitana, i, 
páj. 298, assim como bêvera j bifera, em castelhano breva. 
O verbo (ajbéberar, porém, corresponde ao castelhano abrevar, 
francês abreuver, ant. abeuvrer, italiano (Abeverare, de ad e 
bibere, por intermédio de uma forma transitiva adbiberare. 

baga, bagada, bágoa, bago 

Em galego a palavra bágoa significa «lágrima». Em portu- 
guês comum dizemos bagas de stu)r; mas no Minho bagadus 
querem dizer « lágrimas » *. Esta última forma é derivada, e pres- 
supõe a existência de baga na acepção de «lágrima», correspon- 
dente ao vocábulo galego citado. 

A orijem de todas estas formas é o latim bacula, plural de 
baculum j bágoo, antigo, moderno bago, que foi depois substi- 
tuído pelo latinisme báculo, quando se refere à insígnia episcopal. 

No Suplemento ao Novo Diccionábio vê-se inscrita a pala- 
vra bago, como adjectivo, abonada com um passo da D. Bbanca 
de Almeida Garrett, páj. 23, nào sei de que edição para o 
conferir: — « ... o abbade, homem prudente, que o bago regedor 
metteu em meio da contenda. . . » — . 



* J. S. Picão, Ethnographia do Alto Albmtbjo, tn Portugália, i, 
p. 280. 

* Fui ao jardim da alegria 
Espalhar [as] uiinhas penas : 
Onde aâ bagadas caíram 
Rebentaram açucenas. 

FOLKLORB TRANSMONTANO tn PortUgalift, U, p. 107. 




Apostilas ao8 Dicionários Portugueses 119 



Ora neste passo, refira-se ele a que se referir, bago é o subs- 
tantivo, e regedor o adjectivo, sem a menor dúvida, e bago deve 
ai estar por báculo. Não há pois tal adjectivo. 



bailique; bailéu 

O Novo Dicc. inclui este vocábulo como de gíria, com a 
significação de «quarto na prisio; tarimba». Neste último sen- 
tido, que me parece ser o próprio e mais usual, encontra-se a 
palavra, perfeitamente definida, no jornal O Século, de 28 de 
abril de 1902: — «A prisão [no Aljube, ou cadeia para as mulhe- 
res, em Lisboa] semelha qualquer das enxovias do Limoeiro [ca- 
beia para os homens, na mesma cidade], pois que lá se vêem em 
volta os mesmos bailiques, espécie de taboleiros, que, girando 
sobre um fulcro, descem da posição vertical para se armarem 
em largos leitos» — . 

Parece haver relação de forma entre este vocábulo e a pala- 
vra bailéu, «estrado, suspenso por cordas em que se colocam os 
trabalhadores para fazerem obras nos edifícios», e que tem outras 
várias acepções, que se podem ver no Dico. Contempobaneo. 
Apesar da afirmação em contrário, feita nos dois dicionários cita- 
dos, não creio que haja a mínima relação entre estes dois vocá- 
bulos e o verbo bailar. 

Ambos eles tem fonna de derivados de um primitivo bailo, 
que em tal sentido não existe, que eu saiba. 



bainha: bainhar, abainhar, embainhar, vajem 

Este substantivo, do latim uagina ({ bata \ bainha) signi- 
fica tanto a da espada, faca, etc, como a dobra que se faz na 
extremidade de um vestido, e na qual se metia antes um cordão 
para lhe dar consistência, ou franzi-lo. Os puristas distinguiam 
abainhar, «fazer bainha em vestido», de embainhar «meter a 
espada na bainha*. No uso comum ninguém faz já tal distinção, 



u 



120 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



pois em ambos os casos se emprega embainhar, e abainhar 
tornou-se obsoleto. 

No Minho o antigo abainhar diz-se hoje em dia bainliar, 
sem prefícso. 

O substantivo vajem, é iim alótropo, ou forma diveijentô do 
mesmo étimo uagina, com deslocação do acento tónico (vagi- 
na), e que tem outras formas, vaje, baje, e designa a bainha, 
ou folhelho dos legumes. 

Tanto no francês galne, como no castelhano váina, o acento 
foi igualmente deslocado para a primeira sílaba de uagina. 



bairro, bairrista, bairrismo; barro, barreira, barreiro, 

barroso, barrista 

A palavra bairro é de procedência arábica^ BaB, « terra >, 
Baãi, «de fora», e a sua primitiva acepção, ainda usual em Es- 
panha (barrio), foi de « subúrbio » ; a de divisão interna de uma 
cidade é posterior: cf. a expressão, «fora da terra», e o substan- 
tivo castelhano afuieras, «cercanias, arredores». 

Do mesmo modo, o derivado bairrista tem também as duas 
acepções; na segunda significa o habitador do mesmo bairro; 
na primeira, vemo-lo exemplificado no seguinte trecho: — «Lar 
mego 12. Existem ainda por estes sitios uns restos da antiga 
barbaria bairrista, que faz ver no povo visinho o inimigo, cujos 
ódios se transmittem, intensamente selváticos, de geração em 
geração» — ^ 

E palavra muito expressiva para designar o indivíduo cujo 
amor ã terreola natal é levado ao extremo odioso de aborrecer 
os naturais das terras próssimas; e à semelhança desta fonnação 
poderíamos denominar bairrismo esse capricho e timbre intransi- 
jente e exclusivista. 



* O Economista, de IG de novembro de 1890. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 121 



Santa Rosa de Viterbo * define assim o vocábulo bairro: — 
«Lugar pequeno, quinta, Aldêa, casa de campo, ou de abegoa- 
ria » — . 

Esta definição é a que no Dicionário da Academia Espa- 
nhola * vemos, com pequena diferença, atribuir-se à palavra bar- 
rio, na segunda acepção, em que é sinónimo de arrabal: — 
«Grupo de casas ó aldehuela dependiente de otra población, 
aunque está apartado de ella» — . 

A palavra barro, portuguesa e castelhana, parece ter a mesma 
orijem, e o mesmo se pode dizer de barreira, no sentido de lugar 
onde se colhe o barro, como vemos empregado o vocábulo no es- 
crito de Rocha Peixoto intitulado As olarias de Pbado ^: — 
« Adquirida a argilla necessária nas barreiras de Cabanellas > — . 

O nome de vila, ao sul do Tejo, Barreiro, deve de ser uma 
forma, masculina, da mesma dição, e outro tanto podemos dizer 
de Barreiros ou Barreiras, nomes de muitas povoações portu- 
guesas, de Barroca, e de Barrosa, Barroso, Bairosà, Barrosão, 
adjectivos substantivados em nomes próprios. 

Barroso como substantivo comum é nome de um peixe, que 
também se chama queime ^. 

Outro vocábulo da mesma família, empregado noutro escrito 
de Rocha Peixoto, na acepção de fabricantes e pintores de figuras 
de baiTO, ó barrista: — «os barristas do século xviii, os coro- 
plastas de Gaya, e os oleiros do Prado» — ^. 

Barros tem no Alentejo uma significação especial, que se 
encontra no seguinte passo da Ethnogbaphia do Alto Alem- 
TEjo, de J. S. Picão: — «As planicies que ficam a leste entre 
Elvas e Badajoz e aquella cidade e Campo Maior chamam-se-lhe 



^ Elucidário pAS palavras, termos e frases que em Portu- 
gal ANTIGUAMBNTB SB USÁRiO, Lísboa, 1798. 

2 Madrid, 1899. 
5 in Portugália, i, p. 236. 

* Iouthiologia, por D. Carlos de Bragança, in O Dia, de 7 de junho 
de 1904. 

^ in Portugália, I, 583. 



122 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

[sic] barros em virtude da natureza do solo, em geral bastante 
argilloso» — *. 

bajoujo, bajoujar 

D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos * já determinou a for- 
mação deste vocábulo: bajoujar é o latim baioliare, por baio- 
lare, que figura na Vulgata, com assimilação de 'li- ao j da 
sílaba anterior, o qual é consonantização e africção do ^' de baiu- 
lus. 

Bajoujar é pois idêntico a bajular. 



baldio, valadio, vadio; baldo, baldar, balde, baldão; 

Valdevinos 

Alberto Sampaio, no valioso estudo intitulado As villas do 
NOBTE DE PoBTUQAL, ^ diz: — « outro termo equivalente [a mani- 
nho] quasi popular é baldio, que parece provir do ajectivo alle- 
mào bald* — . Semelhante conjectura carece de fundamento, pois 
se lhe opõe manifestamente a significação do vocábulo portu- 
guês, e a do citado advérbio alemão. Este, conforme Frederico 
Bluge *, tem por base um adjectivo alto alemão antigo, o qual 
significa «rápido, afouto, valente > (schnell, kuhn, tapfer), o 
inglês bold, e de que procede o italiano baldo, «afouto» e o 
nome próprio Balduim, de que em português se fez Valdevinos, 
provavelmente por intermédio de um nominativo latino Baldui- 
nus, ou Valduinus, Valdevinus. 

Em Évora há uma rua de Valdevinos, que certamente pro- 



1 ih. I, 272. 

* Revista Lusitana, in, p. 133. 
3 in Portugália, I, p. 117. 

* Etymologischbs Wòrterbuch der dbutschbx Sprachb, Es- 
trasburgo, 1889. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 123 

cede do nome próprio, e não do apelativo, com o significado 
^ vadio, estróina», em que hoje se asa, na língua comum. 

A palavra baldio é sem dúvida o adjectivo arábico saLaDi, 
derivado do substantivo saLaD, «terra, país», de que proveio o 
castelhano baladi, «reles, de pouco valor», significado que tam- 
bém não é estranho à forma arábica. 

O termo baldio, castelhano, além da sua significação mais 
comum, correspondente à que tem o português baldio, quer 
como adjectivo, quer como substantivo, de «comum e inculto» 
oferece a mais a de «vagabundo» * vadio *^ e este último vocá- 
bulo considero-o eu também derivado do baladi arábico, e não 
do latim uagatinum j uagare, como até agora se tem su- 
posto. Note-se ainda que o povo usa vadio, no sentido de 
«ruim». 

Assim constituo a descendência portuguesa do árabe saLaDi, 
com as seguintes vozes: baldio, com supressão da vogal da 
2.* sílaba; valadio, com a simples mudança do b em v; diz-se 
do telhado feito de telhas soltas, sem cal nem argamassa e é 
oposto ao termo telhado mouriscado (note-se), no qual se em- 
pregou a argamassa, ou cal-e-areia; vadio (pron. vadio), com 
supressão do l, e consequente a aberto na sílaba átona, « cf. pà- 
ceiro por palaceiro. De vadio procedem vadiar, vadiajeni, 
etc. ». 

Besta averiguar se os vocábulos da família baldo, balda, 
baldar, de balde teem a mesma orijem, como parece, con- 
quanto se possam subordinar a outro étimo arábico, bátíl, 
«vão, inútil». 

É difícil determinar o sentido em que o epíteto vadio foi 
empregado por António Francisco Cardim, no seguinte trecho: — 
«Os dois levantados [insurrectos] Li e Cam ficaram com cinco 
províncias do norte [da China], o tártaro com a corte de Pequim, 
e pouco a pouco foi conquistando todas as outras províncias, de 
que em breve se viu senhor, não por força de armas, mas por 
fraqueza e deslealdade dos chinas, que só com cortar o cabello 
faziam profissão de tártaro, e chegavam onde elles podiam; por- 
que se tem por certo que na China não entraram trinta mil 



..4 



124 Apostilas aos Dicionários Porltugueses 



tártaros, mas seus exércitos constariam pela maior parte dos 
chinas vadios e disfarçados» — *. 
(jQuere dizer «gente dos campos»? 



balguesa 

— «Hoje [os barcos moliceiros] adoptam a vela chamada 
halgv£za> — *. 



balhão, bailão; bailadeira; balhadouro 

O Novo DiooioNÁBio rejista uma acepção especial deste vo- 
cábulo, que no seu sentido natural significa «o que muito baila». 
Essa acepção é a de «fadista», que vemos abonada no seguinte 
trecho: — «O Taboada, um bailão ali do sitio, convidou o Nava- 
lhadas, seu coUega, com duas ditas [navalhadas] no peito» — ^. 

É conhecido o sestro do fadista de andar sempre jingando, 
e em brigas ó notória a sua lijeireza, quer no arremeter, quer no 
fujir, quer em furtar o coi^po às investidas do contendor. Em cas- 
telhano hailón, como termo de gíria (germania), quere dizer 
«ladrão velho». 

A palavra bailadeira de que os franceses fizeram bay adere, 
vem no Suplemento ao Vocabulabio pobtuguez latino de 
Bluteau assim definida com muita exactidão: — «Bailadeibas 
se chamão na índia as mulheres publicas, que habitão nos Pago- 
des, porque todas bailão e cantão. Oriente Conquist, tom. 2, 
pa^. 3õ» — . 

Os dicionários portugueses em geral omitem esta particu- 



* Batalhas da Companhia de Jbsub, Lisboa, 1894, p. 25. 

* Luís de Magalhães, Os barcos da ria db Aveiro, ín Portugá- 
lia, II, p. 59. 

* O Economista, de 22 de agosto de 1885. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 125 



lanzação de sentido; todavia o dicionário português-francês de 
J. I. Boquete ^ incluiu o termo, com a mesma definição já dada 
por Bluteau. 

Bailudeiras se denomina o ponto do rio Tejo, perto de Caci- 
lhas, na maijem esquerda, onde o movimento das águas é consi- 
derável. Nesta acepção vemo-lo abonado neste trecho: — «Quando 
no dia 12 do corrente appareceu o cadáver da infeliz Casimira á 
tona d'agua no sitio das bailadeiras» — -. 

Outra forma de bailào, «jingao» é halhào, como popular- 
mente halhar substitui bailar, e vemo-la empregada no mesmo 
periódico ^r — «e lá foi todo bailháo para o calaboiço> — . 

No termo de Leiria há um descampado chamado charneca do 
Bàlhadoiro, onde é crença que se reímem as bruxas era sutnblea 
do diabo, como se diz no norte, para aí celebrarem as suas fol- 
ganças. 

E de advertir que na linguajem local baile se diz balho, e 
conseguintemente 'bolhar, de que bàlhadoiro é nome do logar 
em que se exerce a acção do verbo, como em lavadouro, de 
lavar, matadouro, de matar, etc. 



balufera 

Instrumento músico africano, conforme a menção que vimos 
dele no jornal O Economista, de 5 de agosto de 1885: — «En- 
contro [na secção portuguesa da exposição de Antuérpia] o balvr 
fera que já vira na secção do Senegal (colónias fi-ancesas). Este 
instrumento curioso, espécie de marimba, compõe-se de uma serie 
de peças de madeira justa-postas sobre uma dupla ordem de 
cabaças de diversos tamanhos. Batendo-se-lhes produz-se uma 
espécie de escala irregular» — . 



i Paris, 1855. 

2 O Sbculo, de 29 de agosto de 1899. 

3 ib. 10 de setembro de 1900. 



L 



^ 



126 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



No museu a cargo da Sociedade de Geografia de Lisboa 
existe um destes instrumentos. 



bambolim, bambolina 

Este vocábulo está djBfinido no Novo Dicc. da seguinte ma- 
neira: — «sanefa, sobreposta aos cortinados das portas ou jane- 
las. (De bambo)* — . De bambolina diz o mesmo dicionário: — 
« parte do scenário, que liga superiormente os bastidores e finge 
o tecto» — . 

Deveria acrescentar, «o céu», «folhagem», etc. 

Estes termos teem aspecto muito italiano, conquanto actual- 
mente não sejam empregados em toscano' com tal significação. 

Outra acepção de bambolim é a que vemos no jornal O Sé- 
culo, de 2 de janeiro de 1902: — «o chamado bambolim, o 
Bombay ãucJe [«pato de Bombaim»] dos mercados da China, é 
abundante em Diu» — . 

bandulho 

J. Joaquim Núnez * propõe como étimo, muito plausível, 
para esta palavra, que o Novo Diccionáeio compara com razão 
ao castelhano bandujo [também bandulló], dando-lhe orijem in- 
certa, o latim panduc(u)lum, que deve ser um deminutivo do 
adjectivo p and um, «curvo», substantivado. 



banheiro, banheira 

Este substantivo está empregado no sentido de «banho» ou 
«banhadouro» no seguinte trecho: — «Já agora, vinde também 



* «Revista Lusitana», ni, p. 292, PnOf^BTiCA histórica portu- 

GUBSA. 



Apostilas aos Dicionários Portugiieses 127 



comnosco até aquella gnita. . . É n'ella o banheiro publico » — K 
Cf. banheira, «tina para banho». No Porto chama-se antes à 
banheira canoa, em razão da forma. 



banzé 



Esta palavra de gíria, que quere dizer «folgança, funçào» e 
também « desordem, tumulto >, pode ser o japonês banzai « viva! », 
como me sujere Z. Consiglieri Pedroso: — «Ainda há gente boa 
por ahi, mas não são dos que fazem banzé nos jornaes» — *. 

Neste passo a palavra significa «pregão ». 



baptizar, baptizo, bautizar, bautismo 

Âs formas mais antigas e ainda populares portuguesas teem 
u assilábico pelo p latino, assim como o teem por c em auto, 
latim actum: bautizar, bautismo, Bautista. Depois entraram 
na língua as formas alatinadas baptizar, etc, nas quais, porém, 
o p é actualmente nulo, mas o não foi antes, visto que o a átono 
permanece aberto, bàtizar, Batista, etc: cf. activo=àtivo. Nulo 
é igualmente o j> no substantivo alentejano baptizo, «baptizado», 
que parece ter sido trazido de Espaiia, onde se diz bautizo. 



barão, varão, varonil 

Qualquer que seja a etimolojia do primeiro destes vocábu- 
los, é certo que o seu significado nos Lusíadas (i, 1), é o de 
«homem valoroso», e não simplesmente o do latim uir, a que 



^ BOSQUXUrO DB UMA VIAOSH NO INTBRIOR DA PaRAHYBA B DB 

Pbrnambuco» tn «o Século», de 17 de junho de 1900. 
2 O Dia, de 25 de setembro de 1902. 



128 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



damos como correspondente varào, que dele não deriva, sendo pelo 
contrário o mesmo que o Barão dos Lusíadas. A identificação 
resulta do significado que tem o adjectivo varonil. 

Nos antigos Cantares de gesta franceses baron designa 
«homem de grande valor e alta jerarquia», e no Livro dos Salmos 
[século xiii] francês encontra-se o advérbio harnilment, « varonil- 
mente » *. 

Em latim existia o substantivo baro, baronis, com signifi- 
cação de «homem tosco, homem vigoroso». 

E claro que varão, aumentativo de vara, nenhuma relação 
tem com esta palavra. 

barbado 

Termo brasileiro, cujo significado se depreende do trecho se- 
guinte: — «Saber menos, não prejudicava; saber mais desqualifi- 
cava o individuo, dilficultava-lhe a collocaçâo. Passava á catego- 
ria de barbado, isto é, de suspeito» — *. 



bar(e); matuca 

Vemos este vocábulo num sentido muito especial, como usado 
na Zambézia, no seguinte trecho: — «Nestes territórios e espe- 
cialmente nos situados entre Tete e Zumbo, encontram-se . . . 
vestigios de antigas explorações auríferas, conhecidas na Zam- 
bézia sob a denominação de «bares» e ás quaes alludem to- 
dos os nossos antigos auctores, que escreveram sobre aquelle 
paiz» — ^ 

Por exemplo, Frei João dos Santos, Etiópia Obiental, liv. n, 
cap. 11 a 13, no último dos quais se encontra um vocábulo não 



1 Emílio Littré, Histoirb de la langue fraxçaisb, n. 

2 O Século, de 20 de setembro de 1905. 

3 O Século, de 31 de março de 1900. 




Apostilas aos Dicionários Portugueses 129 



colijido nos nossos dicionários: — «Também se tira ouro de pe- 
dras, a que chamam ouro de matúca, como já dissemos que se 
tirava no reino de Manica. De todas estas sortes de ouro, o de 
lascas feitas era raminhos, ou esgalhos, esse é o mais fino, e 
de mais quilates, e o que chamam de matúca é o mais baixo de 
todos, e o de menos quilates > — . 



barlaque, barlaquear-se 

Nas Notas ethnogbaphicas sobee os povos de Timor, de 
J. S. Pereira Jardim ^ vemos definido o substantivo, e abonado 
o verbo português, que se fonnou dele: — «O barlaque é a com- 
pra da mulher, que vale tanto mais quanto maior for a gerarchia 
a que pertence» — . 

— «Se for christâo, casa-se com uma, e barlaqueia-se com 
quatro* — . • 

barra 

Além de muitos outros significados, era o nome de uma moeda 
de convenção, em Benim, com o valor de 500 réis -. 



barreleiro 

Na praia da Nazaré dá-se este nome, derivado de barreia, a 
nma tripeça de madeira, com tabuleiro de perímetro circular, 
rematado lateralmente por um prolongamento quadrado, e sul- 
cado por dois ou três regos. Serve para a lavajem da roupa. 



1 tn Portugália, I, p. 357. 

2 Relatório de Jacinto Pereira Carneiro, in «Annaes do Conselho 
Ultramarino >, il. 

9 



.■d 



IdO Apostilas aos Dicionários Portugueses 



barril 



Na praia da Nazaré tem este nome uma bilha de barro, com 
grande bojo, e gargalo e fmido estreitos; a sua capacidade regula 
por quatro litros: tem duas asas, junto à boca, para suspensão. 
Serve para água a bordo dos batéis de pesca. 



barroco, barroca, barrocal 

A primeira destas formas ouvi-a em 1888 a um cocheiro, 
indo de Alpedrinha para Castelo-Branco em dilijéncia; prometeu 
ele a um çapateiro, que lhe pedira uma pedra de bater sola, que 
lha traria, e fez a promessa nos seguintes termos: — «Deixe éster 
que eu lhe arranjarei um barroco muito grande» — . Em Rui de 
Pina vemos: — «um serro alto de pedras e barrocas mui fra- 
goso» — *. 

A palavra é conhecida e substitui muito bem o galicismo 
bloco, como barroca, barrocal, ou barranco esse outro galicismo 
ainda mais escusado, ravina, que se tem propagado em livros 
científicos, sem vizlumbre de propriedade, por isso que para 
francês é êle aparentado com ravir j rapere, procedendo ime- 
diatamente de rapina, no sentido de «acção de arrebatar»; 
e também sem a mínima necessidade, pois temos barranco, 
barrocal e barroca. 

Barroca é intensivo de barroco, e é sabido que barroco, ou 
o seu correspondente castelhano barrueco com menor probabili- 
dade, deu orijem ao francês baroque, como termo de arquitec- 
tura, o qual por êle deve ser traduzido em português. 

É por todas estas razões que eu estranho haver encontrado 
numa publicação, em geral redijida em castiça, e por vezes ver- 
nácula e pitoresca linguajem, o termo ravina, agravado com um 



1 Crónica db £l-rbi Dom Afonso v, cap. clvi. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 131 



voluntário derivado neolójico, tanto menos desculpável, quanto ó 
empregado em tradução de francês: — «resolveu enravinar os 
vencidos, isto é, fazê-los despenhar nas ravinas da região > — *. 
Para hloco temos ainda penedo, que quere dizer «pedra 
solta», e já foi, para substituir aquele, proposto por Eduardo 
Augusto Vidal na Kevista Lusitana, ii, páj. 83. Seria portanto 
preferível mesmo a barroco, visto este designar propriamente 
«pedra de forma irregular», e na acepção de «pérola de forma 
irregular» ter dado orijem, como disse, ao baroque francês. 

baruista 

Este neolojismo é empregado por João de Azevedo Coutinho * 
para designar os naturais do Barué: — «Os baruistas primitivos, 
os que com orgulho se julgam sem mistura, dizem-se acuro 
á Bargtié (grandes filhos do Barué)» — . Convém advertir que 
Bargué tem de ser lido báruè, e que o gu é transcrição incon- 
veniente, pois poderia ser lida a palavra como bar-gué; melhor 
fora que tivesse escrito Bargoé (=bar'giíré), se queria indicar 
o valor do u consoante, w inglês. 

A indivíduos vindos de lá ouço acentuar a palavra Barue 
na 1.* sílaba, proferindo como e aberto o e final átono, isto é, 
báruè. 

É violenta em português corrente aquela acentuação, e por 
conseguinte pode este nome acentuar-se Barué, que é o que se 
faz usualmente : cf. Bié por Biiè. 

basto, bastante, bastio 

Este adjectivo é usado pelo Padre António Francisco Cardim, 
no sentido de «possante, robusto»: — «o cavalo em que estava 



^ Gazbta das Aldbias, de 9 de julho de 1905. 
s Campanha do Barué. . . em 1902. 



132 ÂpoetikíS aos Dicionários Portugueses 



era bastante, o rio porém arrebatado» — ^ E um derivado do 
verbo bastar, como basto, no sentido de «espesso, grosso». Subs- 
tantivo da mesma orijem é bastío, o qual no Alentejo é «mouta 
fechada», e em Trás-os-Moutes significa «pinhal rasteiro». 

O adjectivo basto parece derivar-se do latim vastum *, ou, 
como propôs J. Cornu, de p as tus, particípio passado passivo de 
pascor, o que me parece menos provável. 



bastos 

Em uma resenha de termos pertencentes à jíria dos ladrões 
do Porto, publicada no jornal O Economista, de 28 de fevereiro 
de 1885, vem este vocábulo com a significação de «mãos». 
É palavra pertencente ao calo, ou dialecto dos ciganos de Espa- 
nha, como muitos outros de calão, incluindo este nome da jíria 
de malfeitores e da ralé, alguns dos quais se tem difundido em 
linguajem mais elevada, tornando-se gerais, mas conservando o 
seu sabor pitoresco. Muitos serão incluídos neste trabalho, com 
os seus correspondentes nesse dialecto. Basto é em calo bate, 
bafite ^ e nele significa, na realidade, «mào>. 

Em outro dialecto cigano, o da Roménia, tem a forma vast *. 



batata, semilha, castanhola 

A primeira destas palavras, ao contrário do que é uso no 
continente, quere dizer na ilha da Madeira «batata doce», por- 
que a outra se denomina semilha; eis aqui mn exemplo: — «Um 



1 Batalhas da Companhia de Jesus na província do JapÂo, 
Lisboa, 1891, p. 38. 

2 Revista Lusitana, iv, p. 273. 

3 El Gitanismo, por Francisco de Sales Mayo, Madrid, 1870. 

4 Grammaire, dialogues et vocabulairb de la langue des 
BoHÊMíBNS OU CiGAiNS, por J. A. Vaillant, Paris, ] 8(58, p. 53. 




Apostilas aos Dicionários Portugueses 133 



correspondente de Boaventura escreve que está sendo abundante 
a colheita da serailha (batata)» — K 

Em Trás-os-Montes este tubérculo é designado pelo nome de 
castanhola, aumentativo de castanha: 

Lheberaus nossa merenda 
(Yera de trigo b!ê guapo!); 
Para cenar a la nuite, 
lias castanholas num saco. 

Esta quadra vai emendada na pontuação, pois a da obra de 
onde a extratei está errada: 

Lhebemus nossa merenda 
(Y^ra de trigo bíê guapo!) 
Para cenar a la nuite. 
Las castanholas num saco. 2 



bate 

Esta palavra na índia portuguesa quere dizer «arroz em casca», 
em concani B'âT(a), e não «arroz descascado», como se vê no Novo 
DicGioNÁEio. O que o vocábulo também lá significa ó «arroz 
cozido», como em indostano. Em malaio chama-se jpádi, ao arroz 
em herva na terra, e é natural que seja a mesma palavra, a 
qual, porém, parece orijinária da índia, pelo menos no sentido 
de «arroz cozido». Sobre este objecto, veja-se Burnell & Yule, 
A Glos3aby of Anglo-Indian woeds and Phrases ^, siíb, V. 

Paddy. 

O que é singular é que bate seja o nome que em Caminha 



^ «Notícias da Madeira», in O Economista, de 5 de agosto de 1891. 
* José Leite de Vasconcelos, Estudos db Philologia Mirandesa, n, 
Lisboa, 1901, p. 32. 
3 Londres, 1896. 



!..! 



134 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



se dá ao pào-de-Ió, outra locuçào de orijem obscura; parece nào 
ter a mínima relação com o bate asiático, a nào ser na coinci- 
dência casual da forma. 



batel, batela; batelo; bote, bateira 

O Suplemento do Novo Diccionáeio rejistou o segundo 
destes vocábulos com a significação de — «barco chato, de peque- 
nas dimensões, usado ao norte do Minho» — . Parece ser uma va- 
riante mais antiga de batel j batellum | batum, latínização 
do alto alemão antigo bot, de que também procedeu bote, se este 
nào é importação posterior do inglês boat hoje pronunciado bôut, 
mas no inglês médio proferido bóòt, ^ em anglo-saxão bát, isto é, 
báàt. 

Batelo, no Ribatejo, designa um aparelho para tirar água 
dos poços, e parece ser vocábulo independente destes. 

Bateira é nome conhecido de barca, que navega no Tejo, e 
figura em todos os dicionários. 



batoque 

Nào respondo pela forma, visto que o periódico onde a en- 
contro vem crivado dos mais inverosímeis erros tipográficos. No 
entanto, entendo que devo rejistar este vocábulo (talvez batuque) 
na acepção nova que se lhe atribui no trecho seguinte: — «Os 
batoques de que usam na guerra são de três espécies. O goma, 
o cinzete e o btríbiri» — *. (V. estes vocábulos). 

Batoque será, pois, um tambor. 



1 V. Henrique Sweet, Thb Studbnts Dictionary OP ÁNaLO-SAXOK, 
Ocsónia, 1897; A history op English Sounds, Londres, 1874, p. 96. 

* Azevedo Coutinho, A campanha do Barxjíj bm 1902, in cjomal 

das Colónias», de 19 de agosto de 1905. 



.1 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 135 



batuque, bataúda 

O primeiro destes vocábulos vem em todos os dicionários 
modernos, como significando «dança de pretos»; o segundo parece 
ter significado análogo no trecho seguinte das Notas etnográfi- 
cas sobre os povos de Timor, de J. S. Pereira *: — «Depois co- 
meça a vida de noctambulo: horas e horas de batuque. . . canti- 
gas de bataúda» — . 

beata, beateiro 

O primeiro destes termos, chulo, vem já rejistado no Novo 
DiaioNÁBio, como algarvio, com a significação de «ponta de 
cigarro». E também usado em Lisboa, com o mesmo significado, 
e dele provém o derivado heateiro, que está perfeitamente defi- 
nido no seguinte trecho do jornal O Século, de 28 de maio 
de 1902: — «para dar aos beateiros, que durante a noite per- 
correm os passeios e as portas dos cafés á procura de pontas de 
cigarro e de charuto» — . 



bebedouro 

Este vocábulo significa, não só a vasilha onde as aves domés- 
ticas bebem, mas também o sítio onde os animais livres vão de 
ordinário beber. 

Na realidade, a terminação -douro indica o local em que se 
exerce a acção expressa pelo verbo, a cujo radical essa termina- 
ção se junta, como lavadouro «o sítio onde se lava», matadouro, 
«o lugar onde se mata», etc. Em castelhano corresponde-lhe a 
terminação -dero, e assim dizem abrebadero, lavadero, matadero, 
etc.: — « . . . empregam. . . o visgo (q. v.) branco, collocando as 



^ in Portugália, i, p. 357. 



l;W Apuntiuui uvf E»ft^únârv}fi Pnrfmjmraen 



varíL^ n«'' ohi«> ai) l/aip) «l«>á bf^hetf&un/.'^. si tios oade as aves cos- 
riimam Lr b^b^r. ^ie fc-ma iiui? estas não posíam chegar á agua 
sem lhes tocar > — *. 

be*i**m. btídem 

O L>to:t"N". <?'jNTE5ípr.R.LVEi> define esta palavra como signi- 
íicand*' — «caia de esparto oa junco, para livrar da chuva > — . 
Xã" liiií «oa-íra. que estas capas oaractenstioas. que provável- 
menre im^M-rtuHios ^lo Japão, onde são muito usa-las. tenham 
em «iCulqíier parte do rein" este nome: sei que são conhecidas 
pel«>s seiruintes: notrns.^fi. ou tiotn**fi, palhota, capa palhiça. 
íj X»>vr« l»D.v[ »yAai':« define •» vocábulo como — < túnica moirisca, 
cuna e s*ím maniias: í:a[a pal!iii;a. ou de coiP3 ou esjarto, contra 
a chuva* — . Da. pois. em um lios significados a definição do 
OjNTEMPi.RAyí: '. mas atribui-lhe outra, como primária, o de 
< tilnica m«'.u risca '. 

J. I. Koquete -. mais prudentemente, limitou-se a dizer que 
é <i?aTa de mour-"- >. mtntfenKt nurure: mas antes, no Diccionario 
Da lin ;i'A p-KTL'ir Ez \. •'. ■li<sera s^r — < capa mourisca, ou de 
a-^'\a — . 

S^rn iN»nrps^-r ab<olutii:ueiit»^ a seirunda acejição. direi sú- 
nieriv «jUh de^^rjaria vê-la ai^.-Lada. 

*2'iiirito à prim»ílra a-ej rfiM. Bluteau ^ dá apenas o significado 
<ra:a- ou — capa de a.^^a » — : mas não iliz que seja tVi:a de 
palha, ou ooiisa semelhanit*. aQte> se af»or.a cora João de Barros 
e l)i"iiO de *.'outo. p^r sua ordem nestas duas citações: — * Vinha 
Vestido ao modo M<»urisco, camisa branca, e seu Bedem em 
cima: — Hum Bedem de selim preto, com grandes cadilhos — . 



> J. Pinho, Ethxographia Amakantina, A Caça, in Portogalia. u. 
I». í'7. 

2 I>íí;tíoxn. port. fraxvais, Pari», 1^50. 

í Paris, ^41 

^ Voe. PORT. LATINO. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 137 



A palavra é arábica, como todos declaram, e Engelmann e 
Dozy ^ dizem ser BaDaN, «túnica sem mangas >. 

Pareceria que a verdadeira acentuação devera ser bédern, e 
nào, bedém, como todos marcam. 

Todavia, se o vocábulo nos veio dos países berberiscos, ó 
possível que a sílaba acentuada seja a segunda, se bem que breve 
a vogal dela. 

Aqui apresento outra abonaçào do vocábulo: — <bein vestido 
com sua camisa mourisca e ura bedem por cima de tudo, e o 
capelo metido na cabeça, por cima da touca* — -. 

beduí, beduim, beduíno 

As únicas formas portuguesas sáo as duas primeiras; a ter- 
ceira é uma versáo mal feita do francês bédoitin, Bluteuu ^ dá 
no Suplemento a forma beduim, remetendo o leitor para biduim, 
e aí cita também beduínos. E esta feição da palavra quo, ainda 
mal, aceitaram Koquete, o Contemporâneo e o Novo Diccio- 
NÁRio, conquanto este último rejiste também beduim no Suj)le- 
mento. O vocábulo é, como se sabe e todos dizem, arábico, 
BaDauí, de badíie *, «nómade no deserto», do saDu, «deserto». 
Ora, assim como de rubi se fez rubiin, e nào rubino, assim de 
beduí, se íbz beduim, mas não beduíno, forma que os escritores 
antigos não conheceram. 



...« 



beijo; beijinho; beijocador 

O primeiro derivado, deminutivo, significa em sentido res- 
trito, não só uma cavaca, mais pequena e estreita, que se faz 



» GíiOSSAIRB DBS MOTB B8P. ET PORT. DERIVES DB L^ARABE. 

* J. Gamara Manuel, Missões dos jesuítas no Oriente, p. 102, 
Lisboa, 1894. 

* Voo. FORT. LAT. 

* Belot, VOCABULAIRB ARABE-FRANÇAis, Beirute, 1893. 




138 Apostilas aos Dicionários Portitgiicses 



nas Caldas-da-Bainha, mas também um amuleto, com o feitio e o 
tamanho de uma ameixa, como vemos na revista Portugália, i, 
páj. 620. 

Beijocador, nome verbal de ajente do verbo beijocar, freqiien- 
tativo de beijar, designava no século xviii um «sinal postiço 
ao canto da boca» ^ 



bejoga, bijoga, bojega 

O termo transmontano bejoga é o latim uesucula, e a forma 
da Beira-Alta, que lhe corresponde na significação, ébojega \ uesi- 
cula, conforme J. Leite de Vasconcelos *, significando qualquer 
deles «empola nos pés». É possível, porém, que ambos procedam 
de uesicula, e que houvesse metátese das vogais, como houve 
na forma algarvia boleta, em vez da geral behta por bolota, do 
árabe naLuTE. O o da 1.* sílaba é devido em bojega a influência 
do ft, e na forma bijoga o / a influência do j, pelo quê melhor 
escrita será bejoga, visto como o e surdo vale por i surdo em 
conjunção com uma consoante palatina, aqui o j: cf. chegar pro- 
nunciado chigar, privilejiaâo, para prevelijiado, e assim muitas 
vezes escrito erroneamente. 



bejula 

— «Bebida fermentada, feita de farinha de milho, ou de 
outro qualquer mantimento» — ^ É termo da Africa Oriental 
Portuguesa. 



1 A. Campos, O Marqubz db Pombal, Í7i < O Século >, de 7 de abril 
de 1899. 

2 Revista Lusitana, ii, p, 105. 

3 Diocleciano Fernández das Neves, Itinbrário db uma viagem 1 
CAVA DOS ELBPHANTES, Lisboa, 1878, p. 49. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 139 



belfa 



Esta palavra, que antigamente queria dizer «fera» e se de- 
riva do latim bel lua, como o italiano belva, significa actual- 
mente era Leiria meiga (de medica) mosquito grande, a que os 
franceses chamam cousin. 

A abonação da palavra no seu antigo significado é a seguinte: 
— «e uirom belfas marynhas que eram fortes e esquivas» — *. 



belhó 



O nome deste bolo, conforme J. Cornu, deriva-se de hiliola 
por libiola, e na opinião de D. Carolina Micháélis de Vascon- 
celos de ptlióla \ pila. 

Todavia, como o e se profere aberto, bèlhó, ambas as etimolo- 
jias são pouco prováveis. 

Para filho já eu propus em temido folióla, sendo o i devido 
a consoante palatal seguinte: 

Francisco Adolfo Coelho, no Diccionaeio manual etymolo- 
oico, deriva belhó de beignot, beignet francês, forma deminutiva 
de bigne, beugne, «tumor», e acrescenta como comparação ca- 
Ihamaço, por canhamaço, para explicar o Ih por nh, advertindo 
também que o e de belhó é aberto, como o ei de beignot. 

Todavia, em calhamaço por cunhamaço, de cânhamo, houve 
dissimilação da nasal m da sílaba seguinte, facto que se não 
podia dar com beUió, a proceder de beignot. 

Conquanto sejam dignas de atenção as ponderações de F. A. 
Coelho, parece que temos de ir buscar a outi*a fonte a orijem da 
palavra. 

Se acertei em atribuir a filho o étimo folióla o\x follióla, 



1 Oto Klob, A VIDA DB Santo Amaro, texte portugais du xiv® »iè- 
cle, in Boroania, t. xxx, p. 508. 



140 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



creio não estar lonje da verdade considerando bèlhó como deri- 
vada de uma forma latina halaneôla, deminutivo de bala- 
7ieum, forma adjectival substantivada, derivada de balanus, 
«castanha». A sucessão de formas seria então: balaneola: ba- 
naleola: baneleola: baelholu: baelhó: bèlhó. 



bengala, pingalim 

São os portugueses o único povo europeu que chama ao bas- 
tão bengala. Primeiro se denominou cana de Bengala, por ser 
a haste feita de cana-da-índia; depois suprimiu-se o primeiro 
termo: — «Que cousa hé esta, senhor Afonso de Alboquerque? 
quisestes que dissessem as regateiras de Lisboa que vós tomastes 
primeiro terra neste vosso Calecut de que fazeis a El-rei Nosso 
Senhor tantos espantos? Ora eu irei a Portugal, e direi a Sua 
Alteza que com esta cana de Bengala na mão, e com este 
barrete vermelho que trago na cabeça, entrei em Calecut; e pois 
não acho com quem pelejar, não me hei de contentar, senão de 
ir ás casas de Elrei, e jantar hoje nellas» — ^ 

Saíu-lhe cara a basófia, e aos desgraçados que o acompanha- 
ram, pois quasi todos foram mortos com ele, o marichal D. Fer- 
nando Coutinho, que assim desdenhava dos traiçoeiros naires. 

Pengalim parece ser um deminutivo de bengala, com mu- 
dança da inicial. 



bem-aventurado, bem-aventurança 

Estas duas palavras teem de escrever-se com uma linha di- 
visória, para que não sejam lidas be-maventurado, be-maventu- 
rança. 



9 

* João de Barros, Da Ásia, Década ii, liv. 4.®, cap. i. 



Apostilas aos Dicionários Fortuf/ueses 141 



benjoim, beijoiín 

A etimolqjia deste vocábulo foi primeiro dada por Garcia da 
Orta, nos Colóquios dos Simples e das drogas da Índia: é o 
árabe luban gaui, «incenso de Java>. Na segunda forma, que 
é a mais usual, influiu a palavra beijo» 



bento 



Em Viseu esta palavra quere dizer < curandeiro > : — «O dono 
da casa tem um filho doente ha muito tempo . . . por suggestões 
de amigos lançou-se nas mãos de um bento» — K 



berço 

Esta palavra, cuja etimolojia é incerta, mas que jiara portu- 
guês, como para o galego berce, parece ter tido orijein francesa, 
amda que remota, pois em castelhano o mesmo objecto se chama 
euna | cunae, figura no trecho seguinte em uma acepção nfio 
rejistada nos dicionários: — «o pessoal. . . tenciona cotizar-se para 
coUocar berços nas sepulturas das duas victimas> — . Estes 
berços são uns gi^adeamentos em torno do coval, e nos quais se 
dispõem plantas de ornato, ou vasos com elas. 



besigue 

No Suplemento ao Novo Diccionário iuseriu-se uma palavra 
bezigne, que aí é definida como certo jogo de cai-tas, dando-se-lhe 
em dúvida como étimo bis e signo. 



* O Viriato, in <0 Economista >, de 4 de setembro de 1884. 






i 



142 Apostilas aos Dicionários Portttgtteses 

Ora, o nome do jogo em francês é hézigite, ou bésigue, e nâo 
bezigne, e o autor do dicionário viu-o provavelmente citado em 
português com um erro tipográfico, n por u. Aqui fica feita a 
emenda, que inclui a rejeição do étimo proposto. Qual seja a ori- 
jem de tal nome ignoro-o; Littré, que o inscreveu no seu grande 
dicionário francês,, nào aventa qualquer hipótese, dando-lhe ape- 
nas como variantes as abreviaturas bézy e bési. Na enciclopédia 
NouvEAu Larousse illustbé vem a descrição minuciosa do 
jogo, que é francês, e de lá passou para cá juntamente com o 
nome. 

São bastantes os erros tipográficos que vão passando de uns 
para outros dicionários, o que motivou em França os curiosos 
artigos de A. Thomas intitulados Coquilles lbxioloqiques, 
«Gralhas lecsiolójicas», publicados no volume xxii da revista 
Bomania, correspondente ao ano de 1893. 

Exemplos de tais equívocos são neste meu trabalho os que 
subordinei às epígrafes acudia, e hererós. 



besouro, besoiro, bisouro, bisoiro 

A forma mais comum em Lisboa é bisoiro; a que se considera 
mais correcta é besouro, sem grande fundamento, pois é desco- 
nhecido o étimo. Que a escrita é com s e não com z prova-se 
com a pronúncia transmontana besouro, com s sonoro subcacu- 
minal, quási j, e nào com o á' de selo, por exemplo, e é sabido 
que em Trás-os-Montes, e parte do Minho, Douro e Beira-Alta, 
o z e s entre vogais se não confundem actualmente, como se 
não confundiam há três séculos em parte alguma do reino, pelo 
menos até o Tejo, diferençando-se perfeitamente coser \ consue- 
re, e cozer j coquere, como se diferençavam e ainda se diferen- 
çam no norte paço j palatium, e passo j passus. 

Com relação ao ou ou oi, a forma transmontana não nos 
pode dar regra que autorize a preferência, pois ali predomina o 
ditongo ou (=õu) sobre o ditongo oi (=ôi). 

O i por e (=e) da primeira sílaba explica-se por mais clara 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 143 



enunciação, como acontece com didal, tisoiro, formas populares, 
em vez de dedal, tesouro. 



bétele, (bétere, betre, betle) 

E esta a melhor escrita portuguesa, porque é a mais antiga, 
ou entào bétere, betre, e não bétel. Não há dúvida também que 
o acento tónico é na primeira sílaba, como o encurtamento betre o 
está indicando, e nào na segunda, como marca o Dicx5. Contem- 
POBANEO erroneamente, erro que por lapso escapou ao erudito e 
escrupuloso autor dos Subsídios para a leituba dos Lusía- 
das *. 

Fernám Méndez Pinto usou três vezes a forma bétere, por ex. : 
— «bétere que sâo húas certas folhas como de tanchagem» — -. 
O Padre António Francisco Cardim, pelo contrário, deu a prefe- 
rencia a bétele: — <a este fim lhe deram na prisão veneno em 
um bétele» — ^ 
jj/ Esta palavra trouxemo-la nós da índia; é da língua malabar, 
e conforme o Glossário de Yule & Burnell * significa « folha sim- 
ples», vettila (de veru, «simples», e ilu, «folha»). 

A forma bet(e)re explica-se perfeitamente. Suprimido que 
seja o ^ da segunda sílaba de bétele, resulta betle, e ti não é 
grupo de sons tolerável em português; além disto, como os tt, 
que no nome dravidico figuram, são cacuminais, o l passou a r 
em português, por ser cacuminal também esta consoante na nossa 
língua. 

O Conde de Ficalho, no seu opúsculo Floba dos Lusíadas ^, 
a páj. 69, referindo-se à menção feita na estanca õ8 do vii Canto 



1 Lisboa, 1904, p. 206. 

s PbrborinaçIo, cap. clxxvii. 

5 Batalhas da Companhia db Jbsus, Lisboa, 1894, p. 111. 

* A Glossary of Anolo-Indian words and phrasbs, Londres?, 188 o. 

^ Lisboa, 1880. 



r 



144 Apostilas aos Dicionários Portuguesa 



do poema à verde folha da herva ardente, escreve betle, e 
aduz o outro nome, arábico, pelo qual foi conhecido dos nossos, 
afambor (AL-xaNBUL), e que no Roteiro da viagem, de Vasco 
DA Gama * se emprega para a designar: — <e tinha á mão es- 
querda huma copa d'ouro ... na boca engaço de humas ervas 
que os homens desta terra comem pela calma, a qual chamam 
atambor» — . E de advertir que este nome é índio também, 
mas árico, e não dravídico; é o sánscrito TãMBúLa, arabizado, e 
depois aportuguesado. 

Veja-se o vasto comentário do Conde de Picalho aos Coló- 
quios DOS Simples e das drogas, de Garcia da Orta, na pri- 
morosa edição da Imprensa Nacional * dirijida pelo Conde; aí se 
encontrarão todos os esclarecimentos, que seria longuíssimo repro- 
duzir aqui: o índice, perfeitamente organizado, encaminhará o 
leitor na averiguação de tudo o que resumidamente expus. 



beto (^=^héto) 

Por informação do snr. Francisco Teixeira, natural de Miran- 
dela, este vocábulo designa em Trás-os-Montes uma espécie de 
meia-pá de madeira, correspondente à raquette francesa. Com 
ele se joga o toque-emhoque. 

Beto é também ali o nome de um jogo, parecido com o 
criclret inglês. 

betume 

Em Caminha, e provavelmente em outros pontos do Minho, 
se não em toda a província, beticrne, ou batume, quere dizer 
«caldo grosso». 



1 Lisboa, 1861, p. 59. 

2 Lisboa, 1891-1892, dois volumes, afora a introducçâo intitulada Gar- 
cia DA Orta b o seu tempo, ura vol., Lisboa, 1886. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 145 



bexigas 

A varíola já assim é denominada pelo Padre António Fran- 
cisco Cardim, que lhe chama * peste*: — <No anno de 1637 
houve na ilha [de Áinão] uma universal peste de bexigas, de 
que morreu muita gente» — *. 

O nome lhes proveio das vesículas que na pele se formam, 
do latim vesica, «empola», com a mudança do s em x, por 
influencia do i, e a do c em ^, por estar depois de vogal: 
cf. fogo \ focum, e Xisto j Sixtus. 

A terrível doença chamam os médicos varíola, não se sabe 
por que razào, visto a palavra ser artificialmente fabricada, deri- 
vando-a de varius, pois em latim não existia; parece, pelo con- 
trário, que devera acentuar-se varíola, como a comparação 
com o fiancês (petite) véroU, o castelhano viriielus, e o italiano 
vaiuòlo o está indicando. 

O que é de estranhar é que, entre as nove pragas que a so- 
berana de Póhiola desencadeou sobre os fineses, por lhe terem 
arrebatado ardilosamente o Samiyo, ou «penhor de prosperida- 
de», como se conta no Kalevala, não estejam incluídas as bexi- 
gas, que parece não eram conhecidas na Finlândia. Essas pra- 
gas foram: Pleuresia, cólica, reumatismo, tísica, úlcera, sarna, 
cancro, peste, e a última e páor de todas, a que não tem nome, 
o demónio da enveja 2. 

bezerro 

Termo de Leiria, e provavelmente de toda a Estremadura 
rural: — «buraco feito por uma fagulha, no fato, quando se está 
a engomar, a cozinhar, a meter pão no forno, etc. » — ^. 



* Batalhas da Companhía db Jesus, Lisboa, 1894, p. 238. 

2 Kalbvala, runa 45. 

5 Informação do snr Acácio de Paiva, dali natural. 

40 




146 Apostilas aos Dicionários Poriugtteses 



bica; biquinha; bico; bicuda, bicudo, bicudaz 

Além dos significados colijidos em vários dicionários, tem a 
palavra bica mais dois: em Caminha quere dizer «sémea fina», 
e na ilha da Madeira (Pôrto-Santo) é o nome de uma planta 
(Anthtis trivialis), à qual também se ali chama biquinha. 

Por outra parte, a forma masculina bico tem, além das já 
apontadas, mais as seguintes acepções: Caminha: «beijo»; Ma- 
deira: «focinho de cavalo». Geral: «aves de capoeira»: — «O 
gallinheiro é provido de poleiros suficientes para repouso dos 
bicos* — *. 

Em calão: «moeda de dois tostões». 

Termo faceto: «bebedeira», como nestes versos de Manuel 
Boussado: 

— Como a scena é de tabenuif 
Armei os versos era bico — . 

Bicuda: «galinhola»: — «Já chegaram as bicudas, como lhe 
chamam os caçadores» — 2. 

Bicudo: difícil, ex.: tempos bicudos, negócio bicudo, 
Bicudez: (neolojismo faceto): — «apesar da bicudez dos tem- 
pos» — ^ 

bicha, bicho; bichar, bicharengo, bicheiro 

Bicha: Trás-os-Montes: «víbora». 
Ilha da Madeira: «milhafre». 

Geral: figura de dança, em que todos os pares dão as mãos 
ims aos outros em fileira. 



1 J. da Silva Picão, Ethnographia do Alto Albmtbjo, tn Portu- 
gália, I, p. 545. 

2 O Século, de 1 de novembro de 1901. 

3 O Dia, de 20 de setembro de 1902. 



Âpoatilas aos Dicionários Portugueses 147 



Bicho: peliça para o pescoço: — «Peles, romeiras, bichos ^ 
£ o que em francês se chama hoa (=boá). 

Bicho do areeiro, ou boieiro, Pôrto-Santo (Puffinus An- 
glo rum): «mergulhão», ave. 

Bichar: «criar bicho a fruta»: — «Elvas, 30... A colheita 
da azeitona está começada, e é apenas uma meia novidade, se 
tanto, porque ultimamente bichou a de alguns vidouhos (redon- 
dil, conserva e cordovil)» — *. 

Bicharengo : Certa : « texugo » . 

Bicheiro: já rejistado no Novo Diccionábio, como termo 
alentejano, com a seguinte definição: — «tubozinho de lata, por 
onde sái a extremidade superior da torcida das lanternas. (De 
bicha, por allusão á torcida)» — . 

O étimo é sem dúvida o castelhano mechero, de mecha, « tor- 
cida», o qual tem significação análoga, e que provavelmente 
passou ao Alentejo, por audição, como muitos outros castelhanis- 
mos ali usados. 

Dificil de identificar é o animal a que Feniám Méndez Pinto ^ 
chama bicho de voo, no que o compara ao morcego. Não me 
atrevo a alcunhar a descrição de fabulosa, para que me não caiba 
na cabeça a carapuça a que linhas antes ele alude na sua inte- 
ressante narrativa: — «gente que vio pouco do mundo, por que 
esta como vio pouco, também costimia a dar pouco crédito ao 
muito que outros virão» — . 

Eis a descrição do biclio de voo: — «Vimos aquy também 
bua munto nova maneyra, & estranha feyção de bichos, a que os 
naturaes da terra [Batas, na Polinésia] chamão Caquesseitão, do 
tamanho de hua grande pata, muyto pretos, conchados pelas 
costas, com hua ordem de espinhos pelo fio do lombo do compri- 
mento de hua penna de escrever, e com asas da feição das do 
morcego, e o pescoço de cobra, e hua unha a modo de esporão 



1 Anúncio no jornal O Sbculo, de 14 de novembro de 1902. 

2 O EooNOiiíSTA, de 4 de dezembro de 1892. 
' PbrbgrinaçIo, cap. xrv. 



r 



148 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



de gallo na testa, e o rabo muyto comprido pintado de verde e 
preto, coHM) são os lagartos desta terra. Estes bichos de voo, 
a modo de salto, cação os bugios, e bichos por cima das árvo- 
res, dos quais se mantém» — . 

Devemos confessar que como descrição leva a palma às de 
Cuvier; assim ela seja a verdadeira! 



bigode, mosiacho 

A palavra bigode é antiga na língua, e existe também em 
castelhano com a forma bigote, ou antiga vigote. No Diálooo 
KNTBE Lauí Calvo y NuSo Bascjua, texto castelhano do xvi sé- 
culo (1570), publicado na «Kevue Hispanique», t. x, (19()3), 
encontram-se ambos os vocábulos: — «Otro estilo an tomado es- 
tos nuevos alcavaleros [judios] de poço tiempo aca, pasearse 
tiesso quatro dellos en cuadrilla [sicj, oliendo olores, putos de 
almizcle, algalia, benjui, perfumes, encrespandose los cabellos 
para arriba, i tirando sus viles vigotes i mostachos, por pare- 
cer mas valientes i rrobustos» — K 

O termo fnostacho veio para o castelhano, como para o fran- 
cês moustache, do italiano mostaccio ou mostacchio, hoje em 
geral substituído nesta língua por baffi, e cuja orijem parece ser 
o grego moderno moustákion, ou moustáka, que tem a mesma 
significação que já tinha no grego antigo mústaks, juntamente 
com a de «beiço de cima» 2., cf. barba em português, que quere 
dizer «a ponta do queixo» e «o pêlo da cara». 

Ao ínesmo passo, porém, que Luís de Camões já emprega o 
plural do vocábulo bigode nos Lusíadas, Torquato Tasso, na 
Jerusalém Libertada, serve-se de uma circunlocução para o 
designar: — «Lascia barbuto il labbro e'l mento rade» — . 



> p. 177. 

2 W. Pape, Gribchisch-dbutschbs Handwôrtbkbuch, Brunsvique, 
1880. 



Apostilas aos Dicionários Fortugtieses 149 



Persas feroces, Abassis o Kumes, 
Qae trazida de Roma o nome tem, 

Em sangue português juram descridos 
De banhar os bigodes retorcidos — '. 

Já antes, Gil Vicente usou o deminutivo bi^odezinho: 

Pêro — Êlle pôs desta maneira 

A mão na barba e jurou 

De meus dinheiros pagá-los. 
Vasco — ^Essa barba era enteira 

A mesma em que te jurou, 

Ou bigodezinhos ralos? — ^ 

 orijem do castelhano vigoie parece ser a palavra viga, cujo 
significado é o mesmo que em português; pelo menos é esta a 
opinião da maioria dos etimolojistas, mas bastante problemática. 



bilhafre 

Esta variante de milhafre é usada por Francisco Eodríguez 
Lobo na Côbte na Aldeia ^. 

Na ilha da Madeira designa o <francelho». 

A mudança de m inicial em h, e vice-versa, conquanto pouco 
freqtiente, não é sem exemplo. em português: cf. berrão com 
marrão; bicheiro (q. v,), «canudo para a torcida, com mechero 
castelhano, que tem o mesmo significado»; batota «tavolagem» 
com matute, < candonga » em castelhano, etc. 



^ Os LUSlADAS, X, 68. 

< Farsa dos Aijíocrhvbs. 

* Diálogo ui, ed. de 1774, p. 56. 




150 Apostila* ao» Dicionário» PnrtugHete» 



bilro 





E uma interjeição usada em Sam Miguel, dos Açores, com 
a signiticação de bravo! *. 

bíri-bíri 

— «Os batoques [q. vj de que usam na guerra sào de 
três espécies ... O birt-biri tem a forma de um charuto grosso 
e curto, com a ponta cortada; é enorme e geralmente tem os 
dois extremos cobertos com pelle. Amarra-se a imia arvore ou 
poste e é tocado com bocados de pau. O biri-biri é que dá 
signal para as povoações visinhas de que ha guerra ou prepara- 
tivos para ella ...Tocado em combate, do lado do maior diâ- 
metro, dá signal de avançar, e do lado do menor, signal de reti- 
rada. . . O biri-biri desempenha ainda, entre as populações sel- 
vagens, o horroroso serviço de cepo de carrasco» — *. 



bisbis 



Na ilha da Madeira é o nome de uma ave, que também é 
conhecida por abibe, termo já colijido no Contempobaneo. 



biscato, biscalho, biscalheira 

Biscalho se chama ao alimento que as aves levam no bico 
para os filhos; outras formas do mesmo vocábulo são biscate e 
biscato, e todas estas três formas teem aspecto de ser derivadas 



1 O Século, de 5 de julho de 1901. 

* Azevedo Coutinho, A campanha do Barué bm 1902, in «Jornal 
das Colónias», de 19 de agosto de 1905. 




Apostilas aos Dicionários Portugueses 151 

de um primitivo hisco, ou besco, do latim uescus «magro», 
como propõe em dúvida o Novo Diccionábio. A existir a pala- 
vra besco, a escrita dos derivados deveria ser bescato, etc. 

Biscalheira, em Arcos-de-Val-de-Vez, é o nome que se dá a 
uma vara raiada na extremidade e destinada a colher o bisca- 
IJio, que nesta acepção quere dizer « fruta pendente da árvore » ; 
outro nome é líidra, que provavelmente se aplica quando a fruta 
não é colhida com permissão do seu dono, o que parece aconte- 
cer muito frequentemente K 

biscouto, biscoito; biscoiteira 

Além do conhecido significado do primeiro vocábulo, aduz 
mais o Suplemento ao Novo Diccionábio o de — «seixo, frag- 
mento (de pedra)» — como antigo, e abona-o com o seguinte 
passo da Histobia Insulana: — « ... se chama este caminho 
do Pedregal, por ser de huma, e outra parte de biscouto de 
pedra» — ^ 

Nos meus apontamentos tenho este vocábulo, com a seguinte 
explicação: «Termo dos Açores: a camada de lava ondulada, que 
cobre certos ten-enos». Biscoitos é também o nome de uma lo- 
calidade na nha Terceira, e deste substantivo comum lhe veio 
com certeza o nome. 

Biscouteira: «redoma com tampa volante, para arrecadar 
biscoutos, bolachas, bolos». É um excelente neolojismo, já divul- 
gado, para traduzir o vocábulo francês bonbonnière. 



biselho 



Quere dizer « atilho » ^. 



^ Veja-se J. Leite de Vasconcelos, Respiqos camonianos, p. 4t>. 

* II, p. 80. 

' Trígueiros Martel, Culturas hortícolas. 




152 AposHlas aos Dicionários Portugueses 



bitácula 



Como termo de calão, «o nariz». 



bitafe. Y. pitafe 



bitar 



Voz transmontana, que quere dizer < entornar 



bisnaga 

O Novo DicciONÁBio diz provir este vocábulo do árabe bas- 
tinage, de orijem latina, pastinaca. É natural que os árabes 
encontrassem a palavra na Península, e a afeiçoassem à sua 
pronunciação. Ora, o latim pastinaca deveria passar ao portu- 
guês, ou ao castelhano, com abrandamento do c em g, pastinaga, 
Nâo existindo em árabe nem p, nem g póstero-palatal (como em 
paga), mudaram a primeira consoante para 6, e a última para g, 
palatal africata, quási igual a dj, pois é esta a pronúncia clás- 
sica da 5.* letra do seu alfabeto, que no Ejipto se profere como 
o ^r de gato, e em vários pontos da Barbaria como o j português. 
Deste modo, o romanço peninsular pastinaga passou a BasriNAGB, 
e deste procedeu o português bisnaga, com supressão da 2.* sí- 
laba átona ti, Cf. B^a do latim Pax, ou Pace(m) no acusa- 
tivo (Pax lulia), conforme demonstrou David López no seu belo 

estudo TOPONYMIA ABABE DE POBTUGAL *. 



in «Revue Hispaniqae», t. ix, p. 39, (1902). 




Apostilas aos Dicionários Portugueses 153 



bísaro, bizaro; sedeúdo, molarinho 

Este termo, que o Recenseamento Geral dos qados * es- 
creve Msaro, e cujo étimo é desconhecido, sendo difícil ficsar-lhe 
a ortografia, designa uma raça de porcos própria do norte do 
reino, e assim definida na mesma interessante publicação oficial: 
— «cabeça comprida e estreita; orelhas também muito compri- 
das e pendentes, chegando a dois terços e mais da extensão da 
cabeça. O pescoço é delgado: a extensão que vae desde a nuca 
ate á origem da cauda é muito considerável, chegando a medir 
1",40 e mais: linha dorso-lombar muito convexa ou arqueada; 
peito muito estreito e achatado ou espalmado, assim como o 
ventre, que é muito mais alto que largo. As peruas são também 
muito altas e ossudas. Âs cerdas são compridas e grossas, sendo 
a côr geralmente preta. Ha-os também brancos e malhados, e 
tendo somente a frente aberta, uma lista branca sobre a agulha 
e as espáduas, e baixo calçados. 

São geralmente muito corpulentos. 

Os porcos de cerdas ou pellos mais densos compridos e gros- 
sos são chamados sedeudos [sedeúdos], ou cerdosos; e aquelles 
em que ellas são menos grossas e compridas, mais raras e a 
pelle mais fina se chamam moUarinhos* — . 



blasonar 

Este verbo está definido em um sentido especial no jornal 
O Século, de 12 de agosto de 1900, nos termos seguintes: — 
<Âo entrarem nos logares destinados á realização das justas, o 
rei d'armas descrevia, em voz alta, os emblemas do escudo do 
recemyindOf e assim se ficava sabendo quem elle era. A isto se 
chamava blasonar» — . 



1 Lisboa, 1873. 




154 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



A forma blasonar, em qualquer acepção, e a apontada parece 
ser a primitiva, é castelhanismo, pois ao blasón castelhano cor- 
responde em português brasão, substantivo do qual se derivaria 
um verbo (a)brasoar, e nào blasonar. 



bobo 



Júlio Cornu * atribui a orijem deste vocábulo ao latim pu- 
pus, « rapazinho >. Não creio: ao U longo corresponde te em 
português, e nâo o. 

Parece-me que para o português veio este vocábulo do caste- 
lhano bobo, em que ainda perdura como adjectivo usual, no sen- 
tido em que empregamos (oh, e que procede nessa língua do 
latim balbus, «gago». Que a palavra portuguesa nào pode deri- 
var-se imediatamente do mesmo étimo que a castelhana prova-se 
com a circunstância de que, a ser directa a derivação, a forma 
portuguesa seria boubo, como é em mirandês, com ditongo: 
cf. outeiro, cast. otero, de altarium, j^oupar, de palpare, 
niouco, de Malchus. 

Outra circunstância que concorre para aceitarmos a prove- 
niência castelhana é que 6060, em português, quere dizer apenas 
«jogral», e não produziu derivados, por ser termo de significado 
muito restrito, e de aplicação especial; entanto que em caste- 
lhano êle tem várias acepções, e deu orijem a nada menos de 
onze derivados por suficso, e três por preficso. Nesta língua teve 
vitalidade; em português foi e é uma palavra estéril. 



boçudo 

Este adjectivo, que suponho não ter existência independente, 
vemo-lo empregado junto ao substantivo paus, paus boçudos, 



* Grundriss der RoMANiscHEN Philologie, I, p. 72G, n.** 27. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 155 



locução assim definida: — «mocas usadas como arma de guerra 
pelo gentio da Africa Occidental Portuguesa» — ^ 



bofarinha, bofarinheiro: V. bufarinha 

bogacho 

Na Beira-Baixa quere dizer < novelo » ^. 
Era Lisboa chama-se bagochinho ao resto de um novelo, 
quando já perdeu a forma globular: cf. bogalho. 

boi; boi-bento; boi (de)-cavalo, boi de monta(da) 

Na procissão do Corpo-de-Deus, celebrada em Caminha, vai 
adeante um boi, nédio, formoso e corpulento, enfeitado de flores, 
e com uma altíssima cruz, formada também de flores, erguida 
entre as armas. Chamam-lhe o boi-bento, como lá me disseram. 

Boi (de)'Cavalo, ou boi de mo7ifa ou de montada se deno- 
mina na nossa Africa aquele que lá substitui o cavalo, como 
montada. A primeira expressão está abonada no jornal O Econo- 
mista, de 11 de agosto de 1885, e é a mais usual; a segunda é 
empregada na obra de Henrique de Carvalho, Expedição portu- 

OUEZA AO MUATIÂNVUA ^. 

bolçar 

A forma antiga deste verbo é boomçar, bonçar, o que indica 
claramente o seu étimo uomitiare, como já o aponta D. Caro- 
lina Michaêlis de Vasconcelos, na Kbvista Lusitana, i, páj. 299. 



1 P. Saturnino, Conferência feita na Sociedade de Geografia de Lisboa 
em 2 de maio de 1900, publicada nos Avulsos. 

2 Informação do editor, natural de Almeida. 

3 Lisboa, 1890. 



15(3 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



boliço 

O vocábulo reboliço é muito usado; não assim porém o seu 
primitivo, que era freqiiente dantes, e que vemos empregado pelo 
cronista Rui de Pina: — «encomendarão ao Daiào que fosse falar 
com ella [a Kainha], para que quisesse repousar á vontade, e não 
dar causa a holiços, de que tanto mal se podia seguir» — *. * 



bolo; bola 

Bolo-ãe-vinte-e-quatro-horas se chama em Aveiro a uma es- 
pécie de aiTufada, que leva 24 horas a aprontar-se: tem farinha, 
ovos e açúcar. 

No Alentejo denomina-se hõla o chamado «queijo de correr», 
que em outras pai'tes se diz queija. 

a boma, (e nào) o boma 

E palavra da Africa Oriental Portuguesa, e o seu significado 
está exposto no seguinte passo do Jornal das Colónias, de 
24 de dezembro de 1904: — «no homa ou forte só pernoita a 
guarda» — . 

Deu-se-lhe aqui o género masculino, infundadamente, pois as 
línguas cafriais não diferençam géneros gramaticais, e a palavra, 
pela sua terminação, é femenina em português. 

bomba, bombo, bumbo, zabumba 

Estes vocábulos, mais ou menos onomatopoéticos, isto é, imi- 
tativos de sons, com os seus derivados, como bombarda, bom- 



^ Crónica de El-rbi Dom Afonso v, cap. liii. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 157 

beiro, dariam causa a uma extensa monografia, (tam abundante 
e minuciosa como a que Hugo Schuchardt consagrou aos deriva- 
dos do latim cochlea *) a começar pela iuteijeiçào bum!, só, 
ou repetida, bumbum! 

Consignarei aqui apenas o seguinte: 

A forma bumbo é a popular, talvez por influência da inter- 
jeição, e ampliada ainda com a sílaba za- preflcsada, o que apros- 
sima o vocábulo do castelhano zambomba (pr. §ambomòa), nome 
que em Espanha se dá ao instrumento grosseiro e importuno a 
que em português se chama 7'onca, o qual consiste numa caixa 
de resonáncia mais ou menos cilíndrica, aberta num topo, e cu- 
berta no outro com uma pele esticada, a que está preso interna- 
mente um cordel encerado, pelo qual se corre a mão para o fazer 
soar. 

A forma tida por culta, bombo, designa um tambor ou caixa, 
antigamente muito alto, hoje de altura inferior ao diâmetro, o 
qual se tanje com uma maçaneta. 

A palavra parece que veio para cá do italiano, como outros 
nomes de instrumentos: em italiano dá-se o nome de bombo a 
uma notíi musical, repetida, sem variação alguma (ronca), e o 
bombo, na realidade, não dá mais que uma nota, se nota musical 
se pode chamar o soído de uma pancada, sempre a mesma. 

Em razão da forma, dão os pescadores da tartaranha, no 
Tejo, seixalenses e barreirentos, o nome de btcmbo a uma 
selha alta onde expõem à venda o peixe no mercado da lota, no 
Aterro da-Boa-Vista. 

Os bundos são feitos de um barril serrado ao meio, e por- 
tanto, de cada barril fazem-se dois bumbos, ou selhas dessas. 



1 BoHANisCHE Etymologibbn, II, in « SitzuDgberichten der Eaiscrli- 
chen Akademie der Wisscnschaften in \Vien>, 1899. 



158 Apostilas aos Diciofiârios Port%tgueses 



bombaça 

No estudo de Rocha Peixoto intitulado Os palhkibos do 
LiTTOBAL * lê-se: — «D'uina cobertura de duas aguas [de duas 
correntes], telhada, raro colmo, irrompe, para escoante do fumo 
da cozinha, uma bombaça, quando não é uma simples abertura, 
ou mesmo nada» — , 

Antes * dissera o mesmo escritor, referindo-se a edificações 
portuguesas várias: — «Dos telhados, resaltando á frente sobre 
cachorros de madeira, recortadas e ligadas ao frechai. .. sobem 
chaminés de tipos vários, como a bombaça (Minho e Douro) 
ou as que semelham túmulos (Âlemtejo), minaretes e zimbórios 
(Algarve); n'outros nem existem: é na serra, onde as paredes 
parecem uniformemente vestidas de fuligem» — . 

Estes dois trechos completam-se um ao outro. 

E pois a bombaça uma espécie de chaminé, e é vocábulo 
ainda não rejistado em dicionários. 

A propósito direi que o povo pronuncia melhor que os cul- 
tos a palavra chaminé, pois diz cheminé, do francês chemi- 
née; a forma literária cliaminé é devida a falsa analojia com 
chama j fiam ma, vocábulo com o qual não tem nenhuma re- 
lação. 

O francês provém de caminata j camínus, palavra que 
os romanos receberam dos gregos. 



bombeiro 

Designa este vocábulo, nas marinhas do sal, um tabuleiro 
sobre o comprido, com um cabo, e um pau roliço atravessado a 
meio por dois buracos abertos nas paredes laterais. 



^ tn Portugália, I, p. 87. 
2 tò. p. 83. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 159 



Vem figurado no jornal O Século, de 10 de junho de 1901, 
juntamente com outras alfaias usadas na lavra do sal. 



bomboteiro 

Esta palavra, usada no Funchal, é o aportuguesamento, com 
o suticso -eiró do vocábulo inglês buinboat: — «Logo que fundeou 
o «Donne-Castle», foi rodeado por grande quantidade de barcos, 
conduzindo bomboteiros. Dá-se este nome aos homens que se 
empregam na venda, a bordo, dos productos da ilha, entre os 
quaes aguardente e vinho» — *. 



bondoso, bondadoso 

Boíidoso significa o que tem bondade, e também existe o 
adjectivo bondadoso, de que o primeiro é forma simplificada *. 

Não são poucos estes casos de haplolojia em português, e 
exemplos análogos temos em saudoso por saudadoso, de saudade, 
caridoso por caridadoso, de candude, cuidoso, por cuidadoso 
de cuidado, sendo a segunda forma do adjectivo a mais usual 
hoje; mas que o não era no tempo de Camões depreende-se do 
emprego que fez de cuidosos: 

Do futuro castigo não cuidosos \ 

Outro caso de haplolojia com polissíntese é, por exemplo^ 
fidalgo, por filho de algo. 

Para evitar a haplolojia, ou simplificação dos vocábulos me- 
diante supressão de uma sílaba, quando duas sílabas consecuti- 



^ O Sbculo, de 2 de março de 1900. 

* J. Leite de Vasconcelos, Rbvista Lusitana, ui, p. 272. 

' Os Lusíadas, in, p. 132. 



160 Apostilas aos Dicionátios Portugueses 



vas começam pelos mesmos elementos consonánticos, muda-se a 
meúdo a vogal surda da primeira delas, em outra mais distinta; 
assim temos: dúlul, por dedal } dedo, se não de digitale, pois 
dizemos dedeira, sem haplolojia; ^V;wm, e jajum, por jejum; pi- 
pino, por pejnno, etc. 

Haplolojia notável é a que simplificou antigamente consi- 
derar em consirar, que vemos, por exemplo, em Bui de Pina, 
Cbónioa de El-bei Dom Afonso v (cap. ii). O povo, ainda hoje, 
porque o verbo nas formas arrizotónicas, como o infinito, tem um e 
escrito, que se não lê, pois pronimciamos considrar, e nào, con" 
siderar, conjuga-o nas rizotónicas sem esse e, dizendo considro, 
por considero, assimilando-o a vidro, de vidrar, que não é vidéro. 



bonideco 

Esta expressão adverbial, usada nos Açores no sentido em que 
empregamos d£ boa vontade, ou em francês volontiers, tem ori- 
jem erudita: é o latim bono et aequo, com supressão do o do 
primeiro vocábulo. 

bonzo 

E vocábulo japonês, e como tal sempre foi considerado, 
havendo sido introduzido na Europa pelos portugueses. E frequente 
nos nossos escritores, quando se referem à China, Japão, Aname, 
Siame, Camboja, a toda a parte da Ásia onde impera, como re- 
lijiáo dominante, o budismo, mais ou menos adulterado. — «De- 
pois da morte de seu pai foram os bonzos que assistiram ao pa- 
gode» — ^ 

Os nossos dicionários e os alheios dão como étimo a esta voz 
peregrina a forma japonesa bo2:u; mas a verdadeira escrita seria 



^ António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus, 
Lisboa, 1804. 



ApostUcta aos Dicionários Portugueses 161 



então hõuzu, dando-se ao ou o valor que tem em português. 
Não é desta forma, porém, que o vocábulo foi tirado, mas sim 
de outra dialectal, hómu, o que explica a vogal que adquiriu 
em português. 

E frequente esta adjunção de n às consoantes sonoras entre 
vogais, em certos dialectos da língua do Japão, e assim se moti- 
vam as escritas portuguesas Nangassàqui, Cangoximá, etc. 

O mesmo aconteceu ao vocábulo biombo, em japonês biôbu, 
ou biómbu. 

boqueirão 

O Novo DicJCioNÁKio rejista este substantivo como nome de 
um peixe, cuja vivenda é no Algarve e nos Açores. 

Todavia, no jornal O Economista, de 14 de setembro de 1888, 
citando o Campeão das Pbovincias, de Aveiro, lemos: — «Xo 
mercado não ha positivamente nada. Um pouco de boqueirão 
que restava das últimas pescas, vendeu-se logo que aqui chegou 
â 700 réis o milheiro» — . 

Parece portanto que se encontra em outras águas mai^ ao 
norte. 

Em castelhano há boquerón, que o Dicionário da Academia 
descreve do seguinte modo: — «Pez dei orden de los malacopte- 
rigios abdominales, muy comun en el Mediterrâneo, de unos ocho 
centímetros de longitud, cuerpo largo [«comprido»] y compri- 
mido, verdoso por el lomo («lombo») y plateado en lo demás, y 
boca que se prolonga hasta detrás de los ojos» — . Parece ser 
este último característico o que lhe deu o nome. Ignoro se o 
peixe que em português se chama boqueirão é este mesmo. 

borco (pi. borcos); emborcar 

Tanto no Diccionabio Contemporâneo, como no Novo 
DiocioNÁBio dá-se este vocábulo por somente usado na locu- 
ção adverbial de borco, o que inspirou a Júlio Cornu a etimolo- 
jia de porco, bastante singular e inverosímil. No Suplemento ao 



10*2 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Novo Dicc. relaciona-se borco com bolear, dado no corpo do 
dicionário como vocábulo transmontano, com o significado de — 
«fazer cair, voltando» — . Borco, porém, existe como substantivo 
independente. 

No meu trabalho sobre o falar bragançano, inserto no i vo- 
lume da lÍEvisTA Lusitana, a páj. 212 S incluído no vocabulá- 
rio transmontano que ali publiquei, rejistei o verbo enibolcur, 
comparando-o cora o castelhano volcar, «tombar» um carro, por 
exemplo, e o português comum emborcar, subordinando-os todos 
ao latim inuoluicare, de uoluere. Ainda mantenho a mesma 
opinião, que é confirmada pelo substantivo borco, «tombo» em- 
pregado no seguinte trecho: — «[cambalhota] de cima para baixo, 
aos borcos como cobras-» — -. 

bordão 

f]sta palavra, na acepção de modo-de-dizer que se repete a 
meúdo, tornando-se habitual, e a bem dizer inconsciente, o que 
em castelhano, com a mesma relação figurada, se diz muletilla, 
é já antiga em português, pois a vemos empregada neste sentido 
por António Francisco Gardira nas Batalhas da Companhia 
DE Jesus ^: — «o bordão com que se defendem nas respostas é 
dizer que assim está nos seus livros» — . 

bornudo 

— «Ave de formosas pennas» — *. Difícil definição para se 
poder identificar, pois tanto poderia ser um pavão, como um 
canário; em todo o caso, a ave, descrita com tanta parcimónia, 
é da Africa Oriental Portuguesa. 



1 1887-1889. 

2 MarceUno de Mesquita, O Tio Pedro. 

3 Lisboa, 1804, p. 259. 

* Diocleciano Fernández das Neves, Itinerário db uma viagem á 
CAÇA DOS ELEPUAXTBS, Lisboa, 1878, p. 58. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 163 



borracheiro 

Este vocábulo está definido no Novo DicgionAeio como signi- 
ficando: — «fabricante ou vendedor de borrachas > — . 

Tem, porém, outro sentido, que não está rejistado: é «o in- 
divíduo de Rio-Maior que daquela povoação conduz vinho para 
Alcobaça», naturalmente em odres, ou borrachas. Assim me 
informou uma criada natural daquela freguesia. 

Que o mesmo nome se dá na Ilha da Madeira aos trabalha- 
dores ocupados em análogo mester prova-se com um bilhete pos- 
tal ilustrado, o n.° 111 da colecção b. p., o qual representa uma 
dúzia de homens, com borrachões ao ombro, junto ao casal, em 
cuja parede exterior estão enfileirados alguns cascos, com um 
dos tampos virado para essa parede e o outro para os homens: 
a lejenda diz: — «MADEIRA boreacheibos » — . 

Há porém uma diferença entre os borracheiros do Riba-Tejo 
e os da Madeira: é que estes transportam em borrachões o mosto, 
dos lagares para as adegas, entanto que os outros, em iguais 
vasilhas, conduzem o vinho já feito, como fica dito. 



bostear; bosteiro 

O Novo Digo. rejista este verbo, como sinónimo de « embos- 
tar», derivado de hosta. 

Na Índia portuguesa, conforme informação do capitão-de-mar- 
-e-guerra Júlio Elesbâo Pereira Sampaio, que ali serviu por muito 
tempo, bostear significa: — «revestir de bosta as paredes > — . 

O Novo DicciONÁBio define o vocábulo bosteiro do modo se- 
guinte: — «escaravelho que vive na bosta» — . 

O CoNTKMPOBANEO couteutara-se com dar o vocábulo, cuja 
orijem é evidente, como sinónimo de escaravelho, e creio que 
teve razão. Com efeito, na Gazeta das Aldeias, de 24 de se- 
tembro de 1905, lê-se: — «O escaravelho, como a maioria das 
espécies do género, sustenta-se dos dejectos dos herbívoros, prin- 



164 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

cipalmente da bosta dos bois e dos cavallos. Dahi lhe veio o 
nome popular de hosteiros, por que a gente das aldeias mais 
usualmente os conhece» — . Vê-se, portanto, que não é nome de 
qualquer espécie diferente, mas sim alcunha que lhe foi posta 
em razão dos seus hábitos. Nem êle vive na bosta, o que lhe 
traria existência muito precária; se a busca, é para alimento, e 
não para fazer nela vivenda. 

A mesma útil publicação acrescenta: — «Julgou-se durante 
muito tempo que o escaravelho preparava esta bola [que forma 
da bosta] para nella depor os ovos, mas está recentemente pro- 
vado que ella e única e exclusivamente destinada á alimentação 
do insecto» — . 

Como a Gazeta das Aldbias segue à risca o sistema de 
acentuação e quási pontualmente o ortográfico adoptado no Novo 
Dioc, ao leitor do centro do reino depara-se por vezes indicação 
de pronunciações que lhe são estranhas, e nas linhas que trans- 
crevi há duas dessas: a primeira que, conquanto diversa da que 
é corrente em Lisboa, é menos singular, escaravelho, que na 
capital se pronuncia escaravâllw ; e a outra, mais inesperada, 
género, que em todo o litoral no sul, desde o extremo Algarve 
até Figueira da Foz, pelo menos, se profere género, com e aberto 
na sílaba predominante, que é a primeira. 

Entendo ser defeituoso este sistema de uma parte do reino 
impor pela escrita as suas pronunciações locais ao resto das pro- 
víncias, monnente à capital, que decerto as não seguirá. É em 
razão disto que eu, apesar de adoptar um sistema rigoroso de 
acentuação gráfica, marco sempre com o sinal geral do acento 
tónico, o agudo ('), as vogais a, e, o antes de consoante nasal, 
por o seu valor variar muito de uns para outros pontos, e não 
com o circunflecso, que particular e unicamente serve para indi- 
car, em caso de necessidade, o ^ e o o que são proferidos como 
fechados em toda a parte K 



* V. sftbre este assunto Ortografia Nacional, do autor, Lisboa, 
1904, p. 179-181. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 165 



bota-d'água 

Este calçado, apropriado a resistir à agua, especialmente nas 
passajens a vau, está já designado com este nome no Suplemento 
à CoLLE<!ÇÂo DE LEaisLAçÃo poRTuouEZA, reforeutc aos anos 
de 1750-1762, em um aviso de 23 de outubro de 1753: — «se dê 
aos Regimentos de Dragões do seu Exercito botas de agoa» — . 



bouça 

Esta palavra, fornralmente, parece provir de baltea, plural 
neutro do adjectivo balteus, baltea, balteum, substantivado, 
que em latim significa «o que cinje», e do qual o Magnum 
Lexicon de José António llamalho ^ nos diz ser mais usado 
como substantivo no plural. É definida no Dicc. Contempoba- 
NEO, como termo minhoto, com a significação de — « terreno onde 
se cria matto para adubo, por não ser próprio para cultura» — . 
Mas na monografia de Alberto Sampaio As villas do noete de 
PoRTUQAL * lemos O seguinte: — «as bouças (bauza^, bustelos) 
que forneciam o matto para a cama dos aniraaes, e a lenha» — : 
donde se deduz que a acepção é mais lata. 



braga, bragal 

O primeiro destes vocábulos, do latira braça, e mais trivial- 
mente bracae no plural, como acontece entre nós também com 
objectos geminados, de que se faz uso, por ex.: calças, óculos^ 
brincos, çapatos, etc., não designa em português, como na língua 
de onde provém, «calças compridas, até os pés», mas calcetas 



1 Lisboa, 1819. 

2 in Portagalia, I, p. 324. 



166 Apostilas tios Dicionários Portugueses 



curtas, ainda mais que os calções, como as que usam os serrado- 
res de madeira. Designa também, no singular, a argola de ferro 
ou grilheta onde prendia a cadeia de ferro dos condenados a 
trabalhos públicos, e que se via frequentemente há cinquenta 
anos em Lisboa nos calceteiros, quando o ofício destes era de- 
sempenhado por bandos de galeotes, acorrentados a dois e dois, e 
que se denominavam também grilhetus, V. calceta. 

Alberto Sampaio, na excelente monografia As Villas do 
NoBTE DE PoRTaaAL *, rcfero-se deste modo aos dois vocábulos 
da epígrafe: — «A terminologia [da cultura, cura, tiaçào e tece- 
dura do linho no norte de Portugal] tem a mesma procedência 
[romana]; assim bragal, designando tanto a roupa branca como 
o pano que lhe é destinado, e braga, bragas (de hracu, palavra 
gallo-latina), massar (massare, esmagar as hastes do linho), es- 
topa (stuppa), tomentos (tomentum), espadella (diminutivo de 
spafha), espadar ou espadtlar (bater com a spatha ou espadella), 
estriga (striga), fuso (fusus)^ maunça ou mainça (manuncia pi. 
de manuntium, ou de nianicia, pi. de manicium), e roca (rukka, 
got,, em esp. riceca, em ital. rocea) — todos estes termos provêm 
do latim, excepto o ultimo, cuja origem germânica nas três lín- 
guas é singular» — . 

No Elucidário de Santa Kosa de Viterbo vem um longo 
discurso sobre o termo bragal; nem aí, porém, nem em nenhum 
outro dicionário vejo apontada uma acepção especial que tem 
esta palavra, e é o <pano com que se cobre a farinha depois de 
amassada» — -. 



breca 



O significado deste vocábulo é cãibra, e a êle se devem su- 
bordinar as várias locuções compendiadas no Suplemento ao 
Novo DiccioNÁRio: levado da breca «travesso»; foi-se com a 



^ in Portugália, I, p. 317. 

2 Revista Lusitana, t. vi, p. 12i>. 




Apostilas aos Dicionários Portugueses 1G7 



hreca, «foi-se espantado»; faz coiisaft da breca, <faz cousas 
diabólicas», «como se estivesse atacado de cãibras». 



brejo, brejeiro (=brèjeiro) 

O étimo do primeiro destes vocábulos é desconhecido, pois o 
mais plausível, em grego bragós, <paul», oferece grandes di- 
ficuldades fonéticas e mesmo históricas, para de leve poder acei- 
tar-se. 

De brejo parece provir brejeiro, cora è aberto átono na pri- 
meira sílaba, isto é, sem enfraquecer o é do radical, o que aliás 
sucede quási sempre antes de consoante palatal, quando o ^ é 
aberto: cf. frecheiro, de jréc/m, sèjeiro, de seje, velhice de véUiro; 
€ uem obsta a esta lei envejoso, de envéja, pois o e antigamente 
€ra fechado, como procedente do í de inuidia, e o ser aberto 
provém de se haver tomado como substantivo verbal. 

Nào me ocorre em que dicionário português se explicava bre- 
jeiro como derivado de brejo, — < porque nos brejos se fazem 
cousas brejeiras» — . 

Este adjectivo significa «obsceno», e «ordinário», e neste 
sentido se empregava para denominar certos cigarros do antigo 
Contrato de tabacos, anterior a 1864, feitos com péssimo e fétido 
rolo picado, escorrendo melaço, e com as mortalhas de ruim pa- 
pel, manchado de nódoas alambreadas, do reçumar da humidade 
do tabaco: custavam a três 5 réis. Parece que ainda hoje assim 
se denominam os cigarros piores, comprados já feitos, como se 
depreende do seguinte passo, primor de observação rigorosa: — 
«ar jingão e andar de fadista, cigarro brejeiro sempre ao canto 
da bocea, cuspindo a meudo por entre os dentes» — *. 



^ O Sboulo, de 10 de setembro de 1930. 



163 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



% 



brelho 

O latira imbrex, imbrícis, que provém de imber, irobris 
«aguaceiro», e significa «telha» (j tegula), está prováveíment« 
representado em francês pela palavra briqtce, e em italiano por 
brtcca, «barranco por onde a água se despenha», e que num 
sentido especial foi talvez o étimo imediato do termo francês. Em 
português temos no Minho um vocábulo, nào derivado directa- 
mente do imbricem, mas do deminutivo imbricalum: é brelho, 
«(fragmento de) tejôlo», colijido por J. Leite de Vasconcelos, 
que lhe atribui, com razáo, esta etimolojia K 

Vocábulos modernos da mesma orijem são imbricar, imbri- 
cado \ imbricare. Outra etimolojia proposta para o francês 
brique é o inglês brich } breah «quebrar». 



brendo 

Na Beira-Baixa denomina-se assim uma espécie de garfo, de 
quatro a seis dentes, fabricado de madeira pelo carpinteiro, em 
oposição a tomadeira (q. v.) *. 



brinco, brincar 

Ou brincar provenha de springan, no sentido de «pular», e 
de bli(n)kan, no de «gracejar, entreter-se», sendo portanto for- 
mas converjentes; ou proceda de um só destes verbos germâni- 
cos, sendo a segunda acepção desenvolvimento da primeira; ou 
ainda, o substantivo brinco significando «pinjeute» seja o latim 
uinc(u)lum, independente portanto de brinco, substantivo ver- 



^ Revista Lusitana, iii, p. 207. 

2 Iníormação do editor, natural de Almeida. 



Apostilas aos Diciofiários Portugueses 169 



bal rizotónico do verbo brincar: o que é certo é que este em 
português adquiriu significados em que o seu correspondente cas- 
telhano brincar, «pular», o não seguiu, pois na segunda acepção 
se diz ali jugar, juguetear. 

Entre o povo, no continente, o verbo brincar era usual no 
sentido de «bailar», e ainda hoje não perdeu de todo essa acep- 
ção, que vemos exemplificada na seguinte quadra, vulgar há 
cinquenta anos: 

— Ó menina das laranjas, 
^Você que dá e que temV 
Você está tara coradinha, 
Você brincou com alguém. 

Este significado conserva o substantivo verbal na tndia por- 
tuguesa, em Goa pelo menos, como se lê no seguinte trecho de 
uma correspondência de lá, publicada no jornal O Século, de 26 
de julho de 1902: — «Danças chamadas brincos, populares, de 
chrístãos brahamenes [sicj, moirog e outros gentios, com suas 
musicas características » — . 

O mesmo substantivo, que também significa «brinquedo de 
criança», foi por António Francisco Cardim empregado num sen- 
tido muito especial, o de «galantarias», «bujigangas», correspon- 
dente ao francês bibelots, e que o traduz perfeitamente: — «Era 
força ir o padre ao paço beijar a mão ao príncipe pela mercê, e 
apresentar-lhe agradecido alguns brincos da Europa e China» — *. 

Brincos da China é também expressão de que já se servira 
Femám Méndez Pinto, no mesmo sentido de «galantarias»: — 
« o embaixador comprou muitas peças ricas » ebrincosda China 
que aquy se vendião muyto baratos, em que entrou grande quan- 
tidade de almizcre, porcellanas finas, seda, retrós, e pelles de 
arminhos» — *. 



^ Batalhas da Companhia db Jbsus, Lisboa, 1894, p. 145. 

> PBRaORINAÇlO, cap. CLXVI. 



170 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



(de) bruços 

Este modo adverbial, cuja significaçáo é «de peito para 
baixo >, «estendido com o rosto para o cbáo>, e à qual corres- 
ponde o castelhano de hruces, é explicada imperfeitamente por 
buz, com fundamento em que os dicionários castelhanos consig- 
nam também a variante de biices, que suponho nâo ser lejítima. 
Com respeito ao huz com o qual o relacionam, pode ver-se o 
DiccioNABio MANUAL ETYMOLOQico de F. Adolfo Coelho, o qual 
resume a argumentação de Diez, que aqui não repito, por me 
parecer de pequeníssimo peso. 

A expressão parece não ser antiga em português, visto que 
Bluteau a não incluiu *. Partindo desta omissão, suponho que a 
locução, muito trivial hoje, e da qual se derivou o verbo de- 
brtiçar-se, proveio de Espanha, por intermédio do castelhano, o 
qual, todavia, não derivou verbo da sua expressão de briices, 
como aconteceu em português com debruçar, 

A orijem deste modo adverbial parece-me ser o vasconço 
buruz (pronunciado burâç), caso modal de buru, «cabeça». E 
certo que o Dicionário vasconço-francês de Vau Eys * só dá a 
este caso modal buruz a significação «de cor>, «de cabeça», 
como também dizemos; é possível, porém, que, assim como por 
meio do mesmo suficso -ez, de on, ou oin, «pé>, se forma onez, 
oifwz, «a pé», a forma buruz, significasse «de cabeça [para 
baixo]», e que dessa acepção restrita, em qualquer parte das 
Vascongadas o caso modal indicado viesse a significar também 
«de cara para baixo». 

É isto uma simples hipótese, que me parece mais aceitável 
do que a proposta por Diez, e por isso aqui a rejisto, para funda- 
mento de mais rigorosa investigação. 



^ Vocabulário portugubz latino. 
y I 2 DiCTioxiiiRB BA8QUB-PRANÇAI8, Paris, 1873, sub voc. buru. 



ApofftiloH aos Dicionários Fortugimses 171 



bruxa, bruxo; bruxulear 

Instinti vãmente se faz a aprossimaçào dos dois primeiros vo- 
cábulos com o terceiro. Até agora, porém, as investigações etimo- 
lójicas levam-nos a considerá-los distintos. I)á-se como étimo mais 
verosímil do bru.nilear, português e castelhano antigo, brujic- 
lear, (pron. brmiulear) castelhano moderno, em última análise 
um verbo latino perustulare, que seria orijem também do 
italiano briistokire, bruciare e brasciare, os quais, como o fran- 
cês antigo brusJer, e o moderno brãler, significam «queimar*, 
e < arder». 

Não mencionarei aqui outras hipóteses, a não ser a título de 
curiosidade, e por sor de quem é, a de João Storm, a qual con- 
siste em admitir a inttuéncia do germânico brurist, « queima >, 
derivado de brennen, «queimar >*, num latim bustiare \ bustum, 
«fogueira» (cf. comburere, «queimar»), de que resultaria uma 
forma nova no latim popular brustulare, brustiare, de que 
se derivariam as formas italianas e a francesa. 

Se algumas conjecturas mais ou menos plausíveis se teem 
feito acerca da etimolojia de bruxulear ^ nenhuma se apresentou 
ainda de bru.rxi, que apresente probabilidade; não serei eu de 
certo quem . tente nem mesmo descerrar o véu que encobre a 
orijem deste interessante e tam popular vocábulo, porque me 
faltam absolutamente investigavòes que ofereça ao leitor como 
abono de opinião minha. 

Chamarei apenas a atenção para os seguintes factos. O fené- 
ineno denominado fogo fátuo não tem nome vulgar conhecido 
em todo o pais, e somente em alguns pontos dele me consta lhe 
chamam alminhas, porque em geral é frequente nos cemitérios 
a sua aparição. Outro tanto acontece em Plspanha. 

Ora;nao é crível que tam visível fenómeno ficasse sem nome, 
até que os especialistas lhe pusessem a alcunha que agora tem, 
desconhecida do povo meúdo porém, e que é um arremedo ala- 
tinado da expressão francesa feu-follet A minha conjectura é 
que existe em bruxa e bruxulear íntima conecsão; e, signifi- 



^ ' ~i' 4« 



172 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cando o verbo brtcxulear, «lampejar», dar clarões incertos e de 
intensidade variável, ele seja derivado de brtcoca, tendo esta 
palavra sido, em qualquer tempo ou lugar, tanto em Espanha 
como em Portugal, a designação popular do fenómeno. 

Parece-me que neste sentido se devem nortear as investiga- 
ções que se façam para descortinar o étimo do vocábulo bnixa, 
considerando-se bruxulear um derivado romanico-peninsular desse 
vocábulo. 

Como subsídio para essa investigação apresento aqui um texto 
extraído de obra antiga de muito interesse, e que serve de am- 
paro à minha hipótese. — «Por conclusion noto aqui, que aquella 
vlsion nocturna que en algunos Países Uaraan Htieste, y quieren 
que sea procesion de brujas, es mera fabula, a que dieron oca- 
sion las exalaciones enc^ndidas, que los Físicos llamam Fungos 
fátuos, El vulgo, viendo aquellas luces y no pudiendo creer que 
fuese cosa natural, la atribuyó á la operacion diabólica» — K 

A htceste, «hoste», a que o autor aqui se refere, ó a Estan- 
tiga, em castelhano Esfanfigtia, a procissão de mortos da 
superstição medieval, das xviítende Heer, acerca da qual se lerá 
com muito proveito o que D. Carolina Michaelís da Vasconcelos 
escreveu no vol. iii da Revista Lusitana, e onde deixou per- 
feitamente averiguada a etimolojia do vocábulo, hueste anfigica. 

E sabido que no Brasil se chama ao fogo-fátuo caipora, termo 
tupi (Cahapora), que também designa o deus das selvas, protector 
dos animais silvestres, hostil ao caçador, (a cuja manifestação os ^ l 
índios bravos atribuem o dito fenómeno, conforme todas as pro- 
babilidades. 

Concluirei com uma observação justa. Pondera-me em carta 
o sur. Acácio de Paiva que é talvez temerária a suposição de 
que brurMr algures no reino se aplique ao fogo fátuo, visto que 



^ Thbatro Critico Universal. Discursos vários en todo gé- 
nero DE matérias para DESENGANO DE ERRORES COMUNBS, ESCRITO 

POR EL M. I. S. D. Pr. Benito Geronimo Feijoo Montenegro, t. ii, 6^, p. 196, 

MDOCXLV. 



AposHku 008 Dicionários Portugueses 173 



em parte nenhuma o vocábulo desigua alma-do-outro-miinãoy 
sendo certo que na opinião do vulgo o poder ou condão fatal da 
bruxa lhe provém do diabo, e que ela é sempre criatura viva e 
maléfica. 

bubela 

Por este nome se designa em Trás-os-Montes a imupa, como 
se vê do trecho seguinte: — «Outra [tradição], a da bicbela (poupa) 
disfarçada milagi-osamente em Nossa Senhora» — *. 

Incluí, no vocabulário transmontano que publiquei no i vo- 
lume da «Revista Lusitana» * o mesmo vocábulo, e para aqui 
transcrevo a sucinta observação que ali lhe consagrei: — «ftw- 
belu, poupa (ave): latim upãpella, deminutivo de upUpa pela 
queda do u [inicial] e abrandamento de p em b: cf. port. bisjjo, 
castelhano obispo; port. baço, catalão ubach, opacium, opa- 
cum. Em -galego é também bubelu, em mirandês boubela. em 
castelhano abyhilla, havendo-se dado igual abrandamento de p 
em ambas as sílabas, como se deu no italiano bicbbola, que per- 
deu a vogal inicial. Tanto a forma portuguesa, como a miran- 
desa e as dialectais italianas poppa, popo fazem pressupor uma 
forma latina uppupa* — . Depois, em nota acrescentava: — 
«O dr. Hugo Schuchardt ^ admite upúpa, que não explicaria o 
ditongo ou, nem a reduplicação da consoante ou o o, dialectais 
italianos > — . 

bucho, bucha 

Este vocábulo no sentido de «estômago», como no de «mús- 
i/ calo da ack^ e do braço», provém do latim musculum, que já 



* Ferreira Deusdado, O rbgolhimbnto d^ Mófreitâ, in < Revista ^ j 
de Edncaçâo e Ensino», 1891, p. 544. 
2 Falar db Rio-Frio, p. 205. 

> LlTTBRATURBLATT PÚR GbRMANISGHB UND ROMANISGHB PhILO- 

LOGiB, 1883, 3. 



174 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



tinha o sentido expresso na segunda acepção, conquanto a pri- 
mitiva significação fosse «ratinho», como deminutivo de mus, 
«rato». Em castelhano à acepção de «másculo» corresponde 
muslo, e à de estômago buche, ambos os quais teem a mesma 
orijem latina, sendo formas diverjentes naquele idioma. 

O Suplemento ao Novo Diccionábio aduz também uma forma 
femenina, bucha, que escreve buxa, abonando-se com Camilo Cas- 
telo Branco; mas esta escrita é evidentemente errónea. 

buço, embuçar, boçal, rebuçado 

No Novo UiccioxÁRio atribui-se, em dúvida, como étimo a 
este verbo, o substantivo buço, D. Carolina Michaêlis de Vascon- 
celos opina por este étimo, cuja orijem seria o latim bucceus, 
adjectivo postulado, me parece, por buccea, «bocado» \ bucca. 
Conforme a douta romanista, embuçar-se quererá dizer — «cobrir 
a metade inferior do rosto até ao buço com capa ou capote» — . 
Em confirmação deste modo do ver aduz a mesma escritora as 
formas castelhanas agora escritas bozó, embozo, rebozo e seus 
derivados, e de buço deriva bucal (boçal). Assim será, conquanto 
a forma portuguesa com u por ti latino seja um óbice impor- 
tante, por existir o vocábulo boca, no qual desse ú resultou ô nor- 
malmente. Por outra parte, parece-me violenta a metáfora, que 
atribuiria ao particípio de rebuçar o significado que tem o subs- 
tantivo rebuçado. Em todo o caso é enjenhosa a hipótese, e ofe- 
rece bastantes probabilidades, visto não ser admissível que buço, 
português, tenha orijem diferente de bozó castelhano, o que pres- 
supõe igual parentesco nos competentes derivados. 

bufarinha, bufarinheiro 

O primeiro destes termos é definido por Cândido de Figuei- 
redo, no Novo Diccionábio, como significando — «cosméticos de 
pouco valor; bugiganga; quinquilharias» — ; e o segundo como 
— «vendedor de bufarinhas» — . 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 175 



D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos * dá como primitivo 
bufarias, de que proviria bufarinha, como de escrevania, es- 
crevanhilia, de endemoniado, endemoninhado, 

A esta conjectura há apenas a opor que nos dois vocábulos 
aduzidos como termos de comparação a nasal 7Íh foi ali atraída 
pela nasal da sílaba anterior, e prevaleceu a palatal nh e não a 
ginjival n, em virtude do /, que é vogal palatal; assim se explica 
que uinum desse vTo e depois vinho, ao passo que de unam 
proveio úa e depois uma, por ser o u labial. Ora, não se deu a 
primeira dessas condições, para que de bufarias resultasse bufa- 
rinhas, e conseguintemeute é duvidoso que o vocábulo português 
bufarinheiro seja o correspondente formal do castelhano buho- 
nero, que com êle condiz na significação; e portanto o étimo pro- 
posto está lonje de demonstrado, apesar de ser tam tentador, que 
já occorrera a Bluteau, que se expressa deste modo: — ^^ Bofar i- 
nlieiro, Deriva-se do Castelhano Buhonero, e este de Bufonero, 
porque segundo Cobarruvias vê de hus toucados, que em Castella 
se chamam Bufos, e por outro nome Papos. O Bofarinheiro 
leva a sua tenda ás costas em huma arquinha, chea de varias 
meudezas, como são fitas, pentens, estojos, etc . . . Segundo o 
adagio. Cada bofarinheiro louva os seus alfinetes > — *. O étimo 
extremo seria o latim bufo, do qual também procede bufão. 

Por tudo isto se vê que a definição do Novo Diccionábio ó 
inexacta, por muito restrita. 

Quando eu era criança pequena, aí por 1847, percorria as 
roas de Lisboa um bufarinheiro, com a competente arquinha 
ou tabuleiro de tampa de vidro, que num pregão cantado, com 
muitas variações, mas sempre as mesmas, anunciava a mercancia 
numa lenga-lenga extensíssima, a qual começava assim : « Pentes 
de tartaruga, travessinhas ; pentes da moda bonitos para as se- 
nhoras; etc...>; findando sempre deste modo: «Va lá leques, 
leques para as senhoras ! » . 



1 in Revista Lusitana, iii, p. 135. 
* Vocabulário portugubz latino. 



176 Apostilas aos Dicionários Portugiteses 



% 



bufo 



Esta palavra, que designa uma ave nocturna, foi transferida 
metaforicamente para indicar um individuo da policia secreta, 
do mesmo modo que nos tempos de D. Miguel os esbirros da 
ronda nocturna se chamavam morcegos, O termo hufo, neste 
sentido, está abonado no seguinte trecho: — «Tinham sido os dois 
bufos. . . que me tinham mandado prender» — *. 



bui; bule 

Como vocábulo de jíria torpe, com a significação do latim 
anus, é o calo hul, que quere dizer isso mesmo; cf. chahira, 
no mesmo sentido obsceno. 

Como peça do aparelho em que se serve o chá (q. v,), o vo- 
cábulo bule é malaio. Podem perfeitamente diferençar-se os dois 
termos, escrevendo aquele sem o e final, e formando-lhe o plural, 
conforme a regra geral, huis. 



buliceira 

Nos arredores de Lisboa quere dizer «chuva meúda». O 

termo foi colhido da tradição oral pelo snr. Martinho Brederode. 

E a chuva, como que peneirada, a que chamamos moinhn. 



burel 



Como o seguinte trecho é definição perfeita da significação 
deste vocábulo, para aqui o transcrevo: — A lã no districto [de 



1 O Século, de 23 de abril de 1ÍK)2. 



A 



Apastilaa aos Dicionários Portugueses 177 



Viana] é própria para o burel, que antes de ser submettido á 
fula é um tecido de lâ simples, raro a ponto de se contarem 
facilmente os fios, por entre os quaes se vê o dia> — ^ 



burra 



Em Leiria: «saliência de terra fora do limite de uma pro- 
priedade» *. 



burro, burrinho 

O Novo DiccioNÁRio, o mais copioso que existe em portu- 
guês, dá o vocábulo burro em nada menos de dezasseis acepções 
diversas, incluindo-se as que foram acrescentadas no Suplemento. 
Aqui apresento mais uma, que se deduz do seguinte trecho: — 
* Perto da chaminé estão os burros (bancos rústicos de pernadas 
de azinheira)» — ^ 

O deminutivo burrinho é usado no norte para designar uma 
« frijideii*a de barro com cabo » . 

E sabido que os nomes de animais são a meúdo transferidos 
para objectos nos quais se supõe haver deles aparência; tais são: 
cachorro, macaco, bujio, machos, cegonha, cão (de espingarda), 
gatilho, cavalo (na vinha), burra; bordão j burdonem, «mulo». 

Exemplo disso já o vimos na inscrição anterior. 



bus: V. chus 



* Portugália, I, p. 377. 

* Informação do Snr. Acácio de Paiva, dali natural. 

' J. da Silva Picão, Ethkographia do Alto Albmtbjo, in Portu 
galia, I, p. 542. 

ii 



178 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



butaca 

No Relatório official de João de Azevedo Coutinho, acerca 
da campanha do Barué em 1902 *, encontra-se este vocábulo, 
que parece ser africano: — «Â entrada de Manuel de Sousa para 
a butuca* — , e em nota explica-se: — «butaca, throno» — . 

É singular a exacta conformidade desta palavra com a caste- 
lhana butaca, assim definida no Dicionário da Academia Espa- 
nhola, sem se lhe apresentar etimolojia: — «Sillón de brazos, al- 
mohadillado, entapizado, cómodo y comunmente con el respaldo 
echado hacia atrás» — . 

Só se o vocábulo foi de Espanha para a África com os hen-e- 
ros, nome com que os nossos jornalistas teimam em alcunhar os 
hererós (q, v.J. 

búzio 

Este vocábulo, que provém do latim buccinum, designa, 
como se sabe, uma concha univalva, que em muitas partes da 
África serve de moeda. 

Em Ajuda 1 búzio valia 0,lõ real, e 2:(X)0 búzios denomina- 
vam-se um poso de búzios -, perfazendo 6:000 búzios 1?5000 réis. 

Os búzios na índia deuominam-se caurins, (q, v.). 

Búzio, na acepção de «mergulhador» parece ser outro vocá- 
bulo, e em castelhano diz-se buzo, de orijem desconhecida. 

cabaça, cabaçáo, cabacinha, cabaço 

A orijem destes vocábulos é ignorada: sabe-se apenas que 
era castelhano tem o primeiro uma sílaba a mais, calabaza, o 



i Jornal das Colónias, de 9 de julho de 1004. 
2 Carlos Eujénio Correia da Silva, Uma viagem ao estabeleci- 
mento roRTUGUEZ DB S. JoÃo BAPTISTA d'Ajudá EM 1865, Lisboa, 18Gt>. 



Apostilaa aos Dicionários PorUigueses 179 



que nos levaria a crer que a antiga pronúncia portuguesa fosse 
càbáça (cf. fagueiro e fagueiro, castelhano halngileno, afagar, 
cast. halagarj. 

Na Chamusca, e naturalmente em todo o Biba-Tejo, o au- 
mentativo cabação, plural càbaçõ&s, designa «pimento grande», 
em oposição a cornicho, que quere dizer «pimento pequeno», e é 
comparável ao francês cornichon, o qual denota uma espécie 
de pepino pequeno, e como o termo português se deriva de 
carne, como, de que sâo formas deminutivas. 

Cabaço, em Caminha e outras partes do Minho, é uma me- 
dida de 12 litros, equivalendo portanto ao antigo alqueire. 

Cabaço, no sentido de « virjindade», é o vocábulo quimbundo 
cábásu, deminutivo de quibásu, «pedaço, talhada, lasca», e é 
usado em Angola com a mesma significação, que de lá passou 
para português, na linguajem de indivíduos que ali o aprende- 
ram: (cujbasa quere dizer «raxar». 

Cabacinhas (de cheiro) eram há uns cuiqúenta anos, em 
Lisboa, umas cápsulas de cera, feitas em fôrma, imitando várias 
frutas, cheias de água aromatizada, e com as quais se jogava o 
entrudo nas salas entre gente fina, arremessando -as; quebran- 
do-se elas com o embate, derramavam o conteúdo na cara, ou 
no fato de quem levava com elas. 

Era um brinquedo engraçado e inofensivo, que ao depois foi 
substituído por projécteis muito mais grosseiros, como ovos de 
gema, ou cheios de farinha ou pós, e outros arremessos não 
menos abrutados. 

No Alentejo levar cabaço significa ser rejeitado em preten- 
sões de namoro. É modo-de-dizer castelhano, llevar calabazas. 



cabana, cabanela, cabanal, cabanão, cabaninha 

O primeiro destes vocábulos é o latim vulgar capanna, e 
está muito difundido em todas as línguas românicas, com ex- 
cepção do romeno, havendo dado orijem a muitas formas deriva- 
das por suíicsos. 



_ vl.-««'^ l=^J". 



180 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Eis aqui algumas definições e abonações da palavra cabana, 
extratadas de várias monografias de muito interesse publicadas 
na revista Portugália. — «No Alentejo o termo de cabana é 
um nome genérico que se aplica indistintamente a todos os casa- 
rões toscos e espaçosos que se adaptam a quaesquer usos> — ^ 

— «Cabanas. Por este nome designam-se as seguintes diffe- 
rentes accommodações: a loja dos carpinteiros de carros e ara- 
dos, o deposito de madeiras, as arrecadações de vehiculos e ucha- 
ria de lavoira, as arribanas pva gados, etc., etc. » — *. 

— « Cabanas no onomástico locativo portuguez ó ainda a de- 
nominação de algumas freguesias e aldeias que . . . tiveram a 
sua origem em barracas de tabuado» — ^. 

— «Cabanelas, Cabaninhas e Cabanões formam uma topony- 
mia de similar procedência» — *. 

Cabanal em Trás-os-Montes significa «alpendre», como 
vemos do trecho seguinte: — «disse zangado a seguinte pragí 
uma noite no cabanal (alpendre). — Oxalá se afundasse este la- 
meiro» — ^ 

Cabano, cabanillio, cabaneiro, designando várias formas de 
cestos, sào com mbana apenas aparentados por afinidade, e sobre 
08 dois primeiros veja-se neste livro a palavra côvo. 



cabeça, cabeceira, cabeçalha, cabeçalho, cabecilha, cabecinha 

Tem muitíssimas acepções o primeiro vocábulo, do latira vul- 
gar capitia, plural neutro de capitium, tomado como feme- 
uiuo, o que é frequentíssimo nas línguas românicas, e deriva-se 
de Ciiput, capitis, «cabeça». 



1 2 josó (la Silva Picão, Ethnographia do Alto Alemtbjo, p. 544. 
3 * Kocha Peixoto, Habitação, p. 84. 

5 M. Ferreira Dcusdado, O rbcoluimbxto da Mób^reita, iw «Re- 
vista de Educação c Ensino >, 1891. 



i 



ApostilM aos Dicionários Portugueses 181 



Entre outras acepções assinalarei aqui algumas mais espe- 
ciais, e raras vezes indicadas em dicionários. 

Cabeça: «quem manda», correspondente ao fi-ancês chef: — 
«A principal igreja que visitei naquellas provincias [do reino 
de Aname] foi a de um christão, cabeça de aldeia, chamado 
Paulo » — *. 

Ainda hoje se diz cabeça de motim, locução muito usual. 

Neste sentido usam os espanhóis cabecilla, que por imitação 
deu o português cabecilha, castelhanismo, pois o suficso demi- 
nutivo 'ilho, 'ilha, não ó português. 

Cabeça é usado* com a significação de peça de gado, rês, 
sendo este último a palavra árabe bas, «cabeça», empregada 
nessa língua com o mesmo significado, que também passou ao 
castelhano res. mas igualmente designa «o cabeça de tribo*. 

No sentido de rês, com referencia a gado suíno, é mais usual 
no Alentejo o termo cabeça: — «A avaliação dos montados faz-se 
por cabeças, quer dizer pelo numero de porcos adultos, que en- 
gorda a bolota em cada anno» — *. 

Outro sentido especial do vocábulo cabeça, acompanhado de 
uma locução adjectiva, é cabeça-de-pau, para designar os indi- 
víduos que teem lojas de móveis usados: — «as casas dos cabeças 
de pau, nome de giria por que são conhecidos os negociantes 
de tarecos* — ^. 

Com a mesma significação de cabeça, «principal», usou-se 
também cabeceira, como vemos em Rui de Pina, Cbónioa de 
El-bei Dom Afonsd v (cap. x): — «seria povo e gente meúda, 
que sem cabeceiras não teriam f5rças, nem dariam ajuda» — . 
Nesta acepção ainda o encontramos modernamente, no Belatóbio 
de Carlos Eujénio Correia da Silva [1866], com referência ao 
Daomé. É forma muito aproveitável e expressiva, que pode ser 



* Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 170. 

* J. SiWa Picão, Ethxooraphia do Alto Albmtbjo, in « Portuga- 
9, 1, p. 275. 

> O SmcvíJO, de 18 de novembro de 1901. 



182 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



empregada actualmente, conquanto a significação mais trivial 
seja a «de parte superior», como cabeceira da mesa, cabeceira 
ão leito, cabeceira(s) de um rio, etc. 

— « Cabeçalha: Dos jugos [dos carros] destaca-se breve a de- 
coração profusa que os caracterisa na região [Minho], os arcos, 
ensogaduras e tendilhas, a chavelha e o pigarro, a sôga 
emfim > — K 

E palavra derivada de cabeça, e significa « o temâo, ou lança 
de um carro de bois», e também, em especial, «a parte deanteira 
desse temâo». 

Uma forma masculina deste vocábulo, cabeçalho, designa, 
além de cabeçalha, o título, títulos ou dizeres a que se subordi- 
nam vários averbamentos, e que ocupam a parte superior da 
fôlha, o que os franceses chamam en-tête. 

Cabecinha é um deminutivo evidente de cabeça, e além de 
outros significados, deduzidos do vocábulo de que é formado, 
tem também o de — «farinha grossa que resulta do rolão passado 
por peneiro largo [de pano aberto] para o separar da sómea» — , 
como diz o DiccioNÁBio Contemporâneo. Na pauta de consumo 
(de Lisboa), anterior a 1880, o produto da moenda do trigo era 
classificado em quatro espécies: farinha et^poada, farinlia expur- 
gada de sémea e farelo, rolào, e cahecinlia, a cada uma das 
quais competia uma taxa de imposto diferente, de mais para 
menos; a sémea era livre de imposto. 

Como nome de ave é o vocábulo cabecinha, acompanhado de 
vários epítetos que o diversificam, muito usado na Ilha da Ma- 
deira, como vemos na monografia de P.^ Ernesto Schraitz, intitu- 
lada DiE VõQEL Madeiras *: — cabecinha encarnada, «pin- 
tassilgo», no Estreito; — cabecinha negra, «toutinegra» em 
Gaula; — cabecinha rosada, «pintassilgo», na Fajã. 

É sabido que toutinegra (q, v,) significa também «cabeça 
preta», capite nigra. 



1 Rocha Peixoto, As olarias do Prado, in Portugália, i, p. 253. 
^ in « Orníthologisches Jahrbuch», x, 1899, 1, ii. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 183 



cabelo, cabeleiro 

Na língua comum cabelo ora é colectivo, correspondendo ao 
francês chevelure, ora nome de unidade, equivalente ao francês 
cheveu. Nesta última acepção usa-se em vários pontos do Minho, 
Caminha por exemplo, o derivado cabeleiro. É galicismo usar 
cabeleira, na acepção de chevelure francês, pois corresponde a 
pemique; deve traduzir-se chevelure por cabelo, ou cabelos. Em 
castelhano, porém, usa-se neste sentido cabellera, pois « cabeleira » 
se áiz peluca. 

cabide, cavide 

Em alguns dicionários portugueses é dado como étimo deste 
vocábulo o latim capitulum, deminutivo de caput, de que 
proveio a palavra cabido, antigamente cabídoo^ da qual cabide 
viria a ser forma diverjente, ao que se opõe não só o significado 
de capitulum, mas até a forma do vocábulo cabide. 

Santa Rosa de Viterbo, no seu Eluoidabio das palaveas, 

TEBHOS, E FBASES QUE EM POBTUOAL ANTIGAMENTE SE USÀBÃO 

(Lisboa M.Dcc.xoviii) $140 voe. ca vidado, a que dá como defini- 
ção — «Evitado, acautelado, resguardado» — , indica a palavra 
cabide, como provindo daquela, e define-a: — «o lugar, onde os 
vestidos, e outras cousas se põe a seguro do pó, e do mais que 
as pôde inficionar, e destruir» — . 

É evidente que cavidudo é particípio passivo de cavidar, 
que pressupõe o latim '^'cauitare, fruqiientativo de cauere, 
cujo particípio cautus é contracção de cauitus, como é sabido. 
Ideolójicamente o étimo satisfaria; morfolójicamente, porém, é 
madmissível. £ rara em português essa formação, que consiste 
em derivar-se um substantivo concreto de um particípio passivo, 
com perda da terminação característica deste, -ado, e a sufícsa- 
ção de e, convém saber, substantivo do tipo aceite. Todavia, a 
forma antiga do vocábulo é cavide S e não cabide, como hoje 



^ Fernám Méndez Pinto, PbrbqrinâvIo, cap. ccxv. 






184 Apostilas clos IHcionários Portugueses 



se usa, e ainda Bluteau (Vocabulábio pobtuguez e latino) é 
a única que cita. 

Da definição de cavide, dada por este douto lecsicógrafo e 
escritor de há dois séculos, se verá quam infundada é a explica- 
ção do vocábulo proposta por Santa Bosa de Viterbo e qae 
acima transcrevi: — «He nas estribarias huma taboa pregada em 
a parede, em uns buracos da taboa metidos huns paos, para 
nelles pendurarem os freios» — . (Voe. pobt. e lat.). 

Esta definição é exactíssima, e a aplicação do vocábulo, ou, 
melhor dito, da armação que êle designava, a outros usos é pos- 
terior. 

Desviados por inaceitáveis os dois étimos apontados, capitu- 
lum, que tem sido o mais admitido, e cavidado que ninguém 
aceitou a Viterbo, teremos de ir buscar a outro idioma, dos que 
ministraram palavras ao lécsico português, um étimo plausível, 
se não perfeitamente justificado. 

Ninguém ignora que existem na nossa língua uns mil vocá- 
bulos de procedência arábica, demonstrada principalmente por 
Engelmaun e Dozy [Glossaibe des mots espaqxols et pobtu- 
OAis DÉBivÉs DE l'ababe, Leida, 1869], de grande parte dos 
quais já havia sido averiguada por Jofio de Sousa e José de 
Santo António Moura [Vrstigios da língua ababica em Por- 
tugal] ^ Deve haver, há com certeza, número maior deles, 
abstraindo mesmo dos nomes próprios de lugares, incluídos em 
grande cópia no lécsico dos arabistas portugueses, mas excluídos 
do Glossário que citámos, e que até hoje é o trabalho mais com- 
pleto e mais bem feito que existe nesta espécie, visto que o de 
Eguílaz y Yanguas - apenas lhe leva vantajem no grande nú- 
mero de abonações. 

Nas minhas peregrinações pelos nossos vocabulários talvez 
tenha ensejo de avolumar a parte arábica do nosso lécsico. 



1 Lisboa, 1830. 

2 GlOSARIO de V0CE8 ESP ANGLAS. . . DE ORIGEK ORIENTAL, Gra- 
nada, 1886. 




AposUlas aos Dicionárioa Portugueses 185 



Existe em árabe um radical, q-b-d, o qual tem como signifi- 
cado principal «agaiTar, pegar em qualquer cousa», e que, com 
a 2/ letra duplicada, q-S-d, quere dizer «apanhar e pôr de 
parte», conforme o Dicionário arábico-f rances de Belot K Aí vemos 
um substantivo derivado, MaQBiD, com o significado de manche, 
poignée, «cabo, punho, pega». São os paus da definição de Blu- 
teau. Outro derivado do mesmo radical, ganoa, com igual signifi- 
cação, encontra-se no Dicionário francês-arábico de Cherbonneau *, 
e não explicaria o nosso cabide; mas no dicionário arábico- 
francês do mesmo autor ^ encontramos Mianid, plural MaQABiD 
— «manche, poignée; anse» — . 

Creio ser esta a orijem do nosso cabide. Nos países barbares- 
C08 o preficso ma é muitas vezes reduzido na pronúncia ao m, 
[ujmqabtd', ♦ e poderia ter sido considerado como o artigo por- 
tuguês indefinido um, separando-se do resto do vocábulo, que 
ficou palavra independente: cf. a locução uma tuta e meia, por 
maeuta e meia, O h, segunda letra do radical trilítero, modifi- 
cou-se em v (cf. alcavala, àlvaiade, etc), e resultou pois o vocá- 
bulo cavide dos nossos antigos escritores e admitido por Blu- 
teau, sendo a forma cabide posterior, devida talvez à influencia 
de cabido, erudita provavelmente (cf. aspar, em vez de raspar). 

Há uma quinta ao pé da Chamusca, cujo nome, pelo menos 
o popular, é Cabide, talvez do Cabido, e neste nome parece ter 
influído a palavra de que trato aqui. 

Na Beira-Alta cabide tomou a forma popular cabido, de que 
resultou uma forma converjente, ou homeótropo ^. 



* Beirute, 1893, p. 613, i col. 

* Paris, 1884, p. 322, col. n. 

» Paris, 1876, 2.® yoL, p. 911, i col. 

* y. Caassin de Perceval, Grammairb arabb yulgairk. Paris, 1880, 
^17; e Lerchondi, Budimbntos dbl árabb vulgar, Tán^erc, 1889, p. 13, 
nota. I 

^ Já publicado na Brvista Lusitana, vi, 1900-1901, com leyes diver- 
jéndas. 



L 



186 ApoêUias ao§ Dieionárioê Bi>riugue$es 



caboclo 

É sabido que este vocábulo designa um índio do Brasil 
É dado por F. Adolfo Coelho ^ como termo tupi mas não se 
encontra no Dicionário tupi-guarani de Ant<$nio Buiz de Mon- 
toya *. Eis a sua abonaçâo: 

— <Ao gentio manso, ou reduzido á cÍTÍlisação, se começou 
desde logo a denominar caá-boe, que quer dizer — tirado ou pro- 
cedente do matto, donde nos veio o vocábulo cabôeo, como ainda 
hoje o pronuncia o homem rústico ou caboclo, como já o adoptou 
o português brasilico» — '. 

cabouco 

Além de outros significados, designa também, no Norte do 
reino, «estribo de pau». 

cabreiro 

Emprega-se como adjectivo, junto ao substantivo queijo, 
queijo cabreiro, para designar o queijo feito de leite de cabras. 
Era qualquer mercearia se encontra rotulado com este nome; não 
tenho porém nota de trecho com que o abone. 

cabresto 

Nome de um calabre nos moinhos algarvios, e nào sei se 
também das mais provincias: — «Quando se carece de ferrar ou 



^ DICCIONARIO MANUAL ETYMOLOGICO DA LÍNGUA PORTUGUEZA, 

Lisboa, s/data. 

2 Vocabulário y tbsoro de la lbngua guarani (ó mas bibs 
tupi) — Viena-Paris, 1878, nueva edicion. 

3 Teodoro Sampaio O Tupi na gbographia nacional, S, Paulo, 
1901, p. 67. 



Apoõtilas aos Dicionários Portugueses 187 



soltar as velas ao moinho. . . prende-se o mastro a uma argola, 
fixa na parede, servindo-se para isso d'um calabre chamado ca- 
bresto* — *. 

cabrita 

E um termo do Douro, na acepção especial em que vou 
exemplificá-lo: — c Cabrita, leitor de longas terras, é o costume 
de aquelle que compra uma junta de bois em feira pagar uma 
conveniente quantidade de vinho a todos os que entraram ua 
transacção, quer como partes principaes, quer secundarias» — *. 



cabula (=cabúlu) 

Conforme informação da minha criada, natural da Chamusca, 
cabala designa lá «meda de trigo, com forma piramidal». 



caça, caçar 

Como termo de pesca, não colijido nos nossos dicionários, en- 
contra-se definido na monografia de Pedro Fernández Tomás, 
intitulada A pesca em Buabcos ^\ — «Estas redes... são dis- 
postas verticalmente em longas caças ou aparelhos de ÕO a 80 
redes cada um> — . 

É sabido que em várias partes do reino, onde as povoações 
não avistam o mar e a pesca é só de rios, se diz c<içar peixe, 
em vez de pescar, termo que é lá desconhecido. Caçar, de cap- 
itar e \ capere, significa propriamente «apanhar». 



>> J. Núnez, Costumes aloarvios, in «Portagalia », i, p. 387. 
< O Penafidelense, de 14 de março de 1882. 
* in «Portugália», i, p. 148. 



188 ApaatiUu aoê Dicionários Fórluguegeê 



caçamba 

È termo brasileiro, que vem definido no Novo Diccioxâbio 
como « alcatruz > ; no respectivo Suplemento acrescentam-se mais 
as seguintes acepções: — «balde preso numa corda enrolada num 
sarilho ou nora, pára se tirar água dos poços; (eit.) qualquer 
balde; estribo em forma de chinela» — . 

Falta ainda outra acepção em que o vocábulo é usado no 
Brasil e que vemos no Bosquejo de uma viagem xo intebiob 
DA Pabahyba e de Pebxambuco: — «meu filho mal accomodado 
na sua caramba, á moda do paiz: tosco caixote de madeira, for- 
rado, sobre uma das ilhargas do animal, e equilibrado por egual 
caixote, collocado na outra ilharga e tarado com carga» — *. 



cachalote, cacholote, caixalote, queixalote 

Este termo, o francês cachalot, aportuguesado artificialmente, 
designa um cetáceo, com dentes, e daí provém provavelmente o 
nome. H. Stappers * dá-lhe como orijem o castelhano cachalote, 
(jue é, sem dúvida, o catalão quixalot, deminutivo de quirah ou 
entào caixalf que se pronuncia como a palavra portuguesa quei- 
xai, e tem a mesma significação, isto é, «dente (molar)», o que 
em castelhano se diz miicla. 

Em português da-se-lhe também a forma cacholote, que J. 
Inácio Roquete inseriu ^, e que parece ser uma aprossimação ao 
vocábulo cachola, «cabeça de peixe». 



1 tn « O Século », de 8 de julho de 1900. 

* DiCTIOXNAIRB SYNOPTIQUB D'ÉTYM0L0GIB FRANÇAISB, 2.* edíçslo, 

Paris, s/data. 

3 DlCTIONNAIRB P0RTUGAI8-FRANÇA18, Paris, 1855, 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 189 



cacharolete 

Palavra muito conhecida, como termo de botiquim, e já 
rejistada no Diccionaeio Contempobaneo, que a define com 
exactidão — «bebida alcoólica formada pela mistura de diversos 
licores» — . Eis aqui uma abonaçâo do seu emprego: — «O Termo, 
o Ck)llares, o grog e o cabaz, o cacharolete e o geripiti, ou 
OB seus equivalentes, não servem lá> [nos bailes da Ópera, em 
Bruxelas] — * 

E uma nomenclatura completa de venenos, principalmente 
quando tomados em lojas de bebidas. 

cacho 

Esta palavra, a que o Novo Diccionáhio atribui orijem in- 
certa e o DiccioNÁKio Manual Etymologico uns étimos muito 
problemáticos, foi por Frederico Diez * considerada romanização 
hispânica do latim capulus, «punhado, mancheia», mediante a 
forma caplus, comparando-o a ancho j amplus. Todavia, já 
por J, Leite de Vasconcelos foi ponderado que dos grupos latinos 
mediais -clr, -plr, -ti-, -fl- só resultou em português e castelhano 
eh, quando esses grupos estavam em latim precedidos de con- 
soante, como, por exemplo, em macho \ masc*lum, enchei% 
(h)enchir \ implere, inchar j inflare, etc. 

Na realidade, uma excepção aparente, cach-orro, não provém 
ie cat'1-us, pois é metátese das duas primeiras sílabas do vas- 
conço chacur, deminutivo de çacur, «cão». Catulus, pois, de- 
zena produzir calho em português, cajo em castelhano, como 
'etulus deu velho e viejo, manuplum, molho e manojo, 
ivacla, navalha e navaja, etc. 



^JtABio DB noticias, de 20 de fevereiro de 1903. 

^'rYMOIX)GISCHB8 WÔRTBRBUCH DER ROMANISCHEN SPRAOHBN 
^ ^O, 11, b. 



190 ApoêtUas aos Dicionários Portugueses 



Não obstante esta ponderosa circunstância, é ainda capulum 
o étimo que, por emquanto, apresenta maiores probabilidades, ao 
menos para o português cacho. O próprio Leite de Vasconcelos, 
qae formulou a lei, não hesitou em derivar cmheira de capu- 
laria e cacheiro de cmpsLlarium ^ Outro tanto não direi para 
o castelhano cacho^ ao qual corresponde, aegiiiido parece, o por- 
tuguês caco j calculus. 

Além de outras acepções da palavra portuguesa cacho, já re- 
jistadas nos dicionários, tenho a acrescentar uma, a de «espiga 
de trigo depois de esbagoada>, a qual lhe é dada no Riba-Tejo, 
como estou informado por pessoa fidedigna, que a empregou 
deante de mim, e preguntada, assim ma explicou. Esta acepção 
relaciona-se com outra usada no Alentejo, dada no Novo Diocio- 
NÁHio, da qual é variante, e que vem a ser — «espigas ou réstias 
de espigas, que resistem á primeira debulha e que se juntam 
para formar eiras de cachos» — . 

Cachorro designa vários objectos, com significados já apon- 
tados nos dicionários, e um deminutivo no plural, cachorrinhoSy 
é nome que se dá no Kiba-Tejo à «herva moleirinha> (fumaria 
officinalis). 

cachola; cacholeira 

Em Lisboa designa o primeiro destes vocábulos « cabeça >. e 
principalmente «cabeça de peixe». Em castelhano cholla é ura 
termo chulo que significa somente «cabeça de gente >. 

Parece haver relação entre os dois vocábulos; todavia não é 
fiicil de explicar a primeira sílaba da palavra portuguesa, cujo 
étimo, bem como o da castelhana, é desconhecido. 

Cacholeira, que só muito a medo se poderá considerar como 
derivado de cachola, pelo menos no sentido que damos a este 
vocábulo, é o nome pelo qual é conhecida uma casta de chou- 



^ Revista Lusitana, ii, p. 31. 



ApostiUu aos Dicionários Portugueses 191 

rico, « enchido fumado, em que eutram aparas de carne de porco, 
misturadas com pedaços da entranha». 

cachondé 

Mistura de areca, âmbar, açúcar e outros ingredientes, para 
mascar, que serve para perfumar a boca, e é muito usada na 
Índia e na Malásia ^ 

(andar aos) cachopinhos 

Diz-se, nos arredores de Lisboa, do andar usual dos coe- 
lhos, aos pulinhos, não porém da corrida desabalada que seguem 
quando são perseguidos. 

A informação foi-me dada pelo snr. Martinho Brederode. 

cachucho 

Como termo faceto, quere dizer «anel grosso de ouro». Deve 
de ser o mesmo vocábulo que o espanhol cachucho, que na jíria 
castelhana, ou germania, significa «ouro». 

A etimolojia dada por Salíllas ^ latim capsula, é absurda. 

cacifo 

— «O cacifo em que [os caçadores] levam o furão para o 
monte é um pequeno cesto de vime em forma de cabaça, com 
porta de madeira» — ^. 



^ Hugo Schachardt, Krbolisghb Studibx, ix. 

* Rafael Salíllas, El dblinCubntb bspanol, Lbnguagb, Madrid, 
1896, p. 276. 

' José Pinho, Ethnooráphia Amarantina, A Caça, tn Portugália, 
n, p. 98. 







192 Apoitilas aos Dicianárioê Fàringueteg 



cacimba, cacimbo 

O primeiro destes vocábulos tem duas acepções: 

Como termo da África Portuguesa, tanto Ocidental, onde se 
orijinou, como Oriental, para a qual foi levado pelos portugueses, 
é, como define o Novo Diccionáeio, — «poço que recebe a água 
pluvial, filtrada por terrenos circumjacentes, e da qual se servem 
as povoações» — . Neste sentido é o quimbundo quixima, (e nâo, 
quichima, como está escrito no dito dicionário): — «A ilha dos 
Elephantes. . . dista 18 milhas de Lourenço Marques. . . A água 
que bebem [os leprosos da gafaria, e não, gafeira, como se inti- 
tulou, pois este vocábulo é o nome da doença] é fornecida por 
cacimbas» — *. 

Como se vê, trata-se da África Oriental. 

A segunda acepção, «chuva meúda», é mais usada no Conti- 



nente do que na Africa Ocidental, onde lhe chamam de prefe- 
rência cacimbo. 

E naturalmente outro vocábulo diverso, mas nâo sei dizer 
qual. Veja-se cachimbo em tabaco. 

cacique, cacico, caciquismo 

Esta palavra, de orijera americana, caribe, segundo se afirma, 
que em castelhano denota «cabeça de tribo», é de uso raro em 
português. Xo entanto vemo-la empregada com referencia ao 
Brasil no seguinte trecho do Bosquejo de uma viagem xo 
INTERIOR DA Pauahyba e DE PERNAMBUCO *: — « Carirjs, raça 
indolente, sem embargo essencialmente bellicosa, como... o 
eram... os tabajuras e os petyguares, a que pertenceram al- 
guns caciques alliados dos portuguezes, como o celebre Cama- 
rão (Poty)> — . 



' Jornal das Colónias, de 24 de julho de 1905. V. gafo. 
^ in O Século, do 17 de junho de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 198 



E preferível o emprego deste vocábulo ao de chefe, que em 
tal sentido é galicismo, conquanto muito generalizado já para se 
poder desterrar. 

Bluteau * rejistou outra forma do mesmo vocábulo, cacico: 
ignoro se foi por aportuguesamento arbitrário, ou porque assim 
a encontrou também em castelhano. 

O termo cacique em Espanha desiorna um influente eleitoral 
que exerce pressão e domínio em certa rejiào, e dele se derivou 
caciquismo; ambos os termos já de Espanha passaram a Por- 
tugal. 

caço; cacete 

Lste termo, correspondente ao castelhano cazo, e cujo deri- 
vado deminutivo cazuela produziu o português caçoula (cf. leu- 
tejoula e lentejtiela, tijolo e tejuelo), designa «colher de con- 
cha» no Alentejo, e provavelmente em outros pontos do reino, 
visto que o Novo Dicc. rejista a palavra, sem limitação. E o ins- 
trumento que os espanhóis denominam cucliarón, aumentativo 
de cachara, «colher». 

A orijem do vocábulo caço, que também figura em toscano, 
cazza e cazzo (=^cat(;o), é duvidosa. 

O cazzo italiano, que, além de outras acepções obsoletas, tem 
um significado obsceno, deu talvez orijem ao verbo português 
caçoar, o qual, como mangar, foi também termo obsceno, mas 
86 vulgarizou, obliterando-se a significação imimda que tinha. 
No entanto, é conveniente que, à cautela, quem quere usar limpa 
linguajem evite o emprego de qualquer destes dois verbos, ou 
dos seus derivados, substituindo-os por zombar, escarnecer, mo- 
tejar, chalaç(e)ar, etc. 

De ca^, no sentido de «moca», vem provavelmente a palavra 
cacete, e não do francês casse-tête. 



* Vocabulário portugubz b latino, Suplemento. 

i3 



194 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cada 



Esta palavra, que, sem a menor dúvida, tem por orijem o 
grego KATÁ, o qual já aparece no latim dos escritores eclesiásti- 
cos, no mesmo emprego que tem era português e castelhano, 
verhi gratiu, na locução da Vulgata, cata mane, «cada manhã », 
é uma verdadeira preposição invariável, e não adjectivo como 
os gramáticos a classificam e como o é o francês choque, ou o 
italiano qualche. A prova é que se usou antigamente antes 
de nomes no plural, como por exemplo nesta frase: — «cada 
huns tinham seu senhor» * — «gentes darmas que cada huus 
dariam» — *. 

Emprego bem evidente de cada como preposição é o seguinte 
trecho castelhano, do título xxvi da Partida n: — «Et por este 
son Uamados quadrilleros [em português coireleiros, quairelei" 
ros; quadrilheiro é castelhanismo] ; porque cada uno dellos han 
de saber las herechas que cayeren en la su quadrilla» — ^. 

E claro que o sujeito gramatical do verbo han (e não, ha) é 
o substantivo plural quadrilkros:, c não o pronome singular U7w: 
portanto o pronome não é aqui cada uno, mas sim u7io somente, 
governado pela preposição cada. 

Em antigo toscano encontra-se cai una (ca(ana), equivalendo 
ao moderno ciascuna, * o que confirma aquele étimo, proposto 
por Diez e aprovado por todos os romanistas. 

Ainda hoje, valendo por advérbio, se emprega cada em frases 
elípticas, como a que vou citar, e que, a meu ver, é um tri- 



1 Roteiro da viagem de Vasco da Gama, Lisboa, 1861, p. 37. 

2 Rui de Pina, Crónica db El-rbi Dom Afonso v, i, cap. lx. 

3 Júlio Puyol y Alonso, Una pubbla en bl siglo xui, in c Revue 
Hispanique >, xi, p. 288 : — «erecha llaman en Espana á las eniiendas que los 
honies han de rescibir por los danos que resciben en las guerras» — . \ih. n]. 

•» Versáo toscana do Livro db Marco Paulo Véneto, Milào, 1886^ 
p. 12. 



Apostilas aos Dicionários Pnrtngmises 19o 



vialismo defeituoso: — <Esta fornada representíi 3 carros de loi^a, 
que o oleiro venderá a 12^5000 reis cada> — *. 

Formando cora que locucào adverl)iaK vemos cada nos dois 
passos seguintes, citados nas «Villas* do xohte de Portugal: 

— < Item, Marina de Várzea recebeu Petro Onriguiz por filo 

et deu li ima casa in que pousa cada que y vem « > cani- 

zos cada que os pedirem > — *: isto é, foda a vez que, quando. 

No seu estudo sobre o Livro de Alex.vndre, publicado no 
tomo IV da Romania (1875), Morel-Fatio, cita a frase — *Sal- 
drian de cada cal (des tours) c. mil combatentes > — , e acrescenta: 
— -^Cett^ expression ne convient pas au passage, il faudrait de 
cada una* — . E evidente que o douto hispanista desconhecia a 
esse tempo a locução portuguesa cada qual, correspondente íi 
berciana cada cal, e muito popular: — 

' O ciranda, O ciraiidinha, 
Toca, toca a cirandar; 
Dêem todo.s meia volta, 
Caila «jual ao seu lugar * — . 

Mas não é só popular, é também literária, e Bluteau teve o 
cuidado de a rejistar — «Cada hum, e cada hua, ou cada qual. 
Qui^que.,. Unusquisque * — . No Suplemento aduz, no lugar 
competente, as seguintes locuções: — «Cada qual com seu igual; 
cada qual em seu officio; cada qual sente o seu mal» — e ainda 
outras três, menos características. 

Um adjectivo muito curioso, de construção parassintética, é 
cudaneira, que se aplica no Douro à «árvore que dá fruto todos 
os anos». V. aneíro. 



1 Bocha Peixoto, As Olarias do Prado, t» Portugália, i, p. 267, 
nota y 

«' Portugália, i, p. 7«0 e 783; extraídos de Portuoaliab MoNU- 
MENTA Histórica, Inquisiciones, p. 413, i coL, e p. 314, i col. 



196 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cadafalso 

Este vocábulo é hoje usado quási exclusivamente na acepção 
restrita de « patíbulo >. 

Antes, porém, significava um « estrado alto, armado em praça, 
para actos solenes >. 

Nas ilhas dos Açores designa cadafalso uma casa, destinada 
às festas do Espírito-Santo. Sáo os cadafalsos geralmente situa- 
dos em sítios chamados ramadus, porque se adornam com fron- 
des e ramos. 

Neste sentido vemos o vocábulo empregado no seguinte tre- 
cho: — «explica a camará que cadafalso nos Açores é o pequeno 
edifício, também chamado theatro, onde se armam alguns im- 
périos do Espirito-Santo » — *. 

Veja-se império. 

cadeira 

Além das várias acepções rejistadas nos dicionários para esta 
palavra, vemos no jornal O Economista, de 5 de agosto de 1885, 
que na Africa portuguesa designa uma — «arvore de onde se ex- 
trahe borracha » — . 

cadelo (=cadêlo) 

Esta palavra é definida como «cão pequeno» e procede de 
um deminutivo catellum, por catulus, sendo a forma mascu- 
lina correspondente à feminina cadela = cadela, com a metafonia 
usual em português; cf. canelo e canela. Além deste significado, 
o Novo DiccioNÂKio dá-lhe mais o seguinte, como termo mi- 
nhoto: — «cruzeta de pau, presa ao adelhão e sacudida pela mó 
em movimento» — . Neste sentido parece ter sido empregada na 



O Século, de 8 de julho de 1901. 



Apostila^i aos Dicionários Portugueses 197 



revista Portugália S no seguinte trecho: — «Este [o tabuleiro] 
inclinado sobre o olho da mó, é posto em movimento por um pau- 
sinho circular, o cudelh* — . 

E um dos muitos nomes de animais aplicados a objectos: 
V. em burro. 

cadilho, cadilha 

Como é sabido, cadilhos é termo muito conhecido e há muito 
tempo para designar uma espécie de franja, ou guarnição entran- 
çada e pendente. O femenmo cadilha parece ter significado aná- 
logo àquele com que se define a primeira acepção de cadilhos 
nos dicionários, isto é, — «fios do urdume que não levam trama, 
e formam no final da teia uma como franja» — ^, Na revista 
Portugália ^ lê-se: — «O desenvolvimento dos fios [da urdidura] 
até este tomo do conjuncto (cadilha) de fios tem o nome de 
signal» — . 

Um exemplo antigo do emprego de cadilhos, como signifi- 
cando certa guarnição, pode ver-se em bedem. 



cafajeste, cafazeste 

O Novo DiccioNÁBio rejista a primeira destas formas, defi- 
nindo-a do seguinte modo: — « (bras[ileirismo]) homem de ínfima 
condição; indivíduo sem préstimo» — . No Suplemento, porém, 
acrescenta — « (braslileirismo] esc[olar]) aquelle que não é estu- 
dante e que, em Coimbra, se denomina /w^r/ca » — . Na primeira 
acepção vemo-lo empregado no Bosquejo de uma viagem ao 
iNTBBiOB DA Pabahyba b DE Pebnambuco *: — « Couhcço esse 



» I, p. 387, Moinhos. 

* Dicc. Contemporâneo. 
» i, p. 374. 

* in O SbcuíX), de 17 de junho de 1900. 



198 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

vaqueiro. É um D. Juan dos mens sitios; cafazêste de marca; 
exemplar de anthropologia criminal . . . Ladrão de mulheres > — . 
Por este trecho ficamos sabeudo que o ^ da sílaba tónica é 
fechado. Ignoro absolutamente a orijem do vocábulo, que, apesar 
de brasileiro e desconhecido enteiramente em Portugal, não tem 
aspecto de ser nem abanheenga ou de outro idioma de índios da 
América do sul, nem tampouco oriundo de qualquer das línguas 
africanas, cafriais ou outras. 



cágado 

O extravagante nome que em português se dá a este batrá- 
quio, e que os pudibundos escritores modernos velara, para o 
"disfarçar, com uma inicial grega, Mgculo, não figura em outro 
idioma, nem com esta forma, nem com qualquer que com ela se 
pareça, a não ser em japonês, onde o vocábulo káiuis^u significa, 
segundo Hepburn * — ""P^og (rã), toad (sapo)» — . Ora no norte 
de Portugal o cágado é chamado sapo concho, isto é, «de con- 
cha >. 

A palavra cágado já figura em Gil Vicente, no «Auto das 
Fadas» (sortes): 

Cáijado: Quem tivor este animal 
Nào (í luuito que o leixe, 
Pois não é carne nem peixe. 

Portanto, a não ser mera coincidência como tantas outras, 
foi o nome levado de cá para o Japão, com mais alguns poucos 
vocábulos, e não de lá trazido como outros, tais biombo, qui- 
mão, catana (q. v,), e poucos mais. 

Não sei com que fundamento o coordenador do Livbo da 



1 A JaPAXESE-ExCtLISII and ExOLISH-JaPANESB DlCTIOXAUY. 

Tóquio, 1S!>7: em letra romana. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses ll>0 

Mabixhabia, de Joilo de Lisboa *, no i índice acentua duas 
vezes Cagado (o ilhtíu 1.° e 2.**). O texto traz Caguado, a 
páj. 120, Cagiiado e Cagado a páj. 136. É natural que em 
ambos os passos a leitura seja cágado, a não ser que por di- 
ferenciação o vocábulo haja mudado de sílaba acentuada, o que 
o coordenador deveria advertir, se o sabe com certeza e tem 
maneira de o demonstrar; de outro modo, foi uma temeridade 
pueril empregar ali na penúltima sílaba acentuação, que é a nor- 
mal quando na palavra se não marca outra, para, provavelmente, 
indicai uma leitura errada. 

O dr. Júlio Cornu relaciona c/tgado com uma forma latina 
cacitus, citando em seu abono Isidoro Hispalense *. O passo 
abonatório é: — litahiae, id est ix coexo et paludibus viven- 
tes — «lodosos, isto é, que vivem na lama e nos charcos». As 
transformações que a palavra cacitus sofreu, para chegar à forma 
portuguesa ainda veraácula, hão de ter sido: cacidu: cac'du: 
cag'du: cáguedo: cágado, se a etimolojia é certa, como parece. 

Cáguedu, que, segundo o Novo Diccioxáeio, designa no 
Alentejo — travinca, com que ás vezes se prende o chocalho á 
coUeira» — , é sem dúvida um femenino de cáguedo, por cágado. 
B frequente, como já disse, o uso de nomes de animais aplicados 
a objectos, em atenção à semelhança, verdadeira ou suposta, da 
forma ou de qualquer atributo deles. 

Essa orijem evidente tem o epíteto de pregos de asa de 
masca, por exemplo. V. burro. 



cagairo 

Este termo da Beira-Alta quere dizer «ânus, ou mucosa 
anal». 



« Lisboa, 1903. 

^ Grundriss der romanisgubn' Philolooib, I, p. 74G. 



200 Apostilas aos Dicionários Forttigueses 



cagarra 



Na Ilha da Madeira é sinónimo de pardéla, (q. v.). 



caída 



E o particípio passivo do verbo cair, substantivado no ft- 
menino e hoje quasi desusado, porque se contraiu em queãn, 
como mestre de magistrem, caeiite em quente, acaecer em 
aquecer, no sentido em que antigamente era empregado, de 
«acontecer», e bem assim no de «aquentar» \ acalentar, que 
subsiste em outra significação, e deve de ser castelhanismo, em 
razão da manutenção do l medial. 

Dizemos todavia descaída, recaídu, formas derivadas nas 
quais se não deu a contracção de ai em e. 



cai j eira 

A 

Este vocábulo usado em Arcos-de-Val-de-Vez, apontado 
já no Suplemento ao Novo Diccionário, atribuindo-se-lhe aí 
como étimo provável calijem, foi já explicado perfeitamente por 
J. Leite de Vasconcelos * como procedendo de caliginaria j ca- 
ligo, caliginis. As formas intermédias seriam caligiaria, 
cuijaira, caijeira, 

caira 

Este nome próprio é empregado como apelativo na ilha de 
Sam Miguel, no sentido de «mau homem», como vemos decla- 
rado no jornal O Século, de õ de julho de 1901. 



* Kevista Lusitana, rv, p. 275. 




Apostilas aos Diciannrios Portugueses 



201 



caíque 

Costuma escrever-se esta palavra com h medial, a desunir as 
duas vogais a e /, e náo porque seja nela orgânico, etimolójico. 
O vocábulo é turco, qaiq, conforme Marcelo Devic, no Suple- 
mento ao dicionário francês de Emílio Littré ^; aí vemos defi- 
nida esta palavra do seguinte modo: — «Caíque, petite embar- 
cation en usage dans TArchipel et à Constantinople » — . 

Bluteau náo rejista o vocábulo, e difícil será dizer hoje quando 
éie entrou na língua e por que via, para se tornar vulgaríssimo 
iio Algarve, a nào ser que chegasse lá por intermédio dos mouros 
íos países barbarescos. 

Dozy * define deste modo o vocábulo, que nào inchiui no 
(»"lossário de palavras espanholas e portuguesas derivadas de 
ársi^te ^ o que parece excluir a minha hipótese: — «embarcação 
P^Cf uena, usada no mar Negro. K a palavra turca íãik, a qual 
Passou a muitas outras línguas; veja-se Jal, Glossaire Kautique, 
^^^^ t\ caU, caico, caiq, míqtte. Em Constantinopla é o caíque 
^^^ia embarcação bonita e lijeira, com um ou mais remeiros, e 
^^ito comum; aos particulares náo é permitido guarnecê-la com 
^^18 de cinco remeiros; os ministros do Sultão, e os embaixado- 
^^*5 estranjeiros podem empregar sete remadores» — . 

J. Inácio Roquete no dicionário português-francês *, não sei 
^^xi que fundamento, traduziu caíque, por — <quaíche, petit bâ- 
"Oicnt du Tage, de la cote de Portugal et de la Manche > — , 
^litanto que Littré define quaiche, como sendo — «petite embar- 
^tion des mers du nord» — ^ mandando pronunciar kèche. 



* DlGTIONAIRE ÉTYM0L061QUB DBB MOT8 d'ORIGINB ORIENTALB, 

* OosTBRUNOBN, Haia, 1867, p. 46, em holandês. 

' GlOSBAIRB DBS MOTS BSPAGN0L3 BT P0RTUGAI8 DÉRrSTÉS DB 

^'aiube. Paris, 1869. 

* Paria, 1855. 

^ DlGTlONNAlRB DB LA LANGUB FRANÇAISE, Paris, 1881. 



202 Apostilas aos Duionários Portugueses 



cairo; Cairo 

Este termo, que designa uma substância vejetal tenacíssima, 
de que se fazem cordas e calabres, troussemo-lo nós da índia, 
com o objecto que tem este nome. 

É a fibra da casca do coco, e a esta chamam os malabares 
na sua língua kãyar, do verbo kãyara «estar entretecido». 

Joào de Barros S diz que parece feito de couro, e, na opinião 
dos autores do Glossário de palavras anglo-índias *, a semelhança 
dos deis vocábulos deve ter contribuído para a aceitação do pri- 
meiro. Todos os nossos cronistas da Ásia fazem menção do em- 
prego que desta fibra faziam os índios. 

Nada tem esta palavra que ver com Cairo, cidade no Ejipto 
maometano, a qual em árabe se chama aTí-qaeire (pron. alqafiira, 
<a vitoriosa». 



cairo 





E vocábulo transmontano e significa « dente canino, colmilho > . 
E o latim canária \ canis «cão>, confonne J. Leite de Vas- 
concelos ^ e as foiTnas intermédias hão de ter sido * caneiro, 
cueiro. 

caixa 

Lste termo, designativo de uma moeda asiática, é treqiíeut^ 
nos nossos escritores dos séculos xvi e xvii. Conforme Fernám 
Meudéz Pinto *, valia real e meio: — «duas caixas, que erâo três 
réis da nossa moeda» — . 



* Da Ásia, Década iii, livro iii, cap. 7. 

' Yule & Burnell, A Glossary of An'Glo-Ixdiax words and phra- 
8E8, Lon'lres, 18:^6. 

3 Revista Li'sitana, ii, p. IIG. 

* Peregrinação, cap. cix. 



Apostilas ao6 Dicionários Portugueses 203 



A palavra encontra-se já em sánscrito, com a forma KaRsa, 
mas © natural que os portugueses a recebessem ou directamente 
do támul kãsíi, ou por intermédio do marata ou do concani, como 
se diz no Glossário de Yule & Burnell * (q. v.). 



caixa-d'água 

Em Évora quere dizer ^nuie-íVar/uri», isto é, «depósito de 
água». A expressão é comparável à castelhana arca de ai/au, 
que tem o mesmo sentido. 



cajuri (cajury) 

Arvore da índia Portuguesa: — «a população rural do dis- 
tricto [Damão] usa. . . as aguardentes de flor de maura, . . e as 
de cajury > — -. 



calambá, calambac, calambuco 

O Novo DiccioNÁRio remete a primeira forma para outra, 
calamba, a que portanto dá a preferencia; com pouco fundamento, 
porém, visto que na Peregrinação de Fernám Méndez Pinto a 
palavra está escrita calamhaa ^, representando portanto o malaio 
kaláfnlmq, mas com o acento na última sílaba. 

É duvidoso se calumbicco *, ou calambuque, designava a 



* A Gtx>ssary of Anglo-Indian words and phrasbh, Londres, 
18!k>, sub V, Ca8h. 

* P. X. Eraeidx) Fernándcz, O rbgimbn' do sal, abkary e alfan- 
degas na Índia PoRTUGUBZA,m «Buletim da Sociedade de Geographia de 
Lisboa», 2^.^ s^rie, p. 221. 

^ Cap. XLi. 

* t6, xvui. 



20 i Apostilas aos Dicionários Portugueses 



mesma substância vejetal aromática, e sobre estes dois vocábulos 
pode consultar-se o Vocabulário de Bluteau, onde também se 
rejistou a forma caJumba. 

Garcia da Orta escreveu calambac: — «Chama-se agalugem 
e haud em arábio; e os Guzarates e Decanins lul, que é casi o 
arábio; os Malaios garro, e estes chamara ao muyto fino calam- 
bac, A arvore é como a oliveira, e ás vezes muyto maior; fruito 
nem frol nâo lhe sey» — ^ 

Veja-se sobre esta essência aromática o emdito comentário 
do Conde de Ficalho, a páj. 60-65 da edição dos Colóquios, 
citada em nota. Outro nome do cheiroso pau era aquila^ vo- 
cábulo cuja acentuação é duvidosa, e que sem dúvida proveio, 
como supõe o douto comentador, das formas indicas agar, agir, 
ágil, modificações do sánscrito aguru, — «que os árabes con- 
verteram em agaladjin [AvaLAGiN] («agalugem» de Orta)> — . 
Pela forma arábica da palavra se vê que a acentuação tem de 
ser agalujém, e não, agalàjem. Mas será agalugem erro tipo- 
gráfico por agalagém? 

Pelo contrário, a forma sauscrítica aguru, com o u breve, 
acouselha-nos a acentuar ágiiila, o que explica a confusão que 
se deu entre este nome e a palavra latina aquila, « águia >, e 
motivou a extravagante denominação inglesa eagle-wood. 



calão 



O Diccioxario Contemporâneo, conforme o seu costume, 
atribui a esta palavra um étimo extravagante: diz-nos que pro^ 
vem de cala ~\- ao. Que será este cala, e mais este òo é o que* 
se não fica sabendo, e cada um suporá o que mais lhe agradar ; 
mas pode conjecturar-se que, visto calar querer dizer — «nà^ 
falar» — , e — «ào, suficso subst. derivado de verbos» — denota^ 



* Colóquios dos simples e das drogas da Índia, ii, Lisboa, LSO^» 
]). 58. 



Apostilas aos Dicionários Portuffueses 205 



acção, seguindo o mesmo dicionário, calão deve significar «a 
acção de não falar», convém saber, «de estar calado». Bonita 
etimolojia! 

Na realidade, calão é o calo espanhol, que designa «o ci- 
gano » (plural cales, femenino calH, pi. callías) e o dialecto deles 
na sua própria linguajem. 

O calo concorreu bastante para a formação da jíria portu- 
guesa e castelhana. Sobre este objecto vejam-se as seguintes 
obras: F. A. Coelho, Os ciganos de Poetugal, e Rafael Sa- 
lillas, El delincuentk espaSol, El lexguajr ^ 

Outra acepção de calão, que deve ser vocábulo diferente, 
vemo-la no seguinte trecho: — 'As mangas partem da boca do 
saco [rede], em posições oppostas. . . diminuindo. . . na ponta. . . 
ou calão *. 

calceta, calcetar, calceteiro 

O Novo DiccioNÁRio define calreta como sendo — «grilheta, 
argola com que se prendia a perna do condemnado> — , e tam- 
bém — «o condemnado a trabalhos forçados» — . 

O vocábulo c^keta parece ter orijem castelhana, sendo pro- 
vavelmente o termo de germania, ou jíria de malfeitores espa- 
^<5Í8, culza, «grilheta», corrente com que se prendem os en- 
^cerados; na mesma jíria cnlcetero é o nome que os presidiários 
davam a quem prendia essas correntes aos presos '^. 

Os galeotes, a que me referi no artigo braga, eram também 

denominados simplesmente grilhetas, por alusão à cadeia que os 

acorrentava. Em malaio, pelo mesmo motivo, chamam-se óra^n- 

■"**«nfe, «gente (de) grilheta», e esta denominação designa, por 



^ Lisboa, 1892; Madrid, 1896. 

* Femández Tomás, A pbsc a bm Buarcos, t» Portuga lia, i, p.l 51. 
' Raíael Salillas, El delinquente bspanol, El Lbnguaje, Ma- 
H 189C, p. 276. 



20t> Apostilas aos Dicionários Portugueses 

amplificação de sentido, nesta língua um qualquer «preso em 
cadeia pública». 

Era meados do século passado os grilhetas, ou cal^t^^, 
acorrentados a dois e dois por uma cadeia de ferro (grilheta), de 
metro e meio de comprimento, presa à perna por uma argola 
(calceta ou braga), eram ocupados em ranchos no calçamento 
das ruas, e foram esses ranchos que, por desenho e direcção 
superior do general Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado, gover- 
nador do Castelo de Sam Jorje, executaram o formoso mosaico 
da Praça de Dom Pedro, ou Kossio de Lisboa; foram eles os 
calceteiros, e tanto este nome, como o verbo calcetar e seus 
derivados, calcetamento, calcetaria daí procedem. 

Muitos desses indivíduos, cumprida que foi a pena, con- 
tinuaram a exercer essa profissão, em que tam peritos se mos- 
traram. 

A tradição perpetuou-se, aperfeiçoando-se, e hoje em dia esse 
ofício é tam honrado e tam honroso como qualquer outro ma- 
nual, e tem-se difundido em muitas outras cidades e vilas do 
reino. 

* 

caldeiro, caldeirada, caldeireiro 

Eis aqui abonações destes três vocábulos, em sentidos espe- 
ciais : 

— «Para que a duração das redes seja maior, usam os pes- 
cadores mergulhal-as n'uma infusão de casca de salgueiro, para 
o que possuem . . . grandes vasos de cobre (caldeiros), onde as 
redes são mettidas» — K 

— «Da outra parte [da pesca] que pertence aos pescado- 
res que formam a companha, tira-se um terço para a cal- 
deirada, E o peixe reservado para as refeições dos pescado- 
res» — *. 



' Portugália, A pesca em Buarcos, i, p. 153. 
2 ih, p. 154. 




Apostilas CMS Dicionários Portugueses 207 



— «acabar cora o uso das senhas aos. caldeireiros (cozedores 
de cortiça) > — ^ 

caleiro 

Em Trás-08-Montes é a «goteira do telhado». 



calha 



— «Essa corrediça asseuta sobre uma viga, mais forte e mais 
larga, que se chama dratja ou calhai — ^. 



calhau 

O étimo mais provável, tanto da palavra portuguesa como 
da francesa caillou, ambas as quais tem aspecto de derivados 
por meio dos suficsos -au e -ou (^u j -òic j -olj, é um primitivo 
eaVio, cail \ calculum, «pedrinha», mediante a evolução se- 
guinte: calclum: caldo: calho, para o português, e calcle: 
cail, para o francês. 



cali (Marrom eu) 

Africa Oriental Portuguesa: — « Os nomes dos principaes objec- 
tos de uso domestico sâo cali (panela d'agua) . . . » — ^ Nào 
posso deixar de citar a coincidência de kuáli em malaio tam- 
bém ser o nome que dão à panela onde se faz o caldo e sopas. 



^ O Economista, de 13 de setembro de 1802. 

* O Sbculo, de 2 de outubro de 1901. 

* Jornal das Colónias, de 4 de julho de 1903. 



20^ Ajyjstilas aos Dicionâritts Pártugue$e$ 



calo 



Xo Alentejo este termo significa uma extensão de terreno 
arjiloso, encravado entre outras formações. E evidente a orijem 
do termo: destaca-se, por diferença de aspecto, esse retalho entre 
os terrenos circunjacentes, como um calo realça na pele. Compa- 
ração análoga, mas cora relação a dureza, levou a aplicar-ííe a 
mesma denominação à «gi'ossura de terra, entremeada e presa 
pelas raízes das varas, que se forma em torno das videiras que 
se cortaram na poda», sentido este já consignado no Novo Dic- 
cioNÁaio. 

calombo; carimbo; carcunda 

Cahmího no Minho significa « abóbora >. O Novo Diccioxá- 
Bio diz-nos que como termo brasileiro quere dizer — «tumor, in- 
chaço duro em qualquer parte do corpo > — , e atribui-lhe em 
dúvida orijem africana. O aspecto é na realidade cafrial. mas 
o vocábulo não parece quiinl)undo, pois nesta língua cnhmho 
<|uere dizer -mulher infecunda», conforme Joaquim da Mata '. 
Xão st-ria porém de estranhar ([ue o fosse, pois esta e outras 
línguas bantas ministraram e ainda ministram copioso vocabulá- 
rio à nossa. 

O ]u-eticso ca é demiiiutivo em quimbundo, e a palaviu 
muito usual carimbo ó sim]desmente o deminutivo de quirímhu 
«'marca» *, como carcunda é o quimbundo cariciimla, «costi- 
nhas^, *o das costas-, e significa < quem tem as costas defei- 
tuosas > e o pr('q)rio defeito. 



1 Ensaio do Diccionauio KiMBrNuu-PORTuauKZ. Lisboa, lS!*->. 
^ ih. sub roc. kirimbu. 



Apostilaa aos Dicionários Portugueses 209 



calote 

Este vocábulo, no sentido de «dívida não paga», parece ser 
o francês eulotte, como termo de jogo do dominó, o qual designa 
« as pedras com que cada parceiro fica na mão, por as não poder 
colocar». 

Também se diz naquele sentido caurim, (q. v.). 



caluete 

O Novo DicciONÁBio rejista como inédito este vocábulo, que 
escreve calvete, o que é erro manifesto, pois o vemos escrito nos 
nossos cronistas da Ásia também caloete, e é sabido que do o se 
serviam dantes, em caso de dúvida, quando o u, que na forma, 
quer escrita, quer impressa, se confundia com o v, se poderia lêr 
como hoje lemos este. É sabido também que o v era o desenho 
inicial, u o medial e final da palavra, tendo ambos promíscua- 
mente os dois valores, e sendo o u para o da vogal u a meúdo 
substituído por o, se ficava no meio da palavra, pelo expediente 
gráfico hu, principalmente se no começo dela: huivar, por exem- 
plo, assim diferençado de viver *, 

O termo é m2ildbsir^kaluekki, e designava o instrumento de 
um suplício atroz, descrito por Fernám Méndez Pinto, nos se- 
guintes termos: — «porém o moço foi espetado vivo em um ca- 
luete de arrezoada grossura, que lhe meterão pelo sesso, e lhe 
sahio pelo toutiço» — *. 

Para se ver quanto os nossos escritores eram escrupulosos 
em representar, conforme a ortografia do seu tempo, os nomes e 
Tocábulos peregrinos que intercalavam nas suas relações e des- 



* V., do autor, Ortografia Nacional, Lisboa, 1904, p. 61, 9í^ lOS, 
215 e 218. 

* PBRfiORINAÇlO, cap. CLXXVII. 
14 



210 ApoêtUoê aoê DieionárioB Portuguetes 



crições, cumpre advertir qae o vocábulo malabar, que na letra 
da terra se escreve tatuekki\ é pronunciado káliiètti ^ 

Blttteau ortografou também erroneamente càlvete, pelo quê se 
fica sabendo que antes do Novo Diccionárío já a palavra havia 
sido rejistada. 

Repito que a escrita caloefe tira todas as dúvidas, mesmo 
que não soubéssemos i^lo seu étimo, como sabemos, que ali o l 
não tinha o valor de r. mas de u vosral. 



camacheiro 

E termo usado no Funchal, com a significação de «vento 
leste». A orijem desta denominação é evidente. Chama-se-lhe 
assim porque esse vento sopra ali do lado da freguesia de Ca- 
macho, capela de Santa Cruz, fora da cidade. Cf. (vento) pai- 
nielâo j Palmela, «o sueste >, no Tejo. 



oama-queute 

— «Dá-se em horticultura o nome de cama quente a todo 
o amontoado de adubo constituído por folhas seccas ou detrictos 
vários próprios para entnireni em fermentação e desenvolverem 
calor > — -. 

câmara, camarim, camarinha, camarote, 
helicho, caramanchão 

O termo camarim, derivaJo do italiano camerino, significa 
nos teatros portugueses, como nos de Itália, o quarto em que os 



' Yule Ik Burntll. A (ílossary of AN(;LO-lNniAN words. Lon-ires, 
* Gazeta das Aldeias, <1o 20 do aj^osto «Iv 1905. 




Apostilas aos Dicimiáiios Portugueses 211 

actores se vestem e preparam para a cena. É já antigo na nossa 
língua, pois vem mencionado neste sentido no Aviso de 17 de 
julho de 1751 *, relativo ao teatro da Ópera. 

Outro tanto acontece a camarote, como se vê no mesmo 
Aviso: — «os camarotes a que Sua Magestade não deu certeza, 
destribuirá V. Ex.*> — . 

O italiano deu ao português grande número de termos de 
arte. (V. poltrona). 

Camarote, como termo de bordo, no mesmo sentido que beli- 
che (de orijem oriental, provavelmente malaia, biliq, « alcova >), é 
natural que italiano seja também, mas já foi usado na PEREaBi- 



NAÇÃO (cap. ccxiv). E possível que beliche represente o malaio 
biliq kechil, «alcova pequena», com deslocação do acento do 
adjectivo para o substantivo, e supressão do q, quási imperceptí- 
vel, e da teiminaçào il. Em italiano camarofe-de-bordo diz-se 
eamerino. 

Camarim é excelente tradução do francês boicdoir, e nesta 
acepção foi muito usado, significando « quarto reservado, secreto > ; 
e é como tal que o termo se aplica ao andor coberto em que, 
por exemplo, a imajem do Senhor dos Passos da Graça vai cada 
ano processionalmente para a igreja de Sam lioque, em Lisboa, 
na segunda sexta-feira da quaresma. 

Camarinha está empregado num sentido especial no seguinte 
passo do Bosquejo de uma viajem no interiob da Parahyba 
E DE Pernambuco *: — «no interior da nossa «camarinha», co- 
berta de telha vã, como é geral no norte do Brazil» — . 

Com efeito, no Suplemento ao Novo Diccionábio vemos este 
vocábulo definido do modo seguinte: — «(bras. do N.) quarto de 
dormir; pequena prateleira no canto da sala» — . 

Na Beira-Baixa camarinha é o «quarto de dormir». 

Camarinha é também o nome de uma baga, fruto de uma 
planta do mato, a que no Alentejo se chama eopo-d^ágíia. 



* COLLBCÇiO DB LEOI8LAÇÃO PORTUGUBZA, 1750-1762, p. 338. 

* in o Século, de 8 de junho de 1 900. 



212 Apostilas cios Dicionários Portugueses 

Oatra palavra composta, não derivada, de câmara é cara- 
manchào, de camaranchào, com metátese das sílabas médias, 
formado de câmara ancha, com elisão do a final de câmara, e 
mudança de género gramatical: cf. mulherão, substantivo mas- 
culino, aumentativo do femenino mulher, casão, masc, de casa^ 
femenino. 

A palavra câmara, que deu avultado número de derivados 
em todas as línguas românicas, é o latim camèra, camâra, do 

grego KAMÁBA. 



camba, cambo, cambai, cambeira, cambeirada, cambada, 

cambulhada, cambulhão 

O Novo DiccioNÁBio, no Suplemento, incluiu a palavra cam- 
beiras, com a seguinte definição: — «(t. da Bairrada), a farinha 
mais fiua que, nos moinhos de água, se evola [P] da mó, poisando 
nas paredes e objectos circunjacentes » — . 

Acrescenta um derivado cambeirada, como também perten- 
cente ao vocabulário daquela rejiào, definindo-o — «arremesso 
de cambeiras ou enfarinhadela com cambeiras, nos folguedos do 
entrudo;. . . pequena porção de farinha» — . 

íi Porque se chama, porém, cambeira, ou cambeiras, a essii 
farinha finíssima? 

No corpo do dicionário incluíu-se o termo cambai, assim 
definido: — < resguardo de pano, madeira ou farinha, para que se 
não espalhe a farinha que se vai moendo» — . 

Bluteau dissera: — «Cambais chamào os Moleiros à farinha 
(segundo imajina quem mo disse) que põem em roda da pedra 
que moe, como reparo da que se está moendo; ou são umas ta- 
boinhas, que pela mesma sorte se põem» — *. 

A palavra deve provir de camba, a que o mesmo dicionário 



Vocabulário portugubz b latino, Suplemento 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 218 

dá as segaintes definições: — «peça curva das rodas dos carros, 
pina; nesga; (ant.) moinho de mão; pequena cambota» — . 

Camba parece derivar-se do latira campe, termo grego que 
significava «curvatura». 

O Elucidabio de Santa Kosa de Viterbo diz-nos que antiga- 
mente camba era: — «moinho pequeno, molinheira, moinho de 
mão» — e cambai — «a farinha, que faz lábio na mó debaixo» — . 

Na monografia Momuos * vemos o seguinte trecho em que 
se descreve o que sâo cambeiras: — «por sobre estes [os arre- 
dores, q. vj assenta. . . um anteparo de madeira, a que dão o 
nome de cambeiras* — . 

Creio ficarem assim bem estremadas, com as citadas defini- 
ções e com este trecho, várias acepções das palavras camba, 
cambai, cambetra, cambeirada. De camba e cambota há cla- 
ríssimas definições no Diccionabio Contempohaneo. 

Com relação a cambada, — «enfiada de coisas penduradas no 
mesmo gancho, cordel, etc^^^como declara este último dicionário, 
parece ser um derivado colectivo de camba, cambo, porque tais 
objectos, fazendo peso, obrigam o cordel, vara, etc, a curvar-se; 
oa de cambo, que significa «enfiada, vara (curva, geralmente de 
salgueiro)» - Cambada, «súcia», tem a mesma orijem. 

Outros derivados são cambulhada, cambulhão, que pressu- 
põem uma forma cambulho, ou cambulha, da mesma orijem. 



cambola 

No «Jornal das Colónias», de 27 de maio de 1905 * encon- 
trasse este termo, próprio da África Oriental Portuguesa, perten- 
cente ao vocabulário das línguas bantas, e que assim é ali de- 
finido— «corda feita com fibras vejetais». 



* in Portagalia, i, p. 386. 

* Campanha de Barué em 1902, relatório oficial. 



214 Apoêtilas aoê Dicumárioê Fbrtmçuesea 



cambolar, cambolaçâo, cambolador 

O Novo DiccioxÁBio traz o segando destes vocábulos, com 
a significação de — «engajamento (?) de comitivas de carregadores 
do interior da África» — . 

O étimo de cambulhada, que em dúvida lhe dá, é inadmis- 
sível. Tanto o segundo como o terceiro vocábulo pressupõem um 
verbo cambolar, que não é mais que o aportuguesamento do 
verbo quimbundo ctícombola, «negociar, traficar», de que se de- 
rivou o substantivo cambolador, correspondente ao quimbundo 
ritombo *, «negociante». 

caminheira, caminhão 

O Novo DiocioNÂRio rejista como provincialismo o vocábulo 
caminhão, no sentido de «carro do quatro rodas». 

Outro substantivo, do mesmo modo derivado de caminho, 
é nome aplicado a uma espécie de locomotiva, como se vê do 
trecho seguinte: — «Ha dias effectuou-se em Inglaterra a expe 
riencia d'uma caminheira para o Soldào [aliás, Sudào-. . . Com 
um carro atrelado levando dentro mais d'uma tonelada de peso, 
a caminheira pegou-se diversas vezes» — -; — «pessoal e ma- 
terial relativos ás caminheiras e outras machinas a vapor»—'. 

camisa-de-onze-varas ; camisão 

Como já foi explicado na Revista Lusitana *, esta estranha 
denominação queria dizer — «a alva dos padecentes» — . 



1 Héli Chatolain, Gramm ática elementar do Kimbuxdu, Gene- 
bra, 188S-18^9, p. 121. — D. Cordeiro da Mata, Ensaio de diccioxârio 
Kimbi;ndu-portu(>t'ez, Lisboa, 1893. 

' Jornal das Colónias, de 21 de outubro de 1905. 

^ DiARio DE Noticias, de 30 de janeiro de 1906. 

* vol. VI, p. 129. 



Apostilas aos Dicionários Portugtíeses 215 



Camisão, na ilha de Sam Miguel, significa « disfarçado, hipó- 
crita, sonso». 

Notarei aqui, a propósito de alva, que este vocábulo não de- 
^gnava só a — « veste de padecentes nos antigos autos de fé > — 
como diz o Suplemento ao Novo Diccionábio, mas principal- 
mente a camisa branca, que levava vestida « o padecente que ia a 
enforcar, como ainda a vestiram os últimos que em Lisboa pade- 
ceram essa pena, Matos Lobo e Diogo Alves, antes de meados 
do século passado». 

camocho 

Termo de calão que quere dizer «tostão». 



campa, campa, campana, campainha, campainheiro 

O primeiro destes vocábulos tem duas acepções, a primeira, 
«(laje que cobre a) sepultura», não é fácil de subordinar a um 
étimo. 

Na segunda acepção, é um primitivo suposto, formado pelo 
qne se considerou derivado, campa j campãa \ campana, cam- 
pana, ainda usado no concelho de Pinhel, e que já em latim 
significava «sino» *; como venta, foi induzido de venta \ ven- 
fana, e aço { aceiro, que era o nome do metal, como actual- 
mente o é em castelhano acero, Supôs-se, em vista da termina- 
ção, que a palavra estava na mesma relação que ferreiro com 
ferro. Também se disse azeiro, e Alexandre Herculano empregou 
azeirado, no sentido em que usamos o castelhanismo acerado ^. 

Campanus em latim é um adjectivo, empregado por exem- 
plo em aes Gampanum, e em (uasa) Campana. 



* V. Wolflin, in Jàhrbsbbright fúr dib Fortschrittb der Ro- 

MASnSCHBM PhILOLOOIB, VI, I, p. 126. 

* — «A seta de um cpigramma azeirado» — . O Bobo, u. 



-■r I 



*2lf> Ap^tiloi aoê Dicionárioê Fortugudes 



Um derivado de campainha é campainheiro, que no conce- 
lho de Vlla-Xova-de-Oarém. e provavelmente em todo o distrito 
de Santarém, desisna o vendedor de campainhas e chocalhos 
para gatio. na feira, e qne anuncia a fazenda tocando alternada- 
mente duas campainhas que empunha, uma em cada mão. 



campido: campo, campina, campinação 

E um particípio passivo substantivado de campir — « fazer a 
perspectiva do horiz«>nte em um quadro» — . como define o Xôvo 
OiccioNÀKio. J. Gomes Monteiro, na Cabta acerca da Ilha 
DOS Amores *. empregou aquele substantivo explicando-o: — a 
confusa distribuição dos elementos que entram no quadro, a falta 
dos oauipidos, como lhe chama Philippe Nunes, isto é os loDgeSt 
os oeos, os horis<^ntes> — . 

O verbo campir é de orijera italiana, campire, como muitíssi- 
mos termos de arte. (V. em poltrona}. 

Ciimp*». além de muitas outras acepções, que dos dicionários 
ot>nsiam. tom uma muito especial em português, a de < espaço 
oiule po»lo caber alL^uma cousa, ou alguém: eis um exemplo:— 
• custando a acreditar como alli sala da audiência do tribunal 
em Vila-Franca^ possa viver [^icj umas dezenas de pessoas, no 
espaç»' de algumas boi as, sem ar. sem campo, entre bancos e 
estrados » — -. 

De cawpo se deriva campina, e deste talvez ura verbo cam- 
pinar, que <lou orijem ao substantivo campinação, que vemos 
empreírado por M. Ferreira Ribeiro ^. — <As polainas de laços 
são as melhores e mais úteis nos trabalhos de campinação, 
passajrem de tiorestas. etc. » — . 



í P^rto. 1 S4r», p. (jO. 

■^ ó .<EcrLO, .1.* 3 «lo maio «le liXX). 

•^ Keííras e preceitos de hygiexe colonial, p. 90. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 217 



cana-verde; caua, caninha, canicinho 

O Novo DiccioNÁBio inseriu este termo composto, dando- 
-Ihe a significação restrita de — «caução popular do Minho» — , 
acepção em que toda a gente o conhece. Todavia, no seguinte 
excerto a locução tem, sem dúvida, outro significado, que talvez 
possa aclarar o nome que puseram à cantiga minhota: — «ainda 
haverá os vinhos, ou canna-verde, produzidos' por vinhas doen- 
tes» — V 

Caiia, por «aguardente de cana de açúcar», vemo-lo empre- 
gado no seguinte passo: — «Dê-nos canna» — *. 

Caninha, como designando a cana-doce, ou cana-de-açúcar, 
foi assim definida no jornal O íIconomista, de 3 de maio de 1891: 
— «Constou que o snr. Brandy mandara vir de Moradnagar, 
tndia, sementes de cana «Alapoor Jowart» que pertence a uma 
casta inteiramente nova e produz assucar e aguardente. Diz a 
noticia que resiste muito á seca e pode por isso ser plantada em 
terrenos onde haja falta d'agua. Não é da familia Sarghos, a que 
chamam caninha. Forma soqueira e dá semente» — . 

O deminutivo canicinho, na ilha de Sam Miguel, quere dizer 
«motejo», como o vemos muito plausívelmente explicado no jornal 
O Século, de 5 de julho de 1901: — Estar com o canicinho 
n'agaa, estar a brincar, a gracejar. Pela forma açoriana se vê 
que a nossa locução «estar com a carinha n'água», que realmente 
não faz sentido, é corruptela da seguinte: «Estar com a caninha 
n'ágaa», de fácil comprehensão » — . 

Estes modos de dizer triviais, que se empregam tendo-se em 
yista o teor da frase enteira, e não o valor dos seus elementos, 
são muito sujeitos a ser deturpados, substituindo-se qualquer 
desses elementos por outro, cujo valor fonético seja quási equi- 



* O Shculo, de 5 de outubro de 1902. 

* BOSQUKJO DB UMA VIAGEM NO INTERIOR DA PaRAHYBA B DE 

Pernambuco, in <0 Século», de 17 de junho de 1900. 



21 S Ap^ilof aoê DicUmánoê FarimgweK» 



Talente: é o que aconteceu a outro anexim, <nâo se pescam tru- 
tas a bragas eniutas», onde bragas é geralmente substituído 
por barbas. 

canado 

Na Beira-Baixa tem este nome a «armação de canas ou ra- 
mos* em tomo do carro, para conter o estrume > *. 
É um derivado — evidente de cana. 

canajeira 

E um termo que designa nas marinhas imia espécie de pá, que 
veio tigurada no jornal O Seccxo, de 10 de janeiro de 1901. 

canastro 

Esta palavra, formação masculina correspondente à femenina 
canalha, desiirna em íeral o arcabouço, a armação, o esqueleto, 
e nestes signiíioados traduz perfeitamente o earcasse francês, o 
qual só é português, uo uso comum, com a forma carcassa, talvez 
melhor carca':a. uo sentido de * cousa, pessoa velhíssima >. 

Em seutido especial desigua uo Minho a palavra canastro o 
mesmo que e^pnjueiro ou canirn, isto é, < um celeiro provisório, 
o qual consiste em uma oonstrufção levantada sobre estacas ou 
pegões de pedra, e em que se arrecadam espigas e maçarocas, 
ficando a salvo da humidade e dos animafs daninhos >. 

cáuave, cáneve, canaveira 

Estas duas formas, a segunda das quais está para a primeira 
como cámera para ccmuira, são os lejítimos derivados do substan- 



* Infonna<;;lo du editor, natural de Almeida. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 219 



ti70 latino femenino cannabe[m],e foram ao depois substituídos 
pela forma castelhana cânhamo (cánamo), procedente de outra 
forma latina neutra cannabum, com assimilação parcial do 
i ao nn. 

Do adjectivo cannabaceum * provém o derivado canha- 
maço, também acastelhanado, popularmente modificado em ca- 
lhamaço, por dissimilação da nasal inicial da 3.* sílaba: nh 
passou a Ih, isto é, a nasal palatal à líquida palatal, por dissi- 
milação regressiva da nasal labial m. 

O Novo DiccioNÁBio define canaveira por estas palavras: 
— <(ant.) logar onde cresce o cânave? canavial? Cf. Sousa, 
Anu. de D. Joào iii* — . 



canavieira 
Na Ilha da Madeira dá-se este nome ao carro de roca, 

candeia, candeeiro, candil (1); candil (2) 

Hoje, na linguajem comum significa o primeiro vocábulo uma 
lâmpada pequena de folha, com um gancho para se dependurar; 
e candeeiro toda e qualquer lâmpada, que em geral não é de 
suspensão, mas que também pode estar suspensa. Antigamente 
não era assim. 

Candeia designava o que actualmente chamamos vela, e can- 
deeiro o «fabricante de velas, o cirieiro», como hoje dizemos. 
Isto se vê claramente dos seguintes trechos de um artigo publi- 
cado por Sousa Viterbo na revista Portugália [i, p. 366-368], 
analisando uma carta réjia de Dom Afonso v: — «e entre as 
[candeias] que vinham de fora eram especialmente reputadas as 
eandeas de rezar de Aragão — que os candeeiros moradores na 
dita vila de Santarém > — . 



* J. Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, ii, p. 3L 



220 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Ao fabricante de candeeiros de metal chamou-se ao depois 
candeeireiro. Sousa Viterbo * adverte haver diferença entre canr 
deeiro, — «o official que faz c ande as de cera, a que hoje cha- 
mamos 7'olo* — e cerieiro — «que fazia velas, tochas, e bran- 
dões» — . Aliás, cirieiro \ círio. 

Candeia, no sentido de «vela>, foi empregado por Damião 
de Góis: — «lhe pedirão algumas mercês, as cartas das quaes 
assinou, tendo na mâo ezquerda a candea, e na outra a pena 
com que assinava» — *. 

Ainda muito depois escreveu Cardim: — «pedindo que á hora 
da morte os ajudem metendo-lhes a candeia na mão» — «fui 
benzer as candeias á igreja de Homac, convidando os por- 
tugueses para a festa» — ^. Ainda hoje se diz A Senhora das 
Candeias, 

Outro trecho, que dissipa todas as dúvidas, é o seguinte: — 
« O curioso andor das candeias foi salvo . . . Este andor era 
conduzido na procissão das marafonas ou dos pàes bentos . . . 
O andor ia adornado de vellas de cera, que perfaziam o pezo 
do rolo com que se devia cercar a muralha da cidade [de Gui- 
marães] » — *. 

Candil, de orijem imediata arábica qaNDiL, mas remota do 
grego KANTALA (?) ^ siguifica um candeeiro-de-mão. O Novo Dic- 
ciONÁRio, além desta acepção conhecida, aduz outra: — «(pesc[a]) 
phosphorecência das águas» — . 

Como, porém, não está abonada, creio ser informação errada, 
e que o vocábulo candil, está por candeio, «luzeiro que se usa 
na caça ou na pesca, para atrair a presa». 



1 Elucidário dos termos. . . que em Portugal antiguambntb 
SB USARÃO, Lisboa, 1798. 

^ Chronica de El-rbi Dom Emmanubl, cap. ix. 

'- Batalhas da Companhia de Jesus na província do Japão, 
Lisboa, 1894, p. 23 e 162. 

i O Século, de 28 de fevereiro de 1902. 

•' Dozy & Engeltnann, Glossairb dbs mots espagnols et port. 

DÊRlVÉS DE L'aRABB. 



Apostilas aos Dicionários Portugíieses 221 



Quanto a outras acepções de candtl, as primeiras que se dão 
no mesmo dicionário; — «medida de capacidade, na índia > — , 
ce antiga moeda asiática» — são vocábulo distinto deste; deveria 
ali ser subordinado a inscrição separada, conforme a economia 
adoptada nele. Qualquer dessas acepções pertence ao vocábulo 
malabar kandi, que é o marata K'aND!, unidade de peso de 
250 kilos próssimamente *. A forma portuguesa candil foi erra- 
damente induzida do plural eayidis: cf. javali, javalis, com 
funil, funi^, 

caneca, caneco 

É um par de nomes, um masculino e outro femenino, como 
há tantos na nossa língua: caneca é um vaso pequeno de louça, 
cilíndrico, com maior altura que diâmetro, e guarnecido de asa; 
caneco é uma espécie de barril de madeira, de forma cónica, e 
aberto por cima, no que no Norte se diferença do barril propria- 
mente dito, que geralmente tem dois tampos. 

Todavia os canecos de madeira para água, no Porto, teera 
dois tampos, mas são semelhantemente cónicos, e não com a 
forma de dois cones unidos pelas bases, como os dos aguadeiros 
de Lisboa, e os que servem a transportar vinho, aguardente, vi- 
nagre, etc. 

canga, cangalhas, cangalho, cangueiro 

Além de indicar uma espécie de jugo para os bois, usado no 
sul do reino, designou, por analojia de forma ou de aplicação, a 
tábua que serve de suplício na China. No curioso livro Bata- 
liHAS DA Companhia de Jesus na província do Japão, do 
Padre António Francisco Cardim -, vem mencionado o dito tor- 



* Yule & Burnell, A Glossary op Anglo-Indian words, Londres, 
1886, sub V. Candy. 

« Lisboa, 1894, p. 85; v. também a p. 185, 199, 217. 



222 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



mento por este nome: — «lhe tinha lançado ao pescoço uma 
canga, com dois pesados paus, a modo de escada. 

Desta palavra se derivaram, segundo parece, cangalho, e 
cangalhas, armação geminada que se põe no dorso das cavalga- 
duras, para transporte de cestos, canastras, barris, etc, e que 
pode ser de ferro, ou de madeira: — «colocam-lhe por sobre a 
albarda [do burro dos aguadeiros] as cangalhas, nome que aqui 
[Algarve] se dá a um objecto feito mais vezes de madeira que 
de ferro» — ^ 

Exemplo de cangalho, na acepção primitiva de — « cada um 
dos dois paus que ajustam e seguram a carga ao pescoço dos 
bois> — , como define o Dicc. Contempobaneo, é o seguinte:— 
«tinha ido próximo de um ribeiro an*ancar um pedaço de ma- 
deira, para d'ahi fazer um cangalho» — *. 

Cangalho, como é sabido, significa também um objecto va- 
lho, inútil, e desta acepção proveio o verbo escangalliar, «de^' 
manchar, destruir». 

A orijem do vocábulo canga é o verbo cangar j cort- 
iugare ^. 

O substantivo cangueiro vem já inscrito no Novo Dicciox-w- 
Kio numa acepção especial, «barco chato, usado no Tejo>, atr^ 
buindo-se-lhe por orijem a palavra canga. No mesmo dicionári 
está rejistada outra acepção, como própria do Brasil, — «pregue 
coso, negligente» — . Nos meus apontamentos, sem abouaçã 
porém, j)orque levou esta sumiço, encontro cangiieiro como bai—- 
queiro de certa embarcação, que nunca abre caminho, desvianr^ 
do-se, a outros barcos mais pequenos, evitando unicamente c^ 
que são maiores, para não çoçobrar. 



1 Portuj^'aliii, I, p. 38-'). 

- O Economista, (k- 22 de outubro de 1802. 

3 J. Leite de Viisconcelos, in Kbvista Luhitana, ii, p. 34. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



223 



\ 



cangaiTã 

E natural que seja este vocábulo, usado na África Oriental 
Portuguesa, um aumentativo de canga, (cf. bocarra \ boca), e 
nào, termo indíjena: — «transportam o ferido em combate, na mn- 
garra (padiola de ramos) > — ^ 



cangosta: v. congosta 



cânhamo: v. cánave 



canho, canha, canhona 



k 



S 



No Minho caiihos são «sobejos de comida». 

Para os outros significados de canho, e seus derivados, veja-se 
o Novo DiccioxÁBio e o seu Suplemento. 

Comparável a canho no sentido indicado é o termo alente- 
jano canhas, rejistado no dito dicionário, com a significação de 
~~"* migas que, depois de feitas, se comem com leite» — , acep- 
ção que confirma o étimo caneus, cariea, caneum, adjectivo 
derivado de canis, «cão», provavelmente porque tais migas se 
dariam a cães, para os desmamar, pois vemos no mesmo dicio- 
iiârio que no Douro canhol significa cão pequeno, caneólum. 
O vocábulo trasmontano canhona, «ovelha», é naturalmente 
^da um derivado do mesmo adjectivo latino, no parecer de 
J- Leite de Vasconcelos, talvez por ser mais fraca, comparada 
^ carneiro *. 



* Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1902, i» «Jornal das 
Coloniaa», de 19 de agosto de 1905. 
^ Revista Lusitana, ii, p. IIG. 



224 Apostilas ctos Dicionários Portugueses 



canboDgo 

Termo da África Oriental Portuguesa: — «Os canhongos, e o 
feiticeiro usam raio de gtterra [q. vj* — ^ 

canipa 

É termo de Timor — « O régulo bom é como a canipa doce » 
[Nota]: «mistura de álcool e melaço» — *. 

canja 

Este termo indiano, que em todo o Portugal se difundiu para 
designar o caldo de arroz, principalmente feito com galinha e 
presunto, mas que também se emprega quando outra carne se 
utiliza, vem no Suplemento ao Novo Dicoionábio com o seu 
verdadeiro étimo apontado; mas esqueceu notar que à segunda 
acepção que ao vocábulo é dada no corpo do dicionário — «em- 
barcação do Nilo, de quilha recurva» — não cabe a indicação — 
«T[ermo] as[iático]» — , pois nada tem que ver com a palavra 
concani kangi procedente do tamul kánxi, «cousa fervida, co- 
zida em água», só aplicável ao caldo indicado, para o qual os 
franceses empregam a forma range, tirada do português, e os 
ingleses congee, que directamente trousserain da índia. 

O Padre Coíurdoux parece ter sido quem primeiro divulgou 
em França o termo, que definiu: — «du Canje chaud, c'est-à-dire 
de Teau dans laquelle on ait fait cuire le riz» — ^. 



' Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1í)02, in «Jornal 
das Colónias», de 10 de aj^osto de líM)->. 

2 J. S. Pereira Jardim, Notas ethxographicas sobre os povos 
DB Timor, in Portugália, i, \). 35G. 

•^ LeTTUBS ÉDIFIANTBS ET CrRIBUSES ÉCRITES DES MISSIONS 
ÉTRANOÈRES PAR QUELQUES MISSIONAIRES DE LA COMPAGXIB DB jÉSUS, 

t. XXVI, p. 1S5, 18 de janeiro de 1742. 



Apaatilas aos Dicionários Poi-titgueses 225 



canoura 

Este termo não está, que eu saiba, colijido em dicionário 
algum da língua. Vejo-o empregado sem mais explicação no se- 
guinte trecho de um jornal de Elvas, transcrito no Economista 
de 3 de outubro de 1888: — «Esta [azeitona] saindo da canoura 
[da máquina de tulhar] cae sobre um cylindro liso» — . Parece 
ser um « canudo >. 

cantadoura 

Além dos muitos derivados de ca7ito e cantar cumpre re- 
jistar mais este, que vemos empregado no seguinte trecho da 
monografia de Rocha Peixoto, As olabias do Pkado: * — «Por 
vezes o tradicional carro de bois exhibe-se em rara particulariza- 
ção de minudencias. No chadeiro e a vincos limitara-se as 
chêdas do resto do leito e da cabeçalha; esta obliqua * na- 
turalmente até encontrar o tamoeiro; os fiíeiros ornam as 
chêdas; nos legares respectivos indicam-se as cantadouras; 
no rodeiro acentua-se o miul; nas cambas, ás vezes, aparecem 
as meias-luas» — . 

Este trecho ó obscuríssimo em virtude do uso de termos 
técnicos, populares e pouco conhecidos, insertos em um discurso, 
no qual os verbos empregados são, pelo contrário, pertencentes 
à linguajem convencional e artificial, como exhibe-se, obliqim, 
acenttia^se, limitam-se, ornam, aproveitados em acepções que 
não são as suas naturais. Espacejei todos os termos desusados, 
que procurarei explicar com aussílio do dicionário. Principiando 
por chadeiro, se consultarmos o Nôvo Diggionábio, encontramos 
ai uma remissão a chedeiro; visto este, achamo-lo definido como 



1 in Portugália, i, p. 253. 

* Sobre esta conjugação errada veja-se Ortografia Nacional, Lis- 
boa, 1904, p. 90 e 91. 

i5 



22G Apostilas aos Dicionários Portugueses 



— « leito do carro de bois > — . Chêda, diz-nos o mesmo dicioná- 
rio ser — «cada uma das pranchas lateraes do leito do carro, nas 
quaes se encaixam os fiíeiros» — , e na província do Minho — 
«plataforma do carro de lavoira» — . Parece, porém que chedus 
sejam as «pranchas», visto que chedeiro é o leito, isto é, o que 
o mesmo dicionário chama plataforma. Cabeçalha vemos aí, que 
é o temão do carro, ou a parte deanteira desse temào. Tamoeiro, 
sempre no mesmo dicionário, é — «peça central do carro de bois 
que se prolonga até á canga e serve de tirante » — . Cambas, são 
— «peças curvas das rodas dos carros» — . 

Buscando miul ou miulo no mesmo dicionário, vemos que nos 
remete para meul, onde nos diz que vem a ser — «o mesmo que 
meão do carro» — . Procurado este, acha-se como definição: — 
«peça central da roda dos carros, na qual se imbebe o eixo» — , 
explicação que o autor nos poderia dar também em meul, para 
nos poupar a caminhada. 

Cantadouras ninguém nos diz o que seja. Portanto se o 
leitor ainda não entendeu o trecho transcrito, é porque é tam 
bronco como eu sou. 

Segundo inforraaçào, cantadeiras são a parte do eixo onde 
prendem as rodas: devem ser as cantadoura^ do trecho. 

Cumpre advertir que a descrição é aplicada a uma imitação 
do carro, como brinquedo, feito de barro. 



caute 



Na Nazaré equivale a «cauto», «cantiga», cf. descante. Em 
castelliano é usual cante por canto. 



cantiga, cántigo 

E evidente que esta palavra não provém do plural cantica 
de c anti cu m em latim, visto que, se esse fosse o seu étimo, a 
acentuação seria cantiga. Deve pois ser um substantivo verbal 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 227 



femenino de * cantigar j canticare, como fabrico o é, mascu- 
lino, de fabricar, não obstante a palavra fábrica. 

Em Garregosa nsa-se o vocábulo cántigo, que é derivado di- 
recto do latim cantícum ^ 



canutilho 

Êst^- vocábulo é fusão de dois: o primeiro português, cnnudo, 
o segundo castelhano, canutillo (pron. canhutilho), ou, o que 
será talvez mais exacto, é o castelhano canutillo que sofreu in- 
fluencia da palavra portuguesa canudo. 

O significado é o mesmo em ambas as línguas: «canudinhos 
de vidro, para com eles se formarem vários enfeites e guarnições 
em vestidos». 

Advirta-se, porém, que na Bolívia é vulgar a forma cant4r 
tillo *, dissimilação de canutillo (n apical por n dorsal), mais 
próssima da portuguesa, do que a literária castelhana. 



capa, capa-de-honras ou capa de Miranda; capindó 

Vem assim descrita no Inqubbito Industbial, de 1881 ^\ 
— < Fazem também umas capas de burel, notáveis pelo seu feitio 
especial e pelos muitos ornatos, sendo estes formados por capri- 
chosas applicações do mesmo tecido, capas que aparecem geral- 
mente nas grandes festividades, e por isso são denominadas capas 
€ie honras. São igualmente conhecidas por capa^ de Miranda^ — . 

No museu da Sociedade de Greografia de Lisboa há um ma- 
riequim assim vestido. 



* J. Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, iii, p. 73. 

* R. J. Cuenro, Apujítaciones críticas sobre el lbnguajb bo- 
OOTANO, Bogotá, 1881, p. 532. 

» vol. u, S.<», p. G7. 



228 Apostilcu aos Dicionários Poringuese» 



Uma forma moderna, a que a palavra capa ser?iu de orijem, 
é capindó, que, além do sentido pejorativo que lhe dá o Suple- 
mento ao Novo Dicx3ioNÁBio, é também o nome de uma capa 
de grande roda, chegando até o joelho, a qual constitui uma parte 
do uniforme da marinha portuguesa. 

Capa é um latim cap(p)a, que produziu numerosos deriva- 
dos nas diversas línguas românicas, e cuja verdadeira orijem é 
problemática, 

capada 

— «um dia que me roubéram uma capada (rebanho) > — *. 
Representou-se aqui a linguajem de um pastor da Beira-Baiia. 



capaz 

Conquanto os dicionários dêem «amplo» como significado 
primordial deste adjectivo, é ele menos usado nessa acepção 
actualmente em português, do que o é em castelhano. 

Exemplo dessa acepção primordial é o seguinte: — « 41 thiiyen- 
gia (são umas embarcações mais capazes que as suas galés)»— '• 



capelaua 

Termo da África Oriental Portuguesa — «Pauno de 1 braça 
quadrada que lhes serve de capa» — ^ [aos pretos]. 



1 Joaquim Manuel Correia, Antiguidades do concelho do SAsr- 
o AL, in « Archeologo português >, x, p. 201. 

' Batalhas da Companhia de Jesus, de António Francisco C-ardiín, 
Lisboa, ISM, p. 217. 

8 Diocleciano Fernández das Neves, Itinerário de uma viagem â 

CAÇA DOS ELEPH ANTES, Lisboa, 1878. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 229 



capitão 

Na Africa Oriental Portuguesa é tomado este termo em si- 
gnificação muito particular, como vemos no relatório da Cam- 
panha DO Babué em 1902: — «capitão é o capataz ou feitor 
quando indigena > — . 

capitel, chapitel, chapitéu 

A primeira destas palavras, como quási todos os termos de 
artes nobres em português, proveio do italiano, onde se diz m- 
pitello, do latim capitellum, deminutivo de caput, que junta- 
mente com outro deminutivo mais usado ainda, capitulum, se 
empregava já para designar « o remate superior do fuste da co- 
luna, ou pilar». Conforme a conhecida lei de que a ca latino 
corresponde cha, che francês, capitellum deu nesta língua a 
forma chapiteau, da qual resultou chapitéu em português, saindo 
de outra forma, cflapitel, o nosso chapiteJ, hoje desusado, mas que 
lemos, por exemplo, na Gazeta de Lisboa Occidental, de 
22 de maio de 1738: — «. . . e se reconhecem ainda muytas ba- 
ses e chapiteis de colunas» — ^ 

Cajntel designa uma peça de tear, como vemos na publicação 
Portugália, i, páj. 374. 

capoeira 

Como parte do moinho, é este vocábulo definido do modo 
seguinte: — «[do frechai] parte um ripado que, indo terminar 
em ponta, é coberto de palha de centeio e algumas veses folhas 
de lata; chama-se capoeira, É evidente a orijem da denomina- 
ção: semelhança com o encnizamento das ripas das capoeiras ^. 



* in «Archeologo portuguOs», V. p. 3. 

* MoiXMOs, tn Portugália, i, p. 38G. 



2S0 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



capotim 

— «Duas braças de fazenda» — *. África Oriental Portu- 
guesa. 

caqui 

Este neolojismo, que também se escreve khaki e de outros 
modos não menos arrevesados, é o nome de uma fazenda de al- 
godão cdr de barro^ que actualmente se usa muito em fardamen- 
tos das tropas que vão fazer serviço em África. 

O vocábulo é persa na orijem, hak, -«barro» que passou ao 
indostano, onde produziu o adjectivo haki, «barrento, côr de 
barro» *. Eis aqui uma abonação do vocábulo: — «É alto, traz 
trunfa branca, casaco de kaki com platina e pudvém branco» — ^. 



carabelina, cravina • 

O cravo sinjelo, a que vulgarmente se chama cravina, é de- 
nominado carabelina em Trás-os-Montes. Esta forma pressupõe 
outra, C7'abel, correspondente ao castelhano clavel, mas com vo- 
gal anaptíctica entre o c e o r; cf. as formas populares carapin- 
tetro, crapintetro, por carpinteiro, e canivete, do alemão antigo 
Jcníf, passando talvez pelo catalão ganivet, onde já se houvesse 
dado a anaptíctlse do a, e que parece um deminutivo, cuja si- 
gnificação actual é «faca». 

J. Leite de Vasconcelos deriva crabelina directamente de 



* Diocleciano Fernández das Neves, Itinerário db uma viagbm á 
CAÇA DOS BLBPH ANTES, Lisboa, 1878, p. 2G. 

' Yule & Burnell, A Glossary op Anglo-Indian words, Lom^res, 
1886, síib V. Khakee. 

3 O Século, de 1 de abril de 1902. 



Apoatilaa aos Dicionários Portugueses 231 



danas *, o que me parece provável em vista da existência de 
análoga forma em castelhano, davelina, indubitavelmente deri- 
vada de clavél. 

A palavra cravina, no uso vulgar, está abonada por esta for- 
mosa quadra de Acácio de Paiva: — 

Jantou-se a cravina ao cravo 
Entre as mãos d'uma menina; 
Qaem me dera num raminho 
Ser eu cravo, e tu cravina *. 



caramelo, carambelo 

Em castelhano caramelo é o nome de uma guloseima, a que 
nós chamamos «rebuçado», entanto que azucarillo corresponde 
ao nosso caramelo. Neste sentido, como no de «gelo», o étimo 
parece ser calamellum, deminutivo de calamum, «colmo», 
com dissimilação do primeiro l e supressão do segundo a em 
português, caPmellum, carmelo, caramelo ^: curambelo está 
para caramelo, como o português lombo para o castelhano lomo. 



carangueja; caranguejo 

Esta palavra tem uma acepção que ainda não foi inserta nos 
dicionários e se vê no trecho seguinte: — «Por este meio a 
locomotiva que vem rebocar um comboio até á gare segue sobre 
a carangueia, espécie de ponte movediça, e entra na via que se 
pretende» — *. 

Carangtiejo é na provinda do Minho « abrunho grande » . 



1 Sbvista LusrrANA, ii, p. 105. 

< O Sboulo, de 12 de junho de 1905. 

« Revista Lusitana, n, p. 105. 

* O Economista, de 15 de abril de 1890. 



á 



232 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



(em) carapuça; (em) pelote 

São vulgares estas expressões, significando a primeira « com 
a cabeça descuberta» e a segunda «nu», como também se diz, 
«em pêlo». 

A segunda ainda se poderia explicar pelo seguinte modo: 
pelote é apenas um aumentativo faceto da palavra pêlo, referida 
já também por gracejo à pele. 

Não me parece que seja assim. 

Nos Subsídios paba um diccionábio completo da língua 
POBTUGUÊSA, preciosos pelo grande número de citações, está in- 
cluído o vocábulo pelote^ com referência a pelico, onde se lê o 
seguinte: — «Darem a cada huimi dos ditos pobres para vestyr 
pelotes e ssayas em cada huum ano, e de dous em dous anos 
pelicos e cerames á estanferee (Figanière, Mem, das R. de P., 
p. 292)»—. 

Vê-se daqui que pelotes nâo eram pelicos, e que estes por 
sua natureza deviam ter maior duração, o dobro da dos outros, 
e tanta como os cerames, comparados com as saias, que dura- 
riam menos que estes últimos. 

Conforme o Elucidário de Viterbo 2)eIote era capa forrada de 
peles, — <á diíTerença da que nào era forrada» — . 

A descrição minuciosíssima, porém, dos pelotes que pertence- 
ram à guarda-roupa de El-rei Dom Manuel ^ por nenhum modo 
confirma esta definição: poucos pelotes são forrados de peles, 
entre as dezenas e dezenas deles, escrupulosamente descritos, nú- 
mero quási infindo de vestiduras ricas de aparato, que contrasta 
singularmente com a escassez de roupa branca, quási toda em 
mau uso, relacionada no mesmo interessantíssimo inventário, e 
que me trousse à memória, quando pacientemente o li, um rol 
de roupa que vi escrito na parede caiada de uma hospedaria na 
cidade da Guarda, no qual se enumeravam doze colarinhos, seis 



* Archivo Histórico Portuguez, vol. ii, p. 399 e ss. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 233 



pares de punhos, seis camisas, quatro gravatas, e um só par de 
peúgas. A par deste rol, por outra letra, lia-se o seguinte co- 
mentário: — Por fora cordas de viola; por dentro, puh! — , muito 
aplicável à vestimenta do aparatoso rei. 

Prossigamos. Nos muitos pelotes de EÍ-rei, forrados de lãs, 
de sedas, de cetim, etc., borlados de ouro, debruados de veludo, 
raros se encontram com peles, e estas de somenos valor, e so- 
mente como guarnição, por exemplo: — «Item outro pelote de 
cetim avelutado preto de fralda e mea debruado de cetim preto 
com prefis de gatos com as mangas e quartos forrado(s) de 
fustam pardo e a fralda de pano encarnado e de baixo do forro 
fustam das mamgas e corpinho esta (está) outro forro de da- 
masco emcarnado o quall forro das mamgas nâo chega a baixo 
por quamto servyram nelle bocaes de raartas» — . 

Devia de ser muito bonito. O que mais me surpreendeu à 

primeira leitura, na minha qualidade de tam amigo de gatos 

como Madame Michelet, foi a devoção, a graça de enfeitar com 

focinhos do meu animal predilecto a tal garrida vestimenta, o 

que um pouco me congraçou com a penúria de roupas brancas 

do monarca. Como, porém, [os pelotes com caras de gatos, de 

perfil, como que a disfarçar o serem todos cegos de um olho, 

fossem nada menos de cinco, todos a seguir, estranhei tanto gato 

junto; e como em outro item se leia — «Outro pelote de cetim 

preto com prefis de gato e o corpinho e mamgas forradas de 

fustam pardo e a frallda de pano encarnado» — , concluí que este 

gato e aqueles gatos eram as peles deles, e que os prefis 

eram as frentes, as bandas, como hoje se diz, ou as ourelas das 

tais vestimentas. Pobres gatos, que deram pêlo e peles para 

tantos enfeites! Santa Rosa de Viterbo no Elucidábio refere-se 

a (manto) gatum, e acrescenta: — «talvez forrado de pelles de 

gato» — • Cordeiros, por peles de cordeiro , foi também usado. 

Concluí ainda outra cousa importante, e é que o pelote nunca 

foi capa, forrada ou por forrar, visto que tinha corpo, mangas e 

^; mas sim uma espécie de sobrecasaca moderna, sobre a qual 

^ podia vestir, para abafo ou por luxo, uma roupa, ou roupão, 

^^ pdr uma capa: e assim se explica o gastarem-se num ano os 



234 AposHlas ao8 Dicionánoã JhrrimgmÊa 



pelotes, e só em dois os pelicos, os quais seriam então as 
vestiduras de cima, que por menos trazidas duravam mais. 

Enganou-se portanto o bom Viterbo, e para nos convencer- 
mos disso nem mesmo era necessária tal conclusão, visto que 
aquela peça, que no rico tesouro da igreja de Nossa Senhora da 
Oliveira, de Guimarães se arrecada e se amostra como sendo o 
pelote de Dom João i, nem de perto nem de lonje se pode consi- 
derar capa ou capota. 

Assim, ir era pelote quis dizer o mesmo que hoje ir em 
cx)rpo bem feito, sem segundo casaco, ou qualquer outra vesti- 
menta de agasalho, e dai ir nu. 

Passemos à expressão em carapuça, que se interpreta por 
modo análogo. 

Este vocábulo é assim definido por Bluteau *: — «Espécie de 
capacet^e de pano, cora aba estreita por deante» — . Pode ver-se 
em qualquer retrato de Luís xi de França, e foi moda que du- 
rou bastante terapo. Por cima dela punha-se o chapéu; e assim 
quem tirava o chapéu ficava em carapuça: e como quando se 
deixou de usar carapuça quem tira o chapéu fica em cabelo, ou 
em careca, conforme a sua fortuna, em carapuça passou a signi- 
ficar em cabelo, ou, com a calva i\ mostra. 

Xo uso actual a palavra carapura e o seu derivado mascu- 
lino carapuro significam, com lijeira mudança ou modificação 
de sentido, * qualquer cobertura mole, para a cabeça, com forma 
já a ela acomodada, sem abas ou pala. e que serve para a tapar >. 

Com relação à orijem e formação, é o vocábulo em última 
análise afim do castelhano antigo caperuça, moderno cnperuzn, 
(com o ceceio da consoante d^t última sílaba), teudo-se dado na 
palavra portuguesa metátese das duas sílabas mediais; e deva 
de ser um derivado terciário de capa, visto que em castelhana 
antigo temos caparaçôn, de que derivou o francês cajyaraçan, e 
em latim bárbaro existe documentada a forma cuparo. Cf. aindíB- 
o francês carapasí^e, «casca de crustáceo >, no qual se deu iguaX 



1 Vocabulário roRTrorBz b latino. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 235 



luetátese -rapa- em vez de -para-, comparado com o castelhano 
^parazón. 

Fernám Méndez Pinto na Pebegbinação empregou, pelo 

menos duas vezes, a palavra carapução: — «dez ou doze Jani- 

paros de carapuções verdes» — *; — «vestidos de hua cacheyra 

mujto felpuda, com seus carapuções do mesmo nas cabeças» — *. 



carcás 

Este vocábulo tinha dantes um sentido diverso do que se lhe 
di actualmente, pois significava — «bomba composta de duas 
ou três granadas, com metralha, tudo envolto em estopas ba- 
íJ^adas em betumes e outras matérias oleosas, e por fora um 
pMio breado, a qual se mette n'uma lanterna, na qual vái lume 
aceso» — ^. 

Hoje em dia emprega-se na literatura como sinónimo de 
^(/«í?a, mas o povo náo conhece o termo. Em francês é carquois 
(^''^careiiá), e no texto italiano do Livro de Marco Paulo Véneto 
^^^Cdsci, t^rmo que Henrique Yule explica do modo seguinte: 
"^ « E transcrição do persiano taríaxi, e o c inicial da palavra 
^Ucesa procede talvez da constante confusão do c com o ^ em 
íDanuscritos » — ♦. 

A forma persiana, conforme Marcelo Devic ^, é terkex, vo- 
^bulo composto que quere dizer «estojo para frechas» e que 
Passou para árabe com a forma TasKAX, da qual provêem as 
^iitopeias. 



^ cap. X. 

* cap. cxxrv. 

« António de Morais o Silva, Diccionario da língua poutugueza, 
^boa, 1823. 

^ Thb Book of Sbr Marco Polo thb Vbnbtian, ncwly translated 
•'^^ edited with notes and other illustrations, Londres, 1875, i, j). 3Õ>i. 

• DiCTIONNAIRB áTVMOLOGIQUB DBS M0T8 D^ORIGINB ORIBNTALB, 

^*Ha, 1876, sub v. Carquoib 



2:^'j AposUla» aos Dicionário Pórtuçueêes 



Qaanto ao seu sinóaimo aljava, arábico é também, AL-oaoBE, 
que tem a mesma significação ^ 

cardanho, cardenho 

Termo de jíria, « furto > : — « Quando [a ladra Ginddinha] fazia 
um cardanho, tratava de fugir de Lisboa» — *. 

Parece um derivado artificial do verbo cardar. A escrita é 
duvidosa, visto que na capital -anho e -enho teem a mesma pro- 
nunciaçáo; todavia, no Riba-Tejo pronimcia-se cardanho. 

careca 

É, no seu sentido natural, um termo burlesco para designar 
a < calva», e um «calvo». 

Além do emprego figurado, já inscrito no Novo Diccioxâbio, 
de — «raô^o de praça de toiros, encarregado de abrir a gaiola 
aos toiros que vão ser lidados na arena» — , tem outro sentido 
esta palavra, conforme se vê no Século, de 29 de março de 1902 • 
— * careca (\ no norte, aqiielle que deita fogo ás peças de arti- 
ficio > — . 

Tanto uinii como a outra acepção é natural que provenhain 
de indivíduos calvos, que em algum tempo exerceram um desse ^ 
mesteres. A mesma orijem temos de atribuir a palavras conio 
carrasco, ]»or exemplo, (jue de apelido passou a designar o 
« algoz >, )>or ter liavido um com esse nome, derivado, com o 
muitos outros, de nome de terra, a qual o recebeu de árvore qa^ 
nessa terra era acidente notável. 

Quanto à etimolojia de careca, direi só que tem aspecto ca-^ 
frial o vocábulo (cf. carcunda, q, v.) ^, mas não é quimbundo- 
visto nào haver nesta língua r senfio antes de /. 



* Eguílaz y Yanguas, Gi/)sario de las palabras bspasolas n^ ^ 
ORiGKN ORiKNTAL, Granada, 1880. 

•^ O SECrLO, de 1 de dezembro de 1901. 
^ V. em calombo, e carrasco. 



Apoaiilas aos Dicionários Portugueses 



237 



caril 



t. 



Esta palavra, que significa um adubo muito condimentado, 
usado na índia e no sul da Ásia, é o canarim karil, « molho >, 
correspondente ao támul kari, de que os inglejies derivaram o S 
seu currie * (pron. cari): — «E deste coqiio pisado, e tirado 
o leite . . . cozem arroz com elle, e he como arroz de leite 
de cabras. Fazem comeres das aves e carnes (a que chamam 
taril) » — *. 

A orijem desta palavra parece ser o concani korl, a que se 
daria um plural caris, do qual se deduzisse ao depois o singu- 
lar C!ar/7; QÍ. funil, plural /wn/ò', e canãil, (q. v.). 

Este condimento é muito usado em toda a tndia, e moderna- 
mente mesmo na Europa. A sua composição, conforme o livro de 
José Maria de Sá, Pboductos industbiaes do Coqueibo 3, é a 
seguinte: • 

— < Coentro 20 gramas 



Raízes frescas de gengibre 
Semente de dormideira . 
Pimenta redonda . 

Açafrão 

Canela 

Semente de caminho . 

Alhos 

Cravo da índia . 
Cardamomo .... 
Pimenta longa 
Limão 



15 
5 
4 
4 
1 
1 

2 dentas 
8 sementes 
5 » 
á vontade 
uma metade 



* Bamell & Yule, A Glossary of Anglo-Indiax words and phra- 
■*» Londres, 1886. 

' Qarcia da Orta, Colóquios dos simples b das drogas da Índia, 
^^ 1891, p. 238. 

* Nova-Goa, 1893, p. 72. 



23S ApattíioB ao9 Diciomárim 



Forma-se uma massa de todos estes ingredientes, moendo-os 
primeiro separada , e depois juntamente, e ajmita-se o leite d^oma 
metade de coco. Estas quantidades bastam para preparar o caril 
d*ama ave ou d*uma libra de carne» — . 



carinhosa 

Em Vila-Real-de-Santo-António designa este adjectivo, subs- 
tantivado, um «capuz de senhora». 

carioca 

O Xôvo DiccioxÁBio dá duas acepções a este vocábulo bra- 
sileiro: — «pessoa preta ou mulata; pessoa do Rio-de-Janeiro»— . 
Na segunda acertou; na primeira creio que não, e ainda menos 
na etimolojia que lhe atribui. — «N[ome] p[róprio] de uma n- 
beira» — . 

Conforme o Vizconde de Porto-Seguro S o epíteto cariocc^^ 
de cari «branco» e oca^ «casa» — casa do branco — foi pelos ^^^' 
díjeiías tupis aplicado a uma ribeira do Rio-de-Janeiro, perto ^ 
qual se estabeleceram os primeiros colonos portugueses, e 
depois, por ampliação a todos os naturais do Rio-de-Janeiro, 
nominação por eles aceita e que passou ao Continente, servi^:^*- 
em tempos para os designar, não só a eles, mas a todos os it:»- ^ 
víduos nascidos no Brasil. 

Conforme o referido autor, a palavra cari era emprega* ^ 
pelos tupis meridionais para se intitularem a si próprios, e 
aos europeus, com quem conviviam em boa paz. 

Vê-se, portanto, que a acepção «preto» ou «mulato» 
pode estar compreendida no vocábulo carioca, a não ser por 
tupério. 



* L*ORIGINE TOURAXIENXE DE3 AilÉRICAINS. TUPIS-CARIBES 

DES AXCiENS Égyptibns, Viena, 1870, p. 2. 



Apostila» aoa Dieiúnário» Portiiguete» 



Na minha inicia era focultativo de nossa casa um brasí- 
\àso, natnial do Bio-de-Janeiro, por nome Caldas, a quem toda 
& gente chamava O Carioca. Era branco, muito alto, bom mé- 
iico, e por sinal hábil marceneiro. É a idea que dele conservo. 



carkgã 
Fazenda da índia <. 



Termo de jiria em Lisboa: um tostão:^ «Dê-me agora só 
earmoso. . . não sabe o que é?. , . cinco chetas> — * [vinténs]. 



carneiriS, ou carreiro, carreirote ^ 
^a Dha da Madeira, certa ave (Aathus trivialis). 

carocha (=earôeha), carocho (^carocho) 

Carocha é nome vulgar de um coleóptero pentámero, cara- 
'•18, e, conforme o Dichionahio Contempobaneo, o seu corres- 
pondente masculino designa uma espécie mais pequena, e também 
Wn p«ie, que recebeu naturalmente este nome por ser negrão: 

et n 



' Diocleciano Femándei das Nevea, Itinerário de uma viaOhm k 
"^e* MB HLHPHASTKB, liaboa, 1878, p. 94. 

' O Dia, de 25 de setembro de 1902. 

* EnLeatoScbmitz.DiB VúaiiL Madeiras, ÍH «Omithologisches Jahr- 
"^M. 1S99. i-ui. 



240 Apostilas aos Dicionários Fòrtitgueêes 



Como adjectivo, carocho, femenino curocha quere dizer «es- 
curo, preto », e deste adjectivo provém que ao gato preto se dá em 
geral o nome de carocho, nome que, naturalmente pela mesma 
razão, se aplica em Caminha a um barco pequeno de pesca, o 
qual, como tive ocasiào de ver, é pintado de preto. 

Carocha se chamava a mitra que se punha na cabeça aos 
penitentes, condenados pela Inquisição, quando iam para o patí- 
bulo. Essa mitra era de papelão, e nela se pintavam figuras de 
diabos monstruosos, requinte de perversidade, inventado para 
desviar a compaixão que poderiam inspirar aqueles infelizes, 
despertando um sentimento contrário de horror e asco em quem 
os visse. A esta mitra alude Gil Vicente no Velho da Hobta: 

— Com cent* açoutas no lombo, 
E ua carocha por capela — . 

¥j singular a analojia que se dá entre c-arocha e o adjectivo 
c-aro, comparados estes dois vocábulos com barato e barata ^ 
insecto, o qual provém de blatta, latino. 



carola, carolo 

A palavra carola tem três acepções, uma das quais indep 
dente, e que portanto deve ser considerada como vocábulo i 
tinto. 

Temos pois: Carola (1): «dança de roda>. 

É o francês carole, o inglês caroh o italiano carola, que é, 
vocábulo próprio das línguas célticas, como pretende Skeat *; 
o latim choreola, como outros pretendem. 

Carola (2): do latim corolla, deminutivo de corona, 



* A CONCISE BTYMOLOOICAL DiCTIONARY OP THE EsGLISH Ll^ 

OUAOB, Ocsónia, 1887. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



241 



roa, que os padres abrem no cabelo, no alto da cabeça, o 
rquilho. Por extensão: <o indivíduo qae tem coroa aberta >, 
padre; o irmào que, de cabeça descuberta, acompanha as pre- 
ssões, com capa e tocha; a cabeça descuberta; o individuo que 
I compraz em figurar em festividades relijiosas; o devoto; o 
itusiasta por qualquer causa, e que se presta, por vaidade, por 
rêsse, ou por dedicação, a tomar parte activa em qualquer 
dade, grémio, partido, facção, etc. >. 
rola (3), como nome próprio, é abreviatura de Carolina. 
caroía, Kcabeça descubertaji>derivou-se um masculino cor- 
nte, carolo, com o tónico fechado, como é de regra, que 
)t: «pancada na cabeça». 

stantivo carolo, «maçaroca esbagoada, pão de farinha 
ipas de farinha grossa de milho, etc», é decerto outro 



es; 
uer 
O' 
ross 
)cúb 



Ca9*9^Mím das acepções contidas nos dicionários tem mais, 
lo menol^^^K^ioa, a de uma massa grossa, de farinha de 
ígo e água, d^^^^^m os çapateiros, ou usavam ainda ate 

pouco tempo. 

unteiro 



yomo termo teatral, significa «o indivíduo que arma o cená- 
no p^co». 

carranca 



5te vocábulo português tam expressivo, e cujos matizes de 

cação estão perfeitamente compendiados no Vocabulabio 

auEz E LATINO do iusiguc Rafael Bluteau, é considerado 

los os nossos lecsicógrafos como uma modificação de cara, 

s declararem os processos de derivação que o produziram, 

ue motivo o r se profere e escreve dobrado, sendo certo 

línguas das Espanhas jamais se confundiram rr e r. 

aventarei étimo algum, mas apenas chamarei a atenção 

ocábulo sanscrítico KanaAVKa, o qual, segundo Monnier 



242 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Williams *, significa «crânio, cabeça» (the skull, the head), e 
além disso, note-se, uma casca de coco, vazia, e preparada para 
servir de copo, ou vasilha (a cocoa-nut hoUowed to form a cup or 
vessel). 

Em outra inscrição do mesmo dicionário, em xâMBilLa, 
<bétele>, vemos a seguinte explicação: — * Tãmbula-karawkaf 
the Pãn-dãn or betel-box (this box generally resembling a 
karan*ka or hoUowed cocoa-nut) > — *. 

Esta singular coincidência, e já vou explicar em que ela con- 
siste, autorizaria talvez a suposição de que o vocábulo tivesse 
vindo da índia, não digo directamente do sánscrito, mas de 
qualquer das línguas vernáculas de lá, principalmente se a pa- 
lavra não existe em outro dos vários idiomas da Península 
Hispânica com este siguiticado, nem em nenhuma outra do do- 
mínio românico. 

A coiucidéncia está no seguinte facto: 

Carranca quere dizer «cara feia>, e coco, como é sabido, 
significava em português, e hoje ainda em castelhano, o que 
actualmente chamamos papm, isto é, uma figura de catadura 
ruiin, com que se mete mtMlo às criauças. Os portugueses, ao 
verem pehi j)rinieira vez o fruto do coqueiro, compararam-DO a 
uma dessas caras de arremeter, e aplicaram-lhe o nome com que 
desde então é conhecido em toda a Europa. 

li esta a orijem que lhe dào Joào de Barros, Garcia da Orta; 
e o KoTKiRO DA ViACrKM DK Vasco DA Gama, sem primeiro o 
nomear, descreve-o do seguinte modo: — «As palmeiras dam uiua 
fruta. . . como mellõees, e o miollo, . . he o que comem e sabe 
como juiu/a avellanada> — -K Mais adeaute, porém, já o desigua 
pelo seu nome: — e o mantimento era coquos» — *. 

Eis aqui o final do interessante passo de João de Barros, uo 



i A Sanskrit-English Dictionary, Ocsóiiia, 1S72. 

- ih., \K 0».lí:», Col. 111. 

'■'• Li.Nb<Ki. L^Ol, ]). 2S. 

• ib. i>. 01. 



Apottilta aot Dkionáru)» Port»guf»c» 



qoal descreve longamente o coco e o coqueiro. — «Esta casca per 
onde aquelle pomo recebe o Dutriínento vegetarei, que é pelo pé, 
tem uma maneira aguda, que quer semelhar o Dariz pdsto entre 
doas olhos redondos, por onde elle lança os grelos, quando quer 
nascer: por razão da qual figura, sem ser fígura, os nossos lhe 
chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer cousa, 
com que querem fazer medo ás crianças; o qual nome assi lhe 
ficou, que ninguém lhe sabe outro, sendo o seu próprio, como lhe 
03 Malabares chamam, Tenger, e os Canaris Narle» — '. 

Garcia da Orta * diz:— 'e nós, os Portugueses, por ter 
aquelles três buracos, lhe pusemos o nome eoquo; porque parece 
rosto de bugio ou de outro animal • — . 

Ora, significando hircunla «cabeça» e «noz de c6co>, re- 
presentando a boceta do hétele em geral uma cabeça oii crânio, 
1-ara.nka, e tendo os nossos denominado coco a ieiiga ou tiarle 
da índia, por semelhar uma cara feia, é possível que o vocábulo 
tara-nla passasse para cá com a significaçSo de cara disforme, 
como aquela que as bocetas do bétele semelhavam, e que os 
nossos julgaram ver no fruto. 

Kepito que isto é apenas uma conjectura, cuja probabilidade 
é muito precária, e desaparecerá se o vocábulo cmranca fôr 
mais antigo na língua que as nossas relações com a Índia; para 
que não suceda o que aconteceu <l palavra varanda, que se 
aupSs indiana, quando ela já existia em poi-tuguês e em cas- 
telhano, antes de aparecer nas narrações dos nossos descubriraen- 
to8 do século XV e xvi. 

Devo ainda advertir que, se carranca não existe em caste- 
lhano, nem com as significações portuguesas nem com outras, 
*ncontra-se em galego, querendo dizer, conforme o dicionário 
"* Cuveiro Piiíol ', — «carrancas — patizambo, eontrahecho, de 



^ Da Á8IA, DâCADA III, 1. III, cap. T, Lisboa, ITTT. 
' (.k>i.6Qi:ioa i)OH SiuPLBB b das drogas da bioiA, i, p. 234, 
^'sW, 1891. 

' DicciONARio QALLBOO, Baicelona, 18TC. 



244 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

piemas especialmente»; e — «carrancudo — (ant.) tieso, espeta- 
do» — . 

O vocábulo coco designa nos Açores «inhame» *. 



carrapiço 

Em Trás-os -Montes significa «pedaço de velo difícil de car- 
mear (desembaraçar)». 

Xo Novo DiccioNÁBio é este vocábulo dado como provin- 
cial, com o sentido de — «espécie de pequenino ouriço, que en- 
cerra as sementes de certas ervas e que se agarra facilmente ao 
fato da gente e á lan do gado lanígero» — . 



carrapito, carrapiteiro 

Conforme informação da minlia criada Maria do Rosário, na- 
tural da Chamusca, designa este nome, no Kiba-Tejo, a roseira 
brava. 

A significação primordial de carrapito ó «chifre». 



carrasco, carrasca, carrascão 

Carrasco é um termo de botânica vulgar, a que cientifica- 
mente corresponde quercus coccifera, e deste vocábulo, cujo 
étimo é desconhecido, mas ao qual corresponde em castelhano 
carrasca, se derivam os substantivos carrasqueiro^ carrascal 
«sítio em que existem carrascos >, carrasca, « lenha ^, ^ casca de 
pinheiro >, e «espécie de oliveira», e os aiÍQct\Yos carra^quenli^' 
carrascào (vinho), etc. 

Com o primitivo carrasco, ou seus derivados, se denomina' 



1 Revista Lusitana, ii, p. 47. 



j 



ApoHilfis aos Dmottáriog Porlnguese» 



ram muitos lugares em Portugal: Carrasca, Carrascal, Catras- 
cais, Carrascalintw, Carrascas, Carrascosa, Carrasqueira, Car- 
rasqiteiro, Carrasco; e é sabido que noniea de plantas contri- 
buem consideravelmente para a toponímia em todos os idiomas, 
e nomeadamente nas línf^uas românicas. Freqiiente é também 
que esses nomes de localidades passem a apelidos de famflia, e 
deste modo é muito usual o de Carrasco. Deste apelido, con- 
forme Bluteau, proveio a acepçáo que, como substantivo comum, 
tem Este vocábulo em português: — • Desde o tempo de Belchior 
Nunes Carrasco, que na cidade de Lisboa era Algoz, cbamou o 
Tulgo aos Algozes Carrascm' — '. 

Algoz dizem os arabistas ser o nome de uma tribo turca, 
cruelíssima, cujos indivíduos eram empregados pelos mouros 
nos mesteres de carniceiros e de verdugos. Esta última pala- 
vra é também um enigma. 

Kiirting * diz-nos ser um latim \'ulgar viriducum, deri- 
vado de viridem. 'verde». Designava verãutjo uma «vara 
verde» (cf. verdasea), que servia de açoute, e de instrumento 
de tortura passou o nome a designar o bomem incumbido de a 
aplicar. 

Deve ter-se em atençiio que, bavetido tantos nomes de luga- 
res formados em Espauba com o substantivo carrasco e seus 
derivados, e sendo o apelido Carrasco lá vulgar, a começar no 
bacharel Sansão Carrasco, amigo de Dom Quixote, nâo tem em 
castelhano o vocábulo carrasco a acepção de «algoz», o que 
wnfirraa o étimo proposto por Bluteau. 

Digna de reparo é também a coincidência de o algoz de 
Lni8 XTi de França se cbamar Sansão, e ser carrasco; eutanto 
í<ie o Sansão Carrasco do Dom Quixote era excelente criatura. 
O espanhol era Sansão Carrasco, o francês era Sansão e foi 
^rraseo de veras. 



Vocabulário portoquez s latino, 
Latbinisch-rouaxischbs Wúrtbrbuch, Potlcrboni, 1890, 8758. 



246 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



carregar, carrego, carga, cargo, descarregar 

Do verbo carregar derivou-se um substantivo verbal rizotó- 
nico, que deveria ser carrega, mas que, na realidade, é carga. 
Análogo a este há, em português, folgar, folga, a par de fôlego, 
que melhor se escreverá folgo, para evitar uma excepção que, se- 
gundo a pronúncia comum, seria só ortográfica. Em castelhano 
o verbo correspondente a curregar ó cargar, em que se deu a 
elisão da vogal medial, como aconteceu em português com fol- 
gar j follicare, como carregar \ carricare. 

Acepção especial de c-arregar é esta que vemos na publicação 
Portugália *: — «A fiandeira põe a roca á cinta, depois de 
carregada» — , isto é, «depois de lhe ter posto o linho, que vai 
fiar » . 

Cargo é derivado masculino de car(re)gar, em qualquer acep- 
ção em que seja tomado, incluindo a de certa fogaça, ou arma- 
ção piramidal enfeitada de bolos, fiores e frutas, que se vende 
em leilão nos arraiais, ou festas populares a algum santo. 

O verbo descarregar tem várias acepções que se relacionam 
com carga. 

Antigamente tinha ainda outra, em relação com encurgo, 
cargo, ou carrego, como se dizia: — «Uêste cometimento do In- 
fante ficou El-rei descarregado e mui ledo» — -, isto é, «exone- 
rado, aliviado». 

carreirão 

O suficso 'ão ó em português, como em espanhol o seu cor- 
respondente 'ôn, com ou sem inficso, z, c (hortierazarrào), au- 
mentativo, e conseguintemente vocábulos como cordcu) oferecem 
todas as probabilidades de ser de orijem francesa, onde, ao con- 



1 I, p. 372. 

* Rui de Pina, Crónica db El-rbi Dom Afonso v, cap. lxxxix. 



%L 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 247 



trário, o suficso -on é deminutivo, oison = « petit de Toie » ; con- 
quanto em algumas dições tomadas a esta Ungua, o suficso 
I>ortugnês -ào, que se deu como correspondente ao -on francês, 
readquirisse em português, por analojia, o seu valor próprio, do 
qne é exemplo salão, derivado de salon, sendo que em português 
é aumentativo de sala, e em francês orijináriamente um deminu- 
tivo de salle. 

A regra, porém, nào é geral, visto que em Trás-os-Montes 
carreirão é deminutivo de carreiro, no sentido de «caminho 
para carros», e no Algarve agúidão, é deminutivo de agúiãa, 
agàdia (q. v.). 

Que a palavra carreirão é deminutivo, e não aumentativo, 
como poderia conjecturar-se, prova-o a menção expressa que vou 
citar:-r-«A subida do rio até ao cabeço que conduz á chã ou 
pnúna, faz-se por atalhos ou carreirões de grande acclive ...» — , 
e em nota: — «deminutivo de «carreiro», caminho de carros» — '. 



carrejar, carrejo 

São formas duplas com carrear^ carreio. Todavia, carrejo 
tem um significado muito especial como termo da Estremadura* 
correspondente ao castelhano acarreo: é o que os ingleses desig- 
nam com a palavra drift \ ãraw, «arrastar, puxar» isto ó, são 
as várias substancias que as águas correntes trazem em suspen- 
são até que as depositam, e o depósito que consiste nessas 
substâncias assim carreadas. É termo muito expressivo, usado 
no Ribatejo, e com vantajem da vemaculidade da nomenclatura 
científica poderia ser adoptado em geolojia. 



1 Manuel Ferreira Deasdado, O rbgolhimbnto da Mófrbita, iti 
Revista de educação e ensino >, 1891. 



248 Apostilas aos Dicionários Fòrtugiíeses 



carretilho 

Na Beira-Baixa dá-se este nome ao «carrinho de mão> S 
que os franceses chamam brouette, termo de que o beirão é tra- 
dução excelente, que merece ser generalizada. E um evidente 
deminutivo duplo de carro \ carrete \ carretilho. 



carriço, carriça; encarriçado 

No Suplemento ao Novo Diccionákio vemos a primei» 
destas formas, como termo da Bairrada, com o mesmo signií- 
cado de carrapiço (q. t\). 

No corpo do dicionário, porém, fora essa forma masculina de- 
finida como — «planta cy^erdcea (cu rrex ambígua)* — . A forma 
femenina é aí dada apenas como designando certa ave, da cfl^ 
uma espécie se denomina carrícinha. 

Nos meus apontamentos tenho ambas as formas, em siguiàc^^' 
ções análogas, mas iiào em absoluto idênticas, como perteiiceVi- 
tes ao vocabulário transmontano (Kio-Frio): carriça, «monte *~^^ 
herva, tufo do cabelo > ; carriro, <■. indivíduo de cabelo crespo 

Ao adjectivo participial encarriçado dá o dito Suplemei^ 
como significado o seguinte: — «(prov. beir.). Diz-se da galli*^ ^'^ 
toda occupada em cliocar os ovos. (Talvez por encarniçado ^ ^ 
nâo vem de acarrado)> — . 

E evidente que procede de carriço, e que a aplicação 
epíteto à galinha que está no chOco provém de ela ali est^r ^ 
tufada, cora as penas arripiadas. V'e-se pois que carriça e 
seus derivados se nào limitam a tam pequena parte do rei 
como a respeito de quah(uer destes vocábulos se depreende 
que era separado se diz deles: sáo mais gerais. 

No capítulo que, com o título Raças e tipos humanos, 



* Informação do editor, natural de Almeida. 



ÁpoêtiloB aoB IHeio»ârú/s Portuguese» 



crevi para os 'Elementos de Geographia Geral» de Manuel 
Ferreira Deusdado, uaei do adjectivo encarriçado para descrever 
o aspecto do cabelo dos papuas: — «cabelo negro, encarrilado e 
emmaçarocado • — ' ■ 

carrinha 

O Xôvo DiccioNÁEio dá este vocábulo como alentejano, 
dizendo-nos que é — * pequena carroça» — . Todavia, no jornal 
O Século, de 14 de agosto de 1903, lê-se o segniute trecho, 
que amplia o nome a veículo algarvio: — «outros dirigiram-se a 
Portimão no tranaporte característico da região [Lagos], as de- 
nominadas carrinlias • — . 



cartapaço, cartapácio, cartapele 

A. palavra cartapácio está rejistada ein todos os dicionários 
com os dois significados principais, de < caderno de apontamen- 
tos», e de «livro volumoso e de pouco préstimo». 

Conforme F. Adolfo Coelho ^, é um latim da decadência 
cbarta pacís, e é termo escolar. 

Uma forma um tanto mais portuguesa, cartapaço, porém, 
íem em Trás-os-Montes acepçío muito diferente, como se vê do 
"eguiate passo: — «cartonagem de molduras para estampas de 
wntoa, para cartapaçoa de rocas e camaudulas » — '. É pois um 
cartucho de papel, que se põe na roca de fiar. 

Outro nome do mesmo amparo é cartapele, usado na Beira, 
coao vemos no Novo Diccionábio. 



* Lieboft, 1891, p. 219. 

■ DlCCIOHAIUO MANUAL UTTMOI/JGICO. 

> Uannel Ferreira Deandado, O RacoLEiMBNTO í 
^^«râtsde ednoçlo e ensino», 1891. 



250 Apostilas aos Dicionários Púrtugneses 



cartazeiro 



O individuo incumbido de pregar os cartazes nas paredes V 



caruma 

Este vocábulo é dado no Novo Diccionário com a signifi- 
cação de — «folha de pinheiro > — , isto é, a agulha ou agulheta. 

No Suplemento acrescenta-se — «(prov. beir.) a pellícula que 
reveste as castanhas ainda verdes e tenras > — . O Dicoionábio 
Manual etymologico declara ser termo provincial e significar 
— «resina de pinheiro» — . Creio que a primeira acepção é 
muito concreta, e, com relação à ultima, tenho-a por inexacta. 

Na Soberania do Povo, jornal de Águeda, de 21 de se- 
tembro de 1882, lia-se: — «ao pé do lar estava uma porção de 
caruma e lenha, que se incendiaram ao calor do fogo próximo» — . 
Por este trecho é curuma um colectivo, que poderá talvez der- 
signar «rama de pinho», e não, «uma folha de pinheiro». 



carunho 

No Novo Diccionário vem esta voz como transmontana, co 
a significação de caroço: nos meus apontamentos tenho-a co 
minhota, com o mesmo significado. 



casa, e seus derivados 

Este substantivo, que em português unicamente, mas não 
todo o reino, significa qualquer dos repartimentos internos 



1 



O Economista, de 13 de novembro de 1887. 




ma habitaçfio, além de expressar o edifício todo, como em caa- 
jlhano ou italiano, soíre inúmeras particularizações de sentido, 
Der s6, quer acompanhado de epítetos, eipresFos por adjecti- 
DS, por aposição de substantiros, ou por complementos circuns- 
inciais. Eis aqui algumas dessas locuções, aiada nâo rejistadas. 

Casa-tôrre: — «Logo em seguida deparam-se-nos as oasas- 
ôrres (linguagem do Minho)» — '■ 

V. castelo. 

Casa-palhoça: ~ *'Ba. as coberturas de palha centeia nas cba- 
ladas casas-palhoças (Amarante, Marco, etc,)» — *. 

Casa-de-entraãa: — «A casa de entrada a6 tem de notável 
s cantareiras de loiça, estanho, arame e cobre que oma- 
sestam .as paredes de alto a buxo, em flammantes estanbei- 
ras e sanefas de pinho, tintas de aiul e encarnado* — ^. 

Há para apontar aqui, além do colectivo loiça, excluindo a 
de metais, o termo estanheira. 

Casinha, t«rm« alentejano: — <0 nome <casinha> couside- 
ramol-o impróprio. Na maioria dos montes o alojo está longe de 
ser um pequeno cubículo, é pelo contrario uma casa ampla, que 
atoinmoda á vontade vinte e trinta homens- — V 

Casinhota: — 'O galinheiro é provido de poleiros sufHcientes 
pua repouso dos bicos [q. v.J, e de casinholas ou cestos para 
pMtura dos ovos»—*. 

Casinholo: — «Em alguns montes o galinheiro serve também 
Í6 pombal, para o que tom nas paredes os casinholos indispensá- 
veis para a creação dos pombos » — *. 

Caseiro, além de significar quem tomou casal de renda, ou 
" Cultiva por conta do dono, tem, conforme as rejiões, mais dois 
"gnificados, entre si opostos: a} *o senhorio», como em caste- 
^Btio casero: — «O caseiro. . . lançou o padre fora das casas em 



J. Leite de Vasconcelos, Portuoíl prhhibtorico, p. 19. 
Os Palhbiros do littoral, in Portugália, i, p. 83. 
ih. Btbkoorafbia do Alto ãlbxtbjo, p. 537 
> « ti. p. 511 e 545. 






Apostilas aos Dicionários Portugueses 



que morava. . . o mesmo fizeram mais os três caseiros, para cujas 
casas o padre se mudava > — ^ 

Nesta acepção parece ser obsoleto. 

6^ «o inquilino»: — «Os caseiros... foram pagar as impor- 
tâncias dos seus alugueres em notas de 5iJ000 réis. O senho- 
rio. . . recebeu as notas» — *. 

Casa designa em português, singularmente, «a abertura em 
que entra o botão », que em castelhano se denomina qjal, em fran- 
cês (Billet, que correspondem ao nosso vocábulo ilhó(s), no qual 
o i átono está por o por influencia da palatal Ih: ilhô por olho, 
de ôJho, com um suficso ó(l)a. 

De casa nesta acepção se derivaram ca^sear e caseadeira, 
que significa « a mulher que abre as casas no fato e as guarnece 
ou remata». 

O que é menos conhecido é o verbo casear, com a significa- 
ção de «fazer moradas de casas», como o vemos empregado no 
passo seguinte: — «impoz este tributo ao vinho, para casear Villa 
Xova> — ^. 

casaca, casaco 

Casaca, de que se formou, além de outros derivados, uixi 
masculino com a signiílcaçào de qualquer peça de vestuário qix^ 
se põe por cima do colete ou de outro casaco, veio para Pt>r' 
tugal provávelineute de França, onde ensaque queria dizer w^^ 
«sobretudo». Para o francês, em oposição ao que afirma Littré » 
escudando-se com Diez, veio casaqiu\ presumivelmente designan^' 
do primeiro «farda», do roupão usado pelos cossacos, que ^^^ 
russo se denominam kozaki, pronunciado kazáki. 



1 Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 241. 

2 O Século, de 1 de outubro de 1901. 

^ E. Freire de Oliveira, Elementos para a historia do municí^ 
DE Lisboa, i, p. 178. 

^ DiCTIONNAIRE DE LA LANGUE FRANÇAISB, Paris, 1881. 



ApCSlUaa am Dicionário» Portugueses 



No termo de Lbboa, entre faloios, um casaca quere dizer 
* o iiidivíduo de Lisboa, da cidade, que não usa jaleca > . natural- 
mente porque, quaudo tal apodo foi introduzido lui liii;;iiãjem 
deles, a casaca era trajo obrigado da crente fiua. a toda a hora 
do dia, isto é, a camca, o Jrac fiaicC-a e castelhano, com as abas 
somente na parte posterior e compridas, porque, se eraru curtas, 
essa pe\'a de vestuário deuominava-se niza. 

Quando eu era rapazote, as pessoas de certa represeutaçilo, 
OH que pretendiam tê-la, trajavam sempre casaca quando esta- 
vam de lute, e ainda hã pouco tempo deixou esse trajo de ser o 
próprio dos funerais e outras solenidades diurnas. 

Exemplo de casaca como «individuo da cidade» e o seguinte: 
— * um ou outro saloio que uào se intimida com o casaca» — '. 

Como se vê, a citação ê moderna; mas o termo tende a obli- 
terar-se, em razão de maior convivência entre a gente de Lisboa 
e a dos subúrbios, e porque a diferença radical no trajar se vai 
abolindo pouco a pouco numa promiscuidade quási absoluta: o 
povo acrescentou as abas às jaquetas, convertendo -as em ca-iocun. 
paletós, e as pessoas de distinção cerceuram-nas, de forma que 
aerescentando-as uns e encolhendo-as os outros, resultiui ficarem 
do mesmo comprimento. \ada mais igualitário do que as modas, 
e ainda bem! 

casqueira 

— <É toda feita (a ratoeira de raposa] de madeira de pinho, 
geralmente casqueiras ou taboas velbas, atim de incutir menos 
desconfiança » — *. 

Há um provérbio que diz: <0u dá tábua ou casqueira». 

O sentído do provérbio é: «todo o indivíduo tom uma ser- 



* O Sbctlo, de 18 do janho de IBOl. 
» Josí Pinho, Ethnooraphia Amarastina, A caça, i 
ia, n. p-90. 



2''>4 Apo^iloM aon Dir/umârUm F^rtuguoe» 



ventia r|iialqaer>. como a árvore, com relâçáo i madeira, boa ou 
ruim. qne se aproveita dela. 

cassango 

FiHta palavra, propriamente, significa um p«^vo da Guiné:— 
♦ O.H prirH'ipíU'H |»ovoá espalhad<)s pelos sertr^es. margens dos ri« 
e cftulííA, ou littoral na Guiné sào: <os fulos, os jalofos. màn- 
din^'iiH, M\i]rt.'H, churos. banhames. burames ou papeis, bijag^ii 
r-íiss unidos, }»eafare9. nalins. balantas. Lipes e sacalages > — '• 
F»'liziíH'nte íjuem escreveu isto. ortografoa tudo à p«:)rtULniesíL 
♦•rn roninirio ria pretenciosa mi>ia actual. 

I)»"'st.e noine «ítnico se derivou sem dúvida o de uma esj-ície 
df ronturia. naturahiiente bem aceita por tal p«'^vo na permata. 
tíTino j;'i n;jistaíIo no Suplemento do Xôvo Drcc. abonado com 
(!/ip*'lo í» IveíiH, mau que em vista de um anúncio publicado do 
KíviNíiMiHTx, dí! 4 de novembro de 1882, vou explicar tambtím: 
" rontíirjji. qiií» Hí' vfnde aos massos: é de varias Ci>res, tais 
roíno Immíico, pn-to, ♦•nrariiad''». aziil-celeste > — . 

í-astvUianò 

< MPTí- (\\'/yy pni|»ri:inn'ijtí* d<* <.'astela. em espanhol ri/.<f(Jlin'\ 
i\i' iii itllíi, iint»'> (\i>fl(H(í. 

< ■.! tílli.nii-iiio «'• tauib«''iii (*st.a torina em portiiiniês, poi^ antes 

- A<|ni jiiz Siiipjiii Anr.jMi. 
<ln>' iii;it-Mi ijiuit'» oa>t«.'lã'>. 

K -Í»'1».IÍX» <1') >'M1 CoVulll 

I>'-i.iti.i a «piaiiT-j-í íào — '^. 



' o Si.rrLo. -l- 2:; '1.' al»ril «l».' lí»<)2. 

^ I». l;.if,i.i 'i.- l{lut'ail. VoCAlULAIlIO POKTrOUKZ E LATINO. *«<> 
'•. < "ov AM. 



^ottiíat aoê Diãonãriot ForíugHe 



No Algarve é o nome áe uma costa boa de figo: — cQ mus 
ristocratico é o «Berjacote. . . e o Castelhano) — '. 

castelo; castelário, Casteleiro 

Aqui vâo mais duas acepções especialíssimas desta pala- 
ra, deTÍdamente abonadas. — <A mesma aparência de casaes 
irreos, eastellos, ou torres (assim se chamavam as casas de so- 
rado) • — '. 

— < Castellos se denominavam uns mastros de maçaneta doi- 
ada com muitos enfeites de fitas e galhardetes- — K 

Castelo é também uma peça de moisbo: v. sSQUrflIha. 

O derivado alatinado castelário j castellum, deminutivo de 
astrum, a que em português corresponde Casteleiro, é usado 
or Alberto Sampaio na monografia Aa • villas • do noetb de 
'obtuqal: — 'OS nossos castellos também nâo foram instrumento 
e oppressão ou rapina, [como os de outros países em que mais 
Tedominou o feudalismo] porque Benúam de defesa de terras 
:as mios dos casteUarios ou castelleiros, delegados do rei» — *• 

castro, castrelo, castrejo, crasto, cristelo, crasta, crasteiro 

O Novo Dicc. dá-nos os dois primeiros vocábulos, e define 
primeiro como — • castello de origem romana • — : cumpre 
crescentar »ou pre-romana>. Castrejo, com o femeuino castr^a, 
penas o incluiu com a significação de — «natural de Castro- 
Laboreiro • — . Todavia, tanto castreja como castrejo, e assim 
ambém crasio e cristelo, 85o igualmente substantivos, com sig- 
ificados análogos, e todos eles muito freqiientes na toponímia 



O JoKMAi. DA Manei, de 4 de novembro de 1885. 
Portugália,!, p. 178. 

AnCúnio de Campos, Luís db Camões, ii parte, cap. uv. 
tnPortagalia.i, p. 580. 



27f*j Apontilai aos Dicionários Poriug 



do norte de Portugal, onde p4>r toda a parte os castros coroam 
aã eminências, como é sabido. O último citado, como nome de 
localidade. rostu:ua eserever-se err«>neamente christeUo, como se 
absurdamente tivesse alguma cousa que ver com Christo: outro 
tanto aiMUteceu a yachrisfí/o e sachri^tia, que provêem do latim 
sacrum. e não de Chriyfo, e, portanto, em qualquer ortografia, 
devem escreve r-se sem o h, sacrifttào^ sacristia, 

Cra^fo é p«)is o mesmo que castro, de que é meta tese: — «em 
Portugal õá monumentos archaicos, luso-romanos ou pre-romanos, 
sào conhecidos por diversos nomes: — castêUo, castéUo, cra^to 
(do latim castriunj^ — '. 

Cra>'fa significava claustro, e é natural que seja o piorai 
latino claustra, de claustrum, de claudere, «encerrar». As 
fornias intermédias podem reconstituir-se: claustra | clastra 
(cf. oifijsto de Augustum) J crastra, crasta, por dissimilaçáo 
(cf. crarif \ clauum, e rosto J rostrum). 

K vocábulo independente, portanto, de crasto *. 

Crastelro é adjectivo derivado de crasta, e foi usado mo- 
dtTiKiniente, conquanto provavelmente colliido em documentos 
antÍLTus: — esse <iue fnra }»rior crasteiro de Santa-Cruz» ^ 

O vocálmlò vcni n»» Drtimxxaire portugais-fbaxçais de 
J. Inácio lioqiietc, com rciiiissáo a Claustral *. 



catana, catanar 



i) último dicionário portuíxués publicado. Novo Diccionârio 
j>A iJ.víHA j'oUTr(;rí:s\, ile Cândido de Figueiredo, deline da 
sc)/iiijite maneira o vocábulo i\iiana: — «alfange asiático; pe- 



* Líitc d»' Va-cuiOfldo-, PORTUOAI. PHEniSTORlCO, p. i)l. 

'^ V»i;i-> • A. A. (''•rt<.'.s.'i<», SriísíiMOs i»aka um diccionario com- 
iMJoro DA íJNr.iA r<)KTr(rrKSA, Coimbra, líX)'). 

•' Aiit<'ini.> d«.í CaiiijM.s, Lr is Dl-: Camões, in *0 Século >, de 2ò lie 

julho <lf lííK). 

■* rari>, Is")."). 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 257 



quena espada curva; espada com bainha de madeira, em uso 
entre os timôres» — , e dá-lhe, em dúvida, orijem japonesa. 
No Suplemento ao mesmo dicionário [2.° voL, p. 775, col. n] 
atribui-se-lhe orijem italiana presumível, cattana, femenino de 
cattano, contraído de capitano, contracção que designaria «es- 
pada de capitão >. Efectivamente, Petròcchi ^ aduz como desusado 
o vocábulo cattano; todavia, apresenta-nos também catana, que 
define — «sorta di scimitara o di pugnale giapponese» — . 

Bluteau, no Vocabulário portuguez e latino, diz-nos: — 
«Catana, catana. He palavra do Japuo. Vid. Alfange. Terçado. 
(Todo o primor vay em alimpar a Catana cora o rosto sereno 
& alegre: Lucena, Vida de S. Franc. Xav. foi. 473, col. 2)» — . 

Cumpre notar que em Lucena, lugar citado [Liv. vn, cap. 2.°], 
se acentua catana; como, porém, duas linhas mais abaixo vera 
um erro tipográfico, « tatisfeitos » por «satisfeitos», e era toda a 
interessantíssiraa obra mais algumas incoerências de acentuação, 
seria mester compidsar pacientemente essa edição [Lisboa, 1600], 
para se averiguar se o dito vocábulo é mais vezes citado, com 
esta ou outra acentuação. Não o faço agora porque me falta 
ocasião e tempo, e por ser provável que o próprio Bluteau, es- 
crupulosíssimo como se nos revela em todo o seu famoso Voca- 
bulário, não assentasse na acentuação que indica, sem para isso 
ter motivos ponderosos, tanto mais que é ela a certa. 

A acentuação catana é corroborada pela segunda citação abo- 
natória, tirada do poema Malaca Conquistada, de Francisco 
de Sá e Meneses, que transcreverei, com os dois versos que a 
antecedem no poema: 

[Cora pouca ocasião quo procuráráo 
Descobrirão seu fim sanguinolento] 
E nos derào do mal já tardo aviso 
Mil crizes, mil catanas d'improYÍso. 

Canto iu, est. 49. 



* Novo Dizionàbio univbrsale della lixgua italiana, Milão, 
1S87, 1. 1. 

17 



2õ>i Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Há ainda terceira citação, de Franeiae» Rodríguez Lôbo^ 
CôBTE KA Aldeia. Como porém é em prosa, fôra inútil para 
o caso reproduzi-la aqui. 

Morais [Diccioxahio da língua portuqueza, 3." edição, 
Lisboa, 1823] transcreve esta última citação. 

O Grande Diccionabio Portuquez, cjiamado de Domingos 
Vieira, reproduz, com cento e sessenta anos de intervalo, as cita- 
ções de Bluteau, modificando, todavia, a definição do vocábulo: 
aí Catana é — «alfanje asiático > — . O mesmo fizeram outros 
dicionaristas anteriores e posteriores aos editores do Grande 
DiccioNARio, omitindo as citações e transcrevendo essa defini- 
ção mais lata de «alfanje asiático >, a qual provavelmente foi 
sujerida pelas duas últimas citações, que se não referem ao Japão. 

Seria de interesse compulsar toda a literatura portuguesa do 
tempo de Lucena e imediatamente anterior ou posterior, em cata 
deste curioso termo, que de tam longe nos veio; por agora con- 
teutar-me hei com esta, que aproveitei sem maior trabalho. 

No vocábulo Alfanje, para onde Bluteau nos remete, nada 
se acrescenta à definição que a elucide; antes ficou prejudicada, 
levando talvez essa remissão os lecsicógrafos posteriores a darei*^ 
os dois vocábulos como sinónimos, pois nos dizem que ambos 
desi.^nam cesjmdas curvas asiáticas*. Koquete, quer no Nouve.^- ^' 
l)iCTir)NNAiuK pr.uTi:<iAis-FiiAN(;Ai.s [Paris. 1855j, onde seliifli^* 
a traduzir rafuíia i>or coiitehty, quer no Diccionario PORTuai':*=^- 
[Paris, 18()7\ ein que a define coiiio terrado, suprimiu a esp>^ 
cificação de jajto)if.^', dada e autenticada ]>or Bluteau, o 1 ■-* 
outros também fizeram: e no Diccionario de synonymos oiiii^^^ 
catana, (juaiulo dá a sinonímia de espada, discriminando, cc>ii 
maior ou menor artifício, os termos espada, gládio, terçado, '* ^^ 
rindana, alfanje, cinutiirra. 

F. Ad. Coelho, no seu Diccionario manual etymoloí?^ 
DA LiNauA poRTuauEZA (Lisboa, sem data) aceitou, sem repíi"* ' 
a etimolojia apontada por Bluteau, definindo também o vocá1->^ 
como significando — < alfanje asiático » — . 

Não tenho ao meu alcance agora todas as muitas ediçõec? 
todos os dicionários i)0ituguese8, para averiguar se outros seJ-^ 



Apostilas aos Dicimiârios Portugueses 259 



Ihantemente nos dizem ser a catana «um alfanje asiático >, sem 
limitaçào de povo ou povos da Ásia que o usassem, mesmo con- 
cordando, ou nào, em que o vocábulo seja japonês. 

F. Diez * nào dá o vocábulo, nem em italiano, nem em por- 
tuguês. Kõrting *, em o n.° 1628, dá-nos o italiano catana como 
presumivelmente modificado de um étimo hipotético, cajytana, 
com a significação de — «casacca dei cacciatori> — , ao que o 
Novo Dicc. em certo modo alude, quando diz no Suplemento: 
— «designando veste de capitão, e, entre nós, a espada de capi- 
tão» — . 

O Novo Dicc. às definições anteriormente dadas, a que nos 
referimos, acrescenta que o termo é também aplicável ás espa- 
das dos timores. É possível que assim seja; é lícito, porém, hesi- 
tar em admitir essa atribuição do nome, não só porque Mão está 
abonada, mas também porque « espada > na língua dos timores 
se diz súric, conforme o Dicctoxario poktuguez-tétum de 
Sebastião Maria Apparício da Silva [Macau, 1889]; e principal- 
mente por ignorarmos o fundamento com que Sá e Meneses deu 
[ este nome às espadas malaias. 

i Que o vocábulo é japonês, como afiimara Bluteau e acei- 

l taram Morais, Ad. Coelho e Cánd. de Figueiredo, não há dúvida, 

f pois nessa língua hatana significa realmente não só < espada >, 

^as também « faca » ; posto que este último objecto seja mais 

^^ecialmente designado por um substantivo composto de ko, 

'cHança», e Icatana, isto é, ho-gatana, com o abrandamento da 

ciciai do segundo componente, que é de regra, e por uma ca- 

t^f ese injénua, como a que em malaio se emprega para designar 

^ ^liave com o epíteto de « filho da fechadura » (ának Jcúnchi), 

^ ^ degrau como « filho da escada > (ának tcuiiga). Que o vocá- 

"do katana denomina na actualidade não somente a espada 

í^^einente curva japonesa, mas até a espada usual de mu- 



* Etymolooischbs Wôrtbrbuch der romanihghen Sprachbn, 
^i^n, 1869-1870, 3.* edição. 

* Latbinisch-romanisches Wôrtbrbuch, Paderborn, 1871. 



2tK) Apostilas aos DiciotUirios Portugueses 



niçâo, europeia, vemo-lo no vocabulário apenso à gramática ja- 
ponesa de Seidel *, muito recente, conjuntamente com ken, turigi, 
wakisassi (sic: =uàkizáci), 

O que ocorre pregimtar é se o vocábulo catana veio para 
portuguCís directamente do japonês, ou por intermédio do italiano. 
Tenho como certo que a primeira solução é a única aceitável, 
nào só pela definição de Bluteau e primeira citação com que a 
abonou, mas também atentando nas estreitas relações que os 
portugueses tiveram com o Japão nos séculos xvi e xvii. 

É igualmente ponderosa em favor desta solução a circunstân- 
cia seguinte: A tradução italiana, quási contemporânea, da obra 
de Lucena, feita pelo P. Luís Mansoni, como Lucena da Com- 
panhia de Jesus [Roma, mdcxiii], traduz uo indicado passo 
catana por scimitarra, o que testemunha nào ter sido ainda 
admitido em italiano o referido vocábulo japonês, que natural- 
mente passaria de Portugal ao depois para lá, por meio da li" 
teratura. 

Devemos, sem embargo, confessar que Fernám Méndez Pinto 
chama sempre treçado (sic) á espada dos japòes, e já vimcrr" 
que Bluteau lhe dá igualmente esta sinonímia. 

Seja como for, o vocál)ulo por tal modo se naturalizou cá, 
disso já se queixava Francisco Rodríguez Lobo no passo qii-^-- 
constitui a terceira citação de Bluteau, que deu o substanti^ 
derivado cafamida, como «golpe dessa, ou de outra espada*, 
em sentido figurado, lioje o único vulgar, como equivalendo 
«censura áspera» ; porque o vocábulo catana, no sentido natural : 
se emprega como termo burlesco. Produziu também pelos mod( 
o que menos sabido é e não está por einquanto mencionado ^ ^ 
dicionários portugueses, o verbo catanar, que no Riba-Tejo qu^ '*- 
dizer < ceifar herva > com a gadanha, segundo o que me inforr^"- ^ 
a minha criada Maria do Rosário, natural da Chamusca, e ^ 



1 Hautleben's Vbrlag, Viena, Peste, Lípsia, p. 184. 
5 Peregrinação, iii, e passim. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 261 



irmão, consultado independentemente, e que foi trabalhador rural 
nos campos vizinhos daquela vila ^ 

cauchu; cacho, cáchu 

Na Secçáo Falab e escrever do < Diário de Noticias » * de 
Lisboa, com os números Dccxin e dccxvi, vêem dois artigos 
referentes ao primeiro destes vocábulos, o qual ordinariamente 
se escreve, à francesa e errado, caoutchouc, Cita-se ali E. Littré 
para se lhe atribuir orijera americana. Com efeito, o grande es- 
critor e lecsicógrafo francês expressa-se do seguinte modo acerca 
dele: — <^ (ka-ou-tchou ; le c final ne se prononce jamais. . .) étym. 
Cahuchíiy nom indien de cette substance» — , que primeiro de- 
fi/i/ra: — « Vulgairement gomme élastique; sue coagule Am jatro- 
pha elástica^ L, arbre de la famille des euphorbiacées tithyma- 

'^« et d'autres plantes, telles que le figuier d'lnde, le jaquier, 
te. >_. 

íía Ortografia Nacional ^ aludira eu em nota às escritas 
u^is e en'óneas caittchu, cautchtic, caoutchouc, e propusera no 
^"to a ortografia aportuguesada cauclm, que mantenho, con- 
'^nto prefim a este inútil galicismo algum dos três ou quatro 
O CS que temos para a mesma substância, e adeante men- 
^o. Em qualquer caso, o c final, e mesmo o t são erros evi- 
tes, copiados da defeituosa escrita francesa, indiscretamente 
t;ada. 

Xiodolfo Lenz, no fidedigno Diccionario etimolójico de vocábu- 
cihileuos *, traz a forma caucho, referindo-se a ela como estran- 



^ Já publicado este artigo na Revista Lusitana, vi, 1900-1901, de 
o extratei com pequenas alterações. 
De 9 e 16 de janeiro de 1906. 
Lisboa, 1904, p. 174. 

Diccionario etimolójico de las vocês chilenas derivadas 
NGUAS INDÍJENAS AMERICANAS, Santiago de Chile, 1904-1905, p. 186, 
içáo que ainda não está concluída. O asterisco significa < de uso corrente 
tiago >. 



2'i2 AjH>8tilas aos IHcionário» Portugueses 



jeiía nos termos seguintes: — «* caucho, m[asculino] -lit[erario]- 
el jugo lechoso. resinoso de varias plantas sudainericauas que se 
cuaja cuaudo se espone ai aire; goma elástica. La palafcra no es 
propiamente chilena, pêro conocida en las ciudades por el mucho 
uso industrial de la matetia. . . La voz mejicana hule, que signi- 
fica lo mismo, se usa solo para la tela encerada -em pL»rtnguês. 
oleado]. Variante: cautchuc, poço usado... Etimologia: Seguii 
el Standard Dictionanj dei indio cahuchu. Segun una noticia 
de Barbereua que no puedo comprobar, la voz seria de la lengua 
de los Índios maina.< de las márgenes dei Amazonas > — . 

O primoroso poeta e prosador Eduardo Augusto Vidal, que 
sabe, como poucos actualmente, a nossa língua, chamou a minha 
atenvão, em carta, para a confusão aparente que nos artigos a 
(jue me referi se faz entre o cauchu, ou caiicho, de que estou 
tratando, e outro vocábulo, semelhante na forma, cacha, ou ca- 
cho, de orijem e sii-nificado muito diversos, e sobre o qual o 
Conde de Ficalho, nas nota-j aos Colóquios dos Simples e drogas 
da índia, de Garcia da Orta, nos diz *: — «O vcate» de Urta, 
*cato-^ da Phfnnu/cujuv porfauuezit. substancia mais conhecida 
pelo n«Miie de catn-hn, é um extracto da madeira da Anhin 
Cattrhu. Wild. (Mlmosfi Catrchu. Linu. til.) uma arvore l»a>- 
taiite commum na índia, mais a leste, nas terras de Durma, e 
por outro lado na Africa Oriental: ó também obtido este extra- 
cto íle uma espécie próxima. Acácia Suvifi, Kurz., que se eu- 
contra iirualniente na índia. — Cate ', a designayào empregaílu 
por Orta, (' a natural orrhoj^ri-ajdiia portugueza do seu nume hi^^' 
duslani, (jue hoje escrevem /v// ou fiafli. Drury diz que a palavr^^* 
cafc signitica arvore e chu sueco, donde cafcchu: mas não sei ^^* 
esta alíirmavào tem fundamento, Duarte Barbosa. . . dá á mesn'*^^ 
substancia o nome de cacho, que ó a designação tamil, canar^'*^ 
(lingua do Cauará) e malas a, hashú, ou kachá: e «cate*, ^^^'' 
pregado em Malaca, segundo Orta, é unui simples alterarão ^** 
caie, ou de cacho » — . 



* vi>l. II, Lisbci, l.^!>*2, \). 7i;. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 263 

Acrescentarei algumas considerações a este douto comentário, 
o dicionário indostano-inglês de Nataniel Brice ^ encontram-se 
\ vocábulos Jcath, — «an astringent vegetable extract, which the 
atives eat with betel-leaf — extrato vegetal adstrinjente, que os 
aturais [da Índia] comem com o bétele» — , e ainda outro vo- 
ábulo parecido, kãth, com a longo e t aspirado cacuminal *, 
esignando «madeira» e «madeiro» (timber, block). 

Monsenhor Rodolfo Dalgado traz o vocábulo kâta, (isto é, 
''^t(a)y traduzindo-o por «cato, terra japónica», e dá-o como 
lendo marata, no Diccionabio komkaní pobtuguez 3, e no 
DiccioNABio POBTUGUEz-KOMKANl * traduz Gato por hât, sem 
mais explicação. 

A Phabmacopêa pobtugueza ^, citada pelo Conde de Fica- 
•io, dá-nos a sinonímia seguinte: — * Cachou, fr. — Black cate- 
f^u, ingl. — Katechu, ali. — Cato; Catecu [sic], besp. » — , o 
ue nada adeanta. 

Quem deixou o caso perfeitamente averiguado foi o copioso e 
udito Glossário de Henrique Yule e Artur Coke Bumell, inti- 
mado Hobson-Jobson, bein» a Glossaby op Anglo-Indian 

^I-OQUIAL V70BDS AND PHBASES, AND OP KINDBED TEBMS ^I 

* O cacho, catechu, cate, cato ou cacho (em inglês catechu, 
■^h e caut) é uma substância vejetal, extraída de várias espé- 
3 de Acácia, e cbama-se em indostano kãt'; mas a forma 
•^o provém do sul da índia e é ou o tamil kOxu, ou o cana- 
^ e malaio kãchu; [e não, kashu, i. e. káxu, como escreveu o 
^de por distracção: não há em malaio o som do x simples, 



* A BOMANIZED HiNDÚSTÁNt AND EnGLISH DiCTIONARY, Calcutá, 

^ É am t proferido no ponto em que pronanciamos o r Iene de caro, e 
'^^do. 

^ Lisboa, 1893. 

* Lisboa, 1905. 

'^ Porto, 1887. 

^ Londres, 1886, p. 133 (q. v.). 



2G4 Apostilas aos Dicionários Portugtieses 



como em xadrez, mas sim uma consoante que se parece coio ^ 
eh beirão]. 

Traduzi, resumindo, o que nos diz o Glossário. 

Quanto à estranha denominação terra japónica, vemos no <3Li'^^ 
artigo ser a misnomer, «equívoco», de Schrõder, que era 1C3^^* 
publicou a Phabmacopea Medico-chymica, e aí denominoix ^ 
definiu assim esta substância vejetal: — < Catechu, terra japónr^^^» 
genu^ terrct? exoticoí* — , quando a dita substância, ao depo*-*^ 
foi importada do Japão. 

Temos pois dois vocábulos diferentes em português, car/^^' 
cáchu, cate, cato, voz asiática, extrato de várias acácias; cmir^^^ 
ou, se quiserem caucho, voz americana, extrato de várias árvoX"^^ 
diferentes, por outro nome goma eJásticu. 

Cumpre não confundir um com o outro na escrita, como, ^^ 
mesmo modo, se não devem confundir na pronúncia. 

O cauchu denomina-se também borracha, e guta-perr^^ 
(=perxa, e não perca, como erradamente se profere: o Yocr^^ 
bulo é malaio, gata-percha, pron. quási gueta, ou gata-pertcF^-^' 
goma da árvore j)ercha ou < goma de Percha, id e. Çamatra»- ^ ' 
O nome veio de França para Poitugal, e para lá foi de T ^^' 
glaterra, o que explica a escrita guita, onde o u vale próssiux ^' 
mente ã português, como é regra em inglês para o u breve er ^^-^ 
sílaba tónica fechada por consoante. Outro tanto aconteceu c(^ -*^ 
o sinónimo goma-gafa, que também nos veio de Inglaterra!^'*-** 
intermédio da França K 

Outro nome ainda da borracha, mais conhecido no nort^ <lIo 
Brasil, é seringa, denominando-se as árvores que a produz*^ "^ 
seringueiras, e o plantio seringai -. 

A orijem de seringa, e bem assim a de borracha neste s^' ^'' 
tido são desconhecidas. 



* Marcolo IVvic, Diotionxairk étymologiqub des mots d'^^ 

GIXB ORIENTALE, Píiris, 187^3. 

2 Vizconde de Beaurepaire-Rohan, Diccionario de vocábulos ^ 
ziLEiROs, Rio do Janeiro, 18S9. 



Apostilas nos Dicionários Portugueses 2(35 



> CoDde de Ficalho e também o Glossário citado referi- 
se ao livro de Duarte Barbosa, a respeito de cate, cacho, 
?ei-o cuidadosamente, e só pude encontrar nele referencia 
icho a páj. 289, formando o vocábulo composto cachopucho, 
recho seguinte: — «outras drogarias que nós não conhe- 
s, e em Malaca e China saom rauvto estimadas, e tem 
le valia, silicet cachopucho, e muyto encenso que vem 
aer> — *. 

íefere-se aos reinos de Guzarate e de Cambaia, e é sem 
la este o passo a que aludiu o Glossário de Yule & Burnell, 
a seguinte citação, que transcreveu da tradução inglesa de 
. J. Stanley, publicada pela Sociedade Hakluyt, conquanto 
desse ter feito do orijinal que incluiu na bibliografia, e 
to devia conhecer: — «drugs from Cambay; amongst which 

is a drug which we do not possess, and which they call 
O and another called cacho» — *. Os acentos sâo a mais, e 
são está mal feita, como se vê; a substância é uma só. 
ntónio Núuez, a quem também cita, chama-lhe cacho e cate: 
) baar do cate, que aqui [índia] chamam cacho, he em tudo 

ho arroz, quanto ao peso» — ^. 

onforme Leôncio Ifichard * imchol\ (2.® termo de cacho- 
yjéo nome malaio da herva cidreira (ynélisse). 



caudel, candelária, coudel, acaudelar; caudilho 

• substantivo caudilho já por Bluteau ^ foi declarado cas- 
ciismo, dando-lhe como correspondentes portugueses guia ou 
ào. Escusado era ir tam longe, pois da mesma orijem re- 



' Noticias para a historia b obografia das nações ultra- 
jas, Lisboa, II, 1812. 

* ih, 

* LrvRO DOS pesos da Índia, Lisboa, 1868, p. 22. 

* COURS DE LA LANGUE MALAISE, Bordéus, 1872, II, p. 102. 

* Vocabulário portugubz b latino. 



266 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



jistou O mesmo doutíssimo escritor a palavra portuguesa coudeL 
a que deu por étimo erroneamente o espanholado caudilho, 
Define-se cotuiel, no Vocabulábio, do modo seguinte: — «Por 
ordem . . . del-Rey D. Affonso v os homens de armas Escudey- 
ros, que serviam a cavallo nos exércitos foram reduzidos ao 
mando, ou capitania de hum Capitão que os repartisse por Cou- 
deis, dando a cada Coicdel vinte. Pelo que chamaram aos Ca- 
pitaens desta gente Couãeis, Coudel Mor. Este, como por o re- 
gimento da guerra ficava capitaneando a gente de cavallo, despois 
se veyo a encarregar-lhe a execução das leys, que se fizerão, 
para conservar as boas raças dos cavallos do Reyno, e assi tem 
a seu cargo os cavallos destinados a cobrir as egoas, e para este 
effeito obriga huns homens a comprar egoas» — . A seguir, a 
palavra Caudelaria é definida — «olficio que tem a seu cargo 
a criação dos cavallos» — . 

Ora, tanto coudel, como caudeL como o caudilho acastelha- 
nado procedem de uma forma latina capitellum \ ca^ptello. 
Em castelhano de captello fez-se primeiro caudiello {=caiir 
dielho), e por contraçào do ditongo ie em i, caudillo (cf. cas- 
ta 11 um j castiello j castiUoy e v. castelhano); em português 
captello deu caudel, e deste provém imediatamente coudel 
(cf. touro j taurum). Portanto, ao castelhano caudillo corres- 
ponde em português coudel, ou caudeL do último dos quais pro- 
cede o verbo acaudelar, empregado pelo cronista Kui de Pina: — 
« Conde, ficai cora estes mouros, porque lhe conheceis melhor as 
manhas, e acaudelai esta minha gente* — *. 

Do primitivo caput, de que se derivou o deminutivo capi- 
tellum, resultou o português cabo, em quási todas as suas 
acepções, e deste o verbo acabar, (q. i\). 

O vocábulo capitel (q, v.) tem a mesma orijem e entrou na 
língua provavelmente por intermédio do italiano capitello. 

Não vejo o fundamento com o qual o Novo Diccionário 



* Crónica de El-rei Dom Afonso v, cap. clv. 



ApogtUas aos Dicionários Portugueses 267 



ara serem cavdel e seus derivados melhores formas que 
lei, címdelarta, que são mais portuguesas ainda. 



caurim 

Este vocábulo, conforme Yule & Burnell, é o indostano kaurl, 
o marata kavadí, e é na índia o nome de um búzio pequeno 
ranço (Cyprae moneta), que corre como dinheiro na Ásia 
•idional, e na Africa, onde também se chama búzio (q, v,). 
Figuradamente, e com certa graça, designa o mesmo que 
>te(q, V.), isto é «dívida que se não paga», que o mesmo seria 
:á-la em caurins. 

cavalaria 

^Uéra das significações gerais, que vêem em todos os dicioná- 
, e das especiais rejistadas no Suplemento ao Novo Dicc, 
ipre acrescentar esta: — «Das herdades em que se não ins- 
am centros de lavoira. . . diz-se que andam de cavallaria» — K 



cavalheiro, cavaleiro; caval(h)ariça 

A primeira destas formas é castelhajia, como o prova a con- 
ite palatina Ih pelo U de caballariura; a segunda é a corres- 
iente portuguesa: cf. lat. castellum \ português castelo, 
elhano antigo castiello, moderno castillo (ll=lh). 
Confusão entre um dos significados que tinha em português 
tleiro, «o que tem cavalo e nele anda montado», e cava- 
f^o, «fidalgo, pessoa de certa categoria», produziu a forma po- 
X defeituosa cavalhariça por cavalariça, a qual se deve 



* J. da Silva Picào, Ethnooraphia do Alto-Albmtbjo, in Portu- 
a, I, p. 271. 



2GS Ajwstilas aoa Dicionários Portugueses 



cairtelosamente evitar, pois se cavalheiro usurpou algumas das 
acepções de cavaleiro, nunca a quem vai ou anda a cavalo, e só 
por isso, chama ninguém cavalheiro, vocábulo este que em por- 
tuguês não sujere a idea cuvalo em ocasião nenhuma. 



cavaqueira 

A palavra cavaca, entre outros significados, designa uma es- 
pécie de conhecido biscouto, duro, muito leve, cuberto com 
uma capa de açúcar branco em pé, e principalmente fabricado na 
vila das Caldas-da-Kainha, em que é a especialidade da terra, 
quanto a doçaria, e que tem o nome de beijinho, quando mais 
pequeno, isto é, quási do tamanho de uma cabeça de dedo. 
A mulher que os fabrica e vende tem lá o nome de cmni- 

m 

queira: — «Mais uma vez logradas as casas de pasto, cavaquei- 
ras, lojas de louça, etc> — *. 

Note-se que a designação se aplica principalmente às fa- 
bricantes, como vemos pela distinção feita na citação entre ca- 
vaqueiras e lojas de loura, não, louceiros ou louceiras. 



caxa, caixa 



Como nome de uma moeda de deminuto valor na índia 
outras partes da Ásia, falta nos dicionários portugueses. A pai 
vra, conforme Yule & Burnell ^, é o tamil M^u: — <lhe mand ^ 
logo duas mil caixas» — •^ 



» Diário de Noticias, de 24 de outubro de li)05. 

' A Glossary of Anglo-Ixdian words, Londres, 1886. 

3 António Francisco Cardim, Batalhas ua Companhia de Jesi*^- 

Lisboa, 18IH, p. 194. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 269 



cazembe 

C termo da África Oriental Portuguesa: — * Cazembe, com- 
lante de ensaca» — *. 



ceifarda, ceifardajem 

ístes neolojismos, que nào sei se chegaram a dlfimdir-se, 
n propostos pelo vizconde de Coruche na Gazeta dos La- 
DORES, em fevereiro de 1883, para traduzirem os termos 
?ezes fauchard e fauchage, isto é, « certo instrumento para 
T herva», e essa ceifa. 



cemitério, cementerio 

A forma alentejana é cementerio, talvez por influência cas- 
.ana, e nela se deu a inserção da nasal, por assimilação 
m, como em majiçana j matiana, comparado ao portu- 
s maçã. A palavra latma é coemeterium, e o / por e do 
tuguês cemitério teve por fim evitar a haplolojia centério 
n'tério). O vocábulo é de orijem douta, ou semi-douta. 



cediço {= cediço) sediço 

Epifânio Díaz, na Revista Lusitana *, atribuiu a este 

ctivo, muito comum no sentido de «em começo de putrefac- 

incapaz de consumo, ou fora de uso», o adjectivo latino 



^ Azevedo Coutinho, A campanha do Barué, in * Jornal das Colo- 
^, de 13 de agosto de 1904. 
^ voL I, p. 175. 



270 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

seãititius, alterado em sedetitius \ sedere, «pousar». 
Nào advertiu porém o douto latinista em que à forma sediço, 
que é já a que dá Bluteau *, deve corresponder outra mais an- 
tiga em português, ee(e)diço, análoga à castelhana cedizo, como 
em curne cediza, «carne que já tem (mau) cheiro >. 

António Morais e Silva ^ aduz um exemplo, que mais se 
conforma com a verdadeira significação de cediço: — «Anexim, 
dito sediço; mui velho, sabido e trilhado» — . 

O étimo, pois, deve de ser cedititius ! cedere, «passar, 
estar gasto», como o aponta o Dicionário da Academia espa- 
nhola 3, e conseguintemente há de escrever-se com c, e não com s 
inicial, em português. 



cerco 



Além das acepções definidas nos dicionários conheço duas, 
de que vou apresentar exemplo: — «Estas redes sâo lançadas 
com dois cabos ... e sâo dispostas ou em linha recta, ou for- 
mando cerco» — *. 

— «os cercos . . . consistiam nisto. Por motivo de voto antigo, 
e depois da Paschoa, a maioria das pessoas d'uraa freguesia, com 
pendões, cruzes e andores, começava a percorrer os limites da 
parochia. Á frente um grupo de atiradores. . . disparava frequen- 
temente, em regra ao desafio» — -', 



cerne, cernar, cerneira, cernandi 

Estes vocábulos, menos o último, vêem perfeitamente defini- 
dos no Novo UiccioNÁRio, e os seus significados sáo mais ou 



1 VOCAB. PORT. B LAT. 

- DiCCiONARlO DA LÍNGUA PORTtlGtJBZA, Liaboa, 1823. 

3 Madrid, 1809. 

* Fernández Tomás, A pksca em Buarcos, in Portugália, i, p. 149. 

^ Rocha Peixoto, Portugália, i, p. G24. 



Apo8tilaa aoa Dicionáriaf I^htynests 271 



menos conhecidos, relacionando-se os derivados com o seu primi- 
tivo cerne — «a parte interior e mais dura das árvores» — . 

O último foi me subministrado por indivíduo que residiu lar- 
gos anos na província do Pará, especulando com a exploração 
das seròigiieiras, ou árvores productoras de borracha, e me 
disse que cernandi significa lá a «borracha mais grosseira». 



cernideira, cernir 

Na Beira-Baixa denomina-se assim uma < espécie de caixa, 
caixilho ou grade em que trabalha a peneira» *. 

A existência deste vocábulo em português pressupõe a do 
verbo cernir, «peneirar», como em castelhano. 



cetim, citim 

Esta palavra, por influencia do vocábulo seda, já em Blu- 
teau - aparece escrita com s inicial, pelo c com que antes se orto- 
grafava, no tempo em que a diferença de pronúncia entre .9 e f era 
geral no reino. Todavia, o grande lecsicógrafo ainda cita a forma 
cetim, com a definição — «panno de seda» — e remissão à escrita 
setinx, onde lhe dá uma etimolojia falsa, a palavra italiana sela, 
reproduzindo a orijem hebraica que outros no seu tempo lhe 
atribuíam. 

Que o douto frade não tem razão é evidente, visto que seda 
sempre se escreveu com s, e cetim com c. 

Na mesma inscrição vêem-se várias espécies de cetins, dife- 
rençados por epítetos, como cetim raso, cetim chão, cetim ave- 
lutado, etc. Ra^o em castelhano é hoje o nome dado ao cetim, 

A orijem do vocábulo, que maiores probabilidades apresenta 



1 Informação do editor, natural de Almeida. 

* Vocabulário portugubz b latino, Coimbra, 1712-1720. 



A^:48k^ «>» ffir^umir^m 



€31 s««i £A'>r. -^ •> ATibe zazTrxEB. ^ici^To delindo de nome da 
eí*i^ie áe Zâi:un«. ilâcx^u i^I-> iàkrm de tais tcddoft. E estsi, 
pck* xe:2v:ê. a v:-inLi>> i^ Hrzirlqae Ycle, na segizBda ediçio da 
Tçràio ingl^esd •!•> lirr.:. d^ Marw Pi^> Vriieio *. 

Já K. I>:^. n-y GlysãAn:^. ^ hária dito o segunte. a propósito 
•iâ f'>rxa a<vi>t<r«i'. •.'asirlhAZL^ ínniút-zite oa Vida dkl graxTi- 
KiRL-kX. de Gvi.v-*IíZ de riivij.>. c»>::í-> dvs^isando cm tecido qae 

rinha di China: — <C'e?: TarAr-e jri>'V«wí La rille chinoiáe 

T5e:;-th*>uiiç- arf^elIeXirL: rasluàn-ichoa-fcu. s'apprlait ehez Itf 
Árabes Ze:t*>:;n. On y íàbriqiLi:: de* ê;.>ffes daiEassêes de vetoius 
et de sarin, qui aTaien: une :rèí ^ande rêpaiation ei qm p>r- 
laie:*: le hmii de iiit-yi^uL V.-.Yez U*ii>Bat<:>aM. iv, 269* — . 

Em i.-atâLio a!:n:T.> escrevia-se a*:zy*oni: 

— = 311 líeiii \in díiss^r de drap daar domesqui ab l> eumpír 
veniiev ar. les orle? de atze^tõiii blau. ab senvals Bevals enwP^ 
br«>iât ab >*>:ana de tercei-ell vermev» — ^. 

Xi*> hã. r-«>itanto. a mÍLÍ:na d'.;vi*ia que a escrita certa ^ * 
antiga o>2: f. nã-- >, A f >r:r.3 usuda j*>r Femám Mendez Pto^ 
na Pí:b£ibixa',ão *. e [«-r ostros escritores d«> seu tempo, cí'***' 
r 'ir:v:.u a ia*?!::::.^ .\i :■ -iv t a» « «ia siía a seiíuinte. o>di" 
ir%'.n'*.r. j^^f-.-'. ^-.r ^w/<"f ". j-. ';/. >:■ ■•. .-itic'. que vetnos o•>n^ t.^ ^^^ 

A lalãvra í.vV.í ê «ie orije::: ohii:e>a. õo'j1'> a planta, e- 
ir;i:i:'> «iis^eiijiLa-la nas linirãas tS':hv.^nieas. ia* ^ em riL-=^ " 



'• The Boí » :■; o k S e r M a rc*> Po Lt.i t h e V en"etl.^x . Londre*, 1 !^ 



OÃT . Lxxxii. I . 'JJl. n. '2. 



= «'ÍLOíSAIIíE l'ES M«>TS EISPAGXOLS ET PORTUGA 15 VtKT 
L*AKAJf{E. LviLi. 1^0.,'. *;íí» t\ .SeTUNI. 

- Iriv.-ritiri iel K-v Mim. «h Eevi-e Hispaxwite, xu. j-. 4-Ti7. 

* ■.sV. IX. XXI. LII. XIIÍ. XIV. LI. v:.\ 

- <.".:'i vtTí Ivtra :u a roa ia tíir^àrj o ^ ru d-.' t/i o;iátelhano e p-jrtaí 
iivrí*;. 'yiJLsi tjc. ^ 



A À 



Apostilas aos Dicionários Poi-tugiieses 273 



iro, por exemplo. O outro nome da planta e sua infusão, te, 
êle se oríjinasse do termo botânico thea, latinização do 
ís ca, como creio, quer seja também chinês dialectal, como 
im quási todos os que teem investigado a etimolojia deste 
10 vocábulo, foi o adoptado, com pequenas excepções, em 
IS línguas da Europa, quer românicas, quer germânicas, 
íom a palavra chá vieram do Oriente para Portugal os 
?s das várias peças do aparelho em que êle é servido: chá- 
' é chinês também, ca-van, «vasilha para o chá». Bule é o 
io buli: «frasco»; 2>'V^S o indostano jnrix, malaio 7;/rÍ7? *, 
tinho», cuja orijem é incerta, mas, com todas as probabili- 
s, oriental. 

*]ntre todos os idiomas europeus é o português o único a 
estas denominações, como é sabido, pois nem mesmo em 
ílhano elas sào conhecidas; ai diz-se te, taza, tetera, platillo, 
]omo a palavra hiiU é malaia, e pires em malaio existe 
Iraente, e sendo este idioma nos séculos xv, xvi e xvii, e 
a hoje, de geral comunicação no sul da Ásia, é natural que 
seu intermédio os recebêssemos nós, ou por qualquer das 
ias da tndia, para as quais houvessem passado, o que no 



Liito carece de demonstração. E de notar que ao chá, própria- 
:« dito, ainda hoje se chama chá-da-índia, especialização 
ou proveio de que de lá o recebêssemos directamente, ou 
D de que por íiidia se entendesse toda a Ásia de que tí- 
los conhecimento, em razão das nossas navegações, conquis- 
e comércio. Notável é também que ainda hoje se ouça 
^oar laranja da China, locução com a qual se diferença da 
mja) t^njerina. 

èue o malaio foi dos nossos viajantes e aventureiros conhe- 
e praticado prova-se com a circunstância de que nas Pebe- 
açOes de Fernám Méndez Pinto a cada passo ocorrem 



O siiiíd ofi designa aqui o ng germânico, isto é, um n proferido no 
kio do palato duro com a raiz da língua. Âplíqne-se esta nota aus vocá- 
citados a p. 241-243, e passim. 



274 Af^i^n* Oi-^ i>k-Í!>M«irMM B!>rÍM^me9ei 



expFres5*>s. nomes, quer pr'>prío>. quer comims. que pelo maljiio 
se explieaiD. conquanto se reiinun à China: e exemplo frisante é 
este [lassi^ da mesma mieressantissima obra: — «e em lugar de 
torres ou baluartes t^ />s chins' húas goaritas de dons sobrados 
armailtiS Sf>bre es:e*>s de pa*:» preto, a que elles chamâo CaabesT, 
que quer dizer {-ao ferro » — *. Ora o rooábulo. ou melhor, voci- 
bukts citados, e que na realidade si^iticam <pau-ferro». sâoma- 
la;í»s e não chineses: Itiiu. * j«au >. e 6eW. «ferro». 

Voltando a-i f^hti. a primeira menção desta bebida, vemo-li 
feita, na Europ»a. y^-r Frei Gaspar da Cruz *. por estas palavras: 
— « Qualquer jiessoa ou pessc-as que chegam a qualquer casa de 
homem limpo tem {n^r custume ofereceremlhe em húa bandeja ga- 
lante húa p«]>rcelana. o;i tantas quantas sam as pessoas, com hix^ 
agoa morna a que chamam Cha. que he tamalavez Termelha ^ 
rauy medicinal, que files custumam a beber, feita de hú co^' 
mento dt- ervas que amarira tamalavez» — . 

Xote-se que o curioso frade ainda não conhecia a palav 
cliArtna. visto que lhe chama i^trcefatta 

A profHisit" de nriretrt dirigi ainda que hoje se confim* 
o»in fiii''nii. inas quf •laiiti.-s iiã" t-ia assim. Ainda na miul^^ 
iiióiidajH a rhnr.no s»Tvia vara so tomar o chá. era um vi ==^*^ 
mais liaixo íjUv alto. alar^rariíi»» paia a b-Va. e não tinha a>--=-^- 
pt-la rhfr tru tomava-Sír- o caí».*, e «rs:a era mais estreita, de fori^K-^*^ 
cilindri a. rn\\\ a<a, ^^**nv^ as ilt* a«'ora. 

A rli.ivena chi:je>a t»Mn «l-is piívs: um em que assenta m*^ iti 
lariro nrit'í«i» riiculai*. aí»frio n> iiiti». onde encaixa a base ^^'*^ 
chávena, v «niíp"» chei-» com que <rsta se ci"»l»re. sorvend«>se a l><^ 
bi«la p'»r itnir^' t"-!»* e a chiivena. a^s L'"liuhi"^s. 

Hlutt-au •* deiine rliõrctof. *[\i*: escreve chtirumi. sem dúvx**^ 
a iV.nna mais aníiira. d«» seiruinte mtjdo: — -Palavra da lui*^' 
K r**m** meia chicara — . l<to cmtinua em certo modo o *1^^ 



^ i-.k)». X(.'v. KlivíV» r •l.iii.ii in.i. Li-bt.i. l^-i*. 
- 'liiATAbo i»A ^.'hína. *\i\>. XIII. Li>l» «ii. 1 >*2:>. 
'•' Vo< AKULARiM iMiurrcirKz e latino. 



'^ 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 275 



ma eu disse, que os aparelhos do chá, talvez nos viessem da 
lia; e como é sabido, ainda actualmente chamamos à porcelana 
)uça da índia». Quanto a chíeara, é palavra, segundo dizem, 
xicana, e Bluteau, que a mencionou na definição de chávena, 
itiu-a no corpo do Vocabulário e no Suplemento. 
Cumpre advertir que bule, como termo de jíria, com a sig- 
icaçào de <ánus>, é o calo bui (q. v,). 



chacina 

Júlio Corau ^ dá-nos como étimo deste vocábulo o latim 
ícina j siccus, «seco», o que não parece muito acertado, 
esar de o douto romanista o declarar manifesto (offenbar). 

Carolina Michaêlis de Vasconcelos *, para adoçar a pílula, 
niite a influencia do nome próprio Chacim, vila da província 

Trás-os-Montes, onde, consoante a informação de um proprie- 
rio instriudo e idoso da mesma província, nos diz que se pre- 
ra muito bem a carne de porco salgada e fumada. Assim será, 
^ nada com isso adeantámos: — 

Cosi 

( jq ll ^í ali egro fanciul porgianio aspcrsi 
Di soave licor gli orli dei vaso ; 
Succhi arnari ingannato intanto ei beve. 

Xào ponho aqui o remate da formosa estanca de Torquato 
sso, por não ter aplicação ao caso sujeito, segundo me parece ^. 

Conforme o Novo Diccionário chacim significa «porco», 
tando abonaçâo do termo. 

Em castelhano existe o vocábulo cecina, com significação pa- 



* Grijndriss dbr romaxischen Philologib, Estrasburgo, 1888, i, 

^ Revista Lusitana, iii, p. 139. 

3 < E dair inganno suo vita ricevo — Gbrusalemmb libbrata, i, 3. 



278 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

realidade tem a significação que lhe dá o Novo Digcionário, 
visto não estar ali abonada. 

6.® O vocábulo chacina é de orijem ignorada. 



chafardel 

O Novo Dia:, dá-nos esta palavra como transmontana, com 
a significação de safardana, que no lugar competente define 
«biltre». 

Em sentido muito diverso deste, isto é, no de «rebanho», 
vemo-la empregada, como própria do Alentejo, no seguinte passo: 
— «um chapeo de terra [terreno pouco espaçoso], que não lhe 
cabe dentro um chafardel de ovelhas» — ^ 



chafarica, chafariqueiro 

O Novo DiccioNÁRio dá ao primeiro destes vocábulos duas 
acepções: — «loja maçónica; baiuca, taberna» — . Subordinado à 
segunda acepção é o termo chafariqueiro no passo seguinte: — 
«Porto, 11. Com o título Apprehensão de vinho falsificado 
— Prisão, lê-se na Voz Publica o seguinte: — «o visinho partiu 
para o Porto, e voltou pouco depois trazendo um chafariqueiro 
emérito. . . » — *. 

Neste sentido usou-se mais recentemente mistureiro : — «a 
protecção que está resolvido a dispensar aos falsificadores e mis- 
tureiros» — ^. 



^ J. S. Picão, Ethxographia do Alto-Albmtbjo, in Portugá- 
lia, i, p. 275. 

* O Economista, de 12 de junho de 1S94. 
3 O Dia, de U de novembro de 1902. 




Âpo8tUa8 ao8 Dicionários Portugueses 279 



chalar-se 

£ tenno de jíria, que quere dizer «escapulir-se». E uma 
forma pronominal que nos veio do calo chalar «andar». 



chama 

O significado especial deste vocábulo em Cezimbra vê-se do 
seguinte trecho: — «elles [os pescadores de Cezimbra] correram 
sobre ella [a força militar] insultando-a, e munidos de chamas 
{pequenos paus) parecia quererem envolver a força» — *. 



chamada 

Em Leiria, conforme informação do snr. Acácio de Paiva, 
quere dizer «braçado de lenha, que se deita no forno»: — «com 
mais esta chamada fica o forno quente» — . É um derivado, me 
parece, de chama, «labareda», pela que ateia abrasando-se. 



chambo 



O mesmo que bangue, « cânhamo » , na África Oriental Por- 
tuguesa: — «Fumam com delicia e sofreguidão o chambo, a que 
no sul se dá o nome de bangue » — ^. 



1 O Sboulo, de 15 de abril de 1900. 

* Azeredo Coutinho, A campanha do Baruâ, in * Jornal das Coló- 
nias», de 30 de julho de 1904. 



280 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



chamiça, chamiço, chamiceiro; chafurdo 

Chamiça, conforme o Novo Diccionábio, tem vários signi- 
ficados, e entre eles o de « carqueja >. Chamiço é ali definido 
como — «acendalhas; lenha miúda; ramos secos; tição» — . Cha- 
miceiro — «aquelle que apanha e vende chamiço» — . 

Na Beira-Baixa (Fundão) cliamiceiro é «o fogueiro que 
mete a lenha no forao». 

Poderia aplicar-se este termo, ampliando-lhe a significação^ 
para denominar o que em francês se chama cliauffeur, nos auto- 
móveis, e que o povo, meio a sério, meio gracejando, já apor- 
tuguesou em chafurdo: — «Emquanto eu ia entretido com o 
travão [do automóvel] o chafurdo entretinha-se a gritar que se 
arredassem» — ^ 



chamo, chamariz 

— «Os reclamos naturaes, chayymrizes ou chamos, como bem 
se comprehende, não passam de uma ave da esj>ecie d'aquella 
que se vae caçar, e que pelos seus pios ou canto... attrae a 
outra que a ouviu» — -. 

V. reclamo. 

chamuar(e) 

— « Chamuares ou amigoi^ fechados; rapazes da mesma po- 
voação e idade, que vão juntos a todas as emprezas perigosas, e 
que na guerra se não abandonam. São os chmnuares que tiuns- 



* O Século, Supplemento, de 4 de julho de 1905. 
2 José Pinho, Ethnographia Amakantina, A Caça, m Portugá- 
lia, ii, p. 95. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 281 



portam o ferido em combate . . . e que o enterram quando morto, 
loDge do lugar do combate* — ^ 



chana 



Esta forma, estranha em português, pois o femenino de 
chão { planum é clui, antigo chãa, é detiuida como significando 
— « planície ou campina alagada, em Africa > — , num ofício, 
assinado por Capelo e Ivens, expedido da cidade do Cabo à 
Sociedade de Geogratii de Lisboa, com data de 22 de julho 
de 1885. 

E, pois, mais um alótropo para juntar aos muitos que existem 
em português, e teem por fonte primordial o latim planum. 
Formam diferentes séries, que seria longuíssimo coordenar com 
todas as formas derivadas e suas variadas acepções. Essas séries 
distinguem-se pelas niiciais, que aqui vou apreseutíir, exemplifi- 
cando cada uma com um vocábulo típico: 



9 


forma mais 


antiga 


eh : 


chão 


:3 


! posterior 




pr: 


prão, pràmo 


:3 


) secundária 




por. 


: porão (q, v,) 


C4 


recente 




pi: 


plano 




1 castelhana 




Ih: 


lhano 


•«4 


J italiana 




pi: 


piano 



changaço 

E a parte do atum menos apreciada para cozinhar, isto é, a 
cabeça e o rabo. O termo é muito conhecido dos pescadores, 
pexeiros e gente que negoceia em atum. O changaço vale sem- 
pre menos que as outras partes do atum, mais estimadas. 



< Azevedo Coutinho, A campanha do Barué bm 1902, in c Jornal 
das Colónias», de 19 de agosto de 1905. 



282 Apostilas aos Dicionários Fàrhigueses 



chapa; chapada 

Qualquer que seja a oríjem deste vocábulo, no sentido de 
«lamina metálica, folha delgada e chata>, e cujo étimo maispnv 
vável é um klap, ou plak germânico; com o significado especial 
de «ordenança, permissáo, ordenação, prescrição», é termo asiá- 
tico, devendo ser o indostano cTip «selo, sinete* — . «A chapi 
se foi publicando por todo o reino» — '. Chapado queria dizer 
«assinalado». 

Como termo de calão moderno chapada, significa «bofetada»: 
— «Vès aquelle gajo? Já em tempos me deu um2L chajmda»—^» 

No sentido de «planície alta», o vocábulo figura em todos 
os dicionários. 

chapéu, chapei, chapelada 

Qualquer dos dois primeiros é de orijem francesa, representa»- 
do o primeiro a forma chapeau, actualmente pronunciada xafdf 
poróin na idade média lida como chapéu; o segundo, outra fornii^ 
da iiHvsnia palavra (cf. heau e bel), provindo ambas do^ lanta - 
rftjtclhím. (leminutivo neutro de cappa, como cappel^éde-» 
niinutivo fcrnenino. A primeira forma é hoje corrente para desi?' 
nar M-ohcrtura da tabeí;a, com forma e abas»; a segimda designa'^"'* 
uni M'lnio s como vemos no Suplemento ao Novo Dicgioxár^*^' 
([u«' aponta va^^amente abonação. 

A noyàp do que, a par de chapéu, havia a forma chaj'^'^ 
prova-se com os derivados chapeleiray «caixa para chapéu =^ '• 
chapelinho, «chapéu pequeno», chapeleiro, «fabricante ou ^'^^' 
dedor de chapéus», chapelada, «cortesia com o chapéu». 

Hste último derivado é usado freqiíeutemente num sentíd'^ 
que os dicionários nào apontam: «masso de listas, deitadas fra''' 



* A. Francisco Car.lim, Batalhas da Companhia db Jbsus, U^^' 
18! II, p. lOi. 

* O Século, de 10 de setembro de 1900. 






Apostilas aos Dicimuiríos Portugueses 283 



ilentamente na urna, no acto eleitoral, pela autoridade que a 
e preside»: — «Á parte os sucessos. . . como chapeladas, no 
izer do argot eleitoral» — *. 

O chapéu tem diversas formas, e é feito de várias substán- 
ias; e conforme umas e outras adquire epítetos pelos quais um 
hapéu se diferença de outro, pelo nome especial que lhe dão. 
)êste modo há chapéu alto, ou de copa alta, mais ou menos ci- 
índrico; chapéu de coco, que na Ilha da Madeira se denomina 
hapéu de queijo; chapéu à serrayia, duro e com largas abas 
eviradas; chapéu de pasta, «o que por meio de molas se pode 
'char, ficando o tampo unido às abas » ; chapéu armado, < o de 
>is bicos», isto é duas pontas da aba; chapéu de três bicos, 

> que tem abas triangulares», etc. 

Chapéu designa também «abrigo, resguardo», e nesta acep- 

> dizemos chapéu de chuva, chapéu de sol, que dantes se cha- 
tva sombreiro, objecto que provavelmente importámos da índia. 

China ou do Japào, onde eram e sào muito usados. 

Emfim, é este um dos vocábulos franceses que desde tempos 
Li to remotos se aportuguesou e difundiu mais fértilraente, pois 
><iu2iu grande número de derivados. 

Também foi usado em castelhano, como vemos neste retrato 
' um valentão espanhol: 

— Calo el chapeo, requirió la espada, 
Mh"ó ai soslayo, fueso, y no hubo nada — . 

Esta pintura fidelíssima lembra outra do pimpão português, 
le quem Eduardo Garrido disse na cena cómica, representada 
m 1864 por José Carlos dos Santos, A Bengala: 

— Homem balhento em cafés, 
Qae a toda a gente arremete 
Qae rapa do casse-tête. . . 
E apanha dois pontapés — . 



< O Sbculo, de 28 de novembro de 1900. 



•2"^1 Apostilas aos Dicionários Poriugiteses 



Outro vocábulo francês derivado do mesmo radical é chap^ 
ron, que deu em português chapeirão, em castelhano chapirón ^ 
com a si^uiíicavão de ^ capuz»: 



— Ao ombro um chapeinio, 
Que pasmava todo o povo — '. 



cliarabasco, charabasca, charavasca, cbarabasqueira, 
cbaraviscal; chavasco, cliavasc^l, achavascado 

Os primeiros quatro destes vocábulos, conforme o Xôvo 
I)n:('i()N.\RTí) e Suplemento dele, designam, como termos tranr 
montaiios, « terra de ]>oueo valor ou estéril » . O último está 
definido na monografia de J. S. Picào, Ethnograpiiia. do Alto 
Alkmtkjo, no seguinte passo: — «Ha herdades muito grandes, 
niíMliaiias e pequenas. Entre as maiores, algumas conhecein-se 
pelo autímeniiitivo de defeza, ou por tal se denominam quando 
s<^ querem (Migra'idecer. As pe^iuenas distinguem-se pelo dimi- 
nutivo (lo i)if(l((f('rfi.< ou rJiftntrisrãe.'^. quando por ventura se 
pn'i('n<lo íini('S(jUÍ!ilial-as * '^. 

Vemos aqui o vocáhub» defesa \ latim defensa, caste- 
lhano antigo defesíf. moderno deJiesa, sem o abrandaniouto do 
/' (MM /'. (jiic St' deu na forma g«M*al deresa. como aconteceu com 
árrei/o j Africus (ueiitus), o com Esfvràu \ Stepbanus. 

Ignoro a orijcm da palavra ríiararasco: mas vê-se que M/í- 
ndxísTft V noriismo, com mudança de r em /;, por nào existira 
nos «lialcctos transmontanos. 

Há certa analojia de forma entre estes vocábulos e clwro'^^'^' 
eliarascid, de (jue apenas se diferençam na sílaba ra que teem^ 
mais, send(> (juási conformes no sentido, visto que chavasco o^^^^ 



> lÍKVTTI.] HrSI»ANIQI'R, X, ]). 172. 

- MTnjinliin Kiboiro. KcIíOíia ii. 
•• in Tortuj^alia, i, p. 275. 



j 



Apostilas aos Dicionários Forhtgiceses 2S5 



izer «tosco», e cliavascal, «terreno inculto, cheio de hervas, 
Qoitedo». Em castelhano existe o adjectivo ehabacano, «gros- 
eiro, acJiavascado > , e era calo, ou dialecto cigano de Espanha, 
'havân, com a significação de «herva>. Parece haver relação 
íntre todos estes vocábulos; porém falta explicar por que leis se 
foram modificando até chegarem à forma mais extensa portu- 
guesa, charaviscaL 



charachina = cliara China 

Esta locução é peculiar das Perkorinavões de Fernám 
óndez Pinto, e ainda não foi, que eu saiba, rejistada em dicio- 
rios portugueses. Ocorre várias vezes naquela formosíssima 
i'a, e nomeadamente nos capítulos xlvii, lxii, sem explica- 
í>, e no cap. lxxvii por forma, que o seu significado fica 
•'ixifesto — «abraçandoo então e pedindolhe muitos perdoes ao 
^ modo, que eles chamam de charachina» — . 

Ora, como no cap. clxv o autor, em vez desta locução, usa 
vnna equivalente, — ao modo da China — S e no cap. cci em- 
^^■ou estoutra locução — à chara Japão — , segue-se que a voz 
^^^*a significava «modo», ou, como hoje diríamos, «moda>; que 
■''>i« não é adjectivo femenino concordando com chara, mas 
^^e próprio, como Japão, e que a construção em português é 
^^^ituosa, pois se elidiu a prei)OSÍção de que a sintasse pedia, 
^o aconteceu em Madre-Deiis por Madre-de-Deus, mas sem 
'^a.plolojia, ou simplificação da repetição consecutiva de d, que 
^stificasse. 

Quanto ao substantivo chara, que, como disse, ainda não foi 
^itido nos dicionários portugueses, é ele simplesmente o ma- 
^ tara, «feição, feitio», sendo a supressão da preposição sin- 
malaia. 



* António Francisco Cardim, mais cultcranamente, diz — «ao modo sí- 
^ *• — . Batalhas da Companhia db Jesus, Lisboa, 1894, p. 45. 






2dd ApoêíUaã aos Didamévioê ArfHj^newt 



■ 

O t palatal malaio, quási ti (tiara), foi imitado com o A 
portugaês, geral entfto, e ainda hoje beirfto, minhoto e tranflUMm- 
tano, quási ic, como é sabido. Assim representanun os portn- 
gueses sempre as consoantes explosivas fortes, palatinas nos tocí- 
balos e nomes asiáticos pertencentes a línguas que as possoiaiii, 
como as da Índia, o chinês, o japonês, etc. 

Kiemplos do malaio tara, citados no vocabulário maluo^Uh 
cês que constitui a 2.* parte do Curso de mahúo de Ledncio 
Richard ', são os seguintes: tara rada ioai besar, «a modo de 
príncipe» [literalmente, «modo (do) príncipe, que (é) grande»]; 
tara iaig^Hs, <à (moda) inglesa», este último perfeitamente aná- 
logo ao usado por Méndez Pinto, e por êle aportuguesado. 

Camões, nos Lusíabas ^ empregou modo no mc«mo saitíi<>f 
porque moda ainda então não era moda cá. 

Vestido o Gama Tjm ao modo hispano. 

Por aqui se vê que não tem fundamento a conjectura expran 
no Glossário de Bumell & Yule *^, que relaciona esta locaçio 
com a saudação usual chinesa mi cin. 



charão, acharão, (a)charoar, acharoado 

O substantivo charão designa em português certo vernii d» 
China, e os objectos de madeira com êle revestidos. E propno 
da nossa língua, pois os outros idiomas europeus servem-se de 
várias fornias do vocábulo laca, que designa em português outro 
verniz, mais da índia, e certa resina ou tinta. 



1 (.'OURS THÉORIQUB ET PRATIQUE DE LA LANGUE COMMBBCIAI^ 
DE L ARCHIPBL d'ÂSIB, DITE MALAISE, 1872. 

» Canto II, 97. 

y A Glossary of Axglo-Indian words and per ases, IíObM 
188G, p. 154. 



ApostiUis aos Dicionários Portugueses 287 



A palavra não é chinesa ou japonesa, como poderia supôr-se, 
lois existe em castelhano, charol, que também designa « verniz e 
íulimento». Outra forma portuguesa é acharão, que se lê no 
Tratado da China de Frei Gaspar da Cruz, cap. xin: — «estes 
sacerdotes] criam cabello e trazem-no no cume da cabeça, arre- 
matado com um pao muito bem feito . . . envernizado de muito 
bom verniz, que chamam acharam» — . 

De charão se derivou o verbo charoar, e o particípio passivo 
iêste vemo-lo usado por A. Francisco Cardim: — «bandejas cha- 
"oadas e douradas» — . Da forma acharão tirou se acharoar, e 
linda hoje dizemos folha acharoada *. 

A titulo de curiosidade apenas, e porque talvez, para estudo 
lais detido do vocábulo charão e da sua introdução na litera- 
ira portuguesa, possa trazer alguma luz, apontarei aqui uma 
ts inscrições de entre as cento e vinte de vocábulos chineses 
ados em malaio, admitidas por Aristides Marre, e é a seguinte: 
*= Tchat — Couleur broyée et détrempée avec de Thuile; tein- 
í*e, vernis de bois employé par les Chinois et qui provient de 
i'l>re nommé rèngas en malais» — *. 

lieunindo os dois chat-rengás, com a supressão do i, obtém-se 
^^'€^ngás; mas desta palavra composta vai uma distância 
f>i"nie à forma charão, que é, repito, inseparável da castelhana 

iíote-se ainda que tarana em malaio quere dizer «bandeja», 
Que o mesmo significado tem charol na Bolívia: — «Nuestraa 
^^^ejas son en castellano fuentes [travessas], nuestros charoles 
^ f>o,nã€Ja8* — ^. 



^ Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 80. 
' Mêlanges Charles de Harlez, Leida, 1896, p. 193. 

R. J. Caervo, Apuntaciones críticas sobre bl lenguaje bo- 
>ío, Bogotá, 1881, p. 376. 



2SS Aj)ostila8 aos Dicionários PorUtgueses 



charolã 

Além dos dois significados principais deste vocábulo, já apon- 
tado nos dicionários portugueses, o de «andor», e o de — «corre- 
dor semi-circular entre o corpo da igreja e a fábrica do altar- 
-mor> — *, indicarei aqui mais o seguinte, que sem dúvida provém 
do primeiro citado. 

Na ilha da Madeira denoraina-se charóla um cargo ou forma 
alta guarnecida de frutas, hortaliças, doces, ovos e garrafinhas 
de vinho, que figura nos arraiais, ou impérios (q. t\). 

Hluteau, no Suplemento refere-se à cluirola cuberta c^m 
~ «papel, ou papelão, ao modo de arco, ou abobeda com suas 
varas atravessadas, em que lhe pegavam os rapazes, e com ella 
andavào pela Quaresma cantando cantigas da Paixão, porque lera- 
vào na charola imagemsinhas de barro da Paixão de Christo»— . 

Era também um arremedo de andor. 



cliaspa 

Km Tnís-os-Mõutes é uma espécie de panela ou taclio. i''ni 
tampa, baixo e lar^^^o. Ali dá-se o nome de jutítchi à que ífiu 
três jiés, para se llie act^iider lume por baixo, ao coutrário i'^ 
cliffspa, ([{{{' assenta na lornallia e não tem pés. 



c 



liau 



E palavra chinesa, e como vemos do trecho seguinte, expr*?^^ 
saudação: — v^ disse a Aquileu que queria chão (que é fazer as cor- 
tesias de vasalo a rei, que são bem enfadonhas) > —-. 



1 Blutciui, Voc^viulArio PORTrorEz b latino. 

2 Batalhas da Companhia de Jesus, p. 45. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 289 



cheiro, cheiros 

íste substantivo, do verbo cheirar j flagrare, que é ora 

íitívo no sentido de «tomar o cheiro», ora in transitivo, no 

deitar cheiro», t^m duas acepções que os dicionários não 

Dam bem. 

Lssim o CoNTEMPOBANEO SÓ uo plural dá o vocábulo com a 

íicação de «substâncias aromáticas», quando em tal sentido, 

mos empregado no singular pelo Padre António Francisco 

Im: — «queimou cheiro» — *. 

ío plural significa êle, era Lisboa pelo menos, quatro hervas 

láticas empregadas como tempero na cozinha portuguesa, 

é, saUa, coentro, hortelã e segurelha, e diz-se um ramo de 

>'0S. 

V estas plantas parece referir-se Gil Vicente no Velho da 
TA, ora no plural, ora no singular: 

— Vinha ao vosso hortelão 
Por cheiros para a panela — . 

— a couve c o cheiro — 

O Novo DiccioNÁKio dá ao singular cheiro a significação 
-«salsa, hortelan, ou qualquer outra erva aromática, de 
icação culinária » — ; mas, pelo menos em Lisboa, a definição 
que apontei. 



cheia 



África Oriental Portuguesa: «fazenda, tecido» -. 



' Batalhas da Companhia db Jesus, p. 236. 

^ Diocleciano Femández das Neves, Itinbrario db uma viaGBM á 

. DOS blbphantbs, Lisboa, 1878, p. 203. 

19 



290 ApoêtUa» aoê Didonárum B9riugmeÊe$ 



cheminé, chaminé 

à forma popular e mais exacta eheminé encoiitra-«e nnm 
documento do xvi século: — «h&& antecâmara grande que tem 
hua chemine. . . b&a janela grande peguada com chemine»—- . 
Antes, no mesmo documento, uma variante, também popular no 
norte do reino: — «hua sala pequena com chomine» — ^ O o 
provém do m que se lhe segue. A forma hoje corrente chamifié 
é devida a influência da palavra chama; porém a forma popular 
eheminé está mais próssima do seu étimo, o francês éheminée. 



cherelo ^= cherêlo) 

No Minho dá-se este nome a um peixe pequeno, que pareee 
corresponder ao que no sul se chama eang^nm. 



cherundo 



Africa Oriental Portuguesa: «cesto» -. 



chicopa 

Termo da África Oriental Portuguesa: — *chicopas — A^^' 
gonis armados de azagaia e escudo de couro ou de palha entx^^ 
laçada» — ^. 



* Auto de posse do castelo de Sines, de 24 de novembro de 1533, "* 

O ARCHF30LOGO PORTUGUÊS, X, p. 101. 

* Diocleciano Fernándoz das Neves, Itinerário de uma viaokJí *■ 
Caça dos blbphantbs, Lisboa, 1878, p. 26. 

8 Azevedo Coutinho, A campanha do Baruí bm 1902, in <Jom*í 
das Colónias», de 30 de julho de 1904. 



1 



Apostilai ao» DkiottárioB Fortvgueta 



chiciiii, chicero, chituredo, eoba {Marromeu) 

éeies de cestos da África Oriental Portuguesa — •ehitu- 
íisaeiro, coba, chicua (cestos)» — '. 
vedo Contíiifao * escreve f chicero. A forma preferível 
j, confonne a escrita usual portuguesa, será chicero. 



cbicuangué 

uo aqui esta palavra, sem saber ao certo a que idioma 
de negros ela pei-teuce, qual a sua yioDÚacu (/.chionan- 
icaangu-é?) e qual a sua Jejítima escrita (gchicuançué, 
■!ué'í}. No caso de que o w se profira depois do g, melhor 
írevê-la em português chieiiangué. ou xicuangoé, con- 
> soitt inicial seja o eh beirão e transmontano (quási tx), 
inicial, de xatlrez, por exemplo. 

ontrei-a definida no seguinte passo: — «A base da ali men- 
indígena na maior parte do Estado do Congo, e também 
o enclave de Cabinda, é a farinha de mandioca ou chi- 

e-se o galicismo inútil enclave, pelo qual podemos dizer 

', ou nesga. 



Porto quere dizer > vaidade, baaófia», 



h. 4 «le julho de 1003. 

b. 

jazbta das CoLOSias, de IG de dezembro de 1905 



292 Apostilas aos Dicionários Foriuguesei 



chila (caiota), gíla 

O Novo DiccioNÁRio apresenta as três formas, que escreve 
chila, chilacaiota e gila, referindo à primeira as outras duas; 
não apresenta etimolojia. No perfeitíssimo Diécionário de vozes y 
chilenas, de Rodolfo Lenz, que se está publicando S encontramos 
o termo acayota como usado no Chile. Eis o que acerca dele nos 
diz o douto filólogo: — «alcayóta, n. vulg. de una cucurbitácea 
mejicana cuyos frutos sirven para la preparacion de un dulce; 
el cidracayote (Dicc. Ac. cidra acayote) de los espaôoles íCucur- 
bita fi<^i folia Bouché). Variantes: acayota en Gay, Bot. vm 
e II 403. Forma falsa: alcajota Gay Agr. n 112; ortografia falsa: 
adicta. íItimolojía: Segun Philippi, Anales dei Museo Na- 
cional, seg. seccion 1892, dei nahuatl tsila cayotti, . . segun 
Iíamos 532, en Méjico se dice chilacayote, dei azteca t^ila 
cayotli* — . 

Cumpre advertir que nahuatl e azteca são a mesma língua, 
e ainda, que as palavras mexicanas siio idênticas, mas com di- 
ferente ortografia, sendo o í^ e o ts iguais a tç, e os dois U da 
primeira denominação erro tipográfico em vez de // da segunda. 
que em mexicano é suficso de unidade, e se profere como um i 
lateral, seguido de / sibilante surdo, sem vogal intermédia. 

O nome desta casta de abóbora, hoje completamente acli- 
matada em Portugal, veio para cá de Espanha, naturalmente 
como fruto, trazido do México. Vé-se que devemos escrever 
chiJa-caiota em duas palavras. 

Quanto à fornia gila, principalmente usada em Lisboa, ^* 
provável que seja eufemismo, adoptado para se evitar o venl^" 
deiro nome chila, que aí adquiriu o significado de < excremeat-'^ 
humano >, acepção que falta nos dicionários. 



* DlCCIONARlO iniMOLÓJICO DE LAS VOCÊS CHILENAS DERIVAUA"* 

DB línguas indíjbnas AMBRiCANAP, Santiago de Oliile, 190t-190r», ^ 
fase, 11.° 15. 



\ 



Apcêtilai aot Dicionário» Fortugnew» 393 

Na ilha da Madeira, confonne informação do snr. João de 
Freitas Branco, o Dome da abóbora com que se faz o dito doce 
é moganga, ou trivialme&te hoganga, que tem aspecto africano; 
aplicando-se a denominação chila caiota, ou simplesmente chila, 
unicamente ao doce. 

Em Lisboa também se lhe chama abóboroHíhila, e abóbora 
moganga. 

chimabaoda 

Termo da África Oriental Portuguesa: — <Faz ainda parte 
do mobiliário a chitruAanãa (pilão) onde as mulheres reduzem 
K &rinb3 a mapira, e a mapiratnanga, as pedras chatas e planas 
em que pelo attricto é polvilhada a mexoeira, das quais a infe- 
nor e fixa tem o nome de limhué, e a superior e movei se chama 
menacano' — '. 

V. maptra e mexoeira. 



chincha, chínchorra 

~ < Ã9 bateiras chinchorros, assim chamadas por serem . . . 

que mais se usam para o lançamento da chincha, teem, como 
"^ noliceiron, a particularidade de ser ornamentadas, á proa e á 
'^t de varias pinturas e emblemas- — ', 

Chincha foi, algumas linhas antes, explicado como — Tede 
"* arrastar pequena» — . 



* ÃteveAo Caatinho, A campanha do BaruA bm 1902, m * Jornnl ies 
^lonia8>, de 3C de jnlhu de 1904. 

* Ln(s de HwUbiea, Ob barcob da ria sb Avbiro, in Portnga- 



294 Apostilas aos Dicionários Fortuguescê 



chincho, chincha 

Nos Açores significam «menino e menina, pequenos», e tam- 
bém «cousa pequena». 

Em Aveiro chincha, que deve ser outro vocábulo diverso, é 
o nome de uma rede, e também, ao que parece, de certo barco 
de pesca. 

chingue 

No Bailundo: — «chingues são casas pequenas» — *. 



chipapala 

Quadrúpede da África Oriental Portuguesa, assim descrito 
por Diocleciano Fernández das Neves: — «Qualidade de aniinaes 
a que os landins chamam chipapala. Observados de longe parece 
[sic] um boi, e effectivamente os chifres eram exactamente como 
os deste animal. O cahello da pelle era côr de castanha e curto 
como o dos bois e tinha a crina á similhauça dos cavallos, port^ii^ 
mais curta. O focinho e as patas eram como os do veado > — ' 



chiqueiro 

Esta palavra é definida nos nossos dicionários como «pocil. 
lugar onde se recolhem porcos > — . 

Todavia, pelo menos no Alentejo, o significado é mais r 
trito, como se vê da explicação que do termo dá J. da Sil 



1 O Dia, de 29 do junho de 100:3. 

« Itinerário de uma viagem á caça dos eleph antes, Li>b<> 
1878, p. 280-281. 



Ajwstilas aos Dicio7iário8 Portugueses 295 



^icão, na Etnoqraphia do Alto-Alemtejo: — «chiqueibo. — 
lurralorio que encerra dois ou três porcos adultos para se irem 
ngordando a pouco e pouco com os sobejos das comidas . . . 
te.» — *. [V. choco]. 



chisca, chisco, chisquinho, chizinho 

O Suplemento ao Novo Diccionábio dá à primeira destas 
>rmas, como peculiar da Beira, o significado — «pequenina por- 
ão, gôta> — , declarando haver sido colhida no Fundão. O se- 
undo, como termo algarvio, identiflca-o com cisco, que define 
ib.): — «aparas miúdas, lixo> — . No Pôrto, como é sabido, 
sta última acepção é a que corresponde a cisco \ cinisculum ^ 
)e cisco provém cisqueiro, que no Pôrto é o nome da pá (para 
i apanha) do lixo, a qual também se denomina apanhador. 

Conforme os meus apontamentos, chisca, chisco e chisquinho 
ignificam todos três «pedaço pequeno >. 

O mesmo Suplemento acrescenta mais outra forma beirã, chi- 
nho, com o mesmo significado de «porção pequena». 



chitão, chitom 

i primeira forma é mais portuguesa, a segunda está mais 

) da sua orijem, a locução francesa chtii donc! «caluda!», 

?ste o significado que teem, ou antes, tinham, porque estão 

fora de uso. Foram porém bastante vulgares, e tanto que 

i primeira se formou um adájio: — «Com el-rei e a Inquisi- 

'litão»!— 3. 



?i Portugália, I, p. 545. 

^ Carolina MichaSlis de Vasconcelos, in «Revista Lusitana», iii, 

•ancisco Adolfo Coelho, A Pedagogia do povo português, m 
'ia,i, p. 492. 



..r' - ■ r.r v^' 



296 Af€Mm mim Diàiomàrim Aiinfinwii 



choco (=^ekôço) 

É um masculino dedaâdo da fonna femenina choça \ latím 
plútea S adjectivo substantivado, designando cannaçSo, m- 
daime, ripado >, e cujo ú nos le?a a crer que mesmo a fonu 
fiemenina se pronunciasse dantes ékàça, a nlo ser que a primitin 
higa sido a masculina, derivada do neatre plntenm, do mesmo 
adyectívo, substantivado. Cf. poço, poça. 

Choco no Alentejo tem significação particular, que se dedoí 
do seguinte trecho da Ethkoo&aphia do Ajuco-AuEinxjo, de 
J. da Silva Picão * — < O chiqueiro [q. vj abrange o espaço de 
uns vinte metros quadrados, em parte resguardado por lutt 
alpendrada ou dioço, onde se abrigam os eevões, nome especifiee 
por que se designam os suínos assim sustentados [com sobcjOB 
de comida]» — . 



choramingas, choramigas 

Parece-me fora de duvida que a primeira destas formas é a 
correcta, e a mais popular, quer o seu étimo seja chorame, como 
pretende D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, quer chara-mif^' 
gas, por chora-mínf/uas, que me parece mais provável. 



choupa, choupo 

Talvez as verdadeiras formas sejam ehôpa, chõpo \ clupe*» 
clúpeum. 

Em três significados dá o Novo Diccionabio a forma feme- 



* Revista Lusitana, n, p. 37 : J. Leite de Vasconcelos; mas já aat«* 
dado por Frederico Dicz. 

« Kbvista Lusitana, ni, p. 135. 



Apostilas aos DieMnários PortiigtttiKS 



nina: a) — «ponta de ferro ou aço; b) peixe esparoide; e) árvore 
semelhante ao choupo* — . 

A terceira acepção é o latim popMus, por metátese, plopua. 
Ka 2.' acepção é o latim clupea, com o mesmo siguifícado. 
Eiemplo da forma masculina na l.*^ acepção é o seguinte: — 
• Eiras, 20. . . Foi isto o bastante para que lhe cravasse. . . no 
peito um choupo que trazia > — '. 



Conforme J. J. Nímez, do latim t(o)lutare *; seria pois o 
mesmo vocábulo que trotar. 



chuá 
• Onde mora o chuá ou governador [no Auame]> — ^. 



chiiaoga 

— • Chuanga é o preto que apresenta 08 contendores a quem 
Ksolre as questões, e resume as suas exposições: na Baiia-Zam- 
fcezia é interprete» — *. 



chucharrão, chocharrão 



Sendo ignorada a orijem deste vocábulo dialectal, é incerta a 
*aa escrita: — «Levado pela curiosidade, fui examinar um montão 



■ o EooNOUiBTA, de 22 de outubro de 1892. 

* Rbivibta Lusitana, nr, p. 2S5. 

* António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia dh Jesus, 
Wot, lS9t, p. 6S. 

* Azevedo Continha, A campanha do Barué bu 1902, in «Jornal 
^ CobnJRsi, de IS de agosto de 1904. 



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298 ApoêHiaê aoê DieUmáno$ Aiinfiniit 

de pedregulhos que o pastor me indicoQ, e qae era escoria (Aih 
díarr&es, cUzia) havendo incUcios de ter ali havido algum fimo 
para derreter minério, o que se explica porque a pequena dis- 
tancia ha um filão, não sei de que minério, dando-se ao ritio o 
nome de Ferrarias» — ^ 

Em castelhano existe o vocábulo ehidutrrón, que parece pela 
forma ser aumentativo de ékidiarro, ou ékiAatrií, «cigarra», e 
que o Dicionário da Academia espanhola * define do seguinte 
modo: — «(voz imitativa dei raido de freir) Besidno de las peOas 
dei cerdo, depues de derretida la mauteca. Dícese también de 
la manteca de otros animales y dei sebo. // fig. Game ú otn 
vianda requemada. // fig. y fiun. Persona muy tostada por el | 
sol» — . Corresponde nos dois primeiros sentidos ao que chama- 
mos torresmos. 

Para confirmar o parentesco do vocábulo portugufis ck»- 
charrào com o castelhano ehiekarr&n, vemos que a palam 
pélla, que entra na primeira definição deste, além do signi- 
ficado natural, que tem, de «banha de porco em rama», 
adquire também, conforme o dicionário citado, os de — «Hatt 
de los metales fundidos ó sin labrar — Masa de amalgama de 
plata que se obtiene ai beneficiar con azogue minerales argeo- 
tíferos» — . 

O termo dialectal chucharrào, ao que parece mais usado 
no plural, corresponde portanto ao termo mais geral eseit 
vialha. 

O primitivo chichayra designa em Espanha também o ins- 
trumento que em Portugal se denomina cega-^^ega. 

Ambos os termos parecem ter orijem onomatopaica, isto e, 
serão imitação do som. 



* Joaquim Manuel Correia, Antiguidades do ooncblho dO SabO- 
GAL, in cO Archeologo português >, x, p. 201. 

* Madrid, 1899. 



ApottUa» ao» Dinonàrios Foríuguaa 



chué(8), chué-chué 

Este adjectivo invariável, que significa ■ reles, de pouco preço, 
[)im>, é conforme Júlio Moreira *, confirmaudo o que Dozy 
ropnsera, o árabe ckuié chuié [sic], xuaiE xnaiE, demínutivo 
e XAi, ( cousa >. 

A aceitar-se a etimolojia, a escrita deveria ser xué. 



chulo, chula, chuleira 

É termo castelhano, que em português como adjectivo adqui- 
in o significado de « ordinário, brejeiro, quási obsceno » ; em caste- 
iiano, porém, designa < moço de matadouro ou de praça de touros, 
m tanto afadiatado'. No Século, de 23 de fevereiro de 1902, 
l-fle a locução à chula, « ao modo dos chulos, ou das chulas » : — 
Ultimamente, vestindo com elegância umas vezes, e â chula 
lutras, parecia regenerada > — . 

Chula é o nome de uma dança e de uma música popular, 
hoje provinciana. Viola chuleira é uma viola ordinária: — *Aqni 
«'portugiiez ao zãozão da viola chuleira»—'. 

Conforme Dozy, ehuh, chula é termo de ciganos, mas de 
oríjem arábica xul, • rapaz». E duvidoso o étimo. 



chumbe ira, chumbada 

Tanto o Diccionahio Contehfo&anbo, como o Novo Dicc. 
'^ a Sste vocábulo o significado de uma espécie de rede. 
'Odavia, nos passos que váo ler-se queitêle dizer *pêso de chumbo 
'& rede»: — <São lançadas [as petisqueiras] em compridas coças 



Bhvibta Lusitana, iv, p. 266. 

Alberto Pimentel, A prikobza db BoivIo, ji, 44. 



300 Apo9tila8 008 Dicionários Portugueses 



[q. vj, e aguentadas por bóias de cortiça e chumbeiras * — 
«tem pesos de chumbo, chumbeiras* — *. 

No mesmo sentido de «peso de chumbo» é empregado no 
dito artigo outro derivado de chumbo, chumbada: — «A tralha 
superior tem fluctuadores de cortiça, e a inferior pesos de chumbo, 
chamados chumbadas » — . 



churinar 

O Novo DiccioNABio inclui este vocábulo como de jíria, 
com o significado de «esfaquear». Nunca o ouvi em Portugal, e 
é possível que seja simples aportuguesamento do francês chour 
riner, que na jíria dos malfeitores de lá tem a mesma significa- 
ção. A existir no calão português, é o calo espanhol churinar, de- 
rivado de churí, «faca», e que tem um nome de agente derivado 
do verbo, churhmró, «matador», ao qual corresponde o termo 
de jíria francesa clwuríneur, alcunha de uma das personajens 
do afamado romance de Eucjénio Sue, Les mystêres de Paris. 



chupfio 

— «a chaminé ornamental de fuste prismático e adjunta a 
ella, caiada de branco, outra chaminé, de secção quadrada, a que 
chamam chupão em todo o Alemtejo e que tem por eífeito reali' 
sar a tiraofem que a chaminé ornamental não effectua conveni^^' 
temente. 

Deve accrescentar-se ainda, que a tiragem por meio dos cf^^ 
pões é activíssima e por isso, ao passo que não deixa o fut^ 



1 P. Fernández Toiniís, A pesca em Buarcos, iw Portugália 
p. 149. 

s ib, p. 151. 



Apostilai aos Dicionários Portugueses 301 



A O calórico de tal modo, que ainda no verão não aquece 
siadamente o compartimento em que sQfogtieia* — *. 
anto o substantivo chupão, como o verbo foguear são vo- 
os que merecem ser adoptados na língua comum, com os 
los que aqui expressam. 



cbus 



ste advérbio é antigo, do latim plus, e vemo-lo, por exem- 
la Demanda do Santo Graal, — «e era muito leterado, 
i donzela cbus» — *. Ainda hoje é usado na locução imo dizer 
nem mus, ou bu^s. 
^ue mus ou bus é este? 

ois étimos se Ibe podem atribuir, conforme se considere 
antiga a primeira ou a segunda forma. A aceitar-se mi4^, 
ia ser uma contracção violenta do latim minus, com des- 
lo do acento, e portanto pouco provável, existindo na língua 
dadeiro correspondente menos, que ainda assim não pode 
Dcer às orijens dela, atenta a conservação do 71 medial: 
em j cena). 

utra explicação aplicável a bics seria que a frase fosse 
) popular, e recebida em parte dos ciganos de Espanha, em 
dialecto bus quere dizer <mais>. Assim, a locução signifi- 
: «não dizer mais, nem em português, nem em cigano», 
r. Diez ^ dá como étimo, que se pode ver no Diccionabio 
[JAL BTYiíOLOoico de F. Adolfo Coelho, um vocábulo bus, 
que se encontra em várias línguas, mas que não concorda 
o sentido que tem bu^ na locução referida. 



Melo de Matos, As chaminés albmtbjanas, in Portugália, 11, 

in Rbvista Lusitana, vi, p. 334. 

Etymol. Wõrtbrbuch der romanischbn Sprachbn, Bonn, 



302 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Exemplo recente de chus e bus é o seguinte: — «Recebeu 
trezentas varadas... mas outro... levou mil, sem dizer chos 
nem bus> — *. 

chusma 

Já o DiccioNABio Contemporâneo deu como étimo a este 
vocábulo o latim celeusma; todavia, nào explicou o modo como 
se realizou a evolução. Deu-o J. J. Núnez na Revista Lusitana 
[iii, páj. 277]: celeusma [ cleusma \ * cheusma j chi^ma. 
Camões empregou a forma alatinada celeuma: — 

< A medonha celeuma se levanta > — 

Hoje faz-se diferença entre celeuma e chusma, visto que o 
primeiro vocábulo quere dizer «grita», e o segundo «multidão». 



cibo, cevo 

Do latim cibum proveio ceco, com ê [ í, e v \ b medial, 
como é regra na evolução portuguesa do latim vulgar. Ou por 
influência literária, ou por distiuçào dialectal que se propago^ii 
temos formas derivadas do mesmo radical em que figuram i ^ " 
latinos; tais são cibalho, cibato, e cibo, o último dos quais p^' 
rece puro latiu ismo. Cibato foi empregado por Camões na Ca»' 
ção XVI : 

Aíiui Progiic, de um ramo em outro ramo, 
Com o ]>eito ensanguentado anda voando, 
Cibato j)ara o ninho indo buscando. 



1 Gazeta das Aldeias, de 25 de março de 190G. 



Apotttíag aos Dieionârio» Portuguut» 



Não sei se cigalho, «porção pequena», é ainda um derivado 
e cibum, com mudança de b em g, como o andaluz agíieh 
omparado ao castelhano abuelc | auólum, e, procedente de v, 
português gastar } uastare, goraz, de uorace. Apresento isto 
penas como simples conjectura, que oferece poucas probabilida- 
es de ser acertada. 

ciciar; cecear, ceceoso 

Estes dois verbos, diferentes na significação, andam geral- 
leute confundidos uos dicionários, e assim também os substan- 
ivos rizotónicos derivados dèles, eeceio e cí^m (^^cicio). 

Ciciar expressa: l." sussurro indistinto e téune; 2,* a fala 
m segredo, sem voz, «ao ouvido», como costuma dizer-se, o 
oékichar, que em francês se diz chiickoter. Nesta última acep- 
io empregou Alexandre Herculano o substantivo cicio : — * assim 
' canto melancholico e melodioso das virgens foi pouco a pouco 
iDfraquecendo até expirar no cicio de orações submissas > — *. 

Como termo de fonética, eido é a ausáncia de voz, o que, 
m terminolojia técnica, se diz em francês le ckucite, em inglês 
tte íchisj»er. 

Âs consoantes sonoras, quando proferidas em segredo, são 
ciciadas, ficando muito semelliautes às surdas correspondentes, 
de modo que casa fica quási igual a cassa, vaso, quási igual a 
fiço; o mesmo acontece entre já e chá, quási iguais, proferidos 
«o segredo. 

Em português existem permanentemente vogais ciciadas, ou 
>f<Snicas, todas as vezes que u (ou o =u), e surdo e i estão 
precedidos de uma consoante surda, quando finais, ou entre duas 
!OQsoantes surdas; por exemplo : /aio, comparado com /arfo; ouço, 
amparado com omso; testar, comparado com distar, etc. 

Ceeeio é outra cousa: é o defeito, ou antes a particularidade 
** proferir o s como ç. Este nome, conforme o carácter de cada 



Edrioo o Prksbytkro, ! 



304 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



dialecto, tem significações mais ou menos especificadas. Para o 
indivíduo da Beira-Alta c^cew designa o proferirem-se os ss e 
os çç, à maneira de Lisboa, e nâo como lá, onde são pronuncia- 
dos no ponto em que se profere o r brando, o que lhes dá grande 
semelhança com x, e, em relação ao z, com j. 

Para os indivíduos de Trás-os-Montes, que diferençam s de ç, 
e $ brando de ^, ceceio é não fazer tal distinção, pronimciando-os 
como em Lisboa. 

Para os indivíduos de Lisboa ceceio é a pronúncia brasileira 
de ^ e ^ seguidos de consoante, ou finais, com os seus valora 
alfabéticos, em vez dos de x, j que se usam no sul de Portugal. 
O brasileiro em geral diz paçtaç, por pastas, inezmoç por mesmos 
(== mêjmux), 

O contrário de caceio, é o que se chama cliábancas, particu- 
laridade que consiste em pronunciar os ss, como na Beira-Alta, 
subcacuminais, no ponto em que r brando se profere, isto é quási 
como X, e o ^ quási como j, 

Ceceio se chama também o defeito, porque esta particulari- 
dade é individual, de aprossimar dos dentes a ponta da língua 
demasiadamente. 

Em Espanha ceceo é a pronúncia do c ou do z, idênticos, e 
diferentes de .<?. aprossimando a lín<íUii dos dentes, como é ne- 
cessário para bem articular aquelas letras em castelhano. 

Chamam lá também ceceo, ou zeteceo à pronúncia dos «^'^ e 
dos zz como r portutruês, usada na Andaluzia, e nas nações 
americanas de orijera espanhola. 

Em português chama-se ceceoso á(|uele que i)ronuucia os ^'* 
com ceceio. 

cifra, decifrar, zero: algarismo 

O primeiro destes vocábulos foi o de preferencia usado er» 
português, antes da influência francesa em toda a nossa lit^^"^' 
tura, mesmo na científica, vai em sessenta anos. O que a maiori*^ 
das pessoas não sabe é que sào um só e o mesmo vocábulo cfj' 
e zero, que os franceses escrevem zero, pronunciando zê-rO. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 305 



A palavra é arábica, sífr, «vazio, oco>, tradução do ter- 
sanscrítico xuxía xuNia, que tem a mesma significação, e 
inbém designava a cifra, ou «nulidade, ausência de quanti- 
Lde>, tendo só valor de posição para se localizarem os outros 
garismos, no sistema de numeração decimal que os árabes 
^renderam dos índios. Com este valor passou o vocábulo ará- 
co para português e castelbano, sendo nestes representada a 
•nsoante inicial por ç (ce, ci), como de regra, na transcrição de 
lalquer dos dois íf.s- arábicos, o Iene e o enfático, ou gutura- 
ado, que aqui represento por s. Das duas línguas hispânicas, 
i da forma alatinada do vocábulo arábico, zephirum ou ze- 
lyrum, passou a palavra ao francês ciffre, deste ao inglês 
^pher, e ao italiano cifera. do qual foi transplantado outra vez 
ira França cora a forma chifre, arremedo do toscano cifera, pro- 
mciado tchífera, j>ois no dialecto veneziano se escrevia zif(e)ra, 
se proferia tcíf(e)ra, o que estava mais conforme com o valor 
i inicial arábica e peninsular. 

Foi Leonardo de Pisa quem no século xii latinizou este vocá- 
ilo em zephiríim ^ e os italianos abreviaram-no ao depois em 
roj talvez primeiramente pronunciado tcèro, mas actualmente 
rèro, que os franceses adoptaram, acomodando à sua pronun- 
ação a escrita italiana. Em português, como disse, é provável 
le a forma zero provenha directamente da francesa escrita, com 
-omodaçáo igualmente à nossa leitura. Os alemães chamam-lhe 
^ÁlUy do latim nu lia, «nada». 

Mássimo Planíidio, monje grego do xiv século, escreveu um 
rro, que intitulou psêp'op'oría kat' Indoús [Cálculo entre os 
idios], onde diz, a respeito dos algarismos o seguinte: — «Há só 
)ve figuras, e são estas : 1.2.3.4.5.6.7.8.9, e teem também 
itra figura que chamam tzíf^ea, e para os índios esta não vale 



* Conforme Libri, Histoire des Scieiíces niathématiqttes en Itaiie, t. ii, 
29, citado por F. Woepke, Mémoire sur la propagatiox des ciiiffres 
fDiBNS, Paris, 1803, do qual é extratado em grande parte este artigo. 

20 



;X)<> 



Apostilas aos Diciomlrios Portugueses 



nada, e as nove ditas figuras sào indicas, e a tzíp'ra escreve-se 
assim O» — *. 

Portanto, desde o xiv século estava a Europa de posse do 
sistema de numerayào dos índios, com as formas arábicas, mo- 
dificação das indianas, e das quais com pequenas diferenças ainda 
usamos. A diferença maior é que num dos sistemas arábicos, o 
asiático, o algarismo /; é figurado por 0^ ou quási, e a cifra por 
um ponto ( • ). Dos árabes os recel)eram os gregos, os quais os 
propagaram pela Kuropa, que adoptou as formas mais cursivas 
berberiscas, consa;j[radas definitivamente pela imprensa. 

Os romanos, como não conheceram a cifra, que pela sua inser- 
ção entre os outros algarismos indica o valor destes no sistema 
decimal, usavam uma tal)ela quadriculada, chamada abacuá, 
ãbuco (em grego áb.vks), bastante enjenhosa na realidade, mas 
inferior ao uso da cifra em clareza e facilidade para o cálculo. Era, 
puuco mais ou menos como a figura seguinte, que explico: 



lOOUOOO 11)01)00 10000 1000 100 JO 





1 

1 

1 


1 
1 


"^1 


1 


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1 \\*w\\VK\Oj).(it.. ]\ líi:)-l!»l. õ t''\t>> «'^rá (MU i^ri'^'); ajirosento-o ^^^,^\ 
tiM<luzi«lo liter;iliin.'!it«': ajx^na^ i.'iiipr<'iru'.'i os al<íarisiiio^ correntes por iiu^ 
tarem y>r> >i Fiais ijuo ne.s.so texto foram reproduzidos. 



Apostilas aos Dicionários Portugtteses 307 



Onze 11 

Cento e um 101 

Mil cento e um 1101 

Quinze mil e quatro 15004 

Setí^centos e três mil c vinte e cinco . . 7030*2.") 

Quatrocentos e um mil e um . . . . 401001 

Um milhão dez mil e com 1010100 

ihjarÍHmo é vocábulo também arábico, mas deduzido da 
a alatinada algorisraus, que na Idade-Média designava 
npéudio de aritmética >, e procedeu do nome do autor árabe 
im desses compêndios ^ Cifra no sentido de «^ algarismo» é 
vra afrancesada; mas é muito portuguesa com o significado 
escrita enigmática», de que procede decifrar. 



cigano 

Kste termo é já antigo na língua, pois o vemos nas Ordena- 

Felijúnas, no Titulo lxix do Livro v; — «Mandamos que 

iganos, assi homens como mulheres, nem outras pessoas, de 

uer naçáo que sejáo, que com elles andarem, nâo entrem 

)ssos Keynos e Senhorios» — . 

1 Vicente, na Farsa das Ciganas, imitou-lhes o falar 

ano andaluzado e estranj eirado, com o costumado primor 

le em outras peças remedou a pronúncia mourisca e a dos 

da Guiné, bem como os falares provinciais -. 

ina>< designam também «brincos para as orelhas», na- 

ite parecidos com os usados pelas ciganas: — «As es- 



•celo Devic, Suplemento ao Dicionário francês de Littré, suh, v. 

IK. 

V. R. Gonçálvez Viana, Dkux faits de phoxolooib histori- 
^aisb, Lisboa, 1^92, e Courbspondancb philotx)Giqub avec 
L. L. Bonaparte [em 189i], Í7i <Rcvue Hispanique», t. vi, p. 13 



308 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

trellas, annéis, ciganas, circules ou afogadores> — ^ O Xôvo 
DiccioNÁBio já traz o vocábulo neste sentido especial, e de- 
fine-o: — «arrecadas de um só pingente > — . A definição é pouco 
clara. 

As tribos vagabundas dos ciganos receberam nomes diversos 
em cada nação. 

Os espanhóis chamam-lhes gitanos, isto é, egitanos, «do 
Ejipto», e nome idêntico lhes dào os ingleses, Gijpsies. Os fran- 
ceses denominaram-nos Bohémiens, naturalmente porque para lá 
vieram, ou disseram que vinham, da Boémia. Em alemfio em 
italiano, em português, zigeimer, zingari, ciganos^ o nome é 
étnico deles próprios, conquanto os de Espanha, por exemplo, o 
nâo usem já, substituindo-o por cincalUs. 

E pois absurdo designar essas tribos em português com o 
nome de boémios] nào o sendo menos disfarçar a palavra cújano 
em tsigano, pois o italiano singari, alemão zigeuner, ou o ro- 
meno tsigani, com os sons tç iniciais, nada querem dizer que 
difira essencial ou acidentalmente do termo português, o qual, 
ao contrário do que acontece em francês, inglês ou espanhol, ^ 
a denominação lejítima dessas tribos, já usada até em francês, 
com a forma tsigmies, desde que a palavra hohémieyifi adquiri^ 
a acepção de «tunante, estúrdio >. 

Em português também se chamou ao cigano ejipcio, e ejit^^^ 
nato '. 

cigarro; cigarrinho 

Para cigarro, que primeiro quis dizer « charuto » em porfc^' 
guês, como no castelhano ainda hoje, veja-se tabaco. 

Cigarrinho em Santa Cruz, ilha da Madeira, é o nome ^^ 



1 O Dia, de 27 de outubro de 10U3. ^ 

* J. Leito de Vasconcelos, Tradições populares portuguesas > 
SÉCULO xvm, ifi «Revista Lusitana», vi, p. 204, (q. v.). 



Apostilas aos DicionáHos Portugueses 309 



i ave, sylvia compicillata, conforme Ernesto Schmitz [Ddb 

^EL Madeibas]. 

Deve ser deminutivo de cigajTa, e não, de cigarro. 



cimeiro 

Como adjectivo já o rejistou o Novo Diccionáhio 

Na Sertã 2^orta cimeira é a «porta de cima», por oposição 

orta (la rua. 

cipai(o) 

Este vocábulo, que designa «milícia indíjena> na índia, apa- 
e escrito por modos verdadeiramente singulares, entre outros 
i estravagante sypaes, com ?/, sem se saber porquê, por exem- 
• no seguinte trecho: — ^Santohá Ran Eanes... cypae da 
mpanhia do Infante» — *. 

O vocábulo é persiano sípahi, sípai, «hoste», que parece 
vir de asp, « cavalo » *. Os ingleses escrevem Sepoy, Seapoy, 
^em sijwi. 

cirata 

O Novo DiccioNÁRio dá a este vocábulo como significação 
espécie de xairel», e declara-o desusado. No Suplemento 
'^ocABULABio PORTUOUEZ E LATINO dc Bluteau vcm um artigo 
tanto longo, pelo qual se pode deduzir, da citação que faz, 
já obsoleto no seu tempo e mesmo no de Dom Sebastião. No 
Uto, vemo-lo ainda empregado no seguinte trecho: — «Esta 
údade [de camarista de Sua Santidade], alem das honras 



* O Século, de 1 de abril de 1902. 

* Yule & Burnell, A Glossary of Anqlo-Indian Words, 1886, 
^12-613. 



310 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



prelaticias dá-Ihe o direito de montar uma mula branca com 
cirata vermelha, e esjK)ras de ouro> — *. Bluteau traduz por 
Pellis ephippiaria. José Inácio Roquete, que, na sua quali- 
dade de eclesiástico de bastante erudição apropriada, deve ser 
considerado autoridade, no Dictionxaire pobtcoais-fraxçais ^ 
declara ser a significação de cirata — <bord d'uue selle* — . 



cirieiro, cerieiro; círio, cirial 

A verdadeira escrita é sem dúvida com / na primeira sílaba, 
pois o vocábulo quere dizer «fabricante de círios». Todavia, a 
escrita com e é muito antiga, e à pronúncia naturalmente é 
devida, pois, como é sabido, numa série de sílabas cuja vogal 
seja i, somente o último tem este valor; os das sílabas antece- 
dentes passam a valer e surdo ^, como por exemplo militar, nu- 
7mtro, que toda a gente, à excepção de um pequeno número àe 
pessoas que escolhem para seu uso pronunciaçào afectíiJa, '«^^ 
não profere o / da sílaba mi cora o seu valor alfabético. Antig*^' 
mente, mesmo, escrevia-se vielitar, como se escrevia cczinh*^- 
que é a verdadeira ortognilia da palavra. Em cerieiro, por (' '' 
rieiro, influiu também a palavra cera, visto ([ue os círios en^"*^^ 
e são fabricados desta su])stáueia — ^' Sabetle que loham Coell^ 
e Luis Míz e Gill Ffz, e Manoel Gill, cerioiros moradores e- ^ 
essa villa de Santarém-^ — ^ 

Círio tem outra acepçíi^' '*^ ^^^ « romaria >, que provávelmeiL ^ 
lhe foi dada por motivo de ser levado na procissão algum cír ^ 
bento. 



* O EooNOMisTA, tio LM (1..- setMilbro »lo Ibiri. 
•^ Paris, ISÕÔ. 

^ V. A. \\. <í)nrálv»'z Viiiiiii, outooiiafía Nacioxai., Lisboa, l'*^ 
p. 00-101. 

^ Carta rójia »le 1.). Afuiisu v, in l*urtU{]:iiliii, i, j). otíO. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 311 



O Novo DiccioNÁBio dá ao vocábulo terceira acepção, pois 
os diz ser nome de cacto. 

Quarta acepção diferente de todas estas, e que não pode ter 
. mesma orijem, lê-se na Ethnooraphia do Alto Alemtejo, 
le J. da Silva Picão ^: — «Os antigos silos (cirios) ou tulhas 
ubterraneas» — . 

Cumpre não confundir cirial, «tocheiro portátil em que se 
)õe o círio >, com cereal, «grão panificável», do latim cerea- 
is ! Ceres; como aconteceu a um rejedor, a quem o adminis- 
trador do concelho pedira uma nota dos cereais que havia em 
depósito na freguesia, e que respondeu em ofício não lhe constar 
haver outros ceriais além daqueles que acompanhavam Xosso- 
-Pai, quando se ia levar o viático aos enfermos. 



citánia, citaniense, cidade, cividade 

Este termo de arqueolojia prehistórica, o qual desde o con- 
gresso de 1880 em Lisboa, e em resultado dos trabalhos prepa- 
ratórios e subsequentes com ele relacionados, adquiriu grande 
^toriedade, é do seguinte modo descrito por pessoa tam com- 
itente como José Leite de Vasconcelos, actual director do Mu- 
'^ Etnolójico, acomodado no edifício do mosteiro de Belém: 
^ "^ Outras designações de ruinas são cividade, cidade e cita- 
^ • - . A etymologia de citania tem dado que fazer aos archeo- 
?^s, mas ella parece-me simples, saluo meliori: o português 
^^^cião vem de um derivado latino ciuitatanus. . .] ora desta 
^^vra podia formar-se civitatania. . . > — -. 

l^ara aceitar-se este étimo, que me parece muito plausível, 
^^a, considerar-se que do latim ciuitatem procedeu primeiro 
^'^nde, que ainda persiste neste sentido restrito, e que civi- 



* in Portugália, i, p. 530. 

* p. 62, Colecção de Duvid Corrazi, Bibliotheca do Povo b das 



012 A}*fM'dus aos I^iciouán<t$ POrin^neia 



duííe em castelbano se reduau primeiro a cibdad e dej»ois a 
ciudad. <* contrário de Paulus que deu PabJo: e assim como 
de nrídade i»rovein o actual cidade, assim também de um eiri- 
táêiia resulUíU nfdnia. 

Martiuz .Sarmento derivou dést« substantivo um adjectivo: 
— ' íinnariam a sua dominação s«?bre os Liares citanien- 
se> — *. 

O vocábulo deidade é também empregado por Alberto Sam- 
j»aio. conjuntamente com cifâuia: — <as minas dos oppida, co- 
nhecidas hoje traílicionalmente por cividmles, citanias. castros 
ou tra^fos > — -. 

Vê-se que são sinónimos, os quais ficam deste modo definidos. 



rivilista 

Ivste neolojismo foi empretrado por Duarte Gustavo Roboredo 

de Sam]»aio e Mello, num projecto de lei, apresentado às Côrt« 

i-m 1 d<' niar<;o de UMX), acerca do divórcio: — <Tra<luziu elte 

o (mdkio (.-ivií/ talv«.v. ao tciujK» da sua puldicaçào a melbor 

<»l»r;i <l:i li-í:i<lac:lo (.-ivili^ta ate então > — . 



í-luinór. cranior. craniayão 

n hícciox vuio <'nxTKMPnK.\NKo já dotiniu csta palavra no-*'^ 
s('iiti«lo csj»('t.'iiilíssiin«> qiHí teiii no norte do reino: — « Proi'i>>i*^' 
de |»nM"cs vm qu»* us tieis vão reziíndo alto em côro> — . ^^ ^' 
(Kirdon <la Hrrtaiiha Francesa. 

Todavia, a lorma, pela íjiial é conhecida a dita procissão, d ií<* 
ó a literária «lue dá o dito dicionário, mas sim cramol (cf. /''-''• 
tio latim flore) e caramol (cf. carapinteiro, por carpinteif^'^' 



1 Tort u«:;iliji, I, ]). 12. 

- As < ViLLAS» I>0 XOKTE DE rOUTUOAL, IH F OTtH^íiU-à, I, p- 1^*' 




Apostilfts aos Dicionários Portugueses 313 



Sobre estas procissões típicas vqja-se Portugália, i, páj. 624 
e 664: — «Mais do que os clamores, cramoes ou caramoes, accu- 
sam os cercos. . . vestigios meuos distantes de religiosidade» — . 
Na ilha da Madeira cramarào quere dizer «clamores, grita- 
ria». 

clan 

Esta palavra escocesa (clann «filhos», «projénie») muito 

usada em Inglaterra, onde a tornaram conhecida as afamadas 

novelas de Gualtório Scott, passou também para França, e de lá 

foi trazida a Portugal por intermédio da literatura, mesmo 

científica, com a pronúncia errada clã, sendo que a verdadeira é 

dane. 

Se o vocábulo se aplica a escoceses, tem ele cabimento; o que 
i abuso é trasladá-lo a outras tribos de constituição mais ou 
menos análoga à dos serranos da Alta-Escócia (Highlanders), de 
^rijem e linguajem céltica. 

Acerca desta expressão escrevi eu a nota seguinte na Selecta 

í^o-r^ESA DE LEiTUBAs FÁCEIS, aprovada para o ensino do inglês 

^os nossos liceus, comentando a expressão the dayi of Mac Do- 

^^^^ do texto: — «da grei de Mac-Donald. . . O vocábulo clan 

^corresponde ao gens latino e designa na Alta-Escócia, entre as 

I^Pulações que falam gael, uma «parentela inteira», um ajunta- 

^^^to de familias que obedecem á autoridade de um único chefe, 

^ ^sa.m appellido commum a todas ellas, presumindo-se descende- 

^^to (Je um só avoengo. Assim, em Mac-Donald, esse avoengo 

'^^tnava-se Donald, e Mac significa «filhos», «progénie». O vo- 

^■^ulo clan é em inglês applicado a grupos de familias de cons- 

*^Uiçâo análoga em outros povos, e os franceses já o adopta- 

Ora, em português podemos dizer «parentela» ou «grei», 
^ ^^ evitarmos o neolojismo. Em sentido muito semelhante usou 



Lisboa, 1897, p. 230. 



314 ApontUns ao^ Dv-ionário^ Poiinçirse» 



Gabriel de Aiinunzio. cora relação à rejiào dos Abruzos. o termo. 
talvez local. jHirenfado '. 

Qualquer que seja a orto«rrafia que se adopte, é absurdo es- 
crever, como é muito comum, o vocábulo fjrei J grei, gregis, 
com f/, grey, quaudo se escrevem com / lei [ lex, legis. e 
rei [ rex. regis. 

claro 

Kste vocábulo, como substantivo, significa < intervalo >. ma^ 
tem sentido muito especial no trecho seguinte: — ^Aos chrcp^r 
que constituem as extremidades das redes, pendem as corda», 
cabos de linho, cada um com 30 ou ¥f de comprimento > ^ — -^' 

clises 

É termo de jíria e significa -^ olhos-: daí procede o ve^'*-*^ ' 
cliítar, por < olhar *. É o calo cUsé <ôlho>. com deslocação ^^ 
acento para a 1.'' sílaba. 

c<»a-ílas-pichas 
— Alt,*in destas re«les envolveutes volantes' usam ospe^^*-'*^ 

3 

dores do M<m'leLro uma outra a que eiiamam Coo Jos pichas ^ — - 

cobriulia 

No coucr-lho de Vila Xova de Oiir<''m este demiuulivo ^'^ 
cobra aj^lica-se como nome ao que chamamos alfavaca de cob* ' ' 
isto é, à parietaria. 



* La Fi(;í>ia dIohio. 

" P. r.Tiijiii l'Z T"iii.i-, A ri:s(*A em HrAUCi»s, in Portugália*' 

3 I*ortu^';ilia, I. ]). .M^'». 



i 



Apostilas aos Dicionários Portugíieses 315 



cocho; copo; coche 

e J. Leite de Vasconcelos este vocábulo, que serve 
ar um «tabuleiro para transportar cal amassada >, é 

latina, cop(u)lum, metátese de poculum, copo. 

será talvez um alótropo do mesmo vocábulo latino 
[ue tivesse antes passado pela forma intermediária 
manutenção excepcional do p intervocálico, por ser a 
•erudita. 

ra coche, «carruajem de estadão >, é porém de orijem 
rsi (z=cóchi). 



codeào 

itejo significa este aumentativo de côdea «terra en- 
la geada» *. 



coicuo 



a-Baixa tem este nome « a parte do carro que assenta 



::olchão; côcedra, côzedra, cocedra, cozêdra; coxim 

bulos 3.°, 4.°, õ.*^ e 6.° são alótropos, fonuas diveijen- 
n culcitra; se porém a acentuação dos dois últimos 
nda sílaba, o que me parece menos provável, atenta a 
ina cóltrice, com metátese, por cólcitre, temos de 



tj de Vasconcelos, Uhvista Ltjsitaxa, ii, p. 22. 
nação do editor, natural de Almeida. 



316 Ap*>8tilas aos Dicionários PorUtgueses 



supor como étimo deles uma forma deminutiva cidcitula que 
desse cocêdra. Cora respeito à queda do /. confronte-se doc^ de 
dulcem. 

Colchão é simples aumentativo de coMui, que pressupõe uma 
violeuta absorção da sílaba medial ci do deminutivo, ou outra 
forma culcita igualmente dificultosa. Kõrting * propõe também 
que sejam derivados de collocare, castelhano colgar. 

Coxim será, segundo o parecer do mesmo autor, o latim 
culcitinum, o que também apresenta dificuldades. 



colheira 

Esta peça dos arreios das cavalgaduras veio provávelm^i*'* 
de Espanha, onde se chama coUera (pron. colhera) j c\i>^^^ 
(pron. cuelho), «colo>; em português deveria dizer-se cdef^^^ 
tanto a do cavalo, como a do cào. 

A pronúncia coelheira é viciosa, pois o vocábulo nada ^^ 
que ver com coelho, que em castelhano é conejo. 



c* 



oiuho 



Álrií^a Oriental Portujfuesa: onfeliciJade 






comédias 

Xa praia da Nazaré ouvi assim denominar a < praça doS 
arlequins >. 



í LATKiNisCH-R<)MANisCHEsW()UTBKBUcn,Pii«lerborn,18lK),n.^''2i)13 

e'2Sl:]. 

2 Diookciano Ftrnández «las Neves, Itinerário db uma viagem â 

CAVA DOS ELBPHANTES, Lisboa, ISlSy jtassiíH. 



Apostilas aos Dicimiàrios Portugueses 317 



cómodo 

— «o conjunto de herdades que constituem uma lavoira 
5igna-se por cómmodo> — *. 

Confronte-se o emprego do mesmo vocábulo para designar 
-* repartimentos de uma habitação > . 



companha 

— <As companlias são grupos de pescadores que se reúnem 
a exercerem a industria da pesca, e se compõem de um chefe, 
^yyaeSy e dos companheiros > — -. Conforme ,T. Leite de Vas- 
^oelos deriva-se do verbo companhar j cumpaniare ( cum 

pauis ^ «pào». 

comparança 

Kste substantivo, formado de comparar, como espet^ança de 
^^ar, não vem nos dicionários, e todavia ele concorre popular- 
^te em todo o reino com o literário compararão: o mesmo 
^íitece com declarem, a par de declaração. 



compassar 

Eis aqui um sentido muito especial deste verbo: — «Quando 
^.tírador queria fazer uso do arcabuz, abria a caçoleta, <com- 



* J. da Silva Picão, Ethnographia do Alto-Albmtbjo, in Por- 
galia, I, p. 271. 

* t6. P. Femández Tomás, A pesca em Buarcos, p. 154. 

* Revista Lusitana, ii, p. 33. 



:ns 



Apostilas aos Dicio7uírio8 Portugueses 



passava» a mecha, isto é, dava-lhe o comprimento suffieiente 
para chegar á caçoleta, apertava o gatilho, e o tiro partia>~'. 



condessar, condessa, condessilho 

Xo Suplemento ao Xòvo Diccionário vemos o verbo coni^' 
r(f}\ nos seguintes termos: — *(ant.) guardar, por em depósi^^- 
(De con(lcr(f)> — . 

Santa Rosa do Viterbo traz efectivamente como antigo o verbo 
com/esvr .'—cGxmrAav, Daqui Condessa, ou Condessilho: aquito 
em que alguma cousa se guarda. — Condessilho: o mesmo qii* 
Deposito, segundo Duarte Xunes do Lião» — -. 

Xa realidade, o filólogo citado por Viterbo inclui na lista áo 
cap. XVII da Outgem d.v lingoa poRTuairESA, como antigo, o 
indicado condessilho. 

A. A. Cortesão, no Aditamento aos Subsídios para um dic- | 

CKJNÁIUO COMPLETO DA LÍXaUA PORTUGUESA. <lÍZ-n03: — « Cott" 

dessa ou condessa... [o arch... coni1e>ia)\ do hisp. cnndesor 
(do hitini ('õu(h'')r, . ,) — emeado-se "na obra]: — o arch. coiuh-^' 
Sff)', do his|). c(>n(lcs(i)\ do latim conderv, . ,]. Cf. também o 
hisj). n)H(/cnsff (do latim co)i(lcn>^'n), logar onde se guarda alguma 
coisa, por exemplo, a dcs])onsa, o guarda-roupa, etc. >--. 

À ]>artc a jn-eocupavâo dn autor dcsto utilíssimo repOi^it<''ri'^ 
cm converter o casteliiano numa espécie de crivo pelo qual o 
latim, o árabe, o gernninico, etc. bào de passar ]»ara chegarem ao 
[M:)rtugu»*'S, teoria evident emente errónea, pois o português, se uao 
é mais antigo, é contemporâneo do casfcelbano em toda a sua 
evolurào, que é mais Hei (luási sempre às formas orijiuais: a 
parte este senão, repito, o autor deixou a claro a orijem «l^^ 



* Porf Uííalia, I, p. 00:1. 

2 KLrcroAiuo dos termos b trasks qt^e antkiuamente se usa* 
li.u), liishoa, ITOS. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 319 



vocábulo comlêssa (com ss, e nào ç) e do verbo deste derivado, 
condesi^ar. 

Como nào tenho ao meu alcance abonação portuguesa, e as 
eulio castelhanas, darei estas: — «Dicen que un religioso habia 
tida dia limosua de casa de un mercader rico, pan ó mantega é 
lil otras cosas, et comia el pan, é lo ai condesaba, e ponia la 
liei e la manteca en una jarra ♦ — ^ C a mi sienpre me tiene?i 
niado, I de entro en buenas cubas condesado ^, 

E claro que condesm, no sentido de « cesta de verga, de forma 
íircular ou oval, sem asa, e com tampa ligada >, nada tem que 
^'^r com outro vocábulo, condefim, femeuino de colide j com item. 



confeito; confetti 

Kste particípio, do verbo confazcr, do qual se derivou o 
verbo confeltar, que produziu confeiteiro e confeifnria, (no 
norte, dureiro, dorariaj nào está colijido nos dicionários, nem 
como particípio, nem como adjectivo; todavia, vemo-lo muito 
bem empregado nesta última categoria por F. Adolfo Coelho, 
ao seguinte passo: — <Não sei quando começaram a preparar 
?m Portugal amêndoas co)ífeiiax'> — ^. 

Bluteau no mesmo sentido usou confeitado. 

Confeito como substantivo, designando uma espécie de pasti- 
ha doce, esférica, deve ser imitayrio do italiano confetto, plural 
'onfetti. 

Em Portugal era uso, e nào sei se ainda o é, arremessar 
onfeifos aos noivos, ao saírem da igreja, e em Itália servem 
les de projéctil para jogar o entrudo. A moda passou a França, 
nde à imitação se fabricam uns discos de papel de várias cores, 



* Biblioteca de aut^>res espanolcjí, tomo li, p. 57, col. i. — Calila É 

)YN'NA. 

« Denuestos DEL AGUA Y EL vixo, texto (lo XIII século, /;* < RevuG 
Iispanique>, xiii, p. 617. 

» A PBDACrOGiA DO POVO roRTUGCÈs, in Portugalia, I, p. 484. 



320 Apostilas aos Dicionários Porhigueses 

menos contundentes e mais baratos que os verdadeiros confeitos 
italianos. Vieram para cá os tais discos substituir os afamados 
papelinhos nacionais, e, como aos franceses nâo chega a língua 
para pronunciarem correctamente o italiano confêtti, estropia- 
ram-no em confetí, parvuíce que também, por ser francesa, se 
espalhou em Lisboa, entre a gente que presume de tina. 

A se nào querer adoptar o nome muito português e tradicio- 
nal papelinhos, o que temos a fazer, o que faz quem quere falar 
português em Portugal, é dizermos confeitos, designando com 
este termo não só os doces, mas a sua imitação, tal qual fazem 
os italianos ao seu confeffo. 

E, a propósito deste singular, sempre desejaria saber se os 
que acentuam confettí, dirão no singular confetti, ou confettó!. 

congosta, cangosta 

Este vocábulo, cuja forma mais correcta é camjosta, porem 
a mais usual conijosta, é um exemplo muito característico de 
polissíntose em português. E um composto, por elisão da sílaba 
filial 110 j)rinieiro elemento e da sílaba iiiirial no segundo, poi^ •> 
seu ótinio ó caiuflc e ani/osfa ', do que resultou canoJon- 
(josfa j ('(nunujosfa j cà(fn(/os'f(f [ ('(ni(/<>sf(f ] cou'i<)-<t(i. por fiiD- 
em virtude de assimilavào da vogal da j»riineira sílaba à da ^^ 
gunda. Of. para a última destas formas ò contracção de (w: 

Condensação das várias sílabas de um vocábulo exemplifi''^ 
também quelha \ canal i cuia [ canal ilha \ ccrnalelha \ câo^^" 
lha I càelha j caelha j quelha, 

cousertador 

— «Para as redes de arrasto ha inesmo um certo uiim^^*' 
de indivíduos a que chamam redeiros, af adores ou concerfado^'^'^' 



1 J. Leite de Vasconcelos, Rkvista LrsiTAXA, iv, p. 278. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 321 

alusivamente se dedicam a este serviço na época de mais 

acia de peixe» — *i 

lerviço aqui mencionado é o de «consertar e encascar» 

s, isto é, de emendá-las e tinji-las. 

re a escrita deste verbo consertar, de consertus, par- 

pretérito passivo de conserere, diferente de concertar, 

deriva concerto, «ajuste, combinação», veja-se Obto- 

Nacional •, páj. 121. 

consoar 

3 verbo, conforme D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, 
;e de cum -|- sub + unare, e consoada, de cum + sub 
+ ata, sendo -ata a terminação femenina do particípio 
o passivo do dito verbo ^. Estanislau Prato propusera 
ita, ao que se opõe a locução de consum, «em comuni- 
— «Consoámos por ser dia de quaresma e jejum» — *. 
r, como pode ver-se nos dicionários, quere dizer «tomar 
feição leve, por preceito relijioso » . 
assuadu, que, conforme a mesma abalisada romanista, 
de ad -f- sub -j- uno ^ 

conto, conta, contaria 

nidade de contajem de cereal em rama usada em Trás-os- 
i é a pousada, que se compõe de quatro molhos. O termo 
io dos arredores de Bragança. O cereal em grão tem por 



í'. Fernández Tomás, A pbsca em Buarcos, in Portugália, i, 

liisboa, 1904. 

íbvista Lusitana, i, p. 124, 130; ni, 362, 365. 

Intónio Francisco Cardim, Batalhas da Companhia db Jbsus, 

1894, p. 80. 

íIbvibta Lusitana, i, p. 130. 



322 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



iinidade a conta, que é igual a quarenta alqueires, isto é, uns 
seis hectolitros. 

Uma singularidade da mesma rejião é o número 20, tomado 
como básico para a contajem, à maneira do vasconço oguei, do 
francês viyujt, do dinamarquês tyve. 

Deste modo oitentu diz-se quatro vezes vinte, em francês qua- 
tre-vingts, em d\Mdkm2LX({m% fiirsindstyve, «quatro vezes vinte >; 
em vasconço lauroguei, «quatro vintes >, de lau(r) « quatro >. 

A expressão conto só hoje se emprega, com a significação de 
«milháo», com referencia a dinheiro, equivalendo um conto de 
réis a «imi milhão de réis». 

Bluteau ^ insiste em que conto não é mais que miUião, e que 
conto se diz de réis, e milhão, de cruzados, censurando o 
Padre António Vieira, porque os diferençou. 

Femám Méndez Pinto - diz-nos: — «São estas feyras ambas 
francas e livres, sem pagarem nenhum direyto, pela qual causa 
concorre a ellas tanta gente, que se afirma que passa de tre^ 
contos de pessoas» — . 

ri Quis o autor dizer «três milhões de pessoas»? 

Assim parece, se compararmos esta expressão de número com 
a que se lhe segue: — «I] porque, como disse, os trezentos mil 
homens que estão em depósito nesta prisão andão todos soltos»—- 
Se só presos eram trezentos mil, não é de admirar que dez vezes 
esse número fosse a gente livre que à feira concorria. Passa-se 
isto na China, o que deve diminuir o espanto que nos causaria 
tamanha concorrência. 

Acerca do termo conto num sentido especial, transcrevo, por 
ser perfeita a definição e a demonstração da orijem, o seguinte 
trecho do notável estudo de Alberto Sampaio, intitulado As 
* ViLLAs> 1)0 NonTE DE PoRTUGALi — « Os mcsmos beus doados 
não eram privilegiados senão por graça real, pois era o rei quein 
os coniava ou honrava, prescindindo dos direitos de que f^^ 



1 Vocabulário portuguez b latino. 

2 Peregrinação, cap. ovni. 



Apostilas aos Dicionáríos Portugueses 323 



mercê; estes cantos ou honras, onde em geral não entram os 
mordomos reaes, conteem talvez os germens dos concelhos, cujos 
foraes ou cartas serào também dados pela coroa > — ^ 

A palavra conta é muito portuguesa, no sentido de «globo 
pequeno de vidro, louça, madeira, ou outra substância, furado 
para se enfiar > . 

O nome provém-lhe naturalmente dos globos dessa natureza 
empregados nos rosários, para «contar» maquinalmente as ora- 
ções que se vão rezando, correndo-se as contas a uma e uma 
pelo fio ou cordão em que estão encarreiradas. 

Toma, como objecto de enfeite, diversos epítetos que a 
qualificam. Aqui está um não colijido: — «Conta de leite: Glóbulo 
de ágata, de côr leitosa e azulada. Amuleto para manter abun- 
dante o leite ás mulheres que criam» — *. 

Contaria é um colectivo, uma ou muitas «enfiadas de conr 
tas*, 

convidar, convite 

Estes dois vocábulos tinham dantes a acepção de « obsequiar, 
presentear, presente, banquete», cuja reminiscência ainda hoje 
em dia perdura ironicamente: — «o Taboada, um bailão ali do 
sitio, convidou o Navalhadas, seu collega, com duas ditas no 
peito» — ^. 

Abonação antiga é a seguinte: — «ainda oje ey de cear hu 
pedaço dessa tua carne, cõ que ey de convidar dous cães que 
tenho» — *. 

Era Bui de Pina, Crónica de El-bei Dom Afonso v, lê-se: 
— «E houve aquelle dia convite real de vinhos e fruitas, em 



* tn Portugália, I, p. 579. 

* Portugália, i, p. 619. 

3 O Economista, de 22 de agosto de 1885. 

* Femám Méndez Pinto, Peregrinação, cap. cxcviii. 



824 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



uma notável perfeição, e assi moitas danças e festas em toda a 
noite» — ^ 

copa 

Na acepção ordinária copa, como «arrecadação», só se aplica 
ao móvel ou quarto onde se põem a resguardo comidas, louças 
ou trem de mesa. 

No Alentejo porém o significado é diferente, como vemos 
do trecho seguinte: — «tudo aquillo está em desordem, assim 
como a copa (vestuário)» — *. 



copa, copo 

Em Caminha, e provavelmente em outros pontos do Minho, 
o vocábulo copo corresponde ao vaso que mais para o sul se 
denomina caneca, isto é, vaso cilíndrico, de maior altura qo^ 
diâmetro, munido de asa. 

Como termo de pesca é uma peça da rede, e também nome 
de uma rede: — «Destes apparelhos o mais usado em Buarcos 
é o cojyo — que serve para a pesca do camarão» — ^. 

Copa, pelo que hoje chamamos copo, taça, vêmo-lo em Rui de 
Pina: — «o Infante Dom Fernando, por melhor jus tador, vencei 
então o grado, que foi uma rica copa, de que fez logo merca ^ 
Diogo de Mello» — *. 

Hoje diz-se para aí recova, à inglesa, e não grado, que sef^^ 
uma vantajosa substituição do anglicismo, pronunciado à frí*^' 
cesa, recór. Então, como actualmente, era uma taça o préitx^^ 
grande. 



* cap. cxxxi. 

' José da Silva Picão, Ethnographia do Alto-Alemtejo, in P^* 
tugalia, I, p. 542. ^ - 

3 Fernández Tomás, A pesca em Buarcos, tn Portugália, i, p. 1'' 

* Crónica de El-rbi Dom Afonso v, cap. cxxxi. 



Apostilas aos Dicionários Portugíieses 325 



coração; coração 

E conhecido em quási todas as suas acepções o primeiro 
destes dois vocábulos. 

Em dois sentidos porém não está colijido, que eu saiba, e de- 
duzem-se dos trechos seguintes: — «Possuímos alguns d'esses 
pesos, corações como as tecedeiras lhes chamam» — . São pesos 
de tear, em forma de coração. — «Quando Physicus, há dias, nos 
ensinou que a forquilha tem onze paus, a tipografia partiu um 
delles, e não nomeou o principal, — o coração, em que se implan- 
tam os dentes e o cabo S,— • 

O segundo é um neolojismo, derivado do verbo corar (= co- 
rar), que tem de ser diferençado do primeiro, porque a pronun- 
ciação do o é diversa, proferindo-se aberto, entanto que o de 
coração soa como u: — «Entreviamos um bacillo que microscopi- 
camente revestia a morphologia do da peste — curto, atarra- 
cado, coração bipolar, espaço branco intermédio > — *. Este tre- 
cho, em que as palavras tomam acepções desusadas, não é de- 
certo modelo de boa linguajem; apesar disso, porém, o vocábulo 
coração, por coloração, está bem derivado do verbo corar, e 
merece rejisto. Quanto a morphologia, que não quere, nem quis 
nunca dizer «forma», mas sim teoria das formas, ou das for- 
mações, não pode, nem deve figurar em dicionários naquela 
acepção. Singular é também o epíteto atarracado, aplicado a um 
organismo só visível por microscópio. 



coral 



Os dicionários não mencionam que este nome não só designa 
o «coral verdadeiro», mas também o falso, mesmo sem aposição 



* Diário db Noticias, de 7 de dezembro de 1905. 

* Ricardo Jorge, A pmstb bubonica no Porto, 1899, p. 44. 



^26 Ap09ÍUa$ ao9 DUionárini Porimgueêef 



deste epíteto, que é indispensável qoe acompanhe pérola, quando 
ela não é verdadeira. Assim, ainda com epíteto que o realça, 
eoral fino denota apenas «imitação do coral verdadeiro >, como 
quando denomina uma contaria, eoral-fino Maria, que se lia 
num anúncio publicado no jornal O Economista, de 4 de no- 
vembro de 1882. 



coriscar, corisco 

£ conhecido o étimo deste verbo, que poderia ser considerado 
como derivado de corisco, quando a verdade é que se deu o caso 
contrário. Coriscar procede do latim coruscare, com dissimi- 
lação da vogal átona da segunda sílaba, com relação ao o da 
primeira; corisco é um nome verbal rizotónico, derivado de cori^ 
car, já dentro do português. 

Corisco, não só na Bairrada, como diz o Novo Diccioxá- 
Bio, mas também em outros pontos e no Brasil, é o que em 
geral o povo chama pedra-de-raio. 



corja 



Esta palavra, que actualmeute sigiiitíca apenas, em sentido 
pejorativo e ofensivo, o mesmo que < matula», fq. v.), < quadri- 
lha > (espanholismo), « turba >, é declarado termo da índia, c<^"^ 
a significação de « vinte », no Vocabulabio portugcez e lati>'^ 
DE Bluteau (1712). Vê-se pois que há dois séculos ainda i^^'^ 
havia adquirido o sentido deprimente que ao depois prevak^^^^* 
— « Sinalou-lhes dez Corjas de cotonias. São cotonias lenço 
terra, que serve para vestido. A Corja he numero de vi^ 
3. part. da Hist. de S. Doming. pag. 337» — . V. cotonía. 

Era pois corja ura dos frequentes nomes uumerativos, e^ , 
valentes aos nossos dúzia, conto, jtuio, etc, tam usados 
muitas das línguas asiáticas, e nomeadamente nas do sul 



AposHku ao8 Dicionários Fortugxiesea 327 



Índia, nas malaias, na japonesa, mas também em persiano, con- 
quanto pertencente à grande família árica. 

A etímolojia é questionável, como vemos no Glossário de 
Yule & Bamell S atríbuindo-se-lhe uma orijem telinga (dravi- 
dica), e outra arábica. 

Em Femám Méndez Pinto ocorre este vocábulo pelo menos 
duas vezes ^, e muitas em todos os nossos cronistas da Ásia. 



cornaca 

£ antigo já na língua este termo, o qual significa « a pessoa 
que vai guiando o elefante >, na índia. 

Bluteau traz o vocábulo, com duas abonações portuguesas, 
na inscrição Cobnaca, e emprega-o também na inscrição Ele- 
fante. 

O Glossário de Yule & Bumell 3, citando o dr. Bost, dá 
como étimo o cingala kUrawa-yiayaka [KfiBaua-NâiaKa], cuja 
significação é, segundo declara, «maioral de elefantes». 

Vê-se pois que não é galicismo esta palavra, visto que existe 
em português desde, pelo menos, 1685, data da segunda cita- 
ção feita pelos ditos indianistas, extraída da Fatalidade His- 
tórica, de J. Bibeiro. Galicismo é a abreviação cornac, que às 
Tezes se lê, em ruins traduções de francês. 

Na edição da História Trájico-Marítima, de Bernardo Gómez 
de Brito, publicada recentemente na Bibliotheca de Clássicos 
:t>OBTUGUBZES, uo vol. XLi, duas vezes se imprimiu coviaca em 
vez de cornaca, a páj. 82 e 83. 



* A Glossary of Anglo Indian words and phrasbs, Londres, 1886, 
f-Mdb. V. corge. 

s PbrbgrinaçIo, cap. lxxui e CLXvn. 

» A Glossary op Anglo Indian words and phrasbs, Londres, 



to/* 



328 



Apostikis (tos Dicionários Portuffue$e$ 



cometa 



Como termo de jíria, já antigo, quere dizer «cara»: — 



< Venha cá, senhor malhado, 
Meta a mão nesta gaveta, 
Dè vivas a Dom Miguel, 
Senão, parto-lhe a corneta». 



coroa 



— «Todos [os barcos] são de fundo chato — o que é imposto 
pela natureza do leito da ria, de grandes espratados e cheia de 
bancos de areia ou coroas* — ^ 

É esta uma acepção da palavra c(o)roa que os dicionários 
não rejistam, e por isso aqui fica apontada. 



coroya, palhota, palhoça, capa-de-palhas, capa palhiça 

Esta capa, usada tanto em Portugal, como na Nova Galedó- 
nia, como no Japào, donde provavelmente veio para cá no s^ 
culo XVI ou XVII, já motivou esta nota a páj. 170, do li^'^^ 
de Jouan Les Iles du Pacifique *: — «Les Japonais et ^^^ 
paysans du Portugal ont des manteaux tout-à-fait semblables»^^* 

Veja-se um artigo que publiquei, sobre a b'ngua do JaJ^**^^'. 
no jornal O Século, de 8 de agosto de 1904, no qual me r^^^ 
a este especialíssimo abrigo; v. também a palavra dáímío. 



* Luís de Magalhães, Os barcos da ria db Aveiro, iw, Por 
galia, II, p. 53. 

' Vol. LXV da BlBLIOTHÈQUB UtILB. 



AposiUaB aos Dicionários Portugueses 329 



coroplasta 

neolojismo, que Rocha Peixoto empregou na sua mo- 
ititulada As olahias do Prado, tirando-o imediata- 
francês coroplasfe, vocábulo tomado nesta língua do 
OPLÁSTÉS, composto de kókos, «moço», e plástès S 
5>. O significado é «iraajinário de figuras de barro ou 
quando de louceiro o ceramista de Prado passa a coro- 

2 

corpo-santo-de-Pedro-Gonçálvez 

)mposto polimórfico encontra-se mencionado por Jurien 
vière: — «ces lueurs bleuâtres et sautillantes que les 
appelaient Corpo Santo de Pedro Oonsalvez, et les 
Sant-Elmo* — ^ 

ei se vem mencionada por enteiro a expressão em 
escritor português, mas designa o Corpo-Santo, ou 
Telmo, a que se refere Camões, nos Lusíadas, Canto v. 



Vi claramente visto o lume vivo 
Que a marítima gente t<im por santo 
Em tempo de tormenta e vento esquivo, 
De tempestade escura e triste pranto. 

corre-caminho 

a da Madeira é o nome vulgar de uma ave, Anthus 
de Lineu *. 



^ape Grieohisgh-dbutschbs WOrtbrbuch, Brunsvique, 1880, 
, col. I, t. II, p. 625, col. u. 
tugalia, I, p. 250. 

ÁNOLAI8 BT LBS HOLLANDAIS DANS LES MBRS POLAIRBS, BT 

BR DBS Indbs, París, 1890, t. i, p. 144. 
Irnesto Schmitz, Dib Võgbl Madeiras, 1899. 



3^ Apostilas aos Dicionários Forh^ucses 



corre -costas 



— < chegaram dois corre-costas que andaram ao serviço das 
auctorídades na praia» — K £ termo brasileiro e designa barco. 



corriqueiro 

Os dicionários detinem este adjectivo, — «que corre ou circula 
habitualmente; vulgar, trivial» — . Na primeira acepção nem é 
usual, nem o vi ou ouvi jamais empregado; no Minho, porém, 
chama-se corriqueira à pessoa que sai de casa frequentemente. 



corsa (= corsa) 

Na ilha da Madeira tem este nome, ou o de arrasta, « o carro 
de arrastar, sem rodas» e seriam termos muito aceitáveis para 
expressar o francês traíneau { trainer, «arrastar», que já passou 
para cá, com a forma trenó: cf. triimó, ou tremo de trumeau. 



corso (= corso) 

É um italianisrao de introdução muito recente, nome de uma 
rua de graude movimento em Roma: — «as ruas do corso, c<)mo 
se deliberou chamar-se ao espaço comprehendido entre o largo 
de Camões e as ruas do Carmo, do Ouro, e Nova do Almada » — -. 
Esta deliberação, que se nào diz por quem foi tomada com 
tamanha autoridade e intimativa, por emquanto só teve curso 



* O Economista, de 1 de setembro de 18S7, c Correspondência do Rio 
de Janeiro». 

» O Século, de 7 de março de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 331 



em Lisboa, no carnaval de 190õ, entre certa gente que pre- 
sume de fina. Parece que o termo não pegou, o que não é de 
sentir. 

cortada 

E termo de marinhas, próprio de Aveiro: — «As marinhas 
ainda produzem — mau grado dos criados que desejam a cessa- 
ção da safra, e tanto que nas cortadas do sul da Kia já houve 
tentativa de alagamentos» — K 

Este segundo termo parece não ter a significação usual, mas 
talvez outra relacionada com uma acepção especial do verbo 
alagar, (q. v.). 

coi*tiça, cortiço, corticeiro 

Cortiça é o nome da casca do sobreiro depois de arrancada 
em pedaços grandes; cortiço qualquer canudo de cortiça^ e não, 
somente o que serve aos enxames de abelhas. — «Bate-se o linho 
com a espadela de encontro á beira superior e externa de um 
cylindro vertical de casca de sovereiro, chamado cortiço, tendo 
pouco mais ou menos 1 metro de comprimento e 0™,3 a 0",4 de 
diâmetro» — ^ 

Em calão cortiço 6 «casa de habitação >. 

Corticeiro, «operário que trabalha em cortiça» e, como 
adjectivo, «que se refere a essa indústria», são neolojismos, de 
muito conveniente emprego: — «Tem continuado a greve dos cor- 
ticeiros da fabrica do sr. Rankin, no Alfeite» — ^. 



« O Economista, de 2 de outubro de 1891. 

« Portugália, I, p. 370. 

> O Economista, de 23 de setembro de 1892. 



8^32 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



costume; costumar 

Conforme Carlos Eujénio Correia da Silva, em Ajuda designi 
esta palavra «tributo pago ao rei do Daomé» e festa períódici'. 

Costumar, como verbo transitivo, tendo por complemento 
objectivo um nome, foi usado antigamente, como vemos em Boi 
de Pina: — «Foi algum tanto envolto em carne [o rei], e poren- 
cuberta disso custumava sempre vestiduras soltas» — *. 

Presentemente diz-se costumava usar. 

O emprego todavia do particípio passivo deste verbo, como 
adjectivo, na acepçào de «usual», perdura ainda: — «E deu aos 
seus armas além das custumadas» — ^ 

O costumado, empregado em absoluto, significa «o habitual». 



costume; trajo, ou traje 

Este vocábulo, que antes se escrevia custume, significa «uso, 
usança, hábito >. Muito modernamente é empregado na acepção 
de trajo, ou traje, por galicismo, não só inútil, mas ambíguo; e 
porque é um desacerto, adquiriu voga imediatamente. Desta ma- 
neira, náo só serviu de título a uma colecçilo de trajes portugue- 
ses, desenhados por Bordalo Pinheiro com a maior exactidão, 
o Álbum de costumes portuguezes, mas também serve para 
classificar uma colecção de bilhetes postais com a mesma designa- 
ção de Costumes portur/ueses. Ora, costumes são ho7is ou nuius^ 
morijerados ou devassos; mas nunca tal palavra serviu para de 
nominar traje, e em parte alguma dos domínios portugueses o 
povo entende semelhante nome em tal sentido, nem pessoa que 



* r.M.V VIAGEM AO B.STABBLRCIMBNTO PORTUOUBZ DR S. JOÂO 

Baptista dk Ajitdá, na costa da Mina bm 1805, Lisboa, 18(>6. 
2 Crónica de El-rbi Dom Afonso v, cap. 213. 
^ ih, cap. XXXIII. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 333 



se preze de escrever na língua pátria o empregará. Quem o usa 
inadvertidamente deve ter em atenção que traje, em francês, se 
diz costume, mas que costume é coutume, e lá portanto não 
se pode dar a confusão, que o emprego deste escusado galicismo 
ocasiona em português: — «Ne possédons-nous pas quelques vues 
donant la caractéristique de tèle ou tèle grande víle, des détails 
tipiques sur les meurs, les coutumes et les costumes d'une 
réjion?» — *. 

cota 

. O termo é dado como transmontano pelo Novo Diccionábio, 
com a significação de — «lado oposto ao gume da ferramenta» — . 
Não me parece que a limitação imposta, quer ao significado, 
quer a rejião onde o vocábulo é usado, seja exacta. Em Lisboa, 
desde a minha infância, ouvi chamar cota k parte oposta ao gume, 
ou «fio» da faca, isto pelo que diz respeito à significação; e com 
relação à difusão do termo, vejo que é também empregado em 
ontros pontos, pelo seguinte passo: — «A espadela é uma espécie 
de podoa de madeira, em que se distingue a cota, o fio ou gume 
e o punho» — *. 

cote 

É um termo de jíria cidadã, que talvez provenha de propo- 
sitada corrutela do inglês cottage, pron. cot'iílje, e designa uma 
casa que não é a própria habitação, mas sim outra, reservada 
para actos secretos, às escondidas da família. Eis aqui uma 
abonação do termo: — «O euté da rua da Gloria é num primeiro 
andar baixo. . . tem duas salas exíguas, mal mobiladas, com 
os banaes décors destas alfurjas próprias para amores de occa- 
sião» — ^ 



1 Lb Réforhistb, de 15 de novembro de 1905. 
« B. D. Coelho, Industria casbira db fiação, tbcblagbm b tin- 
OtDVTtA DB substancias tbxtis, (síc), tnPortagalia,i, p. 374. 
s O Dia, de 12 de janeiro de 1905. 



384 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cotio (figo) 

Quere dizer «de todos os dias» { quotidie, e fignradamente 
«comum, trivial». — «A arraia miúda é constituída pelo «Cotio» 
[figo], que pela quantidade e numero se pode chamar soberano. 
E o figo de embarque que regula por 800 réis a arroba, ao passo 
que os primeiros [berjaçote, sofeno (?), castelhano e] o bello 
«Inchario», por exemplo, regula por 3000 réis a arroba»—*. 

cotonia 

Koupa de algodão. Pronuncia-se cotonia, e não, coióniOi 
como indica o Diccionakio Contempobaneo; em árabe qutníR 

cotovia ^ 

Como termo de calão, quere dizer «garrafa». 



couça 

— <?or couça é aqui [Braga] denominado um morcào [la- 
garto grande] que apparece em alguns cortiços e destroe as abe 
llias^ — -. 



couce 



Uma peça do arado: — «Noutros typos d'arado em vez de^sa 
peça inteira, a rabiça, ba duas ou três ligadas: uma inferior, 
que se chama dente ou coice, em que assenta a relha» — ^. 

Nesta acepção não vem nos dicionários. 



* O Economista, de 5 de novembro de 1885, citando o Jornal da 
Manhã. 

2 Gazeta das Aldeias, de 25 de fevereiro de 1906. 

3 Francisco Adolfo Coelho, Alfaia agrícola portuguesa, m Por- 
tugália, I, p. 407. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 335 



coveiro; coveiro 

Coveiro é individuo que tem por ofício abrir as covas, ou 
cavais, nos cemitérios, e é palavra que figura em todos os dicio- 
nários. O segundo vocábulo, que se deve diferençar deste pela 
acentuação marcada no o átono mas aberto, coveiro, é termo 
alentejano, assim definido por quem me prestou a informação: 
— «cabana junto à malhada, onde se guardam os cabritos, para 
se lhes ordenharem as mães» — . 



covo, cova, covão; covão; cofre; alcofa 

Meyer-Lúbke admite duas formas novas latinas cophus e 
copha, derivadas por via de regressão do latim cophinus, 
vocábulo de orijem grega, sendo elas postuladas por certas 
formas populares italianas. 

Além desses dois substantivos devemos admitir igualmente 
um adjectivo triforme, cophus, copha, cophum, do qual os 
dois substantivos citados hão de ser simples mudança de catego- 
ria gramatical. O adjectivo a que me refiro tem de supor-se 
para explicar o adjectivo covo, «fundo, côncavo», que se emprega 
como qualificativo de prato na \ocuç'ào prato covo, a qual designa 
na Estremadura o que na Beira-Baixa se denomina prato fundo, 
e no norte prato sopeiro. 

Covo como adjectivo foi empregado por Bocage: 



Esquentado frisão, brutal inasniarro, 
Vagava de Santarém na pobre feira; 
Eis que divisa de lonje em cova seira 
Seus bons irmãos seráficos de barro. 



Ao femenino deste adjectivo, copha, temos de atribuir a ori- 
jem tam disputada da palavra cova, a que se dava a medo como 
étimo caua, sem explicar a transformação; como à forma neutra 



336 ApastUaã aoê Dieionárioi Bortugueêeã 



cophum se há de atribuir o substantivo eõvo, meia-esfen de 
verga que sen'e de gaiola aos galináceos, nos mercados. Quanto 
ao substantivo côvâo, diferente de covão, aumentativo de cova, 
tem orijem no primitivo cophinus, como o correspondente cas- 
telhano cuétano (cf. Estêvão. Esi^ban \ Stephanus) e o italiano 
còfano, o que já conjecturara há tantos séculos Isidoro Hispar 
lense, e do qual cabanilho, < cesto alto e cilíndrico » é um deri- 
vado, em cuja forma influiu a palavra cabana, de que unda se 
tirou cabano, por via de reversão a um primitivo suposto. 

Vê-se pois que as formas populares latinas cophum, copha 
não são já hipotéticas, mas na realidade existiram a par de 
cophinus, no latim vulgar. 

Por outra parte a palavra cofre é de orijem imediata fran- 
cesa e de introdução relativamente moderna e artificial nas 
línguas peninsulares, como o demonstra a mudança do n latino 
em r; cf. pampanus { pampre. 

Não param porém aqui os derivados de cophum, copha, 
pois existe, pelo menos, outra palavra que, tendo a mesma 
orijem, passou a português por intermédio do árabe; ó aUofa 
{aij-qufk), que também foi parar a França e Itália, talvez sem 
tal intervenção, com as fonuas conffe e coffa, cofa, venezianas. 

Temos pois: 

Grego Kóp^iNos 1 lat. literal cophinus J italiano cbfano, 
cast. cnévano, port. covão. 

Latim vulgar, cophum, copha [ port. cúvo, cova, cast. 
cueva : árabe (íufe; ital. coffa, cofa, fr. couffe. 

Árabe alííufe J português alcofa. 

Português covão \ cabanilho, cabano, cova j aumentat»^^ 
covão, ocsítono, e outros muitos mais derivados, covinha, e^^^^ 
var, etc. e coveiro, diferente de coveiro, (q. v.). 



côvodo, côvedo, côvado 

Há muito tempo que este vocábulo no sentido de cotova^ 
foi por este substituído, conservando apenas a acepção de mC^ 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 337 



medida de três palmos, que deixou de ser usada, pelo quê pas- 
sará em breve o termo a ser completamente obsoleto. Cávado, 
em castelhano codo, é o latim cubitum, como é sabido, e cotovelo 
um deminutivo, cubitellum, com metátese das sílabas médias. 
Côvado na sua primitiva acepção encontra-se, por exemplo, na 
Drmanda do Santo Gbaal, com a forma covodo = cõvodo: 
— « Entom a lançou o mais que pôde e quando chegou preto da 
agua viu hua mão sair do lago que parecia ates o covodo, mas 
do corpo nom viu nada» — *. 



coxia 



Quer como termo de bordo, quer como vocábulo próprio 
de teatros é coxiu de orijem italiana, do mesmo modo que outras 
muitas dições pertencentes a essas duas nomenclaturas. Em tos- 
cano corsia, a coxia no teatro, é definida assim por P. Pe- 
tròcchi *: — <lo spazio che nella platèa d'un teatro è libero 
dalle panche [«bancos»], e piíi spe7Jalm[ente] quello di mezzo 
[«o do meio»]» — . 

A forma portuguesa, se não provém directamente de qualquer 
<iialectal italiana, resultou do concurso de rs antes de /. 



cozinha 

Este vocábulo e o seu étimo são bem conhecidos: do latim 
CGcina, por coquina, proveio cozinha, como de cocere, por 
coquere, •cozer*, que se não deve confundir com coser { consuere. 

Em Caminha, e outras partes do Minho naturalmente, a pa- 
lavra cozinha designa o « fogão da cozinha » . 



* Oto Klob, in «Revista Lusitana >, vi, p. 344. 

* Novo DIZIONÀRIO UNIVERSALB DELLA LÍNGUA ITALIANA, MíluO, 



33 S Apostilas aos Dicionários Portugueses 



crasto: v. castro 



crebar 

Esta forma múihota nào é, como poderia supor-se, metákse 
da usual quebrar, cuja significação tem; pelo contrário, naformi 
geral quebrar é que se deu a metátese com relação a erdar, 
mais antiga e mais conforme com o seu étimo latino crepare, 
confirmando-se a etimolojia que já se atribuía a quebrar. O gj^ 
por c na sílaba inicial foi mero expediente ortográfico, para se 
evitar a leitura cebrar. 



criar, criado, criança, etc. 

Quási todos os dicionários portugueses, modernos pelo menos, 
escrevem o verbo criar com e, isto é, crear, e, em consequência 
(lesta ortografia, rejistam igualmente creador, creado, creação, 
creanra, etc. 

Alguns autores distinguem duas séries: Crear, creador, 
creado, creatura, crearão (do mundo), creança por uma parte; 
e criar, cria, criador, criação (de gado), criação (<aves do- 
mésticas >), etc. 

Nenhuma razão, liistórica ou outra, existe que justifique, ou 
sequer explique esta distinção fictícia: a palavra é uma única, e 
conquanto o seu étimo seja o latim creare, o facto é que em 
português o verbo dele derivado é um só, criar, que tem de ser 
escrito com i, e não e, visto que nas linguajens rizotónicas 
convém saber, nas que tem o acento no radical, a conjugação é 
sempre com / proferido e não com e: crio, criais, cria, criam, 
crie. criem. Seria pois insensato fabricar irregularidades aparen- 
tes, que a pronúncia não confirma, entre estas formas rizotónic^is 
e as acentuadas nas desinências, escrevendo estas com e valendo /, 
crear, creamos, creais, creeis, crearão, etc; ou fazendo distin- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 339 



çào na escrita dos radicais crear, criar, conforme a significação, 
apenas nas línguajens de desinência acentuada. 

Deste modo, a única solução é conformar em tudo a ortografia 
com a pronúncia efectiva e que já não pode ser alterada, reduzin- 
do-se a um só, criar, os dois verbos crear e criarf com todos 
os seus derivados, afins e flecsões: criador, criatura, criudo, 
criança, em razão de cria. 

Deve advertir-se ainda que os vocábulos criado (=serviçal) 
e criança nunca tiveram, até época recente, outra escrita que 
não fosse com i na primeira sílaba, em harmonia com as corres- 
pondentes formas castelhanas criado, criança, (crianza) < criação, 
educação»; conquanto nesta língua subsista a distinção entre 
crear e criar, não só na escrita, mas também na pronúncia, visto 
que em espanhol o e átono não adquire nunca o valor de /, como 
acontece era português antes de vogal, existindo ali na realidade 
duas séries, na pronúncia e na escrita, as quais se não podem 
manter em português por aquela se opor a tal distinção, como 
vimos: crear, creado, creador, creatura: criar, criador, cría, 

criadero, crianza, criado, etc. 

Com i se escreveu sempre também criação, no sentido de 
«aves domésticas de capoeira», acepção em que vemos o vocá- 
bulo, conquanto erroneamente escrito com e, no trecho seguinte: 
— «A creação tem sempre papel preponderante nas receitas de 
uma explomçào rural» — ^ 

Os termos criado e criada modificam-se no significado, con- 
forme a localidade, por meio de epítetos; por ex.: criada de 
dentro, em Coimbra, criada de sala, no Porto, correspondem, 
pouco mais ou menos, ao que em Lisboa se chama criada de 
quartos, isto é, «criada que cuida da limpeza». 

Criado de acompanhar vemo-lo empregado, com relação ao 
século xvm, por António de Campos, mas mal escrito: ^ — «e o 
falso creado de acompanhar, como então se dizia» — . 



1 O Sbculo, de 23 de fevereiro de 1902. 

« O Marqubz db Pombal, tn < O Século », de 24 de dezembro de 1899. 



340 Apostilas aoê Dicionários Portugueses 

Recrear, porém, que se conjuga recreia, deve escrever-se 
com e, 

cristalino 

Este adjectivo, nào como termo poético, mas em prosa, sig- 
nificando «de cristal», foi empregado por António Francisco 
Cardim, no livro Batalhas da Companhia de Jesus: — «Copos 
cristalinos de Veneza» — *. 



cnveiro 

Este substantivo, designando o « fabricante de crivos e pe- 
neiras», não está rejistado nos dicionários, mas faz-se dele menção 
no seguinte passo: — «Estas ratoeiras sào feitas pelos cri vei- 
ros, que as vendem na praça pelos respectivos preços de 80 
e 100 róis» — *. 

cubículo 

No sentido de 'cela», «quarto de dormir», conforme o seu 
significado em latim, vê-se no trecho seguinte das Batalhas 
DA Companhia de Jesus, páj. 222: — «quatro cubículos e um 
refeitório» — . 

cubrir, cuberto, descuberto 

Este verbo é usado no distrito de Bragança com uma sin- 
tasse especial, como se pode ver com os dois exemplos que vou 
dar: cubrir o chapéu, «cubrir-se (com o chapéu), pôr o chaj^éu 
na cabeça»; cubrir o capote, «cubrir-se com o capote, embru- 
Ihar-se nele». 



* Lisboa, 1894, p. 44. 

* J. Pinho, Ethnoqraphia Amarantina, A Caça, in Portugália, 
n, p. 89. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 341 



Nesta última sintasse usou José Maria da Costa e Silva o 
verbo cubrir, no último verso do poema O espectko ou a Ba- 
ronesa DE Gaia, paráfrase do Bebnal Fkances: — 

«Ramiro cobro o manto, e retirou-se». 

Do imperativo do verbo cuòrir formaram-se vários substan- 
tivos compostos, tipo muito peculiar das línguas românicas e 
cuja vitalidade ainda perdura, como com outros muitos verbos, 
por ex.: guardar, que deu guarda-porfào, gtiarda-roupa, etc. 

Uma dessas formações, que nào foi rejistada, é a seguinte, 
usada no Ceará: cobre-peitos, ^coiira de que usam os campo- 
neses ou matutos, especialmente os vaqueiros» *. É feita de 
couro. 

Em Lisboa faz-se um doce da casca da abóbora branca, cor- 
tada em tiras e cozida em calda de açúcar, a que nas confeita- 
rias se chama abóbora cuberfa, <de açúcar», entende-se. 

O termo cuberto, neste sentido, parece que se generalizou 
em várias rejiões a outros doces, pois em Aveiro se chama doce 
desxuberto aquele «que não é polvilhado de açúcar», em oposi- 
ção a cuberto no sentido indicado. 

cucuiada: v. cuquiada 

cudar 

Nos Açores persiste esta antiga forma, alótropo de cui- 
dar j cogitare: cf. chuiva e chuva \ pluvia. 

cúli, cule, coli 

Câli ou cule deve em português ser a escrita desta palavra, 
muito conhecida na Ásia, nomeadamente no Arquipélago Malaio, 



Sena Freitas, Cathbdral db Burgos, 1884. 



342 Aj)OHtil(is aos Dicionários Portujueses 



na China e na índia. O étimo é incerto, pois uns dizem ser o 
tamil kãli, «soldado», outros o turco kol ou kule, «escravo», 
ou o nome étnico koll *, «raça» ou povo, no sul da tndia. A es- 
crita coolie é inglesada, e, pelas indicações da possível orijem do 
nome, desarrazoada em outra língua que não seja a inglesa, na 
qual 00 tem o valor de u, 

ciclibecu, curibeca 

— « Nenhum d'elles, que saibamos pertence á seita dos ciili- 
becas. E sabem os leitores o que são os eulibecas, a respeito dos 
quaes a insistência em os fazer influentes e poderosos no animo 
dos governadores de Angola, seria asquerosa, se nâo fosse ridí- 
cula? Pois são os pacatos e comedidos membros d'uma associação 
chamada Gbemio Littek ario de Loanda . . . 

Qual seria o governador . . . que se julgasse mais se- 
guro tendo o apoio dos curibecas do que as sympathias de 
S. Thomé?»— 2. 

A forma correcta há de ser curibeca, e nâo, culibecaj se a 
palavra é quimbanda, como parece, pois nesta língua só ha / 
antes de a, e, o ii, sendo substituído por r brando antes de /. 

cumerim 

O Xôvo DiccioxÁRio define Oste vocábulo da índia Por- 
tuguesa do modo seguinte: — «des})aste e corte de árvores*—- 
Parece uào ser exacta a defiuição. Monsenhor Sebastião Eodolfo 
Dalgado traduz a palavra coucaui kumeri por «boucha», e este 
vocábulo o mesmo Novo Diuc. declara-o provincial e atribui-HK" 
como significado — «mato que se queima para cultivar a ten^i 
que elle occupava* — . 



1 Voja-se Yul.' A: Hurnoll, A (Ilossauv ok Anolo-Ixdiax woiU'si 
AND PH11A8ES, Loinlrcs, l^sí), fiuh. V. cooly. 

* JouNAL DAS Colónias, do 2'2 de julho do 1005. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 34.3 



F. X, Ernesto Femández, na sua monografia intitulada Re- 
gimen DO SAL, ABKABT E ALFANDEGAS NA InDIA PoKTUGUEZA, 

define cumerim da seguinte forma: — «é o campo da cultura de 
legumes preparado com a dissipação da matta e adubado com 
cinza de arbustos do mesmo terreno > — ^ 



cunca 



O termo, que tem outra forma, conca j latim concha, sig- 
nifica em Caminha «tijela>. 



cupa 

O Novo DiccioNÁKio diz-nos ser o nome de uma plauta 
brasileira. Em Goa é nome de uma qualidade de sal: — «Ainda 
ha uma outra qualidade de sal, leve e finissimo, denominado 
cupá, destinado exclusivamente para o mercado de Bombaim. 
Este obtem-se fraccionando os taboleiros em pequenas subdivi- 
sões» — ^. 

cuquiada, cucuiada 

Esta palavra foi rejistada por Bluteau, com as abonações 
devidas: — «(Termo náutico da índia) Derão huma Cuquiada, 
que entre elles he appellidar terra por uma denotação de voz. 
Barr. i. Dec. foi. 81, col. 1> — •^ 

Francisco Adolfo Coelho define-a do modo seguinte, sem ci- 
tar autoridade: — «T. ant. Vozes com que na índia se chamava 
o povo ás armas e que eram propagadas pelas pessoas que as 



* «Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa >, 23.* série, j). 256. 

* F. X. Ernesto Fernández, Regimen do sal, abkary b alfan- 
DBGAS na Índia Portugubza, in «Boletim da Sociedade de Geographiji 
de Lisboa», série 23.*, p. 251. 

* Vocabulário portuouez b latino. 



$H 



Y«K ««■ fM M alto mtr se ammdati % wpfiaaimf 
(to Aft «mm. Fi/. Grilaria» foiearia» — ^ O Nòyo lísocmaám 
TC|««n isa» MfliMii No Svpleniaito porém di como jmfeiMa 
«wriiai rmtmimjg, t como orijem do Tocábnlo, qae os oatM lit 
■itfMiManflíu o tÂBul kuktuiOf qno nos nfio diz o que «guia 
Na «difto das Décadas da Ásia de Jofto de Banof, ftiti » 
^^ qaarttel do século xnn (i, JUtio yn, cap. 2), e portanto k 
mm^ tè qae a qae foi rista por Blnteau, lemos, nio olatafe 
a palana tanbtna escrita com qu, sendo prorável que, m t 
proaiacia qae se quisesse indicar fosse com u pToforido, flh 
hoaTtass^ àdo «rtojnrafoda com ct«, e nio com qu, em qatS^ 
das edí(<iVfiãL A dtafão é: — «acndio tanto gentio... porto- 
aeran eati« si hama maneira de se chamar a qae elles chuniBi 

Gaspar CMiYÍa« nas Lkxdas da Ihbia (n, 2, 26), eserereia- 
fHTHj^miay e esta escrita nio deixa a menor dúvida acerca dfl^ 
pnL>núncía que se Ibe deva atribuir cu-^uriárda: — «e o Cá — 
maK . . mandou dar suas gritas, a que chamam cucujadas»— — 

Se a forma eaeniada é a certa, a etimolojia proposta p"^ 
Yule íc Kuniell * tem todas probabilidades de ser exacta. - 
tftlkio/ii na lininia de Malabar, significa «bradar» (to cry out>; 
conquanto o sufioso -^ula nào seja explicável, à falta de vsn 
verlM curuiar, que nào consta existisse, e sem o qual a cm- 
paravilo quo os abalis;\dos indianistas fazem com crisadu, de cns 
* punhal». ni\o convence, pois nesta formaçào o suficso inclui « 
idoa do «goliv», como de faca, facada, e pressupõe um étimo 
portujrucs imediato. Os nossos antigos escritores usaram neste 
sentido o verbo apiq^ar, «bradar chamando», denominando esse 
brado r7;)í/j)<); — *pelo quê, apupando todos por diversas par- 
tes» — ^ 

Se porém a forma exacta é euquiada apesar da afinnaçi<> 



* DiCCIOXARIO MANUAL BTTMOLOaiCO DA LÍNGUA PORTUOITBIA. 

* A Glossary op Anolo-Ixdiax words, Londres, 1880. 

3 Historia trájico-maritinia, xn BiBL. de clássicos port., t XL,p.61- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 345 



ie João de Barros, e da afirmação e escrita de Graspar Correia, 
* vocábulo poderia ser poi*tuguês lejítimo, porque pelo menos 
m mais uma língua românica êle existe, e para essa não po- 
lería yir da índia. Em provençal coiiquiado, e sabe-se que o 
>tono é a terminação femenina nos mais dos dialectos da Pro- 
ença, couquiado, digo, quere dizer «cotovia», em francês co- 
heuis: cf. chamariz, nome de ave, e de um artificio para chamar 
s aves, e cuja orijem é sem dúvida o verbo chamar, O vocábulo 
ouquiado está abonado com um verso da Mirèio de Frederico 
í is trai: 

— O Vincèn, ié faguè Mirèio 

D*entre-raitan li vèrdi leio, 

Passes bèn vite, que! — Vincenet tout-d'un-tèm 

Se revire vers la plantado, 

E, sus nn amonrié quihado 

Conme une gayo couquihado * 

Destousquè la chatonno, e ié lande, countènt. 

O glorioso poeta provençal numa nota a este verso acres- 
enta: couquihado, (cochevis, àlauda cristata, Lin.). 

O mesmo poeta, no seu monumental dicionário provençal, 
ntitulado Lou Tbesob dóu Felibkige, aduz as seguintes 
brmas do mesmo vocábulo, conforme os vários dialectos: coiu- 
luiado, coicquilhado, cucuUado, cucuiado, cotccoudado, e cur 
pillada (catalão), cogujada (castelhano), e dá-lhe como étimo, 
lue é evidente, couquilia [,.,M], latim cuculla, cucullatus. 

Cita BuflFon, que empregou em francês coquiUude, vocábulo 
lue Littré admitiu como termo de caça, correspondente a alouette 
huppée (sp.), sem mais definição, nem etimolojia. 

No PiCHOT Tbesob, dicionário provençal-francês, de Xavier 
ie Fourvières, vem também couquiado, com o correspondente 
Erancês cochevis *. 



* Paris, 1882, Canto ii, 4. 
« Avinháo, 1902. 



316 Apostilofi aos Dicionários Portugueses 



Vê-se que estas formas couquihado, cuguVadu, e eiieuiado, 
poderiam ser análogas às duas abonadas portuguesas, cuquiada 
e cucuiada, sem, que estas portanto houvessem vindo da índia. 

Por outra parte, a coincidência pode ser casual, como tantas 
outras. 



curbá 



Ena São João Baptista de Ajuda é uma selha, que serve de 
medida para a venda do óleo de palma, e cuja capacidade é va- 
riável *. 

curral 

Como termo local, vem perfeitamente definido este vocábulo 
na monografia As «Villas> do Norte de Portugal, de 
Alberto Sampaio: — «na serra do Gerez os gados descançara de 
noite em rurraes, glebas cercadas de paredes, que só produzem 
centeio; cada curral tem uma cabana, geralmente redonda, para 
o pastor dormir e cozinhar* — -. Cf. curraJorio. em chiqueiro. 



ciirveiro 

Xa Fi(ruoira-da-Foz dá-se este nome a um <• remoinlio de 
iH^aia 110 mar . 

V a rara 

lUiiteau, que só no Suplemento incluiu este vocábulo, es- 
creve-o com í? inicial, sarara, e detine-o assim: — *He íiuui 



» Carlos FAxy-nh) Correia da Silva, Uma viagem ao estaBBLBCIMBXTO 

PORTrOlMOZ DE S. JoÃO BAeTISTA DE AjUDÁ EM 18GÕ, LÍJíl>oa, í^^'^' 

' i)i Portuj^alia, i, ]». ll'.>. 



Apostilas aos Dicionários Pm-tugueses 347 



género de panDOS, que vem de Cabo- Verde, e do Maranhão, 
^pintados como chita, e servem de cobrir bofetes, camas, etc. 
Ordinariamente são pintados de vermelho. Os da índia são pin- 
tados de negro com bordas vermelhas, vem de S. Thomé e ser- 
vem ás Portuguezas em lugar de mantos; ha saraça que custa 
trinta mil reis» — . 

Transcrevi na íntegra, exactamente porque a definição nos 
deixa perplecsos. 

Duas vezes se afirma que as caraças, que pela descrição 
correspondiam ao que hoje diríamos cuhertas, procedem de 
Sam Tomé; notando-se porém, que são usadas no Brasil (Ma- 
ranhão) e na índia. Ora, como em Cabo-Verde não houve 
nunca língua vernácula, ou este nome foi do reino para lá, como 
para as outras rejiões indicadas, ou a orijem do termo é da íudia, 
ou, mais latamente, asiática, porque brasileiro não pode ele ser, 
visto que os indíjenas das terras de Santa-Cruz só fabricavam 
tecidos de penas de aves. 

Em malaio existe o vocábulo sarasa, o qual designa um te- 
cido de algodão *. 

Parece portanto que o termo é malaio, ou de qualquer das 
línguas da Ásia, que para malaio passasse, como tantos outros; 
e conseguintemente a escrita portuguesa tem de ser com ç., e não 
com s, visto que o s dos nomes asiáticos, como o dos america- 
nos, sempre foi pelos nossos autores transcrito com ç. Esta 
escrita e orijem são confirmadas pela forma castelhana çara^^a, 
segundo a ortografia moderna zaram, vocábulo que o Dicionário 
4a Academia Espanhola ^ define assim : — « Tela de algodón mu y 
ancha, tan fina como la holanda y con listas de colores ó con 
flores estampadas sobre fundo blauco, que se traía de Ásia y era 
xnuy estimada en Espaiia» — ^, 



* Leôncio Richard, CouRS de la lasque malaise, Burtlóus, 1872, 
Parte, p. 117, col. i. 

« Madrid, 1899. 

• Êáte artigo foi acrescentado, e por isso está fora da ordem alfabtHica, 
que se ad?erte no índice (q. v.). 



348 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



dacoina 

— < As raparigas usam uns brincos grandes de missanga que 
chamam daconia* — *. 



daiâo, adaiâo, deão, dião 

Daião ó directamente derivado do francês doyen (=zduaiê 
antes, do'Íe), o qual procede do latim decanus, que em português 
deveria ter dado degào. Conseguiutemente, a forma modenia 
deào é encurtamento de outra intermédia, deiào, a qual se 
contraiu em diào, que deveria ser a escrita portuguesa, como 
pior (q. V.). 

O rt de adaiào é difícil de explicar: — «á vista de todos se 
celebraram os esposoiros entre El-rei e a Rainha, nas mãos de 
um Daião de íjvora, que servia a El-rei de seu físico» — *. 

dáimio 

O Xôvo DiccioNÁRio uào marca o acento neste vocábulo 
composto japonês, o que, segundo o sistema de acentuação grá- 
fica nele usado, quere significar a acentuação daimio. Esta acen- 
tuação porém é errónea. A verdadeira em japonês é dáimio, ou 
quando muito daimió (dai-miyau). 

Couipõe-se esta palavra dissílaba de dai, « grande > e wh^íw 
(mió), < excelente >, e no composto o acento tónico é atraído par^ 
a síla])a mais longa, a qual é a primeira, por conter ditougo . 

Dáimio era o título que competia a um cabo de guerra, 
cujo rendimento anual excedesse dez mil cocos (côku) de arroz, 



1 JouxAL DAS Colónias, de 18 de julho ile 1903. 

- Rui de Piíiíi, Crónica de El-ubi Dom Afonso v, ci\p. lxxvi. 

^ V. ÉtÚDE rHONÉTIQUE DE LA LANOUB JAPONAISB, Líl>SÍa, V^' 

§in. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 349 



porque a riqueza de cada um, bem como os proventos, tinham 
por unidade a quantidade de arroz a que montavam as suas 
rendas. Os dez mil cocos de arroz equivaliam a uns vinte e cinco 
contos de réis *. Até muito recentemente os funcionários públicos 
eram pagos, pelo menos nominalmente, em arroz, no Japão. 

Este vocábulo é de introdução recente em português, para 
onde veio por via indirecta, provavelmente francesa, por inter- 
médio dos periódicos. 

Os vocábulos japoneses de importação directa são poucos, 
e entre eles banzé (q. v.), biombo, bonzo, catana, chávena, 
qu(e)imào, (kimono),funé, e poucos mais. Biombo ^ catana (q. t\), 
entraram no tesouro comum da língua; quimão, do qual, por 
influência de queimar, é variante a forma queimào, é ainda 
usado no oriente, e mesmo na Africa Oriental Portuguesa; bonzo 
tem emprego muito restrito, continuando a designar < frade bú- 
dico»; funé (q. v,), « navio >, só foi empregado com referência 
ao Japão *. 

Objectos que do Japão importámos, mas sem o nome, são 
«japona», femenino do adjectivo japão, «japonês», designando 
uma espécie de «jaquetão» ou «camisola»; a capa-de-chuva, 
coroca (q. v), palhoça, capa palhiça, que tantos nomes tem, e 
que em japonês se denomina hama-Jcátsupa, pronunciado hama- 
Jcappa; convindo notar que a palavra kappa, é portuguesa. Outras 
palavras portuguesas, que deixámos no Japão, são pan, «pão», 
tabáku, «tabaco», berúdu, «veludo»; e poucas mais serão. 



dala 



O Dtocion. Contempobaneo dá duas acepções a este vocá- 
bulo, que parece de orijem geimánica, do baixo-alemão, pro- 



* V. Hofmann, Japâansohb Spraaklbbr, 1867, cora uma versão 
inglesa. 

' António Francisco Cardira, Batalhas da Companhia db Jbsus, 
Lisboa, 1894, p. 53 e 54. 



350 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



vávelmonte. Como termo de bordo, diz ser — «calha adjacente» 
muralha do navio, para dar vazào á agua» — , e com significado 
mais geral, — «terreno, caminho entre montanhas» — . O Novo 
Dico. diz, pouco mais ou menos a mesma cousa. Na última acep- 
ção é o inglês dale^ sueco daly « vale » ; e não é natural que os 
dois significados sejam de um só vocábulo germânico orijinário. 

Nào é, porém, nenhuma destas significações, já dadas, a pri 
meira das quais fora apontada por Bluteau *, que eu vou con- 
signar aqui, mas sim aquela que tem no Porto, convém saber: 
«mesa de cozinha, com tabuleiro de pedra, ou lousa». Neste sen- 
tido parece ser o francês daUe, «laje», a que também se atribui 
orijem germânica -. 

Emquauto investigação ulterior não demonstre pertencerem 
estes três significados a um só vocábulo, de que sejam desenvol- 
vimento ideolójico, devem eles ter inscrições separadas nos dicio- 
« 

nários. 

dauda 

Terino da África Oriental Portuguesa, que no Joriial das 
Colónias, de 18 de julho de 1903, vem assim definido:—*?^* 
(jucuo trapo com que [os negrosj tapam as partes» — . 



daroez, daroês, daruoz, darviz, darvízio. dervixe, derviclie 

(Qualquer das três primeiras formas é lejítimamente portu- 
guesa; derciche é que nunca o foi na pena dos nossos escritores, 
que de perto conlieceram esses frades mocelemanos. 

Bluteau, citando Godinho, Viagem da Índia, aduz as formas 
darcizy darvizio, com remissão a derviz, onde nos dá mais í?^'*' 



1 Vocabulário portuíu-ez e latino. 

2 H. Stappors, Díctionxaire Syxoptique d^étymologib fraN' 
ÇAisE, Paris, 11.^ :.»00'2. 



ApostUas aos Dicionários Porti4{/ueses 351 



vi^io, que parece preferir, abouando-se cora a Histoeia Univer- 
sal de Frei Manuel dos Anjos. 

Não tenho à mão esses dois autores para me certificar se 
eles assim escreveram o vocábulo, e se, como suponho, o u ali 
vale u, ou, pelo contrário, v, como Bluteau o interpretou. O que 
sei é que a forma portuguesa anterior é daroez, ou dances, se 
quiserem, que representa a arábica-persiana Danuix. A forma 
derviche foi tomada do francês deruiche, que deve representar 
pronúncia turca do vocábulo, pois é em turco que existe o v, e 
não em árabe, ou persiano. Quando mesmo, porém, se adoptasse 
a pronúncia turca do vocábulo, deve ele escrever-se com x, 
dervi:ce, e não com eh, que é transcrição francesa, mas não pe- 
ninsular, do xin do respectivo abecedário. 

Modernamente restabeleu-se a forma portuguesa damez: — 
«tem a Turquia os seus daruezes» — *. 

Abonações do vocábulo são, por exemplo, as seguintes: — *bom 
e fiel daroez — daroczes da casa de Meca» — 2. 

data; dádiva 

E sabido que este vocábulo é um latinismo, o particípio 
passado passivo do verbo dare, e quere pois dizer <dada». Com 
referencia a tempo substantivou-se data, como em castelhano 
aconteceu a fecha, forma antiga correspondente à moderna hecha, 
particípio passivo de hacer, como fecha o era de facer, corres- 
pondendo ao latim facta de f acere; nenhuma relação tendo, 
como poderia supor-se, visto dizermos fecho de carta, com o 
Yerho fechar, ou o substantivo /ecAo, que são pestulum e pes- 
tulare, latinos, em galego jyecliar, pecho, diferente de pe- 
char 3, castelhanismo, ie pectare, «pagar», latim bárbaro muito 



* «Revista de Educação e Ensino, 1892, Do Espirito das ordens 

RELIGIOSAS. 

* Fernám Méndez Pinto, Peregrinação, cap. xxxi e lix. 
' Saco de Arce, Diccionario Gallego, Barcelona, 187(3. 



892 



fireqbente mi nosa» antiga k^daçiov bm cmi a laa fcna pl^ 
tugaesa peitar, peiia ^ que Um» coiraapoodt. A. ferma jmbíí 
portuguesa é também castelhanismo, eomo ji adfestni TiMo ^ 
quer signifique «paga», quer «defeito». 

O Tocábulo data, além da acepçia apontada, t«n onfaras, (M 
também se relacionam com a significafio primordial de «eooi 
que se dá», como se pode rer no CoKTBMFo&urao: — «datiÍ0 
agua, de bofetões, de impropérios» — e ainda — «pocyiOi das»»— 
sendo este ultimo o Tocibulo grego dóos» que ngnifiea «dádíffi*. 

No sentido de «dádiva» ?emo6 empregado iatm, nas Biur 
LHAS j}x CoxPAirHiA BK Jesub, do Pldro Ântdnio fiuám 
Cardim — «diTertiu da data» — ', «recusou a dádim». 

A forma dádiva, à qual Frederico Diei ^ atribuí pw éliao o 
latim datiua por donatiua, com mudança de acento di 2.' 
para a 1.* sílaba, é pelo po?o pronunciada dàoUa, ou per ii- 
fluéncia de divida, ou porque seja esta a forma orgisárii & 
palani^ que também existe em castelbano, e portanto com oib* 
étimo, por emquanto desconhecido; ou porque na realidade sete 
uma metátese das iniciais das sílabas postónicas do esdrúiob, 
como acontece na deturpaçào vulgar diágolo, por diálogo, em 
razáo de se ouvirem mal as duas sílabas átonas de um vocibalo 
douto, que o povo não sabe identificar com outro da sua lin- 
guajem vernácula. 

decorar, de cor; decorar, decoramento, decoração 

O verbo decorar tem dois significados enteiramente distintos, 
aos quais correspondem étimos diversos, devendo portanto se- 
parar-se nos dicionários em duas verbas diferentes. 



* Santa Rosa de Viterbo, Elucidário. 
< ihf 8\ib voe, pechoso. 

» Lisboa, 18«4, p. 145. 

* Etymolooisghbs Wõrtbrbuch dbr romakischbn Spbachb>*« 
Bonn, 1870, ii, 6. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 353 



O primeiro, na língua antiga único, provém da expressão 
prender de eór, quer este cór seja o latim cor., cordis, «co- 
Eição», como até muito recentemente se afirmava, principalmente 
or se lhe comparar a expressão francesa par cceur, ou a inglesa 
y heart, que parece tomada à letra do francês; quer a locução 
e cor, castelhana de coro, proceda de se aprender de memória 
om ouvir repetir por muitos uma leitura, um preceito qualquer, 
amo opina, se não estou enganado, Rufino José Cuervo, com 
luita probablidade. Confirmação deste modo de ver seria o se- 
uinte passo: — «y a los que saben escrivir mando que las escri- 
an, e sepan de coro» — *. 

Efectivamente, sendo cor de o tema da voz latina e derivan- 

o-se dele acordar, discordar, note-se, e recordar, que equivale 

«passar pela memória», é natural que, a provir de cor, cordis 

locução de cor, de coro, ela fosse de carde. Nem obsta à 

timolojia proposta a perda do o final de coro em português, 

isto que a expressão castelhana de coro, hoje substituída em 

eral por de memoria, não pode ter orijem diversa da portuguesa; 

por outra parte Gril Vicente empregou for por foro, caste- 

\2i,no fuer, fOT fuer o, no formosíssimo Auto da Alma: — 

Diabo — Ainda é cedo pêra a morte; 
Tempo há de arrepender, 
E ir ao ceo. 

Ponde-vos á for da corte, 
Desta sorte 
Viva vosso parecer, 
Que tal naceo. 

É possível mesmo que o francês par cceur seja alteração 
rtográfíca áe par chceur, «em coro». 

Outra hipótese é igualmente plausível: uma forma latina po- 
nlar cor, coris, por cor, cordis, daria orijem ao italiano 



* «Carta do Padre Mestre Francisco Xavier aos Irmãos de Roma», 
I MissObs dos Jesuítas no Oribnte, Lisboa, 1894. 

93 



Af^j^tíá^B »:# 



ruore, ao ftaneês orur, ao português mr *. casteUiano euer, 
< cc^raíção » : e a loeu^ de coro castelhana seria outra formi, 
òL>rc4m. como fuer, piortuguês jOr, é o latim farum. 

O seirundo significado do verbo derorar é < ornar >, e pro- 
ce«ie d'> ktim decorare. que já tinha a mesma significação, 
como dt-rivado de decus, dec^ris. «enfeite». E jrocábolo de 
orijem anitíciaL relativamente moderno na língua, visto que 
Blutean o não inseriu, conquanto incluísse no Vocabulabio o 
substantivo dtroro. qoe. diga-se de passajem, se deve pronondar 
decoro, e não decCro. visto ser vocábulo erudito, e em latim 
lermos dtcórum e não dtcôrum. o que já adverte o Suplemento 
ai> Nòvi.i Dicciox.^io, comjiarando forma, palavra douta, com 
jOnna, de orijem popular: decoro acentuam Bluteau, Koquete, etc 

U substantivo de acfão e resultado, derivado deste verbo, é 
decoração: todavia José Leite de Vasconcelos usou decora- 
mento: — <0 decoramento do palco precede sempre a chegada 
do actor > — -. 

E«]uivale aqui decoramento a cenário, italianismo, e é o 
que os franceses chamam décor. palavra cujo emprego em por- 
tueuês é tralicismo escusado e moderníssimo, só empregado por 
quem «luere íinjir que desconhece a língua da sua pátria, e natu- 
ralmente lhe atribui pobreza, que só existe para quem a nào 
estu«lii ronio Jeve. 



«leiender: delivrar 

(^aein hoje enipreírasse este verbo no sentido do francês 
tff[ff'H'h'(\ ' proibir >. seria apoda«lo de galicista; e todavia nessa 
!iie<ina a«-ep(;ão a palavra é pelo menos tam antiga em por- 
tuíru»'*s, como a (Jr«»xica de El-rei Dom Afoxso v, de Rui de 
Pina: — -ali^uns requereram ao Infante licença para ainda lhes 



1 Oil Vio.-nte, Auto da LrsiTÁxiA. 

'^ P(>ItTr(;AL PRE-HISTORICO, p. 10. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 355 



irem no encalço, mas o Infante o não consentiu, antes lho de- 
fendeu, dizendo que os leixassem ir embora» — ^ 

Outro tanto acontece com delitrrar, que o cronista emprega 
no sentido do délivrer francês: — «Dormiu El-rei ali aquela noite, 
B ao outro dia alegre e contente se tomou a Pena-Fiel, e trouxe 
preso o dito conde, cuja guarda encomendou ao conde de Penelas, 
que o teve emquanto não foi delivrado» — *. 



derrete 

Esta forma verbal substantivada tem um significado muito 
especial no lugar de Nossa Senhora das Mercês, concelho de 
Sintra: — «Pelas 3 horas da tarde começaram chegando as mo- 
çoilas, que se dispunham a tomar assento no tradicional muro 
do derrete, esperando ali os seus conversados ^^ — ^. 

O significado é « namoro >, «galanteio». 



desastrado, desastre, (des)astroso 

O Novo DiccioNÁBio e o seu Suplemento corrijem o adjec- 
tivo desastrado em desestrado, a que dão por étimo estro, 
alegando, em favor da correcção, desestrada no Romanceibo de 
Garrett, desestrado e desesiramento em Francisco Manuel do 
Nascimento. Nenhuma abonação mais antiga apresentam, e o 
facto é que nem estas duas, nem outras modernas que se 
pudessem aduzir poderiam desterrar a forma desastrado, única 
dada por Bluteau e aprovada pelos lecsicógrafos portugueses 
posteriores a este, o maior de todos, que subordinou o adjectivo 
desastrado a asty^o na definição que deu: — «Infelice, e em certo 



* cap. cv. 

* ibj cap. OLxxx. 

3 O Século, de 23 de outubro de 1905. 



Zô^} A}':^ilu 'i-:^ I^iriynário* Frjrimgu€9e$ 



in«>lo I>eí:â^«>r<nrid«? d«>s Asir». oa sem &Toravel Estrella>— , 

^tinio que rewie em dt.*astre: — «Xte? negaUTo A ontra pi- 

larra ti As;r>. que quer dizer e^irella, e assi Desastre que- 
rerá «lixer í^tvi K.^treVui* — . 

Elsta et ire-lo; ia ainda não foi desdita por etimólogo ou ro- 
manista aliT^m. e ê contirmada por outro adjectÍTo derirado de 
as^r-j, astrj^K», «hitVliz», tanto em castelhano *, como emportugnés, 
e cujo deriTiâlo ne-rarivo >1esa^j:h'o^o é comparável a desinquieto. 
desfnaztLéd:'. Jc^iibado. e áo pi>pular desinfeliz, por infeliz, m 
que o prefics*? de*, com ser [lejoratiTo. não implica a idea 
op«>sta à que é expressa (lelo vocábulo a que se junta. 

Âs abona^vies modernas de Filinto e Garrett basta cod- 
trapor a abonação antiga de Gil Vicente na peça O Velho da 
Obt A : — 



.>e Mâ jOT»riies amares 

0< luaiã tciu rins 'le>a»tra>Uà — . 



E ela suficiente para provar que a forma desesirado e um 
enfraquecimento posterior de sílaba átona. comparável afanfe^^^^ 
f»or funtasia, cámera p«:»r câmara, popular esti feito por sd^^^ 
feito, castinheiro por castanheiro, apesar de castanha ser deste 
vocábulo inseparável, etc. 

Sem nenhuma destas rai«'»es, porém, em abono de ser ile^(^^' 
trado a forma correcta, e derivada de desastre, ou de ostro, 
como astros*} e desa'^troso, o simples raciocínio está a indicar 
que de estro, palavra relativamente recente, grega e ultra-literá- 
ria, que jamais desceu ao domínio da linguajem vulgar, onde e 
totalmente ignorada, se não poderia ter derivado, antes da sua 
adopção pelos doutos, um adjectivo antigo, de uso trivial e (fi'^ 



* Em castelhano antigo encontra-se o adjectiro astrosa, oposto a P' 
mosa, nos seguintes versos dos Denuestos del agua y bl vino, de L^P"' 
de Moros: — < antes amarijella yastrosa| agora uermeia e fermosa»- P 
Rbvue Hispaniqub, XIII, p. 615]. 




Apostilas aos Dicionários Portugueses 357 



ã gente, por mais rude que seja, entendeu e entende, em- 
11 e emprega, acomodando-o, há certo tempo, à mais fácil 
iaçâo desestraão, imitada por Filinto e Garrett. 
stro foi vocábulo tam conhecido do povo, provavelmente 
1 forma astre, de importação francesa, tanto em português, 
em castelhano, que operou a transformação de stella 
no português (e castelhano) estrela, estrella, fazendo que 
^Za se acrescentasse um r que stella não tinha, 
as não fica só nisto o improvável do étimo estro, que se 
e. O vocábulo desastre existe; existiu o verbo desastrar, de 
lesastrado é o particípio passivo, que se adjectivou como 
j outros, a bem dizer, os mais deles: estro é o latim oes- 
vocábulo tomado do grego oístbos, «moscardo», «tavão», 
3s gregos, por metáfora, aplicaram a qualquer estímulo 
:ado, e depois à inspiração, à \ ^\^ profética, e daí à veia 
*n, no que os romanos, seus copistas, os imitaram. Neste 
lo é ou foi a palavra cucaracJia^ «bicho-de-conta», empre- 
na América Espanhola, na quadra seguinte, que se canta, 
intava, para expressar que o entusiasmo se apoderara do 
dor: — 

;Ay que me pica, 
ay que me araíia 
com sus patitas 
la cucaracha! 



m locução análoga dizemos em português de um indivíduo 
ratado, sujeito a repentes, que por veneta diz ou faz uma 
ra, está com a mosca, devrlhe a mosca; e, desculpem-me 
»etas, o estro para os gregos e para os romanos era um re- 
, uma veneta, a manifestação de uma faculdade fora do 
ai, um condão de poucos e de loucos. 

orijem da locução está com a mosca pode ver-se em 
tau: o caprichoso é por metáfora comparado ao cavalo pi- 
pelo tavão. 
ra, um indivíduo desastrado, desmanado, como dizem os 



^;"*TT*.tf B» _ ««tif «mniMP r*»''^' 



fii'.' iT-i-Mí 1» j-rrL:i> :4*w«: : — ilz'!^* taí*:-? de barro, deí- 

ZLi-i : zr::!, :rl rr^ç r-^. '. — "«ã^^i». «:-:: «Teia pi>êlKâ»- 

M: - ;• r-Li: •':^--~v:* . .i.Lr:«i*:- iiI:o dt fí?fri>. nus 

í>3: í:/:t1t í :.r- ril:^ '-J.' ~ "i :>.;•:< •.-. •:* cujas aív*^ ^^"* 

r^f-*..;.-** ■ -•■. f^ri— i.'i "-* •" •»• ~ « -iesi .r:^;« » , «mal feito dí 
■;.:n»: '. t lirii L^:»: :rzi ::? T-r Lvn ?>r-:.. rocabulo. repilí- 
::r i r:^ rj. ià? :t>í. a?, nrsuo ie m-rdiasa eultoia dí«<H 

1'.^^ ii:cí ;-■: i :'mà •% ^j.**-"? revrliTa imiaênoia francesa, 
z^LZ' -ri- :• r:-j*-T< : n-: rz: .••i?:clhj::'>- E:Wtivamente. como 
rzi :"il.ii: >: :.: '.*■•:-. ti:: :-r a T^vra ij-^ífr-.i não s*)frrU 

■::-/. - : ::.j,T-'í -::: ,Mr 5-: ::>rrvi i r/.rsnia alterado. 
:jí> _. . - '_.::í . "li-ji. sr-^rr- «ii::.^'o» ; saecMuiu- 

>/. / r :.- iJi :..:.:. v^:- > ,-.;r se : r-.-iuii-.; uiodinoa^^ão i-^n- 
::.j. -r . .-. : : .:r^ :^r:r. vlrs : ii-Ltcia::: ahr-ravão »lt con- 
> .íi:tí. /^e l2 ■ rr A :: rnii'. vis:... *^it: o> v-vabuios d'^s tip-)? 

íiK «Íh ír^'.»LÍa í:r:i:a;ãv». '.iljjt"* ; baoulum. Houve ih:»!^ 



ID- 



' • ► EcoNOM-STA, '.K '2'} iv Liir»; • it l"l«*2. 

• V. li. Bi'iT^iU. VoCAUrLAUH» PORTraUEZELATlXO.S-pl.nKnt". 

■* í>. íJaroliiia ^li- fiiCli- «k- Va-o-.-no-lus. in Revista Lusitana, ni- 
p. 171. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 359 



iiéncia que perturbou a evolução natural, ou aquelas palavras 
ão provieram directamente do latim. 

Entre as línguas românicas que unificaram em e sardo pos- 
Snioo o o e a românicos são a francesa e a provençal as que 
obressaiem: é lójico, pois, atribuir a essa procedência imediata 
s vocábulos milagre, segre, nwnje; e com efeito, tais vocábulos 
parecem em francês com as formas miracle, siècU, e manje 
om a forma monge em provençal. Em milagre deu-se metátese 
lútua de r e í (cf. o castelhano milagroj, e em segre a mu- 
ança de Z em r para formar ditongo consonantal português 
cf. grude j glúten): monje é reprodução fiel do provençal 
tonge, como é evidente, conquanto haja outra forma, também 
rovençal, mónegue, e seja talvez licito supor que monge seja 
lais francês que provençal. 

Em português antigo há a palavra mogo, a qual, conforme o 
Uucidário de Viterbo *, significava «marco divisório >, termo que 
erdura no onomástico corográfico, já no singular, já no plural, 
6, ou acompanhado de epítetos, como, por exemplo, Mogo de 
Inciàes, 

Júlio Moreira * relacionou mogo com magote, magote, pa- 
ece-me que sem fundamento, atribuindo-lhe um étimo vasconço 
%uga, com o mesmo significado, conforme Frederico Diez 3, e 
ue na realidade foi admitido no dicionário de Vau Eys *. Eu, 
orem, estou inclinado a supor que mogo é a forma portuguesa 
o latim monachum, e que a aplicação deste termo a um 
larco oa sinal de divisão de terrenos, naturalmente pedra 
recta, é perfeitamente análoga à que se fez, em Lisboa pelo 
lenos, da palavra frade, a designar uma coluna de pedra, da 



< Santa Rosa de Viterbo, Elucidário dos termos e frases que 
.NTiOAHBNTB SB usÁRlo, Lísboa, 1798. 

• Kbvista Lusitana, iv, p. 268. 

> Etymologisghes Wõrterbuch der romanisghbn Sprachbn, 
[, b. 

^ Diotionnairb BASQUE-FRANÇAis, París, 1873. 



o<>.^ ÁfHMtilaa aoê Dicionários Fúrtugueses 

altura de um metro, pouco mais ou menos, e cujo remate so- 
)K'ríor arredondado se assemelhava à cabeça tonsurada de um 
trale. Aiuda hoje em dia se vêem alguns em ruas, contoroaDdA 
pra^^as. adros, li&rados, ou não, entre si por correntes de ferro. 
A palavra nu^jo foi ao depois substituída por mot\je, frao- 
oosa ou proven\'al, como scifre, e o adjectivo dele derivado segrci: 
aiuila us;u1o$ por Gil Vicente, cederam o lugar aos latinismos 



desbulhar, debulhar 

i> {nno \\\K ile^ibulhar, os cultos debulhar, forma a que já 
Ulutoau deu a preferencia, conquanto cite a outra, que quisi 
dos.ij.areoou dos dicionários portugueses. Pois é o povo quem dii 
Wm u*o:n.> qtiãsi sempre acontece, quando os vocábulos perten- 
cem à sua linguajem habitual), visto que o étimo é o latim 
tlo-expoliaro.ou dis-spoliare *, com dois ss em vez de um. 
A í»rina ih<^Ki!har corresponde à castelhana despojar, que com 
ouir«» soini»lo ontrou om portuiruòs: cf. as acepções do verln) 
traiurs .^r."W '•■<»*. i|Uo tem a mesma orijom, e o português /í/A^' 
i«>in o oa<tolhaiio /</.". 

A siiuplitiv-arào do ilt^buUiar em debulhar é análoga à de 
</c>7"/n. toriiia aiitiira, ainda hoje a única popular, em deiHji^f 
quo ó a exclusiva literária. Em castelhano, porém, não se conhece 
outra que nào soja i/t^pnt'>* { de-ipso-postea *. 

I>. Carolina MiohaíUis atribuiu a debulhar o étimo de fi- 
htíre. que tanihóm me parece provável. 

Tõni dtshulhur ó oonocso (M)ulhar [ expoliare. 



* F. A«lolf.» (.'ovlho, DiCCIUXAKlO MANUAL ETYMOLOGICO DA LINOrA 

rouTríirEZA. 

•^ U. K«irtiii^, Lateinisch-romanisches WOrterbuch, PaJerborn, 
isiU, n.^» 24<H. 




Apostilas aos Dicionários Portugueses . 361 



desconfiar, desconfiado 

Na linguajem usual este adjectivo quere dizer «que não tem 
confiança», «que receia ser enganado», por uma particulari- 
dade gramatical peninsular, que atribui a particípios passivos 
significação activa, como esquecido, «aquelle que esquece», atrair- 
çaado, «aquele que atraiçoa», etc. Está neste caso o vocábulo 
desconfiado, no uso comum de hoje, pois quere dizer, não « aquele 
de quem se desconfia», mas sim, «quem desconfia», em francês 
méfiant, particípio activo de (se) méfier. 

No uso antigo, todavia, desconfiado tinha outra acepção, 
que correspondia ao que hoje dizemos desengaiiado, desesperan- 
çado, e que em <;astelhano se expressa com o particípio desahu- 
ciado j de-ex-ad-fiduciatum, de fiducia, «confiança», o 
antigo fiúza português: — «chegou muito doente, esteve descon- 
fiado, recebeu os Santos Sacramentos» — ^ 
Hoje diríamos: «esteve desenganado». 
Em sentido análogo usou-se também desesperado, equivalendo 
a desesperançado, como se vê neste passo da Cbónica de El-rei 
Dom Afonso v,'de Eui de Pina: — «E destas voltas de fortuna 
que a Rainha D. Lionor viu padecer aos Infantes seus irmãos, 
foi da esperança que nelles tinha desesperada de todo» — *; 
e na «Relação do naufrájio da nau Sam Tiago», de Manuel 
Godinho Cardoso: — «assentou o mestre... que se mandasse 
aquella almadia, porque soubesse o que lhe tinha acontecido, 
porque não desconfiasse de todo» — ^. 

Ainda hoje se diz de um doente, que está eni estado desespe- 
rado. 



< António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia db Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 95. 
« cap. Lxxxiv. 

• in BlBL. DB CLÁSSICOS PORTUGUBZBS, Vol. XLHI, p. 116. 



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isr,'^ :,.T r-fr;*:': TrtfAr-iiv jorece t*r úào iiiTentado por Frei 
'.Ti^iLT Li '.Tu:. lÃ: «su cci^^»â« tm dicioiÚTio nenhum, qoe 
T*. NL.:a. - j^TLirA « :i&irftLhi$>. «contos»: — « Porque, além do 
:^'. '.-szl L::. i*:^ '>^ fn^ics l^^disuis ni Chim] muitas desisto- 
rikf ? iLj.:^ifr peiíiLrAè áe b->3>«is que se tornanm cies, e 
i?> Li« ?r ''TZArkzi fn b:'S>e3s. e áe eobns que se torninun em 



A : nii í:l:-çí i T^rr-: ífi>7r era leíxar. de laxare=í<í^ 

l-T- . . - T vâILlíj^í: i' «r em i". como em ^íro j sa* 

i-™^-:--. . r :c.Ii:^::a.I:- d:- j ea f. e do # em j. p^r 

A :-:::: : >r»:_'. xt: i-r^rilrc-eu a forma deirúr, equivâ- 
\-zr,'. .. .:.>::■/:.:. .1 ": :-. >.>r •V";'- '=^U^i{ar -, que se dii 
:: : i- :-.-!:.'.---.. t:> ,: l.\i .ur ::Vreoe craiiJes dificulJa«te 
'- . . . -•■'.-.. . ■ >: _T :.r>:i '::.j:;í :■ ' r-tre vogais penraDece. 

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c^:. xxvii. A :.^ .;:i.;A -: iv :^-^: >rv:.:i.v u R-Uniuiu de lSÍ'*i^^ 



a J.V 






Apostilas aos Dicionários Portugueses 363 



aês, que o latim luminem produziu lurnbre, com mudança 
e n em r, e intercalação de h entre estas duas consoantes, como 
conteceu com hombre | ho mi nem, em português lume, homem, 
opular orne; e digo luminem, acusativo masculino, porque lu- 
ien, acusativo neutro, deu lume em português, e não podia pro- 
uzir lumbre em castelhano. 

Mudança de género gramatical idêntica temos de atribuir 
.imen(para uiminem^^para explicarmos a forma castelhana 
timbre, correspondente à portuguesa vime. 

Alteração de n em r com perda da vogal i se deu também 
m castelhano no vocábulo /(?m6r«, moderno hembra j femina, 
ue em português deu fêmea \ femena por femina, com perda 
o n entre vogais, que é de regra: cf. cheio, antigo cheo 1 ple- 
um, em castelhano lleno. 

Com deslumbrar se relaciona o castelhano alumbrar, que 
m português é alumiar. 



desmaio, desmaiar, desmaiado 

Actualmente desmaio equivale a delíquio, e desmaiar a 
perder os sentidos > o que em francês se diz perdre connais- 
ance, s^évanouir. 

Antigamente, porém, desmaiado quis dizer « desanimado > : 
— « Ficou o príncipe Tai senhor do campo com a morte dos re- 
leldes, e elle favorecido do pai, jurado principe e herdeiro do 
eino, desmaiados os competidores, obedecido e temido de 
odos» — ^ 

É este ainda hoje o significado do inglês dismay, que, assim 
omo as formas hispânicas, parece provir de um radical germá- 
dco magan, que vive ainda no inglês may, no alemão môgen 
I macht, e cuja significação é «poder». 



< A. F. Cardim, Batalhas da Companhia db Jbsus, Lisboa, 1894, 
.. 143. 



A^'ttf%^sf «.4 firiísAirv» I^3iHm fm eK9 



•> A*i;<^tLT.> desmaiado, om iplkação a c&res, equÍTslei 
'•Vvoíiiè/Wvío. <(4l>iv>: — «Amiruilr. 15. Ha dias. por excavt- 
•'i->. Â:>:sir>^.^enai em Pas^r^aesw na margem direita do Tâmega, 
H^ZiS Tis-i-s de larr:» desmaiado, que desastradamente se 

Eirin::-:' de *U.^maio. «desâoimo». eomo em inglês, rê-se em 
K:ii 'ie Pjia: — «E •:« seus que leixoiL como souberam di soa 

{sinid^ foram p«~*st«>s em grande desmaio, e cada um como 

i-"-lr se a:'rrss'>': dt o seírúr. nâo sem erande desmando e Il^ 



desmochar. desmoohe 

— ' Chamam-se iU-9m^ych€tdas ou eneabeatdas aquellas 'àrro- 
res em que se dec«:»i->u o trond? a pequena altura, de ordinário 
a 3 úu 4 metrt»s ou no p«>nt»> em que se bifurca, conservan- 
J.>s#- iir.j,,is s,; os raair-s que nascem na sua parte mais alta, os 
quaes sâo submettidi>s a cortes perii^dicos, vindo o tronco a for- 
iL.ir r-m «iica. j'ãs>a<i->s annos. unia oal«e\^a ou grossura bastante 
v.»l'im:'sa. . . e desta luutilaçâo a t-^c<imofuhi. q, t\]. ainda mais 
«]•> t['à^ '1"S «lesmoches. arruinar muito as árvores e estragara 
iLia-ivira > — '\ 

•lesvisirar 

— < A distancia estão ocoultos o chefe da armada [q. t\] ^ 
U!u ou mais ajudantes, encarreirados de preparar e pôr as varas 
e apanhar as aves, a que aquelle cuidadosamente desvisga ^ 
azas com terra . . . é raro que a ave, obedecendo ao chamo [q- w- 



1 o Px:ONóMiSTA, do 2» .ie março do \y^0'2. 

^ <Jkónica de El-rei Dom Afonso v, cap. cv. 

^ (íazeta das Aldeias, do 11 de março de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 365 



vá, depois de dar algumas voltas, pousar no ramo, onde a 
ora vara se lhe prende ás azas, tolhendo-lhe o voo» — *. 
T. visgo. 

deíido 

)ào já raros os particípios em -iodo, que na língua antiga, 

os próprios da 2.* conjugação. 
)om valor de particípios apenas me ocorrem teíido e man- 
0, numa frase já feita, antiquada, mas ainda nào de todo 
sada: — «um câo atravessado, teudo e mantendo Gany medes 
m fidalgo» — *. Em Rui de Pina vemos ainda feudos ^ e de- 
os *, em Fernám Méndez Pinto reteàdos ^, como se vê, 
3 derivados do verbo ter. De outros verbos, vemos conhe- 
'> numa carta de 1308, publicada na Revista Lusitana: 
uoôaçuda (aliás, conhoçuda) cousa seya» — ^ e no Alentejo 
'o j debutum, por debitum '', italiano dovuto, 
yom valor de substantivos subsistem alguns desses particípios, 
) provincialismos: mexuda, «papas de milho» (Beira-Baixa), 
udo, como apelido. 

Lo mesmo passo que a terminação -udo é já rara na for- 
lo de particípios passivos, ou de. adjectivos verbais, tem ainda 
idade em adjectivos derivados de substantivos, como peludo, 
^êlo, felpudo, de felpa, cabeludo, de cabelo, trombudo, de 
ba, etc. 

)o particípio debutum derivou-se em castelhano deúdo, 
ilmente déudo, no sentido de «parente», português antigo 



José Pinho, Ethnographia Amarantina, A Caça, ín Portuga- 
I, p. 96. 
O Sbculo, de 6 de jnlho de 1904, Bulhão Pato. 
Crónica db El-rbi Dom Afonso v, cap. cxxxi. 
ib, cap. xxxYii. 

PlflRBGRINAÇlO, Cap. CXCVI. 

VoL ra, p. 294. 
ib. vol. vin, p. 39. 



36<$ ApoêUla» aoê Dicianârum Porfugueseã 



divido j debitam, «parentesco muito chegado»: — «e assi por 
elle ter com a rainha divido moi conjunto» — ^ 



devasso, devassar, devassa 

Este adjectivo, em sentido material, diz-se do que «nâo 
ajusta bem, está solto»; é o contrário de perro, que significa 
«preso em demasia, apertado, que se não move, ou não cede>. 

Em sentido moral aplica-se o adjectivo, já como tal, já subs- 
tantivado, a pessoas, a costumes «soltos, dissolutos». 

Na Cbónica de El-hei Dom Afonso v, de Rui de Pina» 
este adjectivo está empregado na acepção de «aberto, livre, 
desembaraçado», que perdeu no uso moderno: — «porque o lugar 
em que estava era campo devasso e sem disposição de se poder 
defender» — *. Cf. devassar, «descubrir, examinar», devassa, 
«inquérito». 

diabo-a-quatro, diabrura 

— «Punham antigamente em scena peças sacras em que..« 
faziam apparecer diabos.., iutitulavam-se Pequena diabrura 
— Grande diabrura. . , na grande-diahrura. . , era de rigor 
apparecerem sempre quatro diabos. . . > — . Esta informação qoe 
é uma deíiniçào completa, le-se uo jornal O Bocaok, n.*' 13, ci- 
tado na «Revista Lusitana», vi, páj. 128. 

Hoje Sá o frequentes as expressões o diabo a quatro , levaio 
do diabo, que assim ficaram explicadas. 

A forma diabo, corresponde à antiga diuboo \ diaboluffl' 
com supressão do l iutervocálieo; diabrura provém de outra 
forma do mesmo vocábulo diabro \ diab^lum, com a mudança 
de l em r, normal em português nos grupos de consoantes lati- 



^ Rui de Pina, Crónica dr Eí.-rei Dom Afonso v, cap. lxxiv. 
* cap. cxx. 



Apostilas ao8 Dicionários Portugueses 367 



das quais a 2.^ era l liquido, em palavras de orijem secun- 
a; visto que, nas mais antigas, os grupos latinos cl, fi, pi pro- 
ram eh, quando iniciais, chave \ clauem, * chor \ florem, 
} { pi a num, ou depois de consoante, como nuxcho j mas- 
im, e Ih, quando inter vocálicos, coelho \ cunicUum. 



dico 



Na África Oriental Portuguesa, « cabaça que serve de copo » : 
ali ^ 



diro 



Na África Oriental Portuguesa « prato de pau » : v. cali *. 



discrição, discreçào 

O DiccioNÁRio CoNTEMPOEANEO foi O primeiro, e era de es- 
ir que fosse o último, a dar cabida à segunda destas formas, 
idando porém, entre parêntese, que ela seja pronunciada dis- 
*4o. Para quê se alterou a escrita deste vocábulo, que figurara 
es em todos os dicionários da língua, é o que se não sabe: 
[ue porém se sabe e se vê é que tal mudança é disparatada, 
etivamente, se a pronúncia tem de ser com i, e não com e 
do na segunda sílaba, nenhum motivo plausível milita em 
or da escrita com e. Este vocábulo discrição está para dis- 
to, como profissão para professo, como procissão para pro- 
ío, como prisão para preso, etc, e não creio que alguém 
nselhe a que se escreva professão, processão, presão, apesar 
e da segunda silaba dos adjectivos correspondentes; cf. ainda 



* Jornal das Colónias, de 4 de julho de 1904. 

* ib. 



368 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



confissão e confesso, não obstante o castelhano canfestón, m- 
logo ao ])ortuguê3 antigo confessào, que ainda lemos na Peke- 
aEiXAvÀo * de F. Méndez Pinto. 

Estas formas seguiram a analojia de outras, como Mi- 
çào, petição, demissão, comissão, e tantas mais. 

Abonar a forma discrição com autores clássicos fora inátil; 
o que liavia de ser difícil era encontrar neles o barbarismo di^ 
creção, que deverá quanto antes ser desterrado da escrita por- 
tuguesa, pois a adopção de tal forma ortográfica patenteia a 
completa ignorância da história da língua e do seu desenvcJ- 
vimento. 

Como porém tal escrita é um desacerto, tem-se propagado 
na imprensa diária, onde se tornou já chavão impertinente e in- 
sensato, quando não sofre ainda maior tortura, aleijado em dei- 
çreção. 

Outro vocábulo, que na pronúncia do sul, em que o s final 
de sílaba é palatalizado, se confunde com êst«, é descriçao,J^ 
ortografia clássica escrito com p, descripmo, do latim descri- 
ptionem j descriptum { describo. 

Neste porém o preficso é des-, e não dis-, V. A. R. ^^'^' 
fálvez Viana, ORTorrSAFiA Xacioxal -. 



dizouho 



Significa < respondáo > . 



docíssimo 



Na linguajem dos cultos o superlativo de doce é duldssin^o, 
por uma reversão artificial ao étimo latino dulce. No entanto. 



* cap. ccxv. 

3 Lisboa, 190i, p. 78 e 80. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 360 



vê-se a forma docíssimas luranjas no Bosquejo de uma viagem 
NO INTBRIOB DA Pabahyba e DE Pebnambuco *. O povo, entre 
o qual se foi a pouco a pouco, desde o século xvi, difundindo a 
forma superlativa em ■4ssimo, não conhece essas derivações arti- 
ficiais, e de amigo, pobre, por exemplo, forma amiguissimo, po- 
bríssimo, em vez dos latinlsmos amicíssimo, paupérrimo. 



dójico 

Este vocábulo, o qual designa uma espécie de noviço nas 
confrarias búdicas dos bonzos no Japão, não figura em nenhum 
dicionário português, nem tampouco francês, com a forma do- 
gique, empregada pelo Padre de Charlevoix. É todavia neces- 
sário dar-lhe neles cabimento, visto encontrar-se em autores dos 
séculos XVI, XVII e xvin, que se lhe referiram, avisadamente 
romanizado, tanto numa, como na outra língua. 

Dois étimos se podem atribuir-lhe. O primeiro é a palavra 
japonesa transcrita por J. C. Hepburn ^ com a forma dõgi, a 
que dá a significação de — ja boy under 15 years, a child — 
moço de menos de quinze anos, menino» — . O segundo étimo 
possível é pelo mesmo autor transcrito dõgaku, e explicado deste 
modo: — «leaming or studying together with the same teacher, 
the same studies, a schoolmate» — , isto é: «condiscípulo, aluno 
na mesma disciplina». 

Ainda que à primeira vista o não pareça, atenta a forma da 
palavra, é o segundo étimo que devemos admitir como o ver- 
dadeiro, não só em razão do significado, mais conforme com a 
definição do vocábulo, mas também porque, sendo o Jc muitas 
vezes nulo entre vogais, em japonês, nas terminações adverbiais 
em 'hu, resulta de dõgaku, a pronunciação dogo, por isso que 



* in O SBC5UL0, de 8 de junho de 1900. 

« A Japanbse-English, and English-Japanese Dictionary, 
Tóquio, 1887. 

S4 



370 Apostilas aos Dicionários Fúriugueses 



aii se profere ò, forma perfeitamente concordante com o dhgo 
inserto no vocabulário de 1603 *, e de que se derivou para por- 
tuguês o adjectivo ãôjico, como do grego lóoos, se derivou 



O sinal (v), ou circunflecso invertido, foi empregado pelos 
jesuítas portugueses que escreveram gramáticas, vocabulários etc., 
do japonês, assim como outros sinais diacríticos com outras 
aplicações, nas transcrições de vários idiomas asiáticos, para in- 
dicar o o longo aberto, visto que o circunflecso designava o o 
fechado em português. Para o u longo usaram porém ú. 



dolménico 

Adjectivo derivado de ãólmen, ou ãólmin como escreveu o 
Ur. Costa, palavra imediatamente tirada do francês, que artificial- 
mente a derivou de uma língua céltica. O correspondente portu- 
guês é anta, que designa uma construção tumular pre-histórica. 



dolório 



Km Sam Miguel (Açores) quere dizer «desgosto 



9 



dómaa, doma 

Era o antigo nome para designar a semana, do lat^ 
liebdomiídam, no acusativo, em grego 'ebdómada, com o uje^' 
mo significado que o latim septiraana, que o substituiu, isto^ 
«'sete dias»; literalmente: «relativo a sete>. 



* V. Joilo de Freitas, Subsídios para a bibliographia pORT^* 

GUEZA, RELATIVA AO ESTUDO DA LÍNGUA JAPONEZA, Coiíubra, 1905,notâ^' 

2 O Sbjculo, de 5 de julho do 1001. 



ApoRtilas aos Dicionános Portugueses 371 



domóvi, doraovói 

No Novo DiccioNÁBio introduziu-se o primeiro destes vocá- 
bulos, que foi colhido nos Elogios Académicos, de Latino Coelho, 
como se declara. Está assim definido: — «espírito doméstico que, 
segimdo a mythologia moscovita, está velando de além do túmulo 
sobre a família que fundou > — . 

Há engano manifesto nesta definição, seja ela, ou não, de 
Latino Coelho, mas que pela redacção é evidentemente traduzida 
de francês. Há dois vocábulos russos derivados de dom, «casa»: 
um é (lomóvfi, « doméstico, caseiro » ; o outro é domoim, que 
corresponde a «trasgo», ao é»// germânico, às jens (q, v,) do Al- 
garve. Deu-se pois confusiio entre um e outro derivado. 



doninha, doninha 

Conquanto na essência sejam o mesmo vocábulo, deminutivo 
de (fona \ domina, o uso fè-los distintos, provavelmente porque, 
ou a antiga acentuação dos deminutivos em -inho era dupla, 
como ainda o é no norte, por exemplo em covinha, pronunciado 
no sul cuvinha j cova, e como o é nos que sào formados com o 
inficso 2', cbvaziíilia; ou porque este nome do animalejo carni- 
ceiro nos veio do norte, cora a sua pronúncia especial: desta 
maneira, doninha, e tam somente esse nome, deve de ser diferen- 
çado do deminutivo consciente de dona, que é doninha, profe- 
rido no sul com o átono==ií, durmiha, pouco usado, mas existente. 

Que o termo doninha é indubitavelmente um deminutivo 
de dona, no sentido antigo de «dama casada >, por oposição a 
damelu \ dominicella, «dama solteira», provam-no a denomi- 
nação do furão ou da doninha em galego, donacinha *, como 



* D. Carolina MichaCUs do Vasconcelos, in Revista Lusitana, iii, 
p. 187; cf. Saco y Arce, Dicc. gallego, Barcelona, 1876. 



372 A]*ostilas aos Dicionários Portugueses 

quem diria em português donaziíiha, e a da doninha em cas- 
telhano, comadreja, «comadrinha». 

dor. dorido, dolorido, doloroso, doroso 

Do sulístantivo dor derivamos hoje um adjectivo doiido, 
que tem t^imbém uma forma dolorido, mais próssima da latina 
dolorem, da qual tirámos doloroso, mas a que na língua antiga 
correspondia doroso, directamente derivado de dor: — «suas con- 
tinuas lagrimas e dorosas palavras davam claro testemunho do 
sentimento do seu coração > — *. 

duna 

É g-alicismo este termo: o português lejítimo émèãão(àe 
areia). Infelizmente está já tam arraigado na literatura geral. 
l>ara onde inconscientemente passou da científica incorrecta e 
íalta de vernaculidade, que será já difícil expunji-lo:— *D^ 
Algezur ao cabo de Sines apparece-nos coroada de imponentes 
dunas > — -. Kis aqui exeuiplos de ?7iíWãí); — «Entre Douro e 
Xeiva avultam os nieJòes de A-vel-o-mar /"/V/ í\ A-vê-lo-marj "^í^ 
mais antiiTo: — ^ Vivem estes Revs arábios entre huras medòes 
do área * — ^ 

dundum, dunduns 

K esta a escrita que convém adoptar, no singular e uo plurí^* 
visto ser a única conforme com os hábitos orto^^ráficos port^' 



* Uni de Pina, Crónica de El-rbi Dom Afonso v, cap. xvii. 
' Portugália, i, p. G09. 

3 ih. p. GlO. 

* Godinho, Viagem da Índia, 100, citado por Bluteau, Voe. POR^- 

LAT. 




Apostilas aos Diciofiârios Portugueses 373 



gaeses, em harmonia com os quais se não escreve m antes de d, 
e o m íiual se muda em n ao acrescentar-se o ^ do plural. 

Esta palavra designa uma espécie de pelouro, ou bala de 
espingarda: — «O arsenal de Dum Dum, perto de Calcuttá, e 
depois os da metrópole começaram a fazer grandes provisões de 
cartuchos com aquella bala» — *. 

O nome já agora está como está; mas aquela escrita I>um 
Dum inglesa quere dizer ãamedame na portuguesa. 



durázio 

Kste adjectivo, correspondente do castelhano durazno j dura- 
cjnum, indica, a respeito de frutos, um termo médio entre 
moh e duro, estabelecendo-se assim uma gradação de rijeza: 
mole, molur, durázio, duro. 

O que é singular é dizermos de uma mulher para cima dos 
quarenta que ó *já durázm*, e nesta expressão a gradação 
estabelece-se às avessas, pois a que passou de durâziu se deno- 
mina madura, estado de moleza a que se segue sorvada e podre, 
na fruta. Para prosseguimento da singularidade destes epítetos, 
a fruta verde não se pode tragar, e faz mal à saúde; o que se 
quere é fruta madura: exactamente o contrário do que se ape- 
tece na porção mais formosa do género humano: quanto mais 
verde melhor. 

eaugar 

Este vocábulo transmontano *, de aspecto bastante singular, 
pois que é necessário pronunciar-se ê em hiato com o a de augar, 
é um derivado, mediante o preficso em, do verbo augar j auga 



* O Século, de 12 de janeiro de 1000. 

* Augusto Moreno, Vocabulário transmontano (Mogadouro b 
IjAOOAÇa), in «Revista Lusitana», v, p. 45. 



374 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



por água, pronunciação muito usual também em Lisboa, frequen- 
tíssima no português falado até o xvii século, conforme o prova 
a escrita augic(o)a: o ditongo au, isto é, o u depois do a desen- 
volveu-se por eco, por influência proléptica, assimilação progres- 
siva ao u líquido que está depois do g, como na forma popular 
se desenvolveu um ditongo ãi, na palavra sangue, proferida 
sãingui, em virtude da influência desse i, que substituiu o e surdo 
final. Confronte-se esta formação êaugar com o antigo êadei' S 
correspondente do castelhano anadir j ad + in -f- addere, e o 
castelhano enareiíar, com o português arear. Vocábulos de es- 
trutura análoga são henv-aventurado, bem-aveiiiurança, em-as- 
prear, em-aspreamento, nos quais se deve pôr uma linha divisó- 
ria, para que se não leiam be-niaventurança, e-niasprear, etc: 
— «vendo que o mastro com a grossura e em-aspreamento dos 
mares os çoçobrava » — . Morais transformou este substantivo em 
ensapreameiito *. 

A definição dada, loc, cit, pela Revista Lusitana ao verbo 
êaugar, é a seguinte: — <(pronuncia-se: im-aurgar). — Apanha- 
rem [as creanças e as bestas: salva seja a comparança!] moléstia 
que as faça definhar, ás creanças por não se lhes dar de qual- 
quer coisa que nos vejam comer, e ás bestas por lhes não darmos 
também um mordo á entrada de uma porta, em que parem, ou 
noutro sitio onde estejam acostumadas a comer. I)iz-se de três 
maneiras: enaugar, augar e oiigar; e em contraposição, respe- 
ctivamente: desenaugar, desaugar e de.<:ougar> — . 

Aguar (pron. àguár), desaguar são os vocábulos comuns. Com 
efeito nada há peor que ficar aguado, ou com a água na boca: 

No liav deslicha iiiavur, 
que una í*s;i>oranza fallida. 



1 Jiui íle Pina, CiiÓN. de El-rbi Dom Afoxso v, cap. xxix c lu- 
■^ V^ J. Curnu, liBVisTA Lusitana, vi, p. íí7. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 375 

Com êaguar, reduzido a aguar, confronte-se o castelhano ena- 
mar | inalienare, simplificado em alhear, moderno, mas cuja 
>rma antiga era enlhear ^ 



eça: v. essa 



eclosão, eclusa 

São dois galicismos modernos e absolutamente inúteis, éclo- 
on e écluse: o primeiro, já censurado no Suplemento ao Novo 
iccioNÀBio, é derivado de eclore, do latim exclaudere; o 
(gimdo imediatamente tirado de exclusa. 

Em português são absurdos tais vocábulos, porque o s latino 
ites de consoante permanece nas línguas hispânicas, como em 
aliano, e de entre as românicas somente no francês moderno 
iesde o século xvi) êle foi desaparecendo pouco a pouco, sendo 
; palavras em que ainda aí o vemos cópia recente do latim li- 
ral. 

Se, à falta de outro termo, quando o não houvesse (que há, 
nid£, do árabe al-sude *, «represa de água»), ainda era admis- 
vel o vocábulo francês, conquanto desconfoime com a índole 
) nosso idioma, por ser preciso nome para construção tam fre- 
lente em terra tam regada como a nossa; é absolutamente dis- 
tratado ir-se buscar já feito, e mal feito, um termo abstracto a 
na língua, cuja formação vocabular bastante difere da portu- 
lesa, nas palavras de orijem latina principalmente. Em portu- 
lês diz-se desabrochar, quer como verbo, pelo francês eclore, 
ler como nome verbal, pelo francês eclosion. Infelizmente, não 



* enlheadOf em Rui <le Pina, Crónica dh El-rbi Dom Afonso v, 
p. cxxiv. 

* Joào de Sousa, Vestígios da lingoa arábica bm Portugal, 
iâboa, 1830. 



376 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



SÓ como termo de nomenclatura botânica, mas também de no- 
menclatura zoolójica, em vez de nascença, vai-se difundindo a 
estravagante palavra: — «Nos dias immediatos á eclosão (nasci- 
mento) do insecto [gafanhoto]» — *. Quem isto escreveu conTen- 
ceu-se de que eclosão era muito bom latim, e como tal, muito 
apto a substituir por termo mais fino o trivial nascifnento [ou 
nascença], com que o explicou; porque, na realidade, para por- 
tugueses, que só saibam português, com ou sem latim, seme- 
lhante vocábulo é verdadeiramente uma charada mal feita. 

É de sentir que os nossos professores e escritores técnicos 
sejam em geral tam pouco escrupulosos na vernaculidade da lin- 
guajem, empecendo deste modo a criação e o desenvolvimento 
de verdadeira literatura científica, sem a qual a outra literatura 
é insuficiente para congraçar a ciência com o idioma nacional e 
fazer dele uma língua culta. O facto é que a este respeito quem 
pode não quere, e quem quere não sabe. 



edu 

O Xôvo DiccioNÁRio diz-nos ser edu uma árvore da índia 
portuguesa, mas não abona o termo, nem dá maior explicação. 

Não sei (lue árvore seja. Sebastião Eodolfo Dalgado, no 
DiccioxABio KoMKANi-PORTUGUEz 2, traz um vocábulo, ^í^^' 
com / cacuminal, e dá-lhe a significação de «cardamorao>. Como 
esse l cacuminal, que não tem correspondente nas línguas «a 
tJuropa, a não ser um som análogo em alguns dialectos escandi- 
navos, costuma também ser expresso por d (e por r), é prova>*^ 
que seja a mesma árvore. 

Garcia da Orta não cita este entre os vários termos indiíi^'^ 
para o cardamomo ^. 



i O Skculo, de 8 de junho de 1900. 

• Buinbaiiii, 180:J, p. <JÍ),'col. ii: m é ng germânico. ^^^ 

3 COLÓQUiOri DOS SIMPLES B DROGAS DA ÍnDIA, Lisboa, I, ^'' 

p. 174. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 377 



eido 



A orijem deste vocábulo é o latim aditum 



eiró(s) 

De areola j areia, por serem as eirós transportadas vivas 
as selhas, envolvidas em areia molhada. O termo não é geral; 
Yíguiu é o nome deste peixe na língua comum. 



eito 



Tem dois significados, com étimos diferentes: eito, «se- 
ie» j ictum; eito « lançamento > j iactum -. 

Nào sei a qual dos dois se há de subordinar a acepção que 

stá definida no Novo Diccionário, como termo brasileiro, com 

significaçáo de — «roça oude trabalhavam escravos» — . A eti- 

aolojia ali proposta actum é improvável, visto que deste pro- 

ederam as formas portuguesas aito e auto. 



eivigar 

Este vocábulo obsoleto procede do latim aedificare, com a 
'Upressâo normal do d intervocálico, e o abrandamento do /, 
?aalmente intervocálico, em v: cf. devesa j defensa. 



* D. Carolina Michaelís de Vasconcelos, ín Revista Lusitana, iii, 

• D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, in Revista Lusitana, ni, 
1 45-147. 



• ■ ^ 



878 ApottOoÊQOÊ 



a 

É esta a fornia transmontaiia do prononie éle, cigo jjbaú i 
eis, por eles. O smgiilar d é fkeqilaiite em doeimieiitoB antigiii 
bem como aqueL Em eastdhaiio dn-ae él [ illot e no ilnd 
ellas I illos. Em portagoêa, taato a fanna geial, ecnno t espe- 
cialf êle, ^^fomuiTam o plural por analojiay des, eis, ji dwbo 
do português. 

eleiçoeiro 

Não direi que este adjectífo esteja muito bem dedaoio 
do substantif o eleição, porque a formação é mais pr^im da 
substantivos (cfl pregoeiro de pregoo), mas em todo o cara é 
expresuYo: — <0 goremo que dissolrera, por motiros eleiçoei- 
ros, 36 camarás municipaes» — ^ 



elo 



Do latira an(n)ellum, forma comprovada pelo castelhano 
aiiiUo j aniello, resultou àelo -, contraído depois em elo; cf. rth 
de rãela \ ranella, demíuutivo de rana. 



embala 

Termo do Bailundo: — «a embala (a libaia onde >i^e o 
soba)» — ^. 



* o Sbcuí^, de 3 de novembro de 1900. 

« D. Carolina Michaílis de Vasconcelos, in Rsvistâ LusitaS^' ^ 
p. :301. 

5 O Dia, de 20 de junho de 1903. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 379 



embarrar 

/"ocábulo transmontano, que corresponde ao geral esbarrar. 
já no Novo DiccioNÁBio, como termo da língua comum, o 
não parece exacto. 

embondeiro ; empipa 

] o nome português da árvore agigantada a que os franceses 
iam baobab, conforme a nomenclatura cientifica, Âdansonia: 
— < Chamaram-lhe por isso a arvore de Lifan (povoação 
os portugueses incendiaram em Timor). Era da familia dos 
abs, imbondeiros e micondós, gigantes vegetaes de que 
dam todas as nossas colónias tropicaes» — *. 
J preferível escrever com e inicial este nome africano 
não), visto que o i inicial, com que também se escreve 
[wrtuguês, imbondeiro, forma ortográfica que adoptaram o 
. CoNTEMPOBANEO e O Nôvo Dicc, é preficso significativo 
línguas cafriais, designativo do plural dos substantivos 
lasse ni; como em quimbundo, hinda, «quinda, cesto >, inda, 
tos* — *. 

ío mesmo caso de transcrição portuguesa em, por m + con- 
te, e en, por n + consoante, iniciais, grupos próprios das 
ias africanas da familia bauta, ou cafrial, estão outros 
bulos, que hajam de ser adoptados em português, como 
Ipa: — «Fabricam também uma outra bebida adocicada cha- 
^ yn'pipa, resultado da fermentação incompleta da batata 

» — 3. 

V. Obtogbafia Nacional, páj. 256 e 2õ7. 



Carta db Timor, in <0 Século», de 16 de janeiro de 1906. 
' HéU Chatelaín, Grammatica blbmbktar do Kihbundu ou lin- 
DB Angola, Genebra, 1888-1889, p. 3. 

Azevedo Coutinho, A Campanha do Barué bm 1902, in «Jornal 
:»lonias> de 30 de julho de 1904. 



:380 Apostilas aos Ditionàrios Portugueses 



emboutar 

Xa Beira-Baixa significa este vocábulo «pôr de part«, depob 
de ter encetado >, abocanhar. 



empacassa, empacasseiro 

O Xôvo DiccioNÁEio inseriu estes dois vocábulos, definindo 
o primeiro — « vacca silvestre das margens do Ganges; búfalo>— ; 
e o segundo — «caçador de búfalos» — . 

Tenho muitas dúvidas acerca da exactidão destas definições. 
A ]>alavra empacassa não tem feitio índio, mas antes africano, 
cafrial, e neste caso poderia ter sido pelos portugueses ou por 
bauiaues levada da África Oriental para a nossa índia, se se 
apurasse que ela fosse vernácula num e no outro destes' dois 
pontos. Ora, na realidade, empacassa não é termo conhecido na 
índia, e nem mesmo, ao que parece, em qualquer rejiío da 
Africa Oririital Portuguesa. 

Com otVito, na líntrua de Tete o principal termo com que o 
luiíalt» se ilesi^nia ali é nhâti ^ 

Disse que o termo tem aspecto cafrial, e na verdade é ele 
vernáculo, porém na Africa Ocidental e não na Oriental: era 
«juiniluindo iKí/xitsa é o vocábulo pelo qual «búfalo* é trailuzido 
por Joa<inini da Mata. no plural ///>rtf/v7.s-a; -rboi selvacfeni: b"- 
falo ^ — -. A sílaba inicial da forma portuguesa empacassa \R' 
dica ser ela tomada de qualquer dialecto do quimbundo, em q"í 
o p seja nasalizado, feniuneno freqíiente nas consoantes m\áx& 



' Vi r.»r .ln<»i (\mrtois, Diccionario portit.i-ez-cafre tetexsKi 
Cniiiil.ra, !>!>!», \k ^1. 

- Ensaio dk diccionario KiMBrxDf-pORTrGVEZ, Lisboa. 1-*^^' 
].. 1-27. 



Apo9tila8 aos Dicionários Portugueses 381 



de vocábulos dessa família de lÍDguas, quando são substantivos 
principalmente. 

Como não é natural que o termo transitasse da costa ociden- 
tal de África, onde não vão os baniaues, para a índia Portu- 
guesa, é provável que a vivenda do bicho não seja, nem nunca 
fosse, as marjens do Ganjes, como nos diz a definição do Novo 
Dicc., pelo menos com semelhante nome. As espécies africanas 
mesmo são diferentes das da índia, e de todas as mais asiáticas. 

A. Réville, no livro Les religions des peuples non-givi- 
LisÉs ^ cita 08 vocábulos eiripacasso e crnpacasseiro no seguinte 
passo, que me foi apontado pelo snr. G. de Vasconcelos Abreu: 
— *0n parle encore d'uue société qui se serait formée depuis 
le seizième siècle chez les Kimboundas [sic] sud-est [sidj de 
TAfrique, et dont les Portugais appelaient les membres des 
Empacasseiros, parce que chaque initié devait sacrifier un 
buífle, empacasso* — . O autor cita R. Hartmann -, e refere-se à 
dita seita como adversária da autropofajia, e que deste modo 
substituíra o sacrifício humano pelo de uma rês. 

É claro que o vocábulo dado aqui como português o não é, 
mas quimbundo, segundo vimos. Por outra parte, a vivenda dos 
povos ambundos, propriamente ditos, a sueste da Africa, se não 
é erro tipogi*áôco, mas do autor, serait de sa part une sin- 
ifuliére bévue, a não ser que parta da hipótese, perfilhada em 
certo modo por Henrique de Carvalho 3, de que os povos ca- 
friais tivessem vindo do leste para oeste, e que ainda a sueste 
demorassem naquele século, o que tudo assenta em conjecturas. 

Temos porém aqui um passo, que nos subministra mais 
uma acepção do vocábulo empacasseiro, a de membro de uma 
seita relijiosa indíjena, que tinha como credo a abolição dos sa- 



* Paris, 1883, p. 113. 

* Lbs pbuplbs db l'Afrique (Biblíothèque scientifíque intematio- 
), Paris, 1880, p. 218 (q. v,). 

• EXPBDIÇIO PORTUOUBZA AO MUATIÂNVUA. ETHNOQRAPHIA B 

TORiA TRADICIONAL, Lísboa, 1890, cap. I, p. 54 e ss. 



382 ApottíUm om 



crificios homaiios, mediante ama piitica cvltul maw cnMl, 
a sabstituifáo da Titíma humaiia por um búfidoí «ywhiaf, fàr 
lana cafrial que lhe hareria dado o nome imposto pelos porta- 
gueses residentes em Áfiiea, entre os qnais IbsBe afode luad 
conhecido também por âste nome aportogaesido, empacnwa 

Parece, portanto, serem inexactas as defiaiçSes qoe doo M 
vocábulos nos dá o Novo Dioa, sem as abmiar. 

Evidente é igualmente que o autor a quem dtri, HaztaBai, 
obteve aquela informação de qualquer escritor portuguis; um 
nem êle cita a autoridade em que se fimdou, nem eu a podo 
por emquanto encontrar. 

Concluirei advertindo que J. L Boquete, no IXdkmário jat- 
tuguês francês ^ já inscrevera o substantivo (em)paca$9a, aoi 
termos seguintes: — «empacasba ou paoasba^ C hisL naL mt 
pacassa ou pacassa, bulBe, bubale dn Congo». — Nio é proriíd 
ifj todaria que Ha^ann fosse lá desencantar o vocábulo, qoe nio 
' figura nem no Dicionário fiancês de littré, nem tambãn do do , 
Larousse. Parece pois que Boquete, sem autoridade, afra&cesM 
n palavra, que vemos deu como denominação do animal na África 
Ocidental, e imo na Índia. 



empapelar, empapelo 

o Novo Dicc. dá-nos como si^ificado de empapelo, nome 
V(Ml)al rizotíMiioo de empapelar, «embrulhar em papel», o flgni- 
ficado -* invólucro de papel» — , declarando desusado o vocá- 
bulo. Xcsta acepfílo concreta creio que, na realidade, está fora 
do uso, se o (|ue em alj^um tempo foi empregado. Na ac^pçío 
abstracta, porcni, de *acçáo de empapelar», existe abonayio, 
colhida provavelmente em flagrante: — «Na officina de empa- 
pello (itic), havia õ magnificas machinas de cortar papel»—*- 



Y' * Dkítiox^miib portuoais-français, Paris, 1855. 

í « ( » SBcrr^, de 25 de abril de 1900. 



Apostilas ao8 Dicionârioa Portugueses 383 

Refere-se o articulista à fábrica de tabacos, denominada de 
^oão Paulos Cordeiro, em Lisboa. 

empargado 

No Riba-Tejo diz-se do «trigo amontoado na meda>, con- 
3rme informação de pessoa da Chamusca. 

empeçar 

Este verbo antigo, correspondente do castelhano antigo em- 
eçar, moderno empezar (=e7npe§ar) * é ainda usado em 

'rás-os-Montes, talvez por influencia espanhola raiana. Nada tem 
ue ver com outro empeçar, que o Contempokaneo define — 
enredar. . ., pôr obstáculo. . . topar. . . » — . 

empena, empenar: v. pena 

empolgar 

Conforme J. Joaquim Niinez, de impollicare * j pollex, 

ollicis, «dedo polegar»: cf. pollicaris, «que mede uma po- 

igada » : O próprio adjectivo português, substantivado, polegar 

pronunciado normalmente polgar, e assim pode ser escrito, 

omo o é o verbo. 

encaixe 

Em Sam Martinho dá-se este nome à renda. Em castelhano 
í encaje. 



^ § designa a sibilante surda ginjival ou dental, o z castelhano actual. 
* Ebvistá Lusitana, ni, p. 256. 



'j-^ ^r* T'--' 



SSI AfoMn ato9 DíeimtêHõÊ Ftrimfmmtm 



eiicilir 



No Minho: «engrolir, feirer mal, eniaiar, como se dii oi 
Lisboa, carne ou peixe, para se não estragar, afim de serem eoa- 
nhados ao depois». 

O Xòvo DiocioNÁBio trai este vocábnlo, com definifio 
aprossimada. Atribui-lhe um de dois étimos: latím calere, 
que apresenta a dificuldade da permanéacia do 2 interfoeilie» 
(et quetíte \ calentem), que no entanto Yemos em cahr, 
prorivelmente de orijem semi-erudita. Aponta como wofpuii^ 
étimo, um hebraico, que n&o cita, remetendo o leitor pm 
Pereira Caldas. 

Não se dê esse leitor a semelhante busca, partindo com todi 
a segurança do seguinte princípio: as etimolojías hebraicis i» 
Pereira Caldas, à parte aquelas que toda a gente sabe que o 
são, tem apenas uma utilidade reconhecida, a de serrirem i» 
assunto de riso, se não de lástima : porque de três cousas um» 
é verdadeira: inveutou-as para nosso divertimento, esteve zom- 
l)au(Io comuosco, ou estava doido quando as publicou. 



eucanelar 



O Novo DiccioNÁHio incluiu este verbo, dando-lhe wmo 
definindo: — «dobrar em canelas ou novelos; fazer canelas em, 
acanelar» — . 

O vocábulo novelos é de mais, pois novelos não são row^te 
e neles enrola-se o fio, não se dobra, como nas meadas Oi^^ 
deitas. 

No trecho seguinte, porém, encanelar tem outra acepçío: 
— «Lamego, 21. . . o ficarem as videiras sem rebentar foi 4^ 
vido a varias influencias atmosphericas, e na maior parte geai*^ 
que receberam já no tempo em que a vide principiava a deseo- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 385 



volver para a rebentação, e que assim ficaram encanelladas, 
— termo que n'este caso usam os lavradores» — ^ 



encaraçado 

No norte do reino usa-se este adjectivo participial substanti- 
vado, derivado de caraça, para significar o que no sul se diz 
mascarado, e antes se dizia emmascarado, como vemos no 
romance de António de Campos, Luís de Camões [Parte n, 14]: 
— «Iam a cavallo, em trage de disfarce, muito garrido, masca- 
rados, ou emmascarados, como então se dizia» — . 



encardir, cardir 

Cardida, que pressupõe um verbo cardir, de que é particí- 
pio passivo, diz-se da madeira que esteve muito tempo debaixo 
de água, e apodreceu. Esta informação foi-me dada pelo snr. 
Gr. de Vasconcelos Abreu. Do verbo primitivo cardir se derivou 
encardir, «çujar», hoje em dia e desde muito tempo empre- 
gado no sentido de < lavar mal», pois se diz roupa encardida 
aquela em que, depois de lavada, transparece a çujidade ante- 
rior. 

O verbo cardir parece ser afim do adjectivo cárdeo, (q. v, 

em avergoar). 

endoenças 

Tanto o Diccionakio Contemporâneo, como o Manual 
Etymoloqico de P. Adolfo Coelho, como o Novo Diccionábio 
de Cândido de Pigueiredo, são concordes em atribuir a este 
vocábulo, como étimo, o latim dolentia. D. Carolina Michaelis 



* O Economista, de 26 de maio de 1891. 



384S . ApoMoB 008 Dieianáriat FmiuffueBa 

explica-0 pelo latim indulgentias ^ Com efeito, confira-se o 
passo seguinte: — «Vendo Yasquo da Gama ho que se paasan 
sesta feira de Indulgências se fSz à vela. . . se informou da á- 
dade de Melínde, diante da qual foi surgir dia de Páscoa de 
Ressurreição pela menhft » — *. 

Esta expressão sesta feira de Indtãgencias volta a ser em- 
pregada por Góis no capítulo y da ni Parte, citado por Bhtean 
[Vocabulário, sub v. Endoenças], que já aponta este étimo, o 
qual, apesar de certas dificuldades fonolójicas, é indisputável O 
douto lecsicógrafo acrescenta a forma popular anãoençaSy altenda 
pela influência do verbo andar: — «pelo muito que naquelledii 
[quinta feira de endoenças] se anda correndo as Igrejas»—. 



endrómina(s) 

O Novo Dicc., em dúvida, dá como étimo a este vocábulo, 
que apoda de cbulo, o vasconço anãrominae, e como para o com- 
provar, cita outra forma andromhia, mais conforme com o cast^ 
lhano andrómina, que naturalmente passou a Portugal no sé- 
culo XVII. O Dicionário da Academia espanhola ^ aponta para 
étimo o italiano andirivieni — « subterfúgio > — , e francamente 
nào se lhe podem dar parabéns pela invenção. 

Examinemos, no entimto, de relance as dificuldades qoe 
apresenta o vasconço indicado, conquanto plausível, e que pn- 
meiro foi proposto pelo famoso criador da íilolojia vasconça, o 
Padre Manuel de Larramendi, em princípios do século xvin. 

• 

() vocábulo diz-se composto de andré «mulher casada >, e mm» 
< dor, queixa». Ora, andré náo é andró, e o plural andremniúc 
teria naturalmente de ser acentuado no i de mÍ7i, andremhui^» 



* IkKvrsTA Lusitana, iir, p. 150. 

- lU.iiiào íle (íóis, Crónica db El-rbi Dom Emmanubl, i, cap. ^'' 

3 M-ulria, 1.-599. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 387 



enfarelar 

— « Ulterior mente enchem a vasilha [de barro poroso] com 
irinha de milho e agua, coUocam-a ao fogo e, uma hora passada, 
onsideram obtida a vedação. Está a loiça enfarellada» — *. 



engar, enguiço, enguiçar 

O Novo DiccioNÁRio dá a este verbo a significação de: 
— « habituar-(se), preferir (um pasto)» — . 

D. Carolina Michaelis tratou deste vocábulo num artigo muito 
em deduzido, dando-lhe como significação própria e primordial 
seguinte: — ^eiigar-se a alguma cousa significa avezar-se ao 
u€ é ruim> — , e exemplificou este significado com o adájio: 
— <Engou-se a velha aos hredos: souheram-lhe bem, lambeu 
s dedos» — , a que corresponde a forma mais moderna — *Ave- 
ou-se a velha aos hredos, etc. » — . 

O étimo proposto pela autora desta luminosa inquirição, 
ue merece atenta leitura, é o latim intquare ^. Cf. a etimo- 
)jia proposta pela mesma romanista para enguiçar j iniqui- 
tare j iniquum, e que parece indubitável, sendo enguiço um 
iibstantivo verbal, rizotónico, deste verbo. 

Júlio Cornu, todavia, opõe com razão a esta etimolojia, en- 
ar j intquare, outra, enecare, que em latira significa «ator- 
lentar», acrescentando o seguinte: — somente no caso de se encon- 
rar a forma êiguar, se poderia apelar para o étimo intquare ^. 

Na realidade, a quantidade longa do segundo t, toma difícil de 



1 Rocha Peixoto, Sobrevivência da primitiva roda de oleiro 
EM Portugal, in Portugália, ii, p. 7(5. 

' Revista Lusitana, iii, p. 151-154. 

8 Grammatik der portugibsischbn Sprachb, in < Grundriss der 
romanischen Philologio, 2.* edição, Estrasburgo, 1905, p. 966, Dota. 



388 ApoiHloê aos Dicionários Portugueses 



admitir-se o seu desaparecimento, postulado na outra etimolojia 
a que me referi. 

enguiado 

Não é claro o sentido deste epíteto, aplicado à cortiça no 
trecho seguinte: — «as cortiças enguiadcLs não eram por ria de 
regra impróprias para rolha; somente valiam menos, por nâo 
poderem ser fabricadas á machina de rolha que dispensa o qua- 
dro» — ^ 

Fica no entanto rejistado o vocábulo, se não há nele erro 
tipográfico. 

enha=minha 

No Novo DiccioNÁRio vem apontada esta forma, abonada 
com Gil Vicente. Efectivamente, como proclítica, lê-se no «Auto 
da Lusitânia >: 

— Florida, enha filha — 

— Granado, enha filha — , 

como vemos ta Da « Farsa do Clérigo da Beira » : 

Que filho és de bom pai. 
E ta mào boa mulher. 

São abreviaturas de minha, tua, 

E de notar que enha é pelo poeta empregado num roraaiioe, 
com todas as aparências de antigo, tradicional, para ser cao- 
tado, e que os versos sao de cinco sílabas até a última acentuada: 

— Donde vindes, filha, 
Branca e colorida — , 



O Século, de 19 de julho de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 389 



O e de enha tem de ser elidido, como provavelmente o era na 
pronúncia, porque servia apenas de amparo à sílaba nha, que 
não é inicial de vocábulos portugueses. Este enha é pois a redu- 
ção de minha por próclise. 

Também no « Auto da barca do Purgatório » figura o feme- 
nino enha, na boca de um lavi-ador, que fala linguajem arcaica 
e viciosa: 

E de tudo fiz aqueHta, 
Como ornem diz, avantairo : 
Leizei ó cura enha besta. 



Aqui empregou Gil Vicente, como quási sempre, a redondi- 
Iha, e o e de enha tem também de ser elidido. 

No Suplemento ao mesmo dicionário dá-se-lhe, porém, um 
masculino enho, que nunca existiu, nem podia existir, pois a 
forma masculina é meu, e não, minho, e que foi deduzddo infun- 
dadamente do femenino. 



enjendrar, gerar 

O verbo enjendrar é, como arranjar, um galicismo antigo, 
tanto em português como em castelhano; todavia, para o segundo 
destes verbos somente em português se dá o galicismo, pois os 
espanhóis criaram o verbo arreijlar, que o substitui em quási 
todas as suas acepções. Não me ocuparei do segundo destes ver- 
bos, porque, à parte escritores pouco esmerados, todos evitam 
o seu emprego, a não ser nos sentidos populares de «conser- 
tar, compor >, ou no translato de « alcançar >, significados que 
não tem o verbo (ar)ranger francês, o qual significa principal- 
mente «arrumar», em sentido natural ou em sentido figurado. 
Na acepção de « obter » diz-se em francês (se) procurer. 

Que, tanto o verbo arranjar, como o verbo enjendrar são 
galicismo, prova-se com a sua formação: arranger provém de 
"^ang, substantivo a que em português corresponde o quási 



390 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



desusado renque; vê-se, pois, que a este primitivo nào corres- 
ponde aquele derivado. 

O mesmo acontece com enjendrar. Do latim genus, gene- 
ris procedia o verbo generare, de que em português proveio 
gerar, com perda do n intervocálico, e que por isto se pronun- 
ciava dantes gerar, que J. I. Roquete ainda manda proferir com 
e aberto, e de que o povo fêz jarar, obedecendo à influencia que 
o r exerce no e átono que o precede :Ccf. j^ara j pêra). Ainda 
hoje a pronúncia geral é geração, e nào, geração. 

Em francês, de ingen(e)rare fez-se engenãrer, como de 
gener, generis, «genro», se fez ^enrfré', com d intercalar entre 
o n e o r, que a supressão do e que os separava pôs em con- 
tacto. Tal d eufónico náo pertence à fonolojia portuguesa (cf. 
genro), e portanto enjendrar não é português, a nâo ser como 
plebeísmo, no sentido de « enjenhar, aldrabar, fabricar mal e sem 
preceito » . 

E pois defeituosa a seguinte frase: — «As formas nobres... 
que traziam na sua plasticidade evolutiva a possibilidade de en- 
gendrar o cavallo, o elephante, etc. » — *. 

Onde se empregou este verbo afrancesado, deveria ter-se es- 
crito gerar, que lhe corresponde na significação e orijem. 

Nfio é porém sem exemplo o emprego de tal verbo, em passos 
de autores antigos, e Bluteau cita dois, ambos os quais, todavia, 
conteem a idea subsidiária de artifício, que torna a obra imper- 
feita ou impossível. 

enjogar 

Este verbo derivado de jogo (=jógo), vocábulo transmontauo 
que quere dizer, como forma subsidiária de gogo (=gógo), « seixo 
boleado pelas águas que o acarrearam >, significa no mesmo dia- 
lecto «empedrar, calçar as ruas com jogos». 



^ O Século, de 2õ de sjtembro de lOUÕ. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 301 



enlaga 

— «A enlaga [do linho] tem por fim dissolver na agua uma 
espécie de gomma resinosa, que liga entre si as fibras do linho 
e da casca* — K 



enoque 

No Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa ^ ve- 
mos esta palavra, empregada num acórdão municipal de 1862, 
transcrito em parte pelo autor do escrito, de sumo interesse, ali 
publicado: — «todo o cortidor (sic), que não despejar a surrada 
das pelles no rio e não deitar fora das portas de seus enoques 
ao rio as misturas que n'estes se fazem incorrerá na pena de 
6000 réis, pelo damno que causará á cidade do mau cheiro > — . 

Vê-se que a transcrição está modernizada na ortografia, e 
ficamos na incerteza do que seriam os enoques, vocábulo que 
me não consta haja sido encontrado em outra parte. 



enoz 



Ignoro o significado exacto deste vocábulo que aparece nas 
Batalhas da Companhia de Jesus, do Padre António Fran- 
cisco Cardim [Lisboa, 1894, páj. 44], e pode ser erro de lei- 
tura: — «uma enoz de pedra vitorina> — . Vê-se que é uma jóia, 
um enfeite, com forma especial. 



* Portugália, i, p. 370. 

* 17.* Série, 1898-1899, p. 168— Bragança b Bbmqubrença, por 
Albino dos Santos Pereira Lopo. 



392 Apoêtiloê aos Dicionárioê Bortugueses 



enristar, enriste 

O verbo vem em todos os dicionários; não assim o substan- 
tivo dele derivado, enriste, que vemos no seguinte passo das 
Batalhas da Companhia de Jesus: — «repetiu o algoz o en- 
riste > — *. Antes dissera: — «enrista com elle» — . 



ensaca 

Xào é o nome verbal derivado de ensacar, que falta nos di- 
cionários, a par de ensaque, neles rejistado, mas um termo da 
África Oriental Portuguesa, cuja definição se vê nos trechos se- 
guintes: — «A gente de guerra era dividida em efisacas, com- 
mandadas pelos maluJcua, os quaes tinham como auxiliares o 
fchicango, e o dembo, autoridades que correspondem respectiva- 
mente aos cazembes, sachecundas e mucatas da Zambezia>— "• 
Antes, lê-se: — * Ensacas agrupamento de cypaes commandados 
por um cazemhe, correspondente á companhia» — . 

Xa escrita destes vocábulos, para que fiquem portugueses, 
temos de emendar mahicua. chicango, além do absurdo ciji^a^^ 
em cipaifi (q, vj. ou .s^/7>«?V. 

eusauzorar 

— < Nos bivaques, e quando temem surpreza [os cipais], ou se 
ensanzoram, ou construem abrigos ligeiros, com troncos de 
arvores, ou terra» — ^. 

E termo da Africa Oriental Portuguesa. 



1 Lisboa, 1S04, p. 192. 

a Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1902, in < Jornal 
(las Colónias >, de 13 de agosto de 1901. 

5 Azevedo Coutinho, A Campanha do Bauué em 1902, in <J^"*^ 
das Colónias», de 19 do agosto de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 393 



ensarranhar 



No Minho, conforme informação pessoal, «eufarniscar». 



entrevistar 

Este neolojismo pretende substituir o estrambótico intervieio 
inglês, que para cá passou por intermédio do francês, onde é 
anglicismo; mas também nâo é português, nem cá é preciso. 
Muito mais antigos, e mais expressivos, temos visitar alguém, 
avÍ4itar-se com alguém. 



entrujão 

Em jíria castelhana entruchón quere dizer «sabido, ladino». 
Existem também entruchar e eniruchada, O verbo é assim de- 
finido no Dicionário da Academia ^: — «atraer á uno con disi- 
mulo y engaôo, usando de artifícios para meterle en un nego- 
cio » — . 

Conquanto o termo em Portugal tenha grandes ressaibos de 
linguajem ordinária, direi mesmo chula, a pouco e pouco foi en- 
trando no uso comum; ainda assim afigura-se-me um lapsus ca- 
lam i o seu emprego em estilo sério, como o vejo no trecho 
seguinte, de escritor esmerado: — «O vaqueiro houesto tem sem- 
pre ensejo de mostrar a sua boa fé. . . e o vaqueiro intrujão de 
conhecer o caminho da... Boa Hora [edifício dos tribunais de 
justiça em Lisboa]» — '^, 



* Madrid, 1899. 

* D. Luís de Castro, in Diário de Noticias, de 22 de fevereiro de 
XS06. 



394 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



envés 



É usado no Minho, com o significado que no sul damos a 
avesso j aduersum, como envés \ inuerse. 



enxada 

No excelente estudo de Francisco Adolfo Coelho intitulado 
Alfaia agrícola portuguesa, publicado na revista Portu- 
gália S vêem-se os seguintes epítetos, que diferençam ontras 
tantas qualidades de enxadas: enxada de peto, enocada de fi- 
careta, enxada larga, enxada de ganchos. 



enxadrez 

E o nome antigo do xadrez, que ainda subsiste no adjectivo 
participai enxadrezado: 

— Nco:ro é o pez, 

Nej^ro é o rei «L.» enxadrez — ^. 

ff 

Em castelbauo é ajedrez, antigo axedrez, de orijem imediata- 
iiieute arábica, proveniente do sáuscrito, por intermédio do per- 
siano, que o recebeu de qualquer língua vernácula do Indostão. 

Em última análise o vocábulo ó sanscrítico: KaxuRaMGa ^ as 
quatro partes (componentes de um exército), infantes, cavaleiros, 
carros e elefantes. 



1 I, p. 390. 

* Gil Vicente, Auto das Fadas. 

3 O símbolo Av vale pelo ng germânico, ou nasal póítero-palatal. O ^•■' 
cabulo sanscrítico j)r<)nuncia-se quási como se em português escrevêssínio» 
(i)chatorànga, isto conforme a prosódia convencional, clássica na Europa- 



Apo8til<i8 ao8 Dicionários Portugueses 395 



enxalabar, enxalavar 

Esta rede é assim descrita no artigo A pesca em Buabcos 
e P. FemáDdez Tomás: — «Redes especiaes, tendo na boca um 
rco de ferro, chamadas enxalavares * — *. A forma com 6 en- 
ontra-se no seguinte passo: — «Um pescador, tendo mergulhado 
aais uma vez o seu enooálabar^ — ^ 



enxame 

Em Leiria aplica-se, em sentido geral e não por metáfora, 
sta palavra para designar < grupo de gente que anda rezando e 
isitando os passos no domingo de Páscoa». Esta informação é 
io conhecido poeta Acácio de Paiva, dali natural. 

Como é sabido, enooame é o latim examen, «tropel, ajun- 
amento de gente que segue caminho»; * enxame de abelhas* 
sentido especial que o vocábulo adquiriu. 



enxaravia 

O Novo DiccioNÁBio define este vocábulo como significando 
— «toucado de mulheres, principalmente de meretrizes» — , e 
á-o como termo antigo. Num artigo, publicado por Sousa Vi- 
erbo, intitulado As candeias na industbia b nas tbadiçôes 
OPULABES poBTuouESAs 3, vem trauscrito um documento de 
454, no qual entre os de outros objectos está mencionado este 
ome: — «enxai^avias de seda e linho» — . 



* »n Portugália, I, p. 152. 

* O Economista, de 26 de outubro de 1888, citando o CampbIo das 
^oviNCiASi de Aveiro. 

' in Portugália, I, p. 367. 



396 Apostilas aos Dicionários Fòriugueses 



O Elucidário de Santa Rosa de Viterbo já traz a pala- 
vra: — «Também se chama Polaina. Era a insígnia oprobriosa 
das alcoviteiras. Consistia n'huma Beatilha de seda, vermelha^ 
que traziam na cabeça, emquanto não partiam para o des- 
terro» — . Cita o Livro v das Ordenações, Título 32, § 6.°, 
onde na realidade se lê o seguinte: — «Em todos os casos em 
que algua mulher for condenada, por alcoviteira em algumas das 
penas sobre-ditas [nos §§ antecedentes], onde nào haja morrer, 
ou hir degradada para o Brasil, traga sempre polaina, ou en- 
xaravia vermelha na cabeça, fora de sua casa, e não a trazendo 
seja degradada para sempre para o Brasil > — . 

Do texto citado vê-se que a definição de Santa Rosa de Vi- 
terbo tem dois erros. Primeiro, provável: nào se depreende clara- 
mente se i^olnina é a enxaravia, ou outra peça de vestuário; 
segundo, certo: a etixaravia era obrigatória, quando não ha?ia 
morte ou degredo, e não, como diz, sempre e precedendo o de- 
gredo. 

Conforme Eguílaz y Yanguas é o vocábulo arábico ALrxaEBiiR 
«faxa para a cabeça >, de xaRB «linho delgado». O arabista 
espanliol acrescenta: — <Eu la 2.* [Polaina] és el ár[abe] oaRAB, 

A. 

medias» — ^ Este último étimo é inexacto, mas lejitima a 
dúvida, de que polaina equivalha a enxaravia. 



eaxó(s) 

No Alentejo é o nome de uma armadilha de alçapão, para 
apanhar perdizes. 

O Novo DiccioxÁRio escreve enxô(s), e diz ser termo da 
Beira-Baixa, com significação análoga. K possível que seja uma 
acepção especial de enxó \ latim ascióla, deminutivo de ascia. 



1 (tlohauio dr las palabras espanolas de origrn oriental. 
Granada, 1S86. 



Apostilas ao8 Dicionários Portugueses 397 



enxoval, ajicar 

A primeira vista parecem muito diferentes estes vocábulos, 
primeiro português, o segundo castelhano > pronunciado actual- 
lente aiiiuir, com a fricativa póstero-palatal surda do castelhano 
lodemo, em vez da dorsal x do português. 

No castelhano antigo a forma era porém axu(v)ar, e o x 
inha entáo o mesmo valor que tem em português. 

Enxoval, nâo se deriva, como diz o Novo Diccionábio, de 
xuuiae: é o árabe al-xuab, «dote>, quer em dinheiro, quer em 
3ias, quer em trem de casa ^ No testamento de Pedro Rodrí- 
uez (1419), publicado na Revue Hispanique [x, páj. 230] 
3-8e ^-di a leonor rrodriguez axuar bien rico » — . 

O a representa o artigo arábico al, com assimilação do l 

consoante seguinte x, por esta ser o que em terminolojia técnica 

e diz letra solar, porque por ela começa a palavra xans, «sol». 

ietras solares são nessa terminolojia as que se proferem com a 

onta da língua, como d, l, n, r, s, t, x; lunares, as outras. 

Com relação à mudança de ax, , , em enx, . . da forma 
ortuguesa, cf. a forma valenciana enxovar, com a aragonesa 
xovar ', e ainda o castelhano azufre, azadu, com o português 
nocofre, enxada, Compare-se também enxame e exame, ambos 
o latim examen. Pelo que respeita à inserção do v, confron- 
em-se igualmente as formas castelhanas loor, loar com as por- 
uguesas louvor, louvar, dantes loar, de que proveio loa, em 
itim laudare, e laus, laudis; ouvir, português com oir cas- 
Blhano 1 audire; goivo \ gaudium, etc. Este v intercalar ma- 
ifestou-se nas formas de orijem latina, depois da queda do d, 
ara se evitar o conflito das vogais, ou hiato: a esta causa é 



* Veja-se Eguílaz y Yangnas, Glosario db las palabrâs espanc- 
as DB ORiGBN ORIENTAL, Granada, 1886. 

> Dozy & EQgcbnann, Glossaire des mots bspaqnols bt por- 
*U0AI8 DáRiVBS DE L^ARABE, Leida, 1869. 



39S Apattiiaê aos Dicionários Fòrtugueses 



devida a sua inserção em enxoval. Cf. ainda viúva, do latim 
uidua, passando por uiua, viua, viáa. 

Modernamente alguns periodiqueiros, que se envergonham de 
escrever em português tudo que querem dizer aos leitores, co- 
meçam a empregar, em vez de enxotai, a palavra francesa 
troiisseau, nas tediosas descrições que fazem de qualquer casa- 
mento rico, nas quais nunca também omitem o ridículo carbeilk. 



eólito 



— «em todas as épocas da pre-historia se fabricaram eoli- 
thos, isto é, peças [de pedra lascada] que apresentam um mí- 
nimo de talha intencional > — *. 

O termo é moderníssimo, derivado artificialmente do grego 
*Eõs, «aurora», e litros, «pedra», e importa a noçào de «pri- 
meiros vestíjios do talho da pedra feito pelo homem». 



èmio, ermar, ermamento 

O su])stantivo íVwo seguiu a acentuação grega kkémos, em 
vez (la latina erê'mus, que ao depois passou a ser érèmus. 
Deste substantivo derivou-se o verbo ennar, de que por neolo- 
jismo se fez eniumiento, como de armar, armamento: — «mas 
que nunca houve ermamento conhece-se com toda a clareza 
dos documentos da época» — . 

Significa ' despovoamento > *. 



» O AUCIIEOLOGO PORTUGUÊS, vol. X, p. 407. 

2 Alberto Sampaio, As <villas> do norte de Portugal, íw «P'^^' 
tupilia», I, p. 2i'}. 



Apo8tila8 aos Dicionários Portugueses 399 



érvodo, érvedo 

O Novo DicciONÁBio inclui este vocábulo, com remissão a 
'vedeiro, mas acentua ervôdo, o que me parece erróneo, visto 
lie a palavra procede do latim arbútus, «medronho», arbú- 
jm, «medronheiro». 

A existência deste substantivo é postulada pelos seus deriva- 
)3, ervedeiro, ervedal, que com outros figuram no onomástico 
orográfico. Ervedo equivale a «medronheiro», e no Minho cha- 
a-se-lhe ervedeiro. 



esbandalhar, esbandalha 

O verbo esbandalhar analisa-se como escangalhar: es-band- 
dh-ar. Desta forma derivou-se um substantivo rizotónico, de 
.*ção, esbandalha, que não figura nos dicionários: — «Logo após 
} primeiras chuvas do outomno procede-se ao que se chama a 
bandalha^ das moreias, que consiste em regularizar as terras, 
)lanando-as» — K 

Ignoro se o termo é geral, ou somente alentejano. 



esbarar 

Termo transmontano, que significa «escorregar»: — «mas o 
í cima, sentindo pouca força nas mãos, que lhe esbaravam » — '. 



* Melo de Matos, Cultura dos trigabs no Albmtbjo, in Po r tu - 
ília, I, p. 623. 

2 M. Ferreira Deusdado, O Recolhimento da Mófrbita, in «Re- 
sta de Educação e Ensino», 1891. 



400 



A palarra e^ada nào proTém de scili com mudança de / 
em d, que seria absurda, pois o scala latino daria em portugoês 
eseáíaj, mas sim de escídada, escoada^ como já afirmou Júlio 
Comu. 

A noção da orijem da palarra perdeu-se porénu yisto que 
se pronuncia escadaria e não escadaria: cC pàçào \ palacia- 
num. e fagueiro om fagueiro, castelhano halagúeno ^ 

A forma escaada. não contraída, existiu: — «Et todos desta 
collatione levaram as tabolas e a madeira ao Castello, et âziain 
o tavoado et as escaadas > — *. Notem-se as formas tabolas e 
taboado. a primeira com Z, e a segunda sem ele. 



escalavrar 

Conforme D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos ', este verbo 
corresponde a um castelhano (Je.^calarerar [ calavera J caiu ária, 
com a anaptíctico. Mas como a caJavera corresponde em portu- 
guês cáceira, scL^ue-se que escaJarrar seria castelhanismo, ateflta 
a permanência do /. e o adjectivo participial escâveirado qu^ 
pressupõe um verbo escàrcirar. Maior castelhanismo será ainda 
descalabro, su])stantivo verbal espanhol j descalabrar. 

Cf. ainda escalvado \ cairo. 

O étimo proposto pelo Coxtempok-vxeo, scalpellare, é im- 
provável. 



1 V. A. R.-Gonçálvez Viana, Études de Grammaire portugaise, 
in <Mus<M>n>, 1SS4. 

2 PoRTUG ALiAE MONUMENTA HISTÓRICA, Inquiriçòes de D. Afonso IH- 
II, p. 4U), col. II. 

3 Revista Lusitana, iii, p. 178. 



Apostilas aos Dicionários Fortugxieses 401 



escaleres 



Como termo de jíria, quere dizer « olhos 



escalfar 

Este verbo significa «cozer em água quente >. 
O étimo parece ser ex'cal(idum)-fa(ce)re, conforme 
r. Kõrting *. 

escamalhar 

J. Leite de Vasconcelos dá este verbo como pertencente ao 
ocabulário de Trás-os-Montes, e com a significação de «escan- 
alhar>. Como este, decompoe-se em es-cam-alhar \ cama, e 
uere propriamente dizer des-a-cam-ar *. 

Cf. esbanãalhar (q, v,). 



escamei 

Na língua comum: « banco de espadeiro » . Deve ser o latim 
camnellum; mas scamnum | escano. 

Como termo alentejano significa um moço que avia recados, 
u como lá dizem, mandados ^, 

Há de ser outro o étimo. J. Leite de Vasconcelos sujere o 
itim casmillus, com metátese do s, scamillus, forma para- 
3la a camillus, camilla, «donzel ou donzela, que auxiliava o 



* Citado por G. Rydberg, Jahrbsbbricht úbbr dib Fortschrittb 

•ER ROMÂNISCHBN PfllLOLOGIB, VI, I, p. 288. 

2 Revista Lusitana, ii, p. 117. 
' V. Revista Lusitana, ii, p. 37. 

86 



4<>2 Apotiila» aoê Dicionánoê Pàriugueset 



sacerdote nos sacrificios > *, o que parece poaco provável. No en- 
tanto, cf. e-fcamilh, castelhano. 



escamondar. escamonda 

— < Xo país st» tenho visto applicar muito êst€ tratamento 
o de-^moche, q. v.J aos freixos e aos grandes salgueiros, mas 
pouco aos choupos, os quaes de ordinário são escamandados, 
isto é, desramados ao longo do tronco» — *. 



escamudo 

Este adjectivo, comparável a pehido \ pêlo, espadaúdo \ es- 
pádua, equivale a escamoso, mas com uma diferenciação de sen- 
tido: escamoso quere dizer «que tem escamas», escamudo, «que 
tem muitas escamas»: — «Setúbal. 26... Peixe maneiro e es- 
camudo. por isso apropriado para conservas» — ^. 

K.'tVre-se à sardinha. 



escauciahar. escáuc(a)ras, caranguejo 

Kste verbo significa < abrir euteiramente». 

O DiccioxÂRio Maxlal etymologico de Francisco Adolfo 
Cnelho nada diz a respeito da sua orijem; o Novo Diccioxâbio 
dá esta como incerta. Pois uão é muito difícil acertar com o 
étimo; basta comparar este verbo com o toscano sganghernre. 
que quere dizer «^^ tirar uma porta dos lemes ^ : gangheri \ can- 
cer, < caranguejo >, e também «varão de ferro, grade», de cujo 



1 ih. 

2 Uazkta das Aldkias, do 11 do março de 190t>. 
' O Economista, do 2S do abril do 1^91. 



Apostilai aos Dicionários Portugueses 403 



deminutivo caacellus procedeu cancelo, e deste cancela. Can- 
cro em português designa um gi-ampo de ferro cora que se prende 
a madeira ao banco do carpinteiro, e neste sentido já o Voca- 
BULAEio POETUQUEZ E LATINO de Bluteau traz o termo. 

Conforme o Suplemento ao Novo Dicc, chama-se igualmente 
cancro uma — «peça de ferro, cora espigão, ou sem êlle, para 
fixar numa parede ou cantaria qualquer trabalho de carpiu- 
teiro» — . E natural que o termo tivesse, ou talvez tenha ainda, 
o significado de «gonzo», como o italiano gánghero. De cancro, 
com a vogal anaptíctica a entre o c e r^ se formou cáncaro, que 
ainda é hoje a pronunciaçâo vulgar de cancro; e deste cáncaro 
se derivou o verbo escancarar, «abrir de par em par», como 
em italiano de gáyighero, sgangherare, 

É sabido que o nome do crustáceo caranguejo é forma demi- 
Dutiva, j cranguejo { cmigrejo, que é a castelhana e antiga por- 
tuguesa, e cujo étimo é o câncer latino. 

De escancrar, forma mais antiga e curta se derivou o nome 
verbal escancra, como o povo o profere era geral, e cora a vogal 
anaptíctica, encáncara(s)j que é forraa considerada culta; raais 
deturpada porém que a popular, visto que, a ter-se derivado de 
escancarar, deveria pronunciar-se escancara, como a 3.* pessoa 
singular do presente do indicativo, cora a qual coincidera estes 
substantivos verbais: cf. o fabrico j fabricar | fábrica. 

O étimo de sgangherare foi apresentado por Sofo Bugge na 
K o mania em 1874, e coraparou-lhe o português ãesengon- 
çado 1 engonço \ gonzo; não lhe ocorreu o verbo escancarar, 
que provavelmente não conhecia, e que melhor corresponde ao 
italiano. 

escandalizar 

Este verbo latinizado, scandalizare, do grego skandalí- 
Z£iN { SKÁNDALON, «embate, pancada, aiinadilha», foi empre- 
gado por Tertuliano com a significação de «desinquietar, sedu- 
zir». Adquiriu acepções várias nas diferentes línguas para as 
quais passou, e em português a de «ofender», que tambéra tem, 



404 Apo$tila» aoê Dicionárioê Bifrtujf%te8e9 

OU teve, em gascào, como vemos na comédia de Molière, Ls Bom- 

GEOIS OENTILUOyilE: 

— Boas bojez qoé chacon mé raille. 
Et jé suis e>can>ialisé 

Dé boir ès Tuains dé la canaille 
CV qui ni*est par bous réfosé *. 

Parece porém que mesmo ao francês literário não foi estn- 
uho este significado, pois o próprio Molière empregou nesse sen- 
titio o mesmo verbo em texto francês puro: 

— Votre paresse enfin me ãcandalise. 
Ma mase, obéissez-inoi — *. 

escaparate 

Este substantivo nenhuma relaçilo tem com o verbo escapar. 
Significa um «armário pequeno», o que nós chamamos mostrador, 
ou, seiTundo a terminolojia afrancesada dos caixeiros, montra [ fr. 
motifrc, visto que ni')Mtni(Jor em castelhano corresj>on(le ao que 
em jM.rtiiiru«''> se «lenoiíiiua hulcan, 

A orijem <1m võcál»alo (^ o li(»lan«lòs schaprade, pronunciado 
r}i(iprà(li\, quási sLditviilc. com a vogal intercalar a, e cujo si- 
írnifiea<lo é • armáii.» do arrecadação . 

Outros vocábulos holandeses passaram às línçruas hispánic4i>: 
e sem titar os term«:>s de marinha, apontarei, entre outros, ma- 
ncfiN/ni [ wanht )i < homemziuho ^. (queijo) itrato \ i)laat(k(m^' 
«queijo chato». j>or oposição ao esférico, a que chamamos qu^Ki" 
fiínntUfjo, e (jue os espanhóis denominam queso de bohi. Manuel 
Godinho Cardoso chamou-lhe queijo de framengos ^. 



* Acto V, Ballet des Xations. 

2 Kemerclmext AU liOi, (Euvros, Paris, 17(>0, t. viii, p. lí)S. 

3 BlBL. DE CLÁSSICOS PORTUGUEZB9, Vol. XLT, p. 31. (Fín.-^ <lo >•> 

culo xvi). 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 405 



A palavra prato significa, do mesmo modo «chato» \ pla- 
tus, plata, platum j grego platús, plateía, platú; chato é 
forma mais antiga, da mesma orijem. 



escar(a)funchar 

Verbo muito popular, com a significação de « esg(a)ravatar 
Deriva-se de uma forma latina scar(i)phunc(u)lare ^ 



escar(a)mentar 

Este verbo é antiquíssimo, pois já foi usado pelo trovador 
Raimbaldo de Vaqueiros — «Todo 'n soy escarmentado» — *. 

A forma com a intercalar é considerada plebeísmo. D. Ca- 
rolina Michaélis de Vasconcelos atribui-lhe como étimo o latim 
experimentare ^ que me parece improvável em razão da mu- 
dança singular de p em c. Júlio Cornu * considerou possível ser 
escarmentar derivado de eseurmento ou escramento ^, e este 
procedente de excrementum, hipótese inadmissível, a meu ver, 
atenta a significação. A mim parece-me que a etimolojia será 
um verbo latino popular ex-carmtnitare \ carminare \ car- 
men, carminis, «carda»: cf., emqiianto à significação, escal- 
dado em português, escamado, em castelhano. 

Outro étimo, que ofereceria iguais, senão maiores probabili- 
dades, seria Carpentes, «profetizas, adivinhas», nome derivado 
de carmen, antigo casmen, no sentido especial de «vaticínio»; 



* Bbvista Lusitana, iv, p. 336. 

* Citado por Milá y Fontanals, Ds lob Trobadores bn Espana, i, 
p. 132, n. 11. 

* Rbvista Lusitana, iii, p. 154. 

^ Grunoriss dbr romanischbn Philologie, I, p. 778. 

* escramentado em Rui de Pina, Crónica db El-rbi Dom Afonso v, 
Gap. oxLii. 



_— -j 



\ ^' A}»<*^ili* 1- ♦ /'R-v;*!*-!'» P->rtuyti^»e9 



e iirs:»í Tàs*:' tínAm*;*» de supor um rerbo cannentare freqiíeft- 
taiiv.:. dr: ^-.2 T »r, ifi '2 Tr . <vACicinar*. postulaiio pelo participío do 
f.:'ir> Iaísíít;. oarminabuaJus, empregado com valor de adjw- 
rÍTo. ••^.-.r ■ ".'Jvji^ que já em 1S74 foi profiosto jwr S*:»fo Bugge 
Li R:-z:iLÍi. r ? i;-.'.if*j»í wr/è/íun ; ex-ea rpere, por excer- 
{•rrr. .iidr.a:. rí-vlhcr «io mal ^^ menor, aproveitar >. 

E":> u-yrÁ 'iT.à aV.na-^i':» bastante antiga do verbo esctrmen- 
tíir em oaitelLin':- : — 'El o:r»>ssi te:;emos fror bien que l'>5 
de çs:a pueMa Espinar que puedan escarmentar e j»eÍHdrir 

escana fielar 

«.'••nKTjHí J. 0>rnu de scalpellare, com a anaptíotieo. 
To-Livia. itrLuos rtv'i*th.i do milho, substantivo, que parece ter 
dado vriitíiu a t-ste verN>. 



escarvar: esu^aryar. (^t^urchar 

^'riiivAitf iK *.*ai-'lii.a ^lichar^lis «le Vaso«iioelo> -, •:• primeiro 
«l'^s:*fs vr-iÍM.x. ij.^e j';irft>.*ni l''»rina> diíVroíites de uiu só prmiiiivo. 
«irri'.\ir->''-.ci •i».' * .r-riirp^i(ii't [ carpere, carpir. coWi^-r 
(«f. . 7 '/í «if ''.-n* f''n't /. t-íim»' >•■ admissível para um d'>s sií- 
uiíirad"S. tirar a oora das colint- ias > : segundo K«~>rtiuir '^. e>Vízr- 
ch(ir jíioviria de t r-iiuarf iart , esquartejar >. U mais uatural 
pois t\ ooiiLTa«;and«> talvez as duas opiniões, separar, o primeiro 
e^rar^vr. do segundo, equivalente a i<:tjarrar, e dar a este. bem 
como a t^itirchur. o étimo de KC»rtinir. 



* Júli'j Puy.>l y Al'>n<'», Tna |»ut?l»la cn el >iglo Xlii. í/i < lievuo RUy^' 
niqu»;>, v.-l. XI, ]•. '2'A). Era «U* l^í^í"», í. e. 1*21*7 . 

* Ki:vi.sTA LrsiTAXA. iii, 140. 

3 Lateinisch-rumanlsches WõRTERBrcH, Pa-krburn. l'^'>.'. n' 




Apostilas aos Dicionános Portugueses 407 



escarumba 

Esta palavra, que se emprega como motejo com referencia a 
negros, usou-a Rocha Peixoto: — «A torpesa genésica de vários 
portugueses que carreiam para o continente, do Brasil e da 
Africa, a progénie escarumba» — K 

O artigo em que tam estranho vocábulo recebeu foros de 
literário é de crítica, violenta mas justíssima, a um livro pu- 
blicado em França, acerca de Portugal, livro em todos os pontos 
de vista misérrimo e ridículo, infelizmente escrito por portu- 
gueses. 

escasso 



Como é sabido, este adjectivo provém do latim scarsum, 
e conseguintemente deve escrever-se com ss, e não com ç; 
cf. avesso \ aduersum. 

Como substantivo está empregado no trecho seguinte: — 
«Ha agora mais trabalho na ria, porque muitos braços se em- 
pregam na apanha de escassos» — *. Ignoro a significação. 



escrivão 



O povo costumava chamar, com bastante graça, escrivão da 
pena grande ou comprida ao varredor das ruas, que se servia 
de uma vassoura de longuíssimo cabo, e a empregava inclinando 
este sobre o ombro. 



* Portugália, i, 663. 

* CampbIo db Aveiro, de 8 de setembro de 1886. 



408 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



escusa-galés 



Espécie de embarcação: — «e destes [parós] quatro se fizeram 
e serviram depois de escusa-galés» — *. 



esganar 

Este verbo tem o significado comum de «afogar apertando 
as goelas». O particípio esganado significa «sôfrego, avarento». 

É um derivado de gana, palavra que parece não ser muito 
antiga na língua, visto que Bluteau a não incluiu no seu Voca- 

BULAKIO. 

Diz-se estar esganado com fome, e nesta locução o particípio 
esganado tem a mesma significação virtual que o substantivo 
gana, «grande apetite, grande vontade». 

A acepção primordial do verbo esganar, «afogar», porém, 
não se compadece com tal significação. Ora, como é trivial esta 
outra locução popular « sou capaz de lhe arrancar as ganas do 
comer fora^, e nela inquestiouávelmente a palavra gana quere 
dizer goela: é desta acepção que provém o significado de e^gamr 
«apertar as goelas». Em castelhano desganar significa «tirara 
vontade». 

A palavra gana é de orijem germânica, muito antiga em 
castelhano, onde ainda hoje corresponde a «vontade, desejo», e 
de Castela provavelmente foi trazida a Portugal. 

De esganar se derivou esgana «doença nos cães». Cf esga- 
niçar-se, era castelhano desganitarse. 



1 Padre Manuel Bemárdez « Descriyrio da cidade de Columbo » [Ceilão], 

in BlBL. DE CLÁSSICOS PORTUGUEZBS, vol. XLI, p. 92. 



Apostilas aos Dicimiârios Portugueses 409 



esguiçaro, esguizaro 

Estas duas formas correspondiam antes a suíço, José Leite 
de Vasconcelos entende serem de procedência italiana *, e em 
toscano se diz realmente svizzero ; é possível que nalgum dialecto, 
sghizzero. Os suíços a si próprios se chamam Schwizer, pronun- 
ciando quási xevitcer, 

Suiça, como certo talhe de barba, é o adjectivo suíça subs- 
tantivado, com elipse do substantivo barba. 



esguicho 

— «Bateiras de pesca. Ha três typos: o da bateira de Aveiro 
e nhavo.. . e os dois typos murtozeiros: a labrega e a chin- 
chorra (q. v,) a que também chamam esguicho. Estas duas 
diíterem uma da outra em ser a segunda maior e muito mais 
arqueada e levantada de proa e ré, approximando-se muito dos 
barcos do mar da Torreira » — -. 



esmola, esnoga 

O étimo de esmola é sem dúvida o latim eleemosvua, vocá- 
bulo enteiramente grego, elekmosúné, « compaixão, dó » \ eleéõ, 
«ter dó>. Os trâmites por onde passou tam longo vocábulo para 
chegar ao trissílabo actual foram: elemosna, elmosna, (almosna 
no LivBO DE Alexandbe: cf cast. limosna), esmolna, esmonla 
(cf. moleiro j monleiro \ molinarium). Da forma esmolna há 
documento antigo, citado no Suplemento ao Novo Dicoionábio. 



* O Archboloqo português, V, p. 3. 

2 Luís de Magalhães, Os barcos da ria db Aveiro, in Portnga- 



410 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Transformações análogas sofreu sinagoga, para chegar à forma 
medieval esiioga, ainda hoje em dia usada pelos judeus portu- 
gueses: sinagoga j esnaoga \ esnoga. 



espada, espadela, espadelada, espadilha, espadeiro, espadeirar: 

espádua; espaldar; espátula; espatela 

Espada é o latim spatha, em que o th foi tratado como se 
fosse t *. Deste vocábulo se derivou espadela, que além de desig- 
nar uma espécie de remo, a que os franceses chamam pagaie, 
é o nome de um instrumento agrícola: — <A espadela é uma 
espécie de podoa de madeira, em que se distingue a cota, o fio 
ou gume e o piniho> — *. 

Espadelada procede de espadelar, e este de espadela. Espa- 
dilha, além de ser o nome do ás de espadas em vários jogos 
de cartas, denota uma ferrameutíi própria de tecelão: — «uma 
regoa de madeira chamada espadilha* — ^. •Serve para formara 
urdidura. Deve de ser castelhauisrao em ambos os sentidos. 

Xão sào sómcMite ôstes os derivados de espada, ou dos seus 
derivados; liá muitos mais, que podem ver-se nos dicioDários. 
Cm dôles é v^padelro, < fabricante de espadas >. 

De espadeiro, prouunciado espadeiro, com a surdo na 2.* sí- 
laba, deiliinim os mesmos dicionários derivar-se espadeirada. 
com a aberto átono da dita sílaba, e que não significa o que a 
sua formação exijiria, a ser verdadeira a derivação, «pancada 
dada 2)eIo espadeiro, ou rom um espadeiro, ou espadeira, ou 
num espadeiro ou espadeira j>, (Cf. cutilada, catanada, pank- 
lada), mas pancada dada com a espada. (íDe onde veio pois a 
sílaba iutercalar -eir-, visto não dizermos espadada, e o fl ^^ 
aberto em espadeirar, espadeirada, sendo surdo em espculei^o- 

O VocABiLÁRio POBTUGUEZ E LATINO de Blutcau resolve estó. 



^ Ortografia Nacional, Lisboa, líKM, p. 63. 
2 T Portugália, i, 370-373. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 411 



como tantas outras dúvidas. Nele não está rejistado o substan- 
tivo espadeirada, mas unicamente espaldeirad^, que é definido: 
— «Quando se dá de prancha com a espada» — . Deriva-se pois 
espaldeirar^ espalãeirada de espalda, < ombros, costas > ; e espalr 
ãeirada pressupõe um primitivo esjyaldeira, ou espaldeiro, deri- 
vado, como espaldar, de espalda, «espádua(s)>, e também en- 
côsto, como cadeira de espaldar, que vem no mesmo Vocabulário. 
Pela semelhança de espalda com espada, suprimiu-se depois o l, 
que os diferençava, no derivado espadeirada, conservando-se 
aberto o a, como teria de sê-lo antes de l da mesma sílaba, fosse 
tónico, ou átono; cf. falta, faltar com fala, falar. 

E de notar que espádtia, espalda são derivados de spathula, 
deminutivo de spatha, e portanto orijináriamente o mesmo vo- 
cábulo. Assim, espádua \ spathula, com perda do l intervocá- 
lico (cf. mágoa de macula); espalda \ spaluta, metátese de 
spathula, como espaldar de spalutare ^ 

O outro derivado artificial e recentíssimo de spathula, que 
já dera espátula, é espatelu: — «A espatela é uma taboinha inof- 
fensiva, que serve para abaixar a lingua, afim de melhor se poder 
ver a garganta*— 2. 

espelir 

No Minho, «expirar, morrer >. 



espera (1) 

Forma antiga correspondente a esfera. [V. espera, na « Orto- 
grafia Nacional», do autor] ^. Formado do sphaera latino, lido 
spera. Foi também o nome de uma peça de artelharia *. 



* Bbvista. Lusitana, iii, p. 286. 
» O Dia, de 2 de jnlho de 1904. 
5 Lisboa, 1904, p. 63-05. 



«•1. 



412 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



espera (2), esperista 

Substantivo rizotónico do verbo esperar. Tem vários significa- 
dos, e entre eles, é o nome de uma peça do tear, espera da roda 
do órgão do paiio ^ 

— «Todas as vezes que entre nós se caça á espera e esta é 
sempre feita a uma determinada espécie, o primeiro cuidado do 
caçador, para ser bera succedido, é impedir por todos os meios 
possiveis que seja notada a sua presença. . . nesse caso o espe- 
rista, nome dado ao caçador de espera, construe... barracas 
de ramos, em que se embusca» — *. 

O vocábulo espera foi também usado antigamente no sentido 
de «lugar onde se espera >, «prazo dado», «sitio ajustado para 
encontro » . 

Nesta acepção foi imposto a um cabo na Terra Nova, por 
ocasião da viajem de Corte Keal, Cabo da Espera, denominação 
que os ingleses converteram em Cape Spear, «cabo da lança». 
Cumpre advertir que o vocábulo inglês spear^ actualmente pro- 
nunciado spiar, era liá três séculos ainda pronunciado spêar. 
Outras denominações dadas pelos portugueses a acidentes de 
terreno naquelas parajens foram igualmente alteradas, para que 
formassem sentido em inglês, tais como Cape Race, por Cabo 
Ita.^o, Ferryland por Farelhâo, etc. ^. 

esperto, espertar, espertador 

O adjectivo esperto, que tem muitas acepções, mais ou menos 
relacionadas com o seu étimo latino expertum, particípio pas- 



1 Portugália, i, p. 374. 

2 José Pinho, Ethnographia Amarantina, A CaçA, in Portugá- 
lia . II, \). O'"). 

3 V, H. P. Biggar, The voyages of thb Cabota and of thb 
Corte Keals to Xorth America and Greenlaxd, 1497-1503, tw *í^* 
vue Hisi)anique>, x, p. 587, iiutas. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 413 



sado passivo de expergere, «acordar», ou com o verbo espei'- 
tar, teve um significado muito especial, que vemos apontado no 
seguinte trecho: — «Em me dando autorisaçâo para lhes applicar 
uns tratos espertos, eu os farei falar» — *. 

Espertador é o nome que antes se dava, e o povo ainda dá, 
ao que os cultos chamam despertador «relojo com carrilhão 
para acordar as pessoas a horas certas». — «Um relojio de horas, 
com seu espertador» — *. 



espevitar, espevitado 

Espevitar uma vela ou torcida é «cortar-lhe o murrão>. 
E como a luz depois dessa operação fica mais viva, dizemos que 
uma pessoa é espevitada quando é esperta em demasia, e língua 
espevitada é «língua desembaraçada». Esta última expressão 
não ó moderna, pois a vemos em texto do xvii século: — «Res- 
pondeu com grande esperteza e língua muito espevitada» — ^, 



espiar, espear 

Como o verbo se conjuga nas formas rizo tónicas com i, e 
não et, não há remédio senão escrevê-lo sempre com i. Todavia, 
vê-se que houve confusão com os verbos em -tar, como aconte- 
ceu com criar j creare (q. v.). 

Deu-se portanto confusão entre estes dois verbos, de tam 
diferente significação, pois o primeiro, de orijem germânica, 
quere dizer «vijiar», e o segundo, conforme D. Carolina Michaè- 



f António de Campos, O Marqubz db Pombal. 

* António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia db Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 80. 

' António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 24. 



414 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

lis de Vasconcelos, derivado do latim ex-panare j panum *, 
designa — «acabar de fiar a estriga que cinjia a roca» — , se- 
gundo a definição do Novo Diccionâkio. 

O latim panus, queria dizer — «a canela de fiado, ou armeo 
de lã preparada para se fiar > — ^. De ex-panare proviria espêar 
e depois espear, que deveria conjugar-se espeiu, e não, espia. 
Todavia, espmr, neste sentido, poderia também ser espigar: 
cf. liar j ligare. 

espiga, espigo, espigão, espigueiro 

O primeiro destes vocábulos designa a parte terminal da 
haste de certas gramíneas em que se conteem os grãos, as se- 
mentes; as do milho chamam-se propriamente maçarocas, termo 
que também se aplica ao linho que está enrolado na roca. O ter- 
ceiro vocábulo, forma aumentativa, quere dizer uma ponta agu- 
çada que se crava em qualquer parte para segurar a peça a que 
pertence. Neste sentido vemos a forma espigo, não rejistada nos 
dicionários, empregada no trecho seguinte: — «no centro da [mó] 
inferior ha um espigo de ferro onde entra a segurelha [q. vj de 
madeira » — . 

E provável que espigo não seja propriamente a forma mas- 
culina, correspondente à femenina espiga, formação aliás muito 
usual (cf. cesto e cesta), mas sim, o latim spiculum, deminu- 
tivo de spicitm, j spica, que designava em latim o ferrão de 
alguns insectos, do lacrau, etc. As formas intermediárias foram 
spigiiliim, espigoo: cf. bágo(o), de baculum. 

De espiga se derivaram vários vocábulos, tais como esp- 
gueiro, nome que também se dá no norte ao canastro (q. v.) ou 
caniço, mormente se é feito de pedra e cal e nào de verga ou 
canas. 



1 Revista Lusitana, iii, p. 158. 

' J. António Ramalho, Magnum lexicon Latinum et Lusitani^'^^' 

Lisboa, 1810. 



Apostilas aos Dicionários Poi-tugueses 415 



espilrar, espirrar 

primeira destas foimas é popular, e mais conforme com a 
lojia, que é uma forma latina expirulare por expilu- 

! pilula (cf. pírola, que tem a mesma orijem). A forma 
atamente anterior a espilrar é espirlar (cf. melro j meru- 
e hilro \ birlo, que é também j pilulum). Espirrar pro- 
le assimilação do / ao r seguinte. 

espinho, espinha 

spinho é o latim spinum (forma de transição espio); espi- 

y plural spina, tomado como singular femenino, que tem 

acepções principais: o «arcabouço ósseo dos peixes», «bor- 

». No norte, para particularijíar este sentido, diz-se espi- ^/ 

brava: — «Nasceu-lhe uma espinha brava no hombro di- 
i 

espojar, espojo, espojinho 

pronúncia popular é espçjár, com o fechado átono, que se 
rte em aberto, quando é tónico: espojo, espoja, etc. Oscar 
ing ^ dá como étimo a este vocábulo, que signiJSca «rebo- 

no pó, como faz o jumento », e daí, « arrastar-se pelo chão », 
iare j exspodiare j spodium, na significação de «cinza». 
inho, que poderia ser um deminuitivo de espojo, significa 
oínho de vento que levanta pó»: — «Faltava, porém, uma 

mais convincente de que o pó elevado no valle do Orinoco 
espojinhos (como aqui chamamos no Alemtejo aos remoinhos 
quenos cyclones que aspiram o pó)» — ^ 



Ricardo Jorje, A pestb bubonica no Porto, p. 4. 

Boletim da Sociedade de Gbographia de Lisboa, Série 21. 

O Século, de 10 do março de 1902. 



416 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



espreitar 

Este verbo, usado em português somente, que eu saiba, d^ 
riva-o D. Carolina Michaélis de Vasconcelos de explic'tare 
por explicitarei Confronte-se empreita, «tecido de palma», de 
implic'ta, por implicita, que confirma a etimolojia; cf. ainda 
estreito j strictum *. 



espremedicinho 

Este singular deminutivo, de espretnediço \ espremido \ es- 
previer, aplica-se a um animal mais pequeno e enfezado que 
outros da sua espécie, em meio dos quais vive. 



esquartejar, esquartejadouro 

Este verbo quei^ dizer partir em quatro quartos, « fazer em 
postas >. Singularmeute o emprega António Francisco Cardim. 
num sentido que é um contra-senso, e é natural que lhe uâ" 
ocorresse a orijem da palavra: — < ficou o império esquartejado 
em três partes » — -. 

O substantivo esquartejadouro, feito à semelhança do éqvAn- 
rissage francês, é recente, mas perfeitamente admissível: 

— «O sr. Martinho Guimarães, vereador da fazenda munici- 
pal, propoz aos collegas que o transporte para os esquartejadoii- 
ros, dos animaes que morram na via publica, seja feito em car- 
roças da camará, que não tenham outra applicaçào» — ^. 

O termo era já oficial, visto constar do Decreto de 7 de ft- 



1 Kevista Lusitana, iii, p. 140. 

* Batalhas da Companhia db Jesus, Lisboa, 1894, p. 217 

3 O Economista, de 24 de março de 1893. 



Apostilas aos Dicionários PorUigueses 417 

vereiro de 1887. Ainda bem que o estrambótico équarrissage 
morreu à nascença! 



esquilo, esquio 

O nome deste formoso animal, que suponho não existe 
actualmente no nosso país, deve ter a mesma orijem que o fran- 
cês écíireuil, isto é, em latim scutrulus, sciiirolus, derivado 
de sei urus, que era o seu nome latino^ do grego skIoubos; de 
outro modo seria extraordinário que o sei- latino produzisse es- 
qui-, A forma é em todo o caso singular, convindo advertir que 
Gil Vicente escreveu esquio, e nào, esquilo: 



Este nâo é furáo, 

Nem gineta, nem esquio, 

É um bichinho vadio *. 



Em castelhano chama-se-lhe ardilla, mas também se disse 
esquilo, ([M^ pelo l é mais espanhol, que português. 



esquina, esquineta 

Como nome de jogo, nào colijido nos dicionários, é o francês 
lansquenet \ alemão lands-knecht, «soldado de milícias, e nome 
de jogo». V. Júlio Moreira, in Revista Lusitana, iv, páj. 267, 
onde vem a abonação de Camilo Castelo Branco: — «Arranchava 
com vadios nas noitadas das tavernas onde se jogava a esquineta 
e monte» — . Parece a J. Moreira ter havido a mui provável in- 
fluencia da palavra esquina. 



# 



* Auto das Fadas. 



41 ^ Apo^iia* 4to9 Diciomárioê Purim^Heses 



esquínante, esquinote 

— < fiara ap*ertar o fundo das vasilhas oa desengrossa-las 
em}ireeani 'os oleiros] um pau aguçado, o esquinote (Baião) ou 
e^quinanft (Villa Secoa)» — '. 



essa, eça 

.} úlio Cornu, nos < Elementos de Filolojia Românica » *, e náo 
sei >e já antes dele D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, in- 
dicou a etimol>jia deste vocábulo, modernamente escrito eça, isto 
tf, errado, como tantos outros. Ueriva-se ele do latim ersa, fe- 
menino do participio passivo * ersum, de erigere, e significa 
portanto * erguida >. Com efeito, sào numerosos os vocábulos em 
que a y.< latino corresponde ífí? em português: tais sào traresso, 
j»r<^t'>a. 2't'<^'(yo (também erradamente escrito pecego), do latim 
transuersa, persona, (malum) persicum, etc. 

Ft-rnain MéuJoz Pinto -^ escreveu aquela palavra com ec. 
(<>>vY/ = (>>Y/; — huui ca-lafalso. . . e no meio delle hua tribuna 
<lc «lozc dfirraos com hua cessa quasi ao nosso modo, ...>—• 
A ra^fio desta escrita está em ijue era necessário diferenvar o 
VMcái»iilo do ícmcnino do pronome issc, es^^a. que uo seu teiupo. 
coíiio ainda hoje no norte do reino, era pronunciado ê.<<(i. s?m a 
inetaf«>nia do i' em è. ijue se manifestou ao depois no sul, e no 
centro, de onde era natural Pinto. 

( ) a|>elido Enf. porém, tem de certo outra orijem, e na Pe- 
re(;rixa(;ao cap. cciii'^ eucoutra-se escrito com ç, difereui^^ado 



^ K<».lia Pvixot), SOIJKEVIVEXCIA DA PRIMITIVA RODA DE 0LEIR<^ 

KM PoRTrciAL, i)i Portut:alia, ii, p. 7ò. 

- Orindris.s der romaxiscuen Philologie, 1, p. 70*2. 
^ Peregrina(,'Âo, Lisboa, 1S30, cap. clxvii. 



Apostilas aos dicionários Portugueses 410 



portanto daquele outro vocábulo. Com ç o escreveram igualmente 
João de Karros e Diogo do Couto, nas Décadas da Asta *. 



estandal 

— Nunca tantos estandiios 
Ardero' ant^ o seu altir. 

Estes versos fazem parte de uma poesia do «Cancioneiro da 
Vaticana> (a 807), transcrita por Sousa Viterbo no seu artigo 

As CANDEIAS NA INDUSTRIA E NAS TRADIÇÕES POPULARES POR- 

TUGUEZAS *. Parece designar um «renque de velas acesas». 



es!anlieira 

— «Nas guirlandas e estanheiras lá se vêem os serviços de 
cobre, arame, estanho, ferro e barro» — ^. É um cabide para 
louça, o que em Espanha se chama efipetera, em Trás-os-Mon- 
tes espeteira *. 

estarim 

E um termo de jíria, que significa «prisão, calabouço». 
No calo, ou dialecto dos ciganos de Espanha, estarão quere 
dizer «preso», estar ihel, «prisão». 



* Já pablicado este artigo na < Kcvista Lusitana >, vii, líKX)-1901, donde 
é extraído com leves alterações. F. Méndez Pinto nasceu em Montemor-o-Velho, 
e faleceu em Almada. 

• tn Portugália, I, p. 368. 

> José da Silva Picío, Ethnographia do Alto Alemtejo, xn Por- 
tugália, I, p. 538. 

*' Suplemento ao Novo Diccionário. 



420 A]>o9tila» aoê Dicionàrioê Forhtgue9e» 



estatelado 

A este particípio adjectivado de um verbo esfatelar-se dá o 
Novo DiccioxÂRio orijem incerta. Com pouca probabilidade o 
explica D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos pela forma popular 
de estátua, estatuía, de sorte que estatelado estaria ^t eMa- 
talado. Seria no entanto singular que um verbo, cuja significa- 
ção é «ficar estendido», fosse tirado de um nome que quere 
dizer «figura erecta, erguida, em pé> *. Mesmo para o poro, 
que alterou estátua em estatuía, esta última forma designa sem- 
pre «figura de pessoa, em pé> e não, «estendida no chão». 
A etimolojia, pois. está muito lonje de ser evidente. 



estatuário, estatutário 



Xenlium destes adjectivos é português, como derivado de 
estatuto. O j>rimelro, a que infelizmente deu cabida o Novo Dic- 
cioNÀRio no Snplemeuto, vc-se bem ser um dispamte, não sei 
por quem inventado, pois estatuário deriva-se de estátua, e uâo 
de estatuto: o segundo é cópia do francês statutaire. 

Se se quere à viva força fabricar um adjectivo correlato a 
estatuto, deve ele ser estatuto [ statutus,-a,-um, latino, ou 
estatucional: cf. constitucional: J constituição: constitutus. 

Passa-se perfeitamente, porém, sem tal adjectivo, porque não 
é de rigor esta fabricação de adjectivos, que caracteriza moder- 
namente o estilo artificial e aspérrimo de certos escritores, moda 
que deu orijem ao célebre adjectivo mundial, e ainda ao mais 
célebre estadoal! 



^ Revista Lusitana, iii, p. 158. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 421 



esteira, esteiralho 

O étimo mais evidente é o latim storea; mas nâo se explica 
por êle o é? da palavra portuguesa, a uào ser que se suponha, o 
que é violento, uma orijem imediata de um castelhano estuara; 
cí. frente \ fruente \ frontem (?). 

J. Leite Vasconcelos supõe stataria, por haplolojia staria ^ 
com certa probabilidade, pois se justificaria o estera castelhano, 
igualmente. 

O derivado esteiralho vem assim descrito nas Notas ethno- 
OBAPHiCAS DO CONCELHO DA FiGUEiBA -: — < Efiteiràlhos — 
Apparelhos empregados para a pesca da tainha e outros peixes 
saltadores; consistem n'uma porção de esteiras de bunho, liga- 
das umas ás outras > — . O termo não está colijido nos dicioná- 
rios. 

estepe 

Esta palavra é russa e entrou em moda, para designar uma 
extensíssima planície naquele país. Não era necessária, mas não 
é muito inconveniente. K claro que a foram buscar ao francês 
sfeppe os escritores portugueses que a empregaram, com excep- 
ção de um único 3, que sabe perfeitamente russo e a acomodou 
a português com a forma estepa, como em castelhano ela foi 
alterada. Cumpre, porém advertir que a palavra russa é stepi, 
pronunciada quási fttiépi, que é femenina e tem um único p, 
e nâo os dois com que os franceses a enfeitaram, sem motivo 
nenhum.. Assim teremos de dizer em português ou a estepe, ou a 
esiepa, se se prefere: pela minha parte, agrada-me mais a estepe; 
de modo nenhum o esteppe, que é um barbarismo. 



* Revista Lusitana, iii, p. 2G6, nota. 
» in Portugália, i, p. 382. 
' Zdfimo Consiglieri Pedroso. 



[±* A^'*tiliê *UM DicuMkãrif^ Burhêgmaia 



estiar * 



Em Bnig;àova estiar o gado é < p^lo à sombra» 



eslojeiro. estojeira 

É um Deolojismo muito bem feito, para significar o &bricaiite 
ou a fabricante de e.<tojos: — «quando falta trabalho para as 
«juntadeiras. estas vão auxiliar as gracateiras, luveiras, e esto- 
jeiras> — '. 

estou-fhica 

— <k Pintada, GaUinha da índia, Gallifiha da Gainè, 
Gallinha da Xumida [aliás Xumidia], Estou jrata ou Jfr- 
leagris, é uma curiosa ave originária da Afric-a, pertencente à 
família dos ffanináceos> — ^. 

O nome provém-lhe de um grito particular, que é a voz dela. 



Estranjeirismos 

Em H.XJ2 publicou, pela Livraria editora Tavares Cardoso 
& Irmào. Cândido de Figueiredo um livro intitulado Os Estran- 
geirismos. 

Esses estranjeirismos são certos vocábulos e locuções em va- 
rias línguas, entre elas a latina, que a meúdo se intercalam em 
texto português, elucidados com explicações que aclaram o sen- 
tido deles. 

Não é desses estranjeirismos que aqui vou dar exemplí*^ 



> Asili»-( )íicina de Santo António, \n O Seoflo, de 21 de julho \' ^^' 
2 (jazbta das Aldeias, de 18 de niar^o de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 423 

colhidos em leitura de periódicos principalmente; é dos que sâo 
censuráveis por inúteis, e que, principalmente de locução, fervi- 
lham na escrita hodierna, em razão das traduções feitas à pressa 
por pessoas inábeis, que tendo pouca leitura portuguesa, e igno- 
rando a índole da língua pátria e o tesouro da sua linguajem, 
mesmo da trivial de que se serve o povo, utilizam a torto e a 
direito expressões estranhas, sem sombras de propriedade ou ne- 
cessidade. 

Quando tais estranjeirismos eram de vocábulos, José Inácio 
Roquete assinalava-os por uma mãozinha no seu Diccionario S 
sentenciando-os com um comentário, mais ou menos severo, con- 
soante o seu emprego menos ou mais justificado. 

Principiarei pela palavra estranjeiro, 

EnÍTOu já, até na linguajem oficial, a locução elíptica ir ao 
estranjeiro, mandar vir do estranjeiro, etc. E um galicismo, 
pois estranjeiro, como substantivo, sem mais epíteto, quere dizer 
«o indivíduo estranjeiro, que pertence a outra nacionalidade». 
Em português dizia-se ir fora (do reino), mandar vir de fora, 
e pode, com maior clareza e menos vernaculidade dizer-se: ir a 
terras estranjeiras, mandar vir de i)aís(es) estranjeiro(s), etc. 

Apontarei mais alguns estranjeirismos, corrijindo-os. 

1. — Vinho de Bucellas, é tudo que ha de melhor—*. 

Este galicismo foi, creio, introduzido pelo gracioso comedid- 
grafo Gervásio Lobato, que por outra parte era bem português e 
vernáculo nas suas engraçadas peças de teatro. A correcção é — 
quanto pode ser bom. 

— Cuja ascendência era tudo o que ha de mais humilde e 
ignorado — ^ Correcção: 

— cuja ascendência era, quanto possível, humilde e igno- 
rada — . 

2. — Com uma pneumonia tem guardado o leito a Snr* 



1 Paris, 1848. 

• O Sbculo, de 14 de setembro de 1902. 

' ib,, de 16 de novembro de 1902. 



424 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



D. Maríanfia da Conceição Duarte — '. Depreeude-se que arre- 
cadou, ou mandou arrecadar o leito a tal senhora, e que passou 
a dormir em cama-de-chào; ou entào, que fez iim solene dispa- 
rate, mandando guardar a cama, quando mais precisava dela. 
É um galicismo, a todos os aspectos ridículo, pois nem leito éem 
francês Jit, mas 6o/> de lit, quando é de madeii*a, nem em tal 
sentido se diz em português guardar: o que se diz é ficou de rama. 

3. — já abandonou o leito — , quere dizer em português, «já 
se nào serve dele». A correcção é:já se levanta. 

4. — .4 faltn de ioda e qualquer informarão nào permitte 
ajuntar credito — *. Crédito nào se ajunta, o que se ajunta é 
dinheiro, quando êle sobeja, o que para quási todas as pessoas é 
cousa rara. Correcção: nào permite dar credito. Traduziu-se mal 
o francês ajouter foi. 

5. — engajadas... a^ forças •*: é o francês engagées: em 
português diz-se empenhada.^, travada^^i. 

Vou em seguimento apontar uns poucos de anglicismos, co- 
lhidos na mesma folha periódica, o ano passado, a denunciarem 
tradução de inglês. 

(). — as' mal>: sanguíneos ni><.<(>phi1os: — em iuglês .^f/n;/?//m'. 
qu»' »iU(»ro (liziT - espeniuçados -. 

7. —.1 Fnfuni r a Iwihiterra tinliam arranjado — (iii«ílt*'> 
(írniHqcd), isto (*, combinado, 

S. — O inufuJíio jdpoiícz co)i>itlfue um plieno)n^no tão infeH>f> 
iÚK/iullr jiofo, qiic dei. rd de ser (tprnns objecto d*uma obsenv- 
çào — . Há a(jui um an<rlicisiiio de siiitasse, que torna absoluta- 
mente ininielijível o conceito. 

U. -- e sobre elles- [os factos eousuiinvlos] nejocciem com '» 
Japão, (ifiiorando as pretensões da Rússia (inglês iquorini//' 
quere dizer 'pondo de parte, desatendendo >. Em portujrnèá 
i'/norar signitica * desconhecer, nào saber ^. 



1 ih. lio 20 de outubro de líX)2. 

- O Dia, de 25 de junho de li>04. 

3 Diário de Noticias, de 27 de agosto de 10O4. 



Apostila aos Dicionários Porttigueses 425 



estregar, esfregar 

O Novo DiccioNÁRio dá, como inserção própria dele, o 
erbo estregar, com a significação de — < transferir para um pa- 
el, tábua, etc, com uma boneca embebida em pó de carvão, (ura 
esenho picado)» — . 

Como étimo oferece-nos em dúvida extergar, do latim ter- 
um; o extergar, porém náo figura nem no dicionário, nem no 
uplemento. 

A ediçào dos Lusíadas da «Bibliotheca Portugueza», numa 
Ota à estanca 39 do vi Canto do poema, diz-nos o seguinte: 
-^Esiregando, 1.* e 2.* ed. Mas he visivelmente erro de 
npressào, porque em nenhum author clássico, nem no mesmo 
!amôes [como se ele não fora o primeiro clássico], fora deste 
)gar, se encontra similhante verbo; e quando o poeta o trouxesse 
o latim extergere, ou do castelhano esfergar, por isso mesmo 
ue o introduzia de novo, escreveria esfergar e náo esfregar, a 
im de ser entendido. Emendamos por tanto e>ifregando, como se 
ê na ed. de F. de Sousa > — . 

Sempre foram muito divertidos estes comentadores, que re- 
olvem as dúvidas que teem por meio de raciocínios seus, e 
mendam os textos por conta do autor, com a mais suprema 
em-cerimónia. 

Xa escrupulosa ediçào de F. Adolfo Coelho ^ a referida es- 
ança veio impressa do seguinte modo: 

— Vencidos vem do sono e mal despertos, 

Bocijando a miado, se encostat*ào 

Pellas antenas, todos mal cubertos 

Contra os agudos ares que assoprarão ; 

Os olhos contra seu querer abertos, 

Mas esfregando [estregando], os membros estirat^âo : 

Remédio contra o sono buscar querem, 

Historias contão, casos mil referem. 



Do Diário db Noticias, 1880, distribuição gratuita. 



42^ ApoatUas aos Dicionárioê Púrtugnesea 



Teve o douto professor o cuidado de pôr ambos os vocábuloN 
mas infelizmente deu a preferencia a esfregar, que deveria estar 
entre o parêntese, e estregar, fora dele. 

Quem escreveu a nota que citei, e cuja autoria nâo sei a 
quem }>erteace de direito, ou de torto, enganou-se no seu caá- 
telliano, pois esfregar, e nào, eMergar. é que se diz e se escreve 
nesta lin&rua, e é um freqiientativo ou de exfergare \ exter- 
gere, «apagar, desvacecer>, ou de exterere, «roçar», isto é. 
ejíericare, mais provável uente do primeiro, nào obstante 
várias opini'>es em contrário '. Quanto à metát^se do r de -ter-, 
é tau freqiienie, que nào vale a pena justitici-la: cf. prejuiio 
e perjtiiio, apretar, castelhano, e apertar, português. 

r,\\ quem disse ao anotador que o vocábulo seria neolojismo, 
se todos os dias termos vulgares passam a lit-erários? 

O português esfregar representa o latim ex-fricare, na 
Beira-Haixa roçar. Hm castelhano existe f regar, mas não, ^^'- 
fregar, 

estreloifo 

Km S. Miguel <los Ai^nres sigriíica — «rumor rei>entiiJO e 
forte —-. 

estromento 

K a forma antiga de InMrumenfOy « documento >. 
K já da baixa latiiiidade, strumentum ^ 



* y. Kíirting, Latbinisch-romanischks Wõrterbuch, IS91. n. 
2948, 30:31 e TSls! 

« O Século, de 5 do julho de 1901. 

3 JaHKESBERIOHT UBBR DIE FORTSCHRITTE DER ROMANISCHBN*"^^' 

LOLOGiB, VI, I, p. 119; Rui de Pina, Cróxica de El-Rei Dom Afoss»)^' 
cap. III. 



Apostilas aos DicionáHos Portugueses 427 



esturião, esturjão 

— «Mandaram hontem um magnifico esturjão, ou esturião, 
lais vulgarmente conhecido por sôlho-rei» — *. 



etário 



Extravagante adjectivo: — «Não ha edades poupadas; as victi- 
aas vêem de todas as classes etárias, desde os 2 ânuos até 
08 80» — ^. áOnde iria o autor buscá-lo? 



euplócomo, euplócamo 

O Novo DicciONÁBio incluiu a primeira destas formas, defi- 
lindo-a: — «que tem cabêllo fino e encaracolado» — . No Suple- 
ttento emendou euplócomo em euplócamo, que fora a forma por 
aim empregada no capítulo Linguas e Baças que escrevi para 
s Elementos de Geoqbaphia Gebal, de M. Ferreira Deus- 
lado ^, seguindo a classificação de Frederico MúUer *, que adop- 
ara esta expressão. O epíteto é homérico euplókamos, «com 
>onitos caracóis (de cabelo)». 



e(u)scaldunac, escalduno, escaldune 

A primeira destas formas vem no Novo DiccionAbio com o 
( na primeira sílaba, que alguns dialectos vasconços rejeitam: 



» O Século, de 20 de maio de 1900. 

* Ricardo Jorje, A pbstb bubonica no Porto, 1900, p. 55. 
s Lisboa, 1891, p. 214. 

* Grundriss dbr Sprachwissbnschaft, 1, 1.* part^». 



\'l^ Ajtofitifti'* íi»w Dicionários PortugneffrJS 



siirnifioa. iiào. como diz o mesmo dicionário, 'vasconço», porqw 
t*'ste adjf ctivo se uà«) aplica às pessoas, mas u lÍDgua ou ao que 
rom fia si» relaciona, como literatura, etc, era castelhano ra*- 
c-ttuce: mas sim < vascongado», aplicável às pessoas, lugares, 
{•r^viiioias. eic como o vascongado castelhano. Os vascongados 
rhàin.in:-^»' a si pn'»i»rios efu^acaUlunao, no singular eíuHcahIuná, 
i'Mr.«^ Suii*it«» ilfterminado de verbo intransitivo, e(u).<ealdum, 
i .'!r.' sujfito de vt-rho transitivo. Ora sendo á, ác, 'av o artigo 
il» riv.Lil», Saj-rimido t^sie. tira a forma efu}.'ical(iun plural eu^cn^- 
•' .. -1. >^. «luc são as usuais castelhanas, mais espanholadas eiiscal' 
. ,1 . r i<,.it<íunn>\ Devemos, pois. dizer em português €,^cahlHn^' 
.■ ; :v : ■Vi/íc. ou t<c:ihium. plural e^eoMuns: parece-me prefe- 
r.^ii .1 ;:i:!uiia tias trê<. A linirua. o ra.s*ronro. chamam-lhew- 
. j :. i- vN r.-.-isos antigt^s escritores deuominavam-na hisvainho. 
V :-. '< •..\N^..:i:;alos ^nWfiinhoa, transferindo o nome de um Jia- 
liv:o t *' .;.• ii!ua província a todo o domínio da Kuitcalerria. 
*K\ :c;:m -:• < va^c.»niradi'S. as Va<n»ug(ulas. como dizt-m os espa- 
:'.•! ;-. Os :*:v.:í» cs»'< rhamam-lhes res]»ectivamente /í'>' Ba>'quf^\ 

V i: •: '. ' ;i ■:■' >i;'-^!iiMtiv«» rd.sajrfi está por averiíriíar. e 

\.- : ■> -.r •. v:l\' »:n n^ju-lir a que lV»i proposta a in«*Mlo por 

vi , :•■.. ■,. H .*'..■■ lir -. lío M'U notahilíssimo «escrito jntitiihwo 

.,-._.. t- .1 .-.i .i.'S ha'«iiant»^s primitivos das Ks[»aiilia> , 

. . '. .-. '.'.1 «If vr.w \i"rl»> rti^íi. roui a si^rniíiravà'» «i»" 

'.....■.. . » ; . i\:t:-;«' lalar . pois não é natural ijue (jual- 

^;..i; -N i. ^.;.' .>>' .: <.;.i úihi M«»|»na coin sein<'lliaiite ii"iiH'. 

A- ". .•: ..> ; -:..vv.\ :;.,<. i<Ti« %\ ;i rastvlliana e à francesa, comi a^ 

i ':: i ■••.:.í :■'. »]ia:P;a:n ms iMiscaMun«»s cnltnt. «jH»' 



«; ...i .'^ i 



i»*:.:.«i:i.t H/.:i:'''. i i:. >u'!:irioa, ia línirua) da terra*. jM»r oposi- 



r.i» a Miiia. a r'..Nià:a ou \asoonva. 



• \V .1 \ \v. K\-. lHvM'lt»\N VIKK H\<vírH-FRAN'V AIS. Paris. l'^!-). 
- \N :'.:;. > . \ :; H:'...l« I ;r. Tki kinví pkr rNTERST'('HrNOKS íbeR 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 429 



extiuguidor (extintor) 

E um ueolojismo, que poderia ser substituído por extintor: 

— «No domingo ás 3 horas da tarde realisa-se no Terreiro do 

Paço a experiência dos extinguidores Leixis [sic^ aliás, Lewis] 
do sr. Corloden Koman» — '. 



facha 



— «Apenas subsistiram [os brandòis], a^iravés de todo o 
progresso industrial... as lumieiras de colino que de noite 
guiam nos caminhos e logares escuros e aiuda as fachas com 
que, para certa pesca, se desvairam os cardumes (Cavado, Tâ- 
mega, etc.)» — ^. 

Facha, femeniao interessante de facho, que quási não é 
usado pelo povo, equivale aqui ao que também se chama can- 
deio, masculino de cundeia \ latim candeia, «vela». 

A palavra facha procede do latim falc(u)la, e o cl latino 
produáu eh português, como se fosse inicial (cf. chave ! cla- 
uem), por estar amparado pelo / (cf. abelha [ apic(u)la). 
Cumpre diferençar na escrita, como no norte diferençam na 
pronúncia, esta palavra, do vocábulo fa:ca, «cinta», de faseia: 
cf. feixe j fascem. 

fachis 

É muito conhecido este termo em Macau, pois designa as 
duas varetas com que os chineses comem, e que lhes servem de 
garfo. É palavra chinesa de Cantão, fa-chi, que passou ao japo- 



* O Economista, de 26 de outubro de 1886. 

2 Bocha Peixoto, IlluminaçIo popular, in Portugália, ii, p. 38 



Á'iO Apoíitilas aos Dicioíiários Portugueses 

uès, em que se profere fàxL Os portugueses costumam usar o 
vocábulo uo plural, como é uatunUissímo, visto uunca se empre- 
in^r uma s<í dessas varetas. Feruám Méndez Pinto chama-lhe 
pauzinhos: — < Km suas cortesias sâo [os chins] homens de muito 
primor: no modo de vestir, assi homens como mulheres, muyto 
honestos, e muy bem tratados, per que geralmente se fazem 
muvtas sedas no reyuo: a terra é muyto fértil e muy abundosa 
de mantimentos, fruytas, agoas, muyto singulares jardins minto 
frescos, toda maneira de montaria e caça: nào põem mão no 
comer, mas toilos geralmente, pequenos e grandes, [comem] com 
dons pauzinhos j>or limpeza» — ^ 

Os malaios denominam o dito talher TiKap (pron. quási chi- 

Farei aqui uma observação a uma notíi, que, com o número {\ 
xcíu na memória de que extratei o passo de Femám Meudéz 
VniUK constante da carta, que é nela o documento L. 

i > tfxto. que fielmente transcrevo, como lá está, reza assun: 
— Tem mais clKev ovto tidalgos de seu conselho muvto letra- 
dõ< e de «rrantles prudencias, com os quaêes [sic] despacha todos 
os iiot^^Mt-ins do Uoino, tanihem estes nuuqua saê fora da tercevra 
it-YÇd jH»r nhfiiii oa<o aíc a morte, a estes cbamão vlãos ;?'. ("')■—• 

A n«»ta ( M di/: — Na traducçào hespanhola publicada eui l.V)ó 
Vem t*Síri}it<^ l'l<('>: tciulo r' eu esta reputaciò le manda lla- 
iiiar do i|iial(iUÍoia juvaiincia de su reyno eii que este y le mete 
Hii el laru"» do Tia-' . I>ove Icr-se rlao. porque nesse teiii|>«> 
>i* ésrrexia r |M»r // o u |M->r r- — . 

IiitV>riiiarà<» t^rraila: o que se escrevia era V inicial por u e r. 
f u medial ]»or r o u. A emenda, portanto, é temerária. í7í7'> 
ou riaa deve ser a forma certa, mesmo porque vi seria grupo de 
letras inj{>o>sível em chim. 



í ('ri-t-.và.. Aires. FkrnIo Mkndes Pixto, Lí^Ikki, li»Ot, p. 11^- 
" Mklanges Chaules i>E Harlez. LoMa, l^ílOO, p. liKÍ. 



^ 



Apostiloít aos Dicionários Portugueses 431 



fada, fado, fadar, fadário, fadista 

Fado é o latim fatum, «destino, siua»;/«íZa, o plural deste, 
feda. No sentido de sortes ventureiras, «para saber a sina», foi 
empregado por Gil Vicente no Auto das Fadas, isto é, « auto 
das sortes:» — 

— c Dae ora prazer 
A quem vos bem quer, 
E dae boas fadas 
Nas encruzilhadas > — . 

Sina (q. v.) é também o latim signa, plural de signum, 
que os espanhóis dizem sino. 

De fado, no sentido de «sina>, se deriva fadar, fadário. 
Fado tomou um sentido fatalista para denotar o «destino incon- 
trastável, o mau fado, desculpa muito cómoda, invocada pelo 
povo, para disfarçar a pusilanimidade em resistir às tentações de 
nào cumprir o dever, nem respeitar o decoro: foi fado, foi sina!». 

Fado designa no sul a «profissão de prostituta», e fadista, 
«o rufião», ou aquele que frequenta assiduamente os prostíbulos 
ordiuários e passa a vida com meretrizes. K erro pronunciar-se 
fadista, com o a aberto, visto que ninguém pronuncia yirWar/o, 
nem fadar. Sinónimos de fadista sào faiante e faia, vocábulos 
de dificultosa identificação. 

fagueiro: v. afagar 

Este adjectivo significa hoje «agradável, brando, carinhoso», 
mas antigamente queria dizer, como o castelhano halagileno, 
«enganador, traiçoeiro » : 

— < Este é falso e fagueiro, 

Sorrateiro, 

Quando virdes êst^ cão 

Levae sempre um pao na mílo » — * 



* Gil Vicente, Auto das padas. 



4o i A}-*^ti:*i* aj4 Diciouárioê Pfwtuguc^ê 



faia:)ça 

flsíe tf nn«"». do fniueês jaience \ ital. faenza. é muito usado 
hôjê. (•ara df si&:Dar uma casta de lou^a, não transparente, mas 
vidraila. ^ (liniada muitas vezes, a que dantes se chamava 'loii^ 
de }*«; de pedra . a qual se diferençava da «iouça do reino». em 
Ser muit*> mais tina a pasta: — «Existem aqui ^Coimbra- duas 
e^pe.ies de laianva: A chamada impropriamente de Vandelli 
(pride>s."»r «la Tiiiversidade. que, quando muito, aperfeiçoou o 
fabrico «lesta l«^>ivaf. e a charuada ratinha» — *. 

Xnm aniiucir» publicado no jornal O Século, de 16 de 
março dêsíe ano. l'*-se o sêijuinte: — «A louça é toda em fió de 
pedra ' — . A parte a extrava;j:áncia, hoje ridiculamente arrem^ 
dada «lõ francês, de empreirar a preposição em para designar a 
matéria de que uma cousa é feita (e não em que o é), temos aqui 
um exeinpl», colhiilo em flagrante, da denominação portuguesa 
pó de pvdni. correspondente d faiança, por oposição a iwic^lana, 
e a loura tio reino, bastante antiga, mas não mencionada uo 
Li''ssir«> de An«lré Xeinnich '. 

<^uaiit«» a ln>(ni tin jtú, na li:igiia;em de toda a gente qiif 
tala }M.r:iui;t*'s. «j:ieiv di/.-:*r l»uva desfeita, mais meúda qiie >f 
t«'»ra »'iii tiii-.K : | do qu? nàr» alniira que o anunciante a iie>M-. 
coni«» dizia, iiuási de írrara. 



faina 



Kin ca>^tellia!in diz-se fáentf. e é termo de bordo, que se ireut:- 

ralizou ]»ara significar - trabalho. a7,iífaniav. o francês /><'>^''//'^^- 

"0 (jue cada um tem a seu cargo fazer». A palavra é catalã. 

Juhena \ latim facienda, plural de faciendum, paríioíi»io do 



* o SKCri.O. .1.' 17 yV in:iiu Ak' 1!».M). 

* Wavuionlexikon IN Awin.v Spkachkn'. Hamburgo, ITUT. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 433 



fiituro passivo de f acere, que deu em português fazenda, em 
castelhano antigo fazicnda, moderno hacienda. 

Em catalão n(n) resulta de iid latino, ou românico: cf. anar, 
português andar. 

Outra forma catalã do mesmo vocábulo é feyna, na qual ahe 
se condensou em ditongo, com deslocação do acento tónico, como 
se observa no vocábulo castelhano e no português. 



falacha 

A verdadeira definição deste vocábulo contém-se no seguinte 
passo: — «Bezende, 28. Escrevem de S. Cypriano, deste conce- 
lho... em quanto que os mais pacatos se entreteem a comer 
falaclms (bolos de farinha de castanha pilada) > — ^ Em geral 
omite-se nas definições o epíteto 2)Hada, 

A orijem deste termo já foi dada na Kevista Lusitana *, 
foliascula, ou foliacea, mas não me parece bem segura: r-;Por 
que razão de li não resultou Ih? Cf. filho [ filium, filho j fol- 
liola. E, (jcomo é que -cea deu <ha no segundo étimo?. 



falar, parolar, parola 

Este verbo, como o castelhano hablar, antigo fahlar, procede 
do latim fabulare, que, com parabolare, substituiu na de- 
cadência 08 verbos loqui e fari, com o último dos quais à pri- 
meira vista se poderia supor que o falar teria relação. Para 
convencimento do contrário basta considerar qnQfari é o infinito, 
a que corresponde a primeira pessoa do presente do indicativo 
fateor, «confesso», de que procedeu confifeor, «confesso-me». 

Dos dois werhos fabulare e parabolare provieram os que 



* O Economista, de 31 de janeiro do 1891. 
» voL IV, p. 267. 

f8 



4U Apostilas aos Dicionários Fàrtufftteses 



nas línguas românicas, com excepção do romeno, correspoadem 
ao loqui latino: fabulare já vimos que produziu yóôtere/aíar; 
parabolare deu o catalão parlar, o francês parler; em italiano 
existem ambos, com as formas parlare e faveUare. 

Destes verbos se derivaram, respectivamente, a fala, elhMa, 
la parla, la favella: mas em francês, para se designar a /flfa, 
emprega-se parole \ parábola, que deu ao português primeiro 
paravoa, e depois palavra, ao castelhano palabra, e ao italiano 
parola. Deste, ou antes do francês paroler, veio o português pa- 
rolar, cujo substantivo verbal é parola (q, v.J. 

Fala se denominava dantes, e ainda não está obsoleto, o que 
os franceses cbamam tirade, que, por galicismo inútil, há pouco 
tempo é empregado por escritores que só lêem francês, (e sabe 
Deus como o sabem), para designar um «longo discurso >, quer 
na tribuna, quer principalmente no teatro. Eia sistema antigo, 
da escola chamada romântica, introduzir o artifício dessas grandes 
/í//í/.s\ em todos os principais papéis de qualquer comédia, supli- 
cio dos actores, e também dos espectadores: — « A própria Medéa 
quer dizer a fala de traii^ico desespero» — K 

Do verbo falar se deriva um dos raros particípios activos 
portuiíueses que uiiida se empregam como tais; assim, tcmenfe a 
l)eu>^, voz rhnnaiife - por exemplo. Diz-se que uma pessoa c 
heni falíDifc. quando tem verliosidade, facilidade em se exprimir. 

Em castelhano, ao contrário, diz-se bie)i hablado, euipre^u- 
(lo-se o particípio passivo com valor de activo, sintasse também 
muito portuguesa, como vemos em e.^quecido, * aquele que es- 
quece*, pre^senfidoy ^aquele que pressente >, etc. 

Outro particíjíio activo é tente j teneutem: — <e no mesmo 
terço assistia por logo tente Álvaro Pirez de Távora» — ^. Hoje 
diz-se Iwjar-tenente. 



» António de Campos, O Marquez de Pombal, in <0 Século», do l-^ 
<lo murro de 1800. 

2 (tíI Vicente, Ax'to da história de Deus. 



3 Jerónimo de Mendoça, Jornada de Africa, 1. 1.®, cap. v. 



Apostilas aos IHcionários Portugueses 4o5 



falquejar, falquear 

O DiccioxAHio Contemporâneo define este verbo da seguinte 
forma: — « o mesmo que falquear » — ; e em falquear diz: — « des- 
bastar (a madeira) com machado, enxó> — . Todavia, isto parece 
nào ser rigorosamente certo, visto que José da Silva Picáo, no 
seu estudo Kthnographia do Alto Alemtejo, estabelece dis- 
tinção, que a definição não faz: — «se trabalham em pé [os car- 
pinteiros], vemol-os com o machado, vibrando golpes certeiros na 
madeira. . . desbastando assim de falqtiejo, para depois aperfei- 
çoarem á encho» — *. 

falua 

O nome desta embarcação, muito usada no Tejo, parece ser 
o mesmo que faluea embarcação das costas da Berbéria, o árabe 
fcluk; neste caso, porém, falua pressupõe outra forma, fcluq, 
com a terminação de unidade fcluqe. No dialecto berberesco 
o Q mal se ouve, correspondendo em valor à consoante inicial 
das palavras começadas por vogal em alemão, e por isso foi 
eliminado. 

família 

Dá-se no distrito de Leiria este nome à < totalidade da gente 
que está numa propriedade a trabalhar», ainda que as mais das 
vezes nenhum parentesco tenha com os donos da casa ^. 

familiar, familial 

Dantes, todos os autores se contentavam com a primeira 
destas formas, a única verdadeira, do latim familiare | fami- 



* in Portugália, i, p. 544. 

2 Informação do sor. Acácio de Paiva, dali natural. 



43G AposUlM aos Dicionários Portugueses 



lia. Modernamente, os franceses, que já tinham familier, da 
mesma orijem, porque este adjectivo adquiriu a acepção de 
«trivial», e também a de «confiado, que não usa deferência ou 
cortesia», inventaram outro adjectivo incorrectíssimo familici, 
impossível em latim, visto haver já l no vocábulo radical (cf. re- 
gulare [ regula, com morale \ mores), e derara-lhe o sen- 
tido de «relativo à família». Como era uma incorrecçào, um 
barbarismo, foi logo sofregamente adoptado em português, por 
cópia: — «Pondo em presença vasos de egual ondulação linear 
e ornamentação com o mesmo ar familial» — *. Deveria ter-se 
dito familiar, ou, de familia, porque nào é Í3rça que para 
cada substantivo haja um adjectivo correspondente, como é uso 
moderníssimo e desnaturai. 

Com maior correcção vemos familiar empregado no seguinte 
trecho uo mesmo sentido: — «Como se vê claramente, nuo saio 
da corrente geral das ideas dos publicistas sobre a sociedade 
familiar» — *. A relação expressa é a mesma. 

Se extratarmos dos dois trechos aduzidos os adjectivos for- 
mados com o suficso -ar, ou -ai, veremos a constância da regra, 
que é: o suticso lejítimo é -ai; o l muda-se em r, se o vocábulo 
radical contém /; iíjurd, geral: linear, e ^ortsLuto familiar. 



fanadouro, fanadoiro 

— « E por fim o fanadoiro é a espátula grosseira com que 
[os oleiros] alisam as superfícies ou gravam os ornamentos*— ^• 



* Rocha Peixoto, As olarias do Prado, in Portugália, i, p. 2'^-- 
' Projecto de lei sobre o Divórcio, apresentado ás Cortes em IS ^^ 

março de 1898, polo deputado Duarte Sampaio e Melo. 

3 Rocha Peixoto, Sobrevivência da primitiva roda de oleibo 

EM Portugal, in Portugália, ii, p, 76. 



Apostilas aos Dicionários Pm'tugu€ses 437 



fanão 



Esta palavra, muito frequente nos nossos escritores do xvi 
e xvTi séculos que se referiram à Índia, é, conforme o Glossá- 
rio de Yule & Bumell S de origem indiana, malabar e támúl 
panam | sánscrito paNa, « moeda »^ mas primeiro, «bolo no jogo, 
parada » ^. Os portugueses receberam o termo dos árabes e mou- 
ros que faziam comércio nos mares da índia. Era de ouro, mas 
ao depois cunharam-no também de ouro com muita liga, e mesmo 
de prata. Possuo uma destas moedas de ouro baixo; é circular e 
tem o diâmetro de um real de cobre da nossa moeda actual. 
Nos princípios do século passado o seu valor era deminuto, pois 
equivalia a dois dinheiros ingleses, isto é, 40 réis: — «Quatro mil 
Êmoens de renda cada anuo, que valem na nossa moeda 400 cru- 
zados» — ^ 

faqui; faquir 

São dois vocábulos diferentes, e com diversíssimas significa- 
ções: faqui, em árabe raQiE, de FaQE, «saber teolójico», si- 
gnifica «jurisconsulto»; faquir, em árabe FaQiR, de FaQaa, 
«pobreza», que quere dizer «frade mendicante». 



farinhar; farinheiro; farinheira 

Em Aveiro este verbo aplica-se aos tabuleiros das marinhas, 
quando neles o sal começa a alvejar. 



* A Glossary of âmolo-Indian words and phrasbs, Londres, 
1886. 

« MoDnier Williams, A Sanskrit-English Dictionary, Ocsónia, 
1872. 

> Lucena, Vida do Padrb Francisco Xavier, 92, col. i. 



438 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

A acepção de farinheiro é diferente: — «Villa Nova de 
Fozcôa, 1. O estado geral das vinhas é regalar. O que tem 
apparecido por aqui é a moléstia a que dâo o nome de fari- 
nheiro* — *. 

Qualquer destes vocábulos deriva de farinha, e indica as- 
pecto parecido com o dela. 

Farinheira designa um chouriço feito com gordura de porco 
e farinha ou meolo de pão. 

faro, farum, fera, farào, faronejar 

Duas orijens se atribuem ao primeiro destes vocábulos: a pri- 
meira, proposta por Júlio Cornu *, é dissimilaçâo de frairo, subs- 
tantivo verbal de frairar \ fragrare, farar, com perda do i; 
cf. rosto j rostrum. Com relação a esse i procedente de ^, cf. 
eyiteíro \ intégrum, cheirar \ flagrare \ fragrare. 

A segunda é apresentada por D. Carolina Michaêlis de Vas- 
concelos, cora muito enjenho, mas pouca probabilidade; faro, 
« farol >, j grego p*áros ^. 

Cora respeito a farum, o Novo UiccioNÁmo deriva-o de 
faro; se considerarraos porém que bodum procede de bode, e 
designa o repiignaute cheiro deste animal, frescum o «cheiro da 
carne fresca >, é aceitável o atribuirraos a fanim, «cheiro a 
fera>, a derivação deste último substantivo, que a raesma in- 
signe roraancista lhe atribui *. 

O e átono de ferum passou a a surdo por influencia do r: 
cf. amaricano por americano, a terminação -ária, por -erm, 
de cutelaria, cast. cuchillería, para raoderno, a par do pei'a, 
antigo, o qual subsiste no falar desafectado. O r em grande 



1 O Economista, de 4 de agosto de l^i04. 

' (trundhiss dku romanischen Philologib, Estrasburgo, ISSS, i. 
p. 772. 

3 Revista Lusitana, iii, p. 160. 
* ih. p. 15í>. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 439 



número de línguas exerce influencia na vogal que o precede, e 
entre elas a exerceu em latim, por exemplo; cf. corpus, cor- 
poris *. 

No Suplemento ao Novo Diccionábio vemos farum, como 
sendo aplicado no Minho ao «cheiro do mosto». Nesta acepção 
se fundou provavelmente Cândido de Figueiredo para o derivar 
de faro. 

De faro formou-se um aumentativo, /amo, cujo tema /arom, 
ou faron, deu orijem ao verbo faronejar, o qual ficou em re- 
lação a esse aumentativo, como farejar para faro. 



fatão 



Em Viana-do-Castelo ouvi dar este nome a uma ameixa 
grande, sobre o comprido. 



fateixa 

Conforme o Diocionakio Contemporâneo, esta palavra signi- 
fica: — «ferro como a ancora, mas mais pequeno, com três ou 
quatro unhas para fundear barcos menores. // Gancho de can- 
dieiro. // Utensílio de ferro em forma de ancora em que se de- 
penduram carnes para estarem expostas ao ar. // F. ar. Kkattéf 
[aliás, khattéf]* — . Bluteau, que escreve /ateada, dá somente os 
dois primeiros significados. Em qualquer acepção vê-se porém 
que é um objecto com ganchos ou unhas para aferrar, segurar: 
— < e doze arpeos de abalroar com suas fateixas talingadas em 
cadeias de ferro» — *. 

O étimo apontado no Contemporâneo, e que o Novo Diocio- 



* Yeja-se Padre Bousselot, Lbs artigulations irlandaisbs, Paris, 
1899, p. 13. 

s Femára Méndez Pinto, PbrbgrinaçIo, cap. lyiii. 



440 Apostilas aos Dicionários Fortugueêes 



NÁBio escreve catefe, é o que foi defendido por Dozy *, isto é, 
transcrevendo as letras árabes por ele apresentadas, najAP. De- 
pois de nos explicar ser regular a representação do som da 7.^ 
letra do alfabeto arábico por / nas línguas peninsulares, termina 
dizendo: — «celui [le changement] du / en x ne Test pas, mais 
il faut appliquer ce que j*ai dit dans rintrod[uction], à savoir, 
que la dernière cousonne, qu'on entendait mal, est souvent chan- 
gée arbitrairement » — . 

Declaro que me não dou por convencido: compreendo perfei- 
tamente a troca entre t, I, r, n, consoantes homorgánicas; não 
aceito, à sombra da regra geral que formulou o abalisado ara- 
bista holandês, que um / fosse tam mal ouvido, que se represen- 
tasse por X, a nâo ser que desse estranho fenómeno se apresen- 
tem muitos mais exemplos. 

João de Sousa * nào traz o vocábulo; Eguílaz y Yanguas 
sujere FafAXE, que diz significar crucibulum ^ isto é, « cadi- 
nho >. Se tal palavra existe em árabe, náo sei; nos dicionários 
que pude consultar não a encontro; mas ainda quando exista, 
a significarão de modo nenhum convém. Outro tanto direi de 
FafaixE, a que no Vocabulário árabe-fraucOs de Belot se dá como 
correspondente o francês Jtisce, e que pela sua estrutura mais se 
compadeceria com a palavra portut^uesa. 

Deduz-se de tudo isto que as palavras árabes que fonolójica- 
mente poderiam produzir a portuguesa fateixa, ou fatexa, sâo 
inaceitáveis em razào dos seus significados; e que a úuica, apre- 
sentada por Dozy, e cuja si^^anfioa^ão se acomoda às do vocábulo 
português, tem de ser rejeitada por causa da sua incompatibili- 
dade fonética. O /" só pode provir das letras 0.*, 7.*, 20.*, ou 26.*, 
o X somente da 13.*, e não há vocábulo arábico que, com signi- 
ficação apropriada, satisfaça a tiiis condições. 



1 Gl.OtíSAlRK DES MOTS ESPAGN0L8 ET P0RTUGAI8 DERIVES DS 

l'Arabe, Leida, 1869. 

* Vestígios da língoa arábica em Portugal. 

3 Glosario de las palabras espanolas de origbn oriental. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 441 

Sdbre o significado do vocábulo arábico FaTaixR escreve-me 
snr. David López qne Dozy, no seu Suplemento aos dicionários 
rabes dá a seguinte definição: — «sac de papier dans lequel 
n met de la poudre et qu'on attache à un roseau; mis en 
ontact avec le feu, il vole dans Tair comme des serpente ar- 
lents» — *. É pois «foguete». 

fato, fateiro 

Esta palavra é germânica, conforme Frederico Diez -: alto 
lemâo antigo fazza, a que nos outros dialectos germânicos cor- 
espondem formas com t em vez da dúplice z (=tç) do alto 
lemão. Parece que nesses dialectos significa «roupa de vestir». 

Na realidade, o vocábulo fato aplica-se em português a ves- 
idos, com excepção dos que se chamam roupa branca. Antes, 
►orem, teve significados muito diversos, e no de «rebanho de 
abras» coincide ainda com o castelhano hato, anteriormente 
nto. 

Nos seguintes trechos, todos extraídos das Batalhas da 
!!oMPANHiA DE Jesus, do Padre António Francisco Cardim, 
►ode ver-se a evolução do significado: — «puseram o fato na rua 
►ara o confiscar» — , isto é, «mobília e todo o trem de casa» ^. 

— «fazendo muitas vexações nos christãos, para delles ti- 
arem fato e dinheiro» — , isto é, «fazenda» *. 

— «registam [revistam] as pessoas e o fato» — ^. 

Em uma acepção particularíssima é empregado este vocábulo 
íélo Padre Gaspar Afonso, na sua castiça e interessante « Rela- 
ião da viajem e sucesso da nau Sam Francisco » : — « candeia e 



* supplémbnt aux dictionnaires árabes, u, 239 b. 

* Ettmolooischbs Wôrterbuoh der romanischbn Sprachen, 
)oim, 1870, u, siUf v, hato. 

> Lisboa, 1894, p. 104. 

* tô., t6. 

» tò., p. 281. 



44*2 J :•■**"*/ X* j'-^f Lnci^màriof Porim^ue9f9 



:'>j.-. >fr .ia í-TE oâ«ia hz*\ como elles chamam ás casas em que 
2i-nini •:■- Sriibvrrs aa Ilha Es;*aiihola ou Haiti' » — '. 

/^ííVir/. ai'n:iii^o. vem no Suplemento ao Xôvo Diccioxi- 
RI. . c-n::» lí-rni" iraasosontaao, fior exemplo em arca /ateira. 
' irã larj irr^^.^alar a roaj»a>. V. roupa. 

Ia\a. faxina, feixe, feixota 

Y<\r v.v-}»ul.:. rrirvsenta o latim faseia, «atado», e f»or- 
:a*j:> ievr e>rrt-vèr-se i«>iu r. e nào. cA. E natural que o s^u 
♦^::ii:.' '.nír-iii:'' >r-ja .''/.*-/</. ooai meiátese de >r. era f*. como 

• • • 

/?/■> ; .*,;*' ^^,\- iv-r r.í>'/>\- of. ^ií-.rt». ;»rf.ré' J pic-^em por j>ií- 
Cí'n. Fi-rn: ír ni«'. /'.'Ji-iiíí; é um derivado, provávtlaente de 
• ■ri-r!!! italiãiij, vudf /.;<•• '/i</. designa «bradado de lenha». 

A'>^r«\i Jr- ''7'/"frz. c-:ii«> unidade de lenha, equivalente a 
t>*» K. r:n ai;:.a>. v^ja-se •> S ijdememeuto ao Xòvo Diccioxábio, 
«>1í'Íh -r »-:u« lit rarão õuiras acejí^-^^es do vocábulo. 

Fat\i. com o significado de feixe é transmontano: — < A outra 
mala tiuha-a t-ni casa no meio de uma faia de palha » — -. 

v»;:r' -.Hm:- .ia Tiirsina Mrijfm, íasois. é ui.rnfa: — -u!a- 
•ir;!:;;it:.' ■-.: «•;*]■ a :■■ «i • yry* o-nserva-se meio oceulto pelas fr-iivas 
•• ^:-.: ■."»•:.< .i- ;■:.■:!>■ > \*.' riij f«:';X':'ias. se amdira .^t\- a «vui- 
i--i^::w-; !;a ;.::-..:r.i --\ X.V:' i«ri!na j"»r 0'>rre»'V'~i-"' iTramatical o 
*r\^\:.]\-. !:.,;- :."■■ rvii;.-:» ■::::■•• pira o sub^tiiuir. V. facha. 



ír-í^ra: ivvera 



F. A«l líV» í '«•elh»' •len«"kuiiu'"«u em |iortuiru»>s f«»rmas i>ivebjk>'" 
TE< ;i< «iiíeivurrs »v..lii,,^rn.'s rjuê liiua foFiiia primordial a«.l'iiiii't'- 



* ih I;ii;L. HK f'LASSirr»S PuKTrGUEZKS. V.jI. XLV. p. 4'>. 

- ViLLA-UKALENSK. í^ • «» E-.'vn 'iiii^Td >. do '24 «le l>Tereiro <ie b-'- 
^ J. l.i Silvii Pi-fi '. Ethnographia PO Alto Alemtejo. ih P^rru- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 443 



produzindo vocábulos diversos, como por exemplo régua e regra, 
ambos procedentes do latim regula, sem adjunção de outro 
elemento de derivação, preficso, inficso ou suficso, e só pela acção 
de leis fonéticas distintas, exercidas em períodos diversos da evo- 
lução de uma língua. A este fenómeno dão os franceses o nome 
de doublets, e os alemães o de scheideformen. A denominação 
hoje mais adoptada e a de alótropos, que quere dizer, como é 
sabido, «vários, mudáveis», e, neste sentido particular, «que 
tomam direcções diversas». 

Assim como de um só vocábulo provém mais de um, por 
efeito de leis fonéticas diferentes, que nele operaram; do mesmo 
modo, de duas ou mais dições distintas pode resultar um vocá- 
bulo só, em que se compendiem, se reúnam os significados de 
todas, porque a operação de leis fonéticas as reduziu a um imico 
produto, identidade consequente de forma em uma dada língua, 
ou em mais, comparadas entre si. Vou referir-me aqui somente 
à primeira destas hipóteses, exempliíicando-a com o português. 
A palavra fiar compreende os significados das duas latinas fidare 
e filare, e a homonímia é devida, não a processo psicolójico, a 
evolução de significado, mas à operação de uma lei fonética, 
fisiolójica portanto, a bem dizer mecáuica, a queda normal de d, 
ou de l na posição fraca, isto é, entre vogais, em português, o 
que é uma das características que o diferença, com relação ao 
latim e a outros idiomas deste derivados. Outros exemplos do 
efeito dessas leis fonéticas são: se, correspondendo ao latim si e 
se; jn-ego de plico e praedico; e não já em vocábulos distintos, 
mas em formas diversas do mesmo vocábulo, só de solum e 
solam, amava de amabam e amabat, etc. 

Alguns desses homónimos diferença-os a ortografia usual, 
com melhores ou piores fundamentos, como vale e valle, pena e 
penna, retrato e retracto, cear e ciar, soar e siuir, pus e puz; 
outros não os diferença, devendo fazê-lo, como concertar, conecso 
com certo, e concertar, «compor» (melhor consertar, de con- 
sertas, particípio pretérito passivo de conserere); outros, con- 
quanto homónimos na língua literária, não o são em alguus dia- 
lectos, como lenlio e lanho, tacha e taxa^ nós e noz, passo e 



4U Apostilas aos Dicionários Portugueses 



paço, osso e otiço, cozer de * cocere por coqaere, e coseria 
cons(u)ere, e a ortografia usual avisadamente os consenra dis- 
tintos. 

Nenhuma língua europeia mais do que a francesa falada 
apresenta desses homónimos; bastará citar, as formas sà (escrita 
sans, satiff, sent, cent), e se (sain, saint, sein, seing, eeini, 
cinq): dez vocábulos reduzidos a dois. 

É no sentido de conservar distintas pela escrita formas uni- 
ficadas pela pronúncia, que se diz serem as ortografias etimoló- 
jicas essencialmente conservadoras das línguas literárias; e é 
facto que, pelo menos nas pessoas que possuem conhecimentos 
literários, essas ortografias exercem certa influencia impeditiva 
de alterações extremas nos vocábulos. 

Quando esse critério desaparece, ou quando uma língua teve 
larga cultura literária antes que ele se manifestasse, o império 
das leis fonéticas determina empobrecimento no vocabulário, pela 
produção de muitos homónimos, e alterações fundamentais na 
gramática pela confusão de formas anteriormente diversas, de- 
rivadas de um mesmo radical. No primeiro caso temos hoffloni- 
mia DO lécsico. no segundo horaoiiimia na morfolojia da língua, 
e esta última tende a imprimir-lhe carácter diferente. 

Dá-se a estes fenómenos de unificação o nome de homeó- 
TRopos, FOKMAS coNVERjE.VTES, chamando assim àquelas que 
resultam de duas ou mais orijinárias. Vê-se que este processo é 
o contrário do que primeiro indiquei — o de formas dtverjen- 
TEs ou ALÓTROPos, qual é ura meio eficaz de uma língua s6 
euriíiuecer, ao passo que o outro determina a sua depauperação, 
como disse. 

Do mesmo modo que dois ou mais vocábulos ou formas 
distintas podem, como vimos, pela operação de leis fonéticas, 
adíjuirir na passajem de uma a outra língua, ou dentro da 
mesma língua, uma forma única, na qual se resumam os signi- 
ficados de todos eles; assim também de dois ou mais vocábulos, 
procedentes de línguas diversas, pode resultar um que compreenda 
as signiticações daqueles de que provém, figurando falsamente 
essa operação fonética como um produto puramente psicolójico, 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 445 

a evolução do signiticado primitivo de um deles, o que se chama 
«desenvolvimento de significação», acepções divebsas de um 

vocábulo, ou SEMEIOLOJIA, SEMÂNTICA. 

Nestas circunstâncias creio eu que está o que acima citei: 
fêvera, fevra, ou febra, ao qual atribuo étimos distintos, con- 
forme os seus dois principais significados. 

Bluteau dá-lhe a seguinte série de significações: — «feveba, 
Fèvera ou Fevara, ou (como dizem os Cultos) Fibra, As feveras 
são como huns fios de carne que se achão nas extremidades do 
fígado, dos bofes, etc. Fibra, w, Fem. Cie. 

Feveras do açafrão ... de algumas raizes que tem fibras diz 
Pliuio . . . 

Homem de fevera: Vid. Alentado. Valente. 

Fevera, ou carne de fevera, he carne sem osso nem gordura. 
Pulpa, cB, Fem. Pers* — . 

À falta de melhor, poderia talvez, com grande violência, dedu- 
zir-se do primeiro o último destes significados, supondo-o uma 
ampliação particular de sentido, como o são os intermédios. Assim 
teem feito, que eu saiba, todos os etimólogos que deste vocábulo 
se ocuparam. 

F. Ad. Coelho, no seu Diccionakio Manual Etymoloqico 
da língua pobtuqueza, diz o seguinte: 

— «Febra, fòbra; a parte musculosa dos vertebrados comes- 
tíveis. V. Fibra. Nome de diversos filamentos vegetaes. Filamento 
têxtil. Nervo, força, valor. (Lat. fibra)* — . 

O Diccionakio Contempobaneo da linqua pobtuqueza 
que dá, além de fiòra, três formas, fêvera, feirra, febra, referidas 
a esta última as outras duas, atribui também a todas a etimo- 
lojia latina fibra. 

A última significação de Bluteau é aí dada como 2.^, e por 
F. Ad. Coelho como 1.*. Diez [Etym. Wôbtebbuch deb boma- 
NiscHEN Spbachen] não traz este último significado, e dá como 
étimo de /eôra igualmente o latim fibra. Kõrting [Lateinisch- 
BOMANiscHEs WôBTEBBucH, n.° 3221], faz O mosmo, e é prová- 
vel que a ambos passasse despercebida a definição especial que 
Bluteau dá como última. 



440 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Joáo de Sousa omite o vocábulo febra nos VEsnaios da 
LiNooA ABABiCA EM PoBTuaAL, e é portaoto de presumir que 
também lhe atribuísse orijem latina. 

Outro tanto podemos dizer de Dozy e Engelmann [Glossaibe 

DES MOTS ESPAQNOLS ET POETUGAIS DERIVES DE L^AbABE], COD- 

quanto o primeiro destes orientalistas fizesse em outra otra * 
menção do vocábulo arábico de que me vou ocupar; vê-se porém 
que o nào considerou representado na Península Hispânica. 

Kguílaz y Yanguas também o nào menciona no seu Glosario 
Etimológico de pal abras espaStolas. . . de obiqen oriental, 
e é mesmo de supor que o arabista espanhol desconheça o signi- 
ficado especial do vocábulo em português, língua que, com as 
mais da Península, foi incluída no Glossário. 

O latim fibra, pois, tem sido para todos os etimólogos a 
orijem do português febra, em todas as suas acepções. A codcIu- 
sào seria talvez lejítima, apesar de o 6 medial latino permanecer, 
em vez de se mudar em v. como devera acontecer, visto o voci- 
bulo ser popular: seria lejítima, repito, até facto positivo que a 
invalidasse; agora, porém, creio poder demonstrar que já o não é. 

Convenci-iiie disto ao ler, com toda a atenção que merece, 
uiii excelente trabalho apresentado por Hermano Alraqvist ao 
Congresso dos Orientalistas, celebrado em Estocolmo e Cristiáiiiii 
no anno de 1S8U. Esse trabalho foi publicado no i fascículo dos 
do referido Congresso, que contém a Secção Semítica: intitula-se 
< Kleine Beitriige zur Lexikographie des Vulgararabischen *, «Pe- 
quenos subsídios para a lecsicografia do árabe vulgar», título em 
demasia modesto, se o compararmos á grande valia desse estudo 
escrupulosíssimo e minucioso, resultado de observações directas 
do seu autor, feitas durante uma residência de trinta meses na 
Síria, i^jipto, Núbia e Sudào, como no-lo diz em um breve pre- 
fácio. 

A páj. 371 e 372 do fascículo mencionado, no qual a dita 
memória ocupa de páj. 2G0 a 469, vêem dois artigos, subordinados 



* Citada por Ahiiqvist na momúria a que vou já referir-ine. 



Apostilas aos Dicionários Porttigíieses 4(7 



à epígrafe Speisen, «Comidas», e intitulados 'eras habra e habra 
mamdãda, denomÍDações vulgares de guisados ali usuais. Em 
ambos o vocábulo habra é definido como significando « carne sem 
osso nem gordura > — « das feft- und knochenfreie Fleisch . . . 
Viande sans os. . , Viande sans graisse > — . 

Cherbonneau, no seu Dicionário arábico-fraucês [Paris, 1876] 
diz a páj. 1302: — *hebar, chair. Pulpe des fruits» — , e deriva o 
vocábulo do verbo habar, «amputer», acrescentando outro verbo 
derivado, ahabar — «être bien en chair > — . Concluo que êle atri- 
bui aos caracteres arábicos do substantivo indicado, e de que nâo 
dá os pontos vogais, a pronúncia hebar, porque no seu Dicionário 
francês-arábico encontro: — «Pulpe, s. f. des fruits» — , depois o 
vocábulo indicado, expresso em caracteres arábicos, também sem 
vogais, e a sua transcrição em letra itálica, hebar. 

Em um lécsico hebraico-inglês vejo habar, dado como vocá- 
bulo arábico, com a significação de — «that which cuts» — o que 
corta — . 

Vê-se pois que é este um termo de carniçaria, e deles ocor- 
rem-me de orijem arábica evidente os seguintes, em português: 
acém, açougue, aUatra, magarefe, rês, fora outros mais. 

A definição pois do vocábulo habar, hebar, habra, hebra S 
conforme as pronunciaçòes, dada pelo sr. Almqvist concorda em 
absoluto com a aduzida por Bluteau, e tal significação continua 
a ser, pelo menos no sul do reino e em parte do domínio trans- 
montano, senão em todo, usualíssima, com a pronunciação mais 
comum febra, como a traz o Dic. de F. Ad. Coelho já citado. 

O autor da Memória, alegando autoridades, apresenta-nos 
também a forma 'habra, isto é, com j. em vez de » (fi) inicial, 
o que em nada influi na nossa inquirição. Com efeito, quer a 
palavra comece por uma, quer por outra destas consoantes, o 
facto é que, nos vocábulos que do áraba passaram ao português 



^ Sobre e, correspondendo na Península Hispânica ao FajHau (a.,, e) 
seguido oa não de ), veja-se Dozy et Engelmann, Glossairb dbs mots 

B8PAONOL8 ET PORTUOAIS OÉRIVAS DB L'ArABB, p. 26 6 27. 



448 Apoatilaa aos Dicionários Portugueses 



por mera audição, o / é o representante de qualquer desses sons 
(e também do «r, ou ; castelhano actual =v)t se o vocábulo foi 
introduzido no tempo do domínio ou permanência de mouros na 
Península; sendo esta uma das características de que qualqaer 
palavra árabe pertence a essa primeira importação, tanto em Por- 
tugal, como em Espanha, onde em castelhano esse / e o prove- 
niente do / árabe seguiram ao depois o f latino inicial na perma- 
tacão para h, ainda pronunciado na Andaluzia e na Estremadura 
Espanhola, mas nulo hoje no castelhano do resto da Espanha. 

Digo ser essa uma das características dos vocábulos arábicos 
pertencentes ao fundo das línguas românicas da Península, a que 
chamarei de primeira formação, popular ou espontânea. Há de 
haver outras características fonéticas, mas aqui não procurarei 
determiuá-las, conquanto me pareça ser este o trabalho geral 
que há a fazer com relação a vocábulos hispânicos de tal pro- 
veniência, os quais podem dividir-se em três períodos: 

1.*^ Popular. Abranjo os que o povo, desde o vin até o 
XIV século, aprendeu de os ouvir à numerosa população moura 
que habitava na Península: esses constituem parte essencial do 
vocabulário peninsular: tais são (juási todos os que começam por 
ai ou a, representativos do artiíço arábico, os nomes de terras 
e outros próprios. 

2." Literário. (Jompreende as palavras que os nossos escrita 
res e os espanhóis, que sabiam melhor ou pior o árabe, introdu- 
ziram nas lin|:(uas hispânicas, emjíregando transcrição consciente, 
ou das suas letras, ou dos vocál)ulos, conforme os ouviam pro- 
ferir: tais sào xari/e, titritmão, etc. 

3."^ Estranjeiro. O árabe é totalmente ignorado, e os vocá- 
bulos entram ))or vias indirectas, com as transcrições estranjei- 
ras, já capvicliosas, já científicas, das línguas donde são recebidos 
imediatamente. Nesta última categoria estão incluídos vocábulos 
como sofá, (dmeia, forma al)surda, tirada do mau francês almée, 
etc. 

Voltando ao nosso tema, devo ainda dizer que a palavra 
fehra, com o significado que tem o árabe hehra, habrn, ou 
linhar, só existe em português, sendo alheia aos outros idiomas ro- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 449 



máDÍcos. O castelhano hébra, antigo febra, somente compreende 
as três primeiras acepções dadas por Bluteau, as quais todas 
procedem do latim fibra; assim diz-se, por exemplo, tabaco en 
hébra, «tabaco era íio>; e deste vocábulo se deriva o verbo 
enhébrar, com a significação de «enfiar». 

Direi mais que parece ter-se dado confusão entre os dois vo- 
cábulos fêvera, de fibra e febra de habra ou hebra arábico; 
homonímia que é naturalmente moderna, e poderia evitar-se, 
reservando-se essa última forma unicamente para o último si- 
gnificado, que coincide com o do vocábulo arábico, morfolójica 
e ideolójicamente, tanto mais que febra é no sul a pronunciaçáo 
corrente, conquanto aí se diference perfeitamente e com toda a 
regularidade b de v. 

Assim, parece-me que nos nossos dicionários há a fazer as 
seguintes correcções: 

febra (V. fèvera): carne limpa de osso e gordura, para 
alimento [árabe habra ou hebra, ainda hoje de uso jeral nos 
países de língua arábica, e que deve ter passado a português nos 
tempos da dominação maometana, como o indica a mudança de 
h para/. (Cf. refém \ BaEN=raíen» com h sonoro)]. 

fèvera (ou febra, com o qual se confundiu, e de que deve 
diferençar-se): nome de diversos filamentos vejetais; filamento 
têxtil, etc. Cf. o castelhano antigo febra, moderno hebra, « fio > . 
Do latim fibra, por mudança de í em ^ (cf. cedo j cito), 
de b em v, (Cf. livro \ librum), e intercalação de e átono 
desunindo as duas consoantes consecutivas (cf. fevereiro j fe- 
bruarium) *. 

Este vocábulo sujere ainda outra acepção à^ fêvera j fibra, 
que se deduz do prolóquio lá veni o fevereiro com as suas fê- 
veras todas, no qual fêveras equivale a «friajem», e é palavra 
mventada, com influência necessária de fevereiro. 



1 Este artigo foi já publicado na Revista Lusitana, de onde o ex- 
trato, com pequenas alteraçOes na redacção. 

29 



450 Apo9tUa» aos Dicionárioê FortuçueseB 



fecho, fechar 

Fecho é o latim pestulum por pessalum, com mudança 
da iuicial p emf, bastante rara; a de stl, pesVlum, em eh, é 
perfeitamente normal [cf. macho j masc(u)lam]. Esta etimo- 
lojia, apresentada não me recorda por quem primeiro, está admi- 
tida, e para confirmação dela basta citar o galego pechar, cor- 
respondente ao português fechar, e o castelhano pestitto, < fecho 
de correr», que é o latim pestillum, outra forma deminutiva, 
paralela ao pessulum citado. 

Cf. 2Àni^à fescoço = pescoço, e v. data. 



feijão 

Este vocábulo português representa o latim phaseólum,com 
mudança de suficso, isto é, -on por -ol: cf. espanôn e cb- 
panoh 

De um artigo, publicado em tempo no jornal de Lisboa O Re- 
pórter K extra to para aqui a copiosa nomenclatura portuguesa 
deste legume, abreviando as defiuições: 

Feijão branco: ou é de veia, ou sem veia no casulo. 
O feijào de veia é só bom para saco (para secar): o feijão para 
comer em verde não tem veia. Há também /<p/;ao de vara, que 
é o que se enrosca pela rocJeiga, e o feijão capão, que é o que 
liça rasteiro: também se lhe chama carrapato, por ficar assim 
pequena a planta. 

No feijão branco há também um que é muito graúdo, cha- 
mado calço de panela, pois cada feijão entende-se que pode 
cair ar uma panela, que é sempre de ferro, e tem três pés; a de 
barro e sem pés chama-se chaspa (q, v.). 



* 17 de junho de 1><97. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 451 



Feijão preto diz-se que é assim por qualidade, outros dizem 
que é degenerado. 

O feijão chicharo ou fradinho tem este nome provavelmente 
por ser pequeno, e por ser muito usado nos conventos para o 
caldo da portaria. 

O feijão de vajem branca é branco emquanto tenro, e o 
feijão arroz chama-se assim por ser muito meúdo. 

O feijão-de-sete-semanas é o mais temporâo porque dá fruto 
cinco semanas. E amarelo. 

E dos primeiros a semear-se na primavera, porque se o tempo 
lhe corre bem, perto do Sam João está carregado de vajens. Não 
é palbento como o das outras castas. 

Há mais as seguintes castas: feijão rojado, feijão-de-bico- 
-de-sacho, feijão coimbrês, feijão vianês. 

Às diferentes qualidades de feijão chamam em Trás-os-Mon- 
tes gradura: — 'Boa horta! Muita soma de feijão para verde, 
muita hortaliça, e inda por cima muita gradura !> — . 



feira, feirar, feirâo, feirante 

O substantivo feirão não figura nos dicionários, mas sim 
feirante, que é o mais usado no sul, e designa «a pessoa que 
tem barraca ou quitanda em feira». Na Gazeta das Aldeias, 

SZTíXSbfLii 

publicação mensal do Porto, e que é um belo repositório de 
termos vernáculos, vemos empregado o dito substantivo no trecho 
seguinte: — «Não seria conveniente levar lá [à feira de abelhas 
que se realiza em Sobrado, próssimo de Valongo nos dias 24 e 25 
de julho] colmeias móveis, pois os feiro es que concorrem ao 
mercado, o que buscam é mel e cêra?> — . 

Vê-se por este passo que feirai é quem concorre ã feira 
«para comprar», entanto que, no sul, feirante é, como disse, 
aquele que ali se estabelece «para vender». 

O verbo feirar está abonado com o seguinte trecho do Alfa- 
JEME DE Santabém, dc Almeida Garrett: 




poriagnÉB, adjJKtho^ fwr fnwte da fftciíeiaK j ffteUa ( (a- 
care. ■bMr», qaw de fietietWH | GetaM ( fisgar»: — «M 

■mmsndciH 

aaàa, qaa m, —giado depoi 

feitiço [filado], em qse i 

elle.— «. 

I^eiiiço, orno sabetutÍTO, tm Mb ngnifieefõM: 

A piimein i «tauAm»: — «eom neeio dé que Ike finot 

feiti(0> — *; e «i texto min intigD: 

— < Sa Tossa alteia qnisn' 

Ver ae feití(«s qne eo fcço»^'. 

à segunda significação é «objecto com qne se laz a bmii' 
ria»: — < A lagartixa qne certo feiticeiro poz na concetra da poiti 
de hum laTTador, a quai em todo o t«mpo, que ali esteve, nem a 
molher, nem animal algum de casa poria, era feitiço> — ^ 

à terceira é muito especial : — < O feitiço é o armazém onde 
se íazem os pagamentos aos indigenas [no Zaire]. É ama espécie 



Acton. 

Feraám Héndez Pinto, PBRaaRiHAÇIo, cap. ooxi. 
Azeredo Coutinho, Campanha do BabitA mi 1902. 
Gil Vicente, Auto das fadab. 

BlDt«aQ, TOCABDI^RIO PORTUaCJBZ B LATDtO. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 453 



de taberna, com um pequeno balcão junto da porta e toda a ca- 
pacidade interior tomada por fazendas» — ^ 

Como ídolo, sentido em que se diz, mas se não prova, ter 
sido derivado de português o termo francês fetiche, não há abo- 
nação verdadeiramente vernácula: em tal acepção o termo usado 
em português é manipanso. Neste pressuposto, parece-me erro 
denominar feiticismo o período de concepções relijiosas a que os 
franceses chamam fétichisme. 

De feitiço procede feiticeiro, feitiçaria, enfeitiçar, etc. 

Sobre o vocábulo feitiço é digno de leitura o que P. A. de 
Azevedo escreveu com o título de Superstições pobtuguesas 
NO SÉCULO XV, servindo de aclaração a vários documentos que 
publicou *; veja-se também Bluteau (Vocabulário, íoc. cit,). 



feitor 



Sentido particular, isto é, o de «fabricante» adquiriu este 
vocábulo no norte do reino: — «Para a obra de encommenda es- 
colhe feitores — , porque os ha especialistas» — ^. E um bom 
termo para expressar o que os romanos denominavam faber, 
« artífice » . 

felipina, filipina 

Designa este termo uma mistura de água, aguardente branca 
e açúcar. A orijem deste nome já de relance foi indicada no 
Suplemento ao Novo Diccionábio, e é a seguinte: 

No largo do Pelourinho, aí pelo primeiro até segundo quar- 
tel do século passado, existiu uma aguardentaria pertencente a 



1 Relatório do juiz Francisco António Pinto, in O Economista, de 19 
de março de 1885. 

' in Rbvista Lusitana, iv, p. 197 e 198. 

8 Rocha Peixoto, As olarias do Prado, in Portugália, i, p. 267. 



4ÕI Ap09tUa$ ao9 Dieionàrioê BorhiguaeM 



Marcos Felipe, que também tinha por soa conta o botequim da 
Praça do Comércio, qae ao depois passou para as mãos do Mar- 
tinho, que lhe transmitiu o nome, bem como ao do largo de 
Camões: também se lhe chamou o botequim da neve. Parece ter 
sido o Felipe quem deu nome à felipina, a que se refere Garrett 
no prefácio à Lyrica de João Mínimo: — «com o charuto na 
bôcca e o ponche ou a philippina na mâo> — . 

Segundo se declara em nota, foi isto escrito em 182Õ, época 
em que estaria em voga o tal botequim. 

fenasco 

Na índia portuguesa fenasco é o nome que se dá à uraca, 
ou aguardente, em coucani feni, nos caracteres de?anágricos 
transliterados p'exi. 

fendi, eféndi(m) 

Esta palavra é uma forma abreviada, talvez berberisca, do 

vocábulo turco efcniJi, que é o tratamento usual que empregara 
os turcos, como termo de cortesia, equivalendo a «senhor». Foi 
usado por João Carvalho Mascarenhas, na «Memorável relação 
da perda da uao Conceivão » : — « Fendi, eu é verdade que também 
sou dos que queriam fugir > — K 

A acentuação, que no texto não está marcada, é na penúl- 
tima sílaba. 

K preferível dizer eféndi. Com o sufieso -m, eféndim equi- 
vale a <meu senhor*. 

feno, feneiro 

Em castelhano existe um vocábulo que nomeia o local onde 
se arrecada o feno, heno, isto é, heniL Em português chama- 



* m BlBL. DE CLÁSSICOS PORTUGUEZES, vol. XLVll, p. 109. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 455 



-se-lte geralmente palheiro, o qual propriamente devera designar 
aquele em que se armazena a palha, mas que além disso tem 
outros significados, como por exemplo nos dois excertos seguin- jf~re^ fj 
tes: — <0s pescadores da costa de Lavos habitam em casas de 
madeira, chamadas palheiros *; — «Pelos meados d'este século 
Espmho era uma agglomeraçào de palheiros»*. — «Foi sendo 
moda entre as familias ricas da Terra da Feira, irem para alli 
tomar banhos e muitas d'ellas alli construiram palheiros próprios. 
Ao principio era moda serem feitos de tábuas, depois alguns os 
construiram de pedra e cal, mas térreos» — ^. 

Na excelente publicação semanal Gazeta das Aldeias *, 
num artigo assinado por M. Rodríguez de Morais, lê-se este 
trecho: — « arrecadando-as [as plantas] em abrigos, feneiros ou 
palheiros apropriados onde se conservam os fenos» — . E, sem 
dúvida, um neolojismo, visto que nenhimi dicionário mencionou 
tal vocábulo; merece todavia ser aceito, porque supre uma falta, 
e está formado em perfeita analojia com as palavras palheiro, 
espigueirOj etc. 

Ficaremos assim com duas designações diferentes, enteira- 
mente intelijiveis; palheiro, «armazém para a palha», /<?n^íVo, 
«armazém para o feno», do mesmo modo que em castelhano se 
distmgue pajar de henil. 



fero 



]Jo Minho tem o sentido de «robusto, válido». — «Teve de 
ir a Vianna, onde o deram por fero» — ^ 



^ Portagalia, i, p. 383. 

* iò., p. 85. 

8 Pinho Leal, Portugal antigo b modbrno, in, p. ^. 

« de 28 de maio de 1905. 

* Alberto Pimentel, A pringbza db Boivio. 



I 



ferrar. ferrAo, ferreta 

Ferreta é o nome que se dá iio Minho ao bico de metal » 
fuso. (lo peio, ete.: — -O fuso... o l«rço restante, charoido 
ferreta, i! de metal»—'. 

Denomiua-se /«tão, em geral, a choupa ou ponta dr ferro 
doa paus ferraãús, e por aualojia o aguilhão dos inseclos, se j 
que. n«8te ultimo sentido, a aualojia nfio foi e!<tabele>;ida féA 
vèrho ferrar, que no norte aigoifica «picar, morder'. 



ferrejo, foiTfijo, ferrejial, ferrajial 

Ferrejo ou Jorn^o, no Uiba-Tejo, é « milho em rorde, nio 
gachudo*; e no Algarve parece ter o mesmo ei^ificado: — «Os 
ferrejoB eetâo excelentes» — *. 

— «As terras que cercam o 'monte* chama-se-lhes ferr»- 
giaes * — '^. 

ferroba 

Esta forma, por alfarroba, que é a usual, nâo vem nos di- 
cionários. Encontrei-a na < Relação do naufrájio da nau Santo 
Alberto», de JoSo Baptista Lavanha: — ^arvoredo com fruta mui 
amargosa da feição de ferrobas» — '. 

E o mesmo vocábulo, isto ó o árabe AL-naõuB ', mas pem » 



1 Portogalia.i, p. 371. 

* O EcoNOUiBTA, de 17 de maio de 1883. 

■ J. d.i Silva PicSo, Ethnooraphia do Alto Albmtbio, in Portu- 
gália, I, p. 274. 

* fn BlBL. DB CLÁSSICOS PORTnaUKZBS, TOl. XLIV, p. 52. 

^ Jo&o de Soam, Vbstioios da linooa arábica bm Pobtcoal, 

Lisboa, 1880. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 457 

artigo AL, e com enfraquecimento do a pretónico em f ; cf. rezão, 
forma popular em vez de razào. 

Outra palavra arábica, que esporadicamente aparece sem o 
artigo AL, que em geral a acompanha, é comonia, por alcomo- 
nia, na «Memorável relação da perda na nao Conceição», de 
João Carvalho Mascarenhas (1627) K 



fescoço 

No Alentejo diz-se fescoço por j^^scoço, É uma mudança dia- 
lectal idêntica àquela que de pestulum ^roAuzin fecho (q. v.) 
na língua comum. V. pescoço. 



fiambre 



Este vocábulo é castelhano, e não português [v. deslumbrar]. 

O que é português é a sua especialização, ao aplicar-se ao 
presunto. A forma portuguesa era friame, derivada, cojno a cas- 
telhana, íiQ frigidamerij frigidaminis *. 



fidalgo, fidalga, fídalguinho 

Como é há muito tempo sabido, fidalgo é uma polissíntese 
de filho-de-algo, cujo significado próprio se perdeu, a ponto de 
se dizer fidalga e fídalguinho, em fez de filha-d-algo, filhinho- 
'd-algo. 

Fidnlguinho dos jardins ^ é o nome que dão no norte à 



* vol. XLvn, p. 44, da Bibl. db clássicos portugubzbs. 

* D. Carolina Michaélis de Vasconcelos, in Kbvista Lusitana, in, 
p. 166. 

^ D. Carolina Michaõlis de Vasconcelos, in Kbvista Lusitana, ui, 
p. 1 70. 



458 AposHUu aoê Dkêonârioê JWf ayaiefet 

flor qae também se chama Uio (q. v.), o hleuet, oa btuet, ftu- 
cês, uma das raras fl6res, verdadeiramoite azoia, cAr mnito na 
no reino vejetal. 

Numa acepçfto muito especial é este deminniiFO anpregadi^ 
como vemos do trecho segninte: — «Estes macacos aio orhmdtf 
da America do Sul e conhecidos no Brazil por macaco prego m 
mico chorào. Entre nós, sem que saibamos porqaêv tem o nome 
vulgar de Fidalguinho » — *. 

Dissera antes, ser o dito quadrúmano do género Gebns 
(C. fatuelus). O Novo Diooionábio ji rejistou esta denomi- 
nação como sendo de Lisboa, não porém com tamanha individmh 
ção, e sem a abonar, conquanto a marque como inédita. 



flgle 

É o nome de um instrumento de vento, feito de metal. O étimo 
é o francês ophieléide, artificialmente formado de dois vocábulos 
gregos, óp^ «serpente», klsíb, xiiBidòs «chave». Pek fonnir 

ção parece que o nome caberia melhor ao chamado serpentõo. 
A forma mais antiga, e menos corruta, que apareceu em escrito 
português, foi provavelmente figltd, transcrita de um cartaz ou 
programa de 1847, por Joào de Freitas Branco, em uma dis 
eruditas e substanciosas notícias teatrais que em tempos publi- 
cava no jornal A Vanouarda: — « Executar-se-háo umas varia- 
ções deTiglid (figle, dizemos nós)» — ^ 



figo, figueira 

A nomenclatura desta apreciadíssima fruta, da qual direi que 
nada gosto, é principalmente algarvia, pois é nesse extremo sul 



* O Século, de 5 de novembro de 1905. 
> 11 de dezembro de 1899. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 459 

O reino que a sua cultura e o preparo do fruto seco mais pre- 
ominam. £ extensíssima, copiosíssima, a enumeração das suas 
iferentes qualidades, e não é aqui o lugar para procurar exau- 
i-la. Citarei apenas alguns epítetos, ou menos conhecidos, ou 
tnperfeitamente definidos: — «em ablativo de viagem, o melhor 
[go, o mais acreditado é o de «comadre»; vem depois o «mer- 
ador», o mais reles é o marchante» — *. 

Figo de recheio: contendo amêndoa e canela *. 

O Novo DiccioNÁRio, no Suplemento, inscreveu figtieira 
om uma acepção inédita, como própria de Lamego — «espécie 
e verrugas nas bestas» — . Na Gazeta das Aldeias lemos, 
omo expedida dos Arcos-de-Val-de-Vez, a seguinte pregunta, 
om a solução dada pelo veterinário Paula Nogueira: — «Tenho 
m cavallo de dez a doze annos com figueiras, que se vão esten- 
endo desde a ponta da cauda, pela parte de baixo, até ao ânus, 
hegando a tê-las já na entrada do intestino. Haverá remédio 
lâra curar ou ao menos attenuar este mal?— Resposta — Péla 
ituação das lesões julgo que as figueiras são tumores melânicos 
«denegridos»], frequentes nos cavallos de côr clara ou russa 
sicj. Esses tumores, característicos da doença chamada mela- 
ose, sâo de natureza maligna. De pouco serve extirpá-los, per- 
ue se reproduzem ...» — ^. 

Advertirei aqui ser errónea a escrita rnsso, em vez de rtcço 
q. V.), castelhano riccio, adjectivo que designa côr, e nada tem 
[ue ver com o nome étnico russo, afim de Bâssia, em castelhano 
14,30, Riisia, em russo ross, Bossia. 

filho, filha, filhastro, filhastrar 

A palavra filho ou filha adquire valor muito especial em 
'árias acepções, acompanhada ou não de epítetos. Assim vemos 



* O Economista, de 5 de novembro de 1885. 

« ib, 

3 1905, p. 249. 



400 Apo9HUu 00$ Dicumârioê ParímffHeteB 

que filho-éUholmo em certa aldeia significa «enjeitado:— «De 
quem é filho este rapaz? — É filho do olmo. — O pae das crés»- 
ças 9em pae é aqaela árvore enorme, que aU vês, é o obia 
Quando a vergonha ou a miséria pode mais qae o amor múBt- 
nal, as creanças são depositadas n^aquellas pedras que ciíeim- 
dam o olmo, e lá choramingam até que passe o primeiro lamr 
dor, que as agasalhe em casa e as endireite na vida» — ^ 

— *The fatherless are the eare of Ood> — *: — Deus i o 
pai dos órfiaios — , pater orphanorum [Salmo xLvn, t. 5]. 

Filho da gaba, designa o indivíduo estranho, nela criado, is 
vezes nascido: — «via-se que ambas [as reclusas do Aljube, em 
Lisboa] se achavam satisfeitas com a reclusão . . . radiantes por 
serem filhas da casa» — '. 

Em jíria filhon do mosqtíeiro são uma especialidade entn 
08 larápios: — * Filhos do mosqueiro são pois os gatunos que 
se introduzem no interior das casas, a occultas dos seus loca- 
tários» — ♦. 

No Novo DicGioxÁBio (Suplemento) vemos o verbo fShai- 
trar, como transmontano, com o significado, a meu ver duvidoso* 
« compreender » ; a Dão ser que se ampliasse arbitrariamente o 
verbo filíuir, «colher». 

Na mesma verba relaciona-se, em dúvida, este verbo com a 
palavra castelhana hijastro, que quere dizer «enteado». Não vejo 
a mínima relação de significado entre os dois vocábulos; exist6 
relação, mas é formal. HijaMrOy dantes fijastro, é o latim /*- 
liastruyn, citado por Isidoro Hispalense, derivado de filium. 
com um suficso que se tornou pejorativo. Sobre tal suficso diz-nos 
Miguel Bréal: — «O lugar de orijem está no grego, em que havia 
verbos em -azõ, sem significação depreciativa . . . deles se de- 



* António Chaves, in O Albergue das crb ancas abandonadas, 
número único, junho de 1903. 

« Bulwer Lytton, Zanoni, cap. último. 
f O Sbculo, de 28 de abril de 1902. 

* O Século, de 3 de junho de 1902. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 461 



rivavam substantivos em -astèr, como EsaASTÉR, «trabalhador». 
Entre tais substantivos alguns bá que parecem conter noção 
depreciativa: patbastèr, «o que faz de pai», mêteásteiba, «a 
que faz de mâe», elai astèr, «a [árvore] que faz de oliveira, o 
zambujeiro». Aos romanos agradaram palavras destas. Em geral, 
podemos notar, o que é malévolo passa facilmente de um a outro 
povo. A língua latina, portanto, possuiu as palavras patraster, 
fíliaster» — ^ 



filho 



Como étimo para este vocábulo, que, como se sabe designa 
um bolo de farinha de trigo e ovo, frito em azeite e polvilhado 
depois com açúcar, propus o latim foUióla ^ com assimilação 
do o à palatal Ih, isto é, a sua mudança em i átono. D. Carolina 
Michaélis de Vasconcelos propõe foliólum ^ Baist foliola. 
O que me parece demonstrado é que filho, com o aberto e o 
género femenino, bá de provir de um vocábulo latino com a ter- 
minação -ola, quer femenino, quer plural neutro. 

Ora essa forma hipotética tanto pode ser folliola plural de 
Jolliolum, deminutivo de follis, «fole», como foliolu j fo- 
lium, «folha». 

fim 

Este vocábulo é hoje, na língua literária, e mesmo na comum 
da conversação, masculino, como o era em latim. Todavia, pro- 
vincialmente, mantém ainda nalguns pontos o antigo género fe- 
menino que tinha. 



< Essai de Sâmantiqub, Paris, 1899, p. 46 e 47 
« Revista Lusitana, i, p. 211. 
3 ib. ra, p. 133. 




I 



Ayotiilai aoa Diciotiárioê fítrhtgttetei 



Aqni segorm dois exemplos, um auligo, UWrário. e o outiD 1 
tnoilenio, populu: 

— «Se o* jdrtnes imores 

O* onú ten Êtn deattradw* -— '. 

— <É 1 Gm do munilo! Detu dos icuda!* — '. [Fngwril j 
de Pednwo, coicdba de Tnft-KoTk^-Gaia}. 



fisto TOcábnlo, Db plural, deàgiu < pano de Unbo i 
fiado», e txa miiitM dícumirios foha esU acepção: é V^KfÊt^ 
friseeseB cb«m«m duirpte. 

Oatn leapçio «pecial de fios rè^e do trecho seguinte, t 
tinhAn idto OMUta do9 diciooáríos: — -Fios — Emhon Teidl*-! 
deiros iaçt», diffemifaiD-«e, dos por este oome conhecidos, eai 1 
senin f«tw de um aó fio de anme ainarello. destempendo, e I 
presos, cada um de per si. a uma Tant d^ iirz^, clianisda pf, 
alguus ceatimetros cravada no chão» — '. 

Servem de armadilha, para apanhar pássaros. 



Hra uma jóia. feita de metal precioso, ouro ou prata, e ador- 
nada com gemas, a qual senia para prender os vestidos: 

— < Um firmai dn* senhon 

Cam nibi 

Pêra o colo de mufi» — '. 



Gil Vicente, O telho da obta. 
O Dia. >ie U d« nuio de líOã. 

Jo^ Pinho, ETHyOGRAPBU Aiukantka, X €■{*, m Fortví*- 
I. p. í<-2. 
Gil Vitente, O t«lho da obta. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 463 



íirmão: v. formão 



fita; fito, de fito 

Esta palavra dizem corresponder ao latim uitta, com mu- 
ança de v em /, esporádica em começo de palavra, isto é, na 
osição forte; e como em toscano é vetta, cora e fechado, o que 
rova ser breve o i da forma latina, o étimo apontado é bastante 
aspeito, apesar da coincidência do significado, pois o i breve 
itino dá e em português. 

Fitas de madeiba, ou de cabpinteiro são as « tiras » que 
plaina separa da tábua, e a que também se chama aparas, com 
lenos propriedade, pois estas podem ser tiradas a enxó ou outra 
írramenta. 

Vocábulo com a mesma pronúncia e escrita, mas de orijem 
iversa, é fita, no sentido de «firme», como em pedra fita, termo 
e arqueolojia pre-histórica, que se aplica a qualquer pedra arti- 
cialmente erguida, por oposição apedra ialouçante, «a que está 
m equilíbrio instável». 

O termo é tirado da nomenclatura vernácula, do onomástico 
)cal, por exemplo, onde encontramos Pêra Fita, «pedra ficsa» 
;f. Pêro, a par de Pedro), Este adjectivo fito, fita é o latim 
ictum, fictam, particípio passado passivo, concorrente com 
ixum, fixam, do verbo figere. 

A locução adverbial de fito, ainda é usual em Trás-os-Montes, 
om a significação de «posto a topo»: — «duas grandes pedras 
ostas de pino, ou de fito» — ^ 



* Manoel Ferreira Deusdado, O recolhimento da Móprbita, in 
Revista de educação e ensino», 1891. 



^H 484 ApogtU/u ao» Dieianárioa I\rrtiifHctf 1 



I 
I 



A miar n /litino corresponde ao francês fldnrr. e tsta Incu- 
çfio está abonada em um soneto atribuído a Boeaje: 

— •Quandu h&s Í« Mom-utlr. eracl fomna, 1 
Ao luu^ii, dl- fllUo ainl. i« c«r luurMi», 

M tfrni de andiir a fUíDO « de Lt ft tons?» — *. 

É suspeita a atribuição: este terceto é apenas a repeti^-ão, 
nem mesmo a paráfrase, do comfiço de outro soneUi bocajiuo: i 

— * Ma^iTo, &e (lUn»! unis, cuia moreno. 
B«ia WTTldo d« pds, in«teiiiiiUiurii>— . 



flauco 

Este vociíhiilo, il« quH boje se está por galicismo ahiisaiulo, 
apenas é português como termo de táctica militar. Em todos 
os outros sentidos cumpre, conforme as circunstâncias, empregar 
lado, ladeira, encosta, costado, ilharga, ilhaJ, etc. 

flauta 
A forma portuguesa é frauta: 

— <E n£ú de agreste arena ou frauta rud&> — *. 

A forma flauta atribui P. Marchot, como étimo flaa- 

tare \ ja ut la *. 



* O Economista, de 28 de julho de 1889, 
' LusIadab, I, 5, 

* jASnEBBBRICHT iJBHR DIBFORTBGHRITTB DBR ROMAKISOHBS PH' 



Apostilas ao8 Dicionários Portugueses 465 



florada 

O Novo DiccioNABio define esta palavra como sendo o nome 
de um — «doce de flores de laranjeira» — . Deve ter muito pou- 
co que comer. .. 

No convento de Santa Ajma, de Leiria, dá-se este nome a ^^ 
ura doce de ovos que tem a forma de flores. É portanto esta 
que lhe deu o nome, e não a substância de que o doce é feito. 



florosa 

Na Madeira (Ribeira Brava) é a mesma ave que em outros 
pontos da ilha se denomina papo-roixo * 



fó 



É uma interjeição que expressa repugnância, muito usual na 
ilha da Madeira, e à qual no continente corresponde phuh, com 
p aspirado. 



foca 



No Minho, principalmente na marjem portuguesa do rio, 
significa «buraco». 

ê 

focar 

Feio verbo! É neolojismo, e quere dizer «pôr em foco». 
— «Pede-lhe um instante de paragem, para o focar» — *. - 



* Emento Schmitz, Dib Vôgbl Madeiras, 1899. 
« O Sbculo, de 29 de março de 1901. 



4M 



ftídBha. ftidiilHit firitínliio 



Estio ji colipdos «B dkioBiiiot modeniM ob d<H8 piimeint 
derÍTidos de fóiee, on famce \ falcem, mas nfto o erti Jimeh 
mkào. qne é o nome de uma fauee equivalente k gadnnhi, e 
com a qual se ceifii a palha: — cCotta a palha o foieinhio»— ^ 

fole-das-migas 

Em jíria de malandrins significa <a barr^». A mio dt 
locQÇio é muito evidente, para qne preeide de ser explicada. 

folgado, fo^aaSes 

Hoje em dia toma-se na acepçio de «divertido, indiridoa 
que folga, divertindo-se». Antigamente, porém, o sentido en 
«mandrião, desocupado», exactamente o do francês yàin^oii/r 

com fundamento na siguificaçáo própria do verbo /o/;^r, «não 
trabalhar >: — «dahi a três dias alguns homens folgazões, que 
são os que ordinariamente davam no mar todo o bom conse- 
lho*—^. 

Ainda hoje o correspondente castelhano holgazán, hohjOiOr 
?ie* quere dizer — «persona va^bunda y ociosa, que no quiere 
trabajar» — , como define o Dicionário da Academia Espanhola, 
sendo pois o que hoje chamamos vadio. 

f51ha, folhedo 

A palavra jWm escrevo-a com circunflecso para a diferen- 
çar de foUia=fóIha, do verbo folhar, como d€sfolha=desfóllui, 



* O Economista, de 15 de oatabro de 1887. 

* BlBL. DB CLÁSSICOS PORTUGUBZES, VoL VII, p. 69. 



Apostilas aos Diciofuirios Portugueses 467 



de desfolluir, verbo postulado pelo particípio passivo substanti- 
vado folhado, por exemplo em pastéis de folhado. 

Jíào está colijido nos dicionários o colectivo folhedo, exem- 
plificado no trecho seguinte: — «Dizimam-nas [às moscas]. . . com 
o auxilio do folhedo» — *. 



fontela 

— «Em Sanhoane, Fontes, Medrões, etc. (Santa Marta de 
Penaguião), para se alcançarem os jnesmos resultados [a vedação 
das vasilhas de barro] com a loiça negra de Visalhães, « para lhe 
tapar as fontellas>, introduzem-se as vasilhas no forno do pão, 
deixando-as aquecer até ao rubro; tiradas para fora verte-se imme- 
diatamente em cada uma farello e agua, mechendo rápido» — *. 



foral, furai 

Na ilha de S. Miguel (Açores) dá-se este nome a uma rua 
estreita ^. (i.Mas é Joral, on furai? 



forçura; fressura 

Estranho nome, que se dava às frisas, na antiga nomencla- 
tura do teatro. — «1.° andar das for curas, preço 2000, 2.^ an- 
dar, camarotes, 2400» — *. 



* José da Silva Picão, Ethnographia do Alto Albmtbjo, t» Por- 
tugália, I, p. 539. 

* Rocha Peixoto, Sobrevivência da primitiva roda de oleiro 
BM Portugal, in Portugália, ii, p. 7(5. 

3 O Século, de 5 de julho de 1901. 

* Alvará de 17 de julho de 1771, in CollecçIo de legislação por- 
TUGUEZA, 1763-1774, Lisboa, 1829, p. 547. 



Farpam i ■ pmai&ri» ^«(«iir àtfrtmftrtt \ frixmra \ f* 
•um y« frictan * frigfr«. «b^*: cL 4 f iit4tlli«nfl 



gnds ^BriM iqi di ^m 4fl dinito • n 
mm fwyMJifc:— BiMK • Mbn^ 
MH •!■ Hi OM MB» • d* oMãra. (T. 



de ««nn &tgiB> — *. 

Como igMvo a oi^enB 4> pabnít kents bs «KiitiL Se < n . 
uiiMBtatin da fmj», pw Afmjm \ itabs roa^ «teda», J ,1 
claro que se ders escreTer com u, o qne, em todo o caso, sem 
maia se^ro. Xote-se que áljurja é rocábnlo 'difiareoie de <ãJorgt, 
qne em árabe se diz aií-íoro *. 

forma, fSrma 

O primeiro destes vocábulos é o maia moderno, copikdo da 
dícionárío latino, proferido com o aberto, como costamamos pn>- 
nanciar o o ao lermos latim ao noaso modo; correspondfr-lhe eu 
castelhano o vocábulo forma de orijem também artificial. O 3^ 



* S. Bngge, in Bomani», ir. 

* O Sbculo, de 30 de muo de 1900. 

> AibiDo dos Santos Ferein Lopo, Bbaqança ■ Bbxquskb'?^ '* 
«Boletim da Sociedade de GeoKraphis de LUb<M>, Série 17.% 1898-99, p-l^ 

* 1/ representa a T.* letra do al&beto uibico, equivalente ao ; t»^ 
lhano actnal. 



Ap08til<i8 ao8 Dicionários Porttigueaes 4(59 

gundo, forma, é de orijem popular, evolutiva, com o fechado, 
como era de esperar, atendendo-se a que é longo no latim forma, 
e fechado se conserva no italiano forma, em muitas das acepções 
que correspondem aos dois vocábulos portugueses. O segundo era 
em castelhano forma, que ao depois se alterou em horma, dife- 
rençando-se hoje /orma, «forma» de horma, «fôrma». 

No Novo Dtccionábio (Suplemento) menciona-se a locução 
— «forma torta, de mau caracter, ruim> — . Nâo é exacta: a lo- 
cução é de forma torta, e explica-se perfeitamente. Os çapatei- 
ros, para o calçado, usam de um molde com a configuração de 
pé, a que se chama forma, e não, forma. Há uns sessenta 
anos, as formas para os dois pés eram iguais, como ainda o são 
nos çapatos de ourelo, ou de trança, nas chinelas mouriscas, nos 
çapatos chamados de mouro, emfim, em todo o calçado barato, 
de fancaria. 

Quando se começaram a usar as formas desiguais, as pessoas 
habituadas aos çapatos parelhos, com menor inclinação para 
dentro, e que podiam, indiferentemente calçar-se num ou no 
outro pé, consideravam-nos mais incómodos (e parece-me que ti- 
nham razão, e digo isto por experiência, pois em criança calcei 
muitos çapatos de f5rma direita): daqui proveio o dizer-se que 
«uma pessoa é forma torta», convém saber: «custa a ajeitar-se à 
nossa vontade, não nos entendemos com ela, ora está do direito, 
ora do avesso». 

Em S. Miguel dos Açores a palavra forma aplica-se ao < bo- 
tão de calça» ^ 

Forma perdida : — «assaz rudimentares eram os moldes para 
taes reproducções [de braceletes de ouro pre-romanos, na Penín- 
sula Hispânica], fôrmas que eram perdidas em seguida á fundição 
da peça, á maneira do systema ainda actualmente usado, assim 
chamado: de forma perdida » — *. 



« O Sbculo, de 5 de julho de 1901. 

« Ricardo Severo, Os bracblbtbs d 'ouro db Arnozblla, in Po r- 
tngalia, ii, p. 65. 



470 ApiítiUa» 40* Dicioitárioê l\)rfif^if«tet 



E esu ama arepçáo do Tocábolo forma (e não, forma) acom- 
panhado de epíteto, que jolgo náo estar rejistada nos dicionários, 
e me parece locofâo técnica. 

formálio 

— < o formálio é uma placa com pinhas de prata, que se põe 
no peito do celebrante» — *. 

formão, firmão 

Estas doas formas, com preferência manifesta dada à pri- 
meira, designa, nos autores portugueses que escreveram na língua 
de Portugal, o que os autores portugueses que modernamente 
escrevem numa linguajem crioula, misto de muitos idiomas, e 
ortografias exóticas, querem que se chame firman: — «dizem que 
tinha formão do Gram Turco para poder ir por terra para o 
reino > — -. 

<J vocábulo é jH^rsiano, fírmax, « ordem >. e os portuírueses 
a«loptaram-iio pr^r intermédio do árabe, iio sentido especial Je 
* cana de recõiueudavão - . ou < salvo-oonduto>, concedido j^^r 
autoridades s«>bt*ranas mouriscas. 



torno, furna 



Xo Gerez tem este vocábulo, do latim furnum, acepção es- 
pecial, como vemos do seguinte passo: — «Os « fornos > do Gerez. 
abrigos de pastores onde só muito baixado se penetra > — ^. 



4 o Dia. de '21 de inarvo de 1902. 

' Diu;:»» «io (.'unto. Década 8.*, cap. xv. 

3 II«.'riii..'ii»'jiMu rajMHo e Leonardo Torres. Viagens â serra dO 
Gerez e suas caldas em setembro de 1SS2, in c Boletim da Sucieda'!»? 
de Geographia>, 4.* sórie, p. õ;53. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 471 



Furna é com todas as probabilidades derivado português de 
forno, com mudança da vogal 6 em u, bastante singular, atenta 
a terminação a da palavra. O que é notável também é a rela- 
ção estabelecida entre forno e furna, «concavidade, algar», e 
que vemos repetida, por mera coincidência, em uma língua da 
nossa tam remota, como é o búlgaro moderno, idioma esclavó- 
nico no qual do mesmo radical se derivaram pext, «fôrno», e 
pexterá, < furna >: — «A mammôa pode ser precedida de um 
corredor ou galeria que tem o nome vulgar de furna, nome 
que também se applica ás grutas» — ^ 



forquilha 

— «O mal da forquilha ou peeira é uma furunculose do 
espaço interdigitado, isto é, um furúnculo entre as unhas do 
boi» — 2. 

O termo peeira vem já rejistado nos dicionários neste sentido, 
6 representa um \2ii\m pedaria j pes, pedis. 



frade, fraire, freire, frei, freira, freirinha 

Esta palavra, do latim fratrem, «irmão», adquiriu, além do 
seu sentido especial e hoje o próprio de «relijioso, pertencente 
a uma ordem relijiosa», outros muitos, quási todos depreciativos. 
Deste modo, frade era o nome que, em Lisboa pelo menos, se 
dava, até data muito recente, a uns colunelos de pedra, ligados, 
ou não, entre si por cadeias ou varões de ferro, e que encerra- 
vam praças, ou' edifícios, impedindo a passajem a veículos ou 
cavalgaduras: vinham a ser uma vedação, mais barata e cómoda 
que os gradeamentos. Quem procurar, ainda os encontrará por 



* J. Leite de Vasconcelos, Portugal prb-historigo, p. 48. 
^ Gazbta das AldbiaSi de 15 de abril de 1906. 




mmtooaa 
ôidA áãr 






eoiqiridOí 
CBtáptiaáAi 




a una 



d» 



tt se ii «eaidhante aka- 
cirranstáBcmSt oono vamot 



jpnaáf IlAÍat é • giio ^ ailho fM^ qoodo se deita na 

foia 9e fiMtr aania. ■!• cstona. 
Freira. imJrtirhU^: ckaBa-«4he aamn q[iiaBdo «He estoih 
n. tomaado fona qae kaiia ana llôr auada • bianea *. 

m 

E evideiitt a mio destes epítetos: o i» freira é deTÍdo i 
>ez:rlhji:i«;;à qae ?« szàp->s harer com a cabeça toucada de ama 
ÉTrira : à «ie /rtiJc esii em op»v5Í^o a esta. 

Orn*.] ui-s^ «rie uis denoininavves sâo antigas, pois há setenta 
anos *iJiK Lio há frades. 

A f-ar de /ra</-e ; fratrem. temos fraire. comparáTel ao 
jrai^t oasteIhaii«>. com Tix^alizavão do / latino em t. mas sem a 
dissimilai^áo do r da 2.* sílaba para l, e freire, com a forma 
prcKrlíiioa abreviada /rW. castelhana frau, e o femenino /rWra, 
que. parece, não foi unnca usado em EIspanha. 

Freira na Ilha da Madeira é o nome de uma ave, Ostrelata 
mollis. Gould \ 



» O Economista, de 28 de fevereiro de 1885. 

' Informação dos snrs. Acácio de Paiva e V. Abreu. 

' Ernesto Schmitz, Die VõOel Madeira*s. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 473 



fragária 

Em Coimbra ó o nome do morango bravo, muito ácido, a 
fresa espanhola, pois ao morango chamam fresôn. 

Hugo Schuchardt dá-nos como termo português /r^^a ^ Nas 
Canárias, ao contrário, usou-se morángana, ou moriángana *, 
sem dúvida uma forma derivada da que em português deu mo- 
rango, isto é, moranicum | mora, «amora». 

Temos de explicar necessariamente por influencia portuguesa 
tanto este vocábulo, como coruja ^, ali usado, e que em caste- 
lhano se diz lechuza, 

fragulho 

Termo açoriano: é o nome que dão nas ilhas dos Açores às 
couves. 

fralda, falda, fraldiqueira, fraldiqueiro, faltriqueira 

Bluteau no seu Vocabulário diz-nos que a segimda destas 
formas é — «mais épica» — , a outra mais usada. Na linguajem 
actual distingue-se em geral falda de m^nte=aba, vertente de 
monte, de fralda de vestido, de camisa, etc. 

Tenho duvida sobre se são duas formas do mesmo vocábulo 
orijinário. Os etimolojistas dizem-nos que falda, palavra que se 
encontra em várias línguas românicas, é voz germânica, falda, 
« dobra, prega » *, e a ela subordinam tanto falda, como fralda, 



* Erbolibghb Studibn, IX, p. 143. 

* João Marquess of Bute, On thb ancibnt lânguâGb op Tbnbrifb, 
Londres, 1891, p. 28. 

» tô.p. 22. 

* F. KOrting, Latbinisch-romanisohbs Wõrtbrbuch, Paderborn, 
1891, n.° 3114, e Kluge, Etymologisohbs Wõrtbrbuch dbr dbutschbn 
SprâCHB, Estrasburgo, 1889, suò voe, fait e falten. 



■n 



474 ApoÊtíloÊ moÊ DieUmáriM JPbrH^mew 

sem nos expUcaram eomo se introdimu aqude r, qwt se rqpete 
aíndt qae em oaln nbuiçio« no eastelhmno faUriçuera, fim 
adjectiTa de um deminiitifo fàUríea, oa faldriea ( fMm, 
fraUa. Fattriquera em castelhano quero dwur c a^ iMra que n 
trai na saia, ou aba do Testido», e este mesmo sentido tblii • 
português fraldiqueira, como vemos, p<Nr exemplo, no Glébiso 
DA BnuA, de Gil Vicente: 

— « Dttirte, tmdet tú« hi 
DinheiíoiiafiEildiqiMiia?» — . 

Nio hi portanto motivo para a interprotaçto «hábito, talar», 
proposta em dúvida para este vocábulo no Novo Drooioirl- 
RIO, ao aboná-lo com este passo de Francisco Manoel do ^is- 
cimento: — «contas na mfto, punhal na fraídiqueira, fitando 
em Deus» — . 

Fraldiqueiro, como adjectivo, que no femenino se sabstas- 
tivou naquele sentido especial, quere diíer co que pertence i 
fraldica, à fralda, e assim eSo Jraldiqueiro » , é o «totó pe- 
queuo, que está sempre no regaço, ou agarrado às saias». 

Martinho Brederode, na colecção de formosas poesias intitu- 
lada Sul ^ usou a forinsL faltriqueira: 



— « Cartas d*amor na íaltriqacira suja, 
Kainos de fiores nas suadas mãos > — 



frango 

Esta palavra, que designa um «galo novo», considera-a D. Ca- 
rolina Michaêlis de Vasconcelos como derivada áefratuso, «&an- 
cês», e compara esta formação à de galo, que também queredi- 



Lisboa, 1905, p. 37. 




ApoatUas aos Dicionários Portugueses 475 



zer «da Gália, ou França». Com respeito à mudança de c em g, 
confronte-se, como diz, manga \ man(i)ca *. 

O simples confronto mostra que ó improvável o étimo pro- 
posto: visto que o c estava precedido de vogal em manica, é na- 
tural que o abrandamento do c em ^ precedesse a queda do i; 
além disso, francum nào explicaria /rángrao. 



fraseai 

— ^Fraseai é naquella provincia [Alentejo] uma meda de 
lenha ou tojo, em geral quadrangular» — *. 



freguês, freguesia (freguês, freguesia) 

Duas etimolojias tem sido propostas para este vocábulo, 
filius ecclesiae, e filius gregis, «filho da igreja», e «filho 
da grei». 

A primeira parece que deve ser rejeitada, em razão do cor- 
respondente castelhano feligrés, visto como nesta língua os gru- 
pos de consoante l nào mudam este em r, como sucede em por- 
tuguês (cf. clavo e cravo), e portanto o r de feligrés deve provir 
de r latino. 

Temos pois que filius gregis é o étimo que devemos ter 
como provável, admitindo que houve em português metátese do r 
para a primeira sílaba, freguês por fegrês. Não direi que tudo 
esteja bem explicado, pois o não fica o i de fli-, mudado para e 
em castelhano, e para è em português, com supressão do l me- 
dial. — «Os presbyteros que os dirigem espiritualmente, cha- 



* Revista Lusitana, iii, p. 168. 

« Diário db Noticias, de 21 de julho de 1904. 



nt&r-lhfí-hââ tem fiUioe. fiU»i efetesie. liligreses, fregueses, re- 
mite drootoinaçio rvU^osa — popular> — '. 

Vw* At Tvlijiío «ristâ foi o t«riuo freguCu usado por Aji- 
UbÍo PraorãscQ Cirdim, couj referência aos sectários do badismo: 
— ■Tonion (tutra tm, acompanhado Av outro bonio e de alguns 
ag«s dJMÍpiílos c freEUfW*' — *. 

O tema fre<fnf* tíin iiin sinónimo, paroquiano, como fre- 
guetui a (*m em ifaróqitía, ou. não sei por quê. parrúquia, d( 
pároco, 00 párrofo. O que ê estranho é que. emquaDto em por- 
tuguês n t«nno paroquúiiio se não aplica jamais ao tudividuo 
quv conipn piir hiUiB na ue«ua loja de venda, mas sim fregufí. 
araotr(« era E^pwiha exaetameate o contrário, poia lá o fregsb 
da loja deiHHnilia-se parroquiano, nas r> fnyuêg, o paroquiano 
da mesma ígr^ Ht^BC feiigrêa. 



fml. froUdo 



iregnH j 

quúaie J 

TV>tefo, 1 

'Utese, 1 



Xa RKTiatA. LrsiTAKA ' da-se como metátese a fonua^roIíA», 
por florido, num teito anterior ao século xv. Não bá metátese, 
visto, que Jrolido é siiuplesmeute o participio passivo de um 
rcrhú Jn/íir, ãeávado àe JiiA, que em a íonaã coutomporúie^ 
e ainda posterior, do vocábulo que actualmente se diz flor. 

frouxel 

Bluteau. no Vocabulário poBTcairKz b latino define dêst« 
modo a palavra: — «A penna das aves, mais pequena, e miis 
inolle> — . O Dicionário francês de Emílio Littré dá-nosdeâír^ 
don a deSnição seguinte: — «l." Petites plames à tlge grele,! 
barbuJes longues et fines, appelées aussi duvet [penajem], fouraies 



< Alberto Sampaio, As < Tillas > do Nortb i>b Poamou., íh Pot- 
.ugalia, I, p. 583. 

* Batalhas da Companhia db Jhsds, Lisboa, 1S94, p. 220. 

• Tol. vm, p. 242, & Vislo DB Tdkdalo. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 477 



par des oiseaux palmipèdes et surtoiít par Teider, anãs mollis- 
sima, qui vit principalement en Islande //. 2.° Un édredon, e» u^rv 
couvre-pieds fait d'édredon... Étym. du suédois eider, espèce 
d'oie du Nord, et dun, petite plume, duvet» — . 

Cotejadas as duas definições eutre si e com a tradução latina 
que da palavra portuguesa faz Bluteau, mollior auium pluma, 
parece que com frouxel nos poderíamos contentar, ou com penvr 
jem, prescindindo do francês édredon, que para França é ao 
menos afrancesado, e para cá nem aportuguesado íoi. 

fumeiro 

Como se sabe, designa fumeiro a carne de porco ensacada, 
de enchido, e depois fumada. 

Eis aqui uma transcrição que deixa claríssimo o significado: 
— «Dispensa. Vasto compartimento abarrotado de comestíveis. 
Ali se armazena o fumeiro dos suínos, isto é o producto da ma- 
tança de doze a vinte cabeças graúdas, as melhores que sahiram 
do montado. . . O fumeiro comprehende: grossas mantas de tou- 
cinho empilhado em salmouras próprias, ou em potes de barro e 
caixotes; as varas de enchido, como paios, chouriças, linguiças, 
morcellas, cacholeiras e farinheiras, cada qual em separado, e 
todas suspensas por cordas presas ao tecto, formando por este 
modo a parreira ou latada de carne cheia, previamente defumada 
nos vãos da chaminé... Em vasilhas observa-se egualmente a 
manteiga e os pésunhos e lacões» — K 

fumo y fumo 

Esta palavra abona-se com a « Belação do naufrájio da nau 
Sam Tiago», de Manuel Godinho Cardoso: — «Após estes negros 



^ J. da Silva Picão, Ethnographia do Alto Albmtbjo, in Po rtu 
galia, I, p. 537. 



9tm «■ Pimi iM, qm& ■■im chamam [as o- 

Citt|«aBt» Baia alanto a falam ae npita, heaito em eoa- 
ailNar ccct» a accoteafte aaitada, poia a edi(io é de pouca oa 
iBBa fe ■!• aí pev|«» ea ama tqiográficos pululam ndt, 
pmcipahacaie ca mio ^ a ortografia adoptada ser, 
lio pod«. aibitnria e «coaigniea te. 



Jumaragio 

Ãsàm m» apRscBla o Xoto Ihociosiuo este Todibnlo, 
com a wtt d€ cempOado pela primeín Teiy e ama abonaçio de 
Latino OiNriko — «o kaho de um fimangío» — . No Suplemcato 
ao mesmo dkmttrio dcdan-ae que, por infonnaçio obtida, e 
ToÃbalo DOTO t apeaas um èno de caixa por naufrágio, mM 
que Lftuao o deixou paasar, autenticaiido-o portanto. É pois o 
que <l\$ trineeâes d«|omiaam eofuille lejoologique, «gralha lecsi- 
cogrifioa >. que já fi|rurou duas Tens. e será bom nfto figaitr 

N'* Suplemenio chamA-se-lhe — « suppôsto disparate » — : r:Pois 
aia.ia risia duvidar O faoto de Latino Coelho o haver deixado 
passar também não esta provado, visto que as quatro primeiras 
letras do >#.::</'»-.r7í'.> trocadas em fiaui-ragio o podiam ter sido 
de{vis de leiía jor òle a revisão. 



funé 



Esta palavra é japonesa e quere dizer < embarcação > : — «uma 
ponte feita de barcos que ]os japões] chamam funés * — -. 



* ÍW BlBL. DB CLÁSSICOS PORTUGUBZBS, Tol. XLIII, p. 04. 

* Antúnio Francisco Cardiín, Batalhas da Companhia de Jests, 
I, p. 54. 



Apostileis aos Dicionários Portugueses 479 



fungueiro, fangiíeiro, fragiíeiro 

O Novo DiccioNÁKio escreve a segunda destas formas fan- 
gueiro, isto é, com o u nulo para a pronúncia; na terceira 
marca as cimalhas no w, o que equivale a indicar que se pronun- 
cia yro^i^^Vo, soando esse u. Eu, em conformidade com o que 
expus na Ortografia Nacional ^ substituo pelo acento grave as 
cimalhas, com o fim de denotar que o u entre ^r e ^ ou i se 
profere. 

O mesmo Dicionário remete de fanqueiro (aliás fangúeiro) 
para Jragúeiro, entendendo-se pois que são a mesma palavra 
com duas formas; e da última diz, como termo da Beira, o se- 
guinte: — «pau tosco e comprido; estadulho; pau em que encaba 
o vassoiro com que se varrem as cinzas e brasas do forno, para 
neste se deitar o pão que se vae cozer; adj, ardente. . . (De frá- 
gua)»—. 

É possível, e mesmo provável que de frágua provenha o 
adjectivo fragàeiro, ali abonado com Francisco Manuel do Nas- 
cimento, o que nos leva a crer que é neolojismo deste escritor, 
que tantos inventou, com maior ou menor felicidade. 

Como substantivo, o étimo é suspeito, porque frágua é uma 
«forja», e não um «f5mo»; e por outra parte não pode haver 
étimo comum a fragúeiro e fangàeiro, sendo certo que o último 
procede de funicularium j funis, «corda» {] funguairo \ fun- 
gueiro I fangiíeiro *. 



funil, funilaria 

A palavra funil, muito usada na Estremadura, e menos no 
norte onde lhe substituem embude, castelhano embuão, é o latim 



* Lisboa, 1894, p. 90 e 200. 
« Revista Lusitana, ii, p. 34. 



imfunãile ■, por tBfuaditiuIum. De funil se derivam /uni- 
ln'ro t junHaria, qur qu^re dizer não si <Ioja de faIlilri^>' 
<«l>m de fuiiileiro*! como se vê do trecho seguiste: 
I de outras Imças, porventura a ohra de fumU- 
I parte • — '. 

Fkniiarm desipia tanbém a • colecção esteira de condtKD- 
nçies com ^ae tun mdtrfdna se adorna», corrcspoodeodo ne^ 
eeo M qae em ftaneSs, tatuMiu em tom de mofa, se cbuiia 
/frhia^erie. 

Funileiív, oÍo é úaieamenbe o 'Eabrícante de fanis*, mu 
em gvni u que t^eiucaniNiUi se denomina latoeiro de fvlha 
branfa. por opoaçâo ao latoeiro, wm mais nuda, que trabalb» 
em laliiv, e iiio em J'õlha-dc-Flandres, como o funileiro. qti( 
o piivo mudou em Jviindro, por influência de fõUta. 



Furada 

Êatí» nome de várias terras costuma escrever-se iis veies, « 
nao muito freqtieDteiuenle, A/tirada, o que é um erro, visto que 
o a ê ii ariig». erro aemelbante ao que os franceses e ingleses 
comvtem quando escrevem O(xirío, por o Porto. E regra collh^ 
cida que. quando um nome comum passa a especializar-se cotbo 
nome de terra, costuma acompanhar-se do artigo, se por outM 
modo uilo está particularizado. Assim, temos a Abrigada, a 
Granja, o Tramagal, o Ginjal: mas Pena-fiel, ou mudernâ- 
mente Pcna/iel, Paço-íT Arcoft, Porto-de-Más, etc. 

Quando o nome comum deixou de estar presente à meic^ns 
do povo, por se haver tomado obsoleto, o artigo muitas veiw 
elimina-se: assim, temos Cascais, e nSo os Cascais, Aioia, m 
vez de « Asoia (árabe AL-zauris, «a ermida»), Valadares, etf, 



■ Júlio Corna, Grundrii» dbr ROíuKieCHEM Phiu>iX)oik, S 
18S8. 1. p. 770. 

* Portugália, i,p. 266. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 481 



Ora furada é um nome comum, o qual significa uma « ca- 
verna artificial», como há, por exemplo, na Galiza a chamada 
Furada dos Ca(n)s, citada por Vilamil y Castro, como sendo 
uma importante gruta pre-histórica. 



fura-mar 

Aos sete vocábulos derivados do verbo furar, no imperativo, 
•como substantivos, colijidos. no Novo Diccionákio e seu Suple- 
mento, tenho a acrescentar os seguintes nomes de aves: 

/2íra-6ardo; Madeira, «gavião». 

/wra-ma?'; Madeira, «boeiro» ^ 



fuselo 



E um deminutivo de fuso. Eis aqui uma definição minuciosa: 
— « duas chapas de madeira . . . presas uma á outra por sete ou 
oito pausinhos redondos de um palmo de comprido ... são os 
Jusellos» — ^. 

fuseola, fuseoh 

Este neolojismo ó feito à imitação do francês fusaíole, termo 
de arqueolojia pre-histórica, derivado do italiano fusaiòlo, « gas- 
tâo do fuso», isto é, o pedaço de chumbo ou outra substância 
pesada que mantém verticalmente o fio e o ajuda a torcer, posto 
na ponta, ou ferreta do fuso: — <As fuseolas que aparecem em 
grande abundância nas ruinas das citanias, idênticas ás usadas 
domesticamente na actualidade » — ^. Ora, como ninguém dá seme- 



* Ernesto Schmitz, Dib Vôgbl Madbira's. 

* Portugália, I, p. 080. 
3 Portugália, i, p. 317. 

31 



4S2 Apo$tila$ aoê Diaonárim Fúrtuguete» 

Ihante nome às asadas na actualidade, melhor f5ra dar-Ih» 
o que teem em portugaès. 
V. gistio. 

fúti 

Xo RelatíSbio da Campaxha do Babué em 1902 *, de 
.íoào de Azevedo Coatinho. encontra-se a seguinte expressão, 
usada na África Oriental Portuguesa: — <na esperança de iom 
Mi (fazer fogo)» — . Em nota acrescenta-se: — *Futi, espin- 
garda ' — . 



gadanha, gadanho, gadanhar, agadanhar, engadanhar, 
esgadanhar. agatanhar, esgatanhar 

Dois étimos tem sido propostos para a palavra gadanha. 
fornia hoje mais usual, ou guadanha, a que Bluteau deu a pre- 
f»'r»'iiria, e que é a castelhana: e digo dois, ambos germânicos. 
j"T«|i:».- o aiáI»io>. pel'^ Dicionário da Academia Espanhola prc^- 
]'•.>:... iifio i!hTe«f rontianva, ik»ís nem Dozy nem Eguilaz òí Yaa- 
LTua^ •' a-hiiiiiram, visto que ambos o»mitem o vocábulo (juadaha 
eiitr»' ••> inuit.s «le orijem arábica a que os seus glossários deram 
cabimento. 

AiiíImk ..< ílitns /'timos irermáuicos se podem ver em Kõiliu?*- 
H priínrir.' <l»*4.^s. que F. Adolfo (,'oelho parece preferir ^. rela- 
riniiu ij(iJifuh>i c«»in o verbo (/(inluir. e é aquele que a este vert"? 
deu Miij^Mii nas líutruas românicas, com excepção do romeno, em 
({iw n ilrinento irermánico é, a bem dizer, nulo: * wuidani/on. 
pascer, pastorear . que subsiste no alto alemão moderno ireuien. 



* '// ^Oaz«ta <la^ ('iloniao. «!<• lÕ ilf maio de 10<).'>. 

' Lateimsch-koma.mschks WouTBKRrcn. 4')&2 e S!^4'). 

^ /// r-»rt iiLMlia . 1), »J:.>«.; .• iiuta. 




Apostila^t aos Dicionários Portug^ueses 483 



O outro é uma base verbal, hivai. «atiar», o alto alemão mo- 
derno wetzen. Houve também quem propusesse Ouadix, nome 
próprio de cidade na província de Granada, mas ninguém lho 
aceitou. 

Declaro terminantemente que nenhum destes étimos oferece 
a mínima probabilidade de ser o verdadeiro; e mesmo o que pa- 
rece ter recebido maior anuência, e relaciona este nome de 
alfaia agrícola com o verbo ganhar, apresenta tantas dificulda- 
des fonéticas e ideolójicas, que nos vemos na necessidade impe- 
riosa de rejeitá-lo. Com efeito, ,ícomo é que a única língua ro- 
mânica que conservou o d, o italiano guadagnare, «ganhar», é 
justamente aquela para a qual o vocábulo é estranho? E por 
outra parte, fise o dito verbo tanto no português ganhar , como 
no castelhano ganar, perdeu esse d, poflljue razão o conservaria^ 
num derivado? 

Pelo que respeita à parte ideolójica, ^íqual relação se há de 
estabelecer necessária entre um verbo, cujo significado é «pas- 
torear», e um substantivo designando uma alfaia agrícola apli- 
cada à ceifa de herva, ou de mato? ^;Pois a vida de pastor não é 
a antítese da do lavrador? 

Vê-se portanto que é este um dos numerosos vocábulos de 
uso cotidiano, cuja orijem é desconhecida. 

De gadanlia procede gadanhar, «ceifar herva», o francês 
faucher j fatix, «fouce de cabo». 

A par de gadanha, «fouce roçadoura», temos um masculino 
gadanho, que quere dizer «dedo enclavinhado», como «para jra- 
/ar^ arrebatar»; e com gadanho temos uma série de verbos 
dele derivados: engadanharem-se os dedos com frio: agadanhar, 
« estender os gadanhos para arrebatar » ; esgadanhar, « arranhar 
com os gadanhos*, que por infiuéncia da palavra gato, criatura 
a quem é muito aplicável o verbo, se converteu em esgatayihar, 
como agadanhar, em aijatanhar. 

Com mudança do d em r, rara mas efectiva (cf. mentira, 
por mentida, e o castelhano j9ar/7m^ía com o português padiola, 
q. V.), tem os falares transmontanos os parti cípios engaranhados, 
e engaranhidos, que pressupõem os verbos engaranhar e enga- 



484 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ranhir, e querem dizer «entorpecidos, tolhidos os dedos com o 
frio»; e o étimo imediato deles é com certeza gadanho K 



gade, gadé 

O Novo DicciONÁRio rejista a segunda destas formas como 
termo de jíria, com a significação de «dinheiro». 

A abonaçâo de que tenho nota é da primeira, na mesma 
acepção; é possível, porém, que haja nela erro tipográfico, o 
que não posso decidir porque nunca ouvi nem uma nem a outra: 
— « Quando não havia gade para vinho, meu pae batia-lhe » — *. 



gadelha, guedelha 

O DicciONAEio Contemporâneo rejista somente a segunda 
destas formas, o Novo Diccionário ambas, dando, como Blu- 
teau, a preferência à primeira, que é a mais usual no povo, e 
também a galega. O que nenhum dos dois faz é consignar a sig- 
nificação de «madeixa de fios>, a que Bluteau se referira na 
inscrição (jadelhas de lã, e Roquete ^ traduzira para francês do 
modo seguinte: — «ttocon de laine. Guedelha^^ de seda, étoffe tle 
soie peluchée* — . Esta última locução foi empregada pelo cro- 
nista Kui de Pina ua Ckónica de El-rei Dom Afonso v, des- 
crevendo as festas celebradas por ocasião do casamento da irmã 
de El-rei com o Imperador Frederico em fins do ano de 1449: 
— «El-rei... desafiou os cavaleiros para as justas reaes, que 
manteve ua rua Nova com condições mui excelentes e de graude 
gentileza, e assi [foram] propostos grados e empresas mui ricas 



* Na Revista Lusitana, i, j). 212 tratoi deste vocábulo, beui ooiuo 
de ixidiola, juinhucUi, j). 215. 

2 O DíA, de '!■) de s.'tembro de l!)02. 

3 DiCTIONNAIRE P0RTUGAI8-FRANÇAIS, Paris, 1855. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 485 



para quem mais galante viesse á tea, e assi melhor justasse. 
A que o infante Dom Fernando veio com seus ventureiros vesti- 
dos de guedelhas de seda fina como salvages, em cima de 
bons cavalos envestidos e cubertos de figuras e cores de alimá- 
rias conhecidas, e outros diformes» — K 

Vê-se que foi o que hoje se chamaria mascarada. Meio sé- 
culo antes houvera outra em França, também por ocasião de um 
casamento entre pessoas da corte de Carlos vi, na qual este rei 
e mais cinco senhores se vestiram de selvajens, cobertos de gue- 
delha de linho, à feição de pêlo, e assim apareceram na sala do 
baile, onde por ordem do rei se apagaram os brandões, com 
receio de algum desastre. O caso porém foi desastroso, e a pla- 
neada comédia converteu-se em pavorosa trajédia, breve, mas 
eloquentemente descrita pelo cronista Froissart. Apesar da re- 
comendação do rei, o duque de Orleàs entrou na sala acompa- 
nhado de seis homens com brandões; tirou um das mãos de um 
deles par ver se conhecia os mascarados, que vinham presos mis 
aos outros, com excepção do rei, que, sendo o primeiro da fileira, 
se soltara para falar à duquesa de Berri. A luz da tocha pegou 
fogo na guedelha de linho de um desses mascarados, guedelha 
que estava colada com pez a uma túnica, e assim pereceram dois 
logo ali, outros dois ao cabo de dois dias, no maior tormento, 
escapando o quinto, porque se lembrou de lançar sobre si a água 
que estava em uma dorna, para nela se lavarem copos. 

O que é mais horroroso neste triste caso é que Froissart dá 
a entender que não foi só leviandade, mas acaso malvadez da 
parte do duque, o que o levou a chegar a tocha a um dos mas- 
carados, quando nos diz, que o duque foi o culpado, posto que a 
pouca idade e talvez a ignorância o levassem a semelhante acto 
de loucura '. 

Vê-se pois que a palavra guedelha ou gadelha, não significa 
unicamente «cabelo», mas também toda a imitação de cabelo ou 



1 cap. oxxxi. 

« Chroniqubs db Froissart, livro, iv, cap. 7.**, Paris, 1881. 



486 ApoMaa aoê Didanánoê B^rtiêgueieê 

pêlo, feita com qualquer subrtánda filamentosa, lã, linho, ou 
seda, por exemplo. 

gadi (gaddy) 

Na interessante monografia escrita por F. X. Ernesto Femán- 
dez, intitulada O bbodcbn do sal, abkabt b auahbboas ha 
Inbia Pobtugubza, define-se assim êste termo: — •Oaddyen 
um estabelecimento em que se arrecadara [9ie] direitos sobre o 
sal que d^uma provincia fosse exportado para outra. Era situada 
na passagem dos rios» — ^ 

Todavia, o termo tem outra acepçfto, e significa o próprio im* 
posto, no passo seguinte: — «Em antiquissimas pautas aduanei- 
ras, conhecidas sob a denominação de CantmÊpato, ou tabeliã 
de direitos do tempo do dominante mouro, que vigorou nas alfiin- 
degas de Salcete e Bardez até o anuo de 1811, apparece um 
imposto que incide sobre o sal sob o nome de Qaddy* — '. 

O vocábulo está escrito à maneira tradicional da Índia Por- 
tuguesa, usada na transcrição das palavras indijenas, isto é, y 
para i acentuado, e dd, para o d cacuminal, convém saber, pro- 
ferido no ponto em que proferimos o r de cara. O y indicava o 
i acentuado, equivalendo a dois ii, como o a, e, o, accentuados 
se escreviam aa, ee, oo. 

gado criado 

Eis a definição autorizada desta expressão: — < quando é certo 
que na linguagem agrícola gado criado quer dizer que é da la- 
voura de seu dono e não comprado pára simples negócio de mar- 
chante ou contratador > — ^. 



^ in < Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa», 23.* série, 
p. 223, nota. 

« ib, p. 223, texto. 

' Gazbta das aldeias, de 27 de agosto de 1903. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 487 



gafa, gafar, gafo, gafeira, gafem, gafaria, gafejar; 
gafauho (?), gafanhoto, gafauhão; Gafanha, Gafanhoeira, 

Gafes, Gafete, Gafarim 

O sentido comum a todos estes vocábulos parece ser o de 
«gancho, ganchoso, enganchar >, cousa que já advertira Bluteau 
a respeito dos primeiros seis, por estas palavras: — «Gafa e Ga- 
far. Segundo a etymologia dos que derivam Oafa do hebraico 
Cafaf, que significa encurvar, entortar, arquear, he fácil de en- 
tender os differentes sentidos em que se tomam estas palavras, 
porque Gafa, instrumento com que se curva a besta, faz um 
eífeito semelhante à Gafa, ou lepra, doença que encolhe os ner- 
vos das mãos e pés. Gafar é arrebatar com as unhas, e gafar-se 
de piolhos, he encher-se dos ditos insectos, que afferrão na 
carne, e com picadas molestào» — ^ Isto nos diz no Suplemento, 
e no corpo do Vocabulário dissera : — « Gafa. He o instrumento 
com que se curva a verga da besta, até eucaxala na noz — . 
Gafab, arrebatar com as unhas ou com instrumento a modo de 
gafa. — Gafo. Leproso ou Enfermo de certo género de lepra, que 
não só corroe as carnes, mas deixa os dedos das mãos revoltos, 
como os das aves de rapina. — Gafeiba sarna do cão. — He mal 
que dá nas cabras, pella-as e as mata» — . 

Santa Rosa de Viterbo documenta o nome gafo, não só como 
significando «leproso», mas também «leprosório, lazareto, hospi- 
tal onde os leprosos se abrigam, e são tratados » «. 

A. A. Cortesão ^ cita como orijem do vocábulo gafo portu- 
guês o castelhano gafo [^e porque não o contrário?], e a este 
dá como étimo, mas em dúvida, um árabe acfao. 

Em árabe existe na realidade o adjectivo AQFao, «encarqui- 



* Vocabulário portugubz b latino, vol. iv, e Saplemento, i. 

* Elucidário, Lisboa, 1793. 

* Subsídios para um diccionário complbto, Coimbra, 1900. 



4SS Apostilas aos IHciofiãrios Portugueses 



Ihado, contorcido >, do radical qaFaoa, «encolher, encarquilhar» S 
correspondente ao hebraico citado, xarap (kafaf) «vergar, do- 
brar» *, e é possível que do árabe proviesse o vocábulo. Gajar 
em galego significa «arrepanhar, esgadanhar, como fazem os 
gatos». 

F. Adolfo Coelho ^ relaciona gafo e um copioso material de 
derivados com gafa, « garra » : o nome seria aos leprosos aplica- 
do, em razão do fenómeno característico de tam horrorosa doença, 
a mão recurva, revolta, adunca, como garra de ave de rapina. 

Atribui Kõrting * orijem germânica, e não arábica, ao vocá- 
bulo gafttf tanto castelhano, «garra, gancho», como português 
nas suas várias acepções, e diz que procede do baixo-alemão gaj- 
fel, correspondente ao alto-alemáo ^aè^Z, «garfo». Efectivamente, 
o baixo alemão possui a palavra gaffél, que, conforme João Car- 
los Dâhnert ^ quere dizer: — «espécie de gancho ou croque para 
içar e arrear cousas que estão pendentes de uma vara» — . Com 
estes vocábulos pareceria relacionar-se não só o garfo português 
e o garfio castelhano, «ancinho», mas também o castelhano <7íir- 
fear, «agarrar com ancinho», ^ar^na, «garra» e garfiíiar, «rou- 
bar», e talvez o português engalfinhar-se, gaJfarro, etc, con- 
quanto a introdução de r e / antes do / seja difícil de explicar 
nestas últimas fornias, tanto portuguesas como castelhanas. Gafa, 
como adjectivo, aplica-se a uma doença da azeitona, que Bluteau 
descreve assim: — «Azeitona gafa. He a que com as névoas 
se engela na Oliveira, e apodrecendo nella, cabe sem ser vare- 
jada :* — . 

Os vocábulos gafa, gafar, gafenfo, gafado, etc. aplicam-se 
a outras moléstias, além da lepra do homem, da sarna do cào ou 
da cabra, e do peco das azeitonas, como se vê do trecho seguin- 



1 IMot, VOCABIJLAIRE ARABE-FRAXÇAIS, Bciruto, 1893, p. GOO, Cul. U- 

2 Hbbrew-English Lbxicon, Londres, p. 128, col. i. 

3 DiCCIONARIO MANUAL ETYMOLOGICO DA LÍNGUA PORTUGI^EZA. 

•* Latenisch-romaniscues Worterbuch, 189(3, n.°^ 3546, 3559. 

5 Platt-Dkutsches Worter-Buch, Stralsund, 1781. 



Apostilas (WS Dicionários Portugueses 489 



te : — « Aparecem quasi todos [os gafanhotos] gafados (destruídos 
ou affectados de qualquer doença)» — . 

A propósito do nome gafanhoto, dado ao saltão, direi que 
me parece ainda um ramo da mesma estirpe, e que lhe foi dado 
em razão da forma ganchosa das patas deanteiras. Ora, gafanhoto 
é um deminutivo (cf. i^erdigoto do radical à^ perdiz, perdi c-), 
e tanto, que há um aumentativo gafanhão, que quere dizer ga- 
fanhoto grande. Um e o outro pressupõem um primitivo gafa- 
nho ou gafanha, que não está colijido, nem posso abonar, mas 
que naturalmente existe, visto que o vemos, no onomástico local, 
em Gafanha, aldeia do Douro, com derivados, como Oafanhão, 
na Beira- Alta, e Gafanhoeira, no Alentejo; e João Maria Bap- 
tista rejista mais Gafanhoto e Gafanhotos '. Pinho Leal ^ 
conta-nos umas histórias a respeito de Gafanlia, das quais a 
mais verosímil é que antes houvesse ali uma gafaria. Assim 
será. A. A. Cortesão aduz mais o substantivo gafem, «lepra», 
abonando-o: — «Que o faças seer saaom áe gafeem ^. Gafejar, 
na Madeira e na Estremadura significa, «fervilhar, pulular». 
Cf. Bluteau, supra. Tudo isto parece provir áe gafa, «garra». 

E de notar que saltão se diz em castelhano langosta, pala- 
vra que também denomina a lagosta, j locusta. A semelhança 
de forma, especialmente com referencia às patas e às turqueses, 
determinou a identidade do nome. 

A este respeito me ocotre a notícia dada por um periódico, 
de uma chuva de lagostas que em Espanha tinha devastado um 
campo. Eram gafanhotos. Parecida com esta bernardice publicou 
outro jornal uma tradução de um conto castelhano, e o tradutor 
dava-nos esta novidade estranha: o diabo é surdo porque tinha 
entalado a mão direita! O castelhano dizia zurdo, «canhote», 
porque surdo se diz lá sor do. Outro ainda participava aos seus 



1 Chorográphia moderna do rbino db Portugal, vi, Lisboa, 
1878. 

» Portugal antigo b moderno, Lisboa, vol. lu, 1874. 

« Subsídios para um diccionário completo, Coimbra, 1900. 



leitores qa« eertts tropas estaram acampadas nzs orelhas ia 
Danúbio! O teito «spanhoi dina orilliu, 'inaijeDS*, roribola 
que tDOffolójiraiiieiiI^ «omsponde ao portu^piêã oureia porque 
ordha I anric(u)la é em castelhano ore^a. Sio fireqUestiati- 
DBS fetes primores de tradnf^o! 

Em ra3t«-lhano ^/a teve maior desenrolTímeato no sen sen- 
tido saturai de >gani-bo>, <|U« o correspondente português: gafa> 
qiwre U diíer não só as hastes dos óculos Scsos. que os segu- 
ram nas orelhas, nus, com» termo &oeto, os próprios óculos; 
como 009 Ibe cbutanM», t»inbéin por graça. ean^Uias. aludiudo 
i umafio geminada de ferro ou madeira que se coloca sdbre o 
lombo das ai^raolai, para se lhe laeter carga. O deminutivo ga- 
Jeíf quere em castelhano dizer «colchete*, que também se dii 
eoreJurte, 

O veilw gafar, «agarrar», é pouco usado actualmente em 
portugufia, e creio obsoleta a acepção em que se emprega em ga- 
lego de aijailaitbtir, e^gadanhiir, v ul^^armetite es-jatanhar. como 
disse, pur iiitluáicia da palavra galo. que è o animal mais useiro 
e vemro em alimpar e aHai as unhas, seja em que fSr, mesmo 
na nossa pele. 

Podemos estabelecer o desenrolvimento do sentido da pala- 
vra ffafa em português do modo seguinte: 

^fa, 'garra»: gafar, (gafanho), gafanhào, gafanhoto, ga- 
fejar 
< lepra • : gafo, gafado, gafem, gafeiro, gafeirento, 

gafeiroao, gafaria, engafeddo 
«sarna*: gafento 

• doeuças nas oliveiras • : gafo, gafar, gafado 
Duvidosos: galfarro, engalfinhar 
: garfo, e seus derivados. 



Outros nomes próprios de povoações, derivados de gafo 8io 
Oafes, no concelho de Cabeceiras de Basto, Oafarim, no de 
Ponte de Lima, Qafete, no do Crato. 



Apostilas aos Diciofiários Portugueses 491 



gaio 

Vareta de pau muito tlecsivel, terminada na sua parte su- 
erior por umas laçadas, feitas com a própria vareta vergada V 



gaio; gaiosa 

Na Madeira é o nome da gaivota, durante o primeiro ano de 
ascida, conforme a copiosa e interessante monografia de Ernesto 
chmitz, intitulada Dib Vôqel Madeibas [As aves da ilha da 
ladeira], publicada no Anuário de Ornitolojia, vol. x, 1899, que 
luitas vezes tenho citado, para reunir aqui a riquíssima nomen- 
latura vulgar, com tamanha dilijéncia colhida pelo douto natu- 
ilista no seu valioso estudo. 

No continente o nome gaio é aplicado a outra ave muito di- 

)rente, da família dos corvos, garrulus glandarius. É sabido 

ue o vocábulo gaio, como adjectivo, significa «alegre», e dessa 

gnificação provém a locuçào adjectiva verde-gaio, « verde claro 

vivo». 

Derivado de gaio, « alegre » parece ser o nome de certo tri- 
uto: — «Nâo menos elucidativa é a gagosa ou gayosa, fSro que 
3 pagava pelo casamento dos filhos» — *. 



gaiolo, garimpa 

São sinónimos estes dois vocábulos, sendo o primeiro o mas- 
alino de gaiola, e portanto pronunciado gaiõlo (cf. ôvo, óva, 
ôrío, porta): designa qualquer deles uma armadilha para caçar 



^ J. da Mota Prego, Jornal do Commbroio, de U de agosto de 1905. 
« Alberto Sampaio, As « Villa8> do nortb db Portugal, in Por- 
igalia, I, p. 575. 



49*2 Af^^tUfu afí9 DicUmário9 I\>riugue^ê 



pássaros: — < Xas^a, gaiolo ou garimpa — Tem a forma de uma 
pyramide regular de base quadrada e é feita de varas encruzadas 
umas s^bre as outras, seguras por meio de quatro vergas a um 
caiiilho. também de varas, atadas ou pregadas nas extremida- 
des > — '. 

Gtirimi^a é talvez grimpa, cora a vogal a, anaptictica ou in- 
tercalar. 

gaita(s), gaitada, gaiteiro 

Em Sara Miguel dos Açores gaitada qnere dizer < garga- 
lhada >, naturalmente pelo estridor que faz. 

Em Lisboa significa «repreensão acerba». 

E um derivado de gaita, « instrumento de vento > de timbre 
muito agudo, e é esta circunstância o fundamento dos dois sen- 
tidos figurados acima referidos. 

Gaiía.ií se chamam os orifícios que as lampreias teem por 
baixo da boca. A suposta explicação de Bluteau, a que aludiu 
José Maria Adrião, Tradições populajies colhidas no conce- 
lho i)t) Cadaval -, com relação ao dito f^abe que nem gaifa>\ 
é fautasiõsa: — ^ in>rque a.< lampreia'^ .'^âo ercellente-^. e como 
tretn í()í.< luaços íi.<<(')n('Ili(ni(lo a< (fditas, dahi o dlta(h)> — . 
K natural que em razão daqueles orifícios às lampreias se cha- 
masse ii(nt'i.<. concorrendo para a aplicayão do nome a fornia r<> 
li(j*a do ataniado peixe. Sabe que nem ij(iifa>' quererá pois dizer: 
< sabe que nem lampreias >, '^tein muito bom sabor >, para quem 
o tiver, que pela niiniia j^arte disj^euso o petisco. 

Para crédito de Bluteau. a cita(,^ão está errada toda: o que o 
doutíssimo frade escreveu e vem no seu Vocabulário é o seguinte: 
— « Gaitas se chaniaiii uns buracos a modo de Fagote, que a 
Lampreia tem pelo pescoço, e por serem aquellas partes saboro- 



* Jos<? <le Pinho, Ethnooraphia Amarantina, A Caça, t« Portu 
galia, II. p. SS. 

2 in «Kcvista Lusitana >, vi, p. 129. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 493 



sas, derâo occasião ao adagio, Sabe como gaitas > — Até os bura- 
cos foram traasforinados em braços, atribuindo-se falsamente ao 
nosso melhor lecsicógrafo a rara invenção de peixes com braços 
e braços com buracos! Muita razão tinha Augusto Schleicher 
em recomendar que jamais se fizesse uma citação sem se ter o 
cuidado de escrupulosamente a conferir. 

Erre cada um à vontade por sua conta, mas não atribua a 
outrem os disparates que lhe vêem à cabeça. 

Gaiteiro é o músico que toca principalmente a gaita de foles. 
Como adjectivo quere dizer < alegre >, « garrido >, como quando 
dizemos de um velho, ou de uma velha, que são gaiteiros. Com 
efeito, tanto a gaita ordinária, como a de foles, sfio instrumentos 
alegres, e gratos ao ouvido, se nos campos soam; nas cidades, 
são mais um guincho e um ronco importunos, ajuntar aos muitos 
rumores e sussurros que nos ensurdecem e desafinam os nervos. 



gajo, gaja; gaje 

São termos de calão conhecidos, derivados do calo, ou dia- 
lecto cigano de Espanha, gaòhó, gaché, pi. gachés. Se aceitar- 
mos, porém, como completamente averiguado que o eh ali tem o 
mesmo valor que nos dialectos castelhanos, nomeadamente o an- 
daluz, visto que é da Andaluzia que para Portugal vêem em ge- 
ral os ciganos, temos de admitir que a forma passou ao portu- 
guês por intermédio de ciganos orientais, pois é aí que nós a 
encontramos, por exemplo no dialecto dos da Moldo- Valáquia, 
com uma consoante medial análoga à portuguesa de gajo (pron. 
gadjô) «labrego». E provável, porém, que a ortografia castelha- 
na; adoptada para a escrita do calo, haja confundido, no mesmo 
símbolo eh, a forte tch (eh beirão ou castelhano) e a branda 
correspondente ãj. É sabido que na transcrição, mesmo metódica 
e científica moderna, os arabistas espanhóis transliteram por eh 
a 5.* letra do alfabeto arábico, que se profere ãj na Ásia e j 
vulgarmente nos países barbarescos. Deste modo, a forma portu- 
guesa diferençar-se-ia apenas na mudança do acento para a 1.*^ 



4M 



sflabft, o qw m obwjiia em oiitnw tocíImíIos da mesma orgen 
(r. pmQ. 

Qauto ao tabttaBtÍTO abstracta gigé, de calio ignalmoite, 
poderia éle representar un siagalar deduido do plnral ciU ja- 
fhéf, de ^ladh^, fbnna de siagalar qae alterna oom gaekím, ia 
aadaloi acq^anado, coom ae ré, por exemplo, na cantiga di Cos- 
trsbandista da Fería ie Mairena: 

— «Sldrei^SvudokpnBficim 

á tin» k VMjSirtan, 

q«e In q}w e mi cum 

SM In €JM e mà paché* — . 

E mais natunl, porém, que a pslavra gígé seja snapleanesta 
deturpação do firaneès dégagé, < desempenado, airoso; donsin, 
desembaraço ». 

O significado próprio de gadtó, femenino gadU, em csló i 
« rapax, rapariga, adultos, não ciganos » ; e em portogaês i de 
ffajo é « qualquer sujeito a quem o fiidista se refere com mal^ 
voléncia»: — iXès aquelle gajo? *. 



galão 

O DiccioxARio CoNTEMPOEAXEO dá como quarta awpçào 
deste vocábulo — «gole, cada um dos saltos que dá o líquido ao 
sair de um gargalo ou bocca de vasilha» — ; e como quinta acep- 
ção — «corcovo, salto que o cavallo dá erguendo as màos e en- 
novelando-se > — . Esta última definição vem por outras palavras 
no VocABUL.Ajiio de Bluteau, e é com este significado que se 
relaciona o modo adverbial, usado em Sam Miguel dos Açores, 
de ff alão, *de salto, de chofre». 



í O Século, de 10 de setembro de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 495 



galego 

Este adjectivo é muito usado em português para diferençar 
castas, raças ou espécies, sem que por isso se queira dizer sem- 
pre que proviessem da Galiza. 

Assim dizemos couve galega; ginja galega, por oposição a 
ginja garrafal (q, v.) que é a mais grada e de melhor sabor, 
menos azeda, etc. 

Com alguns nomes, porém designa de certo orijeni, como 
acontece, por exemplo, com boi galego, por oposição ao barrosão: 
— «Faz lembrar o Taurus brachyceros, ou bos longifrons, co- 
nhecido e domesticado desde o neolithico ... e approxima-se 
muito do nosso typo actual do boi galego > — ^ 

Como substantivo, galego designa não só o natural da Galiza, 
principalmente de condição humilde, mas também o português 
do norte, que exerce os mesteres que dantes eram a bem dizer 
privativos dos galegos verdadeiros, e entre esses o de aguadeiro, 
mais especializado com um epíteto galego de barril, que A. de 
Campos empregou no romance o Makquês de Pombal neste 
sentido. 

De Galiza derivou-se, além de galegos, (latim galaecos), 
outro adjectivo galiziano, (q, v,) em gereziano. 



galela, galelo 

O Novo DiccioNÁBio dá o termo galelo como transmontano, 
com a significação de «gomo da laranja». Leite de Vasconcelos * 
diz-nos significar «escádea, bagos de uva>, e que a forma feme- 
nina galela quere dizer «rabisco», e por isso se diz ir à galela. 



* Portugália, I, p. 327. 

« Rbspigos camonianos, p. 45, nota. 



496 Apostilas aos Dicionários Fortugueses 



galheta 

O Novo DiccioNÁBio traz duas inscrições desta forma: 
1.*^ certas garrafiiihas como as usadas na mesa para azeite e 
vinagre, e no serviço da missa, para vinho e água — , e a esta 
subordina o termo de jíria, com a significação de « bofetada >. 

A 2.* forma diz-nos ser o nome de uma — «trombeta de 
guerra, entre os pretos de Lourenço Marques, feita de chifre de 
cabrito. (De galho) > — . 

Que o vocábulo não é indíjena vê-se pelo Ih. 

Ora o termo de jíria acima apontado não pode subordinar-se 
a galheta, « garrafa > ; é preciso abrir para êle terceira inscrição, 
pois é simplesmente o castelhano galleta (pr. galheta), « bola- 
cha >, derivado do francês galette^ com a mesma significação, e 
que se diz provir de galet, « seixo grosso e chato, boleado pelas 
águas >, que seria palavra bretã, mas parece deminutivo de gal, 
que no francês antigo significava «calhau» ^ 

Confronte-se biscouto (q, v,). Assim, como bolacha significa 
também, como termo de jíria, « bofetada >, do mesmo modo se 
empregou a palavra espanhola, neste sentido figurado. 

galhipo 

— « O isqueiro ter-se-hia vulgarisado principalmente com os 
progressos do uso do tabaco; e não obstante as actuaes disposi- 
ções prohibitivas, ainda a sua utilização subsiste occultíimente: o 
cornipo no planalto barrosão e no Soajo (galhipo em Lindoso) é 
um toro de chifre de bode, vedado com discos de cortiça e in- 
cluindo farrapos de linho chamuscado ou medulla de sabugo: 
com um fragmento de quartzo leitoso regional obteem a faísca e 
logo o fogo necessário para o fumo » — -. 



* E. LittlV, DlCTIONNAlUE l)R LA LANGUE FRANÇAISE, Pari>. IS^l. 

2 Rocha Peixoto, Illuminaçào popular, in Portugália, ir, p. o7. 



Apostilas aos Dicionários Portugtteses 497 



É longa a transcrição; contém ela, porém, tam perfeita des- 
crição do objecto designado com o nome de cmnipo ou galhipo, 
que entendi não dever suprimir-lhe nem uma palavra, e com 
tanto maior razão, quanto é certo ser omisso nos dicionários o 
termo galhipo, 

galinha; galinheiro; engaliuhar 

Galinha era unidade monetária de Ajuda que valia 33,3 réis 
portugueses do continente, isto é, duzentos búzios (q, v.) *. 

Apontarei aqui os nomes de algumas castas de galinhas, 
transcrevendo-os do jornal O Século, de 23 de fevereiro de 1902: 

brigadora 

de asa de pato 

de peito negror 

paduana ou polaca 

pedrês 

de poupa. 

O derivado galinheiro significa *a capoeira das galinhas e 
do galo>, e o «indivíduo que vende galinhas». 

No Alentejo o termo galinheiro tem significação menos res- 
trita, como vemos do trecho seguinte: — Uma casa qualquer em 
que pernoitam e põem as aves domesticas do monte [casal], com 
excepção dos pavões e patos reaes (gansos), que dormem e nidi- 
ficam fora ou ao ar livre e á solta > — *. 

J. J. Nnnez ^ cita a forma galhinha, que diz arcaica e que 
se explica por assimilação do l à palatal nh da sílaba seguinte. 

Modernamente introduziu-se o castelhanismo galinheiro (ga- ' 
llinero), para denotar nos teatros o que antigamente era denomi- 



* Carlos Eujénio Correia da Silva, Uma viagem ao estabeleci- 
mento PORTUGUEZ DE S. JoÃO BAPTISTA DE AjUDÁ EM 1865, Lisboa, 18(56. 

« J. da Silva Picão, Ethnooraphia do Alto Albmtbjo, in Portu- 
gália, I, p. 545. 

» Revista Lusitana, iii, p. 302. 

32 



498 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

nado varandas, isto é, «bancos corridos na última ordem >, con- 
vém saber, ao pé do teto, lagares mais baratos que nenhum. 

O verbo ettgalinhnr é faceto e quere dizer < tomar enguiço, 
agastar-se». 

gauadeiro; ganância; ganhar, ganhão, ganharia, ganhança 

Ganadeiro é castelhanismo muito usado, como outros, no 
Alentejo, e tem a significação de guardador de gado, em cas- 
telhano ganadero, de (fanado, que é o mesmo vocábulo que o 
gado português, conecso com ganar, ganhar; conquanto nâo se 
explique facilmente a eliminação do 7ih deste último verbo, a não 
ser porque proviesse directamente, em tempos antigos, do verbo 
castelhano, de que o substantivo ganado é apenas o participio 
passivo, substantivado como tantos outros: — «um terrível lobo, 
que ha annos trazia inquietos os lavradores e ganadeiros» — ^ 

Importação directa de castelhano é ganánci^i, que o povo 
rústico em Portugal diz, com maior vemaculidade, ganhança, 

Gitnhào é o trabalhador adventício a jornal: — «Casinha nos 
GAXHòKS... dormitório e casa de descanço dos «ganhões ou 
moços de hivoira, que coustituem a ganharia» — -. 

Aqui, ganhão tem sentido especial, como se ve da definição 
claríssima. Antes, J. da Silva Picão abona o termo ganharia 
aqui empregado: — «A cosinha, em certas partes, também serve 
<lè refeitório da ganharia e restante pessoal, como carpinteiro, 
ferrador, etc. » — . 

gandula, gandum 

i) Xôvo DiccioxÁRio, no Suplemento, incluiu ambos estes 
vocábulos, o primeiro como de uso actual ejn Gaia, na acepção 



1 o Século, de O dezenibro de 1000: correspondência de Atís. 

2 P/ruNOGUAFHiA DO Alto Alemtbjo, in < Portugália >, i, p, 541 
e 5oS. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 499 



de «garoto; vadio», o segundo como antigo, sem definição, mas 
abonado com o trecho seguinte: — «quando eu era choramigas 
da ausência, era papa arroz da mágoa; agora sou gandiim da 
preguiça. . . Anatfômico] Jocoso, i, p. 195. (Por gantum, gaiir 
dérto)?* — . 

Em castelhano temos gandul, que o Dicionário da Academia 
Espanhola define deste modo: — «Gandul, la. (Del ár. YaNDUB, 
majo, valentón) adj. fam. Tunante, vagabundo, holgazán. // In- 
dividuo de cierta milicia antigua de los moros de Granada y 

África» — ^ 

A etimolojia foi dada por Dozy *, e é natural que o termo 

viesse de Espanha para cá. 

O moderno gandul e o antigo gandum devem de ser o mesmo 
vocábulo, e o significado primitivo é com certeza o segundo apre- 
sentado no Dic. da Academia Espanhola. As consoantes finais 
dos vocábulos arábicos eram, como adverte Dozy, mal ouvidas e 
sofreram substituições, de outro modo inexplicáveis. 

Por longuíssimo não traduzo para aqui o interessantíssimo 
artigo por Dozy consagrado ao gandul andaluz e ao gandur 
mouro, com os seus correspondentes femeninos gandulera e gan- 
dura. Pela descrição dos gandures e ganduras vê-se que são 
uma espécie de fadistas de lá, emquanto novos e novas, peralvi- 
lhos a seu modo, chibantes e amigos de se divertirem, mas de 
costumes corrompidos; depois de velhos e velhas fazem-se rufiães 
e alcoviteiras. 

garrafa, garrafal 

A palavra garrafa é também castelhana; mas é sabido que 
nesta língua, como em francês carafe, só se aplica às de vidro 
ou cristal, com rolha de igual substância, que se põem na mesa 



« Madrid, 1899. 

* GlOSSAIRB DBS MOTS BSPAGNOLS BT PORTUOAIS DáRIVãS DB 

li^ARABB, Leida, 1869. 



•>K* A}K)*tiMi aos DivioHárioê Púriuguese» 



com átrua ou ooni vinho, porqae a garrafa de engarrafar vi- 
nhos e licores se denomina respectivamente botella, bouieille, 

Dozy * diz-nos ser vocábolo de oríjem arábica. TaBAFE. 
forma que. seirundo afirma, nào vem nos dicionários com tal iv 
^míKcado. mas com o de um enjenho para tirar á^a de poços. 
O radical é YaaaFa. «tirar água», de que provêem os substan- 
tivos YURUF, «copo>. e YUEF, «púcaro». 

De garrafa se deriva o adjectivo garrafal, que quere diíer 
«avultado, gjaiide*. tanto aplicado à leira, letra garrafal 
como à íHDJa. giuja garrafal. Este último epíteto, também usado 
em castelhano, guinda garrafal, é muito antigo, pois Bluteaa 
faz dele menção, descrevendo esta deliciosa fruta do modo se- 
guinte: — <He maior que as outras [ginjas], e mais doce. tem o 
pé curto, e a cor tira a negro. Bahuino, na Historia universal 
das plantas, part. i, p. 220 e 221, he de parecer que he a que 
Plinio chama Cera.<tU'^ 'cerãsusl Macedonica * — . 

O epíteto castelhano ('guinda garrafal) encontra-se já men- 
cionado por Xavagiero (xvi século), que na Descrição de Gra- 
nada, ou como os nossos escritores antigos lhe chamaram Grada, 
diz ser excelente a casta denominada guindaft garrafales -. 

A í!:inja mais nieúda e acre designa-se vulgarmente com o 
nome de (jinjd 'inh^ija. [\ . galego). 

Garrett 

() apelido iut^lês do maior poeta nacional depois de Luís de 
Camões, João Baptista de Almeida Garrett, está recentemente a 



1 (ÍLOSSAllM-: \)Vl<> MOTS KSTACNOLS ET PORTUGAIS DKRIVKS DE 

i/akamh. L.-iiia. l^«i!». Ií<.'|»r.'soiiío pur Y a li».* letra do alfíib«.*to arabko. a 
•jiial »' uma frioativa sonora. coiTOspniilento à surda, jota castolliano actual. 
- Ks.rita «.111 italiano: (ipiol Francisco Xavier Simonet. DesCRIPCIÓv 
DEI. KEiNO DE íiiiANADA, (rranada, 1>^7'2, p. 215, (Apêndice vi). O títul-^ «ii 
ohra d<' XavaL'i' n» é, ••oníormo W. Foul<-h«'-I)olbosc, (Bibi.iographie des 
voya(;es i:n Kspaiixe et es PnuTr<iAL, iu < Kevuc Hispaniqiie*. m. 
)). 2*2, H!»»; : II viAr.(;io fatto in Spagxa et ix Fraxcia dal magxi- 
rico M. Androa Navai^iero, Vinejriji, 15(>3. 



Aj Oiti las aos Dicionários Portugueses 501 



ser pronunciado de um modo pretencioso e que nenhum funda- 
mento racional pôde abonar. Diz-se para aí entre gente que pre- 
sume de instruída, e muitas vezes o é na realidade, gàrré. O que 
lhes seria difícil fora dizerem era que se estribam e com que se ^ 
escudam para tam anómala pronunciação. O apelido é inglês, e 
se.à risca se quisesse proferi-lo como nesta língua, haveria de pro- 
nunciar-se gáret, com o acento na 1.* sílaba, e um t proferido 
na segunda. 

Se o nome fosse francês, que não é, nenhum francês, ao vê-lo 
escrito com dois tt finais, deixaria de pronunciá-lo gàréte. A ex- 
travagante pronunciação gàrré é que não pertence a língua ne- 
nhuma conhecida, e só prima pelo ridícula que é. 

O facto, porém, é que o próprio poeta sempre pronunciou o 
seu apelido como se em português se escrevesse garréte, com a 
surdo na primeira sílaba, o acento tónico na 2.*, e o t perfeita- 
mente proferido. Assim lho ouvi eu várias vezes, assim o pronun- 
ciavam todos os seus contemporâneos, e entre eles o seu fidelís- 
simo amigo, discípulo, e poeta notável da escola romântica Fran- 
cisco Gomes de Amorim, em casa de quem tive a glória de en- 
contrar a Garrett, sendo eu uma criança de treze anos. 

Não é de admirar este aportuguesamento de nomes estra- 
nhos: também, por exemplo, Stockler, Mayer e Van Zéller, se 
aportuguesaram na pronúncia em estoclér, maiér e vanzeUr; 
também nunca ninguém pronunciou cá o nome do conhecido es- 
pingardeiro francês Imberton de outro modo que não fosse im- 



bèrtotn; e assim tantos outros, E hoje em dia que há a preocupa- 
ção de se arremedarem as pronúncias estranjeiras dos nomes, e 
às vezes com tanto acerto, como o do glorioso poeta, tam esque- 
cido já, que até lhe mascaram o nome, que era bem dele, e como 
êle o pronunciava e queria que lho pronunciassem, bem à portu- 
guesa, e não com disfarces que o transtornam e afeiam. 

garroteia, jarreteira 

A ordem militar a que hoje chamamos à francesa da Jarre- 
teira, foi denominada Garroteia um século depois da sua insti- 



502 



tuiçio em Ingbtonm. am 13il. É imitiçio provável do hoom it- 
gUfl Qarler, q«e W. Skeet ^ deriv» do gidissor, «peniil», «candt 
da perna», étimo cAtico da pálana UspáBÍca, de «gnifi^ado m 
taato diferente, porro, de qne provém gamute. A palavia porfer, 
eomo a firancesa jarreíiire \ jarret, «enrva da pena», qnm 
diíer o que actualmente ehamamoe liga, ca fitajccm que ee m- 
gonun «B meias», e qoe por aquele tempo as prendia às eàSfis, 
ou calçdes que vinham da dntnia até o joelho. A forma firaneeia 
mtiga, jartier, está para a ín^^esa garter, eomo jarãm paa 
garden, e é sahido que em francts o g <aqinirio intes de o di 
ja, como o c na mesma sttntçfto, dUL (Y. JarrftaiO. A pelavn 
gar, mais ou menos modificada, em todas as língoas célticas 
modernas conserva significação análoga, em bntfio j^orr, em erse 
eas, «perna», etc. 

Eis aqui a abonaçfto do vocábulo garrateia em português:— 
«em França por sua ardidexa e bondadea fi [Álvaro Vax de 
Almada] feito conde de Abranxes, e em Inglaterra pw sua va- 
lentia foi recebido por companheiro da ordem da Garrotes, de 
que príncipes crist&os e pessoas de grande merecimento sào coo- 
frades» — *. 

garula 

O Xôvo DiccioxÂRio dá este vocábulo como termo de jíria, 
com a significação de — «perua» — . Creio ser gralha lecsicográ- 
fica, devida a erro de apontamento, em que se leu u por n, pois 
a este vocábulo sempre ouvi dar o significado de «perna». 

garvaia 
Vestimenta rica. V. Revista Lusitana iii, p. 142. 



* A CONCI8B BTYMOLOOICAL DiCTIONARY OP THB EnGLISH LAS- 

GUAGB, Ocsónia, 1887. 

s Boi de Pina, Ckóxica db £l-rbi Dom Afonso ▼, cap. xxxi. 



i 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 503 



gas 

O Novo DiccioNÁRio emenda no Suplemento gaz para gás, 
e parece-me que tem razão; no que a não tem é em atribuir a 
invenção porfaiguesa a forma gaz, com 21; é simplesmente cópia 
da escrita francesa. É incerta a orijem do vocábulo, que é arti- 
ficial: a mais provável é haver sido fabricado por Van Helmont, 
físice flamengo do xvn século (1578-1644), tomando por base 
a palavra grega k*áos, «massa informe». A razão da inicial g 
é a seguinte: os holandeses e flamengos proferem o g inicial 
como o actual j castelhano, e ao lerem grego dão este valor ao 
K*i ou antepenúltima letra do alfabeto helénico, que os romanos 
transliteraram por eh; aquele valor tem ela no romaico, ou grego 
moderno, já o tinha no grego bisantino, e provavelmente desde 
o II ou in século da era cristã, como pretende Frederico MúUer *. 



gaspilhar 

Não pense o leitor que este verbo seja uma variante de gas- 
pear (botas); não é. 

Num jornal diário, era que se dá notícia do falecimento do 
eminente publicista Emídio Navarro, fazendo-se enteira justiça à 
vernaculidade da linguajem portuguesa, que sempre e em toda a 
ocasião ele usou, uma coluna antes, lemos com assombro o se- 
guinte período: — «Pede [o povo de Portugal] que [os governos] 
arrecadem e administrem honradamente os dinheiros públicos; 
que os não gaspilhem em despezas inúteis e voluptuarias» — . 

Eu não sei quem foi o articulista que escreveu este descon- 
chavo, onde pretendeu dar a entender que sabe (?) francês, con- 
seguindo apenas mostrar que não sabe português, pois verbos 



1 Grundriss der Sprachwissbnschaft, vol. III, t. II, Viena, 1887, 
p. 423. 



904 



d«6U língua, eom o ngoifieado que tem gag/SOer em fiiBeii, 
Bio ftltam, e ji aqui, sem reflectir mn Begondi», me sdtin te 
bieos da pena três: ãenperãiçar, extravaganeiar e isàbmiJÊí. 
iQat bi de o poro entender por aqnele gagpShar, qoe nio «r 
nem encontra em dicionirio algam portngiiês? ^E esBOotro es- 
trambótico adjectiro woluptuarías? Algoám bdaíb enrioso, qm • 
bnaqne nos TocabnlárioSt capacitar-ee bi sineenmente de que o 
ominoeo goTêmo vai com os dinbeiroe {rikUíeoe estabelecer lapi- 
nares para recreio e deleite dos minietros. 



gaatio 

Ningaém poderi saber a ratio por qne esta palavra tam por- 
togaesa foi eliminada em dois dicionirios modernos bastante co- 
piosos, o CONTKVPOBAXBO, O XòVO. 

As definições dadas por Blntean sio como se sogne: — «GAS- 
TAM de Bastão, ou Bordão. O remate redondo de Lâtio, Prata 
ou pao. em que descança a mio de qnem o trai». 

Gastão do fuso. O bocadinho de chumbo, ou latão, que cobre 
a pontinha do fuso. e ajuda a torcer o íio — Na soa prosódia 
declarando a signitioação de Verticillum diz Bento Pereira Mau^a 
ou Maiura do fu.^u, em algumas partes do Keino se chamará 
assim o ditto gastão> — . Isto está parafraseado: o que Bento 
Pereira diz é o seguinte: — < Verticillum . . . a mauça ou mauiça 
do futto » — . 

J. Inácio Koquete, no Dictioxxaire portcoais-pra^^çais 
inscreveu: — ^Gastão, s, m. poiuiue d'une canne, — do fuso*, 
V. Mannra. — «Maux^a, s. f. poignée; botte d*aulx secs, — do 
fuso, rainure en spirale pratiquée au bout le plus mince d*uD 
fuseau à tiler» — . 

Vê-se de tudo isto que mainça ou niauça (q. t\) e gastão do 
fuso são duas cousas distintas. Os dois dicionários citados, se nâo 
trazem gantão, incluíram ambos castão, forma que, pelo menos 
com relação à bengala, é a mais usual hoje em dia; mas a res- 
peito de cafifáo do fuso, deixaram-no ficar no tinteiro, e o Xôvo 




Apostilai aos DicionâHos Portugueses 505 



DiccioNÁBio em mainça declara-uos que é — «remate do fuso» — 
sem nos dizer de que lado fica o tal remate, pois na bengala, 
por exemplo, o remate de cima é o castão, e o de baixo a pon- 
teira. 

Em italiano há dois vocábulos muito parecidos: um é fu- 
saiòla ou fusaròln, o qual significa « pedaço de madeira, ou de 
pano, com um buraco a meio, onde as fiandeiras segumm os fu- 
sos»; o outro fotsaiòlo o\\ fusaròlo — «rosca pesada que se enfia 
na ponta ou ferreta [se é de ferro] do fuso, para que gire com 
maior regularidade» — . Qualquer dos dois vocábulos deriva-se 
de ficso, pronunciado ftiço, e não fuzo, pois fuso, com esta pro- 
núncia é particípio passivo do verhofóndere «derreter» *. O cas- 
tão ou gastão do fuso será então o fusaiòh, de que os franceses 
fizeram o seu ftcsalole, que já passou artificialmente a português 
com a forma errónea fuseola (q, v,). 



gata, gateira 

Não é a fêmea do gato que vou mencionar aqui: é o termo 
de Sam Miguel dos Açores gata, que corresponde ao gateira de 
Lisboa, isto é, « bebedeira » *. É extraordinária a quantidade de pa- 
lavras que existem em português para designar, mais ou menos 
graciosamente, este vicio, e a manifestação dele: formariam só 
por si um curioso glossário, se se pudessem analisar todos por 
forma, que ficasse patente a orijem de cada um. Tesouro de 
tantos nomes pertence com certeza a terra de muitos bêbados. 



geio, geada: v. geo 



* P. Petròcchi, Novo Dizionàrio Univbrsalb dblla língua ita- 
liana, Milào, 1887-1892. 

« O Século, de 5 de julho de 1901. 



'\ 




dia». Bqktsá 
■, <ir pint 



SMirt» pua fmMMf , bm cm carti teitafiii. Nio ká notm 
pua kesilar: framu» aoitMa J. Iirfcw Boq[wte *, SnadM 
Ad«lfe CMlho ', «te« e ãàmm qm % DiocaiwrâBio ConBffo- 
mano. o qoal paMM pdas aias im m parito htiairti, Siabi 
Talento, dciíasw passar a tm cnaw gemomíag, denio ânka- 
mcate a qaabiaer cacreTcdiv ignoiaiite^ qpa aia sabaado am lo 
menos kr latim. lemedoa em partagaês a fiaaeia^jémome», cqe 
acento tónico está ao L o qaa é de lagia aeata Ifagoa. Gomoen 
desacerto dirolgou-se* segando o costume. 

Em Roma chamaram-se Gemoniae scalae, on simplesmente 
Gemouiae. umas escadarias peias quais eiam com um gancho 
arrasiados os supliciados, para serem arrojados ao Hbre. Figura- 
damente, usa-se esta expressão para indicar «extremo desacato, 
ntnpérío. castigo, justo ou injusto >. inflijido a qualquer, principal- 
mente em o[iosivão a triunfo, o\'açâo que antes se lhe tiresse 
feito, ou se lhe houvesse de fazer. 

generear 

E verbo que não vem apontado em nenhum dicionário, e cuja 
signiíicaçâo. como se depreende do seguinte trecho, é «gerar»: 



* Revista LrsrrAXA, rv, 26S. 

* DiCTIOXXAIRB PORTUGAIS-FRAXÇAIS, Paiis, 1885. 

' DiCCIOXARIO MAXUAL BTTMOLOOICO DA LIKQUA POaTTGCaU. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 507 



— «choravam os Padres por deixarem os christàos filhos seus, 
que tinham genereado em Ghristo, e tiraram do poder do demó- 
nio» — *. 

Parece ser neolojismo, adrede fabricado para evitar o em- 
prego duvidoso de gerar. 



genesi, geuesim, Génesis, génese 
Gil Vicente usa o vocábulo genesi, agudo, no verso seguinte: 

— «... outro sacrifício figuram em 8Í, 
Que matar bezerros, nem avos ali : 
Outra mais alta oferta soletra 
E outro genesi > — '. 

Deve ser uma hebraizaçào rabínica do grego génesis. A outra 
forma genesim é já portuguesa: nasalizou-se o i final, como ou- 
tros muitos de substantivos, tais como marfim, ruòim, antiga- 
mente m^rfi, rubi, e até de partículas, como sim, assim, por 
8Í, assi. 

Génesis em grego e latim é palavra femenina, mas costuma 
dizer-se o Génesis, como se diz o Apocalipse, também femenino, 
com elipse do substantivo masculino lim'o da, em referência ao 
primeiro do Velho Testamento, e ao último do Novo. 

A palavra génese, «geração», que* tomámos imediatamente 
do francês génese, deve ser proferida com o acento na primeira 
sílaba, atenta a sua orijem grega, com e breve na penúltima 
sílaba: deste modo fica sendo um aportuguesamento do vocábulo 
grego génesis, como análise o é de análusis. 



gens: v. jens 



* P. António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia db Jbsus 
NA província do Japão, Lisboa, 1894, p. 77. 

* Auto da história db dbus. 



508 Apoãiilaa ao» DiéUmâriàê Fiwiugueteg 



geo, geio, geoso, gear, geada, gêlo 

Do latim gela proveio por evolação portugaesa igm, gek, 
postulado pelo verbo gear, sabstantivo partícipial geada, e adjec- 
tivo geoso, abonado no trecho seguinte: — «Disem de Portalegn 
que continua rasoavel o aspecío geral do campo. Durante o ma 
de fevereiro correu o tempo extremamente frio e geoso»—*. 
O substantivo gêlo e os seus afins e derivados devem ter oiijea 
literária, atenta a permanência do l latino intervocilico. 

Há outro vocábulo geio, «socalco», o qual nenhuma rdaçlo 
parece ter com o da minha hipótese. 



geolho 

Não é arcaismo em todo o reino esta forma, que em quási 
toda a parte foi substituída por joelho. Em Caminha, por exemplo, 
é a forma usual e corresponde ao castelliano hinojo, italiano gi- 

nócchio, francês genou, do latim genuc(u)lum. A forma mo- 
derna joelho ou provém de outro deminutivo de genu, geni- 
c(u)lum, como cuido, ou foi refeita pela metátese de ajoeUtar 
por ageólliar j geolho, como é o parecer de quási todos os etimo- 
lojistas. 

Gerez, gereziano 

Do nome próprio Oerez formou Alberto Sampaio o adjectivo 
gereziano : "^ — «como hoje no macisso gereziano» — . Melhor 
fora, a meu vex^gerezino, ou gerezano, ou gerezào, nào obstante 
o adjectivo gaUziano j Galiza, que também empregou: — «O ca- 



< o EcoNOMíBTA, de 2G de março de 1883. 

' As < ViLLAs * DO Norte de Portugal, in Portugália, i, p. 116- 



Apostilas aos Dicionários Fortugiieses 5í)9 



vallo gabado por Plínio... pelo trote d'andádura, pertence ao 
ty po galliziano > — K 

Este último termo está já consagrado em publicação oficial 
vernácula e de bastante autoridade ^. 

Disse que preferiria outra forma de derivação à que o douto 
escritor empregou, gereziano; é possível, porém, que a nossa 
nomenclatura convencional geolójica, em que infelizmente a ver- 
naculidade da língua tem sido tam pouco respeitada, o obrigasse 
àquela terminação com sabor tam afrancesado, como o do subs- 
tantivo maeisso, francês massif. 

ginete; gineto, gineta 

Conforme Bluteau 3, a acepção primordial do primeiro destes 
vocábulos é — «cavallo de casta tina» — , sendo secundárias as 
de — « cavalleiro, com lança e adarga, e estribos curtos — , homem 
a cavallo > — . 

Seguem este parecer o Diccionahio Contbmpobaneo, o Ma- 
nual ETYMOLooico, O Nôvo DiccioNÀRio, como já tinha feito 
entre outros o Pobtuguês-fhances de Roquete. Todavia, o pró- 
prio Bluteau, no. Suplemento, referindo-se a Capitão de gine- 
tes, define esta locução com as seguintes palavras: — «responde 
este oíficio a General de Cavallaria do Reyno» — . Vê-se pois 
que a acepção, que deu como secundária de «cavaleiro armado» 
é a primária, sendo a de «cavalo» deduzida desta; e com efeito 
assim é em castelhano: — «A esta necesidad obedeció que los 
musulmanos tomaran á sueldo caballeros cristianos y que los cris- 
tianos hicieran lo mismo cou ginetes moros; estos últimos al- 
canzaron gran celebridad en la península, tanto en Granada, 
donde los zenetes constituyeron uno de los partidos mas fuer- 
tes, como en los reinos cristianos, entre los cuales la palabra 



« ih. p. 117. 

* Rjscbxseambnto gbral dos gados do continente do reino 
DB Portugal, Lisboa, 1870, p. 30, 61, 62, 72, 108, 110, e passim, 
» Vocabulário portuguez e latino. 



510 Apostilas aos Dicionãrios Portugueses 

zenete, nombre de su tribu ligeramente modificado ha quedado 
como apelativo de hombre á caballo, ginete, y se llamaban 
ginetes en Ia edad media los caballos de paseo y carrera,— 
en Castilla la palabra zenete ha pasado á su lengua con ligera 
modificación ortográfica para designar un hombre á caballo; sa 
modo de cabalgar, á la jineta, ha quedado como escuela ó espé- 
cie de equitación; ginetes se llamaban en la edad media los 
caballos de carrera y paseo en Cataluiia; aqui se nsaban también 
espuelas, estribos y pitrales ginetes en los aparejos de cabaUos y 
hasta las banderítas que coronaban las lanzas por debajo de los 
hierros> — *. 

Exemplo português de ginete com a significação de «cava- 
leiro» é o seguinte: — «dous mil e trezentos de cavalo, a fora os 
corredores, que agora chamam ginetes > — K 

O vocábulo arábico tem z como inicial, e foi mudado na 
Península Hispânica em j, como o foi semelhantemente em girafa, 
de zaBAF. É sabido que o a (a longo) valia muitas vezes por e 
no dialecto arábico das Espanhas. 

O termo ginete vemo-lo modernamente empregado como de- 
signação de uma casta de sela: — <e o ginete ou bastarda, como 
denominam as sellas ordinárias» — ^. 

A palavra ginete, ghieto, gineta, segimdo as localidades, 
nome de um animal carnívoro, é outra, também arábica, aasNarr. 
coufonne Dozy *. 

O termo ginete, como sinónimo de «cavalo fino>, é hoje de- 
susado em português, e tido por artificioso; não assim porém em 
castelhano, no seu sentido primordial, de «cavaleiro». 



* André Gim(?nez Soler, Africanos bn Espana, in «Revue Hispani- 
que>, xir, p. 301 o 349. 

« Duarte Galvào, Crónica db £l-rbi Dom Afonso Henkíqubz, 
cap. LU. 

3 Bosquejo de uma viagem no interior da Parahyba e de 
Pernambuco, in «O Século >, de 8 de junho de 19CX). 

4 GlOSSAIRE DE3 MOTS ESPAGNOLS ET P0RTUOAI8 DÂRKV^ DB 

l' AR ABE, Leida, 1869. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 511 



ginja, ginjinha, ginjeira, ginjal; guinda, Gruinda 

Ao português ginja, de que se derivou ginjinha, « aguardente 
em que se maceraram ginjas», expressão análoga à laranjinha 
brasileira, formada de laranja, e [que também designa uma 
«aguardente aromatizada com laranja», corresponde o castelhano 
guinda, que parece ter sido também português, atento o nome 
Os Quindais, no Porto, designação onomástica que vem a cor- 
responder no sentido a O Oinjal, defronte de Lisboa. Ginjal 
significa «sítio plantado de ginjeiras*, como pinhal, «terreno 
onde há pinheiros*, ameixial, «pomar de ameixieiras*, etc. 

A orijem presumida destes dois vocábulos é problemática, 
pois se com eles se relaciona indubitavelmente o francês moder- 
no giiigne, e talvez o antigo guisne, o romeno msin, o russo 
vixnia, todos os quais teem uma nasal, o étimo que se lhe atri- 
bui, o alto-alemão antigo tvihsela ^ não apresenta essa nasal. 
Outras formas análogas, com a nasal, ou sem ela, como o ita- 
liano vísciola, existem disseminadas por quási todas as línguas 
europeias, incluindo as esclavónicas, o grego moderno, o albanês, 
o húngaro, o turco, e pode ver-se a maior parte delas no Diccio- 
nário etimolójico romeno, de A. de Cihac *, obra a todos os res- 
peitos monumental, que obteve o prémio Volney, em 1880. 



ginjibirra 

O Novo DicciONÁBio dá o vocábulo genjibirra, como de- 
signando uma bebida usada entre os indíjenas do norte do Bra- 



1 V. KOrting, Lateinisch-romanischbs Wôrtbrbuch, Paderbom, 
1890, n.<> 8892. 

S DiCTIONNÂIRB D*áTYHOLOOIB DACO-ROMANB, «Éléments sUves, 

magyars, tnrcs, grecs-moderne, et albanais», Francoforte, 1879, p. 459. 



512 Apostilas aos Dicionários PoriugMcses 



sil. Há engano manifesto: nem a palavra tem o menor vizlumbre 
de pertencer a línguas americanas, nem é natural que designe 
qualquer bebida indijena. K simplesmente a italianizaçâo, e por 
ela o aportuguesamento do inglês gingerheer, «cerveja de gen- 
jibre>, bebida refrijerante muito conhecida. Birra em italiano, 
como beer em inglês quere dizer «cerveja», e nesta língua ^<n- 
yer significa «gengibre». 



godo, godo (=gódo) 

O Novo DicoioNÁRio dá-nos o vocábulo godo, com o aberto, 
godo, como sinónimo de gogo, «seixo boleado pelas águas», e 
diz-nos ser termo minhoto. Em Arcozelo, confomie nota que dali 
me foi remetida, a palavra godos, com o fechado, aplica-se a uns 
rolos de madeira, que se metem em canudos de lata terminados 
em borda na parte superior, para neles se assentarem móveis, 
acima dos quais se quere assim evitar que subam os ratos. E di- 
gno de raençiio o termo. 



golilha, goela 

O primeiro destes vocábulos é castelhauismo, goliUn, cuja 
fornia antiga era golieUa, de gulella, demimitivo de gú1a:i^ 
que tiiinbém procedeu o português goela, que lhe corresponde 
na forma, não })orém no significado, e que, como se vê, se deve 
escrever f/ocla com o, como antes sempre se fez, e nào guek 
com i(, como a^nM*a se está ortografando erradamente, e com o 
grave equívoco de poder ser lida a primeira sílaba como a de 
(fiierríi, isto é, sem se proferir o u. Efectivamente, é sabido que 
a u breve la^ino corresponde, tanto em castelhano como em 
português, o. conquanto neste se pronuncie há muito como n, 
quando ê átono. No Brasil, porém, conserva-se a distinção en- 
tre o e íi antes da sílaba jiredouiinante. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 513 



golpelha, gorpelha, corbelha 

O Novo DiccioNÁBio dá-nos golpelha como alterado de cor- 
belha, e outro golpelha j uulpècula, «raposa»: 

< O lobo mais a golpelha 
* «Fizeram uma conselha>. 

Nenhuma dúvida há com relação a esta segunda golpelha, 
como procedente da forma latina apontada. Examinemos a outra. 

Oolpelha, gorpelha, «alcofão», parece terem-se confundido 
com a outra golpelíia, e é talvez essa a razão porque o latim 
corbícula, deminutivo de corbis, « cesto >, que deu a forma 
antiga corbelha, perfeitamente regular, produziu o alótropo gor- 
pelha, com a singular mudança de o em ^ e a mais singular 
ainda de b em p; permutação raríssima, que nem mesmo é com- 
parável a mpito \ subitum, pois aqui as duas surdas s e t 
assimilaram ao mesmo género a sonora 6, concorrendo mais para 
esta assimilação eufónica o ser o vocábulo esdrúxulo, e o 6 per- 
tencer, como o ^, a sílaba átona. 

É moda, com referencia ao enxoval da noiva, usar-se a pala- 
vra francesa corbeille; e quando digo moda quero dar a enten- 
der que o é na linguajem avariada dos anúncios de modistas e 
modistos, e na dos noticiaristas que os arremedam, por galanta- 
ria, ou por ignorância. 

Ora, corbeille quere diier em geral «açafate, cesta bastante 
larga com pé » , e não me consta que as noivas, para aparar as 
prendas, ponham uma cesta à disposição das pessoas suas co- 
nhecidas. 

Assim parece-me que prendas, ou mimos ou enxoval são 
termos bastante finos para não causar vergonha usá-los; e se a 
todo o custo querem falar num aparador qualquer, chamem-lhe 
açafate, para que toda a gente os entenda. E verdade que o 
francês faz parte do curso de instrução secundária; mas obriga- 
tório para todos por íei é somente saber ler, escrever e contar 

33 



s língua da nossa 



' /f- *'-7 i^o Àfríra OriraUl 
I ■ « dnsrff sio feitos de madein. de 
lann fTfirtn wiiit. e caa tr» pés, ei^ertoe só dt> am hdn 
<«M pcQe 4» InUik. t m4b «• tegirto. • ■Soados por okciD d« 
pqwKi fém 4* WndH, qse w finam »dk«iir i pdl« onde 
aôUB TWfim âi« ibmÍ m cmb m nioe e tnnspsrtxlos.M iw* 
«oço do tMsdw* — '. ^^^^1 

^En ^ae « Jifrr»itiiu cbO» aai du outFa=- ^^^H 

Árv»rp d« Tinor — <0 ragalo bom... 4 como a árTor^ dej 
^odâo, que dá sambn e fimnin • — '. ^ 



gonzar 

Este verbo, derírado de ffoitso, onri-o a am oficial de ouriTea, 
a quem dei a consertar o fusilão de uma cadeia de relójio. Pre- 
guntaado-lhe eu se teria de ser Bubstituído por oatro, respon- 
deu-me: < Vou ver se o posso gonzar'. E oa realidade gomou-o, 
ist« €. preodeu ou soldou uma parte do ^ilio, junto à rosca, e 
(jae se tinha quebrado. 



^ A/evertu Coutinho, X Casipasha do Barl-é em 1902, in cjornil 
das Col(niÍai>, de t!l Jf atrosto de 1905. 

' J. Pereira Jar.lim. Xotas ethsooraphicas sobrb os povos dx 
Timor, in -Portugália-, i, p. 356. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 515 



gordo 

Para português, como para as outras línguas românicas das 
Espanhas, este vocábulo é o latim gurdum, o qual, conforme a 
Quintiliano constava [audiui], era palavra hispânica. 

O que se não sabe é a qual das várias línguas que na His- 
pânia se falavam ela pertencia; ao vasconço de certo que não, 
pois gordo nesse idioma diz-se guicen; céltico também não pa- 
rece o termo ser. 

Este adjectivo tem era português acepção mais restrita que 
era castelhano, onde também significa «volimaoso», como o in- 
glês hig, ou o francês gros; em português quere dizer «que tem 
gordura, matéria adiposa», e tanto que diferençamos perfeita- 
mente gordo, em inglês /aí, de grosso, « refeito >, em inglês stout 



gorgomilos 

Este vocábulo está hoje quási desusado em estilo sério; to- 
davia, há dois ou três séculos era empregado sem o menor re- 
paro: — «soando pelos gorgomilos cortados, cheios de sangue, o 
santíssimo nome de Jesus > — *. 



gote 

Termo da África Oriental Portuguesa: — <^góte (peça de pau 
que serve para equilibrar as panellas e as cestas)» — *. 



^ P. Ant. Fr. Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 
1894, p. 196. 

' Jornal das Colónias, de 4 de julho de 1903. 




ntW «lasfir » *rf*m ao um 



ftr ntptynr. significa aquulc 
B WdM ,9> referente tt<)U^ 



^L na 



go««aad«, gvnmisU 

O príafltn iynn neábalM «a jim qvcR dner •winido*:; 
— • O Meseasí. 90» iiâ« «Ura j^Kvmttfo, trto ê, que bSo tBh' 

ta UBU algum» CODfiigO * — *. 

O Mgnikdo é tuado m Biaâl com a aigaificaçio de < partid*^ 
□»•:—• B«qwrín«otM tnfDtWhàa c«asutaB 
Tau seai » meiíAr pretesto «la i«rte dw gonrniistas 



goiar, jíUo; íMs) 



Parece averígDado, que a palavra gosar castelhana proTân 
de gaudiare \ gaudium, sendo gore, antigo goze, nin snbstaih 
tivt> rerbal rizotómco. O português gozar é provável que pFOcedft 
de castelhano, risto que ao au latino corresponde em portugnês 
ou, oi (cf. condia, coisa \ causa), e o vocábulo nanca asBÍm se 
escreveu. O plural é gozos. 

Quanto &g6£0, *raça de cães>, o étimo é goticam (canem), 
de que também se derivaram o castelhano gosgue, com o mesmo 
signilicãdo, e o catalão gos, * cão> em geraL O plural de jr^eoi 
«câo», é gozos, e náo, góíos. 



■ O Século, de 10 de setembTo de 1900. 
' O Economista, de 13 de jnnho de 1883, Conesponddnc 
do Kio-de-Janeiro. 



L putienUr 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 517 



gradura 

Termo próprio da província de Trás-os-Montes, o qual se 
aplica genericamente a toda a casta de feijão: — «Boa horta! 
Muita soma de feijão para verde, . . . e inda por cima muita gra- 
dura» — ^ 

grarailho, gramilo 

Em Caminha é o «fecho da porta». O Novo Diccionário 
rejista o vocábulo, com a forma gramih. 



grane, grani 

O Novo Diccionário dá os dois vocábulos como tendo a 
mesma significação — «cavallo, égua» — , e diz-nos ser termo de 
jíria. E propriamente calão de ciganos alquiles, e o primeiro 
deles ó o que quere dizer «cavalo»; o segundo é o femenino, 
<égua»: em calo grasté, pi. grastés, fem. grasni, pi. grasnias, 
E provável que o primeiro fosse modificado pelo segundo em 
português, e em calo ou dialecto dos ciganos espanhóis há tam- 
bém o femenino de grasté, que é grastí, O í? mal se ouve, como 
no dialecto andaluz do castelhano. No dialecto dos ciganos ro- 
menos grasnei quere dizer «poldro», e -ni é um suficso, com o 
qual de nomes masculinos se derivam outros femeninos. O pri- 
mitivo é gra, que quere dizer «besta». 

gravanha 

Em Caminha é o nome que se dá à «rama seca dos pinhei- 
ros». 



O Repórter, de 17 de junho de 1897. 




ctrta « a I 

cmlã,a 

Ikm. O Cm* farim « fM M apitei v4* a ente dã jrrWK t^ 

3. L Ito^arte ■ ■■■ « mulww tsakai ' Dpb-m pob s ti 



A lingiu n>ttÍBka ^b« pes^Bi polavn anis parecida com > 

portogu^âL e «U mesma <4t;Mn. ê a cataLi. onde se diz graríiSa 
{yntL ifracfk-4ka/ : <^ casielbaih» cfaamain-lbe parriBas. 

Gretkeiro c <i «[«rárío qoe tem a sen cargo as grelhai: 
— < í;<»itÍDiuin em ereve os operarioõ gielheii«<s> — *. 

grémio, sremíal 

A palarra grémio, do latim gremíam. <regaço>, nÍQ é ji 
usada senão ao sentido tigorado de <corp(»açio, reQDÍão> e, 
como boje se diz. elube ou eoíitio. O derivado gremia], em latim 



Batalha.-* da Companhia de Jesrs, Lisboa. lS9i, p. ', 

DiCTtONNAIRE PO RTTG A lã-F RASCAIS, PjTÍS, 1855. 

o Heculo, de 28 de ferereiru de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 519 



eclesiástico gremiale, é o nome qne se dá a uma espécie de 
avental, que pertence aos paramentos do sacerdote; em italiano 
grembiale « avental >, ó o mesmo vocábulo. (Cf. hmbo era por- 
tuguês, com hmo em castelhano, e ao contrário, rumo português, 
com rumbo em castelhano, e também Imnber^ com lamer): — 
« sandálias e luvas . . . gremial e formalio ... o gremial é um 
panno que se colloca sobre os joelhos do celebrante» — K 

Grijó, grejó, igrejó 

E conhecida no onomástico local esta forma, do latim (ec)cle- 
siola, e deveria escrever-se Orejó, Como nome comum empre- 
gou-o L. Figueiredo Guerra, no seu interessante estudo Uma 
POVOAÇÃO subterbanea: — «este grijó de Ester ainda existia 
com capellão em 1548* — *. 

Tinha o significado de * capela, ou ermida >. O género porém 
está errado, porque ó femenino, esta grejó, e não, este grejó, 

O Novo DicoioNÁBio rejista, como antiga, sem a abonar, a 
forma igrejó, em que se nâo fizera ainda a aférese do i inicial, 
procedente do ei- [ ec- latino, que também encontramos nos 
Subsídios de A. A. Cortesão, sem citação alguma, como sinó- 
nimo de Grijó, nome de povoação; atento, porém, o sistema de 
trabalho ali seguido, o autor que a cita, é porque encontrou a 
forma em qualquer documento. V. igreja. 

grima 

Em Trás-os-Montes quere dizer «medo»: — «As noites são 
ás vezes escuras como a bocca d'um lobo, ouvindo-se com grima 
(medo) o piar das aves agourentas» — ^, 



1 O Dia, de 21 de março de 1902. 
* in Portugália, i, p. 612. 

3 M. Ferreira Deusdado, O Kbcolhimbxto da Mòfrbita, in « Re- 
vista de eiucaçào e ensino >, 1891. 



A ptdavra tem aspecto de ^«nnimca: em alemão yrimm, à^ 
nifirA «saotuL. raiva», em inglês yrim, •medonho'. 
— Achillps him^lf was n"t more grim and gorv- 



grou 



É nnin esU forma em imi pnra iiu))«tauUvo8. J. L«it« 
Vasmnretos ciplira-a muito raioávelmeate como orijiDada dtuoi 
fnriuB latiiut i/rNuf. inasciilino de griia, par ffrufifs, (\ae tem i 
mesma íignilicaçio, e compaia-Ibe ■/«im', i/ufV J (/mo« *. 



J 



çrundanfaa: v. gadanha 



gualilido, galdidu, galder. galdir 

Gm caslíUuiaa eiist« um auUi;o adjectivo pazi\c\pia\ ffnlthiáo. 
qilf t^m a mpsma jii;>DÍticação qiie n português e/fiíkilifido. o 
qual deveria ter tido também a forma galduâo, e eoja termina- 
do, prtipiia dos participios passivos da 2 * conjuga^, se mu- 
dou na língua moderoa para -ido, que pertencia aos da 3.*: 
cf. tido, dantes feudo, mexido, dantes merutío, etc. 

Esta consideração leva-nos a supor que o verbo seria galder, 
e não galdir, derivado do va-;conço galdu, «perdido»: — «Sar- 
dinha que o gato leva, galdida vai ela> — ^ 

K possível também que o verbo em português pertencesse 
sempre à 3." conjugaçáo, e em castelhano à 2.', como acontece, 
por exemplo, com cair, em castelhano caer. 

Duarte Núnez de Leão ' adverte que é palavra grosseira, 



Lord BjTon, Dos Jdas. 

Revista Lusitana, ih, \>. 2C5, 

Rifão. 

OaiOGv DA LixooA PORTUGUESA, cap. xtui. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 521 



que se não deve empre^r, e Bluteau, citando-a, repete a recomen- 
dação. 

Se alguma vez foi usado o verbo em outra linguajem, ignoro-O; 
hoje em dia o seu uso está limitado ao particípio. 

guardanapo 

No uso actual significa uma «toalha pequena, que se poe a 
cada comensal, para êle se limpar». Antes, porém, esta palavra 
designava o que hoje se denomina lenço de assoar, como se pode 
ver na rubrica da fala do primeiro frade, no « Auto das Fadas > 
(«sortes, fados») de Gil Vicente: — «Assoa-se cora o seu guar- 
danapo» — . 

Anteriormente, no mesmo auto, na fala da Feiticeira, vemos 
o mesmo vocábulo, igualmente no sentido de lenço, ou pano: 

Isto é fcrsufa de sapo 
Que está neste guardanapo. 

Bluteau * dá desta palavra a etimolqjia mais provável, guarda 
e o francês nappe, que vale o mesmo que Toalha, porque o guar- 
danapo serve de guardar — «não só o vestido de quem come, mas 
também a Toalha da mesa em que se come» — ; e acrescenta: 
— «Os Antigos, quando eráo convidados a comer fora de suas 
casas, levava cada hum com sigo o seu guardanapo» — . 

O que parecerá extraordinário é que este vocábulo só seja 
usado em Portugal, onde nunca à toalha da mesa se chamou 
napo; e que, pelo contrário,' os franceses lhe chamem serviette, 
significando nappe na sua língua essa toalha. A noção, porém, 
do segundo componente está de todo perdida, visto que, como 
excepção aos substantivos compostos com o verbo giiarda, no 
imperativo, este perdeu a acentuação própria no seu primeiro 
elemento. (Y. guarda-peitoj. 



* Vocabulário portugubz b latino. 



I 



Feias citações que fiz de G-il Viceate, e peta d<!QiiiçJlo de 
Uluteaii, fica [lerfoitameute claro o modo de diaer assoe-ne aftm 
giutydaHapo, em que esta palavru tem a signilíoação de • lenço >. , 

Todavia, guardanapo já tiuba a mesma significação espei^íal I 
que tom lioje, por meados do século xvi, visto que o Padre je- I 
suita Gaspar Baríeu, numa i-arta datada de 1551, referindo-se 
ils refeições do rei da Ktiópia, escreveu: — - El-rei era seu comer 
uão tem aeiihú modo de estudo, está assentado em híi catre ou 
em liúa cadeira rasa de ferro cuborta com hum couro, ou em 
cima de húa alcatifa; não tem mesa nem copa, só mente hãa 
trempem uo chào e em cirna húa gamela de pao que terá 15 
ou 20 palmos de roda, e no meo tem húa maneira d escudelas 
do mesmo pao sem nenhúa toalha nem guardanapo. ÃHmpio 
Iifia mão com a outra» — '. 



guajda-pelto 

6 considerável o número dos nomes compostos com o impera- 
tivo do verbo ijtiiirdar, ífiíirda, e iim substantivo aposto como 
stiu comjilemeutú oljjuctivo. Has uoiaes denta Cormaçào, taat íre- 
qíiente e ainda tam vivaz nas línguas românicas, cada um dos 
elementos conserva a sua acentuação própria, estando, porém, 
como é de regra nelas, o acento predominante na sílaba tónica 
do segundo componente. Excepções a esta regra, raras, como 
Timos em guardanapo, eiplicam-se pelo facto de se haver per- 
dido a noção do signiScado do segundo elemento. No primeiro 
caso devem escrever-se com linha divisória a mostrar a indepen- 
déncia manifesta dos componentes; no segundo cumpre reunir os 
dois elementos, sem a linha, em uma sd palavra, com um único 



1 in MisaÕHs dos Jesuítas íjo Oribntb, Lisboa, 1894, p. 106, 
Completei !is abrcvkturaa, desuni as palavras, e fiz daaa correcções e' 
dentes, raia c mrza para rasa e raeaa. 

Od tezton tromiciitoa Toroin visivelmente mil copi&do«. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 523 



acento, marcado ou não, coDÍorme os preceitos de acentuação 
gráfica seguidos por cada um ^ O mesmo se deverá fazer, ainda 
quando o primeiro elemento seja substantivo e o segundo adjec- 
tivo, como em guarda-mor, visto o primeiro componente con- 
servar a sua acentuação. 

Abonarei aqui o vocábulo composto, só incluído no Novo 
DiccioNÁRio, e que serve de epígrafe a este artigo, guarda- 
peito: — «A cavallo os feirantes, vindos de longes terras com os 
primitivos trajos sertanejos, isto é, o chapéu de copa mamillar 
de couro, a vestia ou gibào, guarda-peito e guardas tudo também 
exclusivamente confeccionado de couro curtido» — ^: fabri- ^ 
eado seria melhor, visto • o autor ser em geral vernáculo na sua 
linguajem. 

guarda-sol, guarda-soleiro 

O primeiro destes vocábulos está rejistado em todos os dicio-, 
nários e é usualíssirao. 

O segundo é ura derivado sui generis: significa «fabricante 
de gitarda-sôis. feito à imitação de chapeleiro, fabricante de 
chapéus», sombreireiro, fabricante de sombreiros, no sentido 
antigo de «umbellas> ou «sombrinhas», e não no do castelhano 
actual sombrero, cujo significado é «chapéu para a cabeça»: 
— «Reuniu a classe dos operários guarda-soleiros» — ^. 



guecho 
Em Sara Miguel dos Açores quere dizer «novilho» *. 



* V. Ortografia Nacional, do autor, Lisboa, 1904, p. 213. 

* Fonseca, Bosquejo de uma viajem no interior da Parahyba 
B DE Pernambuco, t?i «O Século >, de 8 de junho de 1900. 

8 O Século, de 24 de outubro de 1902. 

* O Século, de 5 de julho de 1901. 




gueiro 

'DO gueiro (essa onde os rapazes e assicaoas [raparigas], tt 
reúofm para dormir)» '. 

È termo da África Omutul Ponii^iiesa; ua citarão refeFMC 

a Murruinuu. 

guilboclie, ffuilhoie, giiiltaoché, guilhoclii 

O Novo Diccio^ÁBio ioclutu o vocábulo francês puillocht, 
' ortoffrafado k portuguesa, e no Suplemento declarou proferirei 
guilhoeiíé. K esta, na realidade, a forma usada pelos 1avrs»t«i e 
ourives, e deHÍg:na um desenho formado pelo cruxamento de U- 
nlia-s paralela-s, com outras igualmente [laralelas, espécie de en- 
xadrezameiíto: — • Ouro gravado a guillioché, pmta gravadas 
guilhoclié» — *, 

I^te substantivo niio é mais quo o pariicípio passivo do verbo 
(luilbiciwr, a que se atribui orijem bistiirica, o nome de u«rto 
sujeito, de apelido Ouilhl. que jiareiíe ter sido inventado pura 
o caso '. 

O desenho assim formado não se cbama em frzncês ffuillofhé, 
mas sim, guilloehis. 

guinda: v. flinja 
guinde 

Na índia Portuguesa — «bacia de lavar a cara—». 

O termo, segundo Mouseubor Kodolfo Dalgado *, é marata, e 



' Jornal dab Colohias, de 30 de maio de 1903, 
< Programa da ExposiçIO db ouRrvBZARiA so POrto, tn (Coni- 
mercio do Porto>, do T de março de ISâU. 

' Henrique Stappere, DiCTIONNAIRB BVMOPTIQtlB d'AtT>I0U>0IS 

FRÁNi;AiflB, Paria, 2.' ed., n," 4938. 

* Ebvista Lusitana, ti, p. 81. . 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 525 



também dravídico, canarim ou tulo. No Dicionário Marata-porti>- 
goês de Suriají Ananda Eau, a palavra aiNpI, em devanágrico, 
sem transliteraçào, e que transcrevo para aqui, tem a seguinte 
definição, que pouco se coaduna com o dito emprego do vocábulo: 
— «Vazo da agoa, uzado para trazer agoa sagrada. É vazo de 
barriga grossa, e pescoço e boca estreita e pequena. 2. Assim 
se chama também a um vazo da figura de bule» — ^ Estranha 
definição! Há de ser caso dificultoso o lavar-se alguém num bule, 
ou numa garrafa, aparelho só comparável aos lavatórios usados 
nas hospedarias russas, e que sâo excelente fábrica de galeirões 
na testa, quando não de quebrar cabeças. Nâo teem válvula na 
bacia, que está munida de um orificio, o qual, posto um pé em 
um pedal, na base do lavatório, despeja continuamente a água 
que dentro lhe cai de uma bica, à altura do nariz de uma pessoa 
que esteja de pé: Curvada a pessoa, basta-lhe levantar a cabeça 
para apanhar na testa um beijo da bica, que lhe pode deixar 
memória perdurável do esquisito invento. Agradável sui^presa, 
que ali espera o viandante! 



guirlanda, grinalda 

A forma primitiva deste vocábulo deve ter sido a primeira, 
que, como vamos ver, ainda subsiste; a segunda é resultado de 
duas metáteses acumuladas, guir- para g7'i-, e -lan- para -nal-, 
O vocábulo parece ter vindo para as outras línguas românicas 
da forma italiana guirlanda, de orijem germânica, ainda não 
perfeitamente explicada. 

Tem esta palavra, já numa, já noutra das formas apontadas, 
várias acepções. 

Eis aqui uma, que náo está rejistada: — «Nas guirlandas 



* Suriagy Ananda Rau, Diccionario maratha-portuoubz, coorde- 
nado conforme o Diccionario maratha-inglez de J. I. Molesworth, 1. 1 [e único], 
Nova Goa, 1879, p. 314, col. iii. 



Apnttil/u iM» Diei^itáriM fí>riiigtie»ea 



I 

I 



[cabidM a estinheirM] li se reeux [véeiu] oè «en'i(-t>s de robre, , 
anune, estanbo, ferro « hftrrp • — ■. 



guisa. ^Uinho 

t> primeira Aéstv» dois nomes Ae aves i' ua Uadt^int (Parto 
Mouia), aplkado ao roquinho (q. v.): o segundo ao <d>ibe, (triagi 
DaneJIas, hio.). 

habitat , 

Kste termo, qne âo fraucfs adoptámos, é o latim habitai, 
3.* pc«^a du preKent« do indicativo do verlKi tiabítare, e sif 
nifica. portanto, •habita». 

É usado modeniíS8Ímaui«nt« para designar a vivenda i 
tual d« uma espécie, vejetal ou animal: — «O cavallo, gafaadõ' 
por Hinio... pertence ao typo galliziano, eiyo habitat com* 
prebende todo o aoroests da peninsulii [Hispânica] > - — '. 

Com vant^jem seria substituído por vivenda este extrant- 
gante nome, que só tem em portugnfis outro análogo, tambéEn 
forasteiro, deficit, e não menos arrevesado. 



hagi, aii, hagiaco, ajiaco, aiiaco 

Conquanto, sem dúvida nenhuma, o h seja redundante, e a 
segunda escrita, que aqui dou, seja a única certa, como mais 
adeante indico, trato da palavra nesta altura das Apostilas, 
porque assim a vejo escrita no teito com que a abono, a «Bela-' 



' Jo3í da Silva PicSo, ExHNoaRAPHiA do Alto Alrhtbjo, í» Por- 
tugalift.i. p. 538, 

* Alberto Sampaio, Aa » Vili.ab » do Norte dh Portugal, w Por- 
tugália, i.p. 117, n.». 



Apoatikis ao8 Dicionàrio8 Portugueses 527 

çâo da viajem e sucesso da nao Sam Francisco», do Padre 
Gaspar Afonso: — «cora tudo o comer, cousa geral em todas as 
Índias, ha de vir á mesa cuberto de hagi, que é a sua pimenta 
vermelha, que lá ha de muitas castas e feições. E porque os 
grãos, ou cabeças delia, que vem entre a carne cozida ou guisa- 
da, trazem já quebrada a sua virtude, como elles [os naturaes 
das Antilhas] cuidam, . . . mandam pôr outra crua em pratos 
pela mesa, como em saleiros, que mastigara e comem . . . como 
se. . . tivessem as linguas e gargantas ladrilhadas» — ^ 

O Novo DiccioNÁBio traz o vocábulo erradamente acentuado, 
áxi, e o Contemporâneo desfigurado enteirameute na pronúncia 
ácsi (!) que lhe atribui. 

Eis o que a respeito da forma castelhana moderna aji nos 
diz Rodolfo Lenz, doutíssimo autor do Diccionabio etimolójico 

DE LAS VOCÊS CHILENAS DERIVADAS DE LENGUAS INDÍJENA8 

AMERICANAS, cuja publicação ainda infelizmente não está con- 
cluída: — «la planta i el fruto de la misma que se llaman en 
Espaiia »pimiento» i «guindilla» [i, e. jinjinha, « pimentão »](^Ca- 
psium annuum). ... La palabra ají, antiguamente axi, viene 
de Haiti i perteuece a la lengua taino ^e la família linguística 
de los amak. . . Los índios peruanos llaman el ají lichu, . . ; los 
de Chile thapi* — 2. 

Esta escrita thapi representa a pronúncia trapi, com um r 
fricativo surdo, como o do inglês try, ou o r final de sílaba, 
muito usual no Brasil ; a moderna forma castelhana ají profere-se 
com o j castelhano actual, mas a antiga axi pronunciava-se com 
o valor do x inicial português de xadrez, por exemplo, e o 
acento tónico foi sempre e é no i^ e não no a. 

Explica-se que o Novo Dicc. errasse na acentuação que dá 
ao vocábulo, conquanto pudesse vê-lo com a verdadeira quer no 
Dicionário da Academia Espanhola (ají), quer no Vocabulário 



* in BlBL. DE CLÁSSICOS P0RTUGUBZB8, vol. XLV, p. 89 (fins do XVI 

século). 

2 Santiago de Chile, 1904-1905, p. 126. 



de Anibal Etbeverría i Reyes, Vocss usadas es Ohilr ' ; Uhtt 
]K<réu) se guiasse pela falta da aceotuação devida, no eaorioe at- 
tapácio de Mascaieoliaã Valdez -. O que não tem jaetiâr^^^ 
possível é a extravagante pronimcía do x como es. que lhe pres- 
creve, sem mais razões, e como se a palavra fosse latina ou gn^ 
o (.'o>n-BupoB.v!fEo, com a mesma competência e autoridade com 
que nos diz que guta-pereha (q. v. em cauchu] se pronuncia t/iUa- 
perjui on antes guta-perka (l). 

Do Touábalo tyi derivaram os americanos ajiaro, qne Bch^l 
verria no mesmo vocabulário define como — • guisado popular » 

O l*adre Gaspar, na sja curiosíssima < Relação >, acima ÔrM 
t-ida, Jii dá k palavra, algumas linhas depois, a forma escrít&l 
lia^iaco: — ^< antes nas c^a^ se carrega tanto mais a mão em [ 
algumas partes, que o ordinário guisado qae uellas fazem, pelo 
muito hagi que levn. tomoti delle o nome, e se chama Hagiacn: 
e então se deitara a dormir nmi consolados era suas camas, qnasi 
debaixo da Linha Kiiiinocial. como »e houvessem de dormir ao 
sereno debaixo dos Poios* — . 1 

hangar 

Este vocábulo francês, a ser necessário cá, deve eacrever-se 
com o h iuicial, emquanto se conservar esta letra etimolójica, 
nula para a pronúncia: — «Deu entrada no ministério das obras 
publicas o projecto e respectivo orçamento para a construcçâo 
de iim angar, para recolher as macliinas e alfaias de lavoura a 
vapor* — ^. Poderia dizer-se barracão, trapiche. 

Quanto à acentuação ãngar, dada pelo Novo Diccionásio, é 
errónea, pois os vocábulos franceses teem todos o acento t<inica 
sobre a última sílaba pronunciada. A orijem germânica do voci- 
bulo francês é já muito desviada, hangen, 'pender*, em alemão. 



Santiago de Chile. lOOO. 

DiccioNARio BSPANOL-pORTUOuàs, Lisboa, 1864 

O EcoNOMiaTA, de 10 de fevereiro de 1389. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 529 



haplolojia 

Este termo, artificialmente formado de dois vocábulos gregos, 
*ÁPLos «simples» e lógos «doutrina», quere dizer «simplifica- 
ção». Dá-se este nome ao fenómeno que se produz nas palavras 
que teem duas sílabas de idêntica estrutura, as quais se reduzem 
a uma só, por brevidade na elocução. São exemplos deste fenó- 
meno em latim nutrix por nutritrix, e em português idolor 
tra por idololutra, bondoso por bondadoso, de bondade mais o 
suficso -oso, etc. 

harém 

Esta palavra é de orijem imediatamente francesa, como o 
prova a acentuação que lhe damos; se proviesse directamente do 
árabe naiiaM, seria /arme, ou/áròo; ou, se de introdução secun- 
dária, (hjárem, ou (hjárão. 

Os vocábulos arábicos existentes em português foram nele 
introduzidos em três épocas diferentes, e obedecem por isso a 
leis diversas de transcrição: 

1.° Período, primários: foram recebidos auricularmente e 
encorporaram-se na língua, acomodando-se-lhe na pronúncia, a 
qual é representada como a das outras palavras portuguesas. 
Séculos ix-xv. 

2.° Período, secundários: introduzidos pelos escritores, e 
mais ou menos metodicamente transcritos, ou mesmo transli- 
terados, conforme o valor das letras no alfabeto português. 
Séculos xv-xix. 

3.° Período, terciários: copiados de transcrições ou trans- 
literações estranj eiras, sem consciência dos valores das letras, e 
flutuantes na sua escrita. Século xix, e continua! ^ 



* F. do autor: Dbux faits db phonolooib historiqub portu- 
OAiBB, Lisboa, 1892, p. 10 e 11. 

34 




Ètl« infinito Bubstautivado no {ilural, alúm de signilicar <po£- 
seB, bens-, teto o sentido especial, populai', de • tesouros ocul- 
tos-: — «O povo acreditava que procurávamos lutfcrts escon- 
didos.—'. . 



haxixe 

l'] esta a forma portnguesa, oh se quiserem axijre, da palavra 
arábica Haxix, que qiiere dizer uma casta de cáiiave, que os pre- 
tos da ÁlVica Ocidental Portuguesa cUatnados ambiindos denomi- 
nain liamba, o que é inebriante, quando fumada. Ur franceses 
«scrsveiu haclnchi', os ingleses hashfesh, e os aleniAes haschitidi. 
V. eui haretn. 

héjira 

Assim se deve acentuar esta palavra, qne também se escreve 
hégira, e poderia ortografar-se éjira; em árabe é kqbb, com S 
sonoro inicial, qne aqui transcrevo por e: quere dizer (fuga». 
A pronúncia ejirn, é francesa. Máriuol, Rebelión de los Maris- 
cos, escreveu hixara=hixara *. 

Este vocábulo pertence aos fins do 2.° período a qne me re- 
feri em harém. 

herdade 

Assim é definido este termo, com relação ao Alentejo: — *03 
campos do Alemtejo, aparte os arredores das povoaf.ões, são, na 



Portugali», I, p. 13, 

V. Poí)- y Enfrelmann, GLOasAiRB DBS HOts BePAONOLS bt por- 
IS DÉitivíis L>B l'ai{ABb, Leid», 1869. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 531 



sua quasi totalidade, divididos em grandes tractos de terreno, 
que se denominam herdades > — K 



Hereró, herrero 

Uma raça indómita da Africa Ocidental, que tem dado que 
fazer aos alemães, é denominada dos Hererós, nome que dão a 
si próprios (Ova-liei^eróJ. 

Este nome, na pena dos nossos jornalistas, transformou-se em 
herrero:^, «ferreiros» em espanhol, com mais um r, e mudança 
de acento tónico para a penúltima sílaba. Disfarçado assim o 
nome dos valentes negros, trataram de lho explicar, e num jor- 
nal se escreveu que provavelmente êle lhes viera de uma povoa- 
ção espanhola, chamada Herreros, e até a localizaram na pro- 
víncia de Ávila. 

Escolheram mal: Havendo nada menos de doze localidades 



deste nome entre Ávila e Çamora, povoações e sítios de várias 
categorias, tinham feito melhor se dessem os tais pretos como 
oriundos de um despovoado denominado Herreros, na provín- 
cia de Segóvia, explicando deste modo o seu despovoamento: os 
antigos habitantes expatriaram-se, e para os não conhecerem tin- 
jiram-se de preto, e são esses os actuais Herreros; já se vê, na 
opinião dos ditos jornalistas, que teimam em assim crismar os 
hererós, sem o consentimento destes, atribuindo-lhes habilidades 
que, apesar de enfarruscados cafres, eles não teem, pois não 
consta que jamais se singularizassem pela sua perícia no ofício 
de Vulcano, como os ciganos no de caldeireiro. Esta extravagante 
alcunha, como era um despropósito, criou fama, e hoje até em 
livros e relatórios se le. Ora, bastava consultar-se qualquer mo- 
desto compêndio de geografia ou etnografia da África, para se 



1 J. da Silva Picão, Ethnographia do Alto Albmtbjo, in Portu- 
gália, I, p. 270. 



Qmoi tn«r cuioBdadc de se 'abrmmr bw s fneàtm ta 
liBgia qve blaa m heranii. « que ate f nrfrifcwit de ÃtíU. |Hd« 
rar eon uaito profett* um nlnatto de eo)eo{A« BaortldiM *. 

cacrite por A. Sndri. ende tae««tmi pimátíac ias lii^uf 

tcÂUiereró e 



É ow esenxei «te Toeàholo hftaira, e &etep«, de qoe i»- 
aultani as pronuDcias, eninas anbe. tiáira t etatra. 

O voribalo *■ ^wpt 'btaIka, pnferidv hrtãtrú, pre^aniTel- 
raroU. ni> )m-^ estico, eléra. so motlrroo. Em Iitiiti será 
betaera, prODUDCiado ff<¥a. se eiisbsse: mas o qae eiiste é 
um derivado hetaería. proa. etéria, eoirespondente eo grego 
'ETAiRÍA, •Cflcfraría r«lijÍos3>. Ora, assim como do latim 
spbaera | eregr> sp-At&A, se fonocu em portogn^s esfera e em 
francês sphire. é evideDte que em português de betaere resulta 
(h}eféra, e em francês deveria ter resuludo hetaire, sem ápices 
no í. ou h-^tire. e nunca liHalre, que é um barbarismo. Pa- 
rece-me loucura rematada imitar, por capricho, o barbarismo 
fraucês. 

Hthra quere dizer actualmente «cortesã, prostituta de altj) 
coturno >, com sua c<Jrt« de basbaques, os quais Ibe rendem culto, 
ou lhe pagam o estadão, conforme as suas posses. 



DlCTlONSAIRB DB 
!, Ciil. III. 

Líi>sÍB-VÍena-Pest. 



: CNIVBR8BLLB, 1879.1KI!», n, 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 533 



homem 

No calào dos ladrões do Porto esta palavra, seguida de um 
epíteto, classifica os amigos dos haveres do próssimo, pela ser 
guinte maneira : homem de cardenho, « gatuno de casas > ; homem 
de golpe, «gatuno de algibeiras >; hamem de salto, «ladrão de 
estrada* *. 

homeó tropo 

E um neolojismo, derivado artificial do grego 'omoíos, «se- 
melhante», e TBÓPOS, «maneira». 

Serve o termo para designar o que eu denominei formas 
converj entes, isto é, uma só forma resultante, em virtude de 
leis fonéticas, de dois ou mais étimos diferentes, como yena 
de penna e poena, latinos, mirfo, das formas antigas vlido e 
vTindo, a primeira particípio passivo, a segunda gerúndio do 
verbo vir, antigo viir, O fenómeno contrário denomina-se aló- 
tropos, ou formas diverjentes, quando de um só étimo re- 
sultam vocábulos diversos, diferençados, ou não, no sentido, em 
virtude de leis diferentes de acomodação, ou porque entraram 
na língua em períodos distintos; por exemplo, malha, mancha, 
mágoa, mácula, todos quatro procedentes do latim macula. 

V. a palavra moleiro. 



hompim 

— «Nova Goa, 29 de setembro [de 1897]... Os parias ou 
honpins [sic], que fazem os despejos e outros misteres idênticos, 
casta completamente separada de todas» — ^, 



1 O Economista, de 28 de fevereiro de 1885. 
* O Século, de 21 de outubro de 1897. 



■ •AIP-JUL*«Mn 



.ipontUna noH Jlinnrui 



I 



borda 

Esta [laUiTa veio para {inrtugiiéa do fiaur^s, que a recebeu, 
segundo se afírino, <Io mongol, ou língua lartárica doe mogores. 
Marcelo Devie diz-nos aer tártara, e que em turco é ordit, o qn« 
nSo explica por que niuLo so ha de «sciever com h inicial; esse 
h era francês serv« só para evitar a Uj^açjLo com a palavra pre- 
codente, pois se diz In Imrile. e não thorde. 



hortejo 

Deioinutivo de hórh. — -No hortejo que cerca a casa uni 
terreno diminuto > — '. 

— < Quando o bortejo se ' reduz a proporções mioimaB, tuaiii 
o uome de iiiiinchuw — '. 



Contra a regra geral dos adjectivos em -e, que sào uni- 
formes, os substantivos estão sujeitas a muitas excepções; assim 
a palavra hospede forma o fumenino era -a: — «Rata conta era 
feita sem óspeda> — '. Os editores aclararam este passo do Ro- 
teiro i)A viAHEM DE Vasco DA Gama com a nota seguinte: 
— 'determinar uma cousa que depende do consentimento ou 
vontade de outrem» — . 



Portugália, i, p. 2CM5; As Oi.Arias do Prado. 
ib.. \i. ■)47: Kthsouiíaphia do Alto Albiitbjo. 
Lisboa, 18(il,p. lUO. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 535 



Hucá 



Diz-nos o Novo Diccionábio que hoticá é o nome que se dá 
ao cachimbo usado pelos banianes. Ora, Monsenhor Eodolfo Dal- 
gado * transcreve uká e translitera hukkâ, isto é, hukkú,, pelo 
quê a ortografia portuguesa, se o nome é usado por portugueses 
na índia, tem de ser (h}ucá. Em qualquer caso, o ditongo ou da 
primeira sílaba é inadmissível. O dicionário que cito na nota (*) 
declara ser vocábulo arábico, e aqui está a razào do hovr, reme- 
dado do francês por escritor insciente, mas cubiçoso de finjir que 
sabe. Marcelo Devic, com efeito, traz o termo houca, deste modo 
deíinido: — «Pipe turque ou persane peu diíférente du narghilé 
(Littré). De Tarabe Ivoíiqqa, ou si Ton veut du persan houqqa 
[a pronunciaçào diverje, sendo a persiana mais parecida com as 
europeias], vase, bocal, et spécialement: «the bottle through 
which the fumes pass when smoking tobacco» (Richardson), le 
flacon oii passe la fumée du tabac avant d'arriver à la bouche 
du fumeur» — ^. 

hulha, hulheira, hulheíro 

A palavra hulha é copiada do francês houille, de orijem 
incerta, como se pode ver em Stappers h é uma feliz adopção, 
pois, conquanto já tivéssemos a locução substantiva cabvão de 
PEDRA, nào poderia esta servir para expressar acepções especiais 
que tem hulha, nem produzir derivados necessários: — «A hulha 
liquida [água], quer provenha dos mares derretidos, quer das 
torrentes > — *. 



» DiCOlONÁRTO KOMKANl-PORTUOUBZ, p. 525, COl. I. 

* DlCTlONXAIRB ÉTYMOLOGIQUB DBS M0T8 d'0RIOINB ORIENTALB, 

Paris, 1876. 

^ DiCTIONNATRB 8YN0PTIQUB D^ÉTYMOLOGIB FRANÇAISB, Paris, 

n.^ 5802. 

* Diário de Noticias, de 6 de outubro de 1903. 



I 



\ 




ApoêtUi» 'Wt Thrionário» JMvfMeM» 



— «O Gin daâ lin)heir&!i [mima de can-ão de pedn]> 

— 'Os jaijgos hutheiros recouhendus neste paia*— *- 



• liuri(a) 

Como já advertiu Dozy ' com respeito ao castelhano. estB 
palavra pasiuiu à» liognas da Península Hispânica por tat^mié- 
dío do francês houri, e assim muitos a escrevem cá. supondo 
iigénuameate ser puríssimo árabe, ii facto ê ijue, em confornn- 
áade com o que dos dizem o mesmo Doz}' e Marcelo Devic *. o 
árabe HacBA, que daria cm português haura, ou melhor yburá. 
é o nome que dão a uma das mulheres do paraíso de Mafouia; 
o plural é hch. Deste plural fizeram os persas scbi. acrescBB-' 
tando-Ihe o suficso de unidade, e assim aumentado passou o to- 
cabulo ao turco, regressando ao depois ao árabe, que lhe ajuntM 
o seu suticsn priíprio de unidade e. fonnaado bl-bib. proDunciada 
kurla, que é já a forma empregada nas Mil e uma noursa. 
£m portaguês pudemos pois escrever huri, ou huno. 



hurra 

Esta iuterjeiçâo veio do francês hourra, para o português da 
geute Jina, porque o povo a não conhece. Kstá muito em moda 
nus saudações e saúdes, em que é repetida com uma sensaboria 
cosmopolita, que produz tédio. Não creio que jamais venha a 
vulgarizar-se. 

Od franceses dizem que ela lhes veio da Rússia, nâo com o 
enjoativo caviar, mas provavelmente por intermédio das tropas 



' * O Economista, de Irf de julho de 1885. 

^ liLOMaAIRR SBS MOTS EBPAONOLS ET PORTCOAIB dARITÉE E 

i.'ARAnB, Lcida, lâ69. 



Apostilas aos Dicionários Portiigiieses 537 



moscovitas que com os aliados entraram em França e chegaram 
até Paris, após o destronamento de Napoleão i. 

Existe de facto em russo a inteijeição urá, a que se dá como 
orijem a expressão exclamativa u rai, «no paraíso», étimo im- 
provável, visto que, exijindo a preposição u genetivo no nome 
que reje, a exclamação deveria ser u raia, e não, u rai, no 
acusativo. 

Como na palavra horda (q, v.)^ não é fácil de explicar a ini- 
cial h, que os franceses íbe acrescentaram e não soa, mas que os 
ingleses na realidade proferem. 

É claro que esta interjeição nada tem que ver com o subs- 
tantivo urro, do verbo urrar \ ul(u)lare (urlare j urlar), 
urrar, por assimilação. Do verbo latino ululare talvez também 
proviesse, como forma diverjente, uivar, em castelhano aullar; 
cf. o francês hurler, que tem esta orijem. 



fí 



[ V' 



K 



EMENDAS 



abismo 



Não é Da versão grega do Velho Testamento, chamada dos 
Setenta, que o adjectivo ábussos, correspondente a inanis da 
Vulgata, está empregado. Nos Setenta o versículo citado reza 
assim: *ê dè gê ên ábratos kai akataskeúastos. Encontra-se 
o dito vocábulo na versão Judaeo-Greco-Barbara, edição 
rara existente na universidade de Ocsónia, conforme o que se lê 
no erudito artigo Bible, da Penny-Cyclop^dia. 

Citei de memória, desatendendo o cordato conselho de Au- 
gusto Schleicher, isto é, o de se confrontarem sempre as citações 
antes que se mencionem; e quando reparei no erro já não era 
tempo de o remediar, por estar feita a tirajem da folha. Aqui 
fica emendado. 

A forma avisso, por abismo, do latim abyssus, figura num 
texto anterior ao século xv, A visAo de Tundalo *. 



acenha 

Dou aqui mais uma abonação antiga da prioridade da forma 
acena, em castelhano: — «e el camino adelante fasta naua de 
forcados e dende derecho ai açefta desertida» — *. 

Cumpre advertir que na época a que pertence o trecho subsis- 
tia ainda a diferença entre ^ e ^^ em castelhano. 



1 in «Revista Lusitana», viii, p. 247. 

' Júlio Pu}ol y Alonso, Una pubbla bn bl siglo xiii, in < Revue 
Hispaniquo, xi, p. 257: tcito á&pueblaf on «carta de poyoação>. 



M> 



■> 
I 



GoBfonw R. Mfliéwlct PMál *, é a combinação, oo oomo lhe 
cbama. fosio de imealeeare, por ãdealeeare, de que imit 
toa primeiro oiiralpsn e d^iois tàamçar, em virtude de meii- 
tese entre o I e o i». Daforma inedleeare proveio o substuh 
tiro riiotónico emttdço, oomo o Temos na locação portogoem 
ir no enealíú de algêiém, sabstantiro qoe pressupõe a existáneit 
de am veibo enealçar, ji rgistado por J. L Boqueie * em po^ 
taguês, mas que do meamo modo existia em eastelliano. 

aleorlo, iÊlminar, almenara 

Bs aqui uma abooaçio bem característica da palavra obori» ;j 
no sentido de «tônre»: — «para o sul da barra principal, qm 
chamam do Alcorão, por mio de uma tArre ou pirâmide ÚU: 
que parece serve de divisa para conhecimento da barra» — '. 

Os espanhóis chamam abunar, em portuguâs almenarm, k 
torre da mezquita. V. OnToaBAFiA Nacional *, a propósito de 
mirtiintt e alme^tara (q, rj. 

V. ia:nbé:n dois artigos publicados na folha literária do jor- 
nal O SEcrL'> pelo >nr. David López. e um por inim, nos dias 
2() de !naroo e y e 23 de abril deste ano. 

Joào Carvalho de Mascarenhas, na Xova desobicão da cí- 
DAi>K DE Argel (ItVilK chania-lhe simplesmente fone: — «Ha- 
verá dentro nesta cidade mais de cento e dez mezquitas bem 
lavradas, limpas, com suas alampadas e esteiras. Entre as qoaes 
ha oito irraudes que tem snas torres mui altus> — . 



* Manual elemental de gramática histórica bspaSou, 
2.» evlivão, Ma.lria, 1905. p. 123. 

* DiCTIONNAIRE PORTUGAIS-FRASÇAIS, Paiís, 1855. 

» Antunio Fnmcisoo Cardim. Batalhas da Companhia db Jbsus» 
Lisboa, 1SÍ»4, p. Iõ8, 

* Lisboa, 1ÍK)4, p. 224 e 334. 




^- ^ ApostUas aos Dicionário» Portugueses 541 

V 






alia, álea, aléa 



O Padre Manuel Beruárdez na «Descrição da cidade de Co- 
lumbo» (Ceilão) usa a forma alea: — «Em lugar de azemolas se 
[. servem de aleas. Alea é todo o elefante sem dentes, quer seja 
{' macho, quer seja feraea> — *. 
r Mas, 6 deve ler-se áha, ou aléa? 

alquilar 

\ J. Cornu deriva alquilar de elocare, mediante prolepse, ou 

' resonáncia antecipada do l. De elocare veio com certeza alur 
L*. 9(*^f com mudança do e inicial em a-, e sobre esta preferência 
■ de a como inicial veja-se também do mesmo romanista a uti- 
líssima Gramática histórica portuguesa (Gbammatik der poktu- 
GiESiscHEN Spbache, tti « Grundriss der romanischen Philolo- 
gie», I, Strasburgo, 1906, páj. 980 e 949). 

alva 

■ 

Dá-se este nome a uma extensão grande de areal, poeirenta, 
no distrito de Leiria, Alva de Pataias. Esta freguesia é notável 
pela quantidade enorme de fornos de cal que ali trabalham ®. 

bailadeira 

Eis aqui uma abonação clássica do vocábulo: — «não poucas 
bsdladeiras que os Pagodes para este eífeito [de solenidades re- 
lijiosas] sustentam» — ^. 



* in BlBL. DB CLÁSSICOS P0RTUGUEZB8, Vol. XLI, p. 79. 

* Infonuaçào do snr. Acácio de Paiva, natural de I-ieiria. 

3 Padre Manuel Bemárdez, « Descrição da cidade de Columbo >, in Bibl. 

DB CLÁSSICOS PORTUQUBZBS, Yol. XLI, p. 107. 



- ' 



•» >: 



J^OjhViíi iiQg Jtfriflwái loi 



ImSbotbMka) 

A p^inas 161 apontei o yoeibalo biaMo, eam a respectm 
abonação. Panee-me, poréiii| qne U 6rro tipográfico, e qae t 
forma rerdadeira é bÍ9alho, que Kateau, no seu VocabuiiAsio^ 
definia do modo seguinte: — <He um atado, em que Tem ii 
índia partida de ditmantee bmtos» — . A p^Tim figura m 
qnási todos os dieimiirios portugueses, ora escrita eom #, « 
com jf, e está autoriada por muitos escritores nossos, entre «. 
quais citarei aqui Bernardo Oémei de Brito, «MemoraTel reb- 
ção da nao CionceiçSo» , panim, e nomeadamente a p^inas 9 

(VOI. XLVII da BlBUOIHBOA DX CLASltoOS POBT0aUK2S8): — cpiff- 

que naquella nao rinham infinitos diamantes, e todos muito boss, 
e os mais delles de roca velha. . • E por este respeito de haw 
muitos . . . empregaram os mercadores quanto" dinheiro tinham 
nelles, mandando-os naqueUa nao, os quaes vinham entregoa 
aos officiaes; elles os coseram consigo cuidando de os escapar, e 
desta maneira deram os mouros com elles, tomando ao piloto 
grande quantia de bisalhos mais que a todos» — . 



^^^me ai 

1 



bruxa 



Em abono da liipótese que formulei de que haja relação entre 
o vocábulo hnuvi e o verbo bruxulear, como denominações vul- 
gares dos fogos fátuos e do seu aspecto, aduzirei aqui um passo 
interessante da Etiópia oriental de frei Joào dos Santos: 
— « Ao longo do rio de Çofala e de Cuama se criam infinitos bi- 
chos como escaravelhos pequenos, cujo rabo lhe luz de noit« 
como brasa viva, dos quaes também ha nest« reino. Estes, tant» 
que vem a noite, se levantam em bandos pelos ares, e são tantos, 

alumiam qnasi todo o ar, e fazem espanto a quem não tem 

do que isto é. como eu sei que fizeram a certas pessoas 

geíras nestas terras, uma noite escura que dormiram ao 



V 



Apostilas aos Dicionários Poriugv,eses 543 



longo deste rio, as qaaes fugiram com medo para a povoação dos 
cafres, cuidando que eram feiticeiras» — *. 



bufo 

Ao que no competente lugar ficou dito acerca deste vocábulo, 
na acepção de indivíduo da polícia secreta, devo acrescentar que 
em germauia, ou jíria castelhana, huho é sinónimo de soplón, 
«espião, malsim, demmciante » . A forma antiga era lufo, exis- 
tindo também o verbo bufar, «denunciar, malsinar» ^. 

Parece, portanto, que neste sentido o vocábulo terá orijem 
imediata castelhana. 

cacique 

— «o mundo acaba na primeira volta do caminho, em qual- 
quer aldeia sertaneja de cacique politico» — ^. 

E esta uma abonaçào do termo cacique, no seu sentido figu- 
rado, em português, e que nos proveio de Espanha, onde é fre- 
quentes vezes empregado em tal acepção figurada. 



canutilho 

Sobre este vocábulo escreve-me o Prof. K. Menéndez Pidal, 
em 22 de março deste ano, o seguinte: — <Las palavras canuto, 
canutillo, canutero, aunque están referidas en eí Dicc. de la 
Academia á canuto, etc, son las foi-mas hoy corrientes y usadas 
por todos, de modo que las formas con n vienen quedando anti- 



* (Lisboa, 1891), Livro i, cap. xxiii. Al.* edição é de 1609. 

* V. Rafael Salillas, El delincubntb bspanol. lbnguajb, Madrid, 
189t>. 

3 Jornal das Colónias, do 3 de março de 1906. 



r 



444 J ^ 99 Hh9 mm IHtAo mé rioÊ FowUigueÊèÊ 

cuidas eu boca de gente TÍeja ó aldeana. Yo desde nú infinda 
siempre <rf eomo feimas ecNrrieates las eon n> — . 

À defiaiçio dada ao texto enmpie acrescentw: «de ouro, de 
prato > ; aos canodinhos de vidro di-se de preferência o nome de 
vidriího9. 

Gm Eãpai&a a palavra eanutiOo abranjo todos esses âgnifics- 
dos, segando tombem me informa o mesmo dobto romanisto. 



chuplo 

O Novo DioaioHÁBio havia ji rejistodo esto nome da chi- 
miné no Alentejo* como tombem próprio de Tris-os-Montes. 

Não resto a menor dúvida de que é igoalmento conhecido o 
termo com tol significaçio no norte do reino, visto que eet 
acepção serve lá para metaforicamente designar o ramo do os* 
tanheiro que cresce vertícahnente» como se vê do seguinte passo: 

— < ama poda qae [aos castanheiros] lhes tira todas as vergto- 
teas nascidas no pé e ao longo do tronco, assim como os ramos 
mal situados e os que crescem a pnimo (chupões), que absor- 
vem muita nutrição» — . (Gazeta das Aldeias, dé 20 de maio 
de 190B). 

cigano, cigana 

As formas portuguesas deste nome étnico teem, sobre as 
demais usadas por outras nações, mesmo em relação à sua es- 
critíi, a vautajem de ser as latinizadas, empregadas por autores 
que escreveram em latim, como vemos dos trechos seguintes: 

— «populos Egyptiacos ut vulgariter appellantur Ciganos *»; 

— «multa alia similia ofticia et servitutis miuisteria obeunt Cin- 




1 Matias Corvino (1470), citado por P. HunfahT, na sua memória 
Etwas úbbr dir UNGARisCHBN ZKiBUNBR, in Actes du haitíème congra 
tional des Orientalistes (1»93), ii Partáe, p. 113. 



Apoatilas aos Dieionárioa Partugtieaea 545 



gani et Cinganae> — . O segundo trecho é extraído da relação 
de um missionário italiano (1679) *• 

A forma espanhola gitano, foi usada em um texto castelhano 
do século XVII : — «si peco Moysen en matar á un Gitano > — ^ 

E evidente que neste passo gitano quere dizer «ejípcio», e 
não, «cigano». 

eorpo-santo 

E interessante esta referencia ao fenómeno: — «no meio desta 
agonia e aflição nos apareceram umas candeinhas que todas foram 
vistas pelas vergas e mastros, e bordos da nao; ao que, segundo 
os mareantes, chamam o Corpo-Santo» — ^ 



duna 



Neste artigo interpretei a denominação toponímica, ordinaria- 
mente escrita Avel-o-mar, como sendo A-vè-lo-mar, o que já fi- 
zera na Ortogeafia Nacional *. O snr. Alberto da Cunha 
Sampaio, na sua erudita monografia As póvoas mabítimas do 
NOBTE DR PoBTUGAL, desfaz a minha conjectura, que se fun- 
dara naquella escrita usual, declarando: — «... Na ortografia 
de «Abre-mar» o erudito autor [José Fortes], abandonando a 
dos letrados « A- ver-o-mar > , ou «Avê-lo-mar», preferiu a lição 
do povo, que pronuncia do primeiro modo com o sentido claro 
de « Abra-do-mar», angra ou barra» — ^. 

Fica assim feita a correcção, que não contende com a dou- 
trina do artigo. 



» ib.y p. 99. 

« Revista Lusitana, viu, p. 2G4. 

3 Henrique Díaz, «Relação da viagem e naufrágio da nao Sara Paulo >, 

(1560), in BlBLIOTHBCA DE CLÁSSICOS P0RTDGUBZE8, Vol. XLU, p. 05. 

* Lisboa, 1904, p. 210. 

5 in Portugália, II, p. 214, nota ^ 

35 



r 



546 ApostUtít ao8 Dieianârum Bmivçueie» 



Além de medào, pode também usar-ae medo (=imédo), como 
fêz Jerónimo de Mendoça, na soa < Jornada de África > — « e dei- 
xando mui depressa a cova, se subia por nns medos de areia '"—^ 



gafo. 

1 

« 

Um amigo da Estremadura espanhola, província de Badajoz, 
di2-me que é ali vulgar o vocábulo canafote, em vez do cas- 
telhano comum langosta ou satíamantes, para designar o gch 
fanhoio ou saUào. No vocábulo estremenho deu-se pois ali a 
metátese das consoantes das duas primeiras sílabas, ga^Jbte, 
por gafanote, e ao depois a contamínaçfto da palavra cana, 
«cana», em virtude da qual o g inicial passou a e. 

Neolojismos individuais são com certeza gafeirar e gafeira- 
çào no trecho seguinte: — «Pede vaccinar o resto do rebanho, 
[de gado laoijero] mas a vaccinaçáo, ou, antes gafeiração tem 
quási tanlo perigo como a doença natural [bexigas]. Ha todavia 
vantagem em gafeirar» — ^ 



gajo 

É natural que a forma gajo seja derivada, por indução 
errada, dess'outra forma gajào, que parece, mas nào é, aumen- 
tativa, e está mais próssima de gachón; visto que no Brasil, con- 
forme o DiCCIONARIO DE VOCÁBULOS BBAZILEIBOS, do VlzCOUde 

de Beaurepaire-Rohan, de onde passou para o Nôvo Dicc. a 
explicaçíio, ela é — «titulo obsequioso de que usam os Ciganos 
para com pessoas extranhas á sua raça. Meu gajào equivale a 
meu senhor, ou cousa semelhante» — . 



1 in BlBL. UB CLÁSSICOS PORTUGUBZBS, Vol. XXXIX, p. 17. 

2 Gazeta das Aldeias, de 3 de dezembro de 1905. 



iodice alfabético e remissiTo das fiirmas e dos Tocábolvs mencionadus 
DO texto do I voiome, referidos a cada epígrafe 



aa : V. asado 
abada : aba 
abada: aba 
abadejo : bacalhau 
abonar : abano 
abandonar : Estranjoiíismos 
abeberar : arrasto ; baforeira 
abibe : bisbis 
abotinado : abozinado 
abrasoar: blasonar 
acaecer: caída 
acalentar: caída 
acaudelar: caudel 
aceite : cabide 
acerado : campa 
acharão : charão 
achavascado : charabaseo 
aço : campa 
acordar: decorar 
açorear: assorear 
adaião : daião 
adnana : alfândega 
afastar: aleíxar 



aíidalgado : apaniguado 
afogador : abafador 
afogar : abafar 
afunilado : abozinado 
-aga : arriol ; azinhaga 
agadanhar: gadanha 
agalujém : calambá 
agatanhar : gadanha 
aguado : água 
aguardente : água 
águia : arrelíquias 
águila: calambá 
agúista : água 
agumil : alfresse 
áibeto : agude 
aipo: ápeto 
aito : eito 

ajardinar : armazém 
ajoelhar: geolho 
ajuar: enxoval 
álamo, alameda: azinhaga 
aldeagar: aldeagante 
alcomonia: ferroba 
alfarroba : ferroba 
alfavaca: cobrinha 



il T>icio»ãrii»i l'orí uf/it/tte» 



\ 



ftiroije: fuijoco 


-ária: faro 


ftlfurja : fcirjocn 


aroailo : aasurcar 


algoi: cnrrow;.! 


areia: ar<;i8ca 


iJguorgiic;mTÍA(n) 


arenito: areiaco 


algaiclar: nljafluna 


ar^k : arinaséru 


alicerço: alffça 


arma: aimaíám 


alinatriía; nliuaiidr» 


armazenar : armaíém 


Blmu^m : nrainxéni 


arquinha: arcainha 


oí»»ew.f«br« 


arraia: achada; arriú(s) 


alinoiu0 : stubcfe 


arraial, armialeiro: arriò[s) 


atniaico:»tiibof« 


armnjar: enjendrar 


&linotolíii:Hljofsina 


Arriaga: arriâ(B) 


fclfJtropo: honieútrtípo 


asa-de-masca: cágado 


nltwm: artesa 


aapar: cabide '^^| 


nlugucr: alquile 


„..,í„,„™.o m 


alamiar: lieslanibrar 


assuada : consoada ^^^| 


itln: csmin 


usneto : arrenega 


«nwilho: artesa 


astro, astniw) : desastrado 


sjuicissiuio: rtodssiinu 


atacador; arrasto 


amortigniado.' apanigDado 


atarabor: bétele 


ancho: cacho 


atar:ápeto 




atenazar: ataianar 


aneiío : cada 


áagaa : êaagar 


anjinho: alnia-negra 


aul«:cÍto 


anta: dólmom 


avalanche: alude 


annduva:adua 


averiguar: apanignado 


apanhador: chisca 


avesso ; envés 


apara: fita 


aTÍs3o:abisrao [Emendas] 


aparado! : aparar 


avistar: entre riata 


apertar: entregar 


arito: ancestral 


Apocalipse : gencai 


avú. aTfl:arriú(B) 


apoquentar: bobo 


axi, aiiacD:haji 


apupo: cnquittda 


-aroTCa:atabpfo 


aquecer : cai da 


axuar: enioval 


áquila : calamhá 


aiarcío : atabefe 


aqiiiata: aguísta 


aaeirado: campa 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



549 



azevo, Azevedo : azevinho 
azinho : azinhaga 
azougar : avelar 
azougue : açougue 
Azoia: Furada 



h aoaiaib a : bacalhau 

bacharel : bacalhau 

baço : bubela 

báculo : bago 

Badajoz, Bodalhouce : aragoês 

badejo : bacalhau 

bago : desastrado ; espiga 

bajular: babo uj ar 

balde (de) : baldo 

bangue: chambo 

baobab: embondeiro 

barata: carocha 

barba(s): bigode; canicinho 

baroque: barroco 

barraca: espera 

barranco : barroco 

barreirento: bombo 

barril: caneco 

bastarda : ginete 

bastos : saco 

batata: semilha 

batota : bilhafro 

bebedouro : arrasta 

Belcouce : alcouce 

beliche: câmara 

bem-avcnturança : êaugar 

berjaçote : cotio 



berrão : bilhafre 

beaco : bescate 

béveVra: baforeira 

hibelot: brinco 

Bié : baruísta 

bilro : espirro 

biombo : bonzo, cágado, dáimio 

biscainho : eu^caldunac 

bisco : biscato 

biscouto : galheta 

bispo: bubela 

bobèche: aparadeira 

boccarra: cangarra 

bodega: adega 

bodum : faro 

bogalho : bogacho 

boémio: cigano 

bofetada: galheta 

bo^nga : chila 

bolacha: galheta 

bolota : bejoga 

bondoso : haplolojía 

bonzo: dáimio 

bordão : burro 

borracha : cauchu, cerne 

bote: batel 

botequim : adega 

bovina: chacina 

braga: calceta, canicinho 

bucal: buço 

btiena: arrenega / 

buhonero .•/)farinheiro 

bujio : burro 

bule : chá 

bus: chus 

buz: bruços 



r 






V 



^^áS^^^^JSTÍ 




H 


owifo: cuntAK ««pip 






■ «U,.:.(.«» 


<um: Wbrin. 


^M calMMiMn 


ouitari«:anUM 


^H cdtoMieon 


«b>:bwfo 


V aMaA»:<lt«du 




«NèCttM. IwallM 


cq<i: wroçri. iláiiuia 


aik.:tMM 


f*I»U:b»g» 




aplM: itiuitu; candrl 


okIio: Miidia 


ean:c4mo<» 


aw)i*n«:barM,i>dii> 




aM:<»Mlu 




cafonU:(afo 


cui*-t(a-. ouuaetn 


a-fasiifo: Anwàra, cwb 




•wkb: calota 


«npu:chmlo ' 


auoU-.thO» 


carcnnj*: Mlõmbi) 1 


^^ ewiwn: bni» 


aràt:M<d*iem ^^J 


^L ealtotc: wt«(.M.> 


ckTd«ab fcanltua ^^M 




eàrito: intgou, eoaril&t^^^^H 


^W calmuliucD: ulLuuIm 


eanlir: (\DOjijiif ^^^^^ 



calio: baste 
ealçaij: bragas 
calú ; caliio 
canibas: cantaduura 

canastro; espiga, eapigui'i: 
cancela : e: 



candvia; fuchu 
candoeiro : castiçal 
canela: bacia;cade|[> 
cangalhas: gafu 
cangUKt.i: uiiti^ostj 
Cango-Ximá: bonzo 
canhaniaço : bclhú 
cânhamo: cánavo 



cargo: ebarola 
caridoso : bondoso 
carimba : caloniho 
cannear : carrapiço 
carpvia: escar(a)pelai 
cairejar: acarrejar 
Cascais: Furjija 
cassnngo : almandrilha 
castanha: azinhaga 
ciístanhula: batata 
castão : gastão 
castelhano : arques 
ca»li(t)llo: caudcl 
castro ; citánia 
catana :~cágada 
citara : abafador 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



551 



cavalo : burro 
ca vide : cabide 
cecear: ciciar 
cedo : fêvera 
cega-rega: chucharrào: 
cenutério : arrenega 
cenário : decorar 
Ciíáta, céato: bacio, espiga 

cevo : cibo 

« 

chabancas: ciciar 
chada: achada 

/ chafurdo : carniceiro 

' chahicear: caço 
chaleira: bui 
chama : achar, bombaça 
chaminé : bombaça 
chançarel : bacalhau 
chilo : chana ; diabo 
chapeleiro : guarda-sol 
chapéu : charavasío 
chato: escaparate 
chavascal: charabasco 
chave: faoha 

chavelho : apanha, cabeça 
chávena: chá 
cheda: cantadoura 
chefe : cacique 
cheio : deslumbrar 
cheirar: cheiro, faro 
cheiros: segurelha 
chi;:ango : ensaca 
chicara: chá 
chicharrón : chucharrão 
chiqueiro : curral 
chisseiro: chicua 
chituredo: chicua 



chola: cacho 

chor: diabo 

chuchar: chacina 

cidadão: aldeão 

cidade : citánia 

cinzete: goma 

cipai : ensaca 

cirieiro : candeia 

cisco : chisca 

cividade: citánia 

diamante : falar 

claustro : crasto 

coador: arrasta 

coalhada: iisaia 

coba: chicua 

côcedra: colcháo 

coco: carranca 

coelho : colhcira, diabo 

cofre: cova 

cognome : alcunha 

coireleiro: cada 

coisa: aquela 

colgar: colcha 

coniaca: cornaca 

comonia: ferroba 

compostouras : apanha 

conca: cunca 

concert^ir: consertar, fêvera 

conde: condessa 

confetti: confeito 

confesso, confissão : discrição 

considerar: bondoso 

consolamento : abafador 

constitucional : estatutário 

copejar : gotejar 

cupo : câmara, cocho 



«52 Apostilai 


M I>iHm,árw» ftrt.w«». 1 


00 r : decomr 


1 
•kitor alonje: nleiur 


(;u^bc^lha: gulpelha 


.Wxar;di!adeUado 


oordto:caweirio 


dPnto, dínti»t»:ab8entí»U ^^^^1 


cordoira:ciinipoça 


dervic/m: darués ^^^^^| 


oor<l'jeiro : bucalhan 


^^^H 


eornioho : cabaça 


dewguar: éangar ^^^H 


^L coTmiiu:gitlliipú 


deeaafiU: cafda 


B ogroçaibadem 




^ coBPr 1 baaouro, otinlia 


descrição : díseriçSo 


ootoTdoieaviido 


destjngiinado : doaeunfiado 


odtoTiii : corja 




condoí; caodel 




oovu-.cAtu. doninha 




edvudo : navttdii 


desinfelii: desaatrado 


MxmlrBicokhSo 


desinquieta : de^aniada 


cotar: betuntu, coànha 




eriunaçao ; clamor 


dMpojar: deabulhitr 


^L cramoh d&mur 


Jedviui«c>do: detiiiNÍu 


^ft omvinn : carabelioft 


dateãdo:dieúdo 


mr criáftili : ou^uiaJu 


diálogo: dala 



crÍBtio; ababdot 

crível: novel 

cuberto : cobrir 

cncoiada: cnqniada 

cwdoso : bondoso 

curadillo: ave^oai, bacalhau 



dádiva : data 
debmçar-se : bruçoa 
declarezar coniparança 
decoro ; decorar 
dedal: besouro, bondosa 
defesa : cbarabitaco 



diária : gaira 

discordar; decorar 
dívida: dabi 
divido ; dsúdo 
dofiiria : confeito 
doce: cotcbáo 
dois : grou 
donzela: díjoinlia 
dose : data 
dugá: arergoar 



êader : êangar 
eagle-wood; calunbá 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



553 



Eça: essa 

eguariça: asneira 

eiró(s) : arrió(s) 

eixo : apanha 

ejípcio: cigano 

ejitanato : cigano 

em : faiança 

em-ader: êangar 

em-asprar : êaugar 

emborcar : borco 

embuçar: buço 

empipa: embondeiro 

empreita: espreitar 

encabeçadas: desmochar 

encarriçado : carriço 

encher: achar; cacho 

encinzeirado : acinzeirado 

encrave : enclave 

engadanhar: gadanha 

engalfinhar: gafa 

engalinhar: galinha 

engaranhado, engaranhido : gadanha 

engelhar : avelar 

engonço : escancarar 

engraxar: graxa 

ensogadura: cabeça 

entoiro: faro 

entrevado: arredar 

enveja : bojo ; grelha 

enxó: enxoval 

enxame : enxoval 

enxofre: enxoval 

enxoval: golpelha 

esbulhar: desbulhar 

escarnecer: caço 

escangalhar: canga 



escano : escamei 
escoltar: ascoitar 
escumalha: chucharrào 
esfera: hetera 
esfregar: estregar 
esgadanhar: gadanha 
esguiçar: escarçar 
esgatanhar : gadanha 
esgraminhar : ancinho 
esnoga: esmola 
espádua: espada 
espalda: esfiada 
espatela : espada 
espear: espiar 
espelho: desastrado 
espera : apanha, arrasta 
espeteira: estanheira 
espigueiro : canastro, feno 
esquecido : falar 
esquerdo : arrió(s) 
estadoal: estatutário 
estanheira: casa 
estantígua: bruxa 
estatura : estatelado 
estrela: desastrado 
estro: desastrado 
exame : enxoval 
exército : enxoval 



fábrica : cantiga 
fabrico : escancarar 
facada: cuquiada 
facho : facha 




ferro: aunpa 


gafa»: ga& 


fêrera: febr» 


grfeii»:gafc 


fevereiro : ífbra 


gald]do:gaaldido 


fi&n febr» 


galftirro : gafa 


flbra: febra 


galinha: eston-fraca 


fidalg-»: ap:inÍgaado; bondoso 


galiiiano: galego, gereãano 


filhó(*):belhú{s) 


galo: frango 


fistico.-alfòstígo 


gana:e^nar 


tiaza: desconflailo 




ãaincngo ; cscaparate 


garfo: gafu 


fogo-fátuo: bmia 


garimpa: gaiolo 


foguear: chapio 


garra :garroteia 


fól(e)go : carregar 


garrote: giirro teia 


folgar: Mrrtgar 


gaitar : CÍbo 


for: decorar 


gato; borro; rarapuça; gadanhi 


frade: .le^astrado 


gatuin: carapaça 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



555 



geada : ge(i)o 
genro : enjendrar 
geoso : ge(i)o 
geral : familial 
gerar: enjendrar 
ginja: garrafa 
goela: golilha 
gogo : enjogar, godo 
goivo: enxoval 
gom : bacia 
goma-guta: cauchu 
gotnil: bacia 
goraz: cibo 
grado : copo 
gradara : feijão 
gralho: desastrado 
gravateira: estojeira 
grei : clan ^freguês 
grés : areísca 
greve : arrenega 
Grijó : Grejó 
grilheta : braga, calceta 
grimpa: gaiolo 



grinalda : guirlanda 
grosso: gordo 
grade : desastrado 
gaadanha: gadanha 
Guadiana: aragoês 
gualdir : arrió(8) 
guarda-roupa : cabrir 
guardar : Estranjeirisraos 
guedelha: gadelha 
guilherme: alberto 
guinda, Guindais: garrafa, ginja 
guta-percha : cauchu : haji 



hereo:*adua 
herrero: hereró 
hervar: arovar 
hipoteca adega 
homem : deslumbrar 
(h)uivar: caluete 
hule: cauchu. 



ERRATAS ESSENCIAIS 



Pijina 


Unha 


Erro 


Correcção 


16 


12 


vocábulo 


vocábulo 


24 


19 


notabilissima 


notabilissima 


30 


4 


existência 


existência 


» 


11 


incluiu 


incluiu 


» 


13 


daquella 


daquela 


65 


16 


fron 


from 


81 


24 


trompeta 


trombeta 


87 


11 


vintém 


vintém 


88 


23 


longe 


lonje 


91 


22 


arrenegada, 


arrenegada 


101 


18 , 


e passtm, torquês 


turquês 


110 


19 


fruto e 


fruto, e 


138 


2 


vemos 


vemos 


143 


16 


trouxemo-la 


ti'oussemo-la 


145 


21 


peor 


pior 


160 


11 


esse 


esse 


170 


última 


DlCTIONAlKK 


DiCTIONNAIRK 


171 


7 


quais 


quais 


173 


25 


coxa 


coixa 


184 


18 


arábica 


arábica 


185 


31 


Tangere 


Tánjere 




• DíeiMtártot PurtugMoa 



njl» 


Llnh* 


ÊlTO 


l>ifnogla 


201 


31 


ABAUR 


ABABK 


202 


13 


ateira 


aíqafíira ^U 


206 


16 


«sse 


<ia« H 


213 


21 


salgueiro).—. 


salgueiro) >. ^M 


232 


311 


um 


que ^1 


233 


6 


çetiin 


cetim ^H 


237 


4 


iugleies 


ingleses ^H 


238 


2 


separadas 


separados ^| 


240 


26 


u 


■ 


■ãf, 


23 


fom " 


coma ^H 


262 


3 


palavra 


palabra ^Ê 


275 


18 


CoU-i 


Cosi ^1 


283 


10 


cappela 


cappella ^H 


29SÍ 


22 


quer 


^H 


319 
331 
336 


9 


verf;a 




5 
2 


E t«nrio 
galináceos 


galináceçs 




32 


eotooetoa 


cotovêlú. 


. 


33 


de um, 


de uma 


363 


8 


uimen para 


a uimen para 


368 


26 


artificial 


artificial 


378 


16 


contraído 


contraído 


382 


16 


Hastemann 


Hartmaim 


. 


penúltima 


DicrioNArKB 


DlCTrONNAiaE 


407 


17 


Ignoro 


IgDoro 


411 


2 


espaUteiràãa 


espàldeiráda 


415 


12 


partlcularisar 


particularizar 


416 


12 


quer 


quere 


417 


7 


latino 


latino, 


437 


4 


tamul 


tamil 



Apostilas aos Dicionários Porttâgueses 



559 



Pájina 


Linha 


Erro 


Correcção 


445 


3 


SEMÂNTICA 


SEMÂNTICA 


455 


3 


dois 


três 


465 


5 


Anna 


Ana 


470 


9 


desigua 


designam 


471 


15 


dicionários 


dicionários 


472 


25 


t latino em r 


t latino em i 


476 


1 


filies 


filios 


477 


2 


em 


un 


483 


14 


porque 


por que 


505 


20 


menos, 


menos^ 


521 


3 


ignoro-o 


ignoro-o; 


524 


4 


Porugiiesa; / 


Portuguesa; 




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(1 KT!:.- .11: i»v rMVHRsii»Ai>K r-i; Ri.iMA) 
A l.LH't.1 p»"la Vida. I r.i :'!■ . -"i ■ li •».' •■'Hvà«i it.ili.in.i, |".r II. >r.;r;- 



ppimeipos Passos nas Itlngaas Estrangeiras 

o inglez tal qual se fala. iior AiiallxTto Voi^ *'<> 

O Francez tal qual se fala. |> r A<lall»' rl.« V.i;/a : ^ 

Kl <;knj«^ M. DK IíoSToS 

Manual (\v Soriologia. 1 rii'i. rà-- «i»- l,u«"i.i Airnrll-i «'ii^imi;-,, .; , 

' ' .r >.:=':i ■;■ i- I.- MM-, 1 \"1. 



• •■••••■ 



ii. ^ 



(í. SKlí(U 
A rv'Mliir."iu liiimana individual e social. Tr.i"!. do italiiiii'», 1 v..l. r =" 

(I>.V \<-AI>I.MI\ HUAi>II^IRA) 

P.njinas mm Fsthptii:a. Ml ."; ' 

Crí'}ii!í> í.io ilijs Otíuscs. i '..'I :..*■ 

!' ■ i;;<.!\[A i'i: «as-iuo k ai.mkida 

Co.r;.! ('■ #1 ii'.i:"rnar a minha casa. Mn.liii.aríV» o a«la|»tiu;:'iii «l.' li- 

:i'.;i •■ 'iiiiii.i ri.iTiiriá Tuiuburini, l v,.l -^ i.'