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r^^m^í^^m i 
















V 



^ 

* 



APOSTILAS AOS DICIONÁRIOS PORTUGUESES 



POR 



A. R. GONÇÁLVEZ VIANA 




a: r. gonçálvez viana 



APOSTILAS 



AOS 



DICIONÁRIOS PORTUGUESES 



TOMO I 




LISBOA 
LIVRAKIA CLÁSSICA EDITORA — A. M. TEIXEIRA & CJ"" 

20, PEAÇA DOS EESTAUEADORES, 20 
1906 




PôRTO— Imprensa Portuguesa — Rua Formosa, 112 



A excelentíssima senhora 



DONA CAROLINA MIÇHAÉLÍS DE VASCONCELOS, 



A QUEM AS LETRAS PORTUGUESAS TANTO DEVEM, 



como tributo e homenajem da sua admiração 
e do seu resijeito 



DEDICA ESTA OBEA 



O AUTOR. 



PREFÁCIO 



Não há para nenhum idioma vivo dicionário que se possa 
dizer completo, mesmo até a data da sua ultimação. Uma parte 
não pequena do lécsico, já no que respeita a vocábulos, já no 
que se refere a acepções, fica sempre omissa, e esses tesouros 
da língua teem de ser completados por trabalhos avulsos, que 
ao depois se encorporam em novas edições dos dicionários já 
existentes ou em obras novas da mesma espécie. 

Com a publicação destas Apostilas venho também contribuir 
para a futura compilação de outro dicionário, em que se tenha 
em vista aumentar o copioso cabedal de termos portugueses, 
mais ainda do que se fêz no Novo Diccionáeio da língua 
PORTUGUESA, dc Cándido de Figueiredo, o mais abundante de 
quantos se teem publicado em Portugal, mesmo descontando 
muitas dições que figuram nele sem que sejam ou tenham sido 
portuguesas. 

Todavia, assim como tive em mira acrescentar mais dições e 
acepções, fruto de longos anos de estudo e de leitura, procurei 
igualmente criticar, mormente com relação a etimolojia, muito 
do que na nossa língua se tem escrito. Não me ocuparei todavia 
dos devaneios insensatos que tanto avultam em certas obras 
lecsicolójicas, mas apenas do que mereça discussão séria e pro- 
fícua, porque os autores criticados foram escrupulosos na redac- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ção das suas monografias, ou dos seus dicionários ou glossá- 
rios. 

A ordenação das palavras e locuções aqui tratadas é rigorosa- 
mente alfabética; mas, como na discussão ou exposição de dou- 
trina acerca de cada vocábulo figuram, para termos de compara- 
ção principalmente, outros, vocábulos em número considerável 
que são explicados simultaneamente com os de cada epígrafe, o 
leitor encontrará no fim da obra um índice, também alfabético» 
de todos eles, com a designação daqueles a que ficaram subordi- 
nados, ou em cuja discussão se introduziram. 

No decurso da obra tive muitas vezes de citar palavras & 
formas pertencentes a idiomas cujos sistemas gráficos diferem 
muito do romano, de que usamos; e fui conseguintemente obri- 
gado a transliterar os caracteres desses sistemas em letras- 
romanas. Para este fim escolhi os versaletes, emtanto que as- 
palavras latinas as cito em romano espacejado, e as do latim 
popular, hipotéticas ou reais, e do latim bárbaro as figuro em 
caracteres itálicos, igualmente espacejados para sobressaírem no 
texto. 

Na transliteração do alfabeto grego substituí pelo sinal de 
aspiração (') o h que, em harmonia com a transcrição romana» 
se costuma empregar na figuração das letras gregas 6, cp, x» 
transliterando-as eu portanto com os símbolos monogramáticos 
t', p', k', em vez de th, ph, ch; do nfesmo sinal me sirvo para 
a representação do espírito áspero, que, à maneira dos romanos, 
é uso designar pelo h latino. Dissolvi também o ^ grego nos- 
seus elementos, ks, à semelhança do que sempre se fêz com 

o cjj, PS. 

No alfabeto devanágrico, ou Índico, represento semelhante- 
mente as aspiradas por ('), g', por exemplo, e em tudo mais sigo 
muito de perto a transliteração do indianista português Gui- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses ix 

Iherme de Vasconcelos Abreu; com a diferença de figurar por 
minúsculas, promíscuamente com os versaletes designativos das 
letras, os sinais das vogais, quando estas não são iniciais de 
sílaba, mas acompanham a letra consoante, formando parte inte- 
grante dela: assim transcrevo, por exemplo, KaNGi, e não, 

KANGl. 

No alfabeto arábico represento por versaletes as letras, e por 
minúsculas intercaladas as três vogais, ou moções escritas, 
quando o são, a i u. Como este alfabeto é mais numeroso que o 
romano e contém letras representativas de sons que são estranhos 
ao português, e alguns mesmo a qualquer idioma não semítico, 
tomei por base para a sua transliteração o alfabeto hebreu, menos 
numeroso e já perpetuado tradicionalmente no grego e no romano, 
trausliterando os caracteres hebraicos, quanto possível, pelas 
letras que lhes correspondem historicamente no abecedário la- 
tino; e ampliei com artifícios, sempre os mesmos, o número de 
caracteres necessários para a transliteração do alfabeto arábico, 
quer na sua aplicação ao árabe, quer na sua acomodação a idio- 
mas de outras famílias que o usam, todas as vezes que me foi in- 
dispensável citar vocábulos de qualquer desses idiomas. Para o 
malaio, contudo, seguindo autorizados exemplos, preferi dar trans- 
crição europeia, caracterizadamente portuguesa, dos sons, e não 
das letras. 

Devo advertir que ^transliteração dos alfabetos semíticos 
muitas vezes não representa a pronúncia; é mera convenção com 
base histórica, já o disse. ¥j por isso que, desatendendo na trans- 
literação do hebreu muitas das minuciosas convenções e parti" 
cularidades da notação massorética, figuro sempre por k, p, t 
tanto as consoantes momentâneas iniciais de sílaba, como as con- 
tínuas correspondentes, finais de sílaba, à semelhança do que já 
se pratica a respeito de b, g, d. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Deste modo, o alfabeto hebraico é transliterado da seguinte 
maneira, conforme a ordem dos seus caracteres: 

ABGDEUZHTIKLMNSOPSQRXT 

O acento circunflecso subscrito diferença da última letra a 
nona, e da décima quinta a décima oitava. Em fim de sílaba 
K, p, T, G, D valem respectivamente pelas letras arábicas que 
transcrevo por h, f, §, y, 8, e que vou descrever já em segui- 
mento. O B em tal situação vale por b intervocálico português. 

O alfabeto arábico é assim transliterado: 

ABT§GHTID&EZSXSI)TZ0YFQKLMNEUI<1 

O 1 elevado denota o chamado emza, ou consoante explosiva 
faucal. O circunflecso já ficou explicado no alfabeto hebraico, como 
designando as letras, denominadas enfáticas, s t, e aqui mais 
D, z. ò símbolo h; (if) representa o valor do j castelhano actual; 
o § o th inglês surdo de think, z castelhano com pequena di- 
ferença, & o th sonoro inglês de they, aprossimadamente o nosso 
d intervocálico. O h é uma aspiração surda, mais funda e mais 
perceptível do que a aspiração expressa por h em inglês ou em 
alemão; e, essa mesma aspiração, porém acompanhada de voz; 
em fim de palavra é, conforme os dialectos, proferida como à, ou 
como è. O H, o TI e o E inicial de sílaba aparecem representados 
por / na Península. O g vale por dj, e no árabe do Ejipto por g, 
qualquer que seja a vogal que se lhe siga. O y é um g fricativo, 
proferido no véu do paladar, e nos vocábulos arábicos qiie pas- 
saram à Península Hispânica foi substituído quási constantemente 
por g, gu. O q é um k pronunciado também no véu do paladar, 
com grande ênfase; às vezes equivale a g, ou ao emza (^). O x 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



tem o mesmo valor que o x português de xadrez. O o expressa 
aqui uma articulação formada mais abaixo da farinje, sem re- 
presentante nas línguas europeias, e que se eliminou na passajem 
dos vocábulos arábicos para os idiomas da Península Hispânica. 

Quem mais amplas informações desejar obter acerca da re- 
presentação peninsular dos sons arábicos lerá com muito proveito 
as seguintes obras, exemplares a todos os respeitos: Doz}" & En- 
gelmann, Gtlossaiee des mots espagnols et portugais deri- 
ves DE l' AR ABE, Lcida, 1869, Introductipn, ii; Eguílaz y Yan- 
guas. Estúdio sobre el valor de las letras arábigas en el 
ALFABETO CASTELLAíío, Madrid, 1874; David López, Textos em 
aljamía portuguesa, Lisboa, 1897, principalmente esta última, 
por ser portuguesa e digna de todo o encarecimento. 

O alfabeto arábico aplicado ao persa tem mais quatro letras, 
que são aqui transliteradas por p, ó, j, g, e em que c íigura o 
valor do eh português do norte, castelhano e inglês, quási tx, 
e o G o gui do português guiar. O j tem o seu valor normal na 
nossa língua. Em turco há mais o u com valor de v. 

Para os idiomas da índia que se escrevem com caracteres 
arábicos, como o indostano, temos ainda a acrescentar as cha- 
madas letras cacuminais, que, do mesmo modo que no silabá- 
rio devanágrico, são representadas pelas bases t d n l (r), com 
um ponto subscrito, tdnlr, e se proferem no ponto em que pro- 
nunciamos o r de caro. 

Outros sinais convencionais são íi para h aspirado (h') sonoro, 
e Av (ai) para. denotar o ng final de sílaba nas línguas germâni- 
cas, como o inglês ou o alemão, isto é a consoante nasal póstero- 
palatal, um n proferido com a raiz da língua no ponto em que 
articulamos o ^, e que em português se ouve, associado a ^ ou ^, 
em franco, frango. 

Na maioria dos casos, quando qualquer destas letras de valor 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



desusado ou convencional aparece na citação de vocábulos pe- 
regrinos, o valor dela é apontado em nota, para comodidade dos 
leitores. 

E sabido que o z e o j no castelhano actual valem por con- 
soantes fricativas surdas: a primeira genjival, como o th inglês de 
think; a segunda velar, como o eh alemão de bach, ou ainda 
mais funda, pelo menos no castelhano como é rigorosamente pro- 
nunciado na Castela-Velha. Na Andaluzia o z equivale ao nosso f, 
que como som e como letra desapareceu do castelhano normal 
moderno. 

Na antiga ortografia e pronúncia castelhana o ^, o j, o ç e 
o X tinham os valores que lhes damos em português. 

Advertirei ainda que a curva fechada subscrita às letras q 
e e representa o valor que elas teem nas palavras portuguesas 
ãq ãfí; e que este mesmo sinal sobrescrito a i, u denota que 
estas duas vogais não formam sílaba por si, mas com a vogal 
que as precede ou segue, constituindo a parte fraca dos ditongos 
decrescentes, como em pai, pau (pái, páu), ou dos ditongos 
crescentes, como em fiar, suar (fiar, suar). Os ápices sobre 
ô ú significam õ, ú alemães, eu (aberto), u franceses; o o õ fe- 
chado alemão de schõn, eu francês de feu. Os ápices sobre o t 
designam o i guturalizado de navio, como esta palavra se pro- 
nuncia em vários dialectos açorianos, o y polaco. 

Para os vocábulos pertencentes a idiomas cujas letras não 
representam nem fonemas nem sílabas uso de transcrições, 
quanto possível, portuguesas, e o mesmo faço com outros idio- 
mas que são analfabéticos, como por exemplo o tupi, os ca- 
friais, etc. 

O sinal (j) quere dizer «derivado de», e este mesmo in- 
vertido (j), «que é orijem de». 

A ortografia seguida no texto desta obra é a que expus, 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



discuti e defendi na Ortogsafia Nacional, dada à estampa 
em Lisboa no ano de 1904, e já adoptada pelo Dr. Júlio Cornu 
na 2.'' edição da sua preciosa Gramática histórica portuguesa 
publicada no Geundeiss der romanischen Philologie, bem 
como ultimamente pela snr.* D. Carolina Michaêlis de Vascon- 
celos o que a consagrou, e ainda pelo snr. Alberto da Cunha 
Sampaio, na revista Portugália. 

Ficou pois sancionada por aquelas duas maiores autoridades 
actuais em filolojia portuguesa, e com isto me contento. 

Na reprodução de documentos antigos, principalmente anó- 
nimos, busquei uniformizar a escrita por padrão artificial, sim, 
mas a meu ver correcto, evitando quanto pude escritas diversas do 
mesmo vocábulo, ou de formas análogas, no mesmo documento. 

Nas inúmeras citações, com que me abono, segui rigorosa- 
mente o modo de escrever que encontrei impresso, e raríssimas 
vezes o assinalo ou critico, por mais incongruente que êle seja, 
ou me pareça. 

E do meu dever tributar aqui a minha gratidão ao senhor 
G. de Vasconcelos Abreu, meu antigo mestre na especialidade 
de estudos orientais que abalisadamente cultiva, por muitas pon- 
derações e observações judiciosas que me subministrou, e bem 
assim pelo escrúpulo intelijentíssimo com que me aussiliou na 
revisão de uma grande parte das provas. Agradecimento e louvor 
devo igualmente ao benemérito editor desta obra e ao estabeleci- 
mento onde é impressa, pelo esmero e solicitude com que para a 
sua laboriosa composição tipográfica teem dilijentemente contri- 
buído. 

Das erratas somente faço menção especial, quando são essen- 
ciais à intelijéncia do texto. 



A. R, Gonçalves Viana. 



APOSTILAS AOS DICIONÁRIOS PORTUGUESES 



APOSTILAS AOS DICIONÁRIOS PORTUGUESES 



aba 



Este vocábulo, tam português, que nas suas várias acepções 
não tem correspoudente exacto nas outras línguas românicas, é 
de orijem muito problemática. Os nossos dicionaristas teem-lhe 
atribuído étimos diferentes. Pondo-se de parte fantasias diversas 
que fôra iuiitil citar, aquele que maiores probabilidades oferece 
em seu abono é o apontado por F. Adolfo Coelho ^ do seguinte 
modo: — «(Hespanhol] cilabea, rumo [aliás, ramo], curvo na ma- 
deira [aliás, encurvamento], goteira ; do basco alabea, o que pende 
ou goteja)» — . 

Haveria muito que ponderar sobre o enunciado desta etimo- 
lojia, mesmo sem insistir em rumo, em vez de ramo, por ser 
evidente erro tipográfico. 

Limito-me ao seguinte: nem alabear(se) significou jamais 
« gotejar » ou « goteira » em espanhol ou em vasconço, nem álàbea 
é palavra espanhola, mas sim alabeo (=^alahéo), que o Dicioná- 
rio da Academia define assim : — « vicio que toma una tabla ú 
otra pieza de madera, torciéndose de modo que su superficie no 
este toda en un plan » — . 

O mesmo Dicionário dá como orijem do verbo alabearse 
(«empenar-se a madeira»), de que alabeo é substantivo verbal 
expressando acto, a palavra álàbe, com vários significados, e cujo 



1 DiCCiOXARIO MANUAL BTYMOLOGICO DA LIKGUA PORTUGUBZA. 
1 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



étimo seria o árabe ALauA, «curvo», que Eguílaz y Yaugiias * 
refere ao verbo Lauí, flexit, preferindo-lhe outro étimo igual- 
mente arábico, que não cito por ser foneticamente inadmissível. 

Diez 2, citando Larramendi, aponta o vasconço alahe(a), «(o) 
que pende», preferindo-lhe o étimo proposto por Mahn, e do 
mesmo modo vasconço, adar(ra) «ramo», e he, «para baixo», e 
com este explica a palavra portuguesa aba, contraída de alàba, 
como paço, de palaço. 

Efectivamente, nos derivados em que o primeiro a perde o 
acento tónico, conserva êle o seu valor alfabético, o que é prova 
de resultar de dois aa; ex.: desabar, abada, etc. 

A não ser esta circunstância importantíssima, talvez fosse 
também admissível como étimo o latim ala J aua | ava \ aba, 
visto ser este o proposto por Zanardelli para o sardo aba, «asa», 
comparável a candeba, que na mesma língua corresponde ao 
latim candeia. 

Temos, porém, de o rejeitar para o português, não só por ser 
neste a permutação de ? em 6 talvez facto isolado, mas também 
em razão áe o a átono permanecer aberto, à, como resultante da 
contracção de a -{-a. 

Como curiosidade direi ainda que na província de Leão se 
usa um verbo de identificação difícil, abar(se), siguiíicaudo o 
que dizemos alar(-se), «fujir», como no provérbio — Aba! que 
va grande el rio, aunque me ãé ai tobillo — «Ala! que vai 
grande o rio, apesar de (só) me chegar ao tornozelo » — , rifiio que 
se emprega quando se quere dizer — « que el hombre prevenido 
debe huir de la apariencia dei peligro» •''. — Abaos (=abad-os) 
significa «arreda! ». 

Informa-me também um amigo meu, da Estremadura Espa- 



1 Glosario etimológico de las palauras espanolas de ori- 
GEN ORIENTAL, Granada, 1886, sub v. alabes. 

2 Etymologischbs Wõrterbuch der romanischen Sprachen, 
Bonn, 1870, 2.^ parte, sub v. Alabe. 

3 DicciOKARio enciclopédico hispano-americano. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



nhola ^ que ali se emprega abate interjectivamente, em frases 
como as seguintes. ^ Abate que me caigo, abate que Io cojo, 
« cautela que eu caio > , « cautela, que o apanho » , tudo formas do 
mesmo verbo abarse. 

Curioso rifão é um em que ahas está por « abrigo, sombra » : 
às abas dos ciganos roubam os aldeanos - ; como interessante 
é também a forma aldeanos, por aldeãos, aldeões, mantida pela 
rima. 

Devemos todavia conjecturar que não é aldeanos castelha- 
nismo, pois ainda é usada na índia portuguesa a forma aldeano, 
abonada por Monsenhor Rodolfo Dalgado no seu interessante 
estudo sobre O dialecto ixdo-português de Goa ^. — «Com 
ajuntamento dos Aldeanos da Camará», « Commuuidades Aldea- 
nas » — . 

(a)bada 

Qualquer que seja o sentido em que os nossos escritores an- 
tigos empregaram este vocábulo, ou designando a fêmea do rino- 
ceronte, como é a opinião geral, ou referindo-se a outro paqui- 
derma análogo, como declara Rafael Bluteau no Vocabulakio 
poBTUGUEz-LATixo, tcm-se-lhc atribuído duas orijens diversas, 
uma arábica e a outra malaia, e no «Glossário de palavras e 
frases anglo -índias » de Yule e Burnell *, dá-se em certo modo 
preferencia à primeira. A aceitar-se a orijem arábica, teríamos 
de acentuar abada, e assim o indica o Diccioxario Conteítpo- 
RANEO, conquanto declare ser termo indiano este, o que é quanto 
ser pode vago, pois as línguas da índia são muitas, pertencentes^ 
pelo menos, a três ou quatro famílias absolutamente distintas. 



1 O snr. A. Baselga, natural da província de Badajoz. 

2 Revista Lusitana, vol. vii, p. 148. 

3 Ih. vol. VI, p. 76. 

* <The usual form abada is certainly somewhat in favour of such an 
origin > : Hobson-Jobson, being a Glossary of^Anglo-Indian coli.oquial 
TKRMS AXD PHR.\SES; Londres, 1886. 



A])08tilas aos Dicionários Portugueses 



Se considerarmos que outra forma portuguesa deste vocábulo 
é bada, somos levados a concluir que o acento é na sílaba ba, e 
neste caso teremos de optar pelo malaio báãaq « rinoceronte », 
como étimo. Um parónimo deste vocábulo, abada derivado de 
aba, deve ser marcado com a inicial à para se diferençar do que 
faz o objecto deste artigo e se pronuncia abada, com a surdo 
inicial. 

Além do passo com que Bluteau abona o vocábulo, e da indi- 
cação que faz da Etiópia Oriental de Frei João dos Santos, 
para justificar a outra forma bada, pode ainda autorizar-se o seu 
emprego com as Batalhas da Companhia de Jesus na sua 
gloriosa província do Japão, do Padre António Francisco 
Cardim ' : — 

« O benjoim amendoado desce pelo rio abaixo do reino dos 
Laos, com as pontas de abada» — . 

F. Méndez Pinto usa da forma bada no seguinte passo da 
Peregrinação, referindo-se à Ásia insular: — «outros muitos 
animaes muito piores inda que as aves, como são alifautes, 
badas, liões, porcos, búfaros e gado vacum em tanta quantidade, 
que cousa nenhúa que os homens cultivem para remédio de sua 
vida lhe deixaõ em pé » — °. 

A letra final, q, da palavra malaia bádaq é quási impercep- 
tível e é proferida na fariíije. 



abafador, afogador; abafar, afogar 

Guilherme de Vasconcelos Abreu, num erudito artigo, pu- 
blicado no Correio da Noite, de 2õ de outubro de 1886, re- 
feriu-se à seita dos abafadores, e descreveu em que consistia 
abafar o moribundo, o que reputava prática relijiosa da antiga 
seita dos herejes Cátaros («puros»), afim de impedirem o que 



• Lisboa, Imprensa Nacional, 1894, p. 251. 
2 Capitulo XLi. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



está a morrer de cometer pecado, depois de receber pela impo- 
sição das mãos do sacerdote o consolamento, correspondente à 
extrema unção da Igreja Católica. No mesmo artigo se vê que 
esse homicídio relijioso foi, e ainda é atribuído a seitas judaicas, 
tanto em Portugal, como fora dele, mas especialmente em Bra- 
gança e na Covilhã, onde abundam os cristãos novos. Aí vemos 
também a razão pela qual tam nefanda prática foi assacada aos 
judeus, com fundamento em outra prática judaica, inofensiva, de 
meter debaixo da cabeça do moribundo uma almofadinha de pe- 
nas de galinha, para o ajudar a bem morrer. 

O indivíduo que no norte é chamado ahafaãor, denomina-se 
na Beira-Baixa afogaãor, com o mesmo signiíicado infamante, 
que, se é real, entende o douto professor não poder com justiça 
atribuir-se a seita nenhuma propriamente judaica. E sabido que 
os verbos abafar e afogar se encontram em uma acepção co- 
mum, a de «sufocar», conquanto tenham outras em que não são 
sinónimos. 

O termo afogaãor, como correspondente a abafador, vem 
assim definido na Revista Lusitana ': — « Christão novo en- 
carregado de estrangular ou abafar com as roupas da cama os 
moribundos da mesma comm unhão religiosa; pois, segundo é cor- 
rente, passa como preceito de certa seita judaica que os prose- 
lytos não devem morrer, mas serem mortos. O afogador cumpre 
a triste e repugnante missão com a serenidade com que o sacer- 
dote pratica os actos mais santos do seu ministério. Nos conce- 
lhos de Penamacor e Covilhã, onde abundam os chamados chris- 
tãos novos, são apontados pelo povo os afogadores. Conta-se que 
muitas pessoas teem sido instadas pelos moribundos para que os 
não abandonem emquanto não expirarem, horrorizados com a 
idéa do estrangulamento» — . 



1 Vol. II, 1890-1892, p. 244: Notas sobre a linguagem vulgar 
DA Aldeia de Santa Margarida (Beira-Baixa), por A. Alfredo Alves. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



abafarete 

Emprega-se este vocábulo, em linguajem de gíria parlamen- 
tar, para designar o acto de pôr termo a uma discussão, mediante 
moção de confiança ao governo, ou requerimento para se consi- 
derar a matéria discutida: — «Se não houver abafarete, — e é 
muito provável que o haja — a discussão sobre a troca de tele- 
grammas deve proseguir por toda a próxima semana» — ^ 

É evidente a orijem da expressão, que provém do verbo abafar, 
no sentido de «sufocar». 

abismo 

No Economista de 4 de janeiro de 1891, deu-se como usua- 
líssima uma acepção deste vocábulo, que não é fácil apurar qual 
seja, pelo modo por que ali se empregou, e é o seguinte: — «Di- 
zem do Algarve : chove a valer. Não ha falta que não dê em far- 
tura. No entretanto, como ha sempre discordantes, os das alturas 
querem mais agua, porque os abijsmos, expressão muito popular, 
estão seccos» — . 

A palavra abismo provém de uma forma superlativa latina 
abyssimus, do adjectivo abyssus, correspondente ao adjectivo 
grego ÁBussos, que se observa nos Setenta, ou versão grega do 
Velho Testamento hebreu, onde traduz o adjectivo boeu, que na 
Vulgata, ou versão latina, é interpretado por inanis: terra 
autem erat inanis et uacua, em grego kaí gê êtton ábus- 
sos KAi ap'aniasmós. O grcgo ÁBUSSOS é um adjectivo negativo 
do substantivo bussós, «mar fundo», na Ilíada de Homero 
[xxiv, 80]. No Novo Testamento a hê ábussos do texto ^ cor- 
responde na Vulgata inferni, «as profund(id)a(de)s » , que é o 



1 O Século, de 9 de agosto de 1905. 

2 1 7. w. Pape, GRiECHisCH-DBUTSCHBS WÒRTBRBUCH, Brunsvique, 

1880. 



Apostilas nos Dicionários Portugueses 



adjectivo iuíeruiis, superlativo de infer, «que fica por bai- 
xo» ^ mas substantivado. 



abozinado 

Este adjectivo muito bem formado do substantivo hozina, 
assim como abof incido, de botina, afunilado, de funil, abona-se 
com o seguinte trecho, extraído do jornal O Século, de 13 de 
janeiro de 1902: — «...elle... de barrete verde, orlado de 
vermelho, calça abuzinada, ar gingão. . .» — . 

E locução mais curta e mais expressiva, que a usual, calça 
de boca de sÍ7io. 

abrasado 

Este particípio do verbo abrasar é usado na Africa Ocidental 
Portuguesa num sentido muito especial, como vemos no vi Rela- 
tório da Liga Filafricana ^ pájiuas 34: 

— un de ses sekulus qui se trouvait par hasard à Kahala... 
fut abrasado (en portugais local); c'est-à-dire, il fut appelé au 
monde des esprits par le revenant de Petelu assassine — . 



absent(e)ísta, absent(e)ísmo 

Neolojismo empregado por Alberto Sampaio no seu trabalho, 
por todos os títulos notável. As «villas» do Noete de Portu- 
gal ^ : — «Só mais tarde, tornando-se absenteístas [os proprietá- 
rios], o regime cultural tomou caracter differente» — . 

E copiado este vocábulo do francês absentéiste, de introdu- 



1 V. M. Theil, DiCTiOKXAiRB latix-français, Paris, 1880. 

2 La Ligue Philafkicaine. 
* ín < Portugália >, I, p. 282. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ção recente, formado de ahsentéisme, que é derivado do inglês 
àbsenteism, conforme E. Littré '. 

Melhor forma fora sem diivida absentista, com absorção do e 
de ábsente, «ausente», à semelhança, por exemplo de dentista, 
que se não profere, nem escreve denteísta. 

A Gazeta das Aldeias usou absenteísmo — « cesse o absen- 
teísmo, que o proprietário. . . explore directamente» — -. 

O Novo DlCCIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA admitiu UO 

Suplemento o termo absenteismo, dando-o como brasileiro. 

Melhor seria com certeza absentismo, sem aquele e a dificul- 
tar a pronunciação, visto que de protestante dizemos protestan- 
tismo, e não protestanteísr)%o. 



abside, ábside 

Na Revista Lusitana [vi, p. 9õ] mostrou J. Leite de Vas- 
concelos que a acentuação usual desta palavra, ábside, é errada. 
Teoricamente tem razão: em latim o i de absis, absidis deve 
ser longo, como o era em grego o de apsís, apsídos, «ligação »í 
do qual os romanos o tomaram. O facto, porém, é que quási 
todos, se não todos, os lecsicógrafos portugueses acentuam ábside, 
naturalmente para se conformarem com o uso dos arquitectos, e 
esta acentuação é commum ao castelhano e ao toscano. No úl- 
timo livro, que trate de arquitectura, escrito em português acen- 
tua-se graficamente ábside, contra o sistema ortográfico do autor, 
que raras vezes marca acentuação ^, do que se depreende insistir 
êle em que deva ser assim acentuado. Conquanto em questões de 
linguajem não tenhamos por dever seguir caprichos ou particu- 
larismos de quem não tenha a competência especial nessas ques- 
tões, não devemos, contudo, dispensar absolutamente o seu voto. 



^ DiCTIONNAIRE DE LA LANGUE FRAXÇAISE. 

2 de 9 de julho de 1905. 

' Augusto Fuschini, A Architbgtuka religiosa da buade media, 
Lisboa, 1904, passí/n. 



ApodílaH aos Dicionários Portugueses 



acabador 

O Novo DiCCIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA incllli êste 

vocábulo, dando-lhe como definição — «o que acaba». 

É iusuficiente esta defiuição (que aliás era bem escusada por 
ser intuitiva) para o sentido em que êste substantivo é tomado, 
e que parece trivial, comquanto técnico, no anúncio n.° 321 B, 
publicado no jornal O Século, de 19 de abril de 1901 — «Aca- 
bador. Com as melhores referencias [aliás, abonações, informa- 
ções] de trabalho . . . admitte-se na fabrica de lanifícios » — • . 

Pelo teor do anúncio vê-se que é um « operário a quem se in- 
cumbe o acabamento, ou última mão em uma peça de tecido 
de lã». 

acarrejar 

Em Caminha tem o sentido especial de «fazer fretes». Vem 
já consignado em dicionários como equivalendo a carrejar. 

acarretador (Algarve) 

O emprego particular que na província mais meridional do 
continente português adquiriu esta palavra deduz-se claramente 
da seguinte defínição, dada por J. Núnez no seu estudo Costu- 
mes ALGARVIOS ^ : — « Tem o nome de acarretador o indivíduo 
que anda recolhendo o trigo para o moinho, para cuja conducção 
se serve d"uma muar ou d'um carro onde transporta os saccos » — . 

Acém 

Este termo de carniçaria, ou açougue, é usualmente escrito 
assem, escrita com certeza incorrecta, conquanto seja a adoptada 
por Bluteau no Vocabulário portuguez-latino, e repetida 



^ in Portugália, i, p. 388. 



10 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ainda no Suplemento, acompanhada porém da que tenho por 
preferível. 

O termo, como qnási todos os que pertencem aos ofícios de 
magarefe, esfolador, etc, deve ser de orijem arábica, e aos ss 
arábicos correspondeu sempre ç em português. 

O arabista José Benoliel sujere-me como étimo, entre outros 
menos prováveis, osn, «gordura», que na realidade vem incluído 
por Belot no Vocabulário árabe-francês ^ com a significação de 
«graisse», e no Dicionário árabe-francês de Cherbonneau -, com 
as de « graisse, embonpoint » . 

A definição do termo português é, conforme o Diccionario 
Contemporâneo : — « parte do lombo da vacca, ou do boi, entre 
a pá e a extremidade do cachaço» — . 

Veja-se febra. 

acenha, azenha 

Os dicionários consignam em geral ambas as formas, dando 
quási sempre a preferência à segunda, que é, a bem dizer, a 
única literária modernamente. O povo emprega comummente 
a primeira, e em escrito recente, J. Núnez ^, referindo-se ao 
Algarve cita as duas: — «mas ha também os (moinhos) chama- 
dos de rodízio e as azenhas ou acenhas» — , Vê-se que a forma 
com c é a local, e está mais conforme com o seu étimo arábico. 

Os lecsicógrafos que teem tratado dos termos árabes que 
passaram às línguas hispânicas, a começar em João de Sousa *, 
deram há muito a etimolojia deste vocábulo, AL-saNiE, e este 
arabista aponta como mais correcta a forma assania, no foral 
dado por D. Afonso Henríquez à cidade de Coimbra, mas escreve 



1 VoCABULAiRB ARABE-FRANÇAis, Beirute, 1S93, p. 692, col. I. 

2 DiCTIONNAIRE ARABE-FRANÇAI8, Paris, 1876, II, p. 716, col. 11. 

^ Costumes algarvios, in < Portugália >, i, p. 388. 

< Vestígios da lingoa arábica em Portugal, Lisboa, 1830. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 11 

azenha. No Glossário de Engelmann e Dozy *, citam-se, a par da 
castelhana acena, as formas portuguesas azena, azenia, asenha, 
todas duvidosas, e o assania citado, dando-se como étimo al-sa- 
NiE, com A longo, e acusando-se a pronúncia deste como e, 
que é peculiar da Península Hispânica. Eguílaz y Yanguas, no 
seu Glossário, ^ precioso nomeadamente pelas muitas abonações 
fidedignas que o ilustram, aponta mais a forma castelhana açen- 
na, que confirma a preferência que se deve dar ao c, com pre- 
juízo do z, e as catalãs céyiia, sinia, malhorquina cínia, valen- 
cianas sénia, sinia, galega acéa, confirmando, porque a adopta, 
a forma arábica com a longo, valendo na Península por e. 

No Kiba-Tejo é também acenha, pronunciado acênha, com e 
fechado, e não com a surdo como em Lisboa, a forma popular, 
que devera ser preferida por mais correcta; sendo presumível 
que a errónea ortografia com s, asenha, concorresse para a falsa 
pronúncia e escrita azenha, que literariamente se difundiu, con- 
siderando-se hoje, em geral, como defeituosa a pronunciação e 
escrita com c, única popular e fiel ao étimo. 



Achada, chada 

Esta palavra, que nada tem que ver com o verbo achar, de 
problemática orijem, pois é simplesmente derivada do radical 
planum, } applanata, já recentemente entrou nos nossos di- 
cionários, com o significado de «chã, chapada, planície elevada, 
pequena». O dr. Gonçálvez Guimarães ^ adoptou-a, para subs- 
tituir o termo moderno e de duvidosa propriedade planalto, 
com que se procurou arremedar o francês plateaa, que João 



• GlOSSAIRE DE8 MOTS ESPAGXOLH ET PORTUGAIS DÉRIVÉ3 DE 

l'arabe, Leida, 1869. 

2 GlOSARIO de LAS P AL ABRAS ESP ANGLAS DE ORIGEN ORIENTAL, 

Granada, 1836, sub v. acena. 

3 Elementos de Geologia, Coimbra, 1897. 



12 :4^ Ajwstilas aos Dicionários Portugueses 

Eélix Pereira dilijenciou acomodar a português com a forma 
plató, a qual vingou por algum tempo, mas hoje, e ainda bem, 
está quási desterrada. Almeida d'Eça usa também o termo achada 
na sua Choeographia. 

O passo em que o erudito professor, a quem acima me referi, 
emprega os dois termos reza assim : — « e finalmente as adiadas 
ou planaltos de Moncorvo » — . 

E precioso aquele livro pela propriedade de linguajem, toda 
portuguesa de lei, e muito bem explicada, no que se refere a ter- 
minolojia. 

O vocábulo achada figura na toponímia, como se pode ver 
no DiccioNABio Choeogeaphioo de João Maria Baptista S e é 
a denominação de um largo, e de uma rua de Lisboa, que, res- 
pectivamente, vêem apontadas, com os números 1 e 2, no qua- 
drado (JS da Planta de Lisboa, publicada em 1880 em portu- 
guês, francês e inglês. São essas denominações largo da Achada, 
rua da Achada, e ficam para os lados do Castelo de S. Jorje. 

Conquanto, que eu saiba, o verbo achar não seja empregado 
actualmente em parte alguma do território português no sentido 
correspondente ao castelhano allanar | applanare, no copioso 
Glossário do dr. A. A. Cortesão ^ encontramos o particípio passivo 
achãado, de um verbo achãar, da mesma orijem, abonado com 
o seguinte exemplo: — «De guisa que em breve foi todo achãado 
[Azurara, Crónica do Conde Dom Pedro]» — . 

Em Mértola diz-se chada \ planata, e é possível que seja 
esta a forma primitiva, a que se soldasse o artigo femenino, como 
em arrã, arraia. 

Sobre achada com outra significação, veja-se achar. 



1 VI volume da Chorographia moderna do reino de Portugal, 
p. o, col. I. Lisboa, 1878. 

2 Subsídios para um Diccionário completo (históricÒ-etymo- 
LÓGico) DA LÍNGUA PORTUGUESA, Coimbra, 1903. 



Apostilas aos Dicionános Portugueses 13 



achaque 

Ao exemplo de achaqice na acepção de «pretexto», aduzido 
no DicciONAEio CoNTEiíPOBÁXEO, pode acrescentar-se o seguinte 
passo das Batalhas da Companhia de Jesus na pjboviníiia 
DO Japão ^ do Padre António Francisco Cardim: — «foi inti- 
mada nova sentença de desterro, tomando por achaque um incên- 
dio que na sua corte . . . sucedera » — . 

Sobre a etimolojia deste vocábulo, que desde Marina e João 
de Sousa ^ se afirma ser árabe, com o que concordaram Dozy-e 
Engelmann ^, e Eguílaz y Yanguas *, veja-se o que diz Kõrtiug ^ 
citando Canello, que lhe atribui orijem germânica. 

Com efeito o eh com que sempre se escreveu esta palavra, 
tanto em português como em castelhano, é incompatível com o 
étimo arábico a que o subordinam e que tem por primeira con- 
soante X ((ji). 

achar; achar (substantivo) 

A etimolojia deste verbo, que maiores probabilidades oferece 
é, sem dúvida, o latim afflare, que entre outras acepções incom- 
patíveis, tem a de «bafejar», que também pouco se coaduna com 
as muitas que êle apresenta na nossa língua. Pelo sentido, pois, 
deveríamos repelir este étimo, e é isso o que F. Adolfo Coelho e 
Cândido de Figueiredo fizeram nos seus dicionários, não obstante 
a coincidência de se encontrarem em outros dialectos românicos 



1 Lisboa, 1894, p. 181. 

2 Vestígios da lingoa arábica em Portugal, Lisboa, 1830. 

^ Gloss.\ire DBS mots espagxols et portugais derives de 
l'arabe, Leida, 1869. 

< Glosario de las palabras ESP anglas de origex oribxtal, 
Granada, 188G. 

» Lateinisch-romanischbs WÒRTERB0CH, Paderborn, 1891, i». 71, 
col. II. 



14 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



várias formas a esta correspondentes, por exemplo o romeno aflá ', 
e com o mesmo significado. 

Todos, porém, teem confessado que o étimo é tentador, e 
que pela sua constituição formal lhe corresponde perfeitamente: 
cf. chama \ fiamma, cheirar | flagrare. 

Vejamos, porém, se, mesmo foneticamente, o vocábulo pode 
subordinar-se a esse étimo. O correspondente verbo em castelhano 
moderno é hallar, pronunciado alhar (cf. llama j flamma), e 
portanto poderíamos supor que aquele h seja etimolójicamente 
erróneo, como o é o de heyichir \ implere, «encher». Todavia, 
em muitos vocábulos o h é ainda proferido em vários dialectos, 
tais os andaluzes e os estremenhos, e era-o dantes quando tinha 
sido precedido de formas em que anteriormente figurava o /. 

Ora este verbo hallar tinha antigamente a forma fallar, o 
que torna inadmissível que procedesse de afflare; pois, ainda 
que admitíssemos a pouco provável inserção de uma vogal anap- 
tíctica a desunir o grupo de consoantes ffi, do que resultaria 
uma forma hipotética affalare, necessária para explicar o í? da 
primeira sílaba, deixaria de existir o dito grupo, a que em cas- 
telhano corresponde 11 {l palatino) e em português eh (flam- 
ma j llama, chama). 

Vê-se, portanto, que o étimo proposto carece de explicação 
satisfatória, mesmo foneticamente, e que o verdadeiro está ainda 
tam lonje de ser averiguado, como o do verbo correspondente em 
outras línguas românicas, trovare italiano, trouver francês, acerca 
do qual tanto se tem escrito. 

De achar provém o particípio achado e achada. Estes par- 
ticípios substantivados diverjem de significado: o masculino 
achado quere dizer « aquillo que se acha » ; o femenino achada 
significava dantes — «Coimas ou penas, que se levão aos que fa- 
zem algum furto, roubo, ou detrimento nos lugares, frutos e 



i Hunfalvy derivou aflá do grego alp'axõ : Du peuplb roumain ou 
VALAQUE, 46" Congrès de la Société d'archéologie française (1879), «Com- 
pte-rendu>. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 15 



terras que estão coutadas, ou são alheias; quando os Autliores 
são achados, ou descubertos na execução deste crime» — '. 

Isto diz Santa Kosa de Viterbo, abonando-se com as Obde- 
XAçõEs. O vocábulo porém ainda é usado em Trás-os-Montes no 
sentido de «multas», como sou informado por indÍAÍduo de Miran- 
dela, e este facto não está acusado em nenhum dicionário, que 
eu saiba. 

Pôr uma achada corresponde lá actualmente ao que em 
Lisboa se diz vulgarmente pregar uma condenação, isto é, « im- 
por uma multa». 

Achar, substantivo, como nome de imia conserva de frutos, 
hortaliças em azeite e vinagre com outros adubos, é o persiano 
ACAE (= achar), que pelo malaio passou às línguas europeias -. 
Garcia da Orta descreve-o ^. 



acinzeirado (encinzeirado) 

Este vocábulo é um neolojismo que não está incluído em 
nenhum dicionário da língua, mesmo no mais copioso deles, o 
Xôvo DicciONÁBio de Cândido de Figueiredo. Digo ser neolo- 
jismo, individual talvez, porque outro da mesma signiíicação e 
constituição aprossimada encinzeirado, suposto não ligure tam- 
bém nos dicionários, é todavia muito usado pelo povo, pelo menos 
de Lisboa. Eis aqui a abonação: — «Havia desaparecido o nevoeiro 
e o dia apresentava-se esplendido, cheio de sol, vendo-se apenas 
no horisoute [sic], sobre as aguas, o acinzeirado que produz o 
norte forte» — *. 



1 Elucidário de termos, frases, etc, que antiguamente se 
USARÃO, Lisboa. 

2 Mareei Devic, Dictioxnaire étymologique des mots d'origixb 
ORiENTALE, Paris, 1876. 

J Colóquios dos Simples e drogas da Ixdia, i. Lisboa, 1891, p. 185. 
4 O Século, de 6 de dezembro de 1900. 



1'3 Apostilas aos Dicionánog Portugueses 



Açougue 

Quando a anarquia e a guerra civil começaram a desenca- 
dear-se no império de Marrocos, nos periódicos e revistas estrau- 
jeiras apareceram frequentes descrições dos domínios do xarife, 
que eram avidamente traduzidas nos jornais portugueses, com 
maior ou menor vernaculidade. 

Liam-se então, reproduzidas com todas as letras com que os 
estranjeiros as figuravam, muitas palavras e denominações arábi- 
cas, e entre elas me lejubro de ter visto solik, como designação 
de « mercado » . 

A nenhum dos indivíduos que para português vertiam essas 
interessantes notícias ocorreu que este vocábulo já existia cá há 
um milénio, com forma portuguesa, açougue, a qual, se no uso 
corrente de hoje apenas significa a loja onde se vende a carne, 
principalmente a de reses bovinas e ovinas, em tempos anterio- 
res servia para denominar um mercado qualquer. Ao sentido 
especial e restrito que a palavra adquiriu se refere sem dúvida 
um articulista, que, pela maneira por que se expressa, parecia 
não ignorar que tivera outros sentidos : — «A accepção que vul- 
garmente se dá á palavra açougue logo nos evoca, com arrepios 
e náuseas, os logares de venda de carnes» — '. 

O Glossário de Bugelmann e Dozy -, a pájinas 228, subordi- 
nado à inscrição afogue, castelhano, azougue, português, e por- 
tanto fora do seu lugar, porque o étimo desta é diferente 
[al-zauqeJ, diz-nos: — « Dans la signification de marche (dimi- 
nutif azoguejo), c'est un autre mot árabe, à savoir as-souc, ou 
as-sôc [al-suq] qui a le même sens » — . 

p] em seguida mais este trecho, que é de Doz}-: — «Dans le 
Fuero de Madrid . . . azoche. En portugais açougue (ancieune- 



> O Século, de 20 de março de 1902. 

2 Glossairb des mots bspagkols et portugais déhivês mo 
i/auabe, Leidii, 1869. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 17 



ment arougai), qui signifiait aiitrefois marche en géuéral, mais 
qui plus tard désignait spécialement: le marche oíi Ton veiidait 
de la viande, la boucherie. De ce mot vieut le terme açougayem 
siir leqiiel on pent consiúter S.*^ Kosa » — . 

Como não é o vocábulo nrougajem, o qual, conforme o aba- 
lisado autor do pjlucidário S significava um tributo imposto aos 
vendedores, mas sim a palavra açougue o que por agora nos in- 
teressa, se recorrermos ao precioso repositório, que Dozy tanto 
encarece, (éminent savant iwrtugais, lhe chama), o que, seja 
dito, não era seu costume, achamos lá esta informação : — 
< AçouGui. Assim se chamarão os lugares, onde antigamente 
se vendião. e compra vão todas, e quaesquer mercadorias» — . 

O Suplemento ao Novo Diccionário de Cândido de Figuei- 
redo consigna esta acepção lata do vocábulo por um modo mais 
'4-enérico, pois o define, com a cota de antigo: — «arruamento 
de mercadores», o que me parece temerário, pois lhe falta abo- 
uação. 

Em todo o caso, é de aplaudir a inserção do sentido mais 
lato do vocábulo, visto como nem ainda no primeiro, e até agora 
único, volume d:) Dicionário da Academia -, para o seu tempo 
monumental, se faz menção deste significado. 

Dispenso-me de citar, ainda que interessantes, as considera- 
ções apresentadas por Eguílaz y Yanguas sobre esta palavra, por 
se basearem em que desconheceu as acepções que ela tinha anti- 
gamente em Portugal, muito mais latas, que as que lhe atribui 
de — «carnicería, que es la que tiene la voz portuguesa» — ^. 

A conclusão, pois, é que açougue designou mercado, princi- 
palmente de comestíveis, e que, portanto, é escusado empregar- 



1 Fr. Joaquim de S.inta Rosa de Viterbo, Elucidário das palavras, 

TERMOS E FRASES, QUE EM PORTUGAL AXTIGUAMBNTE SB USARÃO, etc, 

Lisboa, 179S. 

2 DlCCIOXA^IO DA LINGOA PORTUG^UBZA, Lisboa, 1793. 

^ GlGSARIO DE tiAS PALABRA9 ESPAN0L.\S DE ORIOEN ORIENTAL, 

■Granada, 188G. 



18 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



inos, com letras grifas, o termo sokk, malíssimamente ortografado, 
quando quisermos designar tais mercados nos países barbarescos ; 
e isto com tanto mais razão, quanto é sabido que, no sentido 
restrito de mercado, loja, onde se vendem carnes, a denominação 
mais usual hoje é talho. Já o mesmo jornal, O Século *, disse: 
— « Mas a realidade é que não temos senão açougues, e precisa- 
mos de ter talhos». 
Assim seja! 

acudia, acudia 

No Novo DicciONÁEio admitiu-se este vocábulo, precedido 
do asterisco a indicar que a sua inserção em dicionários portu- 
gueses é feita pela primeira vez. Não é exacta a afirmação, por- 
que já J. Inácio Koquete no Dictionnaiee poktugais-fbançais - 
infelizmente o incluíra com a seguinte definição: — « -j- acudia, 
acudie, iusecte lumiueux de TAmérique méridionale» — . O sinal 
que precede o vocábulo indica também a sua primeira inserção. 
Que ânsia de novidade! 

A definição dada pelo lecsicógrafo português suprimiu o 
meridional, pois nos diz tam somente. — «acudia, insecto lu- 
minoso, da America» — . Deu-lhe pois muito mais dilatada vi- 
venda. Feliz bicho! 

Rufino José C nervo na li o mania ^ deu-nos a história deste 
curioso termo, que até época muito recente figurava em todos os 
dicionários franceses, onde os dois lecsicógrafos portugueses o 
foram buscar, em má hora, sem indagarem se algum escritor 
nacional o havia empregado, sem o quê, fosse êle francês, que 
não é, nenhum direito havia de o rejistar. 

Eis o resimio do interessante artigo de Cuervo. 

No primeiro e único volume do Dicionário da Academia Es- 



1 de 20 de março de 1902, citado antes. 

2 Paris, 1855. 

3 Vol. XXIX (1900), p. 574 e ss. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 19 



panhola, reimpresso em 1770, vem uma advertência, em que se 
ponderou o erro cometido por Trévoux, no seu dicionário e na En- 
ciclopédia, ao incluir o vocábulo acudia, que foi tomado como 
no}ue por De la Goste, na sua infeliz versão * da História das 
índias de António de Herrera. O texto rezava assim, referindo-se 
a certo pirilampo de Cuba: — «tomábanle de noche con tizones, 
porque acudia á la lumbre, y Uamándole por su nombre, acudia, 
y es tan torpe que en cayendo no se podia levantar » — . 

O texto é claríssimo, pelo menos para qualquer espanhol ou 
português. De la Coste traduziu-o para francês, do estupendo 
modo que se vai ver: — «L'on prenait ces animaux de nuit avec 
des tisons ardaus, parce qu'ils venoieut voltiger autour de la lu- 
mière; leur propre nom est acudia» — . 

Este acudia, com esta forma, ou com a de acudia, e também 
acudie, ora masculino, ora femenino, foi passando de uns para 
outros dicionários, e no Universal de Boiste , -, com a forma 
acudia, era assim definido: — «insecte volant et lumineux des 
Indes Occidentales » — . 

Littré teve o bom juízo de o não admitir, cautela que, por 
fortuna, já tivera o dicionário da nossa Academia, cujo primeiro 
volume, único publicado em 1793, é um bom livro, para o seu 
tempo. 

E pois necessário proscrever semelhante vocábulo, falsíssimo, 
de todos os dicionários portugueses que venham a publicar-se. 

Citarei, a título de curiosidade, outro disparate de versão, 
de proveniência igualmente francesa. M. A. Marrast traduziu 
em 1866 o notabilíssimo estudo de Guilherme de Humboldt 
Prúfung díb TJnteesuchung úbek die Urbewohxee Spa- 
xiENs, « Investigações acerca dos primitivos habitadores da Espa- 
nha», com o título Recherches sur les habitaxts primitifs 

DE l'EsPAGNE, À l'aIDE DE LA LANGUE BASQUE ^, traduÇãO 



1 1G59-1671. 

2 1803. 

5 Paris, 1866. 



20 Apostilas nos Dicionários Portugueses 



bastante correcta, e acompanhada de algumas valiosas notas. 
A pájiuas 45 lemos o seguinte extraordinário trecho: — «Lism 
des Jaccétans (Ptol ii, 6, p. 48), de lizarra, eu dialecte de La- 
bourd leizarra cendre. Cette étymologie pourrait • être taxée 
d'arbitraire si Tlbérie n'eút renfermé deux localités du nom de 
Fraxinus, Tuue en Lusitauie et Fautre chez les Bastetans » — . 

Eran las dos y sin embargo llovia! 

O leitor preguntará espantado e perplecso em quê o liaver 
nas Espanhas duas povoa-^-ões com o n^ome de Freixo (Fraxi- 
nus) concorre para se admitir como provável que Lissa, nome 
de outra povoação, se possa identificar com um vocábulo, lizarra, 
cujo significado se declara ser « cinza » ! 

A explicação é esta. Em alemão Esche quere dizer «freixo», 
e Ascíie, « cinza » . O tradutor tomou Exche por Asche, e cometeu 
esta inadvertência, pouco desculpável, visto que o disparate lhe 
devia ter dado nos olhos, e porque tinha todos os meios de ave- 
riguar o significado próprio do vasconço lizar, (=Jirar), decla- 
rando-se, como se declara, «Procureur imperial à Oboron-Saiute- 
Marie (Basses Pyréuées)», isto é, em terras vascongadas. Ora, 
lizar, em vasconço corresponde ao Jraxinus latino, frêne, e 
não, cendre, em francês, freixo em português. 



adega, bodega, botica; botiqueiro, botiquim 

Em última análise, existe como étimo extremo destes três 
vocábulos diferentes o grego t'êkê, substantivo derivado da base 
do verbo tít'êmi *, cujo aoristo, ou pretérito indeterminado, é 
ét'êka, e a significação «pôr no seu lugar». O substantivo 
t'ékê quere pois dizer «arrecadação». Palavras portuguesas, de 
orijem artificial, em que o étimo grego figura menos alterado 
são hiijoteca, e o muito moderno pinacoteca, que para nós veio 



^ W. Pajie, Gribchisch-deutschbs Handwòrterbuch, Brunsvi- 
que, 1880. ■ 



Apostilas nos Dicionários Portugueses 21 

do francês pimicothèque, o qual, pela sua parte, é provavelmente 
mera acomodação do alemão pinakotliek-. 

O 5 romanos receberam dos gregos o vocábulo apotbeca 
(apot'eké), com o siguiticado de « armazém de arrecadação, 
principalmente de mantimentos» ^; e deste se derivaram na Pe- 
nínsula Hispânica, ade.ja e hodega. ambos os quais querem dizer 
«casa de arrecadação de vinhos em cubas», desaparecendo no 
primeiro a sílaba átona po. e no segundo o a inicial. O último 
passou depois do castelhano ao português num sentido pejorativo, 
muito bem explicado por Bluteau, pelas seguintes palavras: — 
«He palavra castelhana, que vai o mesmo, que Adega: e de 
Bodega fizerão os Castelhanos Bodegon. que vai o mesmo, que^ 
lugar subterrâneo na Adega, aonde quem não tem quem lhe faça 
o comer, o acha as mais das vezes mal guisado. Por isso cha- 
mamos vulgarmente à Bodega: O mal cozinhado. Por Bodega 
entendemos huraa taverna a modo de barraca, ou cabana, que se 
arma commummente no campo com paos, e pannos, em ocasião 
de feira, ou festa popular, ou outro concurso, aonde se cozinha, 
e vende o comer ao povo» — -. 

Botica deriva Bluteau. com razão, do francês boutique — 
«que é o nome geral de todas as lojas, em que estão mercancias 
em venda» — "^ e na realidade assim é, e era, tanto em francês, 
como em português, pois ainda hoje chamamos botica do chèché, 
a uma loja de miudezas diversas, expressão que provavelmente 
nos proveio de Macau, e aí quererá dizer o mesmo, e na qual o 
epíteto deve corresponder ao chinês chau-chau *, «conservas», ou 
a outro vocábulo análogo. 

Em italiano, também a palavra bottega quere dizer «loja de 
venda, em geral», e o próprio deminutivo botequim, provavel- 
mente antes, botiquim, indica que o termo botica se não limitava 
a designar «farmácia». 



' M. Theil, DiCTioxNAiRE LATiN-FRAXÇAis, Paris, 18S9. 
2 e ' Vocabulário portuguez-latixo, Cuimbra, 1712. 
* Revista Lusitana, iv, p. 97. 



22 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



A forma boittíque francesa não tem aspecto de ser imediata- 
mente derivada do latim apotlieca, visto que tem i por ê, e 
que excepcionalmente por ca, em vez de che: cf. cheval \ cabal- 
lum, vaclie j vacca. 

E. Littré ^ é de parecer que o vocábulo tivesse vindo de Itália, 
atenta a queda do a inicial, o que nos leva a crer que o caste- 
lhano bodega provenha igualmente de hottega toscano, onde tal 
supressão é frequente (Cf. hadessa, por abhatessa). Esta solução, 
porém, ainda não explica o i, a que não encontro outra explica- 
ção senão esta: 

O vocábulo passou de Itália a França por intermédio de uma 
forma dialectal que fosse botica, ou bottica, em vez da toscana 
bottega, e assim se explicaria igualmente o português botequim, 
visto como em veneziano se diz boteghin, por « lojinha » ; e pre- 
sumivelmente os primeiros botequins pertenceram a italianos, 
assim como as primeiras perfumarias e as primeiras pastelarias. 
Essa forma bottica, ou botica, cuja existência resta averiguar em 
qualquer dialecto italiano em contacto com a população grega, 
receber-se-ia desta, quando já certíssimamente o ê havia adquirido 
o valor de i, que tem no grego moderno, e já tinha no medieval, 
de modo que a palavra apot'Ekê, fosse pronunciada, como hoje 
em dia o é pelos romaicos, apo§iki 2. 

Bluteau, no Suplemento, rejistando o substantivo Butiqueiro 
diz: — «Em Goa e outras cidades da índia Oriental, Butiqueiro 
é tendeiro, porque os portuguezes da índia chamam Biitica á 
loge, ou tenda. Em Goa, Butiqueiros vendem toda a casta de 
comestiveis, e também mezinhas [remédios], tabaco, etc. (Que- 
rendo comprar de hum China Butiqueiro). Fr. Jacintho, Vergel 
de plantas 143» — . 

O próprio vocábulo tenda, que a princípio significava «bar- 
raca», ao depois «loja», veio por fim a especializar-se no seu- 



1 DiCTIOXNAIRB DE LA LANGUE FRANÇAISE, Paris, 18S1. 

2 O sinal § iniica a pronúncia do th inglês de tlmig, pouco mais ou 
menos o c castelhano antes de e, i. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 23 



tido, já hoje quási obsoleto, de «loja onde se vendem comestí- 
veis » , o que no Porto se dizia loja de peso, e em Lisboa mais 
modernamente se denominou mercearia, palavra que do mesmo 
modo variou muito de sentido com o tempo, pois antes queria di- 
zer «loja de capela» ^ como o merceria espanhol. 

Adema, adémia 

Xo Elucidário de Santa Rosa de Viterbo figura este vocábu- 
lo, com remissão a admenas, com o qual o douto frade o identi- 
fica, um tanto hesitante. 

Pela definição que dá do último, isto é, — «alemedas, passeio^ 
rua de quaesquer arvores frondosas e copadas» — , confrontada com 
a que atribui a adernas, é impossível a identificação, pois estas 
são definidas por ele próprio nos seguintes termos — «Em mui- 
tos documentos que fallão no Campo da Gollegã, e nas ribeiras 
de Torres, Brescos, e outras no termo de Santiago do Cacem no 
Século XV, e xvi se chamão Adernas : as terras planas, e de 
veiga, ou seara, e mesmo quaesquer outras reduzidas a cultura» — . 

Ora aderna, ou adémia já eu o defini, como sendo usado 
em Coimbra, por informação de Guilherme de Vasconcelos Abreu, 
que o empregou na Chand-Bibi -: — «O campo . . . é adémea 
situada entre montanhas » — . 

Veja-se em adil. 

adiça, adiceiro 

O Novo DicciONÁEio 3 de Cândido de Figueiredo traz o 
termo adira « com o significado » « mina de ouro » , capitulado 
de antigo; não incluiu porém adiceiro, que o próprio autor em- 
pregou depois no Diário de Xoticias de 11 de junho de 1904. 



1 V. Bluteau, ib. 

2 Lisboa, 1893, p. 15. 

3 Novo DicciONÁRio DA LíKGUA PORTUGUESA, Lisboa, 1898-1900. 



24 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ãdil 



p]sta palavra, já apontada uo Suplemeuto ao Novo Diccioná- 
Eio, é assim definida ali, como transmontana: — «o mesmo que 
poisio. Diz-se «um adil»; mas, especialmente: «estar ou ficar 
a terra de adil (Termo de Miranda)» — . 

Logo após este, consignam-se também o verbo adilar e o seu 
particípio passivo adílado. Nenhum dos três está, porém, abo- 
nado, por não entrarem tais abonações no plano do dicionário, o 
que é de sentir, mormente em vocábulos de novo colijidos. 
^ Para o primeiro tenho eu notada abonação, de escritor trans- 
montano ^ e é a seguinte: — «vê a luz, vagando inquieta e solu- 
çante, da alma penada de Santa Cruz, que percorre . . . milhões 
de vezes aquelle urzedo, esteval e adil, da fralda á cumiada» — . 

Se bem que o termo é referido ás terras de Miranda no 
Novo DiccioNÁRio, não se encontra êle no Vocabulário etimoló- 
jico, que forma de páj. 145 a 225 a Parte v do volume ii dos 
EsTUDOB DE Philologia Mieandesa de J. Leite de Vascon- 
celos; e, atento o escrúpulo e minuciosidade com que o seu autor 
compôs esta notabílissima obra, é de supor que o termo não seja 
propriamente mirandês, mas geral transmontano, e como tal o 
inclui eu no vocabulário de Kio-Frio que publiquei no primeiro 
volume da Revista Lusitana -, (p. 203), onde o defini, «terra 
de pousio», acrescentando: — Cf. adémia, aderna, «terra no sopé 
de monte», ou, «entre monte e rio, susceptível de qualquer 
lavoura » — . 

Este último, com a forma única aderna, vem apontado no 
Novo DiccioNÁRio, mas capitulado de antigo. 

Veja-se este vocábulo. 



1 M. Ferreira Deusdado, O Kecolhimbnto da Mófreita, in <Revista 
de educação e ensino>, 1891, e também tirado em separado, simultaneamente. 

2 Materiais para o estudo dos dialectos portugueses, Falar 
de Rio-Frio. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



acUia 



Este vocábulo, que se pronuncia aãáa, é dado como antigo, 
pelo DiccioNARio Contemporâneo com a significação de «reba- 
nho», e pelo Novo Diccionário, como alentejano, querendo dizer 
«matilha de cães». Ambos lhe atribuem como étimo um ad-duUa, 
arábico; o segundo, porém, com um ponto de interrogação, e com 
razão, visto que, a estar bem escrito o vocábulo arábico, o / não 
haveria desaparecido, por. estar duplicado. 

Xos meus apontamentos tenho esta palavra como usada em 
Castelo-Branco com a segninte significação: «chão público onde 
pastam porcos, cujo porqueiro é pago em comum». Infelizmente 
não está abonada esta definição,, que provavelmente foi dada de 
viva voz não sei já por quem. 

Ainda no Novo Dicc, e em seguida a adua. lemos aduada, 
como termo beirão, definido desta maneira — «manada (de por- 
cos) » — . E evidente derivado da adua. que é diferente de outro 
adua. anúd uva, anúdiva. incluído em ambos os dicionários in- 
dicados, com a significação de uma espécie de imposto, e sobre 
o qual se podem consultar com muito proveito, além de Bluteau, 
no Suplemento, o Elucidário de Santa Kosa de Viterbo, e princi- 
palmente o Glossário de Dozy e Eugelmann, bem como o de Eguí- 
laz y Yanguas, anteriormente citados, e cujo étimo, também ará- 
bico, é diferente (nudbe), e difícil de se acomodar com a forma 
(Ldua. 

No Suplemento ao Novo Digo. dão-se mais os seguintes 
subsídios para o entendimento do significado de adua, «reba- 
nho»: — «local onde os porcos, pertencentes a diversos habitan- 
tes da mesma povoação, permanecem durante o dia. Colhido no 
Fundão » — . Este esclarecimento aprossima-se bastante da minha 
informação acima referida. 

Disse que adduJla não pode ser a escrita certa do vocábulo 
arábico que se dá como étimo; na realidade, João de Sousa ', 



• Vestígios da lixgoa arábica em Portugal, Lisboa, 1830. 



Aj)ostiIns nos Dicionários Portugueses 



011 antes Frei José de Santo António Moura, que reviu e aumen- 
tou a 2.* edição, que cito sempre por já não ter a primeira, 
transcreve o vocábulo com um só /, Adchãa (al-dule), e dá 
uma excelente definição, que tudo congraça, e é pena não haver 
sido aproveitada: — « Rebanho de bois e bestas de qualquer Villa 
ou Cidade, que sahe a pastar, pastoreado por hum ou mais indi- 
viduos aos quaes hum dos donos paga mensalmente um tanto por 
cabeça» — . 

Bluteau ^ diz ser palavra alentejana, significando «matilha», 
como tenno de caçador, 

O termo adiia está empregado no seguinte documento oficial: 
— « Art. I. Associações de proprietários ou hereos das levadas da 
Ilha da Madeira, ou de qualquer outra região onde haja o mesmo 
regimen de aguas, ou das aditas são reconhecidas como asso- 
ciações legaes para todos os actos jurídicos, especialmente para 
por meio dos seus juizes, direcções ou commissões directoras, 
quando devidamente auctorizadas pela assembléa dos consortes, 
ou como proprietários adquirir, por qualquer titulo legitimo, os 
bens immobiliarios precisos, com destino á conservação, accres- 
centamento ou melhor aproveitamento dos mananciaes de agua 
dessas levadas » — -. 

Tanto as águas, como as aduas, são bens comuns. 



adufe 



Vem incluído no Dicc. Contemporâneo e muito bem defi- 
nido, sem abonação porém antiga, ou moderna, visto que o ins- 
trumento ainda é usado, em Pjvora, por exemplo, onde o ouvi 
tocar na noute de Santo António, há uns cinco anos. 

Como abonação pode servir a seguinte: — «Ouviam-se já des- 



^ Vocabulário portuguez-latin-o, Lisboa, 1712. 
2 Cauta de lei de 20 de julho de 18S8. 



Apostilas aos Dicionários Portugnescs 27 

cantes pelas ruas [de Lisboa], pandeiretas e adnfes para as bandas 
do Rocio» — *. 

Abonações clássicas podem ver-se no volume único do Dicio- 
nário da Academia, no qual é dado erradamente o étimo arábico, 
que os mais lecsicógrafos teem copiado, quando podiam vê-lo 
certo em João de Sousa ^ adãofe (ou aãdufe), isto é. al-duf, e 
não aãdafo, que no Dic. da Academia é erro tipográfico, ou lapso. 

afagar, fagueiro 

Vários étimos teem sido propostos para este vocábulo, par- 
tindo todos os nossos lecsicógrafos da acepção « acariciar » , que 
desde Bluteau lhe é dada, ou exclusivamente, ou como a primá- 
ria, e nenhum deles se deu ao incómodo de averiguar se tais 
étimos se compadeciam com as correspondentes formas em outras 
línguas românicas, halagav, castelhana, antiga /alagar, catalã 
a/alegar. 

O Contemporâneo absteve-se de aventar um despropósito 
qualquer, como houvera sido prudente que o fizesse com tantos 
outros vocábulos. F. Adolfo Coelho ^ fez avisadamente apenas a 
comparação com as formas castelhanas, antiga e moderna. Cân- 
dido de Figueiredo * deu mais um passo identificando o vocábulo 
afagar com uma forma sem a inicial, abonada com Filiuto Elisio,. 
Jagar, que é mais compatível com a castelhana /alagar (cf. ca- 
lahaza e cabaça); e no Suplemento aduziu outra acepção que 
por mim lhe foi indicada — «desfazer as asperezas, aplanar» — , 
com a etimolojia proposta em tempo, e depois rejeitada, pelo 
Dr. Júlio Cornu •\ (ad)faciem lagare, para lhe substituir outra 



1 António de Campos, Luiz db Camões, 2.* Parte, xiv. 

2 Vestígios da lingoa arábica em Portugal, Lisboa, 1830. 

3 DiCCIONARIO ETYMOLOGICO DA LÍNGUA PORTUGUEZA. 
í XÓVO DlCCtONÁRlO DA LIKGUA PORTUGUESA. 

^ Eornania ix, p. 131, (1880). 



28 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



inadmissível fonética, e mesmo ideolójicamente, fallax ^ porque 
o l geminado não haveria desaparecido em português, e em cas- 
telhano teria produzido l palatal (U)^ visto que o vocábulo é em 
ambas as línguas de orijem evolutiva, popular; e ainda porque é 
sempre de bom aviso em palavras desta espécie averiguar se há 
um sentido material por elas expresso, e que em regra é a sua 
primeira acepção, da qual as outras são desenvolvimento. 

Outras etimolojías teem sido propostas por diferentes roma- 
nistas abalisados, como Frederico Diez, João Storm, Gastão Pa- 
ris, e outros citados por Kõrting 2, nenhuma das quais porém 
satisfaz completamente, nem resolve as dificuldades fonolójicas, 
que o vocábulo apresenta, comparadas que sejam as formas por- 
tuguesas afago, (a)fajar, faguewo (fagueiro, ou fagueiro), as 
castelhanas f alagar, halagar, halago, halagilefio. a catalã afa- 
legar, e a asturiana afalagar. Até agora, portanto, a mais plau- 
sível é ainda a primeira proposta por Cornu, apesar das suas 
pequenas dificuldades fonéticas, principalmente se tivermos em 
atenção que o sentido em que o vocábulo é usualmente tomado 
de «acariciar», não pode ser o primitivo, o qual sem dúvida foi 
o que ainda perdura como termo de marcenaria, isto é, «pôr à 
face, alisar»; ou mais rigorosamente, como terminolojia técnica, 
já restrita esta acepção lata, «chegar ao (mesmo) livel a madeira 
ensamblada, alisando-a, ou, como dizem «afagando-a». 

Já em tempo, na revista belga Mttsêon, porém menos cir- 
cunstanciadamente, me referi a esta etimolojia, ao dar ali conta 
dos estudos de gramática portuguesa, publicados, como já disse, 
em 1880, na Komania, pelo actual professor de línguas e lite- 
raturas românicas na universidade de Graz, para a qual foi trans- 
ferido da de Praga, onde rejia cadeira análoga. Mencionei então 
apenas a mais os vocábulos castellianos lagotear, lagotero, «ba- 
jular, bajulador», cuja relação com o de que trato aqui me pa- 
rece agora incerta. 



1 GiíuxuRiss DER RoMAXisCHBN Philologie, I, p. 756, n." 131. 

2 Lateinisch, R0MANI8CHES Wòrtbrbuch, Pixclerbom 1890: 300. 



A2)ostilas aos Dicionários Portugueses 20 



Assim, todas as investigações que no futuro se fizerem sobre 
a etimolojia destes vocábulos devem, a meu ver, basear-se numa 
forma peninsular /«Za^ízr, significando «alisar». 



afreimar 

O Xóvo DiccioxÁRio traz esta forma, remetendo o leitor 
para afie/mar. e desta para afieiímar, aparentemente mais 
próssima de peuma \ phlegma, e à qual dá como definição 
«tornar fieumático, pachorrento». 

Não me parece que as remissões estejam bem feitas, pois 
nos Açores este verbo quere dizer «inflamar-se, piorar», e pa- 
rece extraordinário que o étimo dele seja o que se lhe atribui; 
saria mais corrente dar-lhe como étimo imediato o substantivo 
freima, que o mesmo dicionário inclui no respectivo lugar, e 
em dúvida deriva de flegma. 

Em todo o caso ficará consignada aqui a acepção em que é to- 
mado, pelo menos em S. Miguel, o verbo afreimar, derivado de 
freima. que vem já em Bluteau. no sentido em que hoje empre- 
gamos fieimão. de phlegmone, vocábulo grego, adoptado em 
latim ^ 

agostadouro 

Este vocábulo não está incluído nos nossos dicionários, nem 
mesmo como provincialismo, apesar de muito bem formado e 
muito expressivo. Merece bem que aí se lhe dé cabida. 

Abonação excelente é a seguinte, que encontramos na pri- 
morosa publicação intitulada Portugália, vastíssimo repositório 
de dições, usos e indústrias do nosso povo, e cujo segundo volu- 
me está já sendo publicado: — «Entretanto o rendeiro antigo tem 
ainda o direito de aproveitar o agostadouro da seara última . . . 



Vide O Século, de 5 de julho de 1901. 



30 AjwstilaH ao-i Dicionários Portugueses 



comendo-lhe a espiga e sementes com o gado suino que enten- 
der, e bem assim com o numero de bois ou bestas estrictamente 
necessárias ao acarreto respectivo» — ^ 

Este substantivo pressupõe a existência de um adjectivo agos- 
taão, particípio passivo de agostar, derivado de agosto, e que não 
sei se existe em português, mas vem apontado no Dicionário 
da Academia espanhola, com a seguinte definição, que aclara o 
sentido da palavra portuguesa — «pastar el ganado durante el ve- 
rauo en rastrojeras ó en dehesas » — . 

A forma agostaãouro portuguesa corresponde à castelhana 
agostaãero, que o Dicionário da Academia não incluiu, mas que 
é usada, pelo menos, na província de Badajoz, onde, como estou 
informado por pessoa daquella província, a meúdo é confundida 
com ahrehadero, «bebedouro». 

agra, agro: campo; agrela, agrelo 

Palavras muito corriqueiras no norte de Portugal, não só 
como nomes comuns, mas também na toponímia, com alguns de- 
rivados, dos quais provêem apelidos, por demais conhecidos. Lemos 
no primeiro volume de publicação a que já nos referimos, Por- 
tugália, o seguinte, em uma monografia a todos os respeitos 
digna do maior encarecimento: — «ager... na última [acepção] 
e também da sub-unidade, apparece repetidas. . . vezes em agro, 
agra . . . agrelo ou agrela » — 2. 

Agua : 

Certos derivados deste vocábulo e várias acepções deles ainda 
não entraram nos dicionários, e por isso apontarei aqui alguns. 



^ J. Silva Picão, Ethnograpuia do Alto Alemtejo, p. 280. 

2 Alberto Sampaio, As «villas» do noktb de Portugal, p. 123 

e 581. 



Apu-^tiud a')!i J hi:ioiiári(is l'(irti((juc>í('S 



aguado 

Este particípio passivo do verbo aguar (àguár) tem em Ca- 
minha a siguificação de «guloso». 

aguardente 

Esta palavra, que em Lisboa é pronunciada aguardente, em 
vários pontos do país revela ainda a consciência da sua formação 
por parte de quem a emprega, pois é pronunciada aguardente, 
devendo os que assim a proferem conservar os dois elementos 
separados na escrita por hífen: água-ardente. Na Collecção de 
LEGISLAÇÃO POETUGUEZA, referente aos anos de 17Õ3-17G2, Su- 
plemento, ainda se imprimiu agoa ardente. 

A lei de 14 de junho de 1901, publicada no Diakio do Go- 
TEExo de 15 do dito mês e ano, traz uma interessante nomen- 
clatura das várias espécies de aguardentes (ou águas-ard entes), 
que tem por bases a graduação centésima], a matéria prima de 
que são distiladas, a procedência, e as denominações por que são 
conhecidas geralmente, quer no comércio, quer no público. Inú- 
til fora reproduzir aqui essa nomenclatura, mas não o é recomen- 
dar que na feitura de novo dicionário da língua, ou na reedição 
de algum dos já publicados, ela seja tida em atenção com as 
rigorosas definições que ali são dadas. 

agiiista 

Este vocábulo para ser bem figurado, no que respeita à sua 
pronúncia, deveria ser escrito com três acentos àgàista: o pri- 
meiro, grave, para indicar que o a se profere aberto; o segundo, 
também grave, para avisar que se profere o u; q o terceiro, agu- 
do, como sinal de que o i não forma ditongo com aquele u, isto 
é que êle se não lê aguista, nem agúista. Basta porém o que 
marquei na epígrafe. 



'Ò2 Apostilas aos DicionàrloH Portutjucscs 



É de iutrodução recente e significa « o indivíduo que está em 
sítio de águas medicinais, para fazer uso delas: — «Vi um tele- 
gramma do gerente da empreza de Mondariz, dizendo que os 
hospedes se oppõem á ida de aguistas do Porto» — ^ 

E provável que seja castelhanismo. Também se diz aquista. 

agude, agúdia, agúida 

O Contemporâneo define agádea, como « formiga de asas » 
e dá como variante agude. O Novo Digcionário dá a mesma 
definição da forma ajúdia, e atribui-lhe, em dúvida, o étimo 
agudo. 

José Joaquim Núnez no seu escrito Dialectos algarvios, 
publicado na «Revista Lusitana» - apresenta-uos as seguintes 
formas do mesmo vocábulo, e de nm seu derivado: — <^aguidào,» 
espécie de formiga. í]mbora o suficso ão seja próprio de aumen- 
tativos agudião designa uma formiga de grandeza inferior á de 
agudia, que o povo diz aguida, como também aguidão » — . 

Faltam aqui acentos indispensáveis para se lerem bem os dois 
vocábulos, agúida, agÍÁÍdão, pois de outro modo o u deixará de 
ser proferido, errando-se a pronúncia dos dois vocábulos. A forma 
agúida, poi' agúdia, é análoga à verba seguinte aihto, por hábito. 
E fenómeno conhecido este, em português, de o / átono penúltiino 
de um esdrúxulo passar à sílaba acentuada, formando ditongo, 
resultando muitas vezes dessa passajem vocábulos parocsítonos ; 
ex.: Antoino, forma popular de António, desvairar por desva- 
riar, chuiva, no norte, por chuvia, de pluuia, eira, de área, etc. 

alagar, alago 

Este verbo, além das várias acepções apontadas nos dicioná- 
rios modernos, tem mais a de «deitar ao chão», como palavra 



1 O Século, de 17 de agosto de 1899. 

2 vn, p. 104. 



Apoitilas aos Dicionários Portugueses 33 



alentejana, mas que eu ouvi também em Vizela e foi consignada 

no COXTEMPOEAXEO. 

Xo volume único do Dicionário da Academia * vem indicada 
já esta significação, pelas seguintes palavras: — ^alluír, subver- 
ter» — . Dá três abonações, uma das quais, colhida nas Décadas 
de João de Barros, é apropriadíssima: — «Dizia que com punha- 
das de terra sem mais armas, os seus alagarião a Fortaleza» — . 

E difícil saber o sentido exacto em que o Padre Cardim em- 
prega o que parece mu substantivo rizotónico derivado deste 
verbo, no seguinte passo — «mandou publicar [o rei de Cochin- 
chma] uma chapa ou provisão contra a lei de Deus e contra os 
padres [da Companhia de Jesus], a qual foi a primeira que 
naquelle reino se pôs em público e se íixou á porta da igreja 
que os padres tinham em Taifó. Cahiu a porta com os alagos, 
accusou a aldeia ao padre, que na casa estava, deante de um 
mandarim, culpando-o de tirar a chapa» — -. Confrontado o vocá- 
bulo alago com alagar no passo de João de Barros, citado, de- 
duz-se que é um substantivo verbal, significando talvez «ruína». 

Em Leiria alagar é usado no sentido de « deitar a baixo » , 
por exemplo, parede alagada, « derribada » . 



alavão, alabão 

D. Rafael de Bluteau, no Vocabulário poetuguez latino, 
dá à primeira destas formas, que escreve alavam, o significado 
— «manada das ovelhas que dão leite» — , considerando o termo 
alentejano. 

J. Inácio Roquete rejistou este vocábulo no seu dicionário 
português-francês ^ como adjectivo: — «(gado) brebis qui donne 



1 Lisboa, 1793. 

2 Batalhas da Companhia de Jesus na província uo Japão, 
p. 1S2, Lisboa 1804. 

2 DiCTIONNAIRE PORTUGAIS-fRANÇAIS, Paris, 1855. 
i 



31 ApoHtilaH aoi Dicionários Portugueses 

du lait (poiír faire le fromage)» — . Cândido de Figueiredo no 
Novo Dicionário da língua portuguesa inclui-o como provin- 
cialismo, definindo-o assim: — «gado que ainda mama» — . Não 
sei com que fundamento lhe é dada aí esta acepção, que toda- 
via não contesto. 

O Conde de Ficalho, numa série de artigos publicados na 
interessantíssima revista de Serpa «A Tradição», intitulados O 

ELEMENTO ÁRABE NA LINGUAGEM DOS PASTORES ALENTEJANOS *, 

consagrou duas colunas ao termo, examinando a sua significa- 
ção em todos os aspectos, e diz-nos que a pronúncia constante 
dos pastores é alcwão. í] natural que no norte do reino, se a pa- 
lavra lá é usada, ela se pronuncie com h. Critica o doutíssimo 
escritor as definições dadas por vários lecsicógrafos, portugueses 
ou estranjeiros, estes últimos principalmente arabistas, e define 
o termo do seguinte modo: — «alavão no Alentejo significa uni- 
camente o rebanho que dá leite pela ordenha, nunca aquelle em 
que os borregos ainda raammam. O nome do rebanho anda ligado 
sempre ao facto de dar leite para os queijos: começa a cha- 
mar-se alcwão no dia em que os borregos se apartam; deixa de 
se chamar alcwão no dia em que a ordenha cessa. Esta é a si- 
gnificação da palavra no Alentejo; seria interessante saber o 
sentido que lhe dão na Serra da Estrella, onde as coisas se pas- 
sam de modo um pouco differente» — . 

Creio inútil acrescentar uma palavra que seja a tam lúcida e 
decisiva descrição, feita por quem tinha toda a autoridade e to- 
das as competências para a fazer certíssima. 

Diz-se ali, citando João Sousa ^, que o vocábulo é arábico^ 
al-làban, «o leite» — . Pois, apesar deste étimo tam claro, Eguílaz 
y Yanguas ^ atribui-lhe como orijem ar-raf, conforme diz — «me- 
diante el conubio de r por la l, y de la /por la v» — . Já é\ 



1 I, p. 93-103 (1899). 

2 Vestígios da lingoa arabiCa em Portugal. 

3 Glosario UB vocBS ESP ANGLAS DE ORiGBíí ORIENTAL, Granada, 

18iG. 



Apostilai aos Dicionários Portugueses 35 



Cora o mesmo acerto poderia derivá-lo do latim o vis, com mu- 
dança de o em aZ e de vis em amo: AJfana vient cVequus, sans 
doufe ! 

Para que se não suponha que os nossos dicionaristas foram 
insensatos em atribuírem ao termo álamo, ou alabão, o signifi- 
cado de «rês que ainda mama», devo acrescentar que no Dicio- 
nário árabe francês de Belot * se dá AiLTasax com a significação 
de «mamar» (sucer le lait), como derivado de LasaN, «dar a 
beber leite » ; o que talvez os levasse à conjectura criticada pelo 
Conde de Ficalho; é possível também que em alguma parte do 
reino a palavra tenha aquela acepção. 

alberto 

Este nome próprio, conforme informação pessoal que me de- 
ram, significa no Alentejo «cântaro pequeno». Não me sou- 
beram dizer, porém, o motivo por que lhe foi imposto. Te- 
mos mais substantivos comuns, derivados de nomes de pessoas, 
como guilherme «espécie de plaina», já apontado em vários dicio- 
nários portugueses; e muito modernamente, iancredo, como de- 
signando um candeeiro pintado de branco, que serve para indicar 
os pontos da via pública, onde há parajens dos carros eléctricos, 
em Lisboa, e que lhe foi dado por comparação popular com um 
saltimbanco estranjeiro, que apareceu nas praças de touros, muito 
recentemente, todo vestido de branco, tal qual uma estátua de 
gesso ou pedra. Confronte-se ainda josézinho, que no princípio 
do século passado designava uma espécie de capote: 

Inda que por moda querem 
Que lhes repitam rersinhos, 
Tem por modas de mais gosto 
Convulsões e josézinhos 2. 



1 VocABULAiRE Arabe-français, Beirute, 1893, p. 717, col. ir, 718, 
col. I. 

2 Nicolau Tolentino, Carta a um cabelleireiro : Obras, 11, Lisboa, 
1801, p. 103. 



36 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



alcoiice 

Este termo, ainda lioje não de todo desusado, vem definido no 
Elucidaeio de Viterbo ^ como — « casa em que se dão cómmc- 
dos para lascivos commercios» — . Dá-lhe o douto lecsicógrafo 
como étimo um arábico Alcoueã, «alcoviteiro» — , o que não 
explica o ce. 

A etimolojia proposta por Dozj ^ alcoceifa, dá razão do c, 
mas é inadmissível por ter a mais a sílaba . . . fa, que levaria ca- 
minho, sem se saber porquê. Eguílaz y Yanguas ^ propõe para 
substituir a de Dozy, que não admite, a que escreve aJjoçç, « do- 
mus ex arúndine» — , casa de canas — , que tampouco se pode 
aceitar, porque sendo a palavra antiga na língua, como o prova 
a inclusão dela no Elucidário, a 7.* letra do abecedário ára- 
be, equivalente ao j castelhano actual, estaria representada por 
/ em português, e não por c *, e ao oio corresponderia au em 
árabe. 

O imico vocábulo que pode satisfazer às leis fonéticas que 
regularam a admissão de vocábulos arábicos em português, rece- 
bidos por audição, é, que eu saiba, Qaus «arco», e é possível que 
a situação de algum prostíbulo perto, ou dentro de um arco, ou 
de uma arcada, tivesse dado orijem a ser denominado assim qual- 
quer bordel. 

Em Coimbra houve uma porta de Belcouce ^, no tempo de 



1 Elucidário das palavras, tejrmos b frases que em Portu- 
gal ANTIGÚAMBNTB SB USARÃO, Lisboa, 1798. 

2 Glossaire des mots espagnols et portugais derives de 
l' ÁRABE, Leida, 18(39. 

3 Glosario de vocês espanolas DE GRiGEX ORIENTAL, Granada, 
1886. 

* A. R. Gonçálvez Viana, Dbux paits db phonologie historiqub 
PORTUGAiSB, Lisboa, 1892, p. 10. 

5 A. de Campos, Luís db Camões, in «O Século, de 10 de junho 
de 1«00. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 37 



Camões, e esse nome deveria significar em árabe «no arco» (naL- 
Qaus). 

alcimha 

Este vocábulo é hoje por nós empregado no sentido em que 
os castelhanos usam apodo, os franceses f<ohriqiiet, os ingleses 
nick-name ; "^oxém antes estava mais era harmonia com a sua 
aplicação na língua de onde o tirámos, o árabe, e a que moder- 
namente se dá ao termo cognome. O Dicionário da Academia, vo- 
lume único, assim o declara, e autoriza-se com um trecho de João 
de Barros; errou-lhe, porém a etimolojia arábica, a qual diz ser 
alquenna (.<?/c). Não é isso. 

Garcin de Tassy, na sua interessante memória sobre os no- 
mes e títulos mocelemanos ^ diz a páj. 6-7, que cada árabe 
tem em geral, pelo menos, três nomes: 1.*^ o ólame, o nome pró- 
prio, de baptismo, como dizemos, (prénom); 2.° húnia, o sobre- 
nome (suruom), mas que designa paternidade, ou filiação, e é 
composto quási sempre com a palavra ahu, « pai », ou abn « filho », 
seguida do nome daquele, ou deste; 3." o láqab, ou verdadeira 
alcunha, uo sentido desta palavra, hoje em dia. 

Este étimo já tinha sido indicado nos Vestígios da lixgoa 
ARÁBICA Eii Portugal -, transcrito alconia. E a mesma cousa. 

Com o significado de cognome encontra-se a palavra alcunha 
em português em Damião de Góis ^ : — « e ha Infanta dona Isabel, 
que casou com o Duque Philippe de Borgonha, dalcunha ho 
bom» — . 

Covarrubias, contemporâneo de Mariana [séculos xvi e xvii], 
dá como antiquada alcufia — «vale linage, casta, descendência; 
latine, genus, stemma. Es muy usado término en la lengua 



1 MÉMOIRE SUR LES KOMS PROPRES ET LES TITRB8 MUSULMANS, 

Paris, 1878. 

2 2.a Edição, 1830. 

' Chronica de El-rei Dom Emmanuel, cap. iii. 



38 Apostilas aos Dicio?iário8 Portugueses 



castellana antigua, así eu las crónicas como en las leys y con- 
tractas» — *. 

aldeagante] 

Palavra trasmontana ainda não colijida nos dicionários portu- 
gueses, no significado de «viandante», «caminhante». — «Se 
seguir o caminho em direcção á Cova da Lua vê o aldeagante 
(individuo errante) outro milagroso castigo — é um lameiro (pra- 
do) convertido n'um profundo lago» — ^. 

No Suplemento do Novo Diccionákio de Cândido de Figuei- 
redo vem esta palavra, bem como o verbo de que deriva, aldeã- 
gar, mas noutra acepção: — «pessoa alegre, desinvolta». Colhido 
em Lagoaça — « falar á toa ; alanzoar ; tagarelar ; falar com ani- 
mação; gracejar ruidosamente»; — , 

Antecede-os nesse copioso dicionário o substantivo alãeaga, 
como termo beirão, assim definido : — « tareio, tagarela, pal- 
radôr » — . 

Difícil será decidir qual é a acepção primária, se a que é dada 
nesse dicionário, se a que acima apontámos, autorizada. Desco- 
nhecido é igualmente o seu étimo. 



aleixar 

Este verbo, afim do castelhano antigo alexar, moderno alejar 
(pron. alei[ar), derivado de lexos, lejos, cuja orijem parece ser, 
conforme F. Diez -^ o latim laxus, e a significação «afastar», 



1 apud Ramón Menéndez Pidal, Antologia de prosistas caste- 
LLAN08, Madrid, 1899, p. 105. 

2 Ferreira Deusdado, O recoí.himbnto de Mófreita. in Revista 
db educação b ensino, 1891. 

3 Etymologisches Wòrterbuch der Rdmanischen Sprachex, 
Bonn, 1870, p. 148. 



Apostilai aos Dicionários Portugueses 39 



<deitar a lonje», segundo a expressão camoniana ', vem abo- 
nado por F. Adolfo Coelho no seu estudo intitulado A Peda- 
gogia DO POVO PORTUGUÊS, publicado na revista Portugália 
(i, p. 485): — «Quem dos seus se aleixa a Deus leixa» — . E in- 
teressante o conceito do adájio, como o é a existência deste 
verbo em português, que assim ficou docimientada. 



alfa 



Este vocábulo, não colijido em nenhum dicionário da língua, 
vemo-lo abonado e definido n.um estudo de Albino dos Santos 
Pereira -Lopo, intitulado Beagaxça e Beiiqueeença, publicado 
no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa -, e reza assim 
o texto: — «era costume nas vesj)eras de Entrudo, quando se iam 
revistar as « alfas » , ou os marcos divisórios das propriedades 
particulares, ir o homem mais velho de Donae abrir no « Sagrado » 
uma pequena cova como signal de que o povo estava de posse 
d'elle> — . 

Com respeito ao que o autor chama O Sagrado lê-se 
algumas linhas antes: — E como tradição dos «Loca Sacra» dos 
povos desta epocha [pre-romana] tem sido considerado o local a 
que os habitantes de Donae chamam «o Sagrado», que é um 
pequeno castro de forma elliptica. coberto de fi"ondosos carva- 
lhos ... a norte da povoação . . . Denominam-no também . . . 
<Igreja Velha» ... a igreja desappareceu, mas o sitio onde ficou 
lá se conhece ainda hoje, formando uma pequena depressão e é a 
ella que mais particularmente chamam o «Sagrado» — . 



1 Deixas criar às portas o inimigo 
Por ires buscar outro de tão longe, 
Por quem se despovoe o reino antigo, 
Se enfraqueça e se vá deitando a longe. 

Lusíadas, iv, 101. 
2 17.» Série, 1898-1899, p. 198. 



40 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

No vocabulário que faz parte do estudo que publiquei no 
vol. I da «Kevista Lusitana» ^ já eu incluíra, como sendo usado 
em Moimenta, o vocábulo alfa, o qual, segundo a informação que 
dali me fora prestada, como declarei, significa, marco entre 
bens comuns e particulares. 

No Suplemento ao Novo Diccionário foi incluído, como 
termo antigo, o plural alfaia, no sentido de «fronteiras». 

alfacinha; tripeiro 

São conhecidas as significações destes dois vocábulos, que 
por derisão se aplicam, respectivamente, aos naturais de Lisboa 
e Porto, naturalmente porque em cada uma destas cidades se dá 
preferencia a certos manjares, na primeira à salada de alface, na 
segunda a um guisado feito de dobrada de vaca. E também pro- 
vável que tais alcunhas lhes fossem por escárnio postas por indi- 
víduos nascidos em povoações convizinhas. 

Abonação de ambos os termos é a seguinte: — Vemos que a 
Exposição de Paris é também o que mais preoccupa a attenção 
tanto do « alfacinha » como do « tripeiro » -. 

E de notar que lechuguino, em castelhano, derivado de le- 
chuga \ lactuca, «alface», se aplica a um «peralvilho» em 
Espanha. 

A palavra alface, é de orijem arábica, como se sabe desde 
João de Sousa ^ (AL-^as), e também é usada em várias partes de 
Espanha, conforme f]guílaz y Yanguas *. Por outra parte, leituga 
em português equivale a alface brava. 



1 1887-1889 — Falar de Rio-Frio (Trás-os-Montes), p. 203. 

2 O Século, de 00 de abril de 1900. 

^ Vestígios da lingoa arábica em Portugal, Lisboa, 1830. 

'* Glosario de vocês ESP anglas de origen oriental, Granada, 



188(5. 



Apostilas aos Dicionários Portiajuc^es 41 



alfândega 

Esta palavra é liá muito tempo empregada em Portugal e 
seus domínios com a significação dada geralmente na Europa la- 
tina ao vocábulo aduana, assim mesmo em castelhano, dogana 
em italiano, douane'em francês, isto é, «repartição em que se 
arrecadam direitos das mercadorias, para que se considerem 
francas para o seu consumo». Antes, porém, alfândega queria 
dizer «albergaria» ^ sendo a mesma dição que a castelban a mo- 
derna fonda, «hospedaria», isto é a palavra arábica (AL)-T'aN- 
DaQ, FUNoaQ, derivada do grego medieval paxdokeíon -. 



alfavaca, alfabega, alfadega 

Este termo usual de botânica, o qual procede, conforme o 
volume único do Dicionário da Academia, citando Pedro de Al- 
calá, do árabe habaca, «manjericão», é aplicado a duas plantas 
enteiramente distintas; só, serve para designar uma planta aro- 
mática, e com um epíteto, alfavaca de cobra, é o nome popular 
de uma parietária. 

Conforme informação fidedigna, designa no Kiba-Tejo, quer 
coin esta forma, quer sem o preficso ai, «a fior da oliveira», 
favaca, e neste sentido não figura em nenhum dicionário, que 
i'u saiba. 

Em árabe, segundo o Vocabulário árabe-francês de Belot ^, a 
forma é, transcrita, nasa-j, e portanto, o vocábulo dado por Pe- 
dro de Alcalá tem a mais o suficso de unidade. 



1 Santa Rosa de Viterbo, Elucidário das palavras que antigua- 
MENTE 8E USARÃO, Lisboa, 179S. 

2 Henrique Yule, The Book of Ser Marco Polo, the Venetian, 
Londres, 1875, i, p. 401. 

5 VOCABULAIRB ARABE-KRANÇAI8, Bcirute, 1593, p. 101, Col. IL 



42 Apostilas aos I>icionários Portugueses 

O étimo arábico dado no Novo Diccionário, alcahaque, é 
errado evidentemente no c por h, e não sei de onde foi copiado. 

Em castelhano, conforme o Dicionário da Academia, existem 
duas formas alfabega e alhahaca, numa das acepções da palavra 
portuguesa alfavaca. Na primeira dessas formas o q foi repro- 
duzido por g, que parece ter sido em vários vocábulos a sua pro- 
núncia no dialecto arábico das Espanhas (Cf. açougue, q. v.): na 
segunda, que pressupõe uma forma mais antiga albafaca, houve 
metátese entre as duas sílabas internas. 

Relacionemos estes vocábulos todos. 

No Novo DicoioNÁBio vem inscrita esta palavra, com a si- 
gnificação de «manjerona» e sem acento marcado, o que indica 
ser preceituada a pronúncia alf adega, e cita-se um dicionário 
manuscrito arquivado na Torre do Tombo; Cândido de Figuei- 
redo acrescenta: — «supponho que é alter[ação] de alfabega, uma 
das formas castelhanas, correspondentes á nossa alfavaca* — . 

No Suplemento, porém, o vocábulo é outra vez inserido, e 
marcada a pronúncia ai f adega, com a seguinte explicação: — 
« ainda hoje se usa, designando o mangericão de folhas largas, 
ou a mangerona » — . 

Segundo as informações que tenho, designa somente, pelo 
menos em Coimbra, «manjericão de folha larga», e não, «man- 
jerona». 

No mesmo Suplemento declara-se que alfabega por alfavaca 
é também português, usado em Vizela. 

O Dic. da Ac. Esp. acentua alfabega. 

O povo diz majaricão, e não manjericão, e dele deriva U3na 
forma deduzida, majarico. 



alfeça, alfece; alferça, alferce 

Bluteau, no Suplemento ao seu Vocabulabio portuguez 
LATixo, dá ao vocábulo alfeça a significação de «safradeira, fer- 
ramenta de ferreiro», e descreve-a pelas seguintes palavras: — 
« Tem figura redonda, com altura de uma mão travessa. Serve 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 43 

para abrir os olhos das enxadas, alvioens, machados, e martellos, 
pondo-se em cima quando estão em braza» — . 

Francisco Adolfo Coelho, no seu artigo, a todos os respeitos 
excelente, intitulado Alfaia agrícola portuguesa *, dá-uos 
alfece como sinónimo de picareta, estribaudo-se nos — «nossos le- 
xicologos» — , mas infelizmente não nos oferece gravura dessa 
alfaia. 

J. I. Roquete, no Diccioxario da língua portugueza, que 
é imi simples vocabulário, define alfeça como ferramenta de fer- 
reiro, tal qual Bluteau, e alferce como «enxadão, alvião, picareta». 

O Contemporâneo e o Novo Diccionário repetem isto 
mesmo, mas este último dá a forma subsidiária alfece, a par de 
alfeça, e chama a atenção para alferce. 

Efectivamente, a palavra alicerce, actualmente usada,' tinha 
como forma antiga, considerada mais correcta, alicece, hoje de- 
susada: e na realidade o r não existe no seu étimo arábico, alasas, 
plural de (al)as3 como declara o Glossário de Engelmann e Doz\- 2, 
e no plural é o vocábulo mais freqiientemente usado em portu- 
guês, onde a forma com ;• não é facilmente explicável, 

A ser exacta a etimolojia apresentada por Coelho e colhida 
em Yj. e Dozy, alfa's (onde o sinal ' está pelo emze), ou indica- 
ção de que o a vale por consoante, formando a segunda letra 
radical do trilítero, e que bem se ouve na pronunciação, seria 
esse r a imitação de tal consoante, e conseguintemente lejítima a 
sua inserção, tendo pois as palavras alfece e alferce a mesma 
orijem. 

Como, porém, tal motivo se não pode alegar para que se 
explique o r de alicerce, e como, por outra parte o Glossário ci- 
tado dá para alfece, como possível étimo, o berbere AFASseN, 
plural de afus, «cabo de ferramenta» ^, é temerário, sem inves- 
tigação ulterior, identificar os dois vocábulos, alfece e alferce. 



i in Portugália, i, p. 400. 

2 GlOSSAIRE DE3 MOTS ESPAGNOLS ET PORTUGAIS DERIVES Dl 

l' ÁRABE, Leida, 1869, sub v. alizace, castelhana. 

3 ib, sub V. ALFBIZAR. 



44 Apostilas nos Dicionários Portugueses 



alfóstico, alfóstigo, fóstico 

Esta palavra, bem acentuada em Koquete S aparece defor- 
mada no Contemporâneo com a pronúncia alfóstigo, que tam- 
bém inconsideradamente foi copiada para o Novo Dicc. Em caste- 
lhano as formas são alfóntico, alfóstigo, alfócigo, todas esdrúxu- 
las. Outra forma portuguesa é fístico (lloquete), omissa nos outros 
dois dicionários, mas que no Vocabulário de Bluteau está incluí- 
da, marcada a pronunciação como esdrúxula igualmente (flstlco). 

Para português, como para castelhano, procede imediatamente 
do árabe (AL)pusTaQ, correspondente ao grego pistákion, latim 
pis taci um, do qual proveio o francês j9tó'iíac/í.e, e qne em última 
análise é vocábulo semítico. Os árabes trousseram-no talvez da 
Pérsia. Os franceses receberam-no da forma italiana pistaccio, 
que concorre com pisfacchio para designação do mesmo fruto, 
ou da árvore que o produz. 



alfresses, alfrezes 

No Elucidário de Viterbo vem ê-íte vocábulo (alfvezes) assim 
definido: — «Alfaias e moveis de uma casa» — , abonado com o 
seguinte trecho: — Calças, Alfresef>. especial, bacias, agumys, 
e outras cousas que tragem pêra si—, documento de 1352» — . 

O Novo DiccioNÁRio incluíu-o no Suplemento como antigo, 
e ampliou-lhe o significado com — «variedade de panos ricos, pró- 
pria para armações; certos enfeites do vestuário» — . 

Num curioso artigo de Sousa Viterbo, intitulado As candeias 

NA INDUSTRIA E NAS TRADIÇÕES POPULARES PORTUGUEZAS ", e 

oude, seja dito de passajem, as gravuras representando candeias 
não vem a propósito, pois este vocábulo nos textos aduzidos tem 



' DiCTIONNAIRE PORTUGAIS-FRANÇATS, Paris, 1855. 

2 in Portugália, i, p. 365-368. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 45 



O seu significado autigo de « vela > ; nesse artigo, dizemos, ao citar 
um documento, extrata dele vários vocábiiloá, entre os quais, 
porém, não figura o que nos interessa aqui e no mesmo docu- 
mento vem citado por estas palavras: — «folha douro e de prata 
e dalfrezes trenas, retrós. . , » — o que seria inintelijível se al- 
freses ali estivesse por alfaias, móveis. 

Parece pois ter razão o Novo Dicc. em lhe atribuir a acep- 
ção citada, ou a de « guarnições » para vestiduras, ou tapeçarias. 

Eguílaz 5' Yanguas ^ traz este vocábulo, e dá-lhe o étimo 
arábico ALFasxE, < tapetum » ; e deve ser no sentido de « tapete » 
que ali está empregada a palavra, ou noutro muito perto deste. 

Yê-se por aqui também que a escrita com z é errónea, pois 
no documento o s está por ss, visto proceder do x arábico: 
cf. alvíssaras (e não, alvlçaras), de albíxaee. sobre o qual veja 
o leitor OBToasAFiA Nacional, páj. 113, em que se provou que 
a ortografia dos antigos escritores é com ss e não com ç, e na sua 
correspondência a x arábico se fundamentou a excepção aparente 
de s português em palavras dessa orijem. 

No Dicionário árabe-francês de Belot - dão-se como corres- 
pondentes franceses de rauxE « lit, natte ; matelas » . 

Assim alfrezes, no artigo a que me referi, é erro de transcri- 
ção e não será o único do texto aduzido. 



algar(a)via 

Esta palavra, que no uso actual quere dizer «modo confuso 
de falar, linguajem estranj eirada, ou estranjeira», é defeituosa- 
mente definida no Coiítemporaneo : — modo de falar próprio dos 
habitantes do Algarve — , acepção que ninguém lhe dá, e que seria 
disparatada, pois não é tam indistinta e especial a pronúncia 



1 Glosario de vocês espanolas de origbx oriental. Grana-la, 
1880. 

2 Beirute, p. 581, col. i. 



46 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

dos naturais daquela fonnosa província, que justificasse tal deno- 
minação. 

O Novo DicciONÁEio define bem: — «linguajem árabe; con- 
fusão de vozes; cousa [melhor fora linguajem] difícil de in- 
tender » — . 

O a depois do r é uma vogal, como tecnicamente se diz, 
anaptíctica, ou intercalar, desunindo o r do v (cf. o popular 
carapinteiro, por carpinteiro). 

Algarvia, ou algaravia, é o árabe alorbie, e quere dizer 
«o árabe». A primeira forma sem a vogal intercalar figura em 
um adájio citado por P. Adolfo Coelho, no seu estudo sobre 
A Pedagogia do povo poetuguês ': — «Em casa de mouro 
não falles algarvia» — . 

No Roteiro da viagem de Vasco da Gama ^ a palavra 
aravia tem o mesmo significado : — « e alguns delles [índios] 
sabem alguma pouca d'aravia» — . 

O g está ali como figurando a pronúncia da 18.'"^ letra do 
abecê arábico, o ^, que acima transcrevi por o; ao passo que em 
Algarve a mesma letra está pela 19.% que transcrevo por y, 
e que é um g fricativo proferido no palato mole: AL-YaRs «o 
poente», vocábulo diferente e que só remotamente é afim de 
oaRaB, « árabe » . 

Outra forma do vocábulo algar(a)via é algravia, com o a de 
-gar- elidido, citada por Bluteau 3, e abonada com Bernárdez 
■ — «Não imaginemos que ha aqui mais Algr avias, nem cousas 
escondidas, e secretas». (Luz e Calor, p. 249) — . 

A definição dada pelo doutíssimo lecsicólogo é perfeita: — 
Termo Arábico, que significa a lingoa que os Arábios faliam. — 
Onde o Contemporâneo foi desencantar a significação que lhe 
dá, é que ninguém poderá descobrir. 

O derivado alg(a)raviada é mais usado popularmente do que 
o primitivo. Cf. alarve, que significou «o árabe». 



1 in Portugália, i, p. 488. 

» Lisboa, 1861, p. 46. 

' Vocabulário portugubz-latino, sxib v. Algaravia. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



alhora! 

Esta interjeição, contraída provavelmente de olhe ora!, é dada 
por Henrique Lang * como usada nos Açores. 



aliás 



Fêmea do elefante: Frei Gaspar de Santo Agostinho, Itine- 
EÁRio DA IxDiA, cap. XV. Esta nota foi-me subministrada pelo 
snr. Guilherme de Vasconcelos Abreu. 



aljamia, aljemia; aljám(i)a? 

A primeira forma é a preferida pelo arabista David López 2, 
e na escrita a que se emprega em castelhano; mas nos nossos 
antigos escritores parece que era mais usada a segunda. Duarte 
Núnez de Leão, por exemplo, diz: — «e ainda entre Mouros, que 
a tem por sua algemia [a língua castelhana] » — . 

Denominava-se assim o castelhano, o português, qualquer das 
línguas românicas da Península Hispânica, por oposição a algar- 
via, (q. V.) que era o árabe. A aljamia, ou aljemia, conforme 
vemos em Eguílaz y Yanguas ^ designava também o árabe cor- 
ruto falado pelos mouros de Espanha. AOGaiiiE é o femenino 
de AoaaMi, que significa «o que fala língua [românica], de 
Espanha», e neste sentido o vemos empregado no trecho citado 
pelo douto arabista espanhol — « Ordenamos i mandamos que 
pasados três anos, el qual dicho tiempo damos para que puedan 



1 KeVISTA LUSITANA, II, p. 52. 

2 Textos em aljamia portugueza, Lisboa, p. 189. 

3 Glosario de toces ESP anglas de origen oriental. Grana- 
da, 18S6. 



48 Apostilas nos Dicionários Portugueses 



los Moriscos aprender á hablar i escribir niiestra lengua castella- 
na, qne diceu ellos aljamia etc.» Le}^ 13, tít. 2.", lib. viii, Niieva 
Recoi)ilaciÓ7i » — . 

A palavra significa também «assemblea», mas esta talvez 
tenha de acentuar-se aljámia, visto que a forma dada por Viterbo 
no Elucidário ó aljamas, «congregações». 

aljibe, aljibé (?); aljube 

O Novo DiocioNÁRio inclui as duas formas, abonando so- 
mente a primeira, que parece ser a verdadeira. Outra abonação 
dela é a seguinte, em que se contém a sua definição, como termo 
de marinhas de sal: — «D'ahi [a água salgada] passa para outros 
[tanques] menores, chamados algibes» — K 

A palavra já existia colijida em outros dicionários, com a sig- 
nificação de «cisterna onde se recolhe a água da chuva», como 
se lê no Contemporâneo. 

Existe também em castelhano aV.jibe, hoje pronunciado nl- 
tlihe -, e parece ser uma forma paralela de aljube, o qual em 
árabe quere dizer «calabouço», e propriamente «furna» (algubb). 
No sentido de prisão é bem conhecido em Lisboa este nome, por 
ser o de uma cadeia quási fronteira à do Limoeiro; mas o vocá- 
bulo continua a ter o significado geral de «prisão pública». 

aljofaina 

Esta palavra, ou sem o preficso àl, simplesmente jofaina, que 
significa no castelhano hodierno «bacia de lavar as mãos, a car^» 
(pronunciada t[ofáina), é, conforme todos os etimólogos, a forma 
deminutiva arábica auFaiNE, deminutivo de gífne, «alguidar», 
com, ou sem o artigo al. 



1 O Século, de 10 de junho do 1901. 

2 Y representa o valor doj castelhano actual. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 49 



Não incluiria aqui este vocábulo, se o não visse escrito no 
artigo As Olarias do Peado, de Kocha Peixoto *, no seguinte 
passo, em que parece indicar ser português: — «Atribuiu-se o 
moringue a uma importação da índia e americana, aos árabes 
o alguidar, a aljofaina e a almotolia* — . 



alma 



Esta palavra, além do sentido geral que expressa, tem muitos 
outros, quer só por si, quer acompanhada de epítetos, e quási 
todos, se não todos, teem sido apontados nos dicionários. 

Um de que ainda não vi menção e que é difícil perceber qual 
seja, encontrei-o no seguinte passo de uma fôIha diária, que há 
muito tempo se converteu em mensal, mudando a sua antiga 
índole para outra mais conforme com o título -: — «O Jornal de 
Estarreja conta o seguinte caso : « Um d'e&tes dias foi encontrado 
junto ás almas de Cristello . . . um pobre homem quasi nu, preso 
a um pinheiro» — . i^Qxk imiíiel das almas? 

No PoBTUGAL Antigo e moderno ^, de Pinho Leal, obra que, 
a par de muitos desacertos, contém muita matéria utilíssima, 
procurei debalde no artigo Estarreja e naqueles para que faz 
chamadas, Antuã, Beduido, Laranja, qualquer referência às 
ahnas, de que fêz menção o dito jornal. Cf. alminhas, q. v. 



almandra, almandrilha 

Num anúncio, publicado no periódico O Economista, de 4 de 
novembro de 1882, encontra-se o segundo vocábulo, não colijido, 
significando uma espécie de «contaria», ou «avelório>. 



^ iw Portugália, I, p. 241. 

2 O Ecoxo MISTA, de 12 de agosto de 1885. 

3 Lisboa, 1873-1886. 



i 



50 A2)osUla8 aos Dicionários Portugueses 



Almandra é definido no Novo Dicc. como vocábulo antigo, 
com as significações de « colcha, alcatifa » , que não estão abo- 
nadas, mas sem dúvida foram adoptadas do Elucidário de 
Viterbo, onde se conclui com estas palavras a inscrição: — 
«Parece que Almandra é colcha ou alcatifa de linho e lãa. 
Vlide] Ducangs v. Tiretanus-» — . 

Eguílaz y Yanguas ^ admite o vocábulo, citando o Elucida- 
Eio, e deriva-o de um arábico AL-Maxia, que seria o mantum a 
que se refere Isidoro Hispalense ^, o que não tem visos de pro- 
babilidade, pois não explica nem o d, nem o r. Parece ter rela- 
ção com alma(n)trixa, cujo étimo está ainda por averiguar, ape- 
sar do seu aspecto arábico. 

Almandrilha vem já no Suplemento ao Novo Dicc. definida 
como «conta alongada», e abonada com Capelo e Ivens ^, mas a 
citação foi omitida e é assim: — «O explorador pode levar com- 
sigo missanga grossa, missanga miúda, Maria segunda (*), que é 
indispensável, cassungo (*) de variadas cores, almandrilha (-) 
apipada e riscada» — . 

As notas dizem: — «(*) conta encarnada pequena, interior- 
mente branca, de 0,003 de diâmetro» — . «(*) conta de borda- 
do» — . «(^) conta alongada de 0,01 de comprido» — . 

O adjectivo apipado « em forma de inpo » vêmo-lo também 
aplicado a contaria, junto ao substantivo coral, em um anúncio 
publicado no jornal O Economista, de 4 de novembro de 1882. 

Almandrilha parece não ter relação com almandra. 



alma-negra, ou anjinho 

É nas ilhas da Madeira e de Porto-Santo o nome de uma 
ave, como vemos na valiosa monografia do P. Ernesto Schmitz, 



1 Glosario db V0CE3 ESPANOLAS DE ORiGEN ORIENTAL,, Granada» 

188(3. 

2 EtYMOLOGIARUM SEU ORIGINUM LlBRI XX. 

3 De Bbnguella ás terras de Iácca, Lisboa, 1831, i, cap. i, p. 6-7. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 51 

iutitulada Die Vòoel Madeiras. O nome desta ave na nomen- 
clatura zoolójica é, conforme o dito autor, Bulweria Bulweri ^ 

almanxar; almeixar, almeixiar, almixar, almexar, almexiar 

O Novo DicioNÁBio inclui a segunda destas formas, com 
chamada à primeira, que ortografa almanchar, mas que se deve 
escrever almanxar, se na realidade a forma é lejítima, e defiue-a 
do modo seguinte : — « (prov[incialismo]) logar onde se seccam os 
figos» — . A escrita errónea com eh foi copiada da citação que já 
vou fazer. 

Nos meus apontamentos tenho a forma almeixiar, que encon- 
trei no Economista de 5 de novembro de 1885, em citação do 
JoENAL DA Manhã, a qual é assim: — «Roda depois para o al- 
meixiar onde é lançado em esteiras [o figo]» — . 

O vocábulo vem já entre os aditados por Moura aos Vestí- 
gios DA LINGOA AEABICA EM PoRTUGAL, dC JoãO de SoUSa ^, C 

dá-se-lhe como étimo o árabe ALMaNxas, e como definição a 
seguinte : — «O estendedouro. Assim se chama no Algarve á eira, 
aonde se põem os figos, e outras fructas a seccar» — . 

O Glossário de Engelmann e Dozy ^ traz a forma almanchar, 
de Moura, remetendo porém para almixar castelhana (hoje es- 
crita almijar e pronunciada almiiiar), usada na Andaluzia, de- 
rivando-a do árabe AL-MixasB, deduzido do radical xaiiRa — «ex- 
poser quelque chose au soleil afin de le sécher » — , « expor ao 
sol para secar». 

Dozj anota Engelmann, declarando lejítima a forma portu- 
guesa almanxar, procedente de outro verbo NaxaRa « estender » , 
e acrescenta: — «mais comme on étend les choses qu'on veut sé- 



1 in « Ornithologisches Jahrbuch >, 1899, i fascículo. 

2 Lisboa, 1830. 

3 Glossairb des mots espagnols et portugais derives de 
l'arabe, Leida, 1869. 



52 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

cher (Ibn-al-'Anwaii, i, 669 emploie le participe manchour en 
décrivant la manière dont il faut sécher les figues), almanchour 
a reçu le sens de séchoir, lieu oíi Fon fait sécher les toiles, etc. 
(Bocthor) » — . 

O douto arabista diz mais que almixar deve ser corrutela 
de almanxar, porque o verbo xarra no sentido de «secar» não 
era popular, e porque a forma devera ser almaxar « sequeiro >, 
e não almixar, que significaria «aquilo com que se seca». 

Seja como fôr, vê-se que as duas formas existem, e que a 
segunda se deverá escrever almixar, almexar, almaxar, ou 
mesmo almexiar, mas não, almeix(i)ar. 

almeidina 

Esta palavra, que parece derivada artificialmente do nome 
próprio Almeida, veio no Economista de 7 de agosto de 1885 
explicada como querendo dizer — «borracha branca de Mossá- 
medes>— . 

almeixar, almixar 
V. em almanchar. 

alminha, alminhas 

No singular, significa no Minho o «mealheiro das almas» ^; 
no'plural «painel das almas». V. almas. 

almuadem, almuédano, mK£ZZÍn 

No Suplemento ao Novo Diccionário declara-se, com razão, 
ser afrancesada a forma muezzin, que para aí usam escritores 
pouco lidos em livros portugueses de boa nota. A forma, porém, 



1 Arnaldo da Gama, O Segredo do Abbadb, p. 56. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 53 

que no mesmo dicionário se propõe para a substituir nenhuma 
vantajem traria, pois equivalia a trocar um galicismo por um 
castelhanismo, sendo ambos inúteis porque existe a forma portu- 
guesa ahnuadem, pronunciada ahnuádem, ou niuádem, sem o 
artigo, a qual perfeitamente corresponde à arábica AL-Mua&ÍN, 
« pregoeiro >. E o indivíduo incumbido de chamar, do alto do 
alcorão da mezquita, os fiéis às rezas diárias. O próprio autor 
havia rejistado no corpo do dicionário este vocábulo, escrevendo-o 
almuhádem, com um h a mais. 

Alberto de Oliveira emprega a forma muedãin, que é leji- 
tima, porém, inútil, visto que a palavra já de há muito existe 
aportuguesada, como disse: — «E de repente surgiram em todos 
os minaretes. . . os vultos direitos ephantasmaticos dos mued- 
dins^ — ^ 

Cumpre notar que também emprega no mesmo escrito, aliás 
de grande interesse, as formas minarete e soco, errónea esta em 
vez de açougue (q. v.) 

A forma francesa muezzin, que tem de ser pronunciada 
muezine, e não muLeze, explica-se porque a nona letra do alfabeto 
arábico é proferida por muitos barbarescos defeituosamente como 
z, em vez de lhe darem o seu verdadeiro valor, o do nosso d 
entre vogais, diferente do d inicial, a que corresponde a oitava. 
Por todas estas razões, e ainda porque o acento tónico é em fran- 
cês deslocado para a última sílaba, se vê que a mais perfeita 
representação do árabe ALMuaSÍN é o português almuádem. 
A figura & representa aquela nona letra. V. muezzin. 



' almoçadeira 

Em Caminha este vocábulo significa o que em Lisboa se 
chama chícara de almoço. 

A propósito de chícara veja-se chávena. 



1 O Século, de 23 de outubro de 1905. 



54 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



almofada, almofadinha 

No sul do reino chama-se almofada da cama, ou almofadi- 
nha, ao que no centro e norte se denomina travesseira, isto é, 
«a almofada que na cama se põe sobre o travesseiro», que em 
francês se chama oreiller. 

Esta acepção é já antiga, pois o Padre António Francisco 
Cardim no xvii século emprega o vocábulo neste mesmo sentido 
— « o dormir era sobre uma esteira velha, um pau ou pedra por 
travesseiro e almofada» — "*. 



aloés 



Hoje é moda acentuar-se este vocábulo, como se fosse latino, 
áloès, pronúncia inadmissível em português. A acentuação antiga 
era aloés, e nenhuma razão plausível existe, que justifique o pe- 
dantismo da pronúncia moderna. Frei Gaspar de Santa Cruz es- 
creveu: — «babosa, ou erva aloés» — ^. Sobre este vocábulo ve- 
ja-se a erudita nota do Conde de Ficalho aos Colóquios dos sim- 
ples E DEOGAS DA India, de Garcia da Orta ^. 



alojo 

Esta dição, talvez usada no sul com o significado de «alo- 
jamento», e muito bem formada, é um substantivo verbal rizo- 
tónico, isto é, com o acento tónico sobre a última sílaba do ra- 
dical, e vem exemplificado no seguinte passo da Ethnogeaphia 



1 Batalhas da Companhia dk Jesus na província do Japão, 
Lisboa, 1894, p. 206. 

2 Itinerário da Índia, cap. ix. 

3 Lisboa, 1892, vol. ii, p. 60 e seguintes. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 55 



DO Alto Alemtejo, de J. da Silva Picão ^: — «com pateo, ou 
sem elle, ao rez do chão, outros com sobrados, reuuem em ge- 
ral alojo sufficiente para uma lavoira mediana» — . Refere-se o 
autor aos montes, ou « casais >, e a citação contém abonação 
também para a palavra sobrado. 

Todo o estudo, que é de muito interesse, abunda em termos 
e locuções locais, o que lhe dá grande valor como documento 
lecsicográfico dialectal. 



aloquete 

E uma forma derivada com a prostético, variante da palavra 
loqiiete, já rejistada em vários dicionários, com o significado de 
«cadeado de argola». A. A. Cortesão abona a forma aloquete, 
com um passo de Camilo Castelo-Branco -. 



alquilar, alquile 

Tanto o primeiro destes vocábulos como o segundo são cas- 
telhanismos, significando o primeiro «alugar», e o segundo (al- 
quiler), « aluguer » , ou com assimilação do r ao l, « aluguel » ; 
mas em português tomaram o sentido restrito de «alugar» e 
«aluguer», com relação a cavalgaduras. Modernamente, alquile 
significa especialmente a pessoa que se ocupa em compras, ven- 
das e trocas de jumentos, cavalos, ou gado muar; os espanhóis 
chamam-lhe chalán, os franceses maquignon. 

O vocábulo alquilé(r) é indubitavelmente arábico, entanto 
que o português aluguel, alugar provém do latim ad-locare, 
com uma mudança, de o em u, anormal e inexplicada. 



1 in Portugália, i, p. 356. 

2 Subsídios para um dicciokário completo ... d a LíxauA por- 
tuguesa, Coimbra, 1900. 



56 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



alquitete 

Este aportuguesamento popular da palavra culta arquitecto 
tomou já uma acepção especial, que lhe dá direitos a figurar 
nos dicionários, como palavra independente e expressiva. Eis 
aqui um exemplo: — «O império dos mestres d'obras, vulgar- 
mente conhecidos por alquitetes, foi sem duvida a causa prima- 
ria d'essa variedade de gaiolas que por ahi se vêem, e a que se 
dá o pomposo nome ò.q prédios q palacetes-» — ^ 



altamado 

Tenho, sem abonação, este vocábulo nos meus apontamentos, 
como termo çaloio, com a significação «de tudo, de todos, uns 
por outros»; exemplo, panos altamaãos, «de todas as qualida- 
des». Parece ser uma contracção de alta e mala, de que se for- 
masse um verbo altamar, do qual se deduzisse este particípio 
passivo, empregado como adjectivo. 

Numa das Sátiras do portuguesíssimo Nicolau Tolentino 
lê-se 2; 

Feita a geral cortesia, 
Pé atrás, segundo a moda, 
Daremos á mãe e á tia, 
E depois a toda a roda 
Alto e maio a senhoria. 

O NOVO DicciONABio rejista a expressão altamala, no sentida 
de «à pressa», «sem escolha» e aventura-lhe como étimo, mas 
em dúvida, ata -j- mala, o que é inadmissível. Declarando o seu 
autor que a locução é antiga, sem aboná-la, é manifesto que não 



1 O Dia, de 18 de julho de 1905. 

2 Obras, i, p. 178. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 57 

podia ter por étimo uma palavra que é de introdução moderna, 
mala, e pouco empregada pelo povo. 



alude 

Este vocábulo, usado por Gronçálvez Gruimarães para traduzir 
o francês avalanche, é assim definido pelo douto professor: — 
« Os crystaes ou frocos de neve, accumulando-se uns sobre os ou- 
tros no mesmo local, comprimem-se reciprocamente em virtude 
do seu peso, e agglutinam-se . . . para se formarem esses peri- 
gosos aludes (=fr. avalanches), que se precipitam pela encosta 
da montanha, arrastando com a sua massa grandes pedregulhos, 
lascas de rochedo e tudo quanto se lhes depara na passagem; 
até que a final, quando a temperatura excede o limite de O", a 
fusão da neve torna-se inevitável, e a agua passa a incorporar-se 
em qualquer torrente ou ribeira vizinha, ao mesmo tempo que os 
materiaes sólidos se depositam pela maior parte» — . 

A palavra aludes lê-se no pé da pájina a nota seguinte: — 
« Nas regiões montanhosas da Hespanha este phenómeno é desi- 
gnado pela palavra alud, de emprego hoje corrente na litteratura 
scientífica, donde a transcrevemos, por nos parecer mais conforme 
com a índole da nossa língua do que o fr. avalanche. A palavra 
é de origem árabe, e decompõe-se no artigo ai e na raiz ad que 
significa precipitar-se ou cair pesadamente. Em italiano diz-se 
valanga e em ali. Laivine» — ^ 

Na Selecta de Autoees franceses que, editada pela casa 
Aillaud & C* em 1897, foi presente ao concurso de livros esco- 
lares e aprovada, pusera eu uma nota ao trecho n° 20 ^, extraído 
de Eliseu Keclus, com o nome de «Une tourmente dans les 
Alpes » . 

Não sabia eu então que o autor dos Elementos de Geolo- 



1 Elemextos de Geologia, 2.* ed., Coimbra, 1897, p. 167. 

2 p. 146. 



58 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



GiA tivesse tido a mesma lembrança, sem um saber do outro. 
A minha nota é assim concebida — <^déblayé j;ar les avalan- 
ches^ varrida pelas avalanches. «Não há, ao que parece, vocá- 
«bulo português que traduza este; em castelhano chama-se-lhes 
<^ aludes, palavra que poderia passar para português. Avalanche 
«significa mole de neve e gelo, que vae, lentamente ao princí- 
«pio, precipitadamente depois, deslizando pela serra abaixo e 
«despedaçando tudo que encontra no caminho» — . 

No singular, a adoptarmos o vocábulo espanhol, teremos de 
escrever um e final, alude; cf. saúde com o castelhano salud, 
cidade com ciudad. 

Quanto à etimolojia árabe, parece-me duvidosa. A Academia 
espanhola, no seu Dicionário dá como étimo o latim alfda, 
«pele curtida», o que é absurdo conio sentido, sendo já por si a 
forma incompatível com a espanhola. 

Como abonação de alude em português, já em sentido figu- 
rado, temos a seguinte: — «era um dilúvio, um alude de pergun- 
tas» — *. 

Outro étimo, alluuium, que já foi aduzido, conquanto sa- 
tisfatório no significado, é formalmente inaceitável, visto como o 
u latino não poderia dar o d final castelhano, o qual, a ser latino 
o étimo, pressupõe uma terminação -utem; cf. salud | salutem. 

alustre 

Em Bragança usa-se este vocábulo no sentido de «relâm- 
pago» 2. 

alvela, alvéloa, arvéloa, alverôa 

Esta galantíssima ave, que tantos nomes tem, conforme as 
rejiões da nossa terra, é em Lisboa conhecida pelo de arvéloa. 



* Miss Tbmpête, tradução portuguesa, ii parte, xi, in « O Século », 
de 13 de abril de 1901. 

2 Kevista Lusitana, ni, p. 67. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 59 



Em Gil Vicente, a forma é, porém, alvela, como vemos no Auto 
DAS Fadas: 

Alvela — Esta avezinha formosa 
Faz que aguarda, 
Mas, pardeos, muy bem se guarda ; 

O que perfeitamente condiz com o adájio citado por Bluteau no 
YocABULAEio POKTUGUEz-LATixo : — « Diz adagio portuguez, 
Quem mata Alveloa, sabe mais que ella. . . » — No Voe. vem o 
vocábulo acentuado como Alvéola, isto é alvéola, que é a acentua- 
ção comum ; mas o Novo Diccionáeio consigna uma forma alve- 
rôa como provincial, abonando-a i. 

O radical desta pala^Ta é, sem dúvida, alvo \ lat. albus; 
o modo de derivação, todavia, é difícil de explicar. F. Adolfo 
Coelho -, parte da forma alvela como mais correcta, de 
alva -f- 'suficso ela. Todavia, se confrontarmos as formas haga 
hago (ant. bágoo) com mágoa { macula, teremos de concluir 
que alvéloa é a forma inicial portuguesa, e que deste modo o 
seu étimo é obscuro. 



ama 



Esta palavra, cuja identificação e orijem são problemáticas, 
pois se encontra, com significações muito aprossimadas, em idio- 
mas de famílias diferentes e irredutíveis a um só tipo, como são 
o vasconço ama, «mãe», o hebraico (A)êM, <mãe», a par de 
(A)ãMã, «serva, moça», e o alemão amme, «ama de leite» sem 
que se possa supor proveniência directa de uma delas a respeito 
de qualquer das outras; esta palavra, digo, além de outras acep- 
ções que tem recebido em português, e das quais as mais co- 
mims são «ama de leite», e «patroa», adquiriu no Brasil signi- 
ficado enteirameute oposto ao segundo, e naturalmente deduzido 



1 Suplemento. 

2 DlCClONARIO ETYMOLOGICO DA LÍNGUA PORTUGUEZA, Lisboa. 



60 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



do primeiro, como se vê do passo que vou transcrever: — < Che- 
guei de regresso a casa, quando a nossa ama (criada), veio cha- 
marme para o jantar» — ^. 

Análoga a esta especialização, e talvez orijem imediata dela, 
é a palavra ama, quando se emprega na locução ama de clérigo, 
ou na castelhana ama de llaves, « governante » ; funda-se em que, 
se tal ama é serviçal do patrão ou patroa, é por outra parte 
quem governa a mais criadajem. 

Aparentada com esta locução é ainda ama da roupa, que na 
ilha de Sam Miguel se usa para designar « lavadeira » -. 



âmago, âmago 

Júlio Cornu dá como étimo a este obscuro vocábulo, cujas 
formas antigas cita, meiagoo, maiagoo, maagoo, meoogo, meogoo, 
meogo, o latim medius locus, «lugar do meio» ^. A ser certo 
o étimo, que na forma actual está bastante desfigurado, temos 
de supor que a acentuação actual é errónea, e que a verdadeira 
seria amâgo. Não era de estranhar que, tendo saído do uso vulgar 
a palavra, os doutos a revivessem com erro de acentuação, como 
aconteceu a pântano (q. v.), hoje acentuado pântano, não obs- 
tante a forma femenina pantána, e o castelhano pântano, que 
mostram qual era a verdadeira acentuação. 



amassaria 

Esta dição já foi no Novo Diccionábio apontada, com o seu 
significado de — «casa, logar onde se amassa farinha» — mas sem 



1 « Bosquejo de uma viagem no interior da Parahyba e de Pernambuco», 
in O Século, de 8 de julho de 1903. 

2 O Século, de 5 de julho de 1901. 

3 V. também Kevista Lusitaka, iii, p. 150. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 61 



abonação. Está autorizada com o seguinte passo de J. Inácio 
Ferreira Lapa ^ escritor douto e escrupulosíssimo na pureza e 
propriedade da linguajem: — «A amassadura a braço é geral- 
mente praticada na mesma casa em que se acha estabelecido o 
forno de cozer; algumas vezes este trabalho veriíica-se em casa 
contigua que tem o nome de casa da amassaria* — . 

Não é pois neolojismo o emprego deste vocábulo no seguinte 
trecho, que transcrevo do curioso estudo de J. da Silva Picão, 
Ethnogbaphia do Alto Alemtejo ^: — «Amassaria. — E a casa 
do fabrico do pão de todas as qualidades, que se consome no 
monte [casal]. Tomando-se por base a importância do consumo, 
temos em primeiro logar o pão de centeio, denominado marrocate, 
que se dá aos creados e « maltezes » ; em segundo o pão de trigo, 
— branco e ralo, que é respectivamente para amos e creados de 
portas a dentro; em terceiro e ultimo, as perrumas, pão de fa- 
relos de centeio com que alimentam os cães de gado» — . 

Se perrumas não é aqui erro tipográfico por perrunas e por- 
tanto castelhanismo, como outros da linguajem dessa província, 
pois em castelhano perruna é também — « espécie de pan muy 
moreno y grosero, que ordinariamente se dá á los perros ^ [cães]; 
se não é erro tipográfico, repito, e parece que não, pois o vo- 
cábulo já está rejistado no Contemporâneo, é êle uma forma 
curiosa do adjectivo femenino perrua, de perrum, substantivado, 
no qual se deu a consonantização do nasalamento da vogal u, 
como em uma de ua j lat. una, em vez de se dar a apócope 
do a final, como em commum, fem. pelo antigo comua, ou a 
desnasalização do u, como em comua substantivo, lua, antigo 
lua j luna, e ainda camoniano. 

Apesar da definição genérica, dada no Novo Dicc. parece 
que o vocábulo amassaria se não aplica ao local em que se tra- 



1 Technologia Eural, Lisboa, 1868, p. 233. 

2 in Portugália, i, p. 538. 

' DicciONARio DE LA LEXGUA CASTELtiANA, de la Real Acad., Ma- 
drid, 1899. 



62 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

balha nas massas alimentícias, visto que a Technologia Kubal 
não faz menção dele na Secção Aletriaria, com que dá quási fim 
ao livro. 

J. Leite de Vasconcelos define a ^wrruma do seguinte modo : 
- — « pão feito de farelo, sem fintar, de bagaço, etc, para os cães 
de gado» — ^ 

ámbria 

Este termo de gíria, relativamente moderno, não é mais que 
o castelhano hambre, «fome», mal pronunciado, e tem a mesma 
significação. 

amigo-fechado 
Termo da África Oriental Portuguesa, chamuar (q. v.). 

amoroso 
No Minho e nos Açores, quere dizer «liso», «macio». 

amuado 

E palavra muito conhecida, e muito usada, como significando 
— «o que desgostado se afasta, e persiste no enfado, sem mani- 
festar a causa. He próprio dos rapazes» — ^. 

Acrescentarei que tal hábito ainda é mais próprio das meni- 
nas, pequenas, ou já crescidinhas. 

E esta palavra o particípio passivo do verbo amuar(-se), e 
também se emprega como adjectivo, com o mesmo significado 
virtual do verbo de que deriva. 



^ Kbvista Lusitana, ii, p. 36. 

2 E. Bluteau, Vocabul. port.-latino. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 63 



Bliiteau dá-llie como étimo o substantivo mu — « animal duro 
de domar > — , isto é, mulo, macho; e parece que é certo, por 
pouco lisonjeira e delicada que seja a expressão, com tal orijem, 
aplicada a alguma das gentilíssimas damas que teem a graciosa 
astúcia de se enfadarem com aqueles a quem bem querem, e da 
qual diz o épico amador: 

Que se aqueixa e se ri num mesmo instante, 
E se torna entre alegre magoada. ^ 

Outro menos épico, mas não menos amavioso e conhecedor de 
tam suaves astúcias, o terno e apaixonado Torquato Tasso, falando 
da maga Armida e do seu Keinaldo, na Jerusalém Libertada, diz: 

Teneri sdegni, placide e tranquille 
Kepulse, e cari vezzi e liete paci, 
Sosi^iri, parolette, e dolci stille 
Di pianto, e sospir tronchi, e molli baci. 

Para se consolarem, as damas podem subordinar o verbo 
amuar ao francês moue (faire la moue), que, para ser mais 
bonito, basta que seja francês, conquanto o étimo que para esta 
língua se lhe atribui pareça ser também comparação com irra- 
cional, o holandês mouwe, parente de meeuive « gaivota » . 

Tornando aos nossos amuado e amuar, já o mesmo Bluteau 
nos dá outro significado, ainda na língua comum usadíssimo, o 
que bem se vê na citação que faz: — «Se o tumor Amuar, 
e não madurar» — ; hoje dizemos «amadurecer», isto é «atra- 
sar-se em resolver», e neste sentido, ou análogo, o vemos em- 
pregado no CoMMERCio DO PoETO dc 18 de julho de 1885, 
referindo-se ao atraso produzido pelas trovoadas no amanho do 
sal: — «E provável que as marinhas fiquem amuadas por mais 
quinze dias» — . 



1 Lusíadas, ii, est. 38. 



64 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



amuso 

Neolojismo que vemos indicado na Eevista Lusitana [ii, 
p. 161], com a significação «contrário ás musas». 



anámica (adj. fem.) 

• Este adjectivo vemo-lo empregado na Obra do Padre António 
Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus na peo- 
viNciA DO Japão ^: — «o padre Gaspar do Amaral. . . que neste 
anno se applicou á lingua anamica» — , isto é, à língua do 
Annam, ou Ananie. 

E duvidoso se a terminação am se há de ler ali como ã, 
ame, ou ão. Conveniente seria que assentássemos em pronunciar 
e escrever Aname, para se não confundir este nome próprio 
com o comum anão, anã, e com tanto mais razão, quanto é 
certo que de Siam {=sião, siã, ou siame) fizeram os nossos 
escritores Siamês ^, os povos de Siame, diferençando nós deste 
modo o reino de Siame, do monte e castro de Sião em Jeru- 
salém. 

Teríamos pois: anámico j aname \ Aname; siamês, siá- 
mico j siame \ Siame; formas bem portuguesas e perfeitamente 
deduzidas. 

Disse que deveríamos diferençar Siame da Sião bíblica, e 
;assim o creio necessário; não porém, como já incautamente se 
fez, adoptando para a última a forma Sion, conquanto a latina 
seja Sion, copiada do grego siÓn, transcrição da forma hebraica 
siuM, porque a forma Sião já há muito é portuguesa, e foi em- 



1 Lisboa, 1894, p. 78. 

2 ihid, p. 288, mãe siame; Peregrinações, de Pernám Méndcz Pinto, 
■cap. LVii, e passim. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 65 



pregada em rima por Luís de Camões, ua formosíssima redoudi- 
Iba que principia assim: 

Sobolos rios, que vão 
Por Babilónia, me achei, 
Onde sentado chorei 
As lembranças de Sião. 



ancestral: avito 

Este barbarismo tem a pouco e pouco penetrado na lingua- 
jem pretensiosa ou afrancesada dos jornais, e por, incúria de 
certos escritores, ainda mal até em obras didácticas. Foi tomado 
directamente do francês ancestral, onde é neolojismo, que Littré 
ainda não rejista. A palavra é inglesa ances'tral, derivada de 
ancesHor, o qual provém do francês antigo ancestres, boje ancê- 
tres (latim antecessor). O adjectivo inglês ancestral é assim defi- 
nido por Webster: — «relating or belonging to ancestors or des- 
cending fron ancestors» — que se refere a antepassados ou Ibes 
pertence, ou deles descende — : faz parte de uma família de vocá- 
bulos composta de anee^tor, ancesto' rial, ancesHral, ancesHress 
e an'cestry. Em inglês, pois, está muito bem, e em francês ainda 
se tolera. Em português, porém, é tam absurda a sua adopção, 
como a do ridículo feérico, também muito do gosto dos literatos 
estranj eirados, pois nenbum radical português lhe serve de encosto 
ou explicação. O termo português que Ibe corresponde, con- 
quanto latinismo, é avito \ auitus,-a,-um { auus, «avô>, tanto 
no sentido de «pai do pai», como no de <avoengo>, «ascenden- 
te», « antepassado », já rejistado como termo poético por J. I. Ko- 
quete *, e no Contempobajíeo, que o abona com Alexandre Her- 
culano. — « Por medo ou conveniência haviam renegado da religião 
avita» — . 



1 DiCTIOXXAIRE PORTUGAIS-FRAXÇAIS, Paris, 1855. 



66 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Martinho Brederode usa duas vezes o vocábulo avito nos seus 

formosos poemetos, intitulados Sul * : 

O Fado, o mysterioso, avito encanto. 
Das guitarras, á noite, por ahi; 
Vozes de treva, tremulas de pranto. 
Fontes gementes, onde o Sol não ri! 



Que choras tu, ó Mar, que heróica historia 
Evoca a imprecação da tua voz? 
Es tu chorando a nossa avita gloria, 
És tu, ó Mar, és tu ou somos nós? 

O Novo DiccioNÁRio deu-lhe também cabida, assim como ao 
extravagante ancestral, o que é de sentir, pois o devera ter re- 
pudiado, ou pelo menos criticado no Suplemento, como fêz a 
outros vocábulos estranj eirados. 



anchão 
Em Groa esta palavra significa «boião» -. 

ancinho, ancinhar 

Além da sua acepção usual de um instrumento rústico, de 
que no Kiba-Tejo derivaram o verbo encinhar, equivalente a es- 
gravinhar, e que aí significa «limpar com ancinho», designa 
este vocábulo na rejião do Mondego uma rede, como vemos na 
revista Portugália ^i — «Eede de suspensão que se emprega 
principalmente para a captura do berbigão» — . 



1 p. 86 e 137, Lisboa, 1905. 

2 < Revista Lusitana >, vi, p. 76. Dialecto português de Goa, por 
Monsenhor Rodolfo Dalgado, que lhe não aponta étimo plausível. 

3 I, p. 381. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 67 



Sobre esta palavra diz F. Adolfo Coelho, na mesma Revista, 
o seguinte : — «A palavra . . . é, creio, a mesma que a italiana 
ancino, croque, remontando ambas a um latim vulgar hamicinus, 
do latim hamus anzol» — , que o mesmo escritor ' deriva de 
outro demiuutivo de hamus, hamiciolus. 

Todavia, para ancinho a etimolojia mais aceitável, e já 
proposta, é o latim uncinum. Efectivamente, se o étimo primor- 
dial fosse hamicinus para ancinho, hamiciolum para anzol, 
r;como se explicaria que do c latino, resultasse no primeiro vocá- 
bulo z, e no segundo, c, sendo em ambos os casos o c pretónico 
em latim? 

A favor de uncinum milita ainda a circunstância de a forma 
popular ser encinho no sul, incinho no centro do reino: cf. in- 
gàento e imhiyo, por unguento e umbigo. 

Há outra consideração de maior peso ainda, e é a seguinte. 
De c ou ti latino resultou z em português, logo que antes 
daquele havia uma vogal, o que muito bem exemplifica a pa- 
lavra anzol \ hamiciolum. 

Se hamicinum fosse o étimo de ancinho teríamos, em vez 
desta forma com c, outra com z, anzinho, como aconteceu com 
a citada, e também com onze, quinze, benzer, cinza, em todas 
as quais o c latino era precedido de vogal, undecim, quinde- 
cim, beuedicere, cinicia: visto que, por exemplo, uncia 
deu onça, sapientia, sabença, credentia, crença, etc, porque 
nestes, cojno em ancinho j uncinum, o c não estava precedido 
de vogal. A conclusão é que hamicinum não pode ser o étimo 
de ancinho, como hamiciolum o será de anzol. 



andejar, andejo 

O Novo DiccioNÁEio rejista o verbo andejar no Suplemento, 
com o significado «vaguear», e abona-se com Francisco Manuel 



ihid, p. 635. 



68 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



do Nascimento. O adjectivo andejo já estava incluído em outros 
dicionários, na acepção de « quem anda muito » (Contemporâneo), 
e em sentido figurado «versátil, desvairado». Conforme informa- 
ção, no Alentejo e em Coimbra mulheb andeja quere dizer 
«rameira» e esta expressão tanto pode filiar-se no sentido natu- 
ral da palavra, e corresponde neste caso ao francês coureuse, 
como no figurado «volúvel, mudável». Todavia, Bluteau no Vo- 
cabulário POETUGUEZ LATINO, admitindo a locução mulher an- 
deja, interpreta-a do modo seguinte: — «Andeja, ou Andeira, ou 
Andadoura, Molhar andeja, chamamos vulgarmente à que não 
pára em casa, e sempre anda pella Cidade, de huma parte para 
outra» — , o que perfeitamente se harmoniza com o adájio. Co- 
madre andeja, não vou a parte alguma onde a não veja, apon- 
tado por Delicado ^ e rejistado no Dicionário publicado pela 
Academia de Lisboa, vol. imico. 

andorinha 

Esta forma é explicada por F. Adolfo Coelho como deri- 
vada do latim hirundinem, isto é hirundi(ni)na ^, e melhor, 
a meu ver, por J. Leite de Vasconcelos, como um adjectivo 
hirundinea, com metátese nas primeiras sílabas, hinduri- 
nea, \ hirundo ^ igualmente. 

Qualquer que seja dos dois étimos o preferido, actuou em 
ambos a influencia do verbo andar. 



aneiro 

Este adjectivo, deduzido em português de ano, ou deri- 
vado do latino annuarium, por annuale { annus (cf. ja- 



^ Adágios Portuguezbs, Lisboa, 1651. 

2 Revista Lusitana, i, p. 135. 

3 ih. Ill, p. 268. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 69 



neiro | ianuarium), é definido, no Novo DiccionAeio, do modo 
seguinte: — «dependente da maneira como correr o anno; con- 
tingente, incerto » — . 

Todavia, no trecho que se vai ler o significado é bastante 
diferente, e não foi ainda apontado, que eu saiba: — «Possuo 
uns malapeiros antigos que são anneiros, isto é, dão muito 
num anno, e no seguinte não dão nada» — ^ 

Pelo contrário, caclaneiro quere dizer « que produz cada ano, 
todos os anos». 

Tanto um como o outro adjectivo são muito expressivos, 
mesmo pela oposição que entre si apresentam. V. cadaneíro, 
em cada. 

anglicano, ánglico 

Este adjectivo, que usualmente só se aplica às palavras reli- 
jião, igreja, para significar igreja anglicana, a oficial de Ingla- 
terra, foi por Manuel Severim de Faria empregado com o substan- 
tivo língua, para expressar a forma mais antiga do inglês, que 
sucedeu ao anglo-saxão, e que eu na Selecta de leituras in- 
glesas ^ denominei língua ánglica: — «as causas publicas se não 
tratassem senão na lingoa anglicana » — ^. 

Os ingleses chamam Anglian ou Anglo-Saxon, ao que eu 
denominei ánglico ou língua ánglica, idioma germânico usado 
entre meados do século vi e meados do xii, abranjendo portanto 
seiscentos anos. 

ani(e)lado 

Xo « Archeologo Português » * era um artigo de José Pessanha 
intitulado O Cálix de oueo do Mosteiro de Alcobaça, faz-se 



1 Gazeta das Aldeias, 1905, p. 247. 

2 Discursos políticos, in «Dicc. da Academia >, i, xxx, col. 2. 

3 Lisboa, 1897, p. 287. 
* v,p. 3. 



70 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



menção de «um tecido de ouro anilado* — . É evidente que 
anilado está por anielaão, isto é, esmaltado, e que em anilado 
se deu a absorção do e átono no i igualmente átono. Anielado 
é o particípio passivo do verbo anielar, mal formado do subs- 
tantivo nielo, «esmalte preto >, que rejistou o Novo Dicc-ioná- 
Eio, como procedente do latim nigella, o que deve ser exacto, 
mas por intermédio do italiano niello. 

Anilado, como significando « esmaltado », vem já em Bliiteau S 
devidamente abonado com um passo da Crónica de El-Kei Dom 
Manuel. 

É de estranhar que nem o Contemporâneo, nem o Novo 
Digo. rejistassem o vocábulo neste sentido, que também escapou 
ao Dicc. da Academia. 



anta; antela, antinha; mamoa, mámua, 

mamuinha, mamunha, mamuela, mamaltar; montilhão; madorra; 

orca; arcainha, q. v. 

Sobre todos estes vocábulos, quer primitivos, quer derivados, 
ver-se há com muito proveito o opúsculo de J. Leite de Vascon- 
celos, intitulado Portugal pbe-históbico ^, páj. 46-48, para* 
o qual remeto o leitor que deseje obter noções exactas e minu- 
ciosas acerca destes termos portugueses de nomenclatura arqui- 
tectónica pre-histórica, e das suas rigorosas definições. 

Com respeito à orijem do vocábulo anta, eis o que nos diz 
•Guilherme Smith: — «^antae: pilares quadrados que se acrescen- 
tavam em geral às paredes laterais de um edifício, de cada lado 
do portal, para ajudarem a formar o pórtico. Earas vezes se en- 
contram estes termos [o latino e o correspondente grego paeastá- 
DEs] no singular, porque o fim a que se destinavam as antas 



^ Vocab. port. lat. 

2 O número lOG (1885) da <Bibliotheca do povo e das escolas>, meri- 
tória colecção do editor David Corazzi, de barateza inexcedível. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 71 



era que ficassem fronteiras e sustentassem as extremidades de 
um mesmo teto» — '. 



antenal; mangas de veludo 

Este vocábulo empregado como substantivo, e que propria- 
mente parece ser um adjectivo substantivado, derivado de antena, 
não ocorre, que eu saiba, em dicionário algum da língua portu- 
guesa, mas só num bilingue. 

Na interessante e fidedigna obra de Jurien de la Gravière, 
Les Anglais et les Hollandais dans les mebs polalees 
ET DANS LA MEK DES Indes ^, a páj. 148 do tômo I lemos o 
seguinte: — «Vers le 20 mars, on avait vu beaucoup de ces 
oiseaux de la grosseur d'un oison [«patinho»], que les Portugais 
nomment antenales. Maintenant on était entouré de mangas de 
veludo, — manches de velours, — qu'on appelle ainsi parce qu'au 
bout de leurs ailes il y a quelques marques noires imitant le 
velours, le reste étaat blanc et gris. La rencontre de ces oiseaux 
est un Índice certain qu'-on n'est pas loin de la partie orientale 
du Cap [Cabo da Boa-Esperança] » — . 
' Refere-se o autor à narrativa de Linschoten. 

Se as duas expressões antenal (pi. antenais, e não antena- 
les) e mangas-de-veludo, como denominações vulgares, impostas 
provavelmente por marítimos, figuram, ou não, em escritores por- 
tugueses do século XVI, ou posteriores, e se ainda são usuais em 
qualquer parte do reino, é o que não ousarei afirmar, nem negar. 
Entendi, contudo, não desaproveitar a ocasião de tomar delas 
apontamento, para base de futuras indagações. Apresentarei mais 
o seguinte: 



1 G. Smith, Smaller Dictioxary of Greek axd Eoman antiqui- 
TiKS, Londres, 1871. 

2 Paris, 1890. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



No DicciONÁBio POETUOUEZ-FBANCEZ de J. I. Roqiiete * 
vemos inserida a palavra antennal, como portuguesa, traduzida 
para francês por — «anténale, albatros: oiseau de mer» — . 

apale 

Esta palavra, pertencente à língua dos cafres da Beira, na 
Africa oriental, é assim definida nuns interessantes estudos pu- 
blicados no Jornal das Colónias *, acerca de usos e costumes 
de Marromeu, por Jorje Epifânio Berkeley Cotter, funcionário ao 
serviço da Companhia portuguesa: — «Quando um ajjale (rapaz) 
chega á edade de oito a dez annos» — . 

apanha(s) 

Na publicação periódica Portugália ^ vem a seguinte des- 
crição do tear ordinário, usado no distrito de Viana-do-Castelo, 
na qual apenas suprimo os algarismos que se referem ao desenho, 
que aqui não reproduzo. 

— «As duas pernas de prumo da frente; as à.\\ai^ pernas de 
prumo das costas; as duas ynezas; os dois capiteis; as duas 
tramações dos capiteis; os dois p)ombos do órgão do panno; o 
órgão do fiado ou das costas; o orgck> do peito; o órgão do 
panno; os dois malhetes do órgão do peito; os dois pombos do 
órgão das costas; a roda dentada do órgão do panno, e sua 
espera; as duas varetas das queixas; a maçã ou pega das quei- 
xas; as duas peças das queixas; o eixo das queixas; os dois 
moitões para as lisseiras; o travessão dos moitões; as quatro 
chavelhas para o órgão das costas; as duas apanhas, premedei- 
ras ou pedaes; o tempereiro; os dois compostouros ; as lisseiras* 



1 Paris, 1855. 

2 30 de maio de 1903. 
J I, p. 374. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 73 

Aponto aqui em itálico os termos constantes desta nomen- 
clatura vulgar, que ainda não foram ou colijidos em lécsicos por- 
tugueses ou neles definidos nestas acepções; considerando não 
rejistados os termos ou acepções que não figuram no mais com- 
pleto desses lécsicos, o Novo Diocionábio, ou no Vocabulabio 
PORTUGUEZ LATINO de Bluteau, tam rico em meudíssimas defini- 
ções de termos vulgares. 

apani(a)guado 

Passando por alto como inaceitável a palavra jyano que o 
NOVO Diocionábio propõe por étimo do verbo apanicar, para o 
qual remete apaniguar, identificando-os, vejo que duas etimolo- 
jias teem sido propostas para o nome que encabeça este artigo: 
a primeira, por Duarte Núnez de Leão ^ a-pan-e-água; a se- 
gunda por F. Adolfo Coelho ^, exposta nos seguintes termos: — 
<^(A pref. e thema pani pão; para a formação que nada tem que 
ver com agua, como suppoz N. Leão, vid. Apaziguar e Sancti- 
guar» — . Seguindo este raciocínio, vemos em Apaziguar, no 
mesmo dicionário: — «A pref. e pacificar, cf. para a forma apa- 
niguado por apanificado, averiguar de verificar, ant. amorti- 
guar de mortificar, etc. 

Não seria muito fácil suprir o etc, e apesar de tam perentó- 
ria afirmativa, tanto amortiguar de mortificar, como averiguar 
de verificar não são tam seguros, que não precisem larga expli- 
cação, a qual ali se não encontra em nenhuma das palavras apon- 
tadas para confronto, nem nas remissões feitas em san(c)tiguar. 

Ora, as formas averiguar, santiguar, apaziguar, aniortiguAir 
são naturalmente erros de interpretação de gu, que do antigo 
expediente ortográfico por g passaram às ortografias posteriores, 
alterando a pronunciação, por má leitura, pois se o w houvesse 



1 Convém saber: Origem da lingoa portuguesa, cap. viii. 

2 DicciosARio manual etymolggico. 



74 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

de ler-se, a sua escrita antiga teria sido guo, como em loguo, 
por logo, aguoa, por água. Esta indução é confirmada pela cir- 
cunstância de nenhum desses vocábulos ser popular, sendo dois 
deles obsoletos, amortiguar, santiguar. 

Se porém a todas essas dições se podem atribuir as formas 
reais amortigar, apazigar, averigar, santigar, o mesmo não 
acontece com apaniguado, particípio passivo aparente de um 
verbo apaniguar, que parece não existir, e cuja forma antiga é 
apaniaguado, confirmada pela castelhana (a)paniaguado, de que 
proveio. Em Fernám Méndez Pinto lemos: — «E sem embargo 
de tudo isto o padre [Francisco Xavier] se embarcou nesta mesma 
nao para a China, mas bem diiferente do que ouvera de yr se 
fora com Diogo Pereyra, mas elle ficou em Malaca, e a nao foy 
toda por conta do capitão e dos seus apaniaguados, e com capi- 
tão posto de sua mão, e o padre foy Íngreme, sem autoridade 
nenhúa, ás esmolas do contramestre e sem levar outra cousa mais 
que só húa loba que levava vestida» — ^ 

Este passo é, em todos os pontos de vista, de muito interesse, 
não só por se referir ao apóstolo das índias, mas ainda como 
texto de linguajem, pois contém, além de outras locuções verná- 
culas, o vocábulo apaniaguado, e Íngreme num sentido muito 
especial, desusado hoje, e que talvez possa contribuir para se 
aclarar a sua orijem e verdadeira acentuação, pois a literária 
íngreme está em oposição com a popular ingríme. 

A forma completa, pois, da palavra de que estou tratando 
vêmo-la aqui, a-pan-i-agua-do, aportuguesamento da castelhana 
(a)-pan-i-agua-do, visto que é nesta língua, e não na portuguesa, 
que pan quere dizer « pão » . Assim, ser de alguém apaniaguado 
equivalia ao que hoje dizemos «estar às sopas de alguém». 

Vê-se bem que tinha razão o grande humanista do sé- 
culo xv-xvi, D. Núnez de Leão, e que bem fêz Bluteau ^ em 



1 Peregrinação, Lisboa, 1829, cap. ccxv. 

2 Vocabulário portuguez latino, sub. v. paniguado. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



O seguir, explicando-o nestes termos: — «Aquelle que como do- 
mestico da casa, recebe todos os annos do senhor delia alguma 
cousa para seu sustento. Chama-se « assim > porque antigamente 
a ração do paniaguado era pão e agua. Nos livros das Ordena- 
ções está Panigado, e Apanigado, mas o author do Eepertor. das 
Ordenaç. diz. Paniaguado» — . D. Núnez escrevera, loc. cit.: — 
«Apaniguado, de pane et aqua, quasi paniaguado» — . 

õFoi isto uma conjectura, um desejo de interpretar etimoló- 
jicamente um vocábulo, cujo verdadeiro sentido se perdera e cuja 
formação se ignorava? E esta a opinião de F. Adolfo Coelho, e 
neste caso apanigar seria uma forma parassintéctica, um derivado 
com preficso e suficso. 

Nos termos em que D. Núnez e Bluteau a analisaram é ela, 
pelo contrário, um caso, mais raro nas línguas românicas, de po- 
lissíntese, isto é, uma palavra composta, flecsionada como se fora 
simples, tal como, por exemplo, afidalgado j fidalgo } filho-de- 
algo, e em cuja composição os elementos estão em relação cir- 
cunstancial. 

Se analisarmos os verbos citados por F. Adolfo Coelho, e que 
transcrevi mais acima, vemos claramente que em nenhum deles 
a terminação -guar está com o radical, na mesma relação, que 
em apani(a)guado. Três teem por primeiro elemento adjectivos 
vero, morto, santo, e significam «fazer que fique verdadeiro 
morto, santo». O outro tem por base o substantivo _pa2'. e quere 
dizer «fazer que fique em paz». Ora, apaniguar, ou apaniaguar, 
se existisse, não equivaleria a « fazer que fique (em) pão » , e 
portanto essa derivação que se pretende dar a apaniguado é 
absurda, comparada com a dos vocábulos com os quais se con- 
frontou. 

Se as formas averiguar, amortiguar , apaziguar, santiguar 
se podem substituir pelos seus equivalentes formais e significati- 
vos verificar, mortificar, pacificar, santificar, outro tanto não 
aconteceria a apaniguar, que não corresponderia a panificar no 
sentido, como lhe não corresponde na formação. 

Por todos estes motivos parece preferível adoptar a explica- 
ção dada por Duarte Núnez e perfilhada por Bluteau, a qual é 



7tí Apostilas aos Dicionários Portugueses 



exactamente a que os dicionários castelhanos dão ao paniguaão * , 
de que procede o português apani(a)guado, sem verbo de que 
seja particípio, mas como adjectivo substantivado. 

Para confirmação do que fica exposto aduzirei uma informa- 
ção decisiva. No excelente estudo de Paalo Groussac, intitulado 
Le Commentateue du Laberinto [de João de Mena], lemos o 
seguinte: — «II s'agit de la petite rente appelée pan y agua, 
remplaçant Tancienue ration en nature des chevaliers pauvres 
(paniaguaãos) agrégés à une commanderie » — . í] em nota acres- 
centa, citando Dormer, Progeesos de la historia en Aragón 
(Çaragoça, 1680, páj. 540), um trecho da carta de Fernám Núnez, 
o Pinciano, a Zurita, em que lhe diz: — «De la tardanza de mi 
libramiento estoy en sospecha si ha venido alguna suspensión de 
Sa Majestad [Carlos v] en que nos quite ese pan y agua que 
nos daba» — . 

Creio ser decisiva a citação. 



aparadeira 

Em Caminha, e provavelmente em outras partes da província 
do Minho, dá-se este nome a uma bandejinha que apara os pin- 
gos da vela, no castiçal. É pois este um termo excelente para 
traduzir o vocábulo francês hohèche, substituindo-o em português. 

Nem é de estranhar a formação e aplicação deste derivado 
femenino do verbo aparar, visto que já temos o correspondente 
masculino aparador, que pelo sentido menos que aquele se liga 
ao expresso pelo verbo. 

aparamentos 

Esta forma, equivalente a paramentos, não vem rejistada nos 
nossos dicionários, e está para o substantivo paramentos, como 



^ DiCCIONARIO DE LA KbâL. ACADEMIA, 1S99. 



Apostilas aoa Dicionários Portugueses 



O verbo aparamentar, já colijido, para o verbo paramentar. 
Abona-se com o seguinte trecho do Padre António Francisco 
Cardim: — «preparou-se a varanda de alcatifas, e cadeiras de 
veludo bordado para os dois fidalgos, outra diferente para o 
embaixador, posta na cabeceira, com outros aparamentos visto- 
sos» — ^ 

ápeto, atom 

O conhecido etnógrafo A. Tomás Pírez, na revista Portugá- 
lia ', publicou um seu estudo descritivo dos amuletos usados 
pelos povos do concelho de Elvas. Entre outros vocábulos inte- 
ressantíssimos vem apontado este numa rima popular: — Onde 
está o ap[e]to e o atom / não faz o demo seu tom. Antes diz: — 
«Usam o aipo e o atom (Talaspia), mettidos em bolsinhas, ao 
pescoço, para preservarem do feitiço e do demónio» — . 

E singular esta forma ápeto, e não, apto, a medida do verso 
o está indicando, para designar o aipo, e não atino com a sua 
orijem. Outro tanto direi de atom, que apresenta uma terminação 
rara no português do sul. 

E evidente que o grupo pt é inadmissível em vocábulos 
de orijem popular, e por isso ou se haveria reduzido a ato 
(cf. atar \ aptare), ou uma vogal anaptíctica desuniria, como 
desuniu, as duas consoantes incompatíveis. 

apojar 

Este verbo é usado no Algarve, com a pronúncia apojar 
{ô átono na 2.* sílaba), e a significação «demorar-se>. O étimo 
é naturalmente podium, como supõe J. Leite de Vasconcelos ^. 



1 Batalhas da Companhia de Jesus na província do Japão, 
Lisboa, 1894, p. 50. 

2 I, p. 618-622. 

3 Revista Lusitana, vn, pag. 107. 



78 Apostilas aos Dicioyiàrios Portugueses 



apolentar 

Este verbo está registado no Novo Dicc, assim definido 

— «engordar com polenta» — . 

A polenta, no mesmo dicionário é descrita do seguinte modo; 

— «papas de farinha com manteiga e queijo ralado» — ; e no 
Suplemento acrescenta-se — «polendã o mesmo (i^q polenta. Em 
Veneza, é uma pasta grossa, teita de farinha de milho com água 
e sal, e serve de pão em certas refeições. Parece que também 
há polenda de farinha de castanhas» — . 

Efectivamente a polenta que lá comi era a que aqui se des- 
creve. Quanto à forma polenda, é sabido que em certas partes 
de Itália nd alterna com nt, ou o substitui, onde houve influen- 
cia do grego moderno, no qual nt se profere nd, em meio de 
palavra, ou de um para outro vocábulo, e como d no princípio 
de vocábulo. 

O termo polenta já era usado pelos romanos, aplicado a um 
«mantimento que se fazia de farinha de cevada torrada e prepa- 
rada de diversos modos» ^ 

Conforme Petròcchi, a forma mais usada é polenda; mas 
eu, em Veneza, ouvi chamar-se-lhe polenta. 

Não é porém da poleyita romana ou italiana que eu tratarei 
aqui, visto não ser tal nome conhecido cá pelo povo, e se fiz a 
citação referida, extratada do Novo Diccionáeio, foi apenas 
para pôr em dúvida, visto não estar ali abonado o vocábulo, a 
existência do verbo apolentar, com a significação que lá se lhe 
atribui. 

Nos meus apontamentos tenho o verbo apolentar, colhido na 
tradição oral, como termo da Beira-Baixa, querendo dizer « palpar 



1 Magnum Lejxicgx, Lisboa, 1819, onde se abona com Ovídio; Theil 
(DiCT. LAT. FR.) cita MacTóbio. V. também Septbm linguarum Calepi- 
Nus, 1758. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 79 

cora as pontas dos dedos a fruta, para experimentar se está 
madura». 

E duvidoso que este verbo com tal significado se possa rela- 
cionar com o substantivo pólen ta latino. 



apo(u)sentamento 

E este um dos poucos vocábulos portugueses em que o cor- 
responde a au latino, sem derivação imediata do castelhano, 
como bobo (q. v.), ou do latim popular, como j;o6re J p opere, 
por pauperem. Outro é apoquentar, e seus derivados, cujo 
étimo é jmuco. Todavia, é esta uma condensação moderna do 
ditongo ou, pois as formas antigas eram apouquentar, apousen- 
tar: — «hua escada de pedra per bonde sobem as casas de apou- 
sentamento do dito castello» — *. 

Outros vocábulos são foz | faucem, afogar [ effaucare, 
e poucos mais -. 

aquela, aquelar 

Assim como empregamos o substantivo cousa para suprir um 
nome, que na ocasião nos não ocorre ou não sabemos, e coiso 
por pessoa, do mesmo modo que os franceses usam machin \ ma- 
chine, e ainda como usamos aquela por « afeição » ; usam em 
Caminba aqicela, querendo significar «pessoa rica> e aquelar 
por «fazer qualquer cousa», e em sentido restricto por « limpar >. 

São exemplos da vitalidade criadora que ainda possui a lín- 
gua na boca do povo inculto. 



1 Auto de posse do castelo de Sines, de 24 de novembro de 1533, in 
Archeologk) português, X, p. 101. 

* V. J. Cornu, Gramraatik der portugiesischen Sprache, 2.'' edição, in 
Grundriss der Romanisch. Philoi.ogie, Estrasburgo, 1906, i, p. 937. 



80 Aj)ostilas aos Dicionários Portugueses 



araça, araça, araçai 

Esta palavra, que g Dicc. Contemporâneo e o Novo Dicc. 
acentuam araçá, e o Diotionaire portugats-prançais de 
J. I. Roqiiete * escreve araçaz, vêmo-la escrita sem acento grá- 
fico, araça, entendendo-se que será lida aráça, no «Bosquejo de 
uma viagem no interior da Parahyba e de Pernambuco» ^. 
Designa diversos vejetais e seus frutos, e deve ser palavra indí- 
jena do Brasil. 

Como, porém, no Vocabulário y Tesoro de la lengua 
GUARANI, ó MAS BiEN TUPI ^, do Padre António Ruiz de Mon- 
toya, ela figura na ii Parte com as formas Araçá, definida como 
Espécie de guayabas, e Araçaí, Arhol destas guayabas, vê-se 
que a verdadeira acentuação é a que os dicionários citados indi- 
caram. Por aí vemos também que o nome da árvore é ampliação 
do nome do fruto, e portanto denominação distinta, o que os 
ditos dicionários não apontam. A palavra não foi incluída no 
DicoioNARio DE VOCÁBULOS BRAziLEiROs, do Vizcoudc de Beau- 
repaire-Rohan *. 

aragão, pai-dos-caixeiros 

Em uma correspondência do Brasil lia-se este vocábulo, em- 
pregado como substantivo comum e explicado pelo seguinte modo: 
— « sino grande da igreja de Sam Francisco de Paula, que dá 
o toque para se fecharem os estabelecimentos no Rio de Ja- 
neiro» — . Outro nome que tem o festivo sino é pai-dos-caixeiros. 

Eis aqui o trecho do qual extraí a definição: — «O meu amigo 
talvez não saiba que ás 10 horas da noite corre aqui um grande 



1 Paris, 1855. 

2 inO Século, de 8 de junho de 1900. 

3 Nueva edición, Paris- Viena, 1876. 
* Kio-de-Janeiro, 1889. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 81 



sino da igreja de S. Francisco de Paula, o que indica a hora a 
que são obrigados a fechar todos os estabelecimentos que não 
teem licença especial. Chamam geralmente a este toque — o Ara- 
gão — , ou o pae dos caixeiros. . . a segunda [denominação] 
claro é que provém de ser aquella a hora que os caixeiros aca- 
bam a tarefa da noite » — . 

A orijem da primeira denominação dá-se na mesma corres- 
pondência por estas palavras: — «Deriva-se de ter sido um chefe 
de policia d'aquella cidade que estabeleceu que o sino corresse 
ás dez horas» — ^ 

aragoês, aragonês 

Hoje dizemos aragonês, limitaudo-nos a transcrever o caste- 
lhano aragonês, muito bem derivado de Aragón, naquela língua. 
Na portuguesa, porém, visto que o nome próprio de que se forma 
o adjectivo está aportuguesado, e bem, no uso comum, Aragão, 
o dito adjectivo deve ser aragoês, como se dizia e escrevia dan- 
tes: — «Porque como os Aragoeses que tem a mesma lingoa que 
os castelhanos » — - . 

A forma aragonês é um castelhanismo, como o são leo- 
nês \ leonês j León, castelhano \ castellano \ Castiella, forma 
antiga, correspondente à moderna Castilla, «Castela», pois anti- 
gamente dizíamos castelão. Luís de Camões, porém, usou da forma 
espanholada castelhano : 

Deu sinal a trompeta castelhana 
Horrendo, fero, ingente e temeroso 
Ouvi-o o monte Artabro, e Guadiana ^. 

O nome próprio do rio é castelhanismo também, pois a forma 



• O Economista, de 12 de agosto de 1885. 

2 Duarte Núnez do Leão, Origem da lingoa portuguesa, cap. xxv. 

3 Os Lusíadas, iv, 28. 
6 



82 Aj)Ostilas aos Dicionários Portugueses 

portuguesa é Odiana. Cf. Odemira, Odeceixe, Odelouca, nas 
quais a palavra arábica uad, «rio», está condensada em odi, ode. 

Com efeito, Kui de Pina ^ e Damião de Gróis, por exemplo, 
escreveram Odiana 2, e não Guadiana, que a pouco e pouco se 
foi difundindo, a ponto de ser hoje a única forma, pelo menos 
escrita, em português. 

O mesmo aconteceu com Badajoz, que dizíamos Badalhouce, 
escrita e pronúncia mais conforme com a arábica naxaLius. Vê-se 
porém que esta última designação geográfica entrou em português 
pelos olhos, e não pelos ouvidos, por isso que pronunciamos aí o 
y e o ^^ ao nosso modo, e não ao do castelhano actual. 

arcainha; arquinha 

É este mais um termo vulgar para designar a anta ou arca, 
e Yêmo-lo assim definido era uma monografia intitulada Mate- 
EiAEs PARA o ESTUDO DO POVO POBTUGUEZ ^: — « Os proprietarios 
e visinhos . . . deram o nome de arcainhas aos monumentos, e 
também o applicaram aos sitios em que se achavam» — . 

Arcainha parece ser um deminutivo de arca, mas diferente 
de arquinha, que tem a significação de « maquineta » — « deu 
uma arquinha de prata, para estar nella um Santíssimo Sacra- 
mento» — *. V. anta. 

arco celeste, arco-da-velha, arco-da-chuva, 
arco-de-Deus, arco-íris 

A primeira destas denominações é erudita, como a última, e 
coincidem ambas com as castelhanas, igualmente cultas. O nome 



1 Crónica de Dom Afonso v, cap. 138. 

2 Crón. de El-rbi Dom Emmanuel, cap. vi. V. também G. Viana, 
Ortografia Nacional, p. 199. Lisboa, 1904. 

J in Portugália, i, p. 13. 

* O Archeologo português, V, p. 3. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 83 

vulgar em português é no continente arco-da-veJha, que Fr. Heitor 
Pinto * explica haver sido dado — «porque na Lei velha disse 
Deus que nas nuvens poria este arco por sinal de paz entre si 
e os homens» — . Assim será; mas nesse caso teria esta deno- 
minação também orijem não popular. 

Os outros dois nomes, arco-de-Deus e arco-ãa-chuva, vêem 
apontados pelo Dr. Hugo Schuchardt nos Estudos Crioulos ^ 
sendo o primeiro análogo ao explicado por Heitor Pinto, porém 
menos artificial, e o segundo de carácter enteiramente popular, 
que por si mesmo se explica. Não sei se algum deles é também 
usado no reino, 

areisco, arisco 

Este adjectivo, cuja orijem é o substantivo areia (cf. pedrisco, 
de pedra), é hoje quási somente empregado em sentido translato, 
equivalendo a «rebelde», «arredio», «bravio». 

Como já temos a locução terra areisca, terra arisca, rejistada 
no Contemporâneo, e em que o adjectivo citado tem o seu signi- 
ficado natural, poderíamos muito vernaculamente substantivar 
este femenino, subentendendo a palavra (xwdra), areisca, ou 
arisca, usando deste adjectivo substantivado para designarmos 
o que por galicismo se diz grés, e que A. Gonçálvez Guimarães ^ 
propõe se diga, com menos propriedade, arenito. Os espanhóis 
chamam-lhe com muito acerto (piedra) arenisca, como chamam 
ao calcáreo (piedra) caliza, e eu tenho nos meus apontamentos 
ainda outro nome, pedra-grão. 

Assim, se continuam os geólogos e os mineralojistas a dar- 
Ihe nome francês, não é por falta de nomes portugueses: pedra- 
grão, arenito, arenisca, (pedra) areisca, pedra arisca, os últi- 
mos dos quais, com serem portugueses lejítimos, coincidem per- 



» apud Bluteau, Voe. port. latin. 
2 Krbolische Studiex, IX, p. 129. 
5 Elementos de Geologia, 2.* ed., Coimbra 1897, p. 130, n. g. v. 



84 Ajyostilas aos Dicionários Portugueses 



feitamente com a denominação espanhola areyiisca, e com a 
inglesa sandstone, ou alemã sanãstein, que ambas significam 
« pedra-areia » . 

Poderia portanto usar-se simplesmente areisca, como substan- 
tivo, suprimindo-se a palavra jmdra, como aconteceu a cantaria, 
que dantes era adjectivo, pois se dizia pedra cantaria, como 
vemos em Eui de Pina. — «E tanta ordem e diligencia se pôs 
nisso acerca da pedra cantaria, e cal, e madeira» — ^ 



argamassa 

Qualquer que seja o étimo deste vocábulo, que também existe 
em castelhano, argamasa, o certo é que se deve escrever com 
5.9; e não com ç, atenta a forma espanhola, e haja, ou não, ali a 
palavra massa; ao contrário do nome que dão a um bolo, maça- 
2)ão, em que tal vocábulo não existe, pois em castelhano se diz 
mazapán, o que prova dever escrever-se em português com ç e 
não com ss. 

A palavra argamassa, como termo de calão, quere dizer « co- 
mida», o que se encontra documentado pelo trecho seguinte: — 
«Lavaram-me, cortaram-me o cabello, mas a respeito de arga- 
massa. . . pão e agua, porque era dia de jejum» — -. 



arlequim 

No Suplemento ao Novo Diccionábio inscreveu-se este vo- 
cábulo, como de gíria, com a significação de — «restos de carne, 
peixe ou de qualquer iguaria, que ficam das refeições, dos cria- 
dos das casas ricas » — . Duvido da existência em português de 
semelhante palavra, que creio foi empregada numa afamada tra- 



1 Crónica de El-rei Dom Afonso v, cap. cxm. 

2 O Dia, de 25 de setembro de 1902. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 85 

dução do romauce de Eugénio Sué Os mistérios de Paeis, na 
qual se procurou, bem ou mal, verter todas as muitas expressões 
de gíria que ali se encontram, inventando-se umas, aportugue- 
sando-se outras temeráriamente, com o fim de reproduzir, com 
uma afectada e imajinária exactidão, as locuções do argot francês. 
Ora, arlequin, nesse calão parisiense, quere dizer, pouco mais ou 
menos, o que os espanhóis denominam 7-opa vieja, isto é, con- 
forme a definição de Emílio Littré : — « débris de repas, et sur- 
tout débris de viandes, ainsi dit parce que ce plat, que Ton veud 
pour la nourriture des animaux domestiques et que les pauvres 
ne dédaigneut pas, est composé de morceaux assemblés au ha- 
sard» — '. O nome pois foi-lhe imposto por comparação com a 
vestimenta dos arlequins, feita de remendos de várias cores. 



armada 

— «E com elle [o visgo] que se apanham nas armadas os 
pintasilgos e pintarroxos ... As armadas são unicamente feitas 
ás aves que costumam de preferencia pousar nas pontas dos ra- 
mos» — -. 

Cf. armadilha, e armar aos pássaros. 



armamento; armar, armado 

Este substantivo conhecido, derivado do verbo armar, tem, 
além dos seus diversos significados, mais ou menos relacionados 
com o étimo primordial arma, outro muito especial, exemplificado 
pela seguinte definição: — «Curioso amuleto composto de sino- 
saimão, meia lua e coração; deve ser de ferro ou aço e traz-se 



1 DiCTIONJÍAIRE DE LA LANGUE FRANÇAI8B, Paris, 1881. 

* G. Pinho, Ethnographia Amarantina, A Caça, in Portugália, 
II, p. 96. 



86 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

ao pescoço para preservar de ataques epilépticos» — ^. Quere 
dizer «guarnição completa». 

Armado, indicando « vestido de armadura » , usava-se dantes 
não só com relação às pessoas, mas também aos cavalos, cor- 
respondendo neste caso ao qiie em francês se dizia barde: — 
«E saíram logo delles quatrocentos de cavalo em cavalos ar- 
naados» — -. 

A7'mar no sentido do francês monter, que modernamente 
por galicismo se traduz por montar, significa « dispor e ligar as 
peças de um qualquer maquinismo (por exemplo), de maneira 
que fiquem todas conjugadas e no seu lugar». 



armazém 

O povo diz almazém, e diz bem, mas já não é tempo de re- 
mediar a emenda falsa. Os nossos autores antigos escreveram 
sempre almazem, como, por exemplo, Kui de Pina; — «foi en- 
viar-lhe [ao infante Dom Pedro] El-rei [Dom Afonso v] com muita 
estreiteza requerer entrega das armas do seu almazem» — ^. 

Este passo do cronista patenteia claramente a influência exer- 
cida pelo vocábulo arma na deturpação da palavra almazem. 

Bluteau, conquanto já rejiste armazém, forma preferida pelos 
lecsicógrafos modernos, dá a primazia à antiga forma, que é ainda 
hoje a castelhana, almacén, do árabe AL-Ma^zaN, ou AL-ManzaiN *, 
do qual os franceses tiraram também o seu magazín, com su- 
pressão do artigo al. A palavra árabe significa « (casa de) arre- 
cadação», e é um substantivo verbal, correspondente à nossa 
terminação -ouro, isto é, designa o lugar onde se exerce a 



1 Portugália, i, p. 603. 

2 Kui de Pina, CiióxiCA de El-rbi Dom Afonso v, cap. Cxli. 
^ Crónica de El-rei Dom Afonso v, cap. xciv. 

* O ?/ é transliteração da 5.* letra do abecedário arábico, equivalente ao 
; castelhano actual. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 87 



acção expressa pelo verbo de que deriva, convém saber, Hazaxa, 
« arrecadar » . 

Nem pode duvidar-se de que a forma armazém sofreu a 
influencia do vocábulo arma, visto que, se na palavra argola 
o artigo arábico al está representado por ar, é porque houve 
dissimilação do l da última sílaba: cf. o suficso al, como em 
social, que passa a ar, quando no radical há l; ex.: regular, 
dissimilação que já se dava em latira. 

O n da palavra árabe, que por ser final passara em português 
a nasalizar a vogal que o precedia, reaparece no verbo armazenar, 
como acontece em vintena comparado com vintém, em ajardinar 
comparado com jardim. 

A etimolojia de almazém foi já apontada por João de Sousa ^ 



aro 



Xa Beira-Alta, e Alto-Minho é o nome que se dá ao cmto 
que circunda e aperta os queijos discoides, e que no sul se chama 
« cincho » -. 

arrasta, arrastador 

O Novo DicciONÁKio rejista o primeiro destes vocábulos duas 
vezes, a primeira no corpo da obra, com a significação de «zorra», 
como termo transmontano, a segunda no Suplemento, como pala- 
vra do Riba-Tejo, significando a — « corda com que se laçam os 
bois pelas hastes». Y. corda. 

O segundo destes vocábulos não vem, que eu saiba, especial- 
mente consignado em nenhum dicionário, e não obstante isso, 
designa êle na ilha da Madeira o «ascensor». 

E evidente que, tanto uma como a outra palavra, se derivam 



J- Vestígios da lingoa. arábica em portugal, Lisboa, 1830. 
^ Revista lusitana, ii, p. 33. 



88 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

do verbo arrastar, sendo a primeira um substantivo rizotónico, 
do tipo lavra } lavrar, espera j esperar, a segunda um adjectivo 
verbal substantivado como coador j coar, atacador j atacar, 
assentador j assentar^ etc. 

Em castelhano o verbo correspondente tem a fonna arras- 
trar j rastro, e nesta não se deu a dissimilação que observamos 
nas formas portuguesas, com relação ao seu étimo latino ras- 
trum; rastro em português é desusado. 

Numa acepção especial, filiada na mesma terminolojia, há 
em espanhol a palavra arrastradero, que se aplica ao sítio 
por onde se arrastam para fora da praça-dos-touros os ani- 
mais mortos na corrida. Como é sabido, o suficso -ero corres- 
ponde a -ouro em português, e designa o lugar onde se exerce 
a acção expressa pelo verbo, como em lavadero \ lavar, port, 
lavadouro; quemadero [ quemar, port. queimadouro j quei- 
mar; abrevadero \ abrevar «dar de beber», «abeberar», port. 
bebedouro ! beber. 



(de) arredio: arredar 

Esta locução adverbial, formada com a preposição de e o 
adjectivo arredio, pronunciado, em geral, arredio, no Continen- 
te, o que dificulta a sua identificação com o latim erratiuum 
(Cf. sadio, antigo saadio \ sanatiuum), tem na ilha de S. Mi- 
guel a significação «de longe» ^ que parece deduzida da que 
apresenta o verbo arredar, o qual todavia se não pronuncia arre- 
dar, mas sim arredar. 

Como em castelhano arredar se diz arredrar \ a d- re- 
trare \ retro (?), e arredio, ao contrário, tem nesta língua a 
forma radio, incompatível com o mesmo étimo, é claro que 
arredio tem de separar-se de arredar, com o qual o parentesco 
é apenas aparente, sendo a coincidência quási absoluta de forma 



V. O SacuLO, de 5 de julho de 1901. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 89 

nas duas palavras arredar e arredio puramente casual, conver- 
jéucia do efeito das leis fonéticas que operaram nos seus étimos 
latinos. 

No verbo redrar \ rutrare \ rutrum (?), ou de retro (?) 
não se deu a dissimilação de que oferece exemplo arredar, com 
a perda do r do grupo dr \ tr, se o étimo oferecido por Coelho ' 
é certo, do que duvido. 

Em resumo, arredio pode considerar-se como provavelmente 
derivado de erratiuum, o que é corroborado pelo castelhano 
radio (cf. entrevado por entravado), e de todo independente 
de arredar, arredrar, que pode ser desenvolvimento de re- 
drar \ reiterare, sendo neste caso redra um substantivo verbal, 
rizotónico. 

arredores 

Esta palavra tem no Algarve (Lagos pelo menos) uma acep- 
ção especial, que julgo não estar consignada nos nossos dicioná- 
rios, mas que vemos perfeitamente definida no seguinte trecho: 
— «A meia altura d'ellas [mós] ha uma travessa d'uns quatro 
dedos de largo, a rodeal-as, excepto no sitio em que cahe a fari- 
nha: chamam-lhe os arredores > — -. 



arrelicas, arrelíquias 

A segimda destas duas formas populares, a par da culta re- 
Uquia(s), e que parece devida a se haver soldado a esta o artigo 
a (cf. arraia), é assim aduzida por J. Leite de Vasconcelos: — 
« Na moderna tradição portuguesa não conheço amuleto algum 



1 Dicc. Man. Etym. da likgua portugueza. 

2 J. Núnez, Costumes algarvios: Os moinhos, in Portugália, i, 
p. 386. 



90 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



craniano; apenas tem voga as arrequias dos ossos de santos, 
trazidas em saquinhos ao pescoço» — ^ 

A primeira, redução do esdrúxulo a vocábulo parocsítono 
(cf. povo, aut. povoo I populum, hravo j barbarum) está defi- 
nida, em sentido mais especial, no seguinte passo: — «As arreli- 
CAS. Um pequeno objecto de prata, em que estão promiscua- 
mente representadas a meia-lua, a figa, o signo-sámão, o coração, 
a chave, a argola, tudo encimado pela effigie de Nossa Senho- 
ra*— 2. 

A escrita ultra-etimolójica signo-sámão não deve iludir qual- 
quer pessoa que conheça a denominação dos dois triângulos com- 
binados, o pentágono, a qual se pronuncia sino-sà(i)mão, e que 
procede do latim signum Salomonis, o que é sabido. Como 
ninguém escreve sino, sineta, sineiro, com g nulo, por isso 
chamo àquela escrita ultra-etimolójica. 

A palavra arrelíquias, arrelicas é semi-erudita, visto que se 
manteve nela o q latino: cf. águia { aquila. 

arrenega, greve, grevista 

O vocábulo francês greve tomou já foros de cidade em Por- 
tugal, o que não é de estranhar, pois o costume, bom ou mau, 
conforme o conceito ou o interesse de cada um, e cuja crítica 
não seria apropriada nesta simples resenha de palavras e locu- 
çõeS; o costume, digo, veio de fora, e por emquanto ainda se não 
enraizou cá. Esta forma de protesto colectivo e solidário, a que 
os franceses chamaram greve, do nome de uma praça, a de Greve, 
onde se reuniam os ganhões que vinham ajustar-se para trabalhar, 
denomina-se huelga, «folga» e pare, «parajem», em Espanha, e 
cá poderia chamar-se {as)sueto ^. A palavra greve, porém, está 



1 Portugal pre-historico, p. 36. 

2 Portugália, i, p. 019. 

3 — «Na quarta-feira [depois da Páscoa] que alguns lentes considera- 
vam dia de sueto ou assueto, como então se dizia > — . António de Campos, 
Luís DE Camões, in <0 Século > de 10 de julho de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 91 



em perfeita concordância formal com outras, como neve, breve, 
leve, e não há pois motivo, para a rejeitar. Sucedeu-lhe como a 
outro vocábulo também francês, morgue, que, pela sua forma sim- 
ples e fácil de proferir e de conservar na memória, nunca popular- 
mente será substituída pelo longuíssimo necrotério^ apesar de 
que a existência de cemitério poderia favorecer a adopção. 

Outro vocábulo castelhano para designar sueto, on folga, mas 
que não vem rejistado no Dicionário da Academia Espanhola, é 
huena, abonado pelo trecho seguinte, ainda que português: — 
«Era o que faltava, perderem-se as horas de buena a compor a 
taiimba» — '. ■ - 

Tudo isto vem, ou não, a propósito de um sentido particu- 
laríssimo, um tanto calão, em que vimos empregado o substantivo 
verbal arrenega \ arrenegar, correspondente popular, mas tam- 
bém clássico do verbo renegar, usado, por exemplo, na obra do 
Padre António Cardira, Batalhas da Companhia de Jesus na 
província do Japão ^. 

Esse sentido particular induz-se do seguinte trecho: — «E ou- 
tros dias anda a gente na arrenega, e não trabalha» — ^. 

Está aqui o vocábulo, na acepção de «folga» ou «folgança». 

E sabido que arrenegar-se tem na linguajem familiar o si- 
gnificado de «zangar-se», e que uma 'pessoa arrenegada, é 
aquela que facilmente se irrita, que mostra mau modo, a quem 
os franceses chamam bourru, e os ingleses cantankerous. 



arribas 

Conquanto muito usado este vocábulo, no plural [cf. riba e 
(ar)raia], no sentido de «fragas à beira-mar», correspondente per- 



1 Ethnographia do Alto- Alentejo, in Portugália, i, p. 542. 

2 Lisboa, 1894, p. 64. 

3 O Dia, de 30 de março de 1903. 



92 Âj)ostilas aos Dicionários Portugueses 



feito do francês falaises, não o vi ainda rejistado, em tal acep- 
ção restrita, em nenhum dicionário português. 

Usei deste termo, para traduzir falaises, nas notas á Selecta 

DE AUTOEES FRANCESES ', a p. 148. 



arrilhada 

Nos meus apontamentos, mas sem abonação, tenho este vocá- 
bulo, como usado em Montemor-o-Novo, com a significação de 
«bico de ferro da aguilhada». 

Não está consignado nos dicionários portugueses, que eu saiba, 
nem tampouco em outra acepção, usada, como me informa o 
editor deste trabalho, desde Cezimbra até a Nazaré. E uma 
espécie de raspador composto de ferro triangular, de um palmo 
de comprimento, cuja base é o gume, e em cujo vértice se insere 
um cabo de madeira: serve para arrancar da rocha a serrada, 
ou minhoca de água salgada. Serve para isco a serrada. 



arrió, arriós, arrioz, arriol 

A terceira destas formas é definida no Novo Diccionáeio 
como significando — «pedrinha redonda com que se joga o alguer- 
gue; pelouro de arcabuz».— No Suplemento ao mesmo copioso di- 
cionário diz-se ser — «jogo de rapazes com a pedra do mesmo 
nome» — , equivalendo portanto ao citado alguergue. 

Como o mesmo dicionário dá também a forma arriol tras- 
montana, segue-se que temos aqui um caso como o de eirós \ ei- 
ró \ areola, e conseguintemente a escrita arrioz deve ser orto- 
grafia errónea. Cândido de Figueiredo atribui ali ao vocábulo um 



Lisboa, 1897. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 93 



étimo arábico muito problemático; mas o outro, alguergue, é sem 
dúvida de tal proveniência. 

,-:Qual é porém a orijem de arrió, arriós, ou arrioh e qual 
o seu primitivo significado, pois vemos que tem três: «pedra 
redonda», «pelouro (de pedra) para arcabuz», e um «jogo em 
que figura uma pedra como elemento » ? 

Vê-se perfeitamente que o desenvolvimento de significação da 
primitiva «pedra esférica» poderia ter-se dado, por uma parte 
aplicando o vocábulo a qualquer pedra redonda, ou arredondada, 
por outra denominando o jogo pelo instrumento dele, como dize- 
mos a malha, pelo jugo da malha. 

Para a investigação do seu étimo não é porém indiferente a 
ordem por que se desenvolveu a significação primordial desta pa- 
lavra. 

Como, para justificar a acepção de «pedra», não há nem em 
latim, nem em árabe, nem em qualquer língua germânica vocá- 
bulo que possa apresentar-se como orijem deste, que parece ser 
antigo na língua, é-nos lícito procurá-lo em outro idioma, do 
qual o português haja recebido palavras, ainda que raras, e com 
que estivesse em possível contacto. 

Não resisto à tentação de, como simples hipótese, o conside- 
rar um dos poucos vocábulos vasconços que passaram a Portu- 
gal, assim como na realidade passou esquerdo, formas antigas, 
esquerdo, escequerdo, castelhana izquie^-do, em vasconço ez- 
quer \ escu, « mão » e oquer, « torto, canho » ; palavra que tanto 
em português como em castelhano substituiu as antigas dições 
se(e)stro, siniestro \ sinistrum, a primeira das quais ainda 
perdura em port. como substantivo, com a significação de «bal- 
da», «hábitos ruins» e a segunda em espanhol, com a de «desas- 
tre». Outra palavra de orijem vasconça parece ser gualdir j ^«7- 
du, « perder(se) » . 

Neste idioma pirenaico pedra diz-se ar7'i, que vemos no ape- 
lido Arriaga, procedente de Espanha, e que lá é também o 
nome de um lugar na província de Alava (ou Alava, como acen- 
tuam os castelhanos, ao contrário da acentuação orijinal), e de 
lugarejos nos subúrbios de Vergara, Vitória, Guernica, tudo nas 



94 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Vascongadas, onde também se encontra o radical arri em Arrio- 
la, nome de povoação naquela e na de Guipúzcoa ^ 

O suficso -aga de Arriaga tem valor colectivo, equivalendo 
o derivado a «pedreira, ou pedraria, pedregal» (V. em azi- 
nhaga). 

Se, porém, partirmos da hipótese que a acepção primitiva 
haja sido «espécie de jogo», neste caso ser-nos há inútil ir pro- 
curar o étimo a idioma tam exótico, pois o temos muita à mão 
na fonte principal do nosso vocabulário. Em castelhano o jogo a 
que nos referimos denomina-se rayuela, forma deminutiva de 
raya «risca», do latim radia, plural de radium {oí. piniien- 
ta { pigmenta, pi. de pigmentum), e este nome procede do 
traço ou risco feito no chão pelos jogadores, e que serve de meta 
para a projecção da pedra, arremessada com uma pancada de um 
pé, emquanto o outro está no ar. Ora, à forma rayuela, corres- 
ponde em português raiola, ou rayoula (cf. lentejoula com len- 
tejuela, tejolo com tejuelo), e do primeiro, raiola, com a adjun- 
ção do artigo a (cf. arraia \ raia), resultaria a forma arraiola, 
da qual proviria arraio (cf. abuela com avó), e pela condensa- 
ção do ditongo (cf. rial, arraial) arrió, cujo plural arriós, seria 
ao depois tomado como singular: [cf. eiró(s), e a forma popular 
poses, por pós\ ilhó(s), ilhós(es), (q. v.). 

Como, porém, a palavra é masculina, o processo de deriva- 
ção pode ainda, com menor probabilidade, ter sido o seguinte: 
radiolum \ raiolo, \ raiol, j riol \ riô, menos plausível visto 
que por ele se não poderia explicar nem o a inicial, nem o 
ó- aberto (cf. avô | auolum. Paço \ palatiolum, Mostei- 
ro j monasterioium, com Orijó \ ecclesiola). 

Em qualquer caso a forma arrioz, com z, é injustificável. 



1 «Geografia General de Espana >, DicciONARIO de todos 1,08 pite- 
BLOS DE Espana, Madrid, 1862, p. 2C, col. i. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 95 



arrunhar, arriunhar, arrunhar 

É forma conveijente de dois vocábulos euteirameute dis- 
tintos, 

1.** arrunhar \ arruinar. 

2." arrunhar, correspondente ao proençal reãonhar, francês 
royner, de aã-roiundeare, verbo derivado de rotiindum, 
« redondo » . 

Veja-se Kevista Lusitana, ii, p. 82, onde José Leite de 
Vasconcelos, em nota, deixou o caso perfeitamente averiguado, 
acrescentando mais a forma minhota arruinhar, tetrassílabo, 
para explicar arrunhar = <^ arminhar ^ , e para a qual deve ter 
havido outra forma ainda, intermédia, arrular. 



artemajes 

Esta palavra, popular uo Alto-Alentejo, vem assim definida 
no belo estudo de J. da Silva Picão, intitulado Ethnogeaphia 
DO Alto-Alextejo *: — «São para a rapaziada fazer artemages. 
nome que em calão local significa exercidos gymnasticos e acro- 
báticos » — . 

(altesa) artesa, artesão 

No estudo de J. da Silva Picão, já por vezes citado aqui, e 
que se intitula Ethxogeaphia do Alto-Alentejo ^, vem este 
vocábulo: — maltesas de madeira e alguidares de barro para os 
amassilhos» — . 

É corrutela de artesa, que vemos rejistado no Contemporâ- 
neo, e no Novo Diccionáeio, mal escrito com z em vez de s. 



1 ?■« Portugália, I, p. 542. 
* »i Portugália, I, p. 539. 



96 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Em castelhano, como em português, artesa, ainda que actual- 
mente com pronunciação diversa dada ao s, quere dizer: caixote 
de quatro faces iguais, que vai estreitando para o fundo, e serve 
para amassadouro do pão. 

O étimo é desconhecido, pois o grego ártos que se lhe atribui 
não oferece confiança alguma. De artesa vem artesão, como termo 
de arquitectura, o qual também se deve escrever com s, como 
em castelhano artesôn. 

arujo 

Em Trás-os-Montes é o mesmo que «argueiro». 
Em castelhano orujo é o «bagaço da uva». 



arvoar 

Este verbo quere dizer, conforme os dicionários «entonte- 
cer». D. Carolina Michaelis já lhe deu a orijem; é o latim her- 
bulare, «envenenar» ^ com hervas». Cf. hervar, no mesmo sen- 
tido, por exemplo em frechas hervaãas. 



asada, asado 

A forma masculina deste adjectivo substantivado, como nome 
de um vaso com asas, já está consignada no Novo Diccionário, 
e é muito freqiiente no norte do reino. A forma femenina parece 
ser usual no Alentejo, visto que a encontramos empregada por 
J. da Silva Picão, na Ethnogeaphia do Alto-Alentejo *: — 
«azadas para a coagulação do leite, para a coalhada, como vul- 
garmente se diz» — -. 



1 Revista Lusitana, i, p. 298. 

2 in Portugália, I, p. 540. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 97 

Há aqui mais a rejistar a abonação do termo coalhada. 

Parece que nem asada, nem asado são usados no centro do 
reino, ou pelo menos em Lisboa, 

O Dicionário da Academia define asado como «panela com 
asas». 

E sabido que asa é o ansa latino e que, além do significado 
deste, compendia também o de ala, que depois de ter passado a 
««^desapareceu enteiramente do uso, visto que o latinismo ala tem 
sentido muito restrito. Exemplo de aa ainda o encontramos no 
KoTEiBo DA Viagem de Yasco da Gama *: — «non tem penas 
nas aas > — . 



ascoitar 

Esta forma popular minhota, correspondente à do sul escutar, 
forma antiga escuitar, e como esta derivada do latim auscul- 
tare, é quasi igual à galega escoitar, que vemos empregada 
nestes hiperbólicos, mas formosos versos, consagrados por Alberto 
Garcia Ferreiro ^ à Corimha, ao avistar esta cidade: 



Chorei, qu'eu non saberia, 
— ; e San Pedro non m'escoite ! , ■ 
d'e3Coller, qu'escollería, 
;s'entrar n-a Cruna de noite 
ou entrar n-o ceo de dia! 



Este elojio à formosa cidade galega em nada é inferior ao 
consagrado à risonha Granada: 



Hízo Dios á la Alhambra y á Granada, 
Por si le cansa un dia su morada. 



1 Lisboa, 1861, p. U. 

2 Follas de papel, Madrid, 1892. 

7 



98 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



aselha 

Conquanto este vocábulo não seja tam evidentemente um 
deminutivo de asa como parece e os lecsicógrafos modernos o 
afirmam, tem o significado de «asa pequena de vasilha» no trecho 
seguinte ^: — «Manufacturados os primeiros vasos sob a inspira- 
ção floral ou dos fructos, apodes, sem aselhas e cabos» — . 

A acepção usual é «laçada», o que em inglês se diz hop, e 
substitui a casa, para se abotoar um vestido, entrando nela o 
botão. J. Cornu deriva-o de ansicula. 

asneiro, asneira 

Como adjectivo quere dizer o que procede de asno, «burro». 
O Novo DiccTONÁEio define assim: — «diz-se da besta que pro- 
cede de burro e égua, ou de cavallo e burra» — . Não é exacta 
a definição; a verdadeira contém-se na seguinte citação: — «Bas- 
taria a creação de algumas candelárias, onde se ensaiasse a crea- 
ção de muares asneiras (filhas de cavallo e burra), muito mais 
resistentes a horse-sieJcness do que as [muares] eguariças (filhas 
de burro e egoa)» — ^. 

Vê-se: 1.° que as bestas são muares; 2.° que há diferença, 
determinada pela mãe, que é quem dá o nome: se é jumenta, a 
muar é asneira, se é égua, eguariça. 

Já Bluteau mostrava bem que havia distinção, ao citar Galvão, 
Tratado da Gineta: — «As bestas muares egoariças e asnei- 
ras-» — ^ 

assedajem 

Este vocábulo, ainda não incluído nos dicionários, é assim 
definido por Belchior da Cruz no seu interessante estudo intitu- 



1 Eocha Peixoto, As olarias do Prado, in Portugália, i, p. 229. 

2 Jornal das Colónias, de 15 de julho de 1905. 

' Vocabulário portugubz latino, sub v. asneiro. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 99 

lado < Industria caseira de fiação, tecelagem e tingidura de subs- 
tancias textis no districto de Vianna do Castello» ^ e onde tantos 
curiosos termos se encontram: — «A assedagem é uma operação 
que tem por fim endireitar e apurar os filamentos (do linho), 
continuando a separar d'elles quaesquer substancias estranhas, 
como as arestas. Faz-se com cardas ou pentes. As cardas do 
linho teem o nome especial de sedeiros-» — . 

É provavelmente formado pelo autor, derivando-o natural- 
mente de assedar, já definido em vários dicionários. Asseda- 
mento seria talvez preferível, se assedajem se não divulgou 
ainda. 

assobio; assobiar, sobiote 

É sabido que este verbo procede do latim ad-sibilare, e 
que a pronúncia predominante antes era assoviar, com v e não b. 
O o pelo i latino foi produzido pela influencia da labial. 

O substantivo assobio, ou assovio, ora designa o acto de 
«assobiar», ora o instrumento com o qual se produz o «assobio» 
soprando, e a que também se chama apito, em castelhano pito, 
de orijem desconhecida. 

Sobiote, é um deminutivo do tipo caixote, franganote, ve- 
lhote, e em Trás-os-Montes é nome de um apito de metal, ou 
de madeira *. 

Assobio d'água, é uma espécie de ocarina, de barro, com a 
qual se imita o canto do cuco ^. 

assorear, assoreamento 

Este verbo e o substantivo dele derivado são muito usados 
modernamente, ora escritos, com ss, como considero ser a verda- 



1 in Portugália, i, p. 371. 

2 Trindade Coelho, abc do povo, p. 5. 

^ Kochi Peixoto, As olarias do prado, ím Portugália, i, p. 258. 



100 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

deira ortografia, e mesmo a mais comum, ora com ç, açorear, 
que tenho por errónea, pois é impossível que tais vocábulos pro- 
venham de açor, ou de Açores. O étimo, não provado, mas pro- 
vável, será a-sorear, sendo sorear uma contracção de so-arear, 
pois à preposição e ao preficso latino sub correspondia no portu- 
guês antigo só, e não soh, que é de introdução moderna, talvez 
feita por Alexandre Herculano. 

Eis aqui dois exemplos, que abonam o verbo e o nome: — 
« O mar não cessa de lamber a areia que forma a praia de Espi- 
nho. Nas chamadas Pedras do Brito deixou a descoberto cacho- 
pos, que desde tempos immemoraveis se achavam assoreados» — '. 

— «No anno de 1895, em poucos mezes os assoriamentos 
tomaram tal incremento. . . » — ^. 

No primeiro destes trechos, vê-se bem a significação e a pro- 
veniência presumível da palavra. 

A hipótese de que em assorear haja como principal elemento 
a palavra areia é corroborada pelo facto de também se empre- 
gar a expressão « o rio está areado » ; cf. o francês ensabler. 



(a)tabefe 

E um vocábulo de orijem arábica, que em português ora 
se diz com o artigo arábico, ora sem êle (cf. zarcão e azarcão); 
designa, como é sabido, um preparado de leite, que o Dicciona- 
mo Contemporâneo descreve deste modo: — «massa formada 
por manteiga e caseína, levantada, pela addição de uma certa 
dose de coalheira, do soro do leite que ficou depois de separado 
o coalho» — . 

Na Kevista Portugália ^ está abonado o termo como usado 



1 O Economista de 5 de janeiro de 1890. 

2 Portugália, i, p. 609. 

3 J. da Silva Picão, Ethnographia do Alto-Albmtbjo, a p. 540, 
vol. I. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 101 

no Alentejo: — «tacho grande de cobre para o alraeice (soro) ir 
ao lume e produzir o atabefe» — . 

A palavra àlmeice, ou, segundo a forma mais usual, almece, 
é também arábica, AL-Mais, «soro de leite», à qual a forma alen- 
tejana é mais fiel. 

atazanar, atenazar 

Este verbo costuma ser corrijido nos dicionários em atenazar, 
como derivado de tenaz. 

O Novo DiccioNÁRio, no Suplemento, consigna a forma ata- 
zanar como a verdadeira, e na realidade é ela a única empregada 
pelo povo. Parece ser o árabe Lâ Tazaxa(i), correspondente ao 
ne mechaboeris do sexto mandamento do decálogo na Vulgata. 

Não é pois metátese de atenazar, a qual seria pouco presu- 
mível, visto a palavra tenaz ser do domínio popular, com esta 
forma, ou com as de tanaz, atanaz, no singular, ou no plural 
tenazes, como substantivo, nome de um conhecido instrumento, 
que no uso actual melhor corresponde ao francês pinces, visto 
que tenailles nesta língua quere dizer torquês. Todavia, como 
ferramenta em diversos ofícios, continua tenaz a ter os significa- 
dos antigos, que vemos em Bluteau ^ 

No periódico do Porto, intitulado A Eevista, de 15 de abril 
de 1905 (ano ii, n." 10), publicou a insigne romanista D. Caro- 
lina Michaêlis de Vasconcelos um interessantíssimo artigo acerca 
da famosa lejenda, em caracteres góticos minúsculos, das Capelas 
Imperfeitas do mosteiro da Batalha, infinitamente repetida com 
diversas variantes gráficas, e que tem espertado a curiosidade e 
aguçado a sagacidade de tantas pessoas. Nesse erudito estudo 
conclui a notável escritora pela interpretação tãHas ser ey= tenaz 
serei, interpretação que satisfaz completamente ao sentido, mas 
deixa no espírito ainda uns vizlumbres de dúvida, pois a ser 



1 Vocabulário port. latino. 



102 Apostilas nos Dicionários Portut/ueses 

aceita, temos de considerar o s (!) final de tenaz incluído no s 
inicial de serey, visto que não é possível encontrar na lejenda 
mais que um s; além disto, temos de admitir que um mesmo 
símbolo se há de interpretar no primeiro vocábulo como a figura- 
ção emblemática de uma tena^:, e no segundo por y, sendo eles 
sempre tam semelhantes entre si. Na realidade, a hipótese é 
muito engenhosa e muito bem estabelecida; está ainda lonje, 
porém, de demonstrada a exactidão dessa leitura. O conceito 
total do emblema e da letra seriam portanto correspondentes à 
conhecida divisa italiana chi dura vinee. 

Crawford, no curioso e ameno livro que, com o título 
Teavels IN Portugal e o pseudónimo Latouche, publicou em 
tempo, considerava a famosa lejenda como anagramática, e en- 
contrava nela uma frase elíptica latina, arte lineis, devendo 
ler-se, portanto, para esse efeito a segunda letra como sendo l, 
e não « como a quinta. 

No número da citada Eevista, correspondente a 15 de julho 
de 1905 voltou a questão da lejenda a ser tratada. Brito Rebelo, 
em data de 15 de maio do mesmo ano expôs os resultados 
da sua investigação, a qual, é força confessar, deixou bem clara a 
significação deste enigma. 

Para o erudito investigador a lejenda não é grega, nem latina 
nem portuguesa: é francesa, como as de todos os ínclitos in- 
fantes, e nesta língua cortesã representa a divisa de El-Rei 
Dom Duarte, fundador das Capelas Imperfeitas, pois mandou 
dar começo às obras delas em sua vida, começo que teve exe- 
cução. A lejenda, que principalmente adorna o arco da entrada, 
enlaçada nos ramos de hera que são o motivo predominante da 
sua ornamentação, mas que também se vê em outras partes do 
mosteiro, é na sua opinião, difícil de refutar, o mote tan que seray, 
«emquanto viver», segundo membro de outro em cuja interpre- 
tação Brito Rebelo não foi a meu ver tam feliz, e que não men- 
cionarei aqui. A este resultado não chegou Rebelo por exame 
especial e detido das muitíssimas repetições da célebre lejenda, 
mas sim em virtude da leitura de um documento, arquivado na 
Torre do Tombo, e publicado após o dito estudo, o qual consiste 



Apostilas aos Diciotiãrios Portugueses 103 

em uma quitação passada por Estêvão Vás, com autorização do 
infante Dom Pedro, a João Vasques Bombarral, que exerceu o 
ofício de copeiro da Casa Keal, e tinha confiada à sua guarda 
valiosa baixela, cuja descrição consta do mesmo documento. 
Como nas várias peças da dita baixela, além dos ornatos e lavores 
minuciosamente descritos, estava gravada a divisa francesa de 
Dom Duarte tam que seray, tan que serey, com diversas orto- 
grafias, compara Kebêlo essa divisa com a lejenda, e conclui 
serem idênticos os dois letreiros. 

Conquanto pareça completamente explicada com esta aprossi- 
mação a lejenda da Batalha, em um aviso citado no indicado 
número da Kevista prometeu-se que o conhecido crítico de 
arte Joaquim de Vasconcelos responderia ao artigo de que fiz 
aqui extensa e bem merecida menção. 

atuado 

J. Leite de Vasconcelos, no vol. ii da Revista Lusitana 
páj. 43, dá este vocábulo alentejano como derivado de attenua- 
tum j attenuare i tenuis. É provável que a forma antiga 
fosse atuado, 

augueiro, agueiro 

A forma correcta é sem dúvida a segunda, mas a primeira, 
com retrocessão do u de gu para a primeira sílaba, formando 
ditongo com «, é a local popular: — « Accessoriamente os oleiros 
das duas regiões [Trás-os-Montes, e Minho] dispõem ainda d'um 
augtceiro, pote já inutilisado, com a agua de que carecem fre- 
quentemente no trabalho > — *. 



1 Rocha Peixoto, Sobrevivência da primitiva roda de oleiro 
EM Portugal, in Portugália, u, p. 76. 



104 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



avelar; avela 

Palavra que muitos dicionários dão como verbo, significando 
engelhar, e nenhum como substantivo comum, pois como pró- 
prio é bem conhecido o apelido, que deriva de Avelar, nome 
de uma vila, de três lugares, de um casal e de uma quinta ^ 
Ora avelar, como substantivo comum, significa, à imitação do 
avellanar castelhano, que também é denominação de um casal, 
um sítio plantado de aveleiras, e daí provieram os nomes de 
povoações ou sítios referidos. 

O verbo avelar deriva igualmente de avelã (avelanar), cf. 
acerejar } cereja, e é parelho do verbo avellanar castelhano, 
que também quere dizer «engelhar, secar, como a avelã». 'Por 
outra parte, avelã português, avellana castelhano são o latim 
auellana, ou abellana, adjectivo derivado do nome da cidade 
de Abella, ou Avella, e já os romanos chamavam ao fruto da 
aveleira nux avellana, por o receberem daquela cidade da Cam- 
pánia. 

O verbo avelar, querendo dizer «melar», vêmo-lo empregado 
neste trecho: — «As uvas, como a chuva chegou ás raízes das 
cepas, avellaram e. . . apodrecem» — -. 

Está, pois, aqui num sentido absolutamente oposto àquele 
em que geralmente se emprega, isto é, «encolher por falta de 
umidade». 

Neste iiltimo significado usam na ilha de Sam Miguel o verbo 
azougar, aplicando-o à fruta que começa a apodrecer ^. 

O Novo DiccioNÁEio inclui o vocábulo avela como usado na 
Índia, com o significado de « arroz torrado » . Nada tem, contudo, 



1 João Maria Baptista, Chorographia Moderna do rkino de 
Portugal, vol. vi, Lisboa, 1878. 

2 O Século, de 25 de setembro de 1901. 

3 y. O Sb€ULO, de 5 de julho de 1901. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 105 



este termo com o verbo avelar, pois é palavra malabar, como se 
declara na Eevista Lusitana, vi, páj. 77 ^ 

aventar 

Além das várias acepções, quer naturais, quer figuradas, já 
rejistadas nos dicionários, cumpre acrescentar a de «botar fora», 
usada no Alentejo (Vila- Viçosa). 

avergoar 

No Novo DiccioNARio vem incluído este verbo, muito ex- 
pressivo, derivado de vergão, que o Coiítempohaneo define nos 
termos seguintes: — «verga grossa // Marca ou vinco resultante 
de uma pancada forte e sobretudo da que é dada com vara ou 
azorrague» — . A orijem do vocábulo é evidentemente verga, do 
lat. virga. Modernamente, encontramos o verbo avergoar, na 
tradução de um conto não sei de que autor, nem em que 
língua escrito, e que em folhetim foi publicado no excelente 
periódico semanal portuense Gazeta das Aldeias; intitula-se 
«Os horrores da Sibéria». O trecho é assim: — «[os cavalos] 
arremeçaram-se numa corrida furibunda, soltando de quando 
em quando roucos relinchos, arrancados pêlo chicote que lhes 
avergoava as poderosas ancas» — . 

Neste sentido ouvi eu empregar outro verbo muito pitoresco, 
já colijido no Nôvo Dicc, cardear. Ouvi esta expressão, há 
vinte e tantos anos, a um cocheiro de dilijéncia, indo de jornada 
de Alcobaça para a Nazaré. Reparando eu nuns vincos que os 
cavalos, ('ôwrro^ lhe chamava êle) tinham no pêlo, preguntei-lhe 
o que aquilo era; ao que me respondeu: «estão cardeados do 
açoute». 



1 Dialecto indo-portugués de Goa, por Monsenhor Sebastião Eo- 
dolfo Dalgado. 



106 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Aqui o verbo carãear tem exactamente o mesmo sentido que 
avergoar, isto é, «vincar», e a primeira acepção deve ter sido 
«fazer nódoa negra >, visto que o adjectivo cárãeo significa 
«arroixado, denegrido», correspondendo ao castelhano cárdeno, 
como o vemos empregado por Espronceda no Diablo mundo ^ 

E de notar também que a palavra, roixo, que antes signifi- 
cava «encarnado», hoje é pelo povo muito bem aplicada à cor 
que os franceses chamam víolet, e que por cá se teima em arre- 
medar com violeta, sem se atender a que a forma popular para 
o nome da flor é viola, e não violeta. 

Sentido análogo e opposição semelhante à expressada por Es- 
pronceda nos versos do Canto a Teresa, no Diablo Mundo, e 
que acima citei, vêmo-lo entre a palavra roixo e a locução côr 
de rosa, nos seguintes do canto iv do Dom Jaime, de Tomás 
Kibeiro : 

Que ás tuas faces mimosas 
Combanidas do martírio 
Cobriram frescura e rosas 
As roixas tintas do lírio ! 

Com o significado de vergão, existe o substantivo cardeal. 

O adjectivo roixo, como designando côr mais escura que a 
encarnada, é muito usado em português, por ex.: roioco-lirio, 
roixo-rei, roixo-terra, roixo-túnica, etc. 

Eeferi-me á tradução de um conto, e aproveitarei o ensejo 
para algumas observações a este respeito. Disse que essa tradução 
é esmerada, direi igualmente que nem sempre é feliz; assim no 
trecho que citei, furibunda seria com vantajera substituída por 
furiosa, louca, desordenada, como ancas possantes é preferível 
a poderosas ancas. Acrescentarei ainda: O sistema de acentua- 



1 Cuando ya su color tus lábios rojos 
En cárdenos matices cambiaban-, 

Quando já dos teus lábios o rubor 
E.n roixa e negra côr se transmudava; 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 107 



ção adoptado na. Gazeta das Aldeias é o de Cândido de Figuei- 
redo, convém saber: todos os esdrúxulos, todos os agudos termi- 
nados em vogal e os vocábulos enteiros terminados em consoante 
acentuam-se graficamente ; além disto e e o fechados são sempre 
marcados com o circunflecso, para se diferençarem de e e o 
abertos. Posto isto, parece que alguns dos vocábulos russos en- 
tremeados na descrição deveriam ser marcados nesta conformi- 
dade, mas não o são: izbá, e não isha, é a cabana dos campo- 
neses russos, diigá, e não diiga, é em russo «arco>, e aplica-se 
àquelle em que, por cima da cabeça do cavalo, se dependura 
uma campainha. Semelhantemente, Fedor como está escrito pa- 
rece cousa muito feia; isto nem é russo, nem português: em 
russo diz-se Fiador, e em português Teodoro. Na mesma narra- 
ção chama-se ao cocheiro jemskik, vocábulo que não existe em 
russo; cocheiro diz-se iamaxchik, que se pronuncia ièmestchí- 
que: e assim várias outras palavras. 

Não se cuide, porém, que isto envolva grande censura; ao 
contrário: são pequenos desprimores numa versão que é por 
vezes primorosa, e sempre feita com o maior escrúpulo, e vasto 
conhecimento das riquezas do nosso idioma, bem como aproveita- 
mento discreto e abundante das suas rigorosas propriedades de 
expressão; se assim não fosse, nem mereceria a pena fazer men- 
ção aqui da versão a que me retiro. 



azeite, azeitona, azeitou eira 

Estas palavras, evidentemente relacionadas, figuram entre as 
línguas românicas unicamente nas duas da Península Hispânica, 
a castelhana, e a galega-portuguesa. São arábicas, significando a 
primeira, AL-zarr, o mesmo que em português, e a segunda, 
AL-zarruNE, tanto o fruto, azeitona, em castelhano aceituna, 
como a árvore, que por singularidade tem, no português oli- 
veira, no castelhano olivo, orijem latina, oliva, que quere dizer 
o fruto. Não sei se jamais àquela se chamou azeitoneira, em 
castelhano aceituno, como seria de esperar. 



108 Apostilas aos Dicionários Portujueses 

Outro emprego da palavra azeitona é ser nome de uma ár- 
vore da África portuguesa, boa para construções, de porte ele- 
vado, que chega ás vezes a 25 e a 30 metros de altura ^ 

Com relação aos vocábulos azeite e azeitona diz Alberto Sam- 
paio, na sua erudita e curiosa monografia, intitulada As villas 
DO Norte de Portugal ^ o seguinte: — « admittindo-se que 
azeite, sendo um termo especial, não só tornou óleo (oleum) 
uma palavra genérica, mas ajudou também a sustentar azeito- 
na y> — . 

Ao nome da vila de Azeitão, dá João de Sousa a mesma ori- 
jem. 

Azeite em português tem emprego mais restrito do que em 
castelbano, pois apenas se aplica ao de oliveira, ao de pur- 
gueira e ao de peixe, entanto que em castelhano, não só se diz 
aceite de higados de hacalao, «óleo de fígado de bacalhau», 
mas também se aplica a muitos outros óleos. 

Um adjectivo derivado de azeitona, azeitonado, serve para 
qualificar certos peros-camoeses muito lustrosos, que teem na 
casca uma mancha, maior ou menor, mais escura, que na reali- 
dade parece de óleo, e com esta acepção particularíssima não 
está este adjectivo rejistado nos dicionários portugueses, 

O derivado azeitoneira, azeitoneiro, prato para azeitonas, 
já foi inscrito em vários dicionários. 

De orijem arábica do mesmo modo parece ser a palavra que 
designa a oliveira brava zambujo ou zambujeiro, em português, 
zaNBUG, acebuche era castelhano, onde tem a mais o artigo al, 
que também vemos no nome de vila de Azambuja, ao passo que 
em zambujal, azambujal se lhe acrescentou o suficso colectivo 
-al, como em laranjal^ pinhal, etc. Dozy ^ põe em dúvida que 
zaNBUG, ou AL-zaNBUGE, azzombuja, que vem em Pedro de Al- 



1 F. O Economista, d3 õ de agosto de 1885. 

2 in Portugália, I, p. 319. 

5 Globsairb dms mots espagnols bt portugais derives db 
l'arabe, Leida, 18tí(3. 



Apostilas nos Dicionáríos Portugueses 109 



calá, seja vocábulo arábico, opinando ser antes berbere arabizado, 
o que Eguílaz y Yanguas * refuta, atribuindo-lbe, a) contrariei 
como étimo o latim acerbus, o que é enteiramente infundado. 
E sabido que este arabista, de grande competência no seu campo 
de investigação, a nenbuma autoridade tem jus como romanista, 
e assim o demonstrou todas as vezes que a etimolojias latinas se 
referiu. 

João de Sousa ^ deu a zamhujo como étimo o arábico já 
citado, e o Dicionário da Academia fez o mesmo. 

azevinho 

No Tramagal esta palavra designa uma casta de uva muito 
meúda, que nunca cbega a amadurecer. 

Na língua comum é o nome de um arbusto, e como tal está 
incluído em todos os dicionários. É uma forma deminutiva, ou 
talvez antes adjectival, correspondente a azevo, de que derivou o 
nome de lugar Azevedo, e deste o apelido conhecido. 

F. Adolfo Coelho, Júlio Cornu e outros dão como étimo de 
azevo, em castelhano acebo, o latim aquifolium, como trevo 
de trifolium. E força porém confessar que, se pelo que respeita 
á terminação -evo já é difícil de explicar satisfatoriamente a trans- 
formação de folium, é a bem dizer insuperável a dificuldade 
que apresenta o primeiro componente aqui-, para dele provir 
ace-, aze-, e acebo, azevo: 

Para vir de lá até cá 
Mudou muito no caminho ^. 



1 Glosario de vocês ESP anglas de ORiOEX ORiEXTAL, Granada, 
1886. 

2 Vestígios da lingoa arábica em Portugal, Lisboa, 1830. 

' Alfana vient d'equus sans doute. 
Mais il faut avouer aussi, 
Qu'en venant de là jusqu'ici, 
II a bien changé sur la route. 



110 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



azinhaga 

Os nossos etimólogos dão como orijem deste vocábulo um 
nome árabe, que foi primeiro proposto por João de Sousa ^ es- 
crevendo porém Azenhaga, sem por isso todavia pretender que 
tenha alguma cousa que ver com azenha (q. v.). Diz ser a pala- 
vra portuguesa corrutela de uma forma arábica AL-zaNQE, que 
transcreve Azzancha, e relaciona com uma raiz verbal zaxaga, 
«apertar, estreitar». Os mais dicioaários, a começar no da Aca- 
demia, limitaram-se a copiar o étimo, com eh e tudo, sem darem 
mais razões do seu dito, nem da mudança de símbolo na trans- 
crição. 

Ora, em português existe um nome de árvore muito conhe- 
cido, azinho, em castelhano encina, que tem por orijem um 
adjectivo ilicinum, derivado de ilex, em latim com a mesma 
significação. Júlio Cornu dá esse adjectivo como étimo do por- 
tuguês azinha, e D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos ^ perfilha 
esta opinião, que me parece irrefutável. Na forma castelhana o n 
está pelo l da dição latina. 

Temos pois em português as formas azinha, para o fruto e 
para a árvore, azinho, azinheira, esta última derivada com o 
suficso -eira, muito usual para designar árvores, arbustos, etc, 
como em castanheiro, a par de castanho, castanha, ^pinheiro, 
de pinho, pinha, etc. É sabido que em castelhano se designa em 
geral pela terminação -o a árvore, e pela terminação -a o fruto, 
por ex.: naranjo e naranja, manzano e manzana. 

Eesta averiguar se azinhaga poderá ser um derivado de 
azinha, ou azinho, que primeiro designasse um caminho por 
entre azinhos, e ao depois tomasse o sentido menos especial de 
«caminho estreito entre árvores», e mais genérico ainda, de 
«caminho estreito», como aconteceu com alameda, que primeiro 



1 Vestígios da lingoa arábica em Portugal, Lisboa, 1830. 
* Ebvista Lusitana, iii, p. 135. 



Apostilas aos Diciotiârios Portugueses 111 



significou «rua de álamos», depois «rua de árvores», e por fim 
«uma rua», «um caminho», o fr. allée. 

(íMas como se há de explicar o suficso -aga? Não existe ele 
em mais nenhum vocábulo português derivado, pois mesmo em 
veniaga (q. v.) é primitivo. Creio ser o suficso vasconço -aga, 
que é colectivo, e também se aplica a arvoredo, como em liçar- 
raga, «freixeal», j liçar, «freixo», Arteaga, \ arte «azinho», 
nome de lugarejo na província de Navarra. 

Cf. Arriaga e v. arriol. 

Azinhaga, como Azinhal e Azinhais, figura abundante- 
mente na toponímia portuguesa, onde sem dúvida não quis o 
primeiro dizer «caminho», mas sim azinhal. 



babaré 

O Novo DiocioNAEio consigna esta palavra como desusada, 
com a significação de «rebate, aviso de que há ladrões na vizi- 
nhança», e declara — que é termo asiático, o que é muito vago, 
para se lhe descobrir o étimo. 

Monsenhor Sebastião Eodolfo Dalgado, no seu estudo sobre o 
Dialecto indo-poetuguês de G-oa insere o termo como goense 
com a seguinte definição: — «grito emittido batendo na bocca 
com a palma da mão; rebate (hoh em k[oncani]. — Do k[oncani] 
habá rê, voc[ativo] de babá», [menino] — . 

Veja-se cucuiada. 



babiruça, babirussa 

Esta palavra, que o Contemporâneo escreve erroneamente 
com um só s e manda pronunciar babiruza, com maior erro 
ainda, é directamente tirada do francês. A palavra é malaia, 
composta de bãbi «porco», e rusa (pron. ruça), «veado». Pode- 
ria também escrever-se em português com ss, babirussa. 



112 Apostilas aos Diciotiários Portugueses 



bacalhau: bacalhaus, bacalhoeiro, bacalhoa; badejo 

Há perto de trinta anos D. Carolina Michaêlis de Vasconce- 
los ^ identificou esta palavra, em castelhano hacallao e hacalao, 
com o latim artificial haccalaureus e o francês hachelier, 
derivado de baccalarius, e do qual procedem tanto o caste- 
lhano hachiller, como o português bacharel: cf. a forma antiga 
chançarel \ chancelier, o que hoje se diz chanceler. 

A aplicação de um termo com a significação de «bacharel» 
a denominar um peixe não é caso único, pois o mesmo peixe se 
chama também (ajhadejo, palavra que é um deminutivo caste- 
lhano de abad, «abade», e foram sem dúvida os trajes daquele 
e deste que determinaram as denominações: cf. batina por aba- 
tina, «a veste do abade». Temos ainda outra denominação aná- 
loga em peíxe-frade; e com relação a aves, o francês moineau 
«pardal», deminutivo de moine, «monje», obedece à mesma 
suposta semelhança com o traje, como acontece igualmente, com 
as denominações portuguesas de aves, cardeal, viuva, etc. 

Outro nome do bacalhau em espanhol é curadillo, e a esta 
expressão dá a ilustre romanista (ib.) como étimo o substantivo 
cura, «padre». Todavia, curadillo não é mais que o deminutivo 
de curado, particípio passivo de curar, « conservar por meio de 
fumo, sal, exposição ao sol» etc, particípio que se adjectivou e 
ao depois se substantivou, como aconteceu a pescado, pescada, 
2)escaãinha, que provêem do verbo pescar. 

Como em holandês a palavra que denomina aquele peixe é 
habeljaauw (pron. cabeliâu), supuseram alguns que o vocábulo 
português ou castelhano fosse o holandês, com metátese das duas 
primeiras sílabas; é porém provável que, ao contrário, seja o 
holandês que sofreu a metátese, derivando-sç portanto das formas 
peninsulares, e com tanto mais razão, quanto é certo haverem 
os espanhóis e os portugueses conhecido o dito peixe e a sua 



1 Studibn zur romaxischbx Wortschõpfung, Lípsia, 1876, p. 169. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 113 

vivenda antes dos holandeses, devendo-se ter ainda em atenção 
que o vocábulo holandês, desusadamente extenso para ser primi- 
tivo nesta língua, também se não pode decompor em elementos 
significativos. 

Littré * refere-se a esta palavra nos seguintes termos: — 
«CABiLLAu (kabillô, 11 mouillé) ou cabliau (kabliô) s. m. Nom 
donné dans les marches à la morue fraiche . . . Etym. Wallon 
càbiawe, namurois cahouau, holl. hábeljaauw, derive par renver- 
sement de hacailaba, nom basque de la morue, d'oú Tespagnol 
hamlao et le flamand baícJceljau» — . 

Foi isto, pouco mais ou menos, traduzido do que a respeito 
de cabliau dissera Frederico Diez no Dicionário etimolójico das 
línguas românicas. Dom Rafael de Bluteau ', porém, já muito 
antes escrevera o seguinte: — «Peixe do mar septentrional da 
America a que os biscainhos derão o nome, quando o trouxerão 
á Europa. . . Bacalhao, e Badejo são o mesmo: o Bacalhao hé o 
que põem ao ar a secar nas partes da America, donde se pesca. 
O Badejo nos vem mais fresco» — . E este último o que também 
se denomina bacalhau frescal. 

Custa-me ter de contradizer Bluteau, Diez e Littré, com re- 
lação à orijem vasconça do vocábulo. 

Verdade é que Bluteau apenas asseverou que os biscainhos 
lhe puseram este nome, sem afirmar que pertencesse à língua 
das Vascongadas; e na realidade, êle é tam vasconço como é 
holandês. E senão, vejamos: a forma vasconça citada por Littré, 
bacailaba, é simplesmente o castelhano bacallao, com a forma 
hacaílau, seguida do artigo a, e a mudança do u final em h; 
como de gau, «noute», on, «bom>, e a, artigo, se faz, em vários 
dialectos do mesmo idioma, a saudação gaboná, por gau on a, 
«boa noute!». Bacailau não é explicável em vasconço, e mesmo 
não figura no dicionário de Van Eys ^, nem como termo verná- 



1 DiCTIOXXAIRE DE la LAXGUE PRANÇAISB, Suh V. CABILLAU. 

2 Vocabulário portuguez latino. 

3 dlctioiínaire basque-français, 1873. 



114 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ciilo, nem sequer como castelhauismo. ISÍem é de admirar: uma 
grande parte do vocabulário vasconço castelhano é, ou outro mais 
antigo, latino. 

* O peixe e o seu nome foram mencionados por Pedro Mártire 
de Anguiera (Anghiera), geógrafo italiano que viveu em Espanha 
no século XVI e compôs em latim várias obras de merecimento 
acerca de viajens, descubrimentos e etnogi-afia. E citado por 
H. P. Biggar, na excelente monografia em que reivindica para 
os portugueses a exploração marítima da Groenlândia, primeiro 
chamada Terra do Lavrador, e a do Canadá. Intitula-se a mono- 
grafia VOYAGES OF THE CaBOTS (CãbotoS, OU Gãbotos) AND 

Corte-Reals e foi publicada na «Revue Hispanique» ^ Pedro 
Mártire, pois, atribui ao vocábulo bacalhau orijem americana por 
estas palavras: — «Bacallaos Cabottus ipse illas terras appellavit: 
«eo quod eorum pélago tantam repererit magnorum quorun- 
«dam piscium, tjnnos emulantium sic vocatorum ab indigenis 
« multitudinem, ut etiam illi navigia interdum detarderent — 
« Caboto denominou aquelas terras dos Bacalhaus, porque no mar 
que as banha encontrou grandes cardumes de enormes peixes, 
parecidos com os atuns, e assim chamados pelos indíjenas, e 
tantos eram que estorvavam o navegar das embarcações». — Biggar 
acrescenta com muita razão : — « This origin of the word can 
hardly be correct. It is more likely that the Spanish and Por- 
tuguese sailors gave the name» — . 

Efectivamente, o vocábulo, com esta ou outra forma parecida, 
nem em groenlandês ou esquimó, nem em qualquer dos idiomas 
dos índios bravos daquelas rejiões americanas se encontra. 

Nestes termos, não há remédio senão contentarmo-nos por 
emquanto com o étimo baccalaureus, há trinta anos proposto, 
como disse. 

A palavra bacalhau indica ainda um açoute usado no Brasil, 
e com esta definição já se encontra no Dicc. Contemporâneo, 
mas sem estar ai abonada. O trecho seguinte apresenta a palavra 



T. X (1903), p. 556. 



Apostila'* aos Dicionários Portugueses 115 



com esta significação: — «empunhou o bacalhau, e como ins- 
trumento da lei, fez correr o sangue d*aquelle que já foi seu 
irmão na desgraça ! > — ^ 

No plural indica esta palavra um enfeite de cambraia branca, 
usado nos fins do século xviii pelos homens. Foi a forma que 
lhe deu o nome, como também o deu às casacas muito compri- 
das usadas pela mesma época e que se chamaram em Portugal 
casams-de-rabo-ãe-bacalhau. 

Outra significação análoga de bacalhau é a seguinte: — «ca- 
deiras de pinho (chamadas de bacalhau)» — 2. Este nome foi-lhes 
dado em razão da forma que tem o espaldar. 

O femenino de bacalhau é bacalhoa, formado, assim como o 
substantivo bacalhoeiro, de um tema bacalhõ, bacalhão, como 
leoa de leão, pavoa de pavão, cordoeiro de cordão, latoeiro de 
latão, relojoeiro de relojão, pois de relojo, ou relójio seria relo- 
jeiro, ou relojieiro, como de livro, livreiro. 



bacia; bacio; bátega 

Estas palavras, que provêem do latim da decadência bassi- 
num, mas cuja orijem é problemática ainda, tem em português 
significações várias, subordinadas todas à noção de « vaso » . A pri- 
meira indica forma de vaso mais larga e menos funda, a segunda 
o contrário, menos largura e maior profundidade, diferença de 
sentido que em geral expressa a forma masculina, com distinção 
da femenina, quando em português existem ambas para um só 
vocábulo orijinário: cf. canela e canelo, cesta e cesto, etc. 

Acepções destas duas formas, hoje desusadas, são as seguin- 
tes: bacia, «prato grande e largo de metal, que se tanje com 
uma vaqueta, e supre o sino, entre vários povos da Ásia». Neste 



1 O Economista, de 4 de dezembro de 1885. 

2 Marcelino de Mesquita, O Tio Pedro. 



116 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

sentido foi o vocábulo empregado por Fernám Méndez Pinto *, 
e por António Francisco Cardim ^, no seguinte passo: obedecem 
[os habitantes da ilha de Áinão] ao sinal, parando ou marchando 
ao som da bacia» — . 

É o que hoje indevidamente chamamos tanta, que na índia 
significa «tambor». O verdadeiro nome da bacia de arame que 
se tanje com vaqueta é gom. 

Outro nome português do mesmo instrumento é bátega: — 
«Vigia toda a noute com bátega e soldados» — ^. E este que 
deveria substituir o erróneo tanta. 

Bacio: O que também chamamos pratos fundos, tejelas. 
José Pestana, na monografia O cálix de ouro do Mosteieo 
DE Alcobaça, publicada no «Archeologo Português» (v) diz: — 
« D. Manuel ordenara ao seu thesoureiro . . . que entregasse a 
Fructos de Groes os dois bacios dourados, e o gomil» — . 

O Elucidário de Santa-Kosa de Viterbo * diferença assim 
bacio de bacia: — «bacio na provincia de Traz-dos-Montes ainda 
conserva o seu antigo significado; pois chamam Bacios aos pra- 
tos. Mas note-se, que antigamente Bacio se tomava por todo o 
vaso de boca larga, como gomis, canecas, etc, e nisto se diferen- 
çavão das Bacias, que erão de mais bojo, e fundas, e aquelles 
erão mais chatos, espalmados, a modo das nossas bande- 
jas» — . 

Esta definição parece estar em contradição com o uso actual 
dos dois vocábulos, visto que na bacia, como forma femenina, 
a superfície predomina sobre a altura, o que é o oposto do 
bacio. 



1 Peregrinação, cap. clxi. 

2 Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 229. 

3 P. António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia db Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 103. 

* Elucidário das palavras termos e frases que em Portu- 
gal ANTIGUAMENTE SE USARÃO, Lisboa, 1798. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 117 



bádur, badur 

O Novo DiccioNÁRio dá este vocábulo com a significação 
de — «chefe indígena de algum districto, dependente do Estado 
da índia portuguesa» — , escreve-o porém Badhur, e como o não 
acentua graficamente, subentende-se, em harmonia com o sistema 
de acentuação gráfica empregado pelo lecsicógrafo, que se há de 
ler haãàr. O termo é persiano BasADUR, «valente» ^ e o fi, 
antepenúltima letra do respectivo abecedário e que aqui repre- 
sento por E maiúsculo, foi deslocado para depois do d, quando a 
escrita orijinal o marca antes, formando a segunda sílaba com 
o A. A acentuação e a escrita portuguesas devem ser hâdur, e 
assim, sem h, ortografaram os nossos antigos escritores. 

bafo, bafejar, abafar, bafio 

Estes vocábulos são entre si indubitavelmente aparentados, e 
para o primeiro deles existe em castelhano a forma vaho, na 
qual o V é provavelmente capricho ortográfico em vez do 6, que 
a forma portuguesa demonstra ^er a verdadeira inicial, visto que, 
ao contrário do castelhano, o português diferença perfeitamente 
V de h, do Mondego para baixo. 

F. Diez ^ pretende que seja voz imitativa e como ainda se 
lhe não descobriu étimo plausível, apesar de que as vozes ono- 
matopoéticas são por via de regra suspeitas, quando não são 
meramente interjectivas, à falta de melhor, aceitaremos proviso- 
riamente o parecer do fundador inexcedido da filolojia românica. 

Bafo tem uma significação muito diferente, porém, no se- 
guinte passo: — «Por monturos classificam-se os ferragiaes con- 
tíguos ao monte [casal], ou os bafos do monte, como também 



1 V. Garcin de Tassy, Mémoire sur les noms propres et les 
TiTRES MusuT^MAKS, Paris, 1878, p. 42. 

2 Etymologisches Wõrterbuch der romanischen Sprachen, 
Bonn, 1869, ii. 



118 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



alguns lhes chamam, se uão lhe encontram a feição própria dos 
ferragiaes» — '. 

baforeira, bêvera; abeberar 

Tem-se fantasiado étimos extravagantes para este termo vul- 
gar de botânica, e todavia D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos 
já deu o verdadeiro, bifera(ria), na Ee vista Lusitana, i, 
páj. 298, assim como bêvera j bifera, em castelhano breva. 
O verbo (a)beberar, porém, corresponde ao castelhano abrevar, 
francês abreuver, ant. abeuvrer, italiano abbeverare, de ad e 
bibere, por intermédio de uma forma transitiva adbiberare. 

baga, bagada, bágoa, bago 

Em galego a palavra bágoa significa «lágrima». PJm portu- 
guês comum dizemos bagas de suor; mas no Minho bagadas 
querem dizer « lágrimas » ^. Esta última forma é derivada, e pres- 
supõe a existência de baga na acepção de «lágrima», correspon- 
dente ao vocábulo galego citado. 

A orijem de todas estas formas é o latim b a cuia, plural de 
baculum j bágoo, antigo, moderno bago, que foi depois substi- 
tuído pelo latinismo báculo, quando se refere à insígnia episcopal. 

No Suplemento ao Novo Diccionábio vê-se inscrita a pala- 
vra bago, como adjectivo, abonada com um passo da D. Be anca 
de Almeida Garrett, páj. 23, não sei de que edição para o 
conferir: — « ... o abbade, homem prudente, que o bago regedor 
metteu em meio da contenda. . . » — . 



^ J. S. Picão, Ethnographia do Alto Albmtejo, in Portugália, i, 
p. 280. 

2 Fui ao jardim da alegria 
Espalhar [as] minhas penas : 
Onde as bagadas caíram 
Kábentaram açucenas. 

FoLKLORE TRANSMONTANO ín Portugalia, 11, p. 107. 



Apostilai aos Dicionários Portugueses 119 



Ora neste passo, refira-se ele a que se referir, hago é o subs- 
tantivo, e regedor o adjectivo, sem a menor dúvida, e hago deve 
aí estar por háculo. Não há pois tal adjectivo. 



bailique; bailéu 

O Novo Dicc. inclui este vocábulo como de gíria, com a 
significação de «quarto na prisão; tarimba». Neste último sen- 
tido, que me parece ser o próprio e mais usual, encontra-se a 
palavra, perfeitamente definida, no jornal O Século, de 28 de 
abril de 1902: — «A prisão [no Aljube, ou cadeia para as mulhe- 
res, em Lisboa] semelha qualquer das enxovias do Limoeiro [ca- 
deia para os homens, na mesma cidade], pois que lá se vêem em 
volta os mesmos hailiques, espécie de taboleiros, que, girando 
sobre um fulcro, descem da posição vertical para se armarem 
em largos leitos» — . 

Parece haver relação de forma entre este vocábulo e a pala- 
vra bailéu, «estrado, suspenso por cordas em que se colocam os 
trabalhadores para fazerem obras nos edifícios», e que tem outras 
várias acepções, que se podem ver no Dicc. Contemporâneo. 
Apesar da afirmação em contrário, feita nos dois dicionários cita- 
dos, não creio que haja a mínima relação entre estes dois vocá- 
bulos e o verbo bailar. 

Ambos eles tem forma de derivados de um primitivo bailo, 
que em tal sentido não existe, que eu saiba. 



bainha: bainhar, abainhar, embainhar, vajem 

Este substantivo, do latim uagina (j baía \ bainha) signi- 
fica tanto a da espada, faca, etc, como a dobra que se faz na 
extremidade de um vestido, e na qual se metia antes um cordão 
para lhe dar consistência, ou franzi-lo. Os puristas distinguiam 
abainhar, «fazer bainha em vestido», de embainhar «meter a 
espada na bainha » . No uso comum ninguém faz já tal distinção, 



120 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

pois em ambos os casos se emprega embainhar, e abainhar 
tornou-se obsoleto. 

No Minho o antigo abainhar diz-se hoje em dia bainhar, 
sem preficso. 

O substantivo vajem, é um alótropo, ou forma diverjente do 
mesmo étimo uagina, com deslocação do acento tónico (vagi- 
na), e que tem outras formas, vaje, baje, e designa a bainha, 
ou folhelho dos legumes. 

Tanto no francês gaine, como no castelhano váina, o acento 
foi igualmente deslocado para a primeira sílaba de uagina. 



bairro, bairrista, bairrismo; barro, barreira, barreiro, 
barroso, barrista 

A palavra bairro é de procedência arábica sai, «terra», 
BaÊi, «de fora», e a sua primitiva acepção, ainda usual em Es- 
panha (barrio), foi de « subúrbio » ; a de divisão interna de uma 
cidade é posterior : cf. a expressão, « fora da terra » , e o substan- 
tivo castelhano afueras, «cercanias, arredores». 

Do mesmo modo, o derivado bairrista tem também as duas 
acepções; na segunda significa o habitador do mesmo bairro; 
na primeira, vemo-lo exemplificado no seguinte trecho: — «La- 
mego 12. Existem ainda por estes sitios uns restos da antiga 
barbaria bairrista, que faz ver no povo visinho o inimigo, cujos 
ódios se transmittem, intensamente selváticos, de geração em 
geração» — ^ 

É palavra muito expressiva para designar o indivíduo cujo 
amor à terreola natal é levado ao extremo odioso de aborrecer 
os naturais das terras próssimas; e à semelhança desta formação 
poderíamos denominar bairrismo esse capricho e timbre intransi- 
jente e exclusivista. 



^ O Economista, de 16 de novembro de 1890. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 121 



Santa Rosa de Viterbo * define assim o vocábulo bairro: — 
«Lugar pequeno, quinta, Aldêa, casa de campo, ou de abegoa- 
ria > — . 

Esta definição é a que no Dicionário da Academia Espa- 
nhola 2 vemos, com pequena diferença, atribuir-se à palavra bar- 
rio, na segunda acepção, em que é sinónimo de arrobai: — 
«Grupo de casas ó aldehuela dependiente de otra población, 
aunque está apartado de ella» — . 

A palavra barro, portuguesa e castelhana, parece ter a mesma 
orijem, e o mesmo se pode dizer de barreira, no sentido de lugar 
onde se colhe o barro, como vemos empregado o vocábulo no es 
crito de Rocha Peixoto intitulado As olabias de Peado ^:— 
« Adquirida a argilla necessária nas barreiras de Cabanellas » — . 

O nome de vila, ao sul do Tejo, Barreiro, deve de ser uma 
forma, masculina, da mesma dição, e outro tanto podemos dizer 
de Barreiros ou Barreiras, nomes de muitas povoações portu- 
guesas, de Barroca, e de Barrosa, Barroso, Barrosã, Barrosão, 
adjectivos substantivados em nomes próprios. 

Barroso como substantivo comum é nome de um peixe, que 
também se chama queime *. 

Outro vocábulo da mesma família, empregado noutro escrito 
de Rocha Peixoto, na acepção de fabricantes e pintores de figuras 
de barro, é barrista: — «os barristas do século xvin, os coro- 
plastas de Gaya, e os oleiros do Prado» — ^. 

Bar7'os tem no Alentejo uma significação especial, que se 
encontra no seguinte passo da Ethnogeaphia do Alto Alem- 
TEJO, de J. S. Picão: — «As planícies que ficam a leste entre 
Elvas e Badajoz e aquella cidade e Campo Maior chamam-se-lhe 



1 Elucidário das palavras, termos e frases que em Portu- 
gal AXTiGUAMENTE SE USARÃO, Lisboa, 1798. 

2 Madrid, 1899. 

' in Portugália, i, p. 236. 

' ICHTHiOLOGiA, por D. Carlos de Bragança, in O Dia, de 7 de junho 
de 1904. 

^ in Portugália, I, 588. 



122 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

[sic] barros em virtude da natureza do solo, em geral bastante 
argilloso» — *. 

bajoujo, bajoujar 

D. Carolina Micbaélis de Vasconcelos ^ já detenninou a for- 
mação deste vocábulo: bajoujar é o latim baioliare, por baio- 
lare, que figura na Vulgata, com assimilação de -li- ao j da 
sílaba anterior, o qual é consonantização e africção do i de baiu- 
lus. 

Bajoujar é pois idêntico a bajular. 



baldio, valadio, vadio; baldo, baldar, balde, baldão; 
Valdevinos 

Alberto Sampaio, no valioso estudo intitulado As villas do 
NOETE DE PoETuaAL, ^ diz : — « outro termo equivalente [a mani- 
nho] quasi popular é baldio, que parece provir do ajectivo alle- 
mão bald» — . Semelhante conjectura carece de fundamento, pois 
se lhe opõe manifestamente a significação do vocábulo portu- 
guês, e a do citado advérbio alemão. Este, conforme Frederico 
Kluge *, tem por base um adjectivo alto alemão antigo, o qual 
significa «rápido, afouto, valente» (schnell, Icilhn, tapfer), o 
inglês bold, e de que procede o italiano baldo, «afouto» e o 
nome próprio Balduim, de que em português se fez Valdevinos, 
provavelmente por intermédio de um nominativo latino Baldui- 
nus, ou Valduinus, Valdevinus. 

Em Évora há uma rua de Valdevinos, que certamente pro- 



1 ih. I, 272. 

2 Revista Lusitana, iir, p. 133. 

3 in Portugália, i, p. 117. 

* ETYMOLOGmCHBS WÕRTBRBUCH DBR DBUTSCHBN Sprachb, Es- 
trasburgo, 1889. 



Apostilas aos Dicionários Pm'tugueses 123 



cede do nome próprio, e não do apelativo, com o significado 
< vadio, estróina», em que hoje se usa, na língua comum. 

A palavra baldio é sem dúvida o adjectivo arábico BaLaoi, 
derivado do substantivo saLaD, «terra, país», de que proveio o 
castelhano haladi, «reles, de pouco valor >, significado que tam- 
bém não é estranho à forma arábica. 

O termo baldio, castelhano, além da sua significação mais 
comum, correspondente à que tem o português baldio, quer 
como adjectivo, quer como substantivo, de «comum e inculto» 
oferece a mais a de «vagabundo» «^ vadio», e este último vocá- 
bulo considero-o eu também derivado do baladi arábico, e não 
do latim uagatinum j uagare, como até agora se tem su- 
posto. Note-se ainda que o povo usa vadio, no sentido de 
«ruim». 

Assim constituo a descendência portuguesa do árabe saLaDi, 
com as seguintes vozes: baldio, com supressão da vogal da 
2.* sílaba; valadio, com a simples mudança do b em v: diz-se 
do telhado feito de telhas soltas, sem cal nem argamassa e é 
oposto ao termo telhado mouriscado (note-se), no qual se em- 
pregou a argamassa, ou cal-e-areia; vadio (pron. vadio), com 
supressão do l, e consequente a aberto na sílaba átona, « cf. jjà- 
ceiro por palaceiro. De vadio procedem vadiar, vadiajem, 
etc. ». 

Resta averiguar se os vocábulos da família baldo, balda, 
baldar, de balde teem a mesma orijem, como parece, con- 
quanto se possam subordinar a outro étimo arábico, batíl, 
« vão, inútil » . 

E difícil determinar o sentido em que o epíteto vadio foi 
empregado por António Francisco Cardim, no seguinte trecho: — 
«Os dois levantados [insurrectos] Li e Cam ficaram com cinco 
províncias do norte [da China], o tártaro com a corte de Pequim, 
e pouco a pouco foi conquistando todas as outras províncias, de 
que em breve se viu senhor, não por força de armas, mas por 
fraqueza e deslealdade dos chinas, que só com cortar o cabello 
faziam profissão de tártaro, e chegavam onde elles podiam; por- 
que se tem por certo que na China não entraram trinta mil 



124 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

tártaros, mas seus exércitos constariam pela maior parte dos 
chinas vadios e disfarçados» — ^ 
(i Quere dizer « gente dos campos » ? 

balguesa 

— «Hoje [os barcos moliceiros] adoptam a vela chamada 
balgueza» — ^. 

balhão, bailão; bailadeira; balhadouro 

O Novo DicoioNÁEio rejista uma acepção especial deste vo- 
cábulo, que no seu sentido natural significa «o que muito baila». 
Essa acepção é a de «fadista», que vemos abonada no seguinte 
trecho: — «O Tàboada, um bailão ali do sitio, convidou o Nava- 
lhadas, seu collega, com duas ditas [navalhadas] no peito» — ^. 

É conhecido o sestro do fadista de andar sempre jingando, 
e em brigas é notória a sua lijeireza, quer no arremeter, quer no 
fujir, quer em furtar o corpo às investidas do contendor. Em cas- 
telhano bailón, como termo de gíria (germanía), quere dizer 
« ladrão velho » . 

A palavra bailadeira de que os franceses fizeram bayadère, 
vem no Suplemento ao Vocabulário poetuguez latino de 
Bluteau assim definida com muita exactidão: — «Bailadeieas 
se chamão na Índia as mulheres publicas, que habitão nos Pago- 
des, porque todas bailão e cantão. Oriente Conquist, tom. 2, 
pag. 25» — . 

Os dicionários portugueses em geral omitem esta particu- 



1 Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 25. 

2 Luís de Magalhães, Os barcos da ria de Aveiro, in Portugá- 
lia, 11, p. 59. 

3 O Economista, de 22 de agosto de 1885. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 125 

larização de sentido; todavia o dicionário português-francês de 
J. L Roquete * incluiu o termo, com a mesma definição já dada 
por Bluteau. 

Bailadeiras se denomina o ponto do rio Tejo, perto de Caci- 
lhas, na marjem esquerda, onde o movimento das águas é consi- 
derável. Nesta acepção vemo-lo abonado neste trecho: — «Quando 
no dia 12 do corrente appareceu o cadáver da infeliz Casimira á 
tona d'agua no sitio das bailadeiras» — -. 

Outra forma de hailão, «jingão» é halhão, como popular- 
mente balhar substitui bailar, e vemo-la empregada no mesmo 
periódico ^: — «e lá foi todo bailhão para o calaboiço» — . 

No termo de Leiria há um descampado chamado charneca do 
Balhadoiro, onde é crença que se reúnem as bruxas em sumblea 
do diabo, como se diz no norte, para aí celebrarem as suas fol- 
ganças. 

E de advertir que na linguajem local baile se diz bolho, e 
conseguintemente balhar, de que balhadoiro é nome do logar 
em que se exerce a acção do verbo, como em lavadouro, de 
lavar, matadouro, de matar, etc. 



balufera 

Instrumento músico africano, conforme a menção que vimos 
dele no jornal O Economista, de 5 de agosto de 1885: — «En- 
contro [na secção portuguesa da exposição de Antuérpia] o balvr- 
fera que já vira na secção do Senegal (colónias francesas). Este 
instrumento curioso, espécie de marimba, compõe-se de uma serie 
de peças de madeira justa-postas sobre uma dupla ordem de 
cabaças de diversos tamanhos. Batendo-se-lhes produz-se uma 
espécie de escala irregular» — . 



i Paris, 1855. 

2 O Século, de 29 de agosto de 1899. 

3 ih. 10 de setembro de 1900. 



126 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



No museu a cargo da Sociedade de Greografia de Lisboa 
existe um destes instrumentos. 



bambolim, bambolina 

Este vocábulo está definido no Novo Dicc. da seguinte ma- 
neira: — «sanefa, sobreposta aos cortinados das portas ou jane- 
las. (De bambo):» — . De bambolina diz o mesmo dicionário: — 
«parte do scenário, que liga superiormente os bastidores e finge 
o tecto» — . 

Deveria acrescentar, «o céu», «folhagem», etc. 

Estes termos teem aspecto muito italiano, conquanto actual- 
mente não sejam empregados em toscano com tal significação. 

Outra acepção de bambolim é a que vemos no jornal O Sé- 
culo, de 2 de janeiro de 1902: — «o chamado bambolim, o 
Bombay duck [«pato de Bombaim»] dos mercados da China, é 
abundante em Diu» — . 

bandulho 

J. Joaquim Núnez * propõe como étimo, muito plausível, 
para esta palavra, que o Novo Diccionáeio compara com razão 
ao castelhano banãujo [também banãullo], dando-lhe orijem in- 
certa, o latim panduc(u)lum, que deve ser um deminutivo do 
adjectivo pandum, «curvo», substantivado. 



banheiro, banheira 

Este substantivo está empregado no sentido de «banho» ou 
banhadouro» no seguinte trecho: — «Já agora, vinde também 



1 «Eevista Lusitana», iii, p. 292, Phonbtica histórica portu- 
guesa. 



Apostilas nos Dicionános Portugueses 127 



comnosco até aquella gruta. . . É n'ella o banheiro publico» — *. 
Cf. banheira^ «tiua para banho». No Porto chama-se antes à 
banheira canoa, em razão da forma. 



banzé 



Esta palavra de gíria, que quere dizer «folgança, função» e 
também « desordem, tumulto », pode ser o japonês banzai « viva! », 
como me sujere Z. Consiglieri Pedroso: — «Ainda há gente bôa 
por ahi, mas não são dos que fazem banzé nos jornaes» — -. 

Neste passo a palavra significa « pregão » . 



baptizar, baptizo, bautizar, bautismo 

As formas mais antigas e ainda populares portuguesas teem 
u assilábico pelo p latino, assim como o teem por c em aicfo, 
latim actum: bautizar, bautismo, Bautista. Depois entraram 
na língua as formas alatinadas baptizar, etc, nas quais, porém, 
o ^j é actualmente nulo, mas o não foi antes, visto que o a átono 
permanece aberto, bàtizar, Batista, etc: cf. activo=àtivo. Nulo 
é igualmente o ^^ no substantivo alentejano baptizo, «baptizado», 
que parece ter sido trazido de Espana, onde se diz bautizo. 



barão, varão, varonil 

Qualquer que seja a etimolojia do primeiro destes vocábu- 
los, é certo que o seu significado nos Lusíadas (i, 1), é o de 
«homem valoroso», e não simplesmente o do latim uir, a que 



1 Bosquejo de uma viagem no interior da Parahyba b de 
Pernambuco, in <0 Século», de 17 de junho de 1900. 

2 O Dia, de 25 de setembro de 1902. 



128 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

damos como correspondente varão, que dele não deriva, sendo pelo 
contrário o mesmo que o Barão dos Lusíadas. A identificação 
resulta do significado que tem o adjectivo varonil. 

Nos antigos Cantares de gesta franceses haron designa 
«homem de grande valor e alta jerarquia», e no Livro dos Salmos 
[século xiii] francês encontra-se o advérbio harnilment, « varonil- 
mente » ^. 

Em latim existia o substantivo baro, baronis, com signifi- 
cação de «homem tosco, homem vigoroso». 

E claro que varão, aumentativo de vara, nenhuma relação 
tem com esta palavra. 

barbado 

Termo brasileiro, cujo significado se depreende do trecho se- 
guinte: — «Saber menos, não prejudicava; saber mais desqualifi- 
cava o individuo, difficultava-lhe a collocação. Passava á catego- 
ria de barbado, isto é, de suspeito» — ^. 

bar(e); matuca 

Vemos este vocábulo num sentido muito especial, como usado 
na Zambézia, no seguinte trecho: — «Nestes territórios e espe- 
cialmente nos situados entre Tete e Zumbo, encontram-se . . . 
vestígios de antigas explorações auríferas, conhecidas na Zam- 
bézia sob a denominação de «bares» e ás quaes alludem to- 
dos os nossos antigos auctores, que escreveram sobre aquelle 
paiz» — ^. 

Por exemplo. Frei João dos Santos, Etiópia Oeiental, liv. ii, 
cap. 11 a 13, no último dos quais se encontra um vocábulo não 



1 Emílio Littré, Histoire de la langue prançaisb, n. 

2 O Século, de 20 de setembro de 1905. 

3 O Século, de 31 de março de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 129 



colijido nos nossos dicionários: — «Também se tira ouro de pe- 
dras, a que chamara ouro de matúca,' como já dissemos que se 
tirava no reino de Manica. De todas estas sortes de ouro, o de 
lascas feitas em raminhos, ou esgalhos, esse é o mais fino, e 
de mais quilates, e o que chamam de matúca é o mais baixo de 
todos, e o de menos quilates > — . 



barlaque, barlaquear-se 

Nas Notas ethnogeaphicas sobke os povos de Timor, de 
J. S. Pereira Jardim *, vemos definido o substantivo, e abonado 
o verbo português, que se formou dele: — «O barlaque é a com- 
pra da mulher, que vale tanto mais quanto maior for a gerarchia 
a que pertence» — . 

— «Se for christão, casa-se com uma, e barlaqueia-se com 
quatro » — . 

barra 

Além de muitos outros significados, era o nome de uma moeda 
de convenção, em Benim, com o valor de ÕOO réis ^. 



barreleiro 

Na praia da Nazaré dá-se este nome, derivado de barreia, a 
uma tripeça de madeira, com tabuleiro de perímetro circular, 
rematado lateralmente por um prolongamento quadrado, e sul- 
cado por dois ou três regos. Serve para a lavajem da roupa. 



^ in Portugália, i, p. 357. 

2 Relatório de Jacinto Pereira Carneiro, in «Annaes do Conselho 
Ultramarino >, il. 



9 



130 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



barril 



Na praia da Nazaré tem este uome uma bilha de barro, com 
grande bojo, e gargalo e fundo estreitos; a sua capacidade regula 
por quatro litros: tem duas asas, junto à boca, para suspensão. 
Serve para água a bordo dos batéis de pesca. 



barroco, barroca, barrocal 

A primeira destas formas ouvi-a em 1888 a um cocheiro, 
indo de Alpedrinha para Castelo-Branco em dilijéncia; prometeu 
êle a um çapateiro, que lhe pedira uma pedra de bater sola, que 
lha traria, e fez a promessa nos seguintes termos: — «Deixe estar 
que eu lhe arranjarei um barroco muito grande» — . Em Kui de 
Pina vemos: — «um serro alto de pedras e barrocas mui fi-a- 
goso» — K 

A palavra é conhecida e substitui muito bem o galicismo 
bloco, como barroca, barrocal, ou barranco esse outro galicismo 
ainda mais escusado, ravina, que se tem propagado em livros 
científicos, sem vizlumbre de propriedade, por isso que para 
francês é êle aparentado com ravir \ rapere, procedendo ime- 
diatamente de rapina, no sentido de «acção de arrebatar»; 
e também sem a mínima necessidade, pois temos barranco,, 
barrocal e barroca. 

Barroca é intensivo de barroco, e é sabido que barroco, ou 
o seu correspondente castelhano barrueco com menor probabili- 
dade, deu orijem ao francês baroque, como termo de arquitec- 
tura, o qual por êle deve ser traduzido em poiiuguês. 

E por todas estas razões que eu estranho haver encontrada 
numa publicação, em geral redijida em castiça, e por vezes ver- 
nácula e pitoresca linguajem, o termo ravina, agravado com um 



1 Crónica de El-rei Dom Afonso v, cap. cl, vi. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 131 



voluntário derivado neolójico, tanto menos desculpável, quanto é 
empregado em tradução de francês: — «resolveu enravinar os 
vencidos, isto é, fazê-los despenhar nas ravinas da região > — ^ 
Para hloco temos ainda penedo, que quere dizer «pedra 
solta >, e já foi, para substituir aquele, proposto por Eduardo 
Augusto Vidal na Kevista Lusitana, n, páj. 83. Seria portanto 
preferível mesmo a barroco, visto este designar propriamente 
«pedra de forma irregular >, e na acepção de «pérola de forma 
irregular» ter dado orijem, como disse, ao baroque francês. 

baruísta 

Este neolojismo é empregado por João de Azevedo Coutinho ^ 
para designar os naturais do Barué: — «Os baruistas primitivos, 
os que com orgulho se julgam sem mistura, dizem-se acuro 
á Bargué (grandes filhos do Barué)» — . Convém advertir que 
Bargué tem de ser lido báruè, e que o gu é transcrição incon- 
veniente, pois poderia ser lida a palavra como bar-gué; melhor 
fora que tivesse escrito Bargoé (^^bar-gu-é), se queria indicar 
o valor do u consoante, w inglês. 

A indivíduos vindos de lá ouço acentuar a palavra Barue 
na 1.* sílaba, proferindo como e aberto o e final átono, isto é, 
báruè. 

É violenta em português corrente aquela acentuação, e por 
conseguinte pode este nome acentuar-se Barué, que é o que se 
faz usualmente : cf. Biê por Biiè. 

basto, bastante, bastio 

Este adjectivo é usado pelo Padre António Francisco Cardim, 
no sentido de «possante, robusto»: — «o cavalo em que estava 



1 Gazeta das Aldeias, de 9 de julho de 1905. 

2 Campanha do Barué. . . em 1902. 



132 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



era bastante, o rio porém arrebatado» — ^ É um derivado do 
verbo bastar, como basto, no sentido de «espesso, grosso». Subs- 
tantivo da mesma orijem é bastio, o qual no Alentejo é «mouta 
fechada», e em Trás-os-Montes significa «pinhal rasteiro». 

O adjectivo basto parece derivar-se do latim vastum ^, ou, 
como propôs J. Cornu, de p as tus, particípio passado passivo de 
pasço r, o que me parece menos provável. 



bastos 

Em uma resenha de termos pertencentes à jíria dos ladrões 
do Porto, publicada no jornal O Economista, de 28 de fevereiro 
de 1885, vem este vocábulo com a significação de «mãos». 
É palavra pertencente ao calo, ou dialecto dos ciganos de Espa- 
nha, como muitos outros de calão, incluindo este nome da jíria 
de malfeitores e da ralé, alguns dos quais se tem difundido em 
linguajem mais elevada, tornando-se gerais, mas conservando o 
seu sabor pitoresco. Muitos serão incluídos neste trabalho, com 
os seus correspondentes nesse dialecto. Basto é em calo bate, 
baste ^, e nele significa, na realidade, «mão». 

Em outro dialecto cigano, o da Roménia, tem a forma vast *. 



batata, semilha, castanhola 

A primeira destas palavras, ao contrário do que é uso no 
continente, quere dizer na ilha da Madeira «batata doce», por- 
que a outra se denomina semilha; eis aqui um exemplo: — «Um 



1 Batalhas da Companhia de Jesus na província do Japão, 
Lisboa, 1894, p. 38. 

2 Ebvista Lusitana, iv, p. 273. 

3 El Gitanismo, por Francisco de Sales Mayo, Madrid, 1870. 

4 Grammaikb, dialogues et vocabulaire de la langue DBS 
BOHÉMIENS OU CiGAiNS, por J. A. VaiUaut, Paris, 1 868, p. 53. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 133 



correspondente de Boaventura escreve que está sendo abundante 
a colheita da semilha (batata) > — ^ 

Em Trás-os-Montes este tubérculo é designado pelo nome de 
castanhola, aumentativo de castanha: 

Lhebemus nossa merenda 
(Yera de trigo bíê guapo!); 
Para cenar a la nuite, 
Las castanholas num saco. 

Esta quadra vai emendada na pontuação, pois a da obra de 
onde a extratei está errada: 

Lhebemus nossa merenda 
(Yçra de trigo bfê guapo!) 
Para cenar a la nuite. 
Las castanholas num saco. ^ 



bate 



Esta palavra na índia portuguesa quere dizer «arroz em casca», 
em concani B'ãT(a), e não «arroz descascado», como se vê no Novo 
DiccioNÁBio. O que o vocábulo também lá significa é «arroz 
cozido», como em indostano. Em malaio cbama-se pádi, ao arroz 
em herva na terra, e é natural que seja a mesma palavra, a 
qual, porém, parece orijinária da índia, pelo menos no sentido 
de «arroz cozido». Sobre este objecto, veja-se Bumell & Yule, 
A Glossary of Anglo-Indian words and Pheases ^, sub. v. 
Paddy. 

O que é singular é que bate seja o nome que em Caminha 



1 «Notícias da Madeira >, in O Economista, de 5 de agosto de 1891. 

2 José Leite de Vasconcelos, Estudos de Philologia Mirandesa, n, 
Lisboa, 1901, p. 32. 

3 Londres, 1896. 



ff 

134 Apostilas aos Dicionânos Portugueses 



se dá ao loão-de-ló, outra locução de orijem obscura; parece não 
ter a mínima relação com o bate asiático, a não ser na coinci- 
dência casual da forma. 



batel, batela; batelo; bote, bateira 

O Suplemento do Novo Diccionário rejistou o segundo 
destes vocábulos cora a siguificação de — «barco chato, de peque- 
nas dimensões, usado ao norte do Minho» — . Parece ser uma va- 
riante mais antiga de hatel j hatellum \ hatum, latinização 
do alto alemão antigo hot, de que também procedeu hote, se este 
não é importação posterior do inglês hoat hoje pronunciado hõut, 
mas no inglês médio proferido òóòt, * em anglo-saxão hát, isto é, 
háàt, 

Batelo, no Ribatejo, designa ura aparelho para tirar água 
dos poços, e parece ser vocábulo independente destes. 

Bateira é norae conhecido de barca, que navega no Tejo, e 
figura em todos os dicionários. 



batoque 

Não respondo pela forma, visto que o periódico onde a en- 
contro vem crivado dos mais inverosímeis erros tipográficos. No 
entanto, entendo que devo rejistar este vocábulo (talvez batuque) 
na acepção nova que se lhe atribui no trecho seguinte: — «Os 
batoques de que usam na guerra são de três espécies. O goma, 
o cinzete e o birihiri» — 2. (V. estes vocábulos). 

Batoque será, pois, um tambor. 



1 V. Henrique Sweet, The Students Dictionary of Anglo-Saxon, 
Ocsónia, 1897; A history of English Sounds, Londres, 1874, p. 96. 

2 Azevedo Coutinho, A campanha do Barué bm 1902, in * Jornal 
das Colónias >, de 19 de agosto de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 135 



batuque, bataúda 

O primeiro destes vocábulos vem em todos os dicionários 
modernos, como significando «dança de pretos»; o segundo parece 
ter significado análogo no trecho seguinte das Notas etnográfi- 
cas sobre os povos de Timor, de J. S. Pereira ^: — «Depois co- 
meça a vida de noctambulo: horas e horas de batuque. . . canti- 
gas de bataúda > — , 

beata, beateiro 

O primeiro destes termos, chulo, vem já rejistado no Novo 
DiccioNÁEio, como algarvio, com a significação de «ponta de 
cigarro». É também usajio em Lisboa, com o mesmo significado, 
e dele provém o derivado beateiro, que está perfeitamente defi- 
nido no seguinte trecho do jornal O Século, de 28 de maio 
de 1902: — «para dar aos heateiros, que durante a noite per- 
correm os passeios e as portas dos cafés á procura de pontas de 
cigarro e de charuto » — . 



bebedouro 

Este vocábulo significa, não só a vasilha onde as aves domés- 
ticas bebem, mas também o sítio onde os animais livres vão de 
ordinário beber. 

Na realidade, a terminação -douro indica o local em que se 
exerce a acção expressa pelo verbo, a cujo radical essa termina- 
ção se junta, como lavadouro «o sítio onde se lava», matadouro, 
«o lugar onde se mata», etc. Em castelhano corresponde-lhe a 
terminação -dero, e assim dizem abrehadero, lavadero, matadero, 
etc: — « . . . empregam. . . o visgo (q. v.) branco, collocando as 



1 tn Portugália, I, p. 357. 



136 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

varas no chão ao longo dos bebedouros, sítios onde as aves cos- 
tumam ir beber, de forma que estas não possam chegar á agua 
sem lhes tocar» — K 

bedem, bedém 

O DiccioN. CoNTEMPOEANEo define esta palavra como signi- 
ficando — «capa de esparto ou junco, para livrar da chuva» — . 
Não me consta, que estas capas características, que provavel- 
mente importámos do Japão, onde são muito usadas, tenham 
em qualquer parte do reino este nome; sei que são conhecidas 
pelos seguintes: c(o)rossa, ou c(o)roça, palhota, capa palhiça. 
O Novo DicciONÁRio define o vocábulo como — «túnica moirisca, 
curta e sem mangas; capa palhíça, ou de coiro ou esparto, contra 
a chuva» — . Dá, pois, em um dos significados a definição do 
Contemporâneo, mas atribui-lhe outra, como primária, o de 
« túnica mourisca » . 

J. I. Roquete ^, mais prudentemente, limitou-se a dizer que 
é «capa de mouro», manteau maure; mas antes, no Diccionario 
DA língua portugueza ''\ dísscra ser — « capa mourisca, ou de 
agua » — . 

Sem contestar absolutamente a segunda acepção, direi so- 
mente que desejaria vê-la abonada. 

Quanto à primeira acepção, Bluteau * dá apenas o significado 
«capa» ou — «capa de agoa»— ; mas não diz que seja feita de 
palha, ou cousa semelhante, antes se abona com João de Barros 
e Diogo de Couto, por sua ordem nestas duas citações: — «Vinha 
vestido ao modo Mourisco, camisa branca, e seu Bedem em 
cima; — Hum Bedem de setim preto, com grandes cadilhos» — . 



í J. Pinho, Ethnographia Amar ANTiNA, A Caça, m Portugália, ii, 
p. 97. 

2 DiCTiONN. PORT. FRANÇAIS, Paris, 1855. 

5 Paris, 1843. 

* Voe. PORT. LATINO. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 137 



A palavra é arábica, como todos declaram, e Engelmann e 
Dozy * dizem ser BaDax, «túnica sem mangas». 

Pareceria que a verdadeira acentuação devera ser hédem, e 
não, hedém, como todos marcam. 

Todavia, se o vocábulo nos veio dos países berberiscos, é 
possível que a sílaba acentuada seja a segunda, se bem que breve 
a vogal dela. 

Aqui apresento outra abonação do vocábulo: — «bem vestido 
com sua camisa mourisca e um bedem por cima de tudo, e o 
capelo metido na cabeça, por cima da touca» — -. 

beduí, beduim, beduíno 

As únicas formas portuguesas são as duas primeiras; a ter- 
ceira é uma versão mal feita do francês hédouin. Bluteau ^ dá 
no Suplemento a forma beduim, remetendo o leitor para biduim, 
e aí cita também beduínos. E esta feição da palavra que, ainda 
mal, aceitaram Koquete, o Contemporâneo e o Novo Diccio- 
NÁEio, conquanto este último rejiste também beduim no Suple- 
mento. O vocábulo é, como se sabe e todos dizem, arábico, 
BaDauí, de badíie *, «nómade no deserto», de naou, «deserto». 
Ora, assim como de rubi se fêz riibim, e não rubino, assim de 
beduí, se fêz beduim, mas não beduíno, forma que os escritores 
antigos não conheceram. 

beijo; beijinho; beijocador 

O primeiro derivado, deminutivo, significa em sentido res- 
trito, não só uma cavaca, mais pequena e estreita, que se faz 



* GlOSSAIRB DBS MOTS ESP. ET PORT. DERIVES DE L'aRABE. 

* J. Gamara Manuel, Missões dos jesuítas no Oriente, p. 102, 
Lisboa, 1«94. 

' Voe. PORT. lat. 

* Belot, VocABULAiRB ARABE-PRANÇ.\i3, Beirute, 1893. 



13S Apostilas aos Dicionários Portugueses 



nas Caldas-da-Kainha, mas também um amuleto, com o feitio e o 
tamanho de uma ameixa, como vemos na revista Portugália, i, 
páj. 620. 

Beijúcador, nome verbal de ajente do verbo beijocar, freqiien- 
tativo de beijar, designava no século xviii um « sinal postiço 
ao canto da boca» ^ 



bejoga, bijoga, bojega 

O termo transmontano bejoga é o latim uesucula, e a forma 
da Beira-Alta, que lhe corresponde na significação, ébojega { uesi- 
cula, conforme J. Leite de Vasconcelos ^, significando qualquer 
deles « empola nos pés » . E possível, porém, que ambos procedam 
de u es i cuia, e que houvesse metátese das vogais, como houve 
na forma algarvia boleta, em vez da geral belota por bolota, do 
árabe saluTE. O o da 1.* sílaba é devido em bojega a influência 
do b, e na forma bijoga o « a influência do j, pelo quê melhor 
escrita será bejoga, visto como o e surdo vale por i surdo em 
conjunção com uma consoante palatina, aqui o^"; cf. chegar pro- 
nunciado chigar, privilejiado, para ])revelijiado, e assim muitas 
vezes escrito erroneamente. 



bejula 

— « Bebida fermentada, feita de farinha de milho, ou de 
outro qualquer mantimento» — ^. E termo da Africa Oriental 
Portuguesa. 



1 A. Campos, O Marquez de Pombal, in «O Século», de 7 de abril 
de 1899. 

2 Revista Lusitana, ii, p. 105. 

3 Diocleciano Fernández das Neves, Itinerário db uma viagem k 
Cava dos elephantes, Lisboa, 1878, p. 49. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 139 



belfa 



Esta palavra, que antigamente queria dizer «fera» e se de- 
riva do latim bellua, como o italiano helva, significa actual- 
mente em Leiria meiga (de medica) mosquito grande, a que os 
franceses chamam cousin. 

A abonação da palavra no seu antigo significado é a seguinte : 
— «e uirom belfas marynhas que eram fortes e esquivas» — '. 



belhó 



O nome deste bolo, conforme J. Cornu, deriva-se de biliola 
por libiola, e na opinião de D. Carolina Michaêlis de Vascon- 
celos de pílióla j pila. 

Todavia, como o e se profere aberto, bèlhó, ambas as etimolo- 
jias são pouco prováveis. 

Para filho já eu propus em tempo folióla, sendo o i devido 
a consoante palatal seguinte: 

Francisco Adolfo Coelho, no Diccioxabio maxual etymolo- 
Gico, deriva belhó de beignot, beignet francês, forma deminutiva 
de bigne, beugne, « tumor >, e acrescenta como comparação ca- 
lhamaço, por canhamaço, para explicar o Ih por nh, advertindo 
também que o e de belhó é aberto, como o ei de beignot. 

Todavia, em calhamaço por canhamaço, de cânhamo, houve 
dissimilação da nasal m da sílaba seguinte, facto que se não 
podia dar com belhó, a proceder de beignot. 

Conquanto sejam dignas de atenção as ponderações de F. A. 
Coelho, parece que temos de ir buscar a outra fonte a orijem da 
palavra. 

Se acertei em atribuir a filho o étimo folióla ou follióla, 



1 Oto Klob, A VIDA DE Santo Amaro, texte portugais du xiv** siè- 
cle, m Romani a, t. xxx, p. 508. 



140 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



creio não estar lonje da verdade considerando hèlhó como deri- 
vada de uma forma latina halaneóla, deminiitivo de hala- 
neum, forma adjectival substantivada, derivada de b ai anus, 
«castanha». A sucessão de formas seria então: balaneola: ba- 
naleola: baneleola: haelhola: baelhó: hèlhó. 



bengala, pingalim 

São os portugueses o único povo europeu que chama ao bas- 
tão bengala. Primeiro se denominou cana de Bengala, por ser 
a haste feita de cana-da-índia; depois suprimiu-se o primeiro 
termo: — «Que cousa hé esta, senhor Afonso de Alboquerque? 
quisestes que dissessem as regateiras de Lisboa que vós tomastes 
primeiro terra neste vosso Calecut de que fazeis a El-rei Nosso 
Senhor tantos espantos? Ora eu irei a Portugal, e direi a Sua 
Alteza que com esta cana de Bengala na mão, e com este 
barrete vermelho que trago na cabeça, entrei em Calecut; e pois 
não acho com quem pelejar, não me hei de contentar, senão de 
ir ás casas de Elrei, e jantar hoje nellas» — '. 

Saíu-lhe cara a basófia, e aos desgraçados que o acompanha- 
ram, pois quasi todos foram mortos com ele, o maríehal 1). Fer- 
nando Coutinho, que assim desdenhava dos traiçoeiros naires. 

Pengalim parece ser um deminutivo de bengala, com mu- 
dança da inicial. 



bem-aventurado, bem-aventurança 

Estas duas palavras teem de escrever-se com uma linha di- 
visória, para que não sejam lidas be-maventurado, be-maventii- 
rança. 



' João de Barros, Da Ásia, Década ii, liv. 4.", cap. i. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 141 



benjoim, beijoim 

A etimolojia deste vocábulo foi primeiro dada por Garcia da 
Orta, nos Colóquios dos Simples e das dbogas da Índia: é o 
árabe luban gaui, «incenso de Java>. Na segunda forma, que 
é a mais usual, influiu a palavra beijo. 



bento 



Em Viseu esta palavra quere dizer « curandeiro » : — «O dono 
da casa tem um filho doente ha muito tempo . . . por suggestões 
de amigos lançou-se nas mãos de um bento» — *. 



berço 

Esta palavra, cuja etimolojia é incerta, mas que para portu- 
guês, como para o galego berce, parece ter tido orijem francesa, 
ainda que remota, pois em castelhano o mesmo objecto se chama 
cuna j cunae, figura no trecho seguinte em uma acepção não 
rejistada nos dicionários: — «o pessoal. . . tenciona cotizar-se para 
collocar berços nas sepulturas das duas victimas» — . Estes 
berços são uns gradeamentos em torno do coval, e nos quais se 
dispõem plantas de ornato, ou vasos' com elas. 



besigue 

No Suplemento ao Novo Diccionáeio inseriu-se uma palavra 
bezígne, que aí é definida como certo jogo de cai-tas, dando-se-lhe 
em dúvida como étimo bis e signo. 



1 O Viriato, in < O Economista », de 4 de setembro de 1884. 



142 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Ora, o nome do jogo em francês é hézigue, ou bésigue, e não 
bezigne, e o autor do dicionário viu-o provavelmente citado em 
português com um erro tipográfico, n por u. Aqui fica feita a 
emenda, que inclui a rejeição do étimo proposto. Qual seja a ori- 
jem de tal nome ignoro-o; Littré, que o inscreveu no seu grande 
dicionário francês, não aventa qualquer hipótese, dando-lhe ape- 
nas como variantes as abreviaturas bézy e bési. Na enciclopédia 
NouvEAU Larousse illustsé vem a descrição minuciosa do 
jogo, que é francês, e de lá passou para cá juntamente com o 
nome. 

São bastantes os erros tipográficos que vão passando de uns 
para outros dicionários, o que motivou em França os curiosos 
artigos de A. Thomas intitulados Coquilles lexiologiques, 
«Gralhas lecsiolójicas», publicados no volume xxii da revista 
Komania, correspondente ao ano de 1893. 

Exemplos de tais equívocos são neste meu trabalho os que 
subordinei às epígrafes acudia, e hererós. 



besouro, besoiro, bisouro, bisoiro 

A forma mais comum em Lisboa é bisoiro; a que se considera 
mais correcta é besouro, sem grande fundamento, pois é desco- 
nhecido o étimo. Que a escrita é com s e não com z prova-se 
com a pronúncia transmontana besouro, com s sonoro subCacu- 
minal, quási j, e não com o ^ de zelo, por exemplo, e é sabido 
que em Trás-os-Montes, e parte do Minho, Douro e Beira-Alta, 
o 2: G s entre vogais se não confundem actualmente, como se 
não confundiam há três séculos em parte alguma do reino, pelo 
menos até o Tejo, diferençando-se perfeitamente coser \ consue- 
re, e cozer \ coquere, como se diferençavam e ainda se diferen- 
çam no norte paço \ palatium, e passo } passus. 

Com relação ao ou ou oi, a forma transmontana não nos 
pode dar regra que autorize a preferência, pois ali predomina o 
ditongo ou (=ôu) sobre o ditongo oi (=ôi). 

O i por e (=e) da primeira sílaba explica-se por mais clara 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 143 



enunciação, como acontece com didal, tisoiro, formas populares, 
em vez de dedal, tesouro. 



bétele, (bétere, betre, betle) 

E esta a melhor escrita portuguesa, porque é a mais antiga, 
ou então bétere, betre, e não bétel. Não há dúvida também que 
o acento tónico é na primeira sílaba, como o encurtamento bet7-e o 
está indicando, e não na segunda, como marca o Dicc. Coxtem- 
POKAXEO erroneamente, erro que por lapso escapou ao erudito e 
escrupuloso autor dos Subsídios paka a leituea dos Lusía- 
das *. 

Fernám Méndez Pinto usou três vezes a forma bétere, por ex. : 
— «bétere que são húas certas folhas como de tanchagem» — ^. 
O Padre António Francisco Cardim, pelo contrário, deu a prefe- 
rência a bétele: — «a este fim lhe deram na prisão veneno em 
um bétele > — ^. 

Esta palavra trouxemo-la nós da índia; é da língua malabar, 
e conforme o Glossário de Yule & Burnell * significa «folha sim- 
ples >, vettila (de veru, « simples >, e ila, « folha >). 

A forma bet(e)re explica-se perfeitamente. Suprimido que 
seja o e da segunda sílaba de bétele, resulta betle, e ti não é 
grupo de sons tolerável em português; além disto, como os tt, 
que no nome dravídico figuram, são cacuminais, o l passou a r 
em português, por ser cacuminal também esta consoante na nossa 
língua. 

O Conde de Picalho, no seu opúsculo Floka dos Lusíadas ^, 
a páj. 69, referindo-se à menção feita na estanca Õ8 do vii Canto- 



1 Lisboa, 1904, p. 206. 

2 Peregrinação, cap. clxxvii. 

' Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 111. 

* A Glossary of Anglo-Indian words and phrasbs, Londres, 1886> 

s Lisboa, 1880. 



144 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



do poema à verde folha da herva ardente, escreve hetle, e 
adiiz o outro nome, arábico, pelo qual foi conhecido dos nossos, 
atambor (AL-TaNBUL), e que no Eoteieo da viagem de Vasco 
DA Gama ^ se emprega para a designar: — «e tinha á mão es- 
querda huma copa d'ouro ... na boca engaço de humas ervas 
que os homens desta terra comem pela calma, a qual chamam 
atambor» — . E de advertir que este nome é índio também, 
mas árico, e não dravídico; é o sánscrito TãMBULa, arabizado, e 
depois aportuguesado. 

Veja-se o vasto comentário do Conde de Ficalho aos Coló- 
quios DOS Simples e das drogas, de Grarcia da Orta, na pri- 
morosa edição da Imprensa Nacional ^ dirijida pelo Conde; aí se 
encontrarão todos os esclarecimentos, que seria longuíssimo repro- 
duzir aqui: o índice, perfeitamente organizado, encaminhará o 
leitor na averiguação de tudo o que resumidamente expus. 



beto (=^héto) 

Por informação do snr. Francisco Teixeira, natural de Miran- 
dela, este vocábulo designa em Trás-os-Montes uma espécie de 
meia-pá de madeira, correspondente à raquette francesa. Com 
ele se joga o toque-emhoque. 

Beto é também ali o nome de um jogo, parecido com o 
cricket inglês. 

betume 

Em Caminha, e provavelmente em outros pontos do Minho, 
se não em toda a província, betume, ou batume, quere dizer 
« caldo grosso > . 



1 Lisboa, 1861, p. 59. 

2 Lisboa, 1891-1892, dois volumes, afora a introducção intitulada Gar- 
cia DA Orta e o seu tempo, ura vol., Lisboa, 1886. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 145 



bexigas 

A varíola já assim é denominada pelo Padre António Fran- 
cisco Cardim, que lhe chama <í peste»: — <No anno de 1637 
houve na ilha [de Áinão] uma universal peste de bexigas, de 
que morreu muita gente» — *. 

O nome lhes proveio das vesículas que na pele se formam, 
do latim vesica, < empola», com a mudança do s em x, por 
iníluéncia do i, e a do c em ^, por estar depois de vogal: 
cf. fogo } focum, e Xisto j Sixtus. 

A terrível doença chamam os médicos varíola, não se sabe 
por que razão, visto a palavra ser artificialmente fabricada, deri- 
vando-a de varius, pois em latim não existia; parece, pelo con- 
trário, que devera acentuar-se varíola, como a comparação 
com o francês (petite) vérole, o castelhano viruelas, e o italiano 
vaiuòlo o está indicando. 

O que é de estranhar é que, entre as nove pragas que a so- 
berana de Póhiola desencadeou sobre os fineses, por lhe terem 
arrebatado ardilosamente o Sampo, ou < penhor de prosperida- 
de», como se conta no Kalevala, não estejam incluídas as bexi- 
gas, que parece não eram conhecidas na Finlândia. Essas pra- 
gas foram: Pleuresia, cólica, reumatismo, tísica, úlcera, sarna, 
cancro, peste, e a última e peor de todas, a que não tem nome, 
o demónio da enveja 2. 

bezerro 

Termo de Leiria, e provavelmente de toda a Estremadura 
rural: — < buraco feito por uma fagulha, no fato, quando se está 
a engomar, a cozinhar, a meter pão no forno, etc. » — ^. 



1 Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 238. 
~ Kalevala, runa 4.5. 

2 Informação do snr Acácio de Paiva, dali natural. 
10 



146 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



bica; biquinlia; bico; bicuda, bicudo, bicudez 

Além dos significados colijidos em vários dicionários, tem a 
palavra bica mais dois: em Caminha quere dizer «sémea fina>, 
e na ilha da Madeira (Pôrto-Santo) é o nome de uma planta 
(Anthus trivialis), à qual também se ali chama hiqiiinha. 

Por outra parte, a forma masculina hico tem, além das já 
apontadas, mais as seguintes acepções: Caminha: « beijo >; Ma- 
deira : « focinho de cavalo » . Geral : « aves de capoeira » : — «O 
gallinheiro é provido de poleiros suficientes para repouso dos 
bicos» — K 

Em calão: «moeda de dois tostões». 

Termo faceto: «bebedeira», como nestes versos de Manuel 
Koussado : 

— Como a scena é de taberna, 
Armei os versos em bico — . 

Bicuda: «galinhola»: — «Já chegaram as bicudas, como lhe 
chamam os caçadores» — ^. 

Bicudo: difícil, ex.: temiios bicudos, negócio bicudo. 

Bicudez: (neolojismo faceto): — «apesar da bicudez dos tem- 
pos» — ^. 

bicha, bicho; bichar, bicharengo, bicheiro 

Bicha : Trás-os-Montes : « víbora » . 
Ilha da Madeira: «milhafre». 

Greral: figura de dança, em que todos os pares dão as mãos 
uns aos outros em fileira. 



1 J. da Silva Picão, Ethnographia do Alto Albmtejo, iw Portu- 
gália, I, p. 545. 

2 O Século, de 1 de novembro de 1901. 

3 O Dia, de 20 de setembro de 1902. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 147 



Bicho: peliça para o pescoço: — < Peles, romeiras, bichos ^ 
E o que em francês se chama boa (=boá). 

Bicho do areeiro, ou boieiro, Pôrto-Santo (Puffinus An- 
glo rum): < mergulhão», ave. 

Bichar: «criar bicho a fruta»: — «Elvas, 30... A colheita 
da azeitona está começada, e é apenas uma meia novidade, se 
tanto, porque ultimamente bichou a de alguns vidonhos (redon- 
dil, conserva e cordovil)» — 2. 

Bicharengo: Certa: «texugo>. 

Bicheiro: já rejistado no Novo Diccioítáeio, como termo 
alentejano, com a seguinte definição: — «tubozinho de lata, por 
onde sái a extremidade superior da torcida das lanternas. (De 
bicha, por aJlusão á torcida)» — . 

O étimo é sem dúvida o castelhano mechero, de mecha, « tor- 
cida», o qual tem significação análoga, e que provavelmente 
passou ao Alentejo, por audição, como muitos outros castelhanis- 
mos ali usados. 

Difícil de identificar é o animal a que Fernám Méndez Pinto ^ 
chama bicho de voo, no que o compara ao morcego. Não me 
atrevo a alcunhar a descrição de fabulosa, para que me não caiba 
na cabeça a carapuça a que linhas antes êle alude na sua inte- 
ressante narrativa : — « gente que vio pouco do mundo, por que 
esta como vio pouco, também costuma a dar pouco crédito ao 
muito que outros virão» — . 

Eis a descrição do bicho de voo: — «Vimos aquy também 
húa munto nova mane3'ra, & estranha feyção de bichos, a que os 
naturaes da terra [Batas, na Polinésia] chamão Caquesseitão, do 
tamanho de húa grande pata, muyto pretos, conchados pelas 
costas, com húa ordem de espinhos pelo fio do lombo do compri- 
mento de húa penna de escrever, e com asas da feição das do 
morcego, e o pescoço de cobra, e húa unha a modo de esporão 



* Anúncio no jornal O Século, de 14 de novembro de 1902. 

2 O Economista, de 4 de dezembro de 1892. 

3 Peregrinação, cap. xiv. 



148 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



de gallo na testa, e o rabo muyto comprido pintado de verde e 
preto, como são os lagartos desta terra. Estes bichos de voo, 
a modo de salto, cação os bugios, e bichos por cima das árvo- 
res, dos quais se mantém» — . 

Devemos confessar, que como descrição leva a palma às de 
Cuvier; assim ela seja a verdadeira! 



bigode, mostacho 

A palavra bigode é antiga na língua, e existe também em 
castelhano com a forma bigote, ou antiga vigote. No Diálogo 
ENTEE Lain Calvo y Nuno Kasuea, texto castelhano do xvi sé- 
culo (1570), publicado na «Revue Hispanique», t. x, (1903), 
encontram-se ambos os vocábulos: — «Otro estilo an tomado es- 
tos nuevos alcavaleros [judios] de poço tiempo aca, pasearse 
tiesso quatro dellos en cuadrilla [sic], oliendo olores, putos de 
almizcle, algalia, benjui, perfumes, encrespandose los cabellos 
para arriba, i tirando sus viles vigotes i mostachos, por pare- 
cer mas valientes i rrobustos» — ^ 

O termo mostacho veio para o castelhano, como para o fran- 
cês moustache, do italiano mostaccio ou mostacchio, hoje em 
geral substituído nesta língua por baf)i, e cuja orijem parece ser 
o grego moderno moustákion, ou moustáka, que tem a mesma 
significação que já tinha no grego antigo mústaks, juntamente 
com a de «beiço de cima» -: cf. barba em português, que quere 
dizer «a ponta do queixo» e «o pêlo da cara». 

Ao mesmo passo, porém, que Luís de Camões já emprega o 
plural do vocábulo bigode nos Lusíadas, Torquato Tasso, na 
Jerusalém Libertada, serve-se de uma circunlocução para o 
designar: — «Lascia barbuto il labbro e'I mento rade» — . 



í p. 177. 

2 W. Pape, Griechisch-dbutsohbs Handwôrtekbuch, Bruusvique, 

1880. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 149 



Persas feroces, Abassis e Rumes, 
Que trazido de Roma o nome tem, 

Era sangue português juram descridos 
De banhar os bigodes retorcidos — '. 

Já antes, Gil Vicente usou o deminutivo higoãezinho : 

Poro — Elle pôs desta maneira 

A mão na barba e jurou 

De meus dinheiros pagá-los. 
Vasco — ^;Essa barba era enteira 

A mesma em que te jurou, 

Ou bigodezinhos ralos? — -. 

A orijem do castelhano vigoie parece ser a palavra viga, cujo 
significado é o mesmo que em português; pelo menos é esta a 
opinião da maioria dos etimolojistas, mas bastante problemática. 



bilhafre 

Esta variante de milhafre é usada por Francisco Kodríguez 
Lobo na Corte na Aldeia ^. 

Na ilha da Madeira designa o «francelho». 

A mudança de m inicial em h, e vice-versa, conquanto pouco 
frequente, não é sem exemplo em português: cf. herrão com 
marrão; bicheiro (q. v.), «canudo para a torcida, com m£chero 
castelhano, que tem o mesmo significado » ; batota « tavolagem » 
com matute, « candonga » em castelhano, etc. 



1 Os Lusíadas, x, 68. 

2 Farsa dos Almocreves. 

3 Diálogo III, ed. de 1774, p. 56. 



150 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



bilro 



É uma interjeição usada em Sam Miguel, dos Açores, com 
a significação de bravo! K 

bíri-bíri 

— «Os batoques [q. v.J de que usam na guerra são de 
três espécies. . . O òiri-biri tem a forma de um charuto grosso 
e curto, com a ponta cortada; é enorme e geralmente tem os 
dois extremos cobertos com pelle. Amarra-se a uma arvore ou 
poste e é tocado com bocados de pau. O hiri-hiri é que dá 
signal para as povoações visinhas de que ha guerra ou prepara- 
tivos para ella . . .Tocado em combate, do lado do maior diâ- 
metro, dá signal de avançar, e do lado do menor, signal de reti- 
rada. . . O hiri-hiri desempenha ainda, entre as populações sel- 
vagens, o horroroso serviço de cepo de carrasco» — ^. 



bisbis 

Na ilha da Madeira é o nome de uma ave, que também é 
conhecida por ahibe, termo já colijido no Contemporâneo. 



biscato, biscalho, biscalheira 

Biscalho se chama ao alimento que as aves levam no bico 
para os filhos; outras formas do mesmo vocábulo são hiscate e 
biscato, e todas estas três formas teem aspecto de ser derivadas 



i O Século, de 5 de julho de 1901. 

2 Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1902, in c Jornal 
das Colónias >, de 19 de agosto de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 151 

de um primitivo bisco, ou besco, do latim uescus «magro», 
como propõe em dúvida o Novo Diccionário. A existir a pala- 
vra besco, a escrita dos derivados deveria ser bescato, etc. 

Biscalheira, em Arcos-de-Yal-de-Vez, é o nome que se dá a 
uma vara raxada na extremidade e destinada a colher o bisca- 
Iho, que nesta acepção quere dizer «fruta pendente da árvore»; 
outro nome é ladra, que provavelmente se aplica quando a fruta 
não é colhida com permissão do seu dono, o que parece aconte- 
cer muito frequentemente ^ 

biscouto, biscoito; biscoiteira 

Além do conhecido significado do primeiro vocábulo, aduz 
mais o Suplemento ao Novo Diccionábio o de — «seixo, frag- 
mento (de pedra) » — como antigo, e aboua-o com o seguinte 
passo da Historia Ixsulaxa: — «... se chama este caminho 
do Pedregal, por ser de huma, e outra parte 'de biscouto de 
pedra > — -. 

Nos meus apontamentos tenho este vocábulo, com a seguinte 
explicação: «Termo dos Açores: a camada de lava ondulada, que 
cobre certos terrenos». Biscoitos é também o nome de uma lo- 
calidade na Ilha Terceira, e deste substantivo comum lhe veio 
com certeza o nome. 

Biscouteira: «redoma com tampa volante, para arrecadar 
biscoutos, bolachas, bolos». É um excelente neolojismo, já divul- 
gado, para traduzir o vocábulo francês bonbonnière. 

biselho 
Quere dizer «atilho» ^. 



1 Veja-se J. Leite de Vasconcelos, Eespigos camonianos, p. 4(3. 

2 II, p. 80. 

3 Trigueiros Martel, Culturas hortícolas. 



152 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

bitácula 
Como termo de calão, «o nariz», 

bitafe. V. pitafe 

bitar 
Voz transmontana, que quere dizer «entornar». 



bisnaga 

O Novo DicciONÁEio diz provir este vocábulo do árabe has- 
tinage, de orijem latina, pastinaca. É natural que os árabes 
encontrassem a palavra na Península, e a afeiçoassem à sua 
pronunciação. Ora, o latim pastinaca deveria passar ao portu- 
guês, ou ao castelhano, com abrandamento do c em g, x>astinaga. 
Não existindo em árabe nem p, nem g póstero-palatal (como em 
paga), mudaram a primeira consoante para 6, e a última para g, 
palatal africata, quási igual a dj, pois é esta a pronúncia clás- 
sica da 5.* letra do seu alfabeto, que no Ejipto se profere como 
o ^ de gato, e em vários pontos da Barbaria como o j português. 
Deste modo, o romanço peninsular pastinaga passou a BasxiNAGE, 
e deste procedeu o português bisnaga, com supressão da 2,* sí- 
laba átona ti. Cf. Beja do latim Pax, ou Pace(m) no acusa- 
tivo (Pax lulia), conforme demonstrou David López no seu belo 

estudo TOPONYMIA ÁRABE DE POBTUGAL ^ 



1 in «Eevue Hispanique>, t. ix, p. 39, (1902). 



Apostilas aos Dicionários PorUigueses 153 



bísaro, bízaro; sedeúdo, molariuho 

Este termo, que o Eecexseamento Gebal dos gados ' es- 
creve bísaro, e cujo étimo é descouhecido, sendo difícil ficsar-lhe 
a ortografia, designa uma raça de porcos própria do norte do 
reino, e assim definida na mesma interessante publicação oficial: 
— «cabeça comprida e estreita; orelhas também muito compri- 
das e pendentes, chegando a dois terços e mais da extensão da 
cabeça. O pescoço é delgado: a extensão que vae desde a nuca 
até á origem da cauda é muito considerável, chegando a medir 
l'",40 e mais: linha dorso-lombar muito convexa ou arqueada; 
peito muito estreito e achatado ou espalmado, assim como o 
ventre, que é muito mais alto que largo. As pernas são também 
muito altas e ossudas. As cerdas são compridas e grossas, sendo 
a côr geralmente preta. Ha-os também brancos e malhados, e 
tendo somente a frente aberta, uma lista branca sobre a agulha 
e as espáduas, e baixo calçados. 

São geralmente muito corpulentos. 

Os porcos de cerdas ou pellos mais densos compridos e gros- 
sos são chamados sedeudos [sedeúdos], ou cerdosos; e aquelles 
em que ellas são menos grossas e compridas, mais raras e a 
pelle mais fina se chamam mollarinhos > — . 



blasonar 

Este verbo está definido em um sentido especial no jornal 
O Século, de 12 de agosto de 1900, nos termos seguintes: — 
«Ao entrarem nos logares destinados á realização das justas, o 
rei d"armas descrevia, em voz alta, os emblemas do escudo do 
recemvindo, e assim se ficava sabendo quem elle era. A isto se 
chamava blasojiar» — . 



Lisboa, 1873. 



154 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



A forma blasonar, em qualquer acepção, e a apontada parece 
ser a primitiva, é castelhanismo, pois ao blasón castelhano cor- 
responde em português brasão, substantivo do qual se derivaria 
um verbo (ajbrasoar, e não blasonar. 



bobo 



Júlio Cornu * atribui a orijem deste vocábulo ao latim pu- 
pus, «rapazinho». Não creio: ao u longo corresponde u em 
português, e não o. 

Parece-me que para o português veio este vocábulo do caste- 
lhano bobo, em que ainda perdura como adjectivo usual, no sen- 
tido em que empregamos tolo, e que procede nessa língua do 
latim balbus, «gago». Que a palavra portuguesa não pode deri- 
var-se imediatamente do mesmo étimo que a castelhana prova-se 
com a circunstância de que, a ser directa a derivação, a forma 
portuguesa seria boubo, como é em mirandês, com ditongo: 
cf. outeiro, cast. otero, de altarium, poupar, de palpare, 
mouco, de Malchus. 

Outra circunstância que concorre para aceitarmos a prove- 
niência castelhana é que bobo, em português, quere dizer apenas 
«jogral», e não produziu derivados, por ser termo de significado 
muito restrito, e de aplicação especial; entanto que em caste- 
lhano êle tem várias acepções, e deu orijem a nada menos de 
onze derivados por suficso, e três por preficso. Nesta língua teve 
vitalidade; em português foi e é uma palavra estéril. 



boçudo 

Este adjectivo, que suponho não ter existência independente, 
vemo-lo empregado junto ao substantivo paus, paus boçudos, 



» Grunuriss deu RoMAKisCHEN Philologie, I, p. 72G, n." 27. 



Apostilas aos jyicionãrios Portugueses 155 

locução assim definida: — «mocas usadas como arma de guerra 
pelo gentio da Africa Occidental Portuguesa» — '. 

bofarinha, bofarinheiro : V. bufarinba 



bogacho 

Na Beira-Baixa quere dizer « novelo » ^. 
Era Lisboa chama-se hagochinho ao resto de um novelo, 
quando já perdeu a forma globular: cf. hogalho. 

boi; boi-bento; boi (de)-cavalo, boi de monta(da) 

Na procissão do Corpo-de-Deus, celebrada em Caminha, vai 
adeante um boi, nédio, formoso e corpulento, enfeitado de flores, 
e com uma altíssima cruz, formada também de flores, erguida 
entre as armas. Chamam-lhe o boi-bento, como lá me disseram. 

Boi (de)-cavalo, ou boi de monta ou de montada se deno- 
mina na nossa África aquele que lá substitui o cavalo, como 
montada. A primeira expressão está abonada no jornal O Econo- 
mista, de 11 de agosto de 1885, e é a mais usual; a segunda é 
empregada na obra de Henrique de Carvalho, Expedição poetu- 

GUEZA AO MUATIÂJÍVUA '^. 

bolçar 

A forma antiga deste verbo é boomçar, bonçar, o que indica 
claramente o seu étimo uomitiare, como já o aponta D. Caro- 
lina Michaêlis de Vasconcelos, na Kevista Lusitana, i, páj. 299. 



• P. Saturnino, Conferencia feita na Sociedade de Geografia de Lisboa 
em 2 de maio de 1900, publicada nos Avulsos. 

2 Informação do editor, natural de Almeida. 

3 Lisboa, 1890. 



15(j Apostilas aos Dicionários Portugueses 



boliço 

O vocábulo reboliço é muito usado; não assim porém o seu 
primitivo, que era frequente dantes, e que vemos empregado pelo 
cronista liui de Pina: — «encomendarão ao Daião que fosse falar 
com ella [a Rainha], para que quisesse repousar á vontade, e não 
dar causa a boliços, de que tanto mal se podia seguir» — *. 



bolo; bola 

Bolo-ãe-vinte-e-quatro-horas se chama em Aveiro a uma es- 
pécie de arrufada, que leva 24 horas a aprontar-se: tem farinha, 
ovos e açúcar. 

No Alentejo denomina-se bola o chamado «queijo de correr», 
que em outras partes se diz queija. 

a boma, (e não) o boma 

E palavra da África Oriental Portuguesa, e o seu significado 
está exposto no seguinte passo do Joenal das Colónias, de 
24 de dezembro de 1904: — «no boma ou forte só pernoita a 
guarda » — . 

Deu-se-lhe aqui o género masculino, infundadamente, pois as 
línguas cafriais não diferençam géneros gramaticais, e a palavra, 
pela sua terminação, é femenina em português. 

bomba, bombo, bumbo, zabumba 

Estes vocábulos, mais ou menos onomatopoéticos, isto é, imi- 
tativos de sons, com os seus derivados, como bombarda, bom- 



^ Crónica de El-uei Dom Afoxso v, cap. liii. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 157 



heiro, dariam causa a uma extensa monografia, (tam abundante 
e minuciosa como a que Hugo Schuchardt consagrou aos deriva- 
dos do latim cochlea ') a começar pela interjeição hum!, só, 
ou repetida, humhum! 

Consignarei aqui apenas o seguinte: 

A forma bumbo é a popular, talvez por influencia da inter- 
jeição, e ampliada ainda com a sílaba za- prelicsada, o que apros- 
sima o vocábulo do castelhano zambomba (pr. §ambomba), nome 
que em Espanha se dá ao instrumento grosseiro e importuno a 
que em português se chama ronca, o qual consiste numa caixa 
de resouáncia mais ou menos cilíndrica, aberta num topo, e cu- 
berta no outro com uma pele esticada, a que está preso interna- 
mente um cordel encerado, pelo qual se corre a mão para o fazer 
soar. 

A forma tida por culta, bombo, designa um tambor ou caixa, 
antigamente muito alto, hoje de altura inferior ao diâmetro, o 
qual se tauje com uma maçaneta. 

A palavra parece que veio para cá do italiano, como outros 
nomes de instrumentos: em italiano dá-se o nome de bombo a 
uma nota musical, repetida, sem variação alguma (ronca), e o 
bombo, na realidade, não dá mais que uma nota, se nota musical 
se pode chamar o soído de uma pancada, sempre a mesma. 

Em razão da forma, dão os pescadores da tartaranha, no 
Tejo, seixalenses e barreirentos, o nome de bumbo a uma 
selha alta onde expõem à venda o peixe no mercado da lota, no 
Aterro da-Boa-Vista. 

Os bumbos são feitos de um barril serrado ao meio, e por- 
tanto, de cada barril fazem-se dois bumbos, ou selhas dessas. 



1 RoMANisCHE Etymologieex, II, in < Sitzungberichten der Kaiserli- 
chen Akademie der Wissenschaften in Wien >, 1899. 



158 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



bombaça 

No estudo de Rocha Peixoto intitulado Os palheiros do 
LiTTORAL * lê-se: — «Cuma cobertura de duas aguas [de duas 
correntes], telhada, raro colmo, irrompe, para escoante do fumo 
da cozinha, uma bombaça, quando não é uma simples abertura, 
ou mesmo nada» — . 

Antes ^ dissera o mesmo escritor, referindo-se a edificações 
portuguesas várias: — «Dos telhados, resaltando á frente sobre 
cachorros de madeira, recortadas e ligadas ao frechai . . . sobem 
chaminés de tipos vários, como a bombaça (Minho e Douro) 
ou as que semelham túmulos (Alemtejo), minaretes e zimbórios 
(Algarve); n'outros nem existem: é na serra, onde as paredes 
parecem uniformemente vestidas de fuligem > — . 

Estes dois trechos completam-se um ao outro. 

E pois a bombaça uma espécie de chaminé, e é vocábulo 
ainda não rejistado em dicionários. 

A propósito direi que o povo pronuncia melhor que os cul- 
tos a palavra chaminé, pois diz cheminé, do francês chemi- 
née; a. forma literária chaminé é devida a falsa aualojia com 
chama \ flamma, vocábulo com o qual não tem nenhuma re- 
lação. 

O francês provém de caminata j camlnus, palavra que 
os romanos receberam dos gregos. 



, bombeiro 

Designa este vocábulo, nas marinhas do sal, um tabuleiro 
sobre o comprido, com um cabo, e um pau roliço atravessado a 
meio por dois buracos abertos nas paredes laterais. 



1 ín Portugália, I, p. 87. 

2 ib. p. 83. 



Apostilas aos Dicionários Portuguesen 159 

Vera íigurado no jornal O Século, de 10 de junho de 1901, 
juntamente com outras alfaias usadas na lavra do sal. 

bomboteiro 

Esta palavra, usada no Funchal, é o aportuguesamento, com 
o sulicso -eiró do vocábulo inglês bumboat: — «Logo que fundeou 
o « Donne-Castle » , foi rodeado por grande quantidade de barcos, 
conduzindo bomboteiros. Dá-se este nome aos homens que se 
empregam na venda, a bordo, dos productos da ilha, entre os 
quaes aguardente e vinho > — *. 

bondoso, bondadoso 

Bondoso significa o que tem bondade, e também existe o 
adjectivo bondadoso, de que o primeiro é forma simplificada -. 

Não são poucos estes casos de haplolojia em português, e 
exemplos análogos temos em saudoso por saudadoso, de saudade, 
caridoso por caridadoso, de caridade, cuidoso, por cuidadoso 
de cuidado, sendo a segunda forma do adjectivo a mais usual 
hoje; mas que o não era no tempo de Camões depreende-se do 
emprego que fez de cuidosos: 

Do foturo castigo não cuidosos '. 

Outro caso de haplolojia com polissíntese é, por exemplo, 
fidalgo, por iílho de algo. 

Para evitar a haplolojia, ou simplificação dos vocábulos me- 
diante supressão de uma sílaba, quando duas sílabas consecuti- 



1 O Século, de 2 de março de 1900. 

2 J. Leite de Vasconcelos, Eevista Lusitana, iii, p. 272. 
2 Os Lusíadas, ih, p. 132. 



160 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

vas começam pelos mesmos elementos consonánticos, muda-se a 
meúdo a vogal surda da primeira delas, em outra mais distinta; 
assim temos: diclal, por dedal [ dedo, se não de digitale, pois 
dizemos dedeira, sem haplolojia; ^'/j/z^w, q jajum, -por jejum; 2>i- 
pino, por pepino, etc. 

Haplolojia notável é a que simplificou antigamente consi- 
derar em consirar, que vemos, por exemplo, em Kui de Pina, 
Crónica de El-rei Dom Afonso v (cap. ii). O povo, ainda hoje, 
porque o verbo nas formas arrizotónicas, como o infinito, tem um e 
escrito, que se não lê, pois pronunciamos considrar, e não, con- 
siderar, conjuga-o nas rizotónicas sem esse e, dizendo considro, 
por CDYisidéro, assimilando-o a vidro, de vidrar, que não é vidéro. 



bonideco 

Esta expressão adverbial, usada nos Açores no sentido em que 
empregamos de boa vontade, ou em francês volontiers, tem ori- 
jem erudita: é o latim bono et aequo, com supressão do o do 
primeiro vocábulo. 

bonzo 

É vocábulo japonês, e como tal sempre foi considerado, 
havendo sido introduzido na Earopa pelos portugueses. E frequente 
nos nossos escritores, quando se referem à China, Japão, Aname, 
Siame, Camboja, a toda a parte da Ásia onde impera, como re- 
lijião dominante, o budismo, mais ou menos adulterado. — «De- 
pois da morte de seu pai foram os bonzos que assistiram ao pa- 
gode» — ^ 

Os nossos dicionários e os alheios dão como étimo a esta voz 
peregrina a forma japonesa hozu; mas a verdadeira escrita seria 



1 António Francisco Cardini, Batalhas da Companhia ue Jesus, 

Lisboa, 1894. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 161 



então hôuzu, dando-se ao ou o valor que tem em português. 
Não é desta forma, porém, que o vocábulo foi tirado, mas sim 
de outra dialectal, hónzu, o que explica a vogal que adquiriu 
em português. 

E frequente esta adjunção de n às consoantes sonoras entre 
vogais, em certos dialectos da língua do Japão, e assim se moti- 
vam as escritas portuguesas Nangassáqui, Cangoximâ, etc. 

O mesmo aconteceu ao vocábulo biombo, em japonês biõbu, 
ou biómbu. 

boqueirão 

O Novo DiccioNÁBio rejista este substantivo como nome de 
um peixe, cuja vivenda é no Algarve e nos Açores. 

Todavia, no jornal O Economista, de 14 de setembro de 1888, 
citando o Campeão das Peovincias, de Aveiro, lemos: — «No 
mercado não ha positivamente nada. Um pouco de boqueirão 
que restava das últimas pescas, vendeu-se logo que aqui chegou 
a 700 réis o milheiro» — . 

Parece portanto que se encontra em outras águas mais ao 
norte. 

Em castelhano há boquerón, que o Dicionário da Academia 
descreve do seguinte modo: — «Pez dei orden de los malacopte- 
rigios abdominales, muy comun en el Mediterrâneo, de unos ocho 
centímetros de longitud, cuerpo largo [«comprido»] y compri- 
mido, verdoso por el lomo («lombo») y plateado en lo demás, y 
boca que se prolonga hasta detrás de los ojos» — . Parece ser 
este último característico o que lhe deu o nome. Ignoro se o 
peixe que em português se chama boqueirão é este mesmo. 

borco (pi. borcos); emborcar 

Tanto no Diccionabio Contempoeaneo, como no Novo 
DiccioNÁEio dá-se este vocábulo por somente usado na locu- 
ção adverbial de borco, o que inspirou a Júlio Cornu a etimolo- 
jia de porco, bastante singular e inverosímil. No Suplemento ao 
11 



162 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Novo Dicc. relaciona-se horco com bolear, dado no corpo do 
dicionário como vocábulo transmontano, com o significado de — 
«fazer cair, voltando» — . Borco, porém, existe como substantivo 
independente. 

No meu trabalho sobre o falar bragançano, inserto no i vo- 
lume da Revista Lusitana, a páj. 212 \ incluído no vocabulá- 
rio transmontano que ali publiquei, rejistei o verbo emholcar, 
comparando-o com o castelhano volcar, «tombar» um carro, por 
exemplo, e o português comum emborcar, subordinando-os todos 
ao latim inuolioicare, de uoluere. Ainda mantenho a mesma 
opinião, que é confirmada pelo substantivo borco, «tombo» em- 
pregado no seguinte trecho: — «[cambalhota] de cima para baixo, 
aos borcos como cobras» — ^. 

bordão 

Esta palavra, na acepção de modo-de-dizer que se repete a 
meúdo, tornando-se habitual, e a bem dizer inconsciente, o que 
em castelhano, com a mesma relação figurada, se diz muletilla, 
é já antiga em português, pois a vemos empregada neste sentido 
por António Francisco Cardim nas Batalhas da Companhia 
DE Jesus ^: — «o bordão com que se defendem nas respostas é 
dizer que assim está nos seus livros» — . 

bornudo 

— «Ave de formosas pennas» — *. Difícil definição para se 
poder iderítificar, pois tanto poderia ser um pavão, como um 
canário; em todo o caso, a ave, descrita com tanta parcimónia, 
é da África Oriental Portuguesa. 



1 1887-1889. 

2 Marcelino de Mesquita, O Tio Pedro. 

3 Lisboa, 1894, p. 259. 

* Diocleciano Fernández das Neves, Itinerário de uma viagem á 
caça dos elephantes, Lisboa, 1878, p. 58. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 163 



borracheiro 

Este vocábulo está definido no Kôvo Diccionáeio como signi- 
ficando: — «fabricante ou vendedor de borrachas» — . 

Tem, porém, outro sentido, que não está rejistado: é «o in- 
divíduo de Rio-Maior que daquela povoação conduz vinho para 
Alcobaça», naturalmente em odres, ou borrachas. Assim me 
informou uma criada natural daquela freguesia. 

Que o mesmo nome se dá na Ilha da Madeira aos trabalha- 
dores ocupados em análogo mester prova-se com um bilhete pos- 
tal ilustrado, o n° 111 da colecção b. p., o qual representa uma 
dúzia de homens, com borrachões ao ombro, junto ao casal, em 
cuja parede exterior estão enfileirados alguns cascos, com um 
dos tampos virado para essa parede e o outro para os homens: 
a lejenda diz: — «MADEIRA bokracheieos » — . 

Há porém uma diferença entre os borracheiros do Riba-Tejo 
e os da Madeira: é que estes transportam em borrachões o mosto, 
dos lagares para as adegas, entanto que os outros, em iguais 
vasUhas, conduzem o vinho já feito, como fica dito. 



bostear; besteiro 

O Novo Dicc. rejista este verbo, como sinónimo de « embos- 
tar», derivado de bosta. 

Na índia portuguesa, conforme informação do capitão-de-mar- 
-e-guerra Júlio Elesbão Pereira Sampaio, que ali serviu por muito 
tempo, bostear significa: — «revestir de bosta as paredes» — . 

O Novo DiccioNÁEio define o vocábulo bosteiro do modo se- 
guinte: — «escaravelho que vive na bosta» — . 

O CoNTEMPOEANEO coutcntara-se com dar o vocábulo, cuja 
orijem é evidente, como sinónimo de escaravelho, e creio que 
teve razão. Com efeito, na Gazeta das Aldeias, de 24 de se- 
tembro de 1905, lê-se: — «O escaravelho, como a maioria das 
espécies do género, sustenta-se dos dejectos dos herbívoros, prin- 



164 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cipalmente da bosta dos bois e dos cavallos. Dahi lhe veio o 
nome popular de bosteiros, por que a gente das aldeias mais 
usualmente os conhece » — . Vê-se, portanto, que não é nome de 
qualquer espécie diferente, mas sim alcunha que lhe foi posta 
em razão dos seus hábitos. Nem êle vive na bosta, o que lhe 
traria existência muito precária; se a busca, é para alimento, e 
não para fazer nela vivenda. 

A mesma útil publicação acrescenta: — «Julgou-se durante 
muito tempo que o escaravelho preparava esta bola [que forma 
da bosta] pára nella depor os ovos, mas está recentemente pro- 
vado que ella é única e exclusivamente destinada á alimentação 
do insecto» — . 

Como a Gazeta das Aldeias segue à risca o sistema de 
acentuação e quási pontualmente o ortográfico adoptado no Novo 
Dicc, ao leitor do centro do reino depara-se por vezes indicação 
de pronunciações que lhe são estranhas, e nas linhas que trans- 
crevi há duas dessas: a primeira que, conquanto diversa da que 
é corrente em Lisboa, é menos singular, escaravelho, que na 
capital se pronuncia escaravâlho; e a outra, mais inesperada, 
género, que em todo o litoral no sul, desde o extremo Algarve 
até Figueira da Foz, pelo menos, se profere género, com e aberto 
na sílaba predominante, que é a primeira. 

Entendo ser defeituoso este sistema de uma parte do reino 
impor pela escrita as suas pronunciações locais ao resto das pro- 
víncias, mormente à capital, que decerto as não seguirá. E em 
razão disto que eu, apesar de adoptar um sistema rigoroso de 
acentuação gráfica, marco sempre com o sinal geral do acento 
tónico, o agudo ('), as vogais a, e, o antes de consoante nasal, 
por o seu valor variar muito de uns para outros pontos, e não 
com o circunflecso, que particular e unicamente serve para indi- 
car, em caso de necessidade, o e e o o que são proferidos como 
fechados em toda a parte ^ 



» V. sobre este assunto Ortografia Nacional, do autor, Lisboa, 
1904, p. 179-181. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 165 



bota-d'água 

Este calçado, apropriado a resistir à agua, especialmente nas 
passajens a vau, está já designado com este nome no Suplemento 
à CoLLEcçÃo DE LEaisLAçÃo POETUGUEZA, referente aos anos 
de 17ÕO-1762, em um aviso de 23 de outubro de 1753: — «se dê 
aos Kegimentos de Dragões do seu Exercito botas de agoa» — . 



bouça 

Esta palavra, formalmente, parece provir de b ai te a, plural 
neutro do adjectivo balteus, baltea, balteum, substantivado, 
que em latim significa «o que cinje», e do qual o Magnum 
Lexicon de José António Kamalho * nos diz ser mais usado 
como substantivo no plural. E definida no Dicc. Contemporâ- 
neo, como termo minhoto, com a significação de — « terreno onde 
se cria matto para adubo, por não ser próprio para cultura > — . 
Mas na monografia de Alberto Sampaio As villas do nobte de 
Portugal, ^ lemos o seguinte: — «as bouças (hauzas, hustelos) 
que forneciam o matto para a cama dos aniraaes, e a lenha» — : 
donde se deduz que a acepção é mais lata. 



braga, bragal 

O primeiro destes vocábulos, do latim braça, e mais trivial- 
mente bracae no plural, como acontece entre nós também com 
objectos geminados, de que se faz uso, por ex.: calças, óculos, 
brincos, çapatos, etc, não designa em português, como na língua 
de onde provém, «calças compridas, até os pés>, mas calçotas 



1 Lisboa, 1819. 

2 tw Portugália, I, p. 324. 



166 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



curtas, ainda mais que os calções, como as que usam os serrado- 
res de madeira. Designa também, no singular, a argola de ferro 
ou grilheta onde prendia a cadeia de ferro dos condenados a 
trabalhos públicos, e que se via frequentemente há cinqiienta 
anos em Lisboa nos calceteiros, quando o ofício destes era de- 
sempenhado por bandos de galeotes, acorrentados a dois e dois, e 
que se denominavam também grilhetas. V. calceta. 

Alberto Sampaio, na excelente monografia As Villas do 
NoETE DE Portugal *, refere-se deste modo aos dois vocábulos 
da epígrafe: — «A terminologia [da cultura, cura, fiação e tece- 
dura do linho no norte de Portugal] tem a mesma procedência 
[romana]; assim bragal, designando tanto a roupa branca como 
o pano que lhe é destinado, e braga, bragas (de braça, palavra 
gallo-latina), massar (massare, esmagar as hastes do linho), es- 
topa (stuppa), tomentos (tomentmn), espadella (diminutivo de 
spatha), espadar ou espadelar (bater com a spatha ou espadella), 
estriga (striga), fuso (fusus)^ maunça ou mainça (manuncia pi. 
de manuntium, ou de mayiicia, pi. de manicium), e roca (rukka, 
got., em esp. rueca, em ital. rocca) — todos estes termos provêm 
do latim, excepto o ultimo, cuja origem germânica nas três lín- 
guas é singular» — . 

No Elucidário de Santa Kosa de Viterbo vem um longo 
discurso sobre o termo bragal; nem aí, porém, nem em nenhum 
outro dicionário vejo apontada uma acepção especial que tem 
esta palavra, e é o «pano com que se cobre a farinha depois de 
amassada» — -. 



breca 



O significado deste vocábulo é cãibra, e a êle se devem su- 
bordinar as várias locuções compendiadas no Suplemento ao 
Novo DicciONÁEio : levado da breca « travesso » ; foi-se com a 



^ in Portugália, I, p. 317. 

2 Revista Lusitana, t. vi, p. 126. 



Apostilas aos Dicionários Portugxieses 167 



breca, « foi-se espantado » ; faz cousas da breca, < faz cousas 
diabólicas», «como se estivesse atacado de cãibras >. 



brejo, brejeiro (=^hrèjeiro) 

O étimo do primeiro destes vocábulos é desconhecido, pois o 
mais plausível, em grego bragós, «paul>, oferece grandes di- 
ficuldades fonéticas e mesmo históricas, para de leve poder acei- 
tar-se. 

De brejo parece provir brejeiro, com è aberto átono na pri- 
meira sílaba, isto é, sem enfraquecer o é do radical, o que aliás 
sucede quási sempre antes de consoante palatal, quando o e é 
aberto: cf. frecheiro, de frecha, sèjeiro, de séje, velhice de velho; 
e nem obsta a esta lei envejoso, de envéja, pois o e antigamente 
era fechado, como procedente do í de inuidia, e o ser aberto 
provém de se haver tomado como substantivo verbal. 

Xão me ocorre em que dicionário português se explicava bre- 
jeiro como derivado de hrejo, — «porque nos brejos se fazem 
cousas brejeiras» — . 

Este adjectivo significa «obsceno», e «ordinário», e neste 
sentido se empregava para denominar certos cigarros do antigo 
Contrato de tabacos, anterior a 1864, feitos com péssimo e fétido 
rolo picado, escorrendo melaço, e com as mortalhas de ruim pa- 
pel, manchado de nódoas alambreadas, do reçumar da himiidade 
do tabaco: custavam a três õ réis. Parece que ainda hoje assim 
se denominam os cigarros piores, comprados já feitos, como se 
depreende do seguinte passo, primor de observação rigorosa: — 
«ar jingão e andar de fadista, cigarro brejeiro sempre ao canto 
da bocca, cuspindo a meudo por entre os dentes» — *. 



1 O Século, de 10 de setembro de 1900. 



168 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



brelho 

O latim imbrex, imbrícis, que provém de imber, imbris 
«aguaceiro», e significa «telha» (} te gula), está provavelmente 
representado em francês pela palavra brique, e em italiano por 
'bricca, «barranco por onde a água se despenha», e que num 
sentido especial foi talvez o étimo imediato do termo francês. Em 
português temos no Minho um vocábulo, não derivado directa- 
mente do imbricem, mas do deminutivo imbricalum: é brelho, 
«(fragmento de) tejôlo», colijido por J. Leite de Vasconcelos, 
que lhe atribui, com razão, esta etimolojia K 

Vocábulos modernos da mesma orijem são imbricar, imbri- 
cado } imbricare. Outra etimolojia proposta para o francês 
brique é o inglês brich { break «quebrar». 



brendò 

Na Beira-Baixa denomina-se assim uma espécie de garfo, de 
quatro a seis dentes, fabricado de madeira pelo carpinteiro, em 
oposição a tomadeira (q. v.) ^. 



brinco, brincar 

Ou brincar provenha de springan, no sentido de «pular», e 
de bli{n)Jcan, no de «gracejar, entreter-se » , sendo portanto for- 
mas converjentes; ou proceda de um só destes verbos germâni- 
cos, sendo a segunda acepção desenvolvimento da primeira; ou 
ainda, o substantivo brinco significando «pinjente» seja o latim 
uinc(u)lum, independente portanto de brinco, substantivo ver- 



1 Ebvista Lusitana, m, p. 207. 

2 Iníormação do editor, natural de Almeida. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 169 



bal rizotónico do verbo brincai-: o que é certo é que este em 
português adquiriu significados em que o seu correspondente cas- 
telhano brincai', « pular » , o não seguiu, pois na segunda acepção 
se diz ali jugar, juguetear. 

Entre o povo, no continente, o verbo brincar era usual no 
sentido de < bailar», e ainda hoje não perdeu de todo essa acep- 
ção, que vemos exemplificada na seguinte quadra, vulgar há 
cinquenta anos: 

— O menina das laranjas, 
^Você que dá e que tem? 
Você está tam coradinha, 
Você brincou com alguém. 



Este significado conserva o substantivo verbal na índia por- 
tuguesa, em Goa pelo menos, como se lê no seguinte trecho de 
uma correspondência de lá, publicada no jornal O Século, de 26 
de julho de 1902: — «Danças chamadas brincos, populares, de 
christãos brahamenes [sic], moiros e outros gentios, com suas 
musicas características » — . 

O mesmo substantivo, que também significa «brinquedo de 
criança > , foi por António Francisco Cardim empregado num sen- 
tido muito especial, o de «galantarias», «bujigangas», correspon- 
dente ao francês bibelots, e que o traduz perfeitamente: — «Era 
força ir o padre ao paço beijar a mão ao príncipe pela mercê, e 
apresentar-lhe agradecido alguns brincos da Europa e China» — *. 

Brincos da China é também expressão de que já se servira 
Femám Méndez Pinto, no mesmo sentido de « galantarias » : — 
«o embaixador comprou muitas peças ricas» ebrincosda Chma 
que aquy se vendião muyto baratos, em que entrou grande quan- 
tidade de almizcre, porcellanas finas, seda, retrós, e pelles de 
arminhos» — -. 



1 Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 145. 
' Peregrinação, cap. clxvi. 



170 Apostilas nos Dicionários Portugueses 



(de) bruços 

Este modo adverbial, cuja significação é «de peito para 
baixo», «estendido com o rosto para o chão», e à qual corres- 
ponde o castelhano de hruces, é explicada imperfeitamente por 
buz, com fundamento em que os dicionários castelhanos consig- 
nam também a variante de biices, que suponho não ser lejítinia. 
Com respeito ao bus: com o qual o relacionam, pode ver-se o 
DiccioNARio MANUAL ETYMOLOGico dc F. Adolfo Coclho, qual 
resume a argumentação de Diez, que aqui não repito, por me 
parecer de pequeníssimo peso. 

A expressão parece não ser antiga em português, visto que 
Bluteau a não incluiu *. Partindo desta omissão, suponho que a 
locução, muito trivial hoje, e da qual se derivou o verbo de- 
bruçar-se, proveio de líspanha, por intermédio do castelhano, o 
qual, todavia, não derivou verbo da sua expressão de bruces, 
como aconteceu em português com debruçar. 

A orijem deste modo adverbial parece-me ser o vasconço 
buruz (pronunciado burúç), caso modal de buru, «cabeça». E 
certo que o Dicionário vasconço-francês de Van Eys ^ só dá a 
este caso modal buruz a significação «de cor», «de cabeça», 
como também dizemos; é possível, porém, que, assim como por 
meio do mesmo suficso -ez, de -on, ou oin, «pé», se forma oneZy 
oinez, «a pé», a forma buruz, significasse «de cabeça [para 
baixo]», e que dessa acepção restrita, em qualquer parte das 
Vascongadas o caso modal indicado viesse a significar também 
« de cara para baixo » . 

É isto uma simples hipótese, que me parece mais aceitável 
do que a proposta por Diez, e por isso aqui a rejisto, para funda- 
mento de mais rigorosa investigação. 



1 Vocabulário portugubz latino. 

2 DiCTiONAiRB BASQUE-FRANÇAis, París, 1873, sub voc. buru. 



Apostilas aos Dicionános Portugueses 171 



bruxa, bruxo; bruxulear 

Instintivamente se faz a aprossimação dos dois primeiros vo- 
cábulos com o terceiro. Até agora, porém, as investigações etimo- 
lójicas levam-nos a considerá-los distintos. Dá-se como étimo mais 
verosímil do bruxulear, português e castelhano antigo, hruju- 
Jear, (pron. brui[ulear) castelhano moderno, em última análise 
um verbo latino perustulare, que seria orijem também do 
italiano hrustolare, hruciare e brusciare, os quais, como o fran- 
cês antigo brusler, e o moderno briller, significam «queimar», 
e «arder». 

Não mencionarei aqui outras hipóteses, a não ser a título de 
curiosidade, e por ser de quem é, a de João Storm, a qual con- 
siste em admitir a influência do germânico brunst, «queima», 
derivado de brennen, « queimar», num latim bustiare \ bustum, 
«fogueira» (cf. comburere, «queimar»), de que resultaria uma 
forma nova no latim popular brustulare, brustiare, de que 
se derivariam as formas italianas e a francesa. 

Se algumas conjecturas mais ou menos plausíveis se teem 
feito acerca da etimolojia de bruxulear, nenhuma se apresentou 
ainda de bruxa, que apresente probabilidade; não serei eu de 
certo quem tente nem mesmo descerrar o véu que encobre a 
orijem deste interessante e tam popular vocábulo, porque me 
faltam absolutamente investigações que ofereça ao leitor como 
abono de opinião minha. 

Chamarei apenas a atenção para os seguintes factos. O fenó- 
meno denominado fogo fátuo não tem nome vulgar conhecido 
em todo o país, e somente em alguns pontos dele me consta lhe 
chamam alminhas, porque em geral é freqiiente nos cemitérios 
a sua aparição. Outro tanto acontece em Espanha. 

Ora não ó crível que tam visível fenómeno ficasse sem nome, 
até que os especialistas lhe pusessem a alcunha que agora tem, 
desconhecida do povo meúdo porém, e que é um arremedo ala- 
tmado da expressão francesa feu-follet A minha conjectura é 
que existe em bruxa e bruxulear íntima conecsão; e, signifi- 



172 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

cando o verbo bruxulear, «lampejar», dar clarões incertos e de 
intensidade variável, êle seja derivado de bruxa, tendo esta 
palavra sido, em qualquer tempo ou lugar, tanto em Espanha 
como em Portugal, a designação popular do fenómeno. 

Parece-me que neste sentido se devem nortear as investiga- 
ções que se façam para descortinar o étimo do vocábulo bruxa, 
considerando-se bruxulear um derivado romanico-peninsular desse 
vocábulo. 

Como subsídio para essa investigação apresento aqui um texto 
extraído de obra antiga de muito interesse, e que serve de am- 
paro à minha hipótese. — «Por conclusiou noto aqui, que aquella 
vision nocturna que en algunos Paises llaman Hueste, y quieren 
que sea procesion de brujas, es mera fabula, a que dieron oca- 
sion las exalaciones encendidas, que los Físicos llamam Fuegos 
fátuos. El vulgo, viendo aquellas luces y no pudiendo creer que 
fuese cosa natural, la atribuyó á la operacion diabólica» — ^ 

A hueste, «hoste», a que o autor aqui se refere, é a Estan- 
tiga, em castelhano Estantigua, a procissão de mortos da 
superstição medieval, das wutende Heer, acerca da qual se lerá 
com muito proveito o que D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos 
escreveu no vol. iii da Revista Lusitana, e onde deixou per- 
feitamente averiguada a etimolojia do vocábulo, hueste antigua. 

É sabido que no Brasil se chama ao fogo-fátuo caipora, termo 
tupi (Cahapora), que também designa o deus das selvas, protector 
dos animais silvestres, hostil ao caçador, a cuja manifestação os 
índios bravos atribuem o dito fenómeno, conforme todas as pro- 
babilidades. 

Concluirei com uma observação justa. Pondera-me em carta 
o snr. Acácio de Paiva que é talvez temerária a suposição de 
que bruxa algures no reino se aplique ao fogo fátuo, visto que 



1 Theatro Critico Universal. Discursos vários en todo gé- 
nero DE matérias para DESENGANO DE ERRORES COMUNES, ESCRITO 

POR EL M. I. S. D. Fr. Benito Geronimo Feijoo Montenegro, t. ii, 60, p. 196, 

MDCCXLV. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 173 



em parte nenhuma o vocábulo designa ahna-ão-outro-munão, 
sendo certo que na opinião do vulgo o poder ou condão fatal da 
bruxa lhe provém do diabo, e que ela é sempre criatura viva e 
maléfica. 

bubela 

Por este nome se designa em Trás-os-Montes a poiqm, como 
se vê do trecho seguinte: — «Outra [tradição], a da hubela (poupa) 
disfarçada milagrosamente em Nossa Senhora» — ', 

Incluí, no vocabulário transmontano que publiquei no i vo- 
lume da «Revista Lusitana» - o mesmo vocábulo, e para aqui 
transcrevo a sucinta observação que ali lhe consagrei: — «6«- 
hela, poupa (ave): latim upupella, deminutivo de upiipa pela 
queda do u [inicial] e abrandamento de j; em b : cf. port. bisp>o, 
castelhano obispo; port. baço, catalão ubach, opacium, opa- 
cum. Em galego é também bubela, em mirandês boubela, em 
castelhano abubilla, havendo-se dado igual abrandamento de p 
em ambas as sílabas, como se deu no italiano bubbola, que per- 
deu a vogal inicial. Tanto a forma portuguesa, como a miran- 
desa e as dialectais italianas poppa, ])opo fazem pressupor uma 
forma latina uppupa^ — . Depois, em nota acrescentava: — 
«O dr, Hugo Schuchardt ^ admite upúpa, que não explicaria o 
ditongo ou, nem a reduplicação da consoante ou o o, dialectais 
italianos > — . 

bucho, bucha 

Este vocábulo no sentido de «estômago», como no de «mús- 
culo da coxa e do braço», provém do latim musculam, que já 



1 Ferreira Deusdado, O recolhimento de Mófreita, in <KeTÍsta 
KQ Educação e Ensino, 1891, p. 544. 

2 Falar de Rio-Frio, p. 205. 

' LlTTERATURBLATT FtJR GbRMANISCHE UND ROMANISCHE PHILO- 

logie, 1883, 3. 



174 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



tinha o sentido expresso na segunda acepção, conquanto a pri- 
mitiva significação fosse «ratinho», como deminutivo de mus, 
«rato». Em castelhano à acepção de «músculo» corresponde 
muslo, e à de estômago huclie, ambos os quais teem a mesma 
orijem latina, sendo formas diverj entes naquele idioma. 

O Suplemento ao Novo Diccionáeio aduz também uma forma 
femenina, bucha, que escreve buxa, abonando-se com Camilo Cas- 
telo Branco; mas esta escrita é evidentemente errónea. 



buço, embuçar, boçal, rebuçado 

No Novo Diccionáeio atribui-se, em dúvida, como étimo a 
este verbo, o substantivo buço. D. Carolina Michaêlis de Vascon- 
celos opina por este étimo, cuja orijem seria o latim bucceus, 
adjectivo postulado, me parece, por buccea, «bocado» } bucca. 
Conforme a douta romanista, embuçar-se quererá dizer — « cobrir 
a metade inferior do rosto até ao buço com capa ou capote» — . 
Em confirmação deste modo de ver aduz a mesma escritora as 
formas castelhanas agora escritas bo^o, embozo, rebozo e seus 
derivados, e de buço deriva bucal (boçal). Assim será, conquanto 
a forma portuguesa com u por ú latino seja um óbice impor- 
tante, por existir o vocábulo boca, no qual desse ú resultou ô nor- 
malmente. Por outra parte, parece-me violenta a metáfora, que 
atribuiria ao particípio de rebuçar o significado que tem o subs- 
tantivo rebuçado. Em todo o caso é enjenhosa a hipótese, e ofe- 
rece bastantes probabilidades, visto não ser admissível que buço, 
português, tenha orijem diferente de bozó castelhano, o que pres- 
supõe igual parentesco nos competentes derivados. 

bufarinha, bufarinheiro 

O primeiro destes termos é definido por Cândido de Figuei- 
redo, no Nôvo Diccionáeio, como significando — «cosméticos de 
pouco valor; bugiganga; quinquilharias» — ; e o segundo como 
— «vendedor de bufarinhas» — . 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 175 



D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos * dá como primitivo 
bufarias, de que proviria biifa7'inha, como de escrevania, es- 
crevaninha, de endemoniado, endemoninhado. 

A esta conjectura há apenas a opor que nos dois vocábulos 
aduzidos como termos de comparação a nasal nh foi ali atraída 
pela nasal da sílaba anterior, e prevaleceu a palatal nh e não a 
ginjival n, em virtude do i, que é vogal palatal; assim se explica 
que uinum desse vio e depois vinho, ao passo que de unam 
proveio ua e depois uma, por ser o u labial. Ora, não se deu a 
primeira dessas condições, para que de bufarias resultasse bufa- 
rinhas, e conseguintemente é duvidoso que o vocábulo português 
bufarinheiro seja o correspondente formal do castelhano buho- 
nero, que com êle condiz na significação; e portanto o étimo pro- 
posto está lonje de demonstrado, apesar de ser tam tentador, que 
já occorrera a Bluteau, que se expressa deste modo: — «Bofari- 
nheiro. Deriva-se do Castelhano Buhonero, e este de Bufonero, 
porque segundo Cobarruvias vê de híís toucados, que em Castella 
se chamam Bufos, e por outro nome Papos. O Bofarinheiro 
leva a sua tenda ás costas em huma arquinha, chea de varias 
meudezas, como são fitas, pentens, estojos, etc . . . Segundo o 
adagio. Cada bofarinheiro louva os seus alfinetes» — ^. O étimo 
extremo seria o latim bufo, do qual também procede bufão. 

Por tudo isto se vê que a definição do Isôvo Dicgionábio é 
inexacta, por muito restrita. 

Quando eu era criança pequena, aí por 1847, percorria as 
ruas de Lisboa um bufarinheiro, com a competente arquinha 
ou tabuleiro de tampa de vidro, que num pregão cantado, com 
muitas variações, mas sempre as mesmas, anunciava a mercancia 
numa lenga-lenga extensíssima, a qual começava assim: «Pentes 
de tartaruga, travessinhas ; pentes da moda bonitos para as se- 
nhoras; etc...»; findando sempre deste modo: «Va lá leques, 
leques para as senhoras!». 



1 in Revista Lusitana, iii, p. 135. 

2 Vocabulário portuguez latino. 



176 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



bufo 



Esta palavra, que designa uma ave nocturna, foi transferida 
metaforicamente para indicar um indivíduo da polícia secreta, 
do mesmo modo que nos tempos de D. Miguel os esbirros da 
ronda nocturna se chamavam morcegos. O termo bufo, neste 
sentido, está abonado no seguinte trecho: — «Tinham sido os dois 
bufos. . . que me tinham mandado prender» — K 



bui; bule 

Como vocábulo de jíria torpe, com a significação do latim 
anus, é o calo hil, que quere dizer isso mesmo; cf. chaleira, 
no mesmo sentido obsceno. 

Como peça do aparelho em que se serve o chá (q. v.), o vo- 
cábulo bule é malaio. Podem perfeitamente diferençar-se os dois 
termos, escrevendo aquele sem o e íinal, e formando-lhe o plural, 
conforme a regra geral, buis. 



buliceira 

Nos arredores de Lisboa quere dizer «chuva meúda». O 

termo foi colhido da tradição oral pelo snr. Martinho Brederode. 

E a chuva, como que peneirada, a que chamamos ynoinha. 



burel 



Como o seguinte trecho é definição perfeita da significação 
deste vocábulo, para aqui o transcrevo: — A lã no districto [de 



1 O Século, de 23 de abrU de 1902. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 177 



Viana] é própria para o burel, que antes de ser submettido á 
fula é um tecido de lã simples, raro a ponto de se contarem 
facilmente os fios, por entre os quaes se vê o dia» — ^ 



burra 

Em Leiria: «saliência de terra fora do limite de uma pro- 
priedade» -. 



burro, burrinho 

O Novo DicciONÁEio, o mais copioso que existe em portu- 
guês, dá o vocábulo burro em nada menos de dezasseis acepções 
diversas, incluindo-se as que foram acrescentadas no Suplemento. 
Aqui apresento mais uma, que se deduz do seguinte trecho: — 
« Perto da chaminé estão os burros (bancos rústicos de pernadas 
de azinheira)» — ^. 

O deminutivo burrinho é usado no norte para designar uma 
<frijideira de barro com cabo». 

E sabido que os nomes de animais são a meúdo transferidos 
para objectos nos quais se supõe haver deles aparência; tais são: 
cachorro, macaco, bivjio, machos, cegonha, cão (de espingarda), 
gatilho, cavalo (na vinha), burra; bordão \ burdonem, «mulo». 

Exemplo disso já o vimos na inscrição anterior. 



bus: V. chus 



1 Portugália, i, p. 377. 

2 Informação do Snr. Acáeio de Paiva, dali natural. 

3 J. da Silva Picão, Ethnographia. do Alto Alemtbjo, in Portu- 
gália, I, p. 542. 

12 



178 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



butaca 

No Kelatoeio official de João de Azevedo Coutinho, acerca 
da campanha do Barué em 1902 \ encontra-se este vocábulo, 
que parece ser africano: — «A entrada de Manuel de Sousa para 
a butaca» — , e em nota explica-se: — «butaca, throno» — . 

É singular a exacta conformidade desta palavra com a caste- 
lhana butaca, assim definida no Dicionário da Academia Espa- 
nhola, sem se lhe apresentar etimolojia: — «Sillón de brazos, al- 
mohadillado, entapizado, cómodo y comunmente con el respaldo 
echado hacia atrás» — . 

Só se o vocábulo foi de Espanha para a Africa com os herre- 
ros, nome com que os nossos jornalistas teimam era alcunhar os 
hererós (q. v.). 

búzio 

Este vocábulo, que provém do latim, buccinum, designa, 
como se sabe, uma concha univalva, que em muitas partes da 
África serve de moeda. 

Em Ajuda 1 búzio valia 0,15 real, e 2:000 búzios denomina- 
vam-se um peso de búzios ^, perfazendo 6:000 búzios Ij^OOO réis. 

Os búzios na índia deuominam-se caurms, (q. v.). 

Búzio, na acepção de «mergulhador» parece ser outro vocá- 
bulo, e em castelhano diz-se bu2:o, de orijem desconhecida. 

cabaça, cabação, cabacinha, cabaço 

A orijem destes vocábulos é ignorada: sabe-se apenas que 
em castelhano tam o primeiro uma sílaba a mais, calabaza, o 



1 Jornal das Colónias, de 9 de julho de 1904. 

2 Carlos Eujénio Correia da Silva, Uma viagem ao estabeleci- 
mento PORTUGUEZ DE S. JoÃO BAPTISTA d'Ajudá EM 1SG5, Lisboa, 1866. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 179 

que nos levaria a crer que a antiga pronúncia portuguesa fosse 
cãháça (cf. fagueiro e fagueiro, castelhano halagúeno, afagar, 
cast. halagar). 

Na Chamusca, e naturalmente em todo o Riba-Tejo, o au- 
mentativo cabação, plural cahações, designa «pimento grande >, 
em oposição a comicho, que quere dizer «pimento pequeno», e é 
comparável ao francês comichou, o qual denota uma espécie 
de pepino pequeno, e como o termo português se deriva de 
corne, como, de que são formas deminutivas. 

Cabaço, em Caminha e outras partes do Minho, é uma me- 
dida de 12 litros, equivalendo portanto ao antigo alqueire. 

Cabaço, no sentido de « virjindade», é o vocábulo quimbundo 
cabásu, deminutivo de quibásu, «pedaço, taUiada, lasca», e é 
usado em Angola com a mesma significação, que de lá passou 
para poi^tuguês, na Imguajem de indivíduos que ali o aprende- 
ram: (cujbasa quere dizer «raxar». 

Cabacinhas (ãe cheiro) eram há uns cinqiienta anos, em 
Lisboa, umas cápsulas de cera, feitas em forma, imitando várias 
frutas, cheias de água aromatizada, e com as quais se jogava o 
entrudo nas salas entre gente fina, arremessando -as; quebran- 
do-se elas com o embate, derramavam o conteúdo na cara, ou 
no fato de quem levava com elas. 

Era um brinquedo engraçado e inofensivo, que ao depois foi 
substituído por projécteis muito mais grosseiros, como ovos de 
gema, ou cheios de farinha ou pós, e outros arremessos não 
menos abrutados. 

No Alentejo levar cabaço significa ser rejeitado em preten- 
sões de namoro. E modo-de-dizer castelhano, llevar calabazas. 



cabana, cabanela, cabanal, cabanão, cabaninha 

O primeiro destes vocábulos é o latim vulgar capanna, e 
está muito difundido em todas as línguas românicas, com ex- 
cepção do romeno, havendo dado orijem a muitas formas deriva- 
das por suficsos. 



180 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Eis aqui algumas definições e abonações da palavra cabana, 
extratadas de várias monografias de muito interesse publicadas 
na revista Portugália. — «No Alentejo o termo de cabana é 
um nome genérico que se aplica indistintamente a todos os casa- 
rões toscos e espaçosos que se adaptam a quaesquer usos>. — K 

— «Cabanas. Por este nome designam-se as seguintes diífe- 
rentes accommodações : a loja dos carpinteiros de carros e ara- 
dos, o deposito de madeiras, as arrecadações de vehiculos e ucha- 
ria de lavoira, as arribanas para gados, etc, etc. » — ^. 

— « Cabanas no onomástico locativo portuguez é ainda a de- 
nominação de algumas freguesias e aldeias que. . . tiveram a 
sua origem em barracas de tabuado » — ^. 

— «Cabanelas, Cabaninhas e Cabanões formam uma topony- 
mia de similar procedência» — *. 

Cahanal em Trás-os-Montes significa «alpendre», como 
vemos do trecbo seguinte: — «disse zangado a seguinte praga 
uma noite no cabanal (alpendre). — Oxalá se afundasse este la- 
meiro» — ^. 

Cabano, cabanilho, cabaneiro, designando várias formas de 
cestos, são com cabana apenas aparentados por afinidade, e sobre 
os dois primeiros veja-se neste livro a palavra covo. 



cabeça, cabeceira, cabeçalha, cabeçalho, cabecilha, cabecinha 

Tem muitíssimas acepções o primeiro vocábulo, do latim vul- 
gar capitia, plural neutro de capitium, tomado como feme- 
nino, o que é frequentíssimo nas línguas românicas, e deriva-se 
de caput, capitis, «cabeça>. 



1 2 José da Silva Picão, Ethnographia do Alto Alemtbjo, p. 544. 
3 * Eocha Peixoto, Habitação, p. 84. 

5 M. Ferreira Deusdado, O recolhimento da Móprbita, in « Re- 
vista de Educação e Ensino >, 1891. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 181 



Entre outras acepções assinalarei aqui algumas mais espe- 
ciais, e raras vezes indicadas em dicionários. 

Cabeça: «quem manda», correspondente ao francês chef: — 
«A principal igreja que visitei naquellas provincias [do reino 
de Aname] foi a de um christão, cabeça de aldeia, chamado 
Paulo» — ^ 

Ainda hoje se diz cabeça de motim, locução muito usual. 

Neste sentido usam os espanhóis cabecilla, que por imitação 
deu o português cabecilha, castelhanismo, pois o suficso demi- 
nutivo -ilho, -ilha, não é português. 

Cabeça é usado com a significação de peça de gado, rês, 
sendo este iiltimo a palavra árabe eas, «cabeça», empregada 
nessa língua com o mesmo significado, que também passou ao 
castelhano i-es. mas igualmente designa «o cabeça de tribo*. 

No sentido de rês, com referencia a gado suíno, é mais usual 
no Alentejo o termo cabeça: — «A avaliação dos montados faz-se 
por cabeças, quer dizer pelo numero de porcos adultos, que en- 
gorda a bolota em cada anno» — -. 

Outro sentido especial do vocábulo cabeça, acompanhado de 
uma locução adjectiva, é cabeça-de-pau, para designar os indi- 
víduos que teem lojas de móveis usados: — «as casas dos cabeças 
de pau, nome de giria por que são conhecidos os negociantes 
de tarecos > — ^. 

Com a mesma significação de cabeça, «principal», usou-se 
também cabeceira, como vemos em Kui de Pina, Crónica de 
El-bei Dom Afonso v (cap. x): — «seria povo e gente meúda, 
que sem cabeceiras não teriam forças, nem dariam ajuda > — . 
Nesta acepção ainda o encontramos modernamente, no Kelatóbio 
de Carlos Eujénio Correia da Silva [1866], com referência ao 
Daomé. É forma muito aproveitável e expressiva, que pode ser 



1 Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 170. 

2 J. Silva Picão, Ethnographia do Alto Albmtbjo, in. < Portugá- 
lia», i, p. 275. 

' O Século, de 18 de novembro de 1901. 



182 Apostilas aos Dicúmârios Portugueses 

empregada actualmente, conquanto a significação mais trivial 
seja a «de parte superior», como cabeceira da mesa, cabeceira 
do leito, cabeceira(s) de um rio, etc. 

— « Cabeçalha: Dos jugos [dos carros] destaca-se breve a de- 
coração profusa que os caracterisa na região [Minho], os arcos, 
ensogaduras e tendilhas, a chavelha e o pigarro, a sôga 
emfim » — ^ 

E palavra derivada de cabeça, e significa « o temão, ou lança 
de um carro de bois » , e também, em especial, « a parte deanteira 
desse temão». 

Uma forma masculina deste vocábulo, cabeçalho, designa, 
além de cabeçalha, o título, títulos ou dizeres a que se subordi- 
nam vários averbamentos, e que ocupam a parte superior da 
folha, o que os franceses chamam en-tête. 

Cabecinha é um deminutivo evidente de cabeça, e além de 
outros significados, deduzidos do vocábulo de que é formado, 
tem também o de — «farinha grossa que resulta do rolão passado 
por peneiro largo [de pano aberto] para o separar da sémea» — , 
como diz o DiccioNÁEio Contemporâneo. Na pauta de consumo 
(de Lisboa), anterior a 1880, o produto da moenda do trigo era 
classificado em quatro espécies: farinha espoada, farinha expur- 
gada de sémea e farelo, rolão, e cabecinha, a cada uma das 
quais competia uma taxa de imposto diferente, de mais para 
menos; a sémea era livre de imposto. 

Como nome de ave é o vocábulo cabecinha, acompanhado de 
vários epítetos que o diversificam, muito usado na Ilha da Ma- 
deira, como vemos na monografia de P. Ernesto Schmitz, intitu- 
lada DiE VõGEL Madeiras ^i — cabecinha encarnada, «pin- 
tassilgo», no Estreito; — cabecinha negra, «toutinegra» em 
Gaula; — cabecinha rosada, «pintassilgo», na Fajã. 

É sabido que toutinegra (q. v.) significa também «cabeça 
preta», capite nigra. 



1 Rocha Peixoto, As olarias do Prado, in Portugália, i, p. 253. 
* in < Ornithologisches Jahrbuch», x, 1899, 1, n. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 183 



cabelo, cabeleiro 

Na língua comum cabelo ora é colectivo, correspondendo ao 
francês chevelure, ora nome de unidade, equivalente ao francês 
cheveu. Nesta última acepção usa-se em vários pontos do Minho, 
Caminha por exemplo, o derivado cabeleiro. E galicismo usar 
cabeleira, na acepção de chevelure francês, pois corresponde a 
perruque; deve traduzir-se chevelure por cabelo, ou cabelos. Em 
castelhano, porém, usa-se neste sentido cabellera, pois « cabeleira » 
se diz peluca. 

cabide, cavide 

Em alguns dicionários portugueses é dado como étimo deste 
vocábulo o latim capitulum, deminutivo de caput, de que 
proveio a palavra cabido, antigamente cabídoo, da qual cabide 
viria a ser forma diverjente, ao que se opõe não só o significado 
de capitulum, mas até a forma do vocábulo cabide. 

Santa Rosa de Viterbo, no seu Elucidário das palavras, 

TEBMOS, E FRASES QUE EM PoBTUGAL ANTIGAMENTE SE USARÃO 

(Lisboa M.DCc.xcviii) sub voe. cavidado, a que dá como defini- 
ção — «Evitado, acautelado, resguardado» — , indica a palavra 
cabide, como provindo daquela, e define-a: — «o lugar, onde os 
vestidos, e outras cousas se põe a seguro do pó, e do mais que 
as pôde inficionar, e destruir » — . 

E evidente que cavidado é particípio passivo de cavidar, 
que pressupõe o latim * cauitare, fruqiientativo de cauere, 
cujo particípio cautus é contracção de cauitus, como é sabido. 
Ideolójicamente o étimo satisfaria; morfolójicamente, porém, é 
inadmissível. É rara em português essa formação, que consiste 
em derivar-se um substantivo concreto de um particípio passivo, 
com perda da terminação característica deste, -ado, e a suficsa- 
ção de e, convém saber, substantivo do tipo aceite. Todavia, a 
forma antiga do vocábulo é cavide ^ e não cabide, como hoje 



Fernáni Méndez Pinto, Pbrbgriííavão, cap. ccxv. 



184 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

se usa, e ainda Bluteau (Vocabuláeio pobtuguez e latino) é 
a única que cita. 

Da definição de cavide, dada por este douto lecsicógrafo e 
escritor de há dois séculos, se verá quara infundada é a explica- 
ção do vocábulo proposta por Santa Rosa de Viterbo e que 
acima transcrevi: — «He nas estribarias buraa taboa pregada em 
a parede, em uns buracos da taboa metidos huns paos, para 
nelles pendurarem os freios» — . (Voe. port. e lat.). 

Esta definição é exactíssima, e a aplicação do vocábulo, ou, 
melhor dito, da armação que ele designava, a outros usos é pos- 
terior. 

Desviados por inaceitáveis os dois étimos apontados, capitu- 
lum, que tem sido o mais admitido, e cavidado que ninguém 
aceitou a Viterbo, teremos de ir buscar a outro idioma, dos que 
ministraram palavras ao lécsico português, um étimo plausível, 
se não perfeitamente justificado. 

Ninguém ignora que existem na nossa língua uns mil vocá- 
bulos de procedência arábica, demonstrada principalmente por 
Engelmann e Dozy [Glossaire des mots espagnols et pobtd- 
aAis DÉEivÉs DE l' ÁRABE, Leida, 1869], de grande parte dos 
quais já havia sido averiguada por João de Sousa e José de 
Santo António Moura [Vrstigios da língua arábica em Por- 
tugal] ^. Deve haver, há com certeza, número maior deles, 
abstraindo mesmo dos nomes próprios de lugares, incluídos em 
grande cópia no lécsico dos arabistas portugueses, mas excluídos 
do Glossário que citámos, e que até hoje é o trabalho mais com- 
pleto e mais bem feito que existe nesta espécie, visto que o de 
Eguílaz y Yanguas ^ apenas lhe leva vantajem no grande nú- 
mero de abonações. 

Nas minhas peregrinações pelos nossos vocabulários talvez 
tenha ensejo de avolumar a parte arábica do nosso lécsico. 



1 Lisboa, 1830. 

2 Glosario de vocês B8P anglas... DE ORiGEN ORIENTAL, Gra- 
nada, 1886. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 185 



Existe em árabe um radical, q-b-d, o qual tem como signifi- 
cado principal «agarrar, pegar em qualquer cousa», e que, com 
a 2.* letra duplicada, q-S-d, quere dizer « apanhar e pôr de 
parte >, conforme o Dicionário arábico-francês de Belot ^ Aí vemos 
um substantivo derivado, MaQBiD, com o significado de manche, 
poignée, «cabo, punho, pega». São os jjaus da definição de Blu- 
teau. Outro derivado do mesmo radical, aanoa, com igual signifi- 
cação, encontra-se no Dicionário francês-arábico de Cherbonneau ^, 
e não explicaria o nosso cabide; mas no dicionário arábico- 
francês do mesmo autor ^ encontramos líiQsid, plural MaQABiD 
— «manche, poignée; anse» — . 

Creio ser esta a orijem do nosso cabide. Nos países barbares- 
cos o preficso ma é muitas vezes reduzido na pronúncia ao m, 
fujmqabid', * e poderia ter sido considerado como o artigo por- 
tuguês indefinido um, separando-se do resto do vocábulo, que 
ficou palavra independente: cf. a locução uma tuta e meia, por 
macuta e meia. O b, segunda letra do radical trilítero, modifi- 
cou-se em v (cf. alcavala, alvaiade, etc), e resultou pois o vocá- 
bulo cavide dos nossos antigos escritores e admitido por Blu- 
teau, sendo a forma cabide posterior, devida talvez à influencia 
de cabido, erudita provavelmente (cf. aspar, em vez de raspar). 

Há uma quinta ao pé da Chamusca, cujo nome, pelo menos 
o popular, é Cabide, talvez do Cabido, e neste nome parece ter 
influído a palavra de que trato aqui. 

Na Beira-Alta cabide tomou a forma popular cabido, de que 
resultou uma forma converjente, ou homeótropo ^. 



1 Beirute, 1893, p. 613, i col. 

2 Paris, 1884, p. 322, col. ii. 

í Paris, 1876, 2.o vol., p. 911, i col. 

* V. Caussin de Perceval, Grammairb árabe vulgairk, Paris, 1880, 
p. 17; e Lerchundi, Rudimentos del árabe vulgar, Tangere, 1889, p. 13, 
nota. 

5 Já publicado na Revista Lusitana, vi, 1900-1901, com leves diver- 
jéncias. 



18G Apostilas aos Dicionários Portugueses 



caboclo 

E sabido que este vocábulo designa um índio do Brasil. 
É dado por F. Adolfo Coelho * como termo tupi mas não se 
encontra no Dicionário tupi-guarani de António Ruiz de Mon- 
toya ^. Eis a sua abonação: 

— «Ao gentio manso, ou reduzido á civilisação, se começou 
desde logo a denominar caá-boc, que quer dizer — tirado ou pro- 
cedente do matto, donde nos veio o vocábulo cahõco, como ainda 
hoje o pronuncia o homem rústico ou caboclo, como já o adoptou 
o português brasílico» — ^. 

cabouco 

Além de outros significados, designa também, no Norte do 
reino, «estribo de pau». 

cabreiro 

Emprega-se como adjectivo, junto ao substantivo queijo, 
queijo cabreiro, para designar o queijo feito de leite de cabras. 
Em qualquer mercearia se encontra rotulado com este nome; não 
tenho porém nota de trecho com que o abone. 

cabresto 

Nome de um calabre nos moinhos algarvios, e não sei se 
também das mais províncias: — «Quando se carece de ferrar ou 



1 DiCCIONARIO MANUAL ETYMOLOGICO DA LÍNGUA PORTUGUEZA, 

Lisboa, s/datã. 

2 Vocabulário y tbsoro de la lengua guarani (ó mas biek 
tupi) — Viena-Paris, 1878, nueva edicion. 

3 Teodoro Sampaio O Tupi na gbographia nacional, S. Paulo, 
1901, p. 67. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 187 



soltar as velas ao moinho . . . prende-se o mastro a uma argola, 
fixa na parede, servindo-se para isso d' um calabre chamado ca- 
bresto* — *. 

cabrita 

E um termo do Douro, na acepção especial em que vou 
exemplificá-lo: — «Cabrita, leitor de longas terras, é o costume 
de aquelle que compra uma junta de bois em feira pagar uma 
conveniente quantidade de vinho a todos os que entraram na 
transacção, quer como partes principaes, quer secundarias > — -. 



cabula (=cabúla) 

Conforme informação da minha criada, natural da Chamusca, 
cabula designa lá «meda de trigo, com forma piramidal». 



caça, caçar 

Como termo de pesca, não colijido nos nossos dicionários, en- 
contra-se definido na monografia de Pedro Fernández Tomás, 
intitulada A pesca em Buaecos ^: — «Estas redes. . . são dis- 
postas verticalmente em longas caças ou aparelhos de ÕO a 80 
redes cada um> — . 

É sabido que em várias partes do reino, onde as povoações 
não avistam o mar e a pesca é só de rios, se diz caçar peixe, 
em vez de pescar, termo que é lá desconhecido. Caçar, de cap- 
tiare \ capere, significa propriamente «apanhar». 



1 J. Núnez, Costumes algarvios, in «Portugália», i, p. 387. 
* O Penafidelense, de 14 de março de 1882. 
' in « Portugália >, i, p. 148. 



188 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



caçamba 

E termo brasileiro, que vem definido no Novo Diccionábio 
como «alcatruz»; no respectivo Suplemento acrescentam-se mais 
as seguintes acepções: — «balde preso numa corda enrolada num 
sarilho ou nora, pára se tirar água dos poços; (ext.) qualquer 
balde; estribo em forma de chinela» — . 

Falta ainda outra acepção em que o vocábulo é usado uo 
Brasil e que vemos no Bosquejo de uma viagem no interiob 
DA Paeahyba e de Peenambuco: — «meu filho mal accomodado 
na sua caçamba, á moda do paiz: tosco caixote de madeira, for- 
rado, sobre uma das ilhargas do animal, e equilibrado por egual 
caixote, collocado na outra ilharga e tarado com carga» — K 



cachalote, cacholote, caixalote, queixalote 

Este termo, o francês cachalot, aportuguesado artificialmente, 
designa um cetáceo, com dentes, e daí provém provavelmente o 
nome. H. Stappers ^ dá-lhe como orijem o castelhano cachalote, 
que é, sem dúvida, o catalão quixalot, deminutivo de quixal, ou 
então caixal, que se pronuncia como a palavra portuguesa quei- 
xai, e teih a mesma significação, isto é, «dente (molar)», o que 
em castelhano se diz muela. 

Em português da-se-lhe também a forma cacholote, que J. 
Inácio Koquete inseriu ^, e que parece ser uma aprossimação ao 
vocábulo cachola, «cabeça de peixe». 



1 in <0 Século », de 8 de julho de 1900. 

2 Dictionnaire synoptique d'étymologib françaisb, 2.* edição, 
Paris, s/data. 

3 Dictionnaire portugais-français, Paris, 1855. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 189 



cachaiolete 

Palavra muito conhecida, como termo de botiquim, e já 
rejistada no Diccionabio Contemporâneo, que a define com 
exactidão — «bebida alcoólica formada pela mistura de diversos 
licores» — . Eis aqui uma abonação do seu emprego: — «O Termo, 
o CoUares, o grog e o cabaz, o cacharolete e o geripiti, ou 
os seus equivalentes, não servem lá> [nos bailes da Opera, em 
Bruxelas] — * 

É uma nomenclatura completa de venenos, principalmente 
quando tomados em lojas de bebidas. 

cacho 

Esta palavra, a que o Novo Diccionário atribui orijem in- 
certa e o DiccioNÁEio Manual Etymologico uns étimos muito 
problemáticos, foi por Frederico Diez - considerada romanização 
hispânica do latim capulus, «punhado, mancheia», mediante a 
forma caplus, comparando-o a ancho | amplus. Todavia, já 
por J. Leite de Vasconcelos foi ponderado que dos grupos latinos 
mediais -cl-, -pi-, -ti-, -fl- só resultou em português e castelhano 
eh, quando esses grupos estavam em latim precedidos de con- 
soante, como, por exemplo, em macho \ masc^lum, encher, 
(hjenchir j implere, inchar [ inflare, etc. 

Na realidade, uma excepção aparente, cach-orro, não provém 
de cat'1-us, pois é metátese das duas primeiras sílabas do vas- 
conço chacur, deminutivo de çacur, «cão>. Catulus, pois, de- 
veria produzir calho em português, cajo em castelhano, como 
vetulus deu velho e viejo, manuplum, molho e manojo, 
nova cl a, navalha e navaja, etc. 



* Diário de noticias, de 20 de fevereiro de 1903. 
2 Etymglogischbs Wõrterbuch der romanischen Sprachbn 
Bonn, 1870, ii, b. 



190 Apostilas aos Dicio7tários Portugueses 



Não obstante esta ponderosa circunstância, é ainda capulum 
o étimo que, por emquanto, apresenta maiores probabilidades, ao 
menos para o português cacho. O próprio Leite de Vasconcelos, 
que formulou a lei, não hesitou em derivar cacheira de c apu- 
lar ia e cacheiro de capularium ^ Outro tanto não direi para 
o castelhano cacho, ao qual corresponde, segundo parece, o por- 
tuguês caco \ calculus. 

Além de outras acepções da palavra portuguesa cacho, já re- 
jistadas nos dicionários, tenho a acrescentar uma, a de «espiga 
de trigo depois de esbagoada», a qual lhe é dada no Kiba-Tejo, 
como estou informado por pessoa fidedigna, que a empregou 
deante de mim, e preguntada, assim ma explicou. Esta acepção 
relaciona-se com outra usada no Alentejo, dada no Novo Diccio- 
NÁEio, da qual é variante, e que vem a ser — « espigas ou réstias 
de espigas, que resistem á primeira debulha e que se juntam 
para formar eiras de cachos-» — . 

Cachorro designa vários objectos, Com significados já apon- 
tados nos dicionários, e um deminutivo no plural, cachorrinhos, 
é nome que se dá no Kiba-Tejo à «herva moleirinha» (fumaria 
officinalis). 

cachola; cacholeira 

Em Lisboa designa o primeiro destes vocábulos «cabeça», e 
principalmente « cabeça de peixe » . Em castelhano cholla é um 
termo chulo que significa somente «cabeça de gente >. 

Parece haver relação entre os dois vocábulos; todavia não é 
fácil de explicar a primeira sílaba da palavra portuguesa, cujo 
étimo, bem como o da castelhana, é desconhecido. 

Cacholeira, que só muito a medo se poderá considerar como 
derivado de cachola, pelo menos no sentido que damos a este 
vocábulo, é o nome pelo qual é conhecida uma casta de chou- 



1 Ebvista Lusitana, ii, p. 31. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 191 



rico, « enchido fumado, em que entram aparas de carne de porco, 
misturadas com pedaços da entranha». 

cachondé 

Mistura de areca, âmbar, açúcar e outros ingredientes, para 
mascar, que serve para perfumar a boca, e é muito usada na 
índia e na Malásia K 

(andar aos) cachopinhos 

Diz-se, nos arredores de Lisboa, do andar usual dos coe- 
lhos, aos pulinhos, não porém da corrida desabalada que seguem 
quando são perseguidos. 

A informação foi-me dada pelo snr. Martinho Brederode. 

cachucho 

Como termo faceto, quere dizer « anel grosso de ouro » . Deve 
de ser o mesmo vocábulo que o espanhol cachucho, que na jíria 
castelhana, ou germania, significa «ouro». 

A etimolojia dada por Salillas ^, latim capsula, é absurda. 

cacifo 

— «O cacifo em que [os caçadores] levam o furão para o 
monte é um pequeno cesto de vime em forma de cabaça, com 
porta de madeira» — ^. 



1 Hugo Schuchardt, Kreolische Studien, ix. 

2 Kafael Salillas, El delincuextb espanol, Lexguage, Madrid, 
1896, p. 270. 

3 José Pinho, Ethnographia Amarantixa, A Caça, in Portugália, 
II, p. 98. 



192 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cacimba, cacimbo 

O primeiro destes vocábulos tem duas acepções: 

Como termo da Africa Portuguesa, tanto Ocidental, onde se 
orijinou, como Oriental, para a qual foi levado pelos portugueses, 
é, como define o Novo Diccionáeio, — «poço que recebe a água 
pluvial, filtrada por terrenos circumjacentes, e da qual se servem 
as povoações» — . Neste sentido é o quimbundo quíxima, (e não, 
quichima, como está escrito no dito dicionário): — «A ilha dos 
Elephantes. . . dista 18 milhas de Lourenço Marques. . , A ágiia 
que bebem [os leprosos da gafaria, e não, gafeira, como se inti- 
tulou, pois este vocábulo é o nome da doença] é fornecida por 
cacimbas » — ^ 

Como se vê, trata-se da África Oriental. 

A segunda acepção, «chuva meúda», é mais usada no Conti- 
nente do que na África Ocidental, onde lhe chamam de prefe- 
rencia cacimbo. 

E naturalmente outro vocábulo diverso, mas não sei dizer 
qual. Veja-se cachimbo em tabaco. 

cacique, cacico, caciquismo 

Esta palavra, de orijem americana, caribe, segundo se afirma, 
que em castelhano denota «cabeça de tribo», é de uso raro em 
português. No entanto vemo-la empregada com referencia ao 
Brasil no seguinte trecho do Bosquejo de uma viagem xo 
INTEE.IOE DA Parahyba e DE PERNAMBUCO '^\ — « Carirjs, raça 
indolente, sem embargo essencialmente bellicosa, como ... o 
eram ... os tabajuras e os petyguares, a que pertenceram al- 
guns caciques alliados dos portuguezes, como o celebre Cama- 
rão (Poty)» — . 



Jornal das Coloxias, de 24^ de julho de 1905. V. gafo. 
in O Século, de 17 de junho de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 193 



É preferível o emprego deste vocábulo ao de chefe, que em 
tal sentido é galicismo, conquanto muito generalizado já para se 
poder desterrar. 

Bluteau * rejistou outra fonna do mesmo vocábulo, cacico: 
ignoro se foi por aportuguesamento arbitrário, ou porque assim 
a encontrou também em castelhano. 

O termo cacique em Espanha designa um influente eleitoral 
que exerce pressão e domínio em certa rejião, e dele se derivou 
caciquismo: ambos os termos já de Espanha passaram a Por- 
tugal. 

caço; cacete 

Este termo, correspondente ao castelhano cazo, e cujo deri- 
vado deminutivo camela produziu o português caçoula (cf. len- 
tejoula e lentejuela, tijolo e tejuelo), designa « colher de con- 
cha» no Alentejo, e provavelmente em outros pontos do reino, 
visto que o Novo Dicc. rejista a palavra, sem limitação. E o ins- 
trumento que os espanhóis denominam cucliarón, aumentativo 
de cuchara, « colher » . 

A orijem do vocábulo cago, que também figura em toscano, 
cazza e cazzo (=catço), é duvidosa. 

O cazzo italiano, que, além de outras acepções obsoletas, tem 
um significado obsceno, deu talvez orijem ao verbo poiiuguês 
caçoar, o qual, como mangar, foi também termo obsceno, mas 
se vulgarizou, obliterando-se a significação imunda que tinha. 
Xo entanto, é conveniente que, à cautela, quem quere usar limpa 
linguajem evite o emprego de qualquer destes dois verbos, ou 
dos seus derivados, substituindo-os por zombar, escarnecer, mo- 
tejar, chalaç(e)ar, etc. 

De caço, no sentido de < moca » , vem provavelmente a palavra 
cacete, e não do francês casse-tête. 



Vocabulário portuguejz e latino, Suplemento. 

13 



191 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cada 



Esta palavra, que, sem a menor dúvida, tem por orijem o 
grego KATÁ, o qual já aparece no latim dos escritores eclesiásti- 
cos, no mesmo emprego que tem em português e castelhano, 
verhi gratia, na locução da Vulgata, cata mane, «cada manhã », 
é uma verdadeira preposição invariável, e não adjectivo como 
os gramáticos a classificam e como o é o francês chaque, ou o 
italiano qualche. A prova é que se usou antigamente antes 
de nomes no plural, como por exemplo nesta frase: — «cada 
huns tinham seu senhor» * — «gentes darmas que cada hfuis 
dariam» — -. 

Emprego bem evidente de cada como preposição é o seguinte 
trecho castelhano, do título xxvi da Partida ii: — «Et por este 
son llamados quadrilleros [em português coireleiros, quairelei- 
ros; quadrilheiro é castelhanismo] ; porque cada uno dellos han 
de saber las herechas que cayeren en la su quadrilla» — ^. 

É claro que o sujeito gramatical do verbo Jian (e não, ha) é 
o substantivo plural quadrilleros, e não o pronome singular uno: 
portanto o pronome não é aqui cada uno, mas sim uno somente, 
governado pela preposição cada. 

Em antigo toscano encontra-se catana (cafuna), equivalendo 
ao moderno ciascuna, * o que confirma aquele étimo, proposto 
por Diez e aprovado por todos os romanistas. 

Ainda hoje, valendo por advérbio, se emprega cada em frases 
elípticas, como a que vou citar, e que, a meu ver, é um tri- 



1 EOTEiRO DA VIAGEM DE Vasco DA Gama, Lisboa, 1861, p. 37. 

2 Rui de Pina, Crónica de El-rbi Dom Afonso v, i, cap. lx. 

3 Júlio Pu^-ol y Alonso, Una puebla bn el siglo xiii, in «Eevue 
Hispanique»,xi, p. 283: — <erecha Uaman en Espana á las emiendas que los 
homes han de rescibir por los danos que resciben en las guerras > — . [ib. n]. 

^ Versão toscana do Livro de Marco Paulo Véneto, Milão, 1886, 
p. 12. 



Apostilas nos Dicionários Portugueses 195 



vialisrao defeituoso: — «Esta fornada representa 3 carros de loiça, 
que o oleiro venderá a 12)5000 reis cada» — K 

Formando com qiie locução adverbial, vemos cada nos dois 
passos seguintes, citados nas «Villas» do norte de Portugal: 

— « Item, Marina de Várzea recebeu Pçtro Onriguiz por filo 

et deu li una casa in que pousa cada que y A'em « » cani- 

zos cada que os pedirem » — - : isto é, toda a vez que, quando. 

Xo seu estudo sobre o Livro de Alexandre, publicado no 
tomo IV da Romauia (1875), Morel-Fatio, cita a frase — «Sal- 
drian de cada cal (des toiírs) c. mil combatentes» — , e acrescenta: 
— «Cette expression ne convient pas au passage, il faudrait de 
cada una» — . E evidente que o douto hispanista desconhecia a 
esse tempo a locução portuguesa cada qual, correspondente à 
berciana cada cal, e muito popular: — 

« O ciranda, ó cirandinha, 
Toca, toca a cirandar; 
Dêem todos meia volta, 
Cada qual ao seu lugar » — . 

Mas não é só popular, é também literária, e Bluteau teve o 
cuidado de a rejistar — «Cada himi, e cada hua, ou cada qual. 
Quisque... Unusquisque» — . No Suplemento aduz, no lugar 
competente, as seguintes locuções: — «Cada qual com seu igual; 
cada qual em seu oíficio; cada qual sente o seu mal» — e ainda 
outras três, menos características. 

Um adjectivo muito curioso, de construção parassintética, é 
cadaneira, que se aplica no Douro à «árvore que dá fruto todos 
os anos». V. aneiro. 



1 Rocha Peixoto, As Olarias do Prado, in Portugália, i, p. 267, 
nota ^. 

2 Portugália, I, p. 780 e 783; extraídos de Portttgaliae Moxu- 
MEXTA Histórica, Inquisiciones, p. 413, i col., e p. 314, i col. 



19(5 Apostilas aos Dicionâríos Portugueses 



cadafalso 

Este vocábulo é hoje usado quási exchisivamente na acepção 
restrita de «patíbulo». 

Antes, porém, significava um « estrado alto, armado em praça, 
para actos solenes». 

Nas ilhas dos Açores designa cadafalso uma casa, destinada 
às festas do Espírito-Santo. São os cadafalsos geralmente situa- 
dos em sítios chamados ramadas, porque se adornam com fron- 
des e ramos. 

Neste sentido vemos o vocábulo empregado no seguinte tre- 
cho: — «explica a camará que cadafalso nos Açores é o pequeno 
ediíicio, também chamado theatro, onde se armam alguns im- 
périos do Espirito-Santo » — K 

Veja-se império. 

cadeira 

Além das várias acepções rejistadas nos dicionários para esta 
palavra, vemos no jornal O Economista, de 5 de agosto de 1885, 
que na África portuguesa designa uma — «arvore de onde se ex- 
trahe borracha » — . 

cadelo (=cadêlo) 

Esta palavra é definida como «cão pequeno» e procede de 
um deminutivo catellum, por catulus, sendo a forma mascu- 
lina correspondente à feminina cadela = cadela, com a metafonia 
usual em português; cf. canelo e canela. Além deste significado, 
o Novo DiociONÂRio dá-lhe mais o seguinte, como termo mi- 
nhoto: — «cruzeta de pau, presa ao adelhão e sacudida pela mó 
em movimento» — . Neste sentido parece ter sido empregada na 



1 O Século, de 8 de julho de 1901. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 197 



revista Portugália ', no seguinte trecho: — «Este [o tabuleiro] 
inclinado sobre o olho da mó, é posto em movimento por um pau- 
sinho circular, o cadello» — . 

E um dos muitos nomes de animais aplicados a objectos: 
V. em burro. 

cadilho, cadilha 

Como é sabido, cadilhos é termo muito conhecido e há muito 
tempo para designar uma espécie de franja, ou guarnição entran- 
çada e pendente. O feraenino cadilha parece ter significado aná- 
logo àquele com que se define a primeira acepção de cadilhos 
nos dicionários, isto é, — «fios do urdurae que não levam trama, 
e formam no final da teia uma como franja» — -. Na revista 
Portugália ^ lê-se: — «O desenvolvimento dos fios [da urdidura] 
até este torno do conjuncto (cadilha) de fios tem o nome de 
signal* — . 

Um exemplo antigo do emprego de cadilhos, como signifi- 
cando certa guarnição, pode ver-se em bedem. 



cafajeste, cafazeste 

O Novo DiccioNÁEio rejista a primeira destas formas, defi- 
nindo-a do seguinte modo: — « (bras[ileirismo]) homem de ínfima 
condição; indivíduo sem préstimo» — . No Suplemento, porém, 
acrescenta — « (brasíileirismo] esc[olar]) aquelle que não é estu- 
dante e que, em Coimbra, se denomina /wínm » — . Na primeira 
acepção vemo-lo empregado no Bosquejo de uma viagem ao 

INTERIOR DA PaRAHYBA E DE PERNAMBUCO * : — < ConhCÇO CSSO 



1 I, p. 337, MoixHOS. 

2 Dicc. Contemporâneo. 
a I, p. 374. 

* inO Século, de 17 de junho de 1903. 



198 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



vaqueiro. É um D. Juan dos meus sitios; cafazêste de marca; 
exemplar de anthropologia criminal. . . Ladrão de mulheres >< — . 
Por este trecho ficamos sabendo que o e da sílaba tónica é 
fechado. Ignoro absolutamente a orijem do vocábulo, que, apesar 
de brasileiro e desconhecido enteiramente em Portugal, não tem 
aspecto de ser nem abanheenga ou de outro idioma de índios da 
América do sul, nem tampouco oriundo de qualquer das línguas 
africanas, caf riais ou outras. 



cágado 

O extravagante nome que em português se dá a este batrá- 
quio, e que os pudibundos escritores modernos velam, para o 
disfarçar, com uma inicial grega, Icágaão, não figura em outro 
idioma, nem com esta forma, nem com^ qualquer que com ela se 
pareça, a não ser em japonês, onde o vocábulo kâuazu significa, 
segundo Hepburn ^ — '^frog (rã), toad (sapo)» — . Ora no norte 
de Portugal o cágado é chamado sapo concho, isto é, «de con- 
cha » . 

A palavra cágado já figura em Gil Vicente, no «Auto das 
Fadas» (sortes): 

Cágado: Quem tiver este animal 
Não é muito que o leixe, 
Pois não é carne nem peixe. 

Portanto, a não ser mera coincidência como tantas outras, 
foi o nome levado de cá para o Japão, com mais alguns poucos 
vocábulos, e não de lá trazido como outros, tais biombo, qui- 
mão, catana (q. v.), e poucos mais. 

Não sei com que fundamento o coordenador do Liveo da 



1 A Japanese-English axd English-Japanbsb Dictionary. 
Tóquio, 1897: cm letra romana. 



Apostilas aos . Dicionários Portugueses 199 

Maeinhahia, de João de Lisboa *, no i índice acentua duas 
vezes Cayáão (o ilhéu 1.° e 2.*^). O texto traz Caguado, a 
páj. 120, Caguado e Cagado a páj. 136. E natural que em 
ambos os passos a leitura seja cágado, a não ser que por di- 
ferenciação o vocábulo haja mudado de sílaba acentuada, o que 
o coordenador deveria advertir, se o sabe com certeza e tem 
maneira de o demonstrar; de outro modo, foi uma temeridade 
pueril empregar ali na penúltima sílaba acentuação, que é a nor- 
mal quando na palavra se não marca outra, para, provavelmente, 
indicar uma leitura errada. 

O dr. Júlio Cornu relaciona cágado com uma forma latina 
cacitus, citando em seu abono Isidoro Hispalense ^. O passo 
abonatório é: — lutabiae, id est iíí coexo et paludibus viven- 
tes — «lodosos, isto é, que vivem na lama e nos charcos». As 
transformações que a palavra cacitus sofreu, para chegar à forma 
portuguesa ainda vernácula, hão de ter sido: cacidu: cac' du: 
cag' du: cáguedo: cágado, se a etimolojia *é certa, como parece. 

Cágueda, que, segundo o Novo Diccionário, designa no 
Alentejo — travinca, com que ás vezes se prende o chocalho á 
coUeira» — , é sem dúvida um femenino de cáguedo, por cágado. 
É frequente, como já disse, o uso de nomes de animais aplicados 
a objectos, em atenção à semelhança, verdadeira ou suposta, da 
forma ou de qualquer atributo deles. 

Essa orijem evidente tem o epíteto de pregos de asa de 
mosca, por exemplo. V. burro. 



cagairo 

Este termo da Beira-Alta quere dizer «ânus, ou mucosa 
anal » . 



Lisboa, 1903. 

GrUXDRISS der ROMAXISCHBX PHILOL.OGIB, I, p. 746. 



200 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

cagarra 
Na Ilha da Madeira é sinónimo de pardela, (q. v.). 

caída 

E o particípio passivo do verbo cair, substantivado no fe- 
menino e boje quasi desusado, porque se contraiu em queda, 
como mestre de m agis trem, caente em quente, acaecer em 
aquecer, no sentido em que antigamente era empregado, de 
«acontecer», e bem assim no de «aquentar» | acalentar, que 
subsiste em outra significação, e deve de ser castelhanismo, em 
razão da manutenção do l medial. 

Dizemos todavia descaída, recaída, formas derivadas nas 
quais se não deu a contracção de aí em e. 

cai] eira 

Este vocábulo usado em Arcos-de-Val-de-Vez, apontado 
já no Suplemento ao Novo Diccionáeio, atribuindo-se-lhe aí 
como étimo provável calijem, foi já explicado perfeitamente por 
J. Leite de Vasconcelos ^ como procedendo de c ali gin ária { ca- 
ligo, caliginis. As formas intermédias seriam caligiaria, 
caijaira, caijeira. 

caim 

Este nome próprio é empregado como apelativo na ilha de 
Sam Miguel, no sentido de «mau homejn», como vemos decla- 
rado no jornal O Século, de 5 de julho de 1901. 



Rb3 VISTA Lusitana, iv, p. 275. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 201 



caíque 

Costuma escrever-se esta palavra com h medial, a desunir as 
duas vogais a e i, e não porque seja nela orgânico, etimolójico- 

O vocábulo é turco, qaiq, conforme Marcelo Devic, no Suple- 
mento ao dicionário francês de Emilio Littré ^ ; aí vemos defi- 
nida esta palavra do seguinte modo: — «Caíque, petite embar- 
cation en usage dans rArchipel et à Constantinople » — . 

Bluteau não rejista o vocábulo, e difícil será dizer hoje quando 
êle entrou na língua e por que via, para se tornar vulgaríssimo 
no Algarve, a não ser que chegasse lá por intermédio dos mouros 
dos países barbarescos. 

Dozy 2 define deste modo o vocábulo, que não incluiu no 
Glossário de palavras espanholas e portuguesas derivadas de 
árabe ^ o que parece excluir a minha hipótese: — «embarcação 
pequena, usada no mar Negro. E a palavra turca Mil; a qual 
passou a muitas outras línguas; veja-se Jal, Glossaire Kaiitique, 
sub V. cate, caico, caiq, caíque. Em Constantinopla é o caíque 
uma embarcação bonita e lijeira, com um ou mais remeiros, e 
muito comum; aos particulares não é permitido guarnecê-la cora 
mais de cinco remeiros; os ministros do Sultão, e os embaixado- 
res estranjeiros podem empregar sete remadores» — . 

J. Inácio Roquete no dicionário português-francês *, não sei 
com que fundamento, traduziu caíque, por — <quaiche, petit bâ- 
timent du Tage, de la cote de Portugal et de la Manche» — , 
entanto que Littré define quaiche, como sendo — «petite embar- 
cation des mers du nord » — ^, mandando pronunciar kèche. 



1 DiCTIOXAIRE ÉTYMOt.OGlQUE DES MOTS d'OKIGINE ORIEXTALB, 

Paris, 1876. 

^ OosTERLiNGEN, Haia, 18(37, p. 46, em holandês. 

3 Glossaire des mots espagnols et portugais derives de 
l'ababe, Paris, 1869. 

^ Paris, 1855. 

s Dictioxxaire de la langue française, Paris, 1881. 



202 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cairo; Cairo 

Este termo, que designa uma substância vejetal tenacíssima, 
de que se fazem cordas e calabres, troussemo-lo nós da índia, 
com o objecto que tem este nome. 

E a fibra da casca do coco, e a esta chamam os malabares 
na sua língua Tcãyar, do verbo Miyara «estar entretecido». 

João de Barros ^ diz que parece feito de couro, e, na opinião 
dos autores do Glossário de palavras anglo-índias ^, a semelhança 
dos dois vocábulos deve ter contribuído para a aceitação do pri- 
meiro. Todos os nossos cronistas da Ásia fazem menção do em- 
prego que desta fibra faziam os índios. 

Nada tem esta palavra que ver com Cairo, cidade no Ejipto 
maometano, a qual em árabe se chama al-qaeibe (pron. alqáhira, 
«a vitoriosa». 



cairo 



É vocábulo transmontano e significa « dente canino, colmilho » . 
E o latim canariu \ canis «cão», conforme J. Leite de Vas- 
concelos ^ e as formas intermédias hão de ter sido * caneiro, 
cãeiro. 



caixa 



Este termo, designativo de uma moeda asiática, é íreqiiente 
nos nossos escritores dos séculos xvi e xvii. Conforme Fernám 
Mendéz Pinto *, valia real e meio: — «duas caixas, que erão três 
réis da nossa moeda» — . 



1 Da Ásia, Década iii, livro iii, cap. 7. 

* Yule & Burnell, A Glossary of Anglo-Indian words axd phra- 
SES, Londres, 1886. 

3 Kevista Lusitana, ii, p. 116. 

* Perbgrikação, cap. cix. 



Apostilas ao« Dicionários Portugueses 203 



A palavra encontra-se já em sánscrito, com a forma KaRsa, 
mas é natural que os portugueses a recebessem ou directamente 
do támul hlsu, ou por intermédio do marata ou do concaui, como 
se diz no Glossário de Yule & Burnell ' (q. v.j. 



caixa-d'água 

Em Évora quere dizer « mãe-ã' agua » , isto é, «depósito de 
água». A expressão é comparável à castelhana arca de agua, 
que tem o mesmo sentido. 



cajuri (cajury) 

Arvore da índia Portuguesa: — «a população rural do dis- 
tricto [Damão] usa. . . as aguardentes de flor de maura. . . e as 
de cajury» — -, 



calarabá, calambac, calambuco 

O Novo DiccioííÁKio remete a primeira forma para outra, 
caJamba, a que portanto dá a preferência : com pouco fundamento, 
porém, visto que na Peregrinação de Fernám Méndez Pinto a 
palavra está escrita calamhaa ^, representando portanto o malaio 
kalámhaq, mas com o acento na última sílaba. 

E duvidoso se calambuco S ou calambuque, designava a 



1 A Glossary of Anglo-Ixdiax words axd phrases, Londres, 
1886, stib V. Cash. 

^ F. X. Ernesto Fernández, O regimen do sal,, abkary e alfan- 
degas NA IxDiA PoRTUGUBZA, íii < Bolctim da Sociedade de Geographia de 
Lisboa», 23.* serie, p. 221. 

3 Cap. XLi. 

^ ib, xviii. 



204 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

mesma substância vejetal aromática, e sobre estes dois vocábulos 
pode consultar-se o Vocabulábio de Bluteau, onde também se 
rejistou a forma calamha. 

Garcia da Orta escreveu calambac: — «Chama-se agalugem 
e hauã em arábio; e os Guzarates e Decanins ud, que é casi o 
arábio; os Malaios garro, e estes chamam ao muyto fino calam- 
bac. A arvore é como a oliveira, e ás vezes muyto maior; fruito 
nem frol não lhe sey» — ^ 

Veja-se sobre esta essência aromática o erudito comentário 
do Conde de Ficalho, a páj. 60-65 da edição dos Colóquios, 
citada em nota. Outro nome do cheiroso pau era aquila, vo- 
cábulo cuja acentuação é duvidosa, e que sem dúvida proveio, 
como supõe o douto comentador, das formas indicas agar, agir, 
ágil, modificações do sánscrito agueu, — «que os árabes con- 
verteram em agalaãjin [AYaLAoiN] ( « agalugem » de Orta) » — . 
Pela forma arábica da palavra se vê que a acentuação tem de 
ser agalujém, e não, agalújem. Mas será agalugem erro tipo- 
gráfico por agalagém? 

Pelo contrário, a forma sanscrítica aguru, com o u breve, 
aconselha-nos a acentuar águila, o que explica a confusão que 
se deu entre este nome e a palavra latina aquila, «águia», e 
motivou a extravagante denominação inglesa eagle-wood. 



calão 



O DiccioNAEio Contemporâneo, conforme o seu costume, 
atribui a esta palavra imi étimo extravagante: diz-nos que pro- 
vém de cala -{- ão. Que será este cala, e mais este ão é o que, 
se não fica sabendo, e cada um suporá o que mais lhe agradar; 
mas pode conjecturar-se que, visto calar querer dizer — «não 
falar» — , e — ^ão, suficso subst. derivado de verbos» — denotar 



1 Colóquios dos simples b das drogas da Índia, ii, Lisboa, 1892, 
p. 58. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 205 

acção, segundo o mesmo dicionário, calão deve significar «a 
acção de não falar >, convém saber, «de estar calado». Bonita 
etimolojia! 

Xa realidade, calão é o calo espanhol, que designa «o ci- 
gano » (plural cales, femenino callí, pi. callías) e o dialecto deles 
na sua própria linguajem. 

O calo concorreu bastante para a formação da jíria portu- 
guesa e castelhana. Sobre este objecto vejam-se as seguintes 
obras: F. A. Coelho, Os ciganos de Poetugal, e Kafael Sa- 
lillas, El deliíícuente espaíígl, El lenguajr ^. 

Outra acepção de calão, que deve ser vocábulo diferente, 
vemo-la no seguinte trecho: — «As mangas partem da boca do 
saco [rede], em posições oppostas . . . diminuindo ... na ponta . . . 
ou calão ^. 

calceta, calcetar, calceteiro 

O Novo DicciONÁBio define calceta como sendo — «grilheta, 
argola com que se prendia a perna do condemnado» — , e tam- 
bém — «o condemnado a trabalhos forçados» — . 

O vocábulo calceta parece ter orijem castelhana, sendo pro- 
vavelmente o termo de germania, ou jíria de malfeitores espa- 
nhóis, calza, «grilheta», corrente com que se prendem os en- 
carcerados; na mesma jíria calcetero é o nome que os presidiários 
davam a quem prendia essas correntes aos presos ^. 

Os galeotes, a que me referi no artigo braga, eram também 
denominados simplesmente grilhetas, por alusão à cadeia que os 
acorrentava. Em malaio, pelo mesmo motivo, chamam-se óram- 
-rante, «gente (de) grilheta», e esta denominação designa, por 



1 Lisboa, 1892; Madrid, 1896. 

2 Fernández Tomás, A pesca em Buarcos, in Portugália, i, p. 151. 

3 Rafael Salillas, El delincubxte bspanol, El Lbnguaje, Ma- 
drid, 1896, p. 276. 



206 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



amplificação de sentido, nesta língua um qualquer «preso em 
cadeia pública». 

Em meados do século passado os grilhetas, ou calcetas, 
acorrentados a dois e dois por uma cadeia de ferro (grilheta), de 
metro e meio de comprimento, presa à perua por uma argola 
(calceta ou braga), eram ocupados em ranchos no calçamento 
das ruas, e foram esses ranchos que, por desenho e direcção 
superior do general Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado, gover- 
nador do Castelo de Sam Jorje, executaram o formoso mosaico 
da Praça de Dom Pedro, ou Kossio de Lisboa; foram eles os 
calceteiros, e tanto este nome, como o verbo calcetar e seus 
derivados, calcetamento, calcetaria daí procedem. 

Muitos desses indivíduos, cumprida que foi a pena, con- 
tinuaram a exercer essa profissão, em que tam peritos se mos- 
traram. 

A tradição perpetuou-se, aperfeiçoando-se, e hoje em dia esse 
ofício é tam honrado e tam honroso como qualquer outro ma- 
nual, e tem-se difundido em muitas outras cidades e vilas do 
reino. 

caldeiro, caldeirada, caldeireiro 

Eis aqui abonações destes três vocábulos, em sentidos espe- 
ciais : 

— «Para que a duração das redes seja maior, usam os pes- 
cadores mergulhal-as n'uma infusão de casca de salgueiro, para 
o que possuem . . . grandes vasos de cobre (caldeiros), onde as 
redes são mettidas» — ^ 

— «Da outra parte [da pesca] que pertence aos pescado- 
res que formam a companha, tira-se um terço para a ca/- 
deiraãa. E o peixe reservado para as refeições dos pescado- 
res» — *. 



1 Portugália, A pesca em Buarcos, i, p. 15.3. 

2 ib. p. 154. 



Apostilas aos Dicionàri.os Portugueses 207 

— «acabar com o uso das senhas aos caldeireiros (cozedores 
de cortiça)» — '. 

caleiro 

Em Trás-os-Montes é a «goteira do telhado». 



calha 



— « Essa corrediça assenta sobre uma viga, mais forte e mais 
larga, que se chama draga ou calha ^ — -. 



calhau 

O étimo mais provável, tanto da palavra portuguesa como 
da francesa caillou, ambas as quais tem aspecto de derivados 
por meio dos suficsos -aii e -ou (=u } -òu \ -ol), é um primitivo 
calho, cail \ calculum, «pedrinha», mediante a evolução se- 
guinte: calclum: caldo: calho, para o português, e calcle: 
cail, para o francês. 



cali (Marrom eu) 

Africa Oriental Portuguesa: — « Os nomes dos principaes objec- 
tos de uso domestico são cali (panela d'agua) . . . » — ^. Xão 
posso deixar de citar a coincidência de kuáli em malaio tam- 
bém ser o nome que dão à panela onde se faz o caldo e sopas. 



O Economista, de 13 de setembro de 1892. 
O Século, de 2 de outubro de 1901. 
Jornal das Colónias, de 4 de julho de 1903. 



208 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



calo 



No Alentejo este termo significa uma extensão de terreno 
arjiloso, encravado entre outras formações. É evidente a orijem 
do termo : destaca-se, por diferença de aspecto, esse retalho entre 
os terrenos circunjacentes, como um calo realça na pele. Compa- 
ração análoga, mas com relação a dureza, levou a aplicar-se a 
mesma denominação à « grossura de terra, entremeada e presa 
pelas raízes das varas, que se forma em torno das videiras que 
se cortaram na poda», sentido este já consignado no Novo Dic- 

CIONÁEIO. 

calombo; carimbo; carcunda 

Colombo no Minho significa «abóbora». O Novo Diccioná- 
Eio diz-nos que como termo brasileiro quere dizer — «tumor, in- 
chaço duro em qualquer parte do corpo» — , e atribui-lhe em 
dúvida orijem africana. O aspecto é na realidade cafrial, mas 
o vocábulo não parece quimbundo, pois nesta língua calombo 
quere dizer «mulher infecunda», conforme Joaquim da Mata ^ 
Não seria porém de estranhar que o fosse, pois esta e outras 
línguas bantas ministraram e ainda ministram copioso vocabulá- 
rio à nossa. 

O preficso ca é deminutivo em quimbundo, e a palavra, 
muito usual carimbo é simplesmente o deminutivo de quirimbu 
« marca » ^, como carcunda é o quimbundo caricunda, « costi- 
nhas » , « o das costas » , e significa « quem tem as costas defei- 
tuosas» e o próprio defeito. 



1 Ensaio do Diccionario kimbúndu-portuguez, Lisboa, 1893. 

2 ih. suh voe. kirimbu. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 209 



calote 

Este vocábulo, no sentido de «dívida não paga», parece ser 
o francês culotte, como termo de jogo do dominó, o qual designa 
« as pedras com que cada parceiro fica na mão, por as não poder 
colocar » . 

Também se diz naquele sentido caurim, (q. v.). 



caluete 

O Novo DicciONÁEio rejista como inédito este vocábulo, que 
escreve caluete, o que é erro manifesto, pois o vemos escrito nos 
nossos cronistas da Ásia também caloete, e é sabido que do o se 
serviam dantes, em caso de dúvida, quando o u, que na forma, 
quer escrita, quer impressa, se confundia com o v, se poderia ler 
como hoje lemos este. É sabido também que o V era o desenho 
inicial, u o medial e final da palavra, tendo ambos promíscua- 
mente os dois valores, e sendo o u para o da vogal u a meúdo 
substituído por o, se ficava no meio da palavra, pelo expediente 
gráfico hu, principalmente se no começo dela: huivar, por exem- 
plo, assim diferençado de viver ^ 

O termo é malabar kaluehhi, e designava o instrumento de 
um suplício atroz, descrito por Fernám Méndez Pinto, nos se- 
guintes termos: — «porém o moço foi espetado vivo em um ca- 
luete de arrezoada grossura, que lhe meterão pelo sesso, e lhe 
sahio pelo toutiço» — -. 

Para se ver quanto os nossos escritores eram escrupulosos 
em representar, conforme a ortografia do seu tempo, os nomes e 
vocábulos peregrinos que intercalavam nas suas relações e des- 



1 V., do autor, Ortografia Nacional, Lisboa, 1904, p. 61, 99, 103, 
215 e 218. 

•^ Peregrinação, cap. clxxvii. 

li 



210 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



crições, cumpre advertir que o vocábulo malabar, que na letra 
da terra se escreve kaluehhi, é pronunciado káluètti ^ 

Bluteau ortografou também erroneamente calvete, pelo quê se 
fica sabendo que antes do Novo Diccionário já a palavra havia 
sido rejistada. 

Kepito que a escrita caloete tira todas as dúvidas, mesmo 
que não soubéssemos pelo seu étimo, como sabemos, que ali o U 
não tinha o valor de v, mas de u vogal. 



camacheiro 

E termo usado no Funchal, com a 'significação de «vento 
leste». A orijem desta denominação é evidente. Chama-se-lhe 
assim porque esse vento sopra ali do lado da freguesia de Ca- 
macho, capela de Santa Cruz, fora da cidade. Cf. (vento) pal- 
melão { Palmela, «o sueste», no Tejo. 



cama-quente 

— «Dá-se em horticultura o nome de cama quente a todo 
o amontoado de adubo constituído por folhas sêccas ou detrictos 
vários próprios para entrarem em fermentação e desenvolverem 
calor»— 2. 

câmara, camarim, camai'inha, camarote, 
beliche, caramanchão 

O termo camarim, derivado do italiano camerino, significa 
nos teatros portugueses, como nos de Itália, o quarto em que os 



1 Yule & Burnell, A Glossary of Anglo-Indian words, Londres, 
1896. 

2 Gazeta das Aldeias, de 20 de agosto de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 211 



actores se vestem e preparam para a cena. É já autigo na nossa 
língua, pois vem mencionado neste sentido no Aviso de 17 de 
julho de 17Õ1 ^ relativo ao teatro da Ópera. 

Outro tanto acontece a camarote, como se vê no mesmo 
Aviso: — «os camarotes a que Sua Magestade não deu certeza, 
destribuirá V. Ex.*» — . 

O italiano deu ao português gi-ande número de termos de 
arte. (V. poltrona). 

Camarote, como termo de bordo, no mesmo sentido que beli- 
che (de orijem oriental, provavelmente malaia, hiliq, « alcova >), é 
natural que italiano seja também, mas já foi usado na Peregri- 
nação (cap, ccxiv). E possível que beliche represente o malaio 
biliq hechil, «alcova pequena», com deslocação do acento do 
adjectivo para o substantivo, e supressão do q, quási imperceptí- 
vel, e da terminação il. Em italiano camarote-de-bordo diz-se 
camerino. 

Camarim é excelente tradução do francês boudoir, e nesta 
acepção foi muito usado, significando « quarto reservado, secreto » ; 
e é como tal que o termo se aplica ao andor coberto em que, 
por exemplo, a imajem do Senhor dos Passos da Graça vai cada 
ano processionalmente para a igreja de Sam Koque, em Lisboa, 
na segimda sexta-feira da quaresma. 

Camarinha está empregado num sentido especial no seguinte 
passo do Bosquejo de uma viajem no interior da Parahyba 
E DE Pernambuco ^: — «no interior da nossa «camarinha», co- 
berta de telha vã, como é geral no norte do Brazil» — . . 

Com efeito, no Suplemento ao Nôvo Diccionário vemos este 
vocábulo definido do modo seguinte: — «(bras. do N.) quarto de 
dormir; pequena prateleira no canto da sala» — . 

Na Beira-Baixa camarinha e o « quarto de dormir » . 

Camarinha é também o nome de uma baga, fruto de imaa 
planta do mato, a que no Alentejo se chama copo-d'água. 



1 COLLBCÇÃO DE LEGISLAÇÃO PORTUGUEZA, 1750-1762, p. 338. 

=2 in O Século, de 8 de junho de 1 900. 



212 AjMstilas aos Dicionários Portugueses 

Outra palavra composta, não derivada, de câmara é cara- 
manchão, de camaranchão, com metátese das sílabas médias, 
formado de câmara ancha, com elisão do a final de câmara, e 
mudança de género gramatical: ef. mulherão, substantivo mas- 
culino, aumentativo do femenino mulher, casão, masc, de casa, 
femenino. 

A palavra câmara, que deu avultado número de derivados 
em todas as línguas românicas, é o latim camêra, camâra, do 

grego KAMÁEA. 



camba, cambo, cambai, cambeira, cambeirada, cambada, 
cambulhada, cambulhão 

O Novo DicciONÁEio, no Suplemento, incluiu a palavra cam- 
òeiras, com a seguinte definição: — «(t. da Bairrada), a farinha 
mais fina que, nos moinhos de água, se evola [?] da mó, poisando 
nas paredes e objectos circunjacentes » — . 

Acrescenta um derivado cambeirada, como também perten- 
cente ao vocabulário daquela rejião, definindo-o — «arremesso 
de cambeiras ou enfariuhadela com cambeiras, nos folguedos do 
entrudo;. . . pequena porção de farinha» — . 

(i Porque se chama, porém, cambeira, ou cambeiras, a essa 
farinha finíssima? 

No corpo do dicionário incluíu-se o termo cambai, assim 
definido: — «resguardo de pano, madeira ou farinha, para que se 
não espalhe a farinha que se vai moendo» — . 

Bluteau dissera: — «Cambais chamão os Moleiros à farinha 
(segundo imajina quem mo disse) que põem em roda da pedra 
que moe, como reparo da que se está moendo; ou são umas ta- 
boinhas, que pela mesma sorte se põem» — *. 

A palavra deve provir de camba, a que o mesmo dicionário 



1 Vocabulário portugubz b latino, Suplemento 



ApnHtilns aos DicionâHos Portugueses 213 



dá as seguintes definições: — «peça curva das rodas dos carros, 
pina; nesga; (ant.) moinho de mão; pequena cambota» — . 

Camba parece derivar-se do latim campe, termo grego que 
significava « curvatura » . 

O Elucidakio de Santa Rosa de Viterbo diz-nos que antiga- 
mente camba era: — < moinho pequeno, molinheira, moinho de 
mão» — e cambai — «a farinha, que faz lábio na mó debaixo» — . 

Na monografia Moinhos * vemos o seguinte trecho em que 
se descreve o que são cambeiras: — «por sobre estes [os arre- 
dores, q. vj assenta. . . um aateparo de madeira, a que dão o 
nome de cambeiras > — . 

Creio ficarem assim bem estremadas, com as citadas defini- 
ções e com este trecho, várias acepções das palavras camba, 
cambai, cambeira, cambeiraãa. De camba e cambota há cla- 
ríssimas definições no Dicgioxario Contempokaneo. 

Com relação a cambada, — «enfiada de coisas penduradas no 
mesmo gancho, cordel, etc, como declara este último dicionário, 
parece ser um derivado colectivo de camba, cambo, porque tais 
objectos, fazendo peso, obrigam o cordel, vara, etc, a curvar-se; 
ou de cambo, que significa «enfiada, vara (curva, geralmente de 
salgueiro)» — . Cambada, «súcia», tem a mesma orijem. 

Outros derivados são cambulhada, cambulhão, que pressu- 
põem uma forma cambulho, ou cambulha, da mesma orijem. 



cambola 

No «Jornal das Colónias», de 27 de maio de 1905 ^ encon- 
tra-se este termo, próprio da África Oriental Portuguesa, perten- 
cente ao vocabulário das línguas bantas, e que assim é ali de- 
finido — «corda feita com fibras vejetais». 



1 in Portugália, I, p. 386. 

' Campanha de Barué em 1902, relatório oficial. 



214 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cambolar, cambolação, cambolador 

O Novo DiccioNÁEio traz o segundo destes vocábulos, com 
a significação de — «engajamento (P) de comitivas de carregadores 
do interior da África» — . 

O étimo de camhulhaãa, que em dúvida lhe dá, é inadmis- 
sível. Tanto o segundo como o terceiro vocábulo pressupõem um 
verbo cambolar, que não é mais que o aportuguesamento do 
verbo quimbundo cucombola, «negociar, traficar», de que se de- 
rivou o substantivo cambolador, correspondente ao quimbundo 
ritombo ^ «negociante». 

caminheira, caminhão 

O Novo DiocioNÁBio rejista como provincialismo o vocábulo 
caminhão, no sentido de « carro do quatro rodas » , 

Outro substantivo, do mesmo modo derivado de caminho, 
é nome aplicado a uma espécie de locomotiva, como se vê do 
trecho seguinte: — «Ha dias eífectuou-se em Inglaterra a expe- 
riência d'uma caminheira para o Soldão [aliás, Sudão]. . . Com 
um carro atrelado levando dentro mais d'uma tonelada de peso, 
a caminheira pegou-se diversas vezes» — -; — «pessoal e ma- 
terial relativos ás caminheiras e outras machinas a vapor» — ^. 

camisa-de-onze-varas ; camisão 

Como já foi explicado na Ke vista Lusitana *, esta estranha 
denominação queria dizer — «a alva dos padecentes» — . 



1 Héli Chatelain, Grammática elementar do Kimbundu, Gene- 
bra, 1888-1889, p. 121. — D. Cordeiro da Mata, Ensaio de dicCionário 
KiMBÚNDU-PORTUGTJEZ, Lisboa, 1893. 

2 Jornal das Colónias, de 21 de outubro de 1995. 

3 Diário db Noticias, de 30 de janeiro de 1906. 
* vol. VI, p. 129. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 215 

Camisão, na ilha de Sam Miguel, significa < disfarçado, hipó- 
crita, sonso >. 

Notarei aqui, a propósito de alva, que este vocábulo não de- 
signava só a — «veste de padecentes nos antigos autos de fé» — 
como diz o Suplemento ao Novo Diccionáeio, mas principal- 
mente a camisa branca, que levava vestida « o padecente que ia a 
enforcar, como ainda a vestiram os últimos que em Lisboa pade- 
ceram essa pena. Matos Lobo e Diogo Alves, antes de meados 
do século passado». 

camocho 

Termo de calão que quere dizer «tostão». 

campa, campa, campana, campainha, campainheiro 

O primeiro destes vocábulos tem duas acepções, a primeira, 
«(laje que cobre a) sepultura», não é fácil de subordinar a um 
étimo. 

Na segunda acepção, é um primitivo suposto, formado pelo 
que se considerou derivado, campa j eampãa j campana, cam- 
pana, ainda usado no concelho de Pinhel, e que já em latim 
significava «sino» *; como venta, foi induzido de venta j ven- 
tana, e aço j aceiro, que era o nome do metal, como actual- 
mente o é em castelhano acero. Supôs-se, em vista da termina- 
ção, que a palavra estava na mesma relação que ferreiro com 
ferro. Também se disse azeiro, e Alexandre Herculano empregou 
azeirado, no sentido em que usamos o castelhanismo acei-aão 2. 

Campanus em latim é um adjectivo, empregado por exem- 
plo em aes Campanum, e em (uasa) Campana. 



* V. Wõlflin, in Jahresbericht fúr die Fgrtschritte der Eo- 

MANISCHEN PhILOLOGIE, VI, I, p. 126. 

^ — <A seta de ura epigramma azeirado» — . O Bobo, ii. 



216 Apostilas nos Dicionários Portugueses 

Um derivado de campainha é campainheiro, que no conce- 
lho de Vila-Nova-de-Oiirém, e provavelmente em todo o distrito 
de Santarém, designa o vendedor de campainhas e chocalhos 
para gado, na feira, e que anuncia a fazenda tocando alternada- 
mente duas campainhas que empunha, uma em cada mão. 

campido; campo, campina, campinação 

E um particípio' passivo substantivado de campir — «fazer a 
perspectiva do horizonte em um quadro» — , como define o Novo 
DicoioNÁRio. J. Gomes Monteiro, na Caeta áceeca da Ilha 
DOS Amores \ empregou aquele substantivo explicando-o : — a 
confusa distribuição dos elementos que entram no quadro, a falta 
dos campidos, como lhe chama Philippe Nunes, isto é os longes, 
os ceos, os horisontes » — . 

O verbo campir é de orijem italiana, campire, como muitíssi- 
mos termos de arte. (V. em poltrona). 

Campo, além de muitas outras acepções, que dos dicionários 
constam, tem uma muito especial em português, a de « espaço 
onde pode caber alguma cousa, ou alguém; eis um exemplo: — 
«custando a acreditar como alli [sala da audiência do tribunal 
em Vila-Franca] possa viver [síc] umas dezenas de pessoas, no 
espaço de algumas horas, sem ar, sem campo, entre bancos e 
estrados» — -. 

De campo se deriva caynpina, e deste talvez um verbo cam- 
pinar, que deu orijem ao substantivo campinação, que vemos 
empregado por M. Ferreira Ribeiro ^. — « As polainas de laços 
são as melhores e mais úteis nos trabalhos de campinação, 
passagem de florestas, etc. » — . 



1 Porto, 1849, p. 60. 

2 O Século, de 3 de maio de 1900. 

3 KbGRAS E preceitos de HYGIBNE COLONIAL, p. 90. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 217 



cana-yerde; cana, caninha, canicinho 

O Novo DiccioNÁRio inseriu este termo composto, dando- 
-Ihe a significação restrita de — «caução popular do Minho» — , 
acepção em que toda a gente o conhece. Todavia, no seguinte 
excerto a locução tem, sem dúvida, outro significado, que talvez 
possa aclarar o nome que puseram à cantiga minhota: — «ainda 
haverá os vinhos, ou canna-verde, produzidos por vinhas doen- 
tes» — ^ 

Cana, por «aguardente de cana de açúcar», vemo-lo empre- 
gado no seguinte passo: — «Dê-nos canna» — -. 

Caninha, como designando a cana-doce, ou cana-de-açúcar, 
foi assim definida no jornal O Economista, de 3 de maio de 1891: 
— «Constou que o sur. Brandy mandara vir de Moradnagar, 
índia, sementes de cana «Alapoor Jowart» que pertence a uma 
casta inteiramente nova e produz assucar e aguardente. Diz a 
noticia que resiste muito á seca e pode por isso ser plantada em 
terrenos onde haja falta d'agua. Não é da familia Sarghos, a que 
chamam caninha. Forma soqueira e dá semente» — . 

O deminutivo canicinho, na ilha de Sam Miguel, quere dizer 
«motejo», como o vemos muito plausívelmente explicado no jornal 
O Século, de 5 de julho de 1901: — Estar com o canicinho 
n'agua, estar a brincar, a gracejar. Pela forma açoriana se vê 
que a nossa locução «estar com a carinha n'água», que realmente 
não faz sentido, é corruptela da seguinte: «Estar com a caninha 
n'água», de fácil comprehensão » — . 

Estes modos de dizer triviais, que se empregam tendo-se em 
vista o teor da frase enteira, e não o valor dos seus elementos, 
são muito sujeitos a ser deturpados, substituindo-se qualquer 
desses elementos por outro, cujo valor fonético seja quási equi- 



1 O Skculo, de 5 de outubro de 1902. 

* BOSQUKJO DE3 UMA VIAGEM NO INTERIOR DA PaRAHYBA E DE 

Pernambuco, in <0 Século», de 17 de junho de 1900. 



218 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

valente: é o que aconteceu a outro anexim, «não se pescam tru- 
tas a bragas enxutas», onde bragas é geralmente substituído 
por barbas. 

canado 

Na Beira-Baixa tem este nome a « armação de canas ou ra- 
mos, em torno do carro, para conter o estrume» ^ 
É um derivado — evidente de caíia. 

canajeira 

É um termo que designa nas marinhas uma espécie de pá, que 
veio figurada no jornal O Século, de 10 de janeiro de 1901. 

• canastro 

Esta palavra, formação masculina correspondente à femeniua 
canastra, designa em geral o arcabouço, a armação, o esqueleto, 
e nestes significados traduz perfeitamente o carcasse francês, o 
qual só é português, no uso comum, com a forma carcassa, talvez 
melhor carcaça, no sentido de «cousa, pessoa velhíssima». 

Em sentido especial designa no Minho a palavra canastro o 
mesmo que espigueiro ou caniço, isto é, « um celeiro provisório, 
o qual consiste em uma construcção levantada sobre estacas ou 
pegões de pedra, e em que se arrecadam espigas e maçarocas, 
ficando a salvo da humidade e dos animaes daninhos». 

cánave, cáneve, canaveira 

Estas duas formas, a segunda das quais está para a primeira 
como cámera para câmara, são os lejítimos derivados do substan- 



Informação do editor, natural de Almeida. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 219 

tivo latino femenino cannabe[m], e foram ao depois substituídos 
pela forma castelhana cânhamo (cánamo), procedente de outra 
forma latina neutra cannabum, com assimilação parcial do 
h ao nn. 

Do adjectivo cannabaceum ^ provém o derivado canha- 
maço, também acastelhanado, popularmente modificado em ca- 
lhamaço, por dissimilação da nasal inicial da 3.* sílaba: nh 
passou a Jh, isto é, a nasal palatal à líquida palatal, por dissi- 
milação regressiva da nasal labial m. 

O Novo DiccioxÁETO define canaveira por estas palavras: 
— <(ant.) logar onde cresce o cânave? canavial? Cf. Sousa, 
Ann. de D. João iii» — . 

canavieira 
Na Ilha da Madeira dá-se este nome ao carro de roca. 

candeia, candeeiro, candil (1); candil (2) 

Hoje, na linguajem comum significa o primeiro vocábulo uma 
lâmpada pequena de folha, com um gancho para se dependurar; 
e candeeiro toda e qualquer lâmpada, que em geral não é de 
suspensão, mas que também pode estar suspensa. Antigamente 
não era assim. 

Candeia designava o que actualmente chamamos vela, e can- 
deeiro o «fabricante de velas, o cirieiro», como hoje dizemos. 
Isto se vê claramente dos seguintes trechos de um artigo publi- 
cado por Sousa Viterbo na revista Portugália [i, p. 366-368], 
analisando uma carta réjia de Dom Afonso v: — «e entre as 
[candeias] que vinham de fora eram especialmente reputadas as 
candeas de rezar de Aragão — que os candeeiros moradores na 
dita vila de Santarém» — . 



1 J. Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, ii, p. 31. 



220 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Ao fabricante de candeeiros de metal chamou-se ao depois 
candeeireiro. Sousa Viterbo * adverte haver diferença entre can- 
deeiro, — «o official que faz candêas de cera, a que hoje cha- 
mamos 7^o?o» — e cerieiro — «que fazia velas, tochas, e bran- 
dões» — . Aliás, cirieiro j círio. 

Candeia, no sentido de «vela», foi empregado por Damião 
de Gróis: — «lhe pedirão algumas mercês, as cartas das quaes 
assinou, tendo na mão ezquerda a candea, e na outra a pena 
com que assinava » — ^. 

Ainda muito depois escreveu Cardim : — « pedindo que á hora 
da morte os ajudem metendo-lhes a candeia na mão» — «fui 
benzer as candeias á igreja de Homac, convidando os por- 
tugueses para a festa» — 3. Ainda hoje se diz A Senhora das 
Candeias. 

Outro trecho, que dissipa todas as dúvidas, é o seguinte: — 
« O curioso andor das candeias foi salvo . . . Este andor era 
conduzido na procissão das marafonas ou dos pães bentos . . . 
O andor ia adornado de vellas de cera, que perfaziam o pezo 
do rolo com que se devia cercar a muralha da cidade [de Gui- 
marães] » — *. 

Candil, de orijem imediata arábica QaNDiL, mas remota do 
grego KANTALA (?) 5, siguiíica um candeeiro-de-mão. O Novo Dic- 
ciONÁEio, além desta acepção conhecida, aduz outra: — «(pesc[a]) 
phosphorecência das águas» — . 

Como, porém, não está abonada, creio ser informação errada, 
e que o vocábulo candil, está por candeio; «luzeiro que se usa 
na caça ou na pesca, para atrair a presa». 



1 Elucidário dos termos. . . que em Portugal antiguamente 
SE USARÃO, Lisboa, 1798. 

2 Chronica de El-rei Dom Emmanuel, cap. ix. 

" Batalhas da Companhia de Jesus na província do Japão, 
Lisboa, 1894, p. 23 e 162. 

* O Século, de 23 de fevereiro de 1902. 

•"* Dozy & Engelmann, Glossairb des mots bspagnols et port. 
derives de l'arabe. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 221 



Quanto a outras acepções de candil, as primeiras que se dão 
no mesmo dicionário; — «medida de capacidade, na índia» — , 
«e antiga moeda asiática» — são vocábulo distinto deste; deveria 
ali ser subordinado a inscrição separada, conforme a economia 
adoptada nele. Qualquer dessas acepções pertence ao vocábulo 
malabar kandi, que é o raarata K'aNDi, unidade de peso de 
250 kilos próssimamente ^ A forma portuguesa candil foi erra- 
damente induzida do plural candis: cf. javali, javalis, com 
funil, funis. 

caneca, caneco 

E um par de nomes, um masculino e outro femenino, como 
há tantos na nossa língua: caneca é um vaso pequeno de louça, 
cilíndrico, com maior altura que diâmetro, e guarnecido de asa; 
caneco é uma espécie de barril de madeira, de forma cónica, e 
aberto por cima, no que no Norte se diferença do barril propria- 
mente dito, que geralmente tem dois tampos. 

Todavia os canecos de madeira para água, no Porto, teem 
dois tampos, mas são semelhantemente cónicos, e não com a 
forma de dois cones unidos pelas bases, como os dos aguadeiros 
de Lisboa, e os que servem a transportar vinho, aguardente, vi- 
nagre, etc. 

canga, cangalhas, cangalho, cangueiro 

Além de indicar uma espécie de jugo para os bois, usado no 
sul do reino, designou, por analojia de forma ou de aplicação, a 
tábua que serve de suplício na China.. No curioso livro Bata- 
lhas DA Companhia de Jesus na província do Japão, do 
Padre António Francisco Cardim -, vem mencionado o dito tor- 



1 Yule & Burnell, A Glossary of Anglo-Indian words, Londres, 
1886, suh V. Candy. 

2 Lisboa, 1894, p. 85; v. também a p. 185, 199, 217. 



222 Ajmstilas aos Dicionários Portugueses 



mento por este nome: — «lhe tinha lançado ao pescoço uma 
canga, com dois pesados paus, a modo de escada. 

Desta palavra se derivaram, segundo parece, cangalho, e 
cangalhas, armação geminada que se põe no dorso das cavalga- 
duras, para transporte de cestos, canastras, barris, etc, e que 
pode ser de ferro, ou de madeira: — «colocam-lhe por sobre a 
albarda [do burro dos aguadeiros] as cangalhas, nome que aqui 
[Algarve] se dá a um objecto feito mais vezes de madeira que 
de ferro » — ^ 

Exemplo de cangalho, na acepção primitiva de — « cada um 
dos dois paus que ajustam e seguram a carga ao pescoço dos 
bois» — , como define o Dioc. Contemporâneo, é o seguinte: — 
«tinha ido próximo de um ribeiro arrancar um pedaço de ma- 
deira, para d'ahi fazer um cangalho» — ". 

Cangalho, como é sabido, significa também um objecto ve- 
lho, inútil, e desta acepção proveio o verbo escangalhar, «des- 
manchar, destruir». 

A orijem do vocábulo canga é o verbo cangar j con- 
iugare ^. 

O substantivo cangueiro vem já inscrito no Novo Diccioná- 
Rio numa acepção especial, «barco chato, usado no Tejo», atri- 
buindo-se-lhe por orijem a palavra canga. No mesmo dicionário 
está rejistada outra acepção, como própria do Brasil, — «pregui- 
çoso, negligente» — . Nos meus apontamentos, sem abonação 
porém, porque levou esta sumiço, encontro cangueiro como bar- 
queiro de certa embarcação, que nunca abre caminho, desvian- 
do-se, a outros barcos mais pequenos, evitando unicamente os 
que são maiores, para não çoçobrar. 



1 Portugália, i, p. 385. 

2 O Economista, de 22 de outubro de 1892. 

3 J. Leite de Vasconcelos, in Eevista Lusitana, ii, p. 34. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 223 



cangarra 

E natural que seja este vocábulo, usado na Africa Oriental 
Portuguesa, um aumentativo de canga, (cf. bocarra j hôca), e 
não, termo indíjena: — «transportam o ferido em combate, na can- 
garra (padiola de ramos) » — * . 



cangosta: v. congosta 



cânhamo: V. cánave 



canho, canha, canhona 

No Minho canhos são «sobejos de comida». 

Para os outros significados de canho, e seus derivados, veja-se 
o Novo DiccioNÁEio e o seu Suplemento. 

Comparável a canho no sentido indicado é o termo alente- 
jano caolhas, rejistado no dito dicionário, com a significação de 
— «migas que, depois de feitas, se comem com leite» — , acep- 
ção que confirma o étimo caneus, canea, caneum, adjectivo 
derivado de canis, «cão», provavelmente porque tais migas se 
dariam a cães, para os desmamar, pois vemos no mesmo dicio- 
nário que no Douro canhol significa cão pequeno, caneólum. 
O vocábulo trasmontano canhona, «ovelha», é naturalmente 
ainda um derivado do mesmo adjectivo latino, no parecer de 
J. Leite de Vasconcelos, talvez por ser mais fraca, comparada 
ao carneiro ^. 



1 Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1902, Í7i « Jornal das 
Colónias >, de 19 de agosto de 1905. 

2 Eevista Lusitana, ii, p. 116. 



224 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



canhongo 

Termo da Africa Oriental Portuguesa: — «Os canhongos, e o 
feiticeiro usam rabo cie guerra [q. v.]y> — K 

canipa 

E termo de Timor — « O régulo bom é como a canipa doce » 
[Nota]: «mistura de álcool e melaço» — ^. 

canja 

Este termo indiano, que em todo o Portugal se difundiu para 
designar o caldo de arroz, principalmente feito com galinha e 
presunto, mas que também se emprega quando outra carne se 
utiliza, vem no Suplemento ao Novo Diccionáeio com o seu 
verdadeiro étimo apontado; mas esqueceu notar que à segunda 
acepção que ao vocábulo é dada no corpo do dicionário — «em- 
barcação do Nilo, de quilha recurva» — não cabe a indicação — 
«T[ermo] as[iático] » — , pois nada tem que ver com a palavra 
concani kangi procedente do tamul Jcánxi, «cousa fervida, co- 
zida em água», só aplicável ao caldo indicado, para o qual os 
franceses empregam a forma cange, tirada do português, e os 
ingleses congee, que directamente trousseram da índia. 

O Padre Coeurdoux parece ter sido quem primeiro divulgou 
em França o termo, que definiu: — «du Cauje chaud, c'est-à-dire 
de Teau dans laquelle on ait fait cuire le riz» — ^. 



* Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1902, in < Jornal 
das Colónias», de 19 de agosto de 1905. 

2 J. S. Pereira Jardim, Notas bthnographicas sobre os povos 
DE Timor, in Portugália, i, p. 356. 

•^ LeTTRES ÉDIFIANTES et CURIBUSBS ÉCRITBS DBS MISSIOXS 
ÉTRANGÈRBS PAR QUBLQUES MIS8IONAIRBS DE LA COMPAGNIB DE JÉSUS, 

t. XXVI, p. 185, 18 de janeiro de 1742. 



Ajiostilas aos Dicionários Portugueses 225 



canoura 

Este termo não está, que eu saiba, colijido em dicionário 
algum da língua. Vejo-o empregado sem mais explicação no se- 
guinte trecho de um jornal de Elvas, transcrito no Economista 
de 3 de outubro de 1888: — «Esta [azeitona] saindo da canoura 
[da máquina de tulhar] cae sobre um cylindro liso» — . Parece 
ser um « canudo » . 

cantadoura 

Além dos muitos derivados de ca7ito e cantar cumpre re- 
jistar mais este, que vemos empregado no seguinte trecho da 
monografia de Rocha Peixoto, As olaeias do Peado: * — «Por 
vezes o tradicional carro de bois exhibe-se em rara particulariza- 
ção de minudencias. No chadeiro e a vincos limitam-se as 
chêdas do resto do leito e da cabeçalha; esta obliqua ^ na- 
turalmente até encontrar o tamoeiro; os fueiros ornam as 
chêdas; nos logares respectivos indicam-se as cp^ntadouras; 
no rodeiro acentua-se o miul; nas cambas, ás vezes, aparecem 
as meias-luas» — . 

Este trecho é obscuríssimo em virtude do uso de termos 
técnicos, populares e pouco conhecidos, insertos em um discurso, 
no qual os verbos empregados são, pelo contrário, pertencentes 
à linguajem convencional e artificial, como exhibe-se, obliqíoa, 
acentua-se, limitam-se, ornam, aproveitados em acepções que 
não são as suas naturais. Espacejei todos os termos desusados, 
que procurarei explicar com aussílio do dicionário. Principiando 
por chadeiro, se consultarmos o Novo Diccionáeio, encontramos 
aí uma remissão a chedeiro; visto este, achamo-lo definido como 



1 in Portugália, I, p. 253. 

2 Sobre esta conjugação errada veja-se Ortografia Nacional, Lis- 
boa, 1904, p. 90 e 91. 

15 



22G Apostilas aos Dicionários Portugueses 

— «leito do carro de bois» — . Chêda, diz-nos o mesmo dicioná- 
rio ser — « cada uma das pranchas lateraes do leito do carro, nas 
quaes se encaixam os fueiros» — , e na província do Minho — 
«plataforma do carro de lavoira» — . Parece, porém que chedas 
sejam as «pranchas», visto que cheãeiro é o leito, isto é, o que 
o mesmo dicionário chama plataforma. Cabeçalha vemos aí, que 
é o temão do carro, ou a parte deanteira desse temão. Tamoeiro, 
sempre no mesmo dicionário, é — «peça central do carro de bois 
que se prolonga até á canga e serve de tirante » — . Cambas, são 
■ — «peças curvas das rodas dos carros» — . 

Buscando miul ou miulo no mesmo dicionário, vemos que nos 
remete para meul, onde nos diz que vem a ser — «o mesmo que 
meão do carro» — . Procurado este, acha-se como deíinição: — 
«peça central da roda dos carros, na qual se imbebe o eixo» — , 
explicação que o autor nos poderia dar também em meul, para 
nos poupar a caminhada. 

Cantadouras ninguém nos diz o que seja. Portanto se o 
leitor ainda não entendeu o trecho transcrito, é porque é tam 
bronco como eu sou. 

Segundo informação, cantadeiras são a parte do eixo onde 
prendem as rodas: devem ser as cantadouras do trecho. 

Cumpre advertir que a descrição é aplicada a uma imitação 
do carro, como brinquedo, feito de barro. 



cante 



Na Nazaré equivale a «canto», «cantiga», cf. descante. Em 
castelhano é usual cante por canto. 



cantiga, cántigo 

É evidente que esta palavra não provém do plural cantica 
de canticum em latim, visto que, se esse fosse o seu étimo, a 
acentuação seria cantiga. Deve pois ser um substantivo verbal 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 227 



feraenino de * cantígar j cantícare, como fabrico o é, mascu- 
lino, de fabricar, não obstante a palavra fábrica. 

Em Carregosa usa-se o vocábulo cântigo, que é derivado di- 
recto do latim cantícum ^ 



canutilho 

Este vocábulo é fusão de dois: o primeiro português, canudo, 
o segando castelhano, canutillo (pron. canhutilho), ou, o que 
será talvez mais exacto, é o castelhano canutillo que sofreu in- 
fluencia da palavra portuguesa canudo. 

O significado é o mesmo em ambas as línguas: «canudinhos 
de vidro, para com eles se formarem vários enfeites e guarnições 
em vestidos». 

Advirta-se, porém, que na Bolívia é vulgar a forma canio- 
tillo ^, dissimilação de canutillo (n apical por n dorsal), mais 
próssima da portuguesa, do que a literá4"ia castelhana. 



capa, capa-de-honras ou capa de Miranda; capindó 

Vem assim descrita no Inqueeito Industrial, de 1881 ^: 
— « Fazem também umas capas de burel, notáveis pelo seu feitio 
especial e pelos muitos ornatos, sendo estes formados por capri- 
chosas applicações do mesmo tecido, capas que aparecem geral- 
mente nas grandes festividades, e por isso são denominadas capas 
de honras. São igualmente conhecidas por capas de Miranda •!> — . 

No museu da Sociedade de Geografia de Lisboa há um ma- 
nequim assim vestido. 



1 J. Leite de Vasconcelos, Eevista Lusitana, iii, p. 73. 

2 E. J. Cuervo, Apuntaciones críticas sobre el lbnguaje bo- 
GOTANO, Bogotá, 1881, p. 532. 

3 vol. II, 3.«, p. 67. 



228 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Uma forma moderna, a que a palavra co/^a serviu de orijem, 
é capindóf que, além do sentido pejorativo que lhe dá o Suple- 
mento ao Novo DiccioNÁEio, é também o nome de uma capa 
de grande roda, chegando até o joelho, a qual constitui uma parte 
do uniforme da marinha portuguesa. 

Capa é um latim cap(p)a, que produziu numerosos deriva- 
dos nas diversas línguas românicas, e cuja verdadeira orijem é 
problemática. 

capada 

— «um dia que me roubéram uma capada (rebanho)» — *. 
Kepresentou-se aqui a linguajem de um pastor da Beira-Baixa. 



capaz 

Conquanto os dicionários dêem «amplo» como significado 
primordial deste adjectivo, é ele menos usado nessa acepção 
actualmente em português, do que o é em castelhano. 

Exemplo dessa acepção primordial é o seguinte : — «41 thuy en- 
gia (são umas embarcações mais capazes que as suas galés)» — ^. 



capelana . 

Termo da África Oriental Portuguesa — «Panno de 1 braça 
quadrada que lhes serve de capa» — ^ [aos pretos]. 



1 Joaquim Manuel Correia, Antiguidades do concelho do Sabu- 
gal, in <Archeologo português >, x, p. 201. 

2 Batalhas da Companhia de Jesus, de António Francisco Cardim, 
Lisboa, 1894, p. 217. 

3 Diocleciano Fernández das Neves, Itinerário de uma viagem á 
CAÇA DOS elephantes, Lisboa, 1878. 



Apostilas aos J)icionários Portugueses 229 



capitão 

Na África Oriental Portuguesa é tomado este termo em si- 
gnificação muito particular, como vemos no relatório da Cam- 
panha DO Barué em 1902: — «capitão é o capataz ou feitor 
quando indigena » — . 

capitel, chapitel, chapitéu 

A primeira destas palavras, como quási todos os termos de 
artes nobres em português, proveio do italiano, onde se diz ca- 
pitello, do latim capitellum, deminutivo de caput, que junta- 
mente com outro deminutivo mais usado ainda, capitulum, se 
empregava já para designar «o remate superior do fuste da co- 
luna, ou pilar». Conforme a conhecida lei de que a ca latino 
corresponde cha, che francês, capitellum deu nesta língua a 
forma chapiteau, da qual resultou chapitéu em português, saindo 
de outra forma, chapitel, o nosso chapitel, hoje desusado, mas que 
lêraos, por exemplo, na Gr a zeta de Lisboa Occidental, de 
22 de maio de 1738: — « ... e se reconhecem ainda muytas ba- 
ses e chapiteis de colunas» — ^ 

Capitel designa uma peça de tear, como vemos na publicação 
Portugália, i, páj. 374. 

capoeira 

Como parte do moinho, é este vocábulo definido do modo 
seguinte : — « [do frechai] parte um ripado que, indo terminar 
em ponta, é coberto de palha de centeio e algumas veses folhas 
de lata; chama-se capoeira. É evidente a orijem da denomina- 
ção: semelhança com o encmzamento das ripas das capoeiras ^. 



1 in «Archeologo português», v. p. 3. 
■^ MoixHOs, in Portugália, i, p. 386. 



230 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



capotim 

— «Duas braças de fazenda> — K África Oriental Portu- 
guesa. 

caqui 

Este neolojismo, que também se escreve Jchaki e de outros 
modos não menos arrevesados, é o nome de uma fazenda de al- 
godão côr de barro, que actualmente se usa muito em fardamen- 
tos das tropas que vão fazer serviço em África. 

O vocábulo é persa na orijem, kák, «barro» que passou ao 
indostano, onde produziu o adjectivo haki, «barrento, côr de 
barro» ^. Eis aqui uma abonação do vocábulo: — «É alto, traz 
trunfa branca, casaco de kaki com platina e pudvém branco» — ^. 



carabelina, cravina 

O cravo sinjelo, a que vulgarmente se chama cravina, é de- 
nominado carabelina em Trás-os-Montes. Esta forma pressupõe 
outra, cràbel, correspondente ao castelhano clavel, mas com vo- 
gal anaptíctica entre o c e o r.- cf. as formas populares carapin- 
teiro, crapinteiro, por carpinteiro, e canivete, do alemão antigo 
knif, passando talvez pelo catalão ganivet, onde já se houvesse 
dado a anaptíctise do a, e que parece um derainutivo, cuja si- 
gnificação actual é «faca». 

J. Leite de Vasconcelos deriva crabelina directamente de 



1 Diocleciano Fernández das Neves, Itinerário de uma viagem á 
CAÇA DOS ELBPHANTES, Lisboa, 1878, p. 20. 

' Yule & Burnell, A Glossary of Anglg-Indian words, Lonc^rcs, 
1886, sub V. Khakee. 

3 O Século, de 1 de abril de 1902. 



Apostilas aos Dicionãynos Portugueses 231 



cl a nus ^ o que me parece provável em vista da existência de 
análoga forma em castelhano, davelina, indubitavelmente deri- 
vada de clavel. 

A palavra cravina, no uso vulgar, está abonada por esta for- 
mosa quadra de Acácio de Paiva: — 

Juntou-se a cravina ao cravo 
Entre as mãos d'uma menina; 
Quem me dera num raminho 
Ser eu cravo, e tu cravina 2. 



caramelo, carambelo 

Em castelhano caramelo é o nome de uma guloseima, a que 
nós chamamos «rebuçado», entanto que azucarillo corresponde 
ao nosso caramelo. Neste sentido, como no de «gelo», o étimo 
parece ser calamellum, deminutivo de calamura, «colmo», 
com dissimilação do primeiro l e supressão do segundo a em 
português, caTmellum, carmelo, caramelo ^: carambelo está 
para caramelo, como o português lombo para o castelhano lomo. 



carangueja; caranguejo 

Esta palavra tem uma acepção que ainda não foi inserta nos 
dicionários e se vê no trecho seguinte: — «Por este meio a 
locomotiva que vem rebocar um comboio até á gare segue sobre 
a carangueia, espécie de ponte movediça, e entra na via que se 
pretende» — *. 

Carangttejo é na provincia do Minho «abrunho grande». 



1 Revista Lusitana, ii, p. 105. 

2 O Século, de 12 de junho de 1905. 

3 Revista Lusitana, ii, p. 105. 

•* O Economista, de 15 de abril de 1890. 



232 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



(em) carapuça; (em) pelote 

São vulgares estas expressões, significando a primeira « com 
a cabeça descuberta» e a segunda «nu», como também se diz, 
«em pêlo». 

A segunda ainda se poderia explicar pelo seguinte modo: 
pelote é apenas um aumentativo faceto da palavra ])êlo, referida 
já também por gracejo à pele. 

Não me parece que seja assim. 

Nos Subsídios para um diccionáeio completo da língua 
poETuauÊsA, preciosos pelo grande mimero de citações, está in- 
cluído o vocábulo pelote, com referencia a pelico, onde se lê o 
seguinte: — «Darem a cada huum dos ditos pobres para vestyr 
pelotes e ssayas em cada huum ano, e de dous em dous anos 
pelicos e cerames á estanferee (Figanière, Meni. das R. de P., 
p. 292)»—. 

Vê-se daqui que pelotes não eram pelicos, e que estes por 
sua natureza deviam ter maior duração, o dobro da dos outros, 
e tanta como os cerames, comparados com as saias, que dura- 
riam menos que estes últimos. 

Conforme o Elucidário de Viterbo pelote era capa forrada de 
peles, — « á diíferença da que não era forrada » — . 

A descrição minuciosíssima, porém, dos pelotes que pertence- 
ram à guarda-roupa de El-rei Dom Manuel ^ por nenhum modo 
confirma esta definição: poucos pelotes são forrados de peles, 
entre as dezenas e dezenas deles, escrupulosamente descritos, nú- 
mero quási infindo de vestiduras ricas de aparato, que contrasta 
singularmente com a escassez de roupa branca, quási toda em 
mau uso, relacionada no mesmo interessantíssimo inventário, e 
que me trousse á memória, quando pacientemente o li, um rol 
de roupa qui vi escrito na parede caiada de uma hospedaria na 
cidade da Guarda, no qual se enumeravam doze colarinhos, seis 



Archivo Histórico Portuguesz, vol. ii, p. 399 e ss. 



Ajtostilas aos Dicionários Portugueses 233 



pares de punhos, seis camisas, quatro gravatas, e um só par de 
peúgas. A par deste rol, por outra letra, lia-se o seguinte co- 
mentário: — Por fora cordas de viola; por dentro, puh! — , muito 
aplicável à vestimenta do aparatoso rei. 

Prossigamos. Nos muitos pelotes de El-rei, forrados de lãs, 
de sedas, de cetim, etc, borlados de ouro, debruados de veludo, 
raros se encontram com peles, e estas de somenos valor, e so- 
mente como guarnição, por exemplo : — « Item outro pelote de 
cetim avehitado preto de fralda e mea debruado de cetim preto 
com prefis de gatos com as mangas e quartos forrado(s) de 
fustam pardo e a fralda de pano encarnado e de baixo do forro 
fustam das mamgas e corpinho esta (está) outro forro de da- 
masco emcarnado o quall forro das mamgas não chega a baixo 
por quamto servyram nelle bocaes de martas» — . 

Devia de ser muito bonito. O que mais me surpreendeu à 
primeira leitura, na minha qualidade de tam amigo de gatos 
como Madame Michelet, foi a devoção, a graça de enfeitar com 
focinhos do meu animal predilecto a tal garrida vestimenta, o 
que um pouco me congraçou com a penúria de roupas brancas 
do monarca. Como, porém, ^os pelotes com caras de gatos, de 
perfil, como que a disfarçar o serem todos cegos de um olho, 
fossem nada menos de cinco, todos a seguir, estranhei tanto gato 
junto; e como em outro item se leia — «Outro pelote de cetim 
preto com prefis de gato e o corpinho e mamgas forradas de 
fustam pardo e a frallda de pano encarnado» — , concluí que este 
gato e aqueles gatos eram as peles deles, e que os prefis 
eram as frentes, as bandas, como hoje se diz, ou as ourelas das 
tais vestimentas. Pobres gatos, que deram pêlo e peles para 
tantos enfeites! Santa Kosa de Viterbo no Elucidário refere-se 
a (manto) gatum, e acrescenta: — «talvez forrado de pelles de 
gato» — . Cordeiros, por peles de cordeiro, foi também usado. 

Concluí ainda outra cousa importante, e é que o pelote nunca 
foi capa, forrada ou por forrar, visto que tinha corpo, mangas e 
saia; mas sim uma espécie de sobrecasaca moderna, sobre a qual 
se podia vestir, para abafo ou por luxo, uma roupa, ou roupão, 
ou pôr uma capa: e assim se explica o gastarem-se num ano os 



234 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



pelotes, e só em dois os pelicos, os quais seíiam então as 
vestiduras de cima, que por menos trazidas duravam mais. 

Enganou-se portanto o bom Viterbo, e para nos convencer- 
mos disso nem mesmo era necessária tal conclusão, visto que 
aquela peça, que no rico tesouro da igreja de Nossa Senhora da 
Oliveira, de Guimarães se arrecada e se amostra como sendo o 
pelote de Dom João i, nem de perto nem de lonje se pode consi- 
derar capa ou capote. 

Assim, ir em pelote quis dizer o mesmo que hoje ir, em 
corpo bem feito, sem segundo casaco, ou qualquer outra vesti- 
menta de agasalho, e daí ir nu. 

Passemos à expressão em carapuça, que se interpreta por 
modo análogo. 

Este vocábulo é assim definido por Bluteau ^: — «Espécie de 
capacete de pano, com aba estreita por deante» — . Pode ver-se 
em qualquer retrato de Luís xi de França, e foi moda que du- 
rou bastante tempo. Por cima dela punha-se o chapéu; e assim 
quem tirava o chapéu ficava em carapuça: e como quando se 
deixou de usar carapuça quem tira o chapéu fica em cabelo, ou 
em careca, conforme a sua fortuna, em carapuça passou a signi- 
ficar em cabelo, ou, com a calva à mostra. 

No uso actual a palavra carapuça e o seu derivado mascu- 
lino carapuço significam, com lijeira mudança ou modificação 
de sentido, «qualquer cobertura mole, para a cabeça, com forma 
já a ela acomodada, sem abas ou pala, e que serve para a tapar». 

Com relação à orijem e formação, é o vocábulo em última 
análise afim do castelhano antigo caperuça, moderno caperuza, 
(com o ceceio da consoante da última sílaba), tendo-se dado na 
palavra portuguesa metátese das duas sílabas mediais; e deve 
de ser um derivado terciário de capa, visto que em castelhano 
antigo temos caparaçôn, de que derivou o francês caparaçon, e 
em latim bárbaro existe documentada a forma caparo. Cf. ainda 
o francês carapasse, «casca de crustáceo», no qual se deu igual 



1 Vocabulário portuguez b latino. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 235 



metátese -rapa- em vez de -para-, comparado com o castelhano 
capar azón. 

Fernám Méndez Pinto na Peregrinação empregou, pelo 
menos duas vezes, a palavra carapução: — «dez ou doze Jani- 
çaros de carapuções verdes» — *; — «vestidos de húa cachejTa 
muyto felpuda, com seus carapuções do mesmo nas cabeças» — -. 



carcas 

Este vocábulo tinha dantes um sentido diverso do que se lhe 
dá actualmente, pois significava — «bomba composta de duas 
ou três granadas, com metralha, tudo envolto em estopas ba- 
nhadas em betumes e outras matérias oleosas, e por fora um 
pano breado, a qual se mette n'uma lanterna, na qual vái lume 
aceso» — 3^ 

Hoje em dia emprega-se na literatura como sinónimo de 
aljava, mas o povo não conhece o termo. Em francês é carquois 
(^^carciiá), e no texto italiano do Livro de Marco Paulo Yéneto 
tarcasci, termo que Henrique Yule explica do modo seguinte: 
— «E transcrição do persiano tarJcaxi, e o c inicial da palavra 
francesa procede talvez da constante confusão do c com o í em 
manuscritos» — *. 

A forma persiana, conforme Marcelo Devic ^, é terTcex, vo- 
cábulo composto que quere dizer «estojo para frechas» e que 
passou para árabe com a forma TaRKAX, da qual provêem as 
europeias. 



* cap. X. 

* cap. cxxiv. 

3 António de Morais e Silva, Diccionario da língua portugueza, 
Lisboa, 1823. 

* The Book of Ser Marco Polo the Venetiax, newly translated 
and edited with notes and other illustrations, Londres, lS7õ, i, p. 358. 

5 DiCTiONNAIRE BTYMOLOGIQUB DBS MOTS d'ORIGINB ORIENTALE, 

Paris, 1876, sub v. Carquois. 



23 íJ Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Quanto ao seu sinónimo aljava, arábico é também, AL-oaoBS, 
que tem a mesma significação ^ 

cardanbo, cardenho 

Termo de jíria, « furto » : — « Quando [a ladra Giraldinha] fazia 
um cardanho, tratava de fugir de Lisboa» — ^. 

Parece um derivado artificial do verbo cardar. A escrita é 
duvidosa, visto que na capitai -anho e -enho teem a mesma pro- 
nunciação; todavia, no Kiba-Tejo pronuncia-se cardâtiho. 

careca 

E, no seu sentido natural, um termo burlesco para designar 
a « calva » , e um « calvo » . 

Além do emprego figurado, já inscrito no Novo Diccionâeio, 
de — «moço de praça de toiros, encarregado de abrir a gaiola 
aos toiros que vão ser lidados na arena» — , tem outro sentido 
esta palavra, conforme se vê no Século, de 29 de março de 1902: 
— 1- careca é, no norte, aquelle que deita fogo ás peças de arti- 
ficio» — . 

Tanto uma como a outra acepção é natural que provenham 
de indivíduos calvos, que em algum tempo exerceram um desses 
mesteres. A mesma orijem temos de atribuir a palavras como 
carrasco, por exemplo, que de apelido passou a designar o 
«algoz», por ter havido um com esse nome, derivado, como 
muitos outros, de nome de terra, a qual o recebeu de árvore que 
nessa terra era acidente notável. 

Quanto à etimolojia de careca, direi só que tem aspecto ca- 
frial o vocábulo (cf. carcunda, q. v.) ^, mas não é quimbundo, 
visto não haver nesta língua r senão antes de i. 



* Eguílaz y Yanguas, GIíOsario dej las palabras bspanolas db 
ORIGEN ORIENTAL, Granada, 1886. 

2 O Século, de 1 de dezembro de 1901. 

3 y. em calombo, c carrasco. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 237 



caril 



Esta palavra, que significa um adubo muito condimentado, 
usado na índia e no sul da Ásia, é o canarim A-ar/7, « molho »^ 
correspondente ao támul kari, de que os inglezes derivaram o 
seu currie * (pron. cari): — «E deste coquo pisado, e tirado 
o leite . . . cozem arroz com elle, e he como arroz de leite 
de cabras. Fazem comeres das aves e carnes (a que chamam 
caril) ^ — -. 

A orijem desta palavra parece ser o concani hori, a que se 
daria um plural caris, do qual se deduzisse ao depois o singu- 
lar caril: cf. funil, plural funis, e canclil, (q. v.). 

Este condimento é muito usado em toda a índia, e moderna- 
mente mesmo na Europa. A sua composição, conforme o livro de 
José Maria de Sá, Pboductos industriaes do Coqueieo 3, é a 
seguinte : 

— « Coentro 20 gramas 

Kaizes frescas de gengibre .... 15 > 

Semente de dormideira 5 » 

Pimenta redonda 4 > 

Açafrão 4 » 

Canela 1 > 

Semente de caminho 1 > 

Alhos 2 dentes 

Cravo da índia 8 sementes 

Cardamomo 5 > 

Pimenta longa á vontade 

Limão uma metade 



1 Bumell & Yule, A Glossary of Anglo-Indiax words and phra- 
8ES, Londres, 1886. 

2 Garcia da Orta, Colóquios dos simples e das drogas da Íxdia, 
Lisboa, 1891, p. 238. 

3 Nova-Goa, 1893, p. 72. 



233 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Forma-se uma massa de todos estes ingredientes, moendo-os 
primeiro separadas, e depois juntamente, e ajunta-se o leite d'uma 
metade de coco. Estas quantidades bastam para preparar o caril 
d'uma ave ou d'uma libra de carne > — . 

carinhosa 

Em Vila-Real-de-Santo- António designa este adjectivo, subs- 
tantivado, um «capuz de senhora». 

carioca 

O Novo DiccioNÁRio dá duas acepções a este vocábulo bra- 
sileiro: — «pessoa preta ou mulata; pessoa do Rio-de- Janeiro » — . 
Na segunda acertou; na primeira creio que não, e ainda menos 
na etimolojia que lhe atribui. — «N[ome] p[róprio] de uma ri- 
beira » — . 

Conforme o Vizconde de Porto-Seguro ^ o epíteto carioca, 
de cari «branco» e oca, «casa» — casa do branco — foi pelos in- 
díjeuas tupis aplicado a uma ribeira do Rio-de- Janeiro, perto da 
qual se estabeleceram os primeiros colonos portugueses, e ao 
depois, por ampliação a todos os naturais do Rio-de-Janeiro, de- 
nominação por eles aceita e que passou ao Continente, servindo 
em tempos para os designar, não só a eles, mas a todos os indi- 
víduos nascidos no Brasil. 

Conforme o referido autor, a palavra cari era empregada 
pelos tupis meridionais para se intitularem a si próprios, e até 
aos europeus, com quem conviviam em boa paz. 

Vê-se, portanto, que a acepção «preto» ou «mulato» não 
pode estar compreendida no vocábulo carioca, a não ser por vi- 
tupério. 



1 L'0RIGINE TOURANIENXE DE8 AmÉRICAINS. TUPIS-CARIBES ET 

DES ANCIEN'8 Égyptiens, Viena, 1876, p. 2. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 239 



Na minha infância era facultativo de nossa casa um brasi- 
leiro, natuial do Kio-de- Janeiro, por nome Caldas, a quem toda 
a gente chamava O Carioca. Era branco, muito alto, bom mé- 
dico, e por sinal hábil marceneiro. É a idea que dele conservo. 



carlagã 
Fazenda da Índia ^ 

carmoso 

Termo de jíria em Lisboa: um tostão: — «Dê-me agora só 
um carmoso. . . não sabe o que é?. . . cinco chetas» — - [vinténs]. 

carneiro, ou carreiro, carreirote ^ 
Na Ilha da Madeira, ceiia ave (Anthus trivialis). 

carocha (=carócha), carocho (= carocho) 

Carocha é nome vulgar de um coleóptero peutámero, cara- 
bus, e, conforme o Dic(!Ionakio Contemporâneo, o seu corres- 
pondente masculino designa uma espécie mais pequena, e também 
um peixe, que recebeu naturalmente este nome por ser negrão: 
cf. carapau negrão. 



1 Diocleciano Fernández das Neves, Itinerário de uma tiaGem á 
CAÇA DOS ELEPHAXTES, Lisboa, 1878, p. 94. 

2 O Dia, de 25 de setembro de 1902. 

3 Ernesto Schmitz, DiE Võgel Madeiras, in * Omithologisches Jahr- 
buch>, X, 1899, i-iu. 



240 Ajwstilas aos Dicionários Portugxieses 



Como adjectivo, carocho, femenino carocha quere dizer «es- 
curo, preto», e deste adjectivo provém que ao gato preto se dá em 
geral o nome de carocho, nome que, naturalmente pela mesma 
razão, se aplica em Caminha a um barco pequeno de pesca, o 
qual, como tive ocasião de ver, é pintado de preto. 

Carocha se chamava a mitra que se punha na cabeça aos 
penitentes, condenados pela Inquisição, quando iam para o patí- 
bulo. Essa mitra era de papelão, e nela se pintavam figuras de 
diabos monstruosos, requinte de perversidade, inventado para 
desviar a compaixão que poderiam inspirar aqueles infelizes, 
despertando um sentimento contrário de horror e asco em quem 
os visse. A esta mitra alude Gril Vicente no Velho da Hoeta: 

— Com cent' açoutes no lombo, 
E ua carocha por capela — . 

É singular a analojia que se dá entre carocha e o adjectivo 
caro, comparados estes dois vocábulos com barato e barata, 
insecto, o qual provém de blatta, latino. 



carola, carolo 

A palavra carola tem três acepções, uma das quais indepen- 
dente, e que portanto deve ser considerada como vocábulo dis- 
tinto. 

Temos pois: Carola (1): «dança de roda>. 

E o francês carole, o inglês carol, o italiano carola, que é, ou 
vocábulo próprio das línguas célticas, como pretende Skeat *; ou 
o latim choreola, como outros pretendem. 

Carola (2): do latim corolla, deminutivo de corona, a 



* A CONCISE ETYMOLOGICAIi DiCTIONARY OP THE EnGLISH LAN- 

OUAGE, Ocsónia, 1887. 



Apostilas aos IHcionários Portugueses 241 



coroa, que os padres abrem no cabelo, no alto da cabeça, o 
cerquilho. Por extensão: «o indivíduo que tem coroa aberta», 
o padre; o irmão que, de cabeça descuberta, acompanha as pro- 
cissões, com capa e tocha; a cabeça descuberta; o indivíduo que 
se compraz em íigurar em festividades relijiosas; o devoto; o 
entusiasta por qualquer causa, e que se presta, por vaidade, por 
interesse, ou por dedicação, a tomar parte activa em qualquer 
sociedade, grémio, partido, facção, etc. » . 

Carola (3), como nome próprio, é abreviatura de Carolina. 

De carola, cabeça descuberta, derivou-se um masculino cor- 
respondente, carolo, com o tónico fechado, como é de regra, que 
quere dizer : « pancada na cabeça » . 

O substantivo carolo, «maçaroca esbagoada, pão de farinha 
grossa, papas de farinha grossa de milho, etc», é decerto outro 
vocábulo. 

Carolo, além das acepções contidas nos dicionários tem mais, 
pelo menos em Lisboa, a de uma massa grossa, de farinha de 
trigo e água, de que usam os çapateiros, ou usavam ainda até 
há pouco tempo. 

carpinteiro 

Como termo teatral, significa «o indivíduo que arma o cená- 
rio no palco». 

carranca 

Este vocábulo português tam expressivo, e cujos matizes de 
significação estão perfeitamente compendiados no Vocabulário 
POETUGUEZ E LATINO do iusigne Eafael Bluteau, é considerado 
por todos os nossos lecsicógrafos como uma modificação de cara, 
sem nos declararem os processos de derivação que o produziram, 
e por que motivo o r se profere e escreve dobrado, sendo certo 
que nas línguas das Espanhas jamais se confundiram rr e r. 

Não aventarei étimo algum, mas apenas chamarei a atenção 
para o vocábulo sanscrítico xaEaAiKa, o qual, segundo Monnier 

16 



242 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Williams S significa «crânio, cabeça» (the skull, the head), e 
além disso, note-se, uma casca de coco, vazia, e preparada para 
servir de copo, ou vasilha (a cocoa-nut hoUowed to form a cup or 
vessel). 

Em outra inscrição do mesmo dicionário, em TãMBULa, 
«bétele», vemos a seguinte explicação: — t^ Tâmhúla-lcararfka, 
the Fãn-dcln or hetel-box (this box generally resembling a 
karan*ka or hollowed cocoa-nut)» — *. 

Esta singular coincidência, e já vou explicar em que ela con- 
siste, autorizaria talvez a suposição de que o vocábulo tivesse 
vindo da índia, não digo directamente do sánscrito, mas de 
qualquer das línguas vernáculas de lá, principalmente se a pa- 
lavra não existe em outro dos vários idiomas da Península 
Hispânica com este significado, nem em nenhuma outra do do- 
mínio românico. 

A coincidência está no seguinte facto: 

Carranca quere dizer « cara feia » , e coco, como ê sabido, 
significava em português, e hoje ainda em castelhano, o que 
actualmente chamamos jmpão, isto ê, uma figura de catadura 
ruim, com que se mete medo às crianças. Os portugueses, ao 
verem pela primeira vez o fruto do coqueiro, compararam-no a 
uma dessas caras de arremeter, e aplicaram-lhe o nome com que 
desde então ê conhecido em toda a Europa. 

E esta a orijem que lhe dão João de Barros, Garcia da Orta; 
e o Roteiro da Viagem de Vasco da Gama, sem primeiro o 
nomear, descrê ve-o do seguinte modo: — «As palmeiras dam uma 
fruta . . . como mellõees, e o miollo ... he o que comem e sabe 
como junca avellanada» — ^. Mais adeante, porém, já o designa 
pelo seu nome: — «e o mantimento era coquos» — *. 

Eis aqui o final do interessante passo de João de Barros, no 



1 A Saxskrit-English Dictionary, Ocsónia, 1872. 

2 ih., p. 369, col. III. 

3 Lisboa, 1861, p. 28. 

4 ib. p. 94. 



Apostilas aos Dicionários Portugtieses 243 



qual descreve longamente o coco e o coqueiro. — « Esta casca per 
onde aquelle pomo recebe o nutrimento vegetavel, que é pelo pé, 
tem uma maneira aguda, que quer semelhar o nariz posto entre 
dous olhos redondos, por onde elle lança os grelos, quando quer 
nascer: por razão da qual figura, sem ser figura, os nossos lhe 
chamaram coco, nome imposto pelas mulheres a qualquer cousa, 
com que querem fazer medo ás crianças; o qual nome assi lhe 
ficou, que ninguém lhe sabe outro, sendo o seu próprio, como lhe 
os Malabares chamam, Tenger, e os Canaris Narle» — ^ 

Garcia da Orta - diz: — «e nós, os Portugueses, por ter 
aquelles três buracos, lhe pusemos o nome coquo; porque parece 
rosto de bugio ou de outro animal» — . 

Ora, significando karaaiJca «cabeça» e «noz de coco», re- 
presentando a boceta do bétele era geral uma cabeça ou crânio, 
l-ara^nka, e tendo os nossos denominado coco a fe^iga ou narle 
da índia, por semelhar uma cara feia, é possível que o vocábulo 
larcunka passasse para cá com a significação de cara disforme, 
como aquela que as bocetas do bétele semelhavam, e que os 
nossos julgaram ver no fruto. 

Kepito que isto é apenas uma conjectura, cuja probabilidade 
é muito precária, e desaparecerá se o vocábulo carranca fôr 
mais antigo na língua que as nossas relações com a índia; para 
que não suceda o que aconteceu à palavra varanda, que se 
supôs indiana, quando ela já existia em português e em cas- 
telhano, antes de aparecer nas narrações dos nossos descubrimen- 
tos do século xv e xvi. 

Devo ainda advertir que, se carranca não existe em caste- 
lhano, nem com as significações portuguesas nem com outras, 
encontra-se em galego, querendo dizer, conforme o dicionário 
de Cuveiro Pinol 3, — «carrancas — patizambo, contrahecho, de 



1 Da Ásia, Década iii, 1. iii, cap. 7, Lisboa, 1777. 

2 Colóquios dos Simples e das drogas da Índia, i, p. 234, 
Lisboa, 1891. 

3 Diccioxario gallego, Barcelona, 1876. 



244 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

piernas especialmente » ; e — « carrancudo — (ant.) tieso, espeta- 
do» — . 

O vocábulo coco designa nos Açores « inhame > *. 

carrapiço 

Em Trás-os -Montes significa «pedaço de velo difícil de car- 
mear (desembaraçar)». 

No Novo DicciONÁRio é este vocábulo dado como provin- 
cial, com o sentido de — «espécie de pequenino ouriço, que en- 
cerra as sementes de certas ervas e que se agarra facilmente ao 
fato da gente e á lan do gado lanígero» — . 

carrapito, carrapiteiro 

Conforme informação da minha criada Maria do Kosário, na- 
tural da Chamusca, designa este nome, no Riba-Tejo, a roseira 
brava. 

A significação primordial de carrapito é « chifre » . 

carrasco, carrasca, carrascão 

Carrasco é um termo de botânica vulgar, a que cientifica- 
mente corresponde quercus cocei fera, e deste vocábulo, cujo 
étimo é desconhecido, mas ao qual corresponde em castelhano 
carrasca, se derivam os substantivos carrasqueiro, carrascal, 
« sítio em que existem carrascos » , carrasca, « lenha » , « casca de 
pinheiro», e «espécie de oliveira», e os adjectivos carrasquenho, 
carrascão (vinho), etc. 

Com o primitivo carrasco, ou seus derivados, se denomina- 



Rbvista Lusitana, ii, p. 47. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 245 



ram muitos lugares em Portugal: Carrasca, Carrascal, Carras- 
cais, Carrascalinho, Carrascas, Carrascosa, Carrasqueira, Car- 
rasqueiro, Carrasco; e é sabido que nomes de plantas contri- 
buem consideravelmente para a toponímia em todos os idiomas, 
e nomeadamente nas línguas românicas. Frequente é também 
que esses nomes de localidades passem a apelidos de família, e 
deste modo é muito usual o de Carrasco. Deste apelido, con- 
forme Bluteau, proveio a acepção que, como substantivo comum, 
tem este vocábulo em português: — «Desde o tempo de Belchior 
Nunes Carrasco, que na cidade de Lisboa era Algoz, chamou o 
vulgo aos Algozes Carrascos-» — ^ 

Algoz dizem os arabistas ser o nome de uma tribo turca, 
cruelíssima, cujos indivíduos eram empregados pelos mouros 
nos mesteres de carniceiros e de verdugos. Esta última pala- 
vra é também um enigma. 

Kõrting 2 diz-nos ser um latim vulgar viriducum, deri- 
vado de viridem, «verde». Designava verdugo uma «vara 
verde > (cf. verdasca), que servia de açoute, e de instrumento 
de tortura passou o nome a designar o homem incumbido de a 
aplicar. 

Deve ter-se em atenção que, havendo tantos nomes de luga- 
res formados em Espanha com o substantivo carrasco e seus 
derivados, e sendo o apelido Carrasco lá vulgar, a começar no 
bacharel Sansão Carrasco, amigo de Dom Quixote, não tem em 
castelhano o vocábulo carrasco a acepção de «algoz», o que 
confirma o étimo proposto por Bluteau. 

Digna de reparo é também a coincidência de o algoz de 
Luís XVI de França se chamar Sansão, e ser carrasco; entanto 
que o Sansão Carrasco do Dom Quixote era excelente criatura. 
O espanhol era Sansão Carrasco, o francês era Sansão e foi 
carrasco de veras. 



Vocabulário portuguez e latino. 
Lateinisch-rgmaxisches Wõrterbuch, Paderborn, 1890, 8758. 



246 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



carregar, carrego, carga, cargo, descarregar 

Do verbo carregar derivou-se um substantivo verbal rizotó- 
nico, que deveria ser carrega, mas que, na realidade, é carga. 
Análogo a este há, em português, folgar, folga, a par de fôlego, 
que melhor se escreverá folgo, para evitar uma excepção que, se- 
gundo a pronúncia comum, seria só ortográfica. Em castelhano 
o verbo correspondente a carregar é cargar, em que se deu a 
elisão da vogal medial, como aconteceu em português com fol- 
gar j follicare, como carregar \ carricare. 

Acepção especial de carregar é esta que vemos na publicação 
Portugália ^: — «A fiandeira põe a roca á cinta, depois de 
carregada» — , isto é, «depois de lhe ter posto o linho, que vai 
fiar » . 

Cargo é derivado masculino de car(re)gar, em qualquer acep- 
ção em que seja tomado, incluindo a de certa fogaça, ou arma- 
ção piramidal enfeitada de bolos, flores e frutas, que se vende 
em leilão nos arraiais, ou festas populares a algum santo. 

O verbo descarregar tem várias acepções que se relacionam 
com carga. 

Antigamente tinha ainda outra, em relação com encargo, 
cargo, ou carrego, como se dizia:— « Deste cometimento do In- 
fante ficou El-rei descarregado e mui ledo» — ^, isto é, «exone- 
rado, aliviado » . 

carreirão 

O suficso -ão é em português, como em espanhol o seu cor- 
respondente -ón, com u sem inficso, z, c (hoynemzarrão), au- 
mentativo, e conseguintemente vocábulos como cordão oferecem 
todas as probabilidades de ser de orijem francesa, onde, ao con- 



1 I, p. 372. 

2 Eui de Pina, Crónica db El-rei Dom Afonso v, cap. lxxxix. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 247 

trário, o suficso -on é demiuutivo, oison = « petit de Toie » ; con- 
quanto em algumas dições tomadas a esta língua, o suficso 
português -ão, que se deu como correspondente ao -oji francês, 
readquirisse em português, por analojia, o seu valor próprio, do 
que é exemplo salão, derivado de salon, sendo que em português 
é aumentativo de sala, e em francês orijináriamente um demiuu- 
tivo de salte. 

A regra, porém, não é geral, visto que em Trás-os-Montes 
carreirão é deminutivo de carreiro, no sentido de «caminho 
para carros», e no Algarve agúidão, é deminutivo de agúida, 
agádia (q. v.). 

. Que a palavra carreirão é deminutivo, e não aumentativo, 
como poderia conjecturar-se, prova-o a menção expressa que vou 
citar: — «A subida do rio até ao cabeço que conduz á chã ou 
praina, faz-se por atalhos ou carreirões de grande acclive. . . » — , 
e em nota: — « deminutivo de « carreiro », caminho de carros » — K 



carrejar, carrejo 

São formas duplas com carrear, carreio. Todavia, carrejo 
tem um significado muito especial como termo da Estremadura» 
correspondente ao castelhano aearreo: é o que os ingleses desig- 
nam com a palavra ãrift j ãraw, « arrastar, puxar » isto é, são 
as várias substâncias que as águas correntes trazem em suspen- 
são até que as depositam, e o depósito que consiste nessas 
substâncias assim carrejadas. É termo muito expressivo, usado 
no Ribatejo, e com vantajem da vernaculidade, da nomenclatura 
científica poderia ser adoptado em geolojia. 



1 Manuel Ferreira Deusdado, O recolhimexto da Mófreita, in 
«Eevista de educação e ensino», 1891. 



248 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



carretilho 

Na Beira-Baixa dá-se este nome ao «carrinlio de mão> S 
que os franceses chamam brouette, termo de que o beirão é tra- 
dução excelente, que merece ser generalizada. É um evidente 
deminutivo duplo de carro j carrete | carretilho. 



carriço, carriça; encarriçado 

No Suplemento ao Novo Diccionáeio vemos a primeira 
destas formas, como termo da Bairrada, com o mesmo signifi- 
cado de carrapiço (q. v.). 

No corpo do dicionário, porém, fora essa forma masculina de- 
finida como — «planta cji^erice^L (currex ambígua) » — . A forma 
femenina é aí dada apenas como designando certa ave, da qual 
uma espécie se denomina carricinha. 

Nos meus apontamentos tenho ambas as formas, em significa- 
ções análogas, mas não em absoluto idênticas, como pertencen- 
tes ao vocabulário transmontano (Rio-Frio): carriça, «monte de 
herva, tufo de cabelo»; carriço, «indivíduo de cabelo crespo». 

Ao adjectivo participial encarriçado dá o dito Suplemento 
como significado o seguinte: — «(prov. beir.). Diz-se da gallinha 
toda occupada em chocar os ovos. (Talvez por encarniçado, se 
não vem de acarrado)» — . 

E evidente que procede de carriço, e que a aplicação do 
epíteto à galinha que está no choco provém de ela ali estar en- 
tufada, com as penas arripiadas. Vê-se pois que carriça e qs 
seus derivados se não limitam a tam pequena parte do reino, 
como a respeito de qualquer destes vocábulos se depreende do 
que em separado se diz deles: são mais gerais. 

No capítulo que, com o título Kaças k tipos humanos, es- 



Informação do editor, natural de Almeida. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 249 

crevi para os «Elementos de Geographia Geral» de Manuel 
Ferreira Deusdado, usei do adjectivo encarriçaão para descrever 
o aspecto do cabelo dos papuas: — «cabelo negro, encarriçado e 
emmaçarocado » — ^ 

carrinha 

O Novo DiccioNÁRio dá este vocábulo como alentejano, 
dizendo-nos que é — «pequena carroça» — . Todavia, no jornal 
O Século, de 14 de agosto de 1903, lê-se o seguinte trecho, 
que amplia o nome a veículo algarvio: — «outros dirigiram-se a 
Portimão no transporte característico da região [Lagos], as de- 
nominadas carrinhas » — . 



cartapaço, cartapácio, cartapele 

A palavra cartapácio está rejistada em todos os dicionários 
com os dois significados principais, de «caderno de apontamen- 
tos», e de «livro volumoso e de pouco préstimo». 

Conforme F. Adolfo Coelho ^, é um latim da decadência 
charta pacis, e é termo escolar. 

Uma forma um tanto mais portuguesa, cartapaço, porém, 
tem em Trás-os-Montes acepção muito diferente, como se vê do 
seguinte passo: — «cartonagem de molduras para estampas de 
santos, para cartapaços de rocas e camandulas» — ^. E pois um 
cartucho de papel, que se põe na roca de fiar. 

Outro nome do mesmo amparo é cartajyele, usado na Beira, 
como vemos no Novo Diccionário. 



1 Lisboa, 1891, p. 219. 

2 Diccionário manual ktymologico. 

5 Manuel Ferreira Deusdado, O recolhimento da Mófreita, in 
; Revista de educação e ensino, 1891. 



250 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

cartazeiro 
O indivíduo incumbido de pregar os cartazes nas paredes *. 

caruma 

Este vocábulo é dado no Novo Diccionário com a signifi- 
cação de — «folha de pinheiro» — , isto é, a agulha ou agulheta. 

No Suplemento acrescenta-se — «(prov. beir.) a pellícula que 
reveste as castanhas ainda verdes e tenras» — . O Dicoionábio 
Manual etymoloo-ico declara ser termo provincial e significar 
— « resina de pinheiro » — . Creio que a primeira acepção é 
muito concreta, e, com relação à ultima, tenho-a por inexacta. 

Na Soberania do Povo, jornal de Águeda, de 21 de se- 
tembro de 1882, lia-se: — «ao pé do lar estava uma porção de 
caruma e lenha, que se incendiaram ao calor do fogo próximo» — . 
Por este trecho é caruma um colectivo, que poderá talvez de- 
signar «rama de pinbo», e não, «uma folha de pinheiro». 

carunho 

No Novo DiccioNÁEio vem esta voz como transmontana, com 
a significação de caroço; nos meus apontamentos tenho-a como 
minhota, com o mesmo significado. 

casa, e seus derivados 

Este substantivo, que em português unicamente, mas não em 
todo o reino, significa qualquer dos repartimentos internos de 



O Economista, de 13 de novembro de 1887. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 251 



uma habitação, além de expressar o edifício todo, como em cas- 
telhano ou italiano, sofre inúmeras particularizações de sentido, 
quer só, quer acompanhado de epítetos, expressos por adjecti- 
vos, por aposição de substantivos, ou por complementos circuns- 
tanciais. Eis aqui algumas dessas locuções, ainda não rejistadas. 

Casa-tôrre: — «Logo em seguida deparam-se-nos as casas- 
-tõrres (linguagem do Minho) > — ^ 

V. castelo. 

Casa-palhoça : — «Ha as coberturas de palha centeia nas cha- 
madas casas-palhoças (Amarante, Marco, etc.)» — *. 

Casa-ãe-entrada: — «A casa de entrada só tem de notável 
as cantareiras de loiça, estanho, arame e cobre que orna- 
mentam as paredes de alto a baixo, em flammantes estanhei- 
ras e sanefas de pinho, tintas de azul e encarnado» — ^. 

Há para apontar aqui, além do colectivo loiça, excluindo a 
de metais, o termo estanheira. 

Casinha, termo alentejano: — «O nome «casinha» couside- 
ramol-o impróprio. Na maioria dos montes o alojo está longe de 
ser um pequeno cubículo, é pelo contrario uma casa ampla, que 
acommoda á vontade vinte e trinta homens» — *. 

Casinhola: — «O galinheiro é provido de poleiros suflficientes 
para repouso dos bicos [q. v.J, e de casinholas ou cestos para 
postura dos ovos » — ^. 

Casinholo: — «Em alguns montes o galinheiro serve também 
de pombal, para o que tem nas paredes os casinholos indispensá- 
veis para a creação dos pombos» — ^. 

Caseiro, além de significar quem tomou casal de renda, ou 
o cultiva por conta do dono, tem, conforme as rejiões, mais dois 
significados, entre si opostos: «^ «o senhorio», como em caste- 
lhano casero : — «O caseiro . . . lançou o padre fora das casas em 



' J. Leite de Vasconcelos, Portugal prbhistorico, p. 19. 
■^ Os Palheiros do littoral, w Portugália, i, p. 83. 
3 ib. Ethnographia do Alto Albmtejo, p. 537 
* 5 6 ii^ p, 541 e 545, 



252 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



que morava. . . o mesmo fizeram mais os três caseiros, para cujas 
casas o padre se mudava» — ^ 

Nesta acepção parece ser obsoleto. 

b) «o inquilino » : — «Os caseiros . . . foram pagar as impor- 
tâncias dos seus alugueres em notas de 5)5(000 réis. O senho- 
rio. . . recebeu as notas» — 2. 

Casa designa em português, singularmente, «a abertura em 
que entra o botão», que em castelhano se denomina ojal, em fran- 
cês willet, que correspondem ao nosso vocábulo ilhó(s), no qual 
o i átono está por o por influência da palatal Ih: ilhó por olho, 
de olho, com um suficso ó(l)a. 

De easa nesta acepção se derivaram casear e caseadeira, 
que significa « a mulher que abre as casas no fato e as guarnece 
ou remata». 

O que é menos conhecido é o verbo casear, com a significa- 
ção de «fazer moradas de casas», como o vemos empregado no 
passo seguinte: — «impoz este tributo ao vinho, para casear Villa 
Nova» — '^. 

casaca, casaco 

Casaca, de que se formou, além de outros derivados, um 
masculino com a significação de qualquer peça de vestuário que 
se põe por cima do colete ou de outro casaco, veio para Por- 
tugal provavelmente de França, onde casaque queria dizer um 
«sobretudo». Para o francês, em oposição ao que afirma Littré *, 
escudando-se com Diez, veio casaque, presumivelmente designan- 
do primeiro «farda», do roupão usado pelos cossacos, que em 
russo se denominam kozaki, pronunciado hazàki. 



1 Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 241. 

2 O Século, de 1 de outubro de 1901. 

3 E. Freire de Oliveira, Elementos para a historia do município 
DE Lisboa, i, p. 178. 

^ DiCTIONNAIRE DE LA LANGUE FRANÇAISB, Paris, 1881. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 253 



No termo de Lisboa, entre çaloios, um casaca quere dizer 
«o indivíduo de Lisboa, da cidade, que não usa jaleca», natural- 
mente porque, quando tal apodo foi introduzido na linguajem 
deles, a casaca era trajo obrigado da gente fina, a toda a hora 
do dia, isto é, a casaca, o frac francês e castelhano, com as abas 
somente na parte posterior e compridas, porque, se eram curtas, 
essa peça de vestuário denominava-se niza. 

Quando eu era rapazote, as pessoas de certa representação, 
ou que pretendiam tê-la, trajavam sempre casaca quando esta- 
vam de luto, e ainda há pouco tempo deixou esse trajo de ser o 
próprio dos funerais e outras solenidades diurnas. 

Exemplo de casaca como « indivíduo da cidade » é o seguinte : 
— «um ou outro saloio que não se intimida com o casaca» — *. 

Como se vê, a citação é moderna; mas o termo tende a obli- 
terar-se, em razão de maior convivência entre a gente de Lisboa 
e a dos subúrbios, e porque a diferença radical no trajar se vai 
abolindo pouco a pouco numa promiscuidade quási absoluta: o 
povo acrescentou as abas às jaquetas, convertendo -as em casacos, 
paletós, e as pessoas de distinção cercearam-nas, de forma que 
acrescentando-as uns e encolhendo-as os outros, resultou ficarem 
do mesmo comprimento. Nada mais igualitário do que as modas, 
e ainda bem! 

casqueira 

— <É toda feita [a ratoeira de raposa] de madeira de pinho, 
geralmente casqueiras ou taboas velhas, afim de incutir menos 
desconfiança» — ^. 

Há um provérbio que diz: «Ou dá tábua ou casqueira». 

O sentido do provérbio é: «todo o indivíduo tem uma ser- 



1 O Século, de 18 de junho de 190L 

2 José Pinho, Ethnographia Amarantina, A caça, in Portugá- 
lia, II, p. 90. 



254 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ventia qualquer», como a árvore, com relação à madeira, boa ou 
mim, que se aproveita dela. 

cassungo 

Esta palavra, propriamente, significa um povo da Guiné: — 
«Os principaes povos espalhados pelos sertões, margens dos rios 
6 costas, ou littoral na Guiné são: «os fulos, os jalofos, man- 
dingas, felupes, churos, banhames, burames ou papeis, bijagoz, 
cassungos, beafares, nalins, balantas, lapes e sacalages » — ^' 
Felizmente quem escreveu isto, ortografoii tudo à portuguesa, 
era contrário da pretenciosa moda actual. 

Deste nome étnico se derivou sem dúvida o de uma espécie 
de contaria, naturalmente bem aceita por tal povo na permuta, 
termo já rejistado no Suplemento do Novo Dicc, abonado com 
Capelo e Ivens, mas que em vista de um anúncio publicado no 
Economista, de 4 de novembro de 1882, vou explicar também: 
— « contaria, que se vende aos massos ; é de varias cores, tais 
como branco, preto, encarnado, azul-celeste » — . 

castelhano 

Quere dizer propriamente de Castela, em espanhol castellano, 
de Castilla, antes Castiella. 

Castelhanismo é também esta forma em português, pois antes 
se dizia castelão: 

— Aqui jaz Simora Antom, 
Que matou muito castelão, 
E debaixo do seu covom 
Desafia a quantos são — *. 



1 O Século, de 23 de abril de 1902. 

2 D. Eafael de Bluteau, Vocabulário portuguez b latino, siib 
V. Covam. 



Apostilas aos Dicioruirios Portugueses 255 



No Algarve é o nome de uma casta boa de figo: — «O mais 
aristocrático é o «Beriacote. . . e o Castelhano > — ^ 



castelo; castelário, Casteleiro 

Aqui vão mais duas acepções especialíssimas desta pala- 
vra, devidamente abonadas. — «A mesma aparência de casaes 
térreos, castellos, ou torres (assim se chamavam as casas de so- 
brado) > — -. 

— «Castellos se denominavam uns mastros de maçaneta doi- 
rada com muitos enfeites de fitas e galhardetes» — ^. 

Castelo é também uma peça de moinho: v. segurelha. 

O derivado alatinado castelário \ castellum, deminutivo de 
castrum, a que em português corresponde Casteleiro, é usado 
por Alberto Sampaio na monografia As « villas ■» do noete de 
Poetugal: — «os nossos castellos também não foram instrumento 
de oppressão ou rapina, [como os de outros países em que mais 
predominou o feudalismo] porque serviam de defesa de terras 
nas mãos dos castellarios ou castelleiros, delegados do rei» — *. 

castro, castrelo, castrejo, crasto, cristelo, crasta, crasteiro 

O Novo Dicc. dá-nos os dois primeiros vocábulos, e define 
o primeiro como — « castello de origem romana » — : cumpre 
acrescentar « ou pre-romana » . Castrejo, com o femenino castreja, 
apenas o incluiu com a significação de — «natural de Castro- 
-Laboreiro» — . Todavia, tanto castreja com o castrejo, e assim 
também crasto e cristelo, são igualmente substantivos, com sig- 
nificados análogos, e todos eles muito frequentes na toponímia 



1 O Jornal da Manhã, de 4 de novembro de 1885. 

2 Portugália, I, p. 178. 

3 António de Campos, Luís de Camões, u parte, cap. xiv. 
•* in Portugália, i, p. 580. 



256 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



do norte de Portugal, onde por toda a parte os castros coroam 
as eminências, como é sabido. O último citado, como nome de 
localidade, costuma escrever-se erroneamente christello, como se 
absurdamente tivesse alguma cousa que ver com Christo; outro 
tanto aconteceu a sachristão e sachristia, que provêem do latim 
sacrum, e não de Christo, e, portanto, em qualquer ortografia, 
devem escrever-se sem o h, sacristão, sacristia. 

Crasto é pois o mesmo que castro, de que é metátese: — «em 
Portugal os monumentos arcbaicos, luso-romanos ou pre-romanos, 
são conhecidos por diversos nomes: — castêllo, castéllo, crasto 
(do latim castrum)» — ^ 

Crasta significava claustro, e é natural que seja o plural 
latino claustra, de claustrum, de claudere, «encerrar». As 
formas intermédias podem reconstituir-se : claustra j clastra 
(cf. agosto de Au gu st um) } crastra, crasta, por dissimilação 
(cf. C7^avo j clauum, e rosto \ rostrum). 

E vocábulo independente, portanto, de crasto ^. 

Crasteiro é adjectivo derivado de crasta, e foi usado mo- 
dernamente, conquanto provavelmente colhido em documentos 
antigos: — «esse que fora prior crasteiro de Santa-Cruz» ^. 

O vocábulo vem no Dictionnaibe poetugais-fbançais de 
J. Inácio Roquete, com remissão a Clausteal *. 



catana, catanar 

O último dicionário português publicado. Novo Diccionáeio 
DA LÍNGUA PORTUGUESA, dc Cáudido dc Figuciredo, define da 
seguinte maneira o vocábulo Catana: — «alfange asiático; pe- 



1 Leite de Vasconcelos, Portugal prehistorick), p. C2. 

2 Veja-se A. A. Cortesão, Subsídios para um diccionario com- 
pleto DA LÍNGUA PORTUGUESA, Coimbra, 1900. 

3 António de Campos, Luís de Camões, in «O Século, de 26 de 
julho de 1900. 

* Paris, 1855. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 257 



qiiena espada curva; espada com bainha de madeira, em uso 
entre os timôres» — , e dá-lhe, em dúvida, orijem japonesa. 
No Suplemento ao mesmo dicionário [2.'' vol., p, 775, col. ii] 
atribui-se-lhe orijem italiana presumível, cattana, femenino de 
cattano, contraído de capitano, coutracçtlío que designaria «es- 
pada de capitão». Efectivamente, Petròcchi ^ aduz como desusado 
o vocábulo cattano; todavia, apresenta-nos também catana, que 
deíine — «sorta di scimitara o di pugnale giapponese» — . 

Bluteau, no Vocabulaeio poetuguez e latixo, diz-nos: — 
«Catana, catana. He palavra do Japão. Viã. Alfange. Terçado. 
(Todo o primor vay em alimpar a Catana com o rosto sereno 
& alegre: Lucena, Vida de S. Franc. Xav. foi. 473, col. 2)» — . 

Cumpre notar que em Lucena, lugar citado [Liv. vii, cap. 2.°], 
se acentua catana; como, porém, duas linhas mais abaixo vem 
um erro tipográfico, « tatisfeitos » por « satisfeitos » , e em toda a 
interessantíssima obra mais algumas incoerências de acentuação, 
seria mester compulsar pacientemente essa edição [Lisboa, 1600], 
para se averiguar se o dito vocábulo é mais vezes citado, com 
esta ou outra acentuação. Não o faço agora porque me falta 
ocasião e tempo, e por ser provável que o próprio Bluteau, es- 
crupulosíssimo como se uos revela em todo o seu famoso Voca- 
bulário,- não assentasse na acentuação que indica, sem para isso 
ter motivos ponderosos, tanto mais que é ela a certa. 

A acentuação catana é corroborada pela segunda citação abo- 
natória, tirada do poema Malaca Conquistada, de Francisco 
de Sá e Meneses, que transcreverei, com os dois versos que a 
antecedem no poema: 

[Com pouca ocasião que procurarão 
Descobrirão seu fim sanguinolento] 
E nos derão do mal já tardo aviso 
Mil crizes, mil catanas d'improviso. 

Canto iii, est. 49. 



* Novo DlZIONÀRIO UNIVERSALB DELL.A LIxNiGUA ITALIANA, MilãO, 

1887, t. I. 

17 



258 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Há ainda terceira citação, de Francisco Rodríguez Lobo, 
CôETE NA Aldeia. Como porém é em prosa, fora inútil para 
o caso reproduzi-la aqui. 

Morais [Diccionaeio da língua pobtugueza, 3." edição, 
Lisboa, 1823] transcreve esta última citação. 

O Ge ANDE DiccioNAEio PoETUGUEz, chamado de Domingos 
Vieira, reproduz, com cento e sessenta anos de intervalo, as cita- 
ções de Bluteau, modificando, todavia, a definição do vocábulo: 
aí Catana é — «alfanje asiático» — . O mesmo fizeram outros 
dicionaristas anteriores e posteriores aos editores do Geande 
DiccioNAEio, omitindo as citações e transcrevendo essa defini- 
ção mais lata de «alfanje asiático», a qual provavelmente foi 
sujerida pelas duas últimas citações, que se não referem ao Japão. 

Seria de interesse compulsar toda a literatura portuguesa do 
tempo de Lucena e imediatamente anterior ou posterior, em cata 
deste curioso termo, que de tam longe nos veio; por agora con- 
tentar-me hei com esta, que aproveitei sem maior trabalho. 

No vocábulo Alfanje, para onde Bluteau nos remete, nada 
se acrescenta à definição que a elucide; antes ficou prejudicada, 
levando talvez essa remissão os lecsicógrafos posteriores a darem 
os dois vocábulos como sinónimos, pois nos dizem que ambos 
designam «espadas curvas asiáticas». Roquete, quer no Nouveau 
DiCTioNNAiEE poETUGAis-FEANÇAis [Paris, 18ÕÕ], oude se limita 
a traduzir catana por cautelas, quer no Diccionaeio poetugltez 
[Paris, 1867], em que a define como terçado, suprimiu a espe- 
cificação de japonês, dada e autenticada por Bluteau, o que 
outros também fizeram; e no Diccionaeio de synonymos omitiu 
catana, quando dá a sinonímia de espada, discriminando, com 
maior ou menor artifício, os termos espada, gládio, terçado, du- 
rindana, alfanje, cimitarra. 

F. Ad. Coelho, no seu Diccionaeio manual etymologigo 
da língua poetugueza (Lisboa, sem data) aceitou, sem reparos, 
a etimolojia apontada por Bluteau, definindo também o vocábulo 
como significando — « alfanje asiático » — . 

Não tenho ao meu alcance agora todas as muitas edições de 
todos os dicionários portugueses, para averiguar se outros seme- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 259 

lliantemente nos dizem ser a catana «um alfanje asiático >, sem 
limitação de povo ou povos da Ásia que o usassem, mesmo con- 
cordando, ou não, em que o vocábulo seja japonês. 

F. Diez ' não dá o vocábulo, nem em italiano, nem em por- 
tuguês. Kõrtiug ^, em o n.° 1628, dá-nos o italiano catana como 
presumivelmente modificado de um étimo hipotético, captana, 
com a significação de — «casacca dei cacciatori» — , ao que o 
Xôvo Dicc. em certo modo alude, quando diz no Suplemento: 
— «designando veste de capitão, e, entre nós, a espada de capi- 
tão > — . 

O Novo Dicc. às definições anteriormente dadas, a que nos 
referimos, acrescenta que o termo é também aplicável ás espa- 
das dos timores. E possível que assim seja; é lícito, porém, hesi- 
tar em admitir essa atribuição do nome, não só porque Hão está 
abonada, mas também porque «espada» na língua dos timores 
se diz sàric, conforme o Dicctoxaeio poktuguez-tétum de 
Sebastião Maria Apparício da Silva [Macau, 1889]; e principal- 
mente por ignorarmos o fundamento com que Sá e Meneses deu 
este nome às espadas malaias. 

Que o vocábulo é japonês, como afirmara Bluteau e acei- 
taram Morais, Ad. Coelho e Cánd. de Figueiredo, não há dúvida, 
pois nessa língua katana significa realmente não só «espada», 
mas também «faca»; posto que este último objecto seja mais 
especialmente designado por um substantivo composto de ho, 
«criança», e Tcatana, isto é, ko-gatana, com o abrandamento da 
inicial do segundo componente, que é de regra, e por uma ca- 
tacrese injéuua, como a que em malaio se emprega para designar 
a chave com o epíteto de «filho da fechadura» (ának húnchi), 
e o degrau como «filho da escada» (ának tactiga). Que o vocá- 
bulo katana denomina na actualidade não somente a espada 
levemente curva japonesa, mas até a espada usual de mu- 



1 Etymologisches Wõrterbuch der romaxischen Sprachen, 
Bonn, 1869-1870, 3.* edição. 

2 Lateinisch-romaxisches Wõrterbuch, Paderborn, 1871. 



2G0 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

nição, europeia, vemo-lo no vocabulário apenso à gramática ja- 
ponesa de Seidel ^ muito recente, conjuntamente com ken, turigi, 
ivakisassi (sic: =uàkizáci). 

O que ocorre preguntar é se o vocábulo catana veio para 
português directamente do japonês, ou por intermédio do italiano. 
Tenho como certo que a primeira solução é a única aceitável, 
não só pela definição de Bluteau e primeira citação com que a 
abonou, mas também atentando nas estreitas relações que os 
portugueses tiveram com o Japão nos séculos xvi e xvii. 

É igualmente ponderosa em favor desta solução a circunstân- 
cia seguinte: A tradução italiana, quási contemporânea, da obra 
de Lucena, feita pelo P. Luís Mansoni, como Lucena da Com- 
panhia de Jesus [Roma, mdcxiii], traduz no indicado passo 
catana por scimitarra, o que testemunha não ter sido ainda 
admitido em italiano o referido vocábulo japonês, que natural- 
mente passaria de Portugal ao depois para lá, por meio da li- 
teratura. 

Devemos, sem embargo, confessar que Fernám Méudez Pinto ^ 
chama sempre treçado (sic) á espada dos japões, e já vimos 
que Bluteau lhe dá igualmente esta sinonímia. 

Seja como fôr, o vocábulo por tal modo se naturalizou cá, e 
disso já se queixava Francisco Rodríguez Lobo no passo que 
constitui a terceira citação de Bluteau, que deu o substantivo 
derivado catanaãa, como «golpe dessa, ou de outra espada», e 
em sentido figurado, hoje o único vulgar, como equivalendo a 
«censura áspera» ; porque o vocábulo catana, no sentido natural só 
se emprega como termo burlesco. Produziu também pelos modos, 
o que menos sabido é e não está por emquanto mencionado em 
dicionários portugueses, o verbo catanar, que no Riba-Tejo quere 
dizer «ceifar herva» com a gadanha, segundo o que me informa 
a minha criada Maria do Rosário, natural da Chamusca, e seu 



1 Hartlbbbn's Verlag, Viena, Peste, Lípsia, p. 184. 

2 Peregrinação, iii, e passim. 



Apnatilas aos Dicionários Portugueses 261 

irmão, consultado independentemente, e que foi trabalhador rural 
nos campos vizinhos daquela vila '. 

cauchu; cacho, cáchu 

Na Secção Falae e esceevek do « Diário de Noticias » * de 
Lisboa, com os números dccxiii e dccxvi, vêem dois artigos 
referentes ao primeiro destes vocábulos, o qual ordinariamente 
se escreve, à francesa e errado, caoutchouc. Cita-se ali E. Littré 
para se lhe atribuir orijem americana. Com efeito, o grande es- 
critor e lecsicógrafo francês expressa-se do seguinte modo acerca 
dele: — * (ka-ou-tchou ; le c final ne se prononce jamais, . .) étym. 
Cahuchu, nom indien de cette substance » — , que primeiro de- 
finira: — « Yulgairement gomme élastique; sue coagule du/aíro- 
pha elástica, L, arbre de la famille des euphorbiacées tithyma- 
les et d'autres plantes, telles que le figuier d'Inde, le jaquier, 
etc. » — , 

Na Ortografia Nacional ^ aludira eu em nota às escritas 
usuais e erróneas cautchu, cautchuc, caoutchouc, e propusera no 
texto a ortografia aportuguesada cauchu, que mantenho, con- 
quanto prefira a este inútil galicismo algum dos três ou quatro 
nomes que temos para a mesma substância, e adeante men- 
ciono. Em qualquer caso, o c final, e mesmo o t são erros evi- 
dentes, copiados da defeituosa escrita francesa, indiscretamente 
imitada. 

liodolfo Lenz, no fidedigno Diccionario etimolójico de vocábu- 
los chilenos *, traz a forma caucho, referindo-se a ela como estran- 



* Já publicado este artigo na Ebvista Lusitana, vi, 1900-1901, de 
onde o extratei com pequenas alterações. 

2 De 9 e 16 de janeiro de 1906. 

3 Lisboa, 1904, p. 174. 

* Diccionario etimolójico de las voces chilenas derivadas 
DE LBNGUAs INDÍJENAS AMERICANAS, Santiago de Chile, 1904-1905, p. 186, 
publicação que ainda não está concluída. O asterisco significa < de uso corrente 
em Santiago >. 



2G2 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



jeira nos termos seguintes: — «* caucho, m[asculino] -lit[erario]- 
el jugo lechoso, resinoso de varias plantas sudamericanas que se 
cuaja cuando se espone ai aire; goma elástica. La palavra uo es 
propiamente cMlena, pêro conocida en las ciudades por el mucho 
uso industrial de la mateiia. . . La voz mejicana hule, que signi- 
fica lo mismo, se usa solo para la tela encerada [em português, 
oleado]. Variante: cautchuc, poço usado... Etimologia: Segun 
el Standard Didionary dei indio cahuchu. Segun una noticia 
de Barberena que no puedo comprobar, la voz seria de la lengua 
de los Índios mainaf; de las márgenes dei Amazonas» — . 

O primoroso poeta e prosador Eduardo Augusto Vidal, que 
sabe, como poucos actualmente, a nossa língua, chamou a minha 
atenção, em carta, para a confusão aparente que nos artigos a 
que me referi se faz entre o cauchu, ou caucho, de que estou 
tratando, e outro vocábulo, semelhante na forma, cacha, ou ca- 
cho, de orijem e significado muito diversos, e sobre o qual o 
Conde de Ficalho, nas notas, aos Colóquios dos Simples e drogas 
tia índia, de Garcia da Orta, nos diz ^: — «O «cate» de Orta, 
«cato» da Pharmacopêa portugueza, substancia mais conhecida 
pelo nome de catechu, é um extracto da madeira da Acácia 
Cafechu, Wild. (Mimosa Catechu, Linu. fil.) uma arvore bas- 
tante commum na índia, mais a leste, nas terras de Burmá, e 
por outro lado na Africa Oriental; é também obtido este extra- 
cto de uma espécie próxima, Acácia Suma, Kurz., que se en- 
contra igualmente na índia. — «Cate», a designação empregada 
por Orta, é a natural orthographia portugueza do seu nome hin- 
dustani, que hoje escrevem kat ou kath. Drury diz que a palavra 
cate significa arvore e chu sueco, donde catechu; mas não sei se 
esta aflfirmação tem fundamento. Duarte Barbosa ... dá á mesma 
substancia o nome de cacho, que é a designação tamil, canarim 
(lingua do Canará) e malaya, kashú, ou kachú; e «cate», em- 
pregado em Malaca, segundo Orta, é uma simples alteração de 
cate, ou de cacho» — . 



í vol. II, Lisboa, 1892, p. 76. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 263 



Acrescentarei algumas cousiderações a este douto comentário. 
No dicionário indostano-inglês de Nataniel Brice ^ encontram-se 
os vocábulos kath, — « an astringent vegetable extract, which the 
natives eat witli betel-leaf — extrato vegetal adstrinjente, que os 
naturais [da índia] comem com o bétele » — , e ainda outro vo- 
cábulo parecido, kãth, com a longo e t aspirado cacuminal % 
designando « madeira » e « madeiro » (timber, block). 

MoDsenbor Rodolfo Dalgado traz o vocábulo kâta, (isto é, 
Mt(a), traduzindo-o por «cato, terra japónica», e dá-o como 
sendo marata, no Diccionaeio komkaní poetuguez ^, e no 
DiccioNAEio POETUGUEz-KoiíKANí * traduz cãto por Mt, sem 
mais explicação. 

A Phaemacopêa poetuguez a 5, citada pelo Conde de Fica- 
Ibo, dá-nos a sinonímia seguinte: — ^Cachou, fr. — Black cate- 
chu, ingl. — Katechu, ali. — Cato; Catecu [sic], hesp. » — , o 
que nada adeanta. 

Quem deixou o caso perfeitamente averiguado foi o copioso e 
erudito Glossário de Henrique Yule e Artur Coke Burnell, inti- 
tulado Hobson-Jobson, being a Glossaey of Anglo-Indian 

COLLOQUIAL WOEDS AND PHEASES, AND OF KINDEED TEEMS ^: 

— «O cacho, catechu, cate, cato ou cacho (em inglês catechu, 
cutch e caut) é uma substância vejetal, extraída de várias espé- 
cies de Acácia, e chama-se em indostano Mf: mas a forma 
cacho provém do sul da índia e é ou o tamil Mxu, ou o cana- 
rim e malaio hlchu; [e não, kashu, i. e. Tcàxu, como escreveu o 
Conde por distracção: não há em malaio o som do x simples, 



1 A ROMANIZE3D HiNDÚSTÁNÍ AXD ExGLISH DiCTiOXARY, Calcutá, 

1847. 

2 É um t proferido no ponto era que pronunciamos o r Iene de caro, e 
aspirado. 

3 Lisboa, 1893. 
* Lisboa, 1905. 
5 Porto, 1887. 

8 Londres, 1886, p. 133 ('g. v.). 



264 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



como em xadrez, mas sim uma consoante que se parece com o 
eh beirão]. 

Traduzi, resumindo, o que nos diz o Grlossário. 

Quanto à estranha denominação terra japónica, vemos no dito 
artigo ser a misnomer, «equívoco», de Schrõder, que era 1654 
publicou a Phaemacopea Medigo-chymica, e aí denominou e 
definiu assim esta substância vejetal: — « Catechu, terra ja}jónica, 
genus terrce exoticcB» — , quando a dita substância, ao depois, 
foi importada do Japão. 

Temos pois dois A^ocábulos diferentes em português, cacho, 
cáchu, cate, cato, voz asiática, extrato de várias acácias; cauchu 
ou, se quiserem caucho, voz americana, extrato de várias árvores 
diferentes, por outro nome goma elástica. 

Cumpre não confundir um com o outro na escrita, como, do 
mesmo modo, se não devem confundir na pronúncia. 

O cauchu denomina-se também borracha, e guta-percha 
(=perxa, e não perca, como erradamente se profere: o vocá- 
bulo é malaio, gata-percha, pron. quási gueta, ou gata-pertcha, 
goma da árvore percha ou «goma de Percha, id e. Çamatra»). 
O nome veio de França para Portugal, e para lá foi de In- 
glaterra, o que explica a escrita gutta, onde o u vale próssima- 
mente â português, como ó regra em inglês para o u breve em 
sílaba tónica fechada por consoante. Outro tanto aconteceu com 
o sinónimo goma-guta, que também nos veio de Inglaterra por 
intermédio da França ^ 

Outro nome ainda da borracha, mais conhecido no norte do 
Brasil, é seringa, denominando-se as árvores que a produzem 
seringueiras, e o plantio seringai ^. 

A orijem de seringa, e bem assim a de borracha neste sen- 
tido são desconhecidas. 



* Marcelo Devic, Dictionnaiue étymglogique des mots d'ori- 
GINE ORiENTALB, Paris, 1876. 

2 Vizconde de Beaurepaire-Kohan, Diccioxario de vocábulos bra- 
ZILEIROS, Eio de Janeiro, 18S9. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 265 



O Conde de Ficalho e também o Glossário citado referi- 
ram-se ao livro de Duarte Barbosa, a respeito de café, cacho. 
Folheei-o cuidadosamente, e só pude encontrar nele referencia 
ao cacho a páj. 289, formando o vocábulo composto cachopucho, 
no trecho seguinte: — «outras drogarias que nós não conhe- 
cemos, e em Malaca e China saom muyto estimadas, e tem 
grande valia, silicet cachopucho, e muyto encenso que vem 
de Xaer» — ^. 

Kefere-se aos reinos de Guzarate e de Cambaia, e é sem 
dúvida este o passo a que aludiu o Glossário de Yule & Burnell, 
com a seguinte citação, que transcreveu da tradução inglesa de 
H. E. J. Stanley, publicada pela Sociedade Hakluyt, conquanto 
a pudesse ter feito do orijinal que incluiu na bibliografia, e 
decerto devia conhecer: — «drugs from Cambay; amongst which 
there is a drug which we do not possess, and which they call 
puchô and another called cacho ^ — ^, Os acentos são a mais, e 
a versão está mal feita, como se vê; a substância é uma só. 

António Núnez, a quem também cita, chama-lhe cacho e cate: 
— «O baar do cate, que aqui [índia] chamam cacho, he em tudo 
como ho arroz, quanto ao peso» — ^. 

Conforme Leôncio Eichard * puchol-, (2.*' termo de cacho- 
pucho) é o nome malaio da herva cidreira (mélisse). 



caudel, candelária, coudel, acaudelar; caudilho 

O substantivo caudilho já por Bluteau ^ foi declarado cas- 
telhanismo, dando-lhe como correspondentes portugueses guia ou 
capitão. Escusado era ir tam longe, pois da mesma orijem re- 



* Noticias para a historia e geografia das nações ultra- 
marinas, Lisboa, II, 1812. 

2 ih. 

3 Livro dos pesos da Índia, Lisboa, 18tí8, p. 22. 

* COURS DE LA LANGUE MALAISE, Bordéus, 1872, II, p. 102. 

s Vocabulário portuguez e latino. 



2G6 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



jistou O mesmo doutíssimo escritor a palavra portuguesa couãel, 
a que deu por étimo erroneamente o espanholado caudilho. 
Define-se coudel, no Vocabulário, do modo seguinte: — «Por 
ordem . . . del-Key D. Aftbnso v os homens de armas Escudey- 
ros, que serviam a cavallo nos exércitos foram reduzidos ao 
mando, ou capitania de hum Capitão que os repartisse por Coii- 
ãeis, dando a cada Coudel vinte. Pelo que chamaram aos Ca- 
pitaens desta gente Coudeis, Coudel Mor. Este, como por o re- 
gimento da guerra ficava capitaneando a gente de cavallo, despois 
se ve3^o a encarregar-lhe a execução das leys, que se fizerão, 
para conservar as boas raças dos cavallos do Keyno, e assi tem 
a seu cargo os cavallos destinados a cobrir as egoas, e para este 
eífeito obriga huns homens a comprar egoas» — . A seguir, a 
palavra Candelária é definida — «olíicio que tem a seu cargo 
a criação dos cavallos» — . 

Ora, tanto coudel, como caudel, como o caudilho acastelha- 
nado procedem de uma forma latina capitellum } ca^ptello. 
Em castelhano de captello fez-se primeiro caudiello {=cau- 
dielho), e por contração do ditongo ie em i, caudillo (cf. cas- 
tellum j castiello \ castillo, e v. castelhano); em português 
captello deu caudel, e deste provém imediatamente coudel 
(cf. touro j taurum). Portanto, ao castelhano caudillo corres- 
ponde em português coudel, ou caudel, do último dos quais pro- 
cede o verbo acaudelar, empregado pelo cronista Kui de Pina: — 
«Conde, ficai com estes mouros, porque lhe conheceis melhor as 
manhas, e acaudelai esta minha gente» — ^ 

Do primitivo caput, de que se derivou o deminutivo capi- 
tellum, resultou o português cabo, em quási todas as suas 
acepções, e deste o verbo acabar, (q. v.). 

O vocábulo capitel (q. v.) tem a mesma orijem e entrou na 
língua provavelmente por intermédio do italiano capitello. 

Não vejo o fundamento com o qual o Novo Diccionáeio 



1 Crónica de El-rei Dom Afonso v, cap. clv. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 207 



declara serem caiidel e seus derivados melhores formas que 
couãel, couãelaria, que são mais portuguesas ainda. 



caurim 

Este vocábulo, conforme Yule & Burnell, é o indostano Jcaiirz, 
•ou o marata kavaãi, e é na Índia o nome de um búzio pequeno 
e branco (Cyprae moneta), que corre como dinheiro na Ásia 
meridional, e na África, onde também se chama búzio (q. v.). 

Figuradamente, e com certa graça, designa o mesmo que 
calote (q. v.), isto é «dívida que se não paga», que o mesmo seria 
pagá-la em caurins. 

cavalaria 

Além das significações gerais, que vêem em todos os dicioná- 
rios, € das especiais rejistadas no Suplemento ao Novo Dicc, 
cumpre acrescentar esta: — «Das herdades em que se não ins- 
tallam centros de lavoira. . . diz-se que andam de cavallaria» — *. 



cavalheiro, cavaleiro; caval(h)ariça 

A primeira destas formas é castelhana, como o prova a con- 
soante palatina \h pelo 11 de caballarium; a segunda é a corres- 
pondente portuguesa: cf. lat. castellum j português castelo, 
castelhano antigo castiello, moderno castillo (ll = lh). 

Confusão entre um dos significados que tinha em português 
cavaleiro, «o que tem cavalo e nele anda montado», e cava- 
lheiro, «fidalgo, pessoa de certa categoria», produziu a forma po- 
pular defeituosa cavalhariça por cavalariça, a qual se deve 



1 J. da Silva Picão, Ethnographia do Alto-Alemtejo, m Portu- 
gália, I, p. 271. 



2'jS Apostilas aoi Dicionários Portugueses 



cautelosamente evitar, pois se cavalheiro usurpou algumas das 
acepções de cavaleiro, nunca a quem vai ou anda a cavalo, e só 
por isso, chama ninguém cavalheiro, vocábulo este que em por- 
tuguês não sujere a idea cavalo em ocasião nenhuma. 



cavaqueira 

A palavra cavaca, entre outros significados, designa uma es- 
pécie de conhecido biscouto, duro, muito leve, cuberto com 
uma capa de açúcar branco em pó, e principalmente fabricado na 
vila das Caldas-da-Kainha, em que é a especialidade da terra, 
quanto a doçaria, e que tem o nome de beijinho, quando mais 
pequeno, isto é, quási do tamanho de uma cabeça de dedo. 
A mulher que os fabrica e vende tem lá o nome de cava- 
queira: — «Mais uma vez logradas as casas de pasto, cavaquei- 
ras, lojas de louça, etc» — '. 

Note-se que a designação se aplica principalmente às fa- 
bricantes, como vemos pela distinção feita na citação entre ca- 
vaqueiras e lojas de louça, não, louceiros ou louceiras. 



caxa, caixa 

Como nome de uma moeda de deminuto valor na índia e 
outras partes da Ásia, falta nos dicionários portugueses. A pala- 
vra, conforme Yule & Burnell -, é o tamil kásu: — «lhe mandou 
logo duas mil caixas» — ^. 



1 Diário de N,oticias, de 24 de outubro de 1905. 

2 A Glossary of Anglo-Indian wouds, Londres, 1886. 

J António Francisco Cardim, Batalhas ua Companhia de Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 194. 



Ajwstiloíi aos Dicionários Portugueses 269 



cazembe 

E termo da África Oriental Portuguesa: — * Cazembe, com- 
maudante de eusaca» — '. 



ceifarda, ceifardajem 

Estes neolojismos, que não sei se chegaram a difundir-se, 
foram propostos pelo vizconde de Coruche na Gazeta dos La- 
VR ADOBES, em fevereiro de 1883, para traduzirem os termos 
francezes fauchard e fauchage, isto é, « certo instrumento para 
ceifar herva», e essa ceifa. 



cemitério, cementerio 

A forma alentejana é cementerio, talvez por influencia cas- 
telhana, e nela se deu a inserção da nasal, por assimilação 
ao 711, como em mançana \ matiana, comparado ao portu- 
guês maçã. A palavra latina é coemeterium, e o ^ por e do 
português cemitério teve por fim evitar a haplolojia centério 
(cemitério). O vocábulo é de orijem douta, ou semi-douta. 



cediço (= cediço) sediço 

Epifânio Díaz, na Kevista Lusitana ^, atribuiu a este 
adjectivo, muito comum no sentido de «em começo de putrefac- 
ção, incapaz de consumo, ou fora de uso», o adjectivo latino 



* Azevedo Coutinho, A campanha do Barué, in « Jornal das Coló- 
nias >, de 13 de agosto de 1904. 

* vol. I, p. 175. 



270 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

sedititius, alterado em sedetitius } sedere, «pousar>. 
Não advertiu porém o douto latinista em que à forma sediço, 
que é já a que dá Bluteau ^ deve corresponder outra mais an- 
tiga em português, ee(e)diço, análoga à castelhana cedizo, como 
em carne cediza, «carne que já tem (mau) cheiro». 

António Morais e Silva ^ aduz um exemplo, que mais se 
conforma com a verdadeira significação de cediço: — «Anexim, 
dito sediço; mui velho, sabido e trilhado» — . 

O étimo, pois, deve de ser cedititius | cedere, «passar, 
estar gasto», como o aponta o Dicionário da Academia espa- 
nhola ^, e consegiiintemente há de escrever-se com c, e não com s 
inicial, em português. 



cerco 



Além das acepções definidas nos dicionários conheço duas, 
de que vou apresentar exemplo: — «Estas redes são lançadas 
com dois cabos ... e são dispostas ou em linha recta, ou for- 
mando cerco» — *. 

— « os cercos . . . consistiam nisto. Por motivo de voto antigo, 
e depois da Paschoa, a maioria das pessoas d'uma freguesia, com 
pendões, cruzes e andores, começava a percorrer os limites da 
parochia. Á frente um grupo de atiradores . . . disparava frequen- 
temente, em regra ao desafio» — ^. 



cerne, cernar, cerneira, cernandi 

Estes vocábulos, menos o último, vêem perfeitamente defini- 
dos no Novo UicciONÁEio, e os seus significados são mais ou 



* VOCAB. PORT. E LAT. 

2 DicciONAnio DA língua portugubza, Lisboa, 1 823. 

3 Madrid, 1899. 

4 Fernández Tomás, A pesca em Buarcos, in Portugália, i, p. 149. 
s Rocha Peixoto, Portugália, i, p. 624. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 271 



menos couliecidos, relacionaudo-se os derivados com o seu primi- 
tivo cerne — <a parte interior e mais dura das árvores» — . 

O último foi me subministrado por indivíduo que residiu lar- 
gos anos na provincia do Pará, especulando com a exploração 
das seringueiras, ou árvores productoras de borracha, e me 
disse que cernandi significa lá a « borracha mais grosseira > . 



cernideira, cernir 

Xa Beira-Baixa denomina-se assim uma « espécie de caixa, 
caixilho ou grade em que trabalha a peneira» *. 

A existência deste vocábulo em português pressupõe a do 
verbo cernir, «peneirar», como em castelhano. 



cetim, citim 

Esta palavra, por influência do vocábulo seda, já em Blu- 
teau - aparece escrita com s inicial, pelo c com que antes se orto- 
grafava, no tempo em que a diferença de pronúncia entre s e ç era 
geral no reino. Todavia, o grande lecsicógrafo ainda cita a forma 
cetim, com a definição — «panno de seda» — e remissão à escrita 
setim, onde lhe dá uma etimolojia falsa, a palavra italiana seta, 
reproduzindo a orijem hebraica que outros no seu tempo lhe 
atribuíam. 

Que o douto frade não tem razão é evidente, visto que seda 
sempre se escreveu com s, e cetim com c. 

Xa mesma inscrição vêem-se várias espécies de cetins, dife- 
rençados por epítetos, como cetim raso, cetim chão, cetim ave- 
lutado, etc. Raso em castelhano é hoje o nome dado ao cetim. 

A orijem do vocábulo, que maiores probabilidades apresenta 



1 Informação do editor, natural de Almeida. 

2 Vocabulário portuguez e latixo, Coimbra, 1712-1720. 



272 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

em seu favor, é o árabe zaiTUNiE, adjectivo derivado de nome da 
cidade de Zaitune, afamada pelo fabrico de tais tecidos. E esta, 
pelo menos, a opinião de Henrique Yule, na segunda edição da 
versão inglesa do livro de Marco Paulo Véneto ^ 

Já K. Dozy, no Glossário, ^ havia dito o seguinte, a propósito 
da forma aceituni, castelhana, frequente na Vida del gean Ta- 
MORLÁN, de Gonçález de Clavijo, como designando um tecido que 
vinha da China: — «Cest Tarabe zeitounl... La AÍUe chinoise 
Tseu-thoung, actuellement Thsiuan-tchou-fou, s'appelait chez les 
Árabes Zeitoun. On y fabriquait des étoífes damassées de velours 
et de satin, qui avaient une três grande réputation et qui por- 
taient le nom de zeitounl. Voyez Ibn-Batouta, iv, 269» — . 

Em catalão antigo escrevia-se atzeijtoni: 

— «311 Item un dosser de drap daur domesqui ab lo cumper 
vermey ab les orles de atzeytoni blau, ab senyals Keyals entoru 
brodat ab sotana de tercepell vermey» — ^. 

Não há, portanto, a mínima dúvida que a escrita certa é a 
antiga com c, não s. A forma usada por Fernám Méndez Pinto, 
na Peregrinação *, e por outros escritores do seu tempo, citim, 
é devida a assimilação do e ao i da sílaba seguinte, como em 
mintir, piclir, por mentir, pedir, e minino, que vemos constante- 
mente no mesmo autor. 

chá, chávena, pires, bule 

A palavra chá é de orijem chinesa, como a planta, e está 
muito disseminada nas línguas esclavónicas, cal ^ em russo e 



1 The Book of Ser Marco Polo the Vexetian, Londres, 1875, ii. 
cap. Lxxxii, 1). 224, n. 2. 

2 Glossaire des mots espagnols et portugais derives de 
l' ÁRABE, Leida, 1869, sub v. Sbtuni. 

" Inventari del Eey Marti, in Kevue Hispanique, xii, j). 457. 
■* cap. IX, XXI, LU, XIII, XIV, LI, etc. 

5 Cora esta letra marcada figuro o sora do eh castelhano e português dn 
norte, quási tx. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 273 



búlgaro, por exemplo. O outro nome da planta e sua infusão, te, 
quer êle se orijinasse do termo botânico thea, latinização do 
chinês ca, como creio, quer seja também chinês dialectal, como 
opinam quási todos os que teem investigado a etimolojia deste 
último vocábulo, foi o adoptado, com pequenas excepções, em 
outras línguas da Europa, quer românicas, quer germânicas. 

Com a palavra chá vieram do Oriente para Portugal os 
nomes das várias peças do aparelho em que êle é servido: chá- 
vena é chinês também, ca-van, «vasilha para o chá». Bule é o 
malaio húli; «frasco»; pires, o indostano pirix, m2Í\úo píriai ^, 
«pratiuho», cuja orijem é incerta, mas, com todas as probabili- 
dades, oriental. 

Entre todos os idiomas europeus é o português o único a 
usar estas denominações, como é sabido, pois nem mesmo em 
castelhano elas são conhecidas ; aí diz-se te, taza, tetera, platillo. 

Como a palavra hule é malaia, e pires em malaio existe 
igualmente, e sendo este idioma nos séculos xv, xvi e xvii, e 
ainda hoje, de geral comunicação no sul da Ásia, é natural que 
por seu intermédio os recebêssemos nós, ou por qualquer das 
línguas da índia, para as quais houvessem passado, o que no 
emtanto carece de demonstração. É de notar que ao chá, propria- 
mente dito, ainda hoje se chama chá-da-India, especialização 
que ou proveio de que de lá o recebêssemos directamente, ou 
então de que por índia se entendesse toda a Ásia de que tí- 
nhamos conhecimento, em razão das nossas navegações, conquis- 
tas e comércio. Notável é também que ainda hoje se ouça 
apregoar laranja da China, locução com a qual se diferença da 
(laranja) tanjerina. 

Que o malaio foi dos nossos viajantes e aventureiros conhe- 
cido e praticado prova-se com a circunstância de que nas Peee- 
GEiNAçõEs de Fernám Méndez Pinto a cada passo ocorrem 



1 O sinal m, designa aqui o ng germânico, isto é, um n proferido no 
extremo do palato duro com a raiz da língua. Aplique-se esta nota aos vocá- 
bulos citados a p. 241-243, e passim. 
18 



274 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



expressões, nomes, quer próprios, quer comuns, que pelo malaia 
se explicam, conquanto se reíiram à China; e exemplo frisante é 
este passo da mesma interessantíssima obra: — «e era lugar de 
torres ou baluartes té [os chins] húas goaritas de dous sobrados 
armados sobre esteos de pao preto, a que elles chamão Caubes}% 
que quer dizer pao ferro» — K Ora o vocábulo, ou melhor, vocá- 
bulos citados, e que na realidade significam «pau-ferro», são ma- 
laios e não chineses : Jcáiic, « pau » , e bési, « ferro » . 

Voltando ao chá, a primeira menção desta bebida, vemo-la 
feita, na Europa, por Frei Gaspar da Cruz -, por estas palavras: 
— « Qualquer pessoa ou pessoas que chegara a qualquer casa de 
horaem lirapo tem por custume ofereceremlhe em húa bandeja ga- 
lante húa porcelana, ou tantas quantas sara as pessoas, cora húa 
agoa morna a que chamam Cha, que he tamalavez verraelha e 
mu}^ medicinal, que elles custumara a beber, feita de hú cozi- 
mento de ervas que amarga tamalavez»—. 

Note-se que o curioso frade ainda não conhecia a palavra 
chávena, visto que lhe chama porcelana 

A propósito de chávena direi ainda que hoje se confunde 
com chicara, mas que dantes não era assim. Ainda na rainha 
raocidade a chávena servia para se tomar o chá, era um vaso 
mais baixo que alto, alargando para a boca, e não tinha asa; 
pela chicara tomava-se o café, e esta era mais estreita, de forma 
cilíndrica, com asa, como as de agora. 

A chávena chinesa tem dois pires: um era que assenta num 
largo orifício circular, aberto no meio, onde encaixa a base da 
chávena, e outro cheio com que esta se cobre, sorvendo-se a be- 
bida por entre êle e a chávena, aos golinhos. 

Bluteau ^ define chávena, que escreve chavana, sem dúvida 
a forma mais antiga, do seguinte modo: — «Palavra da Índia. 
É como meia chicara» — . Isto confirma em certo raodo o que 



1 cap. xcv. Ediç<ão rolandiana, Lisboa, 1829. 

2 Tratado da China, cap. xiii, Lisboa, 1829. 
8 Vocabulário portuguez e latino. 



i 



Apostilas aos Diciojiários Portugueses 



acima eu disse, que os aparelhos do chá, talvez uos viessem da 
iudia ; e como é sabido, ainda actualmente chamamos à porcelana 
«louça da índia». Quanto a chícara, é palavra, segundo dizem, 
mexicana, e Bluteau, que a mencionou na definição de chávena, 
omitiu-a no corpo do Vocabulário e no Suplemento. 

Cumpre advertir (\\iq bule, como termo de jíria, com a sig- 
nificação de «ânus», é o calo bui (q. v.). 



chacina 

Júlio Cornu ^ dá-nos como étimo deste vocábulo o latim 
siccina { siccus, «seco», o que não parece muito acertado, 
apesar de o douto romanista o declarar manifesto (offenbar). 
D. Carolina Michaelis de Vasconcelos "^, para adoçar a pílula, 
admite a influencia do nome próprio Chacim, vila da província 
de Trás-os-Montes, onde, consoante a informação de um proprie- 
tário instruído e idoso da mesma província, nos diz que se pre- 
para muito bem a carne de porco salgada e fumada. Assim será, 
mas nada com isso adeantámos: — 

Coll'i ali egro fanci.ul porgiamo aspersi 
Di soave licor gli orli dei vaso ; 
Succhi amari ingannato intanto ei bevc. 

Não ponho aqui o remate da formosa estanca de Torquato 
Tasso, por não ter aplicação ao caso sujeito, segundo me parece ^. 

Conforme o Novo Diccionáeio chacim significa «porco», 
faltando abonação do termo. 

Em castelhano existe o vocábulo cecina, com significação pa- 



1 Grundriss dkr romanischbn Philologie, Estrasburgo, 1888, i, 

2 Revista Lusitana, iii, p. 139. 

3 «E dair inganno suo vita riceve> — Gbrusalemme liberata, i, 3. 



276 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

recida, e cujo aspecto mais se conforma cora o étimo apontado 
siccina: secina: cecina, por assimilação da inicial da 1.* sílaba 
à da 2A 

Cornu dá como forma intermediária hipotética sachina, de 
que chacina seria metátese nas consoantes das duas primeiras 
sílabas; mas não explica como é que de cci latino proveio chi, 
fenómeno tanto menos admissível, quanto. para o castelhano ce- 
cina resultou dele ci, como era de esperar. Cumpre ainda adver- 
tir que este fenómeno estaria em circunstâncias muito diversas 
das que se deram em chuchar j ex-suctiare, pois neste houve 
assimilação da inicial da 2.*"^ sílaba à da l.'"^. 

Acresce ainda outra singularidade, a conservação de n puro, 
anormal (cf. uinum, castelhano vino, português vinho, mas an- 
tes vío), visto que os vocábulos citados por Cornu para confir- 
mação, bovina e ovina, nunca foram nem são evolutivos ou 
populares. Siccina daria secinha. 

E de notar, apenas talvez como ementa, que a terminação 
-ina, ora tónica, ora menos frequentemente átona, serve nas lín- 
guas esclavónicas para de nomes de animais se formarem subs- 
tantivos femeninos que designam a carne deles, como, por exem- 
plo, em russo baranina, « carne de carneiro » j baran, svinína, 
«carne de porco» { sviniá. 

Para que tal terminação seja a que vemos em chacina, fora 
necessário, porém, explicar satisfatoriamente o radical, e encon- 
trarmos palavra análoga em qualquer dialecto italiano oriental, 
pelo qual pudéssemos justificar a transmissão. 

Averiguado, como me parece estar, que o cecina castelhano 
proveio do latim siccina, insistamos um tanto nas significações 
de cecina e de chacina, para nos certificarmos se são, ou não, 
idênticas. 

O castelhano, conforme o Dicionário da Academia *, é assim 
definido: — «Carne salada, enjuta y seca ai aire, ai sol, ó ai 
humo» — . Deste substantivo derivou-se um verbo, acecinar: — 



Madrid, 1899. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 277 

« Salar las caraes y ponerlas ai humo y ai aire para que enjutas 
se conserven> — ; e figuradamente: — «Quedar-se uno, por vejez 
ú otra causa, muy enjuto de carne» — . 

O substantivo chacina português é assim definido por Blu- 
teau * : — « Postas de carne salgada, que se guardam, e se con- 
servam em pipa, tonel, ou outros vasos» — . Deste se deriva um 
verbo, chacinar, que Bluteau diz significar: — «Salgar pedaci- 
nhos ou postas de carne, e polias em sal de conserva» — . Não 
nos apresenta sentido figurado no verbo; mas no nome acrescenta: 
— «Fazer chacina em alguém. Fazello era postas» — . 

No verbo chacinar dá-nos uma abonação: — «Em que cha- 
cinão, e defumão todas as sortes de caças e carnes» — . 

Há, como se vê, grande diferença no^ significados. Cecina, 
em sentido natural, quere dizer «carne seca por qualquer pro- 
cesso, para se conservar » ; chacina, « carne cortada e salgada, 
mas não, seca, note-se, único fundamento ideolójico com o qual 
lhe poderíamos racionalmente atribuir o étimo proposto, siccina 
de siccus. Em sentido figurado diferem igualmente as significa- 
ções: do vocábulo castelhano deriva um verbo que expressa a 
idea de «definhar-se, mirrar», «perder carnes»; do português 
outro, que expressa o contrário deste, convém saber, «fazer ma- 
tança, carnificina». 

Depois de todas estas ponderações concluo: 

1.° Cecina, castelhano provém de siccina. 

2° Chacina deve ter outro étimo, que exclua a idea de 
«secar». 

3.'' Chacim, como nome próprio, procede de chacim «porco», 
ou deu-se o caso contrário, é do nome próprio que resultou o 
comum. 

4.° E duvidoso que chacina tenha relação com chacim, na 
segimda hipótese; presumível na primeira. 

õ.° Resta averiguar qual seja a etimolojia de chacim, se na 



Vocabulário portugubz e latino. 



"278 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

realidade tem a significação que lhe dá o Novo Diccionábio, 
visto não estar ali abonada. 

6.° O vocábulo chacina é de orijem ignorada. 

chafardel 

O Novo Dicc. dá-nos esta palavra como transmontana, com 
a significação de safardana, que no lugar competente define 
« biltre » . 

Em sentido muito diverso deste, isto é, no de «rebanho», 
vemo-la empregada, como própria do Alentejo, no seguinte passo: 
— «um chapeo de terra [terreno pouco espaçoso], que não lhe 
cabe dentro um chafardel de ovelhas» — K 

chafarica, chafariqueiro 

O Novo DiccioNÁEio dá ao primeiro destes vocábulos duas 
acepções: — «loja maçónica; baiuca, taberna» — . Subordinado à 
segunda acepção é o termo chafariqueiro no passo seguinte: — 
«Porto, 11. Com o título Apprehensão de vinho falsificado 
— Prisão, lê-se na Voz Publica o seguinte: — «o visinho partiu 
para o Porto, e voltou pouco depois trazendo um chafariqueiro 
emérito. . . » — ^. 

Neste sentido usou-se mais recentemente mistureiro : — «a 
protecção que está resolvido a dispensar aos falsificadores e mis- 
tureiros» — ^. 



1 J. S. Picão, Ethxographia do Alto-Albmtejo, in Portugá- 
lia, i, p. 275. 

2 O Economista, de 12 de junho de 1S94. 
8 O Dia, de 14 de novembro de líK)2. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 279 



chalar-se 

E termo de jíria, que quere dizer « escapulir-se » . É uma 
forma pronominal que nos veio do calo chalar « andar >. 



chama 

O significado especial deste vocábulo em Cezimbra vê-se do 
seguinte trecho: — «elles [os pescadores de Cezimbra] correram 
sobre ella [a força militar] insultando-a, e munidos de chamas 
(pequenos paus) parecia quererem envolver a força» — ^ 



chamada 

Em Leiria, conforme informação do snr. Acácio de Paiva, 
quere dizer «braçado de lenha, que se deita no forno»: — «com 
mais esta chamada fica o forno quente» — . E um derivado, me 
parece, de chama, «labareda», pela que ateia abrasando-se. 



chambo 

O mesmo que hangue, «cânhamo», na Africa Oriental Por- 
tuguesa: — «Fumam com delicia e sofreguidão o chambo, a que 
no sul se dá o nome de bangue» — ^. 



1 O Século, de 15 de abril de 1900. 

* Azevedo Coutinho, A campakha do Barué, in t Jornal das Coló- 
nias >, de 30 de julho de 1904. 



280 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



chamiça, chamiç.o, chamiceiro; chafurdo 

Chamiça, conforme o Novo Diccionábio, tem vários signi- 
ficados, e entre eles o de «carqueja». Chamiço é ali definido 
como — «acendalhas; lenha miúda; ramos secos; tição» — . Cha- 
miceiro — «aquelle que apanha e vende chamiço» — . 

Na Beira-Baixa (Fundão) chamiceiro é «o fogueiro que 
mete a lenha no forno » . 

Poderia aplicar-se este termo, ampliando-lhe a significação, 
para denominar o que em francês se chama chauffeur, nos auto- 
móveis, e que o povo, meio a sério, meio gracejando, já apor- 
tuguesou em chafurdo: — «Emquanto eu ia entretido com o 
travão [do automóvel] o chafurdo entretinha-se a gritar que se 
arredassem» — ^ 



chamo, chamariz 

— «Os reclamos naturaes, chamarizes ou chamos, como bem 
se comprehende, não passam de uma ave da espécie d'aquella 
que se vae caçar, e que pelos seus pios ou canto . . . attrae a 
outra que a ouviu» — 2. 

V. reclamo. 



chamuar(e) 

— « Chamuares ou amigos fechados; rapazes da mesma po- 
voação e idade, que vão juntos a todas as emprezas perigosas, e 
que na guerra se não abandonam. São os chamuares que trans- 



1 O Século, Supplemento, de 4 de julho de 1905. 

2 José Pinho, Ethnographia Amarantina, A Caça, in Portugá- 
lia, 11, p. 95. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 281 



portam o ferido em combate . . . e que o enterram quando morto, 



longe do lugar do combate > 



.1 



chana 

Esta forma, estranha em português, pois o femenino de 
(hão { planum é chã, antigo chãa, é definida como significando 
— «planicie ou campina alagada, em Africa» — , num ofício, 
assinado por Capelo e Ivens, expedido da cidade do Cabo à 
Sociedade de Geografia de Lisboa, com data de 22 de julho 
de 1885. 

E, pois, mais um alótropo para juntar aos muitos que existem 
em português, e teem por fonte primordial o latim planum. 
Formam diferentes séries, que seria longuíssimo coordenar com 
todas as formas derivadas e suas variadas acepções. Essas séries 
distinguem-se pelas iniciais, que aqui vou apresentar, exemplifi- 
cando cada uma com um vocábulo típico: 






:3 



forma mais 


antiga 


eh: 


chão 


posterior 




pr: 


prão, pràmo 


secundária 




por 


: porão (q. v.) 


recente 




pi: 


plano 


castelhana 




Ih: 


lhano 


italiana 




pi: 


piano 



changaço 

Yj a parte do atum menos apreciada para cozinhar, isto é, a 
cabeça e o rabo. O termo é muito conhecido dos pescadores, 
pexeiros e gente que negoceia em atum. O changaço vale sem- 
pre menos que as outras partes do atum, mais estimadas. 



* Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1902, m < Jornal 
das Colónias >, de 19 de agosto de 1905. 



282 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



chapa; chapada 

Qualquer que seja a orijem deste vocábulo, no sentido de 
«lâmina metálica, folha delgada e chata», e cujo étimo mais pro- 
vável é um klap, ou plak germânico; com o significado especial 
de «ordenança, permissão, ordenação, prescrição», é termo asiá- 
tico, devendo ser o indostano c'a/9 «selo, sinete» — . «A chapa 
se foi publicando por todo o reino» — K Chapado queria dizer 
« assinalado » . 

Como termo de calão moderno chapada, significa « bofetada > : 
— «Vês aquelle gajo? Já em tempos me deu mndi chapada * — -. 

No sentido de «planície alta», o vocábulo figura em todos 
os dicionários. 

chapéu, chapei, chapelada 

Qualquer dos dois primeiros é de orijem francesa, representan- 
do o primeiro a forma chapeau, actualmente pronunciada xapô, 
porém na idade média lida como chapéu; o segundo, outra forma 
da mesma palavra (cf. heau e hei), provindo ambas do latim 
capellum, deminutivo neutro de cappa, como cappela é de- 
minutivo femenino. A primeira forma é hoje corrente para desig- 
nar «cobertura da cabeça, com forma e abas»; a segunda designava 
um «elmo», como vemos no Suplemento ao Novo Diccionáeio, 
que aponta vagamente abonação. 

A noção de que, a par de chapéu, havia a forma chapei 
prova-se com os derivados chapeleira, «caixa para chapéus», 
chapelmho, «chapéu pequeno», chapeleiro, «fabricante ou ven- 
dedor de chapéus», chapelada, «cortesia com o chapéu». 

Este último derivado é usado frequentemente num sentido 
que os dicionários não apontam: «masso de listas, deitadas frau- 



1 A. Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 
1894, p. 104. 

* O Século, de 10 de setembro de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 283 



dulentameute na urna, no acto eleitoral, pela autoridade que a 
êle preside»: — «A parte os sucessos. . . como chapeladas, uo 
dizer do argot eleitoral» — ^ 

O chapéu tem diversas formas, e é feito de várias substân- 
cias; e conforme umas e outras adquire epítetos pelos quais um 
chapéu se diferença de outro, pelo nome especial que lhe dão. 
Deste modo há chapéu alto, ou de copa alta, mais ou menos ci- 
líndrico: chapéu de coco, que na Ilha da Madeira se denomina 
chapéu de queijo; chapéu à serrana, duro e com largas abas 
reviradas; chapéu de pasta, «o que por meio de molas se pode 
fechar, licando o tampo unido às abas » ; chapéu armado, « o de 
dois bicos», isto é duas pontas da aba; chapéu de três bicos, 
«o que tem abas triangulares», etc. 

Chapéu designa também «abrigo, resguardo», e nesta acep- 
ção dizemos chapéu de chuva, chapéu de sol, que dantes se cha- 
mava sombreiro, objecto que provavelmente importámos da índia, 
da China ou do Japão, onde eram e são muito usados. 

Emíim, é este um dos vocábulos franceses que desde tempos 
muito remotos se aportuguesou e difundiu mais fértilmente, pois 
produziu grande número de derivados. 

Também foi usado em castelhano, como vemos neste retrato 
de um valentão espanhol: 

— Calo el chapeo, requirió la espada, 
Miro ai soslayo, fueso, y no hubo nada — . 

Esta pintura fidelíssima lembra outra do pimpão português, 
de quem Eduardo Garrido disse na cena cómica, representada 
em 1864 por José Carlos dos Santos, A Bengala: 

— Homem bulhento em cafés, 
Que a toda a gente arremete 
Que rapa do casse-tête. . . 

E apanha dois pontapés — . 



O Século, de 28 de novembro de 1900. 



284 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Outro vocábulo francês derivado do mesmo radical é chape- 
ron, que deu em português chapeirão, em castelhano chapirón *, 
com a significação de « capuz » : 



— Ao ombro um chapeirão, 
Que pasmava todo o povo — *. 



charabasco, cbarabasca, charavasca, charabasqueira, 
charaviscal; chavasco, chavascal, achavascado 

Os primeiros quatro destes vocábulos, conforme o Novo 
DiccioNÁBio e Suplemento dele, designam, como termos trans- 
montanos, «terra de pouco valor ou estéril». O último está 
definido na monografia de J. S. Picão, Ethnographia do Alto 
Alemtejo, no seguinte passo: — «Ha herdades muito grandes, 
medianas e pequenas. Entre as maiores, algumas conhecem-se 
pelo augmentativo de defeza, ou por tal se denominam quando 
se querem engrandecer. As pequenas distinguem-se pelo dimi- 
nutivo de malatécafi ou charaviscáes, quando por ventura se 
pretende amesquinhal-as » — ^. 

Vemos aqui o vocábulo defesa \ latim defensa, caste- 
lhano antigo defesa, moderno dehesa, sem o abrandamento do 
/ em V, que se deu na forma geral devesa, como aconteceu com 
ávrego \ Africus (uentus), e com Estêvão \ Stephanus. 

Ignoro a orijem da palavra charavasco; mas vê-se que cha- 
rabasco é nortismo, com mudança de v em i, por não existir v 
nos dialectos transmontanos. 

Há certa analojia de forma entre estes vocábulos e chavasco, 
chavascal, de que apenas se diferençam na sílaba ra que teem a 
mais, sendo quási conformes no sentido, visto que chavasco quere 



1 Ebvur Hispanique, X, p. 172. 

2 Bernardim Ribeiro, Écloga ii. 

3 m Portugália, I, p. 275. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 285 



dizer «tosco», e chavascal, «terreno inculto, cheio de hervas, 
moitedo > . Em castelhano existe o adjectivo chabacano, « gros- 
seiro, achavascado * , e em calo, ou dialecto cigano de Espanha, 
chacán, com a significação de « herva » . Parece haver relação 
entre todos estes vocábulos; porém falta explicar por que leis se 
foram modificando até chegarem à forma mais extensa portu- 
guesa, charaviscal. 



-charachina = eh ara China 

Esta locução é peculiar das Pebeobinações de Fernám 
Méndez Pinto, e ainda não foi, que eu saiba, rejistada em dicio- 
nários portugueses. Ocorre várias vezes naquela formosíssima 
obra, e nomeadamente nos capítulos xlvii, lxii, sem explica- 
ção, e no cap. lxxvii por forma, que o seu significado fica 
manifesto — «abraçandoo então e pedindolhe muitos perdões ao 
seu modo, que eles chamam de charachina» — . 

Ora, como no cap. clxv o autor,^ em vez desta locução, usa 
de uma equivalente, — ao modo da China — ^ e no cap. cci em- 
pregou estoutra locução — à eh ar a Japão — , segue -se que a voz 
chara significava «modo», ou, como hoje diríamos, «moda»; que 
China não é adjectivo femenino concordando com chara, mas 
nome próprio, como Japão, e que a construção em português é 
defeituosa, pois se elidiu a preposição de que a sintasse pedia, 
como aconteceu em Madre-Deus por Madre-de-Deus, mas sem 
a haplolojia, ou simplificação da repetição consecutiva de d, que 
a justificasse. 

Quanto ao substantivo chara, que, como disse, ainda não foi 
admitido nos dicionários portugueses, é êle simplesmente o ma- 
laio tara, «feição, feitio», sendo a supressão da preposição sin- 
tasse malaia. 



1 António Francisco Cardim, mais culteranamente, diz — «ao modo sí- 
nico» — . Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 45. 



28G Apostilas aos Dicionários Portugueses 

O f palatal malaio, quási ti (tiara), foi imitado cora o eh 
português, geral então, e ainda lioje beirão, minhoto e transmon- 
tano, quási tx, como é sabido. Assim representaram os portu- 
gueses sempre as consoantes explosivas fortes, palatinas nos vocá- 
bulos e nomes asiáticos pertencentes a línguas que as possuíam, 
como as da índia, o chinês, o japonês, etc. 

Exemplos do malaio tara, citados no vocabulário malaio-fran- 
cês que constitui a 2.^ parte do Curso de malaio de Leôncio 
Richard ^ são os seguintes: tara rada ioxti besar, «a modo de 
príncipe» [literalmente, «modo (do) príncipe, que (é) grande >]; 
tara ioigris, «à (moda) inglesa», este último perfeitamente aná- 
logo ao usado por Méndez Pinto, e por êle aportuguesado, 

Camões, nos Lusíadas -, empregou modo no mesmo sentido, 
porque moda ainda então não era moda cá. 

Vestido o Gama V3m ao modo hispano, 

Por aqui se vê que não tem fundamento a conjectura expressa 
no Glossário de Burnell & Yule '^\ que relaciona esta locução 
com a saudação usual chinesa cin cin. 



charão, acharão, (a)charoar, acharoado 

O substantivo charão designa em português certo verniz da 
China, e os objectos de madeira com êle revestidos. E próprio 
da nossa língua, pois os outros idiomas europeus servem-se de 
várias formas do vocábulo laca, que designa em português outro 
verniz, mais da índia, e certa resina ou tinta. 



1 COURS THÉORIQUE ET PRATIQUE DB LA LANGUE COMMBRCIALE 
DE l'ARCHIPEL d'A8IE, DITE MALAISE, 1872. 

2 Canto II, 97. 

3 A Glossary of Anglo-Indian words and phrasbs, Londres, 
188G, p. 154. 



Apostileis nos Dicionários Portugueses 287 



A palavra uão é chinesa ou japonesa, como poderia supôr-se, 
pois existe em castelhano, charol, que também designa «verniz e 
puliraeuto». Outra forma portuguesa é acharão, que se lê no 
Tratado da China de Frei Gaspar da Cruz, cap. xiii: — «estes 
[sacerdotes] criam cabello e trazera-no no cume da cabeça, arre- 
matado cora um pao muito bem feito . . . envernizado de muito 
bom verniz, que chamam acharam» — . 

De charão se derivou o verbo charoar, e o particípio passivo 
deste vemo-lo usado por A. Francisco Cardim: — «bandejas cha- 
roadas e douradas» — . Da forma acharão tirou se acharoar, e 
ainda hoje dizemos folha acharoada ^. 

A título de curiosidade apenas, e porque talvez, para estudo 
mais detido do vocábulo charão e da sua introdução na litera- 
tura portuguesa, possa trazer alguma luz, apontarei aqui uma 
das inscrições de entre as cento e vinte de vocábulos chineses 
usados em malaio, admitidas por Aristides Marre, e é a seguinte: 
— « Tchat — Couleur broyée et détrempée avec de Phuile; tein- 
ture, vernis de bois employé par les Chinois et qui provient de 
Tarbre nommé rèngas en malais» — ^. 

Reunindo os dois chat-rengás, com a supressão do t, obtém-se 
charengás : mas desta palavra composta vai uma distância 
enorme à forma charão, que é, repito, inseparável da castelhana 
charol. 

Note-se ainda que tarana em malaio quere dizer «bandeja», 
e que o mesmo significado tem charol na Bolívia : — « Nuestras 
bandejas son en castellano fuentes [travessas], nuestros charoles 
son bandejas» — ^. 



1 Batalhas da Compaxhia de Jesus, Lisboa, 1894, p. 80. 

2 Mélanges Charles de Harlez, Leida, 1896, p. 193. 

" K. J. Cuervo, Apuntaciones críticas sobre el lenguaje bo- 
GOTANO, Bogotá, 1881, p. 376. 



288 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



charola 

Além dos dois significados principais deste vocábulo, já apon- 
tado nos dicionários portugueses, o de «andor», e o de — «corre- 
dor semi-circular entre o corpo da igreja e a fábrica do altar- 
-mor» — *, indicarei aqui mais o seguinte, que sem dúvida provém 
do primeiro citado. 

Na ilha da Madeira denomina-se charola um cargo ou fôrmii 
alta guarnecida de frutas, hortaliças, doces, ovos e garrafinhas 
de vinho, que figura nos arraiais, ou impérios (q. v.). 

Bluteau, no Suplemento refere-se à charola cuberta com 
— «papel, ou papelão, ao modo de arco, ou abobeda com suas 
varas atravessadas, em que lhe pegavam os rapazes, e com ella 
andavão pela Quaresma cantando cantigas da Paixão, porque leva- 
vão na charola imagemsinhas de barro da Paixão de Christo» — . 

Era também um arremedo de andor. 



chaspa 

Em Trás-os-Moutes é uma espécie de panela ou tacho, com 
tampa, baixo e largo. Ali dá-se o nome de panela à que tem 
três pés, para se lhe acender lume por baixo, ao contrário da 
chaspa, que assenta na fornalha e não tem pés. 



chau 



E palavra chinesa, e como vemos do trecho seguinte, expressa 
saudação: — «disse a Aquileu que queria chão (que é fazer as cor- 
tesias de vasalo a rei, que são bem enfadonhas) > — -. 



1 Bluteau, Vocabulário portuguez b latino. 

2 Batalhas da Companhia de Jesus, p. 45. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 289 



cheiro, cheiros 

Este substantivo, do verbo cheirar \ flagrare, que é ora 
transitivo no sentido de «tomar o cheiro», ora intransitivo, no 
de «deitar cheiro», tem duas acepções que os dicionários não 
rejistam bem. 

Assim o Contemporâneo só no plural dá o vocábulo com a 
significação de «substâncias aromáticas», quando em tal sentido, 
o vemos empregado no singular pelo Padre António Francisco 
Cardim : — « queimou cheiro » — ^ 

No plural significa êle, em Lisboa pelo menos, quatro hervas 
aromáticas empregadas como tempero na cozinha portuguesa, 
isto é, salsa, coentro, hortelã e segurelha, e diz-se uvi ramo de 
cheiros. 

A estas plantas parece referir-se Gil Vicente no Velho da 
HoETA, ora no plural, ora no singular: 

— Vinha ao vosso hortelão 
Por cheiros para a panela — . 

— a couve e o cheiro — 

O Novo DiccioNÁEio dá ao singular cheiro a significação 
de — «salsa, hortelan, ou qualquer outra erva aromática, de 
applicação culinária» — ; mas, pelo menos em Lisboa, a definição 
é a que apontei. 

cheia 

Africa Oriental Portuguesa: «fazenda, tecido» -. 



1 Batalhas da Companhia de Jesus, p. 236. 

2 Diocleciano Fernández das Neves, Itinerário de uma viagem á 
CAÇA DOS ELBPHANTES, Lisboa, 1878, p. 203. 

19 



290 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cheminé, chaminé 

A forma popular e mais exacta cheminé encontra-se num 
documento do xvi século: — «liúa antecâmara grande que tem 
húa cheminé. . . húa janela grande peguada com cheminé» — ► 
Antes, no mesmo documento, uma variante, também popular no 
norte do reino: — «húa sala pequena com chomine» — ^ O o 
provém do m que se lhe segue. A forma hoje corrente chaminé 
é devida a influência da palavra chama; porém a forma popular 
cheminé está mais próssima do seu étimo, o francês cheminée. 



cherelo (= cherêh) 

No Minho dá-se este nome a um peixe pequeno, que parece 
corresponder ao que no sul se chama carapau. 



cherundo 
África Oriental Portuguesa: «cesto» -. 

chicopa 

Termo da África Oriental Portuguesa: — <i^chicopas — An- 
gonis armados de azagaia e escudo de couro ou de palha entre- 
laçada» — ^. 



1 Auto de posse do castelo de Sines, de 24 de novembro de lõ3:í, in 
O Archbologo português, X, p. 101. 

2 Diocleciano Fernández das Neves, Itinerário de uma viagem á 
Caça dos elephantes, Lisboa, 1878, p. 26. 

8 Azevedo Coutinho, A campanha do Barué bm 1902, in «Jornal 
das Colónias >, de 30 de julho de 1904. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 291 



cbiciia, chicero, chituredo, coba (Marromeu) 

Espécies de cestos da Africa Oriental Portuguesa — «chitur 
vedo, chisseiro, coba, chicua (cestos)» — ^ 

Azevedo Coutinho - escreve f chicero. A forma preferível 
portanto, conforme a escrita usual portuguesa, será chicero. 



chicuangué 

Incluo aqui esta palavra, sem saber ao certo a que idioma 
africano de negros ela pertence, qual a sua pronúncia (gchicuan- 
gué, chicuangu-é?) e qual a sua lejítima escrita Qchicuangué, 
xicuangaé?). No caso de que o w se profira depois do g, melhor 
fora escrevê-la em português chicimngoé, ou xicuangoé, con- 
forme o som inicial seja o eh beirão e transmontano (quási tx), 
ou o X inicial, de xadrez, por exemplo. 

Encontrei-a definida no seguinte passo : — «A base da alimen- 
tação do indigena na maior parte do Estado do Congo, e também 
no nosso enclave de Cabinda, é a farinha de mandioca ou chi- 
euangué» — ^. 

Note-se o galicismo inútil enclave, pelo qual podemos dizer 
encrave, ou nesga. 

chieira 
No Porto quere dizer «vaidade, basófia». 



1 ib. 4 de julho de 1903. 

2 ib. 

3 Gazeta das Colónias, de 16 de dezembro de 1905 



292 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



chila (caiota), gila 

O Novo DiccioNÁEio apresenta as três formas, que escreve 
chila, chilacaiota e gila, referindo à primeira as outras duas; 
não apresenta etimolojia. No perfeitíssimo Diccionário de vozes 
chilenas, de Eodolfo Lenz, que se está publicando S encontramos 
o termo acayota como usado no Chile. Eis o que acerca dele nos 
diz o douto filólogo: — «alcayóta, n. vulg. de una cucurbitácea 
mejicana cuyos frutos sirven para la preparacion de un dulce; 
el cidracayote (Dicc. Ac. cidra acayote) de los espanoles (Cucur- 
bita ficifolia Bouché). Vaeiantes: acayota en Gay, Bot. viii 
e II 403. Forma falsa: alcajota Gay Agr. ii 112; ortografia falsa: 
acallota. Etimolojia: Segun Philippi, Anales dei Museo Na- 
cional, seg. seccion 1892, dei nahuatl tsila cayotti. . . segun 
Eamos 532, en Méjico se dice chilacayote, dei azteca tzila 
cayotli > — . 

Cumpre advertir que nahuatl e azteca são a mesma língua, 
e ainda, que as palavras mexicanas são idênticas, mas com di- 
ferente ortografia, sendo o fe e o ts iguais a tç, e os dois tt da 
primeira denominação erro tipográfico em vez de ti da segunda, 
que em mexicano é suficso de unidade, e se profere como um t 
lateral, seguido de l sibilante surdo, sem vogal intermédia. 

O nome desta casta de abóbora, hoje completamente acli- 
matada em Portugal, veio para cá de Espanha, naturalmente 
como fruto, trazido do México. Vê-se que devemos escrever 
chila-caiota em duas palavras. 

Quanto à forma gila, principalmente usada em Lisboa, é 
provável que seja eufemismo, adoptado para se evitar o verda- 
deiro nome chila, que aí adquiriu o significado de «excremento 
humano», acepção que falta nos dicionários. 



1 Diccionário etimolójioo de las vooes chilenas derivadas 
DE línguas indíjenas AMERICANAS, Santiago de Chile, 1904-1905, i 
fase, n.° 15. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 293 

Na ilha da Madeira, conforme informação do snr. João de 
Freitas Branco, o nome da abóbora com que se faz o dito doce 
é moganga, ou trivialmente hoganga, que tem aspecto africano; 
aplicando-se a denominação cJiila caiota, ou simplesmente chila, 
línicamente ao doce. 

Em Lisboa também se lhe chama abóhora-chila, e abóbora 
moganga. 

chimabanda 

Termo da Africa Oriental Portuguesa: — <Faz ainda parte 
do mobiliário a chimabanda (pilão) onde as mulheres reduzem 
a farinha a mapira, e a mapira-manga, as pedras chatas e planas 
em que pelo attricto é polvilhada a mexoeira, das quais a infe- 
rior e fixa tem o nome de limbué, e a superior e movei se chama 



m£nacana > 



.1 



V. mapira e mexoeira. 



chincha, chinchorra 

— < As bateiras chinchorras, assim chamadas por serem . . . 
as que mais se usam para o lançamento da chincha, teem, como 
os moliceiros, a particularidade de ser ornamentadas, á proa e á 
ré, de varias pinturas e emblemas* — -. 

Chincha foi, algumas linhas antes, explicado como — «rede 
de arrastar pequena» — . 



1 Azevedo Coutinho, A Campanha do Barué em 1902, m «Jornal das 
Colónias >, de 3C de julho de 1904. 

* Luís de Magalhães, Os barcos da ria de Aveiro, in Portugá- 
lia, II, p. 60. 



294 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



chincho, chincha 

Nos Açores significam « menino e menina, pequenos » , e tam- 
bém «cousa pequena». 

Em Aveiro chincha, que deve ser outro vocábulo diverso, é 
o nome de uma rede, e também, ao que parece, de certo barco 
de pesca. 

chingue 

No Bailundo: — «chingues são casas pequenas» — K 

chipapala 

Quadrúpede da África Oriental Portuguesa, assim descrito 
por Diocleciano Fernández das Neves: — «Qualidade de animaes 
a que os landins chamam chipapala. Observados de longe parece 
[sicj um boi, e eífectivamente os chifres eram exactamente como 
os deste animal. O cabello da pelle era côr de castanha e curto 
como o dos bois e tinha a crina á similhança dos cavallos, porém 
mais, curta. O focinho e as patas eram como os do veado > — '. 

chiqueiro 

Esta palavra é definida nos nossos dicionários como «pocilga, 
lugar onde se recolhem porcos > — . 

Todavia, pelo menos no Alentejo, o significado é mais res- 
trito, como se vê da explicação que do termo dá J. da Silva 



1 O Dia, de 29 de junho de 1903. 

' Itinerário de uma viagem á caça dos elbphantbs, Lisboa, 

1878, p. 280-281. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 295 



Picão, na Etnogbaphia do Alto-Alemtejo : — «chiqueibo. — 
Curralorio que encerra dois ou três porcos adultos para se irem 
engordando a pouco e pouco com os sobejos das comidas . . . 
etc. > — *. [V. choco]. 



chisca, chisco, chisquinho, chizinho 

O Suplemento ao Novo Diccionákio dá à primeira destas 
formas, como peculiar da Beira, o significado — «pequenina por- 
ção, gota» — , declarando haver sido colhida no Fundão, O se- 
gimdo, como termo algarvio, identifica-o com cisco, que define 
(ib.): — «aparas miúdas, lixo» — . No Porto, como é sabido, 
esta última acepção é a que corresponde a cisco j cinisculum 2. 
De cisco provém cisqueiro, que no Porto é o nome da pá (para 
a apanha) do lixo, a qual também se denomina apanhador. 

Conforme os meus apontamentos, chisca, chisco e chisquinho 
significam todos três «pedaço pequeno». 

O mesmo Suplemento acrescenta mais outra forma beirã, chi- 
zinho, com o mesmo significado de «porção pequena». 



chitão, chitom 

A primeira forma é mais portuguesa, a segunda está mais 
perto da sua orijem, a locução francesa chui donc! «caluda!», 
e é este o significado que teem, ou antes, tinham, porque estão 
quási fora de uso. Foram porém bastante vulgares, e tanto que 
com a primeira se formou um adájio: — «Com el-rei e a Inquisi- 
ção, chitão» ! — ^. 



1 t» Portugália, I, p. 545. 

' D Carolina Michaélis de Vasconcelos, in «Eerista Lusitana», ui, 
p. 140. 

3 Francisco Adolfo Coelho, A Pedagogia do povo português, in 
Portugália, i, p. 492. 



296 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



choco (=ch6ço) 

E um masculino deduzido da forma femenina choça \ latim 
plútea ^ adjectivo substantivado, designando «armação, an- 
daime, ripado», e cujo ú nos leva a crer que mesmo a forma 
femenina se pronunciasse dantes choça, a não ser que a primitiva 
haja sido a masculina, derivada do neutro pluteum, do mesmo 
adjectivo, substantivado. Cf. poço, poça. 

Choco no Alentejo tem significação particular, que se deduz 
do seguinte trecho da Ethnographia do Alto-Alemtejo, de 
J. da Silva Picão ^ — «O chiqueiro [q. vj abrange o espaço de 
uns vinte metros quadrados, em parte resguardado por uma 
alpendrada ou choco, onde se abrigam os cevões, nome especifico 
por que se designam os suínos assim sustentados [com sobejos 
de comida] » — . 



choramingas, choramigas 

Parece-me fora de duvida que a primeira destas formas é a 
con*ecta, e a mais popular, quer o seu étimo seja chorame, como 
pretende D. Carolina Michaélis de Vasconcelos, quer chora-min- 
gas, por chora-mínguas, que me parece mais provável. 



choupa, choupo 

Talvez as verdadeiras formas sejam chôpa, chõpo \ clúpea, 
clúpeum. 

Em três significados dá o Novo Diccionabio a forma feme- 



* Kevista Lusitana, ii, p. 37: J. Leite de Vasconcelos; mas já antes 
dado por Frederico Diez. 

* Eevista Lusitana, iii, p. 135. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 297 

nina: a) — «ponta de ferro ou aço; b) peixe esparoide; c) árvore 
semelhante ao choupo» — . 

A terceira acepção é o latim pop'lus, por metátese, plopus. 
Na 2.* acepção é o latim clupea, com o mesmo significado. 
Exemplo da forma masculina na 1.* acepção é o seguinte: — 
« Elvas, 20 . . , Foi isto o bastante para que lhe cravasse ... no 
peito um choupo que trazia» — ^ 

choutar 

Conforme J. J. Núnez, do latim t(o)lutare -: seria pois o 
mesmo vocábulo que trotar. 

chuá 
— «Onde mora o chuá ou governador [no An ame] » — ^. 

chuanga 

— « Chuanga é o preto que apresenta os contendores a quem 
resolve as questões, e resume as suas exposições: na Baixa-Zam- 
bezia é interprete» — *. 

chucharrão, chocharrão 

Sendo ignorada a orijem deste vocábulo dialectal, é incerta a 
sua escrita : — « Levado pela curiosidade, fui examinar um montão 



* O Economista, de 22 de outubro de 1892. 

* Revista Lusitana, iii, p. 28õ. 

' António Francisco Cardira, Batalhas da Companhia de Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 68. 

* Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1902, in «Jornal 
das Colónias >, de 13 de agosto de 1904. 



298 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



de pedregulhos que o pastor me indicou, e que era escoria (chu- 
charrões, dizia) havendo indicios de ter ali havido algum forno 
para derreter minério, o que se explica porque a pequena dis- 
tancia ha um filão, não sei de que minério, dando-se ao sitio o 
nome de Ferrarias» — ^ 

Em castelhano existe o vocábulo chicharrón, que parece pela 
forma ser aumentativo de chicharro, ou chicharra, «cigarra», e 
que o Dicionário da Academia- espanhola ^ define do seguinte 
modo: — «(voz imitativa dei ruido de freir) Kesiduo de las pellas 
dei cerdo, depues de derretida la mauteca. Dícese también de 
la manteca de otros animales y dei sebo. // fig. Carne ú otra 
vianda requemada. // fig. y fam. Persona muy tostada por el 
sol» — . Corresponde nos dois primeiros sentidos ao que chama- 
mos torresmos. 

Para confirmar o parentesco do vocábulo português chu- 
charrão com ' o castelhano chicharrón, vemos que a palavra 
pella, que entra na primeira definição deste, além do signi- 
ficado natural, que tem, de «banha de porco em rama», 
adquire também, conforme o dicionário citado, os de — «Masa 
de los metales fundidos ó sin labrar — Masa de amalgama de 
plata que se obtiene ai beneficiar con azogue minerales argen- 
tíferos » — . 

O termo dialectal chucharrão, ao que parece mais usado 
no plural, corresponde portanto ao termo mais geral escur 
malha. 

O primitivo chicharra designa em Espanha também o ins- 
trumento que em Portugal se denomina cegarrega. 

Ambos os termos parecem ter orijem onomatopaica, isto é, 
serão imitação do som. 



1 Joaquim Manuel Correia, Antiguidades do concelho do Sabu- 
gal, in <0 Archeologo português», x, p. 201. 

2 Madrid, 1899. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 299 



ctiiié(s), chué-chué 

Este adjectivo invariável, que significa « reles, de pouco preço, 
ruim», é conforme Júlio Moreira ^ confirmando o que Dozy 
propusera, o árabe chuié chuié [sic], xuaiE xuaiE, deminutivo 
de XAi, «cousa». 

A aceitar-se a etimolojia, a escrita deveria ser xué. 



chulo, chula, chuleira 

E termo castelhano, que em português como adjectivo adqui- 
riu o significado de « ordinário, brejeiro, quási obsceno » ; em caste- 
lhano, porém, designa « moço de matadouro ou de praça de touros, 
um tanto afadistado». No Século, de 23 de fevereiro de 1902, 
lê-se a locução à chula, «ao modo dos chulos, ou das chulas» : — 
«Ultimamente, vestindo com elegância umas vezes, e á chula 
outras, parecia regenerada» — . 

Chula é o nome de uma dança e de uma música popular, 
hoje provinciana. Viola chuleira é uma viola ordinária: — «Aqui 
o portuguez ao zãozão da viola chuleira» — ^. 

Conforme Dozy, chulo, chula é termo de ciganos, mas de 
orijem arábica xul, «rapaz». E duvidoso o étimo. 



chumbeira, chumbada 

Tanto o Diccionabio Contempoeaneo, como o Novo Dicc. 
dão a este vocábulo o significado de uma espécie de rede. 
Todavia, nos passos que vão ler-se qner êle dizer « peso de chumbo 
na rede » : — « São lançadas [as petisqueiras] em compridas coças 



1 Revista Lusitana, iv, p. 266. 

2 Alberto Pimentel, A princbza db Boivão, p. 44. 



300 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



[q. v.J, e aguentadas por bóias de cortiça e chumbeiras ^ — 
« tem pesos de chumbo, chumbeiras » — ^. 

No mesmo sentido de « peso de chumbo » é empregado no 
dito artigo outro derivado de chumbo, chumbada: — «A tralha 
superior tem fluctuadores de cortiça, e a inferior pesos de chumbo, 
chamados chumbadas^ — . 



churinar 

O Novo DicciONARio inclui este vocábulo como de jíria, 
com o significado de «esfaquear». Nunca o ouvi em Portugal, e 
é possível que seja simples aportuguesamento do francês chovy- 
riner, que na jíria dos malfeitores de lá tem a mesma significa- 
ção. A existir no calão português, é o calo espanhol churinar, de- 
rivado de churí, «faca», e que tem um nome de agente derivado 
do verbo, churinaró, «matador», ao qual corresponde o termo 
de jíria francesa chourineur, alcunha de uma das personajens 
do afamado romance de Eugénio Sue, Les mystkres de Pabis. 



chupão 

— «a chaminé ornamental de fuste prismático e adjunta a 
ella, caiada de branco, outra chaminé, de secção quadrada, a que 
chamam chupão em todo o Alemtejo e que tem por effeito reali- 
sar a tiragem que a chaminé ornamental não eífectua convenien- 
temente. 

Deve accrescentar-se ainda, que a tiragem por meio dos chu- 
pões é activíssima e por isso, ao passo que não deixa o fumo, 



1 P. Fernández Tomás, A pesca em Buarcos, in Portugália, i, 
p. 149. 

2 ih. p. 151. 



Apostilas aos I>icionário8 Portugueses 301 



arrasta o calórico de tal modo, que ainda no verão não aquece 
demasiadamente o compartimento em que se fogueia ■> — K 

Tanto o substantivo chupão, como o verbo foguear são vo- 
cábulos que merecem ser adoptados na língua comum, com os 
sentidos que aqui expressam. 



chus 



Este advérbio é antigo, do latim plus, e vemo-lo, por exem- 
plo, na Demanda do Santo Graal, — «e era muito leterado, 
mas a donzela chus» — -. Ainda hoje é usado na locução não distei' 
chus nem mus, ou bus. 

^Que tnus ou bus é este? 

Dois étimos se lhe podem atribuir, conforme se considere 
mais antiga a primeira ou a segunda forma. A aceitar-se iiius, 
poderia ser uma contracção violenta do latim minus, com des- 
locação do acento, e portanto pouco provável, existindo na língua 
o verdadeiro correspondente menos, que ainda assim não pode 
pertencer às orijens dela, atenta a conservação do n medial: 
(cf. ceia } cena). 

Outra explicação aplicável a bus seria que a frase fosse 
muito popular, e recebida em parte dos ciganos de Espanha, em 
cujo dialecto bus quere dizer «mais>. Assim, a locução signifi- 
caria: «não dizer mais, nem em português, nem em cigano». 

Fr. Diez ^ dá como étimo, que se pode ver no Diccionario 
Manual etymologico de F. Adolfo Coelho, um vocábulo bus, 
buz, que se encontra em várias línguas, mas que não concorda 
com o sentido que tem bus na locução referida. 



* Melo de Matos, As chaminés alemtbjanas, i« Portugália, ii, 
p. 83. 

2 in Revista Lusitana, vi, p. 334. 

3 Etymol. Wôrterbuch der romanischbn Sprachen, Bonn, 

1869. 



302 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Exemplo recente de chus e bus é o seguinte: — «Recebeu 
trezentas varadas . . . mas outro . . . levou mil, sem dizer chus 
nem bus» — K 

chusma 

Já o DicoioNAEio Contemporâneo deu como étimo a este 
vocábulo o latim celeusma; todavia, não explicou o modo como 
se realizou a evolução. Deu-o J. J. Núnez na Kevista Lusitana 
[iii, páj. 277]: celeusma j cleusma \ * cheusma ] chusma. 
Camões empregou a forma alatinada celeuma: — 

« A medonha celeuma se levanta > — 

Hoje faz-se diferença entre celeuma e chusma, visto que o 
primeiro vocábulo quere dizer «grita», e o segundo «multidão». 



cibo, cevo 

Do latim cíbum proveio cevo, com ê \ i, ^ v \ b medial, 
como é regra na evolução portuguesa do latim vulgar. Ou por 
influencia literária, ou por distinção dialectal que se propagou, 
temos formas derivadas do mesmo radical em que figuram i e b 
latinos; tais são cibalho, cibato, e cibo, o último dos quais pa- 
rece puro latinismo. Cibato foi empregado por Camões na Can- 
ção xvt: 

Aqui Progne, de um ramo em outro ramo, 
Com o peito ensangvientado anda voando, 
Cibato para o ninho indo buscando. 



Gazeta das Aldeias, de 25 de março de 190G. 



Apostilas aos I>icionários • Portugueses 303 



Não sei se cigalho, «porção pequena >, é ainda um derivado 
4e cibum, com mudança de h em g, como o andaluz agilelo 
comparado ao castelhano abueh \ auólum, e, procedente de v, 
o português gastar \ uastare, goraz, de uorace. Apresento isto 
apenas como simples conjectura, que oferece poucas probabilida- 
des de ser acertada. 

ciciar; cecear, ceceoso 

Estes dois verbos, diferentes na significação, andam geral- 
mente confundidos nos dicionários, e assim também os substan- 
tivos rizotónicos derivados deles, ceceio e cicio (=cicío). 

Ciciar expressa: 1° sussurro indistinto e ténue; 2." a fala 
em segredo, sem voz, «ao ouvido >, como costuma dizer-se, o 
cochichar, que em francês se diz chuchoter. Nesta última acep- 
ção empregou Alexandre Herculano o substantivo cicio: — «assim 
o canto melancholico e melodioso das virgens foi pouco a pouco 
enfraquecendo até expirar no cicio de orações submissas > — ^ 

Como termo de fonética, cicio é a ausência de voz, o que 
em terminolojia técnica, se diz em francês le chuche, em inglês 
the ivhisper. 

As consoantes sonoras, quando proferidas em segredo, são 
ciciadas, ficando muito semelhantes às surdas correspondentes, 
de modo que casa fica quási igual a cassa, vaso, quási igual a 
faço; o mesmo acontece entre Já e chá, quási iguais, proferidos 
em segredo. 

Em português existem permanentemente vogais ciciadas, ou 
afónicas, todas as vezes que u (ou o =u), e surdo e i estão 
precedidos de uma consoante surda, quando finais, ou entre duas 
consoantes surdas; por exemplo : /«ío, comparado com. fado; ouço, 
comparado com ouso; testar, comparado com distar, etc. 

Ceceio é outra cousa: é o defeito, ou antes a particularidade 
de proferir o s como ç. Este nome, conforme o carácter de cada 



1 Eurico o Prbsbytero, xir, O Mosteiro. 



304 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



dialecto, tem significações mais ou menos especificadas. Para o 
indivíduo da Beira-Alta ceceio designa o proferirem-se os ss e 
os çç, à maneira de Lisboa, e não como lá, onde são pronuncia- 
dos no ponto em que se profere o r brando, o que lhes dá grande 
semelhança com x, e, em relação ao z, com .;'. 

Para os indivíduos de Trás-os-Montes, que diferençam s de ç, 
e s brando de z, ceceio é não fazer tal distinção, pronunciando-os 
como em Lisboa. 

Para os indivíduos de Lisboa ceceio é a pronúncia brasileira 
de 5 e ,s seguidos de consoante, ou finais, com os seus valores 
alfabéticos, em vez dos de x, j que se usam no sul de Portugal. 
O brasileiro em geral diz paçtaç, por pastas, mezmoç por mesmos 
(=mêjmux). 

O contrário de ceceio, é o que se chama chahancas, particu- 
laridade que consiste em pronunciar os ss, como na Beira-Alta, 
subcacuminais, no ponto em que r brando se profere, isto é quási 
como X, Q o z quási como j. 

Ceceio se chama também o defeito, porque esta particulari- 
dade é individual, de aprossimar dos dentes a ponta da língua 
demasiadamente. 

Em Espanha ceceo é a pronúncia do c ou do z, idênticos, e 
diferentes de s, aprossimando a língua dos dentes, como é ne- 
cessário para bem articular aquelas letras em castelhano. 

Chamam lá também ceceo, ou zeteceo à pronúncia dos ss e 
dos zz como ç português, usada na Andaluzia, e nas nações 
americanas de orijem espanhola. 

Em português chama-se ceceoso àquele que pronuncia os ss 
com ceceio. 

cifra, decifrar, zero; algarismo 

O primeiro destes vocábulos foi o de preferencia usado em 
português, antes da influência francesa em toda a nossa litera- 
tura, mesmo na científica, vai em sessenta anos. O que a maioria 
das pessoas não sabe é que são um só e o mesmo vocábulo cifra 
e zero, que os franceses escrevem zero, pronunciando zê-rô. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 305 



A palavra é arábica, sífr, «vazio, oco>, tradução do ter- 
mo sanscrítico xúNia xiixia, que tem a mesma significação, e 
também designava a cifra, ou « nulidade, ausência de quanti- 
dade», tendo só valor de posição para se localizarem os outros 
algarismos, no sistema de numeração decimal que os árabes 
aprenderam dos índios. Com este valor passou o vocábulo ará- 
bico para português e castelhano, sendo nestes representada a 
consoante inicial por ç (ce, ci), como de regra, na transcrição de 
qualquer dos dois ss arábicos, o Iene e o enfático, ou gutura- 
lizado, que aqui represento por s. Das duas línguas hispânicas, 
ou da forma alatinada do vocábulo arábico, zephirum ou ze- 
phyrum, passou a palavra ao francês ciffre, deste ao inglês 
cypher, e ao italiano cifera, do qual foi transplantado outra vez 
para França com a forma chiffre, arremedo do toscano cifera, pro- 
nunciado tchifera, pois no dialecto veneziano se escrevia zif(e)ra, 
e se proferia tcíf(e)ra, o que estava mais conforme com o valor 
da inicial arábica e peninsular. 

Foi Leonardo de Pisa quem no século xii latinizou este vocá- 
bulo em zephirum ^ e os italianos abreviaram-no ao depois em 
zero, talvez primeiramente pronunciado tcèro, mas actualmente 
dzèro, que os franceses adoptaram, acomodando à sua pronun- 
ciação a escrita italiana. Em português, como disse, é provável 
que a forma zero provenha directamente da francesa escrita, com 
acomodação igualmente à nossa leitura. Os alemães chamam-lhe 
nulle, do latim nu 11 a, «nada». 

Mássimo Planúdio, monje grego do xiv século, escreveu um 
livro, que intitulou psêp'op'oeía kat' Indoús [Cálculo entre os 
índios], onde diz, a respeito dos algarismos o seguinte: — «Há só 
nove figuras, e são estas : 1.2.3.4.5.6.7.8.9, e teem também 
outra figura que chamam tzíp'ka, e para os índios esta não vale 



* Conforme Libri, Histoire des Sciences mathématiqites en Italie, t. ii, 
p. 29, citado por F. Woepke, Mémoire sur la propaGation des chiffres 
INDIEN8, Paris, 1863, do qual é extratado em grande parte este artigo. 
30 



306 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



nada, e as nove ditas figuras são indicas, e a tzíp'ra escreve-se 
assim O» — *. 

Portanto, desde o xiv século estava a Europa de posse do 
sistema de numeração dos índios, com as formas arábicas, mo- 
dificação das indianas, e das quais com pequenas diferenças ainda 
usamos. A diferença maior é que num dos sistemas arábicos, o 
asiático, o algarismo 5 é figurado por O» ou quási, e a cifra por 
um ponto ( • ). Dos árabes os receberam os gregos, os quais os 
propagaram pela Europa, que adoptou as formas mais cursivas 
berberiscas, consagradas definitivamente pela imprensa. 

Os romanos, como não conheceram a cifra, que pela sua inser- 
ção entre os outros algarismos indica o valor destes no sistema 
decimal, usavam uma tabela quadriculada, chamada aba cus, 
ábaco (em grego ábaks), bastante enjenhosa na realidade, mas 
inferior ao uso da cifra em clareza e facilidade para o cálculo. Era, 
pouco mais ou menos como a figura seguinte, que explico: 



1000000 100000 10000 1000 100 10 













1 


1 










1 




1 


i 






1 


1 




1 






1 


õ 






4 


i 

1 


7 




o 




2 


5| 


! 


4 




1 






1 

1 


1 




1 




1 




1 



1 Woepke, oj). cit, p. 193-194. O texto está em grego; apresento-o aqui 
traduzido literalmente : apenas empreguei os algarismos correntes por me fal- 
tarem os sinais que nesse texto foram reproduzidos. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 307 



Onze 11 

Cento e um 101 

Mil cento e um 1101 

Quinze mil e quatro 15004 

Setecentos e três mil e vinte e cinco . . 703025 

Quatrocentos e um mil e um .... 401001 

Um milhão dez mil e cem 1010100 

Algarismo é vocábulo também arábico, mas deduzido da 
forma alatinada algorismus, que na Idade-Média designava 
«compêndio de aritmética >, e procedeu do nome do autor árabe 
de um desses compêndios *. Cifra no sentido de «algarismo» é 
palavra afrancesada; mas é muito portuguesa com o significado 
de «escrita enigmática», de que procede decifrar. 



cigano 

Este termo é já antigo na língua, pois o vemos nas Ordena- 
ções Felipinas, no Titulo lxix do Livro v; — «Mandamos que 
os Ciganos, assi homens como mulheres, nem outras pessoas, de 
qualquer nação que sejão, que com elles andarem, não entrem 
em nossos Keynos e Senhorios» — . 

Gil Vicente, na Faesa. das Ciganas, imitou-lhes o falar 
castelhano andaluzado e estranj eirado, com o costumado primor 
com que em outras peças remedou a pronúncia mourisca e a dos 
negros da Gruiné, bem como os falares provinciais ^. 

Ciganas designam também «brincos para as orelhas», na- 
turalmente parecidos com os usados pelas ciganas: — «As es- 



1 Marcelo Devic, Suplemento ao Dicionário francês de Littré, sub. v. 

ALGORITHMB. 

~ V. A. R. Gonçálvez Viana, Deux faits de phonologie histori- 
QUE PORTUGAISB, Lisboa, 1892, e Corrbspoiídance philologique avec 
LE Princb L. L. Bonaparte [em 1894], in «Revue Hispanique», t. vi, p. 13 
e 32 (1S99). 



308 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



trellas, annéis, ciganas, circules ou afogadores» — ^ O Novo 
DiccioNÁKio já traz o vocábulo neste sentido especial, e de- 
fine-o: — «arrecadas de um só pingente» — . A definição é pouco 
clara. 

As tribos vagabundas dos ciganos receberam nomes diversos 
em cada nação. 

Os espanhóis cbamam-llies gitanos, isto é, egitanos, «do 
Ejipto», e nome idêntico lhes dão os ingleses, Gypsies. Os fran- 
ceses denominaram-nos Bohémiens, naturalmente porque para lá 
vieram, ou disseram que vinham, da Boémia. Em alemão em 
italiano, em português, zigeuner, zingari, ciganos, o nome é 
étnico deles próprios, conquanto os de Espanha, por exemplo, o 
não usem já, substituindo-o por cincallés. 

É pois absurdo designar essas tribos em português com o 
nome de boémios; não o sendo menos disfarçar a palavra cigano 
em tsigano, pois o italiano zingari, alemão zigeuner, ou o ro- 
meno tsigani, com os sons tç iniciais, nada querem dizer que 
difira essencial ou acidentalmente do termo português, o qual, 
ao contrário do que acontece em francês, inglês ou espanhol, é 
a denominação lejítima dessas tribos, já usada até em francês, 
com a forma tsiganes, desde que a palavra bohémiens adquiriu 
a acepção de «tunante, estúrdio». 

Em português também se chamou ao cigano ejipcio, e ejíta- 
nato ^. 

cigarro; cigarrinho 

Para cigarro, que primeiro quis dizer « charuto > em portu- 
guês, como no castelhano ainda hoje, veja-se tabaco. 

Cigarrinho em Santa Cruz, ilha da Madeira, é o nome de 



1 O Dia, de 27 de outubro de 1903. 

» J. Leite de Vasconcelos, Tradições populares portuguesas, do 
SÉCULO xviii, in «Revista Lusitana >, vi, p. 294, (q. v.). 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 309 

uma ave, sylvia compicillata, conforme Ernesto Schmitz [Die 
VõGEL Madeiras]. 

Deve ser deminutivo de cigarra, e não, de cigarro. 

cimeiro 

Como adjectivo já o rejistou o Novo Diccioxábio 
Na Sertã porta cimeira é a «porta de cima», por oposição 
à porta da rua. 

cipai(o) 

Este vocábulo, que designa «milícia indíjena» na índia, apa- 
rece escrito por modos verdadeiramente singulares, entre outros 
um estravagante sypaes, com y, sem se saber porquê, por exem- 
plo no seguinte trecho: — *Santobá Ran Banes... cypae da 
Companhia do Infante» — ^ 

O vocábulo é persiano sípahi, sípai, «hoste», que parece 
provir de asp, « cavalo » ^. Os ingleses escrevem Sepoy, Seapoy, 
e lêem sipói. 

cirata 

O Novo DiccioNÁEio dá a este vocábulo como significação 
— «espécie de xairel», e declara-o desusado. No Suplemento 
ao Vocabulabio postuguez e latino de Bluteau vem um artigo 
um tanto longo, pelo qual se pode deduzir, da citação que faz, 
ser já obsoleto no seu tempo e mesmo no de Dom Sebastião. No 
entanto, vemo-lo ainda empregado no seguinte trecho: — «Esta 
dignidade [de camarista de Sua Santidade], alem das honras 



1 O Século, de 1 de abril de 1902. 

2 Yule & Burnell, A Glcssary op Anglo-Indian Words, 1886, 
p. 612-613. 



310 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

prelaticias dá-lhe o direito de montar uma mula branca com 
cirata vermelha, e esporas de ouro» — *. Bluteau traduz por 
Pellis ephippiaria. José Inácio Eoquete, que, ua sua quali- 
dade de eclesiástico de bastante erudição apropriada, deve ser 
considerado autoridade, no Dictionnaire portugais-fbançais ^ 
declara ser a significação de c/raía — «bord d'une selle» — . 

cirieiro, cerieiro; círio, cirial 

A verdadeira escrita é sem dúvida com i na primeira sílaba, 
pois o vocábulo quere dizer «fabricante de círios». Todavia, a 
escrita com e é muito antiga, e à pronúncia naturalmente é 
devida, pois, como é sabido, numa série de sílabas cuja vogal 
seja i, somente o último tem este valor; os das sílabas antece- 
dentes passam a valer e surdo ^, como por exemplo militar, mi- 
nistro, que toda a gente, à excepção de um pequeno número de 
pessoas que escolhem para seu uso pronunciação afectada, aí 
não profere o i da sílaba mi com o seu valor alfabético. Antiga- 
mente, mesmo, escrevia-se melitar, como se escrevia vezinho, 
que é a verdadeira ortografia da palavra. Em cerieiro, por ci- 
rieiro, influiu também a palavra cera, visto que os círios eram 
e são fabricados desta substância — «Sabede que loham Coelho 
e Luís Míz e Gill Frz, e Manoel Grill, cerieiros moradores em 
essa villa de Santarém» — *. 

Círio tem outra acepção, a de «romaria», que provavelmente 
lhe foi dada por motivo de ser levado na procissão algum círio 
bento. 



1 O Economista, de 24 de setembro de 1892. 
'^ Paris, 1855. 

3 V. A. E. Gonçálvez Viana, Ortografia Nacional, Lisboa, 1904, 
p. 99-104. 

■* Carta réjia de D. Afonso v, m Portugália, i, p. 366. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 311 



O Novo DiccioNÁKio dá ao vocábulo terceira acepção, pois 
nos diz ser nome de cacto. 

Quarta acepção diferente de todas estas, e que não pode ter 
a mesma orijem, lê-se na Ethnographia do Alto Alemtejo, 
de J. da Silva Picão ^: — «Os antigos silos (cirios) ou tulhas 
subterrâneas » — . 

Cumpre não confundir cirial, «tocheiro portátil em que se 
põe o círio >, com cereal, «grão paniíicável » , do latim cerea- 
lis } Ceres; como aconteceu a um rejedor, a quem o adminis- 
trador do concelho pedira uma nota dos cereais que havia em 
depósito na freguesia, e que respondeu em ofício não lhe constar 
haver outros ceriais além daqueles que acompanhavam Xosso- 
-Pai, quando se ia levar o viático aos enfermos. 



citánia, citaniense, cidade, cividade 

Este termo de arqueolojia prehistórica, o qual desde o con- 
gresso de 1880 em Lisboa, e em resultado dos trabalhos prepa- 
ratórios e subseqiientes com ele relacionados, adquiriu grande 
notoriedade, é do seguinte modo descrito por pessoa tam com- 
petente como José Leite de Vasconcelos, actual director do Mu- 
seu Etnolójico, acomodado no edifício do mosteiro de Belém: 
— «Outras designações de ruínas são cividade, cidade e citá- 
nia. . . A etymologia de citania tem dado que fazer aos archeo- 
logos, mas ella parece-me simples, salvo melio7'i: o português 
cidadão vem de um derivado latino civitatanus . . . ; ora desta 
palavra podia formar-se civitatania . . . » — -. 

Para aceitar-se este étimo, que me parece muito plausível, 
basta considerar-se que do latim ciuitatem procedeu primeiro 
cividade, que ainda persiste neste sentido restrito, e que civi- 



* in Portugália, i, p. 539. 

* p. 62, Colecção de Duvid Corrazi, Bibliotheca do Povo e das 
Escolas. 



312 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

ãaãe em castelhano se reduziu primeiro a cihdad e depois a 
ciuãad, o contrário de Paulus que deu Pablo; e assim como 
de cividaãe proveio o actual cidade, assim também de um civi- 
tánia resultou citânia. 

Martinz Sarmento derivou deste substantivo um adjectivo: 
— «firmariam a sua dominação sobre os Lígures citanien- 
ses» — ^ 

O vocábulo cividade é também empregado por Alberto Sam- 
paio, conjuntamente com citânia: — «as ruinas dos oppida, co- 
nhecidas hoje tradicionalmente por cividades, citanias, castros 
ou crastos» — ^. 

Vê-se que são sinónimos, os quais ficam deste modo definidos. 

civilista 

Este neolojismo foi empregado por Duarte Gustavo Roboredo 
de Sampaio e Mello, num projecto de lei, apresentado às Cortes 
em 1 de março de 1900, acerca do divórcio: — «Traduziu elle 
[o Código Civil] talvez ao tempo da sua publicação a melhor 
obra da legislação civilista até então» — . 

clamor, cramor, cramação 

O Dic(!iONABio Contemporâneo já definiu esta palavra num 
sentido especialíssimo que tem no norte do reino: — «Procissão 
de preces em que os fieis vão rezando alto em coro» — . E o 
pardon da Bretanha Francesa. 

Todavia, a forma, pela qual ó conhecida a dita procissão, não 
é a literária que dá o dito dicionário, mas sim cramol (cf. frol, 
do latim flore) e caramol (cf. carapinteiro, por carpinteiro). 



* Portugália, i, p. 12. 

2 As « ViLLAS» DO Norte de Portugal, in Portugália, i, p. 107. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 313 

Sobre estas procissões típicas veja-se Portugália, i, páj. 624 
6 664: — <Mais do que os clamores, cramoes ou caramoes, accu- 
sam os cercos. . . vestigios menos distantes de religiosidade» — . 
Na ilha da Madeira cramação quere dizer «clamores, grita- 
ria » . 



clan 



Esta palavra escocesa (clann «filhos», «projénie») muito 
usada em Inglaterra, onde a tornaram conhecida as afamadas 
novelas de Grualtério Scott, passou também para França, e de lá 
foi trazida a Portugal por intermédio da literatura, mesmo 
científica, com a pronúncia errada clã, sendo que a verdadeira é 
cláne. 

Se o vocábulo se aplica a escoceses, tem êle cabimento; o que 
é abuso é trasladá-lo a outras tribos de constituição mais ou 
menos análoga à dos serranos da Alta-Escócia (Highlanders), de 
orijem e linguajem céltica. 

Acerca desta expressão escrevi eu a nota seguinte na Selecta 
INGLESA DE LEITURAS FÁCEIS, apiovada para o ensino do inglês 
nos nossos liceus, comentando a expressão the clan of Mac Do- 
nald do texto: — «da grei de Mac-Donald. . . O vocábulo clan 
corresponde ao gens latino e designa na Alta-Escócia, entre as 
populações que falam gael, uma «parentela inteira», um ajunta- 
mento de famílias que obedecem á autoridade de um único chefe, 
e usam appellido commum a todas ellas, presumindo-se descende- 
rem de um só avoeugo. Assim, em Mac-Donald, esse avoengo 
chamava-se Donald, e Mac significa «filhos», «progénie». O vo- 
cábulo clan é em inglês applicado a grupos de famílias de cons- 
tituição análoga em outros povos, e os franceses já o adopta- 
ram» — '. 

Ora, em português podemos dizer «parentela» ou «grei>, 
para evitarmos o neolojismo. Em sentido muito semelhante usou 



1 Lisboa, 1897, p. 2:30. 



314 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Gabriel de Annunzio, com relação à rejião dos Abruzos, o termo, 
talvez local, parentaão ^ 

Qualquer que seja a ortografia que se adopte, é absurdo es- 
crever, como é muito comum, o vocábulo grei } grex, gregis, 
com y, grey, quando se escrevem com i lei \ lex, legis, e 
rei \ rex, regis. 

claro 

Este vocábulo, como substantivo, significa «intervalo», mas 
tem sentido muito especial no trecbo seguinte: — «Aos claros, 
que constituem as extremidades das redes, pendem as cordas, 
cabos de linbo, cada um com 30 ou 40'" de comprimento» — -. 

clises 

É termo de jíria e significa « olhos » ; daí procede o verbo 
clisar, por « olhar » . E o calo clisé « olho » , com deslocação do 
acento para a 1.*^ sílaba. 

coa-das-pichas 

— «Alem destas [redes envolventes volantes] usam os pesca- 
dores do Mondego uma outra a que chamam Coa das pichas^ — ^. 

cobrinha 

No concelho de Vila Nova de Ourém este deminutivo de 
cohra aplica-se como nome ao que chamamos alfavaca de cobra, 
isto é, à parietaria. 



1 La Figlia dIorio. 

2 P. Fernández Tomás, A PESCA em Buarcos, in Portugália, i, 
p. 151. 

3 Portugália, I, p. 330. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 315 



cocho; copo; coche 

Conforme J. Leite de Vasconcelos este vocábulo, que serve 
para designar um < tabuleiro para transportar cal amassada», é 
uma forma latina, cop(u)lum, metátese de poculum, copo. 
Este último será talvez um alótropo do mesmo vocábulo latino 
poculum, que tivesse antes passado pela forma intermediária 
cópoo, com manutenção excepcional do p intervocálico, por ser a 
forma semi-erudita. 

A palavra coche, «carruajem de estadão», é porém de orijem 
húngara, kocsi (=cóchi). 



codeão 

No Alentejo significa este aumentativo de côdea «terra en- 
durecida pela geada» ^ 



coicao 

Na Beira-Baixa tem este nome « a parte do carro que assenta 
no eixo» *. 



colcha, colchão; côcedra, côzedra, cocêdra, cozêdra; coxim 

Os vocábulos 3.°, 4,*', õ." e 6." são alótropos, formas diverjen- 
tes do latim culcitra; se porém a acentuação dos dois últimos 
era na segunda sílaba, o que me parece menos provável, atenta a 
forma italiana cóUrice, com metátese, por cólcitre, temos de 



* J. Leit3 de Vasconcelos, Revista Lusitana, ii, p. 22. 
2 Informação do editor, natural de Almeida. 



316 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



supor como étimo deles uma forma deminutiva culcitula que 
desse cocêãra. Com respeito à queda do l, confronte-se doce de 
dulcem. 

Colchão é simples aumentativo de colcha, que pressupõe uma 
violenta absorção da sílaba medial cí do deminutivo, ou outra 
forma culcita igualmente dificultosa. Kõrting ^ propõe também 
que sejam derivados de collocare, castelhano colgm\ 

Coxim será, segundo o parecer do mesmo autor, o latim 
culcitinum, o que também apresenta dificuldades. 



colheira 

Esta peça dos arreios das cavalgaduras veio provavelmente 
de Espanha, onde se chama collera (pron. colhera) \ cuello 
(pron. cuelho), « colo » ; em português deveria dizer-se coleira, 
tanto a do cavalo, como a do cão. 

A pronúncia coelheira é viciosa, pois o vocábulo nada tem 
que ver com coelho, que em castelhano é conejo. 



combo 
África Oriental Portuguesa: «infelicidade» ^. 

comédias 

Na praia da Nazaré ouvi assim denominar a «praça dos 
arlequins » . 



1 Lateinisch-romanisches Wõrterbuch, Paderborn, 1890, n.*** 2013 
e 2813. 

2 Diocleciano Fcrnández das Neves, Itinerário de uma viagem á 
CAÇA DOS ELEPHANTES, Lisboa, 1S7B, possim. 



Aimstilas aos Dicionários Portugueses 317 



cómodo 

— «O conjunto de herdades que constituem uma lavoira 
designa-se por cómmodo» — ^ 

Confronte-se o emprego do mesmo vocábulo para designar 
os « repartimentos de uma habitação». 



companha 

— «As companhas são grupos de pescadores que se reúnem 
para exercerem a industria da pesca, e se compõem' de um chefe, 
o arraes, e dos companheiros» — -. Conforme J. Leite de Vas- 
concelos deriva-se do verbo companhar \ cumpaniare } cum 
-f- panis ^ «pão». 

comparança 

Este substantivo, formado de comparar, como esperança de 
esperar, não vem nos dicionários, e todavia êle concorre popular- 
mente em todo o reino com o literário comparação: o mesmo 
acontece com declareza, a par de declaração. 



compassar 

Eis aqui um sentido muito especial deste verbo: — «Quando 
o atirador queria fazer uso do arcabuz, abria a caçoleta, «com- 



1 J. da Silva Picão, Ethnographia do Alto-Alemtejo, in Por- 
tugália, I, p. 271. 

' ib. P. Fernández Tomás, A pesca em Buarcos, p. 154. 
3 Eevista Lusitana, ii, p. 33. 



318 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



passava» a mecha, isto é, dava-lhe o comprimento sufficiente 
para chegar á caçoleta, apertava o gatilho, e o tiro partia > — ^ 



coudessar, condessa, condessilho 

No Suplemento ao Novo Diccionário vemos o verbo conde- 
çar, nos seguintes termos: — «(ant.) guardar, pôr em depósito. 
(De condeça)y> — . 

Santa Rosa de Viterbo traz efectivamente como antigo o verbo 
condesar: — «Guardar." Daqui Condessa, ou Condessilho: aquillo, 
em que alguma cousa se guarda. — Condessilho: o mesmo que 
Deposito, segundo Duarte Nunes do Lião» — ^. 

Na realidade, o filólogo citado por Viterbo inclui na lista do 
cap. XVII da Origem da lingoa portuguesa, como antigo, o 
indicado condessilho. 

A. A. Cortesão, no Aditamento aos Subsídios para um dic- 
cionário COMPLETO DA LÍNGUA PORTUGUESA, diz-UOS : « COU- 

dessa ou condessa ... [o arch . . . condesar, do hisp. condesar 
(do latim cõndére. . .) — emende-se [na obra]: — o arch. eondes- 
sar, do hisp. condesar, do latim condère. . .]. Cf. também o 
hisp. condensa (do latim condensa), logar onde se guarda alguma 
coisa, por exemplo, a despensa, o guarda-roupa, etc. > — . 

A parte a preocupação do autor deste utilíssimo repositório 
em converter o castelhano numa espécie de crivo pelo qual o 
latim, o árabe, o germânico, etc. hão de passar para chegarem ao 
português, teoria evidentemente errónea, pois o português, se não 
é mais antigo, é contemporâneo do castelhano em toda a sua 
evolução, que é mais fiel quási sempre às formas orijinais; à 
parte este senão, repito, o autor deixou a claro a orijem do 



1 Portugália,!, p. 603. 

2 Elucidário dos termos e frases que antiguamente se usa- 
rão, Lisboa, 1798. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 319 



vocábulo condessa (com ss, e não ç) e do verbo deste derivado, 
conãessar. 

Como não tenlio ao meu alcance abonação portuguesa, e as 
tenho castelhanas, darei estas: — «Dicen que un religioso habia 
cada dia limosna de casa de un mercader rico, pan é mantega é 
mil otras cosas, et comia el pan, é lo ai condesaba, e ponia la 
miei e la manteca en una jarra» — ^. C a mi sienpre me tienew 
ornado, | de Qnixo en buenas cubas co?idesado -. 

E claro que condessa, no sentido de « cesta de verga, de forma 
circular ou oval, sem asa, e com tampa ligada», nada tem que 
ver com outro vocal) ulo, condessa, femenino de conde \ comitem. 



confeito; confetti 

Este particípio, do verbo confazer, do qual se derivou o 
verbo confeitar, que produziu confeiteiro e confeitaria, (no 
norte, doceiro, doçaria) não está colijido nos dicionários, nem 
como particípio, nem como adjectivo; todavia, vemo-lo muito 
bem empregado nesta última categoria por F. Adolfo Coelho, 
no seguinte passo: — «Não sei quando começaram a preparar 
era Portugal amêndoas confeitas» — ^. 

Bluteau no mesmo sentido usou confeitado. 

Confeito como substantivo, designando uma espécie de pasti- 
lha doce, esférica, deve ser imitação do italiano confeito, plural 
confetti. 

Em Portugal era uso, e não sei se ainda o é, arremessar 
confeitos aos noivos, ao saírem da igreja, e em Itália servem 
eles de projéctil para jogar o entrudo. A moda passou a França, 
onde à imitação se fabricam uns discos de papel de várias cores, 



1 Biblioteca de autores espanoles, tomo li, p. 57, col. i. — Calila É 
Dyxna. 

* Dbsuejstos DEL AGUA Y EL viNO, texto do xiii século, hl < Revue 
Hispaniquo, xiii, p. 617. 

3 A PEDAGOGIA DO POVO PORTUGUÊS, iti Portugália, I, p. 484. 



320 Apostilas aos Dicionários Porhigueses 

menos contundentes e mais baratos que os verdadeiros confeitos 
italianos. Vieram para cá os tais discos substituir os afamados 
papelinhos nacionais, e, como aos franceses não chega a língua 
para pronunciarem correctamente o italiano confétti, estropia- 
ram-no em confetí, parvuíce que também, por ser francesa, se 
espalhou em Lisboa, entre a gente que presume de tina. 

A se não querer adoptar o nome muito português e tradicio- 
nal papelinhos, o que temos a fazer, o que faz quem quere falar 
português em Portugal, é dizermos confeitos, designando com 
este termo não só os doces, mas a sua imitação, tal qual fazem 
os italianos ao seu co7ifeUo. 

E, a propósito deste singular, sempre desejaria saber se os 
que acentuam confettí, dirão no singular confétti, ou confettó!. 

congosta, cangosta 

Este vocábulo, cuja forma mais correcta é cangosta, porém 
a mais usual congosta, é um exemplo muito característico de 
polissíntese em português. E um composto, por elisão da sílaba 
final no primeiro elemento e da sílaba inicial no segundo, pois o 
seu étimo é canale e angosta ^ de que resultou canalan- 
gosta j canangosta j cãangosta \ cangosta \ congosta, por fim, 
em virtude de assimilação da vogal da primeira sílaba à da se- 
gunda. Cf. para a última destas formas ò contracção de ao: 

Condensação das várias sílabas de um vocábulo exemplifica 
também quelha \ canalicula j canaUlha \ canalelha \ cãale- 
Iha \ cãelha \ caelha j quelha. 

consertador 

— «Para as redes de arrasto ha mesmo um certo numero 
de indivíduos a que chamam redeiros, atadores ou concertadores, 



J. Leite de Vasconcelos, Revista Lusitana, iv, p. 273. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 321 



que exclusivamente se dedicam a este serviço na época de mais 
abundância de peixe» — *. 

O serviço aqui mencionado é o de «consertar e encascar> 
as redes, isto é, de emendá-las e tinji-las. 

Sobre a escrita deste verbo consertar, de consertus, par- 
ticípio pretérito passivo de conserere, diferente de concertar, 
de que deriva concerto, < ajuste, combinação», veja-se Obto- 
GBAFiA Nacional *, páj. 121. 

consoar 

Este verbo, conforme D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, 
deriva-se de cum -f- suh -\- unare, e consoada, de cum -|- sub 
-f- un 4~ 3'^3,, sendo -ata a terminação femenina do particípio 
pretérito passivo do dito verbo ^. Estanislau Prato propusera 
consonata, ao que se opõe a locução de consum, «em comuni- 
dade». — «Consoámos por ser dia de quaresma e jejum» — *. 
Consoar, como pode ver-se nos dicionários, quere dizer «tomar 
uma refeição leve, por preceito relijioso». 

Cf. assuada, que, conforme a mesma abalisada romanista, 
provém de ad -|- sub -j- uno ^. 



conto, conta, contaria 

A unidade de contajem de cereal em rama usada em Trás-os- 
-Montes é a pousada, que se compõe de quatro molhos. O termo 
é próprio dos arredores de Bragança. O cereal em grão tem por 



1 F. Fernández Tomás, A pesca em Buarcos, in Portugália, i, 
p. 383. 

2 Lisboa, 1904. 

3 Eevista Lusitana, t, p. 124, 130; m, 362, 365. 

* António Francisco Cardim, Batalhab da Companhia de Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 80. 

5 Revista Lusitana, i, p. 130. 

.21 



322 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



unidade a conta, que é igual a quarenta alqueires, isto é, uns 
seis hectolitros. 

Uma singularidade da mesma rejião é o número 20, tomado 
como básico para a contajem, à maneira do vasconço oguei, do 
francês vingt, do dinamarquês tyve. 

Deste modo oitenta diz-se quatro vezes vinte, em francês qiiar 
tre-vingts, em dinamarquês fiirsindstyve, « quatro vezes vinte » ; 
em vasconço lauroguei, «quatro vintes», de lau(r) «quatro». 

A expressão conto só hoje se emprega, com a significação de 
«milhão», com referencia a dinheiro, equivalendo um conto de 
réis a «um milhão de réis». 

Bluteau * insiste em que cojito não é mais que milhão, e que 
conto se diz de réis, e milhão, de cruzados, censurando o 
Padre António Vieira, porque os diferençou. 

Fernám Méndez Pinto - diz-nos : — « São estas fejras ambas 
francas e livres, sem pagarem nenhum direyto, pela qual causa 
concorre a ellas tanta gente, que se afirma que passa de três 
contos de pessoas» — . 

(iQuis o autor dizer «três milhões de pessoas»? 

Assim parece, se compararmos esta expressão de número com 
a que se lhe segue: — «E porque, como disse, os trezentos mil 
homens que estão em depósito nesta prisão andão todos soltos » — . 
Se só presos eram trezentos mil, não é de admirar que dez vezes 
esse número fosse a gente livre que à feira concorria. Passa-se 
isto na China, o que deve diminuir o espanto que nos causaria 
tamanha concorrência. 

Acerca do termo conto num sentido especial, transcrevo, por 
ser perfeita a definição e a demonstração da orijem, o seguinte 
trecho do notável estudo de Alberto Sampaio, intitulado As 
«ViLLAs» DO NORTE DE Poetugal: — « Os mcsmos bens doados 
não eram privilegiados senão por graça real, pois era o rei quem 
os contava ou honrava, prescindindo dos direitos de que fazia 



1 Vocabulário portuguez e latino. 

2 Peregrinação, cap. cviii. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 323 



mercê; estes contos ou honras, onde em geral não entram os 
mordomos reaes, conteem talvez os germens dos concelhos, cujos 
foraes ou cartas serão também dados pela coroa > — ^ 

A palavra conta é muito portuguesa, no sentido de «globo 
pequeno de vidro, louça, madeira, ou outra substância, furado 
para se enfiar». 

O nome provém-lhe naturalmente dos globos dessa natureza 
empregados nos rosários, para « contar » maquinalmente as ora- 
ções que se vão rezando, correndo-se as contas a uma e uma 
pelo fio ou cordão em que estão encarreiradas. 

Toma. como objecto de enfeite, diversos epítetos que a 
qualificam. Aqui está um não colijido: — «Conta de leite: Grlobulo 
de ágata, de côr leitosa e azulada. Amuleto para manter abun- 
dante o leite ás mulheres que criam > — ^. 

Contaria é um colectivo, uma ou muitas «enfiadas de con- 
tas^. 

convidar, convite 

Estes dois vocábulos tinham dantes a acepção -de «obsequiar, 
presentear, presente, banquete», cuja reminiscência ainda hoje 
em dia perdura ironicamente: — «o Taboada, um bailão ali do 
sitio, convidou o Navalhadas, seu collega, com duas ditas no 
peito» — 3. 

Abonação antiga é a seguinte: — «ainda oje ey de cear hú 
pedaço dessa tua carne, cõ que ej de convidar dous cães que 
tenho» — *. 

Em Rui de Pina, Cbónica de El-eei Dom Afonso v, lê-se: 
— «E houve aquelle dia convite real de vinhos e fruitas, em 



1 in Portugália, i, p. 579. 

2 Portugália, I, p. 619. 

3 O Economista, de 22 de agosto de 1885. 

^ Fernám Méndez Pinto, Peregrinação, cap. cxcviii. 



324 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



uma notável perfeição, e assi muitas danças e festas em toda a 
noite» — K 

copa 

Na acepção ordinária copa, como « arrecadação » , só se aplica 
ao móvel ou quarto onde se põem a resguardo comidas, louças 
ou trem de mesa. 

No Alentejo porém o significado é diferente, como vemos 
do trecho seguinte: — «tudo aquillo está em desordem, assim 
como a copa (vestuário)» — ^. 



copa, copo 

Em Caminha, e provavelmente em outros pontos do Minho, 
o vocábulo co2)o corresponde ao vaso que mais para o sul se 
denomina caneca, isto é, vaso cilíndrico, de maior altura que 
diâmetro, munido de asa. 

Como termo de pesca é uma peça da rede, e também nome 
de uma rede: — «Destes apparelhos o mais usado em Buarcos 
é o copo — que serve para a pesca do camarão» — ^. 

Copa, pelo que hoje chamamos cojyo, taça, vêmo-lo em Kui de 
Pina: — «o Infante Dom Fernando, por melhor justador, venceu 
então o grado, que foi uma rica copa, de que fêz logo mercê a 
Diogo de Mello» — *. 

Hoje diz-se para aí reeord, à inglesa, e não grado, que seria 
uma vantajosa substituição do anglicismo, pronunciado à fran- 
cesa, recór. Então, como actualmente, era uma taça o prémio 
grande. 



* cap. cxxxi. 

2 José da Silva Picão, Ethnographia do Alto-Albmtejo, iw Por- 
tugália, I, p. 542. 

3 Fernández Tomás, A pbjsca bm Buarcos, i« Portugália, i, p. 152. 

* Crónica de El-rbi Dom Afonso v, cap. cxxxi. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 325 



coração; coração 

E conhecido em quási todas as suas acepções o primeiro 
destes dois vocábulos. 

Em dois sentidos porém não está colijido, que eu saiba, e de- 
duzem-se dos trechos seguintes: — «Possuímos alguns d'esses 
pesos, corações como as tecedeiras lhes chamam» — , São pesos 
de tear, em forma de coração. — «Quando Physicus, há dias, nos 
ensinou que a forquilha tem onze paus, a tipografia partiu um 
delles, e não nomeou o principal, — o coração, em que se implan- 
tam os dentes e o cabo K 

O segundo é um neolojismo, derivado do verbo corar (=^ co- 
rar), que tem de ser diferençado do primeiro, porque a pronun- 
ciação do o é diversa, proferindo-se aberto, entanto que o de 
coração soa como u: — «Entrevíamos um bacillo que microscopi- 
camente revestia a morphologia do da peste — ^curto, atarra- 
cado, coração bipolar, espaço branco intermédio» — ^. Este tre- 
cho, em que as palavras tomam acepções desusadas, não é de- 
certo modelo de boa linguajem; apesar disso, porém, o vocábulo 
coração, por coloração, está bem derivado do verbo corar, e 
merece rejisto. Quanto a morphologia, que não quere, nem quis 
nunca dizer «forma», mas sim teoria das formas, ou das for- 
mações, não pode, nem deve figurar em dicionários naquela 
acepção. Singular é também o epíteto atarracado, aplicado a um 
organismo só visível por microscópio. 



coral 



Os dicionários não mencionam que este nome, não só designa 
o «coral verdadeiro», mas também o falso, mesmo sem aposição 



1 DiAKio DE Noticias, de 7 de dezembro de 1905. 

* Ricardo Jorge, A pkste buboxica no Porto, 1899, p. 44. 



326 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



deste epíteto, que é indispensável que acompanhe pérola, quando 
ela não é verdadeira. Assim, ainda com epíteto que o realça, 
coral fino denota apenas «imitação do coral verdadeiro», como 
quando denomina uma contaria, coral-fino Mareia, que se lia 
num anúncio publicado no jornal O Economista, de 4 de no- 
vembro de 1882. 



coriscar, corisco 

É conhecido o étimo deste verbo, que poderia ser considerado 
como derivado de corisco, quando a verdade é que se deu o caso 
contrário. Coriscar procede do latim coruscare, com dissimi- 
lação da vogal átona da segunda sílaba, com relação ao o da 
primeira; corisco é um nome verbal rizotónico, derivado de coris- 
car, já dentro do português. 

Corisco, não só na Bairrada, como diz o Novo Diccioííá- 
Eio, mas também em outros pontos e no Brasil, é o que em 
geral o povo chama pedra-de-raio. 



corja 



Esta palavra, que actualmente signiíica apenas, em sentido 
pejorativo e ofensivo, o mesmo que <^ matula», (q. v.), «quadri- 
lha» (espanholismo), «turba», é declarado termo da índia, com 
a significação de «vinte», no Vocabulário portuquez e latino 
DE Bluteau (1712). Vê-se pois que há dois séculos ainda não 
havia adquirido o sentido deprimente que ao depois prevaleceu: 
— « Sinalou-lhes dez Corjas de cotonias. São cotonias lenço da 
terra, que serve para vestido. A Corja he numero de vinte- 
3. part. da Hist. de S. Doming. pag. 337» — . V. cotonia. 

Era pois corja um dos freqiientes nomes numerativos, equi- 
valentes aos nossos dúzia, conto, mão, etc, tam usados em 
muitas das línguas asiáticas, e nomeadamente nas do sul da 



Apostilas aos Dicioiíãrios Portugueses 327 



índia, nas malaias, na japonesa, mas também em persiano, con- 
quanto pertencente à grande família árica. 

A etiraolojia é questionável, como vemos no Glossário de 
Yule & Burnell ', atribuiudo-se-lhe uma orijem telinga (draví- 
dica), e outra arábica. 

Em Fernám Méudez Pinto ocorre este vocábulo pelo menos 
duas vezes -, e muitas em todos os nossos cronistas da Ásia. 



cornaca 

É antigo já na língua este termo, o qual significa « a pessoa 
que vai guiando o elefante», na índia. 

Bluteau traz o vocábiúo, com duas abonações portuguesas, 
na inscrição Coenaca, e emprega-o também na inscrição Ele- 
fante. 

O Glossário de Yule & Burnell ^, citando o dr. Rost, dá 
como étimo o cingala kuraica-nãyaka [RúEaua-xãiaxa], cuja 
significação é, segundo declara, «maioral de elefantes». 

Vê-se pois que não é galicismo esta palavra, visto que existe 
em português desde, pelo menos, 1685, data da segunda cita- 
ção feita pelos ditos indianistas, extraída da Fatalidade His- 
tórica, de J. Ribeiro. Galicismo é a abreviação cornac, que às 
vezes se lê, em ruins traduções de francês. 

Xa edição da História Trájico-Marítima, de Bernardo Gómez 
de Brito, publicada recentemente na Bibliotheca de Clássicos 
portuguezes, no vol. xli, duas vezes se imprimiu comaca em 
vez de cornaca, a páj. 82 e 83. 



1 A Glossary of Anglo Ixdian words axd phrasbs, Londres, 1886, 
sub. V. corge. 

» Peregrixação, cap. Lxxin e clxvu. 

3 A Glossary op Anglo Indiax words and phrases, Londres, 
1886. 



328 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



corneta 



Como termo de jíria, já antigo, quere dizer «cara: 



« Venha cá, senhor malhado, 
Meta a mão nesta gaveta, 
Dê vivas a Dom Miguel, 
Senão, parto-lhe a corneta >, 



coroa 



— «Todos [os barcos] são de fundo chato — o que é imposto 
pela natureza do leito da ria, de grandes espraiados e cheia de 
bancos de areia ou coroas» — K 

E esta uma acepção da palavra c(o)roa que os dicionários 
não rejistam, e por isso aqui fica apontada. 



coroca, palhota, palhoça, capa-de-palhas, capa palhiça 

Esta capa, usada tanto em Portugal, como na Nova Caledó- 
nia, como no Japão, donde provavelmente veio para cá no sé- 
culo XVI ou XVII, já motivou esta nota a páj. 170, do livro 
de Jouan Les íles du Pacifique ^: — «Les Japonais et les 
paysans du Portugal ont des manteaux tout-à-fait semblables» — . 

Veja-se um artigo que publiquei, sobre a língua do Japão, 
no jornal O Século, de 8 de agosto de 1904, no qual me referi 
a este especialíssimo abrigo; v. também a palavra dáimio. 



1 Luís de Magalhães, Os barcos da ria de Aveiro, in, Portu- 
gália, II, p. 53. 

2 vol. Lxv da BiBiiiOTHÊQUB Utilb. 



Apostilas nos Dicionários Portugueses 329 



coroplasta 

É um neolojismo, que Kocha Peixoto empregou na sua mo- 
nografia intitulada As olaeias do Prado, tiraudo-o imediata- 
mente do francês coroplaste, vocábulo tomado nesta língua do 
grego KOEOPLÁsTÊs composto de kókos, «moço», e plástês S 
«fabricante». O significado é «imajinário de figuras de barro ou 
cera» : — «quando de louceiro o ceramista de Prado passa a coro- 
plasta» — 2^ 

corpo-santo-de-Pedro-Gonçálvez 

Este composto polimórfico encontra-se mencionado por Jurien 
de la Grravière: — «ces lueurs bleuâtres et sautillantes que les 
Portugais appelaient Corpo Santo de Pedro Gonsalvez, et les 
Espagnols Sant-Elmo» — ^. 

Não sei se vem mencionada por enteiro a expressão em 
qualquer escritor português, mas designa o Corpo Santo, ou 
fogo-Sam- Telmo, a que se refere Camões, nos Lusíadas, Canto v, 
est. 18: — 

Vi claramente visto o lume vivo 
Que a marítima gente tem por santo 
Em tempo de tormenta e vento esquivo, 
De tempestade escura e triste pranto. 

corre-caminho 

Na ilha da Madeira é o nome vulgar de uma ave, Anthus 
trivialis, de Lineu *. 



1 W. Pape Griechisch-deutschbs Wõrtbrbuch, Brunsvique, 1880, 
t. I, p. 1487, col. I, t. 11, p. 625, col. ii. 

2 Portugália, i, p. 2.50. 

' Les Anglais et les HoiitiAJíDAis dans les mbrs polairbs, et 
DAXS LA MER DBS Indes, Paris, 1890, t. i, p. 144. 

* P. Ernesto Schmitz, Die Vogbl Madeiras, 1899. 



330 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



corre -costas 

— «chegaram dois corre-costas que andavam ao serviço das 
auctoridades na praia» — *. É termo brasileiro e designa barco. 



corriqueiro 

Os dicionários definem este adjectivo, — «que corre ou circula 
habitualmente; vulgar, trivial» — . Na primeira acepção nem é 
usual, nem o vi ou ouvi jamais empregado; no Minho, porém, 
chama-se corriqueira à pessoa que sai de casa frequentemente. 



corsa (= corsa) 

Na ilha da Madeira tem este nome, ou o de arrasta, « o carro 
de arrastar, sem rodas» e seriam termos muito aceitáveis para 
expressar o francês tralneau | tratner, «arrastar», que já passou 
para cá, com a forma trenó; cf. trumó, ou tremo de trumeau. 



corso (^ corso) 

E um italianismo de introdução muito recente, nome de uma 
rua de grande movimento em Koma: — «as ruas do corso, como 
se deliberou chamar-se ao espaço comprehendido entre o largo 
de Camões e as ruas do Carmo, do Ouro, e Nova do Almada» — ^. 
Esta deliberação, que se não diz por quem foi tomada com 
tamanha autoridade e intimativa, por emquanto só teve curso 



* O Economista, de 1 de setembro de 1887, < Correspondência do Rio 
de Janeiro». 

2 O Século, de 7 de março de 1905. 



A])ostilas aos Dicionários Portugueses 331 



em Lisboa, no carnaval de 1905, entre certa gente que pre- 
sume de fina. Parece que o termo não pegou, o que não é de 
sentir. 



cortada 

E termo de marinhas, próprio de Aveiro: — «As marinhas 
ainda produzem — mau grado dos criados que desejam a cessa- 
ção da safra, e tanto que nas cortadas do sul da Eia já houve 
tentativa de alagamentos* — ^ 

Este segundo termo parece não ter a significação usual, mas 
talvez outra relacionada com uma acepção especial do verbo 
alagar, (q. v.). 

cortiça, cortiço, corticeiro 

Cortiça é o nome da casca do sobreiro depois de arrancada 
em pedaços grandes; cortiço qualquer canudo de cortiça, e não, 
somente o que serve aos enxames de abelhas. — «Bate-se o linho 
com a espadela de encontro á beira superior e externa de um 
cylindro vertical de casca de sovereiro, chamado cortiço, tendo 
pouco mais ou menos 1 metro de comprimento e 0™,3 a 0°',4 de 
diâmetro > — -. 

Em calão cortiço é «casa de habitação >. 

Corticeiro, «operário que trabalha em cortiça» e, como 
adjectivo, «que se refere a essa indústria», são neolojismos, de 
muito conveniente emprego: — «Tem continuado a greve dos cor- 
ticeiros da fabrica do sr. Rankin, no Alfeite» — ^. 



1 O Economista, de 2 de outubro de 1891. 

' Portugália, i, p. 370. 

3 O EcoNOMiST.'^, de 23 de setembro de 1892. 



332 Apostilas aos DicAonários Portugueses 



costume; costumar 

Conforme Carlos Eujénio Correia da Silva, em Ajuda designa 
esta palavra «tributo pago ao rei do Daomé» e festa periódica *. 

Costumar, como verbo transitivo, tendo por complemento 
objectivo um nome, foi usado antigamente, como vemos em Kui 
de Pina: — «Foi algum tanto envolto em carne [o rei], e por en- 
cuberta disso custumava sempre vestiduras soltas» — ^. 

Presentemente diz-se costumava usar. 

O emprego todavia do particípio passivo deste verbo, como 
adjectivo, na acepção de «usual», perdura ainda: — « E] deu ao 
seus armas além das custumadas» — ^. 

O costumado, empregado em absoluto, significa «o habitual». 



costume; trajo, ou traje 

Este vocábulo, que antes se escrevia custume, significa « uso, 
usança, hábito». Muito modernamente é empregado na acepção 
de trajo, ou traje, por galicismo, não só inútil, mas ambíguo; e 
porque é um desacerto, adquiriu voga imediatamente. Desta ma- 
neira, não só serviu de título a uma colecção de trajes portugue- 
ses, desenhados por Bordalo Pinheiro com a maior exactidão, 
o Álbum de costumes portuguezes, mas também serve para 
classificar uma colecção de bilhetes postais com a mesma designa- 
ção de Costumes ])ortugueses. Ora, costumes são hons ou maus, 
morijerados ou devassos; mas nunca tal palavra serviu para de- 
nominar traje, e em parte alguma dos domínios portugueses o 
povo entende semelhante nome em tal sentido, nem pessoa que 



1 Uma viagem ao bstabblejcimexto portugubz de S. João 
Baptista de Ajuda, jía costa da Mina em 18G5, Lisboa, 1866. 

2 Crókica de El-rbi Dom Afonso v, cap. 213. 

3 ih, cap. xxxiii. 



Apostilas aos Dicionários Portugtieses 333 



se preze de escrever na língua pátria o empregará. Quem o usa 
inadvertidamente deve ter em atenção que traje, em francês, se 
diz costume, mas que costume é coutume, e lá portanto não 
se pode dar a confusão, que o emprego deste escusado galicismo 
ocasiona em português: — «Ne possédons-nous pas quelques vues 
donant la caractéristique de tèle ou tèle grande vile, des détails 
tipiques sur les meurs, les coutumes et les costumes d'une 
réjion?> — K 

cota 

O termo é dado como transmontano pelo Novo Diccionáeio, 
com a significação de — «lado oposto ao gume da ferramenta» — . 
Não me parece que a limitação imposta, quer ao significado, 
quer a rejião onde o vocábulo é usado, seja exacta. Em Lisboa, 
desde a minha infância, ouvi chamar cota à parte oposta ao gume, 
ou « fio » da faca, isto pelo que diz respeito à significação ; e com 
relação à difusão do termo, vejo que é também empregado em 
outros pontos, pelo seguinte passo: — «A espadela é uma espécie 
de podoa de madeira, em que se distingue a cota, o fio ou gume 
e o punho» — -. 

cote 

É um termo de jíria cidadã, que talvez provenha de propo- 
sitada corrutela do inglês cottage, pron. coi'idje, e designa uma 
casa que não é a própria habitação, mas sim outra, reservada 
para actos secretos, às escondidas da família. Eis aqui uma 
abonação do termo : — «O cuté da rua da Gloria é num primeiro 
andar baixo . . . tem duas salas exíguas, mal mobiladas, com 
os banaes décors destas alfurjas próprias para amores de occa- 
sião> — ^. 



1 Le Eéformiste, de 15 de novembro de 1905. 
* B. D. Coelho, Industria caseira de fiação, tecelagem e tin- 
GiDURA de substancias textis, (síc), w Portugali a, I, p. 374. 
3 O Dia, de 12 de janeiro de 1905. 



334 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cotio (figo) 

Quere dizer «de lodos os dias» ! quotidie, e figuradamente 
« comum, trivial » . — «A arraia miúda é constituida pelo « Cotio » 
[figo], que pela quantidade e numero se pode chamar soberano. 
E o figo de embarque que regula por 800 réis a arroba, ao passo 
que os primeiros [berjaçote, sofeno (?), castelhano e] o bello 
«Incbario», por exemplo, regula por 3000 réis a arroba» — ^ 

cotonia 

Koupa de algodão. Pronuncia-se cotonia, e não, cotónia, 
como indica o Diccionario Contempoe aneo ; em árabe qutnIe. 

cotovia 
Como termo de calão, quere dizer «garrafa». 

couça 

— «Por couça é aqui [Braga] denominado um morcão [la- 
garto grande] que apparece em alguns cortiços e destroe as abe- 
lhas» — ^. 

couce 

Uma peça do arado: — «Xoutros tj^pos d'arado em vez dessa 
peça inteira, a rabiça, ha duas ou três ligadas: uma inferior, 
que se chama dente ou coice, em que assenta a relha» — '. 

Nesta acepção não vem nos dicionários. 



1 O Economista, de 5 de novembro de 1885, citando o Jornal da 
Manhã. 

2 Gazeta das Aldeias, de 25 de fevereiro de 1906. 

3 Francisco Adolfo Coelho, Alfaia agrícola portuguesa, in Por- 
tugália, I, p. 407. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 335 



coveiro; coveiro 

Coveiro é indivíduo que tem por ofício abrir as covas, ou 
covais, nos cemitérios, e é palavra que figura em todos os dicio- 
nários. O segundo vocábulo, que se deve diferençar deste pela 
acentuação marcada no o átono mas aberto, coveiro, é termo 
alentejano, assim definido por quem me prestou a informação: 
— «cabana junto à malhada, onde se guardam os cabritos, para 
se lhes ordenharem as mães» — . 



covo, cova, covão; covão; cofre; alcofa 

Meyer-Lúbke admite duas formas novas latinas cophus e 
copha, derivadas por via de regressão do latim cophínus, 
vocábulo de orijem grega, sendo elas postuladas por certas 
formas populares italianas. 

Além desses dois substantivos devemos admitir igualmente 
um adjectivo triforme, cophus, copha, cophum, do qual os 
dois substantivos citados hão de ser simples mudança de catego- 
ria gramatical. O adjectivo a que me refiro tem de supor-se 
para explicar o adjectivo covo, «fundo, concavo», que se emprega 
como qualificativo de j;raío na locução ^jr«ío covo, a qual designa 
na Estremadura o que na Beira-Baixa se denomina jn-ato fundo, 
e no norte prato sopeiro. 

Covo como adjectivo foi empregado por Bocage: 



Esquentado frisão, brutal masmarro, 
Vagava de Santarém na pobre feira; 
Eis que divisa de lonje em cova seira 
Seus bons irmãos seráficos de barro. 



Ao femenino deste adjectivo, copha, temos de atribuir a ori- 
jem tam disputada da palavra cova, a que se dava a medo como 
étimo caua, sem explicar a transformação; como à forma neutra 



336 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

cophum se há de atribuir o substantivo covo, meia-esfera de 
verga que serve de gaiola aos galináceos, nos mercados. Quanto 
ao substantivo covão, diferente de covão, aumentativo de cova, 
tem orijem no primitivo cophinus, como o correspondente cas- 
telhano cuévano (cf. Estêvão, Estéòan } Stephanus) e o italiano 
còfano, o que já conjecturara há tantos séculos Isidoro Hispa- 
lense, e do qual cahanilho, « cesto alto e cilíndrico > é um deri- 
vado, em cuja forma influiu a palavra cabana, de que ainda se 
tirou cabano, por via de reversão a um primitivo suposto. 

Vê-se pois que as formas populares latinas cophum, copha 
não são já hipotéticas, mas na realidade existiram a par de 
cophinus, no latim vulgar. 

Por outra parte a palavra cofre é de orijem imediata fran- 
cesa e de introdução relativamente moderna e artificial nas 
línguas peninsulares, como o demonstra a mudança do n latino 
em r; cf. pampanus j pampre. 

Não param porém aqui os derivados de cophum, copha, 
pois existe, pelo menos, outra palavra que, tendo a mesma 
orijem, passou a português por intermédio do árabe; é alcofa 
(al-qufe), que também foi parar a França e Itália, talvez sem 
tal intervenção; com as formas couffe e coffa, cofa, venezianas. 

Temos pois: 

Grego KÓp'iNos | lat. literal cophinus } italiano còfano, 
cast. cuévano, port. covão. 

Latim vulgar, cophum, copha j port, covo, cova, cast. 
cueva; árabe qufe; ital. coffa, cofa, fr. couffe. 

Árabe alqufe j português alcofa. 

Português covão \ cabanilho, cabano, cova \ aumentativo 
covão, ocsítono, e outros muitos mais derivados, covinha, enco- 
var, etc. e coveiro, diferente de coveiro, (g. v.). 



côvodo, côvedo, côvado 

Há muito tempo que este vocábulo no sentido de cotovelos, 
foi por este substituído, conservando apenas a acepção de um, 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 337 



medida de três palmos, que deixou de ser usada, pelo quê pas- 
sará em breve o termo a ser completamente obsoleto. Côvado, 
em castelhano codo, é o latim cubitum, como é sabido, e cotovelo 
um deminutivo, cubitellum, com metátese das sílabas médias. 
Cávado na sua primitiva acepção encontra-se, por exemplo, na 
Drmaxda do Santo Geaal, com a forma covodo = côvodo: 
— «Entom a lançou o mais que pôde e quando chegou preto da 
agua viu húa mão sair do lago que parecia ates o covodo, mas 
do corpo nom y'm nada > — ^ 



coxia 



Quer como termo de bordo, quer como vocábulo próprio 
de teatros é coxia de orijem italiana, do mesmo modo que outras 
muitas dições pertencentes a essas duas nomenclaturas. Em tos- 
cano corsia, a coxia no teatro, é definida assim por P. Pe- 
tròcchi -: — «lo spazio che nella platèa d'un teatro è libero 
dalle panche [«bancos»], e piii spezialm[ente] quello di mezzo 
[«o do meio»] » — . 

A forma portuguesa, se não provém directamente de qualquer 
dialectal italiana, resultou do concurso de rs antes de i. 



cozinha 

Este vocábulo e o seu étimo são bem conhecidos: do latim 
cocina, por coquina, proveio cozinha, como de cocere, por 
coquere, «^cozer^, que se não deve confundir com coser \ consuere. 

Em Caminha, e outras partes do Minho naturalmente, a pa- 
lavra cozinha designa o «fogão da cozinha». 



1 Oto Klob, in < Revista Lusitana >, vi, p. 344. 

' Novo DIZIONÀRIO UNIVBR8ALE DELLA LÍNGUA ITALIANA, MilãO, 

1887. 



333 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



crasto: v. castro 



crebar 

Esta forma minhota não é, como poderia supor-se, metátese 
da nsual quebrar, cuja significação tem; pelo contrário, na forma 
geral quebrar é que se deu a metátese com relação a crebar^ 
mais antiga e mais conforme com o seu étimo latino crepare, 
coníirmando-se a etimolojia que já se atribuía a quebrar. O qu 
por c na sílaba inicial foi mero expediente ortográfico, para se 
evitar a leitura cebrar. 



criar, criado, criança, etc. 

Quási todos os dicionários portugueses, modernos pelo menos, 
escrevem o verbo criar com e, isto é, crear, e, em conseqiiéncia 
desta ortografia, rejistam igualmente creador, creado, creação, 
creança, etc. 

Alguns autores distinguem duas séries: Crear, creador, 
creado, creatura, creação (do mundo), creança por uma parte; 
e criar, cria, criador, criação (de gado), criação («aves do- 
mésticas»), etc. 

Nenhuma razão, histórica ou outra, existe que justifique, ou 
sequer explique esta distinção fictícia: a palavra é uma única, e 
conquanto o seu étimo seja o latim creare, o facto é que em 
português o verbo dele derivado é um só, criar, que tem de ser 
escrito com i, e não e, visto que nas linguajens rizotónicas 
convém saber, nas que tem o acento no radical, a conjugação é 
sempre com i proferido e não com e: crio, crias, cria, criam, 
crie, criem. Seria pois insensato fabricar irregularidades aparen- 
tes, que a pronúncia não confirma, entre estas formas rizotónicas 
e as acentuadas nas desinências, escrevendo estas com e valendo i, 
crear, creamos, creais, creeis, crearão, etc; ou fazendo distin- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 339 



ção na escrita dos radicais crear, criar, conforme a significação, 
apenas nas linguajeus de desinência acentuada. 

Deste modo, a única solução é conformar em tudo a ortografia 
com a pronúncia efectiva e que já não pode ser alterada, reduzin- 
do-se a um só, criar, os dois verbos crear e criar, com todos 
os seus derivados, afins e flecsões: criador, criatura, criado, 
criança, em razão de cria. 

Deve advertir-se ainda que os vocábulos criado (= serviçal) 
e criança nunca tiveram, até época recente, outra escrita que 
não fosse com i na primeira sílaba, em harmonia com as corres- 
pondentes formas castelhanas criado, criança, (crianza) « criação, 
educação » ; conquanto nesta língua subsista a distinção entre 
crear e criar, não só na escrita, mas também na pronúncia, visto 
que em espanhol o e átono não adquire nunca o valor de i, como 
acontece em português antes de vogal, existindo ali na realidade 
duas séries, na pronúncia e na escrita, as quais se não podem 
manter em português por aquela se opor a tal distinção, como 
vimos: crear, creado. creador, creatura: criar, criador, cria, 
criadero, crianza, criado, etc. 

Com i se escreveu sempre também criação, no sentido de 
«aves domésticas de capoeira», acepção em que vemos o vocá- 
bulo, conquanto erroneamente escrito com e, no trecho seguinte: 
— «A creação tem sempre papel preponderante nas receitas de 
uma exploração rural» — ^ 

Os termos criado e criada modificam-se no significado, con- 
forme a localidade, por meio de epítetos; por ex.: criada de 
dentro, em Coimbra, criada de sala, no Porto, correspondem, 
pouco mais ou menos, ao que em Lisboa se chama criada de 
quartos, isto é, « criada que cuida da limpeza » . 

'Criado de acompanhar vemo-lo empregado, com relação ao 
século XVIII, por António de Campos, mas mal escrito : - — « e o 
falso creado de acompanhar, como então se dizia» — . 



1 O Século, de 23 de fevereiro de 1902. 

■2 O Marquez de Pombal, in < O Século », de 24 de dezembro de 1899. 



340 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Recrear, porém, que se conjuga recreia, deve escrever-se 
com e. 

cristalino 

Este adjectivo, não como termo poético, mas em prosa, sig- 
nificando «de cristal», foi empregado por António Francisco 
Cardim, no livro Batalhas da Companhia de Jesus: — «Copos 
cristalinos de Veneza» — ^ 

criveiro 

Este substantivo, designando o «fabricante de crivos e pe- 
neiras», não está rejistado nos dicionários, mas faz-se dele menção 
no seguinte passo: — «Estas ratoeiras são feitas pelos crivei- 
ros, que as vendem na praça pelos respectivos preços de 80 
e 100 réis» — ^. 

cubículo 

No sentido de «cela», «quarto de dormir», conforme o seu 
significado em latim, vê-se no trecho seguinte das Batalhas 
DA Companhia de Jesus, páj. 222: — «quatro cubiculos e um 
refeitório» — . 

cubrir, cuberto, descuberto 

Este verbo é usado no distrito de Bragança com uma sin- 
tasse especial, como se pode ver com os dois exemplos que vou 
dar: cubrir o chapéu, «cubrir-se (com o chapéu), pôr o chapéu 
na cabeça » ; cubrir o capote, « cubrir-se com o capote, embru- 
Ihar-se nele». 



1 Lisboa, 1894, p. 44. 

2 J. Pinho, Ethnographia Amabantina, A Caça, in Portugália, 
11, p. 89. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 341 

Nesta última sintasse usou José Maria da Costa e Silva o 
verbo cubrir, no último verso do poema O espectro ou a Ba- 
ronesa DE Gaia, paráfrase do Bernal Francês: — 

< Ramiro cobre o manto, e retirou-se>. 

Do imperativo do verbo cubrir formaram-se vários substan- 
tivos compostos, tipo muito peculiar das línguas românicas e 
cuja vitalidade ainda perdura, como com outros muitos verbos, 
por ex.: guardar, que deu guarãa-portão, guarda-roupa, etc. 

Uma dessas formações, que não foi rejistada, é a seguinte, 
usada no Ceará: cobre-peitos, <coura de que usam os campo- 
neses 011 matutos, especialmente os vaqueiros» ^ E feita de 
couro. 

Em Lisboa faz-se um doce da casca da abóbora branca, cor- 
tada em tiras e cozida em calda de açúcar, a que nas confeita- 
rias se chama abóbora cuberta, «de açúcar >, entende-se. 

O termo cuberto, neste sentidQ, parece que se generalizou 
em várias rejiões a outros doces, pois era Aveiro se chama doce 
descuberto aquele «que não é polvilhado de açúcar», em oposi- 
ção a cuberto no sentido indicado. 

cucuiada: v. cuquiada 

cudar 

Nos Açores persiste esta antiga forma, alótropo de cui- 
dar \ cogitare: cf. chuiva e chuva \ pluvia. 

cúli, cule, coli 

Cúli ou cule deve em português ser a escrita desta palavra, 
muito conhecida na Ásia, nomeadamente no Arquipélago Malaio, 



1 Sena Freitas, Cathedral de Burgos, 1884. 



342 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



na China e na índia. O étimo é incerto, pois uns dizem ser o 
tamil Mili, « soldado >, outros o turco kol ou hule, «escravo», 
ou o nome étnico koll \ «raça» ou povo, no sul da índia. A es- 
crita coolie é inglesada, e, pelas indicações da possível orijem do 
nome, desarrazoada em outra língua que não seja a inglesa, na 
qual 00 tem o valor de u. 

culibeca, curibeca 

— «Nenhum d'elles, que saibamos pertence á seita dos culi- 
hecas. E sabem os leitores o que são os culibecas, a respeito dos 
quaes a insistência em os fazer influentes e poderosos no animo 
dos governadores de Angola, seria asquerosa, se não fosse ridí- 
cula? Pois são os pacatos e comedidos membros d'uma associação 
chamada Geemio Littekario de Loanda. . . 

Qual seria o governador . , . que se julgasse mais se- 
guro tendo o apoio dos curibecas do que as sympathias de 
S. Thomé?»— 2. 

A forma correcta há de ser curibeca, e não, culibeca, se a 
palavra é quimbunda, como parece, pois nesta língua só ha l- 
antes de a, e, o u, sendo substituído por r brando antes de i. 

cumerim 

O Novo DiccioNÁRio define este vocábulo da índia Por- 
tuguesa do modo seguinte: — «desbaste e corte de árvores > — . 
Parece não ser exacta a definição. Monsenhor Sebastião Kodolfo 
Dalgado traduz a palavra concani kumeri por «boucha>, e este 
vocábulo o mesmo Novo Dicc. declara-o provincial e atribui-lhe 
como significado — «mato que se queima para cultivar a terra 
que elle occupava» — . 



1 Veja-se Yule & Burnell, A Glossary ov Anglo-Indiax wouds 
AND PHRA8ES, Londrcs, 1880, sub. v. cooly. 

2 Jornal das Colónias, de 22 de juUio de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 343 



F. X. Ernesto Fernández, na sua monografia intitulada Re- 
gimen DO SAL, ABKARY E ALFANDEGAS NA InDIA PoHTUGUEZA, 

define cumerim da seguinte forma : — « é o campo da cultura de 
legumes preparado com a dissipação da matta e adubado com 
cinza de arbustos do mesmo terreno» — ^ 



cunca 

O termo, que tem outra forma, conca \ latim concha, sig- 
nifica em Caminha «tijela». 



cupa 

O Novo DiociONÁEio diz-nos ser o nome de uma planta 
brasileira. Em Groa é nome de uma qualidade de sal: — «Ainda 
ha uma outra qualidade de sal, leve e finíssimo, denominado 
cupá, destinado exclusivamente para o mercado de Bombaim. 
Este obtem-se fraccionando os taboleiros em pequenas subdivi- 
sões » — -. 

cuquiada, cucuiada 

Esta palavra foi rejistada por Bluteau, com as abonações 
devidas: — «(Termo náutico da índia) Derão huma Cuquiada, 
que entre elles he appellidar terra por uma denotação de voz. 
Barr. i. Dec. foi. 81, col. 1>— s. 

Francisco Adolfo Coelho define-a do modo seguinte, sem ci- 
tar autoridade: — « T. ant. Vozes com que na índia se chamava 
o povo ás armas e que eram propagadas pelas pessoas que as 



* «Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa >, 23.* série, p. 256. 

2 F. X. Ernesto Fernández, Ebgiíibíí do sal, abkary e alfan- 
degas NA Índia Portugueza, in «Boletim da Sociedade de Geographia 
de Lisboa >, série 23.*, p. 251. 

3 Vocabulário portuguez e latino. 



344 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ouviam. Vozes com que no alto mar se anunciava a approxima- 
ção da terra. Fig. Gritaria, vozearia» — K O Novo Diccionário 
repetiu isto mesmo. No Suplemento porém dá como preferível a 
escrita cucuiada, e como orijem do vocábulo, que os outros não 
mencionaram, o tamil IcuJcJcuia, que nos não diz o que significa. 

Na edição das Décadas da Ásia de João de Barros, feita no 
3.° quartel do século xviii (i. Livro vii, cap. 2), e portanto de 
menos fé que a que foi vista por Bluteau, lemos, não obstante, 
a palavra também escrita com qu, sendo provável que, se a 
pronúncia que se quisesse indicar fosse com u proferido, ela 
houvesse sido ortografada com cu, e não com qu, em qualquer 
das edições. A citação é: — «acudio tanto gentio... por tra- 
zerem entre si huma maneira de se chamar a que elles chamam 
Cuquiaãa» — . 

Graspar Correia, nas Lendas da Índia (ii, 2, 26), escreveu 
cucuyada, e esta escrita não deixa a menor dúvida acerca da 
pronúncia que se lhe deva atribuir cu-cu-iá-da: — «e o Cai- 
mal. . . mandou dar suas gritas, a que chamam cucuyadas» — . 

Se a forma cucuiada é a certa, a etimolojia proposta por 
Yule & Burnell ^ tem todas probabilidades de ser exacta: 
huMuya na língua de Malabar, significa «bradar» (to cry out); 
conquanto o suficso -ada não seja explicável, à falta de um 
verbo cucuiar, que não consta existisse, e sem o qual a com- 
paração que os abalisados indianistas fazem com crisada, de cris 
«punhal», não convence, pois nesta formação o suficso inclui a 
idea de « golpe » , como de faca, facada, e pressupõe um étimo 
português imediato. Os nossos antigos escritores usaram neste 
sentido o verbo apupar, «bradar chamando», denominando esse 
brado apupo: — «pelo quê, apupando todos por diversas par- 
tes» — 3. 

Se porém a forma exacta é cuquiada apesar da afirmação 



1 Diccionário manual btymologico da língua portugubza. 

2 A Glossary CF Anglo-Ixdian words, Londres, 1886. 

3 História trájico-niarítima, in Bibl. de clássicos port., t. XL, p. 81. 



Ajyostilas aos Dicionários Portugueses 345 

de João de Barros, e da afirmação e escrita de Gaspar Correia, 
o vocábulo poderia ser português lejítimo, porque pelo menos 
em mais uma língua românica ele existe, e para essa não po- 
deria vir da índia. Em provençal couquiado, e sabe-se que o 
átono é a terminação femenina nos mais dos dialectos da Pro- 
vença, couquiado, digo, quere dizer «cotovia», em francês co- 
chevis: cf. chamariz, nome de ave, e de um artifício para chamar 
as aves, e cuja orijem é sem dúvida o verbo chamar. O vocábulo 
couquiado está abonado com um verso da Mirèio de Frederico 
Mistral: 

— O Viacèn, ié faguè Mirèio 

D'entre-initan li vèrdi leio, 

Passes bèn vite, que! — Vincenet tout-dun-têm 

Se revire vers la plantado, 

E, sus un amourié quihado 

Coume une gayo couquihado * 

Destousquè la chatouno, e ié lande, countènt. 

O glorioso poeta provençal numa nota a este verso acres- 
centa: couquihado, (cochevis, alauda cristata, Lin.). 

O mesmo poeta, no seu monumental dicionário provençal, 
intitulado Lou Teesoe dóu Felibrige, aduz as seguintes 
formas do mesmo vocábulo, conforme os vários dialectos: cou- 
quiado, couquilhado, cucullado, cucuiado, coucouiado, e cio- 
gullada (catalão), cogujada (castelhano), e dá-lhe como étimo, 
que é evidente, couquiha [...há], latim cuculla, cucullatus. 

Cita Buffon, que empregou em francês coquillade, vocábulo 
que Littré admitiu como termo de caça, correspondente a alouette 
huppée (sp.), sem mais definição, nem etimolojia. 

No PicHOT Tresoe, dicionário provençal-francês, de Xavier 
de Fourvières, vem também couquiado, com o correspondente 
francês cochevis ^. 



1 Paris, 1882, Canto ii, 4. 
« Avinhão, 1902. 



3Í6 Ajwstilas nos Dicionários Portugiceses 



Vê-se que estas formas couquihado, nuguUada, e cucuiado, 
poderiam ser análogas às duas abonadas portuguesas, cuquiada 
e cucuiada. sem, que estas portanto houvessem vindo da índia. 

Por outra parte, a coincidência pode ser casual, como tantas 
outras. 



curbá 



Em São João Baptista de Ajuda é uma selha, que serve de 
medida para a venda do óleo de palma, e cuja capacidade é va- 
riável *. 

curral 

Como termo local, vem perfeitamente definido este vocábulo 
na monografia As «Villa-s» do Noete de Poetuo-al, de 
Alberto Sampaio: — «na serra do Gerez os gados descançam de 
noite em rurraes, glebas cercadas de paredes^ que só produzem 
centeio; cada curral tem uma cabana, geralmente redonda, para 
o pastor dormir e cozinhar» — -. Cf. curralorio, em chiqueiro. 



curveiro 

Na Figueira-da-Foz dá-se este nome a um « remoinho de 
água no mar». 

caraça 

Bluteau, que só no Suplemento incluiu este vocábulo, es- 
creve-o com s inicial, sarara, e define-o assim: — «He hum 



* Carlos Eujénio Correia da Silva, Uma viagem ao estabelecimento 
PORTUGUKZ DE S. JoÃo Baptista DE AjUDÁ EM 1865, Lisboa, 18GG. 
2 m Portugália, i, p. 116. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 347 



género de panuos, que vem de Cabo-Verde, e do Maranhão, 
pintados como chita, e servem de cobrir bofetes, camas, etc. 
Ordinariamente são pintados de vermelho. Os da índia são pin- 
tados de negro com bordas vermelhas, vem de S. Thomé e ser- 
vem ás Portuguezas em lugar de mantos; ha saraça que custa 
trinta mil reis » — . 

Transcrevi na íntegra, exactamente porque a definição nos 
deixa perplecsos. 

Duas vezes se afirma que as caraças, que pela descrição 
correspondiam ao que hoje diríamos cuhertas, procedem de 
Sam Tomé; notando-se porém, que são usadas no Brasil (Ma- 
ranhão) e na índia. Ora, como em Cabo-Verde não houve 
nunca língua vernácula, ou este nome foi do reino para lá, como 
para as outras rejiões indicadas, ou a orijem do termo é da íudia, 
ou, mais latamente, asiática, porque brasileiro não pode êle ser, 
visto que os indíjenas das terras de Santa-Cruz só fabricavam 
tecidos de penas de aves. 

Em malaio existe o vocábulo sarasa, o qual designa um te- 
cido de algodão ^ 

Parece portanto que o termo é malaio, ou de qualquer das 
línguas da Ásia, que para malaio passasse, como tantos outros; 
e conseguintemente a escrita portuguesa tem de ser com ç, e não 
com s, visto que o s dos nomes asiáticos, como o dos america- 
nos, sempre foi pelos nossos autores transcrito com ç. Esta 
escrita e orijem são confirmadas pela forma castelhana caraça, 
segimdo a ortografia moderna zaraza, vocábulo que o Dicionário 
da Academia Espanhola ^ detfne assim : — « Tela de algodón muy 
ancha, tan fina como la holanda j con listas de colores ó con 
flores estampadas sobre fundo blanco, que se traía de Ásia y era 
muy estimada en Espana» — ^. 



1 Leôncio Richard, Cours de la langue malaise, Bordéus, 1872, 
II Parte, p. 117, col. i. 

^ Madrid, 1899. 

3 Este artigo foi acrescentado, e por isso está fora da ordem alfabética, 
o que se adverte no índice (q. v.). 



348 Apostilas nos Dicionários Portugueses 



dacorna 

— «As raparigas usam uns brincos grandes de missanga que 
chamam dacoma » — ' . 



daião, adaião, deão, dião 

Daião é directamente derivado do francês doyen (=ãualê 
antes, dolê), o qual procede do latim decanus, que em português 
deveria ter dado degão. Conseguintemente, a forma moderna 
deão é encurtamento de outra intermédia, deião, a qual se 
contraiu em dião, que deveria ser a escrita portuguesa, como 
jnor (q. v.). 

O a de adaião é difícil de explicar: — «á vista de todos se 
celebraram os esposoiros entre El-rei e a Kainba, nas mãos de 
um Daião de Évora, que servia a El-rei de seu físico» — -. 

dáimio 

O Novo DicciONÁRio uão marca o acento neste vocábulo 
composto japonês, o que, segundo o sistema de acentuação grá- 
íica nele usado, quere significar a acentuação daimío. Esta acen- 
tuação porém é errónea. A verdadeira em japonês é dáimio, ou 
quando muito daimió (dai-miyau). 

Compõe-se esta palavra dissílaba de dai, «grande» e miyau 
(miô), «excelente», e no composto o acento tónico é atraído para 
a sílaba mais longa, a qual é a primeira, por conter ditongo ^. 

Dáimio era o título que competia a um cabo de guerra, 
cujo rendimento anual excedesse dez mil cocos (cóku) de arroz. 



1 Jornal das Colónias, de 18 de julho de 1903. 

2 Kui de Pina, Crónica de El-rei Dom Afonso v, cap. lxxvi. 

3 V. Étúdb phonétique de la langue japonaisb, Lípsia, 1903, 
§144. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 349 



porque a riqueza de cada um, bem como os proventos, tinham 
por unidade a quantidade de arroz a que montavam as suas 
rendas. Os dez mil cocos de arroz equivaliam a uns vinte e cinco 
contos de réis K Até muito recentemente os funcionários públicos 
eram pagos, pelo menos nominalmente, em arroz, no Japão. 

Este vocábulo é de introdução recente em português, para 
onde veio por via indirecta, provavelmente francesa, por inter- 
médio dos periódicos. ^ 

Os vocábulos japoneses de importação directa são poucos, 
e entre eles banzé (q. v.), biombo, bonzo, catana, chávena, 
qu(e)imão, (timono), -funé, e poucos mais. Biombo, catana (q. v.), 
entraram no tesouro comum da língua; quimão, do qual, por 
influência de queimar, é variante a forma queimão, é ainda 
usado no oriente, e mesmo na Africa Oriental Portuguesa; bonzo 
tem emprego muito restrito, continuando a designar «frade bú- 
dico»; funé (q. V.), «navio», só foi empregado com referência 
ao Japão ^. 

Objectos que do Japão importámos, mas sem o nome, são 
«japona», femenino do adjectivo japão, «japonês», designando 
uma espécie de «jaquetão > ou «camisola»; a capa-ãe-chuva, 
coroca (q. v), palhoça, capa palhiça, que tantos nomes tem, e 
que em japonês se denomina hama-kâtsupa, pronunciado hama- 
Icappa: convindo notar que a palavra Tcapxpa, é portuguesa. Outras 
palavras portuguesas, que deixámos no Japão, são pan, «pão», 
tábâku, «tabaco», berúdu, «veludo»; e poucas mais serão. 



dala 



O Dtccion. Contempoeaneo dá duas acepções a este vocá- 
bulo, que parece de orijem germânica, do baixo-alemão, pro- 



* V. Hofmann, Japaaksche Spraakleer, 1867, com uma versão 
inglesa. 

' António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 53 e 54. 



350 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



vávelmente. Como termo de bordo, diz ser — «calha adjacente á 
muralha do navio, para dar vazão á agua» — , e cora significado 
mais geral, — «terreno, caminho entre montanhas» — . O Novo 
Dicc. diz, pouco mais ou menos a mesma cousa. Na última acep- 
ção é o inglês dale, sueco dal, « vale » ; e não é natural que os 
dois significados sejam de um só vocábulo germânico orijiuário. 

Não é, porém, nenhuma destas significações, já dadas, a pri 
meira das quais fora apontada por Bluteau ^ que eu vou con- 
signar aqui, mas sim aquela que tem no Porto, convém saber: 
«mesa de cozinha, com tabuleiro de pedra, ou lousa». Neste sen- 
tido parece ser o francês dalle, «laje», a que também se atribui 
orijem germânica 2. 

Emquanto investigação ulterior não demonstre pertencerem 
estes três significados a um só vocábulo, de que sejam desenvol- 
vimento ideolójico, devem eles ter inscrições separadas nos dicio- 
nários. 

danda 

Termo da África Oriental Portuguesa, que no Jorual das 
Colónias, de 18 de julho de 1903, vem assim definido: — «pe- 
queno trapo com que [os negros] tapam as partes» — . 



daroez, daroês, daruez, darviz, darvízio, dervixe, derviche 

Qualquer das três primeiras formas é lejítimaraente portu- 
guesa; derviche é que nunca o foi na pena dos nossos escritores, 
que de perto conheceram esses frades mocelemanos. 

Bluteau, citando Godinho, Viagem da Índia, aduz as formas 
darviz, dm'vizio, com remissão a derviz, onde nos dá mais der- 



1 Vocabulário portuguez e latino. 

2 H. Stappers, Dictionxairb Synoptique d'étymologie fran- 

ÇAiSE, Paris, n.° 3062. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 351 



visio, que parece preferir, abonando-se com a Histoeia Univer- 
sal de Frei Mauuel dos Anjos. 

Não tenho à mão esses dois autores para me certificar se 
eles assim escreveram o vocábulo, e se, como suponho, o u ali 
vale u, ou, pelo contrário, v, como Bluteau o interpretou. O que 
sei é que a forma portuguesa anterior é daroez, ou ãamês, se 
quiserem, que representa a arábica-persiana oaRuix. A forma 
ãerviche foi tomada do francês ãerviche, que deve representar 
pronúncia turca do vocábulo, pois é em turco que existe o v, % 
não em árabe, ou persiano. Quando mesmo, porém, se adoptasse 
a pronúncia turca do vocábulo, deve êle escrever-se com x, 
dervixe, e não com cli, que é transcrição francesa, mas não pe- 
ninsular, do xin do respectivo abecedário. 

Modernamente restabeleu-se a forma portuguesa daruez: — 
«tem a Turquia os seus daruezes» — '. 

Abonações do vocábulo são, por exemplo, as seguintes: — «bom 
e fiel daroez — daroezes da casa de Meca» — 2. 

data; dádiva 

E sabido que este vocábulo é um latinismo, o particípio 
passado passivo do verbo dare, e quere pois dizer <dada>. Com 
referencia a tempo substantivou-se data, como em castelhano 
aconteceu a fecha, forma antiga correspondente à moderna hecha, 
particípio passivo de hacer, como fecha o era de facer, corres- 
pondendo ao latim facta de facer e; nenhuma relação tendo, 
como poderia siipor-se, visto dizermos fecho de carta, com o 
y^úio fechar, ou o substantivo /ecA,o, que são pestulum e pes- 
tulare, latinos, em galego pechar, pecho, diferente de ^;e- 
char ^, castelhanismo, de pectare, «pagar», latim bárbaro muito 



1 < Revista de Educação e Ensino», 1892, Do Espirito das ordens 

RELIGIOSAS. 

- Fernám Méndez Pinto, Peregrinação, cap. xxxi e lix. 
3 Saco de Arce, Diccionario Gallego, Barcelona, 187(3. 



352 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

frequente na nossa antiga lejislação, bem com a sua forma por- 
tuguesa peitar, peita \ que lhe corresponde. A forma pecha 
portuguesa é também castelhanismo, como já advertiu Viterbo -, 
quer signifique «paga», quer «defeito». 

O vocábulo data, além da acepção apontada, tem outras, que 
também se relacionam com a significação primordial de «cousa 
que se dá», como se pode ver no Contempoeaneo: — «data de 
agua, de bofetões, de impropérios» — e ainda — «porção, dose» — 
sendo este ultimo o vocábulo grego dósis, que significa « dádiva >. 

No sentido de «dádiva» vemos empregado data, nas Bata- 
lhas DA Companhia de Jesus, do Padre António Francisco 
Cardim — «divertiu da data» — ^, «recusou a dádiva». 

A forma dádiva, à qual Frederico Diez * atribui por étimo o 
latim datiua por donatiua, com mudança de acento da 2.* 
para a 1.* sílaba, é pelo povo pronunciada dáuita, ou por in- 
fluência de dívida, ou porque seja esta a forma orijinária da 
palavra, que também existe em castelhano, e portanto com outro 
étimo, por emquanto desconhecido; ou porque na realidade se deu 
uma metátese das iniciais das sílabas postónicas do esdrúxulo, 
como acontece na deturpação vulgar diágolo, por diálogo, em 
razão de se ouvirem mal as duas sílabas átonas de um vocábulo 
douto, que o povo não sabe identificar com outro da sua lin- 
guajem vernácula. 

decorar, de cor; decorar, decoramento, decoração 

O verbo decorar tem dois significados enteiramente distintos, 
aos quais correspondem étimos diversos, devendo portanto se- 
parar-se nos dicionários em duas verbas diferentes. 



1 Santa Kosa de Viterbo, Elucidário. 

2 ib, sub voe. pechoso. 

3 Lisboa, 1894, p. 145. 

* EtYMOLOGISCHES WõRTERBUCH der R0MANI8CHBN SpRACHEN, 

Bonn, 1870, ii, 6. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 353 



O primeiro, na língua antiga único, provém da expressão 
aprender de cór, quer este cór seja o latim cor, cordis, «co- 
ração», como até muito recentemente se afirmava, principalmente 
por se lhe comparar a expressão francesa par coeiír, ou a inglesa 
by heart, que parece tomada à letra do francês; quer a locução 
de cor, castelhana de coro, proceda de se aprender de memória 
com ouvir repetir por muitos uma leitura, um preceito qualquer, 
como opina, se não estou enganado, Rufino José Cuervo, com 
muita probablidade. Confirmação deste modo de ver seria o se- 
guinte passo : — « y a los que saben escrivir mando que las escri- 
van, e sepan de coro» — *. 

Efectivamente, sendo cor de o tema da voz latina e derivan- 
do-se dele acordar, discordar, note-se, e recordar, que equivale 
a «passar pela memória», é natural que, a provir de cor, cordis 
a locução de cor, de coro, ela fosse de corde. Nem obsta à 
etimolojia proposta a perda do o final de coro em português, 
visto que a expressão castelhana de coro, hoje substituída em 
geral por de memoria, não pode ter orijem diversa da portuguesa; 
e por outra parte Gril Vicente empregou for por foro, caste- 
lhano /tt^^ ^OT fuero, no formosíssimo Auto da Alma: — 

Diabo — Ainda é cedo pêra a morte; 
Tempo há de arrepender, 
E ir ao ceo. 

Ponde-vos á for da corte, 
Desta sorte 
Viva vosso parecer, 
Que tal naceo. 

E possível mesmo que o francês 2>«^ coeur seja alteração 
ortográfica de par chceur, * em coro » . 

Outra hipótese é igualmente plausível: uma forma latina po- 
pular cor, coris, por cor, cordis, daria orijem ao italiano 



* «Carta do Padre Mestre Francisco Xavier aos Irmãos de Roma», 
in Missões dos Jesuítas no Oriente, Lisboa, 1894. 

S3 



354 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

euore, ao francês cosur, ao português cór ^ castelhano cuer, 
« coração » ; e a locução ãe coro castelhana seria outra forma, 
corum, como fuer, português fór, é o latim fórum. 

O segundo significado do verbo decorar é «ornar», e pro- 
cede do latim decora re, que já tinha a mesma significação, 
como derivado de decus, decóris, «enfeite». E vocábulo de 
orijem artificial, relativamente moderno na língua, visto que 
Bluteau o não inseriu, conquanto incluísse no Vocabulário o 
substantivo decoro, que, diga-se de passajem, se deve pronunciar 
decoro, e não decoro, visto ser vocábulo erudito, e em latim 
lermos decórum e não decôrum, o que já adverte o Suplemento 
ao Novo DiccioNÁBio, comparando forma, palavra douta, com 
forma, de orijem popular; decoro acentuam Bluteau, Koquete, etc. 

O substantivo de acção e resultado, derivado deste verbo, é 
decoração; todavia José Leite de Vasconcelos usou decora- 
mento: — «O decoramento do palco precede sempre a chegada 
do actor» — ^. 

Equivale aqui decoramento a cenário, italianismo, e é o 
que os franceses chamam décor, palavra cujo emprego em por- 
tuguês é galicismo escusado e moderníssimo, só empregado por 
quem qúere finjir que desconhece a língua da sua pátria, e natu- 
ralmente lhe atribui pobreza, que só existe para quem a não 
estuda como deve. 



defender; delivrar 

Quem hoje empregasse este verbo no sentido do francês 
défendre, «proibir», "seria apodado de galicista; e todavia nessa 
mesma acepção a palavra é pelo menos tam antiga em por- 
tuguês, como a Crónica de El-kei Dom Afonso v, de Kui de 
Pina: — «alguns requereram ao Infante licença para ainda lhes 



1 Gil Vicente, Auto da Lusitânia. 

2 Portugal pre-historico, p. 10. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 355 



irem no encalço, mas o Infante o não consentiu, antes lho de- 
fendeu, dizendo que os leixassem ir embora» — ^ 

Outro tanto acontece com ãelivrar, que o cronista emprega 
no sentido do délivrer francês: — < Dormiu El-rei ali aquela noite, 
e ao outro dia alegre e contente se tornou a Pena-Fiel, e trouxe 
preso o dito conde, cuja guarda encomendou ao conde de Penelas, 
que o teve emquanto não foi delivrado» — -. 



derrete 

Esta forma verbal substantivada tem um significado muito 
especial no lugar de Nossa Senhora das Mercês, concelho de 
Sintra: — «Pelas 3 horas da tarde começaram chegando as mo- 
çoilas, que se dispunham a tomar assento no tradicional muro 
Ao derrete, esperando ali os seus conversados^ — ^. 

O significado é « namoro » , « galanteio » . 



desastrado, desastre, (des)astroso 

O Novo DiccioxÁKio e o seu Suplemento corrijem o adjec- 
tivo desastrado em desestrado, a que dão por étimo estro, 
alegando, em favor da correcção, desestrada no Eomanceieo de 
Garrett, desestrado e desestramento em Francisco Manuel do 
Nascimento. Nenhuma abonação mais antiga apresentam, e o 
facto é que nem estas duas, nem outras modernas que se 
pudessem aduzir poderiam desterrar a forma desastrado, única 
dada por Bluteau e aprovada pelos lecsicógrafos portugueses 
posteriores a este, o maior de todos, que subordinou o adjectivo 
desastrado a astro na definição que deu : — « Infelice, e em certo 



1 cap. cv. 

2 ih, cap. CLXxx, 

5 O Século, de 23 de outubro de 1905. 



356 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



modo Desfavorecido dos Astros, ou sem favorável Estrella» — , 
étimo que repete em desastre: — «De.s negativo. . . A outra pa- 
lavra é Astro, que quer dizer estrella, e assi Desastre que- 
rerá dizer sem estrella-» — . 

Esta etimolojia ainda não foi desdita por etimólogo ou ro- 
manista algum, e é confirmada por outro adjectivo derivado de 
astro, astroso, «infeliz», tanto em castelhano S como em português, 
e cujo derivado negativo desastroso é comparável a desinquieto, 
desmazelado, desabado, e ao popular desinfeliz, por infeliz, em 
que o preficso des, com ser pejorativo, não implica a idea 
oposta à que é expressa pelo vocábulo a que se junta. 

Às abonações modernas de Filinto e Grarrett basta con- 
trapor a abonação antiga de Gril Vicente na peça O Velho da 
Oeta: — 

Se os jóvenes amores 

Os mais tem fins desastradas — . 

É ela suficiente para provar que a forma ãesestrado é um 
enfraquecimento posterior de sílaba átona, comparável O-fantesia 
por fantasia, cámera por câmara, popular estifeito por satis- 
feito, castinheiro por castanheiro, apesar de castanha ser deste 
vocábulo inseparável, etc. 

Sem nenhuma destas razões, porém, em abono de ser desas- 
trado a forma correcta, e derivada de desastre, ou de astro, 
como astroso e desastroso, o simples raciocínio está a indicai- 
que de estro, palavra relativamente recente, grega e ultra-literá- 
ria, que jamais desceu ao domínio da linguajem vulgar, onde é 
totalmente ignorada, se não poderia ter derivado, antes da sua 
adopção pelos doutos, um adjectivo antigo, de uso trivial e que 



1 Em castelhano antigo encontra-se o adjectivo astrosa, oposto a fer- 
mosa, nos seguintes versos dos Dbnubstos del agua y el vino, de Lopo 
de Moros:— «antes amariyella yastrosa| agora uermeia e fermosa». [in 
Ehvub Hispaniqub, xni, p. 615]. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 357 



toda a gente, por mais rude que seja, entendeu e entende, em- 
pregou e emprega, acomodando-o, há certo tempo, à mais fácil 
enunciação desestrado, imitada por Filinto e Garrett. 

Astro foi vocábulo tam conhecido do povo, provavelmente 
com a forma astre, de importação francesa, tanto em português, 
como em castelhano, que operou a transformação de stella 
latino no português (e castelhano) estrela, estrella, fazendo que 
a estela se acrescentasse um r que stella não tinha. 

Mas não fica só nisto o improvável do étimo estro, que se 
propõe. O vocábulo desastre existe; existiu o verbo ãesastrar, de 
que desastrado é o particípio passivo, que se adjectivou como 
tantos outros, a bem dizer, os mais deles: estro é o latim oes- 
trus, vocábulo tomado do grego oístbos, «moscardo», «tavão>, 
que os gregos, por metáfora, aplicaram a qualquer estímulo 
exajerado, e depois à inspiração, à y eia. profética, e daí à veia 
poética, no que os romanos, seus copistas, os imitaram. Neste 
sentido é ou foi a palavra cucaracha, «bicho-de-conta», empre- 
gada na América Espanhola, na quadra seguinte, que se canta, 
ou cantava, para expressar que o entusiasmo se apoderara do 
cantador : — 

;Ay que me pica, 
ay que me arana 
com sus patitas 
la cucaracha! 



Em locução análoga dizemos em português de um indivíduo 
disparatado, sujeito a repentes, que por veneta diz ou faz uma 
loucura, está com a mosca, deu-lhe a mosca; e, desculpem-me 
os poetas, o estro para os gregos e para os romanos era um re- 
pente, uma veneta, a manifestação de uma faculdade fora do 
normal, um condão de poucos e de loucos. 

A orijem da locução está com a mosca pode ver-se em 
Bluteau: o caprichoso é por metáfora comparado ao cavalo pi- 
cado pelo tavão. 

Ora, um indivíduo desastrado, desmanado, como dizem os 



358 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

espanhóis, desjeitoso, não tem tal defeito, por ter estro poético, 
nem o adjectivo se aplica popularmente a um qualquer versador, 
senão quando ele tem para versar pouquíssimo jeito. 

Exemplo frisante do verdadeiro valor da palavra desastrado 
encontra-se no seguinte passo: — «alguns vasos de barro, des- 
maiado, que desastradamente se quebraram» — : isto é, por 
descuido ou casualidade. 

Havia de ser curioso o querer explicar esta acepção, que é a 
mais comum, pelo grego estro ^, «mosca», ou «veia poética». 

Não é portanto desastrado o indivíduo falto de estro, mas 
sim aquele a quem falta habilidade, jeito, ou cujas acções teem 
mau resultado, que nasceu com má estrela. 

Desastrado significa também «desairoso», «mal feito de 
corpo», e nada disto tem que ver com estro, vocábulo, repito? 
que a maioria das pessoas, mesmo de mediana cultura desco- 
nhece absolutamente ^, em qualquer acepção que seja. 

Disse antes que a forma desastre revelava influência francesa, 
tanto em português, como em castelhano. Efectivamente, como 
em italiano se diz disastro, em que a palavra astro não sofreu 
modificação na vogal final, necessário se torna averiguar porquê 
essa alteração se manifestou nas duas línguas hispânicas, nas 
quais ao -um latino corresponde -o. Comparando outros vo- 
cábulos portugueses em que se observa a mesma alteração, 
tais como milagre \ mirac'lum, segre (antigo) j saec'lum, 
monje \ monachum, vemos que se produziu modificação idên- 
tica, e que, por outra parte, eles patenteiam alteração de con- 
soantes, que não é a normal, visto que os vocábulos dos tipos 
graculum, speculum, são gralho, espelho, e monachum deu 
primeiro mónago ^ (cf. o castelhano monigote, monaguillo) ; ou, 
se de segunda formação, hágo(o) \ baculum. Houve pois in- 



1 O Economista, de 20 de março de 1892. 

2 V. R. Bluteau, Vocabulário portuoubz e latino, Suplemento. 
8 D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, in Ebvista Lusitana, iii, 

p. 174. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 359 



fluência que perturbou a evolução natural, ou aquelas palavras 
não provierarà directamente do latim. 

Entre as línguas românicas que unificaram em e surdo pos- 
tónico o o e a românicos são a francesa e a provençal as que 
sobressaiem: é lójico, pois, atribuir a essa procedência imediata 
os vocábulos milagre, segre, monje; e com efeito, tais vocábulos 
aparecem em francês com as formas miracle, siède, e monje 
com a forma monge em provençal. Em milagre deu-se metátese 
mútua de r e Z (cf. o castelhano milagro), e em segre a mu- 
dança de Z em r para formar ditongo consonantal português 
(cf. grude [ glúten): monje ê reprodução fiel do provençal 
monge, como é evidente, conquanto haja outra forma, também 
provençal, mónegue, e seja talvez licito supor que monge seja 
mais francês que provençal. 

Em português antigo há a palavra mogo, a qual, conforme o 
Elucidário de Viterbo *, significava «marco divisório», termo que 
perdura no onomástico corográfico, já no singular, já no plural, 
só, ou acompanhado de epítetos, como, por exemplo, Mogo de 
Anciães. 

Júlio Moreira ^ relacionou mogo com mogote, magote, pa- 
rece-me que sem fundamento, atribuindo-lhe um étimo vasconço 
muga, com o mesmo significado, conforme Frederico Diez 3, e 
que na realidade foi admitido no dicionário de Van Eys *. Eu, 
porém, estou inclinado a supor que mogo é a forma portuguesa 
do latim monachum, e que a aplicação deste termo a um 
marco ou sinal de divisão de terrenos, naturalmente pedra 
erecta, é perfeitamente análoga à que se fêz, em Lisboa pelo 
menos, da palavra frade, a designar uma coluna de pedra, da 



1 Santa Rosa de Viterbo, Elucidário dos termos b frases que 

ANTIGAMENTE SB USARÃO, Lisboa, 1798. 

* Revista Lusitana, iv, p. 268. 

3 EtYMOLOGISCHBS WoRTERBUCH DER ROMANISCHEN SpRACHBN, 

II, b. 

* DiCTIONNAIRB BASQUB-FRANÇAIS, Paris, 1873. 



360 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

altura de ura metro, pouco mais ou menos, e cujo remate su- 
perior arredondado se assemelhava à cabeça tonsurada de um 
frade. Ainda hoje em dia se vêem alguus em ruas, contornando 
praças, adros, ligados, ou não, entre si por correntes de ferro. 
A palavra mogo foi ao depois substituída por monje, fran- 
cesa ou provençal, como segre, e o adjectivo dele derivado segral, 
ainda usados por Gil Vicente, cederam o lugar aos latinismos 
século, secular. 

desbulhar, debulhar 

O povo diz desbulhar, os cultos debulhar, forma a que já 
Bluteau deu a preferencia, conquanto cite a outra, que quási 
desapareceu dos dicionários portugueses. Pois é o povo quem diz 
bem (como quási sempre acontece, quando os vocábulos perten- 
cem à sua linguajem habitual), visto que o étimo é o latim 
de-expoliare ou dis-spoliare ^ com dois ss em vez de um. 
A forma desbulhar corresponde à castelhana despojar, que com 
outro sentido entrou em português: cf. as acepções do verbo 
francês dépouiller, que tem a mesma orijem, e o português filho 
com o castelhano hijo. 

A simplificação de desbulhar em debulhar é análoga à de 
despois, forma antiga, ainda hoje a única popular, em depois, 
que é a exclusiva literária. Em castelhano, porém, não se conhece 
outra que não seja después j de-ipso-postea *. 

D. Carolina Michaêlis atribuiu a debulhar o étimo de pi- 
leare, que também me parece provável. 

Com desbulhar é conecso esbulhar \ expoliare. 



1 F. Adolfo Coelho, Diccionario manual ETyMOLOGico da língua 

PORTUGUEZA. 

* G. Kõrting, Lateinisch-romanisches Wõrterbuch, Paderborn, 
1891, D.» 2401. 



Aiiostilas aos Dicionários Portugueses 361 



desconfiar, desconfiado 

Na linguajem usual este adjectivo quere dizer « que não tem 
confiança», «que receia ser enganado», por uma particulari- 
dade gramatical peninsular, que atribui a particípios passivos 
significação activa, como esquecido, «aquelle que esquece», atrai- 
çoado, «aquele que atraiçoa», etc. Está neste caso o vocábulo 
desconfiado, no uso comum de hoje, pois quere dizer, não « aquele 
de quem se desconfia», mas sim, «quem desconfia», em francês 
méfixint, particípio activo de (se) méfier. 

No uso antigo, todavia, desconfiado tinha outra acepção, 
que correspondia ao que hoje dizemos desenganado, desesperan- 
çado, e- que em castelhano se expressa com o particípio desahu- 
ciado \ de-ex-ad-fiduciatum, de fiducia, «confiança», o 
antigo fiúza português: — «chegou muito doente, esteve descon- 
fiado, recebeu os Santos Sacramentos» — '. 

Hoje diríamos: «esteve desenganado». 

Em sentido análogo usou-se também desesperado, equivalendo 
a desesperançado, como se vê neste passo da Cbónica de í]l-eei 
Dom Afonso v, de Rui de Pina: — «E destas voltas de fortuna 
que a Kainha D. Lionor viu padecer aos Infantes seus irmãos, 
foi da esperança que nelles tinha desesperada de todo » — ^ ; 
e na «Eelação do naufrájio da nau Sam Tiago», de Manuel 
Godinho Cardoso : — « assentou o mestre . . . que se mandasse 
aquella almadia, porque soubesse o que lhe tinha acontecido, 
porque não desconfiasse de todo» — ^. 

Ainda hoje se diz de um doente, que está em estado desespe- 
rado. 



* António Francisco Cardira, Batalhas da Companhia de Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 95. 
' cap. Lxxxiv. 

' in BlBL. DE CLÁSSICOS PORTUGUEZES, Vol. XLIII, p. 116. 



362 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



desistória 

Este pitoresco vocábulo parece ter sido inventado por Frei 
Gaspar da Cruz, não está colijido em dicionário nenhum, que 
eu saiba, e significa «patranhas», «contos»: — «Porque, além do 
que está dito, tem [os frades budistas na China] muitas desisto- 
rias e mintiras gentilicas de homens que se tornaram cães, e 
depois se tornaram em homens, e de cobras que se tornaram em 
homens, e outras muitas ignorâncias» — ^ 

desleixado, desdeixado 

A forma antiga do verbo deixar era leixar, de laxare=Zac- 
sare, latino, com vocalização do c em i, como em seixo j sa- 
X um =5«c5Mm, e palatalização do a em e, e do s em x, por 
influencia desse i, vogal palatal. 

A partir do século xvi prevaleceu a forma deixar, equiva- 
lente à castelhana dexar, hoje dejar [=dei[ar -], que se diz 
provir de de-laxare, etimolojia que oferece grandes dificuldades 
em castelhano, visto que nesta lingua o l entre vogais permanece. 

Memória das duas formas portuguesas leixar e deixar, são 
os dois adjectivos desleixado e desdeixado, que teem, ambos, a 
significação de «neglijente, descuidado». 

deslumbrar 

Esta palavra, e seus derivados, assim como vizlumhre, são 
de orijem castelhana, visto que é nesta língua, e não em portu- 



1 « Tratado em que se contam muito por extenso as cousas da China. . . >, 
cap. xxvii. A 1.^ edição é de 1569: servi-me da Rolandiana de 1829, que 
é a 2.». 

* O símbolo ?/ representa aqui a fricativa surda póstero-palatal, valor 
do j castelhano actual. 



Apostilas aos DicionâHos Portiiguesen 363 

guês, que o latim lumínem produziu lumbre, com mudança 
de n em r, e intercalação de h entre estas duas consoantes, como 
aconteceu com homhre \ hominem, em português lume, homem, 
popular orne: e digo himinem, acusativo masculino, porque lú- 
men, acusativo neutro, deu lume em português, e não podia pro- 
duzir lumbre em castelhano. 

Mudança de género gramatical idêntica temos de atribuir 
uimen para uiminem, para explicarmos a forma castelhana 
mimbre, correspondente à portuguesa vime. 

Alteração de n em r com perda da vogal i se deu também 
em castelhano no vocábulo /em6r«, moderno hembra { femina, 
que em português áeu. Jhnea [femena por femina, com perda 
do n entre vogais, que é de regra: cf. cheio, antigo cheo j ple- 
num, em castelhano lleno. 

Com deslumbrar se relaciona o castelhano alumbrar, que 
em português é alumiar. 



desmaio, desmaiar, desmaiado 

Actualmente desmaio equivale a delíquio, e desmaiar a 
« perder os sentidos » o que em francês se diz perdre connais- 
sance, s^évanouir. 

Antigamente, porém, desmaiado quis dizer < desanimado » : 
— «Ficou o principe Tai senhor do campo com a morte dos re- 
beldes, e elle favorecido do pai, jurado principe e herdeiro do 
reino, desmaiados os competidores, obedecido e temido de 
todos > — K 

E este ainda hoje o significado do inglês dismay, que, assim 
como as formas hispânicas, parece provir de ura radical germâ- 
nico magan, que vive ainda no inglês maij, no alemão môgen 
e macht, e cuja significação é « poder >. 



* A. F. Cardim, Batalhas da Companhia dej Jesus, Lisboa, 1894, 
p. 143. 



364 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



O adjectivo desmaiado, com aplicação a cores, equivale a 
desvanecido, «pálido»: — «Amarante, 15. Ha dias, por excava- 
ção, apparecerara em Paschoaes, na margem direita do Tâmega, 
alguns vasos de barro desmaiado, que desastradamente se 
quebraram» — ^ 

Exemplo de desmaio, « desânimo » , como em inglês, vê-se em 
Kui de Pina: — «E os seus que leixou, como souberam da sua 
partida. . . foram postos em grande desmaio, e cada um como 
pôde se apressou de o seguir, não sem grande desmando e ne- 
nhum acordo» — -. 



desmochar, desmoche 

— «Chamam-se desmochaãas ou encabeçadas aquellas [árvo- 
res] em que se decotou o tronco a pequena altura, de ordinário 
a 3 ou 4 metros ou no ponto em que se bifurca, conservan- 
do-se depois só os ramos que nascem na sua parte mais alta, os 
quaes são submettidos a cortes periódicos, vindo o tronco a for- 
mar em cima, passados annos, uma cabeça ou grossura bastante 
volumosa . . . e desta mutilação [a escamonda, q, vj, ainda mais 
do que dos desmoches, arruinar muito as árvores e estragar a 
madeira » — ^. 

desvisgar 

— «A distancia estão occultos o chefe da armada [q. v.] e 
um ou mais ajudantes, encarregados de preparar e pôr as varas 
e apanhar as aves, a que aquelle cuidadosamente desvisga as 
azas com terra . . . é raro que a ave, obedecendo ao chamo [q. v.], 



1 O Economista, de 20 de março de 1892. 

2 Crónica de El-rei Dom Afonso v, cap. cv. 

3 Gazeta das Aldeias, de 11 de março de 1906. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 365 



não vá, depois de dar algumas voltas, pousar no ramo, onde a 
traidora vara se lhe prende ás azas, tolhendo-lhe o voo» — K 
V. visgo. 

deúdo 

São já raros os particípios em -uão, que na língua antiga, 
eram os próprios da 2.** conjugação. 

Com valor de particípios apenas me ocorrem teúdo e man- 
teúão, numa frase já feita, antiquada, mas ainda não de todo 
desusada: — «um cão atravessado, teudo e manteudo Gan3'medes 
de um fidalgo» — -. Em Kui de Pina vemos ainda feãdos ^ e de- 
teúdos *, em Fernám Méndez Pinto reteúdos ^, como se vè, 
todos derivados do verbo ter. De outros verbos, vemos conhe- 
çuda numa carta de 1308, publicada na Revista Lusitana: 
— «Conaçuda (aliás, conhoçuda) cousa seva»— '^, e no Alentejo 
deúdo } debutum, por debitnm "', italiano dovuto. 

Com valor de substantivos subsistem alguns desses particípios, 
como provincialismos: mexuda, «papas de milho» (Beira-Baixa)^ 
Temudo, como apelido. 

Ao mesmo passo que a terminação -udò é já rara, na for- 
mação de particípios passivos, ou de adjectivos verbais, tem ainda 
vitalidade em adjectivos derivados de substantivos, como peludo, 
de pêlo, felpudo, de felpa, cabeludo, de cabelo, trombudo, de 
tromba, etc. 

Do particípio debutum derivou-se em castelhano deúdo, 
actualmente déudo, no sentido de « parente >, português antigo 



^ José Pinho, Ethnographia Amarantina, A Caça, in Portugá- 
lia, II, p. 96. 

» O Sbculo, de 6 de julho de 1904, Bulhão Pato. 

3 Crónica de El-rei Dom Afonso v, cap. cxxxi. 

* ih. cap. xxxvii. 

* Peregrinação, cap. cxcvi. 
« Vol. m, p. 294. 

' ih. vol. vin, p. 39. 



366 Apostilas nos Dicionários Portugueses 



divido } debitum, «parentesco muito chegado»: — «e assi por 
elle ter com a rainha divido mui conjunto» — K 



devasso, devassar, devassa 

Este adjectivo, em sentido material, diz-se do que «não 
ajusta bem, está solto > ; é o contrário de iJêrro, que significa 
«preso em demasia, apertado, que se não move, ou não cede». 

Em sentido moral aplica-se o adjectivo, já como tal, já subs- 
tantivado, a pessoas, a costumes «soltos, dissolutos». 

Na Ckónica de El-eei Dom Afonso v, de Eui de Pina, 
este adjectivo está empregado na acepção de « aberto, livre, 
desembaraçado», que perdeu no uso moderno: — «porque o lugar 
em que estava era campo devasso e sem disposição de se poder 
defender» — ^. Cf. devassar, «descubrir, examipar», devassa, 
« inquérito » . 

diabo-a-quatro, diabrura 

— «Punham antigamente em scena peças sacras em que. . . 
faziam apparecer diabos. . . intitulavam-se Pequena diabrura 
— Orande diabrura ... na grande-diabrura . . . era de rigor 
apparecerem sempre quatro diabos. . . » — . Esta informação que 
é uma definição completa, lê-se no jornal O Bocage, n.** 13, ci- 
tado na «Kevista Lusitana», vi, páj. 128. 

Hoje são freqiientes as expressões o diabo a quatro, levado 
do diabo, que assim ficaram explicadas. 

A forma diabo, corresponde à antiga diaboo j diabolum, 
com supressão do l intervocálico ; diabrura provém de outra 
forma do mesmo vocábulo diabro \ diab'lum, com a mudança 
de l em r, normal em português nos grupos de consoantes lati- 



Eui de Pina, Crójíica de El-rei Dom Afonso v, cap. lxxiv. 
cap. cxx. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 367 



nas, das quais a 2." era l líquido, em palavras de orijem secun- 
dária; visto que, nas mais antigas, os grupos latinos cl, fl, pi pro- 
duziram eh, quando iniciais, chave } clauem, * chor \ florem, 
chão } planum, ou depois de consoante, como macho \ mas- 
cUurn, e Ih, quando intervocálicos, coelho \ cunicUum. 



dico 

Na África Oriental Portuguesa, « cabaça que serve de copo > : 
V. cali *. 

diro 

Na África Oriental Portuguesa « prato de pau » : v. cali ^. 

discrição, discreção 

O DiccioNÁEio OoNTEMPOEANEO foi O primeiro, e era de es- 
perar que fosse o último, a dar cabida à segunda destas formas, 
mandando porém, entre parêntese, que ela seja pronunciada dis- 
crição. Para quê se alterou a escrita deste vocábulo, que figurara 
antes em todos os dicionários da língua, é o que se não sabe: 
o que porém se sabe e ,se vê é que tal mudança é disparatada. 
Efectivamente, se a pronúncia tem de ser com i, e não com e 
surdo na segunda sílaba, nenhum motivo plausível milita em 
favor da escrita com e. Este vocábulo discrição está para dis- 
creto, como profissão para professo, como procissão para pro- 
cesso, como prisão para preso, etc, e não creio que alguém 
aconselhe a que se escreva professão, processão, presão, apesar 
do e da segunda silaba dos adjectivos correspondentes: cf. ainda 



1 Jornal das Colónias, de 4 de julho de 1904. 

2 ib. 



868 Apostilas aos Dicionários Portugneses 

confissão e confesso, não obstante o castelhano confesión, aná- 
logo ao português antigo co7ifessão, que ainda lemos na Peee- 
GRiNAçÃo ^ de F. Méndez Pinto. 

Estas formas seguiram a analojia de outras, como aboli- 
ção, petição, demissão, comissão, e tantas mais. 

Abonar a forma discrição com autores clássicos fora iniitil; 
o que havia de ser difícil era encontrar neles o barbarismo dis- 
creção, que deverá quanto antes ser desterrado da escrita por- 
tuguesa, pois a adopção de tal forma ortográfica patenteia a 
completa ignorância da história da língua e do seu desenvol- 
vimento. 

Como porém tal escrita é um desacerto, tem-se propagado 
na imprensa diária, onde se tornou já chavão impertinente e in- 
sensato, quando não sofre ainda maior tortura, aleijado em des- 
çreção. 

Outro vocábulo, que na pronúncia do sul, em que o s final 
de sílaba é palatalizado, se confunde com este, é descrição, em 
ortografia clássica escrito com p, descripção, do latim descri- 
ptionem | descriptum j describo. 

Neste porém o preficso é des-, e não dis-. V. A. E. Gron- 
pálvez Viana, Oetografia Nacional -. 



dizouho 
Significa « respondão » . 

docíssimo 

Na linguajem dos cultos o superlativo de doce é dulcíssimo, 
por uma reversão artificial ao étimo latino dulce. No entanto, 



1 cap. ccxv. 

2 Lisboa, 1904, p. 78 e 80. 



Apostilas nos Dicioyiãrios Portugueses 369 



vê-se a forma docíssimas laranjas no Bosquejo de uma viagem 

NO INTEBIOR DA PaRAHYBA E DE PERNAMBUCO ^ O pOVO, entre 

o qual se foi a pouco a pouco, desde o século xvi, difundindo a 
forma superlativa em -íssimo, não conhece essas derivações arti- 
ficiais, e de amigo, pohre, por exemplo, forma amiguissimo, po- 
brissimo, em vez dos latinísmos amicíssimo, ijaupérrimo. 



dójico 

Este vocábulo, o qual designa uma espécie de noviço nas 
confrarias búdicas dos bonzos no Japão, não figura em nenhum 
dicionário português, nem tampouco francês, com a forma do- 
gique, empregada pelo Padre de Charlevoix-. E todavia neces- 
sário dar-lhe neles cabimento, visto encontrar-se em autores dos 
séculos XVI, XVII e xviii, que se lhe referiram, avisadamente 
romanizado, tanto numa, como na outra língua. 

Dois étimos se podem atribuir-lhe. O primeiro é a palavra 
japonesa transcrita por J. C. Hepburn - com a forma dõgi, a 
que dá a significação de — «a bo}^ under lõ years, a child — 
moço de menos de quinze anos, menino > — . O segundo étimo 
possível é pelo mesmo autor transcrito dõgahu, e explicado deste 
modo : — « learning or studying together with the same teacher, 
the same studies, a schoolmate» — , isto é: «condiscípulo, aluno 
na mesma disciplina >. 

Ainda que à primeira vista o não pareça, atenta a forma da 
palavra, é o segimdo étimo que devemos admitir como o ver- 
dadeiro, não só em razão do significado, mais conforme com a 
definição do vocábulo, mas também porque, sendo o h muitas 
vezes nulo entre vogais, em japonês, nas terminações adverbiais 
em -Teu, resulta de dõgaJcu, a pronunciação dogo, por isso que 



* in O Século, de 8 de junho de 1900. 

* A Japaxbse-Exglish, axd Ekglish-Japanese Dictioxary, 

Tóquio, 18S7. 



370 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

au se profere ò, forma perfeitamente concordante com o ãbgo 
inserto no vocabulário de 1603 •, e de que se derivou para por- 
tuguês o adjectivo dójico, como do grego lógos, se derivou 
lójico. 

O sinal (v), ou circunflecso invertido, foi empregado pelos 
jesuítas portugueses que escreveram gramáticas, vocabulários etc.^ 
do japonês, assim como outros sinais diacríticos com outras 
aplicações, nas transcrições de vários idiomas asiáticos, para in- 
dicar o o longo aberto, visto que o circunflecso designava o o 
fechado em português. Para o u longo usaram porém ú. 

dolménico 

Adjectivo derivado de dólmen, ou dólmin como escreveu o 
Dr. Costa, palavra imediatamente tirada do francês, que artificial- 
mente a derivou de uma língua céltica. O correspondente portu- 
guês é anta, que designa uma construção tumular pre-histórica. 



dolório 
Em Sam Miguel (Açores) quere dizer «desgosto» 2. 

dómaa, doma 

Era o antigo nome para designar a semana, do latim 
hebdomãdam, no acusativo, em grego 'ebdómada, com o mes- 
mo significado que o latim septimana, que o substituiu, isto é^ 
«sete dias»; literalmente: «relativo a sete». 



1 V. João de Freitas, Subsídios para a bibliographia portu- 
GUEZA, RELATIVA AO ESTUDO DA LÍNGUA JAPONBZA, Coimbra, 1905, notas. 

2 o Século, de 5 de julho de 1901. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 371 



domóvi, domovói 

No Novo DiccioNÁEio introduziu-se o primeiro destes vocá- 
bulos, que foi colhido nos Elogios Académicos, de Latiuo Coelho, 
como se declara. Está assim definido: — «espírito doméstico que, 
segundo a mythologia moscovita, está velando de além do túmulo 
sobre a família que fundou» — . 

Há engano manifesto nesta definição, seja ela, ou não, de 
Latino Coelho, mas que pela redacção é evidentemente traduzida 
de francês. Há dois vocábulos russos derivados de dom, < casa » : 
um é domóvú, « doméstico, caseiro » ; o outro é domovói, que 
corresponde a «trasgo», ao e?/ germânico, às jens (q, v.) do Al- 
garve. Deu-se pois confusão entre um e outro derivado. 



doninha, doninha 

Conquanto na essência sejam o mesmo vocábulo, deminutivo 
de dona \ domina, o uso fê-los distintos, provavelmente porque, 
ou a antiga acentuação dos deminutivos em -inho era dupla, 
como ainda o é no norte, por exemplo em covinha, pronunciado 
no sul cuvinha \ cova, e como o é nos que são formados com o 
inficso z, còvazinha; ou porque este nome do animalejo carni- 
ceiro nos veio do norte, com a sua pronúncia especial: desta 
maneira, doninha, e tam somente esse nome, deve de ser diferen- 
çado do deminutivo consciente de dona, que é doninha, profe- 
rido no sul com o átono=^í, duninha, pouco usado, mas existente. 

Que o termo doninha é indubitavelmente um deminutivo 
de dona, no sentido antigo de «dama casada», por oposição a 
donzela } dominicella, «dama solteira >, provam-no a denomi- 
nação do furão ou da doninha em galego, donacinha ^ como 



1 D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, in Revista Lusitana, iii, 
p. 187; cf. Saco y Arce, DiCC. Gallego, Barcelona, 1876. 



372 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

quem diria em português donaziyiha, e a da doninha em cas- 
telhano, comadreja, « comadrinha » . 

dor, dorido, dolorido, doloroso, doroso 

Do substantivo dor derivamos hoje um adjectivo dorido, 
que tem também uma forma dolorido, mais próssima da latina 
d olor em, da qual tirámos doloroso, mas a que na língua antiga 
correspondia doroso, directamente derivado de dor: — «suas con- 
tínuas lagrimas e dorosas palavras davam claro testemunho do 
sentimento do seu coração» — ^ 



duna 



É galicismo este termo: o português lejítimo é r)ièdão (de 
areia). Infelizmente está já tam arraigado na literatura geral, 
para onde inconscientemente passou da científica incorrecta e 
falta de vernaculidade, que será já difícil expunji-lo: — «De 
Algezur ao cabo de Sines apparece-nos coroada de imponentes 
dunas» — ^. Eis aqui exemplos de mèdão: — «Entre Douro e 
Neiva avultam os medões de A-vel-o-mar [id e. A-vê-lo-mar] ^ ; e 
mais antigo: — «Vivem estes Eeys arábios entre hums medões 
de área» — *. 

dundum, dunduns 

É esta a escrita que convém adoptar, no singular e no plural, 
visto ser a única conforme com os hábitos ortográficos portu- 



1 Eui de Pina, Crónica de El-rbi Dom Afonso v, cap. xvn. 

2 Portugália, i,p. 609. 

3 ih. p. 610. 

* Godinho, Viagem da Índia, 109, citado por Bluteau, Voe. port. 

LAT, 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 373 



gueses, em harmonia com os quais se não escreve m antes de d, 
e o m fiual se muda em n ao acrescentar-se o 5 do plural. 

Esta palavra designa uma espécie de pelouro, ou bala de 
espingarda: — « O arsenal de Dum Dum, perto de Calcuttá, e^ 
depois os da metrópole começaram a fazer grandes provisões de 
cartuchos com aquella bala» — *. 

O nome já agora está como está; mas aquela escrita Dum 
Dam inglesa quere dizer ãamedame na portuguesa. . 



durázio 

Este adjectivo, correspondente do castelhano durazno j dura- 
cínum, indica, a respeito de frutos, um termo médio entre 
mole e duro, estabelecendo-se assim uma gradação de rijeza: 
mole, molar, durázio, duro. 

O que é singular é dizermos de uma mulher para cima dos 
quarenta que é ^já durázia», e nesta expressão a gradação 
estabelece-se às avessas, pois a que passou de durâzia se deno- 
mina madura, estado de moleza a que se segue sorvada e podre, 
na fruta. Para prosseguimento da singularidade destes epítetos, 
a fruta verde não se pode tragar, e faz mal à saúde; o que se 
quere é fruta madura: exactamente o contrário do que se ape- 
tece na porção mais formosa do género humano: quanto mais 
verde melhor. 

êaugar 

Este vocábulo transmontano *, de aspecto bastante singular, 
pois que é necessário pronunciar-se ê em hiato com o « de augar, 
é um derivado, mediante o preficso em, do verbo augar j auga 



1 O Século, de 12 de janeiro de 1900. 

2 Augusto Moreno, Vocabulário transmontano (Mogadouro e 
Lagoaça), in «Kevista Lusitana», v, p. 45. 



374 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



por água, pronunciação muito usual também em Lisboa, frequen- 
tíssima no português falado até o xvii século, conforme o prova 
a escrita augu(o)a: o ditongo au, isto é, o w depois do a desen- 
volveu-se por eco, por influência proléptica, assimilação progres- 
siva ao u líquido que está depois do g, como na forma popular 
se desenvolveu um ditongo ãi, na palavra sangue, proferida 
sãingui, em virtude da influência desse i, que substituiu o e surdo 
final. Confronte-se esta formação êaugar com o antigo êaãer ^ 
correspondente do castelhano anadir \ ad-j-in-j-^ddere, e o 
castelhano enarenar, com o português arear. Vocábulos de es- 
trutura análoga são hem-aventurado, hem-avenim-ança, em-as- 
prear, em-aspreamento, nos quais se deve pôr uma linha divisó- 
ria, para que se não leiam be-maventurança, e-masprear, etc: 
— «vendo que o mastro com a grossura e em-asprearaento dos 
mares os çoçobrava » — . Morais transformou este substantivo em 
ensapreamento ^. 

A definição dada, loe. cit. pela Eevista Lusitana ao verbo 
êaugar, é a seguinte: — «(pronuncia-se: im-au-gar). — Apanha- 
rem [as creanças e as bestas: salva seja a comparança!] moléstia 
que as faça definhar, ás creanças por não se lhes dar de qual- 
quer coisa que nos vejam comer, e ás bestas por lhes não darmos 
também um mordo á entrada de uma porta em que parem, ou 
noutro sitio onde estejam acostumadas a comer. Diz-se de três 
maneiras: enaugar, augar e ougar; e em contraposição, respe- 
ctivamente: desenaugar, desaugar e desougar^ — . 

Aguar (pron. àguár), desaguar são os vocábulos comuns. Com 
efeito nada há peor que ficar aguado, ou com a água na boca: 

No hay desdicha mayor, 
que una esperanza fallida. 



1 Eui de Pina, Crón. dh El-rei Dom Afonso v, cap. xxix e lii. 

2 V. J. Cornu, Eevista Lusitana, vi, p. 87. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 375 

Com êaguar, reduzido a agiim', confronte-se o castelhano ena- 
genar \ inalienare, simplificado em alhear, moderno, mas cuja 
forma antiga era enlhear ^ 

eça: v. essa 

eclosão, eclusa 

São dois galicismos modernos e absolutamente inúteis, éclo- 
sion e écluse: o primeiro, já censurado no Suplemento ao Novo 
DicciONÁRio, é derivado de eclore, do latim exclaudere; o 
segundo imediatamente tirado de exclusa. 

Em português são absurdos tais vocábulos, porque o s latino 
antes de consoante permanece nas línguas hispânicas, como em 
italiano, e de entre as românicas somente no francês moderno 
(desde o século xvi) êle foi desaparecendo pouco a pouco, sendo 
as palavras em que ainda aí o vemos cópia recente do latim li- 
teral. 

Se, à falta de outro termo, quando o não houvesse (que há, 
açude, do árabe al-sude -, «represa de água»), ainda era admis- 
sível o vocábulo francês, conquanto desconforme com a índole 
do nosso idioma, por ser preciso nome para construção tam fre- 
qíieute em terra tam regada como a nossa; é absolutamente dis- 
paratado ir-se buscar já feito, e mal feito, um termo abstracto a 
uma língua, cuja formação vocabular bastante difere da portu- 
guesa, nas palavras de orijem latina principalmente. Em portu- 
guês diz-se desabrochar, quer como verbo, pelo francês eclore, 
quer como nome verbal, pelo francês eclosion. Infelizmente, não 



1 enlheaão, em Eui de Pina, Crónica db El-rei Dom Afonso v, 
cap. cxxiv. 

2 João de Sousa, Vestígios da lingoa arábica em Portugal, 
Lisboa, 1830. 



376 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



SÓ como termo de nomenclatura botânica, mas também de no- 
menclatura zoolójica, em vez de nascença, vai-se difundindo a 
estravagante palavra: — «Nos dias immediatos á eclosão (nasci- 
mento) do insecto [gafanhoto]» — ^ Quem isto escreveu conven- 
ceu-se de que eclosão era muito bom latim, e como tal, muito 
apto a substituir por termo mais fino o trivial nascimento [ou 
nascença], com que o explicou; porque, na realidade, para por- 
tugueses, que só saibam português, com ou sem latim, seme- 
lhante vocábulo é verdadeiramente uma charada mal feita. 

É de sentir que os nossos professores e escritores técnicos 
sejam em geral tam pouco escrupulosos na vernaculidade da lin- 
guajem, empecendo deste modo a criação e o desenvolvimento 
de verdadeira literatura científica, sem a qual a outra literatura 
é insuficiente para congraçar a ciência com o idioma nacional e 
fazer dele uma língua culta. O facto é que a este respeito quem 
pode não quere, e quem quere não sabe. 



edu 

O Novo DicciONÁRio diz-nos ser eãu uma árvore da índia 
portuguesa, mas não abona o termo, nem dá maior explicação. 

Não sei que árvore seja. Sebastião Kodolfo Dalgado, no 
DicdioNAEio KoMKANí-PORTUGUEz ^^ traz um vocábulo, elu, 
com l cacuminal, e dá-lhe a significação de «cardamomo». Como 
esse l cacuminal, que não tem correspondente nas línguas da 
Europa, a não ser um som análogo em alguns dialectos escandi- 
navos, costuma também ser expresso por d (e por r), é provável 
que seja a mesma árvore. 

Garcia da Orta não cita este entre os vários termos indianos 
para o cardamomo ^. 



1 O Século, de 8 de junho de 1900. 
* Bombaim, 1893, p. 69, col. ii: m é n^ germânico. 
5 Colóquios dos simples e drogas da Índia, Lisboa, i, 1891, 
p. 174. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 377 

eido 
A orijem deste vocábulo é o latim aditiim '. 



eiró(s) 

De areóla } areia, por serem as eirós transportadas vivas 
nas selhas, envolvidas em areia molhada. O termo não é geral; 
enguia é o nome deste peixe na língua comum. 



eito 



Tem dois significados, com étimos diferentes: eito, «se- 
rie» } ictum; eito «lançamento» { iactum -. 

Não sei a qual dos dois se há de subordinar a acepção que 
está definida no Novo Diccionábio, como termo brasileiro, com 
a significação de — «roça onde trabalhavam escravos» — . A eti- 
molojia ali proposta actum é improvável, visto que deste pro- 
cederam as formas portuguesas aito e auto. 



eivigar 

Este vocábulo obsoleto procede do latim aedificare, com a 
supressão normal do d intervocálico, e o abrandamento do /, 
igualmente intervocálico, em v: cf. devesa j defensa. 



* D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, in Eevista Lusitana, m, 
p. 62. 

* D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, in Revista Lusitana, iii, 
p. 145-147. 



378 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



êl 



É esta a forma transmontana do pronome êle, cujo plural é 
eis, por eles. O singular el é frequente em documentos antigos, 
bem como aquel. Em castelhano diz-se él \ ille, e no plural 
ellos \ illos. Em português, tanto a forma geral, como a espe- 
cial, êle, êl formaram o plural por analojia, eles, eis, já dentro 
do português. 

eleiçoeiro 

Não direi que este adjectivo esteja muito bem deduzido 
do substantivo eleição, porque a formação é mais própria de 
substantivos (cf. pregoeiro de pregão), mas em todo o caso é 
expressivo: — «O governo que dissolvera, por motivos eleiçoei- 
ros, 36 camarás municipaes» — ^ 



elo 



Do latim an(n)ellum, forma comprovada pelo castelhano 
anillo \ aniello, resultou ãelo ^, contraído depois em elo; cf. rela 
de rãela \ ranella, deminutivo de rana. 



embala 

Termo do Bailundo: — «a embala (a lihata onde vive o 
soba) » — ^. 



1 O Secui.o, de 3 de novembro de 1900. 

2 D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, in Revista Lusitana, i, 
p. 301. 

3 O Dia, de 29 de junho de 1903. 



Apostilas aos Uicionários Portugueses 379 



embarrar 

Vocábulo transmontano, que corresponde ao geral esbarrar. 
Vem já no Novo Diccionáeio, como termo da língua comum, o 
que não parece exacto. 

embondeiro ; empipa 

E o nome português da árvore agigantada a que os franceses 
chamam haohab, conforme a nomenclatura científica, Adansonia: 

— « Chamaram-lhe por isso a arvore de Lifan (povoação 
que os portugueses incendiaram em Timor). Era da família dos 
baobabs, imbondeiros e micondós, gigantes vegetaes de que 
abundam todas as nossas colónias tropicaes» — *. 

E preferível escrever com e inicial este nome africano 
(mbondo), visto que o i inicial, com que também se escreve 
em português, imhondeiro, forma ortográfica que adoptaram o 
Dico. CoNTEMPOEANEo c Nôvo Dicc, é preficso significativo 
nas línguas cafriais, designativo do plural dos substantivos 
da classe iii; como em quimbundo, kinda, «quinda, cesto», inda, 
«cestos» — -. 

No mesmo caso de transcrição portuguesa em, por m -j- con- 
soante, e en, por n -f- consoante, iniciais, grupos próprios das 
línguas africanas da família banta, ou cafrial, estão outros 
vocábulos, que hajam de ser adoptados em português, como 
empipa: — «Fabricam também uma outra bebida adocicada cha- 
mada m^pipa, resultado da fermentação incompleta da batata 
doce» — ^. 

V. Oetogsafia Nacional, páj. 256 e 257. 



' Carta de Timor, in <0 Século >, de 16 de janeiro de 1906. 

* Héli Chatelain, Grammatica elementar do Kimbundu ou lín- 
gua DE Angola, Genebra, 1888-1889, p. 3. 

3 Azevedo Coutinho, A campanha do Baruê em 1902, in < Jornal 
das Colónias > de 30 de julho de 1904. 



380 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



emboutar 

Na Beira-Baixa significa este vocábulo «pôr de parte, depois 
de ter encetado >, abocanhar. 



empacassa, empacasseiro 

O Novo DicciONÁEio inseriu estes dois vocábulos, definindo 
o primeiro — «vacca silvestre das margens do Ganges; búfalo» — ; 
e o segundo — «caçador de búfalos» — . 

Tenho muitas dúvidas acerca da exactidão destas definições. 
A palavra empacassa não tem feitio índio, mas antes africano, 
cafrial, e neste caso poderia ter sido pelos portugueses ou por 
banianes levada da África Oriental para a nossa índia, se se 
apurasse que ela fosse vernácula num e no outro destes dois 
pontos. Ora, na realidade, empacassa não é termo conhecido na 
Índia, e nem mesmo, ao que parece, em qualquer rejião da 
África Oriental Portuguesa. 

Com efeito, na língua de Tete o principal termo com que o 
búfalo se designa ali é nháti ^ 

Disse que o termo tem aspecto cafrial, e na verdade é êle 
vernáculo, porém na África Ocidental e não na Oriental: em 
quimbundo pahasa é o vocábulo pelo qual « búfalo » é traduzido 
por Joaquim da Mata, no ^^hn^l jipahasa: «boi selvagem; bú- 
falo» — -. A sílaba inicial da forma portuguesa empacassa in- 
dica ser ela tomada de qualquer dialecto do quimbundo, em que 
o p seja nasalizado, fenómeno frequente nas consoantes iniciais 



1 Victor José Courtois, DiCCiONARio portxtguez-cafrb tetbnse, 
Coimbra, 1899, p. 81. 

2 Ensaio de diccionario kimbúndu-portuguez, Lisboa, 1893, 
p. 127. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 381 

de vocábulos dessa família de línguas, quando são substantivos 
principalmente. 

Como não é natural que o termo transitasse da costa ociden- 
tal de África, onde não vão os banianes, para a índia Portu- 
guesa, é provável que a vivenda do bicho não seja, nem nunca 
fosse, as marjens do Ganjes, como nos diz a definição do Novo 
Dicc, pelo menos com semelhante nome. As espécies africanas 
mesmo são diferentes das da Índia, e de todas as mais asiáticas. 

A. Réville, no livro Les keligioxs des peuples nox-civi- 
LisÉs *, cita os vocábulos empacasso e empacasseiro no seguinte 
passo, que me foi apontado pelo snr. G. de Vasconcelos Abreu: 
— <0n parle encore d'une société qui se serait formée depuis 
le seizième siècle chez les Kimboundas [sic] sud-est [sid] de 
TAfrique, et dont les Portugais appelaient les membres des 
Empacasseiros, parce que chaque initié devait sacrifier un 
buffle, empacasso» — . O autor cita R. Hartmann *, e refere-se à 
dita seita como adversária da antropofajia, e que deste modo 
substituíra o sacrifício humano pelo de uma rês. 

É claro que o vocábulo dado aqui como português o não é, 
mas quimbundo, segundo vimos. Por outra parte, a vivenda dos 
povos ambundos, propriamente ditos, a sueste da Africa, se não 
é erro tipográfico, mas do autor, serait de sa part une sin- 
gulière bévue, a não ser que parta da hipótese, perfilhada em 
certo modo por Henrique de Carvalho 3, de que os povos ca- 
friais tivessem vindo do leste para oeste, e que ainda a sueste 
demorassem naquele século, o que tudo assenta em conjecturas. 

Temos porém aqui um passo, que nos subministra mais 
uma acepção do vocábulo empacasseiro, a de membro de uma 
seita relijiosa indíjena, que tinha como credo a abolição dos sa- 



1 Paris, 1883, p. 113. 

' Les peuples de l'Afrique (Bibliothèque scientifique intematio- 
nale), Paris, 1880, p. 218 (q. v.J. 

3 Expedição portugueza ao Muatiânvua. Ethnographia b 
HISTORIA tradicional, Lisboa, 1890, cap. i, p. 54 e ss. 



382 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



crifícios humanos, mediante uma prática cultual menos cruel, 
a substituição da vítima humana por um búfalo, mpalcasa, pa- 
lavra cafrial que lhe haveria dado o nome imposto pelos portu- 
gueses residentes em Africa, entre os quais fosse aquele animal 
conhecido também por este nome aportuguesado, empacassa. 

Parece, portanto, serem inexactas as definições que dos dois 
vocábulos nos dá o Novo Dioc, sem as abonar. 

Evidente é igualmente que o autor a quem citei, Hartmann, 
obteve aquela informação de qualquer escritor português; mas 
nem êle cita a autoridade em que se fundou, nem eu a pude 
por emquanto encontrar. 

Concluirei advertindo que J. I. Koquete, no Dicionário por- 
tuguês francês * já inscrevera o substantivo (emjjjacassa, nos 
termos seguintes: — «empacassa ou pacassa, t. hist. nat. em- 
pacassa ou pacassa, buffle, bubale du Congo». — Não é provável 
todavia que Hastmann fosse lá desencantar o vocábulo, que não 
figura nem no Dicionário francês de Littré, nem também no de 
Larousse. Parece pois que Roquete, sem autoridade, afrancesou 
a palavra, que vemos deu como denominação do animal na África 
Ocidental, e não na índia. 



empapelar, empapelo 

O Novo Dicc. dá-nos como significado de empapelo, nome 
verbal rizotónico de empapelar, «embrulhar em papel >, o signi- 
ficado — «invólucro de papel» — , declarando desusado o vocá- 
bulo. Nesta acepção concreta creio que, na realidade, está fora 
do uso, se é que em algum tempo foi empregado. Na acepção 
abstracta, porém, de «acção de empapelar», existe abonação, 
colhida provavelmente em flagrante: — «Na officina de empa- 
pello (sic), havia 5 magnificas machinas de cortar papel» — *. 



1 DiCTIONAIRE PORTUGAIS-FRANÇAIS, Paris, 1855. 

2 O Século, de 25 de abril de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 383 



Refere-se o articulista à fábrica de tabacos, denominada de 
João Paulos Cordeiro, em Lisboa. 

empargado 

No Riba-Tejo diz-se do «trigo amontoado na meda», con- 
forme informação de pessoa da Chamusca. 

empeçar 

Este verbo antigo, correspondente do castelhano antigo em- 
peçar, moderno empenar (=empe§ar) * é ainda usado em 
Trás-os-Montes, talvez por influencia espanhola raiana. Nada tem 
que ver com outro empeçar, que o Contempoeaneo define — 
«enredar. . ., pôr obstáculo. . . topar. . . » — . 

empena, empenar: v. pena 

empolgar 

Conforme J. Joaquim Núnez, de impollicare "^ j pollex, 
pollicis, «dedo polegar»: cf. poUicaris, «que mede uma po- 
legada » : O próprio adjectivo português, substantivado, polegar 
é pronunciado normalmente polgar, e assim pode ser escrito, 
como o é o verbo. 

encaixe 

Em Sam Martinho dá-se este nome à renda. Em castelhano 
é encaje. 



1 § designa a sibilante surda ginjival ou dental, o z castelhano actual. 

2 Kevista Lusitana, ni, p. 256. 



384 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



encalir 



No Minho: «engrolar, ferver mal, entalar, como se diz em 
Lisboa, carne ou peixe, para se não estragar, afim de serem cozi- 
nhados ao depois». 

O Novo DiccioNÁEio traz este vocábulo, com definição 
aprossimada. Atribui-lhe um de dois étimos: latim calere, 
que apresenta a dificuldade da permanência do l intervocálico 
(cf. quente | calentem), que no entanto vemos em calor, 
provavelmente de orijem semi-erudita. Aponta como segundo 
étimo, um hebraico, que não cita, remetendo o leitor para 
Pereira Caldas. 

Não se dê esse leitor a semelhante busca, partindo com toda 
a segurança do seguinte princípio: as etimolojias hebraicas de 
Pereira Caldas, à parte aquelas que toda a gente sabe que o 
são, tem apenas uma utilidade reconhecida, a de servirem de 
assunto de riso, se não de lástima; porque de três cousas uma 
é verdadeira: inventou-as para nosso divertimento, esteve zom- 
bando comnosco, ou estava doido quando as publicou. 



encanelar 

O Novo DiccioNÁEio incluiu este verbo, dando-lhe como 
definição: — «dobrar em canelas ou novelos; fazer canelas em, 
acanelar » — . 

O vocábulo novelos é de mais, pois novelos não são canelas, 
e neles enrola-se o fio, não se dobra, como nas meadas ou ma- 
deixas. 

No trecho seguinte, porém, encanelar tem outra acepção: 
— «Lamego, 21... o ficarem as videiras sem rebentar foi de- 
vido a varias influencias atmosphericas, e na maior parte geadas 
que receberam já no tempo em que a vide principiava a desen- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 385 



volver para a rebentação, e que assim ficaram encauelladas, 
— termo que n'este caso usam os lavradores» — K 



encaraçado 

No noi-te do reino usa-se este adjectivo participial substanti- 
vado, derivado de caraça, para significar o que no sul se diz 
mascarado, e antes se dizia emmascarado, como vemos no 
romance de António de Campos, Luís de Camões [Parte ii, 14]: 
— «Iam a cavallo, em trage de disfarce, muito garrido, masca- 
rados, ou emmascarados, como então se dizia » — . 



encardir, cardir 

Cardida, que pressupõe um verbo cardir, de que é particí- 
pio passivo, diz-se da madeira que esteve muito tempo debaixo 
de água, e apodreceu. Esta informação foi-me dada pelo snr. 
G. de Vasconcelos Abreu. Do verbo primitivo cardir se derivou 
encardir, <çujar», hoje em dia e desde muito tempo empre- 
gado no sentido de «lavar mal», pois se diz roupa encardida 
aquela em que, depois de lavada, transparece a çujidade ante- 
rior. 

O verbo cardir parece ser afim do adjectivo cárdeo, (q. v. 
em avergoar). 

endoenças 

Tanto o Diccionaeio Contempobaneo, como o Manual 
Etymologico de F. Adolfo Coelho, como o Novo Diccionaeio 
de Cândido de Figueiredo, são concordes em atribuir a este 
vocábulo, como étimo, o latim dolentia. D. Carolina Michaelis 



1 O Economista, de 26 de maio de 1891. 

25 



386 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



explica-0 pelo latim indulgentias ^ Com efeito, confira-se o 
passo seguinte: — «Vendo Vasquo da Gama ho que se passava 
sesta feira de Indulgências se fêz à vela ... se informou da ci- 
dade de Melinde, diante da qual foi surgir dia de Páscoa de 
Kessurreição pela menhã» — -, 

Esta expressão sesta feira de Indulgências volta a ser em- 
pregada por Gróis no capítulo v da iii Parte, citado por Bluteau 
[Vocabulário, sub v. Endoenças], que já aponta este étimo, o 
qual, apesar de certas dificuldades fonolójicas, é indisputável. O 
douto lecsicógrafo acrescenta a forma popular andoenças, alterada 
pela influencia do verbo andar: — «pelo muito que naquelle dia 
[quinta feira de endoenças] se anda correndo as Igrejas» — . 



endrómina(s) 

O Novo Dicc, em dúvida, dá como étimo a este vocábulo, 
que apoda de chulo, o vasconço androminac, e como para o com- 
provar, cita outra forma andromina, mais conforme com o caste- 
lhano andrómina, que naturalmente passou a Portugal no sé- 
culo XVII. O Dicionário da Academia espanhola ^ aponta para 
étimo o italiano andirivieni — «subterfúgio» — , e francamente 
não se lhe podem dar parabéns pela invenção. 

Examinemos, no entanto, de relance as dificuldades que 
apresenta o vasconço indicado, conquanto plausível, e que pri- 
meiro foi proposto pelo famoso criador da filolojia vasconça, o 
Padre Manuel de Larramendi, em princípios do século xviii. 
O vocábulo diz-se composto de andré «mulher casada», e min, 
«dor, queixa». Ora, andré não é andró, e o plural andreminac 
teria naturalmente de ser acentuado no i de min, andreminac. 



1 Eevista Lusitana, iii, p. 150. 

•2 Daiiiiáo de Góis, Crónica de El-rbi Dom Emmasuel, i, cap. 37. 

3 Madrid, lá99. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 387 



enfarelar 

— «Ulteriormente enchem a vasilha [de barro poroso] com 
farinha de milho e agua, collocam-a ao fogo e, uma hora passada, 
consideram obtida a vedação. Está a loiça enfarellada» — ^ 



engar, enguiço, enguiçar 

O Novo DiccioNÁEio dá a este verbo a significação de: 
— « habituar-(se), preferir (um pasto)» — . 

D. Carolina Michaêlis tratou deste vocábulo num artigo muito 
bem deduzido, dando-lhe como significação própria e primordial 
a seguinte: — ^engar-se a alguma cousa significa avezar-se ao 
qice é ruim^ — , e exemplificou este significado com o adájio: 
— «Engou-se a velha aos hredos: souber am-lhe hem, lambeu 
os dedos ^ — , a que corresponde a forma mais moderna — * Ave- 
zotírse a velha aos bredos, etc. » — . 

O étimo proposto pela autora desta luminosa inquirição, 
que merece atenta leitura, é o latim iniquare ^. Cf. a etimo- 
lojia proposta pela mesma romanista para enguiçar \ iniqui- 
tiare \ iniquum, e que parece indubitável, sendo enguiço um 
substantivo verbal, rizotónico, deste verbo. 

Júlio Cornu, todavia, opõe com razão a esta etimolojia, en- 
gar \ iniquare, outra, enecare, que em latim significa «ator- 
mentar», acrescentando o seguinte: — somente no caso de se encon- 
trar a forma êiguar, se poderia apelar para o étimo iniquare ^. 

Na realidade, a quantidade longa do segundo i, torna difícil de 



1 Kocha Peixoto, Sobrevivência da primitiva roda de oleiro 
EM Portugal, in Portugália, ii, p. 76. 

2 Kevista Lusitana, iii, p. 151-154. 

3 Grammatik der portugibsischen Sprache, hl < Grundriss der 
romanischen Philologio, 2.* edição, Estrasburgo, 1905, p. 966, nota. 



388 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

admitir-se o seu desaparecimento, postulado na outra etimolojia 
a que me referi. 

enguiado 

Não é claro o sentido deste epíteto, aplicado à cortiça no 
trecho seguinte : — «as cortiças enguiadas não eram por via de 
regra impróprias para rolha; somente valiam menos, por não 
poderem ser fabricadas á machina de rolha que dispensa o qua- 
dro» — *. 

Fica no entanto rejistado o vocábulo, se não há nele erro 
tipográfico. 

enha= minha 

No Novo DiccioNÁEio vem apontada esta forma, abonada 
com Gil Vicente. Efectivamente, como proclítica, le-se no « Auto 
da Lusitânia » : 

— Florida, enha filha — 

— Granado, enha filha — , 

como vemos ta na « Farsa do Clérigo da Beira » : 

Que filho és de bom pai, 
E ta mãe boa mulher. 

São abreviaturas de minha, tua. 

É de notar que enha é pelo poeta empregado num romance, 
com todas as aparências de antigo, tradicional, para ser can- 
tado, e que os versos são de cinco sílabas até a última acentuada: 

— Donde vindes, filha. 
Branca e colorida — , 



1 O Século, de 19 de julho de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 389 



O e de enha tem de ser elidido, como provavelmente o era na 
pronúncia, porque servia apenas de amparo à sílaba nha, que 
não é inicial de vocábulos portugueses. Este enha é pois a redu- 
ção de minha por próclise. 

Também no <Auto da barca do Purgatório» figura o feme- 
nino enha, na boca de um lavrador, que fala linguajem arcaica 
e viciosa: 

E de tudo fiz aquesta, 
Como omem diz, avantairo : 
Leixei ó cura enha besta. 

Aqui empregou Gril Vicente, como quási sempre, a redondi- 
Iha, e o e de enha tem também de ser elidido. 

No Suplemento ao mesmo dicionário dá-se-lhe, porém, um 
masculino enho, que nunca existiu, nem podia existir, pois a 
forma masculina é meu, e não, minho, e que foi deduzido infun- 
dadamente do femenino. 



enjendrar, gerar 

O verbo enjendrar é, como arranjar, um galicismo antigo, 
tanto em português como em castelhano; todavia, para o segundo 
destes verbos somente em português se dá o galicismo, pois os 
espanhóis criaram o verbo arreqlar, que o substitui em quási 
todas as suas acepções. Não me ocuparei do segundo destes ver- 
bos, porque, à parte escritores pouco esmerados, todos evitam 
o seu emprego, a não ser nos sentidos populares de «conser- 
tar, compor >, ou no translato de < alcançar», significados que 
não tem o verbo (ar)ranger francês, o qual significa principal- 
mente «arrumar», em sentido natural ou em sentido figurado. 
Na acepção de < obter» diz-se em francês (se) procurer. 

Que, tanto o verbo arranjar, como o verbo enjendrar são 
galicismo, prova-se com a sua formação: arranger provém de 
rang, substantivo a que em português corresponde o quási 



390 Apostilas nos Dicionários Portugueses 



desusado renque; vê-se, pois, que a este primitivo não corres- 
ponde aquele derivado. 

O mesmo acontece com enjendrar. Do latim genus, gene- 
ris procedia o verbo generare, de que em português proveio 
gerar, com perda do n intervocálico, e que por isto se pronun- 
ciava dantes gerar, que J. I. Koquete ainda manda proferir com 
e aberto, e de que o povo fêz jarar, obedecendo à influencia que 
o r exerce no e átono que o precede: cf. para J pêra). Ainda 
hoje a pronúncia geral é geração, e não, geração. 

Em francês, de ingen(e)rare fez-se engenãrer, como de 
gener, generis, «genro», se fêz ^en6?re, com í? intercalar entre 
o n e o r, que a supressão do e que os separava pôs em con- 
tacto. Tal d eufónico não pertence à fonolojia portuguesa (cf. 
genro), e portanto enjendrar não é português, a não ser como 
plebeísmo, no sentido de « enjenhar, aldrabar, fabricar mal e sem 
preceito » . 

É pois defeituosa a seguinte frase: — «As formas nobres. . . 
que traziam na sua plasticidade evolutiva a possibilidade de en- 
gendrar o cavallo, o elephante, etc. » — ^ 

Onde se empregou este verbo afrancesado, deveria ter-se es- 
crito gerar, que lhe corresponde na significação e orijem. 

Não é porém sem exemplo o emprego de tal verbo, em passos 
de autores antigos, e Bluteau cita dois, ambos os quais, todavia, 
conteem a idea subsidiária de artifício, que torna a obra imper- 
feita ou impossível. 

enjogar 

Este verbo derivado de jogo (=jôgo), vocábulo transmontano 
que quere dizer, como forma subsidiária de gogo (^=gógo), « seixo 
boleado pelas águas que o acarrearam», significa no mesmo dia- 
lecto «empedrar, calçar as ruas com jogos». 



* O Século, de 25 de setembro de 1905. 



Apostilas aos Dicionános Portugueses 391 



enlaga 

— «A enlaga [do linho] tem por fim dissolver na agua uma 
espécie de gomma resinosa, que liga entre si as fibras do linho 
e da casca» — *. 

enoque 

No Boletim da Sociedade de Greografia de Lisboa - ve- 
mos esta palavra, empregada num acórdão municipal de 1862, 
transcrito em parte pelo autor do escrito, de sumo interesse, ali 
publicado: — «todo o cortidor (síc), que não despejar a surrada 
das pelles no rio e não deitar fora das portas de seus e no quês 
ao rio as misturas que n'estes se fazem incorrerá na pena de 
6000 réis, pelo damno que causará á cidade do mau cheiro» — . 

Vê-se que a transcrição está modernizada na ortografia, e 
ficamos na incerteza do que seriam os enoques, vocábulo que 
me não consta haja sido encontrado em outra parte. 



enoz 



Ignoro o significado exacto deste vocábulo que aparece nas 
Batalhas da Companhia de Jesus, do Padre António Fran- 
cisco Cardim [Lisboa, 1894, páj. 44], e pode ser erro de lei- 
tura: — «uma enoz de pedra vitorina» — . Vê-se que é uma jóia, 
um enfeite, com forma especial. 



1 Portugália, i, p. 370. 

2 17.* Série, 1898-1899, p. 168— Bragança e Bbmqubrbnça, por 
Albino dos Santos Pereira Lopo. 



392 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



enristar, enriste 

O verbo vem em todos os dicionários; não assim o substan- 
tivo dele derivado, enriste, que vemos no seguinte passo das 
Batalhas da Companhia de Jesus : — « repetiu o algoz o en- 
riste» — K Antes dissera: — «enrista com elle» — . 



ensaca 

Não é o nome verbal derivado de ensacar, que falta nos di- 
cionários, a par de ensaque, neles rejistado, mas um termo da 
África Oriental Portuguesa, cuja definição se vê nos trechos se- 
guintes: — «A gente de guerra era dividida em ensacas, com- 
mandadas pelos malukua, os quaes tinham como auxiliares o 
fchicango, e o dembo, autoridades que correspondem respectiva- 
mente aos cazembes, sachecundas e mucatas da Zambezia» — ^. 
Antes, lê-se: — «Ensacas agrupamento de cypaes commandados 
por um cazembe, correspondente á companhia» — . 

Na escrita destes vocábulos, para que fiquem portugueses, 
temos de emendar malucua, chicango, além do absurdo cypaes 
em cipais (q. v.), ou sipais. 

ensanzorar 

— « Nos bivaques, e quando temem surpreza [os cipais], ou se 
ensanzoram, ou construem abrigos ligeiros, com troncos de 
arvores, ou terra» — ^. 

É termo da África Oriental Portuguesa. 



1 Lisboa, 1894, p. 192. 

2 Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1902, in «Jornal 
das Colónias >, de 13 fle agosto de 1904. 

3 Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1902, in «Jornal 
das Colónias», de 19 de agosto de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 393 



ensarranhar 
No Minho, conforme infonnação pessoal, « eiifarniscar > . 

entrevistar 

Este neolojismo pretende substituir o estrambótico interview 
inglês, que para cá passou por intermédio do francês, onde é 
anglicismo; mas também não é português, nem cá é preciso. 
Muito mais antigos, e mais expressivos, temos visitar alguém, 
avistar-se com alguém. 

entrujão 

Em jíria castelhana entruchón quere dizer «sabido, ladino». 
Existem também entruchar e eniruchada. O verbo é assim de- 
finido no Dicionário da Academia *: — «atraer á uno con disi- 
mulo y engano, usando de artifícios para meterle en un nego- 
cio » — . 

Conquanto o termo em Portugal tenha grandes ressaibos de 
linguajem ordinária, direi mesmo chula, a pouco e pouco foi en- 
trando no uso comum; ainda assim afigura-se-me um lapsus ca- 
lami o seu emprego em estilo sério, como o vejo no trecho 
seguinte, de escritor esmerado: — «O vaqueiro honesto tem sem- 
pre ensejo de mostrar a sua boa fé. . . e o vaqueiro intrujão de 
conhecer o caminho da. . . Boa Hora [edifício dos tribunais de 
justiça em Lisboa]» — ^. 



1 Madrid, 1899. 

2 D. Luís de Castro, in Diário de Noticias, de 22 de fevereiro de 

190tí. 



394 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



envés 



É usado no Minho, com o significado que no sul damos a 
avesso } aduersum, como envés \ inuerse. 



enxada 

No excelente estudo de Francisco Adolfo Coelho intitulado 
Alfaia agrícola portuguesa, publicado na revista Portu- 
gália ^ vêem-se os seguintes epítetos, que diferençam outras 
tantas qualidades de enxadas: enxada de peto, enxada de in- 
çar eta, enxada larga, enxada de ganchos. 



enxadrez 

E o nome antigo do xadrez, que ainda subsiste no adjectivo 
participai enxadrezado : 

— Negro é o pez, 

Negro é o rei do enxadrez — ^. 

Em castelhano é ajedrez, antigo axedrez, de orijem imediata- 
mente arábica, proveniente do sánscrito, por intermédio do per- 
siano, que o recebeu de qualquer língua vernácula do Indostão. 

Em última análise o vocábulo é sanscrítico: KaTURaMGa ^, as 
quatro partes (componentes de um exército), infantes, cavaleiros, 
carros e elefantes. 



1 I, p. 399. 

* Gil Vicente, Auto das Fadas. 

3 O símbolo Av vale pelo ng germânico, ou nasal póstero-palatal. O vo- 
cábulo sanscrítico pronuncia-se quási como se em português escrevêssemos 
(t)chatorânga, isto conforme a prosódia convencional, clássica na Europa. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 395 



enxalabar, enxalavar 

Esta rede é assim descrita no artigo A pesca em Buaecos 
de P. Fernández Tomás: — «Redes especiaes, tendo na boca um 
arco de ferro, chamadas enxalavares^ — ^ A forma com h en- 
contra-se no seguinte passo: — «Um pescador, tendo mergulhado 
mais uma vez o seu enxalabar > — 2. 



enxame 

Em Leiria aplica-se, em sentido geral e não por metáfora, 
esta palavra para designar «grupo de gente que anda rezando e 
visitando os passos no domingo de Páscoa». Esta informação é 
do conhecido poeta Acácio de Paiva, dali natural. 

Como é sabido, enxame é o latim examen, «tropel, ajun- 
tamento de gente que segue caminho»; «enxame de abelhas» 
é sentido especial que o vocábulo adquiriu. 



enxaravia 

O Novo DiccioNÁRio define este vocábulo como significando 
— «toucado de mulheres, principalmente de meretrizes» — , e 
dá-o como termo antigo. Num artigo, publicado por Sousa Vi- 
terbo, intitulado As candeias na industria e nas tradições 
POPULARES portuguesas 3, vcm transcrito um documento de 
1454, no qual entre os de outros objectos está mencionado este 
nome: — « enxaravias de seda e linho» — . 



1 i» Portugália, I, p. 152. 

2 O Economista, de 26 de outubro de 1888, citando o Campeão das 
Províncias, de Aveiro. 

3 in Portugália, i, p. 367. 



396 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



O Elucidário de Santa Kosa de Viterbo já traz a pala- 
vra: — «Também se chama Polaina. Era a insignia oprobriosa 
das alcoviteiras. Consistia n'huma Beatilha de seda vermelha, 
que traziam na cabeça, emquanto não partiam para o des- 
terro» — . Cita o Livro v das Ordenações, Título 32, § 6.'', 
onde na realidade se lê o seguinte: — «Em todos os casos em 
que algúa mulher for condenada, por alcoviteira em algumas das 
penas sobre-ditas [nos §§ antecedentes], onde não haja morrer, 
ou hir degradada para o Brasil, traga sempre polaina, ou en- 
xaravia vermelha na cabeça, fora de sua casa, e não a trazendo 
seja degradada para sempre para o Brasil» — . 

Do texto citado vê-se que a definição de Santa Kosa de Vi- 
terbo tem dois erros. Primeiro, provável: não se depreende clara- 
mente se ])olaina é a enxaravia, ou outra peça de vestuário; 
segundo, certo: a enxaravia era obrigatória, quando não havia 
morte ou degredo, e não, como diz, sempre e precedendo o de- 
gredo. 

Conforme Eguílaz y Yanguas é o vocábulo arábico AL-xaEBÍiR 
«faxa para a cabeça», de xaRs «linho delgado». O arabista 
espanhol acrescenta: — «En la 2.^ [Polaina] és el ár[abe] GaRAB, 
medias» — ^. Este último étimo é inexacto, mas lejitima a 
dúvida, de que polaina equivalha a enxaravia. 



eiixó(s) 

Xo Alentejo é o nome de uma armadilha de alçapão, para 
apanhar perdizes. 

O Novo DiccioNÁRio, escreve enxó(s), e diz ser termo da 
Beira-Baixa, com significação análoga. É possível que seja uma 
acepção especial de enxó \ latim ascióla, deminutivo de ascia. 



• Glosario de las palabras espanolas de origbn oriental, 
Granada, 1886. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 397 



enxoval, ajiuir 

À primeira vista parecem muito diferentes estes vocábulos, 
o primeiro português, o segundo castelhano pronunciado actual- 
mente ai(uar, com a fricativa póstero-palatal surda do castelhano 
moderno, em vez da dorsal x do português. 

No castelhano antigo a forma era porém axu(v)ar, e o íc 
tinha então o mesmo valor que tem em português. 

Enxoval, não se deriva, como diz o Novo Diccionáeio, de 
exuuiae: é o árabe al-xuae, <dote», quer em dinheiro, quer em 
jóias, quer em trem de casa ^ No testamento de Pedro Kodrí- 
guez (1419), publicado na Kevue Hispanique [x, páj. 230] 
lê-se : di a leonor rrodriguez axuar bien rico » — . 

O a representa o artigo arábico al, com assimilação do l 
à consoante seguinte x, por esta ser o que em terminolojia técnica 
se diz letra solar, porque por ela começa a palavra xaMs, « sol » . 
Letras solares são nessa terminolojia as que se proferem com a 
ponta da língua, como d, l, n, r, s, t, x; lunares, as outras. 

Com relação à mudança de ax. . . em enx. . . da forma 
portuguesa, cf. a forma valenciana enxovar, com a aragonesa 
axovar -, e ainda o castelhano azufre, azada, com o português 
enxofre, enxada. Compare-se também enxame e exame, ambos 
do latim examen. Pelo que respeita à inserção do v, confron- 
tem-se ig\ialmente as formas castelhanas loor, loar com as por- 
tuguesas louvor, louvar, dantes loar, de que proveio loa, em 
latim lauda re, e laus, landis; ouvir, português com oir cas- 
telhano j audire; goivo j gaudium, etc. Este v intercalar ma- 
nifestou-se nas formas de orijem latina, depois da queda do d, 
para se evitar o conflito das vogais, ou hiato: a esta causa é 



1 Veja-se Eguílaz y Yanguas, Glosario de las palabras espano- 
LAS DE ORiGEx ORIENTAL, Granada, 1886. 

' Dozy & Engelmann, Glossairb des mots espagsols et por- 
TUGAis DERIVES DE l'arabe, Leida, 1869. 



398 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

devida a sua inserção em enxoval. Cf. ainda viúva, do latim 
iiidua, passando por uiua, viua, viúa. 

Modernamente alguns periodiqueiros, que se envergonham de 
escrever em português tudo . que querem dizer aos leitores, co- 
meçam a empregar, em vez de enxoval, a palavra francesa 
trousseau, nas tediosas descrições que fazem de qualquer casa- 
mento rico, nas quais nunca também omitem o ridículo corbeille. 



eólito 



— «em todas as épocas da pre-historia se fabricaram eoli- 
thos, isto é, peças [de pedra lascada] que apresentam um mí- 
nimo de talha intencional» — *. 

O termo é moderníssimo, derivado artificialmente do grego 
'eõs, «aurora», e lit'os, «pedra», e importa a noção de «pri- 
meiros vestíjios do talho da pedra feito pelo homem». 



ermo, ermar, ermamento 

O substantivo ermo seguiu a acentuação grega érêmos, em 
vez da latina erê'mus, que ao depois passou a ser érémus. 
Deste substantivo derivou-se o verbo ermar, de que por neolo- 
jismo se fêz ermamento, como de armar, armamento: — «mas 
que nunca houve ermamento conhece-se com toda a clareza 
dos documentos da época» — . 

Significa «despovoamento» ^. 



* O Archeologo português, vol. X, p. 407. 

2 Alberto Sampaio, As « villas » do norte db Portugal, in « Por- 
tugália», I, p. 283. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 399 



érvodo, érvedo 

O Novo DiccioxÁKio inclui este vocábulo, com remissão a 
ervedeiro, mas acentua ervôdo, o que me parece erróneo, visto 
que a palavra procede do latim arbútus, «medronho», arbú- 
tum, «medronheiro». 

A existência deste substantivo é postulada pelos seus deriva- 
dos, ervedeiro, ervedal, que com outros figuram no onomástico 
corográfico. Ervedo equivale a «medronheiro», e no Minho cha- 
ma-se-lhe ervedeiro. 



esbandalhar, esbandalha 

O verbo eshandalhar analisa-se como escangalhar : es-band- 
-alh-ar. Desta forma derivou-se um substantivo rizotónico, de 
acção, esbandalha, que não figura nos dicionários: — «Logo após 
as primeiras chuvas do outomno procede-se ao que se chama a 
esbandalha das moreias, que consiste em regularizar as terras, 
aplanando-as » — K 

Ignoro se o termo é geral, ou somente alentejano. 



esbarar 

Termo transmontano, que significa «escorregar»: — «mas o 
de cima, sentindo pouca força nas mãos, que lhe esbaravam» — *. 



í Melo de Matos, Cultura dos trigaes xo Alemtejo, in Portu- 
gália, I, p. 623. 

2 M. Ferreira Deusdado, O Recolhimeiíto da Mófreita, in «Re- 
vista de Educação e Ensino », 1891. 



400 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



escada, escadaria 

A palavra escada não provém de se ai a com mudança de l 
em d, que seria absurda, pois o se ai a latino daria em português 
escâ(a), mas sim de escalada, escaada, como já afirmou Júlio 
Cornu. 

A noção da orijem da palavra perdeu-se porém, visto que 
se pronuncia escadaria e não escadaria: cf. pàção \ palacia- 
num, e fagueiro ou fagueiro, castelhano halagueiio K 

A forma escaada, não contraída, existiu: — «Et todos desta 
coUatione levavam as tabolas e a madeira ao Castello, et faziam 
o tavoado et as escaadas» — ^. Notem-se as formas tabolas e 
taboado, a primeira com ?, e a segunda sem ele. 



escalavrar 

Conforme D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos 3, este verbo 
corresponde a um castelhano descalaverar j calavera { caiu ária, 
com a anaptíctico. Mas como a calavera corresponde em portu- 
guês caveira, segue-se que escalavrar seria castelhanismo, atenta 
a permanência do Z, e o adjectivo participial escàveirado que 
pressupõe um verbo escàveirar. Maior castelhanismo será ainda 
descalabro, substantivo verbal espanhol j descalabrar. 

Cf. ainda escalvado \ calvo. 

O étimo proposto pelo Contempoeaneo, scalpellare, é im- 
provável. 



1 V. A. R. Gonçálvez Viana, Études de Grammairb portugaise, 
in «Muséon>, 1884. 

* PoRTUGALiAE MONUMBNTA HISTÓRICA, Inquirições de D. Afonso iii, 
II, p. 416, col. II. 

3 Ebvista Lusitana, iii, p. 178. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 401 

escaleres 
Como termo de jíria, quere dizer « olhos >. 

escalfar 

Este verbo significa « cozer em água quente > . 
O étimo parece ser ex-cal(idum)-fa(ce)re, conforme 
G. Kõrting *. 

escamalhar 

J. Leite de Vasconcelos dá este verbo como pertencente ao 
vocabulário de Trás-os-Montes, e com a significação de « escan- 
galhar >. Como este, decompõe-se em es-cam-alhar \ cama, e 
quere propriamente dizer ães-a-cam-ar -. 

Cf. esbandalhar (q. v.). 



escamei 

Na língua comum: «banco de espadeiro». Deve ser o latim 
scamnellum; mas scamnum J escano. 

Como termo alentejano significa um moço que avia recados, 
ou como lá dizem, mandados ^. 

Há de ser outro o étimo. J. Leite de Vasconcelos sujere o 
latim casmillus, com metátese do s, scamillus, forma para- 
lela a camillus, camilla, «donzel ou donzela, que auxiliava o 



1 Citado por G. Kydberg, Jahresbericht úber die Fortschritte 

DER ROMANISCHEN PhILOLOGIE, VI, I, p. 288. 

2 Kevista Lusitana, ii, p. 117. 

3 V. Kevista Lusitana, u, p. 37. 

26 



402 Apostilas aos Dicionários Portugutses 



sacerdote nos sacrifícios» *, o que parece pouco provável. No en- 
tanto, cf. escamillo, castelhano. 



escamondar, escamonda 

— «-No país só tenho visto applicar muito este tratamento 
[o desmoche, q. v.J aos freixos e aos grandes salgueiros, mas 
pouco aos choupos, os quaes de ordinário são escamonãaãos, 
isto é, desramados ao longo do tronco» — ^. 



escamudo 

Este adjectivo, comparável a peludo j jJêlo, espadaúdo | es- 
pádua, equivale a escamoso, mas com uma diferenciação de sen- 
tido: escamoso quere dizer «que tem escamas», escamudo, «que 
tem muitas escamas»: — «Setúbal, 26... Peixe maneiro % es- 
camudo. por isso apropriado para conservas» — ^. 

Eefere-se à sardinha. 



escanc(a)rar, escánc(a)ras, caranguejo 

Este verbo significa «abrir enteiramente » . 

O DiocioNÁEio Manual etymologico de Trancisco Adolfo 
Coelho nada diz a respeito da sua orijem; o Novo Diccionáeio 
dá esta como incerta. Pois não é muito difícil acertar com o 
étimo; basta comparar este verbo com o toscano sgangherare, 
que quere dizer «tirar uma porta dos lem£s» : gangheri j cân- 
cer, «caranguejo», e também «varão de ferro, grade», de cujo 



1 ib. 

2 Gazeta das Aldeias, de 11 de março de 1906. 
■ O ECOKOMISTA, de 28 de abril de 1891. 



Apostila'^ aos Dicionários Portugueses 403 

deminutivo cancellus procedeu cancelo, e deste cancela. Can- 
cro era português designa um grarapo de ferro com que se prende 
a madeira ao banco do carpinteiro, e neste sentido já o Voca- 
bulário POETUGUEZ E LATixo de Bluteau traz o termo. 

Conforme o Suplemento ao Novo Dicc, chama-se igualmente 
cancro uma — «peça de ferro, com espigão, ou sem êlle, para 
fixar numa parede ou cantaria qualquer trabalho de carpin- 
teiro» — . É natural que o termo tivesse, ou talvez tenha ainda, 
o significado de « gonzo » , como o italiano gánghero. De cancro, 
com a vogal anaptíctica a entre o c e r. se formou cáncaro. que 
ainda é hoje a pronunciação vulgar de cancro; e deste cáncaro 
se derivou o verbo escancarar, «abrir de par em par», como 
em italiano de gánghero. sgangherare. 

É sabido que o nome do crustáceo caranguejo é forma demi- 
nutiva, \ cranguejo \ cangrejo, que é a castelhana e antiga por- 
tuguesa, e cujo étimo é o câncer latino. 

De escancrar, forma mais antiga e curta se derivou o nome 
verbal escancra, como o povo o profere em geral, e com a vogal 
anaptíctica, encáncara(s). que é forma considerada culta; mais 
deturpada porém que a popular, visto que, a ter-se derivado de 
escancarar, deveria pronunciar-se escancara, como a 3.* pessoa 
singular do presente do indicativo, com a qual coincidem estes 
substantivos verbais : cf. o fabrico j fabricar \ fábrica. 

O étimo de sgangherare foi apresentado por Sofo Bugge na 
Komania em 1874, e comparou-lhe o português ãesengon- 
çaão \ engonço j gonzo: não lhe ocorreu o verbo escancarar, 
que provavelmente não conhecia, e que melhor corresponde ao 
italiano. 

escandalizar 

Este verbo latinizado, scand alizar e, do grego skandalí- 
ZEIN j SKÁNDALON, «embate, pancada, armadilha», foi empre- 
gado por Tertuliano com a significação de «desinquietar, sedu- 
zir». Adquiriu acepções várias nas diferentes línguas para as 
quais passou, e em português a de «ofender», que também tem, 



404 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ou teve, era gascão, como vemos na comédia de Molière, Le Boub- 
GEois gentilhomme: 

— Bous boyez que chacun mé raille, 
Et jé suis escandalisé 

Dé boir ès mains dé la canaille 
Cé qui m'est par bous réfusé *. 

Parece porém que mesmo ao francês literário não foi estra- 
nho este significado, pois o próprio Molière empregou nesse sen- 
tido o mesmo verbo em texto francês puro: 

— Votre paresse eníin me scandalise, 
Ma muse, obéissez-moi — *. 



escaparate 

Este substantivo nenhuma relação tem com o verbo escapar. 
Significa um « armário pequeno » , o que nós chamamos mostrador, 
ou, segundo a terminolojia afrancesada dos caixeiros, montra \ fr. 
montre, visto que mostrador em castelhano corresponde ao que 
em português se denomina balcão. 

A orijem do vocábulo é o holandês schaprade, pronunciado 
çi[ápràde, quási sJcaprade, com a vogal intercalar a, e cujo si- 
gnificado é «armário de arrecadação». 

Outros vocábulos holandeses passaram às línguas hispânicas; 
6 sem citar os termos de marinha, apontarei, entre outros, ma- 
nequim I manJcen «homemzinho», (queijo) j;rato \ plaat(kaas), 
«queijo chato», por oposição ao esférico^ a que chamamos queijo 
flamengo, e que os espanhóis denominam queso de bola. Manuel 
Godinho Cardoso chamou-lhe queijo de frarrbengos ^. 



* Acto V, Ballet des Nations. 

2 Kemerciment AU Eoi, (Euvres, Paris, 1760, t. viu, p. 168. 
' BlBL. DE CLÁSSICOS PORTUGUBZES, vol. XLI, p. 31. (Fins do sé- 
culo xvi). 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 405 



A palavra 2)^'(iio significa, do mesmo modo «chato» j pla- 
tus, plata, platutn \ grego platús, plateía, platú; chato é 
forma mais antiga, da mesma orijem. 



escar(a)funchar 

Verbo muito popular, com a significação de «esg(a)ravatar». 
Deriva-se de uma forma latina scar(i)phunc(u)lare ^ 



escar(a)mentar 

Este verbo é antiquíssimo, pois já foi usado pelo trovador 
Raimbaldo de Vaqueiros — «Todo 'n soy escarmentado» — ^. 

A forma com a intercalar é considerada plebeísmo. D. Ca- 
rolina Michaêlis de Vasconcelos atribui-lhe como étimo o latim 
experimentare ^, que me parece improvável em razão da mu- 
dança singular de p em c. Júlio Cornu * considerou possível ser 
escarmentar derivado de escarmento ou escramento ^, e este 
procedente de excrementum, hipótese inadmissível, a meu ver, 
atenta a significação. A mim parece-me que a etimolojia será 
ma. verbo latino popular ex-carminitare \ carminare \ car- 
men, carminis, «carda»: cf., emquanto à significação, escalr 
daão em português, escamado, em castelhano. 

Outro étimo, que ofereceria iguais, senão maiores probabili- 
dades, seria Carpentes, «profetizas, adivinhas», nome derivado 
de carmen, antigo casmen, no sentido especial de «vaticínio»; 



1 Revista Lusitana, iv, p. 336. 

* Citado por Milá y Fontanals, De los Trobadores en Espana, i, 
p. 1.32, n. 11. 

3 Revista Lusitana, iii, p. 154. 

* Grundriss der romanischen Philologie, i, p. 778. 

5 escramentado em Rui de Pina, Crónica de El-rei Dom Afonso v, 
cap. cxLii. 



406 Aimstilas aos Dicioiíârios Portugueses 



e neste caso teríamos de supor um verbo carmentare freqiien- 
tativo de carminare, «vaticinar», postulado pelo particípío do 
futuro passivo carminabundus, empregado com valor de adjec- 
tivo. Outro étimo, que já em 1874 foi proposto por Sofo Bugge 
na Komania, é ex-carpimentum j ex-carpere, por excer- 
pere, «apartar, escolher do mal o menor, aproveitar». 

Eis aqui uma abonação bastante antiga do verbo escarmen- 
tar em castelhano: — «Et otrossi tenemos por bieu que los 
de esta puebla [Espinar] que puedan escarmentar e peindrar 
[pignorare] » — ^ 

^ ^scar(a} pelar 

> 
Conforme J. Cornu de scalpellare, com a anaptíctico. 

Todavia, temos carpela do milho, substantivo, que parece ter 

dado orijem a este verbo. 



escarçar; esgarçar, escarchar 

Conforme D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos 2, o primeiro 
destes verbos, que parecem formas diferentes de um só primitivo, 
dífrivar-se-ia de ex-carptiare j carpere, «carpir, colher» 
(cf. caçar de captiare), étimo só admissível para um dos sig- 
nificados, « tirar a cera das colmeias » ; segundo Kõrting 3, escar- 
char proviria ^e ex-quartiare, «esquartejar». O mais natural 
pois é, congraçando talvez as duas opiniões, separar, o primeiro 
escarçar, do segundo, equivalente a esgarçar, e dar a este, bem 
como a escarchar, o étimo de Kõrting. 



1 Júlio Puyol y Alonso, Una puebla en el siglo xiii, in < Revue Hispa- 
nique», vol. xi, p. 250. (Era de 1335, i. e. 1297). 

2 Revista Lusitana, iii, 143. 

3 Latbinisch-romanischbs Wôrterbuch, Paderborn, 1890, n.** 
3006. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 407 



escarumba 

Esta palavra, que se emprega como motejo com referencia a 
negros, usou-a Rocha Peixoto: — «A torpesa genésica de vários 
portugueses que carreiam para o continente, do Brasil e da 
Africa, a progénie escarumba» — K 

O artigo em que tam estranho vocábulo recebeu foros de 
literário é de crítica, violenta mas justíssima, a um livro pu- 
blicado em França, acerca de Portugal, livro em todos os pontos 
de vista misérrimo e ridículo, infelizmente escrito por portu- 
gueses. 

escasso 



Como é sabido, este adjectivo proTém do latim scarsum, 
e conseguintemente deve escrever-se com ss, e não com ç; 
cf. avesso | aduersum. 

Como substantivo está empregado no trecho seguinte: — 
«Ha agora mais trabalho na ria, porque muitos braços se em- 
pregam na apanha de escassos» — ^. Ignoro a significação. 



escrivão 

O povo costimiava chamar, com bastante graça, escrivão da 
pena grande ou comprida ao varredor das ruas, que se servia 
de uma vassoura de longuíssimo cabo, e a empregava inclinando 
este sobre o ombro. 



* Portugália, i, 663. 

* Campeão de Aveiro, de 8 de setembro de 1886. 



408 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



escusa-galés 



Espécie de embarcação: — «e destes [parós] quatro se fizeram 
e serviram depois de escusa-galés»— ^ 



esganar 

Este verbo tem o significado comum de «afogar apertando 
as goelas». O partieípio esganado significa «sôfrego, avarento». 

E um derivado de gana, palavra que parece não ser muito 
antiga na língua, visto que Bluteau a não incluiu no seu Voca- 

BULAEIO. 

Diz-se estar esganado com fome, e nesta locução o partieípio 
esganado tem a mesma significação virtual que o substantivo 
gana, «grande apetite, grande vontade». 

A acepção primordial do verbo esganar, «afogar», porém, 
não se compadece com tal significação. Ora, como é trivial esta 
outra locução popular « sou capaz de lhe arrancar as ganas do 
comer fora», e nela inquestionavelmente a palavra gana quere 
dizer goela; é desta acepção que provém o significado de esganar 
«apertar as goelas». Em castelhano desganar significa «tirar a 
vontade » . 

A palavra gana é de orijem germânica, muito antiga em 
castelhano, onde ainda hoje corresponde a «vontade, desejo», e 
de Castela provavelmente foi trazida a Portugal. 

Be esganar se derivou esgana « doença nos cães » . Cf esga- 
niçar-se, em castelhano desgamtarse. 



1 Padre Manuel Bernárdez «Descrição da cidade de Columbo > [Ceilão], 

in BXBL. DB CLÁSSICOS P0RTUGUBZE5S, VOl. XLI, p. 92. 



Apostilas aos Diciotiários Portugueses 409 



esguiçaro, esguizaro 

Estas duas fonnas correspoudiam antes a suíço. José Leite 
de Vasconcelos entende serem de procedência italiana S e em 
toscano se diz realmente svizzero; é possível que nalgum dialecto, 
sghiszero. Os suíços a si próprios se chamam Schwizer, promm- 
ciando quási xevítcer. 

Suiça, como certo talhe de barha, é o adjectivo suíça subs- 
tantivado, com elipse do substantivo barba. 



esguicho 

— «Bateiras de pesca. Ha três t3pos: o da bateira de Aveiro 
e Ílhavo.. . e os dois typos murtozeiros: a labrega e a chin- 
chorra (q. v.) a que também chamam esguicho. Estas duas 
diííerem uma da outra em ser a segunda maior e muito mais 
arqueada e levantada de proa e ré, approximando-se muito dos 
barcos do mar da Torreira» — -. 



esmola, esnoga 

O étimo de esmola é sem dúvida o latim oleemos y na, vocá- 
bulo enteiramente grego, eleêmosúnê, « compaixão, dó » j eleéõ, 
«ter dó». Os trâmites por onde passou tam longo vocábulo para 
chegar ao trissílabo actual foram: elemosna, ehnosna, (almosna 
no LivBO DE Alexandre: cf. cast. limosna), esmolna, esmonla 
(cf. moleiro | monleiro { molinarium). Da forma esmolna há 
documento antigo, citado no Suplemento ao Novo Diccionábio. 



1 O Archeologo português, V, p. 3. 

2 Luís de Magalhães, Os barcos da ria de Aveiro, in Portugá- 
lia, II, p. 61. 



410 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Transformações análogas sofreu sinagoga, para chegar à forma 
medieval esnoga, ainda hoje em dia usada pelos judeus portu- 
gueses: sinagoga j esnaoga { esnoga. 



espada, espadela, espadelada, espadilha, espadeiro, espadeirar; 
espádua; espaldar; espátula; espatela 

Espada é o latim spatha, em que o th foi tratado como se 
fosse t ^ Deste vocábulo se derivou espadela, que além de desig- 
nar uma espécie de remo, a que os franceses chamam pagaie, 
é o nome de um instrumento agrícola: — «A espadela é uma 
espécie de podoa de madeira, em que se distingue a cota, o fio 
ou gume e o punho» — -. 

Espadelada procede de espadelar, e este de espadela. Espa- 
dilha, além de ser o nome do ás de espadas em vários jogos 
de cartas, denota uma ferramenta própria de tecelão: — «uma 
regoa de madeira chamada espadilha^ — '^. Serve para formar a 
urdidura. Deve de ser castelhanisrao em ambos os sentidos. 

Não são somente estes os derivados de espada, ou dos seus 
derivados; há muitos mais, que podem ver-se nos dicionários. 
Um deles é esjmdeiro, «fabricante de espadas». 

De espadeiro, pronunciado espadeiro, com a surdo na 2.^ sí- 
laba, declaram os mesmos dicionários derivar-se espadeirada, 
com a aberto átono da dita sílaba, e que não significa o que a 
sua formação exijiria, a ser verdadeira a derivação, «pancada 
dada pelo espadeiro, ou com um espadeiro, ou espadeira, ou 
num espadeiro ou espadeira » . (Cf. cutilada, catanada, punha- 
lada), mas pancada dada com a espada. íDq onde veio pois a 
sílaba intercalar -eir-, visto não dizermos espadada, e o a ser 
aberto em espadeirar, espadeirada, sendo surdo em espadeiro? 

O VocABULÁEio POBTUGUEZ E LATINO de Blutcau resolve esta, 



1 Ortografia Nacional, Lisboa, 1904, p. 63. 

2 3 Portugália, 1,370-373. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 411 

como tantas outras dúvidas. Nele não está rejistado o substan- 
tivo espadeirada, mas unicamente esimldeiràda, que é definido: 
— «Quando se dá de prancha com a espada» — , Deriva-se pois 
espaldeirar, esjmldeirada de espalda, « ombros, costas » ; e espah 
ãeirada pressupõe um primitivo espaldeira, ou espaldeiro, deri- 
vado, como espaldar, de es^oalda, «espádua(s)», e também en- 
costo, como cadeira de espaldar, que vem no mesmo Vocabulário. 
Pela semelhança de espalda com espada, suprimiu-se depois o l, 
que os diferençava, no derivado espadeirada, conservaudo-se 
aberto o a, como teria de sê-lo antes de l da mesma sílaba, fosse 
tónico, ou átono ; cf. falta, faltar com fala, falar. 

É de notar que espádua, espalda são derivados de spathula, 
deminutivo de spatha, e portanto orijináriamente o mesmo vo- 
cábulo. Assim, espádua \ spathula, com perda do l intervocá- 
lico (cf. mágoa de macula); espalda \ spaluta, metátese de 
spathula, como espaldar de spalutare ^ 

O outro derivado artificial e recentíssimo de spathula, que 
já dera espátula, é espatela: — «A espatela é uma taboinha inof- 
fensiva, que serve para abaixar a lingua, afim de melhor se poder 
ver a garganta» — -. 

espelir 

No Minho, «expirar, morrer». 

espera (1) 

Forma antiga correspondente a esfera. [V. espera, na « Orto- 
grafia Nacional», do autor] 3. Formado do sphaera latino, lido 
spera. Foi também o nome de uma peça de artelharia *. 



1 Ebvista. Lusitana, iii, p. 286. 

« O Dia, de 2 de julho de 1904. 

3 Lisboa, 1904, p. 63-Cõ. 

*■ ih. 



412 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



espera (2), esperista 

Substantivo rizotónico do verbo esperar. Tem vários significa- 
dos, e entre eles, é o nome de uma peça do tear, espera da roda 
do órgão do pano ^. 

— «Todas as vezes que entre nós se caça á espera e esta é 
sempre feita a uma determinada espécie, o primeiro cuidado do 
caçador, para ser bem succédido, é impedir por todos os meios 
possiveis que seja notada a sua presença. . . nesse caso o espe- 
rista, nome dado ao caçador de espera, construe. . . barracas 
de ramos, em que se embusca» — ^. 

O vocábulo espera foi também usado antigamente no sentido 
de «lugar onde se espera», «prazo dado», «sítio ajustado para 
encontro » . 

Nesta acepção foi imposto a um cabo na Terra Nova, por 
ocasião da viajem de Corte Keal, Cabo da Espera, denominação 
que os ingleses converteram em Cape Spear, «cabo da lança». 
Cumpre advertir que o vocábulo inglês spear, actualmente pro- 
nunciado spíar, era há três séculos ainda pronunciado spéar. 
Outras denominações dadas pelos portugueses a acidentes de 
terreno naquelas parajens foram igualmente alteradas, para que 
formassem sentido em inglês, tais como Cape Race, por Cabo 
Raso, Ferryland por Farelhão, etc. ^. 

esperto, espertar, espertador 

O adjectivo esperto, que tem muitas acepções, mais ou menos 
relacionadas com o seu étimo latino expertum, particípio pas- 



* Portugália, I, p. 374. 

2 José Pinho, Ethnographia Amarantina, A Caça, in Portugá- 
lia, II, p. 95. 

3 V. H. P. Biggar, The voyagbs of the Cabotp and of thb 
Corte Eeals to North America and Grbbnland, 1497-1503, in «Ke- 
vue Hispanique», x, p. 587, notas. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 413 

sado passivo de expergere, «acordar», ou com o verbo espe7-- 
tar, teve um significado muito especial, que vemos apontado no 
seguinte trecho: — «Em me dando autorisação para lhes applicar 
uns tratos espertos, eu os farei falar» — ^ 

Espertador é o nome que antes se dava, e o povo ainda dá, 
ao que os cultos chamam despertador «relojo com carrilhão 
para acordar as pessoas a horas certas». — «Um relojio de horas, 
com seu espertador» — -. * 

espevitar, espevitado 

Espevitar uma vela ou torcida é « cortar-lhe o murrão » . 
E como a luz depois dessa operação fica mais viva, dizemos que 
uma pessoa é esp,evitada quando é esperta em demasia, e língua 
espevitada é «língua desembaraçada». Esta última expressão 
não é moderna, pois a vemos em texto do xvii século: — «Kes- 
pondeu com grande esperteza e língua muito espevitada» — ^. 



espiar, espear 

Como o verbo se conjuga nas formas rizotónicas com i, e 
não ei, não há remédio senão escrevê-lo sempre com i. Todavia, 
vê-se que houve confusão com os verbos em -iar, como aconte- 
ceu com criar \ creare (q. v.). 

Deu-se portanto confusão entre estes dois verbos, de tam 
diferente significação, pois o primeiro, de orijem germânica, 
quere dizer «vijiar», e o segundo, conforme D. Carolina Michaê- 



1 António de Campos, O Marquez de Pombal. 

2 António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 80. 

' António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 24. 



414 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

lis de Vasconcelos, derivado do latim ex-panare \ paniim ^ 
designa — «acabar de fiar a estriga que cinjia a roca» — , se- 
gundo a definição do Novo Diccionábio. 

O latim panus, queria dizer — «a canela de fiado, ou armeo 
de lã preparada para se fiar» — ^. De ex-panare proviria espêar 
e depois espear, que deveria conjugar-se espeta, e não, espia. 
Todavia, espiar, neste sentido, poderia também ser espigar: 
cf. liar \ li gare. 

espiga, espigo, espigão, espigueiro 

O primeiro destes vocábulos designa a parte terminal da 
haste de certas gramíneas em que se conteem os grãos, as se- 
mentes; as do milho chamam-se propriamente maçarocas, termo 
que também se aplica ao linho que está enrolado na roca. O ter- 
ceiro vocábulo, forma aumentativa, quere dizer uma ponta agu- 
çada que se crava em qualquer parte para segurar a peça a que 
pertence. Neste sentido vemos a forma espigo, não rejistada nos 
dicionários, empregada no trecho seguinte: — «no centro da [mó] 
inferior ha um espigo de ferro onde entra a segurelha [q. v.J de 
madeira » — . 

E provável que espigo não seja propriamente a forma mas- 
culina, correspondente à femenina espiga, formação aliás muito 
usual (cf. cesto e cesta), mas sim, o latim spiculum, deminu- 
tivo de spicum, j spica, que designava em latim o ferrão de 
alguns insectos, do lacrau, etc. As formas intermediárias foram 
spigulum, espigoo: cf. hágo(o), de baculum. 

De espiga se derivaram vários vocábulos, tais como espi- 
gueiro, nome que também se dá no norte ao canastro (q. v.) ou 
caniço, mormente se é feito de pedra e cal e não de verga ou 
canas. 



* Eevista Lusitana, iii, p. 158. 

' J. António Eamalho, Magnum lbxioon Latinum et Lusitanum, 
Lisboa, 1819. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 415 



espilrar, espirrar 

A primeira destas formas é popular, e mais conforme com a 
etimolojia, que é uma forma latina expirulare por expilu- 
lare \ pilula (cf. pirola, que tem a mesma orijem). A forma 
imediatamente anterior a espih-ar é espirlar (cf. melro \ meru- 
lum, e hilro \ hirlo, que é também { pilulum). Espirrar ^yo- 
vém de assimilação do l ao r seguinte. 

espinho, espinha 

Espinho é o latim spinum (forma de transição espio): espi- 
nha o plural spina, tomado como singular femenino, que tem 
duas acepções principais: o «arcabouço ósseo dos peixes», «bor- 
bulha». Xo norte, para particularisar este sentido, diz-se espi- 
nha brava: — «Xasceu-lhe uma espinha brava no hombro di- 
reito » — ' . 

espojar, espojo, espojinho 

A pronúncia popular é espQjár, com o fechado átono, que se 
converte em aberto, quando é tónico: espojo, espoja, etc. Oscar 
Nobiling 2 dá como étimo a este vocábulo, que significa «rebo- 
lar-se no pó, como faz o jumento», e daí, « arrasta r-se pelo chão», 
spodiare j exspodiare i spodium, na significação de «cinza». 
Espojinho, que poderia ser um deminuitivo de espojo, significa 
«remoinho de vento que levanta pó»: — «Faltava, porém, uma 
prova mais convincente de que o pó elevado no valle do Orinoco 
pelos espojinhos (como aqui chamamos no Alemtejo aos remoinhos 
ou pequenos cyclones que aspiram o pó)» — ^. 



' Ricardo Jorje, A pkstb buboxica no Porto, p. 4. 

- Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, Série 21. 

3 O Século, de 10 de março de 1902. 



416 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



espreitar 

Este verbo, usado em português somente, que eu saiba, de- 
riva-o D. Carolina Michaélis de Vasconcelos de explic'tare 
por explicitare: Confronte-se empreita, «tecido de palma», de 
implícita, por implicita, que confirma a etimolojia; cf. ainda 
estreito ! strictum ^ 



espremedicinbo 

Este singular deminutivo, de espremediço j espremido j es- 
2)remer, aplica-se a um animal mais pequeno e enfezado que 
outros da sua espécie, em meio dos quais vive. 



esquartej ar, esqu artej ado uro 

Este verbo quer dizer partir em quatro quartos, «fazer em 
postas». Singularmente o emprega António Francisco Cardim, 
num sentido que é um contra-senso, e é natural que lhe não 
ocorresse a orijem da palavra: — «ficou o império esquartejado 
em três partes» — -, 

O substantivo esquartejadouro, feito à semelhança do équar- 
rissage francês, é recente, mas perfeitamente admissível: 

— « O sr. Martinho Guimarães, vereador da fazenda munici- 
pal, propoz aos coUegas que o transporte para os esquartejadou- 
ros, dos animaes que morram na via publica, seja feito em car- 
roças da camará, que não tenham outra applicação> — ^. 

O termo era já oficial, visto constar do Decreto de 7 de fe- 



1 Eevista Lusitana, iii, p. 146. 

* Batalhas da Companhia db Jesus, Lisboa, 1894, p. 217. 

3 O Economista, de 24 de março de 1893. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 417 



vereiro de 1887. Ainda bem que o estrambótico équarrissage 
morreu à nascença! 



esquilo, esquio 

O nome deste formoso animal, que suponho não existe 
actualmente no nosso país, deve ter a mesma orijem que o fran- 
cês écwreuil, isto é, em latim scuirulus, scuirolus, derivado 
de sciúrus, que era o seu nome latino do grego skíouros; de 
outro modo seria extraordinário que o sei- latino produzisse es- 
qui-. A forma é em todo o caso singular, convindo advertir que 
Gil Vicente escreveu esquio, e não, esquilo: 

Este não é furão, 

Nem gineta, nem esquio, 

É um bichinho vadio i. 

Em castelhano chama-se-lhe arãiTla, mas também se disse 
esquilo, que pelo l é mais espanhol, que português. 



esquina, esquineta 

Como nome de jogo, não colijido nos dicionários, é o francês 
lansquenet \ alemão lands-Jcnecht, «soldado de milícias, e nome 
de jôgo>. V. Júlio Moreira, in Kevista Lusitaiita, iv, páj. 267, 
onde vem a abonação de Camilo Castelo Branco: — «Arrauchava 
com vadios nas noitadas das tavernas onde se jogava a esquineta 
6 monte » — . Parece a J. Moreira ter havido a mui provável in- 
fluencia da palavra esquina. 



1 Auto das Fadas. 

27 



418 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



esquinante, esquinote 

— « para apertar o fundo das vasilhas ou desengrossa-las 
empregam [os oleiros] um pau aguçado, o esquinote (Baião) ou 
esqumante (Villa Secca)» — ^ 



essa, eça 

Júlio Cornu, nos «Elementos de Eilolojia Kománica» -, e não 
sei se já antes dele D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, in- 
dicou a etimolojia deste vocábulo, modernamente escrito eça, isto 
é, errado, como tantos outros. Deriva-se êle do latim ersa, fe- 
menino do particípio passivo * ersum, de erige re, e significa 
portanto «erguida». Com efeito, são numerosos os vocábulos em 
que a rs latino corresponde ss em português; tais são travessa, 
pessoa, 2)êssego (também erradamente escrito pecego), do latim 
transuersa, persona, (malum) persicum, etc. 

Fernám Méndez Pinto ^ escreveu aquela palavra com ee, 
eessa^^^éssa: — «hum cadafalso. . . e no meio delle húa tribuna 
de doze degraos com híia eessa quasi ao nosso modo, . . . > — . 
A razão desta escrita está em que era necessário diferençar o 
vocábulo do femenino do pronome esse, essa, que no seu tempo, 
como ainda hoje no norte do reino, era pronunciado essa, S3m a 
metafonia do ê em è, que se manifestou ao depois no sul, e no 
centro, de onde era natural Pinto. 

O apelido Eça, porém, tem de certo outra orijem, e na Pe- 
regrinação [cap. cem] encontra-se escrito com ç, diferençado 



1 Eocha Peixoto, Sobrevivência da primitiva roda db oleiro 
EM Portugal, íh Portugália, ii, p. 76. 

2 Grundriss der komanischen Philologie, 1, p. 702. 

3 Perbgrixação, Lisboa, 1830, cap. glxvii. 



Aposlilas aos I>icionários Portugueses 419 



portanto dajuele outro vocábulo. Com ç o escreveram igualmente 
João de IJarros e Diogo do Couto, nas Décadas da Asta ^ 



estandal 

— Nunca tantos estandaes 
Ardero' ante o seu altar. 

Estes versos fazem parte de uma poesia do «Cancioneiro da 
Yaticana» (a 807), transcrita por Sousa Viterbo no seu artigo 

As CANDEIAS NA INDUSTRIA E NAS TEADIÇÕES POPULARES POR- 

TUGUEZAS -. Parece designar um «renque de velas acesas». 



estanheira 

— «Nas guirlandas e estanheiras lá se vêem os serviços de 
cobre, arame, estanho, ferro e barro» — ^. E um cabide para 
louça, o que em Espanha se chama espetera, em Trás-os-Mon- 
tes espeteira *. 

estarira 

É um termo de jíria, que significa «prisão, calabouço». 
Xo calo, ou dialecto dos ciganos de Espanha, estarão quere 
dizer «preso», estaribel, «prisão». 



1 Já publicado este artigo na < Revista Lusitana», vii, 1900-1901, donde 
é extraído com leves alterações. F. Méndez Pinto nasceu em Montemor-o- Velho, 
e faleceu em Almada. 

* tn Portugália, I, p. 368. 

* José da Silva Picão, Ethnographia do Alto Alemtejo, i« Por- 
tugália, I, p. 538. 

^ Suplemento ao Novo Diccionário. 



420 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



estatelado 

A este particípio adjectivado de um verbo estatelar-se dá o 
Novo DiccioNÁRio orijem incerta. Com pouca probabilidade o 
explica D. Carolina Michaélis de Vasconcelos pela forma popular 
de estátua, estatuía, de sorte que estatelado estaria por esta- 
tulado. Seria no entanto singular que um verbo, cuja significa- 
ção é «ficar estendido», fosse tirado de um nome que quere 
dizer «figura erecta, erguida, em pé» ^ Mesmo para o povo, 
que alterou estátua em estatuía, esta última forma designa sem- 
pre «figura de pessoa, em pé» e não, «estendida no chão». 
A etimolojia, pois, está muito lonje de ser evidente. 



estatuário, estatutário 



Nenhum destes adjectivos é português, como derivado de 
estatuto. O primeiro, a que infelizmente deu cabida o Novo Dic- 
cioNÁRio no Suplemento, vê-se bem ser um disparate, não sei 
por quem inventado, pois estatuário deriva-se de estátua, e não 
de estatuto; o segundo é cópia do fi-ancês statutaire. 

Se se quere à viva força fabricar um adjectivo correlato a 
estatuto, deve ele ser estatuto } statutus,-a,-um, latino, ou 
estatucional: cf. constitucional: \ constituição: constitutus. 

Passa-se perfeitamente, porém, sem tal adjectivo, porque não 
é de rigor esta fabricação de adjectivos, que caracteriza moder- 
namente o estilo artificial e aspérrimo de certos escritores, moda 
que deu orijem ao célebre adjectivo mundial, e ainda ao mais 
célebre estadoal! 



1 Revista Lusitana, iii, p. 158. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 421 



esteira, esteiralho 

O étimo mais evidente é o latim storea; mas não se explica 
por êle o e da palavra portuguesa, a não ser que se suponha, o 
que é violento, uma orijem imediata de um castelhano estuera; 
cf. frente \ f mente j frontem (?). 

J. Leite Vasconcelos supõe stataria, por haplolojia staria ^ 
com certa probabilidade, pois se justificaria o estera castelhano, 
igualmente. 

O derivado esteiralho vem assim descrito nas Notas ethno- 

GEAPHICAS DO CONCELHO DA FlGUEIRA -'.— « EsteiralhoS 

Apparelhos empregados para a pesca da tainha e outros peixes 
saltadores; consistem n'uma porção de esteiras de bunho, liga- 
das umas ás outras» — . O termo não está colijido nos dicioná- 
rios. 

estepe 

Esta palavra é russa e entrou em moda, para designar uma 
extensíssima planície naquele país. Não era necessária, mas não 
é muito inconveniente. É claro que a foram buscar ao francês 
steppe os escritores portugueses que a empregaram, com excep- 
ção de um único ^, que sabe perfeitamente russo e a acomodou 
a português com a forma estepa, como em castelhano ela foi 
alterada. Cumpre, porém advertir que a palavra russa é stepj, 
pronunciada quási stiépi, que é femenina e tem um único p, 
e não os dois com que os franceses a enfeitaram, sem motivo 
nenhum. Assim teremos de dizer em português ou a estepe, ou a 
estepa, se se prefere: pela minha parte, agrada-me mais a estepe; 
de modo nenhum o esteppe, que é um barbarismo. 



• Revista Lusitana, iii, p. 266, nota. 

2 mPortugalia,i, p. 382. 

3 Zófimo Consiglieri Pedroso. 



422 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



estiar 
Em Bragança estiar o gado é «pô-lo à sombra». 

estojeiro, estojeira 

E um neolojismo muito bem feito, para significar o fabricante 
ou a fabricante de estojos : — « quando falta ti-abalho para as 
ajuntadeiras, estas vão auxiliar as yravateiras, luveiras, e esto- 
jeiras> — ^ 

estou-fraca 

— «A Pintada, Oallinha da índia, Gallinha da Guiné, 
Oallinha da Numida [aliás Numídia], Estou fraca ou Me- 
leagris, é uma curiosa ave originária da África, pertencente à 
família dos gallináceos» — -. 

O nome provém-lhe de um grito particular, que é a voz dela. 

Estranjeirismos 

Em 1902 publicou, pela Livraria editora Tavares Cardoso 
& Irmão, Cândido de Figueiredo um livro intitulado Os Estkan- 

GEIBISMOS. 

Esses estranjeirismos são certos vocábulos e locuções em vá- 
rias línguas, entre elas a latina, que a meúdo se intercalam em 
texto português, elucidados com explicações que aclaram o sen- 
tido deles. 

Não é desses estranjeirismos que aqui vou dar exemplos, 



* Asilo-Oficina de Santo António, in O Século, de 24 de julho de 1900. 
2 Gazeta das Aldeias, de 18 de março de 1900. 



Apostilas aos Dicio7iános Portugueses 423 

colhidos em leitura de periódicos principalmente; é dos que são 
censuráveis por inúteis, e que, principalmente de locução, fervi- 
lham na escrita hodierna, em razão das traduções feitas à pressa 
por pessoas inábeis, que tendo pouca leitura portuguesa, e igno- 
rando a índole da língua pátria e o tesouro da sua linguajem, 
mesmo da trivial de que se serve o povo, utilizam a torto e a 
direito expressões estranhas, sem sombras de propriedade ou ne- 
cessidade. 

Quando tais estranjeirismos eram de vocábulos, José Inácio 
Roquete assinalava-os por uma mãozinha no seu Diccionakio S 
sentenciando-os com um comentário, mais ou menos severo, con- 
soante o seu emprego menos ou mais justificado. 

Principiarei pela palavra estranjeiro. 

Entrou já, até na linguajem oficial, a locução elíptica ir ao 
estranjeiro, mandar vir do estranjeiro, etc. E um galicismo, 
pois estranjeiro, como substantivo, sem mais epíteto, quere dizer 
<o indivíduo estranjeiro, que pertence a outra nacionalidade >. 
Em português dizia-se ir fora (do reino), mandar vir de fora, 
e pode, com maior clareza e menos vernaculidade dizer-se: ir a 
terras estranjeiras, mandar vir de imis(es) estranjeÍ7'o(s), etc. 

Apontarei mais alguns estranjeirismos, corrijindo-os. 

1. — Vinho de Bucellas, é tudo que ha de melhor — ^. 

Este galicismo foi, creio, introduzido pelo gracioso comedió- 
grafo Grervásio Lobato, que por outra parte era bem português e 
vernáculo nas suas engraçadas peças de teatro. A correcção é — 
quanto pode ser bom. 

— Cuja ascendência era tudo o que ha de mais humilde e 
ignorado — ^. Correcção: 

— cuja ascendência era, quanto possível, humilde e igno- 
rada — . 

2. — Com uma pneumonia tem guardado o leito a Snr* 



1 



3 



Paris, 1848. 

O Século, de 14 de setembro de 1902. 

ih., de 16 de novembro de 1902. 



42 1 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

D. Marianna ãa Conceição Duarte — ^ Uepreeude-se que arre- 
cadou, ou mandou arrecadar o leito a tal senhora, e que passou 
a dormir em cama-de-chão; ou então, que fez um solene dispa- 
rate, mandando guardar a cama, quando mais precisava dela. 
E um galicismo, a todos os aspectos ridículo, pois nem leito é em 
francês lit, mas heis de lit, quando é de madeira, nem em tal 
sentido se diz em português guardar: o que se diz é ficou de cama. 

3. — já abandonou o leito — , quere dizer em português, «já 
se não serve dele*. A correcção é:já se levanta. 

4. — A falta de ioda e qualquer informação não permitte 
ajuntar credito — ^, Crédito não se ajunta, o que se ajunta é 
dinheiro, quando êle sobeja, o que para quási todas as pessoas é 
cousa rara. Correcção: não permite dar credito. Traduziu-se mal 
o francês ajouter foi. 

5. — engajadas... as forças ^: é o francês engagées; em 
português diz-se empenhadas, travadas. 

Vou em seguimento apontar uns poucos de anglicismos, co- 
lhidos na mesma folha periódica, o ano passado, a denunciarem 
tradução de inglês. 

6. — os mais sanguíneos russophilos: — em inglês singuine, 
que quere dizer « esperançados » . 

7. — .4 França e a Inglaterra tinham arranjado — {inglês 
arranged), isto é, combinado. 

8. — O orgulho japoriez constitue um phenomeno tão intenso 
n'aquelle povo, que deixa de ser apenas objecto d'uma observa- 
ção — . Há aqui um anglicismo de sintasse, que torna absoluta- 
mente inintelijível o conceito. 

9. — e sobre elles [os factos consumados] negoceiem com o 
Japão, ignorando as pretensões da Rússia (inglês ignoringj: 
quere dizer «pondo de parte, desatendendo». Em português 
ignorar significa «desconhecer, não saber». 



1 ib. de 29 de outubro de 1902. 

2 O Dia, de 25 de junho de 1904. 

3 Diário de Noticias, de 27 de agosto de 1904. 



Apostilas nos Dicionários Portugueses 425 



estregar, esfregar 

O Xôvo DicciONÁRio dá, como inserção própria dele, o 
verbo estregar, com a significação de — «transferir para um pa- 
pel, tábua, etc, com uma boneca embebida em pó de carvão, (um 
desenho picado) > — . 

Como étimo oferece-nos em dúvida exteryar, do latim ter- 
gum; o extergar, porém não figura nem no dicionário, nem no 
Suplemento. 

A edição dos Lusíadas da «Bibliotheca Portugueza», numa 
nota à estanca 39 do vi Canto do poema, diz-nos o seguinte: 
— «Esfregando, 1.* e 2.* ed. Mas he visivelmente erro de 
impressão, porque em nenhum author clássico, nem no mesmo 
Camões [como se êle não fora o primeiro clássico], fora deste 
logar, se encontra similhante verbo: e quando o poeta o trouxesse 
do latim extergere, ou do castelhano estergar, por isso mesmo 
que o introduzia de novo, escreveria estergar e não estregar, a 
fim de ser entendido. Emendamos por tanto esfregando, como se 
lê na ed. de F. de Sousa» — . 

Sempre foram muito divertidos estes comentadores, que re- 
solvem as dúvidas que teem poy meio de raciocínios seus, e 
emendam os textos por conta do autor, com a mais suprema 
sem-cerimónia. 

Na escrupulosa edição de F. Adolfo Coelho ' a referida es- 
tanca veio impressa do seguinte modo: 

— Vencidos vera do sono e mal despertos, 

Bocijando a miúdo, se encostai^ão 

Pellas antenas, todos mal cubertos 

Contra os agudos ares que assopravão ; 

Os olhos contra seu querer abertos, 

Mas esfregando [estregando], os membros estirarão : 

Remédio contra o sono buscar querem. 

Historias contão, casos mil referem. 



Do Diário de Noticias, 1880, distribuição gratuita. 



426 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Teve o douto professor o cuidado de pôr ambos os vocábulos, 
mas infelizmente deu a preferencia a es^fregar, què deveria estar 
entre o parêntese, e estregar, fora dele. 

Quem escreveu a nota que citei, e cuja autoria não sei a 
quem pertence de direito, ou de torto, enganou-se no seu cas- 
telhano, pois estregar, e não, ef^tergar, é que se diz e se escreve 
nesta língua, e é um freqúentativo ou de extergare \ exter- 
gere, «apagar, desvanecer», ou de exterere, «roçar», isto é, 
exiericare, mais provável jaente do primeiro, não obstante 
várias opiniões em contrário '. Quanto à metátese do r de -ter-, 
é tam frequente, que não vale a pena justificá-la: cf. 'prejuízo 
e i^erjuizo, apretar, castelhano, e apertar, português. 

^E quem disse ao anotador que o vocábulo seria ueolojismo, 
se todos os dias termos vulgares passam a literários? 

O português esfregar representa o latim ex-fricare, na 
Beira-Baixa roçar. P]iii castelhano existe jregar, mas não, es- 
fregar. 

estreloiço 

Em S. Miguel dos Açores significa — «rumor repentino e 
forte» — '^. 

estromento 

E a forma antiga de instrumento, « documento >. 
É já da baixa latinidade, strumentum ^. 



1 V. Korting, Lateinisch-romanischbs Wòrterbuch, 1891, n.*>^ 
2948, 3031 e 7818. 

s O Século, de 5 de julho de 1901. 

3 JaHRBSBERICHT ÚBER DIB FORTSCHRITTB DER ROMANISCHBN PhI- 

LOLOGiE, VI, I, p. 119; Eiii de Pina, Crónica db El-Rbi Dom Afonso v, 
cap. III. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 427 



esturião, esturjão 

— «Mandaram hontem um magnifico esturjão, ou esturião, 
mais vulgarmente conhecido por sôlho-rei» — -^ 



etário 

Extravagante adjectivo: — «Xã^ ha edades poupadas; as victi- 
mas vêem de todas as classes etárias, desde os 2 annos até 
aos 80» — -. ri Onde iria o autor buscá-lo? 



euplócomo, euplócamo 

O Novo DiccioNÁEio incluiu a primeira destas formas, defi- 
nindo-a: — «que tem cabêllo fino e encaracolado» — . No Suple- 
mento emendou eiiplócoyiw em euplócamo, que fora a forma por 
mim empregada no capítulo Linguas e Raças que escrevi para 
os Elementos de Geogeaphia Gteral, de M. Ferreira Deus- 
dado ^, seguindo a classificação de Frederico Miiller *, que adop- 
tara esta expressão. O epíteto é homérico euplókamos, «com 
bonitos caracóis (de cabelo)». 



e(u)scaldunac, escalduno, escaldune 

A primeira destas formas vem no Nôvo Diccionário com o 
u na primeira sílaba, que alguns dialectos vasconços rejeitam: 



» o Século, de 20 de maio de 1900. 

* Ricardo Jorje, A peste buboxica no Porto, 1900, p. 55. 
3 Lisboa, 1891, p. 214. 

* Grundriss der Sprachwissbnschaft, I, 1.* parte. 



42S Apostilas aos Dicionários Portugnenes 



significa, não, como diz o mesmo dicionário, «vasconço», porque 
este adjectivo se não aplica às pessoas, mas à língua ou ao que 
com ela se relaciona, como literatura, etc, era castelhano vas- 
cuence; mas sim « vascongado», aplicável às pessoas, lugares, 
províncias, etc, como o vascongado castelhano. Os vascougados 
chamam-se a si próprios efujscaldúnac, no singular e(u)scalduná, 
como sujeito determinado de verbo intransitivo, e(u)scaldunác, 
como sujeito de verbo transitivo. Ora sendo á, ác, 'ac o artigo 
definido, suprimido este, fica a forma e(u)scaldun plural euscal- 
dunes, que são as usuais castelhanas, mais espanholadas euseal- 
duno, euscaldunos. Devemos, pois, dizer em português escalduno, 
ou escaldune, ou escaldum, plural escalduns- : parece-me prefe- 
rível a primeira das três. A língua, o vasconço, chamam-lhe eus- 
cara, e os nossos antigos escritores denorainavam-na hiscainho, 
e aos vascongados hiscainhos, transferindo o nome de um dia- 
lecto e o de uma província a todo o domínio da EiLscalerria, 
ou terra dos vascongados, as Vascongadas, como dizem os espa- 
nhóis. Os franceses chamara-lhes respectivamente les Basques, 
le hasque, le Pays basque. 

A etimolojia do substantivo euscara está por averiguar, e 
Van Eys * tem razão em repelir a que foi proposta a medo por 
Guilherme de Humboldt ^, no seu notabilíssirao escrito intitulado 
«Investigações acerca dos habitantes primitivos das Espanhas>, 
isto é, que provenha de um verbo eusl, com a significação de 
«ladrar», e por extensão «falar», pois não é natural que qual- 
quer povo designasse a sua fala própria com semelhante nome. 
As línguas estranjeiras, isto é, à castelhana e à francesa, cora as 
quais estão em contacto, chamam os euscaldunos erdera, que 
conforme Humboldt, significa, «(a língua) da terra», por oposi- 
ção à própria, a euscara ou vasconça. 



1 W. J. van Eys, Dictioiínaire basque-prançais, Paris, 1873. 
* Wilhelm von Humboldt, Prúpung der Untbrsuchungbn úber 
DIB Urbewohner Sfaxibns, 1821. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 429 



extinguidor (extintor) 

E um neolojismo, que poderia ser substítuido por extintor: 
— «No domingo ás 3 horas da tarde realisa-se no Terreiro do 
Paço a experiência dos extinguidores Leixis [sic, aliás, Lewis] 
do sr. Corloden Koman» — '. 



facha 



— «Apenas subsistiram [os braadõcs], a':ravés de todo o 
progresso industrial... as lumieiras de colmo que de noite 
guiam nos caminhos e logares escuros e aitida as fachas com 
que, para certa pesca, se desvairam os cardumes (Cavado, Tâ- 
mega, etc.)> — -. 

Facha, femeniio interessante de facho, que quási não é 
usado pelo povo, equivale aqui ao que também se chama can- 
deio, masculino de candeia \ latim candeia, «vela». 

A palavra facha procede do latim falc(u)la, e o cl latino 
produziu eh português, como se fosse inicial (cf. chave { cla- 
uem), por estar amparado pelo l (cf. abelha \ apic(u)la). 
Cumpre diferençar na escrita, como no norte diferençam na 
pronúncia, esta palavra, do vocábulo faxa, «cinta», de faseia: 
cf. feixe \ fascem. 

fachis 

É muito conhecido este termo em Macau, pois designa as 
duas varetas com que os chineses comem, e que lhes servem de 
garfo. É palavra chinesa de Cantão, fa-chi, que passou ao japo- 



* O Economista, de 26 de outubro de 1886. 

2 Kocha Peixoto, Illuminação popular, in Portugália, ii, p. 38 



430 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



nês, em que se profere fàxL Os portugueses costumam usar o 
vocábulo no plural, como é naturalíssimo, visto nunca se empre- 
gar uma só dessas varetas. Fernám Méndez Pinto charaa-lhe 
pauzinhos: — -«Em suas cortesias são [os chins] homens de muito 
primor: no modo de vestir, assi homens como mulheres, muyto 
honestos, e muy bem tratados, per que geralmente se fazem 
muytas sedas no reyno; a terra é muyto fértil e muy abundosa 
de mantimentos, fruytas, agoas, muyto singulares jardins muyto 
frescos, toda maneira de montaria e caça: não põem mão no 
comer, mas todos geralmente, pequenos e grandes, [comem] com 
dous pauzinhos por limpeza» — *. 

Os malaios denominam o dito talher TiKap (pron, quási chi- 
cap) ^. 

Farei aqui uma observação a uma nota. que, com o número (^), 
vem na memória de que extratei o passo de Fernám Meudéz 
Pinto, constante da carta, que é nela o documento L. 

O texto, que fielmente transcrevo, como lá está, reza assim: 
— «Tem mais elRey oyto fidalgos de seu conselho muyto letra- 
dos e de grandes prudencias, com os quaêes [sic] despacha todos 
os negócios do Reino, também estes nunqua saê fora da terceyra 
cerca por nhúm caso ate a morte, a estes chamão vlãos [?] (•^)» — . 

A nota (^) diz: — «Na traducção hespauhola publicada em 1555 
vem escripto Ulao: «tendo [?] en esta reputaciõ le manda 11a- 
mar de qualquiera prouincia de su reyno en que este y le mete 
en el cargo de Ulao». Deve ler -se vlao, porque nesse tempo 
se escrevia v por u e u por v» — . 

Informação errada: o que se escrevia era V inicial por u e v, 
e u medial por v e u. A emenda, portanto, é temerária. Ulao 
ou Ulau deve ser a forma certa, mesmo porque vi seria grupo de 
letras impossível em chim. 



1 Cristóvão Aires, Fernão Mendes Pinto, Lisboa, 1904, p. 118. 

2 Mélanges Charles de Harlez, Leida, 1896, p. 193. 



Apostila-'^ nos Dicionários Portuguesea 431 



fada, fado, fadar, fadário, fadista 

Fado é o latim fatura, «destiuo, siiia>;/aíZa, o plural deste, 
fafa. No seutido de sortes ventureiras, «para saber a sina», foi 
empregado por Gil Vicente no Auto das Fadas, isto é, «auto 
das sortes : » — 

— < Dae ora prazer 
A quem vos bem quer, 
E dae boas fadas 
Nas encruzilhadas > — . 

Sina (q. v.) é também o latim signa, plural de signum, 
que os espanhóis dizem sino. 

De fado, no sentido de «sina», se deriva fadar, fadário. 
Fado tomou um seutido fatalista para denotar o «destino incon- 
trastável, o mau fado, desculpa muito cómoda, invocada pelo 
povo, para disfarçar a pusilanimidade em resistir às tentações de 
não cumprir o dever, nem respeitar o àecoTo: foi fado, foi sina!». 

Fado designa no sul a «profissão de prostituta», e fadista, 
«o rufião», ou aquele que frequenta assiduamente os prostíbulos 
ordinários e passa a vida com meretrizes. E erro pronunciar-se 
fadista, com o a aberto, visto que ninguém pronuncia fadário, 
nem fadar. Sinónimos de fadista são faiante e faia, vocábulos 
de dificultosa identificação. 

fagueiro: v. afagar 

Este adjectivo significa hoje «agradável, brando, carinhoso», 
mas antigamente queria dizer, como o castelhano halagãeno, 
«enganador, traiçoeiro » : 

— « Este é falso e fagueiro, 

Sorrateiro, 

Quando virdes este cão 

Levae sempre um pao na mão > — * 



1 Gil Vicente, Auto das fadas. 



432 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



farança 

Este termo, do francês falence [ ital. faenza, é muito usado 
hoje, para designar uma casta de louça, não transparente, mas 
vidrada, e pintada muitas vezes, a que dantes se chamava «louça 
de pó de pedra», a qual se diferençava da «louça do reino», em 
ser muito mais fina a pasta: — «Existem aqui [Coimbra] duas 
espécies de foiauça: A chamada impropriamente de Vandelli 
(professor da Universidade, que, quando muito, aperfeiçoou o 
fabrico desta louça), e a chamada ratinha» — ^ 

Num anúncio publicado no jornal O Século, de 16 de 
março deste ano, lê-se o seguinte: — «A louça é toda em pó de 
pedra» — , A parte a extravagância, hoje ridiculamente arreme- 
dada do francês, de empregar a preposição em para designar a 
matéria de que uma cousa é feita (e não em que o é), temos aqui 
um exemplo, colhido em flagrante, da denominação portuguesa 
l^ó de pedra, correspondente 2i faiança, por oposição a i^ovcelana, 
€ a louça do reino, bastante antiga, mas não mencionada no 
Léssico de André Nernnich ^. 

Quanto a louça em pó, na linguajem de toda a gente que 
fala português, quere dizer «louça desfeita, mais meúda que se 
fora em cacos » ; pelo que não admira que o anunciante a desse, 
como dizia, quási de graça. 



faina 



Em castelhano diz-se fáena, e é termo de bordo, que se gene- 
ralizou para significar «trabalho, azáfama», o francês hesogne, 
«o que cada um tem a seu cargo fazer». A palavra é catalã, 
Jahena \ latim facienda, plural de faciendum, particípio do 



1 O Século, do 17 de maio de 1900. 

2 Waarenlexikon IN zwoLP Sprachbn, Hamburgo, 17!)7. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 433 

futuro passivo de facere, que deu em português fazenda, em 
castelhano antigo fazienda, moderno hacienda. 

Em catalão n(n) resulta de nd latino, ou românico: cf. anar, 
português andar. 

Outra forma catalã do mesmo vocábulo é feyna, na qual ahe 
se condensou em ditongo, com deslocação do acento tónico, como 
se observa no vocábulo castelhano e no português. 

falacha 

A verdadeira definição deste vocábulo contém-se no seguinte 
passo: — «Kezende, 28. Escrevem de S. Cypriano, deste conce- 
lho. .. em quanto que os mais pacatos se entreteem a comer 
falachas (bolos de farinha de castanha pilada)» — '. Em geral 
omite-se nas definições o epíteto pilada. 

A orijem deste termo já foi dada na Ke vista Lusitaxa 2, 
foliascula, ou foliacea, mas não me parece bem segura: òPor 
que razão de li não resultou Jh? Cf. filho { filium, filho [ fol- 
liola. E, (icomo é que -cea deu -cha no segundo étimo?. 



falar, parolar, parola 

Este verbo, como o castelhano hablar, antigo fahlar, procede 
do latim fabular e, que, com paraholare, substituiu na de- 
cadência os verbos loqui e fari, com o último dos quais à pri- 
meira vista se poderia supor que o falar teria relação. Para 
convencimento do contrário basta considerar que/«ri é o infinito, 
a que corresponde a primeira pessoa do presente do indicativo 
fateor, «confesso», de que procedeu confiteor, «confesso -me >. 

Dos dois SQxhos fabular e e parabolare provieram os que 



1 O Economista, de 31 de janeiro de 1891. 

2 vol. IV, p. 267. 
ã8 



434 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

nas línguas românicas, com excepção do romeno, correspoudem 
ao loqiii latino: fabulare já vimos que produziu /«òZar e falar; 
parabolare deu o catalão parlar, o francês parler; em italiano 
existem ambos, com as formas patiai^e e favellare. 

Destes verbos se derivaram, respectivamente, a fala, el hahla, 
la parla, la favella; mas em francês, para se designar a fala, 
emprega-se parole } parábola, que deu ao português primeiro 
paravoa, e depois palavra, ao castelhano palabra, e ao italiano 
parola. Deste, ou adites do francês paroler, veio o português pa- 
rolar, cujo substantivo verbal é parola (q. v.). 

Fala se denominava dantes, e ainda não está obsoleto, o que 
os franceses chamam tirade, que, por galicismo inútil, há pouco 
tempo é empregado por escritores que só lêem francês, (e sabe 
Deus como o sabem), para designar um «longo discurso», quer 
na tribuna, quer principalmente no teatro. Eia sistema antigo, 
da escola chamada romântica, introduzir o artifício dessas grandes 
falas, em todos os principais papéis de qualquer comédia, suplí- 
cio dos actores, e também dos espectadores: — « A própria Medéa 
quer dizer là, fala de trágico desespero» — ^ 

Do verbo falar se deriva um dos raros particípios activos 
portugueses que ainda se empregam como tais; assim, temente a 
Deus, voz clamante - por exemplo. Diz-se que uma pessoa é 
bem falante, quando tem verbosidade, facilidade em se exprimir. 

Em castelhano, ao contrário, diz-se bien hablaão, empregan- 
do-se o particípio passivo com valor de activo, sintasse também 
muito portuguesa, como vemos em esquecido, «aquele que es- 
quece», j^ressenti do, «aquele que pressente», etc. 

Outro particípio activo é tente j tenentem: — «e no mesmo 
terço assistia por logo tente Álvaro Pirez de Távora» — ^. Hoje 
diz-se lugar-tenente. 



1 António de Campos, O Marquez de Pombal, in «O Século», de 14 
de março de 1899. 

2 Gil Vicente, Auto da história de Deus. 

3 Jerónimo de Mendoça, Jornada de Africa, 1. 1.°, cap. v. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 435 



falquejar, falquear 

O DiccioNABio Contemporâneo define este verbo da seguinte 
forma: — «o mesmo que falquear» — ; e em falquear diz: — «des- 
bastar (a madeira) com machado, enxó» — . Todavia, isto parece 
não ser rigorosamente certo, visto que José da Silva Picão, no 
seu estudo Ethnographia do Alto Alemtejo, estabelece dis- 
tinção, que a definição não faz: — «se trabalham em pé [os car- 
pinteiros], vemol-os com o machado, vibrando golpes certeiros na 
madeira. . . desbastando assim de falqioejo, para depois aperfei- 
çoarem á encho» — '. 

falua 

O nome desta embarcação, muito usada no Tejo, parece ser 
o mesmo que faluca embarcação das costas da Berbéria, o árabe 
FeLUK; neste caso, porém, falua pressupõe outra forma, fcluq, 
com a terminação de unidade reLUQE. No dialecto berberesco 
o Q mal se ouve, correspondendo em valor à consoante inicial 
das palavras começadas por vogal em alemão, e por isso foi 
eliminado. 

família 

Dá-se no distrito de Leiria este nome à « totalidade da gente 
que está numa propriedade a trabalhar», ainda que as mais das 
vezes nenhum parentesco tenha com os donos da casa *. 

familiar, familial 

Dantes, todos os autores se contentavam com a primeira 
destas formas, a única verdadeira, do latim familiare í fami- 



* m Portugália, I, p. 544. 

2 Informação do snr. Acácio de Paiva, dali natural. 



436 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



lia. Modernamente, os franceses, que já tnhara familíer, da 
mesma orijem, porque este adjectivo adquiriu a acepção de 
«trivial», e também a de «confiado, que não usa deferência ou 
cortesia», inventaram outro adjectivo incorrectíssimo familial, 
impossível em latim, visto haver já l no vocábulo radical (cf. re- 
gulare | regula, com morale j mores), e deram-lhe o sen- 
tido de «relativo à família». Como era uma incorrecção, um 
barbarismo, foi logo sofregamente adoptado em português, por 
cópia: — «Pondo em presença vasos de egual ondulação linear 
e ornamentação com o mesmo ar familial» — ^ Deveria ter-se 
dito familiar, ou, de família, porque não é força que para 
cada substantivo haja um adjectivo correspondente, como é uso 
moderníssimo e desnaturai. 

Com maior correcção vemos familiar empregado no seguinte 
trecho no mesmo sentido: — «Como se vê claramente, não saio 
da corrente geral das ideas dos publicistas sobre a sociedade 
familiar» — -. A relação expressa é a mesma. 

Se extratarmos dos dois trechos aduzidos os adjectivos for- 
mados com o suficso -ar, ou -ai, veremos a constância da regra, 
que é: o suticso lejítimo é -ai; o l muda-se em r, se o vocábulo 
radical contém l: igual, geral; linear, e portanto familiar. 



fanadouro, fanadoiro 

— «E por fim o fanadoiro é a espátula grosseira com que 
[os oleiros] alisam as superfícies ou gravam os ornamentos» — ^. 



1 Eocha Peixoto, As olarias do Prado, in Portugália, i, p. 202. 

' Projecto de lei sobre o Divórcio, apresentado ás Cortes em 18 de 
março de 1898, pelo deputado Duarte Sampaio e Melo. 

3 Eocha Peixoto, Sobrevivência da primitiva roda de oleiro 
EM Portugal, í» Portugália, ii, p, 76. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 437 



fanão 



Esta palavra, muito frequente nos nossos escritores do xvi 
e XVII séculos que se referiram à índia, é, conforme o Glossá- 
rio de Yule & Burnell ^ de origem indiana, malabar e tamul 
panam } sánscrito paxá, « moeda »^ mas primeiro, «bolo no jogo, 
parada » 2. Os portugueses receberam o termo dos árabes e mou- 
ros que faziam comércio nos mares da índia. Era de ouro, mas 
ao depois cunharam-no também de ouro com muita liga, e mesmo 
de prata. Possuo uma destas moedas de ouro baixo; é circular e 
tem o diâmetro de um real de cobre da nossa moeda actual. 
Nos princípios do século passado o seu valor era deminuto, pois 
equivalia a dois dinheiros ingleses, isto é, 40 réis: — «Quatro mil 
fanoens de renda cada anno, que valem na nossa moeda 400 cru- 
zados» — 3. 

faqui; faquir 

São dois vocábulos diferentes, e com diversíssimas significa- 
ções: faqui, em árabe FaQiE, de raQE, «saber teolójico», si- 
gnifica «jurisconsulto»; faquir, em árabe FaQiB, de FaQas, 
«pobreza», que quere dizer «frade mendicante». 



farinhar; farinheiro; farinheira 

Em Aveiro este verbo aplica-se aos tabuleiros das marinhas, 
quando neles o sal começa a alvejar. 



1 A Glossary of Anglo-Indian words and phrasbs, Londres, 
1886. 

2 Monnier Williams, A Sanskrit-English Dictionary, Ocsónia, 
1872. 

3 Lucena, Vida do Padre Francisco Xavier, 92, col. i. 



438 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

A acepção de farinheiro é diferente : — « Villa Nova de 
Fozcôa, 1. O estado geral das vinhas é regular. O que tem 
apparecido por aqui é a moléstia a que dão o nome de fari- 
nheiro^ — ^. 

Qualquer destes vocábulos deriva de farinha, e indica as- 
pecto parecido com o dela. 

Farinheira designa ura chouriço feito com gordura de porco 
e farinha ou meolo de pão. 

faro, farum, fera, farão, faronejar 

Duas orijens se atribuem ao primeiro destes vocábulos: a pri- 
meira, proposta por Júlio Cornu -, é dissimilação de frairo, subs- 
tantivo verbal de frairar { fragrare, farar, com perda do i; 
cf. rosto \ rostrum. Com relação a esse i procedente de g, cf. 
enieiro \ intégrum, cheirar \ flagrar e \ fragrare. 

A segunda é apresentada por D. Carolina Michaélis de Vas- 
concelos, com muito enjenho, mas pouca probabilidade; faro, 
«farol», j grego p'áros 3. 

Com respeito a farum, o Novo Diccionáeio deriva-o de 
faro; se considerarmos porém que bodum procede de bode, e 
designa o repugnante cheiro deste animal, frescum o « cheiro da 
carne fresca», é aceitável o atribuirmos a farum, «cheiro a 
fera», a derivação deste último substantivo, que a mesma in- 
signe romancista lhe atribui *. 

O e átono de ferum passou a a surdo por influencia do r: 
cf. amaricano por americano, a terminação -ária, por -eria, 
de cutelaria, cast. cuchillería, para moderno, a par do pêra, 
antigo, o qual subsiste no falar desafectado. O r em grande 



* O Economista, de 4 de agosto de 1894. 

» Gruxdriss der romanisohen Philologib, Estrasburgo, 1888, i, 
p. 772. 

3 Eevista Lusitana, iii, p. 160. 

4 ih. p. 159. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 439 



número de línguas exerce infliiéucia na vogal que o precede, e 
entre elas a exerceu ein latim, por exemplo; cf. corpus, cor- 
poris '. 

No Suplemento ao Novo Diccionário vemos farum, como 
sendo aplicado no Minho ao «cheiro do mosto >. Nesta acepção 
se fundou provavelmente Cândido de Figueiredo para o derivar 
de faro. 

Dq faro formou-se um aumentativo, /arao, cujo iem-à f ar om, 
ou faron, deu orijem ao verbo faronejar, o qual ficou em re- 
lação a esse aumentativo, como farejar para faro. 



fatão 



Em Viana-do-Castelo ouvi dar este nome a uma ameixa 
grande, sobre o comprido. 

fateixa 

Conforme o Diccioxaeio Contempoeaneo, esta palavra signi- 
fica: — «ferro como a ancora, mas mais pequeno, com três ou 
quatro unhas para fundear barcos menores. // Gancho de can- 
dieiro. // Utensílio de ferro em forma de ancora em que se de- 
penduram carnes para estarem expostas ao ar. // F. ar. Kkattéf 
[aliás, khattéf] > — . Bluteau, que escreve fatexa, dá somente os 
dois primeiros significados. Em qualquer acepção vê-se porém 
que é um objecto com ganchos ou unhas para aferrar, segurar: 
— < e doze arpeos de abalroar com suas fateixas talingadas em 
cadeias de ferro» — ^. 

O étimo apontado no Contemporâneo, e que o Novo Diccio- 



» Veja-se Padre Rousselot, Les articulations IRLA^^>AISES, Paris, 
1899, p. 13. 

» Pemám Méndez Pinto, Peregrinação, cap. Lviii. 



440 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



NÁEio escreve catefe, é o que foi defendido por Doz}^ ^ isto é^ 
transcrevendo as letras árabes por ele apresentadas, naÍAF. De- 
pois de nos explicar ser regular a representação do som da 7.* 
letra do alfabeto arábico por / nas línguas peninsulares, termina 
dizendo: — «celui [le changement] du / en x ne Test pas, maia 
il faut appliquer ce que j'ai dit dans rintrodfuction], à savoir^ 
que la dernière consonne, qu'on entendait mal, est souvent chan- 
gée arbitrairement » — . 

Declaro que me não dou por convencido: compreendo perfei- 
tamente a troca entre t, l, r, n, consoantes homorgáuicas; não 
aceito, à sombra da regra geral que formulou o abalisado ara- 
bista holandês, que um / fosse tam mal ouvido, que se represen- 
tasse por X, a não ser que desse estranho fenómeno se apresen- 
tem muitos mais exemplos. 

João de Sousa ^ não traz o vocábulo; Eguílaz y Yanguas 
sujere FaíAXE, que diz significar crucibulum ^ isto é, «cadi- 
nho». Se tal palavra existe em árabe, não sei; nos dicionários 
que pude consultar não a encontro; mas ainda quando exista, 
a significação de modo nenhum convém. Outro tanto direi de 
paíaixE, a que no Vocabulário árabe-francês de Belot se dá como 
correspondente o francês fusée, e que pela sua estrutura mais se 
compadeceria com a palavra portuguesa. 

Deduz-se de tudo isto que as palavras árabes que fonolójica- 
mente poderiam produzir a portuguesa fateixa, ou fatexa, são 
inaceitáveis em razão dos seus significados; e que a única, apre- 
sentada por Dozy, e cuja significação se acomoda às do vocábulo 
português, tem de ser rejeitada por causa da sua incompatibili- 
dade fonética. O / só pode provir das letras 6.*, 1^, 20.*, ou 26.% 
o X somente da 13.*, e não há vocábulo arábico que, com signi- 
ficação apropriada, satisfaça a tais condições. 



1 Glgssaire des mots espagnols et portugais derives db 
l'Arabb, Leida, 1869. 

2 Vestígios da língoa arábica em Portugal,. 

3 Glosario de las palabras espanolas de origbn oriental. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 441 



Sobre o significado do vocábulo arábico raxaiXR escreve-me 
o snr. David López que Dozy, no seu Suplemento aos dicionários 
árabes dá a seguinte definição: — «sac de papier dans lequel 
on raet de la poudre et qu'ou attache à un roseau; mis en 
contact avec le feu, il vole dans Tair comme des serpents ar- 
dents» — *. É pois «foguete». 

fato, fateiro 

Esta palavra é germânica, conforme Frederico Diez -: alto 
alemão antigo fazza, a que nos outros dialectos germânicos cor- 
respondem formas com t em vez da dúplice z (^tç) do alto 
alemão. Parece que nesses dialectos significa «roupa de vestir». 

Na realidade, o vocábulo fato aplica-se em português a ves- 
tidos, com excepção dos que se chamam roupa branca. Antes, 
porém, teve significados muito diversos, e no de «rebanho de 
cabras» coincide ainda com o castelhano liato, anteriormente 
fato. 

Nos seguintes trechos, todos extraídos das Batalhas da 
Companhia de Jesus, do Padre António Francisco Cardim, 
pode ver-se a evolução do significado: — «puseram o íato na rua 
para o confiscar» — , isto é, «mobília e todo o trem de casa» ^. 

— «fazendo muitas vexações nos christãos, para delles ti- 
rarem fato e dinheiro» — , isto é, «fazenda» *. 

— «registam [revistam] as pessoas e o fato» — ^. 

Em uma acepção particularíssima é empregado este vocábulo 
pelo Padre Graspar Afonso, na sua castiça e interessante « Rela- 
ção da viajem e sucesso da nau Sam Francisco»: — «candeia e 



» supplément aux dictiosnaires árabes, tl, 239 •». 
» Etymologisches Wõrteubuch der romanischen Sprachen, 
Bonn, 1870, u, suh v. hato. 
3 Lisboa, 1894, p. 104. 

* ih., ih. 

* i6., p. 281. 



442 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



fogo se dá em cada fato, como elles chamam ás casas em que 
moram os Senhores [na Ilha Espanhola ou Haiti]» — *. 

Fateira, adjectivo, vem no Suplemento ao Novo Diccioná- 
Eio, como termo transmontano, por exemplo em arca fateira, 
«arca para arrecadar a roupa». V. roupa. 

faxa, faxina, feixe, feixota 

Este vocábulo representa o latim faseia, «atado», e por- 
tanto deve escrever-se com x, e não, eh. E natural que o seu 
étimo imediato seja facsia. com metátese de se, em es, como 
feixe } facsis por f aseis: cf. pexe, peixe \ pies em por pis- 
cem. Faxina (e não, fachina) é um derivado, provavelmente de 
orijem italiana, onde fascÍ7ia, designa «braçado de lenha». 

Acerca de faxina, como unidade de lenha, equivalente a 
60 K. em achas, veja-se o Suplememento ao Novo Diccioiíáeio, 
onde se encontrarão outras acepções do vocábulo. 

Faxa, com o significado àe feixe é transmontano: — «A outra 
mala tinha-a em casa no meio de uma faxa de palha» — ^. 

Outro termo da mesma orijem, fascis, é feixota: — «O la- 
drilhado ou calçado do pizo conserva-se meio occulto pelas fronças 
e gravetos do piorno que em f eixo tas, se applica [sie] a com- 
bustivel na lareira» — •\ Não prima por correcção gramatical o 
exemplo, mas não tenho outro para o substituir. V. facha. 

febra; fêvera 

F. Adolfo Coelho denominou em português foemas divekjen- 
TES as diferentes evoluções que uma forma primordial adquire, 



1 in BiBL. DE Clássicos portuguezes, vol. xlv, p. 46. 

2 ViLLA-REALENSB, in * O Economista», de 24 de fevereiro de 1889. 

3 J. da Silva Picão, Ethjíographia do Alto Alemtejo, in Portu- 
gália, I, p. 541. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 443 

produzindo vocábulos diversos, como por exemplo régua e regra, 
ambos procedentes do latim regula, sem adjunção de outro 
elemento de derivação, preficso, inficso ou suticso, e só pela acção 
de leis fonéticas distintas, exercidas em períodos diversos da evo- 
lução de uma língua. A este fenómeno dão os franceses o nome 
de douhlets, e os alemães o de scheideformen. A denominação 
hoje mais adoptada é a de alótropos, que quere dizer, como é 
sabido, «vários, mudáveis», e, neste sentido particular, «que 
tomam direcções diversas». 

Assim como de um só vocábulo provém mais de iim, por 
efeito de leis fonéticas diferentes, que nele operaram; do mesmo 
modo, de duas ou mais dições distintas pode resultar um vocá- 
bulo só, em que se compendiem, se reúnam os significados de 
todas, porque a operação de leis fonéticas as reduziu a um único 
produto, identidade consequente de forma em uma dada língua, 
ou em mais, comparadas entre si. Vou referir-me aqui somente 
à primeira destas hipóteseS; exemplificando-a com o português. 
A palavra f.ar compreende os significados das duas latinas fidare 
e filare, e a homonímia é devida, não a processo psicolójico, a 
evolução de significado, mas à operação de uma lei fonética, 
fisiolójica portanto, a bem dizer mecânica, a queda normal de d, 
ou de l na posição fraca, isto é, entre vogais, em português, o 
que é uma das características que o diferença, com relação ao 
latim e a outros idiomas deste derivados. Outros exemplos do 
efeito dessas leis fonéticas são: se, correspondendo ao latim si e 
s%] prego de plico e praedico; e não já em vocábulos distintos, 
mas em formas diversas do mesmo vocábulo, só de solum e 
solam, amava de amabam e amabat, etc. 

Alguns desses ho)nónimos diferença-os a ortografia usual, 
com melhores ou piores fundamentos, como vale e valle, pena e 
penna, retrato e retracto, cear e ciar, soar e suar, piis e puz; 
outros não os diferença, devendo fazê-lo, como concertar, conecso 
com certo, e concertar, «compor» (melhor consertar, de con- 
sertus, particípio pretérito passivo de conserere); outros, con- 
quanto homónimos na língua literária, não o são em alguns dia- 
lectos, como lenho e lanho, facha e taxa, nós e noz, passo e 



444 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



paço, osso e ouço, cozer de * cocere por coqiiere, e coser de 
cons(u)ere, e a ortografia usual avisadamente os conserva dis- 
tintos. 

Nenhuma língua europeia mais do que a francesa falada 
apresenta desses homónimos; bastará citar as formas sã (escrita 
sans, sawj, sent, cent), e sê (sam, saint, sein, seing, ceint, 
cifiq): dez vocábulos reduzidos a dois. 

É no sentido de conservar distintas pela escrita formas uni- 
ficadas pela pronúncia, que se diz serem as ortografias etimoló- 
jicas essencialmente conservadoras das línguas literárias; e é 
facto que, pelo menos nas pessoas que possuem conhecimentos 
literários, essas ortografias exercem certa influência impeditiva 
de alterações extremas nos vocábulos. 

Quando esse critério desaparece, ou quando uma língua teve 
larga cultura literária antes que êle se manifestasse, o império 
das leis fonéticas determina empobrecimento no vocabulário, pela 
produção de muitos homónimos, e alterações fundamentais na 
gramática pela confusão de formas anteriormente diversas, de- 
rivadas de um mesmo radical. No primeiro caso temos homoní- 
mia no lécsico, no segundo homonímia na morfolojia da língua, 
e esta última tende a imprimir-lhe carácter diferente. 

Dá-se a estes fenómenos de unificação o nome de homeó- 
TEOPOS, POEMAS coNVEEjENTES, chamaudo assim àquelas que 
resultam de duas ou mais orijinárias. Vê-se que este processo é 
o contrário do que primeiro indiquei — o de formas diverjen- 
TES ou ALÓTROPOS, O qual é um meio eficaz de uma língua se 
enriquecer, ao passo que o outro determina a sua depauperação, 
como disse. 

Do mesmo modo que dois ou mais vocábulos ou formas 
distintas podem, como vimos, pela operação de leis fonéticas, 
adquirir jia passajem de uma a outra língua, ou dentro da 
mesma língua, uma forma única, na qual se resumam os signi- 
ficados de todos eles; assim também de dois ou mais vocábulos, 
procedentes de línguas diversas, pode resultar um que compreenda 
as significações daqueles de que provém, figurando falsamente 
essa operação fonética como um produto puramente psicolójico, 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 445 



a evolução do sígiiiticado primitivo de um deles, o que se chama 
« deseuvolvimeuto de sigo iíi cação», acepções diveusas de um 

vocábulo, ou SEMEIOLOJIA, SEMÂNTICA. 

Nestas circunstâncias creio eu que está o que acima citei: 
fôvera, fevra. ou febra, ao qual atribuo étimos distintos, con- 
forme os seus dois principais signiíicados. 

Bluteau dá-lhe a seguinte série de signiíicações: — «feveba, 
Fèvera ou Fe vara, ou (como dizem os Cultos) Fibra. As feveras 
são como huns fios de carne que se achão nas extremidades do 
fígado, dos bofes, etc. Fibra, ce, Fem. Cie. 

Feveras do açafrão. . . de algumas raizes que tem fibras diz 
Plinio . . . 

Homem de fevera: Vid. Alentado. Valente. 

Fevera, ou carne de fevera, he carne sem osso nem gordura. 
Pulpa, (B, Fem. Fers» — . 

A falta de melhor, poderia talvez, com grande violência, dedu- 
zir-se do primeiro o último destes significados, supondo-o uma 
ampliação particular de sentido, como o são os intermédios. xVssim 
teem feito, que eu saiba, todos os etimólogos que deste vocábulo 
se ocuparam. 

F. Ad. Coelho, no seu Diccionario Manual Etymologioo 
DA língua poetugueza, diz o seguinte: 

— «Febra, febra; a parte musculosa dos vertebrados comes- 
tiveis. V. Fibra. Nome de diversos filamentos vegetaes. Filamento 
têxtil. Nervo, força, valor. (Lat. fibra)» — . 

O DicciONAEio Contemporâneo da língua portugueza 
que dá, além de fibra, três formas, fevera, fevra, febra, referidas 
a esta última as outras duas, atribui também a todas a etimo- 
lojia latina fibra. 

A última significação de Bluteau é aí dada como 2.*, e por 
F. Ad. Coelho como 1.*. Diez [Etym. Wõrterbuch der roma- 
NiscHEN Sprachen] não traz este último significado, e dá como 
étimo de /eò?'a igualmente o latim fibra. Kôrting [Lateinisch- 
BOMANiscHEs WõRTERBUCH, n.° 3221], faz O mesmo, e é prová- 
vel que a ambos passasse despercebida a definição especial que 
Bluteau dá como última. 



446 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

João de Sousa omite o vocábulo febra nos Vestígios da 
LiXGOA ARÁBICA EM PoBTUGAL, e é portauto de presumir que 
também lhe atribuísse orijem latina. 

Outro tanto podemos dizer de Dozy e Engelmann [Glossaire 

DES MOTS ESPAGNOLS ET PORTUGAIS DERIVES DE l'ArABe], COU- 

quanto o primeiro destes orientalistas fizesse em outra obra ^ 
menção do vocábulo arábico de que me vou ocupar; vê-se porém 
que o não considerou representado na Península Hispânica. 

Eguílaz y Yanguas também o não menciona no seu Glosario 
Etimológico de palabras esp anglas. . . de origen oriental, 
e é mesmo de supor que o arabista espanhol desconheça o sigai- 
ficado especial do vocábulo em português, língua que, com as 
mais da Península, foi incluída no Glossário. 

O latim fibra, pois, tem sido para todos os etimólogos a 
orijem do português febra, em todas as suas acepções. A conclu- 
são seria talvez lejítima, apesar de o 6 medial latino permanecer, 
em vez de se mudar em v. como devera acontecer, visto o vocá- 
bulo ser popular: seria lejítima, repito, até facto positivo que a 
invalidasse; agora, porém, creio poder demonstrar que já o não é. 

Convenci-me disto ao ler, com toda a atenção que merece, 
um excelente trabalho apresentado por Hermano Almqvist ao 
Congresso dos Orientalistas, celebrado em Estocolmo e Cristiánia 
no anno de 1889. Esse trabalho foi publicado no i fascículo dos 
do referido Congresso, que contém a Secção Semítica: intitula-se 
«Kleine Beitrâge zur Lexikographie des Yulgãrarabischen », «Pe- 
quenos subsídios para a lecsicografia do árabe vulgar», título em 
demasia modesto, se o compararmos à grande valia desse estudo 
escrupulosíssimo e minucioso, resultado de observações directas 
do seu autor, feitas durante uma residência de trinta meses na 
Síria, Ejipto, Núbia e Sudão, como no-lo diz em um breve pre- 
fácio. 

A páj. 371 e 372 do fascículo mencionado, no qual a dita 
memória ocupa de páj. 260 a 469, vêem dois artigos, subordinados 



1 Citada por Almqvist na memória a que vou já referir-me. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 447 



à epígrafe Speisen. «Comidas», e intitulados 'eras habra e Jiabra 
mamdãda, denominações vulgares de guisados ali usuais. Em 
ambos o vocábulo habra é definido como significando « carne sem 
osso nem gordura » — « das fett- und knochenfreie Fleisch . , . 
Viande sans os. . . Viande sans graisse » — . 

Cherbonneau, no seu Dicionário arábico-francês [Paris, 1876] 
diz a páj. 1302: — «hehar, chair. Pulpe des fruits» — , e deriva o 
vocábulo do verbo hahar. «amputer», acrescentando outro verbo 
derivado, ahabar — «être bien en chair» — . Concluo que êle atri- 
bui aos caracteres arábicos do substantivo indicado, e de que não 
dá os pontos vogais, a pronúncia hebar, porque no seu Dicionário 
francês-arábico encontro: — «Pulpe, s. f. des fruits» — , depois o 
vocábulo indicado, expresso em caracteres arábicos, também sem 
vogais, e a sua transcrição era letra itálica, hebar. 

Em um lécsico hebraico-inglês vejo hãbar, dado como vocá- 
bulo arábico, com a significação de — «that which cuts» — o que 
corta — . 

Vê-se pois que é este um termo de carniçaria, e deles ocor- 
re m-me de orijem arábica evidente os seguintes, em português: 
acém, açougue, alcatra, magarefe, rês, fora outros mais. 

A definição pois do vocábulo habar, hebar, habra, hebra *, 
conforme as pronunciações, dada pelo sr. Almqvist concorda em 
absoluto com a aduzida por Bluteau, e tal significação continua 
a ser, pelo menos no sul do rei:io e em parte do domínio trans- 
montano, senão em todo, usualíssima, com a pronunciação mais 
comum febra, como a traz o Dic. de F. Ad. Coelho já citado. 

O autor da Memória, alegando autoridades, apresenta-nos 
também a forma 'habra, isto é, com ^ em vez de í (fi) inicial, 
o que em nada influi na nossa inquirição. Com efeito, quer a 
palavra comece por uma, quer por outra destas consoantes, o 
facto é que, nos vocábulos que do árabe passaram ao português 



1 Sobre e, correspondendo na Península Hispânica ao FaTHaB (a. . . e) 
seguido ou não de I, veja-se Dozy et Engelmann, Glgssaire des mots 

ESPAGNOLS ET PORTUGAIS DÉKIVÉ3 DE L'ArABB, p. 2(3 6 27. 



44S Aj}ostilas aos Dicionários Portugueses 



por mera audição, o / é o representante de qualquer desses sons 
(e também do ^, ou ; castelhano actual =?/), se o vocábulo foi 
introduzido no tempo do domínio ou permanência de mouros na 
Península; sendo esta uma das características de que qualquer 
palavra árabe pertence a essa primeira importação, tanto em Por- 
tugal, como em Espanha, onde em castelhano esse / e o prove- 
niente do / árabe seguiram ao depois o f latino inicial na permu- 
tação para h, ainda pronunciado na Andaluzia e na Estremadura 
Espanhola, mas nulo hoje no castelhano do resto da Espanha. 

Digo ser essa uma das características dos vocábulos arábicos 
pertencentes ao fundo das línguas românicas da Península, a que 
chamarei de primeira formação, popular ou espontânea. Há de 
haver outras características fonéticas, mas aqui não procurarei 
determiná-las, conquanto me pareça ser este o trabalho geral 
que há a fazer com relação a vocábulos hispânicos de tal pro- 
veniência, os quais podem dividir-se em três períodos: 

l.'' Popular. Abranje os que o povo, desde o viii até o 
XIV século, aprendeu de os ouvir à numerosa população moura 
que habitava na Península: esses constituem parte essencial do 
vocabulário peninsular: tais são quási todos os que começam por 
ai ou a, representativos do artigo arábico, os nomes de terras 
e outros próprios. 

2° Literário. Compreende as palavras que os nossos escrito- 
res e os espanhóis, que sabiam melhor ou pior o árabe, introdu- 
ziram nas línguas hispânicas, empregando transcrição consciente, 
ou das suas letras, ou dos vocábulos, conforme os ouviam pro- 
ferir; tais são xarife, turjimão, etc. ^ 

3.° Estranjeiro. O árabe é totalmente ignorado, e os vocá- 
bulos entram por vias indirectas, com as transcrições estranjei- 
ras, já caprichosas, já científicas, das línguas donde são recebidos 
imediatamente. Nesta última categoria estão incluídos vocábulos 
como sofá, almeia, forma absurda, tirada do mau francês ahnée, 
etc. 

Voltando ao nosso tema, devo ainda dizer que a palavra 
febra, com o significado que tem o árabe hebra, hahra, ou 
habar, só existe em português, sendo alheia aos outros idiomas ro- 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 449 



mánicos. O castelhano hebra, antigo febra, somente compreende 
as três primeiras acepções dadas por Bluteau, as quais todas 
procedem do latim fibra; assim diz-se, por exemplo, tabaco en 
hebra, « tabaco em fio » ; e deste vocábulo se deriva o verbo 
enhebrar, com a significação de «enfiar». 

Direi mais que parece ter-se dado confusão entre os dois vo- 
cábulos -/i^rera, de fibra e febra de habra ou hebra arábico; 
homonímia que é naturalmente moderna, e poderia evitar-se, 
reservando-se essa última forma unicamente para o último si- 
gnificado, que coincide com o do vocábulo arábico, morfolójica 
e ideolójicamente, tanto mais que febra é no sul a pronunciação 
corrente, conquanto aí se diference perfeitamente e com toda a 
regularidade ò de v. 

Assim, parece-me que nos nossos dicionários há a fazer as 
seguintes correcções: 

febra (V. fèvera): carne limpa de osso e gordura, para 
alimento [árabe habra ou hebra, ainda hoje de uso jeral nos 
países de língua arábica, e que deve ter passado a português nos 
tempos da dominação maometana, como o indica a mudança de 
h para f (Cf. refém \ B,aEN=raíen, com h sonoro)]. 

fèvera (ou febra, com o qual se confundiu, e de que deve 
diferençar-se) : nome de diversos filamentos vejetais; filamento 
têxtil, etc. Cf. o castelhano antigo febra, moderno hebra, « fio > . 
Do latim fibra, por mudança de í em é (cf. cedo { cito), 
de 6 em v. (Cf. livro \ librum), e intercalação de e átono 
desunindo as duas consoantes consecutivas (cf. fevereiro \ fe- 
bruarium) ^ 

Este vocábulo sujere ainda outra acepção à.^ fèvera \ fibra, 
que se deduz do prolóquio lá vem o fevereiro com as suas fê- 
veras todas, no qual fêveras equivale a «friajem», e é palavra 
inventada, com influência necessária de fevereiro. 



1 Este artigo foi já publicado na Ebvista Lusitana, de onde o ex- 
traio, com pequenas alterações na redacção. 
29 



450 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



fecho, fechar 

Fecho é o latim 2)estulum por pessuluin, com mudança 
da inicial p em/, bastante rara; a de stl, pesflum, em eh, é 
perfeitamente normal [cf. macho \ masc(u)lum]. Esta etimo- 
lojia, apresentada não me recorda por quem primeiro, está admi- 
tida, e para confirmação dela basta citar o galego pechar, cor- 
respondente ao português fechar, e o castelhano pestillo, « fecha 
de correr», que é o latim pestillum, outra forma deminutiva, 
paralela ao pessulum citado. 

Cf. ainda fescoço = pescoço, e v. data. 



feijão 

Este vocábulo português representa o latim phaseólum, com 
mudança de suficso, isto é, -on por -ol: cf. espanón e es- 
pafiol. 

De um artigo, publicado em tempo no jornal de Lisboa O Ke- 
PORTEK *, extrato para aqui a copiosa nomenclatura portuguesa 
deste legume, abreviando as definições: 

Feijão branco: ou é de veia, ou sem veia no casulo. 
O feijão de veia é só bom para saco (para secar); o feijão para 
comer em verde não tem veia. Há também /eyão de vara, que 
é o que se enrosca pela rodeiga, e o feijão capão, que é o que 
fica rasteiro; também se lhe chama carrapato, por ficar assim 
pequena a planta. 

No feijão branco há também um que é muito graúdo, cha- 
mado calço de panela, pois cada feijão entende-se que pode 
calçar uma panela, que é sempre de ferro, e tem três pés; a de 
barro e sem pés chama-se chaspa (q. v.). 



1 17 de junho de 1897. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 451 

Feijão preto diz-se que é assim por qualidade, outros dizem 
que é degenerado. 

O feijão chícharo ou fradinho tem este nome provavelmente 
por ser pequeno, e por ser muito usado nos conventos para o 
caldo da portaria. 

O feijão de vajem branca é branco emquanto tenro, e o 
feijão arroz chama-se assim por ser muito meúdo. 

O feijão-de-sete-semanas é o mais temporão porque dá fruto 
cinco, semanas. É amarelo. 

E dos primeiros a semear-se na primavera, porque se o tempo 
lhe corre bem, perto do Sam João está carregado de vajens. Não 
é palhento como o das outras castas. 

Há mais as seguintes castas: feijão rajado, feijão-de-bico- 
-de-sacho, feijão eoimbrês, feijão vianês. 

Às diferentes qualidades de feijão chamam em Trás-os-Mon- 
tes gradara: — 'Boa horta! Muita soma de feijão para verde, 
muita hortaliça, e inda por cima muita gradara / » — . 



feira, feirar, feirão, feirante 

O substantivo feirão não figura nos dicionários, mas sim 
feirante, que é o mais usado no sul, e designa «a pessoa que 
tem barraca ou quitanda em feira». Na Gazeta das Aldeias, 
publicação mensal do Porto, e que é um belo repositório de 
termos vernáculos, vemos empregado o dito substantivo no trecho 
seguinte: — <Não seria conveniente levar lá [à feira de abelhas 
que se realiza em Sobrado, próssimo de Valongo nos dias 24 e 25 
de julho] colmeias móveis, pois os feirões que concorrem ao 
mercado, o que buscam é mel e cera?» — . 

Vê-se por este passo que feirão é quem concorre à feira 
«para comprar», entanto que, no sul, feirante é, como disse, 
aquele que ali se estabelece «para vender». 

O verbo feirar está abonado com o seguinte trecho do Alfa- 
JEME DE Santaeém, dc Almeida Garrett: 



452 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



— «Feirac, feirae, meus nobres senhores: 
São lindas armas 

Feiremos cl'amores, 
Que mais lindos são » — * . 



feitiço 

Em primeiro lugar cumpre advertir que esta palavra foi, em 
português, adjectivo, quer provenha de facticium j factum \ fa- 
cere, «fazer», quer de ficticium } fictum j fingere: — «os 
bonzos não ousaram a se determinar no que entre si trazião fulmi- 
nado, que era, segundo depois soubemos, ordenarem hum arruído 
feitiço [finjido], em que matassem o padre e a nós todos com 
elle»— 2. 

Feitiço, como substantivo, tem três significações: 
A primeira é «bruxaria»: — «com receio de que lhe fizesse 
feitiço» — ^] e em texto mais antigo: 

— «Se vossa alteza quiser 

Ver os feitiços que eu faço » — *. 

A segunda significação é «objecto com que se faz a bruxa- 
ria»: — «A lagartixa que certo feiticeiro poz na couceira da porta 
de hum lavrador, a qual em todo o tempo, que ali esteve, nem a 
molher, nem animal algum de casa poria, era feitiço» — ^ 

A terceira é muito especial : — «O feitiço é o armazém onde 
se fazem os pagamentos aos indigenas [no Zaire]. É uma espécie 



1 Acto II. 

2 Femám Méndez Pinto, Peregrinação, cap. ccxi. 
8 Azevedo Coutinho, Campanha do Barué bm 1902. 
■* Gil Vicente, Auto das fadas. 

6 Bluteau, Vocabulário portugubz b latino. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 453 



de taberna, com um pequeno balcão junto da porta e toda a ca- 
pacidade interior tomada por fazendas» — K 

Como ídolo, sentido era que se diz, mas se não prova, ter 
sido derivado de português o termo francês fetiche, não há abo- 
nação verdadeiramente vernácula; em tal acepção o termo usado 
em português é manipanso. Neste pressuposto, parece-me erro 
denominar feiticismo o período de concepções relijiosas a que os 
franceses chamam fétichisme. 

De feitiço procede feiticeiro, feitiçaria, enfeitiçar, etc. 

Sobre o vocábulo feitiço é digno de leitura o que P. A. de 
Azevedo escreveu com o título de Superstições portuguesas 
NO SÉCULO XV, servindo de aclaração a vários documentos que 
publicou -; veja-se também Bluteau (Vocabulário, loc. cit.). 



feitor 

Sentido particular, isto é, o de « fabricante » adquiriu este 
vocábulo no norte do reino: — «Para a obra de encommenda es- 
colhe feitores — , porque os ha especialistas » ^ — ^. É um bom 
termo para expressar o que os romanos denominavam faber, 
« artífice » . 

felipina, filipina 

Designa este termo uma mistura de água, aguardente branca 
e açúcar. A orijem deste nome já de relance foi indicada no 
Suplemento ao Novo Diccionário, e é a seguinte: 

No largo do Pelourinho, aí pelo primeiro até segundo quar- 
tel do século passado, existiu uma aguardentaria pertencente a 



^ Kelatório do juiz Francisco António Pinto, in O Economista, de 19 
de março de 1885. 

2 in Ebvista Lusitana, iv, p. 197 e 198. 

3 Rocha Peixoto, As olarias do Prado, in Portugália, i, p. 267. 



454 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Marcos Felipe, que também tinha por sua conta o botequim da 
Praça do Comércio, que ao depois passou para as mãos do Mar- 
tinho, que lhe transmitiu o nome, bem como ao do largo de 
Camões; também se lhe chamou o botequim da neve. Parece ter 
sido o Felipe quem deu nome à felipina, a que se refere Garrett 
no prefácio à Lyrica de João Mínimo: — «com o charuto na 
bôcca e o ponche ou a philippina na mão» — . 

Segundo se declara em nota, foi isto escrito em 1825, época 
em que estaria em voga o tal botequim. 

fenasco 

Na Índia portuguesa fenasco é o nome que se dá à uraca, 
ou aguardente, em concani feni, nos caracteres devanágricos 
transliterados p'e]sri, 

fendi, eféndi(m) 

Esta palavra é uma forma abreviada, talvez berberisca, do 
vocábulo turco efóndi, que é o tratamento usual que empregam 
os turcos, como termo de cortesia, equivalendo a «senhor». Foi 
usado por João Carvalho Mascarenhas, na «Memorável relação 
da perda da nao Conceição»: — «Fendi, eu é verdade que também 
sou dos que queriam fugir» — ^ 

A acentuação, que no texto não está marcada, é na penúl- 
tima sílaba. 

É preferível dizer eféndi. Com o suíicso -m, eféndim equi- 
vale a «meu senhor». 

feno, feneiro 

Em castelhano existe um vocábulo que nomeia o local onde 
se arrecada o feno, heno, isto é, henil. Em português chama- 



1 in BlBL. DE CLÁSSICOS PORTUGUKZES, Vol. XLVII, p. 109. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 455 



-se-lhe geralmente palheiro, o qual propriamente devera designar 
aquele em que se armazena a palha, mas que além disso tem 
outros significados, como por exemplo nos dois excertos seguin- 
tes: — «Os pescadores da costa de Lavos habitam em casas de 
madeira, chamadas palheiros ^; — «Pelos meados d'este século 
Espinho era uma agglomeração de palheiros»-. — «Foi sendo 
moda entre as familias ricas da Terra da Feira, irem para alli 
tomar banhos e muitas d'ellas alli construiram palheiros próprios. 
Ao principio era moda serem feitos de tábuas, depois alguns os 
construiram de pedra e cal, mas térreos» — ^. 

Na excelente publicação semanal Gtazeta das Aldeias *, 
num artigo assinado por M. Rodríguez de Morais, lê-se este 
trecho: — « arrecadando-as [as plantas] em abrigos, feneiros ou 
palheiros apropriados onde se conservam os fenos» — . E, sem 
dúvida, um neolojismo, visto que nenhum dicionário mencionou 
tal vocábulo ; merece todavia ser aceito, porque supre uma falta, 
e está formado em perfeita analojia com as palavras palheiro, 
espigueiro, etc. 

Ficaremos assim com duas designações diferentes, enteira- 
mente intelijíveis ; palheiro, «armazém para a palha», /é'?^e^Vo, 
«armazém para o feno», do mesmo modo que em castelhano se 
distingue pajar de henil. 



fero 



No Minho tem o sentido de «robusto, válido». — «Teve de 
ir a Vianna, onde o deram por fero» — ^. 



1 Portugália, i, p. 383. 

* ib., p. 85. 

3 Pinho Leal, Portugal antigo e moderno, iii, p. 63. 

* de 23 de maio de 1905. 

5 Alberto Pimentel, A princeza de BorvÃO. 



456 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



ferrar, ferrão, ferreta 

Ferreta é o nome que se dá no Minho ao bico de metal do 
fuso, do peão, etc: — «O fuso... o terço restante, chamado 
ferreta, é de metal» — ^ 

Denomina-se ferrão, em geral, a choupa ou ponta de ferro 
dos paus ferrados, e por analojia o aguilhão dos insectos, se é 
que, neste último sentido, a analojia não foi estabelecida pelo 
verbo /errar, que no norte significa «picar, tnorder». 



ferrejo, forrejo, ferrejial, ferrajial 

Ferrejo ou forrejo, no Kiba-Tejo, é « milho em verde, não 
sachado»; e no Algarve parece ter o mesmo significado: — «Os 
ferrejos estão excelentes» — ^. 

— « As terras que cercam o « monte » chama-se-lhes ferra- 
giaes» — 3. 

ferroba 

Esta forma, por alfarroha, que é a usual, não vem nos di- 
cionários. Encontrei-a na «Relação do naufrájio da nau Santo 
Alberto», de João Baptista Lavanha: — «arvoredo com fruta mui 
amargosa da feição de ferrobas» — *. 

É o mesmo vocábulo, isto é o árabe AL-naRUB ^, mas sem o 



1 Portugália, i, p. 371. 

2 O Economista, de 17 de maio de 1883. 

3 J. da Silva Picão, Ethnogra.phia do Alto Albmtejo, tn Portu- 
gália, 1, p. 274. 

■* in BlBL. DB CLÁSSICOS PORTUGUBZES, VOl. XLIV, p. 52. 

5 João de Sousa, Vestígios da lingoa arábica em Portugal, 
Lisboa, 1830. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 457 



artigo AL, e com enfraquecimento do a pretónico em e: cf. rezão, 
forma popular em vez de razão. 

Outra palavra arábica, que esporadicamente aparece sem o 
artigo AL, que em geral a acompanha, é comonia, por alcomo- 
nia, na «Memorável relação da perda na nao Conceição», de 
João Carvalho Mascarenhas (1627) ^ 



fescoço 

No Alentejo diz-se fescoço por pescoço. É uma mudança dia- 
lectal idêntica àquela que de pestulum produziu /ec^o (q. v.) 
na língua comum. V. pescoço. 



fiambre 

Este vocábulo é castelhano, e não português [v. deslumbrar]. 

O que é português é a sua especialização, ao aplicar-se ao 
presunto. A forma portuguesa era friame, derivada, como a cas- 
telhana, àe frigidamen. frigidaminis -. 



fidalgo, fidalga, fidalguinho 

Como é há muito tempo sabido, fidalgo é uma polissíntese 
de filho-de-algo, cujo significado próprio se perdeu, a ponto de 
se dizer fidalga e fidalguinho, em fez de filha-d-algo, filhinho- 
-d-algo. 

Fidalguinho dos jardins ^ é o nome que dão no norte à 



1 Tol. xLvn, p. 44, da Bibl. de clássicos portuguezes. 

2 D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, in Kevista Lusitana, iii, 
p. 166. 

3 D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos, in Eevista Lusitana, m, 
p. 170. 



458 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



flor que também se chama lóio (q. v.), o hleuet, ou hluet, fran- 
cês, uma das raras flores, verdadeiramente azuis, côr muito rara 
no reino vejetal. 

Numa acepção muito especial é este deminutivo empregado, 
como vemos do trecho seguinte: — «Estes macacos são oriundos 
da America do Sul e conhecidos no Brazil por macaco yrego ou 
mico chorão. Entre nós, sem que saibamos porquê, tem o nome 
vulgar de Fiãalguinlio » — ^ 

Dissera antes, ser o dito quadrúmano do género Cebus 
(C. fatuelus). O Novo Diccionáeio já rejistou esta denomi- 
nação como sendo de Lisboa, não porém com tamanha individua- 
ção, e sem a abonar, conquanto a marque como inédita. 



figle 

E o nome de um instrumento de vento, feito de metal. O étimo 
é^o francês ophicléide, artificialmente formado de dois vocábulos 
gregos, óp'is «serpente», kleís, kleidós « chave >. Pela forma- 
ção parece que o nome caberia melhor ao chamado serpentão. 

A forma mais antiga, e menos corruta, que apareceu em escrito 
português, foi provavelmente fígUd, transcrita de um cartaz ou 
programa de 1847, por João de Freitas Branco, em uma das 
eruditas e substanciosas notícias teatrais que em tempos publi- 
cava no jornal A Vanguarda: — « Executar-se-hão umas varia- 
ções de Eiglid (figle, dizemos nós)» — ^. 



figo, figueira 

A nomenclatura desta apreciadíssima fruta, da qual direi que 
nada gosto, é principalmente algarvia, pois é nesse extremo sul 



O Século, de 5 de novembro de 1905. 
11 de dezembro de 1899. 



Apostilas aos Dicionários Portugiiesen 459 



do reino que a sua cultura e o preparo do fruto seco mais pre- 
dominam. É extensíssima, copiosíssima, a enumeração das suas 
diferentes qualidades, e não é aqui o lugar para procurar exau- 
ri-la. Citarei apenas alguns epítetos, ou menos conhecidos, ou 
imperfeitamente deíinidos: — «em ablativo de viagem, o melhor 
figo, o mais acreditado é o de « comadre » ; vem depois o « mer- 
cador», o mais reles é o marchante» — ^. 

Figo de recheio: contendo amêndoa e canela -. 

O Xôvo DicciONÁEio, no Suplemento, inscreveu figueira 
com uma acepção inédita, como própria de Lamego — «espécie 
de verrugas nas bestas» — . Na Gazeta das Aldeias lemos, 
como expedida dos Akcos-de-Val-de-Vez, a seguinte pregunta, 
com a solução dada pelo veterinário Paula Nogueira: — «Tenho 
um cavallo de dez a doze annos com figueiras, que se vão esten- 
dendo desde a ponta da cauda, pela parte de baixo, até ao ânus, 
chegando a tê-las já na entrada do intestino. Haverá remédio 
pára curar ou ao menos attenuar este mal? — Resposta — Pela 
situação das lesões julgo que as figueiras são tumores melânicos 
[«denegridos»], frequentes nos cavallos de côr clara ou russa 
[sicj. Esses tumores, característicos da doença chamada mela- 
nose, são de natureza maligna. De pouco serve extirpá-los, por- 
que se reproduzem. . . » — ^. 

Advertirei aqui ser errónea a escrita russo, em vez de ruço 
(q. V.), castelhano rucio, adjectivo que designa côr, e nada tem 
que ver com o nome étnico russo, afim de Rússia, em castelhano 
ruso, Rusia, em russo ross, Rossía. 

filho, filha, filhastro, filhastrar 

A palavra filho ou filha adquire valor muito especial em 
várias acepções, acompanhada ou não de epítetos. Assim vemos 



* O Economista, de 5 de novembro de 1885. 

« ih. 

3 1905, p. 249. 



4G0 Apostilas nos Dicionários Portugueses 



que filho-do-olmo em certa aldeia significa «enjeitado: — «De 
quem é filho este rapaz? — E filho do olmo. — O pae das crean- 
ças sem pae é aquela árvore enorme, que ali vês, é o olmo. 
Quando a vergonha ou a miséria pode mais que o amor mater- 
nal, as creanças são depositadas n'aquellas pedras que circum- 
dam o olmo, e lá choramingam até que passe o primeiro lavra- 
dor, que as agasalhe em casa e as endireite na vida» — ^ 

— «The fatherless are the care of Ooã» — -: — Deus é o 
pai dos órfãos — , pater orphanorum [Salmo xlvii, v. 5]. 

Filho da casa, designa o indivíduo estranho, nela criado, às 
vezes nascido: — «via-se que ambas [as reclusas do Aljube, em 
Lisboa] se achavam satisfeitas com a reclusão . . . radiantes por 
serem filhas da casa» — ^. 

Em jíria filhos do mosqueiro são uma especialidade entre 
os larápios: — «Filhos do mosqueiro são pois os gatunos que 
se introduzem no interior das casas, a occultas dos seus loca- 
tários » — *. 

No Novo DicciONÁRio (Suplemento) vemos o verbo filhas- 
trar, como transmontano, com o significado, a meu ver duvidoso, 
« compreender » ; a não ser que se ampliasse arbitrariamente o 
verbo filhar, «colher». 

Na mesma verba relaciona-se, em dúvida, este verbo com a 
palavra castelhana hijastro, que quere dizer «enteado». Não vejo 
a mínima relação de significado entre os dois vocábulos; existe 
relação, mas é formal. Hijastro, dantes fijastro, é o latim fi- 
liastrum, citado por Isidoro Hispalense, derivado de filium, 
cora um suficso que se tornou pejorativo. Sobre tal suficso diz-nos 
Miguel Bréal: — «O lugar de orijem está no grego, em que havia 
verbos em -azõ, sem significação depreciativa. . . deles se de- 



1 António Chaves, in O Albergue das creanças abandonadas, 
número único, junho de 1903. 

* Bulwer Lytton, Zanoni, cap. último. 
•' O Século, de 28 de abril de 1902. 

* O Século, de 3 de junho de 1902. 



Apostilas aos IHcionários Portugueses 461 



rivavam substantivos era -astêe, como ergastêr, «trabalhador». 
Entre tais substantivos alguns bá que parecem conter noção 
depreciativa: patrastêk, «o que faz de pai», mètkásteira, «a 
que faz de mãe», elaiastêr, «a [árvore] que faz de oliveira, o 
zambujeiro». Aos romanos agradaram palavras destas. Em geral, 
podemos notar, o que é malévolo passa facilmente de um a outro 
povo. A língua latina, portanto, possuiu as palavras patraster, 
filiaster» — '. 



filho 



Como étimo para este vocábulo, que, como se sabe designa 
um bolo de farinha de trigo e ovo, frito em azeite e polvilhado 
depois com açúcar, propus o latim folUóla -, com assimilação 
do o à palatal Ih, isto é, a sua mudança em i átono. D. Carolina 
Michaélis de Vasconcelos propõe foliólum ^, Baist foJiola. 
O que me parece demonstrado é que filho, com o aberto e o 
género femeniuo, bá de provir de um vocábulo latino com a ter- 
minação -ola, quer femenino, quer plural neutro. 

Ora essa forma hipotética tanto pode ser folUola plural de 
folliolum, deminutivo de follis, «fole», como foliola j fo- 
lium, «folha». * 

fim 

Este vocábulo é hoje, na língua literária, e mesmo na comum 
da conversação, masculino, como o era em latim. Todavia, pro- 
vincialmente, mantém ainda nalguns pontos o antigo género fe- 
menino que tinha. 



1 EssAi DE5 Sémantiquej, Paris, 1899, p. 46 e 47 
» Revista Lusitana, i, p. 211. 
3 ih. m, p. 133. 



462 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Aqui seguem dois exemplos, um antigo, literário, e o outro 
moderno, popular: 

— «Se os jóvenes amores 

Os mais tem fins desastradas > — *. 

— «E a fim do mundo! Deus nos acuda!» — -. [Freguesia 
de Pedroso, concelho de Vila-Nova-de-Graia]. 



fios 



Este vocábulo, no plural, designa «pano de linho usado, des- 
fiado», e em muitos dicionários falta esta acepção: é o que os 
franceses chamam charpie. 

Outra acepção especial de fios vê-se no trecho seguinte, e 
também não consta dos dicionários: — «^Fios — Embora verda- 
deiros laços, diíferençam-se, dos por este nome conhecidos, em 
serem feitos de um só fio de arame amarello, destemperado, e 
presos, cada um de per si, a uma vara de urze, chamada j9é, 
alguns centímetros cravada no chão» — ^. 

Servem de armadilha, para apanhar pássaros. 

firmai 

Era uma jóia, feita de metal precioso, ouro ou prata, e ador- 
nada com gemas, a qual servia para prender os vestidos: 

— «Um firmai dua senhora 

Cum rubi 

Pêra o colo de marfi» — *. 



* Gil Vicente, O velho da orta. 

2 O Dia, de 24 de maio de 1902. 

3 José Pinho, Ethnographia Amarantina, A Caça, in Portugá- 
lia, II, p. 92. 

< Gil Vicente, O velho da orta. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 463 



firmão: v. formão 



fita; fito, de fito 

Esta palavra dizem corresponder ao latim iiitta, com mu- 
dança de V em /, esporádica em começo de palavra, isto é, na 
posição forte; e como em toscano é vetta, com e fechado, o que 
prova ser breve o / da forma latina, o étimo apontado é bastante 
suspeito, apesar da coincidência do significado, pois o i breve 
latino dá e em português. 

Fitas de madeira, ou de garpiiíteieo são as «tiras» que 
a plaina separa da tábua, e a que também se chama aparas, com 
menos propriedade, pois estas podem ser tiradas a enxó ou outra 
ferramenta. 

Vocábulo com a mesma pronúncia e escrita, mas de orijem 
diversa, é fita, no sentido de «firme», como em pedra fita, termo 
de arqueolojia pre-histórica, que se aplica a qualquer pedra arti- 
ficialmente erguida, por oposição a pedra halouçante, « a que está 
em equilíbrio instável». 

O termo é tirado da nomenclatura vernácula, do onomástico 
local, por exemplo, onde encontramos Pêra Fita, «pedra ficsa» 
(cf. Pêro, a par de Pedro). Este adjectivo fito, fita é o latim 
fictum, fictam, particípio passado passivo, concorrente com 
fixum, fixam, do verbo figere. 

A locução adverbial de fito, ainda é usual em Trás-os-Montes, 
com a significação de « posto a topo » : — « duas grandes pedras 
postas de pino, ou de fito» — ■•. 



1 Manoel Ferreira Deusdado, O recolhimento da Mófreita, in 
«Eevista de educação e ensino», 1891. 



464 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



flaino 



Andar a flaino corresponde ao francês flãner, e esta locu- 
ção está abonada em um soneto atribuído a Bocaje: 

— < Quando hás de consentir, cruel fortuna, 
Ao magro, de olho azul, de côr morena, 

O bera de andar a flaino e de ir á tuna?> — i. 

É suspeita a atribuição: este terceto é apenas a repetição, 
nem mesmo a paráfrase, do começo de outro soneto bocajiano: 

— «Magro, de olhos azuis, carão moreno, 
Bem servido de pés, meão na altura > — . 

flanco 

Este vocábulo, de que hoje se está por galicismo abusando, 
apenas é português como termo de táctica militar. Em todos 
os outros sentidos cumpre, conforme as circunstâncias, empregar 
lado, ladeira, encosta, costado, ilharga, ilhal, etc. 

flauta 

A forma portuguesa é frauta: 

— «E não de agreste avena ou frauta ruda» — '. 

À forma flauta atribui P, Marchot, como étimo flau- 
tara j /« ut la ^. 



1 O Economista, de 28 de julho de 1882. 

2 Lusíadas, i, 5. 

3 JaHRBSBERICHT ÚBER DIB FORT8CHRITTB DBR ROMANISCHEN PhI- 
LOLOGIE, 6, I, p. 289. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 465 



florada 

O Novo DiccioNAEio define esta palavra como sendo o nome 
de um — «doce de flores de laranjeira» — . Deve ter muito pou- 
co que comer. 

No convento de Santa Anna, de Leiria, dá-se este nome a 
ura doce de ovos que tem a forma de flores. E portanto esta 
que lhe deu o nome, e não a substância de que o doce é feito. 



florosa 

Na Madeira (Ribeira Brava) é a mesma ave que em outros 
pontos da ilha se denomina papo-roixo * 



fó 



É uma interjeição que expressa repugnância, muito usual na 
ilha da Madeira, e à qual no continente corresponde phuh, com 
j) aspirado. 

foca 

No Minho, principalmente na marjem portuguesa do rio, 
significa «buraco». 

focar 

Teio verbo! E neolojismo, e quere dizer «pôr em foco>. 
— «Pede-lhe um instante de paragem, para o focar» — *. 



1 Ernesto Schinitz, Die Vôgel Madeiras, 1899. 
« O Século, de 29 de março de 1901. 
30 



4t)G Apostilas aos Dicionários Portugueses 



foicinha, foicinho, foicinlião 

Estão já colijidos em dicionários modernos os dois primeiros 
derivados de foice, ou fouce j fale em, mas não o está fouci- 
nlião, que é o nome de uma fouce equivalente à gadunha, e 
com a qual se ceifa a palha: — «Corta a palha o foicinhão» — *. 

fole-das-migas 

Em jíria de malandrins significa «a barriga». A razão da 
locução é muito evidente, para que precise de ser explicada. 

folgazão, folgazões 

Hoje em dia toma-se na acepção de «divertido, indivíduo 
que folga, divertindo-se». Antigamente, porém, o sentido era 
«mandrião, desocupado», exactamente o do francês fainéant, 
com fundamento na significação própria do verbo folgar, « não 
trabalhar»: — «dahi a três dias alguns homens folgazões, que 
são os que ordinariamente davam no mar todo o bom conse- 
lho» — '^. 

Ainda hoje o correspondente castelhano holgamn, liolgaza- 
nes quere dizer — «persona vagabunda y ociosa, que no quiere 
trabajar» — , como define o Dicionário da Academia Espanhola, 
sendo pois o que hoje chamamos vadio. 

folha, folhedo 

A palavra folha escrevo-a com circunflecso para a diferen- 
çar de folha=^fólha, do verbo folhar, como ãesfolha= desfolha, 



1 O Economista, de 15 de outubro de 1887. 

2 BlBL. DE CLÁSSICOS P0UTUGUEZE8, Vol. VII, p. 69. 



Aposfilãfi aoH Dicionários Portuguese.i 467 



de desfolhar, verbo postulado pelo particípio passivo substanti- 
vado folhado, por exemplo em pastéis de folhado. 

>íão está colijido nos dicionários o colectivo folhedo, exem- 
plificado no trecho seguinte: — «Dizimam-nas [às moscas]. . . com 
o auxilio do folhedo» — ^ 



fontela 

— «Em Sanhoane, Fontes, Medrões, etc, (Santa Marta de 
Penaguião), para se alcançarem os mesmos resultados [a vedação 
das vasilhas de barro] cora a loiça negra de Visalhães, « para lhe 
tapar as fonfellas», introduzem-se as vasilhas no forno do pão, 
deixando-as aquecer até ao rubro; tiradas para fora verte-se imme- 
diataraente em cada uma farello e agua, mechendo rápido» — -. 



foral, furai 

Na ilha de S. Miguel (Açores) dá-se este nome a uma rua 
estreita ^. ,íMas é Joral, ou furai? 



forçura; fressura 

Estranho nome, que se dava hs frisas, na antiga nomencla- 
tura do teatro. — «1.** andar das for curas, preço 2000, 2.*^ an- 
dar, camarotes, 2400» — *. 



1 José da Silva Picão, Ethnographia do Alto Alemtejo, in Por- 
tugália, I, p. 539. 

2 Rocha Peixoto, Sobrevivexcia da primitiva roda de oleiro 
EM Portugal, in Portugália, ii, p. 7G. 

3 O Século, de 5 de julho de 1901. 

^ Alvará de 17 de julho de 1771, in OollecçãO de legislação por- 
TUGUEZA, 17G3-1774, Lisboa, 1829, p. 547. 



468 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Forçura é a pronúncia popular áejreasura j frixura \ fri- 
xum por frictum \ frigere, «frijir>: cf. o castelhano asa- 
dura ! asar, « assar > ^ 



foreiro 

Este substantivo significa « que paga foro » ; mas no trecho 
seguinte aplica-se àquele que de direito o recebe, não sei porém 
se com propriedade: — «Kestello, o nobre, o rico foreiro» — -. 
Temos aqui um caso como o de caseiro. (V. no vocábulo casa}. 

forjoco, furjoco 

— «do lado do norte uns buracos ou «forjocos», por baixo 
de enormes fragas» — ^. 

Como ignoro a orijem da palavra, hesito na escrita. Se é um 
aumentativo de furja, por alfurja [ árabe fuege, «fenda», é 
claro que se deve escrever com u, o que, em todo o caso, seria 
mais seguro. Note-se que alfurja é vocábulo diferente de aljorge, 
que em árabe se diz al-tiukg *. 

forma, forma 

O primeiro destes vocábulos é o mais moderno, copiado do 
dicionário latino, proferido com o aberto, como costumamos pro- 
nunciar o o ao lermos latim ao nosso modo; corresponde-lhe em 
castelhano o vocábulo forma de orijem também artificial. O se- 



1 S. Bugge, m Komania, IV. 

2 O Século, de 30 de maio de 1900. 

5 Albino dos Santos Pereira Lopo, Bragança b Bbmqubrença, in 
«Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa>, Série 17.*, 1898-99, p. 168. 

* Y representa a 7.* letra do alfabeto arábico, equivalente ao / caste- 
lhano actaal. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 4tí9 

guudo, forma, é de orijem popular, evolutiva, com o fechado, 
como era de esperar, atendendo-se a que é longo no latim forma, 
e fechado se conserva no italiano forma, em muitas das acepções 
que correspondem aos dois vocábulos portugueses. O segundo era 
em castelhano forma, que ao depois se alterou em horma, dife- 
rençando-se hoje /orm«, «forma» de horma, «forma». 

No Novo Dtccioxákio (Suplemento) menciona-se a locução 
— « forma torta, de mau caracter, ruim » — . Não é exacta : a lo- 
cução é de forma torta, e explica-se perfeitamente. Os çapatei- 
ros, para o calçado, usam de um molde com a configuração de 
pé, a que se chama forma, e não, forma. Há uns sessenta 
anos, as formas para os dois pés eram iguais, como ainda o são 
nos çapatos de ourelo, ou de trança, nas chinelas mouriscas, nos 
çapafos chamados de mouro, emfim, em todo o calçado barato, 
de fancaria. 

Quando se começaram a usar as formas desiguais, as pessoas 
habituadas aos çapatos parelhos, com menor inclinação para 
dentro, e que podiam, indiferentemente calçar-se num ou no 
outro pé, consideravam-nos mais incómodos (e parece-me que ti- 
nham razão, e digo isto por experiência, pois em criança calcei 
muitos çapatos de forma direita): daqui proveio o dizer-se que 
«uma pessoa é forma torta», convém saber: «custa a ajeitar-se à 
nossa vontade, não nos entendemos com ela, ora está do direito, 
ora do avesso». 

Em S. Miguel dos Açores a palavra forma aplica-se ao « bo- 
tão de calça» K 

Forma perdida: — «assaz rudimentares eram os moldes para 
taes reproducções [de braceletes de ouro pre-romanos, na Penín- 
sula Hispânica], formas que eram perdidas em seguida á fundição 
da peça, á maneira do systema ainda actualmente usado, assim 
chamado: de forma perdida » — 2. 



1 O Século, de 5 de julho de 1901. 

» Eicardo Severo, Os braceletess d 'ouro de Arnozblla, m Por- 
tugália, II, p. 65. 



470 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

E esta uma acepção do vocábulo forma (e não, forma) acom- 
panhado de epíteto, que julgo não estar rejistada nos dicionários, 
6 me parece locução técnica. 

formálio 

— «o formálio é uma placa com pinhas de prata, que se põe 
no peito do celebrante» — ^ 

formão, firmão 

Estas duas formas, com preferencia manifesta dada à pri- 
meira, designa, nos autores portugueses que escreveram na língua 
de Portugal, o que os autores portugueses que modernamente 
escrevem numa linguajem crioula, misto de muitos idiomas, e 
ortografias exóticas, querem que se chame ^irman: — «dizem que 
tinha formão do Gram Turco para poder ir por terra para o 
reino » — '^. 

O vocábulo é persiano, fíkman, «ordem», e os portugueses 
adoptaram-no por intermédio do árabe, no sentido especial de 
«carta de recomendação», ou «salvo-conduto>, concedido por 
autoridades soberanas mouriscas. 



forno, furna 

No Gerez tem este vocábulo, do latim furnum, acepção es- 
pecial, como vemos do seguinte passo: — «Os «fornos» do Gerez, 
abrigos de pastores onde só muito baixado se penetra» — ^. 



* O Dia, de 2.1 de março de 1902. 

5 Diogo do Couto, Década 8.*, cap. xv. 

3 Herinenejildo Capelo e Leonardo Torres, Viagens á serra do 
Gerez b suas caldas em setembro de 1882, in «Boletim da Sociedade 
de Geographia», 4.* série, p. 533. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 471 

Furna é com todas as probabilidades derivado português de 
forno, com mudança da vogal õ em u, bastante singular, atenta 
à terminação a da palavra. O que é notável também é a rela- 
ção estabelecida entre /orno e furna, «concavidade, algar», e 
que vemos repetida, por mera coincidência, em uma língua da 
nossa tam remota, como é o búlgaro moderno, idioma esclavó- 
nico no qual do mesmo radical se derivaram jjé'.x#, «forno», e 
pexterá, « furna » : — «A mammôa pode ser precedida de um 
corredor ou galeria que tem o nome vulgar de furna, nome 
que também se applica ás grutas» — ^ 

forquilha 

— «O mal da forquilha ou peeira é uma furunculose do 
espaço interdigitado, isto é, um furúnculo entre as unhas do 
l)oi» — -. 

O termo peeira vem já rejistado nos dicionários neste sentido, 
€ representa um \?X\m. pedaria j pes, pedis. 

frade, fraire, freire, frei, freira, freirinha 

Esta palavra, do latim fratrem, «irmão», adquiriu, além do 
seu sentido especial e hoje o próprio de «relijioso, pertencente 
a uma ordem relijiosa», outros muitos, quási todos depreciativos. 
Deste modo, frade era o nome que, em Lisboa pelo menos, se 
dava, até data muito recente, a uns colunelos de pedra, ligados, 
ou não, entre si por cadeias ou varões de ferro, e que encerra- 
vam praças, ou edifícios, impedindo a passajem a veículos ou 
cavalgaduras: vinham a ser uma vedação, mais barata e cómoda 
que os gradeamentos. Quem procurar, ainda os encontrará por 



» J. Leite de Vasconcelos, Portugal pre-historico, p. 48. 
* Gazeta das Aldeias, de 15 de abril de 1906. 



472 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



aí, em qualquer adro de igreja, ou algures. O nome foi-lhes dada 
indubitavelmente em razão do remate, que se parecia muito com 
uma cabeça tonsurada. 

Peões lhes chamavam no Porto, e não sei se ainda cha- 
mam. 

Frade, na jíria dos ladrões, no Porto, quere dizer « indivíduo 
da polícia» *, talvez em atenção ao capote que usam, comprido, 
a tocar no chão, como o hábito do frade, ou porque está parado, 
imóvel, como o ijeão, ou « frade de pedra » . 

É conhecida a denominação que se aplica a uma casta de 
feijão, isto é, feijão frade, ou fradinho. 

Não ó porém somente ao feijão que se dá semelhante alcu- 
nha; é também ao milho, em certas circunstâncias, como vamos 
ver. 

Frade (Leiria) é o grão de milho que, quando se deita no 
braseiro, para se comer assado, não estoura. 

Freira, ow. freirinha : chama-se-lhe assim quando elle estou- 
ra, tomando forma que lembra uma ílôr miúda e branca ^. 

É evidente a razão destes epítetos: o de freira é devido a 
semelhança que se supôs haver com a cabeça toucada de uma 
freira ; a de frade está em oposição a esta. 

Conclui-se que tais denominações são antigas, pois há setenta 
anos que não há frades. 

A par de frade j fratrem, temos fraire, comparável ao 
fraile castelhano, com vocalização do t latino em r, mas sem a 
dissimilação do r da 2.* sílaba para l, e freire, com a forma 
proclítica abreviada frei, castelhana fray, e o femenino freira, 
que, parece, não foi nunca usado em Espanha. 

Freira na Ilha da Madeira é o nome de uma ave, Ostrelata 
mollis, Gould -^ 



1 O Economista, de 28 de fevereiro de 1885. 

2 Informação dos snrs. Acácio de Paiva e V. Abreu. 
5 Ernesto Schmitz, DiE Võgel Madbira'8. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses AIS 



fragária 

Em Coimbra é o nome do morango bravo, muito ácido, a 
fresa espanhola, pois ao morango chamam fresón. 

Hugo Schuchardt dá-nos como termo português /resa ^ Nas 
Canárias, ao contrário, usou-se morángana, ou moriángana -, 
sem dúvida uma forma derivada da que em português deu mo- 
rango, isto é, moranicum { mora, «amora». 

Temos de explicar necessariamente por influencia portuguesa 
tanto este vocábulo, como coruja 3, ali usado, e que em caste- 
lhano se diz lechuza. 

fragulho 

Termo açoriano: é o nome que dão nas ilhas dos Açores às 
couves. 

fralda, falda, fraldiqueira, fraldiqueiro, faltriqueira 

Bluteau no seu Vocabulário diz-nos que a segunda destas 
formas é — «mais épica» — , a outra mais usada. Na linguajem 
actual distingue-se em geral falda de monte =^ aba, vertente de 
monte, de fralda de vestido, de camisa, etc. 

Tenho dúvida sobre se são duas formas do mesmo vocábulo 
orijinário. Os etimolojistas dizem-nos que falda, palavra que se 
encontra em várias línguas românicas, é voz germânica, falda, 
« dobra, prega » '*, e a ela subordinam tanto falda, como fralda, 



* Kreolische Studiejn, IX, p. 143. 

' João Marquess of Bute, On the ancient languagb op Tenerife, 
Londres, 1891, p. 28. 
3 ib. p. 22. 

* V. Kurting, Lateinisch-romanischbs Wõrterbuch, Paderborn, 
1891, n.** 3114, e Kluge, Etymologisches Wõrterbuch der dbutschbn 
Sprachb, Estrasburgo, 1889, sub voe. fait e falten. 



474 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

sem nos explicarem como se introduziu aquele r, que se repete 
ainda que em outra situação, no castelhano faltriquera, forma 
adjectiva de ura deminutivo faltrica, ou falãrica j falara, 
fralda. Faltriquera em castelhano quere dizer « aljibeira que se 
traz na saia, ou aba do vestido», e este mesmo sentido tinha o 
português fraldiqueira, como vemos, por exemplo, no Clérigo 
DA Beira, de Gil Vicente: 

— «Duarte, tendes vós hi 
Dinheiro na fraldiqueira ?> — . 

Não há portanto motivo para a interpretação «hábito, talar >, 
proposta em dúvida para este vocábulo no Novo Diccioná- 
Eio, ao aboná-lo com este passo de Francisco Manoel do Nas- 
cimento: — «contas na mão, punhal na fraldiqueira, falando 
em Deus» — . 

Fraldiqueira, como adjectivo, que no femenino se substan- 
tivou naquele sentido especial, quere dizer «o que pertence à 
fraldica, à fralda, e assim cão fraldiqueira-», é o «totó pe- 
queno, que está sempre no regaço, ou agarrado às saias » . 

Martinho Brederode, na colecção de formosas poesias intitu- 
lada Sul *, usou a formdi faltriqueira : 



— < Cartas d'amor na faltriqueira suja, 
Ramos de flores nas suadas mãos > — 



frango 

Esta palavra, que designa um «galo novo», considera-a D. Ca- 
rolina Michaélis de Vasconcelos como derivada de franco, « fran- 
cês » , e compara esta formação à de galo, que também quere di- 



Lisboa, 1905, p. 37. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 475 



zer «da Gália, ou França». Com respeito à mudança de c em g, 
confi'onte-se, como diz, manga j man(i)ca *. 

O simples confronto mostra que é improvável o étimo pro- 
posto: visto que o c estava precedido de vogal em manica. é na- 
tural que o abrandamento do c em ^ precedesse a queda do i; 
além disso, francum não explicaria /rán^rão. 



fraseai 

— <í Fraseai é naquella província [Alentejo] uma meda de 
lenha ou tojo, em geral quadrangular» — 2. 



freguês, freguesia (frègiiês, frègiiesia) 

Duas etimolojias tem sido propostas para este vocábulo, 
filius ecclesiae, e filius gregis, «filho da igreja», e «filho 
da grei». 

A primeira parece que deve ser rejeitada, em razão do cor- 
respondente castelhano feligrés, visto como nesta língua os gru- 
pos de consoante l não mudam este em r, como sucede em por- 
tuguês (cf. clavo e cravo), e portanto o r de feligrés deve provir 
de r latino. 

Temos pois que filius gregis é o étimo que devemos ter 
como provável, admitindo que houve em português metátese do r 
para a primeira sílaba, freguês por fegrês. Não direi que tudo 
esteja bem explicado, pois o não fica o i de fili-, mudado para e 
era castelhano, e para è em português, com supressão do l me- 
dial. — «Os presbyteros que os dirigem espiritualmente, cha- 



1 Revista Lusitana, iii, p. 168. 

' Diário de Noticias, de 21 de julho de 1904. 



47G A2)ostilas aos Dicionários Portugueses 

mar-lhes-hão seus filhos, filies ecclesie, filigreses, fregueses, re- 
cente denominação religiosa — popular» — *. 

Fora da relijião cristã foi o termo freguês usado por An- 
tónio Francisco Cardim, com referencia aos sectários do budismo: 
— «Tornou outra vez, acompanhado de outro bonzo e de alguns 
seus discípulos e fregueses» — ^. • 

O termo freguês tem um sinónimo, paroquiano, como fre- 
guesia o tem em paróquia, ou, não sei por quê, parrôquia, de 
pároco, ou x^àrroco. O que é estranho é que, emquanto em por- 
tuguês o termo paroquiano se não aplica jamais ao indivíduo 
que compra por hábito na mesma loja de venda, mas sim freguês, 
acontece em Espanha exactamente o contrário, pois lá o freguês 
da loja denomina-se parroquiano, mas o freguês, o paroquiano 
da mesma igreja diz-se feligrés. 

frol, frolido 

Na Kevista Lusitana ^ dá-se como metátese a forma frolido, 
por florido, num texto anterior ao século xv. Não há metátese, 
visto, que frolido é simplesmente o parti cípio passivo de um 
verbo froUr, derivado de frol, que era a forma contemporânea, 
e ainda posterior, do vocábulo que actualmente se diz fior. 

frouxel ' 

Bluteau, no Vocabulário portuguez e latino define deste 
modo a palavra: — «Â penna das aves, mais pequena, e mais 
molle » — .0 Dicionário francês de Emílio Littré dá-nos de édre- 
don a definição seguinte: — « 1.° Petites plumes à tige grele, à 
barbules longues et fines, appelées aussi duvet [penujem], fournies 



* Alberto Sampaio, As «Villa8> do Norte db Portugal, in Por- 
tugália, I, p. 583. 

2 Batalhas da Companhia db Jesus, Lisboa, 1894, p. 226. 
8 vol. VIII, p. 242, A Visão de Tundalo. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses Ali 



par des oiseaux palmipèdes et siirtout par Peider, anãs moUis- 
sima, qui vit principalement en Islande //. 2° Un édredon, em 
couvre-pieds fait d'édredon. . . Étym. du suédois eider, espèce 
d'oie du Nord, et dun, petite plume, diivet* — . 

Cotejadas as duas definições entre si e com a tradução latina 
que da palavra portuguesa faz Bluteau, mollior auium pluma, 
parece que com frouxel nos poderíamos contentar, ou com pe7it(/- 
jem, prescindindo do francês édredon, que para França é ao 
menos afrancesado, e para cá nem aportuguesado foi. 

fumeiro 

Como se sabe, designa fumeiro a carne de porco ensacada, 
de enchido, e depois fumada. 

Eis aqui uma transcrição que deixa claríssimo o significado: 
— «Dispensa. Vasto compartimento abarrotado de comestíveis. 
Ali se armazena o fumeiro dos suínos, isto é o producto da ma- 
tança de doze a vinte cabeças graúdas, as melhores que sahiram 
do montado. . . O fumeiro comprebende: grossas mantas de tou- 
cinho empilhado em salmouras próprias, ou em potes de barro e 
caixotes; as varas de enchido, como paios, chouriças, linguiças, 
morcellas, cacholeiras e farinheiras, cada qual em separado, e 
todas suspensas por cordas presas ao tecto, formando por este 
modo a parreira ou latada de carne cheia, previamente defumada 
nos vãos da chaminé . . . Em vasilhas observa-se egualmente a 
manteiga e os pésunhos e lacões» — ^ 

fumo fumo 

Esta palavra abona-se com a «Kelação do naufrájio da nau 
Sam Tiago», de Manuel Godinho Cardoso: — «Após estes negros 



1 J. da Silva Picão, Ethnographia do Alto Albmtbjo, í» Po rtu- 
galia, I, p. 537. 



478 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



acudiram outros com um Furaó seu, que assim chamam [os ca- 
fres] aos [sicj que os governa» — K 

Conquanto mais adeante a palavra se repita, hesito em con- 
siderar certa a acentuação marcada, pois a edição é de pouca ou 
nenhuma fé, não só porque os erros tipográficos pululam nela, 
mas principalmente em razão de a ortografia adoptada ser, 
quanto pode, arbitrária e incongruente. 



funaragio 

Assim nos apresenta o Novo Diccionákio este vocábulo, 
com a nota de compilado pela primeira vez, e uma abonação de 
Latino Coelho— «o lenho de um funaragio» — . No Suplemento 
ao mesmo dicionário declara-se que, por informação obtida, o 
vocábulo novo é apenas um erro de caixa por naufrágio, mas 
que Latino o deixou passar, autenticando-o portanto. É pois o 
que os franceses denominam coquille lexiologique, « gralha lecsi- 
cográfica», que já figurou duas vezes, e será bom não figurar 
terceira. 

No Suplemento chama-se-lhe — «suppôsto disparate» — : ^Pois 
ainda resta dúvida? O facto de Latino Coelho o haver deixado 
passar também não está provado, visto que as quatro primeiras 
letras de naufrágio trocadas em funa-ragio o podiam ter sido 
depois de feita por êle a revisão. 



funé 



Esta palavra é japonesa e quere dizer «embarcação» : — «uma 
ponte feita de barcos que [os japões] chamam funés» — 2. 



* in BlBL. DE CLÁSSICOS PORTUGUBZBS, VOl. XLIII, p. 04. 

2 António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus, 
I, p. 54. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 479 



fimgueiro, fangíieiro, fragúeiro 

O Novo DiccioNÁHio escreve a segunda destas formas fan- 
gueiro, isto é, com o u milo para a pronúncia; na terceira 
marca as ciraalhas no il, o que equivale a indicar que se pronun- 
cia fragu-eiro, soando esse u. Eu, em conformidade com o que 
expus na Ortografia Nacional ^ substituo pelo acento grave as 
cimalhas, com o fim de denotar que o u entre ^ e e ou i se 
profere. 

O mesmo Dicionário remete de fangueiro (aliás fangueiro) 
para jragueiro, entendendo-se pois que são a mesma palavra 
com duas formas; e da iiltima diz, como termo da Beira, o se- 
guinte: — «pau tosco e comprido; estadulho; pau em que encaba 
o vassoiro com que se varrem as cinzas e brasas do forno, para 
neste se deitar o pão que se vae cozer; adj. ardente. . . (De frá- 
gua)»—. 

E possível, e mesmo provável que de frágua provenha o 
adjectivo fragàeiro, ali abonado com Francisco Manuel do Nas- 
cimento, o que nos leva a crer que é neolojismo deste escritor, 
que tantos inventou, com maior ou menor felicidade. 

Como substantivo, o étimo é suspeito, porque frágua é uma 
«foija», e não um «forno»; e por outra parte não pode haver 
étimo comum a fragíieiro e fangueiro, sendo certo que o último 
procede de funicularium } funis, «corda» {] funguairo \ fun- 
gàeiro \ fangueiro -. 



funil, funilaria 

A palavra funil, muito usada na Estremadura, e menos no 
norte onde lhe substituem embuãe, castelhano embudo, é o latim 



1 Lisboa, 1894, p. 90 e 200. 

2 Kbvista Lusitana, ii, p. .34. 



480 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



infiindile ^ por infundibiilum. De funil se derivam /ww^- 
leiro e funilaria, que quere dizer não só «loja de funileiro» 
mas também «obra de fimileiro», como se vê do trecho seguinte: 
— «a concorrência de outras loiças, porventura a obra de funila- 
ria em minima parte» — ^. 

Funilaria designa também a «colecção enteira de condeco- 
rações com que um indivíduo se adorna», correspondendo neste 
caso ao que em francês, também em tom de mofa, se chama 
ferhlanterie. 

Funileiro, não é unicamente o «fabricante de funis», mas 
em geral o que tecnicamente se denomina latoeiro de folha 
branca, por oposição ao latoeiro, sem mais nada, que trabalha 
em latão, e não em fôlha-de-Flandres, como o funileiro, que 
o povo mudou em fulineiro, por influência de falha. 



Furada 

Este nome de várias terras costuma escrever-se às vezes, se 
não muito freqíientemente, Afurada, o que é um erro, visto que 
o « é o artigo, erro semelhante ao que os franceses e ingleses 
cometem quando escrevem Oporto, por o Porto. É regra conhe- 
cida que, quando um nome comum passa a especializar-se como 
nome de terra, costuma acompanhar-se do artigo, se por outro 
modo não está particularizado. Assim, temos a Abrigada, a 
Granja, o Tramagal, o Oinjal; mas Pena-fíel, ou moderna- 
mente Penafiel, Paço-d' Arcos, Porto-de-Mós, etc. 

Quando o nome comum deixou de estar presente à memória 
do povo, por se haver tornado obsoleto, o artigo muitas vezes 
elimina-se: assim, temos Cascais, e não os Cascais, Azoia, em 
vez de a Azoia (árabe AL-zauiÍE, «a ermida»), Valadares, etc. 



* Júlio Cornu, Grundriss der romanischen Philologie, Bonn, 
1888, 1, p. 770. 

* Portugália, I, p. 266. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 481 



Ora furada é um nome comum, o qual significa uma « ca- 
verna artificial», como há, por exemplo, na Galiza a chamada 
Furada dos Ca(n)s, citada por Vilamil y Castro, como sendo 
uma importante gruta pre-histórica. 



fura-mar 

Aos sete vocábulos derivados do verbo furar, no imperativo, 
como substantivos, colijidos no Novo Diccioííáeio e seu Suple- 
mento, tenho a acrescentar os seguintes nomes de aves: 

fura-bardo: Madeira, «gavião». 

ykra-mrtr; Madeira, «boeiro» *. 



fuselo 

E um deminutivo de fuso. Eis aqui uma definição minuciosa: 
— <duas chapas de madeira. . . presas uma á outra por sete ou 
oito pausinhos redondos de um palmo de comprido. . . são os 
fusellos^ — -. 

fuseola, fuseolo 

Este neolojismo é feito à imitação do francês fusaiole, termo 
de arqueolojia pre-histórica, derivado do italiano fusaiòlo, « gas- 
tão do fuso», isto é, o pedaço de chumbo ou outra substância 
pesada que mantém verticalmente o fio e o ajuda a torcer, posto 
na ponta, ou ferreta do fuso: — «As fuseolas que aparecem em 
grande abundância nas ruinas das citanias, idênticas ás usadas 
domesticamente na actualidade » — ^. Ora, como ninguém dá seme- 



^ Ernesto Schmitz, DiB VõGel Madeiua's. 
2 Portugália, i, p. 68(3. 
' Portugália, i, p. 317. 
31 



482 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Ihante nome às usadas na actualidade, melhor fora dar-lhes 
o que teem em português. 
V. gastão. 

fúti 

No Kelatório da Campanha do Baeué em 1902 S de 
João de Azevedo Coutinho, encoutra-se a seguinte expressão, 
usada na Africa Oriental Portuguesa: — «na esperança de tocar 
futi (fazer fogo) » — . Em nota acrescenta-se : — « Futi, espin- 
garda » — . 



gadanha, gadanho, gadanhar, agadanhar, engadanhar, 
esgadanhar, agatanhar, esgatanhar 

Dois étimos tem sido propostos para a palavra gadanha, 
forma hoje mais usual, ou guadanha, a que Bluteau deu a pre- 
ferencia, e que é a castelhana; e digo dois, ambos germânicos, 
porque o arábico, pelo Dicionário da Academia Espanhola pro- 
posto, não merece confiança, pois nem Dozy nem Eguílaz & Yan- 
guas o admitiram, visto que ambos omitem o vocábulo guadana 
entre os muitos de orijem arábica a que os seus glossários deram 
cabimento. 

Ambos os ditos étimos germânicos se podem ver em Kõrting 2. 
O primeiro deles, que F. Adolfo Coelho parece preferir ^, rela- 
ciona gadanha com o verbo ganhar, e é aquele que a este verbo 
deu orijem nas línguas românicas, com excepção do romeno, em 
que o elemento germânico é, a bem dizer, nulo: * waidanyan, 
«pascer, pastorear», que subsiste no alto alemão moderno weideyu 



1 in «Gazeta das Colónias >, de 15 de maio de 1905. 

* Lateinisch-romanisches Wõrtbrbuch, 4062 e 8845. 

' i?i Portugália, p, 636 e nota. 



A2>ostilas aos Dicionários Portugueses 433 

O outro é uma base verbal, hwat. «afiar», o alto alemão mo- 
deruo wetzen. Houve também quem propusesse Guadix, nome 
próprio de cidade ua província de Granada, mas ninguém lho 
aceitou. 

Declaro terminantemente que nenhum destes étimos oferece 
a mínima probabilidade de ser o verdadeiro; e mesmo o que pa- 
rece ter recebido maior anuência, e relaciona este nome de 
alfaia agrícola com o verbo ganhar, apresenta tantas dificulda- 
des fonéticas e ideolójicas, que nos vemos ua necessidade impe- 
riosa de rejeitá-lo. Com efeito, ^como é que a única língua ro- 
mânica que conservou o d, o italiano guadagnat-e, «ganhar», é 
justamente aquela para a qual o vocábulo é estranho? E por 
outra parte, (ise o dito verbo tanto no português ganhar, como 
no castelhano ganar, perdeu esse d, porque razão o conservaria 
num derivado? 

Pelo que respeita à parte ideolójica, ri qual relação se há de 
estabelecer necessária entre um verbo, cujo significado é «pas- 
torear», e um substantivo designando uma alfaia agrícola apli- 
cada à ceifa de herva, ou de mato? gPois a vida de pastor não é 
a antítese da do lavrador? 

Vê-se portanto que é este um dos numerosos vocábulos de 
uso cotidiano, cuja orijem é desconhecida. 

De gadanha procede gadanhar, «ceifar herva», o francês 
faucher \ faux, «fouce de cabo>. 

A par de gadanha, « fouce roçadoura » , temos um masculino 
gadanho, que quere dizer «dedo enclavinhado», como «para^a- 
far, arrebatar»; e com gadanho temos uma série de verbos 
dele derivados: engadanharem-se os dedos com frio: agadanhar, 
« estender os gadanhos para arrebatar » ; esgadanhar, « arranhar 
com os gadanhos^, que por influência da palavra gato, criatura 
a quem é muito aplicável o verbo, se converteu em esgatanhar, 
como agadanhar, em agatanhar. 

Com mudança do d em r, rara mas efectiva (cf. mentira, 
por mentida, e o castelhano parihuela com o português ^«íZtoía, 
q. V.), tem os falares transmontanos os particípios engaranhados, 
e engaranhidos, que pressupõem os verbos engaranhar e enga- 



484 Apostilas ao'i Dicionários Portugueses 

ranhir, e querem dizer « entorpecidos, tolhidos os dedos com o 
frio»; e o étimo imediato deles é com certeza gadanho '. 



gade, gadé 

O Novo DiccioNÁEio rejista a segunda destas formas como 
termo de jíria, com a signiíicação de «dinheiro». 

A abonação de que tenho nota é da primeira, na mesma 
acepção; é possível, porém, que haja nela erro tipográfico, o 
que não posso decidir porque nunca ouvi nem uma nem a outra: 
— «Quando não havia gade para vinho, meu pae batia-lhe> — ^. 



gadelha, guedelha 

O DiccioNAEio Contemporâneo rejista somente a segunda 
destas formas, o Novo Diccionáeio ambas, dando, como Blu- 
teau, a preferência à primeira, que é a mais usual no povo, e 
também a galega. O que nenhum dos dois faz é consignar a sig- 
nificação de «madeixa de fios», a que Bluteau se referira na 
inscrição gadelhas de lã, e Koquete ^ traduzira para francês do 
modo seguinte: — «flocon de laine. Guedelhas de seda, étoífe de 
soie peluchée» — . Esta última locução foi empregada pelo cro- 
nista Rui de Pina na Ceóniga de El-eei Dom Afonso v, des- 
crevendo as festas celebradas por ocasião do casamento da irmã 
de El-rei com o Imperador Frederico em fins do ano de 1449: 
— «El-rei... desafiou os cavaleiros para as justas reaes, que 
manteve na rua Nova com condições mui excelentes e de grande 
gentileza, e assi [foram] propostos grados e empresas mui ricas 



1 Na Revista Lusitana, i, p. 212 tratei deste vocábulo, bem como 
áe padiola, parihuela, p. 215. 

2 O Dia, de 25 de setembro do 1902. 

3 DiCTIONNAIRB PORTUGAI8-FRANÇAIS, Paris, 1855. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 485 



para quem mais galante viesse á tea, e assi melhor justasse. 
A que o infante Dom Fernando veio com seus ventureiros vesti- 
dos de guedelhas de seda fina como salvages, em cima de 
bons cavalos envestidos e cubertos de figuras e cores de alimá- 
rias conhecidas, e outros diformes» — K 

Vê-se que foi o que hoje se chamaria mascarada. Meio sé- 
culo antes houvera outra em França, também por ocasião de um 
casamento entre pessoas da corte de Carlos vi, na qual este rei 
e mais cinco senhores se vestiram de selvajens, cobertos de gue- 
delha de linho, à feição de pêlo, e assim apareceram na sala do 
baile, onde por ordem do rei se apagaram os brandões, com 
receio de algum desastre. O caso porém foi desastroso, e a pla- 
neada comédia converteu-se em pavorosa trajédia, breve, mas 
eloquentemente descrita pelo cronista Froissart. Apesar da re- 
comendação do rei, o duque de Orleãs entrou na sala acompa- 
nhado de seis homens com brandões; tirou um das mãos de um 
deles par ver se conhecia os mascarados, que vinham presos uns 
aos outros, com excepção do rei, que, sendo o primeiro da fileira, 
se soltara para falar à duquesa de Berri. A luz da tocha pegou 
fogo na guedelha de linho de um desses mascarados, guedelha 
que estava colada com pez a uma túnica, e assim pereceram dois 
logo ali, outros dois ao cabo de dois dias, no maior tormento, 
escapando o quinto, porque se lembrou de lançar sobre si a água 
que estava em uma dorna, para nela se lavarem copos. 

O que é mais horroroso neste triste caso é que Froissart dá 
a entender que não foi só leviandade, mas acaso malvadez da 
parte do duque, o que o levou a chegar a tocha a um dos mas- 
carados, quando nos diz, que o duque foi o culpado, posto que a 
pouca idade e talvez a ignorância o levassem a semelhante acto 
de loucura *. 

Vê-se pois que a palavra guedelha ou gadelha, não significa 
unicamente «cabelo», mas também toda a imitação de cabelo ou 



1 cap. cxxxi. 

* Chroniqubs db Froissart, livro, iv, cap. 7.°, Paris, 1881. 



486 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



pêlo, feita com qualquer substância filamentosa, lã, linho, ou 
seda, por exemplo. 

gadi (gaddy) 

Na interessante monografia escrita por F. X. Ernesto Fernán- 
dez, intitulada O eegimen do sal, abkaey e alfandegas na 
Índia Portugueza, define-se assim este termo : — < Gaddy era 
um estabelecimento em que se arrecadava [sic] direitos sobre o 
sal que d'uma província fosse exportado para outra. Era situada 
na passagem dos rios» — ^ 

Todavia, o termo tem outra acepção, e significa o próprio im- 
posto, no passo seguinte : — « Em antiquíssimas pautas aduanei- 
ras, conhecidas sob a denominação de Canusapato, ou tabeliã 
de direitos do tempo do dominante mouro, que vigorou nas alfan- 
degas de Salcete e Bardez até o anno de 1811, apparece um 
imposto que incide sobre o sal sob o nome de Gaddy» — -. 

O vocábulo está escrito à maneira tradicional da índia Por- 
tuguesa, usada na transcrição das palavras indíjenas, isto é, y 
para i acentuado, e dd, para o d cacuminal, convém saber, pro- 
ferido no ponto em que proferimos o r de cara. O y indicava o 
i acentuado, equivalendo a dois ii, como o a, e, o, accentuados 
se escreviam aa, ee, oo. 

gado criado 

Eis a definição autorizada desta expressão: — «quando é certo 
que na linguagem agrícola gado criado quer dizer que é da la- 
voura de seu dono e não comprado pára simples negócio de mar- 
chante ou contratador» — ^. 



1 in < Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa», 23.* série, 
p. 223, nota. 

2 ih. p. 223, texto. 

5 Gazeta d\s Aldeias, de 27 de agosto de 1903. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 487 



gafa, gafar, gafo, gafeira, gafem, gafaria, gafejar; 

gafanho (r*), gafanhoto, gafanhão; Gafanha, Gafanhoeira, 

Gafes, Gafete, Gafarim 

O sentido comum a todos estes vocábulos parece ser o de 
«gancho, ganchoso, enganchar», cousa que já advertira Bluteau 
a respeito dos primeiros seis, por estas palavras: — «Gafa e Ga- 
far. Segundo a etymologia dos que derivam Gafa do hebraico 
Cafaf, que significa encurvar, entortar, arquear, he fácil de en- 
tender 03 diíTerentes sentidos em que se tomam estas palavras, 
porque Gafa, instrumento com que se curva a besta, faz um 
eífeito semelhante à Gafa, ou lepra, doença que encolhe os ner- 
vos das mãos e pés. Gafar é arrebatar com as unhas, e gafar-se 
de piolhos, he encher-se dos ditos insectos, que aflferrão na 
«arne, e com picadas molestão» — '. Isto nos diz no Suplemento, 
e no corpo do Vocabulário dissera : — « Gafa. He o instrumento 
€om que se curva a verga da besta, até eucaxala na noz — . 
Gafak, arrebatar com as unhas ou com instrumento a modo de 
gafa. — Gafo. Leproso ou Enfermo de certo género de lepra, que 
não só corroe as carnes, mas deixa os dedos das mãos revoltos, 
como os das aves de rapina. — Gafeis a sarna do cão. — He mal 
que dá nas cabras, pella-as e as mata» — . 

Santa Rosa de Viterbo documenta o nome gafo, não só como 
significando «leproso», mas também «leprosório, lazareto, hospi- 
tal onde os leprosos se abrigam, e são tratados » *. 

A. A. Cortesão ^ cita como orijem do vocábulo gafo portu- 
guês o castelhano gafo [^e porque não o contrário?], e a este 
dá como étimo, mas em dúvida, um árabe acfao. 

Em árabe existe na realidade o adjectivo AQFao, «encarqui- 



* Vocabulário portuguez e latino, vol. iv, e Suplemento, i. 

* Elucidário, Lisboa, 1793. 

8 Subsídios para um diccionário completo, Coimbra, 1900. 



488 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



Ihado, contorcido», do radical QEFaoa, «encolher, encarquilhar» % 
correspondente ao hebraico citado, Kapap (kafaf) «vergar, do- 
brar» ^, e é possível que do árabe proviesse o vocábulo. Gafar 
em galego significa «arrepanhar, esgadanhar, como fazem os 
gatos » . 

F. Adolfo Coelho ^ relaciona gafo e um copioso material de 
derivados com gafa, « garra » : o nome seria aos leprosos aplica- 
do, em razão do fenómeno característico de tam horrorosa doença, 
a mão recurva, revolta, adunca, como garra de ave de rapina. 

Atribui Kõrting * orijem germânica, e não arábica, ao vocá- 
bulo gafa, tanto castelhano, «garra, gancho», como português 
nas suas várias acepções, e diz que procede do baixo-alemão gaf- 
fel, correspondente ao alto-alemão ^gaôeZ, «garfo». Efectivamente, 
o baixo alemão possui a palavra gaffel, que, conforme João Car- 
los Dãhnert ^, quere dizer: — «espécie de gancho ou croque para 
içar e arrear cousas que estão pendentes de uma vara» — . Com 
estes vocábulos pareceria relacionar-se não só o garfo português 
e o garfio castelhano, «ancinho», mas também o castelhano ^a?*- 
fear, «agarrar com ancinho », ^ar/ina; «garra» q garfiriar, «rou- 
bar», e talvez o português engalfinhar-se, galfarro, etc, con- 
quanto a introdução de r e l antes do / seja difícil de explicar 
nestas últimas formas, tanto portuguesas como castelhanas. Gafa, 
como adjectivo, aplica-se a uma doença da azeitona, que Bluteau 
descreve assim : — « Azeitona gafa. He a que com as névoas 
se engela na Oliveira, e apodrecendo nella, cahe sem ser vare- 
jada» — . 

Os vocábulos gafa, gafar, gafento, gafado, etc. aplicam-se 
a outras moléstias, além da lepra do homem, da sarna do cão ou 
da cabra, e do peco das azeitonas, como se vê do trecho seguin- 



1 Belot, VocABULAiRE ARABE-FRANÇAis, Beirutc, 1893, p. 606, col. II. 

2 Hbbrew-Engush Lexicon, Londres, p. 128, col. i. 

3 DiCCIONARlO MANUAL ETYMOLOGICO DA LÍNGUA PORTUGUEZA. 

^ Latenisch-romanischks Wõrterbuch, 1896, n."® 3546, 3559. 

5 Platt-Deutsches Wõrter-Buch, Stralsund, 1781. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 489 

te : — « Aparecem qiiasi todos [os gafanhotos] gafados (destruídos 
ou affectados de qualquer doença) » — . 

A propósito do nome gafanhoto, dado ao saltão, direi que 
me parece ainda um ramo da mesma estirpe, e que lhe foi dado 
em razão da forma ganchosa das patas deanteiras. Ora, gafanhoto 
é um deminutivo {oí. perdigoto do radical à.Q perdiz, perdic-), 
e tanto, que há um aumentativo gafanhão, que quere dizer ga- 
fanhoto grande. Um e o outro pressupõem um primitivo gafa- 
nho ou gafanha, que não está colijido, nem posso ahonar, mas 
que naturalmente existe, visto que o vemos, no onomástico local, 
em Oafanha, aldeia do Douro, com derivados, como Gafanhão, 
na Beira- Alta, e Gafanhoeira, no Alentejo; e João Maria Bap- 
tista rejista mais Gafanhoto e Gafanhotos '. Pinho LeaL ^ 
conta-nos umas histórias a respeito de Gafanha, das quais a 
mais verosímil é que antes houvesse ali uma gafaria. Assim 
será. A, A. Cortesão aduz mais o substantivo gafem, «lepra», 
abonando-o: — «Que o faças seer saaom áe gafeem ^. Gafejar, 
na Madeira e na Estremadura significa, «fervilhar, pulular». 
Cf. Bluteau, supra. Tudo isto parece provir áe gafa, «garra». 

E de notar que saltão se diz em castelhano langosta, pala- 
vra que também denomina a lagosta, \ locusta. A semelhança 
de forma, especialmente com referencia às patas e às turqueses, 
determinou a identidade do nome. 

A este respeito me ocorre a notícia dada por um periódico, 
de uma chuva de lagostas que era Espanha tinha devastado um 
campo. Eram gafanhotos. Parecida com esta bernardice publicou 
outro jornal uma tradução de um conto castelhano, e o tradutor 
dava-nos esta novidade estranha: o diabo é surdo porque tinha 
entalado a mão direita! O castelhano dizia zurdo, «canhoto», 
porque surdo se diz lá sordo. Outro ainda participava aos seus 



1 Chorographia moderna do reino de Portugal, vi, Lisboa, 
1878. 

' Portugal antigo e moderno, Lisboa, vol. iii, 1874. 

* Subsídios para um diccionário completo, Coimbra, 1900. 



490 Apostilas nos Dicio)iários Portugueses 



leitores que certas tropas estavam acampadas nas orelhas do 
Danúbio! O texto espanhol dizia orillas, «marjens», vocábub 
que morfolójicamente corresponde ao português ourela porque 
orelha \ auric(u)la é em castelhano oreja. São frequentíssi- 
mos estes primores de tradução! 

Em castelhano gafa teve maior desenvolvimento no seu sen- 
tido natural de «gancho», que o correspondente português: gafas 
quere lá dizer não só as hastes dos óculos ficsos, que os segu- 
ram nas orelhas, mas, como termo faceto, os próprios óculos; 
como nós lhe chamamos, também por graça, cangalhas, aludindo 
à armação geminada de ferro ou madeira que se coloca sobre o 
lombo das azêmolas, para se lhe meter carga. O deminutivo ga- 
fete quere em castelhano dizer «colchete», que também se diz 
corchete. 

O verbo gafar, «agarrar», é pouco usado actualmente em 
português, e creio obsoleta a acepção em que se emprega em ga- 
lego de agadanhar, esgadanhar, vulgarmente esgatanhar, como 
disse, por influência da palavra gato, que é o animal mais useiro 
e vezeiro em alimpar e afiar as unhas, seja em que fôr, mesmo 
na nossa pele. 

Podemos estabelecer o desenvolvimento do sentido da pala- 
vra gafa em português do modo seguinte: 

Gafa, « garra » : gafar, (gafanho), gafanhão, gafanhoto, ga- 
fejar 
« lepra » : gafo, gafado, gafem, gafeiro, gafeirento, 

gafeiroso, gafaria, engafecido 
« sarna » : gafento 

« doenças nas oliveiras » : gafo, gafar, gafado 
Duvidosos: galfarro, engalfinhar 
: garfo, e seus derivados. 

Outros nomes próprios de povoações, derivados de gafo são 
Oafes, no concelho de Cabeceiras de Basto, Oafarim, no de 
Ponte de Lima, Oafete, no do Crato. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 491 



gaio 

Vareta de pau muito ílecsível, terminada na sua parte su- 
perior por umas laçadas, feitas com a própria vareta vergada ^. 



gaio; gaiosa 

Na Madeira é o nome da gaivota, durante o primeiro ano de 
nascida, conforme a copiosa e interessante monografia de Ernesto 
Schmitz, intitulada Die Võgel Madeikas [As aves da ilha da 
Madeira], publicada no Anuário de Ornitolojia, vol. x, 1899, que 
muitas vezes tenho citado, para reunir aqui a riquíssima nomen- 
clatura vulgar, com tamanha dilijéncia colhida pelo douto natu- 
ralista no seu valioso estudo. 

No continente o nome gaio é aplicado a outra ave muito di- 
ferente, da família dos corvos, garrulus glandarius. É sabido 
que o vocábulo gaio, como adjectivo, significa «alegre», e dessa 
significação provém a locução adjectiva verde-gaio, «verde claro 
e vivo». 

Derivado de gaio, «alegre» parece ser o nome de certo tri- 
buto : — « Não menos elucidativa é a gagosa ou gayosa. foro que 
se pagava pelo casamento dos filhos» — 2. 



gaiolo, garimpa 

São sinónimos estes dois vocábulos, sendo o primeiro o mas- 
culino de gaiola, e portanto pronunciado gaiõlo (cf. ôvo, òva, 
porto, porta): designa qualquer deles uma armadilha para caçar 



1 J. da Mota Prego, Jornal do Commercio, de 11 de agosto de 1905. 

2 Alberto Sampaio, As « Villas» do norte de Portugal, in Por- 
tugália, I, p. 575. 



492 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



pássaros:^ — </■ Nassa, gaiolo ou garimpa — Tem a forma de uma 
pyramide regular de base quadrada e é feita de varas encruzadas 
umas sobre as outras, seguras por meio de quatro vergas a um 
caixilho, também de varas, atadas ou pregadas nas extremida- 
des» — ^ 

Oarimim é talvez grimpa, com a vogal a, anaptíctica ou in- 
tercalar. 

gaita(s), gaitada, gaiteiro 

Em Sam Miguel dos Açores gaitada quere dizer « garga- 
lhada», naturalmente pelo estridor que faz. 

Em Lisboa significa «repreensão acerba». 

E um derivado de gaita, « instrumento de vento » de timbre 
muito agudo, e é esta circunstância o fundamento dos dois sen- 
tidos figurados acima referidos. 

Gaitas se chamam os orifícios que as lampreias teem por 
baixo da boca. A suposta explicação de Bluteau, a que aludiu 
José Maria Adrião, Te adições populares colhidas no conce- 
lho DO Cadaval 2, com relação ao dito sabe que nem gaitas, 
é fantasiosa: — ^porque as lampreias são excellentes, e como 
teem uns braços assemelhando as gaitas, d'ahi o ditado* — . 
E natural que em razão daqueles orifícios às lampreias se cha- 
masse gaitas, concorrendo para a aplicação do nome a forma ro- 
liça do afamado peixe. Sabe que nem gaitas quererá pois dizer: 
«sabe que nem lampreias», «tem muito bom sabor», para quem 
o tiver, que pela minha parte dispenso o petisco. 

Para crédito de Bluteau, a citação está errada toda; o que o 
doutíssimo frade escreveu e vem no seu Vocabulário é o seguinte: 
— « Gaitas se chamam uns buracos a modo de Fagote, que a 
Lampreia tem pelo pescoço, e por serem aquellas partes saboro- 



1 José de Pinho, Ethnographia Amarantina, A Caça, in Portu- 
gália, II, p. 88. 

2 in < Revista Lusitana >, vi, p. 129. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 493 



sas, derão occasifio ao adagio, Sabe como gaitas » — Até os bura- 
cos foram transformados em braços, atribuindo-se falsamente ao 
nosso melhor lecsicógrafo a rara invenção de peixes com braços 
e braços com buracos! Muita razão tinha Augusto Schleicher 
em recomendar que jamais se fizesse uma citação sem se ter o 
cuidado de escrupulosamente a conferir. 

Erre cada um à vontade por sua conta, mas não atribua a 
outrem os disparates que lhe vêem à cabeça. 

Gaiteiro é o músico que toca principalmente a gaita de foles. 
Como adjectivo quere dizer «alegre», «garrido», como quando 
dizemos de um velho, ou de uma velha, que são gaiteiros. Com 
efeito, tanto a gaita ordinária, como a de foles, são instrumentos 
alegres, e gratos ao ouvido, se nos campos soam; nas cidades, 
são mais um guincho e um ronco importunos, ajuntar aos muitos 
rumores e sussurros que nos ensurdecem e desafinam os nervos. 



gajo, gaja; gaje 

São termos de calão conhecidos, derivados do calo, ou dia- 
lecto cigano de Espanha, gachó, gaclié, pi. gachés. Se aceitar- 
mos, porém, como completamente averiguado que o eh ali tem o 
mesmo valor que nos dialectos castelhanos, nomeadamente o an- 
daluz, visto que é da Andaluzia que para Portugal vêem em ge- 
ral os ciganos, temos de admitir que a forma passou ao portu- 
guês por intermédio de ciganos orientais, pois é aí que nós a 
encontramos, por exemplo no dialecto dos da Moldo- Valáquia, 
com uma consoante medial análoga à portuguesa de gajo (pron. 
gadjó) «labrego». E provável, porém, que a ortografia castelha- 
na, adoptada para a escrita do calo, haja confundido, no mesmo 
símbolo eh, a forte tch (eh beirão ou castelhano) e a branda 
correspondente clj. É sabido que na transcrição, mesmo metódica 
e científica moderna, os arabistas espanhóis transliteram por eh 
a 5.* letra do alfabeto arábico, que se profere dj na Ásia e j 
vulgarmente nos países barbarescos. Deste modo, a forma portu- 
guesa diferençar-se-ia apenas na mudança do acento para ai.* 



494: Apostilas aos Dicionários Portugueses 



sílaba, o que se observa em outros vocábulos da mesma orijem 
(v. parne). 

Quanto ao substantivo abstracto gajé, de calão igualmente, 
poderia êle representar um singular deduzido do plural calo ga- 
chés, de gaché, forma de singular que alterna com gachón, no 
andaluz aciganado, como se vê, por exemplo, na cantiga da Con- 
trabandista da Feria de Mairena: 

— ^ < Si el resguardo le prendiera 

á tiros le resgatara, 

que los ojos e mi cara 

son los ojos e mi gaché > — . 

E mais natural, porém, que a palavra gajé seja simplesmente 
deturpação do francês ãégagé, « desempenado, airoso; donaire, 
desembaraço » . 

O significado próprio de gachó, femenino gachi, em calo é 
« rapaz, rapariga, adultos, não ciganos » ; e em português a de 
ga,jo é « qualquer sujeito a quem o fadista se refere com male- 
voléncia»: — áVês aquelle gajo? K 



galão 

O DiccioNARio Contemporâneo dá como quarta acepção 
deste vocábulo — «gole, cada um dos saltos que dá o líquido ao 
sair de um gargalo ou bocca de vasilha » — ; e como quinta acep- 
ção — «corcovo, salto que o cavallo dá erguendo as mãos e en- 
novelando-se » — . Esta última definição vem por outras palavras 
no Vocabulário de Bluteau, e é com este significado que se 
relaciona o modo adverbial, usado em Sam Miguel dos Açores, 
de galão, « de salto, de chofre > . 



O Século, de 10 de setembro de 1900. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 495 



galego 

Este adjectivo é muito usado em português para diferençar 
castas, raças ou espécies, sem que por isso se queira dizer sem- 
pre que proviessem da Galiza. 

Assim dizemos couve galega: ginja galega, por oposição a 
ginja garrafal (q. v.) que é a mais grada e de melhor sabor, 
menos azeda, etc. 

Com alguns nomes, porém designa de certo orijem, como 
acontece, por exemplo, com hoi galego, por oposição ao barrosão: 
— «Faz lembrar o Taurus hrachyceros, ou hos longifrons, co- 
nliecido e domesticado desde o neolithico ... e approxima-se 
muito do nosso typo actual do hoi galego » — ^ 

Como substantivo, galego designa não só o natural da Galiza, 
principalmente de condição humilde, mas também o português 
do norte, que exerce os mesteres que dantes eram a bem dizer 
privativos dos galegos verdadeiros, e entre esses o de aguadeiro, 
mais especializado com um epíteto galego de barril, que A. de 
Campos empregou no romance o Maequês de Pombal neste 
sentido. 

De Galiza derivou-se, além de galegos, (latim galaecos), 
outro adjectivo galiziano, (q. v.) em gereziano. 



galela, galelo 

O Novo DicciONÁKio dá o termo galelo como transmontano, 
com a significação de «gomo da laranja». Leite de Vasconcelos * 
diz-nos significar «escádea, bagos de uva», e que a forma feme- 
nina gdlela quere dizer «rabisco», e por isso se diz ir à galela. 



1 Portugália, i, p. 327. 

2 Respigos camonianos, p. 45, nota. 



496 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



galheta 

O Novo DiocioNÁEio traz duas inscrições desta forma: 
1.*^ certas garrafinhas como as usadas na mesa para azeite e 
vinagre, e no serviço da missa, para vinho e água — , e a esta 
subordina o termo de jíria, com a significação de «bofetada». 

A 2.^ forma diz-nos ser o nome de uma — «trombeta de 
guerra, entre os pretos de Lourenço Marques, feita de chifre de 
cabrito. (De galho)» — . 

Que o vocábulo não é indíjena vê-se pelo Ih. 

Ora o termo de jíria acima apontado não pode subordinar-se 
a galheta, « garrafa » ; é preciso abrir para ele terceira inscrição, 
pois é simplesmente o castelhano galleta (pr. galheta), «bola- 
cha», derivado do francês galette, com a mesma significação, e 
que se diz provir de galet, « seixo grosso e chato, boleado pelas 
águas», que seria palavra bretã, mas parece deminutivo de gal, 
que no francês antigo significava «calhau» ^ 

Confronte-se biscouto (q. v.). Assim, como bolacha significa 
também, como termo de jíria, «bofetada», do mesmo modo se 
empregou a palavra espanhola, neste sentido figurado. 

galhipo 

— «O isqueiro ter-se-hia vulgarisado principalmente com os 
progressos do uso do tabaco; e não obstante as actuaes disposi- 
ções prohibitivas, ainda a sua utilização subsiste occultamente : o 
cornipo no planalto barrosão e no Soajo (galhipo em Lindoso) é 
um toro de chifre de bode, vedado com discos de cortiça e in- 
cluindo farrapos de linho chamuscado ou medulla de sabugo; 
com um fragmento de quartzo leitoso regional obteem a faísca e 
logo o fogo necessário para o fumo» — *. 



1 E. Littré, DlCTIONXAIRE DB LA LANGUE FRAXÇAISK, Paris, 1881. 

2 Eocha Peixoto, Illuminação popular, in Portugália, ii, p. 37. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 497 

E longa a transcrição; contém ela, porém, tam perfeita des- 
crição do objecto designado com o nome de cornipo ou galhipo, 
que entendi não dever suprimir-lhe nem uma palavra, e com 
tanto maior razão, quanto é certo ser omisso nos dicionários o 
termo galhipo. 

galinha; galinheiro; eugalinhar 

Galinha era unidade monetária de Ajuda que valia 33,3 réis 
portugueses do continente, isto é, duzentos búzios (q. v.) *. 

Apontarei aqui os nomes de algumas castas de galinhas, 
transcrevendo-os do jornal O Século, de 23 de fevereiro de 1902: 

brigadora 

de asa de pato 

de peito negro 

paduana ou polaca 

pedrês 

de poupa. 

O derivado galinheiro significa «a capoeira das galinhas e 
do galo>, e o «indivíduo que vende galinhas». 

No Alentejo o termo galinheiro tem significação menos res- 
trita, como vemos do trecho seguinte: — Uma casa qualquer em 
que pernoitam e põem as aves domesticas do monte [casal], com 
excepção dos pavões e patos reaes (gansos), que dormem e nidi- 
ficam fora ou ao ar livre e á solta» — 2. 

J. J. Núnez 3 cita a forma galhinha, que diz arcaica e que 
se explica por assimilação do l à palatal nh da sílaba seguinte. 

Modernamente introduziu-se o castelhanismo galinheiro (ga- 
lUnero), para denotar nos teatros o que antigamente era denomi- 



1 Carlos Eujénio Correia da Silva, Úma viagem ao bstabbleci- 
MEXTO PORTUGUEZ DE S. JoÃO BAPTISTA DE AjUDÁ EM 1865, Lisboa, 1866. 

2 J. da Silva Picão, Ethnogkaphia do Alto Alemtejo, m Portu- 
gália, I, p. 545. 

3 Revista Lusitana, iii, p. 302. 

32 



498 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



nado varandas, isto é, «bancos corridos na última ordem», con- 
vém saber, ao pé do teto, lugares mais baratos que nenhum. 

O verbo engalinhar é faceto e quere dizer «tomar enguiço, 
agastar-se». 

ganadeiro; ganância; ganhar, ganhão, ganharia, ganhança 

Ganaãeiro é castelhanismo muito usado, como outros, no 
Alentejo, e tem a significação de guardador de gado, em cas- 
telhano ganadero, de ganado, que é o mesmo vocábulo que o 
gado português, conecso com ganar, ganhar; conquanto não se 
explique facilmente a eliminação do nh deste último verbo, a não 
ser porque proviesse directamente, em tempos antigos, do verbo 
castelhano, de que o substantivo ganado é apenas o particípio 
passivo, substantivado como tantos outros: — «um terrível lobo, 
que ha annos trazia inquietos os lavradores e ganadeiros» — ^. 

Importação directa de castelhano é ganância, que o povo 
rústico em Portugal diz, com maior vernaculidade, ganhança. 

Ganhão é o trabalhador adventício a jornal: — «Casinha dos 
GANHÕES . . . dormitório e casa de descanço dos « ganhões ou 
moços de lavoira, que constituem a ganharia» — -. 

Aqui, ganhão tem sentido especial, como se vê da definição 
claríssima. Antes, J. da Silva Picão abona o termo ganharia 
aqui empregado: — «A cosinha, em certas partes, também serve 
de refeitório da ganharia e restante pessoal, como carpinteiro, 
ferrador, etc. » — . 

gandula, gandum 

O Novo DiooiONÁEio, no Suplemento, incluiu ambos estes 
vocábulos, o primeiro como de uso actual em Gaia, na acepção 



1 O Século, de 6 dezembro de 1900: correspondência de Avis. 

2 Ethnographia do Alto Alemtbjo, in « Portugália >, i, p. 541 
e538. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 499 



de «garoto, vadio», o segundo como antigo, sem definição, mas 
abonado com o trecho seguinte: — «quando eu era choramigas 
da ausência, era papa arroz da mágoa; agora sou gandum da 
preguiça. . . AnatfómicoJ Jocoso, i, p. 195. (Por gantum, gaur- 
dério) ? » — . 

Em castelhano temos gandul, que o Dicionário da Academia 
Espanhola define deste modo: — «Gandul, la. (Del ár. YaNDUE, 
majo, valentón) adj. fam. Tunante, vagabundo, holgazán. // In- 
dividuo de cierta milicia antigua de los moros de Granada y 
África» — ^ 

A etimolojia foi dada por Dozy ^,. e é natural que o termo 

viesse de Espanha para cá. 

O moderno gandul e o antigo gandum devem de ser o mesmo 
vocábulo, e o significado primitivo é com certeza o segundo apre- 
sentado no Dic. da Academia Espanhola. As consoantes finais 
dos vocábulos arábicos eram, como adverte Dozy, mal ouvidas e 
sofreram substituições, de outro modo inexplicáveis. 

Por longuíssimo não traduzo para aqui o interessantíssimo 
artigo por Dozy consagrado ao gandul andaluz e ao gandur 
mouro, com os seus correspondentes fe meninos gandulera e gan- 
dura. Pela descrição dos gandures e ganduras vê-se que são 
uma espécie de fadistas de lá, emquanto novos e novas, peralvi- 
lhos a seu modo, chibantes e amigos de se divertirem, mas de 
costumes corrompidos ; depois de velhos e velhas fazem-se rufiães 
e alcoviteiras. 

garrafa, garrafal 

A palavra garrafa é também castelhana; mas é sabido que 
nesta língua, como em francês carafe, só se aplica às de vidro 
ou cristal, com rolha de igual substância, que se põem na mesa 



1 Madrid, 1899. 

2 Glossairb des mots bspagnols et portugais derives de 
l'arabe, Leida, 1869. 



500 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



com água ou com vinho, porque a garrafa de engarrafar vi- 
nhos e licores se denomina respectivamente botella, houteille. 

Dozy 1 diz-nos ser vocábulo de orijem arábica, YaÊAFE, 
forma que, segundo afirma, não vem nos dicionários com tal si- 
gnificado, mas com o de um enjenho para tirar água de poços. 
O radical é Ya^ara, «tirar água», de que provêem os substan- 
tivos YURUF, «copo», e YURP, «púcaro». 

De garrafa se deriva o adjectivo garrafal, que quére dizer 
«avultado, grande», tanto aplicado à letra, letra garrafal, 
como à ginja, ginja garrafal. Este último epíteto, também usado 
em castelhano, guinda garrafal, é muito antigo, pois Bluteau 
faz dele menção, descrevendo esta deliciosa fruta do modo se- 
guinte: — «He maior que as outras [ginjas], e mais doce, tem o 
pé curto, e a cor tira a negro. Bahuino, na Historia universal 
das plantas, part. i, p. 220 e 221, he de parecer que he a que 
Plinio chama Cerasus [ c e r â s u s ] Maeedonica » — . 

O epíteto castelhano (guinda garrafal) encontra-se já men- 
cionado por Navagiero (xvi século), que na Descrição de Gra- 
nada, ou como os nossos escritores antigos lhe chamaram Grada, 
diz ser excelente a casta denominada guindas garrafales ^. 

A ginja mais meúda e acre designa-se vulgarmente com o 
nome de ginja galega. (V. galego). 

Garrett 

O apelido inglês do maior poeta nacional depois de Luís de 
Camões, João Baptista de Almeida Garrett, está recentemente a 



1 GlOSSAIRB DE3 M0T8 E8PAGN0L8 ET P0RTUGAI8 DÉRIVÉ8 DE 

l'arabe, Leida, 1869. Eepresento por y a 19.* letra do alfabeto arábico, a 
qual é uma fricativa sonora, correspondente à surda, jota castelhano actual. 

2 Escrita em italiano : apud Francisco Xavier Simonet, Descripción 
DBL REINO DE Granada, Granada, 1872, p. 245, (Apêndice vi). O título da 
obra de Navagiero é, conforme R. Foulché-Delbosc, (Bibliographie dbs 
VOYAGES EN EsPAGNE ET EN PoKTUGAL, in « Revuc Hispanique», III, 
p. 22, 1896) : II viaggio fatto in Spagna et in Frangia dal magni- 
fico M. Andrea Navagiero, Vinegia, 1563. 



Ajostilas aos Dicionãríois Portugueses 501 

ser pronunciado de um modo pretencioso e que nenhum funda- 
mento racional pode abonar. Diz-se para aí entre gente que pre- 
sume de instruída, e muitas vezes o é na realidade, gàrré. O que 
lhes seria difícil fora dizerem em que se estribam e com que se 
escudam para tam anómala pronunciarão. O apelido é inglês, e 
se à risca se quisesse proferi-lo como nesta língua, haveria de pro- 
nunciar-se gáret, com o acento na 1.* sílaba, e um t proferido 
na segunda. 

Se o nome fosse francês, que não é, nenhum francês, ao vê-lo 
escrito com dois tt íinais, deixaria de pronunciá-lo gàréte. A ex- 
travagante pronunciação gàrré é que não pertence a língua ne- 
nhuma conhecida, e só prima pelo ridícula que é. 

O facto, porém, é que o próprio poeta sempre pronunciou o 
seu apelido como se em português se escrevesse garréte, com a 
surdo na primeira sílaba, o acento tónico na 2.*, e o í perfeita- 
mente proferido. Assim lho ouvi eu várias vezes, assim o pronun- 
ciavam todos os seus contemporâneos, e entre eles o seu fidelís- 
simo amigo, discípulo, e poeta notável da escola romântica Fran- 
cisco Gomes de Amorim, em casa de quem tive a glória de en- 
contrar a Garrett, sendo eu uma criança de treze anos. 

Não é de admirar este aportuguesamento de nomes estra- 
nhos: também, por exemplo, Stockler, Mayer e Van Zeller, se 
aportuguesaram na pronúncia em estoclér, mater e vanzelér; 
também nunca ninguém pronunciou cá o nome do conhecido es- 
pingardeiro francês Imherton de outro modo que não fosse im- 
hèrtom: e assim tantos outros. E hoje em dia que há a preocupa- 
ção de se arremedarem as pronúncias estranj eiras dos nomes, e 
às vezes com tanto acerto, como o do glorioso poeta, tam esque- 
cido já, que até lhe mascaram o nome, que era bem dele, e como 
ele o pronunciava e queria que lho pronunciassem, bem à portu- 
guesa, e não com disfarces que o transtornam e afeiam. 

garroteia, jarreteira 

A ordem militar a que hoje chamamos à francesa da Jarre- 
teira, foi denominada Garroteia um século depois da sua insti- 



502 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

tuição em Inglaterra, em 1341. É imitação provável do uome in- 
glês Garter, que W. Skeat * deriva do galês gar, «pernil», «canela 
da perna», étimo céltico da palavra hispânica, de significado um 
tanto diferente, garra, de que provém garrote. A palavra garter, 
como a francesa jarreiíère \ jarret, «curva da perna», quere 
dizer o que actualmente chamamos liga, «a fita com que se se- 
guram as meias», e que por aquele tempo as prendia às calças, 
ou calções que vinham da cintura até o joelho. A forma francesa 
antiga, jartier, está para a inglesa garter, como jarãin para 
garden, e é sabido que em francês o g orijinário antes de a dá 
ja, como o c na mesma situação, chá. (V. jardim). A palavra 
gar, mais ou menos modificada, em todas as línguas célticas 
modernas conserva significação análoga, em bretão garr, em erse 
cas, «perna», etc. 

Eis aqui a abonação do vocábulo garroteia em português: — 
«em França por sua ardideza e bondades foi [Álvaro Vaz de 
Almada] feito conde de Abranxes, e em Inglaterra por sua va- 
lentia foi recebido por companheiro da ordem da Garrotea, de 
que príncipes cristãos e pessoas de grande merecimento são con- 
frades» — -. 

garula 

O Novo DiccioNÁRio dá este vocábulo como termo de jíria, 
com a significação de — «perua» — . Creio ser gralha lecsicográ- 
fica, devida a erro de apontamento, em que se leu u por n, pois 
a este vocábulo sempre ouvi dar o significado de «perna». 

garvaia 
Vestimenta rica. V. Eevista Lusitana iii, p. 142. 



1 A CONCISB KTYMOLOGICAL DiCTIONAUY DF THE EnGLISH LAN- 

GUAGB, Ocsónia, 1887. 

* Eui de Pina, Crónica db El,-rei Dom Afonso v, cap. xxxi. 



Apostilas aos Dicionários Porttigneses 503 



gas 

O Novo DiccioNÁRio emenda no Suplemento gaz para gás, 
e parece-me que tem razão; no que a não tem é em atribuir a 
invenção portuguesa a forma gas;, com 2; é simplesmente cópia 
da escrita francesa. E incerta a orijem do vocábulo, que é arti- 
ficial: a mais provável é haver sido fabricado por Van Helmont, 
físico flamengo do xvii século (1578-1644), tomando por base 
a palavra grega k'áos, «massa informe». A razão da inicial g 
é a seguinte: os holandeses e flamengos proferem o g inicial 
como o actual j castelhano, e ao lerem grego dão este valor ao 
k'i ou antepenúltima letra do alfabeto helénico, que os romanos 
transliteraram por eh; aquele valor tem ela no romaico, ou grego 
moderno, já o tinha no grego bisantino, e provavelmente desde 
o II ou III século da era cristã, como pretende Frederico Miiller ^ 



gaspilJiar 

Não pense o leitor que este verbo seja uma variante de ^«5- 
pear (botas); não é. 

Num jornal diário, em que se dá notícia do falecimento do 
eminente publicista Emídio Navarro, fazendo-se enteira justiça à 
vernaculidade da linguajem portuguesa, que sempre e em toda a 
ocasião êle usou, uma coluna antes, lemos com assombro o se- 
guinte período: — <Pede [o povo de Portugal] que [os governos] 
arrecadem e administrem honradamente os dinheiros públicos; 
que os não gaspilhem em despezas inúteis e voluptuarias» — . 

Eu não sei quem foi o articulista que escreveu este descon- 
chavo, onde pretendeu dar a entender que sabe (?) francês, con- 
seguindo apenas mostrar que não sabe português, pois verbos 



* Grundriss der Sprachwissenschaft, vol. III, t. II, Viena, 1887, 
p. 423. 



504: Apostilas aos Dicionários Portugueses 



desta língua, com o significado que tem gaspiller em francês, 
não faltam, e já aqui, sem reflectir um segundo, me saltam dos 
bicos da pena três: ãe.tperãiçar^ extravaganciar e esbanjar. 
(íQue há de o povo entender por aquele gaspilhar, que não usa, 
nem encontra em dicionário algum português? ^E essoutro es- 
trambótico- adjectivo voluptuarias? Alguém mais curioso, que o 
busque nos vocabulários, capacitar-se há sinceramente de que o 
ominoso governo vai com os dinheiros públicos estabelecer lupa- 
nares para recreio e deleite dos ministros. 



gastão 

Ninguém poderá saber a razão por que esta palavra tam por- 
tuguesa foi eliminada em dois dicionários modernos bastante co- 
piosos, o CONTEMPOKANEO, 6 O NÔVO. 

As definições dadas por Bluteau são como se segue: — «GAS- 
TAM de Bastão, ou Bordão. O remate redondo de Latão, Prata 
ou pao, em que descança a mão de quem o traz». 

Gastão do fuso. O bocadinho de chumbo, ou latão, que cobre 
a pontinha do fuso, e ajuda a torcer o fio. . . Na sua prosódia 
declarando a significação de Verticillum diz Bento Pereira Mauça 
ou Mainça do fuso, em algumas partes do Keino se chamará 
assim o ditto gastão» — . Isto está parafraseado: o que Bento 
Pereira diz é o seguinte: — «Verticillum. . . a mauça ou mainça 
do fuso » — . 

J. Inácio fíoquete, no Dictionnaire poetugais-feançais 
inscreveu: — «Gastão, s. m. pomme d'une canne, — do fuso >. 
V. Maunça. — «Maunça, s. f. poignée; botte d'aulx secs, — do 
fuso, rainure en spirale pratiquée au bout le plus mince d'un 
fuseau à filer» — . 

Vê-se de tudo isto que mainça ou mauça (q. v.) e gastão do 
fuso são duas cousas distintas. Os dois dicionários citados, se não 
trazem gastão, incluíram ambos castão, forma que, pelo menos 
com relação à bengala, é a mais usual hoje em dia; mas a res- 
peito de castão do fuso, deixaram-no ficar no tinteiro, e o Novo 



Apostilasí- aos Dicionários Portugueses 505 



DiccioNÁBio em mainça declara-uos que é — «remate do fuso» — 
sem nos dizer de que lado fica o tal remate, pois na bengala, 
por exemplo, o remate de cima é o castão, e o de baixo a pon- 
teira. 

Em italiano há dois vocábulos muito parecidos: um é fu- 
saiòla ou fusaròla, o qual significa « pedaço de madeira, ou de 
pano, com um buraco a meio, onde as fiandeiras segurara os fu- 
sos»; o outro fusaiòlo o\\ fusaròlo — «rosca pesada que se enfia 
na ponta ou ferreta [se é de ferro] do fuso, para que gire com 
maior regularidade» — . Qualquer dos dois vocábulos deriva-se 
de fuso, pronunciado fuço, e não fuzo, pois fuso, com esta pro- 
núncia é particípio passivo do verbo fóndere « derreter » ^ O cas- 
tão ou gastão do fuso será então o fusaiòlo, de que os franceses 
fizeram o seu fusaiole, que já passou artificialmente a português 
com a forma errónea fuseola (q. v.). 



gata, gateira 

Não é a fêmea do gato que vou mencionar aqui: é o termo 
de Sam Miguel dos Açores gata, que corresponde ao gateira de 
Lisboa, isto é, « bebedeira » *. É extraordinária a quantidade de pa- 
lavras que existem em português para designar, mais ou menos, 
graciosamente, este vício, e a manifestação dele: formariam só 
por si um curioso glossário, se se pudessem analisar todos por 
forma, que ficasse patente a orijem de cada um. Tesouro de 
tantos nomes pertence com certeza a terra de muitos bêbados. 



geio, geada: v. geo 



1 P. Petròcchi, Novo Dizionàrio Univbrsalb dblla língua ita- 
liana, Milão, 1887-1892. 

» O Século, de 5 de julho de 1901. 



506 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



geira 

Esta palavra, já definida nos dicionários portugueses, é, como 
se sabe, o latim diária, «que se vence num dia». Kejistarei 
apenas aqui a locução, transmontana ir á geira ^ «ir para o 
trabalho diário » , a qual confirma o étimo. 

gemónias 

O Novo DiccioNÁEio acentuou gemónias, e corrijiu no Suple- 
mento para gemónias, mas com certa hesitação. Não há motivo 
para hesitar: gemónias acentuou J. Inácio Roquete ^, Francisco 
Adolfo Coelho ^, etc, e admira que o Diccionario Contempo- 
râneo, o qual passou pelas mãos de um perito latinista. Santos 
Valente, deixasse passar o erro crasso gemoyiías, devido unica- 
mente a qualquer escrevedor ignorante, que não sabendo nem ao 
menos ler latim, remedou em português o francês gémonies, cujo 
acento tónico está no i, o que é de regra nesta língua. Como era 
desacerto divulgou-se, segundo o costume. 

Em Roma chamavam-se Gemoniae scalae, ou simplesmente 
Gremoníae, umas escadarias pelas quais eram com um gancho 
arrastados os supliciados, para serem arrojados ao Tibre. Figura- 
damente, usa-se esta expressão para indicar «extremo desacato, 
vitupério, castigo, justo ou injusto», inflijido a qualquer, principal- 
mente em oposição a triunfo, ovação que antes se lhe tivesse 
feito, ou se lhe houvesse de fazer. 

generear 

E verbo que não vem apontado em nenhum dicionário, e cuja 
significação, como se depreende do seguinte trecho, é « gerar » : 



1 Ebvista Lusitana, iv, 268. 

2 DiCTIONNAIRE P0RTUGAIS-PRANÇAI8, Paris, 1885. 

3 Diccionario manual btymologico da língua portugubza. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 507 

— «choravam os Padres por deixarem os christàos filhos seus, 
que tinham genereado em Christo, e tiraram do poder do demó- 
nio» — '. 

Parece ser neolojismo, adrede fabricado para evitar o em- 
prego duvidoso de gerar. 

genesi, genesim, Génesis, génese 
Gil Vicente usa o vocábulo genesi, agudo, no verso seguinte: 

— « . . . outro sacriflcio figuram em si, 
Que matar bezerros, nem aves ali : 
Outra mais alta oferta soletra 
E outro genesi > — *. 

Deve ser uma hebraização rabínica do grego génesis. A outra 
forma genesim é já portuguesa: nasalizou-se o i final, como ou- 
tros muitos de substantivos, tais como marfim, rubim, antiga- 
mente marfi, rubi, e até de partículas, como sim, assim, por 
si, assi. 

Génesis em grego e latim é palavra femenina, mas costuma 
dizer-se o Génesis, como se diz o Apocalipse, também femenino, 
com elipse do substantivo masculino liwo da, em referência ao 
primeiro do Velho Testamento, e ao último do Novo. 

A palavra génese, «geração», que tomámos imediatamente 
do francês génese, deve ser . proíerida com o acento na primeira 
sílaba, atenta a sua orijem grega, com e breve na penúltima 
sílaba: deste modo fica sendo um aportuguesamento do vocábulo 
grego génesis, como análise o é de análusis. 

gens: v. jens 



* P. António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus 
NA província do Japão, Lisboa, 1894, p. 77. 
' Auto da história de deus. 



508 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



geo, geio, geoso, gear, geada, gelo 

Do latim gelu proveio por evolução portuguesa geo, geio, 
postulado pelo verbo gear, substantivo participial geada, e adjec- 
tivo geoso, abonado no trecho seguinte: — «Dizem de Portalegre 
que continua rasoavel o aspecto geral do campo. Durante o mez 
de fevereiro correu o tempo extremamente frio e geoso» — '. 
O substantivo gelo e os seus afins e derivados devem ter orijem 
literária, atenta a permanência do l latino intervocálico. 

Há outro vocábulo geio, «socalco», o qual nenhuma relação 
parece ter com o da minha hipótese. 



geolho 

Não é arcaísmo em todo o reino esta forma, que em quási 
toda a parte foi substituída ^ox joelho. Em Caminha, por exemplo, 
é a forma usual e corresponde ao castelhano hinojo, italiano gi- 
nócchio, francês genou, do latim genuc(u)lum. A forma mo- 
derna joelho ou provém de outro derainutivo de genu, geni- 
c(u)lum, como cuido, ou foi refeita pela metátese de ajoelhar 
por ageolhar \ geolho, como é o parecer de quási todos os etimo- 
lojístas. 

Gerez, gerezíano 

Do nome próprio Gerez formou Alberto Sampaio o adjectivo 
gereziano .• ^ — « como hoje no macísso gerezíano » — . Melhor 
fora, a meu ver gerezino, ou gerezano, ou gerezão, não obstante 
o adjectivo galiziano \ Galiza, que também empregou: — «O ca- 



* O Economista, de 26 de março de 1883. 

2 As <ViLLAS» DO Norte de Portugal, íw Portugália, i,p. 116. 



Apostilas aos DicionâHos Portugueses 509 



vallo gabado por Plinio... pelo trote d'andadura, pertence ao 
typo galliziano » — ^ 

Este último termo está já consagrado em publicação oficial 
vernácula e de bastante autoridade -. 

Disse que preferiria outra forma de derivação à que o douto 
escritor empregou, gereziano; é possível, porém, que a nossa 
nomenclatura convencional geolójica, em que infelizmente a ver- 
naculidade da língua tem sido tam pouco respeitada, o obrigasse 
àquela terminação com sabor tam afrancesado, como o do subs- 
tantivo macisso, francês massif. 

ginete; gineto, gineta 

Conforme Bluteau ^, a acepção primordial do primeiro destes 
vocábulos é — <cavallo de casta íina> — , sendo secundárias as 
de — « cavalleiro, com lança e adarga, e estribos curtos — , homem 
a c avalio > — . 

Seguem este parecer o Diccioxaeio Contemporâneo, o Ma- 
nual ETYMOLOGico, O Nôvo DiccioNÁBio, como já tinha feito 
entre outros o Poetuguês-francês de Koquete. Todavia, o pró- 
prio Bluteau, no Suplemento, referindo-se a Capitão de gine- 
tes, define esta locução com as seguintes palavras: — «responde 
este oíficio a Greneral de CavaUaria do Reyno » — . Vê-se pois 
que a acepção, que deu como secundária de « cavaleiro armado > 
é a primária, sendo a de < cavalo» deduzida desta; e com efeito 
assim é em castelhano : — «A esta necesidad obedeció que los 
musulmanos tomaran á sueldo caballeros cristianos y que los cris- 
tianos hicieran lo mismo con ginetes moros; estos últimos al- 
canzaron gran celebridad en la península, tanto en Granada, 
donde los zenetes constituyeron uno de los partidos mas fuer- 
tes, como en los reinos cristianos, entre los cuales la palabra 



1 ih. p. 117. 

* Recexseambxto geral dos gados do continente do reino 
DE Portugal, Lisboa, 1870, p. 30, 61, (52, 72, 103, 110, e pas»itn. 
3 Vocabulário portuguez b latino. 



510 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



zenete, nombre de su tribu ligeramente modificado ha quedado 
como apelativo de hombre á caballo, ginete, y se llamaban 
ginetes en la edad media los caballos de paseo y carrera, — 
en Castilla la palabra zenete ha pasado á su lengua con ligera 
modificación ortográfica para designar un hombre á caballo; su 
modo de cabalgar, á la jineta, ha quedado como escuela ó espé- 
cie de equitación; ginetes se llamaban en la edad media los 
caballos de carrera y paseo en Cataliina; aqui se usaban tambiéa 
espuelas, estribos y pitrales ginetes en los aparejos de caballos y 
hasta las banderitas que coronaban las lanzas por debajo de los 
hierros» — ^ 

Exemplo português de ginete com a significação de «cava- 
leiro» é o seguinte: — «dous mil e trezentos de cavalo, a fora os 
corredores, que agora chamam ginetes» — ^. 

O vocábulo arábico tem s como inicial, e foi mudado na 
Península Hispânica em j, como o foi semelhantemente em girafa, 
de zaRAF. E sabido que o a (a longo) valia muitas vezes por e 
no dialecto arábico das Espanhas. 

O termo ginete vemo-lo modernamente empregado como de- 
signação de uma casta de sela: — «e o ginete ou bastarda, como 
denominam as sellas ordinárias » — ^. 

A palavra ginete, gineto, gineta, segimdo as localidades, 
nome de um animal carnívoro, é outra, também arábica, aaaNaiT, 
conforme Dozy *. 

O termo ginete, como sinónimo de «cavalo fino>, é hoje de- 
susado em português, e tido por artificioso ; não assim porém em 
castelhano, no seu sentido primordial, de «cavaleiro». 



* André Giménez Soler, Africanos bx Espana, in « Kevue Hispani- 
que», XII, p. 301 e 349. 

2 Duarte Galvão, Crónica de El-rbi Dom Afonso Hbnríquez, 
cap. LU. 

3 Bosquejo de uma viagem no interior da Parahyba e db 
Pernambuco, m «O Século >, de 8 de junho de 1900. 

* Glossairb des mots espagnols et portugais derives db 
l'arabe, Leida, 1869. 



Apostilas aos IHciotiários Portugueses 511 



giuja, giujinha, ginjeira, ginjal; guinda, Guinda 

Ao português ginja, de que se derivou ginjinha, « aguardente 
em que se maceraram ginjas», expressão análoga à laranjinha 
brasileira, formada de laranja, e [que também designa uma 
«aguardente aromatizada com laranja», corresponde o castelhano 
guinda, que parece ter sido também português, atento o nome 
Os Guindais, no Porto, designação onomástica que vem a cor- 
responder no sentido a O Ginjal, defronte de Lisboa. Ginjal 
significa * sítio plantado de ginjeiras», como pinhal, «terreno 
onde há pinheiros*, ameixial, «pomar de ameixieiras > , etc. 

A orijem presumida destes dois vocábulos é problemática, 
pois se com eles se relaciona indubitavelmente o francês moder- 
no guigne, e talvez o antigo guisne, o romeno visin, o russo 
víxnia, todos os quais teem uma nasal, o étimo que se lhe atri- 
bui, o alto-alemão antigo ivthsela ^, não apresenta essa nasal. 
Outras formas análogas, com a nasal, ou sem ela, como o ita- 
liano vísciola, existem disseminadas por quási todas as línguas 
europeias, incluindo as esclavónicas, o grego moderno, o albanês, 
o húngaro, o turco, e pode ver-se a maior parte delas no Diccio- 
nário etimolójico romeno, de A. de Cihac 2, obra a todos os res- 
peitos monumental, que obteve o prémio Volney, em 1880. 



ginjibirra 

O Novo DicciONÁRio dá o vocábulo genjihirra, como de- 
signando uma bebida usada entre os indíjenas do norte do Bra- 



1 y. Kõrting, Lateinisch-romanischbs Wõrterbuch, Paderborn, 
1S90, n.° 8892. 

' DiCTiONNAiRB d'étymologie daco-romane, « Éléments slaves, 
magyars, turcs, grecs-moderne, et albanais>, Francoforte, 1879, p. 459. 



512 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

sil. Há engano manifesto : nem a palavra tem o menor vizlumbre 
de pertencer a línguas americanas, nem é natural que designe 
qualquer bebida indíjena. E simplesmente a italianização, e por 
ela o aportuguesamento do inglês gingerbeer, «cerveja de gen- 
jibre», bebida refrijerante muito conhecida. Birra em italiano, 
como beer em inglês quere dizer «cerveja», e nesta língua gin- 
ger significa « gengibre » . 



godo, godo (=góão) 

O Novo DiccioNÁRio dá-nos o vocábulo godo, com o aberto, 
góão, como sinónimo de gogo, «seixo boleado pelas águas», e 
diz-nos ser termo minhoto. Em Arcozelo, conforme nota que dali 
me foi remetida, a palavra godos, com o fechado, aplica-se a uns 
rolos de madeira, que se metem em canudos de lata terminados 
em borda na parte superior, para neles se assentarem móveis, 
acima dos quais se quere assim evitar que subam os ratos. E di- 
gno de menção o termo. 



golilha, goela 

O primeiro destes vocábulos é castelhanismo, golilla, cuja 
forma antiga era goliella, de gúlella, deminutivo de gula; de 
que também procedeu o português goela, que lhe corresponde 
na forma, não porém no significado, e que, como se vê, se deve 
escrever goela com o, como antes sempre se fêz, e não gicela 
com u, como agora se está ortografando erradamente, e com o 
grave equívoco de poder ser lida a primeira sílaba como a de 
guerra, isto é, sem se proferir o u. Efectivamente, é sabido que 
a u breve latino corresponde, tanto em castelhano como em 
português, o, conquanto neste se pronuncie há muito como m, 
quando é átono. No Brasil, porém, couserva-se a distinção en- 
tre o Q u antes da sílaba predominante. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 513 



golpelha, gorpelha, corbelha 

O Novo DiccioNÁEio dá-nos golpelha como alterado de cor- 
belha, e outvo golpelha \ uulpêciila, «raposa»: 

< O lobo mais a golpelha 

< Fizeram uma conselha>. 

Nenhuma dúvida há com relação a esta segunda golpelha, 
como procedente da forma latina apontada. Examinemos a outra. 

Oolpelha, gorpelha, «alcofão», parece terem-se confundido 
com a outra golpelha, e é talvez essa a razão porque o latim 
corbicula, deminutivo de corbis, «cesto», que deu a forma 
antiga corhelha. perfeitamente regular, produziu o alótropo gor- 
pelha, com a singular mudança de c em ^, e a mais singular 
ainda de 6 em ij; permutação raríssima, que nem mesmo é com- 
parável a sapito { subitum, pois aqui as duas surdas s q t 
assimilaram ao mesmo género a sonora h. concorrendo mais para 
esta assimilação eufónica o ser o vocábulo esdrúxulo, e o 6 per- 
tencer, como o í, a sílaba átona. 

É moda, com referencia ao enxoval da noiva, usar-se a pala- 
vra francesa corbeille; e quando digo moda quero dar a enten- 
der que o é na linguajem avariada dos anúncios de modistas e 
modistos, e na dos noticiaristas que os arremedam, por galanta- 
ria, ou por ignorância. 

Ora, corbeille quere dizer em geral «açafate, cesta bastante 
larga com pé » , e não me consta que as noivas, para aparar as 
prendas, ponham uma cesta à disposição das pessoas suas co- 
nhecidas. 

Assim parece-me que prendas, ou mimos ou enxoval são 
termos bastante finos para não causar vergonha usá-los; e se a 
todo o custo querem falar num aparador qualquer, chamem-lhe 
açafate, para que toda a gente os entenda. E verdade que o 
francês faz parte do curso de instrução secundária; mas obriga- 
tório para todos por lei é somente saber ler, escrever e contar 

33 



514 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



em português, visto ser esta, por emquanto, a língua da nossa 
terra. 

goma 

Espécie de tambor ou batoque [q. v.J na Africa Oriental 
Portuguesa: — «O goma e o cinzete são feitos de madeira, de 
forma cylindro-conica, e com três pés, cobertos só de um lado 
com pelle de búfalo, veado ou lagarto, e afinados por meio de 
pequenas pelas de borracha, que se fazem adherir á pelle onde 
sejam precisas. São tocados com as mãos e transportados ao pes- 
coço do tocador» — '. 

iEm que se diferençam então um do outro? 



gondão 

Árvore de Timor — «O regulo bom... é como a árvore de 
condão, que dá sombra e frescura» — ^. 



gonzar 

Este verbo, derivado de gonzo, ouvi-o a um oficial de ourives^ 
a quem dei a consertar o fusilão de uma cadeia de relójio. Pre- 
guntando-lhe eu se teria de ser substituído por outro, respon- 
deu-me : « Vou ver se o posso gonzar » .- E na realidade gonzou-o, 
isto é, prendeu ou soldou uma parte do fusilão, junto à rosca, e 
que se tinha quebrado. 



1 Azevedo Coutinho, A campanha do Barué em 1902, in < Jornal 
das Colónias >, de 19 de agosto de 1905. 

2 J. Pereira Jardim, ííoTAS bthnggraphioas sobre os povos db 
Timor, in «Portugália», i, p. 356. 



Apostilas nos Dicionários Portugueses 515 



gordo 

Para português, como para as outras línguas românicas das 
Espanhas, este vocábulo é o latim gurdum, o qual, conforme a 
Quintiliano constava [audiui], era palavra hispânica. 

O que se não sabe é a qual das várias línguas que na His- 
pânia se falavam ela pertencia; ao vasconço de certo que não, 
pois gordo nesse idioma diz-se guicen; céltico também não pa- 
rece o termo ser. 

Este adjectivo tem em português acepção mais restrita que 
em castelhano, onde também significa «volumoso», como o in- 
glês hig, ou o francês gros: em português quere dizer «que tem 
gordura, matéria adiposa», e tanto que diferençamos perfeita- 
mente gordo, em inglês fat, de grosso, «refeito», em inglês stout. 



gorgomilos . 

Este vocábulo está hoje quási desusado em estilo sério; to- 
davia, há dois ou três séculos era empregado sem o menor re- 
paro: — «soando pelos gorgomilos cortados, cheios de sangue, o 
santíssimo nome de Jesus > — ^ 



gote 

Termo da África Oriental Portuguesa: — <góte (peça de pau 
que serve para equilibrar as panellas e as cestas)» — ^. 



^ P. Ant. Fr. Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus, Lisboa, 
1894, p. 196. 

* Jornal das Colónias, de 4 de julho de 1903. 



516 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



gotejar 

Se não é informação errada, por copejar, significa aquele 
verbo «lançar o arpéu ao atum». 

E termo algarvio, como quási todos os referentes àquela 
pesca. 

governado, governista 

O primeiro destes vocábulos em jíria quere dizer « armado » : 
— «O Menezes, que não estava governado, isto é, que não tra- 
zia arma alguma comsigo» — ^ 

O segundo é usado no Brasil com a significação de « partidá- 
rio do governo»: — «Requerimentos envolvendo censuras passa- 
vam sem o menor protesto da parte dos governistas» — -. 



gozar, gozo; gôzo(s) 

Parece averiguado, que a palavra gozar castelhana provém 
àe gaudiare | gaudium, sendo goce, antigo go^e, um substan- 
tivo verbal rizotónico. O português gozar é provável que proceda 
de castelhano, visto que ao au latino corresponde em português 
ou, oi (cf. cousa, coisa j causa), e o vocábulo nunca assim se 
escreveu. O plural é gozos. 

Quanto a, gozo, «raça de cães>, o étimo é goticum (canem), 
de que também se derivaram o castelhano gozque, com o mesmo 
significado, e o catalão gos, « cão > em geral. O plural de gozo, 
«cão», é gozos, e não, gozos. 



1 O Século, de 10 de setembro de 1900. 

2 O Economista, de 13 de junho de 1883, Correspondência particular 
do Eio-de-Janeiro. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 517 



gradura 

Termo próprio da província de Trás-os-Montes, o qual se 
aplica genericamente a toda a casta de feijão: — «Boa horta! 
Muita goma de feijão para verde, . . . e inda por cima muita gra- 
dura» — K 

gramilho, gramilo 

Em Caminha é o «fecho da porta». O Novo Diccionáeio 
rejista o vocábulo, com a forma gramilo. 

grane, grani 

O Novo DiccioNÁRio dá os dois vocábulos como tendo a 
mesma significação — «cavallo, égua» — , e diz-nos ser termo de 
jíria. E propriamente calão de ciganos alquiles, e o primeiro 
deles é o que qiiere dizer «cavalo»; o segando é o femenino, 
«égua»: em calo grasté, pi. grastés, fem. grasni, pi. grasnías. 
E provável que o primeiro fosse modificado pelo segundo em 
português, e em calo ou dialecto dos ciganos espanhóis há tam- 
bém o femenino de grasté, que é grastí. O s mal se ouve, como 
no dialecto andaluz do castelhano. No dialecto dos ciganos ro- 
menos grasnei quere dizer «poldro», e -ni é um suficso, com o 
qual de nomes masculinos se derivam outros femeninos. O pri- 
mitivo é gra, que quere dizer «besta». 

gravanha 

Em Caminha é o nome que se dá à «rama seca dos pinhei- 
ros >. 



1 O Repórter, de 17 de junho de 1897. 



518 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



graxa; engraxar, engraxado 

Em Lisboa significa uma tinta preparada com que se dá 
lustro ao calçado por meio de fricção com escova. No norte quere 
dizer «banha». Num sentido relacionado com este último vemos 
o particípio engraxado, empregado por António Francisco Car- 
dim: — «trouxe o say uns [livros] muito engraxados, parece esti- 
veram ao fumo» — , isto é, «denegridos, cujos» ^ 

grejó: v. grljó 

grelha, grelheiro 

O Novo DiccioNÁRio marca a pronúncia grelha, que de 
certo é a normal, visto aquele e proceder de i latino, cratí- 
cula; assim em Lisboa deveríamos pronunciar ^rè7/i«, isto é, ,^ríí- 
Iha. O facto porém é que na capital toda a gente diz grelha, e 
J. I. Roquete assim o acentuou também -. Deu-se pois a mesma 
alteração de ê em é, que se observa era envéja, antes, enveja. 

A língua românica que possui palavra mais parecida com a 
portuguesa, e da mesma orijem, é a catalã, onde se diz graeflla 
(pron. graêlh-lha); os castelhanos chamam-lhe parrillas. 

Grelheiro é o operário que tem a seu cargo as grelhas: 
— « Continuam em greve os operários grelheiros » — ^. 

grémio, gremial 

A palavra grémio, do latim gremium, «regaço», não é já 
usada senão no sentido figurado de « corporação, reunião » e, 
como hoje se diz, clube ou casino. O derivado gremial, em latim 



1 Batalhas da Companhia db Jesus, Lisboa, 189 i, p. 74. 

2 DiCTIONNAIRE PORTUGAIS-FRANÇAIS, Paris, 1855. 

i* o Século, de 28 de fevereiro de 1905. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 519 



eclesiástico gr e mi ale, é o nome que se dá a uma espécie de 
avental, que pertence aos paramentos do sacerdote; em italiano 
gremhiale < avental», é o mesmo vocábulo. (Cf. lomho era por- 
tuguês, com loyno em castelhano, e ao contrário, rumo português, 
com rumbo em castelhano, e também lamber^ com lamer): — 
« sandálias e luvas . . . gremial e formalio ... o gremial é um 
panno que se colloca sobre os joelhos do celebrante» — ^ 

G-rijó, grejó, igrejó 

E conhecida no onomástico local esta forma, do latim (ec)cle- 
siola, e deveria escrever-se Grejó. Como nome comum empre- 
gou-o L. Figueiredo Guerra, no seu interessante estudo Uma 
POVOAÇÃO subterrânea: — «este grijó de Ester ainda existia 
com capellão em 1548» — -. 

Tinha o significado de <? capela, ou ermida». O género porém 
está errado, porque é femenino, esta grejó, e não, este grejó. 

O Novo DiccioNÁKio rejista, como antiga, sem a abonar, a 
forma igreja, em que se não fizera ainda a aférese do i inicial, 
procedente do ei- j ec- latino, que também encontramos nos 
Subsídios de A. A. Cortesão, sem citação alguma, como sinó- 
nimo de Grijó. nome de povoação; atento, porém, o sistema de 
trabalho ali seguido, o autor que a cita, é porque encontrou a 
forma em qualquer documento. V. igreja. 

grima 

Em Trás-os-Montes quere dizer «medo»: — «As noites são 
ás vezes escuras como a bocca d'um lobo, ouvindo-se com grima 
(medo) o piar das aves agourentas» — ^. 



1 O Dia, de 21 de março de 1902. 
' in Portugália, i, p. 612. 

3 M. Ferreira Deusdado, O Eecolhimento da Mófreita, in « Ee- 
vista de educação e ensino >, 1891. 



520 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

A palavra tem aspecto de germânica : em alemão grimm, sig- 
nifica «sanha, raiva», em inglês grim, «medonho». 
— Achilles himself was not more grim and gory — ^ 



grou 

É única esta forma em -ou para substantivos. J. Leite de 
Vasconcelos explica-a muito razoavelmente como orijinada numa 
forma latina grúus, masculino de grúa^ por gru(i)s, que tem a 
mesma significação, e compara-lhe dous, dois \ duos ^. 



guadanha: v. gadanha 



gualdido, galdido, galder, galdir 

Em castelhano existe um antigo adjectivo participial galdudo, 
que tem a mesma significação que o português g(u)aldido, o 
qual deveria ter tido também a forma galdudo, e cuja termina- 
ção, própria dos particípios passivos da 2.'"^ conjugação, se mu- 
dou na língua moderna para -ido, que pertencia aos da 3.*: 
cf. tido, dantes teúdo, mexido, dantes mexiido, etc. 

Esta consideração leva-nos a supor que o verbo seria galder, 
e não galdir, derivado do vasconço galdu, «perdido»: — «Sar- 
dinha que o gato leva, galdida vai ela» — ^. 

E possível também que o verbo em português pertencesse 
sempre à 3.* conjugação, e em castelhano à 2.*^, como acontece, 
por exemplo, com cair, em castelhano caer. 

Duarte Núnez de Leão ^ adverte que é palavra grosseira, 



< Lord Byron, DON JuAN. 

2 Revista Lusitana, iii, p. 265. 

3 Eifão. 

4 Origem da lingoa portuguesa, cap. xviii. 



ApostUas aos Dicionários Portugueses 521 



que se não deve empregar, e Bluteau, citando-a, repete a recomen- 
dação. 

Se alguma vez foi usado o verbo em outra linguajem, ignoro-o 
hoje em dia o seu uso está limitado ao particípio. 

guardanapo 

No uso actual significa uma «toalha pequena, que se põe a' 
cada comensal, para ele se limpar». Antes, porém, esta palavra 
designava o que hoje se denomina lenço de assoar, como se pode 
ver na rubrica da fala do primeiro frade, no «Auto das Fadas» 
(«sortes, fados») de Gil Vicente: — «Assoa-se com o seu guar- 
danapo» — . 

Anteriormente, no mesmo auto, na fala da Feiticeira, vemos 
o mesmo vocábulo, igualmente no sentido de lenço, ou pano: 

Isto é fessura de sapo 

Que está neste guardanapo. 

Bluteau ^ dá desta palavra a etimolojia mais provável, guarda 
e o francês nappe, que vale o mesmo que Toalha, porque o guar- 
danapo serve de guardar — «não só o vestido de quem come, mas 
também a Toalha da mesa em que se come» — ; e acrescenta: 
— «Os Antigos, quando erão convidados a comer fora de suas 
casas, levava cada hum com sigo o seu guardanapo» — . 

O que parecerá extraordinário é que este vocábulo só seja 
usado em Portugal, onde nunca à toalha da mesa se chamou 
napo; e que, pelo contrário, os franceses lhe chamem serviette, 
significando nappe na sua língua essa toalha. A noção, porém, 
do segundo componente está de todo perdida, visto que, como 
excepção aos substantivos compostos com o verbo guarda, no 
imperativo, este perdeu a acentuação própria no seu primeiro 
elemento. (V. guarda-peito^. 



1 Vocabulário portugubz e latino. 



522 Apostilas ao^ Dicionários Portugiieses 



Pelas citações que fiz de Gil Vicente, e pela definição de 
Bluteaii, fica perfeitamente claro o modo de dizer assoe-se a esse 
guardanapo, em que esta palavra tem a significação de «lenço». 

Todavia, guardanapo já tinha a mesma significação especial 
que tem hoje, por meados do século xvi, visto que o Padre je- 
suíta Gaspar Barzeu, numa carta datada de 1551, referindo-se 
às refeições do rei da Etiópia, escreveu: — «El-rei em seu comer 
não tem nenhú modo de estado, está assentado em hú catre ou 
em húa cadeira rasa de ferro cuberta com hum couro, ou em 
cima de húa alcatifa; não tem mesa nem copa, só mente húa 
trempem no chão e em cima húa gamela de pao que terá 15 
ou 20 palmos de roda, e no meo tem húa maneira d escudelas 
do mesmo pao sem nenhúa toalha nem guardanapo. Alimpão 
húa mão com a outra» — ^ 



guarda-peito 

E considerável o número dos nomes compostos com o impera- 
tivo do verbo guardar, guarda, e um substantivo aposto como 
seu complemento objectivo. Nos nomes desta formação, tam fre- 
quente e ainda tam vivaz nas línguas românicas, cada um dos 
elementos conserva a sua acentuação própria, estando, porém, 
como é de regra nelas, o acento predominante na sílaba tónica 
do segundo componente. Excepções a esta regra, raras, como 
vimos em guardanapo, explicam-se pelo facto de se haver per- 
dido a noção do significado do segundo elemento. No primeiro 
caso devem escrever-se com linha divisória a mostrar a indepen- 
dência manifesta dos componentes; no segundo cumpre reunir os 
dois elementos, sem a linha, em uma só palavra, com um único 



1 in Missões dos Jesuítas no Oriente, Lisboa, 1894, p. 106. 
Completei as abreviaturas, desuni as palavras, e fiz duas correcções evi- 
dentes, raza e meza para rasaemesa. 

Os textos transcritos foram visivelmente mal copiados. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 523 



acento, marcado ou não, conforme os preceitos de acentuação 
gráfica seguidos por cada um ^ O mesmo se deverá fazer, ainda 
quando o primeiro elemento seja substantivo e o segundo adjec- 
tivo, como era guarda-mor, visto o primeiro componente con- 
servar a sua acentuação. 

Abonarei aqui o vocábulo composto, só incluído no Xôvo 
DicciONÁEio, e que serve de epígrafe a este artigo, guarãa- 
peito: — «A cavallo os feirantes, vindos de longes terras com os 
primitivos trajos sertanejos, isto é, o chapéu de copa mamillar 
de couro, a vestia ou gibão, guarda-peito e guardas tudo também 
exclusivamente confeccionado de couro curtido» — -: fabri- 
cado seria melhor, visto o autor ser em geral vernáculo na sua 
linguajem. 

guarda-sol, guarda-soleiro 

O prin^iro destes vocábulos está rejislado em todos os dicio- 
nários e é usualíssimo. 

O segundo é um derivado sui generis: significa «fabricante 
de guarda-sóis. feito à imitação de chapeleiro, fabricante de 
chapéus», sombreireiro, fabricante de sombreiros, no sentido 
antigo de « umbellas » ou « sombrinhas » , e não no do castelhano 
actual sombrero, cujo significado é « chapéu para a cabeça » : 
— «Keuniu a classe dos operários guarda-soleiros» — ^. 



guecho 
Em Sam Miguel dos Açores quere dizer « novilho » *. 



1 V. Ortografia Nacional, do autor, Lisboa, 1904, p. 213. 
■^ Fonseca, Bosquejo de uma viajem no interior da Parahyba 
B DK Pernambuco, in <0 Século >, de 8 de junho de 1900. 
3 O Século, de 24 de outubro de 1902. 
* O Século, de õ de julho de 1901. 



524 AjMstilas aos Dicionários Portugueses 



gueiro 

«no gueiro (casa onde os rapazes e assicanas [raparigas], se 
reúnem para dormir)» K 

E termo da África Oriental Poruguesa; na citação refere-se 
a Marromeu. 

guilhoche, guilhote, giiilhoché, guilhoclii 

O Novo DiccioNÁBio incluiu o vocábulo francês guilloche, 
ortografado à portuguesa, e no Suplemento declarou preferível 
guilhoché. E esta, na realidade, a forma usada pelos lavrantes e 
ourives, e designa um desenho formado pelo cruzamento de li- 
nhas paralelas, com outras igualmente paralelas, espécie de en- 
xadrezamento: — «Ouro gravado a guilhoché, prata gravada a 
guilhoché» — -. 1? 

Este substantivo não é mais que o particípio passivo do verbo 
guillocher, a que se atribui orijem histórica, o nome de certo 
sujeito, de apelido Owillot, que parece ter sido inventado para 
o caso "^ 

O desenho assim formado não se chama em francês guilloche, 
mas sim, guillochis. 

guinda: v. ginja 

guinde 

Na índia Portuguesa — «bacia de lavar a cara — ». 

O termo, segundo Monsenhor Kodolfo Dalgado *, é marata, e 



1 Jornal das Colónias, de 30 de maio de 1903. 

2 Programa da Exposição de ourivezaria do Pôrto, in < Com- 
mercio do Porto, de 7 de março de 1883. 

3 Henrique Stappers, Dictionnaire synoptiqub d'étymolog-ib 
française, Paris, 2.* ed., n.° 4938. 

* Eevista Lusitana, vi, p. 81. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 525 

também dravídico, canarim ou tulo. Xo Dicionário Marata-portu- 
guês de Suriají Ananda Eau, a palavra gíndI, em devanágrico, 
sem transliteração, e que transcrevo para aqui, tem a seguinte 
definição, que pouco se coaduna com o dito emprego do vocábulo: 
— «Vazo da agoa, uzado para trazer agoa sagrada. É vazo de 
barriga grossa, e pescoço e boca estreita e pequena. 2. Assim 
se chama também a um vazo da figura de bule» — '. Estranha 
definição! Há de ser caso dificultoso o lavar-se alguém num bule, 
ou numa garrafa, aparelho só comparável aos lavatórios usados 
nas hospedarias russas, e que são excelente fábrica de galeirões 
na testa, quando não de quebrar cabeças. Não teem válvula na 
bacia, que está munida de um orifício, o qual, posto um pé em 
um pedal, na base do lavatório, despeja continuamente a água 
que dentro lhe cai de uma bica, à altura do nariz de uma pessoa 
que esteja de pé: Curvada a pessoa, basta-lhe levantar a cabeça 
para apanhar na testa um beijo da bica, que lhe pode deixar 
memória perdurável do esquisito invento. Agradável surpresa, 
que ali espera o viandante! 



guirlanda, grinalda 

A forma primitiva deste vocábulo deve ter sido a primeira, 
que, como vamos ver, ainda subsiste; a segunda é resultado de 
duas metáteses acumuladas, guir- para gri-, e -lan- para -nal-. 
O vocábulo parece ter vindo para as outras línguas românicas 
da forma italiana guirlanda, de orijem germânica, ainda não 
perfeitamente explicada. 

Tem esta palavra, já numa, já noutra das formas apontadas, 
várias acepções. 

Eis aqui uma, que não está rejistada: — «Nas guirlandas 



1 Suriagy Ananda Rau, DicCIOXario maratha-portuguez, coorde- 
nado conforme o Diccionario raaratha-inglez de J. I. Molesworth, 1. 1 [e único], 
Nova Goa, 1879, p. 314, col. iii. 



526 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



[cabides e estanheiras] lá se vêem [vêem] os serviços de cobre, 
arame, estanho, ferro e barro» — ^ 



guisa, guisinho 

O primeiro destes dois nomes de aves é na Madeira (Porto 
Monis), aplicado ao roquinho (q. v.): o segundo ao abibe, (tringa 
uanellus, Lin.). 

habitat 

Este termo, que do francês adoptámos, é o latim habitat, 
3.^ pessoa do presente do indicativo do verbo habitare, e sig- 
nifica, portanto, «habita». 

E usado moderníssimamente para designar a vivenda habi- 
tual de uma espécie, vejetal ou animal: — «O cavallo, gabado 
por Plinio... pertence ao typo galliziano, cujo habitat com- 
prehende todo o noroeste da peninsula [Hispânica]» — ^. 

Com vantajem seria substituído por vivenda este extrava- 
gante nome, que só tem em português outro análogo; também 
forasteiro, deficit, e não menos arrevesado. 



hagi, axi, hagiaco, ajiaco, axiaco 

Conquanto, sem dúvida nenhuma, o h seja redundante, e a 
segunda escrita, que aqui dou, seja a única certa, como mais 
adeante indico, trato da palavra nesta altura das Apostilas, 
porque assim a vejo escrita no texto com que a abono, a «Eela- 



1 José da Silva Picão, Ethnographia do Alto Alemtejo, w Por- 
tugália, I, p. 538. 

2 Alberto Sampaio, As « Villas> do Norte de Portugal, in Por- 
tugália, I, p. 117, n. ^ 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 527 



ção da viajem e sucesso da nao Sam Francisco», do Padre 
Gaspar Afonso: — «com tudo o comer, cousa geral em todas as 
índias, ha de vir á mesa cuberto de hagi, que é a sua pimenta 
vermelha, que lá ha de muitas castas e feições. E porque os 
grãos, ou cabeças delia, que vem entre a carne cozida ou guisa- 
da, trazem já quebrada a sua virtude, como elles [os naturaes 
das Antilhas] cuidam, . . . mandara pôr outra crua em pratos 
pela mesa, como em saleiros, que mastigara e comem . . . como 
se. . . tivessem as linguas e gargantas ladrilhadas» — K 

O Xôvo DiccioNÁEio traz o vocábulo erradamente acentuado, 
áxi, e o Contemporâneo desfigurado enteiramente na pronúncia 
ácsi (!) que lhe atribui. 

Eis o que a respeito da forma castelhana moderna aji nos 
diz Rodolfo Lenz, doutíssimo autor do Diccionario etimolójico 

DE LAS VOCES CHILENAS DERIVADAS DE LENGUAS INDÍJENAS 

AMERICANAS, cuja publicação ainda infelizmente não está con- 
cluída: — «la planta i el fruto de la misma que se llaman en 
Espana »pimiento» i «guindilla» [i. e. jinjinha, « pimentão »](^Ca- 
psium annuum), ... La palabra aji, antiguamente axi, viene 
de Haiti i pertenece a la lengua taino de la farailia linguística 
de los arnak. . . Los índios peruanos llaman el aji uchu. . . ; los, 
de Chile thapi» — -. 

Esta escrita thapi representa a pronúncia trapi, com um r 
fricativo surdo, como o do inglês try, ou o r final de sílaba, 
muito usual no Brasil; a moderna forma castelhana aji profere-se 
com o j castelhano actual, mas a antiga axi pronunciava-se com 
o valor do x inicial português de xadrez, por exemplo, e o 
acento tónico foi sempre e é no i, e não no a. 

Explica-se que o Xôvo Dicc. errasse na acentuação que dá 
ao vocábulo, conquanto pudesse vê-lo com a verdadeira quer no 
Dicionário da Academia Espanhola (aji), quer no Vocabulário 



1 in BlBL. DE CL.^VSSICOS! PORTUGUEZBS, vol. XLV, p. 89 (fioS do XVI 

século). 

2 Santiago de Chile, 1904-1905, p. 126. 



52S Aiiostilas aos Dicionários Portugueses 



de Aníbal Echeverría i Reyes, Vocês usadas en Chile ^ ; talvez 
porém se guiasse pela falta da acentuação devida, no enorme car- 
tapácio de Mascarenhas Valdez -. O que não tem justificação 
possível é a extravagante pronúncia do x como es, que lhe pres- 
creve, sem mais razões, e como se a palavra fosse latina ou grega, 
o Contemporâneo, com a mesma competência e autoridade com 
que nos diz que guta-percha (q. v. em cauchu^ se pronuncia guta- 
perxa ou antes guta-perka (!). 

Do vocábulo qjí derivaram os americanos ajiaco, que Eche- 
verría no mesmo vocabulário define como — «guisado popular > — . 

O Padre Gaspar, na sua curiosíssima «Relação», acima ci- 
tada, já dá à palavra, algumas linhas depois, a forma escrita 
hagiaco: — «antes nas ceas se carrega tanto mais a mão em 
algumas partes, que o ordinário guisado que nellas fazem, pelo 
muito hagi que leva, tomou delle o nome, e se chama Hagiaco; 
e então se deitam a dormir mui consolados em suas camas, quasi 
debaixo da Linha Equinocial, como se houvessem de dormir áo 
sereno debaixo dos Poios» — . 

hangar 

Este vocábulo francês, a ser necessário cá, deve escrever-se 
com o h inicial, eraquanto se conservar esta letra etimolójica, 
nula para a pronúncia: — «Deu entrada no ministério das obras 
publicas o projecto e respectivo orçamento para a construcção 
de um angar, para recolher as machinas e alfaias de lavoura a 
vapor» — ^. Poderia dizer-se barracão, trapiche. 

Quanto à acentuação ângar, dada pelo Novo Diccionábio, é 
errónea, pois os vocábulos franceses teem todos o acento tónico 
sobre a última sílaba pronunciada. A orijem germânica do vocá- 
bulo francês ó já muito desviada, hangen, «pender», em alemão. 



1 Santiago de Chile, 1900. 

» DicciONARio ESPANOL-PORTUGUÉS, Lísboa, 1864 

3 o Economista, de 10 de fevereiro de 1889. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 529 



' haplolojia 

Este termo, artificialmente formado de dois vocábulos gregos, 
*ÁPLos «simples» e lógos « doutrina >, quere dizer « simplifica- 
ção >. Dá-se este nome ao fenómeno que se produz nas palavras 
que teem duas sílabas de idêntica estrutura, as quais se reduzem 
a uma só, por brevidade na elocução. São exemplos deste fenó- 
meno em latim nutrix por nutritrix, e em português idola- 
tra por iãololatra. bondoso por botidadoso, de bondade mais o 
suficso -oso, etc. 

harém 

Esta palavra é de orijem imediatamente francesa, como o 
prova a acentuação que lhe damos; se proviesse directamente do 
árabe nanaM, seria, f arme, ou farão; ou, se de introdução secun- 
dária, (h)árem, ou (h)árão. 

Os vocábulos arábicos existentes em português foram nele 
introduzidos em três épocas diferentes, e obedecem por isso a 
leis diversas de transcrição: 

l.** Período, primários: foram recebidos auricularmente e 
encorporaram-se na língua, acomodando-se-lhe na pronúncia, a 
qual é representada como a das outras palavras portuguesas. 
Séculos ix-xv. 

2.° Período, secundários: introduzidos pelos escritores, e 
mais ou menos metodicamente transcritos, ou mesmo transli- 
terados, conforme o valor das letras no alfabeto português. 
Séculos xv-xix. 

3° Período, terciários: copiados de transcrições ou trans- 
literações estranj eiras, sem consciência dos valores das letras, e 
flutuantes na sua escrita. Século xix, e continua! *. 



* V. do autor: Deux paits de phonologies historique portu- 
GAiSB, Lisboa, 1892, p. 10 e 11. 

3V 



530 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



haveres ' 

Este infinito substantivado no plural, além de significar « pos- 
ses, bens», tem o sentido especial, popular, de «tesouros ocul- 
tos»: — «O povo acreditava que procurávamos haveres escon- 
didos» — K 

haxixe 

E esta a forma portuguesa, ou se quiserem axixe, da palavra 
arábica naxix, que quere dizer uma casta de cánave, que os pre- 
tos da África Ocidental Portuguesa chamados ambundos denomi- 
nam liamba, e que é inebriante, quando fumada. Os franceses 
escrevem hachiche, os ingleses hasheesh, e os alemães haschisch. 
V. em harém. 

héjira 

Assim se deve acentuar esta palavra, que também se escreve 
hégira, e poderia ortografar-se éjira; em árabe é egre, com fi 
sonoro inicial, que aqui transcrevo por e: quere dizer «fuga». 
A pronúncia ejira, é francesa. Mármol, Rehelión de los Maris- 
cos, escreveu hixara^^=Mxara -. 

Este vocábulo pertence aos fins do 2." período a que me re- 
feri em harém. 

herdade 

Assim é definido este termo, com relação ao Alentejo; — «Os 
campos do Alemtejo, aparte os arredores das povoações, são, na. 



1 Portugália, i, p. 13. 

2 Y. Dozy y Engelmann, Glossairb db8 mots espaGnols et por- 

TUGAIS DERIVES DE L^ARABB, Leida, 1869. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 531 



sua quasi totalidade, divididos em grandes tractos de terreno, 
que se denominam herdades» — ^ 



Hereró, herrero 

Uma raça indómita da África Ocidental, que tem dado que 
fazer aos alemães, é denominada dos Hererôs, nome que dão a 
si próprios (Ova-hereróJ. 

Este nome, na pena dos nossos jornalistas, trausformou-se em 
herreros, «ferreiros» em espanhol, com mais um r, e mudança 
de acento tónico para a penúltima sílaba. Disfarçado assim o 
nome dos valentes negros, trataram de lho explicar, e mim jor- 
nal se escreveu que provavelmente êle lhes viera de uma povoa- 
ção espanhola, chamada Herreros, e até a localizaram na pro- 
víncia de Ávila. 

Escolheram mal: Havendo nada menos de doze localidades 
deste nome entre Ávila e Çamora, povoações e sítios de várias 
categorias, tinham feito melhor se dessem os tais pretos como 
oriundos de um despovoado denominado Herreros, nd^ provín- 
cia de Segóvia, explicando deste modo o seu despovoamento: os 
antigos habitantes expatriaram-se, e para os não conhecerem tin- 
jiram-se de preto, e são esses os actuais Herreros: já se vê, na 
opinião dos ditos jornalistas, que teimam em assim crismar os 
hererós, sem o consentimento destes, atribuindo-lhes habilidades 
que, apesar de enfarruscados cafres, eles não teem, pois não 
consta que jamais se singularizassem pela sua perícia no ofício 
de Vulcano, como os ciganos no de caldeireiro. Esta extravagante 
alcunha, como era um despropósito, criou fama, e hoje até em 
livros e relatórios se lê. Ora, bastava cousultar-se qualquer mo- 
desto compêndio de geografia ou etnografia da África, para se 



1 J. da Silva Picão, Ethnographia do Alto Alemtejo, in Portu- 
gália, I, p. 270. 



532 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



corrigir o erro ; e se quisessem obra mais autorizada, ao lançarem 
uma vista de olhos para o Dicionário Geográfico de Vivien de 
Saint-Martin ', que não é nenhuma obra rara, desfar-se-ia o en- 
gano com muita facilidade. Aqui fica emendado. 

Quem tiver curiosidade de se informar mais a preceito da 
língua que falam os hererós, e que não é castelhano de Ávila, pode 
ver com muito proveito um volumito da colecção Hartleben ^, 
escrito por A. Seidel, onde encontrará gramáticas das línguas 
ochihereró e oxindonga, ambas cafriais. 



hetera 

E uso escrever este vocábulo hetaíra, e hetaira, de que re- 
sultam as pronúncias, erróneas ambas, etáira e etaira. 

O vocábulo é grego 'etaíra, proferido hetáira, presumivel- 
mente, no grego antigo, etéra, no moderno. Em latim seria 
hetaera, pronunciado etéra, se existisse; mas o que existe é 
um derivado hetaeria, pron. etária, correspondente ao grego 
'etairía, «confraria relijiosa». Ora, assim como do latim 
sphaera j grego sp'aíra, se formou em português esfera e em 
francês sphère, é evidente que em português de hetaera resulta 
(h)etéra, e em francês deveria ter resultado hetaire, sem ápices 
no i, ou hetère, e nunca hetaire, que é um barbarismo. Pa- 
rece-me loucura rematada imitar, por capricho, o barbarismo 
francês. 

Hetera quere dizer actualmente « cortesã, prostituta de alto 
coturno», com sua corte de basbaques, os quais lhe rendem culto, 
ou lhe pagam o estadão, conforme as suas posses. 



1 Dictionnairb de Géographie UnivbrseIíLE, 1879-1899, ii, 
p. 672, col. III. 

2 Lípsia-Viena-Pest. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 533 



homem 

No calão dos ladrões do Porto esta palavra, seguida de um 
epíteto,, classifica os amigos dos haveres do próssimo, pela se- 
guinte maneira : homem de cardenho, « gatuno de casas » ; homem 
de golpe, « gatuno de algibeiras » ; homem de salto, « ladrão de 
estrada* ^ 

homeótropo 

E um neolojismo, derivado artificial do grego 'omoíos, «se- 
melhante», e TKÓPos, «maneira». 

Serve o termo para designar o que eu denominei formas 
converj entes, isto é, uma só forma resultante, em virtude de 
leis fonéticas, de dois ou mais étimos diferentes, como pena 
dé penna e poena, latinos, vindo, das formas antigas vtido e 
víindo, a primeira particípio passivo, a segunda gerúndio do 
verbo vir, antigo víir. O fenómeno contrário denomiua-se aló- 
trop6s, ou formas diverjentes, quando de um só étimo re- 
sultam vocábulos diversos, diferençados, ou não, no sentido, em 
virtude de leis diferentes de acomodação, ou porque entraram 
na língua em períodos distintos; por exemplo, malha, mancha, 
mágoa, mácula, todos quatro procedentes do latim macula. 

V. a palavra moleiro. 



hompim 

— « Nova Groa, 29 de setembro [de 1897] ... Os parias ou 
honpins [sic], que fazem os despejos e outros misteres idênticos, 
casta completamente separada de todas» — 2. 



O Economista, de 28 de fevereiro de 1885. 
O Século, de 21 de outubro de 1897. 



034 Aposlilas aos Dicionários Portugueses 



horda 

Esta palavra veio para português do francês, que a recebeu, 
segundo se afirma, do mongol, ou língua tartárica dos mogores. 
Marcelo Devic diz-nos ser tártara, e que em turco é orda, o que 
não explica por que razão se ha de escrever com h inicial; esse 
h em francês serve só para evitar a ligação com a palavra pre- 
cedente, pois se diz la horãe. e não Vhorde. 



hortejo 

Deminutivo de hô7'to. — «No hortejo que cerca a casa um 
terreno diminuto» — ^ 

— «Quando o hortejo se reduz a proporções minimas, toma 
o nome de quinchoso» — -. 



hucha: v. ichão e ucha 



hóspede, hóspeda 

Contra a regra geral dos adjectivos em -e, que são uni- 
formes, os substantivos estão sujeitos a muitas excepções; assim 
a palavra hóspede forma o femenino em -a: — «Esta conta era 
feita sem óspeda» — ^. Os editores aclararam este passo do Ro- 
teiro DA viAQEM DE Vasco DA Gama com a uota seguinte: 
— « determinar uma cousa que depende do consentimento ou 
vontade de outrem» — . 



1 Portugália, I, p. 20(3: As olarias do Prado. 

2 ib., p. 547: Ethnographia do Alto Albmtejo. 
8 Lisboa, 1801, p. lUO. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 535 



Hucá 



Diz-nos o Novo Diccionákio que houcá é o nome que se dá 
ao cachimbo usado pelos banianes. Ora, Monsenhor Kodolfo Dal- 
gado ^ transcreve uká e translitera huMã, isto é, hukkã, pelo 
quê a ortografia portuguesa, se o nome é usado por portugueses 
na índia, tem de ser (li)acá. Em qualquer caso, o ditongo ou da 
primeira sílaba é inadmissível. O dicionário que cito na nota (*) 
declara ser vocábulo arábico, e aqui está a razão do hou-, reme- 
dado do francês por escritor insciente, mas cubiçoso de finjir que 
» sabe. Marcelo Devic, com efeito, traz o termo houca, deste modo 
definido: — «Pipe turque ou persane peu différente du narghilé 
(Littré). De Tarabe houqqct, ou si Ton veut du persan houqqa 
[a pronunciação diverje, sendo a persiana mais parecida com as 
europeias], vase, bocal, et spécialement: «the bottle through 
which the fumes pass when smoking tobacco » (Kichardson), le 
flacon oii passe la fumée du tabac avant d'arriver à la bouche 
du fumeur» — -. 

hulha, hulheira, hulheiro 

A palavra hulha é copiada do francês houiUe, de orijem 
incerta, como se pode ver em Stappers ^: é uma feliz adopção, 
pois, conquanto já tivéssemos a locução substantiva caevão de 
PEDRA, não poderia esta servir para expressar acepções especiais 
que tem hulha, nem produzir derivados necessários: — «A hulha 
liquida [água], quer provenha dos mares derretidos, quer das 
torrentes» — *. 



• DiCCIOXÁRiO KOMKANÍ-PORTUGUEZ, p. 525, Col. I. 

- DlCTlOXXAIRE ÉTYMOLOGIQUE 0ES MOTS d"ORIGIXE ORIEXTALB, 

Paris, 1876. 

3 DiCTioxNAiRB SYNOPTiQUB b"étvmoi-ogie fraxçaise, Paris, 
n.° 5802. 

* Diário DE Noticias, de 6 de outubro de 1903. 



536 Apostilas aos Dicio7iãrios Portugueses 



— «O fim das liulheiras [minas de carvão de pedra]» — '. 

— «Os jazigos hulheiros reconhecidos neste país» — ^. 



]iuri(a) 

Como já advertiu Dozj ^ com respeito ao castelhano, esta 
palavra passou às línguas da Península Hispânica por intermé- 
dio do francês houri, e assim muitos a escrevem cá, supondo 
injénuamente ser puríssimo árabe. O facto é que, em conformi- 
dade com o que nos dizem o mesmo Dozy e Marcelo Devic *, o 
árabe nauRA, que daria em português haura, ou melhor fourá, 
é o nome que dão a uma das mulheres do paraíso de Mafoma; 
o plural é hue. Deste plural fizeram os persas huei, acrescen- 
tando-lhe o suficso de unidade, e assim aumentado passou o vo- 
cábulo ao turco, regressando ao depois ao árabe, que lhe ajimtou 
o seu suficso próprio de unidade e, formando hurie, prenunciado 
huría, que é já a forma empregada nas Mil e uma noutes. 
Em português podemos pois escrever huri, ou huría. 



hurra 



Esta interjeição veio do francês hourra, para o português da 
gente fina, porque o povo a não conhece. Está muito em moda 
nas saudações e saúdes, em que é repetida com uma sensaboria 
cosmopolita, que produz tédio. Não creio que jamais venha a 
vulgarizar-se. 

Os franceses dizem que ela lhes veio da Kússia, não com o 
enjoativo caviar, mas provavelmente por intermédio das tropas 



1 2 o Economista, de 18 de julho de 1885. 

3 GlOSSAIRB DBS M0T8 ESPAGN0L8 ET P0RTUGAI8 DÍJRIVÉS DE 

l'arabe, Leida, 1869. 
•* op. cit. 



A2)ostilas aos Dicio7}ários Portugueses 537 



moscovitas que com os aliados entraram em França e chegaram 
até Paris, após o destronamento de Napoleão i. 

Existe de facto em russo a inteijeição to7'á, a que se dá como 
orijem a expressão exclamativa u rai, «no paraíso», étimo im- 
provável, visto que, exijindo a preposição u genetivo no nome 
que reje, a exclamação deveria ser u raia, e não, u rai, no 
acusativo. 

Como na palavra horda (q. v.), não é fácil de explicar a ini- 
cial h, que os franceses lhe acrescentaram e não soa, mas que os 
ingleses na realidade proferem. 

E claro que esta interjeição nada tem que ver com o subs- 
tantivo urro, do verbo urrar \ ul(u)lare (uri are \ urlar), 
urrar, por assimilação. Do verbo latino ululare talvez também 
proviesse, como forma diverjente, uivar, em castelhano aullar; 
cf. o francês hurler, que tem esta orijem. 



EMENDAS 



abismo 



Não é na versão grega do Velho Testamento, chamada dos 
Setenta, que o adjectivo ábussos, correspondente a inanis da 
Vulgata, está empregado. Nos Setenta o versículo citado reza 
assim: 'ê dè gê ên ábratos kai akataskeúastos. Encontra-se 
o dito vocábulo na versão Judaeo-Greco-Barbara, edição 
rara existente na universidade de Ocsónia, conforme o que se lê 
no erudito artigo Bible, da Penny-Cyclop^dia. 

Citei de memória, desatendendo o cordato conselho de Au- 
gusto Schleicher, isto é, o de se confrontarem sempre as citações 
antes que se mencionem; e quando reparei no erro já não era 
tempo de o remediar, por estar feita a tirajem da folha. Aqui 
fica emendado. 

A forma avisso, por abismo, do latira abyssus, figura num 
texto anterior ao' século xv, A visão de Tundalo '. 



acenha 

Dou aqui mais uma abonação antiga da prioridade da forma 
acena, em castelhano: — «e el camino adelante fasta naua de 
forcados e dende derecho ai acena desertida» — *. 

Cumpre advertir que na época a que pertence o trecho subsis- 
tia ainda a diferença entre p e ^ em castelhano. 



1 in «Revista Lusitana >, viii, p. 247. 

2 Júlio Puyol y Alonso, Una puebla en bl siglo xiii, in «Eevue 
Hispaniquo, xi, p. 257. • texto àdk puebla, ou < carta de povoação >. 



540 A^iostilas aos Dicionários Portugueses 



alcançar 

Conforme K. Menéndez Pidal ^ é a combinação, ou como lhe 
chama, fusão de incalceare, por adcalceare, de que resul- 
tou primeiro ancalçar, e depois alcançar, em virtude de raetá- 
tese entre o l e o n. Br forma incalceare proveio o substan- 
tivo rizotónico encalço, como o vemos na locução portuguesa 
ir no encalço de alguém, substantivo que pressupõe a existência 
de ura verbo encalçar, já rejistado por J. I. Roquete - em por- 
tuguês, mas que do mesmo modo existia em castelhano. 

alcorão, alminar, almenara 

Eis aqui uma abonação bem característica da palavra alcorão 
no sentido de «torre»: — «para o sul da barra principal, que 
chamam do Alcorão, por ra/ão de uma torre ou pirâmide alta 
que parece serve de divisa para conhecimento da barra» — ^. 

Os espanhóis chamam alminar, em português almenara, à 
torre da mezquita. V. Ortografia Nacional *, a propósito de 
minarete e almenara (q. v.). 

V. também dois artigos publicados na folha literária do jor- 
nal O Século pelo snr. David López, e um por mim, nos dias 
26 de março e 9 e 23 de abril deste ano. 

João Carvalho de Mascarenhas, na Nova descrição da ci- 
dade DE Argel (1621), chama-lhe simplesmente torre: — «Ha- 
verá dentro nesta cidade mais de cento e dez mezquitas bem 
lavradas, limpas, com suas alarapadas e esteiras. Entre as quaes 
ha oito grandes que tem suas torres mui altas» — . 



* Manual elbmental dm gramática histórica espanola, 
2.* edição, Madrid, 1905, p. 123. 

2 DiCTIONNAIRE PORTUGAIS-FRANÇAIS, Paris, 1855. 

3 António Francisco Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus, 
Lisboa, 1894, p. 158. 

* Lisboa, 1904, p. 224 e 334. 



Apostilas aos Dicio7)ários Portugueses 541 



alia, álea, aléa 

O Padre Manuel Bernárdez na «Descrição da cidade de Co- 
lumbo» (Ceilão) usa a forma alea: — «Em lugar de azemolas se 
servem de aleas. Alea é todo o elefante sem dentes, quer seja 
macho, quer seja feraea» — ^ 

Mas, çjdeve ler-se álea, ou aléa? 

alquilar 

J. Cornu deriva alquilar de elocare, mediante prolepse, ou 
resonáncia antecipada do l. De elocare veio com certeza alu- 
gar, com mudança do e inicial em a-, e sobre esta preferencia 
de a como inicial veja-se também do mesmo romanista a uti- 
líssima Grramática histórica portuguesa (Grammatik der portu- 
GiESiscHEx Sprache, íu « Gruudriss der romanischen Philolo- 
gie>, I, Strasburgo, 1906, páj. 980 e 949). 

alva 

Dá-se este nome a uma extensão grande de areal, poeirenta, 
no distrito de Leiria, Alva de Pataias. Esta freguesia é notável 
pela quantidade enorme de fornos de cal que ali trabalham '. 

bailadeira 

Eis aqui uma abonação clássica do vocábulo: — «não poucas 
bailadeiras que os Pagodes para este effeito [de solenidades re- 
lijiosas] sustentam» — ^. 



1 in BlBL. DE CLÁSSICOS PORTUGUEZES, vol. XLI, p. 79. 

* Informação do snr. Acácio de Paiva, natural de Leiria. 

3 Padre Manuel Bernárdez, < Descrição da cidade de Columbo >, in Bibl. 

DE CLÁSSICOS PORTUGUEZES, Vol. XLI, p. 107. 



542 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



bisalho (hiselho) 

A pájinas 151 apontei o vocábulo hiselho, com a respectiva 
abonação. Parece-me, porém, que há erro tipográfico, e que a 
forma verdadeira é bisalho, que Bluteau, no seu Vocabulaeio, 
definiu do modo seguinte: — «He um atado, em que vem da 
índia partida de diamantes brutos» — ■. A palavra figura em 
quási todos os dicionários portugueses, ora escrita com s, ora 
com ^, e está autorizada por muitos escritores nossos, entre os 
quais citarei aqui Bernardo Gómez de Brito, «Memorável rela- 
ção da nao Conceição», passim, e nomeadamente a pájinas 39 

(VOI. XLVII da BlBLIOTHEOA DE CLÁSSICOS POETUGUEZEs) : — « por- 

que naquella nao vinham infinitos diamantes, e todos muito bons, 
e os mais delles de roca velha. . . E por este respeito de haver 
muitos... empregaram os mercadores quanto dinheiro tinham 
nelles, mandando-os naquella nao, os quaes vinham entregues 
aos officiaes; elles os coseram consigo cuidando de os escapar, e 
desta maneira deram os mouros com elles, tomando ao piloto 
grande quantia de bisalhos mais que a todos» — . 



bruxa 

Em abono da hipótese que formulei de que haja relação entre 
o vocábulo hruxa e o verbo bruxulear, como denominações vul- 
gares dos fogos fátuos e do seu aspecto, aduzirei aqui um passo 
interessante da Etiópia oriental de frei João dos Santos: 
— «Ao longo do rio de Çofala e de Cuama se criam infinitos bi- 
chos como escaravelhos pequenos, cujo rabo lhe luz de noite 
como brasa viva, dos quaes também ha neste reino. p]stes, tanto 
que vem a noite, se levantam em bandos pelos ares, e são tantos, 
que alumiam quasi todo o ar, e fazem espanto a quem não tem 
notícia do que isto é, como eu sei que fizeram a certas pessoas 
estrangeiras nestas terras, uma noite escura que dormiram ao 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 54-3 



longo deste rio, as quaes fugiram cora raêdo para a povoação dos 
cafres, cuidando que eram feiticeiras» — *. 



bufo 



Ao que no competente lugar ficou dito acerca deste vocábulo, 
na acepção de indivíduo da polícia secreta, devo acrescentar que 
em germania, ou jíria castelhana, buho é sinónimo de soplón, 
«espião, malsim, denunciante». A forma antiga era hufo, exis- 
tindo também o verbo hufar, «denunciar, malsinar» -. 

Parece, portanto, que neste sentido o vocábulo terá orijem 
imediata castelhana. 

cacique 

— «o mundo acaba na primeira volta do caminho, em qual- 
quer aldeia sertaneja de cacique politico» — ^. 

E esta uma abonaçào do termo cacique, no seu sentido figu- 
rado, em português, e que nos proveio de Espanha, onde é fre- 
qiientes vezes empregado em tal acepção figurada. 



canutilho 

Sobre este vocábulo escreve-me o Prof. K. Menéndez Pidal, 
em 22 de março deste ano, o seguinte: — «Las palavras canuto, 
canutUJo, canutero, aunque están referidas en el Dicc. de la 
Academia á cafiuto, etc, son las formas hoy corrientes }' usadas 
por todos, de modo que las formas con n vienen quedando anti- 



1 (Lisboa, 1891), Livro i, cap. xxiii. A 1.* edição é de 1609. 

* Y. Kafael Salillas, El delixcuente espanol. lenguajb, Madrid, 
1890. 

3 JoRXAL DAS Colónias, de 3 de março de 1906. 



544 Apostilas aos Dicionários Portugueses 



cuadas en boca de gente vieja ó aldeana. Yo desde mi infância 
siempre oí como formas comentes las con w» — . 

A definição dada no texto cumpre acrescentar: <'de ouro, de 
prata » ; aos canudinhos de vidro dá-se de preferencia o nome de 
viãrilhos. 

Em Espana a palavra canutillo abranje todos esses significa- 
dos, segundo também me informa o mesmo douto romanista. 



chupão' 

O Novo DicoiONÁEio havia já rejistado este nome da cha- 
miné no Alentejo, como também próprio de Trás-os-Montes. 

Não resta a menor dúvida de que é igualmente conhecido o 
termo com tal significação no norte do reino, visto que essa 
acepção serve lá para metaforicamente designar o ramo do cas- 
tanheiro que cresce verticalmente, como se vê do seguinte passo: 

— «uma poda que [aos castanheiros] lhes tira todas as vergôn- 
teas nascidas no pé e ao longo do tronco, assim como os ramos 
mal situados e os que crescem a prumo (chupões), que absor- 
vem muita nutrição» — . (Gazeta das Aldeias, de 20 de maio 
de 1906). 

cigano, cigana 

As formas portuguesas deste nome étnico teem, sobre as 
demais usadas por outras nações, mesmo em relação à sua es- 
crita, a vantajem de ser as latinizadas, empregadas por autores 
que escreveram em latim, como vemos dos trechos seguintes: 

— «populos Egyptiacos ut vulgariter appellantur Ciganos ^»: 

— «multa Bilia similia officia et servitutis ministeria obeunt Cin- 



* Matias Corvino (1476), citado por P. Hunfalvy, na sua memória 
Etwas úbbr die ungarischbx zigbunbr, in Actes du huitième congrèá 
international des Orientalistes (1893), ii Partie, p. 113. 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 545 

gani et Cinganae» — . O segundo trecho é extraído da relação 
de um missionário italiano (1679) ^ 

A forma espanhola gitano, foi nsada em um texto castelhano 
do século xvii: — «si peco Moysen en matar á un Gritano» — -. 

E evidente que neste passo gitano quere dizer «ejípcio», e 
não, « cigano » . 

corpo-santo 

E interessante esta referencia ao fenómeno: — «no meio desta 
agonia e aflição nos apareceram umas candeinhas que todas foram 
vistas pelas vergas e mastros, e bordos da nao; ao que, segundo 
os mareantes, chamam o Corpo-Santo» — ^. 



duna 



Neste artigo interpretei a denominação toponímica, ordinaria- 
mente escrita Avel-o-mar, como sendo A-vê-lo-mar , o que já fi- 
zera na Oetogbafia Nacional *. O snr. Alberto da Cunha 
Sampaio, na sua erudita monografia As póvoas marítimas do 
NOETE DR Portugal, desfaz a minha conjectura, que se fun- 
dara naquella escrita usual, declarando: — «... Na ortografia 
de «Abre-mar» o erudito autor [José Fortes], abandonando a 
dos letrados « A-ver-o-mar » , ou «Avê-lo-mar », preferiu a lição 
do povo, que pronuncia do primeiro modo com o sentido claro 
de « Abra-do~mar » , angra ou barra »^ — '^. 

Fica assim feita a correcção, que não contende com a dou- 
trina do artigo. 



1 ih., p. 99. 

2 Ebvista Lusitana, viu, p. 204. 

3 Henrique Díaz, «Relação da viagem e naufrágio da nao Sam Paulo >, 

(1560), in BlBLIOTHECA DE CLÁSSICOS PORTUGUEZES, vol. XLII, p. 05. 

4 Lisboa, 1904, p. 210. 

5 in Portugália, ii, p. 214, nota 3. 

35 



546 Apostilas aos Dicionários Portugueses 

Além de medão, pode também usar-se medo (=médo), como 
fez Jerónimo de Mendoça, na sua « Jornada de África » — « e dei- 
xando mui depressa a cova, se subiu por uns medos de areia» — ^ 



gafo 

Um amigo da Estremadura espanhola, província de Badajoz, 
diz-me que é ali vulgar o vocábulo canafote, em vez do cas- 
telhano comum langosta ou saliamontes, para designar o ga- 
fanhoto ou saltão. No vocábulo estremenho deu-se pois ali a 
metátese das consoantes das duas primeiras sílabas, gahafote, 
por gaf anote, e ao depois a contaminação da palavra cana, 
«cana», era virtude da qual o g inicial passou a c. 

Neolojismos individuais são com certeza gafeirar e gafeira- 
ção no trecho seguinte: — «Pode vaccinar o resto do rebanho, 
[de gado laníjero] mas a vaccinação, ou, antes gafeiração tem 
quási tanto perigo como a doença natural [bexigas]. Ha todavia 
vantagem em gafeirar» — ^, 



gajo 

É natural que a forma gajo seja derivada, por indução 
errada, dess'outra forma gajão, que parece, mas não é, aumen- 
tativa, e está mais próssima de gachón; visto que no Brasil, con- 
forme o DiCCIONARIO DE VOCÁBULOS BEAZILEIEOS, do VizCOUde 

de Beaurepaire-Rohan, de onde passou para o Novo Dicc. a 
explicação, ela é — «titulo obsequioso de que usam os Ciganos 
para com pessoas extranhas á sua raça. Meu gajão equivale a 
meu senhor, ou cousa semelhante» — . 



1 in BlBL. DB CLÁSSICOS PORTUGUEZBS, VOl. XXXIX, p. 17. 

■^ Gazeta das Aldeias, de 3 de dezembro de 1905. 



índice alfabético e remissivo das furmas e dos vocábulos mencionados 
no texto do 1 volnme, referidos a cada epígrafe 



aa : v. asado 
abada : aba 
abada: aba 
abadejo : bacalhau 
abunar : abano 
abandonar : Estranjeirismos 
abeberar: arrasto; baforeira 
abibe : bisbis 
abotiliado : abozinado 
abrasoar : blasonar 
acaecer : caída 
acalentar: caída 
acaudelar: caudel 
aceite : cabide 
acerado: campa 
acharão : charão 
achavascado : charabaseo 
aço: campa 
acordar: decorar 
açorear: assorear 
adaião : daíão 
aduana: alfândega 
afastar : aleixar 



aíidalgado : apaniguado 
afogador: abafador 
afogar : abafar 
afunilado : abozinado 
-aga : arriol ; azinhaga 
agadanhar: gadanha 
agalujém : calambá 
agatanhar : gadanha 
aguado : água 
aguardente : água 
águia : arrelíquias 
águila: calambá 
aguista: água 
agumil : alfresse 
áibeto : agude 
aipo : ápeto 
aito : eito 

ajardinar : armazém 
ajoelhar: geolho 
ajuar: enxoval 
álamo, alameda: azinhaga 
aldeagar: aldeagante 
alcomonia: ferroba 
alfarroba: ferroba 
alfavaca: cobrinha 



548 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



alforje: forjoco 
alfurja: forjoco 
algoz : carrasco 
alguergue : arnó(s) 
alguidar: aljofaina 
alicerce: alfeça 
alraatrixa: alraandra 
almazém : armazém 
almeia: febra 
almeice: atabefe 
almeice: atabefe 
almotolia: aljofaina 
alótropo : homeótropo 
altesa: artesa 
aluguer: alquile 
alumiar: deslumbrar 
alva: camisa 
amasilho : artesa 
amicíssimo : docíssimo ' 
amortiguado : apaniguado 
ancho: cacho 
andoenças: endoenças 
aneiro : cada 
anjinho : alma-negra 
anta: dólraem 
anuduva : adua 
apanhador: chisca 
apara: fita 
aparador: aparar 
apertar: entregar 
Apocalipse: genesi 
apoquentar: bobo 
apupo: cuquiada 
aquecer: caída 
áquila: calambá 
aqíiista: aguísta 



-ária: faro 
areado: assorear 
areia: areísco 
arenito : areisco 
argola: armazém 
arma: armazém 
armazenar: armazém 
arquinha: arcainha 
arraia: achada; arrió(s) 
arraial, arraialeiro : arrió(s) 
arranjar: enjenãrar 
Arriaga: arrió(s) 
asa-de-môsca : cágado 
aspar: cabide 
assentodor: arrasto 
assuada: consoada 
assueto : arrenega 
astro, astroso : desastrado 
atacador : arrasto 
atambor: bétele 
atar: ápeto 
atenazar: atazanar 
áugua: êaugar 
auto : eito 
avalanche: alude 
averiguar: apaniguado 
avesso : envés 
avisso: abismo [Eiíiendas] 
avistar: entrevista 
avito: ancestral 
avó, avô : arrió(s) 
axi, axiaco : haji 
axorca: atabefe 
axuar: enxoval 
azarcão : atabefe 
azeirado : campa 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



549 



azevo, Azevedo : azevinho 
azinho : azinhaga 
azougar: avelar 
azougue : açougue 
Azoia: Furada 



bacalaiba: bacalhau 

bacharel : bacalhau 

baço : bubela 

báculo : bago 

Badajoz, Bodalhouce : aragoês 

badejo : bacalhau 

bogo : desastrado ; espiga 

bajular: baboujar 

balde (de) : baldo 

bangue: chambo 

baobab: embondeiro 

barata: carocha 

barba(s) : bigode ; canicinho 

baroque: barroco 

barraca: espera 

barranco : barroco 

barreirento: bombo 

barril: caneco 

bastarda : ginete 

bastos: saco 

batata: semilha 

batota : bilhafre 

bebedouro : arrasta 

Belcouce : alcouce 

beliche: câmara 

bem-aventurança : êaugar 

berjaçote : cotio 



berrão : bilhafre 

besco : bescate 

bêvebra : baforeira 

bibelot: brinco 

Bié : baruísta 

bilro : espirro 

biombo : bonzo, cágado, dáiraio 

biscainho : euscaldunac 

bisco : biscato 

biscouto : galheta 

bispo: bubela 

bobèche: aparadeira 

boccarra: cangarra 

bodega : adega 

bodum: faro 

bogalho : bogacho 

boémio: cigano 

bofetada : galheta 

botanga : chila 

bolacha: galheta 

bolota: bejoga 

bondoso : haplolojía 

bonzo: dáimio 

bordão : burro 

borracha: cauchu, cerne 

bote: batel 

botequim: adega 

bovina: chacina 

braga: calceta, canicinho 

bucal: buço 

buena: arrenega 

buhonero : fofarinheiro 

bujio : burro 

bule: chá 

bus: chus 

buz : bruços 



550 



Apostilas ao< Dicionários Portugueses 



cabaça: afogar 

cabana: cova 

cabano: cova 

cabeludo: deúdo 

cábillau: bacalhau 

cabo: caudel 

cachimbo : cachimba 

cacho : cauchu 

cachorro : burro, cacho 

caco: cacho 

caçoula: caço 

cadaneiro : aneiro, cada 

cadeia: calceta 

caiota: chila 

caipora: bruxa 

caixote : assobio 

çalamaleque : çambuço 

calambuco: calambá 

calão : baste 

calças: bragas 

calo: calão 

cambas: cantadoura 

camvê: azeite 

canastro : espiga, espigueiro 

cancela: escancarar 

cancro: escancarar 

candeia : facho 

candeeiro: castiçal 

canela : bacia ; cadelo ; escancarar 

cangalhas: gafo 

cangosta: congosta 

Cango-Ximá : bonzo 

canhamaço: belhó 

cânhamo : cánave 



caniço: canastro, espiga 

canivete : crabelina 

canoa: banheiro 

cantaria: areísca 

cão: burro 

caoutchouc: cauchu 

capa: coroca-, dáimio 

çapata : braga 

capitel: apanha; caudel 

cara: carranca 

caramol: clamor 

carapinteiro : algaravia, carabelina 

carcaça: canastro 

caranguejo: escancarar 

carapau: cherelo 

carcunda: calombo 

carda: aselajem 

cardeal: bacalhau 

cárdeo : avergoar, encardir 

cardir: encardir 

cargo: charola 

caridoso : bondoso 

carimbo : calombo 

carmear: carrapiço 

carpela : escar(a)pelar 

carrejar : acarrejar 

Cascais : Furada 

cassungo : almandrilha 

castanha: azinhaga 

castanhola: batata 

castão : gastão 

castelhano: aragoês 

casti(e)llo: caudel 

castro : citánia 

catana :"cágado 

cátaro : abafador 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



551 



cavalo : burro 
ca vide: cabide 
cacear: ciciar 
cedo : fèvera 
cega-rega: chucharrão: 
cemitério : arrenega 
cenário : decorar 
casta, cesto: bacio, espiga 
cevo : cibo 
chabancas: ciciar 
chada: achada 
chafurdo : carniceiro 
chalacear: caço 
chaleira: bui 
chama : achar, borabaça 
chaminé: bombaça 
chançarel : bacalhau 
chão: chana; diabo 
chapeleiro : guarda-sol 
chapéu : chara vasco 
chato : escaparate 
chavascal: charabasco 
chave: facha 

chavelho : apanha, cabeça 
chávena: chá 
cheda: cantadoura 
chefe : cacique 
cheio: deslumbrar 
cheirar: cheiro, faro 
cheiros: segurelha 
chicango : ensaca 
chícara: chá 
chicharrón : chucharrão 
chiqueiro : curral 
chisseiro : chicua 
chituredo : chicua 



chola: cacho 
chor: diabo 
chuchar: chacina 
, cidiídão : aldeão 
cidade: citánia 
cinzete : goma 
cipai : ensaca 
cirieiro: candeia 
cisco: chisca 
cividade: citánia 
chamante : falar 
claustro : crasto 
coador: arrasta 
coalhada: asada 
coba: chicua 
côcedra: colchão 
coco: carranca 
co.elho : colheira, diabo 
cofre: cova 
cognome : alcunha 
coireletro: cada 
coisa: aquela 
colgar: colcha 
comaca: cornaca 
comonia: ferroba 
compostouras : apanha 
conca: cunca 

concertar: consertar, févera 
conde: condessa 
confetti: confeito 
confesso, confissão : discrição 
considerar: bondoso 
consolamento : abafador 
constitucional : estatutário 
copejar : gotejar 
copo: câmara, cocho 



552 



Apostilas aos jpicionários Portugueses 



cor : decorar 

corbelha : golpelha 

cordão : carreirão 

cordeira : carapaça 

cordoeiro : bacalhau 

comicho: cabaça 

cornipo : galhipo 

coroca: bedem 

coser: besouro, cozinha 

cotovelo : côvado 

cotovia: corja 

condel : caudal 

cova: covo, doninha 

còvodo: côvado 

cozedra: colchão 

cozer: besouro, cozinha 

cramação : clamor 

cramol: clamor 

cravina : carabeUna 

crisada : cuquiada 

cristão : abafador 

crível: novel 

cuberto : cubrir 

cucuiada: cuquiada 

cuidoso : bondoso 

curadillo : avergoar, bacalhau 



dádiva: data 
debruçar-se : bruços 
declareza: comparança 
decoro: decorar 
dedal: besouro, bondoso 
defesa: charabasco 



deitar alonje : aleixar 
deixar: desdeixado 
dente, dentista : absentista 
derviche: daroês 
desabar: aba 
desaguar: êaugar 
descaída: caída 
descarregar: carregar 
descrição: discrição 
desenganado: desconfiado 
desengonçar : escancarar 
desesperado : desconfiado 
desesperançado : desconfiado 
desinfeliz: desastrado 
desinquieto : desastrado 
desmazelado : desastrado 
despojar : desbulhar 
desvanecido : desmaio 
deteúdo: deúdo 
diálogo : data 
diária: geira 
discordar: decorar 
dívida: data 
divido : daúdo 
doçaria: confeito 
doce: colchão 
dois : grou 
donzela: doninha 
dose : data 
dugá: avergoar 



êader : êaugar 
eagle-wood : calambá 



Aj)Ostllas aos Didonários Patiugneses 



553 



Eça: essa 

eguariça: asneira 

eiró(s) : arrió(s) 

eixo : apanha 

ejípcio: cigano 

ejitanato : cigano 

em : faiança 

em-ader : êaugar 

em-asprar : êaugar 

emborcar : borco 

embuçar: buço 

empipa: embondeiro 

empreita: espreitar 

encabeçadas: desmochar 

encarriçado : carriço 

encher: achar; cacho 

encinzeirado : acinzeirado 

encrave : enclave 

engadanhar: gadanha 

engalfinhar: gafa 

engalinhar: galinha 

engaranhado, engaranhido : gadanha 

engelhar : avelar 

engonço : escancarar 

engraxar: graxa 

ensogadura: cabeça 

enteiro: faro 

entrevado: arredar 

enveja : bojo ; grelha 

enxó: enxoval 

enxame : enxoval 

enxofre: enxoval 

enxoval : golpelha 

esbulhar: desbulhar 

escarnecer: caço 

escangalhar: canga 



escano : escamei 
escoitar: ascoitar 
escumalha: chucharrão 
esfera : hetera 
esfregar: estregar 
esgadanhar: gadanha 
esguiçar: escarçar 
esgatanhar: gadanha 
esgraminhar : ancinho 
esnoga: esmola 
espádua: espada 
espalda: espada 
espatela : espada 
espear : espar 
espelho: desastrado 
espera : apanha, arrasta 
espeteira: estanheira 
espigueiro: canastro, feno 
esquecido : falar 
esquerdo : arrió(s) 
estadoal: estatutário 
estanheira : casa 
estantígua: bruxa 
estatura: estatelado 
estrela: desastrado 
estro: desastrado 
exame: enxoval 
exército : enxoval 



fábrica: cantiga 
fabrico : escancarar 
facada: cuquiada 
facho : facha 



554 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



fada: cabaça, fado 

fagueiro : afagar, escada 

faia : fado 

faiante : fado 

falaises: arribas 

falda: espada; fralda 

falante : falar 

faltriqueira : fralda 

fangiíeiro : fungueiro 

farinha: cabeça 

favaca: alfavaca 

faxa : facha 

fecha, fecho: data 

feérico : ancestral 

íeijão : frade 

feixe : faxa 

felpudo: deúdo 

fêmea: deslumbrar 

fera: faro 

ferreiro : hereró 

ferro : campa 

févera : febra 

fevereiro : febra 

fiar: febra 

fibra : febra 

fidalgo : apaniguado ; bondoso 

filhó(s) : belhó(s) 

fístico : alfôstigo 

fiúza: desconfiado 

flamengo : escaparate 

fogo-fátuo : bruxa 

foguear: chupão 

fól(e)go: carregar 

folgar: carregar 

for: decorar 

frade : desastrado 



fragvieiro : fangueiro 
framengo : escaparate 
franganote : assobio 
frecheiro: brejo 
freixeal : azinhaga 
frente : esteira 
fresa : fragária 
fressura : forçura 
fome : dáimio 
funil : candeia 
furna: forno 
fuseola: gastão 
fuso : gastão 



G 



gaboná: bacalhau 

gado : ganadeiro 

gafanhoto : gafa 

gafas: gafa 

gafeira: gafa 

galdido: gualdido 

galfurro : gafa 

galinha: estou-fraca 

galiziano : galego, gereziano 

galo : frango 

gana: esganar 

ganhar: gadanha, ganadeiro 

garfo : gafa 

garimpa: gaiolo 

garra: garroteia 

garrote: garroteia 

gastar: cibo 

gato; burro; carapuça; gadanha 

gatum: car.vpuça 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



555 



geada : ge(i)o 
genro : enjendrar 
geoso : ge(i)o 
geral : familial 
gerar: enjendrar 
ginja: garrafa 
goela: golilha 
gogo : enjogar, godo 
goivo : enxoval 
gom : bacia 
goma-guta: cauchu 
gomil: bacia 
goraz: cibo 
grado: copo 
gradura: feijão 
gralho : desastrado 
gravateira : estojeira 
grei : clan ,freguês 
grés : areísca 
greve : arrenega 
Grijó : Grejó 
grilheta : braga, calceta 
grimpa: gaiolo 



grinalda : guirlanda 
grosso : gordo 
grude : desastrado 
guadanha: gadanha 
Guadiana: aragoês 
gualdir : arrió(s) 
guarda-roupa : cubrir 
guardar : Estranjeirismos 
guedelha: gadelha 
guilherme: alberto 
guinda, Guindais: garrafa, ginja 
guta-percha : cauchu : haji 



H 

hereo : adua 
herrero : hereró 
hervar: arovar 
hipoteca adega 
homem : deslumbrar 
(h)uivar: caluete 
Jiule: cauchu. 



ERRATAS ESSENCIAIS 



Pájina 


Linha 


Erro 


Correcção 


16 


12 


vocábulo 


vocábulo 


24 


19 


notabílissima 


notabilíssima 


30 


4 


existência 


existência 


> 


11 


incluiu 


incluiu 


> 


13 


daquella 


daquela 


65 


16 


fron 


from 


81 


24 


trompeta 


trombeta 


87 


11 


vintém 


vintém 


88 


23 


longe 


lonje 


91 


22 


arrenegada, 


arrenegada 


101 


18 , 


e passim, torquês 


turquês 


110 


19 


fruto e 


fruto, e 


138 


2 


vemos 


vemos 


143 


16 


trouxemo-la 


troussemo-la 


145 


21 


peor 


pior 


160 


11 


esse 


esse 


170 


última 


DiCTIONAIBE 


DiCTIONJÍAIEE 


171 


7 


quais 


quais 


173 


25 


coxa 


coixa 


184 


18 


arábica 


arábica 


185 


31 


Tangere 


Tánjere 



558 



AiJostilas aos Dicionários Porturjueses 



Pájina 


Linha 


Erro 


Correcção 


201 


31 


ABABE 


ÁRABE 


202 


13 


alqáhira 


alqafiira 


206 


16 


esse 


esse 


213 


21 


salgueiro) > — . 


salgueiro)». 


232 


30 


qni 


que 


233 


6 


cetim 


cetim 


237 


4 


iuglezes 


ingleses 


238 


2 


separadas 


separados 


246 


26 


u 


ou 


255 


23 


com 


como 


262 


3 


palavra 


palabra 


275 


18 


Coiri 


Cosi 


282 


19 


cappela 


cappella 


299 


22 


quer 


quere 


319 


9 


verga 


verga 


331 


5 


E termo 


É termo 


336 


2 


galináceos 


galináceos 


» 


32 


cotovêloa 


cotovelo, 


» 


33 


de um, 


de uma 


363 


8 


uimen para 


a uimen por 


368 


26 


artificial 


artificial 


378 


16 


contraido 


contraído 


382 


16 


Hastemann 


Hartmann 


» 


penúltima 


DiCTIONAIRE 


DiCTIONNAIEE 


407 


17 


Ignoro 


Ignoro 


411 


2 


espaldeiràda 


espaldeiràda 


415 


12 


particularisar 


particularizar 


416 


12 


quer 


quere 


417 


7 


latino 


latino. 


437 


4 


tamul 


tamil 



Apostilas aos Dicionários Portugueses 



559 



Pájina 


Linha 


Erro 


Correcção 


445 


3 


SEMÂNTICA 


SEMÂNTICA 


4ÕÕ 


3 


dois 


três 


465 


5 


Anna 


Ana 


470 


9 


desima 


designam 


471 


15 


dicionários 


dicionários 


472 


25 


t latino em r 


t latino em i 


476 


1 


filies 


filios 


477 


2 


era 


im 


483 


14 


porque 


por que 


505 


20 


menos, 


menos 


Õ21 


3 


ignoro-o 


iguoro-o ; 


524 


4 


Poruguesa; 


Portuguesa; 



\v 



PC Gonçalves Vianna, Aniceto 

5329 dos Reis 

G6 Apostilas aos 

t.l dicionários portugueses 



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