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Full text of "A provincia de S. Thomé e Príncipe e suas dependencias, ou, A salubridade e insalubridade relativa das provincias do Brazil, das colonias de Portugal e de outras nações da Europa"

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§ 




VIÁRIA ACADÉMICA 
SUBOn DA BÍL.VA 
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on War, Revolution, and Pei 











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A província 



DE 



S. THOMÉ E príncipe 



E 



SUAS DEPENDÊNCIAS 



00 



A SALliBRlDADE E iNSAlEBIUDADE RELATiTA DAS rfiOVUS DO BRAZIl, 
DAS COLÓNIAS DE PORTOGAl E DE OUTRAS NAÇÕES DA EOROPA 



«MIFORDUBWrtB 



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A província 



DE 



S. THOMÉ E príncipe 



K 



SUAS DEPENDÊNCIAS 



OU 



A SÂLUfiElDADE E INSÂLOBEIDADE RELATIVA DAS PROVÍNCIAS DO BRAZIL, 
DAS COLÓNIAS DE PORTDGAL E DE OUTRAS NAÇÕES DA EDROPA 



POH 



MANUEL FERREIRA RIBEIRO 

ledíco cirurgião pela escola do Porlo, 

farniutivo de i .^ classe do quadro de sande da províocia de S. Tbomé e Priodpe, 

sócio correspondente da sociedade das sciencias medias de Lisboa, 

sócio efectivo da sociedade de geograpbia de Lisboa, 

nedico da eipedi^io 

do caminbo de ferro de Ambaca, etc, etc., 



-^OxC&><C>- 



LISBOA 

IMPRENSA NACIONAL 

1877 



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Aos 



Illnslríssímos e Excellenlissíinos Senhores 







ii 



CcQselheiío d'Estado. Presidente do Conselho de Ministros, Ministro 
e Secretario d'Estado dos Negócios da Guerra 




ANTÓNIO RODRIGUES SAMPAIO 

Ministro e Secretario 'd'Estado dos Negócios do Reino 



JOÃO DE ANDRADE CORVO 

Conselheiro d'Estado. Ministro e Secretario d'Estado dos Negócios Estrangeiros 
e interino dos Negócios da Marinha e Ultramar 



Conigu doeste node o lei profiido igradeciaeito 



H. F. Ribeiro 



MAMA CARLOTA SIEUVE DE SEaUIER E RIBEIRO 



GoBO proTa de BiiU ledícaçâo e síicen aníude 



Oiferece 



O aaotor 



,A^ sna onnliada 



D. MÁTfííLDE SÍEUVE DE BEGUIER 



Como tfstemonho de gratidão e alta estima 



Offerece 



O anotor 



\ 



índice das principaes matérias 



CONTIDAS N^ESTE VOLUME 



Pig. 

PUBFACIO 

blTBODUCÇlo i 

GEOGRAPHU 

CAPITULO I 
DeBoripgão dos rios e logares prinolpaeB da otíata do mar de Qnin^ 

Cabo de Lopo Gonçalves i7 

Bahia de Lopo (jonçalves i8 

Rio do Gabáo 18 

Bahia do Corisco i9 

Cabo de S. Jofio 20 

Rio de S. Bento ÍO 

As ilhas portuguezas e a costa do Gabão « 21 

Rio do Campo 22 

Enleada do Pão da Nau ou Panavia 22 

Rio da Boroa 22 

Rio dos Camarões 23 

Pico Mongo-Ma-Lobah 25 

Bahia de Ambozes ou de Zambus (Ambas ou Amboíse) 26 

Rio de El-Rei 26 

Velho Calabar (Calbary, Dongo ou Oioné) 26 

Rio Done (Andoney ou António) 27 

Bahia de Boni ou de Obáne 27 

Rio Sombreiro 28 

Rio de S. Barthoiomeu, dos Maíras ou dos Três Irmãos 28 

Rio de Santa Barbara'. 29 

Rio de S. Nicolau 29 

Rio de S. Bento (St. John or Brass) 29 

Cabo Formoso 29 

Rio Niger ou^Quorra e o celebre delta que elie forma 29 

AfDiuentes do rio Níger, e os^seus braços principaes 33 

Rio Tchadd .' 34 



XII 

Pair. 

Dbiouliba ou Níger 36 

O delta do Níger e as ilhas de S. Thonié e Príncipe 37 

Grande mar interior ou lago de Tchadd 38 

Rio Formoso ou de Bením 39 

Rio da Lagoa ou Lagos , 39 

Badagry 40 

S. JoSo Baptista de Ajuda e o districto ou território corres|)ondentc 40 

Condições especiaes para o desembarque no porto de Ajuda 42 

Magestoso espectáculo que ofTerece o mar na costa de Ajuda 44 

Reino de Dahomé * • 46 

(Caminho de Ajuda até á capital de Dahomé 46 

Estações intermediarias entre o território de Ajuda e a capital de Dahomé 49 

Limites do golfo de Benim 53 

Limites do golfo dos Mafras f)3 

Mar de Guiné, zona equatorial que lhe corresponde e correntes que ali se obser- 
vam , 54 

CAPITULO n 

' Desoripção das ilhas do mar de Gninó, 

emuneração das terras que se acham sch o equador, e distinoçao 

entre ollma equatorial e tropical 

• 

I — Ilhas do mar de Guiné : 

Considerações 59 

i.** Ilhas altas: 

liba de Anno Bom 61 

ilha de S. Thomé 63 

ilha do Príncipe 66 

Ilha de Fernão do Pó 68 

2.<> Ilhas baixas : 

Ilha de Lopo Gonçalves 69 

Ilha do Corisco 69 

Elobey, Corisco Pequeno os dos Mosquitos 69 

Ilha Branca 70 

Ilha de Mondoleh 70 

Ilha de Curamo 70 

3.<> Quadros estatisticos-geographicos : 

Ilhas altas 7i 

Classificação dasjlhas altas 7i 

Ilhas baixas 72 

II — Enumeração das terras que se acham sob o equador: 

Considerações ; 73 

Africa equatorial 74 

America equatorial 75 

Oceania equatorial 75 

í.^ Africa equatorial': 

Ilha das Rolas. 75 

Margem esquerda do rio Gabão 76 



XIII 

Pag. 

Vasta região inexplorada desde o paiz de Okanda até ás terras altas ao 

occidente do sultanado de Zanzibar 76 

Pequeno estado denominado Juba 76 

Coinmunicação entre Moçambique e Angola 77 

2.^^ America equatorial : 

Considerações 81 

Albermale e as ilhas Galapagos 81 

Republica do equador 82 

Republica da Nova Granada 84 

Terrenos banhados por diíTerentcs aiiluentes da margem esquerda do rio 

Amazonas C 86 

Ilhas da foz do Amazonas 87 

3.* Oceania equatorial : 

Considerações 88 

Ilha Batoe, Mintáo, Battou ou Mentáo, e as ilhas a O. de Sumatra 90 

Ilha de Sumatra 90 

Ilha de Sumatra descripta por JoSo de Barros 95 

Jlha Linga e o archipelngo Riouw-Lingga 97 

Ilha Linga, segundo o diccionario de Larousse ^ 98 

Ilha do Borneo 99 

Ilha Celebes 102 

Tidore e o archipelago das Molucas « 107 

Ilha de Ternate 111 

Ilha Geilolo (Dgllolo ou Halmaheira) 114 

Amboino « 114 

Ilhas de Banda, por João de Barros 116 

Ilhas Molucas descriptas, por João de Barros e Diogo do Couto 118 

Ilha Waigiou e a Nova Guiné 120 

III — Dislincção entre clima equatorial e tropical: 

Considerações geraes 121 

Mappas comparativos de algumas classificações a respeito dos climas : 

1."* Systema das linhas Isolhermicas 124 

2.0 Classificação dos climas, segundo M. Levy 125 

3.** Melhor classificação para a ethnographia das emigrações, admil- 

lida pelo visconde de Paiva Manso 126 

4.<* Systema das linhas isolhermicas, segundo Jules Rochard 126 

5.** Divisão astronómica dos climas 127 

6.<' Systema mais simplificando segundo os graus de latitude 128 

CAPITULO m 

Principaes paizes oolonisadores do seonlo XIX, e emigração portugueza 

Portugal e suas colónias 129 

Colónias de Hespanha, clima geral, supertície, população e principaes producções 135 

Colónias de França, clima geral, superfície, população e principaes producções 141 

Protectorados de França, clima geral, superfície, populaçíío e productos principaes 143 

Colónias da Hollanda, clímai eral, superfície, população e principaes producções 153 



XIV 

Pap. 

Colónias inglezas, clima geral, superfície, pepahtçáo e productos principaes. . . . i59 

Opinião do conselheiro João de Andrade Corvo acerca da escravatura (Nota).. . 162 

Porto Natal — Algumas considerações acerca da colónia denominada Natal 172 
Estado livre ou republica do rio Orange — Algumas (X)nsi de rações acerca 

d'este estado 173 

Republica do Transvaal — Algumas considerações acerca d'esta republica.. . 174 
Colónias de Portugal, clima geral, superfície, população e principaes produc- 

ções 183 

Província de S. Thomé e Principc e suas dependências 212 

Província de Angola 213 

Directriz do caminho de ferro áê, Loanda ou Ambaca 239 

Descripção do território reconhecido 244 

Província de Moçambique 246 

Ilha de Moçambique 254 

Districlo de Moçambique 265 

Ibo 279 

Angoche 279 

Uuelimane 280 

Villa de S. Marçal de Sena 280 

Zimbo 281 

Spfalla 282 

Povoação de Inhacamba 283 

Porto de Sofalla 284 

Ilha de Chiloane 284 

Ilhas de Hazaruto , 285 

Inhambane 286 

Descripção da festa denominada Banja (Nota).. 292 

Bahia de Lourenço Marques 299 

Villa de Lourenço Marques 304 

Rio da Magaia ou Kíng's George River 310 

Rio de Inhampura, rio do Oiro ou rio Limpopo 313 

Importância de Lourenço Marques 314 

Estado da índia 315 

Ilhas de Goa 316 

Mappa demonstrativo da superfície e população do estado da índia 316 

Província de Macau e Timor 317 

Portugal, undécimo paiz da Europa, occupa o quarto logar como nação colonial 319 
Estatística coniparativa da superfície e população de Portugal com relação ás 
principaes nações da Europa, independentemente e comprehendendo as coló- 
nias, protectorados e territórios adjacentes 322 

Emigração para o Brazil ; . . . . 323 

Mappa das entradas de emigrantes no porto do Rio de Janeiro, nos annos de 

1864 a 1 873 325 

Resumo do movimento das entradas e saídas de emigrantes no porto do Rio de 

Janeiro, nos annos de 1864 a 1873 325 

Mappa dos emigrantes portuguezes, por províncias, desde 1870 a 1874 326 

Mappa dos emigrantes portuguezes, segundo as differentes localidades, desde 

1870 a 1874 326 



XV 

Pievincias do império do Brazil, clima geral, soperlicie, população e productos 

príncipaes • 3^ 

Província do Amazonas 328 

Província do Gran-Pará 328 

Província do MaranhSo 329 

Província do Piauhy 329 

Província do Ceará 330 

Provincia do Rio Grande do Norte 330 

Província de Parahyba 33Q 

Provincia de Pernambuco 330 

Provincia de Alagoas 331 

Provincia de Sergipe 331 

Provincia da Bahia 331 

Provincia do Espirito Santo 332 

Provincia do Rio de Janeiro : 332 

Município da Corte 332 

Provincia de S. Paulo 333 

Província do Paraná 333 

Provincia de Santa Catharina 333 

Provincia do Rio Grande do Sul 333 

Província de Minas Geraes 334 

Provincia de Goyaz 334 

Província de Mato Grosso 334 

Príncipaes productos que constituem a maior riqueza do império do Brazii 335 

Mappa das colónias estabelecidas no império do Brazii, desde 1812 até 1875 342 

IndiíTerença pelas nossas terras de alem-mar 343 

Africa portugueza como terra de degredados.. 347 

Receios infundados acerca do clima da nossa regiSo africana, dezoito vezes maior 

que a metrópole 349 

Mappa comparativo dos climas equatoríaes e tropicaes referidos ás províncias do 

Brazii e Africa portugueza 352 

CAPITULO IV 
Topograpbia da ilha de S. Thomó 

Aspecto geral da ilha 355 

Costa septentrional 358 

Costa Oicidental 361 

Costa meridional 363 

Pequena ilha das Rolas e costa fronteira da ilha de S. Thomé. 365 

Costa oriental 366 

Montes e cordilheiras 370 

Rios da ilha de S. Thomé 372 

Estatística geral das correntes de agua de maior nomeada 373 

Descripçáo de alguns rios e roças que lhe ficam proxitnas 379 

Cidade de S. Thomé 384 

Limites da cidade de S. Thomé 387 



XVI 

Pag. 

Ruas e travessas da cidade de S. Thoiiié 389 

Estatística dos prédios urbanos existentes na ilha de S. Thomé 394 

Mappa estatístico dos prédios urbanos da ilha de S. Thonié, referido aos livros 
da conservatória da mesma ilha, com designação da sua construcçáo, fregue- 

zias a que pertencem, posiçSo^ valor estimativo e possuidores 397 

Fortaleza de S. Sebastião e seus calabouços 402 

Estação militar no reducto de S. José 404 

Quartéis e deposito dos addidos 404 

Barracão-quartel e praças adjacentes 404 

Cadeia civil 405 

Calabouço da policia 409 

Villas ou principaes logares da ilha de S. Thomé 410 

CAPITULO V 
Roças e fazendas agrioolas 

Ucsumo das roças uu fazendas existentes na ilha de S. Thomé, classificadas por 
freguezias, segundo o registo da conservatória, nos annos de 1867 a 1872, di- 
vididas por grupos comprehendidos entre IrOOOiíOOO a 80:000^000 réis, 
100^000 a 1:000^000 réis e 10^000 a 100^000 réis 415 

Designação das roças ou fazendas existentes na ilha de S. Thomé, divididas por 
grupos comprehendidos entre l:OOOiíOOO a 80:<J00í000 réis, 100;íiOOO a 
1:000^000 réis e 10^000 a 100^000 réis, valor arbitrado por occasião do re- 
gisto na conservatória 416 

Mappa contendo o numero total das propriedades registadas na conservatória da 
ilha de S. Thomé, ;lesde a sua fundação até ao anno de 1872, com a designa- 
ção da natureza das mesmas propriedades, se estão livres ou hypothecadas, e 
seus respectivos valores 421 

Estatística dos maiores possuidores de roças ou fazendas existentes na ilha de 
S. Thomé, nos annos de 1869 a 1872 , 421 

Quantidades de café c cacau produzidos nas roças de Agua-lzé, Monte Café, Rio 
de Oiro e Bella Vista, e exportados pelos portos da ilha de S. Thomé, nos an- 
nos de 1869 a 1872. 422 

Exportação de café de diíTorentcs colónias portuguezas, nos annos de 1869 e 1876 423 

Numero de roças pertencentes ao estado, com designação das freguezias onde 
estão situadas 423 

Posição e orientação das roças pertencentes ao estado, com designação das quan- 
tias por que estão arrendadas 424 

CONSIDERAÇÕES PHVSIGAS E MORAES DOS HABITANTES 

DA ILBA DE S. THOHÉ 

CAPITULO VI í 

Meio sooial em qnc se vive e população ambulante 

Considerações geracs 431 

Alimentação dos habitantes 432 



XVII 

Pag. 

Alimentação popular 432 

Alimentação dos soldados 435 

Alimentação dos addidos 436 

Alimentação dos libertos 438 

Alimentação dos empregados públicos, dos negociantes e dos europeus em geral 438 

Vestuário dos habitantes 439 

Usos e costumes dos habitantes 440 

Um arraial na ilha de S. Thomé 44i 

Enterramentos 442 

Religião dos habitantes 442 

Estatistica dos servidores do estado com exercicio nas repartições publicas e em 

outros misteres, desde 1869 a 1872 445 

Numero de indivíduos que entraram na ilha de S. Thomé, desde 1868 a 1872 447 

Governadores que tem tido a província de S. Thomé, desde 1842 a 1872 448 

CAPITULO vn 

Navegação, oredito e oapitaes 

Relação das casas commerciaes existentes na ilha de S. Thomé, no anno de 1872 450 

Mappa demonstrativo da quantidade de café e cacau exportados da ilha de S. Tho- 
mé, nos annos de 1869 a J872, e seu valor no mercado 454 

Valores dos géneros importados e exportados pela alfandega de S. Thomé, nos 
annos de 1869 a 1876 456 

Direitos de importação e exportação cobrados na alfandega de S. Thomé, nos 
annos de 1869 a 1876 463 

Transferencia de fundos da alfandega de S. Thomé para o cofre da fazenda da 
provinda, nos annos de 1869 a 1876 470 

Numero de embarcações entradas no porto da ilha de S. Thomé, nos annos de 
1868 a 1876 471 

Media de duração das viagens de Lisboa a S. Thomé e de Loanda a S. Thomé, 
nos annos de 1870 a 1876, com designação da classe das embarcações ...... 472 

Embarcações entradas no porto da ilha de S. Thomé, nos annos de 1868 a 1876, 
com designação de classes, procedência e nacionalidades 473 

Distancia em kilometros, de porto a porto, entre Lisboa, ilhas da Madeira, S. Vi- 
cente, S. Tbiago, Príncipe e S. Thomé, Loanda e Rio de Janeiro 475 

Exportação dos géneros produzidos nas províncias ultramarinas, no anno de 1869 476 

Exportação dos géneros produzidos nas províncias ultramarinas, no anno de 1876 478 

Designação dos productos das colónias, que vieram para Lisboa, no anno de 1876 479 

Rendimentos públicos nos annos económicos de 1850-1851 e 1875-1876 481 

HYGIENE PUBLICA 

CAPITULO vni 

A oidade de S. Thomó em 1872 

Considerações a respeito do actual estado da cidade de S. Thomé 483 

Relatório da junta de saúde apresentado ao governador geral da província em 
24 de dezembro de 1862, acerca da insalubridade da cidade 484 

B 



XVUI 

Pag. 

Meios julgados mais apropriados para o saneamento da cidade de S. Thomé .... 489 
Parecer emittido pelo dr. Lúcio Augusto da Silva sobre o mesmo assumpto. . . . 401 
Enumeração de outras providencias mandadas adoptar e resultado obtido 492 

CAPITULO IX 
Melhoramentos 

Considerações geracs acerca dos melhoramentos de que é susceptivel a cidade 
de S. Thomé, dividindo-a para isso em três bairros, promovendo a abertura 
de passeios, largos, e ruas, aterros e dessecamento de pântanos e canalisaçâo 
do rio que atravessa a cidade • • 499 

CAPITUIO X 
Insalubridade relativa 

Opíniílo de diffcrentes escriptores acerca da insalubridade da provincia de S. Tho- 
mé 505 

lyiolestias mais frequentes, segundo a ordem descendente, nas colónias porlugue- 

zas, nosannosdc 1870 a 1873 .' 507 

Estatística dos doentes tratados nos hospilaes das diíTerentes cidades c villas das 

províncias ultramarinas, nos annos de 1870 e 1871 512 

Dita, referida aos annos de 1872 e 1873 513 

Classificação das cidades das colónias portuguezas, segundo as infecções palustre 

e necrohemica, doenças biliosas e cachexia, no anno de 1870 514 

Dita referida ao anno de 1871 515 

Dita referida ao anno de 1872 « 516 

Dita referida ao anno de 1873 517 

Classificação das colónias das principaes nações da Europa, segundo a sua popu- 
lação especifica por kílomctro quadrado 518 

Classificação das principaes nações da Europa, segundo a sua população especi- 
fica por kilometro quadrado 523 

Classificação das províncias do Brazil, segundo a sua população especifica por 
kilometro quadrado 523 

CAPITULO XI 

População geral e especifica da ilha de S. Thomé» 
e providencias hygienicas 

Estatística dos fogos existentes na ilha de S* Thomé, nos annos de 1859, 1867, 
1868, e 1871 a 1875 524 

Mappa demonstrativo dos óbitos nas diíTerentes freguezias da ilha de S. Thomé, 
por oíTeíto da moléstia de bexigas, nos mezes de novembro e dezembro de 
1864 e janeiro de 1865 525 

Estatística dos europeus existentes na ilha de Si Thomé> nos annos de 1859, 1867, 
1868 e 1871 e 1875 526 

Estatística dos africanos existentes na ilha de S. Thomé, nos annos de |859, 
1867, 1868,6 1871 a 1875....;.., i * ;...**. 527 



XIX 

Pag. 

Mappa demonstrativo dos europeus fallecidos na ilha de & Thomé, nos annos 
de 1864 a 1876, divididos por mezes e trimestres, e com designação de esta- 
dos, sexos, idades, condições e naturalidades 528 

Mappa demonstrativo dos individuos fallecidos na ilha de S. Thomé, nos annos 
de 1868 a 1875, com designação de idades, sexos, estados, condições e na- 
turalidades 530 

Estatistica dos nascimentos que houve na ilha de S. Thomé, nos annos de 1867 
a 1875..... 532 

Mappa dos individuos que entraram e saíram do porto da ilha de S. Thomé, 
nos annos de 1874 a 1876 533 

Mappa estatistico da ilha de S. Thomé, nos annos de 1874 e 1875 534 

Providencias hygienieas * 534 

FLORA PATUOLOGIGA 

CAPITULO XII 

Preliminares .^ 539 

Resumo das principaes moléstias observadas no hospital militar da ilha de S. Tho- 
mé, 6 numero de doentes curados e fallecidos no primeiro semesire de 1872 540 

Dito referido ao segundo semestre do mesmo anno 541 

Considerações sobre o mesmo assumpto 542 

Resumo comparativo da frequência das moléstias observadas no hospital militar 
da ilha de 8. Thomé, e da mortalidade relativa dos doentes em cada um dos 

mezes do anno de 1872 544 

Considerações sobre o mesmo assumpto 544 

Numero de doentes entrados no hospital militir da ilha de S. Thomé, no anno 

de 1872, segundo as classes a que pertencem 545 

Considerações sobre o mesmo assumpto 546 

Resumo do movimento dos doentes no hospital militar da ilha de S. Ttiomé c 

. das principaes doenças ali obsenadns no anno de 1872 547 

Disposição segundo a ordem alphabetíca das doenças 551 

Distribuição segundo o maior numero de doentes 552 

Distribuição segundo a maior mortalidade relativa 553 

Resumo das principaes moléstias observadas no hospital militar da ilha de 8. Tho- 
mé em cada trimestre do anno de 1872 .* 554 

Mappa necrologica do hospital militar dA ilha de S. Thomé no anno de 1872 556 

Considerações sobre o mesmo assumpto 558 

HISTORIA iNATURAL 

Preliminares 563 

CAPITULO XIII 
Heino minorai 

Turfa^ cal, pedra, óleo mhicrai, mercúrio, manganez, sai, etc « 564 



XX 



CAPITULO XIV 

Reino vegetal 
I — Madeiras: Pap- 

Príncipaes madeiras de que ha conhecimento - 569 

Arvores que, tendo propriedades singulares, sâo mais ou menos importantes, 

podendo parte d'ellas ser empregadas em cons tracções 577 

Trepadeiras ou cordas de que ha conhecimento, entre as quaes existe uma 
que deve ser considerada uma das maravilhas do reino vegetal em 

S. Thomé 580 

Cnsto das madeiras no mercado de Lisboa, com designação do peso, quali- 
dades, dimensões e príncipaes applicações 584 

Custo das madeiras no mercado da ilha de S. Thomé, nos annos de 1873 

a 1876 586 

II — Fructas: 

Príncipaes fractas de que ha conhecimento, nativas e aclimadas 587 

III — Raizes alimentícias, hoataliças e condimentos. Espécies aromáticas. Yege- 
taes diversos : 

Raizes alimentícias 591 

Hortaliças , 59 1 

Condimentos, espécies aromáticas, vegetaes diversos 591 

IV — Drogas medicinaes : 

Varías drogas, agentes pharmacologicos e substancias que se reputam medi- 
camentos na ilha de S. Thomé 592 

V — Productos naturaes e de industría agrícola e fabril da ilha de S. Thomé: 

Prodnctos do coqueiro. 598 

Productos da palmeira 600 

Productos da izaquente 601 

Productos da arvore íructa-pão 601 

Productos do cajueiro 602 

VI — Comparação entre as dífferentes epochas no progresso agrícola c commer- 
cial da ilha de S. Thomé: 
Prodnctos da província de S. Thomé e Príncipe que figuraram na exposiç^ 

universal de Londres : 604 

Madeiras, productos naturaes e de industria agrícola e fabril das ilhas de 

S. Thomé e Príncipe no anno de 1861 < 605 

Ditos referidos ao anno de 1865 606 

Exportadores de artigos coloniaes da ilha de S. Thomé, nos annos de 1872 
e 1874 608 

CAPITULO XV 

Reino animal 
l.« Serie — Animaes vertebrados : 

Mammiferos 600 

Aves 610 

Reptis 61i 

Batrachios ou amphibios 612 

Peixes * 612 



XXI 

Pag. 

2.* Serie — Animaes articulados: 

Insectos 6i4 

Myriapodos 6IÒ 

Arachnides. 615 

Crustáceos 615 

3.« Serie — Molluscos: 

Cephalopodos 615 

Gasteropodos 6i5 

Acephalos 615 

4.» Serie — Radiarios: 

Eslrellas do mar e esponjas 615 

Consideraç(3es geraes sobre a conveniência de se proceder rigorosamente aos ne- 
cessários estudos sobre este assumpto • • 616 

CAPITULO XVI 

Reino hominal 

Considerações geraes -. . .^ 619 

Origem do homem 626 

Doutrina de L. Agassiz; Iheorias de Darwin e outros naturalistas; exame critico. 

Unidade do género humano 627 

Dispersão e formação das raças; sua reuniSo nas planícies banhadas pelo Tigre 

e Euphrates 632 

Caracteres distinclivos e exclusivos do reino hominal 634 

METEOROLOGIA E CLIMATOLOGIA 

Preliminares 637 

CAPITULO XVII 

Meteorologia 

Considerações geraes 638 

Media das observações meteorológicas em março, abril e maio de 1872 639 

Ditas dos mezes de junho, julho e agosto de 1872 639 

Ditas dos mezes de setembro, outubro e novembro de 1872 640 

Ditas dos mezes de dezembro de 1872, e janeiro e fevereiro ile 1873 641 

Ditas dos mezes de março, abril e maio de 1873 643 

Ditas dos mezes de junho, julho e agosto de 1873 644 

Medias do primeiro semestre meteorológico de 1874 645 

Medias do anno meteorológico de 1874 646 

Anno meteorológico do l."* de dezembro de 1874 a 30 de novembro de 1875.. . 648 

Coniparaçáo da meteorologia d'este anno com a do anno anterior 649 

Primeiro semestre do anno meteorológico do 1876 650 

CAPITULO xvm 

Climatologia 

Considerações geraes 651 

Resumo das observações meteorológicas no anno de 1858 652 



XXII 

Pag. 

Media das décadas dos mezes de 1858 6^3 

Numero de ventos que sopraram para a cidade de S. Thomé no anno de 1858 654 
Resumo dos ventos que se observaram por décadas de cada mcz^ no segundo, 
terceiro e quarto trimestre d oanno de 1858 : 

Segundo trimestre 654 

Terceiro trimestre 655 

Quarto trimestre 656 

Resumo das observações meteorológicas, por mezes, no anno de 1872 657 

Numero de ventos que sopraram para a cidade de S. Thomé no anno de 4872 659 
Resumo dos ventos que se observaram por décadas em cada mez, no anno de 

1872 660 

Quadra das ventanias no anno de 1872 662 

Quadra das chuvas no anno de 1872 663 

Mappa contendo o numero de vezes que os ventos sopraram de noite para a ci- 
dade de S. Thomé, de março a dezembro de 1872 ' 604 

Resumo das observações meteorológicas no anno de 1873 667 

Media das décadas dos mezes do anno de 1873 668 

Ventos que sopraram para a cidade de S. Thomé no anno de 1873 669 

Resumo dos ventos que se observaram por décadas de cada mez do anno de 1873 : 

Primeiro trimestre ; 670 

Segundo trimestre *..«... 671 

Terceiro trimestre 672 

Quarto trimestre 672 

Resumo das observações meteorológicas no anno de 1874 673 

Media das décadas dos mezes do anno de 1874 674 

Ventos que sopraram para a cidade de S. ThonlS no anno de 1874 675 

Resumo dos ventos que se observaram por décadas de cada mez do anno de 1874 : 

Primeiro trimestre 675 

Segundo trimestre 676 

Terceiro trimestre. 676 

Quarto trimestre 677 

Resumo das observações meteorológicas no annos de 1875 678 

Media das décadas dos mezes do anno de 1875 679 

Ventos que sopraram para a cidade de S. Thomé no anno de 1875 680 

Resumo dos ventos que se observaram por décadas de cada mez do anno de 1875 : 

Primeiro trimestre 680 

Segundo trimestre 681 

Terceiro trimestre 681 

Quarto trimestre 682 

Resumo das observações meteorológicas no anno de 1876 684 

Media das décadas dos mezes do anno de 1876 685 

Ventos que sopraram para a cidade de S. Thomé no anno de 1876 686 

Resumo dos ventos que se observaram por décadas de cada mez do anno de 1876 : 

Primeiro trimestre 686 

Segundo trimestre 687 

Terceiro trimestre 687 

Quarto trimestre ,...,, 68y 



XXIII 

CAPITULO XIX 

Olima da oidade da ilba de S. Thomó P^g. 

Clima local 689 

Maior e menor pressão atmospherica, temperatura e humidade, e maior quanti- 
dade de cliuva, observadas desde abril a novembro de 1858 690 

Maior e menor pressão atmospherica, temperatura e humidade, e maior quanti- 
dade de chuva, obser\'adas desde março a dezembro de 1872 693 

Maior c menor pressão atmospherica, temperatura e humidade, e maior quanti- 
dade de chuva, observadas no anno de 1873 69-i 

Maior e menor pressão atmospherica, temperatura e humidade, e maior quanti- 
dade de chuva, observadas no anno de 1874 697 

Maior e menor pressão atmospherica, temperatura e humidade, e maior quanti- 
dade de chuva, observadas no anno de 1875 700 

Maior e menor pressão atmospherica, temperatura e humidade, e maior quanti- 
dade de chuva, observadas no anno de 1876 ^. 703 



Relação das estampas, indicando as paginas a qae se referem 

Provlnoia de Angola 

Pag. 

Colónia de S. João. Vista da habitação do lado oriental 230 

Rua de mangueiras e jaroboeiros, na fazenda S. JoSo, em Angola 230 

Rua de palmeiras na fazenda Prototypo i3i 

V i5ta da villa do Dondo, na margem direita do no Quanza 23i 

Fazenda Bom Jesus, na margem do rio Quanza 234 

Vista da cidade de Loanda (parte baixa) • 23r> 

Provlnoia de Moçambique 

Vi>ta de uma parte da cidade do lado do porio entre a praia da Alfandega até á praia de S. Juflo :í30 

Largo da União^ vulgo Pelourinho 257 

Roa nova do Conselheiro Leal, em 1875 257 

l^rgo de S. Paulo, em 1875 23» 

Ponte da alfandega, em 1873 '. . . 261 

Habitação dos herdeiros do brigadeiro Cândido da Gosta Soares, na Cabaceira Grande 267 

Palmar na (K)Dta do Morangal 267 

Palmeira brava e uma mulambeira, na Cabaceira Grande. 267 

Casa de campo de Rita Alves, em Migorine 271 

Habitação do cidadão José Militão Nunes, na villa de Quelimane 28(* 

Habitação do cidadão Manuel Vellozo da Rocha, na villa de Quelimane 28(i 

Inhambane 

igreja de Nossa Senhora da Conceição, cm Inhambane, o parle da praça (Baluarte de S. Rodrigo) 28U 

Provlnoia de S. Thomó 

Foz do rio Agua Abbade 368 

Vista da praia chamada Ribeira, onde desagua o rio que serve de limite entre a freguezia de SantAnna 

e a dos Angolares, e onde terminam as terras da fazenda Alto Douro, pelo lado do mar 36i^ 

Catarata Blubu, do rio Agua Grande, 4 kilometros distante da cidade. 380 

Vista do rio Agua Abbade, a pouca distancia da foz, na ilha de S. Thomé. Lavandeiras da fazenda 

Agua-lzé 382 

Rio e bahia da praça Rei o habitação da fazenda Agua-lzé, 12 kilonletros distante da cidade 383 

Uma vista da cidade de S. Thomé, tirada de cima da torre da Sé 394 



Mappa medico>geographico da região Guineana equatorial, na qual se comprehende a proviacia de S. Thomé 
e Principe e suas dependências. 



ERRATAS 



Vaf. Lin. Erro» Ememlas 



:« 


41 


confluentes 




forrenles 


'229 


3« 


Angnsto 




Angelo 


rm 


j 


A imporUncia pratica da liisloria 
pois que 


natural. 


A imiwrtancia pratica da historia natural é 
manifesta, pois que 


56i 


^2 


Maçam brá 




Maçam brará 


1)65 


14 oi5 


os vcgplacs c ns aniniaos. 




(IS vegetaes, os animaes e os homens. 


r>67 


24 


mossadA 




mossandá 


569 


3i 


sapi 




saU 


569 


32 


muanduni 




moandim 


570 


23 


Thorabinthccas 




Therebiuthaceas 


57! 


i8 


Miniosca giganUsca 




Mimosa gigantesca 


572 


32 


boabah 




boabab 


573 


36 a 38 


2.* A montanhosa, comprehend(*ndo Uliccs, 


2.* A montanhosa, couiprehendendo felins, 






orchidca%, elacis. (Lorantando em 


700 me- 


orchideas, elacis, gwnemis, florestas passa- 






tros seguindo \wr uns 250 kilom^lros a con- 


geiras de plantas herbáceas, ele. (Ltrvanta-se 






tar da primeira Gunicnsií:, florestas passa- 


em 700 metros seguidos por uns 250 kilonie- 






geiras do plantas herbáceas, etc.) 




tros a contar da primeira.) 


575 


lo2 


cuja dcscri|>ç3n enthnsiastica fez o ra}iitão 


quo justifica a enthusiastica doscripc.lo 










que d'elia fez o capitAo 




15 


queime 




quimc 


577 


33 


Jara 




Java 


577 


37 


alligiana 




artigiana 


577 


38 


omcricus 




quercus 


579 


C 


occobis 




nccolÍ5 


579 


11 


Queime 




Quime 



Omillimos outras emendas por serem de fácil perc(.«pçAo, lastimando que uma commissão de serviço nos 
obrigasse a partir rapidamente para a provincia do Angola, sem rcvermos este trabalho com o devido escrú- 
pulo. A pessoa encarregada da continuação da obra. desejando, como era natural, corresponder á nossa con- 
fiança, teve graves embaraços, sendo o principal a irregularidade das copias rcmcltidas para a imprensa, que 
nilo podemos corrigir a tempo opitorluno. Dadas osl.is explicarõps, rs|)eràmos ser relevado de qualquer fall.i 
que appareça. 



PREFACIO 



Nao nos propomos fallar das vantagens que este livro pode 
offerecer em relação ás nossas províncias ultramarinas, nem do 
fim para que o publicamos, pois que a melhor explicação está no 
próprio livro. Algumas circumstancias ha, todavia, que julgámos 
dever apresentar perante os que assignaram ou leram o prospe- 
cto elaborado ao principiar a publicação d'esta obra. 

Por motivos que não vem a propósito narrar, mas de que nos 
oc€uparemos largamente em occasião opportuna, resolvemos es- 
tudar as Uhas de S. Thomé e Prindpe, apenas ali desembarcá- 
mos. O nosso primeiro trabalho serviu de base ao relatório da 
junta de saúde publica da respectiva provincia, e foi impresso 
em 1871. Não passou de um ligeiro ensaio; mas ali ficou desde 
então lançado o delineamento geral d'este livro, cuja publicação 
desejávamos realisar antes de concluir o tempo de serviço que, 
como aspirante a facultativo do ultramar, nos obrigámos a pres- 
tar na provincia em cujo quadro de saúde fomos admittido. 

Durante a nossa residência nas ilhas de S. Thomé e Príncipe, 
estudámos a topographia das suas diversas localidades e olhámos 
sempre com interesse para as culturas das roças ou fazendas que 
ali se encontram. Não nos passava despercebido alem d'i§so tanto 



XXVI 

o que dizia respeito aos habitantes, como o que se referia ao 
conimercio, á saúde publica, ás doenças e ao clima. Era vaslo o 
campo da nossa observação e, para maior facilidade do estudo, 
adoptámos desde o principio as seguintes divisões geraes : geo- 
graphia, condições physicas e motaes dos habitantes, hygiene pu- 
blica, hospitaes e pharmacias, flora pathologica, estatística e, final- 
mente, apontamentos para a historia geral da provinda. 

Todos estes assumptos nos pareciam dignos de se divulgarem, 
o que poderia fazer-se em folhetos, em vários opúsculos ou n um 
único livro: adoptámos, porém, como mais conveniente, esle ultimo 
meio de publicação, e por isso mesmo dissemos no respectivo 
prospecto : 

O livro que vae dar-se á estampa comprehende informações tõo 
exactas quanto minuciosas sobre o commercio, agricultura e salu- 
bridade da provinda de S. Thomé e Principe. Servirá de guia 
segura e indispensável a todos aquelles que desejarem conhecer 
tão útil possessão de alem-mar, ou a ella se acham ligados por 
algíim interesse ou relações de qualquer ordem. Reuniram-se neste 
livro CLSsumptos que encheriam duzentas paginas cada um. Muito 
de industria se procedeu assim. Tratava-se de uma região equatorial, 
e onde, a par de grande fertilidade, está um clima quente sob o 
qual se requerem midados que não se têem muitas vezes, com grave 
prejuizo de saúde, por se desconhecerem. 

Um trabalho d'esta ordem não podia deixar de ser muito com- 
plexo, e para se tornar mais profícuo era forçoso que comprehen- 
desse algumas noticias das ilhas mais próximas ás nossas e dos 
rios e logares principaes da costa do continente da Africa que 
lhes defronta. Representam todas estas terras uma diminutíssima 
fracção da zona equinoccial africana, contendo de certo os logares 
mais insalubres do mundo, como os do delta do rio Niger, as 
fpargens do rio Benim, etc, 



XXVII 

As regiões equatoriaes da America e da Oceania, justo é dizer- 
se, lambem sfio geralmente desconhecidas entre nós. Havia por- 
tanto grande vantagem em poderem comparar-se os principaes 
paizes que demoram sob a linha equinoccial e estão nas mesmas 
condições de latitude em que se encontra a nossa provincia gui- 
neana, região equatorial a que mais particularmente dedicávamos 
a nossa altenção. 

Mas se por esle lado era preciso colligir os elementos mais 
adequados para provar que a provincia de S. Thomó, pela fer- 
tilidade do seu terreno, tem mais importância do que se julga, 
attenta a sua área tao limitada, por outro convinha mostrar que 
as terras portuguezas do ultramar nâo têem menor valia do que as 
possessões das outras nações da Europa, se bem que as nossas estão 
dentro dos trópicos ou são todas equatoriaes, como observa G. Vo- 
gel, achando n'isso motivo de inferioridade para ellas, 

E grave similhante questão, e não deve discutir-se sem fados, 
demonstrações rigorosas e provas bem documentadas. E esle o 
objecto do capitulo m, o qual de per si só encerra mais de duzentos 
paginas e em alguns pontos ainda assim não satisfaz ao nosso 
desejo. Ficam todavia lançadas as bases para um trabalho mais 
completo e que poderá sair a lume em livro separado. 

Tendo em vista este assumpto, entendemos que o titulo com 
que primitivamente foi annunciada a obra : A provincia de S. Tho- 
mé e Principe e suas dependências devia ser ampliado com o se- 
guinte: A salubridade e insalubridade relativa das provindas do 
Br azil,, das colónias de Portugal e de outras nações da Europa, 
porque d'este modo se manifesta melhor o nosso pensamento a res- 
peito de certas circumstancias da provincia de que tratamos. 

Do que levamos dito se conclue que ab initio não dispozera- 
mos as cousas para dividir este 1í\to em diíferentes volumes, e 
julgávamos até, coroo no prospecto se declarou, que não excede" 



XXVIII 

ria seiscentas paginas do impressão. Não ora seguro oslo ciílciilo, o 
mais tarde vimo-nos embaraçados para mo exceder os limites 
que tinhamos projectado. 

Não obstante todas as difficuldades, a imj)ressão proseguia e, 
somente quando estava quasi em meio, é que podemos conven- 
cer-nos de que não era possivçl reunir-se n'um s() volume, sem o 
tornar muito incommodo, todo o trabalho que tencionávamos dar 
á luz da publicidade. 

Acrescia alem d'isto igualmente grande excesso de despeza 
com a edição, o que nunca é para desattender. 

Urgia, portanto, sair de similhante embaraço, pois que, qual- 
quer adiamento, seria muito prejudicial, não só porque nos cum- 
pria acompanhar a expedição do caminho do ferro de Ambaca, 
junto a qual haviamos sido nomeado medico, como também por- 
que deviamos evitar a diíTicil posição em que estávamos para 
com as pessoas que nos haviam coadjuvado n'esta publicação. 
Tratámos, pois, de resumir o . trabalho, tendo sempre em mira 
conservar o plano fundamental da obra e não sacrificar as maté- 
rias de cada uma das principaes divisões. 

A tarefa tomou-se muito espinhosa e, se não Tosse o expe- 
diente a que nos soccorremos, não chegaríamos com facilidade a 
bom resultado. 

Coadjuvado por um zeloso empregado da imprensa nacional, 
calculou-se, á vista do manuscjipto, o numero de jiaginas que este 
produziria, e sobre tal base escolhemos o que nos pareceu har- 
monisar-se mais com o delineamento geral que se adoptara. 

Supprimiram-se em algumas secções geraes os capitulos que 
se reputavam secundários, e n'outros refundiu-se de novo o as- 
sumpto. Mas ainda assim não era possivcl realisar o nosso in- 
tento, porque havia capítulos extensos que mal podiam ser modi- 
ficados. 



XXIX 

EUminon-se parte da carta medico-yeograpkica da ilha de 
S. Thomè, e, coino n'ella se inscreviam differentes fazendas agrí- 
colas, ficaram estas também excluidas. Alguns mappas estatisticos 
nao tiveram cabimento, assim como a descripção da nossa pro- 
vincia do Minbo, que deveria ser apresentada como termo de com- 
paração. Vimo-nos igualmente forçados a reduzir algumas ques- 
tões medico-hygicnicas e muito especialmente as que diziam res- 
peito a hospitaes, pharmacias e tratamento das doenças endémicas 
da ilha de S. Thomé. Não ficou de certo prejudicada a parte do 
livro refrente á salubridade, e a obra conserva, a nosso ver, tão 
boa ordem como se não houvesse taes suppressões. 

Attendeu-se, como no prospecto se promettêra, ao que se refe- 
ria ao commerdo, agricultura e salubridade, não só da provincia 
de S. Thomé e Principe, como também de todas as nossas pro- 
víncias de alem-mar, comparando-as com as das outras nações 
colonisadoras do século xix. 

Dispostos definitivamente os assumptos que deviam entrar 
n'este trabalho, restava tomar em consideração os panoramas, 
paizagens e habitações que deviam animar um escripto cuja lei- 
tura é quasi sempre muito árida. Não era fácil a escolha, porque, 
a par das bellezas naturaes de cada uma das nossas províncias 
do ultramar, ha a grande variedade de plantações de differentes 
géneros. 

Entre as gravuras conservaram-sc as que nos pareceram mais 
adequadas, e retiraram-se, apesar de já estar etn impressas, as que 
podiam ser reunidas n'outro volume, completamente independente 
d'este, tendo por objecto principal a descripção das roças ou fa- 
zendas da ilha, c de tudo o que possa comprovar a importância 
d'esta possessão portugueza no ultramar. 

lUustram esta obia vinte e quatro gravuras, e um mappa, sen- 
do algumas das gravuras relativas ás províncias de Angola e Mo- 



XXX 

« 

çambique, e pena 6 nao ser possível accrescenlar aqiiellas em que 
brilham os panoramas da nossa pittoresca província do Minho. 

Poderia comparar-sc d'este modo as paizagens, e assim se 
mostraria que sob o sol abrazador do equador, na chamada zona 
tórrida, ha vegetação virente, alegres habitações campestres, 
logares agradáveis e quadros tao animadores como os da mais 
risonha e amena província que possuímos no continente europeu. 

Esperamos todavia satisfazer este intento, se dermos á estam- 
pa a parte do trabalho que nao poude ser impressa n'este volume. 
A publicação não se demorará, se estes estudos forem favoravel- 
mente acolhidos por todos aquelles que se interessam pelas nossas 
províncias uhramarinas. 

Não ajuntamos, como era natural, uma nota bibliographica das 
obras que mais especialmente foram consultadas para a coorde- 
nação d'este trabalho; mencionamos, porém, os nomes dos au- 
ctores dos livros a que nos soccorremos, e apontamos vários escla- 
recimentos publicados sobre o assumpto de que nos occupâmos. 

Cumpre-nos taníbem dizer que, seguindo esta publicação com 
a possível brevidade, não poude concluir-se no praso de tempo 
que se havia calculado. Foi causa disso não só a demora das 
gravuras, como muitas outras dífliculdades alheias á nossa vontade. 

No meio de todas estas contrariedades não nos poupámos a 
sacrifícios para que as pessoas que nos distinguiram com a sua 
assignatura ficassem com uma obra em harmonia com o respe- 
ctivo prospecto, que antecedenteinenfe publicámos. Não foi, por- 
tanto, illudida a sua confiança nem desmerecida a suft protecção* 

Se n'este novo Ensaio hfedico-Estaíklico sobre as nossas pro- 
viticias do ullramarj conseguimos, ou não, ser ulil aos que dese- 
jam conhecer tão importantes regiões, não nos é possível dízel-o; 
08 leitores são os juízes competentes, e do seu veridictum tirare- 
mos fecundo ensinamento. 



XXXI 

Seja-nos permittido esperar que continuaremos a encontrar 
apoio c protecção efficaz para proseguirmos nas observações e 
apresentar provas e argumentos irrecusáveis, demonstrando que 
as nossas províncias ultramarinas não são apenas factourieres ou 
comploin de commerce, staíions maritimes plutôt que colonies 
dans le $ens propre du mot. 

Repetem-SG estas palavras nas publicações francezas, e os 
mappas geographicos são geralmente a reproducção de taes affir- 
matívas. 

Protestaremos sempre contra tão flagrante injustiça, e diremos 
bem alto que as nossas provincias do ultramar valem tanto como 
as das outras nações colonisadores do século actual. E verdade 
que não havemos di\iilgado a natureza dos climas equatoriaes 
sob que temos vivido, nem publicamos a sua flora pathologica, 
mas ha elementos bastantes para o fazer, e não é mister feliz- 
mente grande esforço para isso se conseguir. 

Ao fazermos estas considerações cumpre-nos relembrar o que 
já dissemos no relatório da junta de saúde em 1871. E necessário 
que se augmente uma cadeira de palhologia e hygiene tropical 
nos cursos das escolas medico-cirurgicas. E alem d'isso os facul- 
tativos do ultramar devem escrever memorias sobre os seus tra- 
balhos clinicos, a respeito da climatologia e hygiene, havendo 
prémios e louvores para aquelles que mais se distinguirem. Es- 
tes e outros meios servirão de estimulo, e não faltarão escriptos 
especiaes em que se descrevam minuciosamente todas as nossas 
terrav^ do ultramar» 

Desenganemo-nos ; é preciso repelir muitas vezes, que sem 
efitudos médicos, bem dirigidos, nao è fácil estabelecer colónias 
ftgricolas, nem promover a emigração para as íiossas vastíssimas 
possessões na Africa tropico-equatorial. 

Não esqueçamos que para esta parte do globo se estão. diri- 



XXXII 

gindo frequentes expedições scienlilicas e commerciaes, e que 
ellas percorrem os territórios ijue nós descobrimos e írequenlámos 
ha nmilos annos. Sejamos por isso os primeiros a descrever to- 
dos estes paizes em relação á sua agricultura, commercio e salu- 
bridade, c mostremos que nao somos para a colonisaçao menos 
competentes do que o fomos nos séculos xv e xvi para os des- 
cobrimentos e conquistas de tão extensas e longiquas regiões. 

Empreguemos finalmente a propaganda, servindo-nos de todos 
os meios, que a imprensa nos offerece, e divulguemos todos os ele- 
mentos necessários para (|ue escriptores taes como Leroy-Beau- 
lieu e mr. Charles Calvo, modifiquem as suas idéas acerca das 
nossas provincias ultramarinas, e não faltem nunca documentos 
para que os sábios dos outros paizes colonisadores fallem com 
mais rigor e exactidão sobre o que nos diz respeito como obrei- 
ros do progresso e da civilisação das nossas terras de Africa. 

Villa de Mossamedcs, 8 de janeiro de 1878. 



Qyíi^anuet ^eiieiia m/ío-cUo, 



INTRODUCÇÃO 



Na parte onenlal do vastissimo mar de Guiné, o qual se 
estende desde o cabo das Palmas até ao cabo de Lopo Gonçal- 
ves, fica a productiva província portugueza composta da ilha de 
S. Thomé, da ilha do Principe, do território de S. João Baptista 
de Ajuda, na margem occidental do golfo de Benim, e da ilha 
das Rolas. A sede do governo geral d'esta província é actualmente 
na ilha de S. Thomé, onde estão também as repartições publicas 
superiores. 

As ilhas que servem de assumpto principal a este trabalho 
pertencem aos paízes equinocciaeç propriamente ditos, e formam 
uma das mais antigas colónias portuguezas. Não seria completa 
a descripção do clima d'aquellas ilhas, se faltassem os elementos 
de comparação entre elle e os das terras que se acham sob a li- 
nha equinoccial, quer estejam na Africa, America ou Oceania, 
(|uer sejam colónias de Portugal ou de outras nações da Europa, 
c|uer províncias do Brazil. O estudo comparado das regiões equa* 
toriaes lança muita luz sobre o clima da província de S. Thomé, 
a ijual tem grande importância não só por se achar situada entr^ 



as proviíicias de Cabo V\'i(le o Angola, mas tainhoin j)on|ue os 
seus portos abertos ao conmiercio uao eslão a grande distancia da 
costa continental. 

A ilha das Rolas, extremo meridional da província, eslá sob 
o equador a O** de latitude, e separada da ilha de S. Tlionió poi* 
um canal de cerca de 3\7 de largura e mais de 13"' ,2 de pro- 
fundidade, dando passagem a navios que ali podem fundear, em 
frente da costa do N. da mesma ilha. 

A ilha de S. Thomé estende-se de 5^,5 a 55^5 ao N. da ilha 
das Rolas, levantando-se quasi em frente da foz do rio do Gabão, 
a 292^6. 

A ilha do Principe, collocada a NNK. da de S. Thomé, a 
ISõ*",!, prolonga-se desde 169^4 ale 187^9, distíindo 244^4 do 
rio de S. Bento, na margem oriental do mar de Guuié. 

Da costa do Gabão para qualquer das ilhas pôde fazer-se a 
viagem em canoas do paiz. 

O território de Ajuda, onde foi edificado ha cento noventa e 
seis annos o forte de S. João Baptista, a 88*',9 de Badagry, parle 
do qual M. de Avezac reputa idistriclo porluguez», está ao S. do 
reino de Dahomé, 700^6 do equador ou 833*',4 da capital da 
província, de onde dista também 627*^,8 a foz do rio de Benim, 
451\8 a do Niger e 522 kilometFOsa do Velho Calabar. 

A posição geographica da provhicia de S. Thomé mostra, 
pois, a necessidade de se examinarem as terras banhadas pelos 
principaes rios que desaguam no mar de Guiné, estando, em pri- 
meiro logar, os terrenos regados pelos vinle braços do rio Niger, 
e que constituem enorme centro miasmatico, ao ipial a ilha de 
S. Thomé olíerece a face de NO. A máxima parle da costa insular 
lambem eslá exposta aos ventos que varrem as vastas regiões de 
Africa, e ali chegam pelo SE., E. e N. até. a ONO., isto é, aos 



3 

vonlos que passam nas planieies do contiiienle africano, d(\s(le o 
rabo de L(»po Gonçalves, rios Gabão e Calabar aló ao delta do 
Nifçer, e que vem mais ou menos impregnados de elementos dele- 
térios prejudiciaes á saúde. 

De ESE., SSO. e 0. eliegam a ilha de S. Thomé os ventos do 
alto mar. 

Alem das ilhas das RoIíís, S. Thomé e Príncipe, ha oulras 
nu mar de Guiné cpie mo devem ser t^squecidas. Sâo as ilhas 
de Anno iJom, Lopo (Joncalves, Corisco, Eh)b(\v, Fernão do P(), 
Mondoleh, no golfo dos jMafras, e a do (juríimo, que mais parece 
fazer parle da costa do golfo de Beiíim, do que uma ilha propria- 
mente dita. 

Não deve passar sem r(»i)aio a circumstancia que se dá de es- 
tarem lançadas ao mesmo rumo SOí S.-NE'íN. as ilhas de Anno 
Bom, S. Thomé, Principe e Fernão do Pó, e o ahissimo pico 
Mongo-Ma-Lob;di. As oulras ilhas sao pe(|uenas, e algumas 
d'ellas mui chegadns á lerra lirm(», como a de (juramo, já no- 
meada, e a de Lopo Gonçalves, no extremo meridional do golfo 
dos Mafras. 

A costa do continente banhada i)elo mar de Guiné, na extensão 
<le cerca de 2:481 kilomelros, subdivide-se em dilFerenles partes 
dislinclas, cpiasi sempre, por meio de cabos mais ou menos notá- 
veis. As divisões estabelecidas pelo illuslrado geographo Alexan- 
dre, de Castilho serão adoptadas de preferencia a todas as ipie 
téem sido apresentadas até hoje. 

Eis-aqui, seguindo a ordem de conlinuidadc de N. [nwn o 
S., as denominações parciaes que devem acceitar-se: voMa do 
Marfim e f/os Quaquas, da Mina, de Benim. do Calabar c do Ga- 
Imo. E portanto indispensável determinar a superlicie em (|ue 
estão as ilhas do mar de Guiné e os logares mais importantes da 



cosia, qac possam Icv alguma inlluencia iio clima da província de 
S. Thoiué. 

A zona eomprchendida enlre o equador e um parallelo tirado 
por 11° 45', islo é, por um ponto equidistante do trópico de 
câncer e do equador, terá a denominação de zona ecjuatorial do N. 
A secção d'esta zona, resultante de dois meridianos, passando 
um por 10" de longitude E Geenwich e outro por l"" de longitu- 
de 0., a contar do mesmo meridiano, e a parte equinoccial de 
Africa de que mais especialmente nos occuparemos; forma ella 
um rectângulo cuja base coincide coui o eipiador terrestre, re- 
presentando os meridianos a latitude ou altura do reclangulo. A 
área d'esta zona é 3 vezes maior (pie a de França e 17,8 que 
a de Portugal. 

Náo seria preciso de certo tomarem consideração tão grande 
superíicie se n'ella não estivesse comprehendida a maior parte do 
mar de Guiné, ou se a })rovincia de S. Thomé não fosse, como 
SC disse, formada de dilferentes districtos, sendo os territórios 
em que ella se devide uuii distanies entre si e bastante appro- 
ximados de logares cujas condições geológicas ou climatéricas })o- 
dem iníluir na salubridade ou insalubridade dos climas insulares 
que pretendemos descrever. 

O reino de Daliomc, ao N. do território de Ajuda, meiece, 
alem (Kisso, atteiição particular. 

Muitos estrangeiros têem feito viagens á região equatorial 
dahomeana, publicando descripçoes mais ou menos interessaiites, 
mas de portuguezes poucas possuímos. A nossa incúria, n'este 
ponto, tem sido tão grande, temos cuidado tão pouco em promo- 
ver o progresso colonial e em proteger as feitorias e eslabeleci- 
mentos commerciaes, ipie alguns escriplores francezes, fallando 
a i'espeito de Dahomé, dizem : Os portuguezes nunca possuíram 



5 

coma alguma ao S. do reino de Dahomé, e, apesar do rei de 
Dahoiné lhes dar terrenos para elles construirem uma fortale- 
za, não a haviam começado pelos ajinos de 1730; e foi. o capi- 
tão de um navio francez o primeiro europeu (pie ali desembarcou, 
exclamando os indigenos ao verem um branco pela primeira vez: 
^Zagoué*, isto é *Elle chegou». 

Taes asseverações, aliás erróneas, e outras, iiâo devem pas- 
sar sem reparo. Insinuam que nao foram os porluguezes os pri- 
meiros descobridores da cosia de Benim, e que fora um ft-ancez 
o europeu que primeiro chegou áquella região! 

E conlra similhanles asserções que nunca deixaremos de pro- 
testar, e faltaríamos a iim dever se, fallando do afamado reino da- 
homeano, nfâo pugnássemos em prol da verdade, o nao nos esfor- 
çássemos por divulgar o que se acha demonslrado em memorias 
(» obras portuguezas de grande valia. 

O erudito visconde dií Santarém, em 1842, defendeu a prio- 
ridade dos descobrimenlos porluguezes na cosia de Africa; mas, 
em i867. procurou Pierre Magry renovar uma questão sobre 
que felizmente vae apparecendo a luz c a verdade sustentada 
]K)r escripton\s nacionaes e estrangeiros. K, porém, para lamen- 
lar que, em publicações francezas de recente dala, Iratando-se 
do ivino de Dahomé, nâo haja referencia aos nossos escriptores 
que se tócm occupado de tal assumpto, e se diga que o território 
de Ajuda pertence aos ingl(»zes e nao aos porluguezes, que sâo 
senhores d'aqu(dla região como os francezes da do Gabão, sendo 
aliás a posse dos portuguezes em Ajuda muiti» mais antiga. Mas 
nao é sómenie por este lado que conviMU conhecíM* o districlo de 
Ajuda e o reino de Dahomé, lí grande a importância politica 
<reste ponto da Africa equatoiial, e nao o é menos o seu mo- 
vunento commercial. podendo augmentar muito com as boas re- 



6 

laçõcs (los povos de Dahome e torras adjacenles, se os portngue- 
zes seguirem n'aqiielle paiz o mesmo systema que os francezes 
adoptaram no Gabão, onde entraram lia trinta e (|ualro annos ape- 
nas e já dispõem de baslanle influencia. E, portanto, de grande in- 
teresse que se achem archivados em livro apropriado os factos, 
acontecimentos ou informações dos viajantes nacionaes e estran- 
geiros, para que possam servir de guia aos que «lesejem ir á cos- 
ta de Benim, á costa de Ajuda ou ás ilhas de S. Thomé e Prín- 
cipe, e demorar-se ali por algum tempo. 

O medico, porém, que nao deve ignorar Iodas eslas circum- 
stancias, tem que examinar oulra ordem de factos náo menos im- 
portantes. Gumpre-lhe estudar a natureza das do(mças ondemi- 
cas e os meios mais adequados [)ara as debellar. E esta a sua 
missão. O campo é vasto e o assumpto difficil, mas o medico co- 
lonial tem por norma lra})alhar para a conservação da vida e da 
saúde dos colonos, vcm se poupando para isso a sacriiicios, por 
maiores que elles sejam. 

A provincia de Cabo Verde, com as suas variadas ilhas, (» (í 
vasto território de Guiné que mais devia sím* provincia indepen- 
dente, como a de S. Thorné, do que subordinada ao governo 
geral de Gabo Verde ; a larga região de Angola e Moçandúípie, 
de entre as quaes se deve fazer desappan^er as trevas «mu que 
estão envolvidos os povos que as habilam, o que é um dever da 
nação porlugueza e um tMnprelu^ndimento altauienle civilisador, 
reclamado ])elo progr(\sso e interesse da humanidade, todas estas 
regiões, dizemos, oífereciMU diversos climas e condições de vida 
muito especiaes ; e é seui duvida grande temeridade chamar para 
ali a emigração sem (pie se indiquení as localidad(»s mais favo- 
ráveis á saúde. Não se vive impuneiiu^nte n'um diuia como o de 
Benguella, na Africa tropical, nem deixa de ser grande o tributo 



que se paga ao das províncias do Brazil. Mas o progresso, no seu 
variado movimento, sairá triumphante da luta estabelecida para 
a colonisaçâo dos paizes intertropicaes. 

O districto de Lourenço Marques de um lado, e o de Mossame- 
des do outro, são as portas por onde devemos entrar na região 
tropical da Africa portugueza. O estabelecimento de S. João Ba- 
ptista de Ajuda serviria de passagem para a Africa equatorial se 
tivéssemos paciência para captar a amisade dos denominados 
reis ile Dahomé, ou quizessemos sustentar o nosso direito aos 
terrenos que ficam ao S. do reino dahomeano, cuja concessão é 
attestada por auctoridades insuspeitas e por documentos incon- 
trastaveis. 

O que importa, porém, aos colonos, é conhecer as vantagens 
que as differentes localidades lhes oíTerecem, seja qual for a re- 
gião intertropical em que elles se achem, avaliando com verda- 
deiro conhecimento de causa a importância do paiz para onde 
desejam !ransporlar-se. Devem portanto saber distinguir a natu- 
reza dos climas parciaes da Africa portugueza e das províncias 
do Brazil, visto que n um continente e n outro ha facilidade em 
obter terrenos, cultival-os e tirar d'elles grande proveito. 

Não engrandecemos as terras de Africa deprimindo as do im- 
pério de Brazil; expomos a verdade tal qual se nos afigura. Es- 
crevemos para utilidade de todos os portuguezes, especialmente 
dos que pretendam ir para aquellas regiões. 

Não é, pois, um livro de sciencia especulativa que apresen- 
tamos ao publico, é um trabalho pratico, onde se mostra a gran- 
deza e importância das nossa colónias, onde se patenteia a salu- 
liridad(í ou insalubridade de muitos paizes intertropicaes, e onde, 
finalmente, se trata da colonisaçâo de uma importante provincia 
do ultramar, da qual fazemos minuciosa descripção. 



Encorra-se, porém, todo o nosso esliulo nVslas poucas pala- 
vras: emigração, aclimação e colonisação. 

A respeito da emigração escreveu mr. Julcs Duval : 

tE a emigração na ordem económica uma exportação de 
trabalho, capital e intelligencia, que desenvolve uma nova forç^ 
de producção e de consumo, por meio da qual trocam as zonas, 
os climas, as terras e os mares os seus productos. 

«E na ordem politica uma diffusão pacifica do sangue, da 
lingua, dos sentimentos, dos costumes, das idéas, das institui- 
ções, que augmenta o prestigio e poder das metrópoles, e as des- 
embaraça, alem d'isso, de elementos que as enfraqueceriam, e 
de fermentos de desordem que poderiam perturbal-as. 

*E na ordem eílmographica a geração dos povos; a incapaci- 
dade de emigração é.um signal de impotência, precursor de prom- 
pta. declinação. 

r 

tE na ordem humanitária a exploração do globo, progressi- 
vamente purificada dos flagellos dos reinos animal e vegetal. O 
clima e a hygiene melhoram quando a mão intrépida do colono 
faz seccar os panianos, entrar os rios nos seus leitos, 6 fructifi- 
car o deserto; trabalhos heróicos, immortalisados nos mvthos de 
Hercules e de Theseu, e que, approximando as raças, fundem 
as suas differenças e antipathias em allianças de sangue e de inte- 
resse. 

• E na ordem cosmogónica, finalmente, uma (ixpansão da foi-ça 
intelligente, que é o homem, e que, como todas as forças, tende 
ao equilíbrio. Circulação de sangue, dilatação dos fluidos, marés 
do oceano e da almospliera, vibrações do ether, curso dos astios, 
são applicaçries variadas d'(»sta lei da natureza, que ivstabelece o 
cosmos sflbre a harmonia dos movimentos, regulando-se e pondtí- 
rando-se por atlracçnes reciprocas. » 



9 

Acorcíi <la aclimação disse o illnstrc visconde de Paiva Manso: 

« E grave a questão da aclimação, que só por si constitue um 
(los ramos mais importantes da sciencia medica. 

• Sem pretender entrar n'uma questão que tão vasto campo 
offerece á discussão, ou seja com relação ã hygiene ou por estar 
ligada a questões económicas da mais alta gravidade, é certo, como 
diz Juíes Rochard, que é muito complexa, que deve ser estudada 
em relação ao individuo e em relação á raça. • 

Para Leroy Beaulieu a colonísaçao, finalmente, é um acto re- 
flectido, sujeito a regras que somente as nações civilisadas pode- 
rão indicar; é um dos phenomenos mais complexos e mais deli- 
cados da physiologia social; é, emfim, uma arte que se forma na 
escola da experiência, e uma sciencia que formula as leis que re- 
gulam as colónias nascentes. 

A colonisação da Africa portugueza é, na verdade, um dos 
maiores commettimentos da pátria de D. Henrique, Alvares Ca- 
bral, Pedro de Escobar, Diogo Cão, João de Santarém, Bartholo- 
meu Dias, Vasco da Gama, Affonso de Albuquerque e de tantos 
oulros arrojados nautas e destemidos cavalleiros. 

Sulcaram os nossos antepassados mares desconhecidos, des- 
cobriram ilhas, cabos, rios e largas regiões, assignalando com 
suas maravilhosas viagens os últimos annos do século xv e 
principio do xvi ; no ultimo quartel do século xix cumpre-nos 
fecundar, não c^m a espada, mas com o arado as terras incultas 
e abandonadas, abrindo estradas e tirando das entranhas do solo 
as immensas riquezas que ali jazem sepultadas. 

A Africa portugueza ao S. do equador é actualmente o campo 
de acção e o logar do trabalho para onde d(»ve voltar-se a atlen- 
çãó de todos os portuguezes. . 

O caminho de ferro no extremo S. de Moçambi(|ue, e o da 



10 

parle oriental da província de Angola, são o principio d'esla i(lo- 
riosa campanha. 

A par das communicíições rápidas, levantar-se-hão colónias 
agricolas, estabelecimentos commerciaes e plantações dos géneros 
da zona tropico-equatorial mais procurados nas praças da Europa, 
e n'esles primeiros delineamentos da colonisação dos vastíssimos 
terrenos que possuímos na Africa meridional, desde o trópico ao 
equador, serão derrubadas as florestas, agricultadas as planícies 
e semeados os campos. Trocar-se-hEo depois os productos natu- 
raes e industriaes, estabelecendo-se accelerada navegação entre 
os portos de Portugal e os da Nova Africa, e formando-se assim 
uma corrente de riqueza que levará esta nação ao seu tempo dou- 
rado, ao século da sua maior gloria. 

O livro que intentámos publicar tem por objecto principal 
uma fracção diminutíssima da Africa, uma superfície de 1:000 
kilometros quadrados; e, estando hoje apenas cultivada a decima 
parte d'essa área, os seus rendimentos públicos sobem a mais de 
100:000^000 réis; nas terras da Africa portugueza, com uma 
superlicie de 1.800:000 kilometros quadrados, desenvolvida con- 
venientemente a colonisação, a receita publica será será oito vezes 
maior que a de Portugal. 

A importância da colonisação da região africana que hoje 
possuimos, .demonstra-sc por factos incontraslaveis. Não é, po- 
rém, necessário discutir um assumpto de que ninguém duvidará. 

Aos poderes públicos cumpre promover, pela sua parle, a 
abertura de estradas e caminhos de ferro, e premiar a iniciativa 
particular, não se envolvendo din^ctamente em contratos paia o 
estabelecimento de colónias. Não se levantam cidades onde falta 
a agricultura e o coittinercio, e onde não pode realisar-se a acli- 
mação. 



Como exemplo de colónia agrícola nâo o podíamos achar 
melhor do que a ilha de S. Thomó. Descrevol-a sob este ponto 
de vista é também dever nosso, concorrendo ao mesmo tempo 
quanto em nós couber para ([uc se avalie o clima das colónias 
portuguezas. a riqueza e a abundância de seus productos natu- 
raes. 

Píira esse fim grupámos os variados maleriacs d'este livro em 
differenles secções, dispostas da seguinte forma: 

Geographia. 

Condições physicas e moraes dos habitantes de S. Thomé. 

Hygiene publica. 

Flora pathologica. 

Historia natural. 

Meteorologia e climatologia. 

Diversos quadros estatisticos. 

Sao assumptos concernentes á provincia de S. Thomé, mas 
de entre elles destacam-se questões de alto interesse colonial, 
tanto com respeito ao commercio como em relação á agricultura 
e á aclimação, base do progresso da Africa portugueza do occi- 
dente ao nascente, de Angola até Moçambique. 

EnumcTam-se na primeira secção os paizes erpiinocciaes que 
estão na mesma latitude da provincia de S. Thomé; calcula-se a 
superfície de Portugal, como paiz colonial, e compara-se a sua 
área com a de todas as nações da Euroj)a. 

Patenteia-se a iuimensa vastidão da Africa portugueza, e for- 
niidam-se os meios de chamai* para ali a emigração. 

I)istinguem-se os climas ecpiatoriaes dos (pie se acham sob 
ns trópicos, e mostra-s(í quanto é errónea a crença popular de que 
o calor da zona tórrida é jMejudicial á saneie e impróprio para os 
trabalhos agrícolas. 



<2 

Indicam-so as prinripaos fazendas da ilha do S. Thomé, as- 
sumpto sobre que nada ha escriplo, nioslrando-se a ferlilidado 
dos terrenos e as diversas culturas do paiz, tao dilTerenles das 
que ha na província do Minho, cuja producção comparamos em 
presença de mappas estatísticos. 

Ajuntam-se, alem d'ísso, algumas gravuras reproduzindo com 
a maior exactidão as bellezas da vegetação que aformoseia as 
margens dos rios, matiza os valles e faz realçar as culturas 
daquelle privilegiado paiz, procurando por este meio aniniar 
os quadros que delineámos. A penna descreve em largos trn- 
ç^s o que a gravura approxima e reproduz com toda a naturali- 
dade. 

Conhecida a posição e extensão das colcmias portuguezas em 
geral e as fazendas da provincia de S. Thomé, é natural fallnr 
das condições physicas e moraes dos habitantes de tal região. 

E assas complexa esta parte do nosso trabalho, e uma das 
mais úteis para aquelles que desejam viver em tâo longi([uas pa- 
ragens. 

Refere-se, pois, o que diz respeito aos funccionarios públicos, 
negociantes, agricultores e trabalhadores, e estuda-se o movimento 
commercial e agricola nâo si') da ilha de S. Thomé, mas também 
de todas as nossas províncias do ultramar. 

O credito, a navegação e os capitães sâo examinados em ])re- 
sença de estatísticas organisadas com todo o cuidado, entre as 
quaes figuram mappas de exportação das casas commerciaes de 
Lisboa para os negociantes de Africa, e da importação dos |)ro- 
ductos coloniaes para Lisboa. DVste modo pode avaliar-se a im- 
portância do movimento comm(»rcial entre a praça de Lisboa e a 
Africa portugueza. 

Os paizes iiiteriropicaes como o Brazil. Angola e Moçambique 



i3 

lêem sido tlioalro de valiosas explorações sob o ponto de visla das 
sciencias naUiracs. 0s trabalhos de Livinsgtone para a geographia, 
os de F. Welwitsch para a botânica e os de Anchieta para a zoo- 
logia, são muito úteis, aproveitando com elles o commercio, a agri- 
cultura e o progresso colonial portuguez; mas nâo vSâo menos im- 
portantes os trabalhos dos médicos, examinando os chmas e as 
diversas causas que produzem as doenças, combatendo acpii as 
anemias, mais alem o paludismo, n'uma parte a febre amarella,' 
em outra a cholera, e ensinando constantemente as regras e pre- 
ceitos da hygiene publica e individual. 

O medico colonial occupa realmente um dos primeiros loga- 
res enire os obreiros do progresso e da civilisaçâo das terras de 
Africa. Gumpre-llie destruir os erros e preconceitos, e dizer quaes 
são as colónias menos insalubres e as condições em que ellas se 
acham. 

N'este trabalho faz-se, pois, sob a denominação — hygiene pu- 
blica — a descripção da cidade de S. Thomc e dos melhoramentos 
de que ella mais carece. 

A planta da cidade toma mais visivel a sua posição e orien- 
tação, e as gravuras (|ue acompanham este trabalho completam a 
descripção que d'ella fazemos* 

E esta a secção do livro mais apropriada para se tratar da in-» 
salubridade relativa das ilhas do golfo dos Mafras e das colónias 
portuguezas, comparando estas entre si e com as de outras na^ 
coes da Europa e províncias do Brazil. 

Forma por assim dizer este assumpto a cúpula do ediíicio lit- 
terario que planeámos. E d'ali que se observam as condições da 
vida dos paizes intertropicaes e as difficuldades com que se luta 
para resistir á influencia do clima. 

A provincia de S. Thomé, cuja superíicie é oitenta e sete ve- 



14 

zes menor du (|ue a da luelropole, tem aclualmeiíte lerca de 25»000 
alma^, podendo este numero dobrar ou triplicar sem haver excesso 
de população. 

Tratámos em especial da ílora pathologica da ilha d(» S. Thomé, 
referida no anno de 1872. E um assumpto que nmito importa co- 
nhecer. 

A natureza de ipial(|uer clima depende, alem de outras cau- 
sas, da (pudidade dos terrenos, da natureza da vegetarão e dos 
ventos, (pie para nuiitos auctorcís representam o principal papel 
na salubridade ou na insalubridade de um paiz. E este estudo o 
assumpto das grandes secções denominadas — historia natural, 
meteorologia e climatologia. 

No reino vegetal descrevemos as arvores próprias para con- 
strucçoes e marceneria, as arvores frucliferas e as que sao mais 
úteis á agricultura. 

Não collocàmos o homem no reino animal, nem aíCiMtàmos 
a doutrina do sábio naturalista Darwin a similhante nvspeito. 
Para nós o homem fornut um leino á parte, e tem origem [)ropria 
e única. 

Não nos propomos dizer a ultima palavra de sciencia, mas 
tratamos de pôr (Mu relevo os factos que nos levam a admiltir dis- 
tincção entre o reino animal e houíinal. 

Tendo este trabalho uma feição inteirainelite pratica, reuni- 
mos em grupos separados os map[)as estalislicos (pie não poderem 
entrar no corpo do livro. 

As eslatisticas t(jcm para niis grande inlluencia na indaga(;ão 
da verdade scientiíica. E dillicil organisal-as, mas da dilliculdade 
para a inutilidade vae grande dilferença. 

Tal e o plano da obra que apnísentâmos, e onde expomos, a 
par das observações feitas como medico colonial duraiíle cinco 



15 

aiiijos que servimos em S. Thomé, as conclusões a que chegámos, 
compulsando os livros dos mestres de sciencia que mais se lêem 
distinguido, e examinando cuidadosamente todos os documentos 
de que tivemos conhecimento. 

Em secção apropriada patentearemos as fontes a que recor- 
remos e os meios de que nos servimos para apurar a verdade, 
que sempre tivemos por norma; e por bem pagos nos daremos 
se, no meio das difBculdades com que lutamos, fizermos obra di- 
gna da attenção publica, e que possa ser útil a todos a(|uelles (|ue 
desejam conhecer a provincia de S. Thomé e Principe e o clima 
da Africa portugueza. 



1 



/. 



A província 

DE 

S. THOMÉ E príncipe 

SUAS DEPENDÊNCIAS 



OD 



A SÀIfBRIDÂDE E nSÀLlIBRIDADE REUTITA DAS PROTIIICIAS DO BRAm, 
DAS COLONUS DE PORTOGAl E DE OUTRAS NAÇÕES DA EUROPA 



GEOGRAPHU 

L'(BÍ1 de rhomme n^embrasse à Ia fois qaaii étroil 
borizoD ; il lai faot nno longuo série d'ótude8 pcreéré- 
raots poor reeoonattre de procbe eo procbe tootet le< 
parties d' ao district, d'tm pays, d*ime régioD, et airÍTer 
ainsi JQiqo'à la notion géoérale des grandes divisions 
terrestres. 

(L' Univert, esqnisse générale d'Afriqiie, par 
mr. d*ATezac, pag. 3, 1844.) 

CAPITULO I 

Desoripção dos rios e logares prinoipaes 
da oosta do mar de Quino 

Cak« de Lopo GoDçali es^— Bahia de Lopo GoD^alves.— Rio do Gabáo.— Bahia do Corisco.— Cabo de S. Joio.— 
lio df S. leDlo.— As ilhas portognezas e a costa do Gabão.— Rio do Campo.— Enseada do Pão da Nau ou 
Paiavia.— lio da Boroa.— Rio dos Canarões.— Pico longo-la-Lobah, do qnal existe o clima qacnle oa 
tórrido, o temperado e o frio oa glacial.— Bahia de Ambozes on de Zambús (Ambas oa Amboise).— 
lio de EIRei.— Velho Calabar (Calhar j, Dongo oo Oióne).- Rio Done (Andoney oa António).— Bahia 
de Boni oa de Obáne.— Rio do Sombreiro.— Rio de S. Bartholomeu, dos Hafras oa dos Três Ir- 
mãos. -Rio de Santa Barbara.- Rio de S. Nicolau.— Rio de S. Bento (St. John or Bra.s8).-Cabo For- 
moso.— Rio Riger ou Qaorra e o celebre delta qae elle forma.— Afflaenles do rio Niger e sens braços 
prinripaes.— Rio Tchadd.— Dhionliba oa Riger.— O delta do Niger e as ilhas de S. Thomé e Principe.— 
Grande mar interior oa lago de Tchadd.— Rio Formoso ou de Bepim.- Rio da Lagoa oa Lagos.— Ba 
dagry.— S. João Baptista de Ajadá e o distrieto oa território correspondente.— Condições especiaes 
para o desembarqie lo porto de Ajodá.— lagestoso espectáculo qoe oferece o mar na costa de 
Ajidá.— Reino de Dahomé.— Caminho de Ajadá até á capital de Dahomé.— Estações intermediarias 
entre o território de Ajuda e a capital de Dahomé.— Limites do golfo de Benim.— Limites do golfo 
dos lafras.— Mar de Guiné, zona equatorial que lhe corresponde e correntes que ali se observam. 

Cabo de Lopo Gonçalfes.— Dá-se este nome ao extremo N. de uma ilha 
de Sl^yd de comprido por 7^,4 de largura, descoberta pelos annos de 
1 469 ou 1 470 por Lopo Gonçalves, que lhe deu o nome, estando se- 



18 

parada da terra firme pelas aguas de um rio de mediana largura. E 
muito conhecida dos porluguezes a bahia a que elle serve de limite. 

Demora este cabo em 66^,9 ao S. do equador e a 17® 51' 6'' de longi- 
tude E. Avi8ta-se de 25 a 27 kilometros ao largo, e está ao SE. da ilha 
de S. Thomé ; d'este rumo sopram os ventos mais de cento e doze vezes 
no anno, segundo as observações de 1872, e chegam á velocidade de 8 
kilometros por hora. Nas suas proximidades não ba terrenos de alluvião 
e vastos pântanos, como se notam em outras partes da costa do mar de 
Guiné, mas independentemente da má constituição geológica do solo 
mais próximo d^aquelle logar e da qualidade dos ventos, importa aos 
agricultores de S. Thomé conhecer os logares fronteiros á ilha até onde 
chegam as canoas do paiz. 

Ha quem affirme, diz o nosso illustrado hydrographo Alexandre 
Magno de Castilho, existir uma lagoa de agua doce ao S. da aldeia Fe- 
tish, e a 5S5 para o sertão, boa agua potável, abrindo cacimbas nas 
praias. Abunda o peixe na bahia de Lopo Gonçalves, onde vão muitas 
vezes em canoas do paiz alguns marítimos de S. Thomé. 

Bahia de Lopo GonçalTes. — É esta, na verdade, uma das bahias da costa 
mais visitadas pelos habitantes da ilha de S. Thomé. A 0. flca-lhe o cabo 
de Lopo Gonçalves e a E. a ponta denominada dos Feitiços (Fetish ou 
Feetish). A sua área anda por 581 kilometros quadrados e n'ella desa- 
guam o rio Gobbi e o de Lopo Gonçalves, sendo o primeiro um ramo 
do rio Ogôoué, explorado em 1874, e defronte de cuja foz está uma ilha 
baixa e silvestre, que se denomina dos Mortos, e foi por nós abandonada 
não obstante haver ali abundância de coqueiros, fácil desembarque e boa 
pescaria. 

Rio do Gablo. — O cabo da Barca e o de Santa Clara ou de Joinville 
marcam a foz d'este grande e importante rio, cujo estudo muito interessa 
não só sob o ponto de vista da hygiene publica, mas também por ter sido 
habitado pelos portuguezes que, em 1 723, no intuito de procurarem nas 
terras vizinhas minas de oiro» edificaram uma fortaleza na ilha do Rei ou 
Kornikey, segundo A. Tardieu; mas vendo frustradas as investigações, 
tiveram de a abandonar, apparecendo ainda vestigios da sua estada ali. 
Os francezes, porém, escolheram em 1842 aquella posição, e, sem que 
alguém os incommodasse, começaram por fazer ali o deposito do seu 
cruzeiro de Africa austral, e acabaram por obter terrenos, estreitar re- 
lações com os naturaes e assenhorear-se doesta região equatorial, não 
86 esquecendo de dar nomes francezes aos pontos mais importantes 
d'eUai 



19 

O rio é muito extenso, e alguDS esciiptores dSo-lhe 1 i 1^1 de compri- 
mento, allirmando que se conserva perpendicular á costa, o que mostra 
que elle corre em toda a sua extensão sob a linha equinoccial. 

As duas bacias que se formam acima da foz do rio, cerca de 45^5, 
ficam uma exterior á outra e s3o separadas por duas ilhas arborisadas, 
tendo a do N. boa agua. 

N3o s3o mui distantes as margens do rio do Gabão, mas o que ô 
digno de notar-se é ser reputada salubre a direita, e infamada de in- 
salubridade a esquerda. 

Os francezes que, em 1839, examinaram este lado do rio, pouco 
tempo ali se demoraram, attenta a mortalidade dos marinheiros que 
tinham que fazer serviço em terra. 

O rio e seus affluentes são orlados de mangues, formando grandes 
bosques em alguns logares a muitos kilometros da foz, misturando-se as 
aguas doces com as salgadas, alimentando assim o arvoredo que lhe é 
próprio. 

O cabo de Santa Clara ou de Joinville está em O" 3(y 2" de latitude N. e 
18*^28' 24" de longitude E., ficando portanto na altura da Ponta Figo da ilha 
de S. Thomé ; e a contar d'aquelle logar até ao N. de um outeiro deno- 
minado Duna Plana ou atè 0^ 4' de latitude N., ha a mesma distancia que 
tem a ilha desde o N. ao S., salvo os accidentes de terreno que ha n'ella, 
os quaes lhe dobram a extensão do N. ao S. e de E. a O. 

Entre a cosia insular a E. e a margem esquerda do Gabão e Dunas 
Grandes, ha a distancia de 200 kilometros que, em poucas horas, pôde 
ser percorrida por qualquer vento forte. Sopram raras vezes para esta 
ilha os ventos do E. e do NE., registando-se, em 1872, aquelle cincoenta 
e oito, e o outro dezeseis, e os de todo o quadrante oriental setenta e 
nove. 

A cidade de S. Thomè está, pois, exposta aos ventos que passam so^ 
bre as terras do Gabão, podendo atravessar em pouco tempo a porção de 
mar que separa as duas localidades. Seriam de grande vantagem as ob- 
servações meteorológicas doestes dois pontos, comparadas entre si, e afe- 
ridas pelos mesmos padrões. 

O rio Como, grande affluente do Gabão, é navegável cerca de 83S3. 

Os logares que recebem as brisas do largo em toda a pureza, são 
n*estas latitudes os menos insalubres, e na ilha de S. Thomè estão n'este 
caso as terras do lógo-Iógo ou da Boa Esperança ao S. da ilha. 

Bahia do Corisco.— Tem approximadamente 1:234\8 quadrados. Os 
seus limites são a ponta dos Mosquitos ao N. e o cabo das Esteiras ao S^ 
estando este a 59^,2 para S4S0. d^aquella. 



20 

Faz grande recôncavo esta bahia, e são numerosos os ilhéus, ilhotes e 
baixos que n'ella se encontram, tirando-lhe toda a importância commer- 
cíal. É necessário não esquecer que desaguam na bahia dois rios, um ao 
N. e outro ao S. Chama-se o primeiro rio de Angra, Danger ou Mooney, 
que, em língua da terra, quer dizer escuta, cuidado; e o segundo deno- 
mina-se Moondah. Em ambos podem entrar navios, tomando-se pratico 
entre os indigenas da ilha do Corisco ou do rio do Gabão. 

A foz do rio de Angra está emí"^ V de latitude N. e IS"* 44' de longi- 
tude E. Notam-se na sua parte septentrional as coUinas de Angra em nu- 
mero sufSciente para formarem uma cordilheira. 

O rio de Moondah estreita-se muito para o interior das terras, as quaes 
são alagadiças e cobertas de mangues, arvores caracteristicas dos paizes 
intertropicaes, e, segundo aiSrmam alguns escriptores, dos climas palus- 
tres. 

Este rio passa por ter communicação com o Gabão, fazendo do cabo 
das Esteiras uma península que se denomina de Louís Philippe, nome 
dado por M. de Langie, quando estudou aquella região. 

Alem dos grandes seios do rio Gabão, orlados de mangues, notam*se as 
bahias de Lopo Gonçalves e Corisco, defronte das quaes ficam as ilhas de 
S. Thomè e Principe, onde vem amiudadas vezes navios procedentes 
d'aquelles pontos. São logares de clima idêntico, podendo reputar-se o 
solo do Gabão igual ao da ilha do Principe, opinião sustentada por A. 
Tardieu. 

Cabo de S. Joio.— Demora este cabo em í^ í(y de latitude N. e 18** 
3(y 16'' de longitude E. Está coberto de arvoredo e é talhado a prumo. 
Dista cerca de 25'',9 da ilha do Corisco o &^,5 do ilhéu Booenja, que lhe 
flca ao N., fazendo o mar por ali muita arrebentnção. 

Para o N. d'este cabo levanlam-se altos serros, e d'ahi para o se- 
ptentríão apparecem montanhas e cordilheiras que se estendem por 
muitos kilomelros, devendo notar-se o monte Shart, a ENE. do rio de 
S. Bento e o dos Micos ou Mitre, 44^,4 da beira-mar, ao SEViS. do 
mesmo rio. 

Rio de S. Benfo. — O rio de S. Bento está fronteiro á ilha do Principe, 
flcando ao N. da bahia do Corisco. Tem entrada estreita mas profunda, 
segundo informa A. Tardieu, e a 7'',4 da foz dívide-sc em dois ramos, di- 
rigindo-sc um para ENE. e outro para ESE . 

A ponta do N. da foz oITerece boa conhccença, por causa do monte 
Haybern que repousa em 1° 36' do latitude N. c 18^ 46' 39" de longi- 
tude E., dando-se muitas vezes este nome ao próprio rio. 



21 

As ilhas partogaezas e a eosta do Gabio. — Â costa fronteira ás ilhas de 
S. Tbomé e Príncipe, isto é, a fracção da costa do Gabão, desde o cabo 
de Lopo Gonçalves até ao rio de S. Bento, merece detido exame. 

Não estão ainda cultivadas as terras adjacentes á costa, nem actual- 
mente ba communicações regulares entre as babias que por ali se abrem 
e as ilhas de que nos occupâmos. 

Levantam-se, todavia, alguns povoados nas margens dos rios e em al- 
guns pontos da costa, mas de nenbum d'elles se exportam productos 
agrícolas e fabris, o que mostra o atrazo dos habitantes d'aquella região. 

Entre o rio de S. Bento, fronteiro á ilha do Príncipe, e o cabo de Lopo 
Gonçalves, ha cerca de i i 3 kilometros de extensão, havendo dífiíerentes 
babias e rios que, apesar de serem pouco procurados, não deixam de 
ter importância. 

Os portuguezes, segundo a informação do Paul Ducbaillu, ainda em 
1856 tinham algumas feitorias na bahia de Sengatão e suas proximida- 
des. Foram, porém, abandonadas, como todas as que havia na costa do 
Gabão. 

São baixas as terras próximas ás margens da bahia de Lopo Gonçal- 
ves, e nota-se sobre o extremo da margem oríental a aldeia denominada 
dos Feitiços. É pobre e está quasi abandonada. Não é facíl o desem- 
barque n*aquelle local. 

Passada a ponta dos Feitiços, apparecem os rios Ogôoué e da 
Nazareth que desaguam n'uma angra obstruída com areia, cascalho e 
coral, formando alguns bancos que se estendem até 111 kilometros da 
costa. 

O rio Ogôoué, em cujas margens se levantam alguns povoados e fei- 
torías, passa sob o equador, e dá muita importância á angra da Nazareth 
OQ de Ogôoué, como os francezes lhe chamam. 

É pequena a bahia de Sengatão, podendo calcular-se a sua superGcie 
em 15^,4 quadrados. Na margem direita ha um povoado e na praia dois 
barracões. Levanta-se a uns 1 1^,1 a montanha de Sengatão, junto á qual ha 
ama aldeia. Apesar d*esta não subir a grande altura, é comtudo boa marca 
para se reconhecer a bahia de Lopo Gonçalves. 

A 46^,3 do equador está o monte de Sengatão. 

Das terras baixas que rodeiam as margens da bahia de Lopo Gonçal- 
ves para o N. começam os terrenos a elevar-se, notando-se a cordilheira 
das Dunas Grandes, a que também se dá o nome de Fanaes. Estão lança- 
das parallelamente á costa na extensão de 27S7, e ao meio das quaes 
passa o equador, não sendo díflicil reconhecer o logar em que a latitude 
é nulia, poisque a 7*^,4 da linha sobresáe uma das Dunas Grandes, a qual 
se distingue a um terço da cordilheira, contando do N., e 5^,5 ao S. do 



28 

equador levanta-se a chamada Duna Plana, que se acha a 12^,9 da maior 
das referidas collinas. Está demonstrado que a linha equínoccial passa 
na costa do Gabão ao meio das Dunas Grandes, entre a maior d^ellas» 
7S4 ao Nm e a chamada Duna Plana, 5^,5 ao S. 

Ao N. das Dunas Grandes ou Fanaes, descem de novo as terras até á 
margem esquerda do rio do Gabão, de que já falíamos, assim como da 
bahia do Corisco, separada da foz d'aquelle rio por uma espécie de penín- 
sula, ao O. da qual fica o cabo de S. João, e uns 53^,7 mais adiante 
tem a foz o rio de S. Benta. Ha differentes aldeias nas proximidades doesta 
costa e três ribeiros que desaguam no mar. 

São muitas as terras altas que se estendem para o interior, subindo 
alguns montes a mais de 1 kilometro acima do nivel do mar. É esta uma 
condição importante para a salubridade das povoações que se formarem 
em taes latitudes. 

Rio do Gampo.^ A foz d*e8te rio tem cerca de 1:8B8 metros dé largo, 
e as bordas arborisadas. Ha na sua margem esquerda uma aldeia pouco 
importante. 

Snseada do Pio da Naa oa Panayia. — Tem esta enseada 72^,2 de com- 
primento, segundo Alexandre de Castilho. Aos limites que a formam 
chamam ponta da Boroa e cabo do ilhéu ou ponta do Carajao (Garajam), 
ficando aquella ao N. e esta ao SSG. 

Ha no fundo da enseada dois ribeiros, sendo mais meridional o rio 
de Panno ou Panmo. 

No sitio mais recuado despeja outro regato de boa agua, o que deve 
ter-se em attenção quando se fundeia n'aquella enseada. 

Á serra que se levanta para o sertão da bahia, e que é boa marca, 
apesar de estar amiudadas vezes encoberta pelos nevoeiros, pozeram os 
nossos antigos o nome de Pâo da Nau. Em três banquetas se estiram 
aquelles montes, a primeira a 5^5 da costa, a segunda ali kilometros, 
e a terceira, a mais alta de todas, a uns 27^,7. São todos contrafortes 
da cordilheira que se ergue mais para o S. 

Rio da Boroa. — A ponta do N. d'este rio está em 3® 35' de latitude e 
18® 47' òO'' de longitude E., segundo Alexandre de Castilho. Fica pró- 
ximo da ilha Branca e tem 1:026 metros de largura na foz. 

A costa que se estende desde o cabo de Lopo Gonçalves até ao rio 
dos Camarões é a face ou margem oriental do golfo dos Mafras. Levan- 
tam«6e, quasi paraUelamente á costa, montes de formas cónicas» aimílhan^ 



33 

tes a um pao de assucar; sao solitários ou compõem cordilheiras mais 
ou menos extensas. Téem mais nomeada os Micos, pela altura do cabo 
de S. João, os montes Banoko, Nisus, as Mamas, as montanhas da 
Âlouette, de Sadle ou Sella, da Table ou Mesa, o monte de Lavai, em 
frente da bahia do Corisco e a montanha de Sangatão, boa balisa para 
se entrar na bahia de Lopo Gonçalves. 

Os ventos que varrem estas terras chegam á ilha de S. Thomé.pelo 
quadrante do SE. rodando pelo E. para o NE., onde apparecem umas 
vinte vezes segundo as observações feitas em 1872. Estes ventos podem 
saturar-se dos vapores ou miasmas palustres que um ou outro valle pan- 
tanoso lhes transmitta, mas não é somente por este lado que são prejudi- 
ciaes aos climas, visto que elles transportam tanto o calor como o frio, se- 
gundo a região sobre que passam. 

É por esta rasão que alguns escríptores os tomam como causa prin- 
cipal da insalubridade ou salubridade de muitos paizes. Nós, não a 
tendo por mais importante, reputamol-a comtudo digna de attenta obser- 
vação. 

Rio dos Camarões. — Este rio é o limite entre a margem oriental e a Oc- 
cidental do golfo dos Mafras. Não ha erro em assim o considerar, e por 
este modo facilita-se a comparação dos logares que mencionámos. 

A abertura entre o cabo dos Camarões e o do Gallo (ponta Suella- 
ba, na carta geographica de Wilson) mede 12 kílometros. Forma-se de- 
pois uma vasta bacia, onde se juntam as aguas de muitos rios. Mas a 
barra do rio dos Camarões está realmente acima d'esta bacia, devendo 
este considerar-se também um affluente como outros que ali lançam suas 
aguas. 

Entre o cabo dos Camarões e o do Gallo fica, pois, a abertura de uma 
bacia e não a embocadura de um rio. Subdivide-se aquelle grande seio em 
differentes bacias interiores, e a sua margem esquerda tem cerca de i8\ti 
de extensão, abrindo-se n'ella a foz dos rios Malimba e Dongo* Na riba 
direita desaguam os rios Mardocai e Matunal, alem de outros de menor 
volume de agua. 

Do ENE. chega á bacia de que falíamos o rio dos Camarões, depois 
de um curso de 124 kilometros approximadamente. Despenha-se a sua 
nascente de uma altura de 15 metros, desce para SE., encurvando-se pelos 
4^ 3(y de latitude, sendo separadas as aguas em dois leitos pela ilha 
denominada Wouri, com 7^,2 de comprido sobre 6*^,4 de largo. Unem-se 
em seguida as aguas do rio até encontrarem a extensa ilha denominada 
Jibareb, que, como a primeira, é muito povoada. Corre de novo o rio 
n'um só leito, confnndindo-se finalmente com as aguas da bacia entre a 



24 

ponta Malimba e a Greeo Patcb, extremo da margem esquerda do rio Ma- 
tanal. 

Desapparecem os mangues cerca de 3^,7 acima da ilha Jibareb, o que 
faz mudar o aspecto das margens do rio e estabelece uma linba de de- 
marcação, em que o medico bygienista não pôde deixar de attentar. É 
também por esta altura que não se fazem sentir as marés. 

As terras banhadas pelas aguas do rio dos Camarões, os alto-planos e 
montanhas que ficam ao occidente d'este rio e as planícies do rio Níger, 
a 277^,8 ou 305^,5 de distancia, téem climas tão diversos dentro de uma 
zona tão limitada que a carência da sua descripçSo seria grande lacuna no 
estudo da salubridade ou insalubridade das regiões equatoriaes de que 
nos occupámos. 

O capitão Âllen, em 1843, no vapor Wilber force, subiu o rio dos Ca- 
marões uns 74 kilometros, e deixou uma minuciosa e importante descri- 
pção d'esta localidade. 

Nos terrenos marginaes de tão notável rio e em algumas das suas ilhas, 
existem differentes povoados ou muitas aldeias. 

Não sabemos se a acclimação dos europeus é possível n'aquellas para- 
gens. Alexandre de Castilho diz que são lindas ali as noites em março, abril 
e maio, e que os dias, principalmente em março, são muito quentes, de- 
clarando que o thermometro á sombra tem marcado 38^ e 40^ centígra- 
dos. Oscilla então o barómetro entre 758 e 762 millímetros e sobe 
quando terminam os tornados. 

Na cidade da ilha de S.Thomé não se observou em 1872 similhante 
temperatura, havendo apenas dois dias, em maio, em que ella chegou a 
35^,2 e 3S°,6 centígrados. Reputámol-a extraordinária, e existindo acci- 
dentalmente, talvez, sob a influencia de phenomenos atmospherícos que 
se não observaram n*aquella occasião. 

A necessidade do estudo da geographia medica comparada é attes- 
tada por muitos factos, não sendo de pequena importância o de se ver o 
picoMongo-Ma-Lobah, erguendo-se nas proximidades do rio dos Cama- 
rões, muitas vezes coroado por uma camada de neve. 

Sob a zona tórrida, a poucos kílometros do equador, encontra-se o 
clima ardente, bem como o quente, doce, temperado e frio. É importante 
esta observação, e fornece valiosos elementos para a questão de acclima- 
ção, e por conseguinte para as da emigração e colonisação, assumptos 
momentosos que chamam a attenção dos poderes públicos e dos homens 
de sciencia. 

O cabo dos Camarões está situado em 3"" 54' 48" de latitude N. e 18'' 38' 
longitude E., e o pico IMongo-Ma-Lobah levanta-se em 4^ 12' 40" de latitude 
N. e 18^ 29' de longitude E., o que mostra a proximidade dos sitios a que 



25 

nos referimos. A foz dos Camarões dista da ilha de S. Thomé cerca de 
500 kilometros. 

PÍ60 MMgo-Ma-Lobah.— É muito alto este pico e merece descripçâo es- 
pecial. Transcrevemos, pois, sobre a topographia d'elle, o que disse Ale- 
landre de Castilho, por satisfazer plenamente ao nosso fim. 

cNa ponta S. do golfo de El-Rei começa a levantar-se a serra do MotSo 
(Maton) ou dos Camarões, cujo pico mais elevado, por nome Mongo-Ma- 
Lobah, tem seus 4:200 metros de alto, e avista-se a mais de 111 kilome- 
tros de distancia. 

tCorre essa cordilheira ao N.-S. para N. d'aqueUe monte, e ao NNE.- 
SSO. para S. d'elle, e termina da banda do S. na montanha Mongo-Ma- 
Etindeb, a qual tem 1:775 melros de alto, e fica a uns 16^,6 d'aquelle. 
Ergue-se o Mongo-Ma-Lobah em 4"" 12' 40^' N. e IS"" 20' E., quasi a igual 
distancia dos cabos Formoso e de S. João, extremos do golfo dos Ma- 
fras, a ons 632^,9 do primeiro e a 337 do segundo, e quasi no parallelo 
do Formoso e do meridiano do cabo de S. João. 

cCobre-se quasi toda a serrania de frondosas matas, e só na costa 
oriental se vô uma faxa nua e escura que se afigura leito de lava ; por 
isso, por affirmarem os naturaes que já em tempo saíra fogo do cume 
das montanhas, e por ser vulcânica a natureza d'essas rochas, se suppõe, 
com bom fundamento, ser a serra do Motão um vulcão extincto. Quasi 
sempre se envolve em névoas o pico Mongo-Ma-Lobah ; quando, porém, 
se descobre, mais parece um outeiro que se levanta sobre alta planície, do 
(fie montanha que sobreleva outras. Cobre-se muita vez de neve aquelle 
pico. 

iFertilissímos valles, povoados de gente das tribus dos bambokos, 
bakwileh e batongos, se prolongam por entre essas montanhas e entre 
as serras do Motão e do Rumby, a qual deve ser também muito alta, pois 
se avista a mais de 111 kilometros de distancia. Um rio, que é braço do 
rio dos Camarões, banha a aba oriental da serra, bem como o valle que 
jaz entre os montes Bumby, do Motão e outros menos alentados, sitos 
para NE., e que separam o valle de Bimbia do valle dos Camarões.» 

O Pico Mongo-Ma-Lobah é muito mais alto que o tão nomeado pico 
de Teneriffe, e excede também os Pyrinéos, e tem povoações a maior al- 
tura do que o celebre monte Quito, que dá assento a uma grande cidade. 

A posição d'aquelle monte na região de que nos occupâmos é impor- 
tante, e presta-nos valiosos dados para chegarmos á resolução de muitas 
questões de colonisação, de hygiene equatorial e especialmente dè accli- 
maçio, a cujo estudo nos entregámos desde 1869. 

O capitão Allen traduziu Mongo-Ma-Lobah por cMontanha de Deusi, 



86 

6 nós chamar-lhe-hemos cMontanha da sciencia», porque nos offerece a 
explicação de muitos factos sobre que lioje não pôde haver contestação. 
O solo doesta montanha é fértil, e, como se desdobra em collinas, alto-pla- 
nos e vallesi é susceptível de ser habitada a differentes alturas. São alen- 
tadas as arvores que formam a floresta até cerca de i:800 metros; d'este 
ponto para cima apparecem a relva e vegetaes herbáceos, e toda esta 
magestosa verdura vae desapparecendo á maneira que o viandante se 
approxima dos 3:400 metros e d'ali para diante. 

A julgar pelo fumo, diz A. Tardieu, que se eleva de muitos pontos 
até grande altura da montanha, os povos que a habitam são numerosos. 
E o que é singular é passar por muito salubre a bahia dos Ambozes ou 
Zambús, que não fica muito distante de localidades mortíferas. 

Bahia de Amboies oa de Zambus (Ambas oa Amboise). — Torna-se notável 
esta bahia por causa das suas ilhas. Gosa alem d'isso da fama de salubre, 
o que se attribue á sua posição especial. 

Na margem oriental levantam-se quatro coUinas altas, e fica de um 
lado a ilha de Fernão do Pó e do outro erguem^se as soberbas monta- 
nhas dos Camarões. 

Rio de El-Rei.— Abre este rio a sua foz a 518S.*i distante da ilha de 
S. Thomé. Tem 0^,2 de largura entre a ponta Backassey e a da Pes- 
caria. Cerca de 11 kilometros a E. está outro rio que, no dizer de Ale- 
xandre de Castilho, se julga ser braço do rio de El-Rei, e acrescenta que 
este sítio é o mais recuado do golfo dos Mafras, e tem o nome de golfo 
de El-Rei. Fica portanto n'este logar o vértice do angulo inscripto ao 
golfo, 8 cujos lados se abrem, um para a costa do Gabão, terminando no 
cabo de Lopo Gonçalves, e outro para a do Calabar, acabando no cabo 
Formoso. 

Ao golfo de El-Rei chegam as aguas de muitos riachos carregados de 
detritos animaes e vegetaes e de terras de alluvião, e também n'elle se 
reúnem as aguas do rio de Rumby, que tem a sua foz em 4° 31' de lati* 
tude N. e {&" 1' de longitude E. 

Velho Calabar (Calbary, Dongo ou Oióne). — É o primeiro ou o ultimo 
braço do Niger, segundo se começam a c^ontar da margem oriental ou 
Occidental do delta. Tem na sua foz 17^,5 entre as pontas elevadas e co- 
bertas de mato cerrado, sendo a do 0. denominada Tom Shot e a do E. 
East Head. 

O Velho Calabar, segundo diz Alexandre de Castilho, communica 
com o rio Niger ou Quorra por meio de três ramos, o primeiro vae ter 



87 

á aldeia de Kirree e o outro á de Damuggo ou Adakuru. No curso do 
rio ha duas ilhas, a dos Papagaios e a James, sendo aquella a primeira a 
contar da foz do rio. Ha muitos afiduentes» sendo os mais notáveis Ba- 
ckassey, Grão Qua e Cross. 

Encontram*se ali differentes aldeias, cujos habitantes têem a cõr ama* 
rella-clara, estatura pequena e as formas do corpo dignas de attento exa« 
me, o que faremos n'outro logar d'este trabalho. 

A ponta do 0. do rio está em 4"" 36' de latitude li.eiT 26' 30" de 
longitude E. 

O arvoredo nas margens do rio e nas duas ilhas é abundante, não 
permíttindo os mangues o desembarque. 

O tbermometro á sombra e ao ar livre tem chegado a 32® centigra* 
dos, e quando a brisa da manhã falta, o calor do meio dia á uma hora da 
tarde é muito intenso. O barómetro varia entre 0,758 e 0,762. 

Os tornados em março s3o violentos. 

Kío Done (Andonej oa António). — Está este rio cerca de 27^,7 ao oriente 
da bahia de Boni e ainda mais 29^6 no mesmo sentido ficam dois ríbeirosi 
que n3o foram ainda denominados nem estudados, segundo a informação 
de Alexandre de Castilho. 

Sendo o nosso fim enumerar os rios que recortam as terras do delta 
do Níger, não podemos deixar de nomear os que ficam, a contar do 
oriente para o occidente, na margem direita do golfo dos Mafras ou 
esquerda do delta do Níger. 

Bahia do Boni on do Obáno.— Téem ido á ilha de S. Thomé navios proce« 
dentes d'esta bahia, onde desaguam os rios Real ou Novo Galabar e Boni, 
ficando este antes d'aquelle, segundo a ordem da nossa enumeração. 

O Novo Galabar é pouco procurado pelas embarcações, em conse* 
quencia da difiiculdade para se cursar quando se deseja sair do rio, e por 
isso preferem o Boni para o commercio do azeite de palma, que é o artigo 
principal de exportação. 

A povoação chamada Boni on Obáne tem 7:000 almas e, segundo 
escreve Alexandre de Castilho, sobe a mais de 40:000 o numero dos ha- 
bitantes de todas as aldeias que lhe ficam vizinhas* Por ser mau o clima 
do rio, devem poupar-se os europeus á faina de escaleres e da primeira 
purificação do azeite que se faz em terra, na qual se poderão empregar 
08 trabalhadores da costa de Grãos. 

Tanto o rio Boni como o Novo Galabar são ramos do Niger. Os natu- 
raes navegam até mais 73^»3 em grandes canoas, percorrendo os diffe- 
rentes braços d*aquelle riO| a fim de obterem aBeíte de palma. Adoram 



28 

os lagartos e crocodilos que consideram divindades, e em que nSo se pôde 
tocar sem attrahir as iras d*aquella gente. 

Da ilha de S. Thomé ao rio Boni vão em linha recta cerca de 461\l. 

O vento forte pôde vir ao rumo NO., passar nas margens do rio 
Boni, percorrer toda a extensSo de mar que separa as ilhas do Príncipe e 
S. Thomé, e chegar ali impregnado de miasmas de que se tenha satu- 
rado. 

Em geral os ventos, como é sabido, sustentam duas correntes, uma 
próxima á terra e outra superior ou das nuvens, e por isso n3o 6 raro 
apparecer o pollen, areia finissima e differentes animalculos, a 500 kilo- 
metros da costa, elementos estes que podem conservar-se dois dias sus- 
pensos no ar, sendo impellidos n'uma direcção determinada durante todo 
esse tempo. 

O extremo occidental da bahia de Boni está 4® 23' 35" de latitude N. 
e 16° 9' 20" de longitude E. 

Rio do Sombreiro. — Ao rio Real ou Novo Calabar segue-se o rio Som- 
breiro. 

A beira oriental do delta torna-se mais baixa, passado este rio que tem 
a sua ponta esquerda coberta de arvores muito unidas e copadas, proje- 
ctando-se para fora, e dando-lhe antes a figura de uma semi-abobada do 
que a de um sombreiro ou chapéu de sol. Seja, porém, como for, tomou 
este nome da forma que apresentava o arvoredo que lhe cobre a ponta da 
margem direita. 

O rio do Sombreiro, não tendo a importância do do Gabão ou do dos 
Camarões, não deixa por isso de chamar a attenção dos que desejam 
conhecer a natureza do clima da zona que estudámos. 

Ha, porém, uma rasão que per si sô mostra a necessidade de se 
enumerar tal no — é ser o quinto braço do delta do celebre rio Níger ou 
Quorra. 

Rio de S. Barthomen, dos Hafras oa dos Três Irmãos. — É o sexto braço do 
delta do Niger, na margem occidental da golfo dos Mafras, o qual tomou 
o nome d*este rio. Tem de largura na entrada cerca de 1 :852 metros, 
sendo baixa a margem direita e mais alta a esquerda. A alguns kilome- 
tros da foz, as terras regadas pelas aguas do rio são baixas e recortadas, 
parecendo formar ilhas. 

Não tem sido bem examinado o curso d'este no, mas, segundo Ale- 
xandre de Castilho, contam-se differentes ramos, indo um para o Niger e 
os outros para o Velho Calabar. Encontram-se também n'elle os mangues, 
como symbolo da insalubridade d'estas localidades. 



29 

Rio de SanU Barbara.— Communica este rio, como o antecedente, com 
o Níger. É o terceiro contando do cabo Formoso, ou o sétimo começando 
do Velho Calabar. As suas margens são características, estando a direita 
quasi a prumo e a esquerda destacando-se em forma de escada, o que 
Ibe dá um aspecto singular. O que é este rio, emquanto á salubridade, 
avalia-se pela posição em que se acha ; está quasi no centro das margens 
do delta do Niger. 

Rio de S. Nicolau.— É este o segundo rio desde o cabo Formoso, fican- 
do a sua foz cerca de 433^3 distante da ilha de S. Thomé, o que deve 
ler-se em consideração, attenta a localidade em que está situada. 

Rio de S. Bento (St. John or Brass). — É o primeiro que se apresenta, 
dobrado o cabo Formoso para se entrar no golfo dos Mafras. A sua 
ponta Occidental está a 4M6' de latitude N. e IS"" ia! 6'' de longitude E. 

O extremo da margem direita do golfo dos Mafras é o cabo Formoso, 
o qual fica entre o rio de S. Bento ao oriente e a foz do Niger ao occi- 
dente. 

A entrada do rio de S. João ou de S. Bento tem 10 kilometros, e 
communica por vários esteiros ou braços com o Quorra ou Niger dd um 
lado e do outro com quasi lodos os rios que lhe ficam perto e para E. 
Alarga-se adiante da foz uns 370 metros, e tem de fundo 20, e as mar- 
gens, para não haver excepção, são também orladas de mangues. 

Cabo Formoso. — Para se fazer idéa clara do que é este cabo, reprodu- 
zimos o seguinte trecho do livro de Alexandre de Castilho. 

cDescreve quasi um arco circular de grande raio a beira-mar do vasto 
delta do Quorra, o qual sáe uns i29\6 para S. da linha tirada do 
sitio mais recuado do golfo de Benim (da aldeia de Jacknah) ao mais 
recuado do golfo dos Mafras (o rio de El-Rei) ; se bem não haja por ali 
ponta alguma, chamaram os portuguezes cabo Formoso á extremidade 
oriental do golfo de Benim, onde a terra se encurva para E. Julgámos que 
o mais acertado será dar esse nome á ponta das Palmas, por ser em toda 
essa costa o sitio que mais resáe.» 

Rio Niger on Qaorra e o celebre deita qne elle forma. — O rio Niger ou a Cruz 
dos Geographos, como lhe chama Malte-Brun, tem sido o objecto de gran- 
des discussões entre os sábios da Europa. Mas não appareceu a luz sem 
o sacrifício de numerosas victimas. Era indispensável observar o curso 
dos rios, os usos e costumes dos povos, a fertilidade e riqueza d^aquella 
região desconhecida. Não faltaram ousados exploradores. A morte de um 



80 

nSo fazia desanimar os outros. Merecem todos homenagem, e citaremos 
Mungo Park, Denham, Peddle, Oudney, Rilchie, Clapperlon, Caillé, Gray, 
Olefield, os irm9os Landers, como beneméritos da humanidade, não es- 
quecendo Allen, Beecroft, Trotter, Richardson, Overweg, dr. Barth e T. 
Hutchinson, porque, assim como os primeiros, se empenharam na soln- 
ç8o de uma questão t3o debatida entre os geographos e a qual dependia 
somente das observações feitas nos logares de que se tratava. 

Das viagens dos dififerentes exploradores têem-se obtido minuciosas 
informações. 

Divide-se o Niger em três regiOes, alta, media e inferior, sendo esta 
ultima a que forma a região central do delta. 

A direcção que tem este celebre rio, as planicies que atravessa, os 
seus aflDuentes e os lagos com que communica, estão summariamente 
descriptos pelo nosso hábil e minucioso hydrographo, Alexandre de Cas- 
tilho. 

A importância do assumpto Justifica plenamente a seguinte transcrí- 
pção: 

«Nasce o Dhiouliba na encosta de E. do monte Loma, um dos que for- 
mam a serrania do Kong, a qual, estendendo-se E.-O., atravessa toda a 
Atrm Central. Na costa oriental d'essa cordilheira fica a nascente do Dhiou- 
liba, pela mesma latitude em que está a do rio da Serra Leoa, sita na ver- 
tente O. do mesmo monte. 

c Banha o Dhiouliba toda aquella cadeia, á qual dá volta, seguindo para 
E.; atravessa depois o lago Debo, e, subindo para N., vae passar quasiao 
pé de Tombuctu, que fica a uns 9 kilometros do rio, e por 18° N. e entre 
5° e 6° E. Exagerou-se muito, em outros tempos, a grandeza e opulência 
d*essa cidade africana, hoje pertencente a fullaneseatuaregs; não passa, 
porém, de 4'*,5 a sua circumferencia, nem de 13:000 almas a sua popu- 
lação fixa, a que haverá a ajuntar umas 6:000, de novembro a janeiro, 
tempo em que ali chegam as caravanas. 

«Corre depois o Dhiouliba para SE., banha Gao, Say, Boussa, Rabba, 
Egga, troca o nome pelo de Quorra, no sitio onde despeja o Tchadd, e 
desce para S., regando as planicies de Guiné, onde se divide em muitos 
braços que retalham 166^,6 de costa. 

«Os seus principaes affluentes conhecidos são: o Sirba, o Tchadd, que 
atravessa as províncias de Kororofa e Doma, e se chrisma depois em 
Renué; passa em seguida por Baber e Adanova, e, ao dizer dos antigos e 
também de alguns modernos, communica-se com esse grande Caspio aft-i- 
eano, o lago de Tchadd, que tem uns 67:912 kilometros quadrados de su- 
perflcie, e onde despejam os rios Chary ou Asu, do qual foge para o lago 
Tumbory um ramo que banha Logoum, Komadougea e Yeou. A essa ra- 



SI 

mlflcaçSo vae ter outra, por nome Gambarou, a qual nagce perto de Kano, 
cidade de 30:000 vizinhos, e capital da província do Kano, onde se con- 
tam 150:0001 Também nas margens d*aquelle lago assenta a cidade de 
N^gornou ou da BençSo, muito limpa, mas pobre, e cuja maior parte foi 
destruída pelas inundações de 1854 e 1855. Pouco para N. d'esta se 
levanta a cidade de Koulca, formada de dois bairros distinctos, cercados 
ambos de muralha, e unidos por estrada com seus 800 metros de com- 
prido: n'um d'esses bairros, e em grandes casas bem arruadas, reside a 
parte mais rica da população; no outro, porém, onde mora a gente po- 
bre, s9o estreitas as ruas e formadas de cabanas miseráveis. 

cS3o também affluentes do Quorra: o Condoma, que atravessa as pro- 
vincias do Nufl e Igbira, e nasce ponco para cima de Egga, e o Rima ou 
Fadama, que atravessa Dendina, Zaberma, Zanfera e Couber, e deita dois 
ramos, um dos quaes banha Solcoto, residência de um sultão e o outro 
passa por Katchena, cidade que nos séculos xvii e xvm foi cabeça d'aquella 
parte do Soudan, occupa uma área de 20 ou 22 kilometros quadrados, e 
conta hoje só 8:000 almas. 

cReparte-se depois o Quorra nos seguintes rios: 

€ Para 0. da foz: rio da Lagoa (1 .•), Formoso ou de Benim, dos Escra- 
vos, dos Forcados ou de Oére, dos Ramos, Dodo, Pennington, Middleton, 
Blind, Winstansley e Sengana, total onze braços. 

tPara E.: rio de S. Bento, de S. Nicolau, de Santa Barbara, de S. Bar- 
tbolomeu (ou dos Mafras), do Sombreiro, Real ou de Calabar (New Ca- 
lebar), de Boni, de Done (Andoney), e Calbary ou Velho Calabar (Old Ca- 
lebar ou Dongo), total nove braços.» 

A descripç3o que acaba de ler-se a respeito do tristemente celebre 
rio Niger, dá idéa approximada do seu curso e dos numerosos braços por 
que elle desagua no mar. Para o nosso fim seria suíficiente o conhecimento 
do Niger propriamente dito e do seu famoso delta, se, a par das condi- 
ções de salubridade ou insalubridade de cada local, não quizessemos 
coordenar tudo o que possa concorrer para a resolução das principaes 
quest5es de colonisação da Africa portugueza, onde não ha regiões tão 
infamadas de insalubres como aquella, e cuja geographia comparada 6 
muito útil conbecer-se. 

Continuaremos, pois, a pôr em relevo os pontos principaes de que ô 
preciso ter conhecimento, para fazer idéa de qualquer paiz da Africa equa- 
torial. 

O vértice do angulo superior, cujos lados formam o delta do Niger, 
está situado na aldeia denominada Nidoni, muito para o S. do logar da 
júncção das aguas do Tcbadd, vindo do E., com as do Dhiouliba, correndo 
de 0. para NO. e SE. Aquelles dois rios, confundidos n'um só, o Niger, 



32 

descem depois para o S. lançando-se no mar nos pontos designados pelo 
illustrado geographo Alexandre de Castilho : 

cA 11^,1 do rio Sengana, a 203^,3 da embocadura do de Benim, para 
E4VfSE. do cabo de S. Paulo» e finalmente em i"" 46' 20" de latitude 
N. e 15® 12' de longitude E., se abre a foz do rio Quorra, também chamado 
Niger, Kouara, Dhiouliba, Mayo, Eghiriéou, Isa e Baki-nYoua, que tudo 
equivale a dizer O Rio nas linguas da terra.» 

É de 1:852 metros a largura da entrada do Quorra e de 2:315 a dis- 
tancia entre as pontas, por sair a extremidade oriental do rio 1:389 me- 
tros mais para S. do que a Occidental. Ambas são arenosas e cobertas de 
arvoredo. 

Os três pontos ou vértices principaes do delta do Niger são, finalmente, 
ao oriente, a foz do Velho Calabar, ao occidente, a do rio da Lagoa, e, 
da parte do N., como dissemos, uma aldeia ao S. da reunião dos grandes 
rios Dbiouliba e Tchadd, denominada Nidoni. 

Poderia também marcar-se o vértice do angulo superior do delta nas 
aldeias de Damaggo ou Kirri, de junto das quaes saem os braços que 
põem o Niger em communicação com o Velho Calabar; mas da aldeia de 
Nidoni para baixo está o maior numero de confluentes, e fica por ali a 
parte central do delta. 

É muito extensa a superficie miasmatica formada pelos braços do 
Niger, havendo logares em que as febres perniciosas acommettem os 
forasteiros nos primeiros dias da sua chegada. Nenhum navio ali deve 
commerciar sem que leve os soccorros que a sciencia indica. 

Antes de fatiarmos acerca dos rios principaes que formam o Niger, 
apresentámos um mappa dos braços de que se compõe o seu famoso del- 
ta, e a respeito de cuja forma e posição apparecem divergências que não 
devem existir. 

cNa Africa, diz o diccionarío de Larousse, o Kouara forma, approxi- 
mando-se do golfo de Guiné, um vasto triangulo equilateral, envolvido 
pelo Velho e Novo Calabar e rio de Noun.» 

O delta do Niger, pelo contrario, tem por lado externo, direito, os rios 
da Lagoa e de Benim, e por lado externo, esquerdo, um dos aflDuentes 
ou ramos do Velho Calabar. Alem disso chama-se rio de Noun ao pró- 
prio Niger, e o Novo Calabar fica entre os braços da margem esquerda 
do delta, e não pôde portanto envolvel-o. 

As numerosas bocas do Niger mostram a fraqueza da corrente das 
suas aguas e o pouco declive dos terrenos em que elle corre. Já assim 
não acontece ao rio Amazonas, na America do Sul, poisque a corrente 
segue com tal força que penetra no Oceano até muitos kilometros da foz^ 
e não deixa atrás de si a serie de confluentes que ha nas margens do Niger. 



33 



AFFLDENTKS DO RIO NÍGER E SEUS BRAÇOS PRIKCIPAES 



Rio Dhioidiba, vindo do NO. e o rio Tchaddj vindo do E. 

(7o 45' de latitude N. 
reunem-se em jeoigrdelongitudeE. (Greenwich). 
3^,3 do Caho Formoso, qae sáe uns 55^5 para fora da linha tirada entre os pontos 
mais recuados dos golfos de Benim e dos Mafras, ambos aquelkes rios formam 

O rio Ní^ev ou Qnomra. 

que desce para o S. e desagua no mar por 20 hócas, li para a direita e 9 para a es- 
querda da foz, dando assim origem ao 

Oele1>re eleita cio Ní^eir 



Margem occidental, comprehendendo 398^1 Margem oriental, comprehendendo 266S6 
da costa oriental do golfo de Benim. da costa occidental do golfo dos Mafras. 

Distancia em linha recta 

entre cada ama das embocadaras 

dos braços do delta 

L»do «- (Rio da Lagda ou Lagos, n^^^ ^^^^ 

'"'»'. «"«'» 382'.2 do rio Velho Calabar !,„ j„ j;,„ 

direi to,jRio Formoso ou de Be- 

do delta.\ nim, dista 305^0 do rio Done, Andoney ou António. 

Rio dos Escravos, dista 250S0 do rio de Boni ou de Obáne. 

Rio dos Forcados, dista 214^8 do rio Real ou Novo Calabar. 

Rio dos Ramos, dista . . Í88S9 do rio do Sombreiro. 

Rio Dodo, dista 175^5 do rio de S. Bartholomeu ou dos Mafras. 

Rio Pennington, dista. . 122^2 do rio de Santa Bafbara. 

Rio Midleton, dista. . . . 83'',3 do rio de S. Nicolau. 

Rio Blind, dista 57^4 do rio de S. Bento, S*. John or Brass. 

Rio Wiiislansley, dista. . 18^5 |, , , . „. 
ft. o a\ jjkj ida foz do no Níger. 

Rio Sengana, dista ii%i ) 

í 4» 46' 20" de latitude N. 
I^oas do Nifirei- ou Qiion*a, j^g, ^j, ^^ longitude E. (Lisboa). 

Distando esta, finalmente, 

da foz do rio Velho Calabar 255^,5 | 

da foz do rio da Lagoa 392^6 > vértices do delta. 

da aldeia de Nidoni 138S9 ) 

da ilha de S. Thomé 444S6 

da ilha do Príncipe 333^3 

O oentro do delta do Niger dista 

da cosUdo NO. da ilha de S. Thomé ollSl ; da costa do NO. da ilha do Príncipe 348^,9 

3 



34 

Os rios que formam o Níger vem um do nascente e outro do poen- 
te, regando largas planícies. Nas proximidades d'elles ha cidades, víllas e 
algumas aldeias ou povoações de que nos occuparemos resumidamente. 

Rio Tchadd.— Este grande rio, affluente do Níger, atravessa paizes muito 
férteis, ficando em 9^ a 11° de latitude N. É navegável para grandes em- 
barcações até ao interior de Âdamova. 

Adjacente á margem esquerda fica o Kororafa com a capital Wukari; 
lola, capital de Adamova, que é cortado pelo rio Faro, affluente do 
Tchadd, já chrismado em Benué ou mãe das aguas. Na margem direita 
está Doma e Baber. 

O rio Kebbl, por 0° de latitude N., põe o Benué em communícação 
com o lago Tumbori, e d'este sáe o rio Serbenet para o Grande Caspio 
ou lago Tchadd. 

Ao dn Barth devem-se minuciosas informações dos paizes banhados 
por este notável rio, e dos que se acham na margem Occidental do lago 
Tchadd, especialmente de Kouka, capital de Bornou. 

Segundo as dimensões por nós dadas á zona equatorial, podem no* 
mear-se como povoações de transição entre a zona equatorial e a tropi- 
cal n'esta parle da Africa, os paizes denominados Baghirmi, Bornoui 
Houssa, etc. 

Nos arredores de Mabani, observa o dr. Barth, encontram-se cam- 
pos férteis, arvoredos formosos, muito capim ou herva de Guiné, Índi- 
go, gados, bastantes trabalhadores, aldeias em todas as direcções e, a 
par de tudo isto, as herdades arrendadas, por onde pôde aferir-se a vida 
descuidada dos proprietários. 

Os mamoeiros erguem-se por entre as searas, ostentando seus deli- 
ciosos fructoS; e os edificios s3o construídos de modo que denotam não 
haver por ali as chuvas fortes de outros paizes. 

A viagem, em terras onde faltam todas as commodidades, não pôde 
ser agradável. Os caminhos são perigosos, vadeiam-se rios, percorrem-se 
charcos e plani&ies sem estradas, estando a vida em constante perigo. 

Os exploradores da Africa, os obreiros do progresso, que seguem na 
frente da humanidade, são os martyres da seiencia. A sua linguagem é 
simples e sincera, os seus actos arrojados e valorosos. Para melhor 
reforçarmos a nossa opinião, transcrevemos um trecho da viagem do 
dr. Barth, quando pela primeira vez se viu em frente do rio Tchadd : 

«Poucas vezes o viajante deixa de ser enganado na sua esperança, 
quando se vé em presença dos logares que havia imaginado ; mas a rea- 
lidade excedia a expectativa, e foi este um dos momentos mais felizes de 
minha vida. 



35 

tNascido próximo ao Elba, tive sempre predilecção pelas margens dos 
rios, 8, apesar do estado exclusivo da antiguidade, que me occupou por 
muito tempo, nunca perdi as impressões da infância. Logoque me foi 
possível associar o estudo ás viagens, sentia verdadeiro prazer quando 
seguia o curso dos rios, vendo-os nascer, formar riachos, crescer, torna< 
rem-se em ribeiros e depois em rios, muitas vezes caudalosos, cuja foz 
me comprazia em observar. 

<Se percorria qualquer paiz desconhecido, o meu ardente desejo bti 
descrever as correntes de agua que o banhavam, e desde ha muito tempo 
pensava em conhecer o rio Benué ou Tchadd. Era, porém, grande a ale^ 
gria que sentia ao contemplar aquelle rio, e ao ver confirmadas as minhas 
idéas a respeito d*eUe. 

tTinha agora a certeza de que por este grande canal se poderia chegar 
ao centro da Nigricía, ao interior da Africa Central. O caminho estava des- 
coberto, e era grande a minha satisfação ao lembrar-me de que a in- 
fluencia e o commercio da Europa fariam desapparecer d'ali as guerras de 
religião e a escravatura, isto è, a caça feita ao homem, concorrendo para 
o desespero de muitos povos pacíficos e laboriosos. » 

O dr. Barth não desanimou em presença de todas as difflculdades 
que se lhe apresentaram, nem os perigos que o rodeiavam o faziam de- 
sistir do seu intento. Ora ameaçado pela morte, ora perdido e exhausto 
de meios, nunca aquelle espirito superior desfallecia. 

Saiu de Mabani, dirigindo-se para o rio Tchadd, a fim de visitar 
Adamova. Depara vam-se-lhê, nas proximidades do monte Mendif, pla- 
nícies em que pastavam rebanhos de carneiros e de cavallos, e os ha- 
bitantes empregados nos trabalhos agrícolas. Mais alem, em Kofa, 
viam*se prados esmaltados de flores, vastos campos de sorgho, vigorosas 
arvores e toda a exuberância da vida vegetativa das regiões intertropi- 
cães. 

No meio das suas fadigas, o dr. Barth, muitas vezes cansado e doente, 
subia aos logares mais elevados para observar os terrenos que o rodea- 
vam, alargando por muito longe o seu horísonte visual. Sentia-se animado, 
observando as montanhas que se erguiam ao longe e o^ campos da Africa 
adusta que se lhe apresentavam cobertos de arvoredos e pastagens. 

No meio dos bosques e florestas descansava, mitigava a sede, hume- 
decendo os lábios com o sueco de alguma fructa, e respirava o ar embal- 
samado com o perfume das flores. Achava-se então com mais forças para 
continuar a sua viagem na provinda de Marghis e Adamova. 

A povoação de Marghis fica a 11^ de latitude N., emquanto que Yola 
está próximo de 8°. 

Adamova ô uma das mais formosas províncias da Nigrícia. Numerd- 



36 

SOS rios fecundam os valles, as montanhas sâo pouco elevadas, ha bons 
pastos e a vegetação é luxuriante; a coleira, a palmeira odorífera, o im- 
bundeiro, o algodoeiro, a palmeira de azeite e as bananeiras justifícam 
a fertilidade dos terrenos, onde se apascenta grande variedade de ani- 
mães. 

Dhioaliba ou Nlgcr. — Percorre este rio varias planícies e passa por dif- 
ferentes villas e cidades, situadas muito alem dos 11° 15' de latitude N., 
Ihnite entre as terras equatoriaes propriamente ditas e as que se acham 
sob o trópico boreal. 

O curso d'este rio toma diversas direcções. Desce da face oriental do 
monte Loma por 9® 20' de latitude N. e 16° 10' de longitude 0. de Paris, 
dirige-se do SO. para NE., passando ao S. da Tombuctu por 17° 30' de 
latitude N., tendo, como diz o dr. Barlh, o seu Havre em Kabara, for- 
mando ali uma bacia perfeita. Segue depois para E. e começa a inclinar-se 
para 0. do meridiano de Paris, correndo em seguida para SE., tendo al- 
guns aflluentes antes de se reunir ao rio Tchadd. 

Os paizes banhados pelos grandes rios Dhiouliba e Tchadd, e aquelles 
que ficam ao 0., S. e E. do lago Tchadd, fazem contraste singular com as 
regiões d'essa immensa superfície chamada Sahará e com as terras rasga-, 
das pelos braços do rio Niger. Aqui as doenças com todo o seu desolador 
cortejo, alem o sol abrasador e nuvens de areia, esterilisando tudo e tor- 
nando a vida impossivel ; entre estes dois extremos, valles fertilissimos, 
aldeias alegres e povoações agrícolas importantes. 

Que falsa idéa se faz na Europa doestes paizes I exclama o dr. Barth, 
ao atravessar as terras da bacia do Tchadd. Era logar da cordilheira dos 
montes da Lua, alguns montes isolados ; em vez de planuras estéreis, 
extensas planícies verdejantes recortadas por numerosas correntes de 
agua. 

Não deve portanto condemnar-se um paiz por se achar na zona tórri- 
da, poisque, como já dissemos, nos alto-planos dos Camarões, cerca de 
4° de latitude N., encontram-se o clima temperado, terrenos férteis e po- 
voações productoras; e no Sahará, região sub-tropical, faltam todas as 
condições de vida.É certo que o delta do Niger é muito insalubre, e que 
algumas cidades, taes como Kano, suo prejudiciaes á saúde dos europeus; 
mas as terras interiores de Dahomé e os paizes que lhes estão ao N. são 
bastante salubres e a sua fertilidade é admirável. O mesmo pode dizer-se 
da região de Haoussa, que se estende á esquerda do rio Dhiouliba, das 
planícies que ficam ao S. de Mabani, dos alto-planos das ilhas de S. Tho- 
mé e Principe, onde já se apresentam fazendas abertas a mais de 900 
metros de altitude. 



37 

Importa, pois, conhecer as lerras favoráveis á aclimação e as que não 
a permittem, distinguindo as regiões agrícolas d'aquellas em que apenas 
pôde haver eslabelecimenlos commerciaes. 

Seria loucura abrir uma fazenda nas margens do rio Formoso ou nas 
do rio Boni, mas nas melhores estações podem ir ali navios, demorando- 
se três a quatro mezes sem perigo para a tripulação. 

Aos colonos, quando abandonam os togares em que nasceram, o clima 
a que o seu organismo se havia accommodado, e os usos e costumes em 
qoe foram educados, convém saber em primeiro logar os meios higiéni- 
cos de que podem usar para não serem logo acommettidos das doenças; 
e em seguida conhecer se a terra é agrícola, quaes os paizes mais próxi- 
mos, e, finalmente, as praças da Europa que melhor recebem osproductos 
cultivados nas regiões para onde vão transportar-se. 

O delia do Niger e as ilhas de S. Thomé e Príncipe.— Os terrenos reta- 
lhados pelos vinte braços do Niger ou Quorra são de natureza essencial- 
mente miasmaticos. 

Os ventos que ali predominam chegam á ilha de S. Thomé pela costa 
em que está a villa de Nossa Senhora das Neves e a fazenda Diogo Vaz. 
Os dos rumos O. e NO. foram em 1872 registados apenas vinte e seis 
vezes. A distancia que elles téem de percorrer está desempedida de 
montes ou cordilheiras desde a parte mais afastada do delta, o que não 
acontece em grande parte da costa do Gabão, onde se levantam mon- 
tanhas dispostas quasí parallelamente. 

A cidade de S. Thomé e as fazendas abertas ao NE., E. e SE. estão 
abrigadas dos ventos que passam pelo delta do Niger, por meio de uma 
cordilheira bastante alta, o que deve ser tomado em consideração. 

Tanto das margens do Niger propriamente dito, como das do rio Boni 
e Formoso ou de Benim, sopram os ventos com força. Os tornados e as 
correntes superiores podem trazer elementos ou miasmas nocivos á saúde 
dos povos da contra-costa da ilha de S. Thomé, e por isso as praias, as 
encostas e os alto-planos d'aquella parte da ilha não devem ser escolhidos 
para colónias penaes, casas de saúde e ediíicios públicos. 

A exposição ao ONO. e NO. pôde causar graves prejuizos e será sem- 
pre má condição para qualquer villa ou freguezia que, com o desenvol- 
vimento e progresso agricola da ilha, se deseje estabelecer ou formar 
n'este local; e não se comprehende que motivos levariam Álvaro de Ca- 
minha a mudar a cidade de S. Thomé da costa do NO. para a bahia em 
que hoje se acha. 

No Gabão, foram os francezes obrigados a sair da margem esquerda, 
onde a vida dos trabalhadores e empregados corria bastante perigo, 



38 

para a margem direita que é considerada menos insalubre. É necessário, 
porém» não esquecer que os 455 kilometros que separam a ilha de 
S. Thomé do delta do Niger ou os 333 kilometros que medeiam entre 
elle e a iiba do Príncipe 33o facilmente atravessados pelos ventos satura- 
dos dõs eSluvios pantanosos que se levantam de tão vasto delta. Os torna- 
dos seguem sempre a mesma direcção. Observações meteorológicas attes^ 
tam este facto» podendo citar-se até bastantes casos bem determinados. 
Um tornado passou em 29 de novembro de 1 836, em Londres, ás dex 
horas e meia, atravessando uma larga superfície de mar; em Hambur^ 
go, sempre na direcção NO., ás seis horas da tarde do mesmo dia, isto é, 
approximadamente 612 kilometros, distancia muito maior do que ha 
entre o delta do Niger e as ilhas de S. Thomé e Príncipe. 

Os ventos superiores, diz mr. Daguin. transportam para longe as cin* 
zas dos vulcões. Em 1853 as cinzas do vulcão de Gassiguina, no estado 
de Guatemala, caíram na Jamaica, sita a E., em tal abundância que a ci- 
dade 0COU obscurecida por muitos dias. Na primavera e no outomqo 
viu-se cair em Lyon, em Malta e em Génova um pó muito fino, trazido 
pelos ventos de longiquas paragens, e sendo convenientemente examinado 
se reconheceu que provinha de pântanos deixados a descoberto e expôs» 
tos ao sol. Aquelle pó conservou-se no ar trinta a quarenta dias. 

A influencia dos ventos sobre a natureza dos climas é, pois, um facto 
incontestável e que merece ser attentamente observado, quando se trata 
de estudar a salubridade de qualquer paiz. 

Grande mar interior ou lago de Tehadd.— Este grande lago, cuja superfi- 
cie é quasi o dobro da da Bélgica ou setenta e três vezes maior que a 
da ilha de S. Thomé, fica por U"" de latitude N„ isto é, na zona trópico* 
equatorial, no chamado império de Bornou. Elevasse 252 metros acjma do 
nível do Oceano. 

A margem S. d'este lago, o qual é maior do que toda a Suissa, está 
approximadamente a 1:315 kilometros da foz do Niger, 1:110 do rio dos 
Camarões e 1:666 da ilha de S, Thomé. Toda a região que o rodeia é po« 
voada e tem sido observada em differentes epochas por exploradores in-» 
glezes, aos quaes se devem minuciosas informações a respeito dos habi- 
tantes çircumviiiinhQs, 

Collocado ao S, do grande Sahará, o lago Tehadd, modifica o clima 
dospaizes limitrqphes, cuja fertilidade ô attestada por todos os viajantes. 

As terras da bacia do lago Tehadd, escreve Malte-Brun, recebem as 
aguas que banham Haoussa ao O. e téem ao N. o Sahará, ao E. o Darfour 
e ao S, a planície ethiopica da Africa CentraL O dr* Bartb, tendo visitado 
este lago, escreveu a respeito (1'elle o seguiqte ; 



39 

cQuando cheguei ás margens do lago o sol era abrasador, mas a brisa 
fresca da manhã veia enrugar a superQcie das aguas, tornando o calor 
supportavel. Poderia ter acalmado a sede, por pouco que me abaixasse, 
pois a agua cbegava-me quasi aos joelhos. Estava, porém, quente e con- 
spurcada de detritos vegetaes, tornando-se imprópria para beber. Era 
todavia potável, e deve ter-se por errónea a opinião d'aquelles que sup- 
põem ter o lago Tchadd qualquer saída ou communicação com o mar« 
A sua agua não é salgada como o mostra a falta de sal n'aquelle pai? q 
a má qualidade das pastagens, á qual, por carência de tal elemento, se 
attríbue o mau leite das cabras que ali se alimentam.» 

Muitos rios despejam n'aquelle lago, que, segundo o dr. Barth, tem 
a apparencia de uma immensa lagoa, cujas margens mudam mensalmente, 
sendo quasi impossível levantar-Ihe o plano com exactidão. 

Rio Formoso on de Benim. — Fazemos especial menção d'este rio por ser 
um dos mais notáveis braços da margem direita do delta do Niger. Foi 
descoberto em 1484 por João Affonso de Aveiro. Atravessa um dos 
reinos mais importantes de Africa equatorial e com elle communica o ce- 
lebre esteiro d'Ouére, junto ao qual tivemos uma feitoria e uma igreja. O 
clima de Benim è reputado pelo naturalista Palisot Beauvais como o mais 
insalubre do mundo. 

O rio Formoso ou Benim está cheio de recordações francezas, segundo 
diz A. Tardieu. O capitão Landblphe habitou e frequentou durante qua- 
tro annos consecutivos todas as paragens do Benim e do Ouére sem sus- 
peitar que o rio d'Oére também era um dos braços do Niger. É preciso 
procurar sitio apropriado para fundear, e onde possam chegar as brisas 
do largo, para de algum modo attenuar a insalubridade do clima. 

Rio da Lagoa ou Lagos. — Este rio fica em 6^ 26' 29'' de latitude N. e 
it 34' 29" de longitude E. A aldeia de Lagos está situada na ilha da La- 
goa tão próximo á costa continental como afde Coramo. 

A costa de Lagos até ao sitio denominado costa dos Pospôs tem diN 
ferentes territórios portuguezes, entre elles o de Badagry e o de Ardra. 

Com a indicação do rio da Lagoa, terminámos a enumeração dos 
braços do Niger, sendo este o primeiro da margem occidental, contando 
do occidente para o oriente, e chegámos á costa portugueza, onde temos 
também, segundo a declaração de M. A. Lefèvre, as colónias de Quita e 
Grão-Popó, comprehendidas no território portuguez de Ajuda, cuja posi- 
ção na costa de Benim é muito importante; e por fazer parte da província 
de S. Tbomé o estabelecimento ou forte que ali temos, julgámos útil re- 
unir algumas informações, a fim de se poder formar uma idéa approximada 
d'aquelle território quasi abandonado. 



40 

Badagry. — Conhecc-se por este iiomc uma cidade e um reino que 
principia na margem occidental do golfo de Benim, e é hoje tributário de 
larriba. A. Tardieu reputa parte de Badagry districlo portuguez, e por 
isso o mencionámos antes de fallar do estabelecimento de S. João Ba- 
ptista de Ajuda. 

Badagry está a uns 33S3 para EVtNE. do Porto Novo, em 6* 2V 
12" de latitude N. e 12^ 2' de longitude E., isto é, na margem septen- 
trional da lagoa, a 1:234 metros do desembarcadouro. 

A lagoa tem cerca de 617 melros de largo sobre 7 de profundidade, 
e a lingua de areia que a separa do Oceano é calculada em largura quasí 
igual. 

S. João Baptista de Ajndá e o distrícto oa território correspondente. — Ajuda 
(Wbydah) fica approximadamente a 2:778 metros do mar, tendo ao S. a 
lagoa, cuja largura orça por 463 metros e a profundidade por l'°,2. 

A aldeia de Gregué (Griwhee) está junta doeste estabelecimento. 

Desembarca-se no porto de Ardra ou de Alada, passando-se o celebre 
banco de que todos faliam com respeito e que poucos transpõem sem te- 
mor. 

Muitas viagens téem sido feitas a Ajuda e ao reino de Dahomé, tor- 
nando-se curiosas pela descripção dos usos e costumes dos povos d'aquella 
região e das bellezas naluraes que ella encerra. A essa única fonte recor* 
remos para descrever o estabelecimento de Ajuda e o districlo que Ibe 
pertence. 

É pequeno o numero de brancos que residem em Ajuda, segundo a 
informação do dr. Bepin. Alem dos empregados da feitoria franceza ha 
três ou quatro famílias de origem portugueza. Os mulatos occupam una 
parte distincta da cidade, são assas numerosos e faliam uma espécie de 
patois portuguez. 

Em Ajuda ha perto de 4:500 súbditos por tuguezes, segundo informou 
o commandante do forte portuguez em 1874. Não ha, porém, systema 
administrativo, e não se tem cuidado de estabelecer relações com os cha- 
mados reis de Dahomé, procurando por todos os meios possíveis celebrar 
contratos commerciaes e obter a concessão de terras, como os france- 
zes téem conseguido no Gabão. 

O território de S. João Baptista de Ajuda recebe não só os ventos do 
alto mar pelo S., tendo as brisas doeste lado, como também os que pas- 
sam sobre as aguas da lagoa que lhe fica immediata. Os ventos de E. 
vem de sobre outra lagoa alimentada de muitos rios e communicando 
com Lagos. 

Os ventos do 0. correm do lado da lagoa de Avon. 



S3o geraes estas indicações, e mo dão idéa do clima de Ajuda, nem 
pôde lambem ajuizar-se da influencia que os ventos téem na salubri- 
dade d'aquella região. 

É realmente singular a disposição da costa occidental do goifo de Be- 
nim. Desde o rio Volta até o de Benim ba uma lingua de terra entre o mar 
e uma extensa lagoa. Apparecem aqui pântanos, alem aguas estagnadas, 
e, mais adiante, lagos communicando entre si e com o mar: mas bastam 
30 a 50 melros de altitude, para apparecerem logares favoráveis á agri- 
cultura e á saúde dos trabalhadores. 

Do estabelecimento portuguez havia em 1847 a linda capella e uma 
grande casa circumdada por um jardim, mas tudo em abandono. 

Para se entrar no forte é necessário atravessar o sarame portuguez, 
(espécie de bairro ou aldeia) que o circumda n'um raio de 500 metros. 

A pequena igreja do forte portuguez é uma singela casa com as pa- 
redes caiadas, e desde 1865 despidas de quadros, nua de paramentos e 
desprovida de alfaias. 

O estabelecimento de Ajuda não occupa grande extensão de terreno, 
mas ainda assim contém capella, cemitério, horta regular, duas casas 
grandes e diOerentes casas pequenas, praça de armas, etc, estando 
tudo cercado do competente fosso, ao qual se segue o terrapleno adja- 
cente e a muralha. A porta da entrada é ampla e dentro do estabeleci- 
mento ha dois poços que fornecem agua potável, que passa por boa. 

Ignorámos a média da temperatura da localidade. Não sabemos se a 
lagoa è de natureza miasmatica, nem conhecemos a constituição dos terre» 
nos, a humidade do ar, etc. ; e, n'este caso, faltam-nos os principaes ele- 
mentos para determinar com exactidão a qualidade do clima e as causas 
que produzem as endemias predominantes. É certo, porém, que não só 
muitos brazileiros téem vivido por largos annos sob a acção do clima de 
Ajuda, como também differentes portuguezes. 

O districto de Ajuda flca em posição vantajosa para o commercio, e 
com o progresso agrícola do paiz melhorará a sua insalubridade. Corres- 
ponde-lbe, como já dissemos, o porto de Ardra ou Alada, e estão na sua 
dependência os habitantes do sarame ou bairro portuguez e catholico. 
O districto de Badagry, sobre cuja existência se não poderá hesitar, e 
que, em presença do respeitável testemunho de A. Tardieu, nunca deve- 
ria ter sido abandonado. 

Para terminarmos, finalmente, as nossas considerações acerca da po- 
sição dos portuguezes junto ao paiz dahomeano, transcrevemos o seguinte 
trecho de livro muito auctorisado . 

cCom a edificação do forte, em 1680, e como consequência d'elle o 
estabelecimento permanente de muitos portuguezes, resultou para Por- 



42 

tugal uma espécie da supremacia e de poderio de que nao é permittido 
duvidar. 

«As provas abundam no grande numero de mulatos descendentes de 
porluguezas (milhares) que lá existem, e na immensidade de palavras da 
nossa lingua que, sem mudança ou com ella quasí nuUa, passaram in- 
sensivelmente a formar parte do vocabulário do paiz. A lingua portu- 
gueza é ali muito conhecida e faltada, mas mesmo na linguagem propria- 
mente dahomeana se encontram a cada phrase termos portuguezes ou 
de origem portugueza». » 

Não pôde admittir-se que os portuguezes construíssem o forte de 
Ajuda, artilhando-o com peças de differentes calibres, dando-lbe um 
capitão director geral e governador, sem possuir terrenos e haver neces- 
sidade de 08 defender á mão armada. 

Não é este um assumpto que possa desenvolver-se n'um trabalho 
d*esta ordem, mas não podemos deixar de consignar aqui a nossa opinião 
acerca de um território que devemos conservar como parte integrante da 
monarcbia. 

Condições especiaes para o desembarque no porto de Ajndá. — Na costa Occi- 
dental do golfo de Benim não ha portos abrigados, nem os escaleres dos 
navios servem para estabelecer communícação de terra para bordo. Ha 
no paiz canoas adequadas a este fim, tripuladas pelos práticos d'aquelle 
mar. O banco, segundo alguns escríptores, está a 220 metros da praia e 
ó necessário evitar o tempo das ventanias, porque n'essa epocba nem ^a 
canoas da localidade ali podem parar. 

A respeito do banco e do desembarque no porto de Ajuda, não po-* 
demos dar melhores informações do que as de um illustrado ofiQcial de 
marinha que ali desembarcou. 

cAs communicações com a terra são muito difficeis, se não de todo 
impossíveis, quando não sejam efiTectuadas por meio de embarcações pró- 
prias da costa; grandes mas leves canoas de duas proas, e algumas d'ellas 
feitas de um só pau. São tripuladas por doze a vinte pretos minas (de 
S. Jorge, da Mina e arredores), que vão remando e pagaiando com pás 
(pagaias) curtas, ao som de monótonos cantos, emquanto um a que cha- 
mam piloto, yae em pé á proa espreitando a sota em que pôde no collo da 
vaga montar o banco, para então fazer signal ao patrão que governa atre- 
vido sobre a praia, mandando remar com toda a força. Estes pretos mi- 
nas fazem ali todo o serviço das embarcações miúdas, cargas e descargas 
de navios ; e todas as feitorias na costa téem engajados ao seu serviço 
companhas d'elles, que mandam buscar á Mina ou a S. Jorge. São pretos 
fortes e conhecedores do banco, aindaque, segundo dizem, menos atrevi- 



43 

dos que os Krowmen's (homens de Krow, costa de Krow entre a Libéria 
8 cabo de Palmas), que fazem o serviço nos navios de guerra inglezes. 
Pôde dizer-se que s3o os cabindas do golfo de Guiné» poisque, como 
estes em Angola, encontram-se por toda a parte no serviço das embarca^ 
ções. 

•Estavam ancorados também em Ajuda, alem do vapor inglez, quatro 
ou cinco navios mercantes de varias nações, mas nenhum portuguez, Em** 
quanto ali nos demorámos, largaram uns e chegaram outros, não havendo 
nunca numero inferior ao apontado. Largáramos ancora em 16"^,5 de 
fando, e este de areia e lodo duro, que segurava bem o ferro ; mar- 
cavam-se os barracões proximamente ao N. da agulha, e distava-se da 
praia talvez 2:778 metros. 

c^o dia 8 de março de 186S vieram a bordo duas boas embarcações 
pertencentes a uma feitoria brazileira, e de que o feitor ou agente, João 
Branco, portuguez, natural da Figueira, graciosamente as offerecéra para 
esl^ acto, bem como continuou a prestal-as para o serviço da escuna, 
sendo por isso só necessário pagar ás companhas, o que é baratíssimo, pois 
se ajustam por viagens, e por cada uma se lhes pagam duas garrafas de 
aguardente, e em moeda da terra (busio) o equivalente a 333 réis de Portu- 
gal. Piga-se aqui que foi este Branco que muito se esmerou sempre em 
nos coadjuvar em tudo, revelando bem o seu patriotismo na alegria que 
mostrava ao apparecimento de portuguezes em missão de serviço. Por- 
tuguez, vindo do Brazil por conta de uma casa commercial d'aqueUa na- 
eSo, estava aípda animado dos patrióticos sentimentos que tão dístinctog 
fozem os nossos irmãos que ali vão buscar fortuna, 

cLargámos de bordo, e após talvez vinte minutos de navegação esta- 
vamos perto da orla do banco, que me pareceu distar cousa de 80 ou 100 
metros da praia, e sobre o qual se viam desenrolar as vagas que, não sendo 
n'est8 dia muito altas, comtudo encobriam a praia, os barracões e os 
homens. N'esta occasião as embarcações pararam, e emquanto os rema- 
dores debruçados sobre as suas pás esperavam o signal para emprega- 
rem toda a sua força e ligeireza, em fazerem vencer a passagem difQcil, 
os pilotos em pé, na proa, esperavam o momento propicio para o darem, 
e no emtanto pretendendo encarecer o seu merecimento, faziam mil mo^ 
mices e tregeitos, como se o terror os possuísse e considerassem o seu 
papel superior ás forças humanas ; invocavam as potestades marítimas, 
pedindo-lhes que não fizessem mal aos brancos, e os deixassem desem- 
barcar a salvamento, e depois de aspergirem as ondas com algumas gotas 
(poucas) de aguardente, que sempre pedem para esse effeito, deram por 
fim o signal, e aproou-se á praia com toda a velocidade que podiam im- 
primir á canoa duas dúzias de vigorosos braços. 



44 

«Na praia estavam, como disse, centenares de negros que, quaes des- 
temidos tritões, se achavam já em posição de se lançarem ao mar quando 
fosse preciso dar soccorro, e por isso é bem de suppor que, se n'esta oc- 
casião alguma embarcação se virasse, não houvesse a lamentar caso fatal ; 
comludo bom foi que não se fizesse a experiência.» 

O banco da costa de Ajuda não impede portanto que o porto seja pro- 
curado por navios de todas' as nações, que ali vão commerciar. 

Tivemos a felicidade, diz o commandante da escuna Napier, auctor 
da obra a que nos referimos, de effectuar sempre os embarques e desem- 
barques sem novidade, apesar de encontrarmos algumas vezes o banco 
bravo. 

Magestoso espectáculo qae offerece o mar na costa de Ajadá. — São alterosas 
as ondas que se levantam sobre o banco da margem occidental do golfo 
de Benim. Todos os que ali desembarcam faliam d*elle com respeito. Não 
queremos supprir com palavras nossas o que escreveram aquelles que 
observaram tão magestoso espectáculo. 

Vejamos, pois, a narração feita por testemunha ocular. 

«Ficámos vestidos apenas com uma calça e uma camisa fina, a fim 
de estarmos preparados para qualquer acontecimento, e, feitas as despedi- 
das, entrámos muito alegres nas canoas, mas não tardou que as nossas 
palavras fossem rareando e enfraquecendo a ponto de se ouvir apenas o 
canto monótono e cadenciado dos remadores, ao qual o bramir das vagas 
fazia estrondoso acompanhamento. Estávamos em frente de um dos mais 
magestosos e dos mais terríveis phenomenos do mar, a barra da costa 
de Guiné. ^ 

«A ces moments solenneis, continua o dr. Repin, ou Thomme va jouer 
contre les élèments une partie dont son existence est Tenjeu, il se re- 
cueille en lui-méme, et le plus aguerri paye comme les autres ce tríbut à 
Tinstinct de la conservation.» 

Diz um dos ex-governadores de Ajuda : 

«É immenso, é arriscadíssimo o banco de areia que corre ao longo da 
costa a distancia de 150 metros da praia, e sobre o qual ha sempre uma 
ressaca mais ou menos considerável. 

•Tão terrível quão magestoso phenomeno do mar torna-se mais respei- 
tável e temido durante os mezes de abríl a agosto, e opina o dr. Repin 
que sua causa pode attribuir-se aos ventos de SO. que reinam no golfão 
de Guiné durante essa epocha. E diz mais que, segundo parece, attrahido o 
furioso elemento pela rarefacção do ar devida á influencia dos ralos solares 
repercutidos pelas areias ardentes do vasto continente afrícano, sob a sua 
acção incessante, cava o Oceano em longas ondulações que vem que- 



45 

brar-se sobre a praia, cujo declive para o mar é quasi íDsensivel. Estas 
vagas, na verdade gigantescas, algumas das quaes se elevam a 14 ou 15 
metros, são repentinamente detidas na sua base, emquanto que a parte 
superior, obedecendo ao impulso recebido e continuando, sem obstáculo 
seu curso medonho, rola em enormes volutas, que vem despedaçar-se 
em terra com horrendo estrepido. 

cFormam assim n'este resaltear três linhas de ressacas, quasi igual- 
mente espaçadas, a primeira das quaes fica a 300 metros pouco mais ou 
menos da praia. 

cPara atravessar o banco é, pois, indispensável haver grandes canoas 
de construcção própria, a fim de resistir aos elementos embravecidos. 
Téem ellas geralmente sido fabricadas em França ou Inglaterra ao preço 
de 315^00 réis. Medem 12 a 13 melros de comprimento e 2 de largu- 
ra, de maneira que podem accommodar doze a quatorze tripulantes, al- 
guma carga e três ou quatro passageiros. 

cterminam igualmente em ponta nas duas extremidades, ou propria- 
mente fallando, nâo téem popa nem proa, e podem indislinctamente avan- 
çar ou retroceder sem virar de bordo. 

cSâo tripuladas por destros marinheiros que, por determinado tempo 
e por bom preço» em Âccará, Castello da Mina e Cabo das Palmas, são ex- 
clusivamente contratados para aquelle serviço. 

«Estes homens, completamente nus, munidos de remos mui curtos, li- 
geiros, elegantemente cortados, e na extremidade em forma de pá, á simi- 
Ibança da folha do golfão, guiam a canoa com a maior destreza, e sem apoiar 
o remo na embarcação, chegam a communicar-lhe admirável velocidade. 

«O piloto conta primeiro três rolos de mar, que, passando successi- 
vos, vão quebrar-se na coroa da restinga ; depois aproveita o intervallo 
dos dois mares e sua calma, e segue, remando com toda a presteza, atè 
estar fora do perigo, t 

Todos os viajantes commemoram o magestoso espectáculo que ofie*» 
rece o mar na costa de Ajuda, mas nem todos são concordes a respeito 
da altura a que se levantam as vagas. Também uns chamam «barra» ao 
que outros denominam cbanco», denominação esta que nos parece mais 
apropriada. 

O dr. Repin diz que as ondas chegam a 16 metros, opinião que tem 
sido repelida por outros viajantes que passaram o banco. Os officiaes da 
Ventis, porém, nunca mediram rolos de mar que excedessem 7 metros; 
mas aquelles que impugnam a opinião do medico francez confessam que 
«as ondas do mar embravecidas sobem em mageslosos e altíssimos rolosj 
quando encontram, como na cosia de Âjudá, os fundos esparcellados e 
sem inclinação notável». 



46 

Reino de Dahooiè.— Está o território de Ajuda em laes relações com os 
povos dahomeanos» que seria grande Talta nSo. reunirmos aqui algumas 
informações acerca d'este paiz, e sem as quaes n3o pôde formar-se idéa 
exacta da importância do território de S« Jofio Baptista de Ajuda, do 
seu estado actual e da natureza do clima, fim principal que procurámos 
attingir a respeito de cada localidade em particular» 

O reino dahomeano é vasto, tetu ao N. os montes do Kong, a 0. o 
paiz dos Acbantis e o rio Volta, a E. Yarriba e Lagos, e, finalmente, ao 
S. o território portuguez.de Ajuda e muitas aldeias da costa Occidental do 
golfo de Benim. 

A capital de Dabomé está, segundo a maior parte dos viajantes, a 223 
kilometros da costa^ mas uns avaliam aquella distancia em 277 kilome- 
troSi e outros dão-lbe menor numero. 

Junto do forte portuguez es^ a povoação denominada Wbidab pelo^ 
inglezes, e Juida ou Judá por muitos francezes. É a cidade de Dabomé 
que confina com o districto portuguez. 

O terreno é elevado, apresentando ao observador panoramas agra« 
dáveis, entre elles a lagoa orlada de mangues, o que é realmente uma vista 
animada e muito pittoresca. 

Ha na povoação amplos jardins e alamedas de vistosas arvores, conuo 
refere o dr. Repin. Abundam as fructas, sendo dignas de mencionar-se 
as bananas, de cuja cultura tomam ali particular cuidado. Os mamoeiros 
dio fructo maior que os da ilha de S. Thomé, e são também mais estima* 
dos. As laranjeiras, os cajueiros e as mangueiras, não são raros no paiz. 

Os terrenos de Dabomé produzem milho, mandioca, inhame, algodão, 
azeite de palma, ele. 

Os viajantes não faliam do cultivo do café nem da do cacau* 

Vastas florestas» em que dominam as palmeiras, cobrem aquellas ter<* 
ras. As principaes aldeias são rodeadas de boas culturas, e as cercanias 
de Abomé e de Cana muito férteis. Introduziram-se ali diversas arvores 
que se aclimaram bem, o que demonstra com evidencia a boa qualidade 
dos terrenos, o que já era indicado pela grande quantidade de palmeiras. 

A capital do reino é reputada salubre em relação aos povoados pro^* 
ximos á costa. É, porém, de esperar que, com a civilisação e progresso 
introduzido entre aquelles povos, desappareçam na maior parte os bre- 
jos, pântanos e charcos que ha no paiz, completamente abandonado das 
obras de arte e da agricultura, a qual sendo feita segundo o estado do^ 
terrenos e processos agronómicos modernos, é um dos mais poderosos 
meios para sanear as terras de qualquer localidade insalubre. 

Gamiiilio de Ajadá até i capital de Dabomé. — Quando se attenta no mise- 



47 

ravel estado em que se acha um paiz tão fértil como o de Dahomé, não 
podemos deixar de lameotar aquelles povos. Mas não são somente os da* 
homeanos que habitam uma região tão abandonada, a máxima parte dos 
povos de Africa estão nas mesmas circumstancias. Se olharmos para as 
regiSes da Africa equatorial, podemos dizer que ainda não raiou para 
ellas a luz de cívilisação, nem téem os beneficios do progresso moral e 
material de que gosam todos os paizes da Europa e quasi todos os das 
duas Américas. 

Os povos de Africa contentam-se com os frtíctos espontâneos que a 
terra lhes offerece em abundância, e occupam-se em se destruírem uns 
aos outros. Quando lhes falta o pretexto da religião, aproveitam causas 
fúteis e rasões frívolas para talar campos, queimar cidades e escravisar 
populações inteiras. É o direito do mais forte que impera ; não se res- 
peitam as leis nem a fidelidade dos contrjitos. 

Não pôde durar por muito tempo similhante^stado. A Europa, a ca« 
beça e o coração da humanidade, levará ao seio d'esses povos os princí- 
pios da justiça, da rectidão e da liberdade. O christianismo enlaçará os 
indivíduos^ as famílias, as províncias, as nações, finalmente, que se levan^ 
tarem n'aquella zona privilegiada ; celebrar-se-hão contratos politicos e 
commerciaes que serão respeitados. A familia não será um mytho, nem 
69 nações um foco de immoralidade. Apparecerão, emfim, escolas nos 
logares onde hoje se fazem os horríveis sacrifícios de victimas humanas. 

Em Abomè estão os jazigos dos reis defuntos, e ali se fazem as inaU'' 
gúrações dos novos reis que lhe succedem. A pratica usada em taes oc- 
casiões é a seguinte : 

cNo centro d'aquelle palácio ha um grande carneiro subterrâneo de 
22 metros em quadro, para receber os cadáveres dos reis. Logoque 
um morre, colloca-se no meio d'esta catacumba uma espécie de eça 
feita de grades de ferro, sobre a qual se põe um ataúde de barro, ama-^ 

ÇADO COM SANGtJE DE CEM CAPtlVOS FCITOS NAS tLTIMAS GUEBBA8, OS quaeS 

n*este acto são degolados para irem servir no outro mundo o fallecido 
rei, cujo cadáver se deposita n'este caixão sanguíneo, tendo por cabeceira 
a caveira de algum rei vizinho por elle vencido em guerra ; e as ossadas 
e caveiras de todos os outros reis, que elle similhantemente tiver feito 
morrer> se collocam como trophèus debaixo da eça: depois d'isto assim 
disposto, obrigam a descer ao subterrâneo oitenta mulheres dansadeiras 
do rei, chamadas abalas, e cincoenta soldados da sua guarda, que o devem 
acompanhar na viagem, e para todos se provê de mantimentos. E» o que 
é de pasmar, não faltam pessoas de ambos os sexos que voluntariamente 
se offereçam a tão horrorosa emigração, e para as quaes se conserva por 
três dias aberta á estreita entrada da catacumba ; findo este praso, se lhe 



48 

impõe a pedra falai, que a cerra, e deixa sepultados vivos todos aquelles 
miseráveis!» 

Similhantes monstruosidades parecerão fabulas, quando raiar a luz 
da ínstrucçâo para os povos de Africa. Urge apressar essa hora. 

A Africa de hoje não será a de amanhã. Onde actualmente ha ca- 
minhos intransitáveis, serão construidas vias férreas ou boas estradas. 
Mas emquanto não chegar essa epocha, os viajantes, se tiverem cora- 
gem de seguir avante, não deixarão de estar mettidos na agua até aos 
joelhos, como o dr. Bartb, quando se approximou do lago Tchadd, ou 
andarão nas prosaicas maxillas ou tipóias sujeitos a caírem, batendo 
com o dorso no chão ou tomando um banho forçado ao atravessar qual- 
quer rio ou aguas encharcadas. 

Vem estas considerações ao altentarmos nas prodigiosas riquezas na- 
turaes do reino de Dahomé, e na falta de vias de communicação entre a 
capital e a costa maritima. 

O caminho que se segue para ir de Ajuda a Abomé foi descripto pelo 
dr. Repin, quando ha dez annos ali foi, como medico do navia encarre- 
gado de levar commissarios para dar presentes ao rei de Dahomé, e pe- 
dir-lhe que permittisse fossem educados em França um ou dois dos 
seus filhos . . • 

c Saindo da cidade de Ajuda, observa o dr. Repin, atravessa-se uma 
vasta planície em que ha diversas culturas, vendo*se magnificas palmeiras 
de azeite. 

•Passada a primeira povoação, encontra-se um regato orlado de plan- 
tas aquáticas, pouco distante do qual está outra povoação. Deparam-se 
depois campos de mandioca e uma formosa mata, uma d'essas maravi- 
lhas que não se encontram nos paizes da Europa. 

cAs palmeiras e os coqueiros, cuja alta estipe se assimilha a gracio- 
sas columnas sustentando cúpulas de verdura, os enodendros de tronco 
colossal, as magnólias cobertas de largas flores brancas, embalsamam o 
ar matinal ; variadas mimosas de elegante folhagem e os sombrios man- 
gues crescem livremente n'estas florestas, onde não penetrou ainda o 
machado destruidor. Protegidas pela sua sombra impenetrável, enlaçadas 
em seus robustos ramos, destacam-se differentes trepadeiras cujas hastes 
flexiveis e caneladas pendem em forma de festões cheios de flores. É des- 
lumbrante esta vista, quando se procura descobrir o céu azulado que se 
levanta por cima de todo aquelle arvoredo, mas não são menos surpre- 
hendentes as arvores mais humildes, mas mais úteis aos homens. As bana- 
neiras e as laranjeiras estão como que a ofE^erecer seus deliciosos fructos 
ao viajante, e os ananazes patenteando a brilhante coroa, erguem-se a pou- 
cos palmos acima do chão, destacaedo-se de entre suas robustas folhas.» 




Cílonii S. Jdj3. Visu da hatiiUfio in lid^ onenul. 



49 

Não se percorre este soberbo bosque em menos de cinco horas. 
Apparecem depois mais planicíes cultivadas e outro grande bosque, po- 
dendo descansar-se algum tempo n'uma das clareiras em que ha uma po- 
voação, ou seguir, se for possivel, até á cidade chamada Alada. Passada 
esta e uma planura bem cultivada, entra-se em terceiro bosque, no qual 
estão as denominadas casas reaes, pelas quaes aquelles povos téem 
grande veneração. £ n'essas casas que os reis de Dahomè descansam 
quando andam de viagem pelo seu pai2. 

O caminho por meio d'esta floresta é muito accidentado, e não se 
vence em menos de seis a oito horas. Pôde haver algum descanso em 
Toffõa ou Agrymé, segundo se quizer atravessar o brejo ou passar na sua 
extremidade direita. 

De TofTõa por diante o caminho é mau na maior parte. Apparecem 
ainda assim boas plantações, tornando-se cada vez mais vigorosa a vege- 
tação. A custo se rompe por entre palmeiras anãs e differentes plantas 
desconhecidas, que formam bom reducto natural ou barreira contra qual- 
quer assalto imprevisto. Para passar o lamaçal è necessário augmentar o 
numero de carregadores. Prolonga-se este caminho ainda por grande dis- 
tancia. 

Antes de se chegar a Cana, depara-se uma extensa superficie de ca- 
pim e palmares, e vadeia-se em fim um rio a pouco espaço d'aquella ci- 
dade. 

Adiante da cidade de Cana está o bosque sagrado, onde se levanta 
o templo dos maus feitiços. £ indispensável passar a pé defronte de si- 
milhante barraca, representando tão formal aberração de senso commum. 
As duas ultimas horas de jornada gastam-se n*uma estrada de 40 metros 
de largo. 

Em três dias e meio chega-se á capital de Dahomé, sujeitando-se o 
viajante aos incommodos causados pela tipóia, levada por oito a doze ho- 
mens. 

Não ha ali cavallos nem camellos, òs quaes tão bons serviços prestam 
em outras regiões de Africa. 

Estações intermediarias entre e territorie de Ajndi e a eapital de Dahomé. — 
Entre o nosso districto de Ajuda e Abomé ha as seguintes povoações, se- 
gundo a informação do dr. Repin : Havi, Tauli, Hazoué, Alada, Toflôa, 
Apué, Ackisaban e Cana. São aldeias, villas ou*cidades em que ás vezes 
é necessário pernoitar. 

O primeiro itinerário de Ajuda a Abomé, diz M. d'Avezac, foi publi- 
cado no livro de Archibaldo Dalzel em 1793, ao qual o auctor ajuntou a 
viagem de Robert Norris, dada á luz da publicidade cm 1 789. 



50 

Em 1797 chegou a Dahoraé Vicente Ferreira Pires, para ondô foi 
como enviado de sua alteza o Principe Regente de Portugal, em compa- 
nhia de D. João Carlos de Bragança, embaixador ethiope do rei de Da* 
home. 

N5o tratámos, porém, de examinar quem foram os primeiros via- 
jantes que descreveram as terras de Dahomé, o que desejámos é 
enumerar as estações que ha entre o nosso forte e a capital do reino 
vizinho. 

Uma das viagens que não podemos deixar de notar é a de M. Brué 
em 1843, feita na companhia de Francisco Félix de Sousa. Foram em re- 
des, levados por doze homens que se revezavam de duas em duas ho- 
ras. No primeiro dia de jornada chegaram á aldeia de Torry, que M. Bnié 
reputa a 29S6 de Âjudá. Doesta passagem á cidade de Alada andaram 
cerca de três horas e meia. De Âladá passaram ao sitio denominado 
Ouabó, e depois á aldeia chamada Âppè, logarejo mal situado e próximo 
aos lamaçaes, conhecidos n'aquelle paiz sob a denominação geral de La- 
mas. Âgrimé fica adiante d'esta superficie pantanosa, e em duas horas ' 
chega-se a Calamina, cidade notável ao N. de Âgrimé. O resto do cami- 
nho é magnifico,- segundo declara M. Brué, que teve a ventura de se abei- 
rar do palácio do rei de Dahomé, dentro de uma goUette de quinze pieds 
de longumr environ, construite dans de justes proportions et fort bien 
gréée, 

M. Brué e Francisco Félix de Sousa saíram de Âjudá a 3 de maio e 
chegaram a Âbomé no dia 5 d'esse mez. 

De Âjudá a Xavi, segundo o dr. Repin, a jornada é de duas horas e 
vae-se d'ali a Tauli, 37 kilometros ao N. de Âjudá, em uma hora. Não pa- 
rando em Hagoué, bastam cinco horas para se chegar á cidade de Âladá, 
a 79^^,6 do nosso forte. São precisas cerca de sete horas para se entrar 
em Toffôa, ficando ao NE. de Âladá e a 129^,9 de Âjudá. D'aquella 
estação até á aldeia de Âckisaban passam-se sete horas, tendo-se atra- 
vessado uma extensa superficie pantanosa a que se dá o nome de Lama. 

A cidade de Cana está a duas horas de caminho de Âbomé, fazendo-se 
uma viagem de três dias e meio para lá chegar. 

A viagem do dr. Repin realisou-se no anno de 1866; mas do fim do 
século passado data a Viagem da Africa ao reino de Dahomé, escripta por 
um portuguez, a qual serviu de base ao que Lopes de Lima escreveu a 
respeito d'aquelle paiz em 1844. 

O padre Vicente Ferreira Pires reputava a cidade de Calamina (Cana) 
a dois dias de jornada do nosso forte, no que não são concordes os mo- 
dernos viajantes. Nenhum d'estes escriptores, porém, tratou da acli- 
mação dos europeus, nem da colonisação d'aquella região. Taes viagens 



31 

miravam apenas aos usos e costumes dos povos e á importância commer- 
cial do paiz. Gaiamina, segundo a informação do viajante portuguez, era 
a capital do reino, e, alem doesta cidade, havia outras, como Âladá, Âbo- 
mé, Zobodõ, Meiogui, Hiagó, Âdogui e Âgonam, fazendo-se em cada uma 
doestas sete povoações uma feira semanal. 

Emquanto descurámos os nossos direitos e interesses n'aquella re- 
gião, os francezes desde ha muito què procuram estreitar relações de ami- 
sade com os reis de Dahomé, não deixando de pedir-lhes para consentirem 
que os príncipes dahomeanos fossem educados em França sob a protec- 
ção do governo. 

tLe but de notre mission, observa o dr. Repin, était de visiter le roi 
de Dahomey, de régler avec lui quelques intérêts de commerce et de lui 
remettre, au nom du gouvernement français, de riches présents. Nous 
devions enfln remener, s'il y consentait, un ou deux de ses enfants pour 
ies faire élever en France dans un de nos lycées.» 

Não se limitam somente a estas as provas da importância dos po- 
vos de Dahomé. Um historiador, referindo-se a elles, diz: cDe todos 
os povos da Guiné, nenhum merece mais attençSo do que os dahomea- 
nos». Eis-aqui, pois, o modo por que se falia do povo de Dahomé. Não 
deve por isso admirar que nós, ao procurar os elementos indispensáveis 
para reconhecer a natureza do clima d^aquelle paiz, façamos algumas 
considerações attinentes a pôr em relevo as nossas relações politicas e 
commerciaes com os vizinhos do nosso território de Ajuda. 

Nos últimos dez annos téem apparecído diversas memorias nacionaes 
e estrangeiras acerca de Ajuda, e dos usos e costumes dos povos daho- 
meanos. Mas, para o caso de que nos occupãmos, apenas temos que men- 
cionar as povoações situadas entre o território portuguez e a capital de 
Dahomé, segundo as informações dos respectivos escriptores e viajantes. 
As cidades nomeadas pelo padre Vicente Ferreira Pires em 1800 foram 
repetidas por José Joaquim Lopes de Lima em 1844. 

Differentes trechos d^aquelle ecclesiastico têem sido transcriptos em 
jomaes illustrados e em trabalhos de alguns escriptores. 

O distincto geographo Alexandre de Castilho, attenta a importância 
do assumpto, julgou conveniente referír-se, no seu Roteiro da costa occi' 
dental de Africa, ás estações que ficam entre o nosso forte e a capital do 
reino de Dahomé. A tal respeito disse elle o seguinte : «Está a cidade 
de Abomey, capital do reino de Dahomé, em que fica Ajuda, uns 167 
kilometros para N4N0. do nosso forte ; entre esses dois sitios se erguem 
varioí povoados, cujos mais importantes são : Sahy, Tory, Havy, Wipó, 
Apoy, Calmina e Dowey». 

Iteièrinão-íios ainda á viagem do dr. Repin, notámos que, alem das 



52 

oito povoações designadas pelo geographo portuguez, ha mais quatorze, 
Ocando umas CDtre as que Alexandre de Castilho nomeou, e algumas para 
o lado esquerdo de quem se dirige á capital no tempo em que as chuvas 
permittem seguir aquelle caminho. A viagem de Ajuda a Abomé pode fa- 
zer-se mais ou menos rapidamente, segundo as estações em que se qui- 
zer descansar. 

Diz um viajante que, sendo chamado pelo rei de Dahomè, nao pôde 
recusar-se a obedecer-lhe, e viu-se obrigado a ir a Abomé. 

tA 26 de junho de 1861 saí de Ajuda n*uma rede sustentada por seis 
homens. No mesmo dia cheguei a Alada, onde descansei. Em 27 atra- 
vessei os pântanos denominados Lamas, os quaes felizmente tinham pouca 
agua n'esta epocha. Demoreí-me pouco tempo na cidade de Cana, e no dia 
28 á tarde estava ás portas da capital do reino de Dahomé. > 

Foi de três dias incompletos a viagem, e pôde calcular-se que é esta 
a sua duração media. Os geographos Alexandre de Castilho, M. d'Avezac 
e o auctor do Manual da navegação da costa occidental de Africa ava- 
liam a distancia entre o nosso forte e Abomé em 166S6 approximadamen- 
te. O dr. Repin reputou-a em 277S8, não faltando também quem lhe dé 
apenas uns 127S7. 

É esta, como muitas outras, uma questão pratica, e que não se resol* 
verá sem as respectivas medições topographicas. Não são de certo as au- 
ctoridades de Dahomé que hão de mandar fazer estes e outros trabalhos, 
para os quaes somente os europeus podem concorrer, tomando efiQcaz a 
probibição da escravatura, comprando os productos agrícolas e fabris 
d*aquellas terras, animando assim a agricultura e o commercio. Cuidar- 
se-ha então das estradas publicas, escolas, vias férreas, canaes, de todos 
os melhoramentos, emSm, a que se deu principio já em muitos paizes 
africanos. 

Para não darmos demasiada extensão ás nossas considerações a res- 
peito do território de Ajuda, não obstante o desejo que tinhamos de as 
tornar mais amplas, limitámo-nos ao pouco que temos dito. É, porém, 
necessário dizer, antes de concluir este assumpto, que é um grave erro 
abandonar aquelle território cderradeiro vestígio do nosso antígo poder, 
observa com toda a razão Lopes de Lima, na dilatada e rica plaga que se 
estende desde cabo das Três Pontas até cabo de Lopo (xonçalves, costa 
descoberta pelos portuguezes e por elles explorada no século xv. 

cLá ostentam ainda suas muralhas, construídas por mãos portugue- 
zas e comfpedras de Portugal, S. Jorge da Mina, Cabo Corso e Aocem; mas 
estranhos pendões n'ellas tremulam e guarnições estrangeiras as guarne- 
cem, e em seus armazéns accumulam o marfim e o oiro em pô, com que 
86 enriquece a Hollanda e a Inglaterra. Deixou já, porém, de existir a fei- 



53 

íoría e igreja do rio Oére, as do rio de El-rei, da ilha do Corisco, do rio 
Gabão e cabo de Lopo Gonçalves, assim como as ilhas de Fernão do Pó 
e Anno Bom, quo foram cedidas á Hespanha em 1778.» 

O território em que está o forte de S. João Baptista de Âjudá faz parto 
da monarcbia portugueza : é uma dependência do governo geral da pro- 
víncia de S. Tliomé e Principe, e tem sido reconhecido como portuguez 
pelos povos d'aquella região, pelas nações da Europa que ali téem in- 
teresses políticos e commerciaes, e pelos viajantes estrangeiros. Não pôde 
prever-se hoje o que será amanhã o território de Ajuda logoque a civi- 
lisação e o progresso forem uma realidade nas terras da Africa equatorial. 

Limites do golfo de Benim. — O ponto mais recuado do golfo do Be- 
nim, segundo Alexandre de Castilho, fica pouco mais ou menos em 6® 
26' 40" de latitude N. e em 12^ 59' 10" de longitude E. Tem duas margens, 
Occidental e oriental, que são muito baixas. N'uma está o districto portu- 
guez de Ajuda, de que já falíamos, e n'outra o celebre rio Formoso ou de 
Benim, que deu o nome a um dos golfos do mar de Guiné, e banha o 
paiz oriental dos povos d'aquella região, onde o nome portuguez será 
sempre lembrado. 

A linha tirada do cabo Formoso para o de S. Paulo representa a abertura 
da entrada do golfo, para dentro do qual não ha ilhas altas e bem distinclas. 

Descrevem os hydrographos, entre outras, a ilha de Curamo c a da 
Lagoa, mas estão separadas da terra continental por canaes tão estreitos 
e pouco profundos que não merecem o nome de ilhas propriamente chitas, 
se bem estejam rodeadas de agua por todos os lados. 

As distancias entre os limites do golfo de Benim são, segundo Ale- 
xandre de Castilho, 590^,7 em linha recta entre os dois cabos ; e tal é, 
como dissemos, a abertura do golfo. A costa tem 103^,7 e do centro da 
abertura ao sitio mais recuado medem-se 125^9. 

O golfo de Benim é notável, tanto pelos povos vizinhos das suas 
margens, como também porque n'elle desaguam os rios da margem di- 
reita do delta do Niger, os quaes levam muitas substancias vegetaes, 
que tingem até muito fora as aguas do Oceano Atlântico, cobrindoas de 
escuma pardacenta, suja, fétida e nauseabunda. 

Limites do golfo dos Hafras.— O golfo dos Mafras está a E. do mar de 
<juiné. O seu lognr mais afastado é o golfo de El-Rei, que está pouco 
mais ou menos em 4** 31' de latitude N. e 18° 2' de longitude E , na foz 
do rio Rumby. 

Os limites d'este golfo são o cabo de Lopo Gonçalves e o cabo 
Formoso, servindo-lhe de margem oriental a costa do Gabão e de 



54 

Occidental a do Calabar, a qual ao mesmo tempo é a margem esquerda 
do delta do Niger. A linha tirada entre os limites do golfo dos Mafras 
mede 611 kilometros, e a costa 888^9. Do centro da abertura do golfo, 
que é na ilha do Príncipe, com um raio de 305^,S, descreve-se o arco 
de circulo, que fecha o angulo, cujo vértice está sobre a ilha do Prín- 
cipe e os lados passam nos respectivos cabos. 

No golfo dos Mafras levanta-se o archipelago de Guiné, em que estSo 
as duas ilhas portuguezas de que especialmente nos occupámos. Ficam 
lançadas ao mesmo rumo em que se acham as de Anno Bom e Fer- 
não do Pó e os montes dos Camarões, o que é necessário relembrar, 
porque os montes das diversas ilhas e os dos Camarões téem idên- 
tica composição, não devendo por isso ser uns reputados salubres e 
outros insalubres. É verdade que as ilhas de S. Thomé e do Príncipe es- 
tão infamadas de insalubridade, mas é grande erro condemnar as ilhas 
por causa das cidades que, estando ediflcadas no littoral e rodeadas de 
pântanos, não ficam livres das emanações palustres que lhes chegam de 
todos os lados. 

Mar de Guiné, zona equatorial que lhe corresponde e correntes que ali se obser- 
Tam. — Na região sub-equiaoccial que examinámos, comprehende-se uma 
grande parte do mar de Guiné, cujas relações com o Oceano Atlântico e 
continente africano merecem ser mencionadas. 

Os mares que rodeiam o continente da Africa, nota o erudito geogra- 
pho M. de Avezac, não abrem profundas bahias, nem penetram no in- 
teridr das terras, cavando-as profundamente para dar origem a qualquer 
mar interior ou mediterrâneo. 

Para acharmos, porém, as relações do mar de Guiné com o Oceano 
Atlântico e as terras de Africa, é indispensável elevarmo-nos até um ponto 
d*onde elle seja visto na sua totalidade conjunctamente com toda a região 
equatorial que se lhe avizinha. É d'ahi que o observador attento reco- 
nhece que o Oceano Atlântico se alarga entre o cabo das Palmas e o de 
Lopo Gonçalves, e occupa uma considerável concavidade que não está 
em relação com a extensa abertura entre os cabos que servem de limites 
a tão larga superfície, não devendo ter, por essa rasão, o nome de golfo, 
como muitos geographos lhe chamam. 

Não é esta a única observação que assalta logo a mente. Outras po- 
dem fazer-se e que é vantajoso referir. 

Os climas situados entre o cabo das Palmas e o das Três Pontas apre- 
sentam condições differentes das que se observam na ropfião do rio Ni- 
ger. Não é necessário procurar a explicação nos phenomenos meteoro- 
lógicos, basta attentar no aspecto das terras por onde passam os vinte 



55 

braços d'aquelle rio, as quaes mais parecem ilhas baixas e alagadiças do 
que terra firme de um continente. 

Yô-se também, examinando a planta hydrographica d'este continente, 
que elle é maior que o da Europa, e mais pequeno que o da Ásia. Tem 
extensos areaes e grande superficie inexplorada. 

O mar de Guiné olha para a costa oriental da America do Sul, e ao 
recôncavo que elle occupa corresponde no littoral opposto a enorme bo- 
jaoça do cabo Guardafui, o que igualmente se nota em muitos outros 
pontos do continente africano. 

A bahia de Lourenço Marques está de um lado em relação tom a sa- 
liência dos Namaquas, a das Baleias com o cabo das Correntes e a de So- 
fala com o cabo Negro. 

Á depressão do littoral de Benguella oppõe-se, na contra-costa, a sa- 
liência de Moçambique, e á saliência do cabo de Lopo Gonçalves a costa 
de Melinde. 

Parece, observa M. d'Avezac, que as ondulações de um eixo com-* 
mum determinaram simultaneamente estas symetricas configurações. 

O mar de Guiné está todo comprebendido na zona equatorial ao N. 
da linha equinoccial, mas não deixa por isso de receber a influencia das 
aguas dos mares glaciaes. 

É indispensável, pois, examinar as correntes maritimas que se obser- 
vam no mar de Guiné, indicar as differenças de temperatura e assignar-lbes 
também a origem e direcção principal. Os ventos que ali reinam merecem 
alem d'isso descripção especial. 

Se o conhecimento dos ventos e das correntes maritimas é necessá- 
rio para o nauta seguir uma derrota favorável e chegar a porto de salva- 
mento, o medico hygienista não pôde dispensar o exame de taes phe- 
nomenos quando se propõe avaliar a natureza de qualquer clima. 

A respeito dos ventos e correntes do mar de Guiné temos um im- 
portante trabalho do distincto oQicial de marinha J. C. Brito Capello. 
Ali estão designados os principaes elementos que são necessários aos pi- 
lotos que frequentam a região Guineana, e soccorremo-nos também a 
esse substancioso escripto para fallar de taes phenomenos. 

íAo N. do equador, diz o sr. Brito Capello, reina o vento geral NE., 
a que se dá também o nome de brizas. 

fNo mez de dezembro o vento é muito bonançoso em todo o mar de 
Guiné, principalmente nas proximidades da costa, sendo acompanhado de 
trovoadas, geralmente do quadrante NE. Em janeiro, n'esta região, o vento 
já é mais fraco, e ainda mais em fevereiro ; as trovoadas são frequentes 
príDcipahnente n*este ultimo mez. 

f Eotre o equador e a costa de Guiné o vento sopra geralmente eníre 



56 

S. e SO., e é mais fresco n'esta epocha do que nos mezes de janeiro e fe- 
vereiro. Ainda se notam no mar de Guiné trovoadas e calmas que os 
acompanham, principalmente em março, estendendo-se até muito ao S. 
do equador. 

f Nos mezes de agosto e setembro, tanto o vento geral SE. como a 
monção SO., e os ventos SSO. do mar de Guiné são geralmente frescos. 

cNo estio o aquecimento extraordinário das planuras centraes da 
África determina uma corrente ascendente do ar que sobre ellas a^ssenta, 
a qual não só impede a passagem ao geral NE., mas chama a si o ar de 
regiões que lhes ficam bastante remotas. » 

São sufficientes estas informações para se formar idéa das correntes 
aéreas da região Guineana e da sua intensidade. A força com que ellas 
passam sobre as ilhas de que nos occupámos, e as brizas que se estabele- 
cem junto a ellas serão examinadas no logar competente. 

O nosso Gm é patentear apenas o que passa por mais averiguado e é 
geralmente admittido por auctoridades competentes. 

«A corrente equatorial, observa o sr. Capello, comp5e-se de todas as 
aguas que ao S. do mar de Guiné correm mais ou menos para 0. e atra- 
vessam o Oceano Atlântico, proximamente pela zona equatorial. 

cDa espécie de golfo que Qca entre o cabo Negro e o cabo Lopo Gon- 
çalves dirigem-sc as aguas a NO. e ONO.; uma porção d'ellas, a mais pró- 
xima da costa, toma as direcções de N. o NNO. e entra no golfo dos Ma- 
fras por entre o cabo de Lopo Gonçalves e as ilhas de Anno Bom e S. Tho- 
mè, perdendo-se no fundo do golfo com a corrente de Guiné ; a outra, 
a mais considerável, continua para 0., engrossando cada vez mais, e con- 
stitue a corrente equatorial propriamente dita. 

cA corrente de Guiné, continua o mesmo escríptor, compõe-se de to- 
das as aguas que correm mais ou menos para E. pelo lado do N. da cor- 
rente equatorial. Esta corrente, segundo as estações, encontra-se mais ou 
menos a O., assim como abrange diversa superfície e adquire differentes 
graus de velocidade. Penetra no mar de Guiné entre o cabo de Palmas e 
a corrente equatorial, sitio onde apresenta menor largura e a máxima ve- 
locidade ; corre por todo o mar de Guiné, contornando a sua costa e indo 
perder-se no golfo dos Mafras de encontro ás aguas que vem da costa 
de Angola e do Congo, d'onde parece sair por uma corrente submarina, 
para se encorporar na corrente equatorial.» 

Um escríptor hespanhol, para demonstrar a salubridade relativa das 
ilhas do golfo dos Mafras, referiu-se á sua posição em relação aos ventos e 
ás correntes maritimas, e José Joaquim Lopes de Lima não admittíu os 
argumentos baseados n*estas observações ; para se conhecer de que lado 
está a verdade não podemos deixar de expor o que sé tem escrípto com 



57 

resx)eito a tão importante assumpto. É por isso que transcrevemos alguns 
trechos dos livros de Alexandre de Castilho e de Kerhallet. 

cAs correntes marítimas, diz Alexandre de Castilho, denominam-se, 
em geral, polares/tropicaes e equatoriaes. 

<As correntes polares saem dos poios e dirigem-se para o equador, 
s^uiúdo as margens occidentaes dos continentes; as tropicaes vão do 
equador para os poios e percorrem as margens orientaes dos continentes ; 
as equinocciaes correm sob o equador, do nascente para o poente.» 

A corrente marítima denominada equatorial dirige-se do mar de 
Guiné para a costa oriental da America do Sul. N'ella entram um ramo da 
corrente polar do N. e outro da corrente polar do S., e formam sob o equa- 
dor uma corrente geral, a qual, ao avizinhar-se da costa oriental da Ame- 
rica do Sul, divide-se em corrente da Guyana e corrente do Brazil. 

A corrente polar do N., approximando-se da costa septentrional da 
África pela altura de Serra Leoa, separa-se em dois ramos, um dos quaes 
se acerca da costa em frente do cabo das Palmas, atravessa o golfo de 
Benim e vae perder-se do golfo dos Mafras, envolvendo a ilha de Fernão 
do Pó, c a corrente polar do S. dirige-se para NO. ao longo da costa até. 
á altura do cabo de Lopo Gonçalves, onde, observa Kerhallet, uma parte 
das aguas se confunde na corrente equatorial, e a outra, dirigindo-se 
para N. e NNE., vae engrossar a corrente Guineana propriamente dita. 

A corrente polar da Africa septentrional passa nas alturas da Suécia, 
Escócia, Irlanda, França e, Portugal, e, chegando ás vizinhanças do cabo 
de S. Vicente, separa-se em dois ramos, um dos quaes, o que mais nos 
importa conhecer, segue para o S., abeirando-se da costa Occidental da 
Africa, e, seguindo sempre até entrar no golfo dos Mafras, rodeia a ilha do 
Príncipe, envolvendo-se depois na corrente equatorial. 

A corrente polar do S. é um dos ramos da impetuosa corrente que se 
approxima de Moçambique e do Porto Natal e dobra o cabo de Boa Espe- 
rança, dirigindo-se depois para o equador. Não é tão importante como a 
corrente polar do N. pelo que diz respeito ao clima dos paizes banhados 
pelas aguas do mar de Guiné, por isso indicámos somente sua existência 
e a circumstancla de se reunir como esta á corrente equatorial, envolvendo 
toda a ilha de Anno Bom. 

Alem das três correntes geraes de que falíamos, ha outras especiaes 
do mar de Guiné e que tomam os nomes das terras que lhe ficam mais 
próximas. 

Entre as ilhas do Príncipe e de S. Thomé, diz mr. Kerhallet, a corrente 
mais geral diríge-se para NNE. e N. Para O. da ilha do Príncipe e no seu 
paraUelo encontra-se ella sempre pelo ENE.; mas a E., entre a ilha do 
Príocipe e a costa do Gabão, a direcção ordinariamente é NNE. 



88 

As correntes marítimas, cuja influencia nos climas insulares é unani- 
memente admittida, não estão em relação com a direcção dos ventos que 
reinam no mar de Guiné. Notam-se em geral os ventos de SO. que predo- 
minam a maior parte do anno, os de SSO. e SSE. na parte meridional, ap- 
parjçcendo os do S. na altura e proximidade do cabo Lopo Gonçalves. 
O bermatan sopra de dezembro a fevereiro na zona septentrional do mar 
de Guiné, sendo tão dferteiro como o de SSO., que é frequente entre o 
archipelago e a costa do Gabão. 

Não damos maior desenvolvimento a este assumpto, porque temos de 
o analysar em outras secções do nosso trabalho. Deixámos, porém, con- 
signados alguns factos mais importantes que se referem ás correntes po- 
lares e á extensão do mar de Guiné, o qual, como se vé do mappa me- 
dico-geographico que vae junto, não é formado somente, como gerahnente 
se diz, pelos golfos de Benim e dos Mafras, mas é muito mais largo e 
extenso do que a superficie doestes golfos; e são também numerosas 
as povoações que se levantam nas proximidades da costa banhada pelas 
aguas d'aquelle mar, a qual, segundo Alexandre de Castilho, tem 2:481 a 
2:537 kilomelros. Não é portanto nosso intento examinar os climas de re- 
giões tão diversas, e por isso nos limitámos á zona equatorial africana, 
de que mais especiaUnente nos occupámos. 



CAPITULO 11 

Desoripção das ilhaa do mar de Quiaé, 

enumeração das terras que se aoliam sob o equador, 

e distinoção entre olima equatorial e tropioal 

I. libas 4o nar de Gninè. — 1."^ Ilhas altas: Ilha ile Anoo Bon. ~ Ilha de S. Tboné.- Ilha 4o 
hiacipe. — Uha de Feraâo do Pó. — !.® Ilhas baixas: Ilha de Lopo 6oB(aUes.— Ilha do Corisco. — 
lUej, Corisco peqaeno oo dos Hosqoilos.-Ilha BraAca.~Ilha de Hondoleh.-Ilba de Cnnuio.— 3.^ Qua- 
dros eslatisUco-geographicos ; ilhas altas; classifica^ das ilhas altas; ilhas baixas.— II. Enume- 
ração das terras qae se acham sob o equador. — 1.^ Africa equatorial: Ilha das Ro- 
las; nargem esquerda do rio do Gabão; vasla região inexplorada desde o paiz de Okanda até ás 
terras altas ao oceidente do snilaoado de Zanzibar; commnnicaçâo entre loçambique e Angola. — 
2.^ America equatorial: Albemarle e as ilhas Galapagos.— Republica do Equador— Republica de 
loTa firanada.— Terrenos banhados por difereotes ainentes da margem esquerda do rio Amazo- 
Bu; ilhas da foz do Amazonas. — 3.° Oceauia equatorial: Ilha Batoe, lintáo, Battou ou Heotáo e 
as ilhas ao 0. de Sumatra. — Ilha de Sumatra. — Ilha de Sumatra descripta por João de Barroc.— 
Tersos de Luiz de Camões a respeito d fóta ilha.— Nha Linga e o archípolago Houv-Liugga.— Ilha 
Liuga, segundo o dicdouario de Larousse. -^ Ilha de Borueo. — ilha de Borpeo, segundo Joáo de 
Barros e Luiz de Camões. — Ilha Celehes. — lidere e o arcbipelago das Holueas. — Tersos de Ga- 
mões a respeito de Tidore e Temate.— Ilha Ternate.— Volclo de Temate, descripto por Joio de Bar- 
ros.— Ilha Geilolo (Dgilolo ou Halmaheira). — Amboíno. — Ilhas de Banda por ^oio it Barros; ilhas 
loiucas, por Joio de Barros e Diogo do Couto; ilha Waigiou e a Nova Guiné. — III. Dístiocfio 
entre clima equatorial e tropical. — lappas comparativos; syslema das linhas isothermicas; 
classificação dos climas, segundo I. LeTj.— lelhor classificação para a ethnographía das emigrações, 
segundo o visconde de PaÍTa lanso; distribuição astronómica dos climas; classificação mais simpli- 
ficada, seguudo os graus de latitude. 

I 

• 

nhãs do mar de Quino 

As ilhas dos golfos de Benim e dos Mafras podem classificar-se em 
ilhas altas e ilhas baixas ou rasas. No primeiro caso estão as do golfo dos 
Mafras, e do segundo as que ficam próximas á costa, parecendo algumas 
d'ellas fazer parte da terra firme, mostrando-se umas e outras dentro das 
bahias da costa do mar de Guiné, no interior de alguns rios. Não intentá- 
mos, porém, descrever senão as ilhas que são banhadas pelas aguas doeste 
mar, occupando-nos d'aquellas que se alinl)am ao mesmo rumo jcom o 
monte dos Camarões e das que estão nas proximidades da costa do 



60 

mar de Guiné desde o cabo de Lopo Gonçalves alé á costa do lerrilo- 
rio de S. João Baptista de Ajuda, não nos referindo ás que ficam dentro 
das bacias dos rios. 

As ilhas do golfo dos Mafras e a costa do mar de Guiné foram desco- 
bertas nos annos de 1470 a 1486, estando hoje plenamente demonstrada 
a prioridade doestes descobrimetatos pelos portuguezes. Não é indiffe- 
rente, para o fim a que nos propomos chegar, o conhecimento das epo- 
chas em que cada região foi habitada pela primeira vez, e tudo o que diz 
respeito aos povos que de preferencia as habitaram. A respeito das ilhas 
do golfo dos Mafras e da costa de Guiné transcrevemos, para elucidar este 
assumpto, um trecho do livro do incansável e erudito H. Major, a quem 
Portugal deve o mais relevante serviço pela publicação do trabalho a que 
nos referimos e de que nos occuparemos em logar competente. Cingimo- 
nos á traducção portugueza d^aquelle escripto, que nos foi obsequiosa- 
mente mostrada para obtermos as informações que desejávamos. 

Eis-aqui o que o sábio inglez escreveu a respeito do descobrimento 
da região Guineana, que faz objecto d'este livro : 

cHa no globo de Behaim uma legenda de muita importância para esta 
parte da nossa narrativa. Por baixo das ilhas do Príncipe e S. Thomé vem 
lá inscripta a declaração seguinte: «Estas ilhas foram descobertas pelos 
navios de El-Rei de Portugal em 1484. Achámos todas desertas, não ha- 
via senão bosques e aves. O rei de Portugal manda para lá todos os annos 
os condemnados á morte, tanto homens como mulheres, para cultivar a 
terra e sustentarem-se do que ella produz, a fim de poderem aquellas 
ilhas ser habitadas por portuguezes. É primavera lá quando é inverno na 
Europa; as aves e os animaes são todos diíTerentes dos nossos. Ha lá 
grande abundância de âmbar, chamado em Portugal algalia.i^ Ora Barros 
e outros dão estas ilhas como descobertas no tempo de D. AÍTonso (antes 
de 1481), Galvão diz 1471 ou 1472, mas em geral não acho que elle me- 
reça muita confiança quanto a datas. Barros exprime-se nos seguintes 
termos: «Também se descobriu a ilha de S. Thomé, Anno Bom, e a do 
Príncipe por mandado de El-Rei D. Affonso, e outras^ das quaes não tra- 
támos em particular por não sabermos quando e por que capitães foram 
descobertas; porém sabemos pela voz commum serem mais descobertas 
no tempo d'este rei do que temos posto por escripto. 

«É por conseguinte impossível dizer, attentas taes circumstancias, se na 
viagem de Behaim em 1484 estas ilhas foram descobertas pela primeira 
ou pela segunda vez. Comtudo crê-se geralmente, e com muita probabili- 
dade, que João de Santarém e Pedro de Escobar, ambos cavnileiros da 
casa de El-Rei, foram explonar a costa alem do cabo das Palmas era 1470 
por conta de Fernão Gomes, levando por pilotos Martim Fernandes, de 



64 

• 

Lisboa» e Álvaro Esteves, de Lagos, e que, apesar das calmarias, ventos 
do sul, e correntes do norte, frequentes n'aquelle golfo, correram toda a 
costa do reino de Benim, e a 21 de dezembro, dia de S. Tbomé, avista- 
ram uma ilha alta coberta de arvoredo, a que pozeram o nome d'aquelle 
apostolo. No primeiro de janeiro de 1471, suppõe-se que foram ter a uma 
ilha mais pequena, a que deram o nome de Anno Bom, em memoria do 
feliz presagio por ser descoberta n'aquelle dia. Ebom anno foi, na verdade, 
porque n'esse mesmo mez de janeiro fizeram o primeiro resgate de oiro na 
costa do Oiro, na aldeia de Sama, entre o cabo das Três Pontas e a Mina, 
para onde as correntes e brisas do sul os levaram, depois de terem avis- 
tado a terra firme do cabo de Lopo Gonçalves. N'esta mesma viagem 
descobriram a ilha do Príncipe, mas não se sabe em que dia. Foi prova- 
velmente na passagem do cabo de Lopo Gonçalves para a costa do Oiro 
em 1 47 1 ; e como deram originariamente á ilha o nome do Santo Antão ou 
Santo António, podemos inferir que foi descoberta a 1 7 de janeiro, que 
é o dia da commemoração d'aquelle santo. Depois foi -lhe dado o nome 
de ilha do Príncipe, porque o filho mais velho de El-Rei tinha consignado 
para seu proprío apanágio o imposto dos assucares produzidos na ilba. 
Não temos provas, que demonstrem se a ilha Formosa, descoberta por 
Fernando Pó, fidalgo da casa de El-Rei, e cujo nome ella depois recebeu, 
o foi n'esta viagem, ou, como alguns suppozeram, em 1486, quando, 
como logo veremos, João Affonso de Aveiro foi mandado por El-Rei 
D. João II em missão especial ao rei de Benim e de cuja viagem veíu a Por- 
tugal a primeira pimenta africana. Como quer que seja, parece, comtudo, 
que foi só por occasião da viagem de Diogo Cam que o governo teve, 
pela primeira vez, noticia das ilhas e se lhes deu alguma importância. Ha, 
porém, outro ponto a respeito das mesmas ilhas, que requer attenção. Já 
se ha de ter notado que nas viagens passadas o descobrimento de ilhas a 
distancia do continente era devido aos temporaes que arrojavam os na- 
vios para ellas. 

«Assim foi o descobrimento da ilha de Porto Santo por Zarco e o das 
ilbas de Cabo Verde por António de Nolli & Diogo Gomes; mas no caso 
presente temos ilhas, como a de S. Thomé, a mais de cincoenta léguas 
distante do continente, e a de Anno Bom, a mais de oitenta, descobertas 
sem intervenção de temporal algum de que tenhamos noticia. » 

«.«— Ilhas altM 

Ilha de Aono Bom.— Jaz esta ilha em l"" 2& 30'^ de latitude S. e S"" 37' de 
longitude E. de Greenwich, 203*", 7 da ilha de S. Thomé ao rumo SO. Tem 
om lago de agua doce no centro da região do N., cerca de 500 metros de 



62 

* 

altura, cuja profundidade é de 8 metrofs e a circumferencia anda por 
1:389. É nfíontanhosa, e qnasi toda arborisada, elevando-se o principal 
monte approximadamente a 1 kilometro acima do nivel do mar. 

Esta ilha é a mais meridional do archipelago de Guiné e também a 
mais afastada da costa occidental da África. 

Ê justo nomearem-se as três rochas que ficam ao S. da ilha, ás qoaes, 
como diz M. d'Avezac, por mna feliz lembrança, pozeram os nomes dos 
descobridores das ilhas do gdtío dos Mafras, perpetuando-se assim a me- 
moria de Pêro de Escobar, Jo3o de Santarém e Fernão do Pó. 

Acerca do dia em que foi descoberta esta ilha divergem os escripto- 
res, dizettdo-se no diccionario de Larousse que foi no anno de 1473. 

O que passa por mais averiguado é que a ilha de Anno Bom fora des- 
coberta no primeiro dia do anno de 1471; ed'aqui nasceu a denominação 
que Bie deram os navegadores portuguezes, eque os ínglezes, sem rasão 
plamsivel, transformaram em tAnna bona», e alguns escriptores nao du- 
vidaram até dizer Anna boa ! 

Segundo M. d'Avezac, a ilha de Anno Bom tem 7*^,4 de NNO. a SSE. 
e de largura nao excede 2^,8. A superíicie quadrada é de 20 kilometros 
approxtmadamente. A povoação principal fica ao N., occupando uma área 
de cerca de 594 metros de comprimento e 198 de largura. A pouca dis- 
tancia d'eHa desagua no mar ura rio, onde pôde fazer-se aguada, empre- 
gando-se para isso barris de quinto, os quaes se conduzem a reboque, 
porque a foí dof rio tão permítte a entrada de escaleres. Ao S. despeja 
o rio denominado Agua Grande, e, segundo diz Cunha Mattos, ha na ilha 
uma ribeira chamada Bôbõ, de cuja agua só bebem os ecclesiasticos e de 
neiihnm modo os seculares. Alem d'estes rios ha dififerentes riachos, mas 
S3o poucas as correntes de agua em relação ás da ilha do Príncipe ou de 
S. Thomé. 

A ílh« tem madeiras de construcçSo, e é muito arborisada. Dão-se 
ali bem as laranjeiras, tamarindeiros, limoeiros, coqueiros, goyabeiras, 
etc. 

Avlsta-se em tempo claro á distancia de 83 kilometros do mar, e está 
a 300 do cabo de Lopo Gonçalves. 

A corrente marítima equatorial approxima-se da ilha de Anno Bom e 
parece que a envolve. Os ventos, segundo a informação de M. Kerhallet, 
são os de S. e SE. 

N'uma das principaes publicações portuguezas da actualidade diz-se a 
respeito da ilha de Anno Bom o seguinte: 

kAnno Bom. — liba no golfo de BiaflFra (Africa occidental) a 1** 24' de la- 
lílade S. e ! 4® 46' de longitude E. Tem 7 kilometros de comprimento e €3(5 
de Isrgura». fileva-se a uma altura de ^0 metros acima do Oceano. tG&r 



63 

ma saadavel». A popnlaçlo é qaasi anicamente eompôsla de Degffos teflí 
numero de 3:000», que se entregam á cultura da mandioca, canna de 
assQcar e algodão, sendo importante a creação de porcos, caríyeiros e 
cabras.» 

N3o sabemos a que anno se referem estas informações, mas nSo no$ 
consta que se procedesse a qualquer recenseamento, nem que se estudas- 
sem as condições de salubridade de modo que possa affirmar-to que o 
clima é saudável. O que é certo é que já em 1848 M. d'Avezac ataTiava 
em 3:000 os habitantes da ilha de Anno Bom. No diccionario de Larotts^e, 
volume publicado em 1866, dí^-se também que são 3:000, e agota em 
1876, em publicação corrente, admitte-se o mesmo numero t Estas infor- 
mações passam de uns escriptores para outros, mas não sehreiíi para se 
calcular o movimento de população, nem o estado da agricultura da itfaál 
de Anno Bom é conhecido. 

Ilha de S. Tkemè.— Está lançada ao rumo SSO.-NNE. no golfo Útís 
Mafras e e$tende-se de 5*^,5 a 55*^,5 ao N. do equador, tendo n'esta di- 
recção 50 kilometros approximadamente em linha recta, e atarga-sè de 
6® 27' a 6® 45' ao oriente do meridiano de Greenwich, cõntando-se 33*^,3 
n'este sentido. 

Do lado do N. termina n*uma costa de cerca de 14 kilometros de 6i- 
tensão e no do S. tem apenas 1^,6. Forma, pois, a ilha de S. Thomé ntiia 
superficie de 926 kilometros quadrados, segundo Lopes de Lima, na qual 
se encontram montes altos, climas differentes, florestas notáveis, rios cau- 
dalosos e uma fertilidade verdadeiramente extraordinária. 

A ilha de S. Thomé abunda na verdade em alto-phnos de 600 é 
1:200 metros de altitude, tem muitas várzeas, bastantes montes, umn[ 
grande serra e picos de formas phantasticas, como o de Anna de Cbafve$, 
Cão Grande, Cão Pequeno, étc. Os terrenos estão, pois, na súa tãiiMá 
parte, acima de 400 metros de altitude. As fazendas que actualmente áé 
acham abertas nos legares mais elevados são muitas, e ficam cerca de* 
800 a 1:000 metros de elevação, e ha também uma graúde área, na altura 
de 1:200 a 1:500 metros, susceptível de ser cultivada. 

Tomando para altura media geral 1 :200 metros, o que nío è dema- 
^ado, as distancias a percorrer na ilha de N. a S. e de E. a 0. augmen- 
tam alguns kilometros, podendo calcular-se, n'este caso, em mais xaú 
quinto, do que se a considerássemos uma superficie plana. 

S. Thomé, diz o auctor de um artigo publicado n'uma das obras fran- 
cezas mais nnportantes, é uma ilha portugueza no golfo de Guiné, a 200 
kilometros NO. do cabo Lopes, ficando por O® 27' de latitude N. é 4* 24^ 
de longitude E. Tem 2:000 kilometros quadrados. A capital teín 2:000 



64 

habitantes, e ahi reside am bispo. Foi descoberta em 1471 por YascoD- 
cellos. 

Alem d'estas informações léem-se outras na obra a que nos referimos, 
e que julgámos conveniente reproduzir, a fim de que se avalie como os 
estrangeiros descrevem as nossas colónias. 

«S. Tbomé é uma ilha do mar de Guiné, 135 kilometros a SO. da 
ilha do Príncipe e a iU\i a NE. da de Anno Bom, entre 0° 2' e O" 30' 
de latitude N., 4^ 22' e 4^ 31' de longitude. Tem 51 \8 no seu maior 
comprimento, medido desde a ponta Figo, Morro Carregado e Morro-Pei- 
xe, collocados todos três sobre a mesma linha ao N. até á ponta Balea ao 
S., e 35^,1 na sua maior largura. A superficie é de 929 a 941 kilo- 
metros quadrados. A extensão da costa é de I38S9 a 148^,1. Nas proxi- 
midades ha differentes ilhéus.» 

cA ilha, diz M. d'Avezac, é geralmente montanhosa. Para o lado da 
costa Occidental levanta-se um pico muito alto cheio de arvoredo até ao 
cume, sendo tão copado e unido, que nao dá fácil paSsagem. A encosta é 
escarpada e tortuosa, e por isso a subida a tal monte é muito arriscada. 
O cume está coberto de neve que resiste á acção do sol equatorial, e de to- 
dos os lados do monte descem para o mar rios consideráveis.» 

^ ilha de S. Thomé não tem 2:000 kilometros quadrados, nem nos 
seus montes mais elevados ha neve. Não acceitámos também a opinião 
d'aquelles que calculam a sua superficie em cerca de 900 kilometros 
quadrados, dando-lhe 50 de comprimento e 30 de largura. 

A ilha pôde dizer-se sem exagero que tem mais de 900 kilometros 
quadrados de superficie susceptível de cultura. Imagine-se a superficie 
de uma pyramide truncada, cuja área da base é de 926 kilometros qua- 
drados e a altura de 1:200 metros. Para fazer idéa da extensão de N. a S. 
ou de E. a O., basta calcular as hypothenusas dos triângulos formados por 
uma perpendicular de 1:200 metros ao meio de uma recta de 50 kilome- 
tros tirada de N. a S. e ao centro de outra recta de 30 kilometros, traçada 
de E. a O. Mas são apesar de tudo cálculos approximados, e a superficie 
da ilha de S. Thomé é augmentada ou diminuida, segundo a vontade dos 
escriptores. Temos presente um escripto, que citámos por sabermos que 
anda nas mãos dos estudantes de geographia, onde se lé : 

€llha de S. Thomé. Tem 44 kilometros de comprido, 5,16 e 32 de 
largo, e 166 de superficie quadrada. Calcula-se a sua população em 8:000 
habitantes, 48 por kilometro quadrado. Tem alguns edificios bons, como 
são: Sé, igreja da Misericórdia, da Madre de Deus, casas do governo, 
alfandega e camará municipal. Não é desagradável o aspecto do paíz. 
Seus montes são basalticos, altos e cónicos; um d'elles avista-se a 166^,6 
de distancia por ter 1:980 metros de altura. Vai sendo mais sadio o seu 



65 

dima. Era dt antes muito quente e desde setembro a março (estação das 
chovas) muito doentio, i 

Eis-aqui o que se escreveu em 4872, a respeito da ilha de S. Thomé, 
6 admirâmo-DOS de que a emigração nãe se dirija para este o para outros 
paizes da Africa portugueza ! I 

A posição relativa da ilha de S. Thomé, na costa occidenlal de Africa, 
éexcellente. É por assim dizer um ameno e delicioso oásis no meio 
da vastidão do mar de Guiné; os rios levam em grande parte aguas lím- 
pidas e potáveis, são mimosos e agradáveis os fructos naturaes ou acli- 
mados» e no interior ha logares pittorescos e de suave temperatura. 

Dista a ilha de S. Thomé da sua irmã mais pequena i 60^,6, de porto 
a porto, da de S. Thíago 4:129*^,9, da da Madeira, sua rival no Oceano 
Atlântico, 6:352^,3, e, finalmente, da nobre e antiga cidade de Lisboa 
7:31 5\4. 

A ilha da Madeira, tão africana como a de S. Thomé, só lhe tem 
a vantagem de estar no extremo N. da Africa, perto dos grandes centros 
civilisados, mas não é mais fértil, nem mais pittoresca, nem mais abun- 
dante em variados prodoctos agrícolas ou commerciaes, em boas aguas 
00 fructas. 

Um vapor que navegue 22'',2 por hora pôde fazer a viagem entre 
Lisboa e a ilha de S. Thomé em treze dias pouco mais ou menos, e 
para chegar em dezeseis seria suíficiente que navegasse apenas 1 8^,5 em 
cada hora. 

O mar que separa a ilha de S. Thomé do Gabão mede 194^,4; para 0. 
e SO. não se encontram ilhas nem terra firme. Ao S. da ilha fica o Ambriz 
a 1:009'',3, Loanda, capital do reino de Angola, a 1:lll\2, Benguella 
a 1:529^,7, e, finalmente, a amena, salubre e joven villa de Mossamedes 
ai:885\3. 

Do arcbipelago de Gabo Verde para a ilha de S. Thomé conta-se a 
maior extensão de mar, se não se quizer tocar em alguns pontos da costa, 
como Serra Leoa, cabo das Palmas, etc. Pela mesma distancia fica o Se- 
negal e a Guiné portogoeza de Cabo Verde. Do estabelecimento de 
Ajuda, na costa Occidental do golfo de Benim, contam-se apenas cerca de 
787M. 

A posição geographica da ilha de S. Thomé, absoluta e relativa, dá-lhe 
grandes vantagens. Para o demonstrar basta dizer que esta ilha tem pro- 
gredido, não obstante as muitas difiiculdades por que tem passado. Aban- 
donaram-na os habitantes, e por espaço de um século a ilha do Príncipe 
foi a capital da província ; mas era sempre mais ou menos explorada e 
procurada pelos navegantes, que faziam ali boa aguada e recebiam man- 
timentos e refrescos. É todavia certo que a emigração d'aquelles povos e a 



66 

transferencia da capital concorreu para o atrazo da j(ba, que teve i^na cul- 
tura insignificante. 

Âpezar do que temos dito em relação a esta ilha, quer seja relativo ao 
seu commercio e melhoramentos, quer á salubridade, não tem faltado 
quem deseje ir governal-a e já era bem considerada por Camões, coino se 
vedo trecho seguinte: 

O mar nas praias notas, que ali temos. 
Ficou, co*a ilha illustre que tomou 
O nome d^hum, que o lado a Deus tocou. 
(CamõeSy canto v, estancia xu.) 

A ilha de S. Thomé será para as regiões da Africa equatorial o que 
é a ilha da Madeira para os paizes da Europa, Mossamedqs para as ter- 
ras tropicaes do occidente, e Lourenço Marques para as do oriente. 

A ilha de S. Thomé perderá a fama de insalubre logo que a agricul- 
tura se desenvolva por toda a parte e se levantem povoações nos a|to- 
pl^ipos, ficando no litoral apenas as casaç conunerciaes e a alfandega. 
Não o temos feito até hoje, porque a colonisação da Africa portugueza 
tem sido morosa e dirigida sob vistas muito limitadas. 

Ilha do Príncipe. —Demora em 4** 37' de latitude N. e 46^ 8' de longi- 
tude E. ou a 130 kilometros da ilha de S. Thomé e a 185 da de Fernão do 
Pó. Pela fertilidade dos terrenos e sua posição pôde sair do abatimento 
em que se encontra, mas é necessário acudir-lhe quanto antes com pro- 
videncias promptas e bem pensadas. 

Ha escriptores francezes que lhe deram un[^a população de 10:000 
ahnas, quando no anno en^ que se fazia tal pubUcação (1874) apenas n^ 
ilha do Príncipe havia 2:251 habitantes I 

Mas não admira que um escriptor estrangeiro apresente taes estatísti- 
cas, quando n'um livro que serve para estudo nas aulas de instrucção pri- 
marias se nos depara o segqinte: «i ilha do Prindpe fica de 111 kilometros 
(20 legoas marítimas) ao NE. de S. Thomé. Tem 33 kilometros de com- 
prido, 22 de maior largura e 134 de superfície quadrada. Calculasse a 
sua população em 7:831 habitantes (anno de 1872), 68 por kiUmetro 
quadrado. Sua. capital é a linda cidade de Santo António. O paiz é alto 
na paxte meridional, baixo no resto. Tem muito arvoredo, muita verdura 
e abundância de agua doce (300 ribeiras tj. O seu solo, em parte vulcâ- 
nico, é muito fértil, e produz as fructas intertropicaes. O seu clima i mais 
sadio que o de S. Thoméi>. 

Desde N. a S. ha cerca de 17 kilometros da ponta das Burras até i 
ponta Negra, variando a largura entr^ 9 a 1 4 kilometros. 



g7 

A superQcie ()a j|(ia, sçgmido se lé ^iq vários escríptos, è de 7á mi- 
lhas quadradas, isto é, 346^9 quadrados. M. d^Avezac dá-lhe 17S5 de 
comprimento de N. a S. e 9^,^ de largura medis» de E. a 0., e Lopes de 
Lima reputa-lhe 4e 14^>8 9 par^ mais larga. 

Ha quem avalie a superQcie em 125 kilometros quadrados, o que não 
corresponde ao resultado apresentado pelos outros escriptores. Não falta 
também quem aífirme que a puaior largura da iiba é de 13 kilometros e 
a superfície 184 kilometros quadrados, sendo a sua distancia á cidade de 
S. Tbomé de {44. 

Não pode verifícar-se um calculo doesta ordem sem trabalhos topogra- 
pbicos, e na carência d'elles limitápao-nos a expor o que é mais corrente. 

Da ilba do Príncipe disse l/)pes de Lima nos seus Ensaios o seguinte : 

cMenos abastada em productos naturaes que a ubérrima S. Tbomé, 
avantaja-se coqitudo 9 ilba 4q Pnocipe pelo movimento superior do seu 
commercio externo: ha n.esta ipa^ís qumerosos, e ricos negociantes, e ca- 
pitalistas; são melhores q^ seus portos, e mais vizinhos ao continente afri- 
cano ; e por i$so mais procurados : pQftanto deade o século xvii tem ella 
sido sempre o principal entreposto do commercio da Europa e America 
com os portos de —Lopo Gonçalves, rio dos Camarões, Gabão, Calabar, 
Oére, Bepim e Ajuda — e pea^o com a ilba de S. Tbomé: esta affluencía 
de trato diminuiu pmitissioM) (|epois do ^ratado de 1810, e ainda mais de- 
pois da separação do BT^il : era mister aprender a dar novo rumo aos 
capitães ; ^ psta trao^ic^o forçada produspíu, como era de esperar, um pa- 
roxismo mercantil : nias em Qm qs capitães começaram a acordar do le- 
tbargo e 9 çqoheçi^ q^ ^^ adustas plagas não contém só homens ne- 
gros, que se vendem un3 aos oiitro^ ;— também lá tém— barrilinhos de 
oiro em pó, —dentes de marfim, — cowos e pelles,— azeite e cera,— gom- 
mas e madeiras, etc,. cujo trato é mais buifta^o, mais commodo, e mais 
seguro : em breve e^fero^ pois, que a ilha do Príncipe seja o deposito 
deitas preàQsas mercanfiiass como o era no século passado de carregar 
ções semoventes. 

«Commercio interior não o ha nesta ilba, porque nem tem, como 
S. Tbomé, villas no sertão, nem caminhos praticáveis para alem da serra do 
Papagaio e das montanhas dos Picos ; sendo ainda bem más as trilhas, 
que dão caminho para as roças — todas próximas á cidade, que apenas 
abastecem. 1 

São passados trinta e dois annos depois que o auctor dos Ensaios esta- 
tísticos escreveu estas palavras a respeito da ilha do Principe, mas não se 
r^lisaraçíi ioEeUifiRepte as si^a^ previsões. A ilha está reduzida á miséria, 
tendo diminuído a população de um modo assombroso. Não é este, po- 
^^^ 9 IqíW Vff^ çpUrar eqpi CQnsiderações a tal respeito. 



68 

Hba de Fernio do Pó. — É a maior de todas as do mar de Guiné. Tem 
< 85^,2 de circumíerencía, 64^,8 de comprimento e 37 de largura, e por- 
tanto o dobro da superficie da ilha de S. Tbomé. 

Segundo M. de Avezac, o maior comprimento de NNE. a SSE. é de 
70^,3 e a largura de 24 a 40'',7. Tem 1:930 kilometros quadrados de su- 
perfície (560 milhas quadradas). 

Dista do continente 37 kilometros, havendo entre a terra flrme e a 
costa da ilha um canal de 71 metros de profundidade. 

A capital fíca na bahia Maisdstone e denomina-se Glarence, nome 
dado no anno de 1827 pelos inglezes, os quaes depois de edificarem a 
cidade de Glarence, passaram a outros logares da ilha; não excedendo 
a dezeseis annos a sua demora^ e não havendo deixado melhoramentos 
que mereçam mencionar-se. 

A ilha de Fernão do Pó é muito accidentada, levantando-se por uma e 
outra parte outeiros de 300 metros, apparecendo montes de 900 e desta- 
cando para N. um pico que sobe a 3:240, segundo M. de Avezac. Entre 
os montes abrem-se várzeas, formam-se planuras e estendem-se super- 
ficies por onde correm abundantes rios, despenhando-se alguns de grande 
altura. 

Avista-se esta ilha em tempo claro a 185 kilometros ao largo. 

Os portuguezes, que a descobriram em 1486, nunca fizeram caso d'ella, 
nem lhe conheciam o valor. Em 1 778 cederam-na aos hespanhoes, en- 
viando elles uma expedição composta de cento e cincoenta homens, mili- 
tares, operários e colonos, para lançar as bases da colonisação; mas mor- 
rendo em cada anno quarenta e dois, no fim de três só restavam vinte e 
quatro, que ficariam também por aquellas paragens se não se retirassem. 

Em 1 781 ficou outra vez abandonada I 

Gollocada por assim dizer em frente da foz dos rios Velho Galabar, 
Boni, de El-Rei, Camarões e Rumby, não pôde deixar de participar da 
influencia do clima das margens de taes rios. Passa por insalubre, e so- 
mente nos logares altos poderá ser habitada com vantagem. 

A respeito d'esta ilha lêem-se no diccionario de Larousse algumas 
informações que julgámos indispensável reproduzir, para se poder ava- 
liar a falta de uniformidade que ha nas descripções dos auctores que se 
occupam d'estas regiões. 

«Fernão do Pó, ilha da Africa, no mar de Guiné, golfo de Biafra, em 
frente de três grandes rios, que ali desaguam, 3^ 48' a 3^ 13' de latitude 
N., e 6^ 4' e 6° 37' de longitude E., tem um perímetro de cerca de 100 ki- 
lometros. O solo é muito fértil, e ha ali um pico de 1:500 metros de al- 
titude. 

«Esta ilha, descoberta no fim do século xv por um cavalleiro portu« 



69 

gaez, chamado Fernão do Pó, foi cedida á Hespanha a que hoje pertence 
em virtude do tratado de 24 de março de 1774.» 

Nota-se n'esta citação que, alem de não ser exacto o anno em que a 
ilha foi cedida aos hespanhoes, é extraordinária a differença de altitude 
dos respectivos montes, segundo as informações referidas ao anno de 
1867, que temos presentes. 

9.*— Ilha* IniIxam 

III» de Lopo Gonçahes. — Esta ilha prolonga-se 37*^,9 a NNO.-SSE. e 
7S4 a E.-O., e n'ella se encontra o cabo de Lopo Gonçalves. A sua face 
ou margem oriental está cerca de 24 kilometros para NO4V2N. até ao 
cabo propriamente dito. É baixa, encharcada e recortada de angras e pon- 
tas. A costa está separada do continente por um canal ou rio não muito 
estreito. O terreno não parece productivo, nem sabemos se actualmente é 
habitada. 

Na bahía de Lopo Gonçalves ha muita pescaria, e pelas terras adjacen- 
tes encontram-se elephantes, tigres, leões e outros animaes; tem um sof- 
frivel ancoradouro a 1:852 metros para E474SE. do extremo N. da ilha 
ou do cabo. 

Ilha do Corisco. — É pequena, mas ainda ha outras de menor extensão na 
mesma bahia, a que chamam Corisco Pequeno, ou de Elobey. Pertence aos' 
bespanhoes, como as de Fernão do Pó e de Anno Bom. 

A ponta do N. fica em 0° 56' 12" de latitude N. e 10^ 28' 30" de lon- 
gitude E. 

Vista da banda de 0. do cabo de S. João afQgura-se haver ali um só 
renque de arvores, saídas do mar, e symetricamente dispostas ; mais de 
perto parece que a cingem barreiras cinzentas; á distancia de 7^,4 distin- 
gue-se a terra baixa e toda vestida de matagal. 

A parte de SE. da ilha dista cerca de 29^,6 do cabo de S. João ou do 
das Esteiras. Tem 5 kilometros de comprido no sentido N.-S. e 3^,1 de 
largura E.- 0. 

N'uma angra de SO. está edificada a aldeia do Corisco, de cujos usos 
e costumes nada sabemos. Na área de 16 kilometros quadrados podem 
habitar mais de 400 indivíduos. 

Hobey, Corisco Poqaono ou dos Mosquitos. — Duas são as ilhas a que os 
nossos antigos pozeram o nome de Corisco Pequeno e que modernamente 
se appellidam Elobey ou dos Mosquitos. 

Estende-se a maior, que é baixa, arborísada e a mais occidental, por 



10 

2^,i de N. a S. e ceircâ dé !^,3 de E. à 0., não chegando por isso a sua 
superfície a Í^,S quadrados; a segunda é ainda mais pequena, silvestre, 
rasa e muito estreita. S3o numerosos os baiicos, parceis, ilhéus e baixos, 
por entre os quaes è preciso navegar dentro da bahia do Corisco, o que a 
torna perigosissima. 

liba Branca. — Fica esta ilha quasi em frente da foz do rio de Boroa, é 
silvestre e nada tem de notável. Está próxima á terra. 

liba de Mondoleh. — É de uma fiqueza admirável o solo d'esta ilha da 
bahia de Âmbozes. É a principsíi do pequeno grupo da bahia, que è 
limpa e muito mais segura que ú do Goríscd. Ha no archípelago de Âm- 
bozes três ilhas, cuja extensão e fertilidade estão, segundo A. Tardieu, 
na rasão inversa da sua população. Téein agua todo o anno em fontes que 
alimentam riachos. Uma d^ellas tetii 300 individuos que vivem da pesca 
e trocam o peixe por bananas, inhames e outros fructos. Ha ali pouca 
agua e os habitantes a procuram nt) contiífêtite ou apanham-a da chuva. 
 maior denomína-se Mondoleh, a immediata Ameh ou Domeh e a mais 
pequena Bobya. Todas são povoadas. 

Os habitantes doestas ilhas, acrescenta A. Tardieu, são hábeis pesca- 
dores, e quando o tempo está bom véem-se muitas canoas em que elles 
se entregam á pesca. 

Em Mondoleh são os viveres mais baratos dd que em Fernão do Pó 
ha madeiras e variados vegetaes. N'estás ilhas não ha pântanos nem man- 
gues; a brisa que lhe chega do mtfr é ^úhi é fWSca, e os Ventos que so- 
pram do continente encontram as altas montanhas dos Camarões e não 
são quentes nem miasmaticos. 

A bahia de Ambozes, acrescenta A. Tardieu, é talvez a localidade 
mais salubre da costa occidental da Africa. Na estação das chuvas, raras 
vezes apparece mais de um tornado ou de uma tempestade em vinte 
e quatro horas; no resto do dia o tempo é agradável epassam-se muitos 
dias successivos sem chover. 

liba de Garamo. — Por entre o lago Cradoo e o ínar fica uma ilha plana 
e coberta de arvoredo, á qual os naturaes chamaífl Ikbeku e os nossos an- 
tigos Curamo. O terreno é pantanoso e eslende-se desde a boca do rio 
da Lagoa até á do celebre rio Formoso ou de Benim. É cortada por vários 
ribeiros e tem algumas aldeias. É preciso comtudo observar que esta ilha 
está tão próxima da terra firme, que vem descripta nos roteiros da costa 
d^Africa e não falia d'ella M. de Azevac no seu importante trabalho 
Ilhas da Africa, 



71 



^nadroa e«latl«tlèo-seoKriiphleo« 



libas altas 



PmíçSo 



Anoo Bom, afas-j 1<* SO' Ift S. 
UdaS03k,7 da|3«IO/loDg.E.(Parí8). 
de S. TboBié ' M. iÃveiac. 



S. Tliosié, afãs- 
UdaiSSM da 
do Príncipe 



(fV a0»30/delat. 

K 
i^SS^ai^ai/delong. 

E. (Paris). 

M. íAvezãc. 



PrinâiM» afasta- 
da 185k,3 da de 
Fernio do Pó 



O» 31/ 3(V/ a O» 4i/ 

3(V/ UL N. 
S^Vi^/aSMí/a?// 

loog. E. (Paris). 
Jl. i'Aveiae. 



l 



Fernio do Pó,i3M(y a3«44/lat.N. 

aCutada 37 ki-f 6« 2/ a 6* 34/ kMig. E. 

tometros da cos- 1 (Paris). 

ta oootineDtal. I if. ÍÂitiztu:, 
_^__ I 



Disposição 
dos terrenos 



1 :000 metros d*altara. 
Avista-se de 74 a 83 
kilometros do mar. 



2:135, Boteler e Kcr- 
balel; 3:200 segun- 
do outros. Avista-se 
a 111 kilometros do 
mar. 



800. Avista-se a 111 
kilometros do mar. 



3:108, Kerhalet, ou 
3:240 M. dAvezac. 
Avisla-se a 185 ki- 
lometros do mar. 



Superficie 



90 kilometros on6 mi- 
lhas qnadradas; se- 
gundo outros, 17 ki- 
lometros quadrados. 



PopulaçSo 



916 kilometros ou 270 
milhas quadradas, 
ou, segundo outros, 
166, 900, 1:657 e 
2:000 kilometros 
quadrados ( 



247 kilometros ou 72 2:251 habitantes, 



3:000 indivíduos. 
(1848). 



25:491 habitan- 
tes, incluindo 
793 europeus. 
(1874). 



milhas qnadradas, 
e segundo outros 
125 kilometros qua- 
drados I 



1:930 kilometros ou 
560 milhas quadra- 
das (4 93:000 hecta- 
res). 



incluindo 35 eu- 
ropeus. 
(1874). 



15:000 individues 
(1848). 

20:000 almas, se- 
gundo Larousse. 



Classificação das ilhas 



1.' 

2. 
Segundo a altura dos montes { » , 

' 4*.' 
1.' 

Segundo a superfície \^^ 

4.' 

1.' 

2. 
Segundo a população (1874) { ^ « 

4.' 



Fernão do Pó. 
S. Thomé. 
Anno Bom. 
Príncipe. 
Ferrlso do Pó. 
S. Thomé. 
Príncipe. 
Anno Bom. 
S. Thomé. 
Femâo do Pó. 
Anno Bom. 
Príncipe. 



' primeiro oumero é o quo no^ parece mais exacto; ajuntámos todavia a superGcic das ilhas segundo os 
aoctoret inais conhecidos^ , 



72 



libas baixas 



Posição 



Ilha de I/)poi|7o 5^/ 5// long. E. 
GoDçalfC». J (Lisboa). 

r Â. M.dê CaUilko. 



Corisco 



O» 56/ iVf laL N. 
180 28/ 36// long. E. 

(Lisboa). 

A. M. de CaslUho. 



i» lai. N. 

7/ 3/ long. E. (Paris). 



Elobey, ilha do! 
Gonsco Peque- 
no ou dos Mos-* 
quilos. 



Muito próximo da on- 
Ira ilha, para o N. 



Disposição 
dos lerrenos 



É rasa, lem mangues 
e é recortada por 
alguns riachos. 

ATisla-se a unsS?'',?* 



Terra baixa e muito ar- 
borisada, tem uma 
matta eipesta para 
oN. 



Branca 



i 3» 35/ lai. N. 
, 180 47/ 50// long. E. 
(Lisboa). 



Archipelago dos 
Amooses ou 
Zambàs, com- 
posto do Mon- 
doleh, Ameh c 
Bobya. 



l3« 77/ laL' 

N. 
,8» 11/ long." 

E. (Grccn- 

wícn). 



Mondo- 
leh. 



Ameh. 



É arborisada e baixa. 



2.» 

Tem arvoredo, é rasa 
e muito estreita. 



Superfície 



37)^,9 de comprimen- 
to por 7fc,4 de lar- 
gura. 



kilometros de com- 
primento por 3k,l 
de largura. Mede 
Moximamenle 14 
kilometros quad. 



É rasa, silvestre e fi- 
ca perto da ponta do 
N. do rio de Boroa. 



^ Bobya. 



l.« 

É bastante alta, arbo- 
risada o producti- 
va; tem agua cor- 
rente. 

Í.0 

Rochedo qnasi nu o 
sem agua de verão; 
tem alguma vegeta- 
ção. 

3.0 

Ilhéu basáltico e qua- 
si esteríl. 



Aldeia de J(tdcnah. 
6» 26/ 40// lat. N. 
ir 51/ lOV long. E. 
(Lisboa). 



Ilha de Curamo. I^HS? .fe /f ?"»^ (* '*»*• *«?» P**"^ 
no golfo de Be./5!»;S(y/Jaf N. V ras e outro anore- 

j^ \13o 17/ 24// long. E.[ do; é atravessada 

(Lisboa). { por alguns esteiros. 

} Aldeia de Odi. 
6» 20/ 30// lat. N. 
13» 49/ 5// long. E. 
(Lisboa). , 

I L 



1.0 

• 

2k,4 de comprimento 

rr lk,4 de largura, 
kilometros qua- 
drados. 

2.0 

2k,7 de comprimento 
por quasi igual lar- 
gura. 

E pequena a sua área. 



1.0 

926 metros de compri- 
mento por 6l7",3 
de largura. 

2.0 

740",8 de compri- 
mento por 264"',6 
de largura. 

3.0 

È muito pequena a 
sua* área. 



População * 



Tem sido habita- 
da, e os portu- 
gueses tiveram 
ali um forte. 



É immeosa, tendo a 
costa do S. cerca de 
212k,2 de compri- 
mento e a sua maior 
largura é de 31^,9. 



Tem habitantes, e 
ao SO. fica uma 
aldeia. 



Alffuns soldados 
hespanhoos 
(187Í). 



Ignora-se. 



Ignora-se. 



1.0 

Tem muitas fa- 
mílias. 



2.0 

Viviam ali, em 
1840. 400 fa- 
mílias. 

3.0 

Não ha muitos 
annos tinha mi- 
motMos mora- 
dores. 



Contam- se , te- 

Sndo A. M. de 
istilho, sete 
aldeias. 



* Referimo-nos, no que diz respeito á população das ilhas, ao roteiro de Alexandre Magno de Castilho e 
ao trabalho de A. Tardieu acerca da Guiné. Foram ambos publicados ha mais de dei anoot. 



73 

Enumerámos as ilhas do mar de Guiné com a mínuciosídade indispen- 
sável para fazermos a comparação entre todas, e reconhecermos que a for- 
mosa ilha de S. Thomé pôde rivalisar com as outf*as, nâo cedendo á pró- 
pria ilha de Fernão do Pó. 

No golfo de Benim apenas se nota a ilha de Guramo, cuja situação 
baixa e condições climatéricas não favorecem a agricultura; só as de Fer- 
não do Pó, Príncipe, S. Thomé e Anno Bom podem ter colonisação re- 
gular e capaz de compensar quaesquer despezas ou sacrificios. 

II 

Enumeração das terras que se aoham sob o equador 

São numerosos os paizes que ficam sob a linha equinoccial. Não estão 
somente em Africa, estendem-se pela America e Oceania. Não se encon- 
tram, é verdade, na Europa nem na Ásia, mas não se segue por isso que 
só n*estas duas partes do mundo haja climas temperados; apparecem 
também na parte mais central da zona tórrida. 

Estivemos por duas vezes na ilha das Rolas em que a latitude é nulla, 
segundo se acha demonstrado e admíttido sem contestação em todos os 
mappas geographlcos de que temos conhecimento. 

Percorremol-a de N. a E., marcando os thermometros á sombra, em 
quanto ali estivemos, *iV centígrados, e pernoitámos n*uma casa próxima 
á costa do N., onde a temperatura durante a noite foi 25^ e 26^ centígrados. 

Desejávamos descrever as ilhas de S. Thomé e Príncipe, collocadas 
alguns kilomctros ao N. do equador, e para realisar o nosso intento apro-' 
vcitavamos todas as occasiões que se nos offereciam para ir ao interior 
da ilha de S. Thomé visitar os logares menos conhecidos, mas não a 
podemos atravessar de E. a O. ou de N. a S. Foi, porém, com grande 
prazer que desembarcámos na ilha das Rolas, e ali passámos algumas ho- 
ras, admirando o panorama que se desenrola diante do observador que 
olha para S. Thomé. Por entre uma massa enorme de verdura, de as- 
pecto sombrio, levantam-se montes, picos, planuras extensas, cobertas de 
copado arvoredo. Era grande a surpreza ao observarmos, sob a linha 
equinoccial, vegetação tão viçosa, tão útil e abundante. 

Perguntávamos muitas vezes a nós mesmos se os dífi^erentes climas 
da região equatorial seriam todos palustres, se n'elles poderia haver com- 
pleta aclimação, e se os europeus poderiam entregar-se aos trabalhos 
agricolas. 

Para satisfazer a tão natural curiosidade, resolvemos desde logo com- 
parar o clima do paiz, onde nos achávamos em serviço, como medico co-* 



74 

idnial, com o das príncipaes terras em iguaes condições de latitude, isto 
è, com os paizes em que haja algum logar habitado e frequentado por 
eiíropeos e em zero de latitude. 

É este trabalho o i esultado das nossas primeiras investigações. 

A ioná ^quatdriàl da Africa Centrai está, força è dizel-o, em más con- 
dições de exploraçSo. O solo virgem, uma extraordinária força vegeta- 
tiva è caminhos cobertos de detritos vegetaes sao elementos poderosos 
para tornar insalubre a atmosphera nas suas camadas inferiores. Os ex- 
ploradores correm de certo inuninente risco de vida, se andarem des- 
providos dos meios necessários para annullar os effeitos da intoxicação 
tellurica e miasmatica. 

Quando as aguas do Oceano Atlântico cobrirem as areias do Sahará, 
o clima da região equatorial da Africa será muito modificado, e podèr- 
se-ha então fundar coloíiials agrícolas, onde hoje apenas pôde haver esta- 
belecimentos ou feitorias commerciaes. 

A formação de um grande mar interior não é o único meio para 
animar o commercio e agricultura da Africa Central ; os rios Nilo ao N., 
o Zambeze a E., o Cunene, o Zaire e o Ogôoué, a 0., são outros tantos 
canaes para $e penetrar no interior da Africa, não esquecendo o rio Niger, 
cuja impoHancià é geralmente reconhecida. N'um dos maiores monumen- 
tos lilterarios do secultt xix, disse um illustrado escriptor a propósito da 
descoberta do rio Tchàdd: , 

«A influencia da civilisação europêa, os productos dos mercados das 
nações colonisadoras podem penetrar pelos rios navegáveis como o Niger, 
até ao Interior do continente africano, 100.000:000 de homens estarão 
em contacto directo com a nossa civilisação, e novos centros commerciaes 
apresentarão valiosos productos de que a industria se aproveitará em be- 
neficio da graíide família humana; e essa immensa região inexplorada, co- 
berta pelas trevas da ignorância, offerecerá novas correntes ás investiga- 
ções das artes e do progresso ágricola ecommercial, apparecerão em fim os 
thèsourôs de tão misteriosa quanto inexgotavel região, e as nações afri- 
canas, saindo de um lelhargo immemorial, tomar-se-hão membros activos 
e iltéis da humanidade, collocando-se também na grande estrada da civi- 
liádçãò e do commercio. o 

Eis-aqui em geral os paizes equatoriaes propriamente ditos. 

Afrfcà èqtatdíi^ia]. — Pequena ilha das Rolas, 3S7 ao S. da ilha de S. Tho- 
ffié, ào golfo dos Mafras, costa Occidental de Africa ; margem esquerda do 
rio do Gabão fronteiro á ilha de S. Thomé, na terra firme; paiz de Olcanda 
iti Otíeíitè do Gabão ; vasta superficie inexplorada tendo por limite o N., a 
rêgliOf do largo Tchadd, Ouaday e Darfour, a 0. as terras banhadas pelo 



rio (^6006, a E. dífferente^ lagos fieàíiâo sob o eqaador o chamado 
Mroutan e o Nyanza, ao occidente do sultâtiado do Zanzibar na costa orien- 
tal de Afnca; ao S. a parte septentrional de Angola; e, finalmente, O pe- 
queno estado denominado Juba ao N. de Melínde, na costa de Zanzibar. 

iBfriea eqvatfrial.— Àlbermarle no archipelago de Galapagos ou das 
Tartarugas ao O. da republica do Equador e a 100 kilondétros do Pérú; 
Pechincha na republica do Equador, costa occidental da America do Sul ; 
parte meridional da Nova Granada; ilhas Caviana e Mexiana e a villa de 
Macapè na margem esquerda da foz do rio Amazonas, na costa oriental 
da America do Sul ; terras banhadas pelos differentes affluentès da mar- 
gem esquerda do rio Amazonas, desde a sua foz até ao rio Negro, que 
banha a região equatorial propriamente dita, e recebe diversos affluentès, 
entre os quaes estão os rios Uaupes e Branco ; e muito especialmente de- 
vemos notar o affluente que põe o rio Orenoque em communicação com 
os rios Negro e Amazonas. 

Oeeania equatorial. — Extremo N. de Batoe ou Mintau a O. da ilha de 
Sumatra, residências de Padang e Indragire, na costa occidental e orien- 
tal de Sumatra, levantando-se sob o equador o monte Ophir, que attinge 
4:568 metros de altura; terras altas de Padang e parte central de Su- 
matra; ilha Linga no archipelago cie Riouw-Lingga, situado a È. da iíha 
de Sumatra; residência de Pontianak e districto- Sintang, na parte occi- 
dental de Borneo, ficando algumas cidades em 0^ de latitude ; parte me- 
dia da ilha de Borneo e principado de Koti ou Kotei na parte oriental; 
ilha Celebes; a ilha chamada Tidore no archipelago dasMoIucas; Geiíolo; 
a parte septentrional da ilha Waigiou e differentes ilhas pertencentes a 
variados archipelagos da Oeeania equinoccial, como as do archipelago Gil- 
ber, etc. 

Todos os paizes que enumerámos ficam sob o equador, e trala-se de 
conhecer se os europeus podem aclimar-se em taes regiões e entregar-se 
aos trabalhos agrícolas. 

É indispensável, pois, examinar a posição e orientação das principaes 
localidades, estudar as povoações, productos agrícolas e fabris, o movi- 
mento da população e a natureza pathologica do clima. Obtêem-se doeste 
modo os elementos necessários para a classificação das regiões equato- 
riaes que se acham nas condições da província de S. Thonãé e Principe. 

f .® Afk*leA eqniilorliil 

Uha da8 Rolas. — É pecjiíeiíír e^ta ilh*1, como já dissemos, abt/hda em 
coqueiros, cuja exploração é feita por conta de um fazendeiro da ilha 



76 ' 

de S. Thomé. Tem um edificio regular na costa, o qual está no rumo de 9° 
NO. da ponta da ilha de S. Thomé, onde se levanta a pedra que tem a de- 
nominação de Homem da Capa, 67®NE. da ponta da ilha denominada Baleia 
e a 42° 5' para a ponta esquerda da bahia do logo-logo ou Boa Espe- 
rança. 

Em 4872, quando estivemos na ilha das Rolas, havia ali um feitor 
com dez trabalhadores africanos e logravam todos boa saúde. 

Margem esquerda do rio do Gabão. — É insalubre esta localidade, de- 
vendo evítar-se a estada ali sempre que for possível. Pertence, como dis- 
semos, á França, que a occupa apenas com armazéns de carvão. Na mar- 
gem direita estão algumas casas de negociantes francezes, o palácio do 
governador, hospital e outros estabelecimentos, formando uma aldeia 
que se denomina Librezille. O que se pôde afiançar, porém, é que é um 
protectorado e não uma colónia ou possessão propriamente dita. Não 
passa de uma feitoria commercial e faltam-lhe muitas condições para po- 
der ser colónia agrícola. 

A região do Gabão pertencente aos francezes não está calculada, igno- 
rando-se a superficie e limite. A zona marítima é carecterisada pelos man- 
gues que, segundo a opinião de alguns médicos, se por um lado favorecc- 
cem a formação de pântanos, difiScultando a evaporação das aguas pluviaes, 
por outro protegem as habitações francezas, abrigando-as contra os ven- 
tos terraes e emanações dos charcos. 

Os rios Como e Bamboe foram explorados por M. Touchard, cirurgião 
naval de 1 .^ classe. 

Os padres da missão catholica ali estabelecidos fizeram um vasto e 
mimoso jardim, onde, a par dos fructos tropicaes, crescem hortaliças c 
legumes. E importante esta missão, e representa o principio fecundo da 
civilisação d'aquella larga região equatorial. 

Vasta regiio ineiplorada desde o paiz de Okanda até ãs terras altas ao oceidente 
do sultanado de Zanzibar.— Esta zona equatorial chama actualmente a atlen- 
ção da Europa sabia, que se empenha muito para a sua exploração. 

Os inglezes e allemães protegem os viajantes que se offerecem para 
percorrer a Africa Central; é também indispensável que não desampare- 
mos um emprehendimento de tanta vantagem para a sciencia e para a 
humanidade, cujos laços se estreitam cada vez mais, não tardando talvez 
o dia em que todos os homens formem uma só familia. 

Pequeno estado denominado Juba. — Não ha informações doeste paiz que 
mereçam divulgar-se. 



77 

CommaBicicio entre Moçanbiqne e Angela. — A Africa equatorial nao está 
ainda aberta ao commercio, e desconhecem-se as suas riquezas naturaes; 
mas niío acontece o mesmo ás terras da Africa tropico-equatorial no in- 
terior de Angola e Moçambique, que vão sendo exploradas, ainda que 
vagarosamente. 

Urge, pois, que acordemos do lethargo em que ás vezes caímos por 
annos successivos, esquecendo-nos de que somos uma das primeiras na- 
ções coloniaes da Europa; cumpre-nos proseguir quanto antes as viagens 
entre a província de Angola e Moçambique, tirando d'elias todas as van- 
tagens que podem obter-se, já em relação ao commercio, já em relação 
á aclimação, agricultura e emigração dos portuguezes. 

Em dezembro de 4854 lamentava o sr. Vasco Guedes de Carvalho e 
Menezes, governador de Moçambique, que alguns mouros que ali chega- 
ram fizessem a viagem de Benguella á contra-costa sem irem acompa- 
nhados de pessoa instruída, que descrevesse as differentes localidades 
por onde passavam. 

Os negociantes a que se referia o governador foram portadores de 
um oflicio do governador de Angola e gastaram na jornada quinze mezes 
e três dias. 

É realmente para lamentar que estas e outras viagens não se realisas- 
sem em boas condições, mas é tempo ainda de se attentar em tão impor- 
tante assumpto. 

É necessário, não cessaremos de repetir, que se abram communicações 
amiudadas entre os povos de Angola e os de Moçambique e que nos mos- 
tremos tão bons colonisadores no século xix como ousados navegadores 
fomos no Am do século xv e no xvi. 

É indispensável confessar, todavia, que desde ha muito que se pensa 
em estabelecer communicações por terra entre Angola e Moçambique, e 
vem a propósito dar por copia as seguintes informações que em 1867 
foram transcriptas nos annaes do conselho ultramarino: 

cA primeira tentativa para abrir esta communicação entre as duas 
costas, de que tenho achado memorias, foi no tempo do governador de 
Angola, D. Manuel Pereira Forjaz, cujo governo começou em 1606. 

cBalthazar Pereira de Aragão, militar resoluto, foi o encarregado d'esta 
expedição; porém, estando já em caminho, teve de retroceder para acudir 
á fortaleza de Gambambe, que se achava sitiada pelos negros revoltados. 
tD. Francisco Innocencio de Sousa Goutinho renovou a tentativa, mas 
também a não pôde levar a effeito. Seu neto D. Rodrigo de Sousa Gouti- 
nho (conde de Linhares), homem de vastas concepções e bastantemente 
illostrado, apenas entrou no ministério dos negócios da marinha e domí- 
nios ultramarinos, proseguiu na mesma empreza; e para a sua execução 



dpsigqpu a f ra|[^pi$co José de L^^rdq a 4lR^Í(la* doutor em mathema- 
tica, poQ^e^ndo-o com esta^ vistas governador dos Rios de Senna, d'0Dde 
devi£) s^if* a pxpe4Jc9o. 

ff(,acerda partiu^ de Lisbo^ munido dos instrumentos necessários, e 
chegando ás terras do seu governo, procurou as informações e noticias, 
de que «^presentq a3 peça$ que pvidp obter, e poz-se a caminlio para o in- 
terior da Africa com grande ardor. Chegou até ás terras do vei-Cazembe, 
que parece serem po ponto mai3 cep(ral entre as duas costas, sem encon- 
tv^v obstáculos; e ahi fallepeq, sucpumbindo ás inclemências do clima. 
Deixou ]i[p roteiro da sua yi^gem» que eu não pude alcançar, nem sei 
que exista; e tal era o seu eiqpenho pela conclusão da empreza, que es- 
creveu up^a espécie de testamento, em que recommendou aos seus com- 
panheirp$, ç^ne prosegu^ssem n^ $ua derrota até chegarem ao seu destino : 
reçomn^endação a qpe elle^ não annuíram. É esta a mallograda expedi- 
ção, ^Q q^^ se lembra M. Salt pa sua Viagem á Abyssinia. 

«Os acontecimentos políticos e militares da Europa, e a complicação que 
d'elles re^ultQu aq conde dp Linl^ares, desviaram o ministério de dar 
attenção aq3 negócios do interior da Africa. Q conde de Porto Santo, to- 
mando conta do governo de Angola em 1806, fez reviver o projecto, 
servindo-se para es(e 0m das (^iUgencías do tenente coronel de milicias, 
Francisco !)onor^tp da Costa, homem que tinha algumas luzes e muito 
pratico no paiz e que vivia retirado no presidio de Pungo Andongo, Foi 
nopieadp, e^t^ h9,í9<^ui director d^ feira de Cassange nas terras do Jaga 
d'esle non^p, ultimo ^os régulos avassallados a Portugal n'aquella direc- 
ção; e por este meio se adqiMriu conhecimento da nação dos Molluas e se 
entrou em communicação com o potentado Muata Yambo. 

cAs terfas de Ca$sange fic^^ aq Np), de Angola: passadas estas encon- 
tra-se um gr^n^e rio, que se suppôe $er p Zaire; e alem d'este rio ficam 
03 l^ollua^, e reinav2\ o Muata Yambo. 

«Este potentado mandou uma embaixada ao governador de Angola, 
que recebiiu os embaixadores com grande ceremonia, como se fossem 
de uma nsjç^o europea; e por meio d'elles, e dos pumbeiros de Francisco 
HonoratQi, que os vieram acompanhando, se adquiriram algumas noções 
sobre as t^fras do interior. Soube-se alem d'isso que estas terras se com- 
municavan^ com a costa oriental, por se conhecer que d'ella eram proce- 
dentes alguns dos objectos que os embaixadores traziam de presente, 
ipela mesnia via se conseguiram noticias do rei Cazembe^ que se dizia ser 
tributário ao MuaJía YambOj e que lhe pagava um tributo de sal marinho 
vindo da mesma costa oriental. 

«Prepç\rado o conde de forto Santo com estes conhecimentos, despa- 
clj^ou em fim os se^s emissários, mas çm quanto estes caminhavam para o 



78 

oriente com ordem de não pararem em quanto Dão cheg^$$em á:^ terras 
da capitania geral de Moçambique, acabou o coude o seu governo, e re? 
tiron-se, sem ter mais noticia d^elles. 

cSoccedeo-lbe José de Oliveira Barbosa; e foi este o que repolbeu Q 
firucto de tantas diligencias, porque foi o que conseguiu que um negro, 
ofBdal da companhia chamada dos Henriques, atravessasse aquell^s dila* 
tados sertões, e lhe trouxesse as cartas do governador de Moçambique. 
Ficou porém inútil este descobrimento pela qualidade do emissário, que 
nada podia adiantar relativamente ás sciencias, á politica e ao conuaercíQ : 
ficoo somente demonstrada a possibilidade da communicação por terra 
entre as duas costas. 

c Impedimentos physicos não os ha, senão os que resqltaip da situação 
d'estes paizes e são conununs a todos os outros p^izes ^a Africa cplloca-: 
dos na zona tórrida; impedimentos moraes ha aquelles, que pàde oppor 
a inhospitalidade dos povos que os habitam. 

tHa poucas terras no mundo habitado, cuja geographia seja mais in? 
certa do que aquellas, que atravessa a linha de communicação entre An- 
gola e as nossas possessões de Africa orientai. N'esta direcção, segundo 
as descrípções dos geographos, discorrem e devastam o inlerior do paii 
algumas tribus nómades e barbaras dos Jagas, que não cultivam a terra, 
nem possuem gados, senão aquelles de que se apoderam na guerra. 9 

A costa equatorial de Africa, quer ao oriente quer ao occidente, foi des- 
coberta pelos portuguezes. Fomos nós quem primeiro eptrámps nQ rio do 
Gabão; foi Portugal a primeira nação da Europa, cujos pavios, dobrando 
o cabo da Boa Esperança, aportaram a Melinde que está para a costa orieur 
tal da Africa como o Gabão para a occidental. 

A passagem sob o equador no Oceano Atlântico e mar das índias pe- 
los navegadores portuguezes não podia ser indífferente ao nossQ afamado 
épico. Consagrou-lhe elle uma estancia da sua epojiéa, que aqui repro? 
duzimos, porque nos dá idéa da estação equatorial. 

Assi passando aquellas regiões, 
Por onde duas vezes passa Apolio, 
Dous invernos fazendo, e dous verões, 
Emquanto corre d'hum ao outro poio : 
Por calmas, por tormentas e oppressões, 
Que sempre faz no mar o irado Eolo, 
Vimos as ursas, apesar de Juno, 
Banharem-se nas aguas de Neptuno. 

(Camões, canto v, estancia xv.) 

Esteve João de Barros, o Tito Livio portuguez, na costa da Mina, foi 
Luiz de Camões á índia, viveu Diogo do Couto por muitos annos em Goa, 
e tantos generaes e homens iUustrados se afamaram nas terras de Africa, 



80 

da Ásia e Oceania que bastaria nomeal-os para nos empenharmos no en- 
grandecimento, progresso e civilisaç3o das terras em que elles viveram, e 
que representam ainda hoje uma superficie de mais de 1.921:915 kilo- 
metros quadrados, a qual excede muito a de toda a França e nos colloca 
no quarto logar, como estado independente e colonial da actualidade. Mas 
faita-nos explorar o interior da provincia de Angola e Moçambique. É para 
ali que deve encaminhar-se a emigraçSo portugueza, sendo aqueile im- 
menso território objecto da nossa attençSo, como a índia o foi nos últi- 
mos annos do século xv. 

Preparou-se então a primeira armada, que, sulcando mares desco- 
nhecidos, passou sob o equador, em frente das ilhas de S. Thomé e Prín- 
cipe, fundeou na bahia de Santa Helena e, n'uma quarta feira, no memo- 
rável dia 22 de novembro de 1497, dobrou o cabo das Tormentas. 

Vasco da Gama, observa o illustre H. Major, passou com vento á 
popa o temeroso cabo, a que el-rei D* João II deu o immortal nome de 
Boa Esperança, antecipando o feito que já estava próximo de realisar-se. 
Entrou a armada na bahia de S. Braz a 25 dehovembro e ancorou 
a 14 de março em frente da ilha de Moçambique. Surgiu depois, passa- 
das as ilhas Querimí)as, em Mombaça e mais tarde em Melinde, a pouca 
distancia do equador, sob o qual repassavam de novo os corajosos nau- 
tas, que ensinavam o caminho das terras equatoríaes que, no século xvi, 
foram habitadas por portuguezes. 

Quinta feira 17 de maio de 1498, diz H. Major, avistou Vasco da 
Gama, pela primeira vez, uma terra alta, a distancia de oito léguas; era 
a índia, objecto de tantas anciedades e de tantos annos de esforços per- 
severantes. 

Não podemos deixar de nos recordar d'esta arrojada empreza que 
nos approximou de Goa, Malaca, Timor e das ilhas das Especiarias, nem 
duvidámos comparal-a, no grande pensamento que a iniciou, na sua im- 
portância politica e cominercial, com a que hoje nos esforçámos em rea- 
lisar, mandando explorar o interior da Africa portugueza, d'onde pode- 
remos tirar o café, o algodão e o assucar, e muitos productos que por ali 
jazem enterrados. 

Gumpre-nos, pois, explorar as terras que ficam entre Angola e Mo- 
çambique, fronteiras uma á outra, e já percorridas, como acima disse- 
mos, por differentes sertanejos e negociantes. Não está todavia examinada 
a hydrographia, nem os melhores meios de communicação, desconhe- 
cendo-se também os logares mais férteis e salubres, assim como as con- 
dições especiaes que elles offerecem para uma colonisaçao regular. A na- 
ção que hoje melhor sabe colonisar, é de certo a que promette um fu- 
turo mais prospero, uma vida mais prolongada. 




Rua de mangueiral e jaisbeitas m lateada S Jcío em iu^ola 



81 

Nao se trata, portanto, de tim simples itinerário, nem do reconheci* 
mento isolado das posições astronómicas. O fim é mais iargo, o problema 
mais difficil ; mas não é este o logar próprio para discutir tio alto e 
momentoso assumpto. Paliaremos d'elle mais adiante, aqui só queremos 
mostrar a importância que lho attribuimos, e registámos com prazer 
os esforços que se empregam para se levar a cabo, com feliz resultado, 
o maior emprehendimento dos portuguezes do século xix. Fazemos vo- 
tos para que da sua realisação nos resulte um império africano, como no 
século XVI tivemos o império do oriente. 

9.*— AMierlea e^aatorlal 

A America equatorial compõe-se do archipelago de Galapagos, das 
republicas do Equador e da Nova Granada, da província do Amazonas, no 
império do Brazil, e das ilhas da foz do rio Amazonas. Esta região equí- 
noccial, segundo a classificação que adoptámos, estende-se ao S. e N. 
do equador por uma zona de 23^ de largura. Nós, porém, attendemos 
apenas aos paizes que, ficando sob a linha, não se afastam muito d'ella, e 
nomearemos sempre todos os estados que actualmente conservam sua in- 
dependência. 

Não estamos, pois, de accordo com os escriptores que, fallando dos 
actuaes limites do império do Brazil com outras nações, deixam de se re- 
ferir á republica do Equador. Forma ella um estado independente e como 
tal deve ser considerada, quando se trata da moderna geographia physica 
da America equatorial. Daremos portanto uma breve noticia das terras da 
America do Sul que se acham sob a Unha equinoccial, desde o archipe- 
lago de Galapagos, ao occidente, até ao da foz do rio Amazonas, ao oriente' 
da America meridional. 

Albenarle e as ilbas Galapagos. — A ilha Albemarle, a mais septentrional do 
archipelago Galapagos ou das Tartarugas, tem 127^,7 kilometros de com- 
primento por 88^,9 de largura. Todas estas ilhas pertenceram antes de 
4854 á republica do Equador, e estão hoje sujeitas aos Estados Unidos 
da America do Norte, que as obtiveram, segundo diz Larousse, por 
ã.700:000^SK)00 réis. 

A ilha de Albemarle é atravessada pelo equador e tem, segundo di- 
zem, cinco vulcões. 

O aspecto d'estas ilhas é selvagem e imponente. Abundam em tartaru- 
gas, que são as maiores que se conhecem, pesando algumas 200 e 300 
kilogrammas^ e servem para alimentação. Encontram-se também algu- 
mas plantas que ainda não foram descobertas n'outra parte do globo. 

A descripção feita por Larousse com respeito a estas ilhas, mostra que 



82 

não téem sido procuradas para colónias agrícolas, e que para ali eram man- 
dados pelo governo da republica do Equador os malfeitores. Têem bons 
portos e fundeadouros que ficam a 1:411 kiiometros a O. da costa 
continental. Algumas d'ellas téem agua corrente, e em todas se pôde 
aproveitar a agua da chuva. Tornaram-se notáveis desde que foram visi- 
tadas pelo celebre naturalista Carlos Darwin. Este eminente sábio diz que o 
archipelago Galapagos é per si só um pequeno mundo ou antes um satel- 
lite da America do Sul, d'onde recebeu alguns colonos nómadas e dea 
seu cunho geral ás producções indígenas. Quando se attenta Ba peque* 
nez doestas ilhas, observa o celebre viajante, admirámo-nos de encontrar 
ali tantas creações novas, circumscríptas em tão limitado espaço. Mas, 
exclama eni seguida o mesmo naturalista : 

cGomment tant de force créatrice a-t-elle été dépensée pour peupler 
ces rocs nus et stéríles? Comment ceite force a-t-elle agi d'une façon di- 
verse, et pourtant analogue, sur des points aussi rapprochés? Les especas 
nouvelles ont-elles été créés isolément? ou sont-ce des variétés de quel- 
ques types origínaux, créés primitivement ou importes, et que des con- 
ditions aotres ont modifié?» 

Carlos Darwin tratou doestas importantes questões no seu livro Ori^ 
gem das espécies, assumpto de que nos occuparemos na secção vn doeste 
trabalho, abstendo nos por emquanto de entrar em largas considerações 
a tal respeito. 

Repablita do Equador. — Importa muito conhecer este paiz equatorial: 
consíderámol-o como uma das principaes regiões que se acham sob o 
equador, e como uma das maravilhas do universo. Tem ao N. a re- 
publica da Nova Granada, a E. a provincia do Amazonas no ímpeno do 
Brazil, ao S. o Peru e a 0. o Oceano Pacifico. A sua superficie está calcu- 
lada em cerca de 650:000 kilomelros quadrados. Mede de E. a 0. 1:225 
e de N. ao S. 840. 

Estende-se desde 6"" de latitude S. a(é 2'' de latitude N., isto é, pro- 
longa-se de 222^,2 para o N. do Equador e o dobro para a parte inferior 
óu S. 

Muitos pontos equinocciaes, aquelles em que a latitude é milla, cor- 
respondem á largura do paiz, sob os quaes passa o rio Ica ou Putumayo, 
que o atravessa de NO. a SE., e que é um dos afliuentes da margem es- 
querda do Amazonas. 

Os rios da republica do Equador dividem-se em duas classes; uns 
descem das grandes montanhas que cortam o paiz e desaguam no Oceano 
Pacifico, e outros correm para o levante e vão despejar no Amazcmas 
oa em algum dos seus afQuentes. 



9» 

Pare lismr-M idéa da elevada posH^io da eidade de Quito, capital da 
r^ublica do Equador, basta Dotar-se que está collocada em uma pia- 
Dara aecídMtada, n'iima altura acima do uivei do mar, que è superior á 
da sem do liarão, addicionada com a do Oerez, e d'oDde se avistam moD- 
tanbas mais altas que a da serra da Estrella I 

Os cumes das dezoito príDcipaes mo&tanhas do Equador estão entre 
4:S18 e 6:B30 metros de altitude* O vuloio de Pechincha e o Gayambé 
ficam sob a linha equinoccial, tendo um S:9S4 metros acima do nivel do 
mar e o outro 4:885. O mais alto de todos é o Cbimborazo cuja altura 
attínge 6:630 metros. 

Os mcmtes mais elevados das cordilheiras formam como uma dupla 
crista ; os cumes príncipaes esltão cobertos de gelos, e foram escolhi- 
dos pelos académicos firancezes quando trataram de medir o grau equa- 
torial. 

Não cabe, porém, nos limites d'esta obra a descripção das bellezas de 
tio notáveis panoramas, nem a da vegetação que borda os rios ou forma as 
immeosas Arestas que causam assombro a quem viaja n'aquelle extraor- 
dinário paiz. O nosso estudo não p^mitte que nos afastemos dos pon- 
tos que se acham sob a linha equinoccial, podendo reputar-se sem im- 
portância a extensão de SOO a 600 kilometros ao N. ou ao S. do equa- 
dor, de modo que a villa dos Angolares na ilha de S. Thomé, em cerca 
de 7' 12" de latitude N., pode considerar-se em condições iguaes ás da 
ilha das Rolas, que fica sob aqueiia linha, assim como algumas povoações 
das rqmblicas do Equador e da Nova Granada são consideradas como 
sob-eqoatoriaes, visto estarem a poucos kilometros ao N. ou ao S. da 
linha equinocciah 

A G^Nlal da repubUoa esti em 13' ao 8. do equador próximo do vul- 
cão da província denominada Pechincha^ 3:200 metros acima do nivel do 
oceano. £ si^eíta a tremores de terra, e se não tivesse esta má condição 
seria um paiz inoomparaveU fi, porém, certo que todos os viajantes, en- 
tre os quaes se conta Humbold^ faliam eom entbusiasmo d'este paiz* As 
palavras d'este sábio toem sido repetidas muitas vezes e não vem fóre 
de propósito reproduxil-as aqui : 

tQuem vive por alguns mezes sobre as alias planuras da republica do 
Equador experimenta irresistivelmente uma iHusão extraordinária; esqu»* 
ce-se a pouco e pouco de que essaa cidades industriosas que o cercam, 
esses pastos em que se apascentam rebanhos de carneiros e de lamas, 
esses prados orlados de variadas e productivas arvores, esses (&mpos, 
em fimi cultivados com todo o cuidado e promettendo abundantes colhei* 
taSi estão suspensos nas altas regiões da atmosphera, e não pode imagínar- 
se que o solo em que se acha esteja mais elevado acima do Oceano Pacifico 



84 

do que o pico Ganigoo nos montes Pyrenéos sobe acima do Mediterra* 
neo.» 

Não sao somente causa de admiração os panoramas que se desenro- 
Iam diante do observador que percorre as provindas septentrionaes 
d'aquella republica, pois não é menos digno de notar-se, para o caso de 
que nos occupámos, o movimento da população. 

Trata-se de um paiz equatorial. A sua capital» afastada apenas 24 ki- 
lometros do Equador» tem quatro vezes mais habitantes do que a cidade 
de Braga, capital da pittoresca província do Minho em Portugal. E não 
vem fora de propósito observar que metade da população é composta 
de europeus, cujos descendentes se calculam em cerca de 36:000 almas, 
o que prova evidentemente que é possível a aclimação dos europeus sob 
o equador; por isso não duvidámos comparar aquelle paiz com as zonas 
tropico-equatoriaes da Africa portugueza que tem tão boas condições de 
fertilidade e benignidade de clima como os melhores paizes do mundo. 
Estes assumptos hão de ser tratados em outras secções d'este trabalho 
e mostraremos então que, assim como n'estas regiões privilegiadas, 
também entre as nossas províncias de Africa se nos deparam terras em 
condições similhantes ás da ilha da Madeira ou ás da região em que se 
levantam as cidades de Braga, Guimarães, Yianna do Gastello e outras 
povoações de Portugal. 

Republica da NoYa Granada.— A parte meridional d'este paiz tem alguns 
logares em 0° de latitude, e por isso designaremos os limites d'elle e da- 
remos a notícia geral da sua posição e extensão. Este paiz offerece con- 
dições especiaes dignas de attenção, muito vantajosas para a questão de 
aclimação e colonisação das zonas que se acham sob a linha equinoccial. 

A immensa cordilheira que se prolonga do S. ao N. na republica do 
Equador, penetra nas terras da republica da Nova Granada e divide-se 
em três ramos denominados oriental, central e occidental. Estendem-se 
na direcção do N. e vão gradualmente diminuindo de altura até se reuni- 
rem em cerca de 6^ a 7^ de latitude N., e chegam a confundir-se com a 
costa banhada pelo Oceano Pacifico ou pelo mar das Antilhas, d'onde se 
avista a chamada serra nevada de Santa Martha, que se levanta no extre- 
mo N. do paiz. A costa por este lado é formada de montes altos e áridos, 
sendo uns cortados a pique e tendo joutros ladeiras mais ou menos incli- 
nadas. 

No famo oriental a altura media è de 4:000 melros; no central ha pi- 
cos coroados de neve, cuja altitude se calcula em 4:900 a 5:500; no occi- 
dental os alto-planos e os montes são menos elevados e chegam apenas 
a 1:500 metros acima do nível do Oceano. 



85 

Ha grande dífferença entre as cordilheiras da republica do Equador e 
as da Nova Granada. Esta dífferença, diz Malte-Brun, consiste na dispo- 
sição em que se acham os montes de uma e de outra região. 

Na republica do Equador são diversos os alto-planos que separam as 
montanhas que lhes ficam sobranceiras. Ha planuras que se abrem a 
2:750 metros de altitude, ficando mais altas do que as nossas serras de 
Montejunto, Estrella ou Suajo. Na republica da Nova Granada os montes 
e as cordilheiras são separadas por inmiensos valles e bacias de grandes 
rios, cujos leitos não se erguem a muitos kilometros de altura. 

A provincia da republica da Nova Granada que se avizinha mais da 
linha equinoccial chama-se Los Pastos, sendo ao S. que as cordilheiras 
dos Andes se dividem, distingnindo-se, como dissemos, as que ficam 
sob a linha equinoccial d'aquellas que atravessam o território da repu- 
blica. 

Se as montanhas da Nova Granada são dignas de attenção, os rios a 
que ellas dão origem, as catadupas enormes que formam, as cascatas, os 
saltos ou immensas quedas de agua que frequentemente se observam 
constituem phenomenos extraordinários n*aquelle paiz, que tem sido cui- 
dadosamente estudado pelos mais afamados naturalistas do mundo. 

O solo da republica da Nova Granada é banhado por diversos rios, 
sendo o maior de todos o Magdalena, o qual, depois de receber as aguas 
do Cauca, a 200 kilometros da foz, vae desaguar no mar das Antilhas. 
Ambos estes rios percorrem a região septentrional do paiz, nos valles 
profundos dos Andes. O rio Magdalena é mais extenso, sendo navegável 
até cerca de 556 kilometros da sua foz; alem d*este e do seu afiluente 
principal deve nomear-se o Atrato, que desagua no golfo Darien. 

Para se apreciarem as correntes que banham as terras d'esta repu- 
bhca, reproduziremos as palavras do illustrado geographo Malte-Brun : 

«A Nova Granada está n'uma das mais felizes situações hydrographi- 
cas; communica por um lado com o Oceano Pacifico, para onde correm 
os rios de menor volume de agua, por outro com o mar das Antilhas, 
sendo notáveis as cidades de Carthagena e Santa Martha, e finalmente, 
com o Oceano Atlântico por meio dos rios Orenoque, que lhe banha a 
fronteira, e dos affluentes do rio Amazonas.» 

A republica da Nova Granada divide-se em differentes províncias cujas 
capitães de maior nomeada são Santa Martha, Carthagena, Soccorro, Bo- 
gotá, Medellin, Popayan, etc. 

A cidade de Popayan foi outr'ora florescente, mas hoje está muito 
decaída, tendo servido de estação commercíal entre as cidades de Car- 
thagena e Quito. A respeito da provincia Antioquia, de que é capital Me^ 
dellin, e da planície em que ella está assente^ diz o doutor Saffrayi 



m 

tLimitada de am lado pela cordilheira occidental dos Andes, ao pé da 
qual corre o rio Cauca, a província de Antioquia é atravessada por nu- 
merosos ramos da cordilheira central, que formais, a uma altitude media 
de 2:500 metros, planuras accidentadas em que reina por todo o anno 
o clima da França, na primavera, t 

Entre todas as povoações, a que merece especial menção é a cidade 
principal, que se chama Santa Fé de Bogotá, e é a capital da republica. 
Tem, segundo Malte-Brun, cinco soberbas pontes e approximadamente 
40:000 habitantes. Está situada, diz aquelle sábio geographo, na mar- 
gem esquerda do rio de Bogotá, n'um dos mais pittorescos e mais férteis 
valles da America do Sul, próximo a um dos ramos da cordilheira dos 
Andes, a mais de 2:600 metros de elevação acima do nivel do mar. 

Os terrenos s3o férteis, mas os príocipaes produclos de exportação 
são o Índigo e as pelles. Possue minas de carvão, oiro e prata; têem appa- 
recido esmeraldas, diamantes, etc. Produs milho, café, cacau, assucar, 
tabaco e outros géneros. 

Terrenos banhados por diibrentes s^flluenles da niargoM esqierda do rio Ana- 
zonas. — A região equatorial do Brazil comprehende grande extensão de 
terras desde a foz do Amazonas, na costa oriental da America do Sul, até 
ao extremo oriental da nepublica do Equador, sendo a distancia enlre os 
dois pontos extremos 1:725 kilometros. 

O rio Uaupes, poucos kilometros antes da foz do afiQuente Tiquie, 
corre quasi sob o equador até se reunir ao rio Negro na margem esquerda, 
um pouco acima da villa de S. Joaquim. N'este ponto^ o rio Negro, des- 
cendo do N., recurva-se e dirige-se para o nascente, tomando uma di- 
recção quasi parallela á linha equinoccial até aos aâluentes Xibaru, na 
margem direita e Padavixí na esquerda. Começa então a descer para SE. 
até encontrar o rio Branco, reunindo-se n^um só leito e desaguando no 
Amazonas, junto á cidade de Manáos, capiial da província. A região equa- 
torial compõe-se da província do rio N^ro ao S. da republica da Nova 
Granada, das terras banhadas pela região inferior do rio Branco e pela 
Guyana brazileira, ao S. das Guyanas franceza, hoUandeza e ingleza. É ne- 
cessário dizer-se que, em 1876, a província do império do Brazil, denomi- 
nada Amazonas, confina com as Guyanas, Estados Unidos da Venuzuela, 
republicas do Equador, Nova Granada e Peru, e com as províncias bra- 
zileiras do Matto Grosso e Pará. O diccionario de Larousse nio descreve 
a província do Amazonas, e em algumas publicações portuguezas publi- 
cadas modernamente, como já dissemos, não se falia da republica do 
Equador quando se traia dos limites do império do Brazil. 

Descemos a estas mínuciosidades, porque o medico hygienista, para 



87 

avaliar o clima patbologico de qualquer paiz, precisa conhecer a sua posi- 
fio e ext^QsSo» as relações em que está com as regiões mais próximas e a 
f&rma que ellas apresentam, as relações em que se acham as montanhas 
que o atravessam, os rios que o banham, etc. Assim como não pôde haver 
bom medico operador sem conhecer a topographia anatómica, do mesmo 
modo não se pôde ser bom hygienista, quando se desconheça a topogra- 
phia geológica das localidades, e suas relações com as terras que lhes 
&am mais próximas. 

Alinha equinoccial, depois de dividir os rios Negro, Branco, Jamandá, 
TnHnbetas, Pará, etc., passa na parte meridional da villa e forte de Macapá, 
edificado na margem esquerda da foz do Amazonas que em frente d*esta 
villa tem 33 kilometros de largura; mas a abertura da foz mede-se entre 
o cabo Razo ou do Norte e a ponta Maguary, na ilha de Marajó, avalian- 
do-se esta distancia em 250 kilometros. 

A provincia do Amazonas tem uma superfície de 1.951:407 kilometros 
quadrados e apenas 57:610 habitantes, cmquanto que a provincia da Ba- 
hia, com uma superfície 3,7 vezes menor, tem uma população 22,4 vezes 
maior do que aquelia. Não se dá apenas este caso entre as provindas do 
Brazil, e, para tomar bem saliente a pouca população da provincia equa- 
torial d'este império, notaremos que a provincia e Minas Geraes é 3,1 ve- 
zes menor que a do Amazonas, emquanto que a população d'aquella é 34 
vezes maior do que esta. 

Ao centro da região equatorial da America vae ler o rio Orenoque, en- 
tre o qual e o rio Negro ha o canal Cassiíiiiari ou os rios que saem das 
republicas do Peru, do Equador e Nova Granada, e vão reunir-se ao Ama- 
zonas. 

Todos esses rios têem sido percorridos por differenles exploradores, 
subindo também alguns d'elles desde a foz do Amazonas até ao rio Napo, 
que banha a republica do Equador em toda a sua extensão de NO. a SE. 
£ de esperar que em breve tempo se ligue o Amazonas com o rio de ta Plata, 
cujos affluentes príncipaes nascem a pequena distancia uns dos outros. Ê 
portanto muito fácil activar a colonisação da região equatorial da Ame- 
rica, se attendermos á possibilidade de se utilisarem tão importantes vias 
fluviaes. N2o descansam pela sua parle os poderes públicos do império 
do Brazil, convencidos de que é irrealisavel a colonisação sem se abii- 
rem communicações entre os centros mais ferieis, e por isso protegem 
as companhias de vapores que no rio Amazonas e seus affluentes estabe- 
lecem relações n'uma entensão de 9:000 kilometros. 

Ilhas 4a foz do Amazonas.— O equador passa em algumas das ilhas que 
se acham na foz do rio Amazonas, contando-se n'este numero a Cavia^ai 



88 

Mexiana e Jarupary, segundo se vé de alguns mappas geographícos. Ha, 
porém, outras ilhas que estão mais para o interior do rio ; uma d'ellas é 
immensa, n3o fica sob o equador, mas divide o Amazonas em dois ra- 
mos, dlrígindo-so um para NE. e outro para S., formando o rio Mara- 
nhão ou do Pará. 

O Amazonas, desde a foz do Xingu, aflluente da margem direita, até A 
ilha Gurupá, dirige-se para o N., e, alargando-se em seguida, dá origem 
a um grande seio triangular, onde se acham diíFerentes ilhas. É hmi- 
tado ao N. pela margem esquerda do Amazonas, ao S. pela direita e a E. 
pela costa occidental da ilha Marajó, que se torna notável por separar 
O curso do Amazonas, formando o braço meridional que recebe diffe- 
redtes rios, banha a cidade do Pará e desagua no mar entre a ponta 
álaguary na ilha Marajó e a Tijoca no continente^ ficando ali a barra do 
rio do Pará. 

A ilha Marajó ou Joannes, como outros lhe chamam, não tem me- 
nos de 135 kilometros de N. a S. e 185 de E. a O. É productiva, ali- 
menta muito gado, que ali se reproduz com extrema facilidade, tem 
muita agua corrente e não são altos seus terrenos. Do archipelago do 
Amazonas não temos minuciosas informações, nem se falia dos seus pro- 
ductos nos trabalhos de que temos conhecimento. Parece-nos ainda assim 
muito importante, não devendo esquecer-se as duas maiores ilhas que se 
acham sob a linha equinoccial, as de Mexiana e Caviana. 

••<>— Oecanla equatorial 

A divisão geographica da Oceania mais geralmente seguida é a se- 
guinte: Micronésia (pequenas ilhas) ao NO., composta das ilhas de Ma- 
galhães ou Genin, Sima, Mariannas, Carolinas, Palaos, Marshall e Gil- 
bert; Melanesia (ilhas negras) a SO., comprehendendo a Austrália ou 
Nova Hollanda, Tasmania ou Terra de Diemen, Papouasia ou Nova Guiné, 
Novas Hebrides, Nova Caledónia, ilhas de Salomão, do Almirantado, da 
Luziada e Viti ou Tidgi, etc.; Malásia (archipelago asiático) a O., que 
abrange as Filippinas, Molucas, Gelebes, Borneo, Sumatra, Java, Timor, 
Sumbava, etc; Polynesia a E., onde se encontram as ilhas Sandwich ou 
Hawao, Marquezas, da Sociedade, dos Navegadores, Tonga ou dos Ami- 
gos» Pomotou ou Tormetoa, Fidgi, Nova Zelândia, etc. Mas nós occupá- 
mo-nos especialmente d^aquellas cm que ha localidades collocadas sob o 
equadar em 0^ de latitude, como por muitas vezes temos declarado. 

Se ha região que devamos memorar, a Oceania equatorial é uma d'el- 
las. O que ali fizemos por largos annos, os feitos tão celebrados por tan- 
tos escriptoresi não podem de certo repetir-se n'este togar, mas é-nos ím« 



89 

possível fallar de Sumatra, da Gelebes, de Ternate e de outros territórios 
da Malásia sem nos recordarmos de que por tantos annos habitámos 
aquellas regiões. Foram os portuguezes os primeiros europeus que as po- 
voaram, confiados apenas no amor de Deus e da pátria. Devemos comme* 
morar o anno de 1544, em que descobrimos as ilhas das Especiarias, 
chegando ali em 4548 D. Tristão de Menezes para fazer conmiercio com 
os reis d*aquellas ilhas. É portanto evidente que as Molucas foram des- 
cobertas pelos portuguezes e não pelos hespanhoes, como se diz no dic- 
cionario de Larousse. 

Cumpre-nos, finalmente, relembrar o tempo em que António Galvão 
viveu nas ilhas Molucas. 

Foi este illustre governador homem de excellentes virtudes, e para 
lhe prestarmos honrosa homenagem reproduzimos, em 1876, um trecho 
da chronica que d'elle nos legou o nosso João de Barros em 4556. 

€ António Galvão era bemquisto dos Portuguezes^ e a todos obrigou com 
muitos benefícios, que lhes fez; porque devendo-lhes os Mouros muitas di- 
vidas de seus contratos, e distratos, que faziam entre si, que os Capitães 
passados nunca foram poderosos para lhas fazer cobrar^ elle fez com 
que de boa vontade, e sem contenda lhes pagassem; e devendo ElRey de Por- 
tugal muitos soldos, e mantimentos aos Portuguezes, que estavam em Ter- 
nate, não tendo seus Feitores dinheiro, elle o emprestava com grande perda 
sua: da mesma maneira gastava do seu com os doentes, que curava d 
sua custa, e em obras pias que fazia aos que cahiam em necessidade; e como 
hum dos frutos da paz he o ornamento, e concerto das cousas públicas, 
naquelle tempo em que se vio quieto reedificou a fortaleza de edifícios, e 
officinas necessárias de pedra e cal, que antes ao costume da terra eram de 
cannas, e materiaes fracos, e tudo cercou de muro. Aos Portuguezes fez 
edificar suas casas de pedra, e cal, e com chaminés ao nosso modo, com que 
aquella povoação ficava parecendo de Portugal; e por a entrada do porto 
ser difficultosa, por hum penedo qtte estava no meio da barra, mandou que- 
brar este penedo, e levantar tanto o arrecife que ficou feito hum molle, 
com que o porto ficou fácil, e seguro. E porque o que áquella fortaleza 
mai$ cumpria era ter gente arreigada, que por qualquer leve cousa se 
lhes não fosse, como muitas vezes se fazia, ficando a fortaleza só sem 
ter quem a defendesse, formou huma nova colónia, fazendo com ElRey 
CaMl Aeiro que desse terras aos Portuguezes que lavrassem e plantas- 
sem, com que fizeram quintas, em que traziam muito género de gado e 
ave; e para ornamento da Cidade trouxe agua de três léguas por canos 
de que a gente e os gados bebiam e se regavam as hortas e os pomares, e 
aseim inêitau com seu exemplo aos Mouros, que occupados em lavrar $ 



00 

semear ou terras e crear gado, se esqueciam das guerras, em que de con- 
tinuo andavam e de soldados se tornavam lavradores. ElRey de Temaie 
vendo o ornato da Cidade, cobiçou fazer outro tanto d sua; e com ordem 
de António Galvão a ennobreceo de edifícios e outras cousas; muitas ou- 
tras fez António Galvão perque com razão lhe puderam os Tematos cha- 
mar Pai da Pátria. » 

Ilha Batoe, MínUo, Battau ou MeaUo, e as ilhas ao 0. de Somatra. — A ílba 
Batoe acha-se sob a linha equinoccíal na mesnia latitude do elevadíssimo 
iDODte Ophlr, e é dependência da residência ou província irlandeza Pa- 
dang, na costa Occidental de Sumatra. 

As ilhas que se estendem ao longo d'esta costa, a 55*^,5 de distancia, 
terano médio, estão sob a dependência dos governos das respectivas re- 
sidências ou províncias e alguma d'ellas são notáveis. Começando da 
parte do S. depara-se-nos a ilha denominada Engano, tendo 55*^,5 de cír- 
cumferencia; apparece em seguida Si-Pora ou Boa Fortuna, Si-Birou ou 
Mantawai, e logo a ilha Batoe, atravessada pelo equador, havendo ao N. 
da Unha equinoccíal a celebre ilha Nias. Esta apresenta 133S3 de com- 
primento por 5&\5 de largura. 

Os habitantes da ilha de Nias, observa Malte-Brun, são geralmente 
bem feitos e robustos, téem a cõr clara como os povos da Ásia oriental, e 
nas feições alguma cousa do typo grego. As mulheres passam pelas 
mais formosas de toda a Malásia. Calcuia-se a população d'esta ilha em 
200:000 habitantes. 

O que disse Malte-Brun é corroborado pelo dr. Van Leent nas se- 
guintes palavras : 

«Na costa Occidental da ilha de Sumatra, encontram-se mulheres de 
uma rara beUeza, não somente quanto ás formas, n^as também quanto 
Í8 feições. São na maior parte descendentes de europeu com escrava da 
ilha de Nias, que antes da abolição da escravatura foram levadas do seu 
paiz natal para a ilha de Sumatra. Eram procuradas por causa da sua 
forRkusura» que se manifesta nas creanças, principalmente nas meninas, 
sendo mais bellas que as próprias mulheres da ilha Nias.» 

£sles e outros factos serão apreciados na secção vii d'este trabalho, e 
d^dles tiraremos as conclusões que a rasão e a sciencia auctorisam. 

Hha 4e Sninalra. — Esta ímmensa ilha é quasi dividida ao meio pela li- 
nha equinoccíal, poisque se estende 529^,6 para o N. do equador e 
644'^,8 para a parle inferior ou S. Foi conhecida dos antigos e encontra-se 
em alguns mappas sob a denominação Benae Fortunatae Insulae^ mas não 
i 4e certo a Java Minor dos antigos viajantes europeus, como dizem o 



9i 

dr. Van Leent e Malte-Bruó, se attenderfiaos ao que a tal respeito escre- 
veu Diogo do Couto : 

cE considerando em Marco Polo, observa aquelle escriptor, o que 
fiilla de Java maior e menor, nos parece que esta de que tratámos é a m&- 
Dor e qoe a ilha de Sumatra é a maior.» 

A ilha de Sumatra, ^gunda em grandeza do archipelago da Sonda 
oa da Malásia, é 2,7 vezes maior que o reino de Portugal, tendo^ segundo 
alguns escriptores, 1:262 kilometros de comprimento e 279 de largura. 
Ha, porém, outros que, como Larousse, avaliam a extensão de Sumatra, 
de NO. a SE. em 1 :S00 kilometros, e de G. a 0. em 320, calculando a super- 
ficie em 70:000 kilometros quadrados. £ importante similhante diíTe- 
rença, e nós n3o hesitámos adoptar os cálculos de Larousse, poisque es- 
tão em relação com os que se acham exarados no Annuario estatistico de 
Gotha. 

Esta ilha pertence boje em grande parte aos hollandezes, $aas foi des- 
coberta pelos annos de 4508 a 1509 por Di<^o Lopes Sequeira, que ex- 
plorou a costa do Malabar, descobriu a península de Malaca e foi a Pedir 
e a Pacem, paizes de Sumatra, onde levantou padrões, como diz Major, 
na sua importante obra A vida do infante B. Henrique, o Navegador. 

A região septentrional de Sumatra conservou-se sempre independente 
e d'e11a faliam João de Barros e Diogo do Couto, descr^evendo a guerra 
que constantemente andou ateada entre os atchins e portuguezes, a qual, 
como muito bem recorda o dr. Van Leent a propósito da uHima guerra 
da HoUanda (1874) com os atchins, fora muito encarniçada em 1527. 
Estes povos não se satisfaziam com roubar os nossos navios, matattdp os 
tripulantes, para o que se serviam sempre da astúcia e da traição, mas ora 
propunham pazes, ora procuravam allianças contra X)s portuguezes. Por 
muitas vezes foram castigados e sempre derrotados nas suas investidas 
contra Malaca. Referimo-nos a estes assumptos, porque das guerras que 
sustentámos no estreito de Malaca e nas ilhas Molucas, tiraremos valiosos 
dados para apreciar a influencia do clima equatorial da Oceania nos euro- 
peus que frequentaram aquellas paragens no século xvi. Assim, não só nas 
guerras cuja descripção nos deixaram João de Barros e Diogo de Couto, 
mas também nas viagens que os portuguezes' fizeram na Africa austral, 
apparecem importantes elementos que o medico hygienista deve aprovei- 
.tar, quando trata de mostrar a influencia do clima de paizes que se dese- 
jam colonisar. 

Os portuguezes que no século xvi trabalhavam na construcção da for- 
taleza da Mina, na costa do mar de Guiné, na da ilha de Ternate, quasi 
sob a linha equinoccial, e em outras muitas que não precisámos enumerar, 
estavam em circumstancias diversas d'aquellas em que hoje pretendemos 



98 

explorar as terras da Africa portugueza, assignaladas por muitas viagens 
e corajosos feitos de que iremos dando conta no seguimento d'esta obra. 

Os escriptores do século xvi contavam com enthusiasmo a laboriosa 
vida dos soldados destemidos, nautas valorosos e intrépidos viajantes. Os 
do século XIX archivam os feitos dos colonos corajosos e funccionarios que, 
luctando denodadamente contra a influencia de um clima novo, conseguem 
no meio de grandes difiBculdades semear terras incultas e lançar os pri- 
meiros delineamentos de futuras povoações, como as de Cazengo e Mossa- 
medes, na provincia de Angola. E nós, descrevendo a ilha de S. Thomè 
sob o ponto de vista da sua agricultura, e fazendo a comparação do seu 
clima com o das regiões que se acham em idênticas circumstancias, nâo 
devemos esquecer aquelles portuguezes que, nos tempos passados, ao 
percorrerem esses logares desconhecidos, prestaram valiosos serviços á 
pátria, á religião e á humanidade. 

Os portuguezes foram sempre homens de acção, occupando-se em ge- 
ral mais em trabalhar do que em escrever. Mas não faltou jamais entre 
elles homens como João de Barros, Luiz de Camões, Diogo do Couto, Azu- 
rara, Castanheda, Freire de Andrade e tantos outros que se encarregaram 
de mostrar ao mundo o que podia e valia a nação portugueza. Os benefí- 
cios que esses obreiros do progresso téem feito a Portugal, estão bem 
patentes nos famosos e modernos trabalhos do visconde de Santarém, II. 
Major e visconde de Paiva Manso. 

Mas voltemos á ilha de Sumatra, que, segundo o diccionario de La- 
rousse, só começou a ser conhecida depois da publicação das Memorias 
de Muller, em 1778, apparecendo as de Marden em 1793. 

Sem negar a importância dos escriptores que a descreveram, tendo 
sempre em conta otempo em que o fizeram, não achámos todavia justo 
o silencio de Larousse com respeito a João de Barros, que duzentos c 
quinze annos antes deu importantes informações da ilha, como adiante 
veremos. E para demonstrar o erro, em que estão os que julgam que 
esta ilha só foi conhecida na Europa nos últimos annos do século xvii, 
reproduziremos também as formosas estancias que o nosso primeiro épico 
lhe consagrou duzentos e seis annos antes das obras dos escriptores de 
que falia Larousse ; e note-se que os Lusíadas de Camões têem sido tra- 
duzidos nas príncipaes linguas da Europa. 

Antes, porém, de darmos as descripções dos escriptores portugue- 
zes, reuniremos algumas informações dos viajantes modernos. 

A ilha de Sumatra está entre 5* 40' de latitude N. e 5^ 59' de latitude 
S. e alarga-se desde 95« 46' de latitude E. até 106« 3' longitude O. É ba- 
nhada pelo mar das índias e fica fronteira de um lado á península de 
Malaca, a celebre Chersoneso dos antigos, no continente asiático^ e do 



98 

outro á ilha de Java, de tão grande nomeada no mundo commerciai. Ê ro- 
deada por differentes ilhas, algumas das quaes demoram sob a linha equí- 
nocciaU c que nos cumpre nomear, não deixando comtudo de recordar 
qualquer logar ou ilha que como a denominada de Engano, conserva o 
nome portuguez. São lembranças de um passado glorioso, e homenagem 
a tantos portuguezes que illustraram a pátria e serviram a humanidade, 
caminhando na Trente de obreiros do progresso. 

A ilha de Sumatra não pertence toda aos bollandezes, que são os úni- 
cos europeus que ali dominam desde 1824, em que os inglezes lhes ce- 
deram os direitos que tinham á parte occidental. Divide-se em posses- 
sões neerlandezas e território independente. 

A parte pertencente aós bollandezes compõe-se de uma grande su- 
perfície de terrenos 4p alluvião, calculada em cerca de 7 1 kilometros de 
extensão, levantando-se depois os terrenos até ás montanhas do interior; 
a oriental alonga-se por 532 kilometros de terrenos baixos. 

Ha n^esta ilha muitos vulcões, estando alguns em actividade ; e é ali 
também que se encontra o vulcão mais alto do arcbipelago indiano, ao 
qual SC attribue uma altura de 3:795 metros. O Merepiporem, de 3:300 
metros, e o Kaboé são aquelles em que tem havido erupções mais notá- 
veis. Nomeámos também o monte Ophir por se achar quasi sob o equa- 
dor, elevando-se a 4:568 metros acima do nivel do mar, como a famosa 
montanha dos Camarões. 

Possue vastas planuras, valles aprazíveis e terrenos altos susceptíveis 
de cultura, bem como differentes lagos, ficando alguns a 3:300 metros de 
altitude. São numerosos os rios que banham os terrenos, formando parte 
d*elles grandes deltas. 

Tema ilha oiro, prata, estanho, cobre, ferro, chumbo e outros metaes 
úteis ao commercio e á industria. É realmente extraordinária a sua riqueza. 
A flora ofl'ercce particularidades importantes e que não devem passar 
despercebidas. 

Nas montanhas de Padang cultivam-se os legumes da Europa, e na 
de 2:770 metros de altitude depara-se a temperatura de T, termo mé- 
dio, o que as torna comparáveis ao clima da Madeira e de Lisboa ; os co- 
queiros não dão fructo nos logares de mais de 1:200 metros, e segundo 
o dr. Yan Leent, aquella ilha é a pátria do benjoim, da borracha e da cam- 
pbora. 

A cultura do café tem tomado incremento nos últimos annos e é feita 
sob boas regras agronómicas. É tratada com todo o cuidado, o que lhe 
dá vantagem especial. O arroz, milho e legumes também ali são cul- 
tivados com utilidade, assim como varias espécies de fructos, entre os 
quaes flguram os mais saborosos que se dão nos trópicos. 



n 

õ Nie), o fttmisear e o marfim flgoram entre os productos anímaes, 
a^lm eomo a gomma-lacca. 

8So abundantes e variadas em geral as producções da ilba de Suma- 
tra, tanto para consumo dos habitantes eomo para exportação. 

A natureza grandiosa da ilha, diz o dr. Van Leent, selvagem talvez, 
mas ao mesmo tempo cheia de encantos, n9o cede em cousa alguma á 
das outras ilhas do mar de Sonda. 

Nao foi ainda polido pela m&o dos homens tSo notável diamante. Es- 
pera apenas o trabalho do agricultor ou o alvião do mineiro para dar a 
riqueza áquelles que desejam explorar a fertilidade maravilhosa dos ter- 
renos ou arrancar do seio da terra os valores que ali estão enterrados. 
Tudo emflm faz esperar que esta ilha será dotada de todos os melhora- 
mentos materiaes o moraes que se téem realisadq n'outras provindas 
hollandezas, e passará a ser a primeira do arcbipelago malanesiano. 

Goncluidos os caminhos de ferro não só na costa occidental e na orien- 
tal, mas também para o interior do paiz, o commercio alargará a sua 
acção e a agricultura augmentará a prosperidade geral e beneficiará o 
clima das planícies, onde a malária é sustentada pelos terrenos de allu- 
vlSo* 

A ilha de Sumatra é essencialmente equatorial, e cumpre-nos, attento 
o plano do nosso trabalho, procurar todas as informações que mostrem 
se os europeus podem ali aclimar-se. Não ha factos directamente obser- 
vados a^ tal respeito, mas de muitos portuguezes sabemos nós que per- 
correram parte da costa da ilha sem serem atacados pelas moléstias do 
puis. B digno denotar-se que de setecentos homens que desembarcaram 
na costa occidental, em consequência do naufrágio da nau S. Paulo, ne- 
nhum failecesse de doenças endémicas, demorando-se ali quarenta dias 
trabalhando na construcção de novas embarcações, a fim de se dirigi- 
rem a Malaca. D'este extraordinário caso nos dá descripção Diogo do 
Couto, contando o que n'ella houve de mais importante. O que, porém, 
é certo, 6 que os naufk^gos só perderam sessenta pessoas n'uma refrega 
com 09 naturaes que, captivados da formosura de uma mulher europea, 
a roubaram e levaram ao seu chefe. «Depois d'esta desaventura, observa 
Diogo do Couto, se partiram os nossos de longe da costa, porque aquelle 
desastre os espertou a não se fiarem mais da gente da terra, e assim em- 
bocáram o boqueirão da Sunda, aonde acharam quatro náos Portugue^ 
zas, de que era capitão mór Pêro Barreto Rolim e recebeu toda esta gente 
muito bem, e a repartiu pelas náos e proveo a todos bastantemento». 

A ilha de Sumatra é extensa e divide-se em muitos reinos, mas é in- 
dispensável dizer mais uma vez que não trataremos d'aquelles que ae 
acham nos extremos septentrional ou meridional, por estarem distantes 



da linha equinoccíal, pois o nosso propósito é referirmo^nos somente aes 
legares que ficam a 0. e E. e d'onde os habitantes avistam á mesma al- 
tura o polo boreal e o austral. 

 população da ilha, observa o dr. Van Leent, tem sido avaliada appro- 
ximadamenle. Algumas partes doeste grande solo não são bem determi- 
nadas, e o numero de habitantes é desconhecido. O que pôde dieer-se 6 
que a população não está em relação com a superficie da ilha, e que são 
immensas as florestas virgens que ainda existem. 

Muitas são as causas que téem concorrido para o estacionamento dos 
habitantes indígenas, mas a influencia da raça branca vae a pouco e pouco 
ganhando terreno, e os usos e costumes bárbaros vão-se modificando de 
modo que, nos últimos annos, se nota ali grande augmento de popu^ 
lação. 

Comparando os dois modernos recenseamentos, continua Van (joent^ 
vê-se que em poucos ânuos a população, que era de 217:420 alinas> pad^ 
sou a 600:000, augmento na verdade muito importante para um período 
de quatro annos. No diccionario de Larousse calcula-se o numero de ha- 
bitantes em 6.000:000, estando sujeitos aos hoilandezes 3:190:000. 

liha de Snmatra dencripta per Joio de Barros.— «O lançamento da compri- 
dão da ilha de Çamatra jaz peia nossa navegação per o rumoy a que oe 
mareantes chamam Noroeste, Sueste, e tomada quarta do Sul e terá du^ 
zentas e vinte léguas de comprido, e de largo sessenta, ou setenta b« 
maior sua largura. Â qual fica tão vizinha á terra de Malaca^ que no lugar 
mais estreito do canal que ha entre ellas não será mais que té doze legufiíB 
quasi na fronteria da Cidade Malaca; e dalli assi para a parte do Le- 
vante, como do Ponente, vai esta terra da Ilha affastando-se da firme de 
maneira, que faz estas duas entradas daquelle estreito mais largo que no 
meio. E porém per todo elle tudo são baixos, restingas, ilhetas com ca- 
naes, os quaes errados se perdem as náos que por alli navegam : e daqui 
procedeo naquelle antigo tempo de Ptolomeu, e dos outros geographos, 
não ser aquelle transito navegável, como ora he, porque a cubica dos ho- 
mens todolos atalhos busca, ainda que perigosos, pêra cohseguir seu in- 
tento. 

cFica esta ilha com a linha Equinocial que á corta pelo meio em figura 
de huma aspa, donde a ponta mais Oriental está em seis gráos da parte 
do Sul e com ella vai vizinhar na terra de Jaiia, fazendo ambas um es- 
treito per que antigamente se navegava pêra aquellas parteís Orientaes ; e 
por esta parte ao presente fica ella menos povoada e em torno mui cheia 
de flhas e baixos. E pela parte do Ponente, que está em quatro gráos e 
três quartos da banda do Norte, be mais limpa, príncipahnente da banda 



98 

de fóra, mas muito mais povoada, por nella haver grande concurso de 
navegantes e a terra em si ter muitas sortes de mercadoria. Geralmente 
per toda a fralda do mar he terra alagadiça, e de grandes rios e pelo ser, 
tão montuosa, onde está bum lago, de que alguns delles procedem. 

«Alem da muita quantidade de ouro que nella ba, também se aclia 
muita cópia de estanho, ferro e algum cobre, salitre, enxofre, tintas de 
minas e buma fonte de que mana óleo, a que chamam napta em o reino de 
Pacem, e no meio tem um monte como o chamado Etbna em a ilba Sicília, 
per que lança fogo a que os da terra chamam Baaluan. 

cEntre o grande, e diverso numero de arvores, e plantas que cria, mui- 
tas delias de fruitos de que a gente commum se mantém, e outras que á 
natureza deo pêra seu ornamento, tem as do sândalo branco, aguila, bei- 
joim, e as que dam a cânfora como a da ilha Burneo, posto que alguns di- 
gam que a daqui é mais fina e de outro género da que vemos que vem 
da China, que be composição, e estoutra he cousa natural de outra espe- 
cie. 

«Das especiarias tem pimenta conunum, pimenta longa, gengivre, ca- 
nella ; e cria seda em tanta quantidade que ba abi grande carregação para 
muitas partes da índia. 

«O geral mantimento da gente he milho, e arroz e muitaa sementes, e 
fruítas agrestes do mato, porque pêra razão do clima não pôde crear ou- 
tras sementes que venham com fruito maduro, como aquellas de que nós 
usamos.» 

A importância da ilha de Sumatra foi, pois, demonstrada por João de 
Barros; e Luiz de Gamões deu-lhe[um logar de honra no seu poema: 

Dizem, que desta terra, co'as possantes 
Ondas o mar entrando, dividío 
A nobre ilha de Samatra qae já d*antes 
Juntas ambas a gente antigna vio. 
Ghersoneso foi dita, e das prestantes 
Veias d'oaro, que a terra prodozio. 
Áurea por epithéto lhe ajuntaram : 
Alguns qae fosse Ophír imaginaram. 

Vé naquella, que o tempo tomou ilha, 
Qne também flammas tremulas vapora, 
A fonte, que óleo mana, e a maravilha 
Do cheiroso licor, que o tronco chora; 
Cheiroso mais que quanto estílla a filha 
De Gyniras na Arábia, onde ella mora, 
E vé que tendo quanto as outras tem. 
Branda seda e fino ouro dá também. 

(Limadas, canto x^ estancias cxxiv e cxxxv.) 




Rui du Falneiías na fatenda Ptotoijpo. 



9: 

^^ àas-^ Tl mil III 1^ q» i 31a àe f^mnon t tJUú^N^ M Cih 



"^nr!M 



ãí uiií^flonjpBK € â rgpacDiii MtatttsMSik «swMf^ 

coo. i fltoiestt* jTÉcipal itmt Iwm, Mfefuf «:>«i iiitig fan «<ra j»g^ 

■te iiip « • ariripAfi ■■»4i^Mk— A flte f» 1^> 4e ftm« ^ 

O àr. \m Leal, áesorpvoíio a flhi li^gi e a$ qae fomMi <» «^ 
ctig«fag& ánaeBQs (N AUi iB Oi , aio « wtere i estdbni>»S|i Mm8 i m<trs 
qat jnâkarmk li jm^ados feíte^ o que aès aio poikMOS dieíiir 4i^ 
cano luMB^gca ao Talor e a(to$ de beroika»^ 
e CBSBiadkis nas BOssas esicola& 

UfB dos itis de BaAio |vticiaa\a por todos os «e;^ 
fOi dos&avios DO esu^lo de Mabca, e cansava gra>;«$ pitjoiaos aos ne^ 
fodoÊÊes dl praça. Para o castigar saio draquella capital Fero de Ma$ca« 
máas ooai demo w eflibaitac5es, condmmdo mil cento e dncoenta ho^ 
mois^ entre os qoaes se achavam quinhoitos e ciocoenla portoipietos. O 
qoe estes deram no memorável cerco doesta ilha dil^ Diogo do OOQto 
em poucas palavras, referindo-se aos trabalhos dos nossos soldados e ao 
valor dos capities. 

cFeroio Serrio, obsara aqoelle escríptor, acompanhado de dncoonta 
hof&eos, chiando á estacada lhe lançaram aos pios grossos viradores, e 
goameceodo-os aos cabrestantes, pondo todos nelles suas forças, foram 
arraDcando boma, e boma com tanto trabalho, que lhes rebentou o sangue 
pdas bocas das forças que nos peitos punham. Nisto gastou oito dias 
por serem as estacadas muitas, e se deterem em cada huma grande espaço, 
e chegou a caravela a surgir defronte da Cidade, t 

São dignos de louvor taes actos de dedicaçio, e ao menos podemos 
dizer que a coloDísaçSo da Africa portugueza nSo exige similhantes sacri- 
ficios, nSo reclamando as culturas de que os terrenos silo susceptíveis 
mais do que boa vontade, constância e economia pnra pagarem com 
vantagem o trabalho ou sacriQcío que por elles se fizerem. 

Parece-nos, pois, que durante o cerco da íllia de Bintio fora salisfa* 
ctoria a saúde dos combatentes, porque Diogo do Couto nOo deixaria de 

7 



96 

O notar, se as febres endémicas dizimassem tão esforçados soldados. 
Apesar d'isso a localidade em que assenta a cidade é má, como indica o 
mesmo escriptor, quando diz: 

«A parte da ilha em que está a povoação he toda muito apaulada e 
alagadiça: e esta he a razão por que todas suas casas são ediQcadas so- 
bre grandes esteios de páo, levantadas no ar, e a serventia he por pontes, 
só as casas d*EIRey são fundadas sobre um tezo.» 

O rei da ilha de Linga, que era muito amigo dos portuguezes, foi em 
seu soccorro, mas chegou depois de tomada a cidade de Bintão. A sua 
gente, porém, acompanhada de alguns portuguezes, percorreu a ilha 
para prender o senhor d'ella, mas não o poderam realisar, por ter fugido. 

Não é nosso intento demorarmo-nos muito com a descripção d*esta 
ilba, não obstante ella estlir próxima de Malaca e offerecer condições espe- 
ciaes de salubridade de que devemos tomar conhecimento. Gumpre-nos 
advertir também que a ilha de Bintão não fica sob o equador, como disse 
Diogo do Couto, mas está, segundo Malte-Brun, cerca de 205^,5 ao N. 
do equador. Tem 28 kilomâtros de comprimento por 12 de largura; a sua 
população era calculada no anno de 1867 em 23:861 habitantes. 

A ilha Linga tem um monte de 1:188 metros de altitude, e fabrica^^ 
2di boa louça para serviço de chá. Não possue lagos nem rios importan- 
tes, notando-se próximo do porto principal duas fontes de agua quente. 

As ilhas do arcbipelago RiouwrUngga não são sujeitas a tremores de 
terra nem a erupções vulcânicas, pelo qm fazem um cojtfraste singular 
com as terras da ilha de Sumatra, onde, no dizer de muitos viajantes e 
exploradores modernos, se contam mais de dezeseis vulcões, alguns dos 
quaes estão em actividade. 

lihA Linga, s6§uud# ê dícGÍ9iiario 4e Larousse. r— «Lioga ou Lingga é uma 
ilha da Oceania (Malásia), pertencente ao archipelago de Sonda, ao NE. 
4JU ilha de Sumatra, de que ella está separada por um canal de 60 kilo- 
netros de largura, e fica ao S. do estreito de Malaca, sob a linha equinoc- 
ciai por lOl"" 2r de longitude £. 

cTem esta ilha 125 kilometros de comprimento por 28 de largura. Cal- 
culam-se em 15:000 os seus habitantes. A capital denomina-se Koualo Daí. 

< A ilha Linga está rodeada de ilhas, ilhotas e recifes, eé atravessada, 
na parte media, de O. para E., por uma corda de montanhas, onde se 
notam dois picos de forma pyramidal, que se descobrem de muito lon- 
ge, quando se navega o mar da Sonda, em que elles se acham. 

«A costa do S. é baixa e geralmente pantanosa, subindo o mar, na maré 
alta, a grande distancia da praia. É tão cerrada a vegetação, que diíficil- 
loente se penetra nos logares arborisados. 



90 

«Unga è 40^3 dps in^is r^cp3 (iQf^^ d^ p.^tqreza, mas os habitantes 
d2o se apf*pv)^itam d^ tal fertijidade, nem tratap de desenvolver as culturas 
mais apropri^^a^ |S ^Uas s^guI)do a$ regras da boa rasão. 

cA ilba fbjanda em frutos e sagu; co/^e-se ali muita gomma e pi- 
ipenta. O interior é muito ^r))ori$.adQ^ tem madeiras próprias para con- 
stracções n,9vaef, tintur^H^' ^tc. 

cNa cosjta ba bom pejfa, aei^o o$ indigenas pescadores niuito activos. 

cEiLploraraa^-se em oiitro t^mpo algun^^^ minas de estanho, que havia 
na parte meridional .da ilh^ : 9ppare.ce oiro ew pequena quantidade, mas 
dSo se faz caço d'ell.e. » 

nhã de B^fney. — ]É ^ta a fnsjpf ili^a da Malásia ou da Ásia austral, 
co^u) Ibe ch^fnou ^0^ ^ ^9^^os. E.st4 clas$|^ada por muitos escripto- 
res eotre as 4o arcbipelagp de Çqçda, havefí^/? quen) a descreva á parte, 
ma$ sem jiis^li^da rasão, ooqi^p ji^m f^rchipelago. 

É ati;avessada pelp equador, çoi^o a de Sflp^tra, tem uma zona equí- 
nocdal prop;riaa^nte dit9 í^ possue di^ereotes povoações em 0° de latitude, 
sendo as principaes Pontianak, capital da residência ou districto Occiden- 
tal; SintajQg, majÚB para o ji^rlor; e o ^islricto de Koti ou Kotei, na costa 
oriental. 

Se esta ilha nao Q0[ef*ece bastantes elementos para a solução do t3iQ 
debatido problema da aclimação dos europeus nos paizes intertropicaes, 
pois que são pQUAOs .03 que a|i residem, apresenta todavia condições 
especiaes quanto ao clin^i .e á p^jUiplogi^ equatorial, que muito importa 
coi^çflef ; 

A parte sepjtentriojji^l da llh^ de porqep foi descoberta por D. Jorge 
de Menezes ,eip 1526, ^epdo )^ sido p^oqqif-ada em 1523 por António (jie 
Abreu. Exfx IÇ.^Q foi visitada por Gonçalo Pereira. 

diccionarío deLarousse traz a data de ^$18, e acrescenta: «Os por- 
tugueses sO poderam estabeieqe;r-se .em Córneo no anno de 1690, occu- 
pando a parte denpminada j^^i^germaçsijig, d^onde foram logo repéllidos 
por meio do assassinato e traição». Malte-Brun diz: «Osportuguezescher 
garam á ilba de Córneo em 1513; mas esta grande ilha nâo se tornou tão 
conhecida como as outras. Em iò'40 deram-lhe o nome de Borneo. Ma- 
galhães chamou-lhe Qunnè^». 

1 V. A. Malte-Brun fils — Géographie complete et uníverselle. Nouveile edi- 
tioo. i85i. Tomo i, |)agina 372. Na mesma obra, tomo v, lé-se o seguinte : «Ao N. 
de Java e ao SO. das ilhas Philippinas estende-sc o vasto território a que os hoUan- 
dezis áêram em 1630 o nome de Borneo», Ha visivelmente um erro n'esta indica- 
ção, que se acha em completo desaceordo com o que o auctor affirma na pagina 372 
^ j^o j, {^ci^A ^refe^ido. 



100 

Qaasi toda a ilha pertence hoje aos hollandezes, os quaes toem sus- 
tentado os seus direitos por meio das armas, de modo que apenas ha 
poucos annos poderam começar a explorar o interior do paiz. 

Esta ilha, segundo Larousse, tem de NE. a SO. ou de comprimento 
1 :200 kilometros, e de E. a O. ou de largura 500. A superficie excede 
muito a da França, Bélgica, Suissa e Paizes Baixos, o que mostra a sua 
grande extensão. Segundo o dr. Van Leent, tem 873:305 habitantes, e 
Larousse diz que ha em toda ella 4.000:000 por uma superficie de 
675:000 kilometros quadrados. São de 1867 estas informações, e parece- 
nos mais verosimil a estatística do dr. Van Leent, director do serviço de 
saúde. 

 linha equinoccial divide a ilha de Bomeo em duas partes desiguaes, 
estendendo-se a septentríonal até 7:778 kilometros- e a meridional 463. 
Na região do N. fica o monte mais alto, que se eleva a 3:960 metros. 
A parte media é montanhosa, começando ali as cinco cordilheiras mais 
notáveis que se approximam da costa ; mas o interior era ainda pouco co- 
nhecido em 1867, em que se publicava o volume v do diccionario de La- 
rousse. 

A orographia sob o equador merece especial attenção, porque a ella 
se ligam as melhores condições de salubridade, considerando-se na ver- 
dade uma das partes mais importantes da geographia medica, assim como 
não é menos a hydrographia. 

A ilha de Borneo, sob este ponto de vista, oSerece um estudo curioso, 
porque os rios são caudaes e formam immensos deltas. O rio que fica na 
residência de Pontianak, pouco ao S. do equador, tem grande influencia 
sobre a flora pathologica local; o Barito, ao S. de Borneo, é notável, es- 
tando a cidade de Benjermasing na margem esquerda, a poucos kilome- 
tros da foz; e o Koli despeja na costa oriental, formando um grande delta, 
não mui distante da linha equinoccial. 

As localidades d'esta ilha que se acham sob o equador são a residên- 
cia de Pontianak, o districto de Sintang no interior e o sultanado ou prin- 
cipado de Kotei na costa oriental. 

A residência de PonUanak estende-se pela costa occidental de Bomeo, 
desde o cabo de Sambar até ao rio Doeri ao N., e ao S. chega até ao cabo 
Ajer Mata. A O. ficam-lbe o mar e a E. o império de Kotaringin e duas pro- 
víncias de Sintang, cuja capital está sob o equador. 

A capital de Pontianak está em O'' T de latitude S., 166S6 distante 
do mar, nas margens do rio Kapoeas, e tem 6:000 habitantes, en- 
tre os quaes ha alguns europeus, e as casas são construídas sobre esta- 
carias. 

O principado de Kotei prolonga-se desde r 30' de latitude S. até 1* 



<01 

de latitude N. É por conseguinte umdistricto perfeitamente equatorial. 
Está nas mesmas condições de latitude em que se acham as ilhas de 
S. Thomé e Príncipe, tendo o mar a E., emquanto que a SO., O. e N. 
confina com as montanhas do interior da ilha. A população é avaliada por 
uns em 60:000 almas e por outros em 100:000. 

N'esta região equinoccial ha variadas producções, como o arroz, inha- 
me, bambu, camphora, cera, gutta-percba, oiro, ferro, cobre, chumbo, 
diamantes, antimonio, iman e carvão. Foi, segundo Larousse, no território 
occupado pelos chins, em Landak, que se encontrou o maior diamante 
conhecido. Pertence ao rajah de Matan. 

O mar fornece abundante quantidade de peixe, que também apparece 
nos numerosos lagos da ilha, os quaes, como os de Sumatra e de Celebes, 
apresentam panoramas deslumbrantes, a cujo respeito disse o dr. Van 
Leent : 

cPlusieurs iies, surtout Sumatra, Java et Célèbes, possèdent des lacs 
d'une certaine étendue. Ges lacs contribuent largement à produire ces 
sites d'un aspect enchanteur, que maintes fois nous avons admires avec 
une émotion vérítable.» 

A ilha de Borneo, como já dissemos, foi descoberta pelos portuguczcs, 
e d'ella fallai^m João de Barros e Diogo do Couto. N'aquelle tempo não se 
tratava de colonisar, o que se queria era estabelecer relações politicas e 
commei-ciaes, castigar os que faltavam á fé dos contratos, e saber quaes 
eram as praias que offereciam melhores ancoradouros. 

O Bm do século xv foi para as descobertas e viagens maritimas, como 
o fim do século xix será para a colonisação. Então brilhavam de enthu- 
siasmo os que em uma caravela se entregavam confiadamente aos mares 
ignotos; hoje levantam-se os ânimos e pensam em estreitar cada vez mais 
a área das terras incultas ou abandonadas da Africa, America e Oceania : e 
Dão findará este século sem que se abram as portas de tão valioso the- 
souro, cortando a cabeça do terrível dragão que a defende e tem dizi- 
mado milhares de victimas. Mas vejamos o que os escriptores portugue- 
zes disseram acerca da ilha de Borneo, mostrando também a importância 
em que a tinha o sublime cantor das glorias de Portugal. 

cHe terra mui abastada de carnes, diz João de Barros, arroz e ou- 
tros muitos mantimentos, e de mercadorias da terra de muito preço. Nas- 
cem nella pelas praias do mar junto da cidade de Tanjapura diamantes 
mais finos e de maior valor que os da índia, e per toda ella nasce a ver- 
dadeira cânfora em arvores, como na Europa nasce a resina, e esta he a 
que na índia tem grande preço, que a que lá vai da Pérsia he falsificada. 

c A cidade de Borneo he grande, cercada de muro de ladrilho, de no- 
bres edificios, onde os Reys residem, e tem buns paços sumptuosos. 



«Habilairi ètfl Bofheo, Lavè, Tanjd()uraj Mtídúró e Cerava, poflos prin- 
cipaes d'esta ilha, muitos e liiui Hcos mercadores que tratam em Malaca, 
Samatra, Sião na Ctiina; 6* outras pairiès, a qtie levam diamantes, Cân- 
fora, páo de aguila e mantimentos, c huiil vinho que chamam Tampor, que 
be o melhor que ha entre os ârtiflciaes.]» 

Fecharemos esta brete notícia da ilha de Borneo com os versos que 
lhe consagrou Luiz de Gamões, reunindo-a na me^a estancia com as 
ilhas da Banda, descobeHas por Francisco Serrão e António de Abfeu. 

Olha de Banda as ilhas, qtie se esmaltam 
Da varia c6r, que pinta o roxo fruto ; 
As aves variadas, que ali saltam, 
Da verde noz tomando seu tributo: 
Olha também Boméo, onde nao faltam 
Lagrimas, no licor coalhado e enxuto 
Das artòres, qúè èaiíipÍMrá fie chateado, 
Com que da ilha cl nome he celebrado. 

(lAêsiadas, canto x, estancia cxxxni.) 

Ilha Celebes.— Estende-se esta ilha 196^3 para N. do eqttador e 633^3 
t)ara o S., por onde se vê que a parte meridional é 3,2 vt^es mais ex- 
tensa que a septentrional, e fica erít^é 118^ 45' e 125° 15' de longitude 
E. de Paris. 

Tornou-se conhecida, diz Larousse no seu diccionario, desde que os 
portuguezes em 1525 aportaram a Macassar, que está a 0. na região 
meridional por 5° i' de latitude S; Levantaram âli Um forte, mas, diz o 
mesmo escriptor, os hollandezes, para monopolisar o commercio das 
especiarias, apoderaram-se da ilha em t660, e obrigaram os portuguezes 
a abandonal-a. 

Malte-Brun relata que Garcia Henrique quizera e!tplorar a ilha em 1525 
por lhe constar que n'ella havia oiro, e que os habittííiles nflo lhe permlt- 
tiram o desembarque. Mas passado pouco tempo ahi construíram uma 
fortaleza e fundaram alguns estabelecimentos. 

Os inglezes estabeleceram-Se ali no principio d'este século, poréíií, 
em 1814, cederam todos os seus direitos, sendo os hollandezes os úni- 
cos europeus que actualmente téem ali Influencia. 

A superfície da ilha é 1 ,3 vezes maior do que a de Portugal. Está a E. 
da de Borneo, de que se acha separada apenas pelo estreito de Macassar, 
e é por tal modo subdividida, que parece formada de quatro penínsulas 
ou linguas da terra que se reúnem n'um centro commum assas elevado 
sobre o nivel do mar. Sâo numerosos os golfos e bahias da costa c alguns 
muito extensos. 



103 

A disposição dos terrenos tem levado muitos escriptores a erro, repu- 
tando-a um grupo de ilhas quando eila é uma só. 

«O archipeiago de Celebes, diz-se n'um livro popular, compõe-se da 
liba d'esle uome, que é a principal ; Macassar, ao Sul, pertence aos hol- 
laodezes, que dominão sobre os diversos soberanos da ilha.» 

E acrescenta outro escriptor : 

cSão Dotáveis, ua Notasia, as ilhas Molucas ou das Especiarias, entre 
as qnae^ é notável Celebes, a maior d'ellas, que produz a-bobonupas, 
arbusto de que sáe um sueco venenoso de terrível actividade, em que os 
Macassares, habitantes da ilha, molham as pontas de seus punhaes e fle* 
chás.» 

Eis-aqui o que em algumas das nossas escolas se ensina a respeito de 
uma ilha que serve de modelo a todas as colónias do mundo I 

A ilha de Celebes n3o é, porém, um archipeiago, nem é notável somente 
por causa do veneno com que os indígenas temperam suas settas ou pu- 
nhaes, assim como nao pertence ao archipeiago das Molucas, entre as 
quaes não é contada pelos geographos, embora a administração de alguns 
pontos esteja dependente do governo das Molucas. Merece ser conhecida 
peias suas producçôes, pela sua salubridade e natureza do clima. É pre- 
ciso também notar que ella pertence á Oceania e não á Ásia, sendo para 
admirar que haja um livro, em que se supprima a divisão geralmente se- 
guida da geographia physica do globo ^ Não lia motivo que justifique tal 
suppressão. 

A ilha Celebes é montanhosa, elevando-se o monte mais alto que 
está na região S. da ilha a 3:230 metros: Não tem rios notáveis, a vege- 
tação é abundante e os montes estão ató ao cume cobertos do copadissí- 
mo arvoredo. 

Compõe-se a ilha de alguns dislrictos administrativos, sendo aliás im- 
portante o de Menado, que tem sob a sua dependência o de Gorantalo, 
mais próximo do equador. Na parle oriental ha os governos de Bangaai, 
TomboekfB e Tomori e na região do S. o de Macassar, sendo, como já 
dissemos, os portuguezes, os primeiros europeus que ali chegaram e 
levantaram edificios. 

O aspecto da vegetação em geral, dizem alguns escriptores, é menos 
grandioso e menos imponente que o das ilhas de Sonda. As florestas, 
cujas arvores são menos agigantadas que nas ilhas de Java e de Sumatra, 
alternam com extensas campinas. 



> (^mpendio de geographia contendo carias geraes da Europa, Africa, Ásia e 
Austrália e doze cartas especiaes da Europa, pelo padre José de Sousa Amado, 
approvado pela janta geral de instrucção publica. i369. Preço ifWO réíst 



104 

A faana é largamente representada, e sao abundantes os animaes do- 
mésticos. Não se encontram o elepbante, o tigre o o rhinoceronte, assim 
como nao ha o leopardo nem o tapir. 

Tem ferro, cobre e estanho em differentes togares e abundância de 
oiro na região do N. 

 cultura do café foi ali introduzida cm 182â e a do cacau em 1826. 

A cidade de Menado, observa um viajante, é uma das mais lindas 
das índias orientaes. Assimilha-se a um vasto jardim abundante de povoa- 
ções, onde as ediOcios são separados por largas ruas cortando-se per- 
pendicularmente umas ás outras. Boas estradas se ramificam em todos 
os sentidos, orladas de lindas cas^s, caiadas e muito limpas, e notam-se 
plantações florescentes e entremeiadas de formoso arvoredo. 

O distrícto de Menado, quasi na mesma latitude da ilha do Príncipe, 
mostra o poder da civilisação christã, e muito príncipalmenle põe em re- 
levo os benefícios do christianismo, comparados com os de outra religião. 
Serve certamente de lição aos padres que forem encarregados das nossas 
missões da Arríca e muito especialmente ao clero da ilha do Príncipe, 
onde a descrença é geral e a desanimação profunda. 

Vale, pois, a pena fazer a comparação entre estas duas ilhas, a Qm de 
se formar uma idéa não só dos benefícios da civilisação, mas também dos 
males que a ignorância e o fanatismo podem acarretar sobre um paiz. 

Começaremos por citar o parecer de auctorídades competentes. É um 
meio seguro de se apurar a verdade. 

A respeito da população do distrícto de Menado diz o dr. Van Leent: 

cA influencia salutar do culto christão e do ensino que acompanha 
a propagação do chrístianismo é attestnda pela moralidade e felicidade 
dos habitantes de Menado. 

cAs aldeias téem agradável posição, as casas são largas e arejadas e 
reúnem um certo numero de commodidades, que se reconhecem á primeira 
vista. 

cAs ruas estão limpas e são amplas, ha jardins e pomares em que o 
trabalhador encontra, com muita vantagem, o preço do seu trabalho; os 
campos cultivados ostentam fructos e offerecem sob climas tão prívilegia- 
dos cento por um dos grãos semeados. » 

£ realmente agradável observar signaes tão evidentes da felicidade 
de um povo que outr'ora gemia sob o jugo do paganismo, que ainda 
opprime os povos de outros distríctos. È justo que se preste homenagem 
aos eminentes e relevantes serviços dos missionários de Menado. O chrís- 
tianismo tem o poder de modifícar o caracter de um povo, tornando-o 
simples, trabalhador, activo e justo. 

Vejamos, porém, o que acontece na ilha do Príncipe, mais formosa 



<05 

do que a Gelebes, a mais pittoresca e agradável ilba do tão decantado mar 
teoehroso dos antigos. 

Eis aqui o que em 186S disse o dr. José Correia Nunes: 

cAs artes estão muito atrazadas; encontram-se apenas alguns maus 
carpinteiros, pedreiros e ferreiros. Â principal industria é a lavoura, que 
ainda assim está em grande atrazo, porque, alem de não empregarem os 
processos agronómicos convenientes para melhorarem e augmentarem 
as colheitas dos vegetaes que plantam, limitam-se á cultura do cacau, de 
algum café, mandioca e tabaco, abandonando outras muitas culturas, taes 
como o algodão, o anil, o açafrão, a batata, a canella, etc, e a industria 
de serrar madeiras de construcção, que ali tanto abundam.» 

Comparámos o estado da povoação de um dos dístrictos da ilha Ceie- 
bes com o da ilha do Príncipe, mas é necessarío dizer também que na 
primeira ha districtos em que impera o fanatismo, poisque ainda ali não 
entrou a luz suave da civilisação christã, cuja doutrina deve ser ensinada 
por homens de boa fé e de honestidade inconcussa. Os bons exemplos fru- 
ctificam sempre, e sem elies pôde perder-se a melhor causa, a crença 
mais salutar. 

Sobre a influencia do christianismo em Menado, é o casamento, a união 
da familia, a moralidade, a prosperidade publica, em fim, o fructo do sa- 
cerdote honrado e sincero ; em Gorontalo, pelo contrario, a dissolução 
dos costumes, a indiíTerença dos pães pela prostituição das filhas, a fami- 
lia desprezada, a desconfiança, a pobreza e a miséria são o resultado fa* 
tal de não se acceitarem as verdades christãs. O paganismo, finalmente. 
Dão pôde arrancar a população de tão mesquinha sociedade. 

A ilha do Príncipe está quasi despovoada, as roças abandonadas, os 
edificios invadidos pela vegetação, o povo desmoralisado e a população 
diminuindo de dia para dia. Fazem-se amiudadas festas de igreja, ha fre- 
quentes procissões, e muitas novenas quasi todos os mezes. As rezas no- 
cturnas ás portas dos templos e as ladainhas no quarto dos doentes são 
acontecimentos que se repetem. Gasta-se n'esta vida quasi todo o tempo ! 

Foi o que ali observámos em 1873, quando fomos em serviço áquella 
ilha; era o que tínhamos notado quando lá estivemos em 1868, e de tudo 
colligimos documentos que servem de base a estas considerações. 

Apartemos, porém, a vista do quadro que apenas esboçámos e passe- 
mos a fallar da ilha Celebes, que muito importa conhecer sob o ponto 
de vista de colonisação. 

O distrícto de Menado está em l"* 27' de latitude N. e ^W 38' de 
longitude E. Tem 99:000 almas, população quasi igual á da cidade do 
Porto. Ha apenas 621 europeus, e esse núcleo fecundante e civilisador 
espalha a felicidade entre aquelles povos. 



106 

O districto de Gorontalo fica entre o equador e o distrícto de Menado. 
Tem cerca de 28:00o habitantes, entre os quaes, acrescenta o dr. Vàn 
Leent, ha 200 padres ignorantes, fanáticos e preguiçosos. 

O distrícto de Macassar está ao S. da ilha em 5"^ T 45'' de latitude, no 
raeio de uma planície fértil onde se cultiva o arroz, a qual se estende até 
ás montanhas do interior. 

A brisa do mar, diz o dr. Yan Leent, é fresca e embalsamada. É muito 
regular na boa estação e n9o falta muitas vezes no tempo das chuvas. 

Macassar é uma estação desejada pela marinha, observa o mesmo 
esGfiplor. OiTerece variadas distracções, e os géneros de primeira necessi- 
dade não são caros. A caça é um divertimento aprazível, assim como os 
passeios a cavallo são agradáveis; tudo respira alegria n'aquelle privile- 
giado paiz. 

Quando não houvesse colonisação nas regiões da America equatorial, 
como, por exemplo^ na repubUca do Equador, os principaes districtos da 
ilha Gelebes de per si somente mostrariam que nos paizes equinocciaes é 
possivel a colonisação, podendo os europeus viver como em qualquer paiz 
da Europa. 

Se temos áctualmentèi tioticias mais circumstanciadas da ilha Gelebes, 
não são de certo para esqtitícer as que nos legaram os nossos escriptores 
do século XVI. Julgámos indispensável transcrever alguns trechos da his- 
toria portugUeza da índia, e determinar as epochas em que os nossos nave- 
gadores e capitães frequentaram aquella região, por isso que não são exa- 
ctas as informações que se jéem nos trabalhos de alguns escriptores es- 
trangeiros. E alem d'isso não pode resolver-se o problema da aclimação 
em qualquer paiz sem se conhecer o movimento da população desde a 
sua origem ou entrada ali. 

Yejatnosf pois, em que epocha os portuguezes chegaram á ilha Gelebes 
e como se estabeleceram as relações entre elles e os seus habitantes. 

No anno de i539, em que era governador das Molucas o distincto 
governador Ahtonio Galvão, cujo governo deveria ser sempre imitado, 
foram á Ilha de Ternate embaixadores das ilhas dos Macacas, que estão, 
segundo Diogo do Couto, sessenta léguas ao poente das de Moluco. O go- 
vernador de Ternate recebeu-os muito bem, e conseguiu que fossem bap- 
tisádos e abraçassem a religião christã. 

<tAs ilhas dos Macacas» diz Diogo de Couto, são muitas, e juntas, e an- 
dam nas cartas de marear lançadas em huma só muito grande pelo rumo 
a que os tnareantes chamam Norte e Sul, perto de cem Jeguas de com- 
prido. Quer esta Ilha imitar a forma de hum gafanhoto grosso, cuja cabeça 
(que lança pêra o sul sinco gráos e meio) são os Gellebes, que tem Rey 
sobre si. 



tal 

cPela coda, que he a parte tíiais chegâfda a Maldco, atravessa a Equinoc- 
ciai, e ainda lança quasi hum gráo para a banda do Norte. 

cSão estas Ilhas senhoreadas de Itioltos Reys, differenites nas línguas, 
desviados nos ritos e costumes. Começando da parte da coda, tem o reifio 
de Bogis, por sima de quem corta a Eqdinoccial. 

cA principal cidade chama-se Savito, que he grande, de casas sobra- 
dadas e formosas, mas todas de madeira. 

c Aqui queimam os mortos, e suas cinzas se recolhem em rasos, que se 
enterram nos campos em lugares separados, onde fdzem suas capellas 
abertas por todas as partes. 

«Não tem templos, fazetn suas oraçOes, olhando para os Ceos com as 
mãos alevantadas, por onde se vô que tem conhecimento dd verdadeiro 
Deos. Os naturaes nSo tem mais de huma mulher e os Reys três e qua- 
tro. 

cTem logo o Reyno de Macaçá; sua Cidade principal se chama Ooá; 
aqui enterram os defuntos. 

«Na ilha Cellebes, diz mais Diogo de Couto, ha algodSo^ cobre, ferro, 
chumbo e muito ouro, de que as mulheres fazem manilhas pdra os bra- 
ços. Tem pedraria vermelha de que fatiem jóias, sândalo, sap9o ; fazem-se 
nellas muitos e bons pannos de seda de muitas feições. São estas ilhas milito 
abastadas de arroz, legumes, frutas, sal; tem cavallos) alinintes, mui- 
tas gallinbas, carneiros, bufaras, veados, porcos, perdizes e toda a mais 
caça de mato, mas não tem vaccas. Tem navios de muitas feições^ huns a que 
chamam Pelan, que s3o muito ligeiros de remo, com que fazem guerra. 
Ha outros chamados Lopi, que são da carga, e outros maiores a que cha- 
fliam Jojoga. > 

Tidore e o arehipelago das Molaeas.— A ilha de Tidore constttue lim paiz 
equatorial propriamente dito, está situada na Malásia e pertence ao arehi- 
pelago das Molucas, i2 kilometros de Oeilolo, ao S. da ilha Ternate, de 
que está separada por um canal navegável que offerece bom ancora- 
douro por 0° 45' de latitude N. e i25^ 5' de longitude E. Tem t2 kilome- 
tros de comprimento por igual largura. Calcula-se a sua população em 
12:000 habitantes. 

Taes são as principaes informações que a respeito doesta ilha se en- 
contram no diccionario de Larousse. Mostram a sua posição astronómica, 
sendo a sua superfície igual á da nossa ilha do Príncipe. 

A ilha de Tidore, collocada exactamente sob a linha equinoccial, tem 
uma população seis vezes maior que a da ilha do Príncipe, é tão fértil 
como esta, e está afastada do equador mais de i50 kilometros para o N. 

GoDvem portanto examinar com attenção as circumstancias em que 



i 



408 

se acham estas ilhas, a flm de podermos indicar os meios necessários para 
fazer sair do abalimento cm que caiu a nossa ilha do Príncipe. 

A ilha de Tidore fica perto da de Ternale, como a ilha de S. Thomé 
o está da do Príncipe. 

Viveram os portuguezes muitos annos nas ilhas Molucas, e ainda hoje 
lá existem recordações de muitos dos seus governadores. Mas alguns 
escriptores modernos, de certo por falta de informações, ora trocam as 
datas dos descobrimentos, ora dão incompletos os nomes dos portugue- 
zes illustres que ali serviram a patría. Não é somente isto, infelizmente. 
Dizem não só que os habitantes das ilhas Molucas estavam sob a oppres- 
são dos portuguezes, mas que estes as haviam usurpado ! 

Não podemos deixar sem reparo taes asseverações. Seria faltar ao 
nosso dever, seria esquecer os serviços dos portuguezes nas lutas que 
por tantas vezes se levantaram e em que valorosos soldados derramaram 
o seu precioso sangue para sustentar a honra e gloría nacional, seria, 
em fim, fazer a maior das injustiças a muitos illustres capitães e gover- 
nadores, se não lhes tributássemos a devida homenagem. Os nomes de 
Francisco Serrão, António de Brito, António Galvão, e muitos outros es- 
tão protestando contra asserções que não assentam em fados bem obser- 
vados. 

O grande Affonso de Albuquerque castigava os traidores e aquelles 
que tomavam armas contra os portuguezes. Se muitas vezes não fosse 
enérgico, perderia o prestigio e não seria respeitado. Mas o seu principal 
empenho era adquirir a amisade d'aquelles povos. Nunca os perseguia, 
pelo contrario mandava tper aquellas parles orienlaes notificar que todos 
viessem a Malaca sem receio algum : cá lhes seria guardada sua justiça 
e feito todo o favor em seus negócios». Depois de tomada a cidade par- 
tiram offlciaes em differentes direcções, sendo mandado para as ilhas Mo- 
lucas António de Abreu, tindo diante delle um mouro natural de Malaca 
per nome Nehodá Ismael com hum junco de mercadoria de alguns mouros 
Jáos e Malayos, que tratavam nestas partes pêra que quando António de 
Abreu chegasse aquelles portos que fosse bem recebido». 

É preciso, porém, observar que António de Abreu tomou primeiro a 
cidade de Agacim,na ilha de Java ; foi ter depois á ilha de Amboino, onde 
poz um padrão, como era costume em todos os descobrimentos, e em se- 
guida passou á ilha de Banda e de ali «por lhe o tempo servir pêra Ma- 
laca houve por mais serviço de EIRey tornar-se com nova do que tinha 
descoberto». 

Francisco Serrão, desde que se apartou de António de Abreu, foi ter 
a umas ilhas que os da terra chamam Luco Pino, isto é, ilha das Tarta- 
rugas, onde foi acommettido por alguns naturaes; mas, havendo-se com 



boa fortuna, tomou-lhes a embarcação em que iam e foi em seguida á ilha 
de Amboino, e decorrido algum tempo passou ás ilhas de Temate e Ti- 
dore, a pedido dos governadores indigenas. 

No anno de 1513 foi mandado ás ilhas Molucas António de Miranda 
de Azevedo, o qual foi muito bem recebido em ambas as ilhas, levantan- 
do-se questões entre seus reis, porque cada um d'elles se empenhava para 
que os portuguezes edificassem uma fortaleza na ilha em que habitavam. 
Houve-se com prudência António de Miranda, e voltou tão carregado de 
cravo como do requerimento dos reis d'aquellas ilhas, pedindo para se 
construir ali uma fortaleza. Começaram então os pedidos e solicitações 
para se fazer tal obra, resolvendo por fim El-Rei D. Manuel que fosse 
levantada, para o que mandou D. Tristão de Menezes, que, apezar de 
se demorar em Ternate, não pôde dar principio á construcção, porque 
não queria que se suscitassem questões de preferencia entre os governa- 
dores de Ternate e Tidore. Retirou-se, pois, da ilha de Ternate, mas, por 
causa de um temporal que sobreveio, foi aportar no principio de abril do 
anno de 1520 á ilha de Banda, tempo em que os hespanhoes ainda ali não 
tinham chegado. 

Circumscre vemos estas noticias somente ás datas, porque não só 
Malte-Brun, mas lambem H. Major attribuem a descoberta das ilhas Molu- 
cas a António de Abreu, quando o primeiro europeu que ali chegou foi 
Francisco Serrão. Por esta exposição se vê também que os portuguezes 
não conservaram sob um jugo os habitantes das ilhas Molucas, como dizem 
alguns escri piores modernos. O que, porém, é certo é que os mouros se 
julgavam senhores do commercio d'aquellas ilhas, e promoviam-nos tal 
opposição que deram causa a encarniçadas guerras, algumas das quaes 
illustraram o nosso nome em todo o Oriente, tornando-se tão admirado 
quanto temido e considerado. E o que fizemos no século xvi está desde 
já demonstrando o que agora poderemos praticar em prol da civilisação e 
do commercio dos nossos domínios do ultramar. 

Permitla-se-nos, pois, que nos demoremos mais a respeito d'estas 
ilhas. E não nos afastámos ainda assim do nosso propósito, poisque ao 
examinar os trabalhos dos portuguezes em taes climas, ao relembrar as 
latas que os mouros lhes promoveram, e que os indigenas muitas vezes 
provocaram, não deixaremos de reunir, como por mais vezes temos feito, 
os elementos que possam auxiliar-nos no estudo dos momentosos proble- 
mas da colonísação dos paizes intertropicaes africanos para onde está 
voltada a attenção da Europa scientifica. 

Começaremos por designar os actuaes limites do archipelago das 
Molucas, a que pertencem as ilhas de Tidore e Ternate, assim como a 
de Geilolo, que nos cumpre nomear por ser atravessada pelo equador. 



lio 

&ob a 46Qomiaaçãi3 de ijtias Mciuieas, archipelago das Bfolqcas ou 
Grandâ Oriente, diz o dr. Van Leent, coooprehendem-se todas as ilhas si- 
tuadas entre a Celebes, a O., as Papouas e Guiné, a E., Timor, ao S., e, 
finaimanle, fica-lhes ao N. o Grande Oceano. Este archipelago está com- 
prehidndido entre ã"" 43' de latitude N. e 8' 23' de latitude S., e entre IW 
22' a U4? 5' de longitude E. 

No archipelago de que tratámos incluem-se portanto, continua o mesmo 
illustre ^iBdico, as ilhas Ternatezas (ilhas Molucas propriamente ditas) de 
que Halmabeira (Djilolo) é 9 maix)r; mais ao S. e a SO. os grupos de 
Ba.djan, Ab Obi e de Soela ; a$ ilhas Âmboino, entre as quaes Ceram e 
Booroia, são as maiores, ficam ao S. de (Seilolo ou HaUnareira ; ao S. de 
Garam, as ilhas de Banda, sendo Lontor (Lonthoir ou Gran Banda) a 
principal ; as ilhas do Sudeste e do Sudoeste e os grupos das ilhas Aroe, 
K/8i B de Tenimber situados ao SE. e S. de Ceram. 

Eâias importantes colorias neerladezas, segundo o referido medico, 
téem a seguinte superfiicíe : 

Ilhas Ternatezas i 1:125,1 kilom. quad. 

firupo 4e Badjan, de Obi » Soela.. .... 4:858,7 

Hha« de Amboino 16:780,3 

U^ de Banda 27,7 

lias de Sudeste e Sudoeste 3:253,4 

Ubás de A^vqq, de Kei e de Tenimber. • • 7:717,2 



Total 43:762,4 



Âs ilbas Maludas & suas dependências, onde dominámos de 1511 até 
1598, não nos pe^te^cem hoje, mas mo devemos esquecer a historia d'a- 
quelies /Oitenta e sete annos. Ê útil a lição que ella nos offerece, e são nobi- 
lissimos os exemplos que aU deram alguns governadores. E quando não 
U\/ôssamos a bistoria ÍMlIhai^te de António Galvão, deveríamos comme- 
morar .0 awo de 1511, em que os portuguezes chegaram ao coração das 
kdias iOrientaes, e muitos outros aos quaes ou se obtiveram algumas vi- 
ctonias iUstres, ou se alargaram os limites do Novíssimo Mundo, justa? 
m^DÁB denominado Oceania por Malte-Brun. 

('aremos, pois, uma breve descripção topographica e histórica das 
ilhas em que os portuguezes se conservaram por mais tempo, entre as 
quaes figuram as que estão próximas as de Tidore e Geilolo, únicas de 
qiie deveríamos fallar, segundo o plano do nosso trabalho, por serem as 
que 3e acbam sob a linha equinoccial. 

A iUna de Tjidore, vinte vezes meoor do que a de Geilolo, ô ger^- 



tu 

mente montanhosa e possue muitos rios. O seu verdadaíFO nome, sagundo 
João de Barros e Diogo do Couto, é Duco, e foi descoberla em (SU por 
Francisco Serrão, que preferiu ficar na ilha de Ternate, sendo muito es- 
timado do rei. 

As ilhas de Tidore e de Ternate estão tão vizinhas qm coneorrem 
ambas para o bom porto da ilha de Ternate. E o que é mais notável é 
estar confundida a historia d'estas ilhas como a de S. Tbomé e do Prin- 
cipe, não podendo fazer^se a descripção de uma sem se fallar da outra, 
como fez o dr. Yan Leent no seu minucioso e útil trabalho, huvi 㧠Ga<> 
moes reuniu-as no mesmo verso, e consagrou-lb^s uma estancia com* 
pleta» mostrando assim a grande importância que se lhes dava no s^ulo 
XVI, sobresaíndo ellas, sendo tão pequenas e passando quasi despereer 
bidas, á de Geilolo, a maior das celebres e procuradas Ilhas das Espe- 
ciarias. 

Refere-se Gamões ás aves do paraizp, que os nossos denoininaram 
pássaros do sol, e que emigram para Ternate, Tidore e Banda, reputando-se 
ainda hoje verdadeira a tradição que havia a respeito d'aqueUas aves no 
tempo do grande poeta * . 

Eis-aqui os versos do cantor de Vasco da Gapia : 

Olha cá pelos mares do Oriente 
As infinitas ilhas espalhadas : 
Vé Tidore e Ternate, co*o fervente 
Cume, que lança as fiammas ondeadas : 
As arvores verás do cravo ardente, 
Co*o sangue portuguez ioda compradas; 
Aqui ha as áureas aves, que não decem 
Nunca á terra, e só mortas apparecem. 

Lusíadas, canto x, estancia cxxxir. 

Ilha deTeroate. — Pertence, como a de ^'idore, ao archípelago â%A Mor 
locas, fronteira á costa O. de Geilolo e ao N. de Tidore por 0^ 18^ de la- 
litod^ N. e 121" 51' 45'' de longitude £. Tem i8 kilomeiras áe eompcir 
mento e O de largura. A sua superScie calçularse em 1)1 kilometi* os qoa- 
dradros. 

A capital denomina-se Ternate e tem 9:000 habitantes. O solo é fértil, 
caltivando-se nas planícies do N. e NE. arroz, milho e cocos, nas do S. ia 



1 Os portuguezes chamavam pássaros do sol ás aves que os hpllandez;^ ^Pti^ 
saram eom o nome de Aves do paraizo. O sábio naturalista que lhes deu este non^e 
aereseeiíta : Ninguém pôde contemplar estas maravilhosas creaturas durante a vida, 
porque ellas habitam os ares, voltando-se sempre para o sol e pousando na terra 
ipenfhs |)ara morrerem. (L'archipel Maiaaien, por A. R. Widttace.) 



H2 

E. estão abandonadas as culturas, ao SE. encontram-se alguns pântanos 
onde ba os decantados mangues. 

Larousse dá-lbe 100:000 almas, mas o dr. Yan Leent calcula o nu- 
mero de babitantes em 10:000, o que nos leva a suppor que ha erro na 
estatística do diccionario. 

Ternate foi a capital do governo portuguez no arcbipelago das ilhas 
Molucas, occupando nós aquella ilha poucos annos depois da sua desco- 
berta: e é por isso menos exacto o que diz o dr. Yan Leent, dando a enten- 
der que os portuguezes só se estabeleceram ali pelo meado do século xvi. 
Mas em presença do que a este respeito escreveu Jo3o de Barros não fica 
a menor duvida acerca do anno em que na ilha foi construida a nossa for- 
taleza: 

cElegido este lugar (o do porto da ilha de Ternate) por não haver ou- 
tro melhor, e mais estar pegado na cidade Ternate, começou António 
de Brito entender na obra; e a primeira enxadada que se deo no seu ali- 
cerce, e pedra que se.^elle lançou, foi per mão de António de Brito a 
vinte e quatro dias de junho do anno de mil e quinhentos e vinte e dous, 
estando elle, e todolos nossos com capellas na cabeça e grande festa por 
a solemnidade do dia, que era de S. João Baptista ; e todolos outros fi- 
dalgos, cavalleiros, e gente de armas fizeram outro tanto, e por memoria 
deste santo houve a fortaleza nome S. João.i> 

Não é portanto exacta a asseveração do sábio medico hollandez a que 
nos referimos. 

A ilha de Ternate é essencialmente formada por um vulcão que se 
denomina Gama-Lama, o qual tem cerca de 1:749 metros de altitude e 
está em actividade, sendo memoráveis as erupções de 1686, 1840 e 1855. 

Foi muito prejudicial a esta ilha o tremor de terra causado pela eru- 
pção de 14 de fevereiro de 1840, e a prosperidade publica tem sensivel- 
mente diminuído desde essa epocha. 

Diz o dr. Yan Leent, ao qual nos referimos n*esta breve noticia a res- 
peito da ilha de Ternate, que o naturalista francez Hombron subira ao 
volcão e lhe tomara a altura por meio de observações barometricas. Não 
podemos deixar de dizer também que, no anno de 1538, o governador da 
ilha, António Galvão, fez a ascensão ao monte, e d'esse facto nos falia Joio 
de Barros. 

tAlgumas destas ilhas lançam fogo no cume de sua maior altura, 
assi como a Batochina do Moro, e a Batochina de Muar e outras a estas 
vizinhas. E o mais nolavel aos nossos he o da ilha Ternate, de que somente 
daremos noticia pola que houvemos de António Galvão ; o qual sendo 
capitão destas ilhas o anno de quinhentos e trinta e oito (1538), residin- 
do nesta ilha Ternate em a fortaleza S. João que hi temos, quiz ir ver 



il3 

aquelle mysterio da natureza, porque daquella fortaleza viam no cume 
(la ilha vaporar fogo, ao modo que vemos hum forno de cal quando começa 
cozer, sem luz alguma de dia; e de noite era cousa "espantosa ver as 
cores e faíscas do fogo e rescaldo que lançava em torno, cubrindo muita 
parte do arvoredo, da maneira que se cUe cobre quando nestas nossas 
regiões neva. Peró isto não he em todo o anno, somente nos mezes de 
setembro e abril, quando o sol se muda de huma parte a outra, que passa 
alinha equinocial, que corta meio gráo desta ilha: cá então venlam huns 
ventos, que accendem aquelle natural fogo na matéria que lhe dá nutri- 
mento por tantas centenas de annos. Subido António Galvão áquella 
altura, onde viam este fogo, achou toda a coroa d'aquelle monte escaldada 
e a terra d'elle fofa, não feita em cinza, mas ligada huma á outra e leve. E 
per toda aquella coroa havia huns redemoinhos á maneira que vemos fazer 
a agua, quando estando estanque lhe lançam huma pedra, que vai fazendo 
aquelles circos; e porém os que estavam feitos nesta terra eram profundos 
em modo de algar, a que podiam descer por aquelles degráos circulados 
que a terra fazia. Contou mais António Galvão que do meio do monte 
pêra baixo tudo eram grandes arvoredos, e a terra assi fragosa e cuberta 
delle, que em muitos passos elle e os de sua companhia subiam per cor- 
das; e de entre esta fraga corriam ribeiros que vinham regar o chão 
delia, como que o fogo que andava no centro daquelle monte fazia es- 
tillar e suar aquellas aguas. £ se Plínio, quando quiz ver o outro tal fogo 
do monte Vesúvio, em Itália, buscara outra tal conjuncção, como António 
Galvão buscou, não ficara elle lá pêra sempre, como ficou, segundo di- 
zem.» 

A cultura do cravo, outr'ora tão florescente na ilha de Ternate, está 
em decadência e com difficuldade satisfaz ás necessidades locaes; a pro- 
ducção do café, cacau, canna de assucar, e de outros géneros é também di- 
minuta. Ainda sob este ponto de vista as ilhas de Ternate e Tidore nos fa- 
zem lembrar as de S. Thomé e Príncipe, onde a producção de assucar no sé- 
culo XVI era abundantíssima e está em ambas hoje de todo abandonada, cul- 
tivando-se apenas na do Príncipe pequena quantidade de café e pouco cacau ! 

Para o nosso caso, porém, cumpre-nos observar que a ilha de Ter- 
nate, tendo unicamente cerca de 31 kilomelros quadrados, sustenta uma 
população de 10:000 habitantes, emquanto que a de S. Thomé, trinta ve- 
zes maior do que aquella, não é proporcionalmente mais povoada. 

O monte ou volcão de Ternate está 1:749 metros acima do nivel do 
mar, e os de Tidore íicam-lhe a SE., o os de G^ilolo são mais altos 
que o da sua vizinha. No canal que separa as ilhas de Ternate e Tidore 
levanta-se uma ilha ou antes montanha que tem próximo de 1:000 metros 
de altitude» e é muitas vezes occupada, aindaque temporariamente, pelos 

8 



444 

habitanles da ilba de Ternale, de cujo clima nos occuparemos n'oulro 
logar. 

Ilha Geílolo (Dgilolo oa Halmaheíra). — Está na Malásia e é a maior das Mo- 
lucas. Levanta-se a E. da ilha Celebes, estendendo-se desde O® 50' de 
latitude S. até 2° 20' de latitude N. e 124° 50' a 126° 50' de longitude E. 
(Paris). Tem de N. ao S. 380 kilometros e de E. a 0. 70. A superfície é 
inferior a 22:600 kilometros quadrados. A sua forma é muito irregular, 
podendo considerar-se dividida em quatro peninsulas ou quasi ilhas dis- 
tinctas por differentes golfos. Deveria chamar-se-lhe a pequena Celebes, 
lai é a similhança que ambas estas ilhas apresentam. O solo é fértil e pro- 
duz sagu, que é o principal alimento dos habitantes, arroz, fructa, pão, 
cocos e outros fructos intertropicaes. 

Os hollandezes são os únicos que ali têem estabelecimentos, mas os 
portuguezes foram os primeiros europeus que a frequentaram, sustentan- 
do guerra com os habitantes, entre os quaes havia mouros que faziam pro- 
paganda contra nós, ao verem que a maioria dos povos d'aquella região 
procuravam baptisar-se, abraçando a religião christã. 

A população da ilha, segundo Larousse, é de 260:000 habitantes. 

AmboiDo. — Foi descoberta em i511 a 1512 por António de Abreu e 
Francisco Serrão, construindo-se ali em 1569 uma fortaleza. O dr. Van 
Leent apresentou uma descripção medico-geographica d'esta ilha, com 
informações históricas, que nós completámos modificando algumas noti- 
cias menos exactas, que aquelle illustre medico archivou por não ter tal- 
vez á vista os trabalhos dos escriptores portuguezes. 

É verdade que o celebre AíTonso de Albuquerque expediu em 1511 
alguns navios para a descoberta das Molucas, e que ellas ficaram sujeitas 
desde então ao dominio de Portugal. A expedição hespanhola enviada por 
Carlos V, em 1521, não foi bem succedida. 

Os portuguezes, deixando em toda a parte vestígios da sua passagem 
por meio de úteis plantações, fortalezas ou padrões e introducção de ani- 
maes, mostraram também que não se esqueceram de Ambomo, e para 
ella passaram a arvore do cravo, que se aclimou e desenvolveu com ra- 
pidez. 

aSans cesse traçasses par des tribus ennemis, observa o dr. Van Leent, 
les portugais furent conlraints de se retirer de Tautre còté de la baie, à 
Leytimor, ou ils bâtirent le fort Victoria. Cétait à cette époque qu'un prê* 
tre, Galvaan, commença à propager le culte catholique parmi une partie 
delapopulation.» 

António Galvão não era padre, nem se Occupou de propagar o culto 



U5 

cadK>Eo3 Da iUu de AmboiDO. porque residia na de Ternate. capital das^ 
nossas oc4o&ii5 D^jquella região, e ali completou o tempo do seu gover- 
no, dmd) eiemplo de aboegação e honradez, que o tomou digno de ser 
imitailo e >lmirado. 

EíteTe â Crecte da governação publica d'aquellas ilhas desde 1537 atè 
1539, tendo «ds habitantes de Amboino, como os da Celebes. de Geilolo. Ti- 
dore, de Java. etc, em muito apreço a amisade e serviços daquelle gover- 
nador. Mo se consideravam dominados por um governo despótico, usur- 
pador, e sujeitos a um jugo que elles quizessem quebrar por meio das 
armas, [«elo contrario deixavam as guerras para cuidar das culturas e 
corriam de todos os pontos para receber o baptismo e abraçar a religião 
christã. onica que pode tomar feliz uma nação. 

Desejámos para as nossas possessões de hoje governadores como An- 
lonio Galvão, e veremos augmentar a agricultura, alargar o commercio, 
espalbar-se a civiUsação e apparecer a prosperidade por toda a Africa 
portugaeza, que poderá ser procurada como qualquer provincia de Por- 
tugal, dando cem por um dos beneflcios que se lhes tizerem. Mas vol- 
temos a nossa attenção para a ilha de Amboino, de que nos occupâmos 
n'este logar, e mais adiante fallaremos do clima e salubridade da Africa 
portogueza. 

Os bollandezes exigiram em 1605 a entrega do forle Victoria e a posse 
da ilha. Os portuguezes cederam diante da força, e a ilha foi entregue, fi- 
cando ali todas as familias portuguezas, que prestaram juramento de fi- 
delidade ao governador hollandez. 

A ilha de Amboino tem a superflcie de 410,5 kilometros quadrados, 
que não chega a ser a metade da ilha de S. Thomé, e comludo a sua po- 
pulação é de 32:196 habitantes, entre os quaes se contam 700 europeus. 
Entre uma e outra ha grande dilTerença no numero de habitantes, e adiante 
apreciaremos as causas que lhe dão origem. 

A bahia de Amboino é de primeira ordem, dando-se ainda hoje á 
parte meridional o nome de Bahia dos portuguezes. Os montes sobem 
apenas a 300 melros de altitude e os rios são numerosos, mas de pouco 
volume de agua. 

A ilha de Amboino, diz o dr. Van Leent, cobre-se de espesso arvoredo 
desde as praias até ao cume mais alto dos montes. É esplendida a flora- 
ção das arvores do cravo c da noz moschada, e veem-sc ali representados 
os melhores exemplares da flora interlropical. Mas, apesar do tão pilto- 
resco arvoredo, a ilha não merece o titulo de fértil. O solo ó magro e co- 
berto por uma delgada camada de húmus, e não produz os géneros ve- 
getaes próprios para alimentação dos habitantes, que os importam da 
ilha Ceram, á qual fica próxima. 



116 

A ilha de Auiboiuo eslá a 3^ :28' de latitude S. e Iá7" W de longitu- 
de E. ; devendo notar-se, relativamente á de S. Thomé, que lendo aquella 
o solo menos fértil, os montes menos elevados e os rios menos abundan- 
tes de agua, tem prosperado mais e está methodicamente cultivada. 

Deveríamos terminar aqui a enumeração das ilhas Molucas ou das 
Especiarias, mas estamos certos de que não será destituído de interesse 
relembrar o que de taes ilhas nos disse João de Barros na sua linguagem 
singela e agradável. 

Ilhas de Banda, por João de Barros. — tNestas cinco ilhas nasce toda a 
noz e massa, que se leva per todalas partes do mundo, como em Maluco 
o cravo. E a chamada Banda he a mais fresca e graciosa cousa, que pôde 
ser em deleitação da vista : cá parece hum jardim, em que a natureza com 
aquelle particular fruito que lhe deo se quiz deleitar na sua pintura. 
Porque tem uma fralda chã, cheia de arvoredo que dá aquellas nozes, as 
quaes arvores no parecer querem imitar huma pereira. E quando estam 
em frol, que é no tempo que a tem muitas plantas e hervas, que nascem 
per entre ellas, faz-se da mistura de tanta frol huma composição de cheiro, 
que não pódc semelhar a nenhum dos que cá temos entre nós. Passado 
o tempo das flores, em que as nozes já estam coalhadas e de cor verde, 
(principio de lodo vegetal) vai-se pouco e pouco tingindo aquelle pomo 
da maneira que vemos neste reyno de Portugal huns pecegos, a que cha- 
mam calvos, que parecem o arco do ceo chamado Irís, variado de quatro 
cores elementaes, não em círculos, mas em manchas desordenadas, a 
qual desordem natural o faz mais formozo. 

«E porque neste tempo que começam amadurecer, acodem da serra, 
como a novo pasto, muitos papagaios e pássaros diversos, he outra pin- 
tura ver a variedade da feição, canlo e cores de que a natureza os dotou. 
Passada esta fralda tão graciosa, levanta-se no meio da ilha huma serra pe- 
quena, hum pouco Íngreme, donde correm algumas ribeiras, que regam 
o chão de baixo ; e como se sobe com trabalho o áspero d'aquella subida, 
fica huma terra chã, assi cuberta, e pintada como a de baixo. A figura 
desta ilha he á maneira de huma ferraduia, e haverá de ponta a ponta, que 
jazem Norle e Sul, quasi três léguas, e de largura huma; e na angra, que 
ella faz com sua feição está a povoação de seus moradores, e as arvores da 
noz. Na ilha chamada Gnnuâpe não ha arvores de noz, mas outras pêra 
madeira e lenha de que se os moradores das que tem este fruito se ser- 
vem em seu uso; na qual lambem ha outra garganta de fogo como a de 
Ternate em as ilhas de Maluco, e por esta razão lhe deram o nome que 
tem, porque Guno quer dizer aquelle fogo e Ape é o próprio nome da 
ilha. O qual Guno por ser pouca cousa, os nossos vam a elle, e da sua boca 



117 

apanham enxofre, de que se aproveitam por o acharem bom ; e toda a noz 
qae ha nas outras três ilhetas, a trazem a esta Banda como a sua cabeça por 
a ella acudirem os mercadores. A gente delias é robusta, e a de peior 
acatadura d'aquellas partes, de côr baça e cabello corredio: segue a seita 
de Mahamed, e mui dada ao negocio do commercio, e as mulheres ao 
serviço das cousas da agricultura. Não tem rey ou senhor, e todo o seu go- 
verno depende do conselho dos mais velhos; e muitas vezes porque os 
pareceres são diversos, contendem huns com os outros. E a gente que os 
mais enfrea he aquella que povoa os portos de mar, per onde lhe entra o 
necessário pêra seus usos, e tem sabida suas novidades, que he massa e 
noz, porque a terra não tem outra que saia pêra fora. O arvoredo do 
qual pomo he tanto, que a terra he cheia delle, sem ser plantado per al- 
guém, porque a terra o produzio sem beneficio de agricultura. Querem 
imitar estas arvores o parecer das nossas pereiras, e porém a sua folha 
tem semelhança de nogueira, e o pomo deste tamanho he, e a noz em verde 
o mesmo parecer tem. Estas matas nâo são próprias de alguém, como 
herança particular, são de todo o povo; e quando vem junho té setem- 
bro, em que este pomo está de vez pêra ser colhido, estam já estas 
matas repartidas per os lugares e povoações, e cada hum acode a apa- 
nhar; e quem mais apanha mais proveito faz. Como acerca de nós são 
as matas do conselho assi da bolota, como as serras do carrasco da grã, que 
no tempo de apanhar geralmente se desconta aos da villa daquelle termo.» 

Não falíamos de outras ilhas, como Java, Timor, ã maior parte da qual 
ainda hoje nos pertence, Lantor, etc, porque, como temos dito, não estão 
comprehendidas nos limites d'esta secção do nosso trabalho, e as que no- 
meámos servem para mostrar o que são as terras equatoriaes da Oceania, 
havendo assim elementos para comparar os paizes que se acham sob o 
equador, seja qual for a parte da terra em que se achem. 

As colónias portuguezas da quinta parte do mundo, como João de Bar- 
ros chamou às terras descobertas pelos portuguezes para alem de Malaca, 
estão enumeradas, é verdade, na importante obra de V. A. Malte-Brun 
fils Géographie complete et universelle, e a ellas se refere também H. Ma- 
jor no seu monumento geographico, erigido em honra de Portugal ; como 
porém o que tão auctorisados auctores escreveram não satisfaz ao nos- 
so intento, ajuntámos á breve noticia de cada paiz equatorial da Oceania 
o que a seu respeito disseram os escriptores portuguezes, e procurá- 
mos designar com a maior exactidão possivel as datas dos descobrimen- 
tos e das explorações das terras que enumerámos, e os nomes d'aquel- 
les que realisaram um ou outro emprehendimento. Ficarão assim recti- 
ficadas muitas epochas designadas no diccionario de Larousse, que se re- 
ferem a estes mesmos paizes, e as noções históricas que o erudito medico 



118 

Van Leent juntou aos seus importantes trabalhos acerca das colónias 
neerlandezas^ os quaes nos servem de modelo em grande parte d'este 
livro. 

Ilhas Molucas descriptas por João de Barros e Diogo do Couto. — cO seu sitio 
he debaixo da linha equinocial. Per o qual parallelo distam contra o oriente 
da nossa cidade Malaca pola navegação dos nossos, espaço de trezentas 
léguas pouco mais ou menos. Estas cinco ilhas jazem huma ante outra pelo 
rumo de Norte Sul ao longo de outra ilha grande: o comprimento da qual 
per este mesmo rumo será té sessenta léguas, e isto pela costa desta grande 
ilha que está da parte do ponente, a qual elles chamam Batochina do Moro. 
E de quio direita ella corre com esta face do ponente, tão curva e esca- 
chada he do levante, lançando três braços, hum na cabeça, que tem contra 
o Norte o qual corre ao Nordeste e dous no meio que correm direito a 
oriente e isto segundo a pintam nas cartas de navegar, com a qual figura, 
quer parecer hum troço de páo liso per huma face e três esgalhos pela 
outra. 

«Âs outras cinco ilhas chamadas Maluco, que jazem ao longo desta, 
todas estam huma á vista da outra per distancia de vinte e cinco léguas. E 
n3o dizemos serem cinco porque naquelle contorno de Batochina e entre 
ellas nSo ha já hi outras, nem menos lhe chamamos Maluco, per n5o terem 
outro nome; mas dizemos serem cinco porque naturalmente nesta ha o 
cravo e em três ha rey próprio de cada huma. 

«E o de cada huma destas, começando da parte do Norte vindo pêra 
o Sul, o da primeira he Temate, que se aparta meio gráo da linha equi- 
nocial e a segunda se chama Tidore, e as seguintes Moutel, Maquiem e 
Bacham. As quaes antigamente per nome do Gentio natural da terra se 
chamavam Gape, Duco, Moutil, Mara e Seque. Todas sao mui pequenas 
porque a maior nao passa de seis léguas em roda. 

«A terra destas ilhas em si é mal assombrada, e pouco graciosa; por- 
que como o sol sempre anda mui vizinho, ora passe ao solsticio boreal ora 
ao austral, com a humidade da terra cobre-a de tanto arvoredo, plantas e 
hervas que isto faz aquella terra carregada no ar, e vista delia com as 
exhalações dos vapores terrestes, que sempre andam per cima delias, 
que faz nunca as arvores estarem sem folha. Porque ainda que mudem 
huma, já per outra parte está com outra nova, e outro tanto he nas hervas; 
e com tudo cada cousa vem com sua novidade a hum certo tempo cada 
anno. Somente as arvores que dam o cravo respondem com novidade de 
dous em dous annos, porque no apanhar quebram-lhe o novo, onde ella 
lança os cachos delle á maneira da madre silva, como vemos que a oli- 
veira, se he muito açoutada da vara, dahi a dous annos não responde com 



119 

novidade porque ha mister aquelle tempo peracrear rama nova, em que 
dé azeitona. 

iGeralmente per a fralda destas ilhas a terra he sadia e isto a que é al- 
ta; a que tem este marítimo alagadiço, como a ilhaBacbam, é doentia. A 
terra de todas pela maior parte he preta, grossa e tão sequiosa e porosa 
em si, que por muito que choiva, logo he bebida toda aquella agua ; e se 
algum rio tem que venha do alto das serranias, primeiro que chegue ao 
mar, a terra o bebe todo. E assi dispoz a natureza suas sementes, que 
sendo a Batochina maior que estas cinco juntas e todas dentro em bum pe- 
queno espaço de mar, nesta grande não ha cravo e tudo o que tem é man- 
timentos e nas cinco cravo sem elles. Finalmente veio a natureza a parti- 
cularizar tanto a disposição de sua especifica virtude que té barro para 
louça deo somente em huma que jaz entre Tidore e Moulel, chamada PuUo 
Caballe, que quer dizer ilha das Panellas. E não somente nas cousas natu- 
raes, mais ainda nas artificiaes assi estam repartidas na inclinação e uso 
dos homens pêra huns pola necessidade delias se communicarem com os 
outros, que na ilha Batochina, em hum lugar chamado Geilolo, se fazem 
os saccos em que se enfardella todo o cravo que dam todas as cinco pêra 
se carregar pêra fora, quando o não queiram trazer a granel em suas pei- 
tacas, como elles costumam.» 

Segundo Diogo do Couto, as ilhas do mar de Levante tão conhecidas 
e frequentadas pelos porluguezes no século xvi, formavam cinco archipe- 
lagos. 

€ A primeira parte, diz aquelle escriptor, he o archipelago de Maluco, 
a que os naturaes não sabem dar quantidade; mas o mais certo he que 
começa passando Mindanáo, e tudo pêra lá, charaa-se Maluco, em cujo 
meio ficam as sinco ilhas do cravo, Ternate, Tidore, Maquiem, Bachão 
e Moutel. E posto que Bachão he dividida em muitas ilhas cortadas por 
muitos braços de mar, que se navegam com embarcações ligeiras, to- 
davia, por ser de hum só senhor, as nomeamos por huma só. Por cima 
delia corta a equinoccial e ao Norte delia corre a ilha de Ternate, que se 
aparta bum gráo para o Norte ficando entre huma e a outra as ilhas de 
Moutel e Maquiem, todas á vista huma das outras por espaço de vinte e 
cíDCO léguas, e todas se correm Norte e Sul. 

«A segunda parle ou o archipelago he o do Moro, que fica perto de ses- 
senta léguas de Maluco ao Norte e começa nas ilhas Doe, duas léguas á 
ré da ponta de Bicoa e não adiante, como anda nas cartas de marear de 
Batochina. 

lA ilha de Batochina terá em circuito duzentas e cincoenta léguas e 
nella ba dous reys, o de Geilolo e o de Lyoloda, algumas vinte e cinco lé- 
guas do outro, junto de huns ilheos, onde acaba este archipelago da banda 



i20 

do Norle. Os habitadores desla ilha da banda do Norte sao selvagens, 
sem ley e sem rey, e não tem povoações senão pelos matos. Mas da banda 
de Leste he povoada de longo do mar e tem grandes e bons lugares, que 
cada hum tem língua sobre si, posto que todos se entendam. A esta costa 
chamam Morotia, que quer dizer o Moro da terra ; e as ilhas de defronte 
chamam Morotai, que é moro do mar, e a todas as ilhas juntamente cha- 
mam o Moro. 

«O terceiro archipelago he o dos Pa puas, que está a leste de Maluco, 
que he pouco frequentado pelas ilhas serem muitas e cheias de baixos e 
restingas. Os naturaes destas são pobríssimos. (Foi descoberta por D. Jor- 
ge de Menezes em 1S27). 

d O quarto archipelago he o dos Gelebes, que está a loeste de Maluco : ha 
n'elle muitas ilhas famosas de que as príncipaes são Míndanáo e a própria 
dos Celebes, em que ha muitos reys. Tem mais as ilhas Bisaya, que tem 
muito ferro, e Mascaga, Masbate, que ambas tem muito ouro, que também 
se acha em Míndanáo, e a ilha de Sologo, que tem muitas pérolas, que 
não sabem os naturaes tirar. Tem todas estas ilhas e outras que não no- 
meamos muitos mantimentos, sândalo, aguila, canela, cânfora, tartaruga 
gengivre e pimenta longa. 

«O quinto archipelago he o de Amboino, que está ao Sul de Maluco, 
e tem muitas ilhas.» 

Os primeiros povoadores das ilhas do Cravo, segundo Diogo do Couto, 
foram os chins que as frequentaram por muitos séculos, e d'ali exporta- 
vam bastantes especiarias, cuja procedência se ignorou na Europa em- 
quanto os portuguezes não descobriram as terras em que ellas se produ- 
ziam. 

Ilha Waígíoa e a Nova Gaioè. — Fica a ilha Waigiou na Malásia, ao NO. 
da Papouasia ou Nova Guiné, da qual está separada pelo estreito Gammen, 
segundo Larousse, ou Dampier, segundo outros. Está emO° i' de latitude 
S. e liS"" de longitude E. de Paris. 

Os terrenos doesta ilha são elevados e cobrem-se de arvoredo desde 
as praias até aos logares mais elevados. 

Foi descoberta com o grupo a que pertence por D. Jorge de Menezes, 
o qual saiu de Malaca com destino ás ilhas Molucas, seguindo a viagem 
por via da ilha de Borneo, como lhe fora ordenado. Passou a pouca dis- 
tancia da ilha de Moro, ao N. de Geilolo, onde não encontrou bom fun- 
deadouro por ser a costa alcantilada. 

Afastando-se, porém, das ilhas Molucas e navegando para o Orien- 
te, descobriu D. Jorge de Menezes, no fim de alguns dias, uma ilha 
com bom porto, e cujos naturaes, tanto homens como mulheres, eram 



12< 

tão alvos e louros como allemães, os quacs eram conhecidos pelo nome 
de Fapuas^ 

Sob a denominação de Papouasia estão reunidas muitas ilhas, sendo 
a maior a Nova Guiné. Esta ilha estende-se de NO. para SE. e tem, se- 
gundo A. R. Wallace, 2:245 kilomelros de comprimento e 640 de lar- 
gura. A superfície excede a da ilha de Borneo, devendo considerar-se, 
reputando a Austrália como um continente, uma das primeiras ilhas do 
mando. 

£ digna de estudo a Nova Guiné, mas não apresenta localidade alguma 
em O® de latitude, não tendo por conseguinte a condição essencial para ser 
descripta com minuciosidade n'este livro. Nomeâmol-a apenas por ella es- 
tar muito próxima da ilha Waigiou, que lhe fíca a NO. 

Os bollandezes procuram estabelecer-se no interior doestas ilhas, e os 
seus navios percorrem os differentes portos, especialmente os da costa 
Occidental. Frequentam a bahia de Dorey na costa da região mais septen- 
trionaU e a de Humboldt que está mais para o oriente. É a Nova Guiné 
por emquanto pouco frequentada, mas os seus habitantes otTerecem da- 
dos importantes para o estudo da ethnographia. A. R. Wallace esteve 
por algum tempo na povoação de Dorey, onde se viu atormentado por 
grande quantidade de formigas que o incommodavam constantemente e 
infestavam as collecções zoológicas que elle preparava. Ha ali poucos re- 
cursos e o paiz está inculto. 

Alem das ilhas da Oceania equatorial já nomeadas, encontram-se ou- 
tras, como as de Gilberl, etc; mas só fatiaremos da salubridade ou in-. 
salubridade dos paízes de que deixámos tão rápida descripção. 



Ill 

DistincQão entre clima equatorial e tropical 

Não é este o logar adequado para o estudo da climatologia; julgá- 
mos, porém, indispensáveis algumas explicações para justificar a classi- 
ficação dos climas por nós adoptada, e as rasões que nos levaram a fazer 
distincção entre clima equatorial e tropical, visto estarem ambos compre- 
hendidos na chamada zona tórrida, onde aliás apparecem numerosas re- 
giões temperadas, localidades frias e não faltam também zonas glaciaes. 



í A. M. de Castilho attribue a descoberta da Papouasia ou Nova Guiné a An- 
tónio de Abreu e Francisco Serrão; mas ha n'isto evidente lapso. 



i2a 

São na verdade variadas as classificações que se toem feilo dos cli- 
mas, e nós poderíamos acceitar qualquer d'ellas, porque lodos os escriplo- 
res s3o unanimes em considerar equatoriaes as zonas que flcam sob o 
equador; mas o que se nâo pôde, sem graves inconvenientes, é dizer in- 
dififerentemenle : Este clima é tropical ou equatorial. Ha na verdade 
grande dififerença entre os climas d'estas duas zonas, e as palavras — 
paizes Iropicaes — não devem nunca comprehender os que ficam mais 
próximos ao equador do que aos trópicos. Admitte-se em geral uma di- 
visão, mas não ha todavia accordo acerca do limite extremo d*esses pai- 
zes, dizendo uns que elles se estendem até 15^ de latitude e outros até 
10°. Começa ahi a divergência, e poucos geographos ha que não apre- 
sentem alguma modificação na classificação climatológica que adoptam. 

O fallecido visconde de Paiva Manso admittia cinco espécies de zo- 
, zas isothermicas ; a saber: glaciaes, frias, temperadas, quentes e tór- 
ridas. 

Não nos satisfaz esta classificação, e, se reconhecemos a existência 
de climas equatoriaes, devemos em primeiro logar assignar-lhes um li- 
mite que possa até certo ponto servir para se distingiíirem dos que fi- 
cam sob os trópicos, e para isso escolhemos dois parallelos tirados por 
H® 46' ao N. e ao S. da linha equinoccial. 

Doeste modo o espaço inlertropical fica dividido em quatro zonas dis- 
tinctas, devendo admittir-se mais três, que, posto não sejam bem limita- 
das, téem comtudo significação clara. Referimo-nos ás zonas de transição 
que se observam tanto entre os climas tropicaes, como entre os equato- 
riaes, que se contam ao N. e ao S. do equador. 

Chama-se, n'este caso, zona equatorial propriamente dita, ou sub-equa- 
torial, á região que fica sob a linha equinoccial, estando alguns dos seus 
logares a 0^ ou quasi a 0° latitude ; e zona equatorial do Norte ou do 
Sul é a parte que se estende d*aquellas localidades até á linha divisória 
equidistante do equador e do trópico boreal ou austral. 

Clima tropico-equatorial é aquelle que está sob o parallelo equidis- 
tante do equador e dos trópicos, e daremos o nome de climas tropicaes ás 
terras ou paizes que se acham mais próximos dos trópicos que do equa- 
dor. É necessário também advertir que ficam substituídas as palavras 
zona tórrida por outras mais apropriadas, como as que acima ficam in- 
dicadas. 

Não são indifferentes estas observações, porque se trata de explicar 
a natureza dos climas intertropicaes, dizendo a verdade a todos os colo- 
nos que desejem ir para o Brazil ou para a Africa portugueza. 

Parece-nos realmente grande erro chamar insalubre a um paiz quan- 
do elle tem apenas uma ou outra localidade palustre, assim como não é 



123 

racional repntar ardentes aquellas regiões em que a maior parte da su- 
perficie está sujeita a uma temperatura moderada, como acontece na re- 
gião alto-plana da ilha de S. Thomé. 

Nas terras equatoriaes (zona tórrida ou ardente de muitos escripto- 
res) iia, é verdade, legares em que a temperatura é insupportavel; mas a 
poucos kilometros encontram-se climas variados, sendo até necessário 
muitas vezes os habitantes andarem t3o enroupados como em Lisboa 
na estação invernosa. Julgámos, pois, que as palavras zona tórrida ou ar^ 
dente não satisfazem ao estudo da aclimação e da colonisação, e deixam 
no espirito dos colonos idéas que não são verdadeiras na sua comprehen- 
são e extensão. 

A temperatura é de certo base acceitavel para o estudo dos climas 
meteorológicos, mas o clima pathologico não ficaria bem definido, se se 
adoptasse isoladamente tal principio. Âs divisões physícas do globo tam- 
bém não servem para distinguir qualquer clima, e é realmente vago dizer: 
clima oceânico j clima europeu, clima asiático, etc, como dizem alguns 
escriptores sem justificada rasão. 

A sciencia climatológica, é preciso dizer-se, tem adiantado pouco, e é 
por isso que vemos reputar insalubres alguns paizes que a tradição assim 
tem apresentado e não porque haja provas da sua insalubridade, e con- 
siderar como tórrida uma zona que tem muitos tractos de terreno sob a 
acção de uma temperatura amena ou de um clima temperado I 

Se ha sob o equador localidades em que a aclimação é muito difQcil e a 
vida muito arriscada, vemos nós também viverem os europeus em loga- 
res que se acham em O'' de latitude, no meio da zona tórrida, cujo nome 
tem contra si os gelos das montanhas, o frio dos alto-planos e a ameni- 
dade de muitas planuras. 

O dr. J. Rochard diz que a zona tórrida, classificada segundo o 
equador thermal, comprehende ao N. e S. do equador os seguintes paizes: 

Na Ásia: 

Arábia, índia, península de Malacca, Sião, Birmânia, Cochinchina, 
Laos, Cambodge e Annan. 

Na Africa: 

Sabará, Fezzan e o Soudan, na região central; a Senegambia, Guiné 
e o Congo a O. ; a E. a Abyssinia, costa do mar Vermelho, Zanzibar, Mo- 
çambique, Madagáscar, ilhas Comores, ilha Reunião eMauricia. 

Na America: 

México, Guyanas, Antilhas, Guatemala, S. Salvador, Nicarágua, Costa 
Rica, Nova Granada, Equador, Venezuela e o norte do Brazil. 

Na Oceania: 

As ilhas da Malásia, Taiti, Pomotou, Gambier e as ilhas Marquezas. 



Esta divisão dos climas tórridos ou ardentes^ aliás arbitraria, baseia-se 
no exame das linhas isothermícas, formando-se o equador thermal dos pon- 
tos indicados pelas medias mais elevadas da temperatura observada em 
differentes localidades. A zona tórrida abrange, n'este caso, todos os 
paizes em que a temperatura se conserva acima de 2õ^ centigrados, e 
os limites das outras zonas obtéem-se diminuindo successivamente 10^ 
até 25** abaixo de zero, o que pôde representar-se pela formula — 25**. 
O clima glacial será representado por linhas isothermicas referidas ás 
temperaturas — 5® e — 15"^; o clima frio por — 5^ e + 5°; o temperado 
por + 5° e + 15''; o quente + lõ^ e + 25**; o tórrido, finalmente, por 
+ 25^ e + 35^ 

Não tratámos de discutir as vantagens ou desvantagens d'esta classi- 
ficação ; observámos apenas que a não adoptámos, porque está desligada da 
latitude, o que nos parece inacceitavel, por isso que as chamadas linhas 
isothermicas não dão idéa da posição das localidades e servem apenas 
para pontos geraes de comparação. 

Os paizes equatoriaes propriamente ditos téem logares em que a la- 
titude é nuUá, e que ficam a igual distancia dos dois poios. Os astros pare- 
cem descrever diariamente círculos perpendiculares ao plano do horisonte 
e são todos visíveis. Os dias são, durante o anno, iguaes ás noites, isto é, 
ha constante equinoccio para os habitantes que ali vivem, assim como ape- 
nas se contam duas estações. 

Os paizes equatoriaes toem, pois, caracteres physico-mathematicos 
que os distinguem de todos os outros e devem ser estudados separada- 
mente. 



Mappas comparativos de algumas classificações a respeito 

dos dimas 

l.*-9yiitcma da« llnhaM laolhcrmlcaii 



Designação dos climas 


Temperaturas medias 


Observações 


Clima ardente 

Gima quente 

Clima doce 


27» 

20» 

10« 

5» 

Abaixo 


a 
a 
a 
a 
a 
a 
de 


25" 
20° 
15» 
i0« 
5» 
0» 
0» 


clima ardente pertence á zona 
tórrida, e, segundo observa 
M. Lévy, cada uma das zonas 
isothermicas pôde dividir-se 
em climas constantes, variá- 
veis e excessivos. 


Clima temperado 

Clima frio 


Clima muito frio 

Clima glacial 



125 

Não julgámos indifferenle o ler sido esta classificação apresentada 
por M. Lévy no seu Tratado dn hygiene publica e privada, porque este 
esclarecido medico não adoplou a divisão dos climas segundo as linhas 
isothermicas, e admittiu a antiga distincção de climas quentes, temperados 
e frios, a qual para elle é um facto de observação. O que, porém, se 
torna digno de attenção è que tem conservado a mesma divisão dos cli- 
mas em todas as edições do seu importante livro, o que mostra que não 
se convenceu ainda das vantagens que dizem ler a classificação dos cli- 
mas segundo as linhas isothermicas. J. Rochard ataca vivamente as idéas 
de M. Lévy, e esforça-se por o convencer de que é melhor escolher as li- 
nhas isothermicas para ponto de partida do que os graus de latitude, por- 
que doeste modo, diz elle, reunem-se dentro da mesma zona climas es- 
sencialmente diiTerentes. 

Não é este o logar conveniente para entrarmos no debate em que fi- 
guram dois médicos francezes tão distlnctos. Aqui inscrevemos apenas os 
mappas comparativos dos climas, cujo estudo especial faz objecto da 
VII secção d'este livro. Não podemos todavia deixar de dizer que as me- 
dias thermometricas de que se serve M. Lévy não são iguaes áquellas que 
emprega J, Rochard. O equador Ihermal e as linhas que se traçam, unindo 
os pontos que apresentam o mesmo grau de temperatura, exigem nume- 
rosas, variadas e ininterrompidas observações meteorológicas, a fim de 
que as medias da temperatura de cada localidade sejam o mais approxi- 
madas que for possível. 



t.<>-€la«iMlfleaeAo do» clinia«, ncgundo M. Lévy 



Designaç&o 



Graus de latitude 



Climas quentes 



j 0« a 30» N. 

*"") Oo a 3o° S. 

I 30« a 5o« N. 

Climas temperados. ... { „„ „„ „ 

^ ) 3o« a 35» S. 



Climas frios 



5ii° ao polo boreal. 
55** ao polo austral. 



Observações 



Devem tomar-se em considera- 
ção as singularidades topo- 
graphicas e todas as modifica- 
ções intermediarias de cada 
uma das respectivas zonas 
climatéricas. 



M. Lévy, depois de mostrar os inconvenientes e defeitos da classifica- 
ção dos climas segundo as linhas isothermicas, diz o seguinte: 

lA questão dos climas depende do exame das localidades, assim como 
o problema da constituição individual se decompõe n'uma serie de es- 
tudos que lêem por objecto o temperamento, a idiosyncrasia, a heredita- 
riedade, ele. É esta a rasão por que julgámos, ao contrario de Guerard, 
que a exploração das localidades deve preceder o estudo dos climas.» 



i26 

Estamos plenamente de accordo com o sábio hygienisla francez, mas, 
como já dissemos, não é este o logar competente para examinar deti- 
damente qualquer classificação. Mencionámos as que sao mais geralmente 
admdttidas, a Qm de que se reconheça desde já a necessidade de se ado- 
ptar a que seja mais apropriada, e se avalie a vantagem da que apre- 
sentámos n'este livro. Não nos propomos fazer uma classificação nova; 
escolhemos a que nos parece mais simples e mais racional. 



••<*- Melhor cla0«lfle«çfto para a clhnographla das emlsraçoe») 
admlUlda pelo vl«eonde de Paiva ManMO 



DusignaçOes 



Grão de htitade 



Zonas tórridas, 



Zonas quentes 



Zonas temperadas .... 



Zonas frias. 



Zonas glaciaes 



0* a 
0» a 
23« a 
23» a 
40» a 
40» a 
50» a 
50<»a 
60» a 
60° a 



23« N. 
23» S. 
40<»N. 
400 s. 
SO^N. 
50* S. 
60« N. 
60o S. 
90» N. 
90o S. 



Observações 



O visconde de Paiva Manso no 
seu \i\ro Memoria sobre Lou» 
renço Marques^ pag. lii, não 
diz quaes são os escriptores 
que seguem a classífícação que 
elle não acceita. . 



Esta classificação, a quejá nos referimos, foi preferida pelo fallecido vis- 
conde de Paiva Manso, em substituição d'aquella em que se admittem zo- 
nas glaciaes, temperadas e tórridas. Teremos occasião de a examinar, e 
aqui apenas observámos que, em geral, cada escriptor introduz uma ou 
outra modificação, sendo muitas vezes uma simples questão de forma. 



é*'*^9ymiema dan llnhau l»o(heriiilea«, scsundo Jules Rorliard 



Designações 


Graus de tempcralura 
(Media geral) 


Observações 


2ona tórrida » 

Zona quente 

Zona temperada... 
Zona fria 


.... até +25'» centígrados 
+ 25' a +15" centígrados 
+ 15*» a + 5« centígrados 
+ 5* a — S'» centígrados 
— 5« a — 15» centígrados 


A classificação de Jules Rochard 
tem sido adoptada por alguns 
coliegas, especialmente por 
mr. Rey, no seu excel lente 
escriplo Geographia medica, 
inserta em o Novo dicdonario 
de medicina e cirurgia prá- 
ticas, tom. xví. 


Zona polar 



i27 

Este dístíDcto medico da marinha franceza entende que a única clas- 
siflcação rigorosa é a que tem por base as linhas isothermícas, e nós, como 
adiante veremos, considerámos esta classificação como uma das mais de- 
feituosas, como systema independente. É um methodo puramente numé- 
rico, e, para as conclusões serem verdadeiras, é preciso evitar as varia- 
dissimas causas de erro que influem em taes trabalhos. 

S.^-Dlvls&o aslronomlca dos cllmaa 

As divisões astronómicas do globo, isto é, as cintas que ficam entre 
os trópicos e os circules polares, formam zonas geraes, cujas denomina- 
ções, como temos dito, são muito vagas. 

Contam-se também sessenta climas que geographicamente se definem: 
cUma porção de terra, cujos habitantes têem os dias maiores ou meno- 
res que os dos seus vizinhos». Marcam-se vinte e quatro do equador ao 
trópico de câncer e igual numero até ao trópico austral, aos quaes se reú- 
nem os climas de entre os poios e circulos polares, seis ao N. e seis ao S. 
Esta classificação tem por base a latitude, que estabelece a distincção de 
cada um dos climas, o que facilmente se observa no seguinte quadro: 

0^ de latitude, clima de 12 horas 



16» 44' 






13 > 


W 48' 






14 » 


41° 24' 






15 > 


49° 2' 






16 > 


84' 31' 






17 » 


58° 27' 




]> 


18 » 


61° 19' 




» 


19 > 


63° 23' 






20 » 


64° 50' 






21 » 


66° 21' 






23 » 


66° 32' 






24 » 


67° 23' 






1 mez 


69° 31' 


• " 




2 mezes 


73° 46' 






3 » 


78° 11' ' 






4 » 


84° 5' 






5 » 


No pólo 






6 » 



Esta disposição dos climas satisfaz a geographia, mas não serve para 
o estudo de colonisação, que exige o conhecimento de outras condições 



iii(]e[)endeiiles da duração do tempo, e não achamos palavras mais regu- 
lares do que as que adoptámos, dividindo cada um dos hemispherios ter- 
restres em nove zonas, sendo as da parte septentrional : equatorial, 
equalorial-nortCs tropico-equatorialj tropical-quente, tropical^ tropical- 
temperada, temperada, fria e glacial. 

Distinguem-se estas zonas unicamente para facilidade do estudo, por 
meio -de paralleios tirados por W 43', 23° 30', 3.V 15', 47^ 58° 45', 70° 
30', 82° 13' de latitude, limite alem do qual difficilmente se pôde viver. 

B.^-têfmícma maiii 0iiiipliacado segando ou graoM de lailinde 



Hemispherio boreal 
Nomes da zona 


Latitude 
Graus ao N. e ao S. do equador 


Hemispherio austral 
Nomes das sonas 


Eauatorian 


Qo 


Equatorial. 
Equatoiial S. 
Trópico- equatorial S. 
Tropical quente S. 
Tropical S. 

Tropical temperada S. 
Temperada S. 
Fria S. 
Glacial S. 


Equatorial N 

Tropico-equalorial N.* 

Tropical quente N 

Tropical N.' 


Qoa 11» 45' 


lio 45' 


11- 45' a 23» 3(y 

23o 30' 


Tropical temperada N. 

Temperada N 

Fria N 


23° 3(V a 35» 15' 

35» 15' a 47° 


47« a58*» 45' 


Glaciai N 


58° 45' até aos poios . . 





Ajuntamos estes seis mappas para se apreciarem as príDcipaes diffe- 
renças de cada uma das classificações mais geralmente seguidas. Alem 
d'estas ba outras, mas não são também isentas de defeitos. O que todavia 
desejámos accentuar bem é que se torna impossível fazer uma classifica- 
ção rigorosa, devendo por isso escolher-se a mais simples e que envolva 
menos causas de erro. É o que nos parece se realisa, dividindo o globo 
em zonas de 11° 45', e substituindo a palavra — zona tórrida — por zona 
equatorial, ele. Quando não tenha outras vantagens, basla-lbe a de fazer 
com que haja mais clareza e fácil mnemónica. Esta classificação corres- 
ponde ao desenvolvimento dos vegetaes, e tem uma base natural e inva- 
ria^ií. 

* Considera-se iiiua zona de transição, á qual podo dar-se mais ou menos espa- 
ço. Não deve exceder cointudo 1°, ficando 30' para o N. e 30' para o S. do equador. 

^ Comprchendc uma exUíusão de 60', contando-se 30' para o S. c 30^ para o N. 
do parallelo tirado por 11° 4o'. 

3 £ uma zona que abrange 30' de um lado dos trópicos e 30^ do outro. 



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Vim da lilla do Ikindii. na nargen diieiu du lio Quania 



CAPITULO III 

Prinoipaes paizes oolonisadores do seoolo XTX 

e emigração portugrueza 

• 

Portogai e suas coloDÍas.— Colónias da Hespaoha, clima geral, superficie, população e prindpaes pro- 
docçôes. — Colónias da França, clima geral, superficie, população c principaes producçôes.— Colónias 
da Hollanda, clima geral, superficie, população e principaes producçôes.— Cqlonias da Inglaterra, clima 
geral, superficie, população e principaes producçôes. — Colónias de Portugal, clima geral, superficie, 
população e principaes producçôes.— Provinda de Cabo Verde.— Pro^incia de S. Thomé c Principe.— 
Provincia de Angola.— Província de Moçambique.— Estados da índia! — Provinda de Hacau e Ti- 
mor—Portugal, undedmo paiz da Europa, occupa o quarto logar como paiz colonial.— Emigração 
pan o Brazil.— Prorincias do império do Brazil, clima geral, superficie, população e principaes pro- 
ducçôes.— Indifereuça pelas Bossas terras de alemmar.— Africa portugueza como terra de degreda- 
dos—Receios infundados acerca do clima da nossa região africana, dezoito vezes maior que a metró- 
pole.— Happa comparativo dos dimas equatoriaes e tropicaes referidos ás provincias do Brazil e Africa 
portugueza. 

Portngal e snas colónias * 

Parece, á primeira vista, que em vez de colónias, deveríamos escre- 
ver Provincias do ultramar, porque são designadas por este nome, e não 
por aquelle, as terras que actualmente possuimos em África, Ásia e Ocea- 
nia. Muito de propósito, porém, procedemos assim. Se sâo ofScialmente 
reconhecidas sob a denominação geral de provindas^ as nossas posses- 
'sues de alem-mar, n'algumas d^ellas ha todavia colónias propriamente di- 
tas, c são numerosas as plantações de café, algodão e canna saccharina, as 
quaes rivalisam com as colónias das outras nações. Alguns escriptores es- 
trangeiros comtudo ignoram o estado das nossas provincias d*alem-mar, 
e deixam de nos mencionar como nação colonisadora do século xix, c ou- 



^ José Maria de Sousa Monteiro entendia que as nossas possessões deveriam 
chamar-se municipios em vez de provincias ou colónias. Também se diz estados da 
índia; mas o titulo que adoptámos comprehende todos os territórios, na maior parte 
dos quaes existem ou podem existir colónias propriamente ditas. 

9 



130 

Iros não duvidam também dizer que o povo portugucz é hoje quasi impei- 
ceptivel na Europa í 

É realmente grave a injustiça que nos fazem, e talvez seja devida á 
falta de tempo para se compulsarem os documentos ofliciaes que habili- 
tem aquelles escriptores a conhecer qual a importância da nação portu- 
gueza quanto ao commercio, industria e agricultura, quer no reino, quer 
nas colónias. 

Não somos de certo uma nação de primeira ordem, mas nos grandes 
torneios artísticos do século xix, onde se reconhece a força productiva de 
cada nação, temos representado um papel distincto, collocando-nos a par 
dos paizes mais adiantados. £ pequena a extensão do território que occu- 
pâmos na Europa, mas as nossas possessões do ultramar elevam-nos ao 
quarto logar, como paiz colonial d'este século. 

Não olhemos somente para a grandeza territorial. No século xv e xvi 
não era maior a extensão do nosso território, e comtudo occupámos um 
dos primeiros logares entre as nações do mundo. 

Os portuguezes, diz Leroy Beaulieu, referindo-se ás colónias portu- 
guezas, antes do século xix, tiveram depósitos (des entrepôts) em Malacca 
para o commercio das índias orientaes, em Aden para o da Arábia e Egy- 
pto e em Ormuz para o da Pérsia e continente da Ásia. Estabeleceram re- 
lações entre as feitorias da Africa (comptoirs) que lhes forneciam oiro em 
pó, e a índia, onde encontravam abundantes mercadorias. Traziam para a 
Europa especiarias, estofos de algodão e seda, pérolas e outros géneros 
de pequeno volume. Fundaram estabelecimentos commerciaes em Ceylão 
no anno de 1518 (descoberta em 1505); crearam também um estabele- 
cimento em Cambaia, e depois irradiaram por todo o archipelago da Son- 
da, Java, Celebes e Borneo. Levaram ainda mais longe a esphera da sua 
acção. Por meio de missionários, enviados como embaixadores (avant-cou- 
reurs) ao Japão e á China, os portuguezes obtiveram relações vantajosas 
com estes abastados paizes. Conservarara-se em Ningpó e em Macau, e 
organisaram entre a índia, China e Japão um commercio muito regular. 

É na verdade deficiente este esboço do nosso império do Oriente. Não' 
se falia de Goa, conquistada em 1503 por Afifonso de Albuquerque^ €onde, 
diz H. Major, construiu uma fortaleza, e organisou um governo munici- 
pal, adoptando acertadas medidas de administração, com que preparou 
o caminho para esta cidade vir a ser a capital do império portuguez no 
orientei. 

Ficou também na sombra a colónia da ilha de Ternale, capital das Mo- 
lucas, em cujo governo tanto se distinguiu António Galvão, dando evi- 
dentes provas de que sabia colonisar. 

lia silencio absoluto a respeito da ilha de S. Thomè, tão afamada pela 



131 

sua prodacçâo de assucar no século xvi, assim como não ha rereiencia ás 
explorações que se mandavam fazer em muitos territórios que descobría- 
mos. 

Não é de certo animado o quadro que aquelle escriptor faz do império 
portugtiez do Oriente, deixando quasi perceber que apenas cuidávamos 
em crear depósitos de mercadorias e construir uma ou outra fortaleza para 
os proteger. Foi, porém, altamente politica a idéa de os monarchas por- 
tuguezes dilatarem seus domínios na Africa, Ásia, America e Oceania ; e 
se, apesar de nos termos coUocado, no século xvi, a par das primeiras 
nações do mundo, e de sermos ainda hoje o quarto paiz colonial da Eu- 
ropa, Pierre Larouse nos reputa um povo quasi imperceptível no meio 
das nações, o que seriamos nós para estes modernos escriptores, se não 
tivéssemos alargado a esphera do nosso dominio por mna área muito 
maior que a de toda a França ? 

Mas ainda bem que Portugal não se tornou invisivel na Europa, e pos- 
sue c colónias de plantações^, que não são muito inferiores ás de qualquer 
outra nação. 

Desejámos dar uma breve noticia das nossas províncias do ultramar, 
começando pela colónia da ilha de S. Thomé, de que especialmente nos 
occupámos n'este trabalho, e damos uma idéa geral das plantações de 
muitos pontos da província de Angola, reservando-nos para d'ellas nos oc- 
caparmos mais detidamente em livro que nos propomos dar á luz da pu^ 
blicidade. 

É fácil avaliar o que foi o império portuguez no Oriente no século xvii 
porque temos minuciosas descripções de escriptores nacionaes e estran- 
geiros; mas é impossível dizer o que elle seria depois da immensa catas- 
trophe que, com a morte do cardeal rei, feriu todo o reino de Portugal. 
N3o seremos nós quem n'esta occasião ha de avaliar seus desgraçados ef-> 
feitos. Indicámos o testemunho de um escriptor estrangeiro, o qual se ex- 
pressa n*estes termos : Vunion de VEspagne et du Portugal eut les plus 
fácheuses conséquences pour les colonies de ce dernier pays. 

São formaes as palavras do illustrado escriptor francez, formuladas 
ao completarem-se quasi quatro séculos depois d'essa desgraçada epocha. 
Muitos outros trechos poderíamos citar, mas são desnecessários. Todos 
os portQguezes pensarão com horror no fatal anno de 1S80. Apartemos 
a idéa â'esse tempo calamitoso, e lembremo-nos de que ainda hoje pos- 
suímos extensas colónias, tendo direito a ser contados entre as nações co- 
lonisadoras do século xix, como exuberantemente provaremos. 

É de certo limitado o nosso território, mas não temos diante de nós 
barreiras invenciveís que nos circumscrevam o espaço, e nos cortem as 
ambições. Fica-nos aos pés o oceano^ e^ lá ao longe^ a vasta região dé 



132 

Africa, Ião porlugueza como o Algarve e Extremadura, satisfaz os nos- 
sos desejos e mostra á Europa culta que sabemos dar impulso á colonisa- 
çâo da Africa no século xix, como soubemos trabalhar sempre em prol 
da civilisação e do progresso scientifico. 

Não precisámos de recordar as viagens do dr. Livingstone na Africa 
porlugueza, nem o memorável exame que d'ellas fez o erudito escriptor 
D. José de Lacerda, para patentear o interesse que tomámos pelas cousas 
da Africa. As explorações phyto-geographicas do dr. Frederico Welwitsch 
na província de Angola, e as dos naturalistas Anchieta e dr. Barth seriam 
documentos suíDcientes para revelar o nosso empenho pelo desenvolvi- 
mento das colónias, se o anno de 1876 não viesse fornecer provas evi- 
dentíssimas de que desejámos activar o progresso material e moral das 
províncias de alem-mar. 

A expedição que vae encarregar-se das obras publicas da província 
de Moçambique e a que igualmente se prepara com destino á província 
de Angola são acontecimentos que merecem detido exame e mostram 
que occuparemos sempre o logar que nos compete entre as nações do 
século XIX. 

Não nos limitámos somente a promover o incremento das obras pu- 
blicas em cada uma das colónias, crearam-se em Lisboa sociedades scien- 
liflco-geographicas ; trata-se de organisar uma expedição ao interior da 
Africa portugueza com o flm de estudar a hydrographia, e a disposição 
dos terrenos. São trabalhos indispensáveis para se conhecerem os logares 
mais férteis e mais salubres, onde possam fundar-se colónias agrícolas, 
como a de Mossamedes na província de Angola, a dé Cazengo, etc. 

As altas questões de aclimação na Africa tropico-equatorial não nos 
são desconhecidas, e desde ha muito que nos empenhámos no seu estudo 
e resolução. A emigração e colonisação da Africa equatorial são assum- 
ptos momentosos que prendem a attenção dos poderes públicos nas prin- 
cipaes nações da Europa culta; e sobre os quaes temos opinião auctori- 
sada, não só por occuparmos os logares mais importantes da Africa cen- 
tral, mas também por termos sido os primeiros europeus que descobri- 
mos e frequentámos a maior parte do littoral d^aquelle continente. 

Mas alem do que levámos dito, temos motivos ponderosos para con- 
sagrar algumas paginas d'este livro ao estudo comparativo de paizes ex- 
Ira-europeus, onde dominam as nações colonisadoras d'este século. 

Muitos escriptores estrangeiros, fallando da colonisação da Africa, 
America e Oceania, deixam-nos n'um logar inferior áquelle a que real- 
mente temos direito. 

M. Paul Leroy Beaulieu, com especialidade, tratando das nações colo- 
nisadoras do século xix, não se occupa das nossas colónias acluaes e consi- 



<33 

dera as possessões porluguezas da Africa e Ásia como simplices estabe- 
lecimentos commerciaes (des comptoirs). Não se refere também á nossa 
provincia do mar de Guiné, mas falia das colónias hollandezas do golfo 
do MexicOy as quaes não são mais ferieis nem mais extensas do que as 
que temos no golfo dos Mafras. 

Das nossas colónias disse Carlos Vogei, em 1860, o seguinte: 

cDebaixo de qualquer ponto de vista, em que se encarem as colónias 
portuguezas, o seu estado apresenta-se mais desanimador do que o da 
metrópole. É immenso o atrazo das colónias, podendo dizer-se que a sua 
vida económica nao tem melhoramento algum. A antiga grandeza da índia 
deixou por testemunhas apenas suas ruinas. 

« A exploração colonial, sempre fraca e imperfeita, não se tornou somente 
estacionaria, retrogradou muito, principalmente na provincia de Moçam- 
bique, e vae enfraquecendo cada vez mais por falta de trabalhadores, de 
industria e de capitães. 

< A admiaistração publica está mal organisada e acha-se também muito 
abandonada. 

«É preciso sobre tudo não esquecer que as colónias portuguezas, em 
parte muito afastadas entre si, ficando umas no Atlântico e outras nas lon- 
gíquas e sinuosas paragens do mar da índia e da China, téem apenas de 
commum o pertencerem todas á zona tórrida.^» 

Citámos as palavras d'este escriptor para que se faça idéa do modo 
por que ha dezesete annos se fallava das nossas colónias. Teremos, porém, 
occasião de examinar mais largamente as informações que então se fa- 
ziam, em grande parte aliás bem fundadas, e aqui só observámos que 
as nossas colónias, pelo facto de pertencerem á zona intertropical, não de- 
vem ser consideradas em má posição geographica. Sob o equador, e cor- 
tada pelo equador thermal, está a ilha de Sumatra, e ali prospera também 
a ilha Celebes e ostentam seu enorme progresso Java, Cuba e Porto Rico. 

Não ha por conseguinte grande perigo em pertencer qualquer paiz á 
chamada zona tórrida. 

Entre as publicações que se téem feito nos últimos annos avulta in- 
questionavehnente a do grande diccionario de Larousse, e, se nos im- 
pressionou desagradavelmente o vermo-nos excluídos dos livros em que se 
falia das nações colonisadoras do século actual, não menos são para sentir 
as limitadas informações que ali se dão das nossas possessões, a cujo res- 
peito se faz a seguinte enumeração : 

<As actuaes colónias de Portugal são o archipelago dos Açores, no 
Atlântico; em Africa as ilhas da Madeira e Porto Santo, o archipelago de 
Cabo Verde, os estabelecimentos da Senegambia, de Angola e do Congo, 
as ilhas de S. Thomé e Príncipe, e a provincia de Moçambique ; na Ásia, 



<34 

Goa, Diu e Macau; na Oceania, finalmente, Dilly, na ilha de Timor e Gam- 
bing, ao N. d'esta ilha.» 

Por esta exposição se vé a confusão que ba a respeito das nossas co- 
lónias, e não admira que as descrípçôes parciaes sejam deficientes. 

As ilhas dos Açores formam com as da Madeira e Porto Santo quatro 
dos nossos districtos administrativos, téem governadores civis, e não po- 
dem por forma alguma ser classificadas entre as colónias ou possessões 
ultramarinas ^ 

O archipelago de Gabo Verde está, é verdade, considerado como pos* 
sessão do ultramar, mas offerece todas as condições para receber uma 
reforma administrativa, como a das ilhas dos Açores. Não é iudifferente 
esta circumstancia, porque é uma prova de que as nossas colónias pro- 
gridem e vão-se preparando para gosar todas as regalias dos povos liberaes. 

Gumpre-nos finalmente mostrar o que são e o que valem as nossas co- 
lónias, mas antes de tratarmos doeste assumpto apresentaremos dífferen- 
tes mappas estatistico-geographicos de cada uma das nações colonisado- 
ras do século xix, indicando em resumo a sua extensão, clima, população 
e productos. Indicaremos depois qual é o nosso logar como paiz indepen- 
dente, mostrando a superficie e população de cada paiz em particular. 

São variadas estas estatisticas que servem de base ao nosso trabalho, 
cujo objecto principal, como temos dito, é a descripção especial da pro- 
víncia de S. Tbomé, comparando-a com outras possessões do ultramar, e 
estas com as províncias do Brazil e colónias das nações a que acima nos 
referimos sob o ponto de vista da sua salubridade absoluta e relativa. Mas 
procuraremos ser tão concisos quanto nos for possível, condensando o que 
nos parecer mais útil para o nosso fim. 

Gomeçaremos pelas colónias de Hespanha, e passaremos em seguida 
ás de França, Hollanda e Inglaterra. Paliaremos das colónias de Portugal 
antes de mencionarmos as províncias do Brazil, porque desejámos con- 
frontal-as também còm as terras da Africa portugueza e patentear as con- 
dições em que se acham em relação á colonisação, assumpto este tão 
vasto quanto variado, e que não ficaria completo sem o estudo da emi- 
gração, cuja importância é reconhecida por todos os povos do mundo. 

1 O reino de Portugal compõe-se de 21 districtos administrativos, sendo 17 no 
continente e 4 nas ilhas adjacentes, e de 6 províncias ultramarinas, sendo 3 na 
Africa Occidental, 1 na Orienta], 1 na Ásia Occidental, e, finalmente, 1 na Ásia Orien- 
tal e Oceania, tendo esta ultima província uma superQcie superior a 17:000 kilo- 
metros quadrados. Nao é de certo desnecessária esta explicação á vista do que se 
acha escripto no diccionario de Larousse, assim como não podemos deixar de no- 
tar que somente por falta de cuidado em procurar informações a respeito das nos- 
sas colónias pôde dizer-se promiscuamente : Os estabelecifnefUos da Sefíegambia, de 
Angola e do Congo. Adiante trataremos d'este assumpto. 



435 



Oolonias da Hespanha, olima geral, snperfioie, populagão 

6 prinoipaes prodnoç^es 



Designações 


Clima geral 


Superfície 
Kil. quad. 


PopolaçSo 


Productos prínclpaes 


I AÍMoa< 










nha de Fernão do Pó 

Ilha do Corisco 

UhaElobey 

liba de Asno Bom. . 


Equatorial (N.) 

Equatorial (N.) 

Equatorial (N.) 

Equatorial (S.) 


S:074 

44 

% 

47 


35:000 


Azeite de palma, cacau, madeiras, 
fructas, ele. 


n Amerloa 










Ilha de Caba 

Ilha de Pinos 

Ilha* de Porto Rico 


Tropical quente (N.)... 
Tropical quente (N.). . . 
Tropical quente (N.). . . 


445:688 
3:445 
9:064 


4.400:000 
625:000 


Assacar, tabaco, café e algodão. 


Ilhas de VicqaeSjCa- 
lebra e Mona .... 


Tropical quente (N.)... 


250 


Assucar, café, tabaco, algodão cpel- 
les. 


m Ooetnia 










Ilhas Filippioas.... 

nbas Carolina» .... 

ilhas Paláos 

Ilhas Marianas 


Tropico-equatorlal (N.) 

Equatorial (N.) 

Equatorial (N.; 

Tropical quente (N.). . . 


470:600 

4:384 

897 
4:079 


6.000:000 

48:800 

40:000 
5:640 


Arroz, assucar, café, tabaco, algo- 
dão trigo. 

Fmctas e variados utensilios feitos 
pelos naturaes. 

Diversas fructas e casca de tartaruga. 

Fructas;já foi introduzida a cul- 
tura do algodão, índigo, cacan, 
milho e canna saccbarina. 


304:244 


8.094:440 


* No annnario estatistico de Golha vem in 
perftrie se calcula em 400 kilometros qoadrad 
tiTTÍtorío banhado pelas aguas do mar de Gutn< 


dicado. no golfo de Guiné, o território de S. Jean, cuja su- 
[os. É de certo um lapso. Os bespanhoes n&o possuem tal 



A Hespanha possue actualmente importantes colónias, cuja superQcio 
está avaliada em 304:211 kilometros quadrados, com uma população de 
8.094:410 almas, como se vé do presente quadro, isto é, 26 habitantes 
por kilometro quadrado. No continente esta relação é de 32 para 1. Taes 
proporções mostram não haver excesso de população no reino vizinho e 
Dão estarem as suas colónias bem povoadas. São geraes estes pontos de 
comparação, porque o numero de individuos que habitam as colónias hes- 
panholas da Africa, America e Oceania não nos parece exacto; e, como de- 
sejámos apresentar estatisticas verdadeiras, puríflcando-as, tanto quanto 
for possível, das difTerentes causas de erro que possam modiflcar-lhes o 



<36 

valor, daremos uma resumida noticia de cada uma das regiões coloniaes 
que a Hespanha ainda hoje conserva. 

—A colonisaçâo hespanhola das ilhas do golfo dos Mafras tem tido mo- 
roso e diíDcil movimento. Falíamos em presença das informações que 
podemos obter, e que lemos por fidedignas, mas que não são de escri- 
ptores hespanhoes. 

Segundo os dados acima referidos, nas colónias hespanholas do golfo 
dos Mafras, no mar de Guiné, ha apenas 16 habitantes por cada kilome- 
tro quadrado. 

Esta media não é ainda rigorosa, porque não nos merece inteira con- 
fiança a estatística dos habitantes d*aquellas ilhas, e os cálculos planimetri- 
cos não têem sido repetidos para se avaliar com a exactidão a respectiva 
superfície. Aproveitámos, porém, os dados que passam por mais prová- 
veis, e que se acham inscriptos no annuario estatístico de Gotha que nos 
serve de base, por não termos á mão outros documentos. Devemos toda- 
via observar que n'um importante trabalho, que está em via de publica- 
ção, Le Monde terrestre de Charles Vogel, são transcriptos todos os map- 
pas estatísticos do referido annuario, o que prova a grande importância 
em que é tido aquelle curioso e notável trabalho. 

No primeiro capitulo d'este livro fizemos uma breve descripção das 
ilhas que a Hespanha possue no golfo dos Mafras, e n'este logar referimo- 
nos somente á sua colonisaçâo. São assumptos geraes e preliminares, em 
que se baseia o estado da salubridade relativa d'este paiz, emquanto que 
a natureza do clima será examinada mais tarde em presença dos dados me- 
teorológicos e pathologicos de que tivermos conhecimento. 

É innegavel que o estudo da salubridade de qualquer paiz é complexo 
e dependente do conhecimento de muitas questões que antecipadamente 
se devem examinar. 

O clima é, na verdade, o producto de muitos factores, compostos tam- 
bém de elementos variados e que é preciso estudar em separado. Quere- 
mos com isto dizer que é muito difflcil determinar a natureza do clima 
de qualquer região por mais limitada que ella seja. A salubridade e insa- 
lubridade, é indispensável não esquecer, podem variar muito de uns para 
outros annos, sendo tanto mais rápida quanto sensível é a mudança nos 
paizes palustres. 

Voltando, porém, ás ilhas hespanholas do golfo dos Mafras, cuja to- 
pographia geral já é conhecida, notaremos que se têem feito difierentes 
tentativas para se dirigir para ali a emigração, mas até hoje sem resul- 
tado favorável. 

Attríbue-se este facto a varias causas, mas não nos associámos á opi- 
nião que M. Jules Duval apresenta para o explicar. 



i37 

«Para derivar, observa este sábio escriptor, em proveito das colónias 
a corrente da emigração, a Hespanha enviou ultimamente (antes de 4862) 
• para as ilhas de Anno Bom, Fernão do Pó e Corisco, no golfo de Guiné, 
algumas famílias de colonos, sob a direcção de missionários jesuítas e a 
protecção de uma pequena força militar. Estas ilhas, porém, perdidas en- 
tre as mdas do Oceano e collocadas sob o fogo de um sol vertical^ attra- 
hiram sempre insigniflcante emigração.» 

As colónias bespanholas do golfo dos Mafras, no mar de Guiné, estão 
expostas aos raios quasi perpendiculares do sol equatorial, mas muito 
mais exposta está a ilha de S. Tbomé, perdida como a outra entre as on- 
das do mar; e, incomparavelmente mais pequena é a ilha de Ternate ou 
a de Tidore, collocadas muito mais próximas da linha equinoccial, e com- 
tudo a agricultura tem tido incremento regular em todas estas ilhas, aliás 
tão férteis como a de Fernão do Pó. 

No annuario estatístico de Gotha calcula-se a população das ilhas bes- 
panholas guineenses em 35:000 almas, mas não se declara qual é o 
numero de habitantes de cada uma das ilhas, nem se indica a quantidade 
de europeus que habitam cada uma d'ellas, o que é uma falta irreme- 
diável para se poder apreciar com exactidão a possibilidade da aclima- 
ção n'aqHellas ilhas. Dá-se todavia um facto extraordinário que merece 
attenção, e tanto mais quanto é certo serem hoje geralmente reconheci- 
dos como salubres a maior parte dos logares elevados das regiões inter- 
tropicaes. 

O governo hespanhol mandou construir um hospital militar na encosta 
de um monte a 650 metros de altitude, o qual foi considerado como casa de 
saúde, ou sanitarium, e para ali foram tomar ares os convalescentes e as 
pessoas que solTriam de anemia; mas longe de obterem melhoras, eram 
novamente accommettidas de febres, e o medico encarregado do serviço 
de saúde viu-se obrigado a não deixar ir para a referida casa mais con- 
valescentes, preferindo que elles flcassem na cidade, onde havia maior 
probabilidade de obterem melhoras radicaesi 

Este facto isolado não pôde ir de encontro ao que se tem observado 
na ilha de Guadelupe, no Campo Jacob, nem ao que os escriptores as- 
severam com respeito ás povoações collocadas a certa altura acima do 
nivel do mar. 

Ainda que não é este o logar adequado para se discutir o assumpto, 
deveiQOS todavia lembrar o que succedeu com as conclusões de um me- 
dico francez a respeito da aclimação dos francezes na Algéria. Tratava-se 
de uma estatística, aliás verdadeira, mas cujas conclusões a pratica não 
saoccionou. Citámos este caso, a que adiante nos havemos de referir, por- 
que serve para mostrar a diiliculdade de se organisarem estatísticas, 



438 

e o cuidado com que devem forraular-se conclusões que não sejam contra- 
provadas por muitos e variados factos. É verdade que na ilha de Fernão 
do Pó se escolheu uma planura a 650 metros acima do nivel do mar, e 
que esta localidade se reputou mais insalubre que a própria cidade, collo- 
cada próxima do littoral. Não deve todavia estranhar-se o facto. 

O que aconteceu em Fernão do Pó, succederá em qualquer outra re- 
gião, quando o logar escolhido não estiver nas condições exigidas pela 
bygiene. Essas condições dependem da natureza do terreno, do estado 
da vegetação, da proximidade de superficies palustres e de outras circum- 
stancias particulares, a que muitas vezes é preciso attender. É necessário 
alem disso observar que as pessoas affectadas de anemia palustre ou que 
viveram por algum tempo sob a acção dos climas onde grassam as febres 
paludosas, são muitas vezes accommettidas de accessõs febris nos toga- 
res para que se mudam, embora estes sejam de reconhecida salubridade. 
Lembrámos a propósito d'este caso o que acontece á maior parte dos 
individuos que saem da ilha de S. Thomé com destino á metrópole. Poucos 
são os que não téem alguns accessos de febres paludosas nos primeiros 
mezes da sua estada na capital. Mas quando não tivéssemos conhecimento 
exacto do que tem acontecido a differentes pessoas, e entre ellas algu- 
mas das nossas relações, citávamos o que nos tem succedido, poisque, 
logrando saúde na ilha de S. Thomé, por duas vezes que ali estivemos, 
fomos accommettidos de accessos febris depois que chegámos a Lis- 
boa! 

Não devemos portanto condemnar a ilha de Fernão do Pó, a qual, 
comprovada a insalubridade d'aquella planura, seria um paiz inhabitavel, 
opinião que não poderá sustentar-se em presença de um facto isolado, e 
que pôde explicar-se por causas accidentaes e de fácil remoção. 

— A Hespanha possue actualmente três notáveis colónias, reconhecen- 
do-se a sua importância á vista da admirável posição em que se acham. 
São as ilhas de Cuba e Porto Rico no mar das Antilhas e a ilha de Luçan 
nas Filippinas. 

A população da ilha de Cuba é de H habitantes por kilometro qua- 
drado, a de Porto Rico 67 e a das ilhas Filippinas 35. Estando todos es- 
tes paizes entre os trópicos, é preciso notar que aquellas ilhas ficam mais 
próximas do equador que as de Cuba e Porto Rico, são relativamente mais 
povoadas e estão mais afastadas da linha equinoccial. Importa não esque- 
cer esta circumstancia para se ver que um paiz não è menos habitado por 
se achar mais vizinho do equador, e que não é de certo que, por tal mo- 
tivo, a colonisação da ilha de Fernão do Pó não tem podido ser convenien- 
temente desenvolvida. 

As ilhas de Cuba e Porto Rico, reputadas como colónias que produzem 



<39 

mais assucar, passaram por muito tempo despercebidas, e nada fazia espe- 
rar a prodigiosa riqueza que adquiriram. 

O que caracterisou a situação da ilha de Cuba, observa Leroy Beaulieu, 
nos dois últimos séculos, foi uma prosperidade mediocre e obscura, abun- 
dância geral, civilisaçao suave, bom tratamento da população servil, 'pou- 
cos recursos e necessidade de subsídios da metrópole. Mas um conjuncto 
de circumstancias excepcionalmente favoráveis fez mais tarde mudar as 
condições da ilba e collocou-a acima de todas as colónias das Antilhas. 

A causa principal do progresso d*esta ilba foi a creaçâo de portos livres 
DO anno de i809. 

Desde esse anno, a capital de Cuba tornou-se um dos portos mais ani- 
mados do mundo, desenvolvendo o commercio e agricultura de um modo 
admirável. 

É este realmente um estudo importante, mas levar-nos-íam muito 
longe estas considerações, que poderíamos augmentar com o mais útil en- 
sinamento que nos offerece a historia d*aquella ilha. Não podemos, porém, 
demorar-nos n'este assumpto, em que só falíamos por incidente e para 
mostrar que muitas vezes se despreza um paiz que mais tarde adquire 
extraordinária riqueza. 

A respeito da aclimação dos europeus sob a acção de um clima tropi- 
cal quente, como o da ilha de Cuba, não servem somente as estatísticas 
geraes; na falta de outras mais desenvolvidas, apresentámos a da popu- 
lação com referencia a duas epochas, entre as quaes ha um intervallo de 4 4 
annos, mostrando-nos que houve um augmento médio de 8:428 indivi- 
dues por anno. 

População geral da ilha de Cuba : 

1850 

Brancos 605:160 

Homens livres, de côr 201 :470 

Escravos 477:600 

1.284:230 

1874 a 1876 

Homens de côr 300:000 

Homens de côr, escravos 300:000 

Koolies 60:000 

Estrangeiros 30:000 

Habitantes em geral 710:000 

1.400:000 



140 

N'esta população entram os creoulos ou pessoas nascidas nas ilhas, 
os hespanhoes, que para ali se dirigiram, e os estrangeiros, entre os quaes 
se contam americanos, inglezes, francezes e allemães. Mas como nâo es- 
tão indicados os habitantes de cada classe, abstemo-nos de fazer outras 
considerações. 

— A ilha de Porto Rico tem o clima tropical quente como a de Cuba, 
isto é, está muito mais próxima do trópico boreal que do equador. Â sua 
população, como já dissemos, é representada pela relação 67 individuos 
para cada kilometro quadrado. É uma colónia digna de ser examinada, 
porque n'ella se tem verificado a aclimação. 

Em 1834 a população das cidades e das aldeias compunha-se ap- 
proximadamente de 40:000 pessoas, contando-se nos campos mais de 
«160:000 habitantes espalhados por 44:295 habitações, isto é, 8 individuos 
por habitação. Leroy Beaulieu, a quem recorremos para obter estes dados, 
diz que havia então 45:000 escravos, empregando-se nos campos ape- 
nas 30:000, que se repartiam por 300 engenhos de assucar e 148 planta- 
ções de café. Alem doestes havia cerca de 1 :277 fazendas de assucar culti- 
vadas por gente livre. 

Na America possue a Hespanha as ilhas Filippinas, mas são apenas co- 
lónias promettedoras, e, attenta a pequena população europea que ali ha, 
não téem importância sob o ponto de vista em que estudámos os paizes 
equatoriaes. 

A respeito das actuaes possessões da Hespanha, diz Leroy Beaulieu o 
seguinte : 

«São magnificas as colónias que a Hespanha ainda possue, mas pre- 
cisam de grandes reformas. Nas Filippinas principalmente é necessário 
introduzir entre os indígenas o espirito de iniciativa, o amor ao trabalho, 
a previdência e a perseverança, qualidades indispensáveis para que a ci- 
vilisação e o progresso sejam uma realidade. Acabar emfim com os bens 
de mão morta, pôr termo com prudência, mas com brevidade, á escravi- 
dão, e estreitar as relações politicas entre as colónias e a metrópole, são 
os pontos que é mister resolver quanto antes, assim como a Hespanha 
não deve esquecer que as ilhas de Cuba e Porto Rico somente progredi- 
ram depois dos melhoramentos commerciaes ali executados em 1809 e 
1815. O que é certo, porém, é que sem se fazerem taes reformas não 
pôde prever-se qual seja o futuro das colónias que a Hespanha actual- 
mente possue nas diGferentes partes do mundo.» 



441 



Colónias de Franga, olima geral, snperficie, população 

e prinoipaes prodnoções 



Designações 



Clima gnral 



Soperíicie 
Kil.qoad. 



I Ásia 



Índia francesa: Mabéa Tropical equatorial (N.) 1 
Kankal, Poodichéry, | Tropical qnonte (N) . . . . 
Tanaon, Cbandema|{or . ' Tropical temperado (N.) 



Gocliincbina francesa ao 
oriente de Siam 

n Africa 



Algéria Tropical temperado (N.) 

Sonegai Tropical qnente (N.) . . . 

Gablo Equatorial 

Ilha da Renni2o oa antiga )„ . . . ,c \ 
BoarU» _'^ Trop«al quente (S.). •• ■ 



Tropical equatorial (N.) 



Mayotle. 



Nossi-Bé e d^endencias. . 

SanU Maria, a E. da ilha 
de Madagáscar 

m America 

Gojana 

Ilha da Martinica 



Tropical quente (S.) • 



Tropical qaente(S.)< 



Tropical quente (S.)>- 



Goadalapee depmdeneias 
S. Pedro, Grande e Peque- 
na Míqoeloii, ao S. da 
Terra Nova. 

lY Goeania 

Ilha da Nora Caledónia. . . 
Ilhas Lojaltj 

Ilhas Marqoesas* 

ília de Cliperton, ao SO. 
da America do Norte. . . 



Equatorial (N.) 

Tropical qnente (S.). . 

Tropical quente (S.) . 



Temperado (N.). 



506,60 



56:244,00 



669:015,00 

2:511,60 
356,30 
164,60 

174,00 



121:413,00 
987,82 

1:845,08 
210,23 



Tropical quente (S.). 
Tropical quente (S.). 



Equatorial (S.). 
Equatorial (N.). 



19:720,00 

1:239.60 

5,30 



874:395.33 



PopnlaçSo 



266:308 



1.335:841 



2.146:225 

210:339 

3:000 

193:362 

12:000 

9:908 

6:680 



24:171 
156:799 

163:600 
4:98i 



60:000 
4:200 



Prodactos 



Viveres para abastecimento 
dos navios. 

Arroz e algodão, madeiras, 
fructas, pelles, etc. 



Prodnctos agrícolas. 
Ginguba, fructas, etc. 
Marfim, borracha, ele. 

Assucar. 

Assucar, arroz, aguardente 
ecafé. 

Assucar, café, Índigo, man- 
dioca, clc. 

Madeiras e fructas. 



Café, assacar e cacan. 

Assucar, café, cacau e fni- 
ctas. 

Bacalhau. 



4.597:418 



Carvão, madeiras, variadas 

fructas e tabaco. 
Madeiras. (Dão-se ali bem 

os produclos tropicacs). 



* Lemj Beanlien, diz que a Uka ii Táiti é a principal das ilhas Marffuetas^ cujo clima é equatorial (S.); 
mas Bio M comprpheode neste grupo tal ilha : pt^rtence ao archipelago chamado da Sociedade. 






A França tem importantes possessões no ultramar, que merecem ser 
por nós conhecidas. Julgámos por isso vantajoso dedicar algumas paginas 



442 

ás colónias d'aquelle paiz, podendo dizer desde já que, sendo mais peque- 
nas que a nossa província de Moçambique, têem comtudo sensivel pro- 
gresso, e em muitas estão bem patentes os benefícios da civilisação. 

Não nos afastámos certamente do fím principal a que nos propozemos 
chegar, demorando-nos n*este assumpto, poisque não perderemos de 
vista tudo o que poder trazer mais luz ás debatidas questões de que nos 
occupámos, e que dizem respeito especialmente ás colónias de Portugal; 
para estas devem dirigir-se, sob a acção indirecta dos poderes públicos, oô 
emigrantes portuguezes que se derem mal nas provindas do Brazil, ou 
que por qualquer circumstancia desejem estabelecer-se nas terras de Afri- 
ca, cujo clima, como demonstraremos, pôde competir com o do Brazil, e 
onde a fertilidade dos terrenos não é inferior. 

Mas voltemos ao estudo das colónias de França, cuja importância se 
avalia á vista do mappa estatístico que apresentámos. D'este modo mais 
facilmente podem comparar-se as colónias francezas entre si, e estas com 
as das outras nações da Europa. 

Âs possessões francezas, em geral, téem 5 habitantes por kilometro 
quadrado, emquanto que no continente esta relação é de 68 para 1, diffe- 
rença que é bastante notável. 

Para simplificar a exposição que estamos fazendo, seguiremos o mes' 
mo methodo que adoptámos para as colónias de Hespanha. Inscrevemos 
alem d'isso o mappa com os diversos protectorados da França, aindaque 
não trataremos d'elles em especial. É todavia indispensável indicar a ex- 
tensão de cada uma das nações da Europa, segundo a grandeza do seu 
território, embora parte d'elle seja considerado como um protectorado. 

A França exerce o direito de protecção em alguns paizes da Ásia e da 
Oceania. Devemos, porém, observar, que o reino de Cambodge está nas 
mesmas condições da Cochinchina franceza, e as ilhas da Oceania não são 
por emquanto cultivadas. 

A propósito doestes protectorados, e das colónias da Oceania em ge- 
ral, diz um escriptor francez: «Chegámos muito tarde a estas paragens 
e ao meio doestes numerosos archipelagos, onde os inglezes, bollandezes 
e hespanhoes nos precederam por muito tempo»* 

Os primeiros europeus que chegaram aos vastos archipelagos da Ocea^ 
nia foram os portuguezes, e foram elles também os primeiros que domina- 
ram em muitas d'aquellas ilhas. Appareceram ali mais tarde os hespanhoes, 
e depois os bollandezes e inglezes. O papel que n'aquellas regiões repre- 
sentavam os differentes povos da Europa não pôde ser apreciado n'uma 
obra que trata mais de conhecer a influencia do clima nos indivíduos, do 
que as relações politicas ou sociaes das nações colonisadoras. 

Não deixaremos todavia de pôr em relevo a verdade, quando se trate 



U3 

de acontecimentos que possam esclarecer qualquer das questões de que 
mais especialmente nos occupâmos. 

Protectorados de Franga S olima geral, snperfloie, população 

e prodnotos prinoipaes 



DesignaçSes 


Clima geral 


Soperficie 
Kil. quad* 


Popalaçflo 


Prodaclos priocipaes 


AbIa 
Reino de Cambodge 

Ooetnia' 

Taili *, Ifoorea, Tetonaroa e 
MaTti>a ^1864) 


Tropico-eqnatorial (N.) 

Tropical quente (S.). . • 
Tropical temperado (S.) 

Tropical qaenle 

Tropical ÍS.Í 


83:861,00 

1:195,97 

144,53 

6:662,60 

29,73 


1.000:000 

13:847 

675 

8:000 

936 


Arrox. 

Assucar, café, bauni- 
lha, óleo de coco, etc. 


Toabouai, Yavitoa e Rapa. . . 

TOttamOtOO ........... r r - r r 


fiamhiAr -.-- 








91:893,83 


1.023:458 


' Referimo-Dos ao aanaario cstalislico de Golha (1876) ; mai no diccionarío de Laroasse (1875) di2*»e 
qae as ilhas de Tabnai não eslâo sob o protectorado da França. 

* A respeito da agrícollara da ilha de Taiti lè-se no diccionario de Laroasse o seguinte : «Comme prcs- 
qoe pariout les indigènes se lais«ent eodetter avant de produire, ils sont forces daccepter d'ètre payes en 
merchandises». 



Os protectorados francezes têem pouca importância em relação á co- 
lonisação, como se deprehende das seguintes palavras de Jules Duval : 

cLes émigrants européens ne sont pas autorisés à devenir proprié- 
taires de lerres à Haiti, exclusion qui les éloignera toujours d'un pays 
dont leurs ancêtres furent les maitres souveraíns.» 

A França possue na segunda parte do mundo os territórios designados 
pelos nomes de índia frauceza e Cochinchina franceza. 

— A índia franceza compõe-se de cinco estabelecimentos ou feitorias 
{ie% camptoirsj; a saber : Mahéy na costa de Malabar, ao N. de Calicut; Ka- 
rikal ou Corricallj na costa de Coromandel, assim como Pondichéry e Ka- 
naon. Chandernagor fica ao N. de Calcuttá, na parte Occidental do delta 
do Ganges, e margem direita de um dos seus braços. 

' A índia franceza está comprehendida na zona tropical quente N. É di^ 
gna de ser estudada, não só por ter 524 habitantes por kilometro qua- 
drado» mas porque algumas das suas localidades s3o menos insalu- 
bres que a Cochinchina, collocada dentro da mesma zona astronómica. 

1 A respeito dos protectorados francezes^ lé-se no diccionario de Laroasse o 
9^[uinte: «11 s'y prenait comme suit: ua officier de marine descendait à terre et 
aoqonçait aux chefs ou róis que le roi des Français daignait les preodre sous sa 
protecUon. Cela faUj on imposait tce proteclorat* par la {mxe, comme le fU Vami- 
rol DupeíU-Tiwíuirs*. 



444 

Os differentes paizes que pertencem a esta parte da França acbam-se 
afastados uns dos outros, estando Pondichéry quasí na mesma latitude 
que Saigon, capital da Cocbinchina franceza, e Ghandernagor fica quasí sob 
o trópico boreal, devendo considerar-se um paiz tropical propriamente dito. 

Em 1865, diz Leroy Beaulieu, a população da índia franceza era de 
327:063 babitantes, entre os quaes bavía apenas 1:846 europeus e 1:666 
mestiços. Não se encontram ali, porém, possessões próprias para coloni- 
sação, nem actualmente ofTerecem útil subsidio para a resolução do pro- 
blema de aclimação dos europeus nos paizes intertropicaes. 

—A Cocbinchina franceza fica entre 10® 3' a ir 30' de latitude N., 
e 103® a 105° ir de longitude E., ao S. da Ásia. 

É diminuto o numero de europeus que habitam a Cocbinchina. Em 
1864, segundo o dr. Dutroulau, havia ali 591, sendo a maior parte fran- 
cezes. O effectivo da tropa era, em 1802, de 8:000 homens. 

Não pode avaiiar-se com taes dados se é possível a aclimação dos 
europeus, aindaque o paiz é susceptível de progresso, e tem condições 
para admiltír importante immigração. Mas independentemente de uma co- 
lonisação regular, a Cochinchina é um bóm ponto commercial, podendo 
ofiferecer em troca dos géneros francezes, que concorram áquelle paiz, 
arroz, marfim, pelles, peixe salgado, etc, que são abundantes no seu 
mercado. 

A população indígena d'esta colónia era, em 1868, de 900:000 indivi- 
duos, a respeito dos quaes disse um erudito medico francez : 

«O seu typo pertence á raça mongolica; mas não é bem pronunciado 
nos povos quasí selvagens que habitam as montanhas do N. Á simples 
vista se reconhece a dififerença entre estes e os outros indigenas, não se 
duvidando, ao vel-os, que houve cruzamento. 

«Os annanistas têem uma constituição fraca, o que não os impede de 
se entregarem a trabalhos pesados e dífficeis. Acha-se a explicação no 
clima e na hygiene a que estão subordinados. Aquelles que vivem com 
os europeus adquirem facilmente constituição robusta.» 

Se os francezes se orgulham em nomear os exploradores que se têem 
entregado ao estudo da Cocbinchina, é justo também Icmbrar-se o natu- 
ralista portuguez que ali se entregou ao estudo da historia natural, e tem 
sido apreciado por muitos escriptores estrangeiros. Foi um dos primeiros 
que se occupou da explorarão d'aquelle território; e prestando aqui ho- 
menagem ao nosso compatriota A. Loureiro, não deixamos de admirar 
os arrojados exploradores que, por caminhos nunca visitados, chegaram 
até ao interior da China. Pagaram alguns d*elles com a vida a sua de- 
dicação pela sciencia, o que serve para realçar a coragem dos que se en- 
tregam a estudos e trabalhos tão arriscados. 



145 

Os perigos que os homens da sciencia lêem arrostado para explorar 
os differentes pontos do globo mostram que é geral o consenso dos sábios 
em se sacriQcarem em prol do progresso e civilisação de lodos os povos 
do mundo. 

— A possessão mais extensa que a França tem na Africa é a Algéria, 
onde se acha estabelecida, ha cerca de quarenta e dois annos, uma colo- 
nisação regular. Os outros paizes africanos ao oriente e ao occidente es- 
tão em condições especiaes, e não podem competir com esta importante 
possessão. 

Mas, para vermos como os escriplores francezes fazem a propaganda, 
aqui reproduzimos, muito de industria, o seguinte trecho, que revela o 
interesse que os francezes têem pelas terras da Africa septentrional. 

Diz assim Leroy Beaulieu: «Nous sommes de ceux qui croient que 
Tavenir de la France est en grand partie sur la terre d'Afrique et que, 
par TAIgérie jointe au Senegal, nous arriverons un jour a dominer et à 
civiliser tout le nord-ouest de V Afrique, c'est-à-dire, toute la partie que 
s*élend de Tripoli à TAtlantique et de la Méditerranée au nord à la Cam- 
bie au sud. Nous pourrons avoir là sous notre inlluence un territoire 
presque aussi grand que tEurope et dont il est aujourd'hui démontró 
qu'une Irès-vasle partie est susceptible de culfure». 

Refere-se este auctor á colónia da Algéria e aos estabelecimentos com- 
merciaes do Senegal. Suscita aqui duas ordens de idòas, c nós, para o 
acompanharmos, faltaremos da Algéria e do Senegal, apreciando, como ó 
de justiça, o que elle escreveu a propósito da França reunir o território 
do Senegal com a colónia da Algéria. Ê assumpto que em grande parte 
nos diz respeito, não podendo por isso deixar de expor o que sobre elle 
pensámos. 

Em 1835 havia apenas na Algéria, segundo Leroy Beaulieu, 11:221 
europeus. D'aquella epocha até 1845 a população subiu a 95:531 indiví- 
duos, mas a emigração não se dirigia para ali com o fim de colonisar. 
Acercava-se do exercito, com o qual sustentava um commercio próprio, 
prÍDcipal motivo que a chamava ás terras de Africa. O governo francez, 
porém, ircUou de construir algumas aldeias, e mostrou aos agricultores 
e operarias da Europa as vantagens que a Algéria lhes offerecia. 

A emigração, comtudo, não era continuada. O governo francez a per- 
miltia ou prohibia, segundo as circumstancias. Levantaram-se, para este 
fim, grandes difliculdades durante muitos annos; mas apesar d'isso 
bouve um movimento importante de emigrantes, especialmente depois 
de 1854. 

O numero de europeus augmentou annualmente 13:493 desde 1840 
a 1845. Este acréscimo foi apenas de 5:929 nos annos de 1850 a 1855. 

10 



146 

Mas em 1861 a população da Algéria subiu a 192:746 individuos; no fím 
de 1863 era avaliada em 213:061, e no anno de 1864 em 235:570. 

É na verdade muito notável este movimento das correntes da emigra- 
ção e ímmigração estabelecida entre uma área assas larga da Europa e um 
ponto de Africa; mas é indispensável advertir que a passagem se faz 
entre os habitantes de uma região temperada e os de uma zona tropical 
temperada. 

Realisada finalmente a immigração, vem logo o estudo da aclimação, 
assumpto vasto e difficil, e que exige grande pratica, bom senso e atura- 
do estudo para ser tratada com acerto e vantagem. É este de certo um 
dos pontos culminantes do nosso trabalho, e que mais adiante será exa- 
minado com outras questões que se levantam a respeito de alguns paizes 
africanos. 

Considerando-se o anno de 1835 como ponto de partida, temos um 
espaço de quarenta e um annos, pouco mais da media da vida de cada 
individuo que tem emigrado para a Algéria. 

O que succedeu n'esse limitado cyclo é descripto com toda a profi- 
ciência por Leroy Beaulieu, a quem nos referimos especialmente n'este 
assumpto. 

Examinou este illustrado escriptor as causas que modificavam ou pro- 
moviam a emigração, discutindo e condemnando sempre o que lhe pare- 
cia exagerado. 

Fixemos em fim o anno de 1861, poisque n'cssa epocha, segundo o 
mesmo escriptor, havia na Algéria os seguintes individuos: 

Francezes 112:229 

Hespanhoes 50:021 

Italianos 11:256 

Maltezes 8:260 

Allemães e suissos 8:332 

Não classificados 2:648 

Total 192:746 

Em presença d'estes dados vê-se que o numero dos francezes algeria- 
nos é muito maior que o dos hespanhoes ; mas a estatistica dos nascimen- 
tos e óbitos é mais favorável a estes do que áquelles, pelo menos em 
relação ao anno de 1856. O facto é na verdade digno de registar-se, mas 
d'elle não deve inferir-se qualquer regra geral acerca da aclimação nem 
contra a colonisação. 



w 





MapiNi geral dOH obICos c naseliuentoH (t^ftO] 


í 




Nacionalidades 


Nasci- 
mentos ; 


Óbitos 


Francezes . . 


• 


41 

46 
44 
39 
31 


43 
30 
30 

28 
56 


Hespanhoes. 
Mdl tezes.. . • 






Italianos ••..^ 


Âllemães 





Esta estatística levou um medico francez, a quem se refere Leroy 
Beaulieu, a dizer que os colonos francezes tinham incapacidade de con* 
ãtituição para se aclimarem em Africa. 

Tal proposição foi calorosamente rebatida por Leroy Beaulieu, e os 
factos posteriores contrariam o prognostico do medico hygienista. 

O assumpto é grave, e não vem fóra de propósito trazer aqui o que a 
este respeito escreveu o auctor da colonisação entre os povos modernos. 

Não deve dizer-se, observa Leroy Beaulieu, como o medico a quem 
nos referimos nas estatísticas ciladas, que o hespanhol é antes de tudo o 
colono nascido para viver na Algéria. O verdadeiro colono é o francez, 
porque é mais emprehendedor, porque tem mais recursos e constância, 
porque sabe tirar melhor partido da terra e dos homens. 

Os italianos, hespanhoes e maltezes são úteis auxiliares, que se fun- 
diram a pouco e pouco no elemento francez, mas não pôde dizer-se, sem 
desconhecer as condições acluaes do trabalho e de producção algeriana, 
que o primeiro papel lhes pertence. 

Tem-se levantado grande celeuma a propósito dos obstáculos physicos 
que se oppõem á aclimação dos europeus ; insiste-se na temperatura sem- 
pre elevada, falla-se do siroco ou vento do deserto, c das emanações lel- 
luricas e paludosas. Mas a influencia doestes agentes physicos tende a des- 
apparecer, como se demonstra por differenles rasôes. 

Em primeiro logar muitos dos casos apontados desapparecem com o 
progresso da colonisação. As emanações palustres tornam-^se raras e me- 
nos perigosas, postos em pratica os desseccamentos, realisada a boa cul- 
tura das terras e executada a conveniente repartição das aguas. O próprio 
siroco pôde ser modiGcado por meio de um bom regimen florestal. 

Os temperamentos, pela sua parle, retemperam-se ou modiflcam-se 
com a permanência no meio novo que os rodeiam. A geração creoula af- 
ferece mais resistência que a geração precedente. 



448 

Por ultimo, a hygicne faz também rápidos progressos, e os soffrimen- 
tos (los colonos mais antigos sâo lição viva e eflicaz para os modernos. 

Todos os pretendidos obstáculos physicos nao são, pois, invenciveis, e 
os factos provam com evidencia que as difliculdades referidas são de pou- 
ca importância. 

Aclimaram-se os franceses, prosperaram e augmentaram rapidamente 
na ilha de Reunião,. em Guadalupe e na Martinica*. Os inglezes, nação 
mais septentrional, povoaram a ilha Carolina, a Geórgia e estados vizi- 
nhos, assim como a Barbada e a Austrália. 

A Algéria oITerece também á população europêa um campo de acti- 
vidade cm que ella pode prosperar e augmentar. 

O movimento da população nos últimos annos é assas favorável, e não 
pôde duvidar-se de que o elemento europeu, se o regimen administrati- 
vo, politico e económico não lhe for contrario, se accommodará ao clima da 
Algéria, e os agentes physicos jamais se opporão ao desenvolvimento da 
nova colónia. 

Leroy Beaulieu recorre aos dados estatisticos do medico francez, os 
quaes acceita, reproduz e reputa exactos. E na verdade a afirmativa do 
medico algeriano é verdadeira quanto ao rigor da conclusão, e em presen- 
ça das estatislicas não podia deduzir-se outra. Mas os factos posteriores 
vieram mostrar que a mortalidade diminuia de dia para dia entre os 
francezes, tornando-se o numero dos óbitos inferior ao dos nascimentos, 
segundo diz Leroy Beaulieu, o que se demonstrou em relação ao anno 
de 1874. 

Não nos podemos alargar mais cm considerações a respeito da acli- 
mação dos europeus na Algéria, porque desejamos fallar das colónias das 
outras nações da Europa, e não cabe nos limites doeste livro tratar com 
desenvolvimento de todos os assumptos especiaes de cada uma das re- 
giões coloniaes. 

A Algéria, a dar-se credito a Leroy Beaulieu, tem sensível progresso, 
mas Pierre Larousse, em 1874, julga-a estacionaria e sem condições de 
vitalidade. Não curámos de saber de que parte está a rasão. Citamos os 
fados e consignámos a opinião de cada escriptor. 

Os francezes, alem da Algéria, possuem na Africa diíTerentes estabeleci* 
mentos commerciaes e estações militares, tanto na costa occidental como 
na oriental. Mas o território a que ligam mais importância é o do Sene- 
gal, a respeito do qual diz Leroy Beaulieu : 



* A ilha de Reunião está em 20» til de latitude S., como estão os districtos de 
ínhambane, na província de Moçambique; as de Guadalupe e Martinica correspon- 
dem a dííTerentes districtos de Angola e Moçambique. 



149 

«O Senegal é antes iinna colónia de commercio e de in fluência, se po- 
demos fallar d'esle modo, do que uma colónia de agricultura e emigra- 
çio. Alguns europeus, em muito pequeno numero, estão estabelecidos na 
ilha de S. Luiz, em Gorée, em Dakar e era diversos estabelecimentos do 
interior, estendendo suas relações por mais de i:Há kilometros. O ter- 
ritório sujeito ao nosso dominio, singularmente engrandecido por uma po- 
litica babil e vigorosa, contava em 1860, segundo Jules Duval, mais de 
115:000 habitantes, entre os quaes existiam apenas 300 europeus I» 

A colónia franceza do Senegal não tem, pois, comparação com a da 
Algéria, mas Leroy Beaulieu procura mostrar as vantagens que a França 
(l'ella pôde tirar. 

Os escriptores francezes não perdem occasião de fazer propaganda, e 
muitas vezes são exagerados nas descripções de uma colónia qualquer; 
o próprio Leroy Beaulieu reconhece isto : e para sustentarmos esta aíTir- 
mativa, basta lembrar um trabalho que anda nas mãos dos estudantes 
francezes, o atlas de geographia de Grosselin Delamarche, onde se acha, 
sob os n.®* 74, 47, 75 e 7G, um mappa das colónias francezas, entre as 
quaes se designam territórios que pertencem a outras nações. É por isso 
que julgámos necessário declarar desde já, que o nosso dominio na Se- 
negambia começa por 13^ 10' de latitude N., 3\7 ao N. do rio S. Pedro. 
D'este ponto para o interior estende-se o nosso território até ao presidio 
de Geba, 334 kilometros da costa, que está calculada em cerca de 445 ki- 
lometros de extensão, sendo o rio Casamansa o que fica mais ao N. da re- 
gião que nos pertence. 

Foi portanto grande a nossa surpreza quando notámos que sob as de- 
nominações de Senegal incluiu o auctor do mappa a que nos referimos 
parte do território que nos pertence, assim como no mar de Guiné não 
vem designado o nosso território de Ajuda. Independentemente d'este re- 
paro, poderíamos notar que a ilha de Madagáscar é apresentada no mesmo 
mappa em que se enumeram as colónias francezas, como as ilhas de Bour- 
bon e áe França. Não achámos regular este modo vago de designar os 
territórios de um paiz, e nós, descendo a estas minuciosidades, só quere- 
mos signíGcar que os portuguezes devem sustentar por todos os meios ao 
seu alcance os direitos que téem aos territórios do ultramar que ainda 
possuem. Mas o que é necessário é empregar a propaganda justa, con- 
stante e efficaz, para que se conheça, tanto em Portugal como no es- 
trangeiro, que ainda boje somos o quarto paiz colonial da Europa. 

Os escriptores francezes aproveitam todas as occasiões que se lhes oíTe- 
recem para engrandecer a pátria e para mostrar a confiança que têemnas 
colónias, embora as suas repetidas tentativas de colonisação tenham dado 
sempre resultado negativo. 



150 

Vale a pena ver o que a respeito do Senegal escreveu Leroy Beaulieu. 

cDe todas as nossas colónias nâo ha nenbunia, a que, segundo pen- 
sámos, esteja reservado melhor futuro do que á do Senegal. Está situada 
a 2:225 kilometros de Tombouctou e é relativamente vizinha da nossa 
grande colónia de Algéria; e, sendo governada por mãos hábeis, será um 
importante centro de commercio e de civilisação. 

«Pela nossa posição em Âlger e em S. Luiz, em presença dos nossos 
postos militares e dos nossos colonos de Exaghouat, de um lado, e, do 
outro, dos de Bakel; pela extensão da nossa influencia nas tribus do Sa- 
bará de uma parte, e, da outra, nas nações do Alto-Senegal, dominámos 
todo o noroeste da Africa, e podemos ser, em tão vasto paiz, os únicos se- 
nhores do commercio e da cultura, sem podermos marcar um limite ás 
nossas relações e influencias.» 

A parte de Africa que limita, ao N., com a Senegambia portugueza, è, 
como a nossa, uma colónia esperançosa, e a França já por duas vezes viu 
perdidos seus esforços para ali introduzir a colonisação. É verdade que o 
Senegal é um caminho para o interior da Africa, mas esse caminho não 
tem menos valor pela nossa possessão. 

Mas como no Senegal não tem havido emigração que mereça mencio- 
nar-se, abstemo-nos por emquanto de outras considerações, lembrando 
apenas que é uma colónia tropical quente, sendo a população, segundo o 
dr. Doutroulau, de i 16:000 habitantes, entre os quaes ha apenas 292 eu- 
ropeus civis, 204 em S. Luiz e 88 na Gorée, e 2:265 militares divididos 
pelos differentes estabelecimentos de feitorias. 

— A França possue no mar da índia a ilha da Reunião, nome que to- 
mou em 1848. 

Denominava-se até então Bourbon ou Bonaparte. Fica a 20*^ 51' de 
latitude S., 400 kilometros da ilha de Madagáscar. É uma das mais im- 
portantes ilhas da Africa. Tem 71 kilometros de comprimento por 50 de 
largura, sendo calculada a superfície em 2:5H kilometros quadrados, isto 
é, o dobro da da ilha de S. Thomè, ou pouco mais. A população especifica 
é de 55 habitantes por kilometro quadrado. 

Em 1860 havia na ilha, segundo o dr. Dutroulau, 166:558 individuoSi 
sendo 103:292 homens e 63:268 mulheres. 

Poucos paizes, diz o sábio medico francez, offerecem uma galeria an- 
thropologica tão completa como a ilha da Reunião. 

Os trabalhadores de toda a procedência, que a escravatura ali intro- 
duziu, a emigração voluntária que hoje (1868) se faz, deu occasião a que 
se reunissem muitos indivíduos apresentando muita diversidade de ty- 
pos assas notáveis. Podem ali estudar-se com vantagem as raças na soa 
pureza primitiva e no producto do cruzamento. 



151 

O clima é tropical quente, ou tropical propriamente dito, tão pequena 
é a distancia da ilha ao trópico boreal. Actualmente a sua producção prin- 
cipal para exportação é o assucar. 

— A Guyana franceza é um paiz equatorial N. Está collocado entre 2° 
e 6** de latitude, entre a Guyana brazileira e a hollandeza, no extremo se- 
plentrional da America do Sul. É muito pouco povoada, havendo 
presentemenle i habitante por lOkilometros quadrados I O dr. Dutroulau 
referindo-se ao anno de 1860 dá o seguinte resultado : 

Homens brancos e de côr 18:507 

índios, aborigines e tribus negras 1:780 

Emigrantes de differentes procedências 2:085 

Europeus, militares e funccionarios 1:520 

Degredados 6:635 

Total 30:527 

Este numero de habitantes differe muito do que se encontra no an- 
nuario estatístico de Colha, e a não haver deficiência de informações, a 
colónia franceza da Guyana não tem melhorado de clima, e a vida ali tor- 
na-se impossível. 

A questão de insalubridade ou salubridade não é para este logar, nem 
as estatísticas referidas a dois ou três annos podem servir para se estabe- 
lecerem princípios de aclimação. O que desde já se antevê todavia é que 
a população da Guyana franceza tende a diminuir, o que é essencialmente 
desfavorável para a coionisação. 

— As colónias mais importantes que a França possue, além das que 
deixámos referidas, são, segundo A. F. Dutroulau, as ilhas Guadelupe e 
Martinica, nas pequenas Antilhas, a ilha Mayotte entre as Cômoros, ao N. 
do canal de Moçambique, Taíti*, e, finalmente, a Nova Caledónia na Ma- 
lanésia, a È. da Austrália. 

A ilha Martinica tem 64 kilometros de comprimento e 28 de largura. 
Apresenta diversa configuração, segundo se olha para a região meridio- 
nal ou para a do norte, mas as montanhas mais elevadas são muito mais 



1 Taítí é a capital dos estabelecimentos francezes da Oceanía, conhecidos sob 
o nome de protectorados. Yeja-se a pagina 143 d'este trabalho, onde vêem desi- 
gnadas as ilhas comprehendidas sob tal denominação. 

A ilha Taiti se não tem importância como colónia agricola, é comtudo um paiz 
tropical digno de estudo em relação á salubridade que apresenta. D*elle se occupou 
Dutroulau, fatiando da pathologia, e nós teremos occasião de o examinar em ou- 
tro logar, sob este ponto de vista. 



152 

pequenas que as da ilha de S. Tliomé. Calcula-se a sua altura em 1:300 
metros approximadamente. 

A ilha Guadalupe, maior que a Martinica, tem uma disposição espe- 
cial, poisque se acha, por assim dizer, partida em duas por um rio que 
a atravessa de um a outro lado, sendo uma composta de terrenos bai- 
xos e offerecendo a outra alguns montes que se elevam a 1:880 melros. 

A região montanhosa das duas ilhas não é habitada, mas a zona me- 
dia comprehendida entre 300 a 800 metros de altitude compõe-se de ter- 
ras cultivadas. 

A ilha Mayotte tem 28 kilometros de comprimento sobre 14 de largo, 
e a sua superfície é mais pequena que a da ilha de S. Thomé. Os montes 
elevam-se apenas a 660 metros e as correntes de agua são de pequeno vo- 
lume. 

A Nova Caledónia tem 280 kilometros de comprimento e 55 de lar- 
gura, calculando-se a sua superfície em mais de 19:000 kilometros qua- 
drados. É pouco conhecida a região interior e não tem montanhas muito 
elevadas. 

De todas estas ilhas nos deixou A. F. Dutroulau, cuja morte a scien- 
cia deplora com sentida magoa *, uma descripção m'edicogeographica que 
merece consullar-se. É realmente um livro clássico, uma obra que deve 
occupar um dos primeiros logares na livraria dos médicos que se empre- 
gam no estudo dos paizes tropico-equatoriaes. E não podemos deixar de 
notar, aindaque de passagem, a falta de trabalhos idênticos acerca das 
nossas colónias. Não é este de certo o único livro indispensável, ha ou- 
tros cuja falta nos ó muito grave, e que vem aqui de molde lembrarmos 
que os devemos mandar aos grandes certamens internacionaes. E se pre- 
cisámos de exemplo, recordámos o que se fez no Brazil por occasião da 
exposição de Vienna de Áustria e ultimamente da de Philadelphia^. Assim 
como se fazem conhecer os nossos productos agricolas e coloniaes, do mes- 
mo modo devemos mostrar a extensão do território, seus limites, terrenos 
cultivados e incultos, diversidade de climas, população especifica, etc. 



* O dr. Augusto Frederico Dutroulau falleceu em 28 de fevereiro de 1872. Era 
chefe do serviço de saúde de marínlia e oíDcial da Legião de Honra. O seu traba- 
lho principal é o Tratado das doenças dos europeus nos paizes quentes, livro que, 
como disse M. Rochard ao despedir-se do seu collega junto á campa, fura duas ve- 
zes coroado, e tem auctoridade scientifica. 

2 Temos diante de nós um livro com o seguinte titulo : O impeno do Brazil na 
exposição universal de 1813 em Vienna d€ Áustria, Igual trabalho se preparou 
para a exposição da Phíladclphía, sendo impresso, segundo ouvimos dizer, em qua- 
tro linguas — portuguez, francez, allemão e inglez. É esta a mais efflcaz e racionai 
propaganda que um paiz pôde fazer em seu favor. 



153 



Colónias da HoUanda, olima geral, superfioie, população 

e prinolpaes producgoes 



Designações 



índias ocoldentaeB 

America: 

Ilha Coraçáo 

liba Araba 

Ilha Donaire , 

Dha St. Martin 

UhaSaba , 

Ilha St. Kaslachc , 

Snrinam (Demerara oa Guyana boi 
landeza) , 



índias orientaes 

Oceaoía : 

Java com a ilba de JJadara 

Cosia Occidental 

Costa oriental com as 

liba dej ilhas de Hioow 

Soniatra]Donkoulea 

Lampongs 

Palcmbang 

Ilha Banca 

IlbaDilliton 

Ilha Ceie* | Território geral 

bes . . . . I Alenado 

...^ «« I Costa Occidental 

Ilha Bor-^^ , ... , 

^ Costa meridional 

* * * * 'Cosla oríenUl 

w (Temalo o dependências 
Ilhas Mo->- . . j . 

/Ambomo e dependências 

" ' ( Banda e dependências. . 

Illiade Timor (parte occidental, SO.) 

Ilha Bali 

Ilha Nova-Gniné. 



Clima geral 



Tropical qoente (N.) 
Tropical quente (N.) 

Tropico-equat. (N.) 
Tropico-equat. (N.) 
Tropíco-eqnal. (N.) 

Equatorial (N.).... 



Equatorial (S.).... 
Eqnalorial(N.).... 

Equatorial (."s.).... 

Equatorial (S.) 

Equatorial (S.) .... 

Equatorial (S.).... 
Equatorial (ÍS.). . . . 
Equatorial (S.).... 
Equatorial (N.).... 

Equatorial 

Equatorial (S.) 

Equatorial 

Equatorial 

Equatorial (S.) 

Equatorial (S.) 

Equatorial (S.).... 
Equatorial (S.).... 
Equatorial (S.).... 



Total geral. 



S 



Supcrficie 
Kil. quad. 



550,00 

105,00 

333.00 

46,80 

12,83 

20,70 

119:321,00 



120:391.33 



134:607,00 
121:172,00 

45:427,00 
25:087,00 
26:155,00 

160:3(3.00 

13:050,00 

6:552.00 

118:380.00 
69:776.00 

154:506.00 

361:653.00 

02:204,00 
26:370,00 
22:647,00 
10:600.00 
10:462.00 
176:752,00 



1.545:743,00 



1.666:134,33 



População 



Productos principaes 



22:713 

5:3a3| 

^:370l , . .„ 
2-959 ^^ e cochonilha. 

1:975] 
1:750' 

69:834 Assucar, cale, algo- 
108:984 ^^^ ' "'""• 



17.786:118 
1.620:979 

69:386 
140:116 
112:784 
577:085 
63:922 
26:639 
335:942 
495:396 
365:798 

889:629 

97:913 

94:745 

155:453 

79:374 



22.931:479 



23.040:463 



Assucar, café, indigo, 
arroz, cacau, bau- 
nilha, tabaco, etc. 

Arroz, tabaco, café, 
pimenta, essências 
eoiro. 



Arroz, milho, fructa 
6 mineraes. 

Metacs preciosos e 
essências. 

Especiarias. 

Algodão, café, taba- 
co e assucar. 



A Hollanda, occupaDdo um território assas limitado na Europa, tem 
comtudo vastos domínios no ultramar, distribuídos por duas regiões muito 
dislínctas. Fica uma sob a linha equinoccial na Oceania, e outra na Ame- 
rica do Sul e golfo do México, estando a Guyana mais próxima do equa- 
dor 8 a ilha de Coração mais afastada. As colónias hoilandezas sao, pois, 



154 

inteiramente equatoriaes, e mostram a possibilidade de os habitantes das 
regiões septenlrionaes da Europa viverem nos logares reputados mais 
quentes do mundo, como muitos que se encontram nas ilhas de Sumatra, 
Borneo, etc. 

Taes possessões, porém, não offerecem ainda vantajosos elementos 
para a resolução do problema da aclimação dos europeus nos paizes in- 
tertropicaes; mas embora não haja nas colónias hollandezas verdadeira 
colonisação, as nações da Europa têem muito que aprender no modo por 
que taes colónias téem sido administradas. 

As lições da historia nunca devem esquecer. Explicam a concalenação 
dos factos, deixam no espirito idéas bem definidas, e animam os que dese* 
jam conhecer a verdade e applicar a justiça com rectidão. 

Os povos, como os indivíduos, praticam acções de vida íntima que não 
devem discutir-se, mas as suas relações para com os outros e o modo por 
que affirmaram a sua independência servem muitas vezes de lição aos vin- 
douros ; e sem o auxilio da historia faltaria a verdadeira pedra de toque para 
as aferir. Devemos, pois, examinar não só a nossa própria historia colo- 
nial, mas também a dos povos que nos seguiram pelas differentes partes 
do mundo que descobrimos. Não é alheia ao nosso fim esla analyse his- 
torico-colonial, porque, tratando de conhecer se os europeus podem acli- 
mar-se nas terras equatorias, precisámos avaliar a vitalidade de cada 
nação europea de onde partem os colonos que vão povoar as terras de 
alem-mar. Assim como é indispensável para a apreciação da constituição 
individual examinar a historia pregressa de cada homem, do mesmo modo 
os paizes extra-europeus do século xix, ou sejam subordinados ainda ás 
nações que os crearam, ou estejam independentes, merecem detido exame 
a respeito da origem, formação e desenvolvimento da sua nacionalidade. 
Para o caso de que nos occupámos trataremos de dar em resumo as no- 
ções principaes que se referem ao império colonial da Hollanda. 

Os hollandezcs são um povo dotado de energia e têem aíDrmado a sua 
independência nos diversos campos da actividade humana, dando exem- 
plos de valor a todas as outras nações colonisadoras da Europa. Tive- 
ram Hespanha e Portugal por mestres, emquanto a colonisação, mas não 
imitam estas nações no modo por que administram as colónias que es- 
tabeleceram. É esta na verdade uma prova evidente da sua intelligencia e 
bom senso. Não seguiram o melhor systema, mas reconheceram os de- 
feitos que havia no que praticavam os povos que lhe iam na vanguarda. 

Os portuguezes, coUocados ao occidente da Europa, conquistaram o 
reino palmo a palmo. São orgulhosos peia sua independência, e, aspirando 
sempre á liberdade, téem dado inconcussas provas de amor á pátria. 
A sua historia é uma das primeiras entre a de todos os povos do mundo, 



i55 

por ella teve especial atlenç3o o imperador da França, que a mandou en- 
sinar nos lyceus. É porque na historia portugueza, diz um escriplor fran- 
cez, ha uma excellente escola de enthusiasmo e de heroismo. 

Recordâmo-nos com prazer dos heroes de 1640, assim como nos re- 
feriremos ao nosso captiveiro, pondo bem em relevo a verdade. 

Prende-se por tal modo a nossa historia colonial do século xv e xvi 
com a da Hespanha e Hollanda, que nâo podemos memorar os aconteci- 
mentos de uma nação sem fallar das outras. Seremos todavia imparciaes» 
como nos cumpre. 

A Hollanda não soffreu o dominio hespanhol e reagiu contra o despo- 
tismo de Filippe II de Hespanha, havendo-se com tanta fortuna que prin- 
cipiou doesse tempo a sua grandeza e prosperidade. 

Prohíbiu-lhe a Hespanha, que a tinha sob a mais cruel oppressão, o 
commercio com a cidade de Lisboa. Julgou que feria os hollandezes^ 
quando sobre nós é que se descarregavam os golpes i 

Não os humilhou a prohibição que lhes fez a orgulhosa Hespanha. 
Aproveitaram-se, pelo contrario, do ensejo para realisarem um grande em- 
prehendimento. As injustiças e as perseguições engrandecem muitas ve- 
zes os opprimidos. Quando não tivéssemos outras provas, bastava o que 
se passou entre os hollandezes quando viram o seu commercio interrom- 
pido com os portuguezes. A sua resolução não se fez esperar; dírigiram- 
se directamente á índia, e informaram-se dos usos e costumes dos povos 
d'aquellas regiões. Foi esta a primeira consequência de tão arbitraria 
quanto abusiva determinação. 

Armaram alguns navios, que demandaram as terras do oriente. Não 
iam armados de grandes petrechos de guerra; dedicavam-se especial- 
mente ao commercio. Não se propunham atacar de frente os destemidos 
galeões de Portugal; o seu principal cuidado era evital-os. Tinham por 
fim ver as terras do oriente, avaliar o nosso poder e os meios de o inuti- 
lisar. Serviu-lhes o commercio de pretexto. E poucas viagens bastaram 
para saber como lhes convinha proceder. Fizeram-se durante alguns an- 
nos expedições particulares, e depois creou-se a companhia das índias, que 
sob a mira do commercio promovia a indisposição dos indígenas das ilhas, 
onde aportavam, contra nós, e acabavam por nos declarar guerra I As nos- 
sas terras do oriente foram as primeiras colónias dos hollandezes. Esta- 
beleceram-se depois no Cabo da Boa Esperança, de que nunca fizemos 
caso, e espalharam-se por alguns pontos da America. 

O centro do movimento commercial era na pequena ilha Coração, que 
foi para a região septentrional da America do Sul o que deveria ser a 
nossa ilha de S. Thomé para a região equatorial da Africa, se por acaso 
quizessemos occupar o logar que nos competia na sua exploração. 



i56 

As colónias hollandezas, é mister relembrar, levanlaram-se sobre as 
ruínas das nossas possessões do oriente i Foi para nós uma perda immensa. 
A Hespanha parecia comprazer-se em ver ameaçada a integridade do nosso 
'território do ultramar, julgando talvez que assim nos enfraquecia, mas 
não logrou o seu intenlo. 

Estivemos por sessenta annos sob um jugo violentíssimo; mas soou a 
hora da liberdade, e por todos os ângulos de Portugal se ouviu o mesmo 
grilo — pátria» Uberdade, independência. 

Nao podemos todavia acudir a todas as colónias de que os hollande- 
zes se haviam já apoderado. 

Cumpría-nos sustentar a integridade do território ; era esse o nosso 
principal dever, e fomos obrigados a concentrar na metrópole todas as for- 
ças para defender a mae pátria; e os hollandezes, que avaliavam a nossa 
posição, aproveitaram o tempo para atacar as províncias mais afastadas 
da monarchia portugueza, discutindo muitas vezes a posse de territórios 
onde chegaram depois de nós. 

Havia-se fundado, como dissemos, a companhia das índias, que pa- 
recia destinada mais á exploração commercial do que á colonisação, mas 
eram outros seus intuitos. Foi ella que promoveu a occupação de mui- 
tas ilhas, e procurou apoderar-se de bastantes territórios de alem-mar. Foi 
ella que occupou as ilhas de Java, Amboino, Banda e Molucas, na Ocea- 
nia, Ceylão, Malaca, Macassar, e o Cabo da Boa Esperança, para todas 
as quaes havia nomeado governadores. O systema empregado pelos hol- 
landezes para com os indígenas foi bem calculado ; mas não daria hoje bom 
resultado, poisque a prosperidade das colónias não se sustenta senão 
pela agricultura. 

Como somente por incidente tocámos n'estes assumptos que a historia 
nos ensina, não nos demorámos por mais tempo n'estas considerações, e 
passámos a fallar da população das colónias hollandezas, o que tem rela- 
ção directa com o objecto d'este trabalho. 

Em 1869 a população das ilhas de Java e Madura era composta dos 
seguintes indivíduos: 

Indígenas 15.791:845 

Chinezes 172:281 

Árabes 7:234 

Europeus 29:139 

Differentes nacionalidades 9:616 

Total 16.010:115 

A população especifica, n'este anno, era, pois, de 100 indi\iduos por 



i57 

kilonictro quadrado. Segundo os dados do annuario estatislico de Golha, 
em 1874, a população subia a 17.786:118 habitantes. 

As ilhas de Java e Madura devem o progresso e desenvolvimento 
agrícola que n'ellas se observam á intelligentc administração de alguns go- 
vernadores que nos primeiros annos d'este século lhes deram todo o in- 
cremento. Durante a administração d'estes beneméritos cidadãos, a agri- 
cultura e o commercio augmentaram de tal modo, que poucas colónias se 
podem igualar a estas ilhas. É realmente innegavel que a felicidade de 
■ qualquer paiz depende quasi sempre dos homens que estão á frente dos 
seus negócios públicos. Deu-nos o grande Affonso de Albuquerque o im- 
pério do oriente, e ao infante D. Henrique se deve a maior das nossas 
glorias. Muitos monarchas portuguezes corresponderam á sua alta mis- 
são, e tivemos ministros como o marquez de Pombal. 

Aflirmámos a nossa nacionalidade perante todas as nações da Eu- 
ropa, e hoje, como sempre, defenderemos a todo o transe a nossa inde- 
pendência. Moslra-nos a historia que somos a primeira entre as nações de 
segunda ordem, e que somos uma das primeiras nações colonisadoras do 
século XIX. Se alguns escriptores estrangeiros não se referem ás nossas 
plantações coloniaes, não deixam elles também de condemnar o systema 
colonial dos hollandezes. 

«Os hollandezes, observa Leroy Beaulieu, não se occupam em civili- 
sar a população indígena ; olham apenas com attenção para as culturas e 
commercio e não para a instrucção dos habitantes. É, como se vè, uma 
colonisação desprovida do espirito elevado e pensamento nobre com que 
todo o povo deve colonisar. A colonisação hollandeza é, para dizer tudo, 
uma simples exploração.» 

A população europêa é extremamente rara nas colónias hoUandezas. 
Em 1857 havia na ilha de Java apenas 14:000 indivíduos. O governo ten- 
tou augmental-a, mas os emigrantes preferem os Estados Unidos ás ilhas 
da Sonda, na Oceania. 

Os portuguezes, pela sua parte, preferem as terras do Brazil ás da 
Africa, o que não tomará incremento se os negócios coloniaes forem at- 
lendidos, como se tem notado no corrente anno do 1876. 

O que é certo é que a província de Angola, seis vezes maior que as 
ilhas de Java e Madura, está em condições de progredir muito e de poder 
compelir com as colónias da Africa, de Cuba e de Java e até com a Algé- 
ria franceza. 

Alem das ilhas oceânicas, a Hollanda possue, como dissemos, a Guya- 
na, território assas vasto, mas pouco povoado relativamente ás outras co^ 
lonias. 

Em 1859 tinha 53:000 habitantes, sendo 15:959 livres e 36:963 es^ 



I 



1S8 

cravos. Em 1874 e 1875 elevava-se o numero dos habitantes a 69:834, 
o que é realmente insignificante para um paiz com uma superfície dupla 
da de Portugal. 

Uma das causas que téem concorrido para o estacionamento da Guyana 
hollandeza é certamente o absentheismo, cancro que affecta também as 
nossas colónias. 

O absentheismo tem sido fatal para a colónia americana da FloUanda, 
poisque emquanto os proprietários vivem luxuosamente em Amsterdam, 
as plantações estão entregues a gerentes cuja incapacidade é notória, as- 
sim como a sua negligencia e immoralidade. Os trabalhadores são mal 
tratados e a mortalidade entre elles é espantosa. 

São variadas as causas que têem concorrido para o limitado desen- 
volvimento da celebre Demarara ou Surinam hollandeza, para onde, ape- 
sar de tudo, ha uma corrente de emigração assas regular, postoque fraca 
em apparencia. 

Referimo-nos, nas consideraçijes que acabámos de expor, a Leroy 
Beaulieu, e por ellas pôde fazer-se idéa do estado em que se acha actual- 
mente um dos paizes que passa por um dos mais insalubres do mundo. 
É ali, sob o sol do equador, em um terreno pouco elevado, que alguns 
camponezes da Hollanda se entregam á cultura do terreno que adquirem. 
Se os hoUandezes em taes circumslancias podem entregar-se á cultura, 
não desesperemos nós de o fazer também em muitos pontos das provín- 
cias de Angola e Moçambique, onde ha largos tractos de terreno em muito 
melhores condições de salubridade do que em Demerara e n'outras coló- 
nias de Hollanda. 

Para terminar tão succinlas observações acerca d'esta colónia da 
Hollanda, notaremos que no século xviii havia n'aquelle paiz 600 fazen- 
das, nas quaes trabalhavam cerca de 30:000 escravos. Em 1845 conta- 
vam-se apenas 259, cujo numero se conservou estacionário até 1860. 

Vê-se, pois, que a agricultura tem declinado na Guyana hollandeza de- 
pois da sua maior prosperidade. 

Falla-se com admiração do império colonial da Hollanda, cuja parte 
principal se acha sob a linha equinoccial, e indica-se muitas vezes como 
má condição a posição tropical das nossas possessões I Diz-se também no 
diccionario Larousse que pertence á Neerlandia o estabelecimento deno- 
minado Elmina, sobre-cosla do Ouro, no mar de Guiné. Não sabemos se 
é verdadeira esta asserção, poisque ali se reputa colónia hollandeza o ar- 
chipelago de Timor, quando a maior parte da ilha principal com a pequena 
ilha Pulo Cambing fazem parte integrante da nossa província da Ásia Orien- 
tal e Oceania ! Trataremos d'estes e de outros assumptos análogos no de- 
curso d*este trabalho, abstendo-nos por isso de mais largas consideraçõeSi 



OoIanla^ Inglezas, ollma g;eral, anperflole, população 
e proãnotos prinoipaes 



Populacho PradattoiprJDcipaH 



ItkH d« KoDiil-HDqria (E>ta(ii>) 

■~'" idflwB (ladoiUa b (nila 

— jatal dofoKb d« Bungila) . , . . 

otii«-.-..TT.; 

AnJamiun (BtlI^1a) 

K.l,itich'.irr.'ii|f.i .■ fiitwiji (ãl^- 

h£W"^,"'-.':::::::::::: 

AfriM 

EiuhflivimfDtM e fíjloriu d> cot- 

Ui>uidi«UI dn Aítin 

Dhmda Akí(uIo .^.<„ 

llbi de Saola SaJaia 

Ijlu dt Tiiitlo da CiiDhi (CMíIo) 

Porta ihui.. ..:;!!;!!;!.;;;;!;! 

11halU«icla«dnieiidniclH 

Man Aii»li<rdaa(KsU{ls) 

!>. Paulo (EiUclu] 

llodia(EHãfioj 

AmerfM 
aia diCinadá 

Im Kíví (i87() 

tíerniDdu ■'"...,.....,........ ^ 

Hondorai 

Ilku da BihuBa od Lneani 

IlhudíTan 

Ilhu de CtjEuin, nuida e ptqnena 

B™ (EttaíJo) 

Lvs^ilI t-ljuilt (S d» iKqiHiui 

Uiri'lu..i.l Khi,.ll (6 du pcqupOJI 

Tri<< ' ' -- ii ! 9 psqneiiai Anli- 

Gbjíb* ItuJoa (AiMríca do Sul) . . 
Ilfaai Falkbad 

Aoimlu (Ií7t} 

TimuiaiVan-DIcnini) 

HmUaadta 

lll«Gti*lbiun 

Ilka dAnckUiid 

KtnLdrdHoH 

luaiFKtji.. '.'..'. ','."', '.!*.'."!!;! 

llbaFinDiaE 

llbaUildíB 

IlhaSUrboBCk 

lUiaCmlin 

llb» dt KMiiw (EtUçlo) 



Tro|i<CAl qi 
Tropical qi 
Tropical qi 



Tropical qoenie (N.) 
Tropical queale(N.) 



IHI.II63:a(R 

6:800 

l.t05:»<T 

13^500 



Tropical iCTip. (S. 
Tropical ismp. jS. 
Tropical qnenliíS, 



BBI;0a9,0 
tG;IM.O 
liSiU.D 



FrioíN.) 

FrioiN.) 

Tropiu] Iroip. (N. 
Tropical qucnlaiN. 
Tnipkal tcmp. (N, 
Tropical queoIoiN. 
Tropical quenli' (N. , 
Tropical qaeDte(N.) 

Tropical qiteDU!(N.) 

Tropical qwni>(N.) 

Troplca.«qual. (K.) 

Eqoalorial... 



Frio IS.)' 

~ lical lemp. J! 

Tropkal quriitc(S. 
Equalorial (N.' 
Equatorial (S, 
Equaiorial (b. 



Total ««ral.,. S0.!Klt:7(W, 



'.8i7:8i7. . 

B7:Bet,0 

175:ÍU0.D 

l:;iiH,a 



lilho.lricn, eaW, Ic 
•a^arina. 



39:161 

1:S7R 

í:9Í5 

506:1» 

S:iOa 

1«):13( 

181:078 



etíei prccioKit. 
Cari lo, cobrp c 



160 

Siio immensos os paizes que a Inglaterra possue na Ásia, Africa, Ame- 
rica e Oceania. Independentemente, porém, de tão extraordinária extensão 
colonial, os inglezes merecem com justilicadu rasão o nome de povo co- 
lonisador por excellencia. Não toem direito a tão honroso titulo em pre- 
sença das suas colónias do século xix, merecem-no pelo que fizeram no 
século XVI, quando Portugal e a Hespanha alargavam a esphera do seu 
poder em todas as partes do mundo. 

Um concurso feliz de muitas circumstancias, observa Leroy Beaulieu, 
fez com que os três primeiros povos colonisadores, Portugal, Hespanha e 
Inglaterra, obtivessem os paizes exlra-europeus que mais se accommoda- 
vam á aptidão de cada uma d'estas nações. 

Os arrojados e hábeis marinheiros portuguezes tiveram por domínio 
as índias Orienlaes, onde podiam enriquecer-se por meio de umcommer- 
cio fácil e inesgotável. 

Os emprehendedores mas pesados aventureiros hespanhoes obtiveram 
as minas da America central e meridional, que elles podiam explorar sem 
esforço. 

Aos judiciosos e pacientes colonos da Inglaterra tocou por sorte essa 
immensa região inculta e quasi despovoada, que deveria torriar-se a mais 
brilhante colónia do mundo. 

Nenhuma terra correspondia melhor, acrescenta aquelle escriptor, aos 
projectos dUackluyt, ástheorias de Bacon, aos desejos de WalterRaleigh 
e de Humphrey Gilbert. 

O governo inglez, que não toma jamais parte alguma directa na fun- 
dação das colónias, ensina comtudo aos colonos o que mais lhes convém 
fazer para obterem feliz resultado. O que o governo punha em pratica era 
também divulgado pelos escri[)lores. Todos elles aconselhavam a occupa- 
ção de terras virgens, mas de fertilidade reconhecida, ondepodessem, por 
meio de trabalho, crear a industria agrícola e commercial. 

A Inglaterra é inquestionavelmente o primeiro paiz colonial do mundo, 
e Leroy Beaulieu dá minuciosas informações a respeito do espirito colo- 
nisador d'aquelle povo, mas, quando se refere á escravatura, atlribue-lhe 
a honra da iniciativa para a sua extincção. Não recusámos á Inglaterra a 
parte que ella tomou em tão nobre emprehendimento, mas desejámos que 
se nos faça lambem justiça, mostrando que se acceitámos, como todas as 
nações modernas, o principio da escravidão, fomos os primeiros que a mo- 
dificámos de um modo muito honroso para nós. Para evitar delongas, re- 
produzimos os trechos de dois livros que temos á mão. Faliam bem alto, 
e se um, por ser de escriptor porluguez. podesse ser tido por suspeito, 
o outro que é obra de um sábio inglez, não deixará de merecer inteiro 
credito. 



IGI 

n Muitas foram as providencias benéficas, diz José Joaquim Lopes de 
Lima, que o Senhor Rei D. Manuel derramou sobre aquellepovo (o da ilha 
de S. Thomé); mas entre todas — por parecer obra de séculos mais illustra- 
dos — a carta regia de 9 de janeiro de lõlõ, na qual» depois de declarar 
que fora expressamente ordenado no regimento que se fez para a povoa- 
ção, que se desse a cada colono uma escrava para delia haver filhos, de- 
termina que taes escravas fiquem livres com toda a sua descendência, e 
nunca possam ser demandadas — ellas, nem seus filhos e filhas — como 
captivos de elrei, nem de pessoa alguma; — e a outra carta regia de 
24 de janeiro de 1517, a qual estende o mesmo beneficio aos escravos 
machos, que similhantemente foram dados para serviço dos primeiros po- 
voadores e os declara forros a elles e seus descendentes. yt 

Isto prova, acrescenta o mesmo escriplor, que os reis de Portugal se- 
guiam desinteressadamente os dictames de uma útil e sensata philantbro- 
pia em seus domínios, três séculos antes que uma politica interesseira 
ensinasse essa virtude a nações que, n'aquella epocha, traziam sob o jugo 
de um duro feudalismo os escravos brancos seus conterrâneos, e que por- 
ventura ainda hoje traficam em homens e mulheres da sua própria côr. 

H. Major, procurando indagar o que diz respeito á origem do trafico 
de escravos, á primeira deportação que d^elles se fez da Africa e quem 
deu origem ao que hoje (1869) se chama o trafico da escravatura, deu 
uma demonstração cabal de que não são os portuguezes os que merecem 
censura. 

Em um dos livros mais sympatbicos que ultimamente se publicou O 
trabalho rural africano e a administração colonial, pelo marquez de Sá 
da Bandeira, dáse minucioso desenvolvimento a tão grave assumpto, to- 
mando-se por base o trabalho de H. Major. 

Todos, sem excepção, hespanhoes, portuguezes, inglezes, francezes e 
hoUandezes. diz o honrado marquez, consideram o trabalho dosindigenas 
como propriedade sua. E obrigando-os, pelo modo o mais cruel, a fazer 
serviços acima das suas forças, d'isso resultou, em muitas regiões, a des- 
povoação e mesmo a exterminação de raças inteiras. 

Em 1562 o capitão de navios John Hawkuis, nota o referido marquez 
de Sá, referindo-se a um escriptor inglez, que depois fora thesoureiro da 
rainha Izabel, partira de Inglaterra para a Serra Leoa com três navios, 
em que embarcou trezentos negros, alguns dos quaes foram capturados 
por força, e levados ás ilhas hespanholas, onde os trocou por assucar. 

É, porém, certo que á Inglaterra cabe a gloria de sair de entre seus 
filhos o primeiro grito de liberdade para toda a humanidade ser comple- 
tamente livre. 

Foi em 1773, diz Leroy Beaulieu, que pela primeira vez uma alma 

11 



160 

Sao immensos os paizes que a Inglaterra possue na Ásia, Africa, Ame- 
rica e Oceania. Independentemente, porém, de lao extraordinária extensão 
colonial, os inglezes merecem com justificada rasão o nome de povo co- 
lonisador por excellencia. Nâo lôem direito a tão honroso titulo em pre- 
sença das suas colónias do século xix, merecem-no pelo que Dzeram no 
século XVI, quando Portugal e a Hespanha alargavam a esphera do seu 
poder em todas as partes do mundo. 

Um concurso Teliz de muitas circumstanclas, observa Leroy Beaulíeu, 
fez com que os Ires primeiros povos colonisadores, Portugal, Hespanha e 
Inglaterra, obtivessem os paizes extra-europeus que mais se accommoda- 
vam â aptidão de cada uma d'estas nações. 

Os arrojados e hábeis marinheiros porluguezes tiveram por domínio 
as índias Orienlaes, onde podiam enriquecer-se por meio de umcommer- 
cio fácil e inesgotável. 

Os emprehendedores mas pesados aventureiros hespanhoes obtiveram 
as minas da America central e meridional, que elles podiam explorar sem 
esforço. 

Aos judiciosos e pacientes colonos da Inglaterra tocou por sorte essa 
immensa região inculta e quasi despovoada, que deveria torriar-se a mais 
brilhante colónia do mundo. 

Nenhuma terra correspondia melhor, acrescenta aquelle escriptor, aos 
projectos d'Hackluyt, ás theorias de Bacon, aos desejos de Walter Raleigh 
e de Humphrey Gilbert. 

O governo inglez, que não toma jamais parte alguma directa na fun- 
dação das colónias, ensina comtudo aos colonos o que mais lhes convém 
fazer para obterem feliz resultado. O que o governo punha em pratica era 
também divulgado pelos escri|)tores. Todos elles aconselhavam a occupa- 
ção de terras virgens, mas de fertilidade reconhecida, ondepodessem, por 
meio de trabalho, crear a industria agrícola e commercial. 

A Inglaterra é inquestionavelmente o primeiro paiz colonial do mundo» 
e Leroy Beaulieu dá minuciosas informações a respeito do espirito colo- 
nisador d'aquelle povo, mas, quando se refere á escravatura, attribue-lhe 
a honra da iniciativa para a sua extincção. Não recusámos á Inglaterra a 
parle que ella tomou em tão nobre emprehendimento, mas desejámos que 
se nos faça lambem justiça, mostrando que se acceitámos, como todas as 
nações modernas, o principio da escravidão, fomos os primeiros que a mo- 
dificámos de um modo muito honroso para nós. Para evitar delongas, re- 
produzimos os trechos de dois livros que temos á mão. Faliam bem alto, 
e se um, por ser de escriptor porluguez, podesse ser tido por suspeito, 
o outro que é obra de um sábio inglez, não deixará de merecer inteiro 
credito* 



l 



IGl 

9i Muitas foram as providencias benéficas, diz José Joaquim Lopes de 
Lima, que o Senhor Rei D. Manuel derramou sobre aquellepovo (o da ilha 
de S, Thomé); mas entre todas — por parecer obra de séculos mais illustra- 
dos— a carta regia de 9 de janeiro de lôlõ, na qual, depois de declarar 
que fora expressamente ordenado no regimento que se fez para a povoa- 
ção, que se desse a cada colono uma escrava para delia haver filhos, de- 
termina que taes escravas fiquem livres com toda a sua descendência, e 
nunca possam ser demandadas — ellas, nem seus filhos e filhas — como 
captivos de elrei, nem de pessoa alguma; — e a outra carta regia de 
24 de janeiro de 1517, a qual estende o mesmo beneficio aos escravos 
machos, que similhantemente foram dados para serviço dos primeiros po- 
voadores e os declara forros a elles e seus descendentes. y* 

Isto prova, acrescenta o mesmo escriptor, que os reis de Portugal se- 
guiam desinteressadamente os dictames de uma ulil e sensata piíilanthro- 
pia em seus domínios, três séculos antes que uma politica interesseira 
ensinasse essa virtude a nações que, n'aquella epoclia, traziam sob o jugo 
de um duro feudalismo os escravos brancos seus conterrâneos, e que por- 
ventura ainda hoje traficam em homens e mulheres da sua própria cor. 

H. Major, procurando indagar o que diz respeito á origem do trafico 
de escravos, á primeira deportação que d'elles se fez da Africa e quem 
deu origem ao que hoje (Í8G9) se chama o trafico da escravatura, deu 
uma demonstração cabal de que não são os portuguezes os que merecem 
censura. 

Em um dos livros mais sympathicos que ultimamente se publicou O 
trabalho rural africano e a administração colonial, pelo marquez de Sá 
da Bandeira, dáse minucioso desenvolvimento a tão grave assumpto, to- 
mando-se por base o trabalho de H. Major. 

Todos, sem excepção, hespanhoes, portuguezes, inglezes, francezes e 
hollandezes. diz o honrado marquez, consideram o trabalho dosindigenas 
como propriedade sua. E obrigando-os, pelo modo o mais cruel, a fazer 
serviços acima das suas forças, d'isso resultou, em muitas regiões, a des- 
povoação e mesmo a exterminação de raças inteiras. 

Em 1362 o capitão de navios John Hawkuis, nota o referido marquez 
de Sá, referindo-se a um escriptor inglez, que depois fora thesoureiro da 
rainha Izabel, partira de Inglaterra para a Serra Leoa com Ires navios, 
em que embarcou trezentos negros, alguns dos quaes foram capturados 
por força, e levados ás ilhas hespanholas, onde os trocou por assucar. 

É, porém, certo que á Inglaterra cabe a gloria de sair de entre seus 
filhos o primeiro grito de liberdade para toda a humanidade ser comple- 
tamente livre. 

Foi em 1773, diz Leroy Beaulieu, que pela primeira vez uma alma 

11 



16â 

generosa e profundamente chrislã, William Wilberforce, então simples es. 
ludante na escola de Poktinglon, escreveu um folheto contra a escravatura. 
Em 1780 outro espirito elevado, Thomás Charkson, propoz no parlamento 
a abolição de tão miserável traflco. Wilberforce renovou a proposta em 
1787, e apresenta va-a todos os annos, acabando finalmente por triumphar. 

No anno de 181 á foi abolido na Inglaterra este commercio odioso que, 
desde três séculos, deshonrava a civilisação europea. 

Três annos mais tarde, no congresso de Vienna, as nações ali reuni- 
das obrigaram-se a empregar todos os esforços para acabar com o trafico 
da escravatura, «altamente reprovado pelas leis, pela religião e pela na- 
tureza». 

O que se tem passado a este respeito desde 1812 até ao presente não 
é assumpto que possa desenvolver-se nos estreitos limites doeste traba- 
lho, nem o livro de Leroy Beaulieu, a que nos referimos, elucida simi- 
Ihantes questões, sendo completamente omisso a respeito de Portugal. 

Cumpre-nos, pois, observar que, tendo acompanhado as outras na- 
ções quando se trata da liberdade dos trabalhadores africanos, podemos 
afoutamente dizer que temos feito em favor da civilisação das nossas ter- 
ras de Africa* tanto ou mais do que fizemos em prol da do Brazil, a cujo 
respeito diz um esclarecido escriptor francez : 

^ Se tm ou outro escriptor estrangeiro nos faz justiça, a maior parte d'elles 
não se dão ao trabalho de indagar a verdade, e são sempre inexactos no tocante a 
cousas portuguezas. Referem-se depois aos outros, repetem ou commentam as in- 
exactidões divulgadas, e julgam-nos mal sem ter conhecimento da verdade 1 

Não citámos nomes, nem lembrámos factos, porque isto está na memoria de todos. 

O movimento colonial que se iniciou entre nós tem crescido e alargado, e por 
este modo provámos a inexactidão do que se tem escripto a nosso respeito, e mos- 
trámos o que somos e o que vaiemos. 

O silencio é ás vezes signal precursor do aniquilamento moral; a propaganda 
é uma das bases do desenvolvimento nacional, um dos meios do progresso das na- 
ções e da humanidade. 

E, como elemento de propagaçda, as sessões da camará dos deputados nos dias 
lo, 16 e 17 de fevereiro do corrente anno (1877), attingiram o seu fim, fazendo re- 
percutir em toda a Europa culta a justiça que nos assiste, no modo por que temos 
resolvido a questão mais sympathica em que se empenharam as nações do século 
Xi\, e afflrmando mais uma vez a nossa existência como nação livre e independente. 

Na impossibilidade de nos alargar em considerações e á vista da importância 
do assumpto, extractámos um dos trechos do brilhante discurso do ministro da ma- 
rinha e ultramar, referindo-se á parte que tomámos na extincçJk) do trafico da es- 
cravatura e no aniquilamento da escravidão. 

Eís-aqui as palavras do sr. João de Andrade Corvo : 

«Terei que lembrar agora quanto temos feito em favor da liberdade dos ne- 
gros? 

cSerá necessário recordar que quando em 1771 se concedia a liberdade a todo 



163 

^Le Brésil, cest le chefSwuvre de la colonisation portugaise; et, 
bien qu'il ne lui appartienne plus, c'est néanmoins une gloire pour le Por- 
tugal que de Vavoir conduit ou il est actuellement, d'avoir protege son en- 
fance sans 1'opprifner, et d'avoir su se séparer de lui sans haine ni ran- 
cune. 9 



o escravo que vinha a Portugal, quando em 1773 um alvará declarava livres todos 
os filhos de escravos nascidos em Portugal, e os considerava hábeis para todos os 
officios, honras e dignidades, sem a nota distinctiva de libertos, que a superstição 
dos romanos estabeleceu nos seus costumes, e que a união christã e a sociedade ci- 
vil fazem intolerável; ainda "Granvilie-Sharp, em conclusão de um longo relatório, 
dizia dever-se preferir á opinião contraria a opinião de que o negro, pelo simples 
facto de vir á Inglaterra, ficava livre ? 

«Quando essa opinião se considerava como preferível em Inglaterra, em Por- 
tugal era já lei. 

«Ninguém se deve admirar, em vista dos interesses mais ou menos licites que 
se lhe oppõem, que a abolição da escravatura encontrasse grandes difíiculdades nas 
colónias portuguezas. 

«Pois não nos lembram, os que trabalhamos pela extincção do trafico, que em 
1794 se apresentou á camará dos communs o bill da abolição do trafico, e só em 
1807 foi elle convertido em lei? 

«Pois não sabem todos que, depois de abolido o trafico, a abolição da escravi- 
dão teve logar nos domínios britannicos passados vinte e seis annos ? 

«Não se recordam todos das enormes resistências que encontrou a applicação 
d'essa lei benéfica? 

«Ha muito que nós trabalhámos para pôr termo a esse crime que envergonha 
a humanidade. 

«Já antes do tratado de 1842, que muita gente suppõe ter vindo acabar com o 
trafico no território portuguez, o marquez de Sá da Bandeira, de veneranda memo- 
ria, tinha, n'um decreto de dictadura, abolido o trafico da escravatura em toda a 
monarchia portugueza. 

«O tratado de 1842 não fez senão confirmar n'um pacto internacional o que 
era lei em Portugal. 

. «Desde este periodo, o trafico clandestino tem ido successi vãmente acabando 
nas possessões portuguezas. Abolid^ a escravatura, téem hoje desapparecido os úl- 
timos vestígios d'ella. 

«Podemos dizer com ufania, que em terra portugueza não ha senão homens 
livres. 

«E não homens livres constituindo uma casta desconsiderada, como em outras 
partes succede, mas homens livres que são cidadãos como nós. 

«E é velha esta maneira de pensar entre nós. Basta lembrar as palavras do al- 
vará de 1773, que ha pouco citei. 

«O que dizia então o ms^rquez de Pombal, é a nossa doutrina á(i hoje. Perante 
a lei os cidadãos portuguezes são iguacs, qualquer que seja a sua origem, quer se- 
jam filhos de antigos escravos, quer sejam filhos de homens livres. 

«Todos são cidadãos, todos téem iguaes direitos perantt; a lei fundamental do 
estado. 



164 

Podem os escriptores inglezes recordar os serviços por elles prestados 
á causa da liberdade, maravilhoso astro que illumina toda a família hu- 
mana; mas na própria Inglaterra, onde se levantou uma voz animada por 
um coração magnânimo, condemnando a caça do homem pelo homem, 
appareceu um philosopho naturalista, que não duvidou marcar-nos uma 
vida como a dos animaes, asseverando que as espécies vegelaes e animaes 
descendem todas por via de transformações successivas de três ou quatro 
typos primitivos ou talvez de um único typo, 

D'esle modo nivelam-se os differentes seres creados, apaga-se toda 
a idéa da religião e destroe-se todo o sentimento moral I E se por este lado é 
condemnavel similhanle doutrina, não o é menos por dividir a familia hu- 
mana, dando-se aos pretos uma origem diversa da dos brancos, admittin- 
do-se a creação espontânea e coUocando-se os homens a par dos animaes. 

As idéas de Wilberforce, em presença dos prihcipios de Darwin, seriam 
egoistas, poisque se todos somos animaes, não devemos querer para nós 
o que negámos aos outros. Se a origem é a mesma para todos os entes do 
universo, se os homens da actualidade tiveram por antepassados alguns 
macacos, ou se são formados como a agua, originados como stalactites, ou 
creados como as arvores, d'onde vem a idéa do bello, a idéa do inQnito e o 
desejo de explorar a terra, examinar o ar e adquirir nome glorioso!?. . . 

As forças physicas não dão uns productos mais nobres do que os ou- 
tros, e se á creação dos seres do universo presidiu a mesma força incon- 
sciente, como se explica a consciência que domina a humanidade?!... 
O que significa entãD o amor da pátria e o desejo de engrandecimento mo- 
ral?. . . E com que direito se proclama a superioridade de uns seres, obri- 
gando-se outros á escravidão ou matando-os para nos servirem de ali- 
mento?... 

Perante os princípios de Darwin, os pretos, os brancos, os cobreados 
merecem a liberdade tanto como os bois, os elephantes, os cavallos e ou- 
tros animaes que nós obrigámos ao trabalho forçado. 

O que desde já devemos aflirmar é que estas idéas não podem ser ad- 
mittidas; em theoria expõe-se muitas vezes o que na pratica se rejeita. 

«Pôde, porventura, ser justamenle accusada de praticar, ou mesmo de proteger 
a escravatura, uma nação que pensa, sente e legisla por esta forma? 

• Satisfazendo aos desejos da narào, está o governo resolvido a reprimir ener^ 
gicamente lodos os actos que possam de perlo ou de longe oííender a lei que deu 
inteira e absoluta liberdade a lodos os súbditos porluguczes no território de Africa; 
a não consentir que nenhum homem possa ser sujeito a servidão dentro dos limi- 
tes do nosso território. 

«Por actos successivos, foram o governo e o parlamento apressando o momento 
de acabar de vez com a servidão nas nossas colónias^ não Ibe importando interes- 
ses oíTendidos, nem mal cabidas queixas.» 



Este assumpto momeotoso será discutido, como temos dito, mais 
adiante. Recordâmol-o aqui por incidente, porque nos causa assombro o 
que se passa na famosa Inglaterra com os seus colonos ecom os seus sá- 
bios e philosophos. 

É uma nação excepcional e que nao se comprehende á primeira vista. 
Merece certamente ser estudada sob differentes pontos, mas nâo o pode- 
mos fazer n'este livro, onde apenas pretendemos mostrar a importância 
das nossas colónias em relação ás das outras nações, sendo este o objecto 
principal do presente capitulo. 

Limitámos, pois, as nossas considerações ao que se acha exposto, e 
passámos a dar uma breve noticia das possessões inglezas, a fim de as po- 
dermos comparar com as de outros paizes europeus. 

As colónias inglezas nas cinco partes do mundo têem 20.695:079 ki- 
lometros quadrados de superScie assim dividida : 

America 9.507:466 

Oceania 7.993:757 

Ásia 2.418:744 

Africa 674:737 

Europa 375 

Não é fácil, decerto, fazer a descripção de tão variadas quonto exten- 
sas possessões, mas tomaremos um ou outro ponto para servir de termo 
de comparação, e mostrarmos a importância de cada região colonial. 

Deveríamos começar pelo território que a Inglaterra possue na Afri- 
ca, por ser aquelle que mais nos importa conhecer; mas seguiremos a or- 
dem por que as deixámos inscríptas, dando comtudo mais algum desen- 
volvimento ás colónias africanas. 

As possessões inglezas da Aríierica téem uma disposição especial que 
é indispensável toipar em consideração, quando se trata de as descrever. 

Estendem-se do parallelo tirado 3^ 40' até alem do 52°. Portão larga 
zona encontram-se muitas ilhas, largos territórios continentaes e climas 
variadíssimos. 

Os maiores territórios são os do Canadá, Guyana, Terra Nova, Hon- 
dura', das ilhas de Bahama e Jamaica, sendo a Guyana o único paiz equa- 
torial propriamente dito. 

A possessão do Canadá è completamente extra tropical, e nenhuma 
das nossas colónias se acha n'estas condições. Não é portanto um paiz 
que mais nos importa conhecer. E preciso dizer também que esta im- 
mensa região, maior que todo o império do Brazil, está collocada mais 
ao N. do que Portugal, Qcando quasi dentro da mesma zona da França. 



166 

Tem por limites ao N. o oceano glacial árctico, ao S. os Estados Uni- 
dos, a E. fica-lhe o oceano Atlântico, e a O. o mar Paciflco. 

O domínio ou possessão do Canadá tem 9.099:141 kilometros qua- 
drados, sendo a sua população assim classificada : 

Inglezes 2.102:729 

Francezes 1.082:940 

Allemães 202:991 

Neerlandezes 29:662 

Gaulezes 7:773 

Suissos. 2:962 

Scandinavos 1:623 

Italianos 1:035 

Negros , 21:496 

índios 23:035 

Diversas nacionalidades 1:954 

De origem desconhecida 7:561 

Somma 3.485:761 

Estas estatísticas servem para dar uma idéa approximada da popula- 
ção de tal paiz. Referem-se apenas ao movimento gefal dos habitantes, e 
não têem o desenvolvimento que apresentam as da ilha de S. Thomé, pois 
tf estas não só tratamos do mo\imento geral, mas também dos nascimen- 
tos, óbitos, população ambulante, etc. 

Pelo que diz respeito aos habitantes da possessão do Canadá, cum- 
pre-nos notar que os negros entram na proporção de 1 por 162 habitan- 
tes, facto que importa registar, attenta a latitude em que está esta região. 

A seguinte estatística mostra a relação em que se acham os habitan- 
tes, segundo as respectivas nacionalidades. 

/para os italianos 3:367 1 1 

para os scandinavos 2:147 ; 1 

para diversas nacionalidades.. . 1:783 1 1 

para os suissos 1:176 ; 1 

para os de origem desconhecida 461 : 1 

Ipara os gaulezes 448 ; 1 

Relação da população geral Lg^^ ^^ ^^^^^^ ^g2 . , 

para os Índios 151 ;1 

para os neerlandezes 11711 

para os allemães 17 1 1 

para os francezes 3,2 ; 1 

para os inglezes 1,6 .* 1 






1G7 

É preciso, porém, allender a que, quando a Inglaterra se apossou do 
Canadá, já ali havia um núcleo de população, representado por 60:000 
habitantes, que se entregavam a diversas culturas. 

A França, em 1608, entrou n'este vasto território, e deu-lhe o nome 
de Nova França; lançou então os fundamentos de Quebec, capital da coló- 
nia, que conservou por espaço de cento e cincoenla annos. Depois da pro- 
longada guerra de 1 763, passou para a Inglaterra, em poder da qual existe. 

Nâo nos deve portanto admirar o prodigioso augmento da população 
do Canadá. As guerras que ali houve por tantos annos promoveram gran- 
de immigração. Os soldados, alem d'isso, habituaram-se ao cUma, e de- 
pois da guerra pediam terrenos e n3o se retiravam da colónia. 

O território do Canadá, finalmente, está para a Inglaterra como o ter- 
ritório da Rússia asiática para o império da Rússia. S3o regiões de climas 
quasi idênticos aos das metrópoles, e devem comparar-se entre si e nâo 
com as zonas tropico-equaloriaes a que principalmente nos referimos. 

O dominio da Inglaterra na Ásia occupa uma larga extensão e é mais 
limitado que o da America; abrange localidades dentro da zona equato- 
rial propriamente dita, ficando as mais importantes na região tropical. 

É notável esta distriburção das colónias collocadas na mesma parte do 
globo, poisque os navios inglezes se podem demorar sob uma zona equa- 
torial ou tropical á vontade. É immenso o movimento commercial e são 
moitas as cidades marítimas e não menos as continentaes, achando-se to- 
das muito povoadas e ostentando riquezas deslumbrantes. 

O Indo e o Ganges correm em território inglez, e da ilha de Ceylão ás 
nascentes de um e de Singapura ás do outro, ha climas variados, cidades 
notáveis 6 vastos territórios, formando tudo um grandissimo império, notá- 
vel pela sua riqueza material e sob o ponto de vista ethnographico. Estão em 
presença um do outro dois ramos da família humana, a raça anglo-saxonia 
e a raça asiática, junto ás quaes se apresentam outras não menos notáveis. 

Em 1871-1872 havia na índia a seguinte estupenda população : 

Hindus 149.130:185 

Mahometanos 40.227:552 

Diversos asiáticos 540:989 

Origem mixta 108:402 

Inglezes 75:734 

Diversos europeus 8:000 

Europeus não classificados 30:453 

Americanos, africanos, etc 6:961 

De origem desconhecida 434:772 

Total 190.563:048 



168 

A relação d'estes habitantes entre si é a seguinte : * 

Hindus i,2:i 

Mahometanos 4 : 1 

Diversos asiáticos 352 ; 1 

Origem mixta 1:757 ; 1 

Inglezes 2:516 : 1 

Diversos europeus 23:820 : 1 

Europeus não classificados 6:257 : 1 

Americanos, africanos, etc 27:375 .' i 

De origem desconhecida 438 : 1 

Não tentámos apreciar as ondulações d'esta immensa poputação, cuja 
evolução rápida tem sido vertiginosa. 

Eis-aqui os resultados mais geralmente admittidos : 



Annos 


Habitantes 


AugmeDto 


1850 


123.931:369 
143.271:210 
151.146:516 


19.339:841 
7.875:306 


1861 


1870 





I 



o recenseamento de 1871-1872 eleva o numero de habitantes, como 
vimos, a 190.563:048, o que mostra a diíBculdade de se proceder a mi- 
nuciosas investigações para se apurar a verdade sobre a origem de tão 
considerável população, e conhecer o seu movimento em tão extenso paiz. 

O que se vê, todavia, é que a população da índia augmentà de um 
modo assombroso. 

As cidades mais importantes são Calcuttá, Bombaim, Madrasta, Lu- 
cknow, Benares, Patna, Delhi, Agra, Allahadah, Bangalore, etc. 

Não podemos, todavia, fallar d'este novo império britannico, sem re- 
lembrar que d'elle nos pertenceu uma grande parte. Malaca, Ceylão, Bom- 
baim e outros logares, onde domina hoje a soberba Albion, fizeram parte 
das nossas possessões da índia. 

Se a Hollanda formou o seu império do Oriente sobre possessões que 
foram portuguezas, a Inglaterra entrou na índia pelas terras que também 
eram nossas. 

Para se avaliar a enorme perda que soíTremos, basta dizer que a su- 
perflcie dos territórios que deixámos em poder da Inglaterra, é 4,3 vezes 
maior que Portugal ! 



169 

Na Oceania possue a Inglaterra a maior ilha do mundo. Pretendem al- 
guns geographos que se lhe dé o nome de continente, mas nao ha rasão 
que justifique tal denominação. 

É, porém, certo que, se for exacta a superfície que lhe attribuera al- 
guns escriplores*, esta ilha approxima-se, em grandeza, muito mais dos 
continentes que das ilhas de primeira ordem. É mister, todavia, referir 
outra circumstancia que nos leva a classificar a Austrália entre as ilhas e 
nâo entre os continentes. 

Como é sabido, a Europa está unida á Ásia, que actualmente se acha 
separada da Africa por um simples canal. 

A America do Norte alem, de ser um grande território une-se á Ame- 
rica do Sul pelo estreito de Panamá, e nunca deixaria de ser contada como 
um continente. O que é certo é que aindaque se admitta como verdadei- 
ra a superScie maior que se tem attribuido á Austrália, é ella comtudo 
inferior á do mais pequeno continente, como é fácil observar: 

Kilom. quad. 

Asia 45.685:920 

America 38.000:000 

Africa 29.700:000 

Europa 9.600:000 

Austrália 7.627:827 

A superfície da Europa excede, pois, a de Austrália em (.972:173 ki- 
lometros quadrados. 

A comparação com as differentes ilhas de primeira ordem pôde ava- 
liar-se também do modo seguinte : 



Designação 


Superficie 
Kilomelros 


Popnlação 


Austrália 


7.627:827 
735:000 
675:000 
470:000 
275:200 
190:000 
176:752 
118:220 


1.838:328 

3.500:00(» 

400:000 

600:000 

345:000. 

3.000:000 

13.380:268 


Mddâirascâr 


Borneo 


Sumatra • 


Novâ Zelândia 


Celebes 


Nova Guiné 


Java e Madura 





1 No diccionarío de Larousse calcala-se a superfície em 4.827:000 kilometros 
quadrados. Referimos o calculo admittido no annuario estatistico de Gotba. 



170 

 superScie da Austrália excede, pois, a ilha que lhe é immedia- 
tamente inferior em 6.892:287 kilometros quadrados. 

Considere-se, porém, como um continente ou como uma ilha, será 
sempre um território digno de se estudar. Pertence actualmente á Ingla- 
terra, e a sua colonisação é uma das maiores maravilhas do século xix. 

A Austrália é um paiz puramente tropical, isto é, fica debaixo do tró- 
pico austral, de modo que n'esta tão extensa região ha o clima tropical 
quente, o tropical propriamente dito e o clima tropical temperado. Alem 
doestes climas geraes, ha outros segundo as diversas altitudes, a maior ou 
menor proximidade da costa, etc. 

Divide-se esta ímmensa ilha em differentes districtos; a saber: Nova 
Galles do Sul, Victoria, Austrália meridional, Queensland, Austrália Occi- 
dental e território do norte. 

A população acha-se classificada do modo seguinte : 



Nova Galles do Sul 

Victoria 

Aastralia do Sul. 

Austrália occidental •, 

Queensland , 



Sexo 
masculino 


Sexo 
femioino 


275:551 


228:430 


400:252 


329:402 


95:408 


90:218 


15:476 


9:610 


65:629 


45:938 


856:316 


703:598 



503:981 
729:654 
185:626 
25:086 
115:567 



1.559:914 



O augmento de população pôde calcular-se, termo médio, em 100:000 
pessoas por anno. Não se encontra de certo outro exemplo no mundo, o 
que torna bem evidente a possibilidade da aclimação sob os trópicos; e de 
passagem devemos observar que a nossa província de Moçambique fica 
pela mesma latitude da Austrália, estando entre uma e outra região o 
mar da índia. 

A colonisação da Austrália, finalmente, divide-se em três períodos 
tanto mais limitados quanto mais importantes. 

O primeiro estende-se desde 1788 até 1830; abrange por conseguinte 
quarenta e dois annos. 

N'este período foi diminuta a população livre. Fazia-se para a Aus- 
trália a deportação, podendo ella ser considerada como uma colónia peni- 
tenciaria ou terra de degredados. 

O segundo período vae desde 1830 até 1851, e torna-se notável pela 
venda das terras e pela emigração subsidiada. 



171 

O terceiro começa em 1851 e chega até ao presente. Distingue-se pela 
descoberta das mioas de oiro e pela emigração espontânea. 

Poucas nações poderão altingir o grau de grandeza colonial a que che- 
gou a portentosa Albion. 

O domínio na immensa região do Canadá na America do Norte, no 
Indostão e na maior ilha conhecida, parece que não satisfaz a ambição do 
maior colosso colonial. Não se contenta com os vastos territórios do novo 
e novíssimo mundo, e quer ajuntar mais alguma cousa ao que já possua 
em Africa. 

As colónias inglezas, cuja superfície é duas vezes maior que a da Eu- 
ropa, augmentam-se ainda com uma possessão africana, isto é, com o ter- 
ritório do Cabo de Boa Esperança. 

Contam-se maravilhas da sua colonisação, dizendo-se que as terras da 
Africa austral não cedem em posição e bondade do clima ás melhores da 
Europa. Diz-se que a colónia ingleza do Cabo é uma das terras mais favo- 
ráveis do globo. 

O território do Cabo de Boa Esperança passou dos portuguezes para 
os hollandezes em 1600, que a seu turno o perderam. 

Os portuguezes distrahidos com as descobertas da índia e America es- 
queceram-se d'aqueHa importante região. Moslraram-na ao mundo, per- 
correram-na, mas não lhe deram a devida importância. 

Os hollandezes dominaram ali por duzentos e quatorze annos, e ha- 
viam promovido uma larga emigração, de modo que os inglezes, ao to- 
mar conta da colónia, encontraram já crescido numero de habitantes. 

Á colónia do Cabo prende-se, pois, a historia do movimento sempre 
expansivo dos colonos hollandezes, conhecidos pelo nome de Boers, de- 
vendo considerar-se como os primeiros colonos do século xix. Estes po- 
vos, diz um escriptor francez, que conservam em toda a sua força a origi- 
nalidade nacional, não só fundaram alguns estados independentes, mas 
téem sustentado uma corrente permanente de emigração da Hollanda 
para a região que occupam. 

Os inglezes, pela sua parte, trataram também de promover para o 
território conquistado a aflluencia de emigração, que a principio não foi 
coroada de bom resultado. 

Não devemos terminar estas breves considerações sem dizer mais al- 
gumas palavras, não só a respeito da colónia ingleza do Cabo, á qual per- 
tence o território do Porto Natal, mas também acerca do estado livre de 
Orange e da republica dos Boers ou do Transvaal, nome por que é co- 
nhecida. Deveríamos talvez occupar-nos d'esle ultimo estado ao indi- 
car os limites meridionaes da nossa província de Moçambique; mas dá-se 
uma circumstancia importante que é preciso não esquecer. Os habitantes 



\ 



da republica do Transvaal saíram da colónia do Cabo de Boa Esperança e 
approximaram-se de uma região tropical, havendo passado da Europa para 
o extremo da Africa, onde se estabeleceram, entregando-se a diflferentes 
culturas e á creaçâo de gado lanigero. Estas condições especiaes de vida e 
de clima facilitaram-lhes nova mudança de território, e justificam o bom 
resultado que elles têem alcançado. 

A colonisaçao do território do Cabo, como dissemos, foi tentada por 
muitas vezes com resultado desfavorável. 

Não servia de estimulo o transporte gratuito, nuo só de militares mas 
das suas mulheres e filhos. ía mais longe a liberalidade. Davam-se-lhes 
alimentos á custa do estado ou o equivalente para o consumo de um anno. 
Admilliam-se como passageiras do estado as mulheres que eram pedidas 
em casamento. Se eram vantajosas estas condições, acresciam outras não 
menos importantes, referentes aos terrenos para a construcção de casa e 
para jardim, isenção dos impostos por sete annos, etc. 

Houve todavia completa deserção no fim de algum tempo ; mas não foi 
isso motivo bastante para se desistir do emprehendimento que se dese- 
java realisar. 

Os Boers ou agricultores primitivos julgaram-se também lesados e 
afastaram-se do território inglez, estabelecendo-se na região denominada 
Porto Natal, e lançando em seguida os fundamentos de outras nações im- 
portantes, de que daremos também uma breve noticia. 

Porto Natal. — A colónia denominada Natal fica na costa oriental da 
Africa, mas para o S. de Lourenço Marques. 

Conserva ainda o nome que lhe deram no dia em que foi descoberta 
pelos nossos incansáveis nautas. 

Pertence hoje á Inglaterra, tendo na frente o oceano indico, do N. e 
S. a Cafraria e para o interior limita com a republica de Orange, de que 
se acha separada pela serra Drakensberg. 

Calcula-se a população especifica d'esta colónia em 6,2 habitantes por 
kilometro quadrado. É um paiz tropical temperado. Contam-se ali cerca 
de i 7:000 europeus e mais de 180:000 africanos. 

O território do Porto Natal foi colonisado pelos Boers hollandezes, que 
para ali foram quando abandonaram a colónia do Cabo, pouco depois 
dos inglezes se apossarem d'ella. Levaram suas riquezas, que consistiam 
principalmente em gados, e escolheram alguns valles áquem d'aquelle 
território. 

Em 4838 vários dos chefes, acompanhados de umas poucas de deze- 
nas de cultivadores, passaram a serra que lhe fica a O. a fim de se appro- 
ximarem do Porto Natal. Acolhidos pelos indígenas com benevolência, 



173 

foram pouco tempo depois muitos d'elles mortos à traição. Por fim o ata- 
que era geral e conlavam-se numerosas victimas. Mas aquella raça apu- 
rada DOS trabalhos do campo não desanimou, e sustentou a lucta com te- 
nacidade, ficando, em 1839, senhora do terreno. 

Não durou, porém, a sua satisfação por muitos mezes. Os inglezes não 
reconheceram o novo estado. Os Boers viram-se, pois, obrigados a sus- 
tentar nova lucta, e tiveram de ceder ao numero. 

Em 1845 foi declarada ingleza a colónia do Porto Natal, e os cultiva- 
dores hollandezes deixaram aquelle território, e lançaram os fundamentos 
da republica de Orange e do Transvaal. 

Estado li? re ou republica do rio Orange. — É um estado de data muito re- 
cente, creado pelos esforços dos colonos mais arrojados e emprehendedo- 
res do século actual. 

Como vimos, depois que a Inglaterra se apoderou do território do 
Porto Natal, os Boers abandonaram aquella região e foram eslabelecer-se 
junto ao rio Orange, que deu o nome á povoação. Fica-lhe a 0. uma po- 
voação indigena denominada de Bassulos, e ao N. a republica do Trans- 
vaal, correndo n'este sitio o rio Vaal que deu também o nome á segunda 
povoação. 

Para o NE. fica o tçrrilorio do Porto Natal, separado pela serra deno- 
minada Drakensberg *, a que já nos temos referido. 

O estado livre de Orange tornou-se independente a 23 de fevereiro 
de 1854, julgando-se a Inglaterra, até essa epocha, com direito á sobera- 
nia da maior parte do território occupado pelos Boers. 

A superficie doeste novo paiz é avaliada por uns em H 0:000 kilome- 
tros quadrados e por outros em 14:260. A dilferença é realmente enorme, 
mas esta desharmonia encontra-se muitas vezes a respeito de taes cálculos. 

A população também tem sido calculada de differente modo, e, a 
dar-se credito a algumas estalisticas, a raça branca é representada por 
45:000 almas e a indigena por 200:000. Ha, porém, outros escriptores que 
calculam a população em 15:000 brancos e 10:000 homens de côr, não 
elevando o numero de habitantes, incluindo osindigenas, amaisde50:000. 

N'esta incerteza de dados estatísticos não formulámos as conclusões 
que deveríamos fazer acerca da aclimação e população especifica. 

^ Pertence á cordilheira que se levanta próximo á cosia oriental da Africa, 
dobrado o Cabo de Boa Esperança, e segue quasi parallela á costa, tomando diffe- 
rentes nomes segundo os paizes que atravessa. * ' 

Entre a colónia do Porto Natal e a republica de Orange denomina-se, segundo 
alguns escriptores, Drakensbergs, e entre o dístricto de Lourenço Marques e a re- 
publica de Transvaal, recebe o nome de Libombo. 



174 

Para se tratar doestes assumptos com vantagem é indispensável haver 
estatísticas minuciosas e feitas com todo o escrúpulo. 

O commercio d'este paiz consiste principalmente em lã, e exportam-se 
também pennas de abestruz e couros. E como n3o tem porto de mar, to- 
dos os seus productos são levados, não só ás colónias do Cabo e do Porto 
Natal, mas também ao Transvaal ou republica do S. da África. 

Republica do Transvaal. — Esta republica estende-se de 22° 30' até 28' de 
latitude S., entre 24^ e 29° 30' de longitude do meridiano de Paris. Os 
seus limites são, do lado oriental, os districtos de liOurenço Marques e 
Inhambane e differentes tribus dos cafres chamados Zulus, ficando de 
permeio a elevada serra de Lobombo*. 

Ao S. está o rio denominado Vaal-River, que estabelece a divisão en- 
tre esta republica e a de Orange. 

que, porém, é notável é não se referirem no diccionario de Larous- 
se, publicado em 1876, os limites da republica do Transvaal e os do nosso 
dislricto de Lourenço Marques^. Não fanamos este reparo se alem d'isso 
não estivessem ali escriptas as seguintes palavras: 

« Le Limpasso ^, avec ses diverses affluents, forme les limites du N. et 
de VO, et établit une ligne de démarcation avec les tribus puissantes des 
chefs Mosilikatze-Sechommo, Sicheli et Mahura. ^u surplus^ dans les di- 
rections du N. et de VO., le gouvernement du Transvaal ne reconnait 
pas de limites proprement dites. i^ 

Admira-nos que se não procurassem informações para restabelecer os 
verdadeiros limites da republica do Transvaal com o nosso districto de 
Lourenço Marques, que, como diz o visconde de Paiva Manso, é limitado 
ao S. e 0. por uma linha que, tirada de 26° 30' de latitude S., vae em re- 
cta para 0. para a^ montanhas do Libombo, segue pelo cume doestas até 
ao passo do rio Comati^ d'ali para o NNE. ao monte Pokioenieskop ao N. 
do rio Oliphant, e d'elle para NNO. até junto á serra do Chicundo, onde 
conflue o rio Matjatsies com o Umbovo, e d*ahi em recta até á juncçâo 
dos rios Paforis e Limpopo. 

Vé-se, pois, que o nosso districto de Lourenço Marques confina do 

1 Os limites que se designam no diccionario de Larousse não são verdadeiros. 
A colónia do Natal não fica ao oriente da republica de Transvaal, como ali se diz. 

2 Procurámos respeitar tanto quanto é possivel a orthographia dos nomes geo- 
graphicos, mas os francezes, sem rasão plausível, escrevem Lorenzo Marquez em vez 
de Lourenço Marques, Mozambique em logar de Moçambique I 

3 É certamente o rio Limpopo, havendo talvez um lapso typographico no modo 
de escrever tal palavra. 

* Os indiginas chamam Incomati ao rio de que se trata. 



175 

lado Occidental com a republica dos Boers, a qual, ao contrario do que se 
assevera no díccionario de Larousse, nao tem uma superflcie illimitada 
da parle do N. À este rumo, da margem boreal do rio Limpopo para 
cima, fica uma grande povoação indigena, cujo chefe tem o nome de Me- 
siricasse*. Forma uma republica, que delimita com o nosso território, 
mas cujas fronteiras nao estão ainda definidas, devendo comtudo mar- 
car-se por uma linha recta, que, partindo da confluência do rio Paforis 
com o Limpopo, vá terminar no Zumbo, em que temos antigo dominio e 
posse. 

Não desceríamos a estas minuciosidades se não reconhecêssemos que 
se acha dado um grande impulso á colonisação de Àfríca, e que é indis- 
pensável fazermos reconhecer os direitos que temos aos territórios que 
desde muito tempo occupâmos, e mostrar que lhes podemos levar o pro- 
gresso material e moral, como qualquer das outras nações da Europa. 

As nossas relações com os Boers têem-se estreitado nos últimos tem- 
pos de um modo muito vantajoso para a civilisação e progresso da Africa 
austral. 

Cumpre-nos lembrar o tratado de commercio entre Portugal e a 
republica da Africa meridional. Indicam-se ali as bases para se fazer um ca- 
minho de ferro, que parta do porto de Lourenço Marques, ou de um ponto 
da margem direita do rio do mesmo nome, onde chegue a navegação per- 
manente, até á fronteira da republica da Africa meridional, e estabele- 
cem-se as relações commerciaes entre os dois povos. 

Não desejámos prolongar estas considerações, que de certo se torna- 
riam demasiado extensas, se quizessemos referir n*este logar os aconte- 
cimentos que patenteiam o interesse que temos pelo progresso material e 
moral das nossas terras de Africa. Ha, porém, um documento que me- 
rece ser divulgado, e que, posto se refira á possessão portugueza de Lou- 
renço Marques, podendo publicar-se quando nos occupassemos doesta re- 
gião, vem comtudo elucidar um ponto importante^, e mostrar o modo 



^ Não sabemos se é esta a verdadeira orthographia de tal palavra. 

^ Qoando não houvesse outro motivo para justificar a reproducção de tão no- 
tável documento, bastava a necessidade de termos sempre bem presentes os consi- 
derandos que dizem respeito ao contrato que o capitão Owen celebrou com alguns 
indígenas. Ha ali um exemplo que pôde repetir-se e uma lição que devemos apro- 
veitar. 

Mas não é somente por este lado que nos interessa o exame da sentença arbi- 
tral do presidente da republica franceza. As memorias que lhe serviram de base 
são um monumento para a historia da nossa proviucia de Moçambique e uma glo- 
ria para a pátria. Devemos relembral-as, e recordar com deferência o nome do seu 
auctor, o fallecido dr. Levy Maria Jordão, visconde de Paiva Manso. 



176 

por que uo século xix se resolvem certas duvidas sobre a posse de al- 
guns territórios. 

«Nós Marie-Edine Patrício Mauricio de Mac-Mahon, duque de Ma- 
genta, marechal de França, presidente da republica franceza. 

«Estatuindo, em virtude dos poderes que foram conferidos ao presiden- 
te da republica franceza, nos termos do protocollo assignado em Lisboa a 
15 de setembro de 1872, pelo qual o governo de sua magestade a rainha 
de Gran-Bretanha e Irianda e o de sua magestade o rei de Portugal concor- 
daram em submetter ao presidente da republica franceza, a flm de ser 
por elle decidido definitivamente e sem appellação, o litigio que trazem 
pendente entre si desde o anno de 1823, a respeito da posse dos territó- 
rios de Tembe (Catembe) e de Maputo, e das ilhas de Inyack (Unhaca) e 
dos Elepbantes, situadas na bahia de Delagoa, ou Lourenço Marques, na 
costa oriental dá Africa ; 

«Vistas as memorias entregues ao arbitro pelos representantes das duas 
partes a 15 de setembro de 1873, e as contra-memorias igualmente por 
elles entregues em 14 e 15 de setembro de 1874; 

«Vistas as notas de s. ex.* o sr. embaixador de Inglaterra e do sr. mi- 
nistro de Portugal em Paris com data de 8 de fevereiro de 1875; 

«Havendo-nos a commissão, creada a 10 de março de 1873 com o fim 
de estudar os titulos e documentos respectivamente apresentados, dado 
parte do resultado do seu exame; 

«Âttendendo que o litigio, tal como foi determinado pelas memorias 
apresentadas ao arbitro, e em ultimo logar, pelas notas citadas dos repre- 
sentantes das duas partes em Paris, versa sobre o direito aos seguintes 
territórios; a saber: 

«1.® O território de Tembe (Catembe), limitado ao N. pelo rio do 
Espirito Santo, ou English River, e pelo rio de Lourenço Marques, ou 
Dundas, a 0. pelos montes Lebombo, ao S. e a E. pelo rio Maputo, 
e desde a foz doeste rio até á do rio Espirito Santo pela praia da bahia de 
Delagoa ou Lourenço Marques; 

«2.® O território de Maputo, em que se acham comprehendidas a pe- 
nínsula e a ilha de Inyack (Unhaca), assim como a ilha dos Elepbantes, e 
que é limitado ao N. pelas margens da bahia, a 0. pelo rio Maputo, desde 
a sua foz até ao parallelo de 26° 3(y de latitude austral, ao S. por este 
mesmo parallelo e a E. pelo mar; 

ff Âttendendo a que a bahia de Delagoa, ou de Lourenço Marques, foi 
descoberta no século xvi pelos navegadores portuguezes, e que no xvu e 
XVIII séculos Portugal occupou diversos pontos na costa do N. d'esta 
bahia, e a ilha de Inyack (Unhaca), da qual a pequena ilha dos Elepbantes 
é uma dependência; 



177 

f AtieDdendo a que, desde a descoberta, Portugal tem sempre reivindi- 
cado os direitos de soberania sobre a totalidade da bahia e dos territórios 
marginaes, assim como o direito exclusivo de ali commerciar; attendendo 
alem d'isso a que apoiou á mao armada essa reivindicação contra os hol- 
landezes, pelo anno de 1 732, e contra os austríacos em 1 781 ; 

€ Attendendo a que os actos com que Portugal apoiou as suas preten- 
sões não provocaram nenhuma reclamação por parle do governo das Pro- 
víncias Unidas; que em 1782 essas pretensões foram tacitamente acceites 
pela Áustria, depois de explicações diplomáticas trocadas entre esta po- 
tencia e Portugal ; 

cAttendendo a que em 1817 a própria Inglaterra não contestou o di- 
reito de Portugal, quando celebrou com o governo de sua magestade fi- 
delíssima a convenção de 28 de julho para a repressão do trafico da es- 
cravatura; e a que de facto o artigo 2.® da mesma convenção deve ser in- 
terpretado DO sentido que designa como fazendo parte das possessões 
da coroa de Portugal a totalidade da bahia, á qual se applica indiíTeren- 
temeute uma ou outra das denominações de Delagoa ou de Lourenço 
Marques ; 

cAttendendo a que em 1822 o governo de sua magestade britannica 
quando encarregou o capitão Owen de fazer um rcn^onhecimento hydro- 
graphico da bahia de Delagoa e dos rios que ali vão desembocar, o re- 
commendou aos bons officios do governo portuguez ; 

cAttendendo a que, se o enfraquecimento accidental da auctoridade 
portugneza n'estas paragens, pôde, em 1823, induzir em erro o capitão 
Owen, e fazel-o considerar, em boa fé, como realmente independentes da 
coroa de Portugal os chefes indígenas dos territórios que hoje são con- 
testados, nem por isso são menos contrários aos direitos de Portugal os 
actos por elle celebrados com esses chefes ; 

cAttendendo a que, quasí immediatamente depois da partida dos na- 
vios inglezes, os chefes indígenas do Tembe (Catembe) e de Maputo reco- 
nheceram de novo a sua dependência a respeito das aucloridades portu- 
guezas, altestando elles mesmos por esta forma que não tinham a capa- 
cidade de contratar; 

cAttendendo a que as convenções assignadas pelo capitão Owen e os 
chefes indígenas de Tembe (Catembe) e de Maputo, ainda quando tivessem 
tido logar entre partes aptas para contratar, ficariam hoje sem efieito : es- 
tipulando o acto relativo a Tembe (Catembe) condições essenciaes que não 
tiveram execução, e os actos que dizem respeito a Maputo rcferindo-se a 
períodos determinados de tempo, que não foram renovados depois da ex- 
piração de taes períodos; por estes motivos, 

c Julgámos e decidimos que as pretensões do governo de sua magestade 



178 

tidetissima aos territórios de Tembe (Catembe) e de Maputo, á península 
de Inyack (Uahaca), e ás ilhas de Unhaca e dos Elephanles se acham pro- 
vadas e estabelecidas. 

«Versailles, 24 de julho de IS1^.= Marechal de Mac-Mahon, duque 
de Magenta ^.1^ 

É este realmente um documento que merece tornar-se bem conhe- 
cido. A sua publicação dispensa-nos de Tazer quaesquer commentarios ; 
mas Taltariamos, apesar d'isso, ao nosso dever, como medico e coíno 
portuguez, se não expozessemos com desassombro o que pensámos a res- 
peito das nossas possessões de Angola e de Moçambique e das suas re- 
lações com os povos limitrophes. Não é assumpto que se trate em pou- 
cas palavras, justo é confessal-o, mas nós encarámol-o apenas sob o ponto 
de vista da colonisação, de que mais especialmente nos occupámos n'este 
trabalho. 

Começámos, todavia, por observar que, estudar um mappa geogra- 
phico da Africa austral, examinar a conflguração e os limites de cada paiz 
ou estado em que elle se subdivide, e attentar com todo o cuidado na 
evolução histórica de cada um dos povos que se acham reunidos em es- 
tados mais ou menos independentes, não é com certeza o mesmo que 
percorrer as terras, observar as nascentes e o curso dos rios, estudar a 
disposição orographica dos terrenos, e finalmente apreciar os usos e cos- 
tumes dos habitantes. 

N'um e u'outro caso, porém, occorrem grandes difliculdades que não 
podem ser resolvidas á primeira vista, necessitando-se realmente de 
muitas locubrações para se darem noticias tão úteis quanto valiosas. Ha, 
todavia, factos que sobrcsáem a todos, e importa muito tel-os em vista 
para se ajuizar com toda a clareza da altura da questão que se procura 
elucidar. 

A carta geographica da Africa austral, ha cerca de cincoenta annos, 
não dava grande trabalho por causa dos limites dos estados que ali exis- 
tiam. Bastou, porém, o apparecimento de um núcleo de europeus n'aquel- 
las paragens para ser necessário reformar o respectivo mappa geographico 
e começar algumas paginas no grande livro da historia das nações. Estes 
e outros exemplos são prova evidente de que o homem è essencialmente 
cosmopolita, podendo occupar zonas mui diversas em um limitado praso 
de tempo. 

Implantou-se flnalmente o gérmen europeu nas terras que se nos de* 
param na região extrema da Africa meridional, junto ao Cabo da Boa 
Esperança, padrão da nossa gloria e testemunha do nosso esquecimento. 

> Diário do governo n.^" 181 do i 3 de agosto de 1875. 



179 

Era propicio o paiz que participava mais de uma temperatura quente do 
que temperada. Â aclimação dos europeus ali tem sido attestada pelo seu 
numero rapidamente augmentado. Deram-se, com effeito, circumstancias 
extraordinárias que fizeram nascer uma corrente colonisadora ascendente, 
que vae abrindo caminho do S. para o N., approximando-se mais e mais 
da zona tropical propriamente dita. 

A ninguém escapará de certo que essa onda europea lançada sobre as 
terras da Africa austral pode crescer, subir e abeirar-se das possessões 
portuguezas. Não aventámos uma hypothese casual. Dizemos o que pensá- 
mos, tendo diante de nós uma carta geographica e estudando com a máxima 
attenção o que se passa nas regiões da Arríca austral. Leva-nos a este 
exame a nossa posição de medico do ultramar. Cumpre-nos, pois, dizer 
o que observámos, e olhar tanto para o futuro como para o presente das 
nossas províncias de Africa. Não devemos attentar com indifferença nos 
povos limitrophes das nossas possessões da Africa austral. Podemos ser 
um dia surprehendidos por qualquer acontecimento extraordinário que 
nos traga tantos desgostos como ruina. Não nos afastámos do nosso pro- 
pósito apresentando estas considerações; pelo contrario, ao procurar ele- 
mentos para o estudo de salubridade e insalubridade relativas dos distri- 
ctos de Lourenço Marques e Mòssamedes, não podemos occultar o que se 
passa em volta d'elles. 

Poderemos nós crear outra corrente colonisadora capaz de contraba- 
lançar a corrente que nos é contraria?. . . 

Temos bases suflicientes para realisar este emprehendimento, e está 
dado já o primeiro passo que consiste na expedição das obras publicas 
a Moçambique, a qual é largo incitamento para se avançar no grande * 
trajecto a percorrer, devendo ser completado com as explorações geogra- 
phicas e commcrcíaes, as missões entre os indigenas, os estudos orogra- 
phicos e hydrographicos, e muito especialmente com o reconhecimento 
das terras mais salubres e das localidades mais férteis. 

Se a corrente colonisadora ascendente a que nos temos referido pôde 
engrossar dia a dia e trasbordar para o interior da Africa, não deve igno- 
rar-se também que de um momento para outro apparccem capitães como 
Owen que, sendo encarregados de trabalhos scientificos, procuram tam- 
bém fazer contratos para a cedência de territórios ou desviar o conii- 
mercio de uns para outros pontos, fomentando-se inimisades, apparc- 
cendo a anarchia, e dando-se origem a desastres cujo alcance não se cal- 
cula, mas são bem fáceis de prever. 

Não nos extasiemos diante da grandeza das nossas colónias nem 
das boas relações que temos com os paizes de algumas d*ellas. É preciso 
trabalhar. Estude-se, pois, o meio de chamar para as terras de Africsl 



i80 

não só larga immigração procedente das nossas ilhas adjacentes e do con« 
linenle, como lambem do Brazil e de outros paizes. Nomeiem-se commis- 
sões para marcarem os limites das nossas províncias africanas, e, necessário 
é dizel-o, imitemos o Brazil que tem empregado todos os meios ao seu 
alcance para construir uma carta physico-geographica do paír, flxando 
com todo o cuidado as fronteiras de tão extenso império. Tratemos tam- 
bém de fazer o mesmo na Africa portugueza, começando quanto antes 
por deQnir as fronteiras entre as diversas povoações indigenas e os dis- 
trictos meridionaes de Moçambique e Angola. Prestemos mais altenção 
para este lado do que para a região opposta. 

Quaes sHo os limites meridionaes das nossas terras da Africa com os 
diversos territórios que lhe ficam ao S.? 

Aonde deve parar essa corrente colonisadora que partiu do Cabo da 
Boa Esperança, occupou os valles que rodeiam a colónia do Porto Natal, 
passou alem do rio Vaal e já conta por limite superior o rio Limpopo? Onde 
nasce este rio?. . . Que distancia haverá entre as nascentes do rio Cunene 
e as dos principaes affluentes do Zambeze? 

Até onde será navegável o rio.Cunene?. . . 

Diz-se que esse rio em um percurso superior a 400 kilometros ad- 
mitte embarcações de maior lote, e de ahi para E., na altura oriental 
do districto de Mossamedes, apenas recebe embarcações pequenas. A sete 
dias de viagem mais para o interior encontra-se o rio Cobango, de que 
faliam alguns viajantes portuguezes, sendo de parecer que este rio segue 
para a nossa costa oriental. Consideram-no eiles como algum ailluente 
do Zambeze, e não falta também quem diga ser aquelte rio o próprio 
Limpopo, ou algum que despeje em qualquer dos grandes lagos que por 
ali se deparam. 

Descemos a estas minuciosidades, porque não desconhecemos o que 
se está passando nas regiões meridionaes da Africa, tanto sob o ponto de 
vista da sua colonisação como da immigração. É verdade que nos pertence 
o extremo meridional da Africa tropico-equatorial, mas é preciso dizerse 
que veremos essa região avassallada se não acompanharmos o movimento 
colonisador quese acha iniciado, e que nas terras do S. da Africa tem dei- 
xado rasto fecundo, como o attestam as estradas já abertas, os caminhos 
dê ferro em exploração e tantos centenares de famílias em movimento. 

Cumpre-nos, pois, patentear a necessidade de olhar para o que se 
passa ao S. das nossas possessões africanas, e por bem pagos nos daremos 
d'este trabalho se despertarmos alguma attenção entre os que se interes- 
sam pela causa da Africa. O que, porém, é certo, é que não deixaremos 
de dizer a verdade alto e tão alto que possamos ser ouvidos em todos os 
ângulos de Portugal. Como medico, tratámos de estudar a salubridade e 



insalubridade relativas das nossas possessões, mostrando as condições em 
que ellas se acham e as vantagens que podem aurerir-se da sua colonisa- 
ç3o realisada de raiz e a preceito; mas seria incompleto este trabalho se 
nao referíssemos todas as circumstancias que podem perturbar a nossa 
colonisação ou tolher a emigração que tentámos promover para a nossa 
regiSo tropico-equatorial ao S. do equador. Não possuimos ali somente 
as zonas marítimas ao oriente e occidente. Pertence-nos de facto e de di- 
reito todo o território central. 

Percorremol-o já por muitas vezes, abeirámo-nos dos lagos que por 
ali se deparam, vadiámos os rios, transpozemos os montes, e por toda a 
parte deixámos vestigios da nossa passagem. 

Se devemos memorar a viagem dos homens que foram encarregados 
de levar ao governador da província de Moçambique um ofScio do gover- 
nador de Angola, cumpre-nos muito especialmente notar que -esses via- 
jantes não levaram dezenas de carregadores, para transportar animado- 
ras mercadorias. 

Era natural este facto, poisque estávamos em terrítorio portuguez e 

em terra de amigos ou de alliados o que não acontece aos exploradores 

ínglezes. Tratam por isso de organisar boas facturas commerciaes e cui- 

%dam em obter os melhores meios de transportei «E não são ellas (as 

missões inglezas) antes politicas e commerciaes do que religiosas? Sem 

1 O dr. Livingstone nâo só tratava os pretos como escravos, mas não se des- 
cuidava da venda das mercadorias, prejudicando as que os nossos negociantes ali 
tinham. Houve reclamação a tal respeito, mas não é doeste ponto que nos occupã- 
mos. Esperámos, todavia, mostrar em outra publicação, como os factos se passa- 
ram. Mas para se avaliar, todavia, a sinceridade do arrojado explorador ínglez, tran- 
screvemos o que elle disse a respeito das nossas possessões de Africa oriental : 

«Delagoa Bay tem um pequeno forte chamado Lourenço Marques, porém que 
não é senão muralhas. 

«Em Inhambane possuem uma tira de terra por consentimento dos nativos. 

«Sofala está em minas. 

«De Quelimane para o norte, por espaço de 690 milhas, possuem somente uma 
pequena estacada, protegida por uma lancha armada na boca do rio Augoxe, para 
evitar que os navios estrangeiros vão ali commerciar. 

«Em Moçambique é sua a pequena ilha, onde está o forte, e uma nesga de quasi 
3 milhas ao longo da terra firme, e ali tem algumas hortas e terras agricultadas, 
que são protegidas contra as hostilidades, pagando os moradores um tributo an- 
nual, ao que chamam «ter os pretos ao seu soldo». 

«O estabelecimento tem ido em dec^idencia no commercío c na importância. 
Está guarnecido por algnifô centos de soldados doentes, que estão encerrados na 
fortalexa; e comquanto lhe esteja ao pé uma pequena ilha de coral, não se pôde re- 
putar segura. 

«Na ilha de Oíbo ou* Iboe (Ibo) acham-sc reunidos muitos escravos, mas o com- 
mercío, seja de que natureza for, é pouco. 



182 

duvida, e a tal ponto que a mesma parte religiosa, n^ella admittida como 
bandeira de protecção e refugio, está de todo o ponto subordinada á in« 
tenção politica.» 

Temos, pois, óptimo exemplo nos exploradores inglezes, e bom é que 
elle aproveite e faça com que mudemos de systema, tratando de colonisar as 
terras, protegendo o commercio, para o que é preciso paciência e especial 
cuidado S e animando a agricultura por meio da abertura de estradas, me- 
lhoramentos sanitários das povoações, ensino fabril, industrial e religioso. 

A emigração que se dirige para o Brazil mudará emGm, e irá fertilisar 
as planicies africanas, para onde apenas se pôde entrar pelos valles do rio 
Cunene, pelos alto-planos ao N. da republica dos Boers, pelas terras de 
Lourenço Marques e Quelimane, e, finalmente, pelas vizinhanças do lago 
Niassa, territórios que nos pertencem. 

Diremos, por ultimo, antes de concluir, que para cima dos rios Cunene, 
Cobango e Limpopo não devem passar outros povos colonisadores. E para 
não se realisar tal acontecimento urge seguir o movimento colonisador 
principiado entre as naçOes da Europa, e mostrar que, assim como fomos 
os primeiros povos que descobrimos e explorámos largos territórios da 
Ásia e Oceania, do mesmo modo devemos ir na vanguarda dos povos co- 
lonisadores, não só por sermos mais conhecedores das terras da Africa cen- 
tral, mas também por nos acharmos mais relacionados com os indígenas 
e possuirmos mais vastos territorit)s desde o oriente ao occidente do con- 
tinente africano. 

cEm Pomba-Bay foi construido um pequeno forte; comtudo é muito duvidoso 
Be ainda existe, e falhou inteiramente a tentativa de formar ali um estabelecimento. 

cPagam tributo aos zulus (landins) pelas terras que cultivam na margem ál* 
reíta do Zambeze.» 

Eis-aqui ao que se reduz, segundo o dr. Livingstone, a nossa província de Mo- 
çambique! Encarregou-se de lhe responder D. José de Lacerda, e mosti*ou o que 
era o districto de Lourenço Marques, Inhambane, Sofalla, Quelimane, Sena, Tete^ 
Zumbo, Manica, Moçambique, Cabo Delgado, Colónia ia Pemba, Arimba, Qímsanga 
e Montepes, e depois acrescenta: <E atreve-se o missionário inglez a erguer alto 
brado contra o dominio portuguez, como se fora só desprezado ou meramente no- 
minal. Ao direito do mais forte, para que appella o dr. Livingstone, temos n6d a op- 
pôr a força do nosso direito indisputável, direito que o governo inglez, como é pró- 
prio de um governo esclarecido, que sabe a si nos outros considerar-se, nlo cessou 
nunca em nenhum tempo de nos reconhecer e respeitar». 

1 Não temos muitas vezes a paciência precisa para negociar, e d*isso Já se quei- 
xava João de Barros, como se vô da seguinte passagem : 

<E como os Gentios, e Mouros d'aquelle Oriente em comprar, e vender sao os 
mais delgados, e sotis homens do mundo, e sobre isso tão pacientes, e frios em des- 
cobrir seus appetites, e necessidades, que ninguém lhas sente; sempre n'este acto 
do commercio nos levam debaixo, como nós em os (}a guerra os sopeamos.» 



183 



Coloniaii de Portugal, oUma geral, superficie, populaçEo 

e prinoipaes produoçôes 



DoiignaçSo 



Ásia 

Dln(l853) 

DamÍo(4é53) 

Goa e depeadoQciat 

Macau 

Afrioa 

Ilkãt ii Cabo Verde: 
Ompo de barlaveoto : 

Santo AnUo 

S. Vicento 

Sania Lozb 

S. Nicolau 

Sal 

fioaVisU 

Gmpo de lotaTeoto : 

nha Brava 

Fo«o 

S. Thiaffo 

Maio 

Senêgambia: 

Bitfao 

Vaehea 

Bolama 

Jlkát ie $. TkomiePrineipe: 

(Faieodai agrícolas) 

Terrilorio de 8. Joio Baptiita de 
Ajuda. 

Cosia oceidental de Africa ao S. do 
tfnêior: 

DiitficU) de Loanda (eoloniai 
af ricolas) 

Distrtclot de Benguella (faiendai 
agrícolas) 

DUtrído de Motsamedes (coló- 
nias agrícolas) 

Cotia oriental de A frita (qitasi em 
frente dê Angola) : 

Dístricto de Cabo Delgado ^ 

Dislrieto de Moçambique 

Dístricto de Aogocbo 

Districlo de Quelimane 

Dislrieto do Sooa 

Dístricto de Tela e Zumbo 

Dístricto de Sofalla 

Dístricto de lohambaoe 

Dístricto de Lourenço Marques. . 

Tolal da Africa 

OManla 

Refilo septeotríooal (NC) da ilha 
de Timor 

Total das oolooias 



(Ilíina geral 



Tropical quente (N. 
Tropical quente (N. 
Tropical quente (N. 
Tropical 



Tropical 
Tropical 
Tropical 
Tropical 
Tropical 
Tropical 



quente 
quente 
quente 
quente 
quente 
quente 



(S.) 

ÍN.) 

N.) 

m 

(N.) 
(N.) 



Su porfie ie 
Kíl. qnad. 



População 



30 

- bO 

n:iOO 

4 



5:514 



Tropical quente i 
Tropical quente 
Tropical quente 
Tropical quente 



Tropioo.eqoatorial.. 
Tropico-equatorial. . 
Tropico-oquatorial. . 



Equatorial (N.).... 
Equatorial (N.).... 



5iG 
91 
40 
483 
203 
468 

54 

218 
718 
408 



Í:W9 



8:400 






Tropical quente (S.) 



K:iiiO 



1:025 
35 



4:060 



Equatorial (S.) .... 
Tropical quente (S.) 
Tropical quente (S.) 
Tropical quente (S.) 
Tropical quente (S.) 
Tropical quente (S.) 
Tropical quente (S.) 

Tropical (S.) 

Tropical temp. (S.) 



600:000 



1.184:000 



Equatorial (S.)- 



4.2R4:000 



4.896:389 



17:000 



1.918:903 



40:858 

33:950 

363:788 

74:834 



480:430 



17:005 
l:86i 

7:240 

802 

2:534 

6:483 
40:300 
35:534 

4:432 



82:864 



542 
4:884 
3:734 



6:154 



27:734 
4:500 



32:254 



Principaes producções 



Arroz, gergelim, varia- 
das madeiras, cairo, 
cafó, cocos, pimenta, 
etc. 



Purgueira, assucar e 

aguardente. 
Assucar. 



Coral, purgueira e al- 
godão. 



Cafó, assucar e pur- 
gueira. 



Gomma elástica, gtn- 
guba, cera, coconoie, 
etc. 

Café, cacau, tartaru- 
ga, cucos, etc. 



323:064< 



Tropical quente (S.)\ 600:000/ 87:980 



Tropical quente (S.) 



Café, uriella, aguar- 
dente, cera, borra- 
cha, marfim, algo- 
dão, etc. 

Algod&o, café, gingu- 
ba, mandioca, borra- 
cha, cera, coconote, 
axeite de palma. etc. 

ÍAlgod&o, cera, borra- 
cha, axeite de peixe, 
ele. 



433:397 



6:590 
30:000 

10:000 
3:200 
6:000 
2:600 
106:000 
2:670 

467:060 



721:729 



480:OCO 



1.382:459 



Mantimentos. 
Borracha, cera, café e 

amendoin. 
Gergelim, cera, etc. 



Arroz, cera, milho, ele. 



As nossas colónias rivalísam com as da Hespanlia, França e Hollanda. 
Se estas nações possuem colónias de plantações, também nós as temos 
ha^uitos annos. Não é mais antiga a Algéria do que Mossamedes. Cus-' 
ta-nos realmente a achar a rasão por que algiíns escriptores estrangeiros 
n3o nos consideram como nação cólon isadora do século actual, mas é in- 
dispensável dizer-se que não procuraram de certo informações a respeito 
do que se tem feito na província de Angola. 

Se a Hollanda possue as ilhas de Sonda, onde se levanta a famosa ilha 
de Java; se a Hespanha se ufana das ilhas de Cuba e Porto Rico, e i^e, fi- 
nalmente, a França se orgulha com Algéria, nós contentamo-nos com as 
possessões que nos pertencem sem invejar a grandeza colonial d^aquellas 
nações. 

Da Inglaterra não falíamos, porque são immensos os ten*enos que 
possue em todas as partes do mundo, e confessámos por isso a nossa 
surpreza ao vermos o demasiado interesse com que esta poderosa nação 
olha para os povos que se avizinham do nosso districto de Lourenço 
Marques. Não é menos para admirar a sympathia que ella mostra pelas 
margens do lago Niassa, assim como o cuidado com que attenta no nosso 
território do Zaire. O estabelecimento de S. João Baptista de Ajuda tam- 
bém não lhe é indifferente. 

Resta-nos todavia a esperança de que a nação ingleza nos deixará in- 
teira liberdade para occuparmos os territórios que nos pertencem, e fa- 
zermos a colonisaçSo como melhor entendermos. 

O que não pôde negar-se, sem grave injustiça, é que temos allirmado 
por todos os meios ao nosso alcance a perseverante vontade de promo- 
ver o progresso e civilisação da Africa tropico-equalorial. E não duvidá- 
mos dizer que os annos de 1876 e 1877 nos fazem recordar as nossas 
viagens dos últimos annos do século xv. Procurámos então navegar por 
mares desconhecidos e descobrir paizes nunca vistos dos povos da Eu- 
ropa. Não nos poupámos a sacriQcios e dêmos exemplo a todas as nações 
do mundo, abrindo as portas do Oriente. Hoje tratámos de promover o 
progresso e civilisação dos povos africanos, desenvolvendo a colonisação, 
como a de Mossamedes e de Cazengo. 

Para abreviarmos considerações expomos a. largos traços o movi- 
mento colonial que se acha iniciado. 

Por decreto de 17 de fevereiro de 1876 foi creada junto ao ministério 
dos negócios da marinha e ultramar uma commissão central permanente de 
geographia.Segwnào a organisação d'esta esperançosa commissão cumpre- 
Ihe: «Colligir, ordenar e aproveitar, em beneficio da sciencía e da nação, 
todos os documentos que possam esclarecer a geographia, a historia 
ethnologica, a archeologia, a anthropologia e as .sciencias naturaes em 



relaçSo ao território porluguez e especialmente ás províncias ultramari- 
nas'». 

Se é elevado o pensamento com que se creou a commissâo a que nos 
referimos, a proposta de lei para se dar impulso ás obras publicas das 
nossas vastas possessões africanas revela a decidida vontade com que se 
deseja o engrandecimento colonial, como se verá quando fatiarmos em 
especial de cada uma das provindas da Africa. 

Para se fazer idéa do estado de prosperidade em que se acham as co- 
lónias damos por copia o seguinte extracto de um importante documento^: 

f Pouco antes de 1834 os rendimentos públicos nas nossas possessões 
africanas eram os seguintes, segundo se lé no livro importante do mar- 
quez de Sá da Bandeira, intitulado Trabalho rural africano: 

Cabo Verde 92:522,^000 

S. Thomé e Príncipe 8:490,5000 

Angola 132:879,5000 

Moçambique 56:154,5000 

Total 290:045,5000 

iNo rendimento de Cpbo Verde comprehende-se 59:580ÍM)00 réis do 
monopólio da urzella, no das outras províncias comprehendia-se o im- 
posto cobrado nas alfandegas sobre a exportação dos escravos. 

«Tomando os dados de annos posteriores, que se encontram nos En- 
saios sobre estatística das possessões portugmzas, reconliece-se que a abo- 
lição do trafico não produziu a crise económica que receiavam os defen- 
sores d'aquelle odioso negocio. 

cEis a importância dos rendimentos públicos nos annos em seguida de- 
signados : 

Cabo Verde (1842-1843) 90:176^(000 

S. Thomé e Príncipe (1843-1844) . . . 9:821,5000 

Angola (1845-1846) 259:046^000 

Moçambique (1857-1858) 88:929,5000 

Total 447:972^(000 



1 Os trabalhos da commissâo permanente de goographía sao publicados nos 
^Qs ÁMkaes, cujo primeiro volume traz a data de dezembro de 1876. 

* Diário do governo n." 49 de 3 de março de 1876. — Rolatorío que precede a 
a proposta de lei para se contrahir um empréstimo de 5.000:000^000 róis con) des- 
tino às obras publicas das nossas provinoías de Africa. 



186 

<É de advertir que na receita de Cabo Verde se inclaiam 45:000j$000 
réis» producto do monopólio da urzella, dos quaes 21:000f$000 réis nao 
eram applícados á província, mas entravam no thesouro publico. O im- 
posto sobre escravos havia acabado nos annos a que se referem as recei- 
tas indicadas. 

cVejamos agora qual é actualmente a importância das receitas publi- 
cas nas mesmas provindas, e teremos uma prova dos progressos realisa- 
dos, progressos devidos á transformação promovida pela beneOca acç3o 
de leis liberaes. 

•Os rendimentos são aclualmenteos seguintes: 

Cabo Verde 220:377i5000 

S. Thomé e Príncipe 109:610,5000 

Angola 566:974)5000 

Moçambique 247:71 3<ÍÍ000 

Total 1.143:674<5000 

•Recorrendo á estatística do movimento das alfandegas, mais evidente 
se torna ainda o desenvolvimento progressivo das nossas possessões de 
Afríca. 

•Era o movimento commercíal nas alfandegas que v9o designadas o 
seguinte : 



Cabo Verde (1842-1843) 

S. Thomé e Principc (1842). . 
Angola (1847) 


Valor 
das importações 


Valor 
das exportaçSes 

• 


Movimento 
conunereial 


76:620^000 

26:000J>000 

1.141:000^000 


73:992i3000 

32:250)^000 

608:000^000 


150:612^000 

58:250i$000 

1.749:000^000 





•De Moçambique nao ha informações referidas a esta epocha um pouco 
remota. É digno de notar-se que em Angola o movimento médio com- 
mercíal, nos annos de 1830, 18.31 e 1832, anteriores á lei que aboliu o 
trafico da escravatura, foi apenas de 728:000í50O0 réis, sendo a impor- 
tação no valor de 622:OOOí5íOOO réis, e a exportação no de 106:000|jí000 
réis. 



487 



lEm relaçSo a nm anno temos os seguintes dados : 



Cabo Verde (1871-1872) .... 
Guino (1871-1872) 


Valor 
da importação 


Valor 
da exportaçSo 


Blovírocnto 
commercial 


326:880|>000 

227:501^000 

335:428^000 

2.263:801^000 

942:834^000 


349:788^000 

383:099^000 

269:314^000 

2.026:51 MOOO 

553:240jO0O 


676:668^000 

610:600^000 

604:742^000 

4.290:312^000 

1.496:074^000 


S. Thomé (1872) 


Angola (1871-1872) 

Moçambique (1870-1871) ap- 
Droximado 





«Nos aDDos posteriores o augmenlo do movimeDto commercial tem 
continuado. Assim em 1874 os valores das importações e exportações su- 
biram em S. Thomé a 810:176^000 réis. Em Angola foi o movimento 
commercial em 1873-1874 de 5.084:466($000 réis.» 

São realmente muito eloquentes estes dados, mas nSo nos parecem 
ainda os mais convenientes para se demonstrar que as nossas terras de 
Africa se acham com o desenvolvimento agrícola e commercial, que lhes 
é negado por alguns escriptores francezes. 

NSo 89o para nós, comtudo, um encargo, nem ali se encontram ape- 
nas feitorias, como se diz no diccionario de Larousse a respeito das pro- 
vincias de Angola e Moçambique. 

Mas antes de fazermos outras considerações, ajuntaremos os docu- 
mentos mais apropriados ao nosso flm. 

Trataremos em primeiro logar das obras publicas em geral. 

Eis-aqui o que se lô no documento a que acima nos referimos: 

«A questão de obras publicas nas nossas possessões de alem-mar 
nio é só uma questão económica, é também, e principalmente, uma ques- 
tão politica. Os vastos domínios de Portugal são uma grande força se le- 
varmos lá promptamente a civilisação pela religião, pela educação, pelo 
trabalho e pela boa administração ; são porém uma fraqueza se não sou- 
bermos cumprir o nosso dever com energia e com presteza. Portugal 
está nas condições de ser uma grande potencia colonial ; saiba-o pois ser, 
e o futuro pagará largamente os nossos esforços. 

cGobram-se nas províncias ultramarinas impostos nas alfandegas com 
applicação especial para obras publicas. 

cO pfoducto d^esses impostos, com excepção da província de Cabo 
Verde, tem tido uma applicação pouco proflcua. 

cA falta de systema na distribuição do fundo para obras publicas, a 



188 

pequena importância annual doesse Tundo c muitas causas que é inútil re- 
cordar agora, téem dado em resultado perder-se muito dinheiro, e estar 
quasí tudo por Tazer. É preciso mudar radicalmente de systema. Sem o 
emprego de capitães avultados, sem um plano bem combinado, sem um 
corpo technico habilitado e immediatamente responsável pelo estudo e 
execução das obras, e sem a inspecção immediata do governo de accordo 
com o que se pratica no reino, não podem emprehender-se conveniente- 
mente no ultramar as importantes obras publicas que são ali indispensá- 
veis. 

cOs impostos para obras publicas na provincia de Cabo Verde são nos 
últimos dois orçamentos mandados da proxincia calculados: para 1875- 
1876 em 29:109^000 réis, sendo 4:109(9;000 réis do imposto sobre o car- 
vão de pedra em S. Vicente: para 1876-1877 em tOiioO^OOO réis, sendo 
6:250j$000 réis de carvão de S. Vicente. 

<Em S. Thomé o imposto para as obras publicas rendeu nos três úl- 
timos annos o seguinte : 

1872-1873 14:999,5(571 

1873-1874 16:574^(887 

1874-1875 18:094^(251 

«Em Angola o imposto de obras publicas em quatorze annos, isto é, 
desde que foi creado até 1874-1875, rendeu 817:071^(714 réis. 
«Nos derradeiros três annos de que ha noticia o rendimento foi : 

1872-1873 82:550,5(163 

1873-1874 79:504^367 

1874-1875 72:062í(990 

«Sendo para advertir que não foram boas as colheitas nos dois últi- 
mos annos. 

«Cm Moçambique o imposto para obras publicas foi creado em 1867; 
desde então até 1873-1874 rendeu 221:047,$647 réis. 

«Nos últimos três annos foi o rendimento: 

1871-1872 33:027,S695 

1872-1873 32:388^(293 

1873-1874 40:1665583 

«Pôde, pois, calcular-se o fundo para obras publicas em todas as pro- 
vincias da Africa em 160:000f5000 réis. 



189 

t Tendem os reodimeDtos das alfandegas manifestamenle a crescer, e 
com elles cresce o imposto para obras publicas : demais, as províncias 
ultramarinas podem pagar uma quantia muito maior com destino espe- 
cial para obras publicas, toda a vez que effectivamente se executem n'um 
praso curto os melhoramentos de que depende a sua futura prosperidade. 
O que é necessário é que isto seja uma realidade, e que cada uma das 
províncias obtenha vantagens em justa proporção dos seus sacriflcios, isto 
é, que o capital empregado em cada uma d'ellas corresponda aos encargos 
que pagarem. 

tPara a execução das obras a fazer, ou directamente pelo estado, ou 
por emprezas subsidiadas, é preciso um capital avultado, que é impossí- 
vel calcular desde já, mas que não pode ser inferior a 5.000:000^000 
réis.» 

A prosperidade geral das nossas possessões de Africa está exuberan- 
temente provada. Não precisámos de recorrer a outra demonstração. Pa- 
rece-nos comtudo de alguma vantagem fallar também de outros empre- 
hendimentos que se trata de realisar. Consignaremos, pois, em primeiro 
logar, um extracto do relatório que precede a proposta de lei apresentada 
ás camarás para se realisar a viagem scientiQca ao interior da Africai 

É do teor seguinte : 

tOs estudos geographicos emprehendidos por numerosos viajantes 
na Africa central, onde caudalosos rios e vastíssimos lagos formam um 
maravilhoso systema hydrographico, tem dado já valiosos fructos. A scien- 
cia inscreve com nobre orgulho nos seus annaes os factos que cada dia 
alargam mais os seus conhecimentos sobre esse immenso continente em 
cujas recônditas regiões se encontram todas as riquezas de que a civilisa- 
ção carece para se expandir e engrandecer. Os segredos da Africa, que 
nós passados séculos só os portuguezes tinham podido descortinar, 
não tardarão em ser de todo revelados ao mundo. Empenham-se perse- 
verantemente n'essa nobilíssima empreza os governos, as associações 
scientíficas, os incansáveis e gloriosos obreiros que levam a civilisação 
com o Evangelho ás mais remotas e perigosas paragens, os inimigos con- 
victos do horrível e devastador traRco da escravatura, e esse espirito te- 
naz e insaciável de especulação que impelle os povos modernos a alargar 

1 Demonstrado o aagmento da receita publica das nossas províncias de Africa, 
e depois de se conhecer o seu rendimento applicavel às obras publicas, apresentá- 
mos o modo por que se encaram as explorações scientíQcas ao interior d^aqueilas 
vastíssimas províncias. Ê preciso saber o que se tem feito e patentear o que se pre- 
tende fazer. O methodo que empregámos não será o mais breve, mas é aquellc em 
que temos mais confiança. É este um dos casos em que a reproducção de documen- 
tos tem grande vantagem para se chegar á verdade. 



190 

os mercados, a buscar com aGnco todas as foDtes de producçSo, a pro- 
curar férteis territórios onde possam derramar as iuexhauriveis torrentes 
da emigração. 

cNa zona central, a mais fértil e rica da África, ninguém possue ter* 
ritorios tão vastos e tão ricos como Portugal. Na costa occidental e na 
costa oriental possuímos Angola e Moçambique. Ao norte de uma d'estas 
províncias corre o Zaire ; pelo centro da outra estende-se o Zambeze, os 
dois mais poderosos rios da Africa central, o primeiro dos quaes desem- 
boca no Atlântico e o segundo no mar das índias. Quando o curso d*es- 
tes dois caudalosos rios, e de seus aíQuentes, for perfeitamente conhe- 
cido ; quando se descobrirem as relações do Zaire com o systema dos 
grandes lagos ; quando se houver estudado onde o Zaire e o Zambeze 
mais se approximam no seu principal curso ou no de seus aíQuentes de 
modo a poderem facilitar a communicação de uma com a outra costa, um 
dos principaes problemas geographicos, que mais immediatamente inte- 
ressam a influencia dos europeus e especialmente a nossa influencia no 
centro da Africa, ficará resolvido. 

cChamar toda a attenção para este assumpto, c demonstrar a obri- 
gação que as nossas tradições, a posição geographica das nossas pos- 
sessões africanas e o nosso interesse imperiosamente nos impõe. Onde 
na Africa vão tantos exploradores de outras nações, não podem deixar 
de ir exploradores portuguezes. Falla-se de que nos sertões da Africa 
andam homens, que se dizem portuguezes, praticando o criminoso e exe- 
crando trafico da escravatura. Ponhamos termo aos protestos de que se 
servem os que injustamente nos accusam. O nosso dever é promover e au- 
xiliar uma expedição portugueza, que possa contribuir para os progres- 
sos da sciencia geographica; que busque os caminhos mais. fáceis, mais 
rápidos e mais seguros para o commercio licito de Angola para Moçambi^ 
que ; e que tenha também por essencial missão estudar o modo mais e(- 
fícaz de reprimir o trafico e de lançar de nós a iníqua suspeita de consen- 
tirmos que em terras portuguezas, ou á sombra da nossa bandeira, secom- 
metta um crime odioso contra a humanidade ^» 

As explorações ao interior da Africa são uma necessidade indecli- 
nável, mas não ha concordância definitiva nos pontos de partida. Gum- 
pre-nos nomear os alvitres de que mais se tem fallado apresentando em 
seguida o nosso modo de ver sobre tão vital assumptOé 

Na imprensa e na sociedade geographica de Lisboa, de que adiante 
faltaremos, tem-se mostrado qual a região que mais convém explorar e 
qual o modo mais fácil de realisar símilhante emprehendimento. 



* Diariú do doterno n.« 47 de i de março de 1877. 



A commissio permaDente de geographia tem-se occupado por diffe- 
rentes vezes da expedição geograpbica ao iDterior do nosso território da 
África, apresentando-se alguns alvitres quanto ao fim a que deve attíngír 
tão importante expedição. Inscrevemos aqui um dos projectos apresenta- 
dos, a flm de que se avalie o seu alcance : 

c I .® Organisar-se-ha uma expedição de exploração scientíflca e com* 
mercial á Africa central, a expensas do estado e destinada a: 

cl. Investigar as condições do clima, conGguração, producção, povoa- 
ção, communicações e topographia do território a percorrer, determi- 
nando as respectivas coordenadas geographicas e procurando emSm obter 
os melhores dados para o conhecimento geographíco das regiões igno- 
radas ; 

cll. Estabelecer relações de amisade e commercio com os povos ou es- 
tados que encontrar; 

cIII. Rectificar quando for possivel as fronteiras da antiga e actual do- 
minação portugueza para o interior, no sentido E. O. ; 

cIV. Estudar os meios de alargar a acção civilisadora e commercial de 
Portugal no âertão; 

cV. Emfim colligir todas as informações geographicas que importem 
á sciencia, ao commercio e á civilisação. 

c2.® Escolher-se-hão para este effeito pessoas que ás necessárias con- 
dições pbysicas e moraes reunam as melhores aptidões e conhecimentos 
scientiflcos, relativos ao fim que se pretende, e experiência de observa- 
ções meteorológicas, astronómicas e geodésicas. 

c 3.® A expedição será composta de seis exploradores scientificos e do 
pessoal de segurança e de serviço que for julgado necessário. 

t4.^ A expedição subirá em transporte do estado o Zaire até o Porto 
da Lenha, onde estabelecerá a primeira base das suas operações, proce- 
dendo ao estudo d'aquelle rio na sua próxima ramificação em barcos con« 
venientemente preparados» fazendo as necessárias excursões pelos três 
braços conhecidos pelos nomes Maxwell, Mamballa e do Sonho, e tomando 
as informações convenientes para os seus trajectos futuros. 

c5.^ Depois d*este primeiro estudo a expedição dividir-se-ha em dois 
grupos compostos de três exploradores scientificos, servindo de chefe o 
mais velho em cada um. 

«6.^ Um dos grupos seguirá o 2aire na direcção NE. procurando in- 
te^la^se com o objectivo no Sankorra ou no Njrangowe, e sem perder de 
tista que deve esfoi^r-se por estudar e conhecer o curso fluvial tão longo 
quanto seja possivel. No caso de attingir o Sankorra procurará estudar 
este Idgo, verificar se desagua n'elle o Lualaba e se d*elle tiasce o Zaire» 
seguindo» em vista das informações obtidas, na direcção do lago taga- 



19a 

nyika, e procurando conhecer o melhor <}ue possa o curso do Lualaba e 
seu tributário o Lukuga. 

«7.^ O segundo grupo dirígir-se-ha na direcçio do S. a intemar-se, 
sendo possível» até encontrar os affluentes superiores ou as cabeceiras do 
Quanza e do Zambeze. 

«8.^ Para um e outro grupo subsistirão os mesmos flns da expedição 
anteriormente enunciados. 

c9.^ Uma commissão central executiva, formada mediante accordo e 
approvação do governo, de dois vogaes effectivos da commissão central 
permanente e de dois membros da sociedade geograpbica de Lisboa, sob 
a presidência do sr. ministro da marinha e ultramar, providenciará du- 
rante o tempo que durar a expedição, que não faltem a esta os meios e 
auxilios necessários, dirigirá as remessas de objectos que convier fazer, 
administrará o subsidio que for destinado á expedição, e tratará de rece- 
ber regularmente as communicações, ele, da mesma.» 

Resta-nos fallar ainda da creação da Sociedade de geographia de Lis- 
boa, cuja inauguração se veriflcou no dia 7 de março de 1876. O seu fim, 
como se declara nos estatutos, ó o estudo, a discussão e o ensino, as in- 
vestigaçiies e explorações scientijicas da geographia nos seus diversos ra- 
mos, principaes relações, descobertas, progressos e applicaçoes, no que 
diz respeito especialmente á nação portugueza. Para o realisap, a socie- 
dade de geographia emprega os meios que se reputam mais úteis, como 
sessões, conferencias, prelecções, cursos livres, concursos e congressos 
scientificos, subsídios de estudo e de investigação, viagens, assim como 
publicações, formação de biblíothecas, archivos, museus, etc. 

Para facilidade dos trabalhos, a sociedade divide-se em seis grupos 
do seguinte modo : 

Geographia malhematica, astronomia, etc. ; 

Geographia physica, geológica, botânica e zoologia ; 

Geographia anthropologica, ethnologica, medica, histórica, politica, 
commercial, etc. ; 

Instrucção geographica ; 

Ghorographia e historia geographica portugueza ; 

Cartographia e archeologia. 

Cada uma doestas secções se acha a cargo de diferentes commissões 
nomeadas por deliberação da asserobléa geral. 

Às propostas dos sócios referentes a qualquer assumpto de geogra- 
phia, depois de apresentadas na sociedade, são remeltidas ás respectivas 
commissões que elaboram sobre ellas pareceres, cujas conclusões, pre- 
cedidas de um relatório mais ou menos desenvolvido, se discutem em 
assembléa geral e ali são approvadas, modificadas ou ampliadas. 



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193 

I 

Poderíamos patentear mais documentos i>ara mostrar a importaocía 
que DOS merecem as possessões do ultramar e a altura a que tem chegado 
o moTímeoto geographico e colonial nos annos de 1876 e 1877. Julgámos, 
porém, sufficientes os que deixámos referidos; e para concluir estas nos- 
sas considerações, transcrevemos alguns trechos de um parecer discutido 
em assembléa geral da sociedade de geographia, e que dizem respeito á 
eiploração da r^ião septentrional de Angola. 

«A esperança de encontrar no continente africano vastas regiões que 
por favoráveis condições climatéricas facilitem a colonisacáo europea, e 
com ella o aproveitamento de consideráveis riquezas naturaes até hoje 
apenas entrevistas ; a possibilidade de vencer com os recursos e auxilio 
de um admirável systema hydrographico, que das altas regiões centraes 
e dos lagos ali existentes se dirige para o N., para L. e O., desenhando 
extensos valles, ramificados nas direcções as mais diversas; esperança e 
possibilidade que já no secuUo decimo sexto anunava entre outros a Bal- 
íhasar de Castro e Manuel Pacheco, promoveram particularmente na se- 
gunda metade do século actual repetidas explorações, que são^ gloria das 
nações que as emprehendem, e que téem feito inscrever nas paginas da 
historia dos commettimentos geographicos os nomes de Speke, de Burton, 
de Livingstone, de Cameron^, de Schweinfurth e de tantos mais ousados 
exploradores. 

cBem pode a tal respeito afSrmar-se que uma generosa emulação se 
apoderou a um tempo dos paizes europeus^ porfiando não somente as 



1 Camcron foi um dos últimos viajantes que atravessou o interior da nossa re* 
^Moo africana, vindo de Moçambique para Angola. O dia em que chegou aBengucila 
e o modo por que foi recebido consta do seguinte documento : 

«Serie de 1875 —Secção militar— N.» i30.'— 111.»» sr.— Cumpre-me participar 
a V. s.*. para que seja presente a s. ex.* o governador geral da província, que no dia 
8 do corrente chegou a esta cidade o capitão tenente da armada de Sua Magestade 
Brilannica, Y. Sorett Cameron, commandante da expedição á procura de Living- 
stone; c no dia immediato quatorze pessoas da sua comitiva, Geando maior numero 
á retaguarda pela morosidade da marcha, por falta de forças. 

«Logoquc soube da chegada d^aquelle offlcial, dirígi-me á casa de Cauchoix 
Frères, para onde foi hospedar-se, e lhe dei noticia que tinha ordens do governo 
de Sua Magestade o Rei de Portugal para lhe dispensar todos os auxilio» de que 
carecesse, ofTerecendo-lhe por esta occasião a casa do governo, e tudo mais que en- 
tendesse lhe poderia ser útil. 

«O sen estado de saúde era então um pouco grave, por se lhe ter manifestado 
um ataque de escorbuto; porém já hoje promette em breve restabelecer*se. 

«Dei ordem para se lhe fornecer da botica do hospital militar todos os medi- 
camentos que o facultativo lhe receitasse. 

«Quanto á comitiva (gente de Zanzibar) acha-se aquartelada no rez-de-chaussée 

13 



194 

nações coIoDíacs, mas ainda outras, que apenas índíreclamenlo poderão 
auferir vantagens do melhor conhecimento das regiões africanas, como a 
Itália, como a Âllemanha por exemplo, em prestar valioso contingente 
n'esse esforço commum. 

«O êxito feliz da tentativa do tenente Cameron, tentativa que de modo 
solemne auctorisou a esperança de conseguir uma importante conmiuni- 
cação natural entre as duas costas, a que dariam base as grandes artérias 
do Zaire e do Zambeze, ainda mais veiu influir nos espíritos e fixar a at- 
tenção publica sobre o grande problema africano, particularmente em 
Inglaterra, onde a par do interesse scientifico, se levantam, como é natu- 
ral e com toda a vehemencia que lhe pôde imprimir a energia nacional 
da raça anglo-saxonia, o interesse politico e o commerciaK 

€ Portugal, berço dos grandes navegantes dos séculos xv e xvi, pátria 
dos homens que conceberam e levaram a bom termo emprezas das mais 
ousadas^ que registam os annaes dos povos ; Portugal, cujas expedições 
africanas dos fins do século passado e princípios do actual, estão ainda 
boje sendo objecto de estudo para a própria Inglaterra, onde a real so- 
ciedade geographica fez, não ha muito, traduzir e publicar os roteiros do 
dr Lacerda, dos pombeiros P. J. Baptista e Amaro José, do major 
Gamitto; Portugal, que ha bem poucos annos apontava com orgulho para 
o successivo apparecimento dos trabalhos cosmographicos do visconde 
de Santarém, para o contingente valioso fornecido pelo illustre marquez 
de Sá, para a melhor descrípção cartographica das nossas extensas coló- 
nias africanas; Portugal, finalmente, que nas duas costas, oriental e Occi- 
dental do grande continente vé reconhecida a sua soberania em uma ex- 
tensão superior a 20:000 metros quadrados, cujo commercio mais do que 
o de nenhum paiz tem penetrado para o interior ; Portugal, embora não 
podesse talvez de prompto apontar um nome que hombreasse com os de 
alguns dos conferentes de Bruxellas, bem devia comtudo acbar-se repre- 
sentado entre elles, até mesmo pela circumstancia do concurso efScacís- 
simo com que poderá vir em auxílio d'essa tentativa, que consiste em con- 
gregar os esforços isolados, sujeitando-os a uma direcção commum, e for- 
tificando-os com a certeza da existência de uma base segura de operações, 
de um auxilio eificaz e permanente. 



da casa do antigo palácio do governo, e tem sido soccotrlda dos géneros alimen-, 
ticios e dinheiro que o dito offlcial me tem requisitado. 

tDeus guarde a v. s." Governo de Benguella, 9 de novembro de 1875.— IU.*« sr. 
Secretario geral do governo. =Francí>co José de Brito, governador. 

«Está conforme. Secretaria do governo geral em Loanda, 20 de novembro de 
1875. »0 secretario geral, António do Nasc^nento Pereira de Sampaio.* 



195 

cE o convencimento de similhante verdade por tal forma se impunha 
aos ânimos, que a própria conferencia de Bruxellas, que pareceu esque- 
cer-nos tía sua composição, e ató mesmo os dois grupos em que ella na- 
turalmente se dividira, tomaram todos para ponto de partida o aprovei* 
tamento dos recursos que oíTerece a nossa importante colónia angolense. 

tSe nos recordarmos que entre um e outro d'esse8 limites se encon- 
tram, alem dos portos de Molembo e Cabinda, a foz d*esse grande rio 
Zaire ou Congo, cuja forte corrente e enorme volume de aguas se torna 
sensivel a 550 kilometros da costa, facto este mencionado já pelo padre 
Balthazar Telles, rio que tem em si as proporções todas para se tornar 
uma das grandes artérias do commercio do mundo, aprecia-se bem a rasSo 
das duvidas, um tanto tardias, que se levantaram no animo muito inglez 
d'aquelle famoso ministro d'estado. É esta quest3o, porém, das que me- 
nos têem sido descuradas pelo governo e pela sciencia portugueza, bas- 
tando citar com relação á ultima a Demonstração dos direitos que a coroa 
de Portugal tem aos territórios de Molembo^ de Cabinda e Ambriz, pelo 
visconde de Santarém, e ainda os Factos e considerações relativas aos 
direitos de Portugal sobre os territórios de Molembo, de Cabinda e AmbriZy 
pelo visconde de Sá da Bandeira ; e com relação ao governo as diligencias 
e esforços, entre outros, d'este ultimo estadista e geographo distincto. 
Mas para nada serve reclamar um direito quando nenhum uso se faz ou 
pretende fazer d^elle, e n'esse sentido o que mais importa é aflBrmar por 
factos essa soberania, salvo o fazer valer os argumentos que provam o 
nosso direito quando a legitimidade d'esses factos seja effectivamente con- 
testada. 

cNão occupámos nós o Ambriz em 1855 apesar das reclamações e du- 
vidas apresentadas? Direitos reservados é que se não comprehendem fa- 
cilmente no século xix, quando a força de expansão da população, do 
commercio e da industria assume proporções que a historia ainda não re- 
gistara. Tudo quanto rfaquellas regiões tenda portanto a provar a nossa 
vitalidade, não só politica e militar, mas ainda muito particularmente 
scientifica, tem pois no momento actual um valor e uma significação que 
é inútil encarecer. 

«Explica essa convicção, que se tomou geral entre nós, a maneira por 
que foi prompta e feUzmente reconhecida por todos em Portugal a neces- 
sidade da expedição africana, para o que também muito concorreram os 
esforços das duas corporações geographicas recentemente constituídas, e 
ainda, grato é confessal-o, a intelligente solicitude do sr. ministro da ma- 
rinha, sendo de esperar também que um pensamento tão patriótico en- 
contre junto aos membros dos corpos legislativos o acolhimento que a 
opinião publica lhe dispensou desde logo. 



196 

«Parece também ir-se accoiiluando a convicção de que a determinação 
do curso superior do Zaire, e das suas relações com o Lukuga, o lago 
Tanganika, o Lualaba, e finalmente o Zambeze, terá de ser uma parte e 
muito importante da missão que deve incumbir á expedição portugueza. 
É esse o problema que chama hoje a attenção do mundo scientifico; cum- 
pre-nos a nós, que desejámos manter os nossos direitos sobre a foz do 
Zaire, ajudar pelo menos a resolvel-o. Â falta de um esforço sequer n'esse 
sentido traria consequências fataes para o dominio portuguez n'aquellas 
regiões. . 

cPosta a questão n'estes termos, e sendo certo, como felizmente já se 
acha provado por factos, vistoque distinctos ofQciaes de marinha se dispu- 
tam a honra de ter uma parte em tão considerável commettimento, que 
existem em Portugal todos os elementos para organisar a expedição com 
o pessoal scientifico necessário para nos assegurar o que sobretudo im- 
porta, isto é, com a exacta e rigorosa determinação das coordenadas geo- 
graphicas, e das altitudes dos pontos percorridos, um traçado rigoroso 
da região percorrida e explorada, parece mais natural esperar pelos re- 
sultados alcançados n'esse commettimento, antes de emprehender novos, 
embora de utilidade incontestável, para o bom êxito dos quaes se carece 
aliás de recursos, que não podemos ainda dissiminar sem fundado receio 
de os ver ou destruidos, ou pelo menos mal aproveitados. 

cNão pôde contestar-se que a exploração do Cunene, que dehmita ao 
sul a província de Angola, e nos recorda a nós portuguezes o nome bene- 
mérito de Fernando da Costa Leal, ao qual a geographia é devedora em 
grande parle do pouco que ainda hoje se conhece a respeito d'esse rio, e 
até da situação da sua foz, offercce por muitas causas diversas o maior 
interesse. Feracidade e felizes condições climatéricas da região que atra- 
vessa ; proximidade provável, na origem, dos aíQuentes do Zambeze, par- 
ticularmente do Chobe, e com ella a descoberta de outra communicação 
fluvial possível entre as duas costas; determinação das relações existen- 
tes entre o Cubango, o Chobe, o Ertibára, o Cuanamare, são outros tan- 
tos motivos, que fazem desejar que possa fazer-se a exploração d'esta 
nossa zona africana, e n'esse sentido devem mais tarde convergir os esfor- 
ços da sociedade; por emquanto parece-nos aconselhável satisfazer ao que 
mais urge, e a urgência vemol-a nós toda em recordar na Africa e fora 
d'ella que a região do Zaire é mais naturalmente investigada por portu- 
guezes, do que por nacionaes de qualquer outro dos paizes europeus.» 

Não é possível adiar-se por mais tempo a exploração geographico- 
commercial da provincia de Angola. Entre-se pelo território do N. ou do 
S., sigam-sc as margens do rio Zaire ou do rio Cunene, mas aproveite-se 
a occasião em que de todos os ângulos de Portugal se ouve o mesmo 



197 

brado: Façamos progredir as colónias, mostremos o que por ellas temos 
feito, e não nos esqueçamos de que somos o mais antigo paiz colonial da 
Europa e uma das maiores nações da actualidade, poisque somente a 
Rússia, Turquia e Inglaterra nos são superiores em territórios. 

O impulso está dado, e as expedições para Africa seguirão umas após 
outras, como nos últimos annos do século xi, em que nos tornámos uma 
das maiores, senão a maior nação do mundo, poisque a nós se deveu o 
conhecimento de metade do globo. 

cE, acrescenta o erudito sábio Henrique Major, no seu monumento 
levantado á gloria de Portugal, afoitamente digo, metade do globo» pois 
tal é o fundamento com que intitulo esta obra, Vida do infante D. Henri- 
que, o navegador e seus resultados. 

c gloria do infante consiste na concepção e persistente proseguimento 
de uma grande idéa e suas consequências. 

cTende, pois, este livro, mais a rememorar os illustres feitos do in- 
fante, do que á simples descripção da sua vida. 

«Não é uma gloria de phantasia e vaidade, mas realidade esplendida, 
que se projecta na historia, acompanhada de successos transcendentes, e 
a que ao menos a raça anglo-saxonia não tem desculpa de ser indifferente. 

€As costas de Africa percorridas; o Cabo da Boa Esperança dobra- 
do; o novo mundo patenteado; o caminho para a índia, para as Molucas 
e para a China franqueado; o globo circumnavegado e a Austrália desco- 
berta dentro de um século de explorações travadas. 

«Taes foram, como no meu ultimo capitulo reflro, os estupendos re- 
sultados de um grande pensamento e incansável perseverança, não obs- 
tante doze annos de vicissitudes, gastos infructiferos, motejos e desani- 
madoras murmurações.» 

Recordámos os nossos brilhantes feitos do século xv e xvi, para nos 
servirem de exemplo. Não será menor a gloria que nos espera, se não des- 
animarmos, se tornarmos as palavras em obras, se cuidarmos em6m de 
colonisar de raiz e a preceito a província de Angola, e a zona tropico-equa- 
torial que se estende d'ali até á outra costa, a Africa portugueza, onde po- 
demos crear um império maior do que o do Oriente. 

Pr«f ilida de Cabo Verde e suas dependências. — Compõe-se esta província 
das ílbas de Cabo Verde e da Guiné ou Senegambia, no continente da Afri- 
ca. Abstemo-nos de fazer uma descripção minuciosa doesta importante pro- 
víncia, e daremos unicamente as informações que nos parecem indispen- 
sáveis, para se poderem comparar os territórios que comprehendem com 
os das outras nações. É este o nosso principal empenho. 

Paliaremos primeiro da região insular. 



198 

As ilhas de Cabo Verde, segundo Larousse, téem 4:400 kilomelros 
quadrados. N3o sabemos se esta inrormação è exacta, nem podemos apu- 
rar a verdade sob este ponto de vista. 

No annuario estatistico de Gotha calcula-se a superfície das ilhas em 
4:271 kilometros quadrados. A differença para menos é sensível, mas não 
o é menos a que se encontra n'outros escriptores, se tomarmos em con- 
sideração a superfície indicada por Carlos Yogel, que a calcula em 3:920! 

Se deixarmos, porém, os escriptores estrangeiros para nos referirmos 
aos nacionaes, não somos mais felizes. 

Lopes de Lima diz que a superfície das ilhas é de 4:194 kilometros 
quadrados, área difTerente da calculada pelos escriptores referidos, mas 
a nossa surpreza augmenta quando vemos calcular o território umas ve- 
zes em 2:929 kilometros quadrados e outras em 3:330 1 E quando se dão 
d'estas irregularidades a respeito das ilhas de Cabo Verde*, o que se pôde 
esperar acerca das províncias de Angola e Moçambique? 

É de urgente necessidade que se proceda sem demora aos estudos 
convenientes para se determinar com exactidão não só a superfície de cada 
uma das províncias ultramarinas, mas também a sua população. De outro 
modo não é possível avaliar a população especifíca nem fallar com funda- 
mento a respeito da aclimação, base de toda a colonisação e progresso 
colonial. 

É realmente innegavel que este assumpto é muito complexo e depende 
de variados trabalhos complementares, cuja execução pertence, não só 
ás repartições de saúde, mas também ás dos concelhos administrativos e 
ás secretarias dos governos. Mas, sejanjual for a repartição a que perten- 
çam, é indispensável, para se obter bom resultado, que haja um systema 
bem definido e um methodo de trabalhos preparatórios tão simples 
quanto bem calculado. 

As ilhas de Cabo Verde toem uma posição importante, e acham-se dis- 
postas de tal modo que permittcm a sua classificação em grupos como as 
do archipelago dos Açores, e como estas deviam ser consideradas ilhas 
adjacentes. Merecem esta dístincção não só pela distancia a que estão da me- 
trópole, mas também por outras círcumstancias que escusámos enumerar. 

A urzela apparece espontaneamente em muitas ilhas e veiu ao mer- 
cado de Lisboa muito antes da que se exporta da província de Angola. 

milho, apesar de ser semeado em covas á flor da terra, produz 
duzentos por um. Ninguém ignora o trabalho que esta cultura exige na 
província do Minho. 

1 Temos diante de nós um livro onde se diz que o archipelago de Cabo Verde 
se compõe de mais de noventa ilhas e ilhéus. Este livro serve para o ensino de 
geographia e tem numerosas edições! 



199 

O feijSo dá-se bem, e o café nasce, por assim dizer, espontaneamente, 
e é muito considerado no mercado de Lisboa onde obtém preço bastante 
elevado. 

Os terrenos em algumas ilhas d'este archipelago são favoráveis. 

O tabaco * é exceliente. 

A cultura da jague-jague ou palma-cbrísti ', algodão, anil e cocbonílla 
ofiTerece grande vantagem ao cultivador. 

As ilhas de Cabo Verde acham-se mais ou menos afastadas umas das 
outras, e por isso mesmo o solo é variado e accommodado a diversas cul- 
turas, havendo algumas largamente desenvolvidas. 

A capital da província è a cidade da Praia na ilha de S. Thiago, onde 
reside o governador geral e onde estão as repartições superiores. Publi- 
ca-se um boletim oíDcial, cujo primeiro numero ^ appareceu em janeiro 
de 1842, e n'elle se acham impressos importantes trabalhos estatísticos. 

Deveríamos ajuntar algumas informações a respeito de tão impor- 
tante archipelago, mas seria sempre resumida a descripção. O seguinte 
mappa estatistico-geographico põe em relevo as vantagens do archipelago 
de Cabo Verde e mostra os pontos de relação que ha entre este e o dos 
Açores. 



1 «A respeito do tabaco disseram offlcialmcnte ao governo, cm 1835, os contra- 
tadores, em resultado do exame a que procederam em umas amostras d*ali remetti- 
das cque era igual ao Kentuky e Virgínia, que era mui bem cultivado, bem secco 
e bem preparado, e que nào duvidariam comprar annualmente 14:000 arrobas 
(205:000 kilogrammas) pelo preço por que pagavam aquelle a que o compara- 
vam.» (Jornal das colónias,) 

2 ÀS mulheres do paiz, depois do parto, banham-se em um cozimento feito de 
folhas do jaçue-jague. Lavam também os peitos com esta agua^ a fim de terem mui- 
to leite. 

3 Nao podemos ver o primeiro numero d'esta útil c interessante publicação, 
mas pessoa auctorísada julga que o primeiro numero do Boletim apparec(}ra no 
aono a que nos referimos no texto. 



Latitude 3&> 57' N. n 3»> 41' N— Longllndc 15> SO' a 21> 10' O. de Lisboa 



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74 
55 
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132 


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25 
28 
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22 

104 
105 


229 
194 
98 
85 
100 
131 
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6 


235 
196 
102 
92 
102 
132 
103 
5 




S. Jorge 

Terceira 

Graciosa 







Pi>[iulacno espi^cifica i'iii geial 102,8 babilanlcã por kiloraetro quadrado. 

ProduopSes.— Grande auanliJadi; de excellente laranja, fmctas, limOeg, 
ananazes, aguardente, trigo, milho, legume», balata, intiame, linho, vinhatira, faia, 
castaatias, pinho e gado para conRomo. 



Archlpelatn ale Caha Tcrdo 

LaUfu(lRl4>ii>'al7'4l'.N.-l.oi)ei(u<]e lli'3â'.t 19' 13' O. de Usboa 



llliu 


LalilDao 


LoiikUd.Iii 


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DislriUo 


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1 

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SatitnAiil3o 
/^ .. . S.VÍ«nlo.. 
5 l Snnia Luíia 
l| S. Nicolau.. 

S líoriení!.!. ^f'':"" 
§■ '^ BoaVjsla.. 

ia 

= iBrava 

S Meridjo-jFogo 

[1 nal....iS.TIiiago.. 
(Maio 


17» 4 IN. 
Ifi^-SVN 

10-40' N. 
!C'3i;'.\. 

IC-7'N. 
HMCN 
I4°50'5.N 

l-i-ã-VN 
13" 0' N. 


13° 3!)' 0. 

i:í" w;ó 0. 

i3'iS',0. 

l.i"4!)-0. 
i:í- 40,8 0. 
13° :U',7 0. 

15" 350. 
13° H',7 0. 
14° 27',G 

l4-9'0. 


SIC 
!H 
40 

48:t 

303 
468 
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218 
718 
108 


17:005 
1:804 

7:210 

802 

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d-.m 

10:300 

35:534 
1:132 


Lisboa 


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82:864 





m dtircrcal«ii Ilha* 



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60 
90 
80 

130 
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110 


13 

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80 
92 
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135 


31 
62 

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60 
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10 
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90 
80 
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10 

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140 
110 


110 
135 
113 
130 
110 
30 
9 
120 


Fogo. 


Boa^sto. 


S. Nicolaa 

Suto Aniso 


S. Vic«nle 



Popnlfçío espeãfica em gcrnl 38,2 h.tbilantps por kilonielro qu.idrado. 

Px*oduOQ5es. — Superior café, cacau, urzela, Rranda quantidade de par- 
goeira, coni, aguardente Je cannA, milho, muito sal, algodão, anil, boa laranja, linjas, 
rímaes e diversas fnicUs, muilo taba''iD, legumes, papaias, ananates, cocos, horLiliças, 
miadíoci. Ti oho, óptimas melancias e melttes, canna de nssucar, bananas, cidras, gado 
nccuiD e de niniUs oatras especiea. 



202 

Considera-se como dependência da província de Cabo Verde a Guiné 
ou Senegambia portugueza*. É uma importante possessão, cujos limites 
sé acham determinados do seguinte modo : 

Começa em 13® 10', 3^,7 ao N. do rio de S. Pedro, e acaba no cabo 
da Verga, em 10° 20' de latitude, comprehendendo as ilhas de Bolama, 
Galiinhas e Orango, no archipelago de Bijagoz. 

presidio de Geba fica a mais de 111 kilometros da costa. 

A superfície d'este território é, segundo G. Pery *, sete vezes maior que 
a da provinda de S. Thomó, havendo por este lado motivo sufllciente 
para fazer d'elle um governo como o d'esta provinda. 

Eis-aqui o que a este respeito escreveu o venerando marquez de Sá 
da Bandeira, a quem as colónias portuguezas devem a mais acrysolada de- 
dicação : 

tParece-me também conveniente que seja dissolvido o governo geral 
de Cabo Verde, sendo dividido em duas partes, das quaes uma, composta 
de todas as ilhas do archipelago, seria organisada como os distríctos ad* 
ministrativos, devendo ficar subordinada ao ministério do reino. 

«Assim, esta nova circumscripção territorial, o districto da Praia de 
Cabo Verde, constituiria o 22.° districto e o 5.® das ilhas adjacentes. For- 
maria uma sub-divisão militar, e continuaria a ter duas comarcas, a da 
Praia e a do Mindello, para onde deveria transferir-se a sede da que está 
na ilha de S. Nicolau, poisque a ilha de S. Vicente é aquella em que as 
communicaçôes são mais frequentes com as mais ilhas que formam a co- 
marca, e com Lisboa. 

1 A Guino portugueza ou Senegambia, achava-se outr*ora dividida em dois go- 
vernos subalternos, isto é, capitania mór de Cacheu e dependências, e sargenteria 
mór de Bissau e dependências. Posteriormente, em consequência dos navios se di- 
rigirem em maior escala para o porto de Bissau, considerou-se o governo de Cacheu 
e dependências como subalterno do de Bissau e dependências, dando-se o titulo de 
governo da Guiné portugueza ao ultimo, e ficando o antecedente com o titulo que ti« 
nha. 

Estes governos eram civis e militares. 

Na actualidade, isto é, desde 1869, o território da Guiné forma um só governo 
civil e militar. Tem a sede em Bissau e é dependência do governo geral de Cabo 
Verde. 

2 Carlos Vogel no seu importante trabalho Le monde terrestre, em via de pu- 
blicação, guiando-se pelo annuario estatístico de Gotha, calcula a superficie do nos- 
so território da Guiné em 69 kilometros quadrados ! É preciso porém dizer-se que 
isto nao é exacto. 

O sr. João Carlos Cordeiro, que de boa vontade nos deu minuciosas Informa- 
ções a respeito do território da Guiné, calcula em muito mais de 20:000 kilometros 
quadrados a superfície que ali temos, comprehendendo o dos diversos e84ados ou 
iribus gentílicas feudatarias a Portugal. 



203 

cO districto da Praia de Cabo Verde teria uma importância similhante 
á que tem o districto da Horta. N'este a distancia maior entre as ilhas que 
o compõem, a saber, entre a do Pico e a das Flores, excede a que ha en- 
tre S. Thiago e Santo AntSo. 

f A populaçSo do districto da Horta é de 60:000 a 70:000 habitantes; 
o archipelago de Cabo Verde tem também 60:000 a 70:000 almas. A dis- 
tancia d'este a Lisboa percorre-se actualmente em seis ou sete dias, e o 
mesmo succede entre Lisboa e o Faial. 

«A outra parte da província, a Guiné portugueza, deveria formar um 
governo particular, da categoria do de S. Thomé e Príncipe. 

«O seu território, que é atravessado pelo 12**parallelode latitude N., 
tem 40 a 50 léguas (SS2 a 378 kilometros) da costa marítima, na qual 
desembocam os importantes rios Casamansa, o de Cacheu ou S. Domin- 
gos, o de Geba, e o vasto estuário chamado Rio Grande de Guinala ou 
de Bigubà, alguns dos quaes communicam entre si por esteiros ou canaes 
naturaes; alem d'estes rios ha outros menos importantes. 

«A mancarra, ou ginguba, ou mendoby (Arachis hypogcea) é a prin- 
cipal planta cultivada e dá grande interesse ; o arroz é grangeiado pelos 
indígenas e produz abundantemente. Mas o solo é proprío para as outras 
plantações tropicaes. 

f A canna de assucar seguramente havia de dar grande proveito. E 
conviria que o governo promovesse ali esta industria em grande escala, o 
que lhe seria fácil fazer, procurando que se formasse para esse flm uma 
empreza na ilha da Madeira, onde. ha pessoas praticas e habituadas a di- 
rigir bem um engenho e as respectivas plantações. Uma fabricação de 
aguardente de canna deveria dar muito lucro. 

tHa na ilha da Madeira muita gente que tem vivido na Guiana ingle- 
za, para onde a emigração tem sido grande desde alguns annos a esta par- 
te, e onde existem milhares de madeirenses. Esta colónia, cuja situação é 
mais meridional do que a da Guiné portugueza, tem um clima que não é 
melhor do que a d'esta parte da Africa, e aqui ha logares afastados das 
margens dos rios que são relativamente saudáveis. 

t A uma tal empreza deveriam conceder-se alguns favores temporá- 
rios, bem como áquelles que se occupassem da cultura do algodão e de 
algumas outras producções, e a todas se deveria dar segurança contra 
qualquer ataque por parte dos indígenas. 

tPor meio de barcos de vapor apropriados aos rios se facilitariam as 
communicações, e para estes, bem como para as machinas de vapor, que 
nos engenhos se empregassem, ha ali o combustível de lenha em abun- 
dância. 

«Também deve atlender-se a que está próximo o tempo em que as 



204 

colónias europeas de Senegambia hão de communicar com a Europa por 
cabos submarinos. 

f Outra industria que ali deveria ser muito proveitosa seria a da pre- 
paração de madeiras para exportação. 

f O discreto emprego de capitães em Guiné, a ida para lá de indivi- 4 
duos habilitados a dirigir o trabalho dos negros manjacos, que para isso 
se assalariariam, impostos aduaneiros mui baixos e em poucos géneros, 
bem conío algumas outras medidas que se tomassem, poderiam concorrer 
para tornar esta colónia florescente, dentro de poucos annos. 

«Parece-nos, pois, que está demonstrado, não só a necessidade de se 
modiGcar a administração da provincia de Gabo Verde, mas também a 
urgência de se crear uma provincia independente no vasto território da 
Senegambia, onde temos bastantes presídios e algumas feitorias de que 
passámos a dar uma breve noticia. 

«A capital do governo de Guiné deveria estabelecer-se na ilha de Bo- 
lama, situada a meio caminho entre o Rio Grande e o rio de Geba ; e para 
esse fim deveria fundar-se n'esta ilha uma villa regular.» 

As-povoaç5es principaes do nosso território da Guiné são* : 

Bissau e Cacheu, praças de guerra ; 

Bolama e Gallinhas^, ilhas; 

1 A descrípção da Guiné portagueza teve por base as informações dadas pelo 
sr. João Carlos Cordeiro. Foi pablicada sob sua inspecção e por elle revista a parte 
que diz respeito a tuo importante território. 

O sr. Cordeiro chegou á provincia de Cabo Verde em 1862. Era segundo te- 
nente de artilheria da mesma provincia. 

Exerceu ali, alem de diversas commíssoes militares, os cargos de administra 
dor do concelho, presidente da camará municipal e commandante militar da ilha 
Brava. 

Foi governador civil e militar da praça de Cacheu e dependências, districto 
que então comprehendia metade do território da Guiné. 

Foi commandante militar da ilha de Santo Antão. 

Esteve também encarregado da direcção das obras publicas da ilha de S. Vi- 
cente, onde foi commandante militar. 

Em 1871 passou a servir na provincia de S. Thomè, onde tivemos a honra de 
o conhecer. 

Em 1874 regressou ao reino com licença, e foi de novo transferido para a pro- 
vincia de Cabo Verde; mas o longo tempo de serviço na Guiné e na província de 
S. Thomé e Príncipe dava-lhe direito á reforma que pediu e obteve no posto de maior. 

O sr. Cordeiro conhece a provincia de Cabo Verde, e as informaç.Ões que elle 
dá são dignas de inteiro credito. 

2 Esta ilha foi dada por um rei gentio, em 4830, ao negociante Joaquim Antó- 
nio de Matos, que indo para a Guiné ou Senegambia portugueza, como tripulante 
de um navio mercante, ali, depois de ser caixeiro, adquiriu alguma fortuna. Con- 
stituiu-se negociante, e foi nomeado pelo governo intruso de D. Miguel coronel de 



205 

Colónia, na foz e margem direita do Rio Grande de Guinala ou Bo- 
lota ; 

Geba, na margem direita do rio Geba ; 

Ganjarra e Fá, na margem esquerda do mesmo rio Geba ; 

Farim, na margem direita do rio de S. Domingos ou de Cacheu, que, 
impropriamente, alguns geographos coUocam na margem esquerda ; 

Bolor, na margem direita e foz do mesmo rio, e do esteiro que conduz 
ao rio Gasamansa ; 

Jufunco ou Jafunco^, situado no esteiro que da foz do rio de Gaclieu 
conduz ao rio Gasamansa, estendendo-se até é costa de Varella. 

milícias (sem soldados, por nao existir ali corpo algum de milícias), bem como foi 
feito pelo mesmo governo governador interino de Bissau. Este negociante ofTercccu 
ao então governo de Portugal esta ilha. Em 1869 existiam em Guiné, em más cir- 
comstancias, os netos do referido Joaquim António de Matos. 

1 Doesta povoação e reino tomou posse, para a coroa, em 1869, o governador 
de Gacbeu e dependências, João Carlos Cordeiro, como sg vé do seguinte docu- 
mento : 

«Copia. — Tratado de cessão de território feito à nação portugueza pelos Fclu- 
pos de Jafunco. — Aos 13 dias do mez de agosto de 1869, n'este território de Ja- 
funco, achando-se presentes os ill.°~ srs. João Carlos Cordeiro, governador da pra- 
ça de Cacheu e dependências; Francisco José de Sousa, administrador nomeado 
para o mesmo concelho; Manuel da Luz Ferreira, proprietário; Manuel Mcolau de 
Pina Áraujo, vigário e juiz foraneo n'este districto; Marcellíno Marques de Barros, 
vigário da freguezia de S. Francisco Xavier de Bolor; César Augusto da Silva, com- 
mandanle do palhabote de guerra Bissau; Lourenço Justiniano Padrel, segundo te- 
nente de artilheria; Manuel José Mendes^ Gscal no districto de Bolor; José Gomes 
Pereira, negociante; Joaquim José Vieira, agricultor; José Manuel Barbosa, caixei- 
ro de commercio; Marcos Gomes Bebello, caixeiro de commercio; commigo Benja- 
mim Fortes Ferreira, secretario do governo, de uma parte; e da oulra, Ampá-cá-bú, 
regulo de Jafunco; Abáge, regulo da circumscripção da mesma povoação e reino; 
Jaalam; Éserut; Jicójóbó; Jigenimjébé; Salamumein; Camínguel; Siculubriré; Sami ; 
Émogne e Quelor; grandes, fidalgos e ministros do mesmo território : — Pelos úl- 
timos foi dito, que cedem de hoje para sempre, todo o território de Jafunco, á nação 
portugueza, a quem desde muito reconhecem como legitima senhoria d'cste terri- 
tório, podendo todos os cidadãos portuguezcs, com exclusão de estrangeiros, esta- 
belecerem feitorias no mesmo território; sendo aqui arvorada a bandtnra nacional, 
para mostrar aos estrangeiros, que este território é legítima pertença da nação por- 
tugueza: obrígando-se elles, régulos e grandes, a não deixarem estabelecer n*este 
território estrangeiro algum, sem prévio consentimento das auctoridades portugue- 
zas. E de como assim o disseram solemnemente, e foi acceite pelo respectivo go- 
vernador da praça de Cacheu, em nome da nação portugueza, que representa, e por 
anctorisação superior, sq lavrou o presente tratado, que todos assignam. Eu Benja- 
mim Fortes Ferreira, secretario que o subscrevi e assigno. = (Assígnados), João Carlos 
Cordeiro, governador de Cacheu e dependências = F. J. de Sousa = Manuel L. Fer- 
reira = Manuel Nicolau de Araújo = Marcellino M. de Barros = César Augusto da 
Silva = Lourenço Justiniano Padrel = Manuel José Mendes = Como interprete, José 



206 

Zeguichor, situado na margem esquerda do rio Casamaasa. 

Todos estes pontos são presídios, isto é, logares mais ou menos for- 
tificados, governados por chefes administrativos militares. 

Cabe aqui dizer que também temos o titulo de soberania na ilha de 
Orango, uma das mais férteis e maiores das de Bijagoz, habitada por um 
rei e súbditos muito amigos da naç^o portugueza. 

Os pontos mais afastados da costa são Farim, Geba, Ganjarra e Fá. 

De Farim a Geba faz-se a jornada em três dias, e de Geba a Ganjarra 
ou Fá, vae-se em meio dia. 

O território confinante com a Guiné ou Senegambia portugueza, tanto 
pelo N. como pelo S., pertence á nação ingleza. Pelo N. está Santa Maria 
de Bathurst de Gambia, e pelo S. o governo da Serra Leoa, cuja capital 
é Freetown. 

O nosso território da Guiné, isto é, o Cabo Roxo e os ilhéus de Caio, 
pontos que os navegadores procuram, ficam cerca de 555 kilometros das 
ilhas de Cabo Verde (cidade da Praia de S. Thiago); a ilha de GorSe, a 
contar da barra do rio Casamansa, dista 240 kilometros; S. Luiz do Sene- 
gal está a 15 kilometros ao N. doesta ilha. 

Os portuguezes occupam a área das praças e presidios, e terrenos em 
volta, cuja superficie se estende até onde alcançam as balas de artilheria, 
e em virtude de contratos solemnes, feitos com as diversas tribus gen- 
tias, pertence-nos de direito o dominio pleno de todo o território da Gui- 
né ou Senegambia portugueza, desde a foz do rio de Casamansa (mar- 
gem direita) até ao Cabo da Verga, e todo o território que se estende 
para o interior, isto é, desde o Cabo Roxo até ao meridiano de Ganjarra 
no sertSo*. 

Para o interior, alem do meridiano, que passa por Ganjarra, sao pai- 
zes pouco conhecidos, constando, porém, serem habitados por gentios, 
que pouco tratam da agricultura, mas que se empregam, em gerali na ex- 



G. Pereira = Joaquim José Vieira = José M. Barbosa = Marcos Gomes Hebello = Do 
regulo Arapácá-bú -[- = Do regulo (rei) Abáge + = Do fidalgo Jaalam -f- = Do fi- 
dalgo Éserut+ = Do fidalgo JicóJóbó4- = Do fidalgo Jigenimjébó -[- = Do fidalgo 
Salamumein + = Do fidalgo Caminguel4- = Do fidalgo Siculubrlré + = Do fidalgo 
Sami + = Do fidalgo Émogue + = Do fidalgo Quelor+=. Eu, Benjamim Fartes 
Ferreira^ secretario». 

1 Os francezes, contra os nossos incontestáveis direitos, estabeleceram-se no 
ilhéu dos Mosquitos, na barra do rio Casamansa, levantando ali uma povoação com 
fabricas de tecidos, á qual deram o nome de Carabane, occupando outro ponto in- 
terior do mesmo rio, na margem direita, onde construiram uma feitoria, a que de- 
ram o nome de Sedhio ou Seliu, onde ha grande movimento conmiercial, especial- 
mente de resinas e gonmias. 



207 

pioração do oiro, que permutam com os mandingas. Muilo mais para o 
interior, nada com certeza se sabe. Na área occupada pelas diversas tribus 
gentias, que por contratos nos prestaram vassallagem, e que poucas ha 
que tal não tenham feito, podem aforar-se muito economicamente gran- 
des porções de terreno para agricultar, mediante um pequeno foro, censo 
ou pensão. 

O terreno de 277 hectares, pouco mais ou menos, pôde ser comprado 
pelo foro anmlal de dois garrafões de aguardente, dez libras de pólvora 
e igual porção de tabaco. 

O terreno em geral é muitissimo fértil : as chuvas são copiosíssimas, 
especialmente desde o mez de julho ^ até ao fim de outubro. 

A vegetação é de um desenvolvimento tal, que a de S. Thomé, em re- 
lação a esta, pôde dizer-se mesquinha. 

O baobá ou embondeiro, que é uma malvacia, attinge dimensões enor- 
mes ^. 

A Senegambia é um terreno altamente rico e susceptível de ser culti- 
vado, porque ha ali todos os vegetaes úteis dos paizes intertropicaes, e 
é muito apropriado para a colonisação. 

Pôde ser habitado por europeus, poisque, embora em más condições, 
vivem ali portuguezes, francezes e inglezes, gosando regular saúde, sof- 
frendo alguns, a menor parte, febres periódicas, que ordinariamente não 
são mortíferas. 

Os melhoramentos que se devem realisar quanto antes são : melho- 
rar as fortiflcações das praças de Bissau e Cacheu, e fortificar comjileta- 
mente os demais presídios, que muito bem o podem ser com pequeno 
dispêndio, construindo-se blokaus no circuito dos mesmos. Pontos ha que 
muito carecem de igual systema de fortificação, como são Bolor, Matta 
de Putama e Colónia. 

A guarnição militar deve promiscuamente desempenhar as funcções 
de fiscalisação aduaneira e militar propriamente dita ; este systema é gran-* 
demente económico; mas para que surta bom resultado, é também pre- 

^ Segando João Carlos Cordeiro, que ali foi governador, a gente da terra con- 
sidera o dia de Santo António como o primeiro dia de chuva; e elle effecti vãmente 
nos annos em que ali esteve presenceou pequenos chuveiros em tal dia. 

2 Para abraçar o tronco de algumas doestas arvores são precisos muitos ho- 
mens. Algumas d*ellas, envelhecendo e destruindo-se-lhes a medula, formam uma 
espécie de casa, em que habitam familias gentias, collocando em outras as suas 
batôbas ou chinas, isto é, os seus templos. 

Outras vezes, estas arvores, tendo destruída a medula pela parte superior, en- 
chem-se de agua na estação pluvial, formando bons depósitos aquáticos, que os 
gentios perfuram na base, fazendo uma espécie de bica a que adaptam uma ro- 
lha, para tirar agua quando lhes é necessária. 



208 

ciso que a recompensa pecuniária seja condigna, e o castigo esteja pró- 
ximo do delicto. 

Em Guiné ha grandes matas e florestas de arvores gigantescas, que 
dão ricas e formosas madeiras próprias para marceneria e construcções, 
as quaes são propriedade de alguns gentios. Quando se pretende fazer um 
corte, offerece-se ao senhor da mata ou floresta uma dacha, como com- 
pensação do corte a fazer, para carregar uma embarcação, seja de grande 
ou pequena lotação, a qual dacha é sempre acceite e consiste no valor 
nominal de 50f$000 réis, valor que é realmente inferior a metade d'esta 
cifra, porque é pago em tabaco, pólvora e aguardente : é assim que se 
effectuam as carregações de madeira. 

Gomo n'esta região vem aos mercados grande quantidade de azeite de 
palma, chabéo ou coconote (semente para fazer azeite), mancarra ou gin- 
guba (espécie de amendobi ou amendoim), couros, cera, mel, arroz, bor- 
racha, ele, é preciso crear companhias para chamar os productos ao porto 
de Lisboa S evitando por esta forma o monopólio feito pelos estrangei- 
ros*. 

Os portuguezes que ali commerceiam, permutam unicamente com o 
gentio os géneros que, a credito, recebem das casas francezas e inglezas, 
e com as espécies obtidas satisfazem seus débitos ás mesmas casas. 

Os gentios, em geral, não gostam dos inglezes nem dos francezes; 
não commerceiam com elles. São amigos e affeiçoados aos portuguezes 
por diUerentes rasões, tratando-os pela expressão de tcamaradas». 

Adoptado o systema atrás desenhado, a Guiné ou Senegambia portu- 
gueza será conhecida em Portugal, o que até hoje não tem acontecido, 
porque todas as suas producções vao abastecer os mercados de Marselha 
e Liverpool. 

Depois, e mais tarde, quando as diversas tribus gentias estiverem 
mais civilisadas, para o que, como é visível, caminham a passos agigan- 
tados, devem crear-se companhias agricolas, para que d^aquelle fértil 
solo se possam tirar os grandes valores que encem. 

Cuidando-se da colonisação da Guiné, Portugal terá ali um outro Bra- 
zil, de que poderá obter os maiores recursos. 

Os régulos da Guiné Ozeram contratos solemnes, em que esponta* 

^ É da maior convenicncia que nos portos de Bissau c Bolama toque mensal- 
mente um paquete : tal medida animará bastante o comroercio. 

2 Os gentios não entram nas casas dos estrangeiros nem com elles permutam 
cousa alguma, porque ise consideram portuguezes, pelo fundamento de que os que 
ali foram primeiro, ha muitos séculos, eram também portuguezes, e porque, dizem 
também elles, tudo que é portugucz é bom, benv como tudo que passa pela mão 
dos portuguezes fica melhorado. 



209 

oeameDle se submetleram á aucloridade portugueza, sem reserva de di- 
reitos de natureza alguma. 

As fazendas agrícolas existentes são poucas ; tem entretanto alguns ri- 
cos pomares de laranja de excellente qualidade. Ha também pequenas 
plantações de canna saccharina, que attinge muita grossura e serve ape- 
nas para sobremesa. 

As grandes culturas sâo unicamente as do arroz, feitas especialmente 
no território Flupo ou Felupe e Mandinga, e as de mancarra ou gingu- 
ba, que se cultiva em grande escala nas margens do Rio Grande de Gui- 
nala, ou Bolola ou Biguba, e nas ilhas de Bolama e Gallinhas. 

A ilha de Bolama é rica, não só pelas suas producções, mas também 
pela situação próxima ao Rio Grande de Guinala, ou Bolola ou Biguba, e 
pelo excellente porto que tem. 

A ilha das Gallinhas, muito mais pequena do que a antecedente, 
abunda em producções ; mas será sempre pobríssima e sem importância, 
como muitas outras do archipelago de Bijagoz, porque não tem porto 
que dê accesso aos navios, e só pôde ser demandada por canoas, o que 
encarece muito os géneros, pela accumulação dos fretes. 

O ilhéu do Rei, em frente de Bissau e na boca do rio Geba, é grande 
e saudável, tem alguma agua, e pôde ter mais, construindo-se cisternas, 
como em Gorée se pratica. Este ponto é o mais apropriado para se edifi- 
carem casas, e encontram-se ali poucos habitantes. 

Pôde mudar-se para aquelle logar a povoação principal, poisque esta 
localidade offerece vantagens que não se encontram facilmente n'outros 
sítios. 

A ilha de Bussis é nossa. Vivem ali alguns negociantes portuguezes. 

O paiz é abundante em pequenas gallinhas, grandes e formosos patos, 
gado vaccum e suíno; e no interior ha elephantesS muito gado cabrum, 
lanígero e cavallar, sendo este de raça árabe. 

mar abunda em peixe e mariscos, havendo grande quantidade de 
cur^ina. 

Nos parceis da Guiné existe a concha peroleira. 

Cabe aqui dizer que no litoral dão-se mal os cavallos. Os que tem 

1 Fazemos aqui menção de ama circumstancia ignorada pela maior parte dos 
europeus que não téem percorrido esta parte da Africa. Os elephantes criam-se 
em grandes manadas no interior da Guiné ou Senegambia portugueza, bem como 
em outras partes da Africa; em certas epochas do anno vem ao litoral (em mana- 
das) e passam o canal, nadando entre a Colónia e a ilha de Bolama, indo estacio- 
nar por algum tempo nos legares de pasto d'esta ilha^ recolhendo ao continente em 
outras epochas. São inoffensivos, tanto para os habitantes da Colónia como para os 
da ilha de Bolama. 

14 



210 

vindo de Geba e Farim para Bissau e Cacheu apenas duram cerca de um 
anno. Será devido aos pastos? 

A Guiné, pela sua extensão e riqueza, è muito superior á provincia de 
S. Thomé, e mesmo ao archipelago de Cabo Verde; é mais doentia do 
que estas ilhas ; alguns porém a julgam menos do que as ilhas de S. Tbomé 
e Príncipe, que recebem as emanações palustres do rio Niger e as do 
próprio solo pantanoso lhe causam grande damno. 

As terras do interior s3o, em relação ás nossas, extensíssimos sertões, 
em que também ha, aqui e ali, alguns habitantes exploradores de oiro. 
A Guiné ou Senegambia portugueza é pouco acidentada ; não tem montes 
dignos de mencionar-se. 

Os habitantes doeste território são, começando do N., baiotes, ílu- 
pos ou felupes, banhumes ou benhuns, cassangas, papeis ou buramos, 
balantas, bijagós e nallús. No interior, porém, a 300 kilometros da costa, 
existem os mandingas, fulas e futa-fulas, povos muito mais civilisados do 
que os que se avizinham ao litoral. 

Os mandingas entregam-se á industria fabril e commercial. 

Os fulas occupam-se da creação de gados e da cultura da terra. 

Os fula-fulas dizem ser os senhores dominicaes do terreno occupado 
pelas tribus precedentes; são todos de profissão militar, e vivem dos 
tributos que lhe pagam pelo usufructo dos terrenos os mandingas e os 
fulas. Estanciam por alguns annos nas diversas tabancas ou trabancas das 
tribus referidas. 

Gabe aqui elucidar, que tabanca ou trabanca significa povoação cercada 
de paliçada, geralmente construída com grossos madeiros de pau-car- 
vão, de pontas aguçadas, e a que addicionam grande quantidade de abro- 
lhos. 

Os futa-fulas formam grandes corpos militares de cavallaria e infan- 
teria, sendo aquella muito numerosa : dizem ser indígenas das serras 
do império de Marrocos, d*onde vem á mencionada região, de annos a 
annos, cobrar os tributos dominicaes : tanto futa-fulas como mandingas 
e fulas são em geral mahometanos; dizemos em geral, porque existem 
algumas pequenas povoações, como é amostra uma, junto a Sancoriá, em 
que os seus habitantes se entregam ao uso de bebidas espirituosas e da 
carne de porco, e a tudo que o Al-Koran prohibe: estes são chamados 
senenquens. As ultimas três tribus de que acabámos de tratar são muito 
mais civilisadas do que as que se avizinham ao litoral. 

No território comprehendido entre o rio de Geba e o Rio Grande de 
Guinala, ou Bolola ou Biguba, estanciam os biafras, biaffares ou biafadas, 
tribu menos civilisada do que as três antecedentes, mas, ainda assim, muito 
mais civilisada do que as tribus que se avizinham ao litoral. Os biaíraSi 



2H 

biafares ou biafadas e os mandingas, futa-fulas e fulas, trajam uma es- 
pécie de capas dalmaticas, usando-as os ricos de seda, que também, em 
geral, calçam sandálias, ou botas de polimento de cano de marroquim en- 
camado, que importam de Gambia e de outros pontos. 

As tribus vizinhas ao litoral usam apenas tangas : as dos papeis ou bu^ 
ramos s5o de pelle de cabra sem cortume, e as dos flupos ou felupes de 
estamenha, os baiotes de palha, etc. 

Em geral as tribus vizinhas ao litoral são selvagens, dotadas de inau- 
dita barbaridade : os papeis ou buramos s3o os mais indomáveis. 

Todas estas tribus se nutrem dos productos que a natureza apre- 
senta espontaneamente: apenas cultivam pequenas porções de arroz, 
sendo excepção doesta regra os flupos ou felupes, que cultivam em ponto 
grande este género. Também se occupam da pesca, que constitue em 
grande parte o sustento d'estas tribus. 

A necessidade, que têem estes selvagens, de aguardente, tabaco, pól- 
vora, armas de fogo, espadas, etc, faz com que crestem as muitas col- 
meias que espontaneamente se desenvolvem no mato, para virem per- 
mutal-as ás praças e presidios, bem como permutam o azeite de palma, que 
fabricam; semente de chabéo ou coconote, borracha, etc, que exploram. 

Os mandingas e futa-fulas são os que fornecem em grande quanti- 
dade couros e cera, oiro e escravos (forneciam escravos). 

Em geral ha segurança individual entre as differentes tribus da Guiné : 
ha factos que o comprovam. E devemos também recordar o preceito 
dos gentios emquanto á segurança dos portuguezes que os visitam, estão 
de passagem nos territórios ou ali vão commerciar. É-lhes garantida a 
vídaS porque ha entre aquelles gentios alguns preceitos jurídicos que 
assim o determinam. Sempre que algum portuguez ou gentio, estando 
em qualquer ponto, d'elle recolhe á sua residência, è considerado como 
hospede, e em tal caso se lhe acontece alguma fatalidade no transito, as 
auctorídades do logar da permanente residência vão exigir satisfação ás 

> Bstaodo a praça de Caehea em guerra com orne tribos gentílicas, achava-se 
DO reino do Churo (Papeis) um negociante. Era esta uma das tribus belligerantes. 

O negociante manifestou desejo de se recolher á praça. O rei e sen conselho 
dedararam*lhe que, sendo, como era, hospede, lhe seria sempre garantida a maior 
segurança, como era preceito geral. O negodante insistiu para se retirar, e liqni* 
dando os seus negócios, dirigiu-se para Cacheu. Trouxe os géneros qne tinha conp 
prado e poz-se a caminho, vindo acompanhado por alguns gentios até á mata em 
frente da praça sitiada. Áhi beberam aguardente, como é uso nas despedidas, mos- 
trando-lhe as gentios a maior affeição, e íizeram-lhe ver, no emtanto, que quando 
estivesse dentro da praça, seria o primeiro que elles matariam se podessem. Em 
seguida abraçaram-se e despediram-se, e o negociante entrou na praça sem ter 
so&ido o mais leve incommodo. 



242 

do logar ou paiz de onde o mesmo recolhia, pelo principio de que devem 
garantia e segurança no caminho a percorrer, por ser hospede ^ 

Os habitantes, tanto do continente como das ilhas, incluindo os bija- 
goz, têem por crença, que em morrendo, nascerão de novo'; isto ainda 
que seja fora da pátria, e em tal caso irão nascer de novo na pátria, re- 
sultando d'esta crença serem muito valentes. 

ProTinda de S. Thomè e Príncipe e saas dependeDcias. —Esta provincia, que 
faz objecto especial do presente livro, não é tão limitada como á primeira 
vista se pôde imaginar, e por isso fazemos n'esta secção algumas consi- 
derações para o demonstrar ^. 

Dizem uns que a ilha de S. Thomé não tem importância, e outros re- 
putam-na muito pequena, e portanto incapaz de grande desenvolvimento 
agrícola *. 

O melhor modo de explicar este ponto, é chamar a attenção para as 
seguintes estatísticas, que julgámos não deixarão a menor duvida com 
respeito á sua superficie e população: 



1 O equivalente pela morte de um homem são seis vaccas ou a cabeça do ma- 
tador, que, se tem meios para pagar as seis vaccas, fica passeíando e livre, mesmo 
entre os parentes do morto! 

Igual penalidade está estabelecida se qualquer commette adultério com as mu- 
lheres do rei. 

2 Um banbume, de nome Senebà, observa o sr. Cordeiro, apresentou-me um 
filho, e disse-me, que no corpo d'aqueile seu filho estava o espirito de om sen tio 
(de Senebá), e que por isso se parecia em tudo com elie, até nas menores acções. 

É principio geral de direito entro todas as tribus gentílicas, que o sobrinho 
herde do tio, quando filho de irmà^ expressando este principio assim : Os filhos de 
minha irmã, meus sobrinhos são; os de meu irmão ou o serâo ou não. 

3 No capítulo 4.^' e seguintes é que descrevemos com o máximo desenvolvi- 
mento esta importante província. 

^ cGausa espanto, disse um deputado na sessão de 17 de março do corrente 
anno, a ingenuidade com que nos jomaes inglezes se pergunta se é possível que a 
pequena ilha de S. Thomé precise de tão grande numero de trabalhadores da Libé- 
ria, e em seguida se assevera que não pôde precisar.» 

Folgamos ter occasião de, no capítulo seguinte, dar uma minuciosa descrípção 
da ilha de S. Thomé, fazendo ver não só o numero de fazendas agrícolas que se 
acham abertas, mas também o numero de trabalhadores de que necessita para ser 
convenientemente cultivada. 



213 



Ilhas 

Ilha de S. Thomé 

Madeira • 

S. Thiago de Cabo Verde 

S. Miguel 

Terceira 

Faial 

MayoUe 

Coraçáo 

Domínique (Antilhas) 

Santa Luzia 

Singapura 

ProTincias, districtos e archipelagos 

Província de S. Thomé 

Districto de Ponta Delgada , 

Madeira e dependências 

Districto de Angra , 

Paláos 

Saint Pierre e Míquelon 

Bermudas , 

Seychelles 

índias hollandezas, occidentaes 



Kilomclros 
quadrados 



UabiUmles 



i:2ii 

864 
550 
8i8 
897 
210 
106 
264 
1:130 



926 


29:488 


600 


118:609 


718 


35:5.34 


747 


100:000 


500 


42:000 


178 


24:000 


366,3 


12:000 


550 


22:713 


7.'>4 


23:173 


642 


31:610 


580 


97:131 



32:200 

124:000 

218:609 

72:000 

10:000 

4:894 

15:309 

11:082 

39:150 






A proviDcia de S. Thomé pôde evidentemente coUocar-se a par de al- 
guns districtos que passam por muito importantes, e a fertilidade dos seus 
terrenos é uma segura garantia da sua prosperidade. 

Na capital da província publíca-se o Boletim official, cujo primeiro nu- 
mero saiu á luz a 3 de outubro de 1857. Tem quasi vinte annos de exis- 
tência, e representa um valioso manancial de documentos para se apre- 
ciar o movimento commercial e administrativo da provincia. 

Proftada de iogola. — N3o corresponde esta denominação á grandeza 
do território, cuja superficie é quasi o dobro do Reino Unido ou Inglater- 
ra, e excede muito a de Hespanha, mas como está oíflcialmente adoptada, 
por isso a tomámos para titulo d'esta breve descripçSo. 

A provincia de Angola compõe-se actualmente de três districtos, con- 
tando do S. para o N., Mossamedes, Benguella e Loanda. 



214 

S5o muitos os presídios que ha no interior, e o numero de concelhos 
eleva-se a mais de (rinta. 

O domínio portuguez estende-se a dififerentes Jogares, havendo bas^» 
tantes régulos indígenas nossos allíados. 

A capital da província tem grande movimento commercíal e n'ella está 
o tribunal da relação, á qual são subordinadas três comarcas S incluindo 
a da província de S. Thomé. , 

Se a respeito de muitas possessões estrangeiras ha divergências quan- 
to á superficie, não se nos deparam menos acerca d'esta província. Como 
temos dito, não é possível conhecer a população especifica, nem a acli- 
mação em geral, sem se ter noções exactas da grandeza do paíz. 

Cumpre-nos, attenta a falta de dados positivos, acceitar os mais ap-« 
proximados e combater os que nos parecerem inacreditáveis. 

José Joaquim Lopes de Lima, nos Ensaios sobre a estatística das pos^ 
iessões portugmzas, publicados ha trinta e três annos, calcula a superficie 
da província de Angola em 524:777 kilometros quadrados, 

£ um livro conhecido de todos, e se não é isento de erros, como acon- 
tece quasi sempre em trabalhos d'esta ordem, merece comtudó ser lído^ 
ou para o corrigir ou para corroborar o que ali se acha escripto. E a 
rasão é o terem-se servido d'elle muitos escríptores estrangeiros, e ser 
preciso divulgar ou rectificar muitas das informações já por vezes repe- 
tidas. 

Não nos admira, porém, ver transviados os estrangeiros, quando 
alguns dos nossos escríptores se afastam do que passa por mais averi- 
guado. 

Citemos ao menos Carlos Yogel, que, no seu importante livro Le Pcr^ 
tugal et ses colonies reproduziu a superficie da províncias de Angola, que 
Lopes de Lima indicara. 

Larousse absteve-se de referir a superficie d'esta notável província, e 
nas quarenta e três linhas que lhe consagra, não duvidou escrever: 

f Ce territoire (refere-se á província de Angola) n*est pas sous la domi- 
nation du Portugal, qui ne possêde en somme que quélques forts et les com- 
ptoirs (ou feiras), situées à de grands distances les uns des autres.i^ 

Apesar de se mostrar completa ignorância a respeito d'esta provín- 
cia, diz-se comtudo que ella tem 560 kilometros de E. a 0. e 100 de N. a 
S., estendendo-se o nosso domínio até 450 kilometros para o interior. 

Em 1875 publicou o sr. Gerardo Pery a Estatística geral de Portu- 
gal e colónias, na qual calcula a superficie em 617:380 kilometros qua- 
drados. 

^ Foi recentemente creada a nova comarca de Ambaca. ^ 



218 

No Annuario estatístico de Gotha (1876) eleva-se a superflcie de An« 
gola a 809:400, e estamos convencidos de que este numero é ainda infQ^ 
rior á verdade. 

Imagine-se, pois, o nosso assombro ao ver que no Diccionario dê geo* 
graphia universal, publicação da actualidade, se admittiu como superficie 
da província de Angola ametade da área apresentada por 6. Pery, e que 
no Diccionarío popular foi apresentado, sem reparo, o mesmo numero 1 

No meio de tal divergência, e attenta a conflança que nos merece o 
trabalho do sr. Gerardo Pery, acceitdmos o seu calculo por se approximar 
mais da realidade, e estamos convencidos que não decorrerão muitos an- 
nos sem se proceder aos estudos planimetricos, a fim de se conhecerem 
os verdadeiros limites da província de Angola, assim como a sua super- 
fície, hydrographia e cborographía. 

Não receiâmos ser taxados de prolixos, porque seria faltar ao nosso 
dever não mostrar a urgente necessidade de se attender á resolução da 
questão fundamental — determinar com exactidão os limites da província 
de Angola, bem como a respectiva superficie, a fim de que possam ava- 
liar-se coín a maior exactidão possível os princípios da aclimação, sem a 
qual não ha colonisação durável. 

Angola S situada na costa occidental da Africa entre o 5^ e 18^ de lati- 
tude O., comprehende para E., no interior, os seguintes distríctos e conce- 
lhos, occupados pelo governo portuguez, e ainda outros que, regidos por 
regulamentos de indígenas, prestam vassallagem ao mesmo governo: 

Ao S., no districto de Mossamedes, os concelhos do Bumbo, com- 
prehendendo as colónias de Capangombe e Biballa, o da Huilla, Gambos, 
Humbe e Camba na margem direita do rio Cunene. Ao S. de Mossame- 
des a colónia do rio Kroque e ao N. a do rio S. Nicolau. 

No districto de Benguella o concelho da Catumbella, a E., Quilengues 
e Gaconda, os pontos de feitorias commercíaes de Bihé, Bailundo e Hambo, 
e mais ao N., na costa, o Egito e Hanha. 

No districto de Loanda, capital da província, os concelhos de Novo 
Redondo e Quícombo, nas margens do Quanza, Galumbo, Muxíma, Mas- 
sangano e Gambambe; nas margens do Bengo o concelho da Barra, IcoUo 



1 cDe muito boa vontade accedo ao seu pedido, enviando-lhe para o seu livro 
uma rápida descripçao da província de Angola tal qual o pouco tempo de que para 
este trabalho dispuz, os poucos meios auxiliares que possuía alem da minha expe- 
riência e a exiguidade dos próprios cabedaes. 

«É portanto débil o trabalho, por ser todo de uma pobre lavra, mas esse dou-o 
de muito boa vontade para tão útil fim como seja o de espalhar notícias sobre as 
nossas colónias, por cuja prosperidade eu sou sincero enlhusiasta.= i4/6ír/o da 
Fonseca,* 



216 

e Bengo e Zenza do Golungo ; ao N. Libongo e Ambriz e a E. Golango- 
Alto, Cazengo, Ambaca, Pungo-Andongo, Malange, Duque de Bragaoça, 
Cassange, Encoge, Betnbe e S. Salvador do Congo; comprebendendo to- 
dos estes pontos uma área n3o inferior a 600:000 kilomelros quadra- 
dos*. 

Desaguam na costa portugueza os seguintes rios: Cunene, Kroque, 
Bero, Giraul, S. Nicolau, Carun jamba, Copororo ou de S. Francisco, Ca- 
tumbella, Hanba, Egito, Tapado, Quicombo, Guenga, Cuvo, Longa, Quanza, 
Bengo, Dande, Lifune, Honzo, I^ge, Ambriche, Zilundo e Zaire. 

Os mais notáveis no interior sao o Lucala, Quango e Cubango. 

Não cabendo na estreiteza d'este capitulo alongar muito a descripção 
de todos estes pontos, dâo-se unicamente alguns rápidos apontamentos 
da sua geographia physica e politica consoante os conhecimentos práticos 
que temos da localidade. 

A parte Occidental da Africa que constitue a provincia de Angola é 
atravessada em toda a sua extensão de N. a S. por uma prolongada cor- 
dilheira, a qual corre mais ou menos parallela á cosia atlântica, parecendo 
até afastar-se mais para E., exactamente no ponto em que a costa tam- 
bém recolhe um pouco n'este sentido entre Benguella e o rio Longa. É 
também n'este ponto em que a cordilheira mais se afasta para E. que o 
terreno parece attingir maior altura, sendo o paiz dos Ganguellas e suas 
vizinhas serranias que dão origem aos principaes rios conhecidos, como 
o Cunene, o Cubango, o Cuvo e o próprio Zaire, cujas aguas parecem ter 
origem no elevado paiz dos Ganguellas e no lado oriental da serra de Mo- 
zamba, assim também as do Quango e do Kassai ou Kassabi, restando 
ainda saber qual dos dois é af&uente ou o originário do Zaire. Todos os 
outros rios que desaguam em corrente parallela á costa toem origem em 
vários pontos da cordilheira. 

E toda esta disposição de terreno, e outras considerações de geogra* 
phia physica levam naturalmente a dividir todo o território em três gran- 
des zonas, que são a zona baixa ou da costa, a zona média ou monta- 
nhosa e a zona alta ou plan'alta. 

A zona baixa, comprehendida entre a montanhosa e o mar, é na 
maior parte formada de terrenos aluminosos e mui permeáveis ás aguas, 
não offerecendo grande aspecto de vegetação fora das bacias dos rios que 
a atravessam, alguns dos quaes, grossos no interior, diminuem de tal 
forma de volume, que chegam a deixar de correr sobre o solo, conser- 

1 A saperficie da província de Angola, não cessaremos de o repetir, não está 
determinada, e cada escriptor adopta um ou outro calculo, chegando a apresentar 
dífTerenças enormes. Não é conveniente que continue similhante confusão. 



2i7 

vando apenas uma corrente subterrânea mais ou menos Tunda, que só 
apparece sobre o leito em tempo de chuvas. 

O terreno geral n'esta zona é pouco accidentado, e as chuvas são ir- 
regulares ; ainda assim dão-se n'elle soffrívelmente as plantas tuberosas 
e todas aquellas que não exigem grande quantidade de humidade para o 
seu desenvolvimento. Em muitas doestas terras produz-se e cultiva-se o 
algodão, a mandioca e alguns cereaes. Dão-se varias espécies de pal- 
meiras, coqueiros, amendoeiras, espinheiros, etc, e é onde se produz a 
urzella em determinadas arvores caracteristicas, a qual se não dá em ou- 
tra zona. 

Este paiz, desde Benguella para o S., começa a ser estéril, e ainda ao 
S. de Mossamedes, menos cortado de rios e tendo a serra mais próxima, 
forma um extenso e plano areial sem espécie nenhuma de vegetação, íi* 
cando-lhe aquella a uns 100 kilometros a E., cortada quasi a prumo e 
alterosa como um gigante, dominando o vasto oceano de areia. 

Nas margens dos rios, formadas de fundas camadas de terra argillosa 
e fertilisadas pelas inundações, muda completamente o aspecto dos terre- 
nos. Ali a vegetação equinoccial se ostenta magestosa com todo o vigor 
e viço das matas soberbas d'aquellc clima creador; e nas terras cultivadas 
das margens dos rios, regulada convenientemente a estação e a humida- 
de, dá-se tudo com espantosa fertilidade. 

Florentes palmeiras, laranjeiras, limoeiros, cidreiras e diversas arvo- 
res de fructos indigenas da America, vegetam ali quasi espontaneamente. 

Nos terrenos menos assombrados de arvoredo cultíva-se com grande 
vantagem a canna de assucar, milho, feijão, ervilha, abóbora, batata doce, 
inhames, gandos, ananazes, tabaco e toda a hortaliça, sendo a mandioca 
sobretudo a planta que mais occupa a assiduidade dos cultivadores. 

Nas largas margens dos rios mais volumosos vegetam magestosos e 
densos palmares, porque esta utilíssima arvore da zona tórrida é aquella 
que mais resiste ás grandes inundações. 

O Zaire, o Quanza, o Lucala, o Bengo e o Dande são também fertilis- 
simos em pescado, quer nos próprios rios, quer nas grandes lagoas que 
communicam com o seu leito e são por elles alimentados nas enchentes. 

Este pescado, que não pôde ser todo consumido em fresco, fornece 
depois de secco uma grande parte da alimentação de muitos povos do in- 
terior, assim como a pesca nas costas do mar, que recentemente tem to- 
mado grande desenvolvimento. 

A zona media, ou a montanhosa, formada pela continuada cordilheira 
e soas ramificações, acha-se n'uma distancia approximada entre 100 e 
180 kilometros da costa, e é incontestavelmente o paiz mais productivo 
do grande reino de Angola. 



«18 

A sua moderna exploração em differentes pontos, depois que se com* 
prehendeu que a agricultura nas colónias era o meio mais seguro de as 
desenvolver, veio descobrir uma parte dos immensos recursos que aquelle 
paíz é susceptível de prestar. 

Clevn-se a cordilheira em alguns pontos a muito mais de 1:000 me- 
tros acima do nivel do mar, e numerosíssimas nascentes de excellente 
agua brotam de toda ella, formando os rios que, de menor volume, des- 
aguam na costa. 

Na parte mais baixa dá-se perfeitamente o algodão, o anil, o tabaco, 
a canna de assucar, todos os cereaes e legumes, e ainda as grandes matas 
de palmares até o 13° de latitude S. 

Dá-se em toda ella o café, riquissima planta que deve de futuro vir a 
constituir a sua principal riqueza. 

Os montes e valles estão, ainda na maior parte, cobertos de magnifi- 
cas florestas, de arvores de fructo e essências mui variadas. Diversas ma- 
tas produzem a borracha e algumas gommas e resinas conhecidas, o mui- 
tos productos de outras são ainda desconhecidos. 

A bananeira, com suas variadas espécies, é um riquíssimo alimento da 
população d'aquelles sitios. 

As chuvas são ali regulares, começando em agosto para* o S. e em se- 
tembro e outubro para o N. Os terrenos, compostos de terra muito argil- 
losa, conservam constante humidade durante os outros mezes, tempo cha- 
mado do cacimbo, e em que um denso e húmido nevoeiro pousa ordina- 
riamente todas as manhãs sobre o arvoredo das montanhas. 

As chuvas no tempo próprio são torrenciaes, e os permanentes des- 
pojos do arvoredo fertilisam bastante o terreno adjacente. Com estes com- 
binados elementos de humidade, calor e húmus, entretem-se sempre uma 
vegetação geral e poderosa, que faz d'aquelle paiz o mais productivo de 
todos. 

Nas abundantes nascentes e ribeiros encontra também a agricultura 
excellentes forças para motores hydraulicos, infelizmente ainda pouco 
aproveitados, e também se encontram em vários pontos climas apropria- 
dos ás diversas espécies de cultura, conforme a altura e a latitude da po- 
sição escolhida. 

Ao S. de Mossamedes e a L. dos Cubaes eleva-se a serra a grande al- 
tura, dando origem aos rios Bero e Kroque, e mais ao S. é atravessada 
pelo Cuncne, que desagua ao S. da bahia dos Tigres. 

A L. de Mossamedes é muito conhecida a famosa Chella, onde ha 
numerosos estabelecimentos agrícolas nas colónias de Bumbo, Capam- 
gombe e Bivalla ; correndo para o N. denomina-se, no concelho de Quílen^ 
guês. Munda do Hambo, e d'ali parece afastar-se muito para h., daudo 



ei9 

erigem a dífferentes rios, e entre elles o Cuvo, se não é por elle atra- 
vessado. 

O extenso paíz percorrido por este rio é pouco conhecido, mas sabe- 
se que é bastante fértil. 

O paiz de Gelles, que entesta com o concelho de Novo Redondo, é Ter- 
tilissímo, e existe ali o café indigena. ^ 

Mais para o N. segue a cordilheira pelo alto Libolo, paiz também fertí- 
lissimo e coberto de espessas matas, até ser cortada pelo Quanza, e d'ali 
continua por Cazengo, Golungo Alto, Dembos e Encoge até o Zaire. 

Sabe-se por experiência que no paiz montanhoso da zona media, prin- 
cipalmente para o lado do N., se nao dão bem os bois, os cava lios, os 
burros e mesmo os cães e os carneiros que nSo são indígenas, emquanto 
que se dão perfeitamente os porcos, as gallinhas, os patos, os perus, as 
cabras, os carneiros e os cães indígenas. 

Os bois, burros e cavallos soltos no campo, principalmente no tempo 
das chuvas, raras vezes duram um anno. Começam por entristecer e per- 
der a comida, emagrecem e morrem ordinariamente no flm de um mez 
de doença, encontrando-se-lhes o pulmão affectado e cheio de bolhas, que 
indicam a alteração d'aquelle órgão. 

Aos cães da Europa, excepto os de casta pequena, que nunca saem 
de casa, acontece quasi o mesmo, com a diíTerença de que a maior parte 
começam por cegar e pouco tempo duram depois. 

AUribue a gente da terra a doença dos bois á hypothese de comerem 
junto com as pastagens plantas venenosas, e é citada entre ellas uma es- 
pécie de ortiga brava, ali denominada caçáuçáu. Os dois seguintes factos 
parecem apoiar esta supposição : 

1.^ Os bois domesticados chamados bois-cavallos, os cavallos e os 
burros que vivem á mangedoura sem irem pascer livremente no campo» 
resistem á moléstia, sobretudo conservando-os no tempo da chuva em es- 
tábulos escuros, onde não entre a mosca, que em grande quantidade os 
persegue n'aquella estação. Consta mais que no paiz montanhoso do Bra- 
zíl, onde o gado também se não dá bem, os lavradores, para conseguirem 
coDSorvaI*o, limpam e cercam uma determinada extensão de terreno, se- 
melando só gramma, a qual mata toda a outra herva, e é dentro d'aquel1e 
cerrado onde somente deitam os animaes a pastar. 

2.^ Alguns d'ostes animaes creados á solta chegaram a ter a molés- 
tia e ficaram quasi mortos, mas resistiram a ella por grande excepção, e 
viveram depois muito tempo, continuando a andar soltos, unicamente com 
a prevenção natural de fugirem durante os dias claros, e quando a mosca 
mais os persegue, para um logar escuro, e saindo somente de motu próprio 
a pascer durante a manhã ou nas tardes mais encobertas. 



220 

Temos em contrario a considerar uma oulra hypothese sobre a causa 
(la mortalidade do gado no paiz montanhoso, a qual se refere á celebre 
mosca chamada tsé-tsé, muito conhecida na Africa oriental, e descripta 
por Livíngstonc, e que, sef;undo as observações d'este viajante, mata os 
bois e os machos que permanecem por quinze dias deutro dos districtos 
por ellas habitados, poupando-lhes as crias que ainda se alimentarem a 
leite. Ora esta mosca, por nós conhecida, grossa, parda, de grandes azas 
e muito veloz, existe mais ou menos no paiz montanhoso e ainda na baixa 
do Lucalla, onde o mesmo Livingstone também a encontrou. 

Á vista dos únicos dados que temos, será a tsé-tsé ou outra a causa 
da morte do gado, ou será o caçauçau ou outra planta venenosa que 
aquelles animaes (excepto o cão!) comem junto com o capim das pas- 
tagens? 

Admira que os indígenas, não tendo ali podido aclimar o gado bo- 
vino, que se dá bem nas planuras de Ambaca, já fora da cordilheira, nSo 
tenham conhecido até hoje a venenosa mosca e attribuam a mortandade do 
gado a uma erva venenosa. Alem d'isso é certo que a mosca não envenena 
com a picada, porque os homens e ainda outros muitos animaes também 
mord idos não téem outro incommodo a não ser a pequena dor que produz a 
sua ferroada similhante á do mosquito. Mas quem sabe se ella ataca os bois 
e cavallos, pela forma por que alguns animaes da sua espécie também os 
atacam em outras parles, introduzindo-se-lhes para os intestinos por al- 
guns dos canaes conductores, com o fim natural de ir depositar, quando 
gravidas, os seus pequenos ovos no estômago do animal onde a natureza 
lhe ó favorável para a sua procreação?! 

Os cães que não comem herva e o facto de se darem bem os animaes 
nos estábulos escuros, onde não entra a mosca, fazem um pouco inclinar 
para esta opinião. 

A terceira zona ou a zona alta diversiflca ainda muito das outras doas. 
N'ella o paiz deixa de ser geralmente montanhoso, prolongando-se para 
L. em grandes planuras, quasi todas com mais ou menos pendor para o 
S. ou para SOE., consoante a direcção dos maiores rios que nascem 
alem da cordilheira. Sendo este terreno todo elevado^ predomina n*elle 
muito mais a influencia da temperatura, conforme as latitudes em que se 
acha situado. 

Na Huila, por exemplo, colónia agrícola, formada em meíados de 
1857, dá-se o trígo e a maior parte das plantas da Europa, e ha annos 
em que a agua gela nos mezes de junho e julho. 

Os terrenos n'esta localidade toem todos pendor para o S. e para L., 
com vertentes para o Gunene, que se dirige todo para SOE. 

As matas em terrenos de serra acima são menos numerosas e menos 



fechadas que as da cordilheira, c encoutrain-se a espaços exlensas planuras 
de 30 e 40 kilometros, limpas de arvoredo, mas cobertas de excelleutes 
pastagens, naturalmente destinadas á creaçâo de enormes rebanhos de 
gado bovino, que n'aquelles campos se dá perfeitamente, riqueza esta 
que julgámos de grande alcance para o futuro de Angola. 

Não é raro avistar ao longe, n'aquellas immensas campinas, grandes 
manadas de zebras e outros animaes, que de pescoço levantado observam 
o viajante a uma respeitosa distancia, tal que se julgam seguros da sua ag- 
gressáo e da do leão, do qual são caça favorita, mas que ali não en- 
contra matas para as atacar de surpreza. 

O elephante e o rhinoceronte são frequentíssimos para o S., onde os 
indígenas lhe dão caça para lhes aproveitar a carne, a gordura e as pon- 
tas. 

O abestruz africano vive na margem esquerda do Cunene. Nas aguas 
d'este rio e em suas lagoas abunda o hypopotamo e uma casta de jacarés 
muito maiores do que todos os que vimos nos outros rios, assim como 
bastante pescado e variedade de aves aquáticas, algumas de grande porte. 

O viajante que por ali divagar armado de espingarda e um anzol, não 
tem receio de lhe faltar caça e pesca em abundância. 

As extensíssimas margens do Cunene, cobertas ora de matas ora de 
verdes campinas, alimentam numerosos rebanhos de gado vaccum, riqueza 
principal de todos os povos do S. d'esta região. Também cultivam com 
vantagem o sorgho ou massamballa-massango, e milho, que reduzem a fa- 
rinha para lhes servir de pão, ou os fermentam em bebidas, algumas das 
quaes se as^imilham á cerveja ; e,*alem de algum tabaco, a pouco mais se 
reduzem as suas culturas. 

Para o N. o cHma mais quente favorece as culturas das zonas equinoc- 
daes. 

Dá-se bem e produz ali o arroz, ginguba, batata, inhame, algodão, 
canna de assucar, tabaco, gingibre, gergelim, bananeira e grande quan- 
tidade de fructas silvestres e algumas cultivadas. 

É sobre tudo fertilissima no reino animal em consequência das bellas 
campinas cobertas de excellentes pastagens, e por isso os animaes silves- 
tres e os domésticos abundam ou se criam n'aquellas paragens com a mais 
pronunciada vantagem. 

Tendo dado uma idèa approximada de cada uma das três zonas em que 
se julga dividido o paíz comprehendido na província de Angola, pôde esta 
resumir-se da seguinte forma: 

A zona baixa ou do litoral, a mais pobre em animaes e vegetação, 
somente se pronuncia fértil nas margens dos rios que a atravessam. 

A zona media ou montanhosa, a mais fértil de todas, distingue-se pela 



luxuriaDle vegetação das matas, fresquidão e abundância de aguas, e pela 
riqueza de todos os productos vegetaes. 

A zona alta ou plan'aUa, sem deixar de ser fértil e abundante de aguas 
6 productora de úteis e variados fructos, distingue-se no emtanto pela ex- 
trema riqueza no reino animai, que a natureza pródiga em grau elevado 
lhe concedeu. 

Com relação á exploração agrícola classiflcam-se ainda as três zonas 
da seguinte forma : 

A primeira é destinada nas margens dos rios á cultura de cereaes, plan- 
tas tuberculosas, fructos e palmares, etc. 

A segunda para todas as variadas plantas dos climas intertropicaes, ri- 
queza de matas ainda não aproveitadas, mas sobre tudo riquíssima para 
a cultura do café. 

A terceira, com climas variados para todas as culturas e a mais rica 
para a creaçao de gados de toda a espécie. 

Habitantes. — Os povos que habitam a província de Angola, sujeitos 
ao dominio de Portugal, vivem governados por leis portuguezas, e pos- 
suem mesmo costumes nacionaes ligados ao seu viver pela religião catho- 
lica, que desde remotas eras foi espalhada pelos frades até muito ao inte- 
rior da província. 

O povo de Ambaca ou Pongo-Andongo, por exemplo, que é inclinado 
ao commercio, o qual exerce em differentes pontos muito afastados da sua 
terra, aprende a ler, escrever e doutrina christã, e transmitte a seus fi- 
lhos o mesmo ensino, -de sorte que não é raro ver um ambaquista longe 
da sua terra citar com exactidão um dia santificado, ou pegar na penna 
é no tinteiro, que sempre traz comsigo, e fazer um requerimento a qual- 
quer auctoridade para allegar de sua justiça quando sejblgaofiendidonos 
seus direitos. Muitos conhecem, aindaque imperfeitamente, algumas ar- 
tes e oflicios, como as de sangrador, curandeiro, ferreiro, carpinteiro, 
pedreiro, alfaiate, sapateiro, cortidor e oleiro ; tecem algodões e outras fi- 
bras, fundem o ferro nativo para fazer obra, e finalmente todos trabalham 
mais ou menos na agricultura, já para a própria alimentação, já para tro- 
carem os productos por outros artigos da Europa de que fazem uso e 
que não sabem fabricar. Á medida, porém, que se approxímam dos po- 
vos independentes, mais predominam os costumes gentílicos, que mais 
ou menos sobresáem em todos os actos da sua vida, mas o gérmen de 
civilisação portugueza tende a espalhar-se pelos povos mais afastados. 

Respeitando a legislação portugueza, nao exercem a lei da escravi- 
dão, e não só se não escravisam entre si, mas ainda todos aquelles que 
mais próximos vivem do seu contacto. Admitiem, porém, os escravos vin- 
dos dos povos gentílicos do interior da Africa, onde a escravidão é uma lei 



â2â 

ligada iotimamenle aos costumes, mas recebem-nos e tratam-nos como 
família, com a qual mesmo os ligam em casamento, cousíderaudo sem- 
pre como riqueza o augmento da familia. 

Volvendo a vista um pouco atrás para considerar estes povos mais 
na sua origem ou antes da dominação portugueza, e dando alguma im- 
portância aos dialectos que hoje faliam, e aos hábitos de cada povo, po- 
dem estes dividir-se da seguinte forma : 

Raça congões. — A raça congões domina a bacia do rio Zaire prova- 
velmente até o Loge ou Ambriche ; consta que das bandas de alem norte 
d'este rio veiu em antigos tempos uma colónia de pretos súbditos do Gongo, 
os quaes se situaram nos Dembos, sendo provável que estes pequenos 
régulos, independentes do rei da Ginga, tenham origem n'essa antiga emi- 
gração. 

Gultivam e exportam amendoim ou ginguba, com cujo óleo misturado 
com tacula untam o corpo muitas vezes; tecem também uma palha muito 
fina, com a qual fazem os pannos chamados mabellas. 

Admittem a escravidão, e no tempo d'este odioso trafico exportavam 
muitos escravos. Têem todos o habito de limarem os dois dentes incisivos 
da frente de forma a tornal-os ponteagudos. É este costume entre elles 
um signal de distincção, que não é permittido aos escravos. 

Soicidam-se muitas vezes em presença de uma grande contrariedade, 
e são geralmente estúpidos, traiçoeiros e maus. 

Raça Angola. — Pertence esta raça ao poderoso rei da Ginga ou 
rainha Ginga. Ha similhança de lingua e costumes em todo o territó- 
rio das bacias do Quanza, Bengo e Dando. Tiveram dominio até Loanda, 
onde a celebre rainha Ginga se baptisou e tratou umas pazes que mais 
tarde n3o cumpriu, sendo depois vencida; abrange a parte mais civilísada 
de toda a província, da qual se compõe o maior numero dos concelhos oc- 
ciípados. Dedicam-se á agricultura e á creação de animaes, que possuem 
com muita fartura e barateza, e exercem varias industrias, para as quaes 
mostram elevada aptidão por imitarem tudo quanto vêem, faltando-lhes 
por emquanto o ensino profissional ; entregam-se também muito ao 
commercio, que os leva a transitar por varias terras; são entretanto de um 
caracter mais traiçoeiro e falso do que o dos povos do S. ; a agricultura 
e a creação de animaes é o seu emprego mais trivial. 

Raça fién^e//a.— Desconhecemos a origem d'esta raça, a qual pôde 
ter relação com o principio de um grande povo em tempos mais remotos, 
por ter o dialecto que ali se falia muita similhança com o de todos os 
povos que habitam a vasta bacia do rio Cubo até tocar a do Quanza para 
o N., e estendendo-se para S. até Quilengues, abrangendo portanto to^ 
dos os povos do Nano» Bailundo, Bibe e Hambo. Governados por pe- 



224 

quenos régulos, vivem mais ou menos ligados entre si. Dedicam-se es- 
pecialmente ao negocio, com o qual percorrem centos de kilometros, e 
téem creações de gado; sâo os mais guerreiros de todos, e fazem por 
vezes vida da guerra. Ordinariamente de dois ou de três em três an- 
nos, e no tempo próprio, que é aquelle em que ha mantimentos na terra, 
levantam uma guerra, ou por outra uma grande quadrilha de 20:000 e 
30:000 homens, bem armados de espingardas, e assaltam assim os povos 
mais fracos e desprevenidos, seja porque para isso são convidados por 
outros povos que téem conveniência em guerrear os seus inimigos, seja 
mesmo com o fim de rapina, que sempre exercem sobre os atacados. 
O destino doestas guerras é sempre ignorado até dos próprios chefes, que 
depois do primeiro dia de marcha se dirigem a um ou outro ponto, conforme 
as circumstancias, que influem até ao ãm no destino que deva ter a execu- 
ção. 

Dirigem a guerra pnra o N. ou para o S., mas para o S. é que frequen- 
temente se encaminham, guiados pela cobiça dos numerosos rebanhos; 
é de advertir que não são ferozes e raras vezes matam. Os povos atacados, 
desprevenidos como estão, raras vezes resistem e apenas fogem, os que 
podem, com seus gados para sitios desconhecidos dos inimigos. 

Raça munheca e muhumbe. — Estes povos, habitando a bacia do 
Cuneneeseus afQuentesaté Quilengues, estão agrupados em tribus impor- 
tantes de 50:000 almas e mais. 

Possuem numerosos rebanhos de gado vaccum e cultivam o sorgho 
ou massamballa, o massango e o milho para alimento ordinário, mas o 
leite de vacca é o seu mais usual alimento ; téem caça e pesca em abun- 
dância, mas fazem d'ella pouco uso. São generosos, dóceis e aceiados, 
três qualidades raríssimas em outras tribus. Parecem ter origem em Qui- 
lengues, porque ainda hoje ha ali uma familia chamada de Hambas (no- 
breza ou príncipes de sangue) que é quem fornece régulos para qualquer 
povo do S., quando a este falte a dynastia reinante. As suas leis de suc- 
cessão, quasi geraes entre todos os povos, são pelo sobrinho materno e 
nunca pelo fllho. 

Raça mondombe. — Esta raça de pretos, chamados geralmente mon- 
dombes, mocuandos, mocuissos e mokroques, nomes que parecem desi- 
gnar as torrentes ou pequenos rios de beiramar, junto dos quaeselles vi- 
vem, habitam todos na zona baixa situada ao S. de Benguella até ao rio 
Kroque, e a 0. da cordilheira de Quilengues e sua continuação com o 
nome de Chella até os Cubaes. Habita esta miserável gente opaiz mais es- 
téril de toda a provincia. DifTerem muito de todos os outros povos do 
interior na lingua e nos costumes, apesar de estarem separados d^elles 
somente pela serra. 



i 



224 

quenos régulos, vivem mais ou menos ligados entre si. Dedicam-se es- 
pecialmente ao negocio, com o qual percorrem centos de kilometros, e 
têem creações de gado ; são os mais guerreiros de todos, e Tazem por 
vezes vida da guerra. Ordinariamente de dois ou de três em três an- 
nos, e no tempo próprio, que é aquelle em que ha mantimentos na terra, 
levantam uma guerra, ou por outra uma grande quadrilha de 20:000 e 
30:000 homens, bem armados de espingardas, e assaltam assim os povos 
mais fracos e desprevenidos, seja porque para isso são convidados por 
outros povos que têem conveniência em guerrear os seus inimigos, seja 
mesmo com o íim de rapina, que sempre exercem sobre os atacados. 
O destino doestas guerras é sempre ignorado até dos próprios chefes, que 
depois do primeiro dia de marcha se dirigem a um ou outro ponto, conforme 
as circumstancias, que influem até ao íim no destino que deva ter a execu- 
ção. 

Dirigem a guerra para o N. ou para o S., mas para o S. é que frequen- 
temente se encaminham, guiados pela cobiça dos numerosos rebanhos ; 
é de advertir que não são ferozes e raras vezes matam. Os povos atacados, 
desprevenidos como estão, raras vezes resistem e apenas fogem, os que 
podem, com seus gados para sitios desconhecidos dos inimigos. 

Raça munheca e muhumbe. — Estes povos, habitando a bacia do 
Cuneneeseus affluentesaté Quilengues, estão agrupados em tribus impor- 
tantes de 50:000 almas e mais. 

Possuem numerosos rebanhos de gado vaccum e cultivam o sorgho 
ou massamballa, o massango e o milho para alimento ordinário, mas o 
leite de vacca é o seu mais usual alimento ; téem caça e pesca em abun- 
dância, mas fazem d'ella pouco uso. São generosos, dóceis e aceiados, 
três qualidades raríssimas em outras tribus. Parecem ter origem em Qui- 
lengues, porque ainda hoje ha ali uma familia chamada de Hambas (no- 
breza ou príncipes de sangue) que é quem fornece régulos para qualquer 
povo do S., quando a este falte a dynastia reinante. As suas leis de suc- 
cessão, quasi geraes entre todos os povos, são pelo sobrinho materno e 
nunca pelo filho. 

Raça mondombe. — Esta raça de pretos, chamados geralmente mon- 
dombes, mocuandos, mocuissos e mokroques, nomes que parecem desi- 
gnar as torrentes ou pequenos rios de beiramar, junto dos quaes elles vi- 
vem, habitam todos na zona baixa situada ao S. de Benguella até ao rio 
Kroque, e a O. da cordilheira de Quilengues e sua continuação com o 
nome de Chella até os Cubaes. Habita esta miserável gente opaiz mais es- 
téril de toda a provincia. DifTerem muito de todos os outros povos do 
interior na lingua e nos costumes, apesar de estarem separados d*elles 
somente pela serra. 



225 

Sao geralmente mandriões c porcos, e mais ou menos nómadas. Vi- 
vem do leite dos poucos gados qoo possuem, ou pescam nas praias o indis- 
pensável para comer e n3o morrer. As mulheres nunca se lavam e un- 
tam-se a miúdo com manteiga e tacuUa, ou aromatisam-se com uma raiz 
bem pouco cheirosa. Vestem alguns couros cortidos por elles, ficando, 
tanto os homens como as malberes, mais nús do que vestidos. 

Consideram desbonra o trabalho, e cultivam apenas algum tabaco 
para fumar e pouco mais, cousa que não dô fadiga nem cuidado. Habi- 
tam em miseráveis choças, e téem as suas ridículas povoações em logares 
próximos de algum rio ou torrente, onde haja agua e possam crear bois 
ou carneiros. 

Estas mesmas povoações s3o poucas e afastadas umas das outras por 
50 e mais kilometros, e raras são as que excedem a cem ou duzentas fa- 
mílias. 

Nómadas dentro do seu território, raras vezes saem e nSo se ligam 
com algum outro povo. 

São fracos e pouco propensos a guerras com os demais povos. É quasi 
desconhecida a sua origem em relação aos outros habitantes da Africa. 

Agricullura. — O desenvolvimento da agricultura que possue a pro- 
víncia de Angola data approximadamente de 1837 para cá. Até essa epo- 
cha limitava-se unicamente aos chamados arimos, que ainda hoje se con- 
servam quasi no mesmo estado em que até então existiam, especialmente 
nas margens do Bengo, que é o rio mais próximo da capital, e nas do Dande, 
Quanza e Gapararo, ou no Dombe Grande. 

Esta agricultura limilava-se aos productos farináceos e leguminosos 
para consumo da população, avultando entre elles a farinha de mandioca, 
que também af&uia ás grandes povoações, proveniente da zona alto-pla- 
na, onde esta planta se dá perfeitamente. Alguma hortaliça e fructa com- 
pletavam as demais producções dos arimos. 

Acontecia o mesmo nos concelhos do interior, onde a agricultura for- 
necia em mais ou menos abundância os géneros consumíveis na mesma 
localidade. 

Angola era então farta, mas não exportava senão os productos natu- 
raes de marfim ou cera, que os pretos traziam ao mercado para trocar 
por fazendas e outros artefactos que mais apreciavam. 

Em 1837 aportou a Angola, vindo do Brazil, um homem, a quem a 
agricultura do N. da província deve o seu primeiro desenvolvimento. 

Era João Guilherme Pereira Barbosa, que tendo vivido alguns annos 
n'aquelle império, veio para Angola, com o propósito de se dedicar a al- 
guns dos ramos agrícolas, que ali tinha visto prosperar, e sobretudo o café. 

Passado pouco tempo foi estabelecer-se em Massangano, que era a 

15 



226 

viUa mais importante do interior, e de lá seguiu para uma das suas divi- 
sões, occupando-se na compra de productos espontâneos^ & examinando 
os terrenos e a sua immensa fertilidade . 

Na divisão em que estava de Cazengo, que pertencia a Ma&sangano, e 
hoje Cazengo, encontrou algum café indigena, que mandou para Loanda 
em pequenas quantidades, pagando e incitando os pretos a apanhar-Ui'o. 

Logoque verifiicou a existência e qualidade do café n'aquella8 matas, 
attiiiíaâo sempre pelo nunca esquecido, então governador geral lie An- 
gola, Pedro ^exandrino da Cunha, requereu ao governo de Saa Ma- 
gettade a Rainha D. Maria U a concessão, por sesmaria, de 50 kilone- 
tros quadrados de terreno. 

Prevendo também o desenvolvimento d'aquella cultura no paiz mon- 
tanhoso que se acha afastado de Massangano e em condições diversas 4o 
paiz da zona baixa, pediu e obteve do governo central a forma(^o de wi 
novo concelho, o de Cazeogo, o qual se coypapoz da divisão qme ji perten- 
cia a Massangano, de uma parte do Golungo Âlto e de outra d^ Âmbaca, 

Incansável no desenvojivimento 4a x^uitura do café n'um paiz q\mi vir- 
gem para a agricultura, fez João Guilherme abrir algumas e&trada$t tapto 
na sua propriedade como em outros pontos do concelho, do qual foi o fon- 
dador» e nomeado pelo governo seu primeiro chefe, conseguindo sewpre 
ttanter as melhores relações com os indígenas, de quenji foi constan- 
temente estimado e respeitado. 

fim 17 de outubro de 1845» dava este presta vel cidadão ao gover- 
nador geral da província uma extensa noticia do estado da agricultara 4o 
café da sua propriedade, e mencionava a esperança que tinha de oolber 
&'aquelle anno mais de 10:000 kilogrammas; por cujos serviços e perse- 
verança, empregada n'aqudile novo ramo de agricultura; foi, por ^tecreto 
ée 11 de agosto do mesmo anno, agraciado com o habito de Nossa Se- 
nhora da Conceição. 

Faleceu poucos mezes depois este incansável ^^içultor, mas os seus 
«forços e trabalhos não foram inúteis, porque o eiiemplo servia de esti- 
mulo a outros que n'essa epocha começaram a emprehender a cultora do 
eafè, e entre elles João António Gomes Pereira, que lhe seguiu as pizadas. 

Não tomou logo a cultura d'esta rica planta o desenvolvimento que 
era para desejar, por ser quasi desconhecida e estar ainda pouoo ou 
nada desenvolvido o espirito pela exploração agrícola em Africa, 6 portanto 
não affluiram para ella os capitães necessários, tendo de correr por moito 
tempo com os próprios recursos, que são sempre morosos JO^aqueUa va- 
riedade de agricultura, e por levarem as plantações muitos annos a .des- 
envolver-se. 

Por estas rasões, dez annos depois, ou em 1856, a colónia dç Cazen- 



^7 

go, (p^ jçiMio j^ CQf^y^ J^j^tçs cji^iy<9dpres^ prpdqzia approxima- 
imkàfAi^ 300:0(X) kilogram^^s de çaféi para mais tarde ser elevada á 
producçao de 2.700:000. 

Clm |84,9 apprtoy a j)([p$39ffiedes a primeira colónia vinda do Brazil, 
Gpm destino i agricuUm^, ,e da qu^l foi chefe promotor Bernardino Frei- 
ra (te Figo^edo Abreii^ e Çfl^ro* )£$td colónia, reforçada por outra que 
chegou no anno s^uínte, compunba-se de perto de duzentas famiUas, 
que Q gQverpo subsidiou e auiilioi; fip que põde^ jtjievendo muito ao be- 
oemerito marquez de Sá. 

A Cidanija ao e^itanto foi i^el);s qqs priínejrps três annos, porque dç- 
rauta a$to ^mpo teve de l^fi^ com secca e com todos os inconvenientes 
da inexperiência d'esses nadas que tudo valem na agricultura, como s3o 
o coobecimivítfo ,do cljuga?^ dos terrenos^ das estações e da qualidade e es- 
f^ecialidíada das jÇjolturas, p sQJ)re^do a Qenbuma experiência dos colonos, 
qjoe poucos e^am os que jtinhíim luzes tbeoricas ou praticas da vida a que 
se dedicayaqi. 

Por isso aquella gente estava po ^ de três anqos tão dizimada, que 
BUÍS de 4oís terços tinham f:etirado de Mc^samedes, ou se empregavam 
m fmtffc^ dJ^^JBffiS 4os .^9,e .93 que ali 09 levara. 

JP^s^ft^io este perÂp(jk> vçii^ ^ inundação do Bero a Mossamedes, e dei- 
xou os terrenos aptos para produzir. 

Os pripieiros çploiwç fffHd 03 culjlivar9xn tiraram boiu fruoto dos seus 
irabalbos. 

A hortaliça e a batata dava-se ali excelle.Qt^enle, e o paiz tinha mu.i- 
(9 fjÊTffp <^e yaçca e .a[bmndaQC^ dç peixe, tudo barato. A industria da pesca 
era já 4e }0^s e f .(H^lt|^^a d^ bat^^ta muito rendosa e bem vendida^ o^ue 
SQIPftrijí evi ^!èf^^Q parbç .?$ fqeç^,çi(^des (}os cultivadores. Começava en- 
J($Q ji 4i93epvx)lv|w^se n'/s3sa f^pc^a^ f 8^^, a apanha da urzela no paiz do 
Utoqd, 9iQ S, de ^fpxeVi^, 

A descrença na proficuidade da nova agricultura era ainda gerjal, tan- 
to q^fs os b^itantçs de 3f\i;tfH^,l9 e I^Q^uda ^jpostropbavapi os de Mossa- 
medei de |i)atateiros, 4e3cri^<lo em tudo da agricuUura, a qual, débil como 
era, se limitava a Mossamedes e Cazengo, e ao principio de uma fazenda 
d9 canoa 46 assacar no Icollo e Bengo, mandada fundar por D. Anna Joa- 
quina dos Sant03 Silva. 

Grande parte das auctorídades da provinda er^in as priQieiras a não 
acreditar no novo desenvolvimento da agricultura, apesar de ser est^ mui- 
to recommendada pelo governo da metrópole, em que teve grande parte 
Q iUustre m^quez de Sá, enlhusiasta, como sempre foi, ppr este desenvol- 
vimento. 

Os terreqos das margens do rio Bero e Giraul, limitando a uma pe- 



228 

quena área a agricultura da colónia, e dSo sendo de primeira qualidade, 
por precisarem de regas, cujo emprego n3o estava praticamente estudado, 
não davam horísonte a largo desenvolvimento. 

Começaram, portanto, a voltar-se as attenções para as terras do inte- 
rior e abas da serra da Chella, e montou-se no Bumbo a primeira fazenda 
de canna de assucar; o clima, porém, doentio como todos os d'estes pon- 
tos, afastava a colonisaç3o. 

Propugnador activo do desenvolvimento agricola em Mossamedes, ap- 
parece n*esta epocha um homem, que n3o resistimos ao desejo de no- 
mear, Angelo de Sousa Prado, de quem aliás os valiosos esforços tiveram 
de ceder á desanimação e descrença geral que então ainda avassaliava o 
çspirito publico colonial. 

Assim foi caminhando desanimada e lentamente a agricultura em An- 
gola até ás proximidades de 1858, epocha em que começou a fallar-se na 
cultura do algodão, em virtude dos projectos de uma companhia estran- 
geira que quiz ali estabelecer aquella cultura, o que foi incentivo para al- 
guns colonos se dedicarem também a ella. 

Manuel José Correia, de Benguella, foi dos primeiros que cultivou o al- 
godão no Carunjamba e em S. Nicolau, pontos intermédios entre Benguella 
e Mossamedes, então muito explorados pelas feitorias de apanha de ur- 
zela. 

O negocio da escravatura, como contrabando sempre mal visto na me- 
trópole, começava também a sêl-o na colónia, e era alem d'isso arriscado 
para os que n'elle se mettiam. 

As vistas até então attentas para alem-mar, começavam a volver para 
a terra e para a agricultura, e esta a ser vista com melhores olhos. 

Prosperavam as fazendas de S. Thomé e Príncipe. Cazengo lá se ia au- 
gmentando, e Mossamedes, alem das batatas que vendia aos baleeiros 
americanos, e da sua prospera industria da pesca, já produzia igualmente 
aguardente e assucar. 

A apanha da urzela tinha deixado também alguns contos de réis na 
provincia, para compensar as perdas do extincto negocio da escrava- 
tura. 

Apparecia n'aquelle anno a navegação a vapor para a Africa, e do 
meio d*esta primeira animação fundaram-se novas fazendas agrícolas em 
Mossamedes, S. Nicolau, Carunjamba, Equimina, Luacho, Novo Redon- 
do, Quicombo, Benguella Velha, Yalle do Bengo, Ambriz, Bembe e a nova 
colónia de Capangombe. 

A cultura do algodão animou-se então bastante com o bom preço 
d'aquelle producto. 

Iniciou-se em Mossamedes o systema da irrigação dos campos, o que 



229 

deu grande vida a toda a espécie de cultura» desenvolvendo muito a da 
canna do assucar. 

A cultura do café foi do mesmo modo mostrando os seus lentos, mas 
sólidos resultados. 

Alguns n^ociantes de Benguella e Loanda, que poucos annos antes 
chamavam aos agricultores batateiros, eram já os próprios que se dedica- 
vam á agricultura» e muitos d'estes téem hoje n'ella o seu principal em- 
prego. 

Do concurso geral de todos estes meios de producçSo, animados pela 
navegação a vapor entre Portugal e a colónia» nasceu a nova epocha agrí- 
cola de Angola ; mais tarde, com a creação do banco nacional ultramarino, 
e depois a navegação a vapor no Quanzá, prosperaram muito mais, pela 
regularidade que o banco deu ao credito que tão indispensável era na 
província, e pela facilidade que as carreiras de vapor deram aos transpor- 
tes do interior a L. de Loanda, creando um novo e prospero centro de 
commercio na villa do Dondo. 

A cultura do café, da canna saccharina e do algodão são hoje as mais 
desenvolvidas como meios de exploração agrícola ; a dos cereaes, legu- 
mes, fructas e hortaliças, de que em geral ha fartura, faz-se em toda a 
parte e permuta-se para uso da população. 

As duas colónias primeiramente fundadas, a de Cazengo e a de Mos- 
samedes, são hoje também as mais desenvolvidas e as que mais produ- 
ctos exportam, caminhando as de mais recente data igualmente em via de 
prosperidade. 

Golungo Alto, vizinho e em tudo similhante de Cazengo, tem-lhe se- 
guido o exemplo, e pôde dizer-se que constituem ambos uma só colónia 
com as mesmas producções, vantagens e necessidades ^ 

Se a agricultura n'esta colónia, como em muitos outros pontos, se não 
desenvolve mais rapidamente é porque vive quasi dos próprios recursos, 
resentindo-se da falta de capitães. A recente crise, filha da alteração no 
estado dos trabalhadores, activada pelas ultimas seccas, tendo retrahido 
o credito, que d'antes já não era largo, aíTectou bastante, ha dois annos 
para cá, a sua crescente prosperidade. É, porém, de suppor que essas 
causas accidentaes terminem brevemente. 

Ha bastantes propriedades que, vivendo assim dos próprios recursos, 
muito se téem desenvolvido n'estes últimos annos, e apresentam hoje con- 



1 Esta colónia conta hoje meia dúzia de propriedades importantes, que devem 
já produzir annualmente entre 1.500:000 e 3.000:000 kilogrammas de café, e algu- 
mas dúzias de outras mais pequenas, nas quaes o desenvolvimento é já conhecido 
pelas suas largas plantações. 



díOões de melhoràrnéDtos qnêf íhe dão á solides! daí í)fospefiâade futura. 
Em muitas d'ellas ha já magníficas ruas bèm arborisadas» pomares de 
^ variados fftctos indígenas e da Anfíerícd, úíiide tambení se aciittiam bas- 
tantes fructas e flores da Europa, assim como obras hydraaltcafá è ifltfcbi- 
nas diversaà appticadas á exploração a^fricola, édificios ítúpanàttíêi ()ara 
habitação» armazéns e o£Bcida^para todo ó trafego agrícola. 

A propriedade denominada «Colohiá S. Jòãõ^, m^ituida pòr Jútó Qut- 
Iherme, que foi também o fundador d'aquella agricultura, tem um ^é^o 
ediAciO; na maior parte jâ construído, tí quái ásséiita sobre títti títònté que 
se eleva no meio do vaílé qué a consfitbe; è fôrio de pedra e cal £ ctfberto 
de telha; (òm de extensão a f^ente qúé dlbd parâí o N. 1.7^,51, a qual está 
ainda por concluir ; mede pelo lado dô náscetite, qné ê o que representa 
a gravuras SO^^^SS, tendo sobre o t)ofrtão doesta fachada um caitàpiííÉm 
com dois sinos, um dos quaes faz paHe doí Mbglo, que ãll se avista; no 
lado do S. tem uns 30 metros, e ho dd i^dénté, áitída eín construção, tíma 
área igual á do lado opposto, o que tudo perfatt titúá extehsão de I74'',4. 

A maior parte d'esta vasta vivenda còriJ^íSé^sé dC bítí primeiro andar 
de quatro faces, com espaçosas lojas t[nb sehétíi de artUazens e ofBclnas 
para o lado de fora. Em frente dos arnisteeri^ ha m&a seHe de teiteíros ou 
eiras destinados para a secca do café e afòrtíioseamento áó ediflcio ; e 
no meio das edificações, ntí plano do p^iãiei^tT atídaf , étíMê trtfi magni- 
fico terreiro arborisado com que commnnicam {ís diversas casas de habi- 
tação, e no qual, apesar do seu platío elevado, há êrgtiá encanada^ vinda 
da montanha próxima e que se eleva com uma carga de 25 metros ef ti^oma 
extensão de mais de SOO. 

A propriedade geral tem mais cinco povoações alem da qúe descre- 
vemos e que è a principal, e tnede 10 kiloinetfos quadrados de terreno, 
todo montanhoso, fértil e cheio de nascentes de bella agua, ás qiiaes con- 
vergem á ribeira Hubeje, que formsí o valle da propriedade'. 

Em 1872 produziu esta fazenda apprtíximadamente f 60:000 kilogram- 
mas de café. 

Uma das principaes propriedades da coloíiia é a fazenda deiKiminada 
Prototypo. Possue extensas plantações de café, e tem ainda, como qdsisi 
todas as outras, muitos matos pafa rotear, próprios para aquella cnltaí^. 
Uma pequena machina de vapor faz ali o descasque e limpeza úb clílé co- 

1 Copia de uma photographia tirada em 1873. Yeja-se a gravura que tem a se- 
guinte designação : Colónia S. João, Vista da habitação do lado oriental. 

2 A 500 tnetros da habitação principal lia um bonito lago formado por duas 
poderosas nascentes, e do qual segue uma agradável f ua até a habitado ^ndpal, 
como se pôde fazer idéa, observando a gravura, qiie tem a seguinte designa^: 
Rua de mangueiras e jamboeiros na fazenda S. João, efh Angola. 



231 

Ihidó. Tem bellos pomares, dm lago artificial para creaçSo de peixes, e 
tima ma de palmeiras de cuja regularidade e symetria se pôde fazer idéa 
á vista da gravura que ajuntámos ^ É a copia de uma photogf)aphia tirada 
em 1876. 

A fazenda Palmira, também uma das melhores da colónia, apresenta 
bastantes melhoramentos. 

Possue um excellente prédio de habitação com todas as officinas e ar^ 
mazens bem construídos para grande trafego agrícola, tendo igualmente 
agua encanada nos seus vastos terreiros. Ha ali magnificas ruas arborisa- 
das, e é talvez a que tem melhores pomsires de laranja, limão, cidra, so- 
berbas mangueiras, jamboeiros, coleiras, tamarindeiros, fructas do conde, 
de pinha, cajueiros é outras muitas arvores indígenas, todas alinhadas e 
cultivadas. 

A fazenda Monte Alegre, no Golungo Alto, está hoje muito desen* 
volvida e possue grandes elementos de prosperidade. 

Ha ainda mais outras em condições análogas pertencentes a euro- 
peus, avultando também muito a pequena cultura do povo indígena. 

A producção de café n'esla colónia, em (871, devia orçar por 
200:000 kílogrammas, apesar de se náo poder bem precisar pôr falta de 
dados estatísticos. 

Uma grande parte d'esta producção acode á povoação chamada Ca- 
sulo, onde é objecto de um commercio considerável. 

É n'aquella povoação, composta de uns cincoenta europeus e muitos 
íodigeDas, que reside a auctoridade administrativa do concelho de Cazeth 
go. Possue alguns prédios soffriveis e uma pequena igreja da invocação 
de S. João Baptista de Cazengo, a qual serve de freguezia do concelho. 

A colónia em geral espera somente a abertura de uma rápida via de 
communicação, como é a via férrea projectada, para poder elevar-se e 
constituir toda a sua importância natural com um rendimento superior 
áquelle que hoje possue toda a província. Para isso basta considerar que 
do nada se elevou ella ao que hoje é, no espaço de trinta annos, com di- 
minutíssimo capital e sem auxilio nenhum estranho ; acrescendo ainda, 
que os seus valiosos productos fazem de despeza quasi um quarto do seu 
Valor para se poderem collocar no primeiro porto de mar, e que a redacção 
â'essa despeza, junta á regularidade do transporte, seria toda convertida 
em lucro e animação desenvol vente para o cultivador. 

Ambaca, a E. da colónia de Cazengo, cultiva muita ginguba, batata e 
arroz. 

1 V(*ja'se a gravura que tem a designação: Rua das Palmeiras na fazetida 
Prototypo. 



232 

Os concelhos de Duque de Bragança, Malange e Pungo Andongo ex- 
portam gados, e também têem excellentes terras para agricultura, mas 
pouco exportam, porque grande parte dos productos que ali se cultivam 
servem somente para o consumo interno, havendo alguns que muito con- 
viria agricultar; morrem porém todas as tentativas em presença das diffi- 
culdades e dos enormes gastos de transporte, que matam todo o commer- 
cio d*aquellas paragens que não tenha um valor muito elevado em relação 
ao seu peso. Assim os productos que d*ali acodem ao mercado são gado, 
cera, marfim e borracha. 

Á villa de Dóndo, ponto extremo da navegação do Quanza, é onde 
vão todos estes productos, tanto da colónia de Cazengo como do interior. 

Esta villa, já muito importante, é objecto de um considerável com- 
mercio de transito. A gravura que ajuntámos mostra uma parte da po- 
voação que fica na margein esquerda do rio mais pittoresco de Loanda^ 

A navegação a vapor no rio Quanza è o único meio que ainda auxilia 
um pouco a vida productora dos concelhos de E.; porém estando os mais 
productivos afastados do rio por uma distancia de 75 a 100 kilometros, 
dão«se innumeraveis difBculdades no transporte até á via fluvial, alem 
d'aquellas que apresenta a mesma via, pelas suas interrupções annnaes 
Àò tempo das seccas, passagem da barra e outros obstáculos, o que tudo 
fát com que ainda affluam á cidade muitos productos pela via terrestre, 
coih enormes difliculdades e grande dispêndio. 

Apesar de todas essas contrariedades, a via fluvial do Quanza apresenta 
um movimento de alguma importância, porque no anno de 1871, que não 
foi ainda dos melhores, já se exportaram por esta via valiosos productos. 



^ae foram iraii«|^rfta«l«s pela naireffaefto da ria ^aa 

(Abril de iCl9i a SI de* marca de iS99) 



Géneros 



Ginguba. 
Goconole. 



Unidades 

1 

1 


QaaDtídadcs' 


Vnço 


Arrobas 

1 


63:573 


3^800 


1 

m 


381:746 


^700 


» 


61:257 


1^500 



Importâncias 

24i:577M00 

267:32Si5300 

30:628^300 



539:428^100 



1 Veja-se a gravura : Vista da villa do Dondo, na margem direita do rio Quanza, 

2 As quantidades referidas n'este mappa nao estão reduzidas á medida legal em 
consequência da difficuldade de approximnr o preço relativo a esta eom o da uni- 
dade adoptada na província de Angola. 



233 



Géneros 



Tramporie 

Mamona 

Gomma 

Borracha 

Algodão 

Arroz 

BaUtas 

Farinha de mandioca 

Feijão 

Milho 

Urzela 

Liconde 

MarGm 

Cera 

Couros 

Tabtco 

Fio de algodão 

Aguardente 

Tábuas 

Toros 

Óleo de palma 



Unidades 



Arrobas 



Maçarocas 

Pipa 
Volumes 

» 

Toneis 
Pipas 
Barris 



QoaDtidades 


Preço 


674 


^500 


2:080 


54000 


7:502 Vz 


104500 


13:673 


44000 


68V2 


14100 

• 


96 Vz 


4600 


ii:469 


14000 


1:229 


4800 


1:242 


4500 


68 


14500 


513 


4350 


869 


604000 


19:431 1/2 


84100 


153 


4300 


ÍÍV2 


14800 



Importasdu 



2:606 

1 

117 

19 

388 

3:418 

3 



4060 
804000 
4600 
4800 
804000 
554000 
204000 



539:4284100 

3374000 

10:4004000 

78:7764250 

54:6924000 

754350 

574900 

11:4694000 

9834200 

6214000 

1024000 

1794550 

52:1404000 

157:3954150 

454900 

'224500 

1564360 

804000 

704200 

154200 

31:0404000 

187:9904000 

604000 

1.126:136^660 



Já se vê que não entram aqui os productos da pequena navegação do 
Quanza, nem os do movimento das vias terrestres, que se n3o mencionam 
por falta da respectiva estatística, avultando entre elles toda a qualidade 
de animaes em que as regiões de L. s3o fertilissimas: e também se não 
mencionam os géneros consumidos nos diversos concelhos e mais pontos 
afastados do interior, entre os quaes merece especial menção a aguar- 
dente. 

As margens do Luinha, as do Lucala, uma parte das do Quanza, e as 
do Bengo e Dande são excellentes para a cultura da canna de assucar, e 
em todas ellas ha plantações e algumas fazendas bem montadas. 

Em Malange também se cultiva a canna saccharina. 

As margens do Lucala, excellentes para esta cultura, n'uma extensão 



^^4 

de 35 kilometros desde Oeiras até Massangano, s9o de uma belleza desr 
iDmbrante; fertilisadas annualmente pelas inundações do rio e cobertas 
fia maior parte de frondosissimo arvoredo deixam ver, misturado com 
ésèk SúhêtM vegetação, milhares de arvores de variados fructos, e entre 
éllii Soberbas lai^anjeiras, que dão a mais saborosa laranja da província. 
listes' (éíTéiios são geralmente propriedade dos naturaes de Massangano, 
é Kâ Jí^fénás ali úína fazenda de canna e fabrico de aguardente onde está 
montada cfttta machina a vapor. 

O Quanza possue também margens extensíssimas e férteis n'uma ex-> 
teú^o de 200 kilometros, desde a villa do Dondo até á foz, mas a agri- 
cullufá tíio tem ali tomado o incremento que se manifesta em outras par- 
tes pelas diflSculdades que Ibé oppõe o regimen especial das volumo* 
sas agUâs. Os pretos cultivaion alguns cereaes e legumes, porque as ter» 
ras s9o fertilissimas sempre que podem conservar um meio terino entre 
as seccas e os alágóS. A maior parte, porém, das melhores terras s3o in- 
tádidas anúualmeíile pelas grandes inundações, á falta de defezas pro- 
ptíi^y ()ue àtiás feriam muito dispendiosas, e a outra está quasí sempre 
sdinSlgligida pelas aguas, forinando amplas lagoas. 

Ás maiores inundações periódicas poucas plantas resistem a oSo ser 
i palmeira, da qual se vêem extensos bosques que formam a riqueza 
importante dos poVos da localidade. 

Ó èr. Feliciano da Silva Oliveira montou ha poucos annos uma grande 
propriedade de canna e fabrico de aguardente, no sitio denominado Bom 
iesds, pãM a qual teve de fazer um dique ou defeza contra o rio, conse- 
gulridò extinguir a lagoa, e plantando canna nas terras descobertas pela 
agua, tjue são nssim de uma fertilidade espantosa. 

K^tA deféza, similhante a outras a que na província se chamam bon- 
gues, 6 f^it.i de terra, elevandosc parallela ao rio e com altura sufiSciente 
para defender a invasão das aguas, mas custou ao proprietário algumas 
dezeh^s de contos de réis; assim mesmo já uma vez foi arrombada pelo 
ríò e de httvo reedificada. 

EMá propriedade possue hoje largas plantações, tem todos os labora- 
tórios bem montados e oma machina de vapor para os trabalhos da moa- 
gem. Calculam-se as colheitas annuaes em mais de 210:000 litros de 
aguardente. 

As casas de habitação são edificadas junto á margem direita do rio 
Quanza, como se mostra na gravura que ajuntámos'. 

Nas margens do Bengo, Dande e Ambriz também ha importantes 

1 Veja-^c a granira que tem a seguinte designação: Fazenda Bom Jesus, na 
fHargèúí do rio O^^^za. 



propriedades de cultura àè MoDá e tàtítitó ãé ^gúátãeúiè, e algudias d'èt- 
lad possuem bons motores de vápof . 

A cidade de Lòaudái^, capita! da lA-oviacra, è ti oeMro do ttátor lAôVi- 
roeàto de tòdás estas produc^Oes. 

Partindo para o S. da província ha em vários poírtofs ttíuHáâ tàtónálê 
de canna e álgodSò, podendo citar-se QtdcMntM), GattíttibeKa é hiUinik no 
rio de S. Francisco, Garunjámba e S. Ifkiolau. Algóiúêí^ d'eilás ^HOô 
montadas em ponto grande e òom boas iftaébinâá ttotoras para oé diflè^ 
rentes misteres da lavoura. 

Finalmente o dístricto de Mossamedes, cotíipòstO dá bèlU títildtíUí 
agrícola que em 1849 é 1890 aH éò estábelecieu, è de todosi os {>óMos 
aquelle onde â raça branca mais prosperai e máid vivtf catíútí^ úi babi- 
Uni dá Etirópa. 

A cultura da canna, o fabrico dá ágttá^deíite e m^^rno dè álgtitíi á^ 
sucar, são a principal producção doesta colónia. 

Todos os terrenos aproveítaMs daá tUit^etíÉ dò Bèf o é QítM ãstlo 
bem agricultados por grande rmmeh) de CMotíos que áli viteffi tioffi tíiàê 
fiimilias, e a propriedade tem dm itOOf bastante stíbido. À fáitá de 
aguas pluviaes estabeleceram o ^stemá dè trrigáçad, tiráúdo á ágtia de 
poços ou cacimbas, empregando paM iSèO íâáehioás a vapM* apropria- 
das. 

Toda a cultura está ali largatíiente déáentolvidá e á (eri^á ffiffito bem 
aproveitada. 

As colónias do Bumbo, Capangombe e Biválla^ originarias da de 1Ê0§^ 
samedes, e situadas nas vertentes da serf a da Gbdla, pOístieiA ti'éiÈH Co6i 
melhores meios de prosperidade na larghHsíá e fê(nilídáâ« dOá imtitm 
que occupam, mas resentem-se muito de dois obstáculos^ que âid ooifl- 
muns a qoasi toda a agricultura colonial — a falta do capital deâetlvdlvente 
e os meios económicos de communicaçao e transporte páfá á conduc^^ 
dos seus productos. Assim mesmo o conjuncto geral dá agricultura dá 
colónia é bastante importante, allendehdo a que sustenta muitos Mntos 
de famílias que ali vivem, exportando ainda aguardente, álgodlo^ bata- 
tas, peixe fresco e bois. E preciso observar que háO entra em linha de 
.conta a maior parle da aguardente, a qual é consumida no districto e no 
sertão contíguo'. 

Se a colónia de Angola, sem caminhos e com di£Qceis meios de con- 
ducção, sem capitães desenvolventes e até sem segurança, creou, no 



1 Vista da cidade de Loanda (parte baixa). 

^ Foi-nos ultimamente afiando que a colónia de Mossamedes attitiiiá Já ttlná 
producção de aguardente entre 2.520:000 a 3.360:000 htros. 



espaço de quarenta annos, pelo desenvolvimento de deleiminadas cultu- 
ras que n'esse tempo ião existiam, valores tão importantes como aquelles 
de que temos fallado, qual será a prosperidade que poderá atlingir em 
igual espaço de tempo se lhe não faltarem esses meios necessários ao seu 
rápido desenvolvimento?. • . 

O fiituro das colónias de Angola poderá considerar-se bem seguro, se 
se admittir como certa a construcçSo do primeiro caminho de ferro de 
Loanda a Ambaca, emprehendimento este que não pôde deixar de ser o 
motor de todos os melhoramentos de que carece a agricultura e o com* 
mercio em geral da província. 

O credito tão necessário será o primeiro a constituir-se e a facilitar 
se com vantagens immediatas para o desenvolvimento da agricultura. 

A navegação e os outros meios de communicação, serão também uma 
consequência de tão vital melhoramento. 

A segurança publica, sobretudo, considerar-se-ha bem mantida, e d*es« 
te conjuncto de circumstancias poderá nascer um novo estado de prospe- 
ridades para a província, superior á que actualmente gosa. 

Não é certamente tão desenvolvida quanto desejávamos a descripção 
que deixámos exposta, mas è muito sufficieote para se reconhecer que na 
provipcia de Angola ha mais alguma cousa do que feiras afastadas urnas 
das ataras e alguns fartes dispersas. 

Queríamos dar uma idèa das bellezas naturaes do paiz, completando 
o esboço que apresentámos com gravuras referentes a plantações, pai- 
zagens e ediãcios dos principaes logares da província, mas não nos foi 
possiveP. As gravuras que ajuntámos mostram, comtudo, o modo pouco 
acertado por que alguns escríptores estrangeiros téem fallado a respeito 
das nossas colónias em geral. 

Ê indispensável dizer as cousas como ellas são, e a ninguém, como ao 
medico hygienista, cumpre examinar as condições em que se acham as po- 
voações, cuja salubridade procura conhecer. 

Não vêem, pois, fora de propósito estas considerações, poisque esta- 
mos plenamente convencidos da urgente e imperiosa necessidade de se 
responder á propaganda dos escriptores estrangeiros, oppondo a verdade 



I Nao conseguimos obter pbotographias das plantações da colónia do Mos- 
samedes, assim como nos faltam as dos pontos mais notáveis de Benguella e Am- 
briz; mas dentro em breve tempo daremos um trabalho especial acerca da província 
de Angola, e reuniremos todas as vistas que forem dignas de se observarem. 

Cumpre-nos, todavia, palenicar aqui o nosso sincero agradecimento ao sr. Al- 
berto da Fonseca, que nos forneceu as photo(n*apbias qne serviram para as gniAOi- 
ras que damos respeito de Angola. 



237 

■ 

ao erro, os documentos ás vagas asseverações, os factos ás bypotbeses in- 
sustentáveis. 

Não nos apreciou com justiça A. Réclus, mas as suas afiSrmaçSes fo- 
ram já rectificadas '. 

Livingstone» como já dissemos, teve denodado athleta, que Ibe des- 
truiu, uma a uma, as inexactidões. Não menos brilhante foi a resposta 
dada por H. Major a Pierre Magry. 

O que, porém, coroou todos os nossos esforços para se restabelecer 
a verdade a respeito das cousas de AfridTforam as sessões da camará dos 
senhores deputados ; mostrou-se ali á evidencia que os exploradores Ca- 
meron e Young não alcançaram mais do que Livingstone e Pierre Ma- 
gry. Deram, pelo contrario, occasião a que a verdade apparecesse ra- 
diante de luz, e se levantasse a questão colonial na sua verdadeira altura. 

Guiou-se de certo este esclarecido escriptor por informações espalha- 
das pelos abolicionistas inglezes, que, tendo sido bem recebidos nas nos- 
sas possessões, não duvidaram desdizer-se muitas vezes e serem comple- 
tamente injustos para comnosco i 

Tem sido tal a cegueira dos propagandistas inglezes, que nem ao me- 
nos relêem o que escrevem, nem se arreceiam de se darem como des- 
cobridores do que já havia sido visitado. 

Não deixam porém de ter merecimento tão arriscadas viagens, mas 
seria com certeza muito maior, se os exploradores fossem justos e ver- 
dadeiros nas suas descripções. 

Não nos causou menos assombro o que de nós escreveu^ o dr. James 
Comwel no seu livro de geograpbia da índia. 

Não foi nunca desconhecido entre nós o que dizem os abolicionistas 
inglezes, mas temo-nos contentado em receber as provas de consideração 



1 É a todos os respeitos interessante a resposta do sr. marqaez de Sousa Hol- 
stein, a propósito da apreciação que de nós faz A. Réclos na soa Geographia, Aeha- 
se publicada nos Annaes da cammissão permanente de geographia, referida ao mez 
de dezembro de 1876. É o primeiro numero da publicação offlcial d*este instituto 
scientifico. 

2 Paliou d*este facto o sympathico escriptor e illnstre poeta Thomás Ribeiro. 
É certamente um dos que nos parece muito grave pela circumstancia de que se 
acha revestido : ensín^sc nas escolas da índia a dizer ás creanças que nâo mere- 
cemos o nome de naçio cívilisadal E para isso empregam uma linguagem indigna 
e insinuações repugnantes 1 Gumpre-nos protestar contra similhante systema de 
propaganda c levar a toda a parte a descripçao dos nossos usos e costumes, e do 
nosso paiz, como nação livre e independente e como potencia colonial. As repetidas 
edíçdes da geographia para as escolas, do dr. James Comwel, e quaesquer escriptos 
d*esta ordem nâo terão echo. 



m 

^9 ^^ di^>»wym ewn^oti^ «i^iptQri^ iflg^e^s e fraoicezes; entre os 
qnaes contámos H. Major, Burton e Carlos Vogel. 

Tig»^o.$ 4:^pfia4o Imbm P^ j.u$tiça que nos assiste^ mas aquelles abo- 
licionistas nSo mostram ter examinado o que a nosso respeito escrevem 
^jmsí:fH^\gF^íinp(^, cu3m piiocurain XM)nbecer as rectificações feitas já na im- 
prej)$9^ já ew diversas pieqiQrÂa^ e valiosos Uyros. Embarcam para as ter- 
ras de Africa sem estudarem os nossos paos e câstjomeS) sem verem os li- 
v/x^ qjj^ 3.e sacham pi^Uça^s ^|*ca d'ague|las possessões e sem se infor- 
nf^vfiffi dp que ^av^inos fidjis) ejfk pvfíl do progresso e da civilisação colonial. 

O 4Vie é cerjlo é que entre ^ piuii^s publicações que se tem feito com 
r^açãp á provjj)cÍ9 de AngQJ^, aFulta 9 do Boletim oficial da provincial 
foTjigíçjò fí^).^ joro^ yallpsps .(jlocumentos para se avaliar com perfeito co- 
qibi9çp\iepl9 o q^viK^ento .comiooierci^l ^ agrícola da provincia. A publica 
«jtal^tr^o p64e ali $er a^ij^da. 

IlQip d/^i^erj^os y^fjp^^iàT ^ AQssas considerações acerca da provincia 
4^ 4#go)^, sen) f^^armQs4? or^anlsaçlío das obras publicas feita em 1876, 
e sem dizer algumas palavras a respeito do projectado caminho de ferro 
de I/panda £^té Aqs^aca. 

^ 1800 diÂa jÇarlos Vpge), no Jivro a que já nos temos referido : 

«La construction, jugée assez facijle, d'un cbemin de fer à Tamérícaine 
4^ui9 ^a^9>Q&q.9'^ la y^\]^^ ^ Çã^s^ge, par Massangano, serait, ain- 
^ 4ue I9 Wv)ga(iQj;i à vapçi^ sçr la Goaciça jusqu'à la viUe, un immense 
bienfait pour tout le pays. » 

fk. nçt(^^da4.e e urge^pofa d^ consjlrqcçSo do caminho de ferro no valle 
da margem direita do Quan^ é, pois^ reconhecida desde ha muito tempo, 
íb Jtwje tffiiSí'Se dç realisar tão importante joaelhorainento, organis^do-se 
9l^ Ú'}^9f ^^ 9^^ '^;Sa$ yi$.^s, o .serv;iço das obras publicas provin- 
ciaes. 

O alcance de laes reformas avalia-se em presença da distribuição dos 
trabalhos, que se acham classificados do modo seguinte : 

jGQpgraphia: levantamento de cartas e plantas; 

^;eolagJia: pe^quiza jd lavr? 4^ miua^; 

fiatudos: jcoostracçio e conservação de estradas, pontes e tcáeigra- 

phos; 

Obras de rios, canaes, portos de mar, pharoes, desseccamento de 

panjtanQS e irrigações ; 

<^nstrucííã^> reparação e conservação de edificios públicos e fortifi- 
£a(^; 

> O p.rimeiTQ jaumero do BoU^tim official de Angola, foi publicado no di^ jLj} (le 
setembro de i845. 



Estudos e coDstrucçSo de caruiobo de ferro de LQ?Qda í^ A^b^aií^ '• 
Em s^uida a estas considerações apreseat^mos uia9 i^f» 4? dire- 
ctriz do caminho de ferro projectaijo, bem como a djescripçlk) tPPQ^ra- 
pbica da região que ellie atravessa. Os valies do Qa^Aza e fiA^l^ s|o 4e 
certo o coração da provinda de Angola . 

Directriz do caminho de ferro de L^ç^^fJ^ ofà Ambaca*. —Q pQQlQ dç 
partida, origem da lioba férrea, é o extremo NE. d^ bm% d^ f^ojipda, 
no espaçQ de terreno contiguo ao largo da Sen^or^ da Na^ri^i) # ^dja- 
ceote á {lonta da Izabel, o qual rei^ne as maiores va^gj^o», pej^s q^ia^s 
Dão pôde deixar de ser aproveitado para aM ^^ instaUiada s ç^^ão prin- 
cipal, testa do caminho de ferro, qpe /adiaal? seri espec^Us^d^^t 

A planicie marginal, onde assenta a parte boixp da âdade^ Qçoifi» o 
flanco esquerdo da reintrancia da oosta, cpwprehendiij^ ^ntm ps wr- 
ros de S. Miguel e das Lagosta?, e esteode-se m^ p^s N^« gj^ ^ 
loarreiras da Conceição, formando ^m faxa de lerreno )^iw de áoO $ 
300 metros de largura média, circumdada pela encosta, j(Ajgi$ pu Qçnps 
cortada de barrocas, que coD3tilgi.e a escar|)a(Jl9 pl^iwra «Bley^d^i qve se 
prolonga para o interior e separa os valies do 3iengQ » úq ()mm9,n 

Assim, pois, a directriz da linha férrea, parjtindo d^ Í4dj.c9j(jl# or^í^W 
proxin^a ao porto de Loanda, não pôde deixar de sjobir 4 #ss2| f^A^yrf 
que se lhe interpõe, com uma elevaçãp de 60 a 7.$ o^etros «^A^es ,4^s ver- 
tentes do valle do Bengo; portanto, depois dos lilNJite3 da ^ííJí09p $^ue 
ella pela planicie marginal até i base da ejico$ta^ qaç iqm^^jaçõ^ 4p Pe- 
nedo, e, contornando-a quanto possivel, tr^ata assim de $V)íXíf W^» 9 
fim de transpor em altura conveniente o contraforte (jme Jsva^çji jiy^a .$.?- 
qaerda da ravina que finda próximo ás ruiqas do jtpr^e d[a Çpnc^o^ 

Aquella encosta, muito enabora seja portada 4^ j)9rr.oca$^ 4|3yJ4p3 Ji 
sua constituição arenosa e á falta de vegetação que a sujeita á acç|í9 ^K 
aguas pluviaes, não apresenta difficuldades para 9 .aber|ur9 ^9 çsfmhOy 
havendo desde o Penedo até ás barreiras da £anceip|o d^ttv^.ç^ .^wl^- 
ciente para se desenvolver em acceitave^is condições fi tF9^Í9 4a áÍF9' 
ctriz, a fim de passar já superior ao referido contraforte e aj,cpç^ ji pl^^ 
Dura próximo da Boa Vista. 

Com relação a este primeiro lanço, pôde aíBrmar-$e $eip i^ep^ip 4^ 



> Diário do governo n.*» 60, de 5 de março de i877. 

* Primeiros estudos do caminho de ferro em Angola. Reconhecimento do ter- 
reno para o traçado do caminho de ferro entre Loanda e Ambaca. Memoria MiM- 
0Í99Í (Biampaorípta), jMig. fà. Lisboa, 21 de setembro 4e 1876. ^ Angt^^fg fietfm ée 
Sm^ Prado. 



240 

contestação que, a partir do local convenientemente âxado para a estação 
principal em Loanda, nenhuma outra saída se encontra em melhores con- 
dições e tão conforme com a direcção geral da linha, alliando ao mesmo 
tempo o effeito agradável de seguir em mais de 5 kilometros por uma en- 
costa d'onde se disfructam a bonita perspectiva de uma parte da cidade 
e o porto de Loanda, que por sua parte terá também esse embellezamento, 
o de um lanço da linha férrea quasi marginal. 

Da Boa Vista segue a directriz pela planura elevada até ás immedia- 
ções do morro do Cacoaco, de onde desce para o littoral, desenvolven- 
do«se, sem dificuldades, pelas encostas suaves que lhe são adjacentes, 
não só para se approximar da povoação de Gacoaco, cuja industria pis- 
catória lhe dá já actualmente alguma importância, mas também para se 
dirigir pelo terreno marginal, que se encontra bastante plano e entestando 
com o valle do Bengo, pelo qaal a directriz continua seguindo a margem 
esquerda, e passando em Quifandongo, sede do concelho da Barra do 
Bengo, onde finda a primeira secção, com a exteasão de 26 kilometros 
desde a origem. 

A directriz continua ainda nas melhores condições pela favorável pla- 
nície do valle, terminando a segunda secção no kilometro 54, n'uma pe- 
quena elevação antes da lagoa de Quibunda, onde convirá ser a estação 
do Icolo e Bengo, por se achar próxima de Ganganriangombe, sua actual 
sede. Esta secção mede 28 kilometros. 

Marginando, pelo lado do S., a lagoa de Quibunda, passando próximo 
a Gabiri e voltando um pouco á direita pela encosta do rio de Cabaia que 
se acha junto com a lagoa Lalama, chega a directriz próximo a Tuco-tnco, 
nos fundos d'esta lagoa, onde desemboca o valle d'aquelle rio, que mais 
para cima toma o nome de Calucalla. Junto de Lalame, em Tuco-tuco, 
kilometro 85, finda pois a terceira secção com 31 kilometros de ex- 
tensão. 

N'estas ires secções não pôde ser mais favorável o terreno para a m- 
stallação do caminho de ferro, principalmente desde a baixa do Gacoaco. 
Alem d*isso o valle do \>mo Bengo, que já é percorrido pela estrada que 
segue para o Zenza do Golungo, tendo as margens do rio bastante po- 
voadas e em parte cultivadas, em virtude da sua notável fertilidade, jus- 
tifica sufBcientemente a directriz escolhida, que não deveria deixar de 
seguir, quando mesmo pelo terreno elevado podesse haver superiores 
vantagens technicas para o seu traçado. 

Ê a montante de Lalama, entre Tandabonde e Camotamba, onde o 
Bengo sáe de entre as collinas que apertam e accidentam mais o seu fértil 
valle, que se poderá considerar o principio do alto Bengo; por essa 
drcumstancia e pela conveniência que no delineamento geral se reconhe- 



241 

ccu haver, na passagem para a bacia liydrographica do Quanza, a dire- 
ctriz deixa o valic principal para o aíQuente de Cabaia ou Calucalla, como 
se denomina a montante, por cuja encosta esquerda attinge a divisória 
nas alturas do sobado de Caculo Casongo, no kilometro 120, onde esta 
quarta secção perfaz 35 kilometros. D'este ponto, não podendo facilmente 
passar a seguir logo o valle do Quanza na sua margem direita, por causa 
das lagoas que lhe estão adjacentes, e para não tornar tão sensivel o des- 
vio que soffre a direcção da linha, a directriz segue por isso no sentido 
que mais a pôde encurtar, até attingir a margem do rio no sitio da Bar- 
raca. 

N'este percurso, em terreno mais ou menos elevado, a directriz passa 
nos fundos ou vertentes da lagoa Tõa, kilometro 145, ponto o mais pró- 
ximo de Galumguembo (Zenza do Golungo), onde limita a quinta secção 
com 25 kilometros ; restando igual numero de kilometros até á Barraca, 
kilometro 17Ó, e fim da sexta secção, onde chega a directriz descendo da 
planura elevada pela encosta algum tanto levantada do contraforte, em 
cuja base está estabelecida aquella feitoria, e na qual finda a primeira 
parte da linha férrea. 

O desvio da direcção geral, a que se obriga a linha, a fim de tocar na 
margem do Quanza, se não se tornava necessário para a directriz entrar 
no valle do Lucalla, depois de ter passado para a bacia d^aquelle rio em 
Caculo Casongo, justifica-se plenamente, como adiante se verá, pelas 
vantagens que resultam de se fazer communicar a linha com a via fluvial* 
de navegação a vapor; alem de que em pouco será augmentado o desen- 
volvimento total, por isso que a directriz segue terreno menos ondulado. 

Na segunda parte da linha, a directriz, ao sair da estação da Barraca, 
tem de ganhar novamente o terreno elevado, podendo desenvolver em 
rampa acceitavel pela encosta, a fim de passar sobre o contraforte que a 
jusante da grande lagoa NGolome se prolonga para S. sobranceiro á 
margem do rio, e produzindo com as colinas também avançadas da mar- 
gem opposta uma verdadeira estrangulação no valle do Quanza, e segue 
depois, rodeando as vertentes d'aquella lagoa até ao kilometro 196 (de 
Loanda), na altura de Mabaia, que é no contraforte pouco elevado, que 
se estende até á confluência do Lucalla, e constitue a divisória das lagoas 
da margem do Quanza adjacentes e agrupadas com a NGolome, para as 
da margem direita do Lucalla, tendo esta sétima secção da linha geral 26 
kilometros de extensão. 

De Mabaia, descendo sem maior dificuldade a Cavunge, percorre a 
grande planície que se prolonga por Caçoalalla até á margem direita do 
Lucalla a montante da lagoa NZungo, e flanqueando as elevações de Cas- 
saoze 6 NGola-Camana, segue por aquella margem até em frente do si- 
te 



tio denomioado Oeiras na coDflueDcia do rio Luinha, cuja margem direila 
segue junto da encosta até ao local das ruínas da antiga fabrica de ferro, 
que ali fora estabelecida nos íins do século passado, completando esta 
oitava secção 30 kilometros de desenvolvimento no kilometro 226. 

O valle do Lucalla, logo a montante da confluência do Luinha, apre- 
senta as encostas alterosas e juntas ao rio, estando mais acima cerca de 3 
kilometros as Cachoeiras, que limitam o trato navegável desde a sua foz. 
Não era fácil, pois, a directriz continuar a seguil-o pela margem do rio, 
convindo por isso dirigil-a pelo valle do Luinha, que se encontra n'este 
ponto favorável e permittindo subir suavemente até.á fabrica de ferro. 

A directriz, partindo doeste ponto, onde já é mais sensível a região 
montanhosa, segue ainda pelo mesmo lado do valle até cerca de 3 kilo- 
metros mais acima, onde transpõe o rio, a flm de seguir pelo valle do 
Sumbi, que n^esse sítio afilue á sua margem esquerda. 

A rasão por que convém deixar o valle do Luinha, para depois ser no- 
vamente seguido, é porque no trato que vae até ao extremo O. da 
cordilheira de Quiloange, onde são as suas cachoeiras, o valle é fundo e 
de margens muito arrebatadas; emquanto que pelo valle do Sumbi, pas- 
sados os primeiros 3 kilometros desde a sua fòz, as encostas são baixas 
e a directriz encontra uma planura elevada, que atravessa, encostando-se 
á vertente S. da cordilheira de Quiloange, para ganhar nivel, e, trans- 
pondo a ribeira Quilandula, vae alcançar o sitio de Quisanga de NGola-Ca- 
fuxe, kilometro 253, onde flnda a nona secção que mede 27 kilometros. 

No sitio da Quisanga a cordilheií^a de Cazengo apresenta um coUo, ou 
mais propriamente uma interrupção entre as montanhas de Quiloange e 
Cusongolo, por onde a directriz pôde seguir de novo para o Luinha, po- 
rém mais accidentada, porque as diíSculdades de toda a linha pode di- 
^er-se que estão comprehendidas apenas entre este ponto e o kilometro 310 
na origem do rio Luce. Portanto a directriz da decima secção, partindo da 
pequena planura do Quisanga, atravessa a cordilheira, descendo pela ver- 
tente de Gatabua e Cacuso, que aJQQue ao Luxinde ; transpõe este rio pró- 
ximo da sua confluência com o Luinha, cujo valle segue pela margem es- 
querda até á confluência do Luce, próximo a Aguas-Doces, tendo de 
atravessar os cursos de agua da vertente N. da cordilheira de Cazengo 
e termina no kilometro 280, onde é a passagem no rio Luce da estrada 
de Caculo para a villa do Golungo-Alto, próximo ao sitio do Canboca, 
tendo desenvolvido 27 kilometros. 

Deixando o valle do Luinha, a directriz segue pelo do Luce, seu con- 
fluente, que se apresenta favorável e mais aberto, attingindo, comtudo 
algumas das montanhas dos seus flancos altitudes de mais de 300 
metros acima do talweg. Os cursos de agua mais importantes que atra* 



< 



243 

vessa são os rios Lua e Nzondo, mas pôde desenvolver-se sem excessivas 
rampas pela vertente esquerda do valle até á sua origem, attingindo abi 
o plao^aito de Ambaca pelo flanco N. da serra do Gama, do collo, onde 
tem igualmente origem a ribeira denominada Quisanga, que afflue ao 
Moembeje. Este rio é também transposto, bem como aCaringa, em cuja 
proximidade no sitio de Cazongolo, kilometro 317, é o limite da decima 
primeira secção, medindo 37 kilometros de desenvolvimento. 

Finalmente na decima segunda secção, que mede 36 kilometros, atra* 
vessando uma região pouco accidentada, embora abundante em cursos 
de agua, a directriz encaminha-se sem maior difflculdade para a margem 
direita do rio Lucalla, passando ao S. da povoação de Pamba (sede do 
concelho de Ambaca) para ir findar 10 kilometros mais adiante, no sitio 
de NDundo-Amuluro junto d'aquella margem, e a juzante da confluên- 
cia do rio Gariombua, completando por esta forma a linha desde Loanda 
353 kilometros. 

Este ponto foi fixado para o termimis da linha de Ambaca, não só por- 
que está proximamente no centro do concelho, mas sobretudo por ser 
um limite natural, e haver terreno onde pôde ser perfeitamente situada a 
povoação, que de certo ali se ha de formar muito rapidamente, em vir- 
tude áoterminus do caminho de ferro. Alem de ter a vantagem da pro- 
ximidade do rio e apoiar-se n'um outeiro isolado e dominante, que pôde 
e convém ser fortificado, nada se perde em abandonar a Pamba, que ne- 
nhuma importância tem, não sô pelo local, mas porque as poucas e arrui- 
nadas casas que ali ha, são de adobe e cobertas de capim. 

Gom relação ás ultimas três secções da linha, parecerá, observando-se 
a planta, que a directriz teria talvez vantagem em não atravessar na Qui- 
sanga para o N. da cordilheira de Gazengo, seguindo, antes de subir 
áquelle ponto, pelas planuras que se encontram desde o Sumbi pelo Hanga 
até para L. do rio Mosulo, a fim de passar em Gaculo, que é a sede do 
concelho de Gazengo, e d'ahi seguir para Ambaca sem passar para o N. da 
cordilheira. Esta solução porém não é preferível, porque, se a directriz 
até Gaculo seria em terreno mais fácil, d'esse ponto para Ambaca augmen- 
tavam consideravelmente as difificuldades, poisque o valle do Moembeje, 
sendo o mais favorável a seguir, ainda assim é muito irregularmente ar- 
rebatado e em partes bastante estreito, não se prestando por isso como o 
do Luce para ganhar o nivel de Ambaca ; alem disso, o que é mais im. 
portante é que, sendo a região agricola constituída pelos dois concelhos 
de Golungo e Gazengo, entre os quaes a extrema é formada pelo Luinha 
e Luce, a directriz a S. da cordilheira indo a Gaculo, não só seguia quasi 
o extremo da região productora, confinando pelo Lucalla com uma região 
que é relativamente estéril» mas deixava de servir um concelho impor^^ 



244 

tante, como é o do Golungo Alto. A direclriz pelos valles de LuíDha e 
Luce tem evidentemente, alem de mais facilidade, a vantagem notável de 
seguir pelo centro da região mais productora, servindo ao mesmo tempo 
os dois referidos concelhos que a constituem. 

Descripção succinta do território reconhecido. — O concelho de Am- 
baca, alem de possuir um solo ferlil e ser dos mais povoados da provin- 
cia de Angola, e onde os habitantes indígenas manifestam a mais notável 
tendência para a civilisação, encontra-se no interior a E. de Loanda, 
n'uma vantajosa situação relativamente ás regiões de reconhecida riqueza 
de producção que lhe são limilrophes. 

D'essa situação resulta pois mais uma das rasões que justiQcam a es- 
colha que d'elle se fez para ponto objectivo da primeira linha férrea a es- 
tabelecer n'aquella possessão, como artéria principal de communicações 
entre o porto de Loanda na costa Occidental de Africa, a 8** 46' 30" de la- 
titude S., e as mais afastadas regiões do vastíssimo sertão que lhe fica 
aE. 

O território comprehendido entre Loanda e Ambaca, limitado pelos 
valles dos rios Bengo e Quanza, alem dos quaes nao foi preciso levar os 
estudos, abrange duas regiões perfeitamente dístinctas e dispostas em zo- 
nas parallelas á costa atlântica. A primeira doestas zonas, cuja largura na 
parte reconhecida regula por cerca de i50 kilometros, pertence á região 
littoral, que no geral é mui pouco accidentada e cujas elevações não attin- 
gem a muito mais de 100 a 1 50 metros sobre o nivel do mar. 

Caracterisa-se esta região pelo seu aspecto árido, devendo á escassez 
de aguas nascentes a pobreza de vegetação, que unicamente se apresenta 
luxuriante nas margens dos rios e das largas depressões do terreno onde 
as aguas pluviacs se represam formando dilatadas lagoas. A direivção ge- 
ral E.-O., normal á costa, é a dos valles principaes, que na maior parte 
d'esta região são largos, tem pendentes pouco sensíveis e encostas quasi 
isentas de affluentes perennes. 

A segunda região, que comprehende já os limites dos concelhos de 
Zenza do Golungo com o Golungo Alto, e Massangano com Cazengo, api*e- 
senta-se bastante montanhosa e cortada, cstendendo-se até cerca de 240 
kilometros da costa. 

Abunda em aguas correntes, e densas matas virgens revestem a maior 
parte dos seus valles e collinas, que são de uma fertilidade notável. Os 
valles secundários mais importantes, como são os do Lucalla e Luinba, 
embora já se encontrem com pendor mais rápido e encostas approxima- 
das, apresentam comtudo uma favorável direcção geral concordante com 
a dos valles principaes. Attingem altitudes superiores a 1:000 metros so- 



^45 

bre o mar os pontos culminantes das cordilbeiras mais alterosas d'esla 
região, as quaes se dirigem também no sentido deE.-O., ramiQcando-se 
mais ou menos irregularmente desde o plan'alto que se prolonga para 
o sertão, e em cuja origem assenta Âmbaca, podendo por isso ser com- 
paradas a longos e accidentados contrafortes que, assentes na região lit- 
tora!, formam por assim dizer os acclives para o plan'alto a que a região 
que constituem serve de transição. 

Acha-se, pois, o concelho de Âmbaca em cerca de 2i0 a 300 kilome- 
tros do littorai, e se está ainda longe do limite E. do território portuguez, 
confina todavia com os últimos concelhos actualmente avassallados, com 
os quaes constitue a parte mais importante do interior da provincía de 
Angola. 

Pelo lado de O. confina com os concelhos de Cazengo e Golungo Alto, 
a N. com os Dembos, a NE. com o concelho do Duque de Bragança, a E. 
com o de Malange e a SE. e S. com o de Pungo Andongo. Faz parte da 
bacia hydrographica do rio Lucalla, que o atravessa em direcção SO. até. 
á confluência no Lotete, formando d'ahi para juzante o limite entre Pungo 
Andongo. 

Regado por numerosos tributários d'aquelle rio. correndo em valles 
abertos e pouco fundos, que nascem da vertente S. das cordilheiras do 
Quio, de Camana e Caçassa, apresenta já a feição amena da região alto- 
plana, com uma vegetação viçosa e variada, porém menos basta e fron- 
dosa do que na região precedente. A sua altitude media é pouco superior 
a 750 metros sobre o nivel do oceano ; porém as cordilheiras que lhe são 
limite N. levantam-se até 1:200 metros, attingindo o alto do Quio 1:330 
metros acima d'aquelle nivel. 

Com relação á população e agricultura ha também alguma diíferença 
nas duas regiões. 

Pelos dados estatisticos que existem, conhece-se que a relação da 
população para a superfície d*esta parte do território de Angola pouco 
excede de 5,7 habitantes por kilometro quadrado; a desigualdade, po- 
rém, com que está distribuída, dá para a região mais fértil uma relação 
mais favorável, achando-se, por exemplo, que a população especifica dos 
concelhos de Cazengo e Golungo, deduzida dos mesmos dados, é appro- 
ximadamente 23 habitantes por kilometro quadrado. 

Na região littorai é onde se acha menos densa a população, a qual 
habita geralmente ao longo das margens dos rios, onde aproveita indolen- 
temente a grande fertilidade natural do solo. 

Encontram-se, todavia, n'estas regiões, estabelecidas pela iniciativa de 
europeus, algumas fazendas agrícolas importantes, que téem tido um des- 
envolvimento e prosperidade apreciáveis. 



246 

A cultura principal é a da canna saccharina para a fabricação de aguar- 
dente, nSo deixando de ser também importantes as colheitas de legumes, 
fructas, mandioca, hortaliças, milho, batatas e outros géneros. 

As condições da região montanhosa são ainda mais lisonjeiras. 

A população é mais abundante e um pouco mais activa, e no meio 
d'aquella riqueza florestal, ainda virgem de exploração, manifesta-se já 
em desenvolvimento propicio a cultura do café, principalmente nos con- 
celhos de Cazengo e Golungo, onde, pelos constantes e louváveis esforços 
de alguns agricultores europeus, se acham fundadas importantíssimas pro- 
priedades agrícolas, que muito téem concorrido para animar o commercio 
da província. 

N'esta região e na alto plana, que abunda em gado vaccum, alem de 
todas as producções da precedente, ha preciosas madeiras de todos os 
portes, e cultiva-se o algodão, o arroz e o tabaco, e em maior escala a gin* 
guba, etc. 

Emâm, relativamente á variedade de vegetação e importância dos seus 
productos e essências, podem encontrar-se especiaes esclarecimentos no 
bem elaborado mappa phyto-geographico, sobre a Flora angolense, do dr. 
Welwitsch. 

Afora a industria agrícola, nenhuma outra se encontra ali em escala 
notável, apesar de não faltarem os elementos, principalmente para as ex- 
tractivas, que não téem passado de pequenos ensaios sem critério. 

Finalmente, a constituição geológica, na parte das duas regiões re- 
conhecidas, é verdadeiramente complexa: na montanhosa, alem dos 
terrenos de transição, predominam os micaschistos, mais ou menos ar- 
gillosos, sobrelevados irregularmente pelas rochas igneas que n'um ou 
n'outro ponto affloram, e appa^ecem depósitos metalliferos, ferro micaceo 
e hinnatite, bancos de calcareo saccharoide ; e nas vertentes menos eleva- 
das do Quanza, escarpados de rochas aggregadas, alternando a calcareos 
grosseiros e tufos. 

A formação de terreno terciário, cretáceo, turfas e alluviões modernas, 
apresentando alternativas, e em muitos pontos caracteres estratigraphi- 
cos bem definidos, isolando-se das arenatas e marnes argillosos, é a con- 
stituição notável da região littoral, embora, como aquella, apreciada tam- 
bém superficialmente e sem um estudo especial. 

Proflnda de Moçambique. — É immenso o território conhecido sob este 
nome, e por isso mesmo se torna assas diíQcil a sua descripção, por mais 
resumida que ella seja. 

Começaremos por fallar dos seus limites, o que em objecto de salu- 
bridade e aclimação representa a parte principal, poisque a menor inexa- 



247 

ciidSo influe directamente em todas as conclusões que tenhamos de for- 
mular. E seja attendemos a esta circumstancia, quando tratámos das ou- 
tras províncias, não seremos menos attentos a respeito da de Moçambique, 
porque não expomos o resultado de apontamentos de viagem própria ; co- 
ordenámos o que nos parece mais rasoavel á vista dos documentos e in- 
formações que podemos obter. 

Os limites da parte oriental da província estão bem designados ; to- 
cam ao S. em 26** 3(y na costa do districto de Lourenço Marques, próxi- 
mo á colónia de Porto Natal, eao N. marcam-seno Cabo Delgado em 10^ 
41' de latitude N. *. 

• A extensão da costa de Moçambique é calculada em mais de 20:000 
Idlometros e para o interior é superior a 800. 

O logar mais recuado que occupámos é o Zumbo ^ ponto muito im- 
portante em virtude da sua posição central. 

As fronteiras de Moçambique, no interior, estão mal determinadas, e 



1 Referímo-nos aos Ensaios sobre a estatística das possessões portuguezas, de 
Francisco M. Bordalo, e á Memoria sobre Lourenço Marques, do visconde de Paiva 
Manso. São as latitudes que nos parecem mais exactas. Devemos lembrar comtudo 
qae no diccioDario de Larousse se toma a latitude N. de 10° 26'. 

Quando estávamos a rever as provas d*este capitulo^ veiu-nos às mãos um jor- 
nal, onde se lé o segunite : 

cPelo tratado com a Inglaterra foi reconhecido o nosso direito aos territórios 
comprehendídos entre o Gabo Delgado e a bahía de Lourenço Marques. Pelo tra- 
tado celebrado em 1828 entre o governador de Moçambique, Sebastião Xavier Bo- 
telho, e o Iman de Mascate, marcaram-se os mesmos limites. Não ha estabelecimen- 
to algum portuguez em Tungue; existe apenas ali uma povoação de árabes e pre- 
tos sujeitos a uma auctoridade local, quasi independente. 

«Em 1852 permittiu-se ao Iman de Mascate que estabelecesse ali uma alfan- 
dega, mas a concessão foi annullada em consequência de reclamações portuguezas. 

«Sendo governador do Ibo o tenente Jeronymo Homero, foi mandada a Tungue 
a escuna de guerra Quatro de Abril, para capturar o palhabote francez Delphina, 
que ali se achava fazendo contrabando, sem que houvesse reclamação alguma a si- 
milhante respeito, o que prova como era considerada a nossa jurisdicção n*aquelle 
ponto. 

cA bahia de Tungue é formada ao N. pelo Cabo Delgado e ao S. pela ponta de 
Sanga; a embocadura é dividida em duas pela ilha de Ticoma. A entrada do N. é 
accessivel a toda a hora e com qualquer tempo para navios de todas as lotações. A 
bahia^é abrigada e segura, tendo de fundo cerca de 33 metros até 8,8 de areia. 
Desemboca n'ella o rio Meninquene que tem boa agua doce.» 

* Carlos Vogel, no seu livro Le Portugal et ses colonies, diz que lhe parece que 
não ha distancia superior a 500 kilometros da costa para o interior, se se attender 
à distancia de Tete a Quelimane. 

É indispensável rectificar estas e outras afirmativas, para não se dar curso a 
taes informações, que não assentam em factos nem em cálculos positivos. 



248 

nós indicamos as que se acham designadas no diccíonario de Larousso, 
não só com o fim de as tornarmos conhecidas, mas também porque de- 
sejámos mostrar a injustiça que nos fazem, escrevendo em 1874 infor- 
mações dadas em 1860, como se na provincia de Moçambique não hou- 
vesse progresso, por mais moroso que fosse. 

Segundo Larousse, os limites d'esta provincia são os seguintes : 

N. Zanzibar, em Gabo Delgado; E. canal de Moçambique; S. Gafraria, 
em Lourenço Marques ; 0. não estão bem definidos. 

A provincia de Moçambique tem realmente a E. o canal de Moçambi- 
que no mar das índias, que banha a costa, onde não ha porto algmn que 
não nos pertença. £ verdade que os limites centraes não estão bem defi«- 
nidos, sendo hypothetico tudo o que se disser n'este sentido. Dizer-se 
também^ que as fronteiras no interior correspondem a uma cordilhei- 
ra, que, correndo do N. ao S., começa no paiz dos cafres e acaba nas 
montanhas da Lua, é deixar o problema insolúvel, se não mais compli* 
cado. 

Não são inúteis estas indagações^ se bem que não possa apurar-se a 
verdade, mas servem para mostrar a urgência que temos de se nomear 
uma commissão que se encarregue de estudar esta importante questão. 
Não é somente por este lado que insistiremos no assumpto, tendo que 
evitar a extensão das nossas considerações, que podem tornar-se fasti- 
diosas, mas não desnecessárias. É preciso pois observar que se estas 
ponderações são indifferentes para muitos, não o são nem o podem ser 
para aquelles que téem que dizer a verdade em presença das observações 
feitas directamente, ou compulsando documentos e procurando informa- 
ções fidedignas, a fim de auxiliar os que desejam promover a emigração 
e colonisação das possessões portuguezas. 

O que é sobretudo indispensável é procurar por todos os modos pos- 
síveis a propagação de noticias exactas sobre os melhoramentos que se 
vão realisando, evitando por esta forma a repetição contínua do que disse 
um escriptor em epochas mais remotas, verdadeiro aliás na occasião em 
que elle o escreveu, mas que se não deve citar senão como formula de 
comparação. 

Referindo-se ás informações de Garlos Vogel', embora se não cite o 
auctor, diz-se no diccíonario de Larousse que a provincia de Moçam- 
bique não é senão um encargo ruinoso para Portugal, e que ali não 
possuímos mais do que vastos territórios a sustentar, indígenas bèliico- 



1 Dlccionario Larousse. São realmente resumidas as informações que ali se dão 
a respeito da província. 

2 Le Portugal et ses colonies, par Charles Vogel, 1860, pag. 365. 



249 

SOS a combater, uma extensa costa a vigiar, e, com todas estas desvan- 
tagens, uma diminutíssima população industriosa e civilisada ; e para co- 
lonisar similhante território, diz-se mais, é preciso dar protecção ao com- 
mercio por meio das armas. 

São realmente injustas estas apreciações, mas não menos injustas fo-* 
ram as informações dadas pelo dr. Livingstone com respeito a esta pos- 
sessão; e comtudo, apesar da triumphante resposta que em 1867 Ibe 
deu D. José de Lacerda, não vemos a verdade restabelecida nem a jus- 
tiça respeitada. 

que se torna também digno de reparo é o modo cavalheiroso com 
que se falia d'este explorador aliás eminentíssimo, mas quasi sempre in- 
justo para comnosco^ 

A província de Moçambique compõe-se de oito districtos, contando 
do S. para o N.; a saber: Lourenço Marques, Inhambane, Sofalla, Que- 
limane, Tete, Angoche, Moçambique e Cabo Delgado. A estes districtos 
estão subordinados differentes commandos, feiras e presídios, perten- 
cendo ao districto de Tete, no interior, o presidio do Zumbo e a feira 
de Manica, pontos estes mais afastados da costa. 

Não marcámos os limites de cada um doestes districtos, porque só se 
poderia fazer em trabalho especial. Tratámos unicamente dos assumptos 
sob um ponto de vista geral, elevando-nos por assim dizer a um logar 
mais alto de onde se avista toda a província. Ê o meio mais simples de 
observar as suas relações com os estados que lhe ficam próximos, e de 
pôr em relevo o que n'ella ha de mais notável. 

Ninguém ignora que urge tratar da colonisação doesta provincial, a cujo 
respeito disse o sr. visconde de Arriaga': 

«A parte mais rica das possessões de Portugal é o Zambeze. 

tAlí existiram dois conventos de frades; ali houve grandes feiras só 
para oiro em pó e marfim, Manica e Zumbo; ali existem ricas minas de 
carvão de pedra; ali ha uma riqueza immensa a explorar. Quem conhece 
a geograpWa de Africa, quem conhece o porto de Aden, que serve de in- 
terposto á índia e á Europa, quem sabe que aquelle porto está sempre 
cheio de navios, quem sabe o numero de vapores que ali tocam para se 
abastecer de carvão, quem conhece que temos ali as minas de carvão de 

1 Nas sessões da camará dos senhores deputados de 15, 16 e 17 de fevereiro 
de 1877, tratando de combater as informações de Cameron e Young, referiu-se o sr. 
visconde da Arriaga com a maior deferência á memoria de Livingstone. Fez-lhe jus- 
tiça, é verdade, como intrépido explorador, mas como escriptor é que entendemos 
ser Josfa e fundamentada a nossa queixa. 

< Diário da camará dos senhores deputados, sessão de 15 de fevereiro de 1877, 
pag. 314. ' 



aso 

pedra da melhor qualidade*, é levado a julgar que só isto é motivo mais 
que sufficiente para que o caminho de ferro se faça. 

<E para que se uao diga que eu estou fallaVido superficialmente n'este 
negocio, vou citar um facto passado com o governador, o general Mari- 
' nho, e com o seu secretario, que era o meu irmão António Júlio. EUes 
mandaram ir uns poucos de caixões de carvão de pedra ao governador de 
Bombaim para que elle visse a qualidade de carvão das minas que ha\ia 
na província de Moçambique, e elle disse-lhes: cO carvão é excellente; 
comprámos o carvão de pedra, mandámos os vapores que forem neces- 
sários para ò seu transporte até um bom porto de embarque, e vós pagaes 
esses vapores com o preço do mesmo carvão de pedra.» 

A exploração e colonisação de Moçambique demandam certamente 
muito cuidado. 

Em 1860 dizia Carlos Yogel o seguinte : 

<A necessidade de se tomarem medidas radicaes para impedir a ruina 
total da província, é perfeitamente reconhecida pelo governo portuguez; 
mas a situação financeira paralysa-a na applicação dispendiosa dos meios 
que devem ser empregados para tirar a província do abatimento em que 
se acha e reanimar o desenvolvimento de seus recursos naluraes. 

tEm taes circumstancias parece que uma companhia bem organisada, 
revestida de largos poderes e dispondo de largos recursos, seria a única 
capaz de emprehender a exploração de Moçambique. Ha alguns annos, 
alguns capitalistas e homens de influencia apresentaram ao governo pro- 
postas n'este sentido. Pediram a concessão de vastos terrenos, o mono- 
pólio da exploração de minas e de rios auríferos, com o direito de cortar 
madeiras, e pediram também direitos políticos por noventa e nove an- 
nos, simílhantes aos da antiga companhia ingleza das índias.» 

Não teve andamento este projecto, observa Carlos Vogel, o que nos 
parece fagil de prever. Não augurámos bem de taes companhias, nem 
lhes são propícios os tempos. 

Actualmente fez-se a concessão de terrenos para a plantação da pa- 
poula, e tem-se tentado formar uma ou outra colónia, mas não tem ha- 
vido methodo nem estudos preliminares devidamente feitos. 

Procurámos obter informações fidedignas de algumas pessoas que 
têem estado em Moçambique ou ali foram em serviço, e a maior parte 
d'ellas opta por que se organisem companhias de exploração. N'este sen- 
tido offereceram-nos o seguinte esboço que publicámos não só por deferen- 



1 Com respeito ao carvão de pedra fizeram-se experiências, cujo resultado 
nâo foi tão satisfactorio como se esperava. Segundo pessoa que nos merece inteiro 
credito, a exploração doeste minério demanda muitas despezas. 



251 

cia á pessoa que o fez, mas por ser um alvitre que pôde esclarecer a opi- 
ni5o d^aquelles que desejam se organisem companhias de exploração. 

Eis o parecer a que nos referimos : 

tDe todas as províncias ultramarinas a que me parece mais própria 
para se ensaiar a colonisação europêa, applicada a uma grande empreza 
agrícola, é a de Moçambique^ por ser aquella que ofiferece maiores re- 
cursos, pela variedade e excellencia dos seus productos, pela proximi- 
dade em que as terras mais férteis se acham dos portos do mar, pela fa- 
cilidade de obter operários e gente para o trabalho rural, e pela diversi- 
dade de mercados de consumo que lhe ficam não muito distantes. 

«As culturas mais ricas dos trópicos, taes como as do café, tabaco e 
canna de assucar, podem com vantagem ser exploradas em todo o litto- . 
ral da pro\incia e nas margens do Zambeze. Julgo, porém, que as pri- 
meiras tentativas devem ser feitas no continente fronteiro á capital em que 
est3o as duas freguezias do Mossuril e da Cabaceira. Gomo rasões de 
preferencia indico as seguintes : 

« 1.° O porto de Moçambique, depois do de Lourenço Marques, é o de 
mais fácil accesso em toda a costa ; 

«2.^ No continente ha muitas fazendas organisadas, que produzem já 
vários géneros de valor, que téem algumas boas casas de habitação e of- 
ficinas de lavoura, e são cortadas por excellentes caminhos; 

«3*° As duas freguezias estão debaixo das vistas immediatas das pri- 
meiras auctoridades da província e quasi na sede de uma d^s comarcas 
do districto judicial; 

f 4.° A península, pela sua disposição, presta-se a ser facilmente de- 
fendida de qualquer aggressão dos naturaes, ou do lado dos cafres da 
mourama, ou dos árabes, dos checados confinantes de Sancul e Quítan- 
gonha ; 

«S.° A 30 kilometros de distancia, atravessando riquíssimas florestas, 
encontra-se a montanha da Meza, cuja fertilidade, abundância de agua e 
bons ares a tornam, se não me engano, de grande importância para base, 
n'um futuro mais ou menos próximo, de larga colonisação europêa ; 

6.^ Estando as duas freguezias tão próximas da capital, mais fácil 
será ao governo dar as providencias necessárias para se obter a segu- 
rança da propriedade, auxílios médicos e o estabelecimento de es- 
colas. 

€N'estes termos não creio que seja impossível organisar uma socie- 
dade com fundos bastantes para fazer acquisíção de terras, que em Mo- 
çambique estão por preço infimo, e adiantar aos colonos idos de Portu- 
gal, da Madeira ou dos Açores, capitães para a exploração agrícola, a 
qual seria feita de parceria entre a empreza e os colonos. 



252 

«De Goa lambem podem ir operários, e gente muito própria para 
guardas das fazendas, agricultores, etc. 

tO governo n5o duvidaria por ventura contrahir as seguintes obriga- 
ções : 

«1.^ Conservar nas freguezias do Mussuril e da Cabaceira: 

«I. Dois parocbos de reconhecida capacidade, naturaes da Europa, 
para leccionar gratuitamente as disciplinas de instrucçSo primaria^ ; 

<II. Um facultativo de algumas das escolas do reino, para prestar 
n'uma enfermaria própria os auxílios médicos gratuitos de que os colo- 
nos ou trabalhadores e operários da empreza carecerem ; 

«III. Um pbarmaceutico devidamente habilitado para manipular os 
medicamentos da pharmacia adjunta á enfermaria ; 

<IV. Quatro enfermeiros e praticantes de pharmacia para auxiliarçm 
o facultativo e o pbarmaceutico ; 

<V. Um veterinário de Lisboa, do Brazil ou de Goa para tratamento 
dos gados. 

<2.° Transportar, por conta da fazenda, para Moçambique colonos com 
suas famílias, trabalhadores ruraes e homens de ofiQcios e sipaes da ín- 
dia para guardas ; 

<3.° Transportar também, por conta da fazenda publica de Moçambi- 
que, as macbinas, utensílios, ferramentas e bagagens pertencentes á em- 
preza, aos colonos e suas famílias; 

<4.° Isentar de impostos directos, durante quinze annos, os productos 
da exploração feita pela empreza. 

tà empreza adiantaria ao governo, mediante um juro módico, com 
hypotheca no rendimento da alfandega, os capitães necessários para a 
construcção de um quartel, escolas, enfermaria, botica e para provimento 
dos moveis e utensílios dos mesmos estabelecimentos e fornecimento da 
enfermaria e pharmacia. 

«As obrigações da empreza para com os colonos seriam as seguintes: 

cl."^ Cada colono e cada pessoa de sua família, receberia gratuita- 
mente um leito completo, um cobertor de 13, um capote de panno ou 
chalé de lã, segundo o sexo, e a roupa e calçado que parecesse indis- 
pensável; 

«2."^ Alimentação gratuita durante um anno, tanto para os colonos 
como para suas famílias ; 

«3.° Facultar-lhes-ia os meios para construírem as suas habitações, 

1 Ha uma disposição determinando que os parochos ensinem instrucçao pri- 
maria e não sabemos se algumas outras disciplinas, peio que devem perceber ama 
gratificação. A questão é que a lei se cumpra. 



253 

6 fornecer-lhes-ía os aniiuaes domésticos, instrumentos agrícolas, utensí- 
lios de cozinha, sementes e armamento; 

«4.® Também lhes facilitaria a acquisiçSo de braços mediante o salá- 
rio que se ajustasse ; 

c5.° Emprestaria aos colonos o dinheiro indispensável para o gran- 
geio das suas terras, mediante um juro rasoavel e ajuste particular. 
< As obrigações dos colonos para com a empreza seriam : 
cl.° Agricultar por sua própria conta, e assiduamente, durante dez 
annos, as terras que lhes fossem distribuídas, pagando á empreza por oc- 
casião das colheitas, a contar do segundo anno em diante, uma parte do 
produclo, fructo das suas terras; 

«2.** Pagar por meio de prestações annuaes, por occasião da colheita, 
em dinheiro ou em géneros, até final amortisaçao, a importância dos ma- 
teriaes empregados na construcção das casas, na compra dos animaes 
domésticos, instrumentos de lavoura, utensílios e armamento ; 

«3.° Ter o armamento sempre em bom estado, concorrendo para a 
policia e segurança das terras da empreza quando seja necessário ; 

c4.° Mandar os^ filhos á escola e facilitar a educação dos trabalhadores 
indigenas ; 

tS.® Preferir sempre a empreza, em igualdade de preços, para a venda 
dos productos das suas lavouras ; 

t6.® Conservar limpos os caminhos que passarem pelas suas terras; 
«7.® Não derrubar arvore alguma sem permissão da empreza. 
cPor esta forma a associação funccíonaría como banco agrícola, adian- 
tando os capitães necessários para serem explorados os terrenos de re^ 
conhecida fertilidade. 

cComo empreza industrial, transformando a matéria prima fornecida 
pelos colonos em valiosos géneros de commercio, como óleos, fibras, ca- 
fé, tabaco, assucar, etc. 

«Como negociante, levando os productos de sua exploração aos mer- 
cados consumidores e ministrando aos colonos, empregados e trabalha- 
dores, as mercadorias da Europa, para a venda das quaes não ha estabe- 
lecimento algum commercial no continente fronteiro á cidade.» 

A costa oriental da Africa portugueza é realmente muito extensa. Os 
seus portos abertos á navegação e ao commercio com occupação portu- 
gueza e fiscalisação aduaneira, são Lourenço Marques, Inhambane, ilha 
pequena do Bazaruto, ilha de Chiloane, Sofala, Quilimane, Angoche, Mo- 
çambique e ilha do Ibo. Outros ha ainda em que poderiam entrar sent 
difficuldade navios de qualquer tonelagem, e onde o commercio e a agri- 
cultura se desenvolveriam de uma maneira prodigiosa pela facilidade 
da entrada e segurança de ancoradouro, e pela fertilidade do ubérrimo 



254 

solo que lhe fica adjacente» o qual reúne á boa disposição dos seus im- 
mansos terrenos, cercados de pequenos rios, todas as boas condições to- 
pographicas e atè climatéricas ^ necessárias para colonisaçSo em grande 
escala. No entretanto nunca foram nem estão actualmente occupados por 
auctoridades portuguezas nem téem fiscalisação aduaneira, permittindo-se 
comtudo nas alfandegas próximas, despacho a pequenas embarcações de 
cabotagem que ali vão fazer permutações de géneros com os habitantes 
pretos do paiz. 

Taes portos são, seguindo a ordem da nomenclatura dos já descri- 
ptos, do S. para o N., os de Inhamissengo, Barra Catharina (Bocas do 
Zambeze), Macuzi, Quizungo, ao S. eao N. de Quelimane, e próximo d'elle 
a bella e grandiosa bahia do Mocambo, e a bahia da Gonducia, a primeira 
ao S. e a segunda ao N. de Moçambique, as quaes estão tão próximas que 
se avistam ; e ainda os de Fernão Velloso, Porto Velhaco, a formosa bahia 
de Pemba, e outros nas differentes ilhas habitadas de Gabo Delgado de 
que é capital o Ibo. Alguns d'esles portos não são accessiveis a navios que 
demandem mais de 4 metros de agua; comtudo era de toda a convenien- 
cia a sua occupação, não só porque com ella se desenvolveria a civilisa- 
ção tão necessária a povos que estão no estado primitivo, como porque 
asseguraria melhor o direito portuguez áquellas tão invejadas paragens, 
faciUtaria as transacções commerciaes muito custosas de fazer-se hoje pe- 
los meios deficientes por que se effectuam, evitaria os riscos de um 
transito longo e cheio de perigos que encarece e difiGiculta a marcha bené- 
fica da civilisação, pelo primeiro elemento por que ella se começa a pro- 
pagar — o commercio — que impõe a necessidade de consumir, obrigando 
a procurar o centro civilisador, em contacto com o qual adquirem os povos 
necessidades que os obriga a procurar o modo de as satisfazer com o seu 
trabalho por meio da industria e agricultura que completamente desconhe- 
cem, e, emfím, teriamos outros tantos centros onde a actividade humana 
procuraria desenvolver os seus recursos intellectuaes, alargando a área 
dos seus conhecimentos em beneficio de uma causa santa, como é a pro- 
pagação da civilisação em povos que vivem no maior estado de rudeza. 

Ilha de Moçambique^.— kWhdí de Moçambique, que a historia diz ter 
sido visitada em 1487 pelos intrépidos viajantes João Peres da Covilhã e 

1 Digo assim, e affirmo, observa o sr. Francisco dos Santos a quem devamos 
estas informações, porque os factos o comprovam. No entretanto nao é isto (acl*e^ 
ditado por muita gente, que sobre a salubridade do paiz tem idéas contrarias a estas. 

2 A descrípçao da ilha e districto de Moçambique foi-nos offerecida da melhor 
vontade pelo sr. José Zeferino Xavier Alves, que não duvidou tamb^n rever o sen 
trabalho, prestando-lhe nós toda a nossa coadjuvação. 



255 

Affonso de Paiva, quando atravessaram o Egypto e a Abyssinia,' e depois 
por Vasco da Gama em 1498, e por Pedro Alvares Cabral em 1300, foi 
deflnitivamenle occupada pelos porluguezes em 1506. É terra baixa, e 
tem 2^,5 de comprimento, {^,"-2 de largura e 5 kilomelros de circumfe- 
rencia. Está situada em IS"" 1' de latitude S. e 49"^ 45' de longitude E. 
de Lisboa. 

Não tivemos ainda occasião de visitar as nossas terras da Africa oriental, e, 
visto termos de indicar as moléstias endémicas observadas nas principaes localida- 
des d*aquella provincia, cumpre- nos também dar algumas informações a respeito 
d*essas localidades e do estado em que ellas se encontram actualmente. 

O medico hygienista, como temos dito, tem obrigação de cuidar primeiro que 
lado de estudar a natureza do solo cuja salubridade se propõe conhecer. Deve ser 
este na verdade o seu principal empenho. 

Estuda-se a estructura do corpo e as funcções orgânicas para melhor se ava- 
liarem as doenças e applicar o remédio : examinam-se os terrenos e as suas produc- 
ções para com mais segurança se descobrir a intensidade das endemias. A locali- 
dade e a doença endémica, diz o sábio Dutroulau^ são idéas congéneres. 

Fizemos, pois, quanto em nós coube para dar uma breve noticia a respeito das 
nossas colónias em geral, procurando informações entre as pessoas que nos mere- 
cem toda a conGança, sendo uma d'elias o sr. José Zeferino Xavier Alves, que 
conhece não só a provincia de Moçambique, mas também quasi todas as nossas 
possessões do ultramar. 

Esteve na estação de Macau, sendo oíllcial de fazenda da armada, cerca de 
dezeseis mezes, na de Moçambique cinco annos, e em Goa treze mezes. Visitou Can- 
tão, Hong Kong, Rio de Janeiro, Table Bay no Cabo de Boa Esperança, Bombaim 
Bacano, Chaul e outras colónias estrangeiras, Faial, e por duas vezes Cabo Verde, 
Loanda, Benguella e Mossamedes. 

N'estas circumstancias não faltam ao sr. Alves os elementos necessários para 
avaliar as nossas colónias em gorai e muito especialmente a provincia de Moçam- 
bique, porque, alem do tempo em que ali residiu durante a estação a que tinha de 
satisfazer como official de fazenda da armada, ali permaneceu mais vinte e um annos, 
exercendo importantes cargos. 

Foi offlcial maior da secretaria do governo, escrivão deputado da junta da fa- 
zenda, director da alfandega, membro do conselho do governo da provincia, que 
por duas vezes assumiu a governação publica na ausência do governador geral, e 
presidente da camará municipal. 

Os serviços que o sr. Alves prestou á provinciano Moçambique nas dififerentes 
commissões de que foi encarregado foram tomados em consideração pelo governo de 
Sua Magestade, que o agraciou com o habito da Conceição e commenda de Christo. 

Alem d*isso o sr. Alves obteve menções honrosas nas exposições de Paris e 
Porto, onde mandou alguns productos de uma sua propriedade. Em taes circum- 
stancias não lhe falta de certo a competência, e a descripção da ilha e do districto 
de Moçambique são prova evidente do que avançámos. É com prazer que vemos 
publicados os meios a que é preciso recorrer para se colonisar esta provincia. Es- 
tamos de accordo com o sr. Alves, e o seu trabalho, que examinámos com todo o 
cuidado, representa mais um serviço prestado á província, onde casou e passou o 
melhor tempo da sua vida. 



356 

É separada do continente por um canal que na sua maior largura, 
entre a ilha e Mossuril, tem cerca de 30 kilometros. 

Na ponta da ilha, á entrada da barra, está a fortaleza de S. Sebastião, 
começada em ^ 545 pelo vice-rei da índia D. João de Castro. 

A que fundou Affonso de Albuquerque foi abandonada por não estar 
em logar tão importante. Alguns annos depois foi esta concedida aos 
jesuítas para abi edificarem o seu coUegio, que é actualmente o palácio 
do governo. 

Em seguida á fortaleza está o campo de S. Gabriel, ou esplanada da 
mesma fortaleza com três compridas ruas, cobertas de frondoso arvore- 
do, desde a porta da fortaleza até á entrada da pequena mas bonita cida- 
de de S. Sebastião S a qual apresenta hoje ao viajante, que demanda o 
porto, alegre perspectiva, devida aos muitos melhoramentos que n'estes 
últimos tempos lhe tem sido feitos ^ 

É a cidade dividida em dois bairros, o de S. Domingos e do Conce- 
lho, comprehendendo estes vinte e quatro ruas, vinte e uma travessas, 
sete largos, duas estradas e um campo; e o pequeno bairro da Moran- 
gonha, é habitado quasi exclusivamente por libertos K 

As principaes ruas são as do Thesouro, do Concelho, do Arsenal, de 
S. Domingos, da Fidelidade, do Celleiro, do Hospital, Formosa e do 
Conselheiro Leal \ que a gravura representa, a qual foi inaugurada aos 
28 de janeiro de 1870 pela camará municipal, á memoria do governa-, 
dor geral Fernando da Costa Leal, fallecido aos 29 de dezembro de 1869. 



1 Não nos sendo possível apresentar a vista geral da cidade, damos a de uma 
pequena parte do lado do porto. 

O campanário e o tecto do templo que se vô é da sé matriz. 

A ultima casa grande que se nota pertenceu ao deputado Theodoríco José de 
Abranches, e servia em 1870 de hospital provisório de coléricos. 

Chamam-se pangaios aos barcos grandes que estão encalhados, sem mastros, os 
quaes nas monções navegam entre a índia e Moçambique. 

Veja a gravura que diz Vista de uma parte da cidade do lado do porto etUre a 
praia da alfandega até á praia de S. João. 

2 Grande parte dos melhoramentos realisados são devidos á eommissao muni- 
cipal que funccionou no biennio de 1873 a 1874, a qual era composta dos srs. A. J. 
Machado, facultativo; F. M. Gomes Ferreira, negociante; F. P. Carvalho, professor; 
J.y. D. Mascarenhas, proprietário; c José Zeferino Xavier Alves, que foi o presi- 
dente d'esta eommissao. 

3 A cidade tem cinco edifícios religiosos, um hospital, dez edifícios civis, um 
mercado e um club, denominado Recreativo Regeneração. 

4 Homenagem sincera e insuspeita de respeitosa gratidão dos habitantes da 
capital àquelle governador. 

A rua^ até então, chamava- se travessa do Ó; a entrada pelo lado de O. era tão 
estreita que mal podia passar um carro, em consequência de existir ali uma an* 





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357 

Das ruas mais estreitas mencionaremos a chamada dos Banianes» na 
qual ainda assim pôde passar um carro sem offender quem transita pe- 
los lados ^ 

Das travessas citaremos como principaes as da Cadeia, do Hospital, 
da Saúde e dos Fornos ; as duas ultimas, que eram intransitáveis, são 
hoje as mais bellas, devido á commissão municipal de 1874. 

Os largos mais notáveis s3o o da UniSo* e o de S. Paulo 3, represen- 
tados nas gravuras ; este, que está em frente do palácio do governo, é um 
bello passeio adornado de assentos de madeira com mu elegante coreto no 
centro, onde a musica do batalhSo de caçadores n.® 1 toca ás quintas 
feiras e aos domingos, attrahindo áquelle local numerosa concorrência. 



tiqoissima loja edificada até meio da ma. Os moradores da travessa por vezes 
tentaram expropríal-a, mas não o poderam conseguir; até que o governador Leal, 
com a soa proverbial energia, no principio do seu governo, ordenou a expropria- 
ção, resolvendo todos os embaraços para ^la se effectoar, e facilitou à camará a 
conclusão do trabalho de reforma e alinhamento. O rebaixamento e arfoorisação foi 
depois a expensas do sr. Alves, proprietário da casa grande que se vé a L. 

A janella que se devisa ao fundo da ma ao O. é da alfandega. 

Veja-se a gravura Ana Nova do Conselheiro Leal, em 1875. 

1 I>ata do estabelecimento dos banianes, súbditos portuguezes, naturaes de Diu, 
em 1687, os quaes logo que chegaram se constituíram em companhia, monopoli- 
sando o commereio. Ultimamente os estrangeiros batias, naturaes de Caxe, obti- 
veram igual permissão, e, como agentes de boas casas de Bombaim e de Caxe, 
monopolisaram o conmiercio d'aquelles, auferindo grandes lucros com a mina dos 
outros, até que finalmente, com a abertura dos portos e estabelecimento das casas 
commereiaes flrancezas, também para elles acabou o monopólio, e actualmente só 
commereeiamcom as fornidas que a estes compram e com as que lhes vem da ín- 
dia, vendendo-as por grosso e a retalho. 

É valioso o negocio que diariamente se faz n'esta ma em fazendas pró- 
prias do sertão, e em producções do paiz para exportação; são notáveis as im- 
portantes partidas de pontas de marfim, cavallo marinho e abada, que nos me- 
zes de maio e setembro (denominados da monção para a índia) se vêem esten- 
didas ao longo da ma para classificar, escolher e marcar para, depois da entrada 
na alfandega e pagamento de direitos, seguirem para os portos da índia. Para se 
avaliar o commereio d*esta gente, bastará dizer que ha lojas que annuabnente 
téem pago de direitos á alfandega cerca de 2O:00OM0O réis, mais da quarta parte 
do rendimento. Alguns batias estão natnralisados cidadãos portuguezes. Em outro 
tempo houve bastantes parses estabelecidos, súbditos portuguezes ; hoje ha muito 
poucos. 

2 Veja-se a gravura designada Largo da União, vulgo do Pelourinho. 

O grande edificio que se divisa ao longe é o hospital militar e civil, que foi 
convento de S. João de Deus, demolido ha pouco. Vé-se também a capella de Nossa 
Senhora da Saúde, e o cemitério. 

' Veja-se a gravura designada ÍJirgo de S, Paulo, em 1875. 

O edificio a SO. é a alfandega. 

i7 



3S8 

O largo a i ponte tío úkmmim com eleganias csmàiaircm de petró- 
leo, melhoramento edle devido ao fallecido governador geral José Ro« 
drigues Coelho do Amaral. 

campo de 8. Gabriel é uma liada alameda que ae prolonga com as 
ruas de S. Dcmiingoa e S. Paulo e finda na fortaleza. Foi n'est6 campo 
que a 23 de junho de Í86Q teve logar a bengSo e juramento da hm- 
deira do batalhão expedicionário da Zambaua^ 

A cidade tem bons edíficioa ; algumas ruas e travessas sSo bastante 
largas e regulares» e em quasi todas ha passeios lateraes de argamassa. 

Oa largos, a Praia Grande e da Boa Vista, e as ruas da Missauga ató ao 
mercado do peixe e d'e8te até ao caminho da ponta da ilha sio orlados de 
arvoredo. 

Fortificações. — Em outro tempo era a ilha defendida pela fortaleza 
de S. Sebastião que a domina*; pelo forte de S. Lourenço', construído em 
um ilhéu afastado d'ella uns 33 metros do lado do S., e pelo fortim dci 
Santo António, edificado no angulo que forma a iUia do lado de E. Tem três 
magnificas cisternas. & o quartel do batalhão da caçadores o.'' 1^. 

Os fortes de S. Lourenço e Santo António estão desartilhados : o pri- 
meiro, que está bem conservado, foi em 1888 convenientemente arranjado 
no interior para arrecadação da pólvora dos particulares, a cargo da al- 
fandega ; e o segundo é o quartel de veteranos. 

Pariu ou futkkadouro.—È o melhor e o mm seguro de Ioda a 
costa, e illuminado como está, com u» pharol na iHia de S. Joi^ 

1 Na manhã do áia desigDada para a ben^ da baadeim havía-ae araiade a 
mala aonpríaMBto da alaseda o tnãr eaupal da exj^iedi^^ earres^oadeada jas- 

tamente ás minas de uma antiga igreja que em outro twaj^ aH houve». 

De(KM8 da revista que o governador Feraando da CofiU Leal pasaou ao hata- 
Ihio, eomeçou a missa, ae&do eetebrante o capellâo do mesmo corpo. Legoqae esta 
ceranoaia fladoo, o govoraador, empunhando a bandeira peia haste, «pproyimwi ac 
do aUar^ e ali a bensen o capellão, fira bordada com doHcâdeia e perfeição e feila 
da teMaios eeloios. 

Rn seguida honre pequeaa pratíea do eapeUao, daado a toda a eipedi^ a 
bflBçio a^MMtoHca que Uie havia «landado o santiaumo podre Pia IX. A força for- 
mou depois em quadrado singelo oom a frente para o iolerior, para o«de entrou o 
gevernador eoai a baodeira, que eotte^Mi, dirigindo a^ expedicionários uma ele- 
gante aHocnçiD no ade do seu juramenta 

2 Teve iOO bocas de fogo de bronze; hoje as qae ha sâo de ferro. 

3 Começou a construcçao em iS95. No ilhéu ha casa para a guarda e uma cis- 
terna. 

4 É mau o quartel, quente, húmido e pouco ventilada As paredes posteriores 

das casernas sâo formadas pelas muralhas da fortaleza por onde se inSltra a agua 
das chuvas durante a invernada. Eis uma das causas nocivas à saúde dos sol- 
dados. 



289 

(Goa)S os pbarolias aa Cabaceiras na fortaleza de S. Sebastião, e com 
as baiisas que tem, póde^ae ali entrar de noite sem risco. 

Ab boias-balizas estio coUocadas na entrada do porto do seguinte modo : 

OmoI do norte. — Uma bóia cyiiadríca vermelha na ponta NE. da ilha 
de S« iotgid (Goa) ; 

Usia bóia eylindrica vermelha oa ponta do baixo de S. Sebastião, 
janta á fortaleaa ; 

Duas boías cylindrieas postas nas duas pontas mais salientes do baixo 
da Caba€6ira. 

Cbnãl áo ^.— Uma bóia eytiodrica vermelha na ponta NE. da ilha 
de S. Thiago (Sena) ; 

UjBa brâi eyUodrieà negra ao SO. da ilha de S. Jorge (Goa). 

As bóias estio fiindeadas a^>roximadameDtâ em 7 metros de fundo na 
baíxMsar das maiores marés, e são pintadas de vermelho as que ficam 
a BB., e pretas a EB. quando se entra no porto. 

Palaeiú 4o geverm.—^^ edifício, residência do governador geral, 
pertemea ao coUegio de S. Francisco Xavier, dos padres jesuitas, fundado 
nos priDcipios do século xvii, depois da extincção da compaidiia de Jesus* 
Foi recon^míáQ, aforraoseado e adaptado para palácio do governo pelo 
capitio general D« Diogo de Sousa ; e depois quasi todos os governado* 
res lhe téen feito algons melhoramentos, sendo o mais importante o que 
lhe fesE o fiattecklo AmaraU que transferiu para o pavimento inferior, de- 
pois da eoBveaieQtiBinente arranjado, a secretaria, a repartição militar e 
o arebívo^ e embeite»m es aposentos superiores, a fim de o tomar pró- 
prio da primeira anctondade da província, e poder receber sem des- 
doBTO 66 MlffiB^eíros de díiliiicçio que sauitas vezes visitam aquele 
porto. O ediSeio tem treze janellas éò frmte, dois mirantes, boas cister- 
nas e magnifica horta com boa uva Terral. 

Mfmiâe§a. — A constmcçio d*esta repartição foi ordenada em 1720. 
Desde 1593 até áqiràla epoeba os direitos er«n cobrados a bordo dos 
próprios navios na rasão de por ceoto de entrada, e igual quantia de 
saída, sendo IHrre a qualquer e resgate de oiro e prata de SofaUa, pagando 
para a faseada publica um quinto da sua importância. 

No reinado da Senhora D. Maria I, sendo governador e capitão general 
António Manoel de Mdk) e Castro, foi a actual alfandega reedificada no 
logar da antiga, coqk) se deprebende da inscripção que se vô por cima da 
porta do lado do largo de S. Paulo, que é a da entrada. 

O edifício é suSicientemenle forte e tem bons armazéns ; a sala da ^ 

í Começou a funceionar em 18 de maio de 1876, Junlo ao pharol fez-se uma 
cisterna. 



260 

abertura e verificação é vasta e lageada, e os armazéns sao argamaçados. 
O movimento commercial tem sido tal desde 1853, em que se abriram os 
portos ao commercío e se estabeleceram algumas casas commerclaes es- 
trangeiras, como se vé das estatísticas, que não obstante os importantes 
melhoramentos feitos no edifício em 1863, que quasi lhe daplicaram o 
espaço, com um sobrado de serventia interior para o qual sio elevados 
os volumes por dois guinchos convenientemente collocados em forma de 
guindaste, ainda assim não satisfaz e carece de ser augmentado. 

Outras bemfeitorias e aformoseamentos de não menor valia se lhe fize- 
ram n*essa occasião, como se vê do relatório ^ do director J. Z. X. Alves, 
sob cuja direcção a obra foi feita, o qual mandou vir de Lisboa, com 
auctorisação do governador Tavares de Almeida, um guindaste, seis car- 
rinhos para o serviço interno, quatro rodas de aba para a zorra conduzir 
as mercadorias para os armazéns pelo rail que devia ser collocado no 
centro da ponte, e dois guinchos. 

governador geral Fernando da Costa Leal, logoque tomou posse do 
governo e visitou a alfandega, conheceu a necessidade de a ampliar ou 
mandar construir outra em melhores condições, e para isso tratou da ex- 
propriação de uma porção de casebres que havia á entrada da rua de S. 
JPaulo, formando o largo do palácio, e que eram propriedade quasi exclu- 
siva de mahometanos, quando a sua principal residência era na Cabaceira 
Pequena. A maior parte d'estes casebres tinha chegado a tal estado de 
ruina pelo lado do mar, que causavam impressão desagradável ao via- 
jante que demandava o porto, porque se lhe afigurava á primeira vista 
ser eíTeito de um terremoto. Effectuada a expropriação e levantada a 
planta da nova alfandega, começaram as demolições, fallecendo o gover- 
nador pouco depois sem ter a satisfação de lançar a primeira pedra nos 
alicerces da obra que ordenou. 

Os governos interinos que lhe succederam continuaram a demolição, 
sendo lançados os alicerces da nova alfandega pelo governador geral José 
Rodrigues Coelho do Amaral, depois de algumas alterações por elle fei- 
tas na primitiva planta, chegando as paredes interiores e exteriores a 
mais de um 1 metro de altura; porém, com o seu fallecimento a obra 
parou, e a final foi mandada demolir pelo actual governador, arborisan- 
do-se e ajardinando-se o terreno onde se havia começado a edificação. Con- 
tinua a velha alfandega a servir de deposito e no mesmo estado, com 
a falta das commodidades que o commercio exige, e com os terraços de 
alguns armazéns especados e em perspectiva de desabamento. 
. Ponte de alfandega. — Em frente do palácio do governo está a ma- 

1 Boletim do governo n.° 46 de 186:]. 



gestosa ponte, denominada da alfandega» assente sobre um arco e onze 
pegões de alvenaria, sobre os quaes se firma o taboleiro de magnifica 
madeira de mocorusse» tendo no extremo e de cada lado uma escada de 
madeira, e ao centro um guindaste de ferro que Toi assente em 1863. 

O comprimento desde o guindaste até á porta da alfandega é de 
180 metros» e ainda são precisos mais uns três ou quatro pegões para 
que o serviço se faça bem durante a baixamar de aguas vivas ^ 

Às duas columnas que tinha na extremidade em que se viam as armas 
de Portugal foram ultimamente demolidas e substituídas por dois can- 
dieiros de petróleo. 

Arsenal. — Está esta repartição situada junto ua sé matriz, em um 
logar acanhado e impróprio ; porém com um aterro que ultimamente se 
lhe fez para o mar, fechado com uma muralha, augmentou mais o pe- 
queno espaço de que dispunha. 

Conservou-se este estabelecimento em bastante decadência por muito 
tempo» mas, com os melhoramentos ultimamente introduzidos, pode di- 
zer-se que está á altura de poder satisfazer ao fim para que foi instituído, 
podendo prestar importantes serviços á navegação, poisque se acha habili- 
tado a fazer quaesquer concertos em navios, por ter já montada a oílicina 
a vapor que o transporte índia levou em 1871 , uma ventoinha a vapor na 
ferraria e um forno de fundição, que em breve fundirá os reparos de ferro 
para a artiiheria da fortaleza de S. Sebastião. Tem pois esta repartição 
já montadas três machínas motrizes de officina e ferraria e todas as ma- 
chínas da mesma, que são um torno automático, um outro mais pe- 
queno, um saca-bocados, um engenho vertical de furar, um de cortar, 
chapas, duas mesas de serrar e um rebolo também movido a vapor, e 
em breve terá mais uma machina de vapor para serrar madeira com ser- 
ras verticaes, porque as duas mesas da actual officina téem serras circu- 
lares que não servem para tabuado. 

É a primeira officina d'este género que tem a província de Mo- 
çambique, a qual foi assente sob a direcção do machinista da armada, 
Carlos Alaria Raposo, e os pavilhões das officinas construídos sob a di- 
recção do conductor de trabalhos Joaquim José Lapa, tendo-se começado 
o pavilhão da ferraria e a muralha em 1874, por ordem do conselho go- 
vernativo, bem como a construcção do pharol da ilha de Goa, a que deu 
começo o mesmo conductor. 

São importantes, sem duvida, os melhoramentos que o porto de Mo- 
çambique tem tido n'estes últimos tempos; falta-lhe porém ainda addi- 



' Veja-se a gravura designada por Ponte da Alfandega, cm 1875. 
fj a melhor obra n'e9le género que ha no ultramar. 



262 

cionar uma doka, o que d3o estará longe de possuir, seja por iuieiaUva 
particular ou oficial ; em a lendo e os navegadores houverem a certeza de 
encontrar ali meios seguros de concertar os seus barcos» o porto será 
um dos mais concorridos de alem do cabo. 

Edificio da junta de fazenda. — Era uma propriedade partieular, que 
foi comprada em hasta publica, em 1838, a Gabriel José Ferreira, para 
n'ella se estabelecer a repartiçSo de fazenda. É boa casa, com doas cis- 
ternas e espaçosos armazéns. Alojam-se no pavimento superior a junta 
de fazenda, a contadoria geral, thesouraría e arcbivo, e no inferior o cor- 
reio geral, repartição do almoxarifado e a casa da guarda. Tem um vasto 
quintal ou pateo, que actualmente serve de deposito de carvio mineral 
para os barcos a vapor do estado. 

Imprensa nacional e escola principal. — É um vasto edificio junto 
ao palácio do governo, que outr'ora foi residência do6 ouvidores. Estava 
bastante arruinado, porém o governador Leal mandou-o restaura* em 
1869, ficando então com uma bonita fachadd« Está aU estabelecida a im- 
prensa, a escola principal para os sexes mascuUoo e feminino, e è morada 
da professora. 

Hospital militar e ctt^7.— Este estabelecimento, que foi o cofivento de 
S. João de Deus, fundado em 1681 e at^n^entado e melhorado em 1703, 
era um vasto edificio com accommodações para muitos dottites, aiem 
de quartos para officiaes, empregados civis e individuos de classe mais 
elevada. Â pharmacia achava-se collocada na ^eja do antigo convento. 

O estado de ruina a que chegou, e a falta de condições hj^imicas fez 
com que fosse demolido, lançando-se a pedra ftmdameotal do novo hos- 
pital em iO de agosto de 1876. 

Serve actualmente de hospital a casa que a eamara municipal com- 
prou em 1873 ao dr. Balduioo Severo de Mendonça, por 4:5O0|$O0O réis, 
sita no largo da Sé, para n'ella se estabelecer o tr^tooal de josâça e a 
conservatória, para o que já a camará em 1874 lhe tinha mandado fezer 
as convenientes reparações. 

A botica passou para uma casa do estado que lhe fica próxima, e 
que servia de residência ao juiz de direito da comarca. 

Paço da camará municipal. — Foi este edificio propriedade partieu- 
lar, é o melhor paço municipal das nossas possessões ultramarinas, ex- 
ceptuando o de Macau. 

Estão ali acommodados a administração do concelho, a cadeia civil e 
o quartel da policia, e ultimamente féz-se-lbe uma ab^oaria'; tem casa 

^ AlguQs serviços de transportes que doastes eram feitos á eabeça de negros, 
sao hoje executado? por carros puchados a bois. 



á63 

para os carreiros e para arrecadação de materiaes e ferramentas, cisterna 
e, do lado da rua do Tbesouro, um tbeatro em ama casa que a camará 
comprou em 1839 a Deuchande Ari e juntou ao paço. Em cima do ter- 
raço, no centro do edi6cío á face da fachada, foi collocado um relógio* 

É D'este edificio que se reúne a junta de justiça e tem logar a m- 
diencia do juiz. 

Casa tíiamada do Bispo. — É a residência prelaticía, e habita D'ellt o 
reverendo prelado José Caetano Gonçalves ; foi comprada pelo bispo de 
S. Tbomé, D. Fr. Bartholomeu dos Martyres, sendo prelado de Moçambi- 
que pelos annos de 1821, para residência dos seus successores; á bom 
edificio, mas n9o foi acabado; está situado na Praia Grande; tem boa eii^ 
tema e grande quintal. 

N'esta casa ha uma escola de instrucçao primaria creada e dirigids 
pelo actual prelado. 

Hepartição de obras publicas. — Está no convento de S. Domingos^ 
do qoid a igreja que era dedicada a Nossa Senhora do Rosário e maior 
que a sé matriz, já nSo existe. Estão ali estabetecidos o museu ccrfonial e 
a repartição de obras publicas soffrivelmente montada com officínas pro* 
prías para o seu fim ^ 

Não consta o anno da fundação do edificio, mas sabe-se que fm no 
reinado de El-Rel D. João III. 

Eslá situado no mais sadio logar da cidade, alegre, arejado e com 
bella vista para o mar ; tem uma magnifica cisterna. 

Eslabdeeimentos religiosos. — Tem actualmente a cidade umaparo- 
cbia, a nmtriz ou sé, dedicada a Nossa Senhora da Purificação e do U< 
vramento, que é um templo de uma só nave, bem construído, coberto de 
terraço, e a capella mór, que por fára mostra figura oval, é elegante, 
toda fechada de abobada de pedra. Tem três altares^ alem da capella do 
Santíssimo Sacramento. 

Peto estado de ruina a que chegou aquelle magnifico templo, passou 
a parocbía para a igreja da misericórdia. 

N'estes últimos tempos téem tido a cidade e os ediflcios públicos mui* 
tos melhoramentos, mas aquelle templo, que com pouca despeza se po- 
deria reparar, está cada vez peior, sentindo de deposito de materiaes ptt% 
as obras publicas. 

Igreja da JKisericor dia. —-Este templo, fundado nos prhlciploâ éh 
seeiílo xvfr, é de mediana grandeza. Está em bom estado de eonserrí(30^ 
devido aos esforços e desvelos que algumas commÍ8S?ies adtninistrMKaá 
lêem lido na gerência d'aquelle pio estabelecimenlo, e especialmente <íí 

* Tem seis carros com bois para o serviço. 



a64 

que serviu de 1851 a 1856, poísque os seus primeiros cuidados foram 
a reparação do edificio» que estava bastante arruinado. 

Capellas.—Posme a cidade quatro cappllas : a de Nossa Seoliora do 
Baluarte, dentro da fortaleza de S. Sebastião, e edificada no baluarte que 
olha para a barra, o qual tem a artílberia quasi ao iume de agua, e é 
fechado sobre si. Â capella é toda de abobada ebem construída, e só se 
abre quando algum devoto quer mandar dizer missa. É ali que os go- 
vernadores geraes tomam posse do governo, depois de lhe serem apre- 
sentadas as chaves á entrada da praça pelo respectivo commandante in- 
terino,, dirigindo-se em seguida á dita capella, onde recebe das mãos do 
governador rendido o bastão que está collocado sobre o altar. 

 de S. Paulo, que foi a igreja de S. Francisco Xavier, dos padres je- 
suítas, junto do palácio do governo. Está em bom estado e tem três alta- 
res; è onde o batalhão assiste á missa. Encerra esta capella as cinzas de dois 
governadores illustres : D. Estevão de Âthaide e o marquez de Aracaty. 
Âo primeiro se deveu por duas vezes a conservação da cidade e ilha, de- 
fendendo-as de dois cercos dos hollandezes, sendo castellão da praça e 
general das conquistas das minas da prata; falleceu em 1633. O segundo 
tomou posse do governo em 5 de outubro de 1 837 e falleceu em 30 de 
março do anno seguinte. 

A de Santo António, que foi edificada, não se sabe em que anno, den- 
tro do fortim do mesmo nome, restando-lhe apenas a capella mór por ser 
de abobada, que é onde está depositada a imagem. 

Os gentios banianes e alguns mahometanos têem muita veneração 
por este santo, e por isso vão frequentes vezes em devota romaria visi- 
tal-o, levando velas que accendem diante da imagem, ífazendo-lhe suppli- 
cas a seu modo, e subscrevem sempre da melhor vontade para as despe- 
zas da festa. 

A de Nossa Senhora da Saúde, que foi igreja do hospício dos religio- 
sos capuchos, junto ao cemitério, está a cargo da camará municipal, que 
no anno de 1874 a reedificou e embellezou. É onde se encommendam 
os corpos que se dão á sepultura. 

Mercados públicos (bazares). — O único que a cidade possue e a que 
pôde dar-se esse nome, é o mercado do peixe ; depois da sua reedifica- 
ção ordenada pela camará municipal de 1874, em que a cobertura que 
tinha de olas de palmeira foi substituída por telha chata franceza, e se 
lhe collocaram mesas de pedra ao centro para se expor o peixe á venda, 
6 assentos em roda, ficou um mercado regular. Foi estabelecido em 
1828. 

Outro mercado está em construcção, maior e mais elegante, para a 
venda de objectos de consumo diário, no terreno adquirido na Missanga, 



265 

onde foi o horroroso fogo de 1870, que tantas palhotas consumia. O que 
desde o governo do marquez Aracaty se não pôde levar a effeito para re- 
golarisar o fabrico das habitações n'aquelle sitio, que era a principal ori- 
gem das moléstias da ilha pela accumulaçao de immundicies na povoa- 
ção, foi cons^[uido pelo fogo em poucas horas ! Entretanto é tolerada a 
venda dos ditos objectos no alto da Marangonha, e no campo de S. Ga- 
briel, no chão e descobertos. 

Cemitérios. — Ha na ilha três cemitérios: um junto á capella de Nossa 
Senhora da Saúde, outro em construcção, com capella, no fim da ilha, na 
ponta do S., mandado fazer por deliberação da commissSo municipal de 
1874, muito maior e em logar mais apropriado para a saúde publica, o 
qual mede 95 metros de comprimento e 48 de largura ; e o terceiro para 
os mahometanos, no campo de Sanlo António. Ha ainda outro no extremo 
da ilha, onde os gentios batias e banianes s3o queimados e em seguida 
lançadas as cinzas ao mar. 

Districto de Moçambique. — A capital do districto de toda a província 
é a cidade de S. Sebastião, cuja descrípção já apresentámos. É sede do 
governador geral que reúne attribuições civis e militares. 

Junto ao governo geral ha o seguinte pessoal : 

Um prelado com jurísdicção ecciesíastica em toda a provmcia; conse- 
lho do governo; conselho governativo, que só exerce o governo por falle- 
cimenlo do governador; conselho da província ou tribunal administrativo; 
conselho inspector de instrucção publica ; junta de justiça; junta de fazen- 
da, que administra os rendimentos públicos; e juiz de du*eito da comarca, 
que comprehende os dístríctos de Cabo Delgado e de Angoche. 

A repartição de justiça é subordinada á relação de Goa, e o prelado 
ao arcebispado primaz do Oriente. 

Divide-se a província em oito districlos miUtares, que são Moçambi- 
que, Cabo Delgado, Angoche, Quelimane, Tete (Zambezia), Sofala, Inham- 
banc e Lourenço Marquesa 

Os districtos são divididos em concelhos. 

Os governadores d'estes districtos são em tudo sujeitos á auctorídade 
do governador geral, exercem funcções civis e militares e são os com- 
mandantes militares de todo o districto. 

Força armada. — Compoe-se de um batalhão de caçadores (n.® 1), 
que, quando completo, tem 436 praças. Us soldados são, pela maior 
parte, mandados do reino e da índia. Fazem a guarnição da cidade, do 



1 Alem dos districtos que nomeámos temos o presidio de Bazaruto, commando 
militar estabelecido em 1855, e o commando de Sena, sajeito a Quelimane. 



I 



266 

Ibo e àe Angocbe, entram no serviço do corpo de policia e no de guar* 
das sopranumararios da alfandega. 

ÀrrabaUei dei eidade* — A terra firme, fronteira á ilba de Moçam- 
bique, distrícto da capital, é lerritoríp da conGgiiraç3o qam de um semi* 
eirei^ eom Viu 20 kilomelros de comprimento na parte banhada pdo 
mar, e com 10 a i5 no interior. Divide-se em differentes potoaçOes* 

Cabaceira pequena. — Na extremidade NE. está situada a povoaçSo 
de Cabaceira Pequena, defronte da fortaleza de S. SebastiSo, e na extre- 
midade do 8., em froale do forte de S. Lourenço, estão as de Sancale e 
Chaça. Todas estas povoações s3o habitadas por mabometanos. lem bas- 
tantes casas de pedra e boas mesquitas; 

Eobre as minas dos edificios airtigos da Cabaceira Pequena eneon- 
tram-M as da igreja de S* Joio, do tempo em que foi babitada por chrte- 
tloe pMlogueaes. Bsta localidade está quasi despida de arvoredo e desti- 
tuída de cultura. 

Sancule e Cbaça sao pontos bonitos, tendo esta bons e bem tratados 
palmares. Os babitantes empregam*se no fabrico de loiça de barro e na 
agriciritura, eforMcem a cidade de legumes, fructas, caça e outras cousas. 

Os babitantes da Cabaceira Pequena empregam-se, uns no corte de 
madeiras nos sertões do districto, para fazer vigas, barrotes, tábuas 
e cavernas para barcos, que vendem no mercado ; outros, porém, appli- 
cam^se ao eommercio em vários pontos da costa e no serviço de marínbei- 
ros. As mottieres pretas trabalham na fabricação do cairo e de loiça de bar- 
ro, e as braicas em fazer canudos para fumar e barretes de algodão branco 
bordados (coifios) que os mouros usam, e em outras pequenas indus- 
trias. 

(faceira Qrtmáe. — A Cabaceira Grande è uma aldeia próxima á 
Cabaceira Pequena e dividida d 'esta por um braço de mar, que, na occa« 
siSo da vasante, se atravessa a pé enxoto. É menos povoada, e seus mo- 
radores s3o todos cbristSos. 

Ha ali boas casas, e a igreja parochial é consagrada a Nossa Senhora 
dos Remédios. Não se sabe com certeza quem foi o fundador do templo, 
mas soppõe^e ser obra dos jesuitas, por ter sido a igreja parocbiada por 
etles alé á extincçio da companhia de lesos. 

Esta igreja tem um só altar e mna confraria, intitulada de Nossa Se- 
nhora dos Remédios da Cièaceira Grande, a qual foi institoida em 1775. 
Contigua ao t^npio havia uma espaçosa casa para residência do parocbo, 
a qual se acha boje em completa rurna. 

O districto d'esta freguezia é todo cultivado, apresentando um aspe- 
cto agradável e civilisado. Os palmares e laraojaes são próximos da praia 
e nos alios estão as maxambas. 



As laraDJas são excellentes, e frequenlemefite exportadas para Bom« 
baim, oDde téem fácil venda. 

A maior parle dos palmares não apresentam boa vegelaçãOi devido 4 
má qualidade do terreno ^ 

Ha n'este districto numerosos rebanhos de gado vaccum « ianigero. 

Não tem agua nativa» mas ha poços d'onde se tira boa agua. 

Para se fazer idéa dos palmares dá-se uma vista ^ do que perteuea 
aos herdeiros do falleeido brigadeiro Cândido da Costa Soarea# a quem 
aquelle districto deve uma^boa parte do seu afonuoseamento'. 

Dá-se outra vista de um caoúnbo onde ha uma palmeira iN^ava^ e uma 
arvore denominada mulambeira, que abunda na p^ovineia. 

Entre a Cabaceira e a Mapeta enconlra-se um bom logar para embar^ 
que, mesmo na baixamar das grandes marés. A vista que sa apreaenla é 
a de um palmar existente no ponto denominado Ponta de Moraugul^ 

Mapeta.— È uma pequena aldeia habitada por pouca gema livre e 
por alguns libertos que se occupam na cultura das propriedades dos seus 
patrões. 

A maior parte do terreno está cteserto» havendo mato baldio e 9rf&^ 
ros silvestres. 

Mossurti. — É uma grande aldeia onde ha gente livre de todas as 
raças. 

O districto é muito arborisado, com extensos palmares e bons poma- 
res, em que a maior parte dos proprietários de Moçambicpie téem casM 
de campo. 

Antigamente havia n'esta aldeia um batalhão d8 caçadores de seguftda 
linha, formado dos moradores. 

Tem um mercado diário ou bazar» onde se encmitram qoasi lodos os 
objectos de consumo ordinário, e quasi todos os dias a eUe coiíoofrrai 
muitos pretos do sertão (macuas) com differentes géneros, aves e en»^ 
das para vender. 

Alem do bazar, ha lojas onde se vendem fazendas, diversas bebidas^ 
etc. É d*esta aldeia e do districto de Ampapa que se abastecem de vive- 
res e géneros necessários á vida a cidade e os navios que demandam o 
porto. 

A igreja parochíal d'esta grande povoação é dedicada a Nossa Senho- 

^ Todos 03 da firovioeia são inferiores aos belios palcnares ée Goa. 

2 Nao nos foi possivel apresentar a vista geral do sitios lao piltoreacosw 

3 Veja-sc a gravura designada por Habitação das herdeirM do brigadeiro Can- 
âiáo da Coiía Soares, na Cabaceira Grande. 

* Veja-se a gravura Palmeira brava e uma mnlambeira na Cabaceira Grande. 
5 Veja-se a gravura Palmar na ponta do Morangnl. 



268 

ra da Conceição. Está edificada em sitio sobranceiro ao mar. Ignora-sc 
a era da fundação e o nome do fundador, e só se sabe que o capitão 
general Baithazar Manuel Pereira do Lago, que governou a província 
desde 1765 a 1779, em que morreu, a reedificou por estar muito ar- 
ruinada. Tem ligada, da parte do mar, uma casa de campo, destinada 
para os governadores geraes, com uma cisterna c um bom pomar de la- 
ranjas. 

O templo tem só o altar da capella mór, com um bello retábulo guar- 
necido de rica e bem lavrada obra de talha dourada. 

Postoque a agricultura se tenha desenvolvido bastante n*estes últimos 
tempos em todo o território pertencente ao districto da capital, comtudo 
as cercanias de Mossuril levam vantagam a todas as outras aldeias. A sua 
cultura parece ser mais dilatada e mais variada, em rasão do abasteci- 
mento para a cidade, porque d*ali se obtém arroz, feijão branco, encar- 
nado e frade, fava, chicote, jugo, ervilha, milho de duas qualidades deno- 
minadas grosso^ 8 fino, gergelim, amendoim, maraca, muxiri, mafurra, 
coco, manga, ata, caju, annanaz, laranja, limão, toranja, cidra, banana^ 
goiaba, amora, jagoma, jambo, jambellão, melão, papaia, romã, maçã 
silvestre, carrapato, purgueira, couve, repolho, alface, nabo, cenou- 
ra, rabanete, rábano, tomate, alho, cebola, agrião, salsa, coentro, hor- 
telã, mostarda, pimenta de diversas qualidades, gonça linho, abóbora 
carneira e menina, bendas ou quiabos, pepino, gengivre, açafrão, be- 
ringella, bretalha, café, canna de assucar (branca e vermelha), ba- 
tata doce de duas qualidades, mandioca, inhame, inchiquilhe de que 
se faz polvilho, algodão de differentes qualidades, sumaúma e seda ve- 
getal. 

Ha ali muita creação de gado de todas as espécies, assim como aves 
domesticas: gallinhas, perus, patos marrecos e manilhos, gallinhas do 
mato ou da índia, pombos e outras aves. 

No ponto mais elevado de Mossuril, onde ha o mercado, está construí- 
do o forte de S. José, pequeno reducto que domina a langua^. 

É de antiga data a fundação d'este forte. Foi reconstruído em 1 758 
por ordem do capitão general Pedro de Saldanha Albuquerque^. Tem um 
excellente quartel ha pouco construído, que o fecha. 

1 Ao milho grosso dão o singular nome de c burro». 

2 É este o nome que no paiz se dá aos terrenos baixos e planos, onde entra u 
mar nas grandes marés. 

3 Por ordem do governador geral João Tavares de Almeida, foram-lhe feitas 
algumas obras. A artilhería e os reparos das peças estão inúteis; algumas carona- 
das que tem foram do brigue Tejo; não podem fazer fogo por estarem montadas 
em reparos de marinha. 



269 

O terrcDO comprebendido entre a Cabaceira Pequena e Mossuril, fron- 
teiro á ilha, forma com a bahia de Gonducía mna peninsula. 

Industria. — Â industria d*este districto e a das ilbas de Cabo Delgado 
e Angoche limitam-se pouco mais ou menos ao fabrico de óleo de gerge- 
lim, amendoim e coco para o conaumo, por um processo antigo e pre- 
jQdicial ao industrial pelo desperdicio que lhe causa; fabrica-se também 
louça de barro para consumo e exportação» quiçapos, alcofas, esteiras 
grandes e compridas, ditas pequenas, finas e grossas, barretes e chapéus 
de palha, charuteiras, cairo para cabos das embarcações e para outros 
misteres, e de que se exporta algum S aguardente de caju, de canna e de 
sara, vinagre de sura e de canna, farinha de mandioca e de tapioca, man- 
teiga fresca, queijo fresco, jagra de canna, cal de pedra e de conchas. 

Pesca. — Só para consumo. Podia fazer-se em grande escala nas ba- 
hias de Fernão Velloso, Gonducia e Mocambo. 

O peixe que n'ellas abunda, depois de convenientemente preparado, 
secco ou salgado, levado aos mercados da Reunião ou Maurícias, nSo daria 
prejuízo. 

Macaxoxo ^. — Bicho do mar, de que as praias de Moçambique s3o co- 
bertas, e ninguém faz caso, sabendo-se que os chins o consomem e pagam 
por bom preço ; também tem prompta venda nas Maurícias, para a coló- 
nia china que ali ha. 

Cauril.— Búzio pequeno que nas praias apparece em grande quanti- 
dade, especialmente na baixamar de aguas vivas; o fino regulava ulti- 
mamente por GOO réis a panja (24^15). Depois de escolhido e preparado, 
è exportado pelas casas francezas para a Costa da Mina, onde corre como 
moeda, e serve também para enfeites dos indígenas. 

refugo vale a quarta ou quinta parte menos; exporta-se para Bom- 
baim e de lá para outras partes, para outros misteres. 

1 A fabricação do cairo é imperfeita e penosa. A casca do coco emquanto 
câtá verde, a qno no paiz se dá o nome de macume, enterra-se na praia pelo 
espaço de dois a trcs mezes, e em sitio onde a maré a cubra; passado este tempo 
é lavada c collocada sobre um cepo e batida com um pau para se despegar a fibra^ 
a que dào o nome de sumba, e exposta ao sol; depois de secca separam-se^ á mâo 
as fibras grossas das finas e formam pavios meio torcidos sobre as pernas nuas; 
obtida uma porção doestes pavios, torcem- se entre as mãos levantadas, e assim vae 
saindo o fio torcido. Por este processo^fazem as mulheres, que são quem se empre- 
gam mais n'esto serviço, 150 a 160 metros por dia, desde que batem o macume. 

2 O preparo, segundo o processo que usam em Madagáscar, consiste em abrir 
o peixe, tírar-lhe o abdómen, laval-o, e dar-lhe uma pequena fervura, e secca- 
se depois ao sol. Algumas porçues d*elle, preparado por esta forma, foram^ por ex- 
periência, ha tompo mandadas á China, e chegaram a Hong-Kong em bom es- 
tado. 



8?C 

AfadMra#«^0 pau preto (ebéoo e pau ferro), mocorusse, imbilia, etc., 
abaDdam em todo o sertio ; e á pma, arvora que cresce dírdta e a uma 
alMM ^Mraofdffiaria, de que na Índia se fazem mastros para navios, tem 
sido uitíiiamente semeada e produz bem. A madeira è vermelha. A se* 
mente è «orno ts bolotas. 

Cú^. -^ Nasce mesBio sem cultura, e akida assim é o melhor e o mais 
aromático das nossas colónias, e pouco differê em sabor do de Moka. 

Muitos dos caflszeífos que aformoseíaai e formam as ruas de alguns 
patauR^ eti Sfosrartl e Cabaceira crescem á sombra das mangueiras e 
de outras arvores frondosas. 

É notável encontrar-se o café n^estes logares, e presume*se que seja 
levado para ali pelos pássaros, que o deixam cair ao tirar a pellicula ma- 
dwa que o envolve, e que vio buscar aos cafezeiros ao approximar-se a 
colheita. 

ITeitas circumstaocias a semeni6n*a é segura e a planta desenvolve-se 
rapídaÉMite, mquanto que, cuittvando-se com cuidado e trabalho, custa 
mais a vingar. 

Tsmbem ha muitos cafeseiros bellos e frondosos, reproduipdos por 
esMeat qué tfo cortadas nas arvores silvestres, e depois de limpas dos ra- 
mos enterradas no chio no couieço da estaçio chuvosa. É preciso porém 
no tempo secco deitar-lhes algumas gotas de agua, isto nos primeiros an- 
nos, « prodUMB depois magniflco café. 

N90 oMante a facilidade da cultura d'este producto, como se vê, e do 
valor q«e tem, apenas apparece no mercado o preciso para consumo pelo 
preço de 4|000 a 7^9)000 réis por 16 kilogrammas. 

Algodão. — É espontafteo, e são differentes as qualidades que ali se 
dSo, e entre as sementes de fdra sSo as do Egvpto que produzem melhora 
Tabaco. — É de boa qualidade e é4he favorável o terreno. O que ap- 
parece no mercado vem do interior, e c comprado para consumo e ex- 
porto^i» para a India^ 

AmH. — A ponta da itha ao 9. e o continente estão qoasi sempre co- 
bertos d*el(e, mas é completamente desprezado. Pelas experiências diver- 
sas vezes feitas conheceu-se ser de superior qualidade. 

Casma de assucar. — Produz bem e de todas as qualidades nos t^- 

1 Ifa expesíçie de Paris, em IS57, mereceu menção homrosa o algodão d'esta 
qualidade, prodiKido na propriedade de Namiole de J. Z. X. Alves^ e no qalotai 
da casa da ddade na nia do Conselheiro Leal. 

^ Vende-se no mercado a rasão de 4 e 6 réis a roda, do peso de 1^377 a 

O preparo consiste em ser posto ao sol para seccar, e dq)ois rednzíl-o a tran- 
ças e estas a rodas, e assim é vendido no mercado. 



Í7I 

fBQOft fineseoi, e meihor nas margeu dos ribeiros. Nãa obstante, tíú ha 
grande cultura d'este prodacto tão Talioao. 

Em MigoríDe, districto de Mossuríl, na casa, cuja gra\m aa apraaen- 
US fez-fls ha annos assucar e aguardeate, e ainda li extalefflaiii poaio pe- 
queno os uteosilios para o fabrico e disiiilaçie, trazidos de Baçaíai^ Tan- 
beaa ha algws iostruiiieBlos agrários modernos '. 

Trt^o. — ^Produz bem, sendo boa a semente; c semeado nas lagoas de- 
pois de colhido o arroi; mas o melhor de toda a provinda e superrar ao 
do Gates (índia) é o do distríeto da Zaoibezia. 

irraz. — Produz bem no districto da c^tal, porém apeoas se aemeia 
o preciso para consumo. O melhor da província édeSofalaeInhambane. 

O districto da Zambezia exporta bastante, especialmente para Bour- 
bon e outros portos. 

Gergelim e amendoim. — Como estes prodoetos téem {HXNnpta venda, 
são semeados em grande escala em toda a prorincia. O processo de se- 
Bienteira è rude e imperfeito^. 

JUamUoea. — A pUutação doeste prodoeto è sempre grande, por ser o 
principal sustento dos pretos. Cortada e secca ao sol, dum^-se macaca. 

Abundam as abelhas no districto da capilal, mas eorao os indígenas 
Bio sabem tirar partido d'eHas, queimam muitas vezes os enxames t 



1 Yeja-se a gravura designada Casa de camfo dê Rita Jãtet sm 

2 Esta casa foi edificada em 1864 por J. Z. X. Alves» em um palmar á borda da 
grande langoa, chamada de Mossuril; tem agradável vista. Da margem opposta da 
langoa, está o palmar, com boa casa, dos herdeiros de Urbano da Costa Mattoso; as 
maxambas de vários proprietários, e a estrada real para o sertio sSo sempre ttmito 
transitadas pelos iadigenas; também se vé e mofite do Pia A casa tesi na frente 
um pequeno jardim com flórea, boa horta, um pequeao poiar, e ciaeo pés de ofi- 
veira idos do reino dispostas ha quinie asnos, mas que aãú dão fructo. OoMs ar- 
vores de fructas do reino foram pordifTerentes vezes ali plantadas, crescsram> mas 
nâo vingaram. Os bacelos da ava de arinto e moscatel de Setúbal, produziram pouco e 
seccaram em breve. A uva ferral produz bem. A laranja é excellente, e embtfeada 
a graael tem chegado a Bombaim, com perto de trinta dias de Tiagen, apenas com 
o prejuízo de ^ por eeutof Algumas vezes ali se téem vetdids a MíStíO léis e auus 
o cento. A canella de Ceylào, a papoula de Bombaim (ópio), a pimenta da Goa, o cravo 
de Zanzibar, e algumas fructas de Bourbon edaMaiotta ali se cultivaram, mas nao 
vingaram. A baunilha produz perfeitamente, assim como a arvore chamada puoa^ 
e a areca. 

É a ultima casa de Mossuril. 

3 Consiste primeiro em roçar os campos, empregando para isso o fogo; depois 
fazem-se covas a pequenas distancias umas das oi:Éras, com enxadas eoa fitoma de 
pás, deila-se-Ihes a semente aos punhados, e eobrem-se de terra. Qaaadoa senenfee 
rebenta e a planta attinge a altura approximadamente de â2 eentimetrat^ sao tira- 
dos alguns pés das covas e plantados em outro logar. O mesmo smccede côas o ar- 
roz, trigo, milho fino e grosso, etc. 



272 

Borracha.— k arvore da borracha eocontra-se em muitas partes, e 
a exportação d'este producto tem augmentado consideravelmente n'estes 
últimos tempos. 

Baunilha. — Produz perfeitamente, e podia ser um bom ramo de 
commercio, mas não a sabem preparar para produzir a flor. Em Bour- 
bon ba grande cultura d'esta planta, que sempre se vende por bom 
preço. 

Areca. — Gonstitue um ramo importante de commercio em todo o In- 
dostão e Malabar. Em Moçambique produz bem nos terrenos frescos, 
mas nSo a cultivam; a que consomem os banianes e os mouros é impor- 
tada das ilhas de Cômoro e da índia. 

População. — Os pretos (macuas) sâo em geral estúpidos e maus; 
, mas os livres e libertos que ha nas povoações, são, pela maior parte, in- 
dolentes, crapulosos e insignes ladrões. 

Os macuas téem completa negação para aprender officios ou receber 
qualquer grau de instrucção. Os mujaus, ao contrario, aprendem tudo 
com facilidade incrível : os melhores carpinteiros, pedreiros, calafates, co- 
zinheiros e alfaiates, que existem na capital e no Ibo, são na maior parte 
escravos que os senhores mandaram ensinar. 

Os muizas, mais intelligentes e socegados, são os verdadeiros nego- 
ciantes do sertão ^ A sua maneira de tratar differe da dos outros pre- 
tos; não usam de armas de fogo, mas trazem arco e flexa. 

As enxadas de que os indigenas usam para a cultura e amanho das ter- 
ras são fabricadas pelos pretos do interior (macuas) que residem ao pé 
de Mossuril, a quatro dias de caminho, e que as vem vender ao ba- 
zar de Mossuril e outros pontos do districto por 50 a 70 réis cada uma. 
São em forma de pá com um bico para encabar. O ferro é de tão boa 
qualidade, que no arsenal, puchando-o á fieira, fazem d'elle magnifico 
arame. Dizem estes pretos que nas suas terras ha muito ferro e carvão 
de pedra'. 

Os costumes dos pretos do interior divergem pouco uns dos outros : 
adoram idolos e são em geral supersticiosos. Os que habitam as praias 
seguem o chrístianismo ou o islamismo, isto é, os escravos ou libertos 
seguem geralmente a religião dos senhores ou patrões. Ao maior numero 
agrada o islamismo, naturalmente pelo que vêem praticar aos musulma- 



1 Ainda não ha muito tempo que os pretos vinham periodicamente estabele- 
cer feira em Mossuril, com marfim, oiro em pó, malaquite, cobre, etc.; porém de- 
pois que alguns régulos os bateram e roubaram na retirada não mais voltaram : 
téem ido para Zanzibar. 

* Mácala maluco. 



273 

nos. Estes catbechisam, emquaoto que da nossa parte pouco ou nada ^e 
faz. 

Cumpre-nos ãnalmente indicar os meios que se reputam mais apro- 
priados para desenvolver o commercio e a agricultura na província de 
Moçambique. 

A capital, que devia ser o melhor dos seus districtos, é o que está em 
peiores condições I Uma das causas principaes que impede ali o desen* 
volvimento da agricultura e a formação de importantes emprezas, é a 
falta de segurança individual ; se a houvesse já ha muito se teriam coa- 
slituido emprezas para a plantação em grande escala da canna e fabrica- 
ção do assucar, assim como do algodão e outros géneros agrícolas a que 
o solo se presta . 

Por vezes se tentou a formação de uma associação agrícola, mas a 
falta de segurança arrefecia logo os ânimos ; e emquanto o governo não 
poder attender a esta importante e principal questão, pouco mais se pode 
esperar da agricultura, porque nem os particulares nem as emprezas ar- 
riscarão capitães sem a devida protecção. 

Sem a segurança individual, que importa que o café nasça sem cultura, 
que o tabaco e o algodão cresçam espontâneos, que a cochonilha prospere 
e o anil forme um tapete constante de verdura? 

Que importa que haja minas de oiro, ferro e carvão? 

Que valem tantas riquezas encerradas n'esta vasta colónia, se se não 
podem explorar por falta de s^urança publica ? 

É este o principal ponto a que temos de attender para se promover 
a colonisação. 

Á vista do que se acha exposto não nos é possível fundamentar as 
nossas considerações com respeito á colonisação e aclimação da provín- 
cia de Moçambique, poisque podemos ser levados em erro, attentas as 
condições actuaes que ali se notam. Onde falta a colonisação, a salubri- 
dade e insalubridade mal podem ser estudadas. 

Apesar de taes diiDculdades procurámos obter informações sobre 
este assumpto. Pessoa competente e a quem devemos a descrípção do 
distríctp de Moçambique julga que para se promover o progresso e a 
agricultura é indispensável attender, entre outras muitas cousas, aos se- 
guintes meios : 

i .° Acabar com os checados de Sancule e da Quitangonha» ao N. 
e ao S. da capital e distríctos d'eila. Esta medida reputámol-a de instante 
necessidade, porque aquelles checados se oppõem ao desenvolvimento 
da província. 

2.° Estabelecer n'esles pontos colónias agrícolas, especialmente na 
Quitangonha em que os terrenos são magníficos. Onde está a montanha da 

18 



â74 

Mesa ^ ba todos os elementos para a formação de povoação e defeza, 
principalmente na Cbicoma á beiramar. 

3.^ Outra colónia composta de degredados que foreia chegando á 
província, deverá estabelecer-se nas proximidades do rio Monapo^ ou em 
Nouvera a três boras de caminbo de Mossuril, onde ba boa agua e terre- 
nos appropriados para todo o género de cultura. 

4.® N'estas localidades serão antecipadamente formadas casas de ma- 
deira cobertas de telba, a qual já lá se fabrica, para receber os coloQOS 
que íbrem chegando, tendo cada colónia uma enfermaria, facultativo e 
ambulância, a fim de não succumbir á nascença, como succedea á de 
Pemba, que sem piedade foi lançada em um terreno pantanoso e com 
cobatas cobertas de palha, como as dos negros, para abrigo d'aquella 
pobre gente, que no tempo da chuva chegou a ter a agua peto joelho ^, e 
que por isso tão depressa se aniquilou. 

5.^ Âos colonos deverão entregar-se alguns cavallos e éguas, não 
só para o seu serviço e da colónia, mas também para defeza d*ella, por- 
que um homem a cavallo, por pequeno que este seja, infunde mais res- 
peito nos sertões de Moçambique do qué se for bem armado ^. Os cavallos 
em Bombaim são muito baralos, e os indivíduos a quem fossem entjre- 
gues deviam, passado algum tempo, índemnisar o governo da importân- 
cia por que os comprassem. 

6.® Â cada colónia deverão ser entregues os precisos instrumentos 
agrários modernamente adoptados, % eas»es de carneiro» ãA colónia do 
Cabo» para ensaiar a propagação da casta, os quaes téem magnifica lã, 
que tão importantes lucros ali dá. 

7.^ Os ammaes empregados na lavoura devem ser búfalos, nao só 
pela sua grande força, como porque resistem flieihor ao clima. Na índia 
ingleza e mesmo na por tugueza é este o gado que mais se emprega. 

8.° Âs colónias devem ser compostas de geaie de todas as raças 
que n'ellas se quizerem estabelecer, sujeitas a um chefe. 

9.° Para mm fácil augmento da população e para que a emigração 
se encaminhe para Moçambique, deverá o governo o^ empreza mandar 
duas vezes no anno, e em tempo próprio, um transporte com escala pela 
Madeira, Cabo Verde, Loanda, Benguella e Mossamodes, onde previa- 

•> 

1 Em 1875 foi rectificada a posição d*esta montanha próximo da capital pelo te- 
nente da marinha britannica encarregado dos estudos hydrographicos Francisco J. 
Gray, e reconheceu-so estar em 14» 42' 43' de latitude L. e 40" 39' 30'' de longi- 
tude a L. de Greenwich: a sua altura é de 461'°,35. 

2 O rio de Monapo desagua na bahia do Mocambo. 

3 Assim o contaram os colonos. 

^ Cavallo é animal que come ferro, dizem os indigen&s. 



27o 

mente se annuDciar á a epocba da sua cbegada e o Gm a que lá vae, que 
é o de transportar gratuitamente a Moçambique os colonos e suas famí- 
lias, de qualcpier raça ou casta, que quizerem estabelecer-se na pro- 
víncia. 

iO.® Depois da chegada a Moçambique partirá o transporte para Goa, 
Diu, Damão e^ Bombaim, cosa o mesmo fim, e onde se farão também 
idênticos annuncios. Na volta de Goa e Bombaim podem ser transporta- 
dos o gado cavallar e os búfalos para o fim já dito ^ 

1 4 .^ No império do Brazíl ha bastantes portuguezes que desejam reti- 
rar-se, e a quem faltam os meios para sair d'ali ; e muitos d'elles, pelos 
conhecifflenCos que téem da cultura das plantas tropicaes e da fabricação 
do assucar, seriam de grande utilidade para Moçambique. Auxiliar, pois, 
a immigraçSo d'aqueUa gente é negocio muito importante. 

A colónia de Mossaiaedes formou-se com portuguezes saídos de Per- 
nambuco em navios de guerra. 

iS."* A gente do Minho e das ilhas dos Açores, que tanta tendência tem 
para a emigração, era conveniente que fos^e encaminhada para a Africa, 
facilitando-se-lhe a passagem depois dos convenientes annuncios feitos 
nas localidades. 

i3.^ Pela mesma forma deveria a emigração ser encaminhada para a 
Zambezía e para outros pontos. 

Feito isto regularmente, hão de as colónias vingar em poucos annos, 
porqcie ^Me tãtf ha de bltar. 

4 4.° Os chins não deverão ser mandados á província nem para colonos 
nem para o serviço miUter, porque já lá são conhecidos como jogado- 
res, indoiebtes e ladroes. Nas Macuricias não se tem tirado bom resultado 
(festa gente. 

45.^ A força armada deverá ser composta de 500 praças do exercito 
do reino, destacadas por certo tempo, que partirão opportunamente com 
o governador geral. O que porém é necessário é que os soldados che- 
guem na melhor e{)ocha do anno, e sejam rendidos sem adiamento. Os 
seus quartéis permanentes serão, uma parle na capital em Mossuril, e 
outra em Lourenço Marques, em bons locaes. Não farão serviço de guar- 
nição nem de policia, e só serão empregados em caso de guerra, no ponto 

t A pessoa que nos indicou estes meios esteve em 1857 em Bombaim, e com- 
pron ali um bonito eavallo, quasi de marca, por 75 rupias (331^750 réis), que ser- 
via para cavallaria e trabalhava em carrinho; e uma égua com cria, garrana, por 
2 libras, e conduziu estes animaes para Moçambique na fragata D. Fernando. 
Também n'aque}la oeeasião lhe vadiam um casal de búfalos por i libra. 

É portanto o eusto d'estes animaes insigniQcanto em relação ao importante 
serviço que prestam nas colónias. 



276 

em que Torem precisos. Isto não è novo : é o que se pratica nas coló- 
nias próximas, como Natal, Mayotta, Âden e Bourbon '. 

Ití.^ A guarnição da capital e suas dependências, a policia e a guarni- 
ção da Zambezia serão compostas de praças indígenas, asiáticas, angolenses 
e caboverdianos. Os indígenas serão recrutados nos districtos do S. da pro- 
víncia, para servirem nos do N., e os d'este da mesma forma irão servir 
nos do S. PTesta troca ha conveniência para as localidades e para o estado. 
Na capital, no Ibo e na Zambezia os indígenas téem negação absoluta para 
o serviço militar; em se lhes assentando praça, quasi todos desertam 
para o sertão, e a fazenda perde o armamento ; e, havendo a troca, não 
será tão fácil a deserção, por não saberem os caminhos para o interior 
nem a lingoa, que em todos os districtos differe muito. 

As praças asiáticas, e as africanas de áquem do Cabo, serão engaja- 
das para servirem por tempo de três annos contados desde a chegada á 
província. 

17.^ Com a força da infanteria, que deve ter o seu quarlel perma- 
nente em Mossuril, deverá haver mais 20 ou 30 praças de cavallaria, 
asiáticos, para com o seu auxilio se poder soccorrer qualquer das coló- 
nias quando seja preciso, e para haver entre estas, por terra, a necessá- 
ria correspondência. 

A cavallaria é muito conveniente no continente pelo respeito que os 
indígenas téem aos cavallos. 

18.° A fortaleza de S. Sebastião deve ter uma companhia de artilhe- 
ria de posição. 

19.*^ A ãscalisação costeira desde Cabo Delgado ao N. da capital, até 
ao rio Licungo' ao S., feita por alguns lanchões a vapor que visitem con- 
stantemente as bahias, enseadas e rias entre estes dois pontos, que actual- 
mente são focos de contrabando dos árabes, é de absoluta necessidade. 
O mesmo deve haver de Quelimane para o S., por barcos maiores, por 

1 Ainda em novembro de 1875 era condozido para Bombaim um regimento 
com 1:000 praças. 

2 Ao N. do Licungo, em terras pertencentes ao districto de Quelimane, ba ferro 
superior em qualidade a todos os conhecidos : é mais escuro e oxyda-se menos, pó- 
de-se fazer d'elle um fuzil, porque tem boa tempera e não carece de ser calçado de 
aço. Ha porém quem aflOirme que é de igual qualidade todo o demais ferro do paiz. 
O ponto ao N. do Licungo, mais abundante de ferro, é a serra a que os pretos cha- . 
mam Podo, que fica a cinco dias de marcha do Licungo; ali mesmo na serra os 
pretos estabelecem forjas de fundição, e sem empregarem nenhum trabalho de 
mineração, derretem a seu modo os pedregulhos que apparecem á superflcie 
do solo, servindo-lhcs de folies a pelle de um cabrito arranjada em forma de 
sacco; e assim fabricam enxadas, azagaias, manilhas e arame, que a tudo se amolda 
o ferro facilmente, porque é muito maleável ; as ferramentas de que se servem são 



277 

haver aqui também muito contrabando. Sem isto, a provinda não pode 
prosperar com a rapidez que necessita. 

20.*^ A navegação, a vapor, nacional, que ponha directamente em rela- 
ções a provincia com a metrópole, Cabo Verde, Angola e índia portugue- 
za, é de absoluta necessidade para a sua colonisação e desenvolvimento 
agricola e mineiro e misera industria; estabelecida que soja regularmente 
a navegação, será de grande vantagem futura para a Europa e para as di- 
tas colónias, e, sobretudo, para a mãe pátria. A colonisação só de gente 
do reino não é a mais conveniente, nem dará bons resultados : precisa ser 
mixta. 

21." Feito o que fica dito, e ligada a ilha de Moçambique com o con- 
tinente pelo lado do S., aterrando-se primeiro as margens de um e outro 
lado, tendo ao centro arcos de pedra como tem a ponte chamada de Ri- 
bamar em Goa, feita pelo systema moderno, será de uma importância 
incalculável para o engrandecimento da capital e para o continente fron- 
teiro, pela força e influencia que este centro de população lhe dará. Os 
indígenas do sertão depressa se civilisariam pelo trato que facilmente 
teriam com os brancos da cidade, o que actualmente não succede, visto- 
que ainda estão como no principio da conquista, com pequena diílercnç^. 
Entram em Mossuril desconfiados e afastando-se sempre dos brancos, e 
se alguns vêem á cidade, trazidos por alguém, ficam pasmados ao verem 
tanta grandeza — a fortaleza, casas de pedra, etc. Este estado desappa- 
recerá ligando-se a ilha, o que é o mais natural, vistoque para uma nova 
cidade não ha logar próprio a não ser mais no interior. 

A questão da juncção da ilha ao continente já foi pedida pelos mora- 
dores ao governador Lacerda, em 1868*. 

O commercio de Moçambique é directo com Lisboa, Inglaterra, Ame- 
rica, Marselha, HoUanda, Bombaim, Goa, Damão, Diu, Maurícias, Re- 
união, Zanzibar, Madagáscar, Mayotta, ilhas de Cômoro e Cabo da Boa 
Esperança. 

Importação, —Algodão cru, branco, tinto, em fio e em peça, estam- 



duas pedras, uma coroo bigorna e outra como martello, e um pau verde fendido 
n*ama das pontas, como tenaz, o qual renovam logoque se queima. As enxadas são 
compradas em Quelimane nunca a mais de V4 de peso (215 réis), e muitas vozes me- 
nos. O fallecido João Bonifácio Alves da Silva (conquistador de Angoche) remetteu 
em 1861 ao governador de Quelimane uma porção de ferro d'aquella localidade, 
para se avaliar a qualidade, e dizia que havia abundância d*elle, bem como de ou- 
ro, óptimo algodão, canna saccharina, e varias sementes das quaes se extrahe 
óleo; que não eram necessárias experiências, bastaria só aproveit(ir estas riquezas, 
mandando para ali pessoas competentes que as extráhiam da terra segundo a arte. 
l Boletim do governo, n." 9, de 1868. 



pado de todas as qualidades, loupas e zuartes da índia; da Europa, mis- 
sangas de todas as espécies, pólvora, arníias, chumbo, ferro, enxadas; e 
do reino, manilhas de cobre e de latão, aramo do dito, aguardente, vi- 
nhos, e todos os mais géneros necessários á vida, calçado, roupas, etc. 

Exportação. — Dentes de elephante, de cavallo marinho, pelles de 
animaes, cera, urzella, tartaruga, borracha, gomma copal, maná, cocos, 
cauril, arroz, legumes, esteiras, laranjas, cairo, gergelim, amendoim, pur- 
gueira, malaquita, oiro em pó, etc. 

Valor circulante. — Tem a capital em circulação seis differentes es- 
pécies de moeda denominada provincial; a saber: de oiro, de prata, de 
cobre, de chumbo, e duas edições de papel, que sao^notas da junta da 
fazenda. Tem mais as moedas do reino e as estrangeiras, toleradas por 
decreto de 29 de dezembro de 4852. 

A moeda de oiro é a barrinha fundida, pesando 2 7^ maticaes^ que 
vale 6^600 réis, e a meia barrinha 3/91300 réis. Barra de prata (deno- 
minada pataca) pesa 1 onça (peso da província) e vale 600 réis. As moe- 
das de cobre são cunhadas e representam 20, 40 e 80 réis. Antes do ci- 
tado decreto, corriam pelo duplo da cifra do seu cunho, e depois por me- 
tade do que representam ; bazanico é moeda de chumbo e vale 2 7a réis^. 

 moeda papel consiste em notas da junta da fazenda, do valor de 
5^000 e 2^500 réis, na importância total de 12:000^000 réis, emittídas 
pelo mesmo decreto. 

Foram emittidos mais 30:000/^00 réis em notas de idêntico valor, 
no governo do general Amaral, em consequência dos apuros em que es- 
tava a provincia. 

Anteriormente á fabricação das barrinhas, effectuavam-se com oiro 
em pó das minas da Zambezia, e com uma moeda de prata (muito boa), 
denominada canello, as transacções e o pagamento aos empregados. 

Os canellos, tendo alguns a era de 1763, consistiam em moeda fun- 
dida, muito mal feita, com o peso de 6 onças (peso da localidade). Di- 
zia-se que o seu metal tinha sido extrahido das minas de Chicova. 

As primeiras barrinhas de oiro que se fundiram eram muito boas, 
e por isso logo desappareceram da circulação, sendo substituídas por 
outras de quilate mais inferior; havendo, porém, muitas falsas, ajuntada 
fazenda, em 1850, viu-se na necessidade de as mandar recolher, para 
carimbar as boas ou soffriveis, porque as primeiras já não appareciam no 
'mercado. 

* Corresponde a 4 oitavas do peso da piovinci.i. 

* Muilo pouca ha actualmenlc. As moedas de cobre de 1, 2 e 3 réis emittídas 
pelo decreto de 29 de dezembro de 1852 logo desappareceram do mercado para evi- 
tar os conflictos a que davam logar. 



á70 

O recenseamento então foi de 2:576 bí^rrinhas de oiro, 91 meias di* 
tas e 6:708 patacas de prata no valor de 85:568^950 réis fracos, corres- 
pondente a 21 :326i5(700 réis fortes. 

O carimbo consistiu em uma estrella no centro da barrinha. 

Ibo. — Vílla do districto de Cabo Delgado, a 12^ 15' de latitude S. Oseu 
clima é muito sadio ; tem numerosa população. Fica ao N. da capital. Tem 
bastante cultura de productos oleaginosos, cereaes e legumes ; produz 
muita borracha, gomma copal, maná, urzella, ele. O seu commercio tem 
augmentado consideravelmente com o estabelecimento das feitorias fran- 
cezas. Exporta prqductos iguaes aos dos outros portos. Possue um pha- 
rolim na barra. A villa é bonita e asseiada, com edificações baixas e re- 
gulares, e está muito melhorada. 

Angoche, — Ponto ha pouco conquistado que fica ao S. de Moçambi- 
que e a pouca distancia da capital. Foi tomado, em 26 de setembro de 
1862, pela expedição saída de Quellmane e Licungo em meados de 
agosto de mesmo anno, commandada pelo cidadão João Bonifácio Alves 
da Silva, a qual era composta de 18 soldados, 2 peças de campanha e os 
competentes cypaes, alem de aggregados que foram mais de 1:000*. 



1 Gastaram vinte e quatro dias do Quisungo a Angoche pelo interior do ser- 
tão, atravessando grandes n^atas quasi intransitáveis^ campos alagadiças e alguns 
rios, que apenas davam vau com agua pelo pescoço dos homens, e em outros foi pre- 
ciso passar a nado, levando as bagagens e material cm jangadas de caniço. Aos dez 
dias de marcha do Quisungo faltaram-lhes os mantimentos, e estiveram três dias sem 
comer, ao quarto porém entraram n'uma povoação onde os havia em abundância. 
Tiveram diversas esperas do inimigo, e uma d'eilas no rio Mulale, mas foi sempre 
batido. No dia 2o de setembro estava a expediçiio próximo de Angoche. No dia 26, 
ás oito horas da manha, marcharam em direcçào á praia para darem ataque á ilha; 
o fogo durou desde as onze horas da manhã até ás quatro da tarde; distribuiram-se 
mais de 40:000 cartuchos: mas como o fogo não diminuissc do lado de Angoche, 
e a maré começava a encher, o commandante, para animar os seus, passou para a 
frente e para o ponto onde só se podia passar a vau com agua pela cintura, fez atra- 
vessar a sua gente com as cartncheiras ao pescoço, e avançando resolutamente de- 
baixo de fogo passou á ilha, aonde o inimigo, dispersando-se, abandonou comple- 
tamente a defeza. A ilha era defendida, pelo lado por onde fbi atacada, com um 
parapeito de saccos feitos de palha cheios de areia, guarnecido de artilheria e por 
roais de 10:000 pessoas com difTerentes armas. O sultão Assnne (Muguata) fugiu 
n'um panpaio para Zanzibar. Na praia, junto á povoação, havia outro parapeito de 
areia que serviu de defeza quando a ilha foi em tempo atacada por forças man- 
dadas de Moçambique. Infelizmente o chefe da expedição não teve o gosto de ver 
a conchisfio da sua obra, nem de saber a maneira por (fue o governador geral con- 
siderou os seus relevantes serviços, nomeando-o coronel de 2.» linha da pi^ovincia. 



) 



280 

Âclualmenle tem commandanle mililar e alfandega, e uma guarnição de 
100 praças do balalhao de Moçambique. Exporta muito milho grosso e 
fino» esteiras, borracha, gergelim e amendoim, tudo vindo do interior. 
 população é pequena, composta quasi toda de mouros e alguns banea- 
nes, que ali vão commerciar. 

Anteriormente á occupação o seu maior commercio era de escravos. 
A terra é baixa e pouco sadia, porém o ponto do Parapato, para onde ul* 
timamente se mudou a povoação, é muito saudável, com boa agua e bella 
vista. Os limites do districto são ao N. as terras de Sangage, ao S. o rio 
Quisengo e a O. o sertão. Latitude 4G® 37' e longitude 48^ T E. de Lisboa. 

Quelimam.—X villa de S. Martinho de Quelimane está situada em 17^ 
52' de latitude S. e 45^ 56' de longitude a E. de Lisboa, em terreno pa- 
ludoso na margem esquerda do rio Zambeze, 20 ou 25 kilometros dis- 
tante da barra. É terra muito baixa, húmida e insalubre; comprehendc 
quatorze ruas, oito travessas, quatro viellas e sete largos, comludo a po- 
voação é grande. É a chave de todo o commercio do rico e dilatado dis- 
tricto do Zambeze. Tem mesquinha apparencia e os edificios públicos 
consistem na igreja de Nossa Senhora do Livramento, fundada pelos je- 
suítas; o cemitério que tem uma capella dedicada a Nossa Senhora da 
Saudade ; a alfandega com uma ponte de madeira ; os paços da camará 
municipal e uma enfermaria militar. 

As casas são baixas, mas com bastantes accommodações e cobertas 
de telha ; as representadas na gravura são dos srs. José Mílitão Nunes ^ e 
Manuel Velloso da Rocha ^. A villa n'estes últimos tempos tem tido mui- 
tos melhoramentos e aformoseamentos ; depois da prohibição da cultura 
do arroz está mais salubre. 

A barra tem um pharolim e balizas no banco. 

A villa de S. Marçal de Sena. — Fica esta povoação a 300 kilometros 
de Quelimane, na margem direita do Zambeze; é pouco povoada e muito 

poisque em seguida á occupação só pôde a custo officiar para dar parte do suc- 
cesso, succumblndo logo a tantos trabalhos e privações que soffreu. Os seus cabos 
de guerra, reunidos em conselho, decidiram não o sepultar em Angoche, e leval-o 
para Quelimane d'onde era natural e proprietário ; mas como lhes faltassem os meios 
precisos para o encerrarem e conduzirem^ resolveram abril-o e salgal-o; e assim 
convenientemente embrulhado^ fora da popa da embarcação (pangaio) entraram com 
elle em Quelimane, sendo sepultado aos 3i de outubro; contando trinta e nove 
annos de idade. 

1 Yeja-se a gravura que tem a seguinte designação : Habitação do cidadão Joié 
Militão Nunes. As arvores que se véeni em frente da casa sao punas. 

2 Idem, idem : Habiiação do cidadão Manuel Velloso da Rocha, 



281 

insalubre. De quando em quando é assaltada pelos landins, que já lhe 
usurparam o território adjacente e lhe téem morto muita gente. 

A igual distancia, mais acima, em terreno elevado e sadio, flca a villa 
de S. Thiago Maior de Tete. A população é numerosa; os edifícios peque- 
nos e os productos variados. O trigo é excellente. 

De toda a Zambezia se exportam cereaes e legumes de todas as qua- 
lidades, produzidos nas [suas fertilissimas terras, bem como dentes de 
elephante e de cavallo marinho, cera, oiro em pó, pedra verde, etc. Tete 
está em uma zona de carvão de pedra e ferro. 

Próximo de Sena ha minas de ferro, cobre e oiro. 

Zumbo^,— cDa villa de Tete para cima, na distancia de 100 léguas 
(SOO kilometros) pouco mais ou menos, está a villa de Zumbo, que é 
só habitada de nnturaes de. Goa; este caminho não se pôde fazer todo 
pelo rio, por não ser navegável o espaço de 20 léguas (100 kilometros). 
Levam as fazendas ás costas de pretos, desde Tete até Ghicova, e d'ali as 
transportam embarcadas em canoas, que do Zumbo vem para esse 
Qm. 

«Foi Chicova celebrada nos tempos pretéritos, e muito mais pelo 
descobrimento de uma lage de prata, que n'ella achou um religioso domi- 
nico o padre Fr. Serra; ha ainda em Moçambique e Sena quem viu peças 
de prata das que se fizeram da mesma lage; e nunca mais se descobriu 
n'aquelle logar eslc metal. Pessoa que duas vezes esteve n'esta povoação 
indagou com exacção, porém nâo alcançou noticia alguma de que hou- 
vesse ali prata. Oiro ha, porém não quer o regulo senhor d'aquelle con- 
tinente ali deixar minerar, pelo receio que lhe assiste de que lhe façam 

1 Esta descripção é extrahida de um curioso livro publicado na ilha de Moçam- 
bique em 1858. Foi transcripta do um manuscripto referido ao anno de 1764. 
A respeito d'aquelle ponto dizia o dr. Livingstone o seguinte : 
«A situação do Zumbo foi muito bem escolhida. Pelo lado posterior existem al- 
tas montanhas cobertas de arvores, de onde se destacam os manzanzonés, que se 
estendem pelo N. até á margem esquerda do Langoa, e pelo S. se vé uma campina 
extensa revestida de relva, onde se nota ao longe uma pequena montanha redonda 
que se chama Tafonlo : os moradores do Zumbo gosavam nos seus balcões da ma- 
gnifica vista da confluência dos dois rios, entre os quaes se elevava a igreja, e da 
dos campos de onde elles colhiam trigo, que, sem rega, era duas vezes maior que 
o de Tete. Do Zumbo podiam penetrar os moradores a NNO. pelo Langoa, a SO. 
pelo Zambeze e a E. pelo Kafúe. Gomtudo, é com o N. que elles tinham mais re- 
lação, e o seu commercio consistia principalmente em marfim e escravos. Porém 
as colónias portuguezas, sendo essencialmente militares, e o soldo dos offlciaes muito 
ténue, são estes obrigados a negociarem para viverem, e empregam todos os meios 
a seu alcance para concentrarem o negocio nos togares que commandam, d'onde 
resulta serem no paiz as transac4^ões comroerciaes muito limitadas.» 



alguma guerra os outros régulos, principaimeote o imperador Mouomo- 
pata, cujos estados com elle coufinam. 

«Da villa de Zumbo se expedem carregações de roupas e velório para 
o reino de Abutua, onde se coramuta tudo por oiro, que ba em muita 
abundância. O rei e senhor d'estas terras é o Cangamira; este é o terror 
d'aqudte sertão» não pormitte que nos seus domínios penetre algum cbris- 
tão; 8aba*se que elle é poderosíssimo, e conserva seu respeito na reputa- 
ção de suas armas, com as quaes se tem feito muito obedecido. 

«Um dia de caminho antes de chegar á villa de Zumbo, está uma serra 
muito grande, á qual no pais dão o nome de Meiooga : a ella vão minerar 
os escravos dos moradores do Zumbo, mas o oiro que tiram é pouco e 
de pequeno quilate. Aqui também ha capitão mór e sempre é um mora- 
dor d'aquella villa. 

«Ha outras minas, que distam do Zumbo pouco mais de um dia de via- 
gem, que se chamam de Barda Pambo; n'estas só vão minerar os escra- 
vos dos religiosos dominicos, e no anno de 17K0 tirou o padre Fr. Pedro 
da Trindade mui tor e bom oiro ; mas sendo eu capitão mór no anno de i 754 
já produzia pouco; mas sempre era da melhor qualidade, 

«N^este tesipo me lembro da diligencia que fiz por conseguir noticias 
dos nossos portugueses da parte de Angola, pois parecia fácil, por estar o 
Zumbo pelo sertão dentro perto de 300 léguas (1:500 kilometros); mas 
nada aproveitei por falta de meios sufScientes.B 

Sofsúla. — A capital d^-este districto está situada em 20^ 13' de lati- 
tude e 34^ 45' de longitude de Greenwich. Corre de NO. a SE., tendo ao 
presente^ de comprimento menos de 5^,5, e de maior largura 1^,32, em 
cujo espaço se acham construidas trinta e cinco casas, sendo uma de pe- 
dra e cal e as outras de madeira, cobertas com palha, á excepção de 
duas, que são cobertas de telha. 

Q terreno da villa é dividido pelo mar em duas partes, e as aguas pe- 
netram pelos rios Nharuquare, que corre de S. a N. e por E., e Cavone 
por O., tendo ambos a foz no sitio denominado Tacca, que communica 
com Nhumquerere, canal por onde entrara os navios. Alem doestes rios, 
o mar também entra nas aguas vivas pela costa no sitio denominado Quis- 
sanga que fica a E. e S. da praça ; por vários alicerces, que se desco- 
brem em differentes sítios, se conhece que antigamente houve muitas ca- 
sas de pedra e cal, e que estas eram ricas, porque nos rios Nharuquare 
e Cavone bem como no Quissanga se apanham, em occasiões de cheias, va- 
rias obras de oiro, o que faz crer que em epochas remotas houve grande 

• 

> Refere-sc ao anno do 186i. 



invasão de iaimigos, que fez cam q\h^ se espalhassem os cabedaes dos 
habitantes. 

Este estabelecimento portuguez na Africa oriental ara antigamente 
conhecido sob o nome de povoação de Sofaila. No anno de 4764 foi ele- 
vado á categoria de villa, e presentemente o local em que elia está edi- 
ficada reclama mudança, por estar muito arruinada pelas aguas do mar. 

Praça de S. Caetano. — Fica na extremidade da villa ao S. Ânti-^ 
gamente era conhecida por fortaleza de Sofalla. Teve esta denominação 
no anno de 1764, e foi fundada em 1305 por Pêro Ânnaya. 

Existe dentro da praça um poço de agua salobra^ construído de pe- 
dra e cal, e parece que antigamente esta agua foi boa, porque próximo 
do mesmo se descobriram, no anno de 1822, algumas pias de pedra, que 
parece serviram para dar agua a cavallos. 

Igreja parochial. — Na distancia de 57 metros da praça está edifi- 
cada a igreja parochial, mandada fabricar por João Pereira de Barros, 
e que por devoção a oíTereceu para o culto divino ; e desde essa epocha 
tem este edificio a denominação de igreja de Nossa Senhora do Rosá- 
rio. , 

Casa da camará municipal. — Na extremidade da villa aoN., em dis- 
tancia approximadamente de 44 metros, está construída a referida casa, de 
pedra e cal, e tendo sido de terraço batido, presentemente tetn tecto de 
madeira coberto com palha. 

Pelourinho. — A pequena distancia da casa da camará, na rua princi- 
pal da villa, está o pelourinho; é feito de pedra e cal, com dois degraus, 
tendo no remate uma espbera do mesmo material. 

Povoação de Inhacamba. — Na extremidade da villa ao N. achasse 
uma langua com muito mangal, que fica na enchente da maré coberta de 
agua, e que entra ao S. pelos rios Cavone e Nharuquare e ao N. por ura 
braço do rio Zimboé, que communica com outro denominado Hellangane, 
que tem a sua foz no sitio Bue. 

Da villa a Inhacamba, incluindo o espaço da langua, contam-sc pouco 
mais ou menos 550 metros de distancia, no fim dos quaes se acha a po- 
voação denominada Inhacamba com vinte e oito casas de madeira, sendo 
sete cobertas com telha e as outras com palha. 

Esta povoação foi fundada no anno de 1815, quando os mouros, por 
causa das ruínas do mar, se mudaram da antiga povoação denominada 
Buanca Muro, que ficava a E. da villa em pequena distancia d^aquella. 

Até ao anno de 1844 era somente habitada por mouros, e actual- 
mente estão n'ella estabelecidos seis christãos que, por falta de terreno 
na villa, se mudaram para ali; porém este local não promette muita du- 
ração, por estar sujeito ás mesmas ruínas que o da villa, e por este mo- 



284 

tivo já os mouros se viram obrigados a mudar a mesquita para outro si- 
tio do anno de 1861. 

Porto de So falia. — Na distancia de 3:750 metros EO. está uma en- 
seada cheia de baixios, com a largura de 2:S00 metros pouco mais ou 
menos, a qual tem um pequeno canal por onde entram os navios até ao 
fundeadouro actual denominado Tacca ; alem d'este canal ha outi o em 
Mato Grosso» que tem mais agua, porém^ em consequência de ser des- 
abrigado e distante do logar para as descargas dos navios, vao esles or- 
dinariamente fundear na Tacca. 

Do Mato Grosso corre a 0. o rio Xexiquire, que communica com o 
Donda, que se estende para o interior até ás terras de Ampara e Mugova ; 
e do Tacca corre um braço chamado Nhaminazl, que liga com o Chiu- 
gueni na direcção ONE. e chega até ás terras da Dandira. 

N'este porto ha um patrão mór ou pratico da barra, mas a falta de 
embarcação impede-lhe muitas vezes de cumprir os deveres do seu cargo. 
Quando algum navio quer entrar no porto, e carece d'aquelle pratico, é 
necessário que áa embarcação lhe mandem um escaler para se poder 
transportar : e nas saídas muitas vezes se tem visto na necessidade de 
levar coxe * para n'elle poder voltar para terra. 

Antes da creação do referido emprego os navios que para aqui vinham 
traziam de Moçambique práticos da barra. 

Religião e parocho. — A falta que por muitos annos houve de um ec- 
clesiastico fez com que se tornasse esquecida n'este paiz a nossa religião ; 
e apesar do actual vigário empregar todos os esforços para a propagação 
do Evangelho, pouco tem obtido por estar o mal muito inveterado. 

Instrucção publica. — Ha um professor de primeiras letras pago pelo 
estado, o qual é de bons costumes e procura desempenhar-se cabalmente 
das suas obrigações; comtudo não tem podido levar a cabo o seu desejo, 
porque a maior parte dos alumnos são maiores de quinze annos, cheios 
de vícios, que o professor não pôde corrigir sem se comprometter com 
as famílias, porque estas (salvas algumas excepções) dão pouco ou ne- 
nhum merecimento á instrucção dos seus filhos. 

Alem d'este professor ha uma senhora, filha do encarregado da enfer- 
maria militar, que gratuitamente se presta a ensinar em sua casa algu- 
mas meninas a ler e escrever. 

Ilha de Chiloane. — Jaz esta ilha em 20*^ 38' 12" de latitude S. e 34^ 
48' 30" de longitude £. Ê raza e tem approximadamente 22 kilometros 

* Coxe é uma embarcação de um só píiu feita pelos cafres, sem quilha nem 
forma dos nossos navios. 



285 

de comprido N. e 11 de largara ^ £ dividida ao centro por um canal da 
largura de 9ã melros que na maré baixa do lado de E. se passa a vau : a 
parte do S., onde os habilantes téem o gado, é cheia de mato e salgueiral; 
na parte do N. está a povoação e a cultura que consiste em cereaes e ar- 
vores de fructa. 

O terreno é arenoso, fértil e abundante em agua potável. 

É separada do continente por um canal da largura de 2 kilometros 
proximamente ; tem duas barras, a do N. é franca e a do S. na baixamar 
tem 3 metros de agua. No continente fronteiro ha estabelecimentos dos 
habitantes da ilha e de alguns negros da terra. A cultura ali é de coquei- 
ros e arvores fructiferas, de legumes e cereaes, e já se fabrica a farinha 
de mandioca. Na ilhn e no continente apanha-se urzella e breu, e o sertão 
fornece ao commercio marfim, cavallo marinho, cera e mantimento. 

As illias de Bazarnto. — Em maio de 1855 mandou o governador 
gerai da província, Vasco Guedes de Carvalho e Menezes, occupar as ilhas 
de Bazaruto. O encarregado d*esta commissao foi Duarte Manuel da Fon- 
seca, que era acompanhado pelo alferes João Eduardo Ribeiro, que com- 
mandava a força e foi o primeiro commandante militar que ali houve. 

Foram mandados para ellas empregados, operários, colonos e guarni- 
ção militar, bem como material de guerra, ferramentas e viveres para um 
anno. Fazia parte da expedição um enfermeiro, que levava uma ambulân- 
cia provida dos medicamentos necessários para o tratamento dos doentes. 

O presidio de Bazaruto constitue um grupo de sete ilhas, sendo a mais 
importante a ilha Grande Bazaruto, que dá a denominação a todo o grupo 
e á bahia. 

A ilha de Santa Carolina (Marc), assim chamada por ser o nome da 
esposa do governador Vasco Guedes, foi a escolhida para o estabeleci- 
mento, que se ficou denominando cEstabelecimento de Pedro V>. 

Não obstante esta ilha ser a mais pequena, è a que offerece mais se- 
guro desembarque e a que tem melhor ancoradouro. 

Durante algum tempo foi Bazaruto governo independente, com a de- 
nominação € Estabelecimento de D. Pedro V». Por portaria do governo 
geral foi considerado presidio, reduzido a um commando militar e su- 
jeito ao governo de Sofalla. 



i Em 1860 foi mandado para aquella ilha um destacamento commandado por 
am official, e composto de doze praças com uma peça de campanha. Este destaca- 
mento tem ali quartel. Deram-se providencias para o traçado de ama povoação re- 
gular, marcando logares para edificios públicos, largos, ruas, etc. 

Desde 1875 que é a sede do governo de Sofalla, tem alfandega e pharolim. 



Todas âs iibas sSo saudáveis e piscosas, sendo Cbégine a que tem 
mm vegeU<5o e pastos ; abunda em carneiros de cinco quartos, assim 
deMOQMiados por lerem a cauda tio gorda, e chegar a tomar taes propor- 
es, qo8 parece outro quarto. 

 ilha Grande tem muitos cavallos marinhos (hypopotamos). Vastos 
bancos de ostras existem n^aqoeMa bacia, as quaes os pretos apanham 
para seu alimento, despr^ando ai» óptimas pérolas que n'eilas se encon- 
tra» em abundância. 

Tem por aU apparecido em poder dos pretos algum âmbar, suppon- 
do-se que o apanham na costa. 

A ilha de Santa Catharina é vulcânica e rodeada de arvores que pro- 
dofzem excellefite maná. 

A agricultora vae-sc desenvolvendo, tendo*se já semeado bastantes 
coqueiros. 

Sé as ilhas Grande Bazarato e Cliégine s3o habitadas por uma raça 
de negros que vivem exdusiTamente da pesca, que seccam e vão trocar 
no continente com os landins e outros povos por fazendas e mantimentos. 
Os burrongueiros s3o dóceis e obedecem em todo ao commandante mili- 
tar de Bazaruto. 

ínhamtane ^ ~0 território de Inhambane foi descoberto no anno de 
«47». 



1 O distrlcto de Inhambane tem um grande admirador no sr. João Eduardo 
Ribefro, que esteve n*aquelle paiz durante muitos annos. Ali casou, e nâo só pe- 
las relações de família, como pela longa permanência n'aquelle districto, onde 
desempttLKou differentes coramissões, adqairiu conhecimento especial do paiz, e 
pó(te deserevel-o com perfeito conheciou^to de causa. 

Accedeu de boa vontade o sr. Ribeiro ao nosso pedido, e encarregou-se de nos 
dar algumas informações acerca d*aquella importante jóia da coroa portugueza, e 
desempénhoa-se doeste encargo pek) modo que se pôde apreciar no texto d'este 
livro. 

O Sf . João Eduardo Ribeiro foi para Moçambique na fragata D. Femcmdo, em 
1854, acon^anhando o governador Vasco Guedes de Carvalho e Menezes, que hoje 
se acha á frente dos negócios públicos da província de Cabo Verde. 

Permaneceu na província de Moçambique vinte annos, onde exerceu diversas 
commissões, seguindo ali a sua carreira militar, serviu no Ibo e nas ilhas de Baza- 
ruto, que elle foi occupar por ordem do governo, sendo depois mandado em commis- 
sào ao antigo potentado de Manicusse que dominava todo o sertão, desde Lourenço 
Marques até aos nos de Sena, demorando-se três mezes na viagem de ida e volta. 

Houve-se sempre com tanto acerto nas referidas commissões, que foi escolhido 
para governar o districto de Inhambane em 1863, pelo sr. João Tavares de Almei- 
da, então governador geral da provinoia e hoje dos estados da indla. A nomeação 
foi approvada peio governo de Sua Magestade, por decreto de 16 de desenybro de 



2»7 

Quando o descobrkaos e ali apoHámos, fomos bem recelridos ^ios ne- 
gros, cedendo -nos eiles terrenos e marcando o locat para iiabHa;í^ onde 
hoje está assente a praça de Nossa Senhora da GoviceiçS^, ^qb os nossos 
descobridores forliricaram, e ati negociavam com oá Mgros. Ainda hoje 
esta fortificação se denomina feitoria, nome por que é designada por to- 
dos os portuguezes e cafres do sertão. 

Os descendentes do regulo Tembe, senhor das terras qm nos foram 
doadas, ainda hoje conservam as honras de régulos da víHa, téera as- 
sento á direita de todos os régulos do distrieto, e contam sempre com 
orgulho qoe os seus ascendentes foram os primeiros qne nos feeeberam 
e agasalharam, dando-nos as suas terras espcmtaneatnente, e tranismittem 
este facto a seus descendentes. 

Em 1481 (?) foi transformado em presidio, com guarnição e goterna- 
dor, e n'esta situação peraianecen até I7G0, em que por alvará de Et^Rei 
D. José I, referendado pelo marquez de Pomba), foi elevado a viMa da 
mesma denominação (Inhambane), e, por outro alvará de igemi data 
foi-lhe dada como padroeira a Virgem da Conceição, sob euja intocação 
se fundou a igreja parochial, que foi nlthnafúente reconstruída e augmen- 
tada. 

A entrada do porto é accessivel aos navios que demandetti até 4 me- 
tros de agua; tem boas marcações para de dia, havendo tand^etti um 
pharolim assente ao S. da barra, o qual se avista a más de 59 kitometros 
em tempo claro. 

A entrada dos navios não é portanto difScil, ma^ a saída depende de 



1863. Sendo reconduzido ii'o8te governo por mais cineo annos^ por êserele de 1 
de março do 1871^ nâo coiK*ltiiu a commjssao por ter eu 1874 reesMiido « qMfo- 
pole doente e sido julgado incapaz de continuar a servir em Africa, pelo que se re- 
formou. 

O sr. João Eduardo Ribeiro mostrou sempre tanto zôlo e intelligencia nas com- 
missões com que o distinguiram, qno esteve á frente dos negócios páMcos do dis- 
tricto durante nove annos, o que raras vezes tem acontecido. Alem disso foi hlMi- 
rado peio governo de Sua Magestade com o habito de A<viz e oom a coiaiiieiida de 
Christo. 

As informações que publicamos a respeito do districto de Inhambane foram- 
nos, pois, dadas por pessoa competente e foram publicadas sob a sua inspecção. 

Nós julgamos prestar um bom serviço reunindo n*este trabalho todas as infor- 
mações, e ficámos assim habilitados a comparar os climas de que nos for possível 
obter noticias completas, não só emqoaato ás iocalidaâes, mas tombem a resptko 
das observações meteorológicas, população, etc. 

Se não podemos dar um trabalho bem completo, deixamos traçado o plano que 
nos parece mais adequado para st* tomarem bem conhecidas as nossas possessões 
do ultramar. 



888 

ventos terraes e marés próprias que algumas vezes os obriga a demorar-se, 
perdeudo-se muito tempo á espera da occasião favorável para sair ^ 

Um telegrapbo estabelecido em terra, com três poutos semaphoricos 
intermédios, annuncia a chegada dos navios. 

O rio é magnifico, e apesar de ter algumas restingas de areia, possue 
comtudo um excellente canal, por onde os navios, sem grande risco, se- 
guem ao fundeadouro, que é bom e seguro. Na maior largura tem este 
rio uns 8 a 10 kilometros e na menor 3, tendo de extensão até á barra 55. 

Perto de duzentas embarcações miúdas constituem a marinha do rio, 
e são empregadas em serviço da população, na carga e descarga dos na- 
vios e na pesca dentro da barra. 

dístricto de Inhambane é sem contestação o melhor e o mais agradá- 
vel da provincia. Não se toma notável somente pelo seu excellente rio; 
a belleza das margens e terras altas que se avistam constituem um pano- 
rama digno de se admirar. 

Distinguem-se as palmeiras de elevada altura, entre os cajueiros, 
mangueiras, mafureiros, frondosos tamarindeiros e outras arvores. As po- 
voações dos pretos e os sombreiros ^ que se descobrem por entre este 
immenso arvoredo e no meio das terras cultivadas e cheias de vegeta- 
ção, surprebendem e encantam o viajante, que pela primeira vez entra 
n'aquelle porto. 

A villa de Inhambane divide-se em quatro bairros : Balane, ondç ha- 
bitam os mouros; Ghivatune, bairro commercial; Tembene e Chalambe 
menos povoados, mas muito píttorescos. As ruas d'estes dois bairros são 
extensas e regulares, e acham-se guarnecidas de fructiferas e frondosas 
arvores, que lhes dão sombra e frescura. Habitam ali perto de quatro- 
centas famílias, brancas e de côr, gente civilisada que segue differentes 
religiões : christãos, mouros, parse^, baneanes e gentios. 

Tem cerca de duzentas casas, algumas mal construídas; conlam-se 
porém bastantes cobertas de telha, e que se podem considerar regula- 
res. São innumeras as palhotas ou habitações dos pretos libertos e famí- 
lias pobres. 

A villa fica á beiramar do lado esquerdo do rio, em terreno baixo, 
arenoso e de forma irregular. É vasta a sua área, em consequência das 
casas terem espaçosos quintaes. 

Quando se olha do mar para a villa descobre-se uma linda perspe- 
ctiva, havendo alguns edificios que se distinguem das outras habitações, 
entre elles a igreja matriz, sobresaíndo a sua torre quadrada com seu terra- 

1 Tudo isto se evitará logoque haja um pequeno vapor de reboque. 

2 Chamam-se assim as casas de campo que pertencem aos habitantes da villa. 



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ço, elevada a iS^.iO acima do soloS d^onde se avistam parte do dístricto, 
a barra, grande extensão de mar, a praça com exceliente largo arborisa- 
do', a alfandega, a mesquita dos mouros, as casas de commercio na* 
cionaes e estrangeiras, sendo mais saliente a do abastado cidadio José de 
Sousa Teixeira, a qual flca no principio da villa, com a Trente para o rio, 
em um ponto bastante elevado. 

O desembarque é fácil, e feito em uma boa ponte ' de madeira e três 
caes^ de pedra, que d3o muita commodidade aos passageiros, facilitando 
lambem as caibas e descargas dos navios. 

Nao tem a villa nascentes de boa agua ; ha apenas alguns poços de 
agua salobra que serve só para lavagens. De uma grande e proftmda 
lagoa denominada Chivanme, a I kilometro da villa, perto de Santarém, 
é que a povoação se fornece de agua para beber e cozinhar. É boa, mas 
não deve ser tirada directamente: abrem*se pequenas cacimbas nas suas 
proximidades, e ali apparece agua capaz de se beber. 

Os naturaes, tanto christãos como mouros, são muito hospitaleiros e 
amigos de obsequiar todos os que ali aportam, quer sejam europeus quer 
asiáticos. 

Este povo foi em tempo muito turbulento, o que era devido em parte 
a alguns excessos das auctoridades ; boje é, porém, sem contestação, 
o mais socegado da provinda, respeitador das leis, e seus costumes são 
morigerados. 

As famílias de distincção do paiz são todas descendentes de europeus 
ou asiáticos. Alguns empregados públicos e bastantes oiliciaes europeus 
toem ali casado, de forma que é n'aquelle districto onde a raça branca se 
acha mais desenvolvida e apurada. Pôde dizer-se em geral que os euro- 
peus se dão bem n'este paiz. 



1 Esta igreja foi reconstruída e angmentaâa durante o governo do tenente da 
provincia, J. E. Ribeiro, segundo risco sen e debaixo da sua direeçio. Gastou réis 
6:332|ii76, sendo 5:557f|155 réis de donativos dos moradores (em operários a ma« 
teriaes). Levou esta obra a fkzer dois annos e quatro meies, teve principio em 
31 de julho de i864 e terminou em S5 de novembro de 1867. Passa por ser a me- 
lhor igreja da provincia (Boletim ofíkial da provincia n.^" 38 de 19 de setembro de 
1868). Yeja-se a estampa ^reja de Noisa Senhora da Qmceiçõo, em ínhambane, e 
parte da praça (Baluarte de S. BodrigoJ. 

2 Útil melhoramento do governador Interino Germano Augusto da Silva, ofll- 
ciâl de marinha, que durante o seu governo também cuidou do edifieío da aUmdegi. 

3 Foi principiada em 1871 por iniciativa do referido governador interino Ger- 
mano, continuada pelo govmnaâor J. E. Ribeiro, e eonduída em 1875, pelo gover- 
nador Magalhães Alvio. 

^ Dois d'estes cães foram mandados fazer pelo governador Ribeiro e o terceiro 
pelos governadores que lhe succederam. 



De toda a província de Moçambique é lahaiabaAe o (li8ti:iQ|ft dJoade 
n'e8tes ultímod anãos tèem vindo mais estodantos para recetMiiai a spa 
ednca^ Htteraria em Lisboa. Alguns cavalbeiros « soas iamilwa também 
se tèem dírij^o para a Europa com o fim de vi^ e cUf visitar a pátria 
dos sens ascendentes. 

Os habitantes s3o dados ao commercio» deixando a afriolltoiA i|wsi 
eidnsivamente entregue aos pretos. 

Existem em Inhambaoe os melhores officiaes de ledMírOi. caq)iii\tewQ» 
calafate e ferreiro ; alguns maus alfaiates, ourives e sapateiros^ e^erMm 
aN tmbem os seus ofli^ios. 
IMos os operários s3o Ubertos. 

Mo tem Inhambane senão uma iadiustria de maior iimnrUi»Cia>.qittfté 
o Mbrico de enxadas^ para o eommercio^ do sertãA> chegando acoosumir^se 
em cada anno 150:000 a 200:000 kilograrnsMig d# ferro. 

As embarcações existentes na viUa, 4 ei:ceiisift de meia iimk if^ ca- 
noas, também s3o construídas, pelos carpinteiros do im e com ^ niadei- 
ras do districto. 

Fabrica-se telha, panellas, talhas e outros objectos de barro verm^bo,: 
velas de cera, ferragens grossas pata casas e embarcaçoesi. havendo ai- 
guis pretos bons serraliíeiros, que falsem toda a qualidade de concer^s 
na fl^eharia das espingardas. 

Os carpinteiros também podi«im fazer obras finas, e sobretudano-vei^ 
dls encritentes madeiras que ali téem; porém CaUao^lhes mestres e oflS- 
ciaes eoropeiB cpie risquem e dirijam os tcabalhoSf 

Ao S. da villa. 350 metros, em iwa ponto, elevado, está assMiie a oít 
mítmo municipal, bem cuidado, com a sua capella e um guarcU qpe. 
trata de tudo : deDomina-se cemitério de S. João. 

Ao lado d'este fica o forte de S. João da Boa Vista. No bairro de Ba- 

l^lffi^ ajuste ima capeUioha da invocação de Sajita Cruz, construída e sus- 

teiladft pela gente de Qoa» comrim, que t^omam muito interesse peias 

féelis de i^a. Todos os annos, no dia 3 de maiQ, se festiyaaestaciapeila 

iUvenç9o de Santa €ruz. 

C^QQuros téem o seu cemitério próximo do bairro de Baftinew 



1 Bnxadfts (espeeíficadAs na panta das alfiyidega3 oemei ^wíAnic^ landínas)^ 
senrmi para o commefeío oom o sertão unicamente como OBoaiJa^ 4i}giNMas4a4w- 
mandiadas pelos pretos para o fakríco das soas amas, e para leaníMiaB e arame 
com que enfeitam o cabo das machadas de guerra e as aag^iaa» 

A enxada pesa approximadamente 1:400 grammas; tem. Witeeliniat9Mlid%|ir 
tora e fS a Wtí% sna maiop largnra^ 6 o senvaJor no meicadf^.4 dl|:90Í^4Af>iéís. 
Cada 15 kilogrammas de ferro prodaz dez enxadas. 



tm», Ml um piefieMr eaapov « ^m ekunan 9 sm eenitano. 

O districto de Inhambane (terceiro dístricto militar) é governado por 
um ofl^fiial mpiUr com 9S «ttribQíçõe? administrativas que a lei marca. 
Constitae um concelho con^ p^a mm fregoezia, e ba pooeo foi creada 

MÊ WÊÊtÊftOÊÊÊÊ/nííK 

o batalhão de caçadores n.^ 3 tem o seu quarMeM latambaoe, afiiMH 
d(M0 alo|3do dentro ãsí praçãif^, em péssimas casemas» cpe de certo 
Ide ibeg^Uf» para q batalliS^» se ésfe n$Q tivesse mais de metade da soa 
fbffa Jtestagada e» Lmtws^ Maff^iKasy Cbíloaoe, Soialla e (azaraU) para 
oftde ià gW ÊÊ nàfi f^. 

Ao facultativo de i.^ fltm» mmprt kmc d seiptif» d« imm e n ferma 
ria míRtár ; a ambotandá esfá f cargo^ do p&ansmeeotíco. 

Umqi cfek^çSo €(a jimta cia fazenda^ presidida pelo governador do 
díBUrkti^ aAim»ia>>aww»i tow l c » » puMfc^ os pcoveniantes dos 

direitos da alfandega, decima predial» industrial, direitos de transmisste, 
séBO' de wrMy trtMMGK^ da^ ftrrff9, ef6^. 

Ao ^veroadfor do dfetricfo feor estado eiUtegae a direcção dás obra» 
piiWicat^ ma qqae& se empregam os cKreltos de S e { Vs por cento ad v€h 

O di9lviel9 ck liiha«ilMn»r eamywhcMto aa tenras aítiKidaa antr» 
caba de 9. Sd!»3tí^ ar #7^ is hafitfed^ N. e (^ rio Inhamparí, fec èe^ rio 
Oiro, ou Limpopo (^, tendo governador auctòridade sobre (piarenca 
regirioa e seasaata caibio» Owiew)& potferosQs que os régulos), que habitam 



A popBtaçi» pMé eale«lay<>9t: appro«ímadamente em t30:00& a^ 
mas. 

Pbr tom eslâfístTca feita em rd63r se vé que as terras de Inhambane 
ecmtt hahjit4Aafi par l\M^ almís^ com. 3Í:7âft fogos. 

Os régulos, em tempo de guerra, podem fornecer 20:000 homeas ar- 
maidos erai^ áMterenlfe^ amae-. 



1^ Em IhRambane ha oa^ segtifni^ empregaáíis' saMdf ado» pelo estado : 
Me efe cKreito^ defegadi» e' cfof» eserMer;^ dk««lbf da alftadena, um efNsFMn, 
nm porteiro» dois guardas demuKro' e o»pMetoe» sapNnniiienriee, um liwun 
reivo almoxaarife e escrMo dlsf dUbgaçiD; mii' paroeho^e um^saerisâa; im oirar- 
gflb db 2.* d!»se; mii^pliQrtiiaceiHleo; e-mn-prol^ssor deinstrao^ prlnarta. 

^ !faò se lhe pódb dhr o nome de jmiça. 6 antes um^fracafoitiflêação, moto 
mal artKhaâSi e com péssimos e insaluhBes- quartéis ; a' artUheria ó de (erro e eiav 
quasl 1Ddá:8peaâiit Cféjam«-se os relatórios pnhNcados em difl^rentes RoUHhim d» 
pTovtiicia.)j 



292 

O governo manda de tempos a tonpos fazer banja^, a fim de fumar 
(investir no poder) os herdeiros dos régulos qae tenham morrido, oavir 



1 O sr. E. de Faria no seu diceionarío diz— Boií/a— aldeia de eafres Junto a 
Inhambane. Não existe aldeia com tal denominação. 

Banja, na accepçao da palavra, quer dizer festa em que haja grande oomesana, 
e ó palavra da lingua bitonga. 

A reunião dos régulos e cabos chama-se também bcmjíi. Esta reunião é impo- 
nente, e eflectoa-se com o seguinte ceremonial. Trinta dias (uma lua) antes d'aqoelle 
que o governador do distrícto marea para a ceremonia da banja, são convidados 
os régulos e cabos sujeitos á corda, para comparecerem á grande reunião, que sem- 
pre tem logar no largo da praça, em nm immenso barracão construído para esse 
fim, e que pôde acconmiodar de duas a três mil pessoas. 

O convite é feito pelos empregados das ferras^ que entregam ao convidado, da 
parte do governo, um cartucho de pimenta da índia, um ou dois pannos de loupa^ 
segundo a sua categoria, mna tira de panno branco (touca), um qoissambe (dois 
lenços) para a mulher, uma faca, duas garrafas de aguardente e uma caneca de 
louça. 

O governador prepara-se durante este tempo para receber os régulos, e manda 
l!azer o seguinte : oito ou dez pipas de pambe (bebida fermentada, feita de cereaes, 
uma espécie de cerveja sem ser depurada), descascar 600 a 700 kilogrammas de 
arroz e igual porção de milho e mexoeira, armazenar oito ou dez barris de aguar- 
dente de canna, e ter á mão três ou quatro bois, a fim de poder sustentar suas al- 
tezas e suas comitivas, nos três dias que se demoram na grande reunião. 

Dois dias antes d'esta se realisar, dão-se na praça dois tiros de peça. O regulo da 
YiUa Tembe toca logo o seu batuque de guerra, toque que é repetido por todos os 
régulos, de forma que rapidamente se sabe em todo o território que a banja vae 
ter logar. Em tempo de guerra também é por este meio que se reúnem os pretos 
para a defeza do paiz. Os régulos são recebidos pelo governador, por todas as au- 
ctorídades civis e militares e pela força armada, que lhes faz todas as honras mili- 
tares, salvando a praça com vinte e um tiros. O local da recepção está sempre bem 
decorado e esteirado. O retrato do monarcha portuguez, coUocado no logar princi- 
pal, no centro de bandeiras e trophéus, é o que chama mais a attenção dos régulos, 
que se admiram de nós respeitarmos e fazermos respeitar o Rei, estando este tão 
distante. 

O governador, a camará, offlciaes militares, auctorídades e moradores de dis- 
tincção tomam os togares que lhes estão destinados. Os régulos e cabos tomam assento 
no chão, em esteiras, menos o regulo Cumbana que se assenta no collo de duas mu- 
lheres; os ministros, as mulheres dos régulos e os seus mezinheiros (médicos) fi- 
cam pela parte de trás doestes; o povo que pôde ter ingresso na barraca dá-se por 
muito feliz, e assenta-se no chão. De pé, no largo, conserva-se sempre uma im- 
mensidade de povo, que tem acompanhado os régulos. 

O governador dá principio á banja fazendo uma allocução aos régulos, em que 
lhes faz saber o fim da reunião, recommendando-lhes que sejam justiceiros e huma- 
nos para com os seus povos, não os escravisando, nem permittindo que alguém 
queira escravisar os seus filhos; que nas guerras não matem os prisioneiros, que 
devem ser bem tratados e entregues no fim da lucta; que sejam sempre obedioites 
ao governo, e que não consintam inimigos nas nossas terras fmafrtUesJ; que tratem 



293 



as suas queixas contra as aoctorídades das terras, decidir-lbes as ques- 
tões de reinados e limites, e finalmente fazer-lhes de novo prestar preito 



bem os estrangeiros qae por ali passem; que não roubem os náufragos, antes os 
recolham e tragam logo à villa; que sejam pontuaes em pagar os tributos ao esta- 
do; que em tempo de guerra corram com a sua gente em defeza do districto; que 
n'esta occasião apresentem todas as suas queixas e miUmdos (questões), para lhes 
serem decididas e julgadas pela maioria dos régulos; e finalmente que prestem 
preito e homenagem ao Rei reinante (o que elles fazem). 

Em seguida apresentam as offertas que trazem, que consistem em productos 
das terras, cera, mel, arroz e mantimentos. Os régulos landins ofTerecem algum pe- 
queno dente de marfim, e outros apresentam cabritos, gailinhas, esteiras, etc., etc., 
sendo tudo logo receitado á fazenda publica pelo tbesoureiro almoxarife da mesma 
fazenda, que assiste a este acto, em logar distincto, e com os livros de receila pu- 
blica. 

No fim da banja todos os presentes são vendidos em leilão, e o seu producto é 
applícado ás despezas da festa, não chegando geralmente nem para o arroz. O ca- 
pitão mór ou commandante das terras (que tem a graduação e honras de coronel), 
é quem serve de interprete entre o governador e os régulos. 

São distribuídas aos régulos cabaias, barretes, bastões, cintas, pannos e toalhas, 
que as vestem logo por dma dos antigos fatos. A cabaia é um fato amplo como 
uma camisa de mulher, feito de panno vermelho e avivado de amarello ou galão 
de lã. Os barretes são da mesma fazenda e do feitio de umas mitras de bispo, todos 
agaloados. Só aos régulos compete cabaia, barrete e bastão. Aos cabos distribuem- 
se pannos brancos, que elles vestem, cingindo-os aos rins. 

N'este primeiro dia de banja trata-se da questão de reinados vagos. São chama- 
dos os regentes, e estes é que indicam o individuo que deve succeder ao regulo 
morto. O regente é quasi sempre o filho mais velho do regulo, nomeado pelo go- 
vernador; o herdeiro da coroa é o sobrinho : entre estes ha sempre contestação, 
que é decidida pelos régulos, por maioria. O individuo declarado successor do re- 
gulo fallecido é logo investido do poder, entregando-lhe o governador a cabaia, 
cinta, bastão e barrete. No acto da imposição do barrete, é disparado um tiro de 
peça, e o povo solta os seus gritos em ar de acclamação. O regente retira-se, cedendo 
o logar ao novo regulo. Assim se pratica com todos os regulatos que na occasião 
téem regentes. N^este districto existe a lei salica, as mulheres não governam. Em 
Lourenço Marques dá-se o contrario. Depois de investidos os régulos no poder, 
serve-se-lhes o jantar, que consiste em grandes pedaços de carne de vacca cozida 
com arroE, para os régulos, e com milho, para os cabos; havendo só um cabo, que 
por distincção, e em consequência de qualquer importante serviço que fez ao governo^ 
come arroz ; distincção esta que é muito ambicionada pelos outros cabos, mas que não 
se lhes dá para não offender suas altezas. A comida, que é muito apimentada e cheia 
de assafrão, é servida em grandes pratos que vêem da índia, e a que chamam pton- 
ganas. Os régulos apenas tocam na comida por delicadeza. Os ministros lançam 
logo mão d*e]la, recolhendo-a em um sacco de pelle de cabrito, tomam também a 
aguardente que lhes é servida em garrafas, e levam tudo para a casa onde o seu 
regulo está hospedado. 

O governador, depois d'este banquete, levanta-se e despede os régulos, convidan- 
do-os a comparecerem no dia seguinte para o julgamento das causas e ouvir as qud- 



Ml 



e ymmiÊgom m mdimxiiá fúhagiaa^ o fae «Um iemim iNiem gosto- 
sos, ch^aodo alguDS a pedir pira pôr u mios sotire t Mgm éò Bl-Reí, 
que sempre n'estes actos está collocada em logar conveniente. 

Os régulos mais poderosos do districto s|o Mata e Matapíssa (biton- 
gas) ao N. ; Inguana» Qwguerr^ a Zimguzi (landins) ao NO. ; Blacuaiba 
(biàdin) e Mucombi (nMndoBgue) ao NO.; m S. o riBguk) mais wportante 
áqaem do PoeteHa^, o QmíbiBa, ê «iem o iOiWêk^ Mato piíderoto e ha 
pouco tettpo sujeito defMttvámente á eófõa. 

Dívidem-se estes povos em quatro raças dlstinctàs: bitongas, burron- 
goeiras^ nindiíMigues e iaudins. São polyganios, não têem religi&o, mas 
reconhecem om ente supremo, a ifmm. m sua lingut chamam Nuguo- 
guio, que em português quer dizer, o maior sobre todos. 

Usam differentes armas, arco t flecha, espingiurda e zagaia. 

Pagam tributos ao estado m serviços pessoaes, mantimentos cafi*caes, 
obras de palma, esteiras» aLcoJCaSf saccos de palba^ etCr 

Os rios mais ímportairies do districto sio PoeleUa (?}, Inbampon e 
Cobane ao S., o Manharra e Bembe a O», Muirumbeoé e Msogi t NK. 

Alem doestes rios ha alguns riachos e la|oas mais pequenas. Os po- 
vos vassallos da coroa, excepmaodo os mít)aoiti|:és, que Úú muito des- 
coofiados e ladrOes, respeitam os brancos, âiyeitam-se quasi todos aos 
trabalhos agrícolas, por pequenos salários. Pres(am*se ao serviço de cir* 



I 



xfes e reGianações que lhe pretenâam faser. tíê ragnliM retin»-se logo» e è m\ 
mooMmto que os seus minietrM lhe qneieiii 4ar cravas de alfeeley diipotaiide a 
primária de servir de eavallo lo aau ragnle, ipreeãrtattd<i4he o esifcaço pam Mt 
aitecâ montar. Este aeeeita o mlaistro qoe Uie ias mêiã a geilo^ paim «ia cmr 
amiila^^ a dasinteUigendaa «o nkiittcrio. 

É realmenle eorioso ver oadio es mieiMrDs eorrem eom oi ases recnlaf éseos- 
Cãs, pelo laeio do povo, que fac «ma griuría infernal, acnaeeado a bolha doe lam- 
beras, marimbas e |Milfi|paíaf (eonieta de etaifVe de bairiá), nrasiea harbara, da ^fua 
qnasi todos os regalos ee feaem acompanhar. 

Em todos os pontos da vttia ee tentem ee batmqttse. Os reguk» aiobemraeBbi- 
dM e moilo obsequiados peias babHantes, oom quen estie em mais oe meBee ra- 
tafSes. A casa do capitie mór é a mais frequentada, por ser aK qna eiialB o da- 
pestto das bebidas, que os prelos muito apredam. 

No fim do lereeiro dia deqiedem-se os regoloe, que recolhem áe suas Isms sem- 
pre satisfeitos e eheios de reconhecimento pela forma eoSM feram por todos reoa- 
bidos. 

A ultima banja que teve logar em Inhambane foi no gov^no do teaente Mo 
Edeardo Ribeiro^ em 31 de outubro de ises, sendo governador geral da pravlaela 
o conselheiro António do Canto e Castro. 

i Denomina-se assim uma grande lagoa ou rio, que ainda nio lòi eiplorada. 
s Para mais desenvolvidas informações, v^-se o Boletm BffieM deUsfaSibi- 
que, B."» Si de i8Sa, mappa de eomatando das terras. 



regadores, aeompanliMiik) od negociantes que vio ao setiãot^eommer- 
á» rái ttialfitt, traDSpòrtando4hes as mercadoHas, por uma certa e de- 
terminada paga, ajustada entre si, sendo este por emquanto o único meio 
de trafnsporte qpie ha, por fliita de estradas con\'enientes por onde livre- 
mente possam transitar carros. 

A cultura do amendoim (ginguba), da borracha, do arroz» da cera « 
dos mantimentos cafreaes, a caça aos macacos, dmbas, búfalos e outros 
animaes, para alcançar as suais pelles^ asi^ como a caça aò elepbaaite^ é 
occupação exclusiva dos negros, que sao ainda os únicos agricultores e 
caçadores do districto. 

Todas as questões entre os pretos sio julgadas segundo os seus usas 
e costumes, de que se formou um código muito curioso. 

Os régulos s3o juizes de primeira instancia, ficando ás partes o direito 
de appdlaçio para o capitão mór das terras (empregado nomeado pelo 
governo que superintende nos negócios cafreaes), que julga em segMdâ 
instancia, havendo ainda direito de appellaçio para ojuramenio de HHm* 
ou juizo de Deus. 



1 Juramento do mavi, forma e c^raraonia/. — Estando as partes lítígantes étm 
MOS defensores e pessoas de íámilia, na presença do capitão mór, manda este (te- 
mar o ctuikecmheiro (mezfnheiro, adivinho) e o f ax recolher a uma palhota, oirfle 
^nbaneee inoemmonieavel por espaço de doze horas, pelo menos, seaáo guardado 
á vista pelos parentes ou pessoas do confiança de uma e outra parte, a fim de qae 
nao possa ser subornado. 

Entretanto o capitão mór faz convocar os régulos vizinhos c a sua gente, para 
presenciar o julgamento. Depois de apparecer numero sufiiciente de régulos, são 
diâmados os litigantes, qoe s%o nhrSgados a prometter snjeiçSo á decislo, deposftando 
n*este acto uma determinada quantia, como multa, ou antes imposto de lieei^ 
para a feitenda publica (81000 a lOMOO réis), a pagar a Importância dos emolu- 
mentos dos empregados das terras, a pagar ao cuchecucheiro, e finalmente a de- 
positar a importância combinada, que deve receber, como índemnisa^, o que fi- 
car absolvido. 

Satisfeitos estes encargos dá-se principio á ceremonia pela seguinte maneira: 
Porma-se um grande circulo de povo, collocam-se no centro os litigantes, que téem 
sempre ao pé de si os padrinhos (parentes). Apresenta-se em seguida O eudMU^ 
cheiro, sempre guardadora vista, e depois do ter prontmciado uma curta ai^aiÉ, 
peáe a eada uma das partes uma manilha de metal, que estes costtunam Iraier M 
braço como adorno, e as guarda sem cm'emonia, entregando em troca, a eada ilill^ 
uma galiinha, que toma das mãos do capitão mór, que assiste, com o sen estariíÉi^ á 
este aeto. Em seguida applica ás gallinhas uma certa dose de veneno, que de 
anteniSo se prepara e é feito do sueco de plantas só conhecidas dos negros. Aura ilil<* 
nistrar o veneno lança mão de uma folha de arvore, que dobra em fónna àé fbttR, 
e qm lhe serve para o medir e introduzir no bico. 

Os litigantes e os espectadores, no maior silencio e com a maior andedtde^ es> 
peram o resultado, que se não faz demorar. 



396 

As questões para julgamento que se apresentam com mais frequên- 
cia entre estes povos referem-se a direitos de caça, a terras, adultérios, 
feitiços, ferimentos e poucos casos de morte. 

Em geral todos os pretos são apaixonados da bebida, e para satisfa- 
zer a este vicio fabricam aguardente de palmeira, de ananaz, de laranja, 
de caju, de fructas silvestres, de quasi todos os cereaes, e até de raiz de 
mandioca ; com duas panellas de barro e um cano de espingarda ou 
um bambu furado, improvisam um alambique, que satisfaz perfeita- 
mente. 

Tanto os pretos como as pretas cheiram rapé, fabricado por et- 
les de nícociana, que se dá ali perfeitamente. Muitos fumam o tofi- 
guef semente do linho cânhamo, e quando o usam em excesso embría- 
gam*se. 

Fabricam os utensílios de que carecem para seu uso domestico, ha- 
vendo entre elles alguns muito industriosos, bons ferreiros, ourives e 
fundidores de cobre, juntando a este o estanho para o fabrico das mani- 
lhas. 

Os mindongues excedem n'este ponto todas as outras raças, e não se 
limitam, como o geral dos cafres, a fabricar unicamente para seu uso ; 
bzem grande commercio com os productos da sua industria, que consiste 
especialmente em gamellas de madeira, colheres, pilões, quietos ou chi- 
nindus, supôs de palha, esteiras, flo de piteira para redes, cordas de 



k 



No lim de dez ou doze minutos, uma das galiiokias morre, o vencedor oleva en- 
tão a sua galiinba sobre a cabeça, a fim de que todos a vejam viva e reconheçam 
a sua innocencia. Gomo é de prever esta galiinba poucos minutos sobrevive á 
outra. 

Todos os cireumstantes soltam grandes gritos, e acompanham o vencedor em 
trinmpho!! 

O vencido trata de desapparecer, a líui de nào ser insultado, sendo preciso 
muitas vezes recorrer á protecção do capitão mór, porque tendo sido a questão de 
feitiço, por exemplo, o desgraçado corre risco de ser morto pelos outros negros! 
Em 1852 ou 1853 o governador Pinbo mandou dar mavi a ims negros da povoa- 
ção de Murrumbeni, accusados pelo regulo de feiticeiros, e permittiu que estes des- 
graçados tomassem o veneno, de forma que morreram alguns. D'essa epocha em 
diante não se permittiu mais tal barbaridade. 

Consentiu-se que houvesse o juramento do mavi, mas determinou-se que o ve- 
neno fosse applicado ás gallinhas. Não era possível banir de repente este usa Im- 
poz-se uma multa, para o estado, aos pretos que quizessem praticar este juramento, 
com o fim único de o difficultar. Esta medida tem sortido bons eíTeitos. Os pretos 
ji raras vezes se apresentam a pedir que as suas pendências sejam julgadas por 
similhante forma. 



»7 

casca de arvores, inpuítis^, ingidas^ quitundns e maílos oatros obje- 
ctos que os outros pretos e os brancos precisam para seu uso domes- 
tico. 

Em tempos de lavoura não apparecem os mindongues; feita esta, 
inincipiam a entrar na viila em caravanas de cem e duzentos, carregados 
dos productos da sua industria, trazendo também ao mercado muita cera, 
mel, mendobi, milhares de gallinhas e centos de carneiros e cabritos, de 
forma que abastessem a villa. Differentes partidas d'esta gente percor- 
rem as terras da coroa, negociando com os outros negros. 

A distancia a que ficam as terras dos mindongues, o génio descon- 
fiado doesta raça e a sua predilecção pelo roubo, faz com que poucos bran- 
cos vão ali negociar; e por isso elles se vêem forçados a vir procurar a 
venda dos seus productos. São sem duvida as terras dos mindongues as 
mais ferieis do districto de Inhambane. Os terrenos são magnificos, cor- 
tados por vários rios com margens muito férteis, e que se podem apro- 
veitar para todo o género de cultura ^. 

Proporcionadas boas habitações, boa alimentação, soccorros médicos 
e boa escolha de local, qualquer colónia se pôde estabelecer n'este dis- 
tricto, sem receio que deixe de vingar, de prosperar e desenvolver-se, 
porque n'este paiz é, sem contestação, onde a agricultura pôde ter o maior 
desenvolvimento, sem perigo de vida dos colonos. 

O governo deve auxiliar qualquer colónia que ali se queira estabele- 
cer, ministrando-lbe tudo quanto lhe seja preciso nos primeiros tempos, 
para sua estabilidade e segurança pessoal e dos seus estabelecimentos que, 
aindaque montados em território sujeito á coroa, não estão isentos de uma 
aggressão dos negros vizinhos. 

A população preta sujeita é pela maior parte agrícola^ com especiali- 
dade os bitongas, burrongas e mindongues. Os landins são guerreiros, 
sem comtudo deixarem de se empregar na agricultura. 

A canua do assucar, o algodão, o café e o anil dão-sc perfeitamente. 



1 O imputo è extrabido do entre-casco do imputeiro. Serve para vestuário dos 
prelos e para differentes usos; tem geralmente 2 metros do comprimento e 1",5 
de largura, parecendo um panno tecido. Só depois de aoalysado é que se percebe que 
c cntre-casco de arvore, estendido por um processo usado por elles. Deve este pro- 
ducto servir para o fabrico de papel, assim como a casca de muitas outras arvo- 
res, com especialidade a do inbundeiro ou mulambeira. 

2 Ingula é um grande cesto de amplo bojo, com a boca estreita, feito de palha 
e vime, que serve para guardar os mantimentos, havendo alguns que levam ap- 
proilmadamente 1:400 litros. Tem a conflguração de uma pipa. 

3 Só consta haver ali uma mina de cobre nas terras invadidas pelo regulo Maun- 
ja, que não é explorada, por elle não o permittir. Fica a três dias para O. da villa. 



k 



MMio â estas cutaras ^ m éevia dv OMitor «ttncio, pan • ctosaovol- 
râMoto • prosperidade da provmda. 

O cidadão Jo3o Loforle, morador de Inhambaoe, foi o nnico que em 
11164 Ibi uma ptaetaçio de €«iim> eom seaeete riada de Boorboo^ e nio 
pedando fabriear easucar, fei ISO barris (12:800 litros) de aguardaste de 
eioeUeiile qoalidMte, qw vendeu a 18($000 r^s o barril para cmainae 
do pak, exportando apenas algims barris para Lourenço Marques. Depois 
d'eaaa epooba seaspre «ah eu neoos se fabrica aguardeMe de canna. 

A cultura do algodio e caft ó também feita em pequena estria. 

O algodio é da ndbor qualidade ; já veiu ao mercado de lisboa 
e M ao de Inglaterra. Bm um e outro foi bem classificado e obteve bom 
preço. 

O café é de superior qualidade, mas muito pouco conhecido na Eu- 
ropa, porque Iode o que se colhe é para consumo do paiz. NoIdosso mu^ 
seu ttíkxsM se podem admirar algumas amostras d'este producto. 

Do anil nuoca ninguém curou ; nasce e ciesce em toda a partOi arran- 
eando-ee como plania kiutM^ para em seu logar semear milho ou mexoeira ! 

Da porgueira e do ^rrapateiro ninguém faz caso. A purgueira serve 
apenas para guarnecer es qnmtaes, appUcando^e como sebes divisórias 
dk» terrenos. 

Muitos terrenos s3o também pfopríos para vinha ; algumas parreiras 
de dva ferral que ali ba, quando tratadas convenientemente, produzem 
naigoiftM)s e saborosos cachos, com a circumstancia de dar a videira bih 
do duas veses no anno. 

Os legumes e hortaliças dãose tSo bem ou melhor que na Europa, 
com especialidade nos terrenos do N., denominados Burronga, onde no 
tempo do (Ho é eate ati tio intenso que algumas vezes se apresenta e solo 
fendido e com umá crusta gelada, n3o podendo começar^se os trabahos 
agrícolas senão depois das nove horas^ que é quando o sol principia a der- 
reter o gelo. Para as hortaliças produzirem melhor é preciso importar an* 
nualmente as sementes da Europa, porque, em geral, as que ali se co- 
lhem não são boas no primeiro unno e no segundo degeneram comple- 
tamente. 

Certa qualidade de couves, e com especialidade o repolho, repro- 
duz-se por estaca e produz assim muito bem '. 

Produz o distrícto borracha, mendobi (ginguba), arroz (a meiher 
qualidade da provincia), cera, milho fino e grosso, mexoeira, gergrite, 



1 Chama-se estaca aos rebentões que se dâo no pé do repolho, depefs de ae ler 
aertado este; em atlingindo um certo tamanho separam-se do pé, e&terram*ae e, em 
futtro ou ciaeo dias d^tam raises, faaendo-se em pouco tempo exeePenies repelíeis 



«pn, coeoi, amUiiM 4e iobantalk^ «aferi (sebo ^^egetal), anitè de 
wmtiãM, caDoa de aMicar, âlgodio, oák, mA, tamaraido, mandioca, 1»- 
ra^ja, teSo, ftangis, o^k t piíMiU enoirnada; dio^se beKilitNnBiiin Aa 
odomercío» aplaoUdo«iiíltqaeéeapottaD6a»eabataUdooedaE«ropa; 
(an Meelkfites madeiras para coDSUuocões tivis e oavaes^ iegumea éè 
lodM as qualidades, e hortaliças, €Oibo ji se disse. A aaaior parte doestes 
produetos exporUm-se em grande escala» bem como muito marfim» p^ 
les de maeaco e dmba (^ra os zulu^ e basiuites couros de bofidot, 
ODgoDba, zebra, algumas pelt^ de carneiro e cabrito e bastantes cos- 
roedeboi. Tem-se também exportado aguardente de canoa, de càjà e de 
palmeira; a maior p«te, porém, d'esl6s líquidos consone-se no dis^ 
trícto. 

Inbambane importa os mesmos géneros que Quelimane e ouiros por* 
tos, com pequena differeofa na oomeadaiQra. 

• 

Bohiã de Lourenço Har quês K —Qiismdo mar iargo demanda a bahía 
de Lovenço Marques, a que os iagiezes diamam Delagoa Bay, acbando-ee 
coHocado no ponto central que forma a sua boca ou embocadura, arista 
do lado do S. a ilba da Unlúca ott lobaca» e do N. a costa Gaianga juMo 
á entrada do no da Magaia, a que os ioglezes denominam King's George 
Ri ver, e nós Manhiça. 

A extensão d'esta embocadura é de i(0 kilom^ros. A barra começa 
no cabo da Inhaca e ilha dos El^bantes, a qual se estende O a 6 kilo« 
metros em um banco de areia e alguma pedra, banco a que se dá o nomft 
de Cockburn, e que não offercce passagem a navios. 

^ As infunnações que pubMeámos áeeraa d*este (Ustricto foram-nos dadas pela 
sr. FraueisQO dos Santos, muito conbecedor da província de Moçambique, aode se 
demorou por mezes successivos. 

O sr. Francisco dos Santos teve occasiâo de observar bastantes logares dá òos- 
ta, percorrer muitos rios, apreciar a fmpottdnda dè dtdá uma das èttêtánèB 
kMuJidadss dà província de MoçamtMqne e estadar és eostmes dos Meus hiM* 
tmâêiy adquirindo ali tao vastos conhecimentos commerciaes qua sem receio se pôde 
dizer que é dos homens que mais sabe com respeito á província de Moçambique, 
gosando por isso de uma reputação bem merecida. 

Foi pela primeira vez à esta província em 18S6, como offlcial de marinha mer- 
cante, encarregado dos negócios do navio. 

Tisitou n'esse anno a bahia de Lourenço Marques, Inhambane, Quétimaiw é 
Moçambique. Voltou em seguida a Lisboa, mas foi pouco demorada a sua estada 
aqui. 

O distrícto de Lourenço Marques é o que Oca mais ao S. na província de Moçam- 
bique, e ó por ali também que nós devemos entrar para chegar ao coração da 
Africa eediral, recebendo os europeus que desejem estabeiecer-se no nosso terri- 
tório. 



% 



300 

Para o N. ha os Ires bancos princípaes chamados Hope, Domett e Gul- 
field Fiat, com tortuosos mas bons canaes. Tem uiâa profundidade nunca 
inferior a S^^^S na baíxamar das marés grandes. Nos dois primeiros 
bancos varia o fundo de 6 a 10 metros, porém a 926 metros para NO. 
do Hope, differença-se a agua clara n'uma pequena extensão que não tem 
mais de 5 metros, tudo na baiiamar das referidas marés. O Gulfieid 
Fiat, que fica mais para o N., é o mais baixo, pois tem unicamente 7 
metros n'uma extensSo de 5^,5 NViNE e SViSO., deixando ver um canal 
superior a 2 kilometros entre a extremidade N. e a^rra baixa que se es* 
tende da costa ; não tem menos de 19'",8 de profundidade, e é sem du- 
vida o melhor e talvez o único livre de perigo para os navios de maior 
lotação, vistoque ainda não ha bóias para marcar os outros canaes. Gul- 
fieid Fiat é geralmente conhecido pela cõr da agua. 

Nâo obstante a profundidade mencionada, o mar rebenta em toda esta 
extensão quando o vento sopra rijo do quadrante SO., mas não impede 
que os homens práticos deixem de investir a barra sem perigo, porque 
procuram com marcações exactas o canal de entre Gockbum e Hope, o 
qual não tem menos de 13 metros, mesmo quando o mar rebenta sobre o 
navio. Esta é efiíectivamente a derrota mais seguida pelos navios do com- 
mercio e vapores da companhia real ingleza Union, porque lhes encurta 
o caminho e facilita a entrada. 

Actuahnente existem pharoes em uma barca, fundeada em 6 melros 
de agua no extremo N. do banco Cockburn, e seria de grande utili- 
dade que se marcasse este canal por bóias, a fim de facilitar a entrada 
no porto, onde não ha práticos. 

Da ilha dos Elephantes á Ponta Vermelha, que é a entrada no rio de 
Lourenço Marques, a que os inglezes chamam erradamente English Ri- 
ver, e onde está a villa d'este nome, ha uma extensão de 24 kilometros 
sobre 38 de largura para a parte do S., formando uma espécie de lagoa 
baixa, sempre coberta de agua em maré cheia, e semeada de canaes pro- 
fundos. Para o N. fica a ilha Shefina de 6 a 8 kilometros de comprimento, ja- 
zendo ENE. e OSO. ao longo da costa da bahia. É bem arborisada e pôde 
obter-se ali agua. A parte mais baixa é toda de areia branca, e a certa dis- 
tancia é difiQcultoso distinguir a ilha da terra firme. £ cortada de recifes 
que para a parte de E. se projectam a mais de 7 kilometros com um 
fundo de 6 a 8 metros a 2^,5 de distancia ; porém depois doeste fundo 
encontram-se bancos de areia, de pequena extensão e de pouca profun- 
didade, o que faz que estes recifes sejam perigosos para os navios que 
preferem entrar pelo N. do canal entre Cockburn e Hope. 

Entre esta, pois, e a lagoa mencionada que fica para o lado do S., é 
óptima e franca a entrada até á Ponta Vermelha. 



304 

Na parte SO. da babía fica o rio do Maputo, navegável a lOOkílome- 
tros para o interior, tendo dois canaes salientes, um que vae do porto 
Melville junto á ílba dos Elephantes, e outro que segue do rio de Lourenço 
Marques, junto á terra de Gatembe, e que se junta com aquelle no sítio 
em que o rio toma aquella denominação, e em que divide a terra do 
Maputo ^ da de Gatembe. 



1 O Maputo pagou durante muitos annos tributo aos portuguezes, mas deixou 
de o fazer e de lhes prestar obediência desde o fim de i871, em que se empenhou 
em guerra com outros régulos sujeitos à coroa, guerra que a auctoridade nao 
evitou, podendo-o talvez conseguir, se nao se houvesse collocado ao lado d'es- 
tes^ depois de terem provocado com ameaças stultas o regulo do Maputo, que tem 
mau caracter e é deshumano. 

Com a saída d'aquella auctoridade renovou este regulo as suas relações com- 
noscu, nao se prestando comtudo a pagar o tributo devido, e conservando o seu ca- 
racter independente e por vezes ameaçador. É, porém, contido em respeito pelo 
Techoai, regulo dos zulus, nosso amigo, a quem eUe paga tributo, e lhe impõe a 
obrigação de respeitar as determinações dos portuguezes. 

A Gatembe, que confina pelo S. com aquelle, estende-se para o N. até ao rio 
de Lourenço Marques. Ali foi collocado em maio de 1875, pelo governador Augusto 
Castilho, um pequeno regulo, a quem pertencem por direito de successão aquellas 
terras, que assim se chama o território sujeito aos régulos ou à auctoridade portu- 
gueza. 

Seu pae o regulo Becuti, e senhor d'este dominio, era homem valente, e com 
a pouca gente de armas de que dispunha, sustentou por muitos annos guerra de 
gigante em defeza dos seus direitos contra o regulo do Maputo, que ]h'as queria 
roubar, abusando da superioridade e poder quasi sempre maior do que o d'elle. 
E se muitas vezes pôde com o seu valor e astúcia conjurar o perigo e subtrahir-se 
a tão feroz perseguição com sacríficio de muitas vidas dos seus, que já se viam 
em muito menor numero, e se enfraqueciam n^estas contínuas lutas, não lhe era 
dado nutrir a esperança de escapar á calamidade que, dia a dia, lhe mostrava o 
abysmo. E no emtanto não tinha auxilio dos zulus, que por mais de uma vez o 
salvaram. 

ITestas circumstancias adormeceu um bello dia nos seus domínios, e viu nas- 
cer o immediato no então presidio de Lourenço Marques ou Cheringuina dos pre- 
tos, que procurou para refugiar-se. Tinha sido accommettido de noite, sem o espe- 
rar, e não podendo reunir a sua gente, teve de (tigir a uma morte certa, porque os 
negros em guerra não dão quartel nedi fazem prisioneiros — matam. Os seus, coita- 
dos, foram quasi todos mortos, e alguns mesmo na praia, em frente e próximo de 
Lourenço Marques, pelo que a artilheria da praça jogou alguns tiros. 

Não podendo rehabilitar-se para retomar o que de justiça lhe pertencia, falle- 
ceu no exílio, succedendo-lhe nos seus direitos o filho, actual regulo, que por ora 
não tem sido perseguido. 

Os terrenos que pertencem a esta parte do nosso dominio são férteis, e podiam 
produzir canna de assucar, café e outros géneros, se porventura fossem cultivados. 
Nas montanhas e planícies ha grande quantidade de gado bravo e caça grossa, que 
os naturaes procuram muito, aproveitando*lhe a carnt* para comerem e trazerem 



aag 

A irbofi3a(sio é ahnnitM^Hj muí priae^mÉMotei juito m rio do 
Maputo^ e, na «aior eslmtfln à'mèÊ^ è db da^iima beUiza surprthm- 
éeâto^ porqne arfoiw eohnai» Mtrelifai os mio tmmmào om eo- 
poi^ áe ataboda lio agntdmralf» esioni o viqailo. 

Abnia cbi k!jrpp^pol»io& oi^ cskuHoo mar«à|06. 

Na parte NE. da bahía e da ilba SheOna fica oriti d» Mag»» oa Kki§^» 
George River, como lhe chamam os inglezes, que é o melhor e mais im- 
portante de todos. 

A Ponta Vermelha» 6Q mâtros «cima do m^l do mar ^ N., e a Ponta 
ckS^t 4a Catembe, a qm os wi/g^^i^ ^^umm^ MmvIumB, ae S., fonaan 
a fiBil «etrada o« barr» dtiria d#i Lovress* Marques, 2ffili|aMMBte de- 
H 6 mi— d a d» IspirHo Sanpt», sqiMrtton Itmetrosembaixannr e 17 eK 
preamar de marés grandes. É um excellente porto e o melhor desde o 
cabo dia Boa Esperança até Voçvubique. 

* Na ]^>nta Vemelba «ige o» sbaMlio» qua ae avista» mí teaip» 
alan^ a 30 IcikNWIros. O úb tas botas ns pMios qm o é fe r s es a i perigo 
aos navegantes menos experiente», as qmes sio^ necessárias p^ htíto 
db dSò haver ali homens pratiros. O ancoractooro tem 15 a t7 metros de 
bom, fundo,, a 1 Idíometra para dentiTO da Ponta Vermelha, em fireate 
da ^álla d^ Lowenço MarqfíMds^ qiK^è situada ao NE. á'e^. Do lada SOw 
fica a parte N. da Catembe, a cujo extremo N. os inglezes chamam Lmk- 
mere, qm, eoRjundamente' een aqcreHa, formam este ria qae ree^e dif- 
ftrentes denominações, como Maitola, Dundas e Tembe, á pn^r^o qae 
se vae internando e confonne a direcção que toma e as tevras qiiie 

baiAjk 

& ria áa Maiolay em segniiiieDt^ ao de Lourenço» Marques, tema o 
nome dos tributários mais a^IfO. doeste districto. 

T^ a Ibz cerca de 29? metros de largo sobre 33 de profundidade ; 
mas, f 4 kilometros acima, a sua largura diminue para 27 metros CQia t7 
d% pntfundidade. Até pouco mais. aaima d'este loeai ainda podo» iater- 
na»^. pequenas embarcaçiSeav 

Aliõmita-se este rio com as marés, e por isao a soa proftandidM^ é 
maior ou menor conforme o fluxo ou refluxo d^ellas. 

Não longe está o insignificaitte rio Infulene, qiiie deixando eDti:ar ^ 
maré n*uma ffcmà» extensão da tiíerra baisa que eom elle aonfina» daiu 
navasaate uaia grande langua que* oancorre bastante para a insatabridade 
doeste sitio. 



a pane ao marcado. Habitam também- aqui, prindpalineiite- no- moiMa^Einpanlie^ 
oasalom-e mais feroses ledes de toda a AMc^ ád» qnae» no passeio dtrBMrelM^ 
ha um exemplar ali apanhadio. 



Ma» adiiDie eone a rio laraMie. mi doft Groeaâitos, q«» è de |M)w» 
importância, mas de difficil trajecto, não só por abuadar mmio cn mh 
coditoBi mas porqae 06 ter renoa d^ac^atea sia ledosas a sem eaMisten- 
cia. Tem imia ponte de madeira^ por onde passaaa aa aanete doa baeta 
com grandes cargas. Fka aa estrada fiie ewdaa aai Inwwaãd. 

OrioDuodas coirct ao laogo da Caleaibe^ por iiaa canal artreito mas 
prafasda e pôde oiirec^ passagem a nanoe. Gommijca por eHe eaaa 
o de Lourenço Marques e com o da Maloias atena do qwt fie». VsÊk eataa 
o d» Hatola e T^ori^e^ havendo aaiaiicfiGi d'eHes.b0aa afieoradowa. Até 
1832 pouca importancifl se Hie dava^ mas depoia encetaram-se tnaisaa^ 
çSm cemoiareiaes com e regida Massaote^ qae ali deoma, e eajae terras 
são banhadas pelo mesoiO' ríek, aiadaqve somente na extei^ia appioit- 
mMto de 17 kilometros, oeaflnjafdo eoai ocdras pequenos rios aavega- 
veis em botes só em mar6 cheia. 

CoDheceu-se enISo a necessidade da o eapbrar por meio á^ 
qoe chegam só até Bombai, uma das povoaçõea d^aqnette regak^ 
bom êxito, facilidade e economia para o commercio ; e hoje, depois de 
reeooheeida a saa importaada e ser freqaealado, é eanbeeída pei^aeme 
deBoflibai. 

 curta distancia da sua foz tem elle 52 metros de largo e 22 de pro- 
faadidada, e uma embateaeio á v^ eo». bMa venl» a nará^ percorre 
aqaeHa derrota em seis horas. 

Gomo fica dito, entre este rio e o Tembe ba um bom ancoradouro para 
navios» janto a uma pequena ilha de nome QieXq^o^. 

Contornando a Catembe segue a m Temt^». mais. lacgo a mais. fuiid^ 
da %Be o da Matela. 

£ navegável para navios, que nSo demandam mais de 4 metrea é& 
agua até 38 kiiometros da sua foz, e para emb^ca(^e5 pequenas, M 
i^5 kiiometros, ponto este em que se divide emdoiâpeqjoeoQs.br^fifMt. 
dos.quaes um dirige-se para S. e ouíro paj:a O. 

O do S. tem prosúmamenta VI metros de larga na saa emiiacada9% 
e a peqaena distancia é impedida a navegaçSo, porqoe ha nWe wan ea^ 
pecie de barreira de arvores caídas, que obstruem a passagem* O db N. 
é pedregoso^ e também, como aquellei^ não iim sido expljorado. 

SoppSe-se cpie o do S. vae encontrar-se oonoio m Maputo» cer<mda 



^ foii mandada eonstndr pelo governo português, por iat^meâio do-entioga» 
veroador liiyreiso José Me»dea Faloato, e eoalratMb eom^ oameríeaoo Mlllsi iMè 
cenairaidiBi oom poaca seguraaça e nSooffeMee âmiaçSo. 

^ iâftim ebanado porque 4 o abngo do» hjMaatea d^ MEitola» a iiihfl w a a 
cmaa^at^ qoe nao. podem pegar em araras em* caee de'giierra. 



304 

ioda a Cateiabe> fazendo d'ella uma ilha em vez de terra firme, como aié 
agora era conhecida. 

O de O., se, devidamente explorado, se estendesse para o interior, 
até a algumas kilometros» seria de grande auxílio para as nossas relações 
com a parte S. da republica dos boers, que lhe fica superior. 

Esta simples mas exacta descrípção mostra quanto urge proceder a 
estudos n'estas quasi desconhecidas regiões, cuja exploração traria muita 
luz a questões de grandes interesses sociaes e scientificos. 

Este rio é alimentado por agua salgada, e por consequência sujeito ao 
seu fluxo e refluxo. As margens s3o baixas e abundantes de salguei- 
ros. O interior é revestido em muitos pontos de arvores seculares e gran- 
des campinas de herva. A O. fica a serra de Mossuate. 

Todo o distrícto de Lourenço Marques abunda em urzella, conhecida 
nos mercados como de melhor qualidade, mas no rio Tembe e Maputo 
a quantidade d*este producto é prodigiosa ; no entretanto é desprezada 
pelo pouco valor que tem. 

Lmtrenço Marques^. — A cerca de 1^,783 da Ponta Vermelha assenta a 
villa de Lourenço Marques em uma pequena língua de terra baixa, are- 

^ A respeito das obras publicas em Lourenço Marques^ dão-se n'ain jornal de 
Lisboa, sempre solicito em fallar a respeito das nossas colónias, as seguintes infor- 
mações: 

cNoticias ultimamente recebidas de Lourenço Marques^ em data de i6 de março 
próximo flndo, dízem-nos que cbegára á bahia d*aquelle nome, no dia 3, o trans- 
porte de guerra Africa^ conduzindo o pessoal para as obras publicas da província 
de Ifoçambique, fundeando, no dia 5, a 209 metros da villa. A descarga do navio 
começou no dia 7, e só concluiu no dia 16, por se baver interrompido por vezes 
em consequência do mau tempo. N'esse mesmo dia i6 ficou instaliada a respectiva 
secção de obras publicas. Todo o pessoal da secção trabalhava já activamente. O 
director das obras publicas^ major de engenheiros, Joaquim José Machado, deixou 
as convenientes instrucções ao tenente de engenheiros, chefe d'aquella secção, João 
António Ferreira Maia. Procedia-se á armação das barracas, idas d'aqui, e á aber- 
tura de uma rua em boas condições, até à povoação, destinada a continuar-se de- 
pois por uma estrada até ao pharol da Ponta Vermelha. Construir-se-ha um barra- 
cão para officinas e armazéns, e se for vantajoso, um pavimento superior para 
n'eUe se estabelecer a repartição das obras publicas. Foi determinado, com a má- 
xima urgência, o projecto de um paiol, que possa acommodar a pólvora do estado e 
dos particulares, no peso approximado de 125:000 kilogrammas, devendo ser con- 
struído fora da villa, para substituir um antigo armazém que existia em perigosas cir- 
cumstancias. Mandou-se proceder á pesquiza de pedreiras, ao fabrico de cal, tijolo e 
telha. Trata-se de um projecto para casas económicas, destinadas a operários, e de 
outras para um hospital, com capacidade para cem doentes, e para uma igreja. A 
muitos outros estudos de obras importantes e indispensáveis se ia ali proceder 
igualmente, taes C/Omo de uma casa para escola, de um quartel para 500 homens. 



305 

oosa> qaasi península, poisque se acha torneada de agua salgada em 
marés de aguas vivas. A sua extensão não excede 1^,783 sobre 660 me- 
tros de largo na maior largura. 

Contém três ruas principaes, afóra a da Praia, as quaes correm ao 
longo da povoação S havendo outras mais estreitas que as cortam. São 
safficientemente espaçosas, mas as transversaes muito estreitas e im- 
mundas. 

Tem também um largo que está em relação com a pequenez da 
villa, mas nem este nem as ruas são'macadamisadas, o que faz com que, 
na maior força do sol, a passagem sobre a areia se tome incommoda e pe- 
nosa. As casas são de pedra e cal, mas baixas. As de recente constrac- 
ção téem boa apparencia e bastantes commodidades ; as antigas são de te- 
ctos baixos, pouco ventiladas e de más divisões interiores. 

A fortaleza, que tem um dos seus ângulos para o mar, está hoje bem 
reparada. É pequena, e possue apenas dois baluartes para o lado da terra, 
entre os quaes ha uma caserna regular com a competente tarimba para 
uma companhia de cem praças. Do lado de E. tem quartos, arrecadações, 
calabouços e cozinhas, olhando para o mar ; fica d'este lado também a ba- 
teria e armazéns, e da parte do S., que é a entrada, estão os armazéns, a 
botica, que está em más condições, e a enfermaria, que é tão má como 
a casa da guarda e as prisões. Os armazéns téem servido para depó- 
sitos de géneros da alfandega, por ella os não ter em quantidade suflB- 
ciente para as necessidades do commercio. 

A artilheria é muito antiga, está em mau estado e vae ser substituída. 
Ha somente doze peças de campanha que são regulares. 

A alfandega antiga compõe-se de dois armazéns sem divisões. Está 
contratada a construcção de uma alfandega nova, de dimensões e com ae- 
commodações que devem satisfazer. É edificada em local mais apro- 
priado para tal fim, próximo da praia e do rio, com o qual deve com- 
municar por meio de uma ponte. 



de um pharol para o porto de Inhaca, de uma fortificação com accommodações para 
90 praças, de um edificio em convenientes condições para habitação do governa- 
dor do distrícto, de outro para a camará municipal e repartições publicas, etc. Or- 
denaram-se também urgentemente os estudos para o desseccamento de um pântano 
na viila, e os da bahia, devendo levantar-se uma carta detalhada com as precisas 
sondagens^ Sabe-se que havia produzido na cidade do Cabo excelleute efféito o i^^ 
parecimento da expedição, que estava cheia do maior enthusiasmo pelos melhora- 
mentos que iam emprehender em uma das nossas mais ricas colónias.» 

1 A povoação é cercada por uma linha de defeza feita em poucos mezes por 
iniciativa do governador Frederico Augusto Gourgelt; tem quatro baluartes deno- 
minados : 31 de Mho, S. Pedro, Santo António e S. João. 

ao 



A ediflcaçSo da villa no lo^ar em ()ue sé âcba, éó |[iodería tet* desculpa 
em attehçsrd á defeza é em pres'énçá das vantágeiis rtHIitares que offerece. 
É cercada de um paul bastante extenso na pãHb N., que é considerado 
miasmatico e muito prejudicial á saúde dos habitantes, e àdnlira até que 
se deixasse abandonado por tantos annos, e que a agua para beber seja 
tirada de poços mal feitos e de náslcentes que áthvessám logãreà ibimun- 
dos e cheios de detritos vegetaes. No paul nasce certa qualidade de herVá 
de junco e de bananeiras que foritiam espesso inato, que áti apodrecem 
e augmentam a insalubridade da vilIá. 

Pará alem do pailU ou langua, coino ali lhe chámàbi, d tèri*eÍlo é 
arénoâb, e eleva-se suavemente em fóhna de átúpHitheãtro ai& tenúiHar 
em ílbi cerro n3o mui distante dia villa. Nó centro foi iharcádo o local 
para se levantar a nova povoação que pôde ter grande extens9o, e será 
mais salubre do que a actual. 

Âponta-se no entretanto como melhor o terreno contiguo á Ponta 
Vermelha, porque está Fôh da acção dos pântanos, é havéHa Idcál próprio 
para o giro commercial. 

No sopé doeste pequeno monte escoa bm toda a extensão grande abun- 
dância de agua que alitiiéhfa d paiithno db paiil de que falíamos, a qual 
rebenta de fortes veios que ali s& encontratil, ou vedl dé algaih mahán- 
ciai supèHor, cujas ramiâcaç5é§ se estendeiti até abaixo. £hi todo o caso 
é necessário áltento estudo para se conhecer i sda origem e poder a|)ro- 
veitar-se convenientemente : nlas o que sobre tildo importa é estudar o 
Dàêio dè evitar que a agua forme ò pântano ))tie urge extinguir, o que só 
se conseguirá quando sé aniquilai o pHhcl^âí éleiãêhtò ^ 

N'este sitio apenas Se cultiva o milho e mexoeih. Alguns moradores 
téêm machambas onde há algdttia hortaliça. 

^0 aiiiphitheatro chatíikdo Gafumò está o régblò Alho do velho e 
ffèi Machaqueiié coiii o seu táinbem velho è B^l Secretario Mátídissa, go- 
vernando toda a cafraria doeste paiz que se éátehd^ á È. ãtè PãitlaQa, cujo 
regulo, Quiguisseca, também lhe obedece como o da Mahota, que fica ain- 
da a NE. d'esta; e do N. e a 0. fica o da Matola, por nome Afetabomo, 
que por lei nossa também é obrigado a obedecer-ibe. Á NE. fica a gran- 
de Mangaia com o seu regulo Mapunga que somente obedece á auctori- 
dade portugueza. 

Antigamente também estava sujeita ão nosso domínio a bella terra dá 
Mohamba e a Cherinda, as quaes estão hoje independentes. 



1 Costa na verdade a acreditar que se nao tenha attendido a slínílhàiite melho- 
ramento, e será com certeza um dós que ha de merecer a attençSò dos engenheiros 
que hoje se acham encarregados das obras publicas dà prbviricrá dè Moçainbf(}tie. 



ab7 

tõtíapfeheilde êálfe clíàlHclô * á fôrítb tfe iefrèhos qõè vae em linha 
recta da latitude 26^ 30' S. para 0. até á ret)ublica dos boers, com os 
qoaes cbnimtititbiâiiio'^ jpblHlè tíòsíú téítaè dU Matofò e da Mobámba. En- 
tre esta^ téH*ás e áífiieireá terrerios se interpõem as montanhas do Lebom- 
bo, seguindo idéj^iits á diViáSo (jpiè, por contrato entre estes e o nosso ple- 
nipotónéiàríb Alfredo bláprát, jfoi deferinihada. 

A montanha Lebòítlbb e ^ba seguimento para o N. até ao mar per- 
tence-bòs, iháá úío temerá dbihitiiò eBiBlitivo senão até á Magaia, que fica 
para E. doesta divisfò e se é§t'éh(ie ao pHiicipío da costa Calango, na em- 
bocadura dá t)á)iia; sendo coHá^á (iéiç) rio do mesmo nome ou King's Geor- 
[e RiveK côbò os ihgleSies lhe í&haúiâhi. Estes terrenos não estão ainda 
lemarcâdos bor látitdilès e lbtl|lllldeá certas; e nem os rios devidamente 
explorados por bbíneús coiíitietéiltèá. Apenas alguns commerciantes os 
conhébem e freliiiébtáffl: 

É necessário nío éàlltiécer 'qtíé ò districtò de Lourenço Marques é o 
que niais tem soflfidb bom âs gtléH^ás '. 

Os hoíneíis sãó valènfés; de boá estnlciiírá é dados á caça de elephantes, 
búfalos e bútl*oè ánim'álés; i hxéhi on a ti;ábálhbá braçaes e ao serviço de 
dlitegâdbres, qiie jHlgM tÍlat^ di^b d^ li do que a agricultura, que des- 
prezam e entregam unicamente ás mulheres, como objecto próprio de 
naturezas fracas. Ppr isso a ac^ricultura é menor do que relativamente o 
è eín outros qístríctds^ cómquantb aqúl àè tão bom resultado como nos 
demais terrepos da proyinciâ. 

Sábm milhares de hoifiens para as colónias inglezas, o que também 
faz encSrefcéf b áétvlçft; e entorpece ô desenvolvimento da agricultura. 
Apiesálr íéstás diffictílcíâdés exportátil-sè j)àrá Porto Natal muitos centos 
de kiiogramnias de miltio e báslárifé arroz, afora as pelles e productos 
das caçadas. 

O tributo que os régulos pagam á coroa portugueza é em mantimento 
cafireàl; ttlilhb fltío è ghóSso; è taèXofeira. 

A Jiiáqeilá abubdá. tátítò jhtilõ aos rios còhaó no interior, onde exis- 
tem matas virgens e arvores seculares. I^a enòniie quantidade de ar- 
vores de borracha, mas não a extrahem. Descobrem-se, principalmente 



1 O terfCjno xjije legálmçnle perleíice a este dislricto eslà bem descripto no livro 
do sr. visconde de Paiyá^Manso; porém^ dós só descrevemos aquelle até onde temos 
dominio effectivd, embora tennamos, ás vezes, iic nos referir a outros; alem disso 
faremos unicamente narrações praticas do que conhecemos. 

.2 Não ha upisó regulo dos que hoje nos sao sujeitos, que não tenha pegado 
eq^ ^rmás^p^á nc|3 j^gveáiv, algumas vezes contra sua vontade, outras de mandado 
doestes contra vontade de alguns de seus subdilos. Na circumvizinhanca doeste dis- 
trictò todas as hordas cafres são guerreiras. 



308 

na Magaia, grandes campinas cobertas de pasto> e em toda a parte o ter- 
reno é apropriado para diversas culturas. 

A estrada de Lourenço Marques para os boers foi mandada fazer pelo 
governo. No começo é empedrada e segue na encosta do ampbitheatro 
em direcção ao N. e E.; passa no rio Infulene onde ha uma ponte 
de alvenaria com estrado de madeira e ferro, entra nas terras da Matola, 
em cujo rio passa, e nas da Mobamba, no rio Incomate, cuja ponte já des- 
crevemos, até entestar com a montanba Lebombo na direcção de Lidem- 
burg ; n^este ponto ha um ramal em direcção a New Scotland ou Gold 
Fields, nova colónia explorada já depois do contrato da divisão dos limi- 
tes entre nós e os boers, exploração emprehendida mais pela natureza 
áurea do terreno do que pelas suas qualidades agrícolas e sanitárias, que 
são más. O ramal de que falíamos tomou-se necessário por causa das 
relações commerciaes que se desenvolveram entre aquella colónia e o 
nosso porto, e teriam attingido um grande desenvolvimento se não hou- 
vesse n'este trajecto a região da mosca tsé tsé, que mata todo o gado ^ 
N*este caso não podem estabelecer-se carreiras de omnibus para passa- 
geiros, nem carretas puxadas a bois ou cavallos para conducção de mer- 
cadorias, á imitação do que fizeram os habitantes do Porto Natal, que, 



1 A mosca tsé tsé, já muitas vezes descripta, tem a configaração mais da mosca 
das cavalgaduras, do que da ordinária que habita entre nós. É comprida e pequena. 
Habita principalmente a serra do Mossuate, na parte E., e segue para o N. pelas 
nossas terras da Matola, Mobamba, sempre para o N. até à Sinquine, na altura do 
Bazaruto, onde ha noticia que ella também ali chega ; mas nio transpõe al^n d*esta 
linha, nem para O., a montanha Lebombo e outros terrenos, nem para E. Assim é 
que, havendo grande quantidade de gado nas terras de O., alem da sobredita linha 
onde se cria muito bem, se se transportar para E. passando pela zona da mosca 
e íòr mordido, não resiste e morre em poucos dias; e vice- versa, se elle passa de 
£. para O. No entretanto, fora d'essa zona, ha numerosas manadas. Se porventura 
a mosca morde alguma pessoa, o que raras vezes acontece, produz apenas uma 
pequena inflammaçao local, sem consequências futuras. Está, porém, demonstrado 
que ella se ausenta dos sitios habitados e das campinas para o mato ou legares ar- 
borisados, em companhia do gado bravo. 

Um inglez, Ablet, mandou vir de Zanzibar três camellos, que conservou e aclí- 
mou por algum tempo em Lourenço Marques, com o fim especulativo de que a 
mosca não lhes faria damno, vistoque ella, cousa notável, não prejudica o gado 
bravo com que anda. Na primeira viagem, em que os mandou ao rio Incomate com 
a competente carga, foram mordidos e morreram em poucos dias, uns após ou- 
tros. 

Um meio lembrado para afugentar a mosca tsé tsé consiste na abertura de 
grandes clareiras de um c outro lado da estrada. Urge pôl-o em pratica, porque é 
de instante necessidade que se estabeleçam as relações commerciaes entre a nossa 
colónia e a republica do Transwaal. 



309 

nao tendo no seu caminho para aquella nova colónia a mortífera mosca, 
arranjaram estes meios de conducção, com sacrificio pecuniário, poisque 
s3o muitos os dias de viagem e os lucros insignificantes. Mas os inglezes 
sabem tratar dos seus interesses, e n3o olham a sacrificíos quando que- 
rem prejudicar os seus competidores. 

 colónia New Scotland pertence aos boers, mas os habitantes e ex- 
ploradores auí^iferos e commerciaes s3o quasi todos inglezes, idos para 
ali em procura de oiro. Começou a exploração em 4872, e em 1874 já 
tinham uma agencia de um banco do Porto Natal, e se publicava por 
conta da empreza do jornal Natal Mercury, da mesma localidade, um 
jornal dependente d'aquelle. A colónia continua a desenvolver-se, apesar 
de não se ter colhido oiro em tanta quantidade como se esperava. 

Mas deixemos as colónias que os inglezes levantam junto ás nossas, e 
passemos a fallar de Lourenço Marques e das condições em que se acha * 
este districto. 

É já sabido que pensámos na construcção de um caminho de ferro, 
mas se não se realisar este emprehendimento, devemos prover de remé- 
dio e não desamparar por forma alguma os melhoramentos da viação 
publica. 

Os boers, para se transportarem em carretas desde os pontos mais 
próximos até Porto Natal, precisam de trinta dias, e de sessenta desde os 
mais afastados, emquanto que de Lydenburg a Lourenço Marques só 
gastam oito ou nove dias. É realmente notável esta differença. 

Os hollandezes occupam o território que, como temos dito, delimita 
sobre parte da nossa província de Moçaml)ique, mas o ponto que lhe fica 
mais próximo e que mais facilmente pôde communicar com as principaes 
cidades e com o maior centro do seu desenvolvimento, é incontestavel- 
mente Lourenço Marques. D'esta grande vantagem e da supremacia do 
nosso porto, pôde agourar-se um brilhante futuro á nossa colónia, se nos 
quizermos aproveitar de tão favoráveis condições. 

População. — Não temos estatisticas por onde se possa determinar 
com exactidão o numero de habitantes, mas não ha na villa mais de 
1:000 almas entre pretos e brancos. Dififerentes escriptores elevam este 
numero, porque contam com a população ambulante dos pretos, que 
de dia estão na villa para o trabalho braçal ou ofiBcios, e de noite se 
retiram para as siias palhotas que ficam fora. O numero de europeus 
nacionaes e estrangeiros não excede a 40. Os indianos canarins e banea- 
nes attingem a cifra de 100. Os mais são pretos ou mulatos. Infelizmente 
os europeus nacionaes são cm menor numero do que os estrangeiros, que 
também administram as maiores casas de commercio que ali ha. 

Commercio. — É feito com o interior por meio de agentes ou viajeiros 



europeus, iudianos ou mesmo prelos, que vão ali permutar fazendas de 
diversas naturezas por marfim, ^loje em pequena quantidade, pélles, de 
que ha grande abundância, pouca cera, milho, arroz, madeira, ele. Occu- 
pam-se n'este giro cerca de §p íancjias, que percorreni os río^s da circum- 
vizinhança, como o de Maputo, Bombay e Çíalaj, estes em pequena escala, 
e o rio da Magaia por onde se (az o maior còmmercio, e que aíjástecé a 
villa nao só do sustento necessário para a sua população, màs de madei- 
ras para edificações, comt)ustivel, e[c. 

Rio da Magaia ou King's George River. — Quando descrevemos a ba- 
hia de Lourenço Marques, dissemo§ que este rio ficava por (r^s da ilha 
Shefina, entre esta e a terra arme do í^ahota. * ' 

Com effeito, seguindo derrota do porto de {^ourenço Marques para este 
rio, procura-se tomar a pçnta Kp- da dita iljia o mais piroximo possível, 
vistoque da terra firme at$ ali ha grande espraiado e só uni canal com suffi- 
ciente fundo para lanchas, em baixamar, em que é mais conveniente fa- 
zer esta viagem para aproveitar o principio da enchente na em^bocádura 
do rio, por onde os mglezes o investiram, daníló-lhe entáo a denominação 
de Kin^s George River. 

Seguindo pelo dito canal ao longo da ilha, e se a baixamar for de ma- 
rés grandes, teremos de fundear sempre próximo d'ella na ponta N. n6 
sitio da passagem, porque o espraiamento é quasi completo, e só depois 
de uma hora de enchente poderemos continuar a navegação. 

Então suspende-se e navega-sé com a prOa em direcção á ponta do 
Maçaneta, no continente, a qual é bem saliente, não só porque não 'ha ali 
nenhuma outra, como porque começa então um mato muito fechado, que 
se estende ao longo da praia, e do qual 6s moradores de Lourenço Mar- 
ques se fornecem mais principalmente de madeiras, que são óptimas pára 
construcções. 

Chegados ali navega-se então a meio rio, que corre entre esta terra 
que nos fica á direita, da qual toma o nome o rio de Maçaneta e a Shefina 
Grande á esquerda, em continuação da outra de que temos fatiado, e a que 
os pretos chamam Shefina Pequena. 

Effectivamente estas duas ilhas, que nas marés vasias parecem uma só, 
porque um braço de areia as une, apparecem inteiramente separadas 
quando a maré enche e cobre o dito baixo. 

A Shefina Grande, por este lado, torna o rio tortuoso e em partes 
baixo, formando uma curva até encontrar-se com o que vae para o inte- 
rior e com o que vem directamente da bahia, as aguas dos quaes a ba- 
nham pelo lado de E. 

Pelo lado S. forma a costa da bahia em continuação á costa Calungo 
junto á enseada de Monte George, que os navios baleeiros procuram 



í»ra ancorar e p^iyçr-sç t^S rfifr«§cos, g Ççs^ ^p Cj. do f^^çif^ (^^ oíjtç| 
ilfaaSbefioa.. 

Entre» p.Qi$, a costa Calango ç a dita ilha, ha uma embocadura que 
forma a entrada do rio que se está descrevendo. (Ista é pouco funda e pç- 
ngosa pela sua alt2\ arrebçints^ção, principalmente com os ventos do <}^^- 
drante do S., na baixam^r ^as marés g];'audes. Ç^ega mesmo, a ficar en- 
xuta e por consequência a paralysai;' po;* moo^ei^t^ a communícacão á^ 
aguas do rio com as da bahi?. ^q çi^[cçífifi\o já ^ |$em entrado peque- 
nos navios ^ 

Fica portanto sabido qi^e, çoip^ |;)om tewpp, aquella entrada é 4cces^- 
vel a ns^vios pequeAOS, sómen^ n^ preamar ^e ^iarés grandes, if)^, çom 
mau tempQ^ nçgpii mesma eni I^Qtias qu bptes $e deve demandar, por- 
que se corre risco. Temos outra entrada que me^bof sp presta para ejpo^- 
barcações vm^ e tao^l^p.^^ parq PQqUi^QO^ v^orç3, que coopt a niaré cheia 
ou meia maré navegam ali francamente com bom pratico. 

Para a partei ^ dentvo ^'Q^\fi bpico e J4 {lO ri^p^ ha fundo de li até 17 
melros, e podem navegar navios glandes. 2\f^ Í2% kilometros da sua em- 
bocadura, segundo a opinião dos práticos que o conhecem e o téeni son- 
dado em diffor^Q.^es pontojs !• 

Ifo Uarr^quene é el^ bastante fundo de un;i a oqtro lado. Da suá em- 
bocadura, pois, até enc(\fttrar-$e cojn o r^p^da Mac^ftçta, haveí*á 2:778 me- 
tros de extensão $pt^re 92l6 de largura, cpm ^ qual continua poucp mais 
ou rnenp^ ^té ^q ]iíari:^Qtier^e» que eA^ao si^rg^ ffiuitp niais. Pouco de- 
pois do. pncoatro ^'es^es dpÂs rios, apparece-pos 4 esquerda a ilb^ ^ 
Bengue^ne, cercada pp;: um pequenp ^p que yem também desagi:^ 
n'aquelle, como d'elle recebe as aguas que o enchem. 

Aqui começa o dominio dp cegplp de Magaia, estendendo-se a^p ^ ilha 
SberÂnda. 

D.*e$te pprtQ até ao l^^rraquene, cerca de 49 ki|pmetro,s, o que ba np- 
tavel é o magestoso arvoredo do mesmo rio, que orla constantemente^ ^ 
suas margens, deií^antV^no^ ver algumas campipas de ricas pa^t^ens que 



1 Por ali entrou, não ha muitos annos, o cuter inglez Herald. Não tendo ido 
legalisar os seus papeis á respectiva alfandega, foi muito bem aprisionado pelas*au- 
cto^idades de Lourenço Marques, poisque se achava fazendo contrabando. 

Mais tarde, foi entregue com uma inc^emnisação, quatro vezes superior ao va- 
lor do navio e carga, a exigências do governo inglez. 

Çra entuo governador de Lourenço Marques, Francisco de Sallcs Machad9. Re- 
corda-nos esta questão a de Charles et George. 

- Já houve quem o sondasse, aindaque imperfeitamente, a^éáithaii^QsLyiiões, 
mais no mterior, e com a certeza de que tem um canal profundo e tiom nar^ na- 
vios. 



3i2 

se podiam aproveitar para cultura de toda a ordem sem grande díspcn- 
dío e muita facilidade de communicações. 

As margens, que não serão insalubres quando cuidadosamente culti- 
vadas, poderiam offerecer productos que, por si só, fariam a riqueza e a 
grandeza de uma colónia de primeira ordem; no entretanto estão no seu 
estado primitivo por falta de colonisação, a qual não é possivel estabe- 
lecer sem que haja segurança individuai . 

Ha ali uma povoação de palhotas e uma casa de zinco (ferro zincado) 
pertencentes aos moradores de Lourenço Marques, e que lhes servem 
para vendas, depósitos de géneros e outros misteres do seu commercio. 

Como já se disse, o rio aqui é largo e magestoso e poderia ter fundeada 
com commodidade uma grande esquadra, se eila porventura podesse en- 
trar pela sua embocadora. 

Á dita povoação segue-se uma enorme campina de óptimos terrenos, 
sendo alguns alagados. 

Como a costa faz uma grande enseada para o N. e o rio até ali segue 
muito para E., ouve-se distinctamente n'aqueHe local a arrebentação 
quando ha vento forte do S. 

Um pouco acima d'esta povoação começa o rio a ser muito mais es- 
treito e tortuoso, difiScultando a navegação de vela, para a qual sendo de 
feição o vento n'um sitio, já n'outro não aproveita. 

Aqui bifurca-se um braço de rio que dista para NNE. emquanto que 
o próprio rio toma uma direcção SE. para depois seguir para o N. e 
para E. até á ilha dos Limões, assim chamada porque não tem senão 
mato de limoeiros, que produzem uma quantidade enorme de fructo 
que é de quem o colhe. 

Á proporção que o rio se vae internando, diminuo de fundo, dificul- 
tando a navegação com tortuosidades e exigindo cautela nas proximida- 
des das margens, pelo perigo de ir de encontro ás arvores caídas de 
Irage em longe. 

Muda a sua denominação, conforme os sítios que vae percorrendo, em 
Mautriça, Manicussa, Cossíne, etc. 

Não ha estudos feitos, mas calcula-se que a distancia entre Lourenço 



1 Diocleciano Fernandes das Neves, actualmente residente na Figueira da Foz, 
mandou construir uma casa de pedra e cal no Marraquene, e fez plantações de canna 
de assucar, algodão e amendobim. 

Um regulo, que se diz súbdito portuguez, levantou uma guerra, e passando por 
ali obrigou-o a fugir, arrasou-lhe a casa e destruiu-lhe as plantações. 

Não se tomaram providencias, e o agricultor viu os seus bens perdidos. Justi- 
ficou, todavia, os prejuízos que sofTreu e requereu indemnisações, que lhe não fo- 
ram dadas nem attendidas, e nem sequer reivindicou os terrenos. 



343 

Marques e o poDto até onde chegam presentemente as lanchas» com algu- 
ma difficuldade, um pouco acima da Cossine, nSío é inferior a 660 kilo- 
metros, sendo possível, com pequenos melhoramentos, seguir até 900 ki- 
lometros, onde já não temos régulos sujeitos, podendo aliás tél-os. 

Seria conveniente proceder-se ao estudo e exploração d'este rio, cuja 
importância se está reconhecendo n'estas breves informações. 

Muito para o interior encontra-se elle com o Limpopo, rio do Oiro o^ 
Inhampura, que por todos estes nomes é conhecido, e de que passámos 
a dar resumida noticia. 

Rio Inhampura, rio do Orio, ou rio limpopo, — Este rio, que na sua 
embocadura na costa Calango, não longe da embocadura da bahia de 
Lourenço Marques, tem a denominação Inhampura, está a 25^ 11' 36" de 
latitude S. eSS"" 11' 30" de longitude E. do meridiano de Greenwich. 

Não temos noticias completas a seu respeito, no emtanto conhecemos 
as viagens de exploração que ali fizeram os inglezes Elton, actual cônsul 
inglez em Moçambique, e Erskine, filho do secretario da colónia ingleza 
de Porto Natal, que não confiam nas suas supposiçOes nem explicam 
muito a foz do mesmo rio. Dizem elles, que, collocados em torra, não vi- 
ram embocadura que lhe desse communicação com o mar; ao contrario 
parecia que entre o rio e a costa se antepunha um montão de areias, mas 
que, nuo obstante, acreditavam que devia haver essa communicação, vis- 
toque n'elle se percebia enchente e vasante. 

Nem um nem outro d'esses investigadores procederam a mais inda- 
gações por lhes faltarem os meios precisos para tal fim — uma embarcação 
apropriada — vistoque aquella que possuíam era de borracha e só servia 
para passagens de rios sem ondulações. Nem pela praia tentaram as pes- 
quizas por não agradarem aos cafres d'ali, que são maus e desconfia- 
dos. 

É certo, porém, que no prolongamento d'esta costa se vêem destroços 
de navios, de cuja perda, no entretanto, não ha noticias. 

Isto, a má fama dos negros d'aquella costa, e a sua opposição a certas 
investigações, fazem persuadir mysterios em matéria de naufrágios ^ 



1 O sr. Francisco dos Santos a quem se devem estas noticias diz : 
c Tendo eu saído de Lourenço Marques para Inhambame no hiate americano 
Wamrightj com vento de feição, segui ao longo d^aquella costa, da qual me approxi- 
mei a perto de 6 kilometros no sitio de Inhampura, de propósito para indagar a 
sua foz, tanto quanto me fosse possível, e só pado conhecer o seguinte : que nave- 
gando-se do N. para S. ou vice-versa do longo da costa, nao se descobre cousa que 
pareça embocadura, ao contrario uma constante continuação de costa, mas ehe- 
gando-se á sua latitude e na sua proximidade, para o N. e para o S., avísta-se en- 



ili 

Importância de Lourmco Mar(nt^s.—\) ^^\tiÇ\Q dfi ^ipurenço Mar- 
mes, ^ consequência da sua vantajó^ posij^Q, p^óde Jíj^Ti?r-se grandioso 
se se rèàjisareDi as mBl&qra|i)eiiK>s de que carece e para o que a fiatu- 
reza o predestinoi], ' 

É um porto próximo do Cabo da ^pa ^perança, que, em occasiSes 
de [eraporaes é niuiiti apro^ri^do para receber toda a qualidade de em- 
[)arcacúe9, e que ppdfiria torqar-se' porto (^p arribada de primeira or- 
dem, 'de gae re^pl|an9m o. ÍIore|cimeDto t^a sua úidustpq e outras vaD(a- 
gens^ 

Cercado dg fios em (|lyçrs^^ (ilireccões, ^ão racilitadas por este pieio 
as sjias reta^s Ç9ip o> çòigj^W^^plo, coii^ a iqduslda e com a agricuUiira. 
qóe'wr ^ep^tVírá 5f pòU^m de^j^yplvç^-, e de certo se desenvolveriam 
em ppuçqs ^nnp^S^ se à 'a([enp|o sevol^sse para aquella rica possessão 

ÇÀmwp díç^^o e fáçi| p^í) a CQpublica do Traoswaal, que é cheia 
U XP 9. Ib fegii^í l^-íi''^' ^fl^V^U^íl 9 populosa, ganliaria a graa- 
4|SS|m| v^geç^, ^§ mj^is !|i^D^,em í^, de possuir de momento e sem 

lio nma separação que forma uma embocadura distincta, depois uma peqaena 
iQ]$ coin 9^10, e ao S. c|'esta uma outra embocadura maxi pequena do que aquella. 

<A oDf^ulãç^ e^ tó^ 31?^ c<)^^ ^ constante, o o rolo do mar na praia é 
muito voTomã»}; por isso levanta uma certa vapo^isaçlo que, com os raios do sol, 
dificulta os rajos viauaes dos óculos. ' 

" ''<'VIpõri3so'dè'cíi^'dt)masIro do biale a airebentaçSo continuada da costa, c 
para dentro o mar manso do rio. 

•Entre aquetU e este (oi-iQç impossível divisar qualquer communicaçlo ou 
çojfsa ç^e ^ an^pp^e^se en^rç ell/es ç os separasse, sendo comtudo possível que 
^(nim canal d^pássagem a qualquer embarca^^o. Que a sua entrada não seja boa 
a%íliVri'du cssá 'rònviccão, mas que seja impossível também não me parece. Não 
será como a do rio KiDg's George, que na baixamar das marés grandes fica inteí- 
raoienie 'descoberta pára na preamar dar accesso a embarcações pequenas ? E a 
embocadura mais pequena que se avis;a a S. não será melhor? pelo menos a ar- 
r^Emiação, a|i ni^ c tão viva. São tudo çoDJectoras, mas é de grande interesse esta 
exploração, porque o r1o passa pelas rcgiíles mais férteis d'estes scrtSes- 

iParà mnW d'esla einhócMura 6 inanso"o rio e lem fundo variado de 9 a 30 
metros, bavendo sitios cm que expraia inteiramente até ao canal. 

•A sua largura, ali, calcula-se approxímadamcnto em 4 kilomclros, mas in- 

lernando-so estreita a i6'i metros, é menos largo mas muito similbante ao rio da 

igaia fiii Kiiii;'s Genrjn; River, c lambem como esle pôde ser navegável ató muito 

I ■! (imalé á sua communicaçao, poisque, como já disse, ellçs 

■ i< ' I" um braçA que este deita para U. até áquelle e segue 

^mpn' .j>' ..X ll.lll-^^.irti. lamaudo então o nome de Hío dos Glephantes. 

' '.Este rio do Oiru jiresume-se que segue para o N. e para O. até á republica 
do Transwaal que vae torneando pelo seu lado de L., primeiro e despis pelo O., pe- 
íu sén^, A)s |I^qio'i dh^undo, Zouipousberg com a 4enoE^,i^aç^ de 1Jt]]p(^> 



dispêndio, uma grandç colooisacão, que consumiria grande quantidade 
de géneros, entretendo so com i^so todo o nosSo raçpiticp commeròio e 
fazendo sair por este bello porto Òsséus avultados proiiucíos.^* ^'* ' " 



Estado da índia— Dá-se este pome ^ parte (}ue ainda nos resta do 
nosso império do oriente! É uma possessão mais peaífeiía (ftáFilossa 
Senegambia*, e é cinco vezes maior que a provinda 3fefe. tholfi^ e'Wô- 
cipe. Representa todavia um nome grandioso, uma das venerandas reli- 
quias dás nossas possessoés^iJo^seciftò^^VL K suàV^^ísfSíríJ^ÇíPa nós 
uma desventura, tão tanto pela grandeza material como pela gloria que 
4e todo se perdia com o desmembramento da colónia mais heróica da na- 
çSo portugueza. 

Não duvidámos conservar o nome por qqe ofQcialmente se reconhe- 
ceu o território que ainda possuímos na costa dècidenta) (}q |p(|K§}|9 1 ^^^f 
no decurso das nossas consiiTéfãções, usaremos indifferentemente da$ 
palavras índia portugueza ou província dêGoa^. 

Estas explicações não sao in^ifiterentes, porque o primeiro devendo 
medico hygienista é empregar termos bem definidos, e assignar-lhes coná 
a máxima clareza a sua comprehens^ô; a' fim de que fiquem desde logo 
determinadas as bases è as (UflerèntSéAperaçõès cujos re1§J^(lòs seríáni 
inexactos ou confusos sem estas declarações preliminares. 

Enlacemos porém as indagações medicg-geographicas attinentes a 

dar idéa de um paiz cuja salubridade se deseja cotflieéier, com um es- 

boço geral feito por mão de mestlre. E uma espécie (fç jçirdim junto 

ás sementeiras das estatisticas que têem tanto de utèis ^(iuanto de fasti- 

diosas. 

A superfície da índia portugueza tem sido avaliada por difEerentes fór- 
*, . . , ^' , ^' ' , . . .. ^.. ioc^-xtíHu •' fu- 

rnas. Na estatística de Portugal e suas colónias a pagina xvi e 37o calcu- 

la-se a superfície geral em 5:400 kijomelros quadrados, ihas na pagina 

381 apresenta-se um mappa em que se avalia em 3:6l2r]^oannuario es- 



tatístico de Gotta admitte-se a de 3:748. " " '^ 

Carlos Vogel e Francisco Bordalo apresentam lambem dados diver- 
sos, emquanto á superficíe, o que nos coUóca na impossibffidáde de apu- 
rar a verdade. 

Os limites doesta nossa possessão do ultramar são a 0. o mar, ao N. 
o rio Arondem, a E. a cordilheira dos Gaites e ao S. fica-lhe õ Canará- 
Divide-se do seguinte modo : 



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1 Tomamos os dados que se acham na estatística geral de Portugal e suas co- 
lónias, pag. XVI. 

' Da índia portugueza poucas palavras se escreveram no diccionario Larousse. 



Rhas de Goa. — Comp&e-se da ilha de Goa propriamente dita e das 
ilbas da I^edade, Cboi^o e Santo Estevão. 

Bardez. 

Salsele. 

Pernem, Bicholim, Sattary, Pondá, Embarbacem, Chandrovaddy, As- 
targar, Baliy e GaDacooã. 



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60.391 


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3J;810 

«7:515 

1(1:573 

5:304 
4:651 

13.883 
1,977 

1:493 

3:67i 
1:066 
7:174 
817 
54:796 

16.696 

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5:193 
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1:B91 
115:571 


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l'DÍIillO: 




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4.'Dmiío: 








CilMdcItu» 




596 




Dniio 


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DlttncMs do 




H Í^í-Ji 




(Uprovinciu 


ToU 


« 


SUI:I6I 


1:801 



As nossas leis exceptuam das possessões ultramarinas a índia chaman- 
do-lhe estado, emtjuanlo ás outras chamam províncias. É uma divisa com 



317 

que se galardoam as memorias sempre gloriosas dos Gamas, Almeidas, 
Albuquerques, Sampaios, Braganças, Castros, Âloroas, Egas, Redondos, 
Ericeíras, Mellos, e tantos outros que ali derramaram o seu sangue, e 
com o qual so pôde escrever a maior epopéa do mundo. Resta-nos 
bem pouco d'aquelle grande morgadio; resta um prédio de recreio, for- 
mosíssimo prédio que a natureza aformoseia e que as ruinas condecoram. 
De um lado servem-lhe de muro os Gattes, do outro proporciona-lhe ac- 
cesso o grande mar por dois portos e innumeras enseadas. No centro ha 
canaes, rios, arrozaes, palmares, florestas insondáveis, cafesaes, gados. 
Terás e flores por toda a parte, uma população sempre crescente, muitas 
aptidões para as letras e sciencias, muita indolência, castas inapproxima- 
veis, apesar de já boje esclarecidas, religiões diversas, sendo predomi- 
nantes a christa, a mahometana e a gentilica ou bramanica; agricultura 
e industria a primitiva ; commercio quasi nenhum com a Europa, nenhum 
com o interior, pouquissímo com a China e com a Africa oriental; algum 
com Bombaim. Nada mais. A Inglaterra conseguiu isolar-nos, e monopo- 
lisar todo o commercio do levante, e comtudo o padroado ainda se estende 
por todo o Oriente . 

O estado da índia portugueza, observa Francisco Bordalo, afora as 
praças de Diu e Damão, pôde considerar-se como formando um sô corpo 
sem solução de continuidade ; apenas pequenos rios ou estreitos braços 
de mar separam as ilhas do continente e dividem este em provmcias ou 
outras menores divisões. 

É preciso ter bem em vista similhante disposição dos terrenos, e 
como ali evidentemente se nos deparam uns logares mais insalubres do 
que outros, devemos attender também á divisão que geralmente se faz 
de tal território. 

A índia acompanhará de certo o movimento de colonis^ção de Mo- 
çambique, se este for convenientemente desenvolvido, e servirá então de 
interposto ás nossas possessões do Oriente, representadas por Timor, 
Macau, Goa e Africa oriental, banhadas pelo mar das índias, estendendo-se 
ao S. e ao N. do equador. 

ProYíncía de Hacan e Timor. — São estas as duas possessões que se 
acham mais aTastadas da metrópole, e podem sustentar vantajosas re- 
lações commerciaes não sô com a nossa província de Goa, mas também 
com as colónias hoUandezas e com a província de Moçambique. 

Calcula-se a distancia entre Macau e Timor em 3:666 kilometros, 
isto è, em pouco mais do que a distancia entre Lisboa e a ilha de S. Thiago 
de Cabo Verde. Goa e Macau ficam (](uasi tão afastados entre si, como 
Lisboa e as ilhas de S. Thomé e Príncipe. 



Jlfe 



E assas limitada à siiperoçie *Íé j^àòáú, nias torâa-se notável, d3ô só 
porque e um ponto míermediano eútre os três impérios do Oriente, 
China^ Japão e Siao, como j>ov ser um sanitarium importante, c Macáo, 
ÒDsef ya Carlos ^ogel, ésí áfeVeriíi pour les européens de toutes les na- 
tions, gui se çressehl àux pórlès de lá CHihe, comme une espèce d'hõtel- 
lerle, mills vie^^^ hábíter de prèrérehce. La légation française a établl 
sâ cnan'dBÍiérie dahs cètte vilíe, et lés liégocíants anglais de Hong-Kong 
ònt égaiemènt taít cÒnstriiiré, prés de ses murs, beaucoup de mal sons de 

âamoagn^ ou oungalos ou ils viennent respirer le bon air, et se recréer 
les enriuiès. áú séjbiir de lebr ÍnSt*ô rocher » . 
. Açoáiçao geo^râphicà iie ítacâu é determinada por 22** 10' W de 
íatilude lí. e jlí® l8' 30" 'de longitude É. Pica portanto quasi sobre o 
tromco boreal, dév^^ o clínia clássificar-se entre os climas tropicaes 
prbpnàmeale (litos. rfesté caso listão o distrícto de Inhambane, na 
' iroyihciá de Moçambique, cblldcado ao §. dó equador, e as ilhas de Cabo 

extraordmana a população especifica d este pequeno território. 



í 




figují^do á frente de. todas as colónias europeas; calcula-se em 18:000 
haéiiaí^les j^or cada ^tlometro quadrado ^ 

O futuro de Macau depende principalmente do progresso da provin- * 
ciá ae Moçambique, dá animiiçáb do estado da índia e da prosperidade 
de Timor. 

É preciso também não esquecer que esta possessão é a sentinella 
avançada gué ínais se avizinha da qiie conservámos na Oceania, que, com 
desenvolYiiQ.ento da sua colonisaçao, será de certo tão rica como as pro- 
víncias de S. tíidmè e Cabo Verde. Urge, pois, animar a navegação enu^e 
a cidade de Macau e a ilha de Timor. E, se nos lembrarmos do que acon- 
teceu com as possessões dá África occidental, hão devemos adiar por 
muita tempo a realisação de tál emprehendiínento. 

Alem da navegação, é preciso cuidar em proteger o commercio e a 
agricultura, e muito especialmente em fazer um tratado com a China, 
para regular a emigração que deixou de se fazer por Macau, mas augmen- 
tou em Hong-Kong, porto inglez e a poucas horas de viagem da nossa 
possessão. 

^0 oeveínos terminar este resumo de noticias a respeito de Ma- 
cau, séin mencionar unia reliqbia veneranda, a gruta onde Camões, se- 



1 Segundo á estatística de G. Peir, á superflcie de Macau calcula-so em 4 kílome* 
iros^ quadrados (pag. xvi), ou em 385 hectares (pag. 375). ?}q annuario estatístico 
de Gotha avalia-se a mesma superfície em 3^f, 4. ComoVogel, diz que eila tem uma 
légua quadrada, a população especifica portanto, não pôde calcular-se com rigor. 



gQildo ã crença ^bralmelifê slèguidã, cóffi^oz os litllmos cantos db seu 
poema. 

A ilha de Timor, de qae possuímos a maior parle, levanla-se entre 
8® 2(y e 10** 22' Ifle latitude S., e deve pôrUntò clássibcàr-se como um çlimá 
equatorial S. È de grande fertilidade, mas à ágnciillurã^eáà âè^èz^^^ 
Cultiva-se ali milho, iarròi, bâtalas, trigo, etc. tià-sè tíem ò tabaco e b 
cafê, que é niuilo estiiiiãdo dos hotlàhdezes ba iltia de iavá, è que se pro- 
duz ena menòi* qbántidade dó qtie em qualqdef íazehiia (ia iirta oé è, Tlionie. 
Esta possessão e dezeseis vezes maior que a ilha a que nos referimos, e, 
em ígualdadté de colonisáçáb, deveria render, pelo menos, dez vezes mais, 
o que equivaleria a 1 .OOÒrOÒOjjOOO réis. 

Quem diiriá que no ségilhdb qiiartb '(Í'ésÍe seciilo à ilha dè S. Ttiò- 
me, tao pobre e tao esquecida, chegana a dar imi rendunenfo de reis 
iOOrOOOíJOOO? 

A ilha de Timor não é iheriòs fértil qiie a de â. Thòmé, é lo seu ler- 
rítorio é immensamenté niais éxténsb^ e portanto uinà esperançosa còlb- 
nia, e o seu commercio augmentará se tràtáriíios da còlonisácãó ãas posses- 
sões, seguindo o systemá ^cloptadò péla InRiálerrá oú Hollanda. 

A ilha de Tinibr, segundo b. í^èry, tem Í7:(Xk} kllómetros quadra- 
dos S más uãò se sabe o humero de habitantes que se acham no térritb- 
no portuguez. N estas circumstancias poucas considerações temos que 
fazer, porque apenas nos resta pedir com instancia que se olhe cOm ajlten- 
ç3o para um paiz tão fértil, que representa a quinta parte da superncie de 
Portugal, e que está quasi abandonado e esqueciao. 



Portngal, nndecixno paiz da Europa, ooonpa o qnarto lo^ár 

ooxno nação colonial 

Para se poder comparar com facilidade b terrltonb 'do reir^o dè Pj^r- 
tugál com o da itespánha, frança é Holianda, apreciando lámbem o dás 
principaes nações da Europa, é preciso reunir os dados indispensáveis. 

Os limites das liaçõés não se aevèm proci^rar nos marés quê lhes per- 
cam o solo, nem nas montanhas que lhes difficiiltàm as coniiáumcações. 
Marcam-se de modo mui diverso. ^ . ií? ) 

As nações nascem, vivem e desenvolvém-se segundo as ámnidàdes 
morâes que 'caracterisam os differentes ramos da famiíia humana, è n|p 
estão em relação com os tractos de terreno em que se dividem e subdi- 
videm as terras susceptíveis de serem habitâaas. 



. . , - / . .-..1 » 



^ Carlos Vogel calcula em sete oitavos da área total da ilha a superficie do 
nosso território. 



380 

A familia humana é cosmopolita ; o homem individualmente não o 
pôde ser senão deptro de certos limites. E assim deve ser. 

homem é uma organisação circumscripta, que não pôde partir-se, 
conservando a vida; a humanidade é ill imitada, pôde soffrer cortes pro- 
fundos ou grandes abalos, mas conserva sempre a sua integridade, com- 
pondo-^ de uma cadeia indeterminada e prendendo-se por um lado á 
terra e por outro a Deus, origem primitiva de todas as cousas. Mas quaes 
foram os primeiros homens que se estabeleceram no território que hoje 
se chama Portugal ? 

 porção de terra mais Occidental da Europa tem uma forma especial 
a que os geographos deram o nome de península. Galculase a superficie 
em 584:571 kilometros quadrados. É mai$ pequena que a da ilha de Su- 
matra, puramente equatorial, e cuja população é mais abundante. 

É portanto ponto indiscutível que os paizes equatoriaes, por estarem 
debaixo da linha equinoccial ou por serem cortados pelo equador thermal, 
não deixam de ser habitáveis e susceptíveis de se colonisarem. Os homens 
espalham-se por toda a terra, do N. ao S. e do oriente ao occidente, per- 
manecendo mais nos logares favoráveis á sua conservação. 

A peninsula a que nos referimos é limitada ao oriente e ao meio dia 
pelo Mediterrâneo, ao occidente fica-lhe o Occeano Atlântico e ao septen- 
trião o mesmo Oceano e uma parte do S. da França. 

Os Pyrenéos, coUocados a NE. separam esta grande extensão de terra 
do resto da Europa. A peninsula transpyreneana é conhecida geralmente 
pelo nome dos povos que a habitam ou já habitaram. Diz-se pois indif- 
ferentemente peninsula hispano-portugueza ou ibérica; mas é preciso di- 
zer que entre os portuguezes e os hespanhoes houve sempre completa 
separação. 

É sobre este ponto que desejámos fixar a nossa attenção e, para com- 
memorar e não para ajuntar novos esclarecimentos, transcrevemos aqui 
estas explicações, que não são de certo alheias ao fim a que nos propomos 
chegar. 

Não é nosso intuito também, nem cabe nos limites d'este trabalho, 
fazer a descripção ethnographica dos habitantes da peninsula, mas não 
deixaremos de relembrar que os lusitanos ^ oppozeram tenaz resistência 
ao domínio da soberba Roma. 

Este facto não é indifferente; sçrve para demonstrar que os habitan- 
tes do occidente da Europa não se confundirão nunca em um sô povo, e 
não formarão jamais uma única nacionalidade. Os habitantes das margens 

1 Nos Annaes da commissio permanente de geographia declara o sr. marquez 
de Sousa Holstein que os aetoaes portuguezes não são lusitanos. 



?^ 



32 1 

(Jo Tejo e Douro terão em todos os tempos caracteres próprios, vida in- 
dependente e costumes peculiares que se explicam pelas condições clima- 
téricas da região que occupam. 

É, porém, necessário dizer que o território da peninsula hispano-por- 
tugueza se acha desigualmente dividido entre os dois povos. A Hespanha 
occupa uma parte 5,S2 vezes maior que Portugal, mas não tem dado por 
isso prova de mais adiantamento, nem tem trabalhado com mais vantagem 
em favor da civilisação e do progresso da humanidade. 

Levar-nos-ía muito longe a enumeração dos factos que têem distin- 
guido a familia portugueza entre os habitantes da peninsula occidental da 
Europa. O que desejámos demonstrar, o Om com que organisámos este 
trabalho, temol-o declarado por muitas vezes; e em obra tão complexa não 
deve ser tomada em conta de prolixidade ou repetição inútil. 

Deve, pois, entender-se que pretendemos accentuar bem e patentear 
por todos os modos que não somos uma nação quasi invisível na Europa, 
poisque se, entre as nações d'esta parte do mundo, somos o undécimo 
paiz, não deixámos comtudo de ter sido uma das primeiras, e occupâmos 
ainda hoje o quarto logar como nação colonial. Para não sermos demasiado 
extensos, recorremos ás estatísticas, que organisámos com todo o cuida- 
ilo. Referem-se á situação de Portugal a respeito das outras nações da Eu- 
ropa, segundo a superfície e população. Faliam ellas bem alto e dispen- 
sam mais largos commentarios. 



Si 



im 



KiHiatiMtIca comparativa da Kiípcrllclo c popnlarAo d« Porlnffal 

coDi reliíetio àfii prlncIpacM naçècM da Karopa, 

iiidependcntonicnfe c comprchendendo a* colonlaN, protectorados 

o tcrrltoriofi adJarcntCM 



ni^si^maçrioí 



XlliSSitia •••••■••• 

Aiístro-Hungria.. 

Allemanha 

França 

liespanha 

Saecia 

Turquia 

Noruega 

Inglaterra 

Itália 

Portugal . , 

Grécia 

Suissa 

Dinamarca 

Paizes Baixos. . . . 
Bélgica 



Indcpeodcntcmenlc das colónias, 
proUíClorados e territórios adjacente» 



SuperGcie 
Kil. qoadradot 

4.909:193,70 

624:044,89 

540:628,50 

528:576,75 

494:946,00 

444:814,00 

364:037,00 

316:694,00 

314:951,00 

290:305,41 

89:371,00 

50:123,00 

41:418,32 

38:236,78 

32:839,97 

29:455,16 



Poiíulaçâo 

«55.704:559 

35.904:435 

41.060:846 

36.102:921 

16.262:422 

4.341:559 

8.500:000 

1.796:000 

33.098:400 

26.801:154 

4.011:908 

1.457:894 

2.669:147 

1.874:000 

3.767:263 

5.253:821 



Comprchendendo as colónias, 
protectorados e territórios adjacenlos 



i^upcrficie 
Kil. quadrados 



21.605:720,40 

624:044,89 

540:628,50 

1.706:936,25 

811:347,00 

444:814,00 

5.717:750,00 

316:694,00 

20.917:275,00 

296:305,41 

1.917:735,00 

50:123,00 

41:418,32 

230:445,18 

1.752:839,97 

29:455,16 



População 



85.685:945 

35.904:435 

41.060:846 

46.321:339 

24.929:916 

4.341:559 

47.627:000 

1.796:000 

236.222:800 

26.801:154 

7.648:729 

1.457:894 

2.669:147 

2.003:200 

28.877:263 

5.253:821 



Organisámos este mappa em presença dos dados que encoutrámos no 
annuario estatístico de Gotha, publicado no anno de 1876. Não ò esta com 
certeza a superfície mais exacta, mas acceitámos os cálculos que ali se 
acham publicados para mostrar a nossa imparcialidade; assim como nâo 
julgámos verdadeira a área calculada no importante trabalho de G. Pery. 
É preciso dizer-se, pois, que a superfície da Africa portugueza é muito 
maior do que se pensa, e torna-se da maior necessidade não só tratar de 
fixar os limites com os povos que nos ficam ao S., mas também levantar 
uma carta topographica de Moçambique e Angola, que comprehenda to- 
dos os territórios que nos pertencem do oriente ao occidente. 

A Rússia e a Turquia nâo sao paizes colonisadores como a Hespanha, 
França, Portugal e Inglaterra: e, n'este caso fica Portugal, como potencia 



323 

colonial, colíocado logo iinmediatamenle a esla ultima nação. Cooside- 
rando, porém, em absoluto, a extensão de cada paiz.. seja na Africa ou na 
Ásia, na America ou na Oceania, vê-se que nos pertence o quarto logar em 
relação á grandeza de território, e que somos a segunda nação da Europa 
como paiz colonial. 

Procedemos a esta comparação, mesmo não sendo de inteira confíança 
os algarismos que lhe serviram de base, não só para tornar bem patente 
ainda mais uma vez a vastidão do nosso território, e mostrar a classiflca- 
ção a que temos jus entre as nações da Europa, mas também porque 
muito nos orgulhámos com os descobrimentos e conquistas que tão res- 
peitados nos tornaram nos séculos xiv e xv. Não foi sem intenção que o 
fizemos, visto que alguns escriptores estrangeiros, fallando das terras do 
domínio de Portugal, manifestam claramente o desejo de nos depreciar, 
pondo em duvida, e contestando até, a prioridade da sua posse. 

Dadas estas explicações, que são um protesto pacifico contra aprecia- 
ções menos justas, passiimos a tratar da emigração para o Brazil, que 
tanto tem preoccupado nos últimos tempos a attenção pubUca. 



Emigração para o Brazil 

Sol) oslo titulo, qnc equivale o mesmo que se escrevêssemos emigra- 
ção porlugueza, e que adoptámos para designação geral d'este assumpto, 
desejámos significar que, so por um lado a corrente da nossa emigração 
tem apenas uma direcção— as terras de Santa Cruz — , por outro repre- 
senta um dos mais importantes e momentosos assumptos de que nos oc- 
cupâmos; fazendo d'elle um estudo minucioso, mostrámos que o temos 
na devida consideração. Antes porém de tratarmos da emigração para o 
Brazil devemos dizer algumas palavras para mostrar o sentido em que 
deve considerar-se a palavra emigração. 

Emigração é uma propriedade característica e exclusiva do reino 
hominal, e portanto uma funcção exclusiva da humanidade, assim como 
a linguagem fallada, liberdade. 

É preciso não confundir o que se chama por analogia emigração dos 
animaes com a emigração do homem. 

Não é fácil todavia substituir esta palavra por outra mais apropriada, 
(|ue evite tal confusão, mas a deficiência da linguagem não servirá para 
confundir o verdadeiro sentido que se lhe deve dar. 

Emigrar é colonisar, e assim o entendem alguns escriptores. Recor- 
daremos n'esta occasião o fallecido visconde de Paiva Manso, que, fazendo 
a traducção de um trecho do livTO de Jules Duval, que se refere á emi- 



3i4 

graçao, verteu a palavra franceza émigralion por colonisação*. Evitou 
assim o embaraço em que se via para dar o verdadeiro sentido á palavra 
cuja significação não é explicita. 

Um esclarecido escriptor francez mostrou a distincçao entre a emi- 
gração dos animaes e dos homens nos seguintes termos : 

cLes animaux émigrent, Thomme seul voyage. Seul, de tous les étres, 
Thomme a le pouvoir de se transporter, dans un but dont il à conscience, 
sur tous les points du globe qu'il habite ; des regions brulantes de Téqua- 
teur, il passe aux zones glacées des pòies ; des profondeurs souterraines 
ou du fond de la mer, il gagne la címe des montagnes ou les couches 
élevés de Tatmosphère * . » 

A emigração é> pois, uma funcção da humanidade, e em caso nenhum 
deve confundir-se tão importante qualidade exclusiva do reino hominal 
com o facto instinctívo dos animaes. 

Formulada esta differença radical, passámos a examinar a emigração 
portugueza para o Brazil. 

Faliam algmis escriptores com louvor do modo por que colonisámos 
o Brazil. Notam ainda assim, que começámos tarde a desenvolver a colo- 
nisação d'aquelle paiz, que reputam um padrão da nossa gloria. O que é 
certo é que temos dado exuberantes provas de que sabemos colonisar, 
embora tenha havido intermittencias mais ou menos prolongadas. 

A historia da emigração brazileira dá occasião a largas considerações, 
a que não podemos dar o desenvolvimento que desejávamos, ipas procu- 
rámos referir o que ha de mais importante com relação aos portugue- 
zes. 

Jules Duval observa que os portuguezes e os francezes procuram o 
Brazil, mais com destino ao commercio que á agricultura. Mas, seja como 
for, é iunegavel que a emigração portugueza excede a de todos os outros 
paizes da Europa. Em 1855, diz aquelle escriptor, entre 12:290 emi- 
grantes que se espalharam pelo Brazil, 9:000 eram portuguezes. É real- 
mente significativo este fado, e serve ao menos de attenuar o esqueci- 
mento em que temos deixado as nossas colónias. 

Devemos notar alem d'isto, aproveitando os dados coUigidos em um 
trabalho importante, que os portuguezes se acham espalhados por quasi 
todas as províncias brazileiras, existindo o maior numero d'elles na do 
Rio de Janeiro. Entre os emigrantes d'esta província ó mais avultado o nu- 
mero de portuguezes, dando as províncias do norte de Portugal o maior 



1 Memoria sobre Lourenço Marques pelo visconde de Paiva Manso, 1870, Ireeho 
traduzido do francez de Uhistoire de Vémigration par J-. Duval, 1862. 

2 A. Roi de Le Méricourt, Archives de médedne novnle, tome 2«, pag. 5. 



3aa 

coutiiigeDte, G é exacUimeiíle n'esses pontos que se fatia com menos en- 
thusiasmo a respeito das nossas colónias. 

Não nos propomos indagar as causas da difTerença ijuc se nota nas 
nossas províncias do norte, porque nos referimos a este assumpto n'oii- 
Ira jogar; apenas desejámos dar idéa do facto, da importância da emi- 
^lac^o portugueza na actualidade, e por isso apresentiunos os dados es- 
talíslicos que o patenteiam. 



:>(riidiia de emlyranleit no porta do Mia de JAacIra 



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2:273 
2:309 
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2:101 


;!i:12tí 
1:1G3 
1:382 
l:6tí2 
3:049 
2:266 
1:504 
343 














103:754 


36:240 


47:514 



326 



Ifai^pa úom ewa^ffrmuUtm^ |ior provlnclmi, deiiNto i99* a i^V^i 



Provinciaii 



Douro 

Minho 

Açores 

Beira Alta .... 
Traz os Montes 
Extremadura.. 
Beira Baixa . . . 

Madeira 

II Algarve 

Aleratejo 



Totalidade 
dos emigrantes 



21:630 
8:997 
7:283 
3:i80 
3:068 
2:385 
i$9 

;;3 

13 
10 



46:808 



Media aimiial 



Relações 



4:326,0 

1:799,4 

1:456,6 

636,0 

613,6 

477,0 

' 37,8 

10,6 

2,6 



2,1 

5,2 

6,0 

14,7 

19,6 

24,7 

88,3 

360,0 



2,0 4:680,8 



9:361.6 



1 
1 
i 
1 
1 
1 
1 
1 
1 
1 



Mapiia <ION emlgrnntcN nefando am dlffcrcnleM localldadcM 

dende «990 a 1694 



Procedências 



Porto 

Aveiro 

Braga 

Angra 

Vianna 

Vizeu 

Villa Real 

Lisboa 

Ponta Delgada.. 

Coimbra 

Uorta 

I Guarda 

Bragança 

Leiria 

Fuuclial 

Gastei lo Branco 

Santarém 

F;ii u 

Ik'ja. .! 



Totalidade 
dos emigrantes 



14:036 

5:931 

5:814 

3:847 

3:183 

3:180 

2:937 

2:295 

1:995 

1:663 

\'M[ 

106 

131 

75 

53 

23 

15 

13 

IO* 

46:808 



Metlia unnual 



2:807,2 

1:186,2 

1:162,8 

769,4 

636,6 

636,0 

587,4 

459,0 

399,0 

336,6 

288,2 

33,2 

26,2 

15,0 

10,6 

4,6 

3,0 
2,6 
2.0 

9:361,6 



Relações 


3,3: 




7,8: 




8,0; 




12,1: 




14,7 : 




14,7: 




15,9: 




20,4: 




23,4: 




27,8: 




32,4: 




282,0 : 




357,4 : 




624.3 : 




883,5: 




2.036,0 




3:121,8 




3:602,1 




'i:682,H 





II 



:ja7 

O império do Brazil oíTerece regiões e climas tâo favoráveis, como 
os de muitas outras partes do mundo. Ha n'aquelle paiz localidades fer- 
lilissimas, onde as culturas compensam com largueza os sacrifícios que 
por ellas se fazem. 

Em Africa acontece o mesmo, encontram-se zonas insalubres, e não 
faltam localidades susceptíveis de serem habitadas. Servem de exemplo 
os terrenos occupadas pelos boers, assim como Mossamedes e Lourenço 
Marques. 

Provinoias do império do Brazil, clima geral, superfície, população 

e produotos prinoipaes 



DeaiguaçTios 


Clima gcnil 


. Superflcie 


Popula- 
ção 


Productos principaes 




Equatorial 


Kil. quad. 


Gomma elástica, café, cacau, cera, ele. 


Ainazunas 


1.951:407 


57:610 


Gran-Pará 


Equatorial (S) 


l.(»68:237 


259:821 


Gomina elástica, cacau e castanha da terra. 


Maranh.lo 


Equatorial (S.) 


306:863 


359:040 


Algoilão, assacar, tabaco, milho, arroz, etc. 


Piaaliy 


Equatorial (S.) 

Equatorial (S.) 


áli:H()0 


202:222 


Algodilo, ajiuardcnte, gados, ele. 
Assucar. al?odão. I.abaeo. café. tromnia 


Ceará ^ 


130- 174 


721:686 








elástica, gado, queijo, etc. 


RioGiande do Norte 


Equatorial (S.) 


:ri:l34 


233:979 


Assuoar e algodão. 


Parahvba 

• 


Equatorial (S.) 


52:695 


362:557 


AlgodiU), assucar, pau Urazil, etc. 


Pernambuco 


Tropico-equat. (S.) 


il9:800 


841:539 


Assucar, algodão e cereaes. 


Alagoas 


Tropico-equat. (S.) 
Tropico-equat. (S.) 


ÍIOI.IS 


348:009 


.Vssucar, algodão, tabaco, lãs, couros, etc. 
Assucar, algodão, ngnardente, couros, c^> 
cos, olc. 


SírsíDC 


31177 


161:307 








lialiia 


Tiopico-equal. (S.) 


33()AJ6 


1.283:141 


Assucar, aguardente, tabaco, algodão, ca- 
fé, cacau, cravo, rereaes, etc. 






E^pirila San lo 


Tropiral quente . . . 


44:105 


82:137 


Café, as<iucar. aguardente, algodão, man- 
dioca, cercaes c madeiras. 


Kio (1c Janeiro. . . . 


Tropical 




. 727:576 


Café, ;!ásucar, algodão, chá, cereaes, hor- 
taliças, legumes, fractas, ele. 






17;8S« 


Mnniripio Neutro . 


Tropical 


1 1 


' 274:972 


Assucar, aguardente, ccreaes o mandioca. 


S. Paulo 


Tropical 


23$"<9I 


H:\7-'\hi 


Café, assucar, tabaco, algo<lão, chá, vinho, 
trigo, cereaes, etc. 








Paraná 


Tropical temperado 

- 


ii8M51 


14^:. 74^ 


Diversos productos. 

Assucar, aguardente, cale, algodão, linho, 


Santa Calharina . . 


49:012 


< 59:802 










mandioca, cereaes, etc, em quantidade 


S. Pedro do Rio 








limitada. 


Grande do Sul . . 


Tropical temperado 


á85:446 


430:878 


Gados, carvão de pedra, aguardente, fru- 
ctos, etc. 


Minas Geraes 


Tropical qut>nle . . . 


615:053 


2.009:023 


Gados, metaes, diflerantos Iwidos de algo- 
dão, ele. 


Goyax '. . 


Tropico-equaturial . ', 
Tropical quente — 

1 


iiSi- 108 


160-:t95 i:<i<íne n!rii <>!.• 1 


Mato Grosso 

1 

1 


1.731:740 


60:417 


Assucar, laranjas, unil, niiu, diauiiuites 


8.515:848 


9.700:187 

1 


gado, couros, etc. 



Não ó facll fazer em poucas palavras a descripção lopographlca das 
províncias do Brazil. É immensa a superfície de cada uma d'ellas, e s$o 



328 

variadíssimas as suas prodacçoes, mas, a exemplo do que fizemos a respeito 
das colónias de Hespanha, França, HoUanda e Inglaterra, condensámos o 
que nos parece mais adequado, nao só para justificar as considerações que 
apresentámos a respeito da colonisação e emigração portugueza, mas 
também para mostrar que falíamos da salubridade e insalubridade do Bra- 
zíl, depois de proceder a um estudo tâo attento quanto demorado de o^da 
uma das provindas. 

O império do Brazil está dividido em províncias e estas em comarcas, 
municípios e parochias^ 

Profincia do Amazonas. — Esta provincia é a mais septentrional do im- 
pério. 

Estende-se desde 5« 10' de latitude N. atè iO^ 20' de latitudes. Deve 
portanto ser classificada como paiz equatorial propriamente dito, liaven- 
do-nos por essa rasão referido já a este território, quando fizemos a enu- 
meração dos paizes equatoriaes. 

Não tem porto de mar, e comprchcnde as comarcas de Manáos, Parin- 
tins e Solimões. Encontram-se ali as povoações de Manáos, Teffe, Taba- 
tinga, Barcellos, Serpa e outras villas. 

A provincia do Amazonas ainda não tem emigração, mas a fertilidade 
dos terrenos oflerece grande vantagem para a cultura. 

A extracção da borracha representa uma industria importante, e appli- 
cam-se a este ramo de trabalho muitos indivíduos. Considera-se um paiz 
promeltedor, e tem logares de uma riqueza espantosa. 

Trata-se da construcção de algumas estradas, e o governo brazileiro 
protege para ali a emigração dos europeus. São elles de certo os únicos 
que pela sua actividade intellectual podem concorrer para que se desen- 
volva rapidamente o progresso moral e material, e logoque a popula- 
ção se aclime em tão fértil território, a provincia do Amazonas seiá uma 
nova Califórnia. 

Não ha nas nossas possessões do ultramar território algum corres- 
pondente á parte central do Amazonas, mas a parte da zona do S. está 
quasi no paralielo dos dislrictos de Cabinda, S. Salvador c D. Pedro V, 
pertencentes á provincia de Angola, onde não lemos ainda colonisação. 

Provincia do (íran-Pará. — Eslende-se do 4^^ 10' de latitude N. ató 8"* 10' 
latitude S. Tem ao N. o Oceano Atlântico, esse mesmo mar que banha as 

í Para simplicidade da exposição iiào falíamos diis circumscripí;õcs adminis- 
trativa nem ecclesiaslica. Rcferimo-nos apenas á divisão judiciaria, c por isso indi- 
oàmos tão somente as comarcas. 



329 

costas da província de Angola, da ilha de S. Thomé e de Portugal. Li- 
mita também pelo N. com as Guyanas, e a 0. flca-lhe a província do 
Amazonas. 

A província do Pará é o interposto commercial entre os portos de mar 
e as províncias do interior Goyaz ,e Mato Grosso. 

Tem variados climas, sendo uma grande parte da província atraves- 
sada pelo equador terrestre no sentido da sua maior largura. 

Gontam-se n'ella os afQuentes mais importantes do rio Amazonas, como 
o Tocantins, Xingu, Tapajós, etc. 

Entre as diversas producções nolam-se o arroz, mandioca, legumes, 
assucar, café, algodão e vários fructos próprios d'aquella região. 

A sua zona austral corresponde ao nosso dislricto de S. José de En- 
goge, na província de Angola. 

ProTíncía do Haraolião. — Fica entre 1^ li' e 10"* 40' de latitude S. É por 
conseguinte um paiz equatorial S. e tem ao N. o Oceano Atlântico e pelo 
O., S. e E. correm as províncias do Gran-Pará, Goyaz e Piauhy. 

Divide-se em quatorze comarcas e grande numero de municípios e pa- 
rochías. 

A capital denomina-se S. Luiz, e fica na ilha do Maranhão. 

Ha n'isto alguma parecença com a nossa província de Moçambique, 
cuja capital se acha também edificada sobre uma ilha fronteira ao conti- 
nente. 

O algodão é o producto agrícola mais importante, mas é hoje muito 
menor do que foi ha cincoenta e seis annos. A cultura do arroz também 
diminue bastante, cmquanlo que o assucar se fabrica em muito maior quan- 
tidade. 

Corresponde ao Ambriz, Dande, Bengo e Encoge, na província de An- 
ela. 



nr 



Província do Piauby. — Está comprehendida enlre 2® 45' e M" 40' de 
latitude S. É, como a antecedente, equatorial S., e tem por limites ao N. 
o Oceano Atlântico, e pelo O., S. e E. estendem-secomo em gigantesco 
amplexo as províncias do Maranhão, Bahia, Goyaz, Ceará e Pernam- 
buco. 

Divide-se em doze comarcas e differentes municípios e parochias. 

A capital denomina-se Therezína, e alem d'esta cidade, fundada em 
1832, tem a Parnahyba e Oeiras. 

São baixos cm geral os terrenos, e somente ao S. e E. se deparam al- 
guns outeiros. 

Cultiva-se o algodão, tabaco, milho, assucar e aguardente. 



:í3(» 

São numerosos os rebanhos, os quaes constituem uma das industrias 
mais importantes do paiz. 

Província do Ceará. — Está lançada esta província do 2^ 45' até 7** H' 
de latitude S. O clima em geral è equatorial. Tem ao N. o Atlântico e de 
0. pelo S. até E. formam-lhe um grande circuito as províncias de Piauhy. 
Parahyba, Pernambuco e Rio Grande do Sul. 

Abrange dezeseis comarcas, e tem por capital a cidade denominada 
Fortaleza. Alem d'esta ha as cidades Aracatv, Icó, Crato e outras não 
menos importantes. 

O solo é coberto de arvoredo nos valles dos rios e árido nos outros 
logares. As correntes de agu^ são numerosas, mas pouco abundantes. 

Província do Rio Grande do Norle. — Começa em 4^ 54' e acaba em 6^ 28' 
de latitude S. É equatorial S. e tem por limites ao N. e E. o Oceano Atlân- 
tico. No rumo opposto ficamlhe as províncias de Parahyba e do Ceará. 

Compreliende oito comarcas, diflerentes municípios e parochias. 

A capital é a cidade do Natal. 

É fértil este território, e a cultura do algodão cresce ali de dia para 
dia. Próximo aos rios ha palmares, alguns dos quaes são afastados da 
costa e compostos de palmeiras especíaes. 

Província de Parabjba. — Fica entre 6^ 15' e 7" 50' de latitude S., sendo 
portanto uma região equatorial S. Seus limites são a E. o Oceano Atlân- 
tico, a 0. o Ceará, ao S. Pernambuco e ao N. a província do Rio Grande, 
de que já falíamos. 

Uivíde-se em onze comarcas. A capital tem o mesmo nome da provín- 
cia, e alem doesta ha a cidade de Sousa. 

O território é pouco elevado na zona marítima e no interior, e apre- 
senta, como a província de Angola, uma importante regiãoalto-plana. Pro- 
duz algodão, assucar e madeiras de tingir. 

Província de Pernambuco.— Estende-se do 7^ até !0^ 40' de latitude S., 
reputando-se o clima como equatorial S. A E. fica-lhe o Oceano, ao N. as 
províncias de Parahyba e Ceará, ao S. Alagoas e Bahia e a O. está Piau- 
hy ba. 

Divide-se em dezenove comarcas e tem por capital a cidade do Recife. 
É esta certamente uma das províncias mais ricas do Brazil. As planta- 
ções da canna saccharina são numerosas e é abundante a cultura do algo- 
dão e cereaes. 

A província do Maranhão corresponde pela sua parte boreal ao nosso 



(lisiricto de S. José de Encoge, na província de Angola, á bacia do Dande, 
na parte media, e ao Ambriz e Bengo. Umas e outras regiões pertencem 
à zona equatorial S. 

Pro?iDcía de Alagoas. — Começa em 8^ 4' e acaba em 10" 32' de latitude 
S. É um paiz tropico-equalorial cujos limites sâo ao N.^ O. a província 
de Pernambuco, ao S. a do Sergipe e Bahia, e a E. confina com o Oceano 
Atlântico. Produz como as outras províncias assucar, algodão e tabaco. 
É importante a creaçào de gados, e exportam-se pelles cortidas, couros 
salgados, ele. • » 

Divide-se esta província em nove comarcas e differenles municípios. 
Chama-se Maceió a capital, que se acha era estado florescente. O com- 
mercio é animado. 

Corresponde a zona septenlrional d'esta província ao nosso districto 
de Ambaca, assim como a bacia do Bengo e o districto do duque de Bra- 
gança. Deve ser portanto indifl*erente o procurar uma ou outra região 
quando se tratar de lançar os primeiros fundamentos de qualquer co- 
lónia. 

Província de Sergipe. — Fica esta província entre 9^ 5' e 1 1 e 28' de la- 
titude S., devendo classificar-se como paiz equatorial S. Está nas mes- 
mas condições em que se acha Novo Redondo, Cambambe, Massangano 
e outros concelhos da província de Angola. Tem por limite ao N. a pro- 
víncia de Alagoas, ao S. fica-lhe a da Bahia e a E. tem o Oceano Atlântico, 
conlinando lambem pelo O. com a província da Bahia. 

Produz assucar, algodão e aguardente. Os terrenos são geralmente fér- 
teis, dando em abundância os géneros Iropicaes. 

l)ívide-se em oito comarcas e differenles municípios e parochias. A sua 
capital, fundada ha poucos annos, chama-se Aracaju. Alem da capital ha 
outras cidades e algumas víllas. Tem abundância de rebanhos. 

ProTíncía da Babia. — Ê com prehendida entre l)** 55' e 1 3" 1 5' de latitude 
S., sendo um paiz Iropico-equatorial bem definido. Tem por limite ao N. 
as províncias de Sergipe, Alagoas e Pernambuco, ao S. as do Espirito 
Sanlo e Minas Genes, a E. o mar e a província de Sergipe e a Ò. as pro- 
víncias de Piauhy, Goyaz e Minas Geraes. 

Divide-se cm vinte e cinco comarcas, que comprehendem numerosos 
municípios e parochias. 

É abundante em assucar, aguardente, café e cacau. Não escaceiam os 
cereaes, e o cravo conslitue um importante género de exportação. 

O districto de Benguella corresponde a esta provincia; tanto n'ella 



:i3á 

como n'aquelle disiriclo da provinda de Angola é grande a fertilidade do 
terreno. 

Província do Espirito Santo.— Demora esta província entre IS'' 5' e 2i'* 28' 
de latitude S. O clima é tropical quente, e tem ao N. a provinda da Ba- 
hia, ao S. a do ftio de Janeiro, a O. Minas Geraes e a E. fica o Oceano 
Atlântico. Apesar da grande fertilidade do território d'esta província o 
commercio e a agricultura estão pouco desenvolvidos. Corresponde ao 
nosso território austral de Moçambique, onde, como na provinda bra- 
zileira, se podem fundar colónias agrícolas. As vantagens serão as mes- 
mas. 

Província do Kio de Janeiro. —Fica esta província entre âO** íiO' e 23® li)' 
de latitude S. O seu clima ò tropical quente, mas tão pouco afastado do 
tropico-capricornio que a sua região meridional forma até certo ponto 
um paiz puramente tropical. 

O distficto do Rio de Janeiro tem ao N. as províncias do Espírito 
Santo e Minas Geraes, ao S. fica-lhe o Oceano Atlântico c a 0. a pro- 
víncia de S. Paulo. 

As producções sao bem conhecidas, mas não podemos deixar de as 
' nomear para que se não julgue que ali ha géneros mais importantes do 
que nos nossos districtos de Mossamedes ou de Inhambane. A fama do 
Rio de Janeiro é justificada a todos os respeitos, e ó este um dos pontos 
do império do Brazil mais procurado pelos emigrantes porluguezes. Pro- 
curem embora este paiz, mas saibam que temos terrenos em condições 
de igual fertilidade. 

O café, algodão e canna de assucar produzem-se na província de An- 
gola e de Moçambique com a mesma facilidade. É certo, porém, que o Bra- 
zil tem condições especiaes que ali chamam a emigração, e nós, para des- 
viar esta corrente, precisámos apenas de cuidar da viação publica e fiuvíal 
e da segurança individual ; com estes dois elementos, podemos aliançar 
que não seriam somente os portuguezes que procurariam a nossa região 
tropical, seriam lambem os inglezes e os brazileiros, que ali iriam esta- 
belecer-se. 

Município da Côrtc. — Dá-se este nome á capital do império do Brazil, 
que muitas vezes se designa pelo nome de Município Neutro. Como se vê, 
não se trata de uma província, mas de uma cidade importante. 

O Munidpio da Corte fica entre 22® 43' e 23® G' de latitude S. É um 
paiz tropical, a que corresponde o nosso districto de Inhambane e as ilhas 
de Bazaruto ; todavia é preciso dizer-se que o Rio de Janeiro é qSo só a 

i 



333 

primeira cidade da America do Sul, mas que rivalisa com as primeiras do 
mundo. Tem cerca de 230:000 habitantes. 

Provinda de S. Paulo. -^Estende- se desde 19" W até 25" 13' de lati- 
tude S. Fica por conseguinte sob o trópico austral e forma um paiz tro- 
pical propriamente dito. 

É esta a provincia que pode comparar-se com os districtos de Lou- 
renço Marques e Inhambane. 

Provioeía do Paraná. — Fica esta provincia entre 22^ 4' e 26° 29' de la- 
titude S. Os seus limites são ao N. a provincia de-S. Paulo, ao S, a de 
Santa Catharina e Confederação Argentina, a E. o Oceano Atlântico e a 
provincia de Santa Catharina e a O. tem por limites a republica do Para- 
guay e a provincia de Mato Grosso. 

É uma provincia promettedora, e íica pela mesma distancia do trópico 
austral em que se acha o districto de Lourenço Marques. 

ProTÍncía de Santa Catharina. — Começa esta provincia no mesmo paral- 
lelo em que termina o nosso districto de Lourenço Marques, e estende-se 
até 29** 18'. O seu clima é tropical temperado. 

É um paiz promelledor como muttos districtos das nossas possessões. 

Província do Rio Grande do Sul. — Estende- se esta provincia de 27° 5' a 
.')2° 45' de latitude S. O clima é pois tropical temperado, e tem por limi- 
tes ao N. a provincia de Santa Catharina, ao S. a republica oriental do Pa- 
raguay e pelo E. confina com o mar. 

Tem extensas campinas, notando-se apenas a 155 kilometros da costa 
uma serra bastante comprida, que se dirige para o S. e para o interior 
da republica do Uruguay. A serra jaz no interior da provincia. 

Divide-se em dez comarcas, diversos municipios e parochias. A capi- 
tal chama-se Porto Alegre. 

N'esta provincia ficam as cidades denominadas Rio Grande, Pelotas, Jo- 
gurão, Bagé, Alegrete e outras. 

Possue dilTerentes colónias, e téem ali aflluido muitos allemães, aos 
quaes se deve a fundação da cidade de S. Leopoldo. 

Ê abundante de arroz, trigo, cevada, milho e mandioca. Também ali 
se dá a vinha a par do algodão e assucar. O linho produz com abundância, 
e são bons os fructos. Ha minas de oiro, prata, enxofre e carvão. A agri- 
cultura é notável e os pastos sustentam numerosos rebanhos. 

É esta uma das províncias em que se tem funt^ado maior numero de 
colónias. 



ProfiDcía das Hiaas Geraes. — Esteode-se de 13^ 55' até quasi sob o tro 
pico de capricórnio. Gosa de um clima geral tropical quente, o qual se 
acha bem definido. 

Fica no inierior do império, e tem por limites ao N. a província da Ba- 
hia e ao S. a do Rio de Janeiro e S. Paulo. Da parte oriental conGna com 
as provincias da Bahia, Espirito Santo e Rio de Janeiro, e da occidental 
confronta com as provincias de S. Paulo, Goyaz e Mato Grosso. 

Esta vasta província comprehende vintfi e quatro comarcas e nume- 
rosos municípios e parochias. 

Os nomes que se lêem dado á capital recordam sem duvida a riqueza 
aurífera da cidade: denomina-se Oiro Preto o outrora chama va-se Villa 
Rica. Alem d'esta cidade éncontram-se onlrns coin bastante impor- 
tância. 

O solo d'esta província, segundo Larousse, está cheio de arvoredos e 
apresenta altas montanhas. Sao abundantes as minas de oiro, 'cobre, es- 
tanho, mercúrio e de outros mineraes. Ê o paiz da ipecacuanha, baunilha 
e Índigo, e entre os productos naturaes occupam o primeiro logar o mi- 
lho, arroz, algodão, tabaco e assucar. 

ProTincia do Gojaz. — É comprehendida onlro èJ' 10' o 19® iO' de lali- 
tude S. O clima geral é tropíco-equatorial. 

Esta província tem pelo lado do N. as provincias do Gran-Parâ e do 
Maranhão, ao S. ficam-lhe as de Mato Grosso e Minas Geraes, a do Mara- 
nhão, Píauhy, Bahia e parte da de Minas Geraes. 

Divide-se em onze comarcas e tem por capital Goyaz, antigamente 
Villa Boa, e é atravessada pelo rio Vermellio. 

A província de Goyaz está pouco povoada, mas o solo é fértil. Ali se 
encontram minas de oiro, ferro, crystal e diversos mineraes. A industria 
do paiz, porém, reduz-se á creação de gado vaccum para o qual ha bons 
pastos. 

Proviocia do Mato Grosso. — Fica esta província entre T 50' e 24** 10', 
comprehendendo por conseguinte grande extensão de terrenos que po- 
dem distríbuir-se em cinco climas diversos, a saber: equatorial S., tro- 
pico-equatorfal, tropical quente, tropical e tropical temperado. Da parte 
superior estão as provincias do Amazonas, a do Gran-Pará e a do Goyaz. 
Ao S. tem a republica do Paraguay e a E. limita com as provincias de 
Goyaz e Minas Geraes. 

Divide-se em três comarcas, e tem por capital a cidade denominada 
Cuyaba. É completamente inculto o seu território, e são immensas as fio- 



335 

restas, onde apparece variada caça. Díz-se que ali ha minas de oiio e nu- 
merosos veios de pedras preciosas. 

Dá-se bera o café, assucar, algodão, labaco, ele. 

Terminámos esla succinta notícia a respeito do império do Brazil, mas 
desejámos pòr bem em relevo a sua riqueza em geral, e nao receiâmos fa- 
zer a comparação com a riqueza das nossas colónias, estabelecida a natu- 
ral proporção. 

«Café.— Este género só por si representa approximadamente metade 
(io valor total da exportação. A sua cultura estende-se do Amazonas á 
província de S. Paulo, islo é, de T EN. a 23*^ ES. e do litoral ao extremo 
Occidental do império, excedendo 463:400 kilometros quadrados a su- 
perflcie que lhe é conveniente. 

cSendo-lhe tão apropriados o clima e o solo, rapidamente se desen- 
volveu a cultura, embora no começo, como era natural, n3o houvesse 
grande cuidado em preparar o fructo, provindo d'ahí o descrédito em que 
caiu nos mercados europeus. 

«Nos últimos quinze annos, porém, a qualidade do café melhorou tão 
considera velmenlo com n inlrodiicção do machinas e processos aperfoi- 
coados, que, ha muito tempo, se consome na Europa mais de metade do 
café brazileiro sob a denominação <le Java, Cevlâo, Martinica, S. Domin- 
gos e até de Moka. 

«Doesta verdade deu solemne testemunho o jury internacional da ex- 
posição universal de 1867, conferindo medalha de oiro ao café brazileiro, 
e não concedendo igual recompensa ao de outras procedências. 

«A producção augmenta no Brazil, ao passo qu3 se conserva estacio- 
naria ou progride em pequena escala na índia, America central, S. Do- 
mingos e outros paizes. 

«O seguinte quadro, organisado com documentos ofDciaes, mostra o 
augmento da sua producção: 



EvrcirifK 



1840-Í84Í 
1871-<872 
Augmento 



Quanlidailfs 



Arroba» 



5.0o7:50l 
16.581:644 
11.524:143 



Kilogrammas 



74.294:089 
243.584:360 
169.289:671 



Valores 



20.000:000^000 
7i.645:659i^000 
51.645:659^000 



336 

a Em trinta e um annos a quantidade do caré e^; portado subiu na rasao 
de 228 por cento e o valor na de 258 por cento ou 7,35 por cento e 8,3 
por cento ao anno, prova evidente do progresso da cultura e melhora- 
mento na qualidade do producto. A producção do café é calculada actual- 
mente DO Brazil em perto de 17.699:115 arrobas (260.000:000 kilo- 
grammas), das quaes são consumidas no paiz cerca de 2.000:000 arrobas 
(29.380:000 kilogrammas). Calcula-se existirem no império 530.000:000 
cafeseiros, occupando approximadamenle a superfície de 574:992 hecta- 
res ou 132 léguas quadradas. 

c Algodão. — Este género foi sempre cultivado no Brazil, principalmente 
nas provincias do N., mas em pequena escala até certo tempo, porque o 
baixo preço que obtinha no mercado importador não remunerava satisfa- 
ctoriamente as despezas de producção e transporte. A alta occasionada 
pela guerra dos Estados Unidos, e pela construcção de algumas estradas 
de ferro, animou os plantadores, e a cultura desenvolveu-se com rapidez 
até nas provincias do S. 

a O quadro seguinte mostra o progresso de sua exportação nos últimos 
onze annos : 



»^^— lai^l- 



Exercícios 



Í8G0-1861 
187Í-1872 
Áugmciito 



QiuBlidados 



Arroba* 



070:860 
3.648:048 

2.977:188 



Kiloi^raminas 



9.854:933 
53.589:838 
43.734:905 



Valores 



4.682:1 41 i^559 
35.630:914^000 
30.948:772^41 



a A exportação portanto augmenlou n'este período na rasão de 443,8 
por cento, ou 40,3 por cento annualmente, prova do extraordinário pro- 
gresso da cultura do algodão, cujo valor, no mesmo período, se elevou na 
rasão de 661 por cento, ou 60 por cento ao anno. 

«Importa observar que este grande desenvolvimento na cultura não 
prejudica o café, a canna e outros géneros do paiz, o que somente se ex- 
plica pela melhor applicação das forças económicas. 



I 



cAssnear. — A canna de assucar cultivada no Brazil desde os tempos 
mais remotos, constituiu a sua principal industria até á introducção do 
cafeseiro, que lhe absorveu grande parte das forças. 



337 



«Ullimamente a producção d'este género tomou rápido incremento, 
como demonstra o seguinte quadro, acompanhando assim o progresso do 
algodão e do café : 



Exercicioâ 



1860-18CI. 
1871-1872, 
Áugmento 



Quantidades 



Arrobai 



4.451:188 
9.666:078 
5.214:890 



Kilogrammai 



65.387:951 

141.994:693 

76.606:742 



Valores 



10.900:545M62 
26.277:614^000 
15.377:068^938 



a Nos últimos onze annos, o áugmento da exportação do assucar foi na 
rasão de 117 por cento, ou annualmente 10,6 por cento, e o do valor na 
de 141 por cento, que corresponde annualmente a 12,8 por cento, ou 
mais do que o café. 

«O assucar fabricado actualmente no Brazil, n3o comprehendendo o 
melado e a rapadura em grande quantidade, orça por 20.000:000 de ar- 
robas (293.800:000 kilogrammas). Quasí metade d*esta producção é 
consumida no paiz. 

«Couros seceos e salgados. — Comquanto em lodo o Brazil se possa pro- 
mover em ponto grande a creação do gado, esta industria tem-se desen- 
volvido especialmente nas províncias de Piautiy, Ceará, Rio Grande do 
Norte, Parahíba, S. Paulo, Paraná, S. Pedro do Rio Grande do Sul, Mi- 
nas Geraes, Mato Grosso e Goyaz. 

«Calcula-se existirem actualmente no império cerca de 15.000:000 
cabeças de gado vaccum, que representam o capital de 150.000:000)$000 
réis. 

«Nos exercícios alludidos a exportação de couros foi a seguinte: 



Exercícios 



1860-1861 
1871-1872 
Áugmento 



Qoanlidadef 



Arrobas 



1.285:U7 

1.480:525 

195:078 



Kilogrammas 



18.883:216 

21.748:920 

2.865:704 



Valores 



7.824:309^748 

11.765:714^000 

3.941:4041252 



aNos últimos onze annos a quantidade augmentou, como se vé, na ra- 
são de 15 por cento e o preço na de 50,4 por cento, ou 1,4 por cento e 
4,6 por cento annualmente. 



21 



•aomna eitilki. — Este geoero, cujas applicaç5es industriaes se mul- 
tiplicam constantemento, \eiú, pela maior parte, do valle das províDCías 
do Pará e do Amazonas, onde a siphonia elástica de que se extrahe, 
nasce espontânea e profusamente desde o tiloral alé á distancia de 500 
léguas (á5:000 kilometros). Logoque esta planta for cultivada regularmen- 
te, é natural que diminua o preço da gomma elástica. Ainda assim, po- 
rém, dará rendimento certo e superior ao do café, por quanto a do Brazil 
é a melhor que se conhece. 

cA seguinte tabeliã mostra a quantidade e o valor de sua exportação 
nos exercidos que h3o servido ao estudo comparativo: 



Ezerciciot 



Qttaotidades 



àrrobu 



1860-1861 
1871-1872 
Aiigmento 



164:235 
326:679 
162:444 



Kilogrammas 

2.412:612 
4.798:921 
2.386:309 



ValoiYS 



2.863 
7.509 
4.645 



946^576 
4914000 
5UM24 



«O augraento foi, com relação á quantidade de 99 por cento, e relati- 
vamente ao preço, de 102,2 por cento, ou 9 por cento e 14,7 por cento 
ao anno. 



f Tabaco.— O solo brazileiro presta-se perfeitamente â cultura do tabaco, 
cuja producção tem augmentado, principalmente nas províncias da Bahia. 
Minas Geraes, S. Paulo, Pará e alguns togares do Rio de Janeiro. 

« Nos referidos exercícios a exportaçSo foi a seguinte : 



Exercícios 


Quantidades 


Valores 


Arrobaii 


Kilogrammas 


1860-1861 


313:750 
873:732 
559;982 


4.608:987 2.376:4351739 


1871-1872 


12.835:126 
8.226:139 


6.748:038|;000 
4.371:6021261 


Aiunnento ,......•, . . 





tA elevaçio total da quantidade foi de 178,5 por cento, e a do valor 
184 por cento. A annual regulou por 16,7 por cento, quanto á qoaoti- 
dade, e 16,8 por cento, com referencia ao valor. 



339 

tHèfrw mate.— Este género, como objecto de exportação, é exclusivo 
(las províncias do 8., Rio Grande, Santa Catharina e Paraná. 

«Aproveita-se ainda a producção silvestre; tem-se, porém, feilo tenta- 
tivas para a siia cultura. Do seu acerto deverá resultar augmcnlo da pro- 
ducç3o, e, portanto, grande Iticro ao paiz, atlenta a utilidade therapeutfca 
e alimentícia do mate. 

« A exportação foi a seguinte : 





Uti«ntidádei( 


Nalores 


hxcrcicios 

1 


Arrobas 


* 

KiIo;;raQ)ma!> 


1860-1861 


463: i08 
647:180 
184:072 


6.803:036 
9.307:086 
2.704:030 


1.429:733Mi2 

2.273:816iKO0O 

846:062«tf56 


1871-1872 


Autiiiento 





* ■■ ■ ■■! ■ I . . .1 . ■ - ■ . ; 

(frllouve augmento em relação á quantidade de 39,7 por cento, e quanto 
no valor S9,l por cento. A proporção annual dá para a quantidade 3,6 
por cento, e para o valor 3,4 por cento. 

iCacan.— É também do valle do Amazonas e do Tocantins que provém 
a maior parte do cacau exportado do Brazil. A sua cultura vae tomando 
grande incremento nas províncias da Bahia e do Ceará. 

«Depois da gomma elástica» é este o género que maior lucro dá ao 
productor. 

a Vegeta abundante e espontaneamente nas florestas do Amazonas, 
sendo principalmente cultivado na província do Pará; mas pôde produzir 
bem no terreno que se estende ao S. até ao Rio de Janeiro. 

«A exportação foi a seguinte: 



Exercícios 



QnaDtidades 



Arrobas 



«860-186!. 
1871-1872. 
Differenca . 



236:986 

216:574 

20:412 



Kilogramraas 

3.481:324 

3.181:471 

299:833 



Valons 



1.476:920^113 

1.309:2te^000 

n:^H987 



340 

«Houve diminuiçSío na quantidade de 8,6 por cento, e augmento de 
2,2 por cento no valor, ou 0,8 por cento e 0,2 por cento annual. 

cAgnirdeote.— Depois do exercício de 1860-1861, no qual attingiu o 
valor oíQcial de 597:444^9489 réis, e a quantidade de 2.349:695 canadas 
(3.599:636 litros) a exportação d'este género, que pôde tomar grande des- 
envolvimento, muito augmentou, elevando-se no exercido de 1871-1872 
o valor a 1.243:363^9000 réis, e a quantidade a 2.119:957 canadas (litros 
5.652:908), como se vé no seguinte quadro: 



Exercícios 



1860-1861. 
1871-1872. 
Augmento . 



QoaoUdades 



Canadas 



1.349:695 

2.119:907 

770:262 



Litros 



3.599:636 
5.652:908 
2.053:272 



Valores 



597:444^489 

1.243:363^000 

645:918^511 



tO augmento foi de 57 por cento na quantidade e de 108,1 por cento 
no valor, sendo a relação annual do primeiro 5,2 por cento, e do segundo 
9,8 por cento. 

«Farinha de maodioea.— Logoque forem melhor conhecidas e aprecia- 
das as grandes vantagens d'este producto, a sua exportação deve augmen- 
tar. 

«No exercício de 1860-1861 exportaram-se 89:933 alqueires (litros 
3.269:963) de farinha de mandioca, avaliados ofiScialmente na quantia 
de 102:833jSI760 réis. De então para cá tem crescido progressivamente 
o consumo externo d'este producto da lavoura nacional. 

«A seguinte tabeliã comparativa d'aquelle exercício com o de 1871- 
1 872 mostra qual foi o augmento : 



Exercidos 



1860-1861 

1871-1872 

Augmento 



Quantidades 



Alqueires 



89:933 
194:929 
104:996 



Litros 



3.269:963 
7.087:620 
3.817:657 



Valores 



102:833^760 
358:130^000 
255:296^240 



«Este augmento corresponde á percentagem total de 116,7 por cento, 
e de 10,6 por. cento ao anno, quanto á quantidade; ou á de 248,3 por 
cento, e 22,6 por cento ao anno, quanto ao valor. 

c Jaearaidi. — No ultimo exercício foi de 1.051:091t9KMH) réis o seu va- 
lor ofScial. 

«Existem as malas mais ricas d'esta madeira nas provincias do Rio 
Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Espirito Santo, Rio de Janeiro e 
Minas Geraes, que a exporta pelo rio Mucury e portos da Bahia. 

cGabellos de animaes (crina e lã). — Na exportação de 1860-1861 es- 
tes artigos figuram na estatística oíBcial com a quantidade de 25:188 
arrobas (370:012 kilogrammas), e o valor de 257:946^91000 réis; no exer- 
cício de 1871-1872, porém, a quantidade exportada foi de 36:990 ar- 
robas (543:387 kilogrammas), no valor de 428:934^000 réis, como se 
vè no seguinte quadro: 



Exercícios 



1860^1861 
187Í-Í872 
Augmento 



Quaolidades 



Arrobas 



25:188 
36:990 
11:802 



Kilogranumas 



370:012 
543:387 
173:375 



Valores 



257:946^000 
428:934^000 
170:988^000 



«Houve O augmento de 46,8 por cento na quantidade e 66,2 por cento 
no valor, ou annualmente 4,3 por cento para aquella e 6 por cento para 
este. 



cOiro e diamantes. — Houve decrescimento na sua exportação, cujo va- 
lor no exercido de 1860-1861 foi de 5.401:590^9000 réis. No exercício 
de 1871-1872 baixou a 3.010:547i9IOOO réis. A diminuição explica-se 
pelo descobrimento de minas mais abundantes de diamantes em outros 
paizes. 

«Géneros nio classifleados. — A exportação de géneros não classificados 
importou em 3.893:540^^000 réis. 

«A producção do algodão foi a que mais produziu no decennio de 
1862 a 1872, confrontada com a do tabaco, aguardente, assucar, gomma 



343 

elástica, couros, café e mal«. O cacau diminuiu em quaniidadc, porém 
augmentou cm valor. A exporlacão d'este género esli sujeila a gr^infles 
oscillações por causa daa onclientes do Amazonas, que ipuilas veaes pre- 
judicam a collieita'.B 

U6duzem-30 QaaluieDie os géneros du exportação do Itio do Janeiro 
ãquelles que offerecem as nossas possessões, cujo desenvolvioaonio é l(- 
soDjeiro. 

Happa da» colonUa ralubclceldait do Brasil «leaile lltlS alé ISIS 



Protinm. 


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MiníiCetifi.... 
Bipirits Santo . . . 

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Marinlilu 


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' Ignoru-H a ngigcr» de coliinos ir «'te ru]o> > 

■ IJcmdecinov 
j * IJonid.iciii.n. 


d,iB de iioalro. 
dera «to Ires. 
diw de uma. 



> Exirabido de O hnperio do Orasil na exposição Utunrsal de 1S73 em Vienna 
<f4M(ria. 



343 



Indifferen^ pelas nofleas terras de alem mar 

A Dossa índifTerença pelas lerras de alem mar tem sido causada pela 
fama de insalubridade que ellas adquiriram e pela continuada emigração 
que tem havido para as províncias do império do Brazil. São estas cer- 
tamente as duas causas principaes que se devem tomar em consideração, 
mas outras ha também que é preciso não esquecer, e uma d'ellas è man- 
darem-se para ali os degredados. Parece-nos ser este um dos grandes oIh 
slaculos que se oílerece ao desenvolvimento da colonisação das provindas 
ultramarinas. É assumpto grave e de que adiante trataremos. 

Poucas pessoas se occupam das colónias; quando se lembram d'ellas é 
para contar alguma desgraça ou para referir as difficuldades que se apre- 
sentam a quem as deseja ir habitar, como se não acontecesse o mesmo 
com todas as colónias dos outros paizes, antes de chegarem ao grau de des- 
envolvimento a que as nossas podem também chegar. A respeito do Brazil, 
pelo contrario, falla-se com interesse e muitas vezes com entbusiasmo. 
Pouca gente ha que não tenha nas terras do Santa Cruz um parente, um 
amigo ou um vizinho de quem receba noticias. É isto o que acontece em 
quasi todas as aldeias das nossas províncias do N., e não falta portanto 
quem se encarregue de engrandecer a Bahia, o Maranhão, Pernambuco 
ou o Uio Grande do Sul, julgando-sc sempre infeliz aquelle que vae para 
as nossas possessões ultramarinas. Mas a propaganda que tem chamado 
centenares de portuguezes ao Brazil, tem lançado profundas raizes e alar- 
gado a sua acção por tal modo, que será muito difficil fazer com que os 
nossos conterrâneos troquem aquellas terras pelas da nossa Africa. 

vSe não oppozermos argumentações iguaes, se por todos os meios pos- 
síveis não tratarmos de patentear as vantagens que o solo africano é sus- 
ceptível de dar a quem o quizer explorar, e se não cuidarmos nos meios 
de tornar bem conhecido o clima e as producções tão abundantes, quanto 
fáceis de obter, nada se conseguirá, porque os agentes da emigração para 
o Brazil não contam historias, citam factos; não fazem discursos maia ou 
menos exagerados, apontara para as lindas e agradáveis vivendas perten- 
centes ás famihas d^aquelles que enriqueceram no Brazil. Argumentos 
d'esta ordem dão coragem aos tímidos, animam os ambiciosos, e fazem 
com que os navios da praça do Porto se encham constantemente de emi- 
grantes, sem excepção de sexo nem de idade! 

Sabe-se com evidencia a grande mortalidade que n'estes últimos an- 
nos tem devastado os emigranles portuguezes n aquelle império, porque 
todos os mezes se publicam as relações dos indivíduos ali fallecidos, e que 
são muitos os que se acham em más circumstancias, mas apesar disso 



344 

será dífficil mudar a corrente da emigração emquaDlo campearem no meio 
dos campos e no cenlro de villas e cidades os ostentosos palácios dos bra- 
zileiros^ e dos individues que d'ali regressam com f<Hluna. E o que se diz 
das nossas províncias de Angola e Moçambique?. . . Nadai. • . A historia 
da Zambezia e á guerra dos Dembos, junta-se a leitura das listas dos sen- 
tenceados que nos paquetes são mandados para a Africa. É um mal, bem 
o sabemos, mas que os governos hão de remediar quando pelo progresso 
das nossas possessões se possam crear colónias para os degredados, como 
já existem em outros paizes. 

A falta de propaganda efficaz c apropriada, não só para mostrar as 
condições cm que se acham as colónias, mas também para patentear os 
melhores meios de aclimação, prejudica certamente a emigração voluntá- 
ria, que igualmente tem contra si as diíQculdades dos transportes, a exi- 
gência, a nosso ver, inútil dos passaportes e outros obstáculos análogos. 
Os colonos ou trabalhadores não podem» portanto, procurar as terras da 
Africa com a mesma facilidade com que vão para o Brazil. Alem d'isso são 
poucas as relações quu ali lêem, onde as mais das vezes não encontram pa- 
rentes nem amigos. É esta também uma das causas graves que se oppõem 
á emigração, e que justiQcará a intervenção dos poderes públicos para 
chamar os emigrantes ás colónias pelos meios indirectos até se estabele- 
cer uma corrente de emigração nas condições em que se acha hoje a do 
Brazil. ^ 

£ no meio das incertezas que ainda hoje se apresentam queumpae se 
animará a mandar um filho para S. Thomé, para Moçambique ou mesmo 
para Angola?. . . Ha de certamente hesitar, mas confiámos que com a at- 
tenção que os governos estão tomando pelas nossas possessões em breve 
se desvanecerão similhantes obstáculos. 

A nossa Africa occidental é apenas conhecida em Lisboa, e em quasi 
todas as provindas do N. se olha para ali com azedume ou com desprezo. 
Na própria cidade do Porto mal se conhece o café de S. Thomé ou de Ca- 
zengo, e a navegação d'aquella praça limita-se aos portos do Brazil, sendo 
quasi desconhecidos os da Africa '. 



1 No período de oito annos falleceram muitos milhares de porluguezes, mas só 
seiscentos sessenta e oito deixaram espólios liquidados, que produziram réis 
3.611:000^000. 

2 Não perdemos occasiâo de ler o que a respeito das nossas colónias dizem os 
escriptores estrangeiros, e, n*esta occasiâo, temos diante de nós um livro intitulado : 
Nouvelles répétitions écrites d'histoire et de géograptUe, par C. Raffy, deuxiémê edi- 
iion, 1872. N^este livro a pag. 192 se lé o seguinte: <0s portuguezes possuem hoje 
apenas um limitado numero de colónias; a saber: Cacheu (Sencgambia), ilhas de 
Gabo Verde, S. Thomé, iUia do Príncipe^ Loanda, Benguella (Guiné inferior); Ho- 



345 

A lodífiereDça pelas nossas terras do ultramar tem, pois, causas pró- 
ximas e remotas que facilmente podem ser removidas. Entre as indicações 
que se téem apresentado para tal fim não podemos deixar de recordar as 
que nos deixou o fallecído marquez de Sá de Bandeira. Transcrevemol-as 
aqui, como prova da alta deferência que temos para com o homem que 
tanto se empenhou em promover o progresso e civilisação das terras da 
Africa. 

cSe pois a província de Angola tivesse agentes em Portugal e nas ilhas, 
para lhe mandarem colonos, e a estes agentes pagasse bem, e tivesse 
um fundo destinado especialmente para esse fim; e se o governo desse a 
esses agentes a conveniente protecção e transporte aos emigrantes, é pro- 
vável que esses agentes desempenhariam satisfactoriamente a incumbência 
que lhes fosse commettida. 

«No primeiro inquérito parlamentar sobre a emigração porlugueza, 
apresentado á camará dos deputados em 19 de fevereiro ultimo, acha-se 
este assumpto tratado extensamente, e por um modo muito judicioso; e 
n'elle vem indicadas varias medidas legislativas que a tal respeito cum- 
pre adoptar. 

«Alem da emigração porlugueza, outras ha que seria útil attrahir ás 
nossas colónias, como, por exemplo, a dos povos laboriosos da Galliza,' 
das Astúrias, das provindas Vascongadas, da Suissa e da Bélgica. 

«Em varias colónias britannicas, taes como o Canadá, a Austrália e a 
Nova Zelândia, acham-se estabelecidos ofliciaes reformados do exercito 
e da marinha, e bem assim outros pensionistas do estado, os quaes, ha- 
vendo adquirido gratuitamente, ou com pouca despeza, boas terras para 
cultivar, se téem tomado lavradores, e n'ellas residem com suas famílias. 
Por este meio téem elles obtido fortuna e posição social superior áquella 
que teriam se vivessem na mãe pátria. 

«Se alguns dos nossos compatriotas, em circumstancias similhantes ás 



(lambique, em Africa; Goa, Diu, Macau, na Ásia; parto de Timor, naOceania*. Não 
admira, porém, que os estrangeiros digam que possuimos apenas um limitado 
numero de colónias, quando até hoje temos descurado de lhes assignalar os limites 
e de mostrar que occupâmos o quarto logar como nação colonial, tomando para base 
os vastos territórios da Rússia, da Inglaterra e da Turquia, únicas que excedem 
actualmente p nosso território. 

Urge, pois, não abandonar tão vital assumpto, e desde já notamos que, devido 
á propaganda ultimamente desenvolvida, se deve certamente a diíTerença que se 
nota no Atlas de geographia, de Gosselin-Delamarche, a respeito do modo por que ali 
se acham designadas as nossas províncias de Angola e Moçambique. Nas edições 
anteriores a 1876 apenas se marca uma estreita faxa de terra, como possessão por- 
tugueza. Na ultima já se nos começa a fazer justiça. 



346 

d^aquelles rerormados;;, os imitassem, estabelecendo-se em Angola ou em 
alguma outra das nossas colónias, poderiam, provavelmente, melhorar a 
sua sorte, tornando-se fazendeiros, e habilitando-se pelo seu trabalho e in- 
dustria a deixarem, quando fallecessem, as suas famílias com recursos 
abundantes. 

«A cultura do café, a do al((odOo, a do tabaco e a fabricação da aguar- 
dente, que n'esta província tem creado boas forlunas, dentro de breves 
annos poderia ser igualmente proveitosa para esta classe de colonos, se 
ás mesmas industrias se dedicassem. 

«O extracto seguinte, de uma carta de Mossamedes, ultimamente pu- 
blicada, mostra como em Angola se podem obter importantes resultados 
do trabalho e industria. 

«Diz a carta: «que no anno de 18(53 duas pessoas se associaram 
n'aquella viila com o lim de cultivarem terras no sitio de Campangombe, 
concelho de Bumbo, entrando cada uma d'ellas com o capital de réis 
10:000í5000, moeda fraca, ou perto de G:250M)00 réis. dinheiro de Portu- 
gal; o que no anno de 1873, a sociedade fora dis.solvida amigavelmente, 
retirando-sc um dos sócios com 40:000?50i)0 réis fortes, e ficando outro 
com igual quantia». E acrescenta: «que as duas propriedades que a so- 
ciedade cultivava produziam annualmente 3:000 arrobas (44:06i kilo- 
grammas) de algodão e perto de 80 pipas (33:60U litros) de aguardente, 
c que o valor d'csla dava para o custeio. 

«Ura outro exemplo de como, com um módico capital, se podem adqui- 
rir na mesma colónia, e em poucos annos, resultados vantajosos, foi-me 
communicado por um pro|)rietario do referido concelho do BumlK), o 
qual, passando por Lisboa, me visitou; e contou, que havendo residido em 
Pernambuco, onde se occupava na cultura da canna de assucar, passara 
d^ali para Mossamedcs; c que fora o primeiro que n'aquelledistricto intro- 
duzira a dita cultura no sitio do Bumbo, nas abas da serra de Chella, onde 
estabelecera uma fabrica de aguardente; e que no fim de onze annos, 
vindo á Europa, deixara arrendada a sua propriedade por alguns contos 
de réis. E mostrou-me a escriptura do arrendamento *.» 



^ Exlraliído do Trabalho rural africano e a administração coUmal, pelo mai* 
quez de Sá da Bandeira. 



347 



Africa portuguesa oomo terra de degredados 

Ê csle um ilos mais graves assumplos em que somos obrigados a en- 
trar no decurso d'este trabalho. Não é possível pol o de [íarle, pois me- 
rece que a seu respeito façamos neste logar algumas considerações. 

Curapre-nos, pois. apreciar os factos, pesar-lhe as consequências e 
mostrar a necessidade que ha de se prover de remédio a tão grave estado 
^de cousas. 

Quem podeni ir volunlariamenle para as terras para onde mandam de 
castigo os criminosos?! 

Diga-se toda a verdade em tão melindroso assumpto; mas antes de 
proseguirmos traremos cm nosso auxilio uma voz auclorisada, uma opi- 
nião respeitável. 

«O degredo, diz o sr. conde de Casal Ribeiro, não é pena para o cy- 
nico, que não icm família nem pátria. O degredo só é pena para as co- 
loniass porque é para ellas o elemento de corrupção moral ; o degredo 
^ a destruição de toda a idúa de penalidade, é a negação do horror do 
crime e de regeneração do criminoso *.i> 

Não é só nos tribunaes que alguns criminosos, iirevendo que serão 
condemniidos, pedem para serem julgados* depressa, para irem, como el- 
les dizem, dar um passeio atò ás terras de Africa: outros observam que 
algumas facadas ou um roubo são o melhor passaporte ([ue se pôde tirar 
para irem alô Africa! 

Mas não é somente isto, ha outros casos que faliam bem alto. Citare- 
mos um que nos parece assas signilicativo. 

Tralava-se de uma das mais importantes expedições para as terras de 
Africa. Apresentou-se nm operário altrahido pelas vantagens que se lhe 
oíTereciam e pela certeza de que assim podia ajudar sua velha mãe, e com 
[)razer e enlhusiasmo ouviu ler as condições com que se ajustava. 

Chegou a noticia ao conhecimento da mãe que vivia nas proximidades 
de Lisboa. Não se alegrou, pelo contrario, encheu-se de tristeza e de re- 
sulução, e sem grande demora veiu procurar o filho. 

A scena que se passou foi, em parle, presenciada por nós. De um la- 
do, os rogos de uma mãe afllicta, c do outro as rasões de um bom (ilho, e 
a animação de um amigo que servia de medianeiro. 

— Meu filho, não vás para a Africa. É uma terra tão má, que só para 
lá vão os degredados. Tu não és criminoso. 

— Eu vou trabalhar, minha mãe, não se aíllija. liei de ser feliz, verá. 

1 Diário da caroara dos dignos pares, n.'' 9 de 37 de janeiro de 1877. 



I 



348 

— Seu filho não se esquecerá de si, acrescentava o amigo. Vae por 
pouco tempo, e a terra è boa. Dão-lhe vantagens, e elle pôde fazer econo- 
mias e ajuntar algum capital. 

— Prefiro que meu filho me não dê nada. Eu ainda posso traba- 
lhar. 

—A terra è muito boa, observaram os dois amigos, a ver se conven- 
ciam aquella boa alma. 

— Mas, se é tão boa essa terra, para que mandam para lá os degre- 
dados? 

■ 

A isto não havia que responder. 

Os dois amigos entreolhavam-se como quem diz: Ella tem rasão. 

Não podemos assistir ao resto da sccna, mas qual foi a nossa sur- 
prcza, quando vimos a chorosa velha apresentar-se cheia de coragem, e 
dizer ao director da expedição: 

— Fará favor de riscar o nomo de meu filho. Elle não pôde ir. 

O director fcz-lhc differentes observações, mas de nada serviram. Foi 
preciso asseverar-lhe que ali só era admittido quem quizessc ir volunta- 
riamente, o por isso nãò havia rasão para tal pedido. 

Se este caso indica o terror que a Africa inspira, como terra de de- 
gredados, ha outros que revelam a quasí impossibilidade de se ir para 
qualquer das nossas colónias. 

O que pôde fazer uma familía que deseje estabelecer-se nas ilhas do 
Príncipe e S. Thomé, em Angola ou Moçambique ou em Timor? 

É fácil de prever. 

Em primeiro logar, precisa possuir um capital de algumas centenas 
de mil réis, a fim de pagar a passagem que não é nada moderada. Se for 
infeliz, ou se se não dér bem na terra que escolheu, quem lhe propor- 
cionará os meios para regressar á metrópole? 

Não pretendemos que os poderes públicos dêem protecção directa 
ao colonos, mas lembrámos que não é possível haver emigração sem se- 
gurança, e sem se promover o progresso material e moral dos paizes co- 
loniaes. 

Quem vae para o Brazil, espera encontrar ali algum amigo, parente 
ou protector, e quem tem a coragem de ir para a Africa vê-se obrigado 
a viver nas cidades que são muito insalubres, e tem de lutar com dífiScul- 
dades extraordinárias, e não encontra a maior parte das vezes auxilio al- 
gum. 

Se tem a ventura de voltar ao reino, serve apenas para espalhar o des- 
crédito a respeito das terras onde esteve, e é mais um obstáculo para a 
emigração se dirigir livre e espontaneamente para a Africa portugueza. 

É necessário, pois, acabar com o stygma que se tem lançado sobre as 



349 

nossas possessões, e Iralar de as pôr nas condições de receberem vanlajo- 
samente os colonos ou trabalhadores que para ali desejem ir. A queslão 
reduz-se a promover por lodos os meios possíveis as relações enlre as co- 
lónias e a metrópole, auxiliando todos os que pretendam estabelecer- se 
na Africa, quer tenham estado no Brazil e ali se dessem mah quer saiam 
directamente da metrópole ou fazendo parte das expedições, como as que 
ultimamente foram para Angola e Moçambique, ou mesmo para acompa- 
nharem os contingentes militares que se enviam às colónias. 

As expedições militares do Canadá, da Algéria e do Cabo de Boa Es- 
perança chamaram áquelles logares differentes indivíduos que se occupa- 
vam de negocio a retalho. Dava-se-llies passagem gratuita, e construiam- 
se-lhes habitações appropríadas nas proximidades dos acampamentos. 
Acabada a campanha, olTereceram-se terrenos aos soldados que ali qui- 
zessem ficar, e doeste modo se conservaram nas colónias muitos indiví- 
duos que se estabeleciam definitivamente no paiz. 

Os inglezes mandaram degredados para a Austrália emquanto ali não 
se desenvolveu a colonisação. Achámos justo este alvitre, e é de absoluta 
necessidade proceder do mesmo modo para com as nossas colónias prin- 
cipaes, nuo mandando para ali os condemnados a degredou 

Para que as nossas possessões da Africa possam ser regularmente co- 
lonisadas, é necessário que não sejam consideradas como terra de degre- 
dados. 



Receios infundados àoeroa do olima da nossa região africana, 

dezoito vezes maior que a metrópole 

Se nas terras da Africa ha localidades insalubres, não faltam ali lam- 
bem largos tratos de terreno, em que a par de grande fertilidade, se en- 
cxínlra um clima favorável á colonisação. Ninguém ignora que em Portu- 
gal, collocado na zona temperada, ha logares palustres e infamados de 
insalubridade, e não se dirá por isso que é um paiz insalubre. É preciso, 
pois, distinguir os logares insalubres dos que o não são, e fazer com que 
primeiramente sejam cultivados os que se acham em condições mais ap- 
propríadas á aclimação. São já vantajosamente conhecidos o dislriclo de 
Mossamedes, e os concelhos de Cazengo e de Pungo-Andongo, na provín- 



^ Ignorámos se cm todas as colónias é uso alistarem nos corpos das guarnições 
os degredados. Na ilha de S. Thomé sabemos que lhes duo esso destino, empregan- 
do-os em todos os serviços a que são chamadas as outras ppças ; c muitos d*elles 
téem ali pequenos estabelecimentos onde vendem aguardente, tabaco e differentes 
géneros^ já por sua conta, já por conta de algumas casas commerciaes. 



) 



350 

cia de Angola. Eni Moçambique aponla-se o districto de Inhambane e al- 
guns logares do interior. Os allos-planos das ilhas de S. Thomé e Principo 
passam por salubres, assim como algumas ilhas de Cabo Verde. 

É portanto indispensável tomar era consideração as condições em que 
se acham as terras da nossa Afiica tropico-equatorial, onde a vegetação se 
desenvolve com rapidez; mas se lhe faltar a agricultura, acontece que um 
íogar reputado salubre se torna em pouco tempo doentio. É o que succe- 
deu á ilha do Príncipe, que se acha quasi abandonada, e onde os habitan- 
tes estilo hoje cercados de perigos. 

A ilha de S. Thomé tem melhorado de clima, o que foi previsto ha 
muito tempo pelo dr. Lúcio Augusto da Silva, o qual, apontando as cau- 
sas da sua insalubridade, re[)ulava muito imporlanle a cjue provinlia da 
immensa vegetação que ali havia. Observava, porém, aquelle dislincto me- 
dico que logoque a agricultura alargasse a sua beneflca acção, subsli- 
tuindo-se o espesso arvoredo por culturífs úteis e bem cuidadas, o clima 
da ilha de S. Thomé seria favoravelmente modiflcado. É o que de facto se 
tem observado, e estamos convencidos que ha de acontecer o mesmo em 
muitas localidades, que actualmente se acham infamadas de insalubridade. 
E é justo dizer-se que n'uma área dezoito vezes maior que a da metrópole 
n3o faltarão vastos campos lâo salubros como os molhorcs que possuímos 
no continente da Europa. 

Vem a propósito citar aqui um exemplo que, com quanto não lenha 
relação immediata com este assumpto, porque estamos tratando da pro- 
víncia de S. Thomé, apresenta comtudo alguma analogia, e leva á eviden- 
cia que, procurando-se colonisar convenientemente qualquer terreno, as 
condições de salubridade melhoram consideravelmente. 

É sabido que na superfície total das províncias de Portugal ha uma 
grande extensão de terrenos incultos, sendo doestas as mais notáveis a do 
Alemtejo e a da Beira : pois na primeira d'estas províncias ha um homem 
dotado de força de vontade e génio inexcediveis, que dispondo de recur- 
sos pecuniários, tem procurado cultivar uma extensa área d'estes terre- 
nos, formando ali uma espécie de colónia que bem pode chamar-se a base 
de uma importante povoação agrícola. Para melhor conseguir o seu ele- 
vado pensamento, não só tem tratado da plantação de arvoredo próprio 
e mais aconselhado para beneficiar a salubridade publica, como de bas- 
tantes pomares e olivedos. Adquirindo os mais aperfeiçoados instrumen- 
tos agrários, c empregando os melhores adubos, ha conseguido extrahir 
do solo que se julgava iraproductivo as riquezas de que é susceptivel. 

O homem que tudo isto tem feito, e que é querido dos seus empre- 
gados e rendeiros, é o sr. José Maria dos Santos, actual deputado pelo 
districto de Évora. Comprehendeu que o melhor meio de auxiliar os Ia- 



351 

vradores, e promover que oulros o possam ser, sem compromeller a 
soa fortuna, era aforar-Ihes iratos de terreno e casas próprias que tem 
mandado edificar em condições confortáveis, e cora as acomraodaçôes 
precisas para o fira a que são destinadas, fornecendo-lhes lambera semen- 
tes e trem de lavoura, preslando-se os foreiros a determinados encargos, 
enlre elles o da plantarão de um certo numero de arvores das espécies 
indicadas no contrato, tudo no espaço de dez annos. E note*se que estes 
contratos só começaram a vigorar, emquanto aos encargos, um anno 
depois de escriptura, sendo o pagamento do foro pago annualmente e au- 
gmentado á proporção que as culturas se desenvolvessem. 

Kslc systema tem dado óptimos resultados, pois não só proporciona 
abundância de trabalho a muitos braços, como tem concorrido efBcaz- 
mente para o augmento da riqueza do paiz, melhorando as condiçijes de 
salubridade, auxiliando principalmente o decrescimenlo das febres inter- 
mittentes que tanto flagellavamfiquelles povos. 

Findos os dez annos do contrato o foreiro pôde renovar o arrenda- 
mento do terreno que cultivou, ou adquirir outro nas mesmas condições. 
Quando um homem, dotado de boa vontade, e dispondo só dos seus 
recursos, consegue vantagens tão palpitantes, para si, para o paiz, e para 
os que se aproveitam do seu sysloma de colonisoçno, transformando em 
poucos annos extensas charnecas era uma povoação agricola, muito me- 
lhor o poderiam fazer alguns abastados capitalistas reunidos. 

Estas reflexões que nos occorrerara a propósito de assumpto tão mo- 
mentoso, aliás bem conhecido, porque são factos passados a poucos kilo- 
metros da capital, não nos parecera inconvenientes, não só para prestar 
o devido preito ao seu iniciador, corao porque pode erapregar-se o mesmo 
systema nas nossas possessões. 

Tratemos, pois, de occu[)ar os principaes terrenos que ficam entre as 
províncias de Angola e a de Moçambique; preparemo-nos para receber 
os povos colonisadores que tentara ali chegar, caminhando do S. para o 
N., como os boers, ou do N. para o S., como os inglezes, e teremos dado 
o primeiro passo para a vantajosa colonisação das nossas possessões. É 
portanto para o districto de Lourenço Marques e Inhambane, na costa 
oriental da Afinca, e para o de Mossaraedes, era Angola, que se deve vol- 
tar a nossa attenção, desenganando-nos de uma vez para sempre que são 
infundados os receios que tem havido a respeito do clima da nossa região 
africana. 

Para melhor se avaliarem os climas equatoriaes e tropicaes da Africa 
porlugueza comparados com os das províncias do império do Brazil, pu- 
blicámos o seguinte mappa, colligido em presença das apreciações exara- 
das nos importantes trabalhos de Macedo e Larousse. 



352 



Mappa comparativo dos climas eqaatoriaes e tropiosM 



\ 



Clima gorai 


Brasil 


Províncias 


Clima segundo Macedo 


Equatorial (S.) 


Rio Grande do Norte e Coará. 


Rio Grande do Norte : quente e sadio. - Ceará : quen- 
te, húmido, secco, salubre. 


EqQAtorial (S.) 


Parabjba. 


Quente, secco, salubre. 


Equatorial (S.) 


Regiio austral do Grio-Pará, Amaio« 
uas, Maranbao» etc. 


Muito queote, húmido, intermitteotei próximo dos 
rios. 


Equatorial (S.) 


Regi&o boreal do Pernambuco. 


Quente, húmido, secco, geralmente sadio. 


Equatorial (S.) 


Hegiito central de Pernambuco e Ala- 
goas. 


Quente, húmido, secco, saudável. 


Equatorial (S.) 


Regi&o boreal de Sergipe. 


Quente, húmido, secco ; nas margens de alguns rios 
íntermittentes. 


Equatorial (S.) 


Regiio boreal de Sergipe. * 


Quente, húmido, secco; ou margens de alguns rioi 
íntermittentes. 


Equatorial (S.) 


RegiAo austral de Piauby e Sergipe. 


Qoeole, húmido, secco^ intermitte&tes endémicas nas 
margens de alguns nos; o restante salobre. 


Equatorial (S.) ' 


Kegiio aostral de Piauby e Sergipe, e 
região central da Bahia. 


Piauby: quente e húmido, inlermitteoles end— int 
próximo de alguns rios : o restante salobre. «Smií* 
pe : descripto acima. «-Bahia: queote, homido, se» 
CO, fresco e suave ; Íntermittentes nas margens de 
S. Francisco; o restante sadio. 


TropiooHsquatorial . 


ReiriSo austral da Bahia c central de 
Gojas. 


tos do sortio, Íntermittentes nas margens de alguas 
rios; restante sadio. -Goyai: em geral secoo e 
sadio; intirmiltentes nas marfens de algoos rios. 


Tropical quente. 


Regiio boreal de Minas Geraes, e cen- 
tral de Goyax c Mato Grosso. 


Minas Geraes : Ameno, saudável, cakr forte e iat(r> 
mitteotes nas margens de algons rios. - Gmx : d» 
cripto acima. -Mato Grosso: Em geral uivonvelt 
saudável ; Íntermittentes próximo de rios. 


Tropical quratc. 


Idem. 


Idem. 


Tropical qucole. 


Regiio central de Goyaz, e austral dn 
Mato GrosM) e Minas Geraes. 


Goyaz: desrripto acima. -Mato Grosso: idem. -Mi- 
nas Geraes : idem. 


Tropical queate. 


Rngiio aostral de MinasGcrars,Goyaz, 
Mato Grosso o boreal do Espirito 
Santo. 


Minas Geraes: -descripto acima. -Goyax: iden.- 
Mato Grosso: idem. -Espirito Santo: qotote e te* 
niiilo 00 litoral, brando no interior, gcralmefite sa- 
lobre. 


Tropical queote. 


RegiSo austral de Mato Grosso, Espi- 
rito Santo e Minas Geraos. 


Descripto acima. 


Tropical qucole. 


Regiio boreal do Rio de Janeiro e aus- 
tral de Mato Grosso. 


Rio de Janeiro: quente, húmido, intermitteotee p^ 
río<licas nas terras pantanosas ; na parte septeotrie- 
nal temperado e saluborrímo.-Malo Grosso: des- 
cripto acima. 


Tropical. 


Regiio boreal do Paraná e austral do 
S. Paulo. 


Paraná: quente e húmido; á beiramar temperado e 
muito sadio. -S. Paulo : variável, saudável no inte- 
rior, calor no litoral, no sul salubre, doce, temperado. 


Tropical temperado. 


Regiio austral do Paraná. 


Descripto acima. 


* Limite septeutrional de Moçambique : Gabo Delgado vi bahia de Tongue. 

* E extremo N. de Angola, á direita e esquerda do Zaire. Limilc sentcDlrional de Angola: rio Cacongo eolre Loango' 

Ig-acydelaUtudeS. ^^ 

* Ha algumas colónias já estabclecidai. 

* AchaÚKie bem desenvolTídai algumas colónias. 



m 



idos às proTincias do Brazil e Africa Portagueza 



Africa porln^acsa rrnlral 


Moçambique * 


Gllroa 
segundo Lal-ousso 

• 


Angola* 


Clima 
segundo Larousso 


— 


— 


Oiritricto de Cabinda e S. Sahador. 


Nada diz. 


— 


— 


Districto do Sonho e de D. Pedro V. 
Ambriz c territórios adjacentes. 


Idem. 


— 


— 


Idem. 


— 


— 


Districto de Encoge. 


Idem. 


. — 


— 


Dislricio do Dande e Duque de Bra- 
gança. 


Idem. 




^^^ 


Loanda, terras do Icolo e^engo. do 
Zenza, Golungo Alto, Ambaca, 
Cazcngo". 


Ilha de Loanda : salu- 
bre; do mais nada diz. 


— 


• 


Pungo Andongo c Songo Pequeno. 
(Malaoffe, Cassange, terras de 
Talla Mugongo, etc.) 

Bcoguella Velha e terras adjacen- 
tes. 


Nada diz. 


— 


— 


Idem. 


ido de Cabo Drlgado, Malub.a. 
rfCDS orientai e occi dental do 
Nyasti (região N.) no sertão, 
««ia. 


Nada diz. 


Districto de Novo Bedondo, Malem- 
bas, sertào do Aiidulo e Songo 
Grande. 


Idem. 


lo Ibo, bahía de Pemba, mar- 
IS oriental o occidental do 
iMâ (regtào media) para o ser- 
) Condam. 

districto do Moçambique, 
rgeos oriental c occidentaf do 
Qiirna (região me^ia), Ma* 
CS, para o sertão Mogoas e Ba- 
fas. 


Idem. 


Benguella, Bailundo, Cangucllns e 
Bihé. 


Bcnguella : insalubre 
na:> costas. 


Moçambique: ci- 
dade insalubre. 


Terras do Mossamedeí, Hiiila e ser- 
tfio do interior*. 


Nada diz. 


a de Ancoxp, alto Zambeze, 
Zombo, .S. Buila. 


Nada diz. 


Terras banhadas pelu no Cuncne. 


Idom. 


ido de Oaelimane, Sena e ter- Sena : bnmido o 
nios adjacentes. insalubre. 


— 


— 


tório de Manira. i Nada diz. 

i 

1 

1 


__ • 


^"^^ 


ieto de Sofalla. Insalubre. 

i 


— 


— 


de Bàzaruto. margem N. do 
Bpopo ou Bembe. 


' Nada diz. 






Icto de Inhambane. 


1 Idem. 


1 - 1 


— 


!oço Marques. Sadio. 




)0, e rio Zaire do distrícto de Cabinda para cima. limite meridional Gca rnlrc Cabo Frio e Angra Fria, por 



S3 



CAPITULO IV 
Topographia da ilha de S. Tbomé 

Aspecto geral da ilha. — CosU septeiUioBal. - Costa occidenlal. - Costa meridioaai. — Peqaeia iika das 
Kolas e costa fronteira da ilha de S. Thoné. - Costa oriental. - Montes e cordilheiras. — Rios dt 
ilha de S. Thomé. — Estatistica geral das correntes de agoa de maior nomeada.— ftescrip^ de alguns 
rios e rocas qne lhe ficam proiimas.— Cidade da ilha de S. Thomé.— Limites da cidade de S. Thomé.— 
Rnas e travessas da cidade.— Estatistica geral dof prédios urbanos da ilha de S. Thomé, referida aos 
liiros da conservatória da mesma ilha.— Fortaleza de S. Sebastião e seus calabonços.—Estasâo militar 
no reducto de S. José— Quartéis e deposito de addidos.— Barracáo-quartel e praças adjacentes.— Ca- 
deia civil. — Calabouço da policia. — Villas ou principaes loqares da ilha de S. Thomé. 



Aspecto geral da ilha. — O panorama da liba de S. Thomé, observado 
do mar a poucos kilometros, quer se esteja ao N., quer ao S., da parte 
de E. ou de O., é surprebendenle, descobrindo-se sempre altas monta- 
nhas, agudos picos e notáveis alto-planos. 

Os montes elevam-SQ a muitos centos de metros, e occupam por as- 
sim dizer o centro da superflcie da ilha. O espectador não vé senão uma 
das suas faces, segundo a costa onde for a bahia em que estiver Amdeada 
a embarcação. 

A cidade de S. Thomé Qca no extremo das planícies que se estendem 
desde os alto-planos adjacentes â cordilheira da ilha, na face oriental. Â sua 
ampla bahia está mais inclinada ao N. e pouco fundo tem. É oíScialmente 
conhecida por bahia de Anna de Chaves, quando deveria ser de Álvaro 
de Caminha. 

Os vapores fundeiam muito ao mar, e é d'ali que os viajantes que, pela 
primeira vez, se approximam da ilha têem occasião de attentar na massa 
informe de verdura que se lhes apresenta á vista. 

Olhando para a praia banhada pelas aguas da bahia de Anna de Cha- 
ves ou de Álvaro de Caminha, vé-se destacarem-se algumas casas bran- 
cas dispostas em semi-círculo, voltado para o N. É desagradável a im- 
pressão que causa o panorama da cidade, coUocada n'uma baixa, pare- 
cendo querer fugir do amplexo do immenso arvoredo que a cerca por 
todos os lados. 



i 



356 

As pontas da bahía correm muito fora, ficando n'uma a fortaleza de 
S. Sebastião e n'outra o reducto de S. José. Quem olha do fundeadouro 
da bahía de Anna de Chaves ou de Álvaro de Caminha para esta face da 
ilha, descobre uma immensa bacia, posta inclinadamente e mettendo o seu 
bordo inferior nas aguas do mar ; o fundo assenta no logar denominado 
Santa Luzia, ao pé do qual estão três notáveis montes com disposição ca- 
racterística. 

horisonte do observador, á direita, é limitado por uma corda de 
morros distinctos collocados quasi em linha ^ Mais adiante apparece o 
príncipio da serra, por detrás da qual fica o celebre pico de S. Thomé, 
mostrando apenas o cume, que nem sempre se avista por estar coberto 
de nuvens. A mais de 600 metros de altitude, na face da serra que se tem 
em frente, levantam-se algumas habitações e descobre-se a casa da conhe- 
cida roça do Monte Café, a 800 metros acima do plano do observador. 
Correndo com a vista mais para a esquerda, em relação sempre ao hori- 
sonte physico, nota-se que a serra acaba, havendo por ali um morro re- 
vestido de poucas arvores e muita verdura, e no fundo e acima um monte 
que só se reconhece segundo o logar em que se está, o qual tem o cume 
grosso e muito chegado á serra. 

Ao centro da enorme bacia, e na parte central d'ella, eleva-se o monte 
Formoso, atrás e aos lados do qual se divisam dois outros montes de cu- 
mes agudos, sendo o da esquerda mais alto que o da direita. Ao primeiro 
chamaremos Maria Fernandes e ao segundo Maria Carlota. £ caracteris- 
tica e singular a disposição doestes três montes que não se poderão con- 
fundir com outros quando se olha do porto para aquelle lado da ilha. 

Admiram-se sempre as elevadíssimas arvores colossaes, entre as 
quaes se distingue a denominada pau capitão, que se ergue alterosa so- 
bre as planícies, morros, várzeas e picos. 

Continuando a olhar para o lado esquerdo, reconhece-se que os mon- 
tes referidos vão desapparecendo, mas notam-se quatro mais pequenos em 
relação aos primeiros, a pouca distancia uns dos outros, e um d'elles mais 
próximo do monte Formoso, ao qual parece seguir-se. Mais ao mar des- 
cobre-se a ponta denominada Praião, com os seus coqueiros ao extremo, 
o que simula um navio á vela quando se olha para aquelle lado, e estando 
na fortaleza de S. Sebastião. Ficam por ali praias outr'ora mui afama- 
das. 

A largos traços referimos os limites superiores ou marcámos o ex- 
tremo do horisonte visual, o qual pôde ser determinado por morros, ser- 

1 Veja-se a gravura que tem a seguinte designação : Uma vista da cidade de 
S. Thomé tirada da torre da Sé. 



357 

ras, moDtes e picos dispostos em linha semi-circular. O aspecto é real- 
mente pittoresco, e tanto mais curioso quanto mais se attenta nos variados 
panoramas de verdura que se desenrolam diante do visitante. 

 bahia abre-se a NE., e a praia, verdadeiramente circular, foi a es- 
colhida para junto d'ella se levantiir a capital da ilha. 

A ponta S. Sebastião sáe mais para fóra e no seu extremo começam os 
edificios da cidade. Por toda a parte o terreno é baixo e raso até á igreja 
de S. João, perto da qual se construiu o cemitério publico, no logar de- 
nominado da Boa Vista, o que causa bem triste impressão, pois é um dos 
primeiros espectáculos que se apresentam ao observador. Não é, porém, 
este o único nome paradoxal, pois não causa menos surpreza o cha- 
mar-se cemitério dos Prazeres a um logar de lagrimas e saudade*. 

Fica o sitio da Boa Vista em terreno a NO., ou antes a ONO. da ci- 
dade, que se eleva uns 20 metros acima do nivel do mar e a 1:600 de 
distancia da praia. Na mesma altura corre a ponta de S. José, que já 
nomeámos, desenvolvendo-se em uma vasta planície coberta, de muito ca- 
pim ou herva de Guiné, de algumas palmeiras de leque e poucos tamarin- 
deiros. 

O ilhéu das Cabras, quasi dividido ao meio, parece querer fugir para 
o mar, e atrás d'elle, espraiando-se muito, corre a restinga ou ponta do S. 
da bahia Diogo Nunes. O mar quebra-se com força nas pedras d'esta 
restinga, e é bastante perigosa por ali a passagem das canoas. 

Á ponta S. Sebastião segue-se um terreno baixo, cheio de pedras en- 
negrecidas e de repugnante aspecto ; o mar, que se estende a grande dis- 
tancia, começa n'esta lagoa de margens infectas, á qual se pôde chamar 
um extenso paul, que se prolonga até á igreja de Santo António, e que 
muitas vezes se cobre de agua^. 

Mal se descobrem as villas, que se acham quasi abafadas pelas flores- 
tas que as envolvem. 

Do lado oriental da ilha descobrem-se as villas de Guadalupe e de 
Santo Amaro, á direita; a da Trindade fica-lhe em frente, um pouco para 
baixo na immensa bacia. 

DilTerentes estradas saem da cidade para o interior da ilha, cujo aspe- 
cto é sempre o mesmo, quer se olhe para ella de cima da ponta de S. José 



1 Referimo-nos ao cemitério dos Prazeres, em Lisboa. 

2 O pântano a que nos referimos é bastante espaçoso, e até 1870 nunca se 
tratou do seu desscccamento; n'estc anno porém foram aterrados mais de 20:000 
metros quadrados. A planta da cidade não foi por nós verificada, postoque já a con- 
sultámos em 1871, quando publicámos uma breve memoria acerca dos negócios 
públicos da ilha de S. Thomé. 



% 



356 

ou da fortaleza de S. Sebastião, de qualquer ediGcio da cidade ou dos na- 
vios fundeados no porto. 

Algumas estradas sâo raarginaes, outras interiores, mas o observador 
nao pôde distinguir estradas nem casas por se acharem cobertas de ma- 
tos Ião bastos, tão altos e tão continuados. 

O aspecto geral da ilha pelo N., NE. e E. não é tão pittoresco como 
pelo SE. e pelo S., e especialmente pelo O. e NO. 

Ao S. fica a pequena ilha das Rolas, que se apresenta á direita sendo 
observada da península denominada logologo. 

É verdadeiramente vistoso o rio de agua salgada ou braço de mar que 
divide a parto meridional da ilha, o qual c navegável por pequenas em- 
barcações, ao S. da península a que nos referimos. 

Da ilha das Rolas descobrc-se a zona meridional da ilha deS. Thomé, 
cujos terrenos se elevam cada vez mais até ao lendário pico que lem o 
nome de ilha. 

Desde a costa do S. até ao extremo visivel do horisonte do observa- 
dor destacam-se picos agudíssimos, montes escarpados, pontas alias e 
saídas ao mar que dão á ilha um aspecto singular, poético e grandioso. 

N^aquelles sitios não ha casas nem terras cultivadas! 

A SO. e O. a costa é alta. Fica por ali a agradável e fresca enseada 
dfe S. Miguel, onde vem despejar suas aguas uma boa ribeira, c a ampla 
bahia de Santa Catharína. 

A ilha divide-se em diíTerentes zonas, não só porque a disposição dos 
montes, montanhas e cordilheiras lhe dá muitas faces e aspectos pitlores- 
cos, mas porque as bahias e as praias téem exposição muito distincta. 

As cartas hydrographicas de Lopes de Lima e de Wilson estão muito 
erradas, c a de Boteler, especialmente, tem erros notáveis. 

E de grande vantagem o conhecimento da costa, das praias e das plani- 
cies adjacentes, assim como dos alto-planos, montes e várzeas. 

Passámos a fazer uma breve descripção de cada uma doestas par- 
tes. 

Costa septeifrimial. — Começa esta costa na enseada ou bahia de Anna 
de Chaves ou de Álvaro de Caminha. Fica a NE., e nós tomal-a-hemos 
sempre para ponto de partida, e por isso a nossa descripção hydrographica 
tem principio na ponta N. doesta ampla enseada. Esta ponta ou bahia de- 
nomina-se, como já dissemos, ponta S. José ; é redonda e saliente, su- 
bindo em suave declive ato uns 20 metros, e separa o porto da cidade da 
bahia denominada Praia Lagarto, 

Quem olha da cidade para aquelle lado da costa não pôde ver a bahia, 
porque a restinga Diogo Nunes, espraiando muito ao mar, é a nnica que. 



m 

fleâàèscobèrlâ. A bahiá t^raia Lagarto é úto grande sBlb dé ágUâ, em cdjà 
pfàiâ dèáagaà o riò Mello. 

Navegando-se na abertura d'esta enseada, em uma boa canoa de sèls 
feliios, procura-sé vèntér a gràride restinga, a qual sáè (jtlasí èííi linha 
recta da parle mais recuada dá Praia Lagarto, còbeftà de pedr᧠e bdlXÔs 
saídos aò mar, onde as ohdàs se levantam muito e fàsíerh árTebéntS^ld. 

O ettrtgitio da í^stinga è baixo e muito estendido tãfilbém \)ÍiH dentro 
do mar, sendo preciso um bom pratico para guiar e dirigir tís fetiiaddfés 
áté se chegar em frenttí d'ella c passar um pouco alem. Vencida á íeslinga 
vê-8c D ilhéii dâs Cabras e a formosa e grande enseada Diogo NbrieSi clijà 
praia pôde subditidir-se etn differentes praias pequenas é que reéebem 
nomes particulares. 

Tem um rio que toma o nome da enseada. 

À canoa demora-se cería de trinta e cinco miriUtos para vencer a aber- 
tura da enseada Diogo Nunes, navega-se perto da ponta S. do ilhéu dás 
Cabras, a qual se acha lanhada em frente da fbz d'aquelle rio. 

É deslumbrante o aspecto quê se nos offerece, olhando da canoa para 
a face do N. da ilha. 

Aos outeiros vestidos de copado arvoredo seguem-se florestas continua- 
das. Avistam-se a fazenda Monte Café, as roças S. Nicolau, Màòambrarâ, è 
lá em cima, na encosta de uma cordilheira, sobranceiros a todas éssàs 
habitações, levántam-se outros montes cobertos de arvores seculares, por 
detrás das quaes apparece o pico Anna de Chaves e o elevado ciimé do 
pico de S. Thomé. 

A canoa vae seguindo entre a foz do rio Diogo Nunes e o ilhéu das Ca- 
bras, e depressa parece deixar o mar para entrar n'um lago cin íjtíe 
SC deslisa, costa a costa, a começar em frente da abandonada capella de 
S. Francisco, situada sobre um morro ou elevado outeiro. Drrige-se dfi- 
pOis em frente da praia Fernão Dias. É de um bello eITeitocsla praia éôm 
o seu coqueiral, dahdd paáságem ás límpidas aguas do riof de Oird, tão 
cheias de lendas populares quanto magestosas e agradáveis as tirisírgéhs dò 
leito em que ellas correm. Aqui atravessam furnsfs, saltam aleiili cascatas S 
formam adiante cachoeiras, e perdendo-se muitas vezes por edtré alcanti- 
lados despenhadeiros vem sair mansamente na forniosa priía FernUo Diâs. 

morro Peixe está sobranceiro ao iiíar e ê assim dcfnominado poi* 
haver abundância de peixe nas praias que lhe flcatíi proximaís, a praia Gue- 
gue e a agradável praia das Conchas. Quem se approxima d'elle, ao anOt- 

1 Temos pboiographias de algumas lindas cascatas d*este rio, mas não as man- 
dámos gravar, porque adiariam a poblie açao d*este trabalho, o que não é conve- 
niente. Serão pablícáda^ logo qiié se eonchia a impressão d'este livro. 




360 

tecer, admira-se por ver coberta de extenso manto alvíssimo a sua face 
voltada ao mar: são centenares de garças que á noite ali vão repou- 
sar. 

A praia das Conchas tem a ponta do N. grossa e alta, seguindo-se-lbe 
uma extensa planície. No seu extremo está a habitação de uma fazenda 
importante, e por ali pastoreia a melhor manada de bois da ilha. 

O morro Carregado não tem aspecto notável, é baixo e muito saído; 
atrás d'eUe fica uma superficie baixa e sem arvoredo. 

O mar faz grande arrebentação ao pé doeste morro, e é preciso atten- 
tar bem no tempo em que se deseja dobrar para nao se correr perigo, o 
qual sempre augmenta em consequência de uma ponta rasa e muito met- 
tida ao mar. 

O aspecto da costa que se tinha notado desde a restinga Diogo Nu- 
nes, muda muito depois de se passar o morro Carregado. As praias que 
até ali são de areia, passam a ser de pedregulho, cascalho e calhau, e 
raras vezes oITcrecera desembarque. As pontas são altas, e deixam entre 
si legares baixos cm que ha basto arvoredo. È desagradável uma vista 
assim. 

O observador nota uma praia a que chamam Praia Grande, onde não 
pode desembarcar, porque encontra logo morros altos, escarpados, assen- 
tando em rochas negras soltas, e de aspecto triste. O morro Barro Bóbô 
(ica sobre o mar, talhado a pique c sobe a mais de 25 metros. Da parte 
mais alta téem caído grandes i)edras e algumas parecem estar quasi a 
desabar. 

A ribeira Funda fica entro montes altos, cobertos de arvoredo e talha- 
dos quasi perpendicularmente; a praia offerece desembarque, se bem que 
é de calhaus negros e miúdos. Tem uma fazenda de aspecto agradável, 
mas por tal modo cercada de montes que se assimílha a uma larga e 
ampla cova, pela qual sáe uma corrente de límpida e fresca agua. Produz 
canna saccharina e óptimas laranjas que se colhem nos Qns de abril; o café 
dá-se ali bem. 

Do morro Carregado avistasse a ponta Figo e a ponta Diogo Nunes; do 
morro Peixe avista-se a costa por grande extensão. Entre aquelles dois 
morros estão a pequena praia Guegue e a linda praia das Conchas. É por- 
tanto este o logar mais saído ao mar na costa do N. da ilha. 

A planície da ponta Figo é bastante extensa, e antes de ali se chegar 
encontra-se a foz do rio Rozema, que ás vezes se torna muito caudaloso. 
A costa do N. deve começar a ser contada da restinga Diogo Nunes e 
acabar na ponta Figo. Naturalmente subdivide-se em differentes partes 
sendo o seu limite o morro Carregado collocado em O® 29' 40'' de lati- 
tude N. do Equador e em 15^ 50' longitude E. de Lisboa. 



361 

As praias e rios de fazendas correspondentes, que nós considerámos 
na costa do N. da ilha, são as seguintes: 

i .* Enseada de Diogo Nunes. — Tem um rio com a mesma denomi- 
nação. 

2.* Uba Flor.— Mo tem rio e flca entre a enseada Diogo Nunes e a 
praia Fernão Dias. Ha ali uma pequena roça. 

3.* Praia Fernão Dias. — Tem um rio com o nome de rio de Oiro. 
lia ali uma boa fazenda. 

4.* Pequenapraia Gueguc.— íidiO tem rio e segue-se immediataníente 
ao morro Peixe. No tempo das chuvas ha ali uma corrente de agua. 

3.* Praia das Conchas. — Tem um rio e fica entro o morro Peixe e 
o morro Carregado. Uma das grandes fazendas da ilha tem o mesmo 
nome e pertencc-lhc aquella praia. 

6.* Praia impropriamente denominada Praia Grawde. — N'ella não 
pódc fundear-sc nem desembarcar-se. 

7.* Ribeira Funda. — Tem um rio denominado como a praia, com 
agua limpida c fresca. Existe ali uma pequena granja. 

8.^ Anna Ambó ou antes Agna-Ambó. — Tem ao N. o rio Rozema, e 
está próximo da ponta Figo. Fica ali [\ villa do Nossa Senhora das Neves. 

Costa Occidental. — A circumnavegaçâo da ilha não será feita em poucos 
dias, se houver necessidade de se tomarem os apontamentos indispensá- 
veis para descrever as praias, os rios, as pontas c os terrenos adjacentes. 
E se, alem d'estes apontamentos mcdico-chorOçjraphicos, se tiverem de 
escolher e acondicionar cuidadosamente vegetaes, mineraes e animaes, é 
preciso que a demora por aquelles sitios se prolongue durante o tempo 
sufficiente, para se poder ser útil á sciencia e não se sacrificar a vida. O 
que, porém, é certo, é que pouco se sabe da contra-costa da ilha, espe- 
cialmente da região do SO. 

Temos algumas informações da enseada de Santa Gatharina e da vis- 
tosa angra de S. Miguel, mas são realmente muito incertas. 

Na costa de O. ha pontas altas e de parte d'ellas despenham-se corren- 
tes de agua bastante volumosas. 

Da praia da costa do N. da ilha das Rolas, demora por iO° NO. ma- 
gnéticos a ponta denominada o Homem da Capa. D'ali até á praia Agua- 
Ambó não ha terrenos cultivados a não ser os da fazenda denominada 
Diogo Vaz. 

É notável n'esta costa a ponta Furada, o ilhéu Joanna de Sousa, e 
muito especialmente a enseada de S. Miguel, onde desaguam dois rios, 
sendo um d'elles de ampla foz. É muito abrigado este fundeadouro, e o ar- 
voredo muito basto chega até próximo da praia. O mar por aquelles sitios 



^ 



362 

tão manso como desde a praia da pequena fazenda Uba Flor, ao NE. 
da ilha, até ao extremo da praia das Conchas. Pôde navegar-áe por ali sem 
haver receio das arrebentações do mar, de bancos, de balsas ou râstin- 
gas. 

No livro de Lopes de Lima lè-se o seguinte: 

«Entre a ponta de Diogo Vaz e a ponla Ailemã flca a bella enseada He 
Santa Catharina, assombrada pelo pico de S. Thomé, qiie parace estar- 
Ihe imminente. 

«Fundeia-se á vontade ao longo da praia que é toda de burgalhão grosso 
em 4 até 20 braças (8,8 até 44 metros) de areia preta fina. Ficam por 
este lado os montes mais altos da ilha.» 

Segundo o corographo Cunha Matos, deve haver por toda esta costa 
as seguintes praias, pontas e ilhéus, desde a ponta denominada Homem da 
Capa ou do Capote até á ponta Figo, na extensSo de cerca de 50 kilome- 
tros : 

i .* Praia grande de Calaboyo, — Não temos informações especiaes 
doesta praia. 

2.* Ponla alia, — O mar faz aqui grande arrebentação. 

3.* Ilhéu Macaco, — A costa é'alta por este sitio. 

4.* Enseada em que ha um banco na entrada, 

S.* Praia Pipa, — Fm defronte da costa, e por esta altura, o agudo 
pico da praia Lança. 

G.^ Enseada praia Lança. — Vm antes da ponla Azeitona, cerca de 
9 kilometros do ilhéu Macaco. Os angolares fabricam sal na praia d'esla 
enseada. 

7.* Praia Lança, — Tem uma grande ribeira. 

8.* Ponta Gabado. — A um tiro de espingarda ao mar doesta costa jaz 
o ilhéu Gabado, a mais de S kilometros da ponta Azeitona. 

9.^ Ilhéu de S, Miguel e ilhéu Formoso, — Ê pittoresca e de aspeclo 
risonho a enseada abrigada pelos Ires ilhéus, dispostos do S. para õ N., 
apresentando-se a quem vae n'esta direcção em primeiro logar o Gabada, 
depois o de S. Miguei, e mais para cima o Formoso. As canoas ou lan- 
chas passam com facilidade entre a terra e o ilhéu Gabado, e desde que 
se entra na enseada deve fundear-se próximo á costa do N., onde des- 
agua um rio e pode entrar uma boa lancha. A ponta N. da enseada é alta, 
e o arvoredo que a cobre é bastante copado. É fresco aquelle sitio, onde 
estivemos algumas horas em janeiro de 1873. 

10.* Ilhéu Joanna de Sousa. — Fica a mais de 8 kilometros do ilhéu 
de S. Miguel. É furado na parte media e o mar bate com força dentro da 
caverna que elle apresenta. A costa é alta entre estes ilhéus. 

H.* Ilhéu Coco. — Fica a 3 kilometros do ilhéu Joanna de Sousa. 



363 

12.* Ponta Furada. — k abertura d'esta ponta é grande e bastante 
ampla. 

i3.* Praia sem denominação conhecida, — Á ponta Furada segue-se 
uma praia em que desagua uma boa ribeira ; é extensa, mas nSo é fácil to- 
mar ali agua. 

14.* Ponta Allemã. — Da ponta Furada á ponta Allemâ ha cerca de 
1:400 metros. O mar é chão, o que torna fácil a communicação entre os 
differentes sitios doesta costa. 

15.* Ponta Diogo Vaz. — Entre esta ponta e a antecedente ha mais 
de 5 kilomelros, o que representa a abertura da enseada de Santa Catha- 
rina. 

16.* Prainha. — É uma ponta rasa coberta de coqueiros. Adjacente 
a esta ponta ha uma fazenda cultivada. Tem boa agua. 

17.* Ponta Cadão. — Entre esta ponta e a antecedente ha cerca de 
1:400 metros. Segundo Lopes de Lima a ponta Cadao fica em 28' de lati- 
tude N. e 15® 45' de longitude E. do meridiano de Lisboa, e a ponta do 
Homem da Capa está em 3' de latitude N. e 15® 43' de longitude E. 

A ponta Allemã jaz em 19' de latitude N. e 15® 41' 30" de longitude 
E., e a Diogo Vaz em 22' de latitude N. e 15® 42' 30" longitude E. Bom 
seria verificar-se a exactidão geographica doestas posições, mas nem a 
costa tem sido explorada, nem se tem tratado de levantar o plano da ilha, 
de modo que a maior parte das vezes se repetem estatísticas, que passam 
de uns para outros escriptores sem as necessárias rectificações. É por isso 
que as descripçõcs das ilhas ficam incompletas e se dá curso a erros, ha- 
vendo raappas geographicos e descripções hydrographicas que parecem 
puras invenções*. 

Cosia meridienal. — A costa do S. da ilha estende-se desde a ponta Ba- 
leia até á do Homem da Capa. 

A ponta Baleia é alta, grossa e larga. Ficam-lhe na base muitas pedras, 
onde o mar quebra com força. É preciso procurar o tempo mais próprio 
para se dobrar, dando resguardo á restinga. 

Na costa do S. jaz a vasta enseada que denominaremos Boa Es- 
perança. Ha ali dois fundeadouros, um á esquerda e o outro á direita. 
Chamam ao primeiro logo-Iogó, e ao segundo dâo a denominação de 



1 É de toda a vantagem proceder-se ao exame das praias e ao levantamento 
do plano da ilha do S. Thomé. O qne se lé nos escriptores francezes e inglezes é 
realmente cheio de erros. Da eosta continental possuímos am trabalho importante 
feito por A. M. de Castilho. Urge que se faça o mesmo a respeito das ilhas de 
S. Thomé e Principe. 



364 

Villa*, talvez por ser d'aquellc lado que se acham, próximo á praia, algu- 
mas miseráveis cubatas de angolares. 

São de aspecto magestoso as arvores que por ali se levantam, não só 
nas terras altas da ponta Baleia, mas também nas dos terrenos da penín- 
sula logo-Iogó, que se deveria chamar Jacinto de Almeida. 

£ para lamentar a falta de uma boa estrada que da povoação principal 
da ilha ou da praia officialmente reconhecida como logar único de em- 
barque vá ter á costa de SE. da ilha, na angra de S. João dos Angolares 
ou a qualquer outro logar do S., como a enseada de S. Miguel onde estão 
completamente abandonados os terrenos. 

mar na costa meridional próximo das pontas, que é necessário da- 
brar, anda quasi sempre encapellado por causa dos ventos de travessia. 
Torna-sc por isso necessária a abertura de estradas interiores, cenlraese 
marginaes, as quaes ponham aquellas florestas em fácil communicação 
com os centros populosos. É o único meio de promover a cultura dos ter- 
renos que não se acham ainda explorados. 

Não foi possível verificar-se ainda a existência da decantada caverna 
que atravessa a ilha desde a costa de SE. junto da alia ponta denominada 
16 Grande, dirigindo-sc para a cosfa de 0., próximo â ponta Diogo Vaz. 
A este respeito dissemos no relatório de 18G9, pagina 41 : 

«Parece-nos digno de exame o phenomeno, e não deve continuara 
existir rodeado de mystcrios como está presentemente. Não é infelizmente 
só n'esle caso que isto acontece. Ninguém dirá que esta ilha só tem 930 
kilometros quadrados de superlicie-, e uma costa de cerca de 300 kilo- 
metros. » 

A costa meridional da ilha tem uma forma particular, notando-sen'ella, 
a contar do Homem da Capa, a praia Inhame, a ponta 0. da grande enseada 
Boa Esperança ou logo-Iogó, e a praia que fica no recôncavo da bahia na 
sua parte central, ao meio da qual sáe o rio de Agua Salgada. Estende-se 
depois para E., saindo uma ponta alta, redonda e arborisada, tendo um 
pouco antes da sua foz um regato de agua doce. Apparece em seguida 
uma pequena praia e logo a ponta Baleia. 

1 Lopes de Lima suppoz que a villa era alguma aldeia, e por isso imaginou um 
logar povoado junto á costa na peninsula logo-Iogó, que fica quasi em frente da 
ilha das Rolas. 

2 A superQcie da ilha de S. Thomé, como já por vezes temos dito, nâo está cal- 
culada com exactidão. Expozeroos no capitulo n as diíferenças que encontrámos, e 
no mappa medico-geographico da região guineana admittimos o calculo que nos pa- 
receu mais rasoavel. Em 1869, porém, regulámo-nos apenas pelo trabalho de Lo- 
pes de Lima, assim como o acceítâmos ainda hoje como um calculo mais approxi- 
mado. 



36!} 

Pt^oeia ilha tias Rolas c cosU frooleira da ilba dr S. TlioiBé.~-A iltia •h\ 
Rolas estd ao S. de S. Thomé. ficanilo m:iis para O., de modo ijii^ leiu o 
ponta do Homem da C;)pa peio N. 

As Iiabitaçucâ oslãn defronte tio fundeadouro na costa seplciiln')t»ãt 
marcando-SL> 9'' a 10" NO. magnetit:os com o Homem tia Capa. È, [n-i-i, 
evidente gue a illia das liolasjaz ao S. <l'esta ponta. 

O fundeadouro eslá a um terço O. pouco mais ou menos da costa do N. 

De uma das pontas da costa do 0. vò-se a costa occidental da íllia i\it 
de S. Ttiomé até Diogo Vaz, o que corroliora a nossa asserção. 

O panorama da íllia de S. Thomé, observado d'aquelle logar, é IjcIIo 
e imponente. Avista-se a costa meridional, começando os terrenos a !«• 
vantar-se a pouco e pouco, formando aqui outeiros, mais alem planuras; 
e no meio de montes de variadissiraos aspectos é diflicij distingutÍ'OM uns 
dos outros sem os ter observado por muitas vezos. Descolire-se o iiico 
denominado Cão Pequeno, que pela sua altura, grossura c posição siiiUo 
póilo confundir com nenlium outro, poisque tem a símilbança de uma 
garrafa gigantesca e de feitio regular. Este exótico pico pódc servir parj 
designar o S. da ilha, poisqne só n'esta direcção se descobre dislú' 
clamente. 

Do silio das habitações da ilha das Rolas avistam-se os seguíobi ^ 
gares, a contar da ponia Homem da Capa para o nascente : 

1 ." Uma porção do costa, ficando na parle mais eiuvaila, proiíai ■ 
arvoredo, a pedra qnc simula o Homem da Cajia *. 

"2." Uma praia ile areia que denominam Iiiliamc. 

H." O rio de agua doce da enseada Boa Ksperança, i •"■'TfT í(ir 
deadouro cliamatlt) Villa. A agulha marca íi^ji" ^K. tia cmx|i 
da ribeira. 

4.*' A ponta da margem direita (em relação a qnem entn^á 
ou bahia Roa Esperança, é grossa e alta. 

5." A ponta Baleia fica [)or iu" NR. .A costa meridíoiuMB 
de-se, pois, entre 0° NO. magnéticos, e G7° NE. suppondtia^B 
guio nas habitações da ilha das Rolas. 

Olhando-sc de mejmo logar para a costa do St,i( 
pnnla alta denominada lo-Gramle, logo adiaole, \'m 
de S. João. Alem d'eslas lia mais iliiasdistincta^, qnfil| 

■ O Homem da Cupa ii um.-i prJra que pareo' um 1 
poln aox h»mbrt)s, painilu livrciíionlc. Tem aa niiuis dd 
cima de tírandes prdrasi, rnuilo chepado ;i3 arvitrcs r ■ 
quando se olha para aquello logar, >' realmence graaétj 
em similbante pedra mais se nos afflgurava ver um |^ 
livemtis oceasião de ali srnbir como desrjavamoa^^^J 




366 

Nâo é graDde a ilha das Rolas. Na costa de E. ba muitas pedras altas, 
em que o mar bate com força, e passaudo-lhes por debaixo por grandes 
cavidades, faz sair areia fina ou vapor da agua pelos oriQcios do terreoQ 
da ilha que commuuicam com o mar ^ O vapor da agua sáe com força e 
arrasta qualquer objecto leve que se lançar na abertura. 

A ilha tem o terreno um pouco accidentado para O. 

Na praia do N. ha uma lapide com a seguinte inscripção, que fielmente 
copiámos quando ali fomos em 1873: 

Commemorando o hauto de posse que tomou José Maria de Freitas 
com as formalidades da ley, dos terrenos da villa ã Angra de S. João dos 
Angulares, terra de ló Grande até á pedra forada e d'este ilhéu das Ra- 
las^ em 24 e 25 de Fevereiro de 1864. 

Costa oriental. — Entre a ponta Baléa ao S. da ilha de S. Tbomé e a 
ponta de Diogo Nunes, na terceira bahia para o N. da de Ânna Chaves, 
a costa oriental pôde dividir-se em differentes partes, tomando-se para 
limite a ponta Praião, o ilhéu de SanfAnna e Angra de S. João. Esta di- 
vis3o, porém, é arbitraria, e serve apenas para facilitar a descripçao hy- 
drographica da costa oriental da ilha de S. Thomé. 

A margem oriental apresenta aspectos diversos e formas variadas. A 
ponta Praiao é aquella que sáe mais ao mar. Vê-se distinctamente da for- 
taleza de S. Sebastião. 

É bello o horisonte que se descobre, estando-se na fortaleza, quer se 
olhe para a amplidão dos mares, quer se attente nos conhecidos morros 
Moquinqui, Sacli, Macalíi, Macaco e Mongo, que se acham dispostos quasi 
em linha recta, e parecendo sair do mar para irem engrossar a serra prin- 
cipal da ilha. A sua disposição é característica^. 

1 Cunha Matos diz a este respeito o seguinte : cEm um valle tem dois atoleiros, 
ou, para melhor dizer, sorvedouros, que communicam com o mar, cuja agitação 
ali se percebe muito bem». 

Estivemos ao pé das cavernas, por algumas horas. Ha effectivameDte cammu- 
nicaçào com o mar. O terreno é secco e a costa alta. Ha enormes pedras por entre 
as quaes penetram as ondas, c quando ellas se quebram com força, momentos de- 
pois sáe areia ou vapor de agua pelos orifícios, que se acham na ilha a poucos me- 
tros do mar. 

2 Escreve-se ilhéu das Rolas em vez de ilha das Rolas, por ser assim que usam 
no paiz. Diz- se, por exemplo, na ilha de S. Thomé, de um individuo que embarcou 
com destino á ilha do Príncipe, ou que é natural d*ali : Foi á ilha, A ilha das Rolas, 
muito mais pequena que as ilhas do Príncipe e Anno Bom, é conhecida por ilhéu 
das Rolas. 

3 Yeja-sa a gravura, Vista da cidade de S. Thomé, tirada de cima da torre 
da igreija da Sé- Ao longe descobrem-se os morros Maquinqui, Sadi, HaGalú, Ma- 
caco e Mongo. 



367 

O MoDgo fica nas faldas da serra ; seguem-se os outros morros quasi 
a iguaes distancias até ao Moquinquí mais próximo do mar. É alia e ex- 
tensa a serra, que tem variadas ondulações, mostrando-se á vista as fa- 
zendas do xMonte Café, Macambará, S. Nicolau, etc. Por detrás d'esta ser- 
ra, como já dissemos, saem as pontas de alguns montes, como o do pico 
de S. Thomé, e no fim descobre-se o pico Maria Carlota, quasi similhante 
ao de Aona de Chaves, em cujo meio se apresenta o monte Formoso. Um 
pouco para baixo e para a esquerda levanta-se um outro monte que pa- 
rece querer fuj^ir de ao pé dos outros, e apresenta-se isolado e a distan- 
cia. 

Os terrenos no extremo do borisonte vão diminuindo até chegarem á 
costa, estendendo-se para o interior do mar em pontas baixas e compri- 
das, como a ponta Praião. Ao longe, para SO., mostram-se os cumes de 
alguns montes entre os quaes figura o do pico Maria Fernandes. 

Da cidade para o S. contam-se as seguintes praias, começando da for- 
taleza de S. Sebastião: 

Praia pequena, S. Marçal, Pantufa, Praia Melão de baixo e Praia 
Melão de cinia. Grande Ponta Praião, Praia Pomba ou das Pombas, Al- 
moxarife, Picão, SanVAnna, Meda *, Ahes, Praia Giga, Amador, Praia 
Rei, Traz Budo ou Meme, Ponta Agulha ou Cruz dos Ventos, Praia Mor- 
rão dos Castellos, Praia Ribeira, Pedra Furada, Praia Micondó, Angra 
Taldo, Engobó, Angra de S. João, Praia do ló Grande, Azeitona, Pes- 
queira, Martins Mendes, Ribeira Peixe, Zambá, D, Affonso, Zavianna, 
Barro Bobó, Praia Grande, e a Ponta Baleia. 

Poucas são as praias em que não desagua algum rio, e em muitas 
d*ellas terminam importantes fazendas agrícolas. 

Na costa da fazenda Agua-Izé ha uma larga restinga, a qual se estende 
a mais de 200 metros para o mar. As pedras que a formam estão á flor 
da agua e as ondas quebrando-se sobre ellas formam rolos que se re- 
volvem com grande fragor até próximo de terra. O povo chama a esta 
restinga Valsa do rio Agua Abbade. 

Este rio tem uma pittoresca bacia e corre por detrás da praia em ter- 
reno baixo. No extremo da bacia ha ilhotas formadas pela terra, que a 
corrente arrasta. 

Ú rio bifurca-se e recebe ali uma pequena porção de agua que somente 
no tempo das chuvas se torna volumosa. 

Defronte da foz está uma pedra isolada ou pequeno recife, que pôde 
servir de balisa para se chegar á foz do rio. 



Nos documentos públicos esoMve-ae liessia e nao Meoia. 



368 

É um dos mais celebres rios da ilha de S. Thomé. Serve de limite en- 
tre as terras de Agua-Izé e differenles fazendas, que nomearemos quando 
tratarmos doeste rio. 

Para melhor se apreciar o recife que fica na foz d este rio apresentá- 
mos uma gravura, copia liei de uma photographia que nos facultaram ^ 
Em nenhuma das cartas geographicas até hoje publicadas se acha deter- 
minada a sua foz. Lopes de Lima não se referiu a iBlle, por não ter de certo 
pessoa que o informasse, e Cunha Matos parece que o confundia com o 
rio Praia Rei. 

A praia Agua Abbade é de areia preta, assim como a que lhe fica im- 
mediata, que se denomina Praia Amador ou Praia Preta do Campo do 
Boca Queimada, nome dado a um morro que se levanta no extremo da 
Praia Amador. Não tem arvores e fica sobranceiro ao mar, tendo cerca 
de 60 metros de altitude. Subimos ali em 1873, e ficámos surprehendi- 
dos com o deslumbrante panorama que se desenvolveu diante de nós. Ao 
longe e ao mar estão as Sete Pedras ou Sete Irmãs, o pico Mícondó e 
o pico Maria Fernandes. Mais para o interior levanta-se o pico Mizambõ 
e muitos outros de phantasticas formas cobrindo a ilha pela face do nas- 
cente, e tornando-a de um aspecto singular e ao mesmo tempo triste e 
pitloresco. 

O morro ou a ponta Lebre tem algumas arvores e é bem conhecido. 
Levanla-se em altas pedras que ficam perpendiculares ao mar. A sua co- 
roa de coqueiros dá-lhe as[)eclo alegre, e é certamente dás mais altas 
que por ali se encontram. 

Entre a ponta Lebre e o morro do Campo ou Amador está a peque- 
na praia Giga. 

O mar por estas praias é bravo, as pontas são altas, negras, feias e 
escarpadas, e desde a bahia Mecia Alves até á da Praia Rei nlo se en- 
contra bom desembarque. As canoas, quando o mar o permitte, procu- 
ram a praia Preta do Campo Amador on a pequena praia diga entre 
este morro e a ponta Lebre. 

A praia Mecia Alves não tem rio, mas na bahia da praia Rei desagua a 
Ribeira Funda. A praia Rei começa na restinga da Agulha Abbade e corre 
em innumeras pedras onde as ondas se estendem com fragor medonho, 
assim como na praia Almoxarife. 

No extremo SO. da praia o marmette-se por entre duas pontas. Junto 
ao rio ha um grande coqueiral e duas boas pontes estabelecem a commu- 
nicação da estrada que vae da praia Rei para a fazenda Castello do Sul, 
que lhe está immediata. A bahia da praia Rei pode abrigar balandras oii 

^ Veja-se a gravura Foz do rio Agua Abbade, 



369 

^ ■ » I I ■ ■- 

palhabotes/ emquanto que os brigues ou outras embarcações de maior 
lotação fundeiam fora da ponta. Quem sair n*uma canoa ou lancbá da ba- 
bia da praia Rei tem na frente e um pouco á esquerda a nascente; á ea- 
querda apresenta-se a balsa de Água Âbbade, a ponta Lebre e o ilbèu 
de SanfAnna, e ã direita a Cruz dos Ventos no extremo da ponta do S. da 
bahia, a ponta Agulha e as Sete Pedras muito ao longe. O aspecto que a 
ilha offerece, vista dô mar, a E., tem differenças notáveis, segundo se 
olha para o lado do S. ou do N. São numerosos e de formas variadíssimas 
os picos que por ali se encontram, bem como várzeas, planaras, outei- 
ros e férteis morros entre 450 a 400 metros de altitude, como nós verifi* 
cámos. 

A praia Ribeira fica immediata á praia Morrão dos Cástellos. Sobe-se 
a ponta do Alto Douro que fica sobranceira ao mar uns 50 metros. Pas- 
sada esta descese para aquella praia, onde está o rio que separa a fk*e- 
guezia dos Angolares da de SanfAnna ; a forma da babia e a foz do rio 
está representada na respectiva gravura ^ 

Estivemos junto á margem esquerda quando fomos â fazenda Alto 
Douro em 4872. 

No fundo da babia ha uma pedra que sustenta um pequeno coqueiro, 
a que chamam coqueiro orphão. Serve de limite á costa na fazenda Alto 
Douro. 

A angra de S. João, que se aponta como muito ampla e boa, não tem 
sido descrípta com exactidão. A importância que lhe damos auctorisa a 
extensão com que escrevemos a respeito d'ella. No livro de Lopes de Lima, 
que é geralmente a fonte onde se recorre em assumptos d'esta ordem, 
lé-se a seguinte descripção a respeito de Angra dos Angolares : 

cO porto, aberto ao Sueste e o melhor de todos os da ilha, é a Angra 
de S. João entre a Ponta Agua ao Nordeste e o Pico do Maeurú ao Su- 
doeste (que assim se correm; tem meia légua de boca e qaasí uma mi- 
lha de recôncavo, com capacidade para recolher 45 a 48 navios de qual- 
quer lote ao abrigo de todos os ventos, menos o Sueste, que é travessia; 
na entrada acbam-se 20 braças (44 metros) de fundo de areia fina e den- 
tro na abra 5 e 6 braças (44 e 43'",2) do mesmo fundo, e das 5 braças 
(4 1 metros) para a terra é tudo salão duro ; desembarca-se no fundo da 
bahia em um areal muito raso, coberto de coqueiros, e onde vem despe- 
jar-se duas grandes ribeiras de boa agua ; os dois lados do porto são des- 
.penhadeiros inaccessiveis, por cujos alcantis se despenham copiosas tor- 



1 Veja a gravura, Vista da praia chamada Ribeira, onde desagua o rio que ser- 
ve de limite entre a freguezia de San^Anna e dos Angolares, e onde terminam as 
teiras da fazenda Alto Dmtro, pelo lado do mar. 



Z( 



370 

reates, as quaes com facilidade se eacaminham por meio de caibas, ou 
mangueiras, a encher as aguas dentro mesmo das lanchas, que podem 
bem encostar á rocha ; ao Nordeste d*esta bahia moram os Angoíare$ so- 
bre as montanhas que correm até á Angra de Mecia Alves.^ 

São inexactas algumas das informações que ali se lêem, e que oãode* 
vem passar sem ratiflcaçao. 

A povoação fica sobre um outeiro de 30 metros' de altitude, correndo 
ao rumo geral magnético SO-NE. ou SO V^-E ^A NE. Redozem-se a isto 
as três montanhas a NE. da angra de S. João. 

As terras dos Angolares não se estendem até ao sitio da costa denomi- 
nada Mecia Alves. Estes povos occupam uma parte da ilha muito circum- 
scrípta. Chegam do lado do N. até á Praia Ribeira, limitando com as fa- 
zendas de Agua-Izé e para 0. e S. encontram também do mesmo modo 
as terras pertencentes á referida fazenda ^ 

Ao fundo da Angra de S. João dos Angoiares desembocam dois rios, 
e na margem de NE. corre uma pequena porção de agua por entre pe- 
dras e só poderá engrossar em occasiuo de chuvas. Faltam pois i$ co- 
piosas correntes e os despenhadeiros inaccessiveis. 

A ponta do S. é arborisada, e terá de 80 a 400 metros de altitude, 
mas nãp nos consta que d'ella desça corrente alguma de agua. 

Tem de se passar em canoa o rio que desagua no mar do lado da 
villa dos Angolares. Não é caudaloso, mas a agua dá pelos joelhos dos 
carregadores que o atravessam a vau. A ladeira, que da praia conduz i 
villa, é Íngreme e começa junto a uma grande pedra que está próxima 
á margem esquerda do rio. O fundo da Angra de S. João ó limpo e muito 
regular. 

Dentro d'eUa poucos navios cabem, e se outras embarcações a deman- 
darem téem de fundear fora da ponta, esperando que as outras saiam, 
como succede no porto de Anna dle Chaves ou antes de Álvaro de Cami- 
nha. A bahia é regular e disposta em semi-circulo ou antes em forma de 
saco. 

iMtes e cordilheiras. — Os montes da ilha de S. Thomé eeiSo quasi 
todos por determinar. Conhecem-se alguns dos mais altos, mas a deno- 
minação de um grande numero é arbitraria. 

Um observador collocado no extremo da ponta de S. José ao N. da ba- 
hia, ou no extremo da ponta de S. Sebastião ao S. da mesma, ou ainda . 



1 No mappa mcdico-geograpliíco da ilha de S. Thomé apresentámos a arca exa- 
cta de muitas fazendas, assim como pateuleâmos a superlicie occupada pdos An- 
golares. A gravura doesto trabalho nuo se fará esperar por muito tempo. 



371 

•m qualquer navio fundeado no porto, olhando para a ilha vé o seu hori- 
soQto visual jbebado por montes, picos e serras, podendo julgar-se no 
centro de om drciàD, cuja drcumferencia regularmente traçada coincide 
com os comes d'aqueUea altos montes. 

O arvoredo começa a differençar-se próximo ao vistoso morro deno* 
minado Mongo, e um pouco para a esquerda, para cima e para O., desço- 
bre-set rai dias claros, o come do pico de S. Thomé. Fica por ali i serra 
encnrvando-se um pouco, para se levantar outra vez^ 

Nos pontos onde esta diminue apparecem os três symetrícos montes 
dispostos em forma triangular estando um dos vértices voltado para o 
observador» e é representado pelo monte Formoso; o lado opposto do 
triangulo é formado pelo monte Maria Carlota á direita e Maria Fernan- 
des á esquerda. 

O altan^ro e agudo pico Maria Fernandes é boa conbecença d'aquel- 
las paragens. 

Ao monte Formoso segue-se para a esquerda e para baixo um monte 
bastante alto, e mais para a esquerda ainda e para o S. fica o pico que 
dizem denominar-se Mísambó. Alem d*estes montes vêem-se do fundea- 
douro o pico Maria Fernandes a ESE., o morro da costa de E. ou do 
PraiSOi e dentro d'esta circumferenda alguns outeiros e vistosos mor- 
ros. 

É realmente agradabilíssimo o panorama da ilha, vista d'esle lado, 
qw é o mais povoado e conhecido. A E., ao S. e a SSE. levantam-se dif- 
fereotes montes, mas nlo se sabe a sua posição relativa nem absoluta. 

Ghama-se a um o pico Câo Grande, que só se descobre bem indo-se 
em viagem para o S. da ilha, mas as suas proximidades b2o têem sido 
exploradas. O mesmo succede a respeito do pico Cão Pequeno, e tanto 
um como outro, pela sua forma singularissima, podem comparar-se a um 
enomisdmo|[azometro, posto ali por Malquer capricho da natureza. 

Se ha vantagem em conhecer os numerosos montes, picos e monta- 
nhas existentes em toda a ilha, n3o é menos importante o estudo das planu- 
ras e otttdros susceptíveis de cultura, tornando-se muito úteis as explo- 
racfies geológicas e mineralógicas a que é preciso proceder, a fim de se 
saber se é possível habitar algumas cumeadas, várzeas ou aberturas lar- 
gas e accessiveis. 

9io numerosos os mcM^ros em que já se téem feito plantações*. 



1 A maneira por que descrevemos á ilha de S. Thomé obrigou-nos a fazer algU' 
mas repetições, procurando comtado evital-as tanto quanto nos foi possível. 

' Entre os morros cultivados eoutam-se o monte Macaco e os morros da roça 
Gachoeu^a, nas terras de Agaa-Izé, e todos os terrenos altos d'osta vasta fazenda. 



372 

Rios da ilha de S. Tlimè.— Os rios da ilha de S. Thomé nSo têem 
sido explorados, e faltam também os estudos bydrograptiicos propria- 
mente ditos. NSo é possível portanto calcuiar-se a saperficie das bacias 
dos rios qae fecundam os terrenos, nem se conhece com exactidão a ori- 
gem e curso da maior parte d^elles. A ilha é todavia recortada por nume- 
rosas correntes de agua. Descem umas dos montes altos e desaguam no 
mar, e outras atravessam várzeas e fertilisam planícies, indo depois en- 
grossar as principaes correntes de agua. A ilha, porém, não se toma notá- 
vel pela rede geral dos canaes abertos pela natureza : o que ali é mais di- 
gno de attenção são as variadas fontes ou nascentes que ora apparecem 
entre o arvoredo, onde se perdem, ora saem em crystallinos fios de agua, 
serpenteando por entre mimosa vegetação. 

O povo, no seu sincero pensar, distingue a maior parte das aguas pe- 
los sítios em que ellas passam ou por alguma circumstancia característica 
que os affecta. Estão n'estc caso as chamadas Agua Mafra, Ghóchó> Budo, 
Agua Areia, Gallo Canta, Agua Secca, Agua Junta, Clogá e outras. Mas 
independentemente d*estes nomes singulares, toem muitos cheios de len- 
das poéticas, taes como o rio da Ponte que Deus fez. Agua Casada e o 
rio de Oiro de que adiante fatiaremos. 

Agua Bõbõ é o nome geral por que se nomeiam todas as nascentes 
límpidas, brotando solitárias por entre copado arvoredo. Ha portanto 
muitas doeste nome. 

Não ha certamente paiz tão abundante de agua como a ilha de S. Thomi. 
Os rios não são navegáveis, mas grande numero d'elles conserva um vo- 
lume de agua regular em todo o anno e tem foz constantemente aberta. 

O povo tem ainda denominações especiaes para estas correntes. Agua 
Grande é o nome geral de muitos rios, assim como o de ribeira tem 
sido applícado a outros. Alguns tomam também o nome dos logares em 
que passam^ e aos quaes se attiibuem também lendas mais ou menos 
extraordinárias. 

Não nos é possível fazer a descripção hydrographica da ilha, apresen- 
tando 08 contornos, superficies, direcção e afiluentes dos diflermtes rios, 
mas nomearemos as fazendas que elles banham e as praias em que 
desaguam, indicando o que se nos depara de mais curioso e interes- 
sante. 

Cumpre-nos também declarar que não tivemos occasião de seguir o 
curso dos rios desde a foz até ás nascentes, mas que fizemos quanto em 



cuja dcseripçâo especial reservámos para publicação adequada, onde apresentare- 
mos não só um míippa medieo-geographico da ilha, mas díOerentes vistas de plan- 
toçòcs, ele. 



373 

nós coube para obter com a maior exactidão todas as informações que 
nos podessem auxiliar n'esla descripçio. 

Fazem-se diversas supposíções acerca da origem de alguns rios, não 
faltando quem acredite na existência de um lago na região montaahosa 
da ilha, assim como se falia de importantes cavernas, soberbas cataractas 
e de immensas cavidades, uma das quaes atravessa a ilba de uma a ou- 
tra costa. Nada se sabe, porém, com certeza, porque a ilba ainda nao foi 
explorada oa soa parte mais alta. 

Sslalistiea feral das emrentes ie afu de naier Mneada. — Agua Mongo. — 
Toma o nome do morro onde tem a nascente, corre nas freguezias da 
Santissíma Trindade e Magdalena e passa nos fundos da roça denomi- 
nada Bemfica e a SO. da fazenda Santa Margarida. Dizem ser este o rio 
que corre por detrás da villa da Magdalena e ahi recebe o nome de Agua 
da Villa. 

Agua da Villa.— ^lo è volumosa n^este logar e um pouco abaixo forma 
uma queda de agua. Tivemos occasião de ver esta cataracta, indo em ser- 
viço á villa da Magdalena para escolher o terreno apropriado para o cemi- 
tério. 

Agua Pele-pete. — É conhecida por esta denominação uma agua que 
passa nos fundos da roça Pete-pete, que lhe dá o nome. Fica na fre- 
guezia da Graça, no sitio da Monta, servindo de limite a algumas fazen- 
das. 

Agua Simão.— Denomina-se assim uma corrente que serve de limite 
á roç4i Mesquita, passando-lhe ao fundo. 

Agua Tio. — È o nome de uma corrente que, na freguezia da Graça, 
limita umas terras de 4:646 metros de extensão, situadas no logar da 
Monta. 

Agua ignez. — Fica na roça Ganga, freguezia da Trindade. 

Agua Garcia ou Agua Vargem, — É uma correntede pequeno volume 
de agua, á qual dão diversos nomes como os legares em que passa. Os ha- 
bitantes chamam-lhe Agua Porca n'um sitio, o n'outros toma o nome de 
levada, o que prova ter ella mais de um leito ; atravessa a freguezia da 
Conceição e marca o fundo da roça Boa Esperança ; divide em parte a 
roça Mesquita da roça Campo ; corre na cidade sob a ponte Lucumi ; serve 
de limite pelos fundos á roça Garcia, que lhe dá o nome, e com o de 
Levada de agua Garcia limita pelo N. a roça denominada Agua Porca, do 
lado direito, e pelo S. as roças Boa Morte, que pertenceram á irmandade 
do Rosário, das quaes tomou posse a fazenda, bem como limita a que 
esta já possuia sob igual nome e é composta de três pequenas fazen- 
das distinctas entre si, tendo a primeira a mesma levada de agua Garcia 



374 

pelo 0., a segunda pelo S. e a terceira pelo O. Corre na freguezia da Con- 
ceição, passa a O. das terras denominadie Reboque e nm jimtar-ie ás 
aguas que saem da roça Arrayal (hoje horta milíUr), formando vm regueí- 
rlo que o poto oom justificada rasSo chama Agua Fede. 

Apia FêéB.^k fos doeste regueirio está quasi sempre Mtap\àã pela 
areia que ali se accumula nas marés cheias« 

Acua Bóbó.-^ Pertence á freguesia da Magdalma e com á frente de 
umas terras da roça Cró-Cró. Chamam algumas pessoas agua BôMás Mi* 
cenles de agua límpida perdendo-se a pouca distancia do sitio em que ap- 
parecem. Ha muitas nascentes com este nome^ devendo designara i que 
fica nas proiidades da cidade de 8. Thomé. É d*esta fonte que se abaste» 
cem muitos habitantes. Guarda-se em vasos separados, e para se dar a 
certeza de que um copo de agua é perfeito diz-se : Ê agua Búbó. 

Agm Piedade. — Tem o seu curso na freguezia da Magdaiena e passa 
ao fundo de uma roça no sitio de Batepá. 

Agua Ouíchó. — Corre nas freguezias da Magdaiena e Santo Amaro, 
passando a O. da roça Boa Entrada. Na roça Santa Crus ha diOèrentes 
nascentes de agua férrea, flcando entre esta roça e a agua Cbóchó. 

Agua Palito. — Nasce, segundo se diz, na roça Agua Palito e corre 

na freguezia da Magdaiena, pelo lado inferior das terras denoniínadas 

Allemanha e ObA do Meio. Fica debaixo do aqueducto que leva a agua do 

rio Mongo ou de Mello para o hospital militar. £ atravessado pelo cmni- 

nho ou estrada da Magdaiena, sobre o qual existe uma ponte insiguM» 
cante. 

Agua Anca. — Pertence á freguezia da Magdaiena e passa ao S. da 
roça Otõtõ e na roça praia Melão. 

J^iua Tanque. — Pertence á freguezia da Trindade, corre ao fundo 
da Boca-Boca e junta-se ao rio Agua Grande. A freguezia da Magdaiena 
chega ate este regato. 

Agua Pardal. — Tem o seu curso na fregu€7.ia da Trindade a passa 
ao fundo da roça Cassumá. 

Agua Caranguejo. — Corre nas freguezias da Trindade e Magdaiena 
e passa ao fundo da roça Cassumá. 

Agua Prálá. — Pertence á freguezia da Magdaiena e costeia os fon* 
dos da roça Bô-ízaquente. 

Agua Casada. — Tem o seu curso na freguezia de Santo Amaro, e 
separa esta freguezia da de Nossa Senhora de Guadeiupe. É lendária esta 
corrente ^ Atravessámol-a quando fomos em serviço á villa da Magdaiena. 



1 A respeito doesta agua escreveu o sr. Alfredo Tronf um folhetim que aio re- 
produzimos aqui para não dar maior extensão a este trabalho. 



375 

Agua Machado. —Tem o seu curso nas freguezias da Trindade, Santa 
Anna e Magdalena, banhando pela frente a roça Gullu e o extremo N. da 
roça Pedroma. 

Agua Panada. — Pertence á Treguezia da Trindade e corre ao N. da 
fazenda Plató Café e a E. da roça Santa Luzia. É affluente da margem di- 
reita do rio Manuel Jorge. No ponto de reunião das aguas chama-se Agua 
Junta. Observámos esta corrente quando estivemos na fazenda Sacavém, 
cuja localidade se reconhece por se achar na direcção dos três montes 
que symetricamente se levantam no extremo da serra. 

Agua Coco. — Pertence á freguezia da Graça e corre ao fundo de uma 
terra que faz parte da roça Margarida Malé ; também passa na roça Uba 
Budo, desembocando na praia Almoxarife, um pouco adiante do rio Clara 
Dias. 

Agua Magra. — Pertence á freguezia de SanrAnna e corre no limite 
E. da fazenda Nova Olinda. 

Agua S^cm. — Pertence á fazenda da Trindade, levando agua ap^as 
no tempo das chuvas. O leito de qualquer riacho n'estas circumstancias 
recebe o nome de Agua Secca. 

Agua Quinftndá. — Tem o seu curso nas freguezias da Graça e Trin- 
dade 6 passa ao fundo da roça Lemos. 

Agua Camilo. — Pertence á freguezia da Trindade, corre em frente 
da foça Cabeia e ao N. da roça Canga. Passa também na roça Santa Fé. 

Agua Mussungú. — Tem o seu curso nas freguezias de Santo Amaro 
e Magdalena e passa ao fundo da roça Santa Cruz. 

Agua Vaz. — Pertence á freguezia da Trindade e corre a O. da roça 
Piedade. 

Agua Filippe. — Pertence á freguezia de Santo Amaro e corre ao fun« 
do de umas terras no logar de Obõ-Machado. 

Agua Cléclé. — Pertence á freguezia da Magdalena e corre em frente 
de umas terras no logar de Potõ. 

Agua Prevds. — Pertence á freguezia de Nossa Senhora das Neves e 
corre a E. de um pequeno terreno. 

Agua Colma. — Pertence á freguezia da Graça, corre ao S. da roça 
Bonança e em frente da roça Cima Colla. Atravessámos esta agua, que 
tem pouca importância. 

Agua Falcão. — Pertence á freguezia da Trindade e corre ao fbndo de 
uma fracção da roça Folha Fede. 

Agua Serra. — Pertence á freguezia da Graça e corre ao fundo de 
umas terras no sitio Bom-Bom. 

Agua Areia. — Pertence á freguezia da Trindade e corre ao fundo da 
roça Uba Cocundia. Forma o fundo da roça Affna Grande. 



I 



37(5 

Agua Thomé. —Tem o seu curso nas freguezias da Graça e Trindade, 
corre ao Tundo da roça Mão Três e de umas terras no sitio da Monta. So- 
bre o curso e posição d'este rio tem havido contestações. 

Água Funda. — Pertence â freguezia da Trindade e corre ao ftindo 
da roça Rocinha Golia. 

Agua Pequena. — Ê a denominação geral de muitas correntes. Entre 
ellas conta-se a que passa proiimo á villa da Trindade e vae juntar-se ao 
rio Agua Grande. Ovewo atravessa a viila» dirigindo-se para o sitio do 
Canga e fazenda próxima o tem á direita este pequeno riacho; passa em 
frente da roça Ganga. Ha outras aguas com este nome, correndo uma em 
frente da roça Agua Palito. Â Agua Pequena fica a O. d*esta roça que tem 
um pântano ou sumidouro. 

Agua Ckió. — Pertence á freguezia da Graça e passa ao fundo de um 
pequeno terreno no sitio de Palha.' 

Agua Escorrega. — Pertence á freguezia da Graça, passa a O. de uma 
terra no sitio da Praia Melão e corre na roça do mesmo nome. 

Ato de ikllo ou Braz Francisco. — Pertence á freguezia de Santo 
Amaro, passa ao N. da roça Bella Vista e desagua na praia Lagarto. 

Ato Minga^Aguorlzé. — Pertence á freguezia de SanfAnna, passa a 
O. da fazenda Cachoeira e forma uma cataracta bastante alta, um pouco 
antes de se reunir ao rio Agua Abbade. Descobriu-se próximo a esta agua 
uma nascente de petróleo. Dá-se-lhe também o nome de Agua Thomé, e 
torna-se notável por servir de limite á fazenda denominada Cacboera, de 
que adiante fallaremos. A falta de rigor nas denominações dos rios tem 
dado origem a differentes protestos sobre o curso d*este riacho, que fica 
dentro da fazenda Agua-Izé. Tivemos occasião de observar a cataracta 
d*este ribeiro e vadiámol-o por differentes vezes. 

Rio Vgunú. — Pertence á freguezia da Trindade e passa ao S. da 
roça Molembú. 

AguaSantarem.—l&ca este riacho o seu curso nas freguezias de 
Santo Amaro e Magdalena, entre as qoaes serve de limite, segundo as 
respectivas determinações officiaes^ Passa a O. da roça Mesquita edo 
lado de baixo de terras denominadas Santarém. A freguezia da Conceição 
também se estende ale esta agua. 

Agua Gaito Canta. — Tem o seu curso nas freguezias de Santo Amaro 
e Magdalena e passa ao lado de cima das terras denominadas Santarém, 
Allemanha c Obò do Meio. 



1 Vejam-se as portarias do governo provincial, de 13 de outubro de 1864 e 18 
do janoiro de 1865, publicadas nas respectivas collecções dos boletim offleiai da 
província. 



377 

Ribeira Potó. —Pertence á fregaezia da Magdalena e passa ao fundo 
da roça Potó. 

Agm Prata. —Tem o seu curso nas freguezias da Trindade e Graça^ 
e corre a O. da roça Melhorada. 

Agua Azeitona. — Pertence á freguezía de Santo Amaro ocorre ao 
fundo da roça Maíanço. 

Agua Budo. — Pertence á freguezía da Graça e passa ao fundo de 
um pequeno terreno no sitio da Palha. 

Agua Thatné Piedade. — Pertence á freguezía da Trindade e passa ao 
fundo da roça Mio Três. 

Agua Uba. — Pertence á freguezía da Magdalena e passa ao fundo 
da roça Poto-Rei. 

Agua Pedroma. —Pertence á freguezía da Trindade e passa ao lado 
de dma da roça Guegu Brazíl e na roça Pedroma. 

Agua Lama. — Pertence á freguezía da Graça e passa á fírente de uma 
pequena terra denominada Melhorada. 

Agua Agumi. — Pertence á freguezía da Trindade e passa a E. da 
roça Moiembú. 

Agua Francisco Palha. — Pertence á freguezía de Santo Amaro. 

Agua d'Agó. — Pertence á freguezía da Trindade e passa em frente 
de uma terra denominada Cabeça de Agua. 

Agua Abbade. — Corre nas freguezias de SanfAnna e Trindade e passa 
junto de algumas roças valiosas, a muitas das quaes serve de limite. É 
um rio importante, a respeito do qual daremos algumas informações. 

Agua Grande. — Nasce, segundo dizem, entre os limites das fazen- 
das Monte Café e Saudade, passa nas freguezias da Magdalena, Trindade, 
ConceiçSo e Graça, banhando algumas roças importantes. Separa a fre- 
guezía da Conceição da da Graça. Alem da vista da cataracta denominada 
Blublú, damos uma descripção do curso d'este rio, segundo as informa- 
ções que podemos obter. 

Aio Manuel Jorge. —Nasce muito para cima da freguezía da Sauda- 
de» corre nas da Trindade, Sant*Anna e Graça e desagua na praia Melão 
de Cima. Damos uma breve noticia do seu curso e nomeámos algumas 
das roças a que serve de limite. A freguezia da Graça chega até á mar- 
gem esquerda, servindo de limite desde a altura do Cruzeiro denomi- 
nado Petpet até ao mar. 

Ato C/ara Dta^. — Nasce na roça Pinheiro e Uba Buddo e desagua 
na praia Almoxaríre, depois de atravessar as freguezias da Trindade e 
Sant*Anna. D'elle faremos uma descripção especial, por passar junto a 
algumas roças importantes. 

Ribeira d(i Enseada Engoba. — Pertence á freguezia dos Angolares, 



378 

tomando o nome da enseada em que desagua, a SO. da qual flca, se- 
gundo Cunha Matos, a grande furna dos Morcegos ou Enguíbàs^. 

Ribeiroê da Angra dos Angolares. — Desaguam na praia de S. Joio 
dos Angolares. 

Ato da Praia Io- Gr ande. —Verience á freguezia dos Angolares. A sua 
foz, segundo Cunha Matos, torna>-se inac<^esssivel por causa da ressaea. 

Regato da Praia Pesqueira. — Pertence á freguezia dos Angolares, 
onde se pôde chegar com bom pratico. 

Ribeira Martins Mendes. — Pertence á freguezia dos Angolares. A 
foz é uma cataracta, próxima á qual bsteve em perigo Cunha Matos, quan- 
do em 1600 quiz ol^rvar de perto a quédá da agua. 

Rio da Ribeira Peixe. — Segundo dizem, é um dos maiores da ilha. 
Ha na praia onde desagua uma aldeia dos Angolares, e aflSrmam ser sí- 
tio agradável e muito frequentado. Este rio está officialmente indicado 
para separar a freguezia dos angolares da de Nossa Senhora das Ne- 
ves. N3o nos parece, porém, que este limite seja exacto. 

Ribeira da Praia D. Affonso. — Este rio vem designado na choro- 
graphía de Cunha Matos, e é por isso que o inscrevemos aqui. Nunca ou* 
vimos fallar d'elle. 

Ribeira da Praia Palma. — Fica na costa de O. da ilha dos Angolares. 

Rio de S. Miffuel, na costa O. da ilha. — É notável por desembocar 
na bahia abrigada por três ilhéus, dando bom fundo próximo á oosta. Es- 
tivemos ali em i873, e observámos o viçoso e variado arvoredo que se 
levanta junto á praia. Não podemos desembarcar. 

Ribeira da Praia do NE. da Ponta Furada.— Pertence á freguesia de 
Nossa Senhora das Neves. 

Ribeira ao S. da Ponta Allemã. — Desce como a de Martins Mendes» 
em forma de cascata, mas com menor volume de agua. 

Ribeira da Fazenda Esprainha. — Ignora-se a sua origem e curso. 

Ribeira da Fazenda Agua Funda. — Pertence á freguezia de Guada- 
lupe e passa ao N. da ilha. É límpida a agua, e as margens do rio nSo 
sio orladas de mangues. 

RUfeira da Praia das Conchas.— Pertence á freguezia de Guadahipe 
e desagua na praia do mesmo nome. 

jRto da Praia Preta ou Praia Rei^ ou Agua Funda da Praia Rei. — 
Pertence á freguezia de SanfAnna e passa ao N. da Fazenda Castelo r na 
parte do S. tem todo o seu curso nas terras da fazenda Agua-Izé. 

Agua Telha. — Tem o seu curso nas freguezias de Santo Amaro e 
Magdalena e corre ao fundo das roças Desejada, Maianço e Matheus Pi- 

1 É este o nome por que na ilha de S. Thomé se conhecem os morcegos. 



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na. NSo sabemos onde otsce nem ODde desagua, mas a saa imporUficU 
deprebmde-se das roças que banha ou a que serve de limite debaixo de 
tal deoouiiiiacão. Ha dezeseis fazendas que téem os fundos no ribeiro 
Agoa Tdba, ficando umas na freguezia de Santo Aiíiaro e outras na da 
Blagdalena. 

Bio de Oiro. — Tem o seu curso nas freguezias de Guadelnpe, Ma- 
gdalena e Trindade. É um dos mais pittorescos rios da cidade e deBagoâ 
na praia Femio Dias. Serve de limite entre a freguezia da Magdaleoa e 
Guadelupe^ 

Ribeira Diogo Nunes. — Pretence á freguezia de Santo Amaro* 

BUmra da Praia Lagarto. — Pertence á freguezia de Santo Antaro e 
serve de limite entre ella a da Conceição, da parte do mar. 

Ato da Praia Ribeira. — Serve de limite entre as freguezias dos Ango- 
lares e de SanfAnna. Damos uma vista da praia» onde se vé a foz do rio. 

Regaio da enargem esquerda da hahia denominada logo-Iogo. — N2o 
tem sido explorado e é aU que se vae buscar agua potável, quando se 
fundeia na babia.