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Full text of "Archeologia christã; descripção historica de todas as egrejas, capellas, oratorios, cruzeiros e outros monumentos de Braga e Guimarães. Publicação commemorativa do jubileu universal do Anno Santo.."

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LIVttARIA ACADÉMICA 
J. GUEDES DA SILVA 

8, R. Mártires da Liberdade, 12 
PORTO — TELEFONE, 25988 



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ARCHEOLOGIA CHRISTÃ 



depositado para os effeitos do art.° 5 76 
do Código Civil 




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ALBANO BELLINO 



Areheologia Christâ 



descripçào histórica de todas as egrejas, 

capellas, oratórios, cruzeiros e outros monumentos 

de Braga e Guimarães 



PUBLICAÇÃO COMMEMORATIVA 

> 

do Jubileu Universal do Anno Santo 

illustrada co vi óõ photogravuras 
dos monumentos religiosos mais notáveis 

DAS DUAS CIDADES DO MINHO 




LISBOA 

Empreza da Historia de Portugal 

Sociedade editora 

livraria moderna typographia 

g5< Rua crfugusta, g5 35, Rua Ivens, 3j 

MDCCCC 



DO MESMO AUCTOR 



Inscripçóes e Lettreiros da cidade de Braga e algumas freguezias 

ruraes. Typ. Occidental, Porto. 
Inscripçóes Romanas inéditas de Braga. Typ. Lusitana, 'Braga. 

Discurso proferido no Atheneu Commercial de Braga. Imprensa 
Henriquina, "Braga. 

Aqui (versos). Typ. Silva Caldas, Guimarães. 

Novas Inscripçóes Romanas inéditas, de Braga. Typ. Lusitana, 
"Braga. 

Cartas sobre epigraphia romana. Typ. Lusitana, "Braga. 

Questionário Archeologico. Imprensa Henriquina, "Braga. 

Catalogo das moedas romanas, celtiberas e wisigothicas, perten- 
centes á Sociedade Martins Sarmento. Typ. QÂ. J. da Silva 
'Teixeira, Porto. 



AO 



Instituto de Coimbra 



(Merece grato 



O Auotor 



ADVERTÊNCIA 



Descends du liaut des cieux, auguste verité 
Henríoiie, cbant i. 




o segundo Congresso Internacional de Ar- 
cheologia Christã, realisado em Roma desde 
17 a 25 de abril findo, sob a presidência de 
Mgr. Duschene, obtive inesperado incentivo 
para dar publicidade a este meu trabalho 
commemorativo do Jubileu Universal do 
Anno Santo, ultimo do século xix, procla- 
mado pelo incomparável Pontífice Leão XIII 
(Joaquim Pécci), o diplomata distincto, o 
santo e sábio Chefe da Egreja Universal, 
tão justamente considerado a mais lidima gloria do Pontificado Ro- 



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Quando ha annos a imprensa portugueza, sem distincção de 
crenças partidárias, o saudava por mais uma vez empregar em fa- 
vor da fraternidade humana toda a força moral de que dispõe, di- 
zia o Jornal de Lisboa: «Na sua mão de octogenário brilha o dia- 
mante do ar.nel de S. Pedro com uma intensidade que illumina 
todo o mundo !». E' que em todo o mundo os louvores tributados 
ao venerando velhinho despertam enthusiasmos, mesmo entre 
aquelles a quem por vezes terá repetido as palavras do seu pre- 



Vlll 



decessor Alexandre III dirigidas a Frederico Barbaroxa, imperador 
da Allemanha, para lhes assegurar que tentam em vão destruir a 
barca de Pedro, pois não sossobrará ao impulso do vento rijo que 
de contínuo a persegue : 



«Niteris in cassum navem dissolvere Petri 
Fluctuat ; ast nunquam mergitur illa ratis». 



Nestas breves palavras quero que fique exarado o testemunho 
da minha admiração pelo actual representante de Jesus Christo 
na terra. • 



Para que geralmente se reconheça a utilidade d'este trabalho 
histórico, único no género, nada mais será mister que a sua lei- 
tura attenta. 

Vale muito, muitíssimo, a critica auctorisada, imparcial e justa, 
por semelhar a luz que alumia e não queima ; e também não vale 
pouco a verrina da mediocridade invejosa que denuncia o mereci- 
mento alheio e diverte a populaça ávida de distracções banaes. 
Portanto prometto nada oppor aos desfavoráveis conceitos que se 
façam do presente livro, salvo se houver de contestar affirmações 
inexactas. 

Não conseguirá deleitar pelo aprimorado do estylo, porque á 
sua elaboração presidiu especialmente o desejo de o tornar instru- 
ctivo pelos factos e reflexões que apresenta, mas provará á sacie- 
dade que trabalhei com extrema dedicação, com desusado esforço 
para, como nos demais estudos que até hoje tenho dado á es- 
tampa, fornecer aos curiosos da especialidade a citação de factos 
inéditos, ou quasi de todo ignorados, não lhes occultando nem 
pervertendo a verdade, que la perita xe una so/a, diz o pro- 
vérbio veneziano, e esta, na opinião do escriptor inglez Gold- 
smith, impõe á Historia o dever de delinear egualmente o justo e 
o injusto. 

Todos: os que se interessam a serio pelas cousas do prssado 



— IX 



afrirmam, e com razão, que nem sempre o estudioso de gabinete 
lhes conquista o agrado em seus trabalhos históricos, não obstante 
serem estes por vezes considerados primorosos na forma ; por isso 
eu procuro proporcionar-lhes apreciáveis elementos de estudo, 
apresentando aqui numerosas photogravuras dos principaes monu- 
mentos de que me occupo e o resultado das minhas investigações 
que mais connexão têem com o assumpto. 

As referencias históricas illucidativas dos muitos monumentos 
sagrados de importância archeologica ou artística — pregoeiros 
da crença das gerações extinctas — e ainda dos séculos a que cada 
um pertence, foram colhidas de preferencia nas obras dos escri- 
ptores catholicos mais considerados, como Josephi Binghami (Ori- 
gines sive Antiquitates Ecclesiasticae), e do Abbade Ducreux, 
cónego da egreja de Auxerre, a quem Pio VI enviou um Breve 
de approvação á sua preciosa Historia do Chrislianismo, que mais 
que nenhuma outra consultei. 

D'esse Breve, dado em Roma a 27 de setembro de 1775, re- 
cortarei o seguinte: 

«Tum ex ipsa operis fronte, cum ex iisdem tuis litteris perspi- 
cué profecto cognovimus quam praeclarum consilium tuum fuerit 
suscipiendae Christianorum rerum enarrationis, quaque institeris 
via, ut omnia aptê dilucidèque, ac ex Historiae legibus nativo co- 
lore describeres et quae corrupta ac temerata recentiorum Aucto- 
rum audácia ac fraude fuerant, ad puríssimos originis fontes, ac 
ad veritatis suae speciem revocares.» 

Norteado por estas palavras de Pio VI a propósito da carta e 
plano da obra de Ducreux, egualmente procurei caminho seguro 
para referenciar vários successos com exactidão e clareza, pintal-os 
com as suas cores naturaes e restabelecer, recorrendo ás fontes 
mais puras, muitas verdades históricas. 

Foi este o único fim que tive em vista quando no decurso 
deste meu trabalho citei varias passagens da Historia, pouco ou 
nada edificantes. Ninguém de são critério poderá pôr em duvida 
o bem que resulta do confronto dos actos bons e maus para po- 
dermos abraçar contentes a causa da virtude e da fé, embora 



repellindo com energia abusos e incoherencias de quem por de- 
ver a defende. «Da confusa amalgama de bem e mal, de justos 
e precitos, sae mais radiosa a gloria divina.» 

Os synchronismos que dou de cada século tendem a esclare 
cer o leitor sobre algumas occorrencias mais notáveis e sobre o 
caracter dominante de cada epocha para mais facilmente deter- 
minar os costumes. 

Sem prejuiso do titulo desta obra faço, nos logares compe- 
tentes, levissima referencia aos monumentos profanos e a tudo 
quanto numa e noutra cidade possa chamar a attenção do visitante 
curioso. 

Este livro deve portanto offerecer vantagens como guia de 
quem se proponha examinar de perto o que nos resta de passa- 
das glorias. 

Interessei-me quanto pude por evitar omissões de egrejas, ca- 
pellas, oratórios, cruzeiros e outros monumentos de arte christã 
pertencentes ás duas cidades do Minho — Braga e Guimarães. De 
tudo o que existe dou aqui noticia histórica desenvolvida e con- 
scienciosa. 

Das freguezias ruraes dos dois concelhos vão os oragos em 
grupos. As egrejas e capellas, na sua máxima parte, são destituí- 
das de merecimento architectonico ou archeologico. 



* 



Termino com este os meus trabalhos do século que expira e 
que me lega recordações muito gratas: deu-me o berço risonho 
e enflorou quasi continuamente a minha adolescência. 

O que nasce recebe-me desde pouco mais de meado do quinto 
período da edade adulta e, sem o mínimo respeito por esta que é 
já trinta e oito vezes superior á d'elle, apresenta-me a sepultura 
para onde, d'aqui a minutos, horas, dias, mezes ou annos, poderei 
ser levado, como diria Victor Hugo, pela onda que passa, pelo 
vento que sopra, pela pedra que rola, pela hora que sôa. 

Embora! Não devo querer-lhe mal por me notificar o predo- 
mínio que tem n^ste enygma — a vida. E para que o porvir, longo 



Xi 



ou breve, seja para mim ditoso, clamarei com Leão XIII na sua 
bella ode ao século que nasce: — Jesus, arbitro do íuturo, sorri 
ao novo curso da edade que surge ! 



«Jesu, futuri temporis arbiter, 
«Surgentis aevis cursibus annue». 



Depois forcejarei por continuar a colher os fructos da paz da 
consciência para que esta alma, solta dos laços terrenos, voe ao 
seio do Eterno abençoada por quantos me comprehendem ou 
sabem que espero e confio na productibilidade da sementeira do 
bem. 

«Quae enim seminaverit homo, haec et metet.» 



3i de dezembro de 1900 
Remate do século xix 



Albano Bellino. 



Sc tornar-se christáo pode este mundo 
Sem que milagre houvesse que o movesse, 
Não conheço milagre mais profundo 

Dante [Trad. do C. de S.) 



Data da origem da humanidade a crença na vida futura. O 
homem primitivo, dando largas ao natural desejo de inves- 
tigar, progredir e viver feliz, foi levado a concebel-a pelos 
múltiplos phenomenos de que a natureza o cercava, e os quaes 
elle instinctivamente attribuia a um ente desconhecido que lhe 
inspirava respeito e adoração. Era a primeira religião com seus 
mysterios, base de todas as religoes do mundo ! 

N'esses períodos — paleolithico e neolithico — existiu em pri- 
meiro logar o culto fervoroso do sol e da lua, (soli . et . lvnae, 
ou, como se lê na mscripção de Melide (Collares) : sou . aeterno 
lvnae); o dos animaes, e ainda o dos mortos queridos (necro 
latria), prestando-se a estes todas as honras fúnebres, e dando- 
se-lhes condigna sepultura para que de modo algum lhes faltasse 
o ambicionado repouso. 

Era então ponto de fé que a sagrada trepanação, ante ou post 
mortem, expulsava do enfermo os maus espíritos, a que se attri- 
buia a morte, ou facilitava a entrada da alma no corpo; que de- 
pois d'este havia um outro mundo onde os que partiam encontra- 
vam uma vida egual á que deixavam ou quiçá melhor, e que na 
sepultura, junto do cadáver, deviam ser depostas offerendas para 
que o extincto protegesse ou não vexasse os vivos! As offerendas 



— 2 — 

juntavam-se utensílios e armas, todos os objectos de que o morto 
mais necessitava para a continuação do seu mister n'aquelle ou- 
tro mundo feliz ! (Rei. na Lus. por J. L. de Vasconcellos). 

Entre as muitas superstições curiosas, que a idolatria inaltera- 
velmente manteve, encontramos as famílias e as tribus a venera- 
rem, como deuses protectores, as almas boas dos seus antepas- 
sados. 

Originaria da Grécia, a religião polytheista, esplendorosa no 
culto, divertida e tolerante, conquistou sem custo o agrado do 
povo-rei, esse grande povo que nenhum outro excedeu ou ex- 
cederá jamais na civilisação material e na riqueza, como ainda 
hoje por toda a parte o demonstram numerosos vestigios d'esses 
tempos. 

O Capitólio em Roma e o Templo de Serapis no Egypto 
sobresaiam pela sua magnificência aos demais Templos pagãos. 
Entre nós também os romanos, que no anno de 5i antes da 
nossa era, mais de dois séculos depois de entrarem na Hispânia, 
dominaram a Lusitânia, erigiram aos seus deuses muitos Templos 
de que nos dão noticia authentica as inscripções lapidares. Em 
Évora ainda agora podem ser admirados estes restos venerandos 
que em 1860 se encontravam profanados por uma construcção 
ameiada, assente sobre as columnas corinthias, provavelmente 
desde o século xv. (Vide gravura a pag. 3.) 

Artemidoro, geographo grego, estuda então no Promontório' 
Sagrado os costumes religiosos dos bárbaros e os seus ritos — 
Gaulezes, Germanos e Celtas — que os romanos baniram por 
completo depois de livremente os permittirem aos povos que con- 
quistavam. 

Os judeus professavam grande aversão aos Ídolos, porque esta 
religião contrariava em absoluto as doutrinas moraes do Antigo 
Testamento e todos os actos do culto prescriptos pelo próprio 
Deus verdadeiro, os quaes podem ser encontrados desde o Gé- 
nesis ao livro II dos Machabeus. 

Micheas, o sexto dos doze prophetas menores, vaticinou o nas- 
cimento do Messias em Bethlem quando ainda a religião poly- 
theista possuía, com seus altares e sacerdotes, Templos mages- 
tosos consagrados ás divindades pagãs que só na ordem inferior 
attingiam o numero de vinte mil, segundo Doêllinger, auctor das 
Origens do Christianismo. 

Isaías, um dos quatro prophetas maiores, predisse que Jesus 
nasceria d'uma Virgem: «Ecce virgo concipiet, et pariet Filium, 
et vocabitur nomen ejus Emmaniiel». 

Tudo isto se realisou. 

Esse fulgente sol que despontara alfim n'um pobríssimo esta- 




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bulo de Bethlem, dissipou por completo as trevas do paganismo ' ; 
e a humanidade soffredora anteviu na vinda do Messias o termo 
de todas as vexações a que a reduzira a fereza dos potentados, 
forque n'aquelle tempo predominava a tyrannia dos soberanos so- 
bre a humildade dos vassallos, a oppressao dos poderosos sobre 
os fracos, a ambição desmedida, a corrupção da virtude e da jus- 
tiça, tudo quanto o christianismo condemnou, estabelecendo de 
vez os meios conducentes á verdadeira felicidade humana. 

A humanidade curva-se na presença do grande Apostolo, 
ouve-o enlevada pela simplicidade das suas parábolas, pela subli- 
midade da sua doutrina, pela bondade da sua moral; acclama-o 
propheta e rei; e, embora alguns homens o declarem embusteiro 
e amotinador do povo, levando-o por isso ao supplicio dos escra- 
vos, a mesma humanidade guarda as suas doutrinas em que en- 
contra a objectivação da verdade e da justiça, e adora a cruz, onde 
vê o lábaro santo da paz e do amor 2 . 



1 Affirma Mosheim que os primeiros christãos não conservaram a memoria 
do nascimento de Christo; santificavam apenas a sua resurreição e a descida 
do Espirito Santo no pentecostes. E de facto só em ">32 é que um monge de 
reduzida estatura — Dyonisius Exiguus, — pertencente á egreja romana, e na- 
tural da Scithia, fixou o dia s5 de dezembro do anno de Roma 753. Vejamos, 
porém, como os differentes auctores divergem n'esta matéria. 

Clemente de Alexandria dá-nos o Natal em maio ; Euzebio e Santo Epi- 
phanio no dia 6 de janeiro de 4>. Outros crêem que no calculo de Dyonisio 
Exiguo se commetteu um erro de 4 annos, verificado pela data do fallecimento 
de Herodes, conhecida com exactidão chronologica, devendo portanto admittir- 
se que Jesus Christo nasceu em 749 e morreu aos 3b annos de edade. César 
Cantu quer que a era vulgar seja contada do anno "47 de Homa, 40 da era Ju- 
liana, 39 do reinado de Augusto, 25 depois da batalha de Accio, 35 do reinado 
de Herodes na Judéa, sendo cônsules em Roma Caio Antisdo Veter e Decimo 
Lélio Balbo. Dá portanto um atrazo de 5 annos, 9 mezes e 7 dias. 

Calmet e Jansens notam a differença de 3 annos e t> dias. Tertuliano e 
Santo Ireneu citam o anno 41 do reinado de Augusto. Dannemayr nota uma 
differença de 4 annos. 

Domingos Magnan, no seu Problema de ar.no nativitatis Christi, Roma 
1772, encontra a differença de 8 annos. Alzog citando S. Lucas: 

«Anno quinto decimo imperii Tiberii Caezaris, procurante Pontio Pilato 
Judaeam, tetrarcha autem Galilaerc Herode (Antipas), Philippo autem fratre ejus 
tetrarcha Ituraea; etc. sub principibus sacerdotum Anna et Caipha: factum est 
verbum Domini super Joannem, Zachariee filium, in deserto. Et venit in omnem 
regionem Jordanis, praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccato- 
rum». 

O anno i5 do reinado de Tibério corresponde ao de 750. E portanto im- 
possível saber-se hoje ao certo o dia, mez e anno em que nasceu Jesus. 

2 Em Aquilla, cidade Italiana, foi achada no anno de 1820 a sentença de 
Poncio Pilatos condemnando Jesus Christo á morte. Estava dentro d'um vaso, 



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E, com effeito, a cruz que a morte do Salvador consagrara, 
não tardou a ser adorada por numerosos fieis que a faziam repe- 
tidas vezes com a mão direita sobre a testa e sobre o peito. 

Funda-se a Egreja de Jesus Ghristo, e a mythologia pagã foi 
desde logo perdendo os seus melhores seguidores. Em Roma o 
christianismo recrutou os primeiros e mais dedicados adeptos en- 
tre a multidão enorme dos escravos e dos opprimidos, aos quaes 
o novo culto garantia a trilogia santa: — Liberdade, Egualdade, 
Fraternidade — , a rehabilitação, emfim, para uma vida indepen- 
dente e pacifica, inteiramente opposta á dos gladiadores que ainda 
mesmo nas proximidades da morte saudavam, por dever, no am- 
phitheatro e no circo, o imperador tyranno: — Ave Ca.\ar, mori- 
turi te salutant! 

Não mais se impacientariam os que aspiravam d classe dos li- 
bertos, horrorizados pela lei Sempronia que prescrevia a punição 
de uma família escrava quando apenas um dos seus membros 
perpetrasse o crime. 

Por isso até ao século m, em que a Egreja estabeleceu o 
catechumenado, a inscripção dos adeptos do christianismo no res- 
pectivo catalogo attingiu extraordinário desenvolvimento pela fa- 



encerrada em caixa de ébano, e é gravada n'uma lamina com esta inscripção em 
hebreu : 

EGVAL LAMINA FOI ENVIADA A CADA TR1BV 

Conserva-se na capella de Caserta, Bispado de Nápoles, o vaso e a sen- 
tença de que aqui dou copia: 

«Ao decimo sétimo anno do Império de Tibério Cezar, e vigésimo quinto 
dia do mez de março, na cidade Santa de Jerusalém, sendo Annaz e Caifaz 
sacerdotes e sacrificadores do povo de Deus, Poncio Pilatos, governador da 
Baixa Galliléa, sentado na sede presidencial do Pretório condemna a Jesus de 
Nazareth, a morrer numa cruz entre dois ladrões, visto que os grandes e no- 
táveis testemunhos do povo dizem : 

I.° Que Jesus é seductor; II. Que é sedicioso; III. Que é inimigo da lei; 
IV. Que se diz falsamente filho de Deus; V.° Que se diz falsamente Rei de 
Israel; VI. Que entrou no templo seguido de grande multidão e com palmas 
na mão. Ordena ao primeiro Centurião, Quirilio Cornelio, o conduza ao logar 
do supplicio. Prohibe a todas as pessoas, pobres ou ricas, que impeçam a morte 
de Jesus. Assignados como testemunhas, Daniel Robani, Phariseu, Thomaz 
Zorobatel, Raphael Robani, Capet. 

Jesus sairá da cidade de Jerusalém pela porta Struenea». 

Ha entre nós uma tradição curiosa que explica do seguinte modo a origem 
do antigo costume de se enfeitarem de flores e ramos, no dia i ° de maio, as 
casas de habitação : Pilatos e Caifa2 tendo sido avisados de que Jesus se escon- 
dia n'uma casa a cuja porta havia uma giesteira florida, enviaram de noite ao 
logar os soldados da Judéa com ordem de prenderem o Redemptor. A madru- 
gada rompeu, e, á porta de todas as casas appareceu, por milagre, uma gies- 
teria florida ! 



cilidade da operação que apenas consistia no baptismo a que 
se procedia em virtude de testemunharem publicamente as suas 
crenças. Para este e outros fins as reuniões tinham logar nas ca- 
tacumbas onde se julgavam a coberto da perseguição inimiga. 

Todavia a nova religião do crucificado teve de luctar com os 
poderosos elementos da civilisação antiga e com os preconceitos 
da religião preponderante. 

Se exceptuarmos Gallieno (253-268) que permittiu por um edito 
o livre exercício da religião aos christãos, entregando-lhes as egre- 
jas e cemitérios, pôde dizer-se que até ao reinado de Constantino 
Magno o fogo da perseguição não se extinguiu uma vez única, 
embora o imperador Alexandre Severo, assassinado por Maxi- 
mino, e depois d'elle Filippe, o Árabe, se lhes mostrassem extre- 
mamente benévolos. Os seus actos criminosos e a adhesão ao rito 
gentílico, não abonam o qualificativo de christão que a Chronica 
de Eu\ebio dispensa principalmente a Filippe, o Árabe, julgando-o 
o primeiro de todos: «Philippus primus omnium ex romanis impe- 
ratoribus christianus fuit » . 

E certo que o christianismo dilatou o seu império desde o fim 
do reinado de Septimio Severo (anno de 211) até esta data; mas 
nem por isso se pôde crer que os imperadores Caracalla e Geta, 
Macrino, e Heliogabalo, concorressem voluntariamente para os pro- 
gressos da Egreja. Os christãos aproveitavam, como lhes cumpria, 
esses períodos de tempo que os imperadores destinavam á defeza 
dos interesses mais caros; mas, fechado que fosse o Templo de 
Jano, os furores da perseguição recrudesciam a ponto de se 
exigir a renovação do edito de Septimio para que as egrejas fos- 
sem immediatamente fechadas e destruídas. Não esfriavam, po- 
rém, os perseguidos e caminhavam cada vez mais alentados pela 
fé na defeza do ideal sublime. Oh! se a Egreja não fora uma ins- 
tituição divina e se a promessa de Jesus Christo «... et portae 
inferi rion pratvalebunt adpersus eam» pudesse oíferecer duvida, 
as luctas quasi sem tréguas dos christãos com as diíferentes seitas 
nos primeiros séculos e ainda nos subsequentes, a simonia, a in- 
continência, os desatinos emfim d'aquelles a quem foi confiada 
a defeza de quanto interessa ao Dogma e á Moral, todas essas 
innumeraveis desgraças teriam ha muito promovido a ruina do 
grandioso edifício que, a despeito das perseguições continuas, já 
transpoz incólume a longa serie de mil e novecentos annos. 

Com effeito, não somente os perseguidores da Egreja tenta- 
vam destruil-a; muitas vezes os mesmos, que deviam contribuir 
para a preservar de desordens disciplinares, eram, pelos esforços 
que empregavam para a destruir, argumento seguro da origem 
divina da instituição de Jesus e a prova provada da indefectibili- 
dade d'aquellas palavras — non vraevalebunt. 



A historia é e deve ser a narração fiel dos factos, não uma 
descripção apaixonada em que predominem as intenções reserva- 
das. É por isso forçoso dizer-se que empregar meios illicitos para 
se levar a eífeito a eleição do Papa João XII aos dezoito annos 
de edade e a de Bento IX aos doze, é descurar intencionalmente 
o bom governo da Egreja, ou antes, contribuir para o augmento 
dos seus revezes, que já então (955 e io33) não eram poucos nem 
pequenos. As leis ecclesiasticas, não prevendo os desastrados effei- 
tos de algumas determinações, auctorizaram meios de averiguação 
e repressão que accusavam restos bem evidentes da tyrannia pagã. 
Outra cousa não eram os Ensaios, que consistiam em levar aos lo- 
gares celebres, pelos milagres, o accusado sem prova testemunhal, 
para alli prestar seu juramento; em conhecer pelo duello de que 
lado estava a justiça; em tomar na mão um ou mais ferros em 
braza e leval-os até certa distancia; em lançar a uma tina cheia 
de agua fria o individuo, completamente nú, com os pés e as mãos 
atados, reconhecendo-se-lhe a innocencia no caso de ir ao fundo; 
e finalmente em conservar-se o accusado de joelhos deante de uma 
cruz, com os braços estendidos, emquanto se celebrava o oíficio 
divino ou a resa do Psalterio. 

Estes Ensaios também se denominavam Jui^o de Deus, pela 
confiança que os julgadores depositavam no esclarecimento da ver- 
dade e da justiça por intervenção dos milagres. Felizmente o Papa 
Honório III condemnou e prohibiu esta pratica originaria duma 
lei wisigotica. 

No século xiii exerceu-se a repressão com um rigor de tal or- 
dem, que os inimigos da Egreja encontraram n'essa medida uma 
arma de combate da qual jamais largam mão. Abalisados escri- 
ptores catholicos procuram justificar o estabelecimento do Tribunal 
da Inquisição, demonstrando a necessidade de então se recorrer 
a um remédio enérgico para ser applicado aos grandes males da 
epocha, por isso que se julgava inefficaz o esbulhamento dos do- 
mínios dos soberanos, protectores dos Albigenses, o incêndio das 
cidades mais notáveis e o assassinato dos habitantes d'estas ! 

Como é sabido, estas medidas rigorosas tiveram o seu inicio 
no terceiro Concilio geral de Latrão, em 1 179, devendo-se ao Papa 
Innocencio III a idéa da instituição do Tribunal, em que os Com- 
missarios tinham por encargo descobrir os herejes «segundo a fama 
publica e denuncias particulares», para obrigar os infiéis a receber 
o baptismo e os herejes ao regresso á Egreja! Estes actos violentos 
de desenterrar os herejes sepultados em sagrado, de lançar os vi- 
vos ao fogo, etc, provocaram a consternação e a revolta, a ponto 
de serem assassinados entre as maldições do povo os inquisidores 
e immediatamente suspensa a Inquisição. 

O poder civil que, por permissão dos Papas, se ingeria em 



— 8 — 

assumptos disciplinares da Egreja, teve também grande quinhão 
nas responsabilidades d'estas scenas de tristíssima memoria. 

O Papa Lúcio III, que em 1 184 presidiu ao Concilio de Verona, 
reuniu n'aquella assembleia os dois poderes, ecclesiastico e civil, 
para accordarem no modo de ser fundado o Tribunal da Inqui- 
sição. 

Annos depois pedia-se o restabelecimento da antiquíssima lei 
hespanhola, creada para a extirpação do arianismo, a qual no 
Fuero-Real, liv. 4, tit. i.°, diz: «Firmemente prohibimos que ho- 
mem nenhum se faça hereje, nem tenha a ousadia de receber, 
nem defender, nem encobrir hereje nenhum, de qualquer heresia 
que seja; mas a qualquer hora que saiba que alguém é hereje, o 
laça logo saber ao bispo da terra, ou aos que as suas vezes fize- 
rem, e ás justiças dos logares, e todos sejam obrigados a prendel-os 
e a arrecadal-os : e que os bispos e prelados da Egreja os julguem 
por herejes, aos quaes queimem se não quizerem tornar á f é e 
fazer o mandamento da Santa Egreja». (Hist. Verd. da Inq. por 
D. Francisco Xavier G. Rodrigues, pag. 3i8). 

O Tribunal foi primeiramente fundado em Languedoc e na 
Hespanha, onde os Albigenses e Valdenses fizeram a sua appari- 
ção e progrediram assombrosamente no fim do século xu, espa- 
lhando por todas as povoações principaes a sua seita, composta de 
duas ordens bem diíferentes, exactamente como a dos Manicheos. 
Uma occupava-se da vida contemplativa, com seus erros sobre a 
Eucharistia e a Penitencia; outra, pelo contrario, mantinha a liber- 
tinagem e o vicio, pretextando a sua opposição aos desígnios do 
mau principio, Auctor das cousas creadas, para dirigir ultrages á 
Natureza. 

O Bispo de Lisboa, Agapito, foi encarregado, por Bulia de 
Gregório XI, datada de 17 de janeiro de 1376, de nomear «por 
esta só vez» um inquisidor Franciscano, cabendo a sorte a Frei 
Martim Vasques. Exerceu a judicatura inquisitorial (Inquisidor ge- 
ral do Reino), desde 1 539 a 1578, o Cardeal Infante D. Henrique. 
Arcebispo de Braga, tendo então 22 annos de edade. O Tribunal 
foi estabelecido por elle na cidade de Coimbra, exercendo depois 
o mesmo cargo o licenceado em direito canónico D. António Dias 
Cardoso, cónego da Sé de Braga 1 . 



1 O escudo ou emblema do Santo Officio tinha ao centro uma cruz verde 
sobre campo escuro, e aos lado* o ramo de oliveira, symbolo de paz, e a es- 
pada da Justiça. Na orla o versículo: Exurge, Domine, et judica causam tuattt 
(Levanta-te, Senhor, e julga a tua causa). A Inquisição accrescentou-lhe : me- 
mor esto improperiorum tuorum, eorum qui ob insipiente sunt tota die (tem pre- 
sente os teus ultrajes, ultrajes que te fazem de continuo uma gente insensata). 



— 9 — 

Os Albigenses obstinados eram entregues á Inquisição e á Cru- 
zada, que então se publicou em Roma contra a terrível seita, ex- 
terminando-se de vez, ao cabo de 20 annos de lucta, pouco depois 
de se descobrir o meio de os queimar aos centos. 

Aos excessos da Inquisição talvez fosse preferível a adopção 
de meios persuasivos, tão consentâneos á índole do Evangelho e 
ao conceito de S. Thomaz de Aquino que julgava a Fé «ao mes- 
mo tempo dom de Deus e etfeito da persuasão». Era a lição da 
philosophia nominalista fundada no principio de que a fé não passa 
de uma simples opinião, quando não seja apoiada na razão. Elle, 
o celebrado Anjo das escholas, dizia como Santo Agostinho «que 
ninguém pôde crer sem querer, que a vontade não se pôde cons- 
tranger, que a instrucção é o único caminho que conduz segu- 
ramente á convicção, e que de nada vale a profissão exterior do 
Christianismo quando a Fé não domina egualmente o espirito c 
o coração». 

Os bárbaros ignorantes e grosseiros do século vil, que depois 
da sua conversão pela pregação dos missionários desempenhavam, 
por condescendência dos christãos, os cargos espirituaes mais ele- 
vados, não cessaram de enfraquecer, com os vestígios das suas 
crenças passadas, a religião de Jesus. 

Adalberto, por exemplo, obteve a incorporação de alguns Bis- 
pos na sua classe, captando a sympathia do povo supetsticioso, 
mormente do sexo feminino, que em grande massa o seguia jul- 
gando-o um segundo Ghristo. Elle apregoou-se santificado e, como 
S. João Baptista, purificado por Deus no ventre maternal; que um 
anjo lhe havia trazido relíquias maravilhosas para operar prodí- 
gios, obtendo de Deus quanto desejasse. Distribuía as unhas e o 
cabello, como relíquias, por todos os que o seguiam. Só a elle 
próprio consagrava oratórios e altares, o que deu logar ao aban- 
dono dos templos, porque os fanáticos preferiam adorar as cruzes 
que Adalberto levantava nos campos, nas estradas e nas proximi- 
dades das fontes. Aos penitentes affirmava, na confissão, que co- 
nhecia todos os seus peccados, não lhe escapando os mais occultos 
pensamentos. Os Concilios baldadamente procuravam destruir as 
praticas supersticiosas que os bárbaros introduziram na Egreja. 
Adivinhações e agouros como os do paganismo romano, cujos 
Arúspices (ab aris inspiciendis), inspeccionando as entranhas das 
victimas-, e os Augures vendo a forma como os frangos sagrados 
comiam e observando o voo e o canto das aves (civis et inspicio) 
conjecturavam o futuro ; tudo lhes merecia credito. 

Aplacavam os Manes immolando victimas sobre os túmulos, 
e as festas eram por elles celebradas com a degolação dos ani- 
maes em honra de qualquer santo, próximo das egrejas ou orató- 
rios da sua invocação. Estes restos do paganismo persistiram du- 



10 



rante séculos na egreja enrista, e ainda hoje o nosso povo mais 
crente commette desacatos religiosos que seria necessário repri- 
mir, se a intenção não fosse, como é, digna dos maiores respeitos. 
O que fica exposto acerca dos bárbaros conversos explica em 
parte o aforismo frequentemente applicado pelo nosso povo : — 
nunca de mouro bom christão. 



# * 



Eu creio que os melhores e mais importantes serviços presta- 
dos pela Inquisição á Egreja consistem na extirpação dos feitiços, 
malefícios, encantamentos, sortilégios, necromancias, e de toda 
essa horda de fanáticos e forjadores de milagres, que desde o sé- 
culo ii tão graves embaraços crearam aos progressos da religião 
christã. Já o Antigo Testamento e leis civis d'aquelle tempo com- 
minavam contra elles penas graves. Os embustes da freira Maria 
da Visitação, dominicana de Évora, que apresentava, como sendo 
abertas milagrosamente, as numerosas chagas do seu corpo, não 
foram tolerados, e a embusteira teve de confessar que as abria 
propositadamente. 

Os benzedores e feiticeiros que faziam vigílias nas egrejas fi- 
cavam sujeitos á pena da marcação na testa com dois FF, unidos, 
á similhança do que determinavam as leis de 22 de março de 1449, 
e 26 de fevereiro de i523, mandando a primeira ferrar nas faces 
e a segunda marcar com um L na espádua os ladrões de Lisboa, 
e com um P os do Porto. As leis antigas também applicavam aos 
roubadores dos objectos sagrados que se guardavam nos templos 
a pena de orelha cortada ou fendida. S. Luiz, rei de França, or- 
denou «que todo e qualquer ladrão, pela primeira vez, fosse des- 
orelhado; pela segunda, lhe cortassem um pé e pela terceira o 
enforcassem». 



* 



Discute-se e apregoa-se a incompatibilidade da sciencia com a 
religião de Jesus, aflfirmando-se que esta combate pelo obscuran- 
tismo e pelo retrocesso, negando a sua approvação ao resultado 
das modernas investigações scientificas em que a intelligencia do 
homem por vezes se tem affirmado dum modo verdadeiramente 
assombroso! Mas a verdade é que a religião christã não se res- 
ponsabilisa pelos actos d'aquelles que ainda agora se julgam no 
período quinhentista. 

A Egreja não repugna de forma alguma o esclarecimento da 
verdade, desde que aos novos descobrimentos da sciencia não falte 
absoluto rigor histórico. Por exemplo, não é dogma de fé a data 



1 1 



do começo do mundo, porque não ha no Génesis referencia á edade 
da espécie humana; por isso já hoje a Egreja condescende com os 
que affirmam que existia ha muitos milhares de annos quando Je- 
sus Christo nasceu, e que os dias da creação do mundo não re- 
presentam realmente o período actual de vinte e quatro horas. 

Desde Cuvier, que em 1821 defendeu a theoria dos dias-periodos 
referindo-se aos seis que Deus gastou para crear o mundo, assim 
se interpreta com a approvação dos theologos essa palavra dia, 
embora não tenha sido possível até hoje determinar a duração 
exacta de cada um dos períodos. Não ha pois antinomia entre a 
sciencia com provas e a fé catholica, porque Deus, considerado a 
própria Verdade, é auctor d'uma e cToutra, e a crença glorifka-se 
com os voos da intelligencia humana por effeito da liberdade de 
investigação de que a sciencia não prescinde. Assim o compre- 
hende uma grande parte do clero iílustrado que devotadamente se 
dedica aos estudos pre-historicos. O Bispo de Châlons-sur-Marne, 
monsenhor Meignan, os padres Delaunay, Bourgeois e Lambert 
affirmam que existe a concordância das novas descobertas pre- 
historicas com o livro de Movsés. 

Muito respeitado dos catholicos era Chabos, notável homem 
de sciencia, fallecido na França em outubro de i88q, o qual pro- 
curou provar que o homem appareceu sobre a terra ha dez mil 
annos, ou sejam mais quatro mil do que os que até hoje nos da- 
vam os chronologistas que interpretaram erradamente a Biblia. A 
geologia e a paleontologia têem auxiliado os archeologos na clas- 
sificação das ossadas humanas encontradas de mistura com obje- 
ctos de uso domestico, nos terrenos quaternários antediluvianos, 
bem conservados pelos saes calcareos. 

Depois do século vm, em que teve principio a philosophia 
escholastica, encontraremos o Papa Silvestre II a estabelecer, no 
século x, o ensino da geographia, mathematica e astronomia, es- 
crevendo para esse rim alguns tratados. Aqui temos nós uma prova 
da protecção da Egreja ás sciencias naturaes. 

Ouçamos agora o padre Arduin quando diz: «estou longe de 
partilhar do receio dos sábios que julgam encontrar no Génesis a 
doutrina da fixidez das espécies». 

Outros auctores de renome julgam o transformismo applicavel 
ao homem, sem prejuízo da revelação. O padre dr. Maisonneuve, 
d'Angers, declara que as idéas evolucionistas não estão condem- 
nadas pela Biblia» ; e Santo Agostinho (De Genesi, L. VI) accres- 
centa que «no acto da creação deu Deus aos elementos as razões 
causaes, em virtude das quaes se desenvolveram mais tarde os 
diversos phenomenos da matéria inorgânica e da vida orgânica». 

O desenvolvimento da anthropologia mereceu a Nadaillac estas 
palavras: «Não pôde suppor-se que o Creador, ao principiar a sua 



— 12 



obra, dotasse alguns seres, sahidos de suas mãos, d'um poder mo- 
dificador, de plasticidade, como lhe chamou Gaudry?... Esta 
concepção parece ser mais religiosa, se assim o posso dizer, do 
que suppor o Omnipotente a c proceder por creações bruscas 
e successivas, retocando e modificando a sua obra atravez do 
tempo e do espaço, como o oleiro amassa a argilla e forma o con- 
orno da estatua»! (Cons. sobre a missão do padre, pelo bacharel 
tem theologia Joaquim Luiz da Assumpção.) 



SYNCHRONISMOS DO SÉCULO I 



A Egreja de Jesus Christo teve principio com a instrucção 
que elle próprio ministrara durante quarenta dias, depois da sua 
ressurreição, aos Apóstolos * e Discípulos, acerca do governo 
d'ella, dos sacramentos, doutrina e cultos; com a descida das 
cento e vinte línguas de fogo ás 9 horas da manha do dia de 
Pentecostes (dia 5o), symbolisando o espirito, a luz e a caridade; 
com os três mil ouvintes das pregações de S. Pedro que abraça- 
ram contentes a f é e o baptismo; com os cinco mil judeus con- 
versos pelo milagre da cura d'um coxo á porta do Templo; com 
os milagres da morte dos cônjuges Annanias e Saphira, da som- 
bra de S. Pedro e da roupa branca de S. Paulo, prodígios estes 
que tanto assombro causaram aos herejes Simão, Himeneo, Ebion, 
Menandro e Cerintho, philosopho judeu, natural de Antiochia, 
que primeiro aggrediu a divindade de Jesus. 

S. Lucas escreveu o livro sagrado — Actos dos Apóstolos — , 
trinta annos depois da ascenção de Christo; e em 42 estabeleceu 
em Roma a sua cadeira o glorioso filho de Bethsaida que o Ho- 
mem-Deus constituiu cabeça visivel da sua egreja. 

Pregou Jesus a egualdade, a fraternidade e o amor para que 
os costumes dos povos se humanisassem; e d'ahi nasceu a com- 
miseração dos ricos para com os pobres manifestada por occasião 
das solemnidades nas egrejas em que havia permanente a Me%a 
do Senhor. Alli, e outras vezes nos adros, os abastados e os mí- 
seros realisavam conjunctamente, a expensas dos primeiros, seus 
banquetes em honra do Salvador. 



1 Apóstolos, entre os Hebreus, eram os cobradores das contribuições para 
reparos do Templo, os quaes ao mesmo tempo zelavam a observância da lei 
de Moysés. S. Paulo disse que era Apostolo «não instituído pelos homens, mas 
sim por Jesus Christo». 



— i4 — 

No anno de 5i, segundo diz Fleury, celebrou-se em Jerusalém 
o primeiro Concilio (Jerosotymitanum) para serem desobrigados, 
da circumcisão e das cerimonias das Leis de Moysés, os gentios 
que acceitavam o Evangelho. Ainda hoje os principes da Egreja 
precedem de uma cruz o seu nome, como era de uso na assigna- 
tura dos Concilios. Até á data da publicação do Código Civil 
Portuguez as pessoas que não sabiam escrever traçavam com 
a penna uma cruz no encerramento dos documentos públicos a 
que assistiam como testemunhas, valendo qual se fora o verda- 
deiro nome, pois aquelle signal feito pelo próprio, era tido como 
um juramento solemne. Este signal fazia-se no meio do nome que 
outro escrevia, v. g. : — De José >b da Silva. 

Neste século apparece-nos um grande numero de virgens que 
se consagram a Deus (Sanctimonialis fcemtna, quce Deo, cònti- 
nenticc, et integritatis votum vovit); intitulavam-se Virgo-Dei, e 
Deo-vota, usavam trajes modestos e viviam na companhia dos 
pães. Os seus nomes estavam inscriptos nos livros da egreja para 
que do património d'esta fossem soccorridas quando carecessem 
dos meios de subsistência, e eram por isso denominadas Virgem 
canónicas. 

Frequentes vezes os pães as offereciam a Deus, por devoção, 
em tenra edade. As muitas lapides funerárias conhecidas em Por- 
tugal com a designação Famula Dei, — Famula Christi — Anedia 
Christi — Ancilla Dei, dão testemunho seguro da propagação des- 
tas virgens. 

No século iv os povos bárbaros guerrearam e quasi de todo 
extinguiram a instituição das virgens claustraes, que era composta 
das do século primeiro; mas foram indubitavelmente restauradas, 
porque no primeiro quartel do século x, D. Flammula, sobrinha 
da condessa D. Mumadona, principiou assim o testamento em que 
ordenou que a conduzissem, doente como estava, da sua villa de 
Lalim ao Mosteiro de Guimarães: In Nomine Domini Flammula 
Deo -Vota, etc. 

A mesma condessa D. Mumadona e sua filha Oneca também 
usavam do referido titulo quando esta resolveu consorciar-se com 
Guterres Rodrigues, não sendo já então, como primitivamente, 
julgadas incestuosas e adultevinas estas uniões conjugaes que os 
Concilios excommungaram. 

A decadência manifestava-se no uso frequente do titulo Deo- 
Vota por solteiras, casadas e viuvas, vivendo cada uma em suas 
casas. Desde o século xu ao xv houve em Lisboa, Porto, Gui- 
marães, Braga, Santarém, Coimbra e outras localidades do reino, 
algumas mulheres que, por desgostos da vida, se recolhiam a uma 
pequena cella, cuja porta era acto continuo fechada a pedra c 
cal para não mais tornar a ser aberta emquanto a recolhida vi- 



ID 



vesse! Os alimentos, que de ordinário não passavam de caldo e 
pão, eram ministrados por uma fresta rasgada na referida porta, 
assim como a confissão e a communhão. Chamavam-se, por isso, 
Emparedadas. Ao cabido da Sé de Lamego deixou Margarida Af- 
fonso, emparedada no claustro d'aquella cathedral e fallecida no 
anno de 1419, um cálice e uma bacia de prata. 

Durou quatro annos a perseguição iniciada em 64 por Nero 
contra os cnristãos. A de Domiciano, iniciada em 92, terminou ao 
cabo de egual tempo. 



SYNCHRON1SMOS DO SÉCULO II 

Não obstante a insistente punição dos christãos, ordenada por 
Marco Aurélio, imperador de Roma, e a guerra dos Valentinia- 
nos, Marcionitas, Encrutitas e Montanistas que dezejavam conci- 
liar as opiniões philosophicas com as verdades christãs, a religião 
de Jesus progride dum modo admirável ! 

No anno de 120 estabelece-se o uso da agua benta que já no 
Antigo Testamento era um rito destinado á purificação; e lança-se 
em pias collocadas á entrada das egrejas para os fies humedece- 
rem os dedos, fazendo com ella o signal da cruz sobre a fronte 
para que fiquem purificados do peccado venial e Deus attenda os 
rogos que lhes vão dirigir. 

O Papa S. Telesphoro instituiu, em meiado deste século a 
missa da meia noite na vigília do Natal. 

A perseguição de Trajano contra os christãos durou 16 an- 
nos, tendo principio no de 100. A de Hadriano, que principiou 
em 125, durou i3, tantos como a de Marco Aurélio principiada 
em 161. 



SYNCHRONISMOS DO SÉCULO III 

Foi no anno de 253 que o 3." Concilio Carthaginense reconhe- 
ceu o peccado original, decidindo que se baptizassem os innocen- 
tes; também então se estabeleceram os suffragios pelos defunctos, 
e as primícias, que eram os primeiros fructos da colheita annual 
offerecidos pelos fieis aos Bispos e aos padres para que estes di- 
vidissem com os diáconos e clérigos inferiores. 

A perseguição de Severo durou 9 annos, tendo principio em 
202; a de Maximino 3, tendo principio em 235; a de Decio 2, 
tendo principio em 249; a de Valeriano 3, tendo principio em 
257; a de Aureliano 2, tendo principio em 273; a de Deocleciano 
e Maximiano 25, tendo principio em 286. 



i6 



SYNCHRONISMOS DO SÉCULO IV 

A violenta e aturada perseguição contra os christãos teve n'este 
século o verdadeiro termo, desde que Constantino Magno, sem 
companheiro no império, restituiu a paz e a liberdade á Egreja. 
Allude a este facto uma inscripção lapidar da epocha romana, 
encontrada por occasião da visita da família real a Braga, em 27 
de novembro de 1891, n'um desaterro do campo das Carvalhei- 
ras, pacientemente copiada, estudada e publicada por mim, como 
inédita que era, no meu livro InscripçÕes Romanas, pag. lvii. 

Essa inscripção, bastante gasta do tempo, diz o seguinte : 




nMix.MÊSÊSlMÊÊÊÊ^^d^- 



*«;.„ 




Leitura : 

pacis et qvietis avctori libertatis restitvtori 
et victori hostivm d • n • flávio constantino 
máximo invicto • avg • ^emil ivs maximvs • • • 

Versão: — A nosso senhor Flávio Constantino Máximo. . . in- 
victo, augusto, auctor da paz e tranquillidade, restítuidor da liber- 
dade e vencedor dos inimigos (consagra) Emilio Máximo. . . 

As duas ultimas linhas estão de todo apagadas; mas a parte 
legível da inscripção leva-me a crer que o imperador Constantino 






l 7 - 



prestou a Braga algum serviço importante. D'elle são também 
milhares de pequenos bronzes que na cidade e subúrbios a cada 
passo apparecem. 

Ainscripção refere-se talvez ao anno de 3 1 2, em que o imperador 
Constantino, para combater o arianismo que após a morte de Ario 
(anno de ru) tanto se radicou entre nós, creou novas circum- 
scripções ecclesiasticas tornando consular a Província da Galliza. 

Foi celebrado no anno de 3 14, em Ancyra. metrópole da Ga- 
laria, o Concilio Ancyranum que num dos 2 5 cânones (o nono) 
determina «que se um Diácono, no instante de receber a Ordem, 
declarou que não pôde viver no celibato, pôde casar-se depois, 
sem por isso ficar interdicto das suas funcções; mas, se não fez 
esta declaração, não pôde já cuidar em casar-se ou se o fizer deve 
renunciar o Diaconato». 

O imperador Constantino assistiu ao Concilio geral de Nicéa 
que durou desde 19 de junho a 25 de agosto de 325. Um ma- 
nuscripto do Vaticano, a que allude Riccioli fChronol. Reform. 
ix, 4) mostra que o Synodo de Nicéa, a que presidiu Osio em 
nome do Papa S. Silvestre, tem a data de 19 de dezembro de 
636 da era grega, que corresponde a 16 de junho de 325. 

Foi n'este Pontificado que o arianismo começou (anno de 319). 
Os paternianos (Venustianos) «que attribuiam ao diabo a forma- 
ção das partes inferiores do corpo humano, permittindo o uso del- 
ias para toda a sorte de crimes», foram condemnados em 3óy no 
Concilio primeiro Romanum; e o regulamento sobre o celibato 
dos padres diáconos fez-se a 6 de janeiro de 386. 



Á alleluia durante o anno, o credo e a confissão geral 



na 



missa, tudo foi determinado pelo Papa S. Damazo, natural de 
Guimarães, a quem o seu secretario S. Jeronymo deu a denomi- 
nação de Vir egregiiis et cruditus in Scripturié: Nasceu este no- 
tável Pontífice em Guimarães, fallecendo (seg. Onuphrio Vero- 
nense) no anno de 384. Quasi todos os auctores o denominam 
Damasus I Imaranensis. 

Kebedo, cónego Toletano do principio do século xví, diz que 
Guimarães foi antigamente cidade: «Inter Viscellae, et Avi con- 
jluentis, \lmaranensis est civitas, sancti Pontijicis Damasi qnon- 
dam pátria». 

Esta opinião é corroborada por um arrendamento que el-rei 
D. Fernando fez em i382 de todos os direitos e emolumentos 
de Entre Douro e Minho ao seu contador João de Santarém «com 
obrigação de levar os rendimentos á Cidade de Guimarães, para se 
pagar o soldo e a quantia aos que a devem haver». (Eluc. p. 277). 

O costume de celebrar Matinas á noite, Laudes e Prima de 
manhã, Tertia, Sexta e Nôa durante o dia, e Vésperas á tarde 
não deve ser anterior ao presente século. 






— iS-~ 

Nas Escripturas e livros dos padres dos três primeiros séculos, 
não se encontra o nome de Santa Anna, avó de Jesus Christo, 
prova evidente de que nem tudo aproveitava á historia d'aquelles 
tempos em que o próprio nascimento do Redemptor foi tido como 
um acontecimento destituido de importância. 

Com a sagraçao da basilica Lateranense por S. Silvestre Papa 
teve esta ceremonia principio no anno de 3 14, applicando-se a 
todas as egrejas onde no anno immediato foram, pela primeira 
vez, collocadas as imagens dos santos. Isto deu logar a que os 
judeus principiassem a odiar os Ídolos, por julgarem mal enten- 
dido que os christãos venerassem nos seus templos homens que 
elles martyrizavam como criminosos incorrigíveis. O filho de Santa 
Helena aproveitou este feliz ensejo para proscrever a idolatria, a 
que a Escriptura chama abominação, mandando demolir os seus 
Templos ou entregando-os aos christãos para o seu culto. 

Os Donatistas foram também obrigados a restituir as egrejas 
que occupavam, pois Constantino assim o determinou com os seus 
primeiros éditos publicados contra os herejes no anno de 3 16. Aos 
Bispos concedeu muitas basílicas, para serem por elles destinadas 
ao culto christão, e mandou então edificar a monumental basilica 
Lateranense ou Áurea. Até este tempo, os ministros da Egreja, 
querendo distinguir-se dos sacerdotes de Ists e de Sei^apis, que 
rapavam á navalha o rosto e a cabeça, aparavam amiudadas ve- 
zes a barba e os cabellos, que apenas se conservavam compridos 
em signal de ignominia. O quarto Concilio Carthaginense, no anno 
de 398, dispoz num dos seus cânones que os clérigos não fossem 
cabelludos nem lampinhos, exigindo por isso que conservassem o 
costume de aparar os cabellos: clericus nec comam nutriat, nec 
barbam rada/. 

Pelos mosteiros e ermos, os monges e os anachoretas, inter- 
pretando exageradamente a resolução do Concilio, rapavam por 
completo a cabeça e deixavam crescer muito as barbas. Os mon- 
ges leigos do século vn, que se salientavam no saber e na virtude, 
eram promptamente nomeados sacerdotes e Bispos. Como os Pres- 
cillianistas apenas rapassem o alto da cabeça, usando cabelleira 
grande, o quarto Concilio Toletano, celebrado em 63o, resolveu 
«que todo o clero, sem distinccão alguma, tosquiada a parte su- 
perior da cabeça, só na inferior e pela raiz das orelhas deixasse 
um circulo de cabellos mais compridos, em modo de coroa orbi- 
cular e redonda, sem se referir á barba». Adoptaram esta coroa 
os monges de ordens sacras que rapavam á navalha o resto da 
cabeça. Fora de Roma, foram estas coroas e barbas alteradas no' 
século IX. 

Punham e depunham as barbas e o cabello sobre o altar ou 
juncto das imagens os indivíduos que no século x, em presença 



— 1 9 — 

da communidade e dos parentes, se faziam monges, para d'este 
modo provarem e jurarem que de todo se entregavam a Deus. 

Quantas vezes, no século vn, se oífereciam ao mosteiro por 
uni dos seus cabellos, cortado peio abbade juncto do altar, para 
que Nosso Senhor o acceitasse em signal de escravidão? Era fre- 
quente essa pratica. 

Os godos, que julgavam o cabello comprido um indicio de 
honra, não consentiam que os penitentes usassem cabello e barba 
senão aparados. Em Portugal, foi el-rei D. Fernando quem pri- 
meiro cortou o cabello e*fez a barba. O nosso D. João de Castro, 
com um simples péllo delia, deu penhor das sommas enviadas a 
Diu; e no século xn os sellos de cera continham uma porção de 
pontas da barba para que a escriptura ou contracto ficasse firme 
e valiosa. 

A prohibição de serviços mannaes e negócios forenses ao do- 
mingo, foi pela primeira vez decretada pelo imperador Constan- 
tino, exceptuando os trabalhos agrícolas, a que só em 585 o Con- 
cilio de Macon poz termo, impondo aos delinquentes graves penas 
corporaes. 

Por estes e outros meios, a Egreja promovia o extermínio das 
praticas pagãs, decretando nos séculos immediatos, do v ao vm, 
a prohibição do culto das pedras. Ainda no século xvi as con- 
stituições do Bispado de Lamego nos mostram um Bispo da Dio- 
cese a ordenar que as procissões deixem de ir a outeiros e pene- 
dos, logares afamados pelos vestígios que conservavam do viver 
e crer de povos anteriores ao nascimento de Christo, os quaes 
prestavam grande culto aos Ídolos. Os iconoclastas, como o Bispo 
intruso de Hieraple chamado Xenaias Persa, diziam «que os an- 
jos sendo espíritos não podiam ser pintados com corpo, que era 
lazer affronta a Jesus Christo pintal-o ou fazer a sua imagem, 
porque só a adoração em espirito lhe podia ser agradável. Que 
era uma invenção pueril representar o Espirito Santo em uma 
pomba». 

A lei antiga já prohibia as imagens, mas parece que com o 
único fim de não serem confundidas com os Ídolos, pois é certo 
que Salomão mandou fazer para o seu Templo duas grandes ima- 
gens de Seraphins. O Concilio de Elvira deliberou que nas egre- 
jas todas as imagens fossem portáteis, para poderem ser condu- 
zidas a logares occultos, como succedeu por occasião da entrada 
dos mouros na península, em que os fieis fugiram com ellas, en- 
terrando umas e escondendo outras nas grutas de altos montes, 
onde mais tarde o seu apparecimento deu logar ás romarias que 
ainda hoje se realisam com caracter accentuadamente pagão. O 
cap. III das actas do primeiro Concilio de Braga, celebrado em 
411, diz que os Bispos Lusitanos resolveram esconder os «corpos 



— 20 

ou relíquias dos santos, tomando nota dos Jogares e cavernas •> 
(de locis et speluncis), onde ficassem, entregando-se d'isso um re- 
latório minucioso «para que se não perdesse a memoria d'ellas 
com o decurso do tempo». O costume era já antiquíssimo: Jere- 
mias, como se lê no L. II dos Machabeus, cap. II, subiu a um 
monte e escondeu numa espelunca o Tabernáculo, a Arca e o 
Altar do incenso (Invenit locum speluncce et Tabérnaciilum et 
Arcam et Altare incensi. . .). Exceptuando um limitado numero 
de fieis que vão ao local amortalhados, sem fala, de joelhos, des-. 
calços, não estando a isso habituados, conduzindo vellas e outros 
objectos de cera representativos da parte affectada do corpo, ma- 
deixas de cabello, um tourinho, ou outras quaesquer promes- 
sas feitas aos santos quando, por sua intercessão, alcançam de 
Deus alguma graça temporal ou espiritual, exceptuando estes, as 
romarias são para o nosso povo, não uma prova publica da sua 
fé, mas um meio fácil de se distrahir ou satisfazer a curiosidade 
própria \ jogos, tocatas, descantes immoraes como os que dirigem 
ao Santo Precursor, petiscos, vinho verde e doces, desordens pre- 
meditadas de longe com promessa de se liquidarem na romaria 
de tal, tudo isto são, entre nós, as romarias, uma imitação ava- 
riada das peregrinações que nos primeiros tempos da Egreja se 
effectuavam em occasiões de calamidades publicas, sendo a mais 
notável a que se dirigia a Jerusalém, de visita aos logares santos, 
e a mais celebre a que ia a Roma (Romahia = origem da palavra 
Romaria?) visitar os sepulchros dos apóstolos S. Pedro e S. Paulo. 
Esta devoção era vivíssima no anno de 836, em que todos os pe- 
regrinos se confessavam nas vésperas da partida. 

Das romanas e do transporte das relíquias originaram-se as 
procissões, parecendo que a primeira, digna de tal nome, fosse a 
ceremonia da trasladação da Arca, de Cariathiarim para a casa 
de Obededom e d'alli para a cidade de Hebron. 



SYNCHRONISMOS DO SÉCULO V 



O Concilio Viennense, celebrado em 474 por S. Mamerto, me- 
tropolitano de Vienna, no Delfinado, estabeleceu o jejum e as la- 
dainhas menores para ser impetrado o auxilio do ceu contra os 
bárbaros, inundações, terremotos, esterilidades, etc. Foram ainda 
instituídas, no segundo Concilio Bracarense, cap. 9, outras ladai- 



2 1 — 

nhãs para o principio da quaresma; e no decimo sétimo Tole- 
tano, cap. 9, para todos os mezes do anuo pro statu Ecclesioe, et 
incolwnitate Principum. 

Entre nós, no século VII tiveram o seu inicio os Ladarios, 
que se tornaram frequentes, fazendo-se estes votos «para sus- 
pender a justa vingança de Deus irado». S. Gregório Magno ins- 
tituiu, no dia de S. Marcos (anno de 5go), as Ladainhas maiores 
para se pedir a Deus o termo da peste inguinaria ou bubonica. 
Chamavam-se das cruzes, porque estas e os altares estavam co- 
bertos de preto, e os fieis que tomavam parte íVellas vestiam-se 
de lucto, descalçavam-se e abstinham-se da carne e do vinho. 
Desobrigaram os penitentes da lei da confissão publica dos seus 
peccados, sujeitando-os apenas á auricular e secreta, e determi- 
nou-se que a penitencia publica nunca fosse imposta a qualquer 
dos cônjuges sem consentimento do que ficasse isento. 

A Egreja não approvou o Concilio Seleuciense, de Seleuca na 
Pérsia, que o metropolita Nestoriano Barsumas celebrou em 485, 
e no qual se permittia o matrimonio aos padres e aos monges 
(Assemani, Biblioth. Orient. tom. 111). Babueu condemna a de- 
cisão de Barsumas perante os Nestorianos que no referido anno 
também reuniu em Concilio; porém o metropolita irado celebrou, 
ao cabo de 10 annos, (em 495), três conciliábulos — Napetense, Se- 
leuciense e Adriense — confirmando n'elles a heresia e todos os 
decretos do seu Concilio anterior. Esta confirmação foi ainda se- 
cundada em 499 pelo Concilio Persicum celebrado por Hoseo, 
metropolita de Nisibe. 

O virtuosíssimo Arcebispo de Braga, D. Frei Bartholomeu dos 
Martyres (1559-90), desejando remediar os males do seu tempo, 
declarou-se em franca opposicão ao celibato dos padres, valendo- 
lhe esse louvável zelo pela moralidade do seu rebanho gravíssi- 
mos dissabores. 

Está hoje averiguado que a nossa mais antiga obra lithurgica 
— O Sacramentario — é devida ao Pontífice Gelasio (anno de 492). 
Divide-se em 3 volumes contendo todo o ceremonial da Egreja, 
missas para o decurso do anno, modo de ministrar Sacramentos, 
etc, etc. 

Os Bispos do século V, não podendo transportar-se a todos os 
logares da Diocese, crearam os seus delegados que denominaram 
Bispos coadjutores, modestos ecclesiasticos que tempo depois se 
elevaram, por desleixo dos superiores, parecendo na auctoridade 
os próprios Bispos. A consequência d'estes excessos foi a aboli- 
ção total da Dignidade nos séculos X e XI. 

Terminou com a invasão dos Árabes o convento de cónegos 
regrantes de Santo Agostinho, fundado na Sé de Braga pelo Bispo 
S. Profuturo. quando as Províncias romanas eram entregues aos 



'2 2 



bárbaros que assolavam a Hespanha, mais tarde conquistada pelo* 



godos. 



SYNCHRON1SMOS DO SÉCULO VI 



N'este século os reis visi-godos governavam toda a Hespanha. 
O sétimo dos i3 cânones estabelecidos por 10 Bispos reunidos no 
Concilio de Tarragona (Tarraconense) aos 6 dias de novembro 
de 5i6, manda começar na noite de sabbado a observância do 
domingo. 

Charvet, na sua historia da egreja de Vienna, pag. 118, diz-nos 
que a consagração das viuvas chamadas Diaconisas foi abolida 
pelo 21. ° cânon do Concilio Epaonense (de Albon, Diocese de 
Vienna), celebrado pelo Bispo santo Avito, desde 6 a i5 de se- 
tembro de 5 17. 

A Diaconisa era, na Egreja primitiva, uma mulher com certo 
grau ecclesiastico que substituía o diácono, especialmente em 
actos do culto para o sexo feminino. 

No I." Concilio Bracarense, celebrado por Lucrécio, Bispo de 
Braga, no dia 1." de maio de 563, Theodomiro, rei Suevo, e todos 
os seus súbditos, foram definitivamente convertidos á fé catholica, 
deliberando-se, por essa occasião, fazer manter o antigo systema 
de baptisar; ordenar aos diáconos que usem a estola sobre o 
hombro e não escondida sob a túnica, parecendo subdiaconos; 
«que os sacerdotes, que não comiam carne por evitar a suspeita 
de heresia de Priciliano, os obriguem alguma vez a hervas cosidas 
com carne ; e se desprezarem este preceito pela suspeita d'estes 
herejes, serão excommungados e totalmente privados do officio 
sacerdotal. Que os corpos dos defunctos de nenhum modo se se- 
pultem dentro nas egrejas dos Santos, mas, quando fòr necessário, 
da parte de fora junto do muro da egreja, aonde não é tanto de 
extranhar; porque suas cidades até nosso tempo guardam firmissi- 
mamente este privilegio; que do circuito dos seus muros a dentro 
se não sepulte o corpo de qualquer defuncto em nenhum modo, 
quanto mais o deve ter a reverencia dos martyres veneráveis». 

O pagamento dos dízimos foi ordenado, como esmola, em 
carta-circular escripta pelos Bispos, depois de encerrado o segundo 
Concilio Turonense, no dia 17 de novembro de 567. 

Sob a presidência *do Bispo S. Martinho de Dume, e achando- 
se presente o de Briteiros, que se chamava Maybom, celebrou-se 
no primeiro de junho do anno de 572 (18 das kalendas de janeiro 
da era de 610), o segundo Concilio Bracarense, determinando 



— 23 — 

«que os catechumenos concorram á purificação do exorcismo vinte 
dias antes do baptismo, ensinando-se-lhes o symbolo Credo in 
unum Deitm; que não se consagre egreja sem primeiro se lhe fazer 
património para serviço cfella, confirmado por doação em escri- 
pto, porque não é culpa leve, antes é temeridade consagrar uma 
egreja sem cera e sem renda para sustentação, etc; que aos que 
levam meninos ao baptismo não se receba alguma cousa senão 
quando o queiram dar por sua devoção; que seja suspenso das 
ordens pelo seu Bispo todo o sacerdote que consagrar no altar 
não estando em jejum». 

Os christãos, que desprezaram o costume do pagamento dos 
dízimos á egreja, foram ameaçados com pena de excommunhão 
expressa no quinto cânon do segundo Concilio Matisconense, a 23 
de outubro de 585. Também n'elle foi prohibido o baptismo fora 
do tempo da Paschoa, sem motivo justificado. 

A disciplina ecclesiastica, bastante descurada n'este século, 
mereceu a Recaredo, rei godo, a máxima attenção, a ponto de 
requerer que sobre o assumpto fossem feitos 23 cânones no ter- 
ceiro Concilio Toletano, celebrado em 6 de maio de 58q, e no 
qual o mesmo rei declara que todos os godos abjuraram o aria- 
nismo, e que elle, por si e em nome dos seus súbditos, fazia pro- 
fissão de fé. A 5 de novembro do anno immediato e i de novem- 
bro de 592, os Concilios Hispalense i°, de Sevilha, e Ca;saraugus- 
tanum, de Saragoça, oceuparam-se desenvolvidamente dos arianos 
conversos. 

Em 5t)8 são os sacerdotes, diáconos e subdiaconos, rigorosa- 
mente obrigados ao celibato. 

Uma determinação do Concilio de Epona, celebrado em 517, 
exigia que todos os altares fossem de mármore. 

O Papa S. Gregório Magno (anno de 5qo), para evitar que o 
espirro continuasse a fazer victimas, como por occasião da grande 
epidemia, indicou aos fieis a conveniência de no mesmo acto pro- 
nunciarem as palavras Dominus tecum, ainda hoje em uso entre 
nós. A origem da saudação do espirro vem de tempos remotíssi- 
mos. Os Gregos diziam: Júpiter o conserve; e os Romanos : salve, 
como presentemente em Monomotapa (Africa) e na America. 

O mesmo S. Gregório Magno concedeu a Santo Agostinho 
o uso do Palio, unicamente para a celebração da missa. A sua 
origem vem dos sacerdotes pagãos. No Ceremonial Romano, L. 
I, cap. V, encontra-se o seguinte: «O cuidado de fazer e conser- 
var os Pálios pertence aos Subdiaconos Apostólicos, que cuidam 
em mandal-os fabricar da maneira seguinte : — As freiras do Mos- 
teiro de Santa Ignez e os Religiosos que alli assistem, offerecem 
todos os annos dois cordeiros brancos sobre o altar da dita egreja 
no dia da festa da Santa, quando na missa solemnc se canta o 



— 2 4 — 

Agnus Dei. Aquelles dois cordeiros se entregam com certas ce- 
remonias a dois cónegos da egreja de S. João de Latrao, os quaes 
cuidam em os mandar alimentar até chegar o tempo de se lhes 
cortar a lã; e d : ella se fabricam os Pálios. 

Estes são uma espécie de estolla da largura de três dedos, que 
consta de 4 cruzes negras e de outras tantas pontas, das quaes 
duas descem pelo peito e outras duas pelas costas do Prelado até 
á cinta ; no fim das quaes prendem umas pequenas laminas de 
chumbo. Este Palio mette-se pelo pescoço, porque é formado, 
quasi, como em circulo.» 



23 — 



INSCRIPÇÃO WiSIGOTHICA 




A pag. 85 do meu livro InscripçÕes e Lettreiros, encontra-se 
gZincographada a inscripção wisigothíca de que presentemente dou 
photogravura. Apresentava então uns leves erros de copia prove- 
nientes das successivas camadas de tinta de óleo que no decorrer 
do tempo lhe applicaram com o fim de egualar a lapide, que é de 
silex escuro, á cor alvíssima da parede da sacristia da egreja de 
S. Vicente, onde se encontra embebida. 

Essas camadas de tinta, que posteriormente mandei raspar e 
lavar, tomavam alguns traços dos caracteres, que são finos, alte- 
rando por isso a leitura. A versão portugueza d'esta lapide, que 
mede i m ,4o de comprimento por o" 1 . 41 de altura ou largura, é 
como segue : 

.«Aqui descança Remismuera, desde o primeiro de maio de f>i8, 
dia de segunda-feira. em paz. amen.» 

O eminente escriptor e epigraphista madrileno sr. Padre Fidel 
Fita, a quem no dia 18 de fevereiro de 1896 enviei copia pho- 
tographica. estudou magistralmente esta lapide no Boletin de 
la Real Academia de la Historia de Madrid, tom. XXVIII, cor- 
respondente a março d'aquelle íinno, dizendo : 

«O nome da defunta é teutonico. O seu primeiro elemento sáe 
do nome de Remisol, bispo de Vizeu, que assistiu ao 2. Concilio 
de Braga, (anno de 572), no de Remismundo, rei suevo, e n'ou- 



— 26 — 

tros. A photographia permitte conjecturar que o segundo elemento 
seja mutera, por ter algum traço de ligadura de T com E, em 
cujo caso vem á memoria o allemão mutter (mãe)». 

Esta inscripção lapidar é, sem duvida, o monumento authentico 
mais antigo do christianismo em Braga. Por isso todos nós deve- 
mos tributar-lhe o respeito a que tem jus. 

Quando a copiei, para a publicar em primeira mão, semelhava 
uma taboleta de madeira com as lettras avivadas a tinta preta e 
alteradas em parte, de modo que ninguém lhe podia entrar, como 
dizia o velho sacristão. 

Convenci immediatamente os mezarios de S. Vicente de que 
estava alli uma -inscripção de valor, obtendo d'elles auctorizaçao 
para ordenar a lavagem que não foi pouco difficil. 

Ao lado esquerdo d'ella está outra lapide em que se lê que no 
anno de i565, por occasião da reedilicação da egreja, appareceu 
nos alicerces antigos a referida inscripção wisigothica. Esta lapide 
uinhentista mostra bem gravados estes dois dísticos latinos : 



iivmxccEmiRMwis 

li 






[T.N0V\PRO.TOI.iPi/T.ARABMO , 

Os lusitanos professaram livremente a religião christã no tempo 
do rei suevo Hermenerico 5 e de tal modo a crença se propagou, 
que no anno de 464 poucos suevos havia que não fizessem parte 
do grémio da egreja catholica. Theodomiro, acclamado em 558, 
abjurou, dois annos depois, o arianismo a que conseguiu pôr termo 
em 563, por occasião de convocar o 2." Concilio Bracarense. Seu 
filho Ariamiro succedeu-lhe em 570, prestando á causa do christia- 
nismo relevantíssimos serviços. Este teve também um filho de 
nome Eburico, que por intimação de Endeca foi monge do mos- 
teiro de Dume, sendo o mesmo Endeca obrigado, no anno de 5S5, 
a seguir egual caminho. Foi então que o successor Leovegildo uniu 
o reino á monarchia gothica. 

A veneranda inscripção lapidar wisigothica data das proximi- 



2 7 



dades do estabelecimento da religião de Maíoma (islamismo) por 
Abul Kasen Ibn Abdallah Mohammed, natural de Meca. 



# 



Desde os tempos primitivos a humanidade tributou aos mortos 
a mais rendida veneração e respeito. No primeiro periodo da epo- 
cha pre-historica (paleolithico), eram os cadáveres inhumados de 
cócoras, e só no segundo periodo (neolithico) teve principio a in- 
cineração que não se adoptou geralmente. Numa caverna da mon- 
tanha de Hov foi inhumado Aarão, filho de Amrão e de Jocabed, 
e irmão de Moysés, com 1 23 annos de edade. A sua morte era 
annualmente commemorada com jejuns pelos judeus. 

Os egypcios guardavam em urnas, nas suas casas, os cadá- 
veres embalsamados, eos gregos e os semiticos inhumavam e cre- 
mavam os seus. 

Entre os romanos o costume da cremação durou até ao tempo 
do imperador Graciano, (anno de 867), que o prohibiu de vez. 

Gallieno havia publicado um edito ordenando a entrega dos 
cemitérios e egrejas aos christãos; porém, no anno de 38i, reco- 
nhecendo-se que era nocivo á saúde publica o costume das inhu- 
maçóes nos templos, publicou o imperador Theodosio Júnior uma 
constituição prohibindo-as alli e nas cidades. (Vid Acta SS. 
tom. 3, pag. 44). Foram então iniciadas nas casas de campo e á 
margem das vias publicas, terminando muitas das inscripções se- 
pulchraes com esta supplica meiguissima e poética: 

ORO VT PRAETERIENS DICAS : 

SIT T1BI TERRA T EVIS 

A CINERIS QVOQVE FLORES LEGANTYR 

«Rogo-te que digas quando por aqui passares: A terra te seja 
leve, e de flores se cubram as tuas cinzas». 

Foi nas catacumbas de Roma (conhecidas minas de piçarra 
— pir x \ollana — de que se fazia o cimento), que os christãos tiveram 
as primeiras egrejas e os primeiros cemitérios denominados coeme- 
tevia (dormitórios) ou cryptas ; e porque se reuniam n'estes Joga- 
res occultos eram conhecidos dos seus perseguidores por lucifugos 
(inimigos da luz) como nos diz Minucio Félix, ou geralmente chris- 
tãos, de Christo, ou de chrest (pobres). 

Aqui o espaço da sepultura era pago quando a preferissem 
próximo das dos martyres, sendo estes contractos effectuados com 
os coveiros (Fossores), segundo se deprehende da inscripção de 
uma sepultura Comprada por Artemisio para dois cadáveres. O 
systema das inhumações em cavidades (sepulturas) abertas nas 



--28 — 

paredes dos caminhos interiores das catacumbas, que ainda no anno 
de 35o funccionavam, adopta-se presentemente nos muros inte- 
riores dos nossos cemitérios, dando-se á sepultura o nome da sua 
origem — catacumba. 

Uma das sete maravilhas do mundo, o tumulo de Mausolo, 
rei de Caria, construído por ordem de sua irmã e esposa a cele- 
bre Artemísia II, legou o nome a todos os monumentos funerá- 
rios. Por seu turno o nome da rainha Artemísia ficou também 
memorado pelas formosas flores d^sta planta composta que des- 
abrocham na quadra triste do Outomno. 

Os christaos, confiados na resurreição, não queriam ser cre- 
mados nem consentiam que nas sepulturas fosse gravada a pala- 
vra enterrar. Por isso diziam sempre depositar. Os amigos e os 
parentes do morto, para annualmente poderem efíectuar, no dia 
próprio, a commemoracão fúnebre, embebiam na argamassa da 
campa armeis, conchas, moedas, etc. Uma das muitas inscripçÕes 
encontradas diz : 

M • ANTONIVS • RESTITVTVS 
FECIT YPSO CEV SUBI • ET SVIS 
FIDENTIBVS • IN • DOMINO 

«Marco António Restituto fez esta sepultura subterrânea para 
si e sua família, que confiam em Deus». 

Também nas catacumbas foi encontrada esta do coveiro Dió- 
genes, sem duvida mais moderna : 

DIÓGENES FOSSOR IN PACE DEPOSlTVS 
OCTABV KALENDAS OCTOBR • 

Outras inscripções christãs terminavam com os dizeres: — Vive 
no Senhor e roga por nós — Vive em pa~ — Consola-te e possa o 
teu espirito gósar do eterno bem — Christo Senhor Omnipotente, 
consolae seu espirito em vós, etc, etc. 

Quasi sempre eram lacónicas como por exemplo esta do sepul- 
chro de Santa Philomena, existente no museu de Latrão : 

PAX TECVM FILVMENA 

Por occasião dos anniversarios dos martyres, sepultados nas 
catacumbas em numero de oitenta mil, e mais quarenta e cinco 
Bispos, celebrava-se junto das sepulturas o Officio Divino e fa- 
zia-se uma homilia aos fieis que alli se reuniam em grande nume- 
ro, collocando-se sobre pilares de pedra a lâmpada do azeite aro- 
matisado. S. Gregório Magno presenteou a rainha Theodolinda, 



da Lombardia, com alguns tubos de zinco cheios de aceites das 
lâmpadas dos Papas martyres. 

Aos fieis, que diflicilmente concorriam á communhão em virtu- 
de da grande distancia que mediava entre as portas de Roma e as 
catacumbas, foi permittido levarem, muito embrulhada, no seio 
ou numa pequena caixa de ouro pendente do pescoço, a Eucha- 
ristia para a distribuírem pelos amigos em jejum. 

Crê-se que datam do século u os cemitérios christãos, e do 
meado do v a notação da era nas lapides funerárias. Por isso deve 
ser considerada apocrypha esta do anno 77 que Vaseo nos dá no 
tom. I como achada na Biscaia: — «Bellila Hispana serva Jesu 
Christi requievit in Domino. Obiit aera u5 hoc cst anno Domini 
septuagesimo septimo» . 

Pertence ao ultimo quartel do século ív esta inscripção lusi- 
tano-christã, a mais antiga da Península, existente no Museu de 
Merida, a qual tem no alto o monogramma de Christo: 

p 

X 

I.VPERCVS 

FIDELIS • RE 

CEPTVS • IN • PACE 

VIXIT • AN • XXX 

Refere-se a um Luperco fiel que foi recebido na eterna paz do 
Senhor aos 3o annos de edade. 

E muitíssimo antiga a formula: Receptus in pace. 

O monogramma no alto indica a epocha em que o imperador 
Constantino Magno concedeu a paz e a liberdade á Egreja (anno 
de 33o). Por essa occasiao os fieis edificaram um grande numero 
de Templos nos quaes os imperadores e reis, os Bispos e os de- 
mais ecclesiasticos começaram a ser inhumados junto dos monu- 
mentos dos martyres, tornando-se por fim extensiva a todos os 
fieis esta especial concessão. 

As sepulturas apresentavam então vários emblemas mysticos 
e as formulas: Requievit in pace Domini — Tibi detur pax a Deo. 

Algumas tinham na parte superior a primeira e a ultima lettra 
do alphabeto grego A O, alludindo ás palavras de Christo: «Ego 
snm Alpha et Omega, principinm et finis.» 

Sendo revogada a lei das doze taboas, que Theodosio Júnior 
lizera executar, os terrenos vedados junto das basílicas chama- 
ram-se dormitórios, do verbo koimáo. 

O cânon 18 do Concilio de Braga celebrado em 563 prohibiu 
expressamente as inhumaçÕes nas egrejas, permittindo-se apenas 
que fossem effectuadas junto dos seus muros. 

Desde o pontificado de S. Gregório Magno até ao Concilio de 



J>0 — 

Trento nunca os padres deixaram de propugnar pelo estabeleci-' 
mento dos cemitérios, mas é possível que já no século xi princi- 
piassem de novo as inhumações nas egrejas. No mosteiro benedi- 
ctino de Paço de Sousa, freguezia do Douro, foi sepultado em 
capella particular, na era de 1182 (anno de 1144) o nosso Egas 
Moniz, rilho de Muninho Hermigues, descendente de nobreza 
neo-gothica. 

No seu tumulo gravou-se esta inscripçao: 

HIC ■ REQVIESCIT • FYS | DEI | EGAS j MONIZ \ 
VIR : 1NCLITVS ; 
ERA • MILLESIMA • CENTÉSIMA • 2XXXII : . 

Para este século xu ha ainda muitos outros exemplos; e para 
o immediato não faltam documentos comprovativos como o do 
mosteiro de Tarouca, onde se lê que Martinho Annes e sua mu- 
lher Elvira Pires foram sepultados pouco depois de 1228, no re- 
ferido mosteiro, tendo feito ambos uma doação aos monges. No 
século xiv faziam-se as inhumações próximo, dos altares e simul- 
taneamente nos adros. 

O velhíssimo costume de tosquiar a cabeça e a barba aos de- 
functos terminou no século xvi. 

Quando em 1 832 Portugal foi flagellado pelo cholera, proce- 
deu-se á benção de alguns terrenos para íVelles se fazerem enter- 
ramentos, porque então não havia entre nós cemitérios públicos. 
O Direito canónico admitte o enterramento nas egrejas, mas não 
deixa de preferir que sejam procurados os cemitérios. O Ritual 
Romano, (tit. 6, cap. 1, n.° 9) diz: «Ubi viget antiqua consuetudo 
sepeliendi mortuos in coemitefiis, retineatur; et ubi íieri potest, 
restituatur». 

Até ao anno de 1 835 todos os enterramentos se eífectuavam 
nos recintos e adros das egrejas, nos cemitérios privativos dos 
hospitaes militares (Reg. an. ao Alvará de 27 de março de i<8o5. 
secção 3. a , tit. vu, art. 25), e nos das Misericórdias (Alvará de 18 
de outubro de 1806, § 12). Havia para as communidades religio- 
sas o privilegio de poderem dar sepultura aos seus membros nas 
cercas e nos claustros dos seus conventos. Os decretos de 21 de 
janeiro de 1834 e 21 de novembro de i836, destinaram uma ca- 
pella da egreja de S. Vicente de Fora para jazigo de Reis e Prín- 
cipes. Gomo providencia geral foi pela primeira vez determinado, 
em decretos datados de 21 de setembro de i835 e 8 de outubro 
do mesmo anno, que se criassem cemitérios em todas as povoa- 
ções do reino, sendo de dois metros quadrados o espaço minimo 
de cada sepultura, cinco palmos de profundidade, quatro de lar- 
gura e dez de comprimento. Este decreto diz no seu i ." artigo : 



— 3i — 

«Em todas as povoações serão estabelecidos cemitérios públi- 
cos para n'elles se enterrarem os mortos». 

A esta medida do governo, fiscal da hygiene e salubridade 
publica, dizem também respeito muitas portarias, entre as quaes 
as de 24 de janeiro de 1872; 17 de dezembro de 1866; 17 de no- 
vembro de 1868 e 29 de maio de 1877, que mandam designar os 
«espaços de terreno sufficientes para o enterramento dos indiví- 
duos que não professem a religião catholica, ou foram privados 
de sepultura ecclesiastica, em relação ao logar em que houverem 
de ser sepultados, vedando-se por um pequeno muro com entrada 
própria»; que antes de 10 annos não poderão ser abertos alicer- 
ces ou feitas excavaçÕes dentro dos cemitérios que tenham sido 
fechados. O legislador não preveniu, como convinha, a remoção 
das ossadas depois de findo aquelle prazo. Por isso com razão 
ordenou S. Carlos, no Concilio provincial de Milão «que em to- 
dos os cemitérios houvesse uma casa de abobada chamada Ossoa- 
rio, para n"ella serem guardados os ossos que se fossem tirando 
das sepulturas». 

E concebido nos seiíuintes termos o relatório do decreto de 
21 de setembro de i835: 

Senhora: — Muitas providencias executivas se tem determinado 
em diversos tempos para acabar com a pratica supersticiosa de 
enterrar os mortos dentro dos templos — pratica offensiva do res 
peito, e veneração devida aos logares sagrados em que se adora 
a Divindade. Estas providencias não produziram o desejado eífeito, 
porque lhes faltava o caracter solemne de medida geral, e por- 
que se não tornaram responsáveis ou os executores, ou os que 
se oppozessem á execução das ordens. Outra rasão se deu sem- 
pre para illudir taes providencias, e rasão plausível. A auetori- 
dade, que vedava os enterros nos templos, não tornava effectivo:-'. 
os estabelecimentos dos cemitérios, ou apenas lhes designava por- 
ções de terreno, abertas e devassadas por animaes, com escândalo 
dos fieis, que não podiam supportar que fosse tratado com irre- 
verências o jazigo dos mortos. Estes inconvenientes eram ainda 
encarecidos pelo interesse d^quelles que lucravam com a pratica 
funesta á saúde dos seus concidadãos, vindo assim a fazer um tra- 
fico da pestilência, e da morte, que quanto mais frequente, mais 
proveitoso lhes era! Eis os motivos porque durou por tantos sé- 
culos este abuso vergonhoso, — a ignorância da edade media o 
transformou em dever de religião, cedendo a suggestões insidiosas 
dos que derramavam a fatal crença de que alcançariam a gloria 
das almas aquelles, cujos corpos jazessem em companhia das ima- 
gens dos santos, dentro dos templos sagrados. Mas ainda n' esses 
tempos de obscuridade e de fereza de costumes a voz da religião 
esclarecida e livre de prejuízos soou contra taes praticas, prohi- 



— 32 — 

bindo-as, posto que sem effeito, porque desgraçadamente os cos- 
tumes podem mais do que as leis; e porque os ditames de poucos 
homens illustrados se perdem no meio da cegueira geral. Nos 
Concílios de Braga em 663, de Meaux em 845, de Tribur em 8g5 
e de Reims em 11 17, foram condemnados os enterros dos mortos 
nos templos. Em epochas posteriores repetiu-se a mesma con- 
demnação; mas só foi dado á illustração dos povos, sob governos 
justos e zelosos do bem da communidade, extirpar um mal, origem 
de immensos males, e que tanto mais difficil era de desarraigar, 
quanto se fundava em noções religiosas, mal applicadas, sim, porém 
úteis á cobiça que cega o entendimento, e fecha os ouvidos á voz 
da humanidade. Auctorisado o governo de Vossa Magestade para 
prover á organisação de administração do reino, devia elle prestar 
a devida attençao a um ramo tão importante d'ella; mandar logo 
proceder á demarcação dos terrenos para os cemitérios, fazer 
eftectiva a ordem em tempo determinado; indicar as circumstan- 
cias dos logares designados; tornal-os próprios para o fim a que 
são dispostos; ordenar as ceremonias ecclesiasticas, segundo a pra- 
tica da egreja; apromptar os meios necessários para o acabamento 
das obras em certo praso, commettendo o negocio aos primeiros 
agentes da administração. Pareceu também necessário prover a 
uma circumstancia importante. Muitas famílias estão de posse, por 
direito adquirido, de jazigos particulares para os membros delias; 
a piedade filial, um dos caracteres mais salientes da moral publica, 
venera esses logares; porque Telles se conservam as relíquias de 
seus maiores; e para que nem similhante respeito se perca, nem 
sentimentos tão louváveis sejam contrariados deshumanamente, se 
concede áquelles, que possuem taes jazigos, egual acquisição de 
terrenos separados nos cemitérios públicos e que para elles pos- 
sam transportar os sarcófagos, lapides e despojos mortaes, que 
tinham nos carneiros que possuíam. Algumas medidas particula- 
res, que agora são omittidas, formarão o objecto de instrucçoes, 
que hão de ser enviadas aos governadores civis, e outras, depen- 
dentes de circumstancias locaes, elles as darão como melhor con- 
vier. 

Para preencher tão necessários fins o governo, pela repartição 
dos negócios do reino, propõe a Vossa Magestade o seguinte de- 
creto. Secretaria de estado dos negócios do reino em 21 de setem- 
bro de i835.= Rodrigo cia Fonseca Magalhães, ministro e secre- 

. * - . • ~ Cs * 

tano d'estado dos negócios do reino. 

Em 18 de setembro de 1844 ampliou-se a disposição dum ar- 
tigo permittindo-se a construcção de jazigos ou carneiros privati- 
vos a distancia não inferior a 800 passos do povoado,, precedendo 
para isso licença do governo. 




Primitiva capella de S. Fructuoso 
(S. Salvador de Montelios) 



34 



S. SALVADOR DE MONTELIOS 



Entre a cidade de Braga e a suburbana freguezia de Dume, 
no logar denominado Montclhos, Montelios ou, como se lê num 
documento do século ix, Monte Módico, construíram os povos 
romanos, que alli deixaram preciosos vestígios da sua civilisação, 
a Torre Capitolina e um Templo dedicado a Esculápio, deus da 
medicina. 

No próprio local d'este velho Templo pagão, fundou S. Fru- 
ctuoso, Bispo de Dume e simultaneamente de Braga desde o i.° 
de dezembro de 656, em que foi eleito no io.° Concilio de To- 
ledo, um mosteiro da invocação do Salvador, afim de ser nelle 
sepultado, exigindo que os operários trabalhassem de dia e de 
noite, continuamente, para que se concluísse durante a sua vida 
cujo termo sentia approximar-se. E não errou o calculo, porque 
pouco depois, a 16 de abril de 665, entregou a alma a Deus. 

Para evitar desavenças, quiz ficar sepultado no referido mos- 
teiro, a egual distancia dos bracarenses e dumienses, que já em 
sua vida disputavam a posse do seu cadáver. 

E 1 de suppor que S. Fructuoso christianisasse o Templo de 
Esculápio, como annos antes suecedera ao celebre- Pantheon de 
Roma. e que a presente photogravura nos mostre em parte o que 
elle foi. 

Esses restos venerandos existem numa capella interior da actual 
egreja de S. Fructuoso, á direita de quem entra, denominação que 
data da morte do santo Bispo alli sepultado em tumulo de már- 
more que ainda hoje existe. 

. Essa egreja, como todas as da epocha, tinha a porta para o 
occidente, sendo de forma quadrangular a capella de que me oc- 
cupo e que mede interiormente 5,3y ao comprimento e á largura. 
CompÕe-se de quatro arcos perfeitos que servem de supporte ás 
paredes. 

O da frente e os dois lateraes téem cada um três pequenos 
arcos decorativos sotopostos que descançam sobre columnas de 
mármore de Extremoz, districto de Évora, as quaes medem 3 me- 
tros de altura. D'estes pequenos arcos, o do meio não abrange mais 
de i'",3. e os lateraes o"', 55. Os dois capiteis das columnas da frente 
são corinthios, os do lado do Evangelho compósitos e os da Epis- 
tola compõem-se da mesma folhagem ornamental das pilastras. 

O facto de assentarem directamente no solo, sem pedestal, os 
fustes das seis columnas que existem e de se distanciarem tão 



— 03 




Interior da primitiva capella de S. Fructuoso 



— 36 — 

pouco umas das outras, faz pensar na divisão interior das antigas 
basilicas, que eram construcções civis, aproveitadas pelos christãos 
para o exercício do culto. 

O que me parece fora de toda a duvida é que esta obra per- 
tence ao segundo periodo da architectura medieval, estylo byzan- 
tino com leves modificações. Do que nos diz em 1706 o Padre 
António Carvalho na sua Chorografia, tom. I, pag. i?7, depre- 
hende-se que ainda então existia a egreja com 22 columnas ! «Foi 
este convento (de S. Fructuoso) um dos mais notáveis que teve a 
Ordem de S. Bento, e o destruíram todo os mouros, ficando só 
a egreja que hoje existe, lavrada em forma de crit{, com vinte e 
duas columnas de mármore que a sustentam. » 

Faz referencia a essa destruição uma lapide que D. Diogo de 
Sousa mandou embeber na parede do lado direito da escada de 
14 degraus de granito, que do pavimento da nova egreja dá ac- 
cesso para a vetusta capella. Esta inscripção foi pela primeira vez 
publicada em 1893 no meu livro InscripçÕes e Lettreirosi e é 
como segue : 



FRVLJWOlTEWíA. 




«MWWS.EKPVGNMltTVR.CO 

NFWMETltòEIO 

MTISJN10NllSTEtíMiTW.!m 
.XlIM/AENS M EEEjtjS. 

Por motivo da deserção dos bracarenses, doou el-rei D. Af- 
fonso III ao Bispo de Iria, em 883, este mosteiro de S. Salvador 
de Montelhos e o de S. Martinho de Dume. 

As dezeseis columnas que faltam desappareceram com o resto 
do edifício em 18 de junho de 1728, dia em que teve principio a 
construcção da actual egreja, com a assistência do Arcebispo D. Ro- 
drigo de Moura Telles, fallecido ás 1 1 horas da noite de 4 de se- 
tembro do referido anno. 

As cadeiras coraes, com os 14 magníficos retratos de Arce- 
bispos, em tela, e ainda a preciosa estante com incrustações de 



— o 7 — 

metal amarello, pertenceram á Sé de Braga, sendo tudo cedido 
aos religiosos de S. Fructuoso no anno de 1737, por motivo de 
então se construírem na cathedral os grandes órgãos e as actuaes 
cadeiras de pau preto envernizadas e douradas. Os retratos que 
substituiriam com vantagem os do salão archiepiscopal, represen- 
tam: — S. Faustinus Marts — S. Profuturus — B. Godinus — V. D. 
Fr. Bartholomeus a Martyribus vir apostolicus — B. Calidonius — 
Henricus S. R. E. Card. et Lusit. rex — S. Serenianus — S. Petrus 
Julianus — Joannes XXI Pontifex Max. — D. Potamius Paenitens 
— S. Quiricus — S. Paternus — S. Tholobeus. 

Ao fundo do coro: — V. D. Laureníius e S. Policarpus. No 
alto: 

BENED1C1TE BENEDICITF 

SERVI SACERDOTES 
DOMINI DOM1NI 

DOMINO DOMINO 

A tribuna d'esta egreja é de bella talha dourada com colum- 
nas torciculadas. Tem no alto a imagem da Conceição e aos lados 
S. Fructuoso e S. Francisco. No corpo ha os altares de Santo An- 
tónio, Família sagrada, Senhora das Dores e S. Domingos. 

Existe na sacristia um relicário de prata dourada offerecido 
pelo Arcebispo D. fr. Agostinho de Jesus, cujas armas tem na base 
com o seguinte lettreiro: 

d. s. 

FRVCTVOSO 
ARC." 

Contém este relicário um pequeno pedaço do cordão, habito e 
cabello de S. Fructuoso. 

A fachada da egreja é bem esculpturada. A pequena distancia 
levanta-se um elegante cruzeiro com as armas de D. Diogo de Sou- 
sa, em tudo egual ao que ora se vê ao fundo da rua dos Pella- 
raes. 

N'este século celebrou-se o quinto Concilio Toletanum (anno 
de 636) em que o rei Cinthilla diligenciou que alguns cânones se 
occupassem do seu poder para melhor e mais facilmente governar 
os povos. A este monarcha se deve, em parte, a deliberação to- 
mada no VI Concilio Toletanum, de 9 de janeiro de 638, sobre a 
elevação dos reis ao throno. para que antes do acto nenhum dei- 
xasse de prometter a conservação da fé catholica. No Toleta- 
num VIII, que durou desde dezembro a janeiro de 653, leu el-rei 
Recesvinto, na presença de 52 Bispos, a sua profissão de fé, pro- 
mettendo admittir os quatro Concílios geraes. O 10." cânon de- 



— 38—. 

termina que a eleição do rei seja sempre feita onde o antecessor 
morrer, e pelos Bispos e officiaes maiores do Paço que então alli 
se acharem. 

Os peccadores principiaram a ser feprehendidos publicamente 
desde o XI Concilio Toletanum (7 de novembro de 675) onde tam- 
bém se resolveu que fossem presos ou desterrados, pronuncian- 
do-se a sentença na presença de 3 testemunhas e sendo em seguida 
assignada pelos Bispos. 

As principaes resoluções do 3.° Concilio Bracarense, que teve 
logar em 673 sob a presidência de Leodigio, Bispo de Braga, e 
do rei Wamba, são as que seguem: «Porque de certas pessoas 
nos foi referido que otfereciam, nos sacrifícios do Senhor, leite em 
logar de vinho, e que tinham para si haver-se de dar ao povo a 
Kucharistia lançada no vinho para inteireza da communhão. E o 
porque de todas estas cousas é, que não faltam assim sacerdo- 
tes que põe suas eguarias nos vasos do Senhor, e costumam co- 
mer n'elles. De outros sacerdotes se nos disse que esquecida a 
ordem do costume ecclesiastico, costumam di/er missa sem esto- 
la, e que nas solemnidades dos martyres lançando reliquias ao 
pescoço e sentados em cadeiras, eram levados por diáconos. Que 
muitos sacerdotes sem approvação moram com mulheres. Que ou- 
tros oíferecem vinho espremido da uva no cálix do Senhor». 

Estes abusos foram então condemnados, declarando-se além 
d'isso incurso «na lei de penitencia por espaço de seis mezes 
qualquer sacerdote ou pessoa ecclesiastica que trate com mulheres 
que não seja sua própria mãe». 

N'este Concilio esteve presente, como no segundo, um Bispo 
de Briteiros chamado Froarico. Parece, pois, fora de duvida que 
antigamente existiu no concelho de Guimarães, a cidade episcopal 
de Briteiros, que comprehenderia toda a ária das três actuaes fre- 
guezias d'este nome: — Santo Estevam, Santa Leocadia e S. Sal- 
vador, no meio das quaes se ergue sobranceiro o monte da Ci- 
tania, tão notável pelos vestígios que hoje mostra das três civili- 
sações que o habitaram, pouco distante do outro denominado do 
Sabroso, habitado na epocha proto-historica. 

E' tradição que n'esta antiga cidade, sede de bispado, foi se- 
pultado Hermerico rei Suevo, e que os seus Bispos existiram até 
á destruição da Hespanha. Na divisão da jurisdição dos bispados, 
feita no Concilio de Lugo (anno de 579), coube ao de Briteiros 
«desde a ponte de Donim até á ponte de S. João, tendo pelo norte 
e poente a serra de Espinho, ao nascente Morreira, sul rio Ave.» 

Nos Concílios celebrados em 634. 653 e 666, tomaram parte 
os Bispos de Briteiros Adulfo, Somna, etc. A egreja parochial de 
Santa Maria de Yilla Nova de Sande, que por aquelle tempo se 
denominava Mosteiro de Máximo, era uma das 2(5 demarcadas 



-3 9 — 

pelo rio Ave (Apus jlupius), pertencentes á comarca de Briteiros. 

A festa de Todos os Santos, que ainda hoje é celebrada no 
i." de novembro, teve a sua origem na dedicação do templo Pan- 
theon a Nossa Senhora da Rotunda, quando o Papa Bonifácio 
IV (608-61 5) o obteve de Focas. 

Bonifácio A" (619-625), sentindo approximar-se a morte, quiz 
presentear Eduino, rei de Northumbria. na Inglaterra, enviando-lhe 
uma camisa bordada a ouro e uma riquíssima capa ; e para a 
rainha Edelburga, um espelho de prata e um pente de marfim en- 
castoado em ouro. Com estes valiosos objectos foram duas car- 
tas, uma convidando Eduino a abraçar a religião christã, e outra 
felicitando Edelburga por se converter á fé. 

Admittiram-se pela primeira vez na egreja os órgãos em tempo 
do Papa Yitaliano, cujo governo durou desde 3o de julho de fõy 
a 27 de janeiro de 672. 

O titulo de Soberano Pontífice foi pela primeira vez conferido 
a Theodoro (642-649), no Concilio Africano, celebrado no anno 
de 646. Anteriormente a esta data apenas os imperadores roma- 
nos o usavam com esta alteração : pontifex maximvs (Pontífice Má- 
ximo). Os títulos de Vigário de Jesus Lhristo e Vigário Apostólico, 
que os Bispos do século ix usavam, passou no xui para os Summos 
Pontífices que antigamente se denominavam Vigários de S. Pedro. 
O costume de beijar os pés ao Papa data do anno de 700. 

Santo Agathão (679-682) conseguiu que o imperador de Roma 
dispensasse a Egreja do pagamento da pesada contribuição a que 
estava obrigada pela sagração dos Papas, acto este que nem sem- 
pre se effectuava dentro de breve prazo depois de serem eleitos ; 
por isso no tempo de Bento II (684-685) a sagração principiou a ter 
logar seguidamente d eleição do Papa. 

No presente século vir, a sociedade civil sentiu-se enfraquecida 
pela deserção dos indivíduos que se dispunham a povoar os nume- 
rosos mosteiros fundados n'àquella epocha. Entre nós os fieis do 
século x legaram aos dos dois séculos seguintes o frequente cos- 
tume de oílerecerem em parte ou no todo os seus bens aos mos- 
teiros e demais corporações ecclesiasticas, ficando por esse facto 
denominados Oblatos, Oííertos, Donatos, Condonatos, Confrades 
e Familiares, com direito aos bens espirituaes da corporação ; e 
se declaravam que queriam entrar na communidade, ficavam sendo 
commensaes d'ella, gosando varias regalias que nem sempre foram 
úteis á causa do ebristianismo, como o demonstra S. Pedro Ve- 
nerável determinando, nos estatutos de Cluni, cap. XLVIII a que 
não fossem admittidos similhantes indivíduos ainda que houves- 
sem de trazer á Ordem muitas riquezas temporaes». Não obstante, 
a missa que . em differentes mosteiros era diariamente celebrada 
pro Famtliaribus, prova a continuação dos externos, aos quaes 



- 4 o — 

faz referencia o Concilio Lateranense (anno de 121 5) no seu cap.^ 
LVII, mostrando que só com licença do Prelado do mosteiro po- 
deriam fazer testamento. Denominavam-se serros dos quatro di- 
nheiros aquelles que se declaravam escravos do mosteiro com a 
mulher, filhos e bens, lançando sobre o altar esta moeda que an- 
tes haviam collocado na cabeça ; e seri'os da gleba por prenderem 
íio pescoço a corda do sino. 

Para remédio de suas almas havia muito quem doasse aos 
mosteiros uma pitança annual. Outros, então, embora raros, dei- 
xavam á egreja os seus haveres para que Nosso Senhor lhes per- 
doasse as mortes que tinham feito! 

No X Concilio Tolentino, celebrado cm hòb, sob a presidên- 
cia do Arcebispo Santo Eugénio, instituiu-se a festa da Annuncia- 
cao que tem logar sete dias antes do Natal. Santo Ildefonso, so- 
brinho do referido Arcebispo, ordenou que a esta festa fosse dado 
o titulo de Expectação ou do O', que é a exclamação do principio 
das Antiphonas maiores. As Cathedraes, as Collegiadas e os Mos- 
teiros deram este nome ao beberete que até ao principio do sé- 
culo xv offereciam, iVaquelles sete dias, e o qual constava de vi- 
nhos brancos e vermelhos, fruetas e espécies, confeitos, tâmaras e 
passas». 

O 18. Concilio Toletanum, celebrado em 701, foi o ultimo do 
tempo do rei Witisa, recente suecessor de Egica. No Constantino- 
politanum que durou, com reprovação da egreja, desde 10 de fe- 
vereiro a 8 de agosto de 754, achavam-se 338 Bispos que todos 
collaboraram no extenso decreto contra as imagens sagradas. Em 
Roma determinou-se a 12 de abril de 76(1 que se anathematizasse 
o Concilio e que as imagens e relíquias continuassem a receber 
as honras dos christãos. Occasionavam esta controvérsia os anti- 
gos costumes dos bárbaros conversos cuja interferência nos negó- 
cios da Egreja foi altamente ruinosa. Muitos monges ignorantes, 
como o prova Alcuino em seus escriptos, oppunham-se á confissão 
auricular estabelecida como dogma, insinuando aos fieis que de- 
veriam confessar-se unicamente a Deus. Classifico-os de ignorantes 
fundando-me nas determinações dos Concílios d^quelle tempo que, 
referindo-se não só a estes mas ao clero cm geral, exigiam «que 
ao menos soubessem explicar o Symbolo e a Oração Dominical aos 
povos, todos os que fossem promovidos ás Ordens Sacras». 

Os regulares distinguiam -se pelos eabellos curtos, tonsura e 
casula, que era o seu vestuário, pois traziam os seculares um saio 
e sobre elle uma capa. O habito talar data de i3Go. Até ao anno 
de 255, todos os sacerdotes celebravam o santo sacrifício da missa 
com os seus vestidos de uso ordinário. 

O culto do gentilismo, conservado até este século pelos habitan- 
tes ruraes (pagf, pequenas povoaçÕesj, deu origem á palavra pagão. 



— 4 i — 

Em 789 determinou Carlos Magno que se applicasse a pena 
de morte a quem infringisse a lei quaresmal que prohibia o uso 
de vinho, ovos e leite. Muitos fieis evitavam os alimentos cosidos, 
limitando-se a pão e agua, ou tâmaras, nozes e amêndoas. S. Ma- 
cário de Alexandria não dormia e apenas comia aos domingos 
uma folha de couve crua! Santa Maria Egypciaca passava sem ali- 
mentos. Em compensação já havia quem, como Erasmo, respon- 
desse aos que censuravam a irregularidade quaresmal: «Saibam 
que a minha alma é catholica, mas que o meu estômago é pro- 
testante». 

A instituição da quaresma, que teve em vista pôr termo ao 
costume de muitos christãos jejuarem todo o anno, deve alludir 
aos quarenta dias de duração do diluvio, penitencia de Jonas aos 
ninivitas, jejum de Moysés, demora de Elias no deserto, ou aos 
40 dias e 40 noites do jejum de Christo. Entre nós este jejum ou 
abstinência termina com o ultimo dia de vida do Judas de Kerioth 
que, pendente de cordas pelas ruas e largos, é queimado ás 10 
horas da manhã de sabbado de alleluia, quando desperta festiva 
a sinarada. 



SYNCHRONÍSMOS DO SÉCULO ÍX 

Desde 822 até 886, a cruel perseguição musulmana contra os 
christãos na Hespanha, que era o centro da potencia árabe no 
occidente, attingiu o maior grau de intensidade, em virtude da 
independência do chefe da nação para com o califa de Bagdad. O 
fanatismo de Abderrame II, rilho de Moavias, foi posto a toda a 
evidencia com a severidade das suas leis de ódio contra os filhos da 
Egreja catholica, ordenando com o voto do seu Conselho a morte 
de quem deixasse de respeitar Mafoma. A' vista do seu Paço e a 
pouca distancia delle, funccionavam diariamente numerosas forcas 
levantadas nos arredores de Córdova, grande e rica cidade penin- 
sular, onde em 852 foi celebrado o Concilio Cordubense a que 
assistiram vários metropolitas convocados pelo impio Abderrame, 
que receiava a sublevação dos christãos contra os infiéis exalta- 
dos, tratando-se especialmente do socego d'estes. O Concilio de- 
cretou que, de futuro, ninguém mais se ofYerecesse ao martyrio. 

Estevão VI (806-897) fez trazer á presença do Concilio por elle 
celebrado, o corpo do Papa Formoso (891-896), Bispo da Diocese 
do Porto, quando foi eleito para a cadeira de Roma, e, não con- 
tente com o desterro que lhe dera em vida, mandou-o revestir 
com os ornamentos sagrados, sendo em seguida collocado na ca- 
deira patriarchal, como se ainda estivesse vivo; o advogado que 
lhe nomearam para o julgamento não ponde obstar a que o morto 



— 42 — 

fosse novamente condemnado ao degredo (!! !), ao corte de três 
dedos, á decapitação e ao lançamento do cadáver ao rio Tibre 
(H. Ecc. vol. 3, pag. 3y5), onde no anno de 898 uns pescadores 
o acharam sendo então solemnemente reconduzido á sepultura dos 
Papas, por ordem do suecessor Theodoro que promptamente res- 
tabeleceu os clérigos a quem Formoso dera a ordenação. 

Esta scena, bastante parecida com a de D. Ignez de Castro. 
que depois de morta foi rainha, serviu talvez de modelo ao vin- 
gador do bárbaro assassinato, o nosso rei D. Pedro I (o crú). 

Hincmar escreveu, no anno de 874, os Estatutos Synodaes, 
em que se faz referencia á agua benta com que desde o século 11 
se aspergia o povo, ao pão bento que os lieis recebiam antes da 
communhão, e á instituição dos Deões das aldeias para inspeccio- 
narem os curas do seu districto e darem ao Arcediago conta de 
qualquer irregularidade que ao Bispo competisse punir. 

Estes curas, posteriormente estabelecidos nas cidades, eram 
no seu principio o que hoje são os parochos ruraes a quem é con- 
fiado o governo das egrejas, com a dilferença de lhes permittirem 
trabalhos manuaes, especialmente agrícolas, depois de cumpridas 
as obrigações pastoraes — visita aos enfermos e resa do officio Di- 
vino. Os Concilios prohibiam a celebração de missas sem ouvintes 
e lembravam aos padres a obrigação dt resarem quotidianamente 
as horas canónicas. 

O IV. Concilio geral de Constantinopla, celebrado no anno 
de 869, refere-se ao antigo costume de, nas vésperas dos Santos In- 
nocentes, ser entregue pelo Chantre ao menino mais novo do coro 
o báculo episcopal para que ficasse a governar o clero até ao final 
do Officio do dia immediato. O Bispo dos meninos (assim se de- 
nominava) visitava então a Cathedral e as egrejas da cidade. 

Ainda em 1182 nos diz João Beleth (L. dos OJficios Divinos, 
cap. lxxii): 

«Depois do Natal quatro grandes bailes se fazem na egreja, a 
saber: o dos Levitas, o dos Sacerdotes, o dos Meninos e o dos 
Hypodiaconos, etc.» 

Em Inglaterra durou este costume até ao anno de i53o. 

O Cardeal Pedro Capuano, Legado Apostólico em França, 
foi quem primeiro se oppoz a estas costumeiras indecentes. De- 
pois a Faculdade Theologica dirigiu aos Bispos, em 1444, a Ene- 
gelica em que se refere que na occasião dos officios Divinos 
entravam na egreja mascarados com danças e cantorias; «uns 
comiam sopas e gorduras sobre o mesmo altar em que se estava 
celebrando o incruento sacrifício; jogavam dados, incensavam com 
pratos de carne e botelhas cheias de vinho, ou com fumo de sa- 
patos velhos, etc.» Em 1 145 o Concilio de R'jão anathematisou 
estes divertimentos impróprios da casa do Senhor. 



-43- 

E' de todos conhecido o que a este respeito se passava nas 
nossas communidades religiosas nos dias i.° de janeiro e Reis de 
cada anno; porém essas folganças, alem de não terem logar fora 
dos conventos, eram respeitosas, nunca immoraes. 




Egreja de S. Miguel do Castello (Guimarães) ' 



A architectura singella e tosca d'esta pequena egreja, a espes- 
sura das paredes, os modilhões largos e lizos e o próprio remate 
da porta em desalinho com o da fachada, tudo nos assegura que 
a sua construecão data dos fins da epocha primordial romano- 
byzantina, século x. 

Alguns dos nossos mais notáveis archeologos, como o sr. Vi- 
lhena Barboza, descobrem no arco da porta principal a forma 
ogival, quando apenas existe uma leve elevação no fecho, e crêem 
por isso que data do século xn em que este estylo architectonico, 
segundo elles, foi introduzido em Portugal. Eu não sei em que se 



1 Cópia de photographia do distincto amador bracarense Manuel Carneiro. 
Esta egreja apparece hoje pela primeira ves photographada do lado norte e de 
frente. 



-44 — 

fundam os que aflirraam que entre nós não se adoptou a ogiva an- 
tes do século xn, julgando possivel que n'esta mesma epocha se con- 
struíssem edifícios religiosos de tão bárbaro aspecto, quando pelo 
contrario se acredita que os soldados peregrinos das cruzadas 
aprenderam as artes de Byzancio procurando desde logo chamar 
para Portugal quem melhor soubesse produ^il-as. Arcos como o 
de S. Miguel do Gastello são mais velhos que os próprios Roma- 
nos; e é por isso um erro julgar que tanto estes como os outros 
povos da antiguidade, que por aqui viveram, só tinham conheci- 
mento do arco de volta inteira. As duas portas lateraes, interior- 
mente rematadas em ogiva, são traçadas de maneira que se diria 
não terem os nossos respeitáveis antepassados conhecido o uso 
da régua e do compasso. 

A circumstancia de tudo aquillo ser tosco deve estar bem pre- 
sente a quem fizer a critica d'aquella architectura. Eu insisto que 
pertence ao século x em que os bárbaros procuravam imitar igno- 
rantemente as construcções dos romanos. 

A ornamentação do primeiro dos dois arcos tumulares, abertos 
na parte exterior da parede norte, é perfeitamente egual á da 
porta principal. Em epocha remotíssima serviu de sepultura ao 
Chantre de Coimbra D. Martim Paes, que instituiu capella com 
duas missas cantadas e quatro resadas. Como porém se perdesse 
a memoria d^sta instituição, encarregou-se el-rei de prover os 
seus administradores, sendo em i658 Jeronyma de Castro, mu 
lher de Gaspar Mendes da Guerra, da casa de Sentiães, fregue- 
zia de S. Faustino de Yizella. 

O segundo arco, sem ornatos, pertenceu a Joanne Annes En- 
xate, procurador do numero d'esta então villa de Guimarães ' 
instituindo capella para que deixou suas herdades com obrigação 
de uma missa semanal. O seu testamento, bastante curioso, é 
como segue, na linguagem da copia que possuo: «Em nome de 
Deus amen. Saibam todos q eu Joani Anes procurador do nu- 
mero da V. a de Guimarães em minha vida e saúde com todo o 
meu sizo e entendimento qual me o Deus deu fasso minha manda 
c meu testamento em esta guiza, mando a minha alma a Deus e 
peço e rogo á Virgem S. ;i nossa q me queira perdoar e mando 
enterrar o meu corpo em a igreja de Santa Margarida, seja minha 
madre e mando á dita igreja para todo o sempre i Maravedim de 
moeda antiga, e q o hajam pelas minhas herdades e outro sim 
lhe mando 20 libras d'esta moeda q trasem com meu corpo. E 
mando ao abbade que for da dita igreja me faça cantar huma ca- 



1 Guimarães foi elevada á categoria de cidade por decreto de 10 de feve- 
reiro de i85">, recebendo-se a participação de D. Maria II aos 22 de junho do 
referido anno. 



— 45 — 

pella des este dia para todo o sempre por as minhas herdades na 
dita igreja. E mando a qualquer abbade q for da dita igreja 4 
maravedis da dita moeda antiga por me fazer cantar a dita ca- 
pella, e não a querendo fazer cantar, q d 1 isto não haja nada e 
q a faça cantar o mays chegado do meu linhagem, e haja estes 
4 maravedis, e elejo por substitutos como o direito outorga Af- 
fonso Anes do Castello e a Gonçalo Romeu, a Joani q se diz 
meu filho morrendo o dito Joani sem filho ou filha ou sem 
neto elles ambos possao haver todos os seus bens e os ven- 
dam e dêem por minha alma em. . . virem que comprou, e manda 
se vendão todos os meus bens e se dem por minha alma, e 
mando a cada hú dos sobreditos mil libras a cada hú por o afam 
que hí filharem, e mando aos cónegos da igreja de Santa Maria 
da dita villa 70 libras d'esta moeda e que me digam húa missa 
officiada e vigilia e me farão honra, e aos clérigos do coro no dito 
dia 3o libras e aos frades de S. Domingos e de S. Francisco a 
cada ordem outrotanto pela dita condição, e aos frades do Mos- 
teiro da Costa 5o libras, e aos de S. Trocade e de Souto trinta 
libras por a dita condição e outro sim lhes mando outro tanto aos 
q dias e outro tanto aos 3o dias, e outro tanto ao 'anno e mando 
me obradem hú anno na dita igreja de Santa Margarida cada 
dia com 20 soldos antre pão e vinho e candea, e mando ao ca- 
pellão da igreja de Santa Margarida por dízimos e por falhas 
q não paguei á dita igreja 20 libras e mando q dem por minha 
alma aos 9 dias húa baça por Deos com 100 libras de pão e ou- 
tro tanto ao mez e outro tanto ao anno, e mando a Thereja mi- 
nha sobrinha 5oo libras para cazamento e aos outros meus sobri- 
nhos e sobrinhas, a cada um vinte libras e isto o q me devem. 
Deveme Fernam Roiz Besteiro 685 libras sob 6 botões e uma co- 
lher de prata, e me deve Luiz Miz meu visinho 3 10 libras d'esta 
moeda e mais uma alda de panno pardo e devo Affonso Vasques 
meu visinho 60 libras, e mando ao dito Luiz Miz q lh'as pague 
d'estas q me deve, e Nicolau Esteves almoxarife da dita villa 
me tem uma taça de marco e meio a penhor por 2(>o libras, e 
mando a dem a Senhorinha Vasques q foi minha mulher a dita 
taça e todolos outros bens q acharem em minha casa q acharem 
seus sam e q elle de a mim uma taça de marco e meio de 
prata e a roupa q me tem Me deu Martim singello 206 libras 
que me emprestou e mando que lh'as paguem e tenho eu e G. 1 " 
Romeu pellos e somagre 72 pelles cabruani e i5 arrobas de so- 
magre e a esto me deve o dito G. c " Romeu duas pelles e 5o li- 
bras e do somagre cento e uma libra e meia e eu devo a elle 200 
libras e temme uma taça de prata pequena, e anda em sepaes 1 
boi q é meu e seu, e tenho 12 botões de prata de Vasco Dinis 
Abbade de Polvoreira por 5o libras e estes botões lancei eu a 



-4(5- 

penhor a João Geraldes, e que o abbade pague as ditas 5o libras 
a meus testamenteiros os sobreditos G.' ° Romeu e Aftbnso Annes 
e lhes mando o q já hei mandado e q cumpram este meu tes- 
tamento por os meus bens e os seus não sejam obrigados e me 
deve Álvaro Vasques Cizeiro q hora é de Guimarães 1.000 li- 
bras desta moeda que hei de haver delle e me tem João Garcia 
da porta da Frieira uma taça de prata de i marco por 200 libras 
desta moeda e digo q recebi de João Carreira, o aluguer das 
casas em q morou de 3 annos e os 2 q ellas mais morou hão 
de fazer seu, mando que de a Gonçalo Romeu 3oo libras de pa- 
pel que é uma resma que eu devo que eu delle recebi e mando 
q a dita Senhorinha Vasques pague a meus testamenteiros 3. 000 
hbras q paguei a Martim Nz" por razão da partição de seu fi- 
lho e por esta manda revogo todalas mandas testamentos codeci- 
Ihos q feitos hei antes d'esta dou e mando q não valhão e 
valha esta q esta é a minha e postumeira vontade e o assim o 
outorgo feito foi na dita viila 21 dia de dezembro era de 1436. 
Testemunhas Gonçalo Romeu, Alíonso Pires tabellião mestre Ma- 
theus Christovão das Cizas, Estevão Pires e Aifonso Roiz Albar- 
deiro e Bartholameu Miz Cónego da Costa e João Carreira, e ou- 
tro e eu Aifonso Frz tabellião de nosso Senhor ei Rei na dita 
villa de Guimarães, q este testamento por mandado e outorga- 
mento do dito Joani Anes escrevi c aqui meu sinal fiz q tal é.» 



O pavimento da~egreja está coberto de campas com emblemas 
grosseiros gravados n'aquellas pedras informes, taes como: — lanças, 
espadas, machados, cruzes gregas, etc, as quaes devem ser pos- 
teriores ao século xi. Em frente da porta principal, no espaço que 
outr'ora teve alpendre, como o denotam os modilhoes da fachada, 
ha algumas d'essas sepulturas, numa das quaes se lê: de ioam 
frz • As três que pude ler no pavimento da egreja dizem: 

s. A DE p.° 

. S. A DE DAM PIRES 

— S DANT. IORGE E ERD — 
IAO DIAS MOSTE1R 

O R OS 

Pertencem á egreja de Santa Margarida todas as oliveiras que 
a cercam, pois assim foi determinado em sentença proferida ;• 
17 de novembro de 1763. 

Os sete modilhoes que se destacam em volta da egreja, a par 
d\ima rigula rasgada a todo o comprimento da parede sul, sem 
duvida para apanhar as aguas pluviaes, indicam que houve alli 
um claustro talvez destinado aos frades capuchos da Piedade que 



— 47 — 

no dia 7 de fevereiro de i(5(55 lavraram o termo da licença pedida 
ao D. prior D. Diogo Lobo da Silveira/para possuírem por emprés- 
timo a egreja, onde já celebravam os olticios divinos, emquanto 
não terminavam as obras da construcção do convento. Este termo 
foi assignado pelos religiosos: — fr. Hieronimo de Villa Real, 
guardião; fr. João da Barca-, fr. Manoel de Verdemilho ; fr. Pe- 
dro de Beja e fr. Francisco do Porto. Entraram na posse tem- 
porária desta egreja no dia 12 de novembro de 1G64, e sairam 
d'alli para o seu convento, que fica a poucos metros de distancia 
no dia 29 de julho de 1668. Na procissão solemne que os acom- 
panhou á nova casa, encorporou-se o revd." 10 Cabido, camará mu- 
nicipal, communidades e um numeroso concurso de povo. 

Esta egreja de S. Miguel do Castello (vulgo Santa Margarida) 
foi sagrada pelo Arcebispo de Braga D. Silvestre no armo de 1239. 
e reza-se da sua dedicação a 3o do mez de abril: Ecclesia ista 
dicata est a Domino Silvestro Archiep. Brach. in honorem beati 
Michaelis, et S. Martirum Salurnini, Juliani et Ba^iliae, Fausti 
et Januarii, era MCC2XXVII. 

A capella mór mede 6"',4o por 4"\4o. Do arco á porta princi- 
pal, i3 m ,8o por 6 in ,2o de largo. A abertura do arco não excede a 
2 m ,55. Sete frestas em forma de setteiras, incluindo a que se vê 
sobre a porta principal, fornecem luz á egreja. E' possivel que as 
três representem a Trindade, assim como as sete frestas os Sa- 
cramentos da Egreja. 

Dentro guarda-se uma grande lapide que mede o m ,99 por o m ,77, 
com a inscripcao seguinte: 

íETERNit : sacr : im.ma- 

cvlatissim.e : concep- 
tiomi : marle : joan : iv port- 
vgall : rex : vna cvm gen- 
ERAL : comitiis : se : et re- 

GNA SVA : SVB ANN\'0 CENS- 

V TR1BVTARIA PVBL1CE VO- 

VIT : ATQVE DEIPARAM IN 

IMPERII TVTELAREM ELEC. 

TAM : ALABE 0RIG1NALI PR- 

jESERVATÃ PERPETVO D- 

EFENSVRV : 1VRAMENTO 

FIRMAV1T : V1VERET VT P- 

1ETAS LVSITAN : HOC VIVO L- 

AP1DE MEMORIALE PEREN- 
NE : EXARARI 1VSSIT : ANNX- 
HRISTI M • D • C • XLVI IMPE- 
RII : svi : vi : anno 1G54 • 



- 4 8- 

Versão: — Para perpetua memoria. D. João IV, rei de Portu- 
gal, juntamente com as cortes geraes, se consagrou publicamente, 
e aos seus reinos, á Immaculatissima Conceição de Maria, com o 
tributo de um censo annual. E firmou com juramento, que defende- 
ria sempre, que a Mãe de Deus, escolhida para padroeira do reino, 
fora preservada da culpa original. Para que a piedade dos portugue- 
zes sempre constasse, mandou gravar em pedra esta memoria no 
anno de Christo de 1646, sexto do seu reinado. Anno de 1654.» 

O censo annual era de cincoenta cruzados de ouro applicados 
á egreja de Villa Viçosa; e o juramento foi feito a 24 de março 
de 1646, (Domingo de Ramos), na capella real, e pelos cathedra- 
ticos da Universidade de Coimbra no sabbado 28 de julho. 

A collocação desta inscripção lapidar nas entradas das cida- 
des, villas e logares, deve-se ao alvitre de fr. António das Cha- 
gas (o Escoto) e á approvação de el-rei que logo commetteu ao 
seu ministro António de Sousa de Macedo o encargo de a redi- 
gir. Quiz fr. António que o juramento real se perpetuasse por 
este meio. E' notável que não se encontre em Braga, a Roma 
portugueza, uma única d'estas inscripções. E' realmente notável ! 

A Camará Municipal não ordenaria a sua collocação? O Ca- 
bido da Sé de Braga jurou solemnemente defender a immaculada 
Conceição, sendo o respectivo auto assignado no dia 24 de feve- 
reiro de 1647 pelo clero, nobreza e povo. 

Em Guimarães ainda existem, além d'esta, outra embebida 
na torre da casa dos Laranjaes, e a do cunhal esquerdo do edifí- 
cio da Camará. 

Para o effeito de se cumprir a resolução real, enviou D. João 
IV á Camará de Guimarães a seguinte carta : 

«Juiz, Vereadores e Procuradores da Camará da villa de Gui- 
marães. Eu El-Rei vos envio muito saudar, para que seja mais 
notório a obrigação, que eu, e todos os meus vassallos tem de 
defender, que a Virgem Senhora nossa foi consebida sem pecado 
original, Ouve por Bem Rezolver, que em todas as partes, e en- 
tradas das Cidades, Vilias e Logares de meus Reinos, se ponha 
em húa pedra lavrada a inscripção, de que será a copia com esta 
carta, encomendovos que a façais pôr nas portas, e lugares d'essa 
Villa, e me avizeis de como o tendes executado, escripta em Al- 
cântara a 3o de Junho de 1654. Rei • ■ • para a Camará de Gui- 
marães». 

Desde que foi tomada em cortes esta resolução não mais os 
nossos monarchas collocaram a coroa na cabeça. Vê-se sobre uma 
almofada, ao seu lado direito, nas occasioes solemnes. 

Fernando III, imperador da Allemanha, fez levantar em iÓ2Q, 
na principal praça de Vienna, uma columna encimada pela ima- 
gem da Virgem e contendo uma inscripção latina em que também 



—49 — 

dedicou e consagrou festivamente á Virgem tudo o que possuia 
«a sua pessoa, seus filhos, seus povos, seus exércitos, suas pro- 
víncias». • 

S. Casimiro, filho de Casimiro III, rei da Polónia, compoz em 
latim alguns versos encantadores dentre os quaes especialisarei 
os seguintes: 

Também me alcança que seja 
Doce, brando, pio, recto, 
Despido de fingimento, 
Sábio, casto, circumspecto. 

A 8 de dezembro de 1854, Pio IX definiu, como dogma, a 
Immaculada Conceição de Maria, sendo esta decisão festejada 
em 9, 10 e ii de abril do anno immediato. 

NPoutros tempos o nome de Maria chegou a ser prohibido em 
attenção ao respeito devido á Virgem Mãe de Jesus. 

* 

Como parochia tem a egreja de S. Miguel do Castello as hon- 
ras de Prima\ de todas as do Arcebispado, por já o ser muito 
anteriormente á fundação da nossa monarchia. Foi baptisado 
nella o infante, depois rei D. Affonso Henriques, filho do Conde 
D. Henrique e de D. Thereza, os quaes no século xn viviam no 
visinho castello onde nasceu o referido monarcha. A pia baptis- 
mal foi d'alli retirada em 1664, por ordem do D. Prior D. Diogo 
Lobo da Silveira, achando-se desde então na egreja de Nossa Se- 
nhora da Oliveira acompanhada d'esta inscripção em fundo azul 
e caracteres dourados : 

NESTA • PIA • FOI 

BAVTISADO • EL 

REY • DOM ■ AFFÓ 

SO HENRIQUES • PE 

LO ARCEBP" S • GE 

RALDO • NO AN 
NO ■ DO • SÓR ÍÍ06 

Em virtude das divergências dos nossos historiadores antigc= 
e modernos acerca do anno do nascimento de D. Affonso Hen- 
riques, deve julgar-se completamente perdida a esperança de se 
esclarecer esta data da nossa Historia. A Chronica de Duarte 
Galvão diz que nasceu em ioq4; outra opinião em 1106, sendo 
esta a que se acha gravada na inscripção da pia e a que João de 
Barros queria que se tivesse por certa; outra em 1 108; no Livro 
de Noa de Santa Cruz de Coimbra, em 1109; outra opinião, em 

4 



— DO — 

iiio; Alexandre Herculano, em nu; e a Chronica contempo- 
rânea Gothica em iii3! Nada menos de sete opiniões que n'este 
momento recordo. 

As quatro ultimas põem fora do acto do baptismo o Arcebispo 
S. Geraldo fallecido em 1108. 

Coube á egreja de S. Miguel do Castello a prerogativa de im- 
mediata ao Papa sendo d'este modo isenta da jurisdicção archie- 
piscopal de Braga. 

O orago d'esta egreja teve uma irmandade que ainda em 1064 
existia; houve alli também a Confraria do Anjo que mandava an- 
nualmente celebrar 100 missas, 12 das quaes eram cantadas na 
primeira quinta-feira de cada mez com responso e procissão de 
defuntos em volta da egreja, pelos confrades e pelo instituidor 
d'aquella obrigação. 

Estavam encarregados de todo este serviço os 4 capellães que 
annualmente recebiam de ordenado 1:000 réis! 

Na relação das ceias pagas pela Confraria no anno de 1620, 
rigura, como fornecedor, Miguel Francisco Matadiabos, morador 
na rua da Fonte Nova, hoje rua nova de Santo António, e ainda 
agora vulgarmente denominada do Mata-diabos em homenagem 
ao Hercules taberneiro ! 

Próximo do arco cruzeiro está uma sepultura rasa, com a fi- 
gura da morte, que o Abbade António Machado de Oliveira ce- 
deu ao capitão José de Oliveira e Silva e a sua mulher D. Rosa 
Maria de Sousa em recompensa da obrigação que aos 4 de agosto 
de 176c) fizeram de Soo.^ooo réis para azeite da lâmpada do S S. 
que desejavam collocar alli « por o não haver nunca », e uma 
missa cantada annualmente por intenção dos dois. Como porém 
a sepultura não fosse do Abbade, o Procurador Geral da Mitra 
annullou este contrato. O D. Prior D. Domingos de Portugal e 
Gama auctorisou a referida collocação na «Real Egreja de S. Mi- 
guel do Castello », sendo o S S. processionalmente condusido da 
Insigne e Real Collegiada pelo Chantre dr. Francisco José Pereira, 
e encorporando- se todas as irmandades, confrarias, Curaria e Ca- 
bido, e os frades Franciscanos, Dominicos e Capuchos, aos 5 de 
junho do anno immediato. Num dos ângulos formados pelo arco 
cruzeiro e corpo da egreja ( lado esquerdo ), vê-se o padrão das 
teigas, medida do século XII, que consiste numa pedra grosseira 
e mal cortada, contendo ao centro duas cavidades de um e de 
meio alqueire. 

Achando-se em estado de ruina esta pequena egreja, que foi 
capella real do Conde D. Henrique, o Arcebispo D. José Joaquim 
de Azevedo e Moura publicou uma portaria annexando a fregue- 
zia á de Nossa Senhora da Oliveira. Uma commissão composta 
dos srs. dr. Francisco Martins Sarmento, cónego Aquino, padre 



— 5 1 — 

António José Ferreira Caldas e João Pinto de Queiroz, abriu em 
Guimarães uma subscripção que rendeu 700.^000 réis, e obteve 
do governo' o subsidio de 1:200.^000 réis, iniciando em 17 de 
agosto de 1874 uma restauração conscienciosa que em nada preju- 
dicou a architectura antiga. 

Em 20 de julho de 1880 foi esta egreja benzida pelo rev. Abí- 
lio Augusto de Passos. A pequena distancia, para a frente, fica o 
pobrissimo albergue de S. Miguel do Castello cuja origem se des- 
conhece. 

Na serie dos Abbades de S. Miguel do Castello é conhecido, 
como o mais antigo, Domingos Tristão apresentado na era de 
i383. 

A poucos metros de distancia d'esta velhíssima egreja, lado do 
nascente, vê-se o venerando castello fundado pela condessa D. 
Mumadona que o denominou de S. Mamede, e o qual mais tarde 
foi alcaçar do Conde D. Henrique e da rainha D. Thereza. Alli 
nasceu D. Affonso Henriques, fundador da monarchia portugue 
za. A torre de menagem tem interiormente uma escada que con 
duz as ameias de onde se descobre um horisonte vastíssimo ! 

Na humbreira direita da porta d 'essa torre gravou-se em 1868 
um nome que, por extranho ao monumento, devia ser apagado. 
E' o nome de Lui\ Vermell, pintor-esculptor hespanhol que resi- 
diu em Braga até o anno de 1870. 

No dia 9 de novembro de 1887, a Camará poz em arremata- 
ção por io5:ooo réis a cobertura metálica; e na sessão do dia 1 
de abril de i88q, propoz-se que se organisasse um projecto de 
melhoramentos em volta d^ste castello. Como porém se tratasse 
duma obra honrosa para a terra que justamente se ufana de ser 
o berço da nossa nacionalidade, não faltou quem logo lhe creasse 
entraves ! 

Em 19 de março de 1881 foi este castello classificado monu- 
mento histórico de primeira classe. 

A egual distancia da egreja, para o sul, fica o Paço incom- 
pleto dos Duques de Bragança, magestoso edifício construído pel<> 
Conde de Ourem e primeiro Duque de Bragança D. Affonso, fi- 
lho natural de el-rei D. João I que o estimava muito por se pa- 
recer comsigo. 

Este D. Affonso era casado em primeiras núpcias com D. Bri 
tes Pereira, filha de D. Nuno Alvares Pereira, e em segundas com 
D. Constança de Noronha, filhado conde de Noronha D. Affonso. 

Fallecendo o Duque em Chaves, no mez de dezembro de 1461 , 
sua mulher D. Constança continuou a habitar o Paço de Guima- 
rães em que falleceu a 26 de janeiro de 1480, sendo sepultada na 
capella-mór da egreja de S. Francisco, onde apenas se guarda a 
tampa do tumulo com a sua estatua jazente. 



í>2 



Numa parede interior ainda se conserva este pórtico Joannino^ 
com três arcos reintrantes sobre columnas de mármore branco,, 
que pertencia d grande sala régia: 




Nas costas d'esta grande sala conservam-se as duas janellas. 
que aqui se representam : 




— 53 



E' notável a solidez das quatro enormes chaminés de tijolo 
■que ha cinco séculos resistem á acção do tempo ! 

Anteriormente a 1F07, em que este edifício principiou a ser oc- 
cupado pelos corpos militares, recolhiam-se alli as rendas do Re- 
guengo. Para esse fim conseguiu o Almoxarife Jeronymo de 
Mattos Feijó que a parte habitável fosse coberta de telha. 

Um velho documento dá a seguinte medição do Paço : 

«Sendo medido pela parte do norte tem de comprido de nas- 
cente a poente 52 varas e meia •, confronta d'esta parte com o oli- 
val e egreja de S. Miguel do Castello ; tem por esta banda um al- 
pendre assentado em 8 pilares de pedra, para cuja parte tem duas 
portas fronhas com suas escadas de pedra e entrada do celleiro 
dos mesmos Paços ; e medidos pela parte do poente tem de largo 
de norte a sul 52 varas e meia \ parte com o olival da dita egreja, 
Tem para esta parte duas portas, entradas das lojas e uma d'ellas 
é larga e tem por cima um alpendre telhado e assentado em dois 
pilares de pedra ; e sendo medidos pela parte do sul tem de nas- 
cente a poente 52 varas ; confronta com o muro das freiras de 
Santa Thereza, para cuja banda tem muita quantidade de janellas 
feitas ao tempo antigo com suas cruzes de pedra nos largos del- 
ias ; e medidos pela parte do nascente tem de norte a sul 53 va- 
ras, parte confronta com o muro da villa e roxio que possue Tor- 
quato Luiz que fica entre o dito muro e os ditos Paços, e por esta 
banda tem três torriões de pedra, e no primeiro torrião tem 
um escadorio de pedra e tem para esta banda muitas janel- 
las e barandas de pedra, e tem cruzes de pedra pelo meio e 
algumas estão tapadas e outras abertas entre as ditas janellas, e 
estão muitas relosias pequenas, e dentro d'estes Paços tem o arco 
da entrada para o logar aonde foi a capella, e o dito arco está for- 
mado sobre 6 columnas de pedra de jaspe ou mármore, tem va- 
rias chaminés e arcarias e tem 3 salas cobertas de telha, que 
actualmente servem de celeiro, e uma cosinha sobradada com suas 
janellas para a parte de dentro do Palácio, e tem quatro lojeas 
duas grandes e duas pequenas que servem de celeiro do vinho e 
mais despejos». 

Neste século X os Concílios Asturicense (946) e Compostel- 
lanum (971 ), viram com magua o clero regular e secular perder 
a noção dos seus deveres a ponto de vários auctores ecclesiasti- 
cos dizerem que « muitos retiros dedicados ao silencio e á oração 
se converteram em logares de desordem». 

Bispos e sacerdotes casavam, dotando os seus filhos com fo- 
ros, dízimos, egrejas e outros rendimentos. 

Alguns d'esses Bispos ambiciosos conseguiram possuir simul- 
taneamente varias Dioceses. 



_5 4 - 

O Arcebispo de Corintho aconselhou a S. Lucas o Moço, soli- 
tário do monte de S. Joannico, que tivesse em seu poder um vaso 
para conservar hóstias consagradas com que se desse a si próprio 
a communhão a miude, e um copo expressamente destinado ao vi- 
nho que apoz a communhão devia beber. E' que os anacoretas 
poucas vezes assistiam á celebração da missa. Seguindo a pratica 
dos mais antigos christãos, ainda n'este século era permittido a 
cada um commungar debaixo de uma só espécie, pelas próprias 
mãos, rcstringindo-se a quatro vezes no anno esta devoção ! 

Os regulamentos dos Concílios prohibiam os consórcios entre 
parentes até ao 7. grau e ordenavam a separação dos que exis- 
tissem com este impedimento. 

A disciplina canónica, o jejum e a penitencia publica, relaxa- 
ram-se grandemente em virtude de se commutarem as penas es- 
tabelecidas pelos cânones em romarias, fundações de egrejas e 
Mosteiros e em muitas outras obras pias. 

O Papa João XIII benzeu solemnente emq65 os sinos de S. João 
de Latrão, dizendo se que por esse facto ficou instituída a ceremo- 
nia pelo alludido Pontífice. Alguns dos nossos historiadores, que 
a julgam mais antiga, fundam-se fta prohibição da referida ben- 
ção dos sinos estabelecida em 789 pelo capitular de Carlos Ma- 
gno, e nos Rituaes manuscriptos onde se determinam as ceremo- 
nias próprias para estas bênçãos. 

O Papa Silvestre II (Gerbert) foi o introductor dos relógios 
de pêndula e dos algarismos árabes na Europa. 



— 55 — 




O sino de S. Geraldo 



Pendente dos dois arcos ogivaes que se encruzam formando 
a cúpula da torre do lado norte da Sé de Braga, está o sino das 
horas ou do relógio, vulgarmente denominado de S. Geraldo, 
porque a tradição nos diz que tocava de per si sempre que o san- 
to Arcebispo sahia do Paço Archiepiscopal. Suppondo que seja 
este o sino mais antigo do paiz, e que mais curiosidade otíerece 
pela proveniência, dizeres e emblemas, entendo que deve ser con- 
siderado uma reliquia archeologica de valor. 

Quem primeiro se occupou d'este sino foi o Contador d^rgote 
D. Jeronymo, (1G76-1749), nas suas Memorias de Braga, livro 6, 
cap. IV, n." 544, ti. 35>7, dizendo-nos que se lia em toda a volta 
d'elle esta pequena inscripçao: — magister marti valenciis me fecit 
anno domini millesimo, — sendo esta a versão: «Mestre Martinho 
me fez no anno de mil do Senhor, em Valença». 

Desde então ninguém se deu ao trabalho de reverificar estes di- 
zeres para se evitarem constantes reproducções d'uma leitura ine- 
xacta devida ao informador d'Argote, D. Luiz Alvares de Figuei- 
redo, Bispo de Uranopolis e coadjutor do Arcebispo D. Rodrigo de 
Moura Telles. 

Não se justifica o pouco escrúpulo do Bispo em copiar, apenas e 
muito mal, a primeira linha dos dizeres do sino que no seu tempo 



-56— 

ainda se conservava no campanário entre as torres anteriores a 
estas, e portanto em óptimas condições para um exame seguro. Eu 
tive necessidade de fazer construir sobre a balaustrada da cupuia 
da torre uma estada de madeira á qual subi cerca das 3 horas da 
tarde de sabbado 8 de maio de 1897, volteando o sino três vezes, 
que tantas são as linhas da inscripção em elegantes caracteres go- 
thicos, e lendo o seguinte, cuja ndelidade garanto: 



B MA&ISTER*MATWCMINSIS*ME FES1T<»AN(W)NI»MIIE 



a 




fflECCEBCRVCtIA«DKH»FVQT8PARTES«AWERSE"VmC1T« 
LEOBDE«TR\BV«WDABRRKO\X"ttAV»ToALElVíA 

iQVINaENTEMMO^^MO^AIVTORwBáflNOSfRÍÊftffllN 
NOMNEjkBNh! DEVSl INCME|\/ENiT|PROMOBlS|«ED0 

O diâmetro do bordo (i m ,07) é egual á altura exterior. A pri- 
meira linha, nos hombros, não coube na circumferencia da forma 
terminando por isso debaixo da primeira palavra com as qua- 
tro ultimas lettras n'um parallelogrammo. 

As palavras fecit com um s, anno com um n apenas, rfiille$i- 
mo só com um /, fugite sem o e, radix com dois rr, allehtia sem 
um /, e ainda outros defeitos na linha ultima, tudo se encontra no 
sino; e não é isso raro, mesmo nos que foram fundidos no decurso 
dos séculos subsequentes. 

Matricalensis é nome próprio da naturalidade do fundidor ou 
da localidade onde estava installada a fundição. Provavelmente o 
proprietário óccultava o seu nome por desnecessário ou por então 
ser única e de grande fama a fabrica de Madrigal, pequena ci- 
dade hespanhola que fica distante quatro léguas de Medina-del- 
Campo, e da qual era natural o celebre pasteleiro Gabriel de Espi- 
nosa que, por se apresentar como sendo o desditoso rei D. Sebastião, 
foi enforcado com o seu cúmplice portuguez fr. Miguel dos San- 
tos, no anno de i5o,5. 

Leitura da inscripção: — «Mestre de Madrigal me fez no anno 
de mil do Senhor. Eis a cruz do Senhor; evitae as partes adver- 
sas; vence o leão da tribu de Judá, raiz de David. 

Quinhentos e um (numero de sinos fundidos). O nosso auxilio 
em nome do Senhor. Creio que Deus veiu encarnar por nós». 

E' curiosíssima a notação do numero de sinos que a fundição 



-5 7 - 

produziu até á data de ser fundido o de Braga! E para que não 
otíereça duvida a allusão do numero 5o i, lá está a seguir á pala- 
vra quingentesimo um pequeno sino em relevo, da altura dos ca- 
racteres gothicos. A restante pontuação d'esta linha representa um 
sino-saimão (signum Salomonis) que livra das cousas más, a egreja 
da Sé, um leão e outro emblema. 

Por occasião da benção de que fazem parte, depois do canto 
dos Psalmos, a lavagem interior e exterior do sino com agua ben- 
ta salgada, as quatro unções exteriores e as quatro interiores com 
o santo Chrisma, devia ser nomeado, para a invocação, um santo 
cujo nome é hoje desconhecido. O de S. Geraldo não, porque 
como fica dito, o sino é bastante mais velho. O emblema do cen- 
tro representa um calvário, com S. João e a Virgem. 

Ahi fica pela primeira vez copiada e lida toda a inscripçao do 
sino de S. Geraldo, que muito contribue para o conhecimento da 
antiguidade da fundição de sinos na nossa visinha Hespanha, pro- 
veniência d'esta relíquia de um passado remoto, bem digna de esti- 
mação. 

Este sino e o pequeno cálice que se guarda em cofre de mar- 
fim no thesouro da Cathedral, loc. cit., teem sempre sido denomi- 
nados de S. Geraldo por se ignorar a procedência dum e d' outro. 
Seguia-se a tradição do sino tocar de per si, e do cálice ter ser- 
vido para o santo celebrar as missas. Nada mais se procurou ave- 
riguar, não obstante haver no cálice e no sino inscripções que 
muito me auxiliaram para apurar da verdade. 

Sabe-se que os musulmanos conquistaram e arruinaram a cida- 
de de Braga em 716, demorando-se por estes sitios quasi 3oo annos. 
Os Bispos bracarenses, que durante o século vm, procuravam o 
conforto do Paço, eram perseguidos com insistência a ponto de os 
obrigarem a refugiar-se nas Astúrias, assim como as famílias gradas 
da epocha a procurarem sitios elevados onde se fortificavam para 
alli residirem com liberdade e socego. Por isso a velha cidade de 
Braga ainda em Sbg se conservava arruinada, porque então D. 
AíFonso o Casto, como consta das actas do Concilio de Oviedo, 
ao mesmo tempo que aconselhava com interesse a restauração das 
Cathedraes destruídas, doava á egreja de Lugo a cidade e Bispado 
de Braga com as egrejas e freguezias próximas, entrando n'esse 
numero das que os Árabes conservaram para agradar aos chris- 
tãos pobres que ficaram sob o seu domínio com o fim de lhes cul- 
tivarem as terras, S. Pedro de Maximinos, S. Fructuoso com a 
torre Capitolina, S. Vicente e outras mais afastadas (.. concedo 
civitates Bracarensem videlicet Metropolitanam cum suo Episco- 
patu, et in circuitatis. . . Ecclesia Sancti Petri, Sancti Fructuosi, 
turrís Capitolina, Sancti Vincentii cum villis suis Infidias, etc), 
confessando que a este procedimento nada honroso, com que 



— 58 — 

procurava a salvação das almas, o obrigavam os mouros irre- 
quietos (quia docus est quod nunc pro animarum salute necessi- 
tate pagancrum compulsi facimus). 

Sobre a conservação das egrejas pelos Árabes existia em 1642, 
no cartório de Lorvão, como dizem Purificação e Brito, o docu- 
mento seguinte : 

«Alboacem, rilho de Mahumet Athamar, filho de Tarife, a rogo 
dos christaos, fiz esta firma conforme o seu costume — O — e de- 
ram-me pela confirmação dous bons cavallos, e eu lhes confirmei 
tudo o sobredito. — Paguem os christaos dobrado tributo dos mou- 
ros. — Das egrejas por cada uma 25 pezos de boa prata, e as 
episcopaes 100, e os mosteiros 5o. — Os bispos christaos não amal- 
diçoem os reis mouros, e se tal fizerem sejam mortos. — Os sa- 
cerdotes não celebrem suas missas senão com as portas fechadas ; 
fazendo o contrario paguem 10 pezos de prata. — Os mosteiros, 
que estão em meu território e senhorio possuam seus bens em paz, 
e paguem os sobreditos 5o pesos. -- O mosteiro das montanhas, 
que se chama de Lorvão, não pague pezo algum ; porque com boa 
vontade me mostram onde trazem veados, e fazem aos mouros 
bom gazalhado, e nunca achei naquelles, que ahi moram mentiras 
nem má vontade ; e possuam em paz e boa quietação todas as 
suas herdades... e vão e venham a Coimbra com toda a liberdade, de 
dia e de noite, quando quizerem, e comprem, e vendam sem pa- 
gar direitos ; com tal condição que não saiam fora de minhas 
terras sem minha licença. Carta de lei na era dos christaos 722 
(de Christo 734), e segundo os árabes 147 aos i3 da lua Dulhija 
(lua de dezembro).» 

Fallecendo em Q99 Bermudo II, foi immediatamente acclama- 
do rei de Leão seu filho Affonso, de 5 annos de edade, e a direc- 
ção dos negócios públicos entregue aos Condes de Castella San- 
cho Garcez, e da Galliza Menendo Gonçalves. N'este anno de 
1000, em que El-Mansur venceu o Conde de Castella, ordenou o 
da Galliza Menendo Gonçalves a fundição do sino em Madrigal, 
oíferecendo o, com o pequeno cálice e outros objectos, a Santa 
Maria de Braga que, sem duvida, já então aqui tinha reedificada 
a sua egreja. (. . .offerimus cruce, cálice et patena argêntea, si- 
gnum de metallo, libros perfectus, etc.) A Galliza, que durante 
muitos séculos teve Braga por capital, foi por Estrabão e Ptolo- 
meu denominada : Kallaecia. 

Seguiu se-lhe em io65, como benemérito de Braga, cuja cidade 
principiou a reedificar, e da sua Sé Cathedral, que protegeu, 
obrigando as famílias nobres a restituírem ao Bispo as rendas que 
possuíam, D. Garcia rei da Galliza e de Portugal, tão notável pela 
coragem com que em 1073 venceu, entre a cidade de Braga e o 
rio Cavado, o grupo capitaneado pelo Conde Nuno Menendes. 



— D 9 



DQ 



Seu irmão D. Sancho II de Castella, que o privara do reino, 
nomeou em 1067 Bispo de Braga D. Pedro II, o ultimo da série 
dos Bispos e o primeiro que usou Dom. 

Durante o governo d'este Prelado rloreceu muito a Cathedral 
Bracarense pela restauração de antigos direitos e regalias e por 
numerosas doações que os povos lhe fizeram. 

Na collecção dos retratos do Paço archiepiscopal existem, do 
século xi, mais dois Bispos anteriores ao D. Pedro, sendo Sige- 
fredo em 1060 e Julião em io38. D'essa collecção, que segue 
composta de 123 retratos, apenas podem ser considerados authen- 
ticos desde D. Lourenço, visto ser inventada a pintura a 
óleo, no século xiv, por João Van-Eyk (1370- 1441), o celebre fun- 
dador da eschola flamenga. O retrato de L>. fr. Bartholomeu dos 
Martyres foi pintado em sua vida pelo pintor portuguez António 
Maciel, de ordem do Arcebispo D. fr. Agostinho de Jesus, que 
lhe succedeu na cadeira Bracarense : 

BISPOS 



1 S. Pedro de Rates anno 

2 S. Basileu M _. » 

3 S. Ovidio » 

4 S. Policarpo . » 

5 S. Sereniano » 

6 S Faviano » 

7 S. Félix.. » 

8 Grato » 

9 S. Secundo » 

10 Galidonio » 

1 1 S. Narciso M • » 

12 Paterno I » 

1 3 B. Salomão » 

14 Senagrio » 

1 5 S. Lioncio » 

16 S. Apolonio » 

1 7 Idacio » 

18 Lampadio » 

1 9 S. Paterno II » 

20 S. Profuturo » 

21 Pancracio » 

22 Balconio » 

23 Valério I » 

ix Idacio II « 

25 Castino » 

26 Valério II » 

27 Profuturo II » 

28 S. Ausberto » 

29 S. Julic.no » 

30 Eleuterio » 

3 1 Lucrécio » 

32 S. Martinho de Dume » 



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245, 

260, 

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38 1, 

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527, 
538, 
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-6o 



3o S. Benigno anno 

34 Pantardo » 

35 S. Tobeu » 

36 Julião II » 

37 Potamio » 

38 Manucino » 

09 p ancracio » 

40 S. Fructuoso » 

41 S. Quirico » 

42 S. Leodicisio » 

43 1 iuva I » 

44 Faustino » 

45 S. Félix Torquato » 

46 S. Victor M » 

47 Eronio » 

48 Hermenegildo » 

49 Thiago I » 

50 Ferdisendo » 

5 1 Arcarico » 

52 Argimundo » 

53 Nostrano » 

Í4 Dulcidio » 

55 Gladila » 

56 Argimiro » 

57 Theodomiro » 

58 Silvanacto 

5g Hero 

60 Gonçalo 

6 1 Hermenegildo 

62 Julião 

63 bigefredo 

64 D. Pedro II 



588, barba e mitra 

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ARCEBISPOS 



65 S. Geraldo anno 

60 D. iviauncio » 

67 D. Paio Mendes » 

68 O B. D. Godinho 

09 D. João Peculiar » 

70 D. Martinho Pires » 

71 D. Pedro S » 

72 D. Estevão Soares « 

73 D. Sancho I « 

74 D. Silvestre Godinho » 

75 D. Gualterio » 

76 D. João Egas II » 

77 D. Martinho Giraldes » 

78 Papa João XXI (D. Pedro Julião) . . 

79 D. Sancho » 

80 D. Ordonho » 

81 D. Frei Tello 

82 D. Martinho de Oliveira » 

83 D. João de Soalhães » 

84 D. Gonçalo Pereira . . . . • » 



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D. Guilherme anno i35o, 

D. João Cordolaco » i36:>, 

D.Vasco » i3yi, 

D Lourenço » 1^97, 

D. .loão Garcia » 1 397, 

D Martinho de Miranda » 14 16, 

D. Fernando » 1416, 

D. Luiz Pires » i4t7i 

D. João de Mello » 1480, 

D. João Galvão » 1480, 

D. Jorge da Costa » 1486, 

Cardeal D. Jorge da Costa (Irmão).. » 1488, 

D. Diogo de Sousa » i532, 

Cardeal D Henrique » 037, 

D. Diogo da Silva » iS^ 1, 

O S. D. Duarte » \b*\ 

D. Manuel de Sousa » i549, 

D. Frei Balthazar Limpo » i558, 

D. João Affonso de Menezes » i !>87, 

D. Frei Bartholomeu dos Martyres. . » 1590, 

D. Frei Agostinho de Jesus > ió 1 7, 

D. Affonso Furtado de Mendonça... » 1625, 

D. Rodrigo da Cunha » 1Ó27, 

D Frei Aleixo de Menezes » i63o, 

D. Sebastião de Mattos de Noronha. » it>36, 

Cardeal D. Veríssimo de Lencastre. » 1677, 

D. Luiz de Sousa » ió8y, 

D. José de Menezes I » 1002, 

D. João de Sousa » 1697, 

D Rodrigo de Moura Telles » 1704, 

D. Jo^é II » 1741, 

D. Gaspar » 170, 

D. Frei Caetano Brandão » 1790, 

D José III » i^or-, 

D, Frei Miguel da Madre de Deus . . » 181 5, 

C ardeal Figueiredo da Cunha e Mello » 1843, 

D. José Joaquim d'Azevedo e Moura » 1 856, 

D João C. cTAmorim Pessoa » 187o, 

D. António José de Freitas Honorato. » 1 883, 



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Actualmente preside aos destinos da Archidiocese bracarense 
o ex. mo rev. mo sr. D. Manuel Baptista da Cunha, n.° 124 da serie 
c n.° do nome. 

As datas foram por mim fielmente copiadas dos quadros; refe- 
rem-se, umas á nomeação e outras ao fallecimento de cada Pre- 
lado, com bastantes erros que convém corrigir. Por isso entendo 
que devo aqui dar para cada numero as que designam a duração 
completa: N. os i-3y a 44; 19-400 a 400; 21-410 a 414; 22-415 
a 448; 3i-56o a 5 7 o; 32-5;o a 583; 1^4-583 a 5 9 o; 36-633 a 
646,; 37-653 a Õ56; 4o-()5<"> a 665; 42-675 a 683; 43-678 
a 684; 44-687 a 6q3; 45-693 a 714; 64-1 067 ji 1079; 65-1096 
a 1109; 66-1:10 a 11 19; 67-1119 a 1137; 69—1 i3o a iitS; 



62 — 



68-i i 7^ a 1188; 70-1191 a 1209; 71-1210 a 1212; 72-1213 a 
1228; 74-1229 a 1244; 76-1244 a 1255; 77-1259 a 1271; 78-1272 
a 1277; 79-1275 a. . . . ; 80-1276 a 1279; 82-1292 a i3i3;83 -i3i3 
a i325; 85-i349 a i35o; 86-1 365 a i3y3^ 88-1371 a 1397; 90-1398 
a 1403; 91-1416 a 1467; 92-1467 a 1480; 93-1480; 96-1483 a 148'S 
e i5oi a i5o5; 95-1488 a i5oi; 97~i5o5 a 1 532; g8— 1 533 a 1540; 
99-1540 a 1541; 101-1544 a 1549; io2-i55o a i558; 104-1559 a 
1590; 1 o5— 1 587 a 1609; 108-1611 a 1617; 109-1636 a 1641; 1 10— 
1671 a 1677; 1 1 1-1677 a 1690; 1 12-1692 a 1696; , 13-1696 a 1703; 
114-1704 a 1728; 115-1741 a 1756; 116-1758 a 1789; 117-1790 
a i8o5; 1 18-1806 a 181 3; 1 1 9— 1 8 1 5 a 1827; 120-1840 a iSírô; 
i2i-i856 a 1875; 122-1876 a 1888; i23-iS83 a 1898. 



— 63 




Egreja Cathedral de Braga 

l)esconhcce-se a origem da Sé de Braga, não obstante abali- 
zados historiadores, fundando-se principalmente no que diz Flávio 
Dextro, presumirem que date dos primeiros tempos da religião 
christã. Na opinião d'aquelle historiador a Hespanha foi a pri- 
meira Provinda que no mundo, depois da Judea, Galilea e Sa- 
maria, abraçou a fé de Christo, por motivo de S. Thiago levantar 
em todas as cidades um grande numero de egrejas, creando pri- 
meiro Bispo de Braga S. Pedro de Rates que constituiu primaz de 



-6 4 - 

todos os outros *: «Hispânia prima Provinciarum mundi post Ju- 
deam, Galileam, et Samariam, in partibus Occidentalibus Christi 
ridem amplexa est, ejusque gentilitas ad íidem conversa fuit, verte 
primitiae caeterarum gentilium, nam et Jacobus, S. Zebedsei filius 
peragratis urbibus Hispânia;, multis que erectis Ecclesiis, et Epis- 
copis creatis, ex Advenis Petrum Bracharae primum reliquit.» 

Esta opinião é porém impugnada por escriptores de auctori- 
dade, como fr. Miguel de Santa Maria, da Ordem dos Eremitas 
de Santo Agostinho, na sua obra I o^ da Verdade, em que se 
esforça por contestar a vinda de S. Thiago á Hespanha. Mostra 
que no século xi o Papa Gregório VII escreveu a D. Affonso e 
D. Sancho, reis de Hespanha, o seguinte que transitou em julga- 
do: «Como o Apostolo S. Paulo signifique que veiu á Hespanha, 
e depois conste que foram mandados para instruir aos povos de 
Hespanha 7 Bispos por S. Pedro e S. Paulo, os quaes destruindo 
a idolatria, fundaram a christandade, plantaram a religião etc. 
E assim como não duvidaes que d'aqui recebestes o principio da 
religião catholica . . » 

Do Registo das Epistolas Decretaes dos Summos Pontífices, 
tom. 3, epist. 64, também consta que «foi S. Paulo quem deu 
principio á religião catholica em Hespanha». Santo Isidoro, Dou- 
tor da egreja, no livro De Ortu, et obitu Patrum diz que «S. Paulo 
pregou no Occidente e em Hespanha, aonde Christo não tinha 
sido antes nomeado». S. João Chrisostomo (Homilia 70, in Ma- 
thaeum, cap. 22), mostra que os Apóstolos, fieis ás ordens do 
Divino Mestre se conservaram por largo tempo na Judea não 
obstante serem feridos e açoutados pelos Judeus, até que os expul- 
saram (Apostoli praedicaverunt judaeis, longoque temporis spatio 
caesi, et flagellati in Judaea manentes, ac demum ab ipsis pro- 
pulsi in gentes profecti sunt). 

S. Jeronymo e outros auctores affirmam que S. Thiago Maior, 
rilho de Zebedeu e irmão de S. João, foi cedo sentenciado á morte 
e degolado por ordem de Herodes Aggripa, no anno de 44. Por 
isso é tida por verdadeira a noticia da distribuição dos Apósto- 
los: pela Ásia Menor, S. João; pela Scythia, Santo André; pelos 
Parthos, S. Thomé; pela Ásia Maior, S. Philippe; pelas índias, 
S. Bartholomeu; pela Ethiopia, S. Mathias; pela Pérsia, S. Simão; 
por Epheso, Grécia, Provença e em ambas as Hespanhas, Saulo 
ou S. Paulo, etc. 

D. Rodrigo Ximenes, Arcebispo de Toledo, acceitando a opi- 
nião de Fleuri sobre o culto do corpo de S. Thiago em Compos- 



1 O jesuíta rev. Jeronymo Romano de la Higuera diz que S. Pedro, i.° Bispo 
de Braga, era judeu de nação e que lhe chamavam propheta Samuel, o moço, ou 
Malachias o velho, pela gravidade dos seus costumes e fermosura do rostro. 



— e>5 — 

tella no viu. século, o qual foi para alli conduzido, não admitte 
comtudo que as regalias da egreja Compostellana sejam considera- 
das superiores ás da sua, e diz na presença do Papa e dos nume- 
rosos prelados que se achavam presentes no Concilio Lateranense : 
«Se é certo que S. Thiago foi o primeiro que pregou a fé nas 
Hespanhas, eu leio somente que elle recebeu o poder de pregar 
na Hespanha; mas que pregando primeiro na Judeia e na Sama- 
ria, Herodes o fez degolarem Jerusalém: como, pois, podia elle 
pregar em um paiz onde nunca entrou jamais?». 

Na opinião d'este prelado hespanhol, perdeu S. Thiago a vida 
antes de se dirigir á Península. 

Ha também quem sustente que S. Paulo não pôde, como pro- 
mettêra na epistola aos Romanos, vir da Itália sugeitar á lei evan- 
gélica os povos das Hespanhas, porque o seu apostolado difficil, 
complicadíssimo, o obrigou a partir para Colosso. 

Todas estas divergências teem contribuído para se acreditar 
que S. Pedro de Rates não foi, como geralmente se diz, o pri- 
meiro Bispo de Braga, dando-se como certo um tal Sinagrio a 
que succedeu S. Leôncio, natural de Constantinopla, fallecido 
em Guimarães a 19 de março de 826, quando regressava do Con- 
cilio de Nicea. Assim o refere Juliano: «Sanctus Leontius Bra- 
charensis Pontifex rediens ex Concilio moritur Guimaranii in 
Gallecia, quae tunc dicebatur Appollonia 19 Martii, anno 326». 

Esta opinião, muitas vezes combatida, como todas as que têem 
origem no Chronicon Juliano, prejudicaria um pouco a antiguidade 
da origem dos prelados Bracarenses, no caso de alguém poder 
provar que o alludido Sinagrio não pertence ao numero conside- 
rável dos duvidosos. 

A meu ver, pouco ou nada importa que, em vez de S. Thiago, 
viesse á Hespanha S. Paulo, comtanto que a proeminência da Pri- 
mazia de Braga se mantenha, embora como a resolveu o Papa 
Urbano II que fez Primaz de toda a Hespanha D. Bernardo Ar- 
cebispo de Toledo, permittindo comtudo que o de Braga conti- 
nuasse no goso do mesmo titulo e respectivos direitos, os quaes 
consistem no uso da cruz dobrada e na auctoridade de presidir e 
fazer pontifical em diíferentes Províncias. 

* 

Diz-se que o templo de Isis, a que faz referencia uma lapide 
romana, ainda hoje existente nas costas da capella de S. Geraldo, 
estivera no logar que hoje occupa a egreja Cathedral. De facto os 
templos dedicados á deusa Isis eram sempre construídos nas pra- 
ças do mercado, como refere Vitruvio (De Architectura, liv. I, 
cap. 7), e os homens do commercio d'aquelle tempo realizavam 
ao que parece, as transacções no referido local, porque na parede, 



-66- 

interior do altar do transepto da Sé, lado do Evangelho, encontrou 
ha bastantes annos o mestre pedreiro Manuel Fernandes, uma 
base de estatua que tinha numa das faces esta inscripçao dedicada 
ao deus do Mercado: 

GÉNIO 
MACELLI 
FLAVIVS 

VRBICIO 
EX VOTO 

POSVIT 
SACRVM 

Versão : — «Flávio Urbicio consagrou, por voto, este monumento 
ao génio de Macello». 

Em frente á porta principal da Sé descobriu-se, á profundidade 
de um metro, por occasião da abertura da rua do mesmo nome, 
um lageado muito bem construído e ainda algumas sepulturas e 
ossadas humanas junto da rua do Cabido. O padre Torquato de 
Azevedo (Ant. Guimarães), referindo-se ao templo de Isis, diz que 
este idolo foi destruído por effeito da pregação de S. Pedro de 
Rates que logo dedicou o mesmo templo á virgem Nossa Senhora 
collocando irelle a sua imagem. No i.° Concilio Bracarense de- 
nomina-se a egreja cathedral de Braga — Fanum Sanctae Mariae; 
esta denominação de templo, n'aquella epocha, pôde indicar que o 
edifício pertenceu á divindade gentílica. 

Consta de velhos documentos, considerados authenticos, que esta 
egreja fora metropolita da Galliza, destruindo-a os Árabes quando 
em 716 se apoderaram de toda a cidade, dois annos depois da 
perda da Hespanhapor eífeito da celebre batalha deGuadalete, em 
que el-rei D. Rodrigo foi derrotado (11 de novembro de 714). 

Em princípios do século XI, cedendo ás instancias do Bispo 
de Lugo e Iria, ordenara D. Garcia, rei da Galliza e de Portugal, 
a segunda restauração em honra de Santa Maria de Braga, in- 
terrompendo-se esta obra e a da reedificação da cidade, por mo- 
tivo das luctas travadas entre o mesmo monarcha e seu irmão D. 
Sancho II, rei de Leão, que depois a impulsionou, nomeando se- 
guidamente Bispo de Braga D. Pedro, promotor solicito dos seus 
progressos, como consta do livro Fidei. 

Morto D. Sancho, succedeu-lhe no throno D. Affonso que não 
tardou em depor o antistite bracarense. Foi reedificada e ampliada 
esta egreja pelo Conde D. Henrique, pae do fundador da nossa 
monarchia, no anno de no3, presidindo á egreja Bracarense o 
successor d'aquelíe ultimo Bispo D. Pedro, o seu primeiro Arce- 
bispo S. Geraldo. D'ésta reedificação, a que também pertencia a 
capella mor, hoje substituída, apenas restam: — o formoso arco 
perfeito ornamentado, com os respectivos fustes e capiteis antigos, 



-6y- 

que o Arcebispo D. Diogo de Sousa conservou quando lhe soto- 
poz o[ de volta de sarapanel que hoje forma a porta principal, an- 
tigamente dividida ao centro ; a lateral : 




Porta lateral da Sé de Braga 



-68 



chamada do So/, por ficar da parte do sul, mudada em 1780 
quando no seu logar primitivo se construiu o altar de Santa Bar- 
bara, um pouco mais acima, como ainda hoje se nota na parede 
exterior que defronta com o rocio de Traz da Sé ; o friso que por 
este lado assenta sobre modilhoes com figuras exquisitas ; e inte- 
riormente os arcos e columnas das três naves, tudo de granito 




Nave central da Sé de Braga 



~G 9 - 

íino levemente pintado e dourado e hoje coberto a cal, exceptuando 
os capiteis que, como pude verificar, foram barbaramente desfei- 
tos a picão e substituídos pelos que ora tem, compósitos, de ma- 
deira dourada ! Tudo mais é posterior. 

Pelo lado norte vê-se, entre a egreja da Misericórdia e a ca- 
pella de D. Gonçalo Pereira, um lanço de muralha ameiada com 
uma porta ogival do tempo de D. Diogo de Sousa (i5o5-i532) 
cujo brasão se acha embebido um pouco a cima do fecho. 

Ao lado direito da referida porta, que em 1891 recebeu um 
accrescimo de o m ,o,o á altura, tirando-se-lhe os degraus do lado 
de dentro, vê-se numa das pedras esta inscripção romana fra- 
gmentada que tem de comprimento i m , i5 ; altura 0,44 e a lettra 



o ra ,i2: 



CONDITVM. SVB 

IMP. CAESARIS 

PATRIS. PATRI E 

Encontra-se fora da lapide, a seguir á terceira linha, um E 
apocrypho. Emilio Hubner, o sábio berlinez, diz que «o resto da 
inscripção estava sobre outra pedra do mesmo tamanho da exis- 
tente, ou ainda sobre duas», e suppoe que formavam a architrave 
de um sacellum. O celebre epigraphista Mommsen completou-a 
assim: «Conditum sub divo ex jussu imp. (eratoris) Gaesaris Au- 
gusti divi filii patris patri (ae) Ponti fieis Maximi». 

Allude a um pequeno templo sem cobertura construído por or- 
dem do imperador César Augusto, filho do Divo, sendo pae da 
pátria e Pontífice Máximo. 

Não é, como alguém presume, o titulo do orago da Sé de 
Braga Nossa Senhora da Assumpção. 

Em antiquíssimos documentos latinos e ainda na Doação do 
Mosteiro de Pombeiro, datada do anno de 1069, e doutra, de uma 
herdade, pelo Conde D. Henrique em iio3, encontra-se invaria- 
velmente o titulo de Santa Maria de Braga. 

São consideráveis no numero e na qualidade as doações, pri- 
vilégios e regalias com que os monarebas e Pontífices enriqueceram 
esta egreja Cathedral antiga. A Diocese de Lisboa deixou de ser 
sua suíFraganea quando el-rei D. João V creou alli o Patriarchado 
auetorizado para esse fim pelo Pontífice Clemente XI, aos 7 de 
novembro de 1716. 

As suas avultadíssimas rendas, que eram divididas por egual 
entre as mezas arcebispal e capitular, foram-lhe cerceadas no anno 
de 11 65, pelo Arcebispo D. João, o Peculiar, determinando que 
aquella pertencessem duas partes e a esta uma. 

Para que esta e as demais rendas da Mitra podessem arreca- 
dar-se integralmente, obteve D. Diogo de Sousa um alvará data- 



— 70 — 

do de 1624, privilegiando esta cobrança cono fazenda real, sendo 
esse privilegio renovado em 9 de agosto de 1777 pela rainha D. Ma- 
ria a seu tio o Arcebispo D. Gaspar de Bragança, que levantara 
o sequestro feito pelo seu antecessor D. José a todas as rendas 
dos cónegos, encontrando elle menos dc\ moedas em ouro no cai- 
xão que então estava em poder dos frades carmelitas. D. José foi 
nomeado Arcebispo de Braga por seu irmão el-rei D. João V, a 
11 de fevereiro de 1739, em virtude da renuncia do rev. António 
dos Reis, da Congregação do Oratório de Lisboa, para o cargo 
que el-rei lhe dera de governador do Arcebispado quando, por 
motivos ponderosos, ordenara, em 1787, que fossem obrigados a 
viver á distancia de 40 legoas de Braga sete cónegos revoltosos. 



Antes de me occupar do interior d'este vasto edifício religioso, 
vejamos o que nos ofterece de curiosidade histórica toda a sua fa- 
chada hoje composta de três estylos architectonicos. 

O arco perfeito, a que D. Diogo sotopoz, com as suas armas, 
o de sarapanel que forma a porta principal, pertence, como o do 
lado sul da egreja, ao primeiro quartel do século xn, e tem ana- 
logia com o da antiga porta da egreja de Villar de Frades. E 1 co- 
mo elle adornado de esculpturas que representam pelicanos, se- 
reias e muitos outros animaes mythologicos. Na parte superior tem, 
em toda a volta, uma cinta de xadrez, e as columnas são baixas e 
delgadas com capiteis de figuras e folhagem longa. A 1 sua esquer- 
da está cravada na parede uma inscripção gravada em mármore, 
memorando a consagração da Archidiocese ao Sagrado Coração 
de Jesus, no anno de 188 

E' como segue : 



wwwMkSDLtMMiTATEDmTÃ EçrtÀAacwDKíags iS.CoRksu 

ÍUBFWSl|SDUSPlt|IShrMi1WfftD.ANlONIllfl^PHl» 
[RtlI^Ho«TO,Aa(l(ltPliC0?lAcl)0MMI0Rl5BíUtAR,ll\oOUiTlL 
MlSmNIMtlWPRIMATIS.aUtADHOcFESTUiy^ERMiNOUMARSíENTlS 
ilMUWSTUOiyAA MPENSAMQUL OPUUUA N/WiWff. 

toPyfiu(ftMftcPEaptmMRíiMttóORiwnujy\MCHiiitt(Btõs 

i kBUaFiB^TlAtPERLM j^lMílWMEriUSjlPO NllyMI 

Um pouco abaixo d'ella encontra-se, fazendo parte da velha 
construcção, esta lapide romana muito gasta do tempo : 



_7 l — 

Versão : — A Aulo Caelio Flac- — 7- r---r^ 

co, filho de Tito, da tribu Quirina. á g" _ if^^tM 

Na extremidade norte está em- £s|\ |- IfJ J y& 

bebida outra grande lapide de pe- f^s^W- "J" 

dra de Ançã, com esta inscripção J£^|3^*X_ lil 




referente á segunda sagraçao da p 

Sé, em 28 de julho de i5g2, pelo p\ ll|S|p| 

Arcebispo D. fr. Agostinho de Je- t -^< ^^^S^y^^^é 



sus, por não apparecerem doeu- \ 



mentos da sagraçao anterior 



»IIKIJS?2Wftòl^l>l«ifl«I»ftMíá!DY0íiWM[RtNII- 

iimWMttU(M*Tfcl|TO&ESPiyEHO»ÍI : 
JEWIIlÕtLlVí.íEWfMaiMOtttWaWlSilWOOl^WNHT? 
WLVrr DE0HUÍllrtA6»tTVBTE KtttV«t»S«EWllttUWWiNin»KMSTD 

' L OUNl)Rtl!ltOEIBaílTiLÍ)WU < MliT H |kELItí(t£\SWaOMlfVÍIE$r[íl(ll 

ILttEI/Tll,VlliaiiTll,mttLtLMTH, l l EÍMlW ) l)lWl5tEBtlill- 

VAtEtllIWl.lWOWMiWlilíll.tôminftWlliNU.TSiaoaíONFES- 

©WEtOWUMfllLÍIM^WWllIillílEINlWUlIlElOlliMíJET^aO 

íW(l«!,ETlAfâl»íÉílWfL,WTt#()llWl£n«fflBtaiÍÍÍiiíC 
plllUIJÍft|lEMlEUNf()iiAEaLLi!Ã.t(WW[IiíVNtWfll)Elíl8iiE.C 

aEítSlNIEIWHIÍiiPíEWIEViSlMfíEVERlilNWlJÍNmWailT. 



Desde 1488 a i5oi, o Arcebispo D. Jorge da Gosta II, irmão 
do Cardeal de Alpedrinha, mandou construir a abobada de pedra 
que forma o pórtico ; e o seu suecessor D. Diogo de Sousa, (i5o5 
a i532), collocou lhe no alto, em pequenos baldaquinos, sete esta- 
tuas esculpturadas em granito fino, representando o Anjo da Guar- 
da, S. Pedro, S. Paulo, S. Martinho, S. Fructuoso, S. Geraldo e 
S. Pedro de Rates. 

Esta abobada de pedra, com elegantes nervuras, tem do lado 
sul um arco ogival rendilhado, egual em tudo aos dois que na 
frente ladeiam o da entrada, que é de volta perfeita. Todos qua- 
tro estão vedados desde 1 722 com as curiosas grades de ferro ba- 
tido e vasado, estylo Renascença, que o Arcebispo D. Diogo de 
Sousa, mandou fazer para os arcos da capella-mór, que também 
foi feita á sua custa no primeiro quartel do século xvi, e das qua 



— 7 2- 

tro que formam o transepto. Foi D. Rodrigo de Moura Telles, 
quem ordenou a transferencia, e D. Gaspar de Bragança quem as 
fez cortar em [784 assentando-as sobre a balaustrada de granito 
que lá se vê. 

A expensas da fabrica da Sé, e sendo fabriqueiro o cónego 
Bento da Silva Telles, encanou- se no anno de 1739 a agua do cha- 
fariz do Paço Archiepiscopal para os dois gigantes da abobada do 
pórtico, prestando-se com esta obra um bom serviço ao publico, 
que se aproveita d'aquella agua potável. E' de simplíssimo gosto 
architectonico a parte superior da fachada, com as respectivas 
torres que rematam em dois arcos ogivaes cruzados, semelhando 
as cúpulas duas coroas imperiaes. 

Entre uma e outra torre, vê-se a estatua da Virgem, com o me- 
nino ao collo, esculpturada em granito e collocada dentro de um 
nicho com cúpula conchoidal. Sobre este nicho pousa um globo 
encimado pela cruz primacial. Esta imagem foi benzida á 1 hora 
da tarde de 4 de novembro de 1724 pelo Arcebispo D. Rodrigo de 
Moura Telles e acto continuo elevada áquella altura em quanto os 
músicos entoavam na egreja a ladainha. Em cada face das torres, 
ha duas sineiras bem rasgadas, excepto na da frente da torre sul, 
por estas serem reduzidas a uma bastante larga para a collocaçao 
do sino grande, tão grande e tão pesado que já lhe calcularam 
i65 arrobas. Tem em volta os dizeres seguintes: 

IHS MARIA IOZE 1 797 

FEITO * SENDO * ARCEBISPO * DESTA * DIOCEZE 

O EXf° ER 5 ? S°. K D FREI CAETANO BRANDAM 

E FABRIQVEIRO O R. JOÃO CAETANO DE OLIV R * BARROS 

Esta alteração contribuiu por certo para o deslocamento de al- 
gumas pedras que lá se vêem gateadas de ferro. A fachada foi 
construída a expensas do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles 
(alma generosa e grande em corpo demasiado pequeno), princi- 
Diando os trabalhos em fevereiro de 1723 e terminando em 4 de 
novembro do anno immediato. 

Sobre as duas janellas quadrilongas existem as armas do refe- 
rido Prelado, que aispenaeu com toda a obra 4:400^000 réis e 
mais 3:200-^000 réis com os sinos que então ficavam na frente. 
As primeiras torres d'este velho edifício, que por certo datavam 
da reedificação feita pelo Conde D. Henrique, cederam, como ou- 
tras construcções robustas da província, ao impulso violento de um 
tremor de terra, no anno de 1 1 38- Na fachada da antiquíssima ca- 
pella de S. Lourenço da Ordem, sita nos limites da próxima fre- 
guezia de Dume, existe, embebida á direita da porta, uma gran- 



-73- 



de pedra com desenho em relevo representando a antecedente 
frontaria da Sé que fora feita a expensas de D. Diogo de Sousa. 

A actual egreja da Sé, toda pavimentada de granito e com va- 
rias sepulturas brazonadas, oc- 
cultas sob os taburnos de ma- 
deira que as cobrem d'um e ou- 
tro lado da nave central, mede 
desde o arco cruzeiro á soleira 
da porta principal, 53 m , 20 por 
i8 m ,io de largo no corpo. 

Por occasião das obras de 
1780 accrescentaram-se os dois 
altares de S. Bento e Santa Bar- 
bara construídos nas duas anti- 
gas portas de communicaçao 
com o claustro e rocio de Traz 
da Sé, abrindo se então as 
actuaes, alguns metros abaixo, 
junto das paredes sobre que se 
erguem as torres. No alto da 
que dá para os claustros appa- 
receu em setembro de 1722, 
quando se caiava a egreja, uma 
pedra quadrada cheia de íet- 
tras, como diz a Gaveta de Lis- 




Porta principal da Sé de Braga 



boa, «com muitas abreviações», as quaes Pedro da Cunha Souto 
Maior, alcaide-mór, mandou limpar e copiar do seguinte modo : 

ERIT 

PRESVLIS HVIVS, SECVLS 

MEMORANDA FVTVRIS \ ■ 

SEDIS ET ANTIQVI MAGANIMOS PIE 

PRIMATES VETERES REPAR Al QV1S MAGIOR CVI 

RVGASO MATERI ANNO SÍNTETER VOE 

ERA • I ; • QVINGENTESS1MA PRIMA • 

Essa pedra desappareceu por occasião da obra da nova porta, 
ignorando-se o paradeiro d'ella. Parece que se refere a melhora- 
mentos feitos na Sé pelo Bispo do anno de 463, que era Valério I. 

A commissão de obras de 1780 legou-nos de si tristíssima me- 
moria. A ella se deve o estucamento das naves, cujos tectos eram 
de madeira de cedro, como ainda se pode ver junto do anteparo, 
onde se lêem os dizeres seguintes : 

S. PETRVS RATENSIS ARCHIEPISCOPVS BRACHARhNSIS. 

Para este forro das três naves e do transepto mandou D. Diogo 



-74- 

de Sousa cortar a madeira no souto que então havia desde o cas- 
tello e campo de Santa Anna ao largo de S. João. 

Actualmente ha no corpo da egreja, lado do Evangelho, os 
altares de Nossa Senhora da Conceição, de Nossa Senhora do 
Loreto, de S. José e de S. Bento. No lado da Epistola: — S. João 
Baptista, S. Sebastião, S. Rodrigo e Santa Barbara, todos com 
quadros a óleo devidos ao pincel de João Glamma Stroberle, pin- 
tor da eschola romana, o qual nasceu em Lisboa no anno de 1708. 
Nos intervallos dos altares foram collocadas em 1780 as estatuas 
dos Apóstolos e Doutores da egreja, tamanho natural, represen- 
tando S. Paulo, S. Thiago Maior, S. Thomé, S. Filippe, S. Ma- 
theus, S. Mathias, Santo Ambrósio, S. Jeronymo, S. Pedro, S. 
André, S. João, S. Thiago Menor, S. Bartholomeu, S. Simão, 
S. Gregório Papa e S. Agostinho. 

A nave central é composta de doze arcos, tendo os quatro 
últimos interceptados pelo coro que o Cabido de 1787 mandou 
fazer, enriquecendo-o em 1757 com as cadeiras de pau preto 
dourado. Os órgãos actuaes, que substituíram os anteriores fei- 
tos a expensas de D. Diogo de Sousa, construíram se em 1737 
(lado do Evangelho) e 1738 (lado da Epistola), sendo seu auctor 
o religioso Franciscano F. R. Simon Fontanus Gallencianus. No 
alto, sobre as estatuas da Fé, Esperança, Caridade, Religião v Con- 
cordia e Fortaleza, vê-se uma águia com estes dizeres numa fita : 

qvis vidit hvic e outra águia com estes: qvis avdivit vnqvam 

SÍMILE? TALE ? 

Referem-se á magestade da obra : Quem viu aqui semelhante ? 
Quem ouviu jamais egual? 

Encostados ás columnas do arco primeiro d'esta nave, existem 
dois púlpitos de mármore rosado, sendo o da Epistola obra de 
D. fr. Agostinho de Jesus e o do Evangelho de D. Rodrigo de 
Moura Telles, como o indicam os respectivos escudos. 

A' direita de quem entra vê-se, dentro de um arco aberto na 
parede, o precioso tumulo de cobre dourado, que encerra os res- 
tos mortaes do infante D. Aífonso, filho primogénito de el-rei 
D. João I, que, tendo nascido em Santarém a 3o de julho de 1390, 
falleceu em Braga a 22 de dezembro de 1400, com 10 anno- de 
edade, por occasião da estada aqui de seu augusto pae, sepultan- 
do-se na Sé «entre as duas columnas que dividem a nave do meio 
da do Evangelho, começando do cruzeiro», como diz D. Rodrigo 
da Cunha em principio do século xvn. (Vide gravura a pag. j5). 

Annos depois foi trasladado para o referido tumulo de cobre 
que sua irmã a infanta D. Izabei, casada em 1429 com Filippe V, 
(o Bom) Duque de Borgonha e Conde de Flandres e de Henao 



75- 



: 




Tumulo de cobre dourado (Phot. do sr. João San Romão) 

(Hainaut) lhe mandou para Braga, collocando-se «detráz da co- 
lumna a que arrima o altar de Nossa Senhora do Rozario, por 
baixo do púlpito, e defronte de onde primeiro esteve enterrado». 
Quando seria d'alli trasladado para o arco onde se encontra ? 
Provavelmente por occasião das grandes obras de 1780. Esjá es- 
tendida sobre o tumulo, em tamanho natural, a figura' do infante 
com as mãos cruzadas sobre o peito. Falta-lhe a perna direita, 
roubada como os quatro leões que sustentavam o tumulo, o ca- 



— 7b — 



chorro que a figura tinha aos pés e os dois anjos que se viam em 
adoração aos lados da cabeça ! O docel que cobre o tumulo é 
sustentado por quatro columnas lavradas e tem ao centro as armas 
de Portugal, e não se lhe descobrem vestígios do outro escudo de 
flores de lis. D. Rodrigo da Cunha achou tão gasto do tempo o 
lettreiro que cercava o tumulo, que não lhe foi possível lel-o. 

E' de suppor que dissesse: «Aqui jaz o infante D. Aífonso de 
Portugal, a quem Deus perdoe ; filho do nobre rei D. João de 
Portugal, o primeiro, e da rainha D. Filippa ; falleceu aos 22 de 
dezembro de 1400». 

O que porém unicamente lhe resta numa linha de caracteres go- 
thicos que lhe toma a frente e um dos lados, é o seguinte que fiel- 
mente copiei: 

r AQVI YAZ O YNFANTE DON AFONSO 

DE PORTVGAL A QVEM DE FYLHO 

DO NOBRE REY DOM YOAN DE PORTVGAL 

Ao lado esquerdo fica a pia baptismal, ricamente esculpturada 
em pedra de Anca, representando na base dois leões a devorar 
creanças. Aesculptura deve ser quinhentista. Aporta que junto d'ella 

communica com o claustro, 
tem a servir de soleira a pe- 
dra tumular de D. Fernan- 
do da Guerra, neto de el- 
rei D. Pedro I por bastar- 
dia, fallecido a 20 de setem- 
bro de 1467, e sepultado na 
capella de S. Geraldo, que 
elle reedificara, mandando 
collocar n'ella o tumulo que 
encerra os restos veneran- 
dos do santo. 

Na frente d' este sarco- 
phago lê-se : 

BEATI 
GERALDI 

CORPUS 

A sepultura de D. Fer- 
nando elevava-se o m ,qo aci- 
ma do pavimento, e a pe- 
dra que a cobria tinha em 
relevo a estatua jacente do 
Prelado, em pontifical, e a 
toda a volta este lettreiro 
gothico : 




— // — 

AQVI JAZ O MVITO NOBRE SENHOR 

D- FERNANDO ARCEBISPO DE BRAGA E 

BISNETO DELREI D- PEDRO- E FINOV AOS 

XXVI DE SETEMBRO DE MCCCCLXVII - 

O Arcebispo D. fr. Agostinho de Castro, trasladando para a 
referida capella de S. Geraldo os ossos dos seus predecessores 
D. Diogo da Silva e D. Manuel de Sousa, mandou cortar o tu- 
mulo alinhando a tampa com o ladrilho! 

Reedificando-se pela terceira vez a capella no anno de 1712, 
foi a referida pedra applicada ao capeamento do altar que era de 
granito; e demolido este em dezembro de 1780, data das grandes 
obras, para ser substituído por outro de madeira, foi logo nos 
principios do anno immediato menospresada, virando-se para a 
terra a estatua! 

Por privilegio datado de 1443, o infante D. Pedro, regente do 
Reino, coutou ao referido Arcebispo «as perdizes com seus ovos, 
condemnando quem as caçasse por cada perdigão, perdiz ou ovo, 
vinte reaes brancos; e que á distancia d^ima légua, meia acima 
da ponte de Guimarães e meia abaixo, ninguém pescasse no rio 
Este, sob pena de pagar por cada peixe 10 reaes brancos». 

E' obra de D. João de Sousa, Arcebispo que foi de Braga 
desde os annos de 1696 a 1703, a actual sacristia onde se guarda 
o thesouro. Tem ao centro, em frente do primoroso relicário, a 
sua sepultura que elle próprio mandou fazer com a seguinte ins- 
cripção gravada em mármore: 

S DE D • JOAM DE 
SOUSA • X • DO NOME 
E ■ CXI -EM N° ARCB° 
PRIMAS E SENHOR 
DE BRAGA 

No mesmo sitio esteve primitivamente a capella fundada pelo 
Arcebispo D. João Martins de Soalhães, fallecido em i325 e se- 
pultado n'ella a seu pedido. D. Diogo de Sousa, vendo que a 
sacristia da Sé, então do lado norte, era acanhada e muito falta 
de luz, estabeleceu-a no anno de i5ii onde ora é, recolhendo os 
ossos do fundador n'um sarcophago de pedra que fez embeber 
na parede da referida capella com estes dizeres na frente: 

HVC TRANSLATA SVNT OSSA 

DNI 10ANNIS DE SOALHÃES 

ARCHIEPISCOPI BRACHARENSIS 

ANNO SALVTIS I 5 I I 



-Tê- 

Com a reedificação da capclla tudo isto desappareceu. Con- 
serva-se alli o thesouro que possue bastantes preciosidades, como 
por exemplo: 

— Uma collecção de doze quadros em papel representando os 
bustos dos Apóstolos, magistralmente desenhados, sendo dignos 
de especial menção os de S. Matheus e S. João. Na extremidade 
inferior d'estes quadros lê-se, em caracteres miúdos: — Johann 
Baptista Pia\\etta Venetus delineavit. Johann Loren\ Haid Scul- 
psit. 

Outro quadro em papel representando o nascimento de Ghristo. 
Tem a marca : — London — Alex. í r an Haecken feci. 

— Os pequenos sapatos que D. Rodrigo de Moura Telles 
usava nas solemnidades da Sé, medindo o ra ,io de altura no tacão 
e o m ,i9 de comprimento! 

— A cabeça de S. Fortunato, com alguns ossos, e estes dize- 
res no cofre: 

SACRVM CAPVT RESTAVRATVM 
CV PAVCIS OSSIBVS S • FORTVNATI • M • 

— A de S. Gandida: 

SACRVM CAPVT RESTAVRATVM 
CV PAVCIS OSSIBVS S ■ CANDIDjE • M • 

— Uma custodia de prata dourada, com profusa cravação de 
brilhantes avaliados em vinte mil cruzados. 

— O pequeno cálice de prata dourada, denominado de S. Ge- 
raldo, com esmalte e lavores, copa hemispherica e estes dizeres 
na base em duas linhas circulares:' 

-f-IN NNE DNI MENENDUS GUNDI SALUI , 
-f ET TUDA DOM NA SUM • 

Este cálice, que mede o m ,i i de altura, foi offerecido pelo Conde 
da Galliza Menendo Gonçalves que também fez restituir á egreja 
bracarense todos os seus bens até então invadidos. Guarda-se num 
cofre cylindrico de marfim que figurou na exposição retrospectiva 
de arte ornamental, de Lisboa, em 1882, achando-se assim des- 
cnpto no respectivo cathalogo: 

«Cofre hispano-arabe de marfim. Altura o m ,i9. E' de forma 
cylindrica; a tampa convexa com ferragens de cobre dourado. 
Em volta da tampa uma inscripção árabe. Ornamentação em 
baixo-relevo representado fitas entrelaçadas, arcos de volta de 
ferradura, figuras humanas, aves e outros animaes». (Vide gravu- 
ra a pag. ygj. 



79 




Cálice de S. Geraldo e o respectivo cofre 



E 1 esta a inscripção: 



t\z\ LL -01 



*jyU 1 LjJ' ^jJ J^ *Uj ^1 U^ *iM 



No/lrc/zfo/. Portug., vol. i, pag. 273 e 11, 204, o sr. David Lopes 
traduziu-a do seguinte modo: — Em nome de Deus. A benção de 
Deus, felicidade e fortuna sejam com o hágibe Seifadaula — glori- 
fique- o Deus! — por ter mandado fazer esta obra ao seu servi- 
dor amirita. 

— «Báculo de cobre dourado. Altura o m ,24. A crossa representa 
uma serpe com a cabeça atravessada pela cruz». Denomina-se de 
Santo Ovidio por constar que appareceu no seu sepulchro. 

— «Cálix de prata dourada com sua patena. Altura o m ,33. 
Copa hemispherica adornada com seis figuras de anjos susten- 
tando os emblemas da Paixão, e na parte inferior outras seis 
sustentando outros tantos tintinabulos. O nó decorado com arca- 



— 8o — 

nas gothicas, tem debaixo de baldaquinos as estatuetas de seis 
Apóstolos. Base dividida em doze gomos, dos quaes os maiores 
têm em baixo-relevo as figuras de Apóstolos, excepto um, que 
tem um escudo com as armas do arcebispo D. Diogo de Sousa, 
e a data de i5oo,. Nos seis gomos menores, ornatos esmaltados. 
Entre a copa e o nó, e entre este e a base ha dois anneis com o 
mesmo género de esmalte. No bordo exterior da copa, lê-se: hic 
est cálix sangvinis mei novi et éter • A patena tem no meio da face 
inferior a figura do cordeiro esmaltada-, na face superior S. João 
Baptista; á roda em caracteres gothicos: do vobis pacem relinco 
vo pacem meam- Fins do século xv ou princípios do século xvi». 

— Dois cofres de prata dourada em que se guardam as cabe- 
ças de S. Martinho de Dume e S. Thiago Interciso. 

— Outro cofre de prata dourada contendo as reliquias a que 
se refere a lapide da sagração. Tem na frente quatro estatuetas 
de santos da Ordem franciscana. 

— Um relicário de prata dourada, elegante e bem lavrado, 
contendo parte do santo lenho. Tem na frente onze diamantes e 
na base uma pequenina placa com as armas do Arcebispo D. Ro- 
drigo de Moura Telles, que o oífereceu, e estes dizeres em volta; 

RODER • ARCH • PRIMAS • HISPAN • 

— Um cálice de prata dourada offerecido por el-rei D. Filippe. 
Na base tem as armas d'este monarcha, e em toda a volta esta 
inscripçao com pontos triangulares : 

ELREI • FELIPE • DEV ■ ESTE • CALEZ • AESTA • CASA 

— Uma cruz de prata dourada com os dizeres seguintes : 

SALVE CRVZ PRETIOSA QVAE IN C0RP0RE X DIC 

— Uma estatua de prata representando Nossa Senhora com o 
menino. O Arcebispo D. Lourenço (137 1 -1397) usou-a sobre o 
murrião, em logar de pluma quando na memorável batalha de 
Aljubarrota luctava com denodo ao lado de el-rei D. João I. 

Vae na gravura que representa o corpo incorrupto do Prelado- 
guerreiro. 

Assenta sobre uma peanha do mesmo metal feita em i653, 
como se lê n'esta inscripçao gravada na face posterior : 

DON IGNACIO DEA PRIMAS E M 8 . L PR t DE 
MELLO MANDARÃO FAZER ESTA SNAR SENDO 
JUIZES NO ANNO DE l653. 



— 81 — 

A palavra Senhora deve ser substituída por Pecinha. O estylo 
da esculptura da imagem e a circumstancia de não poder d'este 
modo applicar-se ao murrião denunciam o erro do gravador. 

Esta estatua, a de Santo António, da Senhora da Abbadia e 
de S. Nicolau, todas quatro de prata, escaparam milagrosamente 
á rapacidade dos invasores francezes. 

— Frontal com sanefa, bordado a matiz e ouro em alto relevo, 
representando, nos quatro retábulos que as três faxas dividem, os 
doze Apóstolos primorosamente bordados. Veio da índia e oífere- 
ceu-o á Sé el-rei D. Manuel. Faltam-lhe os coraes e as pedras 
preciosas que o ornavam em grande quantidade. Existe, da mes- 
ma procedência, a casula, o manipulo e a estola, representando o 
desenho d'este bordado : folhagens, conchas, estrellas, pássaros e 
flores. 

— Dois pontificaes completos, branco e vermelho, industria 
franceza, offerecidos pelo Arcebispo D. Gaspar de Bragança 
i [758-89;. 

— Frontal e paramento completo, bordado a ouro em relevo, 
industria italiana. 

— Paramento completo, bordado a ouro no Recolhimento da 
Tamanca, em Braga, e offerecido por D. fr. Caetano Brandão. 

— Outro paramento completo, vermelho, que pertenceu ao mos- 
teiro de Tibães, também bordado na índia. Apenas se faz uso 
d'elle no dia de S. Geraldo. 

Além doestes objectos ha ainda dois pares de jarroes da índia, 
muito apreciáveis, numerosas reliquias e as pratas do serviço de 
pontifical que são muitas e valiosas. 



Nas duas extremidades do transepto da egreja estão os altares 
do Senhor da Agonia (Evangelho) com a urna que encerra o 
corpo de Santo Ovidio, o Bispo bracarense a quem Jéronymo Ro- 
man dedica os seguintes versos por ter baptisado e preservado da 
morte as nove filhas de C. Atilio : 

Gaude Sacerdos Ovidi 
Tu bracharencis Pontifex, 
Qui meruisti filias 
Tot ad poios transmittere. 

e o da Senhora das Angustias (Epistola) com a urna que encerra 
o corpo de S. Crescencio. 

Aos lados da capella-mór ha quatro capellas sendo a primeira 
actualmente consagrada ao Coração de Jesus e guardando-se n'ella 
os ossos de S. Thiago Interciso, para alli trasladados do thesouro 
pelo Arcebispo D. fr. Agostinho de Castro. 



82 



A urna, que primitivamente apresentava esta inscripção : 

AQVI ESTÁ O CORPO DE SANT-IAGO INTERCISO, PERSIANO DE NAÇÃO, 

QVE DE ROMA TROVXE PÊRA ESTA S™ EGRE.TA DE BRAGA O ARCEB • 

D • MAVRICIO, PELOS ANNOS DE I J IO • E NO DA ERA DO SENHOR 

1606, O COLLOCOV NESTE TVMVLO O ARC • D • FR • AGOSTINHO 

DE JESV DE BOA MEMORIA, NO SYNODO QVE CELEBROU NO MEZ 

DE OVTVBRO DO DITO ANNO, ESTANDO TÉ ENTÃO NO THESOVRO 

DESTA SE, NO COFRE GRANDE DAS RELIQVIAS. 



tem agora apenas os dizeres seguintes : 



OSSA 

BEATI JACOB I 

INTERC1SI 



A segunda capella é dedicada ao Sacramento. O frontal do 




Frontal do altar do Sacramento 



seu altar compoe-se de uma só peça de riquíssima talha, repre- 
sentando num primoroso figurado em relevo a Sagrada Eucha- 
ristia condusida pelo Vigário de Christo em um carro triumphal 
que arrasta presos muitos hereges e despedaça outros sob as ro- 
das. Na frente caminham os crentes enthusiasmados, empunhando 
palmas e tocando trombetas. Ao centro tem estes dizeres : eccle- 

SIA PER S . EUCHARISTIAM TR1UMPHANS . 

A terceira tem a invocação de S. Pedro de Rates. No seu altar 
ha um cofre de madeira a vestir outro de pedra onde em tempo 
se gravou a inscripção : 



—83- 

AQVl JAZ O CORPO DE S • PEDRO MARTYR 
DIC1PVLO DO APOSTOLO S • THIAGO TRESLADADO 

DA EGREJA DE RATES POR D • BALTAZAR LIMPO 

ARCEBISPO DE BRAGA A ESTA SEPVLTVRA QVE SE 

LHE EEZ PÊRA MAIOR VENERAÇÃO E POR SER O 

PRIMEIRO PRELADO DESTA EGREJA AOS 17 DE 

OVTVBRO DE I 552. 

Na frente do cofre de madeira lê-se : 

BEATI 

PETRl DE RATES 

CORPVS 

Os azulejos desta capella e, certamente, os das demais da Sé, 
foram pintados por António de Oliveira Bernardes, cujo nome se 
acha no lado esquerdo, e no direito um breve de altar privilegiado 
para todos os dias, concedido pelo Papa Gregório XIII a D. fr. 
Bartholomeu dos Martyres, no anno de ib-jb. 

A quarta é da invocação de Nossa Senhora da Roza. 

Tem também sobre o altar um cofre de madeira a vestir ou- 
*ro de pedra onde esteve esta inscripção : 

AQVI ESTÁ O CORPO DE S • MARTINHO 

ARCEBISPO QUE FOI DESTA SANTA EGREJA 

DE BRAGA PELOS ANNOS DE 5y4 O QVAL 

O ARCEBISPO D . IR . AGOSTINHO DE JESVS 

DE BOA MEMORIA NO SYNODO QVE CEI.EBROV 

NO MEZ DE OVTVBRO DO ANNO DE 1606 TRÊS 

LADOV DA EGREJA DE DVME NA QVAL PRIMEIRO 

FOI BISPO E NELLA ESTAVA SEPVLTADO E O 

COLLOCOV NESTE TVMVLO . 

O cofre de madeira apenas diz : 

S . MART . DVMIENS . 
ARCHIEP . BRACH . 
SACRA OSSA 



8-4- 




Exterior da Capella-mór da Sé 



— 85 — 

Exteriormente a capella-mor da Sé recommenda-se pela ele- 
gância da esculptura, correcção e pureza do estylo architectonico. 
O Arcebispo D. Diogo de Sousa, que occupou com extraordinário 
zelo e inexcedivel patriotismo a cadeira archiepiscopal de Braga 
desde i5o5 a 1 532, vendo prestes a cair em ruinas todo o edifício 
da sua Sé Cathedral, e muito particularmente a capella-mor con- 
struída a expensas do Conde D. Henrique, illustre progenitor do 
nosso primeiro monarcha D. Afíbnso Henriques, ordenou o corte 
de madeiras no souto que então occupava todo o espaço compre- 
hendido entre o actual campo de Santa Anna e o largo fronteiro 
á egreja parochial de S. João, dando principio á obra de repara- 
ção no corpo do vasto templo e reconstruindo a capella mor, cujo 
trabalho correu sob a direcção de artistas Biscainhos, moradores 
numa das nossas ruas que ainda os faz lembrados. Os contrafor- 
tes ornados de columnas rematam em elegantes coruchéos a que 
se associam os do formoso parapeito rendilhado que coroa em 
toda a volta o edifício por sobre a cornija bellamente ornamen- 
tada. Tem três grandes janellas ogivaes, e por baixo da do cen- 
tro uma imagem de Nossa Senhora do Leite esculpturada em pe- 
dra de Ançã, com o escudo de D. Diogo de Sousa na peanha e á 
sua esquerda, e o de el-rei D. Manuel á direita, repetidos ambos 
no alto do edifício e no interior da mesma capella-mor, provavel- 
mente para D. Diogo testemunhar ao monarcha a muita conside- 
ração que lhe votava, e á qual el-rei correspondia, como nos fins 
da vida lh'o demonstrara nomeando-o um dos seus testamentei- 
ros. Ao rés do chão abriram posteriormente o arco onde se exhi- 
be durante a semana santa um dos passos da via sacra. O cemi- 
tério que D. Diogo construirá junto da Sé, também certamente 
occupou esta rua onde em 1867 foi encontrada uma sepultura com 
alguns ossos humanos. 

Esta capella-mor mede interiormente 10, 5(5 de comprido por 
'"i.yS de largo. A abobada de pedra, coberta de nervuras, está 
pintada a fingir o que é, si vera est fama, para evitar o desagra- 
dável elfeito do granito gasto e falto de homogeneidade na cor ! 

O baldaquino de madeira, na abside, fez-se em tempo do Ar- 
cebispo D. João Chrisostomo de Amorim Pessoa. Tem no alto as 
suas armas. Collocaram alli a preciosa imagem da Virgem e con- 
serva-se ainda o altar mor, tudo de pedra de Ançã como o reta- 
bolo que tivera dourado e com estatuas, considerado um dos me- 
lhores da Hespanha, e do qual hoje restam alguns fragmentos 
numa loja escura do claustro. Na demolição effectuada em tempo 
de D. Gaspar de Bragança appareceram relíquias de S. Victor, 
S. Alexandre e S. Marianno. 



86- 




Altar mor da Sé 

O altar-mór, que representa em baixorelevo Jesus Christo e os 
Apóstolos aos pares, foi cortado no lado direito... para que se 
não julgue que o reinado da insensatez é exclusivo de uma ou de 
outra epocha ! Provavelmente este vandalismo data da reconstruc- 
çao da capella-mór, pois no thesouro ainda hoje se conserva o já 
citado frontal que el-rei D. Manuel mandou comprar na índia com 
as dimensões exactas do mesmo altar cortado, para o qual o olfe- 
receu. A facear com este altar-mór, lado do Evangelho, esteve 
desde 1 5 1 3 até maio de 1877, o tumulo em que o Arcebispo. 
D. Diogo de Sousa mandara encerrar os restos mortaes do Con- 
de D. Henrique, fallecido em Astorga no anno de 11 12 e sepul- 
tado a seu pedido na Sé de Braga, assim como os da rainha D. 
Thereza, fallecida em Coimbra no i.° de novembro de iiSo. 
transportada para aqui por ordem de seu filho D. Affonso Henri- 
ques, e ambos primeiramente sepultados na capella sagrada (on- 
de presentemente se encontram de regresso em dois túmulos) man- 
dada construir pelo referido seu filho iVaquelle sitio que servira de 
cemitério aos reis suevos catholieos. A inscripção que D. Diogo 
mandou gravar no tumulo é como segue : 

D. O. M. 

DOMINO HENR1CO HVNGARORVM REGIS 

FILIO PORTVGALL1AE COM1T1 DOMINVS 

DIEGVS SOVSA ARCH1EP VIRO CLARÍSSIMO 

AQVO PORTVGALLIAE REGES ESSE REGNVMQ 

ACCEPISSE CONSTA T DE REPVBLICA CHRISTIANA 

PATRÍAQ SVA OPTIME MERENTI POSVIT ANN. 

A CH RI ST NA MDXIIL 

«A Deus de toda a bondade e grandeza. D. Diogo de Sousa 
Arcebispo, levantou esta sepultura ao Conde D. Henrique, filho de 
el-rei da Hungria e Conde de Portugal, no qual este reino e seus 
reis tiveram principio. Anno de i5i3». 



-87- 

A 28 de novembro de 1598 o Arcebispo D. fr. Agostinho de 
Jesus fez abrir este tumulo na presença dos cónegos, cirurgiões, 
etc, sendo então encontrados os restos de dois cadáveres dos sexos 
masculino e feminino, envoltos num grande panno de damasco. 
Os ossos femininos de D. Thereza, foram separados, depositam 
do-se no tumulo que D. Diogo de Sousa tinha destinado para sua 
sepultura collocando-o do lado da Epistola sem comtudo o apro- 
veitar, e gravou-se-lhe a inscnpção : 

d. o. M. 

REGINAE TARESIAÉ ALFOXS1 CASTELLAE 

ET LEONIS REGIS IMPERATORIS NVNCVPAT1 

FILIAE COMITIS HENRIG." VXORI DIDACVS A SOVSA 

ARCHIEPlsdbPVS BRACHAR HISP PRIMAS MP AN. 

A CHRISTO NATO MDXIII 

«A Deus de toda a bondade e grandeza. D. Diogo de Sousa, 
Arcebispo de Braga, Primaz das Hespanhas, levantou esta sepul- 
tura á rainha D. Thereza, filha de L). Aífonso rei de Castella e 
Leão, chamado o imperador, mulher do Conde D. Henrique. No 
anno de 1 5 1 3 » . 

Em maio de 1877 foram estes túmulos, de i'",6o de comprido, 
removidos para a capella dos reis, assim denominada por ser 
construída a expensas de D. Aífonso Henriques sob a invocação 
de S. Thomaz e posteriormente de S. Lucas, onde se conservam 
com as estatuas jacentes sobre a tampa. 

A capella-mór da Sé foi noutros tempos sepultura de homens 
notáveis como os Condes Alvito Nunes, ferido quando os Nor- 
mandos aportaram com i5o navios a Villa do Conde no anno de 
»)68 ; e Menendo Gonçalves, offerente do sino e cálice denomina- 
dos de S. Geraldo. No dia 4 de junho de 1756 também aqui foi 
sepultado o Arcebispo D. José, filho de el-rei D. Pedro II, como 
o indica a inscripção gravada em campa de mármore. As duas. 
grandes lâmpadas que pendem da abobada, e que teem a data de 
181 5, vieram do convento de Tibães em 18^4, por occasião da 
extincção das Ordens religiosas. E' da mesma procedência a ban- 
queta e o pequeno órgão que defronta com o coreto nos segundos 
arcos da nave central. Este órgão e coreto foram mudados de en- 
tre os primeiros arcos, onde cada um assentava sobre quatro co- 
lumnas de que ainda hoje ha signaes nos taburnos que cobrem o 
pavimento, em tempo de D. João Chrisostomo de Amorim Pessoa. 

O claustro hoje ajardinado foi cemitério da Misericórdia até 
16 de outubro de 1724 em que o Arcebispo D. Rodrigo de Mou- 
ra Telles o inutilisou ordenando a remoção das ossadas para a 



-88 — 

adro da egreja de S. João do Souto. Datam d'essa epocha as 
actuaes arcadas, só agora (desde abril de 1899 a novembro de 
1900), fechadas de abobada de tijolo e rematadas por uma balaus- 
trada de cimento. O fingimento da abobada, a imitar granito, é ma- 
ravilhoso. Alem da capella dos reis, a que já me referi, tem este 
claustro mais a de Nossa Senhora da Piedade ou de Jesus, fun- 
dada por D. Diogo de Sousa, em i5i3, para sua sepultura, como 
se deprehende da seguinte inscripção: 

ESTA CAPELA MANDOV FAZER 

O ARCEBPO DO D I.° DE SOVSA PÊRA 

SVA SEPVLTVRA E DE SEVS IRMÃOS 

AS PESSOAS CAPITVLARES DESTA E 

GRE1A QVE SE NELA QVISERE LAN 

CAR-FOI FEITA NA ERA DE I 5 I 3. 

Km arco aberto na parede do lado da Epistola acha-se o tu- 
mulo deste grande Prelado com a sua estatua jacente, de ponti- 
fical, e na frente esta inscripção: 



AftWZD0MÕ!3CV0I)Ei0VSA.fii!(Ee"P().eiííltóJILIi0l)EI0í o 
ROIZt£WiC0íEUK.$(lS'.DtFlGtflliO.£P0FEl|fOtJÍÍ) 

EDED0WA8MaD«!LCSWíaHE(<t'rtALtLHtl.l)u w 

WA0.)EurMMraoV.?iJREgWXAOORMltyA0E[?APA 
MlOAlHf D^RSW MENFCIA [EUWOTIJNWU^Dtí 
0.FEI EOUpa MJMORDA Ml MHA. DM/i MARIÍW AMOl m 

mmjm wi m dih ia n> m mosan do e e i ri i 

|Ui) M J()ÍO.TfRCEIIlDflFEZfflPELAÕ.MOaWiiMNHÁDONi\ 
CATfRlNAiUAMOLHER .OÚVLFLZ ESTAUVEL N PÊRA 

W<.iEPl/LTV(UlW\l£OLX)l[-.II.JINN0itEMElÉ0JI 
Xyiyi.PIftSDOMESDElVItfH OPA ERUDEI 53 7* 
ETRE5LADM10 DOME!lT(APRLA MMXIi DEFLv r do 
AMO DE lílZANNftJWDDADMIlH ÍHLZ a<5 MORlvlANí)EL 
'lN"DtMATT0^Z A CAR00ZO 



Do lado do Evangelho, em logar correspondente, está o tu- 
mulo de D. fr. Caetano Brandão. Ao centro tem a sepultura do 



-8Q- 

chorado Arcebispo D. António José de Freitas Honorato, falle- 
cido em cheiro de santidade, a 28 de dezembro de 180,8, como se 
prova com as numerosas offerendas dos devotos. 

A capella denomina-se Misericórdia velha por aqui ter sido 
fundada esta santa instituição. 

As capellas de Nossa Senhora do Livramento, de Santa Lu- 
zia, Santa Catharina e Senhor da Paciência, e a já referida ca- 
pella dos reis onde se venera o corpo incorrupto do Arcebispo D. 
Lourenço que a 8 de agosto de i3é)i fez testamento instituindo 




Corpo incorrupto do Arcebispo D. Lourenço 

aqui uma capella onde mandou construir o seu tumulo com es- 
tatua jacente, de pontifical, a que elle próprio fez um golpe na 
face com a sua espada. Esse tumulo ja não existe. No testa- 
mento ordenou a seu filho Vasco Lourenço «q pêra esta capella 
lhe trouxesse seu corpo, em caso q morresse fora de Braga nestes 
Reynos, nos de Castella, Leão, Navarra, Aragão,, Fraca, Fra- 
des, Allemanha, Itália, Toscana, ou Roma». Tem no tumulo esta 
inscripção: 

AQUI JAZ D. LOURENÇO NATURAL DA LOURINHAM 
ARCEBISPO DE BRAGA A Q FOI PROMOVIDO NA 
ERA DE 141 I, E MORREU NA ERA DE 1436 

Ha ainda a communicar com este o claustro de S. Geraldo ou 
S. Amaro, com seis capellas reformadas em 1766, dedicadas ao 



— 9° 



Espirito Santo, Senhora da Boa Memoria, Santo Amaro, Senhor 
da Piedade ou S. Pedro Martyr, que tem ao lado um coro deno 
minado dos morcegos, onde diariamente resam dois minoristas que 
percebem 8o réis, o dobro do que o instituidor estabeleceu, por 
então serem 4 os coreiros; de Santo António e das Almas com 
esta inscripção em lamina de metal: 



S0& PERPETVOS POILA MMMNNAFR5 

KDEVOESMlROEIVWEHVPlWo 
DE25NULRSIflMIFRAR\ABSAMTiS 
Sl^OSACRWALUTO EÇMMtO MIL 

^&BNROKdNKK SNMUiMttaMO 

©STASANTASLt ÔQVAKi SAMOBRICA 

DASAHftNDMlDiZtESJtSNlASfON- 
FRHRItóNOFINlô(AOftMDftSMim&fê 
MEÃS DOAtOENS AMMO /é2 S 



No alto da parede interior da capella da Boa Memoria, lado 
esquerdo, pude ler, por indicação do digníssimo sa:ristão-mór da 
Sé o sr. António Maria Lopes da Silva, esta inscripção lapidar em 
caracteres gothicos, embebida junto de um arco de pedra que se 
dirigia da parede da Gathedral para o referido claustro : 



ESTE ARCO : MAND0V : 
FASER : LOPO AFONCO \ 
CÓNEGO : DE BRAGA : 
ERA : MCCCC9VI. 



Ao fundo da capella de S. Geraldo, que tem ao lado esquerda 
da porta principal uma imagem de S. Nicolau toscamente escul- 
pturada em granito mas com a qual o povo tem grande devoção. 



— 9 i — 

depositando ao seu lado promessas que faz a Santo Ovidio, pois 
não acredita que seja S. Nicolau, ha na parede esta lapide refe- 
rente á dotação de 240:000 réis, feita em 1606 pelo cónego Fran- 
cisco da Costa para uma capella de 5 capellães que resem em 
coro e celebrem diariamente missa em louvor da Conceição da 
Virgem : 



AMI.VI Fttlfcto GOSTA - 

CAN0NtCVS-8RACH.AVCTJRM.D-D.FR 
AV&.DEÍW.ARe.PRiWl.INSTmiTmil 
Nd A ÉMWÕIC(sNSPTÍ0NI5B.M. , ?/lNH\C 
ecC.OiVi GERALDI DIVJNVM OFF. ÍN 
CHOWCANTENTPSEXPRO 
PR1ÍS 80N1S.B0TAVÍT EORVMELLU 

TIOADADMiNÍSTRATORES ABEO 

0RDlNAT©ÍN SOliOVM SPECTM. 



Na Hist. Eccl. de 'Braga, por D. Rodrigo da Cunha (vol. II, 
pag. i3i), lê se o seguinte a propósito de ter sido sepultado n'esta 
capella o famigerado alcaide-mór de Coimbra D. Martim de Frei- 
tas, fallecido em Braga quando se dirigia a Compostella: «Jazia 
na capella de S. Geraldo, um pouco afastado da sepultura do 
santo, dentro na parede d'aquelle mesmo lado. Tinha a pedra que 
fechava o seu moimento três flores de lis. Mudaram-se os seus 
ossos, quando em tempo do arcebispo D. Frei Agostinho de Cas- 
tro a capella se azulejou, pêra outra sepultura posta no chão ao 
pé da antiga». 

Ao centro, próximo do altar, vê-se a sepultura rasa do Arce- 
bispo D. Rodrigo de Moura Telles, e na sacristia um bello quadro 
em tela, com o retrato do alludido Prelado ao centro, e em volta 



- 9 2- 

cTelle entre flores, os desenhos de quantas egrejas, conventos e 
demais edifícios mandou construir e restaurar: São os seguin- 
tes : Egreja de Santa Quitéria, convento de S. Bento de Vianna, 
Sanctuario da Senhora da Apparecida, Paço de Braga, Egreja dos 
Terceiros, Penha de França, S. Vicente, Bom Jesus de Fão, con- 
vento de Barcellos, Aljube de Braga, S. Sebastião, Santa Alaria 
Magdalena, convento dos Remédios, Chafariz do Paço, Guada- 
lupe, convento de Chaves,, aljube de Valença, Hospital de Braga, 
Congregados, aljube da Torre. Ao fundo do quadro: — D. Rodri- 
go M. Telles Ar. de B. Prim. das Hesp., premeditando grandezas 
eguaes ao seu animo, illustra o Arcebispado com sumptuosos edi- 
fícios para sua memoria e funda em 1723 n'esta Cathedral a ir- 
mandade das Almas, de que foi juiz perpetuo. 

D. Rodrigo exigia que a imagem do santo do seu nome fosse 
sempre collocada nas egrejas ou capellas que construía. 

Das paredes interiores da capella pendem oito grandes qua- 
dros a óleo allusivos á vida de S. Geraldo, todos com a rubrica 
egeas que de certo nada tem com o pintor inglez egg (i8i6-63). 
O maior, que representa os últimos paroxysmos do Santo, tem 
ao fundo estes dizeres: 

S. GERALDVS 1ND1E SVI OB1TVS ROGANDO 

DIXIT EAMILLIARIBVS, ECAETERIS ADSTANTIBVS \ 

QVI DEVM D1LIIGVN/T, POTV, ET CIBO, ET LVXVR1A 

ABSTINERE PERENE. 

O numero de cónegos doesta Cathedral era de 34; presen- 
temente apenas conta 10. 

Ha na ca\a das ?niirsas uma simples cruz de madeira com de- 
senho a óleo, bastante correcto, representando Christo na agonia. 



- 93 - 




Capella de Nossa Senhora da Gloria (Braga) 



Contigua á capella de S. Geraldo existe esta que o Arcebispo 
D. Gonçalo Pereira fez construir em i33o, e juntamente o castello 
ameiado que lhe serve de sacristia, concluindo-se toda a obra a 
27 de abril de i334 no loca l que era occupado pelas Casas do 
Conselho, pertencentes á egreja de Braga. 

Instituiu-lhe então seis capellães obrigados a resar quotidiana- 
mente em coro o Officio Divino em favor do Papa João XXI, que 
lhe concedeu o breve para a fundação da capella; de el-rei D. 
Diniz e de seu filho D. Affonso III ; dos reis seus successores ; dos 
prelados que lhe succederem e de todos os seus parentes. 

Nas costas da capella de S. Geraldo, ainda se conservam es- 
tas duas lapides de jaspe com inscripções gravadas em caracteres 
gothicos. (Vide gravura a pag. g#). 



94 — 




KOGPraro 




\ 1/15^0; opurJsíjmpvjmio DIU Jlt . 

íutxwi. 
L 



O fundador entregou a administração da capella aos Deões da 
Sé, exigindo que fossem portuguezes de nascimento, bem como 
seus pães ; e em caso contrario que o encargo passasse para os 
Chantres. 




Tumulo de D. Gonçalo Pereira 



— cp — 

Em i336, dois annos depois da conclusão da capella, ordenou 
a construcçao do seu formoso tumulo ao centro, com a estatua 
jacente, de pontifical, pintando-se-lhe posteriormente em volta es- 
tes dizeres : 

FM MARÇO DE 1 537 ERA ADMINISTRADOR 
DA CAPEI LA O DEÃO D. CARI OS. 

Hoje, numa cinta de madeira, tem a inscripçao seguinte : 

i3 4 8 

AQUI JAZ O ARCEBISPO 1>. GONÇALO PER A AVO DO CONDE 
ESTABEL DE PORTUGAL D. NUNO ALVARES PEREIRA, DO 

QUAL PROCEDE O IMPERADOR CARLOS QUINTO, E EM 

TODOS OS REINOS DL CHR1STAONS DA EUROPA OU OS 

REIS, OU RAINHAS DELLES, OU AMBOS &. REFORMADA 

PELO DEÃO ADMINISTRADOR D. LUIZ NO ANNO DE 1789. 

Os modilhões da frente e do lado direito indicam que esta ca- 
pella teve alpendrada. 

A meio da vidraça que existe sobre a porta, conserva-se uni 
vidro antigo pintado a cores vivas representando a Virgem com o 
menino nos braços. Tem na parte inferior estes dizeres: tota 

PVLCR ES AMICA MEA. 

Este vidro precioso é bem digno de ser preservado por uma 
ç^rade de arame. 



9 6 




Collegiada de Guimarães 



No primeiro quartel do século x (armo de 929) a Condessa D. 
Mumadona Didaz e seu marido D. Hermenegildo Gonçalves Men- 
des, Conde de Tuy e do. Porto e governador da Província de 



— 97 — 

Entre Douro e Minho fundaram na quinta de Vimaranes, patro- 
nímico do nome Guimarães, um templo que dedicaram á Virgem, 
ao Salvador do Mundo e aos Apóstolos. Viuvando a Condessa, fez 
logo construir junto do templo um mosteiro benedictino duplex 
com o rim de terminar alli os poucos dias que lhe restavam de vida. 
O infante Ranemiro concedeu-lhe a permissão e oífereceu-lhe a 
quinta de Creximir (Creixomil), na era de ncccc2xnn (anno de 926). 

Das palavras da doação do castello de S. Mamede, que a Con- 
dessa fez construir em 9Õ7, ao seu mosteiro duplex «para defen- 
são dos frades e das freiras», em data de 4 de dezembro da 
era de 1006 (anno de 968), mostra-se que a egreja de Nossa 
Senhora da Oliveira está realmente situada na sobredita quinta 
de Vimaranes a pouca distancia do Monte Latito sobre que as- 
senta o referido castello: «Quorum baselica sita est in iam dca 
villa Vimaranes território urbis Bracharae aud procul ab alpe 
latito, inter bis alveis vehementibus Ave, «Sc Avizella.» 

Em virtude da prohibição de S. Gregório Papa sobre a habi- 
tação de frades e freiras no mesmo mosteiro (Iam nullo loco Mo- 
nachos permitimus in uno Monasterio habitare, sed nec ca, quac 
duplicia sunt : et si quid tale est ?~eligiosus Episcopus mulieres in 
suo loco manere stuaeat, Monachos autem aliud Monastenum edi- 
jicare), foram ellas retiradas em 1089. Em 1 io3 o Conde D. Hen- 
rique organizou a Collegiada dando-lhe o titulo de capella-real. 

A actual egreja foi construída no mesmo local da primitiva a 
expensas de el-rei D. João I em memoria da batalha de Aljubar- 
rota (14 de agosto de i385), sendo encarregado da obra o mestre 
pedreiro e vedor, que havia sido, das obras de el-rei D. Fernando, 
João Garcia, de Toledo, que lhe deu principio a 6 de maio de 
i38y, concluindo-a em i3c>3 (?), como se lê na seguinte lapide de 
mármore embebida na frente da egreja, ao lado esquerdo da porta 
principal : 

L— ERA DE MILICCCCEXXV ANOS; SF.IS DIAS \ DO' 
MES; DE; MAYO • FOI COMECCADA- ESTA; OBRA • 
2— POR; MANDADO : DELREY ■ DOM ÍOHÃO \ DADO ; PELA 
GRAÇA'. DE> DEOS AESTE REINO DE; PORTVGAL 
3- FILHO DO MVY. : NOBRE ) REYi DON PEDRO \ DE. : POR 
TVGALi ESTE BO REY ; DON IOHAN \ OVE \ BATALHA 

4- REYAL : IX CANPO; CO ELREY ■ DOX IOHÃO DE 
CASTELLA NOS CAMPOS; DE- ALIVBAROTA j I. FOY • 
5- DELA VENCEDOR : \\ A HONRA DA VICTORIA; QVE 
LHE DEV A VIRGE S MARIA MANDOV FAZER ESTA j 
6- OBRA ; DA OVAL FOY MEESTRE ; POR SEV MANDADO; 
IOHAN GARC. : ; MESTRE; EN PEDRARIA; I; FOY • 
7— ACABADA; ; ; ; 3 DIAS DO MES DE; ; ; ; ; ; • I PA DF • 
MIL : ICCCC3 I : •' •' •' WOS ' • : 



- 9 8- 

Esta inscripção é hoje pela primeira vez publicada na integra '. 

As copias conhecidas são imperfeitas como a que o Cabido de 
1608 mandou gravar em granito, um pouco acima da primitiva, 
que se acha bastante gasta do tempo e de tal modo mutilada na 
extremidade inferior que já hoje é inteiramente impossível conhe- 
cer-se ao certo o anno e o mez da conclusão da obra em que se 
empregaram 100 homens castelhanos que el-rei fez prisioneiros. O 
altar-mór foi sagrado a 23 de janeiro de 1400. 

No primeiro degrau da porta principal collocou-se, em i5 de 
julho de 1891, uma lamina quadrilatera de metal amarello com as 
seguintes lettras e algarismos : 

N P 

79 

«Nivelamento de precisão, placa 79 em numero». Ordenara 
esta collocação um emissário do governo que foi a Guimarães em 
serviço da commissao geodésica, demorando-se alli 2 dias para o 
alludido fim. 

A porta de pau-ferro, que era pintada de verde, foi raspada e 
envernizada em março do anno corrente, mostrando no alto em 
lettras e algarismos de metal amarello a seguinte data : anno 1727. 

Da elegante janella gothica, rasgada sobre esta porta e hoje 
inutilisada por enchimento grosseiro de granito, resta ainda a mol- 
dura vasada em pedra de Ançã e profusamente ornada de festões, 
baldaquinos, estatuetas e bustos em duas ordens. Na primeira, 
principiando pelo lado direito, ha seis bustos, cada um com seu 
livro aberto, lendo-se no do frade dominico em caracteres eguaes 
aos da inscripção em mármore : 

SANTA .... DEEV PREDJCAMVS 

No livro segundo: — santvs:santvs:santvs:dominvs 
No livro terceiro: — santvs:santvs:santvs:dnsdevs 
Nos livros quarto e quinto : — santvs:santvs:santvs:dominvs 
No livro sexto (frade franciscano) : — sante:francisce:vidi:domi 
nvm:in:lino -f- 

Na segunda ordem tem seis estatuetas, uma das quaes susten- 
ta nas mãos uma fita com estas palavras da saudação : — ave gpa- 

T1A PLENA DOMINVS TECVM. 



1 Illescas, no livro 5.° da sua Hist. cTEl-rei D. Affonso 6.°, cita uma escri- 
ptura de Pombeiro em que se mostra que D. Affonso, sogro do Conde D. Hen- 
rique, viveu por algum tempo junto do Mosteiro de Guimarães. 



— 99 — 

Esta janella tem a toda a largura, voltada para o interior da egre- 
ja, uma grande estatua jacente esculpturada em pedra de Ançã, 
com barba comprida e gorro na cabeça que recosta na mão esquer- 
da sobre dupla almofada onde ainda se lê em pequenos caracte- 
res gothicos:. . . .eivs acendet et reqvie (sicj. 

Provavelmente esta estatua esteve voltada para a rua, antes do 
bárbaro enchimento da janella, pertencendo á arvore de Jessé que 
com seus ramos formasse o caixilho da vidraça. Ficava assim per- 
feitamente de harmonia com o estylo do terceiro período ogival 
ou gothico flammejante. 

Que bello effeito produziria uma restauração n^ste sentido ! 

E' notável o silencio que a este respeito guardam todos os his- 
toriadores da Collegiada, principalmente o cónego Gaspar Estaco 
(iÔ25); e os padres Torquato d' Azevedo (1692) e António Carva- 
lho da Costa (1706). 

Na frente da pedra sobre que se acha estendida a estatua res- 
tam ainda estas lettras : 



PO GO DA S1LVH. . . 

Pertencem ao nome do D. Prior D. Diogo Lobo da Silveira, 
fallecido em 1666, o qual provavelmente ordenou a pintura e dou- 
ramento da estatua e columnas das humbreiras da janella quan- 
do, um anno antes da sua morte, mandou abrir dois dos quatro 
óculos do enchimento. 

A isto se refere do seguinte modo um inventario antigo exis- 
tente no archivo : 

«Fizeram-se duas frestas no coro de cima, ovadas com suas 
vidraças. Fizeram-se mais duas na capella mór. . . e nestas qua- 
tro se pozeram grades de ferro e vidraças e se pozeram mais vi- 
draças em outras. . . e redes de arame em todas por conta de Gon- 
çalo Francisco Infanção e sua mulher Ignez Dias Villas, morado- 
res na sua quinta da Porcarice, que mandou fazer o D. Prior 
D. Diogo da Silveira no mez de março e maio de i665». 

A desastradíssima obra do enchimento da janella estava por- 
tanto concluída anteriormente a i6()5 e abriram-lhe depois três 
óculos por ser insufficiente o maior que fica ao centro a fornecer 
luz ao orgao construído em 1838-41, como se lê dentro do respe- 
ctivo someiro do lado esquerdo : 

FEITO POR LUIS ANTÓNIO I>E CAR 

VALHO GU1MARAENS, NATURAL DLS 

TA VILA NO ANNO 

DE 1838 



IOO 



Na tampa do mesmo 



A HONRA E GLORIA DE DEOS E SUA 

MAY MARIA SS."' a FOI MANDADO ACABAR 

ESTE ORGÂO POR ORDEM DO ILL.' 110 R. mo CA 

BIDO DESTA VILLA. 

POR IOSÉ ANTÓNIO DA CRUZ, EM 7 DE 

SETEMBRO ANNO DE 1 84 1 

Dentro do someiro do lado direito : 

FOI REFORMADA TODA ESTA IGREIA 

E FEITO ESTE ÓRGÃO POR ORDEM DO 

ILL." 10 E R. mn CABBIDO DE N. S. DA OH 



VEIRA, DEBAIXO DA INSPECÀO DO 

ILL." 10 CÓNEGO IOÃO BA.PTISTA SAMPAIO 

NO ANNO DE 1 838 

Na tampa do mesmo : 

A HONRA E GLORIA DE SANTA MARIA 

DA OLIVEIRA FOI MANDADO ACABAR 

ESTE ORGÁO POR ORDEM DO ILL." 10 E R." 1 " 

CABIDO DESTA V. A POR IOZE ANT.° DA 

CRUZ ANNO DE I 84 l . 

A primeira e terceira d'estas inscripções referem-se á constru- 
cção do órgão pelo vimaranense Luiz António de Carvalho Gui- 
marães em 1 838 e á condemnavel reforma da egreja, iniciada em 
14 de junho de i83o, da qual também nos ficou a pilastra e capi- 
tel Jónico no cunhal esquerdo da fachada ! 

O tecto d'esta egreja Collegiada era todo de vigas bem lavra- 
das. Hoje está estucado e os capiteis das naves desfeitos a picão 
como os da Cathedral de Braga ! 

A segunda e quarta dizem que 1 1 annos depois foi concluído 
o órgão por José António da Cruz, official do já então fallecido 
Carvalho Guimarães. Junto da porta lateral norte existe um tumulo 
de granito com esta inscripção em caracteres ligados : 

Aqvi iaz Ignes de GvimarÃes m bk , do L do , I0Á0 de Valladares 

BISNETA DE MARTINHO DE GeS F°, DE DOM FERNANDO DA GvER 

RA BISNETO DEL REY D. P.° O CRV ; E DA S RA , DONA IGNES DE CASTRO 

E VALLADARES. MORREO A 8 DE SETEMBRO l634 

No painel do altar de Santa Anna lê-se o seguinte psalmo : 

VENTVROSO AQVELI.E QVE ESPERA 
DE VOS O SEO SOCCORRO 



lOI 

No do altar da Virgem da Conceição : 

CYNODÒ 

CELEBRADO NA SANTA SÉ DE BRAGA 
14 DE 1VNHO DE IÓ46 

Evidentemente está errada esta data, porque o Synodo foi ce- 
Iebrado em i(536 pelo Arcebispo D. Sebastião de Mattos de Noro- 
nha que occupou a cadeira bracarense desde 5 de setembro do 
referido anno (dia em que tomou posse) até 1641 em que falleceu 
prisioneiro na torre de S. Julião, reconhecendo n'aquella hora ex- 
trema o crime que praticara de traição á pátria e pedindo por 
isso que o seu corpo fosse sepultado em campa rasa no adro de 
qualquer egreja «para que não ficasse memoria do que tinha sido». 

Neste Synodo foi dado o juramento seguinte : 

«Promettemos e juramos, todos os que n^este Synodo estamos 
congregados, em nossos nomes e de nossos successores, de sem- 
pre termos e guardarmos, e defendermos, que a Virgem Maria 
Nossa Senhora foi concebida sem macula de peccado original, na 
forma das Constituições e Breves Apostólicos passados sobre esta 
matéria». 

Os dois altares restantes são dedicados ao Espirito Santo e a 
S. Nicolau, e, por uma rubrica que se lê na margem inferior d'este 
ultimo painel, foram pintados em 1848 pelo fallecido lente da aca- 
demia de bellas-artes, de Lisboa, sr. Joaquim Raphael. 

No friso do arco da antiga capella de S. Nicolau acha-se gra- 
vado o seguinte : 

ESTA CAPELLA MANDARÃO FAZER OS ESTVDANIES 
DESTA VILLA NO ANNO 1)0 SENHOR DE 1 663 

E toda abobadada de pedra, apainelada, e não tem culto des- 
de que construíram na sua frente o altar da mesma invocação. 

A capella-mór, que na reedificação da egreja ficara acanhadís- 
sima, foi ampliada, tanto quanto o espaço o permittia, por ordem 
do príncipe D. Pedro (depois rei D. Pedro II) que para esse fim 
concedera, aos 6 dias d'outubro de 1677, as sobras da nova contri- 
buição. Esta obra ficou concluída em 1682 '. 

Por occasião dessa reforma desappareceu uma pedra sepul- 
chral que estava debaixo do degrau da porta da sacristia, e na 
qual se lia o seguinte : 



1 Padre Caldas, Girimirães, pag. iS. 



— 102 — 

AQUI [AZ PÊRO 
AFFONSO 

DE GVIMARAES E 

ABBADE DE SAM 

GONSALO DE AMARANTE * 



A segunda linha pode ser completada com a palavra cónego, 
porque os houve na Collegiada beneficiados que ao mesmo tem 
po tinham abbadias, como se deprehende de uma notificação dos 
Estatutos de 1405. 

No alto da tribuna venera-se a devota imagem da Virgem da 
Oliveira que se representa de mãos postas. A coroa de uso é de 
prata dourada e foi feita no anno de 1 563, data que se lê num 
dos seus arcos. 

Acha se actualmente no museu esta antiquíssima esculptura a 
que el-rei D. João I recorria nos transes mais difriceis do seu reinado : 

Os sábios e o caruncho tém- 
lhe feito estragos ; aquelles esca- 
racando-a para se averiguar a 
qualidade da madeira, o que não 
puderam conseguir até hoje, e 
este roendo-a grandemente pela 
parte posterior. 

E 1 ponto averiguado que nos 
primeiros tempos christaos as 
imagens da Virgem eram de pre- 
ferencia esculpturadas em pau de 
pereira, symbolo da fecundidade. 
O saudoso padre Caldas 2 pergun- 
ta se esta imagem será a mesma 
que a Condessa D. Mumadona e 
seu marido o Conde D. Hermene- 
gildo Mendes retiraram da Mes- 
quita de Ceres (posteriormente 
capella de S. Thiago hoje extin- 
cta) para a collocarem no altar 
maior do templo que fundaram. 
Não deixa de ter logar esta per- 
*fc ' gunta, embora seja forçoso acre- 
ditar-se que, em tal caso, a es- 
culptura não se conservou ate 
agora isenta de retoques. 





s ~ li 






'Sip-^y -^^^ ■'' m , 



1 Gaspar Estaco, pag. i3o. 

2 Guimarães, vol. II, pag. i3. 



IOO — 

Os revolucionários de 170/2 queimaram em Chartres uma an- 
tiquíssima imagem da Virgem que se venerava com romarias e pro- 
messas abundantes na Sé Cathedral d'aquella cidade franceza, e 
a qual se representava assentada numa cadeira, tendo sobre os 
joelhos o menino Jesus que amparava com as mãos. Media 4 pal- 
mos de altura e, pela sua muita antiguidade, o povo chamava-lhe 
a Virgem dos Druidas. 

A velhíssima imagem da Collegiada vimaranense mede exacta- 
mente os 4 palmos de altura (o™, 88) e conserva ainda vestígios 
da posição da de Chartres. O vestido é coberto de panno bem 
collado e com p 1 'ritura antiga em ramagem. Ora sendo, como 
creio, do mesmo pau de pereira esta esculptura, e attendendo ás 
demais circumstancias que exponho, não se poderá duvidar da 
sua origem remota e de que fosse esta a esculptura aproveitada 
por D. Mumadona e marido. 

Existe na tribuna uma pequena caixa de madeira, forrada de 
veludo, sobre a qual é collocada a custodia em dias de exposição 
do Sacramento. Foi exteriormente enriquecida de grossos arabes- 
cos de ouro. Dentro lê-se em caracteres miúdos: 

ANNO 

1662 
PRODE GES 

D D° 
LOBO 

Fez-se no anno de 1ÓÕ2 sendo D. Prior de Guimarães D. Diogo 
Lobo da Silveira. 

Havia rfesta Collegiada 28 cónegos que, como os de Braga, 
usavam solideo. Tinham além disso o titulo de capellães reaes, 
que ainda agora usam. 

Sobre a porta do palácio do priorado encontra-se o seguinte 
brazão dos D. Priores : (Vide granira a pag. 104). 



104 — 




DE O HONORE 



i5 7 6 

Certamente a data allude á collocaçao das armas por honra 
a Deus, e não á construcção do espaçoso edificio que parece 
mais antigo, talvez o mesmo que serviu de aposentadoria a el-rei 
D. João I, quando este monarcha, auxiliado por Affonso Lourenço 
de Carvalho, tomou a então villa de Guimarães a Aires Guedes 
da Silva que a defendia em favor de Castella. 

Por honra de Deus ! dizem as palavras latinas gravadas sob o 
brazao dos Dom Priores de Guimarães, divisa assaz parecida com 
a dos padres da Companhia de Jesus — Ad majorem Dei glo- 
riam — (para maior gloria de Deus). 

Por honra a Deus! diria em iooi o Conde D. Henrique de- 
pois de apresentar n'esta Collegiada Insigne o seu primeiro Prior 
Dom Pedro, predecessor do doutor Pedro Amaral ou Amarello, 
físico mór de el-rei D. Affonso Henriques aperfeiçoador da Colle- 
giada, e ultimo Abbade dos antigos monges com quem ainda con- 
tinuou a viver em rigorosa clausura. 

Por honra a Deus ! repetirão ainda os que não desconhecem 
que desempenharam este cargo altamente honroso muitos sábios 
illustres e nobres distinctissimos, entre os quaes 2 príncipes da 
casa de Bragança; e que d^lli chegaram a sahir 1 Pontífice, 
3 Cardeaes, 9 Arcebispos e 18 Bispos, motivo seguro por que os 
Dom Priores de Guimarães mereceram a classificação de primei- 
ras pessoas do reino. 

Apresentavam in solidwn um grande numero de egrejas e 
eram emfim considerados Bispos d'esta pequena Diocese, por se 
isentar da jurisdicção Archiepiscopal, tornando-se immediata á 
Santa Sé Apostólica, a sua Insigne e Real Collegiada. 



10D 

Assim o indica a seguinte concordata celebrada em 1216 por 
intermédio dos Arcediagos de Çamora e Astorga, aos quaes Inno- 
cencio III commetteu o encargo de apaziguar o Arcebispo de 
Braga Dom Estevão Soares da Silva, concordata confirmada por 
Honório III e, trese annos depois, em 1229, pelo Cardeal Sabi- 
nense, legado a laíere, determinando- se : 

«Que os priores fossem prelados ordinários, da egreja de Gui- 
marães, e tivessem jurisdicção nos beneficiados e clérigos delia, 
como a teem os bispos e somente reconhecessem os arcebispos 
de Braga como metropolitanos; mas que não podessem os priores 
conhecer dos casos, que por direito merecessem deposição ou sus- 
pensão perpetua - , e que emtudo o mais fossem os priores como 
bispos sutfraganeos, tendo nos seus cónegos e porcionarios, aquella 
jurisdicção que qualquer bispo tem nos seus e na sua diocese». 

O Cardeal infante D. Henrique foi quem primeiro violou 
este accordo na parte referente á visitação, seguindo-se em i35o 
D. fr. Balthazar Limpo que entrou á força na egreja arrombando 
as portas e o sacrário ! 

Reorganisando-se em 8 de janeiro de 1891 a Collegiada de Gui- 
marães que, como todas as do reino, havia sido extincta, foi pro- 
vido no logar de Dom Prior o sr. Dom José cTAndrade Sequeira, 
fallecido em 1894, substituindo-o em 20 de junho de 1895, o actual 
sr. Dom Manuel d" Albuquerque, ao qual foi conferida a posse no 
dia 28 de setembro immediato. 

E' o primeiro do nome e, como supponho, o sexagesimo- 
quinto da serie. 

No florescente museu da Collegiada guarda-se uma lapide de 
pedra de Ançã que o antiquário sr. João Lopes de Faria ulti- 
mamente encontrou numa loja escura do claustro. E 1 toda orna- 
mentada em volta e tem no alto as armas de D. João I e da 
rainha D. Filippa. Os caracteres da inscripção, ainda inédita, são 
gothicos miúdos como os da lapide da frente da egreja. Mede o, 5 2 
em quadrado e é esta a copia fiel: 

-[-era de miliccccxxxix anos*; 

xxiii imas do mes de ianero • dia 

santo ylefonso; foy sagrada esta i 

gresa; por mandado do mvy nobr 

1-: ri-:y don iohan de portvgalj e dam 

vy nobre raynhaj dona felipa sva mv 

lher filha del dvq dl' lencastre! i sag 

roa o bispo do porto don iohan dazanb 

v.1a- esta obra fez iohan garcia mêstr1 



Refere-se ú sagração da egreja, pelo Bispo do Porto D. João 
d' Azambuja, aos 23 de janeiro de 1401. 

Fica ao fundo da nave da Epistola a capella do Sacramento. 
instituída pelo cónego Gonçalo Eanes, com seu custoso e elegante 
sacrário de prata lavrada. Nas portas apresenta em primoroso re- 
levo as duas passagens bíblicas: — O maná do deserto e a Pará- 
bola das bodas; e além disso os seguintes textos de S. Lucas e 
do Êxodo gravados em caracteres miúdos : 

EGO PLVAM VOlílS PANES DE CCTO (sic) 
l XOD IK • 
BEATVS ovi MANDVCAVIT PANEM 
IN lv 1 GNO hl I • LVC. 14. 
[STE EST PANIS o\ l \l DOMINVS DEDIT 
VOBIS Ah VESCENDVM- EXOD. XVI. 
MANHV QVIT ESI llo<: 
EXOD. XVI. 
Homo QVIDAM FECIT CAENAM MAGNAM 
& VOCAVIT MVLTOS, ET MISIT SERVVM 
SWM \ r VENIRENT S- LVC. XIV. 
EXICITO' IN IMA I IAS ET PAVPERES ■ 
AC DEBILES II CUCOS [NTRODVC IIIC 

i.uc. 14. 

VXOREM DVXIT ET tDEO NON POSSVM 

VENIRE ■ LVC. 14. 

VILLAM EMI, ET NECESSE HABEO 

EXIRE, ET VIDERE II.I.AM- LVC. 14. 

JVGA liov.M EMI, ET HO PROBARE III. A 

ROGO I K HABE ME ESCVSATVM ■ LVC. 14 

O altar tem um 1'rontal de prata ricamente ornamentado, e os 
seguintes textos gravados, allusivos á Eucharistia: 

ACCIlTIli- ET' CO OVI ENIM' MAN 

MEDITTÈ- IIOC EST DVCAT ■ ET- BIBIT« IN 

CORPVS- MEVM • DIGNE* [VDICIVM ■ SI 

MA IH. 26 Hl • MANDVCAT 

CORINTH. II 



IIIC EST PA PROBET- AVTEM 

NIS- DE GELO D SE- IPSVM- HOMO 

ESCENDENS* ET- SIC- DE PANE- M.o 

JOAN. C. 6 EDAT- AD CORINT. I. 1. 

AN NO 1735 

Dispendeu-se com o sacrário e frontal a quantia de 1:476^002 



— 107 — 



reis. As mezas de 170D e [706 destinavam as sobras da festa para 
se dar principio ao frontal, pois o sacrário era então de madeira 
prateada; por fim resolveram applical-as a este, dando-lhe logo 
principio, e mandaram também fazer um prato e um jarro do 
mesmo metal. Em 1708 levantou-se a quantia de 8<j~õ<o réis para 
pagamento de obras etíectuadas na capella e sacristia, reservan- 
do-se nesse anno a primeira verba para se fazer o frontal. 

No anno immediato, sendo juiz Luiz Pimenta de Távora e Le- 
mos, applicou-se á construecão do sacrário a quantia de 100-000 
réis. Km 25 de maio de 1711 foi adjudicada a obra ao ourives 
Hieronymo Lopes Moreira, sendo depois este substituído por 
Francisco Cardoso de Macedo em 7 de julho de 1720. O sacrário 
era encimado por uma esculptura de prata representando Christo 
resuscitado, a qual em 1788 foi substituída pela actual custodia 
radeada. Da obra do frontal encarregou-se, em maio de 1 73r, o 
ourives João Pereira Ribeiro ; não cumprindo porém a promessa 
que fizera de o concluir até á véspera do Natal, nem ainda até \o 
de agosto do anno immediato, a meza encarregou da conclusão o 
artista Francisco Teixeira. 

Km 1686 construiu-sc 
na sacristia uma pequena 
capella interiormente azu- 
lejada na qual é muito ve- 
nerado o verdadeiro retra- 
to da Virgem, conduzido 
de Roma para aqui por 
I). Payo Domingues D. 
Prior de Guimarães e Deão 
de Kvora, nos fins do sé- 
culo xiii. Este D. Payo de- 
terminou ao seu procura- 
dor num pergaminho es- 
cripto em Coimbra a 14 
de março de 1 296 (secundo 
idus maii era mcccxxxiiij, 
que desse 4 soldos da moe- 
da velha { a cada cónego 
que no dia de paschoa can- 
tasse deante do mesmo re- 
trato a antiphona Regina 
Coeli c a Salve Regina; 2 
soldos a cada sacerdote; um a cada diácono ou sub-diacono, e 
seis dinheiros (65 réis ':) a todo o mechanico. 




* Sendo de ouro valia cada um ?:o réis ; e de prata 10 réis. 



— io8 — 

A tradição diz-nos que este retrato é copia fiel do que se ve- 
nera na egreja de Santa Maria Maior, em Roma, 1 pintado por S. 
Lucas ; e na verdade essa tradição é bem acceita por todas as 
pessoas que conhecem o original e o nosso. 

Lê-se ao fundo da tela : — ora pro nolis. s. maria. 

Na mesma sacristia guarda-se uma caixa de madeira contendo 
o santo sudário. Na face interior da tampa tem esta inscripção : 

I-ESTA CAIXA E SANTO SUDAIRO MANDOV 

FAZER DOM DIOGO LOBO DA SILVEIRA EMDIG 

2-NO PRIOR DESTA REAL GOLLEGIADA DE NOSSA 

SR. a DA OLIVEIRA ANNO DL 1664. 

Também aqui esteve o antigo e precioso thesouro com estes 
dizeres nas portas : 

PVLCHRA VT LVNA — ELECTA VT SOL 

Hoje todos esses objectos constituem o núcleo do florescente 
museu de archeologia christã, fundado numa das salas da casa ca- 
pitular, por deliberação do illustrado Cabido, que em 22 de de- 
zembro de i8q8 reunira para este fim sob a presidência do sr. 
cónego dr. António Júlio de Miranda, encarregando de todo esse 
trabalho o então Thezoureiro-mór sr. cónego Alberto da Silva 
Vasconcellos, que no dia 6 de janeiro do anno immediato, auxi- 
liado pela dedicação enthusiastica do antiquário João Lopes de 
Faria, removeu para alli todos os objectos de valor, dispondo-os 
com a melhor ordem possível. Descreverei aqui os principaes, 
transcrevendo parte do que a este respeito publiquei no «Echo de 
Guimarães», semanário vimaranense de que era redactor habilis- 
simo o meu particular amigo padre Gaspar da Costa Roriz -. 



1 Esta egreja foi primeiramente denominada basílica Liberiana. pelo nome 
do Papa que a consagrou ; depois Santa Maria Maior por ser o principal san- 
ctuario da Virgem ; de Nossa Senhora das Neves pelo milagre da sua origem 
no meado do século ív ; Santa Maria do Presepe, por se trasladar de Bethlem 
para aquelle sitio o presepe em que nasceu Jesus. 

2 O primeiro numero d'este excellente jornal publicou-se em 3i de de- 
zembro de 1899. 



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Triptyco ou oratório de prata dourada 



E' este um dos mais preciosos monumentos que figuraram na 
exposição retrospectiva de arte ornamental, de Lisboa, e em cujo 
catalogo foi assim descripto : «Triptyco de prata dourada de es- 
tylo gothico. Altura i m ,35". Largura i m ,23. Na parte principal a 
Virgem num leito, tendo junto, sobre a roupa que a cobre o Me- 
nino Jesus. Próximo do leito S. José. 

Em plano superior as cabeças dos animaes do presepe e dois 
anjos com thuribulos. Cobrem o leito quatro arcos ogivaes ; junto 
delles estão cinco anjos empunhando brandões, debaixo de balda - 
quinos. Elevam-se sobre os arcos quatro corpos architectonicos 
fenetrados. Do alto de cada um dos lateraes debruça-se um anjo 
sustentando um escudo com o brazão das armas reaes portugue- 
zas. As outras partes do triptyco tem cada uma quatro nichos oc- 
cupados por estatuetas, que representam a Annunciação, e Visi- 
tação de Santa Izabel, Apresentação, Adoração dos Pastores e 
Adoração dos Reis. Fins do século xiv ou princípios do século xv.» 

Alguns dos nossos escriptores como o P. Torquato de Aze- 
vedo, P. António Carvalho, Vilhena Barbosa, Oliveira Martins e 



1 IO — 



outros, dizem que este oratório ou triptyco, proveio do saque das 
tendas do rei de Castella na memorável batalha de Aljubarrota, 
ofterecendo-o o nosso rei D. João I á Virgem da Oliveira quando 
aqui veio a pé agradecer-lhe a intercessão no vencimento da allu- 
dida batalha. Oliveira Martins, na Vida de Nuri alvares, accres- 
centa que do referido saque recebeu mais o nosso monarcha os 
balsões e bandeiras de Castella, uma Bíblia que foi para o coro 
de Alcobaça, um relicário precioso e o próprio sceptro Caste- 
lhano de crystal engastado em ouro com lavores delicadíssimos, 
que Nun' alvares deu para o convento do Carmo, por elle fundado 
em Lisboa. Gaspar Estaco (Varias Ant. de Porl., pag. jyy, cap. 
481-1625), que foi cónego da Insigne e Real Collegiada e que deu 
publicidade ao seu trabalho primeiro que nenhum dos outros, af- 
firma que «o retavolo de prata do presépio de Christo nosso Se- 
nhor, q nos dias solemnes se põe no altar maior», foi feito da 
prata que el-rei D. João I offereceu, producto do seu peso quando, 
como diz o livro dos milagres, veio a pé dar graças á Senhora da 
Oliveira, entrando na sua egreja e dizendo: «Sr. ;i eu confesso e 
quero que todos saibam, q eu por vossa virtude somente venci 
esta batalha, e que no ponto e hora em que estava pêra nella en- 
trar dei hum grande espirro, o qual houve e tomei por mui grande 
agouro, pelo qual cessei por entonces hum pedaço de mover pêra 
ella, no qual espaço me deitei de bruços e non sei se dormindo, 
se acordado, porê posto en mui grande pensamento e agonia vi 
en visam aquesta vossa casa tal quejandahagora vejo, com aquesta 
oliveira, e veiome ao entendimento que eu por exemplo do pri- 
meiro Rei me devia encomendar a vos e haver por tomadas as 
minhas armas da vossa mam, pelo qual eu logo votei e prometti 
de fazer o que hagora faço dizendovos en minha oraçam, Eu vos 
peço Sr. a de grande mercê assi como vos ao ditto Rei dom Af- 
fonso fostes principio daqueste reino, seiaís a mi vosso devoto de- 
fenson d' elle. E entonces lhe mandou pôr as dittas armas encima 
do seu altar dizendo, Vós Sr. ;i mas destes, vós as tomai e guardai». 
A opinião de Gaspar Estaco foi reproduzida em 1731-82 pelo 
Académico José Soares da Silva nas Memorias para a historia de 
Portugal, e tem a corroboral-a o Inventario feito em 1 527 onde 
se lê textualmente : «Hum retabollo de prata dourada q deu elrey 
Dom Joham da boa memorya quando venceu a batalha Reall e 
veio visitar nossa Sr.' 1 a q se encomendou na dita batalha o qll 
en chygando aa dita Igia armado de todas armas como elle an- 
dava na dita batalha e có a lança e laudell o qll está aquy e 
aquy o deixou por devaçam de nossa Sr. a se pesou apta da qll 
pta se fez o dito retabollo e dose appllos e quatr. a0 anjos de pta 
e quatro septros e hua caldeyra co seu essope e hum tbollo com 
sua naveta a qll pta toda q se aquy nomea afora o retabollo, le- 



— 1 1 1 — 

vou jelrei Dom A." pa Castella e o dito retabollo foy remydo pr 
ceys centos cruzados segundo se verá pilo est q lia envia ho ar- 
cecl. a sua senhorya, q dizem a villa e termo pagou este dn.°, 
etc». 

O Arcediago era então Pêro Machado, vigário e provisor do 
Dom Priorado, e Dom Prior Sebastião Lopes. A falta de docu- 
mentos coevos não auctorisa ninguém a resolver a questão. 

É digno de ponderação este Inventario antigo, visío ser feito 
numa epocha em que a batalha de Aljubarrota não contava ainda 
mais de 142 annos. 

E' verdade que um objecto como o tryptico, em forma de pe- 
queno e pobríssimo armário de madeira sem ornatos exteriores e 
com argolas de ferro para facilitar a remoção, não indica, a meu 
ver, seguramente, que tenha sido feito para ser exposto numa 
cgreja ampla, em determinados dias, como de antigo costume, a 
8 de setembro e 25 de dezembro de cada anno. Será por isso mais 
acceitavel a opinião dos que o julgam tomado a D. João I de Cas- 
tella, n^quelles tempos em que as grandes victorias se alcança- 
vam com uma fé viva na protecção do céo ? 

Que duvida ? Assim como D. João de Portugal se apresentava 
de cruz vermelha sobre o peito com escudos de S. Jorge, e o Con- 
destavel de estandarte representando em todo o campo o Christo, 
S. João, Santa Maria, S. Jorge e S. Thiago •, o moço rei Caste- 
lhano, que na occasião da batalha tanto necessitava dos desvellos 
da sciencia medica, poderia ter feito transportar para a sua tenda 
o alludido altar, a fim de melhor se encommendar a Deus e en- 
corajar a sua gente que, no ardor da batalha, ao grito continuo 
de — Portugal e S. Jorge!, teria de oppor o de — Castella e S. 
S. Thiago ! O próprio Estaco, descrevendo os ornamentos e peças 
de prata offerecidos á Virgem da Oliveira por D. João I de Por- 
tugal, diz : «hum anjo grande dourado que está en geolhos, de 
vinte, e hum marcos, que foi tomado na batalha, e fora da capella 
dei Rei de Castella.» 

O que não offerece duvida é que este rico objecto, ou a prata 
de que se fez, foi offerta de D. João I de Portugal, como o indi- 
cam as suas armas nas extremidades superiores. Pesa este orató- 
rio 7 arrobas e 23 arráteis, e foi concertado, limpo, dourado e es- 
maltado, por dois italianos que appareceram em Guimarães no verão 
de 1798. dispendendo-se com esse trabalho a verba de 5o:ooo réis. 
As portas são exteriormente pintadas, representando no alto dois 
anjos com uma fita em que se lê : gloria in excelsis deo ; e ao 
fundo algumas ovelhas e quatro pastores, um dos quaes toca uma 
gaita de fólle. Ordenou esta pintura o cardeal infante D. Henri- 
que, Arcebispo de Braga, na visita de 9 de outubro de 1 5 3 7 ^ pelas 
palavras seguintes: «...e mandaraam pintar as portas do reta- 



— 112 — 

bollo de prata da parte de fora, de boa pintura, o que compri- 
raam até páscoa de resurreiçam sob pena de quatro cruzados.» 
O Cabido ligou pouca importância ao caso, tendo de soffrer 
nova ordem na visita de 12 de setembro do anno immediato. 

CRUZ PROCESSIONAL GRANDE 

(Vide gravura da pagina seguinte.) 

E' toda de prata, estylo gothico, obra executada a buril. Offe- 
receu-a o cónego Gonçalo Eannes depois de 1227, visto não exis- 
tir ainda então descripta no Inventario, e antes do fim de 1540. 
pois o seu testamento foi aberto no dia 28 de setembro d^ste an- 
no «em sua casa onde jazia morto». 

Do Inventario de i63i consta que «esta obra se acabou de fa- 
zer com mais sessenta mil réis que a fabrica deu para esse fim.» 
Desconhece-se, infelizmente, o nome do artífice e a sua naturalida- 
de ou residência. O que fica demonstrado é que a cruz não foi 
unicamente feita a expensas do cónego oíferente, como todos os 
historiadores nos dizem. Este facto deverá ser attribuido á sua 
morte occorrida quando a obra se achava ainda em via de con- 
clusão. 

Também esta cruz foi concertada, limpa, e dourada em parte 
pelos dois alludidos italianos, dispendendo-se com esse trabalho a 
verba de 7.7*200 réis. O douramento do rosto e mãos das esta- 
tuetas desappareceu quando em 1880 se mandou limpar a cruz. 

Antigamente sahia nas procissões da camará e agora apenas 
apparece na do Corpus Christi. Acha-se assim descripta no cata- 
logo da exposição de Lisboa : 

«Cruz processional de prata. Altura i'",55. Largura na base 
0,46. A base, cuja forma é a de uma pyramide hexagona, assenta 
sobre uma columna adornada no pedestal com carrancas, no fuste 
com festões e cabeças de anjos, no capitel. A parte inferior da 
base é distribuída em seis secções adornadas com tropheus, ara- 
bescos e chimeras. O corpo da base tem três ordens de nichos, 
sendo os da primeira e terceira ordem encimados por baldaqui- 
nos e separados por feixes de pilares com estatuetas e baldaqui- 
nos na parte inferior e terminados por coruchéus. Os nichos, com 
a forma de concha na sua parte superior, contém baixo-relevos. 
que representam passos da vida de Christo, a Virgem e os Evan- 
gelistas. De cada lado, na parte inferior, destaca-se um nicho maior, 
com as estatuas de Moisés e de David. Exteriormente muitas ou- 
tras estatuetas e arcarias adornam o corpo da base. A columna e 
as diíferentes faces do corpo da base são do estylo do renasci- 
mento. As arcarias, pilares e baldaquinos, que são um como re- 




Cruz processional grande 



— 114 — 

vestimento, téem o estylo gothico. A haste e os braços, remata- 
dos em rosáceas, terminam á maneira de flores de liz, e são co 
bertos de cabeças, bustos e outros ornatos de estylo da renascen 
ca. A figura de Christo é de prata dourada. O reverso é similhan 
temente ornamentado. Século xví». 

Não se encontra em todo o paiz outro exemplar egual. A junta 
de parochia de Montelavar e a confraria do Sacramento em Bel 
las, possuem cada uma a sua cruz processional de prata, de egual 
estylo, mas de inferior trabalho e dimensões. A que mais se appro 
xima d'esta é a da Sé do Funchal que ainda assim mede menos, 
o m ,36 de altura. 

Outra «cruz processional de prata, estylo gothico, muito co- 
berta de ramos de carvalho e cujas extremidades terminam em 
flor de liz. Servem lhe de base dois castellos sobrepostos, dos quaes 
o primeiro é guarnecido de pilastras terminadas em coruchéus. 
Altura o m ,82. Século xv». 

Esta cruz pertenceu á antiga confraria da egreja de S. Miguel 
do Castello (vulgo Santa Margarida) e diz-se que no tempo da in- 
vasão franceza fora escondida numa caixa entre o centeio d'um 
campo. 

O cónego José Martins Gonçalves que por occasião da referi- 
da invasão era abbade de S. Miguel do Castello, entregou-a por 
escriptura publica feita na nota do D. Priorado em 24 de outubro 
de 1818, ao abbade seu successor João Machado de Araújo Amo- 
roza, declarando que a conservara sempre em seu poder desde a 
referida época. Tem de pezo nove marcos com cinco onças e meia. 

Sendo annexada a freguezia de S. Miguel do Castello á Colle- 
giada em 16 de dezembro de 1872, a cruz foi alli recolhida segui- 
damente á publicação da portaria do Arcebispo de Braga. El-rcio 
sr. D. Fernando, assaz perito nestas questões de arte, manifestou 
o seu alto apreço por esta cruz que tem no reverso gravada a fi- 
gura do Padre Eterno, acompanhada da legenda: — deo patff 

ONIPOTENT (SIC). 



n5 




É de estylo gothico, esta cruz, composta de duas faces ligadas 
por levíssimo rendilhado, tendo em toda a volta e pelo centro uma 
ornamentação simples mas bastante vistosa e apreciável. Mede de 
alto o ra ,88 e peza trinta e seis marcos. Do douramento apenas res- 
tam alguns vestígios. A base é hexagona formada por dois corpos 
sobrepostos, em arcos ogivaes, separados por pilastras. Ao centro 
por traz da imagem de Christo, tem um baixo relevo que repre- 
senta a prisão ; um pouco acima a imagem da Virgem da Concei- 
ção ; nos braços dois escudos, e quasi ao fundo a Virgem da 
Espectação. Por sobre a cabeça de Christo tem a seguinte inscri- 
pção em caracteres gothicos : 

jesus :nas are 
nus:judeorum 



Ao centro do reverso tem gravada a imagem do Padre Eterno 



— u6 — 

com os emblemas dos quatro evangelistas •, no alto o Pelicano ; 
nos braços os mesmos dois escudos do anverso e em baixo o La 
zaro (?) saindo do tumulo. 

Esta cruz foi limpa, concertada e dourada no anno económico 
de 1881-82 dispendendo-se com o seu trabalho 129.^830 réis. O 
cónego José Bento Ribeiro Agra encarregou-se de ordenar a com 
postura que foi confiada ao ourives José de Sousa Dias. 

Cabe a este a gloria de deslocar algumas peças, substituir in- 
habilmente outras que faltavam, e a pregagem, que era de prata, 
por belmazes amarellos ou pequenas tachas de pregar cintas de 



soccos ! 



CUSTODIA DE PRATA DOURADA 



Depois da grande cruz processional é este um dos mais apre- 
ciáveis objectos do recente museu da Collegiada. Tem no catalo- 
go a seguinte descripção : 

«Altura o m ,8o. A parte superior é formada por uma arcaria go- 
thica dividida por quatro feixes de pilares, formando baldaquinos, 
sob os quaes estão as estatuetas dos quatro Evangelistas. Remata 
esta parte uma cimeira do mesmo estylo, sobre a qual se vê o 
fragmento de uma cruz. A parte média contém o ediculo, rendi- 
lhado por fora, e por dentro, na face anterior, ornado com cabe- 
ças de seraphins. A face posterior é rendilhada exterior e interior- 
mente. Aos lados dois grandes feixes de pilares com quatro bal- 
daquinos e três estatuetas dabaixo de cada um, rematados por ci- 
meiras do mesmo estylo, e ligados á parte superior e á parte 
inferior por ornatos. A base da parte média é dividida em quatro 
taboleiros, e cercada por um acroterio rendilhado. A face inferior 
é dividida por seis gomos com ornatos similhantes. Na peripheria 
da base elevam-se quatro anjos tocando instrumentos, os quaes 
se firmam sobre pendores com tintinabulos, bem como os feixes 
de pilares. Falta um d'estes tintinabulos. A parte inferior termina 
por uma aba hexagona, sustentada em quatro ornatos, á maneira 
de misulas, e com a seguinte inscripçao na face superior : 

esta costodia foi acabada 
na era de 1:5:3:4- 

O nó consta de arcarias formando baldaquinos, dois dos quaes 
abrigam estatuetas de santos. Na parte superior ha um annel he- 
xágono com vestígios de esmaltes. Da parte inferior pendem três 
pingentes e falta um quarto. O nó descança sobre seis dragões, si- 
milhantes ao do cálix. A base é distribuída em oito gomos, cujas 
superfícies são ornadas com figuras de santos. 

Nos intervallos, losangos esmaltados. A peripheria rendilhada. 



— ii7 



A base descança sobre um emmolduramento, contornado por uni 
festão de louro, e sustentado por três animaes de phantasia, fal- 
tando um quarto, e sobre garras apoiadas em espheras. Século 

XVI.» 

A pequena cruz da cimeira existe exposta numa vitrine com 
os demais objectos do museu. Ao grande feixe de pilares do lado 
esquerdo da face posterior falta uma estatueta, e ao do lado di- 
reito da parte anterior, outra. A base não é, como se diz, distri- 
buída em oito gomos mas em quatro, com o mesmo numero de 
figuras de santos nas superfícies e os dizeres seguintes: s elisabet 

— S PETRVS — S IOANES — O MATER DEI MEM. 

Esta custodia peza vinte e cinco marcos e meio e foi oliere- 
•cida pelo cónego Gonçalo Eannes, o mesmo que oífereceu a cruz 
grande. A tradição diz-nos que esta obra foi executada pelo grande 
vimaranense Gil Vicente. 

Em tal caso occorre perguntar se a cruz processional também 
será obra do mesmo glorioso filho de Guimarães. 

CÁLICE DAS CAMPAINHAS 

Este cálice de prata dourada, que tem de pezo oito marcos 
menos uma onça, foi offerecido pelo Chantre Fernando Alvarez, 
no século xvi. «Altura o m ,3i. Copa hemispherica, adornada com 
seis figuras de anjos que sustentam os emblemas da Paixão, e na 
parte inferior, com outros seis, sustentando outros tantos tintina- 
bulos. O nó adornado com arcarias gothicas, contendo as esta- 
tuetas de seis santos cobertos por baldaquinos. Baze dividida em 
•doze gomos, dos quaes os maiores têem em baixo-relevo figuras de 
santos: Nos seis gomos menores ha ornatos esmaltados. Entre a 
copa e o nó, e entre este e a baze, dois anneis com o mesmo género 
de esmalte. No bordo exterior da copa lê-se em caracteres gothi- 
cos: hic est cálix samgvinis mei novite (sic). Século xvi». E egual 
ao da Sé de Braga, feito em Roma, o que não admira, porque 
aquellle serviu de modelo a este. Mede menos de altura o m ,02, e 
deixa ver no interior da copa a martellagem do artifice. A patena 
tem no reverso um agnus esmaltado e no anverso a figura de 
Jesus Christo, egualmente esmaltada, em attitude de subir ao céu. 
c á roda: do vobis pacem relinco vo pacem meam. 

CÁLICE DE S. TORQUATO 

E assim denominado porque a tradição nos diz que appareceu 
na sepultura do glorioso martyr, junto do seu corpo que ainda 
se venera incorrupto a pequena distancia de Guimarães, e que o 
referido santo celebrava missa com elle! 



— n8 — 

E de prata dourada e esmaltada. «Altura o m ,22. Copa lisa e 
pyramidal. Nó hexágono, ornado de ramagens e esmaltes. Base 
também hexagona, dividida em gomos e com seis esmaltes nos 
ângulos reintrantes. Uns e outros esmaltes representam bustos de 
santos. A patena tem no centro um esmalte que representa o Pa- 
dre Eterno. Século xm». 

Muito semelhante a este ha outro que pertence á irmandade 
das almas, da freguezia de Santa Marinha da Costa, como logo 
se verá. 

# 

Um relicário de prata dourada, em que se guarda o tornozello 
de S. Torquato. Na frente lê-se esta inscripção: 

d dioq iobo da silvr * indigno prior 

desta real coleqiada de n sr f 
d"liveira dev esta costodia anno 1664 

Do lado opposto : 

esta relíqvia he de s- torcato disi 

pvlo de samtiaqo apostolo çvio 

corpo se achov inteiro-)- 

Quando em 1637 se dirigiram á freguezia de S. Torquato o 
doutor Ruy Gomes Golias, mestre-eschola da Collegiada, e outros 
capitulares, com o fim louvável de mandarem restaurar o tumulo 
do santo, aquelle mestre-eschola extrahiu parte do calcanhar di- 
reito do bemaventurado martyr, trazendo para a capella da sua 
casa da rua das Lamellas aquella veneranda relíquia. Surprehen- 
dido pela morte a 29 de março de 1649, ter >do completado 20 an- 
nos do seu mestre-escholado que principiou a exercer em 7 de 
abril de 1629 por ter permutado com o seu antecessor a abbadia 
de Villa Nova de Sande, não pôde ordenar que depois do seu fal- 
lecimento a referida reliquia fosse entregue a quem mais cuida- 
dosamente a venerasse. Decorridos i3 annos constara ao activís- 
simo D. Prior d'esse tempo D. Diogo Lobo da Silveira, que existia 
essa reliquia em poder de Ignez de Guimarães, Catharina Golias, 
e Luiza de Guimarães, sobrinhas do fallecido Ruy Golias, e con- 
seguiu que aquellas senhoras a cedessem sendo trasladada festi- 
vamente da capella do Menino Jesus, da casa das Lamellas (hoje 
Tribunal) para a egreja da Collegiada no dia 21 de dezembro 
de 1662. Assim se conservou durante 2 annos, findos os quaes o 
mesmo D. Prior lhe mandou fazer á sua custa o relicário allu- 
dido. 



— ii9 — 




Cofre de relíquias 

É de prata dourada e encerra numerosas relíquias encontradas 
em 1419 pelo D. Prior Luiz Vasques, dentro de uma caixa que 
estava no altar-mór. A tomar toda a frente e os lados, tem esta 
inscripção em caracteres gothicos ligados: 

ERA DE MIL E CCCCLVII ANNOS EN DIA DE 

S • MARIA DE MÇO LVIS VASQES POL DESTA 

IGIA FEZ ABRIR HVA ARCA QESTA' EN O ALTAR 

MOOR A QVAL NO SABIAN ABERTA DES MAMORIA 

DOS OMES E FORON EN ELA ACHADAS ESTAS RE 

FICAS PAR DA VESTEDVRA DE NOSO SENHOR 

[HV XP E PTE DE HV BEO DE SATÃ MARIA 

E DAS VESTEDVRAS DOS APÓSTOLOS E MAR 

TtS E DE OVTRAS RELIQIAS DE SANTOS 

E SANTAS OTRAS 



Leitura: — Na era de 1437 annos, em dia de Santa Maria de 
março, Luiz Vasques, Prior d'esta egreja, fez abrir uma arca que 
está no altar-mór, a qual não sabiam aberta desde a memoria dos 
homens, e foram n'ella achadas estas relíquias: — parte da vesti- 
dura de Nosso Senhor Jesus Christo e parte de um véo de Santa 



— 120 — 

Maria e das vestiduras dos Apóstolos e maityres e de outras ich- 
quias de Santos e Santas outras. 
Sobre a tampa lê-se: 

AVTEM 

1HUS 

— Oito purificadores de prata que o cónego António de Sousa 
mandou fazer por conta da Fabrica no anno de i665. O primeiro 
tem esta inscripçáo em toda a volta: 

O CÓNEGO ANT" D SOVSA MANDOV FASER 
8 CASTISSA DESTE LOTE POR CONTA DA FABRICA 

Nos restantes sete : 

SOSA POR CONTA DA FABRICA- ANNO l665 

— Um jarro de prata e bacia do mesmo metal, com estes di- 
zeres ao centro : 

VT POTIAR PACIOR 

— Um cofre de prata que encerra o craneo de S. Rodrigo, e 
no qual está gravado: ano 1787. 

Antes d'este houve outro cofre de marfim e arame dourado, 
como se diz no inventario de 1D27: «Item outra arca de marfim 
chapeada de arame dourado, aonde está a cabeça de um santo 
que presta para mordeduras de cães damnados». 

O cónego prebendando Pedro de Mesquita deixou um livro 
manuscripto em que nos diz ter fallecido pelos annos de 1480 «um 
homem virtuoso» de Villa Cova. concelho de Felgueiras, e accres- 
centa que os devotos tiraram da sepultura a cabeça do morto «e 
a trouxeram a Guimarães a casa de um ourives chamado Pedro 
Alves, qie morava na rua sapateira, nas casas da esquina da 
travessa que vae para a cadèa da correição, o qual foi avô do 
cónego Manuel da Silva; e este tirou da cabeça os queixos de- 
baixo, e encastoados em prata á sua custa os deu aos que a trou- 
xeram, por lhe deixarem o resto da cabeei, o qual guardou em 
sua casa aonde os doentes (de mordeduras cie cães hydrophobos) 
a hiam tocar, e recebiam saúde; e por sua morte a mandou col- 
locar na egreja cie Nessa Senhora da Oliveira» *. 



# 



Junto da lapide da sagração, a que já fiz referencia, appare- 



Antiga Guimarães, pag. 210. 



— 121 — 

ceu outra sem ornatos que mede o ra ,44 em quadrado e que tem gra- 
vada esta inscripçao: 

ESTA CAPELA / MANDO 

V FAZER AFONSO ANDRÉ 

CONIGO/ DESTA IGREEA 

E ABADE DE SANGEES/a 

lovvor de santo andr 

e / e foi feita en a era de 

mil e qvatro centos 

e coreenta/e sete 

os/devs se ammercee- 

Leitura: — Esta capella mandou fazer Affonso André, cónego 
d'esta egreja e abbade de S. Gens, a louvor de Santo André; e 
foi leita na era de 1447 autios. Deus se amerceie d'elle. 

Sem duvida esta lapide refere-se á capella de Santo André, 
no claustro, visto não constar que em tempo algum existisse alli 
outra da mesma invocação. 



A esquerda de quem entra para o referido claustro, pela rua 
de Nossa Senhora da Guia, vê-se um tumulo aberto em arco na 
parede interior, com estes dizeres sobre a tampa : 

ESTE : HE : DE AFOM VIEIRA : E DE SVÁ : GERA 

Leitura: — Este fjaçigo) é de Affonso Meira e de sua geração. 

# 

A direita, e por sobre dois arcos egualmente com túmulos, 
está embebido na parede um brazão pintado a cores, tendo em 
volta este lettreiro gothico, em relevo, de leitura difficil: 

ESTA : OBRA : E DE GIL : LOVRENCO \ 
CAVALEIRO : CRIADO DELREI : DOM LHA 

Leitura: — Esta obra é de Gil Lourenço, cavalleiro creado de 
el-rei Dom João. 

Foi este Gil Lourenço de Miranda, alcaide-mór de Miranda 
do Douro, que aos 4 dagosto de 1430. instituiu o morgado de 
S. Miguel, em S. Clemente de Sande, com casas e torre entre 
as ruas do Ferreiro e das Flores, nascente e poente do campo 
da Misericórdia por isso que as referidas casas e torre ficavam 
ao centro, a defrontar com a egreia. 



122 



Caiu em ruinas aquelle grande edifício, e a sua pedra íoi ven - 
dida em 17 de janeiro de ió56 pela quantia de 140:000 réis, para 
a construcção do hospital da Misericórdia, hoje casa do despacho 
da mesma prestantissima instituição. 




Capella do Capitulo 



A porta desta capella antiquíssima, situada ao 1 Lindo do claus- 
tro, é de architectura romano-byzantina. 

Tem dos lados, duas grandes janellas do mesmo estylo tapadas 
a pedra e cal que vão em breve ser postas a descoberto. 



123 



A torre antiga foi demolida em idi5, dando principio á actual 
o doutor Pedro Esteves Cogominho, ouvidor das terras do Duque 
de Bragança, e sua esposa D. Izabel Pinheiro, filha de Tristão 
Gomes Pinheiro, que por ordem do Duque cercou Barcellos, os 
quaes apenas puderam fazer construir o primeiro terço em forma 
de capella abobadada de pedra com dois túmulos ao centro enci- 
mados pelas suas estatuas jacentes em tamanho natural, trajando 
ricos vestidos da epocha, tudo primorosamente esculpturado em 
pedra de Anca. 

O doutor Pedro Esteves, que em 1448 fundou em Barcellos a 
Casa-solar dos Pinheiros, era avô da ex. ma esposa do illustre ge- 
nealogista sr. José de Azevedo e Menezes, da Casa do VinhaL 

A' cabeceira dos túmulos ergue se um altar de granito fino onde 
se encontram gravadas as cruzes da sagraçao, e no qual se cele- 
brava missa aos domingos e dias santificados, podendo o publico 
assistir a cila do largo fronteiro por uma das duas janellas rendi- 
lhadas que fornecem luz á capella. A abobada, os túmulos e as 
paredes interiores, tudo está de tal modo salitrado, que dentro de 
breves annos nada existirá distinguivel. 

Por morte dos instituidores coube a administração d'esta ca- 
pella a seu filho o dr. Diogo Pinheiro, D. Prior de Guimarães desde 
i5o3, que lhe collocou na frente as armas da familia com esta 
inscripção gravada ao fundo em caracteres miúdos e já bastai. te 
apagados : 

r n ESTAS ARMA:. MADOV AQVI POR 

D. DIOGO PINHEIRO ADMI 
N1STRADOR DESTA CAPELLA 

O mesmo D. Diogo, que em 1 5 1 3 concluiu a obra da construc- 
ção da torre, íoi commendatario dos mosteiros de Carvoeiro, da 
Junqueira e de Castro de Avelans, Bispo do Funchal e Prelado 
do convento de Thomar onde falleceu em julho de 1 5 14, sendo 
sepultado na egreja de Santa Maria dos Olivaes. 

O sino de Nossa Senhora, que apenas se faz ouvir nos dias 
mais solemnes, foi alli collocado em 5 de dezembro de 1822, e 
peza 67 arrobas e 6 arráteis, na importância de réis 646:000. 

Entre as ameias da frente da torre construiu- se uma sineira 
elegante, sendo encarregado da obra o mestre pedreiro Manuel 
dos Santos, como o indica esta inscripção gravada no lado es- 
querdo : 

MANO 

f:l dvs (siç) 

SANTOS 
O MESTRF 



— 124 — 

Collocaram alli o sino do relógio que foi feito em 1744, sendo 
vereadores Luiz Pimenta e Gonçalo Peixoto. 

Ao lado direito, pendente dum arco de ferro, está o sino das 
meias horas com estes dizeres em volta : 



IHS MARIA .IOSFPH 

ANNO 1686 

HE DA GAMARA DESTA VILLA GES 

Esteve primitivamente no castello e dava signal para se fecha- 
rem á noite as portas da antiga villa. 

A vereação emprestou-o á irmandade de S. Torquato, poroc- 
casião da trasladação do Santo, a qual teve logar no dia 4 de ju- 
lho de i852. Quebrou então, e a irmandade ohrigou-se a mandar 
fundir este pela forma do quebrado, com todos os dizeres e ornatos. 

O PADRÃO 

Na faceta da frente da columna oitavada do cruzeiro gothico 
que se levanta sob a abobada do padrão de Nossa Senhora da 
Victoria, mondado construir no reinado de D Aífonso IV, em 
frente á porta principal da Collegiada, está embebida uma pequena 
lamina de bronvce com esta inscripção gravada cm caracteres 
gothicos miúdos: 

Leitura : — A' honra de D sus 
e de Santa Maria, e por esta 
villa mais honrada ser e o po- 
vo, fez fazer esta obra Pedro 
Esteves, de Guimarães, merca- 
dor morador em Lisboa, filho 
de Estevão Garcia e de Martha 
Peres, na era de i38o annos. 
aos 8 dias de setembro. 

















A AUNRA-f-D-|-DE v :5+ED-i- 


SCÁ -f MARIA+EPOR+ES 


TA+VII-A-f-MAIS-f-ONRA 


DA-|-SEER-r-EO 1'OBOO + F 


EZ-j-FAZER-fESTA-L-OBR 


A+1'ERESrEVEZ-t-D-fGV 


IMAKAAES— MERCADOR-f- 


MORADOR-|-EN-f LIXBOA 


FILHO-j-D-fSTEVÃ-j-GCl 


A-f E 1 > -j-MT A -f PEZ-|-NA-f-E 


-j-M-f-CCG-(-LXXX-|-ANOS-f- 


VlIl4-[>IAS-j-D-i-STENBRO 




-j-MLAFEX-f- 





As lettras da orla inferior 
indicam certamente o nome do 
auctor da obra : 

M. L. a fe\. 

Em quatro dos lados da co- 
lumna estão gravadas umas 
abreviaturas que representam 
os nomes dos pães e filho a 
que a inscripção allude, e ain- 
da de outro filho Gonçalo que 
foi encarregado de ir á Nor- 



— 125- 

mandia comprar a cruz. Estão abreviados do seguinte modo : 

g.° — p° — st — MT 
Leitura : — Gonçalo— Pêro— Estevão — Martha. 

Em volta da cruz encontram-se as estatuetas da Virgem, S. João 
Evangelista, S. Damazo, S. Torquato, Senhora do Rosário, o 
Apostolo S. Filippe e S. Gualter. 

Num dos quatro arcos ogivaes d'este padião fez-se de estuque, 
á altura dos capiteis das columnas, um pequeno oratório envidra- 
çado, com a imagem de Nossa Senhora da Victoria. Aos lados da 
referida imagem havia estas duas taboas com esculptura antiga^ 
em relevo, que actualmente existem expostas no museu : 




A primeira representa D. João I ajoelhado junto do padrão a 
agradecer á Virgem o vencimento da batalha de Aljubarrota; e a 
segunda o advogado Pedro de Oliva, que se propunha, como na 



— 125 — 

occasião dissera, destruir os privilégios do Cabido e dos seus ca- 
seiros, o qual caiu repentinamente «com a lingua fora da bocca, 
a fala perdida e o rosto disforme» aos pés dos cónegos Luiz Gon- 
çalves e Abbade de Freitas, que o reprehenderam em publico. 
Este Pedro de Oliva morreu horas depois, sendo sepultado na 
egreja de S. Francisco. Ao cabo de 33 annos, quando o corpo de 
sua mulher baixava á mesma campa, appareceu o cadáver incor- 
rupto, e foi então exposto ao exame do publico, encostando se á 
parede da egreja para de novo se lhe dar sepultura, juntamente 
com o de sua esposa. 

O cónego Gaspar Estaco encontrou em i6a5, no archivo da 
Collegiada, um pergaminho que reproduziu do modo seguinte nas 
suas Antiguidades, cap. 41, pag. ibb: «Senor. Aífonso Peres ta- 
balliam na vossa villa de Guimarães faço saber a v. m. q na era 
de M.CGG.LXXX annos, oito dias de setembro foi posta a cruz 
na flvaçaria de Guimarães, a a aduceu hi P." Steves nosso natu- 
ral, filho que foi de Stevo Garcia en outro têpo mercador de Gui 
marães, e a qual cruz G.° Steves irmam do ditto P.° Steves diz 
que foi vontade de Deus, que lhe deu a entender, que fosse a 
Normandia Anafrol, e que comprasse a ditta cruz, e a ducesse a 
este lugar de Guimarães hu está assentada a par da Oliveira, a 
qual oliveira quando esta cruz a par delia assentaron era seca, e 
da quel dia a três dias começou de reverdecer e deitar ramos, e 
eu A.° Peres taballiam esto escrevi». 

O documento transcripto refere-se á inscripção e mostra-nos 
que a cruz foi levantada no dia 8 de setembro de 1342. 

A palavra Alvaçaria, que os antigos e modernos historiadores 
da Collegiada não esclarecem, foi certamente mal copiada do per 
gaminho onde devia estar escripta com um c em logar de v~Al- 
caçaria, corrupção de Alcaíçaria, que os Árabes derivam de Cai- 
çar, (César), por crerem que este imperador foi quem primeiro 
mandou edificar no Oriente umas casas que por tal motivo assim 
se denominaram, e ás quaes deu a forma dos claustros dos nos- 
sos conventos, com bastantes lojas para os mercadores se reco- 
lherem. Estas casas tinham, para maior segurança dos recolhidos, 
uma única porta que estes fechavam á noite. 

Pêro Esteves era mercador natural de Guimarães ; a actual 
rua da Rainha, n'outro tempo dos mercadores, termina a poucos 
passos da cruz ; e el rei D. Manuel, em princípios do século xvi, 
faria surgir das ruinas d'aquelle velho edifício a alpendrada que 
mandou construir em toda a volta do largo onde se ergue o Pa- 
drão e a vasta egreja Collegiada, como ainda se pôde ver aos la- 
dos norte e sul, incluindo a casa do Senado, e como ha alguns 
annos egualmente se via na parte do poente. 

Por tudo isto sou levado a crer que no século xiv havia no 



— 127 — 

largo fronteiro á egreja da Collegiada uma Alcaçana, i. é. um 
edifício em que os commerciantes da villa se recolhiam. 

Normandia anafrol, é também um problema onomástico que 
me obrigou a empregar bons esforços para poder propor uma hy- 
pothese que se me affigura acceitavel. A' Normandia, uma das 36 
provincias da antiga divisão administrativa de França, pertence a 
considerável cidade de Honíieur (Huneflorium) que em princípios do 
século presente contava 8:600 habitantes '. A verdadeira pronun- 
cia d'este nome francez, pouco se approxima do Anafrol ; porém 
vertida em portuguez pelo Affonso Peres, taballiam, e ainda por 
outros do seu tempo, dá sem duvida o Anafrol do pergaminho : 
e em tal caso ficaremos sabendo que a belía cruz do padrão foi 
feita na referida cidade de Honjleur, pertencente á aha Normandia. 
Este padrão foi considerado monumento nacional de 2. a classe por 
decreto publicado no «Diário do Governo» n.°62, do anno de 1881. 

Parte do lado norte d'este largo é oceupado pelo curioso edi- 
fício da Camará, construído no século xvi sobre grandes arcos ogi 
vaes chanfrados que oíferecem livre transito para os lados da pra- 
ça de S. Thiago. 

No cunhal esquerdo tem uma inscripção lapidar como a d^ 
egreja de S. Miguel do Castello, de que já falei referente ao. voto 
de el-rei D. João IV. 

Em 2i de junho de 1877, collocou-se no alto da fachada a ele- 
gante estatua de granito representando Guimarães, apeada do en- 
tão arruinado edifício da Alfandega que logo principiou a ser 
demolido para em seu logar se construírem as casas que hoje afor- 
moseam a praça de D. Affonso Henriques. 



A Insigne e Real Collegiada de Nossa Senhora da Oliveira, 
extincta como todas as do reino, foi reorganisada por carta regia 
de 8 de janeiro de 1891, depois da competente auetorisação dada 
ao governo pela carta de lei de 14 de setembro de 1890, crean 
do-se junto d'ella um instituto de instrucção publica gratuita com 
a denominação, de Pequeno Seminário de Nossa Senhora da Oli- 
veira. Em 20 de fevereiro do mesmo anno foi aberto concurso 
para provimento dos logares de 10 collegiaes (7 cónegos e 3 be- 
neficiados) e do Dom Prior (presidente) os quaes foram providos 
no mesmo anno. Este primeiro Dom Prior, sr. D. José d'Andrade 
Sequeira, falleceu em dezembro de 1894, sendo substituído pelo 
actual sr. conselheiro D. Manuel d'Albuquerque, apresentado por 
decreto de 20 de junho da 1895, o qual tomou posse no dia 28 
de setembro do mesmo anno. 



' Dictionnaire Geographique, par Vosgien, pag. 290. 



— 128 — 

Por Provisão de 12 de novembro de 1891 foram dados á Col- 
legiada, pelo chorado Arcebispo D. António José de Freitas Ho- 
norato, os novos estatutos datados de 3o de setembro, e approva- 
dos pelo governo em 3o de outubro. Pelo decreto, hoje com força 
de lei, de 18 de abril de 1895, foi reduzida a côngrua do Dom Prior 
e supprimidos os dois logares de coadjutores otficiosos. 

O Pequeno Seminário foi organisado em Lyceu Nacional por 
decreto de 16 de setembro de i8qó. 

N'outro tempo esta Gollegiada compunha-se do D. Prior, Chan- 
tre, Thesoureiro-Mór, Mestre-Eschola, Arcediago de Sobradello, 
Arcipreste, Arcediago de Villa Cova, 14 cónegos prebendados, 
8 meios prebendados e 12 padres coreiros. 




Egreja de S. Pedro de Rates 

Não pertence ao concelho de Braga esta preciosa egreja, mas a sua 
historia está intimamente ligada á da nossa cathedral, por que se diz 
que S. Pedro de Rates foi o primeiro Bispo de Braga. Por isso 
D. fr. Balthazar Limpo ordenou em 1 552 a trasladação dos veneran- 
dos restos, até então guardados na egreja de que dou gravura, para 
a Sé onde se se conservam em capella da mesma invocação. 

Data do anno de 716 a fundação d'esta egreja. Destruída pe- 
los Árabes foi em noo reconstruída a expensas da rainha D. The 
reza que alli estabeleceu os monges da Caridade. 



— I2g — 

O actual edihcio deve pertencer, em grande parte, aquella 
epocha por ser exemplar precioso da architectura românica. 

Em í3i5, esta egreja, que, apezar de pequena, tem três naves, 
pertenceu aos cónegos Regrantes que tiveram alli o seu mosteiro. 

No adro ainda se conservam algumas sepulturas cavadas em 
grandes pedras. Por proposta minha, foi classificada monumento 
nacional em 1897. 




Egreja de Cerzedello (Guimarães) 



- 1 DO — 

A Ordem Militar dos Templários teve origem na Palestina, e 
crê-se que a sua fundação data de 1119 por ser este o anno em 
que principiou com votos. 

Em 11 28 recebeu a Regra que lhe foi dada pelo Papa Honó- 
rio II. Ao cabo de quasi dois séculos de existência terminou na 
França e, em virtude dos conhecidos Decretos Apostólicos, extin 
guiu se egualmente em Portugal no reinado de D. Diniz, sendo os 
seus bens encorporados na nova Ordem de Christo que o mesmo 
monarcha instituirá. 

A extincção da Ordem dos Templários foi publicada por Cle- 
mente V na segunda sessão do XV Concilio Geral Viennense que 
teve logar no dia 3 de abril de i3 1 2. 

Os Templários não haviam sido fieis ao juramento solemne 
com que prometteram perpetua fidelidade, sugeição, castidade, e 
obediência a Jesus Christo, ao Pontífice e ao Reverendo Mestre 
da Ordem. Aquelles que em Jerusalém pugnaram pela conquista 
da cidade e libertação do Santo Sepulchro, regressaram a Portu- 
gal com grandes conhecimentos das artes de Byzancio adquiridos 
na visita que fizeram aos monumentos da Grécia e principalmente 
da Ásia. Desde logo a architectura romana tomou uma feição in- 
teiramente nova, enriquecida pelos primores do estylo que ainda 
hoje podemos admirar-lhe. Urbano III, Gregório IX e Clemente IV 
permittiram que a Ordem mandasse edificar egrejas nos logares 
conquistados aos infiéis, declarando as isentas da Jurisdição Pre- 
laticia e immediatas á santa Sé Apostólica. 

A actual egreja parochial de Santa Christina de Cerzedcllo, no 
concelho de Guimarães, foi edificada pelos Templários em meado 
do século xii. Esta vasta egreja, de uma nave e sem transepto, 
mede exteriormente 34 metros de comprido e 7'", 78 de largo. 
No remate da fachada pousa uma pequena pedra em forma de 
palmatória tendo gravada ao centro a cruz octogona da Or 
dem, a qual nas quatro extremidades corta para dentro em semi- 
círculo. 

A porta principal, com a archivolta bellamente ornamentada, 
está para o Occidente como era de uso antigo entre os povos ca- 
tholicos e pagãos. 

Estes entravam no templo ficando voltados ao Oriente em ado- 
ração ao sol nascente ; e aquelles alludiam á posição de Jesus 
Christo quando expirou no Calvário. 

A cimalha, em volta do edifício, é de molduras simples, ornada 
de pérolas a espaços, e descança sobre grossos modilhões comple- 
tamente lizos. Ao lado esquerdo da fachada ergue-se, em forma 
de muralha forte, com dois campanários no alto, o origirialissimo 
torreão, genuína construcção da epocha. Não obstante ser coberta 
de madeira, tem a egreja contrafortes ou gigantes. 



3i - 




Lado sul da egreja de Cerzedello 



Próximo da capella-mór ha duas portas lateraes, vendo-se a do 
lado sul coberta por pequeno alpendre com as respectivas colum- 
nas encostadas a dois túmulos de pedra onde provavelmente des- 
cançam um ecclesiastico £ um guerreiro, visto haver no da es- 
querda uma espada gravada com um brazão ao lado, e o da di- 
reita estar collocado com a. cabeceira para fora. 

Numa das pedras da parede exterior norte, próximo da porta 
lateral e junto do friso que outr'ora pertenceu á alpendrada, estão 
cravadas as lettras : 

SES 

N NN 

D O 

Não pertencem á primitiva obra estes poucos caracteres nem 
tampouco podemos admittir que fossem gravados de lado como 
estão. A segunda e terceira linhas poderiam ser tomadas como 
abreviaturas das primeiras palavras da divisa dos Templários — 
Son nobis domine sed nomini tuo da gloriam. 

Transpondo a porta principal da egreja o visitante entra numa 
galilé curiosa que mede 9,53 de comprido por 5,67 de largo, com 
dois túmulos abertos em arco na parede e o pavimento coberto de 
sepulturas com grandes espadas toscamente gravadas sobre as 
tampas. Numa d'estas existe um swastica de crusamentos duplos, 
terminando em curvas, emblema funerário dos tempos do paga 
nismo. D'aqui passa-se ao corpo da egreja por um arco que mede 
na abertura apenas i ra ,97. 



- IJ2 -- 

Todas as janellas inclusive a que fica sobre a porta principal, 
conservam ainda a forma de setteiras. 

O arco da capella-mór mede 3,68 na abertura e descança em 
duas grossas columnas com os capiteis antigos. Por proposta mi- 
nha foi 'esta egreja considerada monumento nacional em dezem 
bro de 1897. 

EGREJA E HOSPITAL DE S. xMARCOS (BRAGA) 

(Vide gravura a pcg. i33) 

No largo dos Remédios, onde nos primórdios do século xn ha 
via uma pequena ermida e Albergaria adjunta com frente para les- 
te, construiu-se em meado do século xvm a actual egreja e am 
pliou-se o hospital que D. Diogo de Sousa reconstruíra em i5o8, 
unindo- lhe as gafarias de S. Lourenço, Santa Margarida, Lazaro^ 
íque estava onde hoja se vê a egreja parochial de S. José de 
S. Lazaro), a Albergaria da rua Nova de Sousa, e a Contraria 
de Roque Amador e do Corpo de Deus. 

A construcção do primitivo hospital de S. Marcos foi iniciada 
pelo cónego Diogo Gonçalves. O Arcebispo D. Fernando da 
Guerra, em seu testamento com data de 2 de setembro de 1467, 
deixou «aos doentes do Hospital de S. Marcos outras de\ Livras». 

Neste local existiu o convento dos Templários, extincto, como 
todos os da Ordem, no anno de i3i2. O Arcebispo de Braga 
D. Payo Mendes, conhecendo quão grandes eram os rendimentos 
da capella, deu no anno de 11 18 a sua administração em Com- 
menda a seu sobrinho D. Gualdim Paes, Mestre da Ordem em 
Portugal. Este D. Gualdim, filho de D. Payo Ramires e de 
D. Gontrode, nasceu em Amares, a 10 kilometros de Braga, no 
anno de 1 1 18, sendo armado cavalleiro no campo de Ourique, por 
el-rei D. Affonso Henriques, seu amigo, a 25 de julho de 1 i'òg. 

Numa apostilla do Concilio de Troya, celebrado a 14 de ja- 
neiro de 11 28, mostra-se que em 19 de abril do referido anno, 
Braga possuia a Ordem do Templo. Diz a apostilla: «Et hanc 
Cartam fílit roborata in manu D. Raymundi Bernardi in Civitate 
Bracara; tali modo, & tali pacto: ut, si illud Castellum ante morte 
nostra dederimus, nullis de nostris inimicis-in eo recipiant. Et si 
ibi intraverit, mittant eum forus: sic, qui nulla contraria inde nobis 
exeat». Este D. Raimundo Bernardo foi o II Mestre da Ordem. 

Com data de 1 1 52 existe em Thomar um documento no qual 
se declara que Ejeuva Aires e seus filhos venderam «vobis Jero 
solimitani Templi Militibus, Pelagio Gontimiris, & Martino Pe- 
lagii» uma Herdade que possuíam in Civitate Bracara, circa 
illum vestrúm puteum de Hospitali... Fada Carta II. K. Junii 
E.M.C.2X. E ainda em junho de 1148 o Mestre Gualdim Paes 



-i33 — 




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— 134 — 

se concordou com Godinho Godins acerca da herdade de Banca 
Mala, «sita na ribeira do Aliste, aítirmando o Mestre Guaidim, 
que ella sempre fora de Domo Templi, quae est in Bracharensis 
Civitate». O contendor termina d'este modo a doação: Ego Go 
dinus Godinis hoc scriptum tibi Fratri Johani, qui pr edictam Do 
mum Templi custodis, & regis, própria manu roboro». 

Era pois director e claviculano da Casa e Hospital de Braga 
o dito Frei João. 

O Arcebispo D. João Ovelheiro confirmou em agosto de 1 145 
este Hospital fundado e dotado pelo seu predecessor D. Payo, 
em beneficio dos pobres, e doou-lhe metade dos dizimos de todas 
as rendas. 

Em carta datada de 1 146 permitte e confirma D. Affonso Hen- 
riques a doação, e ordena que as fazendas e herdades com que 
D. Payo dotara o Hospital, e as quaes depois da sua morte os 
bracarenses usurparam, sejam restituídas na integra. 

A administração Camarária do Hospital terminou quando D. fr. 
Bartholomeu dos Martyres o entregou de vez á Misericórdia. 

As obras do actual edifício terminaram em 1780; e as da egre- 
ja, que já em i8o5 prestava a sua capella mór á celebração do 
culto, apenas se concluíram em i836, tudo dirigido e executado 
por José Fernandes da Graça (o Landim). Foi auctor do desenho 
e planta d'este vasto edifício o illustre bracarense (capitão de enge 
nheria) Carlos Amarante, parente do sr. dr. Carlos Braga. So 
bre o parapeito que serve de remate á frontaria assentam as 
grandes estatuas de granito representando S. Simão, S. Bartho- 
lomeu, S. Thiago Menor, S. João Evangelista, Santo André. 
S. Pedro, S. Paulo, S. Thiago Maior, S. Thomé, S. Pbilippe. 
S. Mathias e S. Lucas. Ao centro da fachada da egreja, que per- 
tence á architectura Compósita, ha num nicho bem lavrado a es- 
tatua do orago com esta inscripção por baixo: 

BEATUS JOANNES MARCUS ChRISTI ■ 

Domini Discípulos Anagrama Js • in 
Mundo pius • est Medicus • tuis incolis • bracara • 

A urna que encerra os ossos de S. João Marcos e que est> 
em arco aberto na parede do lado da epistola, na capella-mór. 
é de mármore com embutidos de varias cores, tendo na frente 
as insígnias prelaticias e os dizeres seguintes: 

sacra ossa 
divi joannis marci 

Ao centro da capella mór existe uma campa de mármore onde 
jaz o cónego João de Meira da Silva Carrilho, que em 2 de ou- 
tubro de 1682 instituiu capella e coro com 6 capellães na ante- 



-i35- 

nor egreja do Hospital, denominada do Espirito Santo. Tem esta 
inscripção: 



s:bioaobverjuahr 

\LHOCONEGOqF0IMAS 7r 

"MSSAW0 0DSATOOFF? 

EDABVlírADACRVZAM 
FALECE0EM25BJ/W? 
&.l<ffrfr.téSTDlMM 
OFF?TODOS0SAN0S. 



, 



Ha também na varanda do Hospital uma grande lapide com esta 
inscripção: 



E^MZAPERAOICONVAtCENTF! 
GMTOBAFAMQNEfcAESTAEASIM 



^ZAPWENWMAO.FAZERTV 
&ASVA(vSTA.TEDRÔB^VIARÍ(lMIIÍftR 
■&S!mOESW^MEIItKÉI\l!M 
WSTD BRfSO NSMS.^tlS.SENTOSMIL R c l S 

| P*SE &RtWMW0SRENI!W<l T rSEB5'PEIIEr 
'NAFORMADMDOIOMMHWlSA 



p» ' ■ ' — ■ .. .... ntgf 



LSTAVtDWVSUPRA tSTfNA NA C 
WS/ALEt tNC, I A , AWTIGDAE FOI TRE 

SíffcDADMESTEUJCARNOANNO 

mm. 



— 136 — 

A casa da Convalecença, como se lê no meu livro InscripçÕes 
e Lettretros, pag. 108, foi fundada por Pedro Aguiar, sirgueiro, 
familiar do Santo Officio, morador no Rexio do Castello, por doa- 
ção e contracto exarado nas notas do tabelliao geral de Braga e 
seu termo, Matheus Gonçalves, aos n de fevereiro de 1648. 

Sob a arcaria do claustro ha, sobre uma fonte, estes dizeres : 

O 1LI.M. SENHOR D. RODRIGO DE 

MOVRA TELLES ARC.° PRIMAZ FEZ 

MERCÊ DESTA AGOA AOS 25 

DE MAIO I723 

A pouca distancia d'esta fonte conserva-se embebida na pare- 
de uma lapide romana funerária que pertenceu á sepultura de 
Heleno, servo de Talavo, de 3o annos de edade. Diz assim : 

HELENVS 
TALA VI 

SER 

ANNORV 

M.XXX 

H.S.E 

Ao lado d'esta existiu outra, egualmente funerária, de Amaranto, 
filho de Senecião. Dizia: 

AMARANTVS SENECIONIS 
H.S.E 

Foram ambas encontradas nas escavações feitas para se assen- 
tarem os alicerces do Hospital. 

Quando mais tarde, em i835, se abriram os alicerces para a 
nova enfermaria, oppareceram também estas duas lapides que se 
acham embebidas na frente do edifício: 

iovi . o . M 

PROSALVTE 
hEBVRRVS CAMAL TRIARIMAG 

AV...S...NVS LEG.1VR.C V 

XXX ET . PROCVLAE . VX 

EIVS.AEMII .CRÉS 
CENS . COMES . V . S . L . M . 

Encostada á parede exterior do lado esquerdo deste vasto edi- 
fício vê-se a capella de S. Bento, construída a expensas dos devo- 



-i3 7 - 

tos por intervenção da Meza administradora da Misericórdia que 
para este fim dirigiu ao Arcebispo D. José de Bragança uma pe- 
tição em que se lê: «Diz o provedor e irmãos do serviço da meza 
da Misericórdia, que vários devotos com suas offertas e esmollas, 
querem fazer um nixo á emitação das capellas dos Passos e nel- 
les collocar a pintura de S. Bento, que existe na parede detrás 
do Hospital para se louvar a imagem tão milagrosa; e como na- 
quelle sitio de trás do Hospital ha um claro e nelle um cruzeiro 
antigo, querem neste mesmo sitio encostado ás paredes fazer o 
tal nixo ou capella, pondo o cruzeiro mais á ilharga, cinco ou seis 
palmos». 

A capella construiu-se realmente e foi benzida por provisão 
do Arcebispo no anno de 1755. A obra de pedreiro importou em 
256:3q6 réis que com a de carpinteiro, pintor, ferreiro e caiador 
prefez o total de 487:116. Importou em 34:3 15 a grade da porta, 
e em 4:800 a imagem de S. Bento que está num nicho sobre a 
mesma porta. 

Que destino levaria o cruzeiro e a milagrosa pintura de S. 
Bento ? E' certo que com esse descaminho não decresceu a devo- 
ção popular, pois o S. Bento moderno recebe annualmente milha- 
res de ovos numa caixa de madeira que está dentro da capella 
com dois tubos de ferro que vêem á grade recebel-os. 

Utilíssima devoção esta de oíferecer ovos ao S. Bento do Hos- 
pital para se occorrer ás necessidades dos seus doentes ! 

Aos bons officios do meu presado amigo sr. Sebastião M. An- 
tunes da Silva Monteiro, illustrado ofiicial da secretaria do Hospi- 
tal, devo, alem d'outros obzequios, a seguinte nota dos ovos offe- 
recidos a S. Bento durante os últimos oito annos: 



Anno económico Numero de ovos 

1891-92 8:644 

1892-93 10:590 

1893-94 10:490 

1894-95 11:730 

1895-96 14:254 

1896-97 12:354 

1897-98 12:368 

1898-99 10:094 

Com justificado motivo o povo, na sua phrase humorística, vae 
chamando ao S. Bento do Hospital a melhor gallinha dos pobres! 

Fica a poucos passos de distancia a quinta do Fojacal, onde 
em novembro de 1750 appareceu uma pequena talha lavrada con- 
tendo mais. de mil moedas wisigothicas. 



i3S 



SYNCHRONISMOS DOS SÉCULOS XI E XII 

Das Cruzadas e das Ordens Religiosas foram, com rasão, de- 
nominados estes séculos. Eram então frequentes as reuniões dos 
Concílios, e as suas resoluções contribuiram efficazmente para o 
bem estar geral. 

Alguns sacerdotes, despresando a prohibicão decretada no an- 
no de 387, contrahiam matrimonio ; e o concubinato chegou a 
attingir taes proporções que os meios de repressão mais enérgica 
eram muitas vezes de effeito negativo. Procurou-se a extincçáo 
d'esse escândalo na declaração terminante de não poderem ser 
admittidos a ordens sacras os filhos dos ecclesiasticos. 

Os Bispos, reconhecendo a insuficiência das Tréguas de Deus 
para a consecução da paz, da moderação do vicio e do respeito 
aos actos do culto, ordenaram a suspensão das armas determinan- 
do «que desde a quarta-feira á tarde até segunda de manhã, em 
todas as semanas, ninguém atacasse o seu inimigo, nem exerci- 
tasse violência ou hostilidade alguma, e que os que violassem 
este regulamento, sendo reputados como incursos na pena de 
morte, pagariam uma multa em comrrutação d'esta pena, ou se- 
riam excommungados ou banidos». 

No Concilio Romauum, celebrado a 18 de janeiro de io5o„ foi 
coroado o Papa Nicolau II, fazendo a ceremonia o Arcebispo Hil- 
debrando que poz sobre a cabeça do Papa uma coroa real com a 
inscripção seguinte no circulo inferior : 

CORONA REGNI DE MANV DEI. 

No immediato : diadema imperii de manv petri. 

Não nos diz a Historia que outro Papa fosse coroado anterior- 
mente a este, podendo por isso acreditar-se que de todos fosse elle 
o primeiro. 

A tiara é a insígnia do poder temporal dos Papas iniciado com 
as doações territoriaes de Spoleto, Ravennas e Pentapola. Pio VI 
possuía quatro de que Bonaparte se apoderou. Annos depois Na- 
poleão I offereceu a Pio VII algumas pedrarias para uma tiara 
nova. 

Mr. Eugénio Muntz, depois de consultar inventários e manda- 



— i3g — 

dos de pagamento existentes nos archivos secretos do Vaticano, 
diz-nos que a tiara foi a principio cónica, depois tumescida pelo 
meio e, finalmente, quebrada no alto, onde poisava uma pedra pre- 
ciosa formando um globo em que se erguia uma cruz. Modificou-se 
quando o papado se estabeleceu em Avignon, substituindo-lhe os 
motivos gothicos pelos romanos. As três coroas sobrepostas fo- 
ram-lhe applicadas sob o pontificado de Bento XII (i338-i342). 

Gregório VII (1073 85) reservou para os Pontífices de Roma o 
nome de Papa que todos os Bispos usavam. 

No Concilio Barcinonense (1068) tratou-se da substituição do 
rito gothico pelo romano, ficando o assumpto para ser estudado no 
Concilio Burgense (em Castella-a-Velha) no anno de 1080, onde 
definitivamente el-rei D. Aífonso VI ordenou a adopção do rito ro 
mano em toda a Hespanha. 

Não sendo porém geralmente bem recebido este decreto, pro- 
poz-se a decisão por meio de um duello, pelejando um cavalleiro 
a favor do rito gothico e outro a favor do romano. Venceu o go- 
thico ; mas o rei fez prevalecer a sua vontade ! ! 

Em 1072 decretou se que todos os presbyteros ministrassem o 
baptismo em jejum, salvo em caso de necessidade, e prohibiu-se- 
lhes que conservassem por mais de 8 dias as partículas e a agua 
benta. 

O uso de queijo e ovos na quaresma íoi prohibido em io85 
pelo Concilio Quintiliburgense ; e em 1090 inventou Pedro Ere- 
mita os rosários. Não obstante, porém, conta a Chronica Sera- 
phica que a matriarcha Santa Clara resava por pedrinhas. 

Durante este século decorriam por vezes tumultuosos os Con- 
cílios, prendendo-se agora um Bispo, logo um Pontífice em plena 
assembleia, só porque era costume, na discussão de casos graves, 
dizer todas as verdades. Para pôr cobro a desmandos e irreve- 
rências resolveu-se que as relíquias dos santos mais notáveis es- 
tivessem alli presentes, sendo processionalmente conduzidas e 
acompanhadas por innumeras pessoas cantando Psalmos, Hymnos 
e Ladainhas. O clero ás vezes não queria restituil-as e os donos 
dispunham-se a tomal-as de assalto quando regressavam do Con 
cílio ás egrejas, travando-se por isso desordens sanguinolentas cm- 
quanto os clérigos e os monges as dividiam entre si, desappare- 
cendo em seguida. 

O motivo de muitos indivíduos do referido século procurarem 
obter de Deus perdão para os peccados e remédio para os soffn- 
mentos physicos, vivendo em continua romaria ás sepulturas dos 
santos, era o desejo de fugirem ás responsabilidades sociaes da 
epocha e de se entregarem ao ócio e á curiosidade, pretextando 
uma piedade irrequieta e falsa, a propósito da primeira expedição 
dos Cruzados á Terra Santa. 



— J4-0 — 

Os cenobitas solitários, arroteando matagaes incultos onde vi- 
viam, por assim dizer, entre feras, prestavam á sociedade altíssi- 
mos benefícios temporaes, porque os seus humildes cenóbios fo- 
ram d'esse modo mais tarde convertidos em povoações importan- 
tes. Esta circumstancia é bem digna de ponderação para que se 
reconheça ao menos este importante serviço dos humildes reli- 
giosos. 

Os leigos conscienciosos, usurpadores dos bens das egrejas, 
temiam tanto as penas que os Concílios comminavam contra elles, 
que se apressavam a restituil-os doando-os aos Mosteiros. Os Bis- 
pos não viam com bons olhos este systema de restituições, mas os 
monges, defendendo os interesses da communidade, oppozeram-se 
á opinião dos Bispos e conseguiram a approvação pontifícia ! 

Por esse motivo os Mosteiros se reproduziam ricos embora a 
Ordem lhes designasse a profissão de pobreza. 

No anno de io5o o procurador do Mosteiro de Guimarães, 
fr. Fagildo, queria prender Sueiro Exemeniz por ser accusado 
de um homicídio e por se inculcar senhor dos homens de Mata- 
má. Na sua defeza, Sueiro alegava que a villa erat sua reritas 
como já o havia sido dos seus Avós. fr. Fagildo teimava, quia 
erat, vertias da casa de Vimaranes. Por fim esta questão foi deci- 
dida em Jugueiros na presença de Gomizo Eitaz, grande numero 
de homens bons, Senhores de Guimarães, (clérigos e monges) e o 
juiz da localidade, em favor dos frades e freiras que habitavam in 
Cimiterio Vimaranes. 

E' sabido que no presente século foi quasi geralmente abolida 
a vida claustral dos cónegos estabelecida no século íx e que alguns 
Bispos a renovaram nas suas Cathedraes, embora com tão grande 
diíferença que podiam receber curatos e outros empregos eccle- 
siasticos. 

Por isso D. João Pires, no seu testamento datado de i23o, 
deixou ao Cabido dos cónegos da Collegiada de Guimarães um 
copo de prata para seu filho beber por elle no refeitório. 

O Papa Alexandre III, aconselhado por D. Aftònso Henriques, 
ordenou em 1 165 ao Arcebispo de Braga D. João Peculiar que de- 
terminasse em Provisão que os cónegos da sua Sé não fossem mais 
de quarenta, que vivessem em communidade, e que não fossem 
bastardos, nem infames, nem soberbos. Alexandre IV, em I2Ô5, 
prohibiu que na referida Sé houvesse mais de vinte e que os res- 
tantes fossem expulsos. Bento XIV, por Breve de 1746, concedeu 
ás dignidades e cónegos de Braga o uso de solideo, inclusivamente 
nas missas. Egual concessão foi feita aos cónegos da Collegiada 
de Guimarães. 

O sigillo da confissão era insistentemente recommendado por- 
que, com verdade ou sem ella, havia muito quem aceusasse os 



— 14» — 

padres de não o saberem guardar. A celebração de missas foi 
reduzida a uma diariamente, excepto quando se exigissem para 
suffragio de qualquer defunto. Aos padres que por negligencia 
deixavam cair a hóstia consagrada, impunham-se pesadas peniten- 
cias, e os réos de grandes crimes iam a Roma, com cartas dos 
seus Bispos, receber do Papa a penitencia devida. 

Ainda n'este século se instituiu a commemoração dos fieis de- 
funtos no dia seguinte ao da festa de todos os santos; e o canto 
da egreja foi grandemente aperfeiçoado pela invenção de Gui, 
monge de Arezzo na Toscana, que em 1026 descobriu o methodo 
das linhas da musica (escalas) e as claves (posições). 

No Concilio Ovetanum, celebrado em iii5, adoptaram-se as 
mais enérgicas providencias e comminaram-se penas graves contra 
os que violavam os asylos sagrados e praticavam roubos nas 
egrejas. 

A canonisação dos santos pertenceu exclusivamente aos Me- 
tropolitanos até ao século x em que os Pontífices reservaram para 
si esse direito. Porém alguns prelados não acataram a determi- 
nação pontifícia e mantiveram-se no propósito de continuar a exer- 
cer aquelle antigo direito. O Arcebispo de Ruan, por exemplo, 
canonisou em 11 53 S. Gotiero, Abbade de Pontoise, sendo este 
o ultimo abuso, pois Alexandre III os prohibiu terminantemente. 

As Ordenações, a administração dos Sacramentos, a collação 
dos Benefícios e outras funcções espirituaes, que eram pagas 
pelos fieis, passaram a ser gratuitas, permittindo-se comtudo a 
esmola voluntária pela celebração da missa, que n'este século xn 
era de um soldo, no seguinte de dois, e no principio do xiv de 
três. No anno de i52o celebravam-se nos Mosteiros missas de três 
em renge, a canto e órgão, com assistência da communidade, 
por 20 réis de esmola! As resadas 12 réis, e três annos depois 
18 réis. O Synodo celebrado em Coimbra no anno de ;566, ele- 
vou esta esmola a 3o réis. Em i5cjo, el-rei D. Manuel, por uma 
Provisão que dirigiu á Misericórdia de Coimbra, concedeu que 
fosse de 40 réis a esmola da missa resada-, e depois d'isso as 
Constituições marcavam estas em 120 réis e as cantadas em 480. 

Antigamente nem só ao incruento sacrifício se dava o nome 
de missa. Nos adros das egreja distribuiam-se esmolas pelos po- 
bres para estes resarem por alma de um defunto, e a esta esmola 
chamou- se missa dos pobres. Em sufrágio da alma do defunto 
soccorriam-se os Hospitaes, e essas esmolas denominavam-se mis- 
sas dos espritaaes, etc. 

No Concilio Beneventanum, celebrado em abril de n 17, o Papa 
Paschoal II excommungou o Arcebispo de Braga D. Maurício 
Bourdim, seu Legado, por haver coroado em Roma o Imperador 
quando Sua Santidade se achava em Monte Cassino. 



— 142 — 

No Nannetense, em n 27, aboliu-se o velho costume de serem 
entregues para o Senhor todos os moveis do consorte lallecido; 
e no Trecense, a i3 de janeiro de 1128, presidido pelo Legado 
Matheus de Albano, foi resolvido que se desse aos Templários a 
Regra e o habito branco, por se reconhecer essa necessidade du- 
rante os 10 annos que a Ordem já contava de existência. 

O uso dos Monitorios foi introdusido pelo Papa Alexandre III 
(u5 9 -8i). 

N'este século desenvolveu-se o uso das antigas mortificações 
voluntárias, as disciplinas, os cilícios; e muitos dos fieis recom- 
mendavam que nos paroxismos da morte os estendessem numa 
cama de cinza ou lhes vestissem um habito de monge. O costume 
de juntar na cpmmunhão as duas espécies, pão e vinho, foi ter- 
minando, havendo já nos fins do século quem não recebesse mais 
que uma, como agora. 

Os Cruzados trouxeram á Europa a enfermidade da lepra 
cousiderada incurável a qual, por esse motivo, era tratada numa 
habitação isolada chamada gafaria ou Ordem de S. Lazaro, por- 
que este santo também foi leprozo. O terceiro Concilio geral de 
Latrão occupou-se da Ordenação dos Lazaretos concedendo lhes 
cgrejas particulares, padres e cemitérios. 

Todos os indivíduos que attingiam o uso da rasão eram obri- 
gados a confessar ao seu parocho os peccados commettidos du- 
rante um anno e a receberem, ao menos pela Paschoa, a Sagrada 
Eucharistia, depois de satisfeita a penitencia que lhes íosse im- 
posta, a qual então consistia na peregrinação á Terra Santa; no 
combate aos infiéis durante certo numero d'annos; em jejuar a 
pão e agua; em não vestir seda nem linho; em mendigar o ali- 
mento; em não cazar segunda vez; e.. em se postar, nos dias 
mais solemnes, á porta da egreja, em camiza, com um feixe de 
varas para com ellas ser fustigado pelo clero e pelo povo! 

O impedimento de parentesco na celebração do matrimonio 
restringiu-se do 7. ao 4/ grau, e condemnavam-se os que por 
esse tempo se effectuavam clandestinamente, ordenando-se que de- 
pois de justos fossem pelo cura publicados na egreja a fim de se 
descobrirem os impedimentos que porventura houvesse. Esta me- 
dida que se tornou geral, já em alguns logares estava estabeleci- 
da. Havia no século vn uma classe de maridos denominados co- 
nuçudos (conhecidos como tal), que não eram canonicamente re- 
cebidos. Já existia o casamento como hoje se usa, havia o con- 
tracto matrimonial de que davam testemunho os parentes e visi- 
nhos na presença dos quaes era feito. Este systema prolongou-se 
até ao século xiv. Outro era um matrimonio segundo o direito na- 
tural, dependendo apenas da vontade dos contrahentes. Matrimo- 
nio e casamento eram duas cousas distinctas. O matrimonio da 



— 143 — 

mão esquerda era contrahido por uma pessoa de elevada posição 
social com uma mulher do povo. 

Até ao fim do século xv continuou entre nós a usança dos 
matrimónios clandestinos, que el-rei D. Aftbnso IV procurara ex- 
terminar em i352 com a sua carta sobre reformas ecclesiasticas, 
dirigida aos Bispos do reino, dizendo-lhes que «muitos clérigos se 
achavam casados», e ordenou que «todos os recebimentos fossem 
feitos pelo respectivo parocho, perante um tabellião da mesma 
freguezia, destinado para escrever em um livro todos os casamen- 
tos que alli se celebrarem, para se saber depois os que são ou 
deixam de ser casados, e a condição dos contrahentes». 

Em 1499 conseguiu el-rei D. Manuel por termo ás inconve- 
niências dos casamentos clandestinos, promulgando em 14 de ju- 
lho uma lei na qual determinava «que sem excepção de pessoa, 
todos se recebam publicamente, em face da egreja, e na forma 
que os sagrados cânones decretam. E casando-se escondidamente, 
por esse mesmo feito, assim o noivo como a noiva, percam todos 
os seus bens, metade para a camera real e metade para captivos. 
E todos os que a similhantes casamentos forem presentes ou tes- 
temunhas, percam também todos os seus bens, com a mesma ap- 
plicação, e sejam degradados por dois annos para Ceuta. Mas 
d'estas penas serão isentos os que taes casamentos fizerem por 
prazer e consentimento dos pães e mães dos noivos, se os tiverem, 
porque n'esse caso, haverão somente as pessoas do direito canó- 
nico» ! . 

No Concilio Tridentino, convocado em 1545 pelo Papa Pau- 
lo III e terminado em i563, foi julgado impedimento derimente o 
casamento celebrado clandestinamente; ainda assim el-rei D. João 
IV não pôde deixar de decretar, em i3 de novembro de i65i, o 
desherdamento dos filhos destes matrimónios. Também n'aquelle 
tempo Martim Paes, cavalleiro de S. Miguel de Lobrigos, «doou 
a sua mulher Maria Lourenço, certos bens em Santa Comba e 
em outras partes per compra do vosso corpo, concedeu-lhe a posse 
emquanto viva somente, perdendo-os se casasse 2 . Esta doação 
era denominada praetium virginitatis, por ser feita depois da pri- 
meira noite do consorcio, quando o marido se julgava habilitado 
a conhecer de perto os merecimentos da noiva. 

Soeiro Viegas, em 1190, fez a sua mulher D. Sancha Vermu- 
des uma carta de arrhas, deixando-lhes muitas propriedades, que 
só possuiria se não casasse. 

El-rei D. Affonso Henriques, na carta que endereçou a Celes- 



1 Ord do tfeino. livro 5, tit. 27-1514. 
- Doe. de Salsedas. 



— i44 — 

tino II, offereceu a S. Pedro quatro onças de ouro, por si e seus 
successores, pagas annualmente. Desta carta existe copia no ar- 
chivo do Arcebispado, gav. das Not., n.° 2, e termina do se- 
guinte modo: «Facta oblationis, Firmitudis K. Idus Decembris 
E.M.CLXXXI. Ego supradictus Adfonsus, Portugalensium Rex, 
qui hanc K. fieri jussi, libenti animo, coram idoneis testibus pró- 
pria manu confirmo». 

Durou este tributo até ao principio do século xm. Hoje existe 
em todo o orbe catholico uma collecta voluntária que se destina 
ao mesmo fim. O dinheiro de S. Pedro, que estava estabelecido 
em Aries, na Bohemia e na Polónia, era na Inglaterra uma con- 
tribuição expontânea dos numerosos fogos, paga para a Sé Apos- 
tólica. 

Terminou* no tempo de Henrique VIII em vista do modo co 
mo applicavam a pena de excommunhão áquelles que deixavam 
de a pagar. 

Durante este século, e muito especialmente no anno de 11 55, 
havia nos Mosteiros um edifício denominado Sanguilexia, desti- 
nado á sangra dura dos monges, de harmonia com o que dispunham 
as Constituições de Pombeiro para que fossem sangrados de 2 
em 2 mezes, e a fundação do Mosteiro do Tojal (Vizeu), para que 
as religiosas fossem sangradas de 6 em 6 mezes. 

A profanação das egrejas, os roubos, a falta de ordem e o 
desprezo pelos serviços da lavoura, moveram o Concilio de Ovie- 
do, celebrado em iii5, a determinar em favor da agricultura: 
«Que ninguém faça penhora em bois, quer sejam mansos, quer 
bravos: e quem o contrario fizer, seja maldito, e excommungado, 
e tenha i5 annos de penitencia publica». 

Sendo os Arcebispos e o clero bracarense uma potencia nos 
primórdios da monarchia, quiz D. Aífonso Henriques obter as 
suas boas graças, concedendo-lhes em 27 de maio de 1 128 al- 
guns privilégios importantes, entre os quaes o de cunhar moeda, 
com o fim de serem applicados á fabrica da Sé os rendimentos 
da cunhagem d'ella: «Et sicut Avus meus Rex Alfonsus dedit 
adjutorium ad Ecclesiam S. Jacobi faciendam: simili modo do, 
atque concedo Sanctae Mariae Brach. Monetam, unde fabricetur 
Ecclesia.. . Insuper etiam dono, atque concedo in Cúria mea to- 
tum illud, quod ad Clericale Officium pertinet, scilicet, Capella- 
niam, et Scribaniam, et caetera omnia; quae ad Pontificis curam 
pertinent». 

D. Aífonso II privou d'estes rendimentos a Sé de Braga ; e o 
Pontifice Honório III publicou um rescripto, com data de 23 de 
dezembro de 1221, ordenando aos Bispos de Astorga.e Tuy que 
fizessem restituir á egreja bracarense, entre outras cousas, Cancel- 
lariam, Capellariam, e Monetam de que a despojara o rei. Tudo 



143- 




Egreja de S. Domingos (Guimarães) 



— i4<> — 

porém foi infructifeio, porque a 26 de novembro de 1 238, estan- 
do em Guimarães el-rei D. Sancho II, alli se concordou com o Ar- 
cebispo D. Silvestre Godinho e seu Cabido, renunciando estes ao 
direito que tinham super Moneta, Capellania et Cancellaria Domi- 
ni Regís, mediante a doação que o monarcha então lhes fez das 
egrejas de Ponte do Lima e Touguinha, em 'Feiras de Faria, livres , 
e isentas de todo e qualquer direito real : e as suas villas e terras 
de Pedralva, Gouviães e Adauffe em terra de Panoias, as quacs 
mandou coutar per lapides; sicut àliud Cauiam de Regno, quod me- 
lius caiitatum est. 



-147- 
EGREJA DE S. DOMINGOS (GUIMARÃES) 

('Vide gravura a pag. 145) 

Tendo os frades dominicanos iniciado em 1271, á entrada da 
actual rua da Rainha, a edificação do convento e egreja, concluí- 
ram toda a obra ao cabo de 8 annos. El-rei D. Diniz ordenou 
em 1 323 que tudo fosse derrubado, visto achar-se junto da mura 
lha e poder ser novamente atacada a villa pelas tropas de seu 
tilho D. Aífonso. Annos depois construíram, onde ainda agora se 
vê, a espaçosa egreja de três naves em cinco arcos joanninos e o 
convento adjuncto, con:orrendo grandemente para o adeantamento 
e conclusão da obra o Arcebispo de Braga D. Lourenço, João Aífon- 
so de Briteiros, um Bispo de Burgos e D. Maria de Berrcdo, mulher 
de Ruy Vaz Pereira. A capella mor mede 18 metros de comprido 
por 5,72 de largo, e o corpo da egreja 29 metros por 16, 3o. 

O corpo de São fr. Lourenço Mendes, mudado da parede 
do altar de S. Braz para o de S. Thomaz, foi encerrado num 
sarcophago de pedra com estes dizeres na frente: 

H1C SUA LAVRENTJ MENDES SYNT OSSA BEATI 

Em 1770, por voto de Rodrigo de Sousa da Silva Alcoforado. 
fez se a porta principal que a gravura representa, magnifica en- 
trada d'este templo, no dizer da inscripção, mas em perfeita des- 
harmonia com o estylo da fachada, onde ^e admira um roseta» ■ 
primoroso. A porta primitiva, cuja substituição de modo algum 
se justifica, deveria ser egual á da egreja de S. Francisco. No 
alto da actual tem a inscripção: 

REGIN-íE OPTIMjE MAXIM V. 

SACRATISSIMI R0SAR1I 

MAGNIFICO HVIVS TEMPLI LIMINE 

VOTVM SOLVIT 

1>- RODERICVS Dlí SOVSA DA S? ALCOF ° 

MDCCLXX 

A rainha D. Maria II cedeu esta egreja á Ordem Terceira de 
S. Domingos, em 24 de janeiro de i85i. A camará foi concedido 
o convento e cerca por lei de 27 de dezembro de 1870, e por 
consentimento d'esta, em 3o de julho de 1887, foi o convento con- 
cedido á Sociedade Martins Sarmento, que tomou posse d'elle pe- 
las 6 horas da tarde de terça-feira 10 de julho de 1888, a qual sobre 
a curiosa arcada do claustro, que datado século xiv, fez reconstruir 
em 1889 a galeria que hoje serve de installação ao museu archeolo- 
gico. Na extremidade norte collocaram uma pequena pedra com 
esta inscripção em caracteres gothicos: 



- , 4 s- 

A SOCIEDADE MARTINS SARMENTO MANDOV 
RECONSTRVIR ESTA GALERIA SOURE A ARCA- 
DA DO ANTIGO CLA ASTRO DO EXT1NCTO COX 
VENTO DE S- DOMINGOS XO ANNO DE 1 889 

As inscripções lapidares romanas e as pedras ornamentadas 
do museu acham-se expostas sob a referida arcada de que aqui 
dou gravura em parte : 




Arcada e andor 



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— J DO — 

O curioso andor das candeias, que também aqui se representa. 
foi salvo por minha intervenção quando fundei no edifício da Or- 
dem de S. Francisco um pequeno museu de archeologia christã. 
Encontrei-o, quasi de todo desfeito, no sótão do edifício dos Paços 
do Concelho, sendo desde logo offerecido á Sociedade Martins 
Sarmento. 

Este andor era conduzido na procissão das marafonas ou dos 
pães bentos, que annualmente se eífectuava a 10 de junho, em 
cumprimento de uma antiga promessa feita por occasião de grande 
calamidade. Nesta procissão, que -sarna da egreja de Santa Clara 
recolhendo na Collegiada, tomavam parte a Camará e o Cabido. 
O andor ia adornado de vellas de cera, que prefaziam o pezo do 
rolo com que se devia cercar a muralha da cidade. 

Finda a festa eram benzidos os pequeníssimos pães, repartin- 
do-se por todas as auctoridades e lançando-se d'uma janella do 
edifício da Camará á multidão, que os apanhava. 

Nos primeiros séculos da Egreja, o povo que assistia ao sacri- 
fício incruento offertava ao sacerdote um ou mais pães, que, de- 
pois de benzidos, eram distribuídos por todos em signal de com- 
munhão. 

Os que não offereciam pão entregavam dinheiro para a sub- 
sistência do Padre e conservação da egreja, uma practica que 
justifica o actual costume dos pedidores nas missas. Os judeus 
também offereciam sacrifícios a Deus depondo nas mãos do sacer- 
dote o que queriam sacrificar. O pão e o vinho que no acto se 
consagra era egualmente ofíertado pelos fieis. 

EGREJA DE S. FRANCISCO (GUIMARÃES) 

( Vide gravura a pag. t4q) 

A construcçao da actual egreja e respectivo convento de X 
Francisco, foi auçtorizada por el-rei D. João I, em carta que escre 
veu de Braga no dia 3 de novembro da era de 1408 (anno de 
1 400) . 

A primeira fundação do convento teve logar na Fonte Santa, 
em tempo de D. Affonso II; em i2cjo, reinando D. Diniz, veiu a 
Guimarães o Arcebispo D. fr. Tello e" lançou solemnemente a 
terra a primeira pedra para a segunda construcçao na actual rua 
de S. Damazo, sendo finalmente demolido, como o de S. Domin- 
gos, por ordem do mesmo monarcha na occasião da guerra com 
seu filho. 

A egreja, de uma nave, mede no corpo >2'",4o por i2 m ,8o de 
largo, ou antes ib' n ,o,o, pois era esta a sua grande largura no tem- 
po dos altares primitivos ! 



131 




Capella-mór da egreja de S. Francisco 



102 — 

A capella-mór, toda azulejada e de abobada de pedra fina com 
elegantes nervuras, considerada urna das melhores do reino, mede 
:o m ,3o por 7"', 35. Tem 7 grandes janellas de estylo ogival radiado 
ou florido, das quaes apenas existem duas livres, mas despojadas 
dos caixilhos de pedra. Outras duas que communicavam com as 
capellas lateraes, estão cobertas com o magnifico azulejo, e as 
três restantes com a tribuna compósita de riquíssima talha doura- 
da e grossas columnas torcidas, entre as quaes existem em tama- 
nho natural as imagens de Santo António, S. Domingos, S. Fran- 
cisco e S. Thomaz d'Aquino. 

.Ao fundo desta capella-mór, mesmo junto da abside, vé-se a 
tampa do tumulo da Duqueza de Bragança D. Constança de No- 
ronha, com a sua estatua jacente, criminosamente abandonada. Foi 
cila a piedosa senhora, fallecida em cheiro de santidade, quem 
mandou construir a alludida capella-mór, onde então lhe deram 
sepultura condigna de que actualmente nem o logar se conhece! 
No referido tumulo havia a inscripção seguinte: 

ALFONS1 CONIVX DVCIS HOC CONSTANÇA NORONHA 
REGIA PROGENIKS CONDITVR IN rVMVLO 

Aos lados do arco veneram-se as imagens de Santa Cecília e 
Santa Clara, e as capellas abobadadas de pedra consagradas ao 
Senhor Jesus e a Santa Arma. 

Xas extremidades do transepto. os altares de S. Guaiter ou do 
Deseendimcnto, e o do Senhor da Paciência com um pequeno ora- 
tório onde se admira a pequeníssima imagem de S. Boaventura 
que o representa assentado á meza em que escreve e tendo a ador- 
nar o acanhadíssimo recinto uma mobilia de execução esmerada. 
No corpo ha os altares collateraes de Santo António, S. Francisco. 
S. José, Senhora da Conceição, Senhora do O', e Senhora do 
Soccorro com S. Matheus. A imagem de S. Francisco, tamanho 
natural, tem na peanha estes dizeres: 

G. BERARD1 

M0DEI.L0 :-COI l'l 

ROMA l888 

O coro é sustentado por um arco abatido, com gume. notável 
pela sua elevação diminuta e considerável distancia de uma á ou- 
tra extremidade. A sacristia, com o tecto pintado e dourado, tem 
ao centro uma grande meza de mármore com embutidos a core*-, 
e pendentes da parede dois primorosos quadros a óleo, em tela. 
representando a Família Sagrada e Nossa Senhora do Leite. Le- 
£íou-os á Ordem o commissario fr. Manuel Luiz da Conceição 
Guimarães. Pertencem ã eschola romana (século xv) de que foi 
fundador Raphael Ssnzio de Frbino e attribuem-se, com os melhò 



1 53 



res fundamentos, ao laureado pincel do pin 
ma Stroberle, falletido com 84 annos de e 
no de 1792. Pertencem egualmente a este 
altares da Sé de Braga. No claustro, que se 
toscanas e degual numero d'cllas mais peq 
tem profanadas duas capellas da invocação 
e de S. João Baptista. 

D'esta, que foi fundada no primeiro qu; 
doutor Gonçalo Dias de Carva'ho e que se 
frades, dou a photogravur 1 seguinte: 



tor lusitano João Glam- 
dade em Lisboa no an- 
auetor os quadros dos 
compõe de 44 columnas 
uenas na varanda, exis- 
dc S. Pedro e S. Paulo. 

arte! do século xvi pelo 
rviu para o capitulo dos 




Os profanadores âpplicaram aos três bellos arcos da frente gros- 
sas camadas de cal que desfiguraram a ornamentação dos capiteis. 

Hoje serve de deposito de madeiras e ferros velhos, conscr 
vando-se milagrosamente as curiosas grades de madeira de casta- 
nho que vedam a porta e as janellas. 

Sobre a portaria do extincto convento fundei em [890 um pe- 



— ID 4 — 

queno museu, cuja inauguração se efrectuou no domingo 3 dè 
agosto cio referido anno. Entre outros objectos de valor consegui 
reunir alli um grande quadro a óleo em madeira, representando um 
milagre de S. Francisco, outro egualmente grande representando 
a rainha I). Mafalda, fundadora do convento da Costa, outro em 
cobre representando o acto heróico de Judith, etc. Também alli ^e 
encontra a grade do milagre com estes dizeres : 

I STA HE A REDE Q ST. O ANT.O LANÇOU SOBRE LADRAM 
MANOFL DIAS, A 20 DE ABRIL DE iyiO 

•Da primitiva fachada da egreja apenas resta intacta a porta 
principal, estyío joannino: 




T>n}àt.%r. 



Porta principal cia egreja cie S. Francisco 



— \DD - 

Os dois gigantes lateraes, que deviam ser chanfrados na extre- 
midade superior, rematam em pirâmides de pedra, erro egual ao 
da cruz latina que o memorável temporal de 3i de dezembro de 
1897 houve por bem derrubar. Aproveitando este ensejo consegui, 
com o auxiho do illustre membro da Meza sr. M. M. Barbosa de 
Oliveira, auctorisação para delinear outra cruz apropriada, a qual 
foi feita pelo mestre pedreiro Ricardo Leite e collocada ás 6 horas 
da tarde do dia 27 de junho de 1898, dispendendo-se com esta 
obra a quantia de 20:000 réis. 

A photogravura da egreja representa a pouca distancia, no lo- 
gar primitivo, o cruzeiro quinhentista posto alli por mandado do 
padre Mestre fr. António Fernandes, no anno de 043 a demarcar 
o terreno que pertenceu aos frades e portanto a jurisdição da 
Ordem. 

A Meza actual não se oppoz, como devia, á resolução da Ca- 
mará Municipal que no mez de março d^ste anno o removeu 
para junto da parede norte da egreja. O pedestal tem ao centro 
uma inscripção apagada que por esse motivo se reproduziu na 
frente por estas simples palavras: 

O PAhl'!: Ml S I 
]• AMO I 5 4-3 

Em 18GG, sendo secretario José Ferreira d 1 Abreu, foram com- 
prados por _po:ooo réis os paramentos de lhama e a seguinte 
riquíssima capa bordada a matiz e ouro com pedras preciosas: 




— )5<> — 

Um arco de volta inteira que se divisa na parede a que en- 
costa o cruzeiro, fez parte da extincta capella de S. Gualter, para 
onde foram trasladados pelo D. Prior de Guimarães D. Fulgencio. 
filho do Duque de Bragança D. Jayme, os ossos do venerável 
santo. Na sua sepultura, que o povo de Guimarães mandou fazer 
ao patrono da cidade e discípulo de S. Francisco, no anno de 1577, 
por voto quatro vezes, renovado, gravou-se esta inscripção: 

GVALTERI- TEGIT- HOC • VENERABILIS • OSSA • SEPVLCHRVM • 

Tinha no alto esta inscripção allusiva ao voto do povo, gra- 
vada numa padieira de pedra que felizmente ainda se conserva 
á porta da cosinha do extincto convento: 

DIVO- GVALTHERO I» I D- VIMARAN- PATRONO- INS 
TAVRATI ■ FESTI ■ VOTO- lllí ■ ANNO QVE ■ MDLXXVI1 • P- V- I- C- 



A' entrada do largo das Carvalhas, junto do arco que alli ha- 
via, representou-se, no dia 8 de abril de i8o3 (sexta- feira Santa), 
o descimento da cruz, dispendendose com essa representação 
mais de doze contos de réis! O monte Calvário elevava-se bas- 
tantes metros acima do solo. Com estudantes organizou-se a guar- 
da romana, e as principaes figuras eram representadas por padres 
e frades. O padre Bernardo Rôlla, representando S. João, maii- 
teve-se por espaço de 3 horas numa posição forçada com admi- 
ração dos muitos milhares de espectadores que se accumulavam 
no largo e pelos telhados em terraços expressamente construídos. 
Disse-se então que não havia em todo o reino memoria de tão 
pomposa commemoração religiosa. 



Na grande praça que fica próximo d'esta egreja vê-se a esta- 
tua de D. Affonso Henriques, em bronze, com esta inscripção na 
frente do pedestal de mármore : 

A D AFFONSO 

HENRIQVES 
A CIDADE DE 

GVIMARAES 
MDCCCLXXXVI1 

Ao fundo da estatua lè se : «188/ fundição de Massarcllos. 
Porto» — ,1. S. dos Reis, esailp. 



Este monumento, embora o pedestal não corresponda á vasti- 
dão da praça, faz honra ao fallecido esculptor António Soares dos 
Reis e ao architecto José António Gaspar. 

A estatua chegou a Guimarães ás 2 horas da madrugada de 
segunda-feira 19 de setembro de 1887, tirada por duas juntas de 
bois. As 3 horas da tarde de 20 de outubro do referido anno foi 
inaugurada na presença da família real que depois da 1 hora da 
tarde havia chegado de Braga. O chorado monarcha D. Luiz I e 
o príncipe D. Carlos (hoje Rei) desceram do pavilhão que para o 
acto loi construído sob a direção do scenographo portuense Gui- 
lherme Augusto Alves de Lima, e descerraram a estatua que estava 
coberta com a bandeira nacional. Quem primeiro photographou 
o monumento foi o sr. Leon Ardau, do Porto. A grade de ferro 
collocou-se a 6 de setembro de 1888. 

A família real também n'esse dia, ás 3 horas da tarde, lançou 
a primeira pedra para o edifício da eschola industrial, collocando 
se-lhe numa cavidade um pequeno cofre de prata contendo moe- 
das. A pedra tem esta inscripção: — S. M. el-rei D. Lui\ I, n<> 
dia 20 de outubro de i8Sj, collocou a pedra fundamental da es- 
chola industrial Francisco d' Hol landa. 



SYNCHRONISMOS DOS SÉCULOS XIII E XIV 

No Canon xxi do iv Concilio Lateranense (duodécimo geral) 
celebrado em novembro de 121 5. renova-se o decreto' do século 
antecedente sobre a confissão sacramental, pela vez primeira orde- 
nada geralmente, communhão na paschoa, etc, sob pena de serem 
expulsos da egreja e privados de sepultura ecclesiastica. Presume-se 
que esta medida tendesse a prevenir os fieis contra os erros dos 
Albigenses que se julgavam dispensados d'estes actos para obte- 
rem a remissão dos peccados, porque ainda 8 annos depois o 
Cardeal Conrado, Bispo do Porto e Legado em França, celebrou 
no dia 6 de julho o xxu Concilio Parisiense, acerca da referida 
seita. 

A lucta continuou terrível, e o Legado João, Cardeal e Bispo 
de Sabina, celebra no anno de 1228, em Portugal, o Concilio 
Lusilanum que fulminou a pena de excommunhão contra quem 
impedisse as liberdades da egreja e dos seus ministros, o socego 
e a honra das religiosas clausuradas. 

Os Cruzados e vários outros christãos guerreavam e matavam 
os Judeus confiscando por vezes os seus haveres; estes excessos 
foram porém rigorosamente prohibidos pelo Concilio Turonense 



— 158 — 

em io de junho de 1286 com um Estatuto de 14 artigos em que 
se principia por aconselhar aos fieis inteira humanidade «pois 
que a egreja os soffre, não querendo a morte do peccador, mas 
que se converta». 

No xm Concilio geral, primeiro Lugdunense, celebrado a 28 
de junho, 5 e 17 de julho de 1246, o Papa Innocencio IV deter- 
minou que os Cardeaes usassem o barrete encarnado «como sym- 
bolo da diposição em que deviam estar de derramar o seu sangue 
pelos interesses da Egreja». Esta côr do barrete passou também 
a ser a dos seus vestidos, muito pouco tempo depois. 

Gerardo de Malemort, Arcebispo de Bordéus, publicou no 
Concilio Burdigalense, que teve logar a i3 de abril de 1 255, uma 
constituição composta de 3o artigos, ordenando um d'elles, o 5.", 
que na communhão da paschoa se ministrasse aos meninos pão 
bento em logar da hóstia consagrada. 

O Sacramento da confirmação era antigamente ministrado ás 
creancinhas, como se deprehende do terceiro dos 17 Cânones 
feitos em 1260, no Concilio Arelatense, presidido por Florentino 
Arcebispo de Aries, quando determina que esse Sacramento seja 
recebido em jejum, excepto pelos meninos que ainda mammam. 
O artigo 4. da constituição feita no Concilio Tarraconense em 
1294, poz termo ao banquete que entre nós os parochianos costu- 
mavam pedir aos seus curas, o que estes faziam por praxe antiga 
com avultado dispêndio. 

A ordem Dominicana foi approvada por Honório III em duas 
Bulias datadas de dezembro de 12 16. 

Foi Gregório X (1271-76) quem primeiro ordenou que em se- 
guida á morte do Papa os Cardeaes se conservassem fechados em 
conclave, não saindo sem terem feito a eleição do novo Pontífice. 
A respectiva Constituição determina que «quando a eleição não se 
concluisse nos três primeiros dias, teriam os Cardeaes um só prato 
a hora de comida nos 5 dias seguintes, e que findo este termo se 
lhes daria somente pão e agua emquanto não terminasse o acto 
eleitoral.» Com todo este rigor quiz Gregório X prevenir intrigas 
e delongas \ mas os seus successores, Innocencio e Hadriano V, 
fizeram todo o possível por obstar á execução da lei, revogando-a 
por fim o notável Pontífice portuguez João XXI. 

Celestino V e Bonifácio VIII vendo que se renovavam os velhos 
inconvenientes, restabeleceu-a e ordenou que fosse observada inin- 
terruptamente. 

No anno de 1247 teve principio em Liége a festa do SS. Sa- 
cramento, sendo em 1264 ordenada a sua celebração em todo o 
mundo catholico, por Bulia de Urbano IV. Em 22 de maio de 
1820 resolveu-se que fosse exposto e que sahisse processional- 
mente. 



— i bq — 

O Jubileu do Armo Santo foi instituído cm i3oo por Bonifácio 
VIII. para ser celebrado no ultimo de cada século. Clemente VI 
determinou que a sua celebração tivesse logar aos 5o annos, e 
Paulo II aos 25, como ora é. 

Egualmente n'este século xm foi estabelecida a festa da Con- 
ceição de Maria, e crê-se que o seu começo tivesse logar na 
egreja de Nossa Senhora de Pariz. Em 12S8 o Bispo da capital 
franceza, Reynaldo de Homblieres, legou á sua cathedral uma 
importante somma destinada ao alludido fim. De Viterbo expede 
Clemente IV uma Bulia datada de 1267 em que ordena ao Pro 
\incial dos Dominicos, em Hespanha. que encarregue dois frades 
de pesquizar os herejes em toda a sua Província, a que então per- 
tenciam os conventos de Portugal, Castella e Navarra. A divisão 
d'esta Província em três — Portugal, Hespanha e S. Thiago — foi 
mais tarde determinada pelo considerável augmento que attingiu. 

El-rei D. Fernando III (o santo) instituiu, em 1240. o piedoso 
costume de servir á meza 12 pobres na ceia que lhes dava em 
quinta-feira-maior depois do lava-pedes. 

No xiv Concilio geral de Leão, celebrado desde 7 de maio a 
17 de julho de 1274, e presidido pelo Papa Gregório X, reconci- 
liaram-se os gregos com os latinos submettendo-se ás leis da Egreja 
Romana e reconhecendo a Primazia Papal. 

Começou neste século o uso geral dos órgãos nas egrejas. 
tendo apparecido o primeiro no armo de 757, na egreja de S. Cor- 
nelio, em Compiègne. 

A invenção é attribuida por uns a David e por outros ao im- 
perador dos chins Hoang-Ti (2:601 annos ant. de J. C.) 

Falleceu em maio de 1277, por effeito de desabar sobre elle o edi- 
ricio dos Paços que acabava de fazer construir em Viterbo, o Pon- 
tífice portuguez de nação Pedro Hispano (João XXI) que nascera 
em Lisboa e fora Arcediago de Vermoim, D. Prior de Guimarãe- 
e Arcebispo de Braga. Foi sepultado em S. Lourenço, gravando- 
se-lhe na sepultura este epitaphio: ioaxni i.vsitani xxi • i-ontifica- 

TVS MAX • SVl MEXSE Vrií • M0RITVR MCCLXXVII • 

O século immediato denominou-se da artilheria por então se- 
rem inventadas as armas de fogo a que pela vez primeira a His- 
toria se refere no anno de 1342, quando ArTonso IX as empregou 
com vantagem contra os Mouros no cerco de Algezira. 

O segundo dos oito cânones publicados no Concilio Toleta- 
num, a 21 de novembro de 1824, determina que os clérigos sejam 
barbeados ao menos uma ve\ cada mt>- x \ 

O Arcebispo de Braga D. Martinho, que em 129G publicou 
uma Constituição desonerando do património com que os paro- 
chos exercitavam a Hospitalidade, todas as egrejas que não ren- 
dessem mais de 80 libras de dinheiro portuguez (i:328 réis!). 



— i6o - 

ordenou em i3oq que se pagasse di\imo dopam e do vinho, do 
linho, da ferram, da lãa, «e de todDs os parimentos das ovelhas. 
Outro si das Dizimas pessoaes stabelecemos, e mandamos, que 
os Mercadores, que vendem os pannos de cóor, que soyam em 
outro tempo de dar huum maravidil de Leonezes : que dem hora 
'hi soldos de Portugal; cá achamos, que tanto monta no maravidil 
dos Leonezes d' outro tempo». 

Os maravidis portuguezes valiam então 27 soldos, ou 27 reis 
brancos. 

O desejo de accumular prebendas, honras, benefícios, levou 
muitos Bispos e Abbades a presença do Papa que adulavam, 
deixando abandonadas as Diocezes e os Mosteiros. As Ordens 
mendicantes aproveitaram algo com esta sede de dinheiro e de 
prosápia, porque o fieis concorriam então mais que nunca aos 
seus templos affeiçoando-se aos religiosos e ás corporações de que 
estes faziam parte. 

Quando Clemente V notou a vulgarisaçao das Commendas, 
arrependeu-se da facilidade com que as havia dado. Revogou-as 
Bento XII, mas nem por isso os seculares deixaram de possuir 
numerosas e ricas Abbadias que os Papas continuaram a cohferir- 
Ihes sob aquella denominação. 

Redundou em desproveito da Egreja a frequência de excom- 
munhões e interdictos, n'este século, porque os excommungados, 
que eram aos milhares, principiaram a relaxar-se deixando de 
implorar a absolvição, e muita gente reagia contra a prohibição 
expressa de todo o trato com ellès. 

São sempre maus os excessos. 

A abstinência dos sabbados, que os seculares não guardavam. 
foi pela primeira vez determinada para todos os ecclesiasticos. 

Diz-se que Santo António de Lisboa instituiu para o tempo da 
Semana Santa a Disciplina publica de sangue, muito edificante, 
diíferente da barbara FlcCgellaçãò que em 1260 instituiu em Pe- 
ruza o Heremitão Rainier. 

O mesmo Santo, estando em Tolosa, escreveu a Gil Anncs, 
capellão de Santa Sancha, infanta, animando-o a supportar com 
coragem os seus trabalhos e afHicções que nunca apparecem des- 
acompanhados : 

«Nem vos esgaraviseis com a mansilla dos vossos Marteviros : 
bem mostram serem mesquinhos; pois quando fagam cilada, som 
de gram companha teudos». 

Assignou a carta do seguinte modo: Fr. António de la Vera 
Cruz. 

O Papa Innocencio IV, em Bulia datada de i^Sq, determinou 



— i6i — 

que os Arcebispos de Braga, quando visitassem a sua Archidio- 
cese, apenas recebessem de Procuração e Colheita um marco de 
prata (3 :34o réis?) 

Em carta circular dirigida por el-rei D. Affonso IV aos Bispos, 
em 23 de fevereiro de i352, recommenda-se a creação de um 
livro para assentos de casamentos. 

« 

EGREJA DA MIZERICORDIA (BRAGA) 

Está situada no alto da rua Nova de Sousa e encosta ao claus- 
tro de S. Geraldo, da Sé, com o qual tem communicação interior. 
A fachada, muito parecida com a da Mizericordia de Guimarães, 
é de riquíssima esculptura. A porta de arco é de volta inteira ; de 
cada lado tem duas grandes columnas compósitas striadas, e sobre 
ellas outras mais pequenas que ladeiam nichos vasios. O frontão 
recebeu um accrescimo em 1891, substituindo-se por essa occasião 
a cruz que o encimava, pequena como todas as da epocha, prejudi- 
cando-se d'este modo o estylo architectonico d'aquelle bello edifício. 

Na frente da porta principal havia uma varanda com escada 
para o poente, e sob ella a imagem de S. Geraldo e uma fonte 
que d'elle tomou o nome. Nos primórdios do século xvm desfez-se 
a escada e retirou-se a imagem, ficando a fonte sob os degraus da 
frente. Esta fonte, cuja porta se conserva aberta quando a agua 
potável da cidade é insuínciente, denomina-se da Preta. 

Fundada na capella de Jesus ou de Nossa Senhora da Piedade. 
do claustro da Sé, a santa instituição de fr. Miguel de Contreiras, 
da Ordem da Trindade, fallecido a 29 de janeiro de i5o5, * foi an- 
nos depois mudada para a extincta capella de Santa Anna ; no 
anno de i5Go, tendo precedido accordão da meza em data de 2 
de janeiro de 1 558, sendo seu Provedor Balthazar Paes, e por con- 
sentimento da camará municipal e do Arcebispo por sua provisão 
de 12 de março do mesmo anno, deu-se principio á actual egreja 
no local em que havia umas moradas de casas de Branca d'Aze 
vedo, viuva de Diogo Lopes Homem, e outras da Mitra, as quaes 
D.Diogo de Sousa lhe offerecera, pela cedência da capella de Jesus. 

A obra de pedreiro terminou em 1362, data que se vê gravada 
no alto do frontespicio ; porém só ao cabo de 9 annos, em 22 de 
maio de 1Õ71, é que a confraria occupou definitivamente a egreja, 
eífectuando-se a transferencia com uma procissão solemne em 



1 Em Alvará datado de 26 de abril de 1627, ordenou-se a todas as Mizericor- 
dias a execução do Accordão de i5 de setembro de 1576 que determinou a pin- 
tura do retrato de fr. Miguel na bandeira da Mizericordia com as iniciaes 
F. M. I. (Frei Miguel Instituidor). 



11 



102 

que se cncorporou o Arcebispo D. fr. Bartholomeu dos Martyres. 

A primitiva tribuna d*esta formosa egreja é toda de granito 
fino, pintado e dourado. Está hoje vedada por outra de madeira 
de riquíssima talha. O frontal do altar-mór é primorosamente es- 
culpturado em madeira, representando em alto relevo o milagre 
dos pães. Do lado da Epistola tem o altar do Sacramento. 

Esta egreja foi solemnemente benzida na quinta-feira 5 de de- 
zembro de 1895, por terminarem pouco antes as grandes obras de 
pintura e douramento que a tornaram digna da visita de aprecia- 
dores exigentes. Do douramento foi encarregado o sr. José da 
Cunha, e da pintura decorativa das paredes e tecto o sr. Domin- 
gos A. Teixeira Fanzeres que se revelou, como sempre, artista 
de muito mérito. 

EGREJA DA MIZERICORDIA (GUIMARÃES) 

A edificação d'esta egreja. com frente para o largo do mesmo 
nome, deve-se á iniciativa de Pedro de Oliveira, cavalleiro de S. 
Thiago, que lhe deu principio no anno de 1 588. Foi para alli tras- 
ladada em 1606 a irmandade que se havia fundado, ânuos antes, 
na capella de S. Braz, dos claustros da Collegiada. 

A fachada, elegantíssima, semelhante á da egreja da Mizericor- 
dia de Braga, pertence á ordem corinthia, e tem no alto uma 
imagem de Nossa Senhora da Mizericordia com estes dizeres so- 
bre o nicho : 

ESTOTE M1ZERICORDES 

No corpo da egreja, que mede 22,70 por 9,80, ha os altares 
do Senhor da Pedra Fria, S. Bento, instituido pelo dr. João Car- 
neiro de Moraes, Senhor da Canna Verde, Senhora das Dores e 
Senhora da Paz, fundado por Francisco José Mendes que o dotou 
com missa quotidiana. Ao centro existe esta inscripção gravada em 
campa raza : 

AQVI JAZ .10 DE JAN R0 d' 1817 

ZE LOPES DA pf MEMORIA 

CUNHA VELHO DA SUA CARl OE 

O MAIOR BEM A ILL MA MEZA 

FEITOR DESTA DESSE TEMPO 

SANTA CAZA MANDOU LAV B 

DESDE A SUA ESTA INSCRIP 3 

INSTITUIÇÃO E Q NESTA SEP E * 

ATHE ODIA DO SE NÃO INTER 

SEO FALECIM TO RASSE MAIS AL CM 

Q FOI AOS l3 , 



- i63- 

A capella-mór mede 9,90 de comprido por q de largo. 
A bandeira da irmandade tem d'um lado estes dizeres : 

UNDE HOC MIHI UT VENIAT 
MATER DOMIN1 MEI AD ML! ? 

De onde me vem isto, que a mãe do meu Senhor venha a mim ? 

Do outro lado f. m. i. (Frei Miguel Instituidor). 
O tecto da egreja foi de madeira apainelado. Hoje é todo co- 
berto de estuque com trez figuras em relevo representando as virtu 
des theologaes -Fe, Esperança e Caridade. 

A escadaria de pedra que dá passagem para a casa do despa- 
cho e coro da egreja, foi construída em 1640. Por baixo teve uma 
fonte publica. 

A parte restante d'este edifício que alinha com a antiga rua da 
Arrochella, foi construída, como fica dito a pag. 122, com a pedra 
da torre e pardieiros do Morgado dos M>randas, vendida á Mize- 
ricordia por 140:000 réis no dia 17 de janeiro de 1667. 

Esta venda foi feita por Filippe Pereira do Lago e seu filho 
Manuel Machado de Miranda, descendentes de Gil Lourenço e 
a mulher d'aquelle, Joanna Gonçalves, os quaes, aos 4 de agosto 
de 1430, instituíram o referido Morgado no largo fronteiro á egreja 
da Mizericordia. 

Os dois primorosos retratos a óleo, existentes na alludida casa 
•do despacho, foram pintados pelo insigne Roquemont, filho do Prín- 
cipe allemao Frederico dHesse Darmstadt, o qual esteve hospe- 
dado em casa do conde da Azenha, e representam Vicente Pimenta 
de Lemos Sousa Menezes, fallecido no dia i.° de fevereiro de 1834, 
•e o capitão Francisco da Silva Guimarães Pinto. 

A confraria foi, no seu principio, administrada por homens de 
elevada representação social, como o D. Prior de Guimarães, D. 
Fulgencio, filho de D. Jayme, quarto Duque de Bragança; D. An- 
tónio de Lima, alcaide-mór de Guimarães, e outros muitos. 

Sendo a confraria denominada irmandade desde o anno de 
1 585, teve por primeiro Provedor António Pereira da Silva, fidalgo 
da casa real e cavalleiro da Ordem de Christo. Nos dois annos im- 
mediatos foi este cargo desempenhado por Francisco Ribeiro de 
Carvalho, commendador de Unhão, sendo escrivão Pedro de Oli- 
veira iniciador das obras da egreja. 

Em 1661 foi Provedor o activíssimo D. Prior D. Diogo Lobo 
da Silveira. 

Na torre, que fica ao lado esquerdo da capella-mór, collocou-se 
em princípios de abril de 1899 um novo sino que, por incumbência 
do então thesoureiro Alfredo Bellino, meu estimado irmão, man- 
dei fundir em Braga na fabrica dos srs. José Maria Rebello da 



— IÓ4 — 

Silva & C. a . Este sino, que pesa 484'^ ,704, mede o,Q2 de altura 
por 0,99 de diâmetro no bordo, e tem sob a imagem da Virgem 
os dizeres seguintes : 

ESTOTE MIZERICOKDES 

-}-XP- V+XP- R-j-XP ip-j- 

A MEZA DE 1898-1899 

ME FVNDERE FECIT 
ANNO DOMINI MDCCCXCIX 

Leitura — «Sede mizericordiosos. Ghristo vence, Christo reina > 
Christo impera.» 

A meza de 1898-99 me fez fundir. Anno de 1899 do Senhor. »- 
No bordo tem a antiga marca da fabrica : 

JOANNES FERREIRA 
LIMA ME FECIT 
BRACARAE 



SYNCHRONISMOS DO SÉCULO XV 

E' bem certo o que Viollet-Le-Duc disse da architectura, con- 
siderando-a entre todas as artes como a de mais affinidades «com 
os instinctos, com as idéas, com os interesses, com os progressos 
e com as necessidades dos povos». 

A influencia racionalista nas construcçoes que a theologia ins- 
pirava, principiou a revelar-se pelo cinzel do artista do século xm. 
O grande S. Bernardo quiz já então evitar o desenvolvimento da 
ornamentação immoral na esculptura, mas, no seu tempo, o espi- 
rito da epocha não cedeu, e a satyra no século xiv ganhou fôlego 
fomentada pela vingança dos que mais deviam combatei a. 

Du Breul refere-se ao desforço do clero de Notre-Dame contra 
o advogado de Philippe de Valois, Pedro de Luignet, que em 1329 
attentou contra a jurisdição temporal ecclesiastica, sendo immedia- 
tamente excommungado e posto em figura horrenda ao canto da 
tribuna para apagarem sobre o seu rosto as vellas da egreja ! 

Na arte, como na oratória sagrada, também o materialismo do 
século xv se revela frisantemente. 

Na ornamentação das egrejas, a esculptura em pedra e madeira, 
representa os frades e os pregadores com a cabeça de quadrúpe- 
des : cabeças de mulheres com chifres de carneiro, raposas com 
o habito franciscano pregando do púlpito ás gallinhas que de ca- 
beça erguida e bico aberto as escutam ; suinos organistas, lobos 
foleiros, etc. 



— lto — 

E' de sobra conhecida a descripção da esculptura que a um 
■canto da nave de Strasburgo representava ou representa ainda um 
asno de casula desempenhando o acto mais elevado do ministério 
sacerdotal, e servindo-lhe de diáconos vários outros animaes. Em 
toda a parte a architectura d'essa epocha revela mais ou menos 
as scenas immoraes que a caracterisam. Em Braga temos, como 
exemplar precioso, a gárgula do lado esquerdo das costas da ca- 
pella-mór da Sé, e em Guimarães a do lado direito da frente da 
torre da Collegiada, duas construcções coevas que na ornamenta- 
ção recordam as nossas conquistas e o arrojo das descobertas ma- 
rítimas. 

A mythologia tem egualmente um logar importante na archite- 
ctura enrista desde o século xiv até ao xvm. Primeiramente os 
Gryphos, animaes fabulosos que servem de suporte á cruz, depois 
os Centauros e os Faunos como os que encimam o pórtico da ca- 
pella de N. a S. a da Conceição ou Senhor Morto, em Braga, e os 
que se encontram sob os órgãos de muitas egrejas como a Sé de 
Braga, egrejas de Santa Rosa de Lima e S. Domingos de Guima- 
rães, etc. Ás Misulas são egualmente frequentes na talha das 
egrejas. 

Na antiga egreja de Santa Rosa de Lima, actualmente sede da 
parochia de S. Sebastião de Guimarães, ha mais no órgão o cele- 
bre Macacão, figura de homem que annualmente, á passagem da 
ronda da Lapinha, canta movendo os lábios e os braços e empu- 
nhando uma solfa e uma batuta ! 

Data dos fins do século xv (anno de 1498) a instituição das 
Mizericordias pela piedosíssima rainha D. Leonor de Lencastre, 
viuva d^l-rei D. João II, effectuando-a a instancias de fr. Miguel 
de Contreiras. 

Este facto sobresahe a todos os outros que este século das 
innovaçoes produziu 110 campo da caridade christã. 

Por decreto de 3i de março de 1492 foram desterrados da 
Hespanha todos os Judeus que não quizeram o baptismo. O nosso 
rei D. João II concedeu 6 mezes de residência aos que aqui 
se acolheram, obrigando-os ao pagamento de um cruzado por 
cabeça. 

Por occasião da festa da Paschoa havia o extravagante cos- 
tume de castigar os clérigos preguiçosos, apanhando-os na cama 
e obrigando-os a atravessar nus as ruas até darem entrada na 
egreja, onde eram postos sobre o altar e banhados com agua 
benta ! Este espectáculo selvagem manteve-se longo tempo, pres- 
crevendo o os Concílios Nanetense, em 143 1, e Andegavense em 
1448. 

A ignorância dos ecclesiasticos era em grau tão elevado, que 



— 1 66 — 

poucos conheciam rudimentarmente o latim. Por isso em Castella- 
a- Velha e Madrid foram celebrados, no anno de 1473, dois Con- 
cílios para se resolver o que mais conviria á illustração do clero, 
então d'uma disciplina relaxada a ponto dos Procuradores de 
muitos Concelhos representarem contra essa relaxação nas Cortes 
de 1425, convocadas em Braga por el-rei D. João I. 

Alguns prasos deste tempo referem se á distribuição do pão 
cosido aos pobres, no dia dos fieis defuntos, dizendo: «Pagaredes 
o dito foro em cada hum anno em dia de pão por Deus». 

A Camará Municipal do Porto, determinou em 1491 : «que 
os Mesteiraes (officiaes mecânicos) da cidade não fizessem obra 
alguma desde o sabbado ao sol posto, até á segunda-feira, sol 
sahido». 

N'este século celebrava-se em Braga a procissão de Corpus- 
Christi com corrida de touros na véspera, cavalhadas, etc. Um dos 
dois juizes da cidade conduzia a bandeira, que era em forma de 
pendão com uma pintura ao centro representando a Virgem. 

O S. Jorge, que desde o reinado de D. João I tem n^sta pro- 
cissão um logar distincto, era seguido dos doze Apóstolos, quatro 
Patriarchas, alguns anjos e numerosos andores. 

Levava mais o carro das hervas offerecido pelos hortelões de 
Maximinos; as dançadeiras, a mourisca, as mascaradas. Em i566 
o Concilio Provincial bracarense determinou que se modificassem 
as exhitições profanas. A camará offerecia um jantar com o qual 
dispendia a verba de iS.rooo réis. 

No tempo de D. Rodrigo de Moura Telles, os lavradores das 
freguezias de Navarra, Crespos, S. Lucrécia, S. Paio da Ponte do 
Porto e Adaufe, vinham annualmente á cidade varrer as ruas e as 
praças que no dia immediato (do Corpus-Christi), eram tapetadas 
de hervas cheirosas — juncos e espadanas — offerecidas desde tem- 
pos immemoriaes por lavradores das freguezias de Semelhe, Gon- 
dizalves, Frossos, S. Jcronymo, S. Martinho, recebendo cada um 
40 réis. A procissão levava na frente o boi bento, com as pontas 
enfeitadas de íitas multicores e grandes folhos ao pescoço. Este 
boi era offerecido pelos marchantes e conduzido por um lavrador 
de Nogueira. Na frente os clarins tocados por pretos ; atraz do 
carro das hervas quatro gigantes, sempre levados por quatro ho- 
mens da visinha freguezia de Esporões, a cada um dos quaes eram 
entregues 480 réis, e junto d'elles um anão, chamado pae dos gi- 
gantes, também da mesma freguezia, saltando continuamente. Um 
gallego conduzia a Serpe mettido dentro d^ella. Seguia-se o grande 
dragão preso por uma fita e conduzido pela Dama do Drago ; a 
seguir um individuo a cavallo representando o S. Jorge cercado 
do seu estado. A guarda de honra do Drago e da Serpe era feita 
pelos ferreiros que empunhavam espadas ferrugentas. O andor de 



-1*7- 




Braga — Capella de N. S. da Conceição, da egreja 
de S. João do Souto 



— i68 — 

S. Christovão com um pinheiro enfeitado pelos procuradores da 
comarca, o qual servia de bordão ao santo. A conducção d'este an- 
dor pertencia, por privilegio, ás vezes judicialmente questionado, 
a oito moradores da vidinha íreguezia de Ferreiros, com opas ver- 
melhas, cada um dos quaes percebia 240 réis. 

D. José de Bragança (1741-56), modificou tudo isto, mas o seu 
successor D. Gaspar (1758-89) permittiu que os parochos acom- 
panhassem de estola e auctorizou as velhas danças no couce da 
procissão. 

Em Guimarães também até 1797 esta procissão era organizada 
com grande numero de andores, irmandades e confrarias. Depois 
todas as classes trabalhadoras, o commercio, as artes, a industria, 
se encorporavam com as suas bandeiras e uma banda de musica. Nas 
danças faziam-se ouvir violas, rabecas e harpas ; e os marchantes 
da villa também eram obrigados a fornecer os touros para as cor- 
ridas no campo do Toural. 

A' semelhança do que se praticava em Braga, também an- 
nualmente, desde a memorável batalha de Ceuta em que o he- 
roísmo vimaranense não trepidou em occupar e defender o posto 
abandonado pelos barcellenses, as ruas e praças de Guimarães 
eram varridas nas vésperas das festas mais notáveis, incluindo a 
do Corpus-Christi, mas. .. por dois vereadores de Barcellos, até 
que o Duque D. Jayme incorporou no termo de Guimarães as 
duas freguezia? barcellenses — S. Miguel de Cunha e S. Paio de 
Ruilhe — para que dois dos seus moradores dessem cumprimento 
ao antigo costume imposto por el-rei D. João I. 

Em 23 de junho de 1744 deu- se por expiada a pena. 

EGREJA PAROCHIAL DE S. JOÃO DO SOUTO 

(BRAGA) 

(Vide gravura a pag. 16-) 

Está situada na rua do mesmo nome, contigua á capella de 
Nossa Senhora da Conceição ou do Senhor Morto, como vulgar- 
mente se denomina. A construcção actual data do tempo do Ar- 
cebispo D. Gaspar de Bragança (1758-89). Como fosse necessário 
accrescentar a egreja até facear com a capella adjuncta, ficando 
dentro o arco rendilhado que defronta com o grupo do enterro, 
celebrou-se uma escriptura de contracto entre a Junta de parochia 
e o administrador do Morgado dos Coimbrãs, a fim de também 
ser vedada a entrada para a sala do archivo, substituindo -a por 
uma pequena porta que se rasgou a meia altura da torre- capella 
da Conceição. A elegante escadaria que lhe dá accesso pelo lado 
da rua de S. João, data da construcção da capella de Santo An- 



— iOu — 



tonio Esquecido, encostada ao lado posterior da mesma torre-ca- 
pella. Esta imagem de Santo António, esculpturada em alabastro 
e pertencente ao numero das que exteriormente volteiam a torre, 
mede 1,10 de altura. A muita veneração dos fieis deu logar á re- 
tirada da imagem, do seu logar para junto do grupo do Senhor 
Morto, emquanto o doutor Provisor Francisco de Torres mandava 
proceder á construcção da capella. 

Ainda hoje se vê bem conservada a escada orbicular com 41 
degraus livres desde a entrada que se inutilisou com o referido ac- 
crescimo. 

E' de forma quadrangular a capella da Conceição e foi fundada 
em 1 5 1 5 pelo doutor João de Coimbra, provisor' do Arcebispado 
em tempo de D. Diogo de Sousa, como se lê nesta inscripção que 
se acha embebida na parede interior da sala do archivo : 



ímw&Km\m.Mi IM DECO 

lllliW^H()íi[M < ( 7iill\^MliiW. ( >iii.^-i 

O fundador consagrou-a á Mãe de Deus em i5-28 e instituiu 
n'ella Morgado aos 16 de fevereiro de i53o, dotando-a com bens 
de raiz, auctorisado por el-rei D. João III aos 12 de março de 
1527. São de primorosa esculptura as estatuetas de alabastro que 
exteriormente adornam o edifício, um Centauro, um Fauno, S. 
Paulo Heremita e S. Antão Abbade com um magestoso leão em 
descanço, tudo sobre a abobada do pórtico que apresenta no friso 
um corvo e aos lados estes dizeres : 

CORWS PAVLVSPRIMVS HEREMITA 

Sobre este friso havia ao centro uma columna encimada por 
um corvo de pedra com cabeça de ferro e um pão no bico. 

Caiu ha bastantes annos despedaçando-se tudo. 

Esta capella é também denominada do Senhor Morto, por se 
venerar grandemente, ao lado da Epistola uma imagem de 
Christo no sepulchro, tamanho natural, primorosamente esculpru- 



i 7 o 



rada em pedra como o figurado que a rodeia. D'esse formoso grupo 
dou aqui a seguinte photogravura : 




As imagens do altar são de granito fino, como toda a orna- 
mentação interior, inclusive a abobada com suas nervuras que tem 
no fecho o escudo dos Coimbrãs. 



17 1 



A cúpula d'esta capella, toda coberta de telha vidrada como a 
dos zimbórios da egreja da Sé e da capella do Paço Archíepisco- 
pal, tem uma grimpa de ferro, bastante curiosa, de <3"ue faz parte 
uma esphera, a lua e o sol com um dos raios em forma de ban- 
deira e n^ella as armas dos Coimbrãs, e a cruz, encimada por 
uma pomba, com um grande circulo de estrellas. 

O palacete pertencente ao instituidor do Morgado, ainda hoje 
se vê em frente, com duas janellas de grande riqueza esculptural, 
das quaes o referido instituidor e sua família podiam, por permis- 
são especialíssima, assistir ás missas celebradas na capella, não 
obstante haver entre um e outro edifício a rua de S. João ! 



Todos os historiadores, entre os quaes especialisarei o Padre 
Luiz Cardoso (Diccionario Geographico), dizem que a primi- 
tiva egreja de S. João do Souto foi construída a expensas do 
Arcebispo D. Diogo de Sousa (i5o5-32). Contestei todas estas 
opiniões, no meu livro Inscripções e Lettreiros, pag. 47 e segg., 
citando documentos inéditos, authenticos, de que possuo copias por 
mim extrahidas dos orignaes, para pela primeira vez provar que 
D. Diogo apenas reedificou uma ermida que nos principios do sé- 
culo xii doaram ao Cabido para se estabelecer n'ella a parochia 
de S. João, muito antes instalada na Sé. 

A doação foi feita pelos fundadores Pedro Aurifice (ourives) 
e por sua mulher Gelvira Midis, ao Arcebispo D. João Peculiar, 
no anno de 1 i3i. 

EGREJA E CONVENTO DE NOSSA SENHORA 
DOS REMÉDIOS E PIEDADE (BRAGA) 

Tendo o Arcebispo D. Diogo de Sousa nomeado em i523 seu 
coadjutor, com o titulo de Bispo de Dume, o religioso da Ordem 
Terceira Franciscana da Andaluzia, D. fr. André de Torquema- 
da, este deu principio á fundação da egreja e convento dos Re- 
médios em IÔ44, concluindo-se toda a obra cinco annos depois. 

Foi o primeiro convento que se fundou em Braga, e teve por 
isso preferencia a sua egreja para serem sepultadas n^lla todas 
as pessoas nobres. 

O próprio fundador, que falleceu em Braga no dia 2 de agosto 
de iò52, alli ficou sepultado em campa raza, de mistura com as 
muitas brazonadas. 

A Abbadessa D. Francisca dos Seraphins encarregou da con- 
strucção da egreja o architecto vimaranense António Pinto de 



-1 7 2 — 

Sousa, por escriptura de 29 de fevereiro de 1724, concluindo-se 
a curiosa fachada com suas 6 estatuas e columnas corinthias tor- 
cidas, em 1726, um anno antes de toda a obra de pedraria. Tem 
sobre a porta este lettreiro em caracteres elegantes: 

ANNO • DOMINI • MDCCXXV ■ 

As freiras eram franciscanas do instituto da Annunciada de 
Santa Úrsula, de Salamanca. A cerca do convento, que toma to- 
das as -trazeiras das casas da rua de S. Marcos, foi ampliada em 
1741 com a compra de alguns quintaes e casas do doutor Eusébio 
do Vai Façanha, á entrada da rua das Aguas, onde ainda se con- 
serva o mirante com o brazao do Arcebispo D. José de Bragança, 
collocado na esquina esquerda do edifício por ordem das freiras, 
em attenção aos serviços que lhes prestara o Prelado, obtendo de 
el-rei, no anno de 175 1 , um subsidio da renda do real d'agua 
para se construir o muro de vedação da cerca á margem da rua 
da Palmatória. Conservam-se embebidas n'este muro, por ordem 
do referido Arcebispo, duas lapides romanas bastante salitradas, 
uma das quaes, por ter vestígios de uma patera, com a forma de 
palmatória, deu o nome á rua que hoje se acha vedada. Foram 
encontradas a 14 palmos de profundidade. A primeira, que além da 
patera representa outros emblemas da escravidão como a amphora 
ou o pileits, um feixe de varas e um machado, diz o seguinte: 

AGATHOPODI 

T- SATRI 

ZETHVS 

CONSERWS 

A outra d'um soldado natural de Pax Iulia: 

M • ANTONIVS • MF 

GAL- AVGVSTINVS 

PACE • M1LES ■ I EG 

Vil ■ GEM- FEL- 

D • MAMILI 

LVCANI -AN. 

XLV AER • XIIX 

H • S • ]■: 

SEMPRONIVS 

GRAECINVS 

HERES • F • C- 

Sobre a antiga porta principal do convento existem esculptu- 
radas em mármore as armas da Ordem Franciscana com estes 
dizeres no campo: 

ARMA MILICLE NOSTRJE 



i 7 3- 



EGREJA DO SEMINÁRIO CONCILIAR 

Está situada no largo de S. Paulo. Promoveu a sua construcção 
o Arcebispo D. fr. Bartholomeu dos Martyres que a destinava, 
com o edifício adjuncto, á fundação de um convento dominico a 
cuja Ordem elle Prelado pertencia. Por isso aos lados da ca- 
pella mór tem gravadas na parede as armas portuguezas e do- 
minicas, com estes dizeres por baixo : 

IHS 
VIRGA IVA ET BACVLVS TVVS 

Na vossa vara e no vosso báculo está toda a minha consolação. 
disse o Propheta-rei. «Virga tua, et Baculus tuus ipsame conso- 
lata sunt». 

Aproximava-se do seu termo a obra quando em i56o passa- 
ram por Braga, com destino a Coimbra, alguns padres jesuítas 
que o Arcebispo obsequiou, pondo á sua disposição o convento 
para pernoitarem n'elle. A hospedagem não lhes desagradou, e o 
Arcebispo levou a sua generosidade mais longe offerecendo-lhes o 
convento e egreja mediante contracto feito com S. Francisco de 
Borja, commissario geral da Companhia, aos 3o de agosto do refe- 
rido anno. O Cabido reprovou o procedimento do Prelado ; e 
quando, seis annos depois, foi celebrado em Braga o Concilio Pro- 
vincial, protestou contra o voto que o presidente-Arcebispo tivesse 
a seu respeito, porque o considerava suspeito, visto ter dado aos 
padres da Companhia os estudos da cidade com as egrejas a elles 
unidas e a ermida de S. Paulo, que já não existe, e ainda por que 
o Arcebispo fizera novo Aljube e n'elle uma casa sem janella e 
quasi sem luz, a qual se denominava : casa para os cónegos. 
A lucta foi renhida, ficando vencedor o Arcebispo; e os fi- 
lhos de Santo Ignacio, que desde maio de 1540 (reinando 
D. João III) introduziram em Portugal a sua Ordem, alli se con- 
servaram até que a lei de 3 de setembro de 1759 os expulsou do 
reino, 14 annos antes da dissolução decretada pelo Papa Cle- 
mente XIV. 

Partiram desta cidade na madrugada do dia 3i. 

Desde 17 de julho de 1769 a 1 1 de novembro de 1784 foi o 
convento occupado pelas freiras Franciscanas de Monsão e Va- 
lença, que a rainha D. Maria I fez por fim distribuir pelos con- 
ventos da Conceição e Remédios, para em seu logar ficarem 10 
religiosas Ursulinas que fizeram a sua entrada no dia 20 de janeiro 
do anno immediato. No dia 14 de outubro de 1880 foi solemne- 



— i 7 4- 

mente transferido para esta casa o Seminário de S. Pedro que 
então era no antigo campo da Vinha e tinha sobre a porta do edi 
ticio esta inscripção hoje existente na alameda das Carvalheiras: 



WtTl)0L0^MllilíHP»(.!ilÍíliOIMilS.()ll!). 
NlS.PRBI(:EXttE[lttíflií(ILinil.4yB!W^'ÍÍÍIIII0Í.ltt3 

(lllINRMOWIWimtUíIíiMOWttfVMlfllHE 
RENTVR.ty OIFKMI \MM ÍU» , 
DMTVMMVIIWMftfiW Ih MM. 572 . 



N'este edifício também foram alojadas em janeiro de 1704 
as freiras de Monsão, passando por isso os seminaristas, para 
a casa do Passadiço, na rua de S. João, e annos depois para 
as casas 1 19 e immediata, na rua Nova de Sousa e esquina da rua 
da Mizericordia. 

Em 21 de julho de 1769 foi superiormente ordenado á ve- 
reação bracarense que recolhesse e fechasse com três chaves, no 
seu archivo, todos os papeis que se achassem no cartório do Coi- 
te gio dos Jesuítas. 

Não consta porém que esses papeis fossem alli recolhidos e 
muito menos que existam em qualquer outra parte. 

Em 21 de dezembro do mesmo anno foi este edifício, do actual 
Seminário Conciliar, concedido á camará para estabelecer n'elle 
a alfandega emquanto durassem as obras da reedificação dos al- 
pendres da rua da Fonte da Carcova, hoje dos Capellistas, exis- 
tentes nas trazeiras da casa que ha dois annos se construiu e que 
ora é occupada pela Associação Catholica. 

A aula de physica do Seminário está estabelecida na extincta 
sacristia do tempo dos Jesuítas, sem prejuiso da pintura do tecto 
com arabescos e emblemas, e em volta destes os seguintes dize- 
res allusivos: 

HOC TECTVM EST CEI.VM : SVNT SlGXA K.MBI.EMATA : 
PHCEBVS LOYOLA : H1C V1T.E SOL TIBI SIGNA DABIT 

S' IGNATII SKPVLCRVM STELL1S ILLVSTRATVR • 
SOL1S IN OCCASV COLLVGENT SIDERA 



l?3 - 



SIC POST MORTEM VISVS EST CflELVM AD1RE 
CVRRVS ET EQVI IGNEI RAPVERVNT El IAM 

S . IGN • NON PATITVR DE PINGI 
MAIOR QVAM PINGI DICl VE QVEAT 

S. IG- EXCLAMATIO : SORDET TERRA CVM CCELVM 

aspicio prt: ccelo nvlla VENVSTAS SOLO EST • 

S. IG- LVDENDO HOMINEM AE DEVM LVCRATVR 
LVCRATVR VTERQVE • 

S. IGN- A CALVMNIIS CEARIOR 
SOLEM NVLLA SAG4TTA ET ERIT • 

S . IGNATII CONVITIATOR CREMATVR 
DVM PREMIT OPPRIMITVR 

S. IG- BACVLO AB IGIT DAEMONES 
HAC VMBRAS IN" TÁRTARA MITTIT • 

S. IG- VT AD CONFESSIONEM DVCAT SACERDOTE 
El CONFITETVR ELECTITVR VT CAPIAT • 

S. IG- AD LABORANDVM GRÁTIS SOCIETATEM 
OBLIGAT ABSQVE ÓLEO ILLVMINAT • 

S. IG- SOCIETATI DIGNITATES IN TERDIXIT 
NEMO QVIDEM SAPIENS REGIA SCEPTRA PETIT 

S. IGN- MITTIT IN INDIAM S. 1 • XAVERIVM 
VADE AGE NATE 

S. IGN- ZELVS ANIMARVM IGNEM 
VENT MITTERE IN TERRAM • 

S. IG- EVINCVL1S MAIORE TERVORE CONS1GNATVR 
ALTIVS HINC VOX INTER CLVSA SONAT ■ 

. . .AD FIRMANDAM SOCIETATEM NOV- •• DLEG1T 
PROPTER DECEM 



S. IG- SOCIETATI- NON SVVM, SED IESV NOMEN 
IMPONIT- NON NOBIS DOMINE, SED NOM1NI 
TVO DA GLORIAM. 






-I 7 0- 

S . IGNATII STINA '. AD MAIOREM DEI GLORIAM 
HAEC CVN OSVRA MIHI. 

S. IG- PRO ANIMARVM SALVTE IN VINCVLA 
CONSICITVR DANT VINÇLA DE COREM • 

S. IG • AQVIS ME -SUS TVRREM IN 

IVVENTE AMOREM EXTINGVIT • 

VNDA DEDIT ERAM AS ET DEDIT IGXIS AQVAS 

S . IG MATVRVS MVLTVM IX LITERIS 

PRO TE EGIT SERIS PROFICIT ANNIS • 

S. IG- VVLTVS C.ELESTI LVCE RADIAT 
QVIT MIRVM ET AT IGNTS • 

S . IGN • H.ERESIS PRO TE LIGATOR 
SOLO IGNAE TRIVMPHAT 

S . IG • ECCLESIAE SVSIDIVM 
EGO F • • • O El MVRVS IGMS 

S. IG- ROMAE REGENS TOTVM ORBEM ILLVMINAT 
STANS EIXVS CIRCVIT ORBEM • 

O órgão, construído sob a direcção do organeiro bracarense 
sr. Augusto Joaquim Claro e com o auxilio do rev. padre Kempf, 
inaugurou-se no dia 25 de junho de 1898. Tem dois teclados de 
pedal e dois de mão, para dois organistas, 29 jogos e 2:o38 tubos 
de madeira e de metal. 

O organista fica voltado para a capella-mór; e o órgão, que 
se considera o primeiro do paiz, é pneumático e compoe-se de 
2 1 1 folies, 6 dos quaes movidos por motor a gaz. 

Ao centro do largo de S. Thiago, em frente do Seminário, existe 
um chafariz em forma de obelisco encimado pela cruz primacial, 
construído em 1746. Desde 1623 esteve esta fonte na extremidade 
poente do referido largo, á entrada da rua dos Pellames. 



— 177 — 
EGREJA DE SANTA CLARA (GUIMARÃES) 

Esta egreja está situada a meio da rua de Santa Maria e pertence 
ao Seminário que em 8 de outubro de 1893 se installou no edifí- 
cio contíguo, extincto convento de Santa Clara. E' fundação 
do cónego mestre-eschola Balthazar de Andrade que lhe lançou a 
primeira pedra no anno de 1548. * 

A entrada das religiosas no convento effectuou-se em i5Ô2, no 
dia da Santa matriarca, mas a actual fachada do edifício, de tra- 
balhosa esculptura, construiu se em 1741. 

Ha no corpo da egreja três altares: — Gruta de Lourdes, Se- 
nhor dos Passos e Coração de Jesus. 

O convento e a egreja foram cedidos á Insigne e Real Col- 
legiada, por decreto de 19 de agosto de 1893, para o Seminário 
creado pela carta regia de 8 de janeiro de 1891, reorganizadora 
da mesma Collegiada. 

No dia 8 de dezembro do referido anno de 1891 teve logar a aber- 
tura do Seminário, com internato, no palácio dos D. Priores e aulas 
na casa n.° 20 da antiga rua Escura. A 27 de agosto de 1893 tiveram 
principio as obras no arruinado convento, onde a 8 de outubro im- 
mediato se eftectuou a installação do internato e aulas. E' datado 
d-e 16 de setembro de 1896 o decreto que organizou o Seminário 
em Lyceu Nacional. 



SYNCHRON1SMOS DO SÉCULO XVI 

O frade Augustiniano allemão Martinho Luthero, natural de 
Eisleben (Thuringia), nomeado em i5j8 professor de dialéctica 
na Universidade de Witemberg, fundou em 1 5 1 7, quando contava 
25 annos de edade, a egreja protestante que aconselhava aos chris- 
tãos o estudo e a interpretação das Sagradas Escripturas. Tomou 
esta resolução por se revoltar contra as indulgências que Leão X 
estabeleceu para occorrer ás grandíssimas sommas que dispendia 
com a construcção da egreja de S. Pedro, em que Miguel Angelo 
revelou notável talento na arte do desenho. 

A primeira sessão do Sacrosanto Ecuménico e Geral Concilio 
Tridentino, celebrou-se a i3 de dezembro de 104.5. Ordenou-se 
então que os Prelados residissem nas suas egrejas «como melhor 
meio de emendar os costumes depravados do clero.» 



1 Oliveira Guimarães, Convento de Santa Clara. 

li 



— 178 — 

O cap. VII da sessão XXI dá faculdade de «converter as egre- 
jas pobres ou destruídas em usos prolanos, decentes, levantando 
ahi uma cruz.» No cap. VII da sessão XXII (17 de setembro de 
i562) : «O sacerdote deve lançar agua no cálice quando offerece,. 
porque no Apocalypse de S. João, os povos são comparados ás. 
aguas e d'este modo fica representada a união dos fieis.» 

A denunciação dos contrahentes do Matrimonio principiou a 
ser feita logo que foi resolvida a 1 1 de novembro de 1 563. 

N'este século principiou o registo parochial de baptismos. Em 
Lisboa já se achava estabelecido pelas Constituições de 25 de 
agosto de i536, anteriormente á convocação do Concilio Triden- 
tino que na sua sessão XXIV — De reformatione matrimonii ',. 
cap. I, impoz aos parochos a obrigação de possuírem um livro em 
que escrevessem os nomes dos cônjuges e das testemunhas, e os 
nomes dos padrinhos do baptismo para se conhecer o parentesco 
espiritual. No viu século não era ainda commum o baptismo por 
infusão ; mas o parentesco espiritual que d'este Sacramento re- 
sulta, era observado com o máximo rigor, o que hoje mal pôde 
ter logar em virtude da facilidade com que muitas pessoas se pres- 
tam ao encargo, contando dezenas de afilhados vivos. 

Eguaes encargos pertenciam aos padrinhos e madrinhas que 
se davam a quem recebesse o Sacramento da Confirmação. 

Começou com a egreja o uso de padrinhos no baptismo para 
se evitar que os pães, tão expostos ao martyrio, deixassem ao des- 
amparo os filhinhos. Então as fontes baptismaes tinham degraus 
de pedra, pois ficavam inferiores ao pavimento. Por elles ainda no 
século xiv desciam os catechumenos, para serem solemnemente 
baptisados no sabbado de alleluia. Também as creancinhas, nas- 
cidas de pães christãos, eram baptisadas pela Paschoa do anno 
em que nascessem ou do seguinte, prolongando- se esta ceremonia, 
quando o numero de baptisados fosse grande, desde a terceira 
Dominga da quaresma até á sexta-feira anterior á Dominga in albis. 

A sahida da egreja para o baptistério ou fonte, que era um 
edifício contíguo, effectuava-se processionalmente, encorporando-se 
n'ella o clero e muito povo, e atravessava sempre o claustro ou o 
cemitério (Gallilé), procedendo se em seguida ao escrutínio. Este 
acto practicava-se annualmente, ainda mesmo não havendo cate- 
chumenos, sendo hoje entre nós representado pela benção da fonte 
baptismal no sabbado de alleluia. 

Em 1596 decidiu-se «que cada pia de baptisar pagasse de Sy- 
nodatico 800 réis, todas as vezes que se fizesse Synodo.» 

No anno de i5go instituiu Gregório XIV a Bulia da Sai ta 
Cruzada «para a propagação do Evangelho nas terras de infiéis, 
erigir e ornar egrejas, educar e manter missionários.» 

Até ao século xm os sellos tiveram o nome de Bulias por se 



— i79- 

parecerem na configuração com as bolhas d'agua (Bullae). Só de- 
pois foi dado este nome aos diplomas Pontifícios que tinham sello 
pendente feito de ouro (Bulias áureas), ou de prata (Bulias ar- 
gênteas), como se usavam anteriormente ao christianismo. 

As Bulias vulgares, usadas pelos Papas depois de Constantino 
conceder a paz á egreja, pertencia o sello de chumbo ou cera. 
O de chumbo apparece nas de S. Gregório Magno, S. Leão I e 
S. Silvestre com o nome impresso. Parece que Clemente VI ape- 
nas lhes consentia, em logar das cabeças de S. Pedro e S. Paulo, 
as cinco rozas do brazão de família. 

N'este século xvi advertiu-se ao povo «que as imagens não 
teem em si virtude alguma, que lhes seja própria, e que só se 
expõem nas egrejas para excitarem no espirito a lembrança de 
Jesus Christo e dos Santos, a fim de se moverem a imital-os por 
este meio; que se dê a Deus um culto de adoração e perfeita de- 
voção, e aos Santos um culto de honra e simples veneração, por 
serem amigos de Deus». 

Não obstante porém esta advertência (sempre a herança do 
velho paganismo!) numerosíssimos indivíduos observam a religião 
christã do modo mais nccommodado ás suas conveniências, sem 
aquelle espirito de caridade que a sã doutrina de Jesus Christo 
aconselha. Salva-os a intenção, que é boa, pois também por cá 
temos frequentes casos como o que se deu com o historiador in- 
glez Hume que, por ser considerado heterodoxo, não foi prom- 
ptamente soccorrido por uma mulher de Edimburgo que o viu 
cair d'uma ponte provisória sobre um montão de lodo. E só lhe 
prestou auxilio depois de o obrigar a resar em voz alta o credo ! 

Adoram-se as imagens sagradas como o paganismo adorava 
os idolos, julgando-se que existe dentro d'ellas o ser que repre- 
sentam; prégam-se alfinetes nos hábitos dos defuntos; lancam-se 
punhados de terra nas sepulturas e adornam-se estas com flores 
e luzes; esconjuram-se graves doenças procurando á meia noite 
as pontes construídas pelos mouros e, apoz umas benzilhices em 
que entra o nome de Jesus e da Virgem, lançam-se ao rio três 
punhados de sal e meio alqueire de painço para que o diabo fique 
longo tempo a contar as sementes emquanto o doente foge a toda 
a pressa para casa, e acredita-se na existência de almas penadas 
que vém aconselhar a divisão do seu espolio e umas restituições 
engendradas, pro domo sua, por impostores eméritos. 

Ha mesmo indivíduos illustrados que n'estas questões de fé 
manteem e defendem o que aprenderam na infância ou seguem 
o que em geral se adopta. Com dimculdade se lhes fará crer, por 
exemplo, que é errónea a interpretação geralmente dada ás se- 
guintes passagens do Evangelho: «Faze o bem com a mão direi 
ta, de modo que não o veja a esquerda». 



— i8o - 

«Acautelae-vos de fazer as vossas acções boas perante os ho- 
mens a fim de serdes vistos por elles». 

Deste modo, quantos não vão a deshoras, com receio de serem 
vistos, enchugar lagrimas amargas e reanimar corações desalen- 
tados pelos horrores da miséria! Recebem, é certo, o premio con- 
solador do bem que fazem, mas auxiliam involuntariamente a im- 
postura de muitos que se dizem esmoleres como elles, e prejudi- 
cam assim os pobresinhos. 

O grande Santo Agostinho diz: «Se temes espectadores, não 
terás imitadores». 

Apregoemos, pois, as nossas boas acções, para que o exemplo 
fructifique, e occulte-se apenas a intenção como o Evangelho acon- 
selha. 

«Veja o mundo as vossas obras boas, afim de dar gloria ao 
Pae do céu». 



EGREJA DO POPULO (BRAGA) 



Está situada ao poente do referido campo da Vinha. A sua 
construcção deve-se ás divergências havidas entre o Arcebispo 
D. fr. Agostinho de Jesus e o Cabido de Braga que não lhe 
consentiu a fundação de uma capella na Cathedral para seu jazigo. 

Por isso escolheu a Vinha de Santa Eufemia, actual campo 
de D. Luiz I, onde no anno antecedente fundara o convento do 
Salvador, e alli fez construir a egreja e convento da Ordem de 
Santo Agostinho, lançando-lhe a primeira pedra no dia 3 de julho 
de i5g6. A primitiva fachada da egreja, dum gosto simples e 
sem torres, erguia-se onde agora encosta o anteparo. A torre de 
então vê-se ainda nas costas da egreja, faltando- lhe a elegante 
cúpula que uma faísca destruiu. 

A actual fachada, muito elegante e com duas torres, é com- 
posta das Ordens architectonicas Toscana e Jónica, e foi levan- 
tada a 6 metros de distancia da primitiva, no anno de 1780, em- 
pregando-se na sua construcção a pedra que sobrou da obra do 
augmento do Seminário, que para esse fim obtivera provisão re- 
gia e auctorização para demolir a torre de Santo António que 
era uma das portas da muralha da cidade. 

A egreja fecha toda em abobada de pedra e tem no corpo 
6 altares collateraes em amplas capellas. Ao lado direito do ante- 
paro venera-se uma formosa imagem de Christo na Agonia, ta- 
manho natural, e ao lado esquerdo Nossa Senhora da Correia. 

Na capella-mór, lado do Evangelho, está mettido em arco 
aberto na parede o tumulo do fundador, feito por ordem do go- 



— iSi — 

verno em 1628, ficando -lhe fronteiro o do seu successor D. fr. 
Aleixo de Menezes. 

O extenso convento, que mede 5814 metros quadrados, é quar- 
tel militar de infanteria n.° 8, desde 27 de fevereiro de 1841. Na 
grande cerca, actualmente propriedade particular, ainda se podem 
ver, em estado de abandono, as sete capellinhas ligadas por uma 
escadaria de pedra, nas quaes se representa a via-sacra em gran- 
des imagens de barro. 

Ao centro da sacristia da egreja ha uma meza de mármore 
escuro que assenta sobre uma pedra sepulchral onde se lê: 

AQVI JAZ D • FR • ANT ? 

DOS ST? S BISPO DE 

NICOMEDIA RELIGI 

OSO DE ST AG 

Da parede pendem 5 quadros em relevo, dourados, represen- 
tando milagres de Santo António. 

A estes pertenciam os 1 1 que hoje existem coloridos na ca- 
pella da Praça Municipal. 

A irmandade da SS. Trindade foi para aqui trasladada da Sé 
no dia 24 de agosto de 1868. Na antiga rua das Conegas, que lhe 
fica próxima, fundou o Arcebispo D. João Peculiar, em 1140, um 
convento de freiras Augustinianas (conegas). Hoje apenas nos 
resta o nome que d'ellas ficou á rua. 



EGREJA DO SALVADOR (BRAGA) 

O Arcebispo D. fr. Agostinho de Jesus (1587 1609) vendo o 
antigo campo da Vinha transformado em vastíssimo largo da ci- 
dade, por effeito da troca e emprasamento que se eftectuou aos 
3 de dezembro de i5o8 entre o Alcaide-Mór de Braga, Affonso da 
Costa, seu proprietário, e o Arcebispo D. Diogo de Sousa que lhe 
cedeu diversos foros e outras propriedades sitas na Veiga de 
Penso, mandou construir no referido local um mosteiro denomi- 
nado do Salvador para ser habitado pelas religiosas benedictinas 
do convento de Viciorino das Donas, (Ponte do Lima). A pri- 
meira pedra da egreja foi lançada á terra em i5g5. 

O convento era apenas a parte que corre ao poente da egreja. 
Em 1734 construiu- se o novo dormitório e casa para os capellães, 
entre a capella-mór e o actual edifício do collegio Inglez, com- 
prando para este fim as religiosas duas moradas de casas com 
quintaes que n'aquelle sitio havia. 



- 182- 

O tecto do corpo da egreja é todo apainellado com 40 magní- 
ficos quadros representando a vida de Jesus e da Virgem. A talha 
da tribuna e do púlpito, que data de 1736, é de grande mereci- 
mento, bem como o azulejo que decora as paredes interiores, re- 
presentado na seguinte gravura do púlpito: 




O pórtico, voltado ao sul, é puramente Jónico, muito ele- 
gante, com suas columnas de caneluras e duas imagens de pedra 
representando Santa Escholastica e S. Bento. No alto ha um ni- 



— 183 — 

cho com a imagem do Salvador e por baixo a inscripção se- 
guinte: 

SALVA NOS SALVATOR MVNDI 

DE VICTORINO AVGVôTINVS TRANSTVLIT OLIM. l6o2 

STRVXIT AB ALMEYDA DOMNA MARIA MODO. l6l6. 

Falleceu no dia 7 de fevereiro de 1893 a ultima freira professa 
D. Thereza Máxima do Espirito Santo, sendo sepultada na campa 
n.° 382 do cemitério publico. Todo o edifício passou então para a 
posse da Fazenda Nacional que depois o cedeu ao Asylo de Men- 
dicidade, actual possuidor. 

N'este campo, quasi ao principio da rua do Carmo, ha um 
elegante chafariz construido em 1721. 

No mesmo sitio da casa da esquina, pertencente á familia do 
fallecido dr. António Vieira d' Araújo, tiveram os frades benedi- 
ctinos de Tibães o seu Hospício. 

Também alli esteve a capella de Nossa Senhora do Amparo. 



EGREJA DO CARMO (BRAGA) 



Esta egreja está situada no principio da rua do mesmo nome. 
A obra da construcção teve principio no dia 4 de maio de 1634, 
logo depois de os religiosos largarem ao Cabido o campo do 
Carvalhido, em S. Martinho de Dume, e o campo da Deveza, 
em Urjaes, pela cedência do campo de Santa Eufemia, na rua 
do Carvalhal, assim como de umas casas térreas para se edificar 
o convento. 

No dia 22 de outubro de i655 os religiosos trasladaram-se 
processionalmente para este seu novo convento, d'umas casas do 
largo das Carvalheiras, (agora matadouro Municipal), nas quaes 
no i.° de fevereiro de i635 tinha sido fundado pelo seu primeiro 
prelado fr. José do Espirito Santo, natural de Braga, o primitivo 
convento. 

A egreja tem quatro altares collateraes em arcos, que se com- 
municam interiormente, mais dois aos lados do arco cruzeiro, e 
a capella do Sacramento com porta para a capella-relicario onde 
se admiram mais de mil relíquias de santos, distribuídas pelas 
quatro paredes interiores, e entre ellas apreciáveis trabalhos de 
pintura em pergaminho, em vidro, em cobre, desenhos a matiz e 
pequenas esculpturas de santos. Esta capella que Pio VII indul- 
genciou, foi grandemente venerada pelos frades. Tem ao centro 



— 184 — 

uma sçpultura de mármore que encerra os restos mortaes do 
i.° conde de Vinhaes. 

Os venerandos restos do milagroso fradinho guardam-se em 
campa raza, de mármore, junto da capella-mór. Tem esta inscri- 
pção a referida campa sobre que arde uma luz permanente, não 
obstante a prohibicão do Arcebispo em 17 de dezembro de 
1866: 

AQVI JAZ 

O R MO FR- JOÃO 

d'aSCENCÁO NEIVA 

> 

RELEGIOSO CARMELITA 
DESCALÇO 

> 

NASCEV A 26 d'0VTVBR0 DE 

I787 
FALECEV A l6 DE MARCO DE 

l86l 

E' construída de mármore a curiosa escada suspensa que con- 
duz ao púlpito. 



EGREJA DE S. DAMAZO (GUIMARÃES) 



Está situada á entrada da rua do mesmo nome em terreno 
que foi de Diogo de Miranda dAzevedo e que a irmandade das 
Chagas comprou em 1625. 

Construiu-se por disposição testamentária do Abbade de Santa 
Comba de Regilde, rev. Lucas Rebello, que em 9 de junho de 
1609 instituiu sua universal herdeira a irmandade das Chagas e 
Coridão de S. Francisco. A fachada, com uma torre á direita, é 
de gosto bastante simples ; mas interiormente esta egreja recom- 
menda-se pela riqueza da talha dos quatro altares collateraes e da 
tribuna, onde se venera a pequena imagem de N. a S. a da Penha 
de França que outrora teve capella própria no largo do Carmo 
(hoje de Martins Sarmento) e da qual ainda existe, a fazer parte 
do muro da quinta do Bringel, uma janella crucifera interessante. 

Lucas Rebello também dispoz que se construisse unido á egreja 
o hospital que lá se vê, para serem recolhidos nelle ecclesiasticos 
pobres e os seculares indigentes da freguezia de Santa Comba. 
Durou esta obra muitos annos e parece que se refere ao começo 
da capella-mór a data gravada no primeiro degrau do altar : anno 

DOMINI M.DC.XXXVI. 

Em pequeno arco aberto na parede interior do lado direito da 
capella-mór, está o sarcophago de granito em que se guardam as 



— 185 — 

cinzas do benemérito fundador. Mede i m ,o5 de comprido por 1^,20 
de alto, e tem na frente esta inscripção : 

RE-BELLVS LVCAS ABBAS QVI REXERAT OLIM 

REGILDAE TEMPLV, CONDITVS HOCCE JACET 

IPSE SIBI TVMVLV DÂMASO QVOQ CONSTRVXIT 

AEDEM. 

1ACT1TE VT NATOS PÁTRIA TANTA D VOS. 

IAM QVOD PASTOR OVE CAELEST1 SEDE LOCAVIT 

PASTOREM TEMPLO GRATA REPON1T OVIS. 

RENOVADA 

NO ANNO DE l825 

Junto da sacristia construiu se a expensas do commendador 
Manuel José Teixeira uma pequena capella de S. Sebastião, ben- 
zida no dia 20 de janeiro de i8q6. Venera-se n'ella uma nova ima- 
gem do glorioso martyr, tamanho natural, primorosamente escul- 
pturada em madeira. 

Ao lado direito da porta principal havia uma cruz de pedra 
com o Christo pintado a óleo e resguardada por uma caixa de 
madeira. Fof ha annos apeada a despeito da grande veneração dos 
visinhos que todas as noites lhe accendiam uma luzinha d'azeite. 



EGREJA DOS CAPUCHOS (GUIMARÃES) 

No dia 2 de janeiro de i663 o D. Prior de Guimarães D. Diogo 
Lobo da Silveira lançou á terra junto do altar-mór a primeira pe- 
dra d'esta egreja e convento dos frades capuchos da Piedade, 
tudo construído a expensas dos devotos e da contribuição de 7 
réis que os frades foram auctorizados a cobrar por cada arrátel 
de lombo que em Guimarães se vendesse. Uma provisão real 
também lhes concedeu para a obra toda a pedra dos Paços do 
Conde D. Henrique!!! 

Esta concessão ainda hoje, volvidos mais de dois séculos, faz 
corar de vergonha quem ama as glorias da pptria. 

Na sessão camarária de 3i de janeiro de 1666, o povo de 
Guimarães protestou contra esta concessão absurda e estúpida, 
mas os vândalos levavam já bastante adeantada a obra destruidora, 
e lá foram para a alvenaria dum convento aquellas muitas paginas 
de pedra pertencentes ao livro mais precioso da historia nacional ! 

Dois annos depois, a 29 de julho de 1668, os frades entraram 
solemnemente n'este novo convento. 



— ,86 — 

Ao centro da capella-mór da egreja ha uma lapide funerária 
ellíptica com esta inscripção : 



AQVI JAZ FREI 

LVJZ DO PORTO 

OV DAS CHAGAS 

FALESCIDO A 21 DE 

JAN. DE 1797 E 

TRESLADADO PA 

RA ESTE l.VGAR 

A l3 DE JVLHO 

DE 1806 



Tem aos lados da tribuna Compósita as imagens de S. Fran- 
cisco e Santo António, e junto do arco os altares da Virgem das 
Dores e do Coração de Jesus. 

No claustro ha grandes quadros representando a vida e mila- 
gres de Santo António. Um destes, sem duvida o mais digno de 
attençao, mostra o thaumaturgo portuguez no inferno a colher de 
João de Moreno uma tira de papel (um recibo !) com estes dize- 
res curiosos : 

RECEBI 

DESSE MEV 

FEITOR TV 

DO Q. TO LHE PE 

DEM MEVS ER 

D. os E POR VERDA 

DE PACCEI ES 

TE E ME ASIG 

NO. INFERNO 

7 DE MAIO 

i363 

JOÃO DE MORENO 



A irmandade da Mizericordia comprou á Fazenda Nacional 
este convento e egreja por 1 :6oo-Tooo réis, em i3 de julho de 
1842, e installou alli o seu hospital recebendo nelle os primeiros 
doentes em julho do anno immediato. 

As grandes obras a que se procede, iniciaram-se com o lança- 
mento da primeira pedra pelo D. Prior de Guimarães D. José 
Francisco de Paula d' Almeida, no dia 1 de julho de 1861. 



— 18 7 — 

EGREJA E CONVENTO DAS CAPUCHINHAS 

(GUIMARÃES) 

A pequena distancia da egreja dos Santos Passos, no campo 
do Gallego, que foi pertença de Francisco de Sousa da Silva, ini- 
ciou o commissario da Ordem Seraphica, fr. Francisco do Salva- 
dor, a construcçao da actua! egreja e convento da Madre de Deus, 
no anno de 1681, concluindo-se toda a obra anteriormente ao dia 
4 de abril de 1 683, dia em que as religiosas do recolhimento da 
rua do Valle de Donas, alli fizeram a sua entrada solemne, regi- 
das por Gatharina das Chagas, que a i3 de maio de 1694 foi sepul- 
tada em Carauz (Pamplona). 

Decorridos 22 annos, o Arcebispo D. Rodrigo de Moura Tel- 
les, que obtivera de Clemente XI um Breve, nomeou primeira ab- 
badessa sua irmã D. Luiza Maria da Conceição. 

A egreja é bastante soturna e húmida. No altar que fica ao 
lado esquerdo do arco, são muito veneradas as imagens da família 
sagrada, esculpturadas em Lisboa e offerecidas pelo vimaranense 
padre Luiz António da Costa Pego, capellão de D. João V, sendo 
collocadas no logar que ora occupam a 25 de julho de 1748. 



EGREJA E CONVENTO DO CARMO (GUIMARÃES) 

A edificação d'esta egreja e convento, na rua de Santa Maria, 
com frente para o largo de Martins Sarmento, teve principio no 
dia 26 de março de i685, e crê-se que a expensas do mercador 
Francisco Antunes em honra de Santa Thereza. 

As recolhidas eram carmelitas calçadas e o convento foi pos- 
teriormente denominado de S. José, tendo ainda sobre a porta um 
nicho com a sua estatua em pedra. O Arcebispo D. José de Bra- 
gança mandou construir a capella-mór. Por fallecimento da ultima 
freira professa, em 1854, o governo cedeu a egreja á irmandade 
do Carmo, hoje Ordem Terceira, e por decreto de 3o de maio 
de 1860, cedeu o convento para n'elle ser fundado o Asylo de 
Santa Estephania, que se inaugurou ao cabo de 3 annos. 

As grades de madeira dourada que vedam a capella-mór, as 
duas mesas que estão aos lados do altar, e a tribuna, que foi da 
egreja da Costa, merecem a attenção dos peritos. 

Em frente d'esta egreja ergue-se o antigo chafariz do Toural 
que tem a data de i583. E' de elegante esculptura, perfeitamente 
igual ao do campo do Salvador, em Braga. 



— 188 



EGREJA PAROGHIAL DE S. VICTOR (BRAGA) 



Está situada em plano superior, á margem esquerda da rua do 
mesmo nome, e foi construída em 1686, a expensas do Arcebispo 
D. Luiz de Sousa, como o indicam as suas armas, e as duas in- 
scripções lapidares embebidas aos lados da porta principal : 

D. LVDOVICVS A TEMPLVM HOC VE 

SOVSA ARCHIEPIS TERI FERE COLLA 

COPVS AC DNS BRA BENTE A FVNDAMEN 

CHARENSIS HISPA TiS EREXIT ET Dl 

NIARVM PRIMAS RE VO VICTORI DICA 

GI,E MAIESTATIS AS VIT ANNO INCARNA 

TATVS CONSILIIS TIONIS DOMINI • 1 686 

•: 
A architectura da fachada pertence á ordem Jónica. 
Nas paredes da anterior egreja appareceu uma lapide sepul- 
chral romana que se empregou na construccão da actual, onde 
deve estar coberta de cal, ao lado norte. Diz a inscripção: 

IVLIVS PILIDES 

ORESTES 

H • S • E 

(Jiilhis b ilides Or estes, hic siíus est). 

A origem d'esta egreja matriz é antiquíssima. 

O clérigo Vasco Mendes doou a S. Martinho de Dume, em 565 r 
a sua quinta de S. Victouro, impondo-lhe a obrigação de crear 
alli um mosteiro com capellães. A egreja foi depois reedificada 
em io3i por um padre Nuno Forjaz. Em 1096 o seu padroeiro 
Nuno Soares doou o mosteiro ao Arcebispo S. Geraldo. D. Payo 
Mendes (11 18-37), reedificou e sagrou a egreja, tomando o titulo 
de Abbade de S. Victor, transmittido a todos os successores por 
confirmação do Papa Eugénio III, como se lê na iespectiva Bulia 
existente no Archivo da Mitra: — Ecclesiam Sancli Victoris cum 
Villa sua — datada de 1 148. 



EGREJA DOS CONGREGADOS (BRAGA) 

No lado sul do campo de Santa Anna ergue-se magestosa esta 
egreja de construccão arrojada como nenhuma outra de Braga. 



-i8 9 - 

Em i3 de fevereiro de 1686, cento e onze annos depois de 
S. Filippe Nery instituir em Roma a Congregação do Oratório, o 
Arcebispo D. Luiz de Sousa concedeu ao padre José do Valle, 
(pouco depois fallecido e substituído pelo companheiro rev. Manuel 
de Vasconcellos) licença para lundar em Braga uma filial da Con- 
gregação de Lisboa. Este comprou então no campo de Santa Anna 
uma morada de casas e quintal, principiando por um pequeno hos- 
pício onde em breve foram admittidos mais de vinte padres, sendo 
por isso necessário comprar, junto d'aquella, outras moradas de 
casas e terrenos onde finalmente foi lançada pelo Arcebispo a pri- 
meira pedra para a egreja a 16 de outubro de 1689. 

O papa Alexandre VIII concedeu a confirmação em i3 de se- 
tembro de 1690 e isentou-a da jurisdicção parochial, obtendo elles 
de D. João V o régio beneplácito. 

A porta principal, á distancia de 117 palmos e meio da extin- 
cta capella de Santa Anna *, teve principio em 1739; e em maio 
de 1765 concluiu -se toda a fachada. Nos annos de 1783-84 fez-se 
o retábulo da capella mor e foi estucada a egreja. 

Aos lados do arco e a toda a sua altura, tem quatro grandes 
nichos com estatuas de granito representando David, Abraham, 
Jacob e Isaac. 

Os primitivos altares collateraes são oito. 

Ha porém mais dois nas portas que ficam aos lados do ante- 
paro. 

Soore uma porta interior da sacristia ha um bello quadro em 
tella, representando o Agnus Dei, obra de muito merecimento. 

Indicou-m'o o sr. José Maria d' Albergaria Guerra, muito di- 
gno chefe dos serviços telegrapho-postaes do Districto de Braga. 

A egreja pertence á irmandade de Nossa Senhora das Dores, 
cuja imagem foi alli collocada no dia 18 de janeiro de 1761, tendo 
sido esculpturada pelo padre Martinho Pereira, nascido aqui em 
Braga, no anno de 1723 e fallecido a 7 de agosto de 179o. 

Diz se que por falta de recursos pecuniários não pôde ser con- 
struída a torre do lado esquerdo. 

E' inacreditável que para a conclusão de um edifício grandioso, 
como este, não se pudesse então e não se possa ainda hoje conse- 
guir do publico bracarense a verba indispensável. 

O edifício do convento e cerca pertencem, por lei de i3 de ju- 
lho de 1841 e 2 de dezembro de 1844, á bibliotheca publica, (or- 
ganisada com os livros de muitos conventos e inaugurada em 1857), 
e ao lyceu, que desde 1840 funccionava no Seminário de S. Pe- 
dro, tomando posse a 1 1 de julho de 1845, e abrindo pela primeira 
vez as aulas no dia i5 de outubro. 



1 Esta capella principiou a ser demolida no dia o de agosto de 1769 



— |i9° — 

Desde o violento incêndio do Paço Archiepiscopal, em 1866. 
todas as repartições publicas passaram para o edifício dos Congre- 
gados e alli se conservaram até que se adquiriu o palacete dos 
Falcões, no campo de S. Thiago, onde se acha installado o Go- 
verno Civil, Repartição de Fazenda Districtal, Policia Civil, Com 
missão Districtal e a Agencia do Banco de Portugal. 



Sobre um milliario do campo das Carvalheiras vê-se esta in- 
scripção: 



ataLVpíMtípyTBaiMioSa 

STMLVIDES ( D15ERSLREP£RW.0B.l)RÀ[ôílftE»S 
BÊ.MEMORIAaôMMMIimmiíoé 



Refere-se á construcção da extincta capella de Santa Anna que 
D. Diogo de Sousa fez construir e junto da qual reuniu vários mil- 
liarios romanos. 

Também D. Rodrigo de Moura.^Telles, em 1725, fez remover 
para alli outras lapides que D. Rodrigo da Cunha conservara nos 
jardins do Paço. 



EGREJA DE S. FRANCISCO (BRAGA) 



A Ordem Terceira da Penitencia foi aqui fundada por fr. 
Francisco do Salvador, Commissario do convento dos Menores 
Regulares de Guimarães, no anno de 1669, sendo seu primeiro 
Juiz o padre João de Oliveira Carrilho e installando-se na capella 
de S. Francisco das Chagas, na Sé, que era o terceiro altar da 



— l 9 I — 

nave do Evangelho, hoje dedicado a Nossa Senhora do Loreto. Ao 
cabo de 5 annos mudou-se para a capella do Espirito Santo do 
Hospital de S. Marcos, e em 7 de maio de 1690 deu principio 
á sua egreja na extremidade da rua da Fonte da Carcova (Capel- 
listas), onde lhe foram doadas duas moradas de casas. 

. Dispendeu 94,35000 réis na compra de mais três moradas con- 
tíguas que demolira, e em 17 12 foi benzida a egreja pelo Deão 
D. Francisco Pereira da Silva, da nobre casa dos Biscainhos, o 
qual sendo Abbade titular da freguezia de S. Eulália de Tenões, 
chamou a si a administração do Sanctuario do Bom Jesi.s do 
Monte quando notou que a devoção augmentava e com ella os ren- 
dimentos. 

A torre, que teve principio com a capella- mór em 1722, con- 
cluiu-se em 1733, dispendendo se com uma e outra 1:270^000 
réis. 

Aos lados da porta principal tem estas inscripçôes: 



TEMPLO DA SAGRADA 
ORDEM TERCEIRA DA 
PENITENCIA Q INSTI 

T\IO O SERÁFICO P • S • 
FRANCISCO PR1NCIPI 

ADO A 7 DE MAYO 169O 



FFITO \ CVSTA DOS FI 
LHOS SECVLARES DA 
MESMA ORDEM AIVDA 
DOS DA PIEDADE DOS 

FIEIS Q CONCORRERÃO 
COM SVAS FSMOLAS ■ 



A fachada remata com a estatua da Virgem da Conceição es- 
culpturada em granito. 



EGREJA DE S. VICENTE (BRAGA) 



No alto da rua do mesmo nome, em ponto elevado, recon- 
struiu-se pela segunda vez esta egreja no anno de 169 1. A fachada 
de esculptura trabalhosa, remata com a estatua de S. Vicente, em 
granito, dentro de um nicho encimado pela cruz pontifical. Na pa- 
rede interior da sacristia estão embebidas três preciosas inscri- 
pçôes lapidares, alludindo a mais pequena ás indulgências da Sé 
Lateranense concedidas á capella de S. Vicente. 

A do lado esquerdo diz que a wisigothica, de que me occupo 
a pag. 25, appareceu nos alicerces da antiga egreja, quando em 
1 565 foi reconstruída. 

A egreja tem exteriormente aos lados da porta principal estas 
duas inscripçôes: 



192 - 



MEMBRO DA SACROSANTA 
IGRE1A LATERANENSE 
DE CVIOS PRIVILÉGIOS 
GOZA COM OBRIGAÇAM 

DE DVAS LIBRAS DE CERA 
PAGAS EM ROMA CADA 
ANNO DESDE A ERA DE 



i5 9 8 



AQVI SE GANHAM COP1 

OSAS 1NDVLGENCIAS VI 

SITANDO EVTA CAPELLA 

DEDICADA A S • VICENTE 

NA ERA DO SENHOR DCLVI • 

REEDIFICADA EM MDLXV • 

E TERCEIRA VEZ FVNDADA 

169I 



A irmandade de Santo Homem Bom, creada para venerar a 
imagem que esteve no oratório da Porta Nova, uniu- se á de S. Vi- 
cente no anno de 1783. 

EGREJA DE SANTA CRUZ (BRAGA) 

(Vide grav. a pag. ig3.) 

Dos cruzeiros que o Arcebispo D. Diogo de Sousa fez distri- 
buir pelos differentes largos da cidade, ficou um entre as ruas de 
S. Marcos, Anjo, e largo dos Remédios, denominado cru\ de 
S. Marcos, ao qual o mestre eschola padre Jeronymo Portillo 
creou certa devoção de que se originou a íundação da confraria 
do Bom Jesus da vera cru\, no anno de i58i, instalando-se pro- 
visoriamente, por obsequio, na velhíssima capella de S. Marcos 
que então existia onde hoje está a egreja e hospital da mesma in- 
vocação. Foram instituidores, além do padre Portillo, os seus alu- 
irmos Pedro da Grã Botelho, Francisco Gomes, António Martins 
Tinoco, João Dias Leite e outros. 

Em 1592 foram alterados os estatutos e cinco vezes reforma- 
dos—em i63o, 1664, 1702, 1720 e 1762. 

No anno de 1617, como consta do livro t.° das Memorias, re- 
soLveu-se a edificação da egreja «aonde se hão de gastar mais de 
dois mil crusados», comprando se para esse fim algumas casas na rua 
do Anjo, para que a obra pudesse occupar parte do espaço denomi- 
nado Castello Rodrigo, onde então ainda havia restos d'uma torre da 
muralha romana de que se encontram vestígios na quinta do Avellar. 

Oito annos depois, em 1 6^,5, o Arcebispo D. AfTonso Furtado de 
Mendonça procedeu á benção do terreno, dando-se immediatamente 
principio á obra que, por decorrer morosíssima, fora impulsionada 
pelo referido Arcebispo com a licença que concedeuaos omciaes de 
pedreiro para cortarem a pedra nas tardes dos dias santos de guarda. 

D. Sebastião de Mattos de Noronha (1636-41) ordenou a remo- 
ção do cruzeiro para as proximidades da capella de Santa Justa e 
ponte dos Pellames, onde ainda hoje se vê com uma cavidade no 
globo que encima a frágil columna e que primitivamente teve uma 
pedra com o escudo de D. Diogo de Sousa. 



ig3~ 




Egreja de Santa Cruz (Braga) 



1 1 



— 194- 

A obra da egreja ficou concluída de pedreiro em i653, dispen- 
dendo-se mais de 5o:ooo cruzados, excepto as torres que em 1693 
o mestre de pedraria Manuel Fernandes da Silva foi convidado a 
ultimar. A 28 de abril de 1725 foi adjudicada a Francisco Macha- 
do, mestre entalhador, a obra do retábulo das capellas. 

A egreja principiou cedo a dar signaes de ruina, sendo neces- 
sário, em 16 de novembro de 173 1, convidar o mesmo Manuel 
Fernandes da Silva, que dirigia as obras reaes de Mafra, para a 
reparar em parte. Porém depois de lhe ter dado principio deste- 
lhando a e demolindo parte das paredes, deixou-a exposta aos tem- 
poraes, toda interiormente occupada com escoras e madeira solta, os 
altares desfeitos, sendo por tudo isto necessário conservar guardas 
durante algumas noites n'aquelle recinto, até que a confraria repre- 
sentasse a el-rei pedindo-lhe para <r mandar que o sargento mór não 
impessa que o dito mestre com seus officiaes que também se acha- 
rem libertados das reaes obras de Mafra, pos c a continuar no dito 
reparo». 

A construcção d'esta egreja foi adjudicada ao mestre Francisco 
Vaz, dirigindo-a Geraldo Alvares, o licenceado João Dias Leite e 
o dr. Pedro de Coimbra d'Andrade. Encarregou-se da constru- 
cção do pateo, que custou ibo-^ooo réis, o mestre António d'01i- 
veira. No dia 9 de maio de 1861 chegaram a Braga os 10 sinos 
afinados, lundidos em Lisboa. 

Douraram-se dois altares em 1754. Ao cabo de i3 annos (1767) 
foram encarregados de fazer o retábulo da capella-mor, pela quan- 
tia de 1:610-^000 réis, Manuel da Silva e Manuel Carneiro da Cos- 
ta, da rua de Santo André. 

A irmandade foi elevada á cathegoria de real em 1 1 de outu- 
flro de 1822. O commendador Fernando d'01iveira Guimarães 
legou-lhe, em 19 de janeiro de 1 852, duas moradas de casas para 
o hospital que se inaugurou a i3 de setembro do anno immediato. 

Em novembro de 1890 teve começo a sua restauração, que se 
concluiu em dezembro de 1893. 

A fachada, riquissima de esculptura, com emblemas da paixão 
de Christo, é composta das ordens architectonicas Dórica e Jónica 
e tem gravados os dizeres seguintes: 

ANNO MDCCXXXVI 

JPS1-: L1GNVM TVNC NOTAVIT REGNAVIT A l.IGNO DE 

ANNO MDCXXXXIl 

VEXILLA REGIS • PRODEVNT 
FVLGET- CRVCIS • MYSTERIUM 
ECCE ASCENDIMVS TRADETVR AD CRV 

JEROSOLYMAM CIFIGENDVM 

ET F1L1VS HOMINIS 



ígb — 



EGREJA DA PENHA DE FRANÇA (BRAGA) 

No campo de Santa Anna, lado sul, o benemérito Pedro de 
Aguiar e sua mulher, instituidores da extincta Convalescença do 
hospital de S. Marcos, e do coro na egreja de Nossa Senhora a 
Branca, fundaram em 3i de maio de iG52 o Recolhimento de Bea- 
tas da Penha de França, destinado a 7 recolhidas, nomeando sua 
primeira Regente Anna de Santa Maria, natural de Guimarães. 

D. Rodrigo de Moura Telles ampliou em 1720 o Recolhimento, 
e fez construir a egreja, que ainda existe, com a tribuna de bella 
talha dourada e as paredes imeriormente azulejadas, celebrando 
n'ella a primeira missa a 18 de dezembro do anno immediato. 

Dispendeu com toda a obra 22:000^000 réis. 

O púlpito é, como se vê, de primorosa esculptura. (Vide grav. 
a pag. icp). 

Por fallecimento da ultima recolhida foi tudo cedido pelo go- 
verno ao Asylo de infância desvalida de D. Pedro V, em 12 de 
maio de 1870,, demolindo se então o Recolhimento para em seu lo- 
gar ser construído o actual edifício. 

Havia n'este Recolhimento um rabecão notável, com estes di- 
zeres gravados: SARCOPHAGVS MEFECIT — l6ll — GÉNOVA — , O qual 

foi vendido em hasta publica por 1^200 réis. 

Do Porto veiu logo a Braga Mr. Joseph Debrun que o obteve 
do comprador por 45^000 réis. Acha-se no museu de Paris que 
fez acquisição d'elle por mais de trezentos mil réis! ! ! 

Na extremidade poente da alameda fronteira vê-se a estatua 
que o cónego José Narciso da Costa Rebello e seu irmão o Barão 
da Gramosa dedicaram ao chorado monarcha D, Pedro V, collo- 
cando-se em 7 de março e inaugurando se em 3i de julho de 187.J. 

Esta casa da Gramosa está situada onde os Religiosos da Provín- 
cia da Soledade (S. Fnictuoso) fundaram no século xvn o seu Hospí- 
cio. O Abbade de Fonte Boa, D. Jeronymo José da CostaRebello (o 
Canavêta), mais tarde Bispo do Porto, comprou em hasta publica 
o edficio, deixando-o por sua morte áquelle Barão da Gramoí-a. 

Também no campo de Santa Anna, os cónegos seculares de 
S. João Evangelista (Loyos), do convento de Villar de Frades, 
fundaram em meado do século xvi o seu Hospício, vendendo-se 
em hasta publica o edifício ao sr. João Feio Soares d' Azevedo. 

EGREJA PAROCH1AL DE MAXIM1NOS (BRAGA) 

Está situada no Monte de Penas, próximo do local em que 
existiu uma das portas acastelladas e onde no tempo dos romano^s 



— iq6 — 




Púlpito da Egreja da Penha de Franca 



— '97 ~ 

a companhia dos cidadãos fez á sua custa a casa da sociedade, 
como nos diz a inscripção que no primeiro quartel do século pas- 
sado appareceu alli encostada: 



SODALICIVM • VRBANORVM 
D S • F- C 



(Sodalitium Urbanorum de suo fieri curaverunt). 

E' esta uma das mais antigas parochias da cidade. 

No tempo do Abbade Manuel José Leite, secretario do Arce- 
bispo D. Gaspar de Bragança, demoliu-se a primitiva egreja, que 
estava um pouco afastada da actual, intitulada de Nossa Senhora 
da Conceição, cuja imagem é venerada em nicho aberto na facha- 
da. O Arcebispo D. José de Bragança obteve da Confraria a de- 
sistência d'esta egreja e respectivas rendas para a fundação de um 
convento de Ursulinas n'aquelle sitio, sendo essa desistência con- 
firmada pela Sé Apostólica. A morte porém veiu impedir a execu- 
ção do plano. 

Das inscripções lapidares que se encontram a capear o extenso 
muro do adro, dou a seguinte, como a de maior importância: 



ESTA QPEUMANDOV ! 

FAIERORW.WDMÍ} 

V)R TOR QFO!uEQV£IMP] 
TTMDWSMMSSOMr 

ANARIAS PORSV/ITEN- 

ÇAM CONISEPVLTÍPÍf fc= 

A inscripção do muro 



[l€M*DffiViAKRPET 
JADEIWWCDNIE 
D B PEL0SP M /W!9>:£^ 

NFWr/fo-.NOAft/ODE 
ií>°4ETEMfclM&?P|E 

yWAOPADAMOIlTE 

A Inscripção da sacristia 



A segunda, d'estas duas, existe na parede interior da sacristia. 
E' toda pintada a azul e tem as lettras douradas em signal de apreço. 

A sua leitura é como segue: — Memoria de Bulia perpetua de 
indulgências concedidas pelo Papa Paulo V e confirmadas por 
Clemente VIII no anno de 1604; e tem indulgência plenária na 
hora di morte. Anno de 1722. 



iq8 — 



EGREJA E RECOLHIMENTO DA TAMANCA (BRAGA) 

Esta denominação proveiu-lhe das duas mulheres que deram 
origem co Recolhimento na cangosta da Palha e que para aqui 
vieram calçadas de tamancas. Expulsas pelos padres congregados 
fundaram novo Recolhimento em S. Victor, onde agora estão, 
sendo-lhes impedida pelo Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles 
a continuação da obra. Ao fallecimento d'este Prelado, em 1728, 
obtiveram licença do Cabido para a construcção da egreja; mas 
tendo-lhe collocado as armas dominicanas, foram immediatamente 
intimadas por dois cónegos para as tirarem d'alli. Eram os effeitos 
da rigorosa observância d'um curioso compromisso. 

O mirante foi construído em i?55, e a actual egreja é obra do 
Vigário Capitular, D. fr. Aleixo de Miranda Henriques, da Ordem 
de S. Domingos, o qual comprou a Lopo António de Vasconcellos 
Abreu e Lima todo o terreno do largo que lhe fica em frente. 



EGREJA DA CONCEIÇÃO (BRAGA) 



Foi iniciada a construcção da actual egreja em 1720, concluin- 
do-se 3 annos depois, como se lê no alto da porta principal : 

17 DE AGOSTO DO ANNO DE I728 

Tem, além do altar-mór, três collateraes, contando o da Gruta 
de Lourdes. 

Quando o cónego dr. Geraldo Gomes fundou nas casas da sua 
habitação o convento de freiras da Conceição, o primeiro d'esta 
Ordem fundado em Portugal, sendo lhe lançada a primeira pedra 
em 1625, e concluída toda a obra 4 annos depois, construiu-se a 
respectiva egreja na extremidade sul, sendo sepultados n^lla o fun- 
dador e seu irmão o dr. Francisco Gomes e a primeira Abbadessa 
D. Martha de Santa Anna. 

Esta egreja, que ha muito estava inutilizada, foi demolida pai a 
em seu logar se construir o novo edifício das officinas de tecelagem 
do Collegio de Regeneração, creado em 1879 e installado n'este 
velho convento em dezembro de 1 863. No anno de 1893 ainda exis- 
tia a porta principal com esta inscripção : 

BRACHARAE H(EC VIRGO EST E1VS SVNT TEMPLA 
GERALDO ILLA SVO SVMPTVS CONTVL1T 1LLA ÂNIMOS 



- i99 — 
No muro contíguo á portaria está embebida esta lapide: 

A DOMINA TVRR1VM FAC 
TVM • ET EST MIRABILE 
ET SIC NON EST- IN TOTA 
SANCTIOR VRBE LOCVS • 

ESTADO PRESETE E ROMA 
O DOVTOR GERALDO GO 
MES NATVRAL DESTA CIDA 
DE NO ANNO D 1 588 O PA 
PA XISTO QVINTO D BOA 
MEMORIA LHE DEV A CO 
NESIA NESTA SEE QVE SER 
VIO PESSOALMENTE 6o 
ANNOS E TODOS OS REN 
DIMENTOS DELLA APLI 
COV A ESTA OBRA FALLE 
CEO NO ANNO D 1648 D ABR • 

Junto d'este mosteiro, no sitio de Urjães (Gazeta de Lisboa n.° 26, 
anno de 17 19), descobriram-se quatro estatuas de prata de 6 pal- 
mos de alto !, sendo uma de mulher, outra de um Fauno e duas de 
Centauros, elmos de prata lavrados, e mais de trinta laminas de 
prata com debuxes de caçadores. Foi tudo comprado por varias 
pessoas, entre as quaes figuram o Arcebispo D. José de Bragança 
e o cónego Falcão. 

Um dos dormitórios das religiosas foi devorado por violento 
incêndio á 1 hora da noite de 5 de janeiro de 1761, sendo uma 
d'ellas victimada. As demais fugiram para a casa dos Falcões e 
d'alli para os Remédios, levando as pratas da egreja e condu- 
zindo a Eucharistia para a egreja de S. Thiago. 

Próximo do convento appareceu numas excavaçoes feitas em 
1840, uma lapide romana funerária com esta inscripção : 

IVNIA 

M- L 
VRBANA 
H S • E 

«Junia Urbana, liberta de Marcos, aqui está sepultada.» 
Na quinta do Avellar ainda se pode ver um grande lanço da 
muralha romana. Havia alli uma das portas acastelladas, em forma 
de torre, que foi demolida no primeiro quartel do século xvm. 



200 — 



EGREJA E CONVENTO DE SANTA ROSA DE LIMA 

(GUIMARÃES) 

r:? i Está situada na antiga rua do mesmo nome, hoje de S. Sebas- 
tião, por ter sido para alli transferida a sede daparochia em 1893, 
como logo se verá. 

A construcção da actual egre)a terminou em 1734. 

O desenho do retábulo do altar-mór, que em 1741 foi execu- 
tado por 65o$ooo réis, deve-se ao mestre entalhador José d'Af- 
fonseca Lima, da cidade do Porto. 

Incluindo o antigo coro das freiras, que hoje faz parte da egre- 
ja, esta mede de comprimento interiormente 37,10 por 7 de lar- 
gura, e tem do lado do Evangelho o altar do Senhor Jesus e 
do da Epistola o de Santo António. Collocaram próximo da 
porta a antiga imagem de Christo na cruz, que as freiras vene- 
ravam ao fundo do coro de baixo. A construcção do convento 
iniciou-se com a compra d'algumas casas e quintaes, por meio 
d'esmolas. 

Por escriptura publica de 3 de fevereiro de 1680, a confraria 
da Senhora da Graça, que administrava a antiga Albergaria de 
S. Roque, cedeu ás freiras o hospital, hortas e capella para au- 
gmento do convento, com obrigação de continuarem a recolher 
por três dias os pobres passageiros numa casa que actualmente 
é occupada pelo parocho, e junto da qual está o mirante princi- 
piado a construir em 3i de março de 1727. 

A irmandade de Santo António, que estava erecta na egreja de 
S. Francisco, installou-se n'esta de Santa Rosa de Lima na 5. a feira 
22 de dezembro de 1887. 

Na sexta feira 9 de março de 1888 falleceu a ultima freira pro- 
fessa, soror Joaquina Carolina, natural de Font'Arcada, concelho 
da Povoa de Lanhoso. 

Contava 72 annos de edade e 56 de professa. Ficou então ex- 
tincto o convento, dando logo entrada no Ministério da Fazenda 
os seus haveres em títulos da divida publica, na importância de 
18:700^000. 

Dois annos depois, em 24 de maio de 1890, cedeu o governo 
á Camará de Guimarães o convento e a cerca. A egreja passou a 
ser a sede da parochia de S. Sebastião, eífectuando-se processio- 
nalmente a transferencia pelas 5 horas da tarde de domingo 25 de 
setembro de 1892. Desde logo a Camará procurou fazer desap- 
parecer a velha egreja construída em 1570 por ordem do D. Prior 
e Cabido da Collegiada, na extremidade Oeste do Campo de 



— 201 — 

S. Francisco, hoje praça de D. Affonso Henriques, auxiliando 
esta remoção com 1 :ooo$ooo que concedeu em 27 de outubro 
de 1887. 

Para que fique memoria do local, dou a medição do terreno 
occupado por esta egreja e respectivo adro: — Media 48,30 de 
comprimento por 33, 20 de largura. Desde o adro á esquina 
da mercearia Andrade, alto da rua de Caldeirôa, havia 9, 3o 
de largura; e desde a porta principal da casa do sr. António 
Ribeiro da Gosta Salgado á parte do adro com que defronta- 
va, io,o5. 

No dia 3i de agosto de 1892 o sr. Manuel Pinheiro Caldas 
Guimarães arrematou por 246.^000 réis a tribuna, sanefas da ca- 
pella-mór e o altar do Senhor Jesus. 

A torre foi arrematada no dia 14 de setembro do referido anno 
pelo sr. Joaquim Mendes da Silva Cerqueira que deu por ella 
ioo^ioo réis, para ser levantada ao lado direito da egreja de 
Creixomil, onde pôde ser vista. Os trabalhos da demolição da egreja 
começaram no sabbado 1 de outubro com a descida dos sinos. As 
ossadas foram removidas do adro no dia 3, e no seguinte arrema- 
taram-se por n:3oo réis as quatro sanefas dos altares collate- 
raes. 

Em 2 de novembro arremataram-se por 6o:5oo a sala do des- 
pacho, as sacristias de S. José, Senhor Jesus e Sacramento, sendo 
esta reconstruída ao lado direito da egreja de S. Damazo com a 
sua janella de quatro semi-circulos. 

A torre começou a ser apeada na quinta-feira 1 7 de novembro, 
seguindo-se a egreja, cuja pedra e entulhos se applicaram ao en- 
chimento da entrada da nova avenida sobre a antiga rua de Relho, 
ao alteamento da rua da Caldeirôa, no logar do Arquinho, e ao 
concerto do caminho da Costa entre os logares de Fato e Rio, 
concerto aproveitado para a estrada de macadam que presente- 
mente se conclue até á egreja parochial de Santa Marinha. O cru- 
zeiro que estava encostado á torre foi remo\ido para o claustro da 
Sociedade Martins Sarmento. 



BASÍLICA DE S. PEDRO (GUIMARÃES) 



Está situada no largo do Toural e teve principio em 1737. A 
29 de novembro de 1750 foi para aqui transferida do claustro de 
S. Francisco, onde esteve por espaço de 17 annos, a irmandade 
de S. Pedro fundada na capella da mesma invocação que existe no 
claustro da Collegiada, crendo-se que fosse esta a primeira d'este 
titulo em Portugal. Extincta em 1768, foi restabelecida em 1787 



— 202 — 

pelo rev. José Amaro da Silva que sobre a sua campa, ao centro 
da egreja, tem a inscripção seguinte : 

AQVI JAZ MAND. e DE 

ORD. JOSÉ S. PEDRO, 

AMARO DA FALECIDO 

S. a RESTAV A 27 DE 

RADOR E DEZEMBR.O 

BEMFEIT." DE 1826 
DESTA IR 

Por Breve de Bento XIV datado de 26 de março de 17D1, foi 
esta egreja, ainda então incompleta, elevada á cathegoria de Basílica. 
As obras paralisaram em 1824 recomeçando ao cabo de 57 annos 
nomez demarco e faltando-lhe ainda hoje a torre do lado esquerdo. 

A architectura da fachada, cujo desenho foi offerecido pela Real 
Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, não pri- 
ma pela elegância e bom gosto. Ao centro do frontão sobre que as- 
senta a cruz pontifical, tem as armas de S. Pedro e um livro aberto 
em que se lê : 



TU ES 


UB1 PETRUS 


'ETRUS. 


IBI ECLESIA 


^TH. XVI 
\ 


S. AVG. 



Palavras de Jesus Christo a S. Pedro : Tu es Petrus, et su- 
per hanc petram aedificabo Ecclesiam meam, et portae inferi non 
praevalebunt adversus eam. 

Na sacristia existem dois pequenos quadros de altíssimo me- 
recimento, pintura a óleo representando as cabeças dos apóstolos 
S. Pedro e S. Paulo. 

Os Francezes, tendo entrado em Guimaiães no dia 23 de 
março de 1809, occuparam a i3 de maio esta egreja e a sacristia 
com numerosos cavallos, encheram de palha e milho os altares e 
commetteram outras profanações roubando toda a prata, que não 
era pouca. 

EGREJA PAROGHIAL DE S. LAZARO (BRAGA) 

Está situada ao fundo da rua das Aguas, no local da antiga er- 
mida de S. Lazaro. Tomou a invocação de S. José em homenagem 
ao santo do nome do Arcebispo D. José de Bragança filho bas- 
tardo de D. Pedro II e de D. Francisca Clara da Silva, o qual 
instituiu a parochia no anno de 1747, dividindo assim a de S. Vi- 
ctor que era demasiadamente grande. 



20_"> — 



A actual egreja, de architectura simplíssima, foi construída a 
expensas do Arcebispo D. fr. Caetano Brandão. Tem a poucos 
passos um apreciável cruzeiro de que me occuparei no logar com- 
petente dando d'elle photogravura. 

O celebre monumento antigo, vulgarmente denominado ídolo 
dos Granjinhos, fica num quintal muito próximo, ao lado esquerdo 
da egreja. 

A egual distancia, na rua das Aguas, está instalado o Asylo de 
entrevados, cuja fundação teve logar no anno de i852, 

EGREJA PAROCHIXL DE SANTA MARINHA 
DA COSIA (GUIMARÃES) 




A construcçao d'esta egreja com os respectivos p ueos frontei 
ros teve principio no tempo do Prior fr. José de Castro, eleito em 
25 de setembro de 1748, sendo toda a obra justa por i5:5oo cru- 
zados, como nos diz o fallecido padre Caldas na sua obra Guima- 
rães, vol. II, pag. 171. 

Até o anno de i528 pertenceu este convento aos cónegos re- 
grantes de Santo Agostinho, para quem a rainha D. Mafalda, mu - 
lher de D. Aífonso Henriques, o fez edificar. 



— 204 — 

A isto faz referencia um grande quadro em madeira com o re- 
trato da fundadora, oíferecido pelo sr. Visconde de Sendello, pos- 
suidor de parte do convento, ao museu da Ordem de S. Francisco. 
O quadro tem na parte inferior estes dizeres : 

HOC PIA CAENOBIVM AEDIF1CAT MAFALDA PRIORIS 

ALFONSI CONIVX: LYS1A FIRMA MANET 

NAM CHRISTO ADVERSOS ALFONSVS CONCVTITENSE 

SED MAFALDA PIÁ RELLIGIONE QVAT1T. 17:6. 

A fachada da egreja é de trabalhosa esculptura e remata com 

um nicho onde se vê, em granito, a estatua de Santa Marinha 

martyr. 

Interiormente é esta egreja muito airosa e acha se em óptimo 

estado de conservação, graças aos desvellos do actual parocho rev. 

Hermano Amândio. 

A ladear a porta prin- 
cipal, e já dentro do alinha- 
mento, das torres, tem mais 
dois nichos com as estatuas 
de S. Jeronymo e de Santa 
Paula, como no altar-mór 
onde se veneram duas ima- 
gens dos mesmos santos 
esculpturadas em madeira, 
muitíssimo recommenda- 
veis pelo primor da execu- 
ção. 

Interior da egreja da Costa 





Fachada do convento da Costa 



Lor> 



Alinha com a frente da egreja o magestoso convento que te 
principio em meado do século xvu. 

Pertence áirman- 
dade das Almas, ere- 
cta n'esta egreja, o 
preciosíssimo cálice 
de prata dourada 
(século xn) que aqui 
se representa. 

Sendo em 1 884 
extinctos todos os 
conventos, os frades 
Jeronymos entrega- 
ram este cálice á ir- 
mandade das Almas 
em pagamento de 
uma divida. 

O fallecido Ar- 
cebispo D. António 
Honorato não o en- 
viou á exposição de 
Lisboa, em 1888, re 
ceiando que levasse 
descaminho. 

Mede 0,17 de 
altura, o, 52 de cir- 
cumferencia no bor- 
do da copa, e 0,48 
em volta da base 
onde tem esta inscripção 



ve 




Cálice de D. Dulce (século XII) 



-f- Ej M : CC : XX-; Vi REX; SANCI • ET REGINA] 
DVLCIA ; OFFtRVNT ] CALICEM \ ISTVM \ SCE j MARINE : DE • COSTA j 



Foi, como aqui se lê, offerecido por el-rei D. Sancho e pela 
rainha D. Dulce, a Santa Marinha da Costa, na era de 122Õ (anno 
de 1187). 

Foi ultimamente depositado no pequeno museu da Collegia- 
da, bem como outro do século xvi, pertencente á mesma ir- 
mandade, representado na grav. a pag. 206. 

Sob a protecção de el-rei D. João III fundou-se neste convento 
um estabelecimento scientifico com foros e regalias de Universi- 
dade, como diz o talentoso padre António Hermano, para o estudo 
de humanidades, Phylosophia e Theologia, sendo os lentes aucto- 



2o6 — 



risados a conferir os graus de licenciados, bacharéis e mestres em 
Artes. Instruiram-se e educaram-se n'ella os infantes D. Duarte e 
D. António, filho do infante D. Luiz. 

Em 1889, quan- 
do ainda Guimarães 
não possuía um úni- 
co estabelecimento 
de ensino secundi- 
rio, alguns padres 
beneméritos funda- 
ram n'este arruina- 
do convento um Col- 
legio denominado de 
S. Damazo, o illus- 
tre Pontifiee vimara- 
nense. A cidade, 
pouco habituada a 
benefícios gran les, 
recebeu com indiffe- 
rença o feliz melho 
ramento, porque du- 
vidava do êxito que 
alfim se obteve ! 

O auctor d'estas 
linhas (permittase- 
lhe a immodestia) 
promoveu-lhe então, 
com outro seu ami- 
go, uma festa inau- 
gural brilhante, ape- 
nas custeada pelos 
dois. 

Este Collegio foi 
installado á pressa, 
num breve intervallo 
de ferias de verão. 
O inicial corpo do 
cente e discente destacou-se do Collegio de Santa Quitéria do vi- 
sinho concelho de Felgueiras. Constituiram-se em Direcção os pa- 
dres seculares, seus fundadores, António Hermano Mendes de Car- 
valho, Firmino António da Silva Bravo, e Domingos Dias de Faria, 
abrindo-se o Collegio no dia 6 de outubro do referido anno de 1889 
com aulas para os cursos secundários dos lyceus e seminários. 

Teve de principio logo uma frequência vistosa e animadora : 
eram 75 alumnos internos e 25 externos. 




Cálice da Costa (século XVI) 



— 207 — 

Nos annos seguintes o numero de estudantes augmentou até 
cerca de 200 internos. 

Essa notável prosperidade, deveu-a o estabelecimento ao êxito 
singular obtido nos exames no lyceu de Braga. Um anno os Dire- 
ctores até julgaram conveniente inventar as reprovações para que 
ao publico não parecesse inverosímil o quadro sern sombra? das 
numerosíssimas approvações e distincções ! 

Nos últimos annos, por influencia da reforma de instrucção se- 
cundaria de 1894, a população escholar algo tem diminuidoj toda- 
via tem mantido a auspiciosa cifra de ioocollegiaes. 

O ed.rkio é grandioso e o local superrimamente salubre. Vi- 
sinho de Guimarães, ligava-o todavia á cidade um caminho peor 
que um calvário ; mas hoje graças aos esforços de alguns vimara- 
nenses e da Direcção do Collegio, serve-o uma bella estrada de 
macadam que principiou a ser construída no dia i.° de marco de 
1898. 

EGREJA DE NOSSA SENHORA. DA LAPA (BRAGA) 

No largo do mesmo nome, onde alguns missionários acompa- 
nhados do padre Angelo de Sequeira", collocaram em 1757 um 
quadro de Nossa Senhora da Lapa, construiu se a expensas dos 
fieis esta egreja, lançando-lhe a primeira pedra, a q de novembro 
de 1761, o Reitor do Seminário Conciliar e Chanceller-mór do 
Arcebispo, o rev. António Barbosa de Góes, com assistência de 
vinte ecclesiasticos e por mandado do Arcebispo D. Gaspar de 
Bragança. Ao cabo de seis annos concluiu-se a obra da capella, 
sendo benzida a 7 de setembro de 1767 e celebrando-se n'ella a 
primeira missa no dia immediato. A obra dos altares collateraes 
terminou em 1781 e a do altar mor em 1792, tudo subsidiado pela 
irmandade de S. Thomaz d'Aquino que no dia 8 de novembro de 
1774 fora para alli trasladada da capella dos reis, no claustro da 
Sé. Por escriptura de 16 de junho de i8o5 uniu-se-lhe a irman- 
dade de S. Pedro que, segundo se crê, foi erecta em 1 556 na ca- 
pella de S. Pedro de Rates, na Sé. 

A arcada, que dum e outro lado alinha com a fachada da 
egreja, teve ao centro da construcção exterior a bella estatua de 
Braga, tudo feito a expensas do Arcebispo D. Rodrigo de Moura 
Telles, na anno de 1716. Também então se construíram nas ex- 
tremidades as duas casas redondas, denominadas caramanchões, 
que a camará emprazou. 

Quando a egreja da Lapa principiou a ser construída em 5 no- 
vembro de 1761, tendo ainda por campanário uma das torres do 
castello da cidade, passou a estatua para a extremidade norte e 



- 208 — 

tfalli para o arco da rua nova de Sousa, onde actualmente se en- 
contra. 

Em janeiro de ,1718 o referido Prelado deu principio á cons- 
trucção do Aljube, que fica nas costas da egreja, e contíguo á 
antiga muralha do castello da cidade, dispendendo com esta obra 
4:400:000 réis. 

Quando em i853 foi demolida aporta do Souto, que encostava 
ao castello, appareceu nos alicerces um cofre contendo moedas do 
reinado de D. Diniz. 

O pelourinho, que se achava no largo hoje do Barão de S. 
Martinho, e na base do qual se lia — anno de 1 585— foi removido 
pela camará no dia 12 de dezembro de 1844 para ° ann go campo 
dos Touros, onde se conservou até 18 de julho de i853, dia em que 
foi inutilisado para em seu logar ser construído o actual chafariz. 

O edifício do theatro de S. Geraldo, que fica no largo da Lapa, 
teve começo em 27 de setembro de i855. 

No dia 8 de junho de 1860 foi inaugurado pela actriz Emilia 
das Neves. 

EGREJA E CONVENTO DE SANTA THEREZA 

(BRAGA) 

No alto da rua das Oliveiras, em uma casas compradas a Pe- 
dro Fernandes, iniciou-se no dia 18 de maio de 1763 a construcção 
da actual egreja de Santa Thereza, concluindo-se em 1766. Toda 
a pedra empregada n'esta obra foi cortada no largo que lhe fica 
em frente, onde ainda ha vestígios de penedia. A 14 de junho de 
1767 o cónego Francisco de Mendonça benzeu solemnemente esta 
egreja e no dia immediato cantou-se alli a primeira 'missa a que 
assistiu o Arcebispo D. Gaspar de Bragança. 

O pequeno convento ainda hoje é habitado por uma freira 
professa. 



— 209 — 

EGREJA DOS SANTOS PASSOS E VISTA DA SERRA 
DA PENHA (GUIMARÃES) 




Na extremidade sul do antigo campo da Feira e no mesmo lo- 
cal onde o vimaranense Duarte Sodré mandou construir uma ca- 
pella de Nossa Senhora da Consolação com alpendrada em volta, 
instituindo-se-lhe uma irmandade de estudantes com seus estatu- 
tos approvados em 9 de dezembro de i5m_i, iniciou-se em 1769 a 
construcçao da actual egreja, cujo corpo foi benzido a 16 de outu 
bro de 1785. 

Encarregou-se da planta o bracarense André Ribeiro Soares da 
Silva. 

No dia j 1 de dezembro de 1787, a reliquia de S. Fortunato, que 
ainda hoje se venera, foi collocada na egreja em urna especial, des- 
envolvendo-se de tal modo a devoção dos fieis, que, por esse motivo, a 
conclusão da obra nãose fez esperar muito. Astorres, elegantíssimas, 
tiveram principio no dia 28 de maio de 1862 e terminou a obra em 
1878 sendo Pedro Ferreira o auctor da respectiva planta. A torre 
do lado direito principiou a ser construida com a quantia de réis 
(ioo^ooo, producto de três espectáculos de prestidigitação desem- 
penhados pelo ofterente sr. Sebastião Augusto de Magalhães Bran- 
dão, que por esse motivo tem o seu retrato na galeria dos bem- 
feitores. Em 1798 concluiu-se a capella-mór, empregando-se na sua 
edificação a pedra da torre da freiria e a do lanço de muralha que 
lhe ficava contíguo. 

O carrilhão de sinos afinados estreou-se no dia 28 de maio 
de 1875. 



— 2IO — 

Venera-se n'esta egreja a imagem do Senhor dos Passos, que 
annualmente é conduzida em magestosa procissão no domingo de 
Lazaro. Foi feita sendo Juiz da irmandade Manuel da Cunha 
Maranhas. 

No dia i5 de março de 1861, duas das mais novas coristas do 
próximo convento das Capuchinhas, dispondo-se, como de costu- 
me, a preparar a imagem para a alludida procissão, encontra 
ram-lhe o rosto tão humedecido, que chegou a molhar a toalha a 
que o limparam e a qual o povo desfez em numerosas reliquias. 
Este caso era a repetição do que se havia dado 56 annos antes. 

A túnica do Christo e os demais paramentos de velludo roxo, 
ricamente bordados a oiro fino, fazem a admiração de todas as 
pessoas que de longe concorrem á procissão. 

A irmandade dos Santos Passos comprou aos herdeiros de 
Manuel de Magalhães d'Araujo Pimentel uma morada de casas, e 
ainda outras com campo junto, pertencentes á Condessa de Basto, 
para a fundação do Asylo de Mendicidade, solemnemente inaugu- 
rado a 4 de fevereiro de 1877, e dum Collegio de meninas com 
internato. 

A obra do alargamento do campo da Feira para a parte d'este 
Asylo custou 780^000 réis e foi arrematada no dia 10 de setem- 
bro de 1890 pelo empreiteiro sr. José Rodrigues, de Vizella. 

EGREJA DE NOSSA SENHORA A BRANCA (BRAGA) 

Está situada no largo do mesmo nome. 

A parte superior da fachada foi construída durante o pontifi- 
cado de D. Gaspar de Bragança. A inferior pertence á archite- 
ctura dórica. 

Sobre o arco da porta principal tem as armas de D. Diogo de 
Sousa. 

No alto do oratório da Virgem acha-se gravada a seguinte in- 
scripçao: 

NIVE 

DEALBABVNTR (SIC) 

IN SELMON 

MONS DEL 

MONS IN QVO 

BENEPLAC1TVM 

EST DEO 

HABITARE IN EO 

ANNO D- I77I • 

No espaço que esta egreja occupa houve antigamente uma ca- 
pella denominada de Nossa Senhora da Carreira, na qual estava 



— 211 — 

instituída a irmandade de Nossa Senhora das Neves, como refere 
o Arcebispo D. João Martins de Soalhães, no seu testamento feito 
em i3 19, presentemente guardado no real archivo da Torre do 
Tombo. Também no seu testamento o Arcebispo D. João Affonso 
de Brito diz : « . . . . e 60 Livras para reFa\imento da ermida dê 
Nossa Senhora das Neves A 'Branca a par de S. Victonro.» 

Essa velha capellinha foi reedificada a expensas de D. Diogo 
de Sousa (i5o5-32) por occasião de mandar construir todo aquelle 
largo e o vasto campo de Santa Anna. 

Pedro d'Aguiar e sua mulher Maria Vieira instituíram n'esta 
egreja coro de 5 capellães com obrigação de missa quotidiana por 
suas almas. 

Estão ambos sepultados na capella do Nascimento, lado do 
Evangelho. O coro, o retábulo e um alpendre que teve, foram 
feitos desde 1627 a i635. Acham- se exteriormente encostadas a 
esta egreja as 14 cruzes de pedra que se erguiam ao longo dos 
campos de Santa Anna e da Vinha. 



EGREJA PAROGHIAL DE S. PAIO (GUIMARÃES; 

No largo do mesmo nome onde desde o primeiro quartel do 
século xiii existiu a terceira e ultima egreja parochial do burgo, 
construiu-se desde 1789 a 96 a actual egreja com a torre ao cen- 
tro da fachada. As oito cruzes da sagração a que se refere o sau- 
doso padre Caldas podem ter sido aproveitadas da primitiva egre- 
ja. Ha d'isto numerosos exemplos. 

No largo que lhe fica em frente existiu um elegante cruzeiro, 
-com a imagem de Christo esculpturada em granito fino, apeado 
no dia 18 de fevereiro de 1879 por ordem da illustre vereação que 
logo o fez levantar no cemitério municipal da Athouguia. Pouco 
depois vendeu-o para a freguesia de Polvoreira, onde se conserva 
próximo da egreja parochial muito venerado por aquelle povo. 

Ao lado d'esta egreja de S. Paio existe o Asyío de inválidos 
administrado pela meza da Mizericordia. Foi inaugurado em 1844, 
para receber 26 indivíduos dos dois sexos. 

Na frente do edifício tem os dizeres seguintes: 

ASILO 

DE 

INVÁLIDOS 



— 212 — 




Sanctuario do Bom Jesus do Monte (Braga) 



Quem ha que não conheça, ao menos por tradição, a feiticeira 
estancia do Bom Jesus de Braga, onde nacionaes e extrangeiros se 
extasiam na contemplação da natureza e da arte que alli se dão 
as mãos? 

A escadaria antiga e a moderna, a que minudentemente se 
refere o sr. Azevedo Coutinho no seu livro publicado ha um anno 
sob o titulo — Bom Jesus do Monte, o lago, as grutas, os jardins, 
as estatuas, o figurado das novas capellas e a magestosa egreja, 
tudo prende a attenção do visitante. Uma simples cruz levantada 
ha séculos entre as asperezas d'aquelle Monte Espinho, deu ori- 
gem á formosíssima egreja e ao embellezamento do local que de- 
ha muito se considera o mais attrahente do Minho ! 



'1 1 



3- 




Vista geral do Bom Jesus 



A tradição da cruz é de todo o ponto acceitavel. O que ainda 
se ignora é o anno em que foi construída a primitiva ermida. Já 
no meu livro InscripçÕes e Lettreiros, pag. 1 56, anno de i8g5, 
mostrei que a lapide gravada em 1839 e collocada no muro do 
primeiro patim é inexacta quando attribue ao anno de 1474 o go- 
verno do Arcebispo D. Jorge da Costa II, que teve logar na au- 
sência de seu irmão o Cardeal de Alpedrinha desde 1408 a i5oi. 
Por isso com razão o sr. Azevedo Coutinho corrige aquella data 
dando lhe mais 20 annos. Em que se fundou porem o auctor da 



— 214 — 

referida inscripção para attribuir a D. Jorge a construcção da pri- 
mitiva capella, se as suas armas encontradas nas escavações po- 
diam ter sido applicadas a qualquer melhoramento effectuado a 
expensas do Prelado, e se 22 annos depois o Deão D. João da 
Guarda mandou fa^er a egreja e capella? 

A esta construcção ou reedificação se refere a lapide seguinte 
existente no patim do lado opposto e de cuja authenticidade não é- 
licito duvidar : 



O 



'ESTORLIPCEtKPf.LKMJT 

DOMFASERO.PRETONOTTTIRQ 

DOjOff:DAbV/TRDfí:DR\\,R 
DEBRR6R--ELW6VO: . 

1 0(J^ EL HO: DE ELREI. ' 
C0NDEPfíWTlNOPOlUVAD 

EVAIR HXb-D DOMES: DE- 

SETÈl^^DOflNO-.BlWaJf 



Leitura:- — Esta egreja e capella mandou fazer o Protonotario 
Apostólico Dom João da Guarda, Deão das Sés de Braga e^ La- 
mego, do conselho de el-rei, conde Palatino, por sua devoção, a 
16 dias do mez de setembro do anno de i522. 



2ID — 




Escadaria antiga do Sanctuario 



— 2l6 — 

A actual egreja, com fachada composta das três Ordens archi- 
tectonicas — Dórica, Jónica e Compósita, foi desenhada por Carlos 
Amarante. Principiou a ser construída no dia i.° de junho de 1784 
c concluiu a 20 de setembro de 181 1. 

Ao lado direito da porta principal existe esta lapide referente 
as indulgências concedidas pelos Papas Pio VI e Pio IX: 



1 Cjl% WT:- induuenTiam umm IN DONinHIJ P^WíHUM^JU W10IVIÍ,ET 

ÍIVEMMÔUEMífoMMO^ 

RIAVI QUft5RftQtJSl»AAE,EriE^LiN ANNO QUOÍUMQi>e fti£s - ITEM OMMtS fcT ^t ^GU- 

Us liVOUUiEíyiTiA^ STATiOWUM Vlft C Rgí tSVISirANTfôUV (APEU.AS HUlUS SAN"<.Tl>AWi • 

Igit H lUUlMDaCLVlll COa/LESSITADDECEMNWM MMIC£iUiESlAM\/lilT?:-lJI^IUUa£A/ 
; rtt k VÍ E SÍ WftKXlW ^OT^NftTIVlTATl^EPiniAWI^ETASCEWSWKISaNaX^illWIMAàííííU 

. ElJ)l£^^IVLKSARl0G£mCAT10NM.Ç|PSiUS£CL^i]^AM>yEÍ?FJíSUsaVj^ADoUAWMS0UÍ 
| DlkKUStíiHU!U5AA0Df: !NSUP£HVII AHNO^ToTlDkMauEaUA0íl^tNASâUALlBETA|/k'!fCfltA; 

[, VI .PMràkMiWTMlJMffl iNDlUTISEXfREM | 

Ao lado. esquerdo tem esta da consagração da egreja pelo Ar 
cebispo D. José Joaquim cTAzevedo e Moura, a Jesus Christo cru 
cificado, com as respectivas indulgências: 



I K.ft.WDUCL\IUltV£RO>l.MLNftUUU>ST|ExCtUi.NTíSS\MUS Aí-RWt-- 

KtN0ltílW^DíaOSTOi)OAlHllJUSDEAlt\/iI)OElA0Ullh,liílSHltf1$COWi , 
' í\ D QNUNfílOA MMí M MWMmWMtt MIN t EtCLEÇi ^ M 1 M 
H0WtoD.N.ItiUíHWUltllOtlFlXllflNSt(WJlT^TftV)EINiiysWAR\WI\l0 
Hl HB\ RELlflLUIAS II^C LUS I T: E% LIUIK>3> -CRUC tt.D£ t OLUWWA F UUEUATIONIS 
ElU»fcMD.N [XVElflB.V.^W£HPAlliOS|iNauiítPHlSPflNÇ|tlUtíE# 
HAÍ^tT tX QUiBUS^S.APOST()L0RUra PETRl.fAUi.1, ANOKtft.lAU)ftl NUUOI^'1 AMlt 

NAÍ£,X L ITEM ÍÍES S WUUL1S í HklU ) F|0EUauSKCl.iS(AÍAtftlM8£^T£ VISI 
1ANTIBU5 IN D1E AMMlV£i)\llKIO rHIIUV£ OMSEU: RfCílOfVIVJlU I OOMtVtCASCCUAlQAAU^r. 

Na fachada ha ainda outras inscripçÕes, uma das quaes, com- 
memorativa da grandiosa festa do primeiro centenário, realisada 
no dia 1 de junho de 1884. Em 29 de julho de ijbj ordenou-se a 
abertura da calçada do Lanhoso que em 16 de maio do anno im- 
mediato ainda não tinha attingido a conclusão. Todas as obras 



2i 7 — 



que D. Rodrigo de Moura Telles effectuou na estancia do Bom 
Jesus, importaram em mais de vinte e quatro contos de réis. 

A nova estrada de macadam principiou a ser construída, e si- 
multaneamente o jardim do campo de Santa Anna, em 1854. A 
28 de março de i85q deu-se principio á estrada que parte do arco 
até ao Sanctuario, e em 1874 inaugurou-se a linha americana. 

No dia 14 de outubro de i853 collocaram-se na egreja os ór- 
gãos que pertenceram á do convento de Bouro. 

O elevador foi inaugurado em 25 de março de 1882. 

No dia 8 de março de 1897 inaugurou-se com grande solemni- 
dade a obra de reconstrucção da escadaria dos Cinco Sentidos, 
sendo adjudicada por 3:8oo.7^ooo réis ao mestre pedreiro braca- 
rense Guilherme José Pereira. 



EGREJA PAROGHIAL DA CIVIDADE (BRAGA) 

E' de origem antiquíssima esta egreja situada no local mais 
importante da Bra- 

cara romana. A con 

strucção actual é mo- 
desta e a decoração 
interior pouco re- 
commendavel. Tem 
ao lado esquerdo a 
capella das Santíssi- 
mas Chagas, vedada 
por grade de ferro, e 
construída em 1 Scjy. 
Foi instituída pelo 'dr. 
Pedro da Grãa, fidal- 
go da casa real. cora- 
mendatario e admi- 
nistrador vitalício do 
mosteiro benedictino 
de Santa Maria do 
Carvoeiro. O insti 
tuidor jaz em sarco- 
phago de pedra den- 
tro d'um arco aberto 
na parede do lado da 
Epistola, com o se- 
guinte epitaphio: 

No altar tem esta 
<apella ura, primo- 



S.DEPMGRAACOMEN" 

MBRIQíMIFlRpi 
UWEWLMAD8 
FAZERfiTOÉPElUlCOM 

IKORBPO 
l.FA 
LECEOA0S/9.DEFE 

VEREIR0.DEICO2. 




— 2l8- 

roso quadro a óleo, representando Christo na cruz, e estes dize- 
res ao fundo: 

HAVRIETIS AQVAS IN GAVDIO 
DE FONTIB'SALVATOR(/s) 



EGREJA DE NOSSA SENHORA DO SÁMEIRO 

(BRAGA) 



A dois kilometros do Sanctuario do Bom Jesus, na parte su- 
perior do Monte Espinho, passeava em setembro de 1861 o pa- 
dre Martinho António Pereira acompanhado d'outro individuo seu 
amigo a quem expôz a ideia de se promover a erecção de um mo- 
numento n'aquelle sitio, em honra da immaculada Conceição, me- 
morando assim a definição dogmática por Pio IX em 8 de dezem- 
bro de 1854. 

A 1 1 de maio do anno immediato nomeou-se uma commissão 
que a 28 de julho de i863 obteve de D. Flaviana Claudina Re- 
bello da Silva a cedência de 40 metros quadrados de terreno para 
a erecção do monumento, assentando-se a primeira pedra a 14 de 
junho do referido anno. A 12 de outubro de 1864 tiveram princi- 
pio as obras, e a estatua da Virgem, esculpturada pelo estatuário 
portuense Emygdio Carlos Amatucci, com 14 palmos de alto e 
pelo preço de i:3oo$ooo réis, foi collocada ás 7 horas da tarde de 
12 de agosto de 1869, e derrubada por uma faisca eléctrica a 9 de 
janeiro de i883. Não tardou a ser substituida pela actual que tem 
na base estes dizeres*. 

FEITA A EXPENSAS 

DO BEMFEITOR 

JOÃO ANTVNES GVIMARAES 

A' distancia de 28 metros fica a modesta capella que mede 3o> 
metros de comprido por 19 de largo, sendo lançada a primeira pe- 
dra no dia 3i de agosto de 1873. 

Vae bastante adiantada a construcção d'uma formosa egreja que 
ha de substituil-a em breve. 

A encantadora imagem da Virgem da Conceição que se venera 
no alto da tribuna, foi esculpturada em Roma por Eugénio Macca- 
gnani, no anno de 1876 e benzida por Pio IX, como se lê na pea- 
nha: 

O SS. PADRE PAPA PIO IX 

BENZEU ESTA IMAGEM 

NO DIA 22 DE DEZEMBRO DE 1876 



2ig 




Egreja e convento de Montariol (Braga) 



Num dos locaes mais aprazíveis dos subúrbios de Braga, o 
Monte Calvelo que com o Castro Máximo, (Monte de Castro) con- 
tiguo, dividiu no século ix o território de Braga e Dume (Doação 
de el-rei D. AtYonso o Casto, era de 878), os religiosos da Com- 
panhia de Jesus adquiriram por compra em ibôi uma grande ária 
de terreno de cultura e n'elle fizeram construir uma casa aboba- 
dada de pedra, para recreio seu e feriado dos estudantes do Col- 
legio (hoje Seminário de S. Pedro e S. Paulo) que também lhes 
pertencia. 

O nome de Montariol, certamente originado de Areal, nome 
do logar que lhe rica nas fraldas, é tão antigo que já assim o de- 
signa uma escriptura do Livro Fidei datada da era 1 1 1 1 (anno 
de 1078). 

O padre Contador de Argote, que escreveu a sua Hist. EccL 
de Braga no ultimo quartel do século xvn, diz a este respeito: 
«... que chamão de Montariol, e se dá este nome ao tal sitio ha 
mais de duzentos annos». 

O Arcebispo de Braga D. Martinho Geraldes, natural da fre- 
guezia de Semelhe, instituiu em 1243 o Morgado de Montariol. 

Os padres da Companhia possuíram esta casa e quinta até á 



— 220 — 

expulsão determinada pelo Marquez de Pombal, sendo então ven- 
dida pelo estado ao pae do Visconde de Montariol, passando d'este 
a seu rilho o sr. Visconde de Negrellos. 

No anno de 1890 veiu á praça por ordem do Banco de Credito 
Predial, de Lisboa, a quem estava hypothecada. Foi n'esta epocha 
precisamente que o provincial dos Franciscanos visitou a quinta e 
achando-a optimamente situada para ser transformada num con- 
vento da sua Ordem, aconselhado por muitas pessoas de Braga, 
tractou da sua acquisição, o que se effectuou em Lisboa, fazendo 
alli a escriptura no dia 8 de agosto de 1890. A primeira missa que 
os religiosos franciscanos celebraram no seu novo convento teve 
logar no dia 16 do mesmo mez e anno, e no dia 18 chegou a esta 
casa o virtuoso velhinho fr. Joaquim da Purificação que falleceu 
no dia 20 de outubro de 1899, sendo elle o primeiro Superior. 

As obras da magestosa egreja começaram no dia 5 de maio 
de iS()i e, ás 1 1 horas da manha de 27 de setembro do referido 
anno, foi benzida a primeira pedra pelo chorado Arcebispo sr. D. 
António José de Freitas Honorato, acolytado pelos cónegos Fran- 
cisco José Pibeiro de Vieira e Brito (hoje Bispo de Angra) e Mo- 
reira Guimarães (Arcipreste de Braga), e pelo Desembargador 
João Nepomuceno Pimenta, fazendo de mestre de ceremonias o 
rev. sr. João Vicente da Costa e Cunha, Abbade da Sé. A este 
acto assistiu como auctoridade o conselheiro Jeronvmo Pimentel, 
Governador Civil do Distncto. 

A fachada está concluída, restando-lhe apenas as duas torres. 
A parte nova do convento é a de dois andares que a gravura re- 
presenta encostada á egreja. 



~ 22 1 - 




Egreja de S. Torquato (Guimarães, 
(Copia da planta geral da obra em execução) 



— 222 — 

Nas proximidades de Guimarães, á distancia de pouco mais de 
légua e quarto (6:3oo, metros de estrada de macadam, visinhal n.° 
i, construída em 1872-73), venera se na egreja da sua invocação 
o corpo incorrupto de S. Torquato que, segundo se crê, foi mar- 
tyrisado por Muça, capitão Árabe, a 26 de fevereiro de 719, nesta 
freguezia a que o santo deu o nome. 

Na Mon. Lusit, lê-se que S. Torquato nasceu na Cinania (Ci- 
tania) e que foi alli primeiro Bispo, sendo martyrisado a cacete e 
á pedrada pelos moradores da serra de Vieira que prestavam culto 
á idolatria; e que estes desde muitos séculos vinham annualmente, 
por voto, cingidos por cordas e descalços, visitar a sepultura do 
Santo. Jorge Cardoso, no seu Agiologio Lusitano, diz que o refe- 
rido voto foi commutado pelo Arcebispo de Braga D. fr. Bartholo- 
meu dos Martyres em certa quantia de cera. 

No sitio onde a preciosa relíquia appareceu sob um montão de 
pedras por indicação de «luzentes chammas nomeio de entrelaçados 
matos», como em 1692 nos diz o padre Torquato d' Azevedo (Ant. 
Guim., pag. 422), construiu-se uma capellinha tosca, e junto da 
parede exterior do lado esquerdo collocou-se uma pia de pedra 
onde cae a milagrosa agua nascida na primitiva sepultura do Santo. 
Os frades benedictinos do convento próximo levaram, tempo de- 
pois, para a sua egreja o estimável thesouro e alli o conservaram 
encerrado em tumulo de pedra branca, de Ançã ou mármore. 

O padre António Carvalho (Chorogr., liv. 2, cap. 8) íala-nos 
da abertura do tumulo em i5i2. O precioso manuscripto de Silva 
Thadim, fallecido antiquário bracarense, conta quenoanno de 1579, 
o Arcebispo D. fr. Agostinho de Jesus (Castro), acompanhado de 
numerosos bracarenses, partiu em direcção á egreja de S. Tor- 
quato para ordenar a abertura do tumulo. O povo porém oppoz-se 
dizendo que o Arcebispo tentava levar o Santo para Braga, e o 
Prelado teve que retirar-se a toda a pressa para evitar tumultos 
de que nem elle próprio sairia illeso. 

O mesmo succedeu em 1637 ao Arcebispo D. Sebastião de 
Mattos de Noronha. 

Foi então que o tumulo se reforçou, a expensas dosparochianos, 
com paredes novas e grossas grades de ferro, como actualmente 
se encontra, gravando-se-lhe na frente, em caracteres ligados, esta 
• inscripcão: 

HOC TUMULO 1LLES1S CONDUNTUR 
CARN1BUS OSSA TORQUATI D • 1'IGNORA CHARA 



ANNO DE l637 

SE GUARNECEU ESTA SEPULTURA 

E ABR1U-SE E ACHOU-SE 

O CORPO E CARNE INTEIRO, 

VESTIDO DE PONTIFICAL, COM BÁCULO 



— 22:> 




O tumulo antigo 



Esta obra, principiada a 14 de julho do referido anno, dias de- 
pois da visita prelaticia, concluiu-se a 18 (tal era apressa!), como 
consta da Memoria inserta no livro dos usos (Estatuto velho), es- 
cripta pelo vigário de S. Torquato o licenciado Jeronymo Coelho, 
da qual existe copia no archivo da Collegiada de Guimarães. No 
dia da conclusão assistiram á abertura do tumulo, entre grandís- 
simo concurso de povo, o dr. Rui Gomes Golias, mestre-eschola 
da Collegiada, que arrancou o tornozello ao Santo, vários cónegos, 
Diogo de Barros notário Apostólico, etc. Por todos os assistentes 
foi visto incorrupto «mirrado o rosto, virado para a banda esquerda, 



— 224 — 

com olhos, nariz, bocca, barba e orelhas» e ao lado um pau de 
três a quatro palmos de comprido. ( Vide »rav. a pag. 225). 

Os falsos Chronicôes de Juliano Peres, padre Higuera e Flávio 
Dextro, originaram entre os escriptores João de Barros, Gaspar 
Estaco, padre Carvalho da Costa, Silva Thadim, D. Nicolau de 
Santa Maria, D. Thomaz da Encarnação, padre Torquato d'Aze- 
vedo, fr. Bernardo de Brito, Jorge Cardoso, D. Rodrigo da Cunha, 
Vaseu, padres Bollandistas (antuerpianos) fr. Henrique Florez e 
outros, desencontradissimas opiniões á cerca d'este Santo, muito 
especialmente da sua authenticidade como Bispo de Acci (Guadix 
em Granada), da Citania de Briteiros, ou de Braga. 

O dr. João de Barros, na sua geographia, chega a suppor que 
este vocábulo S. Torquato seja corrupção de S. Donato ! 

O Arcebispo D. fr. Agostinho de Jesus, na carta histórica Ad 
limina que enviou ao Papa, diz «que se acreditava» que este S. 
Torquato fosse discípulo de S. Thiago. 

Esta contenda considera-se porém terminada, mormente desde 
que o Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles deu publicidade a 
um folheto de Santos, incluindo nelle este Félix Torquato a que 
prescreveu rito e lições em 29 de janeiro de 17 18. 

Está hoje averiguado que S. Torquato Bispo de Guadix existe 
no convento de Cella-Nova e que o Citaniense não tem a seu fa- 
vor provas suficientemente seguras, crendo-se portanto que este, 
de que me occupo, seja o Bispo bracarense Félix Torquato ou 
Torquato Félix, como dum e d'outro modo se lê no Breviário, o 
qual na serie tem o numero i5, principiando o seu governo no 
anno de 6q3, depois de haver sido nomeado Arcipreste de To- 
ledo, Bispo de Iria e por ultimo do Porto. 

Por ordem do Arcebispo D. fr. Caetano Brandão abriu-se pela 
ultima vez o tumulo, que ainda hoje se conserva dentro da capella 
de Santa Catharina, lado do Evangelho, examinando minuciosa- 
mente o cadáver o medico vimaranense Miguel Rebello de Bastos 
que o julgou perfeito. No dia 3o de junho de i8o5, compareceu 
na freguezia o Arcebispo e dirigindo-se á alludida capellinha re- 
vestiu de pontifical o Santo que acto continuo foi exposto á vene- 
ração dos fieis, durante i5 dias, na egeja parochial. 

Os povos cTaquellas immediações, desconfiando sempre do Ca- 
bido de Guimarães, esperavam com anciedade que terminasse o 
praso concedido para immediatamente penetrarem de noite na 
egreja e reconduzirem o Santo para a capella contigua, fechando-a 
com a grade de ferro que ainda agora conserva. 

Pensou-se desde logo na edificação de uma egreja, para a qual 
apresentou a planta o architecto vimaranense Luiz Ignacio de Bar- 
ros Lima, e a 7 de março de 1825 tiveram principio estas obras 
no local denominado — Penedos de Maria do Monte Maio, em 



225 








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— 220 — 



terreno cedido por vários \ roprietarios e por el-rei D. João VI 
que também auctorisou a demarcação effectuada em 9 de abril 
do referido anno pelo Corregedor de Guimarães José Antó- 
nio de Almeida, com o comprimento de 194 varas e a largura 
de 88, conforme o que se lê na inscripção lapidar da capella- 
mór, lado da Epistola : 



TEVE PRINCIPIO ESTE TEM 

PLO NO DIA-7-DÉ MARÇO (de l8'25) • 

EM-Q-d'aBR1L DE- 182 5-0 CORREGEDOR DE 

GVIMARAES EMPOSSOV A MEZA DO TE 

RRENO PERTENCENTE AO SANTO E('m Virtude) 

da regia provisão de (2g) de (novembro de 1824 • Mede) 

DE NORTE A SVL-I94-VARAS E DE 
NASCENTE A POENTE-(?fW PãVãS) • 



A inscripção vae completada em itálico na parte que o salitre 
destruiu. Do lado opposto ha outra referente á irmandade do Santo. 
Diz assim : 

EESTA IRMANDADE DE S • TORQVA 

TO ESTÁ ERECTA E CONFIRMADOS 

OS SEVS ESTATVTOS POR ELREI O SENHOR 

DOM J0Á0-6.°-QVAND0 REGENTE, EM RfcSO 

LVÇÁO DE-2I-D , OVTVBRO DE 1 806 • NA MES 

MA PROVISÃO SE VE : QVE EM-1Ò93-.1A 

HAVIA ESTATVTO E CONFRA 

RIA DE S • TORQVATO 



Aos lados do altar existem outras duas lapides onde, por assim 
dizer, está compendiada a historia do notável sanctuario. 
A primeira, lado do Evangelho, diz : 

4- 

i 

FOI MARTYRIZADO O GI.ORI CAETANO BRANDÃO ARCEBIS 

OSO S • TORQVATO A-26-DE PO PRIMAZ NO DIA-4-DE JV 

FEVEREIRO DE-719-LOGO DE LHO DE-l852-FOI TRASLADA 

POIS FOI TRASIADADO PARA DO PARA ESTE TEMPLO PELO 

O MOSTEIRO VELHO • NO DIA EMINENTÍSSIMO SENHOR 

-30-DE JVNHO DE-l8o5-FOI EX CARDEAL DOM PEDRO PAVLO DE 

POSTO A' PUBLICA VENERAÇÃO FIGVEIREDO DA CVNHA E MEL 

PELO EX. mo SENHOR DOM FR ■ LO ARCEBISPO DE BRAGA • 



— 227 — 

A segunda, lado da espistola : 

ESTE TEMPLO ESTA.' ISENTO DIA-8-d' AGOSTO DE-l8l2 • 

DA JVRISD1ÇAO PAROCHEAL POR ESTE DOCVMENTO ESTA' 

SENTENÇA PASSADA EM JVL ARCHIVADO NESTE TEM- 

GADO, DADA PELO CORREGE PLO E REGISTADO NA NO- 

DOR DE GVIMARAES EM-I I-d' TA N.° -3 I I -FOLHAS- 1 I 2-DO 

ABRIL DE-l8lI-E CONFIRMADA TA BAI LIÃO -JOÃO TEIXEIRA 

NA RELAÇÃO DO PORTO NO D'ARAVJO, EM GVIMARAES • 



Principiaram pois em 7 de março de 1825 os trabalhos da con- 
strucção do primeiro templo, de que apenas se concluiu a capella- 
mór onde desde 4 de julho de i852 se acha exposta á veneração 
publica, sob elegante baldaquino de castanho, a preciosa relíquia 
do corpo inteiro de S. Torquato. A primeira pedra foi lançada 
sobre os alicerces no dia 20 de junho do referido anno, terminando 
em 1846 a obra de pedreiro que importou em 8: 17 1 íí)55o réis. 
Oito annos depois, em 1854, fez -se o referido baldaquino, ainda 
hoje em osso, com o qual se dispendeu a quantia de 2:35o$665 réis. 

Esta capella-mor, que em i855 ficou de todo acabada e da 
qual, além do baldaquino, apenas aproveitam os alicerces para a do 
novo templo em construcção, custou 1 3:223.^047 réis. Nesta verba 
não se incluem os 140,^000 réis do para-raios collocado em 1887. 

A casa da irmandade, para residência do capellão e guarda 
de alfaias, concluiu-se em 1870 por 4:59235560 réis. A torre pro- 
visória construída em i852 pela quantia de 1 82^600 réis, recebeu 
em 1877 quatorze sinos afinados (faltam 4 para o carrilhão), im- 
portando todos em 5:i36$ooo réis. Cada um tem em volta estes 
dizeres: 

IRMANDADE DE S- TORQVATO SVBVRBIOS DE GVIMARAES 
MANOEL ANTÓNIO DA SILVA FILHOS • 
LISBOA ANNO DE 1 877 ■ 

O relógio foi collocado em 1880 e custou 3 18:475 réio. 



Depois de concluída a capella-mór existente, pensou a meza 
da irmandade na substituição do projecto ou planta geral da egreja 
por outra que a excedesse muito em elegância e riqueza archite- 
ctonica. Foi a lembrança bem acceita e a approvação recaiu n'esta 
de que aqui dou gravura, a qual foi desenhada em Gotha pelo 
architecto allemão L. Bohrtfledt, no dia 2 de abril de 1868. 



-228- 

Em 1857 principiaram a assentar os alicerces no mesmo tra- 
çado que existia para a continuação da primeira egreja a que 
pertencia a actual capella-mór, ficando concluídos em 1871 com o 
importante dispêndio de 17:861:875 réis! 

Gastou-se á farta o dinheiro e não se pensou então na sum- 
ptuosidade da obra que já hoje, pela riqueza de ornamentação 
delicada e profusa, e pela elegância do estylo architectonico roma- 
nico-bysantino, com excepção das torres em que predomina a re- 
nascença, é objecto da admiração dos peritos. Este monumento 
de arte ficava mais magestoso se lhe ampliassem o espaço interior 
que no corpo mede 36'", 20 por io m ,6o e no transepto 34 m ,c)0. 

A capella-mór deve ficar com as dimensões da actual que in- 
teriormente mede i7 m ,6o por 7 ra ,8o. 

Agora que alguns arcos da nave se approximam do fecho, co- 
meça a ser notada a pouca largura interior. 




Parte interior da nave em construccão 



Apezar do grande numero de operários que diariamente se 
empregam nesta obra, é de presumir que os indivíduos que ora 
nascem não assistam á sua conclusão, salvo se o rendimento an- 



— 229 — 

nual das esmolas, que já ascende a mais de sete contos de réis, 
encontrar auxilio decidido nos favorecidos da sorte. 

A presente gravura mostra o adeantamento da obra da fachada: 




Egreja de S. Torquato (parte construída) 



Com os dois grandes anjos de pedra que em 1892 foram collo- 
cados sobre o pórtico dispendeu-se 1:499:000 réis. Sustentam nas 
mãos uma fita larga com esta interrogação gravada em caracteres 



gothicos 



GLORIANTES AD QVIT VALEB1MVS? 



As estatuas de S. Damazo e S. Geraldo foram collocadas em 
[899. Designou as, a pedido da meza de 1895-1896, o digníssimo 
D. Prior de Guimarães sr. conselheiro dr. Manuerd'Albuquerque, 
com approvação dos drs. Manuel Moreira Júnior, Arcipreste, e 
Manuel de Jesus Pimenta, vice-reitor do Seminario-Lyceu. 

A primeira empreitada d'este novo templo (lado esquerdo do 
transepto até a altura das portas) foi adjudicada no mesmo anno 
da conclusão dos alicerces (1871) a Francisco Thomaz Martins da 
Motta e António José Pereira, da cidade de Braga, por 7:800 réis 
cada metro cubico de cantaria. 



— 23o — 

A segunda (paredes lateraes e torres até próximo do primeiro 
patamar da escada) foi adjudicada aos mesmos por diversos pre- 
ços no dia 12 de março do anno immediato. A terceira (lado di- 
reito do transepto até á altura das portas),' foi entregue ao mesmo 
António José Pereira no dia 2 de novembro de 1878 por 12:000 
réis cada metro cubico. A quarta (continuação da segunda) foi 
egualmente entregue ao Pereira por i5:ooo reis o metro cubico. 
A quinta e ultima (cornija do pedestal em toda a extensão da obra) 
foi adjudicada a António Salgado, de Guimarães, em 29 de outu- 
bro de 1876, por i3:5oo réis cada metro cubico. 

Desde então continuaram as obras por administração da ir- 
mandade e sob a direcção do fallecido conductor de i. a classe 
de Obras Publicas, sr. Cesário Augusto Pinto até ao anno de 1895, 
em que foi substituído pelo notável architecto portuense sr. José 
Marques da Silva, a quem a primitiva planta deve alterações de 
importância capital para as bellezas que se admiram na execução 
do trabalho de esculptura. Em 20 de abril de 1897, a meza resol- 
veu convidar o mesmo illustre architecto a visitar mensalmente 
as obras; e em assembleia geral de 29 de junho de 1899 entre- 
gou-lhe definitivamente a direcção. 

— São duas as romarias que annualmente se realisam em honra 
de S. Torquato: a primeira, denominada pequena, tem logar no 
segundo domingo de maio; e a segunda no primeiro domingo de 
julho. Esta considera se a maior do Minho pela extraordinária 
concorrência de romeiros nos três dias. 



— 23l — 

EGREJA E CONVENTO DE TIBÃES 



A Chorographia do padre Carvalho diz-nos que o rei suevo 
Theodomiro, a instancias do seu capellão-mór S. Martinho, Bispo 
de Dume, fundara em 562 este notável convento Benedictino, cujo 
Abbade era o Geral de toda a Ordem em Portugal, dedicando-o 
•a S. Martinho Turonense ; que o successor Miro ordenou a plan- 
tação duma grande mata junto do convento, com arvores do Alem- 
tejo que, por não serem de folha caduca, se presume fossem so- 
breiros-, que D. Urraca, filha de D. Affonso VI, doara metade 
do Mosteiro á Sé de Tuy, reedificando-o em 1080; que D. Payo 
Guterres da Silva o ampliara, etc. Da pedra que se crê ter ap- 
parecido com inscripção referente á fundação, não temos um 
testemunho seguro, nem mesmo consta que exista a sua copia ; 
porém existe desde ha pouco, para prova da reedificação no se- 
sulo xr, um capitel d'essa epocha, descoberto pelo actual possui- 
dor do convento, o meu illustre consócio da Associação dos 
Archeologos, sr. commendador José António Vieira Marques, que 
se dignou oíferecer-m'o, bem como outro compósito e outro ainda 
pertencente ao século xiv, todos encontrados na alvenaria do an- 
tigo claustro do Tronco, destruído pelo incêndio do dia 1 1 de ju- 
lho de 1894. 

E' da mesma procede icia uma fonte de preciosa esculptura, 
estylo renascença italiana, em que se lê a data de 1657. O sr. 
Vieira Marques aproveitou-a embebendo-a na parede interior do 
edifício. 

O capitel do século xi, encontrado na alvenaria do século xvn, 
não nos deixa a menor duvida sobre a existência do convento ha 
900 annos, plus minus. 

Alem d'este testemunho temos na residência parochial um qua- 
dro que se refere do seguinte modo ao Couto feito ao Mosteiro 
pelo conde D. Henrique e a rainha D. Theresa, em 24 de mar- 
co de 1 1 10: 



«In nomine Patris & Filii & Spiritus Sancti: Ego Comes D. Henricus, & 
uxor mea Infanta D Tarasia, Adfonsi Regis filia, placuit nobis, ut faceremus, 
sicut & facimus Cautum, & lerminum ad Monasterium S. Martini de Tibia- 
nes, &. facimus illum Cautum, et Terminum pro amore Domini nostri Jesu Christi 
& ut mercedem inde habeamus ante Deum umnipotentem in diem Judicii, & 
ut Servi Domini qui ibi habitant, vel habitaverint, in Missis, & in Psalmis, etiam 
in totó opere, quod ad Djum pertinet, nostram semper memoriam habeant, <Sc 
provobis Petro Plaiz, & Menendo Plaiz & Pelagio Plaiz, qui nobis semper cum 
fide, & veritate servitium fecestis, et facitis. Et facimus per terminum, qui no- 
bis placet, & rectus est, per terminum quomodo dividit Palatim cum Vilarinho, 
& per montem Maiorem, quod est super Ulgóso; & inde vadit per montem de 



— 232 — 

Abeleiró, qui est super Ulgóso; & inde, per petram Taramelada, quae est pro- 
pe de fonte de genti; & inde per terminum de Semelli; & inde quomodo divi- 
dit Parada cum Semelli; & inde quomodo dividit Parada cum Forósos; & inde 
per Gernádo; & inde per Gandarella; et inde, ad illum fontem de Sancto Petro 
de Merelim; & inde ad Castrum Malum; & inde, per illam carreriam antiquam; 
& exit in Mocoronni; & inde per médium flumen de Cadavo; & concludit in illa 
foze de Gesmondi. 

Et omnia Regalia nostra, quae continentur infra términos prenotatos, idcst 
Palatim; & illam varzenam de Gerradello, quae jacet sub villa Merlim in littore 
Catavi, damus, atque concedimus Sancto Martino de Tibianes, & Fratribus ibi 
commorantibus, pro remédio animarum nostrarum. Et istam terminationem 
Monasterii Sancto Martini de Tibianes, quam facimus, nos ita super nominati 
ita facimus. Et ita Regalia super nominata damus, & concedimus, ut de hodie 
die, vel tempore sedeat ipse terminus, sive Cautus de jure nostro abrafus, in 
vestro jure, atque domínio, ad illud Monasterium traditus. Et si quis homo, tam 
potens, quam impotens, vel Rex etiam, qui hujus terrae imperium obtinuerit, 
ab hac die in antea, hoc factum nostrum infringere voluerit; in primis sit ex 
comunicatus, & anathematisatus, & cum .luda Domini traditore habeat parteci- 
pio & Pareat post partem prefacti Genobii, aut cui ejus vocem tenuerit, XII. 
mille libras auri; & hoc factum nostrum ratum semper, & firmum permaneat. 
Factum Cautum simul, & terminum. vu. Kalendas Aprilis. Era m c.xvm. Ego 
Comes Henricus, una cum uxore mea Infanta Domna Tarasia, nostris manibus 
confirmamus, & robor j- f amus. Nunus Tibianensis Cenobii Dei gratia Abbas, 
quod vidi ofr. Petrus Vimaranensis Clerici Comitis HT. 

Pro testes. — Petrus, Plagius,',Gondisalvus, Godinus. Bernardus Toletanae 
sedis Archiepiscopus, & S. R. Eccl. Legatus, qui hujus operis adjuctor bónus 
& actor extiti sub Dei gratia, & legatione comissa, hoc múnus ratum semper, 
firmum manere praecipio, praecipiendo confirmo. Menendo Venegas continens 
Castelu S. Grucis ofr. Gomice Nunis contin. S. Christophori ofr Egas Monis. 
contin. S. Martini ofr. Eg&s Gondisindis contin. Bayam ofr. Plagius Soaris con- 
tin. Amayam ofr. Fafila Lusi contin. Lnginoso. Egas Palais contin. Burio. Go- 
mes Venegas contin. Penelam ofr». 



E' toda abobadada de pedra a magnifica egreja com as suas. 
capellas collateraes e rica talha dourada. 
O órgão tem estes dizeres na frente : 

«Sendo D. Abb f G al da Congreg am 

O R 1 ? P. M. D° r Fr. José Joaquim 

de S ta Thereza. 

Fez este órgão no anno de 1785 

D. Francisco António Solha vice 

Cônsul de Hespanha por 

S. Mag. Cath.» 

A dividir as cadeiras do coro que se fez em 1667, sendo Gerai 
Fr. Bento da Gloria, ha bustos de santos a que se refere, por or- 



— 233 — 

dem numérica, o Index seguinte em dois quadros que por curio- 
sidade copio : 

n. p. s. bento foi o primeiro inventor do Rosário da Virgem. 
Accrescèntou no officio Divino o Deus in adjutorium ; ordenou que 
no principio das horas se diga a Gloria Patri e nas matinas o 
hymno Te-Deum laudamus. 

n. p. s. gregorio magno inventou o cantochão Gregoriano ; ac- 
crescèntou Ora pro nobis Deum na antífona Regina Caeli ; com- 
pôs a maior parte das ceremonias da missa ; instituiu a adoração 
da cruz na sexta-feira da paixão; o lava pedes na quinta feira \ a 
ceremonia da cinza na primeira quarta-feira da Quaresma, etc. 

Vrbano ií. inventou o Officio menor de Nossa Senhora. 

Vrbano iii. Instituiu a festa do Corpus Christi. 

S. TA Ivliana a quem primeiro foi revelada a dita festa. 

O cardeal cvido ordenou que quando se levantasse a hóstia na 
missa se tocasse uma campainha e que também a fossem tangendo 
deante do Senhor quando o levão aos enfermos. 

S. oddo abb. Ordenou o Officio de S. Martinho. 

S. leão ív. inventou a Octava da festa da Assumpção da 
Virgem. 

S. anselmo Arcebispo Cantuariense foi o inventor da festa da 
Puríssima Conceição. 

Innocencío iv Ordenou a festa da Natividade. 

Pavlo diácono compôs o hymno do Baptista. O nosso Guido 
Aretino achou as 6 sylabas ; ut Ré, Mi, Fa, Sol, La, sobre as 
*quaes se compoz o dito hymno. 

S. Ildefonso foi o inventor da festa da Expectação. 

Evgenio iii. inventou a festa da Annunciação. 

Gregório ix ordenou o costume de tocarem o sino ás Ave-Ma- 
rias nas egrejas, depois do pôr do sol. 

Gregório iv compôs o Officio e ordenou a festa de todos os 
Santos, ordenando que se solemnisasse em o i.° de novembro. 

S. odilio abbade inventou a devoção das almas dos fieis defun- 
ctos que se costuma fazer em o primeiro dia depois da festa de 
todos os Santos. 

S. ovido abbad foi .ruem inventou a mão do canto das seis sy- 
labas com que se aprende e compõe a musica. 



No Arctfivo da Mitra guarda-se um Rescripto do Concilio de 
Constança (anno de 141 7) o qual ordena ao Abbade de Tibães que 
faça restituir os bens que andavam alheados da Mesa Archiepis- 
copal. 



- 2 3 4 - 

No livro 7.", íi. 39 v. e 40, do município bracarense existe uma 
concordata celebrada entre a camará e o convento de Tibães para 
a reparação da ponte de Prado, sobre o Cavado. Provavelmente 
resultou d'essa concordata a construcção da ponte actual, ?obre 
as guardas da qual existem as armas do referido convento com 
esta exquisita mas conceituosa inscripçao de leitura difficil : 



ESTA OBRA FEZ ANTÓNIO DE 
GRASTO DA VILA DE VI\NA 

167o 



EiVICO 

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G 4MVIDÃBREVENV£ 
NT E 



Leitura: — Esta obra fez António de Crasto, da villa de Vianna, 
no anuo de 1676. 

Emquanto tiveres, deias (dá). Mira (olha) por ti, sê prudente. 
Asi (assim) como se paga la ponte se paga la vida brevemente. 

Pende da parede do pateo d'este convento um grande quadro 
a óleo, de alto merecimento, representando as individual dades 
mais notáveis em santidade e talentos, pertencentes á Ordem be- 
nedictina. Tem á margem, em toda a volta, os pavilhões dos pai- 
zes onde a mesma Ordem possuiu conventos. 



—235 



CRUZ DE S. GONÇALO 

> 

Tem esta denominação porque se diz ter assistido ao baptismo 
de S. Gonçalo, nascido em Tagilde, concelho de Guimarães. 

A'cerca d'esta cruz lê-se 
na Revista de Guimarães, 
vol. XI pag. 29: «Remonta 
evidentemente aos séculos 
xin ou xiv. E' de prata so- 
breposta em madeira, os- 
tentando em alto relevo 
ornamentações de folhas 
de vide e terminando as 
hastes em forma de flor de 
liz; na frente, no transepto 
tem as lettras ihs, e quasi 
nas extremidades meda- 
lhões sobrepostos com 
gravuras em alto relevo 
que representam : no alto 
da cruz uma figura mas- 
culina nimbada sustentan 
do um livro (?) nas mãos; 
no do braço direito um 
pelicano \ no do esquerdo 
a imagem da Virgem (?) ; 
no do fundo um anjo com 
um papel de musica nas 
mãos ; na parte posterior 
tem outros quatro meda- 
lhões, não sobrepostos com 
os symbolos dos evan- 
gelistas ; no do alto da cruz a águia ; no do braço direito o anjo ; 
no do esquerdo o leão; no fundo o boi d'azas. 

Na exposição d'ourivesaria feita em i883 no Palácio de Crys- 
tal, do Porto, esteve exposta esta cruz, sendo apreciada como jus- 
tamente merecia». 

Esteve também na exposição de arte sacra-ornamental de Lis- 
boa em i8q3 por occasião do centenário Antonino. O sr. Joaquim 
de Vasconcellos escreveu no Commercio do Porto n.° 181 de 1 de 
agosto de 1896: «Na mesma sala 4. a ... está perdida, quasi oc- 
culta, uma jóia de elevado preço — a cruz de prata attribuida 
a S. Gonçalo d' Amarante. A depositaria d'esta jóia é a egreja 
de Tagilde, perto de Vizella. . . Pertence ao estylo românico de 
transição : os argumentos em que se funda a attribuição, em- 




— 236 



bora não sejam absolutamente seguros, merecem sério e detick> 

exame » . 

Em correspondência de Vizella para o mesmo jornal n.° 173 

de 7 de julho de 1880, diz o 
fallecido Manuel Maria Ro- 
drigues : «a cruz de Tagilde 
ambicionada pelos frades 
d^marante que offereceram 
outra de prata e 400:000 
réis». 

CÁLICE 

DE S. SALVADOR 

DE BRITEIROS 

E' de cobre, excepto a 
copa que não pôde deixar 
de ser de prata dourada. 

Este curioso cálice mede 
de altura o in ,3o e tem na 
copa 0,08 de diâmetro. O 
nó, bastante desenvolvido, é 
bem lavrado como a base 
que se divide em seis gomos 
com emblemas, e em dois 
d'elles as palavras : britei- 
ros e bravo, designando a 
primeira a freguezia a que 
pertence e a segunda pro- 
vavelmente o sobrenome da 
offe rente. 




— 237 ~ 

CAPELLAS ' 
GAPELLA DE S. LOURENÇO DA ORDEM 



Nos subúrbios de Braga, a pequena distancia da egreja de S. Fru- 
ctuoso, existe a capella de S. Lourenço da Ordem, notável pela 
tradição de ter sido sagrada, de pertencer aos Templários, no 
tempo em que tinha contigua uma Gafaria, de servir para os có- 
negos alli resarem em coro quando grassavam na cidade epide- 
mias, pelos preciosos azulejos que interiormente conserva, e pela 
porta principal gothica a denunciar, a sua muita antiguidade. No 
lado direito da sua fachada vê-se embebida uma grande pedra com 
esculptura representativa da anterior frontaria da Sé com as suas 
duas torres acastelladas e entre ellas a imagem da Virgem que 
iem estes d.zeres na peanha : 

A M A DASSCE DE BK A 



GAPELLA DE SANTA MARTHA DAS CORTIÇAS 

(BRAGA) 

No alto do monte d'este nome, onde se conservam abundan- 
tes vestígios de habitação luso-romana, construiu o Arcebispo 
D. Diogo de Sousa uma capella da invocação de Santa Martha, da 
qual ainda existe o arco interior com o brazao prelaticio. 

Os frades do extincto convento da Falperra não levavam a 
bem que o parocho de Esporões recolhesse as numerosos esmo 
las que os fieis deixavam na referida capella, e construíram na 
vertente do monte, junto do caminho dos romeiros, outra da mes- 
ma invocação de Santa Martha que o povo denomina do leão, por 
ter ao lado um leão de pedra a jorrar agua pela bocca. Esta ro- 
maria é grandemente concorrida e os pedidores das duas capei 
las divertem n'aquelle dia o povo com interminável aranzel para 



1 Os nomes de capella e capellão provém do costume dos reis de França 
levarem nas suas expedições a capa de S. Martinho juntamente com outras re- 
líquias, alguns Bispos e ecclesiasticos que celebravam missa ao ar livre como se 
fora na egreja. O uso das capellas domesticas é attribuido a Constantino que fez 
construir uma no seu palácio. 

A lei de 1860 extinguiu as capellas vinculares. 



-238- 

que se acredite que uma das imagens é mais milagreira que a 
outra. 

A pequena distancia d'esta ultima capella, e ao seu lado es- 
querdo, ha um grande penedo, bastante gasto na parte inferior^ 
com estes dizeres em caracteres elegantes: grandia mala meia. 

E' provável que os frades venerassem alli alguma imagem de 
Santa Maria Magdalena a chorar os seus grandes males. 



CAPELLA DE SANTA MARIA MAGDALENA 



No referido monte da Falperra, logar antigamente denominado 
da Portella de Espinho, pouco distante da capellinha de Santa 
Mártha do Leão, construiu-se no século xv uma ermida em que 
principiou a ser muito venerada a imagem de Santa Maria Ma- 
gdalena, fundando-se-lhe em 1 635 uma confraria que pouco de- 
pois dava principio á construcção da actual capella elegantemente 
esculpturada. 

No dia 22 de julho de 1738 foi para alli trasladada a imagem 
que então se esculpturou em granito e que por occasião de gran- 
des calamidades era devotamente conduzida para a cidade. Pa- 
rece que a maior penitencia consistia na incommoda conducção. 
Esse antigo costume persiste ainda, mas a imagem é outra e de 
madeira. , 

Nas Antiguidades d'Entre Douro e Minho refere-se que os 
parochianos da próxima freguezia de Santa Christina de Longos 
eram obrigados a dar annualmente ao seu abbade, no dia da festa 
da peccadora de Magdala, três figos lampãos e uma cabaça d' agua. 
A designação de lampãos, como o indicam os prophetas Jeremias 
e Micheas, aquelle elogiando os figos que viu num cesto á porta 
do templo, e este dizendo : Precoces ficus desideravit anima mea, 
indicam os temporaos. 



CAPELLA E CONVENTO DO VARATOJO 

Esta capella fica entre as de Santa Maria Magdalena e Santa 
Martha do Leão. O convento, que era modestíssimo, e que foi 
construído a expensas dos bemfeitores, distinguindo-se n'este nu- 
mero Domingos Fernandes Lata, está sendo substituído por um 
edifício elegante e vasto, graças á dedicação do Juiz da irmandade, 
o sr. Manuel Simões Braga. 

A primeira pedra do extincto convento que abrigou i3 frades 



— 239 — 

professos e que teve quatro portas exteriores sobre duas das quaes 
havia os dizeres: — solidão, silencio e paz — casa de devs, porta 
do cso, foi lançada no dia 24 de agosto de 1828 pelo Vigário Ge- 
ral Manuel José Leite Pereira, Abbade de Maximinos, fallecido a 
7 de março de i83o. Na egreja conserva-se, para memoria, uma 
cadeira em que se assentou o sr. D. Miguel de Bragança quando 
alli foi de visita. 



CAPELLA DE SANTO ADRIÃO DA GORRICA 

(BRAGA) 

Na margem direita da antiga estrada de Guimarães, aguas ver- 
tentes do monte do Picoto, construiu-se em 1676 esta capella que 
tem porta de arco e alpendre, como todas as da epocha. 

Sobre a porta lê-se : 

ANT S OBF (SÍc) 

INHO A M 

ANDOV F 

i5 7 6 
Leitura :— António Sobrinho (?) a mandou fazer no anno de 1 576. 



CAPELLA DE S. LAZARO (GUIMARÃES) 

E' de construcção singelíssima esta capella. Está situada no 
logar dos Pombaes, entrada da rua de D. João I. 

Data do anno de 1600, como nos diz o seguinte lettreiro gra- 
vado sobre a porta : 

ESTA IGREIA SE FEZ NO ANO DE iÔOO. 

Teve contigua a Gafaria dos Lázaros administrada pela Camará 
Municipal e, desde 1681, pela meza administradora da Miseri- 
córdia. 

Fica-lhe quasi em frente o padrão coberto de abobada de gra- 
nito, commemorativo da romana que D. João I fez a Nossa Se- 
nhora da Oliveira em acção de graças pela tomada de Ceuta. 
Desde 20 de março de i863 e 29 de agosto do anno immediato, 
effectuou-se a sua mudança do centro da rua, á distancia de 2 m ,3o, 
onde marcava o sitio em que o monarcha se descalçou para de- 
votamente se dirigir á Collegiada. 



— 240 — 

O cruzeiro, que é todo de mármore branco, muito elegante, 
compõe-se de uma columna alta e o Christo, bem esculpturado, 
em cruz florida. 



CAPELLA DE SANTA LUZIA (GUIMARÃES) 

Está situada na rua do mesmo nome e foi construída no anno 
do 1600. A porta principal é de arco e tem na frente um alpen- 
dre sobre columnas toscas de granito, cobrindo um púlpito sin- 
gello, egualmente de granito, que se encosta ao lado direito. 

E' administrada pelo Cabido que no dia da romaria annual 
manda alli celebrar missa cantada com sermão em troca das mui- 
tas esmolas que então recolhe. Venera-se nesta capella a pequena 
imagem de S. Bento que esteve numa das portas da cidade. 



CAPELLA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO 

(GUIMARÃES) 

Um pouco distante da ponte de Santa Luzia, antiga estrada de 
Braga, alveja por entre frondoso arvoredo, em logar vistoso, esta 
formosa capella com seu alpendre, construída em meado do sé- 
culo xvii. E' possível que antes d'esta houvesse no mesmo local 
outra muito antiga, pelo menos do tempo do cruzeiro que se er- 
gue no largo fronteiro e que tem a data de i58o. 

A capella é interiormente azulejada e o tecto apainellado re- 
presentando a vida de Nossa Senhora. 

A' novena que annualmente se faz nesta capella assistem, desde 
tempos immemoriaes, os estudantes da cidade promotores dos 
festejos escholasticos em honra de S. Nicolau, os quaes partem 
para alli ás 4 horas da manhã rufando em tambores e regressam 
á cidade com o mesmo enthusiasmo da partida. 



CAPELLA DA MADRE DE DEUS (GUIMARÃES) 

Na margem direita da estrada que conduz a S. Torquato existe 
esta capella fundada em princípios do século xvi pelo cónego Gon- 
çalo Annes. A actual construcção data do século passado. Tem 
uma irmandade que annualmente realisa a festividade e romaria 
no dominso do Bom Pastor. 



— 241 — 

CAPELLA DE NOSSA SENHORA DA LUZ 

(GUIMARÃES) 

Esta capella com seu alpendre sobre a porta, e púlpito de pe- 
dra, está situada num pequeno monte, a pouca distancia do cemi- 
tério publico. A sua construcção data do primeiro quartel do sé- 
culo xvii. Effectua-se alli a 2 de fevereiro uma romaria numerosa- 
mente concorrida de povo da cidade. 



CAPELLA DE S. JOÃO DA PONTE (BRAGA) 



E' assim denominada por estar próximo das pontes velha e 
nova de Guimarães, entre as quaes annualmente se representa com 
o máximo brilhantismo o baptismo de Jesus pelo propheta judaico, 
que na vida pastoril gastou a mocidade abrigando-se numa Antra, 
como nos diz Gavanto (Thes. Sacr.J: 

«Antra deserti teneris sub annis, 

Civium, turmas fugiens, petisti, 

Ne levi posses maculare vitam 

Crimine linguae.» 

E' acanhada e de architectura singella, tendo á entrada um 
al-pendre sustentado por seis columnas toscanas. Na verga da 
porta lê-se: anno de 1616, o que indica uma reconstrucção da an- 
terior fundada no mesmo local a expensas do Arcebispo D. Diogo 
de Sousa (i5oõ-32), e na qual se instituiu uma irmandade para oc- 
correr ás despezas dos festejos baptistinos, cuja fama data de tem- 
pos afastadissimos, sem duvida muito anteriores ao reinado de 
D. João I em que, por determinação real, todos os Municípios fo- 
ram obrigados a realisar com pompa estes festejos. De longes ter- 
ras accodem a Braga centenares de romeiros, embora nas suas vi- 
sinhanças deixem as festas que se realisam em honra do mesmo 
Santo que é o mais popular da longa lista do Flos-Sanctorum. 

Em toda a parte estas folganças mantêem um caracter sacro- 
profano que não pôde deixar de provir das velhas festas pagans. 
As cantigas bregeiras do nosso povo em honra do Baptista, as 
cavalhadas e montarias que em tempos afastadissimos os braca- 
renses annualmente faziam nos arredores da cidade, na véspera 
da festa do Precursor, tudo robustece a minha supposição. 

Um documento inédito do século xvn, citado por Camillo 

16 



24'2 — 

Casteho tíranco na Gaveta Litteraria do Porto, n.° 7, diz-nos que 
ainda naquelle tempo os cavalleiros bracarences lançavam porcos 
na contada dos Arcebispos, sendo um d'elles de cor preta, creado 
durante todo o anno á custa d'um dos dois mordomos para esse 
fim nomeados. Rompia a madrugada do S. João e os nobres diri- 
giam-se ao alto do Picoto onde recebiam as orvalhadas e solta- 
vam o porco preto para o perseguirem até á margem esquerda 
do rio fste 1 , aonde o martyr pachiderme encontrava sobre a 
ponte velha um grupo de moleiros que forcejavam por lhe impe- 
dir a passagem. 

Se o porco, entre os dois fogos, se decidia pela travessia do 
no, vencia a moleirada que tomava conta d'elle, para o dividir ir- 
mãmente ; e em caso contrario, isto é, conseguindo atravessar a 
ponte, era comido pelos perseguidores victoriosos. 

Depois d'isto dirigiam-se os cavalleiros á alameda das Carva- 
lheiras e alli recebiam d'outro mordomo de S. João os vistosos 
cestinhos de fructa, que tomavam toda a meza de pedra em que 
ainda hoje se lê o seguinte dividido pelos quatro lados : bracara 
avgvsta fidelis et antiqva, e lá os levavam alegremente ás pes- 
soas da sua estima 2 . A' corrida do porco preto e ás cavalhadas, 
seguiu-se provavelmente a festa semi-pagan do candeleiro, pro- 
movida pela Confraria de S. João na madrugada de 24 de junho 
e extincta pelo Arcebispo D. Aífonso Furtado de Mendonça 
(1618-1626,) em nome da moralidade publica. 

No livro 6.° dos Accordãos da Confraria, anno de 1D43, pro- 
põe-se a reducção das despezas do candeleiro para que apenas se 
gastassem seis mil réis e vinte e duas libras de cera; e que no be- 
berete ou consoada na madrugada de S. João não se gastasse mais 
de três mil réis. 

Succedeu a tudo isto a procissão do Rei David que ainda hoje 
se observa muito modificada, sem andores, a contento dos povos 
das freguezias ruraes que se acotovelam para assistirem á dança 
do barbado Rei David com a sua comitiva, pastores, cantoria do 
anjo da nuvem com o S. Joãosinho num nicho de verdura a dar 
beijamão e a comer doces ! 

Desde o anno de 1893 que as commissões promotoras dos fes- 
tejos baptistinos alteram o secular sistema de concentrar em volta 
da capellinha as festas da véspera e do dia, promovendo desde 
então vistosas illuminações, certamens musicaes, orpheons, rifas, 
quadros dissolventes, fontes luminosas, etc, no jardim do campo 



1 No dia 3o de junho de 1779 morreram 32 pessoas afogadas pela enchente 
d'este pequeno rio. 

2 Estes dizeres estiveram gravados no plano da meza até que a Camará de 
1625 os fez mudar para os lados. 



— 243 — 

«de Santa Anna, onde concorrem milhares de pessoas que com o 
producto das entradas cobrem as despezas todas. 



O baptismo adoptado po.r S. João destinava- se unicamente a 
purificar os que o recebiam. As maiores auetoridades da egreja 
dizem que não remittia peccados porque lhe faltava a graça san- 
tificante. Por isso os Efezios, que já eram baptisados, receberam 
muito depois o verdadeiro baptismo que Jesus Christo instituirá 
dizendo aos seus onze Apóstolos : Emites ergo docete omites gen- 
tes, baptisantes eos in nómine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. 

Pôde supprir a falta do baptismo pela agua, o baptismo pelo 
fogo e pelo desejo. 

A desproporcionada imagem de S. Christovão que se venera 
na capella da Ponte e que figura na scena do baptismo, collocan- 
do-a ao centro do rio em attitude de fazer a travessia, é muito 
procurada por quem tem fastio; e em tempos que já vão longe o 
Município concedia certos privilégios aos lavradores da visinha 
freguezia de Ferreiros que a conduziam em andor na procissão do 
Corpus Christi. 



Parte do local de S. João da Ponte a estrada de macadam 
que liga as duas cidades — Braga e Guimarães. 

A' distancia de menos de 2 kilometros existiram dois pinheiros 
mansos, muito copados, de proporções gigantescas, sendo ha bas- 
tantes annos derrubado o da margem esquerda e conservando-se 
o da direita até que em novembro de 1895 a proprietária snr. a 
D. Maria Couto, da rua do Carvalhal, sem o minimo respeito por 
essa vida tão longa, o vendeu por 3i.^5oo réis. 

Os seus braços frondosissimos produziram 19 carros de lenha 
que se venderam in situ pela quantia de i8$ooo réis. A serragem 
custou 37.^000 réis e grande parte da sua madeira foi vendida ao 
sr. António Fernandes Lopes que a empregou na casa que então 
mandou construir na rua dos Capellistas, actualmente arrendada 
á Associação Catholica. 

O desapparecimento do pinheiro da Gregoria, que deu o no- 
me ao logar e que muita gente de longes terras conhecia, foi ge- 
ralmente lamentado. No mesmo sitio plantou-se em janeiro do an- 
no immediato outro que já hoje mede uns 2 metros de altura. 



— 244 — 

CAPELLA DE SANTA JUSTA (BRAGA) 

Está situada próximo da Ponte dos Pellames, ao fundo da rua 
do mesmo nome. Foi construida a expensas de Gracia Mart.ns, 
viuva de Rodrigo Ennes (o Peru), no anno de 1018, como se lê 
na seguinte inscripçao da porta principal : 

ESTA. CAP. ELA. MANDOV FAZER GRACIA. MZ 
MOLHR.QVE.FIC.OV.DR.°.ENES.O PERV.l6l8.A 

Pertenceu ao Morgado de Torneiros. Está nella erecta uma 
irmandade das Almas indulgenciada pelo Papa Gregório xvi. Ao 
fundo da sacristia ve-se uma cruz com a imagem de Christo em 
pintura, sob a invocação do Senhor do Soccorro. Esteve em tempo 
num oratório de madeira que ainda hoje existe na fachada da 
casa n.° 41 da me^ma rua. 

GAPELLA DE SANTO ANTÓNIO (BRAGA) 

Está situada ao nascente do antigo campo dos Touros, actual- 
mente praça Municipal, e teve a sua origem numa capella de Nossa 
Senhora de Nasareth construida em 1546, a expensas do Arce- 
bispo D. Manuel de Sousa, junto da porta da muralha da cidade, 
que tinha no alto um nicho com a imagem do thaumaturgo por- 
tuguez, muito da veneração do povo que subia ao alto da mura- 
lha por uma escada de pedra. Esta servidão foi inutilisada por 
ordem do Arcebispo D. fr. Bartholomeu dos Martyres em 1572., 
quando no antigo campo da Vinha fundou o Seminário de S. Pe- 
dro, abrindo então sobre a muralha uma passagem com o fim de 
o visitar diariamente. D'essa capellinha da Virgem de Nazareth 
existem apenas as costas, uma pequena janella, um arco simples 
e a pia da agua benta. 

D. fr. Agostinho de Jesus (1 587-1609), projectando o alarga- 
mento do Paço, obra realisada por D. José de Bragança (1641 -56} 
e destruida por violento incêndio ás 11 horas da noite de i5 de 
abril de 1866, mandou murar o espaço destinado áquelle fim, fi- 
cando do lado de dentro a alludida capellinha. D. Rodrigo da Cu- 
nha (1627-35) ordenou a sua demolição e a reedificação onde ainda 
hoje se vê, collocando-lhe sobre a janella a primitiva padieira da 
porta, em que está gravada esta inscripçao : 

ANNO • XXV • IMPEFII • DIV1 • JOANNIS • III • LVS1TAN 
REGIS • D • EMANVEL • DE • SOVSA • ARCHIEPS • BRACH 
HISPAN • PRIMAS • EIVS DE REGIS • FACTVRA • HOC • 
SACELLV • POSVIT • IN HONORE • MARIE • VIRGINIS • 



— 245 — 

Além do altar-mór tem mais dois — o de S. Roque e o da Vir- 
gem da Piedade. Na sacristia podem ser vistos 1 1 curiosos qua- 
dros de madeira com figurado em relevo representando os mila- 
gres de Santo António. 

Próximo d'esta capella, c rev. Domingos Pires, Abbade reser- 
vatario de S. João da Balança, fundou em 1 588 o Recolhimento 
das Beatas de Santo António, destinando o a 6 mulheres donzel- 
las ou viuvas. Por effeito da demolição do edifício passaram essas 
recolhidas para uma loja da antiga casa do Raio, hoje pertença 
do Hospital de S. Marcos. 



CAPELLA DE NOSSA SENHORA DA CONSOLAÇÃO 

Nas freguezias de Dadim e Nogueiró (unidas), subúrbios da 
cidade de Braga, construiu-se no ultimo quartel do século xvi uma 
capellinha em honra de Nossa Senhora da Consolação. Assenta, 
a poucos metros do pórtico do Bom Jesus, numa pequena eleva- 
ção que os romanos fortificaram, como se deprchende dos vestí- 
gios que os cortes do terreno apresentam, como por exemplo uma 
mó manuaria, cerâmica e um pezo de fuso que pode ser visto no 
meu pequeno museu estabelecido numa loja do Paço Archiepisco- 
pal. 

Por Bulia datada do 1 .° de maio de 1617 auctorisou Paulo V 
a fundação 'duma confraria a que concedeu muitas indulgências. 

No campanário tem um formoso sino denominado Vacca da 
Consolação, que muitas vezes convidou o povo de Braga á lucta 
em favor dos guerrilheiros Miguelistas, que alli estacionaram em 
1846, sob o commando do celebre Padre Casimiro. 

Este sino foi fundido em 1802 na fabrica bracarense de João 
Ferreira Lima. 



- 246 




Gruta — Ermida de Nossa Senhora da Penha (Guimarães) 



Sobranceira á cidade de Guimarães ergue-se magestosa a serra 
de Santa Catharina, com 61 «"-,98 de altitude sobre o nivel do mar, 
assim denominada por possuir, desde tempos remotos, no ponto 
mais culminante, uma capellinha da mesma invocação, com um 
púlpito curioso, portátil, em forma de cálice, muito apreciado 
quando esteve exposto no museu da Ordem Terceira de S. Fran- 
cisco. 

Entre elevados penedos que, pela sua disposição curiosa, for- 
mam ampla gruta ermida, venera-se a imagem de Nossa Senhora 
do Carmo, denominada da Penha, em altar próprio, com mais 
dois lateraes e ainda um púlpito e uma sacristia ! 

Sobre esta gruta concluiu-se a 18 de julho de 1881, a capella 
relicário, que a gravura supra representa. 

Ao seu lado esquerdo vê-se uma torre acastellada, de cujas 
ameias se descobre um horisonte vastíssimo. 

Esta obra concluiu-se no sabbado i3 de outubro de 1888, com 



— 247 — 

a collocação dos 4 sinos afinados que a classe dos curtidores man- 
dou fundir pela quantia de 422:000 réis na fabrica portuense do 
sr. Alexandre António Leão, os quaes chegaram á estação de Gui- 
marães no comboio das 10 horas da manha de sabbado 1 de se- 
tembro do referido anno. . 

Pezam 646 kilos assim distribuídos: — Dó — 206; Ré— i5c,5oo 
grammas; Mi — 104,800 grammas ; Fá — 84,700 grammas. 

Além das moedas e jornaes cTaquelle tempo, também ficou 
sob a primeira pedra da torre uma chapa de metal amarello 
com os nomes dos membros da meza d'aquelle anno, da qual fa- 
zia parte o auctor d'estas linhas, então presidente da primeira 
commissão promotora de melhoramentos no local. 

Essa commissão, composta de 55 indivíduos, organisou se a 29 
de agosto de 1886, trabalhando dedicadamente durante os dois 
primeiros annos em que levou a effeito a obra da escadaria dos 
passos, construcção de muros, terraplenagem e arborisação do 
largo e encanamento da agua a i3 de junho de 1887. Os seus no- 
mes, que teem jus á gratidão geral, constam da Aurora da Penha, 
numero único publicado em 29 de agosto do referido anno de 
1887. 

A 17 de julho de 1881 organisou-se a commissão promotora 
do monumento que se erigiu a Pio IX no ponto mais elevado, 
sendo-lhe lançada a primeira pedra pelo Arcebispo D. João Chri- 
sostomo d' Amorim Pessoa, á 1 hora da tarde de 18 de junho de 
1882. A inauguração solemne do monumento teve logar a 8 de 
setembro de 1893. A's 10 horas da manhã d'este dia foi benzida 
pelo Arcipreste a capella-relicario. 

F' octogonal o pedestal, medindo 10 metros d' alto por 5 de 
largo. As saliências do cornijamento são desenvolvidas a ponto de 
no projecto se lhe destinar uma varanda com accesso por escada 
interior. 

A primorosa estatua, de 5 metros de altura é, como a da Vir- 
gem de Lourdes que lhe fica próximo, esculpturada em mármore 
de Carrara, e ambas no valor de 5:ooo:ooo, foram oíferecidas pelo 
benemérito Fernando de Castro Abreu Magalhães, servindo de 
intermediário o enthusiasta dos melhoramentos da Penha sr. Fran- 
cisco Joaquim da Costa Magalhães. 

A estatua representa Pio IX a abençoar, tendo na mão es- 
querda a Bulia em que proclamou a immaculada Conceição da 
Virgem. No cofre collocado sob a primeira pedra do templo em 
construcção ficou uma lamina com os dizeres^seguintes 

«Anno de 1895. Reinado de D. Carlos Primeiro e Pontificado 
de Leão XIII. Sanctuario da Immacaulda Conceição erecto pela 
cidade de Guimarães e catholicos portuguezes. Primeira pedra 



-248 - 

lançada a 8 de setembro pelo D. Prior de Guimarães D. Manuel 
d' Albuquerque». 

Em 1898, a Commissão de melhoramentos teve a feliz lem- 
brança de fazer levantar a planta geral do parque, mas ... as 
grandes obras projectadas não permittem que se eífectuem cedo. 



CAPELLA DE GUADELUPE (BRAGA) 

Ao lado da rua de Santa Margarida, num dos locaes mais ele- 
vados e mais vistosos da cidade, denominado Monte do Reducto, 
hoje transformado em alameda de recreio, havia em tempos afas- 
tados uma caoella de Santa Margarida, a qual se demoliu para 
em seu logar ser construída no anno de 1747 a que hoje existe 
em forma de cruz grega, dedicada á Virgem Mãe de Deus, e para 
cuja obra contribuiu com 100:000 réis o generoso Arcebispo D. 
Rodrigo de Moura Telles. Tem sobre a porta estes dizeres : 

PROTEGAM 

VRBEM ISTAM 

I747 

A palavra Guadelupe significa em Árabe Rio do Seio, — Uad- 
el-ubb ; mas provavelmente a invocação d'esta imagem provém da 
Guadaloupe, (Aquae-LupiaeJ, Hespanha, onde foi fundado o no- 
tável convento dos Jeronymos. 



GAPELLA DO CEMITÉRIO (BRAGA) 

E' de architectura singella e foi construída em 1870. Na tri- 
buna de madeira liza, toda pintada a branco, ha apenas uma ima- 
gem de Christo crucificado. 

O cemitério foi benzido pelo Arcebispo D. José Joaquim d' Aze- 
vedo e Moura no dia 1 de julho de 1870 e estreiou-se no dia im- 
mediato com o cadáver de Francisco Soares, casado, da freguezia 
de Lanhas, fallecido no hospital de S. Marcos. 



— 2 4 g- 

CAPELLA DE SANTA TECLA (BRAGA) 

No logar d'este nome, em sitio elevado, foi construída a ca- 
pella de Santa Tecla (vulgo Santa Trega), com a estatua da Santa 
no alto, esculpturada em granito. 

Sobre a verga da porta lê-se : 

a' custa 
de jose pinheiro leite 

ANNO Í729 

CAPELLA DO SENHOR DAS ANCIÃS (BRAGA) 

Está situada ao lado sul da rua da Boa Vista e foi construída 
a expensas dos devotos, como se lê no friso da fachada : 

ANNO 1735 
ESTA CAPELLA FOI FEITA a' CUSTA DOS DEUOTOS 

No alto da tribuna tem uma formosa esculptura em madeira 
representando Christo na cruz. 

A capella é administrada por uma Confraria. 



CAPELLA DE NOSSA SENHORA DA BOA-MORTE 

(GUIMAKÃES) 

Esta capella, de proporções acanhadas, mas toda interiormente 
■azulejada e com uma bella imagem de Nossa Senhora da Boa- 
morte, sobre o altar, foi fundada por António Dias Pimenta e mu- 
lher Maria Peixoto, instituidores do vinculo com a capella da Por- 
ciuncula, em S. Francisco, junto das suas casas que ainda existem 
no alto da rua de Santa Maria. E' hoje pertença de José Alves 
Pereira de Magalhães Moura, de Basto. 

O cónego Hyeronimo da Costa Pimenta vinculou-lhe as missas 
do Natal. 

Todos os domingos iam alli os padres da Curaria celebrar 
missa e responso. 

Os religiosos do convento de S. Francisco também eram obri- 
gados a celebrar alli 4 missas com cruz alçada, sendo a primeira 
no dia 25 de março, a segunda em 3 de maio, a terceira em i3 
de agosto e a quarta no dia 8 de dezembro. 



•2DO — 



GAPELLA DO SENHOR JESUS (GUIMARÃES) 

Junto á sua casa das Lamellas (hoje Tribunal, Administração 
do Concelho e Repartição de Fazenda) o dr. Ruy Gomes Golias, 
mestre-eschola da Collegiada, fundou esta capella instituindo mor- 
gado em seu sobrinho. Com ella vinculou os bens a esposa d'este, 
D. Maria dos Guimarães. 

D'aqui sáe annualmente, para a procissão do Corpus-Christi, a 
imagem de S. Jorge. 



CAPELLA DE NOSSA SENHORA DO PILAR 

(BRAGA) 

No logar de Inflas, freguezia de S. Victor, está situada esta 
capella que pertenceu ao Bispo d'Elvas D. Diogo d? Silva a quem 
succedeu na posse sua irmã D. Nathalia da Silva que por sua vez 
a deixou á irmandade de Santa Cruz. 

Na data (1687) em que foi collocada a inscripçao sobre a porta 
principal fez d'ella acquisição por compra á mesma irmandade 
João Borges Pereira Pacheco, fidalgo da casa real e cavalleiro 
professo na Ordem de Christo. Mandando-a restaurar, requereu 
ao Arcebispo o necessário consentimento para de novo a benzer 
e n'ella celebrar os officios divinos, o que o Prelado para logo 
permittiu. 

Pendente da parede sul vê-se um quadro a óleo representando 
o martyrio dum padre jesuíta, irmão de D. Anna Borges Pacheco 
avó do referido João Borges, o qual tem estes dizeres : — O l J a- 
dre Francisco Pacheco, filho de Garcia Lopes Pacheco e de Maria 
Borges de Mesquita da Villa de Ponte de Lima, provincial da* 
Companhia de Jesus em Japão onde foi martyrisado queimado 
vivo com Francisco Valente em Mangassa a 21 de julho de 1628. 

O comprador da capella jaz em tumulo de pedra, ao lado da 
Epistola, com estes dizeres em caracteres elegantes : 

SEPVLTVRA DE JOAM BORGES I EREY- 
RA PACHECO FIDALGO DA CAZA DE 

SVA MAGESTADE CAVALEYRO 

PROFESSO NA ORDEM DE CHRISTO 

ANNO DE 1687 



— 25l — 

CAPELLA DE NOSSA SENHORA DA ABBADIA 

(BRAGA) 

Foi construída em iy38 onde actualmente se encontra no largo 
do Barão de S. Martinho, encostada a uma das torres do castello 
da cidade. Sobre o arco envidraçado tem a seguinte inscripção: 

ASSVMPTA 
EST MARIA IN 

CELVM gav 
DENT ANGELI- 

ANNO 1738 

A capella anterior tinha sido construída por D. Diogo de 
Sousa, sobre três arcos, lateraes e fronteiro, vedados por grades 
de ferro. Media i5 palmos de comprido por 12 de largo. 

O pelourinho, que datava de 1 568, principiou a ser removido 
d'aqui para o campo dos Touros, onde pouco se demorou, no dia 
i3 de novembro de 1844. 

CAPELLA DE S. GONÇALO (BRAGA) 

Está situado á esquina da rua do mesmo nome, com entrada 
pelo campo de Santa Anna, e foi fundada sob a invocação de 
S. Bartholomeu pelo Arcebispo D. Jorge da Costa (1448- i5oi), 
que lhe collocou sobre a porta o seu brazão com estes dizeres 
em volta: 




AÍOTES w lf»KMÃE 
FAHSTAE&XANDlt.S. 

NSTVMDEttET ODMINVS 
PER VIAS RECTAS 



C»„~. f-I"' 9 *- 



Leitura: — O Prirrfaz das Hespanhas D. George da Costa, 
Arcebispo e senhor de Braga, mandou fazer esta egreja no anno 
de i5oo. 



— 252 - 

No cap. io do Livro da Sabedoria lê-se deduxit e não deducet. 

Este brazão e legenda foi trasladado por Duarte Mendes de 
Vasconcellos para o muro da sua casa das carvalheiras, onde 
actualmente se vê, por occasião da reediíicação da capella e fun 
dação do Recolhimento das Convertidas, contiguo, pelo Arcebispo 
D. Rodrigo de Moura Telles em 1722, auctorisado por Breve 
Pontifício de Clemente XI, com data de 14 de agosto do referido 
anno. O fundador destinou-o a 12 mulheres arrependidas que rece- 
beriam, cada uma, diriamente 20 réis e meio alqueire de pão por 
semana 

A regente vencia 40 réis. Para edificar o Recolhimento com- 
prou D. Rodrigo, em 1720, duas moradas de casas, dispendendo 
ao todo 2:800-^000 réis. 

O escudo que o Cardeal de Alpedrinha D. Jorge da Costa 
adoptou, representa a roda de Santa Catharina, e dizem que em 
reconhecimento dos muitos benefícios que a Infanta D. Catharina 
lhe prestou, pois conseguiu accumular os cargos de Cardeal dos 
Santos Martyres Marcello e Pedro, Bispo Albanense, Bispo Tus- v 
culano, Bispo Portuense e de Santa Rufina, Bispo de Vizeu, Arce- 
bispo de Braga e de Lisboa, Deão de Braga, Lisboa, Porto, La- 
mego, Guarda, Vizeu, Silves, Burgos, e Chantre do mesmo; 
possuiu oito Abbadias da Ordem benedictina, dez dos cónegos 
regrantes de Santo Agostinho, seis da Ordem de S. Bernardo: 
em Roma o rendosissimo beneficio de Santa Maria Trans Tibe- 
rim; em Veneza uma Abbadia e a Villa de Arpanica com todas 
as rendas; em Navarra e outras localidades, numerosas honrarias 
ecclesiasticas! ! 

Seu sobrinho D. Pedro da Costa, Bispo do Porto, de Leão e 
Osma, dividiu o escudo, escrevendo ao lado da roda : 

Sy esta rueda Ezequiel viera 
Com su prosápia remota, 

Y su valor conociera, 
Mui cierto está que dixera 
Spiritus vitae erat in rota 

E do lado das seis costas de prata : 

Sy Adan viera las costillas 
Deste escudo, que aqui veis, 

Y sus grandes maravillas, 
Dixera por mas subillas 

• Hoc os ex ossibus méis. 



— 2 53 — 

CAPELLA E RECOLHIMENTO DA CARIDADE 

(BRAGA) 

E' da invocação de S. João da Matta e está situada na rua do 
Carmo onde António Pinto, esculptor, da rua do Chãos de Baixo, 
fundara o Recolhimento numas casas que para esse fim comprou 
na rua do Carvalhal. As obras da pequena capella terminaram 
em 1768, benzendo-a em 21 de janeiro do anno immediato, o pa- 
ire José de Araújo Costa, Prior da Apúlia, e celebrando-se n'ella 
a primeira missa a 23 do referido mez. O doutor Manuel da Sil- 
veira, fidalgo da casa real, offereceu em 1785 ás recolhidas uma 
grande casa contigua para augmento do Recolhimento. As religio- 
sas usam habito de Trinas, e têem por fim ensinar meninas po- 
bres a escrever, ler, costurar e fiar. 

CAPELLA DO PAÇO ARCHIEP1SCOPAL (BRAGA) 

E' obra do Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles que dis- 
pendeu com a sua construcção a quantia de 2:000:000 réis e mais 
1:600:000 com a torre e sinos. Tem a forma da cruz grega. O 
edifício do Paço que a envolve, era acanhadíssimo. Augmentou-o 
pela primeira vez o Arcebispo D. Fernando da Guerra (1418-67). 
D. Manuel de Sousa (1544-49) obteve a cedência de umas casas 
onde construiu a parte do nascente que alinha com a rua do Souto, 
instituindo ao rez do chão o Auditório e Relação do Arcebispado, 
como se lê na inscripção que existe sobre a porta : 

ILLUSTRANDAE URBIS • CAUSA • SIT • VE UNDE PETANTUR 

IURA • NEC - 1NSTABILI DENTUR • UT ANTE LOCO 

SOUSA -PATER DNS QUE UFB1S MAGNUS Q SACERDOS 

IUSTITIAE -EMANUEL NUB1LE STPUXIT -OPUS • 

«Para engrandecer a cidade e saber-se o logar certo onde se 
devia ir buscar o Tribunal da Justiça (que antes era incerto) man- 
dou o grande Prelado, pae, e senhor d esta cidade, D. Manuel de 
Sousa, elevar e erigir este edifício». 

A parte do poente, sobre 14 grossas columnas, foi construida 
por ordem de D. fr. Agostinho de Jesus, no anno de i5g3, como 
o indica a inscripção que tem ao centro : 

ANNO • DOM1NI • MD • 

XCIII • SVB • D. F • AVG • 

DE JESV • HISPÂNIA 

RVM PRIMATE 



— 2i>4 — 

D. Rodrigo da Cunha (1627-35) e D. Rodrigo de Moura Telles 
{em 1709), fizeram o restante. Foi este ultimo quem mandou gra- 
var na verga da porta principal* este texto de Cicero (De officiis, 
lib. I), que D. fr. Bartholomeu dos Martyres havia pronunciado 
quando no dia 4 de outubro de i55o, transpunha aquelleshumbraes: 

O DOMVS ANTIQVA ! 
QVAM DISPARI DOMINO 

dominar; s ! 

O formoso chafariz do largo fronteiro é rematado pela figura 
da Fanx <\wt sustenta na mão esquerda uma esphera armilar. 
CompÕe-se de duas taças, uma d'ellas circumdada por uma mura- 
lha com seis torres e sustentada por um grupo de meninos. Esta 
obra também foi feita a expensas de D. Rodrigo de Moura Telles 
importando em réis 1:000:000. Na parte inferior da arvore lê se : 

D. ROD • MAVR • TE LI. ■ FEC1T • ANNO • 1723. 

Desde i de novembro de 1 832 a i de junho do anno imme 
diato, esteve hospedado no Paço Archiepiscopal o Senhor D. Mi- 
guel de Bragança e suas irmãs as infantas D. Izabel Maria e D. 
Maria da Assumpção. 



CAPELLA DE NOSSA SENHORA DA TORRE 

(BRAGA) 

No tempo em que os jesuítas occupavam o actual edifício do 
Seminário Conciliar, foi collocada em simplice oratório, na frente 
da torre forte que mede 2,60 de espessura nas paredes, a imagem 
da Virgem, desde logo com a invocação da rr orada. Esta imagem 
foi para alli conduzida da freguezia de Santa Maria de Freiriz, 
por um Abbade da família bracarense dos Barretos. Principiou então 
a ser muito venerada, cantando-lhe os devotos todos os sabbados 
a Magnificat e a Salve Regina, e conduzindo-a em procissões de 
penitencia. A devoção porém subiu de ponto por occasião do ter- 
remoto do i.° de novembro de 1755. Além de muitas outras de- 
voções fundaram lhe a irmandade e instituiram-lhe a festa no i.° 
domingo de maio de cada anno, o terço e ladainha no i.° de no- 
vembro com procissão na qual ainda é conduzida a imagem em 
volta dos muros da cidade. 

Em abril do anno immediato (1756) teve principio a obra da 
construcção da actual capella, custeada pelas esmolas dos fieis, 
terminando em 1758. 



r r 

2DD 



GAPELLA DAS ALMAS (BRAGA) 

Está situada junto do novo edifício do Hospital de S. Marcos, 
ao lado da capella de S. Bento. Construiu-se no anno de 1817. 
Venera-se n'ella uma cruz com pintura que representa Christo 
sob a invocação do Senhor dos Desprezos, titulo que provém do 
desprezo que lhe haviam dado num logar immundo da antiga rua 
dos Cegos. 

CAPELLA DE S. VICTOR VELHO (BRAGA) 

Foi construída em 1876 e teve origem num oratório que D. fr. 
-Agostinho de Jesus mandou erigir, o qual representava em pin- 
tura a degolaçao de S. Victor sobre a pedra que appareceu man- 
chada de sangue, quando se procurava dar principio á reedificação 
da ponte das Goladas. Esta pedra foi logo vedada por grade de 
madeira, «em virtude de se suppor que sobre ella tivesse sido 
degolado o santo. 

CAPELLA DOS TERCEIROS DOMINICOS 

(GUIMARÃES) 

No anno de 1743 construiu-se esta capella em frente da egreja, 
de S. Domingos. Tem quatro altares consagrados ao Coração de 
Maria, a Santo Afíonso, á Virgem das Dores e a Santa Barbara. 

A fachada é extremamente elegante. Tem no alto, esculptu- 
rada em granito, uma grande estatua de Santa Catharina de 
Senna. 

A alinhar com o cunhal direito está o hospital, que principiou 
íi ser construído no dia 4 de outubro de i836, sendo solemne- 
mente inaugurado a 26 de maio de 1840, embora incompleto co- 
mo está. Em 3o de maio de 1854 íundou-se no referido edifício o 
Asylo de entrevados para 6 irmãos. 

CAPELLA DOS TERCEIROS FRANCISCANOS 

(GUIMARÃES) 

Esta formosa capella, que fica a defrontar com a vasta egreja 
de S Francisco, foi edificada a expensas da Ordem no anno de 
1750. No alto da fachada, que é toda azulejada, tem a estatua 
de Santa Isabel rainha de Portugal, em granito. 



-256 — 

Esta capella foi restaurada, benzendo-se no dia 3o de julho 
de 1880. 

No altar do lado direito venera-se uma imagem de Nossa Se- 
nhora das Dores, tamanho natural, primorosamente esculpturada 
por Soares dos Reis em madeira de oliveira, para cumprimento 
d'um voto feito pelo sr. António de Mattos Chaves. 

A esculptura, que é de vestir, sahiu das mãos do artista repre- 
sentando a Virgem com lima camisa decotada, tão perfeita como 
qualquer estatua profana que n'aquelle estado se destinasse a lo- 
gar publico. 

No altar do lado opposto venera-se a imagem do coração de 
Maria esculptura em Roma pelo auctor da magnifica imagem de 
S. Francisco. Tem estes dizeres na peanha: 



G- BERARDI 
ROMA 1882 



MODELI.O 
SCOLPI 



Na campa n.° 8 d'esta capella foi sepultado em 21 de outubro 
de 1826 o notável poeta e medico dr. João Evangelista de Moraes 
Sarmento, nascido no Porto a 26 de dezembro de 1773 e, desde 
1808, residente em Guimarães onde falleceu com 52 annos de 
edade na madrugada de 20 de outubro. 

Alinha com o cunhal esquerdo o magnifio hospital da Ordem 
inaugurado em 3i de julho de 181 5, tendo então apenas as pri- 
meiras seis janellas da fachada. Era ministro da corporação o 
sr. Gaspar Leite de Azevedo. Para se calcular a simplicidade 
d'esse edifício basta saber-se que se dispendeu com toda a obra 
a quantia de 5:ooo$ooo réis. 

No i.° de março de 1839 resolveu a mesa construir novas ins- 
talações e accrescentar a fachada com as três janellas do lado da 
rua de S. Francisco, gastando 8:000^000 réis. 

Para esse fim compraram onze moradas de casas e o usofructo 
d'outra, por 9:892:150 réis. Com a obra geral, que durou desde 
i853 até i5 de abril de 1072, dispenderamse 33:827^280 réis. 
Finalmente juntando a estas verbas o producto da subscripção 
annual aberta em julho do referido anno e a importância das 
obras que á sua custa mandou fazer o ministro Christovão José 
Fernandes da Silva (o Cidade), temos ao todo um dispêndio de 
75:719^430 réis. 

O asylo de entrevados, destinado aos irmãos da Ordem, foi 
tundado no dia 4 de outubro de i858. António Joaquim de Carva- 
lho fez-lhe o donativo de 2:000^000 e legou-lhe mais 18:000^000 
para que o numero de entrevados se elevasse a doze. 



25 7 



CAPELLA DE NOSSA SENHORA DA GUIA 

(GUIMARÃES) 

Esta capella principiou a ser construída em 1788 depois que 
n'aquelle sitio se demoliu a torre da muralha da cidade. Nessa 
torre esteve primitivamente a capellinha com sua confraria. 

Por se conhecer que a conclusão da obra obstruía a passagem, 
parou no arco cruzeiro e assim foi benzida no dia i5 de agosto de 
i 79 3. 

CAPELLA DO EXTINCTO CEMITÉRIO 
(GUIMARÃES) 

Foi construída no anno de 1824. Tem ao fundo um grande 
crucifixo e em volta seis imagens em tamanho quasi natural, re- 
presentando a Via-Sacra. A próxima venda do terreno do cemité- 
rio, em qye terminaram os enterramentos no dia 1 1 de maio de 
1879, dará logar á sua demolição. 



CAPELLA DE S. SEBASTIÃO (BRAGA) 

Está situada na alameda das Carvalheiras, cujos paredões, es- 
cadarias, etc, foram construídos desde i838 a 1839 pelo mestre 
pedreiro Domingos Fernandes, da antiga rua da Conega. 

O Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles mandou reedificar 
a capella desde 26 de outubro de 1 7 1 5 a 18 de janeiro de 1 7 17, 
dispendendo com a obra 2:200:000 réis. No mesmo local havia 
restos d'outra mais antiga que D. Diogo de Sousa mandara ladri- 
lhar fazendo- lhe um alpendre com columnas novas. A porta que 
então ficava voltada para o occidente, como se prova com a ins 
cripção sepulchral do dr. cónego João Aífonso de Beja, fallecido 
a i5 de agosto de 1 585, foi aberta ao nascente, collocando se-lhe 
no alto o brazão de D. Rodrigo e um pouco mais acima a primo- 
rosa esculptura de S. Sebastião em granito. 

Junto do altar da esquerda ha um rolo de cera com 1327 va- 
ras, medida que abrange o circuito da antiga muralha da cidade. 
Accende se aos domingos e dias santificados durante a celebração 
das missas. 

Em volta da capella, no espaço fronteiro e nos dois quarteirões 
seguintes, existem desde agosto de 17^9 algumas inscripçÕes ro 
manas milharias, votivas e sepulchraes, pertencendo as primeiras 

17 



— 258- 

aos imperadores Tibério, Cláudio, Nerva, Hadriano, Caracalla, 
Elagabalo, Maximino, Caro, Carino, Diocleciano, Maximiano, Ga- 
lerio, Constâncio, Magnencio, Valentiniano e Valente e Constan- 
tino II. 

Esta ultima foi collocada por minha ordem, sobre uma co- 
lumna, em março de 1898, com permissão da Camará. 

Outra diz o seguinte : «t. caelicvs tripés fronto et m. et lv- 

CIVS. TI ÍI PRONEPOTES CAELICI FRONTONIS, RENOVARVNT». 

Parece que se refere á restauração de um sacellum consagrado 
a qualquer deus pagão. 

Outra, muito gasta do tempo, é uma dedicação dos ceves ro- 
mani QVI NEGOTIANTVR BRACARAVGVSTAE â C fãtUS) CALERONIVS, que 

se suppõe legado provincial. 

Outra em que apenas se pôde ler: . . .laecia, a qual foi por 
minha ordem extrahida do passeio norte da rua da Cruz de Pedra 
em agosto de 1898. 

Outra sepulchral que diz: aton gomvni-lxxv • h • s • e • 

Ainda outra : favstvs-ivliae severae-s • an • xix • h . s • e • 

Ha muito boas razões para se acreditar que esteve roeste local 
das Carvalheiras o edifício da Chancellaria Romana que, no dizer 
de Plinio (Hist. Nat. 1. 3.°, cap. 3.°, pag. 26), era a principal da 
Galliza, com a junsdicção de 24 cidades e 275:000 habitantes. 

Quando em 1620 se procedeu á demolição dum muro, pró- 
ximo da referida capell.i, appareceu, a pequena profundidade do 
solo, uma estatua de bronze dourado representando mercvrio, o 
deus da eloquência, do commercio e dos ladrões. l 

A imagem de Nossa Senhora da Ajuda, que alli é venerada, 
esteve num oratório da porta de Maximinos, onde já tinha irman- 
dade, até que em 3 de novembro de 1826 foi trasladada, por se 
dar principio á demolição da torre. 

D'esse monumento resta o escudo de el-rei D. Fernando, em- 
bebido no primeiro paredão das Carvalheiras, ao lado do de D. 
João I que pertenceu á torre de S. Francisco. 

O edifício onde ora está estabelecido o Hotel do Igo, foi Hos- 
pício dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho (Cruzios). Sobre 
o portal encimado por uma cruz, ainda hoje se vê um Agnas Dei 
com estes dizeres em volta : 

EXORDIVM SVMPSIT ORDO CANONICVS 
IN MONTE SION • 
VIDI SVPRA MONTEM SION AGNVM 
STANTEM 



1 Memorial dei Marquez de Montebello— anno de 1642. 



- 2D9 — 

CAPELLA DOS ORPHÃOS DE S. CAETANO 

(BRAGA) 

No logar da Madre de Deus, um pouco além da egreja paro- 
chial de Maximinos, está situado o Collegio dos Orphãos de S. 
Caetano, instituído pelo Arcebispo D. fr. Caetano Brandão nas 
casas que ora pertencem ao proprietário da phar macia dos Or- 
phãos, com frente para o campo de D. Luiz I e praça Municipal. 

Em i8õi foi esta casa decl irada imprópria para os fins da 
instituição: e em 1880, depois de se obter uma planta de que foi 
auctor o architecto Sardinha, deu-se principio á obra d'um novo 
edifício na quinta das Carvalheiras, dispendendo-se com os alicer- 
ces doze contos de réis e o tempo de 5 annos para logo se aban- 
donar o terreno e toda a obra! 

Comprada em praça a casa e quinta dos Falcões (na Madre 
de Deus), foram para alli os Orphãos, projectando se então as 
grandes obras orçadas em quarenta contos de réis, e iniciadas em 
maio de. 1 8 ^8. Marcou-se o espaço indispensável para residirem 
45o alumnos, pois mede de comprimento o edifício i3i metros 
por 63 de largo, a principiar no portal. 

Paralisaram as obras por falta de recursos, não obstante haver 
deixado a esta sympathica instituição mais de 110 contos de réis 
o sr. Joaquim José Ferreira Veiga, nascido em Braga a i3 de fe- 
vereiro de 1798 e fallecido em Lisboa a 27 de junho de 1846. 

Ao centro do edifício construiu-se a capella com a frente para 
noroeste, sendo auctor do projecto o notável architecto Stamin. 
E' este edifício um bello exemplar da architectura latino-byzan- 
tina, fim da epocha, bem mais digno de figurar na frente do que 
nas costas do Collegio, onde passa a linha férrea entre campos de 
cultura ! 

O rosetão é bastante desenvolvido, e no remate da fachada 
tem a cruz primacial em substituição da grega. Com um pequeno 
dispêndio podia ser concluída a porta principal de arco perfeito. 

Interiormente ha bastante rigor architectonico, se exceptuarmos 
o arco de mármore liso na tribuna a contrastar com o granito ! 

São de primorosa esculptura as imagens de Nossa Senhora 
Auxiliadora e de S. José, provenientes de Barcelona. 

CAPELLA DE S. MIGUEL O ANJO (BRAGA) 

E' de architectura simplíssima e está situada na rua do Ave- 
lino, onde se reedificou depois que a vereação de 1841 promoveu 
a sua demolição junto da porta de Maximinos, fronteira á Sé, no 



- 200 — 

mesmo local em que tinha sido fundada no anno de 1691 por um 
devoto rico, do qual não consta o nome, na sua própria casa de 
habitação. 

Em 1743 installaram-se n'esta capella as confrarias de S. Lou- 
renço e de Nossa Senhora da Purificação. 

No anno immediato uniu-se-lhes a confraria de Nossa Se- 
nhora do O; em 1 76 1 a de Nossa Senhora da Graça; em 176o a 
de Nossa Senhora do Amor; em 1772 a de S. José no Presepe; 
em 1781 a de Nossa Senhora da Paz, e em 1785 a das Almas 
de S. Nicolau. 

Desde que el-rei D. Filippe, em abril de 161 1, prohibiu por 
Provisão que os Arcebispos continuassem a fazer a sua entrada 
a cavallo debaixo do pallio, por achar pouco decente essa pra- 
tica, os Prelados bracarenses revestiam-se de vestes sagradas, 
n'esta capella e d 1 aqui partiam para a Sé que fica em frente do 
local. Também n'esta capella, se fazia a reposição dos santos óleos 
benzidos em Diocese extranha. 

Hoje os Prelados fazem a sua entrada na cidade depois de se 
revestirem na egreja do Populo. 

CAPELLA E RECOLHIMENTO DO ANJO 

(GUIMARÃES) 

Desconhece-se a verdadeira origem d'esta capella e Recolhi- 
mento, sabendo-se apenas que existia no anno de 1600. A actual 
capella, muito pobre de ornatos, foi benzida em 1748. 

As beatas, da Ordem Franciscana com véo brancD e capa cor 
de cinza, são hoje admittidas pela auctoridade administrativa. 

Vê-se encostado ao Recolhimento um cruzeiro alto que para 
alli foi removido do largo fronteiro. Tem esta inscripção na base : 

SENHOR 

DO BOM SU 

SESO POSE 

EM MAIO 

DE I79O 

Diz-se que por occasião da mudança cahiu sobre um operário 
matando-o instantaneamente. 

Na frente d'este Recolhimento existe o Albergue de Nossa Se- 
nhora do Serviço, destinado a recolher oito velhas pobres, a cada 
uma das quaes se dá um quarto para dormir, forno e cosinha com- 
mum. A porta de arco, encimada por uma cruz, faz pensar numa 
capella que dizem ter existido alli. 



26 I — 



CAPELLA DE S. CHRISPIM (GUIMARÃES) 

Está situada na rua da Rainha junto do Albergue dos pobres 
passageiros e no mesmo local da primitiva fundada em i3i5 pe- 
los mestres sapateiros João Bahião e Pêro Bahião. A actual reedi- 
ficação teve principio em 1849, concluindo-se pelo frontespicio, 
que é elegante, no anno de i852. O compromisso foi reformado 
em 1661. 

Esta capella, que no altar-mór tem as imagens de S. Chrispim, 
S. Chrispiniano e S. Miguel, e junto do arco os altares de Nossa 
Senhora das Neves e de Nossa Senhora do Rosário, mede de 
comprimento 12,40 por 6,65 de largo. 

O Albergue recolhe nove mulheres velhas que têem annual- 
mente á sua disposição cinco carros de lenha; recebe por 3 dias 
passageiros pobres, e na véspera do Natal dá a todos os neces- 
sitados que se apresentem, uma ceia de bacalhau com batatas, 
pão e vinho! Santíssima instituição esta que tantas lagrimas de 
commoção faz assomar aos olhos dos favorecidos da sorte! 

Os fundadores da primitiva capella e confraria de S. Miguel 
do Hospital, instituíram um responso e vigília sobre a sua sepul- 
tura na egreja de S. Paio, isto na tarde de quarta-feira de cinza, 
de cada anno, e ordenaram: acabado o acto «farão os ditos con- 
frades pôr uma meza na dita egreja e todos assentados a ella 
com muita quietação e farão uma consoada e gastarão n'ella aquillo 
que lhe bem parecer, e os que estiverem em ódio o Juiz do dito 
Hospital os fará amigos, e comerão, e beberão por um copo, etc.» 

A celebre comesaina de pão de ló e vinho maduro em frente 
da sepultura, foi ha mais de 20 annos convertida num rosário 
(So réis) para cada confrade. 



CAPELLA DO CEMITÉRIO DA ATHOUGUIA 

(GUIMARÃES) 

A Camará Municipal de Guimarães, na sua sessão de 14 de 
janeiro de 1870, escolheu o local para o actual cemitério que foi 
solemnemente benzido ás 12 horas da manhã de 11 de maio de 
1879. Pensou se logo na construcção da respectiva capella que 
deveria ser apropriada e nunca demasiadamente dispendiosa co- 
mo a actual que custou ao Município 17:995^935 réis! 

E' de architectura ogival ou gothica, elegante e rica como 
poucas se encontrarão nos demais cemitérios do reino. Ao fundo 
tem a forma absidal e um altar isolado com a imagem de Christo 



— 20 2 



na agonia, tamanho quasi natural. Em cada um dos dois altares 
lateraes ha uma cruz apenas. 

Teve esta obra começo em 1882 e teminou em :! 



CAPELLA DO SENHOR DE CAMPELLOS 

A pouco mais de 2 kilometros de Guimarães, em um local 
aprazível, próximo da ponte romana que atravessa o rio Ave na 
freguezia de S. João e onde appareceu ha annos uma moeda de 
ouro do imperador Honório, vê-se esta capella que provavelmente 
data do anno de 1743, como se deprehende da seguinte inscripçao 
gravada no pedestal de granito grosso sobre que assenta o ele- 
gante cruzeiro com imagem de Christo regularmente esculptu- 
rada : 

M- F- HIM? Dl 

AS DE CASTRO CPL • 

D • P • 1 • I 74 co 

Leitura: — Me fez Jeronymo dias de Castro Campello. Deus 
perdoar lhe queira. 1743. 

Desde tempos muito afastados que annualmente alli tinha lo- 
gar uma romaria em honra d'esta imagem. Porém a sua venera- 
ção augmentou desde que em 7 de maio de 1890, aquelle logar 
deserto principiou a ser povoado em virtude da construcção do 
edifício da Companhia de Fiação e Tecidos de Guimarães, fun- 
dada no referido dia. 



Em Guimarães foi ha annos demolida a capella de S. Thiago, 
na praça do mesmo nome onde, segundo alguns auctores, o Apos- 
tolo collocára a imagem da Virgem numa gruta junto do templo 
da deusa Isis, no simulacro de Ceres. Fr. Bernardo ie Braga 
affirma que junto da torre demolida em i55g viu o seguinte let- 
treiro : 

IN HOC SIMVI ACRO CJERES JACOBVS FILIVS fcEBED.EI 
GERMANVS JOANIS IMAGINEM SANT.E MARI.E III S.EOIS X 



-263 



ORATÓRIOS 



EM GUIMARÃES 

Oratório do Senhor dos Afflictos. — Está situado na rua dos 
Terceiros, com frente para o antigo largo das Carvalhas, e foi 
fundado em 1867 com o producto de uma subscripção aberta por 
Jeronymo José d'Abreu e sua mulher. A cruz e o Christo são de 
mármore branco. 

Oratório do Senhor da Aponta. — Construiu se na rua do Pi- 
coto e venera se n'elle uma pequena imagem de Christo esculptu- 
rada em madeira. 

Oratório da mesma invocação. — Foi aberto na parede da casa 
que tem os números de policia 48 a 54 na rua Nova de Santo An- 
tónio. 

Oratório do Senhor do Amparo. — Está entre as casas n.° 34 
e 35 do antigo campo do Salvador. Tem ao lado um pequeno 
cruzeiro com esta inscripção na base : 

p E NOSO 

(SÍC) ANE MA 

RIA 1> • AE 

TENSÃO 
ANNO 1779 

Leitura : — Padre Nosso, Ave Maria por a intensao. Anno de 

1779- 

Um pouco acima, no logar da Arcella, houve junto da capella 

de Santo António uma Gafaria. 

Oratório de Santo António. —A poucos passos da egreja dos 
Capuchos, no muro da cerca dos extinctos frades d'aquella Or 
dem, que o fundaram. Fica lhe em frente um cruzeiro lavrado. 

Oratório do Senhor da Esperança da boa sentença. — Na rua 
de Villa-Flôr. A esculptura do Christo é bastante correcta. Na 



— 264 — 

base da cruz de granito, pintada a azul, tem esta inscripção em 
caracteres doirados : 

SR DA 

ESPERA 

NSA DA B 

OMA SE 

NTJENSA 

ANNO I754 

A inscripção indica a invocação da imagem, differente da que 
lhe attribue o saudoso padre Caldas. 

Oratório do Senhor do Bom Fim. — No logar da Cruz de Pe- 
dra, extremidade da rua da Alegria, está este oratório aberto 
numa das casas d'aquella rua com frente para a Meia Laranja. 

Oratório do Senhor Bom Jesus. — Na rua da Caldeirôa junto 
de uma fonte. 

E' tradição que na casa de onde sáe a agua nasceu o Papa 
S. Damazo. 

Oratório do Senhor dos Desamparados. — Na rua Nova do 
Commercio. Tem exteriormente esta inscripção : 

ESTA • UEVAÇÃO • MANDARÃO • FAZER • OS MORADORES • 
DESTA • RVA • ANNO • DE • I 7 I 2 • 

Oratório do Senhor da Liberação. — No alto da rua de Ca- 
mões. E' uma imagem de Christo na cruz bem esculpturada em 
madeira. 

Oratório do Senhor da Piedade. — Na rua de Villa Verde. 
Foi seu fundador em 1866 Christovão José Fernandes da Silva (o 
Cidade). 

Oratório do Senhor da Piedade. — A' margem esquerda da 
nova estrada da Costa. Antes da abertura d'esta estrada estava 
ao lado opposto num recanto do caminho velho. As imagens de 
Christo, da Virgem e de S. João são de esculptura rasoavel. 

Oratório do Senhor dos Remédios. — No largo do Trovador. 
Foi construído de pedra em 187o e substituídas por esculpturas 
as pinturas de Christo, da Virgem e de S. João. 

No muro que lhe fica superior esteve o antigo Pelourinho. 



— 265 — 

Oratório do Senhor dos Passos. — Próximo da capella de Santa 
Luzia, entrada da travessa do Picoto, venera-se em oratório de 
pedra envidraçado, a imagem de Christo com a cruz ás costas. 

Oratório de Nossa Senhora de Bethlem. — Numa janella da 
antiga egreja de Santa Roza, hoje sede da parochia de S. Sebas- 
tião. Tem caixilho de ferro envidraçado e luz de azeite perma- 
nente. 

Esta formosa imagem, que conta numerosas afilhadas, foi por 
uma d'ellas (D. Leonor Lucinda d^liveira Cardoso) aproveitada 
da extincta egreja de S. Sebastião e exposta, a expensas suas, 
onde agora se venera. 

A irmandade dos Santos Passos mandou construir os sete 
oratórios da Via-Sacra que se acham distribuídos pela cidade. O 
figurado é todo de madeira em tamanho natural. 



EM BRAGA 

Oratório do Senhor da Boa Morte. — Está situado a meio da 
rua de Payo Manta (vulgo Pae Amante). E' de madeira envidra- 
çado. A imagem de Christo na cruz, que alli é venerada, recom- 
menda-se pela correcção csculptural. 

Oratório do Senhor dos Desamparados. — No largo das Lati- 
nhas, próximo á nascente d'aguas sulphurosas denominadas dos 
Gallos, existe um oratório envidraçado em que se venera uma 
pintura de Christo em madeira sob a invocação do Senhor dos 
Desamparados. 

Oratório do Senhor. do Bom Principio. — Quasi a meio da rua 
dos Pellames, venera-se esta imagem em oratório envidraçado. 

Oratório do Senhor da Guia. — Na freguezia de S. Pedro de 
Maximinos, um pouco abaixo da fabrica do gaz, ha um oratório 
envidraçado em que se venera uma formosa imagem do Senhor 
da Guia. 

Oratório do Senhor do Bom Fim. — Está situado ao lado es- 
querdo da antiga estrada de Guimarães, um pouco áquem da ca- 
pella de Santo Adrião da Corrica. A imagem é de madeira. Foi 
collocada alli no dia 3 de julho de 1 888. 

Oratório do Senhor da Afflicção. — Está encostado ao lado di- 



—266 — 

reito da egreja parochial de S. Lazaro, com uma vidraça na frente. 
Venera-se alli uma pintura de Christo em madeira sob o titulo 
de Senhor da Afflicção. 

Oratório de Nossa Senhora de Na^areth. — No alto do arco da 
Porta Nova, sobre que assenta a estatua de Braga, ha um oratório 
envidraçado em que se venera a imagem de Nossa Senhora de 
Nazarcth, também de granito mas pintada. E' muito festejada a 
expensas dos moradores da rua Nova de Souza, no dia 8 de se- 
tembro de cada anno. 

O referido arco da Porta Nova foi construido no anno de 17 16, 
dispendendo-se com esta obra um conto de réis. Para este fim a 
Camará obteve de el-rei o subsidio de 1 6:000 cruzados, das sobras 
do rendimento das cizas. 

Oratório da rua de Nossa Senhora do Leite. — Na esquina da 
casa n.° 1, que defronta com o rocio detraz da Sé, ha uma cruz 
de madeira com um quadro representando o Rosto do Senhor, 
habilmente pintado em dezembro de 1870 pelo pintor-esculptor 
hespanhol Luiz Vermell, que viveu durante algum tempo em Bra- 
ga. Ao lado esquerdo do quadro tem estes dizeres em cursivo: — 
Braga — Dezembro — 1870:, e ao lado direito: — Original de Luiz 
Vermell (o peregrino Espanol). O trabalho revela a competência 
do auctor. O olhar de Christo acompanha quem o fitar de frente 
ou de qualquer dos lados com egual doçura de expressão. 

Os visinhos construiram-lhe um oratório de madeira e todas 
as noites lhe põem luz de azeite. 

O quadro tem sido distribuído em pequenas photographias 
pelos devotos que são muitos. 

Antes d'esta pintura do Rosto do Senhor havia outra menos 
correcta que foi d'alli retirada. 

A cruz collocou-se naquelle sitio para^implorar as orações dos 
fieis em favor das numerosas victimas do encontro que alli se deu 
entre a divisão cabralista commandada pelo general José de Bar- 
ros e Abreu Sousa Alvim (i.° Barão e depois Conde do Casal) 
e as forças legitimistas, commandadas pelo general Macdonell, ao 
meio dia de 20 de dezembro de 1846. Pelos chapéus de palha 
com fitas vermelhas que os guerrilheiros miguelistas usavam, no- 
tou-se que eram d'estes quasi todos os cadáveres que juncavam 
a rua. O meu informador sr. António da Graça Faria, curioso 
de antiguidades que assistiu a essas tristes scenas, diz-me que se 
lembra de vêr correr o sangue das victimas de mistura com a 
chuva miudinha. Os fieis que saiam da missa do meio dia fugiam 
para suas casas horrorisados, e muitos foram assassinados no 
Campo dos Remédios quando saiam da egreja de Santa Cruz. 



20 7 



Era o desforço desenfreado da cavallaria e infanteria cabralista 
que haviam sido heroicamente dizimadas e vencidas quando por 
vezes tentaram entrar pela rua dos Pellames. 

Oratório do Senhor Jesus das Almas. — Está encostado á egreja 
da Ordem Franciscana, com frente para a rua dos Capellistas, e 
é todo de pedra vedado por uma grade de ferro. A imagem do 
Senhor Jesus das Almas, em tamanho quasi natural, é de primo- 
rosa esculptura e pintura. Os visinhos promovem-lhe annualmente 
uma esplendida festividade. Do lado de dentro, á esquerda, tem 
embebida na parede uma lapide com esta im.cripção: 

CAPELLA DO SENHOR 

JESUS DAS ALMAS, QUE MAX 

DOU FAZER MANOhL AN 

T° FERRf NEGO' lv DESTA 

CID f XO ANNO DE I 83 I • 

Oratório do Senhor do Bom fim. — E' de madeira envidraçado 
e âcha-se encostado á casa n." 32 da rua de Santa Cruz. Tem 
dentro uma cruz de madeira com pintura de Christo. 

Oratório do Senhor da Boa I 'ista. — Está situado no alto da 
rua de S. Sebastião, próximo da capella das Carvalheiras, e ve- 
nera-se n^lle uma formosa imagem de Christo Agonisante. Os 
visinhos devotos promovem-lhe annualmente luzida festividade. 

Oratório do Senhor das Injurias. — Ao fundo da rua das Pa- 
lhotas ha um oratório envidraçado onde se venera uma tormosa 
imagem de Christo na cruz sob a invocação de Senhor das Inju- 
rias, muito festejada em certo dia do anno. 



■268 



NICHOS 



KM BRAGA 

Nicho aberto na frontaria da casa n. os 57 a 59, da rua das 
Aguas. Tem uma esculptura de S. João e na parte inferior: 

anno — s. joÃo — 1702 

Na frontaria da casa n.° 56 da rua da Cruz de Pedra, a ima- 
gem de S. Bento, pintura em madeira. 

Nicho aberto na frontaria da casa n. os 12 a 14, da referida rua. 

Na rua de S. Sebastião, frontaria da casa n.° 3o, uma pintura 
representando Nossa Senhora do Rosário. 

Na rua de S. António das Travessas, frontaria da casa de 
D. Henriqueta Barbosa, duas imagens do thaumaturgo portuguez. 

No largo de S. Paulo, esquina da casa n.° 19, uma bella esta- 
tua de granito representando S. Miguel o Anjo. Tem a servir-lhe 
de docel uma grande concha egualmente de granito. 

Na rua de S. Marcos, frontaria da casa n. os 34 e 36, uma ima- 
gem de Santo António. 

Na rua das Aguas, esquina do convento dos Remédios, um 
quadro com o Rosto do Senhor, muito da veneração dos visinhos. 

Na mesma rua, frontaria da casa n. os 166 a 168, uma pequena 
imagem da Virgem da Piedade. 

Ao lado da porta do Sol, da Sé, uma cruz de madeira com 
pintura de Christo, sob a invocação do Senhor da Felicidade. 

Esta cruz esteve na mesma parede, um pouco mais acima, 
onde ainda existem os ganchos que a prendiam. 

Na rua de S. Marcos, frontaria da casa n." s 94 e 96, um qua- 
dro representando a imagem da Virgem com o menino Jesus. 



- 26ç» — 

Na mesma rua, esquina do convento dos Remédios, um qua- 
dro com o Rosto do Senhor. 

Na rua de S. Domingos, frontaria da casa n.° 43, uma cruz 
com pintura representando Christo. 

Na rua do Raio, írontaria da casa n.° 9, uma pintura da Vir- 
gem, com luz de azeite permanente. 

Na rua de S. Barnabé, frontaria da casa n.° 2, uma pequena 
imagem do Santo de que a rua tomou o nome. 

A mais de meio da rua da Boa-Vista, lado sul, ha uma fonte 
com um grande nicho e a imagem de S. Thiago dentro d'elle. Os 
visinhos promovem-lhe annualmente uma grande festa. 

A fonte, e provavelmente a imagem, devem-se á generosidade 
do Arcebispo D. Diogo de Sousa, segundo se deprehende do let- 
treiro que esta gravado sob o nicho: 

■ 

D • SOVSA ARCHIEP 
ANNO SALVTIS I 53 I 

Na rua do Anjo, frontaria da casa n. os 82 a 84, dois nichos 
bem lavrados. 

Na rua de S. Marcos, frontaria da casa n.° 1, um nicho com 
peanha saliente na qual se lê : 

ANNO — S- PEDRO — 1642 

No largo de Infias, frontaria da casa n.° 10, um nicho bem 
lavrado. 

Na rua de S. Victor, frontaria da casa n.° 65, um nicho. 

Na rua Nova de Sousa, frontaria da casa n.° 109, um nicho 
com communicação interior. 

No campo de Sant'Anna, frontaria da casa n. os 19 e 21, um 
nicho bem lavrado. 



270 - 




CRUZEIROS 



Já no tempo dos egypcios, carthaginezes, assyrios, persas, he- 
breus e gregos, a cruz era applicada aos supplicios de malfeito- 
res, introduzindo-a Tarquinio Soberbo em Roma para a execução 
das sentenças de pena ultima; e subsistiu este costume até que 
o imperador Constantino Magno, em attençao ao supplicio de 



— 271 — 

Christo, a fez venerar como symbolo que é da redempção huma- 
na '. Desde então o lábaro santo principiou a apparecer hasteado, 
como pregão de paz e amor, perdão, conforto e esperança, na 
cúspide dos montes, nas povoações sertanejas e nas cidades e 
villas, sobre a coroa dos monarchas, junto das encruzilhadas e 
sobre as pontes, como na villa de Ponte do Lima e n'outra loca- 
lidade portugueza, onde ainda se vê, levantada sobre o talha-mar, 
uma cruz elegante com esta inscripçao que, por interessante, de- 
corei : 

CRVX IN PONTE QVIT EST? AMBO SVNT • 

CREDITE PONTES : 
rSTA VIAM CCELI • FLVMINTS ILLÉ PARAT • 



«Uma cruz numa ponte que quer dizer? Podeis crer que são 
duas pontes: por uma se vae ao céo, por outra se passa o rio». 

A cruz também se ergue á cabeceira da campa e nos logares 
onde alguém perde a vida. 

No norte de Portugal é ainda frequente a pratica dos mon- 
tinhos de pedras junto de uma cruz no local onde o individuo 
morreu de desastre ou violência. Formam-se resando, por cada 
pedrinha que se colloca junto da cruz, um padre-nosso, e chama- 
lhes o povo Fieis de Deus. 

Próximo da capella da Madre de Deus de fora, sobre a pa- 
rede da margem direita do caminho que vae da capella da Con- 
ceição e egreja de Azurey (subúrbios de Guimarães) ergue-se uma 
pequena cruz de ferro com os seguintes dizeres: — Francisco Joa- 
quim CARDOSO P N • A • M • 

O infeliz Francisco morreu alli sob um carro de matto que se 
voltou. Em torno á cruz amontoam- se numerosas pedrinhas que 
os fieis vão collocando, quando passam, resando então, por alma 
do finado, o padre nosso e a ave Maria que a cruz implora. 

Os povos celtas sepultavam nas mamo as (montículos de terra 
isolados) os seus homens mais notáveis; e formavam estes montí- 
culos com pedras miúdas sobre a sepultura dos indivíduos pobres. 

Os romanos também dedicavam a Mercúrio estes montículos 



1 Um dos instrumentos do deicidio, o rotulo de madeira que se collocou no 
alto da cruz, media 10 polegadas de comprido por 6 de largo. 

Escreveram n'elle, da direita para a esquerda, como usavam os judeus, em 
hebraico, grego e latim, esta inscripçao: mvro&dvi xek svnerazan svsei. 

A forma da cruz de Christo, deis paus atravessados em angulo recto, é 
egypcia. O vocábulo, derivado do latim crus, significa tronco de arvore abaixo 
da bifurcação; assim as primeiras cruzes a que os condemnados eram presos 
como o foi S. Sebastião. 



— 272 — 

(montes gaudios) nas encruzilhadas, com umas estatuas de pedra 
(Mercuriaes) que apenas tinham cabeça. Consideravam Mercúrio 
deus dos caminhos e acreditavam que as almas dos mortos eram 
por elle levadas aos infernos e de lá trazidas quando lhe appete- 
cesse. Por isso os gregos o denominavam psuxagogos (conduetor 
das almas) e nekropompos (acompanhador dos mortos). 

Em todas as povoações se erguia, n'outros tempos, a cruz, 
mais ou menos rica de arte, a avivar a origem da religião christã 
e o martyrio de Jesus no Golgotha! 

Hoje as vereações portuguezas pensam na remoção dos cruzei- 
ros como quem procura prover a uma necessidade urgente. Não 
lhes aproveita, como catholicos, a liçção dos inglezes protestantes 
que respeitam os seus antigos cruzeiros como o de Salisbury, de 
Winchester e outros a que dão o nome de Marketcrosses por se 
acharem nos locaes das feiras! Essa guerra de extermínio, entre 
nós, por principio algum se justifica. Dos poucos cruzeiros que 
havia em Guimarães, se exceptuarmos os dos padrões de Nossa 
Senhora da Victoria e de D. João I, foram-se os melhores como 
o da irmandade do rosário (cruzeiro do Fiado), do anno de i65o, 
cuja columna fragmentada existe no museu da Sociedade Martins 
Sarmento, e o do largo de S. Paio, que foi apeado a 18 de feve- 
reiro de 1879. 

Existem ainda: 

Cruzeiro de Santa Cru\, no largo fronteiro á capella da mes- 
ma invocação. Foi mandado fazer em 1O40 pelo cónego Arro- 
chella. 

Cruzeiro do Campo da Feira. — E' uma simples cruz de pedra 
com uma pintura de Christo a óleo. Tem mais duas dos lados e 
trez na frente. 

Cruzeiro dos Capuchos. — E' uma grande cruz sem columna, 
com seus lavores, que se ergue em frente á egreja dos extinctos 
frades Capuchos. 

Cruzeiro das Capuchinhas. — Fica em frente á egreja d'este 
pequeno convento e tem a data de 177o. 

Cruzeiro da crn\ de pedra. — Fica no alto da rua da Alegria 
sob uma cobertura sustentada por quatro grossas columnas. A 
cruz é de pedra, e o Christo, na agonia, pintado em madeira. 
Provirá d'esta cruz o nome do local? 

Cruzeiro da Senhora da Guia. — E' dedicado á Virgem da 



2 ? 3 - 



Piedade. Esteve primitivamente junto da casa onde nasceu Mar- 
tins Sarmento. D^lli foi removido para próximo do Passo, onde 
se acha encostado. Na frente da cruz está a Virgem com o Christo 
morto nos braços, e outras figuras em volta, dizendo-se que repre- 
senta um frade a que se apresenta de joelhos com as costas para 
a rua. 

Creou se a este respeito uma lenda engraçadissima que o 
sr. conde de Margaride descreve com extraordinária elegância a 
pag. 28. e segg. do numero especial da Revista de Guimarães, 
publicado em honra de Martins Sarmento. 

Cruzeiro de S. Francisco. — A columna pertence á ordem 
compósita. Foi mandado íazer no século xvi pelo padre mestre 
fr. António Fernandes, collocando-se então á entrada do largo 
das Carvalhas a demarcar a jurisdição da Ordem. A camará re- 
moveu-o em maio do anno corrente encostando-o á parede da 
egreja ! 

EM BRAGA 



Cruzeiro do campo de Santa Anna. — Sobre a elegante co- 
lumna bem lavrada, pertencente á ordem compósita, eleva-se a 
cruz primacial. Essa columna, com pedestal ornamentado, assenta 
em 7 degraus ao nascente do campo de Santa Anna onde foi col- 
locada por ordem do Arcebispo D. Diogo de Sousa, no primeiro 
quartel do século xvi. 

Cruzeiro da praça do conde de S. Joaquim. — E' egual ao do 
campo de Santa Anna e foi mandado fazer pelo Arcebispo D. 
AfFonso Furtado de Mendonça no anno de 162 1. (Vide gr av. a 
pag. 2-4). 

A casa próxima, pertencente á illustre familia Brandão Pereira, 
occupa o espaço da habitação de Lúcio Caio Atilio, governador da 
Lusitânia e Galliza, no tempo dos romanos, e sua mulher Calcia, 
na qual nasceram as suas nove filhas gémeas e santas, Liberata, 
Quitéria, Martinha, Eufemia, Genebra, Germana, Basilissa, Victo- 
ria e Marciana. 

Cruzeiro da rua dos Pellames. — Ao fundo d'esta rua, que o 
cardeal-infante D. Henrique mandou abrir sendo Arcebispo de 
Braga, existe um cruzeiro que primitivamente esteve entre as ruas 
do Anjo e de S. Marcos, dando origem á egreja de Santa Cruz. 

Foi mandado fazer por D. Diogo de Sousa. 

■ 



-2 7 4 




Cruzeiro da praça do conde de S. Joaquim 

Cruzeiro de S. Lazaro. — Está quasi contíguo á egreja d'esta 
invocação e foi feito em 1 635. 

Tem uma imagem de Christo morto, e a columna é dividida 
em gomos salientes que se desenvolvem bastante na parte inferior 
como se pôde ver da gravura que abre este capitulo. 

Na base lê-se esta inscripção : 



SENHOR 

DAS NESSE 

CIDADES 

PEFORMADO a' 

CVSTA DOS DEVOTOS 

NO ANNO DE 



1884 

Inteiramente egual a este, e quiçá do mesmo auctor, existiu 
outro no largo fronteiro á egreja de S. Paio da cidade de Guima- 



— 2 7 - 

rães. A camará, porém, desconhecendo o valor d'elle, vendeu-o e 
acha-se agora na freguezia suburbana de Polvoreira. 

Cru-eiro do Senhor da Saúde. — Mandou-o fazer o Arcebispo, 
D. Diogo de Sousa collocando-se por sua ordem junto da porta 
da Sé. Mais tarde removeu-se para as proximidades da capella de 
S. Miguel o Anjo, hoje também removida, e d'alli para o campo das 
Carvalheiras, applicando-se-lhe uma cobertura metálica suspensa 
por quatro columnas. A invocação provém do oratório onde esteve, 
na casa de saúde construída de madeira no local de S. João da 
Ponte, por ordem de D. fr. Bartholomeu dos Martyres, para tra- 
tamento de empestados no anno de 1670. 

No capitel da preciosa columna tem, ao lado do escudo de D. 
Diogo de Sousa as lettras lohi. • 

Ainda hoje se vê na extremidade sul da ponte velha outro cru- 
zeiro mais simples, feito a expensas da camará em memoria dos 
serviços prestados por D. fr. Bartholomeu dos Martyres. Na base 
tem, quasi de todo apagada, a inscripção seguinte : 

SENDO ARCEBPO DF! 

BRAGA DO. F. BERTOLA 

MEV DOS MÁRTIRES 

OVVE PESTE NESTACI 

DADE O ANO DE ibjO E 

OS EMPEDIDOS FORA TR 

AZIDOS A ESTA DE VEZ A 

Cruzeiro do Senhor das Anciãs, em Inflas, um pouco afastado 
da egreja de S. Vicente. Foi para alli removido do local onde as 
ruas dos Chãos e do Carvalhal se communicam. 

A cobertura descança sobre três columnas corinthias. 

Cru\eiro do Senhor da Boa Lm\. — E' uma cruz tosca que se 
venera próximo do palacete Cunha Reis, entrada da rua da Cruz 
de Pedra. Na frente é vestida de madeira com uma pintura de 
Christo crucificado. Esta cruz assenta sobre um grande capitel co- 
rinthio, cuja proveniência se ignora, e tem luz de azeite perma- 
nente. Terá origem nesta cmr x de pedra o velho nome da rua ? 

Cruzeiro das Palhotas. — Ao centro da rua d'este nome er- 
gue-se um cruzeiro com uma imagem de Christo agonisante muito 
venerada e festejada annualmente pelos moradores d'aquellessitios. 

Tem uma cobertura que descança sobre quatro columnas jó- 
nicas. 



— 2y6 — 

Em 14 de setembro de 1868 foi apeado o elegante cruzeiro do 
largo de S. Francisco. 

Dos campos da Vinha e de Santa Anna foram rtmovidas em 
julho de ibb-j as 14 cruzes da Via-Sacra que estavam levantadas 
ao longo d'aquelles largos, obtendo a Camará consentimento da 
Confraria de Nossa Senhora a Branca para serem collocadas no 
adro da sua egreja. Os visinhos distribuíram entre si a veneração 
das referidas cruzes para cada um as illuminar e enfeitar de flores 
no dia 3 de maio em que a egreja celebra a festa da Invenção da 
Santa Cruz, por ser n'este dia descoberta por Santa Helena, mãe 
do imperador Constantino, junto do monte Calvário onde estava 
soterrada com duas mais, provavelmente as do bom e mau ladrão, 
sendo necessário para a estremar, diz Theodoreto, reclamar a in- 
tervenção do milagre. Collocado um cadáver sobre cada uma das 
três, foi a de Jesus reconhecida porque immediatamente o morto 
resuscitou quando o extenderam sobre ella. 

A festa da Exaltação da Santa Cruz data do anno de 642 em 
que o imperador Heraclius conduziu aos hombros, até ao monte 
Calvário, a verdadeira cruz do Redemptor, a qual quatorze annos 
antes fora d'alli retirada pelo rei da Pérsia Khosroés II, vencedor 
de Jerusalém durante o império de Phocas. 



Além das numerosas imagens de Santo António que particu- 
larmente se veneram nos estabelecimentos commerciaes e indus- 
triaes, com especialidade nas mercearias e nas tabernas, para que 
os donos sejam felizes nos seus negócios, ha por quasi todas as 
ruas das cidades e pelos caminhos públicos das freguezias ruraes 
umas alminhas, espécie de nichos cavados em pedras que se en- 
costam ás paredes e que teem dentro uma pintura representando 
o Purgatório. N'essa pintura quasi sempre apparece um Pontífice, 
um Bispo e um Monarcha de mistura com a gente do povo, allu- 
são á fragilidade humana e á rectidão da Divina Justiça. E' o tes- 
temunho mais frisante da crença na bemaventurança, destino das 
almas purificadas, e no Inferno, cuja eternidade de penas Orige- 
nes foi o primeiro a negar. 



— 277— 



ORAGOS DAS FREGUEZIAS DE GUIMARÃES 



Santa Maria de 



O Salvador de 



S. JoÁo de. 



S. Pedro de. 
S. Thiago de . 

S. Migull de. 



S. Martinho de 



Oliveira (cidade) 

Airão 

Arosa 

Athaes (afanes) 

Corvite 

Gémeos 
( Guardizella 
IV." N.» das Infantas 

Inhas 

Mathamá 

v. a N. a de Sande 

Silvares 

Souto 

IBalazar 
Briteiros 
Donim 
• Gandarella 
Pinheiro 
Tagilde 

' Mosteiros do Souto 
.Airão 
[Brito 
jCaldas 
<Castellões 
JGondar 
I Pencello 
' Ponte 

ÍAzurem 
Gominhães 
Polvoreira 
: Gandoso 
Lordello 
(Ronfe 

, Castello (cidade) 
t Caldas 

jCerzedo (^ersedo) 
Creix-mil (crexe- 

mirj 
Gonça 
Paraizo 
Landoso 
Conde 



[Gondomar 
S. Martinho de. . . 'Leitões 
| Sande 
Figueiredo 
Cidade 

S. Pai j de I, Vizella 

Moreira de Cóne- 
gos (moraria) 

S. Sebastião -Cidade 

(Calvos 
S. L ■'urenc j de . . Sande 
(Selho 

ÍFermentões 
Nespereira (ncspe- 
rana) 
entieiros 

S. Mamei e de . . . . ô ldão ., 
I Vermu 

S. Chkutovâo de |c b it Çã ° 
I Selho 

Santo Estevão de P T riteiros 
| Urgezes 

S. V.cente de....!^ ascotellos 
(Oleiros 

S.THOMEde \£ D ffi? 

(Caldellas 

S. Cláudio de. . . .-Barco 

S.ta Ghkistina de |Cerzedello 

(Longos 
Santa Marimia da-Costa 

S.CosMEda jLobeira (lupa- 

I ria) 
c n>~..-~ a~ iMezão-Frio 

S. KOMAO de r, , c / j f^i 

(Rendufe (randulfi) 
Santa Eufemia de-Prazins 
S^nto i hyrso de-Prazins 
S. Clemente de ..-Sande 

S. Jorge de -Selho 

S. Cyp/xiano de. . .-Taboadello 
S. Torquato 

S. FawSTjno de. . .-Vizella 
S\nt a l iO-adia de-Briteiros 



Abação : (ave^ani) 
gnalado. 



Abi e cam significa em Árabe Pae assi 

> Cs 



Airão : — Dava-se antigamente este nome aos ramos de pedras 
preciosas com que as mulheres enfeitavam o cabello e ao penacho 
dos chapéus ou capacetes dos homens. 



— , 7 «- 



AldÃo : (aldiani) — Nasceu nesta freguezia o notável juriscon- 
sulto D. Agostinho Barbosa que falleceu Bispo de Ughento. 

Azurei: — Ha uma planta rosácea chamada A\ereiro, (cerasus 
lusitamca) e outra gramínea Azevém, para forragem. Ha próximo 
d^sta egreja parochial o velho solar dos Peixotos com uma torre 
de aprimorada construcção. 

Balazar: — Pinho Leal quer que seja corrupção de Valle d'A- 
\ar. 

.Brito: — D. Soeiro de Brito fundou alli, no reinado de D. Af- 
fonso V, um mosteiro da Ordem de S. Bento. 

Briteiros: (villa britteiros) — Consta que a egreja de Santa 
Leocadia de Briteiros foi cathedral dos Bispos d'aquella Diocese, 
extincta por effeito da invazão dos Árabes. Fora da porta ainda se 
vê um tumulo que dizem ser de Wamba, religioso benedictino 
pertencente á família do celebre rei Godo successor de Flávio 
Recesvindo. 

Fermentóes : — Fóra-montãos ou Fóra-montÕes. 

Sande : — (S. Martinho) Foi mosteiro benedictino que teve por 
Abbade Receswinto, poeta e orador, fallecido no dia 3 de março 
de 668. Em 66o assistiu com o seu collega Wamba, de Briteiros, 
ao X.° Concilio de Toledo. 

Em maio de 1748 appareceu aqui sob um penedo uma talha 
contendo 36o moedas de prata de D. João I. 

A egreja de Santa Maria de Villa Nova de Sande teve mosteiro 
de cónegos Regrantes. 



'O wo * vv -t> 1 



Paraizo : — Denominou-se de 5- Miguel do Inferno, até que 
D. fr. Bartholomeu dos Martyres lhe mudou o nome. Ainda hoje 
alli ha o logar do Inferno. 

Santa Maria de Silvares e Santa Maria de Athães, freguezias 
celebres pela grande derrota que numa e n'outra soffreram os 
castelhanos. 

Villa Nova das Infantas deveria antes chamar-se dos Infantes, 
pois foi dada em 1253 ao mosteiro de Santo Thyrso, por D. Mar- 
tinho e D. Urraca, filhos de D. Sancho I. 

Souto : — (S™ Maria) D. Gomes de Maceira fundou-lhe em 
1200 um mosteiro de cónegos Regrantes. 



~2 7 9 - 

Souto: — (S. Salvador). D. Paio Guterres da Cunha fundou- 
lhe em 1080 um mosteiro de frades Gruzios. 

Tagilde: (atanagildi) — Foi fundada em 56o por Atanagildo, 
rei Godo. No casal do Paço, d'esta freguezia, nasceu em 1200 
S. Gonçalo da Amarante. 

Caldas : — (S. Miguel) D. Affonso V de Leão e sua mãe a rai- 
nha Geloira estiveram aqui no anno de 10 14, confirmando as es- 
cripturas e privilégios que os frades do mosteiro de D. Mumadona 
levaram áquella freguezia. (Vid. Estaco). 

Longos: — (S TA Christina). Sob uma lage appareceram aqui, 
em maio de 1738, duas talhas cheias de moedas romanas dos im- 
peradores Diocleciano, Maximiano, Maximino, Constantino, Cons- 
tâncio e outros. Adquiriu-as o illustre vimaranense Thadeu Luiz 
António Lopes de Carvalho. 



28o 



0RAG0S DAS FREGUEZIAS DE BRAGA 



Santa M»ria de 



O Salvador de 



S. José de 

S. JoÁo de 

Santa Anna de. 

S. Pedro de. . . . 
S. Thiago de . . 



/Sé (cidade) 

Adaufe (ataulfu) 
i Avelleda 
I Ferreiros 

Lamaçães 

Lamas 

Mire de Tibães 
IPalmeira 
[Panoias 

Sequeira 
\Sobreposta 
í Arentim 
iFigueirêdo 
'Nogueiró 
' jPedralva 

Tebosa 
I Trandeiras 
.-S. Lazaro (cidade) 
í Souto (cidade) 
. ] Nogueira 
(Semelhe 
.-Vimieiro 

IMaximinos (cidade) 
Escudeiros 
E'ste 
' jLomar 
/Merelim. 
I Oliveira 

(Cividade (cidade) 
' | Esporões 



S. Thiago de 



S. Miguel de. 



S. Martinho de. 



S. Paio de. 



S. VlC fOR 

S. Loureisço de . 

Santa Eulália de 

S. Mamede de . . . 
Santo André de. . 
Santo Adrião de.. 

S. Julião de 

Santo Este ao de 
S. Vicente de. . 
S. Jerowmo de. . . 
Santa Licrecia 
S. Bariholomeu de 
Santa Cicuia de. ■ 



P>aião 

Priscos 
I Cabreiros 
l Cunha 
'Frossos 
'■Gualtar 
/Guizande 
1 Morreira 
l Espinho 
{Dume 

Arcos 

Merelim 

Pouzada 

Parada 

Ruilhe 
-Cidade 
\Celleirós 
(Navarra 
(Crespos 
{Tenões 
-Este 

-Gondizalves 
-Padim da Graça 
-Passos 
-Penso 
-Penso 
-Real 

-Tadim e Fradellos 
Villaça 



Adaufe: — Nuno Odoris e sua mulher Adozinda Viscoi funda- 
ram-lhe em 1070 um mosteiro benedictino. 

Avelleda: — No tempo de Vespasiano havia na Germânia uma 
prophetiza e druidiza celebre chamada Velleda. 

Dume : — Em 566 fundou aqui Theodomiro, rei Suevo, um 
convento benedictino, que S. Martinho dirigiu até 58o em que fal- 
leceu. 

Na actual egreja, construída em 1737, conserva-se o tumulo de 
mármore em que S. Martinho esteve até que no anno de 1606 
trasladaram os venerandos restos para a Cathedral de Braga. 

N'esta freguezia viveram os romanos. Nas ruinas da antiga 
egreja appareceram lapides votivas e funerárias d'aquelle grande 
povo, e ainda hoje por aquelles sitios abunda a telha de rebordo e 
os fragmentos de columnas e capiteis antigos. 



-28l- 

Esporóes : — Asperões. Em frente á nova escadaria da egreja 
conserva-se a Capella da Caridade, feita em 1 638, a expensas de 
dois beneméritos que lambem á distancia de quatro metros para 
a frente fizeram construir uma pequena casa em que fundaram um 
celleiro com o fim altamente sympathico de emprestarem aos la- 
vradores d'aquel!es sitios o milho para as sementeiras, ficando es- 
tes obrigados a entregal-o no S. Miguel com mais um quarto em 
cada alqueire. 

Na padieira da porta d'este pequeno edifício ainda se lê : 



AQVI SE RECOLHERA 

O PÃO DA CHARíDADE 

Q ENTANTO DVRARA' 

Q T0 DVRAR AVERDAUE. 

A POBRES O EMPRESTARÃO 

P. FAZER OS SERVIÇOS. 

NO S. MIGEL O TRARÃO 

LIMPO SECO E SEM VÍCIOS 



A VIRGEM LHES FAZ A GRAÇA 

TERNA MAI DE PECADORES. 

E QVE NÃO AJA. TRAPAÇA 

DESSES FIEIS LAVRADORES. 

E SE AVERDADE FALTOV 

O QVE SE VE CLARAMETE 

A CHARIDADE PASSOV 



A capella tem na frente um alpendre sobre duas columnas tos- 
canas, e no alto da porta estes dizeres : 



ET VNDE HOC Mi Hl VT VENIAT 
MATER DNI MEI ADME L vo I .° C. 



LOVVADO SEIA O SANCTISSIMO 
SACRAMENTO DO ALTAR E TAMBE 
A 1MMACVLADA CONCEIÇÃO DA VIR 

> 

GEM NOSSA SRA CONCEBIDA 
SEM PECCADO ORIGINAL AVE M. a 

FraiÃo: — Entr£ os Godos era nome próprio de homem. 

Lomar : — Também nome próprio entre os Árabes — Al-Omar. 

Palmeira : — O couto de Palmeira foi dado aos Arcebispos de 
Braga em troca da rua Nova que possuíam em Lisboa (Pinho 
Leal, Dicc.) 

Pedralva: — Por estes sitios a pedra é bastante branca. O nome 
da freguezia virá de Pedra alva? Em 26 de novembro de 1238, 
el-rei D. Sancho II deu este couto ao Arcebispo D. Silvestre Go- 
dinho. 



— 282 — 

Civídade : — Próximo d'esta egreja parochial urbana apparece- 
ram, em julho de 1744, quasi 3oo moedas de ouro, romanas, de 
Nero, Galba, Vitelio, Vespasiano, Tito, Domiciano, Nerva, Tra- 
jano, Hadriano, Antonino Pio, Marco Aurélio, Lúcio Vero, Faus- 
tina e Plautino. Um inglez comprou 200, e as restantes levaram 
descaminho. 

Appareceram mais, em i3 de julho de 1892, duas talhas cheias 
d'estas moedas romanas soterradas na antiga rua do Coelho, que 
então desappareceu com a abertura da rua Nova d'el-Rei. 

Num desaterro da rua de S. Thiago, próximo da torre da 
egreja, poz-se a descoberto em agosto findo um curioso mosaico 
romano bastante extenso de que reuni alguns fragmentos no meu 
pequeno museu. 



FINIS 

PRID1É KALENDAS .TANVARil 

ANNO Á NATIVITATF DOMINI 

MILÉSIMO NONGHNTESIMO 



ÍNDICE 



DAS MATÉRIAS CONTIDAS N'ESTE VOLUME 



Pag. 

Advertência vh 

Antiguidade da crença na vida futura i 

Varias opiniões acerca do nascimento de Christo 4 

Fundação da egreja christã. — Copia da sentença de Pilatos i'ondemnando 
Jesus á morte. — Tradição do adorno das casas com ramos e flores 

no i.° de maio 5 

Perseguições contra a egreja 6 

Repressões rigorosas 7 

O tribunal da Inquisição — Emblema do Santo Officio 8 

Opposição dos Concílios ás praticas supersticiosas que os bárbaros con- 
versos introduziram na egreja g 

Extirpação dos feitiços — Contra o roubo de objectos sagrados 10 

Theoria dos dias-periodos — A sciencia e a fé — A Bibha mal interpre- 
tada — Protecção da egreja ás sciencias naturaes — O transfor- 

mismo applicavel ao homem 11 

Synchronismos do século I \ 3 

Virgens canónicas — Virgens claustraes — Emparedadas 1 4 

Synchronismos do século II — Progressos da religião— Uso da agua 

benta — Missa da meia noite i5 

Synchronismos do século III — Baptismo dos innocentes — Suffragios 

pelos defunctos — Pr imicias 1 5 

Synchronismos do século IV -Constantino restitue a paz e a liber- 
dade á egreja — Lapide com inscripção 16 

A alleluia durante o anno — O credo — A confissão peral na missa — 

S. Damazo natural de Guimarães — Guimarães cidade no século XIV 17 
Sagração das egrejas — /- s primeiras imagens nas egrejas — Ódio dos 
Judeus aos Ídolos — Proscripção da idolatria — Concessão de Basí- 
licas aos Bispos por Constantino — Sacerdotes de Isis e de Serâpis 18 
Prohibição de serviços ao domingo e do culto das pedras — Contra as 
pintura-, e esculpturas de Christo — Ordena -se que as imagens se- 
jam portáteis para se poderem enterrar e esconder nas grutas »9 

Origem das romarias e procissões 20 

Synchronismos do século V — O Jejum e as ladainhas -ío 



284 



Ladarios — Antiguidade da peste bubonica — Termina a confissão publica 

— Defeza do celibato dos padres — Bispos coadjutores — Cónegos 
regrantes na Sé de Braça 21 

Synchronismos do século VI — Observância do domingo — Diaconi- 
sas — Conversão dos Suevos — Os sacerdotes obrigados ao uso de 
hervas cosidas com carne — Prohibição de enterramentos nas egre- 
jas — Dízimos como esmola 22 

Profissão de fé dos Godos — O celibato — Sejam de mármore os alta- 
res — Dominus tecum — Origem do Palio e sua descripção 2 3 

Synchronismos do século IX — Leis de ódio de Abderrame H contra 
os christãos — Forcas em Córdova — O Papa Formoso conde mnado 
a torturas depois de morto 41 

O Hispo dos meninos — Mascaradas nas egrejas 42 

Synchronismos dos séculos XI e XII — Suspensão das armas — Coroa 

do Papa — A tiara des ie a sua origem 1 38 

Substiti ição do rito gothico pelo romano — Relíquias nos Concílios para 

obstar a irreverências > . 1 3o, 

Os cenobitas — Procurador do Mosteiro de Guimarães — Vida claustral 

dos cónegos 140 

Antiguidade da commemoração dos fieis defunctos — Descoberta das 

linhas da musica — Canonisação dos santos — Esmola da missa 141 

Mortificações voluntárias — Proveniência da lepra — Penitencias impos- 
tas aos peccadores — Formas do matrimonio — Lei de D. Manuel 
sobre o assumpto 142 

O dinheiro de S Pedro— As sangrias — Protecção dum Concilio á agri- 
cultura — Privilegio de cunhar moeda 144 

Synchronismos dos séculos XIII e XIV — Contra os Albigenses 1 57 

Determina-se que o barrete e vestes dos Cardeaes tenham a côr verme- 
lha — O sacramento da Confirmação ás creanças - Termina o ban- 
quete dos curas aos parochianos — A eleição dos Papas — Origem 
da festa do SS. Sacramento 1 58 

Instituição do Jubileu do Anno Santo — A festa da Conceição — Provín- 
cia Dominicana — Órgãos nas egrejas — Sepultura do Papa João XXI 

— Invenção das armas de fogo — Os clérigos principiam a ser bar- 
beados 1 5g 

O Arcebispo D. Martinho ordena que se pague dizimo do «parimento 
das ovelhas»; do pam, do vinho, etc. — As excommunhões — Absti- 
nência dos sabbados — Carta de Santo António 160 

Certidões de casamentos 161 

Synchronismos do século XV — A architectur>> e a esculptura 164 

Instituição das Misericórdias — Os Judeus em Portugal — Clérigos pre- 
guiçosos... 1 65 

Cortes em Braga por D João 1 — Dia de pão por Deus — Procissões de 

Compus Christi 1 bô 

Synchronismos do século XVI — Fundação da egreja protestante .... 177 
Agua no cálice — Pregões matrimoniaes — Registo de baptismos e d ma- 
trimónios — Origem dos padrinhos — Bulia da Santa Cruzada 1 78 

Adoração a Deus — Veneração aos Santos — Como devemos soccorrer 

os necessitados 1 79 

RESPEITANTE A BRAGA 

Inscripção Wisigothica — Inhumação e incineração dos cadáveres — 
Primeiras egrejas e primeiros cemitérios — Mausolo e Artemísia — As 
catacumbas de Roma — A mais antiga inscripção christã da Penin- 



— 285 — 

Pag. 
sula — Emblemas das sepulturas — Tumulo de Lgas Moniz — Cos- 
tume de tosquiar a cabeça e a barba aos defunctos — Principiam os 

cemitérios públicos — Decretos para a sua creação 25 

S. Salvador de Montelios — El-rei Cinthilla promove que os reis antes 
de occuparem o throno promettam conservara fé catholica — Onde 
morre o rei ahi se elege o successor — Keprehendem-se em publico 
os peccadores — Missas celebradas com leite — Iguarias nos vasos 
sagrados — Bispado de Briteiros — Origem da fest i de todos os San- 
tos — Presentes de Bonifácio V ao rei e á rainha de Northumbia — 
Os títulos de Soberano Pontífice e de Vigário de Christo —Costume 
de beijar os pès ao Papa — Sagração — Servos dos quatro dinheiros 

— Servos da gleba — Institue-se a festa da Annunciação — Beberetes 
nas Cathedraes, Collegiadas e Mosteiros — Decreto contra as ima- 
gens — O habito talar — Origem da palavra pagão — Pena de morte 
contra o uso oe vinho, ovos e leite na quaresma — Resposta de 
Erasmo — Instituição da quaresma 3,4 

O sino de S. Geraldo — Conservação de egrejas pelos Árabes — Bispos 

e Arcebispos de Braga r 5 

Egreja Cathedral de Braga — Contesta-se a vinda de S. Thiago á Pe- 
nínsula e crê-se na vinda de S. Paulo — Templo de Isis — O deus 
do mercado — Invasão Árabe — Porta lateral da Sé — Nave central 

— Lapide de Augusto — Tumulo de cobre dourado — Pia baptismal 
— Pesca no rio Este — Preciosidades do thesouro — Cálice de S. Ge- 
raldo — Frontal do altar do Sacramento — Exterior da capella-mór 

— O altar-mór antigo — Corpo incorrupto de D. Lourenço — Sepul- 
tura de Martim de Freitas — Capella de Nossa Senhora da Gloria — 
Tumulo de D. Gonçalo Pereira — Vidro antigo com pintura 63 

Egreja de S. Pedro de Rates 128 

Egreja e Hospital de S. Marcos — Convento dos Templários em Braga 
— D. Gualdim Paes — Capella de S. Bento — Ovos que offerecem ao 

Santo i33 

Egreja da Misericórdia 161 

Capella da Conceição ou Senhor Morto e Egreja de S. João do Sou- 
to — Grupo do enterro — Palacete dos Coimbrãs 167 

Egreja dos Remédios — Architecto vimaranense — Lapides romanas 

da Palmatória 171 

Egreja do Seminário Conciliar 173 

Egreja do Populo — Quartel militar — Rua das Conegas 180 

Egreja do Salvador L . 181 

Egreja do Carmo — Relicário iS3 

Egreja parcchial de S. Victor 1 88 

Egreja dos Congregados — Bibliotheca e Lyceu tis» 

Egreja de S Francisco '. iqo 

Egreja de S. Vicente , . 191 

Egreja de Santa Cruz 192 

Egreja da Penha de França — Estatua de D. Pedro V— O celebre ra- 
becão — Púlpito — Asylo de infância Desvalida 19} 

Egreja parochial de Maximinos iõ5 

Egreja e Recolhimento da Tamanca 198 

Egreja da Conceição — Collegio de Regeneração — Muralhas romanas 198 
Egreja parochial de S. Lazaro — ídolo dos Granjinhos — Asylo de en- 
trevados 202 

Egreja de Nossa Senhora da Lapa — A arcada — Estatua de Braga — 

Pelourinho — Theatro de S. Geraldo 207 

Egreja e Convento de Santa Thereza 208 



— 28'J — 

Pag. 

Egreja de Nossa Senhora a Branca 210 

Sanctuario do Bom Jesus do Monte — A inauguração do elevador — 

Escadaria dos Cinco Sentidos 212 

Egreja parochial da Cividade 217 

Egreja de Nossa Senhora do Sàmeiro 218 

Egreja e Convento de Montariol 219 

Egreja e Convento de Tibães — Quadro de merecimento — Curiosa 

inscripção da ponte de Prado 23 1 

CAPELLAS 

Capella de S. Lourenço da Ordem 23 7 

Capella de Santa Martha das Cortiças — Castro Luso-Romano 237 

Capella de Santa Maria Magdalena 23í5 

Capella e Convento do Varatojo 2 >8 

Capella de Santo Adrião da Corrica 2*9 

Capella de S. João da Ponte — Festejos baptistinos — Festa do Can- 

deleiro — Imagem de S. Christovão — Pinheiro da Gregoria 241 

Capella de Santa Justa 244 

Capella de Santo António 244 

Capella de Nossa Senhora da Consolação 245 

Capella de Guadelupe 24a 

Capella do Cemitério 248 

Capella de Santa Tecla 249 

Capella do Senhor das Anciãs 249 

Capella de Nossa Senhora do Pilar 25o 

Capella de Nossa Senhora da Abbadia 25 1 

Capella de S. Gonçalo — Recolhimento das Convertidas 25 1 

Capella e Recolhimento da Caridade 253 

Capella do Paço Archiepiscopal — O chafariz 25 5 

Capella de Nossa Senhora da Torre 254 

Capella das Almas 255 

Capella de S. Victor Velho 255 

Capella de S Sebastião — Monumentos romanos . . , 257 

Capella dos Orphâos de S. Caetano 259 

Capella de S. Miguel o Archanjo 259 

Oratorio3 265 

Nichos 268 

Cruzeiros 270 

Oragos das freguezias de Braga 280 

RESPEITANTE A GUIMARÃES 

Egreja de S. Miguel do Castello —Decreto elevando Guimarães a ci- 
dade—Lapide da consagração á Virgem — Dogma da Conceição — 
Prohibição do nome de Maria — Divergências acerca do nascimento 
de D. Affonso nenriques — Padrão das Teigas — Castello de Guima- 
rães Paço dos Duques de Bragança — Pórtico e Janellas — Benção 

dos sinos 43 

Collegiada de Guimarães — A primitiva imagem da Virgem - Brazão 
dos D Priores — Sacrário e frontal de prata — Verdadeiro retrato 
da Virgem —Preciosidades do thesouro (Museu)— Triptyco — Cruz 
processional grande — Cruz gothica — Custodia de prata dourada — 
Cálice das campainhas — Cálice de S. Torquato — Cofre de relíquias 

— Capella do capitulo — O Padrão — O milagre — Alcaçaria 96 



- 287 — 

Pag. 

Egreja de Cerzedello 1 29 

Lado sul da mesma egreja 1 3 1 

Egreja de S. Domingos — Arcada do claustro —Andor das candeias.. . . 145 
Egreja de S. Francisco — Capella-mor — Tumulo de D. Constança de 
Noronha — Capella do capitulo — Porta principal da egreja - Capa 

bordada a matiz e ouro — Monumento a D. Affonso Henriques 149 

Egreja da Misericórdia 162 

Egreja de Santa Clara — Organisação do Seminário em Lyceu 177 

Egreja de S. Damazo 184 

Egreja dos Capuchos — Provisão real concedendo a pedra dos Paços 
do Conde D. Henrique — Recibo curioso — Hospital da Mizericor- 

dia i85 

Egreja e convento das Capuchinhas 187 

Egreja e convento do Carmo 187 

Egreja e convento de Santa Rosa de Lima — Demolição da egreja de 

S. Sebastião íoo 

Basílica de S. "Fedro — Deis qua Jros de valor 20: 

Egreja parochial de Santa Marinha da Costa — Interior da egreja 
— Fachada do convento — Cálice de D. Dulce — Extincta Universi- 
dade — Cálice do século XVI — Collegio de S. Damazo 2o3 

Egreja dos Santos Passos . 209 

Egreja parochial de S. Paio — Asylo de inválidos 211 

Egreja de S Torquato 221 

Cruz de S. Gonçalo 235 

Cálice d 9 S. Salvador de Briteiros 236 

. GAPELLAS 

Capella de S. Lazaro 2:9 

Capella de Santa Luzia 240 

Capella de Nossa Senhora da Conceição 240 

Capella da Madre de Deus 2 40 

Capella de Nossa Senhora da Luz 241 

Gruta-Ermida de Nossa Senhora da Penha — Monumento a Pio IX. 246 

Capella de Nossa Senhora da Boa morte 249 

Capella do Senhor Jesus 25o 

Capella dos Terceiros Dominicos — Hospital da Ordem 255 

Capella dos Terceiros Franciscanos — Uma esculptura de Soares dos 
Reis — Sepultura de João Evangelista de Moraes Sarmento — Hos- 
pital da Ordem 255 

Capella de Nossa Senhora da Guia 257 

Capella do extincto Cemitério 27 

Capella do Recolhimento do Anjo 260 

Capella de S. Chrispim 201 

Capella do Cemitério da Athouguia 261 

Capella do Senhor de Campellos 262 

Oratórios »63 

Cruzeiros 273 

Oragos das freguezias de Guimarães 277 



índice das gravuras 



Tas?. 

Templo de Diana (Évora) 3 

Lapide de Constantino (Braga) 16 

Inscripçâo Wisigothica (Braga) 25 

Primitiva Capella de S. Fructuoso ( t raga) : 33 

Interior da referida Capella 35 

Egreja de S. Miguel do Castello (Guimarães) 43 

Pórtico Joannino do Paço dos Duques de Bragança (Guimaiães). ...... 52 

Janellas e chaminés do mesmo edifício 52 

O sino de S. Geraldo (Braga) . 55 

Egreja Cathedral de braga 63 

Porta lateral da referida egreja 67 

Nave central da referida egreja 68 

Porta principal da Sé j3 

Tumulo de cobre dourado (Braga) ... 75 

Pia baptismal (Braga) r t 6 

Cálice de S. Geraldo e o respectivo cofre (Braga) ... . 79 

Frontal do altar do Sacramento (fraga) £2 

Exterior da capella-mór da Sé 84 

Altar- mór antigo S6 

Corpo incorrupto do Arcebispo D Lourenço £9 

Capella de Nossa Senhora da Gloria (Braga) gi 

Tumulo de D. Gonçalo Pereira (Braga) ... 94 

Collegiada de Guimarães 96 

Primitiva imagem de Nossa Senhora da Oliveira (Guimarães.) 102 

Verdadeiro retrato da Virgem (Guimarães) 107 

Triptico ou oratório de prata dourada (Guimarães) 109 

Cruz processional grande (Guimarães) 1 1 3 

Cruz gothica (Guimarães) 1 15 

Cofre de relíquias (Cuiroarães) 119 

Capella do Capitulo (Guimarães) ' 22 

Milagre do Padrão (Guimarães) 125 

Egreja de S. Fedro de Rates 128 

Egreja de Cerzedello (Guimarães) 129 

«9 



— 2Q0 

Pag. 

Lado sul da referida egreja i3i 

Egreja e Hospital de S. Marcos (Braga) i33 

Egreja de S. Domingos (Guimarães) 145 

Arcada do claustro de S. Domingos e andor das Candeias (Guimarães). 148 

Egreja de S. Francisco (Guimarães) 149 

Capei a mor da referida egreja i5i 

Capella do Capitulo dos frades 1 Guimarães) i53 

Porta principal da egrej a de S. Francisco (Guimarães) 1 54 

Capa bordada a matiz, ouro e peJras (Guimarães) i55 

Capella de Nossa Senhora da Conceição (Braga) 167 

Grupo do Enterro (Braga) 170 

Púlpito da egreja do Salvador (Braga) 182 

Egreja de Santa Cruz (Braga) 193 

Púlpito da egreja de Penha de França (Braga) . . 196 

Egreja parochial da Costa (Guimarães) ío3 

Interior da referida egreja 204 

Fachada do Convento da Costa 204 

Cálice de D. Dulce (Guimarães) 20Í 

Cálice da Costa (Guimarães) 206 

Egreja dos Santos Passos (Guimarães) 200 

Sanctuario do Bom Jesus do Monte (Braga) 212 

Vista geral do Bom Jesus 21 3 

Escadaria Antiga do Sanctuario 2i5 

Egreja e Convento de Montar iol (Braga) 219 

Egreja de S. Torquato (Guimarães) 221 

O tumulo antigo do Santo 223 

Corpo incorrupto do Santo 225 

Parte interior da nave em construcção 228 

A parte construída da egreja 228 

Cruz de S. Gonçalo (Guimarães) 235 

Cálice de Briteiros (Guimarães) 236 

Gruta-ermida de Nossa Senhora da Penha (Guimarães) 246 

Cruzeiro de S. Lazaro (Braga) • 27o 

Cruzeiro da praça do Conde de S. Joaquim (Braga) 274 



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