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1872 



i." ANNO 




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KDITOUKS 



ROLLAND & SEMIOND 



1,ISB0A 



q 



OLLABORADORES 



C/C^^^^O 



A. Filippe Sim6es — Alberto Telles — António Ennes— Brito Aranha — Bulhão Pato — Camillo Castello 
Branco — Cláudio de Chaby — Eduardo Augusto Vidal — Francisco Gomes de Anvjrim — Francisco M. 
Tubino — Gonçalves Crespo — Guilherme Franco — Innoccncio Francisco da Silva— José Maria de Andrade 
Ferreira— Júlio César Machado — Latino Coelho— Ludo de Mendonça — Manuel M. Bordallo Pinheiro 
— Marquez de Sousa Holstein — Narcisa (D.) Amália — Pinheiro Chagas — Ramos Cx>elho — Raphacl 
Bordallo Pinheiro — Ribeiro Guimarães — Simões Dias — Sousa Viterbo — Thomoz Ribeiro. 



Rangel de Lima — Director 




o PEZO BEM EXACTO, IIEBIIEUI 

\uin it C. StMwt. 

Editores Rolland & Semiond 

Lisboa. 



ARTES E LETRAS 



ARTES E LETRAS 




Lisboa — Jaxeiko de 1872 



PROGRAMMA da revista — artes e le- 
tras,— cujo primeiro numero é jmbli- 
^, cailo lioje, está exarado no pmspcefo 
ti' 5 distribuido pelos editores. 

Tratar do importante ;^s^^unlpt") 
de bellas-arte.s, tào puieo apreciado 




i^^^^ 




entre nós; diffundir no jiovo o gosto 
j)or esta subliuie manit'esta<,-3o das fa- 
culdades humanas; encaminhar o mo- 
llior que |M>9samos, os que visitam exposi- 
ções « fn-quentani galerias do quadros, 
ma» que jKir falta de edueaçào artistica 
nilo cstlio habilitados para distinguir o 
bom do mau, o Ix-Uo do vulgar: — eia o 
■ ' '■ I d'ista publicaçSo. 

iando tanilK'ni tomar conheci- 
entre nós a» obras artísticas e litterarias 
produzidas no im]M<río do Urazil, quer publi- 
cando gravuras d'iu(uella8, quer ai^nunciandri estos e dando 
tildou (.■; < -ilrti-i liiiii itii^ <i . eollii-r Acerca de 

.-.11- ;mi-ii,r. ;. ju!^;'in.o-, [,,, erA-ieo ao paiz, 

a.'<sini como aos artistas e litteraivis hr de cujas 

pn>diieções tào rara noticia tcinos. 

Para nos insinuannos no animo d'Aquelle« que ainda \ 
I . ' "'..raí-s as-i 

!•• i- de algui 

na revista — artcs c letras — romances, viagi-ns, mono- 
graphias e outras coniposiçiTes litterarias tio n-amhecido 
mérito, e manifestiunente destinadas a desenfadar o lei- 
tor, instmindo-o. 

Eis o que promettemos. 

X3o nos falta — |K)demo8 affirma-lo — a força de animo 
precisa para arrostar com as grandissimas difficuldades 
desta árdua empreza; e, para supprir a ausência de facul- 
dades de (jue cí-rtamentíi carecemos, tencionámos soccor- 
rer-nos ao pn)vado talento dos nos»4»s prineipaes escri- 
ptons, que, melhor do que nós, hílo de contrii»uir para 
a illustradora propagaçHo do doutrinas que tanto têem 
influido no adiantamento e civilisaçào dos paizes mais 
esclarecidos. 

EniHm, se a fortuna nos for prospera e conseguir- 
mos auxiliar o incremento das artes cm Portugal, fica- 
rt>mos em paz cí>in a consciência, porque teremos cum- 
prido a nosso contento a missào de que nos encarregámos. 

RAKOEr., DE LIMA. 



GEÃO VASCO 

E A HISTORIA DA ARTE EM PORTUGAL 
I 

Um dos capitiilos mais interessantes da historia da 
arte é sem duvida o que so refere ás origens da pintura 
em Portugal e ao seu desenvolvimento n'este paiz nos 
secidos XV e xvi; mas so este estudo é interessante, devo 
confessar-se que é jwr emquanto de summa difficuldade. 
Quasi nada so tem escripto sobre este assumpto, e as 
poucas obras que d'elle tratam, são ou confusas, ou in- 
completas, ou quasi inteiramente destituídas de critica, 
acceitando tradições locaes sem as passar ao crysol do um 
rigoroso exame, conservando attribuições evidentemente 
erradas, confundindo epochas, estylos e ató personalida- 
des diversas. Os dois trabalhos mais importantes que 
existem sobro a nossa antiga pintura são obras devidas 
a estrangeiros. E a primeira as Cartas artísticas, e o 
Diccionario do conde do Raczynsky. Contém profundas 
averiguações do factos e dados, numerosas coniiiarações 
de quadros, e investigações que, por serem jís vezes pro- 
ducto pouco amadurecido do estudo do auctor, nem por 
isso são para desprezar nos seus resultados geraes. É o se- 
gundo trabalho a Memoria sobre a antiga escola de pin- 
tura (in Portugal por J. C. Rohinson, e refere-so, como 
o indica o seu titulo, á escola vulgarmente chamada do 
GrSo Vasco, sendo quasi exclusivamente destinada a re- 
futar n'um ponto esj^ecial, mas esto importantíssimo, as 
conclusões do conde d(í Raczynsky. 

Cyrillo Volkmar Machado, Taborda e o próprio Bar- 
bosa Jlachado, tratam da historia da pintura em Portu- 
gal. Este ultimo auctor limita-se a citar algmis nomes e 
algims j>oucos factos biographicos de cada um dos artis- 
tas a que se refere. NíÍo trata, nem este era o seu fim, 
de unui historia systematica e critica da pintura cm Por- 
tugal. Cyrillo o Taborda abalançam-sc a mais, mas as 
suas obras nào silo completas nem seguras. Não pre- 
tendo pnxícssar aíjui estes auctores, apontar as suas de- 
ficiências, 08 erros em (jue laboraram, o a nimia boa fé 
com que acceitaram opiniões ent.ão prevalecentes, c quo 
n.no p<Mliam certamente resistir a um exame conscien- 
cioso o severo, (guando cUes escreveram, a critica his- 
tórica. Bti'ir.'*udo aquclla critica especial quo devo ap- 
■ ' M rirtes, era uma sciencia 
\ih\ do ]M)ucos e usada 
por muitos menos. NAo é para -t! "o nenhuiu dos 

nossím auctores a empreg.isse na -^' <^ 'v.i é po- 

n'm dizer-se que a|X!zar das suas di . imper- 

feições os traballios de Volkmar e do 'Jai, •<!■■!.. ]U'.r' 
valioso serviço aos investigadores da historia da^ 
[fortuguezas, e ainda hoje podem com proveito sor con- 
sultados. 

Sc a estes nomes juntarmos o do douto cardeal Sa- 
raiva íS. Luiz) (jue ])ara eiiijiregar as lioras d'f)CÍo quo 
lhe deixava o (U'sterro, eonqiilou a sua iiistoria dos ar- 
tistas, o do illustro Garrett, que esboçou uma historia 
da pintura, e os dos auctores d'alguma8 memorias c ar- 
tigos acerca d'alguns quadros ou artistas, teremos cou- 
cluido a bibliograjiliia da historia da i)intura (un Portugal. 

(Jreio (jiKí a esta deficiência do oltras especiaes, e 
})ortanto á difficuldade bastante grande quo ha do estu- 
dar estas qiuístões, é que se devo attribuir a opinião liojo 
nmito vulgar (pie a pintura nunca existiu em Portugal 
com uma vida robusta, iiidopendonto e nacional. Refu- 
tar completamente esto erro seria escrever um volume. 
Averiguar miimciosamente todas as particularidades da 
historia da jiintura portugueza pediria largas c trabalho- 



sas indagações nos ardiivos, fastidiosas comparações de 
quadros, discussões teclniicas c históricas que levariam 
muito tempo, (ixigindo de quem as emprehendcsso conhe- 
cimentos nmito profundos e completos. Este trabalho não 
é para mim. Faitam-mo tempo o forças. Nao é também 
para a indolo d'esta publicação. 

O meu fim é mais modesto. Desr;jo apenas dizer cm 
poucas palavras os resultados não a que eu cheguei, mas 
a que chegaram os poucos que se dedicaram a este espi- 
nhoso estudo. 

II 

Não vae longe a epocha cm que da historia das ar- 
tes nas Flandres o em Itália, pouco mais se sabia do que 
actualmente se sabe da arte portugueza. Os quadros an- 
tigos italianos eram de Perugino, os quadros distinctos 
da escola flamenga eram todos de João Van-Eyck. Cor- 
riam o acceitavam-se como verdadeiras as tradições le- 
gendarias acerca de alguns jjintores. Assim Hemling era 
um pobre soldado recolhido por amor de Deus no hosj)i- 
tal do S. João de Bruges, e que pagara a caridosa hos- 
pedagem com os magníficos quadros que ainda hoje são 
o mais bello ornamento d'aquclla casa; assim também o 
pobre ferreiro Matsys, inspirado pelo amor, revclára-se 
um dia pintor insigne, c encontrara na força do seu af- 
fecto inspirações para imaginar e executar os soberbos 
trabalhos que tomaram o seu nome immortal. 

Não ha muito ainda que o acervo de calumnias que 
a posteridade accumulava sobro a memoria de André dal 
Castagno, se desfez com a descoberta de um só docu- 
mento; de assassino e ladrão fora alcunhado pelo pae dos 
historiadores de bellas artes, Vasari, e esta dupla ca- 
lumnia, repetida durante séculos por todos os escripto- 
res, tornara odiosa a memoria do pobre pintor florentino. 
A certidão do seu óbito recentemente descoberta prova 
que falleceu treze annos antes do assassinato de Dome- 
nico Veneziano por outro André que não era pintor, e que 
não pretendia roubar segredo algum artístico, mas vin- 
gar uma affronta pessoal. ♦ 

Ha poucos annos que as investigações de Waagen, 
do Neales, do Wauters, de Michiels reduziram a factos 
verdadeiros o montão de tradições e de lendas que até 
então compunham a historia da pintura flamenga. Não 
ha mais tempo que Rio, Passavant, Ilumohr, Crows, Ca- 
valcaselle, e os annotadores de Vasnri,' para não fallar 
cm muitos outros, fizeram igual trabalho para a historia 
da pintura italiana. A critica severa, um rigoroso me- 
thodo do investigações pacientes o longos estudos nos ar- 
chivos, a comparação attenta dos monumentos da pintura 
que sobreviveram aos estragos do tempo e dos pseudo- 
restauradores foram os elementos de que elles se servi- 
ram para recompor cautelosamente, mas com segurança, 
a historia d'aquelles periodos. Nem se pôde ainda dizer 
que terminou aquelle trabalho de restituição histórica. 
Todos os dias se descobrem novos documentos, se encon- 
tram novos dados, se apuram novos elementos, alterando 
nuiitas vezes as conclusões que se julgavam até então as- 
sentes em solidas bases. O que os trabalhos de Herculano 
foram para as chronicas, está sendo a exccllente obra do 
C. Blanc para as antigas biographias dos pintores. Ha- 
veria talvez mais poesia, mais belleza nas antigas lendas 
que a imaginação popular cre;ira, porém havia n'cllas 
sem duvida muito menos verdade histórica, muito menos 
exactidão do que nas severas mas conscienciosas inves- 
tigações do Niebuhr portuguez. Se os modernos benedi- 
ctinos da historia das artes despojaram muitas biogra- 
phias artísticas de lendas e tradições que as embelleza- 
■\-am, acre8ccntaram-n'as com a descoberta de muitos 



factos importantes, enriqueceram-n'as com os nomes de 
muitos artistas que jaziam esquecidos no pó dos archi- 
vos, desfizeram nuiitas reputações usurpadas, restituíram 
a seus verdadeiros auctores muitas obras que andavam 
ha séculos attribuidas a quem nem sequer contribuíra 
para a sua execução. Assim foi que despojado Cimabuc 
da gloria que lhe conferira Vasari de restaurador ou, 
para melhor dizer, pao da arte em Itália, se vae fazendo 
devida justiça aos numerosos artistas das escolas de Vi- 
cenza. Piza, etc. que prendem o renascimento das artes 
em Itália por uma serie não interrompida aos antigos 
pintores dos séculos VI e vii, c explicam assim o facto, 
inexplicado por Vasari, do apparecimento de Cimabuc. 
Assim foi que se tirou a J. Van-Eyck a gloria que lhe 
haviam conferido de auctor do celebre trypticho da ado- 
ração mystica do Cordeiro, para a dar a sou irmão Hu- 
berto, verdadeiro auctor d'aquella importante obra. As- 
sim foi que os celebres frescos, que até ha pouco eram 
reputados obra commum de Masaccio e Masolino, foram 
com toda a rasão e justiça reconhecidos serem obra so- 
mente do primeiro. 

E quantos outros factos não poderia eu citar? o 
quantos nos não reserva ainda a continuação d'aquellas 
laboriosas investigações, que já deram tão valiosos resul- 
tados? 

III 

Grão Vasco é na historia da pintura portugueza o 
que Van-Eyck, Durcro e Perugino eram na historia das 
artes flamenga, allemã e italiana. São d'elle, ou quando 
muito, e por concessão especial, são da sua escola os nu- 
merosos quadros gothicos existentes em Portugal. Qua- 
dros gothicos disse, sacrificando ao uso commum, que por 
um prtjuizo inveterado conserva uma palavra do todo 
ponto imprópria o insignificativa. Os godos não tiveram 
arte, e muito menos pintura. Não foi d'elles, nem inspi- 
rada por elles aquella soberba escola de architectura, a 
que sem rasão foi dado o seu nome. Creação eminente- 
mente christã, nasceu aquella architectura da necessi- 
dade de reagir contra as formas clássicas, que recorda- 
vam muito a antiga religião e não satisfaziam a fé ar- 
dente e exaltada dos séculos que viu surgir aquella es- 
plendida arte. Adoptado e consagrado por um longo uso 
o nome de gothico para aquelle estylo de architectura, 
ampliou-se á csculptura e á pintura quó foram contem- 
porâneas d'aquelles edifícios. Seja porém como for, pin- 
tura gothica se chamou aos quadros executados até ao 
sccido XV. Em Portugal pois eram todos de Grão Vasco, 
ou da sua escola. 

Mas quem era Grão Vasco, quando e onde nascera, 
onde aprendera, onde fora receber os profundos conhe- 
cimentos teclmicos que seus quadros revelam, quando c 
onde fallecêra, que discípulos deixara, quaes os nomes 
d'estes, eram outras tantas perguntas a que se não res- 
pondera nunca. O apparecimento de Grão Vasco, sem pre- 
cedentes, isto é, sem mestres, sem consequentes, isto é, 
sem discípulos, sem logar determinado de nascimento, 
envolto todo na nebrina de uma tradição indistincta, era 
um facto inexplicável, o que jjor isso a muitos parecia 
inverosímil. 

Quando comcçiíra a fallar-so em Grão Vasco, era 
outro problema que também não fora resolvido até Rac- 
zynsky. Os que foram, segundo a tradição, seus contem- 
2)orancos nem sequer mencionam uma vez o seu nome, 
que só começa a apparecer em meados do século xviil. 
Como explicar este silencio a respeito d'um vulto tão in- 
signe como devia ser aquelle pintor? 

Cyrillo o Taborda, que escreveram na primeira me- 



ARTES E LETRAS 



tade cFeste século faliam cm Grão Vasco, mas limitam-so 
a inserir nas suas obras as tradições vulgares que a res- 
peito d'este pintor corriam no tempo em que escreveram, 
c não citam uma data, um documento, uma obra au- 
tlicntica do artista. Ainda outra fonte do confusões e em- 
baraços. Os quadros de Vasco e de seus imitadores re- 
sentem-se effectivamente de influencias flamengas; os dos 
pintores menos legendários, Campello, o outros dos rei- 
nados de D. Manuel e D. João III mostram claras re- 
miniscências das escolas italianas. Tudo era confusão, 
obscuridade, incerteza. Nem admira que em taes cir- 
cumstancias houvesse quem duvidasse da existência de 
Vasco e da sua escola, e attribuisse a pincéis flamengos 
as producções que se diziam d'aquelles pintores. Foi esta 
a primeira impressão de Raczynsky, e ainda lioje não 
falta quem sustente esta opinião. 

Profundada porém a questão achou-se Raczynsky em 
frente de novo embaraço. Em vez de um pintor Vasco, 
encontrava agora cinco ou seis. Qual era, dentre estes, 
o artista que merecera o glorioso titulo do grande? 

Finalmente deparando com uma certidão do baptis- 
mo de um Vasco Fernandes, filho de Francisco Fernan- 
des, pintor, suppõe que Grão Vasco nasceu em 1552, 
apezar da difficuldade que ha, adoptando esta opinião, de 
explicar como um artista nascido depois da metade do sé- 
culo XVI, pintava quadros, que pelo estylo, composição e 
mesmo technica parecem obra muito anterior. 

Quanto mais se profundava o exame, mais cresciam 
e se multiplicavam os embaraços, a ponto de parecer a 
muitos que seria facto para sempre controverso se houve 
ou não um Grão Vasco, e qual foi a sua posição na his- 
toria da arte em Portugal. 

(Continua). 

MAKQUEZ DE SOUZA HOLSTEIN. 



O MESTEE DE ESCEIPTA^ 

POR 
GERARD DOW 

Entre as magistraes obras de arte hollandezas, fi- 
guram 08 quadros de Gerard Dow, os quaes pela suavi- 
dade, expressão das figuras e perfeito acabamento inspi- 
ram o maior interesse. 

Foi este artista discipulo de Rembrandt e chefe da 
escola de pinturas do género que adoptou. Acabava com 
tanta paciência os seus quadros, que levava muitas vezes 
semanas para tocar o mais insignificante acccssorio. 

As composições que produziu ganharam immensa re- 
putação em sua vida; uma das onze que existem hoje no 
museu do Louvre, foi paga pelo principe Eugénio de Sa- 
bóia pela quantia de trinta mil florins. 

Conta-so como tendo dado origem ao quadro O mes- 
tre de escripta, representado na gravura que damos, a 
seguinte anecdota. 

Sentado a uma das janellas do convento de S. Fran- 
cisco, transformado em escola dos pobres, na cidade de 
Amsterdam, passava o dia Raphael Huelst, homem dos 
seus setenta annos, mestre de escripta dos rapazes po- 
bres, o qual em vez de ensinar os discípulos como devia, 
se entretinha principalmente em escrever titules e docu- 
mentos para a chancellaria dos estados geraes. 

Dnyneke, filha de Gerard Dow, dando uma vez pelo 
velho, cujo typo curioso era completado por gi-andes ócu- 
los, o clássico barretinho e um albornoz coevo de Car- 



los V, correu a participar ao pae o achado, o tal vehe- 
mencia empregou na descripção, que o pintor deixando ca- 
valete e pincéis, pegou da pasta e foi procurar o modelo. 

Gerard Dow quando defrontou com a janella de 
Huelst, doscobriu-se respeitosamente, e começou de exa- 
minar a fronte encanecida do mestre de escripta, a ca- 
deira de braços em que o via sentado, a velha estante 
do gabinete, e a gaiola em que saltitava uma avesinha 
que parecia ser a única alegria do ancião. 

Huelst saudou o observador desconhecido, e conti- 
nuou a trabalhar, sorrindo ajienas do vez em quando aos 
gabos que o artista lhe dirigia a propósito das suas bem 
lançadas letras. 

Como os elogios continuassem, o mestre de escripta 
disse a Gerard Dow: 

— Quero mostrar-lhe uns pergaminhos onde melhor 
pôde observar letras maiúsculas como o mais acreditado 
pintor não é capaz de fazer. A minha opinião será sus- 
jieita, mas, se é entendedor, como parece, ha do confes- 
sar que 08 qtiadros dos nossos primeiros artistas — de Ge- 
rard Dow, de Mieris ou de Metsu, por exemplo — são 
uma insignificância ao pé d'este sublime trabalho! 

— Assim o julga o próprio Gerard Dow, meu caro 
mestre, respondeu o pintor sorrindo — tanto que vem pe- 
dir-lhe algumas lições. Primeiramente porém ha de per- 
mittir-me que o desenhe, porque tenho o maior empenho 
em possuir o retrato de homem tão eminente. 

O mestre do escripta encarou com assombro o seu 
interlocutor, o correu enfadado a cortina da janella para 
se furtar aos olhares curiosos do artista, que, delicada- 
mente, o ferira no seu orgulho. 

A avesinha vendo-se de repente ás escuras, tanto 
esvoaçou dentro da gaiola, que, extenuada do forças, 
caiu morta. 

Ficou horrorisado o velho com a perda da sua com- 
panheira, e taes lamentos soltava que fazia dó ouvil-o. 

— Querida joiasinha — dizia — tu que eras a minha 
única alegria, o meu único prazer, porque me abando- 
nas? Compadccc-te de mim, torna ávida, não me deixes 
só no mundo, peço-te! 

Gerard Dow retirou-se profundamente commovido, 
mas a aventura mais lhe avivou o desejo de retratar o 
mestre do escripta. Baldados porém eram os esforços que 
empregava para esse fim; Huelst rejeitava todas as pro- 
postas. 

Dnyneke, procurando auxiliar o pae nas suas dili- 
gencias, encontrou certo dia uma avesinha igual á que o 
ancião tinha perdido, a qual cantava tão bem, senão me- 
lhor, como a outra. 

Comprou-a e mettendo-a em bonita gaiola, foi pro- 
curar o mestre de escripta. 

O acaso permitte que a avesinha, apenas entra nos 
aposentos do velho, comece a cantar. Raphael Huelst er- 
gue as mãos ao céu, e rompendo em lagrimas, exclama 
commovido : 

— Oh ! não ter eu dinheiro para comprar esta jóia ! 
Dnyneke aproveita o ensejo, e oíFerece a avesinha 

em troca do consentimento de Huelst em servir de mo- 
delo ao pae. 

Momentos depois dizia Gerard Dow ao professor de 
escripta : 

— Escusa de mudar de fato. Desejo represental-o 
como o vi pela vez primeira. 

E o celebre mestre da escola flamengo-hollandeza, 
de quem foram discipulos os eminentes pintores Gabriel 
Metsu e Francisco Mieris, dava principio a um dos me- 
lhores quadros sabidos dos seus primorosos pincéis. 



ARTES E LETRAS 



UM TYPO DO MAGADAM 



Quem não conhece o tyi:)0? Quem o não encontrou 
j;i nas ruas da baixa, encostado á benj^ala, vestindo a 
quinzena justa mas andr.ajosa, aprcscntando-se ora como 
oflieial anniistiado ])ela convenção de Évora Slonte, ora 
como um veterano da liLerdadc, ora como um antigo pro- 
fessor? Conforine o aspecto por onde se encare, assim 
pôde desenhal-o o lápis commovido de Dyckmans, ou o 
lápis amargo de CJavarni, a ])enna compassiva de Sterne 
ou a peima sarcástica de Balzac. 

E se o chapéu im- 
possível, o typo esquá- 
lido o íeio, apagarem 
na imaginação do lei- 
tor a idca de que jxklo 
alli estar um d'csses 
mendigos clássicos, de 
longas barbas nevadas, 
do physionomia esculp- 
tural, do fronte rasga- 
da e pensativa, de an- 
drajos que formam rou- 
pagens, lembrar-lhe-he- 
mos que a natureza não 
obedece ás indicações 
académicas, que a mi- 
séria não se pauta pe- 
los modelos artisticos, 
e que pôde haver uma 
desgi-aça tão profun- 
da n'estcs vultos, cujo 
semblante quasi que 
perdeu todos os contor- 
nos humanos, como nos 
que a pintura consa- 
gra, e que não são ou- 
tra cousa mais do qne 
a idealisação d'esses ty- 
pos vulgai'es. 

O poeta passa á 
noite, n'uma noite fria 
e chuvosa, pelas ruas 
da capital, tíac do thea- 
tro, onde o deslumbra- 
ram nos camarotes, ra- 
diantes de formosura, 
esplendidas do riqueza, 
as nuús gentis mulhe- 
res da roda aristocrá- 
tica. Saboreou todos os 
regalos da arte, no seio 
de iniia atmosphera té- 
pida e suavissima, en- 
tre as harmonias do, or- 
chcstra, acariciado pelos jorros de luz que inundam a 
sala, e fazem scintillar os velludos dos camarotes e os 
doirados das esculpturas. No seio da noite negra e tor- 
mentosa, encontra esses cabellos brancos, açoitados pelo 
vento, banhados pela chuva gélida, vè esse pobre corpo 
decrépito arrastando-se a custo, ouve essa voz tremula 
e iuunilde de um ancião, que implora, respeitoso, a ju- 
ventude. Ao dar-lhe a sua esmola, sente quanto é odioso 
esto contraste, c, chegando a casa ainda impressionado 
por esse triste espectáculo, sendo artista, desenlia uma 
Hgura veneranda e dolorosa de velho mendigo, se 6 cs- 
criptor, traça, como o auctor da Yiacjem sentimental. 



aquclla physionomia melancolicamente bella do monge 
franciscano, que vem pedir, tristemente, uma esmola ao 
desdenhoso viajante. 

Passa um d'esses cruéis observadores da verdade hu- 
mana, que interrogam com olhar fixo o esplendor e a mi- 
séria, os opulentos o os desgraçados. Esses viram no 
theatro não as sedas scintillantes e as macias epidermes, 
mas o escândalo e os vicios que se escondem detraz das 
mascaras formosíssimas. Ao encontrarem o vellio, pa- 
ram também diante d'elle, e dizem-lhc: Tu não és a mi- 
séria, tu és a devassidão! Na tua fronte senil os vicios, 
mais do que os annos, cravaram a sua garra infamante. 

Antes que a chuva mo- 
lhasse os teus cabellos 
brancos, onsoparam-so 
clles no vinho das ta- 
vernas. A tua voz en- 
rouqueceu-a o abuso do 
álcool. Não és o mendi- 
go de Dyckmans, nem 
o monge do Sterne, és 
o barão Hulot de Bal- 
zac, és um declassé do 
Béchard, és um velho re- 
fractário de Jiúio Val- 
lés, és a pústula hedion- 
da da rua e da miséria, 
como as filhas de Go- 
i-iot são as ulceras das 
salas e dos thoatros es- 
plendentes. 

Qual d'estes dois 
tyj)Os será o que Ma- 
nuel de Macedo dese- 
nhou com o seu lápis 
humoristico, onde se en- 
contram uns reflexos do 
talento portentoso de 
GavarniV Porque Ma- 
nuel do Macedo é mais 
do que um óptimo de- 
senhador, é um pensa- 
dor. De todos os nossos 
caricaturistas é o que 
mais se inclina para a 
maneira do auctor de 
Masques et visages. Os 
leitores lançando os 
olhos para o desenho 
que figura no primeiro 
numero d'este formoso 
joi'nal, hão de concor- 
dar de certo em que foi 
o segundo typo o que 
Manuel de Macedo te- 
ve ^principalmente cm 
vista. Ha cynismo n'aquella fi-onte curta, ha um rictus 
idiota n'aquella face avelhentada, e aquelle nariz é o na- 
riz sagrado das libações. Ah! mas não afastemos os olhos 
com repug-nancia. D'esses dois irmãos sinistros, o vicio 
e a miséria, qual foi o ^«'imogenito? N'estes subterrâ- 
neos, que se abrem ao fundo da escada social, e onde se 
arrastam todos os hediondos vermes, filhos das trevas, 
quenivsabe se não bastaria lançar torrentes de luz, para ■ 
afugentar os reptis, para pm'ificar o ambiente? 



PINHEIRO CHAGAS. 




ARTES E LETRAS 




UM EPISODIO DA BATALHA DE CAMPO GRANDE 

TITULO que 
acima fica, c o 
de uma iiotaLi- 
lissima tela 
pintada a óleo 
pelo dr. Pedro 
Américo de Fi- 
gueiredo c Mel- 
lo, esclarecido 
c apreciado ar- 
tista braziloiro. 
Do homens 
celebres pelo 
talento e pelo 
saber, têem si- 
do berço as ter- 
ras de Santa 
Cruz. 

Porto-Ale- 
gre, A. de Aze- 
vedo, Maga- 
lhães, Alencar, 
Macedo e Gon- 
çalves Dias, na litteratura ; Pedro Américo, Victor Mei- 
relles, Motta e Rocha Fragoso, na pintura; Chaves Pi- 
nheiro e Almeida Reis, na estatuária ; Carlos Gomes, Hen- 
rique de Mesquita e Santa Rosa, na musica ; João Caetano 
e Joaquim Augusto na arte dramática, são nomes já res- 
peitáveis para os que prezam as boas letras o as artes, 
e que a posteridade infallivclmente ha de inscrever nas 
paginas brilhantes das glorias do Brazil. 

Bastaria a Pedro Américo — diz uma publicação 
brazileira que temos á vista — quando não tivesse outros 
titidos, outros trabalhos que o nobilitassem, apresentar o 
quadro — Batalha do Campo Grande — para firmar repu- 
tação não só de artista, mas de celebridade como pintor 
de batallias. 

Os precedentes d'este artista, porém, que lhe obti- 
veram entre outras glorias a de alcançar a cadeira do 
esthetica na Academia de bellas-artes do Rio de Janeiro, 
tinham já ilkistrado o seu nome, adquirindo-lhe o diploma 
de hábil e consciencioso cultor das artes. 

E não é só como pintor que Pedro Américo, douto- 
rado ha poucos annos na Universidade da Bélgica, c es- 
timado na sua pátria; os vastos conhecimentos que possue 
de sciencias naturaes o litteratura, cujos são prova al- 
guns escriptos muito considerados em varias institixições 
da Europa, enriquecem os seus dotes o justificam o bom 
conceito em que é tido por amigos e indifFerentes. 

O quadro — Batalha de Campo Grande — que hão 
temos o gosto de conhecer, nem mesmo por algum dese- 
nho, mas que vamos descrever pelo que dizem d'elle vá- 
rios artigos críticos publicados no Rio de Janeiro — mede 
seis metros de comprimento por quatro de largura. 

As figuras do primeiro plano são de tamanho na- 
tural. 

O grupo do centro representa S. A. o príncipe conde 
d'Eu, general connnandante em chefe do exercito brazi- 
leiro, montado em soberbo cavallo branco, que parte a 
galope dirigindo-se ao ponto em que a batalha se fere 
com mais ardor. O capitão Castro, ajudante de ordens 
do principe, lança mão ás rédeas do cavallo do general, 
parecendo querer suspender-lhe a fuga, ao passo que o 
coronel Enéas Galvão, chefe do cstado-maior, roga ao 
principe que se não arroje ao logar mais disputado da 
pugna. 



O capitão do mar e guerra Salgado, ajudante de or- 
dens de S. A. nos negócios navaes, figura n'outro plano, 
mostrando-se afllicto pelo perigo em que se acha o prin- 
cipe, sobre o qual e o seu estado maior, cáe um chuvei- 
ros de balas. 

A direita do quadro e em plano mais afastado, o 
general Pedra bate-se de espada em punho com um offi- 
cial lanceiro de Paraguaios; á esquerda vêem-se os aju- 
dantes capitães Taunay e Almeida Torres, assim como o 
coronel Moraes, avançando á frente da sua brigada do 
cavallaria c infanteria. 

No ultimo plano avistam-se as batei-ias e os fortes 
inimigos nublados pela fumaça da pólvora. 

Soldados paraguayos copiados do natural, apresen- 
tando magníficos escorços, figuram no primeiro plano, e 
bem assim o episodio de um frade capuchinho, susten- 
tando nos braços um offieial brazileiro de artilheria, que 
exhala o derradeiro suspiro. O capuchinho é frei Fidelis 
d'Avola, que prestou durante a memorável campanha do 
Paraguay relevantes serviços, ministrando a feridos e mo- 
ribundos os benéficos soccorros da religião. O militar re- 
presenta o bravo capitão Arouca, que perdeu gloriosa- 
mente a vida no campo de batalha. 

As linhas da composição do quadro, segundo a opi- 
nião dos melhores críticos, são perfeitamente achadas, o 
desenho sempre correcto, a cor boa e as regras de pros- 
pectiva rigorosamente observadas. 

Revelam-nos os folhetos e os muitos artigos publi- 
cados no Rio de Janeiro acerca d'este quadro, não só o 
merecimento d'elle, mas ainda o gosto que ha pelas bel- 
las-artes n'aquelle bem fadado paiz, assim como o vas- 
tissimo conhecimento que alguns escriptores têem da es- 
pecialidade. 

O folheto intitulado — Histórico e analyse estetigra- 
jyhica do quadro de um episodio da batalha de Campo 
Grande^ planejado e executado pelo dr. Pedro Américo 
de Figueiredo e Mello — assignado por Arseos, é bem es- 
cripto e trata desenvolvidamente assumptos de arte e de 
sciencia com muito saber e erudição. No folheto firmado 
por Octaviano Hudson, que tem por titulo — Pedro Amé- 
rico, jnntor de batalhas, descripqão do quadro histórico 
da batalha de Campo Grande — ha também excellente 
doutrina e boa critica. 

Ambos 08 escriptores pedem, a propósito d'este qua- 
dro, protecção ao governo para as bellas artes do seu 
paiz; d'onde se deprehende que lavra no Brazil a mesma 
enfermidade que padecemos por eá. 

Um d'elles, depois de solicitar energicamente certa 
reforma, termina por estas palavras: 

Proceda o governo imperial por forma que possa, 
sem vitupério, repetir em própria applicação estes versos 
do sublimo épico, que cantou Colombo: 

«Nós somos os echos do bello o da gloria 
E não os arautos do torpe egoismo.» 

Juntámos os nossos rogos aos do distineto escriptor 
brazileiro, pedindo aos governos, tanto de um como de 
outro paiz, que olhem com disvelo para tão importante 
assumpto, e lembrando-Ihes que pelo estado de abati- 
mento ou progresso das bellas artes, se afere quasi sem- 
pre o estado de abatimento ou progresso das nações. 



RANGEL DE LIMA. 



ARTES E LETRAS 



DE VERDI 



Fallcnios do D. Carlos, se dão licença que mo es- 
tabeleça n'este cantinho do jornal Artes e Letras, desti- 
nado ao theatro lyrico. Não passa de ser um quarto per- 
dido no grande prédio do jonial, mas farei a diligencia 
por que a mobilia não esteja em desaccordo com a do 
resto da casa, e que o leitor não se queixe de se haver 
demorado um instante aqui. 

N'uma ohra curiosissima, D. Carlos e Filippe II, 
de Gachard, ha uma carta de Badoara, então embaixa- 
dor dos estados venezianos nos Paizes Baixos, em que 
se faz do príncipe D. Carlos quando tinha doze annos o 
seguinte reti-ato: — Cabeça desproporcionada do resto do 
corpo. Cabcllo preto. Franzininho, e ar de mau génio. 
Um dos casos que se contam d'elle, é qvxe gostava de 
ver assar animaes vivos. Deram-Ihe de presente um ás- 
pide da melhor qualidade; do uma vez o áspide mordeu- 
Ihe um dedo: foi-se a elle, e arrancou-lhe a cabeça com 
os dentes. Parece que ha de ser atrevido, e muito dado 
ás damas. Gosta do vestir bem. Tudo indica que ha de 
ter desmedido orgulho, porque na presença do, pae ou do 
avô já lhe custa a estar de bonet na mão. E colérico, 
quanto um pequeno o pôde ser, e teimoso. O mestre não 
faz outra cousa senão explicar-lhe os Officios de Cicero, 
para lhe moderar os Ímpetos do caracter; mas D. Carlos 
não quer quasi sempre fallar senão de cousas de guerra. 
Dizem os hcspanhoes que ha de ser outro Carlos V. . . 

Na opera nada d'isto; apparece em vez d'estc mau 
rapaz aquellc heroe romântico da peça de Schiller, prín- 
cipe generoso, amante perfeitíssimo, um infanção de xa- 
cara a respirar suavidade e amor. Têem sempre os poe- 
tas auctoridado e licença para estas audácias, e já dizia 
o Horácio que é privilegio d'elles e dos pintores o atre- 
verem-se a tudo: 

pictorihus atque poetis 
Quidlibet auãendi semper fuit oiqua potestas. 

Não ó pequena liberdade também a de D. Carlos di- 
zer a Filippe II que conceda ao povo a liberdade de pen- 
sar, — exactamente como diria hoje qualquer dos da In- 
ternacional; — idéa d'este tempo, idéa extraordinária para 
a epocha d'elles, como seria se os athenienses mandassem 
embaixadores ao outro Filippe, ao da Macedónia, a pe- 
dir-lhe um caminho do ferro para a Beócia! 

O librettista francez — escriptor primoroso, um dos 
phantasistas mais elegantes e attrahentes da litteratura 
moderna, Méry, fez a obra pelo molde — quanto possí- 
vel — da peça original; mas modificou umas scenas e mu- 
dou outras. Por exemplo o episodio do Infante com Elisa- 
beth, c prologo do poeta francez : composto provavelmente 
para legitimar por alguma maneira o amor do enteado 
pela madrasta, e dar ao caso melhores aros do decência. 
Também não existe no tragedia de Schiller aqucUe desen- 
lace da opera, que só uma noite se cantou em S. Carlos, 
6 que faz lembrar os lances arriscados dos antigos dra- 
mas do Salitre, coUocando theatralmente o avô entre a 
ira do pae o o perigo do filho. Schiller não tratou do 
desenlace, nem lhe viu talvez possibilidade; terminou a 
tragedia com uma scena do despedida e do renuncia a 
amores : 

— A minha Elisabeth, diz lá D. Carlos, é a Flandres ! 

O marquez do Poza, aquello marquez revolucioná- 
rio, jiassa na opera de um lado para o outro sem mar- 
car definitivamente o logar que occupa, senão pela in- 



terpretação prodigiosa que um cantor sempi'e admirável, 
o barítono Cotogni, lhe dá no nosso theatro lyrico. De 
quando em quando o libretto quer ir para a idéa de 
Schiller e consei-var-lhe a feição; 6 n'esses pontos, a meu 
ver, que a opera falha; Poza não passa de um confiden- 
te, mas como o publico de S. Carlos ouvia melhor este 
confidente do que as revelações do príncipe, — uma vez 
elle morto, tudo para nós morreu com elle ; e Carlos V 
ouvindo soar a hora de perigo e de morte para o neto, 
saiu do seu tumulo de S. Justo, de coroa na cabeça e 
purpura imperial nos hombros, para assistir a um perigo 
mais imminonto ainda — o da queda da opera arrastada 
pelo quinto acto! 

Da segunda recita cm diante, os cartazes de S. Car- 
los annunciaram sempre que a opera terminava com a 
morte do marquez de Poza. Ia n'isto uma galanteria para 
Cotogni, e uma reverencia para o publico, que não que- 
ria— .cançado de quatro actos de musica, n'um paiz em 
que as operas de cinco actos não são as mais predilectas 
— pôr-se á escuta d'aquelle nada ruidoso do quinto acto, 
que arrefece o eíFeito dos actos precedentes. 

É escripta com amor, com os cuidados e extremos 
da paixão, esta opera; respira em toda ella o desejo de 
Verdi de descobrir horisontes novos. Não poderíamos jul- 
gar do valor intrínseco da musica, mas se nos levarmos 
pela auctoridade indiseutivel dó effeito que ella produz 
na multidão e das impressões que desperta, — que de tre- 
chos graciosos e lindíssimos, que de contrastes, que doce 
melancolia no motivo principal d'aquelle duetto que, de- 
pois de unir as vozes dos dois amigos, passa de vez em 
quando na orchestra como a lembrança d'aquella affeição, 
e no final ainda como o adejar da saudade. . . 

A canção do véu, de rythrao agradável e pittoreseo, 
deve todavia a maior parte da originalidade e do encanto 
que llie achámos em Lisboa, — - estando tão habituados á 
musica hespanhola, que lhe serve de molde e lhe dá o 
caracter — á gi-aça e ao primor com que Mad. Fricci a 
cantou. Quando ha doze annos esta priraa-dona, então 
na aurora apenas da sua carreira, deixava Lisboa para 
ir crear n'outros theatros, onde foi gloria e fortuna, o 
vasto reportório que hoje anda preso á sua voz e ao seu 
nome, bem se viu desde logo que amplos horisontes iam 
abrir-se ao seus raros dotes; eil-a do novo entre nós, ao 
fim de tanto tempo, « entre a partida e o regresso pas- 
saram-se doze annos, sem que falte uma nota ás jóias 
d'aquella voz, nem se desenhe uma ruga como lineamento 
imperceptível n'este talento já instruído mas sempre en- 
cantador. Foi a Arte lapidando o diamante; mas o Tem- 
po, medroso, passou sem lhe tocar! 

Tudo que canta o marquez de Poza tem mais cara- 
cter pela execução que se lhe dá do que propriamente 
pelli melodia em si; não são cores, são nuances; e é exa- 
ctamente por isso que ainda a musica d'essa parte fica 
melhor incumbida a tão delicado cantor como Cotogni. 
Para o que elle tem de cantar no D. Carlos, não me pa- 
rece que bastasse voz, nem saber; é preciso gosto e alma, 
que são, a meu ver, as mais notáveis prendas d'este ar- 
tista extraordinário. 

O terceiro e quarto acto, aquelle principalmente, 
conteem bellezas variadíssimas, ondas sonoras, que se 
vão acastellando umas sobre as outras, conservando a fei- 
ção própria, ora ternas, ora ferozes, e concorrendo para 
um todo grandioso. N'alguns trechos sente-se de mais tal- 
vez o espirito monachal que Verdi quiz de propósito- dar 
á opera, para se traduzir n'eUa a Hespanha catholica; 
mas passa-se depressa d'aquelle frio do claustro para o 
calor da paixão, e a inspiração ardente do maestro res- 
plandece logo, como o sol, na orchestra e no canto. 



ARTES E LETliAS 



Taes sào as impressões que me deixou esta opera 
admirável, escriptas dcspretenciosamente e com a mira 
apenas de me desempenhar da missão que este joraal me 
fez a honra de incumbir-me, a fim de prestar ao D. Car- 
los de Verdi a distincçào que se devia á opera nova dada 
este anno em S. Carlos. Diligenciei, quanto pude, ser ver- 
dadeiro, attendcndo a indole d'esta publicação; e evitei 
sempre as divagações de folhetim, porque se me houvesse 
permittido gracejos — teria talvez de lhes pedir descidpa; 
prefiro pedir-lh'a. . . de ter querido ser serio. 

JÚLIO CESAU MACHADO. 



OS CENTO E 11 QUADROS DE TARDIF, AJIICO DE 6ILL0T 



ARSÉNIO HOUSSAYE 



Entre os mais celebres amadores de quadros que ha- 
via em França, no fim do século XVII, figurava na pri- 
meira plana Tardif, antigo engenheiro e mais tarde se- 
cretario do marechal de Boufflers. Foi amigo de Watteau, 
de Largillière e de Audran, mas principalmente de Gillot. 
Quando fazia critica artística, era sempre justo e verda- 
deiro. Terminado um quadro, ninguém ousava julgal-o 
publicamente em quanto não era submettido ao olhar in- 
telligente de Tardif; a sua opinião era, por assim dizer, 
o ultimo toque de pincel. O próprio Watteau, que zom- 
bava dos críticos, dizia ao largar a palheta depois de aca- 
bar uma das suas telas: 

— Que maravilha! Se Tardif estivesse presente as- 
signava-a. 

Tardif possuia na rua Gít-le-Cceur um dos mais cu- 
riosos gabinetes de Paris. O marechal de Boufflers, que 
não ignorava a paixão do seu secretario, dava-lho todos 
os annos, pelas amêndoas, um trabalho de mestre. Tar- 
dif tinha de sua casa o suflSciente para comprar quadros 
aos seus amigos pintores vivos e dos seus amigos pinto- 
res mortos. O gabinete da rua Gít-le-CcEur gosava de tal 
nomeada, que o duque de Orléans foi lá uma vez acom- 
panhado por Nocé, o que acabou de dar volta ao juizo 
de Tardif. No entanto se elle não tivesse padecido senão 
d'esta sublime loucura, que é prova da mais nobre aspi- 
ração á poesia do bello, haveria conservado com que vi- 
ver honradamente até lhe soar a ultima hora; mas, como 
tantos outros, foi também acommettido da fatal insânia 
de adqviirir dinheiro com dinheiro, e deixou-se lograr pelo 
systema financeiro de Law. N'uma palavra, perdeu n'a- 
quella revolução das riquezas Irancezas, tudo que possuia, 
excepto os quadros. 

Era mister, porém, viver. Outro qualquer trataria 
de se desfazer das obras primas ; Tardif desfez-se apenas 
dos creados. 

— Vão-se embora, meus amigos, tratem da sua vida, 
procurem commodo onde haja dinheiro; eu actualmente 
não posso ter em casa senão pessoas que não comam: os 
meus quadros me farão companhia. 

Tardif sentia-se velho, já não tinha o mais pequeno 
logar no coração para as paixões da vida ; não precisava 
portanto senão de uma réstea de sol no quarto para vi- 
ver satisfeito. 

Restava-lhe ainda vinho na adega. Desceu lá e no- 
tou com alegria, visto que já não tinha mesa franca para 
os amigos, que o vinho duraria mais do que elle ; que 
poderia até, em dia de jubilosas recordações, convidar 



Watteau c Audran para ouvir com ambos o feiticeiro gró 
gró das garrafas. 

Vinha socegadamente da adega com uma garrafa 
em cada mão, quando na escada deu do cara com o ve- 
lho Gillot. 

— Watteau e Audran ainda vá, diz Tardif; mas Gil- 
lot! .. . o tonel das Danaides ! 

Mal tinha acabado estas palavras, já o velho pintor, 
devoto aftectuoso de Baccho, lhe havia tirado uma gar- 
rafa, collocando-a amorosamente sobre o coração. 

— Meu pobre velho Gillot, são só as que me restam. 
— E o mesmo, profere Gillot; uma para cada um. 
O futuro para Gillot nunca chegava ao dia seguinte. 

— Sabes, amigo Tardif, proseguio elle, que venho 
jantar comtigo? 

— Da melhor vontade, amigo Gillot; mas previno-te 
de que não temos grandes guisados para saborear. 

Entraram. Tardif poz na mesa um pedaço de pão 
secco. 

■ — Safa! disse Gillot desdobrando o guardanapo, vi- 
ves da melhor maneira para despedir hospedes. 

Entretanto o velho Tardif, mastigando intrepida- 
mente uma côdea, passeava o olhar em roda de si para 
contemplar as suas queridas telas. 

— Que me importa? dizia elle; d'ora em diante não 
comerei apenas pão secco e vinho, almoçarei um Teniers 
ou um Ruysdael, jantarei um Van Dyck ou um Mm-illo, 
cearei um Santerre ou um Watteau. Nos dias de festa virá 
á mesa um Paido Veronez; nos dias de tristeza, quando 
estiver com fastio, debicarei uma das tuas obras primas 
tão vivas e alegres, amigo Gillot. 

— Bem pensado e bem exposto, exclamou Gillot, en- 
chendo o copo. Se todas estas obras primas fossem mi- 
nhas, todas comeria, e com tanto appetite, que no fim de 
meia dúzia de annos não existiria nem uma. Vae com o 
que te digo, amigo Tardif, não fujas do mundo para vi- 
ver com estes personagens mudos que já se riem de ti. 
A mãe natura não te deu boca para tu te sustentares de 
chimeras. Não queiras parecer-te com o cão da fabula que 
comeu a sombra e se damnou. 

• — Como te approuver, amigo Gillot. Se não gostas 
d'este systema de vida, não te assentes mais á minha 
mesa. Quanto a mim, acho que o meu espirito tem mais 
fome que a minha boca. 

EfFectivamente Tardif persistiu em sustentar-se de 
pão secco e vinho em companhia dos seus valiosíssimos 
painéis. 

Deu o relógio a uma vendedeira que abria ostras á 
porta de uma taverna defronte das suas janellas, com a 
condição de lhe trazer todas as manhãs o pão, vir fazer- 
Ihe a cama e varrer-lhe o quarto. A vendedeira era mu- 
lher bem conservada, tendo ainda uns longes d'aquella 
malfadada bellcza que se perde aos vinte e cinco annos, 
e até mais cedo, quando se vendem ostras aos freguezes 
das tavernas. Cantava alegremente, ria com o riso en- 
cantador que assoma aos lábios vermelhos e deixa ver 
uns dentes brancos. Com a tovtca ao lado, a saia curta 
e o seu ar jovial, era mais um quadro na galeria, e não 
era dos peiores. 

Tardif, apesar de velho, habituou-se áquelle quadro 
como aos demais, e, como tinha a voluptuosidade dos con- 
tornos e da cor, succedia-lhe, ás vezes, sem dar por isso, 
passar carinliosamente a mão pelas rosadas faces da ven- 
• dedeira. Esta soltava uma gargalhada, o continuava com 
o que estava fazendo. 

As cousas caminhavam assim, quando Tardif, que, 
só de longe a longe, costumava sair, encontrou em casa 
do abbade Le Ragois, o grammatico R. P. Dequet — assi- 



8 



ARTES E LETEAS 



duo frequentador do palácio Boufflers, no tempo em que 
Tardif era secretario do marechal — jesuíta celebre c pro- 
curador do noviciado no bairro Saint-Gcrmain. Ao ver 
esto santo homem seguil-o para toda a parte, Tardif quiz 
ir-se embora, avisado vagamente não sei por que presen- 
timento do coração; mas o reverendo padre foi-lhe n'esse 
mesmo momento apresentado pelo abbado Le Ragois. 

— Meu caro senhor, proferiu o P. Dequet, soube por 
este amigo que possuo uma das mais curiosas colleeções 
de quadros que ha no mundo: quer fazcr-mo o especial 
favor de me admittir em sua casa? Os quadros sào a 
única distracção um pouco profana, que eu concedo ao 
meu espirito. 

Tardif, apesar de não gostar de visitas e ter fraca 
estima pelos jesuítas, não ousou fechar a porta de casa 
ao P. Dequet. Esto procuro u-o dois dias depois, acompa- 
nhado pelo abbado Le Ragois. Tudo elogiou — magdale- 
nas e virgens, bacchantes e magdalenas — com tão expan- 
sivo enthusíasmo, que nuiito lisonjeou o velho amador. 

— Confcsso-lho, disse este ao P. Dequet, que não sou 
dos que mais acreditam na virtude dos jesuítas. A sua 
moral está bem longe de ser a do Evangelho; os senho- 
res têem um modo do interpretar os livros santos com 
que eu me não conformo. A meus olhos, porém, o senhor 
não ó da congregação; é amador de quadros, o como tal 
encontrará sempre a minha porta aberta. 

O reverendo padi'e voltou amiudadas vezes ao ga- 
binete de Tardif, que, a pouco e pouco, lho concedeu a 
sua amísade. Os outros amigos, os antigos, os verdadei- 
ros amigos, os que lhe bebiam o vinho e fallavam de me- 
lhores tempos, zombavam do seu fraco pelo P. Dequet. 
Prophetisavam-lhe que acabaria por entrar, olle e os qua- 
dros, para a companhia de Jesus. Tardif ria do caso, e 
parecia não se inquietar com o futuro. 

Ao mesmo tempo o P. Dequet não perdia um mi- 
nuto. Mostrava a Tardif, com evangélica doçura, os pe- 
rigos de viver só quando se possuem obras do mestres o 
objectos de valor. Entrcabría-lhe com mão discreta, mas 
attrahente, a porta do noviciado do bairro Saínt-Ger- 
main. 

— Em nada mudará os seus hábitos, viverá como 
pagão, se for da sua vontade, tal qual vive presente- 
mente. Se adoecer, não terá um estranho á cabeceira do 
seu leito de dor; lá estaremos nós todos, porque somos 
todos irmãos dos que padecem. Não reeeiará que lhe rou- 
bem a riqueza que possuo, porque, como sabe, leva-se 
um quadro como um livro; podemos preparar-lhe entre 
nós uma espaçosa alcova, onde os seus cento e um qua- 
dros estarão todos pendurados. 

— Cento e um! com que então já os contou? disse 
maliciosamente Tardif ao P. Dequet. 

— Contar não, respondeu balbuciando o jesuíta. Se 
lhes sei o numero, é porque o senhor m'o disse. 

Percebendo que tinha avançado de mais ou que a 
occasião ainda não era boa, tratou de fazer uma retirada 
airosa para não perder inteiramente a batalha. 

— A amísade cega-me talvez, continuou tristemente. 
O que eu desejo, meu amigo, é que o senhor viva por 
muitos annos, sem se inquietar, acompanhado pelos seus 
quadros. Acredite o que lho digo, o senhor tem demasiada 
confiança nos vizinhos; esta vendedeíra, jjor exemplo, 
que vem aqui a toda a hora, que entra e sae sem pedir 
licença, sabe Deus o que medita! Saiba meu amigo, que 
a tenho encontrado umas trcs ou quatro vezes em certo 
annazem do quadros da ponte de Nossa Senhora! 

Tardif deu um salto como um veado ferido : o golpe 
fora certeiro. 

— Gersaint! exclamou; um patife que fcz com que 



Watteau não me vendesse um dos seus melhores quadros 
Cythera hloqu^ada. Se ella tomar ao armazém de Ger- 
saint, nunca mais lhe abro a porta. 

— ]\Iíis, meu amigo, como ha de saber se ella volta 
lá ou não? o senhor já não tem pernas para ir nas pega- 
das de raparigas como aquella, e a ladina terá o cuidado 
de nunca lhe dizer aonde vao nem d'onde vem. 

— Tem rasão. 

— Por Deus lhe juro que foi o P. Le Ragois quem 
me abriu os olhos sobre o assumpto. 

— E se eu a dispensar dos seus serviços, quem me 
comprará o pão, descerá á adega e me fará a cama? 

— Nada mais simples; eu lhe enviarei alguém do no- 
viciado. 

— N'esse caso prefiro servir-me a mim próprio, por- 
que, como já lhe disse, afora alguns espíritos superiores, 
como vossa reverendíssima e o P. Le Ragois, odeio tudo 
que me cheira a saci'istía. Decidi de mim para mim mor- 
rer impenitente. Todavia, posto de sobre aviso acerca do 
um perigo ímmínente, não quero tomar a ver essa mulher, 
e nunca mais permittírei, seja a quem for, exceptuando 
dois ou três amigos, que penetre no meu caro santuário. 

Effectivamente Tardif declarou á vendedeíra que já 
não precisava dos serviços de pessoa alguma, e, a con- 
tar d'aquellc dia, viveu na mais rigorosa solidão, imagi- 
nando que todos os vizinhos e jiessoas que via passar pela 
rua, não andavam preoceupados por outra idéa que não 
fosse a do lhe entrar cm casa e levar-lhe os quadros. 

Ia elle mesmo de manhã buscar o pão; não fallava 
com pessoa alguma. Se se arriscava, a ir até ao adelo 
mais próximo, para se recordar dos bons tempos em que 
ainda comprava quadros, fazía-o apertando na mão con- 
vulsa a chavo da jwrta. Encontrava muitas vezes a ven- 
dedeíra, mas voltava-lhe a cara para não ouvir o que ella 
dizia. 

— Ah! meu infeliz sr. Tardif, ninguém me tira do 
miolo que o senhor vem a dar em doido; os jesuítas têem- 
Ihe posto a cabeça á rasão de juros. Creia que lhe andam 
nas piogadas os corvos, e olhe que as minhas cantigas va- 
liam mais que as d'elles. 

— Assim é, dizia de si pai'a eomsigo o pobre Tar- 
dif; mas os meus quadros! 

Comtudo não podia deixar de ter saudades d'osses 
dias, ainda tão próximos, em que a folgasã vendedeíra 
lhe espalhava o perfume da alegria no quarto o no coração. 

O P. Dequet perguntou-lhe mais tarde se tinha her- 
deiros. 

— Tenho herdeiros, tenho; um irmão e uma irmã. 
Meu irmão possuo alguma cousa de seu; minha irmã sus- 
tenta uns poucos do filhos, que são toda a sua riqueza. 
Sinto bastante haver perdido os meus bens com os j)líi- 
nos financeiros de Law ; senão havia do provar um dia 
a essas creanças quanto sou amigo de sua mãe. 

O P. Dequet deu duas ou três voltas no quarto, \>a.- 
rando em frente de cada quadro suspirando. 

— Não será pena, dizia entre os dentes, que tão pre- 
cioso gabinete se disperse um dia? 

— Nunca! exclamou Tardif. 

— Creança velha! continuou o jesuíta; o que quer 
que os seus sobrinhos façam d'estcs quadros ? . . . 

— Tem rasão. Os bourgonhezes gostam da côr, mas 
da eOr do vinho. 

— É verdade, meu pobre Tardif; os seus quadros 
serão vendidos a quem mais der por clles. Uns irão para 
o armazém do seu inimigo Gersaint, os outros para casa 

• do algum judeu, que os occultará, jirivando-os da luz (jue 
lhes dá vida. Estes embarcarão })ara a America, aquellcs 
partirão para a China ; quem nos diz a nós que este for- 




GERARD DOW 



imim m ligi^im. 



Editores Rollaíid ft Semiond iisboa 



ARTES E LETRAS 



moso Festim de Vcroncz nao virá a sci' exposto um dica 
nos cáes ás injurias dos que os frequentam? 

Tardif empallideceu. 

— Está-me assassinando, disse ao jesuita juntando 
as mrios. 

E deu uma volta em redor do quarto, deitando me- 
lancólicos olhares para os quadros. 

— Nao sabe — accrescentou voltando-so rapidamente 
para o P. Dequet — o que mo succede amiudadas vezes 
durante as minhas noites de insorania? Tenho um singu- 
lar desejo, _quc ainda não me atrevi a declarar a pessoa 
alguma. E mandar construir uma galeria subterrânea 
onde possa entorrar-me com os meus quadi-os. Acha lou- 
cura, bem sei ; eu também já tirei d'ahi a idéa, por me 
lembrar que essas preciosas telas nunca mais veriam a 
luz do sol. Mas, por quem é, meu amigo, não fallemos 
d'isto; o senhor fez-me febre; hoje nao ceio. 

O P. Dequet foi-se embora deixando Tardif entre- 
gue a tão lúgubres angustias, que o infeliz velho foi dei- 
tar-so meio morto. No dia seguinte a febre continuava. 
Não quiz fallar a pessoa alguma, nem mesmo ao amigo 
Gillot, o sou génio bom. 

Na outra manhã, a febre tornára-se mais violenta; 
a morte veiu bater- lhe á porta. Tardif não abriu, mas a 
tristeza não se afastou. Quando appareceu o P. Dequ^et a 
morte entrou com elle. Tardif já não estava em seu juizo. 
Não tinha agua, e pedia que lhe dessora de beber. 

— Ah! meu infeliz amigo, disse-lhe o P. Dequet, não 
esperava encontral-o de cama. 

Foi elle mesmo buscar agua. Tardif depois de be- 
ber, agradeceu-lhe com a voz tão alterada e usando ex- 
pressões tão singulares, que o P. Dequet disse comsigo: 

— Está por pouco. 

Durante duas horas não abandonou a cabeceira do 
leito do doente, procurando dominar aquella rasão aba- 
tida, que até ali se havia rebellado contra os seus affa- 
gos. O que elle disse ao enfermo nunca pessoa alguma o 
soube. Á verdade é que, no fim do duas horas, o P. De- 
quet tinha nas mãos estas eloquentes linhas escriptas por 
Tardif: 

«Cedo ao noviciado dos jesuítas todos os meus qua- 
«dros, como prova da consideração que tenho pelo P. De- 
«quet, meu amigo, que desde já os pôde levar d'aqui. 



«Paris, 20 de maio de 1728. 



«Takdif.» 



O P. Dequet não era homem que esperasse pela 
morte de Tardif para se julgar o legitimo herdeiro das 
obras primas. O primeiro cuidado que teve não foi ad- 
ministrar o viatico ao moribundo, nem correr a casa de 
algum medico ou boticário — bem se importava elle com 
a alma e com o corpo do Tardif — o seu pensamento es- 
tava empregado única o simplesmente nos quadros. Por- 
tanto apenas se apossou da declaração por escripto, saiu 
á rua, ' chamou uma dúzia de vadios, levou-os a casa de 
Tardif, 'e, emquanto o pobre homem gemia no leito da 
dor, mandou-lhes carregar com os quadros. 

Custa a crer, mas 6 certo; elle próprio os despen- 
durava com sombria avidez. Reservou as pequenas pre- 
ciosidades flamengas, do tamanho da palma da mão, para 
irem comsigo na carruagem. Os homens que tinha cha- 
mado não poderam, do primeiro carreto, conduzir mais 
de sessenta qviadros. Levou vinte e um na carruagem. 
D'esta sorte ficaram ainda vinte em casa de Tardif. O je- 
suita nem mesmo se despediu d'elIo. Apenas do quando 
em quando, despendurando ao mesmo tempo os quadros, 
lançava olhares furtivos para a cama, a fim de certifi- 



car-se de que o desgi-açado continuava cada vez mais en- 
tregue ao delírio. 

No entanto a vizinhança estava indignada com aquel- 
la profanação, com aquella impiedade, com aquelle sacri- 
légio commettido pelo reverendo padre. Mas como, apesar 
de tudo, Tardif, havia mezes, não queria ouvir fallar de 
nenhum dos vizinhos, e ninguém se interessava por um 
velho tonto agastado do mundo e occidto n'um gabinete 
de pinturas, correu o negocio como no theatro, onde se 
consente que tantos crimes se commettam sem que pes- 
soa alguma cuide em lhes pôr embargo. 

Passou a manhã; o P. Dequet ainda não tinha vol- 
tado: provavelmente fora preciso preparar uma casa no 
noviciado própria para receber os quadros, muitos dos 
quaes não eram dos mais catholicos. 

Tardif, saindo subitamente da modorra em que es- 
tava, deitou a cabeça fora do leito e chamou pelo P. De- 
quet. Pela primeira vez na sua vida se assustou com o 
silencio. Perguntou a si próprio se já estava na cova. 
Saltou para o chão. 

Ao ver as paredes nuas, começou a gritar que o rou- 
baram, correu á janclla, abriu-a, arrancou os cabellos, e 
chamou a vendedeira, qu^e estava, como era costumo, jo- 
vialmente assentada á porta da taverna, sorrindo aos que 
comiam ostras e bebiam á sua saúde. 

Quvindo Tardif chamal-a, a rapariga levantou-se do 
seu logar o veiu fallar-lho debaixo da janella. 

— Venha cá depressa, lhe disse Tardif; não vê que 
estou para morrer? Ainda se fosso só isso! mas rouba- 
raiji-me os meus quadros! 

A vendedeira subiu a casa de Tardif; não era mu- 
lher de reserva. Alem d'isso tinha predilecção pelo bom 
do velho que lhe contava historias e fallava dos seus bo- 
nitos olhos. Quando entrou no quarto cncontrou-o des- 
maiado no chão. Tomando-o immediatamente nos braços 
conduziu-o para a cama. 

— Em todo o caso, disse comsigo, não é possível 
deixal-o morrer como um cão. 

Quando o enfermo abriu os olhos estava ella ao pé 
de si, tendo nos lábios o seu eterno sorriso. Mandara cha- 
mar um medico, o qixal não tardou a chegar. O medico 
declarou que Tardif não chegava ao dia seguinte. 

— Tem parentes? perguntou-lhe. 

— Levaram-me todos, respondeu o moribundo; os 
melhores já se foram; ainda ahi estão alguns, mas de que 
valem sem os demais? 

Tardif não prestou ^outros esclarecimentos. 

Gillot appareceu. A vista d'aquolle rosto tranquillo, 
o pobre Tardif viu um raio de intelligoncia illuminar-lhe 
o espirito: 

— Ah! amigo Gillot, porque estiveste tanto tempo 
sem vir ver-me? Ainda lá existo mais de uma na adega 
á nossa espera, deitada no chão como dentro em pouco 
cu estarei; eu já não sou mais do que uma garrafa des- 
pejada. 

Gillot pegou nas mãos do doente e diligenciou con- 
vencel-o de que ainda não morria. 

■ — Eu não sou medico, amigo Taixlif; mas, se que- 
res ir com o que te digo, manda buscar quatro garrafas 
de vinho, uma para mim, outra para ti, a terceira para 
o medico e a ultima para a morte se lhe der na mania 
apparecer. 

— Tem toda a rasão! exclamou a vendedeira; mas 
foi pena esquecer-sc de mira. 

Tardif sorriu com o agi'adavel sorriso dos seus me- 
lhores dias; de repente, porém, terrível pallidez lhe cobriu 
o rosto. 

— Os meus quadros ! os meus quadros ! os meus 



10 



ARTES E T.ETIIAS 



quadros! Coiiibinarain-sc todos para me roubarem os 
meus quadros! 

Ergiieu-sc um pouco e tornou a cair esgotado de 

forças. 

Nao pronunciou mais palavra. Gillot c a vendcdcira 
velaram toda a tardo o toda a noite á cabeceira do en- 
icriiio. (^uc lhe beberam algum vinlio, isso é mais que 
certo; mas foi tudo quanto obtiveram do expolio. 

Tardif soltou o ultimo suspiro ao nascer do dia. A 
agonia começ!Íra-lhe do tarde, na occasião em que o P. 
Dequet voltou para conduzir os últimos quadros. A ven- 
dcdcira tomou o encargo de lhe fazer um acolliimento di- 
gno da sacristia e dos mercados. (Jillot, embora penali- 
sado pelo próximo fim do amigo, não pôde furtar-se ao 
prazer de aj)plaudir a eloquência tao colorida e pittoresca 
da d<'sembaraçada rapariga. O P. Ucquct pretendeu afas- 
tar com maus modos a vondodeira para se approximar 
do leito do enfermo, ou antes para entrar no gabinete 
dos quadros. Houve começo de luta, na qual o reverendo 
padre não ficou de melhor partido, poi-quo a vendedcira 
serviu-so de tão pesados argumentos, que até a um santo 
jcsuita deviam convencer. O P. Dequet saiu, mas na fir- 
me resolução do voltar d'ahi a pouco, escoltado jjor um 
exercito de homens de lei. Gillot havia escripto á famí- 
lia de Tardif. O irmão do defunto, que emprehendêra 
uma viagem a Paris, vciu saber d'ell(! no próprio dia da 
morte. Gillot informou-o de tudo que se passiíra, e acon- 
selhou-o a que demandasse os jesuitas para haver os qua- 
dros, convencido de que tão respeitável congregação não 
ousaria proseguir em tal processo. 

— Sc tornar a haver os quadros, disse a vendedci- 
ra, ha de me dar um do sr. Gillot, que representa uma 
scena de feitiços. Considerar-me-hei com elle bem paga 
dos serviços que pi"estei a seu irmão. 

— Pois eu, disse Gillot, não me contento com tão 
pouco; peço doze garrafas de velho bourgonha, para me 
enfeitiçar ainda umas doze vezes antes de dizer adeus ao 
mundo. 

O que fica referido é ai)enas o prefacio de uma 
causa celebre; que está incluida no duodécimo volume da 
edição lliché '. 

«Ao cabo de três audiências, de duas horas cada 
uma, os reverendos padres jesuitas do noviciado foram 
condenmados a restituir os quadros e a pagar o valor 
dos que, segundo disseram, se tinham extraviado. A sen- 
tença é de 9 de agosto de 1721). Não houve appellação. 

«Notou-se entre as testemunhas o sr. Gillot, pintor 
da Ojjera, e Maria Anna Vatout, vendedeira, os (juacs 
foram considerados como os molhoi"cs advogados dos her- 
deiros. » 



Os quadros passaram para os herdeiros, que os ven7" 
deram, chamando sobre clles a attenção geral. Onde exis- 
tirão essas obras primas tão queridas de Tardif, essas 
meninas de seus olhos, esses encantos de seu espirito? 
Fariam viagem á roda do miindo? Mysterio similhante 
ao da liliação e das emigrações dos povos. Veiu parar-me 
ás mãos luna cabeça expressiva, luminosa, não assigna- 
da, mas que denuncia o toque alegro e opulento de Gil- 
lot, esse filho pródigo que viveu sempre com mulheres 
do má fama até ao decair da vida. Kas costas do qua- 

1 Esta ediçfio é de 1776. Foi pulílicada em Amsterdam, por 
Marc-Michel Hey. O processo dos cento e um quadros apenas occupa 
vinte e seis paginas, de 445 a 470. 



dro lô-sc ainda cm caracteres bera visíveis: — Collecçao 
Takdip. Infeliz! Mal sabia elle que as suas loucuras c 
angustias haviam do ser compreheudidas — mais de cem 
annos depois da sua morte! 

L. 

-x*- 

CHRONICA DO MEZ 

N;lo findou mal o anno de 71, c esto em que vamos leva bons 
princípios para as letras pátrias. 

Teniio á mão valiosíssimos livros ultimamente publicados, os 
quacs da melhor vontade apresentaria ao leitor se nSo tivesse a cer- 
teza de que são já do seu conhecimento, seus amigos íntimos talvez, 
li digo isto ponjue nenhum d'elies é bisonho e mal encarado, nenhum 
pertence <á lúgubre família dos que dormem a somno solto, apruma- 
dos e cobertos de poeira, nas tristes estantes dos livreiros. São livros 
aliáveis e amigos de correr mundo, livros cuja conversação instrue e 
recreia, cuja apparencia nítida e elegante nos convida a eslender-lhes 
a mão, a recebel-os cm casa, a appro.\ímal-os de nós e a sorrir-lhes 
com amísado. 

O trato intimo do leitor com essas bellas paginas da nossa mo- 
derna litteratura, não obsta, porém, a que eu as cite n'esla folha; fora 
de lodo o ponto indesculpável que uma publicação da indoli' da nos- 
sa, d'jsilenhasse o piazer de jjublicar, ao menos, os nomes de taes 
obras e de seus auclores. 

O Avarento de Moliòre, traduzido pelo sr. visconde de Castilho, 
é nm dos que figuram entre os melhores livros ultimamente public^i- 
dos, e o que, por todas as rasõ(;s, deve occupar o primeiro logar na 
rápida e rnodesta menção (|ue vou fazer d'elles. 

É caso frequente qualquer mudar de nacionalidade, mas não 
succede nunca por e.sse facto, que o pbysico do individuo solfra a me- 
nor alteração. Se o homem é claro e loiro comjo um irlandez, claro e 
loiro fica, embora se naturalise cafre; se falia mal a lingua da terra 
que adoptou, não a íica íallando melhor depois de concluído o pro- 
cesso da naturalisação no ministério competente. 

O sr. visconde de Castilho realísou pois um milagre. Todos os 
que lidam mais ou menos com as letras conhecem L'Arare de Mo- 
liòre. É um francez — coujo elle.s dizem — jusquà la muelle des os — 
faltando a sóbria mas garrida e caracteristica prosa do grandg mestre. 
Pois é v(*'l-o hoje naluralisado portuguez, fatiando a linguagem ver- 
nácula de nossos avós, posta em puríssimos versos, e ostentando 
diante de quem o quer admirar, o typo tidelissimo dos filhos d'esla 
nesga do mundo, typo tão diverso dos que nascem alem dos Pyre- 
néos I 

E por -onde correu o processo para se conseguir tilo extraordi- 
nário resultado? Por um ministério, cuja pasta peifence ha muito ao 
sr. visconde de Castilho, a qual não foi adquirida como algumas que 
nós sabemos, mas ganha <á custa de muito trabalho auxiliado pelo su- 
perior talento com que Deus dotou o illustre poeta. 

A fónna puramente porlugueza que o sr. visconde de Castilho 
conseguiu dar á sua versão, é, quanto a mim, a qualidade mais notá- 
vel d'aquelle sobei-bo escripto; das outias, que são muitas, eloquen- 
temente falia o sr. Mendes Leal nas substanciaes paginas de boa e se- 
vera critica juntas ao livro. 

Encontro perto deste, outro livro de grande merecimento e fir- 
mado por um nome sympathico e muito apreciado como escriplor ele- 
gante: Da loucura e das mamas cm Portugal, estudos humoristicos 
por Min (lesar Machado. 

liem dizia eu que todas as obras de que tencionava fallar são já 
conhecidas de quem me está lendo. Esta então, segundo presumo do 
sorriso (jue d'aqui vejo assoniar-lbe aos lábios, era já sua conhecida, 
leitor, antes de publicada em volume. E possível, mas confesse que 
releu no livro, com o mesmo interesse c prazer, o que já havia lido 
nos folhetins do Diário de Noticias. Engano-me? Não; bem me que- 
ria parecer. 

O ultimo livro de Júlio Machado faz-me lembrar uma 'cadeia de 
variados fuzis, mas em que reina a maior proporção, embora cada uma 
das peças seja vasada em molde diverso. É como os bellissimos pór- 
ticos e famosas colunmas de architcctm-a manuelina, cuja decoração é 
tão caprichosa e variada, mas sempre tão harmónica. 

I>éem-se os capítulos em separado .sem que se precise do conhe- 
cimento dos demais para interessarem ; entretanto lá estão ligados de 
modo tal, que o leitor passa de uns para outros sem que sinta, por 
assim dizer, mudança de temperatura. 

E livro que tem sido muito procurado, e de que se fará mais de 
uma edição, a tal ponto é altrabenle. E dos poucos que tèem poder 
no leitor; e o leitor, como certos maridos, gosta de quem o domine. 

Está commeniorado um alto feito no livro intitulado José de 
Castilho, o heroe do Mondego. Nem era justo que ficasse no esqueci- 



AliTES E LETRAS 



11 



menlo o valor com que se portou um diano e esforçado official da ma- 
rinlia porliigueza, procurando salvar, á cusia da própria vida, por oc- 
casião do naufrágio do iiiídfadado brigue Monderjo, os seus companhei- 
ros de tral)alhos. 

Incumljiu-se de gravar para sempre o successo, o sr. D. Antó- 
nio da Costa de Macedo, trabailiador incansável, cujo lito principal é 
derramar por meio de livros ao alcance de todos, conhecimentos úteis 
e tendentes ao progresso moral do seu paiz. 

Conseguiu d'esta vez, como sempre, o ilhistre escriplor realisar 
o seu nobre pensamento, porque deixou registados em estylo ameno, 
correcto e por vezes commovedor, assignalados feitos que accendem 
os brios, honram a pátria e mais lustre dão a um nome por tantas i'a- 
sões illustre. 

De um escriplor que pouco luctou para adquirir a aura publica, 
mas cujos louros, tão honrosamente ganhos, foram transformados, não 
ha muito, em fúnebres ílores, corre impresso mais uni romance admi- 
i-avel de verdade, iideresse e boa moral. 

Intitula-se Os ftdulfios da casa mourisca, de Júlio Diniz, pseu- 
dónimo, como se sabe, de Gomes Coelho. 

Quanto a mim, Gomes Coelho foi um dos escriptores que me- 
lhor percebeu a moderna escola realista. JNas suas obras v(*'em-se co- 
pias tieis do natural, mas do natural que merece ser copiado. O dis- 
tincto analysta encarava a sociedade pelo seu lado mais sympathico. 
Kra, por assim dizer, um escriplor optimista. Se o que Dumas, (ilho, 
diz no seu brilhante prologo da Princeza George a respeito do tliea- 
tro, pôde ser applicado ao romance — como me parece que sim — a 
asserção de que sendo o Iheatro a pintura ou a satyra das paixões e 
dos costumes, ha de ser sempre immoral, porque immoraes são sempre 
as paixões e os costumes que não se elevam acima da craveira com- 
mum, é brilhantemente destruída pelo auctor das Piipillas do sr. rei- 
tor, da Morçjadinha dos dinaviaes e dos Fidalgos da casa mourisca, 
n'estes excellentes romances. 

Emfim, todas as opulências que encerram as obras de Gomes 
Coelho se encontram no seu ultimo livro, e em tão grande escala, que 
o elevam á altura dos primeiros romances porluguezes. 

Quiz porém o destino que o notável escriplor não chegasse a 
ler os merecidos encómios que a sua derradeira obra lhe tem alcan- 
çado; antes da imprensa expor aos olhares ávidos da multidão aquelle 
trabalho, a pedra fria da campa cobria o corpo inerte do artista que 
o cinzelara. 

Não são só estes os livros prestadios que me rodeiam ; ainda te- 
nho ao pé de mim um que merece as maiores attenções, porque re- 
presenta grande trabalho de investigação. 

Reliro-me ao Summario de varia historia pelo sr. Ribeiro Gui- 
marães. 

Este livro, como o de Júlio Machado, trata de assumptos varia- 
dos, mas guardando tandiem certa homogeneidade que evila os gran- 
des destaques de capitulo para capitulo. 

Chamei-lhe livro prestadio, porque em toda a parte faz serviço 
meritório miem estuda e descreve monumentos, costumes e factos 
históricos do paiz ; em terra, porém, onde não ha quasi nada escriplo 
sobre o assumpto e onde pouco se cuida do passado — sem que por 
isso ninguém se lembre do futuro — é duplo serviço o prestado pelos 
que mettem hombros a esses dilTiceis e fastidiosos trabalhos, sem ao 
menos terem a esperança de que receberão a justiça que merecem. 



D'este ultimo poido, porém, não terá que se queixar o sr. Ri- 
jes, porque o seu livro tem sido 
mente estimado. Recommendãmol-o aos nossos leitores, tanto mais 



beiro Guimarães, porque o seu livro tem sido muito lido e devida- 



quanto muitos dos assumptos de que se occupa a obra do sr. Guima- 
rães, escriptos e desenvolvidos com exactidão e saber, prendem de 
perto com os que se propõe tratar esta folha. 

Os principaes artigos de critica publicados, ha annos, pelo sr. 
Andrade Ferreira em diversos jornaes aa capital, acham-se hoje com- 
pilados no livro Litteratura , musica e hellas artes. 

São escriptos conhecidos, é verdade, mas sempre apreciáveis e 
instructivos, como tudo que sáe da apurada penna do esclarecido 
critico. Fallam-nos elles de homens illustres, avivando-nos as sauda- 
des dos que, como Rodrigo da Fonseca Magalhãi's, D. José de Almada 
e Hebello da Silva, já deixaram de existir, e despertando-nos maior 
interesse pelos que, como António Feliciano de Castilho, Bulhão Pato 
e Júlio, Machado, ainda existem. 

É livro pois que terá grande voga, porque c tanto para os que 
presencearam o movimento litterario e artístico da epocha em que fo- 
ram escriptos aquelles bellos capitules, como para os que só por tra- 
dição conhecem hoje esse tempo. 

Passando do gabinete para o theatro, sinto dizer ao leitor que 
não posso fallar-lhe de um grupo de obras dramáticas originacs, pos- 
tas em scena ultimamente, que esteja á altura do grupo de livros que 
deixo citados. 

Os theatros portuguezes continuam infelizmente a viver do sub- 
sidio que lhes confere a litteratura estrangeira. Apenas de quando 



em quando surge, como que a medo, unia composição nacional que o 
publico vae ver com a curiosidade que despertam as cousas raras. 
■ — É original? 

— É. 

— Vê bem o que dizes; original? 

— Original, sim. 

— Então vamos ver. 

E vae, o applaude, e tem sempre mais benevolência cora as pe- 
ças de auctor poitnguez do que com as traducções. 

A culpa da decadência do theatro nacional não sei de quem é, 
mas de certo não é do publico, que não o afugenta, anles o protege. 

Escrevendo a respeito de composições theatiaes hesito sempre 
em lavrar sentenças, porque me lemhro que vou arvorar-mo em juiz, 
lendo de as.sentar-me amanhã no banco dos réus. Sei o que me cus- 
tam a fazer as minhas, por isso devo ser benévolo para com as dos 
mais. Não se estranhe pois se, de vez em quando, me cahir algum 
pingo de agua benta sobre estas apreciações. 

Farei hoje o contrario do que se faz no theatro. Começarei pelo 
entremez que é por onde lá acabam. 

Entre a jlanta e a viola é o nome de uma composição do nosso 
primeiro romancista, o sr. Camillo Castello Branco, que foi posta em 
scena no theatro de D. Maria II depois de correr impressa ha tempos. 

O illustie escriplor, mais propenso de certo para o romance do 
que para composições de thcalro, tem obras dramáticas que receberam 
(lo publico merecido favor. Esta que se representa agora em D. Ma- 
ria 11 não tem altas pretensões. Conhece-se que foi feita n'uma,hora, 
por distracção talvez, sem idéa de ver nunca as luzes da rampa. É falta 
de enredo, mas está escripta com aquelle vigor de estylo tão conimum 
no distincfo liiterato, e recheada de bons e portuguezissimos ditos que 
conquistam as palmas da platéa. O desempenho ajuda-a a viver na 
scena, onde se demorará de certo. 

Do sr. Eduardo Coelho representaram os theatros de Lisboa, 
n'estes últimos tempos, duas composições originaes Oppressão e liber- 
dade, drama em dois actos e Ires quadros, e O que fazem ciúmes, co- 
media n'um acto. Esta represenlou-se no Gymnasio, aquelle no thea- 
tro da Bua dos Condes e corre impresso em elegante folheto. 

O drama, .lo contrario do certas peças cuja acção está diluida 
em scenas fastidiosas e actos inúteis, tem o assumpto concentrado em 
limitadissimo espaço, o que muito contriljue para que a attenção do 
espectador se não desvie das peripécias e siga cuidadosamente o dia- 
logo. Os caracteres estão bem accentuados, tendo-se o auctor esme- 
rado no personagem que, aos menos entendidos em cousas de theatro, 
parecerá talvez de secundaria importância — o carcereiro sebastianista. 
lia em toda a peça rigoroso estudo da epocha e a linguagem conser- 
va-se sempre apropriadíssima, duas condições tão indispensáveis em 
composições históricas, ao mesmo tempo tão dilliceis de conseguir. 
Emlim, o drama Oppressão e liberdade toi'na-se riícommendavel, por- 
que sinceramente cumpre a missão do theatro, que é educar -o diver- 
tir. Ensinando ao povo uma das mais brilhantes paginas daMiistoria 
porlugueza, alenta-lhe os brios e recreia-lhe o espirito nas horas de 
(jcio. 

A comedia O que fazem ciúmes 6 um dever de rideau curto, des- 
pretencioso e bem- d ia Ioga do, que o publico applaudiu. 

O sr. Eduardo Coelho podia prestar úteis serviços ao theatro 
portuguez, se as fadigas do jornalismo, a que de preferencia se dedi- 
ca, o não privassem de se applicar mais assiduamente aquelle género 
de litteratura. 

É infallivel para o publico o drama mai-itimo, porque encerra 
quasi sempre a poesia do mar, tão sympathica e atlrahente, principal- 
mente para os que não a conhecem senão pelos romances de Fran- 
cisco Bordallo ou pelas marinhas do sr. Tomazini. 

O naufrágio do brigue Mondego, drama original do sr. José Ro- 
mano, é uma das peças porluguezas que durante esta epocha theatral 
maior concorrência tem chamado. 

As situações de elfeito, o assumpto e o espectáculo de que o 
drama está revestido, são tentações a que se não pôde resistir. Por 
isso o publico vae ao theatro, applaude e volta contente comsigo e 
com a peça, comsigo porque nunca se achou nos perigos em que viu 
os náufragos do Mondego, com a peça porque não o enganou quando 
prometteu recreal-o. 

A abolição da pena de morte é assumpto magnifico para um 
drama, e sobretudo para um drama propagador da idéa moral e civi- 
lisadora, que Victor Hugo tão heroicamente defende no seu livro Le 
dernier jour d'un condamné. 

Entre nós felizmente já não é preciso pregar contra o infame 
assassinato legal, mas por isso mesmo nunca virá fora de propósito 
tudo quanto commemore e justifique a nobre conquista que fizemos, 
exterminando do código de nossas leis a negra pagina onde era au- 
ctorisada a pena capital. 

Foi n'este intuito de certo que o sr. Leite Bastos escreveu o 
drama que ora se representa no Gymnasio com applauso publico. A abo- 



lição da pena de morte é composiçJo bem urdida e oscripla em cor- 
recta e cha linguagem portugueza. Denota que o seu auctor tem co- 
nhecimento (lo mechamsNio da scena, e por isso deve ser prenuncio 
de muitos e por ventura melhores trabalhos no mesmo género. 

Termino fazendo votos para que, apesar do catalogo de originaes 
que deixo apontados nio ser grande, tenha todos os niezes tantas e táo 
boas obras impressas e representadas para registar n'esla secção. 

RANGEL DE LIMA. 



OBRAS DE AKTE PORTUGUEZAS 
QUE FIGURARAM NA EXPOSIçXo DE MADRID EM 1871 




O dar a publico uma folha que 
se propõe a zelar os interesses 
(las bellas artes, não podíamos 
deixar de inserir nas suas co- 
lumnas, breve noticia dos tra- 
balhos portuguezes que 
abrilhantaram a ultima 
exposição verificada em 
Madrid. A noticia d'cs- 
sas obras é, póde-se di- 
zer, a noticia de todos os 
trabalhos artisticos pro- 
duzidos em Portugal du- 
rante o anno findo. 
Cremos que algmis dos nossos artistas podiam ter-se 
apresentado melhor n'aquelle civilisador certame, porque 
para muito mais têem talento e saber; mas, pouco habi- 
tuados a provas publicas na casa alheia, não mediram 
talvez, com a circumspecção que fora para desejar, o al- 
cance do convite que lhes foi endereçado, o que deu causa 
a serem remettidos para Madrid alguns trabalhos menos 
cuidadosamente executados. 

Dizendo, porém, que alguns dos nossos artistas não 
se apresentaram n'aquella exposição tão brilhantemente 
como podiam, não se deve inferir que é nosso intento pro- 
palar que os artistas portuguezes não figuraram digna- 
mente ao lado dos seus collegas estrangeiros, poisque, 
pelo contrario, somos de opinião que dos trabalhos en- 
viados para Madrid, muitos têem subido mérito, e artis- 
tas houve que receberam do jury hespanhol, da critica 
jornalística c da admiração dos amadores inequívocas 
provas de boa conta em que foram tidas as suas pro- 
ducções. 

Kelacionarcmos os trabalhos que foram enviados pela 
commissão nomeada pelo governo, e os que directamente 
remetteram alguns artistas, expondo em breves palavras 
a nossa opinião acerca dos principaes. 

O sr. Alfredo de Andrade mandou três quadros : 
Pmíl de Castel Fusano (cercanias de Roma), Uma manhã 
em Rhiara (Piemonte) e Uma partida de pesca (Liguria). 
E este artista filiado na chamada escola do realis- 
mo. Exagera ás vezes a simplicidade dos seus quadros, 
mas procura bem a verdade. O quadro que representa o 
Paul obteve em Madrid a medalha de 2." classe; nós to- 
davia damos a preferencia á tela denominada Urna par- 
tida de pesca, embora não gostemos muito das figuras. 
O Paul não tem primeiro plano e é quasi um claro 
escuro. Comtudo o céu ó feito com rara habilidade e per- 
feição. 

No livro ultimamente publicado pelo celebre critico 
hespanhol sr. Tubino El arte y los artistas contemporâ- 
neos en la peninsida encontram-sc os maiores elogios ao 
quadro premiado do sr. Andrade, dizendo o illustre es- 
criptor que clle faz lembrar um mestre que se empenhe em 



crear toda a casta de difficuldades, só para ter o gosto 
de as vencer. Outro critico não menos intelligente tam- 
bém elogia o sr. Andrade em artigos publicados na II- 
lustracion de Madrid, mas dando a entender que não se 
extasia ante a escola ultra-realista que o distincto pintor 
segue. 

A folhas 259 do livro do sr. Tubino, lê-se: — An- 
drade com a sua paizarfem o CASTIcllo de fuzano e An- 
nunciação com os seus animaes, representam difjnamente 
no certame a arte da pintura lusitaua, etc. - 

São poucos todos os encómios dirigidos ao sr. An- 
nunciação, não S(3 porque o seu talento o faz credor do 
maior apreço, como poríjue lhe devemos a regeneração 
da escola de paizagem, tão desvairada entre nós quando 
este mestre determinou transformal-a. 

Cinco telas suas foram devidamente estimadas em 
Madrid: Perdidos do rehanho, O vitello, dois estudos de 
animaes e A madrugada. 

O sr. Annunciação possue talento superior e (í muito 
consciencioso, o que facilmente se percebe e é attestado pe- 
los quadros mencionados. N'elles se revela também a sua 
nova maneira de pintar. Admirador de Troyon, que viu 
em Paris quando visitou a ultima exposição universal, tem- 
se deixado ultimamente dominar um pouco pelo processo. 

Foi justamente premiado com a medalha de 2.^ clas- 
se pelo seu quadro Perdidos do rehanho, composição do 
verdadeiro merecimento que nada deixaria a destjar, se 
fosse menos convencional, e tivesse parte da simplicidade 
que sobra nos quadros do sr. Andrade. 

Os estudos de animaes suo magníficos, porque tendo 
todas as bollezas do quadro premiado, não têem nenhum 
dos senões que porventura a critica menos benigna possa 
encontrar n'elle. 

Apresentou mais quatro grandes desenhos feitos a car- 
vão, e que foram apreciados merecidamente. Emfiin, como 
muito bem disse o sr. Tubino, este artista representou di- 
gnamente n'aquelle certame a arte da pintara lusitana. 

Do sr. Ferreira Chaves foram dois quadros Retrato 
do sr. Ignacio José de Araújo e Flores e fructos. 

O sr. Chaves ú artista muito applicarlo e do talento. 
P^ram já conhecidos estes seus quadros pelo muito mere- 
cimento da forma e da cor. Na imprensa portugiicza re- 
ceberam elogios quando pela primeira vez figuraram na 
exposição* da Sociedade jn-omotora de bellas artes; por 
isso nos abstemos de fallar dclles, mencionando apenas 
que foram justa e devidamente acolhidos no vizinho reino. 

Sentimos que o sr. Chaves não mandasse a Madrid 
os retratos concluídos ha pouco, dos srs. Santos Monteiro 
e Lamarão, pinturas que pelo vigor do colorido, bom de- 
senho e símilhança, se tornam dignas de serem colloca- 
das em qualquer exposição ao çá dos melhores trabalhos 
d'aquelle género. 

O conhecido pintor Christino figurou na exposição 
madrilena com dois quadros de paizagem: A cruz alta 
de Cintra e A fonte dos amores. Nos quadros d'este no- 
tável professor notam-se quasi sempre grandes effeitos 
de luz e colorido muitas vozes agradável. 

O lado esquerdo da tela A cruz alta é perfeitamente 
pintado e revela a aptidão e o talento do artista. 

O quadro A fonte dos amores é, quanto a nós, me- 
lhor do que o primeiro. O ponto foi bem escolhido e está 
tratado com muita verdade. Ha vigor e harmonia em toda 
a composição, sendo a massa do arvoredo a parte do qua- 
dro reproduzida com mais felicidade. 

Estçi formosa tela foi ofterecída pelo auctor a S. M. 
a rainha de Hespanha, e mereceu a distíncção de ser gra- 
vada na Illustracion de Madrid. 

(Contimia.) RANGEL DE LIMA. 



aktí:s e letras 




A basílica de santo ANTÓNIO DE TADUA 



A cidade do Pádua, pátria do celebre historiador 
latino Tito Livio, do graminatico Asconio Pediano, do 
pintor Mantegna, do gravador João Cavino, e do explo- 
rador Belzoni, encerra notáveis edifícios o sumptuosos 
templos, figurando entre os últimos a cathedral de 8. Jus- 
tino, onde está o tumulo de Petrarcha, e a basílica de 
Santo António, cujo desenho damos n'esta pagina. 



Todos conhecem a historia do thaumatui-go portu- 
guez, tào festejado entre nós pelos rapazes, e ainda mais 
pelas raparigas, que lhe fazem orações e oífei-ecem pro- 
messas para que as case cedo. 

Santo António nasceu em Lisboa no anno de 1195. 
Foi cónego regrante de Santo Agostinho em S. Vicente 
de Fora, passou depois para Santa Cruz de Coimbra, e 



14 



ARTES E LETlíAS 



por ultimo professou na ordem de 8. Francisco de Assis. 
Indo para a Africa em missão relifçiosa, foi lançado por 
uma tempestade nas praias da Itália. N'aquello paiz en- 
sinou theologia e pregou com dislincçào, adquirindo gran- 
de nomeada pela sua vida regradissima e pelos milagres 
que fazia. Morreu em Pádua no anno de 1231. 

Vinte e oito annos depois da sua morte deu-sc prin- 
cipio n'aquclla cidade á construcyao da famosa basílica 
levantada sob a invocação do santo portuguez, a qual 
terminou cm 1424. O primeiro encarregado da obra foi 
Nicolau de Pisa. 

Jlede esta excellente fabrica noventa c um metros 
do coinprimento no interior, tem três naves e sete cúpu- 
las, sendo a do C(nitro de enormes dimensões. 

N'um dos altares vêcm-se preciosos baixos relevos 
cm bronze, figurando vários milagres do thaumaturgo, 
devidos ao famoso cinzel de Donatello. 

O altar de Santo António 6 isolado, o está debaixo 
de riquissimo docel, á roda do qual se lê o seguinte dis- 
tico: Divo António confessoriun' sacrum. O docel é susten- 
tado por soberbas columnas, entro as quaes ha quatro 
estatuas representando os evangelistas, e por baixo d'elle 
vc-se o corpo do santo,. Nas paredes admiram-se excel- 
lontes baixos relevos. A entrada do altar estào dois can- 
delabros lindíssimos em forma de palmeira, tendo o pé 
de mármore magnifico c as folhas de prata primorosa- 
mente lavradas. 

A igi'eja possue alguns quadros notáveis, e no coro 
ha um retrato do thaumaturgo que é considerado o me- 
lhor que existe. 

Encontra-se ao lado do templo um edificio denomi- 
mado Escola do Santo, ondo ha frescos admiráveis de 
Ticiano e de Campagnola. Os de Ticiano são apelias qua- 
tro. (J primeiro representa o milagre de dar vida a uma 
mulher assassinada pelo marido n'um accesso de ciúme. 
A cabeça da mulher é admirável. O quadro, porém, está 
bastante deteriorado pelo tempo. O segundo, por cima 
da porta da sacristia, figura o santo realisando o milagre 
do pé cortado a um rapaz. O assumpto do terceiro c 
Santo António restituindo a vida a uma creança quei- 
mada por agua a ferver. O ultimo representa o santo, 
fazendo fallar um pequeno para testemunhar a innoccn- 
cia do sua mãe, accusada de adultério pelo marido. 

Os estrangeiros visitam com curiosidade a basílica 
de Santo António, c nenhum portuguez passa por Pádua 
ser a ver, pois lhe desperta mais curiosidade do que a 
qualquer outro viajante, por ser templo consagrado á 
santa memoria do um dos nossos mais celebres compa- 
triotas. 



O PESO BEM EXACTO, HEBEEU! 



G. STAMMKL, 

Notou-sc um dia grande agitação no bairro dos ju- 
deus da velha Reichsstadt. Era o caso que os cavalleiros 
do duque Bernardo Weimar tinham saído da cidade, onde 
faziaiu quartel de inverno, para apresar os thesouros pre- 
ciosos do conde hespanhol do Vista Hcrmosa, que vinham 
com um comboio do munições saido de Alarniger. 

Os soldados acamparam n'uma floresta, e pouco es- 
peraram pela chegada da comitiva. Cair sobre o inimigo 
c apresar munições o viveres, foi obra de um momento. 
O tliesouro desejado vinha cífcctivamcnte escondido en- 



tre gi'andc8 saccos de aveia carregados n'um dos car- 



ros. 



— Eil-o! exclama um soldado, louco de alegria; c 
n'imi abrir e fechar dVjlhos, valiosos objectos de prata e 
oiro do conde e preciosas jóias da condessa, são dividi- 
dos pela soldadesca ávida de pilhagem. 

Alguns cavalleiros voltam á cidade jjara dar noti- 
cia do bem succcdido assalto; c alii está porque no bairro 
israehta se notava agitação desusada. 

— Temos oiro em abundância — diziam os judeus 
uns para os outros; foi pilluido um grande thesouro! está 
a chegar considerável presa! 

Ouvo-se o clarim que annuncia o regresso dos caval- 
leiros, o tudo de repente socega. As moças judias refii- 
giam-se no mais recôndito das casas para se furtarem aos 
olhares atrevidos da soldadesca, mas os pães c os irmãos 
andam vigilantes. 

Loõbel, rico ourives e usurário, tem palpite de que 
breve lhe baterá á porta algum dos cavalleiros. Envolto 
na pellissa vae para a escura loja. Abre o armário c pega 
na balança. Ouvo-se fora o ruido de passos pesados; 
enorme esj^adão tine sobro os degraus, c um sargento 
completamente uniformisado entra na loja do chatini. 

■ — -Venho propor- te niígocio de mão cheia, judeu — 
profere arremessando ao chão vnn sacco. 

Os olhos negros de Loebcl scintillam de prazer ao 
deparar com tamanha riqueza. 

— Boa presa, sargento — diz mudando de physiono- 
mia; pena é que tudo isto soja prata dourada. Nem um 
objecto do oiro. E d'ahi os tempos vão maus, por isso. . . 

— O PESO BEM EXACTO, HEBREU ! — exclama o sar- 
gento retorcendo os bigodes. 

Momentos depois embolsava alguns escudos, dizendo : 
— Dinheiro sueco ou imperifxl, pouco me importa; 
ponto é não ser falso. Os dados á noite o farão girar o 
desapparccer. 

Não falhara o palpito a Loebel; o negocio fora ópti- 
mo 2^íira o judeu. . . c para o artista que tirou d'elle o 
assumpto para o primoroso quadro que damos em gra- 
vura. 



DIVERSAS ^'OTICIAS 



— N'um (los próximos nunioros pulil içaremos o rolrato do dis- 
tiiu-to pinliji' lirazilciío, dr. Pedro Américo, auctor do qiiadiu Um epi- 
sodio da batalha de Campo Grande, cuja (íescripção damos. O retrato 
é dcsenliado por um dos nossos melhores artistas. 

O sr. ministro das oliras publicas visitou o edifício da Aca- 



demia das bellas artes, c, recoidieceiído a insulficiencia das salas para 
a exposição e boa conservação dos importantes objectos de arte ([ue 
possue anuelle estabelecimento, francamente declarou ser de urgente 
necessidade melhorar as condições do edifício. Oxalá se realisem os 
bons desejos do sr. ministro. 

No theatro de D. Maria II representam-so com muito ap- 



plauso duas comedias Os meninos grandes, traduzida do hespanhol 
pelo sr. Castilho e Mello, e A princeza George, de Alexandre Dumas, 
filho, traduzida pelo sr. Ernesto Biester. A primeira é critica e chis- 
tosa ; a sejrunda feita com talento, e inculca-se com o modelo da es- 
cola realista. N'esta Emilia Adelaide e Santos representam com ener- 
gia, sentimento e naturalidade, dando aos seus importantes papeis o 
necessário relevo. Os demais actores tanto na Princeza George como 
nos Meninos grandes, desempenham os seus papeis com a perfeição 
que se deve exigir no primeiro theatro portuguez. 

: No Brazil pidilicaram-se ultimamente os seguintes livros: 



Annos académicos e Legendas da provinda do Espirito Santo, 
pelo sr. dr. Peçanha ]*ovoa. 

Carta ao bispo diocesano D. Pedro de Lacerda, pelo sr. Climaco 
dos Reis. 




Um volume de poesias, pelo sr. Caetano Felgueiras. 

Direito por linhas tortas, comedia em 4 actos, pelo sr. dr. França 
Jiiiiior. 

6.° caderneta da obra do sr. A. E. Zaluar sobre a escola e o tra- 
liiilho. 

Primeiro livro da adolescência, pelo mesmo auctor. 

Arabescos, plianlasias eseiipla.s pelo sr. Gani])os Carvalho. 

Névoas nialiitinas, poesias do sr. Luiz de Mendonça. 

Tronco do Jpé, 2.° tomo de um romance auonymo. 

liioijraphia do visconde de Rio-tíranco, pelo sr. Luiz Alvarenga 
Peixoto. 

Lniz Augusto Rebello da Silva, estudo critico pelo sr. dr. Theo- 
pliilo Oltoiíi. 

Está no prelo : 

Pantheon Maranhense, pelo sr. dr. António Henriques Leal. 

O sr. Anionio Alberlo concluiu uma estatua colossjil repre- 
sentando Demócrito, (jue vae ser vasada em gesso. É prova de apro- 
veitamento do esluíio que fez em Paris. 

O Diário do Governo publicou o programma para o con- 



curso das medalhas a conferir, como prémios, na exposição universal 
de 187.'!, em Vienna de Áustria. Para a composição delias são convi- 
dados a entrar em concurso os artistas de todas as nações. As meda- 
lhas são as seguintes, e os modelos devem ser executados era cera, 
gesso ou enxofre : 

Medalha para a arte. 

Medalha pelo progresso. 

Medalha pelo mérito. 

Medalha de hoin gosto. 

Medalha de coopeiação. 

Seiâo todas cunhadas em bronze, e terão a mesma dimensão, 
que é um diâmetro de 7 centimetros. I)e um lado estará gravado o 
retraio do imperador com varias inscripções, e do outro as decora- 
ções emblemáticas ou representações artísticas, com relação ao des- 
tino especial de cada medalha, licando a invenção ao arbítrio do ar- 
tista. 

O modelo reconhecido pelo jury como a solução mais completa 
de cada uma das seis tarefas piopostas, obterá como honorário a (juan- 
tia d(^ 50 ducados austríacos. Cada um dos seis modelos que obtiver o 
premio, passa em propriedade e com direito de reproducção á direc- 
ção geral da exposição. 

Como se distribuirá depois a medalha de bom gosto? 

Da única opera nova que o theatro de S. Cai'los tem dado n'esta 
epoclia, falia Júlio César Machado em artigo especial. 

Um quadro de E. Breton que estava no gabinete do dire- 



ctor do theatro lyrico em Paris, ficou em cinzas com o theatro, por 
occasião dos incêndios postos pela Communa. Parece que era excel- 
lente trabalho artístico. 

(^omo ultima prova de aproveitamento, pintou em Roma o 



sr. António Hodrigues da Silva, pensionista do estado, um quadro re- 
presentando D. Filippa de Vilhena mandando ajoelhar os /ilhos para 
os armar cavalleiros, assumpto extrahido do bello drama do visconde 
de Almeida Garrett. 

Com o seu reportório de comedias vae o Gymnasio attra- 



hindo cada vez mais a attenção publica, porque faz sempre boa esco- 
lha e tem artistas como Anna Cardoso, Gertrudes Carneiro, Joaquim 
de Almeida, Silva Pereira, Braz Martins, Brazão e outros que repre- 
sentam com a graça e dístíncção que o género exige, as composições 
próprias do syinpathico theatrinho. 

Vimos um grosso volume publicado no Porto, com o titulo 



de Prova para a edição do guia do amador de betlas artes, por D. M. 
de M. G. Pareceu-nos livro utilíssimo, principalmente para quem se 
dedica a bellas artes, pois contém grande copia de esclarecimentos so- 
bre as galerias nacionacs c estrangeiras. 

O sr. Oliveira Martins publicou um novo livro. Os Lusíadas, 
ensaio sobre Camões e a sua obra, em relação á sociedade portuguesa 
e ao movimento da renascença. 

O sr. António Pereira da Cunha escreveu um poemeto intitu- 
lado O voto de El-Rei. 

O sr. Arnaldo Gama publicou mais um romance, O bailio de Leça 
(lenda do xiv século). 

O sr. Tito de Noronha deu á estampa os Ditos da, freira, repro- 
ducção da velha e raríssima edição do mesmo titulo, attribuida a 
1). Joanna da (lama. 

No theatro do Gymnasio do Rio de Janeiro representa-se 



com applau.so a comedia- drama do sr. dr. Augusto de Castro, brazi- 
leiro, Tenentes do Diabo. 

A Phenix dramática, theatro d'aquelia cidade, annuncia o drama 



phantastico em t actos, d prologo e 11 quadros, Fausto, do sr. Gu- 
tierres da Silva, e deu ultimamente a comedia do sr. dr. Pires de Al- 
meida, O casamento do gaiato de Lisboa, (jue nmito agradou. 

Deve começ^ir em abril a collocação das estatuas sobre o 



arco da rua Augusta 



— O theatro da Trindade prepara espectáculos para o carna- 

val, o que equivale a dizer que Delfina, Anna Pereira, Florinda, Rosa 
Damasceno, (zidoio, Queiroz, Leone e todos se preparam para nos en- 
treter com algumas canções picarescas, e nos alegrar com os seus di- 
tos chistosos. 



O pintor hraziloiro E. de Martins concluiu um quadro in- 



titulado, O naufrágio de Camões. 

O sr. commendador Meirelles de Lima, do Brazil, terminou dois 
quadros, representando um O combate de Riachuelo, e outro A passa- 
gem de Hnmaitá. 

A academia das bellas artes" do Rio de Janeiro prepara para o 
próximo mez de fevereii'o uma exposição dos trabalhos artísticos fei- 
tos na capital do império e nas províncias. 

O sr. visconde de Castilho trabalha na traducçao do Sonho 



de uma noite de estio, de Shakspeare. 

Vae publicar-se um novo romance do sr. Eça de Queiroz, inti- 
tulado O crime do padre Amaro. 

O sr. Ferreira de Mesquita está escrevendo um drama a que poz 
por título O impossível. 

O sr. Luciano Cordeiro prepara dois importantes livros que 
brevemente publicará : Tentativa de um balanço geral da nação 
portugueza, e Compendio de lilteralura. 



^ M. Jones Tanner, photographo de Clunes (Austrália), achou 
a maneira de obter photographias esmaltadas cm cobre. 

= O sr. Latino Coelho foi encarregado pela academia real das 



sciencias de escrever o elogio histórico de José Bonifácio de Andrada 
para ser lido na sessão a que ha de assistir S. M. o imperador do Bra- 
zil. José Bonifácio de Andrada nasceu em Santos, no nnporio do Bra- 
zil, a 13 de junho de 1763, e falleceu em 6 de abril de 1838. Exer- 
ceu commissões importantes tanto em Portugal como no Brazil. Exi- 
lado em Boi'déus durante seis annos, recebeu, quando voltou á pátria, 
uma avultada pensão que lhe foi votada. O imperador D. Pedro IV ti- 
nha por elle tal acatamento, que lhe confiou a tutella de seu filho, o 
actual imperador do Brazil. 

: Concorreram muitos artistas e homens de letras ás exéquias 



feitas na igreja de Santo Agostinho, em Paris, pela memoria do notá- 
vel pintor Henrique Regnault, morto em Buzenval durante os funestos 
acontecimentos que erdutaram a França. 

Pela direcção geral de inslrucção publica foi, em outubro 



ultimo, publicado o programma de concurso para a escolha de pen- 
sionistas do estado, a fim de se aperfeiçoarem fora do paiz no estudo 
de bellas artes. Os pensionistas devem ser tros, um de pintura de pai- 
zagem, outro de architectura e o terceiro de gravura a talho doce. Re- 
quereram para entrar no concurso de paizagem os srs. Gonçalves Pe- 
reira, Izaías Newton e Joaquim Victorino Pereira ; no de architectura 
o sr. José Luiz Monteiro e no de gravura o sr. António José Nunes 
Júnior. O jury constituiu-se no principio d'este mez, sendo presidente 
o sr. conselheiro Assis Rodrigues, secretario o sr. Joaquim Pedro do 
Sousa, e vogaes os srs. Annimciação o Pires da Fonte. No dia 12 ti- 
raram-se os pontos que serão executados em noventa dias úteis. Saí- 
ram os seguintes : 

Paizagem — Quadro pintado a óleo representando Penha Longa, 
vista tomada do mirante da casa do sr. visconde de Bessone. — Um 
estudo de modelo vivo. — Uma cabeça de animal pintada em três ses- 
sões. 

Architectura — Projecto de uma bíbliotheca para uma cidade 
de segunda ordem. 

jGravura — Desenho e gravura em cobre da cabeça da Virgem 
representada no quadro n." 210, pertencente á galeria da Academia 
real das bellas artes. 



■ Morreu em Cannes com 52 annos de idade, o gravador Au- 



gusto Lehman, discípulo de Henriquel Dupont. Era auctor da bella 
estampa Dante atravessando o purgatório, copia de um quadro de 
Flandrin. 

: A associação dos archilectos civis celebrou ultimamente uma 



sessão solemne, presidida pelo sr. Joaquim Possidonio Narciso da 
Silva. Inauguraram-se os retratos de dois sócios fallecidos, Veríssimo 
José da Costa, engenheiro de obras publicas, e o conde de Lavradio. 
O sr. José da Costa Seípicira, professor de architectura na Academia 
de bellas artes, leu a biographia de Veríssimo José da Costa. Faltou 



IG 



ARTES E LETRAS 



])i)r incoiiiiiiodo do sniitlc o sócio que devia rrcilar o elogio histórico 
(lo conde de Ijiivradio, elofjio que terá de ser lido em outra sessão. 

Ao lado do retrato do conde foi collocado o niappa dos desco- 
lirinientos porluguezes, que elle encontrou em Inglaterra c fez puhli- 
c;ir nitidamente em Londres. 

O sr. presidente leu uma bem escripla memoria acerca da archi- 
tectura nacional. 



=== Disse o correspondente de um jornal de província, que o 
pintor António José Pereira, de Vizeu, possuidor do único quadro co- 
nhecido com a assignatura de Grão Vasco, vae pôr á venda esta pre- 
ciosa ohra. O quadro é cm três tahoas que formavam juntas um rela- 
Lulo. A do centro representa o descimento da cruz, e as dos lados, 
uma, S. Francisco em extasis, outra, Santo António pregando aos pei- 
xes. Na parte inferior da lahoa do centro está a assignatura do artista, 
pintada a amarclio, imitando oiro, cujo fac-simile c o seguinte : 




Se efTectivamente o sr. Pereira levar a cíleito a venda do seu 
quadro, cumpre ao governo empregar os necessários meios para que 
não saia do paiz aquelle riquíssimo trabaliio. 

: O foiíer do theatro do Odeon em Paris, foi ornado com um 



retrato de mademoiselle Aissé, a heroina do drama posthumo de L. 
IJouillet. 

Em maio próximo abrir-se-lia ao publico a exposição da 



sociedade promotora de bailas artes em Portugal 

=== M. Mergct, lente de physica na faculdade de Lião, descobriu 
um novo modo de imprimir chapas gravadas e clichés photographicos. 
O processo foi experimentado por M. Davaune, em presença da so- 
ciedade de photographia e produziu os melhores resultados.* 

Julga-se de grande importância este ultimo invento, porque deve 
em pouco tempo modificar ladicalmente todos os processos de impres- 
são usados até hoje. 

Para os princípios do estio deve verificar-se no palácio de 



crystal do Porto, uma exposição peninsular de produclos artísticos, 
industriaes e agrícolas. 

Téem estado expostas em Paris três magnificas aguarellas. 



do infeliz Henrique Regnault. Um artim que temos á vista, diz ser o 
acontecimento artístico mais notável da ultima quinzena de janeiro. 

Os Iheatros da rua dos Condes, Príncipe Real e Variedades 



offerecem aos seus frequentadores peças de grande espectáculo. Cada 
theatro tem um actor que é o predilecto do publico. Na rua dos Con- 
des desempenha o papel de predilecto — e desempenha-o perfeitamen- 
te—o sr. Ribeiro, um dos mais primorosos talentos cómicos da scena 
portugueza; no Príncipe Real 6 o sr. Pereira o incumbido da tarefa; 
nas Variedades cabe a honra a César de Lima, actor alegre e que sabe 
alegrar o publico. 

: A academia das bellas artes de Paris, em sessão do 20 de 



janeiro, nomeou membro da secção de musica, M. Victor Massé, em 
substituição do fallecido maestro Auber. 

: O Tir, 



^ 'es publicou uma corresípondencia em que procura re- 
bater a opinião de M. Rohinson a respeito de um quadro que existe 
na Igreja da misericórdia do Porto, trabalho magnifico altribuido por 
aquelle critico a artista portuguoz ou natural da península. 

A pintura é histórica e allusiva á fundação da misericórdia. No 
centro vfi-se Jusus Christo na cruz, e dos lados a Virgem e S. João 
rodeados de muíLis figuras. Entre as do primeiro plano eslá I). Ma- 
nuel, sua segunda mulher D. Maria e seus oito filhos. 

Como quadro golhíco é dos melhores. Raczynski attribue-o <á in- 
tluencia da escola allemã cm Portugal. Foi dadiva de D. Manuel, e 
tem reputação europea. 

■ Falleccu cm Beaumont-sur-Oise o esculptor francez Lanns. 

Tinha 92 annos de idade, era cavalleiro da legião de honra o auctor 
de estatuas muito notáveis. 



=== A primeira obra de escnlptuia feita cm Roma pelo pensio- 
nista sr. Simões, está na Academia real das bellas artes. Representa 
um rapazinho assentado sobro uns degraus, estendendo a mão á ca- 
ridade publica. A figura tem sentimento e está modelada com muita 
perfeição. O sr. Simões acha-so na cidade eterna concluindo cm már- 
more, como prova final de aproveitamento, uma estatua representando 
Uma mulher desfolhando um malmequer. 

- Vae erigir-se em Jjondres á saida de Park-Lane, perto de 



Hyde-Park, uma fonte monumental. Deve ser ornada com as estatuas 
dos Ires grandes poetas Shakspeare, Chaucer e Milton. 

O sr. Bordalo Pinheiro (pae) concluiu um quadro com que 



presenteou o redactor principal do Diário de Noticias, sr. Eduardo 
(Joelho. É uma allusão ao appellido o á profissão do cavalheiro a quem 
foi offerecido o mimo. Não tivemos occasião de ver o novo trabalho 
do sr. Bordallo, mas dizem-nos muito bem d'elle. 

A sociedade dos aguarellistas belgas abrirá a sua exposição 



annual, em Bruxellas, no próximo mez de ahril. 

: O sr. José Machado Carreira dos Santos pintou um relabulo 



representando S. Miguel e as Almas, para ser collocado n'uma das ca- 
pellas da igreja da Encarnação. O mesmo artista está restaurando o 
tecto d'aquellc templo. 

-A exposição das bellas artes de Ilaya eíTectuar-sc-ha em 13 



de maio. 



Abriu-se novamente ao publico a importante galeria de pin- 
turas e o museu de numismática de S. M. El-Rei o sr. D. Luiz, na 
Ajuda. Figura na galeria o novo quadro de grandes dimensões, que 
S. M. encommendára ao pintor italiano Gamha Desembarque da in- 
fanta D. Jiealriz num dos portos de Itália. É composição de muito 
merecimento, e está collocada defronte do bello quadro que representa 
a princeza de Lamballc. 

: O pintor Henner terminou um quadro que lhe fora cncom- 



mondado pelas suas compatriotas de Mulhouse, para com elle presen- 
tearem M. Gambetia, ex-representante do Alto-Rheno. O quadro re- 
presenta apenas Uma alsaciana. Já foi gravado por M. Flameng. 

O sr. Dantas, pintor de marinhas, tem feito diversas com- 



posições extrahidas dos Quadros navaes, do fallecido almirante Ce- 
lestino Soares. São bem executados estes trabalhos do novel pintor, 
e dignos do assumpto que representam. 

Publicou-se em Londres no dia 23 de dezembro ultimo, o 



primeiro numero de uma excellente obra intitulada The melropolitan 
Museum of Art, Elchings of Piclures in the Melropolitan Museum, 
New York, etched by Jules Jocquemart, published by P. and D. Col- 
narjhi and C." 

^=== Já estão na Academia real das bellas artes os últimos cinco 



quadros que o sr. visconde de Carvalhido offereceu aquelle estabele- 
cimento. Com estes são vinte os quadros que a Academia deve á ge- 
nerosidade do illustre fidalgo. Dos cirico ultimamente recebidos lêem 
bastante valor o esboceto de Cario Maratta, e duas cabeças de velhos, 
de pintor moderno da escola ingleza. 



=== Acha-se collocado na bibliotheca das camarás legislativas, 
um busto colossal do notável esladista Passos Manuel. Esto excellente 
trabalho, executado em mármore de Garrara^ saiu do atelier do sr. 
Calmeis, e é assignado por este artista. 




432-lMpnESSA Nacioxai,-1873 



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AETES E LETEAS 



17 



ARTES E LETRAS 




Lisboa — Fevereiro de 1872 




GEÃO VASCO 

E A HISTORIA DA ARTE EM PORTUGAL 

(Conclusão) 

IV 

descoberta de um quadro assignado au- 
thenticamcnte por Vasco Fernandes re- 
solveu parte do problema. Certificou a 
existência de um notável pintor com 
aquelle nome, florescendo pelo meado 
do século XVI. A comparação d'aquello 
quadro com os outros attribuidos ao 
artista poderia deixar discriminar com 
exactidão quaes as suas obras. Este 
trabalho não está ainda feito. E para 
desejar que o emprchenda algum zeloso 
investigador das glorias pátrias, bus- 
cando delinear os verdadeiros caracteres 
c o methodo do grande pintor portugucz. O que porém 
se pôde desde já affirmar é que a existência do pintor 
Vasco não é um facto isolado na historia da nossa arte. 
A intima parecença que ha entro todos os quadros a que 
chamavam da escola de Grão Vasco, prova evidente- 
mente que em Portugal houve desde os fins do século xv 
até ao fim do século xvi, uma escola nacional de pintu- 
ra, primitivamente inspirada pela pintura flamenga, mas 
aportuguezando, por assim dizer, aquella escola, com a 
introducção de typos, de ornamentos, de particularidades 
todas portuguezas. 

Outra prova de nacionalidade portugueza d'esta es- 
cola é a circumstancia de conservarem alguns d'aquelles 
quadros pintados depois da metade do século xvi, o es- 
tylo, e até a execução teclmica seguida pela escola no 
século anteinor. Parece que os nossos pintores, ou fosse 
por terem menos contacto com seus collegas dos paizes 
estrangeiros ou por obedecerem a exigências da opinião, 
conservaram, aperfeiçoando-o, mas não no essencial, o 
estylo tradicional da escola d'onde haviam brotado. 
Assim é que são contemporâneos de Rubens pintores 
que a julgar pelas suas obras mais parecem precedel-o 
de muitas dezenas de annos. Este ponto pedia maiores 
desenvolvimentos que não podo ter n'este artigo, mas 
que é de esperar alcançará n'um trabalho mais completo 
que o auctor d'estas linhas está preparando. 

A benemérita sociedade promotora de bellas artes 
em Portugal deu á estampa uma traducção da Memoria 
já citada de Robinson acerca da antiga escola portu- 



gueza de pintura *. Ahi se encontram mais minuciosa- 
mente estudados alguns pontos em que apenas aqui foi 
possível tocar. Baste-mc dizer que da comparação d'al- 
guns quadros attribuidos á escola de Grão Vasco, infere 
o critico inglez a existência de pelo menos nove artistas 
distinctos portuguezes, que floresceram desde 1500 até 
15G0. Esta convicção nasceu do estudo do poucos qua- 
dros. Muitos mais ha ainda a comparar entro si, o a es- 
tudar individualmente, e não p(kle presumir-se a que 
z'esultado se deverá chegar com este trabalho. 

Robinson não hesita em considerar portuguezes aquel- 
les quadros todos. Em primeiro logar não é fácil explicar 
como em epochas nas quaes eram custosas c limitadíssi- 
mas as commiinicações intcrnacionaes, podiam ter sido 
exportados para Portugal quadros em tão avultado nu- 
mero como são os que vulgarmente se chamavam de 
Grão Vasco. Em nenhum paiz se encontram tão nimie- 
rosas producções das antigas escolas artísticas de outros 
paizes. As obras dos velhos pintores flamengos ficaram 
pela ínór parte na Flandres e paizes limitrophes, assim 
como em cada pequena republica italiana da idade media 
ficaram o ainda hoje estão os thesouros d'arte que pro- 
duziram os seus primeiros artistas. 

Como é pois que Portugal forma a única excepção 
a esta regra? e que nos annaes históricos dos paizes 
d'onde se fez a exportação nenhum vestígio ficou d'ella? 
Note-se também, que cm muitos dos quadros da es- 
cola portugueza (permitta-se-me que adopte e conserve 
este nome) estão patentes particularidades bem caracte- 
rísticas da sua nacionalidade. Sem fallar mesmo em ty- 
pos de physionomias, algims dos quaes porém são bera 
frisantes, sem indicar também o apparecimento de pretos 
evidentemente desenhados do natural, o que é uma forte 
presumpção a favor da origem portugueza dos quadros, 
visto que Portugal era quasi a única nação que possuía 
vastas colónias com indivíduos d'aquella côr, sem me re- 
ferir mesmo a estes fortes indícios veem-se em muitos 
quadi'os moedas portuguezas, ornamentos cujo estylo é 
sem duvida alguma portuguez e objectos de ourivesaria 
religiosa de um caracter e de uma composição como so- 
mente se encontra na antiga ourivesaria portugueza. Na 
galeria da academia do bcllas artes ha quadros com cá- 
lices, custodias, etc, de que na collecção d'arte orna- 
mental da mesma academia se encontram exemplares 
idênticos. A exposição em Paris, em 1867, de alguns 
d'cstes exemplares confirmou o que ha muito era convicção 
do auctor d'estas linhas, a saber que o estylo d'aquella 
ourivesaria religiosa era portuguez, o que em nenhum 
outi'0 paiz se encontra o mesmo typo n'aquelles objectos. 
Corrobora a nacionahdade dos quadros a que mo 
refiro a circumstancia já mencionada n'esto artigo, de 
que são elles executados n'um estylo c com uma teclmica 
que já não eram usados nas Flandres pelos pintores con- 
temporâneos dos auctores d'aquelles quadros; ou para 
mo exprimir com mais clareza: os pintores flamengos 
que viviam na epocha em que os quadros foram executa- 
dos não pintavam com o estylo e a teclmica que se notam 
n'aquellas pinturas. 

V 

E comtudo innegavel que a escola portugueza se 
rescnte muito da influencia flamenga, a ponto do serem 
as suas producções consideradas flamengas, pelos que não 
reconhecem a existência da nossa escola nacional. Esta 

' EsluJo sobre a aniiga escola porlugiiraa de pintura, por L. C. 
Roliiiison, liaduzidn por ordem e a expensas da Sociedade promotora 
de hellas artes. Lisl;oa, 1868 — á venda na livraria do sr. Pereira, rua 
Augusta, Lisboa. 



18 



ARTES E LETIIAS 



influencia ó evidente cm todos os quadros que se attri- 
Luiam u Crào Vasco ou a seus imitadores; mas contem- 
porâneos com as ultimas producçõcs d'cste cycio de pin- 
tores apparcccm (juadros em que é manifesta a influencia 
da arte italiana. í6íío oLras do Campello, Gaspar Dias, 
Eernando Comes e outros enviados a Roma por D. Ma- 
nuel e 1). Jono III. Houve, ])oia, sinudtaneamcnte em 
Portugal duas escolas ))em earacterisadas de pintura. A 
primeira o a mais antif,'a, é a chamada escola do Grão 
Vasco. Parece-sc no cstylo com a escola flamenga, ainda 
que conserva até mais tarde do que esta antigos metho- 
dos do execução e do cstylo. A segunda foi introduzida 
cm Portugal quando D. Manuel mandou a Roma alguns 
pintores aporfeiçoarcm-se pelo estudo das obras de Mi- 
guel Angelo e Raphacl. Volveram do Itália estes artistas 
embeljidos das doutrinas florentinas ou romanas, c imita- 
ram ou seguiram como podcram os grandes modelos que 
haviam estudado. 

Lançou pouco brilho esto ramo de escola portugueza. 
• Talvez o povo preferisse sempre o estylo chamado de 
Grão Vasco, mais religioso, mais nacionalisado. È certo 
que d'csta escola de (jirào Vasco se encontram produc- 
ções (piasi até ao fim do século XVI, quando os pintores 
(jue tinham ido a Roma se achavam já ha muito de volta, 
e haviam tido sobejo tempo para formarem discipulos e 
implantarem no paiz o seu cstylo o os seus methodos. 

O outro ramo da escola portugueza parece dever a 
sua origem a Joào Van Eyck, afamado pintor flamengo. 
Vciu elle a Portugal, na comitiva do senhor de Roubaix, 
embaixador enviado em 1428 por Filippc o Bom de 
Borgonha, a D. João I de Portugal, para sollicitar a 
mào da infanta D. Izabcl. Julga-so que Van Eyck se 
demorou dois annos em Portugal o executou o retrato da 
noiva de seu amo. Foi por occasião do casamento da in- 
fanta portugueza com o duque de Borgonha que este in- 
stituiu a celebre ordem do tozão d'ouro. A infanta falle- 
ceu em 1471. E possível que alguns outros artistas 
flamengos viessem á corto do rei de Portugal, ligado por 
tào intimas relações de pai'entesco com o soberano da 
Flandres, e contribuisscm para aclimatar em Portugal o 
estylo artístico adoptado então em seu paiz. Explica-se 
lacilmente assim a origem da escola chamada de Gnio 
Vasco. É certo, porém, que estas relações, se as houve, 
cessaram antes do fim do século XV, pois que nào vemos 
os nossos pintores aproveitarem-so dos progressos que 
manifesta a arte flamenga por aquella epocha. 

VI 

O campo d'cstudo é vasto o pede quem o explore. 
Hei';i amplamente compensado do suas fadigas c traba- 
lhos quem se dedicar a estudar o vasto repositório de 
materiaes que temos jiara illustrar a historia das artes 
entre nós. O auctor d'estes apontamentos quiz apenas 
chamar a attcniçào sobro os pontos mais importantes e 
mais controvertidos d'aquella historia. 

E para lastimar que aos estrangeiros mereçam mais 
attcnçno do ([uo aos nacionaes o exame e a discussão de 
questões (pie certamente são interessantes para Portugal. 
8e no nosso paiz existiu, como parece certo, uma escola 
de pintura (^m <|uc se podem contar artistas illustrcs, 
não é vergonha j)ara n('is, que nem sequer saibamos os 
nomes da maior parte, e ignoremos de (piasi todos as 
verdadeiras obras, e as particularidades biographicas? 

Não é só na historia da pintura que somos culpados 
de desleixo. Ninguém contesta que tivemos uma escola 
nacional do architectura, cujos monumentos bom cara- 
cterísticos estão ainda do pé, testemunhas irrecusáveis da 



existência do seus auctores. E comtudo o que sabemos 
da historia da architectura cm Portugal? Nem sequer 
se determinou com exactidão o nome do architecto do 
famoso convento dos Jeronymos, em Belém, (^uacs são 
os verdadeii"os caracteres da nossa arcliitcctura manue- 
lina, como so desenvolveu, como se explica a sua forma- 
ção na epocha cliamada do renascimento, d'onde provém 
a harmoniosa combinação dos elementos gothicos com os 
italianos, de que só Portugal apresenta typos tanto na 
sua architectura, como nas suas artes menores de ouri- 
vesaria, bordados, etc? 

Pcrmitta-sc-me ainda uma reflexão antes de termi- 
nar. No decurso d'este trabalho indiquei na pintura por- 
tugueza a existência do duas influencias contemporâneas 
mui diversas uma da outra; a flamenga e a italiana, e 
com ella ])rocurei explicar certas contradicçõcs apj)aren- 
tes, sem ella inexplicáveis. Consinta-se-me que diga que 
é tão manifesto este duplo caracter da arte portugueza, 
que se reproduz invariavelmente nas obras architectoni- 
cas e ornamcntaes executadas em Portugal no século XVI. 
Em nenhum outro paiz se encontra. >Sào, pois, certa- 
mente portuguezas, as producçõcs em que elle apparece 
e domina. 

MARQUEZ DE SOUZA IIOLSTEIX. 



O REALISMO 

r~-/\-~\ íí se perdeu ha muito no ar o 
) Q /* som da ultima gargalhada 
festiva. O entrudo arrumou 
o fatíj, engavetou as barbas, 
sacudiu a poeira das chinelas 
de bico, e tornou-se um ho- 
mem grave, ponderoso, sem- 
sabor, commum. A cidade 
readquiriu os seus velhos 
hábitos, — perturbados um 
momento — e discute agora 
nos botequins e pelas esqui- 
nas a subida dos fundos, a 
questão do Alabama, o de- 
Jicit e o ultimo pamjihleto 
dramático de Victorien Sardou. Fora d'isto vê-se triste 
o deserta. Quomodo sedet sola civitas j^lena jmjjuIo! Horia 
o caso do exclamar pela boca do Jeremias; se porven- 
tura os nossos Jeremias fossem dados a lamentações es- 
téreis! 

É realmente uma cousa embaraçosa, n'csto paiz, que 
não prima ^lela bossa imaginativa, o ter que relatar acon- 
tecimentos. Os dias passam, as semanas decorrem, os 
mczes findam, c a gente alonga a vista por um areal im- 
menso. O que se levanta? Alguma poeira som contornos 
esbeltos. 

Lá fiira, digam-mo d'isso, que pullula a vida por 
todos os cantos. Aqui não, apesar do sangue árabe ou 
mouíMseo, ou não sei que outras origens, — que eu não sou 
muito dado a estas investigações sub-cutaneas. Do que 
procederá o phenomono? Do um desalento que so bebe 
com o primeiro leite. As rosas crescem pelos vallados, o 
alecrim dá-se bom na horta, ainda a chuva desaba o já as 
.nmendoeiras so toucam, e comtudo a mocidade em ycx 
de ser poeta é rhetorica, e quando desfranze os lábios 
não canta, resmunga. 

Que vemos, de conseguinte, na arte? Um apego ao 
chamado realismo, quer dizer, um sombrio abaixamento 
do olliar, uma ausência total de aspirações, uma ruidosa 




ARTES E LETRAS 



19 



ncgaçào do bcllo. Tomou-se a humanidade polo lado in- 
corroto o protcrvo, e poz-se-lho mais a giba em relevo. 

— <íLe Beau n'est, ãans son essence que Ia manifes- 
tation du Vrai», escreveu Lamennais no seu livro admi- 
rável: Esqtiis.se d' une i^Itilosophie; mas esta manifesta- 
Ç?io da verdade nào suppõe o recorte de nenhum figurino 
ridiculo. 

O que regala hoje os paladares? — Um desentulhar 
de abomináveis paixões, um amontoar do aíFcetos lodo- 
sos. Encastellam-so ruinas, nao se edificam templos. O 
adultério nas suas largas variantes tem sido cm toda a 
parto um almargeal para repastos soberbos. Os vindou- 
i'os que apreciassem esta quadra pelos productos artisti- 
cos, julgariam a sociedade em absoluta corrupção do 
feveras. Nós fazemos exactamente o contrario do que 
SC praticava nos tempos da poesia feudal. Quem julgar 
as castollãs pelo depoimento dos trovadores, desenhará 
n'um fundo azul celeste uma preciosa imagem do mulher 
jwnsativa, banhada pelo luar nascente, o deixando cair 
do seu balcão a tentadora escada do seda. Estes, ^ao 
menos, idoalisavam o vulto. Onde estava a dama brutal, 
sórdida, cheia de lascivos desejos, tcrrivel com os sorvos, 
caprichosa com os pagens, educada n'um meio vicioso e 
deletério, esboçavam elles a scismadora das noites, pen- 
dendo d'um solau que íl aragem trazia. 

Pintar um monte pelo lado onde se lhe eriça o tojo 
é pintal-o com verdade, mas não será melhor reproduzir 
a encosta florida, por cujo dorso sobem os vinhedos, en- 
roscam-se os pâmpanos, matizam-se as cores, serpeiam 
as aguas, até que por fim os olhos se perdem no cimo, e 
dopois nas nuvens, o depois em Deus? 

A arte não é simplesmente uma imitação da natu- 
reza, como já se escreveu ha muito; deve revelar, sob o 
que se dirige aos sentidos, o principio interno, a belleza 
ideal. 

Isto ó na musica, na pintura, na poesia e na esta- 
tuária. Quando Cimarosa quer traduzir as alvoradas de 
um amor que vae desabrochar em felicidade, encontra 
na sua alma as notas, as pérolas que se engastam no 
« Pria che spwnti in ciei Vaurora. » Nada mais simples, 
nada mais trivial, c que outra cousa mais pathetica? — 
Quem não tivesse inspiração poderia escrever musica 
realista, porém, nunca faria musica eterna. 

Comtomplae os animaes do alguns mostres, o vereis 
que o enleio que elles despertam não provém da correc- 
ção exterior tanto como de uma faisea do sentimento, de 
vida, que o artista lhe incutiu, o que os faz pôr ora re- 
lação com o nosso mundo occulto. 

Que direi da poesia? Eu n'este ponto sinto-me coa- 
cto, como se expressaria um rei constitucional. 

Para mim a poesia tom de ser essencialmente lyrica. 
Vem do coração e vae para o coração. E AIjjIióo abra- 
çando Arcthusa. 

Um homem que ninguém taxará de fútil, Edgard 
Quinet, escreveu no prologo de uma tentativa épica: — 
« Touttí poiisie, prise en soi, est lyrique.» — Sempre a ima- 
ginei deusa e nunca doutora. Chama-so Desdomona, o 
canta quando a morte adeja; chama-se Andromaea, o 
son-i-se quando as lagrimas caem; chama-se Ophelia, e 
as ondas que a levam podem esfolhar-lhe a viçosa gri- 
nalda_ de margaridas. 

E assim que a entendo e é assim que a prezo. O 
seu fim é meigo, consolador, suave; ella é mulher, com 
todas as ternuras de mãe, de esposa, de filha, do amante. 
Não quer formar-se em leis, nem estuda pelo breviário 
do Stuart Mill; gosta dos campos, dos sorrisos, das 
crcanças, do rumor das arvores, do lar onde as familias 
se congregam, dos vallcs por onde os amores suspiram; 



o contenta-se com esse pouco, o vivo feliz, e adormeço 
radiante, com os olhos alongados pelas estroUas! 

A esculptura, como todos sabem, reflecte o mundo 
dos seres. Tom a planta o o animal; o baixo relevo e o 
monstro. Na sua idtima expressão, encontra o homem, e 
é então estatuária. O mármore fica sendo vestimenta, o 
por debaixo d'elle cumpre que o sangue ferva, e que as 
carnes palpitem. 

O que ha do ser essa estatua? Apenas a scquidão 
das linhas e dos contornos? Não, de certo. O cinzel dorio 
quando se tomou immortal, foi quando ao esmero das 
linhas soube juntar o traço da paixão. E que energias 
ideacs nos captivam, que fortes sentimentos nos enterne- 
cem? Os que, por assim dizer, nos soltam a vela a al- 
guma cousa que pensa o medita, os que nos arrebatam 
a alma até não sei que desvios melancólicos. E a dor de 
Laocoonte, a incommensuravel dor paterna, — é a Vénus 
celeste, a Isis remontada pelo génio grego, a casta e fe- 
cunda mãe do amor. 

Eis ahi porque eu nunca me deixei cegamente 
apaixonar por essa escola que inventou o realismo. O 
que ella faz, em summa, é espalmar a verdade. Como a 
vê fresca, rosada, mimosa, a pompear umas galas que 
dão tentações ao animo, aguarenta-lhe os primores, cer- 
cca-lho os encantos, dcspreza-lhe as louçanias, o imprcn- 
sa-a n'uma sotaina onde cila não sabe ageitar as azas 
que lhe pendem dos hombros, como os anjos. 

O realismo parece suppor um não sei que de má 
vontade contra a espécie. E a onthronisação do feio, do 
pequeno, do detestável; é a franca exposição de quanto 
se topa por osso mundo mais ou menos ulcoroso. Do pin- 
tor Courbet dizia ha dozesete annos um critico: «.Mr. 
Courhet, sons pretexte de réalisme, calomnie affreusement 
la natiire » . 

A exageração da doutrina leva, por desgraça, ao 
falso hediondo, — o que é o peior de todos os abysmos. 

Eu quando, por exemplo, leio as paginas formidá- 
veis do poeta de Stratford, ponho-me a repetir o que 
d'elle escreveu Hugo. « Em Shakespeare os pássaros 
cantam, as moitas vecejam, os corações amam, as almas 
padecem, a nuvem paira, ha calor, ha fi'io, a noite cae, 
o tempo corro, as florestas o as multidões conversam, o 
vasto sonho eterno fiuctua. A seiva e o sangue, todas as 
extcrioridades do facto múltiplo, as acções e as idéas, o 
homem o a humanidade, os vivos o a vida, as solidões, 
os povoados, as religiões, os diamantes, as pérolas, os 
muladarcs, as cryptas, o fluxo e o refluxo dos seres, o 
caminhar dos que vão e vae, tudo isto existe em Sha- 
kespeare, e como este génio é a terra também d'ella 
saem os mortos». 

Maravilhosa definição! esplendida verdade! E eom- 
tudo, saibamos uma cousa, liomeo, Hamlet, MacLeth, 
Othello, todos estes monumentos, todos estes assombros, 
estando na natureza, e vivendo da sua vida enorme, são 
porventura dramas realistas? Pois os requebros da va- 
randa dissc-os nunca jamais namorado terreno? pois os 
espirites descem á plataforma do Elsinour, armados de 
ponto em branco, in complete steel, a pronunciarem su- 
blimes trechos do vingança? pois Hccate e mais as bru- 
xas tem porventura bilhete de residência authenticado 
em algum governo civil? pois o mouro que de si dizia 
não ter a elocução guapa o elegante, elle, o rude, que 
assevera ao remordorem-lhe as víboras; 

— «/ am hlack; 
And have not those soft ptarts of conversation 
Tliut ckamherers have » ; 



20 



ARTES E LETRAS 



pois 6 ollo o eloquente, o apaixonado, o imaginoso, o 
riorido do tantas scenas opulentas? 

Não; é que a verdade na arte deve de ser como a 
verdade na terra, dourada e aquecida pelos raios vivos 
do sol, que são também os raios do talento. 

Reproduzir o typo ideal que só o espirito descobre, 
■ — como se expressa um escriptor já citado, Lamennais, 
— e quo é por assim dizer innaccessivol aos sentidos, eis 
tudo em que ella consiste. 

Estas opiniões que eu tenho desde muito, e nas quaes 
seguros abonadorcs me confirmam, vieram-me a propó- 
sito d'esta benéfica e sã publicação, — destinada a esper- 
tar o sentimento da arte nos que ainda não afinaram as 
cordas todas do peito pelo diapasão da contumelia politica. 

São artes e letras, — duas cousas quo não valem o 
processo eleitoral, e que nunca chegarão a ter as honras 
de constituir um ministério independente. 

Isto é que é por desgraça do uma realidade crua e 
dcscnxabida. Bebem-se uns aros de positivismo inútil que 
excluem toda a anciã generosa. Crê-se mal, e crê-sc pouco. 

Por mim em boas horas o diga, hoi de ter sempre 
o culto do bollo, e cm quanto o pensamento se me poder 
erguer acima das arestas mundanas, fabricarei o meu re- 
fugio do horas queridas no regaço solitário das nuvens. 

A arte não vae estudar com Magendie ou Flourens 
a vivisecção omnipotente; ella não anatomisa os sores 
para lhes descobrir os vícios de organismo; o que faz é 
subil-os ao pináculo da sua montanha, e ahi, ao clarão 
da sarça, mostral-os vestidos do luz, — reaes, mas gi-an- 
diosos ! 

Fevereiro ^72. E. A. vidal. 



EXPOSIÇÃO DOS TRABALHOS 
DE ARTISTAS PORTUGUEZES CONTEMPORÂNEOS 

Houve tenção de expor ao publico os trabalhos que 
se podessem colligir de artistas portuguezes contemporâ- 
neos, para solemnisar a passagem de S. M. o imperador 
do Brazil por Lisboa. El-Rei o Senhor D. Fernando ofFe- 
receu os quadros que possue no caso de figurarem n'esta 
exposição, e do mesmo modo os srs. duque de Palmella 
se promptificaram a prestar as excellentes telas do Se- 
queira que enriquecem a sua preciosa galeria. 

O vice-inspector da Academia real de bellas artes 
convocou, em a noite de G d'este mez, vários artistas o 
amadores para se discutir a idéa. EfFectuou-so a reunião 
n'umas das aulas d'aqucllc estabelecimento; assistindo 
quarenta o quatro pessoas. Foi unanimemente apjjlau- 
dido o projecto de fazer a exposição, e alguns dos assis- 
tentes prestaram-se espontaneamente a ceder para aquelle 
fim as obras do que são possuidores. Entre elles figu- 
ram o sr. marquez de Souza, quo offereceu os seus car- 
tões de Sequeira, e o sr. João Palha, que poz á disposi- 
ção da Academia os seus quadros e os do seu sobrinho, 
entro os quaes avultam excellentes composições do sr. An- 
nunciayão e um quadi-o do Sequeira muito notável por 
ser um dos primeiros estudos d'este mestre. O sr. Mo- 
zart também offereceu dois quadros e o sr. Alves Branco 
um. 

Parece, porém, que, pelo menos, tão breve como se 
desejava, não se podo pôr em pratica este cxcellento 
pensamento, e que o motivo principal que obsta á reali- 
sação d'clle, é não ter a Academia uma ou duas salas 
onde exponha os trabalhos. 

Lamentamos o facto, e muito mais porque sabemos 
que aquelle estabelecimento tom feito as maiores diligen- 
cias para que os poderes competentes mandem proceder 



il construcção do duas salas, cujos pi-ojectos foram entre- 
gues em temj)o ao ministério das obras publicas. 

Bom seria que o actual governo, tomando em con- 
sideração o que fica dito, deferisse ao pedido da Acade- 
mia, e que esta, aproveitando a idéa que ventilou, inau- 
gurasse as novas salas com a exposição dos traljalhos 
de artistas portuguezes contemporâneos, tão desejada por 
todos que prezam as bellas artes, e tão precisa até para 
instrucção dos artistas, quo podem ali ver e estudar tra- 
balhos que não conhecem. 



-50«- 



O ANTIQUÁRIO 

Em Portugal não se encontra vulgarmente, como 
em outros paizes e principalmente na Allemanha, o typo 
do antiquário, homem que passa o tempo a investigar 
onde poderá achar uma armadura velha, um livro pre- 
cioso, um primor de csculptura, e que percorro as cida- 
des, as villas e as aldeias para adquirir qualquer objecto 
com que possa enriquecer a sua collecção. 

O antiquário revela-se no modo do vestir. Desco- 
nhecendo o luxo e desprezando a moda, representa só 
por si uma recordação viva do j^assado. No meio da sua 
collecção famosa não destoa dos objectos que o rodeiam. 
Anda sempre de chapéu de chuva, não para se resguar- 
dar das intempéries da estação, mas para abrigar as 
preciosidades quo adquire e guarda com a precaução do 
avaro. Apparece em todos os leilões e vive nas lojas dos 
adélos, onde fareja os armários e os recantos na pista do 
objecto que lhe faça conta, e com o propósito firme de 
enganar o vendedor, talvez para se vingar das vezes 
que tem sido enganado por cllo. 

Explora com grande prazer as povoações menos 
visitadas pela gente das grandes cidades. Entra no do- 
micilio do aldeão, onde é recebido com agrado por toda 
a família. Basta-lhe para isso a respeitabilidade do porte. 
Depois de alguns rodeios encaminha a conversação para 
o assumpto. 

— Ora, de que diacho me servem e á minha famí- 
lia uns alfarrábios e cacos velhos que para ahi tenho? 
— lhe observa o aldeão. De nada, obsolutamente de nada. 

— Deíxe-m'os ver que talvez façamos algum ncgo- 
cíosínho. Eu não desgosto d'essas frioleiras. 

— Vou mandar vir alguma cousa que possuo n'esse 
género. 

E seguidamente o aldeão ordena ás filhas que vão 
buscar o retrato velho quo está coberto de pó atraz da 
arca, o livro escríjDto em caracteres desconhecidos e a 
chave ferrugenta que os pequenos arrastam pelo chão 
presa a um barbante. 

O colleccíonador fita os objectos com a expressão do 
lambareíro que vê deante de si uma bandeja de doíícs, 
assonta-se commodamente,' põe a luneta no afilado nariz, 
e começa por examinar o quadro. 

Olham todos para elle com o sorriso nos lábios e 
desejando fazcr-lhe mil perguntas. O dono da casa já tem 
vontade de saber se os objectos valem algiuna cousa, os 
filhos observam com a maior curiosidade os movimentos 
do antiquário, as mulheres riem á socapa do idiota que 
tem a mania de comprar cousas velhas e só a avó appa- 
recendo á porta, contempla com tristeza o homem que 
deseja levar-lhe de oasa as reminiscências queridas dos 
seus bons tempos. 

É n'csta occasião que o pintor Sohn representou o 
assumpto no seu qiuidro magnifico O Antiquário, qua-- 
dro que nós reproduzimos em a nossa primeira gravura. 



i 



ARTES E LETRAS 



21 



O MOÇO DE REGADOS 



É um philosopho. Encostado á esquina do um pré- 
dio que nunca será seu, sacco no braço, barroto apru- 
mado, deixando-lho de fora a orelha para ouvir logo o 
2ysc}mi do que o chamar, contempla indifFercntementc as 
glorias, as grandezas, e as vaidades que vão pela rua; 
sorri-sc com malícia para 
os mysterios que avista 
e de que só clle tem a 
chave; e fuma, descui- 
doso da pátria e do de- 
ficit j o seu cigarro ao sol. 

Conhece tudo; co- 
nhece todos. Tem vivido 
na rua, o tem vivido da 
rua; todo o verão pas- 
sado, levou uma carta 
por dia áquellc terceiro 
andar, e voltou logo para 
a esquina a esperar que • 
lhe trouxessem outra ; 
foi elle que atormentou 
de manhã durante dois 
mezes, accordando-o á 
força de toque de cam- 
painha, o devedor re- 
belde de um credor seu 
freguez; elle e só elle, 
na pista um dia inteiro 
de uma farailia que an- 
dava a visitar as igrejas 
em quinta feira santa, 
teve a arte do a seguir 
na sombra, de ouvir dois , 
officios e um sermão, de 
não perder o faro na 
contusão e na balbúrdia, 
e de ir gentilmente á 
meia noite e um quarto 
acompanhal-a cm dis- 
tancia até o domicilio 
— só para dizer depois 
a um cavalheiro, que 
lh'o incumbira, onde fi- 
cava a vivenda d'aquella 
que mais tarde veiu a 
dar-lhe a mão de esposa. 

Não quiz nmica, 
como diz o povo, ser 
nada. Desde pequeno, 
vida nómada, vida ai- 
rada c leve ; segurar ca- 
vallos á porta do Marti- 
nho, deitar ramos e ati- 
rar das torrinhas de bo- 
ca versos de cores ás 

bailarinas ; ir buscar o jantar para aquelle castcllinho mys- 
terioso, n'uma rua isolada, onde sem ninguém o sonhar, 
uma gi-ande senhora ia ás vezes passar o dia longe do seu 
palácio, na penumbra encantada dos amantes; quando al- 
gum tenor fraco queria dar-se o cJiic de ver cm sua honra 
voarem pombinhos era recita de beneficio, era elle quem ia 
ás varandas despedir essas ternas aves, com tal meiguice 
ás vezes, que lhes atava um cordel á aza para não voarem 
de todo e reservar uma ao menos para o arroz da ceia! 




Cae-lhe iim pouco para cima dos olhos a melena 
clássica dos pensadores; duas farripas á maneira dos Gi- 
randin e dos Cobden; ar profundo e firme, nariz abun- 
dante, o nariz dos fortes, mostrando mais a mão es- 
querda do que a direita, como succede por coquetismo 
natural aos artistas e aos poetas que nunca põem em 
evidencia a mão que trabalha, a mão dos prodígios, a 
mão gloriosa; corpo á fresca, em mangas de camisa, 
calça um pouco á zuavo — a intrepidez, a agilidade — 

sapato grosso e solido 
— e, ao meio da cin- 
tura — in médio vir tus 
— a apparecer a orelha 
de um suspensório, o 
suspensório dos estadis- 
tas, o suspensório dos 
graves e dos firmes! 

Moço de recados, 
lhe chamam. E em que 
pôde isso humilhal-o ? 
É o confidente da vida, 
o porta-voz dos negó- 
cios, o correio do trato 
social. Ao que pôde elle 
aspirar mais nobre do 
que ser útil aos seus 
conterrâneos, vencer o 
tempo e o espaço, re- 
solver as cousas, ser o 
telegrapho ambulante? 
O que mais poderia ser, 
se não quer nada mais 
da vida, se já passou a 
idade das illusões, se 
conhece que com os an- 
nos lhe vae escurecendo 
o animo e a pelle, seja 
está um pouco encar- 
quilhado, e até amare- 
lento e fusco da côr de 
um selim velho! 

Altivo de mais para 
pegar no barril e vender 
agua como os gallegos 
seus competidores e seus 
rivaes, olha-os sem ódio, 
mas sem consideração, 
— e não lhe inveja se- 
quer a sobriedade, elle 
que foi sempre n'isso o 
contrario dos heroes de 
Tuy e de Redondella, 
amante do copo de bom 
vinho que lhe offerecem 
ás vezes nas casas onde 
leva vxma boa nova, 
amante até da herva- 
doce no armazém vizi- 
nho á sua estação, ao 
seii escriptorio, áquella esquina onde elle se encosta, 
olhando para a cidade n'uma beatitude de casuista, como 
quem se compara aos outros e não se sente inferior a 
elles : 

— Moço de recados! diz comsigo. Mais Ínfimo é 
recebel-os, que leval-os ! . . . 

JÚLIO CÉSAR MACHADO. 



22 



AKTE8 E LETRAS 



A ESTALAGEM DOS TRÊS ENFORCADOS 



CONTO DIS EUCKMAltN-CIIATUIAN 
I 

Por C8SC tempo, disso Christian, pobro coino um 
niti) do ignijíi, tinliíi-mc cu asylado nos desvãos de uma 
casa vdlia da rua dos Minniisocnger em Kurcmbcrg. 

Era uma cspccic de ninho no angulo do telhado. As 
tolhas serviam-me do paredes c o vigamonto do tecto. 
Tinha de caminhar sobro a minha enxerga para chegar 
á janella; mas esta aborta na empena tinha uma vista 
magnifica. Descobria-se d'alli toda a cidade e o campo. 
Via-se os gatos que passavam gravemente sobro as go- 
teiras, as cegonhas que traziam ramos no bico para ali- 
mento dos filhos, os pombos que saiam dos pombaes com 
as ponnas como leques c que volteavam sobre o abysmo 
das ruas. 

Á noite, quando os sinos chamavam o povo ao an- 
gdus, escutava, encostado á beira do telhado, o seu canto 
melancólico, via as janellas que pouco a pouco se illumi- 
navam, os bons burguezes que fumavam cachimbo nos 
passeios das ruas, o as rajjarigas do saia vermelha o 
curta, com a bilha sobraçada, rindo e conversando em 
volta da fonte de S. Sebool. Pouco a pouco tudo isto so 
apagava, os morcegos começavam a esvoaçar, e eu ía-me 
deitar n'uma suave quietação. 

O velho adelo Toubac sabia tão bem como eu o ca- 
minho da minha toca, e trepava para lá muita vez. Todas 
as semanas, a sua cabeça do bode coberta por uma gre- 
nha avennelliada levantava o alçapão da entrada, e com 
os dedos seguros á boi-da do soalho, gritava com uma 
voz nazal: 

— Então! então, mestre Chi-istian, ha algmna cousa 
nova? 

E eu rospondia-lhe : 

— Venha d'ahi, entro, acabei agora uma paizagem 
de quo ha de gostar. 

Então prolongava-se o seu corpo magro, alongava- 
se até ao tecto, e ello começava a sorrir silenciosamente. 

Devo fazer justiça a Toubac, declarando que nunca 
regateava. Pagava os meus quadros a 15 florins uns por 
outros, o vondia-os jíor 40. Era assim um honradissimo 
judeu. 

Começava a agradar-me este modo de vida, e cada 
dia lhe descobria novos encantos, quando na boa cidade 
de Nuremberg se passou um caso estranho e mystorioso. 

Próximo á minha trapeira, um pouco á esquerda, era 
a estalagem do Boi Gordo, estabelecimento antigo o muito 
bom afreguezado. Tinha sempre deanto da porta três ou 
quatro caiTos can-egados do saccos ou de vasilhas, por- 
que quasi sempre antes de ir para o mercado, vinham 
alli 08 aldeões fortalccer-so com um copo do vinho. 

A empena do telhado da estalagem tinha uma forma 
particular: era muito estreita, aguda, recortada dos dois 
lados como os dentes do uma serra; nas coi'nijas o nas 
cercaduras das janellas tinha esculpturas grotescas e ban- 
das entrelaçadas. 

Acontecia, circumstancia notável, que a casa fron- 
teira reproduzia exactamente as mesmas esculpturas c 
os mesmos ornamentos: a própria haste que sustentava 
a taboleta tinha sido fielmente copiada com as mesmas 
volutas c as mesmas cs))iraes de ferro. 

Parecia que estas duas casas velhas e antigas so re- 
flectiam uma á outra. Havia porém uma única differença: 
por detraz da estalagem elevava-se um grande carvalho 



sobre cuja folhagem sombria se destacavam as arestas 
do telhado; — a casa fronteira rocortava-sc apenas sobro 
o céu. Além d'isso tão rumorosa ora a estalagem do Boi 
Gordo, quanto a outra casa era silenciosa. D'um lado 
via-so constantemente entrar o sair os grupos dos bebe- 
dores cantando, movendo-sc, fazendo estalar ás vezes os 
chicotes. Do outro reinava a solidão. Apenas se lhe en- 
treabria uma ou duas vezes por dia a porta pesada para 
dar passagem a uma velha baixa com o queixo saliento, 
o vestido collado aos quadris, um grande cabaz sob o 
braço, c um punho cerrado contra o peito. 

A physionomia d'esta velha havia-me por vezes im- 
pressionado; tinha uns olhos verdes o pequenos, um nariz 
agudo, afilado, com gi*andes ramagens n'um chalo que 
tinha pelo menos cem annos, com um sorriso quo lhe 
enrugava as faces como as pregas d'um grande laço, 
e uma touca de franjas pendentes sobre as sobrancelhas. 
Parecêra-me estranha, e interessára-mo a ponto de ter a 
curiosidade do saber quem ora e o quo fazia esta velha 
na sua grande casa deserta. 

Julgava adivinhar-lhe uma vida occupada em boas 
obras o em meditação piedosa. Mas um dia que eu pa- 
rara na rua, scguindo-a com a vista, ella voltou-se de 
reponto, lançou-me um olhar com uma expressão horro- 
rosa, indescriptivel, acompanhado de três ou quatro he- 
diondas caretas. Depois deixara cair a cabeça tremula, 
puxara polo chailo, cuja ponta vinha de rastos, e dirigí- 
ra-so rapidamente para a porta grande por detraz da 
qual desapareceu. 

— E uma velha louca, pensei cu admirado, uma 
velha louca, má o velhaca. Fazia bem mal em mo inte- 
ressar por ella. So cu podesso ver-lho outra vez a cara, 
talvez Toubac m'a pagasse por 15 florins. 

Estes gracejos porém não me socegavam. O horrí- 
vel olhar da velha como quo me perseguia por toda a 
parto; e mais do uma vez, quando subia a escada per- 
pendicular da minha toca, sentindo o fato preso algures, 
estremecia todo, imaginando que a velha teria vindo pu- 
xar-me pelas abas do meu fato para mo fazer cair. 

Toubac a quem contei esta historia não se riu; 
tomou um ar grave, o disse-me: 

— Mostro Christian, cuidado, cuidado se a velha 
lhe quer mal. Ella tem uns dentes pequenos, agudos e ma- 
ravilhosamente brancos; ora isto não é natural n'aquella 
idade. Tem mau olhado, acredite. As ci'eanças fogem 
quando a vêem e o povo do Nuremberg chama-lhc a 
Fleder mausse (coruja). 

Admiroi-mo da observação do judeu, o improssiona- 
ram-mo as suas palavras. Como porém encontrasse ao 
fim do algumas semanas a Fleder mausse som quo isso 
me acarretasse desgraça, passaram-me om brevo as ter- 
ríveis superstições o nunca mais pensei n'ella. 

Ora aconteceu que uma noite cm quo cu dormia 
profundamente fui acordado por uma estranha hanncmia. 
Era uma espécie do vibração tão doce c tão melodiosa 
que o murmúrio da brisa na folhagem pôde apenas com- 
parar-so-lhe. Escutei durante bastante tempo, com os 
olhos muito abertos sustendo a respiração para melhor, 
ouvir. Olhei a final para a janella, e vi duas azas quo 
so debatiam, esvoaçando contra os vidros. 

Julguei a principio que fosse uma coruja presa no 
meu quarto; mas a lua apparcceu no céu, e eu vi deson- 
volver-se sobro o seu disco brilhante as azas transparen- 
tes o arrendadas do uma magnifica borboleta. Vibravam 
tão rápidas que nem se viam ás vezes; outras, repousa- 
vam distendidas sobre a vidraça, deixando ver as ner- 
vuras finas o entrelaçadas. 

Esta apparição vaporosa no meio do silencio geral. 



ARTES E LETRAS 



abrhi o meu coração ás mais doces emoções; parccia-mc 
que uma sylpliide aeroa vinha consolar-mc do meu isola- 
aucnto, e esta idéa cntornoceu-me e fez-mo dizer-llie: 

— Descança meig.a captiva, descança que cu não 
abusarei da tua confiança; não te prenderei contra tua 
vontade, não, volta, volta ao teu céu c á tua liberdade. 

E abri-llie a janella. 

A noite era serena, milhares de cstrcllas sciíitilla- 
vam no espaço. Contemplei durante um momento este 
espectáculo sublime, c naturalmente vieram-mo aos lá- 
bios palavras de oração o de preces. 

Imaginem porém o meu horror quando, baixando 
os olhos, vi um homem enforcado no ferro que sustentava 
a taboleta do Boi Gwdo, com os cabellos espalhados, os 
braços hirtos, as pernas estendidas c juntas, o corpo cm- 
fim projectando uma sombra gigantesca até ao fundo da 
rua. 

A innnobilidade d'esta figura sob os raios da lua 
tinha alguma cousa de horrivel. Senti a língua gelar-se- 
mo e os dentes bater em convulsão. Ia gritar, quando, 
não sei porque attracção mysteriosa, olhando mais para 
baixo, distingui vagamente a velha acocorada na sua 
janella, no meio das grandes sombras, contemplando o 
enforcado com vxm ar de contentamento diabólico. 

Tive então uma vertigem de terror, as forças aban- 
donarani-me, e recuando até á parede, caí desmaiado. 

Kão posso dizer quanto tempo durou este somno 
de morte. Quando voltei a mim era dia claro. A névoa 
da noite, entrando no meu boraco, havia-mo molhado os 
cabellos. 

Na rua ouvia-se um rumor confuso. Olhei. 

O burgomesti"o e o secretario estavam á porta da 
estalagem, e demoraram-se ali por muito tempo. 

Muitas pessoas andavam do um lado para o outro, 
paravam para ver c depois continuavam o seu caminho. 
As mulheres da vizinhança que varriam as frontarias 
das casas, olhavam de longe e fallavam entre si. Emfim 
saiu da estalagem luna maca levada por dois homens, 
com um corpo envolvido e coberto por um panno de lã. 
Desceram assim a rua, e os rapazes que passavam para 
a escola seguiram-nos a correr. 

Todos se retiraram. 

A janella defronte estava ainda aberta, e no ferro 
fluctuavti ainda um bocado de corda. Não tinha sonhado; 
não. Era bem certo o ter visto a grande borboleta, de- 
pois o enforcado, c cmfim a velha. 

N'esse dia visitou-me Toubac. Vi-lho apparecer o 
grande nariz ao nivel do sobrado. 

— Então, mestre Christian, não tem nada que nos 
venda? 

Não o ouvi; estava sentado na minha única cadeira, 
com as mãos sobre os joelhos, e os olhos fixos, dilatados, 
olhando vagamente. Toubac, surprehendido pela minha 
innnobilidade, repetiu mais de rijo: 

— Christian! ó mestre Christian! . . . Depois, sal- 
tando para o sobvado, veiu sem mais ceremonia bater- 
me no honibro. 

— Então que é isso, que ha de novo? 
—Ah! é Toubac? 

— Creio que sim. Jlas que tem? está doente? 
— Não, estava scismando. 

— Scismando em que? 
— No enforcado. 

— Ah! exclamou o adclo — Viu-o? Coitado — pobre 
moço! Que singular acaso ! É já o terceií-o no mesmo sitio. 

— () que?! o terceiro? 

— E verdade. Eu já lhe devia ter contado isto para 
o prevenir. A final ainda é tempo. Estou certo que ainda 



ha do haver um quarto que siga o exemplo dos outi*os. 
N'estas cousas como em tudo, o que custa é a princijiiar. 
Dizendo isto, Toubac scntou-so na borda do meu 
bahú, feriu lume, accondcu o cachindio, e começou a 
lançar o fumo j)ara o ar com um ar meditativo. 

— Cos diabos! Disso ellc, não me tenho por muito 
medroso, mas se me propozessem o passar a noite em 
simillianto quarto, declaro que preferiria ao menos ir-me 
enforcar n'outro sitio. 

Imagine, mestre Christian, que, ha nove ou dez 
mezes, se apeou na estalagem do Boi Gordo xvíw homem 
do Tubing que negociava em couros. Pediu do ceiar o 
viram-n'o comer e beber com excellente appetite. Dão- 
Iho a final o quarto do terceiro andar, — o quatro verde, 
como lhe chamam — e no dia seguinte acham-n'o cníor- 
cado no ferro da taboleta. 

Emfira — era a primeira' vez que tal suceedia — que 
diabo! — ningu.em pensou mais em tal. 

Lavrou-se auto do corpo de dclicto, o entcrrou-se o 
homem no fim do quintal. 

Seis semanas depois chega um militar de Newstadt. 
Tinha deixado o serviço, o vinha todo alegre de voltar 
para a sua aldeia. Esteve toda a noite a beber e a fallar 
de uma prima que o esperava para casar. Emfim leva- 
ram-n'o para o mesmo quarto do terceiro andar, c n'cssa 
noite o Watchmann, quando passava pela rua dos Min- 
nesoenger, divisou o que quer que fosse suspenso no ferro 
da taboleta. Levantou a lanterna, e viu o militar com a 
baixa mettida n'um canudo do folha caído sobre a perna 
esquerda, c os braços estendidos chegados ao corpo como 
se estivesse na fói-ma. 

D'esta vez era extraordinário. O burgomestre fez 
um barulho dos diabos. Revistaram o quarto, sondaram 
as paredes, e enviaram uma certidão do óbito para New- 
stadt. 

O escrivão escrevera : morto por uma apoplexia ful- 
minante. 

A gente de Nviremberg indignou-se contra o estala- 
jadeiro. Houve mesmo quem o quizesse obrigar a tirar o 
ferro da taboleta, dizendo que inspirava idéas perigosas. 
Mas calculo que o velho Nikel Schnaidt não fez caso do 
tal, respondendo, que seu bisavô tinha posto o dito ferro 
ali com a taboleta do Boi Gordo, onde se conservava do 
pães para filhos, havia cento e cincoenta annos; que o 
ferro não fazia mal a ninguém, nem mesmo, por estar 
a trinta pés de altura, aos carros cheios de feno, que lho 
passavam por baixo; que finalmente áquelles a quem a 
sua vista perturbasse, elle recommendava como remédio 
infallivel, o voltarem a cara e os olhos para o outro lado. 

A final tudo socegou, e durante muitos mezes não 
aconteceu mais nada. 

Infelizmente, um estudante de Heidelberg que ia 
para a universidade, parou ante-hontem no Boi Gordo e 
pediu um quarto. Era filho de um 2>adre protestante. 

Quem havia de suppôr, que o fiUio de um padre 
protestante pensaria em se enforcar no ferro de uma ta- 
boleta, porque um commerciante gordo e um militar com 
baixa lhe haviam dado o exemplo? E forçoso confessar, 
mestre Christian, que nada n'cste mundo tin)ia menos 
probabihdades. Porque emfim, o que os outros haviam 
icito não mo parece rasão sufficiente . . . Pois bem, o estu- 
dante . . . 

— Basta, basta ! Exclamei cu : mas isso é horrivel ! 
Presinto no fundo de tudo isso um mysterio espantoso. 
Nada: a causa não está no feri"o, nem no quarto. 

— Então desconfia do estalajadeiro, que é o homem 
mais honrado que ha no nmndo, de uma das famílias 
mais antigas de Nurcmberg? 



24 



ARTES E LETRAS 



— Não, não. Deus mo livre de lançar susi^eitas so- 
bre alguém ; mas ha abysmos que os nossos olhos não se 
atrevem a sondar. 

— Bem, bem, tem rasão, disse Toubac espantado 
da minjia exaltação; é melhor fallarmos de outra cousa. 
Vamos a saber, mostre, e a minha paizagem do Sainte 
Odile? 

Esta pergunta fez-me voltar ao mundo real. Mostrei 
ao adolo o quadro que terminara, Concluimos o nego- 
cio, o Toubac desceu a escada contente, e rccommen- 
dando-mo que nunca mais pensasse no estudante de Hei- 
delbcrg. 

Teria de boa vontade seguido o conselho do adelo, 
se fosso facil expulsar o diabo quando este se mette em 
qualquer cousa. 

(Continua.) B. 



OBRAS DE ARTE PORTUGUEZAS 
QUE FIGURARAM NA EXPOSIçXo DE MADRID EM 1871 

(Continuação) 

Quatro" foram os quadros que o sr. António Manuel 
da Fonseca aj)rcscntou em Madrid : Uma tágide, Eneas 
fugindo ao incêndio de Troya, A nympha Peristero e O 
amor conjugal. 

Na litteratura c nas artes tem-se produzido ultima- 
mente, como é sabido, notável transformação. A escola 
romântica teve de ceder o passo á escola realista. Dumas 
filho com A Dama das camélias assombrou n'um dia a 
popularidade ganha j)elo pae em centenares de obras. 

Os quadros do sr. Fonseca estão para os da mo- 
derna escola,, para os do Courbet, por exemplo, como 
O Conde de Monte Ckristo está para o Romance de uma 
mídher. Pertencem a mna escola que já passou. Entre- 
tanto quem lhes prestar desapaixonada attenção, encon- 
trará n'ellcs amiudadas provas do talento do mestre e 
da sua longa pratica de pintar. O quadro que repre- 
senta Eneas é, em nosso humilde parecer, o melhor que 
o sr. Fonseca mandou á exposição, com quanto pertença 
também íl escola e maneira que serão em pouco no mun- 
do artistico — usando da phrase de certo critico — um 
verdadeiro archaismo. 

O sr. Isaias Newton tem talvez produzido melhor 
do que o que mandou a Madrid. E artista que vê bem 
o natural, mas pecca muitas vezes cm reproduzil-o com 
grande minudência. Ás suas composições presido sempre 
a serenidade; céus puros, longes azulados, arvores tran- 
quillas. Ha falta de ai'dor nos seus quadros. Sc nos atre- 
vêssemos a dar-lhe um conselho, dir-lhe-íamos que pro- 
curasse mais o effoito geral e o contraste da natureza, 
reproduzindo o aspecto da paizagem sem se prcoccupar 
tanto com a parte tcchnica, cm que se nota quasi sem- 
pre ininuciosidado de toque mais apreciável nas pinturas 
de jicquenas dimensões. 

Três foram os quadros que expoz Palácio real da 
Ajuda e foz do Tejo, As duas fronteiras, Portugal e 
Hespanha, e Arrabaldes de Santarém. 

Estas telas, não obstante rescntirem-se dos peque- 
nos defeitos que apontámos e dos quaes o artista ha de 
com o tempo forçosamente emendar-se, porque tem ele- 
mentos para isso, possuem incontestáveis bellezas que lhe 
mereceram em Hesjianha a attençr.o das pessoas enten- 
didas e os elogios dos bons críticos. 

O retrato do padre António Vieira é o único traba- 
lho em pintura que o sr. António José Nunes enviou. 

Esto quadro era j;í conhecido, e d'elle se occupou 



muito a inq^rensa quando pela primeira vez esteve em 
exposição. 

Com elle mandou também o sr. Nunes uma Nossa 
Senliwa desenhada primorosamente a lápis, e copiada de 
um quadro que existe na galeria nacional. 

O sr. Pedroso figurou com três quadros de mari- 
nhas: Noite de luar, Torre ãé Bugio e Corveta Este- 
phania, que foram devidamente estimados, pois estão á 
altura do merecimento revelado por este artista em innu- 
meras composições. 

Apresentou mais dois quadros contendo varias gra- 
vuras em madeira, pelas quaes se pódc facilmente julgar 
o estado em que se acha entre nós este ramo de bellas 
artes, por isso que o sr. Pedroso é um dos primeiros 
gravadores em madeira que ha no paiz. 

Uma romaria (districto de Vizeu) e Um mercado 
são os assumptos de dois sympathicos quadrinhos que 
representaram em Madi-id o talento do sr. Leonel. Am- 
bas as composições são graciosas e têem as figuras toca- 
das com finm'a o delicadeza; ambas porém têem pouco 
colorido. A critica pôde notar-lhes também demasiado 
acabamento nos últimos planos com manifesto prejuízo do 
effèito geral. Seria pois para desejar que n'outros qua- 
dros o sr. Leonel . attendesse do jirefcrencia ao assumpto 
e grupos que o representam, não se occupando tanto dos 
detalhes nas figuras secundarias. 

Duas formosas telas estiveram expostas, assignadas 
pelo sr. Joaquim Prieto: O pjresente do casal e Horta- 
liças. 

Segundo informações que temos, não figurou em 
Madrid nenhum Lodegone — como os hespanhoes chamam 
a este género de jjintura — que valesse o quadro de Hor- 
taliças do sr. Prieto. Estes dois trabalhos que foram fei- 
tos, se não nos enganamos, para a primeira exposição 
da Sociedade promotora de bellas artes, receberam n'cssa 
occasião sinceros elogios pelo mérito que encerram. 

Sempre que temos de refeiúr-nos a trabalhos artísti- 
cos ou litterarios do uma senhora, sentimos extraordi- 
nário prazer, e ao mesmo tempo grande receio, porque ô 
acatamento devido ao sexo fonnoso nos impede de fallar 
com desassombro e franqueza. 

A ex.'"* sr.* D. Maria Guilhermina da Silva Reis, 
esclarecida senhora a quem devemos os maiores respei- 
tos, colloca-nos porém na melhor posição para lhe criti- 
carmos as suas obras com sinceridade e afouteza. Tendo 
de lutar com as difficuldades que se levantam a cada 
passo em Portugal para o artista estudar a natureza e 
os grandes mestres, principalmente se o artista é uma 
senhora, muito faz a sr.* D. Maria Guilhermina da Silva 
Reis conseguindo apresentar-nos telas do tanto mereci- 
mento. 

Quatro foram as que enviou a Madrid: O castello 
de Palmella e qxdnta do sr. 0'Neill em Setidjul ; A en- 
trada do Tejo, vista dos arrabaldes de Lisboa; O Bom- 
Jardim e seus arredores, vista tirada no monte Abraham 
em Bellas; Castello e Chalet da Pena em Cintra, pro- 
priedade d'El-Rei D, Fernando. 

Todos estes quadros revelam talento e applicação, 
recommendando-se ])rinci]ialmeiate pela verdade com que 
são pintados os longes. Se a sr. D. Maria Guillicrmina 
estudasse melhor os primeiros planos, cujo descmpenlio 
não está em relação com os últimos, difficil seria á cri- 
tica mais severa apontar defeitos capitães aos seus qua- 
dros. 

Dos que noticiámos aqui, temos por melhor o que 
representa O Castello de Palmella e quinta do sr. 0'Neill 
em Setidjal, cuja entoação suave e melancólica dá per- 
feita idéa da hora em que o ponto foi escolhido. 




ii3 



to 

rd 



AETES E LETRAS 



25 



» 



O sr. Santa Barbara expoz uma miniatura represen- 
tando em retrato a família real portugueza. 

Tem mérito este artista, mas precisa applicar-se, 
principalmente a dcsçnhar, para ser mais correcto nos seus 
trabalhos. 

O retrato de, S. M. El-liei o sr. D. Luiz e o de 
S. AL a Bainha, pelo sr. José Machado Carreira dos 
Santos, são prova do merecimento do seu auctor; a critica 
porém pode notar-lhes defeitos, de certo muito desculpá- 
veis em artista que principia, mas que bom será não se 
ref)itam em novas composições. 

Os retratos estão parecidos, mas isto não basta ; am- 
bos têem falta do cor e algumas incorrecções de desenho, 
que mostram que o artista não consultou o natural quando 
desenhou as figuras. 

Fazemos estas reflexões ao sr. Machado, procedendo 
a seu respeito como procedemos com o sr. Isaias, porque 
desejando nós usarmos de franqueza e imparcialidade 
para com todos, preferimos todavia mostrar-nos menos 
benévolos com os artistas de reconhecido talento, do que 
com os que nada valem. E a rasão é porque áquelles 
podo a severidade da critica ser útil, visto que a eom- 
prehendem, emquanto que aos últimos de pouco serve de- 
primil-os ou elogial-os, porque nunca passam do que são. 

Um dos nossos artistas mais infatigáveis é sem du- 
vida o sr. Luiz Ascensio Tomazini, notável pintor de 
marinhas, a quem a pratica de muitas e muito longas 
viagens conferiu largo subsidio para o emprohendimento 
dos seus painéis. 

Mandou este artista para a exposição de Madrid 
onze quadros denominados Entrada de Lishoa, Pharol 
da Guia, Calmaria, Torre do Bugio, Cabo da Boca, 
Pharol de Santa MaHha, Barco de pesca fundeado. Sa- 
veiro Moleta, Uma pedra. Barco de pesca. 

De todos o mais estudado é o primeiro. Entrada de 
Lishoa. Este quadro tem boas qualidades; aguas transpa- 
rentes, perspectiva bom entendida e colorido apropriado. 
Não gostamos porém da Torre. Desejaríamos que o ar- 
tista a tivesse tratado melhor, no que muito ganharia o 
conjuncto da composição. 

Depois d'estc quadro apreciámos A calmaria, onde 
ha harmonia e socego. 

Alem dos trabalhos expostos nas salas da Academia 
real das bellas artes antes de serem enviados á exposição 
internacional de Madrid, outros foram remettidos directa- 
mente pelos artistas, alguns dos quaes trabalhos tivemos 
a honra de ver nos ateliers de seus auctores. 

Figura em primeiro logar o quadro do sr. Lupi de- 
nominado A família, composição agradável e bem dese- 
nhada. A principal belleza d'este painel é o menino dei- 
tado no collo da mãe, o qual está admiravelmente estu- 
dado do natural, e por isso do uma verdade que fascina. 

E pena que o quadro seja um pouco fraco de claro 
escuro e de cor, o que certamente foi devido ao artista 
não poder dispor do tempo sufficiente para melhor con- 
cluir a sua obra. 

Ao quadro Afamilia coube a honra de ser premiado 
com a medalha de 2.* classe, e gravado n'uma das pagi- 
nas da excellente folha Illustração hispano-americana. 

Não tivemos a honra de ver os quadros que o dis- 
tincto professor da Academia do Porto, sr. Rezende, ar- 
tista que nós muito considerámos, expoz em Madrid. Por 
isso temos de nos soccorrer ao que o sr. Tubino diz no 
seu livro de critica, e é o seguinte: 

«No salão do throno estão duas telas de Rezende, 
artista portuguez, que são pronuncio de boas faculdades. 
Intitulam-se Aldeã da Alortoza e Pescador portuguez. 
Noto em ambas riqueza de colorido e bom desenho. » 



O sr. Bordalo Pinheiro (pae) figurou com quati"o qua- 
dros chamados, A lenda da pega de Cintra; O leitor de 
Cervantes ; O copo de agua e O pasteleiro de Belém. 

O novo género a que o sr. Bordalo (pae) se dedicou, 
tem-lho valido merecidos encómios das pessoas entendidas 
ern bellas artes. 

Sentimos que este artista não enviasse a Madrid 
O hihliophilo, por ventura o melhor trabalho que tem 
saído dos seus hábeis pincéis. Entro os que mandou pa- 
recem-nos pi'eferiveís O pasteleiro de Belém e O leitor de 
Cervantes, porque são os de mais vigor e correcção de 
desenho, embora n'elles, como nos demais, haja alguma 
monotonia nos escuros. 

O espirituoso caricaturista sr. Bordalo Pinheiro (filho 
apresentou um grande desenho feito a carvão, cujo as- 
sumpto denominou, se não estamos em erro, A volta da 
igreja^ (boda na aldeia). 

È producção em que facilmente se adivinhara as fa- 
culdades homoristicas do desenhador, e que revela talento 
e espirito de observação, accusando ao mesmo tempo certa 
necessidade no artista de estudar bem o natural. 

Figurou também com algumas aguarellas de costu- 
mes populares, que mereceram attenção, tendo sido a que 
representa Uni vendedw de palitos e rocas, gravada na II- 
lustração hispano-americana . 

Em esculptura, segundo informações que tivemos de 
pessoas auctorisadas, e pelo que lemos sobre o assumpto, 
somos levados a crer que os artistas portuguezes figura- 
ram em Madrid tão bem como os nossos vizinhos hespa- 
nhoes. 

Por todas as rasões mencionaremos em primeiro lo- 
gar o nome do sr. Victor Bastos, que mandou Um pro- 
jecto de monumento dedicado á memoria dos navegantes 
portuguezes. 

Não tivemos o gosto de ver a obra do distincto es- 
culptor, a qual não figurou na exposição da academia, 
porque foi enviada directamente pelo artista; por isso 
nada podemos dizer a respeito d'ella. 

Infelizmente nem da opinião do sr. Tubino nos jio- 
dêmos valer n'esta occasião, porque a respeito do traba- 
lho do sr. Bastos diz apenas o illustro critico, que é um 
pouco pesado, mas grandioso. 

O Adónis combatendo com o javali, grupo em bronze 
executado pelo sr. Fonseca, é tão conhecido de outras ex- 
posições, que nos considerámos dispensado de fallar d'esta 
excellente escxilptura. 

O sr. Simões, um dos modernos artistas mais estu- 
diosos e do mais talento, discipulo muito considerado pe- 
los seus professores Assis c Bastos, em Lisboa; Jouffroy 
em Paris e Monteverde em Roma, enviou três excellentes 
trabalhos, dos quaes um, O joven grego, obteve por pre- 
mio a medalha de 3.* classe. 

Os trabalhos são Um joven grego agradecendo a Jú- 
piter o seu triumpho nas corridas olympicas (estatua em 
gesso) ; Cabeqa de expressão (em gesso) ; O concilio dos 
deuses maritimos (baixo relevo em gesso). 

Na estatua ha estylo apurado e muito estudo ana- 
tómico ; tem nobreza a figura, e é pena ser de dimensões 
menores que o natural. A cabeça de expressão é bem feita, 
e o baixo relevo tem bastante merecimento. 

Dizem-nos que o jury de HesiDanha foi pouco justo 
com este artista, porque, se não estão em erro os nossos 
informadores, premiou obras de menos importância do 
que a estatua do sr. Simões, com medalhas de maior 
consideração. 

Outro esculptor de talento que honra as artes do seu 
paiz é o sr. Alberto Nunes, discipulo distinctissimo do 
sr. Calmeis, em Lisboa, e do sr. E. Guillaiune, em Paris. 



2G 



ARTES E LETRAS 



Este artista mandou a Madrid uma estatua cm gesso 
que figura Cornélia trazendo para Roma as cinzas de seu 
marido Pompeu. lia nobreza na attitude da estatua, li- 
nhas graciosas na coniposiyào e o panejamcnto é bem es- 
tudado. O trabíUlio do sr. Alberto niereceu-lhe ser ])re- 
niiado com a medalha da 3." classe. 

(Coiitinún). 



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CURONICA DO MEZ 



aliemos verdade : niío houve 
entrudo, ou antes somente ao 
céu foi pcnnittido jogar o en- 
trudo este anno. 

E de que maneira o céu 
faz as cousas quando as em- 
prehende I Desprezando com 
a maior sem ceremonia o edi- 
tal do governo civil, brincou 
á anliga, sem que pessoa alguma llie po- 
zesse impedimentos. Era agua a potes so- 
bre os vizinhos cá de baixo, não os dei- 
xando pc^r pé em ramo. . . secco. 

Dansas, foi lara a que se atreveu a 
airostar com a cheia. Chegava a gente a 
persuadir-se que ouvia o sonoro e modesto sa- 
patear da pastorinha, dirigido pelo intelligente 
apito do cboreograplio de praça; mas qual — era 
engano. Abria a janelia com a mais viva curiosi- 
dade, e logo percebia que se linha equivocado com 
o aguaceiro pesado que bailava sobre as pedras da 
calçada, ao som do rijo sueste que assobiava pela 
embocadura da rua. 

Nos bailes de mascaras o dominó e o pierrot 
foram substituídos pelo costume de andina no sexo 
gentil, e pelo de merr/uUiador no sexo barbado. 
Este ultimo, não obstante sor um tanto pesado 
para walsar, eia comtudo o único que permittia ao 
coipo bumano entrar na sala um pouco enxuto. Por 
isso muita gente, não querendo expor-se a estes 
duches nada agradáveis no mez de fevereií-o, prefe- 
riu ficar em casa, divertir-se com a família, a tomar 
parte nos folguedos públicos. 

O inesperado temporal influiu muito, como deve suppor-se, 
na receita dos theatros, mas não obstou, felizmente, a que se repre- 
sentassem algumas peças novas. 

Foram muitas ás ti^aducções que receberam na semana do car- 
naval a saiicção do publico. Se me permittem, poiém, não faltarei 
d'ellas, embora respeite bastante os traductores, e tenha por elles mais 
defeiencia do que certo critico que dizia, ha dias, n'mna revista lit- 
tcraria publicadfa não me lembra onde : 

Cl Os traductores são apenas inquilinos do prédio que habitam, 
e toda a gente os accusa de fazerem mais estragos do que melhora- 
mentos na casa que os abriga.» 

Das composições originaes, citarei em primeiro logar a His- 
toria de wn enforcado, comedia burlesca do sr. Francisco Gomes de 
Amorim. 

Todos sabem que uma pertinaz doença tem privado as letras pá- 
trias dos valiosos serviços que o sr. Glomes de Amorim lhes podia 
prestar. 

Auctor applaudido, poeta estimado, prosador correctíssimo, em 
mais de um drama, de um volume de versos e de um conto interes- 
sante, mostrou o sr. Amorim, (juanto o seu espirito estava desaim- 
víado das tiístezas da doença, de quanto era capaz o seu robusto ta- 
lento cultivado por cuidadoso e perseverante estudo. 

O theatro, porém, foi o campo onde alcançou maiores victorías. 
Ódio de raça, Gliigi, Cedro vermelho e outros dramas de grande fa- 
ma, popularisaram o nome do notável escri])lor e deram avultados 
lucros á enq)reza que então geria o theatro de D. Maria II. 

Ao sr. Gomes de Amorim coube a honra de adivinhar o género 
propagado hoje pelos libreltistas de Otlenbacli. Julgarão alguns que 
fraca In ima cabe a (]uem escreve p(>ças d'aquelle feitio. Quanto a 
mim, entendo que nmitas d'ellas são feitas com grande talento, por- 
que téeni espirito e critica delicada, qualidades que não se enconlram 
muitas vezes nas da outra escola. Aípiellas pochadcs são para os bons 
modelos das composições dramáticas o mesmo que a caricatura é 



para os quadros sérios, e ninguém dirá que a caricatura é um ramo 
das belias artes sem merecimento. 

Voltaire costumava dizer (jue no theatro não 6 paleado quem 
quer; creio que será licito concluir d'esta pbrase do grande pbiloso- 
pho, que se é preciso talento para fazer uma peça (jue o publico pa- 
teia, mais talento deve ser necessário ])ara produzir uma (jui; as pla- 
teas applaudem ; e a Gran-Duqueza, o líarba Azul, a Bella Helena e 
outras têem recebido applausos em lodos os theatros da Europa, não 
só pela nmsica, mas também pelas situações chistosas e pelos bons 
ditos de que são recheadas. 

Mas voltando ao que disse a respeito do sr. Amorim ler adivi- 
nhado o género dos libreltistas de Ollenbach: Epiphauio presenliu 
o género, o sr. Amorim pi'oduziu-o. 

No prologo que precede a peça Fígados de Tigre, mandada im- 
primir por conta do auctor cm 18C9, conta o sr. Amorim o seguinte : 

«... escrevi o primeiro acto dos Figados de Tigre, e li-o a Epi- 
phanio. O grande artista rugiu de enlhusiasmo, logo ás primeiras 
scenas. Similhante ao cavallo arahe, que perdido com seu dono nos 
desertos ardentes do Sahara, sente repentinamente debaixo dos pés 
a fresquidão de um veio do agua próximo, assim o illustre actor fa- 
rejara, no começo da minha obra, o género que havia muitos annos 
acariciava a sua phantasial 

Imagine-so a minha estupefacção, vendo-o correr o saltar pela 
casa, com risco de me quebrar os trastes, depois de ter tentado que- 
brar-me as costellas com um abraço. 

— Homem, toma juizo! Tu já não és creança e . .. 

— Acaba isso! Acaba isso depressa, se queres ganhar diidieiro 
e salvar o theatro! 

— Pois julgas?... 

■ — Se julgo?! o futuro da arte está n'esse género, ou não está 
em cousa nenhuma. 

— Não digas heresias! olha que insultas a arte e o senso com- 
mum; isto não passa de uma brincadeira, que eu escrevo por des- 
enfado de outros trabalhos aborrecidos. 

— Pois sim, seja brincadeira ou o que quizeres; porém, eu, que 
conheço a terra em que vivo, digo-te que tens debaixo das mãos o 
melhor elemento de receita, (jue pijde haver para os theatros; e posso 
aflirmar-te, que esta espécie de obras ha de enriquecer algumas em- 
prezas futuras. » 

O grande actor não se enganara nas suas prophecias. 

A peça Figados de Tigre i-epresentou-so e o pidilico ao receber 
pela primeira vez tamanho choque mostrou-se surprehcndido. De- 
pois concorreu, movido pela curiosidade, a ver um espectáculo in- 
teiramente novo para si, e auctor e empreza obtiveram o mais lison- 
jeiro resultado de tal ernprehondimento. 

Ora foi o auctor do celolire melodrama dos melodramas, que, ha 
pouco, durante um pequeno allivio da enfermidade que o apoquen- 
ta, escreveu, para se distrahir, a Historia de um enforcado, peça 
liliada no género que inaugurou quando fez representar os Figados 
de Tigre. . 

A nova comedia burlesca do sr. Amorim é pois uma composi- 
ção carnavalesca, bem dialogada, e cuja idéa bastante espirituosa, pro- 
duziíia talvez situações do melhor elfeito se fosso aproveitada com 
mais vagar. Ainda assim é trabalho de escriptor pratico nas lidas da 
scena, e fez todo o carnaval do theatro de D. Maria II, cumprindo ri- 
gorosamente com o seu dever, que era provocar o riso no publico. 

No theatro do Príncipe Real deu-se com grande applausn a re- 
vista do anno de 1871, Coisas do arco da velha, oiiginal do sr. Ba- 
ptista Machado. 

A revista do anno é para mim uma das manifestações do thea- 
tro que mais me entretèem. Difficil de executar pela paciência de 
que se necessita para cerzir aqnellas cobertas do retalhos, este gé- 
nero de trabalho dá ao auctor gloria ephemera, pois que, passados 
os primeiros mezes do anno, o catalogo critico dos acontecimentos 
mergulha no insondável abjsmo do esquecimento, d'onde ninguém 
mais o salva, por muito bem feito que elle esteja. 

Três são as principaes condições a que uma peça d'esta ordem 
precisa satisfazer; ter graça, criticar bem os factos, e regista-los to- 
dos. 

A estas clausulas impostas pelo publico obedece a nova peça do 
sr. Baptista Machado, e ahi está porque ella tem despertado a curio- 
sidade e é applaudida sempre que se representa. 

No theatro da Rua dos Condes o no das Variedades tandiém se 
representaiam três comedias originaes. A filha do alubardciro, pelo 
sr. Graça, n'este ; A fnmilia do bailarino, polo sr. Desforges e 
A filha do, regimento, pelo sr. Araújo, n'a(juelle. 

A primeira e a ultima são composições ligeiras de andores inex- 
perientes; A fainilia do bailarino é apenas um pretexto para a pa- 
rodia do bailo liespanhol Ayer ij hoy, dansado ha tempos no Circo 
e no Gynmasio. 

Itegisto porém estas peças com muito prazer, porque entendo 



ARTES E LETRAS 



27 



qiio irum paiz em que. os theatros se alimentam de traducçõcs, não 
(leve passar sem menção qualquer original por mais modesto que seja. 

O inspirado poeta sr. Pereira da Cunha publicou O voto de 
El- Rei. 

Parece que a origem d'esle poemeto está na tradição porlugueza 
de que El-Rei D. Manuel subira a serra de Cintra a fim de ver se des- 
cobria nos largos horisontes que d'ali se avistam, a armada da índia, 
cuja demora lhe preoccupava o espirito, fazendo voto n'aquelle logar 
á Senhora do Restello de lhe erigir um mosteiro, se a frota chegasse 
ao Tejo a porto e salvamento. 

JN'ão tive o gosto de ler esta ultima obra do sr. Pereira da Cu- 
nha, que apenas foi dislribuida a limitado numero do pessoas. Estou 
certo porém de que hão de abundar n'e]|a todas as qualidades emi- 
nentes que se encontram nas demais producções do illusire poeta, qua- 
lidades que as elevam á altura em que se acham os trabalhos littera- 
rios porluguczes de primeira ordem. 

Corre impressa a excellente comedia de Ponsard Horácio e Ly- 
dia, traduzida em verso pelo sr. João de Deus. 

Todos conhecem o talento do traductor, por isso não é para ad- 
mirar que a producção do poeta francez esteja vertida em primoro- 
sos versos porluguczes. Eu admiro sobi-etudo a naturalidade com que 
o harmonioso dialogo da comedia está feito; ao ler aquellas phrases 
medidas e rimadas sem esforço, fica a gente persuadida... de que pôde 
conversar em verso. 

Parece que esta composição será representada no theatro de 
D. Maria II por Emilia Adelaide e Santos. É digna d'isso. 

ííão me consta que durante o mez apparecessem outras publi- 
cações de avultada importância, e se por ventura appareceram ainda 
não houve occasião de se lhes prestar a attenção devida, porque os 
espíritos tèera andado preoccupados com três assumptos da maior 
ponderação: — a questão do Alabama, o cometa que ameaça dar cabo 
do mundo no próximo verão, e a direcção dos balões. " 

A respeito do primeiro assumpto nada posso referir alem do 
que os jornaes diários têem,escripto, e para repetir o que já se sabe 
melhor é não dizer nada. Acerca do segundo, incumbe-se o espiri- 
tuoso caricaturista sr. H. Dordallo Pinheiro de contar com o seu lá- 
pis inspirado, como o caso se ha de passar. Com relação ao terceiro, 
permittam-me que em vez de lhes apresentar algumas reílexõés da 
minha lavra, transcreva as que publicou certo escriptor francez, acerca 
de similhante descoberta. 

Quando todos são unanimes em encarecer as vantagens da via- 
ção aérea, pretende elle provar com os seguintes argumentos, que o 
íjalão, mesmo depois de encontrado o segredo de o dirigir, ficará muito 
áquem da locomotiva. 

t(A aeroostação — diz — por mais que se trabalhe, nunca ha de 
fazer séria concorrência ao caminho de ferro. 

«Supponhamos que a famosa direcção está descoberta. E d'ahi? 
Será crivei por ventura que estes apparelhos possam conduzir alguma 
vez as enormes cargas que o vapor transporta sem diíliculdade? Po- 
der-se-ha rivalisar um dia em velocidade com o raUway? O próprio 
vento se lhe combaterem o Ímpeto, será sempre uma resistência que 
atrazará as viagens. 

«Quanto á direcção exacta, como se ha de evitar na derrota 
qualquer desvio, por mais pequeno que seja, e, havendo-o, de que 
modo se ha de estabelecer o serviço exacto para os transportes? 

« Já não falto dos perigos que a aei'eostação fará correr aos que 
andarem lá por cima em viagem e aos que passeando cá por baixo, 
estarão em continuado risco de apanharem, cie vez era quando, com 
um passageiro ou com uma ancora na cabeça. 

« Não fatiarei também das diílicuhlades da descida. Quando os 
balões circularem aos milhares (e só então se chegará a um resultado 
verdadeiranjente pratico) metade dos habitantes do globo andará oc- 
cupada em se dependurar nas cordas dos aerostatos em que viajar a 
outra metade. 

o Portanto, ainda mesmo que se resolva o problema, ficaremos 
infinitamente menos adiantados do que muitos esperam, não contando 
com a completa revolução que se produzirá nas relações internacio- 
naes, com a impossibilidade da pohcia devidamente funccionar e com 
muitas outras coisas. 

"Seja como for, em consequência d'esta bem legitima curiosi- 
dade que obriga o homem a trabalhar para descobrir o ([ue ainda se 
conserva desconhecido, a direcção dos aerostatos contiimará sendo o 
desideinlum d'este século, emquanto não for vencida a pretendida im- 
possibilidade. Hasta o prazer do triumpho para incitar na luta. 

B Quanlo a M. Dupuy-de-Lnme, diici que está ainda muito longe 
do fim a que se propõe. Preseii(il-o-lia? 

«Consta-me que M. Gitfard, pela sua parte, prosegue' nas suas 
investigações, tencionando rcalisar brevemente algumas experiências. 
*Bon courage! » 

Eis aqui pois uma opinião sobre o assumpto, que se não é ab- 



solutamente boa, é comtudo muito melhor do que seria a minlia, se 
me aventurasse a dal-a. 

Julgo não dever terminar esta resenha sem denunciar ao leitor 
dois bellos quadi-os que ha pouco vi no atelier de seus andores. 

Um é o retrato de uma interessante menina, pintado com muita 
felicidade pelo sr. Ferreira Chaves. 

Se a missão do retrato fosse apenas ser similhante, aquelle cum- 
pria já n'isso a sua missão; mas alem da similhariça é preciso haver 
boa execução artística para que o retrato seja também quadro e se 
torne digno da attenção dos que não toem a honra de ser da familia 
ou do conhecimento do modelo. Ora n'estes casos está o retrato a que 
rne refiro, porque alem de ser desenliado com muita correcção, tem 
todos os attractivos com que um bom colorista sabe enriquecer as 
suas telas. 

O outro quadro é do sr. Piieto e representa um grupo de coelhos 
surdindo de entro uns vasos onde estão plantados viçosos arbustos. 

Diílicil será pintar com mais verdade uma composição d'aquellc 
género. As plantas têem sol, os coelhos estão vivos. Eu tive de ob- 
servar o quadro muito calado e muito quieto. Eslava-me deleitando 
tanto ver aquelles animaesirdios, tinha tanta pe^ia de me separar 
d'elles ou de que elles se separassem de mim, que sabendo-os assus- 
tadiços e vendo-os com as orelhas espetados á escuta do mais pe- 
queno ruido, não avancei um passo, não dei unia palavra, com receio... 

de que elles fugissem. 

^ ° RANGEL DE LIMA. 



RUY BLAS 

DE MAnCHETI 

Já sei que vao clizer-mo que esta musica não é ori- 
ginal nem jihilosophica, que corre de vez emquando para 
um lado e para o outro á procura de idéa, colhe quando 
bem lhe parece algum pensamento alheio, e tem trechos 
que são para nós como que antigos conhecimentos, a quem 
se tira o chapéu dando-lho o Deu.s te salve. . . Sei que me 
julgam com obrigação de zelar o sentimento da arte pura, 
o enfurcccr-me até o ponto de provar n'estc artigo que o 
enthusiasmo com que foi acolhida em Lisboa esta opei'a 
se deve ao estrago a que chegou o gosto entro nós, pro- 
veniente do abuso, em quasi todos os nossos theatros, de 
nmsica de OfFcnbach, que, no dizer de alguns publicistas 
pequenos, não é musica. 

Ai de mim! Como hei de confessar-lhes que não sou 
d'essa oj^inião, e que até comprehendo perfeitamente que 
se possa estimar a phantasia graciosa do comjíositor da 
Gran-Duqueza sem deixar por isso de apreciar as idéas 
poéticas, as aspirações idcaes, o amor verdadeiro, e to- 
dos os sentimentos sinceros da alma. Não me parecem 
incompativeis esses dois géneros como se fossem o bem 
o o mal, a fealdade e a formosura, a distincção e a bai- 
xeza ; nem julgo defezo por nenhuma lei casta o myste- 
riosa da natureza, a quem haja bebido pela taça aguar- 
dentada do Barba Azul, chegar os lábios, ainda húmidos 
d'essas bebidas brancas, ao vaso sagrado em que sacia a 
sede em suave ebriedade a divina poesia! 

Não; a decadência do gosto não tem que ver com 
isto, e, se elle se sustenta ainda para alguma cousa entro 
■nós com vivaz sentimento de independência e de rasào, 
é para a musica, como se revela na preferencia do pu- 
blico pelo theatro lyrico o no enthusiasmo com que ap- 
plaude, não só a opera gentil de IMarcheti, mas as com- 
posições severas do Hoyei'beer e ultimamente ainda o 
grave spartito de Vordi, cm que o maestro sacrificou sa- 
biamente á cor da epocha o ao caracter da acção as suas 
predilecções usuaos pelos motivos brilhantes c pela cha- 
mada musica de effeito. 

Extremamente agradável ao ouvido, tt^ndo por li- 
hretto um entrecho nuiito conhecido e, comquanto inve- 
rosímil, dramático; escripta com o cuidado o os recursos 
do quem tem estudado profundamente a sua arte, o que 
lhe tem valido os louvores sérios dos competentes, Ruy 



28 



ARTES E LETRAS 



Blas pódc nno ser uma producçrio do gonio, não derivar 
da originalidade do um talento caractcristico que com ne- 
nhum outro SC confunda nem imite alguém, não ser a 
sublimidade, nao ser a grande invenção, mas ó com cer- 
teza a sensibilidade, a graça, de umas vezes a galante- 
ria, de outras a melancolia do amor. 

A symphonia lembra a introducção do Fausto; aqui 
e ali vem um motivo nosso amigo, ora de uma opera 
ora d(! outra, séria ou ligeira, um pai"ccido com o D. Car- 
los, outro parecido até com a Ponte dos susjnros d'esse 
esconjurado Offenbach, a quem acho tanto talento, de 
quem tanto se desdenha, e que tanto prazer nos tem 
dado; ha d'isso tudo, é verdade, e passa ás vezes na 
orchestra um sopro de opera-comica, e outro sopro, no 
canto, de zarzuela; mas ha inspirações propriamente do 
Marcheti também, ou que, se o não são, por tal forma 
est;í a marca tirada á roupa que nem os donos a conhe- 
ceriam: o duetto do terceiro acto, por exemplo, do te- 
nor e dama, apaixonado, meigo, o o terceto do ultimo 
acto cm que a plu-ase do barytono ó uma verdadeira 
jóia. 

Eliminado o alegre maltrapilho D. César do Bazan, 
condo Garoffa, aquolle amigo que vivia do enganar cre- 
dores, jogar com bandidos o acceitar a qualquer diabo 
de salteador da sua amisado algum magnifico gibão rou- 
bado, que no inverno o abafasse e no verão o fizesse ai- 
roso, corre a acção da opera apenas entre D. Sebas- 
tião, a rainha, Ruy Blas, o tem para duas d'estas par- 
tes dois grandes interpretes, madame Fricci o Cotogni: 
nenhum d'estes é o protogonista, bom sei, e Ruy Blas 
sem Ruy Blas é uma ('specie de borracho com ervilhas. . . 
que não tenha senão ervilhas; mas o tenor, que continua 
a ter, é claro, a mesma voz desagradável que, se faz al- 
gum mal a quem o ouve, ainda a elle lhe tem feito poior, 
conseguiu attingir uma regularidade perfeitamente accei- 
tavel, o ser applaudido. Que mais lhes direi? Applau- 
dido sem contrariedade! Não sabia a gente qual era mais 
inverosimil, se ver aquelle hcroe passar de lacaio a ser 
excellente ministro, integro, atilado e conhecedor das 
cousas, ou ver o tenor, que o representa, ir n'um pulo 
dos chius o das pateadas a uma ovação sem protestos! 

Cotogni, o mais primoroso artista que ha muitos an- 
nos tem vindo a S. Carlos, realisa uma creação notabi- 
lissima. É a perfídia, a ironia, a sagacidade fatal de 
D. Sallustio. Sempre em scena, como se diz cm plirase 
de theatro, não esquecendo nunca o seu personagem, 
fidalgo, perverso, o cantando sempre no melhor accordo 
com íi intenção das palavras e da situação, Cotogni fez 
n'este papel o que nenhum outro artista, nem mesmo 
Faurc, conseguiria exceder. 

Madame Fricci... Que ha de dizer-se d'esta artista, 
cuja voz admirável, educada no estudo, ganha com o 
tem j 10 c melhora de dia para dia? Tem tudo, canto e 
paixão dramática; a sua parte precisa um pouco que a 
façam valer, cila dá-lhe toda a sua alma, e não a ha 
maior. 

E formosa opera. Lembra outras? E também por- 
que vem depois d'ellas. Os que chegam primeiro apro- 
veitam idéas e sentimentos geraes, o fornnilam sem diffi- 
culdade cousas singelas que dão volta ao mundo. Escre- 
vem o que querem, sem custo e som cuidado, porque o 
ouvido do publico não está ainda cansado pela tradição. 
Os que vem mais tarde, vão tendo maiores difficuldados. 
Com reminiscências ou sem cilas, o que hà no mvmdo 
que não se pareça com alguma cousa? E uma opera 
d'esta eiK)cha, da mesma maneira que o JJ. Jayiiie o a 
Paqultn são poemas d'oste tempo; a musica dá também 
sou quinhão á moda, A phantasia, á convenção ; ha me- 



lodias, que faziam chorar nossos avós o que hoje fariam 
rir, a tal ponto do tempos a tempos so renova o gosto 
musical. Ruy Blas é uma opera de hoje. 



JÚLIO CESAK MACHADO. 



MAGDALENA 

Representa uma das gravuras do nosso numero a 
bolla figura de Magdalena. 

Todos conhecem a historia da formosa poccadora, 
que as virtudes do Jesus converteram em imagem su- 
blime do arrependimento. Escusado é pois fallar do as- 
sumpto, e basta que digamos algumas palavras sobre o 
auctor do quadro que damos á publicidade, artista muito 
conhecido em Portugal. 

Pompeu Battoni nasceu em Lucca no anno de 1 708, o 
morreu em Roma cm 1787. Attribuom-lho uns vários mos- 
tres de boa nota, c dizem outros que elle não teve nenhum, 
sendo a sua primeira profissão a ourivesaria. Contam estes, 
que tendo-lho sido confiada uma caixa de rapé ornada com 
uma miniatura, Battoni copiou a miniatura com tanta ha- 
bilidade, que a copia ficou melhor que o original. D'es8a 
epoeha om diante fez-se pintor. 

Estudou om Roina e pintou quadros do historia, re- 
tratos de pessoas celebres o miniaturas muito estimadas. 

No convento da Estrella em Lisboa ha sete quadros 
seus, dos quaes o mais notável é o que adorna a capella 
mór, datado do 1781, e cujo assumpto é allogorico. 

Na parte inferior quatro figuras de mulher represen- 
tam as quatro partes do mundo. O papa mostra o coração 
do Jesus rodeado por uma gloria de anjos. No mesmo 
])lano a Caridade está assentada ao pé de um altar, onde 
se vê um cálix c a hóstia. 

N'uma das capollas do mesmo templo ha uma Ceia 
também de Battoni. É obra do grande importância ar- 
tistica. Cinco outros quadros de menores dimensões são 
attribuidos ao mesmo pintor, figurando um d'ellcs Santa 
Thereza agradecendo do céu a D. Maria I a fundação 
d'aquelle convento. 

Attribuo-se também a esto artista o excellente qua- 
dro da capella mór da sé de Évora, representando a As- 
sumpção da Virgem. O conde de Raczinski, porém, nega 
que seja de Battoni, tomando por fundamento que o mes- 
tre devia ter apenas vinte annos na cpocha em que aquella 
composição foi executada, o que o estylo é diverso do dos 
seus demais trabalhos. 

Tendo Raphael morrido com pouco mais de trinta 
annos, legando á posteridade muitas o mui valiosas obras, 
e não sendo raro ver os artistas mudarem do estylo du- 
rante a sua carreira, as rasõcs do celebro critico não nos 
parecem bastantes para negar o que a tradição aífirma. 

Como so vê pois ha em Portugal importantes quadros 
que «attestariam o merecimento do pintor que executou o 
assumpto da nossa graviu-a, so a maneira brilhante como 
o mesmo assumpto está tratado não bastasse para o provar. 




ARTES E LETRAS 



29 



O COMETA DE 12 DE AOOSTO DE 1872 

PROGNÓSTICOS DE RAPHAEL BORDALLO PINHEIRO 



\ 




LéaTTE 

Rccebo-se na aldeia a noticia do fim do mundo chorando todos com a 
devida consternação pelo futuro das suas almas damnadas. Conta o pa- 
rocho que a imprensa livre da cidade diz que 




prompto a calar o mundo e a provar-lhe a madureza, 




mais os frades de sabugo c sem sabu;;o 
como os do D. Carlos, gente de baiba 
alada com que embirro. 




A sociedade pn^para-se para a 
morte dansando scmpri', apesar das 
incertezas do dia seguinte. 




Eiulim os parcciíos do barril juram n.io embarrilar mais nem os fregus- 
zes nem a agua, e protestam quando se acabar o mundo (inevitável castigo 
ás aguas da companhia e a outras barbaridades mais) fugii', acolhendo-se to- 
dos em S. Thiago de Compostella, i|ue c logar seguro. 




ífarrs 

um sábio italiano adivinhador, de cometas, amola a cauda dura iramcnso 
mensageiro do destino 




o que executa em 12 de agosto d'este anno da graça, acabando emlim as 
obras de Santa Engracia, o augusto arco da rua Augusta, 





Verificam-se eert/)s amores eter- 
nos . . . como o mundo, porque o co- 
meta o racha em 12 de agosto. 



Todos se provêem do necessário 
com promessas de pagamento no 
próximo agosto em que tudo finda. 




O que for soará; entretanto muito boas noites, até ámanh.i. . . ou ale 
depois do fim do mundo. 



30 



ARTES E LETRAS 



A ARTE NO THEATRO 



Para so fazer idéa approximada do como cm Paris 
SC levam á sccna as ])eças do grande osjjcctaculo, tran- 
Rcrevcmos o seguinte artigo, que, sob o titulo acima, pu- 
blicou M. Alfrcd Darccl na Chronica das artes e da cu- 
riosidade, a respeito da nova composição de V. Sardou 
Le roi Carotte. 



Níto SC trata aqui da arte dramática, mas sim da do 
sccnographo, do guarda-roupa c do ensaiador, na parte 
relativca á mise en scene. M. L. Ulbach escreveu ha nmito 
sobro esto objecto nos primeiros volumes da Gazeta das 
hellas artes. Do então para cá tem este ramo da critica 
jazido cm esquecimento. A importância do quadro rej^ro- 
sentando Pompeia na magica nova do M. V. Sardou, pede 
que voltemos ao assumpto na Chronica das artes. 

Que relação podo existir entre o líoi Carotte o Pom- 
peia? Nas magicas nada o impossível, graças aos talis- 
mans. Ora os protogonistas creados pela pliantasia do M. 
V. Sardou, andam á procura do anncl do Salomão, ou- 
tr'ora roubado por um soldado romano que, no anno 76, 
licou enterrado debaixo das cinzas do Vesúvio com a co- 
lónia grcco-latina. Fora difficil do encontrar o soldado 
entre as i'uinas. Mais valia evocar a cidado nas vésperas 
da catastropho, com os famosos edifícios e pittorescos ha- 
bitantes. 

Ao fórum de Pompeia, com as suas enfiadas de co- 
Ivimnas meio destruídas, como se vêem hoje, 'suceodo um 
pórtico de estylo dorico, que cerca o recinto ondo se 
clova a estatua archaica de Minerva, similhanto á que 
Seniart restaiu'ou para o duque de Luynes. A de Vénus, 
padroeira da cidade, se a memoria nos não falha, seria 
mais apropriada. Lojas escuras fecham a sccna. Á fronte 
está a praça publica, ondo nada ha do notável. Mas o 
quo completa, ou antes o que forma o espectáculo, c o 
povo quo vem succossi vãmente animar a praça. 

Eis o mercado. Mulheres, toucadas com pequenos 
chapéus do bico, taes como os objectos do barro cozido 
nos deram a conhecer, trazem fruetos em compridos ces- 
tos cónicos, ou acarrctam-os em pequenas carroças do ro- 
das massiças ; o salchichciro vende os chouriços dependu- 
rados na ponta de um pau que termina em forma de T. 
Ha uma desordem : acode uma patrulha quo jmrcce des- 
tacada da columna Trajano. Saltimbancos chegados do 
Egypto divertem a multidão mostrando as suas habili- 
dades; as cantarinas tocam harpa assentadas ao pé das 
columnas do pórtico. Varias creanças com tábuas enco- 
radas prosas ao braço, circulam a duas o duas por entro 
a nuiltidão, conduzidas polo pedagogo armado de chicote. 
Succode-lhos o cortejo de um noivado. Rapazes, tocando 
flauta, vem adiante dansando; scguem-os as bailadeiras 
de crótalos nas mãos, marcando a cadencia com o andar. 
Os presentes trazidos cm palanquins, fecham o cortejo. 

Dois gladiadores armados do escudo o fouce, com o 
capacete de grande viseira, fortes braçaes e solidas gre- 
vas, cujos modelos foram publicados pela Gazeta das 
hellas artes quando se cfFectuou a venda Pourtalès, offe- 
recem os seus serviços aos ricos ociosos que vem entrc- 
tor-so a ver passar as Margaridas Gautiers da epocha, 
recostadas nos seus carros puxados por dois cavallos bran- 
cos e trazendo debaixo do braço um cãosinho. Chega o 
edil, conduzido na sua cadeira, seguido por um cortejo 
do parasitas e ])retendcntcs. Esta nudtidào animada, re- 
luzente do variadas cores, dando logar a que os dois 



mundos, a Europa o a Ásia, se acotovelem, vestida não 
por figurinos de phantasia, mas conforme os mais au- 
thcnticos monumentos, os frescos, os vasos pintados e os 
objectos de barro cozido, é de uma indagação archcolo- 
gica tão agradável como acertada o bem succedida. 

Muitos acharão, de certo, que o caso o demasiado 
divertido para ser serio. Mas os que sabem que de cou- 
sas ainda estão por descobrir relativamente aos costumes 
de qualquer epocha, e quantas investigações não são ne- 
cessárias para se determinar com precisão assumptos d'cs- 
tes, hão do confessar que para se pôr em sccna similhanto 
quadro, deve ter havido consideráveis estudos e posquizas, 
muito embora n'algun8 pontos ainda haja incorrecções. 

Outro quadro, o do bailado das abelhas, é igual- 
mente notável pelo engenhoso dos fatos, moio homens, 
meio insectos, imitando as conqKJsiçõcs de J. J. Grand- 
ville. Formam as diversas figuras grupos tão brilhantes 
como variados. As borboletas, principalmente, são es- 
plendidas com as suas immensas azas esmaltadas das 
mais vivas coros. Os fatos de colorido vario, lomVjram 
os dos niif/nons da corto no tempo àos últimos Valois, 
e pela sua esbelta elegância, harmonisam pcrfeitamcnto 
com os appendices destinados a suster no ar o corpo em 
quo estão vestidos. 

As suspensões tenuinam esto quadro cm que a luz 
eloctiúca inunda as bailarinas resplandecentes do lante- 
joulas, o apenas cobertas com uma faxa de riscas. Mas 
a Iviz quando é mal dirigida, mata as cores da decora- 
ção, j)rojccta sombras sobre os pannos do fundo, accusa 
de mais o relevo dos corpos, produz reflexos falsos nos 
estofos de que são feitos os fatos, o destroo a harmonia 
gorai penetrando cm, toda a parto com os seus raios de- 
masiado brilhantes. É mister pois ajjplical-a com sobrie- 
dade e concentral-a a maior parto das vozes unicamente 
no moio da sccna, illuminando o grupo das dansariuas 
que parecem agitar-se sob a influencia d'aquclla deskun- 
brante claridade, que, jorrando vei-ticalmento, as envolvo 
a todas. 

Os outros quadros, em que se não pouparam os pra- 
ticáveis, uma praça para ondo se entra por uma porta 
em qixo ha uma torre; a floresta virgem em quo os lia- 
mos destinados a receber uma tribu de macacos, pendem 
em festões do cimo do arvores seculares; um interior 
alumiado pelo luar que se escoa através do larga vidra- 
ça; um mercado com longínquos edifícios, são outras 
tantas provas do talento dos sconographos, mas não se 
afastam do vulgar das decorações extraordinárias, a que 
os directores dos theatros nos tcem habituado cm peças 
d'este género. 



DIVERSAS NOTICIAS 



■ Falla-se cm que o governo vae mandar erigir dofronle do 
convento da Eslrella o monumento dedicado a I). Maria I, cxislenle 
na associarão dos arcliiteclos, no Carmo. Este monumento foi com- 
posto e executado cm Roma pelo esculplor João Josít de Aguiar, con- 
temporâneo do pintor Sequeira. As estatuas feitas sobre a direcção do 
celebre esculplor António Canova, se não são olira prima, têcm liniias 
grandiosas, e revelam o merecimento artistico do auctor. 

O monumento compfie-se de um pedestal simples sustentando 
a figura da rainha, de quatro estatuas decorativas representando as 
quatro partes do mundo, e de alguns baixos relevos. Custou esta obra 
avultada quantia, e por mais de meio século esteve esquecida e des- 
prezada, at(i que a associação dos arcliiteclos a reclamou para o seu 
museu do Carmo. 

Bom será que a idéa quo actualmente voga de se levantar na Es- 
lrella o monumento, se verifique. Não lemos nós lautos IraLallios 



ARTES E LETRAS 



31 



d'csla ordem para que deixemos ao abandono um que tem certo me- 
recimento e connnemora o reinado de uma sobei'ana, a quem Portu- 
gal deve tantos estabelecimentos e obras importantes. 

=^^= Em Franca lembraram-se alguns artistas de abrir uma sub- 



scripção patriótica, a íim de concorrerem para a libertação das provin- 
das ainda occupadas pelos prussiaiios. Appellaram para a generosi- 
dade e amor pati'io dos collegas, e encoiitraiam sem difficuldade adlie- 
sõcs espontâneas de todas as classes mais ou menos dependentes das 
liellas artes. Em Lisboa, os esculptores e canteiros que trabalham sob 
as ordens do sr. Calmeis, assim como os operários e mais emprega- 
dos dos srs. Lallemants, cederam ura dia dos seus saiarios para o 
mesmo fim. Honra seja a todos. 

O sr. ministro da guerra do império do Brazil comprou ao 



notável pintor Pedro Américo, por doze contos de réis, o seu excel- 
lente quadro Vm episodio da batalha de Campo Grande, cuja de- 
scripção demos no primeiro numero. 

Morreu em Versailles, com 60 annos de idade, o paizagista 



Félix Ilippolylo Lanone. Foi discípulo de Victor Bertin e de Horácio 
Vernet. Era cavalleiro da Legião de Honra e muito apreciado pelas 
qualidades artísticas que obtivera á custa de sólidos estudos. 

M. Dupin oíTereceu á igreja de Clamecy (França), uma Santa 



Genoveva feita pelo estatuário M. Étex, auctor dos baixos relevos do 
Arco do Triunq)bo em Paris. 

De 18.'{tí até 1869 todos admiraram a santa sem que pessoa al- 
guma tivesse a respeito d'ella noidium pensamento menos religioso. 
N'esla cpoclia, porém, um extraordinário escrúpulo de decência, inspi- 
rou a alguém a luminosa idéa de vestir a estatua com uma longa ca- 
misa franzida no pescoço e caída até o pedestal. Resultou d'esla estú- 
pida resolução, a santa que saíra casta e pura das mãos do artista, 
despertar boje maliciosos pensamentos e dar vontade de rir aos que 
paiam dcfioiile delia para a verem em fralda de camisa. 

Se isto succedesso entre nós o que não se diria I 

A academia real de bellas artes tenciona expor ao publico 



as suas collecções de desenhos antigos, gravuras e objectos de arte 
monumental, por occasião da visita de S. M. o Imperador do Brazil 
a Lisboa. 

==^=^ Os artistas e amadores de Turim téem andado sobresaltados 



por causa de uma noticia dada pela Nova imprensa livre, de Vienna. 
Julga-se ter apparecido um novo quadro de Ticiano A virgem do 
réu. Todos suppunham que esta obra de arte havia sido destruída no 
século XVI, por occasião da tomada de Roma pelo condestavel de 
Bourbon. O quadro foi encontrado entre varias obras de valor, 
ii'uni velho palácio pertencente ao fallecido doutor Riberi. O herdeiro 
d'este havendo chamado um pintor seu amigo para examinar e ava- 
liar a galeria, fez-lhe presente do quadro a que alludimos, como re- 
compensa do serviço que lhe prestara. 

Uma commissão brazileira, à testa da qual está o sr. barão 



do Bom Retiro, encommendon ao estatuário francez Rochet, o busto 
do celebre cscriptor José Bonifácio de Andrada, fallecido ha pouco. 
O cscuiptor encarregado da obra é o mesmo (jue fez a estatua eques- 
tre de S. M. o imperador D. Pedro II, que -está no Rocio do Rio de 
Janeiro. 



O rei da Hollanda comprou por dois contos e setecentos mil 



réis um quadro de M. (llienu, intitulado Effeilo da neve em Bre 
mod, trabalho que figurara vantajosamente na exposição da sociedade 
dos amigos das artes, de Lyon. 

O dislincto litteralo brazileiro sr. Pereira da Silva passou 



por Lisboa, vindo de Paris, com destino para o Rio de Janeiro. 

Projecla-se em Paris abrir conferencias sobre a arte, feitas 



pelos mais illusires professores e mestres, sendo o producto d'ellas 
applicado á libertação da pátria. 

O sr. Carlos Relvas, photographo curioso mais perfeito nas 



suas obras do que muitos dos que vivem d'aquella profissão, man- 
dou construir em a sua residência, na Gollegã, um magnifico atelier 
com todas as condições exigidas para a boa execução dos seus tra- 
balhos photographicos. 

A sentinella, quadro do pintor francez Regnault, morto ha 



um anno em combate, foi vendido em Paris por preço fabuloso. 

O livro, o jornal e a revisla que propagam idéas justas — 



diz uma excellente publicação que temos á vísia — assemelham-se ás 
nuvens passageiras, do seio das quaes se espalha benefii:a chuva so- 
bre os campos, chuva porém que não fcrtilisa senão os terrenos bons. 



- Vendeu-se ultimamente era Paris o quadro do Messonier 

A vedeta, por 21:000 francos (3:780^000 réis). Calculou-se, me- 
dindo a superficie da obra, que foi pago cada centímetro quadrado 
d'aquelle trabalho por 163 francos (29í7(X) réis). 
Bem empregada tela ! exclama o Figaro. 

Os jomaes do vizinho reino dizem que muitos artistas hes- 

panlioes estão concluindo quadros e outros objectos de arte, cora des- 
tino para a exposição do Porto. Entre elles contara-se o pintor de 
género e costumes sr. D. Ricardo Balaca, seu irmão sr. D. Eduardo, 
pintor de budegones, o sr. Benso que na ultima exposição do Madrid 
SC distinguiu como colorista, e o cfistincto professor Puebla. Também 
SC farão representar pelos seus trabalhos alguns artistas, que, não 
obstante serem muito conhecidos cm Hespanha, não concorreram á 
ultima exposição realisada n'aquelle paiz. 

Um dos jornaes a que nos referimos, eonclue a noticia a este 
respeito dizendo : 

— E vistb que as artes lusitanas vieram visitar-nos no passado 
outomno, justo é que lhes paguemos a visita no próximo estio. 

Bem vindos sejam os nossos vizinhos, lhes dizemos nós. 

A ex-imperatriz Eugenia expoz á venda, no estabelecimento 



de M. Davis em Pall-Mall, Londres, uma collecção de quarenta bo- 
cetas o caixas de rapé que possue. Entre os trabalhos mais notayeis 
cítam-se dois Petitot; dois assumptos campestres de Watteau; uma 
bella caixa de rapé de oiro, por Kolbo, a qual pertenceu a Maria 
Antonieta; os retratos de Luiz XIV e de Ma(l. de Monlespan. A esta 
collecção estão juntos três moveis da epocha de Luiz XVI cm mar- 
chetaria de Reissncr, ornados de cobre cinzelado por Gouthiôre. 



Foi convidado para concorrer á exposição universal que no 

próximo anno deve eíTcctuar-se em Vienna d'Austria, o abridor e gra- 
vador do Poito, sr. Molarinlio. Também lhe foi pedido para ser col- 
locado no rauseu nacional de Madrid o quadro das medalhas que 
expoz ultimamente n'aquella cidade. 

Descobriu-se em Saintes uma sepultura gaulo-romana, con- 



tendo objectos curiosíssimos, taes como vasos de vidro branco e de 
cores, vasos de barro, utensílios diversos c fragmentos de um cofre 
collocados á roda do esqueleto, ainda bera conservado, de uma mu- 
lher que a morte feriu na força da vida. 

Nas excavações feitas em Pompeia na presença da gran-du- 



queza Olga e sob a direcção do senador Fiorelli, acaba de se desco- 
brir uma mesa de mármore grego, ornada de figuras pintadas, que 
se suppõe representarem unia scena de Xiobc. Também se encontra- 
ram muitos vasos de bronze e um leme do mesmo metal, que deve 
ter pertencido a uma estatua da Fortuna. 

A academia portuense de bellas artes deu os seguintes pon- 



tos para o concurso triennal que deve realisar-se este anno : 

Pintura — S. João pregando no deserto. 

Escuiptura — S. Jeronymo fazendo penitencia. 

Architectura — Projecto de uma igreja destinada para fregue- 
zia central de qualquer cidade. 

Um monumento digno do grande pintor a quem é consa- 



grado, foi ultimamente erigido na grande sala ao rez do chão da Es- 
cola das bellas artes de Paris, como preito á memoria de Ingres. 
Uma eslela simples de mármore branco, desenhada por Duban, sus- 
tenta o busto do artista em bronze, modelado por M. Guillaurae. Na 
base da estela ha dois medalhões representando os dois discípulos 
de Ingres, II. Flandrin e Simai't. 

Na academia das bellas artes do Rio de Janeiro verificou-se. 



no dia 9, a distribuição dos prémios aos aluranos. Assistiu sua alteza, 
seu esposo e muito povo. 

Descobriu-se em Jerusalém uma estela quadrada, prove- 



niente do templo de Salomão, roconslruido por Herodes o Grande. 
N'uraa das faces tem gravada em magníficos caracteres gregos, uma 
inscripção ba.stanle longa prohibindo aos pagãos, sob pena de morte, 
a entrada nos recintos sagiados que rodeiavam o templo. É objecto 
de grande valor archcologico. 

Tem atlrahido a attenção publica em Paris, a exposição dos 



deseidios de M. Dubau na escola das bellas artes. M. H. Deíaborde 
escreveu ura excellente artigo sobre o assumpto na Revista dos dois 
mundos. 

^ Succumbiu de apoplexia na escola das bellas arfes, na oc- 

casião em que trabalhava com outros collegas no exame dos trabalhos 
de architectura dos discípulos, o architeclo francez Leon Vandayer. 
Tinha 69 annos de idade, era olficial da Legião de Honra c membro 
do instituto. Entre os principaes trabalhos que executou, cítam-se 



32 



ARTES E LETRAS 



dfi preferencia a catliodral de Marselha, o monumento nacional do 
general Foy feito em coUaboraçao com David D'Angers e o Conser- 
vatório das artes e oíficios. 

Com o titulo de Concursos públicos principiou a dar á 



estampa no Rio de Janeiro o sr. António de Almeida Oliveira, va^ 
rios folhetos contendo as conferencias feitas por este cavalheiro no 
Maranhão. 

O sr. Costa Ribeiro, do Rrazil, publicou um volume de poesias 
intitulado Horas vagas. ' 

O sr. Luiz Francisco da Veiga publicou dois folhetos intitula- 
dos Brasil tal qual é, os quaes servem de projecto a um livro 
que tratarií da emancipação. 

O sr. dr. Luiz Francisco da Veiga poz era livro as Heroides 
publicadas em tempo no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. 

No Maranhão vae o sr. dr. Gentil Homem de Almeida Braga 
publicar um volume de poesias. 

O sr. dr. Alexandre José de Mello Moraes, auctor de varias 
obras scientiíicas e litterarias, publicou o primeiro volume de um 
trabalho intitulado Historia do lirazil reino e do Brazil império. 

Dominus tecum 6 o titulo de uma comedia que o sr. J. C. dos 
Reis Montenegro deu á estampa no Brazil. 

O sr. L. Guimarães Júnior, folhetinista do Diário do Rio, tem 
no prelo três livros: Os nocturnos, com uma introducção do dis- 
tincto escriptor Josó de Alencar, Contos do norte e Curvas e zig- 
zags. 

Os calvários é o titulo de um poema em nove cantos que o 
sr. Carlos Ferreira, do Rio Grande, está concluindo. 

Na Suissa ahre-se este anno uma exposição de bellas artes. 



á qual podem concorrer todos os artistas sem distincção de naciona 
lidade. A exposição efl'ectuar-se-ha nas cidades e epochas seguintes : 
Genebra, 21 de abril a 19 de maio; Aarau, 26 de maio a 16 de ju- 
nho; Lausanne, 23 de junho a 21 de julho; Lucerna, 1 a 18 de agos- 
to; Soleure, 24 de acosto a 7 de setembro; Fribourg, 12 de setem- 
rbo; Berna, 4 a ,31 ue outubro. As obras dos expositores devem ser 
dirigidas ao comité da exposição suissa, no palácio eleitoral em Ge- 
nebra. 

Na praça da acclamação (Rio de Janeiro) vae levantar-se 



uma columna monumental de bronze, conforme o projecto do archi- 
tecto brazileiro sr. Caminhoá. É commemorativa das glorias alcan- 
çadas pelo exercito brazileiro na campanha do Paraguay. 

A sociedade Arti e Amicitia abre a 15 de abril próxi- 



mo, em Amsterdam, uma exposição de quadros de mestres antigos. 
; O sr. Camillo Castello Branco está concluindo dois roman- 



ces que brevemente serão dados á estampa. Intitulam-se : A infante 
capellista e Quatro horas innocentes. 



- Em Boulogne-sur-Seino creou-se uma nova sociedade de- 
nominada Sociedade da união das artes, que projecta fazer uma 
exposição permanente. 

Morreu no dia 16 d'este mez em Louvain, o esculptor belga 



De Fierlaut. Foi discípulo de Geerts, e passou parte da mocidade 
em Kaiia. Auctor do tumulo de monseidior de Raru, surprehendeu-o 
a morte estando a trabalhar no de M. Van Bockel, destinado á igreja 
de S.Pedro. 

: No império do Bi'azil começaram a puhlicar-se os seguin- 



tes periódicos lilterarios e artísticos : 

O somnamhtdo, jornal de caricaturas. 

Lyra do trovador, folha litleraria dirigida por uma senhora. 

O sorriso, folha lilteraria. 

Jornal das priminhas, periódico jocoso e critico. 

Hippolyto Ileizler, csculplor de animaes, morreu na cidade 



de Paris cm outubro ultimo, victiina de penosa enfermidade adqui- 
rida no serviço militar durante o cerco. 

Expunha desde 18i6 e obtivera uma medalha em 1852. Fez 
innumeros trabalhos por conta do sultão. 

José Kranncr, estatuário, morreu ha pouco cm Pesth. Nas- 



côra em Praga no armo de 1801. Depois de ter levantado o monu- 
mento do imperador Francisco I em Pesth, foi encarregado dos tra- 
b"lhos (la igreja votiva do Vienna c de restaurar a cúpula de Praga. 

==^= Pensa-se em admillir no Instituto de França as mulheres 
que tenham ailipiirido para isso direilos iguaes aos dos académicos. 
Refere-se alé (|ue o nome de mademoiselle Nelie Jacquemart ligura 
cm primeiro logar que o de mademoiselle liosa Bonheur. 

Um critico franccz diz a este respeito, que a justiça não deve 
ser preterida pela galanteria, c que é mister pensar bem nos nomes 



do Brion, Breton, Français, Corot, Daubigny c Fromentin antes de 
se tomar tão grave resolução. 

^=== Fayoun é o titulo de um livro publicado em Paris por um 
artista, o qual relata com a brilhante inspiração produzida pela mo- 
cidade, as impressões experimentadas n'uma viagem feita com o ce- 
lebre pintor Gerome e alguns amigos, ao Egypto e á Syria. 

=^=== No Rio de Janeiro effectuou-se a inauguração do novo edi- 
fício para o conservatório de musica, junto á academia de bellas ar- 
tes. Defronte d'esta abriu-se a rua Leopoldina, ha muitos annos pro- 
jectada, a qual faz com que se aviste do Rocio o edifício da aca- 
demia. 

=== Cegou em Paris um artista chamado Anastasi. Os collegas, 
vendo-o a braços com a miséria por não poder trabalhar, fizeram 
uma subscripção de quadros para serem vendidos em leilão e o pro- 
ducto reverter a favor do infeliz. A venda produziu a importante 
quantia do cento trinta e sete mil sessenta c nove francos (réis 
2i:672M20). 

Eis os resultados da confratemidade. 

A respeito da descoberta ultimamente feita.de um quadro 



de Teniers, conta-se o seguinte : 

Ha pouco tempo um dos directores das vendas de Anvers, M. de 
Loeker, tendo comprado certa mobília, encontrou n'um velho armá- 
rio duas taboas cobertas de pó, através do qual se percebia o que 
quer que fosse pintado. 

Limpas as taboas, o possuidor viu que eram pedaços de um 
quadro representando uma Lábia com dois barcos ancorados e uma 
praia com íiguras. Estes fragmentos comprados por um francez, M. 
Delanoy, de Roubaix, e restaurados com grande cuidado, formam hoje 
uma hella pintura attribuida a David Teniers. O lote em que estava 
o Teniers falso ou authentico, foi comprado pelo preço de 500 fran- 
cos (90;|íOOO réis). O quadro é magnifico e com certeza de mestre an- 
tigo. Os entendedores apenas divergem sobre a paternidade da obra. 

Em casa de M. Nicolie, restaurador em Anvers, acaba de se en- 
contrar uma gravura antiga d'esta notável composição. 

■ I^ord Stanley of Alderby está traduzindo para o inglez o ex- 



cellente romance do fallecido escriptor Gomes Coelho, As pupillas 
do sr. Reitor. 

O ministro da instrucção publica de França recebeu, ha 



pouco, os planos e desenhos das excavaçOes feitas por MM. Teulicres 
e Faugère-Dubourg, a fim de desenterrarem uma cidade gaulo-ro- 
mana, achada a alguns kilomctros de Nerac. Varias salas adornadas? 
com mosaicos riquíssimos estão já a descoberto, e se se continuarem 
os trabalhos, obter-se-hão revelações importantes para a historia e ar- 
chitectura da Novempopulania no século ii. 

• A medalha commemorativa da visita do imperador do Bra- 



zil ao Porto foi incumbida ao hábil gravador d'aquella cidade, sr. Ar- 
naldo Molarinho. No anverso terá o retrato do imperador rodeado 
pela iiiscripção D. Pedro 11, Imperador do Brazil. O reverso re- 
presentará uma coroa de carvalho com um raiado no centro, for- 
mando uma estrella, e dentro d'esta as palavras Ave César. Em 
volta da coroa de carvalho ler-se-ba o seguinte: Visita de S. M. I. 
á cidade do Porto em fevereiro de Í872. Será cunhado um exem- 
plar em oiro para oíTerecer a S. M. Os outros exemplares serão tira- 
dos em prata. 

Entre as perdas para a arte causadas pelos incêndios da 



communa de Paris, conta-se um famoso tecto pintado por M. Ul- 
mann, que representava A justiça desmascarando o crime. 

■- Em Lyon, Cannes, Bcsançon, Mans e Pau, cidades de França, 



projectam-se exposições de bellas artes para este anno. A de Lyon é 
universal. 







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ARTES E LETRAS 



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ARTES E LETRAS 




Lisboa — Mauço de 1872 



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AS ESTATUAS PARA O ARCO DA RUA AUGUSTA 

om auctorisação superior publicamos 
o trecho principal da consulta que a 
academia real das scicncias dirigiu 
ao governo de Sua Magestade sobre 
quaes estatuas conviria eleger para 
que com ellas se ornasse e ennobre- 
cesso o arco da rua Augusta, con- 
sulta primoi'osamcnte redigida pelo 
secretario da mesma academia o il- 
lustre publicista, o sr. José Maria La- 
tino Coelho. 




A Academia Real das Sciencias, depois de commet- 
ter a dois dos seus beneméritos sócios, José da Silva 
Mendes Leal c Rodrigo José de Lima Felncr, o estudo e 
exame d'esta questão, sobre a qual lavraram um erudito 
parecer, discutiu em uma do suas ultimas sessões a thcsc 
que lhe era proposta, e conveiu nas seguintes conclusões 
que tem a honra de submetter á alta apreciação de Vossa 
Magestade. 

Primeiro: Que no ponto contestado de preferencia 
entre a estatua do marquez de Pombal e a de Aftbnso 
de Albuquerque, todas as razões históricas determinam 
a escolha da primeira. E as razões summariamento com- 
pendiadas, cm que esta real academia fundamenta a sua 
o])iniíio, cifram-se, principalmente, em que a Praça do 
Commercio, porventura a mais grandiosa e mommiental 
de quantas edificações deve o reino e a cidade de Lisboa 
íí energia perseverante c illustrada do marquez do Pom- 
bal na sua larga e civilisadora administração, está i"ecor- 
dando em cada uma das suas obras o dos seus ornatos 
os beneficiíjs d'aquelle governo memorável, cujas grandes 
virtudes patrióticas é lastima que fossem mais de uma 
vez deslustradas pela demasiada severidade. Accresce 
mais que se bem a effigie de Affonso de Albuquerque, 
um dos mais abalisados capitães das nossas guerras e 
conquistas orientaes, esteja sempre bem e justamente cm 
qualquer parte, onde fluctuo a bandeira de Portugal, a 
collocação da sua estatua no arco da rua Augusta, con- 
sagrada a memorar as pacificas victorias da administra- 
ção civil, cm certa maneira destoaria do pensamento fun- 
damental, que presidiu á sua traça primitiva. 

Segimdo: Que por análogas razões não parece á 
Academia haverem sido bem destinadas a exornar o 
arco as estatuas de Viriato c Vasco da Gama: a primei- 
ra, porque, alcni de representar vmi hcroe, apenas frou- 



xamente vinculado peia identidade do solo ás tradições 
genuinamente portuguezas, relembra as façanhas militares 
de um povo extincto, e seria ao lado do grande reforma- 
dor de Portugal no xviil século, uma antithese ao mesmo 
tempo desapprovada pela estethica e pela historia. A sc- 
gimda, porque não é Vasco da Gama mn ^'ulto, a quem 
se designe segundo logar n'um monumento nacional. 

Tão justa, tão inimitável, tão universal é a sua 
fama, que ou o immortal descobridor ha de ter estatua 
publica, sagrada exclusivamente á commemoração de 
seus feitos sem exemplo, ou havemos do deixar — que é 
melhor e mais honrado galardão — que o seu' nome pro- 
nunciado com profunda veneração em todo o mundo civi- 
lisado, seja o melhor monumento da sua gloria. Não seria 
decoroso que quem foi primeiro, ou antes singular na 
empreza que levou a feliz termo, tivesse agora compa- 
nheiros no premio e na memoria. Mais avisadamente se 
deveriam escolher para as associar ao vulto de Pombal 
no arco da rua Augusta, as imagens de homens benemé- 
ritos, que se houvessem assignalado por suas virtudes 
civicas, e que mais tivessem honrado a toga do que cei- 
fado com a espada vencedora os seus loiros immortaes. 

Terceiro: Que, se a Academia respondendo em pri- 
meiro logar estrictamente ao ponto, sobro que foi consul- 
tada, não hesita em decidir-sc pela estatua do illustre 
iniciador da nova civilisação da nossa pátria, transcen- 
dendo agora, em nome da arte, os limites que lhe foram 
assignados pela pergmita do governo, julga do seu dever 
pronunciar-se contra a collocação de qualquer estatua no 
monumento da rua Augusta. E os fundamentos d'e9ta 
sua opinião são óbvios, e a seu parecer irrefragaveis. 

São a arcliitectui'a e a esculptura duas artes innãs, 
congéneres, essencialmente sociáveis entre si. Uma a 
outra se completam e se embellecem. A cohunna, o arco, 
o friso, o acroterio vivem em harmonia com o relevo e 
com a estatua; as linhas con-ectas e geométricas do de- 
buxo architectonico consociam-se com os graciosos con- 
tornos da figiu'a viva, assim como na natureza, stibstra- 
tum essencial, origem empírica de toda a manifestação 
artistica, a vida orgânica se enlaça a cada passo com a 
existência inanimada. Se, porém, a estatua e o edificio 
se ajudam mutuamente é forçoso distinguir os casos em 
que o edificio ou a estatua são respectivamente o princi- 
pal ou o accessorio. Seria lun contrasenso artistico des- 
conhecer em cada hypotliese esta necessária distincção. 
Quando se intenta commemorar o génio, os feitos, as vir- 
tudes de um personagem eminente, quando o monumento 
é, por assim dizer, individual, quando se procura escul- 
pir em bronze, em mármore, em granito, com caracteres 
ao mesmo tempo legiveis á imaginação e aos sentidos, o 
nome do um heroe, circumdando-o de todos os attribiitos, 
com que vivo se engrandeceu, a estatua é a forma, que 
habitualmente se prefere. A architectura é então serva 
ou ministra da arte esculptural. Talha o pedestal, afteiçoa 
o plintho, cinzela o capitel, e levanta ás nuvens coroada 
de loiros, a estatua gigante do heroe. Quando o monu- 
mento se erige á divindade ou quando traslada na pedra 
um capitulo brilhante de historia nacional, quando a in- 
dividualidade desapparece na sombra de uma nação in- 
teira, ou compartilha por igual nos seus triumphos, quan- 
do o heroe não tem nome próprio, porque se chama um 
povo ou um exercito, ou quando ao seu appellido se ligam 
memorias nacionaes, a architectura toma o nivel c o 
compasso para dominar na edifficação, e o maço e o 
escopro esperam obedientes os preceitos que lhes impõe a 
traça, geral da construcção. 

É então que se arroja aos ares a cúpula de S. Pe- 
dro, ou se escavam na rocha os santuários de Ellora e 



o4 



ARTES E LETRAS 



de Elephanta. É então que se origem as pyramides onde 
a mole gigantéa e sublimo exclue o, oi-nato, como imjjro- 
prio (la sua austera simplicidade. E então que se fabri- 
cam, por uma arte nascente e imperfeita, os arcos lateri- 
cios da primitiva Roma, ou se arredondam os sumptuosos 
arcos triumphacs da Roma cesárea, avassallando iís pom- 
pas da sua vida nacional as sublimes inspirações da arte 
grega. Não ha alli como ornamento exterior a estatua de 
nenhum heroe. 

A cpigraphia o o baixo relevo completam as me- 
morias que a architectura, art(! mais synthetica, apenas 
sabe vagamente delinear. 

A estatua de lun grande homem n'um monumento 
arcliitoctaiiico deixaria do ser uma apotheose para ser 
a})onas uma figura ornamental. 

O assumpto d'aquelles poemas do pedra volver-se-ía 
episodio mal visível. O que se houvera dito, se para co- 
roar o Parthenon, não para rc8i)landecor com toda a ma- 
gestade hellenica no sacrário do templo, o cinzel divino 
de Phidias tivera modelado em oiro e em marfim a for- 
mosissima estatua da Palias Athené, a eterna virgem 
my thologica ? 

Á j)orta do templo manuelino de Belera está como 
do guarda ás suas conquistas a estatua cavalleirosa do 
infante D. Henrique. E não ha dosar nem sem rasão. 
Aquellc é o monumento erigido ás nossas emprezas trans- 
atlânticas, porque ó levantado a Deus, que nol-as influiu 
e prosjierou. E diante do Croador todos os grandes são 
pequenos e todas as glorias são vangloria! Symbolisa a 
Batalha a nacionalidade Portugueza, victoriosa de estra- 
nhas cobiças e aggrcssões. Personifica-se no Mestre de 
Aviz o povo que o elegeu e a seu lado pelejou. E onde 
está o vulto d'aquollc heroe? Dorme o seu somno de pe- 
dra no recinto do magnifico mosteiro. De entre as nações 
modernas, mais zelosas em pagar com mármore aos gran- 
des homens já mortos, a estes perseverantes operários da 
gloria e da civilisação, o salário que, ás vezes, em vida 
lhes não souberam satisfazer om pão, nenhuma é porven- 
tura mais diligente do que a Inglaterra. Mas as estatuas 
dos seus filhos beneméritos avultam nas praças, ou exal- 
tam-se na abbadia de Westminster, junto dos sarcopha- 
gos, onde o tempo vao gastando os seus ossos, e vivifi- 
cando mais e mais a sua fama. So havemos de solver a 
divida aos heroes, se não c- melhor estatua, como de Ca- 
tão notou António Vieira, o havel-a merecida, do que 
tel-a, saibamos pagar com decoro o preito da gratidão. 
Não roubemos a effigie aos homens beneméritos para 
decorar editícios! Accommodemos antes á sua gloiúa os 
monumentos, que lhes houvermos de levantar. 



DUAS PALAVRAS ACERCA DO MOVIMENTO ARTÍSTICO 
DA PENÍNSULA 

I 

Nilo havrrá rnuilos annos que ainda so dizia: — Em Portugal 
n5o lia artistas. Os portuguczps apenas sãn capazes de imitar os estran- 
geiros. — Hoje, porém, felizmente, em todos os ramos da arte ou da in- 
dustria se conliece que os filhos d'esta terra não só pod(>m produzir 
como os das outras nações, mas que entre elles ha distinctos talentos. 

Portugal apaha de ser representado em Hespaidia por um certo 
numero de artistas, cujas ohras, longe dn envergonharem o paiz, fize- 
ram conhecer aos nossos visinhos que também somos apreciadores e 
cultivadores de hellas artes. 

l'm distincto escriptor hcspanhol •, dando o devido apreço ás 
obras dos nossos artistas, e fazendo a analyse critica dos trabalhos 



' o sr. i). F. M. Tubino. 



ultimamente expostos em Madrid, nota (pie, apesar do progresso real 
dos artistas da península, nem em Portugal, nem mesmo i.'m Hespa- 
nlia, elles representam hojií uma escola puramente nacional; que 
apcTias entre os artistas valencianos, á frente dos quaes colloca conm 
adail o distincto pintor Domingo, auclor do magnifico quadro — 
Santa Clara — se conhecem tendências para chegar a esse lim, e 
que entre todos os outros artistas peninsulares existe pura liber- 
dade d'estylo (pie muitas vezes degenera em licença. 

Quanto ao que diz r(>speito aos artistas de Li.shoa, e sobre os 
motivos da sua pouca homogeneidade di; estylo, diremos o seguinte : 

Para que as (jbras d'arte (funi paiz lenham um certo cunho ou 
base de similhança entre si, a que s(! chama escola, 6 necessário 
sem duvida que os artistas conservem alguns pontos de concordân- 
cia no seu mt,'tliodo de execuçSo, embora entre elles haja variedade 
d'estylo devida á ind<(l(!, á organisaçíto de cada um. A base do 
systema que conslitue ou distingue a escola, provém, ordinai^ia- 
mente, ou das primeiras lições de um mestre commum, ou do mérito 
transcendente de algum homem notável qui; levou os outros a se- 
guil-o, ou da t(Midencia que, insensivelmente, os artistas, na sua 
concorrência uuitua, foram tomando, e que tomou distincto o seu 
systema de pintar. 

Portugal também teve artistas que constituíram uma escola de 
pintura, apreciável pelas suas hellezas de execução. P^ormou-se esta 
escola sobre princípios implantados em o nosso paiz por J. Van- 
Eyck, e teve aqui grande desenvolvimento nos séculos xvi e xvii, 
chegando aquellas producções de origem allemã a tomar um caracter 
puramente nacional. A escola, a que nos referimos, é hoje conhecida 
pelo titulo de escola de Grão Vasco, antigo pintor portuguez, cujo 
nome, envolto no véu da tradição, chegou aos nossos (lias. 

Começaram os artistas portuguezes a ser enviados a Roma, por 
particular protecção dos reis ou dos nobres, e principiaram a aban- 
donar, taxando-a de gothica, a escola nacional, trazendo-nos de Itá- 
lia o estylo da epocha em que ali iam lieber a educação artística, 
imitando até aos tempos modernos o que (mii Roma se fazia. 

Foi no reinado da senhora D. Maria I, que o intendente Diogo 
Ignacio de Pina Manique fundou uma aula de desenho, e que a 
expensas do governo foram mandados estudar a líoma alguns mo- 
ços de tal(?nto, entre os quaes, como pintor, avultou Domingos António 
de Sequeira, o qual, dotado de grande génio inventivo, foi o único que 
nos seus últimos dias desvendou os olhos e patenteou, endjora 
tarde, que tinha nascido para produzir alguma cousa original. Os 
seus quatro (piadros que representam o Juizo final, a Epiphania, 
o Calvário e a Ascensão assim o attcstam ; comtudo estes últi- 
mos trabalhos de Sequeira, produzidos ftira de Portugal, e pouco co- 
nhecidos dos artistas novéis, não formaram escola, e os seus discí- 
pulos, que poucos foram e de pouco vulto, seguiram a sua primeira 
maneira. 

O professor António Manuel da Fonseca regressou de Roma em 
183o, e continuando na senda dos seus antecessores, trouxe para 
Portugal o transumpto do que ali se praticava no começo d'este sé- 
culo. 

Creou-se a academia das bellas artes de Lisboa em 1836: 
era o sr. Fonseca o mestre, e, a principio, todos o imitaram. 

O sr. visconde de Menezes e o infeliz Metrass, ambos discí- 
pulos do sr. Fonseca, dirigindo-se a França e á Ualia para se aper- 
feiçoarem uos seus estudos de pintura, alcançaram já uma nova epocha 
de transição e decadência, e, por circumstancias diversas, formaram o 
seu estylo tamljem diversamente, mudando era tudo o que a princi- 
pio haviam seguido. 

Thomás José d'Annunciação, adoptando o género de paizagem 
e animaes, desligancÍo-se do que houvera acceilado e dedicando-se 
exclusivamente ao estudo do natural, compenetrou-se das vantagens 
d'este methodo, e persuadido que d'elle lhe viria a verdadeira 
sciencia, conseguiu, com ímprobo trabalho, produzir obras que 
muito o acreditaram. 

João Christino da Silva, seguindo as mesmas pisadas, pintou 
paízagens e composições de género, que muito fizeram esperar do 
seu auctor. 

José Rodrigues, que teve o talento de colher com interesse o que 
vira de melhor nas obras dos artistas Fonseca, Menezes, Roquemont 
e Metrass, também apresentou trabalhos de incontestável mérito. 

As exposições privativas da academia de Lisboa fizeram co- 
nhecer obras que revelavam um futuro brilhante: O Camões e o Jáo, 
A leitura de um romance. Só Deus, e o Camões lendo os Luziadas. 
de Metrass; o Eneas, A visitaçCm, e O menino^entre os doutores, do 
sr. Fonseca; O cego, O tambor ferido e outros quadros do sr. visconde 
de Menezes ; O cego violinista do sr. José Rodrigues e os si>us retra- 
tos-quadros ; A volta do trabalho e muitos outros quadros de animaes 
do sr. Annunciação ; A primeira impressão da arte e Os artistas em 
Cintra do sr. Christino, e A lição do esperançoso artista Patrício, que 
a morte nos roubou tão cedo', foram obras, cujo apparecimento não 
ha de esquecer. 

Miguel Angelo Lupi, que havia sido igualmente discípulo do sr. 
Fonseca, tinha-se afastado (los trabalhí» artísticos; não poclendo, po- 
rém, desviar-se d' elles por muitos annos, voltou aquellas lides, e foi es- 



ARTES E LETRAS 



35 



tildar t'in Roma no Tiicsmo toiíipo cm que Marciano Henriques da 
Silva, (liscipulo, a principio, do sr. Fonseca e depois do sr. visconde 
de Menezes, tamijem ali esludava. 

Pastes dois artistas, regressando a Portugal, apresentaram obras 
de muito merecimento, seguindo ainda novos systeinas de execuçílo. 

As exposições da sociedade promotora das bellas. artes deram 
lambem occasiãô ao apparecimento de Alfredo de Andrade, moço de 
grande mérito e seguidor da nova escola realista — de Toniazini e 
Pedroso, felizes em muitos dos seus quadros de marinhas— de Prieto 
— que ali expoz alguns quadros de natureza morta, e de ou- 
tros moços de talento, taes como José Ferreira Chaves, discí- 
pulo deMelrass, e cujos trabalhos revelam grandes qualidades, 
Pi-Qspero Laserre, óptimo nos seus quadros de lloi'es, Izaías New- 
ton, discípulo de Annuuciação, que progride como paizagista, sendo 
notável pela harmonia, suavidade e iidelidade de seus quadros, Bar- 
radas, dotado de uma imaginação viva, Gonçalves Pereira, estu- 
dioso e intelligente, Figueiredo, Almeida e outros, que apresen- 
tam um futuro esperançoso, e Leonel Marques Pereira, antigo 
discípulo da academia, que, voltando ás lides da arte, tem exhi- 
bido ultimamente quadros apreciáveis no género de miniatura a 
óleo, alcançando nas suas obras, cheias de expressão, grande finura 
de toque. 

Enumerando aqui os pintores de Lisboa, observámos em quasi 
todos elles tendências differentes. Trabalham os nossos artistas n'uma 
epocha em que a volubilidade de idéas, a incredulidade, e descon- 
fiança e o desejo de originalidade são causa da divergência que se 
nola' não só entre as obras d'arte, mas também na litlei'atura, e que 
vae de,accordo com as idéas geraes da moderna sociedade. 

Á decadência a que liaviamos chegado no começo d'este século, 
seguiu-se, depois da creação da academia das bellas artes, uma 
reacção que muito prometiia. O professor António Manuel da Fon- 
seca, dolado de grandes qualidades artísticas e ainda ba pouco res- 
peitado na ultima exposição do Madiid, era o chefe primitivo dos ar- 
tistas modernos ; porém a escola romântica por um lado e o ar- 
chaísmo idealista de Overbeck por outro, vieram substituir a escoLa 
clássica de Roma, a que o nosso mestre commuin pertencia. Me- 
trass, filho de uma nova era, e que já occupava a posição olficial de 
professor da academia, poderia substituir o nosso primeiro chefe; 
mas faltou ao paiz no desabroxar do seu talento, corlando-lhe a morte 
o tio da existência. Continuaram, portanto, as divergências e cada um 
fez carreira j)or si. Estes são os factos. 

Agora, perguntaremos nós, quanto ás differentes tendências dos 
nossos collegas — a divergência de estylo que entre elles se nota não 
revela talento? — não revela em cada um a força necessária para se 
guiar a si próprio? que nos importa a pouca unidade de estylo? 
não ha n'isso mesmo uma certa originalidade? não fazemos nós 
rauito mais do que fizeram os nossos antecessores? deveremos 
praticar como os artistas de outros paizes, que seguem de perto o 
que os outros executam, e d'ahi resulta muitas vezes uma uniformi- 
dade que se converte em monotonia? por ventura podemos nós ser 
taxados de mendigar n'uma escola estrangeira? não damos siguaes de 
vida em o nosso modo de proceder? 

Mil modos ha para i'epresentar a natureza, haja um pensamento 
feliz rcalisado sobre a tela, seja elle expressado com sentimento, cor- 
recção e hanrionia, que importa o mais? 

Os pintores portuguezes tiveram a sua escola filiada na antiga 
escola allemã, e depois perdcram-na imitando os ilalianos. Os artislas 
hespanhoes tinham a sua boa escola, conservaram os seus riquíssi- 
mos museus, que nós não temos, e apesar d'ísso decaíram, fazendo-se 
imitadores dos francezes. Se acaso boje, com justa rasão, muitos d'el- 
les se resolveram a enirar no bom caminho, servirido-lhes de exem- 
plares as obras dos seus antigos mestres, é porque a escola de Ribeia, 
Alonzo Cano e Velasquez pôde renascer, por ser fundada na verdade 
das formas e na harmonia dos tons; mas a nossa antiga escola por- 
tugueza não pôde renascer, porque o seu estylo gothico é incorrecto, 
e seria necessário um espirito forte como Rubens, para que aprovei- 
tando as hellezas da execução, finura de toque e lirilhantismo de côr, 
transformasse e refundisse em formas baseadas na verdade aquellas 
boas qualidades. 

As escolas formam-se quando um homem eminente é seguido por 
aquelles (|ue o admiram; o egoísmo da epocha não permitte estas ova- 
ções, e quasi todos dedicam a sua admiração mais a si próprios do que 
aos outros. 

Continuem, portanto, os artistas portuguezes a empregar os seus 
esforços em produzir e produzir bem, sirva-lhes de exemplo a na- 
ção vizinha, que ainda na sua ultima exposição se arrojou a grandes 
commettimenlos em composições históricas, auxilie o governo, pela 
sua parte, como tem praticado a Hespanha e outras nações, os artis- 
tas para que elles não se limitem a trabalhos de simples especulação 
e a arte prfigredirá. 

Dizemos que, pela sua parte, o governo deve auxiliar os artis- 
tas, porque a sociedade promotora das bellas artes, cuja extincção hoje 
seiia uma grande perda, só por si não basta; pelos parcos meios de 
que dispõe, não pôde coadjuvar com mão larga o progresso da arte. 
Para que a arte possa progredir será inevitável que, sem quebra 



nem prejuízo da sociedade promotora, se restabeleçam as exposições 
oflicíaes, adquirindo o governo por preços rasoaveis os melhores ([ua- 
dros que ali se expozerem, e servindo estes quadros para complemento 
da nossa galeria, ainda Ião pobre em obras nacionaes. 

A esperança de gloria e de uma retribuição honrosa, será então 
o incentivo para maiores commeltimentos, e em poucos annos como 
tem succedido no reino vizinho, realçarão as obras de mérito dos nos- 
sos artistas. 

Se as exposições privativas da academia de Lisboa deram logar 
áo apparecimento de obras de certo vulto, ao nosso bom rei artista 
o seidior D. Fernando se deve esse impulso, porque a inór parte d'es- 
sas obras por elle foram adquiridas; e se ainda posleriormeide alguma 
cousa se tem feilo, também grande parte d'e^.se impulso se deve tanto 
a elle como a Sua Magestade El-Rei o senhor D. Luiz I, que igual- 
nienle muito nos tem protegido. Esta protecção tão decidida e tão 
pouco imitada pelos partioilares, não basta comtudo para que os ar- 
tistas SC desenvolvam como devem, e o estado não ficará mais pobre 
destinando, de dois ou de três em três annos, para compra de qua- 
dros, uma quantia rasoavel, e assim animará e desenvolverá o talento 
de homens que, com Ímprobo trabalho e de coração, se dedicam a 
honrar o seu paiz. Este foi o meio ultimamente empregado em Hes- 
pantu e os resultados (éem sido acharem-se os seus museus enrique- 
cidos com os magnillcos quadros Os comuneros de Gishert; O testa- 
mento de Izabel a Cdtholka e A morte de Lucrécia, de Rosales; A 
Santa Clara, de Domingo; A morte de Séneca, de Domingues; 3 
de maio, de Palmaroli e muitos outros, que tanto honram seus aucto- 
res como a Hespanha sua pátria. 

A exposição de Madrid deve servir-nos de norma, e quanto ao 
mérito dos nossos artistas, se considerarmos que, infelizmente, falta- 
ram, entre os portuguezes, alguns dos melhores cuUores da arte, que 
dos próprios que concorreram não foram levadas abi as suas obras 
mais importantes, e que ainda assim a nossa exposição não envergo- 
nhou Portugal, podemos concluir, com justo fundamento, que unin- 
do-nos todos, ao menos por honra do paiz, empenhando todas as nos- 
sas forças, conseguiremos apparecer brilhantemente nas futuras expo- 
sições entre os artistas da Europa. 

M. M. BORDALLO PINHEIRO. 



A ESTALAGEM DOS TRÊS ENFORCADOS 



CONTO DE ERCKMANN-CHATEIÁN 

II 

- (Continuação) 

Quando nic achei só todos estes acontecimentos se 
desenharam no meu espirito com uma espantosa nitidez. 

A vellia, pensei eu logo, é a causa de tudo. Foi eUa 
quem meditou estes crimes o quem os perpetrou. Porque 
meio? Pela astúcia? Por um poder invisível? 

E passeava agitado no meu desvão. Havia não. sei 
que voz interior que me dizia: 

— Não foi inutilmente que o céo te mostrou a Fle- 
dermause contemplando a agonia da sua victima; nao foi 
em vão que a alma do pobre estudante veiu acordar-to 
sob a forma de borboleta: não, não foi em vão. Chris- 
tian, o céo impõe-te uma missão terrivcl ! Teme, se a não 
cumpres, de cair tam])em nos laços da velha: quem sabe 
se n'este momento cila já os prepara na sombra?... 

Durante muitos dias me perseguiram estas estra- 
nhas allucinações. Deixei de dormir e de trabalhar. Caia- 
nie o pincel das mãos, e, particularidade horrorosa, dava 
comigo, ás vezes, a olhar para o ferro da estalagem como 
fascinado. Emtim, uma noite, para sair d'esta situação 
inqiossivel, desci rapidamente a escada e fui-mo escon- 
der atraz da porta da Flcdermause, decidido a surpre- 
hender o seu fatal segredo. Não se passou, desde então, 
um só dia em que eu deixasse de seguir a velha, sem a 
perder do vista, espiando-a. Mas era tão sagaz o tinha, 
para assim dizer, um faro tão subtil que nem precisava 
voltar a cabeça para saber quo a se^, liam ! Fingia, toda- 



36 



ARTES E LETRAS 



via, não dar por tal : ia ao mercado, ao açougue, como 
qualquer outra mulher; apenas apressava o passo mur- 
murando palavras confusas. 

No fim de um mez adquiri a convicção do que me 
seria impossivel, por este meio, conseguir os meus fins; 
isto entristeceu-mc profundamente. 

— Que hei de fazer? perguntava eu a mim mesmo. 
A velha preveniu as minhas intenções, acautela-se, e to- 
das as probabilidades -de suceesso me abandonam. Velha 
seelerada! talvez já imagines ver-me atado á extremi- 
dade da tua corda! 

A força de pensar e de formar planos, atravessou- 
me o espirito uma idéa luminosa. O meu quarto era su- 
perior á casa da Fledermause. Não tinha, porém, janella 
para lá. Despeguei então uma telha e vi com alegria todo 
o interior da habitação da velha. 

— «Até que, finalmente, és minha, exclamei cu; 
d'aqui não podes escapar-me. Hei de ver as tuas idas e 
vindas quaes são, emfim, os hábitos da fuinha na sua 
cova. Não desconfiarás que te vigia este oliio invisivel, 
que surprehende o crime ao nascer. Oh! a justiça tem 
um passo lento, mas chega sempre. 

Nada havia tão sinistro como aquella morada. Era 
um pateo profundo forrado de lageas largas e cheias de 
musgos; a um dos cantos havia um poço com uma agua 
estagnada e repugnante ; uma escada de caracol e ao fundo 
uma varanda ; na balaustrada roupa velha e o panno de 
XTma enxerga; no primeiro andar, á esquerda, uma pia 
indicando a cozinha; á direita as janellas altas da casa 
que davam para a rua; alguns vasos de flores seccas: 
tudo isto sombrio, esboracado, húmido. 

O sol apenas penetrava por uma ou duas horas no 
fundo d'csta sentina. Depois a sombra voltava; a luz 
apparecia um momento ainda em pequenas manchas so- 
bre as paredes arruinadas, nas grades apodrecidas e nos 
vidros sujos das janellas: volteavam turbilhões de áto- 
mos nos raios doirados da luz. 

Era, com eíFcito, este o sitio próprio para a Fleder- 
mause habitar. 

Terminava eu, ajjcnas, estas reflexões quando ella 
entrou: voltava do mercado. Ouvi a porta pesada ran- 
ger nos gonzos; Fledermause appareceu cançada e .ar- 
quejante: as franjas da touca caíam-lhe para a cara. 
Subiu a escada, segurando-so com força ao corrimão. 

Fazia um calor do abafar. Era, precisamente, um 
d'este8 dias em que as casas velhas estão cheias de ver- 
mes, de insectos, aranhas, mosquitos que zumbem ou que 
produzem ruidos subterrâneos. 

A Fledermause atravessou lentamente a galeria como 
um furão que se sento em segurança na sua toca. Demo- 
rou-se um quarto de hora na cozinha, depois voltou a 
estender roupa e a varrer a escada onde havia palha es- 
palhada. 

Por iiltimo ergueu a cabeça e poz-se a percorrer 
minuciosamente com os seus olhos verdes todos os recan- 
tos do tecto. 

Porque estranha intuição desconfiaria " ella que al- 
guém a espiava? Ignoro-o. Mas, abaixando devagar a 
telha, abandonei n'esse dia o meu observatório. 

No dia seguinte a Fledermause parecia socegada. 
Na varanda batia um raio de luz. 

Quando passava apanhou uma mosca que voava e 
aprcscntou-a com delicadeza a uma aranha que fizera a 
sua teia a um canto do tecto. 

Esta aranha era tão grande que, apezar da distan- 
cia, vi-a descer de malha em malha atravez da sua teia, 
depois escorregar ao longo de um fio como uma gotta de 
veneno, tomar a sua presa d'entrc as mãos da megera e 



subir rapidamente. Então a velha olhou-a com attenção, 
cerrou os olhos, espirrou e disse com um tom irónico: 

— «Deus te abençoe, minha querida; Deus te aben- 
çoe ! » 

Não pude durante seis semanas descobrir coisa al- 
guma. Umas vezes a Fledermause descascava batatas sen- 
tada, outras estendia a roupa sobre os balaustres da va- 
randa. Vi-a também fiar, mas nunca a ouvi cantar, como 
fazem as boas velhas, casando a voz treiímla e monótona 
com o ruido zumbidor da roda. 

Havia sempre em volta d'clla um silencio absoluto. 

Não tinha gato; sociedade constante das velhas. Os 
pardaes não poisavam nas beiras do telhado c os pom- 
bos, ao passarem por cima do pateo, estendiam mais as 
azas para fugir: jjarecia que tudo temia os seus olhares. 

Só a aranha medrava na sua companhia. 

Custa-me hoje a comprehender a minha paciência 
durante tantas e tantas horas de observação; nada me 
aborrecia e coisa alguma me era indiffercnte. Ao menor 
ruido levantava a telha: havia em mim uma immensa 
curiosidade estimulada por não sei que vago temor. 

Toubac queixava-so. 

«Mestre Christian, dizia-me elle, em que diabo passa 
o tempo?! D'antes tinha sempre um quadro por semana, 
e agora apenas o tenho por mez ! Isto de pintores ! . . . 
Bem se costuma dizer: mandrião como um pintor. Em 
ganhando alguns crcutzers, mettem as mãos nos bolsos e 
dormem.» 

Eu mesmo começava a desanimar. Por mais que es- 
preitasse não descobria nada <le extraordinário. Come- 
çava já a pensar que a velha não era, talvez, tão p(^ri- 
gosa como eu a suppunha, e, insensivelmente, desculpa- 
va-a. Mas uma tarde que eu espionava no meu buraco, 
fazendo estas benévolas reflexões, a scena mudou repen- 
tinamente. 

(Contiuúa.) B. 



Ql-ADRO DE nAPHAEL 

O quadro que damos cm gravura, intitulado — A vir- 
gem, conhecido pelo nome de — A Virgem de S. Xisto, 
passa por vim dos melhores de Rapliael. 

No meio de uma gloria de cherubins está a Virgem 
de pé, tendo nos braços o Menino Jesus. A esquerda 
S. Xisto, Papa, fundador dos Bencdictinos de Placencia, 
adora, de joelhos, o Redemptor do mundo. Do lado di- 
reito Santa Barbara, também de joelhos, olha para a terra 
e parece conceder protecção á cidade de Placencia que en- 
cerra o seu corpo. Na parte inferior do quadro dois anjos 
do rara belleza, cm graciosissiraa posição, completam o 
precioso trabalho do mestre, que, durante a sua curta 
vida, sovibc dotar o mundo com tão famosos thcsouros. 

Diz-se que este quadro foi feito para pendão de pro- 
cissões; mas, segundo todas as probabilidades, a sua ver- 
dadeira applicação foi para o altar \m')v dos Bencdictinos 
de Placencia. Não se sabe ao certo em que época o mes- 
tre o concluiu; pôde comtudo aflirmar-so que é uma das 
suas ultimas obras. 

O quadro existe na galeria de Dresda. í''oi com- 
prado pelo rei Augusto Hl, que, tendo grande pezar de 
não possuir, na galeria d'aquella cidade, xun original de 
Raphael, propoz aos frades do convento onde o quadro 
estava, dar-lhes uma copia e trinta e seis contos de réis, 
para lhe cederem o original. 

Na galeria de Rouen ha também uma copia. 



ARTES E LETRAS 



37 




OS COCHES DA CASA REAL 



Entre as preciosidades de diversos géneros, que, res- 
peitadas pelo tempo, se conservam ainda hoje como ou- 
tras tantas rcliquias do brilhante esplendor ostentado pela 
corte portugucza em épocas de maior opulência, occupa 
mui distincto logar, e tem sido objecto para admiração 
geral de nacionaes e estranhos, a riquissima collecçao dos 
antigos coches reaes. Diminuta para o que foi, em razão 
de desfalques repetidos o provenientes de causas varia- 
das, mas ainda tal qual sufficientc para se poder affirmar 
com a auctoridade dos que o sabem, que no seu estado 
actual nenhuma outra conhecida no mundo lhe leva van- 
tagem em numero e qualidade. As mais poderosas e cul- 
tas nações da Europa, onde estào agglomerados os pro- 
ductos da industria humana, e de cujo seio as artes, do- 
miciliadas ha séculos, espalham com radiante fidgor por 
todo o universo as suas manifestações, íicam ainda assim 
n'essa parto inferiores a este pobre Portugal*. 

A collecçao dos coches reaes, por eíFeito de accumu- 
lações ou accrescimos successivos, havia tocado o seu auge 
nos últimos annos do reinado da rainha D. Maria I, e 
já durante a regência do filho, que depois lhe succedeu 



• Em Moscow, no anno tle ISiio, por occnsião da soleninidade 
da coroação do actual imperador Alexandre II, appareccram no prés- 
tito alguns sumptuosos coches, que se diz haverem já figurado em 
festas idênticas nos reinados de Catharina II e Paulo I. O desenlio 
de fres d'estas equipagens, havidas como evidentemente do origem 
franceza, e escolhitlas entre todas por mais notáveis, pôde ver-se no 
jornal francez L' Ilhtstration do referido anno, onde vem em termos 
pomposos qualificadas de ohras primas e inestimáveis, verdadeiros 
monumentos históricos, etc. Comtudo, em presença da descripção que 
ahi se faz, não parece que qualquer d'elles possa admittir relações de 
superioridade comparada com alguns dos coches portuguezes. 



com o nome de João VI. Foi então que começaram as 
perdas (não fallando nos coches, que por estarem ao ser- 
viço diário do paço em tempo d'el-rei D. José, haviam 
perecido no incêndio subsequente ao terremoto de 1755). 
Quarenta e tantos coches, tirados provavelmente d'entre 
os melhores, levou comsigo a famiUa real, quando, em 
1807, fugindo da invasão franceza, se retirou para o Bra- 
zil. No anno de 1834 foram ainda mais alguns enviados 
para o Rio de Janeiro a titulo de partilhas, por falleci- 
mento do sr. D. Pedro IV. — Vendoram-se depois outros, 
que se achavam deteriorados, no reinado da senhora 
D. Maria II. E por ultimo existem ainda não poucos em 
estado de ruina, tal cpie algims não admittem concerto. 
Assim os que por seu estado de boa conservação apezar 
da diuturnidade dos annos, ou por haverem sido moder- 
namente restaurados, se acham ao presente aptos para 
serviço, não passam de trinta e nove, segundo as infor- 
mações mais veridicas e recentemente colligidas. 

E em verdade para lastimar que com este resto, es- 
capo á destruição e desbarate dos outros, mas ainda as- 
sim de tão extraordinária valia, nos não chegassem no- 
ticias certas e .exactas com respeito á origem e circums- 
tancias de cada um. Com esse conhecimento poder-se-iam 
adquirir espécies de maior alcance e proveito, não só para 
a historia das artes em Portugal, visto como por argu- 
mentos plausíveis parece que muitos coches foram aqui 
fabricados e ornamentados por artistas nacionaes, mas 
ainda para desvanecer mais cabalmente as tradições fa- 
bulosas que por tempo correram entre os menos sabidos 
e habituados a exagerações hyperbolicas, acerca da ori- 
gem d'alguns ou da época a que pertenciam. 

Havia quem afRrmasse, até na imprensa (e chegou 



38 



ARTES E LETRAS 



a rcpctil-o um viajante estrangeiro *, que devera ter me- 
nos credulidade, e a critica sufficiente para não dar as- 
senso o curso a informações tão evidentemente erradas), . 
ser um d'aquelles o coche do gala de D. Aftbnso Henri- 
ques, outro, o d'el-rei D. Diniz, e um terceiro o de D. Ma- 
nuel!!!... Nem ao menos occorria aos que tacs incpcias 
propagavam, que a introducçâo e uso dos coches na Eu- 
ropa é do data mui mais recente que a de qualquer dos 
alludidos reinados, sendo hoje jionto assentado entre os 
mais proficientes indagadores (Festas antigualhas, que os 
coches reaes só foram conhecidos em França no reinado 
de Henrique IV; em Inglaterra no da rainha Isabel; e 
que em Portugal appareceram pela primeira vez quando 
Filij)pe II, seu primeiro introductor em Hespanha, veiu 
a esto reino para roborar a sua conquista, e receber dos 
novos súbditos o juramento de fidelidade. Os nossos an- 
tigos monarchas, desde o vencedor de Ourique até o car- 
deal rei, não conheceram nem tiveram para si e suas fa- 
mílias outros vehiculos de transporto senão cavallos, ou 
as chamadas andas, espécie de leito ou cadeira portátil, 
de que repetidas vezes se encontra feita menção nas ve- 
lhas chronicas. 

Para supprir pois a deficiência de noticias históri- 
cas e authonticas de quacsqucr particularidades, os nos- 
sos archeologos têcm sido obrigados a soccorrer-se de 
conjectui"as ftmdadas sobre a Índole especial de cada um 
d'estes artefactos, hoje existentes, ou das generalidades 
que a seu respeito nos fornece a historia dos diversos rei- 
nados. Assim se determinam pelos brasões d'armas que 
os adornam, o por outros signaes característicos, os co- 
ches que trouxeram a Lisboa as princezas que successi- 
vamento vieram esposar os reis D. Pedro II, D. João V, 
T>. José I, e o príncipe regente, depois rei D. João VI. 
É da mesma sorte conhecido vxm com que o papa Cle- 
mente XI brindara D. João V, de cujo reinado datam 
a maior parte, e por ventura os mais sumptuosos. O de 
que este soberano se serviu na ida ao Alemtejo para re- 
ceber a infanta de Hespanha D. Marianna Victoria, des- 
tinada esposa do seu filho e successor D. José I, não só 
sobrosáe a tudo o que de melhor se havia visto em Lis- 
boa, mas causou, segundo se affirma, admiração aos pa- 
risienses, costumados n'aquella época ás pomposas equi- 
pagens da corte de Luiz XIV. 

Ha do mais antiga data um, que tradicionalmente 
se diz haver servido a Philippe III de Castella e II do 
Portugal, durante a sua curtíssima assistência n'este rei- 
no; mas parece restar ainda n'esse ponto alguma duvi- 
da. Os que nenhuma admittem, por serem quasi dos nos- 
sos dias, são os que pertenceram a D. Maria I, e os que 
D. João VI mandou fazer em Paris e Inglaterra no sé- 
culo actual, e se diz serem de todos os mais desengra- 
çados e menos ricos. 

Não se encontra porém entre elles vestígio algum 
dos famosos coches que serviram na entrada solemne do 
condo da Ribeira, quando enviado á corte de França em 
1715, nem dos que tão notavelmente figuraram na de 
André de Mello e Castro, cm Roma, na qualidade de 
embaixador extraordinário ao papa; sendo-nos aliás co- 
nhecida a dcscripção d'estes últimos pelas estampas que 
formam talvez a parto mais importante na Eelação que 
d'aquella embaixada se imprimiu cm Paris cm 1709, nas 
linguas portugueza o franceza em volume de folio. 

O que hoje sabemos de todos, por mais recentes ave- 
riguações, pôde ver-se na serie dos primorosos artigos, 
que sob as rubricas Coches antigos da casa real, e Luxo 

• O priíicipe Lioluiowsky, nas suas Recordações de Portugal em 
1842, pag. 84 da versio portugueza. 



e nuKpnjicencia da corte d'el-rci D. João V, escreveu e 
publicou, nos tomos x e xi do Archivo Pittoresco, o sr. 
Ignacio de Vilhena Barbosa, intelligente o prestante in- 
vestigador dos monumentos o antiguidades pátrias, sen- 
do alguns d'esses artigos acompanhados das rcs|)ectivas 
gravuras. Pena é que tão curioso trabalho ficasse inter- 
rompido pela suspensão d'aquelle instructivo semanário. 
Anteriormente outro nosso diligente antiquário, o sr. ab- 
bado Castro, havia dado á luz, em 1845, c fez reiíppri- 
mir com emendas e additamentos era 1859, o resultado 
de suas indagações em um erudito opúsculo de 13 pagi- 
nas de 8." com o titulo: Noticia acerca dos antigos co- 
ches da casa real. 

Para acconunodação d'estes coches mandara el-rei 
D. João V construir, de propósito, no sitio do Calvário, 
próximo do Alcântara, um edifício onde permaneceram 
por largo tempo. Achavara-se ahi idtimamente sem uso, 
e padecendo as deteriorações inevitáveis dos annos e do 
pouco ou nenhum cuidado que com elles se tinha, quando 
em 1845 houve a idéa de que alguns figurassem na ap- 
paratosa solemnidade do baptismo da senhora infanta 
D. Antónia'. Para esse effeito foram limpos ou restaura- 
dos uns dez, que, transferidos para as cocheiras do paço 
de Belém, continuaram desde então a servir nas mais 
lustrosas funcções da corte. Em 18G2, por occasião do 
consorcio do actual reinante o senhor D. Luiz I, foram 
reparados mais alguns, que com aquolles e outros menos 
mal conservados, e removidos do antigo local, passaram 
a occupar as cocheiras reaes situadas na calçada da Aju- 
da, previamente reedificadas com todas as condições c 
commodidades necessárias para o mister. No Calvário 
ficaram unicamente os coches que por sua absoluta dam- 
nificação foram julgados incapazes do serviço, ou deman- 
davam uma inteira e difficil reconstrucção. 

A gravura que as Artes e Letras ofterecem hoje á 
curiosidade dos leitoi'es, é copia fiel de uma photographia 
exactíssima, e representa um cocho de data comparati- 
vamente moderna, mas dos mais apreciáveis da coUec- 
ção por sua riqueza e bem acabado lavor. Pertence, se- 
gundo nos informam, á época de D. Maria I, e é o pró- 
prio que no baptismo da senhora infanta conduziu seus 
augustos pães, a senhora D. Maria II o o senhor D. Fer- 
nando. Affigura-se-nos que será também o mesmo a que 
allude o sr. abbade Castro, pag. 10 do seu opúsculo, o 
que diz servira pela primeira vez a 6 de junho de 1781, 
quando a rainha foi visitar solemnemento o novo con- 
vento que acabava de edificar com dispêndio excedente 
a 5.000:000^^000 réis, sob a invocação do Santíssimo Co- 
ração de Jesus. E todo envidraçado em roda pela parte 
superior dos painéis (sondo estes cobertos com bellas pin- 
turas, que se attribuem ao fecundíssimo e sempre engra- 
çado pincel do nosso artista Pedro Alexandrino de Car- 
valho) e ornado do ricas molduras, figuras allegoricas e 
festões, tudo de talha doirada. Pela jjarte interior é for- 
rado do tissu de oiro de exquísito gosto e subido preço; 
e o tejadilho tanto interior como exteriormente forrado 
de veludo verde, com guarnições também bordadas de 
oiro. Em volta do mesmo tejadilho contam-se oito ma- 
çanetas de bronze doirado, formando outros tantos gru- 
pos de anjos, que sustentam coroas, e na parte central 
e mais elevada crgue-se uma grande e formosa coroa, 
egualmento doirada. O jogo e trazcira levantada não 
desdizem do restante apresentando também bcllos or- 

1 Pódp vpr-so a miuila narrativa d'i>stn acto pomposo, rflolirado 
a 8 do abril de 184?), no Diário do Governo n.° 8ti. de 14 do niesino 
mez. Vej. l;imbeiii a Illustrarõo, jornal universal, ii." 2, de 3 de maio 
do dito anno, onde segue á descripfão da festividade uma estampa 
com a representação do préstito. 



ARTES E LETRAS 



natos c figuras obrados om talha doirada, cujo gosto e 
execução provam cxuberantenicnto a perícia dos nossos 
artistas, se este soberbo artefacto foi, como tudo induz a 
crer 



1, fabricado em Portugal. 



INNOCENCIO FRANCISCO DA SILVA. 



PAQUITA 



(ultimas estrophes do canto vil) 



Adelina, sabendo, do improviso, 
Que Pepito também a acompanhava, 
Sorrira com angélico sorriso... 
Desde aquelle momento não pensava 
Senão no dia em que partissem juntos. . . 
E a que ponto esse dia lhe tardava! 

Chegara, emfim! O brigue da carreira. 
Airosa embarcação que então corria, 
Levando a palma sempre á mais veleira, 
Dentro em pouco a seu bordo os recebia, 
E, abrindo as velas e transpondo a barra, 
A um largo, com bom vento, proscguia. 

O mar! o mar! — O Deus, no vasto mar, 

Xas planuras d'aquella iminensidão. 

Sob o céu, ante as ondas, dilatar 

A vida por um outro coração. 

Que cm extremos d'amor por nós palpita 

Como as ondas que alem vemos quebrar ! . . . 

Ruja, embora, o tufão! Embora a morte 
Ameace do abysmo as nossas vidas, 
Unindo-se em phrcnetico transporte, 
N'iuna só nossas almas confundidas 
Contemplam o furor do pego indómito, 
Ufanas encarando a mesma sorte! 

Salta o vento e propicio de outro lado 

Já nos conduz nas azas da bonança. 

O sol brilha no céu — precipitado 

Palpita o coração com a esperança. 

Até que, emfim, por entre o véu das lagrimas 

Descobrimos o porto desejado! 

Corria a um largo o brigue, onde seguiam 
xVdelina, Pepito e a preceptora. 
No convez do navio os dois sentiam, 
Era presença do mar, o que eu agora 
Disse, leitor, e nunca as suas almas 
Tinham sentido as impressões d'ess'hora! 

Ao desbotado rosto da donzclla 
Assomavam as rosas, e a alegria. 
Que, havia muito, já nos olhos d'ella 
Apenas por momentos entreabria. 
Agora, como o sol de um dia esplendido. 
No azul dos bellos olhos lho fulgia! 

Pepe saudava o mar. Ella inclinava, 
Co a morbidez do amor e da ternura, 
No peito d'elle a fronte que vergava 
Desfallecendo á força de ventura. 
Que fronte — onde os cabellos fluctuavam 
Com a brisa do mar!... que formosura! 



Digo a brisa do mar, e não supponha 
O presado leitor, que mo refiro 
A brisa, que, beijando a flor risonha. 
Solta no prado um languido suspiro: 
Infallivel bordão de certos vates 
Cujo estro e doçura eu tanto admiro! 

Não, senhor — é da fresca c lai'ga siragem 
Que agita as ondas em cachões de espuma, 
E, coiTcndo, na rápida passagem. 
Varre do céu as nuvens uma a uma. 
Até deixar o firmamento em volta 
Sem ter nem sombra de ligeira bruma. 

Encostado á amurada respirava 

O par ditoso a immensa poesia 

Do céu, do mar, do sol que scintillava 

Sobre as ondas azucs, onde fervia — 

Esmaltada de luz — a branca espuma 

Que as ondas orgulhosas coroava! 

Uma sombra nas orlas do horisonte! 

— «Terra á vista» — exclamou em continente 

Um marinheiro de bronzeada fronte. 

Affirmou-se o hespanhol attentamente. 

Porém, em vez de terra, apenas viu 

Um pontinlio o seu ollio inexp'ricnte. 

O navio corria a todo o panno. 
Era um crystal de rocha o céu polido; 
Azul ferrete o mar quebrava ufano. 
Das lufadas do norte sacudido; 
E nas ondas de luz o sol vivíssimo 
Banhava o céu e as vagas do oceano! 

Adelina, ditosa, embevecida, 

Transportada d'amor, junto do amante 

Sentia-se outra vez cheia de vida. 

Meu Deus, com que alegria, n'esse instante. 

As almas juvenis ambos fundiam 

No olhar apaixonado e fulgurante! 

As almas juvenis ! — -O mocidade, 
Inda ás vezes te sinto, inda te vejo, 
Atravez da tristeza e da saudade. 
Rebrilhar com um rápido lampejo 
Da existência do céu — quando contemplo 
Um namorado par no alvor da idade! 

Dentro em pouco a fiadeira florescente. 
No limpido horisonte recortada. 
Já se podia ver distinctamente. 
O flor do mar, ó terra abençoada, 
Onde no inverno, pelo mato agreste. 
Abre, sorrindo, a rosa perfiunada! 

Quem poderá tornar áquelles dias 

Que em teu seio passei! O Providencia, 

Nunca mais voltarão as alegrias, 

Os magos sonhos, a divina essência 

Dos annos juvenis, mixto sublimo 

Do paixão, de enthusiasmo e d'innocencia?! 

Volta da primavera o sol brilhante; 

Volta a flor ao pomar; a rosa ao prado; 

Ás veigas a seara sussurrante; 

As aves o gorgeio enamorado. . . 

E um anno, um mez, um dia, um só momento, 

Não volta para nós d'esse passado!! 



40 



ARTES E LETRAS 



Varrera o norte as nuvens do horisonto, 

E, o que 6 pouco vulgar, n'aquelle dia, 

Ató o viso do mais alto monte, 

A vista todo o quadro descobria. 

O navio deu fundo. Aos dois amantes 

Singular alvoroço embevecia! 

Pepito uniu ao peito a bella ingleza. 

Que ficou, por momentos, fascinada 

Ante o aspecto gentil da natureza; 

E, quebrando a mudez apaixonada, 

Ella disse depois entre-surrindo : 

= « Oh ! aqui torno il vida com certeza ! . . 

Correu mais forte um pouco a viraçíio 
E agitou-lhe os cabcUos, que roçavam 
A face do mancebo. Essa impressão. . . 
O aroma que os cabellos exhalaram. . . 
N'um Ímpeto d'amor os lábios d'elle 
De repente nos delia se cravai'am ! . . . 

Era a primeira vez ! ! — Aquello beijo 
Ante o céu os amantes desposava! 
Innocencia, candura, ardor, desejo. 
Tudo ali santo Deus, se concentrava! 
Celebravam assim divinas núpcias. 
Em presença do mar que os contemplava ! 



FIM DO CANTO SEtiMO 



BULItAO PATO. 



O DELPHIM OE FRANÇA 

EM CASA DO SAPATEIRO SIMÃO 
QUADRO DK PILOTY 

Os que leram a historia da primeira republica da 
França tiveram agora occasião de ver, no theatro de 
D. Maria II, representado com muita propriedade, um 
antigo conhecimento, o sapateiro Simão. Viram, também, 
com todo o esplendor da verdade, a scena altamente dra- 
mática era que o brutal republicano, com o coração ermo 
do todos os sentimentos bons, vae á prisão de Maria An- 
tonieta, e arranca dos braços da mãe aquelle que as po- 
tencias chegaram a reconhecer como rei de França, e que 
o destino quíz que morresse ignorado c esquecido. 

Pois a nossa primeira estampa represcnita o infeliz 
príncipe em casa do seu algoz, tranzido de susto ouvindo 
as ironias amargas de um homem, que, avaliando os fa- 
ctos pelo que lhe dictava o espirito rudp, determinara 
vingar-sc, no innocente, de tudo que os antepassados de 
um fizeram soífrer aos antepassados do outro. 

Alem do interesse histórico que desperta o quadro 
que damos, recommenda-se elle pela composição, que é 
primorosa, e, principalmente, pela expressão physiono- 
mica dos diversos personagens, que é magnifica. 

O i-eceio com que o desditoso príncipe, ainda vestido 
com os trajes da corte, ouve as facécias que lhe diri- 
gem, o a satisfação feroz do sapateiro patriota que se 
prepara talvez, para cevar na indefeza creança as suas 
iras concentradas, acham-se tão bem traduzidos no qua- 
dro, que o coração confrange-se ao contemi)lar aquelle 
deplorável episodio de uma revolução que, em1>ora aceu- 
sada de, no rugir das paixões desenfreadas, haver der- 



ramado sangue innocente e commettido barbaridades 
aflfrontosas, teve tanto de grande e de sublime, pwque 
libertou uma classe do pesado jugo que a opprimia por- 
que restituiu ao povo os foros de que elle se achava es- 
bulhado. 

Se juntarmos á expressão perfeitíssima das ])hy8Ío- 
nomias e á naturalidade com que as figuras estão grupa- 
das, o bom desenho de cada uma d'ellas e a minuciosi- 
dadc com que são tratados os accessorios, devemos con- 
cordar cm que o quadro do Piloty, O delpiiim dk kkança 
EM CASA DO SAPATEIUO SIMÃO, é digno da especial atten- 
ção dos que prezam os bons trabalhos artísticos. 



OBUAS DE AKTE POUTUGUEZAS 
QUE FIGURARAM NA EXPOSIÇÃO DE MADIUD EM 1871 

(Conclusão) 

Também o sr. Rosa mandou a Madrid o Busto do 
fallecido visconde de Almeida Garrett, esculptura que 
todos teem visto no salão do theatro de D. Maria II. 
Por ser obra conhecida, e a respeito da qual muito se 
escreveu em tempos, mencional-a-hemos apenas, aljsten- 
do-nos de repetir o que já se disse. 

Em architectura apresentou o sr. Ávila, discípulo 
da escola de bellas artes de Paris, alguns trabalhos; a 
saber: Projecto para uma camará municijml (fachada 
principal^ corte o planta); Projecto de um amphithcatro 
para uma escola (fachada principal, corte o planta) ; 
Projecto de um restaurant (fachada, corte e planta) ; Pro- 
jecto de uma casa de campo, em constnicção j)ara o 
sr. duque de Loulé e conde de Valle do Reis (fachada 
principal, dita lateral, corte, planta e detalhes em gran- 
de) ; Projecto de construcção de uma igreja de S. Tor- 
quato, em Guimarães (fachada, dita lateral, dita poste- 
rior, corte, planta e detalhes); Projecto de uma casa de 
campo (fachada, ccírte e planta). 

O melhor d'elles é, quanto a nós, o projecto para a 
camará municipal, executado com primor. 

O sr. Sousa enviou a sua excellente gravura, a agua 
forte, do quadro do sr. Annunciação O recolher do gado, 
a gravura a buril do quadro do sr. Metrass, A leitura 
de um romance, e retratos do fallecido monarcha D. Pe- 
dro V, do sr. visconde de Castilho, do sr. Bulhão Pato, 
do sr. Fontes Pereira de Mello, da sr.* Volpini, da sr.* 
Delphina do Espirito Santo, do sr. F. A. da Silva Ta- 
borda, do sr. Júlio Cesãr Machado, do sr. Magalhães 
Coutinho, do sr. José Lourenço da Luz, do sr. Pimen- 
tel, do sr. Bruschy, do sr. Annunciação e dos fallecidos 
srs. José Estevão e Rodrigo da Fonseca Magalhães. 

São obras conhecidas e j;í devidamente julgadas c 
apreciadas. Da primeira quiz o juiy do Ilespaiiha adcjui- 
rir a chapa, o que não conseguiu, por ser propriedade 
da sociedade promotora de bellas artes em Portugal. O 
distincto artista foi permiado com a medalha de 2.* classe. 

O sr. Caetano Alberto mandou dois quadros com 
diversas gravuras em madeira, de merecimento relativo 
ao estado em que este ramo de bellas artes se acha no 
paiz. 

O sr. SoUer, artista portuense, que estudou por al- 
gum tempo architectura em Paris, obteve a medalha de 
2.* classe, polo Projecto de uma hihliotheca, trabalho 
que não tivemos a satisfação de ver, porque foi enviado 
directamente para Madrid pelo seu auctor. 

O sr. Correia, do Porto, apresentou três desenhos: 
Santa Izahel rainha de Portugal; O retrato do sr. du- 
que de Loulé (lithographias) e Um retrato á penna. 




RAPHAEL SANZIO pinx- 



W. FRERCH SC. 



A VOliBEMo 



Ediíoi-s : ;iir,d a SaÉiiondLis^ 



ARTES E LETRAS 



41 



É conhecido este artista como bom desenhador e os 
seus trabalhos não desmentem a opinião em que é tido. 
O quadro que representa a Rainha Santa é bem com- 
posto e executado com mestria. Sentimos, porém, que 
artista tr;o considerado não se fizesse conhecer em Ma- 
drid por trabalhos de mais alta aspiração. 

O sr. Soromcnho expoz — Uma ovarina, desenhada 
a esfuminho e lápis. Este quadro distancia-se, para me- 
lhor, de um que este desenhador apresentou, ha tempos, 
na exposição da Sociedade Promotora de Bellas-Artcs. 

Os longos c a atmosphera são bom feitos, e ha har- 
monia cm toda a composição. 

Finalmente, o sr. Campos, de Lisboa, e o sr. Mo- 
larinho, do Porto, enviaram diversas medalhas gravadas 
com o primor nunca desmentido pelos trabalhos d'estes 
artistas. Foram premiados, mas com distincções de me- 
nos valor do que as conferidas a outros artistas, que, se- 
gundo nos dizem, não os excederam. 

Concluimos a nossa revista dos quadros mandados a 
Madrid. Nem sempre acertaríamos nas apreciações que fi- 
zemos, estamos convencidos d'isso, mas podemos afian- 
çar que fomos imparciaes, porque, não attendendo sis li- 
gações do amizade que nos prendem á maior parte dos 
artistas citados, temos a consciência de que falíamos des- 
assombradamente e com a franqueza indispensável nas 
apreciações de uma folha d'csta indole. 

R. DE L. 



CHRONICA DO MEZ 



novidade saliente do 
mez foi a \isita de S. 
M. o imperador do 
Btazil a terras de 
Portugal. 

O Senhor D. Pe- 
dro II, depois de ter- 
minada a guerra, que 
por tantos annos ab- 
sorveu a attenção do 
império, depois de 
])ioposta a lei civi- 
lisíidora da aliolição 
dos escravos, deter- 
minon-se a percor- 
rer a Europa em via- 
gem mais de in- 
strucefio que de re- 
creio. 

Tendo visitado os 
piiizps que, pelo seu 
estado de adianta- 
mento, são eiassili- 
cados como primeiros na escala do progresso, escolheu, para final es- 
tação da sua jornada, este cantirdio do mundo — gloriosa pátria de 
seus antepassados — a que o prendem estreitas ligações de amizade 
e de família. 

Uma vez em Portugal apresentou-se nos principaes estabeleci- 
mentos scicnlificos e tratou com os homens mais eminentes na litte- 
ratura, nas artes e na polilica, mostrando-se conhecedor de variados 
assumptos, sendo aflavel com os que vinham prestar homenagem á 
sua alta hierarchia e deixando grata memoria no auiuio dos que o 
procuravam ou eram por Sua Mageslade procurados. 

Pondo de parte os alavios da realeza, diligenciou viver sempre 
como particular, mas procedeu muitas vezes como príncipe. Se habi- 
tava as hospedarias, se percorria as ruas em carruagem de aluguel, 
se occupava qualquer camarote no theatro, se tomava logar entre os 
demais cidadãos nos sítios públicos onde apparecia, lambem distri- 
buiu com n)5o larga e generosa muitas esmolas, enxugando algumas 
lagrimas c exercendo, nVsle ponto unicamcnie, as fuucções do alto 
cargo que a Providencia lhe destinou. 

Sua Mageslade Inij)erial mrslrou, pois, pelo seu procedimento. 




comprehender bem o século em que nasceu; vê-se que respeita as 
idéas liberaes e democráticas laboriosamente conquistadas pelo povo, 
para que essas idéas, na sua integra justiça, o respeitem a elle lambem. 

Lisboa, Porto e Coimbra vestiram-se de gala para receber os im- 
periaes viajantes. Lisboa, principalmente, apresentou-se com toda a 
galhardia. Não parecia a mesma. Sorumbática e mettida comsigo, como 
é, desfranziu nVsses dias os lábios e sorriu graciosa. Foi tal a trans- 
formação, que os próprios filhos que nunca saíram do seu agasalho, 
a desconheceram. 

As festas em Lisboa téem a vantagem de expor aos habitantes 
um simulacro da vida, do ruido, da alegria das grandes cidades. Du- 
rante as ultimas a que me refiro, observaram-se phenomenos raríssi- 
mos, coisas extraordinárias de que ninguém julgava susceptível a ca- 
pital d'estes reinos. 

Muita gente a passeiar! 

Muita luz nas ruasl 

Enchentes nos tbeatros I 

Enchentes no passeio em dias de semanal 

Em Lisboa é preciso pretexto para se sair á rua. As luminárias 
foram d'esta vez o pretexto. É certo que este nosso bom povo já não 
corre a foguetes — tudo, até a polilica o prova — mas por luminárias, 
em sendo boas, ainda muita gente se incommoda. Só a muita luz tem 
o poder de atlraír as mariposas, que em noite de simples illuminação 
municipal não saem do fofo casulo. 

A commissão encarregada de festejar a passagem do imperador 
pela capílal contribuiu muito para estas alegrias, pois mostrou a boa 
vontade de que estava possuída, para que tudo fosse luzido e digno 
do íim a que era destinado. Pena é que as pessoas, a quem foi com- 
mettida a execução do pensamento dos commissionados, não mostras- 
sem também o seu bom gosto. 

Alguns dos adornos das ruas, diga-se a verdade, tinhani pouco 
de bonitos. As pyramides do Rocio, por exemplo, eram de um mau 
gosto pyramidaU Verdade é que illuminadas produziam algum efleito, 
e ellas foram levantadas para se verem assim; mas como de dia, car- 
regadas de pesado luto, saltavam mais á vista do que de noite cm que 
o vento fresco do norte lhes apagava de quando em quando o fogo 
do enthusiasmo, por isso me não deve ser estranhado que eu registe 
aqui a disformidade d'aquelles collossaes monumentos, que só ti- 
nham de bom representarem dignamente a idade de ferro em que vi- 
vemos. 

Outro assumpto hem diverso prendeu também as altenções da 
população de Lisboa nos princípios do mez. Foi o beneficio da actriz 
Emília Adelaide, um dos mais primorosos talentos que abrilhantam a 
scena portugueza. 

O publico, sempre soUicito em applaudir os bons talentos, con- 
corre á festa dos grandes artistas, dispulando os logares mais insigni- 
ficantes da sala com tal ardor e perseverança, que deixa muitas ve- 
zes remediados para alguns mezes os contratadores de bilhetes. Pelo 
preço das entradas á porta dos theatros, em noite de beneficio, é fá- 
cil de avaliar o merecimento do beneficiado, quando elle é actor ou 
actriz. Escusado será, pois. dizer que os bilhetes para a noite de festa 
da actriz Eniilia Adelaide foram cotados por alto preço. A sala estava 
cheia, e brilhante foi a ovação com que os admiradores da actriz a re- 
ceberam na sua entrada. Pagavam-lhe assim os esforços por ella fei- 
tos para alcançar o logar dislincto que boje occupa. 

Representou- se n'essa noite, pela primeira vez, o drama de Gia- 
comctti — Maria Antonieta, traduzido pelo sr. Biester. O drama, que 
se encontra impresso em elegante volume, foi tecido pelo auctor sem 
ficção alguma. É, por assim dizer, uma das mais sentidas paginas da 
historia de França, escripta em oito capítulos, que tantos são os qua- 
dros em que eslá dividido aquelle poema de lagrimas. 

O publico aflligiu-se com os últimos actos, que são os mais tris- 
tes, e deu sign.ies de reprovação (^omtudo não reparou em que, jul- 
gando vingar-se da peça que o incommodava, apenas se vingava da 
historia, esligmatisando factos succedidos. A presença do carrasco, 
sobretudo, irritou-o muito. Os mais sensíveis tiveram naquelle mo- 
mento vontade de guilhotinar o ministro da alta justiça para que elle 
não guilhotinasse a rainha. Não chegando, porém, a tanto a sua al- 
çada, contentaram-se com dar-lhe uma boa paleada, como quem diz: 

— Já que não morres ás nossas mãos, morrerás... aos nossos 
pés. 

O desempenho do drama foi bom, em geral, dislínguiudo-se a 
actriz Emilia Adelaide e o actor Santos. Este no jJifTicil p.apel de 
Luiz XVI encontrou a melhor coroa da sua gloiia artisliia. Depois 
de traduzir com a maior felicidade o caracter fraco e indeciso do rei, 
que viu desabar sobre si e toda a sua familia o collossal edilicio da 
monarcbia, exprimiu com verdade e angustia a dor violenta, a ago- 
nia dilacerante que deve sentir o misero que sae dos braços da esposa 
e dos filhos, para se entregar nas mãos do algoz. Foi completo. 

Já que fallei do theatro registarei Ires novas composições origi- 
naes que se deram durante o mez : Arte, pátria e caridade, pelo sr. 
Alfredo de Albayde; Durante o reinado do sr. D. Pedro II, pelo sr. 
Desforges e Scenas da vida de Coimbra, pdo sr. Barros. 



4'J 



AliTES E LETRAS 



A ])rimeii'a representou-se no Gymnasio; as duas ullirnas na rua 
(Ids (limdus. 

O sr. Alliaydc, apesar dfi lial)iluado a escrever no género cómico, 
saiu-se milito l)em do primeiro ensaio (|ue fez no género serio. A sua 
ultima comeíJia é apenas um episodio, mas episodio sentido e liem eal- 
eidado para o íim a que se destinava.^ Corre impressa e foi dedicada a 
S. M. o imperador do Brazil. 

A comedia do sr. Desforges agradou, e qiiasi que se pôde dizer 



d'ella o que digo da do sr. Alliayde, porque, sendo ambas escriptas com 
o mesmo propósito, deram anihas igual resultadi 
idêntico enredo. 



sultado o quasi que têein 



A ultima comedia citada tera a vida e alegria que o titulo exige. 
O publico applaudiu-a. 

Agora fallemos de livros. 

O incansável escriptor, sr. Camillo Castello Branco, deu i estampa 
mais um livro. Não è novidade o que deixo escripto; novidade seria 
dizer: 

— Ha um anno que o sr. Camillo Castello Branco nâo publica um 
livro. 

Escrever muito e muito bom é dado a poucos cscriptores. No ca- 
talogo d'Ksses poucos, porém, está inscripto o nom(! do sr. Camillo. 
A sua reputação podia ser européa, se elle não tivesse um defeito; 
ser portuguez. Entretanto, onde se li a nossa liiigua o sr. Camillo Cas- 
tello Branco é considerado como um dos primeiros, se não o primeiro 
escriptor portuguez do seu género. 

O ultimo livro (]ue deu á publicidade Quatro horas innocentes, 
contém uma serie de contos interessantes e escriptos em estylo ameno 
e vernáculo, que deleitam o leitor durante quatro ou mais horas, con- 
forme a perfeição com que o leitor ler por cima. Intilulam-se : A flor 
da Maia; O livro de Lazaro; A coroa de oiro; Por causa do panno 
de boca; O inferno; O santo de Midões; A cruz do corcovado; Em 
vinte annos; Uma carta de Ignacio Pisarro; Leitura consoladora; Ce- 
lestina e Pataratas. 

Embora o sr. (ínmillo Castello Branco aífirme que isto de novellas, 
poemas, dramas, letras amenas, emfim, está por um fio em Portugal, 
creio bem que não ser<á pelo seu livro que o tio lia de quebrar; antes, 
pelo contrario, mais fácil será o andor entrar no templo da Memoria 
com a decima edição vendida. 

Ignoram muitas pessoas, de certo, que Portugal foi pai ria de uma 
cantora celebre, cuja reputação européa dá honra ao paiz que a viu 
nascer. Chamava-se Luiza de Aguiar Todi e era lillia de Setúbal, d'essa 
formosa rainha do Sado, que teve a gloria de também ser mãe de ura 
dos nosso maiores talentos poéticos — Bocage. 

CoUigiu, á custa de grande trabalho, o sr. Bibeiro Guimarães 
todas as noticias que ha escriptas acerca da notável cantora, e, dan- 
do-lhes a forma indispensável aos trabalhos d'aquella natureza, pu- 
blicou-as em livro sob o titulo de — Ltioijraphia de Luiza de Aguiar 
Todi. 

Este livro é destinado a cumprir duas missões, qual d'ellas mais 
louvável: a primeira, esclarecer o publico sobre a existência de uma 
celebridade poitugueza, ignorada pelos que menos se occiípam de as- 
sumptos artísticos; a segunda, iiuxiliar com o producto da venda as 
bisnetas da cantora, que, não podendo es(piivar-se ao triste destino 
que per.segue a maior parte das familias dos artistas, lutam actual- 
mente com a mi.seria. 

A auctoridade do escriptor que assignou a obra, e os serviços 
que ella se propõe a prestar, bastam para lhe servir de recommenda- 
çáo e torna-la conhecida. 

O sr. Anlhcro do Quental reuniu os seus primeiros versos e pu- 
blicou-os em volume, charnando-lhes —Pnmawras românticas, ver- 
sos dos vinte annos. 

São sempre dignos de altenção os fructos dos bons talentos, ainda 
que não sejam fructos bem síizonados. N'aquelles em que não se en- 
contra o sueco substancioso produzido pela experiência e pelo estudo, 
vé-se a frescura, a mocidade, aqnelle viço agradável e seductor que se 
perde com o andar dos annos, como se perde a negrura dos caLellos 
e o assetinado da pelle. 

Só por excepção estas qualidades se encontram no escriptor de 
cincoenta annos e se não manifestam no poeta de vinte. 

O sr. Antliero está na regra, com relação aos versos que publicou, 
jwrque respiram mocidade e léem-se com agrado. 

Na cidade do Porto deu o sr. conde do Rio Pardo á estampa um 
drama original, em cinco actos, intitulado — Preconceitos de raça. 

Não é em livro que as composições de theatro podem ostentar 
as suas bellezas; sobre o palco, animadas pela interpretação dos acto- 
res e adornadas pelos atavios do sconario, é que revelam todo o seu 
merecimento, ponpic só ahi a maior parte dos traços principacs dados 
pelo dramaturgo se manifestam com todo o seu vigor c luzimento. 

Parecc-me que o drama — Preconceitos de raça deve produzir 
bom elTeito posto em scena, porque está dialogado com facilidade, 
bem enredado e tem alguns linaes de acto bons. Em livro desperta 



logo no principio a curiosidade do leitor, o que é de bom prenuncio 
para o theatro. 

N'um paiz cuja principal industria é a agricola, um jornal, que 
se dedique á especialidade, é sempre bem acolhido. Tenho á visla um 
que vae já no terceiro anno da sua publicação e que promette longa 
vida. E o Jornal de horticultura pratica, publicado no Port(j e redi- 
gido pelo sr. Oliveira Júnior, cavalheiro muito intelligente e versado 
no assumpto de que trata a sua publicação. 

Não é preciso ter grande lavoura ou espaço.so jardim para se 

consultar este bello jornal. Á donzella que todas as manhãs rega as 

roseiras da sua varanda e cuida da begónia com que a presenteou 

certo amador de llores e de bonitos olhos, muitos dos artigos do 

Jornal de horticultura -pratica também interessam. 
» ^ 

Téem discutido os periódicos diários o sitio em que se deve erigir 
o monumento do esculptor Aguiar, dedicado á rainha D. Maria I. 

Aprcsentaram-se vários alvitres, e, lembrando algumas pes.soas 
que a oslatua ficaria bem collocada dentro do pa.s.seio da Estreita, 
houve quem dissesse ou escrevesse, que não se devia pensar n'aquelle 
local para similhante fim, porque não convém estragar o passeio. 

Eu entendo que não se devia pensar n'aquelle local para simi- 
lhante íim, por(|ue não convém estragar o monumento. 

As obras de arte do género monumental di^vem estar em sitio 
espaçoso e desaffrontado, para que se possam ver a distancia e sem 
terem cousa alguma que as assombre. E isto o que, segundo me pa- 
rece, não se pôde conseguir dentro de um passeio disposto como o 
da Estreita, sejam quaes forem os esforços que se façam para chegar 
a um bom resultado. Se se entender, pois, que não é possível collocar 
a estatua defronte do convento da Éstrella, ainda que se tenha para 
isso de sacrilicar uma porção do passeio, arrancando-lhe o gradea- 
mento e abrindo-lhe ruas para carruagens, o que seria talvez o me- 
lhor de todos os planos, é minha opinião que se levante o monu- 
mento no Aterro ou em qualquer praça espaçosa, mas nunca n'um 
jardim, até para que não succeda que algum futuro vereador se lem- 
bre um dia de lhe mandai' enfeitar o pedestal com plantas trepa- 
deiras. 

Do atelier do sr. Lupi estão para sair três bons quadros. O pri- 
meiro é uma pequena composição, cujo assumpto, similhante ao da 
tela que este artista mandou á exposição de Madrid, é — A familia. 
O novo quadro, porém, é mais pittoresco e de colorido muito agradá- 
vel e vigoroso. Pertence á sr.» condessa d'Edla. 

Os dois restantes são o retrato do sr. Pons e de sua esposa. Am- 
bos lêem bastante valor artístico e tornam-se, principalmente, notá- 
veis pela transparência com que são pintadas as carnes. A similhança 
é perfeita em qualquer d'elles. 

O sr. Tomazini concluiu uma nova marinha que expoz á analyse 
publica. 

Apesar de hábil navegador, nunca o sr. Tomazini, auxiliado pela 
náutica, levou tão depressa de um porto a outro qualquer embarca- 
ção, como agora fez, auxiliado pela pintura. Poz a navegar nas aguas 
do Zambeze os vapores Sena e Tete, estando elles ainda dentro do 
dique do arsenal I É maravilhoso, dirão, mais maravilhoso que se os 
tivesse mandado pelo telegrapho! O caso, porém, é verídico, e (piem 
desejar certiíicar-se ainda está a tempo, porque o ipiadro acha-se ex- 
posto na elegante loja de espelhos Margotteau Ferreira. VYio vê-lo, 
que não perdem o tempo. (íosarão do aspecto de uma linda marinha 
com o céu ahrazador dos climas tropicaes, as aguas remansosas e trans- 
parentes dos grandes rios, e com muitas outras bellezas de que não 
me lembro, porque não liz como aquelle dileltanli que tinha por cos- 
tume, (piando ouvia alguma melodia que lhe agradava, dar um nó no 
lenço, para se não esquecer. 

RANGEL DE U.UA. 




ARTES E LETRAS 



43 



O ILLISTKE DOLTOR «ATIIEIS 



ERCKMANN-CHATRIAN 



I 



Vivia, li.a poucos annos, na pequena povoaerio de 
Graufthal, nos confins dos Vof<gcs c da Alsacia, um des- 
tes veneráveis médicos do aldeia que arndã usam cabel- 
leira, grande casaca direita, calções o sapatos com fivol- 
las de prata. 

Chamava-so Frantz Matlicus. Tinha, já do sua fomi- 
lia, a casa melhor do logar, com sua horta, algumas ter- 
ras de semeadura na ser- 
ra, uns prados no valle ; ao 
que, para conhecermos to- 
da a sua fortuna, acrescen- 
taremos os ovos, o leite, o 
queijo, e, do tempos a tem- 
pos, imia gallinha magra, 
com que as aldeias agra- 
decidas presenteavam o sr. 
doutor. Isto bastava á sua 
vida, á do Martha, uma 
velha que o servia, c á do 
seu cavallo Bruno. 

Mathcus era o curio- 
so typo dos antigos ãocto- 
res medicinai, theologiw 
ou pliilosophiíB da boa es- 
cola allemã: tinha uma 
physionomia doce, serena, 
cheia de quietação e de 
bondade; mas tinha uma 
paixão dominante — a me- 
taphysica. O mesmo pra- 
zer que qualquer teria re- 
lendo Cândido ou a Via- 
(jem sentimental, sentia-o 
ello meditando o Tracta- 
tus fheolof/ico-politicus de 
Baruch Spinosa ou a Mo- 
nodolofjia de Lcibnitz. 

Também para se dis- 
trahir fazia experiências 
de physica e chimica. 

Um dia deitou fari- 
nha de centeio com espo- 
rão n'uma garrafo de agua. 
No fim de dois mezes viu 
que o centeio fizera nas- 
cer pequenas enguias, as 
quaes, dentro em pouco tempo, se multiplicaram infinita- 
mente. 

Esta descoberta encheu Matheus do maior cnthu- 
siasmo, c fê-lo immcdiatamente concluir que, uma vez 
que se podia fazer enguias com farinha do centeio, se po- 
deria fazer homens com farinha do trigo. Dejiois refle- 
ctindo, pensou o sábio doutor que esta transformação de- 
veria operar-se lenta e progressivamente: que do centeio 
nasciam enguias, das enguias outros peixes do toda a sorte, 
e d'estes, reptis, quadrúpedes c pássaros, o assim por 
diante até chegar ao liomem. E, assentando que tudo isto 
se passava em virtude da lei do progresso, chamou á pro- 
gressão a escala dos seres. Ora como Matheus estudara 



grego, latim e muitas outras línguas, começou a com- 
por os IG volumes de uma magnifica obra intitulada — 
Palingencsia-p.ii/colof/ica-authropo-zoolof/ica, onde expli- 
cava a creação espontânea, a transformação dos corpos 
e a peregrinação das almas, allegando lírahma, Vidmou, 
Siva, Isis e Osiris, Thales de Mileto, Heraclito, Demó- 
crito, e, emfim, todos os philosophos cosmologicos antigos 
e modernos. 

r)'esta obra mandou ellc alguns exemplares ás uni- 
versidades de Allenianha onde, — o que não é muito para 
admirar, — grande numero de doutores adoptou o seu sys- 
tema, conferindo-lhe os diplomas de membro coiTospon- 
dente do instituto cirúrgico do Praga, da sociedade real 
de sciencias de Goctingue e do conselho veterinário das 
candelárias de Wurtzburgo. 

Animado por estes illustres suffragios resolveu Ma- 
theus fazer uma segunda 
edição da sua Palinf/ene- 
«ia enriquecida com algu- 
mas notas hebraicas e sy- 
riacas destinadas a eluci- 
dar o texto. 

Mas a sua creada, mu- 
lher velha o de nuiito ti- 
no, pondei-ou-lhe que essa 
gloriosa empreza lho cus- 
tara já metade dos seus 
haveres, c que do certo te- 
ria de vender a casa, a 
horta, os prados, para im- 
primir as notas syriacas. 
Pediu-lhc, emfim, que cui- 
dasse mais das cousas mun- 
danas, moderando o seu 
ardor anthropo-zoologico. 
Estas considerações 
contrariaram altamente 
Matheus que, todavia, não 
pôde deixar de concordar 
cm que a boa da mulher 
tinha rasão, limitando-so 
assim a exhalar profundos 
suspiros, e encerrando no 
peito as suas aspirações 
para a gloria. 

Ora muito tempo se 
passou sobro isto. 

Matheus voltara aos 
seus antigos hábitos. Mon- 
tava a cavallo de manhã- 
sinha para visitar os doen- 
tes c voltava tarde, can- 
sado. A noite, em vez de 
se fechar na bibliotheca 
descia ao jardim para dis- 
por as latadas, limpar as arvores, sachar as lentilhas. 
Depois da ceia apparecia o mestre João Cláudio Nach- 
tniann, o guarda nu-al Christian e algumas velhas da vi- 
sinhança com as suas rocas. 

Scntavam-so em volta da mesa e fallavam do tempo. 
Matheus fallava dos doentes, e depois, á noitinha, cada 
um ia dormir para sua casa, a fim de ter no dia seguinte 
a mesma vida. 

Assim se passavam dias, mczcs c annos. Todavia, 
esta existência pacifica não bastava para consolar Matheus 
da sua vocação perdida. Quantas vezes, nas jornadas 
mais distantes, só, no meio dos bosques, se censurava ellc 
aquolla funesta inacção! 




Utiia descubci l;i en^Iiou Alatlieuã du maior entliuáiasino 



44 



AlíTES E LETRAS 



— Frantz, dizia a si mesmo, o teu logar nao é em 
Graufthal! Todos aquellcs a quem o Ser dos seres fez 
depositários dos thesouros da seiencia devem-se á huma- 
nidade. Que responderás tu, Frantz, a essa grande lei, 
quando chegar o dia do julgamento e ella te disser com 
a sua terrível voz: Frantz Matheus, eu tinha-te dado a 
mais bolla das intelligencias, tinha-te descerrado os véus 
que cobrem as cousas divinas e humanas, destinára-te, 
desde a origem dos séculos, a derramar a luz da sã phi- 
losophia... Onde estão as tuas obras? Em vão pretende- 
rás desculpar-to com a necessidade de tratar dos teus 
doentes : esses deveres vulgares não eram para ti — ou- 
tros os cumpririam. Frantz, tu não foste digno da con- 
fiança que te concederam, condemno-te a descer na es- 
cala dos seres. 

As vezes chegava o bom do doutor a acordar de 
noite, gritando: 

— Frantz! Frantz! tu és um grande criminoso! 

A creada acudia assustada. 

— O que é isto, meu Deus! 

— Não ó nada, não é nada, respondia Matheus — é 
que tive um mau sonho. 

Ora este estado moral do illustre doutor não podia 
durar muito tempo: a compressão que n'elle exerciam 
as tendências metaphysicas era intensíssima e insuppor- 
tavel. 

Uma tarde, voltando á aldeia pelas margens do Zin- 
sel, encontrou um d'estes vendedores de bibíias e alma- 
nachs que costumam ir até á serra. 

Frantz nunca conseguira suffocar inteiramente a sua 
paixão pelos livros; apeou-se e foi examinar os que tra- 
zia o vendedor. 

Por uma notável coincidência tinha elle um exem- 
plar da Anthropo-zooloqia , de que, havia 16 annos, 
não tinha podido vei--se livre. Observando, porém, então 
o amor paternal com que Matheus considerava o seu livro, 
disse-lhe que aquella obra se vendia muito, que todos a 
queriam ler, que a edição estava esgotada e que, por 
muito procurada, cada dia se tornava mais cara. 

O coração de Frantz pulsava, entretanto, com força; 
as mãos tremiam-lhe. 

— Oh grande Demiourgos ! grande Demiourgos ! mur- 
murava; é n'isto que reconheço a tua infinita sabedoria; 
é pela boca dos simples que tu chamas os sábios aos seus 
deveres. 

Quando entrou no Graufthal Frantz sentiu-se do- 
minado por uma intensa agitação; caminhava sem des- 
tino, vagamente; passava-lhe pelo espirito um turbilhão 
de idéas incoherentes. Deveria ir residir para Goetin- 
gue? para Praga? Deveria reimprimir a Palingenesia 
com as novas notas ? Ou deveria apostrophar o século so- 
bre a sua indifferença em matéria anthropo-zoologica? 
Tudo isto o atormentava e o commovia, mas todos estes 
expedientes lhe pareciam muito longos e a sua impaciên- 
cia não admittia demoras. Resolveu, finalmente, seguir o 
exemplo dos antigos prophetas, e ir elle próprio pregar a 
sua doutrina ao universo. 

II 

Depois que Frantz Matheus tomou a generosa reso- 
lução de esclarecer o mundo com as suas luzes, uma es- 
tranha c inefável serenidade se apoderou da sua alma. 

Era na véspera do dia de S. Bonifácio, ás seis ho- 
ras da tarde. Um sol esplendido illuminava o valle de 
Graufthal recortando no céu azul e limpido as flechas im- 
niovcis e elevadas dos abetos. 

O doutor estava sentado na velha poltrona de seus 



pães, junto da janella que tinha caixilhos de chumbo, 
percorrendo com a vista a povoação silenciosa, e ao longe 
vagamente as montanhas vaporosas e indistinctas. 

Os aldeões ceifavam a herva na beira ensombrada 
das florestas ; as mulheres e a velha Martha com ensinhos 
sacudiam os fenos, cantando as antigas modas do paiz. 

O Zinsel murmurava apenas por entre as suas mar- 
gens de gramíneas; ouvia-so um zumbido vago que en- 
chia o ar; ranchos de patos subiam o rio lançando a es- 
paços os seus gritos nasaes; as gallinhas dormiam á 
sombra das paredes, sobre os timões dos carros, por en- 
tre as grades, as charruas e os utensílios da lavoura. Al- 
gumas creanças coradas, gordas, brincavam polo chão á 
porta das choupanas, e os cães de guarda, com o foci- 
nho entre as patas, cediam também ao calor abafadiço 
do dia. 

Este espectáculo tão sereno commoveu irresistivel- 
mente o coração de Matheus e as lagrimas começaram a 
correr lentamente pelas suas faces venerandas. Tomou a 
cabeça grisalha entre as mãos, e, com os cotovellos des- 
cansados no parapeito da janella, começou a soluçar como 
uma creança. 

Uma multidão immcnsa de recordações enternecedo- 
ras lhe passou pela memoria: esta casa rústica, asylo de 
seu pae; este pequeno jardim, cujas arvores e cujas plan- 
tas as mais insignificantes elle semeara; a mobiha antiga 
de carvalho ennegrecida pelo tempo, tudo lhe fazia lem- 
brar a sua serena felicidade, os seus velhos hábitos, os 
seus amigos, a sua infância; dir-se-ia que cada um d'este8 
objectos inanimados tinha uma voz tocante que lhe sup- 
plicava que os não deixasse, que o accusava de ingrati- 
dão, lamentando-o do seu isolamento no mundo; dir-se-ia 
também que o coração de Matheus era o echo de todas 
essas vozes, e a cada lembrança novas lagrimas corriam 
abundantes de seus olhos. 

Depois pensava n'esse pobre logarejo do que elle era 
a única providencia; e quando, através das lagrimas, 
olhava para todas essas portas pequenas onde tantas vezes 
parara a dar consolações o a distribuir soccorros que al- 
liviassem os soffrimentos humanos, quando se lembrava 
de todas as mãos que apertava nas suas, de todos os 
olhares de afteição e de amor que o haviam abençoado, 
ficava como exhausto sob o peso da sua resolução e não 
se atrevia a pensar na hora da partida. 

— Que dirá Christian Schmidt, pensava elle, a quem 
salvei a mulher d'aquella terrível doença, coitada? Elle 
que me é tão reconhecido! Que dirá Jacob Zimmer, a 
quem salvei da ruina, quando elle, pobre homem ! nem 
tinha um liard jiara i'econstruir a sua casa? Tão meus 
amigos! Que dirá a velha Martha que me trata como se 
fosse minha mãe, que todas as manhãs me traz o café 
com leite, que me concerta os calções, as meias e que 
nunca se deita sem que eu fique bom abafado com o meu 
barrete de algodão bem posto sobre as orelhas? Pobre 
Martha ! pobre e boa Martha ! Ainda hontem eu a vi tra- 
balhar n'umas pingas para mim, e arrumar aquella dúzia 
de camisas novas que ella fiou também para mim ! Que 
dirá Jorge Brenner que ainda, ha quinze dias, me trouxe 
de presente lenha para o inverno? Sim, que dirá Jorge 
Brenner quando souber que a sua lenha ha de_ser quei- 
mada por outro? Vae desesperar-se de certo! E um ho- 
mem dos diabos que não ouve nada e que é capaz de me 
não deixar partir. 

Taes eram as reflexões de Frantz Matheus : de modo 
que, se a sua resolução não fosse tão firme e inabalável, 
tantos obstacidos a teriam sem duvida mudado. 



(Continua.) 



B. 



o TABERNEIRO 



Tem estrella para si, — como os heroes. Triumpliou! 
Tem vindo com o peixe frito pela estrada da vida adiante, 
como com um annel no dedo. A taberna é hedionda, es- 
cura, immunda; mas, em se lhe dizendo que a ponha á 
moda, com vidra- 
ças e letreiro, é co- 
mo se lhe aconse- 
lhassem que deitas- 
se fogo á casa. Con- 
tam-lhe ás vezes que 
os papeis públicos 
recommendam que 
haja progresso, e 
proclamam uma 
coordenação mais ló- 
gica da ordem so- 
cial: traduz-se isso, 
no conceito d'elle, 
em não considera- 
rem de equidade 
apitar sobre quem 
não paga o que co- 
meu e bebeu ; — e, 
voltando os lombos 
a taes razões, fecha 
a gaveta, como se 
tivesse medo que lhe 
tirassem alguma 
cousa. 

Não gosta de 
poesia, quer seja 
em pala\Tas, pen- 
samentos, ou obras. 
É talvez do clima; 
esta brandura de 
ar, certa facilidade 
de existir, a bonho- 
mia- de costumes, 
sufFocam o senti- 
mento das artes e do 
bello. A castanhei- 
ra, que, ha doze an- 
nos, se acha estabe- 
lecida á porta da ta- 
berna, quiz amal-o: 
elle não deixou. 

E um antigo. 
Creou-se na quadra 
florescente da meia 
canada; — estava o 
vinho a quatro quan- 
do elle debutou; po- 
dia um homem n 'es- 
ses tempos beber a 
fazenda, e ainda fi- 
car de ganho; azoi- 
nou-o o enfadamen- 
to das decimas, e as medidas novas estontearam-no; attri- 
buiu á versatilidade dos governos a invenção dos decili- 
tros, e nunca mais quiz saber do que vae nas camarás: 
parou em politica quando parou o meio quartilho. 

A sociedade para elle é uma salada: a prudência é 
o azeite, a esperteza o sal, o crime o vinagre, e pimenta 
a manha. Com a cautela é que elle se tem achado; por 
isso não se lhe dá de ser manhoso. Já conheceu dois su- 




jeitos sinceros: ambos eram tolos; um deitou-se da mu- 
ralha de S. Pedro de Alcântara, o outro ficou por fiador 
de um amigo ; — e nimca pôde assentar-se bem qual dos 
dois deu maior tombo. Por isso não sendo elle pessoa de 
ter nojo de tudo, a idéa da sinceridade dá-lhe tal embru- 
lho ao estômago que até cospe fora! 

Não quer isto dizer que seja esperto de nascença. 

Longe d'isso. A sua 
vocação estava pa- 
ra asno, mas tor- 
ceu-a nas ironias da 
vida. Mostrara ou- 
tr'ora aos freguezes, 
por igual, o ar mais 
boçalmente affavel; 
movia-se tarda- 
mente, e, por encon- 
trar n'aquella bea- 
titude encantos 
somniferos, deixa- 
va-se levar ás ve- 
zes da scmnolencia 
do justo, e dormia 
encostado ao balcão, 
em quanto os que 
lhe honravam a casa 
comiam e bebiam. 
Prova de confiança, 
rasgo generoso, que 
equivalia a dizer- 
Ihes: — «Em quanto 
eu durmo, podiam 
vocês despedir-se, 
sem pagar o festim ! » 
E, para maior cava- 
lheirismo, até ron- 
cava. 

A pouco e pouco 
deu-se mal com is- 
so; surprehende- 
ram-no de vez em 
quando freguezes 
infiéis. Reconheceu 
que não lhe ia á tas- 
ca gente digna de 
que elle a honrasse 
com uma rapozeira, 
e ficou por esperto 
de olho á mira. 
Apostou então um 
dos caurineiros do 
bairro pregar-lhe 
uma peça ; pediu 
umas muletas que- 
bradas a um co- 
xo amigo, que já 
não se servia d'el- 
las, e, com os ares 
molestos de quem 
se arrasta, apre- 
sentou-se na taberna com um rancho que convidara. 
Mandou vir de tudo ; era de mais a mais em noite farta : 
havia coelho e pescadinhas; vinho, soberbo: o Torres 
tem dois mezes no anno, e estava n'um d'elles. O calo- 
teiro pediu-lhe que guardasse as muletas lá dentro, n 'al- 
gum cantinho, e largou a comer e beber alegremente com 
os amigos nHima mesa arejada — ao pé da porta. Foi indo 
o tempo; e o taberneiro, convencido que o outro n?;o po- 



40 



ARTES E LETRAH 



dia ir-sc cinljora sem o acordar, para que lhe dóssc as 
imdctas, deixou-sc dormir suavemente. Entrio, emquanto 
ellc resonava, a malta, que Hndára o banquete, poz-se ao 
fresco, para ver como estava a noite. 

Foi isto o que lhe formou o caracter. Nunca mais 
dormiu senão com os olhos ab(irtos. Espref^uiça-sc, bo- 
ceja, como vêem, mas está alerta. Poucas falias; apenas 
uui garganteado mais grosso ou mais fino, a dizer o que 
ha pura prato. Costumou os frequentadores a sentai'cm-se 
gravemente e nào lhe dizerem mesmo o que querem: fa- 
zem-lhe apenas um signal, — cllo entendo tudo; momen- 
tos depois estão na mesa o copo e o petisco; acabado o 
acto, dinheiro ao lado do copo; e elle a ir logo busca-lo 
e a dar o troco, se o ha. 

O seu recreio e a jjaixào forte da sua vida ó a per- 
feição do serviço. Nas occasiões de azáfama, quando elle 
repete o que pede o frcguez — cuida-se estar nas famosas 
representações de D. José Serrato, em que se resumiam 
cm pequeno espaço as maravilhas estratégicas dos nossos 
annaes guerreiros; ouvc-sc-lho a voz do outro lado da rua; 
as iscas e as azeitonas obcdccem-lhc tremulas. Fosse ellc 
])ortuguez em vez de ser gallego, c tivéssemos nós todos 
aquelíe garbo; povo capaz de servir fressura com tal ar- 
rogância seria invencivcl! 

Bom homem. Não quer mal a ninguém, e tem tid(j 
epochas de fazer bem aos gatos. Nunca teve na sua vida 
dores nem amores; — um único ódio, isso sim, entranhado, 
figadal, indestructivel : aversão permanente c inabalável. 



a cerveja 



JÚLIO CÉSAR MACHADO. 



TajES EXPOSIÇÕES 

ojc tem-sc como certo que um dos 
mais efíicazes meios empregados pa- 
ra o desenvolvimento das artes e das 
industrias é a exposição publica dos 
diversos productos. 
/^- II «Twl- IBH ^^^ i)aizcs mais illustrados, con- 

J ' li ^-^ ;aa> vencidos d'esta grande verdade, pro- 
movem amiudadas vezes estes civi- 
lisadoTes certames, conseguindo, ge- 
ralmente, os melhores resultados. 

O favor da oj)iniSo publica e 
os prémios conferidos pelos jurys 
^ » competentes não são honras para 

Y ^^ ' ; ~^ desprezar, jiois d'elles resultam, pa- 

ra os que trabalham, a gloria que 
inebria e o augmento da riqueza 
que dá as commodidades da vida. 

Por isso as exposições, alem de educarem os artistas 
e os industriaes, pois que da reunião de vários c apura- 
dos exemplares tiram sempre lição até os mais instruidos, 
servem de estimulo aos mediocres para se tornarem bons, 
c aos bons para se tornarem óptimos. 

Diligenceia-sc reunir para o verão no palácio de 
crystal do Porto os productos artisticos e industriaes de 
Portugal c Ilespanha. (^xalá se realisc a idéa, porque 
havemos de aproveitar do adiantamento dos nossos visi- 
nhos, c ao mesmo tempo, mostrar que não estamos tão 
atrazados como por ventura suj)})õem as nações cjue mal 
nos conhecem. 

Convidam-nos para Vicnna d'i\.ustria onde se fran- 
(jueiam ao mundo as portas de uma grande exposição. 
Lá iremos, o esperamos em Deus que não havemos de 




ser vexados pelos opulentos concorrentes que íbrmam na 
vanguarda da civilisação, antes considerados e protegi- 
dos, porque cm alguns artigos lhes levaremos vantagem, 
sem por isso nos vangloriarmos, e n'outros lhes ficaremos 
inferiores, disfarçando com a modéstia o infortúnio. 

Annunciam-nos, finalmente, um exposição de produ- 
ctos portuguczes c brazileiros no liio de Janeiro. Folga- 
mos sinceramente com a noticia, porque teremos occasião 
de fraternisar com um ])ovo amigo a que nos unem os 
mais estreitos laços da amizade c do sangue, e porque 
alimentamos a esperança de que os donos da casa aonde 
vamos ser recebidos, nos pagarão um dia a visita. 

Sabe-se tão pouco em Portugal do estado de civili- 
sação do 13razil, e lá conhccem-se tão ligeiramente os 
nossos adiantamentos em vários ramos das artes c das 
industrias, que, d'csta promettedora festa internacional, 
podemos affiançar, hão do colher ambos os povos os sa- 
borosos fructos que produzem sempre as intimas relações 
de dois paizes e a noção exacta do merecimento e valor 
industrial de cada um. 

O pensamento da exposição devç-se ao sr. dr. José 
Joaquim Pessanha Povoa, distincto littcrato brazilciro, 
c a um nosso comi)atriota residente no Rio, o sr. Marcel- 
lino Ribeiro Barboza. Honra lhes seja. 

Bom será que o governo portuguez preste algum au- 
xilio a este útil empreíiendimento coadjuvando, cm tudo 
que lhe fôr possivcl, os esforços particulares. Torna-sé 
preciso que a idéa proclamada pelos dois beneméritos 
cidadãos se desenvolva o roalise, pois temos a certeza de 
que do estreito amplexo dado pelos dois paizes hão de 
forçosamente resultar, como dissemos, importantes bene- 
fícios para a nossa pátria e para a dos nossos irmãos de 
alem mar. 



R. DE L. 



DIVERSAS NOTICIAS 



==^= o sr. Carlos Relvas fez o retrato de S. M. El -Rei o Senhor 
D. Luiz e o de S. M. a Rainha a Senhora D. Maria Pia. São dois tra- 
balhos pholographicos primorosos. 

Ardeu em Erfurt o antigo convento de Eremitas de Santo 



Agostinho, onde liiithero entrou para ser fiade mendicante. Perdcu- 
se a bíblia do c(ílebie reformador, annotada pelo seu próprio punho, 
e o livj'o dos visitantes, oníle se liam as assignaturas de Schiller, 
Gfjethe, Humboldt, rainha Luiza e Guilherme Itl. Também serviram 
de pasto ás chainnias vaiios outros livros importantes, manuscriptos 
valiosos e um quadro de Beck. 



— O sr. dr. Franklin Távora, pernandnicano, vae publicar 

um drama intitulado — O (irtiijo 219.", no qual procura combater 
aquelle artigo do código brazileiro. Em seguida a este trabalho dará 
á estampa — As lendas do norte. 

O estatuário Barre terminou o modelo da estatua monu- 



mental de Berreyer, que vae ser levantada n'unia das praças de Mar- 
selha. O orador está representado de pé na triiiuna. 

N'uma venda eirecluada perto de Tréport, o sr. Haudebout 



comprou por quantia insignificante uma porção de molduras velhas 
c algumas telas em péssimo estado. Ao limpar as telas, encontrou 
uma pintura que se attribue a Rubens e que deve ser o csboceto da 
— Aprcscnla{âo. 

: O sr. Francisco Palha presenteou S. M. o sr. I). Pedro II, 



com dois preciosos authograpbos do viscoijde de Almeida (íarrett. 
Um (i o da comedia — Um noivado do Uá fundo, e o outro uma cartai 
em verso escripta pelo poeta ao sr. Palha. S. M. também alcançou um 
authographo do grande orador José Estevão. 

A administração do Louvre fez acquisiçSo do retraio, a lá- 



pis, de Ingres, que foi gravado por Calamalta. 



=== Riii W,iterloo-Pla(;e abriu-se uma iinpnriantc exposição de 
a^uaielliis, na iiiiai íifinraiii com fírandi; vaiilaj^cm os arlislas inglezes 
W. Hiint, l.anilsccr, Tuhut, Staiilield, Maelisc, Gilbeit, o os fraiicezes 
Fifiie e liosa Uoidieur. 

A sr." D. Maria Carolina liihniro Novos oITcreceu á acade- 



mia real das bellas arti« dois desiidicis a japis. Uiri ú o lelrato do 
príncipe U. Aiijjiisto, jiriíneiro marido da Senhora 1). Maria II, depois 
de morto, o outro uma paizagem, por acaiiar, de (]onle. Esles traba- 
lhos faziam parle da colíecção de desenhos que a famiiia Ril)eiro Ne- 
ves possiie. 

A classe das bellas artes da academia real da Bélgica deci- 



diu lazer cm maio uma exposirão solemne das obras do lodosos seus 
mendiros, para celtíbrar o centenário da sua fundação. 

Tem sido bastanie procuradas, para uso das escolas, as — 



Ij-Huiíis pnpuliireí!, do si'. Brito Aranha. E livro conscienciosamente 
escripto, muito interessante, e do grande vantagem para a educação 
da mocidade. 

O celebre vwestro brazileiro Carlos Comes, auclor da opera 



— Guaramj, cuja imputação é bojo européa, está para levar á scena, 
em um dos theatros de Itália, a sua nova opeia — Gahriella ih Nfrevs, 
e trabalha assiduamente na partitura de — Cromiccll, o protcdur, que 
ba de ser cantada no theatro lyrico de Londres. 

Quando se fizeram as demolições no sitio da Porta Nobre 



(Porto), encontrou-se na parede do uma casa uni quadro grande de 
madeira, emoldurado, com liguras em relevo, tendo um melro e ses- 
senta e dois centinielros do alto, sol)ro mn metro e cincoeida o três 
cenlimetros de largo. Compõe-se o quadro de sete figuras a.ssiai dis- 
postas : 

No centro, de pé, vê-se uma que polo vestido e pela coroa pa- 
rece ser um rei, sustentando em cada i^ão um sceptro; pende-lhe do 
pescoço um grande colar formado de conchas, terminando na frente 
por uma cruz o figurando pertencer a alguma ordem de peregrinos de 
Jerusalém; no manto vt5em-se algumas flores de liz, distinctivo da 
realeza de França. Levaidam o manto á altura dos hombros dois an- 
jos, e, debaixo d'elle ajoelhadas, estão três figuras de cada lado, rc- 
preseidando duas d'ellas dois reis. As quatro restantes acbam-se co- 
bertas com coroas que se assemelham ás ducaes; da cintura de todas 
pendem coi'dões franciscanos. A figura principal mede um metro e 
cincoenta e um centímetros, e tanto esta como todas as outras são 
pintadas i; douradas. A pintura e os doirados estão nmito sujos, mas 
a escuiptura acha-se bem conservada. O merecimento do quadro está 
na sua antiguidade. 

A camará tenciona manda-lo limpar para o collocar no Atheneu 
Portuense. 

O sr. dr. José Ribeiro Neves offereceu a S. M. o imperador 



do Brazil um retrato de I). Pedro IV, tirado em Queluz, poucas horas 
depois do falleciaiento d'cste soberano. 

- O BurUnr}ton Club vae fazer uma exposição do pinturas e 
desenhos de Holboin. Deve começar em abril e será composta de 
obras ([ue existem no castello de Windsor o em outras residências 
reaes. 

O sr. Henrique de Mesquita, auctor da opera — O vagabun- 



do, está escrevendo uma nova partitura intitulada — O tira-denles. O li- 
bretto é do sr. Joaquim Pires. 

=== O zimbório do Panthcon está em obras. Durante as lutas da 



communa, as pinturas representando Attila, Santa Genoveva o a Con- 
versão de Clóvis sollreiam muito. 

O sr. A. M. da Cunha Bolem publicou um esboço biogra- 



phico de S. M. o Senhor D. Pedro IJ na colíecção dos Contempora- 
neos, editada pelo sr. Pedio (lorreia. É trabalho consciencioso e curio- 
síssimo pela minuciosidade com que e.stá tratado o assumpto. 

Terminou em Paris o leilão da galeria Pereire, em que se 



vendeiam quadros por preços fabulosos. 

Estão sendo compradas em Paris, a peso de oiro, as por- 



celanas do Saxe, que apparecem nos leilões, 

Em Londres abriu-se uma exposição de trabalhos do sr. Gus- 



tavo Doré, e em Paris uma de desenhos e aguarellas do sr. Français. 
O pintor De-Martíno expoz em Montevideo um quadro — 



O incêndio do vupor America. Tecem-se muitos elogios a esta obra. 
— Nas galerias do sr. Durand-Ruel, era Paris, abriu uma 



exposição, cuja entrada t' paga; sondo destinado o producto á liberta- 
ção do território. Entre varias obras dos srs. Fromentiu, Millet, Th. 
Rousseau, (Jorot, FeyonPerrin, Manet, Bonvin, Madame (j)llard, Diaz, 
Courbel, Bouvier e outros, figuram dezoito quadros de Delacroix. 

^=== O sr. Victor Bastos oITereceu a Sua Magestade o imperador 
D. Pedro II um alburn coidendo pholographias de todas as obras em 
escuiptura do sua composição. 



— A academia real de Londres também pretende, segundo se 
diz, abrir as suas poilas ás senhoras que cultivam as artes o merecem 
tal distincção pelo seu lalento. 

== N'uns desaterros, que se estão fazendo em Beja, tr-em appa- 
rccido varias moedas antigas, do algum valor para os que se dão ao 
estudo da numismática. 

No theatro das Variedades deu-se uma nova magica — O 



Diadema de foijo, do sr. Bastos, que tem agradado. 

: Uma correspondência ingleza, dirigida ao Athenamm, refere 



verificar-se-ha este anuo em Bruxollas, do primeiro de agosto ao pri- 
meiro de outubro. 

Díz-se que em 1875 se abriní em Madrid uma grande ex- 



posição para a qual serão convidados todos os artistas estrangeiros. 
No Gymnasio Dramático, de Pernambuco, deu-se o drama- 



Vida e viilaf/res de S. Henedicto ou o thaumalurgo da Sicília, es- 
cripto no Recife. 

O Artigo 47 é o titulo de um drama que tem chamado bas- 



tante concorrência ao theatro do Príncipe Real. 

No próximo mez de outubro faz cem annos que o marquez 



de Pombal elfecluou a reforma da Universidade de Coimbra. lia 
tenção de mandar cunhar em bronze uma medalha para connnemo- 
rar o imi)ortante centenário. A medalha lerá no anvei'so a elligíe de 
D. José I, com a legenda — A Universidade de Coimbra, reformada 
em 1772, celebra o primeiro sendo, depois da reforma, em 1S72. No 
reverso deverá ter uma figura allusiva ao facto da reforma, repre- 
sentando o marquez de Pombal dando os novos estatutos á Universi- 
dade. 

=== Morreu cm Paris o sr. Riocreux, homem de vastíssima ín- 
strucção, e o mais considerado entendedor de cenmiea de toda a 
Europa. Era filho de um estalajadeiro de Sèvres, e começou a sua 
carreira por pintor do flores na manufactura imperial. Aperda de 
um olho obrigou-o a abandonar os trabalhos decorativos, sendo por 
essa occasião nomeado conservador das collecções. Ao seu enterro as- 
sistiram os principaes cscriptorés, artistas e amadores de cerâmica. 

Annuncía-se a publicação de uma obra importante no Por- 



to. Intitula-se — Portugal antigo e moderno: diccionario geogra- 
phico, liisturico e arclieologico de Portugal. O primeiro volume con- 
terá a historia chronologica do paiz, desde os tempos mais remotos 
até o anno corrente, o os demais volumes, que devem ser cinco, for- 



que o mosteiro de S. Martinho em Nápoles, decorado corn as mais 
bellas producções da arte italiana, acaba de receber ultimamente to- 
das as riquezas do museu do Bonghi, comprado pelo governo, e que 
são consideráveis em louças dos Abruzzos o porcelanas pintadas de I 
(iapo di Monte. Deve reiniir-se a estas collecções a que o marquez 
dei Vasto legou ao rnuseu nacional, a qual contém, entro varias pre- 
ciosidades históricas, as tapeçarias executadas por desenhos de Ti- 
ciano, e que formavam a lenda de (Carlos V na occasião da batalha 
dada, em Pavia, por este imperador ao rei Francisco I, em ISâo. 

Puhlicaram-se no Brazil as seguintes obras litlerarias : 



Romance de uma velha, comedia em cinco actos, pelo sr. dr. 
Joaquim Manuel de Macedo, ha tempos representada na Phenix Dra- | 
inatica. 

Til, romance (l.° volume) pelo sr. José de Alencar. 

Impressões e gemidos, poesias posthumas {{." volume) do dr. José 
Coriolauo de Sousa Lima. 

Flores murchas, versos do sr. Filinto Elysio da Costa Cotrim, 
lente do lyceu das Alagoas. 

Scenas populares, pelo sr. Juvenal Galeno, poeta cearense. 

Névoas matutinas, poesias do sr. Lúcio de .Mendonça, mancebo 
de 19 annos de idade. O distincto litterato brazileiro o sr. Machado 
d'Assis elogia muito esta obra, n'uma carta dirigida ao auclor. 

Idéas e sonlws, poesias do sr. António de Sousa Pinto, do Re- 
cife. 

Favos e travos, romance pelo sr. Rosendo Moniz Barreto. 

A exposição nacional e annual de bellas artes da Bélgica 



48 



ARTES E LETKAS 



marSo o diccionario. O auctor d'esta obra é o sr. Augusto Barbosa 
de Pinho Leal, que ha trinta annos coliige apontamentos para a dar 
a lume. 

Falleceu em Paris o pintor Francisco Hippolyto Debon. 



Era discipulo de Gros e de Abel de Pujol, e premiado com varias 
medallias. A sua obra mais notável pertence ao estado e representa 
A entrada de Guilherme, o conquistador, na cidade de Londres. 

O sr. cônsul geral do Brazil cm Madrid presenteou S. M. o 



imperador com um excellenie quadro de Murillo. 

■■ No thealro de S. Luiz, do Rio de Janeiro, vae rcpresentar-so 
o drama biblico com prologo, três actos e epilogo— O paraizo per- 
dido, ou a creação e o diluvio, desempenhando o aclor Furtado 
Coelho o papel de Adão. 



=== A família Manique possue um quadro de grande valor ar- 
tístico pintado em Roma pelo nosso celebre artista Domingos António 
de Sequeira, em 1794. Representa uma allegoria á fundação da casa 
pia de Lisboa. 



^^= Vae ser exposta no British Museum uma eslalua romana 
de grande valor estimativo. É a primeira copia conhecida do famoso 
Diadoumenos de Polycleto, o pendunt do Doryphoro. A execução 
denuncia uma epocha de grande decadência, mas dá idéa do que de- 
via ser o original. Representa um ranaz atando uma faxa á roda 
da cabeça. Foi achada nos entulhos do theatro romano de Vai.son 
(Vaucluse). Para se fazer idéa do valor artístico do Diadoumenos, 
basta saber que esla estatua foi vendida por 100 talentos, isto é, réis 
97:2001000. 

- Estão em via de publicação no Brazil os Quadros históri- 
cos da gnerra do Paraguai/, importante obra collaborada pelos me- 
lhores litteratos e artistas do império. 

Nos primeiros números appareceram a Rendição de Uruguaya- 
na, e o Ataque e defeza da ilha do Carvalho, desenhos do notável 
pintor Pedro Américo e a Passagem do Curuzú, no momento da des- 
truição do encouraçado Rio de Janeiro, desenho do conhecido pintor 
De-Martino. 

A academia real de bellas artes elegeu S. M. o imperador 



do Brazil académico honorário. 

Em Strasbourg abriu-se, ha raezes, concurso para a recon- 



strucção do Templo Novo, queimado durante o bombardeamento. 
Apresentaram-se trinta e sete projectos, achando-se representadas as 
escolas franceza, allemã e ingleza. O projecto que obteve o primeiro 

Sremio foi o dos artistas francezes, os srs. José Bernard, Henrique 
lotle e Alberto Tournade, discípulos do sr. Questel. Diz um jornal 
parisiense que foi uma victoria pacifica' alcançada pelos architectos 
francezes na Alsacia. 

O sr. Alfredo Ilowell trouxe de Londres um notável qua- 



dro de Van Dyck c um magnifico desenho de Sequeira, que pertencia 
á collecção de Thomás Lawrence. El-Rei D. Fernando comprou este 
ultimo trabalho. 

: O sr. Ferro Cardoso, artista brazileiro, deve terminar no 



próximo abril a obra gigantesca do templo de Nossa Senhora da Can- 
delária. Parte depois para a Bélgica, onde vae abrir uma rua, cujo 
risco executou ha dois annos. A rua denomina-se do Conde de Flan- 
dres. É artista muito estimado pelo seu talento, tanto no império como 
no estrangeiro. 

===== Ardeu a academia de bellas arles de Dusseldorf, na Alle- 



manha. Salvou-se a collecção de gravuras, que é preciosíssima, e uma 
galeria de quadros, entre os quaes figura A Assumpção da Vir- 
gem, de Rubens. No catalogo das riquezas perdidas conta-se um 
grande quadro de André Muller, começado ha quatro annos e quasi 
concluído. 

O sr. Marciano da Silva, a cargo de quem está a galeria de 



S. M. El-Rei, olfereceu ao imperador do Brazil o retrato a óleo do 
illustre poeta, o sr. visconde do Castilho. Não tivemos occasião de 
ver este novo trabalho do sr. Marciano, por isso nada podemos dizer 
a respeito d'elle. 

=== O (luadro altribuido a Alberto Durer, e que decora uma 
das capellas de S. Gervásio, em Paris, linha sido tirado e escondido, 
durantií a communa. Ullimamenle foi encontrado e collocado no seu 
antigo logar. 

O celebro pintor brazileiro Pedro Américo eslá pintando 



O retrato do sr. D. Pedro I, (jue Ihi; foi inconuuendado pelo senado 



=== Foram collocadas em logar conveniente as inscripções la- 
pidares da Universidade, para que S. M. o imperador podesse bem 
examinar aquella collecção epigraphica, na qual se encontram exem- 
plares muito notáveis. 

^=^^^= O esculptor brazileiro, o sr. Pinheiro Chaves está modelando 
uma allegoria, de tamanho maior que o natural, cujo assumpto se 
baseia no celebre decreto da liberdade dos escravos. 



— Foram eleitos académicos de mérito pela academia real de 
bellas artes, os srs. José Simões de Almeida, esculptor e auctor da 
bella estatua Uma mulher desfolhando tim malmequer, que daremos 
em gravura; José António Gaspar, architecto; Pedro Américo de Fi- 
gueiredo e Mello, professor de esthetica da academia de bellas artes 
do Rio de Janeiro, e auctor do quadro Batalha de Campo Grande, 
cuja descripção fizemos no primeiro numero; D. Frederico do Madra- 
zo, presidente da academia real das nobres artes de Madrid, e auctor 
de cxcellentes quadros históricos; Gisbert, director dos museus de 
Madrid, e auctor dos celebres quadros Los Communeros e IjOS Purita- 
nos; Baliu; César Datly e Victor Calliat. 

Alguns jornaes portuguezes annunciaram a venda em Ma- 



drid de doze quadros antigos, que pertenceram a uma casa de fidalgos 
hespanhoes. 

Os quadros e preços annunciados são os seguintes : 

Paizagem e cnfa,porVanArlois (escola flamenga) — 67o;5000 réis. 

Um cão disputando a outro um pedaço de carne, por Francisco 
Sneiders (idem) — 67.^^000 réis. 

Paizagem, por Pedro Snaycrs (escola hollandoza) — 270^000 réis. 

Retrato da imperatriz Agrippina Aiígusta, por Jorge Nasari (es- 
cola italiana) — S40ji000 réis. 

Retraio da imperatriz Faustina Augusta (idem) — SiOlOOO réis. 

Retrato da imperatriz Poppéa Sabina (idem) — SiOáOOO réis. 

Retrato de um imperador romano (escola italiana) — l,'Jo^(X)Oréis. 

Retrato de outro imperadp' romano (idem) — líio^OOO réis. 

Paizagem e gados, por Pedro Orrenle (escola hespanliola) — réis 
180^000. 

S. Domingos de Gusmão, por Velasquez — 270^000 réis. 

Santa Tiíereza de Jesus (idem) — 270^000 réis. 

Um retrato (idem) — 9:000^000 réis. 

N'um dos muitos leilOes de quadros, que ha amiudadas 



vezes em Paris, dois museus republicanos, o de Nova York e o de 
Neufchatel, disputaram os Pescadores do Adriático, notável (juadro de 
Leopoldo Robert. O americano, repleto de dollars, cubria, a todo o 
momento, o lanço do pequeno cantão, que, pela sua parte, não esmo- 
recia nem recuava. O incidente porém terminou bizarramente. Nova 
York cedeu do seu intento, apenas soube que era a cidade natal do 
grande artista que lhe disputava a obra capital d'aquelle a quem ser- 
vira de berço, que Neufchalel se dispuzora a conq)rar por todo o preço. 

Mr. Perrodin, discipulo de Hippolyto Flandrin, acabou na 



igreja de Nossa Senhora de Paris a serie importante de pinturas, cuja 
execução lhe foi confiada pela arcipreste daquella cathedral. 

Os assumptos são: A vida da Virgem (seis quadros); A Annun- 
ciação; e A Assumpção; Doze Santos, dos que annunciaram a gloria 
da Virgem, fizeram parte da sua familia, ou propagaram o seu culto; 
O mnrtyrio de Santo Estevão; Doze Santos (la Clerezia de Paris. 
A estas pinturas muraes ainda se hão do juntar oito assumptos exlra- 
hidos da historia de S. Luiz, pintados nas ))ortas do oratório onde 
estão guardadas as relíquias, na sala capitular. 




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3 § 

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ARTES E LETRAS 



49 



ARTES E LETRAS 




Lisboa — Aisuir. de 1872 



PELOURINHOS 



a uns certos géne- 
ros de trabalho cs- 
culptural, derrama- 
dos por todas as nos- 
sas províncias, cujo 
exame comparativo 
proporciona um dos 
mais poderosos sub- 
sídios á historia da 
introducçào e pro- 
gressos da esculptu- 
ra em Portugal. 

Estes géneros 
de trabalho sào os 
antigos portaeSj os 
túmulos, os painéis 
de almas, os cruzei- 
ros e os pelouri- 

E não só se nos apre- 
sentam como elementos mui 
essenciaes e elucidativos para 
o estudo de um importante ra- 
mo das artes, senào que indi- 
rectamente explicam, de um 
modo exemplificativo, muitos dos anti- 
gos usos e costumes do nosso povo, as 
piedosas crenças que o chamavam a ca- 
sar os intuitos religiosos com as crea- 
ções do génio artístico, e até nao pou- 
cas instituições suscitadas o por muito 
tempo consagradas pelas leis do reino. 
Pertencem á primeira parte d'esto 
grupo os portaes c túmulos, onde, por entrelaçados ara- 
bescos, fructo da phantasia artística, se contemplam ima- 
gens de santos o vultos de seraphins c cherubins, recor- 
dação de lendas c tradições monásticas. Os painéis de 
almas e os cruzeiros resumem a segunda, pois bem mos- 
tram quanto os hábitos do povo se inspiravam da crença 
religiosa. Restam os pelourinhos, que significam a vilti- 
ma, antigos instramcntos de sujiplicio, e hoje apenas em- 
blemas do jurisdição municipal. Em todas estas construc- 
ções, por vezes sumptuosas, a arte encontrou cultores e 
fez progressos manifestos, revelando os caprichos do gé- 
nio artístico e o gosto de épocas bem distinctas. 




Será dos pelourinhos que nos occupcmos n'este ar- 
tigo. 

O pelourinho, na antiguidade, era um meio de exe- 
cução penal. A columna moenia dos romanos, espécie de 
patíbulo usado por aquelles povos, deu do certo origem 
aos pelourinhos dos tempos modernos, pois a encontramos 
introduzida nas Gallias, logo depois de Roma haver con- 
quistado aquelle vasto território. 

A edade-media adoptou-a, com modificações e de- 
baixo de diversos nomes, mas sempre com o mesmo fim 
patibular. 

Os francezes ficaram-lhe chamando pilori, o nés, 
imitando os francezes, no começo da monarchia, começ;l- 
mos também a fazer uso d'cste instrumento de morte, 
denominando-o picota. 

O sr. visconde de Juromenha, n'uma pequena dis- 
sertação acerca d'este assumpto, cita Souval, que apre- 
senta um documento do século xni (1295), onde se fiiz 
menção do um poço, que existia n'uma das antigas pra- 
ças de Paris, no qual se faziam as execuções. Chamavam 
a este poço puteus ãictus Lory, do que inferiu que o 
instrumento de execuções penaes, hoje appellidado pelou- 
rinho, derivou o nome d'aquelle j)oço coUocado em siuii- 
Ihante sitio e que pertencia ao burguoz Lory. 

Deixando estas origens e derivações, mais ou me- 
nos forçadas, com que os antiquários, perdidos nos laby- 
rinthos da archeología, aproveitam as etymologías mais 
abstrusas, nào podemos deixar de confessar que a pala- 
vra pelourinho se encontra mencionada em muitos e an- 
tiquíssimos documentos, sobretudo dos séculos xii e xiii, 
assim francezes, como inglezcs, allemãcs e portuguezes, 
apenas com as variantes de piloria, pilorium, spilo- 
rium, pohrintium c até pelerinuvi, bem approximada 
ao vocábulo pelourinho adojJtado por nós, e sempre em 
idêntico sentido de machina ou apparclho de execução 
penal. 

Em geral consistia n'uma columna do pedra ou pi- 
lastra de alvenaria que tinha no topo uma gaiola, a qual 
girava horisontalmente. Era dentro d'esta gaiola que 
inettíam o paciento, fazondo-lho dar voltas, segundo ro- 
sava a sentença, o cxpondo-o assim ás vistas do povo, 
porque o compelliam a ter a cara voltada para fora. E 
d'este antigo uso que se deriva com certeza a formula 
penal, ainda ha pouco observada em Portugal o n'outros 
paízes, de inflingir aos criminosos a pena de dar voltas 
cm roda da forca. 

N'esta formalidade subsistia ainda outro desígnio, 
além do vexame opprobrioso, que era tornar bem conhe- 
cido o supplíciado dos observadores, para que, quando 
a sentença fosse só esta, se precatassem das ruins inten- 
ções do condomnado. 

Os termos do presente documento provam assaz o 
que fica indicado: Latro falsonarius judicabitur per 
communia, et ponetur in pelorico vt omnes cum videant 
et cognoscant- Charta major ia Rothomarji et Fulcsice: o 
que resa assim: — Ladrão e falsarío, sentenciado pela 
communa e posto no pelourinho, para que todos o vejam 
e conheçam. 

Esta condemnação é dos tempos da cdadc-media, 
como evidentemente se mostra, tempos em que a juris- 
dicção municipal ainda assumia o direito de commínar 
penas corporaes, chegando a sua altivez, quando se sen- 
tia off'endída no orgulho de suas immunídades locaes, a 
competir em direitos e regalias com os outros poderes 
do estado, com o jioder senhorial representado itclo alto 
clero e pela nobreza, o até nào poucas vezes com a pes- 
soa do rei, como succedeu cm Inglaterra, uma parte da 
AUcmanha, o principalmente em França, o que bem o 



prova Thierry nos seus eruditos trabalhos acerca da for- 
mação das coiiimuuas, cin quo tào vivas so roj)rodiizom 
essas contendas tumultuosas entro o clero feudal o os 
burguezes. E Portugal também nâo se isentou d'essas 
discórdias, por vezes sanguinárias, como o assevera sr. 
Alexandre Herculano no seu pi-ofundo trabalho Apon- 
tamentoií para a hintoria dos bens da corOa c foraes, 
onde se lêem as seguintes palavras : = «E quando outras 
provas nSo houvesse de que n'esta8 partes da Península 
também as co7ij urações, ou ligas de burguezes, chama- 
das entre nós irmandades (f/ermanitatcs)^ arrancaram á 
força. como em França, privilégios e franquezas aos se- 
nhores, bastará leuibrarmo-nos da historia de Compos- 
tella, no tempo de Diogo Oelmirez, para conhecermos 
perfeitamente a identidade d'estes movimentos populares 
em um e outro paiz. » 

N'es8as eras, porém, como fica observado, o pelou- 
rinho significava anqilo direito do jurisdicção munici^ial, 
por chegarem as attribuições dos antigos municipios, de- 
pois concelhos, até ao ponto de poderem inflingir penas 
corporaes rigorosas e cruéis; e esta alçada ou direito 
do jm"isdicçào local existia em Portugal e subsistiu por 
bastante tempo, como o provam varias leis penaes de 
cartas de município. Por exeuq)l(), uma d'essas cartas da 
camará de Vizeu, de 1304, ni^nda que o carniceiro accu- 
sado de usar de j^osos falsos seja logo exposto; e de 
igual sorte condcmna o padeiro, que roube no peso 
do iiuo, peitando-o em cinco soldos. Outra postura da 
camai"a do Porto fixa, com grande rigm* ])enal, as coi- 
mas, que deveriam ser inflingidas ao ])adeiro qxie ven- 
desse o pao por preço desproporcionado ao custo dos 
cereaes. 

Tendo portanto de servir jyara estes fins penaes, os 
pelourinhos d'esses tempos conservaram quasi a sua forma 
primitiva, ou antes a que depois lhes dou a edado-media, 
conliecida entro n()s por picota. Ainda em algumas par- 
tes do reino se depara com taes patíbulos, com toda a 
exactidão antiga da estructura rejjugnante que lhes de- 
terminava o seu lamentável destino. Existo um livro na 
Torre do Tombo, que comprova esta asseveração: este 
livro abre por esto dizer : « Este livro encerra as forta- 
lesas que estão situadas na fronteira de Portugal e Cas- 
lella, e foi feito por Duarte d' Armas, estríheiro da corte 
do muito alto, poderoso e serenissimo senhor Dom Ma- 
nuel primeiro, rey de Portugal e dos Algarves, dáquem 
e dálem, dos mares em Africa, senhor de G-uiné, da con- 
quista e da navegação e do commercio, da Ethiopia, Ará- 
bia, Pérsia e da índia, etc. 

Esto Duarte d' Armas era pintor de el-rei D. Ma- 
nuel, o occupou-se em desenhar as fortalezas do reino 
o também muitos dos pelourinhos quo designavam as ter- 
ras, onde existiam as referidas fortalezas, como terras 
que deviam possuir este symbolo de jurisdicção munici- 
j)al, por lhes haver sido dada tal qualidade. Esses pe- 
lourinhos ainda reproduzem a configuração exacta que 
exigia a sua applicação penal. Vêem-se alli os das villas 
do Sabugal, de Mendo, do Mogadouro, e do Penaroia. 
A f()rma é a mesma dos pelourinhos francezes; conser- 
vam egualmentc as gaiolas ou guaritas para a exposição 
dos ci-iminosos. Os quo presentemente existem já não 
têem este feitio. São, na maior parte, construidos do uma 
columna, mais ou menos lavrada, e até de estructura 
caprichosa e não poucas vezes de aprimorada esculptura, 
erguida cm cima do uma base assento sobro degraus 
cortados em sentido quadrangular, sextavado ou octo- 
gono. Do topo da colunma ou pilastra s;iem, em cruz, 
quatro braços de ferro, com anneis ou cadeias pendentes 
das extremidades. Um capitel, uma coroa, ou qualquer 



outro remate fecha a columna em cima. O pelourinho 
de Coimbra termina por mu instrumento do ferro cor- 

Arruda é qua- 



A guarita do da 



tanto, em mi>do de faca. 

drada e encimada por um brazào, julgo que as armas 
da villa, o que se encontra cm nniitos do reino. O pelou- 
rinho da villa da Batalha é de primoroso lavor, mostran- 
do bem ser construído no tempo das capollas imperfeitas, 
pois reproduz as bellezas osculpturaes do estylcj manue- 
lino. Os do Aljubarrota, de Alverca o Cintra pertencem 
de certo íí mesma época: encerram também incontestável 
valia artística. 

Na maioria os pelourinhos do reino são obra do 
el-rei D. Manuel, assim como muitas das matrizes e 
principaes templos. Foi no reinado d*este monarcha quo 
foram dados ou renovados os foraes á máxima parte, ou 
quasi totalidade das povoações em que então estava sub- 
dividido o reino. Chamam a attenção do curioso as illumi- 
nuras que se encontrara em grande porção d'estes foraes, 
pelo seu realce, colorido e doiraduras, e também pela 
nitidez dos caracteres, arabescos o cercaduras que se 
observam. 

São os pelourinhos do tempo de I). IManuel os mais 
apreciáveis, pela elegância brincada da sua estructura, 
O da villa de Aljubarrota é decerto um dos mais singu- 
lares c aprimorados. Os de mais remota data, que eram 
os verdadeiros patibulos das infracções municipaes, quan- 
do os municipios, e depois os concelhos, absorviam um 
grande poder na applicação das leis do reino, despertam 
decerto mais a curiosidíide do archeologo, porque o seu 
uso prendia com costumes que desappareccram, mas sao 
mui inferiores, considerados artisticamente. Valem para 
a historia, mas pouco para a arte. Todos, porém, e ainda 
os mais modernos, concorrem para esclarecer e exemplifi- 
car uma parte da historia da arte em Portugal, no que 
se refere á esculptura. Pena é que não possamos aqui 
reproduzir ])ela estampa esses elementos dispersos, em , 
que a historia dos costumes e instituições se allia tão es- 
treitamente a uma parte da historia das artes entre n()s'. 
Os pelourinhos de Mogadouro, Penaroia, Coimbra, Alju- 
barrota, Cintra, Oeiras e Lisboa bastariam para colligir 
e resumir os capítulos d'csta historia documentada, cuja 
exposição e analyse seria valioso serviço feito ao gosto 
de apreciação dos monumentos, e estimulo directo para 
estudos mais profundos nas obras esculpturaes. 

Os pelourinhos serviam também para a execução 
da pena capital. Muitos documentos históricos o testifi- 
cam. Folhcando-se o Diccionario de Ducange, é fácil de 
encontrar casos d'estes. Segundo um documento alli ci- 
tado, vê-se que, cerca do anno de 143S, Carlos vii, rei 
de França, condemnou a morrer no pelourinho um sub-- 
dito seu, que havia abraçado a religião anglicana. Diz 
assim o documento: — Ante prandium fecit rex puhlice, 
prope pilorium, amputare cajnit liertrandi de Arat, mi- 
litis proditoris, qtii se fecerat anglicum. 

Entre nós ainda ha lembrança recente de ura d'es- 
tcs tristes exemplos. O pelourinho de Lisboa não está 
immaculado de taes successos, com que o rigor do sys- 
tema penal antigo lançava o opprobio sobre os costumes 
públicos do uma nação. Ainda subsiste a memoria^ de 
ahi ter sido executado um cadete, por ter assasinado seu 
irmão. 

Oeiras, 14 do abril de 1872. 

JOSÉ MARIA DE ANDRADE FERREIRA. 

1 Quando {ralarmos dos painéis de almas, pnriaps, etc, prorura- 
rcmos apresentar alguns d'estes pequenos monunienlos, com o que fi- 
cará ainda mais completa esta noticia. 



ARTES E LETRAS 



51 





OS FILHOS DE CARLOS i 

QUADRO DE 
VAN DYCK 



osam de rcputaç?io universal os 
retratos devidos ao pincel do Van 
Dyck. É merecida a reputação, 
porque esses famosos trabalhos fa- 
zem parte do precioso thesouro de 
maravilhas que nos legaram os 
pintores do ha dois séculos. 

Van Dyck pintou diversos 
„ -^-^,=^ '^ quadros representando os filhos 
•■|i^^^do rei Carlos 1, a quem deveu tantos e tão va- 
'^W líosos favores. A mais bella do todas essas nu- 
merosas composições, porém, é a que damos cm 
gravixra. No castcllo de Windsor está o original 
d'ella, c em Dresde, Turim o Wilton House, 
encontram-se copias notáveis. 

Os três filhos do desditoso rei, que figuram 
na gravura que damos, são: o príncipe Carlos II; o dvx- 
que de York, mais tardo Diogo II, e a princeza Maria 
que veiu a casar com o princi^je de Orange, e que foi mão 
do príncipe do mesmo titulo, chamado ao throno inglez 
para defender o protestantismo contra as tendências ro- 
manas de sou tio materno Diogo II. 

Alem da importância do assumpto, observam-se no 
quadro em que figuram — Os FILHOS DE Carlos I, todas 
as bellezas que caracterisara as cxccllentes composições 
do celebre flamengo, que foi a gloria da sua pátria o do 
grande mestre que o dirigiu nos primeiros trabalhos. 



O PRIMEIRO BANHO 



GUSTAVO SUS 



il-os — quebraram a frágil casca e entra- 
ram no numdo. 

Ainda pouco empennados, e por con- 
seguinte mal prevenidos para as incon- 
stancias da atmosphcra, não procuram 
abrigo debaixo de um telheiro, ou entre 
as taboas velhas encostadas ao nuiro do 
patco onde nasceram; pelo contrario fo- 
gem para o campo, o, no primeii'0 sitio 
onde encontram agua a correr, banham-se contentes. 

A agua é para clles elemento amigo. Por emquanto 
rcírescam-se n'a(|uella pequena torrente que vae regar as 
várzeas próximas; mais tarde, atirar-se-hão resolutos ao 
lai-go tanque, o nadadores intrépidos, cortarão a liquida 
su[K!rficio em todos os sentidos, mergulhando umas vezes, 
batendo as azas outras, e conservando-se sempre alegres 
o satisfeitos. 

E singela, mas graciosa, a composição do quadro 
que acompanha este numero, c cujo assumpto fica apon- 
tado no que levamos dito. Ha muita verdade na attitude 
d'aquelles patinhos desenhados com esmero e delicadeza. 
O artista produziu um quadro encantador, que desperta 
a curiosidade até aos que menos se entretêem com obje- 
ctos do bellas artes. E que — O peimeiuo banho, do pin- 




tor Gustavo Sus, tom o prestigio das composições que 
representam com exactidão e talento as scenas vulgares, 
mas aprazíveis da natureza. 




CONSELHO 



Deixa essas largas, symptuosas salas. 
Onde se acoita a solidão o o todio, 
E para o corpo c alma só remédio 
Vae procurar da natureza ás galas. 

A cidade é monótona, o veneno 
O pó corrupto, que se aspira n'ella; 
O que valo cubri-la um céu ameno, 
Como o nosso, ou que seja grande e bella, 

Se é tudo sempre o mesmo: ruas, praças, 

Onde muros a muros se succedem, 

E ar, e luz, e liberdade pedem 

Do povo fluctuante as negras massas? 

Ar, liberdade, luz, não foram feitos 
Para morar no turbilhão mundano, 
Ou nos cárceres húmidos e estreitos, 
Que para si construo o fraco humano. 

Têem por habitação o império immonso 
Do mar, que banha, que circumda a terra, 
A campina, a floresta, o valle, a serra, 
■ E o firmamento sobre nós suspenso. 

Ahi, por sua força geradora. 
Sem cessar, o espectáculo varia, 
E nunca se interrompe a voz sonora, 
Que louva o Creador, de noite e dia. 

Tudo é mesquinho e pobre na cidade; 
Tudo é grande na grande natureza: 
Mostra aquella dos homens a fraqueza; 
Esta do Omnipotente a magestade. 



II 



Podes livre existir c és prisioneiro; 
Podes coiTcr o mundo e não o corres; 
E no trem ou palácio o anno inteiro 
Sósinho passas, e d'inercia morres. 

Eu, a quem nega a sorte o numcn loii'o, 
Impaciente 2>or ver que sempre habito 
Quatro palmos de terra, necessito 
De ao menos viajar cm sonhos d'oiro. 

— Sonhos que logo a realidade apaga, 
Deixando-mc peior — e tristemente 
Olho o veloz baixel, que rompe a vaga, 
O mar ao longe e a serrania ingente. 



52 



ARTES E LETRAS 



Ah! Se não fôra essa creança, parte 
De mim mesmo, que ou amo, que estremeço, 
Fructo tio um breve amor, que nunca esqueço, 
(Mas, meu íilho, nSo posso abandonar-te!) 

Eu iria outra vez por esse mundo, 
Em procura não sei de que destino, 
E de novo saudara o vai profundo, 
O monte, o bosque, o oceano, peregrino. 

Basta que um dia a pallida doença 
Pela mão para o leito nos conduza, 
E que,' a iinal, a morte nos reduza 
A nada o corpo que se move e pensa. 

Mas emquanto ha saúde, mas emquanto, 

Bem como em ti, a mocidade ferve, • - 

Do globo conhecer um só recanto. 

Deixar que o espirito e o vigor se enerve! 

Não; dize adeus aos commodos da vida. 
Ao teu palácio, ao brado turbulento 
Da cidade, e procura o movimento. 
Que a alma nos desperta adormecida. 

É como a agua o homem: se quieta. 

Perde a belleza, a cor, e se enipaluda; 

Se corre, torna ao que era, c, em vez de infecta, 

A roda os campos cm jardins transmuda. 

Porém, se, á sociedade costumado. 
Temes estar co'a natureza apenas, — 
Que, muita vez, as sohdões amenas 
Fazem sangrar um coração maguado, — 

Deixa a pátria, que a pátria já conheces. 
Este solo que os astros abençoam. 
Fértil d'encantos e doiradas messes. 
Que mil sombras de heroes inda povoam, 

E busca as ten-as, onde o génio do homem 
Se Casa á mão do Deus: a Grécia, o Egypto, 
O velho Oriente, que, já quasi um mytho. 
Na bruma do mysterio os annos somem; 

Albion, que tem dos mares o governo, 
França, AUemanha, e a mais formosa d'ellas, 
A que, no tempo antigo e no moderno, 
E grande, a Itália, a mãe das artes bellas; 

A terra onde perfuma a laranjeira 
O timiulo famoso de Virgilio, 
Onde cada campina é um idyllio, 
Cada pedra de feitos pregoeira; 

O paiz das ruinas grandiossis. 
Da maior gente veneranda tumba, 
INIeio coberta de jasmins e rosas. 
Que inda após quinze séculos retumba, 

A pátria dosvulcSes e dos poetas, 
Que brotou das entranhas de gigante. 
Como o Etna e o Vczuvio, o Tasso e o Dante, 
Do arrojo e do poder irmãos athletas; 

A pátria da harmonia e da pintura. 
De Buonarotti, Raphael, Celiini, 
Que junta ao som da brisa que murmura. 
E ao.s ais do rouxinol os de Bellini. 



Passa do Colosseu aos Apenniijos; 
Da alterosa Parthenope a Sorrento; 
Do mar a Tibur, onde, á tarde, o vento 
Repete ainda os cantos venuzinos; 

Dos Alpes á cidade do mysterio, 
Que esconde nas lagunas a vergonha; 
Do Pó a Roma, que, de novo, o império, 
D'entre as ruinas accordando, sonha; 

Da Toscana, jardim de olentes flores, 
A Florença, jardim do pedra e arte; 
A Milão; á Sicilia; a toda a jiarto. 
Mesclando a humanos naiuraes primores. 

Varia; idéas, sitios variando, 
Pcsa-nos menos da existência a carga, 
E, á medida que vamos caminhando, 
O coração parece que se alarga. 

Nada ha peior do que viver comsigo 
Solitário; cu o sei de experiente: 
SofFro-se a desventura duplamente, 
E a habitação converte-se em jazigo. 

Depois, quando te aperte acre saudade 
Da pátria, viva sempre na lembrança. 
Volta ao palácio teu, volta á cidade,^ 
E do peregrinar n'ella descansa. 

Rico de sensações e de memorias. 
Tu, então, lembrarás com ledo rosto, 
A ti e aos outros, de cad'hora o gosto, 
Que é sem2jrc farto o viajor de historias. 

Assim, do impulso da passada lida 
Viverás algum tempo satisfeito. 
Depois, quando a existência aborrecida 
Te parecer, e o coração estreito, 

Dize, outra vez, adeus ao ócio c aos lares, 
E vaga novamente pelo mundo. 
Ou na face da torra, ou no profundo. 
Liquido espaço dos revoltos mares. 

Tal quizcra eu viver; por isso quero 
Que tu vivas também da mesma sorte. 
Peior que a lucta a inércia considero: 
O luctar é viver, a inércia é morte. 

BAMOS COELHO. 



1 




an-: 



ARTES E LETRAS 



53 



O POBRESINHO 



Vive á nossa custa. Era-lhe fácil fechar os olhos, 
fora de casa, o pedir aos viandantes que tivessem dó de 
um pobre cego «que iião tem vista, Truirgulhado na escu- 
ridão das trevas pela privação da luz e sem poder ver 
a claridade do dia»,' mas não quer tentar Deus, — o vac 
vivendo de estender a 
m?io. 

Já do uma vez 
cuidou observar que 
está em paiz de men- 
digos, cm paiz de col- 
legas. Tudo serve de 
pretexto aqui para pe- 
dir esmola, c a diffe- 
rença apenas c dar-se- 
Ihe outro nome; uns, 
chamam-lhe amêndoas 
ou broas, e têem uma 
caixa de musica que 
se sae mealheiro; outros 
têem a profissão de be- 
neficiados e disparam, 
pela ma fora, bilhetes 
da superior ; ha os que 
pedem por cartas, os 
que andam ájjcchincha 
de condecorações, os 
que tratam os outros 
por tu em voz alta e 
lhes pedem dinheiro ao 
ouvido; os que se em- 
pregam em nSo estar 
empregados, comem e 
bebem dos transtornos 
que tiveram, e espre- 
mem um revez como 
quem muge uma vac- 
ca! Raça inaturavel; 
espécie de lepra da 
cdade media! 

Foi, talvez, esse 
esjiectaculo o que lhe 
deu animo para se en- 
costar ao bordão, dei- 
xar crescer as barbas 
quanto quizessem, ar- 
mar-se de panclla a ti- 
racollo, e ponderar, do 
si para si, que, visto 
queixarcm-se os da In- 
ternacional de que os ri- 
cos vivam dos pobres 
— a melhor desforra é 
resolverem-se os po- 
bres a viver dos ricos ! 

Os ricos, de mais a mais, devem lisongear-se de dar 
esmolas. É apparatoso! Nao me refiro aos philantropos 
fingidos, que a pretexto de melhorarem a sorte da classe 
mais numerosa e mais pobre, vào melhorando a sua, dei- 
tando poeira aos olhos dos tolos e apanhando bons lega- 
res: ha até negrophilos que reprovam a escravatura, e 
dão pancada nos creados brancos, — e uns amigos da 
humanidade que matam de desgostos os parentes que 
têem em casa! Refiro-mo aos bons homens, — que, por 




serem bons, não deixam de gostar ainda mais de si que 
dos outros, e de ter a porção de vaidade sufficiente para 
estimarem figurar em publico, fazendo bem, e tendo, de- 
pois, nos jornaes votos de agradecimento. Os agradeci- 
mentos, entre nós, são como que o troco da esmola! 
Agradece-se tudo á mercê do acaso: até, quando morre 
alguém, não se deve deixar de agradecer depois, publi- 
camente, ao cirurgião que o tratou — para dar a enten- 
der que o doente morreu . . . curado ! 

O pobresinho pe- 
rito deve conhecer á 
primeira vista, quem 
é capaz do fazer bem, 
e qual o modo i»r que 
mais gosta de o fazer. 
Ha systemas de cari- 
dade conforme o tem- 
peramento dos indi- 
víduos : alguns, por 
exemplo, não gostam 
de se desabotoar no 
inverno — -e o pobre- 
sinho deve dirigir-se- 
Ihe apenas em occa- 
sião em que os veja 
contentes, a abrirem 
o casaco o a metterem 
os dedos á bolsa para 
comprar charutos, ou 
pagar os pasteis que 
comeram nas pastella- 
rias da Baixa! 

Este, que a es- 
tampa nos mostra, não 
é dos mais triviaes, 
nem tem o typo des- 
prezível e quesilento 
dos peores da sua raça ; 
deve-se isto talvez em 
grande parte a ser tão 
velho; a velhice san- 
tifica tudo, é gi-ande, 
é sagrada. Mas não 
tem cara de mau, nem 
se suspeita n'elle al- 
gum d'esses mendigos 
riquíssimos de que as 
folhas publicas con- 
tam de vez em quando, 
o caso posthumo. Éum 
pobre homem; nem se- 
quer é aleijado! Se 
fosse aleijado tinha ou- 
tra estimação. A fa- 
mília nunca teve rasão 
de queixa contra elle, 
— senão essa; de mais 
a mais foi sempre um 
homem sem delibera- 
'ção; muitas vezes lhe deram de conselho os outros com- 
panheiros, por vei'em que elle não fazia carreira, — que 
se estropeasse; não esteve por isso, e o resultado é ha- 
ver chegado á edade que representa — sem ter nunca flo- 
rescido na estrada da Nazareth, no caminho de Bellas 
no dia do Senhor da Serra, nos grandes arraiaes, nas 
feiras, nas festas celebres, nos vários pontos de reu- 
nião dos pedintes de cartello, que têem direitos adqui- 
ridos e logar certo nos certames da mendicidade, — vasta 



54 



AliTEtí E LETllAS 



cambada do aleijões o maltrapilhos, quo vivem uns com 
03 outros, conliccem-so todos, c casam entro si! 

N'aquella panclla arrecada ello toda a qualidade do 
coisa que lhe possa servir; se lho dào n'alguma casa o 
resto da sopa ou um caldo, melhor: se lhe nào dao caldo 
nem sopa, guarda o que lhe dêem — ou apanha alguma 
coisa nas pedras da rua; disputa um osso aos cães: c, se 
é dia em quo tem alguém de fora a jantar, leva tambom 
a folha de couvo ou a rama do nabo, quo a lama estava 



.;» 



a querer para si 

É um desgraçado. Devo principalmente haver para 
cllc um momento amargo na vida, momento do tristeza 
infinita. E quando vir o neto, já de pequenito, princi- 
j)iar a pedir esmola: quando o encontrar na rua, a dis- 
putar-lhe os dez réis quo alguém lhe dê : quando olhar 
bem para ello o para si, confrontando a magestado dos 
cabcllos brancos, o a graça dos cabellos loiros; a fraqueza 
do que chega ao fim, o a do que ainda agora vac de par- 
tida; aquello tremer de duas luzcis, uma por ir apagar-sc, 
outra por estar a accender-se; athletas da miséria e da 
vida, differentes na estatura, mas fracos ambos, e ambos 
estacados na fronteira do quo ninguém sabe o quo será; 
um, ao pé do berço — tumulo donde se sae, outro, já 
perto do tumulo, berço onde so entra outra voz . . . Ah ! 
Pobre velho! Talvez quo uma lagrima diga a Deus, 
n'esso instante, quanta amargura custa a esmola a quem 
pede ! . . . 

JCLIO CÉSAR MACHADO. 



A ESTALAGEM DOS TRÊS ENFORCADOS 



CONTO DE ERCKMANN-CIIATKIAN 

(Conclusão) 

A Flcdcrmauso passou como um relâmpago pela va- 
randa — nao parecia a mesma: ia direita, com os dentes 
cerrados, o olhar fixo, o pescoço estendido; caminhava 
com grandes passadas, o os cabcllos giisalhos íluctua- 
vam-lhe pelas costas. 

« Olá, attenção ! ha o que quer quo seja de novo ! » 
dizia eu comigo. 

Mas as sombras da noite desceram sobro a casa ar- 
ruinada, os ruidos da cidade extinguiram-so, o o silen- 
cio reinou. 

Ia já jiara me deitar quando, lançando os olhos 
para a rua, vi a j ancila da frente illuminada: um via- 
jante occupava o quarto do enforcado. 

Então todos os meus receios despertaram. Estava 
explicada a agitação da Fledermause: farejava uma 
nova victima. 

Kão pude dormir toda a noite. O ruido da palha, 
a roodura do um rato no forro, bastava para me fazer 
aiTcpiar. Levantci-mo por fim, puz-me á janella o escutei. 
A luz do quarto fronteiro apagara-se. N'um momento de 
mais commoção, illusão ou i-oalidadc, parecou-me ver a 
velha megera quo tambom olhava o escutava. 

Passou a noite; o dia veiu esclarecer a minha vi- 
draça. A pouco o pouco fui sentindo os ruidos da cidade. 
Exhausto pelo cansaço e pelas emoções que experimen- 
tara, adormeci cmfim, mas por pouco tempo. Quando de- 
ram oito horas já cu estava no meu observatório. 

Pareceu-mo que o somno da Fledermause não fora 
mais socegado quo o meu. Quando abriu a porta da 
varanda tinha as faces emagrecidas o de uma pallidez li- 
vida. Trazia apenas sobre a camisa um vestido do lu 



o pelas costas, espalhadas as madeixas do cabellos gri- 
salhos e russos. Olhou para o meu lado, mas não me 
viu; tinha um olhar preoccupado c via-so que pensava 
n'outra coisa. 

De reponto desceu deixando os sapatos no alto da 
escada. Ia talvez certificar-so se a porta de baixo es- 
tava bem fechada. 

Vi-a subir apressada, galgando três o quatro degraus 
do cada vez. Era horrivol. 

Correu para a casa próxima, onde so ouviu como 
quo o ruido da tampa pesada de um grande cofre. 

Depois appareceu na varanda arrastando um bo- 
neco, um manequim vestido como o estudante do Hei- 
dclberg, que ella suspendeu com extrema agilidade a uma 
das travos do telheiro. Dej^ois desceu jiara o vão do pa- 
teo, e começou a soltar grandes gargalhadas. Tornou a 
subir ontão, desceu de novo com ares de louca, o de cada 
vez dava gritos e gargalhadas ruidosas. 

8entiu-so barulho á porta: a velha saltou, despen- 
durou o manequim, Icvou-o, voltou, o inclinada sobre a 
balaustrada, com o pescoço estendido, os olhos brilhantes, 
ficou immovcl escutando. O ruido afastava-so ... os mús- 
culos da face destenderam-se-lhe e resfolegou como alli- 
viada: fora uma caiTuagem que passara. 

A megera tivera medo. 

Então entrou outra vez na casa, e ouviu-se o ruído 
do cofre que se fechava. 

í^sta scona extraordinária confundia todas as mi- 
nhas idéas: que significava aquello manequim? 

Tornei-me mais attento que nunca. 

A Fledermause saíra com um cabaz: e eu scgui-a 
até voltar a esquina da rua. líctomára o seu ar tremulo 
do velha com passos curtos, voltando, do vez em quando, 
a cabeça para ver se alguém a seguia. 

Domorou-se cinco horas. Eu passeei, meditei — o 
tempo parecia-mo interminável. O sol aquecia as telhas 
e perturbava-me o cérebro. 

Vi na janella fronteira o pobre homem que occu- 
pava o quarto dos três enforcados: era um camponez da 
Floresta Negra, com um grande chapéu de três bicos, 
um collete escarlate, uma physionomia risonha e aberta. 
Fumava tranquillamento no seu cachimbo de Ulm com 
um ar descuidado. 

Senti vontade do gritar-lhe : 

«Bom homem cuidado! não se deixe fascinar. pela 
velha ! acautelc-se » ! Mas não mo teria entendido. 

Pelas duas horas, a Fledermause entrou em casa. O 
ruido da porta abrindo-so cchoou até ao fim do pateo. 
Depois vi-a apparecer sósinha o scntar-se no ultimo de- 
grau da escada. Collocou o cabaz diante do si o tirou 
do dentro primeiro uns molhos de hervas, alguns legu- 
mes; depois um collete encarnado, um chapéu do três 
bicos, uma vestia de velludo escuro, uns calções de bel- 
butina e um par de meias grossas do lã. O trajo com- 
pleto do um camponez da Floresta Negra. 

Senti uma espécie de vertigem. . . passaram-me cham- 
mas pelos olhos. ' 

Pensei nos precipicios que attrahiam com um poder 
irresistivel — poços que foi preciso entulhar, porque a 
gente deitava-se n'clles; arvores que foi necessário cortar, 
porque muitos se enforcavam nos seus ramos, o contagio 
emfim de suicídios, de assasínios, do roubos produzi- 
dos em certas cpochas, por meios determinados; a in- 
fluencia nervosa extraordinária do exemplo, — que faz 
bocejar quando se vê um bocejo, soíFrer quando se vê 
soffrer, matar-se porque outros se matam. . . o os cabellos 
erriçaram-sc-me de hon'or. 

Como é quo a Fledermause, tão sórdida, tão mesqui- 



ARTES E LETRAS 



01) 



nlia, podeçia adivinhar uma lei tão profunda da natureza? 
Como encontraria meio de a exploi'ar em proveito dos 
seus instinctos sanguinários? Eis o que eu não podia 
comprelicnder, — o que ultrapassava os ríicursos da mi- 
nha imaginação. Todavia, sem pensar mais n'um tal mys- 
terio, resolvi fazer voltar contra a velha a tcrrivcl lei, at- 
trahindo-a íí sua própria cilada. Havia muitas victimas 
innocontcs que pediam vingança! 

Perconú as casas de todos os adellos de Nurem- 
berg, o á noite entrei na Estalagem dos Três Enforcados 
com uma grande trouxa debaixo do braço. 

Nickel Schmidt conhocia-me havia muito. Fizera- 
Iho o retrato da mulher — que era uma dama gorda o 
do boas car-nes. 

— Viva mestre Christian, que feliz acaso o traz por 
cá ? A que devo o prazer do . . . 

— Jleu caro Schmidt, tenho um grande desejo de 
passar a noite n'aquelle quarto. 

Estávamos á porta da estalagem o eu indiquei-lhe 
o quarto verde. Elíe olhou-me desconfiado. 

— Ah! esteja dcscançado que não quero enfoi"car-mo. 

— Está bem, está bem ! francamente, havia de mo cus- 
tar. . . um artista do seu talento. E quando quer o quarto? 

— Esta noite. 

— Não posso, tem gente. 

Tinha, tinha, mas pode occupa-lo já, disso uma 
voz atraz de nós. Eu dispenso-o. 

Voltamo-nos admirados. Ei-a o camponez <la Flo- 
resta Negra, com o seu grande chapéu na cabeça e uma 
trouxa enfiada n'um pau. 

Acabavam do lho contar a historia dos Três Enfor- 
cados. 

— E ura assassínio, uma infâmia. 

Disso elle tremulo de cólera e gaguejando. Mereciam 
ir para as galés. 

— Vamos, vamos, creio que nada d'isso o impediu 
do dormir esta noite. 

— E que, felizmente tinha rosado antes de me deitar. 
A não ser isso, quem sabe onde eu estaria a estas horas. 

E afastou-se levantando as mãos ao céu. 

— Bom, disse Schmidt, é seu o quarto, mas nada 
de más idéas . . . 

— Para ninguém seriam peiores que para mim, meu 
caro. 

Entreguei a trouxa á creada, e installei-me proviso- 
riamente entre os que bebiam a uma das mesas. 

Havia muito quo me não sentira mais tranquillo 
nem mais feliz de viver. Depois do tantas inquietações, es- 
tava próximo a conseguir o meu fira. O horisonte acla- 
rava-se, e, depois, não sei que potencia superior mo auxi- 
liava. 

Accendi o cachimbo, o, encostado á mesa, defronte 
de uma caneca de cerveja, ouvi o coro do Freychiitz, 
executado por um rancho de ciganos do Sohwartz Wald. 

A corneta, a trompa, o oboé, faziam-rae scismar 
vagamente, e, por vezes, despertando para ver as horas, 
perguntava a mim mesmo se o que me estava succedendo 
não era apenas um sonho. 

Quando porém o Wachtmann veiu fazer-nos retirar, 
outros pensamentos mais graves se elevaram no meu es- 
pirito, e ou segui pensativo a pequena Carlota que me 
precedia cora uma luz na mão. 

III 

Subimos a escada do caracol até ao segundo andar. 
A creadíi deu-me a luz o indicou-me o quarto. 

— E ahi, disse ella, descendo precipitadamente. 



Abri a porta. O quarto verdo era como todos os 
quartos do estalagem: um leito muito alto o ura tecto 
muito baixo. 

Com um golpe de vista revistei o seu interior. De- 
pois fui escondendo-me até á janella. 

Nada apparecia ainda em casa da Fledermause; 
apenas na extremidade de um quarto sombrio se via bri- 
lhar uma luz — talvez uma lamparina. 

«Bom, disse comigo, correndo a cortina, tenho tempo». 

Abri então a minha trouxa. Puz uma touca de mu- 
lher com franjas e coUoquei-me em frente de um espelho, 
com um pincel, para pintar rugas na cara. Levei n'isto 
mais do uma hora. Depois de ter posto o vestido e o grande 
chalé tive medo de mira niesrao: era a própria Fleder- 
mause que ali estava e que me olhava do fundo do es- 
pelho. 

N'esse momento o Wachtmann gritou na rua «onze 
horas » . 

Preparei então o manequim que levara c vesti-o com 
um fato igual ao da megera. Em seguida entreabri a 
cortina. 

Depois de tudo o que eu tinha visto da parte da ve- 
lha: a sua astúcia infernal, a sua prudência, a sua es- 
perteza — parece que nada devia já surprehender-me. 
Todavia tive medo. 

A luz que eu vira no fundo do quarto, essa luz im- 
movel, projectava então uma claridade amarellada so- 
bre o manequim do camponez da Floresta Negra, que 
estava acocorado na borda do leito cora a cabeça incli- 
nada sobre o peito, o chapéu de três bicos puxado para 
os olhos, os braços pendentes, — ao quo parecia, enti-e- 
gue ao mais desanimado desespero. 

A sombra graduada com uma arte diabólica deixava 
apenas ver o comprimento da figura; quasi que só 
se destacavam na claridade o colete vermelho e os bo- 
tões arredondados. Era sobretudo o silencio da noite, a 
immobilidade do vulto, o seu ar abatido que deviam 
apoderar-se cora ura espantoso poder da imaginação do 
espectador. Eu, que estava prevenido, senti-me todavia 
arripiar. O que não experimentaria o pobre camponez 
surprehendido repentinamente por esta visão? Teria sido 
esmagado, perderia o livre arbítrio, e o instincto de imi- 
tação faria o resto. 

Apenas mexi na cortina vi logo Fledermause a es- 
preitar atraz da vidraça. A janella fronteira abriu-se; 
depois o manequim pareceu erguer-se e caminhar para 
mim. Avancei também, e tomando a minha luz com uma 
mão, abri com a outra ropcntinamente a janella. Então, 
eu e a velha, aehárao-nos face a face, porque ella, at- 
terrada deixara cair o seu manequim. Os nossos olhares 
cruzarara-se cheios de um igual horror. 

Ella estendeu as mãos e eu estendi também as 
mãos; agitou os lábios, e cu agitei os meus, deu um 
longo suspiro e cncostou-se — e eu encostei-me também! 

Não sei dizer o que esta scena tinha do horrível. 

Era o quer que fosse delirante, desvairado, louco! 
Uma luta entre duas vontades, entro duas intelli£:encias, 
entre duas almas que queriam destruir-se. A minha, po- 
rém, Icvava-lhe vantagem : combatiam com ella as victimas. 

Depois do haver por alguns segundos imitado os 
moviraentos da Fledermause, tirei uma coi'da debaixo 
das saias e prendi-a ao ferro da taboleta. A velha olha- 
va-me com a bocca entre-aberta. Passei a corda em 
volta do pescoço: as pupillas selváticas da velha pare- 
ceram incendiar-se, a physionomia dccompoz-sc-lho. 

— Não! não! disse ella com uma voz suftbcada. 

Continuei com a impassibilidade do carrasco. 

Então a Fledermause enraiveceu. 



5G 



ARTES E LETRAS 



— Velha louca! berrou ella, crguendo-se cora as 
mãos crispadas sobre o parapeito. Velha louca! 

Não a deixei continuar: apaguei rapidamente a luz, 
inclinei-me como quem quer dar um grande salto, e pe- 
gando no manequim, passei-lhe a corda ao pescoço e pre- 
cipitoi-o no espaço. 

Um grito terrível atravessou a rua. 

Depois tudo cahiu em silencio. 

O suor corria-me em bagas pela cara. Escutei muito 
tempo. No fim de um quarto de hora ouvi longe, longe . . . 
muito longe a voz do Wachtniann que gritava: 

— Habitantes de Niu-emberg, meia noite... deu meia 
noite ! 

— E agora murmurei eu, fez-se justiça, estão vin- 
gadas as três victimas. Perdoae-me, Senhor. 

Cinco minutos haviam passado depois do ultimo 
grito do Wachtmann: vira a megera attrahida pela sua 
imagem saltar da janella com a corda ao pescoço e ficar 
suspensa ao ferro da sua casa . . . vira o estremecimento 
da morte percorrer-lhe o corpo, e a lua serena, silen- 
ciosa, passando por sobre a beira do telhado, vir des- 
cançar-lhe os seus raios frios e pallidos sobre a cabeça 
desgrenhada. 

Era assim que eu tinha visto o pobre estudante de 
Heidelberg. 

Foi assim que eu vi a Fledermause. 

No dia seguinte soube-se em Nuremberg que a Co- 
ruja se havia enforcado. 

Foi também o ultimo acontecimento d'este género 
na rua dos Minnessinger. 

B. 

-SM^ i tm- 

NÚMEROS DO INTERMEZZO 



IIENRI HEINE 



Lançaram-te no rosto o aéreo véu nupcial; 
Bem sei que te perdi, mas não te quero mal. 

Brilham do teu collar as pedras luminosas; 
Mas no teu coração que noutes luctuosas! 

Em sonhos eu desci, oh! misera mulher! 
As sombras da tua alma e vi-te o padecer. 

Bem sei que te perdi, oh! minha doce amada! 
Mas não te quero mal, que és muito desgraçada. 



Sonhando, ouvia suspirar o vento 
Das tilias sobre a cúpula odorante; 
E, como outr'ora, ouvia o juramento 
Do teu amor constante. 

Que j^rotestos de amor n'es8e momento! 
Mas na febre dos beijos que me deste, 
Como para gravar teu juramento. 
Em meus dedos mordeste! 

Dona do riso alegre, o meu tormento! 
Dona de olhos azues, oh! minha amada! 
Já me bastava o doce juramento. 
Foi de mais a dentada. 



Coimbra. 



O. CRESPO. 



CHRONICA DO MEZ 




epois dos frios agudos e das chuvas 
torrenciaes, o céu compadecido enviou- 
nos a tejiida aragem da primavera e 
a luz henefica de um sol espiendente. 

Reverdecem os prados, povoam- 
se de rosas os jardins, touca-se de vir- 
ginaes flores a laranjeira. Começa a 
lembrar o campo. As senlioras dão 
ferias aos pesados vestidos de veludo 
e aos regalos de fina marta; os ho- 
mens, vendo (|ue as arvores se vestem 
de folhas, tratam de despir os pale- 
tots. 

Vida nova. Encontram-se, á noi- 
te, nas praças ajardinadas grupos de 
pessoas aspirando o aroma suave das plantas; principia o con- 
sumo das bebidas refrigerantes; os chiiis de aba larga já dão 
a sua voltinha, de tarde, no passeio; ouve-se ao domingo o es- 
talar dos foguetes, tentação irresistivel dos amadores de touradas; 
o chapéu de chuva, fazendo-se branco, transforma-sc em chapéu 
de sol. 

O jubilo da natureza é communicativo. Já se não vêem pela 
rua figurões mal encarados, de gola levantada, mãos nas algi- 
beiras e nariz vermelho; agora, até os pobres andam animados 
e risonhos como (jue participando da alegria das cores que traja 
a natureza. 

Eis o magico poder da primavera, d 'esta formosa estação, 
que é o enlevo dos poetas namorados de tudo que é bello, das 
donzellas que adoram a mocidade e a alegria, das creanças que 
folgam com a liberdade dos campos, dos veliios (|ue procuram o 
calor do sol, de todos, emíim, que preferem a claridade á escuri- 
dão, a suavidade á aspereza, o azul ao pardo. 

O prim'eiro dia de festa que as senhoras de Lisboa tèem, no 
começo da es-tação amena, para ostentar as suas novas toilettes, é 
o da procissão de Nossa Senhora da Saúdo. 

Dia de festa lhe chamei, e de certa ninguém se rebellará 
contra o qualificativo. A procissão da Saúde é uma das funcções 
religiosas que actualmente se celebram na capital, com maior 
pompa e decoro. Este anno o apparato das ruas por onde passa 
o préstito, excedeu tudo que até agora se havia feito para solem- 
nisar a(iueile acontecimento. Eu nunca vi as ruas de Lisboa tão 
vistosamente adornadas. A rua Augusta, sobretudo, cora milha- 
res de bandeiras, de variadas cores, constantemente disparadas 
pelo soprar do vento; com a calçada coberta de areia c rosma- 
ninho; com as janellas ornadas de valiosas colchas, do coroas es- 
maltadas, de festões de buxo, de brancas estatuas, de capricho- 
sas jarras, de esphcras brilhantes, de painéis coloridos, de flores, 
de escudos, produzia maravilhoso efl"eitii, principalmente quando, 
"ao passar da procissão, nuvens de folhas de rosas toldavam os 
ares, e o som alegre das musicas regimontaes se fazia ouvir, com- 
pletando o esplendor do acto. 

Quasi todas as outras ruas fizeram igual acolhimento á ima- 
gem veneranda da Senhora da Saúde, que tanta devoção inspira 
ao povo de Lisboa, e cuja festa será talvez, em pouco, tãj luzida, 
como era anfigamente a do Corpo de Deus. 

Isto não quer dizer que virá tempo em que as senhoras 
ficarão penteadas, de véspera, para assistirem á procissão; mas 
o ([ue de certo ha de acontecer, se aos habitantes da rua do tra.n- 
sito não esmorecer o devoto enthusiasmo, será o dia de Nossa Se- 
nhora da Saúde tornar-se, para a cidade de Lisboa, um dos mais 
festivos e solemnes do anuo. 

Os cantores, ao contrario das andorinhas, fogem de nós 
quando se approxima o calor. O theatro de S. Carlos fechou no 
fim do março, e os diicttanti viram-se obrigados a procurar abrigo 
para as noites ainda frias, nas demais casas de espectáculo. 

O theatro de D. Maria n recebeu-os esplendidamente, offerc- 
cendd-lhes uma peça original de auctor estimado nos diversos ra- 
mos de litteratura, em (pie tem empregado o seu vigoroso talento- 

A representação de um drama portuguet de mérito liltera- 




© 
-as 






ARTES E LETRAS 



57 



rio, é, por estes malfadados tempos que vão correndo para as 
letras naeionaes, caso digno de entiiusiasticas demonstrações. Nós, 
que não temos para nos recrear no theatro senão composições 
bastardas, fundadas em costumes que nos são alheios, escriptas 
muitas vezes por auetorcs insignificantes, eivadas (piasi sempre de 
maus consellios c péssimos exemplos, devemos animar e auxiliar 
na luta os valorosos cscriptores que ousam pelejar contra esses ini- 
migos amados pelas emprezas, e até por ellas protegidos, inimigos 
terríveis que tèem sido e continuarão a ser, infelizmente, tão pre- 
judiciaes aos (|ue escrevem, como aos que escutam. 

Applaudi, pois, o sr. Pinheiro Cliagas, quando, pela primeira 
vez, se representou a Helena, c ainda d'a(|ui o appiaudo, porque 
é um dos escriptores, que, não obstante haver muitas vezes pee- 
cado, como nós todos, em auxiliar as emprezas com algumas ver- 
sões de [)eças estrangeiras, tem sempre em mente que é obrigação 
rigorosa dos que podem fazer mais do que traduzir, dotar o nosso 
theatro com trabalhos naeionaes. 

O novo drama do sr. Pinheiro Chagas é filiado n'uma escola 
nmito do agrado de todos, escola que tem por íim recrear e com- 
mover os espectadores, sem lhes cançar o espirito. 

São estas peças de singelo enredo, e recommendam-se mais 
ou menos, segundo a maior ou menor perfeição com que se dese- 
nhara os caracteres, com que se desenvolvem os diversos episódios, 
e com (jue é escripto o dialogo. 

Se porventura as composições d'este género são fáceis de em- 
prehender, porque o alicerce é — permitta-se-me a expressão — 
pouco dispendioso, por isso também oITcrecem grandes dilliculda- 
des para se levarem ao fim com interesse progressivo, porque o 
auctor, não podendo dispor dos elementos que fornecem os enre- 
dos complicados, tem por único recurso, para se desempenhar di- 
gnamente do seu encargo, as situações da palavra e a originalidade 
e graça dos incidentes. 

Eu entendo que o auctor que se determina a escrever uma 
peça, mas que, falto de forças para a pensar maduramente e en- 
redar como convém, appella para os episódios com que, no de- 
correr dos actos, tenciona esmaltar a sua obra, deve desistir do 
emprehcndimento, porque nunca o realisará. Parece-me que o 
auctor que não dispõe de engenho bastante para tecer um enredo 
dramático, também não o tem para crear os episódios necessários 
n'uma peça de singela intriga; portanto, ou ha de escrever uma 
sensaboria, porque o que toma por episodio dramático, não o é, 
ou ha de encontrar invenciveis obstáculos nas primeiras scenas do 
primeiro acto, porque não acha meio plausível de estirar o seu 
pouco substancial assumpto. 

Quero eu concluir daqui, se não são erróneas as minhas as- 
serções, que todos os que fazem peças sem enredo, mas engenho- 
samente desenvolvidas e adornadas com incidentes agradáveis e 
bem pensados, poderiam escrevôlas com enredo, se se entregas- 
sem a petisa-lo pacientemente, ou não quizessem seguir a escola 
especial a que pertencem taes composições. 

É o que succede á Helena, do sr. Pinheiro Chagas. Não tem 
emmaranhada intriga, porque o aui'tor não lh'a quiz fazer; mas 
possue os dotes exigidos em obras daquella natureza, sobresaíndo 
a tudo, couio se nota em quasi todas as obras do iliustrado escri- 
ptor, a linguagem, que é sempre animada e florida. 

A Helena deu-se pela primeira vez, em beneficio de um actor 
que reúne ao talento dramático, iierdado de seu pae, e ao estudo 
perseverante a que se tem voiado para progredir, caracter hon- 
rado e nobres sentimentos. Por isso, amigos e coníiecidos o toem 
no melhor conceito, aguardando com interesse as occasiões em 
que lhe podem ser agradáveis. 

Era para ver-se a ovação que o publico fez a Rosa júnior, 
durante a noite do seu beneficio. Ovação na sala e ovação no ca- 
marim. Chamadas, palmas, flores, versos, presentes, tudo, emfim, 
com <|ue se pôde obsequiar um artista de primeira ordem, tudo 
contribuiu para alindar e completar aquella enthusiastica festa. 

Eu, imitando o que se costuma dizer em dia do ânuos, de- 
sejo-llie que conte muitas em companhia de boas peças origiaaes, 
como a que escolheu d'esta vez. 

Os espectáculos forneceram este mez algum assumpto aos 
chronistas. Nos theatros de segunda ordem subiram á scena diver- 
sas peças originaes. 

U José do Telhado, drama romântico,' cujo principal defeito 



é não ter quasi nada da vida tristemente celebre do protagonista, 
representou-se no th(!atro do Príncipe Real, e foi bem acolhido 
peio publico ; igual sorte obteve, pela verdade com que está con- 
duzida, a comedia em um acto, original do sr. Alfredo Cal leva, 
dada no theatro da rua dos Condes — Uma noite em casa do sr. 
Palha, e bem assim — O Passeio Publico á noite, com coros e, lo- 
fjDS de vista, composição do sr. Luiz de Araújo, levada á scena do 
theatro do Principe Real, a qual, como todas as obras do popular 
auctor, tem certo sabor nacional, que disperla o interesse das pla- 
léas. 

Nas Amoreiras abriu-se um theatro novo, theatro feito com 
uma dúzia de tábuas, e onde representam actores de secundário 
merecimento. Não se julgue, porém, (|ue se passa mal um bocado 
de noite naquelle moderno e popular divertimento; pelo contrario, 
a sala está alegre e asseiada, e os actores representam com uma 
certa verre que disperta o riso franco e sincero do povo, riso que 
se communica ás pessoas de outras classes, que, por curiosidade 
e para variarem de distracção, procuram logar n'aquelles bancos, 
commodamente feitos para as receber. 

A peça com que o theatro abriu — A corte d'El-fíei Menau, 
original do sr. Baptista Machado, é apropriada ao palco onde se 
representa, e por isso foi applaudida pelos espectadores que téera 
enchido a sala. 

Em Madrid lia theatros n'aquelle género, mas que seguem 
outro systema de espectáculos. Durante a noite dão quatro ou 
cinco representações diversas, compondo-se cada uma de um acto 
de comedia e um baile. Custa a entrada para cada representação 
ura real (quarenta e cinco réis). O espectador que assiste a todas 
as representações da noite, tem direito a uma bebida. 

Estes theatros, cujos actores são muito medíocres e se apre- 
sentam em scena revelando a miséria que os opprime, embora 
representem muitas vezes de condes ou de banqueiros, tiram avul- 
tados interesses, porque estão cheios todas as noites, e tão cheios, 
que as pessoas que vão lá por simples curiosidade pouco se demo- 
ram, com receio de morrerem suíVocadas. 

Já que estou fallando de theatro, citarei um elegante volume 
publicado, ultimamente, pelo sr. Plantier, no qual se acham im- 
pressas três applaudidas comedias, devidas á penna do sr. Paulo 
Midosi, e que foram applaudidissimas em diversos theatros de 
Lisboa. Denoniinam-se: — A arte e o coração — O sr. Procopio 
Baeta está em ca.';a na noite de... — e A grande duqueza de Ge- 
rolstein no penúltimo andar. 

O publico que procurou vé-las inierpretadas pelos actores, 
ha de agora desejar aprecia-las postas em livro. Riu-se com ellas 
assentado no seu logar da platéa, alumiado pela brilhante luz do 
lustre, rodeado de centenares de pessoas; hoje pôde também rir, 
lendo-as com vagar, repotreado em commoda poltrona, sem teste- 
munhas, á luz do dia ou do candieiro do seu gabinete. 

Está publicado o segundo e ultimo volume do livro — Litte- 
ratura, musica e bellas artes, do sr. Andrade Ferreira. 

Fallei do primeiro tomo d'esta obra, enearecendo-a pela fi- 
níssima critica com que o auctor aprecia diversas producções litte- 
rarias e artísticas. 

O segundo volume confirma o que disse. Não esmorecem 
n'elie o interesse nem o merecimento do primeiro, e, como este, 
é auxílio e. recreio para quem escreve e falia dos assumptos desi- 
gnados no titulo da publicação. 

Concluirei por uma conta corrente. Não deve estraniiar-se 
que eu n'esta publicação introduza cálculos que só parecem pró- 
prios dos livros de Deve e Ha de Haver, quando destes cálculos 
reverta beneficio para as artes ou para as letras. 

Está neste caso a conta corrente annunciada. 

É de certo conhecida do leitor a bellissima estatua em már- 
more — Umci mulher desfolhando um malmequer, com que o 
sr. Simões de Almeida dotou as g.ilerias do estado, e que tem 
sido o enlevo dds visitantes da academia real das bellas artes. 

Pois é a ropeito d'este trabalho, e princi[ialmente do seu au- 
ctor, que se pôde fazei' o seguinte calculo, inteiramente favorável 
á determinação de mandar estudar ás aulas estrangeiras os artistas 
de verdadeiro talento. 



58 



AKTES E LETKAS 



O sr. Simões recebeu do estado : 

Subíidio em Paris, durante quatro annos e três 

mezes (|ne ali esteve a estudar 2:f)S0)3000 

Subsidio cm Roma, durante um anno e três mezes ItiOêOOi) 

Importância do três via},'ens d70?5000 

ImiJurtaucia de material para a estatua 3(50^000 

Sommaréis 3:830^000 

O estado recebeu do sr. Simões : 

A estatua^ í/í«a mulher desfolhando um malme- 

(juer, (|ue vale, pelo menos 2:500)í>000 

A estatua — O joven qrefjo, cujo valor approxinia- 

do é '...' '. 400r5000 

Três composições (un baixo relevo, trcs estatuas, 
dois ^irupos de composição e outros estudos, 
no valor approximudo de 800r5000 

Sommaréis 3.700 j^OOO 

Tendo pois o estado gasto 3:830f5000 réis, o auferido obras 
no valor de IJiTOOrSOOO réis, segue-se que ad<juiriu um bom ar- 
tista por 130i3000 réis. 

Haverá ainda quem ache caro? Talvez. 

RANGEL DE LIMA. 



O ILLllSTRE DOUTOR MiTIIElS 

pon 
ERCKMANN-CHATIUAN 



(Continuação) 

Mas, á moclida quo o sol se inclinava para o Falberg 
e que o ar fresco da noite se espalhava pelo valle, o so- 
cego o a serenidade renasciam no seu ospirito. Ergueu 
para o céo os olhos com amor, e os ixltimos raios do cre- 
púsculo illurainaram a sua cabeça inspirada. Dir-sc-ía 
que orava cm silencio: é quo Frantz Matheus scis- 
mava nas consequências incalculáveis do seu systema 
para a felicidade das raças futuras. Apenas a chegada de 
Martha pôde interromi)er o curso d'estas meditações 
sublimes. 

Ouviu a creada entrar na cozinha, guardar o enci- 
nho atrás da porta o pegar na loiça para arranjar a ceia. 

Todos estes ruídos que lhe oram tao familiares: os 
passos de Martha que elle era capaz de distinguir entre 
mil, os rumores da aldeia, o canto das ceifeiras que vol- 
tavam alegres para suas casas, as j ancilas pequenas o 
encobertas que succcssivamento se illumiijavam, tudo isto 
commovia o bom doutor; — quasi que não so atrevia a 
mover-so — com as niàos postas, a cabeça inclinada, es- 
cutava enternecido esses sons confusos. 

—Escuta, escuta estas vozes amigas, porque tal- 
vez nunca mais as oiças!... nunca mais! 

N'esse momento, Jlartha abriu a porta, sem ver o 
amo sentado, na sombra. 

— Está ahi, sr. doutor? 

— Entre, jlartha, entre, ' respondeu Matheus com 
uma voz_ tremula. 

— O senhor, como pôde estar assim ás escuras? ! Vou 
buscar luz. 



— NSo, não, prefiro falar-te assim. Preciso dizer-te... 
Vem cá... ouve. . 

Matheus não pôde dizer mais nada, o coração ba- 
tia-lhe com força. Pensava que se, quando contasse a sua 
resolução a Martha, esta lhe podesse ver a cara cllc sen- 
tiiúa uma grande pena. 

Martha comprchendcu que ia ouvir uma má noticia 
e sentiu as peruas vergarem-lhe. 

, — Quo tem, sr. doutor, está tremulo? 

— Não é nada, não é nada, minha boa, minha que- 
rida Martha. Assenta-te aqui, aqui ao pé do mim. Pre- 
ciso dizer-te... 

Mas a phrase começada expirou outra vez nos lá- 
bios do doutor. 

Momentos depois continuou; 

— Não me has de querer mal por isso, não? Não 
deves querer-mo mal por isto. 

A velha, cheia de anciedado, correu a buscar o can- 
dieiro. Quando voltou viu Matheus pallido como a morte. 

— Está por força doente, soflrc d'alguma coisa? 

Mas o illustre doutor tivera tempo de voltar a si. 
Uma idéa luminosa acabava de esclarecer o seu espirito. 

- — '«So chego a convencer Martha tudo se fará, o 
que, de resto, provará claramente a toda a humanidade 
quanto é irresistivel a eloquência de Frantz j\Iatheus. 

Forte com esta convicção, lovantou-se. 

— Martha, disse elle, olha bem para mim. 

— Estou olhando, sr. doutor, respondeu a velha es- 
tupefacta. 

— Ouve: tens diante de ti Frantz Matheus, doutor 
em'inodicina pela faculdade de Strasburgo, membro cor- 
res])ondentc do Instituto cirúrgico de Praga, e da Socie- 
dade real de sciencias de Goettingue, conselheiro ve- 
terinário de candelárias de Wurtzburgo, e outr'ora, por 
uma serio de circumstancias bem terríveis, cirurgiào- 
mór do bando de tíchinderhannes. 

N'este ponto o doutor fez uma pausa, para que 
Martlm podesse á vontade apreciar a magnificência dos 
seus titules; depois continuou: 

— Frantz Matheus, o único descobridor da famosa 
doutrina psychologico-anthropo-zoologica, que revolveu o 
mundo, consternou a ignorância, exasperou a inveja, e 
extasiou o universo! Fi-antz Matheus, depositário dos des- 
tinos da humanidade e da philosophia cosmologica fun- 
dada sobro os três reinos da natureza, vegetal, animal e 
humano ! Frantz Jlatheus que, ha quinze annos, se enerva 
n'um repouso cobarde e culpado, e cuja consciência in- 
dignada todos os dias o accusa de abandonar ao acaso 
dos systemas, aos sophismas das escolas, á influencia de- 
sastrosa dos preconceitos, o futm'o do género humano! 

Martha tremia, nunca vira seu amo n'um tal estado 
de excitação. 

Pela sua parte o illustre philosopho observava com 
prazer a estupefacção da criada. 

Proseguiu pois com uni acréscimo de eloquência: 

— Até quando, ó ]Matheus! pesará sobre a tua ca- 
beça esta responsabilidade? até quando esquecerás tu a 
missão sublime que te impõe o génio? Não ouves as vo- 
zes que te chamam? Nào sabes que para subir na escala 
dos seres é preciso soffrer, e que soffrer é merecer? A 
ignoi-ancia e o sophisma erguem-sc em vão contra ti! 
Caminha! Caminha, ó Matheus! semeia sobre a tua 
estrada os germens benéficos da anthro|K)-zoologia, e a 
tua gloria, immortal como a verdade, augmentanl de sé- 
culo para século, abrigando com a sua folliagem viri- 
dente as gerações futuras. E por tudo isto, Martha, que 
vaes desde já prejiarar-me a minha mala, e dizer a Nickel 
que concerte a sella de Bruno, ao qual darás uma ração 



ARTES E LETRAS 



59 



dobrada de aveia. Amanhã, antes que raie a aurora, par- 
tirei para ir pregar a minha doutrina ao universo. 

Ao ouvir esta conclusão, Martlia ia desmaiando. Pa- 
recia-lhe certo que seu amo endoidecera. 

— O que! sr. doutor, o que! pois quer partir, dei- 
xar-nos? Mas isso não ó possivel! Tão bom, tão carita- 
tivo, todos tão seus amigos na aldeia ! Isso não é possível ! 

— Assim ó preciso, i-espondeu estoicamente Ma- 
theus. É o meu dever. 

Martha calou-se o pareceu resignar-se. Poz, segundo 
o costume, a toalha sobre a mesa, a loiça, e serviu a ceia. 
Constava ella n'esse dia do gallinha e canja, com avelãs 
para sobremesa : Frantz Matheus, da familia dos roedores, 
gostava muito do avelãs. 

A creada multiplicava em volta d'clle toda a' espé- 
cie de seducções: trinchava a gallinha, ofterecia-lhe os 
bocados mais delicados, enchia-lhe o copo até a cima, e 
olhava-o com um ar melancólico, como que de quem o 
lamentava. 

Quando a ceia terminou, acompanhou Matheus até 
ao quarto, abriu a roupa da cama, e verificou se o bar- 
rete de dormir estava sobre o travesseiro. 

Tudo ahi era branco, assoiado, bem disposto : a ba- 
cia de porcelana sobre a commoda, dentro da bacia a 
garrafa com agua fresca, entre as duas janellas um es- 
pelho pequeno mas brilhante, a bibliotheca com a An- 
thropo-zoologia em dezcseis volumes, auetores latinos, e 
alguns livros do medicina cuidadosamente espanejados. 
Por toda a parte se reconheciam os cuidados meticulosos 
da vigilante creada. 

Depois de ter verificado que tudo se achava no seu 
logar, j\Iartha abriu a porta, o deu as boas noites a seu 
amo com uma voz tão tocante que o illustre philosopho 
se sentiu commovido até ao fundo d'alma. 

Teve vontade de abraçar a boa mulher e de lhe 
dizer : 

— Martha, minha boa Martha, não imaginas como 
Frantz Matheus adora a tua coragem e a tua resigna- 
ção : elle te annuncia os mais altos destinos no futuro. 

Isto quereria elle dizer-lhe; mas o receio de uma 
scena demasiado pathetica acalmou a sua profunda com- 
moção. Rccommendou-lhe apenas, outra vez, com instan- 
cia que levasse a ração de Bruno, e que o acordasse ao 
despontar do dia. 

A boa mulher afastou-se lentamente, e o illustre 
doutor Matheus, satisfeito com este primeiro tiúumpho, 
deitou-se na sua cama de pennas. 

Não pôde, durante muito tempo, adormecer. Reca- 
pitulou todos os successos d'ess6 dia memorável, e as su- 
blimes consequências do systema Anthropo-zoologico : 
as viagens, as evocações, as prosopopéas encadeavam-se 
no seu espirito luminoso, até que emfim as pálpebras 
cen-aram-se-lhe pouco a pouco e adormeceu profunda- 
mente 

III 

Quando Frantz Matheus abriu os olhos, apenas os 
raios do crepusclo começavam a esclarecer a aldeia de 
Graufthal. 

Acordara-o o canto matutino do gallo de Christian 
Bauer, seu visinho, ^precisamente no instante em que Só- 
crates o Pythagoras lhe collocavam sobre a cabeça co- 
Yoas immortaes. 

Este feliz presagio pol-o lf)go de bom humor. 

Vestiu os calções o abriu a janella para respirar o 
ar livre. 

A pouca distancia da porta da casa o mestrc-escola 



João Cláudio Wachtmann passeava d'um lado para o ou- 
tro, com um papel na mão, fazendo gestos verdadeira- 
mente extraordinários. 

O doutor olhou-o com espanto. João Cláudio vestira 
o seu fato domingueiro, trazia o grande chapéu de três 
bicos e os sapatos de fivelas de prata. 

— Mestre Cláudio, gritou-lhe elle, que faz por aqui 
tão cedo?! 

O mestrc-escola respondeu impassivcl e grave : 

— Leio um trecho de eloquência composto por mim ; 
o quer que sga caj)az de enternecer o coração d'uma 
pedra. 

O gesto, a attitude e o olhar imponente de João 
Cláudio perturbaram Frantz Matheus. Começou mesmo a 
sentir-se inquieto. 

— Senhor Cláudio, disse elle com uma voz commo- 
vida, não desconheço nem o seu talento nem a sua illus- 
tração: quer fazer-me o favor de me mostrar o seu dis- 
curso ? 

— Ha de ouvil-o, sr. doutor, ha de ouvil-o quando 
todos estiverem reunidos, respondeu Cláudio Wachtmann 
guardando o papel na algibeira do sou casaco. E perante 
todos que eu quero ler esta obra notável, fructo, por ura 
lado, dos meus estudos, e por outro da minha profunda 
dor. 

O mestre-escola tinha um oUiar augusto ao pronun- 
ciar estas palavras, e Frantz Matheus sentiu que empkl- 
lidecia. 

— Martha, Martha! murmurou elle, que fizeste? 
Não bastava teres feito vacillar a minha coragem com 
as tuas lagrimas, aproveitaste-te do meu somno para al- 
vorotar a aldeia contra mim ! 

E o illustre doutor Matheus não se enganava. A 
sua creada dera rebate da sua partida, e a noticia es- 
palhara-se por toda a povoação. 

Pouco depois appareceu Jorge Brener, o rachador. 
Lançou uma vista d'olhos para a casa do doutor e veiu 
sentar-se no banco do pedra ao pé da porta. Depois che- 
gou Christian, o malhador, cuja physionomia exprimia 
com energia a desolação em que se achava ; depois Katel 
Schmidt, a irmã do moleiro, depois emfim todo o logar — 
midhcres, creanças, velhos, como se se tratasse d'um enten-o. 

Matheus, occulto atraz das vidraças, estremecia 
vendo accumular-se a tempestade. Primeiro pensou em 
confundir aquella multidão ignorante, completamente 
falta das noções mais elementares sobre os três reinos 
da natureza, e de a obrigar a corar do seu egoismo, de- 
monsti'ando-lhe d'um modo evidente que Frantz Matheus 
se devia ao universo, e que um tão sublime génio não 
podia enterrar-se no Groufthal, sem commetter um crime 
horroroso do lesa-humanidadc. 

Todavia a sua natural prudência suscitou-lhe um 
projecto monos grandioso, mas mais ju^to e sagaz: con- 
sistia este em entrar de vagar na cozinha, da cozinha 
passar ás casas da granja, apparelhar Bruno, e safar-se 
pela porta trazeira. 

Este plano engenhoso fez sorrir o bom doutor. Ima- 
ginou desde logo a estupefacção de Cláudio julgando sur- 
prehender a lebre na toca, quando esta já fosse correndo 
pela serra. 

Calçou pois, immediatamente, as suas meias de lã 
novas e as botas grandes de viagem que tinham umas es- 
poras como rodas do i-elogio, envergou o casaco escuro, 
cobriu-se com um chapéu de grandes abas que lhe dava 
um ar raspeitavel e abriu a porta com a maior prudên- 
cia. . . Foi, atravessando a cozinha, que elle felizmente se 
lembrou da Anthropo-zoologia, o que o obrigou a voltar 
á pressa para levar o sábio repertório na algibeira. 



CO 



ARTES E LETKAS 



Bem custava ao illuHtro doutor não poder levar 
comsigo os dezoscis volumes in-quarto, mas tinha de me 
moria todos os desenvolvimentos, todas as notas, coro- 
lários, referencias, o innumeras observações inéditas, 
curiosos resultados dos seus novos estudos. 

Finalmente, depois d' um ultimo adeus á sua querida 
bíbliotheca, esgueirou-se a tremer até á cavallariça, como 
,86 fora um infeliz captivo que escapasse das màos dos 
infiéis. 

A luz do dia já ahi entrava atra vez dos vidros su- 
jos d'uma fresta. O doutor cobrou animo- ao ver Bruno. 

Bruno era um animal vigoroso, do pescoço espaçoso, 
peitos lai-gos, espessos, atarracado, solido de membros, 
emfim o digno c robusto sustentáculo d'um medico de al- 
deia. Era caso de cada 
qual dizer ao ver passar 
JVfatlieus sobre Bruno: 
«Eis o melhor animal e o 
maior philosopho do paiz». 

Frantz Matheus re- 
conheceu pelo ventre arre- 
dondado c Insidio do sou 
companheiro que cllc real- 
mente comera as duas me- 
didas de aveia, motivo 
porque, sem mais conside- 
rações, o enfreou, e o scl- 
lou com o albardão grande 
de coiro onde metteu o 
exemplar do seu repertó- 
rio, conduzindo o animal 
para o portão da sahida 
com uma pressa que bem 
mostrava o seu violento 
desejo de escapar á elo- 
quência de Cláudio Wa- 
chtmann. Chegado ahi ti- 
rou a tranca e abriu as 
portas de par em par. 

, Na sua frente acha- 
va se toda a gente da al- 
deia : primeiro João Cláu- 
dio Wachtmann com o 
Hubert ferreiro, á direita 
e Christian Bauer á es- 
querda. 

A cara venerável do 
bom doutor tornou-se roxa 
de colora: parecia que 
dos olhos, habitualmente 
serenos e meditativos, sa- 
hiam relâmpagos de indi- 
gnação. 

Montou rapidamente e gritou : 

— Deixem passar. 

Mas ninguém se mexeu, e Frantz cuidou mesmo 
ver um sorriso de escarneo em todas as physionomias,. 
como que desafiando-o a que tentasse partir. 

— Então, meus amigos, deixem-mc passar, repetiu 
o doutor com um ar menos decidido. Vou ver os meus 
doentes da serra. 

Esta mentira, que ora contraria aos seus hábitos, cus- 
tou-lhe a dizer: os aldeões que conheciam o seu caracter 
bom, nem mesmo o ouviram. 

— Já sabemos tudo, disso Catharina, fingindo que 
enxugava as lagrimas ao avental. Já sabemos tudo. A 
Martha dis.se-nos tudo: quer deixar a aldeia. 

Matheus ia responder, quando Jo?io Cláudio Wacht- 




Quando o gian Ic Anliooho 



mann com um gosto impoz silencio aos circumstantes. 
Vciu até defronte do doutor, fulminando-o com os 
seus olhares severos, tirou com gestos magestosos os 
óculos da caixa, escarranchou-os no seu grande nariz, 
desdobrou um papel com gravidade, lançou uma vista de 
olhos sobre os aldeãos como para lhes ordenar attençào, 
e emfim começou a ler, com uma accentuaçao solemne, 
fazendo as competentes pausas nos pontos e virgulas, o 
gesticulando como um pregador, a seguinte obra jirima : 
— Quando o grande Antiocho, imperador de Xinive 
o de Bíibylonia, concebeu o desígnio ambicioso de sair 
de seu reino para emprehender a conquista das cinco par- 
tes do mundo, com o fim peccaminoso de se cobrir do 
loiros, disso-lhe o seu amigo Cinéas : « Grande Antiocho, re- 
bento illustre de tantos 
reis, imperador de Baby- 
lonia, de Ninive e da Me- 
sojjotamia, terra situada 
entre o Tigre e o Euphra- 
tes, guerreiro magnânimo 
e invencivel, dignae-vos 
escutar as palavras tocan- 
tes do vosso amigo Cinéas, 
homem sensato, que se 
prostra a vossos pés, e que 
aú pôde dar- vos os me- 
lhores conselhos. O que é 
a gloria, ó grande An- 
tiocho ! o que é a glo- 
ria? !... Um fumo vão, si- 
milhante á sondjra espessa 
que nào tem corpo que a 
sustenha. A gloria ! oh ! 
a gloria ! o flagello da hu- 
manidade que tem em si 
a peste, a guerra, a fome, 
o opprobrio e a desolação ! 
Como, illustre Antiocho! 
quereis abandonar vossa 
mulher, augusta rainha, 
modelo do virtudes, e vos- 
sos filhos que se estorcem 
de desespero e se cobrem 
do cinzas? Como! Tereis 
a alma tao insensível e 
perversa que precipiteis no 
abysmo da desolação este 
povo que vos adora, es- 
tas mulheres núbeis, estes 
liomens maduros, estas 
creanças de peito e estes 
velhos com os cabellos 
tao brancos como as neves 
do monte Ida, de quem sois, até certo ponto, o pae, ouvi 
os seus brados! vede as suas lagrimas, sentis... 

Teve o orador de parar, porque começaram todos a 
chorar; os mulheres soluçavam com ruido, os homens 
davam grandes suspiros, as creanças gritavam, e por 
toda a casa echoavam gemidos. 

Entào Cláudio Wachtmann ergueu-se nos bicos dos 
pés, e moveu lentamente o seu grande nariz para a di- 
reita e para a esquerda, a fim de verificar se cada um 
fazia o seu dever. Viu que Jacques Purus, rapaz diabó- 
lico, se subira á escada da granja, onde, segurando pelo* 
rabo o gato maltez da velha Martha, o obrigava a soltar 
lúgubres mios. Wachtmann fcz-lhe um signal ameaçador 
com a mao, e o rapaz, recordando-se das ordens que re- 
cebera, começou para logo a lançar gritos tão agudos 



ARTES E LETRAS 



61 



turbilhão pelo moio 
sebes, dos ({uintaes, 



como os que deve produzir a trombeta do juizo final. 

Entào Cláudio Wachtmann seiitiu'c|ue triumphava, 
porque, na verdade, nunca se vira nada similhante. 

Na physionomia do Frantz Matlious estava pintada 
a maior eonsternaçào. Quando, porém, ouviu os termos 
com que Cinéas falava ao grande Antiocho, um surriso 
impcrceptivel lhe entreabriu a bocca. Avançou ainda um 
passo então, do modo que a cabeça de Bruno se achou 
í(')ra do circulo formado pela gente. 

Joào Cláudio ergeu o braço, o todos se calaram 
como por encanto. 

— Illustre doutor Matheus, disse elle, taes como os 
habitantes de Eabylonia . . . 

Mas logo Matheus, sem ouvir o fim da phrase, en- 
teiTOU as esporas em Bru- 
, que partiu como um 
das 
das 
searas, dos raattos, pi- 
sando as couves de lun, 
os nabos de outro, o trigo 
d'este, a aveia d'aquel- 
loutro, emfim como se 
verdadeiramente estivera 
possesso. 

Os gritos dos aldeões 
pierseguiam-no sem que 
elle voltasse sequer a ca- 
beça. Ia já atravessando 
os terrenos da communa. 

João Cláudio estava 
hirto, amarollo como uma 
vella de cera. Erguia os 
braços c clamava: 

— E não acabei ! e 
nro li a passagem em que 
Nabuchodonosor foi nui- 
dado, por causa do orgu- 
lho, em boi com pennas de 
águia. Ouvi pois Jacques ! 
Huberto! Christian ! 

Mas ninguém queria 
escutal-o; toda a gente 
da aldeia corria apoz Ma- 
theus ; ouviam-se gritos, 
urros, assobios, e os cães 
que corriam e que ladra- 
vam. Dir-se-ia o fim do 
mundo. 

Pouco depois viu-se 
o doutor subir a galope 
o Falberg. Atravessara o 
Zinsel a nado. Ia agar- 
rado ao pescoço de Bruno e as abas de seu grande ca- 
saco esvoaçavam-lho em volta pela rapidez com que ca- 
minhava. 

Emfim desappareceu por entre os ai'Voredos, e os 
aldeões ficaram a olhar-se embasbacadas. 

João Cláudio quiz então retomar o fio do seu bello 
discurso, mas todos lhe voltaram as costas, dizendo: 

— Para que serve o teu discurso, uma vez (|ue per- 
demos ,0 nosso bom doutor . . . Tivéssemos nós advinhado, 
que, a final, o melhor de tudo era tel-o segurado pelas 
rédeas. 

E eis como o illustre doutor Frantz Matheus, gra- 
ças á sua resolução heróica, á sua presença de espirito e 
aos nmsculos vigorosos de Bruno, conseguiu reconquistar 
a sua independência. 




E as abas do seu gianJe casaco csvoaçavam-lhe em volta pela rapidez com que caminhava 



IV 



Pôde imaginar-se a alegria de Matheus ao vcr-se 
escapo de João Cláudio e dos outros. Pouco tempo se 
ouviram ainda os gritos, cada vez mais afastados, da al- 
deia, substituídos emfim pelo completo silencio das flo- 
restas. 

Foi só então que o bom doutor, dando graças ao 
Deus de todas as coisas, deixou cair as rédeas sobre o 
pescoço de Bruno e subiu tranquillamente a encosta de 
Saverne. 

Já o sol ia alto quando chegou á estrada. Batia-lhe 
perpendicularmente sobre a cabeça um grande calor; o 
suor banhava-o. Bruno parava de bocadcj a bocado para 

arrancar as muitas de her- 
vas do caminho, mas o il- 
lustre philosopho não dava 
por coisa alguma. Estava- 
se já vendo no theatro dos 
seus triumphos, caminhan- 
do de cidade em cidade, 
de aldeia em aldeia, ful- 
minando os sophistas e se- 
meando pelo numdo os ger- 
mens benéficos da anthro- 
po-zoologia. 

— Frantz Matheus, 
tu és predestinado. Era pa- 
ra ti, para ti só, que esta- 
va guardada a gloria do 
fazer a felicidade do gene- 
1-0 humano, e de derramar 
n'este mundo a luz eterna. 
Olha para estas vastas ter- 
ras, para estas cidades, 
para estas granjas, para 
estas aldeias, para estas 
pobres casas: todos espe-' 
ram a tua vinda. Por to- 
da a parte se espera uma 
doutrina nova fundada so- 
bre os três reinos da na- 
tureza; por toda a jjarte 
os homens gemem na du- 
vida e na incerteza ! Digo- 
t'o Frantz, sem vaidade, 
mas sem falsa modéstia 
também: o Ser dos seres 
tem os olhos fitos em ti. 
Caminha ! caminha e o teu 
nome, egual aos de Pytlia- 
goras, de Moysés, de Con- 
fúcio e dos mais legislado- 
será repetido pelos echos até á consummação dos 



res 
séculos 

Era assim que o illustre doutor raciocinava na in- 
tima sinceridade da sua alma, descendo das alturas do 
Falberg, á sombra dos abetos, quando o tiraram de tão 
profundas meditações, exclamações, gargalhadas, e os 
sons incertos e fanhosos de uma rebeca. 

Estava então a duas léguas do Gr.aufthal, defronto 
da taberna de Lechefrite, onde os habitantes de St. Jecni 
des CJioux vão comer omeleta-s o fazer dançar as namo- 
radas. 

Havia precisamente n'esse momento muita gente na 
taberna; os ceifeiros em mangas de cainiza e as aldeãs 
dos arredores, do saias curtas, volteavam rápidas como o 
vento ao pé das parreiras, levantavam as pernas, batiam 



62 



AliTES E LETRAS 



08 pós, executavam passos a princij)io simples, depois 
mais com])licados c soltavam brados estridentes. 

Coucou Peter, o tocador, o famoso Coucou Peter, 
filho do Jokcl Peter, de Lutgelstein, a alef^ria do todas 
as vendas de cerveja, do todas as tabernas da Alsacia, 
— o bom, o jovial Coucou Peter, estava sentado n'uma 
pipa de cerveja, no meio, com a sua camiza grossa de 
linho que tinha botões de aço do tamanho do escudos de 
seis libras, bochechudo, corado, com um chapéu largo de 
feltro que tinha preza uma pcnna de gallo. Serrava com 
enthusiasmo uma antiga valsa da terra, o era d'elle só 
que se compunha toda a orchestra de Lèche.frite. 

Vinho, cíírveja, Ilirschcn-wasser corria pelas mesas, 
e beijos vigorosos, applicados sem mysterio, excitavam 
a alegria geral. 

Apezar de todos os cuidados que lhe davam o fu- 
turo do numdo o o da civilisação, Matheus não pôde dei- 
xar de admirar esto espectáculo tào alegro. Poz-se atraz 
do parreiral, e riu com vontade dos abraços e das scenas 
amorosas que via por entre as ramarias. 

De repente, porém, e emquanto elle se entregava a 
estas curiosas observações, o tocador saltou abaixo da 
pipa e começou a gritar: 

— Ah ! o doutor, o meu bom doutor, o doutor 
Frantz! Olá, deixem-no passar! deixem-me apresentar- 
Ihes o illustre inventor da peregrinação das almas e da 
transformação do homem cm batatas! 

Note-se que o illustre philosopho tivera a imprudên- 
cia de communicar a Coucou Peter as suas meditações 
psycologico-anthropo-zoologicas, e que este não era ho- 
mem que temesse comprometter o systema com allusões 
inconvenientes. 

(Continua.) B. 




DIIMSAS NOTICIAS 



=== aua Gllbaacòiaoc Ol-cilci, o òciilsot 
0(). c^ctiiaucío, (Jaiquou-óc Uowccc)ct á tcvusla 
olistteó c ívcltaò — a «outa oí óct pliínicaoa 



óoo a õiia «tolccção. 



== Auctorisou-nos o sr. dr. Pessanha Povoa, a considerarmos 
como ('ollalMiradoros da revista — Artes e Lethas — os seguintes 
escriploiTs hrazilciros : 

Pessanlia Povoa — D. Narciza Amália — GuimariXes Jiinior — 
Machado di' Assis — Barros Jmiior— Salvador de Mendonça (Rio de 
Janeiro)— Celso Magalhães (S. Paulo) — Francklin Távora (Heeife). 

São todos litteralos esclarecidos que nuiilo honram as puhlica- 
çOes cm que figuram ; damos por isso esla noticia com o mais sincero 
prazer. 

. É de certo curiosa a seguinte nota das quantias que figu- 
ram no ofçamento ingjez, applicadas para bellas artes— Restauração 



das pinturas de Hampton Court, SOO libras — Uma pintura a fresco, 
na sala central de Westminster, iiOO IJhras — Trabalhos para au- 
gmenlo da galeria nacional, fjO:0(X) — Museu industrial de Edim- 
bouig, 11:200 libras — Burlington House (academia real)— 47:000 
libras — Trabalhos no museu brilannico, 5:229 libras — Idem no 
Science and Art Department, 34:8!)C libras — Para o monumento de 
Wellington, 11:000 libras, como supplenieiito á quantia de 27:300 
libras que fora votada — Palácio das moedas, 80:(KX) libras — Para 
as collecções, cursos, etc; Gran-Bretanha: science and Art Department, 
2.'Í4:812 libras — Museu britannico, 97:601 libras — Galeria nacio- 
nal, 5:815 libras — Galeria nacional de retratos, 2:000 libras — Va- 
rias sociedades, 12:450 libras — Irlanda: galeria nacional, 2:380 li- 
bras—Academia real irlandeza, 1:877 libras. 

O sr. Alberto Pimentel publicou um esboço biographico do 



fallecido escriptor Júlio Diniz, auctor de vários romances portuguezcs 
de grande reputação. 

Nas galerias do Louvre figuram dois quadros novos. Um 



collocado entre dois Holbein, representa Cliristo dencido da cruz; 
é de Bogier van der Weyden. Kstá jjerfeitamente bem consei-vado 
e é magnifico. F"oi legado cm 1871 áquelle estabelecimento, por M. 
Monge Misbach. O outro, legado por M. Jules Vallé, em 187Ó, repre- 
senta S. Pedro neçiandu Christo, e é de Lenain. Está collocado por 
cima de um Cláudio Lorrain. 

O museu de Lille fez acquisição dos seguintes novos c im- 



portantes quadros: O esboceto de Poussin para a composição — O 
Tempo arrebatando a Verdade, dois soberbos retratos, por van der 
Helst, e um retrato de mulher do povo, por Frantz Hals. 

■ M. Mazerolles recebeu uma enconimenda de oito Irabaliios 



decorativos para um dos fnyers da nova Opera de Paris. Os trabalhos 
serão executados em tapeçaria dos Gobelins. 

O professor jubilado de pintura histórica, da academia real 



de bellas artes, António Manuel da Fonseca, foi nomeado sócio cor- 
respondente da academia de S. Fernando, de Madrid. 

O director da galeria nacional de Londres publicou o rela- 



tório de 1871. Vé-se por este documento, que, durante os cento e 
oitenta e sete dias em que a galeria esteve aberta ao publico, foi vi- 
sitada por 911:658 pessoas. Alem da collecçâo de sir Robert Peei, 
adquirida e collocada em 1871, foi comprado por 1:000 libras um 
quadro do Teniers, representando o castello de Perck, propriedade do 
artista. As duas telas da galeria mais frequentemente copiadas são 
o retraio de van der Ghenst, designado pelo nome de Gervatius, e a 
Innocencia, por Joshua Reynolds. 

Vendeu-se, em Vienna d'Austria, a famosa galeria Grell, 



onde liavia quadros de Ticiano, Veronez, Tintoreto, Palma, E. Dela- 
croix 8 Vernet. Produziu avultada somma. 

^== A viuva de Rossini perdeu a demanda que intentara contra 
M. Michotte, por haver dado a conhecer, em sociedades particulares, 
trechos inéditos do celebre compositor. 

=^^ No Maranhão publica-se, ha pouco, um jonial litterario in- 
titulado — O domingo. 

O sr. dr. José Tito Nabuco de Araújo, do Brazil, começou 



a publicar um romance intitulado — Zahra. 

■ Ensaio sobre o Beribéri no Brazil, 6 o nome de um importante 



livro dado á estampa na Bahia, pelo dr. José Francisco da Silva Lima. 
sr. Anthero Dias Lopes, brazileiro, publicou um novo li- 



vro de versos, intitulado — Harpa do meio dia. 

^^== Está publicada a segunda edição da- notável obra, escripla 
em francez pelo dr. Pedio Américo de Figueiredo e Mello — La science 
et les systémcs. 

=^= O dr. Luiz Francisco da Veiga deu á estampa uma poesia 
intitulada — Christo na cruz. 



=== Noticiaram os jornaes, por indicação do presidente da so- 
ciedade' geographica de Itália, (jue o conservador da bibliotheca real 
de Bruxellas ciescobriíi um manuscripto em doze ca])itulos, contendo 
a Relação wiginal aidoijrapha da descoberta da Austrália, pelo na- 
vegador portuguez, Manuel Godinho, que ali aportou em ItiOl, lendo 
por conseguinte sobre os hollandezes a prioridade de Ires ou quatro 
annos, o que tem sido injustamente desaltendido. É natural ()ue o go- 
verno portuguez solicite copia aulbentica de tão precioso documento 
para archivar em alguma das nossas bibliothecas. 



AKTES E LETRAS 



63 



— Sahiii á luz em Paris uni livro, contendo diversos artigos 
publicados na Gazette des beaux arts, por M. Charles (^lément, a res- 
l)eito de PrudMion. Acompanham esta excellente olira trinta gravuras, 
representando os principaes quadros do pintor, algumas gravuras e 
os seus mais importantes desenhos. 

A Sociedade, das bellas artes de Caen, organisa para este 



anno: 1.°, um concurso de deseidios dos discípulos das escolas que 
compõem a academia de Caen; 2.", uma exposição dos seus desenhos. 



que se eifectuará de 29 de julho a 12 de agosto. O concurso ó divi- 
dido em quatro secções: desenho arcliitectonico, desenho ornamental, 
desenho de figura e desenho decoratico. Ha recompensas, tanto para 
professores como para discípulos. 

. O sr. Simões, auctor da estatua — Uma mulher desfolhando 

mn walmeíitier, foi nomeado para substituir o sr. Victor Bastos na 
aula de csculplura, emquanto este artista se achar doente. 

. A exposição de Bordéus abriu em 30 do março. Concorre- 

ram duzentos oitenta e sete artistas, que mandaram quinhentas cin- 
coenta e oito obras. 

==^^ Para se fazer idéa de como, em Paris, o povo concorre aos 
museus, apresentamos a seguinte nota dos visitantes que foram a três 
d'elles, ii'um domingo: 

Louvre 52:500 pessoas 

Cluny 15:0<X) » 

Luxembourg 9:400 » 

= Parece que os beneméritos promotores da exposição portu- 
gueza, no Rio de Janeiro, assentaram no seguinte pjogramma: 

A exposição é dividida em quatro grandes secções, a saber: 

1." Matérias primas e suas transformações immediatas. 

2.' Machinas, utensílios, ferramentas de artes e oflicios, mate- 
rial para o oílicio prolissional, processos de producção, noticias te- 
chndlogicas. 

3." Productos das industrias agricola e manufactora ou fabril. 

4." Bellas artes. 

Ha dois jurys de admissão; ura em Lisboa, e outro no Porto. Ha 
também no Hio de Janeiro um jury de apreciação, dividido em sec- 
ções. Fazem ])arte do jui'y do Porto os membros da coumiissão au- 
xiliadora, e outras pessoas que a mesma commissão queira aggregar 
a si. O de Lisboa é constituído pelas direcções da associação promo- 
tora da industria fabril, da real associação de agi'icultura, da asso- 
ciação conunercial, e da sociedade promotora de bellas artes, assim 
como pelas pessoas que forem a estas direcções aggregadas. O jury 
do Porto promove a collecção e expedição de productos dos distri- 
ctos do Porto, Braga, Vianna, Vizeu, Villa Real e Bragança. O de Lis- 
boa encarrega-se dos outros districtos do continente e ilhas. A uma 
secção especial é incumbido o trabalho relativo ao ultramar, que deve 
ser feito de accordo com o director do museu dos productos ultra- 
marinos. Ao catalogo serve de introducção uma noticia relativa ao 
estado actual das nossas industrias. Os exposilores são convidados 
a declarar os preços dos productos, auctorisando a venda, mediante 
uma commissão era beneficio da erapreza. 

A erapreza toma a seu cai-go as despezas de collocação e exhi- 
bição dos productos. Alem d'isso compromette-se a crear agencias 
permanentes era todas as províncias do império, com amostras dos 
productos, tarifas dos preços, e fielmente informadas com relação ás 
condições da producção e venda, e a promover por todos os meios ao 
'seu alcance o desenvolvimento das nossas industiias. 

O programma não pôde ser mais prometiedor. Oxalá se realisem 
os bons desejos dos cavalheiros a quem se deve tão útil quão civili- 
sador pensaniento. 

— Gustavo Doré tem exposto, na rua Bayard n.° .'), Paris, o 
seu novo quadro — Christn saindo do pretório, o qual contém mais 
de quatrocentas liguras. O quadro vae para Londres no 1.° de maio. 

O reverendo J. F. Russell determinou franquear a impor- 



tante galeria de quadros antigos que possue, em Greenhithe, a todas 
as pessoas que lhe- dirijam o pedido em carta a Ormonde Terrace 
n." 4, Rcgenfs Park, Londres. Alguns jornaes francezes dizem que 
desejam ver seguir aquelle exemplo pelos seus compatriotas. 

O sr. Joaquim Prieto está restaurando o quadro da capella 



do Nossa Senhora das Almas do Encarnadouro, na serra do Bussaco. 
A composição representa S. Miguel e as almas, e é de medíocre me- 
recimento. 

Terminou a exposição cm Pau. dando excellenins resulta- 



dos para os ai-lístas. Dos quadros expostos venderam-se sessenta e 
dois, isto é, um por aead cinco. A media da venda elevou-se a 600 



fr. (108^000 réis) por quadro. O museu de Pau fez acquisição de três 

telas. 

I Morreu em Cracóvia, com 57 annos de idade, o conde Ale- 



xandre Przezdziecki, sábio archeologo polaco. Era auctor de uma obra 
em três volumes, muito estimada, sobre os Modelos da aríe na Polónia, 
na idade media. 

O jury que devia julgar os trabalhos mandados para o Salão 



d'este anno ein Paris, rejeitou, quasi por unanimidade, dois quadros 
de Courbet, ura dos quaes era datado da prisãf). Não foi por íalta de 
merecimento nas obras do grande artista, que o jury,»exhorbitando das 
suas attribuições, as rejeitou; foi apenas por espirito partidário e 
satisfação politica, do que resultou ser ojury censuratfo, a(ó pelos 
inimigos do artista, que tanto condemnavam um, por se apresentar 
tão cedo em publico, como o outro, por haver ido alem do que lhe 
permitte o regulamento, que é apenas julgar os trabalhos. 

Conta-se que, tendo Courbet ficado desgostoso por causa da re- 
jeição dos seus quadros, dissera a um amigo, que, para se distrahir, 
iria passar algura tempo a Roma; ao que o amigo lhe respondera: 

— JVão v"as ; deixa em socego a coiumna de Trajano. 

A exposição de Rouen resento-se dos males que ultima- 



inento perseguii'am a França. Poucas obras novas se apresentaram. 
Entre ellas, porém, citam-se de preferencia — O jardim frane.ez em 
Veneza, eireito de luar, quadro de M. Ziem — Uma moira de Tanrjer, 
por M. Landelle; e — A saída de Tréport, marinha de grande efTeito, 
por M. Th. Weber. Em esculntura, as obras mais noLaveis foram — 
um grupo de lutadores, por M. Etex, offerecido a M. Thiers, e dois 
meninos, um que chora, e outro que ri, assumpto já tratado por M. 
Itasse, i' agora novamente explorado com grande felicidade. 

Os jornaes italianos annunciaram, a todos os artistas, que. 



está aberto concurso, para uma estatua em mármore, um pouco maior 
que o natural, representando José Mazziui. A estatua é para substi- 
tuir o busto, collocado no Capitólio, em 17 de março ultimo. Fecha 
o concurso era 18 de junho d este anno. As provas devem ser envia- 
das com o nome e a residência do artista, á sala do circo romano, 81, 
rua da Cruz, em Roma. 

Morreu o celebre physico americano Samuel Morse, inven- 



tor do telegrapho eléctrico. Morse, cuja primeira profissão foi pintor, 
morreu com a idade de 81 annos. Nascera em 27 de abril de 17í)l, 
em Charlestown. Estudou no Yale-College, d'onde saiu era 1810 
para se dedicar á pintura. Em 1811 passou á Inglaterra, a fim de se 
aperfeiçoar na sua arte, apresentando vários quadros nas exposições da 
academia real. 

Trabalha-se em Bruges (França) para se crear um museu 



destinado a reunir as numerosas obras de mostres, dispersas pelos di- 
versos estabelecimentos muuicipaes. 

Descobriu-se ultimamente a serie composta dos doze após- 



tolos, do artista que assignava as suas obras com o monogranimo Á. Z. 
Da collecção apenas se conhecia o S. Thomé. 

O Diário do governo, de 10 do corrente mez, pablicou o 



programma para a adjudicação da empreza do theatro do Maria I[. 
O governo não concede subsidio, o não impõe escripturas. Na condi- 
ção o.", pei'mitte no theatro todos os géneros de manifestações dramá- 
ticas, com exclusão dos espectáculos indignos, e exhibição do feras e 
animaes engenhosos, o no § único d'osta condição, mantém o disposto 
no artigo 39.» <lo decreto do 4 outubro dt> 1860, quanto á preferencia 
das peças originaes, bom como o determinado no decreto, com força 
de lei, de 8 do julho de 1831, na parte que respeita aos direitos de 
auctor. 



O DurUmiton Club, de Londres, abriu exposição de uma 

famosa collecção de esmaltes de Limoges, e de uma serie de provas 
do Liber Studiorum de Turner. 

Cora o maior prazer transcrevemos da excellente folha — 



O Brazil, a seguinte noticia, pela qual se vê o apreço e estima era 
que são tidos os bons talentos artísticos, nas terras de Santa Cruz : 

— ^—^ — Os amigos e admiradores do distincto pintor nacional, Pedro 
Auierico, nomearam uma commissão, composta dos srs. Christiano 
Oltoni, Ladislau Netto, Salvador de Mendonça, António José da Ro- 
cha, Quintino Bocayuva e João de Almeida, a fim de que, por meio 
de uma subscripção popular, se promovesse uma manifestação de ap- 
plauso, aos notáveis dotes do inspirado auctor da Batalha de Campo 
Grande. 

Tão satisfactorios foram os resultados do trabalho da commissão, 
(devendo mencionar- so. ])rinci])alraonte, a valiosa cooperação da ])ro- 
vincia de Parahiba do Norte, berço do artista), que já se acha prompta 



64 



ARTES E LETRAS 



lima coroa de oiro, e sobra ainda quantia sufficientc, para ser rcsti- 
luiilo á liberdade aljrum captivo. 

Qui;r a entrega da eon^a, quer o acto de inamimissão, devem 
cilectuar-se no dia da abertura da exposieSo da aeadeiiiia das bellas 
artes, onde vac occupar iogar tionroso, a teia de Pedro Américo. 

A corda, que já esteve exposta, 6 feita nas ollieinas dos srs. Vi- 
ctor Resse filho & irmão. Quatro ramos de louro, atados como uma 
lita, sobre a (jual ficará a seguinte inscripção: Lembrança dos hrazi- 
teiros, a Prdio Amorim, sustcniam na parte anterior uma delirada 
palheta, donde pendem pincéis, lápis de desenho e o fento. As cores 
distrihuidas na palheta são representadas por varias pedras preciosas, 
como sejam, o brilhante, a esmeralda, a saphyra, o rubi, a turqueza, 
o topázio e a opala. Tanto a concepção, como a execução da coroa, 
honram o artista, qu(í a po; em obra. 

Todas estas manifestações em prol dos talenlos nacionaes s3o 
dignas de louvor e apreço, porque são os melhores estímulos para no- 
vas composições que virão engrandecer o nome brazileiro. 

- Começaram os reparos na igreja da Magdalena, em Paris. 



=== No dia 7 d'este njez fizeram-se em Paris exéquias por 
M."" Troyon, mãe do celebre paizagista d'este nome. M."'" Troyon 
fora lavadeira. O filho morreu deixando-a millionaria, o que nada 
influiu na sua vida simples e modesta. Depois de ter valido a mais 
de um infeliz, offereceu 12,000 francos (2:1(503000 réis) para se fun- 
dar um premio perpetuo, a favor do artista pobre, que mais se dis- 
tinguisse no género a que seu filho deveu tanta nomeada e tão consi- 
deráveis bens de fortuna. 

Suicidou-se em Paris o pintor Siméori Levis, disparando 



contra o peito a sua espingarda de caça. 

As sesstícs do congresso archeologico de França abrir-se- 



bão em Vendôme, a 18 de junho. Inaugurar-se-ha, por essa epocba, 
na mesn)a cidade, a estatua de Ponsard. Haverá também unia expo- 
sição retrospectiva de objectos de arte d'aiiuelle paiz. 

Os reparos de que carecem as estatuas do jardim das Tulhe- 



rias, lembraram a necessidade de inscrever no pedestal de cada uma. 
ao lado do nome do esculplor, o assumpto da obra. 



=^= Foram brilhantes os festejos realisados no Rio de Janeiro, 
por occasião da chegada de S. M. o imperador áquella capital. Entre 
as mais sumptuosas decorações que adornavam as ruas, notava-se 
o arco de triumpho, que a guarda nacional fez erguer, junto ao seu 
quartel general. Era de estylo dorico, e media cento e vinte palmos 
de altura. Quatro grandes columnas, separadas do corpo do arco, sus- 
tentavam estatuas de gesso, de formas athleticas, representando as 
quatro armas de que se compõe a guarda nacional — infanterin, ca- 
çadores, artilheria e cavallaria. Mais quatro estatuas, symbolisando 
os rios Amazonas, Tocautuis, S. Francisco e Prata, e vários trophéos 
de armas antigas, festões de flores e outros ornatos, completavam os 
adornos do famoso arco triumphal, que era illuminado, á noite, por 
dois mil bicos de gaz. 

Todo este trabalho foi delineado pelo notável architecto brazi- 
leiro, o commendador Bettencourt da Silva, que apenas recebeu como 
recompensa da sua obra a gloria de a ter concebido. As estatuas eram 
modeladas pelo escuiptor Chaves Pinheiro, e a pintura decorativa exe- 
cutada pelo artista Abreu Pereira. 

==== N'um dos muitos leilões de objectos de arte, que ha todos 
os dias, em Paris, os quadros do defunto pintor hespanhol Zamacois, 
irmão da celebre cantora de zarzuela, muito nossa conhecida, obtixe- 
rara os seguintes preços: 

A grude do parque — 810^000 réis. 

Caçador, costume do tempo de Luiz XIII — 7.18|l000 réis. 

Frade concertando a cabelleira — 648^000 réis. 

Conjurados, tábua pintada de ambos os lados — 720^000 réis. 

Durante a (/nHvi — l:()i4SO0O réis. 

A hora do «icoiiíro — l :080â000 réis. 

A entrada dos íoiVeiVos — 558|;(K)0 réis. 

Um confessionário — 1:0983(MX) réis. 

Interior da sala do thrnno, em Madrid — 738;5000 réis. 

Saltimbancos — JtioâtiOO réis. 

Um intendente — agnarella — 1303300 réis. 

Um bobo, agnarella— 189á(K)0 réis. 

Um arauto do tempo de Carlos VII. agnarella— 108^5000 réis. 

Alein dVstas obras, venderam-se outras, de diversos artistas, 
sendo as principai's : 

Marfiens de um rio (Rico) — 324)^000 réis. 

Azenha (Rico) — 180^0011 réis. 

A porta de uma ifireja iFor(nny) — 188^000 réis. 

Chi pateo (Fortunvl — 12Gâ0l)0 réis. 

Patco de gH//f)(/m.s"(Fortuny; — 11)8^000 réis. 

Haparíga brincando com um macaco (Madrazzo) — 540^000 róis. 



réis. 



Gvitarrista (Pille) — 8l,3fM)0 réis. 

Aldeão valenciano (Palmaroli) — 815000 réis. 

Tocador de bandolim, á penna (Fortuny) — 108^000 réis. 

Procissão em Ilespanha, esboceto a sépia (Fortuny) — ítOjSOOO 



Pescadores de rãs, aguarella (Fortuny) — 901000 réis. 
O total da venda foi de 10:560)5000 réis, calwndo, d'esta somma, 
12:560;5000 réis aos quadros de Zamacois. 

A academia das bellas arfes recebeu um quadro de género 



com (pie a presenteou o artista liespanhol, o sr. Lengo. Intitula-se- 
mau visinho, e representa alguns pombos comendo descuidosos, 
emquanto que os olhos attentos e brilhantes de um galo os vigia. 
É composição de muito merecimento. 

— O sr. Sousa e Vasconcellos concluiu um drama histórico, 

original em cinco actos, intitulado — ^1 dmjueza de Caminha. Tixemos 
occasião do ouvir ler esta composição do novel auctor, e pareceu-nos 
ser trabalho consciencioso e de muito mérito, porque satisfazendo ás 
principaes exigências do tbi-atro, não falta nunca á verdade histórica 
nem á verosimilhança da acção. Oxalá que o drama do sr. Vasconcel- 
los venha a ser representado em theatro digno d'elle e de modo cor- 
respondente ao seu valor litlerario. 

=== A venda das obras de arte o curiosidades, pertencentes ao 
celebre republicano Henrique Rochefort, produziu 4:()85á220 réis. 
O numero de quadros era ciiicoenta e cinco, e o dos olijectos curiosos 
trinta e um. Dos quadios, só tinham merecimento, um de Meyer, e 
outro de Van Goyen. 



== O director da exposição, que ha de verillcar-.se em 1873, 
em Vienna d'Austria, barão de Scbwartz, resolveu que os trabalhos 
de separação, preparação do terreno e arranjo dos jardins fosse á 
cusia dos expositores. Esta resolução não agradou aos commissarios 
estrangeiros, e parece que o sr. Thiers vae tratar o negocio diploma- 
ticamente. 

T^ady Walmsley doou á Inglaterra a bella galeria de retra- 



tos, coUigidos por seu esposo. 

== Abriu-se uma subscripção, em Nápoles, para se erigir um 
monumento a Mercadante. S. M. El-Rei Victor Manuel contribuiu com 
a somma de mil francos ( 18O;5O0O réis). 

No leilão de mobilia e objectos de arte, do sr. visconde do 



Arneiro, comprou o sr. José Gregório da Silva Barbosa dois excel- 
lentes quadros, do fallecido pintor Patrício. Um é a vista da Tapada 
real, composição de muito merecimento, que foi gravada polo auctor 
para o ultimo Jornal de bellas artes: o outro repres(^nta um rapaz 
conversando com uma rapariga, ao pé de uma fonle. 

Eram os melboi-es trabalhos artísticos que figuraram no leilão. 

: No incêndio que devorou a igreja de S. Thomás, em Ma- 



drid, perderam-se os frescos de Juan de Toledo, Monfero de Rojas e 
Camillo, muito apreciados pelos entendidos; alguns quadros de Her- 
reia, Leonardoni e Jordan, o as escuipturas de Carmona e Rubiali'S, 
que ornavam os retábulos. 




Í3Í — Impiiens* .Nacion-íL — 187:! 




© TOCABOE BE BEALEJO. 



fWUAORO DE KnaUS. 



ARTES E LETRAS 



65 



ARTES E LETRAS 




Lisboa — Maio de 1872 



LOED BYEON EM POETUGAL* 

Livro n— CINTRA— Cap. I 

Primeiras impressões — A Pena — A cova do beato Honó- 
rio — O palácio real — O paraíso de Vathek. 

uedemos á fi-esca sombra d'cs- 
ta luxuriante vegetação, que 
tem as raízes na agua, os 
troncos engrinaldados de he- 
ra, e a verde folhagem sem- 
pre humedecida pelas névoas 
delgadas que vem todas as ma- 
nhãs das bandas do mar com 
os acres perfumes da costa o 
os vívidos aromas das flores e 
fructos de Collares. 

Sentemo-nos na relva ou 
no lagedo, entre esse montão de fra- 
gas pittorescas, todas cobertas de 
musgo, o este riacho travesso que nos 
está aqui a borbulhar aos pés, caden- 
ciando com suavidade o pensamento. . . 

E abrindo sobre os joelhos o livro de 
lord Byron ^, deixemos a vista ora espaire- 
cer por todo esse gracioso dobar da serra 
e seus palácios e jardins, ora correr mara- 
vilhada as bellas estancias do poema. 

A sua primeira impressão é a de um indizivel en- 
canto. Depois, a phantasia exaltada por tão inopinado 
deslumbramento accende-lhe no peito a chamma divina, 
e nunca o cnthusiasmo, a admiração, as brilhantes sau- 
dações do genjo, romperam mais espontâneas e sublimes 
da sonorosa lyra dos poetas! 
' Vede como elle se exprime: 

XVIII 



Eis que em vario labyrintho de montes e valles surge o glo- 
rioso Éden de Cintra. Ai de mim t que penna ou que pincel lo- 
grará jamais dizer a metade sequer das bellezas d'estas vistas mais 



' Este artigo faz parte de um ensaio sobre a viagem de lord By- 
ron a Portugal, estudo inédito, do qual publicaremos também alguns 
excerptos relativos ao grandioso monumento de Mafra. 

^ Childe-Harold's Pilgrimagc. 




deslumbrantes que ess'outras em que falia o poeta que abriu ao 
mundo, tomado de espanto, as portas do El ysio? 

XIX 

Mosteiros suspensos de hórridos penedos; sobros seculares 
em volta de precipícios vestidos de musgo, que o ardor do sol 
crestou; arbustos gotejando á sombra no valle profundo; o azul 
suave de um mar tranc|uillo; áureos pomos em viridentes ramos; 
torrentes que se despenbam das cristas da serra; no alto as vinhas, 
cá em baixo as ramas dos salgueiros. . . Forma tudo um quadro 
maravilhoso de variada belleza! 

XX 

Trepae então de vagar a senda tortuosa e, voltando o rosto 
a miúdc, parae de quando em quando. Cresce a altura da fraga 
e as graças crescem ! Repousae depois no convento de Nossa Se- 
nhora da Pena, onde monges frugaes amostram aos estrangeiros 
as relíquias que possuem e narram lendas antigas.* Homens ím- 
pios foram castigados aqui. . . Mas, olhae! alem, naquella cova 
por largos annos viveu Honório, fazendo da terra um inferno na 
esperança de ganhar o ceu ! "* 

XXI 

Ao passo que subis, vede quantas cruzes toscas, aqui e alli, 
á beira do caminho! Não as tomeis por devotos testemunhos de 
piedade; — são fracas memorias de ferozes matadores. Sim, por 
toda a parte que a victíma, soltando um grito, derramou o sangue 
sob o ferro do assassino, alguém ha que levanta uma cruz de frá- 
gil ripa. E cheios d'ellas se encontram a cada passo bosques e 
valles n'esta terra sanguinária, em que as leis não bastam para 
proteger a vida^. 

XXII 

Nos recostos das collinas e no valle, palácios arruinados, 
que só flores silvestres cercam — antiga morada de reis — dão 
ainda a lembrar o passado esplendor. Alem se eleva o bello pa- 
lácio real. E ali também tu, Vathek! opulento inglez, fizeste 
outr'ora o teu paraízo, sem considerar que a riqueza, pródiga de 
voiuptuosidades, quando uma vez chega a realísar os prodígios de 
que é capaz, é para logo se dizer adeus a todo o socego! 

XXIII 

Aqui moraste, aqui, sob os píncaros sempre bellos d' esta 
serra, formaste sonhos de prazer. Hoje, porém, como coisa amal- 
diçoada dos homens, a tua vivenda encantadora está solitária como 

1 No Panorama de i838 foi esta passagem traduzida assim : 

Subis de espaço a tortuosa senda : 
Voltando a face, repousaes na encosta : 
Cresce a altura da fraga, e as graças crescem : 
No mosteiro da Pena então parando, 
Monges frugaes vos mostrarão relíquias, 
E estranhas lendas vos dirão de outr'ora. 

2 Tenho para mim que o fecho d'esta estancia é antes uma con- 
clusão, embora exagerada, do estado social do reino em 1809, que 
propriamente o resultado de uma impressão local, de uma impressão 
de Cintra. É evidente que as frágeis cruzes de ripa que orlam a beira 
do caminho, das quacs falia o poeta, em nenhuma maneira se podem 
referir, como aliás pretende a tradição, ás grandes cruzes de pedra, 
que indicam ao viajeiro o trilho do convénio dos Capuchinhos. Por 
outro lado, que fundamento ha para se poder suppor que esses indícios 
cbristãos de mortes naturaes ou violentas estivessem ali, jwr esse 
tempo, espalhados em tamanha quantidade que merecessem, real- 
mente, menção especial? A não se querer insinuar, á força, que lord 
Byron teve o propósito deliberado de mentir e diíTamar, quando é 
certo que os tristes successos da epocha lançam em grande parte um 
vivo clarão nas suas tremendas imprecações (veja-se o que sobre este 
ponto escrevi no Instituto de Coimbra, vol. xv. n.° 1): — a não se 
querer insinuar isso, digo, é licito pensar que n'aqiiella estancia os 
oito primeiros versos vem apenas para exprimir o fim do ultimo, que 
é um facto histórico. Esses versos são, digamos assim, a severa forma 
poética (e bera livremente poética!) em que se envolve, meia disfar- 
çada, meia nua, a verdade. 



Q6 



ARTES E LETllAS 



tu. Altas liervas parasitas a custo dão passap;('m para salas (Inser- 
tas f! pnrtaos abortos. Qiio lição ainda nwiilo jiara o lioiíicrn f|ne 
meditai Vaidarle dos praziTes, do mundo (juc o tempo inexoraví^i 
depressa mudou em ruinas I 




A Pcoa 

O convento da Senhora da Pena que lord Byron vi- 
sitou, não era, como todos sabem, o soberbo palácio que 
admirámos hoje. Abraça-se, confundc-so com elle, mas 
nno j)crdcu ])or isso o caracter raanuelirio da sua feição 
jirimitiva '. Anq)iiado, mudou apenas de destino. O oiro 
com 08 seus poderes, o a arte com a sua varinha de con- 
dão, transformaram tudo... A Íngreme vereda que levava 
ao convento é agora nma subida fácil o suave. Como por 
encanto, a estreita cerca dos frades tornon-so parque ex- 
tenso, mnbroso o perfumado, verdadeiramente digno da 
magnificência regia. E se o antigo mosteiro quasi se dos» 
conhece, hl ficou sempre a moia-idade no alto castcllo 
exalçado ás nuvens, na ponte levadiça c nos rastilhos, 
nas torres e nos fossos, nos bastiões o ameias, nos pa- 
tcos e vigias, no tijolo o nas ogivas, no caprichoso, no 
phantastico, no extravagante dos lavoi'es da pedra! 

É attribuido a Botaca, primeiro architccto de Belém, 
o risco do convento ^. O cstylo d'estas duas fabricas pri- 
morosas, posto que mais modesto na Pena, é commum a 
uma e outra, como o alto ^lensamento que as elevou. Não 
erra a tradição, por certo, quando refere ter sido fun- 
dado este convento por cl-rei D. Manuel com o fim de 
perpetuar a memoria das longas horas que ali passou 
n'a(iuelle penhasco, a sós com a esperança, cada vez mais 
anciosa o insoffrida, do ver apontar na extrema orla do 
oceano a desejada mensagem do descobrimento do Gama. 
Destinado o convento íI ordem de S. Jeronymo, não se 
esqueceu o venturoso monarcha de o contemplar com uma 
coroa ornada com grande esmeralda, o feita do primeii'0 
oiro que veiu do Oriente, a qual doou á Senhora. Mais 
dadivas de subido valor lhe fizeram também outros reis 
o rainhas. Coube, porém, a Sua Magestado El-Rei D. Fer- 
nando fazer-lhe a ultima, a maior de todas. Foi adqui- 
ri-lo, em 1838, para o tirar do abandono em que estava, 
para o amparar das ruinas, que não tardariam muito, 
para o livrar, emfim, do vandalismo que já agora é mau 
fado dos monumentos nacionacs! 

N'esse mesmo anno so fizeram os primeiros traba- 
lhos: — reparos no edifício e arranjo da cerca, — come- 
çando também a construcção da estrada nova, acabada 
em 1840. 

Em 1841 resolveu o Senhor D. Fernando transfor- 

• «Era o gonero manuelino, menos iirofuso; um mixto de go- 
tliico-normando e aralie, ailiança original com muito discernimento 
conservada na reedilicação e anipiiaçílo actual.» Sr. Mendes Leal — 
Mon. Nnr. pag. 84. 

* Idem— pag. 88. 



mar o antigo cenóbio cm palácio, e deu-so principio ás 
obras. 

Kecdificou-se a parte do edifício que os monges se 
tinham visto na necessidade de demolir, por causa dos 
estragos que fizera no convento o celebre terremoto do 
1755. Keparou-so a egreja c o retábulo, coUocando-so vi- 
dros de cores em todas as janellas do templo. 

Dcsappareceu a feia torre dos sinos que o leitor 
ainda podo ver na gravura do Panorama de 13 de ja- 
neiro de 1838. E em 1843 estava já concluida a formosa 
torre do relógio, que em cada uma do suas quatro faces 
tom mostrador, como a da imiversidade do Coimbra, e 
uma perfeita cinta do ameias, nas quaes estão esculpidas 
as cruzes de Christo, rematando em uma guarita nos qua- 
tro ângulos. Pelo mesmo tcm})0, ficou também acabada a 
elegante arcada e torrinlia que lho ficam próximas, alar- 
gando-se o adro da egreja. 

O claustro, reedificado na sua perfeição, é singular 
pela sua pequenez. 

Em 1844 principiou definitivamente a construcção 
do palácio. O illustre académico barão de Eschwegue, 
j;'i fallccido, foi quem traçou o plano geral. Os trabalhos, 
dirigidos por elle até á sua morte, continuaram depois, 
pelo mesmo plano. O terrapleno destinado para uma ba- 
teria do quatro poças e o caminho de ronda cm volta do 
cdificio foram feitos em 1847. 

A todos maravilha a architectura jihantastica do paço 
aeastellado da Pena, ha pouco concluido. Quem o ha visto 
que não admirasse o vestibiúo, cujo tecto, ao gosto ai'abe, 
imita stalactites naturaes, o portal que é uma co2)ia exa- 
cta da celebrada porta da justiça na Alhambi-a, o bello 
pórtico allegorico da creação do mundo, e tantos verda- 
deiros primores?* 

O gosto immenso que o rei cultor das artes tinha 
feito n'esta construcção, a qual, para em tudo ser 
boa, até veiu restaurar á óptima escola nacional de la- 
%Tantes de pedra, pode aquilatar-se ao justo não só pelos 
grossos cabedaes que despendeu com mão larga n'um mo- 
numento qiie verdadeiramente honra a nação, mas polo 
muito e bem que superintendeu nas obras, sendo incan- 
sável cm as promover c examinar de verão e no inverno, 
todo o anno, se pôde dizer, o por espaço de tantos annos ! 

Murpliy, visitando a Pena em 1789, achou no con- 
vento apenas quatro monges*. Byron, que lá esteve vinte 
annos depois, não nos diz quantos viu, mas talvez nem 
encontrasse tantos! Alguém me afiirmou que pouco an- 
tes da extincção das ordens religiosas não havia lá ne- 
nhum, e a quem queria ver a Pena ia mostrar-l]i'a um re- 
ligioso do convento de baixo (Trindade, freguezia de Santa 
Maria), onde estavam as chaves. 

A denominação do' convento — Nossa Senhora da 
Pena — induziu o poeta a um erro gravo: — tomar aquella 
expressão no sentido do castigo cm vez de jxinha «pois 
que da crista pcnhascosa em que assenta derivou a ori- 
gem o o nome^.» N'este falso supposto compoz o verso 
da estancia xx : «Homens Ímpios foram castigados aqui...» 
j\[ais tardo (em uma nota da 2." edição) confessou o erro, 
mas não emendou o texto. 

Lord Byron foi também aos Capuchinhos da Serra, 
e deixou memoria escripta da sua visita nos conceituosos 
versos que escreveu sobi-o a cova do beato Honório, que 



> Vej. Cintra Pinturesca e cit. Mon. Nac: Univ. Pitl. de 
181.3, n.°" 1 c 10, e de 18ii, n."' i:i e 21, ea excellente noticia do 
Palácio acnstellado da Pena em Cintra, estampada no Arch. Pitt. 
de 18.j7-18:í8. pag. .30:5 e 3G4. 



2 Mon. A'ac-.— pag. 81. 

3 Idem— pag. 77. 



AKTES E LETRAS 



67 



fica na cerca do convento. Diz a tradiyão- que n'cssa 
cova, Honório, austero anaclioreta, viveu em cheiro do 
santidade por espaço do trinta annos. Byron dedicou-lho 
dois versos, c o sr. visconde de Juromenha três linhas *. 
O palácio real inereceu-lhe apenas um verso. 



Cumpro advertir aos curiosos que querem rasão do 
tudo, como diz o nosso Fr. Luiz de Sousa, que nào po- 
demos achar quem nos quietasse com coisa fundada n'esta 
letra (est. xxii): , 

Nos recostos das coUinas c no vallc, palácios arruinados, 
que só (Idrps silvestres cercam, — antiga morada de reis — dão 
ainda a lembrar o passado esplendor. 



2 Dào que pensar os dois versos que traduzi assim : 

Alli também tu, Vathek! opulento inglez, fizeste nutr'ora o 
teu paraiso. . . 




Moiiscrrale 

Onde seria? 

Perguntei por isso a ultima vez que estive em Cintra, 
o ninguém me soube dar noticia da quinta que lord By- 
ron viu no verão de 1809. Quinta pensava eu que seria, 
por que nào ha paraiso sem arvores, flores e fructos, pelo 
menos. 

exemplar do Chilãe-Harold, que tinha então co- 
migo, em nada podia clucidar-me a este respeito. Era 
um modesto volume em oitavo, impresso em Edimburgo, 
com a letrinha tão empacada, e tão pobre de notas e es- 
clarecimentos que até a gente se envergonhava de ver 
reduzido áquclla mesquinha forma o grande espirito de 
tào illustre lord! 

Em taes apuros lembrou-me consultar uma traduc- 
ção, e entre as notas d'ella encontrei a seguinte: 

« Vathek é um dos livros que mais admirei na mi- 
nha mocidade. B.» ■* 

Bem podia esta nota ser um facho brilhantissimo 
(|ue afugentasse a escuridade d'esta passagem. Digo mais 
— nào só ])odia... devia-o sor. Porque nas obras de um 
poeta como Byron, o qual, no dizer de Moore, ao passo 

1 Cintra Pinturesca — pag. 87. 

2 Com o titulo — O Paraiso de Vathek em Cintra — foi já pu- 
blicada esta paile no Instituto, vol. xv, n." 3. 

3 CUCuvrcs completes de lord Byron, traduitos par Benjamin La- 
-roclie. l'i-eniière séiie, pag. 318. 



que alliava uma tào gi-andc parto da sua vida á sua 
poesia, dava também certa poesia á sua existência, é dif- 
ficil, ao desenrolar a teia dos seufe sentimentos, estremar 
o fictício do real. Jlas, por isso que a tarefa é árdua c 
que o traduetor devia esforçar-se por vencer todas as 
difficuldadcs da versão e da interpretação. Dizer, porém, 
que Vathek é um livro, calando o nomo de quem o com- 
poz, é perpetuar a incerteza dos leitores sobre o paraiso 
de que falia o texto. Ora ide hl saber agora quem foi o 
auetor de Vathek, para conhecer quem foi o dono da 
quinta, o depois inquirir da quinta pelo nome do dono! 

Isso nào obstante, prosegui em investigar esta cu- 
riosidade. Reconú a uma cxcellento edição dos poemas 
de Byron annotados por Walter Scott o Thomas Moore, 
além de outros escriptores de grande tomo. E, Deus lou- 
vado, que se estes também não dizem coisa alguma . . . 
entào é que nào ha remédio senão aguardar pela discus- 
são d'este gi-avissimo ponto n'algum congresso littei-ario. . . 

Descance, porém, o leitor, que tào avisados com- 
mcntadores deslindaram perfeitamente esta meada, tran- 
screvendo dos diários de lord Byron o grande louvor 
(jue elle fez do romance oriental de Vathek, c additan- 
do-lho um parenthesis, no qual se lê isto: 

«O cavalheiro William Beckford, filho do afamado 
aldcrman c herdeiro da sua immensa riqueza, publicou, 
na tenra idade de dezoito annos, as — Memorias dos gran- 
des pintores — c, no anno immediato, o romance assim elo- 
giado (Vathek). 

«Depois do representar llindon em varias legislatu- 
ras, foi induzido a fixar por algum tempo a sua residên- 
cia em Portugal, onde estava muito viva a jnemoria da 
sua magnificência no tempo da peregrinação de lord 
Byron.» 

O paraiso de Vathek vem a ser, portanto, a quinta 
de Beckfort, qne foi a do sitio do Monscrrate. Di-lo a 
voz constante o diz a verdade, confirmada até pelo eru- 
dito escriptor da Cintra Pinturesca (pag. 79, 80 o 81). 

Ainda ha «um quadro original feito a tempera no 
anno de 1808,» que foi reproduzido em gravura no Ar- 
chivo Fittoresco de 1864 (pag. 245), representando o pa- 
lácio antigo d'essa quinta celebre. O palácio actual é uma 
maravilha, como todos sabem, e pertence ao. sr. visconde 
do Monserratc, também filho da Gran-Bretanha. 

Por ultimo direi que entre os romances com que 
Rebello da Silva enriqueceu a litteratura pátria ha lun, 
— Lagrimas c Thesouros, — por ventura o mais caracteris- 
tico o bem acabado, cujo protagonista é William Beckford. 

ALBERTO TELLES. 




68 



ARTES E LETRAS 



O ILUSTRE DOITOR MATHEIS 



ERCKMANN-CHATRIAN 



(Continuação) 

— Doutor Matheus, doutor Matheus, disse elle, 
saindo debaixo da parreira, chega a propósito. — Viva a 
alegria! É o doutor Matheus! 

E atirando com o chapéu ao ar, deu um salto, pas- 
sou por cima da latada e segurou Bruno pelo freio. 

Ouviu-so um hurrah geral, porque todos conheciam 
o doutor Matheus. 

— Apeie-se, doutor. 

— Entre, doutor. 

— Um copo de vinho. 

— Qual! de Kirsche, 
de Kirschen-Vasser. 

— Por aqui, por aqui. 

— Por aqui, doutor. 

Um abraçava-o, ou- 
tro levava-o pelo braço, um 
outro pelas abas do casa- 
co ; c gritavam todos, e as 
mulheres riam, e o pobre 
Frantz já nem sabia onde 
tinha a cabeça. 

Levaram-lhe o ca- 
vallo para a sombra, dc- 
ram-lhe uma medida de 
aveia, e, minutos depois, 
estava o illustre philosopho 
sentado entre Petrus Ben- 
tz, que era guarda de caça, 
e Tobias Muller, que era 
o dono da taberna. Diante 
d'elle dançava Coucou Pc- 
ter, equiíibrando-se ora 
n'uma perna, ora n'outra, 
e tocando o celebre hopser 
de Lutzelstein com uma 
agilidade o um enthusias- 
mo admiráveis. 

— Aqui tem a minha 
caneca, gritava Tobias. 

— Sr. doutor, dizia a 
pequena Inzel, bebe por o 
meu copo, não é verdade? 

E como os beiços 
se lhe entreabrissem para 
sorrir, viu-se-lhe uns den- 
tes pequenos e brancos 
como a neve. ' 

— Sim, sim, minha filha, dizia Frantz, com todo o 
gosto. 

E 08 olhos brilhavam-lhe de felicidade. 

Batiam-lhe nos hombros. 

— Jíl almoçou, sr. doutor? 

— Não, meu amigo, ainda não. 

— Olá, Tobias, uma omeletta para o doutor. 

Momentos depois todos haviam retomado os seus le- 
gares. As raparigas encostavam os braços cheios e rosa- 
dos sobre as mesas, com as mãos entrelaçadas nas mãos 
dos namorados. Os pacs estavam defronte e as mães gor- 
das encostadas ás latadas. 

Coucou Pcter deu de novo o signal para a dança, e 
as valsas recomeçaram. 




A rapariga baixa os olhos c murmurava timitlamcnte : 



O maior desejo do illustre philosopho seria de co- 
meçar desde logo a pregar. Via, porém, que toda esta mo- 
cidade, assim entregue aos prazeres, estava pouco no caso 
de escutar a sua palavra com todo o recolhimento neces- 
sário. 

No intervallo que medeiou entre dois galopes Cou- 
cou Peter voltou a vasar o seu copo e disse: 

— Então, doutor Frantz, deve ter as pernas dor- 
mentes. Vamos, agarre-se-me a uma d'e8tas pequerruchas, 
e toca a dançar. Olhe além aquella, a Gredel, que tal? 
é má? Que olhos! Veja-me aquelles pés! Gredel, anda 
cá. Que me diz a isto, doutor? 

A rapariga approximara-se sorrindo. Estava encan- 
tadora com a sua touca preta e um espartilho de veludo 

bordado com lentejoilas 
brilhantes. 

— Que queres, Cou- 
cou? perguntou ella. 

— O que quero? o 
que quero?... repetiu o to- 
cador segurando-a pela 
barba, redonda, rosada, 
aveludada como um pe- 
cego. O que quero?... 
Ah ! se eu tivesse os meus 
vinte annos! Se nós ti- 
véssemos os nossos vinte 
annos, tio Matheus ! e ba- 
tendo com uma das mãos 
sobre o estômago, soltou 
um suspiro fundo e pro- 
longado. 

A rapariga baixava 
os olhos e murmurava ti- 
midamente : 

— Queres rir á mi- 
nha custa, Coucou, que- 
res rir. 

— O que eu queria 
era chorar e não rir, Gre- 
del. Se eu tivesse os meus 
vinte annos, então, sim, 
então é que eu me ria. 

Calou-se um momen- 
to, melancólico, depois 
voltando-se para Matheus, 
que corara até á raiz dos 
cabellos : 

— E verdade, dou- 
tor Frantz, onde_ diabo é 
a ida tão cedo? E preciso 
que tenha partido de ma- 
drugada para já aqui es- 
tar a estas horas; ainda não é meio dia. 

— Vou pregar a minha doutrina, respondeu Ma- 
theus com um ar simples e natural! 

— A sua doutrina! repetiu Coucou abrindo muito 
os olhos. A sua doutrina! 

E conservou-se por momentos espantado, boqui- 
aberto; mas de repente começou a rir. 

— Tem graça, sim, senhor, tem graça. Ah! ali! ah! 
que boa chalaça, doutor Frantz! 

— Que achas tu do cómico no que cu acabo de di- 
zer? Quantas vezes te disse eu no Graufth.al que cedo 
ou tarde havia de partir? Eis-me: nSo híj nada mais 
simples. 

— O que! pois, realmente, vae pregar d'esse modo?! 
— De certo. 



ARTES E LETRAS 



69 



— Vae annunciar a tal peregrinação das almas, c a 
transformação das plantas em animaes e dos animaes em 
homens? 

— Sim, meu amigo, vou ; e dizer muitas outras coi- 
sas nao menos notáveis que eu nunca tive tempo de te 
dizer. 

— Mas ao menos, oiça lá, vem bem provido, com 
a cinta bem fornecida? porque, emfim, é um elemento 
indispensável para quem quer pregar. 

— Que dizes ! exclamou Matheus cheio do uma nobre 
indignação. Nao trouxe nem ura Uard, nem um kreut- 
zer. Quem possue a verdade não precisa de outra riqueza. 

— Não precisa de outra riqueza! repetiu o tocador 
pasmado. Ora esta! ora esta! 

Os aldeãos haviam- 
se, a pouco e pouco, grupa- 
do em volta d'elles, e, sem 
que comprehendessem 
perfeitamente o que se 
dizia, viam pela physio- 
nomia de Coucou Peter 
que se passava o que 
quer que fosse de extra- 
ordinário. 

De repente o tocador 
começou a dançar, e a 
agitar o chapéu com ges- 
tos de alegria. 

— Estou decidido ! 
estou decidido ! também 
vou, co'os diabos. 

Depois, voltando-se 
para a gente espantada, 
exclamou : 

Olá ! Olhem todos 
para mim: eu sou o pro- 
pheta Coucou Peter. Ah! 
ah! ah! não esperavam 
por isto? pois nem eu. Eis 
o meu mestre. Nós vamos 
pregar ao universo. Eu 
vou na frente: Crin-crin! 
crin-crin! crin-crin! De- 
pois chegam as gentes e 
annuncia- se-lhes a pere- 
grinação das almas, o que 
lisongeia o publico, e logo : 
zum! zum! zum! houpda- 
sa! Come-se, bebe-se, dor- 
mc-se aqui, passcia-se por 
acolá... e houp! houp! 
hovpdasa! 

E saltava, acompa- _ 
nhava-se com a rebeca, ria — parecia doido 

— Tio Matheus, gritava ello, aqui me tem, parto 
comsigo — nimca mais o deixo. 

O illustre doutor não se atrevia a tomar a serio es- 
tas palavras. 

Coucou subiu á pipa, onde antes estivera, e clamou 
com voz forte: 

— Fazemos-vos saber, ó gentes, que, em vez de 
voarem para o céu, como nos antigos tempos, as almas 
dos homens e das mulheres entram no corpo dos animaes, 
o as dos animaes nas plantas, arvores ou legumes — isso 
depende do que tiverem feito — e que, em logar de ter- 
mos vindo a esto mundo por meio de Adão e Eva, como 
alguns dizem, fomos primeiro couves, rabãos, cenouras, 
peixes e outros animaes de duas ou quatro patas, o que. 



nSo imaginaria que estes dois homens extraordinários caminhavam á conquista do mundo 



de resto, é mais simples e mais fácil de acreditar. Foi 
Frantz Matheus, o illustre doutor meu mestre, que des- 
cobriu tudo isto. Quanto a vós muito nos obsequiareis se 
assim o annunciardes a vossos amigos e conhecidos. 

E Coucou Peter desceu da pipa, agitou o chapéo e 
veiu collocar-so cheio de gravidade ao lado de Matheus, 
gritando : 

— Mestre, deixo tudo para o seguir. 

Matheus, enternecido pelo vinho branco, começou a 
chorar. 

— Coucou Peter, dizia elle, proclamo-te, á face do 
céo, como o nosso primeiro discípulo! Tu serás a pri- 
meira pedra do novo edifício fundado nos três reinos da 
natureza. As tuas palavras echoaram no meu coração. 

Reconheço-te digno de 
consagrar a tua vida a 
uma tão nobre causa! 

E beijou-o sensibili- 
sado. 

Os aldeãos estavam 
maravilhados de um simi- 
Ihante espectáculo. 

Quando viram o to- 
cador guardar a rebeca 
no bornal, um murmúrio 
se ouviu de todos os lados, 
e, se não fora o respeito que 
tinham a Frantz Matheus, 
alguma coisa mais teria 
succedido. 

Mas o illustre philo- 
soplio levantou-se e disse- 
Ihes: 

— Meus filhos, pas- 
sámos juntos muitos an- 
nos. Vi crescer a maior 
parte e outros foram meus 
amigos. Sabem que fiz por 
todos o que pude. Nunca 
poupei o meu trabalho 
para os servir, nem os 
meus cuidados, nem a pe- 
quena fortuna que junta- 
ram os esforços de meu 
pae. Hoje, porém, o uni- 
verso reclama-me, e eu 
devo-me á humanidade. 
Separemo-nos como ami- 
gos, e pensem alguma vez 
em Frantz Matheus, que 
tanto lhes quiz. . . 

Pronunciando estas 
palavras as lagrimas aba- 
faram-lhe a voz. Foi preciso, pela sua commoção, leval-o 
até jixnto do cavallo. 

Todos choraram este excellente medico, pae dos po- 
bres e consolador dos infelizes. 

Viram-no afastar a passo, de vagar, com a cabeça 
inclinada. Ninguém soltava uma palavra, para não au- 
gmentar a sua dor, e todos sentiam que acabavam de 
sofFrer uma grande perda.' 

Coucou Peter com o chapéu á banda, o bornal a 
tiracolo, seguia-o empavezado e orgulhoso. De bocado a 
bocado voltava-so e parecia dizer: 

— Agora rio-me eu de vocês. Sou propheta! o pro- 
pheta Coucou Peter! houp! houp! houpsada! 




70 



AKTEtí E LETRAS 



Quem visse Frantz Matlicus o o seu discípulo clcs- 
cerom pelo carreiro estreito de Steinbach, por entre os 
.velhos abetos, nao imaí,ãnaria que estes dois homens ex- 
traordinários caminhavam á conquista do mundo. Não 
que o illustre philosopho, montado com gravidade sobre 
Bruno, com a cabeça elevada, as pernas pendentes, não 
tivesse o quer que fosse de magestoso; mas é que Cou- 
cou Pcter não se joarceia de modo algum com um ver- 
dadeiro philosopho; — uma physionomia jovial, um ab- 
dómen dilatado c a grande penna do gallo no chapéu, 
faziam-no antes parecer um alegre patusco, d'estes que 
possuem espantosos preconceitos a favor da boa vida, e 
que não pensam nas consequências desastrosas dos seus 
appetites. 

Esta observação inspirou ponderosas reflexões a Ma- 
theus. Pensou, porém, que fazendo-lhe seguir á risca um 
regimen exclusivamente psychologico-anthropo-zoologico, 
obrigando-o a ser prudente, moderado, sóbrio, penetran- 
do-o, emfim, dos principios tocantes da sua doutrina, con- 
seguiria fazer-lhe adquirir uma physionomia mais con- 
veniente. 

Coucou Peter é que considerava o caso sob outro 
ponto de vista: 

— Como elles vão ficar pasmados de me verem pro- 
pheta ! Ah ! ah ! ah ! que grande ratão que é o Coucou Pe- 
ter! Sempre o mesmo! (Jndo diabo irá elle pregar a tal 
transformação dos corpos e a peregrinação das almas í* 
Sempre queria que m'o dissessem. Até ha de fallar no 
caso o Almanach de Strasburgo para o anno. Verão ! Po- 
derão vcr-me n'uma das folhas com a minha rcibeca, e j>or 
baixo em grandes leti-as: «Coucou Peter, fillio de Yo- 
kel, Peter de Lutzelstcin, partindo para converter o uni- 
verso. » Ah ! ah ! ah ! que ratão de propheta ! . . . Vãos co- 
mer por quatro, beber por seis, c pregar a abstinência 
aos homens, hein? E quem sabe? talvez nos dias da tua 
velhice possas tornar-te grande rabino da peregrinação 
das almas, o dormirás então sobre um colchão de pen- 
nas, terás umas barbas longas e brancas, e usarás ocidos 
fixos. O patife do Cocou Peter!... Nunca pensei que ar- 
ranjasse um logar tão bom! 

E todavia bem a seu pezar ainda algumas duvidas 
o inquietavam. Achava estas bellas esperanças um tanto 
incertas ; previa jil difficuldades o concebia vagas appre- 
hensões. 

— Olhe lá, mestre, estou ha boa meia hora com 
vontade de dar á lingua. Desejava fazer-lhe umas per- 
guntas. 

— Falia, falia, meu rapaz, respondeu Frantz. Acaso 
a duvida começará já a abalar a tua nobre resolução? 

— Ora ahi é que bate o ponto. Está bem certo, bc;n 
seguro da sua peregrinação das almas, mestre? Porque 
emfim, devo dizel-o com franqueza, nao tenho a menor 
idéa de haver vivido antes de vir ao mundo. . . 

— Se estou certo ! ? . . . Que dizes, homem ! exclamou 
Matheus. Julgas então, desgraçado, que eu quizesse 
enganar o mundo, lançar a desolação no seio das fami- 
lias, a perturbação nas cidades, a desordem nas con- 
sciências?!... 

— Não digo isso, sr. doutor. . . antes, pelo contrario. . . 
eu estou completamente convencido da grande doutrina, 
mas penso que haverá outros que não quererão acre- 
dital-a, o que dirão : « Que diabo quer elle dizer com 
as tacs almas que entram nos corpos dos animaes?!.., 
nem que nós fossemos para ahi umas bestas! hein? Al- 
mas que viajam! almas que sobem c descem na escala 
dos soros! almas que toem quatro pés e almas que des- 



abrocham em folhagem! Ah! ah! ah! este homem estií 
doido». Não sou eu que digo isto, mestre... são os ou- 
tros... percebe? Eu creio em tudo, é claro. Ora, mas 
vamos a saber o que lhes responderia, mestre? 

— O que responderia? perguntou Frantz cheio de 
indignação. 

— Ora isso é que é: ver o que se ha de responder 
a esses ímpios... a esses nadas. 

(Cuutinua.) B» 



EIPOSIM DA SOCI[DID[ PfiOiíORA DAS BELLAS ARÍLS 



ESTA a nona Exposi(;ão 
cresta sociedade, que, de 
anno para anno, tem ido 
adquirindo novas syinpa- 
thias, o que se mostra 
pelo seu numero de sócios 
s e ni pre crescente . Em 
(|uasi todas as cidades do 
Jirazil tem encontrado co- 
adjuvação, sendo acolliido 
Cl (111 euthusiasmo o pensa- 
iniintu (jue presidiu á sua 
fundação. 

Supérfluo 6 encare- 
cer este pensamento, (jue 
abrange verdadeiro alcan- 
ce artístico e utilidade pratica. As Ex- 
posições da Sociedade Promotora são 
simultaneamente um certamen de todos 
os ramos das artes do desenho, c uni 
mercado. A nobre emulação, fácil em 
ateiar-se entre os talentos incontestá- 
veis, e que encaminha aos grandes re- 
sultados do estudo, produz as obras 
apreciáveis que asseguram os progres- 
s(js da pintura e da esculplura; e o pu- 
blico, visitando estes legares, onde o 
génio das artes ou a a[)plicação perse- 
verante consegnem reunir muito traba- 
lho que honra o paiz, alcança noções 
(pie não possuía: o sentimento artístico 
diflundese e aperfeiçoa-se, e o pintor, 
o escuiptor, o gravador, o estatuário, 
n'uma palavra, todo o cultor de bellas artes encontra, pouco apouco, 
e cada vez mais numeroso e esclarecido, um mercado certo e fácil 
para os esforços do seu engenho. 

Tal é o intuito, — nobre e fecundo intuito, — da Sociedade 
Promotora, e taes tèem sido e serão cada vez mais os seus resul- 
tados na esphera pratica do movimento artístico de Portugal. 
Antes de começar a no.ssa analyse, uma observação. 
A comiiiissão que superintendeu nos trabalhos da Exposição, 
julgou mellior collocar os (juadros pela ordem symelrica, e eu 
penso que c esse o peíor systema (|ue poderia adoptar. Nada mais 
confuso e diUicil para o exame das obras expostas. Tora ás vezes 
de se percorrer a sala inteira, primeiro que se encontrem os tra- 
balhos de um ou outro expositor. O methodo mais racional, c 
que, por isso, mais auxilia o exame do observador intelligente, é 
a collocação das obras de cada expositor sobre si. Não só com fa- 
cilidade se vécm logo os trabalhos todos que um artista expoz, 
mas (jual os géneros que ensaiou, as suas diversas aptidões; e em 
vista d'este exame comparativo, torna-sc facílimo o até agradavfel 
conhecer os resultados dus estudos feitos, para onde tendem os 
progressos, qual é o género que evidenceia mais incontestavelmente 
as forças do artista, e onde se pronuncia a sua individualidade. 

Tudo i?to é quasi impossível de conseguir com os cjuadros 
dispersos, c afogados entre trabalhos de auctores dííTerentes, que 
não poucas vezos lhes contrariam a indole e obscurecem o mere- 
cimento. 

Feito este reparo comecemos as nossas observações. 




ARTES E LETRAS 



71 



Qual é, porém, a importância da presente Exposição? 

Sentimos dizcl-o: a Exposirão, esto anno, o das menos signi- 
ficativas que tem edectuado a Sociedade. A physionomia fierai é 
pobre e pouco variada. Predominam os retratos, essa immiliiação, 
esse recurso extremo do pincel inlelligente, quando se não erjíue 
ás proporções illustres, illuminadas pelos rasgos assombrosos dos 
Ticiaiios, dos Holbeins e Van-Dycks, e mais proximamente pelo 
talento elegante de Tliomaz Lawrence, Madrazo e Grant, que en- 
riqueceram os salões ostentosos e galerias de família de uma parte 
da Europa com as suas obras apreciáveis. Os quadros de género e 
natureza morta superabundam, symptoma sempre evidente de de- 
cadência, de fallencia de forças creadoras, e desanimo para o em- 
prehendimento de obras que, unicamente, podem perpetuar a arte 
c darem d'ella a sua significação luminosa, porque a copia exacta 
e os trabalhos do imitação são um testenumbo de perseverante 
paciência, mas jamais prova de imaginação viva e potencias crea- 
doras, essência da verdadeira vocação para as artes em geral. 

Pertencem á esculptura, talvez, as manifestações mais pro- 
mettedoras na actuai Exposição, e também á sua irmã mais imme- 
diata, na ordem do valor positivo dos diversos ramos da arte, á 
arcbitoctura. Os trabalhos dos srs. Simões, Nunes, Rosado, e Gas- 
par, são dignos de um certamen artístico, como deve ser conside- 
rada a exposição, e dão já a certeza da valia do talento e da ap- 
plicação dos auctores. O Orphão, do sr. Simões, possue uma 
cabeça cheia de sentimento, e se, examinado por todos os seus as- 
pectos, não apresenta sempre linhas irreprebensiveis, é, em geral, 
bem composto e bem modelado. Ha ali muito estudo do natural, 
realçado pelo pensamento pathetico que o inspirou. 

O Demócrito, estatua colossal, do sr. Nunes, faz honra aos 
seus estudos, e se esses estudos, como nos asseveram, pouco 
tem passado de dois annos, torna-se mais do que uma maravilha 
o resultado de tantos esforços. É surprebendente o que se ob- 
serva. 

Está longe, comtudo, de sor isento de defeitos, porque o sr. 
Nunes abalançou-se a muito. Dois annos não perfazem ás vezes 
nem os primeiros passos do tirocínio do estatuário. Mais d'esse 
espaço levam muitos a copiar do gesso e do nú, sem erguerem 
vistas para comniettimentos tão audazes. 

Vé-se que o sr. Nunes seguiu o typo da estatuária grega, e 
isso o desculpa da arguição que lhe ouvimos fazer da pequenez da 
cabeça da sua estatua cm relação ao agigantado da corpulência. 
Não é defeito; é o resultado de um systeraa. O maior defeito da 
estatua subsiste no desleixo e linhas desgraciosas da perna direita, 
e principalmente no antagonismo do vigor da musculatura das es- 
páduas, peitos e braços, que indicam o homem na força da vida, 
com a flacidez de toda a região epigastriea. O antebraço esquerdo 
é também falho de estudo anatómico, sobretudo junto do pulso. 

É realmente graciosa a O varina, do sr. Rosado I Soube reu- 
nir a verdade e elegância do typo popular a um agradável ac- 
cordo de linhas artísticas. 

No sr. Gaspar antcvè-se um architecto : a seriedade de seus 
estudos, o Projecto de um palácio de justiça, dá-nos direito a nu- 
trir esta esperança. 

Porém o sr. Simões ainda figura com um trabalho, um dos 
mais [lerfeitos e recommendaveis d'esta Exposição: falíamos das 
gravuras em pedras (inas, em agatlias-onyx. Os seus dois cama- 
feus n'um broclie e n'um alfinete de peito resumem um primor 
de delicadeza. Fazem lembrar as boas obras florentinas d'este 
género. 

Voltemo-nos comtudo para a pintura, e sigamos a ordem do 
catalogo. 

O sr. Annunciação expoz três quadros de anímaes, quasi 
tudo carneiros e ovelhas. São formosos estudos. Nada ha de mais 
bem estudado do natural. Se houvesse de pôr algum defeito no 
modo por que este apreciável artista interpreta os seus modelos, 
seria talvez no excesso de intenção moral, no cunho de instinctos 
apuradissimos que ellc imprime nos irracionaes reproduzidos pelo 
seu magico pincel. O carneiro do (|uadro do centro é uma caijeça 
que aitesta o que notámos. Verdade é que o sr. Annunciação 
encontra, entre outras, uma poderosa auctoiidade em seu favor; 
encontra o pintor inglez Land.seer; mas, se existe género de pin- 
tura em que a interpretação real seja a uni^a acceitavel, é de certo 
este. A escola ingleza, ou espiritualista, leva a exagerações que 
a boa critica de certo não pôde acceilar. Rosa Ronlieur, Rracas- 
sat, Troyon, Decamps, consideram o animal debaixo do ponto de 



vista unicamente pintoresco; e eííectivamente, expressar a exacti- 
dão, anatómica e distinctivos de raça deve ser o empenho do ani- 
malista. Querer imprimir a alma, pensamento, poesia e paixão n'um 
(•avalio, n'um boi ou num carneiro, é de alguma arte querer en- 
volver os [iroccssos da pintura em questões philosophicas de que 
deve andar distante. 

Diga-se tudo a respeito do illustre professor de paizagem, 
porque as suas forças poaem com todo o rigor da critica. Parece- 
nos (]ue o artista envolveu em accessorios demasiados o seu tra- 
balho principal. Ha muita verdura em volta d'aquellas cabeças; e 
se o vigor do seu toque, e um bem entendido efTeito de claro es- 
curo as não realçasse, ou, para melhor dizer, se a espécie de plás- 
tica d'aquclle pôr de tinta liies não desse quasi vulto e extrema na- 
turalidade, os quadros soffreriam, porque o brilho excessivo dos 
verdes mataria tudo o mais. Apreciados, comtudo, absolutamente, 
estes trabalhos do eminente artista possuem as qualidades que ha 
muito engrandecem o seu pincel; possuem desenho, côr, delica- 
deza de to(|ue, consistência de empaste, força de claro escuro,— at- 
tributos do verdadeiro pintor. 

O sr. Barradas nos seus Recreios nacionaes (um interior 
nue representa uma tasca com os freguezes agrupados), apresenta, 
do certo, progresso. No entanto importa dizer a verdade. O qua- 
drinlio está bem composto; possue agradável effeito de claro es- 
curo, mas as figuras como os typos populares, estão pouco estuda- 
das: são hanaes e não verdadeiramente características. N'este gé- 
nero, depois de estudar Hogarth e Wilkie, o verdadeiro é retra- 
tar do natural. As suas Recordações de Cadiz tem elTeito de per- 
spectiva, posto que o tom do luar seja excessivamente azul. 

Que formoso trabalho o retrato da ex.""* sr.' E. M. A. Sá, 
do sr. Ghavesl Os progressos d'este artista são evidentes, e recla- 
mam um justo apreço em tudo, que vae expondo todos os annos. 
Que transparência de tinta, como aquellas mãos estão desenhadas 
e modeladas, como aquelle accordo de cores, som sacrificio de 
nenhuma parte do retrato, dá o completo realce da cabeça! Não 
é só um retrato, é um quadro. A gradação do claro escuro resume 
um verdadeiro esforço n'aquella agradabilíssima composição. 

Os dois retratos dos srs. Santos Monteiro e Lamarão possuem 
as mesmas qualidades do artista, posto que nenhum d'elles chegue 
ao mimo do primeiro. 

O quadro de flores está sabiamente composto. Tem flores 
muito bem pintadas e agrupadas. A observação da natureza so- 
bresae de todos aquelles exemplares, sobretudo nas rosas, que 
como que viçam, e vemos adejar as suas pétalas, como se foram 
naturaes. 

Chaves é dos que trabalham pela arte, e para a arte. 

Attralie a attenção do visitante a agradável paizagem do sr. 
João Cbristino, a Crnz Alta, em Cintra. A Fonte das Lagrimas, 
do mesmo auctor, ostenta o vigor da tinta e riqueza de tons da 
paleta que tantas vezes teníos elogiado. O talento do colorista re- 
vela-se mais uma vez. A sua maneira de conceber a paizagem é 
sempre poética, e approxima-se um pouco dos elTeitos da sceno- 
grapia, pela contraposição dos planos, amplitude de perspectiva 
e fortes projecções de luz. 

O sr. Dantas reproduz com felicidade um combate naval en- 
tre uma fragata portugueza e dois vasos de guerra francezes, 
assumpto extraindo dos Quadros navaes, do sr. Celestino Soares, 
já fallecido. Mostra grande disposição, e será de certo um pintor 
notável, se conseguir entregar-se a estudos mais methodicos e re- 
gulares. 

Aqui temos agora uma maravilha de parecença no retrato 
do nosso mallogrado amigo. Augusto José Gonçalves de Lima, obra 
a pastel da sr." D. Herminia Monteiro Teixeira Duarte. Impres- 
siona, quando se entra na sala. Não é tão somente a reproducção 
e.Kacta das feições, é a expressão moral, aquclla doçura de cara- 
cter c elevação de espirito do desditoso poeta! 

É um trabalho esmeradíssimo, que alia o vigor do óleo ao 
acabado do trabalho a pastel. 

O quadro dos coelhos do sr. Girão está sofl'rivelmente com- 
posto e revela estudo do natural. 

O Mau lisinho, do sr. Lengo, natural de Málaga, é um 
gato que espreita para dentro de uma grade um desvão es- 
curo, onde comem alguns pombos. É um quadro de bastante 
estudo do natural, e cuja composição, sem ser pretenciosa, está 
perfeitamente combinada. As aves vécm-se naturalissimamente 
reproduzidas, e de maldoso c felino hospede só se enxergam os 



72 



ARTES E LETRAS 



olhos cujas pupillas, amarellas e refulgentes, fulguram na obscu- 
ridade do ultimo plano. É um chistoso episodio, e ao mesmo 
tempo reproduzido com talento artístico. Pena é faltar-lhe a gra- 
dação de tons, e que entre o branco dos pombos e o escuro do 
ultimo plano não esteja estabelecida a gamma indi-spensavel, para 
dar a harmonia do quadro. 

O sr. Isaias Newton prosegue no seu género de trabalhos: 
é um incansável e escrupuloso reproductor da natureza. A sua 
tela bem se pôde comparar ao espelho de Poussin, qne reflecte, con- 
eentrando-os e tornando-os mais comprchensiveis, os aspectos a 
que o contrapõem. Não ha de certo ali um mérito de interpreta- 
ção, como o reíjuerem as boas regras da arte moderna, que de- 
termina que o ideal do artista respire em todas as suas obras, 
como o cunho da sua individualidade, mas ha um ver geométrico, 
uma observação segura e minuciosa, e uma admirável maneira de 
traduzir com o pincel aspectos que, por complexos, facilmente 
desvairam a vista do artista. N'uma palavra, o sr. Isaias Newton 
não é propriamente um paizagista, no sentido largo e ideal da pa- 
lavra, mas um retratista da natureza. E debaixo d' esta ordem de 
considerações, os seus quadros, os Arrabaldes de Santarém, a 
Nova Cintra, e As duas fronteiras possuem mérito sobejo. 

O sr. Macedo é, talvez, o nosso artista que possue mais co- 
nhecimentos theoricos. Poucos, como ellc, faliam tão bem a lin- 
guagem de atelier e entram mais facilmente na parte technolo- 
gica da arte. Mas o seu talento, que o possue assas aproveitável, 
tem andado disperso em tentativas e ensaios, que já produziram, 
comtudo, estudos sérios. Em scenograpbia o seu pincel é hoje dos 
mais elogiados, pelos eITeitos do perspectiva e combinações de 
tinta cm que tanto procura approximar-se da natureza. Mas n'isto 
parece-nie de alguma sorte cair em exageração, porque o distin- 
cto artista, que com tanto resultado tem estudado a esehola fran- 
ceza, abraçou com encarecimento os princípios da proclamada es- 
ehola realista, cuja interpretação anda hoje tão desvairada, dando 
oceasião a resultados onde os preceitos bem entendidos da arte e 
as regras eternas do bello tem tudo a condemnar. 

Felizmente, o sr. Macedo não tem saído de um justo equilí- 
brio, e as suas tendências para o realismo da actualidade unica- 
mente se denunciam por uma certa sequidão de tinta, que a ob- 
servação da natureza, nos seus aspectos mais risonhos e fulgu- 
rantes, como os ofTerece o nosso paiz, corrigirá pouco a pouco, 
alegrando a phantasia do pintor. 

Os trabalhos que apresenta reproduzem praticamente e em 
parte, a verdade d'estas observações. No emtanto os estudos do 
luar, principalmente a Noite de luar no Mondego, reproduzem 
magniiicos effeitos de perspectiva e bastante certeza do tom. 

Temos agora os trabalhos do sr. Pedroso, que d'esta vez são 
assas variados, pois se compõem de episódios navaes, marinhas e 
paizagens, como a Ponte sobre o rio de Sacavém. 

O sr. Pedroso é um artista perseverante, e cujas obras re- 
velam, mais ou menos, applicação e. estudo. Nos assumptos ma- 
ritimos ha quem lhes prefira o sr. Tomazini, e outras aflirmam que 
os seus navios são desenhados com superior conhecimento de 
construcção náutica. 

Todavia, não é só n'esta particularidade que subsiste o seu 
merecimento: por exemplo, o quadro da Praia das Maçãs apre- 
senta um naturalíssimo jogo de aguas, e em alguns outros no- 
tamse bonitos effeitos de luar, o que concorre para agradáveis 
combinações de perspectiva. 

Aqui se nos offerece outro expositor hespanhol, o sr. D. José 
Luiz Pellicer. O seu guerrilheiro tem merecimento, apresenta 
boa tinta e |»articularidades de detalhe pintados com delicadeza: 
assim o desenho fosse mais correcto. 

Não goíto das Recordações de Segres. O processo é inadmis- 
sível em quadros de tão pei|uenas dimensões. Ali a tinta parece 
posta a espátula, e não modelada a pincel. De perto, lembra um 
mosaico ou trabalho de encrustação. Assim pintavam os etruscos. 
Não vamos, por desvairamentos de escholas, volver á infância da 
arte. No emtanto, nota-se-llie vigor de tinta e muita certeza de tom. 

Yoltemo-nos depressa para a Romaria, do sr. Leonel, uma 
das obras da Exposição d'este anno, que mais attrabem a attenção 
do publico. 

Como se vê do titulo, este quadro é uma reunião de typos e 
costumes do nosso povo. A uma certa distancia, o quadro não 
tem effeito geral, porque a manche, ou entoação, é um pouco fria; 
mas, examinando de perto, como convém áquellas numerosas figu- 



rinhas que se agrupam e enredam nos chistosos episódios d'aquella 
nossa tradicional usança das províncias do Minho e da Beira, sen- 
te-se um inexplicável prazer em encontrar a verdade de todos 
aquelles typos populares nas parecenças, nos trajos elegantes e 
originaes, e nos usos peculiares que tanto os caraterisara. A ponta 
do pincel explica os menores detalhes, como se a photographia 
ali operasse as suas maravilhosas reproducções. Cada figura per- 
sonifica uma feição moral das nossas províncias. É um valioso 
quadro de costumes, em que o fundo de observação é fortemente 
auxiliado pela veia satyrica c artística delicadeza de toque do 
auctor. 

O Mercado não offerece tanta verdade, e os Costumes da 
Mortoza são apenas episódios, mais ou menos approxímados, da 
Romaria. 

A Volta do mercado, quadro mais vasto, encerra egualmente 
bastante mérito como obra de reproducção dos nossos usos popu- 
lares, mas a composição é desleixada, porque, diga-se a verdade, 
o sr. Leonel reproduz typos com grande felicidade, mas faltam- 
Ihe as faculdades próprias para a composição, faculdades cuja 
ausência escapa facilmente em composições pequenas, mas que 
para logo se revela em trabalhos de vastas dimensões. 

Os quadros do sr. Bordalo revelam a mistura do estudo si- 
multâneo da esehola hespanhola e flamenga. O quadro do Biblio- 
philo seria um bello trabalho, se não fosse a incorrecção de dese- 
nho da mão esquerda. O Velho caçador 6, talvez, a obra mais 
completa, n'esta exposição do sr. Bordalo. Torna-se digna de louvor 
a cabeça do Leitor de Cervantes, pela verdadeira e característica 
expressão que a anima. Quanto aos detalhes são de um acabado 
inimaginável. 

Muitos são os fructos de laborioso trabalho do sr. Prieto que 
temos á vista. O sr. Prieto é um artista de inquestionável appli- 
cação. Dá-se mais incessantemente aos trabalhos de género, e al- 
guns expõe este anno que lhe grangeiam elogios. A Poda no jardim, 
por exemplo, é um quadro bem composto e estudado com con- 
sciência do natural, e a impressão causada seria completa, se a 
dureza de algumas velaturas, nos coelhos, e uns tons da folhagem 
sobre o vermelho do vaso, que se vô ao centro, lhe não alterassem 
desagradavelmente a harmonia. 

Também este anno expõe a ex.""* sr.* D. Maria Guilhermina 
da Silva Reis uma collecção de paizagens, algumas das quaes de 
merecimento. A Vista próximo de Bellas, o Castello de Palmella, 
Monserrate e a Serra de Cintra, principalmente, resumem em 
gráo superior os dotes do pincel d esta senhora. Suavidade de 
tinta, limpidez de ares, longos agradáveis, contraposição de pla- 
nos, deixando sobresaír formosos effeitos de perspectiva, e ajun- 
tando-se a isto tudo uma escolha de aspectos naturaes em que 
um sentimento tranquillo se casa com fagueiras impressões poé- 
ticas, eis, em resumo, a que se reduzem taes dotes, que só por 
si podem fazer a reputação de um paizagista, e sobretudo se 
esse paizagista é uma senhora, c da melhor sociedade de Lisboa. 

Passemos ao sr. José Rodrigues. Eu já tenho declarado 
umas poucas de vezes que me sinto propenso para o estylo d' esse 
artista. Não sei se é verdadeiro, se é exagerado; sei simples- 
mente que é agradável, e que revela muita exuberância de phan- 
tasia. Que riqueza de tons, que opulência de paleta, que reflexos 
e projecções de luz ! A Camponeza, a Creada e o Cozinheiro per- 
tencem a este género. A tinta de todos elles é formosíssima e o 
effeito de claro escuro surprehendente. Possue o sr. Rodrigues 
uma tinta quente, facilidade graciosa, e um modo de compor at- 
tractivo. 

Porém, a obra mais notável do sr. Rodrigues, d'esta vez, 
é o retrato do sr. D. Francisco de Pancas do Azevedo, cónego da 
Sé Patriarchal. É um magnifico retrato, ostentando todos os pro- 
dígios, já conhecidos e tantas vezes enumerados, do seu pincel 
brilhante e arrojado. A cabeça tem relevo, e as roupas são admirá- 
veis de naturalidade. 

O único quadro histórico que nos apresenta a Exposição é 
o quadro de D. Philippa de Vilhena armando seus filhos, execu- 
tado em Roma, como ultima prova dos estudos do sr. António Ro- 
drigues da Silva, ali pensionado pelo Estado. 

O apreciável estudante foi infeliz na escolha do assumpto. 
D. Philippa de Vilhena, armando seus filhos, é já uma banalidade 
em pintura histórica nacional. Nem um mestre consummado po- 
deria triumphar da aridez do assumpto; e digo aridez, porque 
todos os assumptos são áridos, quando exhaustos por muitos 




■ A VATÍ irrCiC pinit 



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). KlíEKKKfl^ffaM. 



Editores RoIiEind ft Semiond- I.istoa. 



ARTES E LETRAS 



73 



auctores. A composição c frouxíssima, a distribuirão do luz mal 
entendida, e na fi};ura de D. Philippa não lia naturalidade nem 
nobreza, nem nos iilhos a resolução «obre que os distinguiu. 

Mas deve-se attender a que se trata amda de um pincel que 
mal começa a esboçar estes trabalhos, aliás cheios de dilTiculda- 
des para os maiores talentos. Os Ingres e Delacroix são raros em 
todos os tempos. 

O sr. Toledo, já nosso conhecido por notável paizagista, apre- 
senta desta vez alguns trabalhos que estão longe do mérito do (jua- 
dro exposto e tão louvado, ha três annos, oilerecido á Academia. 
Aquelle quadro havia-nos revelado o auetor como pertencendo á 
escliola realista, mas á bem entendida eschola realista, aquella que 
não abnega de todo as faculdades que podem constituir a indi- 
vidualidade do artista, em favor de uma servil copia da natureza. 

Este anuo, porém, vejo com pezar que as theorias do no- 
tável artista se desviaram da sua verdadeira direcção. A Manhã 
na serra confirma isto, e se lhe tirarmos o primeiro plano, que, 
ainda assim, esquece todas as leis do colorista para achar a ver- 
dade da forma, achámos apenas um trabalho, que, com magoa 
o escrevemos, assignala grande retrocesso no valor ideal do sr To- 
ledo. Os outros quadros, que expõe, resentem-se egualmente da 
mesma ordem de idéas. 

Já alludimos ao sr. Tomazini. 

O sr. Tomazini é pintor e homem do mar, e d'ahi nasce a 
facilidade e predilecção com que trata os assumptos marítimos, 
e a aptidão com que se sae das suas diíliculdades. A tinta dos 
seus cjuadros, em geral, não é das mais brilhantes, mas também 
se pódc explicar isto satisfactoriamente pelos assumptos de que se 
occupa, pela maior parte tempestades no mar alto. No emtanto, 
o que ha nos seus quadros, o que incontestavelmente elles inspi- 
ram quasi todos, é o sentimento, a vida do marítimo, que só a 
possue e logra exprimir o homem que tem arcado com as ondas 
erguidas em serras a despenharem-se sobre o lenho, que em taes 
horas não significa senão a ousadia impotente da creatura bumana 
perante a fúria dos elementos. Esta poesia aíllictiva do nauta 
sente-se, respira-se eíTectivamente na presença dos quadros do 
sr. Tomazini. 

A Exposição ainda apresenta trabalhos de differcntes géneros 
e valia, como, por exemplo, desenhos a carvão, entre os quaes so- 
bresaem os do sr. Annunciação, não devendo ficar sem reparo 
os esforços do sr. Bordalo júnior. Bastos, Alfredo Keil, e Soro- 
raenho, que ainda assim conseguem não se fazer esquecer a par 
de tão eminente artista. 

Os carvões do sr. Bastos, cujo processo talvez não seja o 
hgilimo, toem eíleito. Refiro-me aos das matas do Bussaco. As 
Bodas da aldeia, do sr. Bordalo, que são apenas um estudo, pro- 
mettem um bom quadro, quando o auetor se disponha a colligir 
as suas forças para o fazer. Attraem egualmente a attenção as 
suas aguarellas, sobretudo o Vendedor de palitos. 

Não concluo sem incorporar n'esta lista de ensaios, mais ou 
menos promettedores, os srs. Andrade, Esteves, Figueiredo, Mar- 
tins, D. Elisa de Oliveira, D. Amélia Virgínia Roma, Sá Pamplona, 
Caetano Alberto, Almeida, Godinho e Martins, que em diversos 
ramos attestaram o seu empenho em concorrer a tão honroso 
certamen. 

Ao sr. Andrade pedimos não deixe desvairar o seu bello 
talento pelos extravios das falsas theorias, que a perversão do 
gosto moderno se abalança a denominar eschola realista. O seu 
quadro. Uma manhã em Uivuraj está bem desenhado, mas a côr !. . . 
Que pobre, que misérrima seria a natureza, se nos offerecesse 
para exemplo aquella gradação de tintai Não pôde ser. Ali não 
está a verdade, e, por conseguinte, fallece a base de todo o rea- 
lismo, ainda mesmo interpretado no seu positivismo mais árido 
e lepugnante, quer dizer, fora de todas as condições da verda- 
deira esphera artística. 

Talvez ainda alguns objectos, egualmente dignos de apreço, 
me escapem a esta rápida analyse, que não posso deixar de fazer 
resumida, e que por força, por isso mesmo, tem de sair in- 
completa, pela dilliculdade de examinar minuciosamente obras 
expostas tão confusamente, e tomar sobre ellas apontamentos, 
([uando o methodo adoptado na collocaçâo em nada auxilia o 



O TOCADOR DE REALEJO 




observador. 



JOSE M.\niA DE ANDRADE FEliREIHA. 



ê-os a gente |X)r toda 
a parto, — na.s cidades, 
na província, por aca- 
so, nas aldeias; e, o 
que c mais, se alguma 
vez for pelos Alpes, 
perdido no meio d'a- 
quella natureza gran- 
diosa e excepcional, 
onde as arvores verde- 
jantes banham os pés 
no g(!lo, os riachos cor- 
rem a cada passo das 
elevações, fai.scando 
como chamma do prata 
nos rochedos, e as nu- ' 
vens aflfagam o cume dos montes, 
volteando-lhes em redor como 
ura véu bordado: se avistar ape- 
nas um casalinho, como que sus- 
penso no espaço entre o farpão 
de uma nuvem, rochas trepadas 
umas nas outras, cataractas arrastando 
ruidosamonto para os precipícios as ar- 
vores que algum vendaval haja arran- 
cado, — lá avistará, de reponte, a meio 
caminho d'aquelias paragens, á porta de 
uma estalagem, no meio das montanhas, 
onde costumam apciar-so os viajantes e 
, ter meia hora de descanso — o tocador de 
,^ ^ realejo com o seu casaco de bclbutina, e um 
Q^F cobrojão de jornada, a dar ao braço e a gi- 
rar com a manivella, deixando, ás vezes, per- 
der o olhar melancolicamente no vago dos montes e dos 
abysmos! E so a noite estiver agreste, se a neve for 
muita, não o encontrará á porta, mas ve-lo-ha na grande 
sala da estalagem, resplandecente de luzes, toda cheia 
de mesas, n'um turbilhão de creados com grandes toucas 
brancas servindo aos viajantes a sopa a ferver, o roast- 
beeff e o vinho, — e ello, entre os grupos, no meio da 
vasta refeição, diligenciando alegrar os espirites, receio- 
sos da noite e dos Alpes, com as valsas caprichosas do 
seu realejo! 

Pobre Orpheu errante! 

Só os pequenos da rua o comprehendem e o admiram ! 
Emquanto a maior parte da gente passa, sem lhe querer 
dar importância, como se não valera nada tocar simi- 
Ihante instrumento, do simples mechanismo, que nem re- 
quer intelligencia nem vocação, olham-no as creanças com 
veneração, como que protestando contra a indiflerença 
publica. 

Ha duas qualidades de realejo, o que delicia, o o que 
faz raiva; fora d'isto não ha mais nenhum! Uns amoti- 
nam, ensurdecem, devastam, em o andamento sendo vi- 
vaz; ou então mergidham n'um torpor, n'uma atonia 
physica c moral, a que o povo chama rabuge, e acabam 
por adonnecer quem os ouve; preferindo o primeiro 
methodo quasi sempre, — tocar depressa... para serem 
peioi*os, ■ — porque quem donnir não paga, c os quenãoqui- 
zerem dores de cabeça atiram-lhes gentilmente com xuu pa- 
taco pai'a so ver livi'o d'elles: — outros tocam musicas 
commoventes, ou festivas, e são magníficos; vozes so- 
berbas, que sabem bem ao ouvido o conhecem o caminho 
para a alma, melodias que attrahom, certa distincção 
nas cadencias, no prolongar do som, sem se sentir a ro- 



74 



ARTES E LETRAS 



tina estúpida do um autómato, mas o sentimento e a 
inspiração do um artista! 

Quando cu era pequeno vi uma vez um realejo que 
me deixou para semprc! profimda e eterna lembrança. 

Era ao cair do uma tarde. Eu estava á janclla o iam- 
se-mc os olhos com tal soffreguidão n'aquolle realejo pri- 
moroso, ao qual toda a poquenagcm e a garotada toda 
do sitio haviam feito roda, que meu pae, por ter dó do 
anccio cm que me via, mandou chamar para nossa ca.sa 
o tocador. Veiíi o homem: era um suave italiano, no 
género d'es8e que a ostíimpa apresenta, homem de meia 
edade, de cabcllo para traz da orelha, calça larga, e un; 
roujiílo apertado na cintura. Começou a tocar, coryeu uma 
hastida de taboinhas, leve anteparo ao panno de boda 
de um thtiatrito, e logo uns bonecos que eu já da janclla 
havia avistado princi])iaram, ao som da musica, a girar 
n'uma contradança. Era o paladino, com o seu gorro 
vei-melho e pluma branca, polainas e calção de veludo 
carmezim; era a santinha da viola, com o seu capotinho 
de peregrina e um chapéu do aba direita: era o pi"eto de 
cara de polimento, mãos de polimento, pés do polimento : 
era o jockey cortando o ar com o chicotinho: e, no fim, 
o guarda-portão com o seu sobretudo azul de galijcs 
brancos, fazendo cortezias ao desfilar dos pares ! 

Ha perto de trinta annos que foi isto, c aquelles bo- 
necos de realejo, todos elles fitinhas, vidrilhoa, guisos 
doirados, ainda hoje me apparecem nas saudades como 
se fossem a phantasia, o relâmpago da felicidade, eheru- 
bins de Cidalisa, creaturinhas do melhor dos mundos, 
mais brancas que os lyrios e a neve... 

Ue onde vém os tocadores de realejo? Vêm lá do 
fundo da sua terra, tocando pelas estradas^ fora, todo o 
caminho, para poderem ter cama e pão. As vezes jan- 
tando a Norma, a Sonâmbula, o Baccio, dormindo ao 
luar, o partindo outra voz do madrugada para o lado de 
onde lhes parece que vem o dia e o mundo. 

Lá uma vez ou outra deixam-se ir a gostar do al- 
guém, e vão expressar a paixão que têein defronte das 
janellas da formosa, alguma creadita galante, que se re- 
creia de ouvir musica. 

Arrastam todo o dia das dez horas em diante, ora 
sobre uma perna, ora sobre outra, a pesada caixa das 
melodias, — que faz mais bulha, ás vezes, que uma tro- 
voada. Aos dias santos estão como se querem, e é caso 
de ganhar o duplo; mas lá vém depois os dias de chuva, 
as grandes ventanias que não deixain abrir as janellas... 
Correm a cidade; tem cada um d'elles os seus sities co- 
nhecidos, publico affeiçoado, quo nunca lhes recusa uns 
cobres, — as costureiras que trabalham nas modistas, por 
exemplo, freguezas f[ue não falham, que se deleitam 
em escutar, emquanto trabalham, as melodias dos mes- 
tres, pensando ao mesmo tempo na sua vida, nos seus 
amores, boas raparigas para quem a musica não repre- 
senta só a hannonia dos sons — mas a das almas! 

Com os annos, o tocador vê fugir-lhc o gosto pela 
vida errante, e a força para suster o realejo. Quem os 
ouvir conhece logo essa situação de despedida á musica; 
tocam tnais demoradamente, mais vagamente, como quo 
traduzindo o andamento as suas tristezas. Sente-se que 
estão velhos, doentes, cansados, e parecem desentranhar 
da voz do realejo o canto do cysne ! 

JÚLIO CÉSAR MACHADO. 




CHUONICA DO MEZ 




tempo não tem corrido m.il 
para os thcalros, c os acto- 
res vão aproveitando as noi- 
tes ainda frescas para efTe- 
ctuarom os seus benefícios. 
Não devo nem tjuero 
esquecer essas festas artís- 
ticas em que amigos e in- 
dillerontes vão com os seus 
ramilhetes, os seus mimos 
e os seus applausos teste- 
munhar aos comediantes o 
apreço e estima em (jue técm 
o seu talento. 

O espectador que fre- 
quenta o theatro, contrahe 
certa amisade com os artis- 
tas dramáticos, embora não 
os conheça, peia maior parte, 
senão do palco. Aquelia amizade cria-sc-lbe no peito sem elie sen- 
tir. Habituado a rir com as facécias de um, a commover-sc com 
as exclamações de outro, a esquecer-se cmfiin dos seus leves pe- 
zares e muitas vezes das suas profundas magoas com o conjuncto 
do trabalho de todos, o coração, grato ás commoções benéficas 
partidas da scena, alleiçoa-íe áquelle grupo de trabalhadores que 
todas as noites gastam um pedaço da vida para suavisar e alegrar 
a dos que vão escutal-os. 

De entre o grupo, alguns artistas ha, que, pelo seu talento 
superior, alcançam melhor quinhão de sympathia, e por isso, 
maiores e mais subidas mercês recebem do publico. 

Delpliina e Santos são d'estes, e ha pouco, obtiveram am- 
bos evidentes provas do favor e consideração que todos lhe dedi-. 
cam. A primeira, na Trindade, depois de haver representado o 
papel principal de uma comedia habilmente traduzida pelo sr. Cil- 
nha Moniz, e o segundo, em D. Maria, tendo acabado de repro- 
duzir uma das mais brilhantes creações do talento dramático de 
Feuillet, tiveram a ineíiavel satisfação de ver como ainda entre 
nós, apesar do indiíTerentismo que ha para tudo que diz respeito 
a artes, se premeiam os bons talentos e os esforços para se sair 
do campo da vulgaridade. 

Outros artistas dramáticos realisaram egualmente a sua festa 
annual nos diversos theatros a que pertencem, colhendo também 
demonstrações sinceras e agradáveis do bom conceito em (|ue são 
lidos. Foram Silveira, Polia, Florinda, Braz Martins e Vallc. 

Braz Martins teve duas festas; uma como actor, e outra 
como auctor. 

Levou em seu beneficio uma comedia em três actos, escri- 
pta originalmente por elle, com o fim de se representar n'aquelJa 
recita. Fructa do tempo se intitula. 

Propõe-se a nova comedia do Gymnasio a fulminar duas 
seitas muita conhecidas hoje; a dos que, om nome de Deus, vi- 
vem vida regalada á custa aliíeia, e a dos que, em nome da liber- 
tação das ciasses opprimidas pela miséria, diligenceiam enriíjue- 
cer e alcançar boa posição social. 

Para chegar ao seu propósito, colloca o auctor, de um lado o 
sórdido intrigante das sacristias acompanhado pelo propagador 
das modernas idéas nas ollicinas, e do outro o padre modelo, que 
baseia as suas predicas na doutrina de Cbristo, e um semi-philo- 
sopho que afina o proceder pela religião da caridade, e condemna, 
[xir falsas, todas as idéas que tendem a afastar-sc das suas, quer 
avançando, quer retrocedendo. 

Parece-me que o auctor se prcoccupou de mais com a signifi- 
cação moral que pretendeu dar á sua peça, desprezando um pouco 
a urdidura dramática, do que lhe resultou fazer uma composição 
mais declamatória do (pie theatral. 

Entretanto a nova comedia do sr. Braz Martins encerra mui- 



ARTES E LETRAS 



íi) 



tas qualidades apreciáveis, sendo uma das principaes o propósito 
lirnio que o auctor parece ter de ajudar com o seu talento os que 
pretendem expurjiar a sc^na dos maus exciíiiplos e fataes torpezas 
em que anda envolta. Isto c os mais merecimentos d'a(|uclla com- 
[)osi(;ão orijíinal valeram ao sr. Braz Martins applausos espon- 
tâneos e sinceros da platéa.' 

A Fuldífuinha das Amoreiras, parodia da Morgadinha de 
Valle Flor, foi a peça escolliida para o henclicio do actor Valle 
no tlieatro do Gynmasio, beneficio concorrido e abrilhantado com 
as ovaçíjes feitas pelos amadores da interpretação galhofeira dos 
papeis de comedia ao auctor que tão distinctamente pratica esse 
género. 

A peça é original do sr. Eduardo Garrido, um dos escripto- 
res mais chistosos e mais conhecedores do meclianismo dra- 
mático. 

A sua nova composição, porém, que muito agradou no Rio 
de Janeiro, não conseguiu adquirir a sympathia dos platéas por- 
tugiiezas. Quanto a mim, não é por falta de graça e engenho que a 
Fidalguinha das Amoreiras, mal se sustenta entre nós, é, sim, por- 
que o auctor, talvez para ter o gosto de luctar com maiores dilli- 
culdades, procurou seguir acto por acto, scena por scena, o drama 
parodiado, o que deu causa á sua obra fatigar um pouco os ou- 
vintes. Os parodistas francezes, como muito bem sabe o sr. Gar- 
rido, costumam, n'este género de trabalhos, aproveitar as situa- 
ções principaes do drama que desejam pôr em parodia, e d'este 
modo fazem quasi sempre composições mais breves e ligeiras do 
(jue aquella que tomam por ponto de partida. 

Os resultados práticos das parodias conduzidas por este sys- 
tema são ordinariamente mais lisonjeiros para o theatro, embora 
não representem, a maior parte das vezes, tanto engenho e traba- 
lho, como as que são feitas pelo methodo usado pelo sr. E. Gar- 
rido, na Fidalguinha das Amoreiras. 

No theatro de S. Carlos está dando representações dramáti- 
cas uma companhia italiana de medíocre merecimento, á frente 
da qual, porém, estão dois vultos artísticos de alguma nomeada. 
Um é o actor Mayeroni, muito nosso conhecido por haver tido a 
subida habilidade de se fazer applaudír, quando representou ao 
lado da Ristori; o outro, a actriz Elvira Pasquali, cujo talento 
dramático tlexivel e amestrado se amolda facilmente aos diversos 
papeis que interpreta, representando-os com distincção pouco 
vulgar. Esta, no desempenho des dramas — A Dama das camé- 
lias. Estatua de carne, e Soror Thereza, e aquelle, no das peças 
— Forra da consciência, Milton, e D. João de Áustria, elevam-se 
á altura onde só podem chegar os que tomam a serio a arte que 
exercem e consagram a vida a engrandece-la e honra-la. 

A Itália é ainda a pátria dos famosos talentos; quando nós 
cuidávamos que só em França havia bons comediantes, cnvia-nos 
ella, para nos esclarecer, Ristori, Salvini, Rossi, Pasquali, Casi- 
lini e Mayeroni. 

Abençoado torrão, a que as artes tamanhos favores devem! 

Quando, não obstante os incentivos que tenho annunciado, 
os theatros começam a esmorecer por falta de concorrência, abre 
o circo Price as suas portas, sentindose o emprezario invadir por 
bemfazeja e suave alegria, á proporção que o azougue sobe no 
crystallino tubo do seu thermometro. 

O emprezario do circo— desculpe-me elle a comparação — 
é como a cigarra; quanto mais ardente está o sol, mais contente 
anda. Não se dá bem com o frio, que lhe afugenta do jardim os 
espectadores; chega a ser fanático pelos caniculares. No dia em 
que todos andam aflliclos com calma á procura de sitio onde corra 
uma aragem, respira elle a plenos pulmões. Vejam como um jar- 
dim e um theatro fresco podem influir na organisação physica de 
um emprezario. 

EHectivamente o circo Price 6 um refrigério agradável para 
as noites quentes. Assiste-?e ali a um espectáculo ligeiro — ex- 
cepto quando trabalham os árabes— que não fatiga o espirito 
nem os olhos, podendo nos intervallos passeiar-se em espaçoso 
jardim illuminado, onde se ouve musica, se vé dançar, se bebe 
cerveja, e se contempla, pliantasiando agradáveis c extravagantes 
sonhos, a profundidade de umas pequenas moitas de verdura, 
atravez das c|uacs, quando se não repara no muro velho que cir- 
cumda o recinto, se afigura estar a immensidade. 



Deixando estes assumptos e julgando-me dispensado de fallar 
das festividades religiosas que attrahem á egreja os devotos do 
mez de Maria, da antiga feira das Amoreiras, e até das crendices 
populares que levam o povo, n'um dos dias de maio, a tratar asi 
searas como roupa de francezes — desaforo pittoresco que eu 
nunca deixo de presencear, porque sempre gostei dos quadros po- 
pulares, em (|ue as variegadas cores dos trajes se misturam, em 
poética harmonia, com as mimosas galas da natureza — registarei 
alguns livros publicados n'este mez. 

O major Napoleão e Madrid são dois formosos volumes de 
vidos á peima do incansável cscriptor, o sr. Pinheiro Chagas. 

Eu tenho particular estima pelo talento do sr. Cliagas, e por 
isso não me farto de encarecer os .seus trabalhos litterarios. 

O major Napoleão são narrativas contadas com a lhaneza do 
soldado, mas do soldado instruido. Agradam e ensinam. De per- 
meio com os attractivos do estylo, encontram-se factos da nossa 
historia habilmente reproduzidos. Aos menos doutos serve pois 
de lição amena e proveitosa o curioso livro. 

Madrid é a reunião das impressões experimentadas pelo au- 
ctor (|uando foi em viagem de recreio á capital de Hespanha. Ha 
fina c delicada critica nas diversas apreciações do que o viajante 
observa cm Madrid, e grande verdade nas descripções. É volume 
interessante para os que não conhecem a primeira cidade da na- 
ção vizinha, porque a vêem conscienciosamente traçada e analy- 
sada, e não menos interessante para os que já lá estiveram, por- 
que podem comparar as suas impressões com as de um viajante 
de talento e bom gosto. 

Tenho em meu poder o novo livro de poesias do sr. Simões 
Dhs—fíuinas. 

É uma collecção de excellentes versos, cheios de harmonia e 
rimados sem esforço. Deprehende-se, porém, da leitura d'elles, 
que o poeta não os lançou no papel por desenfado ou apenas com 
o fim de versificar; reina em quasi todas aquellas inspiradas es- 
trophes um alto pensamento, que é o fructo da civilisação e do 
esclarecimento das idéas do povo. 

Pode-se afiançar, sem receio de commetter grande erro, que 
o novo livro do sr. Simões Dias é um bom livro. 

Do sr. Brito Aranha corre impresso um pequeno volume — 
Lagrimas e Saudades, que ê, por assim dizer, sincero preito de 
admiração prestado ao talento brilhante e fecundo de Rebello da 
Silva, escriptor e estadista que dotou a sua pátria com monumen- 
tos litterarios de notável valia. 

Tem alcançado boa acceitação o folheto do sr. Brito Aranha, 
no qual se encontra, alem do assumpto referido, circumstaneiada 
noticia de trabalho idêntico publicado pelo escriptor brazileiro, o 
sr. Theophilo Ottoni. 

Já que fallei de um escriptor do Brazil, mencionarei a pu- 
blicação do interessante folheto — Heroes da arte, escripto pelo 
sr. Pessanha Povoa, esclarecido litteratoe jurisconsulto brazileiro, 
que ha pouco esteve entre nós. 

O intuito do auctor foi pôr em relevo o mérito transcendente 
de dois artistas que são a gloria do Brazil. Um é o pintor Pedro 
Américo, de quem por mais de uma vez já tenho fallado n'esta 
publicação; o outro o compositor Carlos Gomes, applaudido 
cm Itália e conhecido em quasi toda a Europa, excepto era Por- 
tugal. 

O folheto do sr. Pessanha Povoa, publicado em Lisboa, 
presta o relevante serviço de divulgar o merecimento d'aquelles 
seus compatriotas, que técm o direito incontestável de ver o seu 
nome respeitado em toda a parle onde haja, por mais pequeno que 
seja, algum gosto pelas artes. 

Seja-me permittido registar aqui o nome de um livro dado á 
estanqja o anno passado, mas que eu só li agora, e que me deixou 
gratas recordações. 

Refiro-nio ás Miniaturas românticas, de que c auctor o sr. 
Magalhães Lima. Contém o elegante volume, impresso em Coim- 
bra, oito pequenos romances interessantes c despretenciosos. Men- 
ciono apenas o nome do livro, porque seria prolixo fallar detida- 
mente de uma obra de que a imprensa periódica já se occupou, e 
que o leitor provavelmente conhece. 



76 



ARTES E LETRAS 



Não ha noviciados artísticas. A única de que podia fallar — 
a exposição da Sociedade promotora de belias artes — vae mencio- 
nada em artigo especial. 

RANGEL DE LIMA. 



A SOMBRA DOS MORTOS 

LAGRIMA 

(TRADUCÇÃO de GUTIEnnEZ) 

Á porta fui bater do ura que era amigo, 
E minha voz morrcu-mo na garganta, 
Porque de ti saudade não habita 
Onde delira a dança e a orgia canta! 

Mas vamos, minh'alraa, além: 

Que a sombra dos que morreram 
Na terra ingrata amigos já não tem! 

A porta fui bater do amor ])rimeiro 
E pai"a traz volvi angustioso, 
Porque essa mesma mão de tua .amante 
Cariciava a fronte de um esposo ! 

Mas vamos, minh'alma, além: 

Que a sombra dos que morreram 
Na terra ingrata amores já não tem! 

A porta fui bater do lar paterno 
E caiu-me da aldraba a mão tremente: 
Ah! onde o ruido do festim resoa 
Não mora uma lembrança do ausente! 

Mas vamos, minh'alma, além: 

Que a sombra dos que morreram 
Um lar na terra ingrata já não tem ! 

No dia melancólico dos mortos 
Fui ao pé de um sepulchro abandonado, 
E com teu nome ergui a minha prece. 
Por sobre o musgo d'elle ajoelhado. 

Não fujas, minh'alma, já : 

Que o nome dos que morreram 
Só na pedra dos túmulos está ! 

LÚCIO DE MENDONÇA. 



om a devida vénia transcrevemos do jornal 
— O Instituto, publicado em Coimbra, um 
artigo assifínado pelo erudito escriptor o 
sr. Filippe Simões, a respeito de 

UM QUADRO DE JOSEPHA DE ÓBIDOS 

N'uma sala do convento do Carmo em 
Coimbra conserva a Ordem Terceira um 
quadro apreciável de Josepha de Óbidos, 
nepresenta o Menino Jesus, por forma que 
differe do typo commummente usado. È uma formosa creança em 
pé n'uma almofada vermelha, sobre peanlia de madeira. Na mão 
esquerda sustenta a esphera do mundo, sobrelevada com a cruz, 
e também uma bandeira com os instrumentos da paixão. O br.aço 
e a mão direita estão postos de modo que parecem abençoar a 
esphera. Ao rosto de côr rosada, que exprime singular intelligen- 
cia, servem de natural moldura fartos e annellados cabellos loiros, 
cingidos com uma coroa de flores. E logo acima da cabeça o sol 
resplandecente. 

O Menino traja veste de gaze, rematada de finas rend.as, tão 
alva, tão fina e transparente, que deixa ver por debaixo as car- 
nes, com suas cores próprias, tudo muito ao natural. Cinge a veste 




na cintura uma fita azul com pequena moldura doirada, na qual 
se lêem as seguintes letras: J. N. R. J. Cobre-lho o corpo, po- 
rém só na parte posterior, um comprido manto de velludo verme- 
lho bordado. Em baixo, no chão, á roda da peanha, vêem-se ro- 
sas, tulipas e amores perfeitos, pintados com aquelle mimo e de- 
licadeza, que distinguem .as flores do mesmo pmcel. Ao lado di- 
reito lé-se: Josepha, em Óbidos, 1680. 

No meio da face anterior da peanha está o symbolo do cor- 
deiro, at<ado de pés e mãos, em tudo similhante ao de piuito maio- 
res dimensões, que da mesma auctora se conserva na bibliotheca 
de Évora. 

Note-se que, segundo refere o conde de Raczynski, é tam- 
bém de Josepha de Óbidos um menino Jesus com túnica transpa- 
rente, representado n'um quadro que se guarda no coro da egreja 
deVaratojo. 

Entre os quadros que a sr.* D. Maria Benedicta Castro e 
Mello, do Soure, mandou para a exposição dislrictal de Coimbra 
em 18GÍ), havia também um pintado em cobre, que representava 
o Menino Jesus deitado, e que tinha o nome de Josepha de 
Óbidos. 

Pedia a obra que descrevemos mais detida .analyse e consi- 
derações, já com relação ao pincel de Josepha de Óbidos, já em 
respeito á escola a ((ue pertence esta pintura, N.ão quizemos, po- 
rém, mais que dar noticia aos amadores d,is hellas artes de uma 
obra até hoje desconhecida na historia da pintura portugueza. 



Etesninos das actas das sessões do conselho da Sociedado 
promotora de belias artes em Portugal 




KssÃo de 2 de abril. — Nomearam-se dois 
membros do conselho para, de accordo 
com o secretario, tratarem da collocação 
dos quadros na sala da exposição. Foram 
os srs. Lasserre e Thomás da Fonseca. 
Sessão de 28 de abril. — Elegeu-se o 
jury para conferir as medalhas, o qual 
ficou composto por parte dos exposito- 
res, dos srs. Rambois, Porto-Alegre e Ci- 
natti, e por parte do conselho, dos srs. 
Thomás da Fonseca, Lasserre e Sousa. 
Depois desta eleição proeedeu-se á es- 
colha das obras enviadas á exposição. Em 
numero de 10.') foram admittidas; de 95 
destinadas á venda por meio de sorteio, 
foram acceitas 83, sendo a maior parte 
dos seus auctores convidados para modi- 
ficar o seu preço. 
Sessão de 24 de maio.— Approvou-se a concessão das me- 
dalhas e menções honrosas, feitas pelo jury, do seguinte modo: 
medalhas de prata, aos srs. Leonel Marques Pereira e Manuel Ma- 
ria Bordalo Pinheiro, em pintura; aos srs. António Alberto Nunes 
e José Simões de Almeida Júnior, em escuiptura; ao sr. José An- 
tónio Gaspar, em architectura. Medalh<as de bronze, aos srs. Luiz 
Domingues de Almeida, Castro Barnadas, D. Hermínia Monteiro 
Teixeira Duarte, e Gustavo A. L. Esteves, em pintura ; ao sr. Al- 
fredo Keil, em desenho. Mercês honrosas, ao sr. José Rosado, em 
escuiptura; ao sr. Luiz Bastos o Raphael Bordalo Pinheiro, em 
desenho. Também se estabeleceram o numero e valor dos pré- 
mios para a extracção. 

Em 9 de maio elTectuou-se a abertura da exposição, acto a 
que assistiram Suas Magestades, que se dignaram distribuir 
os prémios que na exposição anterior haviam sido confe- 
ridos. 

Em 26 de maio elTectuou-se a primeira extr.acção da lotoria 
da Sociedade, isto é, tendo-se estabelecido 'ò'i prémios, extra- 
hiram-se 33 nomes de sócios, que ficaram sendo os pre- 
miados. 

Em 28 e 29 de maio verificou-se a segunda extracção e a 
escolha das obras de arte expostas. 



# 









4^ 




© BESPENSEIE©. 



JjliUTZNlR. 



ARTES E LETRAS 



77 




CALOAS I>E VIZELLA 



Caldas de Vizella é um sitio onde nascem umas aguas 
sulphurcas, cujas virtudes são conhecidas ha bastantes 



séculos 

margens do rio Vizella 



As nascentes d'estas aguas existem nas duas 



a seis kilometros da cidade do 
Guimarães. Em cada uma das margens, ligadas pela 
ponte que a gravura i-epresenta, ha uma freguezia; uma 
das quaes tem a invocação de S. João, o a outra de S. Mi- 
guel, e por isso se denomina o sitio muitas vezes, Cal- 
das de tí. João, ou Caldas de S. Miguel: as duas fre- 
guezias têem, cada uma, trezentos a quatrocentos fogos; 
ficam ^ a vinte kilometros da cidade de Braga. 

E um valle pittoresco e aprazivel, saluberrimo, e já 
hoje mui procurado dos achacados de varias enfermidades, 
que ali encontram allivio. 

E fora do duvida que as Caldas do Vizella foram co- 
nhecidas dos romanos, os quaes ahi tiveram umas ther- 
mas, como attestam os vestigios ainda agora existentes; 
e alem d'estcs outros ha, que recordam a existência de 
uma povoação. Parece que seria no logar da Lameira 
onde se levantava a dita povoação, por ser ahi que se 
achou o fragmento da cimalha de um pórtico, com uma 
inscripção referente aos annos 81 a 90 da era de Christo. 
Alem d'estes ovxtros vestigios se tom descoberto, por 
aquelles sitios, mostrando a permanência dos romanos, c 
que por alli passava uma estrada, ou um ramal, que de 
Braga, por Guimarães, se dirigia para Amarante. 

Do tempo dos suevos também consta que no sitio das 
Caldas de Vizella houve povoação do alguma importân- 
cia, porque se faz menção d'ella (oculis Calidarum) no 
concilio celebrado por Theodomiro, era Lugo, no anno de 
569, ou era de 607. 

Na freguezia próxima de S. Salvador de Tagilde, e 
na aldeia de Arricancha, consta que nascera o famoso 
S. Gonçalo do Amarante. Essa freguezia povoou e lhe 
deu nome Athanagildo, pelos annos de 560. 

E tradição que n'aquelle sitio residira a predilecta 



dama do rei D. Ordenho, Adosinda, isto por 964 ; o mais 
tarde, em 1014, também alli habitara o rei D. Afíbnso v, 
e sua mãe D. Geleira. 

Sem nos embrenharmos mais n'estas archeologias, não 
ha duvida de que os romanos tiveram umas thermas, e 
portanto uma povoação no sitio das Caldas de Vizella. 
Mais tarde os invasores, vindos do norte, também por es- 
ses sitios estanciaram. 

Parece, todavia, quê com o andar dos tempos foram 
menos concorridas as aguas thermaes do Vizella. Fran- 
cisco da Fonseca Henriques, no seu Aquilegio medici- 
nal, diz: «As Caldas de Guimarães estão na fi-eguezia 
de S. Miguel, por ellas chamada das Caldas, distante 
meia légua da dita villa, em um campo baldio da mesma 
freguezia, em que ha sete ou oito olhos de agua, pouco 
distantes uns dos outros, todos quentes, mas alguns 
com um calor tão excessivo, que queimam. Antigamente 
deviam ser estas Caldas mui frequentadas, porque ha 
menos de três annos (1723) se descobriu no meio 
d'aquclle camjio um Ianque de pedra de cantaria la- 
vrada, de quarenta e quatro palmos do comprido o 
trinta e três de largo,' feito com primorosa architectura, 
do qual brotam por differentes partes três caldas, ou 
tros fontes d'esta agua, em que sem duvida se tomavam 
banhos, descendo para o tanque por umas escadas, de 
que se tem visto um só degrau, por estar cheio de terra 
e coberto de agua.» 

Depois o auctor do Aquilegio enumera as moléstias 
em que as aguas de Vizella são efficazes, de que resul- 
taria serem uma espécie de panacéa. 

O padre António Carvalho da Costa, na sua Coro- 
qraphia, fallanda da freguezia do S. Miguel das Caldas, 
diz que ora abbadia do padroado real, e então apresen- 
tada pelo prior do Santa ^larinha, de Lisboa, e que ali, 
em um lameiro baixo baldio, havia cinco olhos de agua, 
uns mais quentes do que os outros, e todos mui mediei- 



78 



AETES E LETKAS 



nãos para grando quantidade do enfermos quo so iam 
curar úqucllas caldas. 

Estes escriptores antigos nt£o faliam senão nos olhos 
d'agua que rebentavam na frcguezia de S. Miguel, mas 
conservam a denominação á outra freguc^iia de tí. João das 
Caldas, por onde se vê, que também alii eram conheci- 
das. A Corographia diz que chamavam a esta frcguezia 
S. João do Guimarães, e, no seu tempo, das Caldas. 
Aqui está a quinta de Guimarães, do que foi senhor 
Francisco Soares do Aragão, coutada e honrada no tempo 
de D. João II com parto do rio VizcUa, mas que os des- 
cendentes deixaram perder, por não confirmarem as doa- 
ções, desde o tempo do cardeal-rei. Era no principio do 
século passado morgado de Pedro Vaz Sirne de Sousa. 

No logar da Lameira ó onde existe a maior jtovoação 
das Caldas do Vizclla, com bons edifícios para aloja- 
mento de enfermos, tom a sua hospedaria, o uma ala- 
meda publica de bom gosto, o quo é um passeio apra- 
zivel. 

N'oste logar da Lameira ó onde ha maior numero de 
banhos, e entre ellos o chamado banho do Sol, com duas 
piscinas, e cujo pavimento ó de curioso mosaico calcareo. 

Em alguns d'esscs banhos existem as piscinas ainda 
do tempo dos romanos: são as piscinas do granito, aber- 
tas de mosaico embutido na singular argamassa de quo 
usava aquolle povo. 

Ultimamente a camará de Guimarães, cremos nós, 
incumbiu o sr. engenheiro Dejant do estudar as aguas de 
Vizella, e fazer o risco de um vasto ostabolecimonto 
thermal. Em resultado dos estudos d' aquollo- engenheiro, 
ostão hoje aproveitadas, mais ou menos, cincoonta e cinco 
nascentes. Estas nascentes considcram-so divididas em 
três grupos, com os nomos de Lameira e Velmonso, na 
margem direita, frcguezia de S. Miguel, e do Mourisca, 
na margem esquerda, frcguezia de S. João. O producto 
total da agua, em 24 horas, sobe a 327:000 litros, afora 
algumas nascentes desprezadas. 

O rio Vizella forma-so de três regatos quo nascem em 
Montolongo, passa pela aldeia do Arricancha o outras, e 
desagua no Avo, o qual desemboca no mar, em Villa do 
Conde. 

A froguozia do S. Miguel foi pátria de Manuel de 
Faria o Sousa, commentador de Camões. Na Fonte de 
Aganij)pe, Faria e Sousa celebra o Vizella n'e8tes ver- 
sos: 

Corre el Visela amado 
Progresso sonoroso, 
O crystalino parto de una pefia, 
A ser favor do um prado. 

O Vizella deshza placidamonte por aquello sitio das 
Caldas, mas logo abaixo corre precipitado entro altos e 
pedregosos montes. No monte da margem esquerda elo- 
va-se uma linda casa de campo-, construída na imita- 
ção do estylo gothico. E um pequeno edifício de um si) 
pavimento ten-oo, com as janellas e portas ogivaes, c 
cercado de uma alpondrada com suas guarnições flt> 
readas. 

Esta propriedade de tão bom gosto pertence ao sr. 
Vilby, negociante britannico, residente no Porto. 

As aguas de Vizella são ap])licadas aos mesmos acha- 
ques a que aproveitam as Caldas da Kainha: toem na- 
centos de variadas temperaturas; o uma, como so dis.so 
acima, é tão quente, que não anda no uso. Forma um 
banho quadrilongo, revestido de mosaico romano; n'clle 
poderiam banhar-so até vinte pessoas. Tem cm i-edor 
luna grado de forro, quo serve do varanda ao passeio la- 
gcado que cerca o tanque. 



Concluido ali um estabelecimento thermal, com as 
accommodações pi'oprias, a povoação, que já vae cres- 
cendo, ha do tomar um considerável desenvolvimento. 

J. RIBEIUO QUIMAKXeS. 




(D mS I!i!2!ÍMíí(D 

Olhos onde a ternura so derrama 

Em reflexos subtis e maviosos, 

Na bocca a seducção, na face a chamma, 

A graça nos cabellos luxuosos. 

O soio entumecido como a onda 
Quando se arqueia ao rebentar em flor, 
Parece que agitado so arredonda 
Nas pulsações do jubilo e do amor. 

E cila, é cila, — o mórbido sorriso, 

A languidez da fronte que se inchna, 

Aquella doce luz do paraiso 

Que lhe affronta o semblante, e lh'o illumina. 

Tudo o que vejo, és tu; ai, mas a vida, 
Mas tua alma, teu sor, tudo o quo é meu. 
Quem é quo o sabe dar, rosa querida. 
Sem que a aurora d'um beijo inflamme o eco!. 

E. A. VIDAL. 



S. HERMANN 

QUADrtO DE 

VAN DYCK 



nlonio Van Dyck, pintor flamengo, nasceu 
fe om Anvers, no anno do 1599, e morreu era 

â Londres no de 1641. Foi discípulo de Rubens. 
i^ Depois de ler viajado pela Itália, França e 
p llollanda, o rei Cnrlos I cliamou-o em 1632 
^^ a Londres, onde lixou a sua residência. O 
frio acolhimento que tiveram os seus quadros 
históricos, obrigou-o a abandonar quasi com- 
pletamente aquelle género de pintura, em 
que se approximava muito de Rubens, entre- 
gando-se aos retratos, no que rivalisou com 
Ticiano. Trabalhava com a maior facilidade, 
asão por que produziu grande numero de 
obras. 
Desejando mostrar o seu talento em alguma grande composiçiTo, 
propoz-se a fazer a decoração da sala do lianqnete de Wliile-liall, 
cuji^ tectos foram desenhados pela mão de Rubens; mas não obtendo 
esta"obra, dirigiu-se a Paris para alcançar a decoração da grande sala 
do Louvre. Soube, pori-m que Poussin viera expressamente de Roma 
encarregado d'aquelle trabalho, e, cheio de desanimo, tornou a Ingla- 
terra, onde pouco tempo viveu. 




ARTES E LETRAS 



79 



Van Dyck linha menos iinaginaçilo do quo Rubens, nilo possuía 
a audácia que levava este artista a tratar os assumptos mais gran- 
diosos; no emianto oxcedou o mestre na expressão, delicadeza de 
sentimentos e correcçflo do desenho. Se Rul)ens lhe levou vantagem 
no vigor e brilho do colorido, elle foi-lhe superior na verdade com 
que reproduziu a natureza. 

O quadro — S. llermann, quo damos cm gravura n'estc numero, 
é de formosa coniposiçiXo; todas as figuras lêem exccllente desenho e 
expressão magnitica. É dos melhores que produziram os mágicos pin- 
céis de Van Uyck. 



DIVERSAS NOTICIAS 



=^== El-Rei D. Fernando comprou ao sr. Manuel de Macedo unr 
alhum de desenhos feitos por este artista, no género dos typos que 
temos publicado. O hábil desenhador começou já outra collecçao, a 
que poz por titulo — A vida do theatro. 

== Franjais, paizagisla francez, que está actualmente sendo a 
admiração dos que visitam as exposições onde elle tem quadros, vivia 
em intima amisade com Benonville, desenhador muito apreciado pela 
verdade e consciência com que executava os seus trabalhos. 

Os dois .amigos costumavam ir juntos para o campo e estabele- 
cer o seguinte contrato: todo aijuelle que fosse colhido pelo outro em 
manifesto erro nos assumptos copiados do natural, pagaria um tanto 
para a communidade. Calcule-se como a exactidão dos desenhos não 
seria escrupulosa e minuciosamente verificada por cada um dos dois 
adversarios-amigos. 



— O orçamento que a assembléa de Versaillles votou ultima- 
mente para as artes em França, é o seguinte : 

ARCIIIVOS, BELL.\S ARTES E MUSEUS 

Administração central 30:270^000 réis 

Material 7:360^000 » 

Archivos nacionaes — Pessoal 26:190,^1000 » 

» « Material ri.^868^000 » 

Estabelecimentos de bellas artes 78: 192^000 >. 

Obras de arte e decoração de edilicios públicos 104:700,^3000 » 

Exposição das obras dos artistas vivos 44: lOOâOOO » 

Theatros nacionaes e conservatório de musica. . 297:9(M)áOOO » 

Assignaturas de obras de arte 24:480^000 » 

Incitamentos e soccorros 43:720^000 » 

Monumentos históricos 198:000,3000 .. 

Sluseus nacionaes 109:800,3000 u 

ISililiolhecas dos palácios 6:820,á0O0 » 

Palácio do Luxemburgo 20:042^400 » 

Manufacturas nacionaes 14o:791 JiOOO » 

Total 1.212:033^400 . 



Abriu-se a exposição dos aguarellislas em Bruxellas. O rei 



assistiu á inauguração. 

=== Escrevem de Vienna que no dia 10 de abril foi aborta a ex- 
posição permanente de Kiinsllerliaus. (]onlém (juadros a óleo, agua- 
rellas, estatuas e trabalhos de architectura em numero de 741 objectos. 
Distinguem-se entre todas as obras os quadros de género. Esperava-se 
que a exposição fosse melhor. 

Leubach, de Munich, Angeli e Felix, expozeram cxcellentes re- 
tratos; mas nota-se com pezar quo a maior parte dos artistas, em to- 
dos os géneros de pintura, táem mais savoir-faire do que originalida- 
de, porque .se limitam apenas a imitar os artistas francozes e allemães. 
Muitos pintores de nomeada, como Makart, Peltenkofen, Remi van 
Ilaanen, não expozeram directamente; os negociantes de quadros ex- 
pozeram trabalhos que possuíam d'elles, assim como grande numero 
do telas de todos os pai/.es e j)articularmenfe de França, sendo quasi 
todas de pequenas dnnensões, mas de artistas de importância, como 
Meissonier, Troyon, Coulure, Plassan, ele. 

A exposição permanente do Ktinslverein do mez de abril, em- 
bora pequena, possue telas muito mais notáveis do qtíe as da grande 
exposição. Um magnifico retrato de Makart, dois famosos quadros do 
Robert-Fleury, Ires excellentes paizagens de Calame, dois quadro^de 
Troyon, uma paizagem de Theodoro Rousseau, os Três mosqnetríros 
de Meissonier, nmitas tél;iS formosíssimas dos irmãos Acbenbach e 
outras obras primas. Esta instituição é bem dirigida, o os amadores 
encontram logar lá para expor os seus trabalhos. Póde-se dizer, sem 



risco de se passar por exagerado, que a exposição de abril no Ktlnst- 
verein, embora muito inferior em quantiuade, excede em belleza a 
do Ktlnstlerhaus, que se distingue unicamente pelo mau gosto que 

firesidiu á disposição dos quadros, e pela quantidade de maus traba- 
tios collocados nos melhores legares, por effeito de protecções e com- 
padrios. 



Falleceu era Kensington o estatuário da academia real do 

Londres, Ricardo Westmacolt. Tinha 73 annos de edade. Era auctor 
de obras muito estimadas, notando-se entre ellas Vmtis e Ascanio, 
o Tocador de cymbalos e a Nympha e o Fauno. Provou ser, alem de 
arlisla, bom escriplor, nas obras que publicou — Ensaio sobre a colo- 
risação das estatuas e Guia das escolas de esculplura. 

Fez-se leilão em Londres de algumas obras de artistas fran- 



cozes, as quaes foram venditlas pelos seguintes preços: Um rebanho, 
desenho a carvão. Rosa Ronheur, 50 guinéos; Carneiros, desenho, 
Rosa Bonheur, 72 g.; Cavalleiro com senhoras, pintura, Merle, 31 g. ; 
Rapariga mourisca, Carolino Duran, 135 g. ; Uma vitella, Troyon, 
110 g.; Joven çirega, Landelle, 56 g. ; Praia com rebanhos. Augusto 
Bonheur, 278 libras. 

No próximo mez de junho haverá em Dudley-Gallery, Egy- 



pcian Hall, Piccadilly, Londres, uma exposição de obras de arte exe- 
cutadas a claro-escuro. 

■ O desenvolvimento das bellas artes augnienta cada vez mais 



na Gran-Bretanha. Em Londres, onde ha, como se sabe, sociedades de 
pintores a óleo e de aguarellislas, vae abrir-se uma nova exposição 
especialmente destinada á gravura e ao desenho. O Soutli-Kensington, 
com as suas numerosas escolas, não hasta á ardente actividade (lo 
povo inglez. Uma nova instituição, devida á iniciativa particular, vae 
servir-lbe de auxilio. Está para ser inaugurado um museu fundado 
por sir António Brady e M. Hansard, sendo a inauguração feita com 
a exposição das preciosas collecções de sir Ricardo Wallace, de lord 
Elcho e do marquez de Westminster. 

: Morreu em Mello (França) com 83 annos de idade, o sr. Re- 



nato Francisco Roudier, celebre archeologo e numismático. 

A venda dos quadros, estudos e desenhos de Karl Girardet 



produziu a somma de 12:403^000 réis. Vinte e cinco quadros per- 
tencentes á collecção da baroneza de Roeil foram vendidos por perto 
de 90:000,30(X) réis. Figuravam entre ellcs o quadro — Os porco<<, 
de Pottcr, que chegou a 703 libras slerlinas; Uma paizagem, de Hob- 
benia, vendida por 4:123 Ib. ; Uma marinha, de Van de Velde, que 
leve o lanço de 3:712 Ib. O museu de Anvors comprou por 2:273 Ib. 
uma Queda de agua, de Ruysdael. 

O museu do Louvre fez acquisição, no leil5o de Leão Co- 



gnieti do desenho do quadro de Prud'hon — A justiça perseguindo 
o crime, que ligura na sala chamada das sete chaminés. O desenho 
está assignado e datado, e tem nas costas, cscriplo pela mão do an- 
dor, o seguinte : «Esboço do quadro feito para a sala do tribunal cri- 
minal de Paris, por Pedro Paulo Prud'hon, em 1808.» Tem 40 cêntimos 
de altura e 50 cêntimos de largura. Foi adjudicado por 102,^000 réis. 

Durante o verão abrir-se-ha no Louvre uma nova galeria 



que se denominará de Miguel Angelo, e que é destinada a receber as 
melhores escuipturas que havia nos palácios imperiaes incendiados e 
destruídos. 

■ O bufete da Grande-Opera do Paris será decorado cora oito 

tapeçarias de Gobelins, feitas por modelos de M. Magerolles, e que 
modem 2 metros e 90 cenlimetros de altura por 90 de largura. Os as- 
sumptos das composições são : O Café, o Cha, o Vinho, a Fructa, os 
Sorvetes, a Pastellaria, a Caca e o Peixe. 

Na occasião em que o príncipe Napoleão poz á venda em 



Londres a sua bella collecção de quadros dos mestres italianos, a im- 
peratriz Eugenia expoz, para .ser vendida, em Pall Mali, na casa de 
M. Davis, uma pasta contendo 43 aguarellas assignadas quasi todas 
por artistas não francozes. A esta collecção estava junta nm.a das mais 
importantes obras de esmalto modernas que se tem feito. É a repro- 
ducrão em oiro do prato e jarro de Briot. Este objecto, comprado em 
1867 por 27:000,^000 réis, obteve a grande medalha de oiro na expo- 
sição universal. 

O Salão franqueou as suas portas aos parisienses ávidos 



de apreciar objectos de arte, no dia 10 d'esle mez. Desde o dia 8 
que os artistas tiveram livre entrada para limpar e envernizar os 
seus quadros. Tem concorrido muito povo a ver a exposição. O re- 
trato de Thiers está na primeira sala, á entrada da exposição, do 
lado direito. A excepção dos grandes quadros, cm cuja collocação 
não foi observado o methodo a que foram sujeitos os demais, todas 



80 



ARTES E LETRAS 



as obras cstao expostas por ordem alj)habetica, segundo o costume. 

A escada que vae ter ao Salão está sumptuosamente decorada 
com magnificas tapeçarias, que formam um soberbo vestibulo guarne- 
cido de flores. 

O Salão abre-se todos os dias ás 10 horas da manhã. A entrada 
é gratuita aos domingos e quintas leiras: nos outros dias paga-se um 
franco. 

Muitos quadros representando scenas da guerra foram retirados, 
embora tivessem sido admittidos pelo jnry. Os artistas, convidados a 
tomar em consideração a inopportunidade de uma exposiçSo solemne 
dos aggravos contra a Prússia, na occasião em que o governo ence- 
tava delicadas negociações para a libertação do território, não hesita- 
ram cm dar exemplo de moderação e patriotismo, retirando, de seu 
niotu próprio, as obras que apresentaram. 

Figuram entre os trabalhos de primeira ordem, uma paizagem 
de Fraiiçais, intitulada — Dwphnis e Chloé, a estatua de Joanna d'Arc 
por (;hapu, e um Hetrato de mulher, copia de Rembrandt, gravado 
por Dauguin. 

: Júlio Jacquemart terminou, para a reimpressão do volume- 



Esmaltes e camaphcus, que vae ser publicado pelo editor Hachette, 
um formoso medalhão de Theopliilo Gaulier. 



=^= Fez-se um resguardo de madeira ao Sansão, de Miguel An- 
gelo, estatua de mármore collocada sobre um dos lados da porta do 
Palazzo vecchio de Florença, que se acha bastante damnificada pela 
acção do tempo. Trata-se de a transportar para unia das salas do mu- 
seu Dc(jl'iillizi, subslituindo-a por uma copia moderna em mármore. 

= O sr. Foucard, de Valenciennes, presenteou o museu do Lou- 



vre com um retrato de homem, por Mabuse, assignado e datado de 
1524. O quadro está em perfeito estado de conservação, e foi exposto 
na sala dos gothicos flamengos. 

: A bibliotheca do museu da industria, em Bruxellas, recebeu 



de um generoso anonymo que por mais de um vez lhe tem feito va- 
liosos presentes, uma preciosa collecção de mil estampas orisinaes 
dos melhores mestres, relativas á decoração, mohilia, serralhcria e 
ourivesaria da epocha do Luiz XVI. Foram postas á disposição dos 
operários e dos alumnos, das 7 ás 10 horas da noite, para serem co- 
piadas, permittindo-se o uso do papel vegetal. 

Os artistas de Vienna associaram-se para fazer uma loteria 



cujo produclo é appiicado á fundação de uma caixa económica para 
pensão ás viuvas e orphãos dos associados. Destinam-se 3:400^000 
réis para compra de onjectos de arte. A loteria effectuar-se-ha a 28 
do próximo dezembro. Sirva isto de exemplo. 

Na egreja de Nossa Senhora da Gloria, em Aveiro, existe 



um quadro de bastante valor artístico, representando Nossa Senhora 
do Rosário. É attribuido a Grão Vasco. 

==== O rei dos belgas fez acquisição das seguintes obras na ex- 
posição dos aguarellistas: Natureza morta e flores, por Charette; 
uma Encosta em Nimelette, por Ligny; Vendedor de f ruela no 
Cairo, por Wauters, e um Interior de egreja em Maasslins, por 
Bosboom. 

=^=^ Está concluído o quadro que o sr. José Rodrigues pintou 
no tecto da sala do tribunal do commercio. A composição é allego- 
rica. Themis empunhando a espada occupa o centro; tem á direita 
a cidade de Lisboa representada por uma esbelta mulher, cuja cabeça, 
passada pelo reflexo, está muito bem pintada, á esquerda Mercúrio, 
symbolo do commercio. Um ramo de oliveira e a cornucopia da abun- 
dância completam a composição, que tem bonitas linhas e sobretudo 
grande vigor de colorido. O fundo é bem executado. 

O sr. José hodrigues está também pintando o retrato de EI-Rei 
para a mesma sala. 



-= Publicaram-se no Brazil as seguintes obras: 



O drama em um acto, pelo sr. António José da Fonseca Moreira— 
Lagrimas perdidas. 

Leitura para os sabbados, revista hebdomadaria pelos srs. ba- 
charéis Mala de Araújo e Correia Canto. 

Atcyones, collecção de versos, pelo sr. Carlos Ferreira. 

Resnrreição, romance, pelo sr. Machado de Assis. A propósito 
d'esta ultima obra vimos nos jornaes do Rio criticas muito lisonjeiras 
para o illustre litterato, que é uma das glorias do Brazil. 



= Bertall, o espirituoso caricaturista francez, está fazendo um 



álbum de caricaturas a propósito da ultima exposição do Salão. 

— O pintor brazileiro Pedro Américo já cxpoz o seu ultimo 

trabalho — O retraio do imperador D. Pedro I, cuja encominenda lhe 
íòva, feita pelo senado. A téla mede 2 metros e 80 centímetros de al- 



tura, por 2 metros de largura. D. Pedro é representado de pé sobre os de- 
graus do tlirono, no acto de abrir pela primeira vez a assembléa legisla- 
tiva. Na tribuna á esquerda estão algumas damas, reconhecendo-se entre 
ellas a imperatriz do Brazil e a infanta D. Maria, que foi depois rainha 
de Portugal. Do mesmo lado e abaixo dos degraus do throno ha duas 
figuras (juo lembram os viscondes de Barbacena e Santo Amaro, pre- 
sidente e secretario do senado. 

Os jornaes do Rio de Janeiro tecem os maiores gabos a este tra- 
balho do celebre auctor da Batalha do Campo Grande, encarecendo- 
Ihc sobretudo o colorido. 



===== A respeito do drama originai em cinco actos — A condesta 
do 1'Veixial, que subiu á sccna do theatro de D. Maria II, em benefi- 
cio do actor Silvtira, escreveu o sr. Eduardo Vidal, em folhetim do 
Diário Poptdar, o seguinte : 

Quem está aíTeito a umas certas peças de idéas temerárias, de 
intuitos arrojados, de Iheorias extravagantes, não encontrará n'esta — 
A condessa do Freixial — o sabor acre no qual muitos paladares 
acham delicia. É um thema sem basofias de novidade, mas discu- 
tido gravemente. O povo e a nobreza, o andrajo c o pergaminho, 
duas honras, — quando são honras, — que lutam porque não se en- 
tendem. A madre silva do castello dehruçou-se para o lilaz da chou- 
pana, e no dia em que se sentiu enlaçada vieram-lhe rubores do es- 
ponsal, vergonhas do enlace, e teve tentações de partir com ella. 
Julgou que a flor era atrevida em querer subir, e esqueceu-se de re- 
parar em quem tinha descido. D'estes esquecimentos é que muita cousa 
má vem ao mundo I... 

O sr. Rangel de Lima, que largou a téla pela pagina do livro, 
tem dado de si, n'este ultimo campo, mais de um testemuho honroso. 
A Condessa do Freixial é sobretudo uma peça de sentimento. Dentro 
d'aquellas muralhas antigas quanto vive é de boa entranha. Pôde um 
preconceito de raça, uma illusão fidalga, uma timidez antipathica em- 
baciar o crystal dos límpidos affectos; mas o que ali se nota, com 
abundância, é austera e generosa virtude. Por isso no quarto acto, 
quando a condessa, tomando proporções magestaticas, fulmina o filho 
com a eloquência que dá a virtude, — os retratos de família, chamados 
a assellarom aqucllas palavras, fazem lembrar os de D. Ruy Gomes, 
quando esto, apontando-os a Carlos V, exclamava com a sobranceria 
de um cavalleiro sem mancha: «N'est-il pas trai, vous tous?» As si- 
tuações são de grandeza diversa, porém no fundo tem ambas o mesmo 
cunho severo. 



: Para servir de guia aos jurjs que téem de julgar as obras 



de arte que figuram nas exposições portuguezas, publicámos uma 
parte de um artigo critico relativo á exposição franceza denominada 
— O Salão, com a doutrina do qual artigo cx)ncordamos perfeita- 
mente. 

«O jury, segundo parece, foi severo este anno. Pela nossa parte 
felicitámo-lo do coração, porque nada se havia tornado mais neces- 
sário do que restituir á exposição nacional o caracter de concurso 
serio, e substituir o direito de asylo banal, até agora concedido ao 
primeiro individuo que apparecia, por uma hospitalidade restricta, 
que só por si é uma recompensa e uma honra. O Salão, diga-se o 
que se disser, não pôde ser refugio legal aberto, á custa do estado, 
a toda a gente que entre na carreira das artes por vocação ou por 
outro qualquer motivo, e n'ella prosiga conforme pôde. Não é insti- 
tuído para abrigar periodicamente todos os productos do pincel, do 
cinzel ou do buril, como a imprensa, o theatro francez e a opera não 
são feitos para dar publicidade a tudo quanto pôde ser lido, represen- 
tado ou cantado. 




43i-lMpitEX9i Nicio.iAL-1873 



AliTES E LETRAS 



81 



ARTES E LETRAS 




Lisboa — Junho dk 1872 



o palácio de Calhariz — Diogo Bernardes — Frei Agostinho 
da Cruz — A serra da Arrábida 



RANDE, magestosa o ao 
Ãm mesmo tempo amcnissi- 
r,|L- ma, é a serra -da Arra- 
^Í'=- bida. 

"" ~ --r=z Muito pouca gente 

Sgs; conhece aquelle pontd 

de vista, uma das pers- 

I pectivas mais jjittores- 

cas de Portugal. Se em 

certa época a peregri- 

_^ nação á Arrábida era 

/^<;2bv^ enfadonha o difficil, nao 

-• '-' ■ — - succede o mesmo agora, 

que temos o caminho de ferro 

até Setúbal. De Setúbal á serra, 

por mar, na primavera ou no 

verão, é um passeio agradável. 

Em 18Õ4 foi a primeira vez 

que visitei a Arrábida em companhia de 

A. Herculano. 

Juntamente com dois amigos, J. Fi- 

lippc de Soure e L. T. Homem do Bre- 

derode, A. Herculano tomara do renda 

a 2'1'opriodade de Calhariz, morgadio e solar do 

duque de Palmella, D. Pedro. 

Entrando no palácio do Calhariz da Ar- 
rábida, tem-se idéa, immediatamente, do gosto 
e da largura do animo do seu proprietário. 

Os grandes espirites revelam-se cm todos os factos 
da sua vida. 

Tudo alli foi gisado em grande, a entrada, as sa- 
las, a capella, a livraria, os quartos para hospedes. 

A capella veiu de Itália o é uma obra d'arte, cujos 
pormenores não posso descrever de memoria, porque já 
lá vae um bom par de annos que estive alli pela ultima 
vez. 

Rccordo-me bem da impressiio que me fez, cm glo- 
bo, aquella magnifica vivenda! 

Cheguei n'um dia aspérrimo de dezembro, depois 
de quatro léguas de caminho por entre pinheiracs, ter- 
reno arenoso, monótono, labyrintho intrincado, cm que 
chegamos a convencermo-nos de que é preciso ter na mao 
o fio de Ariadne, para o viajante se desembaraçar d'a- 




' quella enredadissima meada a que os práticos chamam 
simplesmente — ■ os pinheiracs. 

Nem o pio de uma ave, nem o esvoaçar de um pás- 
saro. De fjuiuido (mi quando silvos agudos perpassando 
por entre a ramaria sonora. Era a rajada desabrida do 
nordeste rispido. 

Quando chegámos á chapada onde fica o palácio, 
vinha caindo a noite. O céu estava limpido; as estrellas 
com scintillaçào viva; frio intensíssimo. 

Apeámo-nos com os membros entorpecidos pela mar- 
cha e regelados pelo frio. Abriu-se a porta da casa de 
entrada, a casa dos veados, como lhe chamam, por estar 
decorada com estas peças vonatorias. 

Nos quartos que nos tinham sido destinados, além 
do agasalho, havia o luxo e bom gosto. Pouco depois 
entravamos na casa de jantar, onde estava a mesa sor- 
vida : na vasta chaminé de mármore crepitavam grandes 
toros de madeira secca em lareira esplendida. 

Aquellc aconchego interior, sobretudo para mis que 
tinhamos apanhado lá fora a bravura do tempo, era sum- 
mamcnte agradável. 

Depois de jantar fui até á livraria, sentei-me n'uma 
commoda cadeira e deitei mão de um livro. Deparou-se- 
me ura volume de Diogo Bernardes, onde havia uma 
dedicatória o uma nota que se i"cferia a sou irmão, frei 
Agostinho da Cruz. 

Agostinho da Cruz vestira o habito de S. Francisco 
c passara largos annos na Arrábida. Mais uma raziio 
para ou desejar percorrer a serra, triste refugio, durante 
tanto tempo, de um poeta do mimo, talvez o único que, 
em Portugal, teve nas suas, embora rápidas, composições, 
verdadeiro sentimento e perfume mystico. 

O ii'mào do poeta-raonge, Diogo Bernardes, foi um 
escriptor de algum sentimento e, jjor vezes, de verdadeira 
suavidade. Escolhido, n' aquella fatal jornada d'Africa, 
para ir cantar as suppostas glorias portuguezas, levara-o 
o amor-proprio a acceitar empresa com que não podia. 

N'essa época estava Camões em Lisboa, tinha aca- 
bado de publicar os Lusíadas, cpinicio das nossas glorias 
nacionaes ; mas os homens do seu tempo, isto é, os emu- 
les do génio, os ruins invejosos de todos os tempos, pre- 
feriam á lyra sonorosa do nosso Homero e do nosso Tyr- 
têo a avena pastoril do auctor do Lima. 

Diogo Bernardes recebia ufano a carta regia de 
poeta-official, deixando na sombra o príncipe dos nossos 
vates. 

Caro pagou a vaidade, coitado ! 

Com o desbarato da nossa gente nas areias d'Africa, 
onde se bateu com bisarria, caiu nas mãos do inimigo, e 
captivo, arrastado de presidio em presidio, curtiu pesa- 
dos annos de saudades e atribulações de todo o geuero, 
implorando em vão a Christovào de Moura c Francisco 
de Sá, em versos insulsos, o seu resgate, até que Filip- 
pe II, mirando á popularidade, remiu os portuguezes ca- 
ptivos na Africa. 

Voltando á pátria, onde as ambições fátuas lhe ha- 
viam feito suppor que regressaria coroado com os loiros 
da victoria guerreira e as palmas do Capitólio, apenas os 
seus protectores lhe arranjaram o modesto logar de moço 
da toalha, que exerceu durante o governo do cardeal 
Alberto. 

Diogo Bernardes, ao envez de seu imião Agosti 
nho da Cruz, era desastrado quando entoava cânticos ao 
divino. 

Feliz, muitas vezes, nas descripçõos bucólicas, nas 
elegias e nas canções amorosas, assim que se voltava 
para os sentimentos celestes descambava na trivialidade 
das loas. 



N.''B de 1872 



82 



Artes e letras 



Como amostra daremos estas quatro quadrinhas que 
provam até que ponto era n'elle poderosa a inspiração 
mystica. 

O poeta, tratando do estado da sua alma, rompe 
no seguinte epiphonema; 

Alma minha, ó alma 
De ti esquecida, 
Tor que dás á vida 
De ti mesma a palma! 

EUa te maltrata. 
Tu traz ella corres; 
Por que tanto mori'cs 
* Pelo que te mata? 

Quanto só deseja. 
Quanto se [irocura, 
Dou-lho que se veja 
Que vale o que dura? 

Níio sei d'onde vem 
Desconcerto tal. 
Trocar certo bom 
Por mui certo mal. 

Se os crimes de lesa-poesia sao punidos no outro 
mundo, bem pôde o poeta soccorror-so a algumas das 
suas graciosas composições de outro género, jiara redi- 
mir, com cilas, tào arrastadas somsaborias ! 

Em seu irmão, frei Agostinho da Cruz, o.sentimento 
religioso era profundo e exaltado. 

Agostinho da Cniz (Agostinlio Pimenta no século) 
convivia com a mais tina sociedade litteraria do seu 
tempo. 

D. Du.arte, D. Álvaro, o duque de Aveiro, seu filho 
D. Jorge, o duque do Torres Novas, e outros fidalgos,' re- 
cebiam com aprazimento o poeta, ouviam-lho com ap- 
plauso os versos, c faziam-lhe requintadas e singulares 
finezas. 

Estas caricias da boa fortuna, tao appetccidas por 
uns, e trio esquivas para outros, com ser reconhecido 
a ellas, níio podiam vencer o pendor nativo da sua alma, 
que engeitando as auras ridentes d'csto mundo, preferia 
a solidão e a penitencia do claustro, pi-elibaçào, n'aquelle 
espirito ascético, das iinmarcessiveis venturas do céu. 

As mais encarecidas supplicas de amigos não po- 
deram abalar-lhe o animo, nem ter mao no desfecho de 
seus designios. 

Concon-eram também para este desfeclio as desillu- 
s(5es que experimentara em certa opoca. Ao amor pelo 
retiro da vida esj)iritnal juntou-se o tédio pelo mundo, 
pelos seus amargos desenganos c ruins vaidades. 

Estou que, se hoje houvesse conventos, apesar de 
nao terem decidida vocação pelo claustro, alguns poetas 
fariam outro tanto. Talvez venha a coisa quando vier o 
direito de associação completo. Entre as saudades do 
amigos e as lagrimas da familia, vestiu o liabito ou an- 
tes a mortalha de S. Francisco. A solidão do mosteiro 
quiz juntar a solidFio do sitio. 

Procurou o convento de Nossa Senhora da AiTa- 
bida, de que era padroeiro o duque de Torres Novas, c 
alli, na serra deserta, cortada a ])ique sobre o mar, que 
rebenta no recôncavo das rochas e no âmbito das gru- 
tas, quiz, longe do mundo, elevar a sua alma a Deus ! 

Pensando na minha visita á serra, ao mosteiro, iis 
grutas dos monges; recordando os versos do poeta, que 
lera nos primeiros dias que passei na Ajuda, quando era 



muito moço ainda, fui dcitar-me, c adormeci com maia 
vivos desejos do percorrer aqucUas românticas paragens, 
desejos que i'ealisei no dia seguinte. 

(•lontinua). 

BITLIIÀO PATO. 
«rsíc:* 



O ILUSTRE DOITOR MATIIEIS 



KIICKJIANX-CIIATKIAN 



(Coniínuaçriri) 

O illustre philosojtho parou no meio da estrada, er- 
gueu-sc sobro os estribos, e disse com uma voz estron- 
dosa : 

— Miseráveis, sophistas, diseipulos do erro e das 
falsas doutrinas ! os vossos desvios capciosos, as vossas 
subtilezas escolásticas não prevalecerão contra mim . . . 
Em vão procurareis escurecer o astro que brillia na abo- 
bada dos céus, esse astro que vo? esclarece, que vos 
aquece, que fecunda a natureza, c que, apesar das vos 
sas blasphemias, apezar da vossa ingratidão, não dei- 
xará de vos encher dos seus benefícios. 

Para que preciso eu ver e?sa alma que me inspira os 
mais nobres pensamentos? Não a tenho semjjro presente 
ao meu ser? Não é ella o meu próprio ser? Cortae-mc 
estes braços, estas pernas, c dizei-mo se diminuistes 
Frantz Matheus, intellectual e moi'almente? Não; o corpo 
não é mais que um invólucro, só a alma é eterna ! Ah ! 
Coucou Peter, pòo a mão sobre a tua C(msciencia, e olha 
para essa immensa abobada, imagem de grandeza e do 
harmonia, e depois. . . atreve-te a negar o Ser dos seres, 
a causa primaria d'esta magnifica creaç," o ! 

Emquanto Matheus improvisava este discurso, Cou- 
cou Poter olhava-o, piscando os olhos com um ar mali- 
cioso. 

— Bem, bem; fallo assim sempre ao povo, e tudo 
correrá optimamente. 

— Grés ou não crés, finalmente, na j)ercgrinação das 
almas ? 

— Ora ! pudera ! . . . Verá, verá como nós vamos ma- 
tar todos os jjrégadores d'esta torra. Não ha um só que 
seja capaz de fallar, assim de uma vez, tanto tempo sem 
tomar o fôlego... o bom êxito é infallivol . . . Os outros 
precisam assoar-se, tossem de bocado a bocado para so 
recordarem do fio da sua historia... Ora o mestre botfi-se 
j)or ahi , adiante sem parar, como se lhe tivessem dado 
corda ! E magnifico, magnifico ! 

Chegaram assim á encruzilhada das trcs fontes. Ma- 
theus parou. 

— Aqui estão três caminhos, disso elle. A Provi- 
dencia, que vela pela sorte dos grandes homens, vao 
dar-nos a conhecer aquclle ((ue devemos seguir, inspi- 
rando-nos uma resolução cujas consequências são incal- 
culáveis para o progresso das luzes e da civilisação. 

— Não se enganou, ilhistre doutor Frantz, disso 
Coucou Peter. A JVovidencia acaba de me segredar que 
ó hoje dia de S. Bonifácio, quer dizer o dia em qiuí a 
tia Windling, a viuva Windling, estalajadeira de Obcr- 
bronn, mata, todos os annos, um porco gordo. Chegamos 
pois a tempo de comer os chouriços o de os regar com a 
bella cerveja. 

— Mas não poderemos começar dcsdo já as nossas 



ARTES E LETHAS 



83 



predicas ! Exclanioii Mfitlicus indignado das tendências 
scnsuaes do seu discípulo. 

— Pelo contrario, tudo se concilia: a estalagem da 
tia Windling devo estar cheia do gente, c acharemos logo 
a quem i)ri'gar. 

— Dizes que estará lá nmita gente? 

— Com certeza. Vem sempre a aldeia em peso co- 
mer a carne assada. 

— Vamos n'csse caso a Oberbronn. 

— È que, ponderou o tocador, deve-sc obedecer ú 
Providencia. 

Pozeram-se pois a caminho, e pelas cinco horas da 
tarde o illustre pliilosopho o o seu discípulo desemboca- 
vam magestosanientc na única rua de Oberbronn. 

A animayao da aldeola alegrou Jlatheus, que so- 
bretudo gostava da vida do campo. O perfumo dos fe- 
nos o flores que impregna o ar na epocha das ceifas, os 
grandes carros carregados que estacionam ])or debaixo 
das trapeiras altas, cmquanto os bois, perto, descançam; 
os brayos que se vem estender para agarrar os molhos 
de feno suspensos na extremidade das forquilhas com- 
pridas e luzidias, os ceifeiros que se deitam á sombra, 
na frescura; o tic-tac rythmico dos debulhadores na eira, 
os turbilhões do poeira que sobem das tararas; as 
gargalhadas das raparigas que saltam nos celleiros; as 
figuras bondosas dos velhos, cujas cabeças brancas c ós- 
seas se inclinam nas janellas, com um barrete de algodão 
cobi"indo o craneo calvo; o que se descobre do interior 
das cabanas e das casas pobres, onde se vêem esten- 
didas meadas de cânhamo sobre as grandes fornalhas 
de ferro e onde as velhas cantam uma antiga moda á 
creança que adormece; os cFies que vagueiam c farejam 
qucin passa; os gritos dos pardaes que se dispersam 
pelos telliados, ou vem mesmo pousar sobre os m('ilhos 
nos telheiros, tudo isto significava vida o fazia feliz o 
doutor Frantz. 

Julgou-sc por um momento de volta ao Graufthal. 
O próprio líruno levantava a cabeça, e muitas exclama- 
ções alegres saudaram Coucou Peter pelo caminiio. 

— Olé! Ahi vem Coucou Peter para comer os chou- 
riços. Que bom! Como vamos rir! I?ons dias, Coucou 
Peter. 

— Bons dias, Karl! Bons dias, Heinrich! Bons dias, 
Christian! Bons dias! Bons dias! 

E distribuia apertos de mão poios que de toda a 
parte lhe fallavam. Todas as vistas, porém, se voltavam 
para ilatheus, que pelo seu ar grave, pelos seus bons fa- 
tos de panno, e pelo cavallo médio e luzidio, inspirava o 
mais profundo respeito. ^ 

— E um cura! — E um ministro protestante! E um 
dentista! Diziam de si para si. 

Perguntavam em voz baixa a Coucou Peter, mas 
este não tinha tempo de responder, e corria atriís do 
doutor. 

Chegaram emfim á volta da rua, onde a Frantz Ma- 
tlicus pareceu de bom agouro o aspecto da estalagem da 
tia Windling. 

Uma rapariga estendia n'esse momento sobre as gra- 
des de madeira da varanda a roujja da barreia. Entre 
as ])Ortas via-so um magnifico porco destendido e aberto 
desde a cabeça até ao rabo; via-se o branco das gordu- 
ras, o rosado das carnes, tudo lavado, rapado, limpo — 
uma lindíssima e appetitosissinia apparencia. 

Um cão de gado, corpulento, com os pêllos longos 
e pardos, lambia as gotas de sangue que haviam caído 
na soleira da porta. 

As janellas de fVirma antiga, uns clioupos agudos 
(|ue se elevavam próximo, um grande telhado saliente 



que abrigava as medas de lenha, c a capoeira onde ca- 
carejavam uns frangãos coloridos, o pombal em cujo po- 
leiro regougavam dois lindíssimos pombos azues, tudo 
concorria ])ara dar á estalagem da tia Windling uma 
physionomia verdadeiramente hospitaleira. 

— Olá! Eh! Haas! Karl! Ludwig! Onde estão, man- 
dri(5es? (jritou ainda de longe o tocador. Então deixam 
ficar na rua o sábio doutor Jilatheus':'! Sucia de tratantes 
que se nao envergonham de tal! 

E enchia a casa com a voz, com os passos; dir-se-ia, 
pelo modo por que fallava e pelos seus ares ím[K)rtantcs, 
(juo acabava de chegar um verificador dos impostos, um 
guarda geral, ou mesmo um sub- prefeito. 

Um criad(j, Nickel, appareccu á porta assustado 
perguntando : 

— Valha-nos Deus. . . então o que aconteceu para um 
barulho assim? 

— O que aconteceu, desgraçado? Então tu não vês 
o illustre doutor Matheus, o inventor da peregrinação 
das almas, á espera de que tu venhas segurar-lhe no es- 
tribo? Vamos, avia-te, recolho o cavallo, e já te previno 
que hei do ter olho na manjadoura, e que a tua cabeça 
me responde pela palha que eu encontrar na aveia da 
ração. 

Então Matheus apeiou-se, e o criado cumpriu as or- 
dens recebidas. 

Não sabia o illustre doutor que para entrar na sala 
commum tinha de atravessar a cozinha, do modo que foi 
como que uma agradável surpreza o espectacido que se 
lhe apresentou anto os olhos, 

Estava-so a meio caminho do enchimento dos chou- 
riços: o fogo brilhava na chaminé; n'um aparador os 
pratos o as travessas brilhavam como soes; um i"apgz, 
]\Iiguel, fazia girar o espeto como uma maravilhosa regu- 
laridade; a sr.* Catharina Windling, com as mangas ar- 
regaçadas até aos cotovellos, em frente do uma celha, er- 
guia magestosamentc uma grande colher cheia de leite, 
de sangue, do mangerona c de alhos picados, deitando 
tudo isto para dentro das tripas, que uma criada, Sof- 
fayel, segurava bem abertas, para quo este agradável 
mixto podesse enche-las convenientemente. 

Coucou Peter ficou como petrificado perante um tão 
delicioso quadro: abria os olhos, dilatava as ventas c 
respirava o perfume dos tachos. 

Por fim com uma voz transportada disse: 

— O meu Deus! Que bodas! Quo bodas! 

A sr." Catharina voltou a cabeça e exclamou com 
alegria : 

— Ah! Es tu, Coucou Peter? Já cá te esperava. 
Nunca faltas aos chouriços. 

— Faltar aos chouriços? Nunca, sr." Catharina, 
nunca. Sou incapaz de similhante ingratidão. Devo-lhes 
muito para quo os esqueça. 

Depois, adiantando-se com um ar grave, pegou na 
colher grande de João, mergulhou-a na celha, e exami- 
nou durante segundos a massa com uma attenção verda- 
deiramente psychologica. 

A sr." Catharina encruzou os seus braços vermelhos 
e esperou o juízo do tocador. Este ergueu a cabeça e 
disse : 

— Ha. de perdoar, sr." Catharina, mas com sua li- 
cença direi que seria bom deitar aqui mais algum leite. 
Não se deve poupar o leite, que é a delicadeza, como 
quem diz, a alma do chouriço. 

— Ahí está o que eu já tinha dito, exclamou a tia 
Windling; não é verdade, Sofl"ayel? Não é verdade que 
te tinha ,dito que seria bom mais algum leite? 

— É verdade, bem tinha dito a sr." Catharina. 



84 



ARTES E LETRAS 



— Bem, agora tenho a certeza do não me enganar. 
Vae tu buscar a bilha do leite. Quantas colheres mais, 
Coucou Peter? 

O tocador voltou a examinar a mixtura e respondeu: 
— Três, três colheres, sr.* Catharina, e bem medi- 
das. Que eu... no seu logar... deitava-lhe quatro. 

— Pois deitam-se quatro, respondeu Catharina; vae 
pelo seguro. 

Foi n'e8se momento que ella viu Matheus, especta- 
dor impassivel d'este conselho gastronómico. 

— Valha-me Deus, e ou que não tinha visto este 
senhor! Veiu comtigo, Coucou Peter? 

— É o meu intimo amigo, o sábio doutor Matheus, 
de Graufthal. Viajamos para recreio próprio o ao mes- 
mo tempo para derramar as luzes da civilisação. 

— Perdoe-me, sr. 
doutor, acudiu a tia Win- 
dling. Como vê estamos 
enterrados nos chouriços 
até aos olhos. Entro, en- 
tro, 6 desculpe-me. 

O illustre philosopho 
fez profundas cortezias, 
como para dizer: «Não 
ha de que, não ha de 
que», e ao mesmo tempo 
pensava : « Esta mulher 
é da familia das gallina- 
ceas, espécie prolifica, 
naturalmente voluptuosa, 
que se alimenta bem. Si- 
gnaes caractoristicos: 
ollèos vivos, faces gordas, 
coradas, nariz, apezar de 
grosso, um pouco arrebi- 
tado». 

Ora acontece que o 
illustre doutor se nào en- 
ganava completamento no 
seu juizo, pois que a tia 
Windling íôra nos seus 
tempos heroina de varias 
historias... o, emfim, de ca- 
sos extraordinários, sem 
fallarmos em que, apezar 
dos seus quarenta annos, 
ainda conservava uns olhos 
tentadores. 

Matheus entrou na 
sala cominum e sontou-se 
na extremidade da mesa 
de pinho, prosoguindo 
n'estas judiciosas i-efle- 
xSos, ao passo que Cou- 
cou Peter limpava os copos e mandava Soffayel buscar 
uma garrafa de Wolxheim para refrescar o illustre doutor. 

Logo que a creada saiu a sr.* Catharina chegou-se 
ao tocador, poz-lhe a mão no hombro, o disso lhe cm voz 
baixa: 

— Com que então, Coucou Peter, este senhor é teu 
amigo, hcin? 

— Meu amigo intimo, tia Catharina. 

— Um bello homem, disse ella fitando Coucou Peter. 
— Eh! Eh! Tia Catharina, disse este sorrindo, acha? 

— Acho sim: é um homem... um homem perfeito. 
— Eh! Eh! Respondeu Coucou Peter; pudera, um 

homem que tem terras suas, um sábio, um medico ce- 
lebre. 




e etamÍDOu durante segundos a massa. 



— Um medico ! . . . Que tom terras ! Repetiu a sr.* Ca- 
tharina. Kada, tu não dizes tudo o que sabes? Porque 
diabo veiu elle a(jui parar? 

— Eh! Eh! Fez Coucou Peter piscando os olhos, a 
tia Catharina é fina, lá isso é! Eh! Eh! Eh! Se eu me 
atrevesse. . . mas emfim ha cousas. . . 

Depois enxugando os copos continuou: 

— Diga-me lá, ó sr.* Catharina, o Tapihans moleiro 
ainda por alii vem? 

— Tapihans? Exclamou a tia Windling, nem tu mo 
fallos n'elle, mesmo eu caía ! O que elle queria era casar 
com a minha casa, com a minha horta, com as minhas 
várzeas, ladrão! 

— Não era o homem que lhe convinha, lá isso nao 
ora, observou o tocador. 

Soffayel subia n'esse 
momento a escada; a tia 
Catharina estava radiante 
de alegria. 

— Bom, bom, disse 
ella pegando na garrafa, 
eu vou servir esse senhor. 
Deita tu nos chouriços 
umas quatro colheres de 
leite. Coucou Peter, olha 
para mim, vê se cu tenho 
alguma coisa na cara, se 
tenho o cabello desarran- 
jado. 

— Fresca como uma 
rosa. 

— Achas? 

— Ora, e até cheira 
a morangos, sr.* Catha- 
rina. 

— A morangos? Ora 
essa! 

Então a tia Windling 
limpou com todo o cui- 
dado os braços á toalha 
que estava pendurada 
atraz da porta, pegou na 
garrafa o entrou na sala 
commum, pulando como 
se fora uma rapariga. 

Frantz Matheus es- 
tava sentado ao pé d'uma 
janella aberta, a vêr lidar 
as abelhas de Baumgar- 
ten, cuja colmeia lhe fi- 
cava em frente: caíam 
torrentes de luz por entre 
as roseiras floridas, o o il- 
lustre philosopho, distra- 

hido por uma doce meditação, escutava o vago zumbido 

dos insectos que íippareccm ao cair da tarde. 

Foi então que a tia Windling entrou : atraz vinha 

Coucou Peter alegre, a rir, com três copos seguros nos 

dedos. 

— A vontade, doutor ^latheus, dizia elle, está can- 
sado, faz calor, dô-me o seu capotes para eu o deiiendu- 
rar n'este prego. 

— í^stcja á sua vontade, senhor; considerc-sc em 
sua projiria casa. Coucou Peter j)i me disse o seu nome, 
CO doutor ^latheus é bem conhecido nesta terra; é uma 
grande honra recebe-lo em minha casa. 

Matheus commovido por uma acolhida tao amável, 
corou, ergueu os olhos c respondeu: 



ARTES E LETRAS 



85 



— Favores, favores seus, senhora. Sinto nao ter 
trazido um exemplar da Antliropo-zooloíjia para lhe offe- 
recer como testemunho do meu reconhecimento. 

— Por aqui apreciam-se os homens de talento, ex- 
claraoTi a tia Windling. Ah ! cu gosto muito dos homens 
de talento. 

Dizendo estas palavras a estalajadeira olhava-o de 
um modo tão meigo, que o pobre philosopho se sentiu 
acanhado. 

— Tapihans ! ainda me vem falar do Tapihans, um 
João Ninguém, um moleiro, proseguiu ella. Sempre ha 
muita má lingua n'esta aldeia ! A dizerem que vamos 
casar-nos, pó porque o voem vir aqui beber cerveja to- 
das as tardes. Jesus ! Credo ! Deus mo livrasse de um ho- 
mem que só tem de seu o fôlego de ar que respira. Para 
viuva basta uma vez! 

— Calumnias, ca- 
lumnias, não duvide, di- 
zia Matheus. Essas mur- 
murações não tem a me- 
nor influencia no meu es- 
pirito, porque isso seria 
contrario aos meus prin- 
cipies philosophicos. 

N'esse momento o to- 
cador encheu os copos, di- 
zendo : 

— • Vamos, sr.* Ca- 
tharina, toca a beber á 
saúde do doutor. A sua 
saúde, doutor Frantz ! 

A tia Windling não 
era inimiga do Wolxheim; 
bebeu assim á saúde do 
doutor Matheus, como o 
faria um huzar. Tirou-Jhe 
depois o capote e o clia- 
peo desabado, e foi pen- 
dural-os n'um prego da 
parede. 

— E preciso estar á 
vontade. Nada de cum- 
primentos. Vá lá, Coucou 
Peter, mais uma gota pa- 
ra eu ir preparar a ceia. 
E verdade, sr. doutor, 
diga-me de que gosta: 
carne assada? frango do 
fricasséV 

— Qualquer coisa... 
é-me indifterente, respon- 
deu Matheus. 

— Qual ! por força que 
gostamaisdealgumacoisa. 

Coucou Peter fez-lhe entender por um signal que 
conhecia o prato favorito do doutor. 

— Bem, bem, disse a estalajadeira comprehendendo, 
far-se-ha o que se puder. 

E vasando d'um trago o copo olhou sorrindo para 
Matheus, e saiu dizendo que voltaria n'um instante. 

Coucou Peter seguiu-a para fazer preparar una prato 
de Kuclãen, de que elle gostava muito, e que suppunha 
agradaria também ao illustre philosopho. Este, sentindo 
uma ineffiivel serenidade, ficou perto dajanella: ouvia-se 
a voz da tia Windling dar ordens, os rumores do ser- 
viço na cozinha, as idas e vindas, e elle attribuia todas 
as attençòes de que o cercavam ao ruido que já fizera 
no nmndo a sua magnifica obra, e fclicitava-se pela ge- 



nerosa resolução que 
verso. 



tomara de esclarecer o uni- 



VI 




— Nobre c sublime aniinul. . . 



Era já noite quando a sr.* Catharina reappareceu, 
fresca, risonha e preparada, trazendo na mão um magni- 
fico candieiro de cobre, brilhante como oiro. 

Emquanto esperava que chegassem os habitantes da 
aldeia, despejava Matheus a garrafa do W^olxheim, pre- 
parando-lhes um magnifico discurso, baseado nos judicio- 
sos principies do sábio Aristóteles. A chegada da tia 
Windling mudou, porém, o curso dos seus pensamentos 
comúncentes e luminosos. 

Puzera a viuva a sua bella saia do ramagens, um 
pequeno coUete de seda vermelha e o toucado domin- 
gueiro, com grandes la- 

çoB de seda levantados 

como as azas de uma bor- 
boleta. 

O illustre philosopho 
sentiu-se fascinado; dei- 
xou-se ir na contemplação 
silenciosa dos braços ar- 
redondados, dos olhos vi- 
vos, e da agilidade e ele- 
gância de movimentos da 
viuva. 

Pará logo descobriu 
a sr." Catharina a ex- 
pressão admirativa dos 
olhos húmidos do bom 
doutor, e os seus lábios 
grossos e vermelhos ar- 
quearam-se n'um sorriso. 
— Fil-o esperar mui- 
to tempo, sr. doutor, — 
dizia ella estendendo uma 
toalha branca na extre- 
midade da mesa; fil o es- 
perar muito tempo V repe- 
tiu com um olhar d'uma 
languidez que penetrou 
até ao fundo da alma pu- 
dibunda de Matheus. 

— Cuidado, Frantz, 
cuidado ! dizia elle com- 
sigo; lembra-te da tua 
alta missão, e não te dei- 
xes encantar por esta se- 
ductora creatura. 

E sentia quo um ar- 
ripio indefinido lhe descia 
pela espinha dorsal, e sem 
querer baixava os olhos. 
A sr." Catharina estava radiante. 

— Como é timido, pensava ella, como cora. Ah ! se 
eu podesse animal-o ! Está ainda muito bem conservado, 
muito bem conservado. 

N'cste momento entrou Coucou Peter soltando rui- 
dosas gargalhadas. Trazia os chouriços fumegando sobre 
uma travessa, e nunca se vira physionomia mais alegre. 

— Ah! doutor Frantz, doutor Frantz, que cheiro! 
que sabor ! É tudo toucinho, tudo sangue e tudo nata ! 
Imagine, tio Matheus, que já provei coisa d'uns onze de- 
cimetros; pois, olhe, não fez senão abrir-me o appetite. 

E dizendo isso punha o prato sobre a mesa lenta- 
mente, com um ar do adoração ; depois encostou-se á pa- 
rede, desatou a gravata, abriu a camisa, desabotoou-se 



81) 



ARTES E LETRAS 



para estar mais á vontatlc, c soltou iim 2>i'of'untlo sus- 
piro. 

Atnls d'clla entriíra a gorda Soffayel com os pratos 
c um grande pão do centeio ainda cpiento do forno. De- 
pois de tudo conv(!nientemente disposto, Coucou l'etor, 
armando-se com uma grande faca com cabo do pau do 
ar, exclamou: 

— Então que é isso, tia Windling! Scntc-se ao pé 
do doutor. Ah! Ah! Ah! (^ue bom encontro foi este! 

Depois arregalou as mangas, trinchou o chouri^-o, 
o espetando um pedaço com o garfo, coUocou-o no prato 
do Mathcus. 

— Mestre Frants!, introduza-me isto no seu organis- 
mo c conto-me depois. 

Viu entr;o que a garrafa estava vazia, o quo o obri- 
gou a exclamar: 

— Soffayel, então! Não sabes que o chouriço gosta 
do nadar? 

A croada envergonhada do um esquecimento saiu a 
correr. Como, porém, encontrasse Tajjihans na cozinha, 
disse-lho por mangação: 

— -Ah! Pobre Tapihans. Entrou-tc o cuco no ninho. 
E mcUior procurares outro. 

E Tapihans, pallido c amarello, com o nariz afilado, 
as orcliias largas, o barrete de algodão no alto da cabe- 
ça, c as mãos nas algibeiras da sua jaqueta parda, appa- 
recou no limiar da ])orta. 

— Olá! Es tu, Tapihans! Gritou Coucou Peter. Che- 
gas a propósito para nos veres comer. 

O homemzinho caminhou até ao meio da casa, olhou 
por alguns segundos para os convivas, sobretudo para o 
doutor e para a viuva, quo nem se dignou voltar a ca- 
beça. O nariz parecia dilatar-se-lhe, augmentar; final- 
mente, abrindo a boca, disse: 

— Boa noite, sr.* Catharina. 

— Boa noite, respondeu cila cngulindo itm pedaço 
de chouriço. 

O moleiro não so moveu o olhou outra vez para o 
doutor, que também o olhava pensando: 

— Este homem não piklo deixar de ser da espécie 
das i'apozas, raça de ladrões pouco delicados de sua na- 
tureza. Depois vê-sc que algum bicho o consome: palli- 
do, faces salientes, olhos tão vivos. . . maus signaes ! 

E bebeu sobre estas reflexòes um copo de Wolxhein, 
que lhe pareceu delicioso. 

— Porque, então, não estás ainda casado, Tapihans, 
hein? Perguntou Coucou Peter entre a masticação de dois 
bocados. 

O homemzinho não respímdeu, mas mordeu os beiços. 

— Mais um bocadinho de chouriço, sr. doutor, mais 
um bocadinho, disse a viuva com ar sentimental. 

— Muito obrigado, muito obrigado, respondeu o dou- 
tor connnovido pelas attenções e pelos cuidados d'aquella 
boa creatura. 

Porque, com cfFeito, a sr." Catharina enchia-lhe o 
copo, olhava-o com meiguice, dcscançava-lho de tonqios 
a tempos a mão sobre os joelhos, o inclinava-se para lhe 
jjodcr dizer cm voz baixa: 

— Como sou feliz de o ter conhecido, doutor Frantz. 

Ao que o bom philosoj)lio respondia: 

— E eu! E eu! Agradeço-lhc do coração a sua boa 
hospitalidade. E nmito boa, realmente, o acredite ([ue 
será da melhor vontade que cu contribuirei para o seu 
apcrfeiçoamt'nto. 

Estas conversas cochichadas faziam aniarellecer Ta- 
jiihans. Por fim foi sentar-se n'um canto da casa ao pé da 
chaminé, c bateu sobre a mc^a, gritando com voz de fal- 
sete : 



—Vinho! 

— Soffayel, disse a viuva com indifferença, traze vi- 
nlio a esse homem. 

— Esse homem ! K(í])etiu o moleiro. È de mim quo 
falia, tia Windling? Ainda hontem me chamava Tapi- 
hans, e já hoj(! m(! não conhece, hcinV 

— Pois sim, sim, eu te cliamarei Tapihans, deixa 
estar, respondeu com mau modo a sr." Catharina, mas 



dcixa-me agora soccgada. 

(Continú.-)). 



B. 




yiAGE\8 PELO IMEItlOK DO MAZIL 



As tartarugas, sim desovamento e pesca. — Via(/em no- 
cturna pilo Xinfjú. — Calcada sinijular. — A perda 
da canoa. — Desanimo. — O ubá e o indio. — Um li- 
lertador forçado. — Travessia perigosa. 

MQUAKTO os movimentos rui- 
dosos das rodas c dos héli- 
ces dos barcos movidos a va- 
por não levaram o teiTor o 
o espanto ao seio jirofundo 
do Amazonas, viviam ali, 
era quasi plácido socego, 
muitos milhões de tartaru- 
gas, que depois se refugia- 
ram nos lagos numerosos c 
nos vastos confluentes do gi- 
gante dos rios. Era espectá- 
culo para alegrar a vista do 
viajante faminto um areal do 
sertão, nas occasiões do des- 
ovamento, (juc principiava 
na lua nova de outubro! Apczar do todos os sitios are- 
nosos terem suas tartarugas afreguezadas, que annual- 
nKíntc lá iam depor os ovos, havia um logar mais pre- 
dilecto d'aquelle povo aquático algunias léguas acima do 
rio Trombetas, nas formosas praias formadas pela embo- 
cadura do Nhanumdá, onde, segundo a tradição, as ama- 
zonas aconmiotteram Orellana. Do Pará e de todos os 
pontos do sertão acudiam alli centenares de pessoas, 
umas })ara negociar, outras por simples curiosidade, e o 
maior numero jiara fabricar manteiga com os ovos das 
tartarugas. Improvisava-sc uma povoação com barracas 
de fjlhas de palmeira; as auetoridades dividiam o ter- 
reno em quiidiò(!s, que se distribuiam jior familias ou in- 
dividues, o promulgavam um regulamento das praias, 
com disposições ponacs severíssimas contra quem pertur- 
basse o desovanu!nto. Xas proximidades da lua nova as 
tartaguras iam saindo, de noite e pouco a pouco, do 
rio; subiam pelo areal, a distancia das cabanas; toma- 
van» grandes ])recauções para que ninguém as sentisse; 
abriam com as mãfis curtissimas uma cova, que jicila 
profundidade se poderia duvidar que tivesse sido feita 
por cilas; depmdiam ali de quatro até dez dúzias de 
ovos, redondos, nidlles, e tamanlios como meio ovo de 
gallinha; tapavam o buraco; alisavam a areia em roda, 
de modo que não ficassem vestigios da sua passagem, e 
recolhiam-se ao elemento amigo e ])rf)tector com a con- 
sciência de que haviam desenqicnliado (•scru])ul(>samente 
os deveres que lhes impunha a natureza. Se uma chuva 
immediata ou um vento rijo vinha em" seguida revolver 



ARTES E LETKAS 



»7 



o eliiio, sumiam-sc as pegadas antes qiio as vl^so o ho- 
mem; a areia o o sol chocavam os ovos; o, passado o 
tempo necessário, a iiinliada rompia o invohicro, furava 
a dura camada, que para outros entes seria terrível se- 
pultura, o surgia radiante á luz do astro generoso, que 
a aquecera no berço subterrâneo. 

Por maior que fosse a distancia do rio ou do lago, em- 
bora nao se avistasse um nem outro do logar onde nas- 
ciam as jovens tartarugas, nào houvesse medo qne cilas 
hesitassem no caminho, que jicrdessem tempo cm estudar 
traçados ou que fizessem rodeios! A primeira que saia, 
partia como uma setta na dinicçao do elemento em que 
ia viver; o apoz cila seguiam todas as suas numerosas 
irmãs. Um instincto sublime, uma vcrdadeií-a e maravi- 
lhosa inspiração dizia-lhes de qne lado estava a agua; e, 
apenas nascidas, corriam ])ara cila como se fossem ve- 
lhas c experimentadas caminheiras! Nada tão gracioso e 
ao mesmo tempo tã(j digno de admiração, como ver uma 
d'essas grandes ninhadas atravessando vastos areaes em 
linha recta, na direcção da sua nova pátria! 

A medida que a lua nova se approximava, as tar- 
tarugas mães iam-se tornando menos timidas; primeiro 
s(j saiam de noite c longe das barracas; dejjois arrisca- 
vam-se de dia; e a final não escolhiam hora nem sitio. 
Quando a lua começava, havia uma verdadeira invasão 
nas praias! Os pobres animaes, apertados jicla natureza, 
appareciam aos milhares, cobriam litteralmente o areal, 
nào tinham quasi tempo de enterrar os ovos, esmaga- 
vam-se nnituaniento, e o ruido que faziam batendo com 
as conchas umas nas outras, dava idéa do que deveria 
ser o bater das armas c dos escudos n'uma batalha da 
edado media. Já não se temiam da gente que viam, nem 
da bulha que em outras occasiòes as teria feito fugir 
])ara bom longe; arrastavam-se difficilmente, umas por 
cima das outras, eiubaraçando-se e tentando subir até 
onde adiassem terreno desimpedido para abrir a cova o 
pôr os ovos ; mas, cançadas de luctar, levando a todos 
os momentos encontroes das que, já livres, fugiam a toda 
a força para o rio, o apressadas pela necessidade de se 
aliiviarem, largavam os ovos aos poucos-^ aqui, vinte; 
ívlém cincocnta ; mais adiante, dez; nem seni]ii'e acaba- 
vam de desovar, porque umas vezes liies faltava o es- 
paço e o tempo e outras succumbiam ao cansaço e ao sol 
ardente do meio dia, que as assava dentro dos cascos! 
esta faina durava tros dias e três noites com maior fu- 
lia; depois ia abrandando, como tinha começado, e ao 
fim do mna semana já não vinham outra vez senão de 
noite; e assim continuavam até nova lua. 

Era expressamente j)rohibido apanhal-as, assustal-as, 
ou perturbar por qualquer modo os trabalhos da postui-a 
durante o tempo da lua. Quem queria comer tartarugas, 
ou ovos d'cllas, devia ir procural-as fora da circumscri- 
pção marcada pela .auctoridade ; e não era necessário 
para isso grande trabalho. Findo o tempo da desoyaeão 
tiravam-os os ovos, empilhavam-se na praia, onde o sol 
os fazia fermentar, o fabricava-se a manteiga, que, met- 
tida cm potes, era mandada para o Pará, onde cada_poto 
se vendia por ij?^000 a G;>OCO réis cm moeda fraca*. A in- 
dustria da manteiga juntava-se uma outra, accessoria, 
que era a tartaruga cjzida, ou moqueada'^, cm pedaços, 
c mettida também em j)otes, que se acabavam de en- 
cher com manteiga. Cliamava-so a este petisco (que tam- i 
bem se fazia de peixe-boi) mexira, que, traduzido quer : 
dizer — assadura. ! 

• Ante8 do 1844. Hojcregnla o pi-pço do 101000 v('is até 1G;3000 
réi?. A inantcifra ou .nzoitc do tartariif;a, (juíí é liquida, servo para 
luzes c jiara feinpcrar a comida da gente pobre. 

2 O mesmo que assada. 



Depois da desova as tartarugas cspalhavam-se jrelos 
rios e lages e muitag deixavaui-se ir levadas pelas cor- 
rentes dos grandes rios até ao litoral do Pará. Ignoro se 
depois voltavam, mas parece-mo que se lhes tornaria im- 
possivel vencer a distancia de tantos centos de léguas 
contra a maré. O que é certo é que vi muitas em diver- 
sos sitios do baixo Amazonas, mas do rio Xingu para 
baixo não me recordo que haja praias onde ellas vão pôr 
ovos. 

Sabem todos que a tartaruga do agua doce não é 
o mesmo que a do mar; os cascos d'esta ultima são os 
que se aproveitam no commercio. No Amazonas e seus 
confluentes ha diversas qualidades; no Xingu, a que 
mais abunda é a espécie Tracajá — Ernys 'IVacaxa, de 
S2)ix . 

Constou na minha feitoria ', que em uma das ilhas 
próximas costumavam sair muitas tartarugas cm noites 
de luar; eu c os meus tapuios só tinhamos por manti- 
mento um pouco de peixe secco e farinha de j)au, e por 
isso nos sorriu a idéa de podermos obter carne fresca 
sem necessidade de perdermos horas de trabalho. Assim 
que chegou o primeiro dia de lua, embarquei-mc com 
uns quatro ou cinco homens, levando cada um de nós o 
seu sabre, o remámos para uma ilha a que chamávamos 
dos — Cajueiros — porque em suas bellas praias abunda- 
vam os Anacardos. Esta ilha ficava a distancia de uns 
cinco kilometros para baixo da nossa baiTaca; a maré 
sente-se no Xingu e faz inchar o rio, mas pouco ou quasi 
nada influo na velocidade da corrente. Deitámos a ca- 
noa para o largo c deixámol-a ir ao som d'agua. Um 
tapuio chamado Pedro, da tribu dos mundurucús, levan- 
tou o i-cmo ao alto c ])oz-se a admirar a agua que d'elle 
escorria, espelhada pelo clareio da lua, como se fora um 
rolo do fitas do crystal. Era um poeta perdido ! 

Eu, que nãò sonhava ainda com as musas, mas que 
mo sentia enlevado diante dos magnificos espectáculos 
da natureza, accendi um grande cigarro, enrolado em 
casca de tauari^, e comecei a fumar olhando para o ceo 
c para o rio. A noite estava limpida e tranquilla, como 
são quasi todas as da America do Sul; e os cheiros sua- 
víssimos de varias ])lantas c flores, perfumavam delicio- 
samente a atnios]ihera e inebriavam os sentidos. (Js meus 
homens, apczar da sua rude selvageria, sentíram-se tam- 
bém dominados pelo vago sentimento que me tinha, por 
assim dizer, em religioso recolhimento, o deixaram de 
conversar, accendendo os cigarros. 

Durante o tempo que vivi com os Índios do Brazil 
convenci-mo de que clles nem sempre olham com indiflc- 
rcnça ])ara as maravilhas da creação. O sol, o aspecto 
do ceo estrellado, as noites serenas e o luar esplendido 
dos trópicos, captivam a attenção do mais bárbaro ha- 
bitante do Amazonas; mas o seu maior deleito é con- 
templar, fumando um cigarro de tauari, as grandiosas 
massas d'agua que por todos os lados o rodeiam. 

Os meus tapuios iam, pois, calados como eu, em- 
quanto a canoinha descia, impcllida pela corrente do 
Xingu, na direcção da ilha dos Cajueiros. O silencio sor 
lenme que havia em torno de nús era interrompido, de 
vez cm quando, pelos rugidos da onça ou do jaguar, pelo 
bramido rouco de algum jacaré, o grito de um maca- 
co, ou o assobio do um pássaro nocturno. A linha cscu- 

' Cliama-se assim a cabana dos exploradores da borracha ou 
pjomma elástica, e eouKpuuito feitoria teiilia em bom portuirnez outra 
acecpção, entendi (pie devia adoptar aíjui a designação consagrada 
pelo uso no Pará. 

- Do entroeasco de uma arvoro, que tem este nome se faz uma, 
espécie de papel para cigaiTos, ao qual se chama iguahnoiítc tauari. 



88 



ARTES E LETRAS 



ra e enorme dos arvoredos desenhava-se nas aguas, da 
parto d'onde vinha o luar, e, apez£\r da distancia a que 
nos achávamos do terra, viam-so grandes pyrilampos, 
cortando em todos os sentidos as sombras densas da flo- 
resta, como se fora uma dança d'estrellas. Aos lados da 
canoa saltavam por vezes alguns peixes, que a belleza 
da noite convidava a variar instantaneamente de ele- 
mento; morcegos monstruosos, roçando as longas azas 
negivis na lympha prateada, atravessavam a miúdo de 
uma para outra margem; a nossa canoa, vogando ao 
som d'agua, com cinco homens immoveis como estatuas, 
dando por todo o signal de vida ós fogachos dos cigar- 
ros, que se moviam lenta e indolentemente cada vez que 
as màos os tiravam ou levavam á bocca, completava o 
quadro. 

A hora, o luar, o espectáculo do coo e das aguas, 
tudo era propicio para despertar n'uma alma terna e ju- 
venil lembranças e saudades da pátria, da màe, dos 
amigos, de quanto Deus deu ao homem para elle amar 
no berço e chorar depois de perdido. 

Os meus olhos arrazaram-se de lagrimas, e o ci- 
garro caíu-me da bocea... Um dos tapuios ia, provavel- 
mente, fazer-me algum reparo acerca da minha melan- 
colia, quando sentimos um grande abalo, e a canoa re- 
cebeu um choque como se tivesse sido abalroada e lhe 
houvessem saltado dentro muitos homens. Eu o os meus 
erguemo-nos d 'um salto com os sabres em punho. 

No sertão d'aquelle prodigioso paiz é assim a vida. 
No meio da maior tristeza, olhamos para o lado e vemos 
um bugio fazendo-nos tantas e taes visagens que desata- 
mos a rir ás gargalhadas; n'um accesso de alegria, caí- 
mos ao rio sobre um jacaré; topamos uma onça á porta 
de casa, ou uma cobra dentro da rodo de dormir! Se 
nos entregamos á admiração ou ás saudades, somos le- 
vados pela corrente contra algum madeiro, que nos faz 
naufragar: e muitas vezes, quando pensamos em deli- 
cias e prazeres innocentes, vemo-nos forçados a lançar 
mão das armas para defender a vida contra inimigos 
mysteriosos! — ^A natureza está alli perfeitamente de ae- 
cordo com estas peripécias: vemos o ceo limpido, o ar 
sereno, o dia brilhante, o rio tranquillo. . . e repentina- 
mente cae um furacão, como uma parede que desaba; 
rebentam as escotas; quebram-se os mastros ou rasgam- 
se em tiras as velas da embarcação — o que. é uma for- 
tuna, porque se isto não succede o tufão mette-nos no 
fundo ; — as aguas encapellam-se em vagas temerosas ; 
o ceo turva-se; a chuva cae em torrentes... — mas^ tudo 
isto passa com a mesma rapidez com que veiu ! E uma 
mutação de scena, verdadeiramente theatral! Reappa- 
rece a serenidade na atmosphera, o sol brilha no firma- 
mento, e os aromas rescendem das selvas com mais sua- 
vidade, emquanto se tranquillisam de novo as aguas dos 
rios e dos lagos! Em outros legares, o em certas oc- 
casioes, não se interrompe a calmaria; não ha névoas, 
nem vento, nem nuvens. É noite: está a terra inundada 
de luz suave e pura; a superfície do rio, immovel, como 
se houvera sido tocada por vara magica I . . . Ouve-se ao 
longo um trovão medonho, como o rebentar de peça de 
artilheria; uma vaga immensa, um rolo de muitos me- 
tros de espuma, sobe, fervendo e rugindo, pelo rio acima, 
levando eomsigo tudo quanto encontra, cspedaçando as 
maiores embarcações, que se não acautelaram a tempo, 
arrancando arvores seculares n'um ponto e cravando-as 
n'outro com as raizes para o ar, fazendo e desfazendo 
ilhas, e conduzindo o pavor e a morto até ás portas das 
povoações ! È a porór<ka, phenomeno de que muitos têem 
fallado, e que ainda ninguém explicou satisfactoriamente. 
Depois da primeira onda, vêem outras duas mais peque- 



nas, e, mal se desvanece a ultima, a maré, que estava 
parada ou corria ainda para baixo, começa a encher com 
grande velocidade;. A superfície do rio alisa-se quasi in- 
stantaneamente; a atmosphera permanece inalterável; a 
lua resplandece com o mesmo brilho; os ventos não se 
moveram, e o Cruzeiro do Sul alumia com o mesmo ful- 
gor o theatro de taes prodígios ! . . . 



(Continua.) 



F. GOMES DE AMORIM. 




O BANQUETE DOS DEUSES 



AO MEU PARTICULAR AMIGO 



J. D. DE OLIVEIRA JÚNIOR 



Evohé ! evolié ! O firmamento 

ora todo suave melodia, 

era um mar de prazer em movimento. 

Quando Vcnus o cinto desprendia, 
quando mostrava os seios j)alpitante8, 
resceudendo fiuissima ambrósia, 

todos entào saudavam delirantes 

essa filha da vaga gemedora, 

a formosura que os fazia amantes. 

• Evohé ! evohé I O tentadora, 

« tu, que vences na alvura as mais formosas, 
« sempre bella, apezar de peccadora, 

f permitte que o licor das frescas rosas, 
«no jardim das Hespérides colhidas, 
« te perfume essas tranças preciosas. 

«Vê como em ti concentras nossas vidas!... 
«Teu collo é como um templo luminoso, 
«onde as pombas se acolhem doloridas! 

« Quando soltas o manto vaporoso, 
« descem teus raios ao soturno Averno, 

• e o mundo acordas embalado em goso. 

« Evohé ! evohé ! O meu phalemo 
« é para ti, que sorridente passas, 
« ó prazer novo no prazer eterno ! 

« Embriaga-te, irmà das doces Graças, 
« embriaga-te, ó màe d'is nús amores, 
« ao crystalHuo rctimtim das taças ! • 

Assim dizia Bacclio, entre os ardores 
do solemne fc«tini, embriagado 
no perfume dos vinhos c das flores. 

Marte acudiu ao brinde alvoroçado, 
mas, esgotando a taça, ia bebendo 
o ciúme que o faz desesperado. 




ANT.VAH etck: : 



■AYNE SC. 



SÃSLiSOflIfl il líil®LÃT[EÍSlÃ) 



Edito — » Tí,-,H--M «■ S- 



ARTES E LETRAS 



89 



Vénus que o via pallido, tremendo, 
encheu-lhe o coração de confiança, 
como quem vac a pedra amollecendo. 

Elle disse, brandindo a dura lança, 

« — Eu tcnlio no meu seio a heroicidade, 

• eu levo a morte, onde o meu braço alcança. 

«Eu tenho no meu sangue a mocidade, 
«a minlia voz, no meio do combate, 
«chega a fazer tremer uma cidade. . 

«A minha espada é como um raio, abate 

■ as legiões impávidas; o solo 
«fica sempre tingido d'escarlate. 

«Canta-me, pois, eloquente Apollo, 
«ó Orpheu d'este olympico banquete, 
«tu que levas a luz de polo a polo; 

«a teus pés arremesso o capacete, 
«como dama que aos pés da divindade, 
«vem depor os rubis do bracelete. 

« Vê-te no meu escudo : a magestade 
«das épicas façanhas se revela 
«n'esta quasi infinita variedade. 

«Eia, Homero, que Illiada tào bella! 
«que grandíloqua serie de poemas, 
«a desenhar-se no esplendor da tela!» 

« — Nunca, Marte! recolhe as tuas gemas: 
«eu nunca venderei a minha lyra, 
«a troco de brilhantes diademas. 

«Bem vês, a minha musa não delira 
«n'essas cruentas bacchanaes da guerra; 
«sobre as rosas dos túmulos suspira. 

«O que ella tem lá dentro, o que ella encerra, 
«a minha branda cythara plangente, 
«é um perfume que não ha na terra, 

«nem no ceo, nem no enxame refulgente 

• das estrellas que bordam meu caminho, 
«nem no fundo do mar sonoro e ingente. 

«Eu não desejo a viuvez do ninho, 

• nem quero ver que o cysne moribundo 
«leve ensopado em sangue o seu arminho. 

■ Quando eu de luz c de calor inundo 
«a terra loirejante das cearas, 

• tudo são hymuos no prazer do mundo ! 

• Não queimarei o incenso em tuas aras: 

• se eu te votara a cynthara cadente, 

• no sangue dos heroes a macularas! 

• Eu cantarei, na inspiração fremente, 
«Aquelle, cuja fronte geradora 

• pi'oduziu a sciencia omnipotente. 

«Elle é Deus, Elle 6 Pae! se assim não fora 

• o raio de Vulcano queimaria 

■ a sua mão mimosa e protectora. 

■ Júpiter tutelar, quem me diria 

■ que nos áureos festins do paraíso 

• te faltassem os raios da alegria?! 

• D'onde vem a tristeza que diviso? 

• Nem o calor do néctar purpurino 

■ desabrocha em teu» lábios um sorriso! 

■ Tu não tens que tremer do teu destino, 

• giram comtigo as rodas do futuro; 

• tudo obedece ao teu querer divino! 



«Porque baixas o olhar sereno e puro 

• íl filha do teu Génesis dilecta, 

«á Terra envolta no seu manto escuro? 

«Não temas confiar-te d'um poeta... 
«Descobre-me essa magua, esse mysterio, 
«que tanto te acabrunha e te inquieta. 

•Bera sei eu que as saudades têem império 
«tanto nos peitos frágeis e humanos 
«como n'um coração todo sidéreo. 

«Penetrei, descobri os teus arcanos: 
«teu inquieto espirito vagueia, 
«como a espuma que cobre os oceanos. 

« Sobem de quando em quando á tua idéa 

«aquellas ruidosas aventuras, 

«em que sorriu mais d'uma Galathéa. 

«Quantas, ó Deus, oh! quantas formosuras, 
«quantas cabeças scintillantes de oiro 
«acarinhaste em languidas ternuras! 

«Era a terra um vergel, era um thesouro... 
«Umas vezes qual cysne mavioso, 

• e outras inda, imaginário toiro, 

«has sorvido o licor de todo o goso!... 

• tu. Deus, inda mais Deus te imaginaste 

• n'esse sonhar febril, voluptuoso! 

«Hoje o lyrio pendeu na sua haste... 

«Debalde n'essa lyra inda dedilhas, 

« se as cordas uma a uma lhe quebraste ! 

«Hoje a Terra nào tem as maravilhas: 

«a minha luz apenas alumia 

«a triste pallidez das suas filhas. 

«Aquelle harém de divinal magia 
«abriu as suas portas marchetadas 
«á turba que em redor se revolvia. 

«Já se nào podem escolher as fadas, 
«as virgens do sorriso d'innocencia, 
«para os thóros celestes destinadas. 

«E quando inda existira essa opulência, 

• um qualquer D. Juan te provaria 

• que vae além da tua experiência. 

• O Deus, nào desesperes, todavia! 
«Novos mundos de goso embryonario 
«hão de surgir esplendidos um dia! 

«Olha em roda de ti! O estatuário 

• ha de animar da chama sacrosanta 

• o seu museu inerte e solitário! 

• Em cada sol, que a vista nos encanta, 
«a vida nova, em nova primavera, 

• n'um turbilhão doirado se levanta! 

• Tu terás um banquete em cada esphera, 

• tu terás o noivado do infinito, 

• em cada mundo um templo de Cythera. 

• Fita, Senhor, os olhos, onde eu fito, 

• e verás que, entre as massas luminosas, 

• a Terra era um mesquinho aerolitho. 

«Com a cabeça engrinaldada em rosas, 

• percorrerás, como insoflrido amante, 

• uma a uma as immensas Nebulosas. 

• Qual cometa de núcleo coruscante, 
■ has de fazer tremer os seios lassos 

• no fogo de teu rosto deslumbrante. 



N.° tí de 187Í 




tDcpoik de percorridos os espaços, 
i(|uiiiido voltes iio tlii'oiio das íiuroras, 
■ cauçado ciuíini do hcijos c d'abraço8. 

t 

icoraçào de f;if;ai)tc que iiào choras, 
• como cliuva de fogo, liíio (1(í lianliar-te 
. do jHidor santo as lagrimas sonoras ! • 

Assim cantara Ajiollo. O próprio Martc!, 
clieio dentliusiasmo, ol)cdccia 
áquellc influxo divinal da Arte. 

E o prazer borbulhava! Estremecia 
todo o azul dos cthereos j)avimcnto8 
ii'es8e crescente delirar da orgia 

Cambaleando, os deuses vinolcntos 
abraçavam-se ás deusas fatigadas, 
c dormiam nos seios opulentos. 

Mas no entanto, nas sombras condensadas, 
ouvia-se um niido ensurdcsecntc, 
a nuisica febril das gargalhiidas. 

Era um cântico audaz, voz inclemente, 
era um hynuio de guci'ras implacáveis, 
um grito de vingança onmipoteute. 

Eram filhos da terra, miseráveis, 
(pie saíam das lobregas minas, 
sem ter do lar os gosos ineíiaveis. 

Tinham no rosto a escuridão das minas, 
sorriam ferozmente, como escravos 
pisados pelo pé das Messalinas. 

Vertiam sangue as mãos, como se os cravos 
lh'as tivessem varado, u'um calvário, 
em frente de juizes, vis, ignavos! 

Cada qual viulia envolto n'um sudário: 
eram múmias saídas da caverna, 
era a raça maldita, o troletahio ! 

Tiidiam na fronte cscripta a raiva interna; 
sabiam que era a divida tremenda, 
pediam contas da injustiça eterna. 

Tinham rasgado emfini a crua venda! 
Quem é que os ensinava todavia? 
Quem lhes nuircava a luminosa senda? 

Vinham da noite, a noite os envolvia!... 
Mysterio que é vedado ao peiísainento. .. 
Era chegado á consciência o dia ! 

Ouviu-se estremecer o firmamento, 
c ao sinistro clarào da tempestade, 
a deusa da razào tomou assento 
sobre o throno immortal da liberdade ! 



Lisboa, maio, de 1872. 



SnUSA VITERTiO. 




A ARTE NA ANDALUZIA 




SI 



* liistoria os prandes 
lliireciínentos artísticos 
(•orr(,'S[)ondern sempre 
a [leriodos de jiraiides 
e arraipdas crença-;, 
de sentimentos energi- 
S cos,deidpasculininaii- 
J^ tes,f|iiereí:emosdiver- 
sos modos de ser da 
actividade humana. 
Não é fai-il achar uni- 
dade n'utria florecen- 
cia artística sem quo 
ella exista tandwm na 
e.«phera do pensamen- 
to, nem se concebe a 
forma do pintor e do 
estatuário senão quan- 
do se acha em liarmo- 
nia com a sua epocha, 
sendo a expressão mais 
alta das as[iiraçõescom- 
inuus lios seus contemporâneos. 

Em momentos de crise, quando 
o passado se desmorona e o porvir 
jaz ainda no mysterio do desconhe- 
cido; quando o ideal fraqueia, falto 
de vigor e de seiva, predominando o 
lítrario, a arte, embora alcançando honro- 
sos triumplios e conquistando positivas victo- 
rias, mostra-s(í incolierente e contradicloria, 
sem rumo certo nem clara e concertada signi- 
ficação. Mode!ando-se na cultura que a aca- 
lora, a arte como esta, segue direcções dis- 
tinctas, intentando, talvez, aproximar e 
acommodar encontradas tendências que no 
futuro iião de leval-a ao abysmo da sua ruina. 
Cumprem esta lei e sanccionain a dou- 
trina as manifestações artísticas de três povos 
differentes, o grego, o andaluz e o italiano, lia um momento na 
historia da arte hellenica no (|ual, inspirando-se o artista na 
atlimosphera que respira, executa as suas obras sujeitando-se á 
idéa (pie mais caracterisa aipudla civilisação. O grego, enamo- 
rado da Iieila natureza, rende culto á forma como não renderia 
nenhum outro povo, e eleva a personalidade humana até á apo- 
theose. A helleza plástica, o rythmo dos movimentos, o concreto 
do equilíbrio das partes matcriaes do corpo e das forças, a olym- 
pica serenidade e lixidez da expressão, a graça dos contornos, o 
decoro da attitiuie: eis-aqui os elementos que ha de exprimir o 
mestre quando se chama Fhidias, Apelles ou Polígnoto. 

Cinzelando o mármore que extraiu do Pentelico ou de Paroi* 
o artista só tem cm mira oiíerecer ás multidiws simulacros do 
typo humano com a aureola esplendente de luz e harmonia em 
que o colloca a phylosophia. 

Vénus Aphrodite saindo das ondas crystallinas, nua, mas 
cingindo o brilhante cinto da graça, é creacão própria da escul- 
ptura hellenica: todas as demais figuras, desde a Diana até Helic, 
desde Apollo e Orphco att!' Endyniirio ou Júpiter, são simples re- 
producções do padrão primitivo, modos ou phases de um conceito 
único, a beihíza sob a sua relação puramente antrnpomorphica. 
Recorra-se a quantos monumentos de e.scniptura chegaram 
até hoje e achar-íc-ha comprovada esta these. Todos os simula- 
cros plásticos são, se hem attentarmos, relações distinctas de um 
princi|)io único, o ideal da perfeííjão sensível expandíndo-se em 
metamorphoses inultiplíces. 

O que succcde na Grécia repelc-se na Andaluzia. Em ambas 
estas regiões dãose circumstancias muito apropriadas, cíicum- 
Ptancias que produzem análogos resultados. Como na Attíca e no 
Peloponeso as paisagens que rega o Guadahiuivír esiendenvse de- 
baixo de um céu sempre azul e cheio de bellissimos contrastes. 



ARTES E LETRAS 



91 



Exlcnsas veifias, altas e .abruptas niontanlias, despenhadeiros tor- 
reiítiísos; as liumidas brisas do mar refrescando a araijem qne 
descorre (lela raniaria, arrancando ao bosípie umbrifero inysterio- 
sas iiarnionias: perfiiiiies delicados e essências excitantes ás llores 
e ás jilantas; espectáculos esplendidos onde a natun^za ostenta 
as suas galas mais nobres; noites aprazíveis e silenciosas como 
noi-as alligura o desejo; auroras de nia{,'ico encanto, e borisontes 
por onde a vista se recreia com as fantásticas perspectivas (jue 
n'esses borisontes traçaram génios desconbecidos I 

Habita a terra andaluza uma raça ou variedade onde se re- 
únem os mais oppostos elementos, o asiático e o occidental, o ro- 
mântico e o clássico; são os ríspidos castelhanos, por cujas veias 
corre sangue céltico e germânico, euscaro e visigodo, e o árabe e 
niauritanio, rebentos vigorosos do tronco semítico que com a<|uel- 
les se confundem, constituindo um modo especial da cultura ibéri- 
ca, (pie propriamente tem o titulo de mudejar. 

Hnthusiasmo, veheinencia, fantasia, byperbclicos desejos, re- 
pentinos desfallecimentos, volubilidade, paixão, arrebatamento, 
eis-ai|ui os rasgos que caracterisam o andaluz ao terminar a re- 
conquista, como distinguem o atheniensc nos tempos mais [)rDspe- 
ros d'a(|uella republica. No fundo ha grandes semelhanças entre 
ambos estes povos; um e outro fundiram a sua respectiva exis- 
tência em luctas sanguinolentas, ambos rendem [larcas ao natura- 
lismo, e deixam-se guiar mais pelo sentimento do que pela re- 
flexão. 

Para o andaluz a bellcza será um culto, para o atheniense foi 
toda a sua religião: abi Vesta, ex[)ressão mais alta da forma fe- 
minina, no seu mais puro e delicado conceito, representará a alma 
da Grécia encerrada no Prytaneo; a(|ui a igreja cliristiano-arabe, 
entre o mudejar com o simulacro de Maria, ha de constituir tani- 
item o recinto previlegiado em volta do qual se agrupa a grei dos 
crentes. Respeitando toda a devoção, Maria é na Betica o que Ki- 
pris é na Atiica. I)esenvolveu-se a estatuária grega em volta d'este 
ideal, cresceu a pintura andaluza vigorisada pela visão translú- 
cida da mãe do Aasareno. Em ambos os paizes descança a arte so- 
bre uma allirmação potente — a belleza — com a dillerença, que, 
n'um d'elles, concebe-se unicamente como organismo positivo e no 
outro como equilíbrio intimo do sensível e o immaterial. 

É a muitos propósitos importantíssima esta observação: sem 
ella não se explica a unidade da arte andaluza, nem é fácil racio- 
cinar sobre os seus desenvolvimentos. A Andaluzia vive consa- 
grada, em grande parte, á paixão, ao amor, á poesia, a tudo o 
que é bello e delicado, a quanto se accommoda áquella compleição 
singularissima, onde o sensualismo tende a nivelar-se com a idea- 
lidade. Desde os primeiros tempos da pintura anonyma mosarabe 
até á decadência da escola de Murillo, no século xvui, a Virgem 
é o ideal que inspira todos os artistas. Conserva Sevilha precio- 
.«as estatuas da Virgem, talhadas em ebúrnea matéria, antes da 
decima quarta centúria, e se a pintura decorativa se insinua em 
quanto conhecemos, com as Virgens de Recamador, de Coral e de 
Antiípia, anteriores, em Sevilha, á ruina do império islamista, 
quando a arte desfallece e se perde nos desvios da tumidez ex- 
travagante, a Bella Pastora feciía o circulo das representações li- 
guradas da creação mais attractiva e expressiva da religião christã. 
Desde Aleixo Fernandez, que florece pelos annos de 14ÍJ0, até 
Luiz de Vargas, Céspedes, António Cano e Murillo, que posterior- 
mente illiístraram a arte andaluza, não se conhece um mestre, 
á parte singulares excepções, que não acuda, primeiro do que 
tudo, a pintar a Virgem, reproduzindo algum dos episódios da sua 
historia. Se as tábuas de Fernandez mostram a delicadeza com 
que o artista sente o tliema (pie figura, pinta Vargas a interces- 
sora, entre o peccador e a divina justiça, com mestria verdadeira- 
mente ra()liaelesca. Tem Céspedes uma Annunciação (|ue encanta, 
e Cano lavrou uma «Nossa Senhora de Belém» onde se reúnem 
perfeições ás quaes, até hoje, não attingiu nenhuma escola nem 
nenhum mestie. 

Harmonisam-se em Murillo todas as tendências, correntes, 
qualidades e esperanças da arte andaluza: Murillo é o resumo de 
todos os seus precursores, e a intelligencia ditosa onde acham ecco 
todas as resonancins da vida andaluza. O seu ideal é conhecido, 
a sua inspiração não muda nunca: Murillo pintou a concepção, a 
sununa virtude, encaruando-a no corpo mais realista e mais for- 
moso. Como na quadra opportuna todas as neves das serras des- 
cem, convertidas em torrentes, até formarem rios caudalosos, 
assim também (juando a cultura andaluza tocou a meta do seu apo- 



geu, todos os esforços concentrados de cem pl-edecessores tiveram 
de fundir-se n'um génio poderoso, que os acolhera diligente para 
os coordenar no molde da sua originalidade. A arte andaluza 
avantaja-se, em certo sentido, á grega, como uma civilisação se 
sobrepõe a outra: desconhece Cleomenes o que em Murillo é ver- 
dadeiro requisito de êxito, a graça moral da alma, o sentimento 
do amor materno, o palitos, a idéa cosmopolita do bem, tomando 
corpo n'uma creatura innocente, mãe do ([ue se sacrifica para re- 
dimir os liom(ms da primitiva culpa. Aphrodite é a belleza femi- 
nina, é a mulher; Maria é além d'isto, a mãe, a pureza, o casto 
amor, o sublime sentimento da maternidade, capaz dos mais sur- 
preliendentes sacrificios. A Grécia desconheceu a piedade; o chris- 
tianismo lev<antar-llie-ía altares; a Andaluzia rcpresental-a-ía na sua 
forma mais delicada, .sendo este culto como um perfume inellavel 
votado a suavisar as amarguras do transito terreno. 

Na pintura andaluza, como na estatuária clássica, a dor é o 
contingente, o detalhe e o accidental. Lacoonte e os ascetas de 
Zurbaran servem de fundo sombrio de onde resaltam a claridade 
de Athenéa e a diaphaneidade da Immaculada. Tem o artista 
grego e o andaluz fé, robusta fé: identificados com a sua epocha 
são a feliz expressão das suas dores e alegrias, dos seus trium- 
phos e fraquezas, das suas saudades e esperanças. Os templos 
erguidos na Grécia á mulher serão os mais egrégios. A Andalu- 
zia clianiar-se-ba terra de «Maria Santíssima» porque em caiía 
povo terá não um, porém muitos sanctuarios, em cada peito um 
altar e em cada língua um cantor das suas glorias. Separam-n'a 
os montes Marianos do resto da Península; Sevilha ufana-se com 
o titulo de cidade marial, n'ella o culto virginio alcança tão subido 
esplendor, que as gentes a designam com o epitheto de Roma do 
meio-dia, e, n'aquella ponta extrema, que, em frente da Africa, 
é protegida pelo monte Calpe, construíram os hespanlioes, quando 
Gibraltar ainda não gemia sujeita pelo leopardo inglez, um mo- 
desto e venerando tabernáculo para o enriquecer com a imagem 
de «Nossa Senhora da Europa •• 

Figurando a Virgem nasce a pintura andaluza: á sua som- 
bra cresce e prospera até constituir florecimento próprio, e, tra- 
çando o sympathico simulacro, conclue com Tovar e seus discí- 
pulos. 

E este o momento de contrastar a arte grega e andaluza com 
a do renascimento classico-italiano. Encherá e>te vários séculos 
com os seus triumphos, alcançará a sua influencia até os últimos 
termos do mundo civilisado, penetrará no organismo dos povos 
latinos, lançando n'elle profundas raízes, vencerá as difliculdades 
technícas como nenhuma outra, moldará valiosíssimas estatuas, 
pintará telas peregrinas, fará relevos primorosos; porém carecerá 
de unidade, de um fim concreto, de uma direcção constante que 
encaminhe os seus esforços. Falta de fé, a arte da Renascença 
gosa, em troca, de um abundantíssimo cabedal de faculdades, de 
meios e conhecimentos que realçam em obra com caracteres su- 
periores e perfeiçíies inauditas. D'este modo se explica como, 
querendose reproduzir o ceu catholico, se encerram as imagens 
piedosas nas linhas do panagismo: como ao lado da castíssima 
donzella que morre no circulo romano, se ostenta o lascivo epi- 
sodio de Psyk e Cupido. O Christo da Minerva, producção da 
facúndia descommunal de Buonaroti, mais do que ao Redemptor 
se assemelha ao Meleagro da fabula; o Juízo, da Capella Sixtina, 
é um torpe insulto estampado no rosto da moral evangélica; o 
Moysés de S. Pedro in-vincoli, em vez do legislador israelita dir- 
se-ba o Bríarèo da mythologia! Concupiscência e fantasia, forma 
de modelar robusta e expressão equivoca, desenho magistral, ri- 
quissinio colorido, movimento, exuberância, composição acer- 
tada, sensibilidade, eis-aqui a arte da Renascença: todavia não 
busqueis nella unidade e harmonia, porque não lograreis desco- 
bril-a. 

Serve a arte grega os fins superiores da civilisação que a 
cerca; é a arte para os andaluzes o meio de signilicar os seus 
sentimentos religiosos; a pintura e a escuiptura são um comple- 
mento do ensino sacerdotal: nu Itália os artistas attendem ao 
agrado dos sentidos e á satisfação de necessidades terrenas en- 
gendradas pelo fausto e refinamento dos prazeres e das prescri- 
pções da moda. O andaluz não esquece um instante que Deus lhe 
outorgou a inspiração para que as suas obras fossem oITerenda- 
das a seus altares; o italiano sustentará praticamente a doutrina 
da arte pela arte, o exercício da arte cortezã, aristocrática e le- 
viana que procura os elleítos, não pela sublimidade da idéa, mas 



92 



ARTES E LETRAS 



pelo accordo do claro e escuro, a magia do colorido e a belleza 
das linhas. 

Seria violento o pensar que formulámos uma censura; nao 
foi esse o nosso propósito n esta occasião. Queríamos explicar 
um suecesso, dar a chave de um problema, mostrar a idéa su- 
perior sob cuja disciplina se relacionam factos complexos, entre 
si ligados por ténues e intimas analogias. Aspiramos, numa pa- 
lavra, a bosquejar o verdadeiro conceito da arte andaluza, as 
leis que a regem, o principio que a vigorisa, a tendência que a 
domina, dando a rásão das suas glorias, de tal modo ordenadas 
que era si mesmas levaram o gérmen da sua ruina, filha, no sé- 
culo xvni, não só da própria fraqueza, producto, em grande par- 
te, do concreto e esclusivo do seu ideal, mas também do tyrannico 
império dos acontecimentos gcraes que produzem em toda a raça 
latma uma crise de verdadeira decadência. 

FRANCISCO M. TUBINO. 




PEESTES A COMBATER 



QUADRO DE C. KRONER 




it5i25^ 



MANHECE esplendido um dia 
de outomno. O sol, despontan- 
do no horisonte, inunda de luz 
as gotas de orvalho, que bri- 
lham como pérolas sobre as ar- 
voi'cs frondosas. Nao con-e a 
mais levo aragem. Ouve-so 
apenas o trinar suave dos pas- 
sarinhos que saltitam por en- 
tre os densos mattagaes. Do 
vez em quando soltam-se dos 
troncos algumas folhas verme- 
lhas e doiradas, que vêem ata- 
petar o chão ainda húmido. 
Ura berro forte e prolon- 



(^^ 



gado ferc-nos de repente o ouvido, e, volvendo o rosto, 
vemos entrar na clareira j^roxima um formidável veado. 
Aquelle berro terrível é o prenuncio de um desafio. Do 
outro lado aproxiina-se outro veado robusto, sobranceiro 
e bem armado, como que cheio de confiança na sua força 
6 coragem. E de certo um conquistador. Vem com a mira 
nas corças gentis que formam o harém do senhor d'esta 
parte da floresta. O provocado reconhece immediatamente 
o perigo e prepara-se para a defoza. Lucta feroz o medo- 
nha, lucta sem tregoas, o da qual ha de infallivelmentc 
resultar a morte de um dos combatentes, vae começar. 

È n'esta occasião que o^ pintor C. Kroner representa 
os dois impávidos inimigos. É graciosa o animada a for- 
mosa composição do distincto pintor de animacs. Ambos 
08 veados têem excellente desenho e exprimem perfeita- 
mente a situação em que se acham. A paizagcm que lhes 
serve de fundo ó deliciosa. 

Emfira, o quadro denominado pelo seu auctor — 
Prestes a comhater, é obra completa a que o primor da 
gravura que o reproduz no nosso numero, dá grande 
realce. 



CARLOS I 



QUADRO DE VAN-DTCK 



MA das paginas mais tris- 
tes da historia da Ingla- 
terra é sem duvida aquella 
em que se acha registado 
o tempestuoso domínio de 
Carlos I. 

Subiu este monarcha 
ao throno cm 1G25, ten- 
do do idade vinte e cinco 
annos. Como seu pac, deí- 
xou-se governar, durante 
os primeiros tempos do 
seu reinado, pelo duque 
de Buckingham, antigo favorito da cor- 
te. Enviou contra a Hcspanha e a França 
expediçíSes que tiveram o mais infeliz 
êxito, e, dissolvendo successivamente 
quatro parlamentos que lhe recusavam 
os subsídios que desejava, e lhe diri- 
giam justas reclamações, pretendeu go- 
vernar isento de alheios conselhos. 

O descontentamento do povo foi 
geral, e mais augmcntou quando o rei 
teve a pretcnçao de impor a todo o paiz 
uma nova liturgia estabelecida pelo ar- 
cebispo Land. O parlamento, convo- 
cado para sufFocar as desordens que aflligiam o reino, 
longo de proteger o soberano, constituiu-se juiz de seu 
procedimento, condemnou á morte o primeiro ministro 
StrafFord e reuniu contra o próprio rei um exercito, á 
frente do qual collocou Essex o Cromwell. As tropas 
reaes foram batidas em vários recontros, e Carlos I, que 
se refugiara na Escócia, foi entregue aos revoltosos pelo 
povo escocez. Julgado pelo parlamento, foi condemnado 
á morte como tyranno e executado em 1649, defronte 
do palácio do White-Hall, soffrendo a pena que lhe in- 
fligiram com a maior serenidade o presença do animo. 

É um dos muitos retratos d'este rei, pintados por 
Van-Dyck, a estampa que damos em gravura, retrato 
de magnifica expressão c que tem a nobreza e altas qua- 
lidades artísticas que distinguem todas as obras do cele- 
bro flamengo. 





ARTES E LETEAS 



93 



' OS DOIS PEQUENOS 



O maior ó pao do mais pequeno. 

Não andam do lucto, porque isso entre elles não se 
usa; mas ficaram sem pac ha seis mezes, o ha seis mezos 
quo ganham a vida. O mais novo vende fructa, broinhas 
do milho ou bolos de bacalhau: o mais velho vende jor- 
naes. 

Cada um segue a sua lida; e quando o mais velho 
encontra o mais novo, 
brilham-lhe os olhos 
de alegria de o ver se- 
reno, quieto, com o seu 
cestinho do negocio ; 
se é de verão, conver- 
sam por um momento 
na rua, diz-lhe uma 
graça, ou compra-lho 
uma laranja para re- 
partir metade com el- 
le; SC é de inverno, 
aquecem-se juntos á 
porta de um torno, re- 
colhem-se um momento 
n'uma escada, depois 
cada um corta por seu 
lado, á chuva, atraves- 
sando o frio e a lama ; 
ao partir, ás vezes, o 
mais velho abraça o 
outro, estende uma 
parte da blusa, pega 
no nariz do irmão, e 
diz-lhe : 

— Assoa! 

Alegres, descui- 
dosos, não ha rua na 
cidade por onde nào 
passem, de pregão na 
bocca, barrete á zam- 
parina, roçando um de- 
do pelas paredes. 

Toem os corpitos 
de frágeis creanças, c 
já um tanto de caras 
de homens. Bracitos do 
nada, que parece que 
estalam nos cotovelos ; 
enfesaditos sempre, fi- 
gurando menos edade 
que a que tcem, e, ao 
mesmo tempo, sem- 
blante já de expressão 
marcada, o seu que de 
phy sionomia : — é a ex- 
periência que lhes dá 

isso, a experiência que vão tendo da vida. Provaram, 
ao nascer, dç» fructo da arvore da sciencia, esses dois 
pequerruchos; isso que o mais velho tem na mão, é 
uma laranja, e também é de alguma forma o fructo da 
arvore fatal, qvxo com o orgulho e a ebriedade do ganhar 
o pão desde croança dá a saciedade e o tédio das coisas. 

Ambos elles gostam do passear. Presam e frequen- 
tam os divertimentos gratuitos; em .alguém se atirando 
de qualquer muralha, já elles vão depois ver o cadáver; 
o render da guarda do Terreiro do Paço dá-lhos tal ale- 




gria que não ha fibra em seu corpo que não lhes ande a 
bailar, só de porem na idéa aquelle rega-bofo; e era 
ouvindo a bulha da musica, de todas as bulhas a que 
mais adoram, é como se os tambores lhes subissem á ca- 
beça que nem aguardente! 

Têem força physica e energia moral. Correm desde 
o romper do dia. O mais velho 6 o sábio, ó o poeta, é o 
pae, é o tudo; ainda de noite já está na rua dos Cala- 
fates a comprar a sua porção de Diários de Noticias, o 
no largo do S. Roque a prover-se de Diários Popula- 
res; honradissimo nos seus negócios; homem de pala- 
vra; o que aquillo diz 
é uma eseriptura; pa- 
peis cá, dinheiro lá, — 
e toca a correr com 
a aurora e a acordar 
bem a cidade n'um 
ben-eiro que chega lo- 
go ao si antes do sol: 
— O Diário de 
Noticias, o Diário Po- 
pular, a 10 réis!... 

Come c bebe do 
jornalismo, veste-se da 
letra redonda, nutre-se 
da imprensa; — vive 
da luz, como a sala- 
mandra ! 

Um está conde- 
mnado aos bairros tris- 
tes, o outro paira nos 
sities alegres; o pe- 
queno anda da rua do 
Arsenal á Ribeira, o 
mais velho é todo ruas 
da baixa, largo do Pe- 
lourinho, e Chiado; o 
Chiado sobretudo é-lhe 
preciso, gosta d'aquelle 
ar, e de vender o jor- 
nal áquelles senhores; 
quando vae no cami- 
nho do ferro com pas- 
sagem gratuita, chega 
a assalta-lo por ahi fora 
uma tal saudade do 
Chiado, que, para não 
desatar dois repuchos 
pelos olhos fora, tem 
de gravar com uma 
navalhita nos bancos 
do wagon, ou, pelo 
menos, nas abas do 
casaco de algum su- 
jeito que apanha des- 
cuidado ao seu lado, 
esse nome do Chiado 
que representa o bair- 
ro elegante, e que cUe desejaria de preferencia áquellas 
paragens longínquas, onde vae espalhar os joraaes, os 
costumes e as piadas novas do Lisboa ! 

Os vadios da cidade olham ás vezes, admirados, 
para essas creanças, que souberam conquistar o seu le- 
gar e o seu pão n'este mundo ; mas os dois pequenos vão 
seguindo o seu caminho, e largando o pregão, sem fazer 
caso da pasmaceira, que abro, ha seis mil annos, a bocca 
e os olhos da ociosidade ao avistar o trabalho. 

JÚLIO CÉSAR MACUADO. 



M 



ARTES E LETRAS 




CimONICA DO MEZ 



AMi.NHAMOs pela vereda da civilisação, é 
verdade, mas de vaj,'ar, parando de vez 
em quando, como que para não chegar- 
mos cansados. 

Olhamos para as demais nações da 
Europa, e vemos umas a andar depressa, 
outras a correr, e nós, sem alterarmos o 
passo, contentamo-nos apenas com o in- 
nocente fiostinho de encarecer e invejar 
aquelle exercício proveitoso. 

Resulta d'esta nossa boa pachorra, 
começarmos a fazer uso dos úteis desco- 
brimentos ou das modas agradáveis, quan- 
do tudo é já velharia nos outros paizes. 
Em toda a parte, por exemplo, o gosto 
pelas flores está lia muito desenvolvido; 
em Lishoa ha apenas um ou dois annos, 
que principiaram a desapparecer de cer- 
tas varandas os craveiros, as roseiras e os 
vasinhos de mangericão, para serem substituídos pelas plantas 
formosas que boje commummente se encontram sobre as elegan- 
tes étaijères que adornam os gabinetes. 

As ramilheteiras de Paris são ainda, para os que nunca visi- 
taram a capital da França, uma espécie de entes fantásticos ou 
sobrenaturaes. Lô-se com a maior curiosidade e escuta-se com ver- 
dadeiro enthusiasmo a descripção d'es?as creaturinhas frescas e 
gentis, que andam pelas ruas olíerecendo ramiihetes e sorrisos. 

No emtanto a industria das flores não é das ([ue se têem dado 
peior cora os ares de Lisboa. Os periódicos annunciam n'um bello 
dia a abertura de uma elegante venda de flores em tal sitio ; no 
dia seguinte faliam da abertura de outra venda ainda mais ele- 
gante e tendo plantas não menos mimosas. D'ahi a pouco vôse 
no Chiado e nos salões dos theatros, uma espécie de sicários, de 
melenas sobre os olhos e cigarro atraz da orelha, trazendo nas 
mãos negras e calosas, uns cabazinbos franzinos que contêem ca- 
mélias e raminhos de violetas. A este tempo havia-se creado uma 
associação de agricultura, com o útil empenho de abrir exposi- 
ções annuaes de flores, offerecendo prémios aos concorrentes ([ue 
melhores productos apresentassem para os seus certames e con- 
vidando-os com o maior numero de attraclivos, a fim de lhes des- 
envolver o gosto. E eis-abi como nós nos aproximámos, quasi no 
fim do século em que vivemos, de uma estação do progresso aonde 
as demais nações chegaram ha immenso tempo. 

A Associação de agricultura, faça-se-lhe justiça, não quer pa- 
recer estacionaria; procurando melhorar sempre as suas exposi- 
ções, inaugurou a d'este anno com um luzido baile de subcri- 
pção, a que assistiram algumas senhoras da primeira sociedade e 
muitos homens, e onde se dançou com animação até a madrugada. 
A exposição estava curiosa, a mata oflerecia agradável aspecto, 
de sorte que, a troco de uma bagatella, entretinha-se a gente du- 
rante uma longa tarde de junho entre flores de todas as espécies, 
algumas das (juaes pagavam, de bom grado, aos visitantes, os 
meigos olhares que estes lhes lançavam. 

O Passeio Publico, outra exposição de flores de todas as es- 
pécies, já illumina de noite as suas ruas, franqueando-as aos (|ue 
não desgostam de passear duas horas ao ar livre, ouvindo alguns 
trechos de boa musica. 

Como nos outros annos, o Passeio tem ainda as suas noites 
de calor oflicial. Nas demais não se vê quasi vivi'alraa. 

Qual será a rasão da grande concorrência n'umas noites, e do 
completo abandono em outras? pergunta muita gente. 

Eu presumo conhecer o motivo. 

Poucas pessoas comprehendem as illuminações do Passeio 
como ellas verdadeiramente são. Custa dinheiro a entrada, não 
custa? Logo, ir á noite para o Passeio deve ser um divertimento. 
Eis o raciocinio de quasi todos, succedendo, naturalmente, aos que 
vão ali para se divertir, saírem de lá aborrecidos. 

Mas o Passeio não é divertimento, é apenas um sitio onde 



ha bom piso para andar, onde cada um se encontra com os ami- 
gos e conhecidos, se assenta ípiando está fatigado, toina neve ou 
cerveja quando tem sede, ouve tocar, de vez em quando, uma 
ou outra harmonia das melhores operas; emlim o Passeio é um 
ponto de reunião aceiado, illuminadu, cheio de arvores, com al- 
gumas c()mmodidad(!S, para onde .se entra (juando ha vontade, 
d'onde se sáe (piando se ([uer, dispendendo-se apenas a mais pe- 
quena moeda de prata que ha cunhada no paiz. Encarem o Pa.sseio 
d'esle modo, digam-me se em vez de se deitarem ás nove hora», 
não vão para lá todas as noites. 

Uma das ovações mais brilhantes que se tepi feito nos thea- 
tros portuguezes, foi a (|ue a actriz Emilia das Neves, e alguns dos 
seus collcgas, receberam em a noite da sua despedida do tbeatro 
de D. Maria 11. 

Não houve flores, nem versos, nem certos festejos conven- 
cionaes que antecipadamente se preparam para obsequiar os acto- 
res que se estimam; a ovação consistiu em applausos continuados 
e phreneticos, em abraços apertadíssimos trocados entre os artistas 
e as pessoas, (jue, no auge do entbusiiísmo, invadiram o palco; 
em vivas levantados pelos (|ue acompanharam Emilia das Neves ao 
seu domicilio, para lhe significarem as saudades que tinham de a 
ver afastar- se da scena. 

A commoção f[ue se apoderou da grande actriz quando viu 
tantas provas de allecto pelo seu talento, é indescriptivei. No palco 
traduziu com o gesto grandioso que todos lhe conhecemos, a pro- 
funda magoa ([ue a acompanhava n'aquella hora angustiosa, e a 
gratidão (]ue votava aos obséquios que lhe dispensavam. Da sua 
janella expressou por palavras entrecortadas de lagrimas, iguaes 
sentimentos e o legitimo desejo de (|ue não seria a(|uelia a ultima 
noite em (jue obteria do publico tão agradáveis demonstrações de 
estima. 

Não foi de certo a ultima noite. Eu confio em que ainda tor- 
narei a ver Emilia das Neves n'um dos theatros de Lishoa. Não 
estamos nós tão ricos de bons artistas, que possamos deixar no es- 
quecimento um dos melhores. 

Recebi do Rio de Janeiro três intere.ssantes livros de que vou 
fallar com muito prazer. Intitulam-se liesurreirão, romance pelo 
sr. Machado de Assis; — Alcyones, poesias pelo sr. Carlos Ferrei- 
ra, e — Névoas matutinas, versos do sr. Lúcio de Mendonça. 

Deseja o auctor do romance liesurreirão, que a critica lhe 
diga se alguma qualidade o chama para o género de litteratura 
que ensaia na sua nova publicação, ou se todas lhe faltam, por- 
(jue neste caso voK^erá |)ara outro campos em que já tem traba- 
lhado com approvação, cuidados e esforços. 

Não devo abalançar-mea satisfazer o desejo do sr. Machado 
d'Assis no tom solemne de critico encartado, porque o não .sou, nem 
desejo ser; entretanto, se o distincto litterato brazileiro se contenta 
coma opinião franca e sincera de um simples trabalhador, que só 
tem o merecimento de desejar acertar, dir-lhe-hei que continue a 
escrever romances, muitos romances, porque se estreou com um 
de grande interesse e'optimas condições litterarias, que pôde servir 
de lição e modelo a muitos cscriptores do género. 

De entre as qualidades boas fpie exornam a obra do sr. Ma- 
chado d'Assis, sobresáe uma que mal í<e pôde definir e que tão rara 
é de encontrar em grande numero das publicações modernas: — 
a que nos prova, da primeira á ultima pagina, que o livro é escri- 
pto por um litterato. 

O volume de poesias que o sr. Carlos Ferreira denominou — 
Alcyones, contém magnificas composições, não isentas de defei- 
tos, porque não ha obra humana que os não lenha, mas em que 
os vestígios de um bom talento saltam mais depressa á vista do 
que as culpas que a critica inexorável possa porventura impu- 
tar-lhe. 

Os fantasmas, a poesia a Carlos Gomes, A casa silenciosa, 
IdyUios, Mazeppa e Uma scena do seiralho são, quanto a mim, 
inspirações brilhantes, em que se vêem |)erfeitamtnte unidos os 
dotes naluraes de poeta ás investigações indispensáveis aos que 
procuram cultivar esses dotes. 

Nefoas matutinas chamou o sr. Lúcio de Mendonça a um 
grupo de poesias cheias de sentimento c naturalidade, por vezes 
tão melancólicas e sombrias, que mal deixam ver, atravez da es- 
pessa tristeza que as envolve, os verdes annos do auctor. 

£ livro muito festejado no Brazil, c que não o seria menas 



ARTES E LETRAS 



95 



cm Portugal se fosse bem conliecido. Os liomons deviam apre- 
rial-o |iori]tie é de fácil leitura e entretém o espirito; as senhoras 
havinni de adoral-o, pnn]ue falia muito de amores sem ser piegas, 
expõe simples pensamentos sem ser trivial, e é confidente dos mais 
Íntimos sentimentos do auctor sem ser ridículo. 

Quatro publicações portuguezas recebi também, as quaes 
passo a registar. 

— A tliese do sr. Theophilo Braga, defendida por este eru- 
dito iitterato no concurso a que se procedeu para o preenchi- 
mento da cadeira vaga no Curso superior de letras, folheto cheio 
de interesse e que mostra evidentemente os estudos sérios a que o 
seu auctor se tem dedicado. 

— Um livro do sr. Oliveira Jimior — Novo flafiello das vinhas, 
nbra que não aconsiílharei ás senhoras que leiam, visto (|ue ne- 
nhum interesso lhes disperta, mas que os honums, miiis ou menos 
dados aos assumptos agrícolas, devem conhecer, pois (|ue trata de 
uma questão importante, que preoccnpa o espirito dos vinhateiros 
de toda a Europa, e por isso muito de perto diz respeito a um pai/, 
cujo principal commercio é o dos vinhos. 

A aíTahilidade do sr. Oliveira Júnior devo o poder publicar, 
como objecto de curiosidade para os leitores d'esta chronica, o 
desenho (|ue abaixo vae, e que representa o Pliijlloxera das raizes 
da videira, em ponto muito maior que o natural, visto de dois 
lados. 





Sobre a vida e particularidades d'este individuo feio e anti- 
patliico, que ameaça o mundo com a destruição com[)leta da obra 
d(í Noé, (encerra o livro do sr. Oliveira Júnior importantes revela- 
ções de todo o ponto curiosas e proficuas. 

— Guia do amador de hellas artes, luxuoso volume publi- 
cado no Porto pelo sr. I). M. M. Guimarães, cavalheiro instruído, 
que tem viajado muito e que professa o mais ardente amor pelas 
artes. 

Este livro, além de excellente roteiro para os que viajam em 
Portugal, traz numerosas indicações para aqueiles que tiverem de 
percorrer os principaes paizes da Europa. 

O seu auctor soccorreu-se aos melhores e.scriptores, princi- 
palmente para a indicação e apreciação das obras de arte que 
cita; raras vezes dá sobre ellas opinião sua, o que é prova da 
grande modéstia de que é dotado. Acompanha o livro um excel- 
lente mappa da rede dos caminhos de ferro da Europa, muito con- 
veniente para quem viaja. 

— Álbum iheatral, a ultima das obras a que me referi, é o 
primeiro folheto de uma serie de peças fáceis de representar em 
sociedades paiticulares ou em famiiia. 

Cimtém este folheto a engraçada comedia — Dnas liifies numa 
só, vertida habilmente do francez pelo sr. Duarte e Sá, e repre- 
sentada em diversas épocas no theatro de U. Maria II. 

Precede a comedia uma introducção do sr. visconde de Cas- 
tilho, em que o eminente poeta se dirige ao publico, apresentan- 
dolhe utilidade da nova empreza, e aconselha os editores a que 
tenham o maior escrúpulo na escolha das obras que vão publicar, 
para que ellas não contenham esses venenos moraes e litterarios, 
(jue se encontram tantas vezes nas peças representadas em os nos- 
sos theatros. 

Sigam os editores os judiciosos conselhos do illustre poeta, 
que não se hão de arrepender: todos sabem que em assumptos 
litterarios ninguém os dá melhores. 

No meado deste mez publicouse o numero programma do 
novo periódico — Diário ill>'strado, folha adornada com gravuras 
nacionaes e estrangeiras, collaborada por alguns dos principaes 



escriptores portuguezes o dirigida por pessoas provadamente habi- 
litadas para os diversos ramos de que se encarregaram. 

É com o mais sincero jubilo que annuncio uma publicação, 

Jue, por todas as ra.sões, deve ser um poderoso incentivo para o 
esenvolvimento do gosto pela leitura e pelas artes, honrosa e útil 
propaganda em que a revista — Artes e letras se empenha desde 
o seu começo. 

Desejo, pois, ao novo cx)llega, todas as fortunas e prosperida- 
des de que é, por muitos respeitos, merecedor. 



DANOEI. DE LIMA. 



mmm noticias 



— Com o tilulo de Dinhretes vae sair á luz no Rio de Janeiro 

uma ]iiil)lic,,'ição siinilliaiite á das Farpas. 

Anras mnhUiuas ('; o titulo de um volume de poesias dado a 
lume pelo sr. llypolito de Camargo, estudante de direito em S. Paulo 
(Ikazil). 

Idyllios é o nome de um volume de versos publicado pelo sr. 
doutor Caetano Felgueira, livro que tem sido um verdadeiro aconte- 
cinicnlo litterario no Hio de Janeiro. 

Do sr. doutor França júnior publicou-so a comedia em um acto 
— Typo hrazileiro. 

i\o primeiro numero do novo periódico do Recife — O movi- 
mento, começou o distinclo Iitterato (^esar de Magalhies a publicar um 
romance denominado — Ella por ella. 

(^om o titulo de Ltjra christã vae pnblicar-se na Bahia um vo- 
lume de versos do sr. Brazileiro Dias. 

A respeito do livro — Scenas populares, do sr. Juvenal Galeno, 
do Brazil, publicou o sr. conselheiro José de Alencar a seguinte 
carta : 

«Meu presado collega. — liecebi e cordealniente lhe agradeço os 
seus dois mimos litterarios, as Scenas e as Lyros. 

«O primeiro já o devorei; e coufesso-lhe que ha muito tempo 
não leio paginas que me causassem tão intimo prazer. Parecia-nie 
que estava no Ceará, na formosa praia do Mucuripe, entre as palho- 
ças de pe.scadores, á sombra dos cajuaes, onde tantas vezes fui em 
ranchos de famílias a improvisadas pescnrias. 

« Outias vt>zcs me suppunha nas Pedrinhas, quando ella era fa- 
zenda de creaç3o, e íamos lá assistir á feira do gado; linha eu então 
uns sete annos. 

«Creia-me. Livro Ião original ainda não se escreveu entre nós; 
e o Ceará deve lísongeiar-se de ter quem lhe dê na lítteratura pátria 
um logar que não tem outras províncias mais ricas e adiantadas era 
progresso material. 

" Continue pois a colligir as nossas tradições e íllustrar o nome 
cearense. 

«Com estima e verdadeiro apreço — de v. s." admirador e patrí- 
cio alTectuoso e obrigado. — José de Alencar. — Em 31 de março de 
1872.» 

O editor do Rio de Janeiro, o sr. Garnier, pubhcou um interes- 
sante livro intitulado — Supremacia intellectual da raça latina, res- 
posta ás allegações germânicas, pelo astrónomo Ennnanuel Liais, ver- 
tido pelo sr. Abranches Gallo, que precedeu a traducção de algumas 
linhas bem elaboradas. 

Lagrimas do coração é o titulo de um novo volume do sr. Syl- 
vio Duarte. 

O nmseu de Sout-Kensington, em Londres, abriu no 1.° 



d'este mez uma exposição de antigos instrumentos músicos, anterio- 
res ao século xix. Entre os objectos raros d'este género, encontram- 
se uma incomparável rebeca de Stradivarius, denominada — A don- 
zella, um víoloncello do mesmo mestre, famosos cravos emprestados 
pela sr." Erard, flautas Luiz xni, bandolins, gaitas de folies Luiz xv, 
e ss batutas de Mozart e de Rossini. 

A exposição organisada em Liège pela Sociedade de Emu- 



lação conténi 3'J3 obras, entre as quaes se citam como primeiras, 
duas telas do sr. Gallaít — Montaigne visitando Tasso e — A famí- 
lia do pescador. São também notáveis os seguintes quadros — Ja- 
cqueline e Isabel da Hungria, pelo sr. deVriendt; — Isabel de Ingla- 
terra, pelo sr. Soubre; — A viuva e — Uma visita á creança doente, 
pelo sr. de Groux, e diversos ti-aballios de Cermak, Landelle, Stallaert 
e de Wilde. 



===== O conselho municipal de Paris resolveu, em sessão de 27 
de maio, que era occasião de desenvolver as classes de desenho. 



96 



ARTES E LETRAS 



com especialidade as de desenho geomelrico, e de animar os apren- 
dizes que frequentam as escolas nocturnas; que uma parte da re- 
serva mscripla no art. 21 do cap. xi do orçamento de 1872 sija 
empregada cm subsidiar as sociedades que conlrihuirem para dar d 
aprendizagem em Paris esclarecida direcção: linalmente, que uma 
escola de aprendizagem seja creada como ensaio e typo para servir 
de exemplo, sobre as bases indicadas no relatório feito pelo sr. Ben- 
daut. 

Quem nos dera por cá d'esles incentivos! 

===== Leopoldo Flameng encarregou-se de illustrar o ultimo livro 
de Victor Hugo — O anno terrível. O talento do artista, segundo es- 
creve um jornal francez que temos à vista, é penhor de que os seus 
trabalhos nSo íicarSo inferiores ao poema. 

■ O creado de um individuo de Pons (França) estando a tra- 

balhar com alguns operários para abrirem uma cisterna em certo lo- 
gar da propriedade do amo, encontrou, cerca de dois metros de pro- 
fundidade, uma estatua que se julga ser de oiro massiço, e que nSo 
tem menos de um metro de alto. Parece que a estatua representa a 
deusa druidica Velleda, ou Ceres, a deusa da agricultura. 

===Vae abrir-se concurso para a reconstrucçSo do Hotel de 
Ville de Paris, utilisando, quanto possível, as construcções subsis- 
tentes. 

==== Cento trinta e ouatro artistas estrangeiros figuram no Sa- 
lão de Paris, a saber: 29 nelgas, 16 italianos, 15 americanos dos Es- 
tados Unidos, 14 suissos, 13 hollandezes, 10 inglezes, 8 hcspanhoes, 
8 russos, 6 austríacos, 6 prussianos, 3 suecos, 2 saxonios, 1 dinamar- 
quez, 2 peruvianos e 1 brazileiro. Chamámos a atteiiçuo dos artistas 
portuguezes para esta noticia. 

O sr. Durand Ruel expoz em Paris os grandes e bellos de- 



senhos de Emilio Bayard, que foram retirados do Salão. O sr. Gou 
pil também expoz os trabalhos de alguns artistas que, á similhaiiça 
dos de E. Bayard, foram retirados da exposiçSo. Emilio Bayard é o 
auctor das estampas que illustram o romance — O illustre doutor Ma- 
theus, que publicamos n'esta revista. 

O sr. Daniel expoz na galeria que precede a sala das ses- 



sões da Academia das sciencias de Paris, specimens notáveis de pin 
tura sobre estanho. Eis o processo. Pega-se n'uma folha de estanho 
o mais delgada possível, estende-se sobre um objecto consistente e 
liso como uma chapa de vidro, e pinta-se sobre ella o que se quer. 
Deixa-se seccar e envernisa-se depois. A pintura levantada da chapa 
e adherente á folha de estanho fica prompta para se applicar ao sitio 
que se deseja. Antes de se applicar porém, estende-se sobre a parede 
ou sobre a madeira destinada a decorar-se, uma mistura qualquer 
que preserve da humidade ; é então que o operário colloca a pintura- 
estanho, amoldando-a a todas as concavidaaes ou saliências das mol- 
duras ou esculpturas. 

O sr. Dumas lembra que os chins empregam ha muito a pintura 
sobre estanho de forma um pouco ditfei'ente, nos seus moveis ou la- 
cas; o que se toma por dourado em algnns objectos, não é mais que 
a folha de estanho ciando o brilho metallico, coberta de um verniz 
amarello que produz a côr do oiro. 

O sr. Bartholdi, artista alsaciano, que dotou a cidade de 



Colmar com as estatuas de Rapp c de Bruat, e que é auctor do bello 
grupo de bronze oíferecido pelos aisacianos-lorenos ao sr. Gambetta, 

firopoz á municipalidade de Belfort, executar em baixo relevo um 
eão monumental sojjre a murallia vertical do castello, como que para 
lembrarás futuras gerações a heróica defeza de Belfort em 1870-1871. 
O desenho, muito elogiado pelos entendidos, já está depositado na 
mairie. 

No leilão feito em Londres, do gabinete do sr. Middleton, 



antigo proprietário do Hotel da Europa em Bruxellas, o Museu na- 
cional da Bélgica adquiriu para a sua galei'ia denominada dos Gothi- 
cos. Ires obras soberbas attribuidas a Memling. 



=== A exposição geral de bellas-artes de Bruxellas, relativa a 
1872, começa no dia 15 de agosto e fecha em 13 de outubro. Admilte 
as producções dos artistas vivos belgas ou estrangeiros. Os objectos 
destinados á exposição devem ser diiigidos á Commissão directora da 
exposição das bellas-artes em Bruxellas. 

• O sr. Justiniano Nicolucci publicou uma carta na Opinione 

acerca do descobrimento na Terra do Lavrador, de um tumulo do 
tempo da edade de pedra. A carta conlòm minuciosas noticias que 
muito interessara os archeologos. 

De certo estarão lembrados os leitores do caso que lhes con- 



támos relativo a uma camisa vestida á Santa Genoveva da egreja de 



Clamecy (França). Pois novo caso se deu agora na egreja de Nossa 
Senhora de Bruges, onde ha um famoso grupo de mármore attribuido 
a Miguel Angelo. Para não oíTender a decência, mandou-se cobrir 
com um véu o menino Jesus nú, que figurado grupo. A este res- 
peito escreve um periódico francez, dirigindo-se aos fanáticos que 
tem dado taes ordens, o seguinte : « Se as nossas obras de arte lhes 
ollendeni os olhares, porque è que, em vez de as mascararem ridicu- 
lamente, as nío remettem intactas para os nossos museus?» 

==== A venda das collecções do príncipe Napoleão, que ha pouco 
se eflectuou em Londres, produziu í)7 UiOO^tíOtí réis. Entram n'esta 
somma 41:()00^000 réis, quantia por que foram vendidos os trinta e 
oito quadros que faziain parte da coUecção. 

Abriram-se mais dois gabinetes no museu de moedas e me- 
dalhas da casa da moeda em Paris. No primeiro está um medalheiro 
de medallias de oiro e prata antigas, perfeitamente conservadas. Vô- 
se ali um enorme amiel de oiro, de sinete, que pertenceu ao rei Chil- 
deric ii, encontrado em Tournay, no seu tumulo, e ollerecido pelo 
sr. Lecavalier, de Caen. O segundo gabinete contém os typos não 
inulilisados das estampilhas do correio de todos os paizes do mundo 
civilisado. 

: A Academia real das bellas-artes da Bélgica abriu no dia 



1(5 d'este mez um concurso extraordinário entre os antigos discípu- 
los da Academia, de menos de trinta annos de idade, que tenham 
obtido qualquer distincção nos concursos da classe superior de ar- 
chitcctura. U premio é de mil francos. Os concorrentes farão a com- 
posição de um monumento publico. 

=== O museu do Louvre recebeu da sr." Ducrest de Villeneuve 



um bonito retrato de uma grande dama ingleza, feito a três -lápis, 
por sir Thomaz Lawrence. Está na sala dos desimhos a pastel, ao lado 
do Menino do cesto de cerejas, por João Bastei, legado ao museu do 
Louvre por sir Henrique Wilker, em 1867. 

Collocou-se na igreja da Magdalena, em Paris, uma estatua 



do abbade Deguerry. O sacerdote está representado a fazer oração, 
com as mãos postas, de murça, estola e rocliete, tendo ao pé dos joe- 
lhos a palma do martyrio. A estatua é de gesso, e foi collocada pro- 
visoriamente sobre o tumulo que encerra o corpo do abbade Deguerry, 
emquanto se não termina a que, pelo mesmo modelo, está esculpindo 
era mármore o sr. Oliva. 

= A venda dos quadros enviados pelos artistas francezes para 



minorar a sorte dos que perderam os seus haveres no incêndio de 
Chicago, elevou-se a perto de 60:000 dollars. O preço mais alto foi 
oíferecido pelo sr. Stuart, que pagou por 2:273 dollars uma pequena 
aguarella de Meissonier — Um soldado do tempo de Luiz XIII. O 
quadro de H. Vernet — Alton Macaulay, que pertenceu a Luiz Fi- 
hppe, não passou de 1:300 dollars. A tela enviada por Hugues Merle 
• — O trabalho, foi vendida ao sr. Osborn por 2:000 dollars. (^itam-se 
também: — O bandolim, de Madrazo, 645 dollars; A caridade, de 
Saintim, 675 dollars; Um retrato de Toulmouche, pintado pelo pró- 
prio artista, 7(X) dollars ; Rapariga persa, de Emilio Vernet, 475 
dollars; Primavera, por Florent Villeurs, 923 dollars; O palácio 
dos doges, 360 dollars ; Na mesquita, por Pasini, 426 dollars ; O 
propheta Eliseu, de Mazerolles, 310 dollars; Um fumador do tempo 
de Luiz XV, de Jorge Gimert, 350 dollars. A venda effeetuou-se em 
Clinton-Hall. . 

A rcproducção do hemicyclo da Academia das bellas-artes 



de Paris, feita por P. Delaroche para auxiliar a gravura do sr. Hen- 
riquel Dupont, foi vendida a um amador americano por mais de cera 
mil francos (18:000^000 réis). 




432— Impuwsa Nacio.ml— 1873 




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ARTES E LETRAS 



97 



ARTES E LETRAS 




Lisboa — Julho de 1872 



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o palácio de Calhariz— Diogo Bernardes — Frei Agostinho 
da Cruz — A serra da Arrábida 



(ConclusaoJ 

y- ASCI e fui creado n'mn paiz 
montanhoso. A montanha ás- 
pera, bravia, solitária, com 
as suas quebradas, córregos, 
vertentes, gargantas, desfila- 
deiros, chapadas quasi a pru- 
mo, e, ao mesmo tempo, as 
grutas, oásis de verdura, fon- 
tes, alamedas umbriferas e 
rescendentes — a montanha 
soberba c graciosa, selvática 
camena, é, para mim, á parto o mar, o 
quadro da natureza que mais mo inspira 
e mais me encanta. 

Na Arrábida, quando das suas asso- 
madas contemplamos o nascer do sol, lera- 
bram-nos aquellas soberbas estrophes que Soa- 
res do Passos, o grande poeta, improvisou ao 
ussaco: 




E cada vez que fulgido 
Renasce o novo dia. 
De nova luz te banhas. 
Despindo os negros véus; 
E dizes em teu jubilo, 
Ao sol que to allumia: 
— O rei d'estas montanhas 
Saúda o rei dos céus. 



r 



E quando o sol se afunda nas aguas, que parecem 
dar-lhe sepultura, ainda dizemos com o desventurado e 
inspiradíssimo poeta: 

Depois ao vel-o pallido 
Nas vagas do horisontc. 
Pareces ao mar vasto 
Dizer com altivez: 
- — Em teu regaço ó pélago, 
Tu llio sumiste a fronte: 
. Avança, que de i'asto 
Virás beijar me os pés! 



A vegetação na Arrábida c tào abundante c, por- 
ventura, mais variada do que em Cintra. Kcfiro-me, já 
se vê, á vegetaçiSo espontânea. Cintra, cm muitos pon- 
tos tem cultura aprimorada. 

O medronheiro na Arrábida toma proporções ex- 
traordinárias, formando alamedas, retiros ameníssimos, 
labyrintos graciosos. Quando está carregado de fructo 
vermelho, aromático c embriagante, é uma delicia. 

Perdidas, aqui o além, no pendor da serra, encon- 
tram-se as casinhas dos antigos monges. Cada uma d'el- 
las dava, apenas, para abrigo de uma pessoa. 

Chamavam-se lapas essas habitações dos piedosos 
eremitas. 

Que vida a d'aquelles contemplativos solitários ! . . . 

Se a lei irapreterivel do progresso se não oppozesse, 
e cada vez ' mais, ao sentimento que leva o individuo a 
scquestrar-se da sociedade, isto c, da humanidade; se 
nao fosse egoísmo fatal no homem o attender só a senti- 
mentos individuaes, o satisfazer, apenas com relação a si, 
as exigências do seu espirito: — dado um certo instante, 
chegada certa hora da vida — nada havia comparável ao 
ajiartamcnto do mundo, ao desprezo completo por este 
lidar insano em que se desvela a sociedade, desde o ser\'o 
até ao summo potentado! 

Nem o conquistador floreando a espada vencedora 
o rutilante, ao findar o combate, quando a terra estre- 
mece com os brados da victoria; nem orador delirante- 
mente applaudido no foro; nem o poeta laureado no Ca- 
pitólio ; nem o sábio descobrindo os segredos da natureza ; 
nem o artista realisando na tela ou no mármore a sua 
concepção ideal, podem sentir, extremos das ruindades 
humanas, os júbilos, transportes, arrebatamentos, êxta- 
ses sublimes, que sente o que é sincero, profundamente 
beato ! 

^,Quem não terá tido na vida uma hora de inefta- 
veis delicias — hora de rosas e de clarões matutinos — hora 
em que a alma, como a Esposa dos Cânticos, pode que 
lhe acudam com as flores confortativas porque se sente 
desfalleccr d'amor ! ? . . . Pois essa hora são todas as horas 
do verdadeiro beato ! Ha já muito poucos, raros, rarissi- 
mos... talvez nenhum. Tenho pena: é uma amostra de 
felicidade que faz bem á gente. Uns que por ahi ha., c 
que fingem de taes, nao me enganam. Coitados, são mais 
infelizes do que eu: — mascam e engolem todos os dias, 
com os Padre-Nossos, o seu ódio á humanidade! 

Frei Agostiilho da Cruz, ante de se esconder, para 
sempre, n'aquolle saudoso retiro, passou por Azeitão, 
onde foi despedir-se do duque de Aveiro e seu filho 
D. Jorge. 

Depois do fazer oração na egreja, e de se apresen- 
tar ao superior, partiu para a serra. Por suas próprias 
mãos ergueu uma choça de ramos verdes e ahi se abri- 
gou até que o duque lhe mandou construir outra njais 
supportavel. 

O seu biographo. Costa e Silva, transcreve o soneto 
que o poeta-cremita compoz na primeira noite que pas- 
sou n'aquella choupana, — escutando o mar ao longe, 
contemplando os astros do firmamento, e sentindo o ar 
lavado da montanha que agitava os ramos da espessura 
selvática. 

Como todas as suas composições mysticas, tem este 
soneto um suave perfume religioso: 



Que logar acharei no pensamento. 
Tão as2)ero, medonho, triste, escuro, 
Onde, meu Redemptor, este seguro. 
De mais vos oftender um .só momento! • 



N." 7 de I87i 



98 



ARTES E LETRAS 



Nao digo pelo meu contentamento, 
Que brando mo faria outro mais duro, 
Mas por nílo ser ingrato a amor tiio puro, 
Que morreu por me dar merecimento. 

Como vos servirei, pois vos níío amo? 
Como vos amarei, pois vos offendo? 
E sempre cada vez mais gravemente. 

N'estes frios suspiros que derramo. 
Sem servir, sem amar, Senhor, entendo 
Que não ha poder ser, viver contente. 

Todos 08 domingos pela manhã descia ao convento, 
onde ia buscar o pao para a semana. 

Algiunas horas do dia matava-as entretendo-se em 
trabalhos manuaes — lembranças para as pessoas de fa- 
miliu e amigos que deixara no mundo : cestinhos de ver- 
ga, bordões, rosários do contas feitos com sementes de 
arbustos d'a(piclles próprios sitios, rosários como ainda 
hoje sp díio a quem vao visitar o convento. 

Ás tardes, nos pincaros mais altos da serra, con- 
templava, com suaves enleies, o sol afandando-se nas 
ondas rumorosas, espectáculo talvez o mais solemno e 
mais bello da natureza, e, antes que chegassem as Ave- 
Marias, renovava nos braços da cruz de madeira tosca, 
erecta a poucos passos da choupana, a grinalda de flori- 
nhas rústicas que tecia todos os dias em offerenda íl 
Virgem. 

Quando os primeiros suspiros do abril bafejavam a 
serra, com o abrir da madre-silva e da rosa agreste, 
com os gorgeios amorosos dos pássaros, aquella alma 
sensitiva abria-se aos clarões, aos perfumes, ás auras e 
aos cantos da primavera. 

Este soneto é delicadíssimo: 

Passa por este valle a primavera, 
As aves cantam, plantas enverdessem, 
As flores pelos campos apparecem, 
O mais alto do loiro abraça a hera. 

vVbranda o mar, menor tributo espera 
Dos rios que mais brandamente descem, 
Os dias mais formosos amanhecem, 
Não para mim que sou quem d'antes era. 

Espanta-me o porvir, temo o passado, 

A magoa choro d'um, d'outro a lembrança. 

Sem ter já que chorar, nem que perder. 

Mal se podo nmdar tao triste estado. 

Pois para o bom não pôde haver mudança, 

E para maior mal não pode ser. 

Um dia chegou-lhe ao seu deserto uma tristíssima 
nova. Tinha morrido seu irmão Diogo Bernardes. No as- 
ceta, no desenganado cenobita, n'aquelle coração que pa- 
recia morto para tudo que tinha relação com o mundo, 
ainda produziu profundo abalo a voz do sangue, e na 
elegia que dedicou á perda do irmão dilecto, sente-se a 
agudíssima saudade que lhe cortava a alma. 

Eras além de irmão mais do que amigo... 

exclama o poeta n'um Ímpeto de dor, e depois, como 
espantado do que a sua alma, combatida por tantos des- 
gostos, ainda tenha alento para sentir os revezes do 
mundo, fecha o canto por estes apaixonados versos: 



Eu cuidava bastar a fortaleza 

Da solitária serra em que eu habito, 

Para fortalecer minha fraqueza, 

Mas n'ella se abalou mais meu esp'rito, 

Que chorando não fica consolado 

Da muito aguda dor que o tem afflicto. 

Dôr, que no coração amargurado 

De momento em momento mais se entranha, 

Sem que possa ficar desafogado 

Nas lagrimas d'amor em que se banha. 



Antes de fechar esta rápida noticia não resisto ao 
desejo de transcrever mais um soneto, para mim o me- 
lhor de Frei Agostinho da Cruz. 

O soneto ó dedicado â Magdalcna. 

Os dois últimos versos do primeiro quarteto, já pelo 
delicado da idéa, já pelo aprimorado da forma, são ma- 
gníficos : 

Diante do Senhor está lançada 
A Magdalena triste e vergonhosa. 
Qual na força do sol vermelha rosa 
Dos seus ardentes raios ti-aspassada. 

A nova e grave dor lhe tem roubada, 
Signal do que padece, a voz queixosa, 
Lembra-Ihc que passou tão perigosa. 
Vida da vida sua descuidada. 

Os pés, que do seus passos foram guia. 
Em lagrimas banhados alimpava. 
Com 08 cabellos de que se cobria. 

Alli do Redemptor, a quem buscava, 

Encaminhada foi, por que queria. 

Que amasse muito mais quem tanto amava. 

Quatorze annos durou o seu voluntário exilio. A serra, 
o mar, o céu com o sol, a lua, as estrellas, e as carrega- 
das luivens, os relâmpagos e as tormentas, foram, alter- 
nadamente, testemunhas das suas dores, das suas santas 
alegrias, dos seus desalentos e dos seus êxtases mysticos ! 

A morte recebeu-o nos braços meiga, risonha e so- 
licita como um anjo de redempção. O povo, n'uma piedo- 
sa lenda, contava que ao tirarem-lhe o retrato, depois de 
morto, sorrií-a alegremente o bemaventurado monge, con- 
cluindo, d'este supposto facto, que não era só um bom 
padre o eremita da serra, mas um inspirado e um santo. 

O viajante que visitar a AiTabida, ao passo que se 
maravilhar com as perspectivas da natureza, deve lem- 
brar-se do que nos principies do século xvii alli viveu 
um poeta em circumstancias tão singulares! 

São notáveis aquelles sitios! O duque de Palmella, 
o grande homem de estado, artista pela cultura o pelo 
gosto, que vivei-a na AUemanlia com Schiegcl e madame 
de Stael; em Itália com Alfieri, Silvio Pellico, Ugo Fos- 
colo, Manzoni, e por toda a Europa, emfim, com os ho- 
mens do seu tempo, votava singular predilecção á viven- 
da de Calhariz e á serra que lhe fica próxima. 

Bem dissemos nós serem notáveis aquelles sitios: 
mais tarde, durante nove annos, todos os mezes ia pas- 
sar alguns dias áquello palácio e discorrer muitas vezes 
por aquella serra outro homem: o autor do Eurico, do 
Monge ih Cister e da Historia de PortugaK 

UULHÀO PATO. 



ARTES E LETEAS 



99 



O ILUSTRE DOITOR NATHEIS 



E UCKMANN-CIIATIUAN 



(Cfintinunçrio) 

Tapihans calou-so e bobeu, a seguir, trcs copos de 
vinho, batendo na mesa o gritando: 

— Mais! mais! mais! depressa! 

— Dize IA, velhote, então ainda não casaste? repe- 
tiu em voz alta Coucou Peter. 

— Que queres, Coucou, — respondeu o moleiro com 
um sorriso irónico, — não posso andar a correr terras como 
08 maltrapilhos que não teem cm sua casa que comer; 
preciso cuidar dos meus bens, fiscalisar os meus haveres, 
lavrar as minhas terras, colher as novidades. Ora a gente 
pi"ecisa, é verdade, ter uma mulher em casa; mas as 
mulheres px'eferem cntregar-se ao primeiro vagabundo 
que passa, gente que se não sabe d'onde veio, ou que 
se sabe de mais; que enche a barriga á custa dos po- 
bres e que sopra n'um clarinete para lhe pagarem a 
ceia. Tu bem me percebes, amigo Coucou Peter. Emfim, 
eu bem sei que sou digno de dó, mas emfím tenho a 
consolação de poder dizer: aqui estão os meus campos, 
aqui está o meu moinho, aqui está a minha vinha. 

Coucou Peter, um pouco desconcertado a principio 
pelo discurso do moleiro, retomou o seu sangue frio ha- 
bitual e respondeu: 

— Ter campos, moinhos e vinhas, ó bom; é muito 
bom, é óptimo, Tapihans; mas, olha, não é tudo. Sim, é 
preciso além d'isso ter uma cara e uma figura tal ou qvial. 
Ninguém casa com moinhos, casa-se com as figuras e 
(juerem-se palpáveis, frescas, rosadas, o quer que seja 
no meu género, continuou clle cofiando as faces e olhan- 
do para o moleiro com olhos de cscarneo. 

— Ah! ah! ah! trocista, disse a tia Windling, ba- 
tendo-lhe nas costas, só tu me farias rir. 

Então Matheus que acabara de cear, bebeu um ul- 
timo copo de Wolxheim gota a gota, e voltando-se para 
Tapihans disse: 

— Oiça, amigo. Não são os campos, os jardins c 
as casas, que se devem considerar no casamento, mas 
as raças, isto é, as famílias carnívoras, papivoras, her- 
bívoras, granívoras, ínsectívoras, omnívoras, e outras 
que seria longo mencionar, mas que é preciso considerar 
nos successos da vida. Bem vê que os pombos não se 
unem aos camarões, nem as rapozas aos gatos, nem as 
cabras ás aves. Ora o mesmo deve succeder aos homens, 
porque considerando as coisas debaixo do ponto de vista 
psychologico-antropo-zoologico, único verdadeiro porque 
é o único que é universal, reconhecerá que ha tantas 
espécies de homens quantas as espécies de animaes. E a 
final a explicação d'este facto é simplíssima: é que nós 
todos descendemos de um animal, como cu demonstro no 
capitulo xxiii do oitavo vokune da minha Palingenesia. 
Leia, leia a minha obra e convencer-se-ha. E por tudo 
isto que as raças se devem alliar cora a mais judiciosa 
attenção. E até essa a missão especial da humanidade, 
ponto de reunião de todos os seres, fusão de todos os ty- 
pos submettidos a uma força nova a que eu chamo von- 
tade. Ora, procedendo agora por analogia, vemos que a 
raça das cabras, por exemplo, com a das lebres, pôde 
formar um bommixto, emquanto que a raça dos lobos 
com a dos. carneiros, só dará uma espécie de monstros 
que serão estúpidos e ferozes, cobardes c cruéis. Quan- 



í tas e quantas allianças assim não vemos nós por esse 
! mundo? Só se pensa na fortuna hoje cm dia c abi está 
o resultado. A si por exemplo, amigo, n3o lhe aconse- 
lho o casamento. — A sua saúde... 

Mas Tapihans, pallido de raiva, não o deixou ter- 
minar. 

— Ah! cão, então tu queres dizer que eu sou co- 
mo um lobo? 

E atirou com toda a fi^rça, enfurecido, a Matheus, 
a caneca em que bebera o vinho. 

Felizmente o illustro phílosopho arrcdou-se com a 
sua habitual prudência, de modo que o projéctil caiu com 
toda a força sobre o estômago de Coucou Peter. E ainda 
Matheus estava espantado do succcdido já Tapihans ha- 
via aberto a porta e fugido. 

A sr.* Catliarina, que pegara n'um pau de vassoi- 
ra, gritava na rua: 

— Anda cá, infame, volta, s(^ te atreves ! Miserável, 
aíFrontar as pessoas que estão na minha estalagem! Já 
se viu uma coisa assim? 

Depois entrou, correu a Matheus, fez-lhc tomar um 
copo de vinho, poz-lhe agua fresca nas fontes o soce- 
gou-o de todos os modos. 

Quanto a Coucou Peter suspirava e gemia dizendo: 

— O meu organismo está doente! Soífayel, minha 
querida Soífayel, vae já encher esta garrafa ou ver-me- 
has morrer de fraqueza. 

Um quarto de hora depois Matheus que voltava a 
si, disse: 

— Este homem é evidentemente da raça carniceira. 
Julgo-o capaz de voltar com um machado, uma foice ou 
outra arma qualquer. 

— Que volte ! gritou a corpulenta viuva cerrando 
os punhos com ar ameaçador, que volte, se é capaz ! 

O que não evitava que Frantz Matheus, não tirasse 
os olhos da porta, de modo que o medo natural á sua tí- 
mida espécie o impedia de ver os galanteios do que a 
sr." Catharina o cercava. 

Coucou Peter, que já não tinha pretexto algum para 
fazer (uiclier outra vez a garrafa, propoz o irem-so dei- 
tar. Todos foram da mesma opinião porque era tarde, 
os vidros das jancllas estavam j;l negros e nem o menor 
ruído se ouvia fora. 

Então a tia Windling pegou no candieiro, disse a 
Soífayel que corresse os ferrolhos e pediu a Matheus que 
a seguisse. 

Subiram assim a escada do caracol que havia no 
fundo da cozinha, c Matheus poude observar por toda a 
parto o maior arranjo e a maior economia. Havia nos 
corredores grandes armários que a sr." Catharina tivera 
o cuidado de abrir, e onde se viam grandes rumas do 
roupa branca dobrada: toalhas com cercaduras verme- 
lhas, guardanapos, cânhamo, linlio. N'outro sitio cereaes 
em grandes casas, ao ar; trevo, colza, luzerna, trigo, 
cevada, aveia: era o celleiro da abundância. 

Emfim, chegaram a um quarto vasto e bem mobi- 
lado, com duas comraodas cobertas do magnificas loiças 
de Lunevílle e crystaes de Walerystaol, um leito com 
docel, alto como uma torre, e com dois espelhos peque- 
nos de S. Quirin. 

Então, lançando a Matheus um ultimo olhar, aper- 
tando-lhe a mão com um ar tímido e baixando os olhos, 
a sr.''^ Catharina disse: 

— Durma bem, sr. doutor, e não tenha maus sonhos. 
Sorriu, contemplou o bom do phílosopho por alguns 

momentos, fechou a porta o desceu a escada. 

Coucou Peter, segundo o costumo, fOra dormir para 
o palheiro. 



KX) 



ARTES E LETRAS 



VII 



Frantz Matheus n?io poude dormir n'ossa noite. Nâo 
fez seniio, animado pelo mais nobre enthusiasmo, dar 
voltas sobro o colchão do pendas e soltar exclamações de 
trinmplio. A fuga heróica do Gniufthal, a conversão mi- 
lagrosa de Coucou Peter, a acolhida hospitaleira da tia 
Windling, tudo lhe corna tumultuosamente na cabeça. 
Não tinha somno, nunca mesmo sentira o espirito tão 
lúcido, tão vivo, tão penetrante; e o calor excessivo da 
roupa fazia-o transpirar abundantemente. Foi por tudo 
isto que ao .amanhecer kc vestiu, desceu ao pateo e res- 
pirou o ar livre. 

Tudo estava ainda silencioso. O sol allumiava ape- 
nas 08 cimos dos mais altos choupos: havia uma pro- 
funda Bercnidade. ^la- 
thcus, sentado sobre uma 
pedra, contemplava silen- 
cioso, recolhido, a granja 
e o repouso da natureza. 

Os telhados extensos 
e musgosos, o travejamen- 
to combinado pela indus- 
tria do homem, as altas 
empenas, as janellas som- 
brias, ao iiuido a porta 
pequena da horta aberta 
para os campos onde as 
sombras começavam a 
empallidccer, as formas 
vagas o indecisas das ar- 
vores no crepúsculo, tudo 
conduzia o illustre philo- 
sopho ás mais suaves me- 
ditações. 

Pouco a pouco o dia 
desceu dos telhados, as 
sombras estenderain-se 
pelo chão do pateo, e ao 
longe, muito ao longe, Ma- 
theus ouviu o canto do 
uma cotovia. Depois um 
gallo alongou o pescoço 
pela fresta da capoeira, 
deu um passo, estendeu as 
azas brilhantes para rece- 
ber o ar fresco da manhã 
e um estremecimento de 
felicidade agitou-lhe as 
pennas doiradas o ver- 
melhas; dilatou-sc-lhc en- 
tão o peito o lançou no 
espaço um grito forte, 
agudo, prolongado, que se 

foi repercutindo até íÍs florestas. As frangas, friorent.as, 
apparecoram timidamente no começo da escada, cha- 
mando-se umas i'.s outras, saltando de degrau em de- 
grau, penteando-so com o bico, cacarejando e rindo a 
seu modo. Espalhavam-se depois ao longo dos mui'os e 
das paredes engulindo apressadas os vermes que havia 
junto do on-alho. Os pombos vieram também circular 
sobre o patet), o emfim os raios vivos do sol introduzi- 
ram-sc nos estábulos; ouviu-se uma ovelha balar lenta- 
mente e todas as outras respondei-om-lho, e Matheus abriu 
mu postigo para que os pobres animaes recebessem o ar. 

Um delicioFo espectáculo eommoveu então o cora- 
ção do j)hilosopho: entrava o dia cm ondulações doira- 
das pelo meio das sombras que .se dissipavam cstrcmc- 




Aniniú! Animo! 



cendo, tocando aqui c alli as traves negi-as, os appare- 
Ihos suspensos na parede, c as manjedoras adornadas de 
forragens. Nada se pôde imaginar de mais sereno que um 
tal quadro: os bois immensos com as pálpebras entre- 
abertas, a cabeça pesada, os joelhos curvados sob o 
peito, dormitavam ainda ; uma vitella branca, lindíssima, 
estava já accordada, esperta; descançava o focinho azu- 
lado c cheio de gottas brilhantes sobro a anca d'uma 
vacca leiteira, olhando Matheus com os seus grandes 
olhos, como que surprehendida e parecendo dizei--lhe: 
— Que nos quer este? Nunca o vi! 

Estava alli também um cavallo da lavoira que 
parecia muito cansado c abatido, o quo todavia o não 
inqiedia do puxar de bocado a bocado por uma longa 
paveia de trevo. Uma cabrinha negra trepava á mange- 

doira para poder chegar 
á herva fresca e verde. 
Mas o que sobretudo im- 
pressionou o illustre dou- 
tor, foi o magnifico toiro 
de Glann, gloria e orgu- 
lho da tia Windling. 

Nào se cansava de 
admirar- lhe a cabeça lar- 
ga e encrespada como o 
tronco de um velho car- 
vallio, 08 paus luzidios o 
curtos como cunhas do 
ferro, e a papada macia e 
ílcxivel que do lábio in- 
ferior descia até entre os 
joelhos. 

— Nobre e sublime 
animal, dizia elle enter- 
necido, nem tu podes ima- 
ginar quantos pensamen- 
tos profundos e judiciosos 
mo insjiira a tua vista! 
Não, tu nâo attingiste 
ainda o desenvolvimento 
intellectual e moral que 
pôde elevar-te á altura 
de um sentimento psycho- 
logico-anthropo-zoologico, 
mas nem por isso as tuas 
formas são menos m.ara- 
villmsas. Atte:.tam ellas, 
pelo seu conjuncto har- 
monioso, a grandeza da 
natureza, porque, apezar 
do (juc dizem os matei"ia- 
listas, — seres sem lógica 
nem raciocínio systema- 
tico, — nada d'isto se fez 
n'um BÓ dia: milhares de séculos foram jjrecisos i)ara te 
fazer chegar a este grau de perfeição esthetica. Sim. a ■ 
passagem da forma mineral á firina vegetal e da firma 
vegetal á forma animal, é incounnensuravel; sem fallar 
d.as formas intermédias, porque do estado carvão no es- 
tado carvalho, c do estado ostra ao estado toiro, a dis- 
tancia é prodigiosa. Assim l''rantz Matheus admira e;n 
ti essa fítrça interior que se chama Deus, alma ou qual- 
(juer outra cousa, e que trabalha sem cessar no aperfei- 
çoamento dos indivíduos o no desenvolvimento das indi- 
vidualidades na matéria. 

E calou-se e ficou mergulhado n'um extasis, mudo 
c immovei. 

Ora emquanto Matheus fazia em voz alta estas re- 



ARTES E LETRAS 



101 



flexões, íi taboa que fecha a abertura por onde se deitam 
as forragens nas manjedoiras dcslisou vagarosamente 
para o lado, deixando passar a cabeça bochechuda de 
Coucou Pcter. 

É fácil imaginar a surpreza do tocador quando viu 
o sou illustro mestre discursando ao toiro. 

— Ora esta! pensou elle. Quererá convertel-o?! 

E ao mesmo tempo uma idéa singular lhe atraves- 
sou o espirito. 

— Ah! ah! tinha graça! disse elle. Espera, espera, 
que o toiro vae responder-te. 

Depois, juntando as mãos sobre a bocca, gri- 
tou : 

— Oh! oh! oh! grande doutor Mathcus, eu sou bem 
infeliz! 

A estas palavras o 
illustro philosopho recuou 
espantado. 

— O que é isto? bal- 
buciou olhando em volta. 
Quem mo falia'?! 

]\Ias não ponde ver a 
cabeça de Coucou Pcter, 
occulta por lun molho de 
palha. O bom do dlscipulo 
estalava com riso, e con- 
tinuava mugindo: 

— Oh! oh! oh! Sou 
muito infeliz ! Porque ou 
era Xabuehodonosor o não 
pensava senão cm beber 
c comer, e eis-me por fim 
com o meu logar perdido 
na escala dos seres ! Oh ! 
oh! oh! como eu sou in- 
feliz! 

Mas o illustro philo- 
sopho, a principio surpre- 
so, reconheceu a voz do 
tocador. 

— Como ousas tu 
profanar, Coucou Peter, 
a mais sublime das phi- 
losophias? Julgas-me tão 
ingénuo que acredite n'cs- 
sas illusòos? 

Coucou Peter appa- 
receu então dando gran- 
des gargalhadas. 



-Ah! ah! ah! dou- 
tou Frantz ! Que ([uer? 
quando o vi fallar ao boi, 
não pude deixar de rir 
um bocado. 

( ) jiroprio Mathcus se riu, porque chegara a sur- 
prehender-se com o que ouvira. 

■ — Eu bem sabia, dizia elle, que as almas não po- 
dem retrogradar de um reino para outro; que tal phcno- 
mcno era impofsivel e contrario ao.systema. Foi por isso 
que eu a principio mo espantei, e depois descobri que 
me querias enganar. A alma humana não pôde conter-se 
no corpo de xun animal, por não achar no cérebro logar 
suflficientc. 

E o bom philosopho ria do seu ]irimeiro movimento 
de surj)reza, o Coucou Pcter apertava as ilhargas por 
não poder rir mais. 

Riam ainda quando a tia Windling, vestida de saia 
curta de lã riscada de vermelho, as mangas arregaçadas, 




fresca e desenxovalhada, abriu a porta do pateo e des- 
ceu a escada. 

Vinha dar do comer íis gallinhas, trazia o avental 
cheio de cevada, de milho. 

— Bons dias, sr. doutor, disse ella vendo Matheus. 
Já de pé a estas lioras! Dormiu bem? 

— Perfeitamente, perfeitamente, sr." Catharina, res- 
pondeu o doutor. 

— Sr.* Catharina, disse Coucou Peter, vou accender 
o lume á cozinha, pois não? 

— Sim, sim, eu já lá vou também. Vae vêr, sr. 
doutor: que bellas gallinhas! São mesmo uma benção do 
Senhor. Pipi, pipi. .. Três põem todos os dias, e que ovos! 
Pipi, pipi... Grandes, grandes, como punhos. Pipi, pipi... 

Ê as gallinhas vinham esvoaçando, e os patos cor- 
riam, e os gansos abriam 
as azas, e toda a crcaçâo 
cacarejava, gritava, pia- 
va, e saía do todos os 
cautos: viam-se alli gal- 
linhas grandes, pequenas, 
pretas, brancas, amarel- 
las, vermelhas, que se em- 
purravam, que saltavam, 
que voavam. 

— Como é bello tudo 
isto ! murmurava o illus- 
tro philosopho. O natu- 
reza, natureza! Mãe fe- 
cunda! deusa de seios 
ubérrimos ! alma ! anima- 
ção ! sopro divino ! A tua 
riqueza e a tua varieda- 
de não tem limites! 

A tia Windling sen- 
tia-sc vaidosa por estas 
palavras, e tomava para 
si o melhor dos elogios. 

— Não 6 verdade ? 
dizia ella. Não é verdade 
que as minhas gallinhas 
estão gordas e bem crea- 
das? Farto-me de lhes 
dar os melhores grãos. 
Olhe alli, alli, aquella 
grande, branca. . . ha três 
semanas que põe todos os 
dias. E aquella cinzenta, 
acolá, a que tem umas 
pennas amarellas nos 
olhos. . . aquillo c a ri- 
queza do uma casa; um 
dia via-a pôr dois ovos, 
um do manhã, outro á 

tarde; faça idéa... afora os que ella esconde! E este 
galicho preto! isto é diabólico! Ante-hontem se não sou 
eu depenava o gallo grande por causa d'aquella franga 
que ali estsí, uma lambisgóia que os faz andar ás bulhas! 

Quer ver, quer ver aposto que vão pcgar-sc outra 

vez... Que dizia eu? Então, então!... que demónios! 
Chta!... larga! larga... Aqui está aqui estsí o que fazem 
os homens ! Sc já viram ! 

E apezar dos gritos os dois rivaes estavam engalfi- 
nhados, o bico de um atacando o bico do outro, com as 
pennas do pescoço erguidas, aos saltos, procurando ferir- 
se em bons sitios, volteando, e perseguindo-se com um 
furor incrível, até que lun novo punhado de grãos lhes 
fez suspender o combato. 



-Foliic lionieiii. Dl'US II' guie! 



102 



ARTES E LETRAS 



— E singular, murmurava entretanto Mathcus, como 
esta espceio de galliiiacoas tiio tímida está por vezes ani- 
mada dos instinctos mais ferozes! Vejam o que podo o 
ciúme, paixão furibunda o sanguinária! E a tia Windling 
olhavu-o do soslaio c dizia: 

— Coitado! pobre liomcm! Pensa talvez em Tapi- 
hans. Pôde estar dcscançado que nao põe cá mais os 
pés! 

Por fim, tendo despejado o avental, voltou-se com o 
mais terno sorriso para j\íathous c perguntou-lhe : 

— O sr. doutor gosta do ovos? 

— Muito, minha querida, muito, sobretudo cozidos. 
E um alimento saudável e delicado. 

— Bem, bem, vamos então juntal-os, que deve por 
ahi haver que baste para o seu almoço. 

E subiu a escada com desembaraço cmquanto o il- 
lustro philosopho voltava pudicaraente a cabeça para não 
ver as meias azues da hospedeira sob a saia curta 
de lã. 

A sr." Catharina entrou na capoeira, e reappareceu 
pouco depois muito contento trazendo uma dúzia de ovos, 
que mostrava com ar victorioso. 

— ;-Hein? Veja, veja isto, dizia ella, de pé sobre uma 
viga. É todos os dias isto. Que ovos ! Não ha gallinha no 
logar que os ponha assim. Faz favor, sr. doutor, ajuda- 
me a descer? E que tenho medo. . . 

Foi preciso que Matheus arrumasse o pé á escada 
e estendesse as mãos á sr.''' Catharina que ria, fingia-se 
assustada e parecia alegrissima. 

Quanto ao doutor estava roxo como um framboaz, 

— Muito obrigada, muito abrigada, sr. doutor. Vou 
jiu"ar que a branca jioz atraz da moda do lenha; vi o 
ovo d'ali de cima. Vamos mandar Nickol buscal-o. 

E tomando o braço do illustre doutor entrou com 
elle para casa. 

Quando a sr.* Catharina e Matheus appareceram na 
cozinha, Coucou Pcter, sentado sobre um banco diante 
da lareira, soprava com todas as suas forças por um ca- 
nudo de ferro, para espertar o fogo: as brazas brilhavam 
por entre os carvões, as vides estalavam e a agua fervia 
n'uma panella. Nas grelhas, e espalhando um agradável 
aroma, assava-sc uma magnifica costelleta. 

A tia Windling parou na soleira da porta e ex- 
clamou : 

— Ah! Coucou Peter, sempre queria que me dis- 
sesses onde foste buscar essa costelleta. 

Coucou Petor apontou som se levantar para um 
grande armário do carvalho. 

— E mesmo um gato! Sabe onde tudo está guar- 
dado. Mas eu tinha a chave na algibeira. . . 

— Podo guardal-a, pôde, disse o tocador com ar 
grave : para mim não é precisa. Com uma palhinha abro 
todas as fechaduras. 

— Que ladrão !,ainda has de acabarnas galés, disse 
a hospedeira rindo. 

Matheus quiz reprehender o discípulo, mas Coucou 
Peter íntorrompeu-o : 

— Mestre, disse elle, gosto de costelletas. Gostar de 
costelletas não é contrario ao systema. Ora tudo que se 
não prohibe é penníttido, não é verdade sr.* Catharina? 

— Tons razão, tu tens sempre razão, já se sabe. 
Vamos, tira-to d'ahi, dcix.a-me cozer os ovos. Quer ter a 
bondade de entrar na salaj sr. doutor... eu venho já... 
é 8Ó o tempo de rezar um Padre Nosso. E tu, Coucou 
Peter, podias entretanto dar do beber ao cavallo do sr. 
doutor. U Niekcl saiu esta manhã para mudar a égua 
para o prado grande. 

— Com todo o gosto, tíasiuha, com todo o gosto. 



E o tocador saiu e o illustre philosopho entrou na 
sala. 

Nunca Frantz Matheus se sentira mais sereno, mais 
feliz, mais contento comsígo o com a natureza. O ar livre 
abrira-llic o appetite. Ouvia o gato miar sob a mesa, o 
a sr.* Catharina varrer o patamar da porta, cantarolando 
o estribilho antigo de Karl Rittcr: 

Ama-mo tu, que cu te amarei. 
Que eu te amarei. 
Que eu te amarei. . . 

Ora olhava para o velho relógio de Nurembcrg, 
amarollo, carunchoso, no seu quadro de porcellana pin- 
tada com flores de cores vivas, e o cuco de pau (jue 
cantava ao dar das horas, mechanismo engenhoso que o 
illustre philosopho se não fartava de applaudir; ora pa- 
rava diante das j ancilas, e deixava vagar os seus olha- 
res pelo largo de Oberbronn. 

Ali ao pé de uma pia esverdeada, onde caia um fio 
de agua límpida por uma calha carcomida pelos musgos, 
estavam i-eunidas as raparigas da aldeia; em mangas de 
camisa, de saias curtas, com as pernas e os pés nús, ba- 
tiam a roupa branca, gritavam, chamavam-se umas ás 
outras, fallavam de rijo, e o bom philosopho sorria de 
vêr os seus modos d'ellas, tão ingénuos, o as suas attitu- 
des cheias de graça. 

Bruno bebia na pia, e de vez em quando voltava a. 
cabeça como jiara saudar Matheus. Coucou Peter dava 
estallos com o chicote e dizia madrígaes ás lavadeiras, 
que se riam das suas palavras. Quando porém quiz, sem 
duvida por vingança, abraçar a mais bonita do gnipo, 
ouviram-se grandes gritos agudos, gargalhadas, um tu- 
multo incrível. Cairam-lhe todas em cima, molhando-o, 
atirando-lhe com os batedores e com a roupa húmida. 

Apezar d'este violento ataque o maganão não lar- 
gava a rapariga, beijando-a no pescoço, na cabeça, nas 
faces e gritando com ar alcgi-e: 

— Como é bom! Batam, batam, a mim importa-me 
bem. Como eu gosto d'isto! 

E todos chegavam ás janellas e riam... e os velhos 
gritavam e os cães punham-se a ladrar, e Coucou Peter, 
corado, luctando, repetia sempre: 

— Vá mais um beijo pela peregrinação das almas! 

- — Ah ! infame, dizia Matheus, vejam que casta de 
discípulo ali tenho! 

Por fim, como visse correrem os aldeãos com paus, 
montou em Bruno, saltou por cima da pia, e entrou na 
cavallariça, gritando: 

— Como são bonitas as raparigas de Oberbronn! 
São doces como cerejas, estalam na bocea como nozes. 

E quiz correr o ferrolho, porque os rapazes e os pães 
estavam furiosos. 

InfeUzmento Ludwig Spcngler, um filho do guarda 
rural, cuja namorada Coucou Peter abraçara, chegou ao 
mesmo tempo o entalou o i)au na porta. 

Foi então que todos correram ao pateo sobre Cou- 
cou l'eter, que berrava: 

— Meus amigos!. meus ricos amigos! isto era brin- 
cadeira ! era por graça ! 

Emquanto o empurravam para a rua sob uma chuva 
de pauladas: 

E doce como cerejas, dizia um. 

— Estalam como nozes, acudia outro. 

— Como é bom! gritava Ludwig Sj^engler batendo 
a mais não poder. 

Matheus, testemunha do succedido, bradava da ja- 
nella: 



ARTES E LETRAS 



Wò 



■ — Animo! .aniuio! Coueou Pcter, recebe essa pro- 
vação antliropo-zoologica com a resignação de um philo- 
sopho. Ap:ratleco a esses moços, quo estão neste mo- 
mento trabalhando para o teu aperfeiçoamento moral ! 
Eu jil notiíra que tu pertences á família dos zann^ãos, 
espécie voluptuosa, que se nutre dos olhos das flores c 
dos fructos os mais delicados. Com mais aif^^umas lições 



d'csti 



as, espero que renunciaras a esses prmopios sen- 



suaes. 



O pobre Coueou Pcter curvava-se todo e olhava 
para o mestre com o ar derrancado do quem diz: 

— Eu sempre queria vêr-te no meu logar cora todos 
os teus principies anthropo-zoologicos ! 

(CnntinAa.) B. 



AOS PES DA DEUSA 

Senhora dos meus cuidados, 
E dos meus males senhora, 
Porque não dás quo passados 
Sejam meus males agora 
De ha tanto principiados? 

Meu coraçiio não repousa 
Desde a hora em que te vi; 
Se eu olho e não vejo cousa 
Que possa cgualar-sc a ti, 
Por não dizer mais fonnosa! 

Se os negros olhos elevas 
Vejo em mim um péu aberto; 
Se os fechas, fecham-se as trevas 
Na minha alma; e então mais perto 
Vejo o abysmo onde me levas... 

Descreio? Perdoa a aífronta: 
Descrer de ti é pcccado; 
Jlas o pcccado que monta, 
Se eu bem o tenho expiado, 
. Soffrendo dores sem conta? 

Nem tu mesma as avalias! 
Se viesses lêr no meu peito. 
Então, sim, comprehenderias 
Os estragos que tem feito 
O olhar que a furto me envias! 

E tu que vês augmentados. 
Cada dia e cada hora. 
Males por ti começados. 
Bem poderias, senhora, 
Dal-os já por acabados! 

Podias, sim; mas não queres 
Ter dó de quem tanto te ama: 
Vês o incêndio, mas preferes 
Augmental-o ateando a chamma... 
Vaidosas que sois, mulheres! 

Pois se a morte me estás dando 
Quando em ti a vida existe. 
Porque me deixas j)enando? 
Ai! senhora, se ando triste, 
Bem sabes tu porque o ando! 



Trago a cabeça esvaída. 
Meu peito aberto de dores. . . 
Ai! tu não sabes, querida, 
Que mo envenenam as flores 
De que me enfeitas a vida! 

Quando, rara vez, inclino 
Eu teu seio a face ardente, 
N'esso seio alabastrino. 
Doirado suavemente 
Pelo teu olhar divino, 

Ai! meu doce amor perfeito, 
A lingua humana mal sabe 
Dizer n'um som contrafeito 
O que em palavras não cabe, 
Porque não cabe no peito. 

Com o pensamento nos céus, 
Olhos fitos nas estrcllas 
Que brilham nos olhos teus, 
Deixo-me ir suspenso d'ellas. 
Quem sabe aonde? até Deus! 

E subo e subo, e, subindo 
A essas regiões celestes, 
Não sei se me vae fugindo 
A vida, se acordo prestes 
N'um outro mundo mais lindo! 

jMudo, extático, sem falia. 
Entre júbilos de esperança. 
Ai! nos braços teus, opala. 
Desmaio, como a creança 
Nos braços da mãe que a embala. 

IMas acordo: a realidade 
Cega-me os olhos, nao vejo 
A luz da felicidade. 
Que eu entrevira n'um beijo. 
Do qual só resta a saudade! 

Mas porque os males passados 
Hei de avival-os agora. 
Para augmcntar meus cuidados. 
Que tu não queres, senhora, 
Vêr em meu peito acabados? 

Vêr-te eu, botão pequenino 
De uma rosa perfumada. 
Folha branca som destino 
Solta d'haste, arrebatada 
Das valsas no torvelino. 

Saltando de braço em braço 

A mercê dos curiosos. 

Que já estão armando o laço 

Para apanharem os gosos 

Que tu lhes dês n'um abraço... 

Faz pena; e tu bem podias 
Com um só gesto, senhora, 
Converter em alegrias 
Estas tristezas de agora. 
Minhas fieis companhias! 

Nada mais íacil; quizesses 
Tu, que és senhora do mim. 



104 



ARTES E LETRAS 



Ouvir-mo as trémulas preces, 
E despachal-as por fim 
N'uma palavra que desses, 

Verias como eu ficava 
Rendido logo a teus jxjs, 
E nas mãos t'os apertava 
Beijando-os, como talvez 
Olhos de outra não beijava. 

Mas porque os tristes cuidados 
Que passo por ti, senhora, 
E que eu desejo acabados. 
Hei de avival-os agora 
Para os vêr mais augmentados? 

Vae teu caminho, mas olha 
Lá do futuro, aonde fores, 
Para quem hoje desfolha 
No teu regaço estas flores 
Da esperança, folha a folha. 

E quando vier o cansaço. 
Pois também cansa a alegria. 
Quando o teu corpo já lasso 
De gozar, cair um dia 
íí'algum estranho regaço, — 

Só esta crença mo assiste: — 
Lembrar-te-has, n'essa hora. 
Dos tempos em que me viste 
Em volta de ti, senhora. 
Sempre, sempre, sempre triste. 



Vizcu, outubro de 1871. 



j. simOes dias. 



A ANTIGA TRAVESSA DO PINTOR 

STE jornal deve occupar-se 
não somente dos assumptos 
exclusivamente artísticos, 
senão também propugnar 
por todos aquelles que te- 
nham uma relação, remota, 
ou próxima, com as artes, 
ou que d'elles possa advir 
consideração ou boa lama 
aos talentos que as cultiva- 
ram ou cultivam. 

Muita gente ignora o 
motivo de se liavcr posto o 
nome do — Travessa do Pin- 
tor — á peí[uena rua que vae da Carreira dos Cavallos 
ao Arco do Cego. Pois é uma rasão histórica, e que deve 
conservar gratas lembranças n'aqucllcs que estudam a 
vida dos homens mais notáveis que perpetuaram em Por- 
tugal as artes da pintura. 

Este pintor de que aqui se trata, o que deu o nomo 
á travessa indicada, foi Pedro Alexandrino, o nosso pin- 
tor iiistorico mais notável pela época do terremoto, aquello 
a cujo pincel fácil devem os nossos principaes templos, 
demolidos ou incendiados pelos temerosos desastres d'a- 
quella grande catastrophe, os seus retábulos, retábulos 
que foram substituir as obras do seu antigo mestre An- 
dré Gonçalves. 




Pedro Alexandrino possuia uma casa n'aquelle sitio, 
que se tornava lallada, principalmente, por uma grande 
cisterna cm que gastara sommas prodigiosas. Era uma 
mania. Chegava elle a dizer, que a mor parte do importe 
de seus quadros a tinjia mettido na cisterna. 

Quando alguém, visitando-o, lhe perguntava pelas 
suas obras, dizia logo com a jovialidade que lhe era ha- 
bitual: — Tenho tudo mettido na cisterna. 

O nome d'este artista notável deu o nome á traves- 
sa, que com rasão se devia ufanar d'elle, porque Pedro 
Alexandrino teve merecimento, o que é impossível de ne- 
gar diante da sua melhor obra, que é o quadro do Sal- 
vador do rmindo, coUocado na Sé de Lisboa. E uma com- 
posição elevada, em que a frouxidão de colorido se res- 
gata pela correcção do desenho elegante e fácil. 

Ha pouco, quando a camará tratou de alargar 
aquella travessa, houve alguém que se lembrou, de certo 
por ignorar a rasão histórica d'aquella denominíição, de 
mudar o nome de Travessa do Fintor para Ittia do Hos- 
pital D. Estephania. 

Parece-nos realmente um desacerto. 

A memoria d'aquella bondosa princeza subsiste do 
certo assas perpetuada no espirito de todos nós, o ainda 
mais n'aquelle mesmo local, pela fundação do estabeleci- 
mento de caridade a que pozeram o seu nome, sem que 
seja preciso ir apagar, para mais propagar a sua lem- 
brança, uma tradição histórica, a única por ventura com 
que a posteridade celebrou o nome illustre que o talento 
de Pedro Alexandrino logrou accrescentar ao catalogo dos 
nossos pintores. 

É essa uma ingratidão a que a própria finada rai- 
nha se opporia, se podesse. A camará municipal de Lis- 
boa, da mesma sorte que avivou a memoria do nomo do 
famoso Camões do Rocio, c que conserva o do poeta 
Chiado, nos locaes respectivos onde estes homens tão ce- 
lebrados residiram, deve conservar a denominação da 
travessa que recorda o auetor do famoso quadro do Sal- 
vador do mundo. 

Oeiras, 6 de junho de 1872. 

JOSÉ MAKIA DE ANDRADE FERREIRA. 



LEITURA D'TJMA CHEONICA 

o muito estimável poeta Alfredo de Vi^my escreveu n'uma 
das suas melhores composições: 

Quã e.it doux, quil est dott.i d'éc(mter des histoires, 
l)es histoires du temps passe, 
Quand lhes hranches d'arhres sont noires, 

Quand la neige est épaisse et charije un sol glaré. » 

A gravura que hnjese apresenta, copia de um quadro de Hey- 
den — Leitura de uma chronica, faz lembrar estes versos exacta- 
mente. O pintor, ao (pie parece, escolheu para assumpto a época 
do renascimento artístico. A scena deve passar-se, por exemplo, 
em Nureinbcrj;. Um honcdictino sapicnti", investigador, curioso, 
descobriu por entro a. multidão do cartapacios folliudos alguma 
relíquia da velha firoria ou da amaniissima Roma, e liei discipuio 
do João Rpuchlin ou di; (;(inrado ^V(■issol, ostá-a trasladando ao 
idioma pátrio, com deleitação das damas illustros. 

È isto o quo d(!ve ser, com certeza. Obra de casa não estiio 
clles saboreando. No longo período da idade media a Allomanha 
não doícntraidiou de si nenhum monumento. O esplendor poético 
derramado no tempo dos Hohenstaufen, além de ser uma reverbe- 
ração da França, morro ensombrado pelas contendas intestinas, 
e h voz dos minnesiiiger o. dos meislersinger esmorece á falia de 
ambiente. 




MURILLO pin.-í'- 



W FRF.NCH SC 



k m^^mm. 



Kditoroa BoUajid & Semiond Lisboa. 



ARTES E LETRAS 



105 



Quanto aos Niebelungen, esse bello poema a que os allemães 
chamam a sua llltada, podemos íilial-o nas chronicas francezas, 
emparceiradas com as chronicas gotiiico-iombardas. 

O que c, porém, muito possivel, em vista de um riso escar- 
ninho que desflora subtilmente os lábios do frade, e que faz dila- 
tar um tanto as pupillas do auditório, é que elle esteja a I6r a Náu 
dos doidos, de Sebastião Brandt, preciosidade poética muito para 
desenjoar de rimas insípidas. 

Leitura de uma chronical. . . seja qual fôr o livro, o titulo 
do quadro é que faz a gente pensar n'outros tempos e n'outros 
costumes. 

Um mundo novo de idéas e de aspirações estendia a mão ao 
fio tradicional dos clássicos. Era a sociedade juvenil pedindo ar- 
rimo á sociedade vetusta. Do montão das ruinas surpam as pe- 
dras ignoradas, aecumulavam-se os mineiros e os lapidarios, m- 
terrogavam-se os pallidos manuscriptos, eonversava-se com Gicero 
e com Ovidio, e a inspiração cbristã, antes de tomar o vôo para 
as serenas regiões do seu ideal, retempera va-se primeiro nas 
aguas hellenicas. 

Como os trovadores haviam corrido de castello em castello, 
entoando as suas canções amorosas, corriam então os sábios de 
universidade em universidade, iniciando-se nos sagrados myste- 
rios. 

A dama dos pensamentos residia em Paris, em Ingolstadt, 
em Winchester. 

Foi uma grande época, na verdade, em que as duas levadas 
se uniam e se engrossavam, para formar o oceano amplíssimo em 
que tinham de navegar os baixeis do pensamento moderno. Acal- 
mada a febre erudita, levantados os joelhos do genuflexório em 
que os idolatras se haviam deixado estar embebidos na contem- 
plação gentílica, o espirito humano tomou o curso que lhe estava 
traçado, curso enorme, caminho infinito, cujas barreiras se esbo- 
roavam ás mãos de Colombo e de Gut(emherg. 

O nosso benedictino folheia no entanto o gordo livro que lhe 
descança no regaço, e talvez procure nelle alguma passagem de 
audição consoladora, algum trechosinho que venha nulir com o 
peccado, graças ás exhumações de Filelfo e de Braccioiini. 

Foi n'isto que eu pensei ao observar o quadro, e talvez isto 
fizesse, se por ventura me banhasse a luz d'aqueile tempo, e se 
os carunchos da cella não me houvessem ruido lentamente as fe- 
veras. 

E. A. VIDAL. 




A REFEIÇÃO 

Quem entra no Museu do Prado em Madrid, ao lado dos pri- 
mores de Raphael, das esplendidas telas de Ticiano, das maravi- 
lhas de Rubens, e das elegâncias de Yan-Dyck, distingue logo na 
linha dos primeiros, entre os mestres, os dois reis da pintura hes- 
pjnhola — Murillo eYelasquez. O espirito hesita, quando se trata 
de disputar entre os dois preeminências, e a linal pôde uma ten- 
dência especial da nossa alma fazer com que sympathisemos mais 
com as telas de um d'elies, como me succedeu a mim com Velas- 
quez, mas a palma da victoria ninguém ousa outhorgal-a definiti- 
vamente. 

Dizem alguns que Velasquez é o pintor da terra, e Murillo 
o pintor do céu. Não acho justa a diíinição. Parece d'ella depre- 
hender-se que Murillo paira em nuvens de mystieismo, e copia a 
belleza ideai que entrevia em sonhos vagos. Ora eu inclino-me 
um pouco mais para a opinião do distinclissimo escrintor hespa- 
nhol, o sr. Tubino, que denomina a maneira de Murillo um rea- 
lismo idealista '. Na sua immensa obra espelham-se as paizagens, 
os typos que o rodeiavam, esmaltados, porém, com reflexos ce- 

' HuriUo, su época, su vida, sui cuaáros. 



lestiaes. O céu de Murillo é a Andaluzia banhada por uma luz 
sobre-humana. Como os antigos Hellenos transportavam para o 
céu, transformando-os em constellações, os personagens e os obje- 
ctos da historia ou da lenda do seu paiz, Murillo transportou para 
o céu christão as scenas, que lhe eram familiares, as figuras que 
volteiavam em torno d'elle por noites de luar sereno, ou em tar- 
des de luminosa melancholia. As suas Virgens são as sevilhanas 
divinisadas, conservando ainda a rosa nas tranças côr da noite, 
e uma certa vivacidade garrida, transparecendo por entre a inno- 
cencia, no negro e scintillante olhar. 

A vida de Murillo tem uma certa serenidade burgueza que 
explica estes característicos do seu génio; desde que lhe apparece 
a gloria, a sua existência é um suave e plácido sorriso. Nunca 
sobre-excitou a sua potente imaginação, arrojando-a ao campo fe- 
bril do ascetismo, ou fazendo-a profundar na realidade da vida 
para n'ella encontrar o drama. Rodeiam-n'o os bons frades que 
lhe encommendam os quadros; os seus concidadãos, antes de o 
admirarem como ura sublime pintor, respeitam-n'o como excel- 
lente pae de família e óptimo parochiano. Allí n'aquella risonha 
Andaluzia é sempre azul o céu, são sempre perfumadas as brisas 
do Guadalquivir, e sempre é esplendido o florir das rosas, e sem- 
pre encantador o sorriso das mulheres. Murillo deixava-se impre- 
gnar em todas estas delicias; espelhavam-se-lhe na palheta o azul 
do céu e a purpura dos horisontes crepusculares, projeclava-se- 
Ihe na tela a sombra curiosa das andaluzas; ouvia, emquanto 
pintava, o sininho da ermida; via por uma porta entre-aberta um 
doce quadro de família; tudo isto entrou na composição do seu 
génio, tudo isto concorreu para dar ao seu coloriao aquella sua- 
vidade e inimitável magia, que faziam o desespero de Mongs; 
tudo isto deu ás figuras dos seus ([uadros um ar de naturalidade 
que surprehende; tudo isto fez emfim com que Murillo fosse o 
mais hespanhol de todos os pintores, porque é a própria Hespanha 
com os seus límpidos ares, o seu florido solo que se lhe reflecte na 
palheta. 

Mas o céu de Murillo é, como eu já disse, um céu familiar, 
sente-se que o pintor conhece intimamente os seus santos, que 
teve relações com S. José, que fez saltar nos joelhos o Menino Je- 
sus. Trata sem ceremonia o Evangelho e o Fios Sanctorum, e 
ainda n'isso se revela o seu caracter nacional. O catholicismo de 
Murillo é o catholicismo andaluz, que trata mão por mão os per- 
sonagens celestiaes. Este, já se vé, é o catholicismo popular, o 
catholicismo da choupana e da alegre ermidínha da estrada, que 
tem o adro sombreado por uma romanzeira, e o altar mór ba- 
nhado por uma larga faixa de sol. Para o catholicismo da inqui- 
sição lá está Ribera, para o catholicismo do claustro ascético lá 
téem Zurharan, para o catholicismo das cathedraes dá-lhes Velas- 
quez o seu Ctiristo crucificado; Murillo é o catbolico da Paschoa 
florida e da noite de S. João. Elles que pintem o martyrio, a pai- 
xão, a tristeza lúgubre, e o drama do Golgotha; Murillo escolhe 
a vida, as flores, o milagre jovial de Cana, o Sinite párvulos ve- 
nire ad me. 

Como tão pequeno intervallo separa o mundo religioso de 
Murillo do mundo da sua convivência, não pôde haver também um 
abysmo entre os seus quadros religiosos e os seus quadros profa- 
nos. Costumam os hespanhoes dizer que quem quízer observar 
uma collecção de Virgens de Murillo espere, ao cair da tarde, 
junto da fabrica de tabacos, as cigarreiras de Sevilha. Não seria 
também difficil de encontrar em qualquer família andaluza a re- 
producção d'aquelle delicioso quadro do Menino Jesus dei Paja- 
rito, ó dei Perrito. Olhem-me para estes dois rapazitos da óptima 
gravura que a empreza das Artes e Letras apresenta aos seus as- 
signantes; este assumpto foi mais de uma vez tratado por Muril- 
lo. Pois bem, ponham azas á(]uelles espertos e formosos garotos, 
e ahi tem dois cherubins de Murillo, trabalhando pouco conscien- 
ciosamente na celebre Cozinha dos anjos, que se admira no Lou- 
vre. 

O quadril, de que a nossa estampa é gravura, pertencia 
ainda ha pouco tempo ou ao sr. Bankes, ou ao conde de Lons- 
daie, porque ambos possuíam um quadro sobre este assumpto ' : 
Dos muchados comiendo frutas, segundo se vê no catalogo apre- 
sentado pelo sr. Tubino. Ainda outra vez tratou Murillo assum- 
pto sírailhante, representando, n'um quadro, que a Pinacotheca 
de Munich possue, Dos muchados sentados en el suelo comiendo 

' A einprcza d.ns Aries e Letras tem, para poblicar, a gravura do outro quadro d« 
Murillo a que nos rererimos no texto. 



N." 7 (!:• 187: 



lOG 



ARTES E LETRAS 



uvas. Murillo amava a infância; comprelicndia, como ninjíuem, a 
sua ingenuidade, a sua travessura, o seu riso, os seus adoráveis 
espantos, a sua innoccnte inalicia. No pintor sublime sentiase o 
extremoso pae. 

Velasquez e Murillo resumem admiravelmente nos seus dois 
grandes vultos a pintura licspanhola; mas Vclasqnez 6 cavalhei- 
resco, 6 severo e grave como um castelhano; Murillo alegre, poé- 
tico, expansivo como um andaluz. Ambos se pôde dizer que cor- 
respondem ás mais sublimes manifestações de génio popular de 
Hespanha: Velasquez ao Romanceiro, Murillo á melodia nacional. 



PINHEIRO CHAGAS. 



—ZSSCZl- 



A MÚMIA DO ARCEBISPO 0. LOURENÇO 

A historia ecclesiastica 
e secular de Portugal 
avulta na metade ulti- 
ma do século XIV a fi- 
gura enérgica, expres- 
siva e sempre buliçosa 
do arcebispo D. Lou- 
renço. 

Cingindo a mitra 
bracarense no anno de 
1374, começou o seu go- 
verno, como elle próprio 
larou em Koma, tirando das mãos 
de poderosos, entre mosteiros, igre- 
jas e prasos de grande valor, mais de 
mil, que restituiu á igreja do Braga. 
Augmentou os bens da sua mesa, que 
o deão e o cabido tinham dissipado. 
^3? Obrigou a viver honestamente a mui- 
â^^ tos clérigos, que nem de nome conhe- 
1^^ ciam a honestidade. Pregou os mys- 
terios da fé, instruindo com a voz au- 
ctorisada aquellos que nem ao menos 
conheciam os primeiros principies da 
religião christS. Acercou-se, emfim, 
do homens de armas para se defen- 
dei" ou para subjugar aos que se op- 
punham a esta grande reforma, que 
parece ter mudado completamente as 
condições da diocese bracarense no 
pequeno espaço de dois ou três annos. 
Ferindo interesses pessoaes e al- 
terando costumes inveterados, tanto 
da nobreza como do clero, o arcebispo veiu a soíFrcr os 
effeitos de uma guerra furiosa, que temerariamente pro- 
vocara. Sua origem plebêa ainda mais exacerbava os 
ódios d'aquelles que se vangloriavam de descender de 
avoengos já illustres em tempos anteriores á fundação 
da monarchia. Inaudito o feio caso era que um neto de 
Maria Vicente, por alcunha a Longa da fonte, úm ho- 
mem sem appellidos, e que por si próprio tornííra seu 
nome de baptismo conhecido e respeitado, se atrevesse a 
fazer justiça entre os orgulhosos representantes da mais 
antiga nobreza do reino. 

A reacção contra o arcebispo foi tão forte, que lo- 
grou alienar-lhe as vontades de el-rei D. Fernando e do 
papa Gregório xi, o próprio que o elevara ao sólio ar- 
chiepiscopal. 

Em 1377 entravam em Braga, apoiados pelo meiri- 
nho-mór de Entre-Douro e Minho o seus homens do ar- 
mas, três visitadores nomeados pelo summo pontífice para 
devassar das culpas do arcebispo. 

Triumpharara por então os inimigos do prelado. Ti- 




í' 



nham sido escolhidos para visitadores alguns dos mais 
encarniçados, e, entre elles, o próprio bispo de Silves, 
D. Martinho, o qual concorrera com 1). Lourenço na pre- 
tenção da mitra bracarense. 

A fim de escapar ao furor dos visitadores que inten- 
tavam prendel-o e pçr se defender das accusações que 
lhe faziam, fugiu o arcebispo para Roma, onde impetrou 
do papa Urbano vi uma sentença que o absolvia como 
varão bom e circumspecto no espiritual e temporal, de 
vida honesta e louváveis costumes. Esta sentença, dada 
em 14 de fevereiro de 1379, veiu depois a sor confir- 
mada por cl-rci D. Fernando em 1382. 

Convém advirtir que D. Lourenço, ou para obter a 
sentença, ou por eífeito d'ella, ou finalmente pela força 
de suas convicções, se declarou partidário do Urbano vi 
no seisma que então dividia a christandade. O apoio do 
arcebispo primaz, valioso em qualquer conjunctura, mais 
o era ainda quando os reinos de França, Escócia e quasi 
toda a Hespanha se tinham abertamente manifestado con- 
trários áquelle pontifico e favoráveis a Clemente vii. Os 
Buccessos confirmaram a esperança que o papa Urbano 
depositara no prelado bracarense. Por sua influencia se 
lhe conservou obediente el-rei D. Fernando e resistiu a 
todas as suggestões, que, em sentido opposto, faziam na 
corte do Portugal os embaixadores de Castella. 

Pelo fallecimcnto de el-rei D. Fernando em 1383, 
se originaram as guerras da successão, em que o arce- 
bispo D. Lourenço seguiu o partido do mestre de Aviz. 
No cerco de Lisboa prestou relevantes serviços, prepa- 
rando os navios e galés que haviam de defender a barra, 
e trabalhando pessoalmente c obrigando os clérigos a tra- 
balhar nas obras de defeza. 

A grande influencia que tinha no animo do alguns 
prelados muito contribuiu nas cortes de Coimbra para a 
acclamação de D. João I. 

Porém, o campo da batalha de Aljubarrota foi o 
theatro onde melhor se desenhou o seu génio esforçado 
c cavalleiroso. Animando aos soldados com a palavra e 
com o exemplo, pelejava entre a cavallaria, como se toda 
a sua vida se exercitara na carreira das armas. Ao tempo 
em que andava mais aecesa a luta, um soldado caste- 
lhano aproximou-se do arcebispo e sem respeito á ima- 
gem de prata de Nossa Senhora que trazia no morrião 
á guisa de pennacho, acertou-lhe pela face uma grande 
cutilada. Não perdeu o animo o corajoso prelado, e com 
taes golpes respondeu ao atrevido castelhano, que logo 
alli lhe tirou a vida. 

Pouco depois da batalha referia D. Lourenço este 
feito n'uma carta a D. João de Ornellas, abbade de Al- 
cobaça: 

«Aproue a Deos e a Santa Maria sa Madre que as 
ribeiradas do meu giluás, seiam ia vedadas, e jos mestres 
vom de bem pêra melhor, e eu o sento bem em mim, ca 
se vier caizo, ia darei, e levarei oitra pola mesma re- 
qesta: e crede vos bõ amigo, ca quem esta pespegou, ca 
nom a leuou enxebres, nem ira contar em Castella ó soa- 
lheiro o cruzamento da minha cara.» 

Falleceu o arcebispo D. Lourenço no anno de 1397, 
e foi sepultado na sua capella, n'um tumulo que o repre- 
sentava em estatua, vestido de pontifical. 

Abrindo-se o tumulo ha alguns annos, appareceu o 
corpo muito bem conservado. Trasladou-o o cabido para 
o vão inferior de um altar na mesma capella, onde está 
exposto á veneração dos fieis. Desejando, porém, obstar 
ao damno que a múmia poderia receber do ar húmido, 
mandou-a cobrir com um verniz espesso e brilhante, que 
mais denegriu ainda a pelle curtida pela acção de tan- 
tos séculos. 



c 
> 

o 



C- 
V. 






■© 




ARTES E LETRAS 



107 



O arcebispo D. Lourenço parece hoje um negro ves- 
tido de pontifical. A estúpida mania de caiar, pintar o 
emplastar não se limitou na sé de Braga aos monumen- 
tos de pedra, aos velhos silhares das paredes, aos renda- 
dos das janellas, aos túmulos esculpidos, abrangeu tam- 
bém o corpo do venerando arcebispo, que mal imaginaria 
em vida que, cinco séculos depois de ter sido acutilado 
por um soldado castelhano, havia de ser envernizado por 
um cai-pinteiro portugucz! 

A. FILIPPE SIMÕES. 





VIAGEAS PELO IMERIOR DO BRAZIL 



As tartarugas, seu desovamento e pesca.— Viagem no- 
cturna pelo Xiufjú. — Caçada singular. — A perda 
da canoa. — Desanimo. — O ubá e o indio. — Um li- 
bertador forçado. — Travessia perigosa, 

(Contiuuação) 

3IINIIA canoa tinha ido bater 
contra uma grande arvore, 
meio submergida na ponta de 
uma ilha, o por pouco se não 
virou! Õs ramos sem folhas, 
açoitando os bancos da proa, 
fizeram-nos suppôr uma in- 
vasão e por isso pegámos nas 
armas. Reconhecida a causa 
do susto, pareceu-nos conve- 
niente guardar as nossas me- 
ditações para outra vez, o 
remámos com foi'ça para a 
praia dos Cajueiros, que já se avistava. 

Ao approximaiTno-nos da terra vimos no cimo do 
areal reflectir-se o luar n'um corpo brilhante, e suspen- 
demos o ^movimento dos remos. 

— E uma tartaruga, — disse um dos tapuios. 
Eu nunca tinha visto tartarugas vivas. Achando-me 
na terra das maravilhas e dos successos extraordinários, 
o ignorando que força de resistência offereceria um d'a- 
quelles animaes, antes de se deixar apanhar, apertei com 
força o punho do meu sabre. 

Os meus homens tinham-me dito simplesmente: 
— Vamos ás tartarugas? 

E eu, que apreciava aquella concisão sparciata, res- 
pondi com o mesmo laconismo: 
— Vamos. 

Não tinha ainda ouvido descrever a pesca, nem o 
desovamento d'aquelles animaes, c ia levado pela curio- 
sidade, que sempre me guiara pelos sertões. 

Quando desembarcámos, arrastámos a canoa para 
longe d'agua, sem nos lembrarmos da maré, que estava 
enchendo, o abaixámo-nos, alongando a vista pela praia, 
para vér se descobríamos os cascos molhados onde o luar 
SC espelhava. Além da primeira tartaruga, que tinhamos 
visto, reluziam ao longe mais seis ou oito. O principal 
dos tapuios, que era o indio mundurucú, partiu a correr 
sem nos dizer nada, e nós fomos todos após elle. 



Dirigimos a carreira para a tartaruga mais próxi- 
ma, que suspendeu a postura e quiz fugir assim que nos 
sentiu os passos; mas, antes de tratar da sua própria se- 
gurança, o santo amor materno lembrou-lbe que devia 
esconder o ninho, e ncis chegávamos no momento em que 
a triste alisava a areia com ura zelo que lhe foi fatal. 

O indio Pedro arremcssou-se sobro ella e voltou-a 
do peito para o ar, não sem difEculdade, porque a infe- 
liz resistia, pretendendo morder, ou arranhar as mSos 
que lhe inutilisavam as forças. Foi a primeira vez que 
eu vi tamanho exemplo de amor maternal. A mSe, arris- 
cando a vida em defeza de seus filhos. . . O mães, que de 
lições tendes dado ao egoismo dos homens, de então para 
cá!... Mas tem sido perdidas todas; perdidas p^jr tal 
forma, que até vos cansastes já do as dar, e hoje não ha 
talvez quem morra por seus filhos, nem mesmo entre as 
tartarugas ! 

As outras mães fizeram, provavelmente, algum si- 
gnal usado entra ellas para dizer : — « Salve-se quem po- 
der!» — porque se precipitaram todas para o rio, com a 
maior velocidade que lhes permittiam as suas curtas e 
largas patinhas. Cada um de nós correu para seu lado, 
c em menos de um quarto de hora tinhamos voltadas na 
praia todas quantas alli estavam; nem uma só escapou! 
Eu tornei-mo tão destro no exercício, que egualava, se 
é que não excedia os próprios tapuios! 

Mas que drama tão doloroso e pungente era o d'a- 
quellas pobres creaturinhas debatendo-se, tentando uma 
lucta inútil para salvar a futura prole! A sua vista abri- 
mos cruelmente as covas, onde ellas haviam depositado 
os ovos, e lembro-me ainda dos esforços desesperados 
que faziam as miseras para se arrastarem sobre as cos- 
tas o impedir que violássemos no berço os segredos da 
maternidade! Os meus tapuios, em quem a civilisação 
não conseguira destruir completamente os hábitos da vida 
primitiva, devoraram alguns ovos crus, ainda tépidos do 
calor do ovário! 

Foi a primeira lição de selvageria que eu recebi dos 
homens; e ou fosse porque o meu estômago se revoltasse 
contra a iguaria barbara ou porque realmente visse, como 
se me afigurou ao clarão da lua, cairem lagrimas em fio 
dos olhos das tartarugas, rejeitei os ovos que mo oífe- 
reciam para provar, dizendo-se-me que eram deliciosos. 

Depois vi muitas vezes arrancar os filhos dos peitos 
das mães africanas, para os vender a um senhor diffe- 
rente, e ellas, embrutecidas pela escravidão, não chora- 
vam; vi os homens venderem as mulhei'es de quem ti- 
nham tido filhos e pôr em leilão os filhos que houveram 
d'essa3 escravas, sem a menor demonstração de senti- 
mento; vi a mãe, corrompida no seio da opulência e dos 
esplendores da aristocracia social, ir para o baile ofFere- 
cer sorrisos o deleites ao cynismo depravado, emquanto 
o filho expirava, n'um berço do ouro, entregue a cuida- 
dos mercenários. 

Reconheci então que os hábitos da vida anti-social 
me tinham deixado intacto o sentimento do bem e do justo 
e a virgindade da alma; e que era menos difficil achar 
lagrimas nos olhos das tartarugas, do que coração no 
peito de muitas creaturas humanas. Na escola dos ani- 
maes ferozes não se aprendem as atrocidades que se pra- 
ticara enti-e povos, que se dizem civilisados, e cu tenho 
momentos cm que deploro sinceramente haver deixado a 
sociedade dos meus tapuios do Xingu. . . Adiante ! 

Quando os homens se fartaram de ovos, trataram 
de ir buscar a canoa para mais perto, a fira de se erabar- 
carem as tartarugas. Eu corri adiante de todos para o 
logar onde a tinhamos deixado, e não a vi. Alonguei a 



108 



ARTES E LETRAS 



vista pela praia fora, abaixei-me para vêr melhor; — 
nada! — O grito de afflicçíto que soltei attrahiu os tapuios 
todos. 

— Foi-se a canoa! 

— Como assim? 
—Que é d'ella? 
— Roubaram-n'a? 

— Levou-a a maré, que estava enchendo, e nós nSo 
fizemos reparo ! . . . 

— Qual historia! Furtarara-n'a, 

— Mas quem? Por aqui não ha moradores... 

— Alguém que passou. . . 

— E agora? 

— Agora? 

— Sim; que havemos de fazer? 

— Valha-me Deus ! . . . 

— Esta só pelo diabo! 

— Um caso assim!... E estamos n'uma ilha deser- 
tai... por aqui não passa ninguém; todas as canoas vão 
ao largo, ou encostadas á outra banda! 

— Mas que se ha de fazer? 

— Eu não sei. 

— Nem eu! 

— Nem eu! 

— Isto só por seiscentos diabos! 

— Seria algum ladrão? 

— Seria a maré? . . . 

— Nós temos tartarugas para comer até que venha 
aJguem. . . talvez que os cajueiros estejam com fructos. . . 
ovos não faltam. . . e então. . . 

— Sim; mas a canoa?! 

— E verdade; e a canoa?! 

— Não temos redes para dormir!... 

— Nem farinha! . . . 

— Nem tabaco!... 

— Nem pimenta!... 

— E eu tenho só um bocadinho de isca no uni'; se 
esta falhar, como havemos do ter lume? Aqui não ha dos 
paus que servem para o accender. 

— Olhem se vae alguém roubar-nos as tartaru- 
gas!... , 

— E verdade! Quem sabe se foi ladrão que levou a 
canoa? . . . 

E como se todos tivéssemos a consciência de que a 
riqueza mais útil que possuiamos, depois da perda da 
embarcação, eram as tartarugas, corremos todos para o 
pé d'ellas. Era tempo; duas ou três tinham feito tantos 
movimentos e com elles se haviam por tal modo enter- 
rado na areia, que estavam quasi a tocar-lhe com as mãos 
e dentro em pouco poderiam voltar-se. Annullámos os seus 
esforços e começámos a correr a praia em todos os senti- 
dos, sempre cora os olhos fitos no rio, procurando a ca- 
noa, como animaes ferozes fechados n'uma jaula em busca 
da saída. Apezar de filhos dos bosques, o todos conser- 
vando ainda, mais ou menos, alguns hábitos da sua tribu, 
nenhum dos tapuios queria resignar-sc a dormir n'aquclle 
areal desconhecido, sem rede e sem fogo. 

Eu, que os tinha visto andar sempre sem medo por 
florestas virgens e rios, ondo iam comigo pela primeira 
voz, sentia-me, com razão, inquieto, achando-os agora 
tão acovardados e sem animo. A causa explica-se com- 
tudo, facilmente. A canoa é a alma do indio do Brazil, 
assim como a gôndola o a do veneziano, e o cavallo a 
do árabe. Um indio do Amazonas sem canoa ó um corpo 
Bcm alma. 



' Espécie de eestínho, onde guai-dam o tabaco, isca, fuzil e 
pederneira. 



O ubá, canoa de um só cedro, é feito por elle com a 
forma de uma flecha, para correr mais e toma-se seu com- 
panheiro inseparável até á morte; quando sae dos lagos 
para os rios, leva-o pelo canal mais curto; se é preciso 
dar uma grande volta, por ficar distante a boca do lago, 
prefere arrastal-o atravez da floresta, ás vezes até distan- 
cias grandíssimas; de sorte que quando o ubá não leva 
o indio, é o indio quem leva o ubá; e assim atravessam 
a vida, unidos sempre! 

Nas horas de repouso, a canoa dorme também, amar- 
rada com cordas de embira (xylopia frutescens) no por- 
tosinho, onde o indio ergue o seu tijupar; ao menor ru- 
mor desconhecido, adeus casa e familia! Com o remo em 
uma das mãos e as armas na outra, o homem arreme- 
ça-se ao ubá e faz-se ao largo, com a rapidez da setta 
despedida pela corda do arco! A canoa toma-o invencí- 
vel; os rios, lagos e igarapés, são aos milhares, e elle 
conhece-os todos; se porém navega em sítios desconheci- 
dos, vae sempre pelo meio do rio, e se o rio é estreito 
atravessa-o sem cessar, de uma para outra margem, ap- 
proxímando-se da terra o menos possível e remando sem 
ruído; uma boa remadella colloca-o n'um instante longe 
da praia, e outra o approxima; sentado á popa do ubá, 
maneja-o com o remo, com que rema o governa ao mes- 
mo tempo, melhor e mais facilmente do que o illustrc 
marquez de Marialva manejava um cavallo. De vez em 
quando, se a prudência lhe não recommenda que seja 
desconfiado, lança-se á agua e nada alegremente á roda 
da canoa, como faria em volta de qualquer joven índia 
um amante apaixonado; umas vezes pendura-se-lhe á 
popa, outras á proa; ora se debruça n'uma, ora n'outra 
íuanda; e não raro se compraz cm nadar com uma das 
mãos, arrastando-a com a outra sobre o elemento liqui- 
do! .. . Ao vêl-os tão estreitamente unidos — homem o 
embarcação — dir-se-hia que o madeiro inanimado sente, 
comprehende, e é sensível a essas demonstrações de ter- 
nura! Outra mão que não seja a de seu dono, move cus- 
tosamente o ubá, governa-o mal, e não lhe imprime a 
velocidade usual; como o cavallo, que reconhece nas ré- 
deas e nas pernas o seu cavalleiro, o cedro cavado pela 
mão do selvagem parece distinguir o seu remador, e co- 
mo que se faz mais leve e mais dócil para elle do que 
para os estranhos! Privado da canoa, o índio, apesar de 
nadador excellente, foge da agua, entristece, esconde-se 
nos matos c torna-se mais feroz. Os hábitos da vida flu- 
vial, no sertão do Brazil, ao contrario do que succedo 
entre os povos cultos, são mais brandos e suaves do quo 
08 da terra. A guerra com as onças, tigres, serpentes, 
ou tribus inimigas, torna os gentios mais selvagens e 
sanguinários; os rios também têem os seus jacarés, mas 
a canoa separa-os do indio, e um remador valente nem 
teme affrontal-os, nem ser alcançado por elles quando 
quer fugir. 

Havia mais de uma hora que nos tínhamos sentado 
tristes e desalentados ao pé das tartarugas, quando avis- 
támos-Tima" (iatlOinhnrpíHismido ao largo, tripulada por 
uma só pessoa. Antes de gritarmos para que nos acudis- 
se, occorreu a um de nós que podia muito bem ser a 
nossa canoa e o seu roubador; deitámo-nos ímmediata- 
mente na praia, espreítando-lhe a direcção e procurando 
adivinhar, pelos movimentos do remador, as suas inten- 
ções. 

(Coatlna*.) 

F. 00HE8 DE AMORIM. 



ARTES E LETRAS 



109 



O RAPAZ DOS PIIOSPIIOROS 

E filho de um jovial farcista qualquer, muito con- 
ceituoso, que disse uma vez á família: 

— O rapaz que puxe por si, que é o que eu fiz. Já 
lhe deixo mais do que o meu pac me deixou: deixo-lhe 
os fios do telegrapho, os caminhos do ferro, as estrada- 
sinhas... Eu não tive nada d'isso, e quando queria ir á 
Azambuja havia de galgar como um cabrito por montes 
e charnecas. 

A mulher redarguiu: 

— Vê ao menos se 
o arrumas! 

— Arrumo. 

Dcu-lhe um cesto 
cheio de caixas de phos- 
phoros, abriu-llio a por- 
ta, e pOl-o na rua. 

O pequeno por en- 
tro a azáfama da sua 
agencia, foi scismando 
que tinha graça vir a 
ser mais rico que o pae. 
Assaltou-lhe a idéa o 
ecco de tudo que tinha 
ouvido, e as máximas 
e desconchavos pater- 
nos encheram-lhe a ca- 
beça. Não se pôde di- 
zer nada diante de 
creanças ; qualquer con- 
ceito dirigido á inno- 
cencia instrue-a ou es- 
troe-a: a candura é co- 
mo a neve, tudo lhe 
põe rastro ou mancha; 
o pae costumava dizer: 
— Meio mundo vive de 
enganar outro meio ! El- 
le tratou de ser da me- 
tade de cima. 

As caixas do phos- 
phoros muito cheias, 
chegam a ser perigo- 
sas: ao abrir-se, ardem 
todas. Para commodi- 
dade e segurança do 
freguez, ahgeirou-as 
quanto poude e de cada 
dúzia fez treze: ficaram 
óptimas, o renderam-lhe 
mais 10 réis. 

Se pedisse esmola, 
rotinho, ninguém lhe da- 
ria um real; d'aquella 
forma, com ares de in- 
dependência, ninguém 
tem animo de lhe recu- 
sar 10 réis, quer seja pelos phosphoros, quer não. Para 
pedir, é indispensável ter geitos de não precisar: é-se 
mais bem servido; quanto menos um pobresinlio annun- 
cia miséria, mais a gente se julga obrigado a dar-lhe es- 
mola: seriam capazes de nos empobrecer a nós, se an- 
dassem... de trem! 

Trata este galopim pequeno de enriquecer pela in- 
dustria e pela esperteza: ha occasiões em que julga de 
preceito impingir seu pataco falso; e o menos que faz é 
passar como excellentes os phosphoros péssimos, que uns 




atiram com a cabeça aos olhos do uma pessoa, e têem 
estropiado por ahi meio mundo. Como, porém, se diz que 
é mais fácil fazer caminho enganando o próximo do que 
amando-o, o rapazêlho timbra em ser do tempo e do paiz. 
Hoje é mal visto todo o homem que não enriqueça; che- 
ga-so a desconfiar das suas faculdades. Dizem os circum- 
stantes : 

— É esperto e não ajuntou dinheiro!? Ora, adeus! 
Quem for esperto, sempre faz negocio : compra com a es- 
perteza alguma posição boa, e nunca volta costas sem exi- 
gir troco. 

Manda o rifôo que 
se faça o bem na som- 
bra, mas não passa do 
palavras; quem faz 
bem, em geral, gosta 
de o fazer ás claras... 
para todos verem; por 
isso o pequeno, por en- 
tender a leria, accende 
logo um phosphoro, 
quando pede que lhe 
comprem a caixa. 

Não considera se- 
não quem fuma; para 
esses todo o agrado e 
inteira cortezia; o Fi- 
garo, quando delineava 
o seu tribunal, dizia: 
— « E a canalha atraz !» 
Assim deixa elle como 
rebotalho os que tomam 
rapé. 

Para elle o phos- 
phoro é tudo, e vê tudo 
pelo phosphoro: conhe- 
ce, pela escolha que faz 
o comprador, de que 
Índole e raça o homem 
é: os amantes compram 
dos amorphos; os me- 
drosos, dos compridi- 
nhos para subir esca- 
da; os artistas vão-se 
aos de páu; os burgue- 
zes ainda teimam com 
o José Osti. 

Vê o phosphoro em 
tudo, — até no paiz, pe- 
queno quanto basta pa- 
ra não exercer influen- 
cia nos negócios da Eu- 
ropa, podendo passar 
sem exercito, o que 
equivale a passar sem 
impostos, viver de bra- 
ços cruzados, juntando 
algum vintém, — e que 
não gosta senão de estar sempre no meio dos partidos 
políticos como um phosphoro entre a bigorna e o mar- 
tello, até lograr de alguma vez o mesmo destino que o 
phosphoro tem, saltar-lhe a cabeça, ou arder, apagar-se, 
o pisarcm-n'o! 

Quando vê nas ruas os meninos finos, fica pasma- 
do; principalmente se avista uns esopinhos vestidos de 
militares, pela mão do pae, que sempre lhe dão riso co- 
mo se fossem livrecos sem préstimo com encadernação 
de luxo. Tem dó quando encontra ás tardes de quinta 



feira os ranchinhos de coUegiaes a passear, humildes e 
tristes, adiante do prefeito, ao passo que elle disfrueta a 
alegria selvagem de beber ar livre todos os dias e a toda 
a hora, na cidade, no campo, á mercê da fortuna e da 
venda. -. 

Ha de crescer este patusquinho, o ha de ser um ra- 
pagão forte, despachado, alegro, em vez de se moer nos 
lyceus, acanhado, contrafeito, (s ficar para sempre um 
Pancracio, do gola alta, calças com inchaçào de joclhei- 
ras, casaco a fazer pregas nos rins, e um zabumba na 
cachola, muito sério, muito sério, muito sério. . . 

JÚLIO cesâb macuado. 



CHRONICA DO MEZ 



Ki.izMENTE ainda para cá não caí- 
ram os ardentes caloies que tèein 
alirasado os habitantes dos Estados 
Unidos da America, a ponto de ai- 
ííuns se resolverem a ir tomar o 
fresco para o outro mundo. No em- 
tanto o sol de Lisboa não é dos 
mais benévolos durante o estio, e por 
i-iso os encalmados filhos da formosa rainha 
(lo Tejo vão sempre, nos mezes mais quentes 
(lo anno, pedir á amena sombra das arvores 
(lo campo, a fresquidão que não encontram 
lias abafadiças ruas c praças da cidade. 

Mas a vida no campo é monótona e fasti- 
diosa quando os passeios e demais distracções 
se não amiúdam, o que nem sempre acontece. Percorrer invaria- 
velmente as mesmas ruas da quinta, assentar-se a gente a horas 
certas debaixo das mesmas arvores da alameda, passar quasi todo 
o dia a contemplar as mesmas flores do jardim, cança o espirito, 
e aborrece-nos da paizagcm por mais virente que seja, embora 
muitas pessoas façam consistir a sua felicidade em executar sem- 
pre a mesma coisa, tomando talvez por norma o que Chateau- 
briand escreveu não sei em que logar de um dos seus excellentes 
livros: — Si favais encore la fulie de croire au bonheur, je le 
chercherais dam Vhabilude. 

Ora eu conheço remédio especifico para quebrar a monotonia 
do campo, remédio que nos transporta a regiões sempre diversas, 
de modo que a vida se nos torna variada, leve e deleitosa. E é fá- 
cil de adquirir; encontrase nas paginas de um bom livro. 

Ao delicado ofTerecimento de vários cavalheiros devo eu ter 
experimentado, no decurso do mez que vae correndo, os benéficos 
etleitos da leitura de algumas obras valiosas. Vou fallar d'ellas, 
não tanto para dar a minha opinião sobre o merecimento de cada 
uma, senão para indicar aos que desejarem recrear e esclarecer o 
espirito, o nome dos livros modernos que devem adquirir. 

O carrasco de Victor Hugo José Alves é um formoso volume 
editado pelo conhecido livreiro do Porto, o sr. E. Chardron, e es- 
cripto pela mão firme e vigorosa do sr. Camillo Castello Branco. 
O novo romance do incansável escriptor, além do interesse que 
desperta desde as primeiras folhas, pela originalidade dos princi- 
paes personagens que figuram no enredo — a luveira da rua nova 
da Palma e o malévolo escrevinhador Victor Hugo José Alves — 
conserva o leitor dedicado ás boas letras, em constante admiração 
diante da magnificência do estylo imaginoso e audaz do auctor, 
estylo que não só é deleite, como ensinamento. 

Entretecidas com o romance propriamente dito, encontram- 
so algumas paginas da nossa historia moderna, que não são de 
certo as menos bellas, porque se acham escriptas com verdadeira 
eloquência e fino critério. Cito de entre ellas as que tratam do fi- 
nado rei D. Pedro V, onde por ventura se lôem os melhores tre- 
ciios da obra. 




Salvador Rosa, drama escripto por um mancebo, que, se- 
gundo julgo, se estreia no mondo litterario com esta composição, 
é uma peça romântica ornada habilidosamente com todos os arli- 
ficios e peripécias que foram n'oiitri) tempo o enlevo das platéas, 
mas que estão hoje um pouco banidos dos theatros de primeira 
ordem. 

Denota porém este original trabalho a existência de faculda- 
des dramáticas muito aproveitáveis no seu auctor, o sr. Bartholo- 
meii de Oliveira Uias e Sousa, que de certo emprehenderá e le- 
vará a cabo novas composições, de que ha de tirar honroso pro- 
veito quando dirigidas pelo estudo indispensável da especiali- 
dade. 

O drama — Salvador hosa — tem desenho correcto de cara- 
cteres, investigação acertada da época e dos costumes, dialogo bem 
travado e alguns eíTeitos dramáticos artisticamente calculados. Não 
mo parece porém que seja peça que possa representar-se, ou que 
dè lisonjeiro resultado quando posta em scena, porque tem, como 
trabalho para o theatro, scenas de grande extensão em que as 
idéas se acham quasi sempre diluídas n'um vasto mar de palavras, 
e outros senões impossíveis, talvez, de remediar sem o drama ser 
refundido. 

Durante a leitura notain-se também duas scenas que devem 
forçosamente produzir resultado diverso d'aquelle que o auctor es- 
pera. Uma é quando no terceiro acto Paula empunha a espada que 
Pazzi anteriormente arrojara, e ameaça com ella a sua rival Lu- 
crécia; a outra quando no quinto acto Paula entra disfarçada em 
monge, e Genovino lhe arranca a barba postiça. 

O auctor a quem não falta com certeza talento, devia, 
quanto a mim, ter escolhido de preferencia para se estreiar no 
theatro, um assumpto portuguez. Escolhel-o-ha porém agora para 
os novos trabalhos que emprehender, e, tendo sempre em vista 
que as composições dramáticas são como a scenographia, em que 
uma broxada larga e francamente applicada pelo scenograplio, 
produz mais elfeito que milbares de toques delicados e finos do 
pintor de cavallete, estou que virá a ser um bom escriptor dramá- 
tico, porque poucos dos que militam n'este campo tem tido mais 
auspiciosa estreia. 

O segundo volume do Summario de varia historia pelo sr. 
J. Ribeiro Guimarães, como o primeiro de que já fallei n'esta 
secção, é, por assim dizer, um feixe de artigos curiosos e instru- 
ctivos, que derramam bastante luz sobre muitos dos nossos velhos 
usos, acontecimentos históricos e monumentos antigos, pelo que 
se torna de grande proveito não só para os menos lidos nas coisas 
pátrias, como para os que tôom de escrever sobre o assumpto. 

Um dos capítulos da nova obra do sr. Guimarães intitula-se 
— Pateada real, e n'elle refere o auctor que achou n'um livro 
noticia do seguinte facto acontecido com eirei D. Sebastião: 

«Na primeira occasião que visitou a universidade, indo visi- 
tar uma das aulas, foi recebido com pateada. Turbou-se o rei, e, 
empunhando a espada, perguntou o que significava aquillo; disse- 
ram-lhe ser applauso escolástico; serenou o animo, e das outras 
vezes mostrava contentamento.» 

Se o caso é verídico — do que o sr. Guimarães duvida — 
vé-se que a universidade seguia n essa época o uso que ha no es- 
trangeiro de applaudir com os pés. Entre nós (juando uma peça é 
pateada, costuma-se dizer ironicamente, como que para consolar 
as pessoas a quem o successo entristece : 

— Foram inglezes. 

Em todos os paizes que eu conheçí> os applausos no theatro 
dão-se com as mãos e com os pés. Lembra-me, a propósito, o se- 
guinte. Quando ultimamente estive no estrangeiro, notei (|ue um 
meu compatriota e amigo com quem ia todas as noites ao theatro, 
umas vezes palmeava, outras pateava os actores ou a peça. Estra- 
nhando o facto, porguntei-lhe a rasão do seu proceder, e re.spon- 
deu-me : 

— Como aqui o applauso é dar palmas ou nateada, eu quando 
gosto dou palmas e quando não gosto pateio. D este modo coinsigo 
ser cortez com o povo que me hospeda, e ficar em paz com a mi- 
nha consciência. 

Similhante em curiosidade e utilidade é a Guia do viajante 
em Belém, livrinho assaz portátil e contendo noticias históricas 



ARTES E LETRAS 



111 



(las edificaoões e monumentos que se encontram no concellio mais 
Irequentado dos arrabaldes de Lisboa. 

Os diversos capítulos de que se compõe o excellente livri- 
nho denominam-se : Belém — Alcântara — Forte do Sacramento 
(vulgo forte de Alcântara) — Palácio do Calvário — Palácio do 
Patriarcha — Forte da Junqueira — Cordoaria — Palácio de Be- 
lém — Largo de Belém: conspirarão dos fidalgos contra a vida de 
el-rei D. José J; supplicio do duque de Vizeu e seus cúmplices; 
sentença; chão salgado; igreja da Memoria — Mosteiro de Santa 
Maria de Belém (vulgo convento dos JeronymosJ — Casa Pia — 
Torre de S. Vicente (vulgo torre de Belém) — Palácio da Ajuda 
— Nota indicativa dos principaes estabelecimentos. 

Vae sendo supprida a falta de puias que ha em Portugal, 
onde as indicações oeste género se acham mais compendiadas em 
volumes estrangeiros do oue em livros nacionaes. Ha pouco tempo 
um cavalheiro do Porto deu á publicidade, como já n'outra occa- 
sião disse, uma Guia do amador de hellas artes, na (|ual se en- 
contra grande copia de esclarecimentos relativos a Portugal, agora 
temos a Guia de Belém, perfeitamente coordenada, ao alcance de 
todas as algibeiras e em edição muito regular. Esperamos que o 
publico se interessará por este livrinho, convidando assim os edi- 
tores a emprehender outros do mesmo género, relativos a vários 
pontos do paiz, o que será de certo um bom serviço feito aos que 
se interessam pelas curiosidades pátrias, bera como aos estrangei- 
ros que nos visitam. 

Quijote y el Cervantes serve de titulo a um estudo critico de 
grande merecimento, publicado na capital do visinho reino pelo 
erudito escriptor o sr. D. Francisco M. Tubino. 

O novo livro do sr. Tubino é trabalho muito curioso, princi- 
palmente para os que se tem entregado ao estudo da grande obra 
de Cervantes, fonte inexgotavel de'pesquisas e discussões desde o 
seu apparecimento até nossos dias. As investigações feitas pelo 
sr. Tubino acerca do falso D. Quixote, e os argumentos vigorosos 
e bem deduzidos que apresenta para provar as suas asserções, de- 
notam o estudo serio que o auctor tem feito do assumpto, assim 
como os seus elevados conhecimentos, e derramara brilhante luz 
sobre o caracter e raereciraento de muitos dos vultos da época de 
Cervantes, como Aliaga, Lope de Vega e outros. 

O livro do sr. Tubino é, pois, além de agradável, instructivo, 
e por isso digno de ser consultado não só por aquelles que maior 
conhecimento têem da lilteratura hespanhola, como pelos que lho 
são raais alheios. 

Além dos livros portuguezes que primeiro citei, publicaram- 
se raais três : Fausto e as Sabichonas, famosas traducções do sr. 
visconde de Castilho, e o Livro de consolação, novo romance do 
sr. Camillo Castello Branco. 

Não ha, pois, rasão de queixa d'esta vez. Se em todos os me- 
zes saíssera dos prelos portuguezes obras tão importantes e valio- 
sas, o estado de prosperidade da nossa litteratura havia de ser raais 
lisonjeiro. Tenharaos porém esperança de que o favor publico ser- 
virá de incentivo para novas producções. 

Quando algumas emprezas dos espectáculos da capital reti- 
ram em frente do inimigo — o calor — fechando as portas ao thea- 
tro e licenciando a companhia, ou fugindo para as provindas á 
procura de espectadores, outras ficam na brecha, armando-se até 
os dentes para saírem victoriosas e aproveitar, muito bem apro- 
veitado, o pouijuissirao publico que vae n'esta época ao theatro. 

A Trindade pôz era scena este raez, com deslumbrante es- 
pectáculo, uma nova magica do sr. Aristides Abranches, escri- 
ptor dramático muito esclarecido e applaudido. A concorrência ao 
novo espectáculo tem sido grande. As magnificas vistas pintadas 
pelos scenographos, os srs. Procopio e Lambertini; os bonitos e 
desusados fatos, delineados pelo sr. Cohen; a mise-en-scène ca- 
prichosa e bem calculada, feita pelo sr. Moniz; o óptimo desem- 
penho da actriz Anna Pereira, que em diversos typos que repre- 
senta, é sempre natural e graciosa; o desempenho também notável 
dos demais actores, e por fim os bons elíeitos do poema, tudo 
contribuo para que as Três rocas de crystal sejam um dos espe- 
ctáculos mais brilhantes e dignos de serem vistos, que ha hoje em 
Lisboa. 

Quiz a Providencia, que todos os que trabalham para aquelle 
theatro, auctor, ensaiador, actores, pintores, guarda roupa, ade- 



recista, etc, concorressem com a sua boa vontade e o seu melhor 
trabalho para abrilhantar o primeiro espectáculo novo a que as- 
sistia o director da casa, depois da prolongada e perigosissima 
doença de que felizmente se acha salvo. Foi um acaso feliz e agra- 
dável para todos, até para os espectadores que nem foram dos que 
menos se interessaram pelo restabelecimento do talentoso e.scriptor 
e director, nem são dos que menos se importam com o deslum- 
bramento e belleza dos espectáculos que lhes ofTerecera. 

Admira-se, e com rasão, a presença de animo que tem uma 
empreza para arrostar com os perigos do calor, fazendo represen- 
tar, na força do estio, uma peça dispendiosa e que noutra esta- 
ção teria certíssima concorrência; mas ainda é mais para admirar 
que n'esta mesma época arriscada se criem novas emprezas, se 
construam theatros e se dêem representações, de mais a mais de 
noite e de dia. 

Além dos theatros volantes que andam de feira em feira, te- 
mos outro com pretenções mais elevadas do que os preços dos le- 
gares. 

Ha terapos referiram os periódicos diários, que o sr. Villar 
Coelho tencionava raandar construir uraa casa de espectáculos não 
sei era que sitio; pouco depois annunciavam os mesmos periódi- 
cos que tal casa estava construída era Alcântara, se charaava 
theatro de D. Augusto e abria em julho. Assira foi. O theatro está 
dando as priraeiras representações, a que assiste o publico da lo- 
calidade e o de Lisboa, festejando as peças e a corapanhia, que é 
rauito regular e deve ser bera dirigida pelo sr. Apolinário de Aze- 
vedo, muito pratico e sabido em coisas de theatro. Se a fortuna 
costuma coroar os grandes arrojos, é natural que o theatro de Al- 
cântara nunca seja abandonado pela inconstante e caprichosa 
deusa. 

A novidade artística do mez é a exposição dos trabalhos exe- 
cutados pelos artistas que foram ao concurso aberto na Academia 
das bellas artes, a íira de se raandar estudar ao estrangeiro, um 
architecto, um gravador e ura paizagista. 

A exposição eflectuou-se na sala denominada de D. Fernan- 
do. Foram cinco os concorrentes : um á secção de architectura, 
outro á de gravura e três á de paizagem. 

Os trabalhos apresentados pelo architecto c pelo gravador 
pareceram-rae muito bons, e julgo que o estado, enviando estes 
alumnos ás escolas estrangeiras para se aperfeiçoarem na sua ar- 
te, obterá dois excellentes artistas. 

Quanto aos pintores de paizagem, parece-me que diflicil será 
ao jury, escolher, entre dois, o melhor. E digo entre dois, porque 
julgo úm fora da liça, pois manifestamente se vé que em pmtura, 
e principalmente no quadro grande, alcançou menos vantagens 
que os seus collegas. Reconhece-se nos dois restantes que fizeram 
ambos os maiores esforços para se apresentarem dignamente, e, 
se commetteram erros, raostrarara também que qualquer d'elles 
está nos casos de aproveitar bastante com o estudo sério que fizer 
fora do paiz. De ambos os quadros se pôde talvez dizer — se por 
ventura elles são assignados pelos artistas a quem os attribuo — 
que representam os trabalhos mais completos e perfeitos que têem 
saído dos pincéis dos seus auctores. O mesmo se não dirá, de 
certo — querendo-se ser imparcial — das copias do modelo vivo, 
que me pareceram trabalhos rauito medíocres com relação ao mé- 
rito dt)s concorrentes. 

Erafim, aguardando a decisão do jury, desde já dou os pa- 
rabéns aos felizes que obtiverem o subsidio para estudar em França 
ou Itália, porque isso equivale a regressarem á pátria mais illus- 
trados e aperfeiçoados na sua arte, depois de terem vivido meia 
dúzia de annos no meio do bulício e das seducções com que as 
grandes cidades convidara os estrangeiros. 

RANOEL DE UMA. 




112 



ARTES E LETRAS 



DIVERSAS NOTICIAS 



=== o sr. visconde de Carvalhide presenteou a nossa Acarlemia 
de bellas-artes com mais onze quadros. Â generosidade d'este cava- 
lheiro deve aquelle estabelecimento artístico ter a sua galeria acres- 
centada com trinta e um quadros, alguns dos quaes do muito valor. 
Os últimos que vieram sSo: Danáe, copia de Ticiano; Ikrodiada, 
Lucas Cranack; Tramfiçjuração de Christo, Tintorctto; Santa fa- 
mília, Annibal Carrache; iMh e a /"nmíVia, Francisco d'Imola; Ba- 
ptismo do eunucho da rainha da Ethiopia, idem; Santo Estunislau, 
Pielro di Crotona; Christo crucificado entre os ladrões, Antonello da 
Messina; Isabel d'Orléans, duqueza de Guise, Mignard; Rapaz da 
época do império, Gerard ; Velha, Nicolau Maas. Os três últimos s2o 
os melhores d'esla remessa. 



===== Na rua de Alcalá, em Madrid, está em construcçío um novo 
Iheatro que se denomina de Moratin. Deve o nome ao de um celebre 
auctor dramático hespanhol dos lins do século passado e princípios 
d'este. Moratin foi amigo de Goya, que lhe fez alguns retratos precio- 
síssimos. 

Publicaram-se no Brazil as seguintes obras: 

Succintos conselhos ás jovens mães, pelo sr. dr. Theodoro Lan- 
gaard. 

Versos de Flávio Reimar. Diz-se que este nome é pseudónimo 
do sr. Gentil Homem de Almeida Braga, auctor do livro Entre o céu 
e a terra. 

Loucuras da mocidade, comedia em um acto, pelo sr. António 
Josó da Fonseca Moreira. 

Lanterna de Diógenes, primeiro numero de uma folha periódi- 
ca. Prometio tratar de tudo e para todos, e tem por divisa: • A ver- 
dade e só a verdade. » 

O Paulista, folha que estava suspensa e se publicava em Cam- 
pinas. 

O fdho do povo, pequeno periódico publicado na cidade de 
Cuyabá. 

Um noivo e duas noivas, romance em três volumes, original do 
sr. dr. Joaquim Manuel de Macedo. 

Napoleão. Pio IX e Victor Hugo, ou o porvir da realeza, do 
passado e da democracia universal, pelo sr. Augusto Garrett. 

Amor e infâmia, drama cm um prologo e três actos, pelos srs. 
José Cândido dos Reis Montenegro e Carlos Clementino Carvalhaes. 

O sr. His de La Salle fez doaçSo ao Museu do Louvre, de 



mais de 200 desenhos e uns 10 quadros escolhidos pelo sr. Reiset 
da sua famosa collccçao. As obras de arte doadas pelo sr. La Salle 
nSo entram no Museu senão depois da morte do seu possuidor. 

=^= N'um dos salões do Conservatório dramático do Rio de .la- 
neiro, inaugurou-se, ha pouco, uma sociedade denominada — Club 
Mendelssohn, cujo fim é tornar conhecida na capital do Brazil a mu- 
sica clássica. Foram fundadores da sociedade os srs. Demétrio Rivo- 
ro, Ricardo Ferreira de Carvalho, Cerrone e J. J. dos Reis. 

- No dia 7 d'este mez abriu as suas portas ao publico a fa- 
mosa exposição de Lyon. Houve festas magnificas para celebrar a 
inauguração. O palácio é vistoso e encerra objectos preciosíssimos. 

=== O rei da Dinamarca assistiu á solemnidade da abertura da 



exposiçSo internacional em Copenhague. O numero dos expositores 
é, pouco mais ou menos, de 4:00t), sendo os priucipaes dinamarque- 
zes, suecos e norueguezes. 



— O jury do Salão de Paris podia conferir duas series de me- 

dalhas: 8 de primeira classe e 16 de segunda, em pintura; 4 de 
primeira e 8 ae segunda, em escuiptura. Em vez, porém, das 8 de 
primeira classe e 16 de segunda em pintura, conferiu 4 de primeira 
classe e 24 do segunda, e em vez de 4 de primeira classe e 8 de se- 
gunda em escuiptura, concedeu 2 de primeira classe e 12 de se- 
gunda. A medalha de honra foi ganha pelo pintor Júlio Adolpho 
Breton. 

Em Dieppe abriu-se, no dia 20 d'este mez, uma exposição 



de que é presidente .Alexandre Dumas. A Sociedade dos amigos das 
artes, d'aquella cidade, encarregou-se da organisação da exposição. 

; — Tem estado exposto no Passeio publico do Rio de Janeiro 

o projecto do monumento que vao erguer-se no campo da Acclama- 
ção, as glorias conquistadas no Paraguay, projecto executado pelo jo- 
veii architecto brazlleiro, o sr. Caminho! 

Um grupo allegorico que figura o Brazil esmagando o monstro da 
anarchia, a.ssenla sobre uma esplicra azul com estrellas doiradas, re- 



presentantes das províncias do império. O Brazil vô-se sob a forma 
de uma guerreira espartana. O capitel e fuste, que, com o grupo su- 

Serior, são de bronze, termina inferiormente em quatro faces, cada uma 
as quaes tem um medalhão representando uma das principaes bata- 
lhas. O primeiro refere-se á do Riachuelo, o s<!gundo á de Tuytuy, o 
terceiro á de Lomas Valenlinas, e o quarto á de Peribeuy. Separam os 
medalhões quatro estatuas figurando — A mai-inita —A artilheria — A 
infanteria e — A cavallaria. Toda esta parle é taml)em de bronze. Por 
baixo estão oito rios, recostados a dois o dois sobre urnas jorrando 
agua, que se despenha em formosa cascata. Nos quatro ângulos e se- 
parando estes grupos, ha quatro proas de navios, como que para in- 
dicar quão grandes foram os feitos navaes. As proas terminam por 
cabeças de monstros, que arremessam agua pelas narinas a grande 
altura. Esta parte do monumento é de mármore de diversas cores, 
sendo as cabeças dos monstros de bronze. As bacias maiores são de 
granito, tendo a ultima quarenta e dois metros de diâmetro. A altura 
do monumento anda por cincoenta e nove metros. O modelo repre- 
senta-o na decima parte do tamanho. 

; Está em Lisboa o sr. D. Toribio Ruiz Gimenez, jornalista 



hespanhol e sócio da casa editora de D. José Gil Dorregaray, no vi- 
zinho reino, a fim de tornar conliecidas duas excellentes obras que a 
referida casa está editando. Uma d'ellas é relativa a medicina e a 
outra intitulada — Museu espanol de antigúedades, é dirigida por 
D. Juan de Dios de la Rada y Delgada, e publica em lithographia, 
gravura ou cromo-lithographia, com a respectiva descripçSo, os prin- 
cipaes objectos do Museu archeologico de Madrid. É oura importan- 
tíssima c muito curiosa. 

O circulo artístico de Bruxellas, que não havia justificado 



até agora o seu nome, mostrou finalmente qual o fim para que foi 
instituído. Depois de terem edificado uma galeria, os membros do 
circulo encheram-na de obras de arte, e táo lisonjeiro foi o exilo da 
primeira exposição, que já se traia de construir nova galeria, para o 
que se abriu um empréstimo, que deve ser preenchido pelos asso- 
ciados. Entre as pinturas expostas, notam-se muitas paizagens e ma- 
rinhas, alguns retratos, mui poucos quadros de género e nenhum do 
historia. Todas as telas estão collocadas nas melhores condições de 
altura e luz, polo que nenhuma reclamação foi feita á direcç.ão. En- 
conlram-se obras de Madou, Roble, Roelofs, (jlays, offerecidas pelos 
auctores como prémios para o empréstimo do circulo, e de Cluyse- 
naar, van (^amps, Verheyden, Devaux, Coosemans, Portaels. Goe- 
tlials, Wauters, Aiiau, Oyens, Werwée, Francia, (íhabry e Tschag- 
geny. A escuiptura é representada por fragmentos da decoração exe- 
cutada por de Groot no palácio da Bolsa. A arte industrial não foi 
excluída; o sr. de Mol expoz as suas bellas louças de camafeus, gé- 
nero em que não tem rival na Bélgica. 

■ Os srs. Rollin e Feuardent, francezes, compraram pela quan- 



tia de 108:000^000 réis, o medalheiro mais rico de Inglaterra. 

O archiduque Carlos Luiz aproveitou a sua estada na capi- 



tal da Turquia, oin trabalhar diligentemente para o esplendor da ex- 
posição universal que se deve effecluar no próximo anno em Yioiína 
d'Auslria. O sultão poz, do melhor grado, todos os thesouros de arte 
que possue, á disposição de sua alteza, que escolheu por suas pró- 
prias mãos grande numero de objectos precio.sos para íigurarem na 
exposição, entre os quaes se notam ricas mobílias, colchas, vasos, 
armas e manuscriptos raros. O commissario turco Hamdí Bey, e o 
architecto Monlani, partem brevemepte para Vienna, a fim de darem 
começo aos trabalhos de construcçáo para a exposição turca. 

' Está aberta a exposição de artes e de industria em Dublin. 




432-lin-iiEXSA Nacio»l-í873 



ARTES E LETRAS 



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ARTES E LETRAS 




Lisboa — Agosto de 1872 



QUADROS DE JOSEPHA DOBIDOS 



osEPHA d'Ayala, commutnmenlc deno- 
minada Josepha d'Obidos, foi uma pin 
tora notável no século xvn peio grande 
numero e variedade de seus quadros. 
Comquanto não sejam grandes primo- 
res de arte, merecem, todavia, os elo- 
gios dos entendidos. « Temos visto, diz 
Taborda, muitos quadros d'esta heroi- 
na, a maior parte de flores e fruetos, 
e também alguns de historia, e em to- 
dos admiramos grande força de enge- 
nho, muita verdade e viveza de expres- 
são, mas um estylo algum tanto duro. » 
O auetor do Theutro Heroino, 
Damião de Froes Perim, diz que na 
igreja c convento de Valhcmfeito, da 
ordem de S. Jeronymo, se admiram 
grandes pinturas de Josepha d'Obidos 
e que em casa de um seu descendente, 
o dr. João Gomes de Avellar vira mui- 
tas de igual perfeição em panno, co- 
bre e prata. 
Cyrillo Volkmar Machado ouviu celebrar os 
que estavam na Misericórdia de Óbidos sobre o 
arco da capella-mór e na fregue/ia de S. João. 
Diz ter visto alguns em Lisboa e muito bons. 
Um, pintado n' uma chapa de cobre de dois pal- 
mos de altura, tinha a firma da auctora e a data 
de 1647. Foi vendido a um inglez em 1807 por 
{\ 38^400 réis. Outro com a data de 1657 e tam- 
bém com o nome da pintora, representava, em 
V.\t cobre, a coroação da Virgem. Era obra de extre- 
%\ 'A [f^'\f ma delicadeza, lembrando em certos adornos a pa- 
' '^1* ** ciência dos auctores dos quadros gothicos. Perten- 
cia ao cónego de Évora, fr. Miguel de S. Remigio. 

Taborda afTirma de Josepha d'Obidos que teve singular pro- 
pensão para tirar retratos, como mostrou no da princeza D. Isa- 
bel, filha de el-rei D. Pedro II c da rainha D. Maria Francisca 
Isabel de Saboya, que, por quanto ficasse mui parecido, se julgou 
o mais capaz ae se mandar ao duque de Saboya, Victor Amadeu, 
com quem a princeza se desposou. 

Na bibhotheca de Évora ainda hoje se conserva um quadro 
que reputámos entre os melhores de Josepha d'Obidos. Representa 
um cordeiro branco, ligado de pés e mãos e cercado de uma gri- 
nalda. As flores estão pintadas com muito mimo e o pello e a po- 
sição do cordeiro naturalissimos. Em 1867 figurou na exposição 
de Paris uma photographia d'este quadro. 

No Varatojo viu o conde Rackzynski dois quadros de Jose- 
pha d'Obidos. Um representava Nossa Senhora das Dores, e es- 
tava na capella do noviciado ; o outro era um Menino Jesus muito 




gracioso, pintado em panno c vestido com uma túnica transpa- 
rente que mais lhe realçava a belleza. Estava no coro da mesma 
igreja do Varatojo. 

Em Coimbra mostraram-nos em uma sala do convento do 
Carmo um quadro de Josepha d'Obidos, pertencente á ordem ter- 
ceira, e muito similhante ao ultimo dos que Raczynski observou 
na igreja do Varatojo. 

D'esso quadro, que tem a data de 1682, publicámos no In- 
stituto uma noticia dcscriptiva, que mereceu a honra de ser re- 
produzida no quinto numero d'este jornal. 

Ao que por essa occasião dissemos, aecrescentaremos agora 
(lue vimos depois em Coimbra, n'uma casa particular, outro qua- 
dro similhante, porém de menor perfeição. Tem igualmente o nome 
da pintora e data pouco posterior: Josepha, em Óbidos, 1682. 

Entre os quadros que a sr.* D. Maria Benedicta Castro e 
Mello, de Soure, mandou para a exposição districtal de Coimbra 
em 1869, havia um pintado em cobre que representava o Menino 
Jesus deitado, e tinha lambem o nome de Josepha d'Obidos. 

Exercitou-se esta pintora em gravura, como se prova pela 

3ue tem o seu nome e a data de 16íj3 nos Estatutos da Universi- 
ade de Coimbra, impressos em 1654. 

Josepha d'Ayala nasceu em Óbidos e faJleceu em 1684, con- 
tando apenas uns cincoenta annos de idade. Foi sepultada na igreja 
de S. Pedro d'Obidos, onde se vêem, diz Taborda, muitos quadros 
seus que farão lembrar sua memoria. 

A. FILIPPE SIMÕES. 




o ILLISTRE DOITOR MATHEIS 

POR 
ERCKMANN-CHATKIAN 

(Contínuação) 

Comtudo este discurso produziu uma diversão favo- 
rável a Coucou. Os bons aldeões, impressionados pela 
physionomia augusta e pelos gestos do illustre philoso- 
pho, approximaram-se da janella, emquanto o tocador 
aproveitava a occasião para se safar, fechando-se na ca- 
vallariça. 

Metade da gente da aldeia se achava então sob as 
vistas de Mathous: os aldeões grupavam-se em volta, 
e olhavam-n-o uns por cima das cabeças, outros por 
cima dos hombros dos que lho ficavam adiante, curiosos 
de saber o que elle dizia. 

Imagine-se o enthusiasmo do philosopho; sentia 
vontade de os abraçar a todos: não cabia em si de con- 
tente. 

— Frantz, dizia elle comsigo, é evidente que o ser 
dos seres, o grande Demiurgos, reuniu este numeroso au- 
ditório para que tu o convertas. Seria necessário ser 
cego para não reconhecer n'este facto o dedo de Deus. 

E estava tão commovido que durante segimdos não 
pôde articular uma palavra; assoava-se, estendia as 
mãos, abria a boca; os argumentos apresentavam-se-lhe 
tão numerosos que não sabia por onde começar. Sentia 
necessidade de dizer tudo ao mesmo tempo. 

Por fim o seu espirito asserenou, e com uma voz 
forte e vibrante disse: 



N.» 8 de 4872 



114 



ARTES E LETKAS 



— Nobres habitantes de Oberbronn, seres privile- 
giados da natureza, modestos e respeitáveis camponezcs, — 
nSo imaginaos quanto a vossa visita nic commove, nem 
a gloria que vos espera nem os thcsouros que eu vos 
trago. 

Á palavra thesouros houve grande agitação entre o 
povo: esperaram todos desde logo ve-lo mcttcr a míSo 
n'um saco, o atirar dinheiro pela janella. Os que estavam 
mais longe approximavam-so depressa, e a coxa Katel, 
que estava na frente, começou a gritar, imaginando, ao 
ver os outros passarem-lho para diante, que queriam ti- 
rar-lhe a sua parte. 

Este afan em se lhe approximarem causou vivo pra- 
zer ao illustre philosopho. 

— Sim, meus amigos, continuou ellc com um tom 
patlietico, trago-vos os thesouros da sabedoria, da philo- 
sopliia o da virtude. 

E estas' palavras foram para todos uma decepção. 

— Que te levo o diabo com os teus thcpouros de sa- 
bedoria! gritou-lhc Ludwig Spengler, bem me parece 
que precisas mais d'ellcs que n(')S. 

Matheus, indignado, calou-so para poder com uma 
grandiosa apostropho fulminar aquelle miserável ; quando 
o moleiro Tapihans, approximando se da janella, tirou o 
barrete de algodão e disse: 

— Olá! bons dias, Abrahiio; que vens tu cá fazer? 
Então queres fazer-nos judeus? 

— Eu não me chamo Abrahno, respondeu o illustre 
philosopho. Sou Frantz Matheus, doutor em medicina 
pela faculdade de Strasburgo, membro correspondente 
da. . . 

— Ora adeus! Eu bem sei quem tu és, acudiu o mo- 
leiro em ar de cscarnco. Tu chamas-te Abrahão Speizer, 
e ainda o anno passado me vendeste lun cavallo cego de 
que nunca mais me pude ver livre. Olha, e até, se nào 
me engano, és tu mesmo o rabbino de Marmontier. 

Assim que ellc soltou estas palavras levantou-se na 
multidão um grande alarido. 

— Vamos ao rabbino! Quebremos os ossos ao i"ab- 
bino! Fora! fora! Vamos ao rabbino! 

— Estão enganados, meus filhos, bradava o pobre 
philosopho, cegam-vos os vossos instinctos aniniaes. 

Mas ninguém quci-ia ouvil-o: as velhas erguiam os 
paus das vassouras, e os homens mostravam-lhe os for- 
cados; alguns procuravam pedras, eniquanto Matheus, 
pallido, interdicto, balbuciava palavras inintelligiveis. 

De repente, por uma esj)ccie do súbita inspiração, 
voltou-se e fugiu para a cozinha. 

Foi então que os gritos e o tumulto redobraram fora. 
Até a sr.* Catharina se assustou! 

— Valha-me Deus ! disse ella, o que fez, sr. doutor? 

— Não fiz nada, não fiz nada. . . gaguejava o illus- 
tre philosopho. . . foi o moleiro ,que. . . 

— Tapihans? Miserável! E que quer separar-nos, e 
para isso alborota o logar contra nós. Fuja, fuja, conti- 
nuou ella mettendo-lhe um grande chouriço na algibeira, 
fuja! até á vista... ha de voltar outra vez, nào é ver- 
dade ? 

Mas o illustre doutor não precisava que o aconse- 
lhassem a fugir e já a esso tempo ia atravessando o pa- 
teo e dizendo: 

— Sim, sim, vêr-nos-hemos nas espheras superiores. 
Entrou na cavallariça pela porta trazoira e viu que 

o seu_discipulo apertava as cilhas ao cavallo. 

E que Ooucou Peter observiira a scena por uma ja- 
nella que dava para a praça, e, prevendo logo o resul- 
tado da predica, correra a sellar Bruno. 

— Chega a propósito, mestre, disso elle; é que eu 



ia safar-me sósinho. Ao que parece a peregrinação das al- 
mas não pega por cá, hein? 

— Fujamos! disso Matheus que perdera a cabeça. 

— Também me parece melhor. Estes brutos não es- 
tão á nossa altura. Vá, vá, salte para a garupa, ou te- 
mos o caldo entornado. 

E pôz-se logo a cavallo. O illustre doutor trepou 
para traz d'clle com uma destreza maravilhosa. 

Coucou ]'etor tirou a tranca, abriu a porta e entrou 
no largo a correr como um doido. 

Gritos terríveis se elevaram em volta d'elles. Ma- 
theus levou logo três tremendas pancadas de forcado. E 
a cada uma o seu discípulo fçritava: 

— Ai! ai! Vá, que são lições de psychologia. 

Mas o illustre philosopho não dizia palavra. Tinha 
os olhos fechados, e agarrava-se-lhe com tanta força que 
o tocador podia a custo respirar. 

A sr.* Catharina, de pé sobre o patamar da sua 
porta, com uns ovos n'uma frigideira, contemplava esta 
scena soltando gritos lastimosos, porque julgava que ma- 
tariam o doutor. 

Quando viu o cavallo afastar-se a grande galope por 
entro os gritos e os aj)upo8 da multidão, a boa nmlher 
enxugou os olhos A ponta do avental, e entrou na cozi- 
nha, dando um profundo suspiro e murmurando: 

— Pobre homem. Ucus te guie! 

VIII 

Depois de uma galopada de meia hora Frantz Ma- 
theus, que já não ouvia senão o som da corrida rápida 
do cavallo na terra do caminho, e o canto dos pássaros 
pelo ar, arriscou-se a abrir um olho... depois o outro... 
de modo que, vendo-se no meio de uma espessa floresta, 
longe dos cacetes e do espirito sophistico dos aldeSes, 
respirou como se fora um enforcado a quenl houvessem 
cortado a corda. 

Pelo seu lado Coucou Peter moderou a andadura 
de Bruno, e palpou-se para se certificar se estava inta- 
cto. Quando se convenceu de que tudo se achava no seu 
logar, voltou-se para a aldeia, que se via ainda por en- 
tro as arvores, estendeu os braços magestosamente e ex- 
clamou : 

— Habitantes de Oberbronn, o propheta Coucou vos 
amaldiçoa ! 

— Não, não, não os amaldiçoes, murmurava o dou- 
tor com voz supplicante, não os amaldiçoes! Meu Deus! 
elles não sabem o que fazem. 

—Pois tanto peior para ellos, respondeu o tocador 
enfadado; amaldiçO-os até á terceira e quarta geração. 
Ah! já sabem? Sucia! Tapihans, Ludwig Spengler, es- 
tacs amaldiçoados ! desprezo-vos como a lama das minhas 
botas ! 

E dizendo isto, voltou-se o prosoguiu o seu caminho. 

Bruno seguia então a passo o atalho de Eschenbach. 
O sol queimava a torra areios.a, milhares de insectos vol- 
teavam cm tomo das matas, e o seu vago zumbido era 
o único rumor que enchia o espaço. 

Esta innnensa serenidade da natui-cza commoveu 
insensivelmente Matheus. Baixou a cabeça em silencio, 
cobriu o rosto o começou a chorar. 

— Então que tem, mestre? perguntou Coucou Peter. 
— Nada, meu amigo, nada, respondeu cUe com uma 
voz abafada. Ponso nos desgraçados que nos perseguem, 
penso nas numerosas transformaçijcs jior que ainda terão 
de passar antes que cheguem á perfeição moral, c la- 
mento, lamento deveras que tenham tão máu coração. E 
em mim que lhes queria tanto, em mim quo empreliendia . 



ARTES E LETRAS 



115 



escIarecel-08 sobre os seus destinos futuros, em mim que 
ainda os amo com todas as forças da minha alma, ó em 
mim que elles batem, a mim que injuriam, desconhecen- 
do a pureza das nn'nhas intençííes. Nào podes imaginar, 
nào píkles, quanto isto mo custa. Deixa-rae chorar, porque 
silo lagrimas bem suaves as que me provam que sou bom. 
Oh! Matheus, Matheus! homem virtuoso! exclamou elle. 
Chora, chora sobre os desvarios dos teus similhantes, 
mas não murmures contra a justiça eterna. E ella a que 
faz a tua grandeza e a tua força. Alho, tulipa, caracol, 
lebre, homem, por fim, nem sempre tu foste philosopho. 
Foram precisos bastantes séculos para dímiar em ti os 
instinctos animaes. Sedo pois indulgente, e pensa em que, 
se estos inferiores te querem mal, é porque nao são di- 
gnos de comprehender-te. 

— Ora parece-me realmente bom que recebamos pan- 
cadas e ainda em cima lamentemos os que nol-as d?io, 
disse Coucou Peter. Creio, c'os diabos, que ei'a mais na- 
tural lamentarmo-nos a nós mesmos. 

— Ouve, meu amigo, disse Matheus enxugando as 
lagrimas. Quanto mais scismo mais certo estou de que 
assim deve ser. Todos os prophetas foram infelizes. Le- 
dod foi enviado a Bethol sob condiçrso de nào comer nem 
beber; uma vez que, infelizmente, comeu um bocado de 
pao, um leào o devorou, encontrando-se-lhe depois os os- 
sos entre esse leão e o seu burro. Jonas foi engulido por 
um peixe: é verdade que apenas esteve três dias no seu 
ventre, mas é em todos os casos desagradável permane- 
cer por setenta e duas horas n'unia tào incommoda po- 
sição. Habacuc foi arrebatado' pelos cabellos e levado 
pelo ar em Babylonia, e, vê tu, Coucou Peter, que deve 
ser bem afflictivo estar suspenso pelos cabellos. Ezequiel 
foi lapidado. Nào se sabe bem ao certo se Jeremias foi 
bijjidado ou serrado ao meio. Quanto a Isaias não resta 
duvida que foi serrado. Amos foi. . . 

— Mestre, mestre, nào julgue que essas historias mo 
animam. Nada, nada; l;'i se tenho de ser serrado entào 
prciiro voltar á minha rebeca e tocar até morrer. 

— Vamos, vamos, soccga, hoje os j^roplietas não são 
tào maltratados, alguns até recebem, pelo ser, grandes 
tenças. 

Conversando por esta forma, proseguiu o caminho 
pelo vaile de Zoru. Matheus esquecia a ingratidão do 
género humano, no seu muito maior amor pelo interior 
das florestas. O ruido imperceptível do insecto que tri- 
tura a casca das velhas arvores, o vôo da ave que roça 
cora as azas pelas folhas, o vago rumorejar do regato 
que corre pelas quebradas, os turbilhões de ephemeros 
que volteiam sobro as aguas estagnadas, todos estes mil 
episódios da solidão, davam de continuo assumptos novos 
para as suas meditações anthropo-zoologieas. 

Coucou Peter assobiava para se distrahir, e dava de 
tempos a tempos um beijo á gaiTafa de Kirschenwasser; 
ás vezes Bi'uno enterrava-se no leito do rio Zorn até aos 
peitos: entào o mestre e o discipulo agarravam-se um ao 
outro, erguiam as pernas e olhavam para a agua que cor- 
ria por baixo tumultuosa e sonora. 

O calor tornara-se insupportavel : nem um sopro pe- 
netrava nos arvoredos. Coueou Peter apeara-se e sentia 
o suor banhal-o. Matheus, que não pregara olho toda a 
noite, bocejava de tempos a tempos e murmurava: «Gran- 
de! grande Demi. . . urgos. . . » sem que, todavia soubesse 
positivamente o que dizia. 

Chegaram assim a uma quebrada onde a torrente 
corria sobre um leito do calhaus. Logo que Bruno che- 
gou á beira da agua estendeu o pescoço para beber, de 
modo que Frantz, que nào esperava por este movimento, 
ia-lhe saindo pela cabeça. Coucou Peter teve apenas 



tempo do o segurar pelas abas do longo casaco, dando 
uma gargalhada tal, que todos os eccos das proximida- 
des a repetiram. 

— Coucou Peter! Coucou Peter! exclamou o illustre 
doutor indignado, nào tens vergonha de rir no momento 
em que mo ia afogando? É essa a tua amisade para 
comigo '?_ 

— E que ria, mostro, precisamente por ter escapa- 
do. Não o segurasse eu e veríamos como a estas horas 
estava para ahi que nem uma rã. 

— Este dia é nefasto, respondeu Matheus. Prevejo 
innumeras desgraças se proseguissemos agora a nossa 
viagem. 

— Tanto mais que o doutor está com somno e pôde 
cair do cavallo, disse Coucou Peter. Deite-se sobre a 
relva e durma-me ahi um bom somno; verá como passa 
depressa o dia nefasto. Eu vou tomar um banho; o Bruno 
mesmo nào desgostará de descansar um pouco. 

Este conselho estava muito nas idéas ((uo n'esse mo- 
mento preoccupavam o bom do doutor para que nào fosse 
seguido. 

— Approvo esse agradável desígnio, disse clle. Que- 
rido discipulo, chega-me o teu hombro. . . é que estou dor- 
mente. Larga a rédea do cavallo. Banlia-te, meu rapaz, 
banha-te para refrescar o sangue. 

Fallando assim, Frantz ía-se estirando ao pé de um 
carvalho; sentia-se verdadeiramente feliz de estender os 
braços e as pernas por entre o mato. 

Os grillos cantavam em volta. De tempos a tempos 
uma corrente de agua mais rápida batia nas pedras com 
um ruido estranho; uma vez entreabriu as pálpebras e 
viu Coucou Peter preparaiyio-se para despir-sc. 

O marulho da agua, o ramalhar das folhas, emba- 
laram a sua imaginação com um scismar vago, indefini- 
do; distinguiu atravez dos ramos espessos, o céu, a crista 
dos montes. . . Por fim o seu espirito começou a sentir-se 
como que obscurecido. Continuavam os mesmos sons a 
impressionar-lhe os ouvidos, de modo que a sua monoto- 
nia similhava o mais vasto silencio. 

O bom do doutor começou a não perceber coisa al- 
guma; já nào olhava e a respiração doce e regular an- 
nunciou cm breve n'elle um somno profundo. Talvez que 
n'esse momento o seu espirito, desprendido das prisões 
terrenas, e transpoi"tando-se de idade em idade, seguis- 
se na forma de uma lebre pelas immensas florestas da 
Gallia; talvez divisasse também o tecto humildo da casa 
paterna de Graufthal e a velha Martha que chorava a 
sua ausência. 

IX 

Dormia profundamente o illustre philosopho havia 
duas horas, quando Coucou Peter lhe disse: 

■ — Mestre! mestre Frantz, erga-se! Aqui estão os 
peregrinos de Hasbach que descem do monte. SSo mais 
que as areias do mar. Erga-se, mesti'e, e veja. 

]\Iatheus levantou-se e viu logo o seu discipulo em- 
poleirado n'uma cerejeira brava. Apanhava cerejas como 
um pardal e comia ás mãos cheias. Depois dirigiu as vis- 
tas para o monte fronteiro. 

Por entre os abetos elevados, via-se caminhando 
uma fileira longuíssima de peregrinos: uns descalços, 
com as botas espetadas na ponta do bordão, outros car- 
regados de mantimentos, de trouxas, de frascos e todo o 
necessário. 

Vinha na frente uma velha que recitava uma ora- 
ção, primeiro só, depois acompanhada em coro por todos 
os outros. 

— Orae por nós! orae por nós! 



IIG 



ARTES E LETRAS 



E esta phrase, repetindo-se, percorreu os grupos que 
estavam sobre os rochedos, nas quebradas, nos valles, c 
parecia o canto melancólico dos bandos do cegonhas, 
quando atravessam as nuvens. 

O illustre doutor ficou por tal modo commovido com 
este espectáculo, que não podia fallar. Coucou Poter, po- 
rém, do alto da arvore, estendia a míio para mostrar a 
gente das aldeias, íI proporção que chegava ao cume da 
montanha. 

— Ahi vem os de Walsh, dizia, conheço-os pelos 
chapéus de palha, pelas jaquetas e pelas calças que lhes 
chegam aos sovacos. Sào ims bons patuscos. Vào pere- 
grinando até á Alsacia para beber o vinlio. Os outros 
aquelles que vem atraz de calção e grandes casacos, com 
botòes grandes em que dá o sol, sao os de Lagstrourg, 
o paiz mais pobre c mais 
beato que ha na terra. Vào 
á feira beijar os ossos de 
S. Florêncio. Alli estão os 
de S. Quirin, de blusas 
com o boné á banda. Cui- 
dado com os soccos d'el- 
les quando fôr a procis- 
são. Esta gente que faz 
vidros e tem fabricas, é 
bulhenta, e quer bater nos 
allemães. Olhe, com elles, 
mestre Frantz, nada de 
discutir sobre a peregri- 
nação das almas. Veja 
aquelles que vêem agora 
torneando a Rocha-chata, 
chamam-lhes os Jacques 
Eordoi da serra. Estes pe- 
regrinam para mostrar os 
fatos. Olhe, olhe como el- 
les cobriram os chapéus 
com os lenços e como met- 
teram as calças para den- 
tro dos canos das botas: 
são os presumpçosos de 
Aberscheviller, andam 
sempre assim com ar gra- 
ve e de nariz no ar. 
Mas ! . . . espera . . . quem 
diabo são aquelles que 
vêem atraz, cambalean- 
do ? ! Ah ! agora, agora ! 
Já sei, já sei : é a gente 
da planicie, são os lorc- 
nos com os burnaes cheios 
de nozes e toicinho. Oh! 
meu Deus, como elles vêem 
cansados! Pobres mulhe- 
res! Tenho dó d'ellas, palavra. Todas estas pequenas do 
campo são frescas como rosas, omquanto que as da serra 
da Houpe são morenas como groselhas. 

O bom do apostolo tinha sempre que dizer a res- 
peito do cada aldeia, omquanto que Matheus se perdia 
n'um abysmo da mais profunda contemplação. 

No fim de uma hora o coice da procissão começou a 
mostrar-se já menos povoado: subiu lentamente a en- 
costa, depois voltou á Rocha-chata. A grande distancia 
viam-so ainda grupos dispersos: eram doentes e inváli- 
dos que vinham cm carros. Desappareceram também por 
sua vez, e tudo ficou solitário c silencioso. 

Então o illustre philosopho olhou para o seu discí- 
pulo com ar grave, o disse lhe: 



Coucou Polcr leve apenas torapo de o segurar 



— Partamos para Hasbach: é alli que o ser dos se- 
res nos chama. Não te diz o coração, Coucou Peter, que 
o grande Demiurgos, antes de nos conduzir ao theatro 
dos nossos triumphos, nos quiz mostrar n'este deserto o 
quadro da immensa variedade das raças humanas'? Com- 
prehendes, meu amigo, comprehendes a rnagestade da 
nossa missão? 

— Comprehendo, mestre, que devemos partir. Coma 
primeiro estas cerejas que lhe apanhei, e depois a cami- 
nho. 

Matheus não viu n'estas palavras o tom que dese- 
java. Sentou-se, porém, com o chapéu do seu discípulo 
entre os joelhos, e comeu as cerejas com excellente ap- 
petite. Depois, como Coucou Peter tivesse trazido Bruno 
que pastava a pouca distancia os rebentos novos, Frantz 

montou, o discípulo se- 
gurou na rédea, e subi- 
ram pelo carreiro areento 
que levava até ú Rocha- 
chata. 

O sol descia por de- 
traz de Losser, atraves- 
sando com os seus raios 
de oiro as flexas agudas 
dos altos abetos. Por mui- 
ta vez se voltou Matheus 
a fim de contemplar este 
imponente espectáculo. 
Quando chegaram ao ar- 
voredo tudo se escureceu, 
e os passos de Bruno soa- 
ram sob a abobada dos 
velhos carvalhos como se 
fora n'um templo. 

Cerca de uma hora 
depois, a lua começou a 
despontar sob a folhagem 
no momento em que divi- 
saram, cincoenta passos 
mais abaixo, um grupo 
de peregrinos que se di- 
rigiam tranquillamente 
para a feira. Coucou Pe- 
ter reconheceu logo Hans 
Aden, homem alto, maire 
de Dabo, com o burro 
tíchimel e a sr." Thereza, 
sua nudher, que ia sen- 
tada n'uma das cangalhas 
do burro. O que o admi- 
rou foi vêr uma creança 
gorda, corada, na outra 
cangalha de Schimel, jx)r- 
que Hans Aden não tinha, 
que elle soubesse, filho algum. Iam assim como venerá- 
veis patriarchas: a sr.* Thereza com o lenço atado em 
volta da sua gentil cabeça, olhava a creança com uma in- 
definível ternura; o burro seguia com passo firme á beira 
do talude; as orelhas, longas e pendentes, empinavani-so 
ao menor ruido para depois caírem de novo nudancolica- 
mente. O corpulento Hans Aden vestia um casaco que 
lho chegava jus barrigas das pernas, trazia o chapéu de 
três bicos descaindo para a nuca, as mãos nas algibeiras 
de traz, o caminhava gravemente, dizendo a espaços: 
— Hup! Schimel, hup! 

Vendo tudo isto Coucou Peter não esjjerou por Ma- 
theus e começou a correr pelo can"oiro abaixo, gri- 
tando : 




ARTES E LETRAS 



117 



— -Ora para que viva, sr. Hans Aden, para que vi- 
va. Onde vào tao tarde? 

Hans Aden voltou-se vagai-osamento e a mulher er- 
gueu os olhos para ver quem gritava 'd'aqucllc modo. 

— Oh! és tu, Covicou Peter, disso Hans Aden csten- 
dendo-lhe a mão. Boas tardes, rapaz. Vamos de roma- 
ria. 

— Ora ahi está o que são coincidências, disse Cou- 
cou Peter muito alegre, também para lá vamos. Chegou 
o momento de renovar o nosso conhecimento. Mas entào 
foi alguma promessa, sr. Hans Aden? E doença na fa- 
mília y 

— Nrio, nao, Coucou Peter, respondeu o maire de 
Dabo. Graças a Deus todos passam bem. Vamos dar 
graças a S. Florêncio de nos haver concedido um filho. 
Sabes que éramos casados 
havia cinco annos sem ter 
tido essa felicidade. Até 
que, um dia, disse-me mi- 
nha mulher: Olha, Hans 
Aden, precisamos ir de ro- 
maria até S. Lourenço; 
todas as mulheres que l;í 
vao tem logo um filho. Eu 
cá sempre pensei que isto 
não servia para nada. Ora, 
adeus, disscrlhe eu, isso 
não serve para nada, The- 
reza, e depois bem vês que 
eu não posso deixar a ca- 
sa. Demais a mais olha 
que chega o tempo das 
colheitas, o eu não posso 
abandonar isto tudo. 

— Pois bem; parti- 
rei só, respondeu-me cila. 
Tu és um incrédulo, Hans 
Aden, verás que te has de 
arrepender. Pois vae, dis- 
se eu, e veremos quem 
tem razão. E foi, e foi, 
meu caro Coucou Peter, 
c, vê tu! Nove mezes de- 
pois exactamente, novo 
mezes depois, appareceu- 
nos uma creança forte e 
gorda, a creança mais bo- 
nita da terra. Desde essa 
occasião todas as nmlhe- 
res de Dabo querem fazer 
romarias. 

Coucou Peter escu- 
tou esta historia com uma 
singular attenção. No fim 
levantou a cabeça de repente, e disse: 

— E ha quanto tempo foi a sr.* Thcreza il romaria? 

— Faz agora dois annos, respondeu Hans Aden. 

— Dois annos! murmurou Coucou Peter, empallide- 
cendo e encostando- se a uma arvore, dois annos! Deus 
do céu! 

— Que é isso? que tens tu? pergimtou Hans Aden. 

— Nada, nada, não é nada, sr. maire. É uma fra- 
queza que me dil nas pernas sempre que estou muito 
tempo sentado. 

E olhava para Thereza que baixava, timidamente os 
olhos e ofFerecia o peito á creança. Coucou Peter começou 
de repente a andar, bradando: 

— Isso é que é, sr. Hans Aden, isso é que é felici- 




dade. Tudo lhe sae segundo o seu desejo. É o hern mais 
gordo e perfeito que ha na terra. Tem campos, prados, 
propriedades, e, não contente com isso, manda-lhe S. Lou- 
renço a creança mais bonita do mundo. Mas, é verdade: 
já d'aqui me não vou sem o vêr, coitadinho, continuou 
elle, tirando o chapéu e approximando-se á sr.* Thereza, 
eu gosto tanto de creanças. . . 

— Ora essa! não faças ceremonia, Coucou Peter, 
disse o maire com ar de vaidade satisfeita e de completa 
felicidade, podes vêl-o: então que mal ha n'isso? 

—Aqui o tem, sr. Coucou Peter, disse a sr.* The- 
reza em voz baixa. Dê-lhe um beijo. E muito bonito, não 
é verdade? 

— Se é bonito, disse Coucou Peter, ao passo que 
duas lagrimas grossas e pesadas lhe corriam lentamente 

pelas faces avermelhadas. 
Se é bonito! Santo Deus! 
que mãos! que peito! que 
cara tão alegre e tão gor- 
da! 

E ergiiia a creança, 
c olhava para cila com os 
olhos muito abertos, pare- 
cia não a querer restituir 
a ninguém. A mãe sorria 
e afastava a cabeça para 
enxugar uma lagrima. 

Por fim o alegre to- 
cador deitou a creança 
na sua caminha, e prepa- 
rou-lho a cabeceira com 
cuidado. 

— Tome sentido, sr.* 
Thereza, dizia elle, as 
creanças devem ter as ca- 
beças mais altas, cuidado. 

Depois atou o cesto 
do burro, e ficou a sorrir 
para a mãe, emquanto 
Hans Aden, que parara a 
poucos passos, cortava um 
ramo de sabugo para fa- 
zer um assobio. 

Matheus, que se de- 
morara, por causa da 
grande inclinação do ca- 
minho, juntou-se então 
com o seu discípulo. 

— Ora viva, boa 
gente, disse o illustre dou- 
tor levantando o seu largo 
chapéu, — que o Senhor os 
abençoe. 

— Amen, respondeu 
Hans Aden, appi-oximando-se com o ramo de sabugo. 

A sr. Thereza inclinou a cabeça e pareceu ficar scis- 
mando. 

Andaram então, sem fallar, coisa de um quarto de 
hora. Coucou Peter ia ao pé do burro c olhava a creança 
com evidente prazer. Frantz pensando nos acontecimen- 
tos que se preparavam, ia recolhido, meditando. 

— Diga-mc, sr. Coucou Peter, disse por fim The- 
reza timidamente, ainda passa a sua vida a viajar como 
d'antes? Não se fixou ainda em sitio algum? 

— Sempre, sr.* Thereza, sempre, sempre a cantar o 
sempre feliz. Eu sou como o pardal que só tem um ramo 
para passar a noite, e que de manhã voa em busca das 
searas. 



Aqui o tem sr. Coucou Peter. . . 



118 



ARTES E LETRAS 



— Faz mal, sr. Coucou Peter, disse cila. Devia ar- 
ranjar alguma cousa para a velhice. . . Pensar quo uma 
tão boa pessoa, que uma pessoa tao capaz pódc, de um 
momento para o outro, cair na miséria!... 

— Quo quer! Não ha remédio senão ganhar o pilo 
de cada dia, e só tenho para isso a minha rebeca. E 
verdade que, aqui onde me ve, sou mais do que pareço, 
por quo sou propheta. Alli está o doutor Matheus que 
bem podo dizer-lh'o. Descobrimos, eu e elle, a peregri- 
nação das almas, e resolvemos pregar a verdade pelo 
mundo. 

Foram estas palavras que despertaram Frantz das 
suas reflexões. 

— Tens razão, Coucou Pctcr, disse elle, a hora ap- 
proxima-se. Vão-se cumprir os destinos. Então os que ti- 
verem trabalhado na vinha e semeado o bom grão, se- 
rSo glorificados. E haverá grandes mudanças sobro a 
terra, palavras de verdade passarão de boca cm boca, 
e o nome de Coucou Peter soará como o dos maiores pro- 
phetas. O enternecimento que este discípulo acaba de 
patentear á vista da infância, d'essa idade de fraqueza, 
de doçura e de ingénua pureza, é a melhor prova de uma 
bella alma, e eu não hesito em lhe predizer altíssimos des- 
tinos. 

A sr.* Thereza olhava para Coucou Peter que bai- 
xava modestamente os olhos. Via-se que ella se sentia fe- 
liz, ouvindo tão bellas cousas a respeito do bom tocador. 

Deixaram n'este momento a floresta o acharam-se 
deante do burgo de Hasbach com os seus telhados altos 
e ponteagudos, as ruas tortuosas, e a velha igreja do 
tempo de Erwin. 

Todas as casas tinham luminárias. 

Os romeiros desceram a serra em silencio. 

X 

Pelas nove horas da noite entraram, o illustre phl- 
losopho e os seus companheiros, no velho burgo do Has- 
bach. 

As ruas estavam por tal forma cheias de gente, de 
carros, de gado, que a custo podia passar-se. 

As casas velhas com os seus coruchéus derrocados 
dominavam o tumulto, e illuminavam, com a luz das suas 
janellas estreitas, a multidão agitada. 

Todos aquelles devotos vindos da Alsacia, da Lo- 
rena, da serra, pareciam foi-mar, reunindo-se ao pé das 
estalagens e hospedarias, verdadeiros formigueiros. Al- 
guns tinham acampado junto das paredes, outros debaixo 
dos telheiros e nos pateos das quintas. 

O rodar das carruagens, o mugir surdo dos bois, o 
tropear dos cavallos, o dialecto dos lorenos e dos alle- 
màes, formavam uma incrível confusão. 

Que assumpto que era tudo isto para as meditações 
de Matheus! 

Foi também por isso que Hans Aden e a sr.* The- 
reza se julgaram felizes de haver encontrado Coucou Pe- 
ter. Que lhes teria acontecido, sósinhos, no meio d'esta 
confusa mvdtidão? 

O folgasão tocador empurrava a gente, gritava: 
«Arreda!», parava quando era difficil i-omper, puxava 
Schimel pelas rédeas, dizia a Matheus que se não per- 
desse, animava Bruno, batia il jjorta das estalagens para 
pedir hospedagem, e apezar de nomear a sr.* Thereza, o 
sr. maire e o illustre pliilosopho Matheus, todos lhe di- 
ziam: 

— Vão a outro sitio, a outro sitio, e Deus os guie. 

Mas Coucou Peter não era homem que desanimasse 
c respondia sempre: 



— Andar, deixe, deixe, sr.* Thereza, sempre have- 
mos de achar onde nos mettamos. Eh! eh! Mestre Ma- 
theus, que me diz a isto? Vamos pregar amanhã, hein? 
Cuidado, esse carro, sr. Hans Aden, cuidado, anda Schi- 
mel! Vá, Bruno! 

Os outros andavam pasmados. 

Matheus, como visse que os habitantes de Hasbach 
vendiam feno, palha e tudo o mais aos pobres romeiros 
estafados, sentiu com isto uma grande dor d'alma. 

— O corações duros e de pouca fé, exclamou elle, 
ignoraes acaso quo esse espirito interesseiro e de trafi- 
cancia vos fará descer na escala dos seres? 

Mas ninguém desgraçadamente o escutava, e mui- 
tos chegavam ás janellas e riam da sua ingenuidade. 

— Em nome do céu, mestre Frantz, dizia-lho Cou- 
cou Peter, não faça discursos anthropo-zoologicos a esta 
gente, senão passaremos a noite ao ar livre, se nos nf:o 
succeder coisa peior. 

A sr.* Thereza descansava entretanto o braço sobre 
o hombro do tocador. 

Apezar da sua indignação, o illustre philosopho nâo 
podia deixar de admirar a actividade immensa dos ha- 
bitantes de Hasbacli: um carniceiro alto e gordo, de jkí, 
entre duas lanternas, distribuía três e quatro espécies do 
carne, fresca, de uma apparencia appetitosa (jue fazia 
gosto vêr; as creadas elegantes com o seu cabazinho no 
braço, os olhos grandes, o nariz arrebitado, mais frescas, 
mais gordas, mais vermelhas que as costelletas que pen- 
diam dos ganchos do açougue; n'outro logar um ferreiro 
com os braços nús, a cara mascarrada, trabalhava com 
outros no interior de uma forja; sentiara-se os martellos 
bater, o folie soprar, as faiscas voar em todos os senti- 
dos até virem apagar-se aos pés dos que passavam; mais 
longe Conrad, um alfayate, acabava á pressa para a fes- 
ta o collete encarnado do sr. adjuncto; um melro na sua 
gaiola de vime gorgeava uma ária, e Conrad cozia, pu- 
xando compassadamente a agulha; nos mostradores dos 
pastelleiros, bollos e doces magnifícos desafiavam a gula 
dos circxunstantes, e o boticário tinha n'esse dia collo- 
cado nas suas janellas dois grandes vidros, xim de agua 
azulada, outro de agua avermelhada, que produziam um 
maravilhoso eíFeito. 

— Como é grande o mundo! dizia Matheus, todos 
os dias progride a civilisação! Que dirias tu, Martha, se 
visses um similhante espectáculo! Nem acreditarias os 
teus olhos, nem te atreverias a prever o triurapho do teu 
amo n'um tão grandioso e vasto cam])0. E que a verdade 
brilha por toda a parte com um eterno esplendor, esma- 
gando a inveja, o sophisma e os vãos preconceitos. 

O pequeno grupo, empurrado de rua em rua, des- 
embocou em frente da antiga estalagem de Jacob Fis- 
cher. Ouviu-se Coucou Peter soltar uma exclamação de 
alegria. 

O reverbero que estava sobre a porta allumiava toda 
a frontaria, desde a taboleta das Três rosas até ao ninho 
de cegonhas que se acha no alto do telhado; desde a es- 
cada lamacenta onde se tropeça até ao becco estreito 
onde os bebedores costumam parai-, com a fronte pen- 
dente, a cabeça encostada á parede, murmurando pala- 
vras inintelligiveis. 

(Continua.) B. 




DOIS QUADROS DO PINTOR BRAZILEIRO VICTOR fflEIRELLES 



oM O mfiis vivo pi-ítznr damos ns des- 
íiiipçòeH dos dois ultiinoa quadros do 
professor do pintura histórica na 
Academia de bellas artes do Rio de 
Janeiro, o sr. Victor Mcirelics, pro- 
cedendo com respeito a este notável 
artista como já fizemos com rclaçào 
ao doutor 1'odro Américo. 

COMBATE NAVAT, DK KIACIIUEI.O 

Sobre o vapor Amazonas vê-se 
no passadiço o chefe liarroso, tendo 
ao lado o pratico Hernardino, o comniandante Brito e o guarda 
marinha Barbosa; avante, sobre o castello do i>rôa, o immediato 
J)(^ll)him Carlos de Carvalho dirigindo a manobra; no jirimeiro 
plano, á direita, um vapor paraguayo a j)ique, tendo parte do con- 
vez fora d'af;ua, sobre o (jual estào diversos grupos de inimigos, 
que, apezar de derrotados, fazem ainda um ultimo esforço de vin- 
gança: iia caixa da roda, meia immersa n'agua, um marinheiro 
brazileiro, que sem duvida caíra dentro do navio inimigo no mo- 
mento do choque dado pelo Amazonas, é mortalmente ferido a tiro 
de rewolver por um ofKcial paraguayo: ao longe a Aragiiary o o 
Beheribe perseguem os vapores paraguayos que fogem rio acima; 
vê-so o Jejmj a pique, e duas chatas que caem agua abaixo. No 
ultimo plano o Jequitinhonha, adornado, jaz encalhado perto da 
barranca, e um vapor paraguayo ainda mais ao longe foge preci- 
pitadamente. l'ela popa do Amazonau, no centro do, quadro, vê-se 
a Alearim, que vae prestar soccorro á Parnahyha. A esquerda, e 
no segundo plano, vê-se um grupo de paraguayos e alguns caina- 
lotes; mais ao longo, e em terceiro plano, a Fariiahyba entre o Ta- 
((uary e o Salto ; finalmente, mais longe ainda, está o Paraguary 
encalhado na margem do rio. 

PASSAGEM DO IIUMAYTÁ 

A 19 do fevereiro de 1868 a esquadra encouraçada brazileira, 
composta dos navios Barroso, Bahia, 'Jamandaré, e dos monitores 
liio Grande, Alayôas e Pará, forçaram o passo de Humaytá. 

Haviam previamente tomado conveniente posição para auxi- 
liar aquella perigosa emproza os encouraçados Brazil, navio chefe, 
hrrixd, Colombo, Cabral, Silvado e Lima Barros, ficando estes 
dois uljtimos do lado do Cliaco. 

Ás três horas e meia da madrugada, logo depois de nascer a 
lua, dado pelo navio chefe o signal de avançar, rompeu a honrosa 
niíircha o Barroso, levando a seu lado o monitor Hio Grande, se- 
guidos pelo Bahia com o Alagoas, e após estes o Tamandaré com 
o Pará. 

Percebida a manobra da esquadra imperial pelas sentinellas 
da formidável Humaytá, rompeu d'ella um fogo de bala tào susten- 
tado e rápido, que, dentro em pouco tempo, terra, céu e aguas era 
tudo fogo o fumo; de todas aquollas baterias, assestadas sobre as 
barrancas do rio, choviam incessantemente milhares de projectis, e 
era tão forte o troar da artilheria, que se sentia aterra estremecer. 

Do lado do Chaco, perto do logar onde estavam presas as 
grossas correntes do forro que partiam da fortaleza, e intercepta- 
vam a navegação no rio, mandou o astucioso inimigo fazer foguei- 
ras, a fim de serem melhor divulgados da fortaleza os movimentos 
da esquadra. 

Aqnellas formidáveis correntes que tanto terror causavam, 
os torpedos o outras machinas infernaes, tudo foi vencido pela co- 
ragem inaudita dos valentes marinheiros que compunham a divi- 
são avançada da esquadra. 

Já o Barroso o o liio Grande haviam, dobrando a ponta do 
Chaco, transposto o passo. Ao passar pelas correntes, uma bala 
cortara ao Alayôas os cabos de reboque que o ligavam ao Bahia, e 
desarranjando- se-lhe ao mesmo tempo a machina, tomado pela cor- 
renteza das aguas, vem caindo rio abaixo n'aquella volta difficil 
quasi encalhar na ponta de pedras. O Tamandaré e o Pará, tendo 
vencido esta ponta perigosa, estão perto do logar das correntes. 

NVsta occasião, no meio do medonho estampido que partia 
de Humaytá, o d'entre as densas nuvens de fumaça que toldavam 
o ar, vê-se subir um foguete que, partindo do Barroso, annuncia 
a toda^a esquadra que o pas.so do Jlumaytá está vencido. 

K este o momento escolhido pelo artista. 

Estes dois quadros, encommendados em 18G8 pelo ex."" .sr. 
conselheiro Attbnso Celso de Assis Figueiredo, então ministro da 
marinha, pertencem a este ministério. O artista, para melhor des- 
empenho d'olles, foi, á custa do governo, ao Paraguay fazer os in- 
dispensáveis estudos. 




O DESPENSEIRO 



K disserom que cheira á 
fVasqueira, ao forno, á casa 
da fructa, ou A adega, — po- 
de ser: ao que elle nân 
cheira ó ao hospital ! 

Nào bebe ao sol, bebe 
á sombra. Nasceu para a 
ucharia, e para distribuir o 
que outrem díl ; — tinha a 
vocaçílo de despenseiro ! 
Também, que querem? Elle 
não ia a funcções nem a pa- 
tuscadas ; o seu destino era 
desengayar a vida no fundo 
do um claustro; nora todos 
serviam para isso: ahi está o láavona- 
rola, homem do paixões fortes, que pre- 
feriu morrer queimado, tanto era o amor 
que tinha á liberdade! A liberdade é o 
que cada um a entende: — para esse 
gravura nos mostra, a liberdade 



pipa 



Ha distracções mais sympathicas, 
bem sabemos. É muito agi-adavel ir com 
um rancho passar o dia ao campo, jan- 
tar n'um caramanchel, aspirando o aro- 
ma das flores e o da primavera, a olhar 
j)ara carinhas bonitas, cantando e ou- 
vindo cantar. . . A relva é cúmplice do 
amor; a alegria é a melhor das orches- 
tras; corre o tempo, parecendo que tu- 
do é nosso: as folhas verdes, o azul do 
céu, o matiz do campo. . . Quando termina o repasto, fica 
vasio o cesto das provisões, passou para os olhos o vinho 
das garrafas, deitou-se á estrada a casca do ananaz que 
levou um, as rolhas do Madeira que levou outro; toca a 
dançar de màos dadas, ás voltas e aos abraços, e, em 
faltando o fôlego, quasi a cair de cabeça tonta, ainda se 
olha uns para os outros com prazer. . . Grandes tardes ! 
Que de historias coutadas por er>tre o trigo, que de aven- 
turas. . . E ás vezes, depois, o arraial, o fogo de vista, 
e lá se rasga um vestido, e lá se volta á meia noite no 
omnibus, ou no vapor. . . 

Mas elle nao tinha, e não podia ter nada d'isto. Fi- 
car lhe-ia mal a ternura. Chorou, de uma occasião, um 
bocadinho, — e isso por causa da moral ; também, foi 
pouco. E um figurão assoprado, ventripotente, beberri- 
cando sempre ou engolindo a papança de Gargantua; ca- 
bello asscdado, mão gorda, fronte serena, meio abbadc 
antigo com privilegio de esperteza, e meio larabaz de 
frade moco, brilhando-lhe nos óculos os olhos e nos olhos 
o amor de Baccho ! 

Está aceiado, e grave. As congregações tinham uni- 
formes, pretos, azues, brancos, cinzentos, e o povo pu- 
nha-lhes alcunhas : os descalços, eram pés frescos ; os de 
habito preto, carvoeiros; os de S.' Domingos, habito bran- 
co, padeiros, etc. : este está á vontade, e próprio da sua 
missão; A-é-se que ainda é mais despenseiro que íi-ade. 

Tinha muito que fazer. Provar, envasilhar, — pro- 
var, engarrafar, — provar, mandar para a mesa, e beber. 
Outros tinham suas incumbências, que parecendo dever 
pesar-llies mais... não lhes pesavam ás vezes tanto! 

Encarregar-se-ía, como outro qualquer, de dizer mis- 
sas, para que as almas não ficassem retidas no purgató- 
rio, se lho fossem pedir como cousa urgente; mas, como 



despenseiro, ía-se dispensando d'Í8so; bem lhe bastava a 
sua lida, prova d'aqui, prova d'alli, o esto tem seu pi- 
que, e o outro está no mosto, e o d'acolá tem côr, e o 
d'além tem corpo, e um é palhete, o outro 6 madurinho, 
— cmfim, uma labutaçíío, o dcsempenhar-so das funcções 
de que se achava investido! 

O serviço de boca nos conventos tinha muito que se 
lhe dissesse! No refeitório havia tantos êxtases como na 
capella. Já na vida dos santos se observa isso. S. Fran- 
cisco de Paula gostava do servir á mesa, S. Malaquias 
gostava de a pôr. Santo António, depois da refeição, que- 
ria lavar a louça, ctc. 

A cozinha, a adega e o forno, faziam suar; mas o 
forno, sendo o mais quente, era o que fazia suar menos. 
De uma occasião sendo preciso accendcr a lenha e não 
havendo lume alli á mão, foi o que estava de semana ao 
forno buscar lume á capella; mas, logo que chegou ao al- 
tar, pôz-se a resar, a resar, e esqucceu-lhe o que ia fa- 
zer: ao despenseiro nunca succedeu umad'essa8; era ho- 
mem mais forte; escol heram-n'o por isto mesmo para 
aquollc cargo, e houve o maior accordo n'essa eleição — 
porque, sendo elle o melhor companheiro e o melhor be- 
bedor, sempre a congregação teria menos a receiar de 
seus rigores, e poderia contar com mais canadas que ser- 
mões. 

Dos conventos saíram pessoas notáveis e cousas ex- 
cellentes. Os frades foram primorosos para a educação, 
para a agricultura, e para os comes e bebes. Ninguém 
os excedeu no amanho das cercas, no latim, e no pre- 
paro das conservas; dispunham com tal perícia as ginjas 
na aguardente que era fácil morrerem emborcados nos 
garrafões a comel-as todas. Enriqueciam depressa, oco- 
nomisavam muito, tinham heranças quasi todos os dias, 
nunca vendiam, e saboreavam a existência o a proprie- 
dade. 

Na quietação das noites do claustro pensavam, pro- 
vavelmente, ás vezes nos pobres clérigos de aldeia, que 
passam a vida de braços cruzados, sem ter nada que fa- 
zer a maior parte do anno; e elles, coitados, faltava-lhes 
o tempo para tanta azáfama, sermões, festas, jantares, 
missas encommendadas — isso, então! por mais desemba- 
raçados que fossem, e ás vezes podia parecer promptidão 
de mais, dizer a missa toda n'um quarto d'horasito! não 
havia mãos a vencer! 

Assim este, coitado, com a responsabilidade das pro- 
vanças, — não fosse alguma pingolla menos saudável 
adoecer a communidade: frei Gerúndio sofFria do estô- 
mago e esfriava com o vinho fraco, frei Anastácio não 
supportava vinhos mal temperados, frei Anselmo tinha 
insomnias com os vinhos brancos, frei Gaudêncio gos- 
tava de se metter pelos doces e de os acompanhar com 
o abafado, frei Natividade tinha aquella scisma de que 
sem o Lavradio não ha refeição que preste, e o pobre 
despenseiro via-se obrigado, por humildade 
de todos!... 

JOLIO CÉSAR MACHADO. 



a gostar 




JESUS-CHRISTO E S. JOÃO 



'aquelles dias veiu João 
Baptista pregando no de- 
serto de Judéa: 

— d E dizendo : 
Emcndae-vos, porque 
chegado é já o reino dos 
céus: 

— « Porque este 6 
aquclle do qual foi dito 
pelo propheta Isaias: 
«Voz do que clama no 
deserto. Apparelhae o ca- 
minho do Senhor, ende- 
rençae as suas veredas.» 

— « E João andava 
vestido de pelles de ca- 
mello, e um cinto de coiro 

a apertal-as, e o seu comer eram gafa- 
nhotos e mel montesino. » 

Eis como S. Matheus nos apre- 
senta, com a doce simplicidade do seu 
estylo, a primeira pagina da ligação 
entre os dois grandes iniciadores da 
verdadeira religião humana. 

O povo, não sei porque secretas 
operações do espirito, creou a mais in- 
nocente e a mais risonha das lendas. 
O precursor não é para elle o 7iazir 
intransigivel, o homem da penitencia, 
une sorte de Lamennais toujours irrite, 
como se expressa Renan; S. João é, 
pelo contrario, um beraaventurado in- 
fantil, em cuja volta os cordeirinhos 
tozam, o que sentado na escarpa de 
um monte deita vistas serenas para os 
horisontes franjados de oiro. 
S. João arrotêa as primeiras moitas que o Mestre 
desbravará de todo. 

Saem ambos do mesmo enthusiasmo, e elevam-so na 
mesma aspiração. O primeiro c rude, áspero, temeroso 
como os antigos prophetas ; Jesus é a alma idyllica, o 
poeta do amor e da caridade, o coração perfumado como 
os lyrios, do que elle se servia tanto em suas imagens. 
Um promette lançar no fogo a vinha que é secca, 
e, similhante a Elias, sáe furioso da sua caverna para 
apostrophar a raça de vibwas; o outro, com o melancó- 
lico olhar espraiado pelos lagos e pelas campinas, deixa 
cair as mais doces lagrimas que se tem vertido no mun- 
do, e diz, com o presentimento do muito que ha de pa- 
decer pela sua obra : — « Bemaventurados os que cho- 
ram ! » 

O que se sabe é que se amaram. 
Moços ainda encontraram-se no mesmo caminho, e 
em vez de se aggredircm mesquinhos, abraçaram-se ge- 
nerosos. João reconheceu de momento a superioridade de 
Christo. As alcyones conhecem as pombas. E elles ama- 
ram-se. Voavam para o mesmo ideal, sonhavam com as 
mesmas perfeições, preparavam a redempção dos ânimos. 
Vinham em nome da sua jjureza aconselhar-nos que 
nos abstivéssemos do maculas. Vinham em nome da sua 
juventude vibrar as cordas onde tom de resoar os hymnos 
da esperança e o carme dos amorosos arrebatamentos. 
Vinham dar testemunho da sua verdade estendendo os 
braços para o sacrifício, e morrendo na idade dos sonhos, 
quando o peito se agita n'un8 devaneios sem limite, e 





\^ 



J53 



3= 






ARTES E LETRAS 



121 



quando, ao* cerrar da tarde, começam a fluctuar umas vi- 
sões que do dia se esLoçavam ao largo, doiradas por um 
raio do sol. 

Eu disse que o povo, por «ma evolução a que nin- 
guém marcará regras, architoctou uma graciosa lenda de 
amisadc pueril entre Jesus-Christo e S. João. 

E isto que representa a gravura, copia de um qua- 
dro de Rubens. 

Nada tào gracioso como estas creancinhas que so 
apertam em grupo. Dois anjos as emmolduram, e para 
se respirar toda a fresquidào bucólica não faltam os po- 
mos e a ovolhina cândida. É uma allegoria a ressumbrar 
júbilos, uma composição suave o fragrante. 

Elles estão alli com o dcscuidoso bem-estar dos pou- 
cos annos; não sabem que ha Salomés que decapitam, 
nem Golgothas onde a posca vem ungir os lábios. 

São crédulos, são felizes; ainda não pensaram cm 
so dedicar pelos homens! 

O illustre flamengo a quem se devo este apreciável 
trabalho peccava, dizem uns, pela indiscreta mescla do 
profano com o divino. Félix culpa, redarguirei eu pela 
minha parte. Em vez de me desenharem com uma reali- 
dade tosquiada as sconas da vida syderal ou terrena, pre- 
firo estes enlaces cm que a inspiração dardeja, — e gosto 
mais de ver a agradável mentira do um Jesus affagando 
o Baptista, do que muita outra verdade onde o senti- 
mento é nullo e em que o cérebro, á mingua de inspira- 
ção, representa o papel de clicM photographico. 

E. A. VIDAL. 



, . .Vcs esses relâmpagos, Victor, los ves? Esse hombre 

dijo que no le causaban miedo, por que la cicncia le mos- 

traba que son un efeto natural ; k yo te digo a ti que ese 

hombre mientc, que quicre engafiarse a si mismo, por que 

efectivamente ticno miedo. La ciência no hace otra cosa 

sino dar más grande idca dei Senhor que está allá arriba, 

y que coloca la tcmpestad en el corazon dei miserablc dei 

mismo modo que las nubes en el espacio para que cbo- 

quen entre si. 

Hugelman y Bleza — Dbama. 

É noite cerrada, n'um céu tenebroso 
Estrcllas não podem brilhantes fulgir; 
E a pallida lua se esconde saudosji 
Seu brilho occultando, sem luz espargir. 

Os ventos do sul, rebramindo terriveis, 
Enlaçam no cedro ramagens do til; 
E balam de susto cordeiros mansinhos, 
Medrosos retidos no pobre redil. 

Nos ares perdido, na luta afanosa, 
Librando vae triste o abutre ruaz ; 
E as brenhas alpestres dos cerros trementes 
Os uivos repetem do lobo voraz. 

No valle profundo, corrente medonha. 
Rojando penedos, vae grossa a correr; 
E o mocho piando, d'encontro na rocha. 
Incerto na toca, vae pobre bater.. 

Lampejos constantes no céu fuzilando. 
Precedem sinistros a voz do trovão; 
E as ondas do mar, que rebraniam em rolos, 
Em fúria desfazem na praia o cachão. 

Terriveis pliantasmas, no cume da serra, 
Pastor aterrado só cuida visar, 
E o tronco abatido na feia tormenta. 
Os passos incertos lhe vem estorvar. 



Ua fúria dos ventos velozes rugindo, 
Das aguas cm jorros do céu a cair, 
O gamo saltando, no campo, perdido. 
Seio rumo, sem trilho, vae só a fugir. 

Castellos de nuvens, escuros negrejam, 
(jiie passam ligeiros p'ra o norte a correr; 
Mais densos, maiores, d'a8pecto medonho, 
Em breve já outras lhes vem succeder. 

Robusto pinheiro fendido no tronco, 
Por terra caindo, prostrado ficou; 
Em baixo na praia se escuta a celeuma 
No barco que ao longe na rocha topou. 

Meu Deus, piedade! — no mar e na terra, 
O homem — ciue é nada — dos p'rigos salvael 
Na rija proceiia, que brame terrível. 
Os brados do homem, meu Deus! escutael 

Quem ha que não veja na dura tormenta 

Imagem perfeita do triste viver; 

Da luta terrestre, que vida se chama 

No mundo de penas, paixões e descrer?. . . 



CLÁUDIO DE CHABT. 




y\mm pelo interior do rrazil 



As tartarugas, seu desovamento e pesca. — Viagem no- 
cturna pelo Xingu. — Cacada singular, — A perda 
da canoa. — Desanimo. — O ubá e o indio. — Um li- 
bertador forçado. — Travessia perigosa. 

(ConclosSo) 

LUA estava meio encoberta o 
próxima a desapparecer do to- 
do. O desconhecido remava 
lentamente, o, comquanto não 
virasse a proa para a terra, in- 
dicava visivel intenção de se 
approximar d'clla ; ia rodeando 
a praia, que formava um semi- 
círculo, o parecia prescrutal-a 
com o olhar — que nós adivinhá- 
vamos, mais do que viamos, pe- 
los movimentos da sua cabeça. 
Chegado a certa altura, virou 
pai-a traz, sempre com a mesma 
indolência de movimentos, e sem fazer o menor ruido. Era 
evidente que procurava alguém ou alguma cousa. Não 
havia probabilidade de que andasse alli para se divertir, 
sósinho, ás onze horas ou meia noite. Não podia ser pes- 
cador nem caçador de tartarugas, porque para isso de- 
veria ter vindo ao anoitecer, que é quando oUas costu- 
mam sair d'agua; o no Xingu pcsca-se deitado na rede, 
dentro de casa, o mata-se peixe sem necessidade de per- 
der a noito em peregrinações aventurosas pelo rio. — ^Ias 




N.» 8 de 187Í 



122 



ARTES -E XETRAS 



quo procurava então? Quem era? D'onde vinha? Para 
onde ia? — Taes eram as interrogaçSes mudas, que cada 
um de nós fazia aos seus botões, apertando o punho do 
sabre. E viria só, ou teria perto alguns companheiros? 
Havia pouco tempo quo a revolta dos cabanos * se tinha 
apaziguado no sertão, e alguns restos dispersos do acam- 
pamento do Icuipiranga ^ não tinham ido entregar-se, 
preferindo ficar com as armas a gosar da amnistia que 
lhes salvava as vidas. Não poucas canoas do commercio 
tinham sido assaltadas e mettidas a pique, depois de rou- 
bados e mortos os tripulantes; muitas casas haviam sido 
invadidas em diíFerentes logaros do- Amazonas, ocorriam 
vagos rumores de quo nos bosques do Xingu se acoitava 
um bando de assassinos. Todas estas lembranças nos sal- 
teavam o espirito ao tempo em que o mysterioso navega- 
dor girava em volta da praia, chegando-se sempre, e 
cada vez mais cautelosamente, para a terra. 

— E o ladrão da nossa canoa — disse em voz baixa 
o Índio mundurucú. 

—Talvez. 

— Com certeza. Vem espreitar se estará por aqui al- 
guém, para depois passar com ella. . . porque, provavel- 
mente, quer passar para este lado, e tem-n'a amarrada 
a alguma arvore, lá para traz da ilha... 

— Pôde muito bem ser. 

— E algum pescador de tartarugas, que andaria pe- 
las praias do lado opposto ao tempo que a maró a levou 
pelo rio abaixo; viu-a sem gente, amarrou-a, e veiu á 
descoberta; se visse aqui um homem só... Quem sabe? 
Talvez tentasse matal-o ! . . . Acreditem que já nos sentiu 
e que se anda assim devagar é para vêr se nos desco- 
bre. . . 

— Mas com que fim? 

— Eu sei. . . para nos vender, talvez, a nossa ca- 
noa. . . ou para saber quem nós somos, e a levar depois 
para sitio onde não a tomemos a vêr. . . 

Vê-se quo o tapuio discorria admiravelmente, e che- 
gava á verdade pelos caminhos por onde andam os maio- 
res sábios. 

Eu continuei o dialogo com elle. 

— Seria bom chamarmos o homem? 
— E se elle fugir? 

— Sendo o ladrão, de certo foge! Porém, se nao for? 

— Perderemos a occasião de atravessar o rio para a 
feitoria, e Deus sabe quando passará por aqui outra ca- 
noa que nos leve! 

— Isso é verdade. . . O homem parece que já nos 
viu. . . Lá volta para o largo e agora rema com íôrça ! 
Ponham- se todos em pé, e deixem-me fallar eu só. 

Erguemo-nos de um salto, e o indio gritou: 

— O da canoa! 

O remador desconhecido deu ainda duas remadel- 
las, para se afastar mais de terra; depois atravessou a 
canôinha e respondeu pachorrentamente: 

— Que é? Quem me chama? 

— -Atraca! 

O homem virou a proa para o rio, dispondo-se, pro- 
vavelmente, para se pôr mais ao largo, N'e8te momento 
a lua, já prestes a esconder-se, rompeu o véu de nuvens 
que a envolvia e alumiou esplendidamente o theatro. 
d'esta scena. 

— Se dás mais uma remadella para o largo — gritou 
o indio mundurucú — fazemos-te fogo, e de cinco balas 
alguma te ha do acertar! 



1 Denominação dada ao bando de facinoras, que, em 1835, 
ge apoderou do Pará. 

2 Logar onde pretenderam resistir á tropa que os perseguia. 



Dizendo isto agitou no ar o sabre, pondo-o em pon- 
taria como se fora espingarda; nós movemos também os 
nossos, o o luar, reflcctindo-se nas laminas, fez crer tal- 
vez ao desconhecido, que eram com effeito os canos das 
armas do fogo que elle via luzir, porque se approximou 
som responder. 

— Conservámo-nos todos em posições de atiradores 
até a canoa estar quasi em sccco; providencialmente a 
lua sumiu-se no momento em que o remador perguntou: 

—Então que me querem? 

Em vez de responder, precipitámo-nos sobre elle, o 
apoderámo-nos da canoa. 

— Nao me matem! 

Reconhecemos com grande magoa que <a embarca- 
ção era uma casquinha de noz, que apenas levaria dois 
homens á vontade! 

Interrogámos o tripulante, sobre se tinha visto a 
nossa; pedimos-lhe, que se a tinha achado, nos levasse 
onde ella estava porque o recompensaríamos largamente; 
mas elle affirmou que tal canoa não vira, e que andava 
por alli á caça das tartarugas — confirmando o dito com 
uma, que levava a bordo, — e não tivemos difficuldade 
em o acreditar. 

— Então leve-nos á nossa feitoria, na boca do rio 
Arapari ! 

— Tão longe! A canoa não pôde com mais de duas 
pessoas. . . 

— Pois ha de levar-nos todos, que somos seis, com 
você, afora as tartarugas. 

— Impossível! 

— Experimentemos. 

— Vamos todos para o fundo! 
— Paciência. 

— Valha-me Deus! 

O homem era um mestiço, que dizia morar da ou- 
tra banda do rio; tremia de medo, vendo-nos embarcar 
as tartarugas, e, se dois dos nossos não estivessem a 
bordo, teria fugido, desde que viu que não tínhamos ar- 
mas de fogo. A previdência aconselhava-nos a que fos- 
semos metade por cada vez; mas, como a distancia era 
grande, ninguém quiz ficar na ilha deserta, á qual todos 
tinham tomado horror, sem nenhuma razão porque era 
formosíssima ! 

Mettemo-nos, pois, dentro da montariasinha ', e afas- 
támo-nos da pria. Immediatamente começou a entrar 
agua por todas as costuras mal calafetadas, e por cima 
das bordas, a cada movimento do remo! As tartarugas 
perneavam no fundo da canoa, fazendo maior balanço, 
e difficultando o esgoto da agua, que mettiamos sem ces- 
sar: a noite tornara-se escuríssima! 

O homem desconhecido, que era quem remava, dava 
grandes gemidos e encommendava-se a Deus, chamava 
pelos nomes da mulher e dos filhos ; e pedia-nos, por tudo 
quanto havia de mais sagrado, que, ao menos, deitásse- 
mos fora as tartarugas, que pesavam por dois ou três ho- 
mens. 

O pedido era sensato; mas custava-nos, depois de 
tantos trabalhos, da canoa perdida — que teríamos de pa- 
gar ao chefe da exploração da borracha — e dos sustos 
passados na praia dos Cajueiros, não levarmos sequer 
por premio os objectos d'essa8 fadigas! Ordenámos ao 
mestiço, que em vez de seguir pelo rio acima, na direc- 
ção da nossa cabana, atravessasse em linha recta para 
a ilha '* onde ella era situada, porque depois, embora 

•Denominam-ge montarias, umas Canoinhas muito leves, qne 
nào sâo como os ubás, de uma só peça, mas feitas como as outra» 
embarcações pequenas, com costuras c cavernas. 

^ Julgava-se que era terra firme e ainda hoje se denomina rio 



ARTES E LETKAS 



123 



naufragássemos, nao corríamos já o risco de morrer afo- 
gados; e se do todo em todo a canoinha não podesse le- 
var-nos pelo rio acima, iríamos por terra, logo que nas- 
cesse o sol. 

O terror era geral quando chegámos a meio rio; nào 
se dava vencimento á agua, o iamos prestes a alagar- 
nos. Por maior diligencia que fizéssemos para evitar o 
balanço, tinhamos que reyezar-nos a miúdo no esgoto, 
auginentando-o com os nossos movimentos; íamos todos 
estafados, e, se não fosso o temor de sossobrarmos mais 
depressa, toriamos então deitado todas as tartarugas ao 
rio! Mas essa manobra tornava-se agora perigosissima, 
porque os animaes eram muito grandes e pesados! 

Tive muitas occasiões de susto, nmitos perigos e 
naufrágios; mas nunca me vi em situação comparável á 
d'aqueíla travessia, onde tive de encarar friamente a 
morte, durante duas mortaes horas, por uma escuridão 
horrível! E tudo isto sem necessidade, porque, se espe- 
rássemos o dia, teríamos feito uma jangada em que fa- 
cilmente atravessaríamos ! 

Emfim, chegámos ao pé de terra, e respirámos. 
N'essa occasião quiz um dos tapuios experimentar se ha- 
veria por ali jacarés, para saber se ellc snos devora- 
riam, em caso de naufrágio, o imitou-lhes os gritos. Rcs- 
pondeu-lhc um milhão de vozes temerosas, cavas, pro- 
fundas, tétricas, que nos fizeram arripiar; por isso, em 
vez de desembarcarmos alli, que também era perigoso e 
diíficil pelo emmaranhado da margem, preferimos ir indo 
pelo rio acima, luctando com o esgoto da canoinha. Se- 
riam três horas da manhã quando chegámos á feitoria ! 
Gratificámos o nosso remador, e dias depois soubemos 
que fora aquclle desalmado tratante quem nos havia rou- 
bado a nossa canoa ! Mas nunca mais os tomiámos a vêr 
— nem a elle nem a ella. 



F. G. DE AMORIM. 

A VILLA E O CASTELLO DA LOUZÃ 

I 

Não era, entre nós, muito commum o gosto de viajar, mas 
vae-se generalisando. Apparecein-nos hoje pois, com frequência, 
pessoas que deixámos de ver por algum tempo e que depois nos 
dizem que estiveram fora do reino. Também não é raro ouvir-se- 
Ihes, no meio de descripções que talvez fosse impossível reprodu- 
zir:— Oh t a França! ... Oh! a Suissa! ... Oh! a Allemaniia! — 
como se do intimo quizessem denunciar que desejavam ser antes 
francezas, ou suissas, ou allemãs. . . 

Por que? Estudaram lá a forma do governo, a organisação 
militar e policial, o desenvolvimento do commercio, os melhora- 
mentos das industrias, os methodos do ensino, para virem referir- 
nos, aos compatriotas boquiabertos e ignorantes, o que poderia 
felicitar a patría? Não. 

Aquellas exclamações, que dão certa importância a quem 
as solta, com aflectação de francezia, apenas se traduzem pelo 
enlevo em que ficaram os viajantes a que me refiro diante de uma 
arvore secular, na frente de uma alegre paisagem, na encosta de 
uma elevada montanha, no centro de um botequim deslumbrante, 
ou na presença de uma iguaria indigesta. Mais nada. 



Arapari, o que não é maia que um furo ou canal, que, tendo do lado 
superior esse nome, tem do inferior a denominação, creio eu, de rio 
Acahi. Os dois não fazem senão um, que fornia a ilha em que as- 
sentava a minha feitoria e que erradamente se considera terra fir- 



Tenho portanto que lastimar, a miude, não ouvir: — Ohl 
Portugal! . . . que riqueza! (|ue opulência! que abundância! como 
a natureza foi pródiga comtigo! como tu podes florescer c pros- 
perar ! 

Isto succcde tamsómcnte porque a maior parte das pe.<vsoa3 
que se dão a viajar pelo estrangeiro, e nunca viram por ahi as 
nossas riquíssimas terras, os nossos ubérrimos campos, iis nossas 
maravilhosas paisagens, preferem reerear-se e extasiar-se lá por 
fora, sem indagarem jirimeiro, nem .se importarem com o que ha 
do bom em casa. Tão geral é a idéa de que não ha nada que ver 
em Portugal, que muitas pessoas, por um erro digno de compai- 
xão, se riem quando llie atlirmam que ha, e, ou não saem nunca 
da sua aldeia, nu saem da aldeia para França ! 

Esses taes envergonbani-se, sem duvida, de que não os ou- 
çam discorrer acerca do que viram muito superficialmente em 
Paris ou em Genebra, mas não se envergonham de ouvir dizer de 
si que não conhecem do seu paiz senão a sua aldeia! 

Pois quer o acreditem, quer não, antes de partir por essas 
terras estranhas ainda não percorridas por mim, continuarei a 
discorrer, e á minlia custa, pelas povoaçõesinha* portuguezas, 
onde encontro tantos encantos que se me figuram não serão infe- 
riores aos que possam deparar-se-me lá fora. 

Vem tudo isto, bem ou mal, a propósito da villa da Louzã, 
que visitei pasmado ante o formoso, extenso e feracissimo vaile 
em que assenta, a respeito do qual já lancei os apontamentos para 
uma memorial, e de que vou tratar de novo resumidamente, para 
([ue as duas gravuras d'eBtas paginas tenham explicação. 

n 

Pondo de parte as considerações arclieologicas e histórica?, 
que se prendem com a origem da villa e que teriam bom cabi- 
mento noutro género de estudo e n'outra espécie de publicação, 
bastar-me-lia indicar que a Louzã não teve sempre este nome. 

V^ se, cm documentos antigos, que foi mudando de deno- 
minação desde as primeiras epochas da fundação da nionarcbia, 
e que no tempo de D. AlTonso Henriques, occupando os morado- 
res certa porção de terreno partindo do castello para o rio, que 
ainda se chama Arouce, já no tempo de D. Manuel (séculos xv-xvi) 
se havia estendido para o local em que se tem conservado até os 
nossos dias. 

foral de D. Manuel, referindo-se ao fundador da nionar- 
cbia, não deixa pois nenhuma duvida emquanto á mudança do 
nome: — «Mostra-se polo dito foral ser a dita terra dada então 
ao concelho de Arouce que depois se chamou a Foz de Arouce, a 
qual povoação depois se mudou na Louzã (Lousam), etc. »^ 

A villa da Louzã está a 20 kilometros ES. de Coimbra, ao 
qual districto administrativo pertence. E cabeça de concelho e 
comarca; tem correio diário e 4:500 habitantes. O concelho do 
mesmo nome compreliende 5 freguezías em 13:031 hectares, com 
2:400 fogos e quasi 10:000 habitantes. 

Do aspecto geral da villa, estendendo-se em um valle cuja 
formosura não pôde bem apreciar-se senão vendo-o, dá-nos boa 
idéa a gravura junta. 

Ill 

Não tem a Louzã monumentos architectonicos, que prendara 
a attenção do artista, que deseja apenas encontrar reproducções 
de esplendidas e luxuosas obras por toda a parte; mas tem ruí- 
nas e edíficios que de certo captivam o archeologo e o curioso, 
que só se dão por satisfeitos, nas minuciosas investigações a que 
se dedicam, quando sabem a razão das coisas. Julgo n'este caso 
o castello, a egreja matriz, o pelourinho, as capellinhas, as fabri- 
cas de papel, o palácio da sr.* viscondessa do Espinhal, o pala- 
cete do sr. commendador Monte-Negro, o hospital e a bibliotheca 
Eopular, fundações d'este cavalheiro, que também possue uma 
ella e vasta propriedade, na província de S. Paulo, do império 
do Brazil. 

1 Vide Memorias historico-estatisticas de algumas povoações 
de Portugal, 1 vol. do 400 paginas. 

^ Contestando um ponto do meu livro citado, o sr. Annibal 
Pipa Fernandez Thomaz, que o anno passado estudava em Coim- 
bra, e hoje vive na Louzã, mandou-mc copia d'este foral, para me 
asseverar que o rei D. Manuel também se nào tinha esquecido da 
sua terra. 



124 



ARTES E LETRAS 



O castello da Louzã, a pequena distancia da villa, oITerece 
hoje, e ha talvez muitos séculos, tamsómenle ruinas aos que o 
visitam; e posto que sejam varias as opiniões acerca da epocha 
em que poderia ser fundado, todas porém são conformes em que 
jà existia no tempo do cstahelecimento da monarchia. Qual seria 
a sua importância militar ,_ attenta a situação em que o vemos e a 
área que oceupa? Não entrarei n'essa avcrií,'uação, por ine faltar 
aqui o espaço e não ter á mão os documentos de que necessitaria 
para isso. Declaro todavia que me inclino á opinião dos eruditos 
(jue conjecturam «jue o castello seria construído como fortificação 
avançada, para cortar a marcha dos sarracenos (|ue |)retend(!ss(!m 
atacar de novo Coimhra, símu (pie esta cidade estivesse prevenida 
para re[iellir as suas continuadas investidas. Dada esta hypothese, 
t(!riamos em (joirnhra um nohre (! valoroso capitão, Sisenando, 
no poverno de Castella e Leão o famoso rei Fernando o Grande, 
e a correr o segundo quartel do século xi. 

Como quer que seja, o povo, que ama a poesia, c a tem in- 
genila, \ô todas as ruinas, (|ue denotam a mais remota antigui- 
dade, povoadas de encantos, e ás fahulas (]ue se engendram, sem 
(jue um simples mortal possa nunca saber-lhes a origem, ponjue 



provém tamsómente da voz do povo, dá esta voz curso e vo- 
lume. 

Sentemo-nos á beira de um lar; oiçamos ou o crepitar con- 
solador da lenha da chaminé, se estamos na estação invernosa, ou 
o cantar monotímo e melancólico da cigarra, se estão visinhas as 
noites do outono; rodeemo-nos da familia, que tem o primeiro e 
o mais santo logar em todos os quadros e lanceai da vida provin- 
ciana; e por entre os sorrisos, que alegram e aflagam, não dei- 
xemos perder a voz do ancião, que vem narrar-nos sinceramente 
as tradições (|uo povoam e exaltam a villa da Louzã. 

Primeira tradição: ipie um rei, por nome Arunce, para fugir 
da persííguição de um intrépido conde, viera do seu reino com 
uma furmosissima princeza, sua filha, c preciosos thesoiros, e se 
escondera no castello da Louzã; e (jue foi ahi, por entre suspiros 
e queixas, (|ue Sertório, o celebre romano que viera da Africa 
defender a Lusitânia contra os romanos, se namorou da tal prin- 
ceza, mandando levantar em sua honra, na frente do castello e no 
ponto mais alto da serra da Louzã, para festas e sacrifícios, um 
altar que tem a denominação de altar do Tririm. A princeza, 
(jue também era devota, tinha uma capeilinha dentro do castello. 




e. UMA 



A. -viUa da ILiOuzu. 



Segunda tradição : que sendo o castello tomado aos moiros, 
alli se encontrou um livro de versos, de auctor scandinavo, em 
cujas paginas manchadas de sangue se decifrava uma tal ou (|ual 
relação di! factos que originaram a destruição da Hespanha pelos 
bárbaros iilhos de Agar ou sectários de Mahomet. 

Terceira tradiç<ão: que D. AlTonso Henriques, sabendo da 
existência da capeilinha, na qual orava a formosa princeza, fi'ha 
do rei Arunce, maiidyira <|ue a limpassem e benzessem, muito an- 
tes da batalha de Ouri(|ue. 

Quarta tradição: que pelos primeiros annos da monarchia 
fora á Louzã um castellão ou almoxarife para tomar posse da villa 
e do castello, mas a municipalidade e o povo oppozeram-se-lhe, 
allegando os seus foros; houve conflicto serio e o almoxarife foi 
morto no campo. 

Quinta tradição: que sendo a Louzã, por então, segundo se 
dizia, unta Cintra dos nossos reis, alludindo-se á grandeza pano- 
râmica daquelles sitios, para lá ia a mulher de D. AlTonso Henri- 
ques passar a estação calmosa, servindo-llie de residência o cas- 
tello. Acompanhavam-na algumas damas. Uma d'estas, chamada 
Violante, de peregrina belleza, excitou por tal modo a paixão de 



um bom trovador. Egas Moniz Coelho, primo do celebre Egas 
Moniz, (|ue estes amores causaram certa sensação na corte de 
D. Mafalda, e Violantí;, ou por conselhos da rainha ou pela natu- 
ral volubilidade do coração feminil, deixou abysma<lo nos seus des- 
encadeados affectos o pobre trovador, e foi-se caminho de Cas- 
tella em companhia do novo escolhido, já seu esposo, oriundo das 
margens do Manzanares. 

Como já visitei o castello, posso em resumo aíTirmar aqui a 
minha opinião, dizendo: que o castello é mui pequeno e mal ma- 
nobrariam n'elle quarenta homens ; que não podia servir de resi- 
dência a pessoa alguma, e principalmente a reis moiros ou não 
moiros; que não se llie encontraram vestígios de nenhuma cons- 
trucção especial, capella, casa, etc. ; que as trovas attribuidas a 
Egas Moniz tem o pequeno defeito de não poderem ser d"elle, 
porque a(|uella linguagem usou-se cem annos depois; que tem 
em volta restos, aqui e alli, pouco visiveis, ao que se nos repre- 
sentou, de pequenas construcções, as quaes, ou serviriam de 
abrigo á guarnição do castello, ou serviriam para os primeiros 
habitantes do antigo municipio de Arouce; e (|ue, finalmente, 
certas tradições populares são muito boas para entretenimento 



ARTES E LETRAS 



125 



das longas e fastidiosas noites de inverno, mas não servem para 
estudos sérios c bem fundados da historia. 

IV 

Quando se estabeleceu definitis-amente o governo constitu- 
cional, em 1834, o pelouriniio, symbolo do poder municipal, que 
estava posto no centro da villa, foi demolido e quasi encravado 
no cunhal do edilicio dos paços do concelho. Assentava em três 
degraus. Era um |ie(|ueno fuste de grés vermelho da serra de 
Alveite, rematado jxir três caras ou faces, desgraciosas e toscas, 
como revelando a infância da arte. Tinha para os deliufjuentes ar- 
golas e ferros cruzados no fuste, que se lhe arrancaram (juando 
se fez a remoção. 

A igreja matriz, de que é padroeiro S. Silvestre, foi recons- 
truida no século xvm. Tem em geral pouca elegância architecto- 



nica, posto se lhe encontrem interiormente claros vestígios da ar- 
chitectura do século xvi. Na capella da familia Ferraz, defronte 
da do Santíssimo, seguiram comtudo evidentemente o estylo ma- 
nuelino no exterior, e o que se pôde chamar do tempo dos Fiiip- 
pes no interior. 

Defronte do castello ergue-se, poeticamente, um penhasco, 
que baptisaram com o nome de Penhasco da.t ermidas, porque, 
por uma extensa escadaria sobreposta na rocha, se vae a três ca- 
peilinhas da maior devoção e do mais singelo conforto para os po- 
vos da Louzã (! das frcguczias circumvisinhas: a primeira é dedi- 
cada a S. João, a segimda ao Senhor da Agonia, e a terceira, a 
do alto, á Senhora da Piedade. Na véspera e dia de S. João, em 
que ha feira annnal nmi concorrida na villa, a romaria ao Pe- 
nhasco das ermidas ó notável, não só pelo numero dos ranchos 
que aili vão, mas também pela alegria e pelos cantares que os 
acompanham. 




O castello da. Ijouzã — O penhasco das ermidas 



O palácio da familia Salazar, hoje apenas representada pela 
sr.' viscondessa do Espinhai, dama de agradável trato e de muitos 
rasgos pliilantropicos, laiiihem pôde ver-se e admirar-se peias di- 
mensões e pelo assondjroso luxo da ornamentação. 

As pessoas que forem á Louzã não devem, portanto, deixar 
de ver o que indicamos, e mais as fabricas de papel, de que não 
podemos já tratar no espaço de que dispomos, nem deixar de pa- 
gar o devido tributo de respeito aos beneméritos que auxiliaram 
a fundação da bibliotlieea e do hospital, cuja iniciativa se deve ao 
sr. commendador Monte Negro. 

Os fructos da bihliotheca e da escola popular já os tem co- 
lhido muitos com proveito. Os do hospital hão de ser colhidos 
também utilmente. Trahalha-se com sollicitude para isso. 

Se é agradável achar no fim de um artigo alguma coisa que 
tire o enfado de partieuLaridades, que nem todos apreciam, re- 
matarei com um facto notável, que já contei nas minhas Memorias 



e ([ue soube na própria villa. Depois da batalha do Bus.=aco, cm 
27 de setembro de 1810, o general Ma.ssena viu-se obrigado, por 
successivas marchas, a evitar as forças que Wellington comman- 
dava. Alguns mezes depois, porém, tendo os francezes estabele- 
cido o seu quartel general na casa do dezembargador Salazar, na 
Louzã, a rectaguarda do seu exercito foi completamente derrota- 
da em Foz de Arouce pela vanguarda das forças anglo- portngue- 
zas, ficando no lodo do rio um sem numero de soldados de Napo- 
leão I. Massena, assim ([ue soube este desastre, fugiu da Louzã, 
deixando preparado o jantar; Wellington avançou e veiu sentar- 
se á mesa e comer as iguarias que o inimigo lhe abandonar». 



BRITO AHASHA. 



12G 



ARTES E LETRAS 




CUUONICA DO MEZ 



tppoNiio qup vamos eícapos. Mais 
utna v(?z a Providencia se dii,'nou 
velar sobre este atonio (|ue percor- 
re o espaço, á iiierré de (|uantos 
cometas e outros íigurões de má 
catadura encontra pelo caminho. 
Parece (\i\n a policia lá de cima é 
um pouco mais vigilante que a cá 
yj de baixo: lia tantos mil annos que 
o orbe terráqueo tem sido ameaça- 
do de destruição por tão poderosos 
adversários, e ainda não consta 
(|ue fosse alguma vez seriamente 
atacado por esses malfeitores da 
immensidade. 

Que a terra tem inimigos, 
como todos nós, isso não entra em 
duvida. As chuvas demasiadas, os 
frios excessivos, os intensos calo- 
res, os raios, os aerolitlios não são 
talvez, senão pequenas picardias 
(jue lhe fazem, ou mesquinhas vin- 
ganças que desejam tirar d'ella os invejosos e malquerenles. É 
certo, porém, que ainda não foi possível conseguir, pur mais di- 
ligencias que se tenham empregado, o seu aniquilamento. 

O (pie invejam á terra não sei eu: estou que não serão as 
continuadas dissenções em que os liabitantes d'ella andam sem- 
pre, o que os leva a estéreis pugnas em que o sangue se derrama 
profusamente sem proveito para alguém. 

Entretanto, se é certo o que o padre António Vieira aííirma 
no sermão dos peixes, que é lei do mundo os pequenos serem 
devorados pelos grandes, provavelmente nas cortes dos grandes 
soes e dos planetas milhões de vezes maiores do que a terra, está 
ha muito decretado que o pequeno astro desappareça do mappa 
do ceu, e par isso lhe enviam, de vez em -quando, esses intrigan- 
tes da laia do que em 12 de agosto andou chegado a nós, mas 
que não logrou felizmente os seus intentos. 

EstDU que, n'este ponto, os grandes astros nunca hão de con- 
seguir as suas aspirações, se ellas são efTectivamente as que se lhes 
attribuem. A terra tem incontestáveis direitos para não .ser riscada 
da carta dos mundo, que povoam o espaço, tem a sua historia, 
não serve de obstáculo á marcha dos demais astros, subsiste brio- 
samente ha muitos milhares de annos, e a Providencia que sabe 
avaliar melhor do que ninguém os direitos de cada um, tem-n'a 
livrado, até boje, e continuará de certo a livrar dos grandes peri- 
gos que por vezes a ameaçam. 

Não deixam, porém, de assustar os habitadores estes annun- 
cios imprudentes dos sábios que tanto julgam conhecer os segre- 
dos da natura. Andou muita gente alllicta com a idéa de que tudo 
isto se derreteria, chegando alguns dos menps illustrados a enlou- 
quecer de dor, e muitos dos mais precavidos a fazer testamento 
para deixarem tudo cm ordem. 

Não bastava a uns e outros o terror que lhes causa a vigi- 
lância da canicula durante este mez — o que obriga muita gente a 
passar trinta dias sem se lavar, com receio de dar abalo ao corpo — 
ainda por cima os atormentou a noticia do acabamento do mundo, 
que a íinal é a que menos nos deve atemorisar, porque sendo to- 
dos nós, mais ou menos, egoístas, desejando a maior parte perder 
um olho comtanto que o o visinho fique sem os dois, deve-nos ser 
agradável passar d'efta para melhor vida com a certeza intima de 
que não fica por cá ninguém. 

Duas festas, uma religiosa outra profana, reclamaram este 
mez a presença das elegantes a dos curiosos da capital. A primeira 
foi o le Deum cm S. Domingos para solemnisar na casa de Deus 
as melhoras do sr. Francisco Palha; a segunda a recita dada no 
iheatro da Trindade, com peças d'aquelle escriptor illustre, para 
igual commcmoração no templo da arte. 

A uma e outra assistiram pessoas de todas as classes da so- 
ciedade; fidalgos, escri|)tores, artistas, funccionarios, commer- 
ciantes, todos foram patentear a sua sincera estima áquelie que 
pelo seu talento, delicado trato e génio folgasão só tem amigos, 



embora na agitada vida que tem vivido se lhe haja deparado mais 
de uma occasião de grangcar inimigos. 

No Te Deum cantaram os artistas da Trindade a precio.sa 
composição de Marcos de Portugal, interpretando-a, sem saberem 
musica, muito melhor do (|ue a maior parle dos cantores de pro- 
fissão que é costume ouvir n'estas solemnidades. Quando as atri- 
zes Anua Pereira e Florinda cantaram os solos que liies couberam, 
a attenção dos ouvintes voltouse toda para o eôro da igreja, e no 
rosto de cada um se podia observar notável expressão de applausn 
mais significativo e sincero do que é, por vezes, o ruido das |ial- 
mas nas platéas. 

Na recita foram bem desempenhadas as composições dramá- 
ticas levadas á scena, saudando o publico estrepitosamente e com 
verdadeiro regosijo, o sympathico homem de letras a (juem era 
dedicada a festa. 

A actriz Eniilia Adelaide recitou uma Saudarão do sr. Pi- 
nheiro Chagas, mimosa poesia que, com a devida vénia, trans- 
crevo : 

Resplende na alma do artista 

doce luz de gratidão! 

Não é na mente egoista 

(|ue se infiamma a inspiração. 

Se o auctor vos extasia 

dando ás fiores da poesia 

viço, aroma, seiva e côr, 

é (jue em seu peito irreíjuieto 

tem mais raizes o allccto, 

tem as paixões mais ardor. 

Se, n'esta noite saudosa, 

ao amigo salvo, emfim, 

tecemos cVôa mimosa 

c'o as rosas do seu jardim, — 

é que audazes desejamos 

ipje elle, entre os fioridos ramos, 

entre os loiros da ovação, 

entre as lembranças da gloria, 

guarde a modesta memoria 

da nossa viva aíleição. 

Da prolongada agonia 
saindo, emlim, vencedor, 
vé cm todos a alegria, 
sente de todos o amor. 
Tudo júbilos e fiores, 
de puro affecto penhores I 
E emquanto resplende aqui 
doce festa da'anii?ade, 
o anjo da caridade 
lá fora escuta e sorri. 

O doce prazer da esmola, 
mais que a gloria que seduz, 
nobre espirito consola 
do vate que torna á luz. 
Deu ao theatro, seu sonho, 
poeta — o e.^^tro risonho, 
homem — vida e coração. 
É pois a festa completa : 
Vós applaudís o poeta, 
nós festejamos o irmão. 

O sr. Francisco Palha teve portanto occasião de observar, 
pelos emboras que recebeu na igreja e pelos applausos que llie 
deram no theatro, quanto é querido dos amigos e do publico, aos 
quaes com o seu brilhante talento cómico, tem distraindo e ensi- 
nado tanta vez. 

A publicação recente de vários folhetos e artigos assignados 
por alguns nomes conhecidos, a propósito de uma celebre questão 
iitteraria ventilada ha pouco, é, quanto a mim, infallivel prenun- 
cio de que, em breve, sairemos do mau habito eni que nos acha- 
mos de elogiar ou censurar tudo que se publica, sem se apresen- 
tarem as rasões por que a publicação é boa ou má, nem se discutir 
se essas rasões são ou não procedentes. 



ARTES E LETRAS 



127 



N'estes últimos tempos téem-se notado certos symptonias de 
vida na critica iittiTaria. A pmposito do concurío do sr. Tlieo- 
pliiio Braga e das obras dadas á estampa por este incansável ho- 
mem de letras, tem-se escripto muito. 

Ignoro se o publico ha seguido de perto esta questão deba- 
tida, como já disse, não só cm folhetos, como cm artigos dos pe- 
riódicos de Lisboa e Porto; se não lho téem prestado maior reparo 
téem feito mal, porque as pugnas litterarias valem quasi sempie 
tnais que os estéreis debates politicos, visio que d'aquellas, (|uan- 
do conduzidas por homens como os que llguram agora com res- 
peito ao sr. Theophilo Braga, colhe-se com certeza grandíssimo 
proveito, qual o do desenvolvimento da instrucção; ao passo que 
d'estes, quando se não trata de principies e o tirotiiio de palavras 
ocas se emprega apenas para o já conhecido — desce tu para eu 
subir — o resultado que se oblem é única e simplesmente o maior 
desenvolvimento da fatal descrença que lavra no coração de mui- 
tos, com grande prejuízo para a causa publica. 

Recebi do Brazil vários livros, e, cumprindo a obrigação que 
me impuz de tornar conhecidas, quanto possível, por esta revista, 
a maior parte das obras publicadas no único paiz estrangeiro em 
que se falia e escreve a lingua portugueza, de bom grado vou 
fallar d'ellas. 

De algumas d'estas obras tem já certamente noticia os que 
lidam de perto com a litteratura brazileira, porque foram dadas á 
[)ublicidade no anno passado ou ha mais tempo; aos que até hoje 
se não toem occupado dos escriptores do império, será grato, 
creio, travar conhecimento com taes producções, dignas por bas- 
tantes motivos, da attenção dos portuguezes. 

Denomina-se — Idyllios o formoso volume em que o sr. Cae- 
tano Filgueiras publicou um grande numero de pensamentos poé- 
ticos, alguns dos quaes admiráveis. 

Tem este escriptor trabalhado muito em pró da litteratura 
do seu paiz, procurando dardlie feição nacional, para o que usa, 
entre outros recursos de que se serve, ir buscar as suas imagens 
á opulenta e grandiosa natureza da terra que lhe foi berço. Pre- 
tende outrosim crear uma nova orthograpliia da lingua, afastan- 
do-se inteiramente nas suas publicações, do modo de escrever ado- 
ptado por toda a gente. Prova tudo isto que o sr. Filgueiras é 
escriptor laborioso, que estuda com perseverança e deseja prestar 
bons serviços emprehendendo trabalhos úteis. 

Os versos publicados no livro a que me refiro, são versos de 
verdadeiro poeta, versos que dão a medida do grande talento do 
auctor. Os últimos do volume — Epistola o Machado de Assis, 
que mereceram largos elogios do sr. visconde Castilho e dosr. Ca- 
miUo Castelli) Branco, são realmente um primor de arte e bom 
gosto. Conheço poucas descripções em verso com tanto vigor e 
propriedade de colorido. É poeta-pintor quem versifica assim. 

Da talentosa escriptora brazileira a sr.' D. Narcisa Amália 
recebi um folheto denominado — Celeste. É composição que se lê 
n'um quarto de hora, e é esse, quanto a mim, o feu grande de- 
feito. A quem escreve como a sr." D. Narcisa Amália não devia 
ser permittido publicar obras de tão pequeno tomo; o leitor enle- 
vado na poesia e elegância do estylo do livrinho, chega ao fim e 
entristece. Succede-lhe como ao esfaimado a (juem sirvam apenas 
uma pequena parte da melhor iguaria; cresce-lhe o appetite. Como 
porém as obras litterarias se não avaliam pelo peso, fez bem a 
sr.' D. Narcisa Amália, visto entender que o assumpto lhe não 
dava para mais, em publicar aquellas poucas paginas que são 
nova e irrefragavel demonstração de quanto vale o seu talento. 

Bibliotheca Popular chama, o sr. Alfredo Moreira Pinto a 
umas cadernetas que publica periodicamente, contendo vários as- 
sumptos, em prosa e verso, muito curiosos eassignados por diver- 
sos escriptores. É publicação útil e além de útil imiitoagFadaveK 

Acompanhavam estas obras mais duas: uma a Biographia 
do actor Furtado Coelho, escripta pelo sr. Francisco António 
Felgueiras Subrinlio, e outra a Historia da, trasladação da corte 
portugneza para o Brazil em 1807-1808, que contém a historia 
da descoberta e fundação da cidade de S. Sebastião do Rio de Ja- 
neiro, os diversos nomes que tiveram as suas ruas e as chácaras 
por onde passaram, precedida pela physionomia social, moral e 



politica, pelo dr. Mello Moraes, da cidade de Alarjoas. Do pri- 
meiro livro considero- me dispensado de fallar por(|ue é bem co- 
nliccido em Portugal, onde ate, se não me engano, se acha á 
venda; do segundo nada posso dizer porque, sendo grosso volume 
de grande formato, não tive ainda tempo para o ler. 

Ao fallar de um livro de impcrtancia histórica, devo tam- 
bém referir-me ao terceiro volume da Synopse dos decretos remet- 
tidos ao extmcto conselho de (juerra, collecção importantissima de 
documento^ para a historia militar de Portugal, desde 1640, em 
que foi creado o conselho de guerra, até 1834, em que foi exlin- 
cto. Estes documentos são colligidos pelo sr. Cláudio de Chaby, 
conspícuo e illustrado escriptor (|ue se tem entregado uliimamentc 
a estudos positivos, produzindo obras que são do mais útil subsi- 
dio para a liistoria pátria. 

O terceiro volume da Synopse, a julgar pelos precedentes, 
deve conter importantes documentos (jue, de certo, esclarecerão 
convenientemente aos que desejarem saber dos factos militares da 
epocha a que elles se referem. U"aqui o interesse que encerra 
o livro, não d'a(|uelle interesse que faz palpitar o coração das se- 
nhoras ao voltarem a folha do romance (|ue lêem — interesse que 
se evapora como fumo depois de lida a novella, sem deixar de si 
a mínima porção de proveito, quando não produz desproveito — 
mas interesse verdadeiro para quem trabaliia e especialmente se 
dedica a assumptos da historia do paiz. Por isso recommendo a 
estes o novo volume publicado pelo sr. Chaby, e previno as se- 
nhoras de que não pensem n'esta obra, nem mesmo desejem vel a. 

Verificouse na academia real das bellas-artes a votação so- 
bre os trabalhos dos concorrentes ao subsidio do estado para irem 
cursar no estrangeiro architectura, pintura de paizagem e gravu- 
ra. Em architectura foram approvados por unanimidade os traba- 
lhos do sr. José Luiz Monteiro; em gravura furam approvados 
por maioria os do sr. António José Nunes Júnior, e em pintura 
nenhum dos três candidatos obteve maioria absoluta. 

Com relação aos últimos, foi esta a peior solução que podia 
ter aquelle notável certame. Devendo o governo, á vista dos tra- 
balhos expostos, mandar estudar fora dois dos candidat<is, em vez 
de um, como era do programma, não manda nenhum. Altos des- 
tinos ... do jury! 

RANOEL DE LIMA. 



DIVERSAS i^OTICIAS 



=^== A academia de bellas artes do Porto foi mimoseada por 
dois cavalheiros com uirja porção de gravuras representando as lug- 
gie de. Raphael, no Vaticano; seis retratos a óleo devidos ao pincel 
de João Glama; um esboceto a olco de Joaquim Raphael e um ma- 
nequim para estudo de roupas. 

=== Publicou-se no Brazil o primeiro numero de um novo pe- 
riódico exclusivamente dedicado á mocidade, que tomou por titulo 
— Centro académico, e por divisa — La presse, qui fait le jour dans 
les esprits, crée la fraternité. (V. Hugo.) 

U seu programma é o seguinte : 

«Attrahida por uma secreta, rnas natural sympalhia, ou pelo 
interesse de uma causa comnimii, a mocidade reune-se às vezes e 
constitue um pequeno núcleo, cujas forças trabalham em harmonia 
para o mesmo liiii. 

N'estas circumslancias, o alvo nao pôde ser outro, que nSo o 
cultivo do espirito sedento de progresso e de gloria. A alma dos mo- 
ços necessita expandir-se, communicar-se, aperfeiçoar-se e empregar 
em alguma cousa nobre o excesso de vigor que sente. 

Foi d'este modo que nasceu o — Centro académico. Elle parle 
de um d'esses núcleos tral)alhadores a convidar os obreiros, que an- 
dam dispersos. É necessário que a mocidade trabalhei » 

Também o sr. Francisco Alvares da Silva Castilho publicou um 
livro para creanças denominado — O principio da sabedoria é o temor 
de Deus. 

Historia e tradições da provinda de Minas Geraes é o titulo de 
um livro recentemente dado a publico pelo sr. doutor Bernardo Gui- 
marães, brazileiro. 

A casa Garnier, do Rio de Janeiro, vae editar um livro de poe- 
sias da nossa collaboradora a ex.°" sr.* D. Narcisa Amália, denomi- 
nado — Nebulosas. 



128 



ARTES E LETRAS 



Também se publicaram ultimamente as seguintes obras de auclo- 
res brazileiros: 

Esposa e mulher, romance pelo sr. A. D. de Paschoal. 

Poesias satyricasj quinto volume, pelo sr. padre José Joaquim 
Corria de Almeida. 

Carta dirigida ao reverendo sr. padre Almeida Martins, pelo Er- 
mitão. 

Biographia do sr. conde de Ilaguahy. 

A situação e os dissidentes, pelo sr. doutor José Tito Nabuco 
de Araújo. 

Geographia alagoana, ou descripç3o physica, politica e histórica 
da provinda das Alagoas, pelo sr. doutor Tbomaz de Oomiim Espín- 
dola (2.' edição^. 

Caminho de ferro de D. Izahel, pelo doutor André Rebouças, 
importante estudo sobre o traçado da via férrea de Paraná a Matto 
Grosso. 

Um novo livro do sr. doutor Bernardo GuimarSes, auctor do Ga- 
rimpeiro, com um conto histórico e dois romances intitulados — A 
filha do fazendeiro c Zupyra. 

Analyse critica da « Batalha de Campo Grande • e do • Com- 
bate de Riachuelo», dos distinctos mestres doutor Pedro Américo e 
commendador Victor Meirelles, pela sombra de Giorgio Vasari. Re- 
cebemos este folheto, que agradecemos. 

Polychinello, novo periódico critico, theatral, agrícola, etc. 

Eccos do Povo, folhetos de 16 paginas, moldados pelas Farpas. 

O sr. Jo5o Pedroso Gomes da Silva vae publicar uma col- 



lecçilo de trahalhos em gravura da sua cxecuçSo, intitulada — A gra- 
vura de madeira em Portugal, estudos em todas as especialidades e 
diversos estylos. A impressão das gravuras é feita em Inglaterra, e 
com a ultima gravura será ofTerecido a todos os assignantes um pro- 
logo devido á penna de um dos nossos melhores escriptores. Esta pu- 
blicação tem por fim esclarecer o publico sobre o estado de adianta- 
mento em que se acha a gravura sobre madeira em Portugal. Nin- 
guém mais competente do que o sr. Pedroso para t3o útil emprehen- 
dimento. 

Está-se construindo em Vienna d'Austria um grande thea- 



tro para funccionar durante a epocha da exposição em 1873. Deve 
conter cinco mil pessoas. O director dos espectáculos é o barSo 
Schwartz. Calcula-se a ediíicação em 250:000 tnalers. 

Na exposição aberta em 15 de junho na academia imperial 



das bellas artes do Rio de Janeiro figuraram cento noventa e nove 
obras dos seguintes artistas; — Agostinho José da Motta, professor 
de paizagem da academia, 3 paizo(/ens — Alfredo Baptista, uma 
coroa de loiro em prata — António Araújo de Sousa Lobo, 1 retra- 
to — António de Oliveira Fernandes, alumno da academia, 6 paiza- 
gens, sendo 2 copias — Augusto Rodrigues Duarte, alumno da aca- 
demia, 6 retratos — Bolle & Girard, 1 desenho architectonico (fa- 
chada da casa Decap & Autéage em construcção na travessa de S. 
Francisco: — appiicação da arte cerâmica á decoração dos edifícios) 

— Eduardo de Martino, membro correspondente da academia, 1 ma- 
rinha — Emílio Bauch, 1 quadro de retratos — Ernesto de Sousa 
Reis Carvalho, oílícíal de gravura da casa da moeda, retrato no an- 
verso de uma medalha — Estevão Roberto da Silva, alumno da aca- 
demia, 4 retratos a lápis — 14 desenhos de alumnos da aula de de- 
senho do arsenal da marinha, dirigida por Félix Matheus VVarletta 

— Félix Perret, 8 quadros de género — Francisco José Pinto Car- 
neiro, ofQcial de gravura da casa da moeda, 1 allegoria no reverso 
de uma medalha — Francisco Caminhoa, 1 desenho do modelo do 
monumento que se deve erigir no Campo da Acclamação — Frede- 
rico Desíderio de Barros, alumno da academia, 6 paizagens e mari- 
nhas — Guilherme Henrique Doer, 6 quadros de fructos a pastel e 
4 o lápis, também de frttctos — Gustavo James, 7 marinhas — Hen- 
rique Nicolau Vinet, 7 paizagens e marinhas — Henschel & Benque, 
photographos allemães, 10 retratos — D. Isabel ílenninger, discípula 
das escolas de Paris e de Munich, 3 quadros de natureza morta, 
sendo 2 a óleo ela aguarella, 1 copia de um quadro de Teniers e 
1 leque, pintura a gouache sobre setím — João Zeferino da Costa, 
pensionista da academia em Roma, H estudos do natural e 7 copias 

— D. Joanna Thereza Alves de Carvalho, 2 estudos do natural — 
Commendador Joaquim da Rocha Fragoso, retratista de Sua Alteza o 
conde de Eu, 10 retratos^ iosé Ferreira Guimarães, photographo 
da casa imperial, 2 pltotographias, sendo uma sobre porcellana con- 
vexa — José Maria dos Santos Carneiro júnior, 3 desenhos (copias) 

— José dos Reis Carvalho, professor jubilado da escola de marinha 
e honorário da academia, 1 paizagem e 1 quadro de flores — Júlio 
Mill, 3 paizagens c 1 retrato lithographado — Leopoldo Heck, gra- 
vador da casa imperial, 3 desenhos á penna — Manuel Francisco 
Tavares, 1 paizagem — Manuel Joaquim S''aleiitim, 2 miniaturas em 
esmalte — Modesto Ribeiro, photographo — 4 trabalhos photogra- 
phicos — Nicolau Facchinetti, pintor de paizagem de Sua Alteza o 
duque de Saxe, 3 marinhas e paizagem — Doutor Pedro Américo 
de Figueiredo e Mello, lente de historia das artes csthetica e archeo- 



logia da academia, 3 quadros, sendo um — A batalha .do Campo 
Grande, outro o esboço d'este quadro, e o terceiro — Sua Mages- 
tade o senhor 1). Pedro I na abertura da Assembléa legislativa, 
em 1826 — Pedro António da Costa, 1 ramilhete de flores de prata 

— Poluceno Pereira da Silva Manuel, 5 retratos — Rodolpho Ber- 
nardelli, alumno da academia, 2 bustos em gesso, sendo um o re- 
trato do celebre trágico Rossi — Sanderson, 6 quadros de natureza 
morta, flores e paizagem — M. StelTen, surdo-mudo, 3 quadros, a 
saber: — Uma batalha. Um cão e í/í« retrato— \iclor Meirelles 
de Lima, professor de pintura histórica na academia, 5 quadros, a 
saber : ^ Combate naval do Riachuelo, Passagem de Humaytá e 
3 retratos — Villa, 1 copia — 15 painéis pertencentes á collecção 
nacional, restaurados ultimamente pelo conservador da Pinacotheca 
Carlos IjUÍz do Nascimento — Ignacio Tavares de Sousa & C.*, 5 
mozaicos de madeira e 1 Novo instrumento para se conhecer a di- 
latação e retratação das madeiras, inventado e feito pelo expositor 

— Alfredo Jorge Eugénio Seellinger, 3 retratos. 

O ministro da instrucçSo publica em Itália recebeu uma 



carta do director do Museu britannico, rogando-lhe que tome as ne- 
cessárias providencias, a fim de que se proceda com o maior cuidado 
ás escavações que se estão fazendo na rua Vinte de Setembro, em 
Roma, onde se espera descobrir o Campo Scelerato, logar em que 
antigamente eram enterradas vivas as vestaes criminosas. 

=^^= Publicou-se o numero-programma de um novo periódico 
quinzenal, intitulado — Gazeta musical de Lisboa. Começará a dis- 
tribuir-se no 1." de outubro próximo e cada numero será acompa- 
nhado de uma peça de musica dos melhores auctores, de quatro, seis, 
oito ou dez pagjnas, nitidamente lithographada e impressa em ex- 
cellente papel. E módico o preço e útil a publicação. Deus a avi- 
vente. 



Devrient. 



Morreu em Dresde o muito conhecido actor allemão Emilio 



plauso 



= No Rio de Janeiro tem-se representado com grande ap- 
a opereta cómica — Telegrapho eléctrico, cuja musica é es- 



cripta pelo distincto compositor brazileiro Carlos Gomes. Parece que 
este fecundo artista, auctor da opera — Guarany, cantada com ap- 
plauso em Itália c Inglaterra, escreveu mais uma composição intitu- 
lada — Fosca, a qual, segundo refere um periódico inglez, é a peça 
escolhida pela direcção do theatro Scala, de Milão, para a abertura 
da estação do inverno, que deve ser em 26 de dezembro. 

O Campeão das Provindas disse que o sr. marquez de 



Sousa comprara por 120,â0(X) réis o quadro que existia na egreja da 
freguezia de Nossa Senhora da Gloria, da cidade de Aveiro. Referiu 
mais o dito periódico, que os entendidos altribuem grande mereci- 
mento áquella pintura, comquanto o retábulo se ache muito deterio- 
rado pelo abandono em que esteve muitos annos, chegando a ser ven- 
dido por 120 réis ao sacristão da freguezia. 




(J2-liipiiEiiu Naciosal-1873 




Q 
P 



3- 

CO 






o § 
^ 5 



- H 



ARTES E LETRAS 



129 



ARTES E LETRAS 




Lisboa — Setembro ue 1872 




CUSTODIA DA IGREJA DE NOSSA SENHORA DE ENTRE-AS-VINHAS 
DA VILLA DE MERTOLA 



UANDO se constituiu a monar- 
chia, SC umas causas se oppu- 
nham ao desenvolvimento das 
artes em Portugal, outras, 
pelo contrario, o favoreciam e 
ajudavam. 

A grande agitação dos 
povos nas luctas sangrentas 
que precederam ou acompa- 
nharam a mudança de leis e 
de costumes, a instabilidade 
''''' do presente e a incerteza do 

futuro, afastavam naturalmente os espiri- 
tes da cultura das artes e das letras, mais 
confonno aos ócios da paz, que ás desor- 
dens da guerra. 

Mas para a transformação social que 
então se operou no occidenté da penín- 
sula contribuíram em grande parte os es- 
desejo de correr aventuras ou de bus- 
car fortuna trouxe para longe do suas terras. Eram ar- 
tistas muitos d'elles, architectos, esculptores ou pintores, 
educados nas cidades da Europa, onde, por esse tempo, 
mais prosperavam e floresciam as artes. 

A outros, que vieram a ser prelados ou dos primei- 
ros senhores em Portugal, formara-se-lhes o gosto artís- 
tico em suas pátrias e nas peregrinações á Terra Santa. 
Com as riquezas que tomavam aos moiros pagavam os 
segundos o trabalho dos primeiros. 

Perderam-se muitos dos monumentos mais antigos 
da arte portugueza, porém os capiteis da Sé e da igreja 
de S. Christovíio de Coimbra, os da porta da Sé de Lis- 
boa, os lavores da igreja dos Templários em Thomar, 
provam a perfeição dos artistas, que, no reinado de 
D. Aifonso Henriques, trabalhavam em Portugal. 

E maior ainda a falta de subsidies para a historia 
da esculptura em metal d'esse tempo. Sabemos, porem, 
pelos documentos escriptos, que se lavravam para as 
igrejas vasos e cruzes de prata e até de oiro massiço, e 
pela perfeição da esculptura em pedra se ha de avaliar 
a da esculptura em metal. 

El-Rei D. Sancho I e sua mulher a rainha D. Dulce 
offereceram aos mosteiros de Alcobaça e de Santa Cruz 
de Coimbra objectos para o culto delicadamente lavra- 



trangeiros que 



dos. Do século xiii o dos seguintes conservam-se algu- 
mas peças de metal por onde melhor se avalia o estylo 
e a perfeição dos esculptores quo as fabricaram. 

São dos séculos xv e xvi os monumentos mais ricos 
e numerosos d'esta espécie de esculptura. 

Entre essas alfaias do maior preço que attestam a 
antiga opulência das cathedraes c outras igrejas de Por- 
tugal contam-se algumas custodias primorosas. 

No thesouro da Sé de Évora guarda-se uma de 
prata doirada, admiravelmente esculpida, talvez ainda 
no século xv. Suppíle-sc que seria generosa dadiva do 
bispo D. Aftonso de Portugal, que cingiu a mitra ebo- 
rense desde 148.') até 1522. 




<3g_ 



Em Coimbra conserva o cabido a custodia, que nos 
fins do século xv ou nos principies do século xvi deu o 
bispo D. Jorge de Almeida á sua igreja, E do estylo 
ogival, e tão perfeita e tão elegante, que muito bem con- 
diz com o celebre retábulo que o mesmo magnifico pre- 
lado mandou fazer para a capella-mór da velha Sé co- 
nimbricense. 

É ainda do mesmo estylo, posto que já do anno de 
1534, a da collegiada de Nossa Senhora de Guimarães, 

Emfim, a todas sobreleva, pelo valor intrinscco e 
pela excellencia da esculptura, a que el-rei D, Manuel 
mandou fazer para o mosteiro de Bclem. 

Ao tempo que n'outras nações da Europa se eflfei- 



íi.»9Jcl872 



130 



ARTES E LETRAS 



tuára havia já muitos annos a grande revolução do re- 
nascimento das artes, Portugal conservava com respeito 
o estylo consagrado durante séculos pela representaçíío 
dos dogmas, symbolos c aspiraçSes do christianismo. 

Seguido dos innumeros artistas que trabalhavam 
em Portugal, opulentado com os vivos o brilhantes re- 
flexos oriontaes que admiravelmente o apropriavam para 
representar as idéas gloriosas da cpocha do D. Manuel, 
identificado emfim com as tradições, com as empresas, 
com o génio nacional, o estylo que ainda hoje denomi- 
namos manuelino veiu a cair de todo em desuso no rei- 
nado seguinte de D. João III. 

Então se introduziu em Portugal o estylo clássico, 
imitado das obras primas de Grécia e Roma, e osten- 
tando já por toda a Europa elementos uniformes, medi- 
das invariáveis e a severidade das rectas que substituiam 
a caprichosa elegância das curvas ogivaes. 

E d'esto estylo, como se vê na gravura que a re- 
presenta, e, por conseguinte, posterior ao tempo de D. Ma- 
nuel, e talvez ao de D. João III, a custodia da igreja 
de Nossa Senhora da villa de Mertola. 

Sem a elegância o graciosa magestado do estylo 
ogival, ainda assim a custodia a que alludimos é uma 
obra digna de attenção pelo bom desenho do todo e apu- 
rada esculptura de cada uma das partes *. 

A. FILIPPE SIMÕES. 



XX^^QOOO— 



O ILLISTRE DOUTOR MATHEIJS 

POR 
ERCKMANN-CHATKIAN 

(ContlnuaçSo) 

— Mestre Frantz, disse de repente Coucou Peter, 
gosta de torta de creme? 

— Porque perguntas tu isso? disse o doutor admi- 
rado. 

— Porque ha três dias que a tia Jacob não pensa 
senão em fazer kougelhof e tortas do creme; é, como 
quem diz, a sua idéa phiíosophica desde que o tempo da 
feira se aproxima. O tio Jacob, esse é que só cuida de 
engarrafar vinho, de fumar cachimbo atraz do forno, o 
quando a mulher grita, deixa gritar, , porque realmente 
não ha meio algvmi de a fazer calar. E como uma galli- 
nha choca, quanto mais a enchotam, mais ella grita. Até 
que chegámos! Que de gente! Apeie-sc, sr.* Thereza, 
apeie-se. Sr. Hans Aden, faz favor de segurar nas rédeas 
de Schimel? Eu vou pedir ao tio Jacob para nos dar 
agasalho. 



1 Sc bem nos recordámos, tem grande similhança com esta 
custodia a do convento de Santa Catharina em Évora. 

É também de prata doirada. No pé representa uma torrinha 
com sua cúpula e nichos, muito similhantc á <lo aqueducto d'aquelia 
cidade, cujo desenho appareceu no Archivo Fittoresco, tomo x, 
pag. 33. E provável que o architecto e o ourives imitassem n'uma 
e n'outra parte alguma construcçào notável da Itália. 

A torrinha do aqueducto é talvez obra do italiano Pasquino 
Vilanes, que, em lõStí, dirigia a obra dos canos que haviam de le- 
var a agua de Prata ao laranjal ou jardins reaes. 

Demoliu, ha poucos dias, este apreciável monumento a ca- 
mará municipal de Évora. 



Estavam então defronte da estalagem. A multidão 
movia-se em volta d'elles. Viam-se os freguezes, avinha- 
dos, subir o descer a escada cambaleando; retiniam os 
copos; ouvia-se gritar por cerveja c por couves; as crea- 
das, que os hospedes abraçavam de passagem, davam 
gritos e riam; a tia Jacob preparava a loiça e o marido 
abria as torneiras na adega. 

Coucou Peter entrou na estalagem, promettendo vol- 
tar breve. 

Appareceu com eíFeito, passados poucos minutos, 
com o próprio Jacob, um bom homem gordo e prasentei- 
ro, com as mangas arregaçadas até aos cotovellos. 

— O que eu desejava era servi-lo, meu caro, dizia 
cllc, mas tenho todos os quartos occupados; resta-me o 
palheiro o os telheiros, vejam se lhes serve. 

Coucou Peter olhou para a sr. Thereza com um ar 
desanimado, e percorreu com a vista a rua onde o povo 
se accumulava. 

— Se fosse só para mim, tio .lacob, aceitava já. Um 
pobre diabo como eu dorme sempre na palha. Mas bem 
vê que esta pobre mãe, esta creancinha, o doutor Ma- 
theus, que é a nata dos philosophos. . . replicava elle com 
uma voz que ])artia o coração. Então veja lá, tio Jacob, 
ponha-se no nosso logar. 

— Que queres, Coucou Peter, disse o estalajadeiro, 
não posso fazer com que os meus quartos não tenham 
gente. 

— Não se incommode tanto por nossa causa, sr. Cou- 
cou Peter, disse então a sr. Thereza; nós não somos tam- 
bém tão difficeis de contentar. 

— O que, sr. Thereza! Pois quer ir para um te- 
lheiro? 

— E porque não? disse ella sorrindo. Quantas e 
quantas se dariam por muito felizes de ter um, no meio 
d'esta confusão, não é verdade, Hans Aden? 

Mas Coucou Peter já não ouviu a resposta do res- 
peitável Hans Aden. Corria já para o quintal a buscar 
lenha gritando: 

— Muito obrigado, tio Jacob, muito obrigado. 

— Não deites fogo ao palheiro, disse o estalajadeiro. 
— Não ha de haver novidade, tio Jacob. 

A noite estava escura. Pouco tardou que uma fo- 
gueira viva e alegre alumiasse o vigamento o as telhas 
das casas. 

Não era de certo o quarto magnifico de Obcrbronn, 
adornado com duas commodas e com uma cama de pen- 
nas onde a gente se enterrava. Os barrotes negros su- 
biam de andar em andar até ao cimo do tecto. Do lado 
da rua quatro pilastras de cai-valho preservavam das 
correntes do ar. Não havia alli espelhos de S. Quirin, 
apenas se viam as portas da cavallariça ao longo da pa- 
rede, e ao fundo os porcos levantando com as trombas 
as portas dos chiqueiros, grunhiam como para dar aa 
boas noites. 

Frantz lembrou-se com satisfação que outros pro- 
phetas haviam habitado legares similhantes. 

— ^A virtude, disso elle com gravidade, habita nas 
choupanas. Felicitemo-nos, meus amigos, de não viver 
em palácios. 

— E exacto, respondeu Coucou Peter, mas é bom 
sempre fazer de modo que se não durma na lama. 

Todos então começaram a trabalhar. Hans Aden 
subiu a escada do palheiro e começou a deitar pela ja- 
nella feixes de palha. Matheus descarregou Schimel e 
Bruno, cmquanto a sr.* Thereza tirava as provisíics do 
um alforge. 

Coucou Peter, esse, attendia a tudo : dava forragens 
aos animacs, estendia-lhes a cama, pendurava os appa- 



ARTES E LETRAS 



131 



relhos, provava o vinho, sem que no meio de tudo isto 
perdesse do vista o ponto onde dormia o filho de The- 
reza. 

Por fim installaram-so commodamente sobre os mo- 
lhos do palha e começaram a cear. 

Outras seenas eguaes se passavam na rua Tonnelet- 
Rouge. Cada grupo de romeiros tinha a sua fogueira, cuja 
liu2 se reflectia nas casas próximas. 

Pouco a pouco começou a succeder ao tumulto um 
grande silencio. 

Toda esta boa gente, extenuada, conversava cm voz 
baixa, como se estivesse em familia. Era também o que 
íiiziam Coucou Peter, Hans Adon, a sr.^ Thoreza e Ma- 
theus. Pareciam amigos velhos, sentados em volta da fo- 
gueira, com uma garrafa a circular de mão em mão, ale- 
gres, á vontade, como se fosso em sua casa. 

•;— Queira servir-se, sr.* Thereza, dizia Coucou Pe- 
ter. E magnifico este vinho da Alsacia. De que sitio é, 
sr. Hans Aden. 

■ — De Ekersthel. 

— Ah! ah! logo vi. É afamado. Dê-me um bocado 
de presunto. 

— Aqui tem. 

— A sua saúde, mestre Frantz. 

— A vossa, meus filhos. Que bella noite! Como a 
aragem é suave! O grande Demiurgos tinha previsto que 
os seus filhos não achariam onde se abrigassem. O grande 
Ser, exclamou elle, ser dos seres, acceita os meus agra- 
decimentos, que partem de um coração sincero. Não é só 
por uós, meus filhos, que devemos agradecer-lhe, mas por 
essa innumeravel multidão de creaturas, vindas de tão 
longe com o fim nobre c louvável de o venerar. 

— Sr. Hans Aden, porque se não senta? aqui, n'este 
molho de palha. 

— Estou bem assim, Coucou Peter, obrigado. 

A creança estava dentro de um dos cestos de Schi- 
mel, encostado á parede. De momento a momento Cou- 
cou Peter erguia a coberta, para ver se o filho de The- 
reza dormia. 

Schimel e Bruno comiam tranquillamente, e quando 
a luz vacilante projectava os raios nas pilastras, nas ja- 
nellas cheias de palha, nas paveias pendentes dos molhos, 
nos carros, nas canecas de cerveja, nos mil objectos con- 
fusos da sombra; quando illurainava a cabeça serena e 
meditativa do illustre doutor, a physionomia suave de 
Thereza, ou a expressão jovial de Coucou Peter, parecia 
ver-se um velho quadro da Biblia. 

Pelas onze horas Matheus pediu licença para dor- 
mir. Já a esse tempo dormia profundamente o corpulento 
Hans Aden, estendido ao longo da parede. A sr.* The- 
reza e Coucou Peter, que não tinham somno, continua- 
ram a conversar em voz baixa. Antes de adormecer 
Frantz ouviu a voz do sereno repetir no meio do silen- 
cio geral: 

— Onze horas! onze horas dadas! 

Depois, passos que se afastavam e o ladrar de um 
cão preso. Entreabriu uma vez os olhos e viu a sombra 
das orelhas de Schimel, que se agitavam, destacando-se 
na parede como se fossem as azas de uma borboleta. 

As creadas da estalagem das Tres-Rosas trancavam 
a esse tempo a porta e riam na casa de entrada: foram 
as suas ultimas impressões. 



XI 



O sol entrava já por sob as pilastras do telheiro, 
quando estrondosas gargalhadas acordaram Frantz Ma- 
theus. 



— Ah! ah! ah! não vê? não vê, sr.* Thereza? dizia 
Coucou Peter; não vê que demónio este? Não é tão ve- 
lhaco? Verá que demónio d'aqui sae, verá! 

Frantz, que dirigira as vistas para o sitio d'onde 
partiam estas alegi-es exclamações, viu o discipulo ao pé 
de uma espaldeira encostada ao muro da estalagem e por 
onde cresciam arbustos que a enchiam de magníficos pe- 
cegos. 

Coucou Peter tinha na mão um d'estes pecegos, que 
mostrava á creança deitada no cesto, que já estava ao 
dorso de Schimel. O pequeno estendia as mãos para 
agarrar o fructo, á proporção que o tocador lh'o dava e 
tirava, rindo a ponto de lhe rebentarem as lagrimas dos 
olhos. 

Do outro lado a sr.* Thereza olhava sorrindo para 
esta scena. Parecia á primeira vista feliz, e todavia via- 
se-lhe no olhar uma vaga melancolia. Hans Aden, o cor- 
pulento Hans Aden, com o cotovello encostado á espal- 
deira, observava com gravidade, fumando o seu ca- 
chimbo. 

Não se pôde imaginar nada mais encantador do que 
esta scena matinal. Via-se uma alegria tão franca, tanta 
ternura na physionomia de Coucou Peter, que o próprio 
Frantz se poz a dizer: 

— Que boa cara! Brinca como se fora uma crean- 
ça ! Como se sente feliz ! E de certo o melhor rapaz que 
eu conheço! É pena, é pena que os seus instinctos sen- 
suaes e o seu desordenado amor da carne o arrastem 
muitas vezes além de todos os limites convenientes. 

Foi pensando tudo isto que o doutor se levantou. 
Sacudiu a palha que tinha no fato; depois, adiantando- 
se, tirou o chapéu desabado, e deu os bons dias aos que 
o cercavam. 

A sr.* Thereza estava tão pensativa que apenas lhe 
correspondeu com uma inclinação de cabeça. 

Coucou Peter gritou-lhe logo : 

— Olhe, mestre, veja que linda creança! Como é 
engraçada! diga lá, mestre, diga de que raça ella é. 

— Essa creança é da familia dos piscos, respondeu 
Matheus, sem hesitar. 

— -Da familia dos piscos! repetiu Coucou Peter es- 
pantado: Olhe, mestre, não é pelo gabar, mas sempre 
lhe direi que ha muitos motivos anthropo-zoologicos que 
me fazem suppôr que ella seja da familia dos pis- 
cos. 

Hans Aden acabou de fumar, metteu o cachimbo no 
bolso e disse á inulher: 

— Vamos, Thereza, é tempo de ir á feira antes que 
lá esteja muita gente. 

— Vem comnosco, mestre? perguntou Coucou Peter. 

— De certo. E Bruno? 

— Está na cavallariça; não precisa traze-lo. Por a 
sr.* Thereza querer comprar muitas coisas é que nós le- 
vamos Schimel. 

Estas explicações bastaram a Matheus. Pozeram-se 
a caminho. 

A aldeia estava cheia de gente. Tinham, por ordem do 
maire tirado os carros e o gado ; as janellas estavam en- 
grinaldadas, e as ruas cobertas de folhas e flores. O que 
sobretudo agradava ao illustre philosopho era o cheiro 
das flores colhidas de fresco e o do musgo das grinaldas 
que a brisa baloiçava. 

Ia também admirando as raparigas com a touca e 
o corpete bordados com lentejoilas scintillantes ; as ve- 
lhas que adornavam com vasos e candelabros o throno 
que se erguia no meio do largo, eram ainda mais dignas 
de ser vistas, porque usavam os antigos trajes de seda 
amarella ou côr de violeta de grandes ramagens, com a 



132 



ARTES E LETRAS 



touca de brocado de oiro, o mais rico fato do mundo, 
omfim. 

— Trabalhava-se d'antes melhor do que hoje, mes- 
tre, dizia Coucou Pctcr. Lembro-me que minha avó tinha 
um vestido novo que íôra da avó d'olia. E agora quatro 
a cinco annos fazem tudo velho! 

— Tudo, monos a verdade; a verdade é sempre jo- 
ven: o que Pythagoras dizia ha dois mil annos é tão 
verdadeiro como se o houvesse dito hontcm. 

— Bem sei, ó como as velhas rebecas, respondeu 
Coucou Peter; quanto mais se tocam melhores parecem, 
até que se partem. Concertam-se, é certo, mas a final 
tantos bocados novos se lhes põe, que já, lá não existe 
nada do antigo. 

Assim fallando chegaram á feira. Já lá se achava 
muita gente. Atordoava 
08 ouvidos um ruido con- 
fuso de assobios, de pifa- 
nos, de cometas. As bar- 
racas estavam cheias do 
quinquilherias, de espa- 
das de pau, de bonecas, 
de espelhos, do relógios 
de Nuromberg. Ouviam- 
se confundidas as vozes 
dos mercadores e dos pe- 
lotiqueiros. 

Coucou Peter ardia 
em desejos de fazer um 
presente á sr.* Thereza: 
não fazia senão xemecher 
nas algibeiras, volta-las, 
sem que achasse coisa al- 
guma. Como encontrar 
dinheiro? Occorreu-lhe a 
idéa de voltar á estala- 
gem e vender o appare- 
Iho de Bruno ao primeiro 
judeu que topasse. Mas 
Hans Aden ficara um 
pouco atraz... então teve 
uma outra idéa: 

— Mestre, disse elle, 
segure na rédea de Schi- 
mel, que eu já venho. 

Depois foi ter com 
Hans Aden e disse-lhe: 

— Sr. maire, esqueci 
a minha bolsa na estala- 
gem, porque eu e o meu 
illustre mestre guardamos 
o dinheiro na sella de 
Bruno. Pedia-lhe que me 
emprestasse dez francos 
até logo. 

— Com todo o gosto, disso Hans Aden fazendo uma 
careta, com todo o gosto. 

E deu-lho dez francos. 

Coucou Peter tomou então lun ar importante e vol- 
tou a tomar o braço da sr." Thereza, conduzindo-a diante 
da mais bem fornecida barraca. 

— Peço-lhe, sr.* Thereza, que escolha de tudo que 
lhe agradar. Este chalé... estas fitas... este corpcte... fi- 
que com tudo, com tudo... não faça ceremonia. 

Como ella quizesse apenas tirar uma fita côr de 
rosa, obrigou-a elle a escolher um magnifico chalé. 

— Não, não, sr. Coucou Peter, dizia Thereza, dei- 
xo-me só levar esta fita. 




Obrigou-a a acceitar am magnifico cbale 



— A fita o o chalé, sim? Fique com ambos por 
amor de mim, disse ollo em voz baixa. Se .soubesse como 
isso mo faz feliz... 

E comprou um cãosinho de assucar para a creança, 
depois umas nozes doiradas, depois um tambor, e não 
descansou emquanto os dez francos lhe não desappare- 
ram até ao ultimo centésimo. Sentiu-se então satisfeitís- 
simo, o quando Hans Aden se aproximou gostou de ver 
que Coucou Peter cercara de attençSes sua nmlher. 

Quanto ao illustre philosopho, a vista de toda esta 
gente causava-lhe a maior exaltação; queria a todo o 
transe pregar, e dizia a cada passo: 

— Coucou Peter, era tempo de pregar. Olha, olha 
para esta gente... Que occasião, que magnifica occasião 
para annunciar ao mundo a minha doutrina! 

— Não pense n'Í880, 
mestre, respondeu o bom 
do apostolo, não pense 
n'isso. V6 aquelle gendar- 
me? pois ahi tem quem 
logo o prenderia. Só os 
charlatães tem direito de 
pregar nas feiras. 

Deram assim todos 
três volta ao largo. 

A sr.* Thereza com- 
prou tudo de que preci- 
sava para sua casa: uma 
escova, colheres de esta- 
nho, uma escumadeira e 
outros objectos do mesmo 
género. Hans Aden com- 
prou uma foice, que dava 
quando se lhe tocava um 
som claro e vibrante, ta- 
mancos e uma escova 
para cavallos. Quando 
eram dez horas já um dos 
cestos de Schimel estava 
cheio. A gente cada vez 
era mais, e levantava nu- 
vens de poeira. Ao longe 
sentia-se o ruido de uma 
valsa. 

Como se dirigissem 
para a estalagem, passa- 
ram perto da Madame 
Hutte, d'onde lhe vieram 
tào alegres sons, que o 
próprio Hans Aden parou 
a considerar. 

Fluctuava uma ban- 
deira sobre a barraca; 
rapazes e raparigas es- 
tavam juntos, accumulados á porta: as de Rokesberg 
com as tranças cheias de fitas; as de Bouren-Grédel 
com os laços de seda caindo sobre a nuca, as saias 
vermeDias, as meias brancas, bem puxadas, e os sa- 
patos de salto alto; os da serra com os seus chapéus 
de abas largas enfeitados com uma folha de carvalho; os 
alsacianos com chapéus de três bicos, sobrecasaca direita, 
collete escarlate e calção, formava tudo isto um espe- 
ctáculo admirável, que attrahia para aquelle lado os 
que passavam. A sr." Thereza sentia um inexplicável 
desejo de dançar; a mão tremia-lhe sobre O braço de 
Coucou Peter, que a olhava cora ternura e lhe dizia bai- 
xinho : ' 

— Sr.* Thereza, vamos dançar uma valsa? 



ARTES E LETRAS 



133 



— Eu bem queria, mas meu filho... nSo quero dei- 
xal-o só... e depois que diria llans Aden! 

— Qual! deixe... uma valsa é um momento. O pe- 
queno nào softro com isso; dorme que é um regalo. 

— Nào, não, sr. Coucou 1'etcr, nao me atrevo. Hans 
Aden nào gostava. 

Fallavam assim olhando um para o outro. A sr." 
Thereza ia talvez ceder, quando se ouviram os sinos da 
egreja. 

— Thereza, disse Hans Aden, é o terceiro toque. 
Vamos depressa para a estalagem. 

— Nào ó preciso, sr. maire, disse Coucou Peter, po- 
dem partir d'aqui mesmo. Vou levar Schimel e lá o es- 
peramos para jantar. Fazem-nos o favor de acceitar o 
nosso jantar, nào é verdade? 

Hans Adon pensou 
mais uma vez que Cou- 
cou Peter era uma excel- 
lente creatura, e a sr.'' 
Thereza tirou do cesto do 
Schimel o bello chalé que 
elle lhe havia comprado, 
e pol-o, lançando um terno 
olhar para o bom do can- 
tador, que sentiu aa la- 
grimas vir-lhe aos olhos. 
Depois a mesma sr.* The- 
reza pegou no filho, de 
que nào queria apartar- 
se, mesmo porque as bên- 
çãos de S. Lourenço só 
podiam fazer-lhe bem, e 
finalmente separaram-se 
no largo da egreja. 

Coucou Peter tomou 
o caminho do baixo para 
evitar o encontro dos fieis 
que concorriam pela rua 
do Tonnelet-rouge. 

Matheus seguia-o 
com gravidade, o aban- 
donava-se á vaga contem- 
plação da montanha e dos 
campos, recapitulando in 
mente as provas invencí- 
veis da sua doutrina. O 
toque dos sinos, o rumor 
do vento, o sol magnifico 
espalhando os seus raios 
sobro a multidão agitada, 
tudo maravilhava o illus- 
tre philosopho, tanto mais 
que a esperança de pre- 
gar fazia com que nada 
lhe desagradasse. 

Passaram então pelos vergéis que havia ao descer 
para o valle. A espaços ouvia-se um tiro de espingarda, 
e passavam pequenas nuvens de fumo, estendendo-so e 
desapparecendo. Pouco a pouco o ruido da multidão aca- 
bou e viu-se a frescura dos verdes substituir a poeira das 
ruas. 

Na volta para a fonte, onde costumam vir da aldeia 
dar de beber ao gado, viram os caçadores, os guardas 
da floresta, de farda verde, e um grupo de aldeãos, alter- 
cando sobro o premio de tun carneiro. 

O alvo estava collocado do outro lado do valle, de- 
fronte do carvalho grande da aldeia. Os atiradores, de pé 
por detraz das sebes das hortas, experimentavam as ar- 




mas, apontavam, meneavam a cabeça com satisfação ou 
impaciência. Alguns apostavam, outros inclinavam-se 
como se faz no jogo da bola, e cada qual se julgava 
mais hábil do que o quo errara o alvo. 

Frantz Matheus, que nào podia ouvir, sem estreme- 
cer, o ruido de um tiro, apressou o passo e entrou na 
viella das Acácias. 

Esta solidão, depois de tantas scenas tumultuosas, 
tinha para ello um singular encanto. 

Todos 08 habitantes do Hasbach estavam na egreja. 

Quando os sinos deram o ultimo toque deixaram de 
atirar. 

Ouvia-se ao longe preludiar o orgào. 

Foi então quo Frantz e o seu discipulo desemboca- 
ram na rua do Tonnelet-rouge, defronte da estalagem 

das Três Rosas. 

XII 

Emquanto Coucou 
Peter levava Schimel para 
a estalagem, Matheus, 
cançado de andar na fei- 
ra, entrou na estalagem. 
Estava o illustre phi- 
losopho bem longe de es- 
perar o magnifico espectá- 
culo que se lhe apresen- 
tou. 

De lun lado ao outro 
da sala estendia-se imia 
mesa coberta com a com- 
petente toalha de algodão 
branco com guarnições 
vermelhas. Mais de qua- 
renta talheres a ornavam, 
cada um com o seu guar- 
danapo muito aceiado, 
muito teso, dobrado a fin- 
gir um bote ou uma mi- 
tra : via-se mesmo que 
eram novos e que pela 
primeira vez saiam das 
arcas. Ao lado de cada ta- 
lher estava mna garrafa 
de bom vinho da Alsacia, 
e de espaço a espaço uma 
garrafa bojuda, transpa- 
rente como crystal, que 
reflectia as janellas, o ceu 
e 03 objectos que a ro- 
deavam. 

Accrescente-se que o 
sobrado fora lavado na 
véspera, e areiado com areia fina, que o ar circulava pelas 
janellas entreabertas, que o cheiro dos assados vinha ás 
baforadas por uma communicaçào que dava para a cozi- 
nha, que se ouvia o tinir da loiça, o tic-tac do espeto, a cre- 
pitação do fogo na chaminé, imagine-se que tudo assim an- 
nunciava um festim magnifico, a quarenta soldos por ca- 
beça, e poder-se-ha suppôr com que felicidade Frantz se 
sentou junto de uma das mesas, limpando o suor, á es- 
pera da hora do jantar. 

Nem viv'alma perturbava o silencio da sala, porque 
todos sabiam quo a estalagem das T}res Rosas teria muita 
gente n'csso dia solemne, o quo ninguém perderia o seu 
tempo a servir uma ou duas canecas do cerveja. 

O illustre philosopho deixou-so ficar durante algum 



- Lcvanlc-so, que cslá curada. 



134 



ARTES E LETRAS 



tempo gosando d'esta deliciosa serenidade; a final tirou 
da grande algibeira do seu casaco o repertório anthropo- 
zoologico e começou a procurar um texto digno das cir- 
cumstancias. 

Ora a tia Jacob, logo que ouviu abrir a porta, olhou 
pela rotula, considerou por mais do um minuto este ho- 
mem grave que lia serenamente n'um livro, depois fez 
signal á Orchel para que se aproximasse, e indicando-lhe 
o illustre philosopho sentado com os cotovellos encosta- 
dos ao parapeito da janella, n'uma attitude meditativa, 
perguntou-lhe se não o achava parecido com o cura Za- 
charias, um velho que morrera havia cinco annos. 

Orchel declarou que era o próprio. 

Katel, uma rapariga que n'esso momento segurava 
o cabo de mna cassarola, correu a ver o que se passava 
e deu um grito do surpreza. 

Houve grande alvoroço na cozinha, cada qual veiu 
metter o nariz na rotula, murmurando: «É elle», ou: 
«Não é elle.» 

Por fim a tia Jacob, tendo olhado com mais atten- 
ção, disse a Katel que voltasse para junto da cassarola 
abandonada, e, compondo os cabellos sob a touca, entrou 
na sala. 

O illustre philosopho estava por tal forma absorto, 
que nem ouviu abrir a porta; de modo que foi preciso 
a tia Jacob perguntar-lhe o que queria, para lhe attrahir 
a attcnção. 

— O que eu desejo, boa mulher, disse Matheus com 
um ar grave, o que eu quero não m'o pode dar, não. Só 
o que nos vê e governa do alto dos céus, e cuja immu- 
tavel vontade constituo a lei do universo, podo conce- 
der-me n'este supremo instante a inspiração que lhe peço. 
Em verdade lho digo que grandes coisas se preparam 
para aquelles que por fraqueza ou por ignorância se sen- 
tem culpados. Que estes se humilhem, que reconheçam 
os seus erros, e serão perdoados; mas que os sophistas 
cheios de orgulho e de má fé, incapazes de sentimentos 
nobres e generosos, e até, estou em dizer, de justiça, que 
os sophistas e os sores sensuaes que cada vez mais se 
enteiTam na matéria, e até chegam a negar a alma im- 
mortal, base da moral e da sociedade humana, que esses 
pois tremam! Está para sempre cavado um abysmo en- 
tro nós. 

A tia Jacob, que de si para si se accusava de não 
assistir á procissão havia já três annos, julgou que Frantz 
lia no seu espirito como n'um livro aberto. 

— Valha-me Deus, eu bem conheço que pequei, por- 
que devia, devia de certo ter assistido á procissão; mas 
esta casa, bem vê que é uma estalagem, não pôde dei- 
xar-se só. Tem a gente que tratar dos arranjos da co- 
zinha... 

— Da cozinha! bradou Matheus. E é pela cozinha 
que deixa a grande questão da transformação dos cor- 
pos e da peregrinação das almas ! Pobre mulher ! pobre 
mulher ! Como é digna de lastima ! Para quem junta es- 
sas vãs riquezas, á custa da sua alma immortal? Para seus 
filhos? Não, que os não tem. Para si própria? Sim, talvez, 
mas a vida dura um momento tão rápido, que nada se 
pôde gozar. Para os herdeiros? Para que desenvolver o 
amor pelos falsos bens da terra? Não sabe que d'elle3 
nasce a avareza, a cubica, a inveja, que até ás vezes nos 
leva a desejar a morte dos nossos parentes. 

— Este homem sabe tudo, pensou a tia Jacob. Sabe 
que não tenho filhos, e que o tratante do meu sobrinho 
só espera pela minha morte para ser o herdeiro dos meus 
bens; também sabe que ha três annos que não assisto á 
procissão. Valha-me Deus! é um propheta! 

Eram d'este teor os raciocínios da boa mídher. 



quando a procissão começou a passar. Ouvia-se um im- 
menso rumor dominar o silencio geral, depois os cânti- 
cos da egreja e o órgão. De repente esses cânticos saíram 
para o largo. Viu-se então desfilar o andor de S. Florên- 
cio, trazido por algumas raparigas do branco, a cruz, o 
pendão, e todos os curas dos arredores cora vestes de 
ceremonia, emfim appareceram ao longe os cónegos c 
chantres de barretes vermelhos, e depois o rosto tumul- 
tuoso da procissão. 

Em vez porém de tomar pela rua do Tonnelet-rouge, 
deu volta a Hasbach, segundo o antigo costumo que o 
próprio S. Florêncio introduzira, e o valle oncheu-se do 
mesmo solemne murmúrio que o illustre philosopho já 
havia notado na serra : « Orae por nós, orae por nós ! » 
Parecia uma floresta movida por ura pé de vento, mistu- 
rando os seus rumores ao tocar estridente dos sinos. 

— Oh! espectáculo grandioso e verdadeiramente di- 
gno do homem ! exclamou Matheus. Concurso admirável 
dos povos confundindo os seus pensamentos n'um só pen- 
samento e as suas almas na alma universal. Oh ! nobre 
e tocante imagem do futuro ! O que será então quando 
a verdade tiver soado pelo mundo, e quando, remontan- 
do-se nas azas da lógica transcendente, e voando para os 
cens, a humanidade vir face a face o Ser dos seres, o 
gi-ande Demiurgos! A que infinito enthusiasmo se não 
elevarão os horaens, quando agora concorrera de tão longe 
apenas porque tiveram um presentimento da verdade! 

Ao tempo a que o illustre philosopho assim fallava 
cada vez mais animado, corria a tia Jacob a casa das 
vizinhas, annunciando-lhes que chegara um propheta, o 
qual, por isso mesmo, sabia tudo: que eUe lhe dissera 
que ella não tinha filhos, que seu sobrinho Jéri Hans 
cubicava os seus bens, e que os tempos vinham perto; 
que elle conhecia os segredos mais íntimos, e que fazia 
milagres. 

Orchel e Katel haviam também largado o trabalho 
e corriam atraz da tia Jacob, apoiando, confirmando e 
augmentando ainda o que ella contava. 

Ter-se-hia queimado toda a comida se Coucou Pa- 
ter, por uma verdadeira inspiração, não houvesse entrado 
na cozinha e não visse as panellas ao desamparo. Então, 
cheio do mais santo horror, deitou agua no assado, viu 
cuidadosamente cassarola por cassarola, espumou o caldo, 
preparou os molhos, fez girar o espeto, molhou a sopa, 
tirou os kuchlen do forno e poz os pratos sobre a mesa; 
e apesar de fazer tudo isto chamando, gritando, mexen- 
do-se... ninguém lhe respondia. Por fim, depois de meia 
hora, estafado, desceu ao pateo para lavar as mãos e a 
cara, porque não queria apparecer como estava á sr.* 
Thereza. 

Foi então que chegou a tia Jacob e as vizinhas, 
que acharam tudo cozido e assado como devia estar, e 
tudo posto em ordem, prompto para servir se: ergueram 
as mãos ao ceu e acreditaram n'um milagre. 

O barulho que fizeram chamou a attcnção do Cou- 
cou Peter, que ficou admirado de o levarem á sala, onde, 
mostrando-lhe Matheus, lhe contaram o milagre feito. 

Coucou esteve a ponto do soltar uma immensa gar- 
galhada, mas contendo-se disse: 

— Como? Será possível! Foi o que eu vi, foi! 

As vizinhas cercaram-no pressurosas, perguntando- 
Ihe o que vira. Então Coucou Peter contou a serio que, 
passando diante da cozinha, vira uma figura branca, 
como quem diz um anjo, que dava ao espeto. 

— Ví-o como as estou vendo, disse elle á tia Jacob. 

E todas as mulheres se entreolharam cheias de 
muda admiração. Nenhuma sentia coragem para proferir 
uma pala\Ta. Saíram assim uma apoz outra, o a noticia 



ARTES E LETRAS 



135 



do milagre immediatamente so espalhou por Hasbach. 

Quando so quiz servir o jantar a tia Jacob quasi se 
não sentia digna de tocar nas tampas das panellas. A 
cada passo voltava a cabeça, julgando sentir o anjo que 
a seguia. As duas creadas não estavam menos atrapa- 
lhadas. 

Foi assim que Coucou Peter, para que a boa dou- 
trina triumjDhasse, enganou toda a aldeia de Hasbach e 
precipitou o illustro doutor Matheus n'uma nova serie de 
extraordinárias e maravilhosas aventuras. 

xni 

Ao meio dia em ponto acabara a procissão. 

Os curas, os cónegos, os bedéis, as mulheres, as 
creanças, os burguezes e os romeiros, entravam de en- 
volta em Hasbach, uns para comerem o seu jantar acom- 
panhado com vinho branco, cerveja ou café, outros para 
fazerem honra ao seu farnel junto de uma fonte e sobre 
os bancos de pedra que ha á porta das estalagens. 

O illustre philosopho sentia que se aproximava a 
hora das pregações. Não via já o que se passava em der- 
redor o recolhia o seu espirito. 

Coucou Peter, que entrara na sala, disse-lhe: 

— Mestre, vamos a isto, sente-se além na cabeceira 
da mesa. Eu sento-me ao lado, para sustentar a dou- 
trina. 

E Frantz Matheus sentou-so no logar que lhe indi- 
cava o seu discípulo na cabeceira da mesa, defronte das 
janellas. 

Pouco tardou que a sala se não enchesse com uma 
grande multidão, composta de gente vinda de todos os 
cantos da Alsacia e da Lorena, abastada e sufíiciente 
para não olhar a quarenta soldos de mais ou de me- 
nos, comtanto que jantasse bem. Havia também gente 
da serra, entre a qual figuravam Thereza e Hans Adon, 
sentados á direita de Coucou Peter, que, empunhando a 
faca e o garfo de cabo de pau do ar, se preparou a trin- 
char as viandas. 

A sopa serviu-se, e o jantar começou no meio do 
maior silencio. 

A sr.* Thereza com o filho nos joelhos parecia feliz 
por se achar junto de Coucou Peter, que pela sua parte 
lho dispensava as maiores attenções, servindo-a dos me- 
lhores bocados. 

Ora como a noticia das predicas e dos milagres de 
Matheus se houvesse espalhado em Hasbach, estava a 
estalagem cercada de gente, que olhava pelas janellas 
para o interior da casa, perguntando onde estava o pro- 
pheta. A tia Jacob, no limiar da porta, explicava-lhes 
tudo o que se passava, entretanto que as creadas, des- 
amparadas pela ama, serviam o jantar esbaforidas, Ka- 
tel correndo de roda das mesas, para mudar os pratos, e 
Orchel trazcndo-03 da cozinha. A sala estava cada vez 
mais cheia de rumor e animação. Os convivas, igno- 
rando a missão sublime do illustre philosopho, conver- 
savam de coisas indifferentes, da feira, das colheitas, 
das vindimas próximas. Comiam, riam, bebiam, chama- 
vam as creadas, que subiam e desciam á pressa pela es- 
cada de caracol com os pratos de couves, de miolos, de 
salchichas fumegantes, de gigote assado, de patos a na- 
dar no próprio chorume, e de leitSes com a pelle appe- 
titosa e doirada. 

No meio d'esta alegro animação Frantz julgava ou- 
vir palavras propheticas: 

— Honra <s gloria! Honra e gloria ao grande Ma- 
theus! Gloria eterna ao inventor da peregrinação das al- 
mas! 



E n'um mudo oxtasis, inclinava-se nas costas da 
sua cadeira, deixava cair o garfo, e escutava estas vozes 
longínquas. Todavia diga-se, em verdade, que tudo isto 
era, sobretudo, effeito do vinho de Wolxkeim e do tu- 
multo atordoador da sala. 

Eram duas horas e serviam a sobremesa. E este o 
momento, n'um jantar, em que todos faliam ao mesmo 
tempo sem se escutar ninguém, cm que todos tem espi- 
rito, e em que ora um ora outro começa a rir, a rir, sem 
saber bem porque. 

Foi então que o illustre doutor, erguendo-se no topo 
da mesa, começou a explicar com um ar grave a trans- 
formação dos corpos e a peregrinação das almas. 

Fallava de espaço, com serenidade, dizia: 

— A justiça é a lei do universo; o ser está desde 
a origem dos tempos submettido á lei da justiça. Tudo 
se tem feito por ella, nada se tem feito sem ella. E a 
vida, que é a vontade: a vontade é o que anima a ma- 
téria, o d'esta vieram as plantas, d'ondc vieram os ani- 
maes, d'onde vieram os homens. Houve um homem en- 
viado por Deus, que se chamou Pythagoras. Esse ho- 
mem veiu ao mundo e não foi comprehendido ... e as 
suas doutrinas também não foram entendidas. 

Assim fallava o illustre philosopho, e todos o escu- 
tavam pasmados de tanta sabedoria. 

Havia porém entre os assistentes um velho anaba- 
ptista, chamado Pelsly, homem temente a Deus. Ora 
esta venerável pessoa estava indignada com a doutrina 
exposta pelo illustro doutor. 

Foi por isto que, levantando um dedo, exclamou 
com um ar de inspirado: 

— -Ora o Espirito disse claramente que nos tempos 
por vir alguns abandonariam a fé, seguindo os espíritos 
do erro e as doutrinas diabólicas ensinadas por imposto- 
res cheios do hypocrisia, cuja consciência ennegrecem os 
crimes. 

E tendo pronunciado estas palavras, callou-se. 

E todos viram que elle so referia a Matheus. 

O illustro philosopho empallideceu, porque ouviu 
em dejrredor um murmúrio ameaçador. O próprio Cou- 
cou Peter estava como sobre brazas. 

Não tardou, porém, que Frantz, concentrando todas 
as suas forças, não respondesse: 

— Oh! impostores e gentes de má fé, ousareis ne- 
gar que a justiça seja a lei do mundo? Não eram todos 
os seres eguaes, antes de haverem merecido pelos seus 
actos? E, se não haviam existido antes de nascer, por- 
que ha estas difFerenças entre elles? Porque nasce este 
como planeta, aquello como homem ou animal? Porque 
nasce um pobre, estúpido ou intelligente? Onde estaria 
a justiça de Deus se todas estas differenças não pro-' 
viessem de virtudes ou de faltas em existências ante- 
riores? 

Mas o anabaptista, era vez de se confessar vencido 
por este irrespondivel argumento, ergueu outra vez o seu 
longo e magro dedo, e disse: 

— Fugi das fabulas impertinentes e pueris, e dae- 
vos aos exercícios piedosos, porque a piedade é útil a 
todos, e a ella foram promettidos todos os bens da vida 
presente e todos os bens da vida futura. Isto que vos 
digo é a verdade, digna de receber-se com uma inteira 
submissão, por isso que aquillo que nos faz soflrer os 
males o as offensas é a nossa esperança no Deus vivo, 
que é o Salvador de todos os homens e sobretudo o Sal- 
vador dos fieis. 

A estas palavras a assembléa agitou-se, e Matheus 
viu outra vez que todos os olhares se voltavam ameaça- 
dores para elle. 



136 



ARTES E LETRAS 



Foi n'esta difficil situação que o illustre philoBopho, 
erguendo os olhos ao ceu, exclamou: 

— Sor dos seres! ó grande Demiurgos! cuja po- 
derosa vontade e immutaveí justiça governa todas as al- 
mas, digna-te, digna-te esclarecer este espirito obscure- 
cido pelo veu do erro e pelo veu dos preconceitos! 

Mas o anabaptista Pelsly, furioso por ouvir estas pa- 
lavras, exclamou: 

— Es tu, tu só, espirito do abysmo, que queres ob- 
scurecer a nossa intelligencia. Está escripto que, se al- 
guém ensina uma doutrina differente d'esta e não abraça 
a verdadeira, é porque o orgulho o cega e porque a igno- 
rância o ensurdece, porque está possesso d'uma doença 
de espirito que o leva para questões e para combates de 
palavras, de que nascem a inveja, a disputa, a maledi- 
cência e as suspeitas oíFonsivas. 

Já o illustre doutor não sabia o que respondesse, 
quando Coucou Peter se cntromotteu na questão, porque 
como em tempos vendera almanacks e bíblias, conhecia- 
as tão bem como o anabaptista. 

— Mas, disse elle batendo com o punho sobre a 
mesa e fulminando o anabaptista com os olhos abertos e 
irritados, mas nada se occulta que não deva ser desco- 
berto, nem ha nada secreto que não deva ser conhecido, 
porque o que disserdes na obscuridade, se publicará á 
luz do sol, e o que disserdes ao ouvido e em segredo 
será pregado pelas praças. Assim vos digo, Pelsly hypo- 
crita, que sabeis tão bem reconhecer o que presagiam os 
differentes signaes do ceu e da terra, porque não reco- 
nheceis o tempo em que vamos? Porque não tendes dis- 
cernimento para reconhecer, polo que sentis em vós, o 
que é justo e bom? 



(Continua.) 



030 



O GABINETE DE CÍCERO 



(TraducçJo) 

INIIA Cicero quasi quarenta e 
três annos, quando se dispoz a 
formar uma bibliotheca e mn 
museu. Exercera brilhante- 
mente os melhores cargos da 
republica, e em breve obteria 
o consulado; mas, antevendo 
as desgraças que ameaçavam a 
liberdade da sua pátria, e lem- 
brando-se que ha uma época 
na vida em que a felicidade 
consiste somente no repouso 
disfructado na solidão, occu-, 
pou-se desde esse momento, 
no modo de suavisar os dias 
da velhice, o I^ivrac-vos » dizia elle ao seu amigo inti- 
mo Tito Pomponio Attico, então em Athenas, «livrae-vos 
«de prometter ou de vender a vossa bibliotheca a alguém; 
«despreíae todas as propostas que se vos façam a esse 
«respeito, por melhores que sejam: é um recurso que 
«guardarei para os meus dias de descanso, e para isso 
«me previno tomando as medidas necessárias.» 

Tencionava Cicero collocar a sua bibliotheca em 
uma casa de campo que possuia próximo de Tusculum; 
casa (servindo-nos de 'suas próprias palavras) onde não 
só gostava d'estar como o lembrar-se d'ella lhe era ex- 
tremamente agradável. 




Julgava este grande homem, e com razão, que o 
campo é o único asylo dos philosophos. O ar puro que 
alli se respira, o repouso, a liberdade, o silencio, tudo 
attraho a reflexão, e convida ao estudo. 

De dia para dia augmentava a paixão de Cicero 
pelos livros; «ella é egual» escrevia a Attico, «ao abor- 
«recimento que tenho pelo resto das coisas humanas;» 
porém, ou Cicero estava de má fé quando assim escre- 
via, ou era mais edoso do que gerahnente se julga: ef- 
fectivamente na edade de quarenta e três annos em que 
suas esperanças chegavam ao limite; prestes a obter a 
dignidade em que só pensava, dignidade que devia col- 
local-o á frente da republica, c dar-lhe uma auctoridade 
cuja extensão era cgual ao do império romano, só o pre- 
occupavam então idéas do grandeza o de governo. Mas 
Cicero era como muitas pessoas dos nossos dias: philo- 
sophava sem ser philosopho. 

O orador romano não punha menos solicitude em achar 
curiosidades antigas, do que livros. «Conheceis o meu ga- 
«binete (escrevia a Attico), diligenciae por encontrar ob- 
«jectos dignos de occupal-o e embelleza-lo; em nome da 
«nossa amisade, não deixeis escapar o que for curioso e 
«raro. Costumo comprar (mandava dizer a Fábio Gallas) 
«todas as estatuas que podem ornar o meu gabinete.» 

Informado por Attico do que em breve receberia 
uma magnifica estatua que reunia as cabeças de Mercú- 
rio e de Minerva, Cicero, cheio de alegria, respondeu: 
«É admirável a vossa descoberta; a estatua de que me 
«fallaes parece ter sido feita de propósito para o meu 
«gabinete; sabeis ser costumo collocar Mercúrio em to- 
ados os logares de exercício, e Minerva tanto mais pro- 
«pria é n'este logar, quanto elle é só destinado ao es- 
«tudo. Continuae a reunir, como m'o promettestes, na 
«maior quantidade que possível seja, objectos d'esta na- 
«tureza.» Escrevia incessantemente a todos os amigos 
que julgava no caso de poderem satisfazer a sua curio- 
sidade, e esperava a resposta com o ardor e a impaciên- 
cia, que se observa em alguns dos nossos amadores. 

Attico era principalmente quem mais cartas rece- 
bia. «Não vos demoreis em mandar-me as acquisições 
«que fizestes para a minha academia; o pensar só n'e8- 
«ses marcos de mannore com cabeças de bronze, de que 
«me fallastes, me enche de alegria: ainda uma coisa, 
«fazei com que cheguem, sem demora, juntamente com 
«outras estatuas, e tudo o que achardes digno de em- 
«bellezar o meu gabinete. Confio na amisade que por 
«mim tendes, e no vosso bom gosto. Kão imaginaes até 
«onde chega a minha paixão por estas coisas; é tal, que 
«poderá parecer ridícula aos olhos de muitas pessoas; 
«mas vós, que sois meu amigo, só pensareis em satisfa- 
«zel-a... Comjjrae-me sem hesitar (diz elle n'outra parte) 
«tudo o que vos parecer raro; meu amigo, nào poupeis 
«a minha bolsa.» Teria outra linguagem o mais enthu- 
siasta dos amadores? Recorda-nos isto um prelado da 
casa Strozzi, que, querendo comprar em Roma uma pe- 
dra gravada, antiga e de extraordinária bellcza, deixou 
em penhor da quantia que n'aquelle momento não levava 
comsigo, a carruagem e os cavallos, confessando ao mes- 
mo ."tempo, que antes quereria andar a pé toda a sua 
vida, do que perder tal pedra. 





G BCW pinx* 



■W FREHCH SC 



íS. i®W. 



llMitores HoIIaiid & Sci;- 



ARTES E LETRAS 



137 



A MUSICA 



POESIA com suas 
imagens, com 
seus sublimes 
triumphos de in- 
spiração, ador- 
nada com as 
mais brilhantes 
galas do espiri- 
to, quando de- 
vassa todos os 
segredos do bcl- 
lo, apenas con- 
segue deslum- 
brar a imaginação; e se ás ve- 
zes nossos sentimentos patrióti- 
cos se exaltam ;í leitura do um 
poema heróico, bem depressa a 
reflexão fria e egoista vem sub- 
stituir a fugitiva emoção. 

Por isso na Divina Come- 
dia, n'esso assombroso monu- 
mento erguido contra a sobera- 
nia pontifical pela fecunda ima- 
ginação do gibelino Dante, 
abandonamos as violentas apostrophes 
para seguirmos anciosamento os gemidos 
■mitsicaes de Francesca de Rimini. 

A pintura com seus maravilhosos 
jogos de luz e brilhante colorido, não 
\-,,<, nos crava no espirito mais profunda im- 
pressão. 

O terror que sentia o povo romano 
contemplando o portentoso fresco de Miguel Angelo — O 
juizo final, esvaecia-se logo depois sem deixar vestigios 
em seus corações enervados pelo gozo. 
Não é assim a musica. 

Os infelizes párias da sorte que se eiu'vam que- 
brantados pelas mais cruentas provações que lhes inflinge 
o destino implacável, quando alguma cavatina melancó- 
lica lhes acaricia o ouvido, experimentam um bem estar 
indefinivel, c suas almas, por um momento erguidas 
acima dos cardos da existência, sobem contrietas nas 
cspií-aes harmónicas até á sede do Senhor. 

O africano, crestado pelo sol ardente, extenuado 
pelos mais rudes trabalhos, quando ao crepúsculo depõe 
a enxada e se senta no liminar da pobre choupana, fita 
os olhos nas ultimas resplandecências que purpureiam o 
horisonte, abre o peito á nostalgia da pátria o da fami- 
lia, e canta; á medida que sua voz monótona e chorosa 
se eleva no espaço, immensa commoção lhe entume o 
seio, e delicioso pranto lhe inunda as faces retintas. A 
aragem vespertina que passa pede que colha essas har- 
monias repassadas do amargura, c com ellas povoe os 
desertos candentes que percorrera infante . . . 
E elle é feliz cantando. 

Mesmo os filhos predilectos da fortuna quantas ve- 
zes não estremecem, sentindo que o ecco de uma melodia 
dolorosa não se casa á perenne escala de prazeres que 
lhes deleita a vida? 

Quando uma d'essas revelações súbitas rasga o 
manto de gozos cm que se envolve a mulher ditosa, 
baixa do ceu um anjo para recolher a pérola esplendida 
que se escapa do seus olhos luminosos — a lagrima da 
caridade. 




Desde as mais remotas oras que a humanidade ex- 
perimenta a doce influencia da musica. 

Os antigos bardos celtas, quando cantavam nas 
praças publicas as tradições cosmogonicas dos sacerdo- 
tes, as lendas maravilhosas do Gwion e Koridwen, c a 
morte dos heroes, olectrisavam as turbas, porque aos ac- 
ccntos commovidos do cantor casavam-se os accordes do 
um instrumento sonoro. Nos campos da batalha os ve- 
lhos guerreiros curvavam-so reverentes ante os druidas e 
arremessavam-se com o peito descoberto contra o ferro 
dos inimigos: feridos mortalmente, alargavam suas feri- 
das, o expiravam bebendo a crença sublime da immor- 
talidade da alma nas notas sagi-adas dos hymnos nacio- 
naes. 

Saul, cercado pelas ventanias do Assur, confunde 
com os silvos do vendaval os rugidos surdos da irosa 
tempestade que lho dilacera o coração: um loiro man- 
cebo de Bethlem toma a harpa maviosa, e os sons, mais 
suaves que as vibrações eólias das auras de Ccdron, des- 
penhando-se em cascatas das cordas inspiradas, vão acal- 
mar os violentos furores do rei e circumdal-o do encan- 
tadoras imagens. 

Tasso, devorado por mysteriosa angustia, que era 
como que um presentimento de sua desgraça, inclina a 
fronte enfebrecida no regaço de Cornélia, o adormece 
sorrindo, embalado pelas doces canções de sua dedicada 
irmã. 

Baptista Gési, aos onze annos de idade, depois de 
ouvir canta»* uma missa de Palestrina, exclamou cheio 
de enthusiasmo: « — Eu também sou nmsico!» Vinte 
annos depois exccutava-se na Capella Sixtina o Stahat 
Mater dolorosa, que firmou para sempre a sua reputação 
de grande artista, e o povo em sua ingénua admiração, 
appellidava-o — O Pergolez. 

Quem pôde ainda hojo ouvir o celebre Miserere de 
Allegri sem derramar abundantes lagrimas? 

E especialmente na Itália, na pátria dos grandes 
génios, sob aquclle sol que aureolou cont raios immor- 
taes a fronte de Carlos Gomes, que o gosto pela musica 
é mais espontâneo, mais natural e instinctivo. 

Veneza, a cidade cysne, que, como a Vénus do pa- 
ganismo, um dia surgiu das espumas radiante de bel- 
leza, de mocidade e de crenças, desfallece de morbideza 
se aos beijos do vento a vaga desata o seio perfumoso 
d'()nde se escapam aerias melodias. 

Alli, nas noites estivas, quando a lua chorosa e 
triste se embala nas redes da amplidão, e a noiva de Ma- 
rino Falliero, o doge revolucionário, adormeço tranquilla 
ás caricias do génio do Adriático, a madona veneziana, 
a mídher de madeixas revoltas, faces pallidas e olhar 
cheio de fogo, quo o Veronez eternisou cm suas admi- 
ráveis telas, resvala em airosa gôndola á flor das ondas, 
bebendo a largos haustos nas barcarolas do gondoleiro 
os anceios indefiniveis de Cassandra Fidelli e Christina 
de Pisani^ — as formosas poetisas. 

Byron, debruçado sobre a ponte do Rialto, esque- 
cia-se da ingi'atidão de sua pátria n'essas cantilenas po- 
pulares impregnadas de tão melancólica poesia; Alfredo 
de Musset, o moço poeta, c Sand, a loira soberana da 
intelligencia, foram um dia realisar entro ellas o romance 
de seus amores. 

Nápoles, porém, é o berço da musica italiana. An- 
tes mesmo quo fossem creadas as academias, já os filhos 
da voluptuosa Parthénopc possuíam a sua musica e ine- 
briavam-se com as villaneli. No principio do século xvi 
as napolitanas cantavam nas reuniões abraçadas a suas 
harpas. Tarquinia Molza, a celebre poetisa, compunha o 
acompanhamento para seus hymnos e cantava-os depois 



«.- 'J lio 1ST3 



138 



ARTES K LI<:TRA.S 



com extrema graça; e a filha do Tintoreto tocava com 
perfeiçílo diversos instrumentos. 

No século XVII fundaram-se em Nápoles diversas aca- 
demias de canto o composição, dirigidas por flamengos e 
hespanhoes: delias saíram as legiões de artistas que sup- 
plantaram todos os estrangeiros, e se den'amiiram por 
todo o universo; á sua frente acliavam-sc os restaurado- 
res da musica moderna, Alexandre Scarlatti e Nicolo 
Porpora. Hoje, que a influencia da pintura e da poesia 
tem sido tào desprestigiada na Itália, ainda a musica 
electrisa e sempre electrisará essas cabeças ardentes. 

Os lazzaroni, ébrios de luz, estendem-se nas ruas, 
fecham os olhos, e acompanham attentamente as volatas 
d'aquella sublime e innnortal phantasia sonhada pela ima- 
ginaçíio mórbida do 1'aganini — O carnaval de Veneza, 
que o virtuose estropia pelas esquinas; se a execução 
das jioriture foi perfeita, levanta-se, atira-lhe a única 
moeda que possue, e rctira-se cantarolando alguma jju- 
polanc, contente e feliz por. ter ouvido boa nmsica. 

(Js moços e moças que á noite passeiam em grupos 
pelas ruas, quando passam por uma imagem da Madona, 
param, e em coro elevam suas frescas vozes. 

O Itália, ó pátria do luar e das serenadas, jamais 
perecerá a filha dilecta do teus ])oeticos sonhos! 

No Brazil, onde a intclligcncia brota espontânea e 
opulenta como a luxuriante vegetação que cobre seu 
solo, é também notavol o gosto i)elas bellas-artes. 

Levante-se uma ponta do veu que occulta o san- 
ctuario da familia brazileira: junto a um piano ou en- 
costada a uma harpa, ver-se-ha sempre um meigo perfil 
de donzella, povoando de suaves harmonias o serão de 
seus pães. 

E nã,o é só isso. 

A Europa inteira curvou-se ante o talento de He- 
loisa Marechal, e aos loiros (jue ella colhera no theatro 
nacional, juntou suas estrondosas ovações. 

Carlos Gomes, pallido o commovido pelo assom- 
broso triumpho que conquistou no ticalla, penetra ra- 
diante no templo da gloria. 

Henrique Alves de Mesquita, embora som protecção 
e reduzido á pobreza, não desanima: trabalha com a fe- 
bre do enthusiasmo para obter a admiração dos seus com- 
patriotas, e novas operas confirmam hoje a bem mere- 
cida nomeada do auctor do Vagabundo. 

Emilio do Lago refugia-se nos braços da morte, le- 
gando á pátria suas delicadas composições. 

Luiza Leonardo, a inspirada interprete de Gotts- 
chalk, calca aos pés as faixas infantis, e em breve o es- 
trangeiro eni"amará de novos loiros a coroa de gloria que 
já lhe_ cinge a fronte scismadora. 

É que emquanto o velho Portugal acompanhava an- 
ciosamente com a vista a nave aventureira de Pedro Al- 
vares Cabral, as raças authochtones que povoavam as 
vastíssimas e desconhecidas regiões da America do Sul, 
grupavam-se sob as innnensas cangeranas e frondosos 
ipés, e embeveciam-se nos cantos cabalísticos do Piága, 
aos sons do Boré. 

É que descendemos d'aqiielle8 singelos filhos da na- 
tui'eza, que se afastavam com horror da Marabá, para 
acalentarem seus futuros heroes com o hymno guerreiro 
que nos transmittiu Gonçalves Dias na Canção do Ta- 
moyo; e nas fontes dianumtinas onde se inspirava o 
Page, nos perfumes silvestres da flora tropical, quo em- 
balsamavam as madeixas corredias de Moêma e Para- 
guassú, nas laginmas do luz que choram as constellações 
sobre a campa d'essas gerações extinctas, bebemos as 
choréas que em derredor do Génio do Brazil entoam as 
tri bus angélicas. 



Concluo, 

A poesia prendo e extasia, a pintura fascina e ar- 
rebata, mas a musica só por si faz mais do que isso, 
porque, acima de tudo, abafa o coração humano e é capaz 
de mudar a indole de todos os povos. 



Rezende— 1872. 



NAKCISA AMÁLIA. 




Versos recitados no Palácio de Crvslal, do Porto, a 22 de fe- 
verciro de \%lí, por occasião do licnelicio dos pescadores 
da Povoa de Varzim. 



Sorri, pallido Christo! O amor da humanidade 
Ue esplendido fulgor a terra hojo illumina; 
Perfuma os corações a flor da caridade, 
C'inge-so quem te ouviu do aureola divina. 

Oh ! Povoa de Varzim, oh ! pérola do Minho, 
Que ignoto pescador á beira mar deixou; 
Como fatal to ha sido o teu alcyoneo ninho, 
O amor que tens á vaga, á mãe que te embalou! 

Não temes o bramir do monstro furibundo, 
Do algoz dos filhos teus, que em perennal vae e vera 
Os chama, attrahe, conduz ao pélago profundo, 
E depois do os matar repelle-os com desdém! 

Vês a onda subir humilde, envergonhada, 
Kojando-se a teus pés, pedindo-to perdão, 
Devolver te no rolo a victima roubada, 
E receber gemendo a tua maldição; 

E, em vez de detestal-a, o som da calmaria 
Fácil indulto arranca ao teu funesto amor! 
Porque daria Deus tão pérfida harmonia 
A grande voz do mar, que encanta o pescador?! 

Eil-os correm ao largo! E de feição o vento; 
O temporal passado ha muito que esqueceu; 
Nenhiuna imagem triste ac<xle ao pensamento... 
Bem pouco paga ao pobre o muito que perdeu! 

Porém, tolda-se o ceu e as nuvens se amontoam; 
Encrespa-se, espumando, a superficie azul; 
Os echos do trovão ameaçadores troam; 
Fuzila o raio ao longe e o vento salta ao sul. 

Proa á terra c fugir! — Mas, ai! a tempestade 
E mais veloz que o modo e avança com furor! 
Adeus, familia o pátria! Adeus, o mocidade! 
Que tudo o m.ar levou triste ao pescador!... 

Vós, que viveis na torra il sombra da esperança 
De um i)ro.spero pirvir, aca.so suspeitaes 
A vida sem descanso, a sorto sem mudança 
Do mísero sujeito á lei dos vendavaes?! 



ARTES E LETRAS 



139 



E quando o inverno vem?! Outro inimigo insano; 
Também monstro voraz, a fome, sócia atroz 
Da invernia cruel, das fúrias do oceano, 
Levanta em torno ao pobro o seu clamor feroz! 

Oh! mil vezes bemdita a mão que apaga as dores, 
Que a desgraçados taes o pranto hoje enxugou! 
Em nomo do Jesus valeu aos pescadores, 
Para cobrar no ceu, dobrado, o que emjjrestou. 

Sorri, )iallido Christo! O amor da humanidade 
De esplendido fulgor a torra hoje illiimina; 
Perfunui os coraçíjes a flor da caridade, 
Cinge-se quem te ouviu do aureola divina. 

F. GOMES DE AMORIM. 



O ANNIVERSARIO DO DESEMBARGADOR 

ESTAMPA, que 
este artigo acom- 
panha, é do certo 
uma das mais 
bellas, que a em- 
preza das Artes 
e Letras tem 
apresentado aos 
seus assignantes. 
Não é um d'estes 
banaes quadros 
de género, que se 
limitam a repro- 
duzir uma das 
sccnas vulgares da existência, fazendo figurar na tela 
quatro ou cinco vultos mais ou menos bem desenhados, 
mas sem individualidade, nem feiçijes caractoristieas. No 
quadro de Beeker é cada figura um typo, accentuado 
profundamente, ainda que se veja que as iílumina a to- 
das a luz serena da virtude modesta e alegre. 

O desembargador decididamente jil pediu a sua re- 
forma. N'aquella fronte lisa e vasta já não passam as 
nuvens das preoccupações judiciarias. Vive no campo, 
saboreando os regalos da existência, a doçura dos soes 
poentes, e a suavidade epicuriana dos bons jantares. 
Tem a digestão fácil, e o somno sem remorsos. Lê Mon- 
taigne á sombra das carvalheiras da sua quinta senho- 
rial. Escreve clle mesmo, apurando a calligraphia, c 
floreando as iniciaes dos capitules, algum livro serio e 
instructivo, no género da Sarjesse de Chari'on. Não des- 
denha completamente o madrigal, e desconfio que elle já 
compoz alguma epistola (!m verso, que limou e relimou 
com uma ])achorra horaciana. 

Aquelle sujeito alto e robusto, exuberante de força 
e de saúde, é um visinho, talvez mesmo um parente, 
f/entilhomme campagnard em toda a força do termo, chefe 
de família, chefe de tribu, varão patriarehal. Será genro 
do desembargador? Talvez! Se o é, que largas discus- 
sões á sobremeza! Como o seu riso sonoro ha de con- 
trastar com o fino sorriso do sogro! Como a sua larga c 
possante mão ha de fazer estalar n'um aperto cordial a 
mão nervosa do desembargador ! Quantos ralhos acerca de 
politica não irão entre os dois! Como se verá obrigada 
a intervir no caso aquella suave figura feminina, que é 
a doce poesia, o meigo encanto d'este gracioso quadro! 
Depois que a encontraram, os olhos não a deixam 
mais! Que elegância nas linhas flexuosas do seu corpo! 




I que jiureza nos contornos do semblante ! Que brandas ondu- 
! laçSes no seu modesto penteado! Exhala em tomo de si 
esta doce figura mn perfume de bom gosto e de virtu- 
de! Vou jurar que em casa d'aquclle homem de bem, 
que traz bengalão e chapéu, ha do haver sempre roupa 
branca de neve cuidadosamente dobrada na gaveta da 
commoda, o flores colhidas do fresco a perfumarem o sa- 
lão! Ah! como sentimos, ao vermos aquella figura casta 
o sã, que estamos longe das mulheres de lar, de templo 
e de rua, três espécies de fêmeas, que Dumas filho in- 
ventou, o que todas, ainda as mais puras, vivem na 
atmosphera fictícia e corrompida das torpes creaçScs do 
romancista francez. Como estamos longo dos mysterios 
de alcova, e do «Mata-a», e do triangulo, o do todas as 
outras phantasias d'es8o homem, que nunca soube o que 
era a mãe e a mulher, c a familia, na sua expressão 
mais elevada e mais pura! 

Agora venham as creanças! Vejam como Beeker es- 
tudou bem essas adoráveis e loiras physionomias, que 
têem caracteres tão distinctos, segredos tão encantadores. 
Querem que lhes conte o mysterio d'aquelle dedo nos 
lábios da {)e((uenina para quem se debruça o vulto genti- 
lissimo da mãe? E tão fácil ! Em casa, antes de sair, re- 
petiu, como fogo, com expressão, n'aquelle gorgeiar dos 
jjassarinhos e das creanças, que é o enlevo das mães, e o 
jubilo das primaveras, o comprimento com que havia de 
saudar o desembargador. Mas chegou junto da cadeira 
respeitável do- seu velho amigo, acanhou-se, procurou 
não se approximar, sorrindo e corando, mas deixou-se 
arrastar brandamente, olhando sempre por baixo das 
pálpebras, para a physionomia risonha do magistrado. 
Quando se tratou porém de dizer o comprimento, poz o 
dedo na boca, psalmeou as palavras, coadas por entre 
os lábios que sorriem sempre, em vez de as recitar como 
no ensaio caseiro. E a mãe: «Então, menina, tire o dedo 
da boca! Então, íoi assim que lhe eu disse? — A menina 
não é bonita! — (j>ara o desembargador , fazendo-lhe um 
signal ás escondidas). Ella não falia, porque não sabe ! . . . 
Quem sabe é o irmão». E emfim o comprimento lá saiu 
como pôde, e a mãe tornando: «E sabido! Em casa é 
I uma cousa c cá fora c outra». E, apezar ào fiasco, a mãe 
sorri-se passando os dedos pelos anneis do cabello da pe- 
quenina, e o pae ri-se francamente, e o desembargador 
senta no collo a netinha, se c que é neta, e a creada diz 
lá ao fundo: «Que galanteria de croança!» 

O pequenino é um tj'po diverso. E já um homom- 
sinho. Anda na hora, hora;, e ha do saber apresentar in- 
trepidamente o seu ramalhete e o seu comprimento de an- 
nos. E o único personagem que não attende á scena prin- 
cipal. Desdenha essas puerilidades. Já sabe o que ha de 
pensar acerca da timidez da irmã, que lhe quebrou uma 
espada do páo, e lho abriu a gaiola do um canário, de 
que elle tratava especialmente. Não dá importância ao ' 
que está succedendo, elle previra-o: «A mana chega lá 
e não diz nada». Também para que hão de confiar á 
creança esses importantes encargos? Elle sim! Verão co- 
mo elle desempenha o seu papel ! Como recita os ver- 
sos, e entrega o ramalhete! Como responde As perguntas 
do desembargador! Tudo isto se lê n'aquelle olhar dis- 
trahido, na feição varonil que adoptou, na seriedade do 
seu rosto. 

Para completar a scena, temos a creada ao fundo. 
Quer use os cabeçijes e as mangas tufadas do século xvil, 
quer use os lenços no pescoço do século xix, a creada 
do celibatário ou do viuvo é sempre o mesmo typo. Um 
pouco dona de casa, enchendo a cada instante a boca 
eimi as palavras «o senhor desembargador,» pairando ao 
jantar, ralhando á noite, emquanto o velho amo se ri si- 



140 



ARTES E LETRAS 



lenciosaniente, se cila <j já madura, ou lhe aífiiga com a 
mao enrugada as faces cm flor, se ó rapariga a serva! 

Allons, Bahet, un pcu de complaisancf! 
Un lait de pouh, et mon bonnet de nuit! 

Tal foi a collecçíio de typos, que Bccker agrupou 
em torno da figura do desembargador, todos cheios do 
verdade e do expressão. Ah! Se o» pintores perceljesscjn 
bem que os (piadros do género sao talvez os mais diffi- 
ceis de todos, da mesma fónna que de todos os géneros 
theatraes é a comedia o mais difficil, se percebessem que 
n'este género têom obrigação de nos interessar, de nos 
enlevar com a reproducç.ao das scenas familiares da vida, 
o que, se é fácil captivar-nos o espirito com a pintura 
dos grandes factos históricos, já nào o c egualmente en- 
cantar-nos com o modesto desenho de uma scena singe- 
líssima, com os fidalgotes de campo de Becker, os rapa- 
zotes de Murillo, ou com os marjots de Teniers, se os 
pintores percebessem isto, nao abundariam tanto no mer- 
cado os quadros de género, que nào tcem significação 
alguma, nem poesia, nem observação, nem sentimento, 
nem estudo de typos, o que invadem comtudo por toda 
a parte as salas da burguezia, os botequins, c os salões 
dos hotéis. 

PIXIIEIRO CHAGAS. 




CxEEAEDO DOW 

primeiro numero das Artes e Le- 
tras deu a conhecer o homem cujo 
retrato se vê agora: Gerardo Dow, 
pintor de Leyde, — terra do Pro- 
pheta, — discipulo de Rembrandt 
V^an-Ryn, e florescente pelos co- 
meços do século XVII. 

Está-se-lhe a ver na cara uma 
certa bondade que não excluo a 
malicia. Rosto nédio, olho límpido, 

madeixa cm anneis, camisa esba- 

gaxada, como a do Rei Lear, mãos do fidalgo, e uns 
dentes alvos a entrevorem-so graciosos. Apozar da ra- 
beca artística, da farrusca de espadachim, e de um certo 
ar fragxieiro que se nota no quadro, ninguém penso que 
Gerardo Dow era homem de aventuras galantes como, 
por exemplo, Van-Dyck. Não, senhores; ou pelo menos 
a historia, registando-lhe o nome, poupou-se a notas mar- 
ginaes. 

O discípulo do grande mestre do claro-escuro é um 
completo flamengo, na extensão d'csta palavra, que vae 
do queijo até o génio. jV sua feição característica é a pa- 
ciência, o esmero, o acabamento. Não se deixa levar em 
nenhumas labaredas do enthusiasmo, não solta a rédea 
aos frisões o por isso não caíni no Pó, á maneira de 
Phaetonte; o seu toque, firme e delicado, como o de Van- 
derwerflF, denuncia a frcima do um bom espirito. 

E cm regra é isto toda a escola flamenga. Quando 
a renascença imprimiu o seu cunho na arte, ella, não 
seguindo o movimento ascensional da Itália, ficou-se a 
contemplar a natureza, e a obscrval-a attentamcnte, para 
depois a photographar na tela, se assim me é permittido 
dizer. 

Rubens, o poucos mais, saem d'este acanhado cir- 
culo da verdade, — sem elevação nem magnitude, — o 
entorna a flux a sua abundante cornucopia. 

Os assumptos que cnptivam de preferencia os dis- 



cípulos da escola são os populares ou burguezes. É tudo 
simples, desaflcctado, natural, perfeito; mas a alma não 
se eleva, agitada por um estremecimento celeste. 

Apezar da Convenção d' Évora- Monte vão-se por ahí 
alçaprcmando os realistas. Um nome como outro qual- 
quer ! . . . D'ante8 chamava-se a isso iiaturalidade , e uma 
pessoa entendia-se. Seja agora o que quizerem, — com- 
tanto que a arte não baixe ás torpes carnalidades, nem 
ande a vasculhar pelos processos criminaes, nem pelos 
gynccéos mais ou menos poUuidos, o thema predilecto 
das suas composições. 

O helln ideal não se attlnge por meio de nenhuma 
receita de pharmacopola empyrico, mas toma-so d'a8salto 
por um divino arrebatamento do espirito. E uma coisa 
que o admirável Eugénio Delacroix traçou no seu ca- 
nhenho, e que Theophilo Silvestre nos deu nos seus Do- 
cumentos novos. Diz o pintor da Barca do Dante, do 
Marino Faliero e do Vinte oito de julho: «Quando o ar- 
tista 80 pozer em cata do uma expressão, de um estylo 
convencional, tornar-se-ha secco o vulgar; quando se en- 
tregar sem condições á sua franca originalidade, quer se 
appellide Raphael, Miguel Angelo, Rubens ou Rembrandt, 
terá firme penhor da sua grandeza e da sua pujança». 

Revertendo a Gerardo Dow c á escola flamenga, 
dizia eu, que a exccllencia d'estes mestres estii, por 
maior, na penetração com que observam e na delicadeza 
com que reproduzem. O quadro do que hoje se dá copia 
em gravura, demonstra-o cabalmente. O pintor retratan- 
do-se, esteve amoravelmente enlevado na contemplação 
do seu eu externo. Vc-se-llie n'aquelle sorriso espraiado, 
e no cinturão que ponde para que se lhe notem as bor- 
daduras. Quanto tempo consumiu cUe a estudar a capa, 
ageítando-lhe as pregas com donairosa tafularia? Talvez 
quasi tanto como aquelle outro que fez e apparelhou uma 
nau que se encobria toda sob as azas de uma mosca. 

Apezar de tudo, Gerardo Dow ha de ser sempre um 
mestre. O que cu censuro é a escrupulosa imitação, as 
algemas com que os alumnos se maniatam, o cego apri- 
soamento á terra, emfim, Daguerre a chasquear de Gior- 
gione. Tudo isto será muito bom, diz um dos maiores 
pensadores que tem escripto n'estes assumptos, o philoso- 
pho De Vart et du beau, mas occupa na arte iim logar 
tão secundário, que não ha comparação com o qtie con- 
stituo o verdadeiro génio, nas suas enormes relações com 
a humanidade, e no seu desenvolvimento em o seio de 
Deus e do universo. 

Dar unicamente em reflexo o que impressiona os 
sentidos, é o que fariam verbi tjratia, os leões. 

Si mes confreres savoient peindre, 

como dizia judiciosamente o da fabula. Descer das 
regiões serenas da intelligencia para as da sensação ma- 
terial, é cngolfar-se n'um coisa que é muito tangível, 
muito evidente, mas que não é de certo luminosa. 

Cada século tem a sua feição, e eu não venho aqui 
remodelar o nariz ao nosso, venho a dizer por hypothese, 
que Juan Valdês Leal, com todas as suas verdades nuas 
e cruas, não se abeira muito do passaporte chancellado 
pelos deuses immortaes. 

E. A. VIDAL. 




ARTES E LETRAS 



141 



PST! 

N3o tem nomo; não 6 Manuel, nem Joaquim; nSo 
é Cyrillo, nem Fraxedes, nem Syniphronio, nem Wen- 
ceslau, nem (Quintino, — é o Pst! Chama-so da janolla, 
ou da rua: Put! c já se sabô que é ellc! 

Dos muitos vendilhões do Diário de Noticias oste 
é um dos valentes. Boa voz de barytono, e um sapato 
só; a nota e a agilidade! 

Nunca lê o jornal, — unicamente porque nSo sabe 
ler; mas empresta o numero a um gallego seu conhecido, 
que faz leitura em voz 
alta aos companheiros, 
umas vezes á esquina, 
outras na taberna, — 
c elle ouve. Está ao 
facto sempre das coi- 
sas do Hospanha, 
aprende de cór e sal- 
teado seu verso de 
vez em quando, prin- 
cipalmente quando 
a poesia dá parte ao 
publico de que princi- 
piam a apparecer os 
grillos ; não engraça 
com a concisão dos 
despachos telegraphi- 
cos, o pede sempre 
que lhe leiam um cri- 
mesinho, ou qualquer 
coisa funesta. Horrí- 
vel incêndio, Horrivel 
attentado, etc. 

Ha no jornal uma 
parte, nem de instruc- 
ção nem do recreio, 
mas simplesmente ne- 
gocio commercial, quo 
d'antos o entretinha 
muito — os annuncios. 
Tomava-os a serio. 
Em a folha gabando 
a pomada ou a farinha 
do sr. fulano, já ello 
cuidava que se fazia 
isso cora um íim des- 
interessado. Quando 
lhe explicaram que os 
directores, n'esso pon- 
to, são commerciantes 
de publicidade, e quo, 
debaixo d'esse titulo, 
não poderiam levar a 
mal que cada um es- 
time e avalio sua fazenda, quer seja vinho, botas, rou- 
pas, ou outra qualquer coisa que esteja á venda, estra- 
nhou ellc não ver na terceira o quarta paginas uma só 
palavra exaltando os talentos dos que fazem composições 
poéticas, theatraes, ou para livraria, outrosim chamados 
litteratos, alguns dos quaes elle conhece, do os ver á, 
porta do Martinho e outras academias. Reparando então 
com mais escrúpulo, viu que os annuncios d'esses vinham 
no que se chama corpo do jornal, o chegou a averiguar 
que não oram pagos: — ao principio isto espantou-o; an- 
nuncios a engrandecer os litteratos do Martinho, sem 
lhes levar nada por isso — pareeeu-lho celebre; talvez 




íí^ 



que o Martinho é que os pagasse. Mais tarde, porém, no 
seu lidar do jornalismo o grande pratica da imprensa, 
veiu a entender tudo: não deveriam ser pagos esses an- 
nuncios do elogio a litteratos, por serem feitos muitas 
vezes pelos próprios louvados; e deverem por esse facto 
ser considerados... litteratura! 

Ganha por dia perto de três tostões. Escolheu este 
emprego pelo amor quo sempre teve ás letras, comquanto 
8Ó as conheça ... de vista : não é mettediço ; convivendo, 
já ha um par do annos, as letras e elle, pois nem assim 
ainda, se metteu com cilas; mettediço, não é. 

A noite, alli pelo Rocio, á hora dos botequins, on- 

ve-se um bocado de 
politica, que abre 
muito o entendimento ; 
elle põe-se a escutar, do 
jornaesinhos debaixo 
do braço, ganhando 
assim novas luzes jxilo 
«ovacco e pela orelha. 
Ainda não teve occa- 
siào do SC manifestar, 
mas tende um pouco 
para a republica; um 
dia d'estes conver- 
sando com um amigo 
chamado pirrfdho, ou 
Pirralho, — o P grande 
ou p pequeno é indif- 
ferentc, porque é ap- 
pellido de phantasia, 
ou alcunha, como se 
costuma dizer, — pon- 
derava elle a vanta- 
gem de democratisar. 

— Tu já sabes 
ler? perguntou-lhe o 
outro. 

E elle a insistir 
na idéa de democrati- 
sar, democratisar. 

— O quo tu de- 
ves é aprender a ler! 
tornava-lhe o Pirra- 
lho. 

— Bem sei o que 
tu dizes; é bom, é; 
não é mau o saber 
facilita o gajo a ex- 
plicar-se; mas, deixa 
lá... 

E ia teimando 
com a receita, de que 
o que é mais preciso 
' é democratisar. 

Anda muito, e va- 
ria as suas digressões; até"vae ás vezes para Cintra, e 
por lá se deixa ficar uns dias, depois de combinar com ou- 
tro amigo o sou programma de negocio, que é o seguin- 
te: o amigo parte do Lisboa com os jornaes, fresquinhos, 
ás quatro horas da madrugada; chega ao Cacem ás sete, 
vendendo pelo caminho, e levando uma reserva; no Ca- 
cem está á espora d'elle o outro, que recebe a reserva, 
põo-se a caminho o chega a Cintra ás nove horas, — an- 
tes dos omnibus! 

Esta tarefa pesada o difficil, a elle não lho custa 
muito. Peior e bem poior massada lhe pareço a de ser fi- 
gurão : ahi está, por exemplo, que chega a ter dó do quem 



3^ 



142 



ARTE lá E LETRAS 



.andíi nas azas da moda, o quo contraho para com o 
iimndo a obrigaçFio de dar festas o de entreter os outros. 
Quando lho encommondam, n'uma casa ou n'outra, grande 
porção de certo numero do jornal onde vem descripta a 
luzida soirée que lá se deu, logo ello fica com pena d'a- 
quella família, a pensar nas trezentas cortezias que os 
donos da casa tiveram que fazer aos convidados, e no 
inconnnodo que ha de ser ficarem no outro dia a untar 
a nuca com óleo de amêndoas doces para a conservar 
brandinha e flexível! 

Era casa de ferreiro, espeto de pau, — vende o jor- 
nal, mas nunca vem n'elle. É independente, está satis- 
feito, nào inveja a sorte de outrem; os aldeões de Virgí- 
lio seriam felizes, se conhecessem a sua felicidade: este 
é feliz, e conhece-a. Nào é nada, não é ninguém, é o 
Fêt!... 

JÚLIO CÉSAR MACHADO. 



CURONICA DO MEZ 



ODA a impren- 
sa ti i a i- i a e 
hpm assim os 

(lllfí st! occu- 

pain cm dis- 
(tutir as iiltí- 
iiias Movida- 
des, tiveram 
i'sli' mez lar- 
jTds assumptos 
para manifes- 
tar a sua eru- 
dita e cons- 
cienciosa opi- 
nião. 

A these de- 
fendida por 
Alexandre 
Dumas — o es- 
criplor da mo- 
da em França 
— de que o 
marido tem 
direito de mn- 

tar a es|)osa que o atraiçoa, e a demonstração llieurica e pratica dada 
pelo padre Jacintho — outro vulto da moda tambtm em França — de 
que os padres leeni direito para se casarem, toem sido, e ainda são, 
os prineipaes thenjas dos dehates dos periódicos e das conversações 
dos particulares nos cafós e em f.miilia. 

Eu nSo pretendo emittir aqui parecer, nem sobre as arrojadas 
theorias de Alexandre Dumas, nem acerca da resolução heróica do 
padre Jacintho. A(igura-se-me porém que este escolheu a peior occa- 
sião para reclamar os direitos que, a seu ver, tem o sacerdote de 
|iossuir mulher legitima. É numerosíssima a classe a que pertence o 
padre Jacintho, iiurlanto numerosíssimos serão os casamentos, defe- 
rindo-so ao re(pierimento do celebre orador .«iagrado. Ora como do 
angmento dos casamentos, provém necessariamente o augmento de 
probabilidades de haver maior numero de esposas infiéis, segue-se 
i|iie, em conformidade ás theorias de Alexandre Dumas, teremos de 
jissistir mais amiuda<las vezes ;l applicação da pena de morte As mu- 
lheres, o que será de certo espectáculo trislissimo dado pela humani- 
dade, ii'uin século (pie se diz de progresso e civilisação. Que, para íallar 
verdadt!, isto de idéas contra a pena de morte, vae, quanto a mim, 
retrogradando a ollios visto entre nós. Ainda ha pouco as duas ca- 
marás, a impren.sa, os discursadores do Martinho, os sócios do Gré- 
mio, os frequentadores do (Chiado, todos os lioiis portuguezes, emlim, 
ofipunliam, como augmenio frisante e irre.sistivel para destruir cer- 
tas accusaçõps que por vezes nos fazem, de estarmos um século atra- 
zados, a al)oliçao da pena de morte. Diziam com louvável jactância: 
— Enganam-íse os que nos julgam pouco adiantados; caminha- 
mos na vanguarda da civilisação, porque acabámos de facto e de di- 
reito com a pena de morte. 




Pois muitos, alguns até que votaram a lei que nos fez dar 
Ião largo pas.so na vereda da civilisação, applaudem hoje o alvi- 
tre de Alexandre Dumas, e pedem, ao mesmo tempo, a vida de um 
soldado, que teve a malvadez e covardia de assassinar um seu supe- 
rior. 

Repito, n3o venho para aqui defender nem condemnar as asser- 
ções do escriptor francez, apresentadas no sen prologo, ao novo drama 
que vae põr em scena; não approvx) nem reprovo a determinação to- 
mada pelo padre Jacinllio, de se ligar matrimonialmente a uma mu- 
lher, em contravenção dos iireccitos da egreja, nem tão pouco dis- 
cuto se para a disciplina do exercito é preciso ou não privar da 
vida o facínora que ennodoou a farda com o sangue do seu superior. 
Registo apenas os factos, quasi sem commentarios. 

Seja-me porém permiltido que, a propósito do que fica dito, la- 
mente um dos peiores e dos mais inveterados vicios que nos cor- 
roem: — a pouquíssima attenção que damos aos negócios de maior 
intere.sse, para nos occuparmos dos de interesse secundário. 

Ha pouco me fazia notar com tristeza um amigo intelligente e 
pratico do mundo, este fatal systema de vid.i. 

— Escute, me dizia elle, as conversações animadas dos grupos 
de certas classes que invadem os logares puhlico.s, e diga-me se al- 
guém falia da guerra dos Demhos, que traz cm sustos uma das nos- 
sas melhores províncias do ultramar; ou dos tristes successos de 
Moçambique, esquecidos mas não terminados; ou dos salteadores da 
Índia, que põem em risco a vida e os haveres de tantos irmãos nos- 
sos; ou da politica chineza que se enipenlia em nos ser desagradá- 
vel, sempre que pôde, na impoi tante cidade de Macau. Não, ninguém 
falia de símilhanle coisa: o bomcm-nnilhcr, a conferencia dos três 
imperadores, as experiências da nova arlilhcria em Trouville e o 
casamento do clero, .são os assumptos das acaloradas discussões 
entre toda a gente (|ue sabe ler, e que podia enlregar-se com mai» 
utilidade aos negócios da própria casa, em vez de analysar detida- 
mente os da casa alheia. 

É esta uma grande verdade; .sofTremos ha muito das funestas 
con.sequencías d'este mal e continuaremos a soíTrer, se, «mvencen- 
do-nos de que precisamos mudar de vida, não tomarmos um dia esse 
expediente acertado. 

A feira de flelem e os banhos do mar marcam a transição do 
estio para o inverno. Fecha o pa.sseio, despovoa-se Cintra, acabam 
as carapínhadas e os sorvetes; immediatamenle os que não mudam 
a casa para Pedrouços, Oeiras ou Cascaes, recolhem a Lisboa, os 
theatros reabrem as suas portas, começa a apparecer nas mesas dos 
hotequins um ou outro meiogrog. 

Entra-se no outono, estação formosa e temperada, em que ha 
noites de luar admiráveis e convidativas á meditação. É bom estar 
n'uma d'e.ssas noites sentado sobre uma rocha ou recostado na areia, 
vendo a immensidade das aguas do mar brilhando como lamina ex- 
tensíssima de prata, recordando as aventuras e prazeres desfructados 
no verão, e calculando as aventuras e prazeres que se hão de gozar 
no inverno. Porque nós vivemos das recordações do passado e das 
phantasias do futuro. O presente é para nós coisa insignificante; não 
o sabendo apreciar, deixamol-o transformar-.se em passado, para en- 
tão lastimarmos que não seja presente. Anatbema que persegue a hu- 
manidade para que nunca sejamos felizes, visto que fazemos consis- 
tir a felicidade tão somente no que não podemos rehaver e no que 
talvez nunca possamos liaveri 

Parece que a fortuna se resolveu a proteger n'esta época os thea- 
tros de Lisboa. D. Maria e o Gymnasio encetaram as suas represen- 
tações, obtendo a concorrência de numeroso publico. 

l). Maria recorreu ás melhores peças do antigo repertório, as 
quaes pela sua contextura e bom de.senqienho parecem não se fazer 
velhas. Mostrou que a sua companhia é muito competente para re- 
presentar composições de primeira ordem, do que nío era licito du- 
vidar, ligurando entre vários nomes estimados, os de Emília Ade- 
laide, Virgínia, Gertrudes, Santos, Theodorico e António Pedro; por 
fim, deu-nos peça nova. Jvlia, se intitula; é seu aurtor Octávio 
Feuillet e Iraductor o sr. Erni-slo Biesler. Este drama, que já corre 
impresso traduzido pelo sr. Castilho e Mello, a quem agradeço a de- 
licada lembrança de me enviar um exemplar do seu Iraíialho, é com- 
posição destinada a moralisar os maridos devassos, inllingindo-lhes 
o mais severo dos castigos. Construído sobre bases não muito soli- 
das, conduz todavia os seus poucos personagens a scenas de interesse 
e eíTeito, principalmente cpiando representadas por artistas do ta- 
lento de Santos e Emília Adelaide, ^inguenl, creio, .será capaz de in- 
terpretar melhor do que Santos o terceiro acto da nova peça; lenho 
pena de que .se ache esgotada com este notável actor Ioda a pbra- 
seologia do elogio, porque desejava eniiarecer o seu ultimo trabalho 
com encómios que ainda lhe não tivessem sido dirigidos. 

O Gymnasio abriu com — A filha vnica, comedia em qualn> 

actos, traduzida pelo sr. Lopes Cardoso de uma rx)niposiçSo italiana 
em cinco. Também n'essa noite subiu á scena a comedia origi- 
nal do sr. Santos Lima — O afilhado do marqvez, e a eminente 



ARTES E LETRAS 



14.) 



actriz Emili.i das Neves recitou a formosa poesia do sr. E. Vidal — 
As mães. 

A priíneira cnmedia agradou porque tem elementos para isso e 
foi muito liem dest'iripi'iiii:i(la jxir Maria das Dores, Maria Adelaide, 
JoSo Uosa, 1'olla e l'iiilo de Campos. Alisurda por vezes, ò eorniudo 
arcliilectada por mfio linliii e sej,'ura. í) terceiro acto 6 do extra- 
ordinário vi|;or. Succedem-se as seeiías violentas e arliliciosamenle 
preparadas para enthusiasmar a platéa, e o desempeidio por parte 
de Joáo Itosa e dos seus collegas, ii'csse acto, faz com que se nâo des- 
aproveite uma única situação. 

O sr. Santos Lima, auctor lisonjeiramente experimentado nas 
lides da scena, foi menos feli/j^com a sua nova producvrio, do que o 
tem sido com outras. A comwlia — O afilhado do mnrquez é muito 
longa e tem pouca vida. Talvez que se idguns dos artistas que a re- 
[iresentaram, diligenciassem animar nm pouco mais os seus papeis, 
ella tivesse maior agrado, mas da maneira como foi levada d scena é 
forçoso dizer que nâo caplivou muito a atlençSo. 

(íomtudo eu apjilaudo o tiakillio do sr. Santos Lima. Fez uma 
peça original, procurou emancipar-.se, t! emancipar-nos, da tutella 
estrangeira — lioma lhe seja. Vale mais um original menos bom, do 
(|ue a melhor traducção. Se foi pouco feliz com esta peça, nSo se se- 
gue que não seja muito e nuiilo feliz com as demais; continue por 
conseguinte a escrever composições suas, que faz cora isso grande 
serviço ao thcàtro portuguez. 

O incançavel escriptor, o sr. Pinheiro Chagas, publicou mais 
dois livros — O seíjrcdo da viscondesíí<t e os Guerrilheiros dit morte. 

Ninguém sabe aonde o sr. Piídieiro Chagas se fornece <le tempo 
para produzir tantos e tão diversos trabalhos lilterarios, con>o os que 
da a publico lodos os dias. É preciso ler fecundíssimo talento para 
conseguir o que o sr. Chagas realisa. Na politica, na historia, no ro- 
mance, no Iheatro, no jornalismo litterario, em Indo que reclama o 
auxilio das leiras, emprega o distincto escriptor o seu engenho e sem- 
pre com distinceão. 

Aos seus últimos livros tenho ouvido tecer os maiores gabos; 
eu nada posso dizer d'elles, porque ainda não tive o gosto de os ler. 

Os periódicos diários tf^em-se occupado com elogio de um opús- 
culo anonymo, em verso, intitulado — Os pães da mãe pátria. 

É realmente um folheto 'engraçado e curioso. Conhece-se que o 
auctor nâo é novato em trabalhos d'este género, que tem profunda 
observação e veia humoristica para descrever os typos que intenta 
apresentar ao publico. Ás maliciosas allusões e ás catilinarias de fe- 
rir fogo que o escripto contém, presidem sempre dois dos predicados 
mais necessários e raros de encontrar em assumptos d'esta ordem : 
— a boa educação e o critério. 

Annuncia-se um livro de critica á traducção do Fausto feita 
pelo sr. visconde de Castilho. O livro é firmado pelo sr. Joaípiim de 
Vasconcellos, cavalheiro de bastante merecimento com quem tenho 
lido o gosto de tratar de perto mais de uma vez, e que muito 
aprecio. 

Não conheço o livro e por isso não posso fallar d'elle. Deye to- 
davia despertar a maior curiosidade, porque isto de criticar qualquer 
obra salda das mãos de qualquer escriptor, é sempre tarefa dillicil e 
arriscada; criticar porém uma obra como a traducção do Fausto, 
e principalmente sendo a traducção devida ao talento do sr. visconde 
de (íasliiho, é caso mais serio, porque as diíTiculdades e os perigos 
tomam vulto de tal sorte assustador, que é mister ter a consciência 
bem segura do trabalho a que »e niettem mãos, para o emprehender 
desassombradamente. 

Iíst(m certo, porém, de que o sr. Joaquim de Vasconcellos, que 
já publicou a importante obra (|ne trata dos músicos portuguezes, 
não dava agora á estampa um livro de lania responsabilidade se não 
se considerasse perfeitamente habilitado para o escrever; é por isso 
que, repito, a critica do sr. Vasconcellos áceica da traducção do 
Fausto, está destinada a despertar a maior curiosidade. 

O senador brazileiro o sr. Silveira da Moita deu á publicidade 
no Rio de Janeiro — Três discursos proferidos no senado na dis- 
cussão da falia do throno e da fixação das forças de terra, e um 
Jornal de conferencias radicaes, contendo outros discursos pronun- 
ciados pelo illustre orador. 

Recebi estas publicações, o pela rápida leitura que fiz de taes 
discursos, pareceu-me que o sr. Silveira da Motta é orador de vastos 
conhecimentos políticos, históricos e litterarios. Se juntar ao saber os 
demais dotes indispensáveis ao tribuno, dotes de cpie só pôde fazer 
menção quem o tiver ouvido fallar em publico, deve occupar distin- 
ctissimo logar entre os oradores do império. 

Infelizmente nenhuma novidade acerca de artes tenho para dar 
n'esta secção. Escasseiam os trabalhos e escasseiam os artistas. 
Actualmente na Academia estudam poucos alunmos e quasi ne- 
nhum d'elles dá esperanças de vir a ser notável talento. Aqui 
ninguém se entrega seriamente ao estudo das bellas-artes. Os pães 



' nflo mandam ensinar desenho aos filhos com o propósito de lhes fa- 
cilitar uma carreira em que [>ossani ganhar a vida. Quando os man- 
dam aprender desenho é |)ara (pio os meninos possuam uma prenda. 
Lisonjeia-lhes a vaidade terem um lillio (|ue faz uma cara, ainila que 
.seja com os olhos tortos e a bocca á banda. Em terra onde a arle é 
considerada prenda, nunca pôde haver artistas. E d'ahi muita gente 
ainda conserva certos preconceitos a respeito dos que se dedicam ás 
artes, e em geral com relação á gente de talento. O que Frederico 
Soulié diz n'um dos seus romances — 'II reste encore asscz de bour- 
geois qui eonsidèrent wi clerc de notaire mi un eommis á la eaiue 
des consií/nations comnie iin liomme mieu.r poié qui le peintre le 
plus célélirc' é moeda muito corrente entre nós. 

Outra circumstancia a (pie se attribue a falta d(i artistas, é a do 
não haver quem compre trabalhos. Esta causa produz efrectivamenie 
perniciosos effeitos. Não que os bons artistas não vendam sempre as 
suas producçCes — alguns ha a quem falta o tempo para satisfaze- 
rem as pes.soas que desejam possuir obras suas — mas o artista nie- 
diocre não tem nada que fazer em Portugal e morre de fome, se nâo 
lança mão de outro modo de vida. Ora como nem todos teem a cer- 
teza de ch(!gar a ser grandes artistas, quasi ninguém quer arris- 
car-se a ser mediocridade e por conseguinte a morrer de fome. 

La fora, nas grandes cidades, todos vivem, bons o maus, pri- 
meiros e últimos. Aqui a pequenez do paiz, a pouca vida industrial, 
o nenhum gosto pelas artes e a falta conqdeta de prolecfão dada pe- 
los governos a este imporlantissimo ramo da instrucção publica, são 
a origem de (me succeda justamente o contrario. 

Não cessarei portanto de repetir: — olliem com attençSo e in- 
teresse, aquellcs a (piem o assumpto está incumbido, para a necessi- 
dade absoluta de vencer os obstáculos que se opixjem ao progrt!sso 
das bellas-artes em I'ortugal, que prestarão, com as suas luzes e bons 
desejos de acertar, relevante serviço ao paiz. 

BAKOEL DE LIMA. 




DIVERSAS NOTICIAS 



^^== Installou-se em Lisboa a Commissão central directora dos 
trabalhos preparatórios para a Exposição universal deVienna d'Aus- 
tria, commissão de que é presidente Sua Magestade El-Rei o senhor 
1). Fernando. 

Saíram á luz no Brazil as seguintes obras literárias: 



Historia dos jesuítas e suas missões na America do Sut, pelo 
sr. doutor Mello Moraes. 

Jardim Peíotense, periódico literario publicado em Pelotas. 

Entreacto, revista semanal de artes, leiras, costumes e politica. 

Hesumo de economia social e Homu perante os secidos, pelo sr. 
Carlos de Koseritz. 

O pamphletista (auctor dos typos polilicosj, pelo sr. Valério 
Publicola. 

Historia dos martyres da liberdade, versSo pelo sr. Abranches 
Gallo, ampliada com vários episódios da historia lío Brasil e de Por- 
tugal. 

Tjipos judiciários. 

Estudos ofiricolas, pelo sr. J. J. Carneiro da Silva. 

Typos industriaes e financeiros, pelo sr. doutor Albino dos 
Santos Pereira. 

Preciosas celebres, por Quinlius F^abius. 

O Constitucional, folha do Rio Cirande do SuL 

Flores, poesia dedicada ao sr Pedro Américo, pelo sr. Gui- 
lherme António Lopes. 

Contos de Paquera, pelo sr. J. J. Pereira de Azurara. 

Travessura de Cupido, comedia de costumes pelo sr. Dias da 
Silva Júnior. 

Lyra Christã, volume de poesias pelo sr. Rrazileiro Dias. 

Confiquração e estudo botânico dos tegetaes seculares, pelo 
sr. doutor José de Saldanha da Cama. 

Calechismo brazdeiro, pelo sr. Cvriaco .\ntonio dos Santos e 
Silva. 



144 



ARTES E LETRAS 



===== Com mais dois quadros presenteou o sr. conde de Carva- 
Ihido a nossa Academia de bellas-arles. Sio uma paizagem, de lireu- 
ghel, e um c3o, de Goya. 

Também o distineto pintor licspanhol o sr. Ocon, offereceu á 
Academia uma excellente marinha, expressamente pintada para este 
fim. 



=== Annunciase em Madrid a publicação do um novo perió- 
dico — La illustracion hispano-portuguesa, de que sáo jodaclores 
e collaboradores muitos dos priíicipaes lioinens de leiras do visinho 
reino. O novo periódico trata de sciencias, liltcratura, industria e co- 
nhecimentos úteis; é illustrado com pravuras dos melhores artistas 
6 começa a publicar-se no l." de outubro. 

=== Foram retirados do jardim das Tulherias, para serem ex- 
postas n'uMi dos vestíbulos do Louvre, todas as estatuas de ferro fun- 
dido, sendo substituídas pelos .seguintes trabalhos: 

Flora descendo do carro, estatua em bronze por Laurent Ma- 
gnier, que estava n'uma das portas de S. Cloud. 

Kriíjone, estatua em mármore, peio sr. Camer Belleusc. 

Omphle, pelo sr. Eudes. 

Vénus, pelo sr. Clésiiigi'r. 

Diana e a Nymplia, pelo sr. Lcvíque. 

O venkedor na carreira, estatua em bronze pelo sr. Falquiôre. 

Além d'estas composições foram collocadas sobre os pimthos 
que rodeiam o lago central dezcseis bcllos vasos de mármore, tira- 
dos dos jardins de S. Cloud. O caçador em descanro, di; Nicolau 
(]ouslou, o Annibal de Slodtz e o Jidio César de (jilhermo Cons- 
tou, foram transportados para o Louvre, para a Sala dos Constou, 
onde igualmente se acha o Mercúrio, de chumbo, feito por Pigalie, 
trazido do jardim do l..uxemburgo, onde foi suhstituido por uma 
bella copia do Fauno antigo, da casa Uarberini. O tocador de flauta, 
de Coysevox, do jardim das Tulherias, occupa hoje o centro da sala 

Tue encerra o tunmio de Mazarini, sala em que tand)em está uma 
'emis, de Anguier, trazida de S. Cloud. Quatro trabalhos de Lo- 
gros, vindos dojírdim de S. Cloud, contribuem para a ornamenta- 
ção da Sala Puqet. A Joanna d'Arc, de Hude, foi tirada do jar- 
dim do Luxemburgo, para ser exposta na Sala de Chaudet, para 
aonde tornou o Philopoemcn de David d'Angers. 



. O museu de Varzy (Nièvre) fez acquisição dos modelos cm 
gesso de sete estatuas e um busto executados pelo estatuário Júlio 
António Droz, morto em Paris no mez de janeiro ultimo. 

Um livreiro e editor do Brazil, o sr. E. Dupont, imaginou. 



para facilitar a publicação das obras litterarias e scienliticas dos es- 
criptores d'aquelle paiz, formar uma companhia, que se denomina 
— Typographo-litteraria. 

No largo de S. Franciscç de Paula, no Hio de Janeiro, vae 



ser elevado um monumento ao heroe da independência, José Honi- 
facio de Andrada e Silva. A estatua representa-o em pé, fardado de 
ministro de estado. A exccuçíío da obra foi confiada ao estatuário 
Rochet, que já a concluiu. 



===== S5o notáveis os resultados que produziram, durante o anno 
escolar findo em abril, as aulas inglezas destinadas ao ensino das 
artes, 50:016 trabalhos foram executados nas U'J7 classes frequentadas 
de noite, e 73:226 nas classes frequentadas de dia, o que dá um to- 
tal de 129:242 obras de desenho, modelação e pintura. Feita a com- 
paração com os resultados obtidos no anno de 1871, ha uma dilTe- 
rença de 19:051 trabalhos a mais. Todos os trabalhos foram submet- 
tidos a exanje prévio; uma commissão de examinadores estudou 
cada escola om separado. No exame foram concedidos 1:100 pré- 
mios de 3.' classe ; a commissão escolheu em todos os desenhos de 
cada escola 1:208 trabalhos dos melhores e dos mais adiantados, 
para enviar ao Concurso nacional em que comparecem todas as es- 
colas de arte de Inglaterra. Como recompensa dos concursos, conce- 
deram-se juntamente com prémios de livros, 10 medalhas de oiro, 
25 de prata e 60 de bronze. Todos os trabalhos recompensados no 
Concurso nacional, como algumas outras obras premiadas n'outros 
concursos, sSo de novo expostos na galeria occidental do pavimento 
inferior do Museu de South Kensington. Esta esposiçSo está aberta 
ao publico desde julho até setembro. 

=== Um dos primeiroR pintores da Allemanha, Eduardo Ma- 
pnus, nascido em Berlim a 7 de janeiro de 179!*, morreu ha pouco. 
Depois de haver successivamente estud.ndo medicina, architectura e 
phdosophia, frequentou o atelier de pintura de Schiesinger, tornan- 
tlo-sc notável na exposição de 1826. Depois percorreu a França e a 
Itália, e foi eleito, cm 1837, membro da Academia das bellas-arles 
de Berliu), sendo nomeado profes.sor em 1844. Mandei c Trossin 
gravaram muitos <los seus quadros de género, entre os quaes — Dum 
raparigas ao nascer do sol. Duas creanças. Uma ramponeza c Um 
pescador de Neja. Era eminente sobretudo nos retratos; quasi lo- 



dos 08 príncipes e a maior parte das notabílidadcs da Allemanha fo- 
ram retratados por elle. Os retratos de Jenny Liud, da Condessa de 
Hossy-Sontag e da Mendiisnohn-llarthddy liguraram na exposição 
universal de Paris en) 1855, onde obtiveram :i medalha de 2.* ciasse. 
Á exposição de 1867 enviou — Orpheu trazendo Eurydice á luz. 

■■ Suicidou-se o joven gravador hespanhol BoscUo, que esta- 



va estudando na Eschola de bellas-artes de Paris. Achando-se gra- 
vemente doente, resolveu tornar a Hespanha para junto de sua famí- 
lia. Um medico teve a imprudência de lhe dizer que a moléstia era 
incurável, e o artista, desesperado do seu estado, atirou-se de uma 
ponte para a linha do caminho de ferro, na occasiáo em que passava 
um comboio. Ilosello gravou um Christo morto, copia de uma tela 
de Filippe de Cliampagne e publicada pela sociedade franccza de 
gravura, e deixou nor acabar uma famosa chapa, copia do Christo 
morto, cliwado pelas santas mulheres e pelos apóstolos, formoso 
quadro de Bibera, collacado ultimamente n'uma das salas do Museu 
do Louvre. 

O Caljinete das estampas de Paris comprou, pelo enorme 



preço de 440á0(X) réis, uma cstanq)a única o de hello estylo, attri- 
buida a Botticelli e perlencentH á collecção Weigel. Esta primorosa 
obra, que proviníia do gabinete Otto, de Leipzig, foi provavelmente 
gravada para ornar a tampa de uma caixa redonda. 

Morreu com a cdad'! de 78 annos o decano dos pintores 



alIeniAes Júlio Guy João Schnorr von Harosléld. Na.sceu em Leipzig, 
foi discípulo da Academia de Menna, e partiu para Boma, onde se 
demorou dez annos. Tornando á Allemanha excerceu o professorado 
na Academia das bellas-artes de Munich, depois na de Dresde, sendo 
nomeado director do museu real d'esla cidade. Era também membro 
associado do Instituto de França. Alem dos cinco quadros exlrahidos 
das lendas dos Niebelungen, que pintou nas casas ao rez do chão da 
Nova Besidencia de Munich, por ordem do rei Luiz, e de cinco ou- 
tras telas colossaes, cujos assumptos são tirados da historia de (Carlos 
Magno, de Barba-Hoxa e d í Bodolpho de Hapsburgo, com que ornou 
a sala das recepções, executou grande numero de outras obras, entre 
as quaes : uma Santa Familia, S. Roque distribuindo esmolas, 
Scenas de Ariosto. pintadas a fresco para a cidade de Massini, a 
Annunciação da Virgem e muitos quadros em collaboração, tirados 
da vida de Jesus. Também executou, com o sr. Neuruther, as illus- 
trações para uma edição dos Niebelungen, e deseníios gravados em 
madeira para uma edição de luxo da Bíblia. 

==^ Uma interessante dadiva de cerâmica foi feita ao museu de 
Sôvres pelo sr. Brianchon, archeologo normando. É uma porção de 
azulejos da Henascença, arrancados de uma casa situada no logarejo 
de Marc-Barbet (arredores do Havre). Os azulejos representam car- 
rancas, ornatos, flores de liz, medalhões de homens e de mulheres, e 
são considerados cotoo amostras raras e preciosas d'aquellas decora- 
ções no século xvi. (>ino succede muitas vezes com as obras de ce- 
râmica, parece que o oloiro moldou os azulejos sobre alguma arca de 
madeira da época. Os entendidos podem encontrar estes specimens 
curíosos no museu de Sévres, ao lado da numerosa serie de ladrílhos 
esmaltados que possuo aquellfe estabelecimento. 




Ua-liirauiu Nicia3iÀi.-i873 



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ARTES E LETRAS 



145 



ARTES E LETRAS 




Lisboa— Outubro de 1872 




OS íbusos do realismo 



ÃO sei palavra mais pro- 
dif^alisada e menos defi- 
nida do que o realismo. 
Devendo designar uma 
theoria do esthetica, que 
abolisse o dogmatismo 
clássico o o subjectivismo 
romântico, caiu das osphe- 
ras luminosas o serenas 
da arte nos armazéns da 
moda, onde o esfarrapou a 
ignorância, onde a pobre- 
za de engenho o amoldou 
ao seu corpo, onde o pru- 
rido de excentricidade lhe 
dou o relevo, as formas e 
as proporções de escândalo 
artístico. Se o nào desprendermos dos abusos, que d'elle 
teem feito a desordem e a presumpção dos espíritos, mor- 
rerá sua victima. 

O que banalmente começou a ínculcar-se como rea- 
lismo na plástica, foi a copia servil, plana, mechanica 
das formas naturaes, e a carência, na arte, do seu ele- 
mento subjectivo: a idéa. A escola incipiente começou a 
legislar em Poi'tugal para os methodos de trabalho ar- 
tístico, e prescrevendo como regra, aliás proveitosa, não 
pintar nem esculpir senão com o modelo á vista o para 
o retratar, determinou em alguns artistas a tendência 
jjara não passarem alem de estampar na tela a natureza 
inanimada, com a fidelidade da photographia, realçada 
pela imitação do colorido. E como, por via de regra, não 
andam muito levantados por espontâneas aspirações nem 
muito estimulados pela critica o pelo gosto publico os es- 
pirites consagrados ii arte, a observância da regra rea- 
lista, mal entendida, deu de si o fabrico d'esses quadros 
taboletas, em que os tachos vidrados se grupavam inva- 
riavelmente com peças de casa, avelludados pecegos o 
bem areiadas bacias de arame, e que exprimiam um ideal 
que só excedia a cozinha para entrar na despensa. Ad- 
mittida como suprema lei a necessidade dos modelos, e 
como ultima meta a reproducção, de espelho, d'essos mo- 
delos, os ai'tistas, homens lareiros, aproveitavam-se dos 
que mais lhes andavam debaixo de mão, e como entre 
nós, por um pudor cómico, a forma Innnana, ainda a que 
se desnuda para a lascívia, escrupulisa revelar-se ao 



amor puríssimo da arte, raro a víamos viver na tela fora 
das condições do retrato, que ó género para pouco mais 
do que attestar habilidades de processo. Os talentos de 
composição envergonharam-se de apparecer; a pintura 
histórica, pintura por excellencia, foi quasi totalmente 
abandonada, ou por se entender que não era consoante 
com o realismo, ou por se reputar difficilimo appliear-lhc 
08 seus methodos. 

Perdoem-nos os nossos artistas a liberdade d'e8taB 
reflexões, que só censuram um momentâneo descaminho 
do alguns, que todos vão corrigindo. As copias da natu- 
reza inanimada eram proveitosas como estudos do desenho 
.0 de cor: não podiam, todavia, ser acceitas como appli- 
cação cabal de uma theoria artística. O uso do nunca 
desviar as vistas de um modelo é bem calculado preser- 
vativo contra as aberrações do lápis c do pincel, movi- 
dos pelos erros da reminiscência ou pelas deficiências do 
estudo: mas vae longe d'esse uso recommendavel ao 
apertado preceito de não lançar na tela senão o que os 
olhos contemplam, preceito que limita absurdamente os 
horisontes da arte, annulla a concepção artística, e quan- 
do observado com exagerado escrúpulo, arrasta o pró- 
prio talento a pintar, por exemplo, David, um inculto 
pastor de Israel, com os cabellos cortados á ingleza i)elo 
nosso Daron! Yj dado o preceito, e querendo observal-o 
escrupulosamente, o artista só poderia evitar este erro 
imperdoável o outros análogos, se alcançasse, para moldo 
do seu vencedor de Goliath, um typo da raça semita, 
com os dotes pliysicos que essencialmente se suppõem no 
juvenil athlota; sem o que, ou o assumpto não poderia 
ser tratado, ou o quadro não seria realista, ou o modelo, 
não sendo dispensado, soffreria profundas modificações. 

Ora, a doutrina que de consequência cm consequên- 
cia induziu alguns dos nossos artistas a conterem os seus 
talentos no âmbito das vasilhas de barro e das fructei- 
ras, é uma falsa interpretação do realismo. O realismo 
espedaçou os canons da estatuária grega e todas as con- 
venções clássicas dogmatisadas pelos Davids; o realismo 
reprehende a semceremonia com que a arte romântica 
refunde a natureza, ou para a aformosear, como cila 
dizia, ou porque, preoccupando-se exclusivamente com a 
idéa ou o sentimento a exprimir, descura a sua ex- 
pressão; o realismo substituo á immobilidade do modelo 
grego e ás regras prefixas do bello, a variedade do mo- 
delo vivo; ordena ao espirito individual que subordine 
a sua conccptividado ás leis naturaes, legisla a verdade 
primorosa da f(')rma e da côr, mas somente para que os 
elementos objectivos da arte sirvam melhor, mas exacta 
e completamente á manifestação do uma idéa, de um 
modo de ver dos phenomenos physicos, moraes ou so- 
ciaos. 

Não reduz, p>is, a' arte á copia da natureza; exige 
quCella seja inviolável para as faculdades artísticas, mas 
permitte-lhes variarem infinitamente o sou ponto de vista, 
encarar os objectos em todas as suas phases, e escolher 
d'ellas as que mais lhes convém reproduzir para a reali- 
sação do fim proposto. E c porque anda mal comprehen- 
dido este respeito da theoria realista pelo elemento sub- 
jectivo da arte e pela libei-dade de espirito do artista, 
que ella tem sido tão calumniada e tem padecido que 
em seu nome se decretem regras absurdas e se estabele- 
çam doutrinas falsas, que in-ge desmentir e abandonar. 

Mas ainda não tinha sido justiçada entre nós, — e ob- 
serve-se que as minhas observações não transpõem as 
fronteiras, — a moda de copiar servilmente a natureza in- 
animada, e já apparecia outra supposta applicaç-ão do 
realismo a provocar novos e porventiu'a mais clamoro- 
sos protestos, c a attrahir as cóleras o os raerocidos des- 



N.» 10 Jc 1872 



14G 



ARTES E LETRAS 



dens do tradicional lyrisnio, que vive c ainda domina, 
mercê das demasias da reacção, que ha de acabar por 
veneel-o, matal-o o dar-lho sepultura honrada entre o ar- 
cebispo Turpin e qualquer Egas Moniz damoiro. 

Assim como se havia imposto ás faculdades artísti- 
cas a missão orgulhosa de corrigir c aformosear a natu- 
reza, e se reputara indignas de contemplação e repro- 
ducção as realidades, que se não ajustavam aos moldes 
convencionaes do bcUo ; assim a reacção contra esta falsa 
esthctica, dosvairando-se nas horas de combater, chegou 
a inculcar á arte como seu exclusivo objecto os aspectos 
da natureza que ella até então degradara, rehabiiitou e 
consagrou o feio, o vil e o grotesco, e alcunhou de realis- 
tas as expressões de uma concepção mysanthropica do 
mundo physico e do nuuido moral. 

Esta curiosa aberração observa-so na littoratura 
como na plástica, e seria fácil dcterminar-lhe as relaçSes 
próximas com os movimentos sociaes do nosso tempo. 
A satyra mordaz e descrida, substituindo o idyllio e a 
ode perennes, apagou a luz no ceu e a virtude na alma. 
Esfolharam-se as arvores; enxurdaram-se as aguas; o es- 
queleto granitico da terra rompeu o húmus verdejante; 
empardeceu o annil dos liorisontes; os campos, d'antes 
inevitavelmente esmaltados do flores, vestiram-se do to- 
jos; degradaram-se as formas e desmaiaram as cores. 
E a arte converteu-se em caricatura da natureza, porque 
nada mais é a caricatura do que esta selecção e exage- 
ração, n'um todo, das suas formas e das suas phases 
grotescas ou feias, que constituo a essência do realismo 
satanisado. 

Isto na plástica. 

Na littoratura oppoz-se ao ideal lyrico a concreção 
do mal. Os revolucionários aspiraram á critica, assigna- 
ram pazes com a sciencia, escalpelaram o homem e a so- 
ciedade, mas subordinaram a lógica das suas synteses 
a um preconceito, que as falsifica, que talvez se imponha 
a alguns espiritos como revelação dog seus caracteres, 
e que se fosse applicado por um astrónomo ao exame do 
disco solar, só lhe deixaria ver as suas manchas. Os seus 
romíincistas, os seus poetas, os seus dramaturgos, ex- 
plorara imicamente os baixios sociaes e os tenebraes do 
coração humano, e, generalisando audaciosamente as suas 
observações particularíssimas, sentenceiam: — a sociedade 
é isto e é sempre lodo, onde se encrostam as pérolas; isto 
é o homem e é sempre o barro adamitico, sem o sopro 
de Jehovah! 

E os pseudo-realistas, que mais aceram vistas de phi- 
losophos para devassar os recônditos do mundo moral, 
assimilham-se, obcecados pelo preconceito de escola, a 
esse maniaco celebre que repcUia uma esposa bellissima, 
porque só lhe via no corpo a nudez do esqueleto por bai- 
xo das fónnas redondas e macias; o tecido sangrento 
dos músculos, a rede das veias e os filamentos nervosos 
por baixo da cútis rosada o sedosa. 

Ora, nem na litteratura nem nas artes plásticas, uma 
theoria de esthetica, que se define pelos caracteres que 
elementarmente esbocei, pôde ser prezada como pheno- 
meno mais grave e duradouro do que as aberrações de 
um movimento revolucionário, que, quando muito, pode- 
rão corresponder a um estado social transitório e deca- 
dente. O espirito humano passa quasi sempre pelo ab- 
surdo, mas sem presistir n'elle, para chegar á verdade; 
e todas as revoluções, emquanto pelejam, exageram, até 
08 desvirtuar, os princípios que vem a estabelecer de- 
finitivamente. Assim como o socialismo, militante e no 
estado de formação incompleta, accendc as commimas de 
Paris, a arte forcejando por acabar de partir o auctorita- 
rismo clássico e por normalisar a liberdade romântica, 



luta, o no tumxdto da luta extravia-se, resvala para o 
satanismo, c abraça- se a quantos paradoxos lhe podem 
servir, nSo de leis, que não as procura ainda, mas de 
armas de guerra. 

Todavia, ha tantas ídéas justas e que hão de inscre- 
ver-se nos códigos, n'e88e socialismo, que observamos de- 
generado em crime ou descambado na utopia, como ha 
no realismo falsificado princípios e forças de uma rege- 
neração artística; e mal iria á critica se imitasse o mi- 
neiro ignorante, que arroja de si o oiro por vel-o incrus- 
tado em desprezível ganga, em vez de o lavar e depu- 
rar. Até os deploráveis e bem conhecidos abusos, que 
aqui registrei, nada mais são do que interpretações fal- 
sas e applicaçõos viciosas de princípios verdadeiros e fe- 
cundos. Os preceitos que, tendo degenerado n'uma espé- 
cie de casuística, iam reduzindo a arte a um processo 
de copia fidelíssima, c se excmj)líficaram pelo tríumpho 
do hodegonti e pelo desamparo da pintura histórica, de- 
viam deter as suas applicaçõos no ponto de impor ao ar- 
tista o estudo consciencioso da natureza, e de lhe prohí- 
bir remodelar phantasiosamente as suas fónnas e revogar 
arbitrariamente as suas leis. 

E a pratica, que estíl prescrevendo como único ob- 
jectivo á arte a reproducçào de determinados aspectos do 
mundo physico e moral, o que na paizagem propende 
para limitar os domínios de Neptuno ao pântano mias- 
matico e as floras ao pinheiral verde-negro; passou, in- 
conscientemente, partida das escolas antigas, por onde 
devera estabelecer-se: pela theoria que restituo á alçada 
das faculdades artísticas a natureza em todas as suas 
manifestações, em todos os seus car.acteres, em todas as 
suas phases, em todas as suas modalidades infinitas, sem 
dependência de conformidade com typos e canons prefi- 
xos, e como a encara e comprehende o espírito indivi- 
dual. 

A. EKSES. 



O ILUSTRE UOLTOK MATIIEIS 



líRCKMANN-ClIATUIAN 



(Continuação) 

Ainda Coucou Peter não havia dito as ultimas pa- 
lavras, quando se sentiu á jwrta da casa um grande tu- 
multo. Olharam todos uns para os outros admirados: 
ninguém podia dizer qual fosse a causa de um tal 
ruído. 

Ora succedia que a velha Jlargredcl, a mulher pa- 
ralytica do tecelão Nikel Schauler, ouvira fallar dos mi- 
lagres do illustre phiiosopho, e queria que elle a cu- 
rasse. 

Traziam-n'a pois quatro pessoas na cadeira de bra- 
ços, que não largava havia dois annos. 

O povo rodeava-a gritando: 

— Animo, Margredel, animo! 

E Margredel sorria com melancolia jwrque tinha fé 
no propheta, e sentia jil em si como que um acordar da 
vida. 

Quando ella chegou defronte da estalagem das Três 
Rosas, a tia Jacob abriu a porta da rua e depois a da 
sala de jantar. 

Viu-s(! enUio a pobre Margredel, pallida e descar- 



ARTES E LETIÍAS 



147 



nada como a doença a fizera, erguendo ns mSos suppli- 
cantos e gritando: 

— Salve-me, sr. projjheta, dignc-so lançar um olhar 
sobre esta sua humilde serva. 

E a gente enchia a casa do entrada, as janellas, e 
chegava até á sala, repetindo estas palavras no melo da 
maior confusão. 

Quando Coucou Peter viu isto sentiu vontade de 
safar-sc, porque nuo tinha a menor confiança nos mila- 
gres da sua doutrina, tendo ao mesmo tempo toda a cer- 
teza de que o lapidariam de companhia com o seu illus- 
tro mestre, se este n.ão curasse a paralytica. 

Mas o illustre j)hilosopho, sem duvidar um mo- 
mento sequer, confiando na sua missão, pensou que o Ser 
dos seres lho enviava a<(uella desgraçada afim de que elle 
jiodesse dar ao luiiverso uma brilhante prova das verda- 
des anthropo-zoologicas. Assim compenetrado d'esta idéa, 
ergueu-so o caminhou para Margredel, que o olhava es- 
jiantada. 

O povo afastou-sc diante d'ello. Frantz chegou ató 
defronte da paralytica, olhou-a com uma grande suavi- 
dade, e disse-lhc em meio do mais profundo silencio: 

— Mulher, confias tu no Ser dos seres, e na sua in- 
finita Ijondade? 

E Margredel, erguendo os olhos ao ccu, respondeu 
com uma voz fraca: 

— O meu Deus, meu Deus! Vós que ledes nas al- 
mas, sabeis se eu tenho fé! 

— Pois a fé te salvou, disse Matheus com firmeza. 
Lovanta-te, que estiis curada. 

A estas palavras, saídas do intimo d'alma, todos es- 
tremeceram. 

Margredel sentiu uma força extraordinária percor- 
rer-lhe os membros, foz um esforço e levantou-se; depois, 
caindo de joelhos diante de Matheus, começou a chorar. 

— Estou salva, dizia ella, estou salva! 

Era um tocante espectáculo o vêr aquella pobre mu- 
lher de joelhos aos pés d'este homem, que lhe sorria com 
b(jndade, e que a ergueu e beijou nas faces ennegreci- 
das, dizendo-lhe: 

— Está bom, está bom, volta para casa. 
E a boa mulher 'saiu, dizendo: 

— Meus filhos, meus pobres filhos, nunca mais vos 
serei pesada! 

Então Frantz, voltando-se para os assistentes, disse 
serenamente: 

— Foi a vontade de Deus! Quem ousará negar o 
poder de Deus? 

E estas palavras encheram de admiração toda a 
gente. 

O próprio Coucou Peter estava por tal forma pas- 
mado por tudo que vira e ouvira, que não podia me- 
cher-se da sua cadeira, e apenas murmurava com voz tre- 
nuda: 

— Mestre, mestre, eu nem sou digno de desatar os 
cordões dos seus sapatos! O mestre é um grande pro- 
pheta, luu verdadeiro propheta! Tenha dó do seu pobre 
discipulo, do pobre Coucou Peter, ente sensual e cheio 
do defeitos que se atreveu a duvidar. 

Mas o anabaptista não estava convencido. Rasgava 
o fato quando saiu da sala, bradando: 

— Pj n'esse tempo apparecerào falsos prophetas, que 
farão grandes prodígios e coisas espantosas, a ponto de 
seduzirem os próprios eleitos. 

Mas ninguém lhe dava ouvidos, e eram immensos 
os louvores a Frantz, pelos prodígios que praticara. 



XIV 

Foi assim que o illustre doutor Jlatheus, conhecendo 
o poder da vontade, mostrou a grandeza do Ser dos 
seres. 

Margredel ia caminho da sua casa, e o povo ia atraz 
d'el]a, espalhando por llasbach a nova do milagre. 

Os visinhos e os que a haviam visto antes, sentada 
á porta, diziam: 

— Querem vêr quo é a Margredel, a paralytica que 
estava sempre sentada na soleira da porta aquecendo-se 
ao sol ! 

Uns respondiam: 
— É, é! 
Outros diziam: 

— Qual! é alguém que parece com ella. 
Mas ella bradava de longe: 

— Sou eu, sou. Foi o propheta que me curou! 

E corriam do toda a parte á estalagem das Três 
Itosas, abandonando a festa é a egreja, para verem e ou- 
virem o propheta. 

Frantz Matheus, de pé, a uma das janellas da sala 
da estalagem, contemplava este espectáculo com uma 
inefFavel_ felicidade. 

— O grande Demiurgos, eu te agradeço o teres-me 
deixado viver até este dia. Pôde agora morrer Frantz 
Matheus, porque já viu o triumpho da anthropo-zoologia. 

No entretanto o anabaptista Pelsly dirigia-se a casa 
do maire de Hasbach a fim de denunciar o illustre philo- 
sopho. 

O maire, Jorge Bremer, estava jantando com os 
seus amigos, e celebrava o dia da festa com um alegre 
banquete. 

O anabaptista contou com socego e verdade as coi- 
sas prodigiosas que acabavam de se passar. 

— Estes homens, disse elle, tendo conhecido Deus, 
não o glorificaram como Deus e não lhe renderam gra- 
ças. Assim se desvairaram em seus vãos raciocínios e os 
seus corações insensatos se cobriram de trevas. Enlou- 
queceram e chamaram-se sábios, e a honra que só é de- 
vida ao Deus incorruptível transferiram-n'a para a ima- 
gem d'um homem corrupto c_ para as figuras de animaes, 
do quadrúpedes e de reptis. E por isso que Deus os entre- 
gou aos desejos dos seus corações, aos vicios da impu- 
reza, de modo quo, mergulhados n'elles, deshonraram o 
seu próprio corpo, tendo antes collocado a mentira no 
logar da verdade de Deus e rendendo á creatura a ado- 
ração e o culto soberano, que é só devido ao creador 
abençoado de todos os secidos. 

Assim fallou Pelsly, o anabaptista, e o maire, ba- 
tendo na mesa, exclamou: 

— Que me diz, homem? Isso é lá possível? 
— Venha comigo e verá, disse o anabaptista. 

E o maire levantou-se encolerisado e deixou á mesa 
a mulher, os filhos e os amigos. Desde que voltara da 
procissão não pudera ainda gozar de um momento de 
repouso, e já a esse tempo lhe tinham fallado do milagre 
feito na cozinha da tia Jacob. 

Quando chegaram á rua de Tonnelet-Rouge custou- 
Ihes a romper a multidão do povo, quo gritava: 

— Gloria! Honra seja ao propheta!' 

E via-se ao longe o illustre philosopho á janclla, ro- 
deado por Coucou Peter, pelo corpulento Hans Aden e 
por todos os convivas, a arengar ao povo com elo- 
quência. 

O sr. maire conseguiu por fim abrir caminho, e 
Coucou Peter viu-o de repente subir a escada da estala- 
gem. 



148 



ARTES E LETRAS 



Frantz fallava ainda quando o maire entrou na sala, 
e quando o anabaptista, designando com a mào o illus- 
tre doutor, o aceusava n'e8teB termos : 

— Como ú ao sr. maire que devemos a mais com- 
pleta paz, c como já á sua sabia previdência devemos 
muitas disposiçSes salutares, accusamos-lhe este homem 
de ser o chefe de uma seita sediciosa, de introduzir a si- 
zania e a perturbação n'esta cidade, de ensinar falsas 
doutrinas o de fazer milagres. 

Frantz Matheus, ouvindo esta accusaçilo proferida 
em voz alta e solcmnc, voltou-se o ficou assustado ao 
ver o maire revestido com a sua banda. 

— Quem lhe deu licença para fazer milagres e para 
pregar em publico? Perguntou o maire. 

A principio o illustre philosopho nào soube o que 
responder; mas depois de 
alguns momentos, voltan- 
do a si, disse com a mais 
profunda indignação : 

— Desde quando são 
precisas licenças para en- 
sinar a verdade? Oh ! Hor- 
rivel profanação, digna 
dos mais rigorosos casti- 
gos, bem como da exe- 
cração dos séculos! Py- 
thagoras, Sócrates, Pla- 
tão, e tantos outros, pre- 
cisavam acaso de licença 
para ensinar as suas dou- 
trinas? Não andavam el- 
les seguidos pelos seus 
discípulos, rodeados pelo 
respeito, pela admiração c 
pelo enthusiasmo dos po- 
vos? 

O maire, estupefacto 
em vista d'esta longa 
phrase, olhou durante al- 
guns momentos para o 
doutor. Por fim disse-lhe; 
— Dê graças a Deus 
por não teniios prisão 
communal, porque havia 
de o ensinar a fallar com 
mais respeito a um ma- 
gistrado revestido das 
suas insígnias. Dou-lhe 
vinte minutos para sair 
da cidade; um segundo 
mais que aqui o apanhe 
faço-o conduzir por dois 
gendaraies a Savernc. 

Todos estavam pas- 
mados. 

Coucou Pcter voltou-se então para o anabaptista, 
que sorria com um ar triumphante, e disse-lhe com elo- 
quente desprezo: 

— Estil escripto: sereis entregues aos magistrados, 
para que vos ponham a tonnentos, c sereis banidos por 
causa da justiça. 

E todos os que presenciaram esta scena, tão indi- 
gnados como o discípulo de Matheus, teriam, sem a pre- 
sença do maire, esmagado Pelsly. 

No entretanto tivera o illustre philosopho tempo de 
voltar a si, resolvendo mesmo defender-se a todo o custo, 
porque de contrario pensava, com magoa, que perderia 
o fructo do tantos esforços e sacrificios. 



Meu qurrido Brano, meu pobre Bruno I. . . 



— Sr. maire, disse cUe forcejando por parecer sereno 
e socegado, sr. maire, vou-me justificar cheio de confian- 
ça na sua justiça, porque sei que governa ha muito tem- 
po jil esta província, o que lhe ó fácil conhecer que ha 
apenas um dia que estou em Hasbach, sem que durante 
ello este anabaptista me encontrasse nunca discutindo, 
reunindo o povcj, mis cgrejas, nos templos ou nas praças 
publicaS; Não poderá assim provar as accusações que me 
dirige. E certo, e eu mesmo o confesso, que em virtude 
da philosophia que elle chama sediciosa, sirvo o Deus de 
Pythagoras, esperando n'cllo como este mesmo anaba- 
ptista, c conhecendo-o como elle o conhece. Ora eu tra- 
balho para conservar a minha consciência tranquilla; de 
modo que como ella me ordena de espalhar a luz por 
todos 08 modos, puz-me a caminho, deixando o tecto de 

meus pães, abandonando 
os amigos e tudo que ti- 
nha de mais caro no mun- 
do, para cumprir o meu 
dever. Permitta-mo pois 
^o conservar-me ainda um 
dia n'esta terra : não peço 
mais para o converter ás 
verdades anthropo-zoolo- 
gicas. 

— E por isso que 
vae partir quanto antes. 
Já lhe não concedo senão 
dez minutos de demora. 
E voltando-se para o 
anabaptista accrescentou : 
■ — Pelsly, vá buscar 
os gendarmes. 

A estas palavras 
Frantz Matheus conheceu 
que começava a predomi- 
nar no seu animo a natu- 
reza de lebre (jue o for- 
mava, e com os olhos ra- 
sos dagua exclamou: 

— Sr. maire! sr. 
maire! Como a posteri- 
dade o não julganl seve- 
ramente ! 

E. saiu sem que pu- 
desse dizer mais. 

Todos durante al- 
guns segundos se senti- 
ram commovidos pelo que 
acabava de se passar. 

Coucou Peter lança- 
va olhares desolados so- 
Vjre a mesa sem saber que 
fizesse, até que se levan- 
tou bradando com voz forte: 

— Verá, sr. maire, como a posteridade o ha de jul- 
gar severamente! 

E, pondo o chapéu á banda, saiu magestosamente 
atraz do mestre. 

Logo que Coucou Peter saiu houve um grande al- 
boroto. Jacob Fischer, que era um homem naturalmente 
avarento de dinheiro, lembrou-se que Coucou Peter e 
Matheus lhe haviam alugado o telheiro e comprado duas 
medidas do aveia para Bruno; que além d'isso tinham 
comido a 40 soldos por cabeça, e mandado na sua conta 
d'elles o jantar de Hans Aden e da sr.* Thereza. 
Correu pois atraz de Coucou Peter, gritando: 
— Eh! Eh! Es*pera! Paga antes de to ires! 




ARTES E LETRAS 



149 



E todos seguiram o estalajadeiro cheios de curiosi- 
dade peio que se ia passar. 

Quando chegaram d escada do pateo, viram Frantz, 
que saia do telheiro com Bruno pela rédea, c Coucou 
Peter atraz com a sella e a mala, açodado, querendo 
pôr !i pressa os apparelhos no cavallo, porque já presen- 
tia que os poderiam reter. 

Jacob Fischer lançou um grito de indignação e des- 
ceu os degraus a quatro e quatro. 

— Não os deixo sair assim. Ao menos o cavallo res- 
pondc-mo pelo dinheiro. 

E lançou-se fulo sobre o cavallo, emquanto que Cou- 
cou Peter, empurraudo-o com força, tirou de detraz da 
porta da cocheira um grande pau. 

— Para traz, olá! Não tenho nada comsigo. 
No entretanto Jacob 

Fischer pendurava-se nas 
rédeas do cavallo, e Ma- 
theus dizia mansamente: 

— Vamos, meu caro 
discipvUo, põe o pau no 
seu logar, larga esse pau. 

A principio Coucou 
Peter não queria obede- 
cer, mas quando viu mui- 
ta gente juntar-se em vol- 
ta, lembrou- se das lições 
psychologicas do Ober- 
bronn. 

Estavam a esse tem- 
po completamento rodea- 
dos pelo povo. 

Cada qual contava 
caso a seu modo, e Ma- 
theus sentia-se profunda- 
mente commovido ao ou- 
vir todos esses gritos, to- 
das essas palavras, todas 
essas explicações, porque 
se havia quem o louvas- 
se, também havia quem o 
accusasse de querer })artir 
sem pagar. 

Estavam ali Jacob 
Fischer e sua mulher, Or- 
chel e Katel, Hans Aden 
e a sr.* Thereza, Kasper 
Siebel, filho de Ludovig, 
Silhel o ferreiro, Passauf 
o guarda com o seu cha- 
péu grande de gendarme, 
o anabaptista Pelsly o o 
maire com a sua banda 
tricolor. Toda esta gente 
fazia uin grande ruido. 

Por fim, por ordem do maire, todos se calaram, e 
Jacob Fischer disse de que se tratava: 

— Esta gente dcve-me o aluguer do telheiro, deve 
mais quatro jantares a 40 soldos cada um, e duas medidas 
de aveia. Tudo isto somma doze francos. Querem ir-se 
embora: mas d'onde são? Ignoro-o. Coucou Peter nunca 
tem de seu um soldo. Exijo por consequência que me 
deixe de penhor este cavallo. 

Matheus respondeu: 

— Em todos os tempos poderam os prophetas comer 
e beber, dando por isso os que os hospedavam louvores á 
Providencia, e, quando alguém lhes fechava a porta, 
sacudiam elles o pó das suas botas e iam para outro 




No meio do bosque este acampamento faiia um cOeito admirável 



sitio. Ora eu digo que são bem para lastimar esses ho- 
mens duros, para os quaes seria melhor nSo haverem nas- 
cido do que estarem a affligir as nossas vistas com o es- 
pectáculo das suas iniquidades. 

Apczar d'esta8 eloquentes palavras, o maire e Jacob 
Fischer não pareciam estar convencidos. O estalajadeiro 
então começou a ler a sua lista: 

— Tanto de despeza do cavallo, tanto de despeza 
do sr. philosopho e do seu discípulo, tanto de despeza 
dos convidados, somma: doze francos. 

EntFio o maire, vendo que o tumulto augmentava, 
disse: 

— Jacob, fica tu com o cavallo de penhor. Que par- 
tam a pó. 

Então o estalajadeiro puxou as rédeas das mSos 

de Matheus, de modo que 
esto, quasi caindo, se 
abraçou ao pescoço de 
Bruno soluçando como 
uma creança. 

— Meu querido Bru- 
no! Meu pobre Bruno! 
dizia elle, querem sepa- 

rar-nos Tu tens sido o 

ineu único amigo. Não se- 
jam maus e cruéis com- 
nosco! Meu pobre Bru- 
no, que vae ser de ti, 
longe do teu companhei- 
ro? Vaes talvez ser mal- 
tratado, sem terem ne- 
nhuma attenção para com 
os teus longos scitíços. 

E caiam as lagri- 
mas dos olhos d'aquelle 
velho cheio de cãs, de 
modo que as suas pala- 
vras commoveram todos 
os assistentes. 

— E realmente uma 
crueldade tirar o cavallo 
a este pobre velho. Coi- 
tado, elle não é mau ho- 
mem... vejam como cho- 
ra. Só quem tem bom co- 
ração é que pôde gostar 
assim dos animaes. 

E muitas mulheres 
que tinham vindo como 
as outras com os filhos ao 
coUo, retiravam-se por não 
poderem ver uma scena 
assim. 

Coucou Peter, atraz 
de Bruno, inclinava a cabeça com ar triste. Pensava que 
era elle só a causa de tudo, e sentia as lagrimas corre- 
rem-lhe pelas faces coradas. 

— A sr.* Thereza também chorava, e como todos se 
conservavam em volta para que o estalajadeiro não pu- 
desse levar o cavallo, conseguiu ella chegar-se a Cou- 
cou Peter e metter-lhe na mão trinta francos sem que 
ninguém percebesse. 

— Acceite isto como lembrança minha, sr. Coucou 
Peter. 

Então Coucou Peter metteu os trinta francos na al- 
gibeira do collete, soluçando cada vez mais; depois, pas- 
sados momentos, levantou a cabeça e disse : 

— Ora, tio Jacob, eu não o julgava capaz d'isto. 



150 



ARTES E LETKAS 



Scnipro pensei quo fiari.-i a homons de bem . . . mas uma 
voz que assim nao é, tome. . . aqui tem o sou dinheiro; e 
agora largue depressa o cavallo, so quer a cabeça inteira. 

Tiniia cllo a esse tempo tirado outra vez dctraz da 
porta o seu grande pau, c era desejo de todos que elle 
derreasse aquclle miserável estalajadeiro. 

Coucou Peter pagou também a Hans Aden, lan- 
çando á sr.* Thereza um olhar tuo suave quo a commo- 
veu até ao fundo da alma; beijou depois a creança quo 
cila tinha ao coUo, e disse: 

— A caminho, mestre, vamos. Os homens sào uns 
miseráveis. Mathcus poz-se a cavallo. Coucou Peter abriu 
a porta que dava para fora da cidade, e o maire nào so- 
cegou senSo depois do os ter visto desapparecer além das 
portas. 



(CoQtlDÚa). 



B. 




OS POETAS 



ODAS as épocas em Por- 
tugal tCem uma raivi- 
nha do predilecção, ar- 
gumento sem replica, 
ultima ratio, contra a 
qual não ha que dizer, 
porque é ao mesmo tem- 
po absurda e victoriosa. 
Tem sempre sido assim 
na politica, na arte, e 
nas letras. Houve tempo 
em que a injuria supre- 
ma, com que os corte- 
zãos do poder fechavam 
a boca a todas as ob- 
jecções, era ser republi- 
cano; depois foi acoi- 
mado de retrogrado, de 
repente, sem se saber 
porque todo o pobre homem que continuou a ser como 
era, a viver como vivia, a pensar como pensava; os ope- 
rários, que estão agora outra vez na voga pelas greves, 
estiveram por um momento em moda pelas associações e 
pelos jomaes; a mocidade partiu com a mania domi- 
nante da economia politica, e foi dar comsigo na politica 
sem economia; chamou-se a isso o progresso: d'alli a 
pouco, como se um furacão nos tivesse voltado, já não 
embin-avamos senão cora os progressistas; as comedias, 
os jomaes, a rua, tudo mettia o progresso á bulha; di- 
zia-se de qualquer coisa ridícula, prejudicial, ou fútil: 
— « E o progresso ! » — ; íoi-se embirrando successiva- 
mente com uns poucos de grupos : um homem andava 
pelo seu pé, ou parava, ou punha o chapéu, ou tirava-o, 
ou respirava, ou tossia, era cabralista; o homem depois 
tossia, ou respirava, ou punha o chapéu, ou tirava-o, ou 
parava, ou ia andando, ara, pé fresco, era lazarista, era 
unha-negra, era possidonio, ou, peior do que tudo, era 
litterato: — actualmente se o homem é poeta, isso já não 
é só o cumulo da malvadez, é a aberração da rusticida- 
de de matuto. 

De que provém isto? 

Quo não se faça caso d'elles depois de morrerem, já 
estava estabelecido entre nós ha muito tempo; se lhes 
quizermos visitar os túmulos, communicar com elles atra- 
vcz do tempo e do espaço, inspirar-nos pelo seu coração 
e erguer a nossa fraqueza á altura da sua virilidade, não 



sabemos a que porta ir bater. A França tem o Pantheon ; 
a Inglaterra tem a abbadia gotliica de Westminster, onde 
estão reunidos com os soberanos, partilhando com elles 
das honras e poderio da celebridade, os homens que de- 
ram lustre á pátria pelo seu talento, e que dormem alli, 
no silencio dos mortos, cercados do respeito dos vivos; 
a Itália tem Santa Orocce, que conserva cm túmulos de 
mannore, no centro das maravilhas artísticas dos séculos, 
a memoria dos que foram illustres; mas nós não chega- 
mos sequer a saber onde os nossos nasceram, nem mor- 
reram: os antigos, nem pensamos n'is8o; dos mais re- 
centes também nào queremos saber, esquecemol-os e va- 
mos-lhe pisando as cinzas; estão por ahi algures, espa- 
lhados pelas igrejas, pelos cemitérios, em Lisboa, nas 
províncias, no estrangeiro, esquecidos na confusão dos 
campos ou no tumulto das hervas e das sarças. 

É talvez bem entendido assim: morreram, morre- 
ram; vamos a outros. Mas o peior é que, pelos modos, 
não queremos outros o parece que não se nos daria de 
matar os que estão vivos ! Que as senhoras nào gostavam 
muito d'clles, isso já se sabia; um ou outro dizia o con- 
trario, mas era basofia: os homens, porém, tomaram-lhe 
quisilia de repente, — isto é que é singular! 

É triste de referir, bem sei, é nniito triste de refe- 
rir que elles em todos os tempos hajam feito poucas con- 
quistas, mas a verdade exige que o digamos; é notório 
que nos versos apregoam o contrario, — porém para dis- 
farçar os Jiascos provavelmente. 

Camões, apezar de dizer na canção v: 

De amor escrevo, de amor trato o vivo 

escreveu bem, tratou mal, e viveu peior; grandioso, 
idealista, namorou-se de Catharina, ficou sem um olho 
por causa d'clla — pois que por causa d'ella foi desterra- 
do, por causa d'ella embarcou para Africa, jwr causa 
d'ella combateu em Ceuta onde o perdeu: namorou-se da 
pátria como se visse n'ella uma amante, a pátria princi- 
piou por lhe dar 15^000 réis por anno depois d'clle ir 
íêr ao paço Os Lusíadas, e acabou por nào lhe pagar a 
tença, deixando-o morrer á fome, se o Jáo, que nem era 
a pátria nem era nmlher, não fosse para o Pote das Al- 
mas pedir esmola para elle. 

O que foi Beatriz ])ara o Dante? Uma raparigota 
despreoccupada, meio ventoinha, que lhe tomava as de- 
clarações por doidices, e ria a bandeiras despregadas, — 
diz a historia que eom o pretexto de o considerar moço 
de mais para cila. Casou éom outro quando bem lhe pa- 
receu, esqueceu o vate que tão magnificamente ficou a 
lembrar-se d'ella, e poz em vida n'um inferno o coração 
do poeta, que, por única vingança, quando ella morreu 
a levou para o paraiso nas suas divinas rimas ! 

São tão notórios os rigores do Laura para com Pe- 
trarcha, o casto Petrarcha, como os sonetos em que o 
poeta suspira e anda os ais sem cuidar de outra coisa 
senão d'essa paixão, como o abbade Serra, paixão única 
na sua existência, que tão mal paga foi, e nunca lhe 
serviu senão p.ira andar n'essa eterna pasmaceira! 

O namoro de Torquato Tasso com Leonor não foi 
mais feliz nem mais acertado e bem acceito do que o de 
Ovidio; alcançou-lhe só o cair das boas graças do duque 
de Ferrara, e dar occasião ao poeta de compor a tal res- 
peito um soneto em quo se compara a ícaro, que expirou 
victima. .. de uma mania arriscada! 

Milton foi desastradíssimo nos aífectos; uma verda- 
deira lastima; nem 8e(|uer conseguiu que a nnUhcr gos- 
tasse d'ello: — mais ainda, não conseguiu sequer que ella 
fingisse. Diz-se que era senhora insupjwrtavel de génio: 



ARTES E LETRAS 



151 



(í atú mo persuado, (jue para so vingar do sexo que o 
amofinara é (pie olle cantou as culpas de Eva e o mal 
quo d'ahi proveio. 

Bernardim Ribeiro fez sempre triste figura: o mo- 
nologo da donzella na Menina e moça diz as.tim fallando 
do livro d'cllo : — « Para uma s<') pessoa podia elle ser, 
mas desta não soube eu mais parte d'elle, pois quo as 
suas desditas e as minhas o levaram para longcs terras 
estranhas, onde bem sei eii que, vivo ou morto, o pos- 
suo a terra sem. prazer nenhum.» Historia! Poderia n3o 
ter prazer nenhum, e tanto peior para elle, mas o caso é 
que era voz geral haver-lho a princeza voltado a cara, 
quando elle lhe appareceu estropiado da larga peregri- 
nação quo emprehendcra por amor d'olla. 

E o ChattertonV Na tragedia unicamente é que ap- 
parece Katty Bell, cobrindo com a sua dedicação como 
se fora com um veo branco, os últimos momentos do 
poeta; na historia o caso é outro, Chatterton morreu só- 
sinho, esquecido, abandonado, em casa do uma hospe- 
deira velha que o conservara por ter d('> dellc; encon- 
trou-se-lho em cima da mesa, em vez do um retrato, uma 
madeixa de cabcllos loiros c cartas de uma mulher, 
— um copo sujo de não sei que beberagem que levava 
arsénico ! 

O que não se tem fallado das amantes de Byron, 
applicando ao poeta a balda de se personificar em todos 
08 heroes dos seus poemas; todavia o que faz desconfiar 
que elle não haja sido tão grando conquistador como pa- 
rece, é vel-o a gente voltar de vez em quando humilde 
e supplicante para junto do sua mulher, ingleza sccca e 
estica, á qual um homem da tempera e do orgullio d'elle, 
haveria renunciado por uma vez se tivesse encontrado 
na vida alguma das sublimes creaturas que descreve. 
Aquelle eterno volver a lady Byron parece desmentir 
as Eloydnes, as Annas, as Jennys, as Marias, que por 
este mundo do Christo com tanta liberalidade se lhe tem 
attribuido, e que elle próprio de alguma maneira pare- 
ceu negar não deixando a Fletcher recados, por sua 
morte, senão para a filha, para a irmã, e para a mu- 
lher ! 

Bocage não atirou comsigo a um desregramento de 
costumes tão escandaloso, senão por não encontrar al- 
guns amores quo o consolassem. Foi como aquelles vian- 
dantes, que, por terem sede e não encontrarem fonte 
limpida, vão beber aos charcos. Não foi talvez a liberti- 
nagem de muitas de suas poesias, mais que uma desforra: 
Gertruria preferira-lhe um bacharel! 

No nosso tempo o caso muda um pouco, porque já 
não ha poetas entre nós que façam vida d'isso, — ou 
morte d'isso. O poeta errante, de cotovellos rotos, men- 
digando o pão de porta em porta, ou fazendo um soneto 
para apanhar um jantar, desappareceu felizmente nos 
nossos dias. Quem sabe se é d'ahi que vem o mal? Não 
porque a gente lhes tome aversão agora de os vêr felizes 
nas conquistas, — mas porque, se as senhoras principiam 
a estimal-os e se as formosas não são jíl para oUes como 
os cachos de uva em pintura que os pássaros iam debi- 
car no quadro antigo, — se já deveras as encontram na 
vida, em vez de ficarem sempre do aza estendida, lábios 
sequiosos e coração ávido, sem as possuir senão em ima- 
gem, isso é talvez o que lhes faz bem como homens o o 
que lhes pôde fazer mal como poetas. . . 

Que maganões ! De papinho cheio, e a affectarem 
de tristes! Gemem sem lhes doer nada. Diz-so ás vezes 
nos necrológios que este ou aquello tivera animo de sof- 
frer sem so queixar; a elles, ao contrario, em nos dei- 
xando, poderá gravar-se-lhos no mausoléu o seguinte epi- 
thaphio : 



Aqui jaz 

FULANO rOKTA 
MAKTYR QUE SK QUEIXOU SEM SOPFKER 

E arriscado. Os poetas em tendo amores que lhes 
corram bem, perdem a voz; sSo como os rouxinocs, em 
achando a fcmea! 

JDLIO CESAtt MACUADO. 




moniAcõss i£ UM sono 



Senhora, consinto ainda 
Em abrir mais uma chaga 
No coração — recordando 
Aquella hora aziaga 
Em que o derradeiro adeus 
Te disse, a cara voltando 
A outros climas, á outros céus, 
Para que o pranto não visses. 
Embaciar os olhos meus. 

Que não te amava, disseste, 
Pondo os olhos lacrimosos 
No azul da esphera celeste. 
Ai! momentos deleitosos 
Para ti e para mim. 
Aos quaes tão cedo pozeste 
Tão amargurado fim! 

Se te amei! inda o duvidas! 
Podes duvidar, embora. 
Mas tens de dar-me a razão 
Do pranto que orvalha agora 
Tantas esperanças perdidas. 
Perdidas n'uma s() hora. 
Como um sonho, sonho vão. 

Por ti desvelei as noites. 
Encurtei por ti os dias; 
Se de longe me sorrias. 
Lá corria por buscar-te; 
Até quando me mentias, 
Teimava em acreditar- te; 
Agora vou procurar-te. 
Mas é em vão que procuro. . . 
Ai! visão do meu futuro, 
Desesperei de encontrar-te ! 

E dizes que não te amei! 
Estás zombando, infeliz. 
Só eu ao certo é que sei 
Com que amor sempre te quiz. 



152 


ARTES E 


LETRAS 




As horas mais encantadas 


Teu olhar meigo, risonho. 




Junto do ti as passava, 


Surprehender-rae nos olhos 




Conversando em lindos nadas 


Uma lagrima furtiva. 




Que teu rosto me inspirava. 


Que ó bálsamo dos tristes 




Ai! noites abençoadas, 


Que trazem a alma captiva! 




Horas de amor o segredo, 






Quem então imaginava 


E tudo se foi agora 




Que vos iríeis tilo cedo! 


Que morri aos olhos teus! 
Quando as vistas ergo aos céus 




Formoso sonho foi esse! 


E to procuro, senhora, 




Hoje que d'ello acordei, 


Atravez d'esses espaços. 




Ainda pasmo, scismando 


Mal sabes tu que inda estendo 




No muito que eu te amei ! 


Para ti meus frouxos braços; 




A alma ainda me estremece 


E cuidando quo inda aperto 




Não sei de que estranho horror! 


Tua seductora imagem, 




Será de remorso, ou pena? 


Aperto... mas só encontro 




Estragos d'aquellc amor!... 


A sombra, o vácuo, a miragem! 
Ai! derradeira illusSo, 




Tu que nunca amaste tanto, 


Atravez dos olhos baços 




Porque a coquette não ama; 


Vejo fugir-te, deixando 




Mas que viste o largo pranto 


Em ruinas meu coração! 




Em que ou afFogava a chamma 






D'esse amor tào malfadado. 


E dizes quo não te amava. 




Bem sabias em que estado 


Quando posto do joelhos 




Trazias meu coração! 


A chorar te supplicava 




Ai! minha cabeça louca! 


Que de mim tivesses dó! 




Quem me adivinhara então 


Já d'isso te não recordas? 




Que meu sonho mais doirado 


Lembro-t'o cu: 




Mentia por tua boca! 


Triste c só, 
Quasi do um abysmo ás bordas, 




Tudo lá vae, é verdade; 


Mas preso, suspenso ali 




Mas inda mo airaz ago^a 


Pelo demónio ou por Deus, 




Recordar os bo los tempos 


(Que eu não sei quem me prendia 




Em que eu te amava, senhora. 


A altura dos olhos teus) 




So calava, parecia-mo 


Vê se to lembras, disseste-me 




Vergonha não provocar 


Com tal voz, qual nunca ouvi: 




Os sons doces, melodiosos. 


«Ai! se eu te perder a ti, 


t 


Que a tua voz sal^e soltar: 


Quem me ha de valer a mim?» 




Se te fallava, tremia-mo 


Estavas sonhando, e assim 




A voz nos lábios medrosos; 


Quando o teu sonho acabou, 




Se alguns versos suspirosos 


Nunca mais te recordaste 




Te balbuciava a medo. 


Do que em sonhos se passou! 




Já eu pensava que n'eÍles 






Se descobria o segredo 


Tiveste razão, senhora. 




Que n'alma andava escondido! 


De que te serve um amor 




Ai! tempo tão mal perdido! 


Que nos mercados d'agora 
Não tem aquelle valor 




E as dores por que passava? 


Que já mereceu outr'ora, 




E 08 tormentosos instantes. 


No tempo que chamam rude. 




Se teu olhar mo fitava 


Por não vender a patacos 




Com menos amor que d'antes? 


coração e a virtude? 




So triste, já eu pensava 






Ser causa da tua dor; 


Tiveste razão, tiveste; 




Se alegre, já eu cuidava 


Viva progresso e o dinheiro! 




Que brincavas com o amor; » 


Agora um leve pedido 




Se sorrias para outro, 


E seja este o derradeiro: 




«Já não é minha» dizia; 


Se algiuna vez em tua vida 




Se não sorrias «Disfarço, — 


Te lembrares de que vivo 




Quer illudir-me algum dia» 


Saudoso d'aquelle8 tempos 




E assim passava o meu tempo 


Em que andei por ti captivo, 




Sem conhecer alegria. 


Dó não te peço das penas 
Que voluntário tomei. 




Ai! quantas vezes me viste, 


Peço-te, sim, que não digas 




Pallif rosto, tristonho, 


Que sofFro porque te amei. 




Como que absorto n'um sonho, 






Que do ordinário era triste 


Teria vergonha eterna, 




Como a tristeza que cu tinha! 


Pczar immenso o profundo, 




Ai! quantas vezes não vinha 


Sc alguém soubesse no mundo 




M.HOND2K0ETER pmxt 



WFRENCH SC 



MUS IDMliTOÊAá. 
I 



Editores Rojland 8r, Semio 



ARTES E LETRAS 



153 



Quo as tuas azas, borboleta, 
Fugindo do amor á chamina, 
Sacudiram a sua lama 
No meu orgulho de poeta! 

Se teimoso o pranto vier 

De quando em quando orvalhar 

Esperanças que cu tivíM- 

De algum dia recordar 

Os tempos quo já lá vSo, 

Se o não puder estancar 

Nos meandros do coração. 

Hei de com elle apagar 

As letras d'esta cscriptura, 

De forma que ninguém possa 

Ao pé do meu encontrar 

O nomo de uma prejura! 

J. SIMÕES DUS. 



■•=>so 




UMA iiimk HA orriciHA 

LLE é ferrador, ao que pa- 
rece. 

Ferra e IG, pela mes- 
ma força de razão com 
que muitos lêem e até es- 
crevem, devendo ser pa- 
cientes no sobredito of- 
licio. 

Levantou-se cedo, por 
ante-manhã, quando as co- 
tovias são as únicas a chal- 
rear ao longo dos parrei- 
racs orvalhados. 

A forja ainda não está 
accesa, a luz entra frou- 
xamente pela j ancila, alu- 
miando os tornos, as te- 
nazes e os malhos. Quo se ha fazer para sacudir as ul- 
timas nuvens do somno? Ha alli luu rapfizinho que vir;í 
a ser um homem, e um velho calvo, rijo, secco, e que 
bem sabe que o trabalho avigora o corpo, mas que a lei- 
tm-a sã dos livros é para a alma o que são para o campo 
as chuvas de maio. 

A creança tem ainda o olhar velado c timido, gos- 
taria talvez mais de saltar os vallados áquolla hora, do 
apanhar algum ninho occulto, do furtar dois lampos na 
primeira occasião quo tivesse, e de cantar c pular como 
as aves. O mestre, porém, que quer fazer d'ellc uma 
creatura útil, o quo resmunga sempre que a vadiagem 
lhe cruza a porta, diverte-o com a leitura matinal, com- 
mentando os pontos obscuros do texto com a afoiteza do 
quem não pôde ser contraditado. 

N'estc momento parece que íichou elle verruga na 
pagina. Tem o olho absorto, o dedo fincado no papel, e 
o lábio descahiu-lhe com lun geito meditativo. O apren- 
diz, que ha de ser neto por força, conheceu que alli ha- 
via dureza, o que so lhe nota no cruzar das mãos, e 
n'um certo pendor abstracto. E o periodo cm que o velho 
rumina, e a creança divaga. Elle está alli todo, a esca- 
rafunchar n'algvmi conceito mais dúbio; c os onze, os 
doze annos, que se lho defrontam, estão a Icmbrar-se de 
como é tépida a cama, e de como é luzente o sol. 

Eis o magnifico quadro de Stammel, bello pelo sen- 
timento da acção, c rico de abundantes acccssorios. 



Uma leitura na officina — o que vem a dizer, uma 
espécie de ablução antes de começar o sacrifício. So ha- 
viam do estar á porta emquanto enrubocessc o ferro, a 
dar noticia das leiteiras que passam, das creadas que 
assomam e dos cães que so espreguiçam por debaixo dos 
alpendres, preferiram aquella refeição frugal o gostosa. 

Quando o livro se fechar, o pedagogo inquirirá do 
ouvinte o quo lhe pareceu aquillo, e arrumado o carta- 
pacio, assestado o alcaraviz ao lume o desempachada a 
bigoi-na, dar-se-ha principio á lida, — dura lida, — que já 
não é muito para aquclles cabellos brancos, o que ainda 
é de mais para aquelles outros hiiros. 

Parece que está a gente a ouvir a melopeia roufe- 
nha do leitor, coando-se por um montão do utensílios. 
Tudo alli o escuta, o mesmo silencio o admira, — para 
me servir de uma forma arrojada de Milton, — pasmado 
de que a taes horas o despertem, não com o bater caden- 
ciado do niartcUo, mas com a cantilena de uma sopori- 
fera narrativa. 

Muito bem, mestre, muito bem, quo o rapazola ha 
de crescer, fazer-se um granadeiro de três covados, ca- 
sar com a mulheraça mais tronchuda da frcguezia onde 
elle nasceu o onde mora, cercar-se de uma ninhada de 
diabretes; c então, quando for homem, e tu j;l dor- 
mires o teu ultimo somno debaixo de uma pedra rasa, — 
os filhos o a mulher hão de vir acompanha-lo, ahi mesmo, 
n'essa officina onde tu tens feito saltitar tantas chispas, 
e depois, abrindo o in-folio, amarellecido dos annos, con- 
tinuará a ler na pagina em que a morte te firmou um 
ponto. 

E quando recomeçarem as obrigações afanosas, c do 
crer que esso teu neto, esse imberbe, — queimado ao 
tempo do muito conviver na forja, — diga á prole que 
lhe ha de estar a namorar um fiirrancho que sáo de cor- 
rida para os chaparraes da montanha: 

« — Assim era eu também, quando os pardaes rae 
vinham desafiar do beirado. O avô lia, lia, e toda a i:ii- 
nha vontade era estender as pernas por cs.ses v.-illcs 
abaixo, c quem quizesso malhar quo malhasse. Bem me 
fazia elle cm me pi*ender como um cachorro á trclla, 
que SC não fosse assim andar-me-hia agora sem eira, 
e vocês, SC cá os tivesse mandado Deus, saberiam que 
tal é o chão para cama ! » 

Costuma-se fallar muito da arte pela arte, c eu sei de 
vários mestres que não crêem noutra divisa. Quanto a 
mim tenho-a por inacccitavcl. So ura bosquejo, uma es- 
tatueta, uma melodia, uma cstrophe não servissem para 
coisa nenhuma boa n'este mundo, se não dulcificassem o 
intimo, se não levantassem o espirito, se não fizessem cres- 
cer a vontade para algum ponto digno c justo, se não des- 
pertassem o que quer quo seja dentro de nós — Deus oc- 
culto e ardente, — n'esse caso, a humanidade devia espc- 
daçar os monumentos erigidos á gloria, c proclamar a 
casa dos vinte c quatro como a verdadeira expressão do 
bello, que é o bem ao mesmo tempo. 

Este quadro, cuja gravura s(! api-csenta agora, eéfci 
per si só a desiuentir a afíinnativa. Lê-se n'elln um con- 
selho, mas dado com a fascinadora eioiíuencia do ta- 
lento: convcm quo o livro não seja lun mytho para a of- 
ficina. 

Eis ahi está uma cousa que o pintor diz na tela, 
que o poeta esculpe nos seus mármores, — (pie a arte as- 
severa, como ha não sei quantos mil annos anda a asse- 
verar c a pregar o evangelho das nações; e ahi tccm que 
isto, — que ainda não é nenhuma realidade de bonhianl , 
almiscarada e conspurcada sinuiltancamentc, — vale nuiito 
o muito mais que a botina do mostrador ou que os pcr- 
I fumes de João Farina. 



N.° 10 de 18:í 



154 



ARTES K LETRAS 



Eu sei que as Treu graças de Pradier ainda não 
resolveram a questSio 4as greves nem tornaram o pão 
mais barato; o que é do presumir ó que tenham feito le- 
vantar-se muitos olhos acima dos tortulhos do mundo, e 
com 08 olhos muitas almas! 

K. A. VIDAL. 



AVES DOMESTICAS 



'ksta tristeza das casas da ci- 
dade ninf^uem ha que devaneie 
um quintalinho do quatro metros, 
com a sua nesga de oeu azul e a 
sua restea de sol, que o n?io po- 
voe logo na imaginaçilo de aves 
c do flores. São o jubilo e a poe- 
sia do jardim. Haverá utilitários 
(juo não queiram senão perus e 
couves ; haverá poetas lyricos que 
não devaneiem senão rosas e pom- 
bos. Eu, que não sou nem utilitá- 
rio nem lyrico, prefiro uma gran- 
de, variedade de flores á verme- 
lha miifonnidade das rosas, c as 
gallinhas, e os gallos, e os frangos, e os pa- 
tos aos pombos ou aos perus, sem que por 
isso despreze o pcrú com recheio e o pom- 
bo com ervilhas. 

A poesia tem abusado do pombo por 
tal forma, que eu sinto as minhas velleida- 
des (ie começar a detestal-o. O pombo ia passando a 
ser um animal preteucioso. A gente imagina-o sempre de 
fita cor de rosa ao pescoço, poisado no hombro de uma 
menina romântica. D'antes era impossível que um poeta 
ou um pintor descrevesse ou desenhasse uma pallida don- 
zella entre verdura e flores, sem a collocar em languida 
posição e dando de comer a um pombo favorito. O pom- 
bo já tinha idéas da sua serventia bucólica, e começava 
a tomar attitudes. Aristocratisava-se entre as aves. Con- 
tam-se casos de pombos Renés, e de pombas Adelias com 
milhafres por Antonys. Os pombos deixavam de ser aves 
e principiavam a ser trovadores. Havia pombos que toca- 
vam bandolim. Um mais audacioso chegou a perpetrar 
uma elegia. O pombo, além d'isso, passou de Florian para 
os românticos. Florian cingira-o de faveurs roses, os ro- 
mânticos ^regaram-n'o de lagi-imas. O pombo a tudo se re- 
signou. E, de mais a mais, como se vê, um animal sem 
convicções litterarias. Eu estava sinceramente odiando o 
pombo. Foi necessário o cerco de Paris e uma pagina 
eloquente de Paulo de Saint-Victor para eu lhe restituir 
a minha estima. 

A arte esteve porém por muitos annos condemnada 
exclusivamente aos polnbos no ramo das aves domesti- 
cas. Assim como uma grande porção do diccionario não 
podia figurar na alta litteratura, assim também as gal- 
linhas e os patos estavam excluídos da pintura e da 
poesia. Houve um poeta que precisou uma vez de fallar 
em gallinha: fez uma periphrase em quatro versos, mas 
não proferiu em lingua aristocrática a palavra villã. Al- 
fredo de Vigny, achando-se na necessidade de dizer « ca- 
misa» corou, investiu, e a final não se resolveu. Saiu da 
difficuldade, como o poeta da gallinha, com luna periphra- 
se. Tratava-se de confessar que a heroina do conto es- 
tava em camisa. Eis como a coisa se narrou: 




Dolorida n'a plus que ce voile incertain, 

Le premier que revêt le pudique raatiii, 

Et le dernier rempart, que, dans la nuit folâtre, 

L'amour ose enlever d'une main idolatre. 

K'esses bons tempos uma camisa c uma gallinha em 
poesia custavam quatro versos cada uma. Em pintura 
as gallinhas viam-se ao longe na paizagem, como o jxjvu 
nas tragedias. O gallo ainda tinha uma entrada em qua- 
dros familiares, mas a gallinha (!ra proscripta severamente. 

Goethe em poesia e Kaulbach em pintura ousaram 
rebellar-se contra o preconceito. Uma díis mais suav«!s 
figuras femininas da galeria do auctor do Fausto, Lili, 
é apresentada jjcIo poeta no acto de distribuir milho a 
uma capoeira, <jue parece a Assembléa Constituinte das 
aves domesticas, depois de 1789. Os pombos por alli es- 
voaçam também, mas, como o estfido da nobreza depois 
do juramento do Jogo da Pella, não tem logar á parte, 
e vêem-sc nmitas vezes preteridas pelo terceiro-estado 
dos patos. Veio Kaulbach, o grande pintor bávaro, e 
com o seu lápis magico reproduziu o quadro ideaílo por 
Goethe, o ousou apresentar n'uma estampa Lili, meiga, 
risonha, fonuosissima, rodeiada do seu « povo esvoaçan- 
te», como diz no Eremitério um outro rehabilitador dos 
patos e das gallinhas, o meu amigo e nosso distinctissimo 
poeta Jidio de Castilho. 

A» gallinhas teem pois direito de cidade na poesia 
e na arte. P] era realmente estranho que se ellas, depen- 
nadas, exprimem o enthusiasmo o o arrebatamento — a 
chair de jwule é o symptoma das grandes commoções, — 
não exprimissem com pennas senão a prosa villã. Os poe- 
tas já não desdenhiuii chamar as gallinhas pelo seu no- 
me, e contar até a sua dedicação pelos frangos e o seu 
amor maternal; os pintores occupam-se d'eUa8 com toda 
a attenção, e reconheceu-se emtím que não era o fricassé 
o único e fatal destino da raça gallinacca. Por isso as 
Artes e Letras entenderam que se não rebaixavam offc- 
recendo aos seus leitores essa magnifica gravura de aves 
domesticas, a propósito da qual eu deixei vagabundar, 
contando com a indulgência dos leitores, a minha incor- 
rigível penna de folhetinista. 

PINHEIKO CHAGAS. 



NAVEGAR EM RUÍNAS 



A F. RANGEL DE LIMA 

EU caro amigo. — Dar-lhe-hei noticia 
de uma exploração archeologica, inte- 
ressante mais pelas estranhas condi- 
ções do logar explorado, que por des- 
cobertas que aproveitem ás artes ou á 
historia. 

Sabe que na margem es<|ucnla do 
' '" Mondego, em frente de Coimbra, se 
ergueram outr'ora os conventos de Sant'Anna, de S. Fr.an- 
cisco e do Santa Clara. Dos dois primeiros não resta mn 
só vestígio. Nem uma pedra escapou á força destruidora 
das cheias e á elevação successiva do areial. Do terceiro, 
mais afastado que os outros do leit« do rio, ainda esUi 
de pé, a velha egreja muito arruinmla. 

E nxn edifício dos principies do século xiv. Predo- 
mina em todo elle a ogiva. Não a ogiva larga o despro- 




ARTES E LETRAS 



1Õ5 



j)orei(ma(Iíi da Só do Évora, nem tão pouco a do laiiceta 
com a ioniia elegante o graciosa que tomou na Batallia 
e no Carmo, porém a de transiyão, como é a dos claus- 
tros de Alcobaça e do Santo Thyrso. 

Contava apenas dois séculos o mosteiro antigo de 
Santa Clara o já as inundayòes do Mondego inconunoda- 
vam as freiras, fazendo estragos dentro na egreja e ar- 
ruinando claustros o dormitórios. Quiz el-rei D. Manuel 
editicar-lhes nova casa, porém n?io acabou com ellas a 
que deixassem os legares onde a rainha Santa Izabel, 
bemíeitora c (iditicadora do mosteiro, passara cm exercí- 
cios de devoção os últimos dias da vida. 

Na segunda metade do século xvi, tomando-se de 
todo impossível celebrar na egreja os oflicíos divinos, 
mandaram as religiosas construir uma abobada na altura 
do uns oito ou dez metros do pavimento, e levantar so- 
bre cila novos altai;es. Tinha a egreja cincoenta e seis 
metros do comprido o tamanho pé direito, que, apezar 
do cortado n'uma terça parte, ainda ficou o sufficiente para 
que a nova obra nào parecesse muito defeituosa e aca- 
nhada. 

Entretanto, pouco tem])0 aproveitou ás religiosas 
esto expediente, porque, andado um soculo, pouco mais 
ou menos, se mudaram para o novo mosteiro, onde têem 
residido e virào a acabar dentro em breves dias. 

Desculpe, meu amigo, os preliminares históricos. 
Importa recorda-los para intelligencia do que me propo- 
nho referir. 

A parte superior do templo, ou a ultima egreja que 
tiveram as freiras no mosteiro antigo, serve ha muitos 
annos de palheiro, celleiro e outras rústicas offieinas. A 
parte inferior está inteiramente sequestrada do restante 
e dos terrenos adjacentes, por se terem tapado todas as 
communicações que havia para o lado de fora. 

Examinar estes espaços tenebrosos, buscar os oc- 
cultos restos da parto inferior da egreja primitiva, hoje 
subterrânea, tal era o fim da exploração. 

O meu excellente amigo, o capitão A. de L., dire- 
ctor das obras do Mondego, carecia de fazer certos es- 
tudos de nivelamento na margem do rio. Importava-lhe, 
para esse fim, sondar o pavimento da egreja. Por outra 
parte, amador, como eu, das antiguidades, de bom grado 
se prestou a juntar aos seus estudos hydraulicos o exame 
archeologico. 

Associaram-se-nos na empreza outros dois amigos il- 
lustrados e também possuidos do mesmo gosto das anti- 
guidades: o doutor C. e M. O., a quem actualmente 
pertencem as ruinas do mosteiros e muitos dos terrenos 
adjacentes. 

No sabbado, 12 de outubro, reunimo-nos todos junto 
da egi-eja, da parte do sul. Acabavam de desobstruir a 
ogiva de uma porta lateral, soterrada até ás empostas 
do arco. 

No logar onde estávamos tinha sido o antigo claus- 
tro com suas fontes e jardins. D'esto formoso retiro, cu- 
jos encantos não compensariam a algumas das religiosas 
os prazei'es que tinham deixado com o mundo, nào res- 
tam outros vestígios mais que os encontros das abobadas 
na parede meridional da egreja equasi rentes com o 
chão. Tanto se ha elevado o terreno pelo decurso dos 
séculos ! 

M. O., que nào precisa de encarecer os merecimen- 
tos da sua bella vivenda com f^llsas tradições, e que 
aprecia a verdade acima de tudo, abriu-nos um quintal 
próximo para nos mostrar o sitio onde fora assassinada 
D. Ignez de Castro, a Fonte dos Amores '. For cima do 

' Tendo-se levantado o terreno com as inundações annuaes Ires 
ou quatro metros, nSo julgamos que a primitiva Fonte dos Amores es- 



tanque, onde corro, vêem-se ainda vestígios de uma pin- 
tura que parece ter representado a morto d'aquella 
dama. 

De dois versos que escrevera por baixo da ]>intura 
quem a fizera, restavam somente estas poucas palavras: 

. . . flores 

. . . amores. 

. . . Est. . . XXX. . . 

Era o final da estancia cxxxv do cantfj 3." dos Lu- 
sitidas, remate de um dos mais notáveis episódios do 
poema. 

Naturalmente nos occorreu á memoria toda a es- 
tancia : 

As nymphas do Mondego a morte escura 
Longo temjw chorando memoraram, 
E, por memoria eterna, em fonte pura 
As lagrimas choradas transformaram. 
O nome lhe pozeram, que ainda dura, 
Dos amores do Ignez que alli passaram. 
Vede que fresca fonte rega as flores, 
Que lagrimas são agua e o nome amores*. 

Por aquelles mesmos sitios, e muito próximos do 
mosteiro, eram os paços, onde residia D. Ignez de Cas- 
tro quando foi assassinada, e que também de todo des- 
appareceram. D'esta proximidade e dos versos citados de 
Camões se deprehende que em seu tempo já aquella 
fonte se chamava dos Amores. Depois, provavelmente, 
da ficção mythologica do poeta se originaria o nome 
de Fonte das Lagrimas applicado á outra mais dis- 
tante, onde, por ser a nascente, as nymphas deveriam 
chorar, para que suas lagrimas viessem correr na Fonte 
dos Amores. 

É verdade que muita gente julga ver o sangue da 
infeliz amante do filho de Affonso iv, milagrosamente 
conservado nas pedras por onde corre a agua da Fonte 
das Lagrimas. A esses nenhumas razões os despersuadi- 
rão de que o assassinio da « linda Ignez » foi onde não 
pode admittir-se, sem olvidar todas as poucas memorias 
que os historiadores nos deixaram d'aquelle facto, mais 
memorável que memorado. 

Quando nos tornámos á porta da egreja, estava já de- 
monstrado por algumas sondagens que dentro d'ella ha- 
via um metro ou mais de lodo, e por cima outro metro 
d'agua clara e limpida. Era um como grande lago sub- 
terrâneo, onde ^poderíamos navegar livremente em todas 
as direcções. Á entrada da porta sobrenadava o batel 
prestes para receber-nos. 

Entrando primeiramente, verifiquei que o ar interior 
não tinha cheiro algum desagradável. Era, porém, quente 
e húmido. Adverti aos meus companheiros que me pare- 
cia não haver perigo em o respirar por algumas horas: 
entretanto que poderia conter miasmas infectos que, sem 
darem rebate ao sentido do olfacto, nos causassem trai- 



tivess"? exactamente no mesmo logar que hoje occiípa. Deveria ser 
mais baixa e lalve< para a parte do rio, por serem mais próximos 
d'elle que o mosteiro, os paços que a rainna D. Isabel comprara ao 
convento de SanfAnua. 

Na fonte primitiva, como na actual, corria a agua trazida pelo 
aqueducto, que chamam Cano dos Amores, ou por outro que já no 
século XIV linha o mesmo nome. 

' Convém ad\erlir que na Fonte da» Lagrimas, aonde o vuljfo 
refere actualmente a morte de D. Ignez de Castro, se \é esta mesma 
estancia gravada n'uma lapide. A Fonte das Lagrimas, situada no 
extremo da quinta do mesmo nome, íica a sudoeste e em grande dis- 
tancia da outra. 



15G 



ARTES E LETRAS 



çoeiramcnte alguma febre paludosa, quo nos fizesse airc- 
pcnder da curiosidade que nos impeíiia para aquelle te- 
nebroso recinto. 

Como iiomens animosos e destemidos que são, ri- 
ram-so dos miasmas que não viam e entraram todos no 
batel. 

Pelo arco aberto da porta penetrava a luz do sol, 
doirando a superfície da agua e esclarecendo os espaços 
mais próximos. 

Começámos a navegar mansamente pela nave meri- 
dional c cm brevo nos achámos na escuridão. Acccnde- 
mos os archotes que levávamos. Os seus clarões averme- 
lhados prqjoctavam-sc pelas paredes e abobadas e pelos 
arcos e pilares em quo estas so estribam. Viamos em 
realidade uma d'aquellas ficçSes tétricas c espantosas 
com que Radcliffe outrora, o hoje Ponson du Terrail 
aguça a curiosidade dos leitores o assusta os mais ingé- 
nuos. 

— Quem habitará estas sombrias regiões? pergun- 
tou um do n()S. 

IJuscámos o não vimos senão dois individues do gé- 
nero Umax, sem conchas, rasteando lentamente na pa- 
rede húmida. Mas, como não estivéssemos longe da porta, 
ficámos em duvida se por ella teriam entrado, preeeden- 
do-nos algumas horas. 

Pouco depois o doutor C, de todos nós o mais mi- 
nucioso observador, enxergava uma grossa enguia a er- 
guer-so do lodo e a observar com curiosidade os hospe- 
des que assim lhe devassavam sua tenebrosa habitação. 
Nenhum outro ser vivo encontrámos nas ruinas da velha 
cgreja. 

Chegando ao extremo occidental da nave do meio, 
vimos uma porta de ogiva demasiadamente estreita para 
ter sido a principal do templo. Nas egrejas de freiras a 
porta principal costuma ficar ao lado, por causa do 
coro. 

M. O. recordava com saudade os passeios que dera 
em Veneza nas gôndolas, por entre as ruinas do velhos 
palácios. Depois, lembrando-se da mythologia, comparou 
a navegação que fazianios com a do Acheronte. 

Não acabava, quando subitamente, junto da porta 
por onde entráramos, avistámos lunas cliauimas ardentes 
que nasciam da agua e pareciam envolver algumas pes- 
soas que tinham acudido a obscrvar-nos d'aquelle sitio. 

Nenhum de nós tremeu, gritou ou desmaiou. Outros 
mais timoratos ou assustadiços julgariam que, irritados 
os manes das freiras, sepultas na egreja, contra quem 
lhes perturbava o silencio dos túmulos com discursos 
gentilicos, se vingavam fazendo alli apparecer o próprio 
inferno. 

Mas as pessoas envolvidas pelo fogo não se extor- 
siam nem davam o menor signal de dor. Continuavam 
a seguir-nos com os olhos, sem, ao menos, fugirem do 
calor das chammas. 

Logo nos occorreu a explicação de tão estranho es- 
pectáculo. O fumo dos archotes carregava o ar, como 
espessa nuvem. A difFcrença de densidade entro o fumo 
que enchia o espaço superior e as camadas do ar infe- 
rior, próximo da agua, c.iusava um boUo effeito de mi- 
ragem, similhante aos qu(! se observam no Sahara ou 
nos mares glaciaes. As chammas que observávamos ao 
longe eram as imagens das que saiam dos nossos ar- 
chote». 

(Continuámos a navegar pela nave central, seguindo 
para o nascente. No meio da egreja encontrámos mna 
jiarede de grandes ])edras faceadas, a qual, cortando de 
lado a Iftdo todas as trcs naves, nos impediu do avançar 
por qiuilquer delias. 



Prolongava-so com esta parede em cada nave uma 
abobada também de cantaria, de três ou quatro metros 
de largo e na mesma altura da abobada geral de tijolo, 
construída para se mudar a cgreja ]>ara cima d'ella. Era 
um enygma cuja solução demandava o exame da outra 
metade do templo, que a parede escondia aos nossos 
olhos. 

Passámos depois á nave septentrional, onde não vi- 
mos outra coisa notável senão uma grande pedra de 
mármore, quadrangular, branca e lisa, quasi á flor d'agua 
e junto da nave do meio. A maior parte concordámos 
em que teria sido um púlpito, hypothese que a explora- 
ção da outra metade da egreja mostrou não ter funda- 
mento. 

Depois de termos andado uma hora ou mais na 
egreja abandonada, saímos por onde entráramos. O ar 
carregado do fumo já não era muito respirável, estimu- 
lava desagradavelmente os olhos e pouco deixava ver, 
ainda em pequena distancia. Quando respirámos o ar li- 
vre e vimos a luz do sol, os pulmões dilataram-se com 
prazer e um sorriso de satisfação transluziu em todos os 
rostos. 

Assentámos em explorar a parte oriental da egreja' 
na próxima segunda feira, ao meio dia, c cm substituir 
os archotes por lanternas de furta-fogo. 

No dia aprazado, 14 de outubro, desobstriu-so a 
porta do lado do norte, mais alta e larga que a do sul. 
Era aquella por onde os fieis entravam, ha quatro sécu- 
los, para dentro da egreja. 

Desejando repetir o exame da parte explorada, fui 
mais cedo, ás nove horas da manhã, antes que mudas- 
sem o barco para o outro lado. Os raios do sol pene- 
trando áquella hora obliquamente dentro na egreja, per- 
mittiam uma observação mais j)erfeita. Foi assim que 
descobri na parede divisória da egreja uma espécie de 
janella (piadrangular, que antecedentemente não viramos, 
cortada em certa altura pela abobada. 

As onze horas da manhã estava aberta a porta do 
norte, e o barco sobre a agua. Entrei só, e, com a luz de 
uma lanterna, observei aquella parte das ruinas mais im- 
portante que a outra. 

Seguindo do nascente para o poente pela nave do 
meio, fui encontrar a parede divisória. Como da outra 
parte, prolongava-se com cila na distancia de cinco me- 
tros uma abobada, que era a continuação da que so des- 
cobrira do lado opposto. Pela cOr, signaes de apparelho 
e artezões parece uma parte do edifício primitivo, c, por- 
tanto, anterior !Í abobada geral de tijolo. 

Havia pois no meio da egreja, na altura de uns 
nove metros, uma abobada de oito ou novo metros de 
largura, ligando as duas fachadas latcraes c interceptando 
a parede divisória vertical, que, provavelmente, se pro- 
longaria para a parte de cima. 

N'e8ta parede, vista, como eu agora a via, da parte 
do nascente, appareco não só a janella quo do outro 
lado se descobre, mas também outra por baixo, a qual 
penetra na agua e no lodo. Ambas foram tapadas com 
alvenaria. 

Sendo depois discutida entre todos esta singularidade 
architectonica, assentámos, que, para além ou ao poente 
da parede divisória era o coro de baixo, e que o de cima 
se prolongaria sobre a abobada, ficando assim á egreja, 
frequentada pelo povo, mais o espaço de cinco metros 
por baixo do coro superior. 

Avançando ]>ara o nascente pela nave septentrional, 
cheguei a uma capella que lhe serve de remate. Os ca- 
piteis das columnas são nmis perfeitos quo os outros da 
egreja. A abobada é muito elegante, d maneira do cu- 



ARTES E LETRAS 



1Õ7 




Ruinas da igreja ds Sanla Clara de Coimbra, vistas da rarle do sul 



pula, c artezuada. Em correspondência com esta o na 
outra nave lateral, achei uma capclla similhante. Entre 
ellas fica um espaço mais amplo, que era a capella-mór. 
A abobada que cobre este espaço ó de tijolo, prolonga- 
mento da que se construiu no século xvi. A abobada 
pi'imitiva mais alta que íis das capellas lateraes, ainda 
se vê pela parte de cima, junto de uma eira que fica ao 
nascente da igreja. 

Andando pela nave meridional, achei na parede uma 
linda ogiva de mármore, comparável ás mais elegantes 
da Batalha. ÍS^ào era de capella, porque o espaço interior 
apenas tem cincoenta ou sessenta centímetros de fundo. 
.Seria um cdiculo, onde primitivamente estaria o tumulo 
da rainha Santa Isabel? Por fora c por dentro viam-sc 
os logares, de onde tinham arrancado os azulejos. 

Depois repeti o exame com os meus amigos doutores 
C. e L. J., que n'cstc dia o acompanhava. 

Quando mais entretido estávamos a discutir a edadc 
de um arco ou o apparciho de uma pedra, ouvimos vo- 
zes que nos chamavam. }st\o sabíamos de quem fossem, 
porque, resoando entre a agua e a abobada, perdiam o 
timbre característico. Aproximámo-nos da porta. Era M. 
O., qnc logo saltou para o barco. Pouco depois vieram 
A. de L. o um empregado da sua repartição, a quem dé- 
ir.os os últimos logares. O barco estava cheio com as 
sete pessoas que tinha dentro. O bordo pouco distava da 
agua. Qualquer descuido n'uni )novimento o afundaria, 
lançando-nos no lodo, de onde nos custaria a safar. 

Afinal novos brados annunciaram a vinda de outro 



explorador. Era A. M., que teve de esperar a vaga de 
um logar. 

Passado pouco tempo saíram A, de L., e o doutor 
L. J. Entrou logo A. M., que estava ancioso por tomar 
parto na exploração. 

Combinámos cm não dizer-lhe coisa alguma, para 
que, por si c do que visse, tirasse as conclusões que lho 
j)areccssc. A. M. saiu-se muito bem d'estc exame. Nào 
lhe escapou um vestigio, um signal, uma particularidade, 
por pequena que fosse. 

Todos os seus juizos pareceram conformes aos nos- 
sos, embora nno tivesse assistido ás explorações anterio- 
res, nem tomado parte em nossas discussões. 

Regressando para a cidade, dizia-nos o doutor C. : 

— So eu tornar a ser ministro, lembrem-me as ex- 
plorações areheologicas em Portugal, que desde já lhes 
prometto que se hào de fazer muitas o importantes. 

Ao que eu respondi: 

— Pela minha parto hei de ter o maior cuidado em 
não lembrar taes coisas a v. ex.* 

— Por que? 

Porque sou seu amigo o não o quereria de modo 
algum desacreditado entre muita gente que, se visse um 
ministro mandar fazer excavações, e não tirar debaixo 
da terra com que matar o deficit, logo o teria por inca- 
paz de dirigir os negócios do seu ministério. 

Recolhi a casa, e ao correr da penna lancei no pa- 
pel as impressões que a exploração das ruinas mo dei- 
xara. 



1Õ8 



ARTES E LETRAS 



Sp (la publicidado lho parecerem dignas, dê mais 
essa honra no 



Coimbra. 15 de outuhro 
(lo 1872. 



Seu amigo « collcga obrigado, 
A. FILIITE SIMÕES. 



— — mTí>-&^flf'"~ 




CriRONÍCA DO MEZ 



oDK-SE afoitairipnte dizer 
(|ue as novidades princi- 
paes do inez foram os espe- 
rtaciilos variadíssimos do» 
iheatros e a concorrência 
lio publico a presencial-os. 
Os amadores d'esto frenero 
de distracções — (|ue não 
são mnilos, infelizmente, 
n'esta boa cidade — téem 
já l)astante por onde esco- 
lher. Com a estação inver- 
nosa abriram-se todas as ca- 
sas de espectáculos, e <as 

emprezas começaram de 

porfiar sobre (|ual lia de at- 
trahir maior numero dt; pessoas á sua sala. E o publico enlevado 
certainentí! pela diversidade e cpialidade dos manjares ()ue lhe ser- 
vem, tem correspímdido este anno, mais do que é costume no co- 
meço das épocas thealraes, aos desejos das emprezas. 

D. Maria encheu quasi todas as noites os camarotes e pla- 
téas com as reprises das suas melhores peças. O excellenle dra- 
ma do sr. Pinheiro Chajías — A Mortjadinka de Valflor despertou 
}íeraes attenções, não só pelo merecimento da obra, (|ue é muito, 
como pela substituição do papel principal (pie fora creado por um 
mestre, e era afiora feito por um (piasi principiante. 

Não se houve porém mal o actor Álvaro na arriscada empre- 
za a que melteu hombros, e, se poupasse um pouco as suas for- 
ças nas scenas menos violentas, para <is empre<;ar expansivamente 
(|uando a situação o exige, mais perfeito lhe sairia o seu trabalho 
e de certo com menos custo. O publico fezlhe justiça applaudin- 
do-o nas situações em que mais se distinguiu. 

Depois da Morgadinha representou-se a bella comedia de Vi- 
clorien Sardou — Les patês de Mouche, traduzida em portuguez 
com o titulo de — Por causa de uma carta. 

O interesse por esta peça, com relação ao desempenho, ain- 
da foi maior, porque eram mais as substituições, e porque é no- 
tório o trabalho de Santos no papel de Prospero Block. 

A notável actriz Emilia Adelaide, incumbindo-se do papel 

3ue fora creado pela infeliz Manuela Key, tomou sobre si o pesa- 
encargo de confrontar o seu trabalho com o de um dos mais 
primorosos ornamentos que teve a scena portugueza. Todavia a 
moderna actriz, auxiliada pelo seu experimentado talento e pela 
força moral ganha com a estima do publico, desempenhou-se o 
melhor possível da sua árdua mis.são, representando com a maior 
naturalidade e alegria as scenas de verdadeira comedia de que se 
compõe a peça, e às quaes, diga-se a verdade, a excellente actriz 
não está muito habituada. 

Alguns dos demais artistas que substiluiram os antigos nos 
outros papeis — Virgínia, Amélia Vieira, António Pedro, Maggioli 
6 Gil — também representaram com o esmero e aptidão que téem 
mostrado em trabalhos menos fáceis. 

Santos foi muitíssimo bem, como sempre. 

Depois das peças antigas deu-se peça nova. No fim do mez 
subiu á scena a comedia— /íaftojas, celebre composição de Sar- 
dou, que tantos murros fez dar e levar ao publico que presuroso 
correu ás platéas dos theatros de França, para ver em scena 
aquelle escândalo politico. 

Os espectadores portuguezes, á parte os murros, mostraram- 
se cora esta peça mais francezes do que os próprios francezes, 



porque principiaram a pateal-a antes de saberem o qne ella era. 

liabayas divide-se em duas parles: — satyra politica e en- 
redo dramático. A satyra politica, abstmliiiido a inju.^iça qne o 
auctor fez ao homem publico ipie intentou ridicuiarisar, 6 engraça- 
dissima. O enredo dramático é absurdo e sem interesse. D'aiiui 
principalmente a animosidade que o publico e a critica téem mos- 
trado contra a peça. liulnifias é, eirectivamente, das peiores com- 
posições do auctor das Paltes de mouche, Vieux garçons e Fa- 
mille Benoiton. Só por especulação commercial V. Sardou podia 
conceber e deixar re[irescntar esta comedia Se a escreveu para 
fazer politica, para advogar a causa do império e atacar a repu- 
blica, errou o golpe. A corte está desgraçadamente representada 
na sua composição. O príncipe de Mónaco é durante toda a peça 
um bonacheirão ridículo, (laia no ultimo acto se transformar em 
odioso tyrannete, pois (pie não é outra coisa o lioinem i|ue man- 
da, por ciiimes, fuzilar o (pie julga seu rival. A intriga e a devas- 
sidão também se acham perfeitamente refiresentadas em todos os 
actos. Vô-se pois (pie se ellectivamente V. Sardou ijuiz fazer po- 
litica pondo em scena — liabagas, não se importou com tirar um 
olho a si para arrancar dois ao visinho. O que, porém, con.seguiu 
foi arrancar os olhos do visinho com a maior graça e o mais fino 
talento. 

O desempenho da comedia no theatro de D. Maria não foi 
primoroso. E sempre diflicil para os actores crearem typos (|ue 
lhes não são muito familiares. Só António Pedro teve a fortuna 
de caractcrisar bem o seu (lafxd, representando com a maior ver- 
dade e graça um sans-culoties avinhado. Os demais, ou se achavam 
díísiocados, ou não tinham (piasi nada a fazer para mostrar o seu 
talento. No entanto o sr. Izidoro e a actriz Gertrudes, aos quaes 
coube a maior responsabilidade do desempenho, representaram 
toda a comedia com a aptidão de (|ue dispíicm sempre os primei- 
ros actores, até para os papeis que llies são mais estraniios. 

A Trindade começou a dar as grandes festas, que, em obse- 
quio a alguns artistas, é cí)stume havísr em todos os theatros. 

Foram duas das primeiras actrizes d'a(|uelle palco — Anua 
Pereira e Florinda — as (\ue inauguraram nesta época as agra- 
dáveis noites dos beneficios notáveis. 

No beneficio de Anna Pereira representou-se a zarrueia — 
O snryento Frederico, posta em portuguez pelo sr. Aristides 
Abranches; no de Florinda subiu á scena a zarzuela — ílontem 
vaqueiro hoje cavalheiro, traduzida pelo sr. Francisco Palha. 

Ambas estas |)eças bem urdidas, paramentadas com os chis- 
tes que sabem escrever os dois applaudidos auctores que as trans- 
plantaram para a lingua portugueza, ornadas d(! boa musica e ha- 
bilmente desempenhadas pelas protagonistas e demais interpretes, 
estão dando avultadas receitas ao tluíatro, com o (]ue muito folga 
a empreza « lodos os (|ue por ella se interessam, em cujo numero 
figura o publico. 

O Gymna.sio repetiu a conhecida peça do sr. Camillo Castello 
Branco — Abençoadas lagrimas, deu em primeira repn-sentação 
as comedias n'um acto — Entre casados, traduzida pelo sr. E. 
Martins, e O meu genro não é para graças, traduzida pelo sr. S. 
Vasconcellos, as quaes agradaram, e o drama em três actos ex- 
trahido pelo sr. A. Calleya do romance de Léon Gozian — Lei 
martyrs inronnus, intitulado — Valentina. 

Esta peça, como succede a muitas, foi applaudida do princi- 
pio até o fim, sem que todavia os espectadores gosla.«sem deveras 
delia. Quanto a mim o defeito principal do novo drama do Gymna- 
sio, é a manifesta dessimilhança que lia entre os costumes que nelle 
se de.seniiam e os nossos. Aquella acção pôde ser razoavelmente 
boa e interessante no paiz em que o pensar e o proceder das pes- 
soas da sociedade que alli se representam, .sejam a.ssim. í'à nin- 
guém procede nem pensa de similhante modo, o que deu logar ao 
resentimento que se levantou contra a peça. Convém no entanto 
advertir — e isto fora escusado dizer-.se, se, por inexplicável aca- 
so, a critica não tivesse attribuido grande parte dos erros da peça 
ao traductor — convém advertir, repito, que todos os defeitos do 
drama Valentina provém principalmente da maneira como está 
concebido e desenvolvido o romance d'onde clle foi tirado. 

Conheço o romance e parece-me que ninguém poderia fazer 
d'aqucila composição mais do qne o sr. Calleya fez; se portanto 
alguma censura cabe ao traductor é única e simplesmente por ler 
escolhido para architi^ctar um drama em portuguez, imia obra que 



ARTES E LETRAS 



1Õ9 



só fora pscripta i)ara ser iini mnianco cm franciíz. O sr. Calleya 
fascimm-sc, lalvez [)i'.U>s eíTeitos dramáticos a (|ue a acção elTecti- 
vanipute se presta; n'isfo está a sua condeamação e ao mesmo 
tempo a sua desculpa. 

Todos os elleitos do drama foram esrrupulosamenle aprovei- 
tados pelos artistas (pie interpretaram os primeiros papeis — João 
Uosa, Polia, Pinto de Campos, Maria das Dores e Emilia dos An- 
jos. l)'estes o que teve enear^jo menos pesado para as suas for- 
ças, foi o aetor Polia: os demais liielaram com innumeras dillicul- 
dades e veneeram rpiasi tíidas. A isto e á severidade i-om que o 
jornalismo diário criticou a peça, se deve a curiosidade excitada 
no publico para ir vei-a. 

Ainda o Santo António, a milagrosa composiçno dramática 
do sr. Braz Martins, dá boas receitas em Lisboa. Foi o tlieatro 
da Rua dos Condes o que d'esta vez se lembrou de a reproduzir, 
e não teve (|ue se arrepender da idéa. Além dos incentivos da ora- 
tória, que são dos melhores no jçenero, havia d'esta vez a curio- 
sidade de ver o actor Ribeiro no papel do thaumaturjío. Custava 
a crer que o artista que representa com tanta graça e verdade o 
creado lorpa dos Crimes do Brandão, interpretasse com a gravi- 
dade e sentimento (|ue o papel requer, o protagonista da oratória 
Gabriel e Lusbel. E no entanto o sr. Ribeiro, fazendo-nos esque- 
cer completamente de que é actor cómico, desempenhou ao agra- 
do de todos e com a circumspecção devida, o estranho papel (|ue 
ora lhe coube. É talento assas maneavel o do sr. Ribeiro ; presta- 
se a todos os géneros dramáticos com a máxima facilidade. 

dom medo da revolta se denomina uma nova comedia n'um 
acto, original do sr. Luiz. de Araújo. 

Pelo titulo se \6 que a nova composição do humoristico es- 
criptor é um « propósito, e iodos sabem que a missão dos a pro- 
pósitos no tlieatro, é apenas fazer rir. A comedia do sr. Luiz de 
Araújo satisfaz pois ao fim a que se propõe; alegra as platéas, 
(|ue, não querendo ficar em divida ao auctor, também o alegram, 
applaudindo-o. 

O tlieatro do Piincipe Real inaugurou os seus espectáculos 
com o Corsário negro, drama que pela còr do adjectivo que ligu- 
ra no titulo, se conhece ser carregado. É original do sr. Baptista 
Machado. Este escriptor tem ultimamente produzido bastantes 
composições theatraes em que revela o seu grande conhecimento 
do gosto das platéas populares. Não é das de menos merecimento 
a ultima ((ue poz em scena, o que se comprova pelas suceessivas 
enchentes (|ue tem dado ao theatro. 

Afora alguns episódios pouco verosímeis que, por vezes, se 
observam no correr da acção, o Corsário negro participa de to- 
das as condições que re(|uerem os dramas do seu género. Tem 
boas situações, alguns diálogos felizes, e é bem representado pelo 
talentoso actor Joaquim de Almeida, que, ajudado por mais um ou 
dois artistas, tem no theatro do Príncipe Real a responsabilidade 
dos primeiros actores dos chamados thealros de boulevard em Pa- 
ris, que é supprirem com o seu talento, o talento que falta ao 
resto da companhia. 

Também o afamado Price concorreu este anno ao certame, 
que tem por fim attrahir a attenção e as economias da população 
de Lisboa. 

Não tem sido dos mais infelizes n'este ponto o conhecido em- 
prezario, porque traz artistas notáveis na sua companhia. A fa- 
mília Kennel)el, de que faz parte uma creancinha que é um ver- 
dadeiro petit prodige; os irmãos Leoni, realmente extraordiná- 
rios nos seus audazes exercícios, o picador Vidal e outros, são ar- 
tistas notáveis em toda a parte. Não admira por conseguinte que 
o cofre do emprezario que teve a fortuna de os escripturar, se 
encha agora como no primeiro anno em quo Thomaz Price desco- 
briu esta mina. 

Feita a revista dos espectáculos do mez com a brevidade 
que a indule d'esta publicação requer, faltarei de alguns livros 
ultimamente publicados. 

Nunca é tarde fazer menção de uma obra litteraria de 
verdadeiro merecimento, ainda que essa menção appareça quando 
a edição está quasi esgotada, como succede com a dos Papeis ve- 
lhos, o ultimo volume publicado pelo fecundo e esmerado escri- 
ptor o sr. António Augusto Teixeira de Vasconcellus. 



Papeis relhos, chama o sr. Teixeira de Vasconcellos a um 
grupo de contos moraes, compostos e escriptos com o primor que 
se observa em todas as suas obras liticrarias. 

Encerra o volume curiosidade e ensino; curiosidade por- 
que cada uma das pequenas narraçfies n'elie contidas, é feita com 
tal habilidade que o leitor não pôde interrompel-a por caa^a do 
interesse que liga aos diversos personagens; ensino porque todos 
aqiielles contos tíein inslrucção moraiisadora e são e.scriptos em 
correctíssima linguagem portugueza, como a que sabe usar o sr. 
Teixeira de Vasconcellos. E n'estas diversas (|ualidades (|ue tem 
este (■ lodos o» livros daquelle escriptor, está o segredo da brevi- 
dade com que elles se vendem. 

Ainda a questão do Ilomem-mulher preoccupa a attenção dos 
escriptores e dos leitores, apesar do corte pela raiz que lhe pre- 
tendeu dar o sr. Camillo Castello Branco com a sua Espada de 
Alexandre, folheto notável onde se encontram capítulos engraça- 
díssimos. 

O sr. Alberto Pimentel também deu á publicidade no Porto 
algumas [laginas humorísticas sobre o assumpto, e ainda ha [louco 
saiu dos prelos de Lisboa uma traducção cuidadosamente feita pelo 
sr. Gervásio Lobato, do pequeno livro de Henrique d'Ideville — 
o iniciador da questão — denominado — O marido que mata e o 
marido que perdoa. 

Ouirosun não est;i ainda abandonada a discussão acerca do 
celibato ecciesiastico. Do sr. Luciano Cordeiro corre impresso 
um folheto — O casamento dos padres, em que, segundo o meu 
modo de ver, o erudito escriptor trata a ()uesiào cx)m muito crité- 
rio e imparcialidade, expondo e defendendo a melhor doutrina. 

A Historia da communa peio sr. Piniieiro Chagas e Batalhas 
dos portuguezes, pelo sr. Osório de Vasconcellos, são doi.s li- 
vros notáveis, pelo interesse que encerram e pela auctoridade de 
seus auctores, livros de que a impressa diária se tem occupadu 
com louvor. 

Publicou-se também em Lisboa mais um romance do sr. Leite 
Bastos — A calumnia, e em Ciimbra um livro de versos — Ade- 
jos, pelo sr. José Júlio da Silva Ramos. 

O sr. Leite Bastos é o (]ue se pôde chamar — um martyr do 
trabalho. Sempre na brecha, luctaudo com as maiores contrarie- 
dades, arrojando-se aos mais temerosos perigos, nunca desanima 
o incansável escriptor, tentando todos os géneros de litteratura — 
jornalismo, critica, romance, theatro — e avançando sempre. 
D'elle escreveu o sr. visconde de Castilho ao sr. Camillo Castello 
Branco as seguintes bonrosissim.as palavras: 

«Ouvi hontcm ler pela primeira vez escriptos de Leite Bas- 
tos, de que nenhuma noticia tinha. É um dos mais aproveitados 
discípulos de v. ex.', imitador não digo porque lia coisas que se 
não imitam; mas a verdade 6 que ninguém que eu saiba llie to- 
mou com tanta propriedade a maneira rápida e incisiva de nar- 
rar e gracejar e a côr vernácula em que nos deliciamos os enjoa- 
dos da peralvilhice litteraria. Do merecimento d'este Leite Bastos 
é pois a v. ex.' que eu dou os parabéns e agradecimentoi . • 

O romance — A calumnia tem os dotes apreciáveis que 
sempre se encontram nos escriptos de auctores que estão nos 
casos de merecer ao sr. visc^mde de Castilho palavras animado- 
ras como as que deixo Iranscriptas. 

No livro do sr. José Júlio da Silva Ramos acham-se alguns 
versos maviosos e bem feitos como os da poesia — Na praia e ou- 
tras. É obra digna de ler-se. 

Seja-me permittido lembrar também uma nova publicação, 
que, se não attralie o leitor pela prosa nem pelo verso, é do má- 
ximo proveito para as creanças ipie principiam a sua educação. 

Quero fallar da — Arte de contar, para vso das escolas pri- 
marias, pelo sr. Augusto José da Cunha, editada pelos srs. Rol- 
land & Semiond. Esta pequena obra, dividida em quatro folhetos 
que se vendem em separado, como se usa em Inglaterra e na Al- 
lemanha, para facilitar ao estudante menos abastado a arquisição 
do livro, é destinada a substituir as antigas taboadas. Composta 
por pessoa instruída e muito sabedora do assumpto, tem regras 
fáceis, exemplos habilmente combinados, demonstrações claras e 
bem deduzidas, de sorte que, segundo todas as probabilidades, 
lia de ser d"ora em diante adoptada pelos professores das escolas 



160 



ARTES E LETRAS 



primarias, de preferencia aos retrógrados folhetos que até agora 
usavam. 

Em compensação de ter occupado por um instante as atten- 
ções da leitora com a prosaica reeommendaçâo do uma taboada, 
vou fallar-llio de um olijccio elegante, luxuoso, digno de figurar 
sobre a banca mais primorusamente guarnecida do seu mimoso 
boudoir. Rofiro-mc ao album (|ue o nosso primeiro gravador em 
madeira, o sr. João Pedrozo Gomes da Silva, começou a publicar 
com o titulo de — Historia da gravura em madeira em Portugal. 

Pela [)rimeira follia se conhece que ó obra valiosa e nieroce- 
dora, como já disse, de se apresentar na< salas elegantes da pri- 
meira sociedade, pudendo, pela modicidade do preço por que é 
posta á venda, ser lambem adquirida por aquelles (jue dispõem 
de poucos meios [lara objectos ne hixo. 

Foi boa a idéa d'esta publicação, porque a cmpreza vac com 
cila auferir lisonjeiros lucros, o sr. Pedroso firmar a sua reputa- 
ção de bom gravador, e o publico |)ossuir trabalhos de arte n'um 
género pouco divulgado no paiz. 

KANCEL DE LIMA. 




No Brazil téeni saldo á luz da publicidade as seguintes 



obras : 

A brisa, jornal litterario redigido no Maranhão. 

O zig-zag, periódico do (",ndó. 

Processo de João Guilherme Itntteliff, viclima da rainha Car- 
lota. Em seguida a[)parecorá o Processo de Tiradentes. Os itiipor- 
lantes documentos dVsta publicação são colleccionados por um es- 
criptor muito conhecido no Brazil, que se occulta sob o pseudonymo 
de Esquiros. 

Poesias do sr. Joaquim Ignacio Alvares de Azevedo. 

Hesposta ás « Farpas brazileiras », por Júlio Pereira. 

Conferencias feitas no Maranhão, pelos srs. Ennes de Sousa e 
António de Almeida Oliveira. 

Criminosos celebres (Ires episódios históricos) Pedro Hespanhol, 
Vasco de Moraes e Os salteadores da ilha da Caqucirada, pelo sr. 
Moreira de Azevedo. 

Contos sem pretensão, por Luiz Guimarães Júnior. 

Pancracio da Silia, enlhusiasmado com as eleições, dialogo 
cómico por Crespus Fernic. 

Estudos agrícolas, pelo doutor João José Carneiro da Silva, de 
Campos. 

Gazeta do Povo, jornal da corte, órgão dos direitos e legitimas 
aspirações do povo. 

Contra Farpas e As ameaças do sr. llupont, dedicado aos por- 
luguczes, por (Carlos Silva. 

Correio de Taubaté, periódico semanal, alheio ás lutas po- 
liticas. 

Sonhos de oiro, romance por J. do Alencar. 

O homem- mulher, Iraducção pelo sr. Abranches Gallo. 

Directório do joven sacerdote, pelo sr. cónego Francisco Ber- 
nardino de Sousa. 

Estudos sobre Luiz de Camões e os seus Lusíadas, pelo sr. 
Joaquim Nahuco. 

Kpoca, folha semanal em S. João da Barra. 

O jesuitismo em Sobral; cartas de Origenes a Abeillard, fo- 
lheto publicado no Ceará. 

O seminarista, romance pelo sr. doutor Bernardo Guimarães. 

O nacional, periódico politico. 

Opinião, jornal litterario c recreativo no Ceará. 

Uegeneração, periódico dos typographos de Santa Catharina, 
que se dedica á instrucção, litteratura e noticias. 



A voz da America, órgão republicano da cidade de Aracaty 
(Ceará). 

Archiro contemporâneo, folha illustrada quinzenal. 

Escriptos de hontem, pelo sr. Paula Barros (2.* edição). E um 
volume de prosa e verso, contendo recordações da vida de estu- 
dante. 

A gazetilha, pequeno e interessante diário noticioso, humorís- 
tico e commercial. 

O zuavo da liberdade, pelo sr. doutor António Secioso Moreira 
de Sá. 

Versos, volume collaborado pelos sócios do Gabinete portuguez 
de leitura no Maranhão. 

Contos úteis, pelo sr. doutor César Augusto Marques, do Ma- 
ranhão. 

Críticos momentos e Uma moça astuciosa, comedias formando 
um volume, pelo sr. Macedo Brito, do Maranhão. 

Os quatro pontos carileaes e A mysteriosa, romances do sr. 
doutor Joaquim Manuel de Macedo. 

Diário da Tarde, novo jornal do Rio de Janeiro. 

A campangada, parodia em verso. 



===: O sr. Júlio Simon, n'uma visita que fez aos sótãos do ediH- 
cio do Louvre, em Paris, encontrou grande numero de telas que to- 
dos suppunham de insignilicante mérito, e que se descobriu serem 
obras piimas de grande valor. Foram avaliadas em quinze a dezoito 
milhões d(í fraiicns. 

Ha enire ellas um Bembrandt que vale quatro mil francos, um 
Gerard Dow de egual valor, e dois Ituhens e Yaii-Dyck, do valor de 
quatrocentos mil francos cada um. Determinou-se que todos estes 
quadros encontrados sejam expostos no museu do Louvre. 

Tem estado em exposição no Bio de Janeiro um retrato do 



sr. doutor Joaquim de Saldanha Marinho, pintado pelo doutor Pe- 
dro Américo. Parece que c trabalho de subido mérito, como todos 
os que produzem os babeis pincéis do distincto pintor Lrazileiro. 

Ha em Lisboa uma sociedade de músicos amadores, que 



empreliendeu unta novidade e soube realisal-a. São os concertos de 
cavaquinho, organisados e dirigidos pelo sr. Agostinho Martins, da 
ilha da Madeira. Não se poderá calcular sem os ouvir o grau de per- 
feição a que estos artistas — ha na sua aptidão e no seu talento bas- 
tantes títulos para merecerem este nome — conseguiram atlingir. O 
cavaquinho ó, como se sabe, um instrumento predilecto da Madeira, 
e o sr. Agostinho Martins e a sua orcheslra tizeram d'elle verdadei- 
ros milagres! 

O nosso governo mandou , elogiar as sociedades porlu- 



guczas de benelicencia no Bio de Janeiro, pela desvelada protecção 
que cilas concedem aos nossos compatriotas pobres, ali residentes, 
'lambem mereceu uma portaria de louvor o sr. commendador João 
Elisario de Carvalho .Monie .Negro, residente em S. Paulo, do império 
do Brasil, por ter mandado distribuir ás escolas do seu concelho, a 
I.,ouzã, 150 exemplares das Leituras populares, instructivas e mo- 
raes, do sr. Brito Aranha. 




iSS-lanuSA NAa&uL-IK73 



-«►- 







MO TEIilA 'ALDm (O BAVAiiD m TEEEITOEIO IIMieO.) 



^^UAOKO DE ^,f, i^AULBACH JUN. 



Editores IIullano ii ^emiono, J'.;s80a. 



AKTKS E LETRAS 



itn 



ARTES E LETUAS 




Lisboa — Novkmbuo dk 1872 



ERRADA OPINIÃO SOBRE OBJECTOS DE ARTE 

ORTUGAi. é um dos paizes onde 
as artes do d(;senho estão me- 
nos estudadas, e onde existem 
menos subsídios authenticos 
para auxiliar a sua verdadeira 
historia analytica. 

E sobretudo preciso des- 
confiar das opiniões erradas que 
subsistem ác(!rca de muitos 
monumentos ou de simples obras 
de arte. Pela maior parte estas 
obras ou momunentos perten- 
ciam ás antijias ordens reli- 
giosas, e a fama que havia, tanto de vni^as 
como de outras, era aquella diffundida pe- 
las chronicas escriptas p(!k)s historiadores 
monásticos, em que ordinariamente as len- 
das e as tradiçpes, suscitadas pelas idéas 
mysticas do tempo, influiam para que um re- 
tábulo, vima imagem, uma estatmi. ou qualquer 
outra manifestação do talento artístico, não 
fosse apreciada senão por entre as abusões do fanatis- 
mo religioso. É a devoção que hyperbolisa o mereci- 
mento da pintura religiosa d'este ou d'aquellc quadro, e 
não poucas vezes a ignorância ou a boa fé dos frades 
rodeava de encarecidas apologias objectos (pie o amor 
do bello e os preceitos do bom gosto ilestituiani de toda 
a importância. 

E eram estas idéas erróneas, ou meramente exage- 
radas, que se communicavam ao animo popular, e que o 
levavam a esses encarecimentos no apreço de obras, (\ne 
pouco ou nada valem, segundo a boa critica, mas cujo 
merecimento anda exaltado só porque narrativas ]i'gcn- 
darias, ou excessos de piedade devota o perpetuavam, 
emquanto outros objectos de reconhecida valia perma- 
necem esquecidos ou, pelo menos, subsistindo perplexos 
alvitres a respeito do seu mérito real. 

E sobretudo na pintura que isto se observa, ^'(•(•m- 
se pelos antigos mosteiros, que o eamartelio demolidor 
deixou de pé, e nas velhas sés de muitas províncias do 
reino, objectos inculcados como preciosas relíquias, s(ím 
valor algum, e não poucos, que nem sequer os a])ontaiii 
aos ollios do curioso intclligeiíte, aliás dignos de figurar 
n'unia galeria ou n'um museu. 

Pouca gente, por exemplo, sabe que Lisboa possuo 




um dos nulliores quadros de IíuImmis. No côn» da egn-ja 
de Jesus, hoje parociíla das ilercés, existe uma Jientir- 
reição que todos os votos de entendidos attribuein ao 
grande ijintor flamengo. (J conde de Knczynski, (jue não 
é facll n'estas apreciações e cuja pratica no conhecimento 
das melhores obras não se pode deixar de reconhecer, 
escreve no seu livro Leu artn en Portugal, o seguinte : 
« E de certo ; assim o julgo (o referido quadro de Ru- 
bensj uma obra deste grande mestre : é até, segundo a 
minha opinião, uma das suas mais nobres prf)ducçòc8. 
Este quadro pareceu-me intacto, ou se, como assevera o 
sr. Fonseca ', foi restaurado, foi-o de uma maneira con- 
scienciosa, com o cuidado que merecia tão valiosa obra. 
É um soberbo quadro, c um dos prodiietos de arte mais 
preciosos (juc se encontram em Portugal. Em frente 
d'cste (juadro acha-se uma Adoração dos lieiH Maffos 
(Epiphanla), que, por mtutas das suas qualidades, pa- 
rece obra de Fernando Boll, mas é muito inferior á lie- 
surreição.» 

Aqid temos pois uma apreciação insuspeita, e a cer- 
teza de possuirmos um dos melhores <|uadros de um dos 
melhores pintores conhecidos, do chi'fe da eschola fla- 
menga, do illustrc auctor do Descendimento da Cruz, 
d'e8sa famosa obra que suscita a admiração de todos os 
viajantes que a contemplam no coro de um convento de 
Antuci"pia. 

A Academia das bellas-artes também hoje adquiriu 
os melhores quadros, que em outro tempo pertenceram 
á Bemposta, e entre elles unia Noma /Sefihora, de Hol- 
bein, admirável a todos os respeitos. Tem, pouco mais 
ou menos, dois metros de altura por um e trinta centí- 
metros de largura. As figuras do primeiro plano tem um 
terço de grandeza natural. Acha-se cm perfeito estado 
de conservação. Os vândalos, alcunhados restauradores 
entre nós, pouparam-n'o ainda até hoje ás suas selvage- 
rlas. O assumpto é a Virgem sobre inn throno, com o 
Menino Jesus ao collo, rodeada de numerosos santos. 
Por detraz do throno deseobre-se um fragmento de bella 
architectura do tempo de Francisco i. Foi a prlnceza 
D. Catharina, filha de I). João iv, irmã de D. Pedro ii, 
e esposa de Carlos ii de Inglaterra, que fundou o Paço 
da Bemposta, vidgarmente conhecido pelo Paço da Rai- 
nha, e que, depois de viuva, trouxe este quadro de Ingla- 
ton-a e o mandou collocar na capella do palácio. Pi-esen- 
temcnte, pela venda do espolio d'aque]|a residência real, 
a qual o governo d(ístlnou ultimamente á Escola do 
Exercito, passou o quadro, com outros umitos, á Acade- 
mia ; no emtanto até então era quasi ignorada a existen- 
la de similhante preciosidade artística, como quasi tudo 
mais de apreciável que encerrava aquelle edlficlo, que 
tudo estava sujeito ás intempéries, porque não havia res- 
guardo nem cautela, que o preservassem da humidade 
ou de algum desvio, como succedeu a tanto primor de 
arte que •pertencia aos eonventos. • 

Também é bem píiuco conhecido, a não ser depois 
de alginuas exposições, onde tem figurado, o bello (jua- 
dro da Batalha de Pavia, pertencente á casa de Pena- 
macor, attribuido a Alberto Durer, e um S. Domingos, de 
Jloralcs, pinturas de incontestável mérito, assim como 
outras notáveis, como o grande retábulo de Nossa >Se- 
nhova. circumdada de anjos, que se acha no paço ar- 
cliiepiseopal de Évora, o quadro representando a Fonte 
de, Misericordiu, pertencente á Misericórdia do Porto, o 
ò'. Pedro, de Grão ^'asco, <la cathedral de Vizeu, e ou- 
tros objectos de suninio pn^eo, como o ri([ulssiino livi-o 



l>il,t<l< 



' Oaiili>;ii |ii(ili->siir dr |iiiiliua liolnm-a il;i Aciilrinia. liojc jii- 



1G2 



ARTES E LETRAS 



do oraçí5es, àa casa Mesquitclla, nSo fallando da quan- 
tidade de custodias, cálices, niachinetas, relicários, oscu- 
latorio», thiiribiilos c navetas e demais objectos do ser- 
viço (lo culto, cuja matéria c lavor maravilhoso e anti- 
guidade, OH tornam difíiins de um museu. 

A existência da in<'i!' parte d'estes esmeros artísticos 
jaz ignorada, e o seu valer sem ser qualificado, por con- 
seguinte. Em Allemanha, França c Inglaterra, as obras 
notáveis dos melhores artistas antigos, sobretudo qua- 
dros, cstíto catalogados ('.scru[)ulosamente; a sua authcn- 
ticidade fixada, avalia marcada, e quantas copias existem 
delles, quaes os auctores, o mérito relativo de cada uma 
d'ellas, tudo com o rigor e analyse de quem pesa e ava- 
lia diamantes e depois os classifica para poderem ter um 
preço corrente no mercado. De sorte (jue, (guando se 
falia do Rubens, Raphael, Ticiano, ou ISIurillo, nào ha 
mais (pie folhear os catálogos e interrogar os contrastes, 
08 verdadeiros apreciadores, para se saber se um quadro 
é verdadeiro, ou apocriplio, se é copia de bom auctor ou 
contrafacção sem merecimento reconluicido ; e nSo s() isto 
mas o preço porque está reputado, e dizemos preço re- 
putado porque se encontra nos mercados de Inglaterra 
e Allemanha cora a mesma certeza dos fundos cotados 
nas praças commerciaes, ou ainda mais, por([ue os fun- 
dos variam, conforme as oscillaçõcs da bolsa de um paiz, 
ou alternativas financeiras dos governos, emquanto os 
quadros de auctor, se pad(;cem alteraçfio na somma ar- 
bitrada, é para mais ; é porque algum opulento amador 
russo, americano ou inglez, enthusiasmado, e ambicio- 
nando ajuntar á sua galeria mais aquella maravilha de 
arte, cobro arrojadamente o lanço com mais algum pu- 
nhado do libras. 

Isto é o que se passa lá fora, onde ha verdadeiro 
conhecimento e apreço das artes. Em Portugal nem apre- 
ciação, nem sequer certeza do que possuímos. E alguma 
coisa que se avança a este respeito, é quasi sempre com 
supina ignorância. Nem os quadnjs, nem as preciosida- 
des dos conventos foram nunca classificados competente- 
mente, nem arbitrado o seu valor. De cgual sorte infini- 
tas riquezas artísticas que estavam vinculadas nos anti- 
gos morgados, ou pertenciam ás casas dos fidalgos, e fi- 
guravam até como memorias de tradições famosas, quasi 
tudo isso dcsapparoceu ou permanece ignorado. 

A ignorância, de uma parte, o o desleixo, de imtra, 
abriram as portas ás vendas fraudulentas o até aos rou- 
bos, e o resultado 6 que objectos de subida importância 
toem saído de Portugal, sabendo-se unicamente da sua 
existência quando estão aiTocadados nos museus das 
galerias dos rícassos estrangeiros. 

Esta tem sido a sorte de muitas das nossas precio- 
sidades artísticas. 



Oeiras, 1872. 



JOSÉ MARIA DE ANDRADE FERREIRA. 




O ILLUSTRE DOUTOR MiTliElS 



ERCKMANN-CHATRIAN 



(ContinnaçAo) 



XV 



Nilo se pode Imaginar o desespero de Frantz Ma- 
theus e o do seu discípulo ao saírem de Ilasbach. 

Coucou Peter estava fulo, brandia o pau que trou- 
xera e dizia a cada passo : 

— Infame anabaptista !' infame mairel infame Ja- 
cob ! Miseráveis! se aqui vos apanhasse ! Ah ! meu Deus 
que rica dança ! Nào ficavam com um cabello na cabe- 
ça. Expulsar um homem d'estes ! Um homem que faz 
milagres ! Ura homem que vale mais do que todos vo- 
cês até... até á vigésima geração. Muito felizes serão se 
eu 08 não encontrar cedo ou tarde ! 

Era assim que fallava Coucou Peter, voltando de 
vez em quando a cabeça para ver se os gendarmas real- 
mente o não seguiam. 

O illustre philosopho ia silencioso, iraraerso na sua 
dôr. Só passado algum tempo, e quando chegaram á al- 
deia de Piefenbach, n'uma das gargantas da serra, é que 
o bom do doutor pareceu voltar a si. 

Levantou o seu grande chapoo, enxugou o suor o 
disse com uma notável serenidade : 

— Meu querido discípulo, acabamos de passar por 
uma terrível provação. Agradeçamos ao grande Demiur- 
gos que hoje, como sempre, nos cobriu cora a sua égide. 
Eni vão os sophistas nos perseguem cora as suas inju- 
rias, em vão atravessam no nosso caminho os obstácu- 
los e as ciladas : tudo serve afinal para tornar mais evi- 
dente a protecção do Ser dos seres que funda sobre nós 
as suas raais bollas esperanças. 

— Tem razão, tem razão, sr. doutor, respondeu Cou- 
cou Peter; quem faz milagres como nós, não tem medo 
de coisa alguma. Antes de seis mezes hei de eu entrar 
ora Hasbach de mitra e montado n'um cavallo branco, 
com dois meninos do coro a pegarem na wiuda dos meus 
hábitos e a queimarem incenso. É verdade que emquanto 
Isto nào succede, era prudente saber onde vamos. 

— Ah! meu amigo, r(ís{x>n<lcu o illustre pliiloso- 
pho, ha de haver sempre logar di;mte dos nossos pas- 
sos, e se até hoje não temos sido bom succedidos, é por 
que nos falta nm theatro mais vasto. Hem vês que a Pro- 
videncia nos conduz, sem o querermos, para as grandes 
cidades. Vamos a Saverno. 

— Cuidado ! cuidado ! Savcme é uma terra cheia 
de advogados e de gendarmas. 

Isto dizia o bom do apostolo porque tinha a mulher 
em Saverno, e dividas nos cervejeiros, nas estahigens e 
em quasi todas as tabernas da cidade. 

Mas o illustre doutor não attcndcu ás prudentes ob- 
jecções do seu discípulo. 

— Fizcram-se os gendarmas para os ladi*ões e não 
para os philosophos. Avante, Coucou Peter, avante ! Cada 
ura dos momentos da nossa vida pertence á humanidade. 

Desciam então a calçada silenciosa de Piefenbach. 

A maior parte dos habitantes tinha Ido para a fei- 
ra de Hasbach, e as casas pequenas cora as portas fe- 
chadas, os qulntaes cercados de sebes raal unidas, os po- 



ARTES E LETRAS 



163 



ços solitários cheios de musgo, apresentavam um aspe- 
cto melancólico que contrastava com a alegre animarão 
da festa. 

Coucou Peter ia pensativo. 

— Diga lá, mestre, disse elle, os rabinos podem ca- 
sar ? 

— Decerto ; é até um preceito que lhes impõe Moy- 
sés para que propaguem a espécie. 

— E o grà-rabino da peregrinação das almas? 

— Por que nãoV O casamento está na natureza. 
Estas palavras alegraram Coucou Peter. 

— Afinal, sr. doutor, disse elle, não ha razão para 
que nos entristeçamos. A primeira coisa que devemos fa- 
zer ao chegar a Saveme é ir ver minha mulher. Ha cinco 
mezes que a nào vejo : deve ter feito suas economias. 

— O que ?! Tua mulher ! 

— Minha mulher, pois então. Grédel Baltzen, que 
casou com Coucou Peter perante um maire e um padre. 

— Por que razão nunca me fallaste em tal ? 

— Porque nunca m'o perguntou. 

— Mas por que não vives com tua mulher ? 

— Por que?... verdade, verdade, minha mulher é ma- 
gra, magríssima, e não está mais na minha mão... uma 
mulher magra... é que é mais forte do que eu esta anti- 
pathia. 

— Mas então por que casaste? 

— E que a esse tempo não conhecia muito bem as 
minhas inclinações. Eu estava então na edade da inno- 
cencia e aquella rapariga seduziu-me. Depois, quando vi 
que cada dia minha mulher minguava mais, disse com- 
migo : Coucou Peter, tu e tua mulher não são da mesma 
raça ; é melhor partires. Fui ao armário, peguei no que 
havia e parti. Por que afinal, a consciência está acima 
de tudo : pensei na infelicidade de ter filhos magros e sa- 
critiquei-me. 

Esta confissão surprehendeu o illustre philosopho. 
Commoveu-o porém a delicadeza do seu discipulo e so- 
bretudo os seus sentimentos anthropo-zoologicos. 

— Pois bem, approvo plenamente os motivos do 
teu procedimento. Mas, quem nos diz que tua mulher 
não seja infeliz ? 

— Qual ! mestre ! E feliz, felicissjma até de se ver 
livre de mim. Se nós nunca podíamos entender-nos ! 
Quando eu dizia que era branco, é porque ella dizia que 
era preto, do modo que as mais meigas conversas termi- 
navam sempre á bordoada. Depois não lhe falta coisa al- 
guma. È criada do padre Schweitz, que é um dos meus 
antigos companheiros de Strasbourg no tempo em que eu 
era moço de um cervejeiro e elle estudante de theoíogia ! 
Bom tempo ! Quantas vezes eu o levei ao armazém d'a- 
quclla cerveja de março, forte, espumante, que nos obri- 
gava a passar em revista todas as vasilhas ! Ah ! ah ! ah ! 
ainda me faz rir quando penso... Mas voltando á vacca 
fria : minha mulher tem doze francos por mez, casa, ca- 
ma e mesa. A tíua obrigação é tratar da casa, arranjar a 
roupa, por a panella ao lume, e ler á noite um ou dois 
capitules da Biblia no tempo que o pastor passa a fu- 
mar cachimbo e a beber cerveja no Casino. Quem não 
ha de ser feliz com esta vida ? E note-se que o pastor é 
viuvo e não torna a casar. 

— Sim, sim, respondeu Mathcus distrahido, deve 
ser feliz. 

Tinham então chegado ao outro lado da aldeia e o 
illustre philosopho observava um grupo de mulheres que 
gesticulavam em volta do que quer que fosse que estava 
na terra. 

Um homem pequeno com as faces descaídas, que 
era o moleiro, coberto por um barrete pardo e cheio de 



farinha, estava encostado a uma porta e falia va com muita 
animação. 

Apezar do tic-tac do moinho e do ruido da agua 
que saltava em cachoes do açudo, ouvia-se distinctamente 
gritar : 

— Vão para o diabo ! eu não tenho nada com isso. 

Frantz e Coucou Peter aproximaram-se para ver a 
que era. Quando chegavam jii perto as mulheres afasta- 
ram-se e Matheus pôde ver uma velha cigana estendida 
junto da parede e ao que parecia moribunda. 

Era esta tão enrugada, tão decrépita, que parecia 
ter cem annos. Estava calada e immovel, mas um pe- 
queno, de joelhos, ao pé, pedia ao moleiro que a reco- 
lhesse na casa. 

A chegada de Matheus calmara um pouco a irrita- 
ção do homem. 

— Kada, nada. Eu bem sei que se a velha mor- 
resse as despezas do enterro haviam de ser feitas por 
mim. Nada. 

O illustre doutor, commovido por um tal espectá- 
culo, aproximou-se da porta e disse ao moleiro : 

— Então como tem coração de recusar um asylo a 
esta desgraçada? Veja que pode, coitada, morrer .se lhe 
não acodem. Pense o que todos diriam de si. Vá lá, ho- 
mem, faça o que lhe pede este pobre rapaz. 

— Sr. cura, respondeu o moleiro tirando o chapeo, 
ainda se ao menos fossem christ.ãos... mas são pagãos. 

— Que importam as opiniões philosophicas, respon- 
deu Frantz, nós somos todos irmãos e temos as mesmas 
necessidades, as mesmas paixões, a mesma origenj. Ande, 
ande, homem, dê um molho de palha a esta infeliz crea- 
tura : assim faz o seu dever e o Ser dos seres ha de re- 
compensal-o. 

As mulheres juntaram-se a Matheus de modo que o 
moleiro temendo um escândalo, abriu a porta, prague- 
jando contra os vagabundos que obrigam a gente a sus- 
tental-os emquanto vivos e a enterral-os depois de mor- 
tos. De modo que realmente não era muito para louvar 
a sua caridosa acção. 

Coucou Peter considerava esta scena com as mãos 
nos bolsos sem dizer palavra. Quando porém Matheus 
cortejou as mulheres e continuou o seu caminho, per- 
gimtou-lhe : 

— O mestre, julga que aquella velha está muito 
doente ? 

— Decerto, respondeu o bom doutor sacudindo a 
cabeça, temo até que não passe d'esta noite. 

— E comtudo viu como ella se levantou com des- 
embaraço logo que lhe abriram a porta. 

— E verdade, e ainda estou pasmado ! Sempre é 
preciso que os ciganos^ tenham a vida bem pegada ao 
corpo ! disse Matheus. E da vida sóbria e primitiva que 
levam, nas florestas, ao tempo. Sem os excessos da co- 
mida, da bebida, do trabalho que são funestos aos outros 
homens. Era assim também que viviam os nossos primei- 
ros pães. 

Coucou Peter sorria. 

— Mestre, mestre, disse elle, queira perdoar; mas 
com o devido respeito direi que conheço bastante os ci- 
ganos para poder assevcrar-lhe que gostam do que é bom 
e que o seu consumo em aguardente é um pouco supe- 
rior ao nosso. Só emquanto a trabalho é que o mestre 
tem razão : preferem o ócio a serem úteis ú humanida- 
de, como nós, por exemplo, que trabalhamos para as ge- 
rações futuras. Ora agora quer saber o que eu penso 
d'aquella velha? 

— Dizc, dize. 

— Penso que está tão doente como qualquer de nós. 



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ARTES E LETRAS 



Penso que depois de se ter certitieado que todas as por- 
tas do loj^ar estavam fechadas, e que nào podia alii bi- 
far coisa nenhuma, é que se fingiu doente para entrar 
no moinho. De noite 6 que ha de ser o bom : estou já 
a vel-a levantar-se com o pequeno, visitar a capuúra e 
depois de ter torcido o pescoço il ereaçAo, antes que o 
dia nasça, ter-se-ha posto a andar. Ora ahi tem o que 
eu penso. 

— E o que ó que to auctorisa a fazer simiihante 
supposiçào? exclamou o iliustrc pliilosopho. É mau, Cou- 



EnKjuanto fallavam, iam o illustre philosopho e o 
seu discipulo internando-se na Horesta. Coucou Peter, que 
julgava saber o caminho, parecia-lhe a cada passo ver 
a casa do guarda Jeri, seu antigo companheiro, onde con- 
tava passar a noite. 

Dec(jrrida meia hora porém, sem (jue lhe appare- 
cesse coisa alguma do que e»j)erava, começou a sentir 
suas duvidas sobre a direcção que seguiam. Continua- 
vam a andar. 

Passou outra meia hora, o caminho toniou-se t3o es- 



cou Peter, é nmito mau suppor tudo isso de uma raça ; treito que nem mesmo já havia duvidas : tinham-se per- 
inteira de homens, só por que teem a pelle mai.s ama- dido. 
relia, os beiços mais grossos e os olhos mais vivos que 
nós. 

— Nada, nada. Qual ! É simplesmente porque sJto 
todos indistinetanienteda 
familia das rapo/.as, pon- 
derou Coucou Peter com 
gravidade. 

— Mas a vontade, 
homem, nSo poderá mu- 
dar 08 seus maus instin- 
ctos? redarguiu Matheus, 
surprehcndido por se ver 
embaraçado no seu pró- 
prio systema. Nào sào to- 
dos os homens perfecti- 
veis? Queres que os con- 
. sideremos como brutos? 
E certo que tem appeti- 
tes animaes provenientes 
da sua primitiva natu- 
reza. Mas o grande De- 
miurgos deu-lhcs ao nas- 
cerem uma faculdade su- 
perior que é o senso mo- 
ral para distinguir o justo 
do injusto, e combater 
todos os instinctos in- 
compatíveis com a digni- 
dade do homem. 

— Ora tudo isso se- 
ria muito bom, disse ain- 
da Coucou Peter, se eu 
nílo fosse antigo conheci- 
mento d'aquella velha, a 
quem por muitas razões 
os seus companheiros cha- 
mam a Pega-negra. 
Aquillo coitada, é uma 
sina, quanto mais velha 
mais apegada ao C[ue é 
dos outros. Ia jurar que 
depois da morte ainda o 

Ser dos seres a faz cá voltar com as unhas como garras 
em recompensa das suas boas obras. 

— Alas ent?io, se é como dizes, voltemos a prevenir 
o moleiro. 

— Ora, adeus. Que temos nós com isso ? E depois 
eu também nào posso jurar que ella nílo esteja doente, e